Dossiê:Religiões da 'pós-modernidade'

Valha-nos Deus

Uma sondagem que explica
muita coisa sobre os EUA
 
 
«Metade dos americanos dizem que a Bíblia deve influenciar as leis dos EUA, incluindo 28% que acham que a Biblia deve prevalecer sobre a vontade do povo»

azul escuro - grande influência
azul claro - alguma influência

 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Movimentos Islâmicos

Porque devem estar no foco da nossa atenção

 

 

A conferência “Movimentos islâmicos: transformações após as revoluções árabes”, foi organizada pelo Centro de Estudos Al-jazeera (ACJS), realizada nos dias 24 e 25 de setembro de 2016. O relatório que considero muito pertinente conhecer, documenta as opiniões e perceções expressas pelos participantes: líderes de vários movimentos islâmicos, ao lado de pesquisadores, académicos e especialistas em grupos políticos islâmicos.

A conferência foi realizada seis anos após o que é conhecido como Primavera Árabe. A Primavera Árabe resultou em várias transformações nas esferas política e regional árabe e colocou desafios a todos os grupos intelectuais e políticos, incluindo os movimentos islâmicos. A Primavera Árabe englobou protestos anti governamentais, levantamentos públicos e rebeliões armadas que se espalharam no mundo islâmico no início de 2010. Começou em resposta a regimes opressivos e um baixo padrão de vida, começando com protestos na Tunísia.

Vinte e três trabalhos foram apresentados para debate na conferência por uma grande variedade de participantes. Das diferentes opiniões emergiu a realidade de que os movimentos islâmicos não se enquadram num único modelo. Diferentes dados políticos, sociais e históricos tiveram influencia no seu eclodir e as diferentes realidades políticas em que se desenrolou determinaram diferenças. Quando se observam, como parte de um estudo objetivo, as revoluções atualmente em curso e se examinam os diferentes padrões do pensamento dos líderes que foram surgindo durante as várias fases de avanço e recuo de movimentos revolucionários e contra revolucionários, é que se podem começar a tirar conclusões sobre diferenças e semelhanças destes movimentos.

De acordo com a percepção de vários intervenientes os movimentos islâmicos têm uma nova abordagem do conceito de Estado-nação e a separação entre “Dawah” religioso e político. Da’wah é uma palavra árabe que tem o significado literal de “convocar” ou “fazer um convite”. Este termo é frequentemente usado para descrever como os muçulmanos mostram às outras pessoas sobre as crenças e práticas de sua fé islâmica.

A importância de Da’wah no Islão vem de palavras escritas no Alcorão e que incitam os seus membros a “Convidar (todos) ao Caminho de seu Senhor com sabedoria e bela pregação. Discutir com eles e tentar fazer-lhes entender que o seu Senhor sabe melhor quem se desviou de Seu Caminho e quem recebeu boa orientação”. Acredita-se que o destino de cada pessoa esteja nas mãos de Allah, portanto, não é responsabilidade ou direito de muçulmanos individuais tentar “converter” outros à fé. O objetivo de da’wah, então, é meramente compartilhar informações, convidar outras pessoas a uma melhor compreensão da fé. Cabe, obviamente, ao ouvinte fazer sua própria escolha.

Na Conferência Islâmica foi realçada a necessidade de parceria e reconciliação política entre todos os estratos sociais, a fim de gerir o estágio de transição e incentivar a renúncia à cultura de “exclusão” e a noção de “substituir os outros”. Os participantes também expressaram a necessidade de movimentos islâmicos exercerem “autocrítica” institucionalizada, a fim de identificar e controlar possíveis falhas, além de focar em pesquisas intelectuais atualizadas e planeamento estratégico.

No início de 2011, as mudanças significativas experimentadas por alguns países árabes marcaram um ponto possível de paradigma nas esferas política e regional árabes. Os islâmicos desempenharam um papel distinto no processo de “transição política” nos diferentes países. Na Tunísia e Marrocos, o Nahdha (literalmente Renascimento) e os Movimentos de Justiça e Desenvolvimento venceram as eleições, seguidos pelo Partido da Liberdade e Justiça no Egito. Também na Síria, Líbia, Iêmen e Iraque, movimentos islâmicos estão envolvidos em confrontos armados e desafiam os movimentos contra-revolucionários que tentaram reverter a incipiente tendência democrática.

Seis anos após o início da Primavera Árabe, os poderes políticos ligados ao chamado “Movimento Islâmico” enfrentaram vários desafios locais, regionais e internacionais depois que a “corrente subterrânea insidiosa e profunda” – ao lado da rede de interesses regionais e internacionais – conseguiu impedir o progresso da transição democrática. Eu diria que há um movimento semelhante aos esforços que o Papa Francisco tem feito para modernizar e humanizar uma hierarquia religiosa que se espartilhou em conceitos de interesses próprios e corporativos, que nada têm de religiosos.

Os dilemas decorrentes dos “sucessos” alcançados pelo movimento contra-revolucionário nos países da Primavera Árabe foram atribuídos aos movimentos islâmicos.

Foi muito discutido o como lidar com as fases de transição política e com influências regionais e internacionais. As transformações intelectuais, políticas e organizacionais vivenciadas pelo diverso “Movimento Islâmico” sobre questões como a separação funcional entre o Dawah e a política e o estado moderno estabelecido foram amplamente debatidas.

A sessão de abertura no primeiro dia da conferência abordou questões ligadas à identidade dos poderes islâmicos e às circunstâncias de sua formação. Alguns analistas definiram essas circunstâncias como sendo criadas pela repressão política, juntamente com divisões sectárias e influências regionais e internacionais. Outra escola de pensamento distingue entre as diferentes formas no processo dos movimentos islâmicos: a primeira é quando os movimentos islâmicos são percebidos como subsidiários inspirados ou promovidos por uma entidade geral. Ou seja, promovidos de fora para dentro. Mas, na segunda, esses movimentos islâmicos estabeleceram-se por intermédio de entidades locais ou nacionais. Após a Primavera Árabe, os islamitas lidaram com o processo de transição política de diferentes maneiras. Alguns dos movimentos apoiaram as revoluções (Tunísia, Egito, Iemen), enquanto outros seguiram o caminho da emulação e analogia, apesar das variações (Mauritânia). O excepcional caso marroquino, onde os movimentos aproveitaram o ambiente da Primavera Árabe, iniciou uma nova tendência política em Marrocos.

Transformações islâmicas pós-revolução

A segunda sessão da conferência examinou o impacto intelectual, político e organizacional da Primavera Árabe nos movimentos islâmicos. Uma característica proeminente das transformações organizacionais dentro dos movimentos islâmicos é a maneira pela qual Dawah, as funções educacionais e o trabalho político foram separados, permitindo que o papel funcional da política e da religião seja claramente definido. Mas, segundo alguns participantes, a separação entre política e religião não é aplicável na sua realidade política e mencionaram o recurso para fazer trabalho político dentro dos outros partidos. Da mesma forma, a tendência de selecionar líderes obscuros e desconhecidos mudou para campanhas eleitorais totalmente divulgadas, com cobertura visível nos órgãos de comunicação social.

Há quem não acredite que as transformações na esfera islâmica ainda não tenham se estabelecido, já que a região árabe ainda vive turbulenta, mas isso não impede uma transformação intelectual dentro desses movimentos no que diz respeito à perceção do estado moderno. As revoluções também motivaram os movimentos islâmicos a reavaliar suas estruturas organizacionais, que tendiam ao elitismo no passado. Verificou-se que as elites escolhidas não foram capazes de levar a cabo o processo completo de transformação, levando alguns movimentos a adotarem ideias dos seus partidos políticos paralelos.

Os movimentos islâmicos estão enfrentando três desafios. O primeiro envolve a gestão de assuntos de organização interna e a possível transformação em partidos civis equipados com instituições democráticas competentes. O segundo é o desafio de consciencialização: os movimentos islâmicos mostram fraco desempenho na elaboração de uma base teórica que permita emergir um esquema político que garanta boa governação. O terceiro é o desafio político que envolve o “elemento nacional”: ainda parece haver um sentimento de culpa entre os islâmicos por adotar uma “orientação nacional”.

A terceira sessão da conferência analisou a evolução das atitudes dos movimentos islâmicos e sua orientação política à luz dos processos adotados pelo movimento de mudança. Uma abordagem estudou o impacto do ambiente político geral no movimento tunisino Nahdha. O movimento foi transformado com o objetivo de se tornar um partido no poder ou parcialmente no poder. A maior transformação do movimento envolveu a mudança de um partido inclusivo para outro especializado em assuntos políticos. O processo de transformação forçou o partido Nahdha a escolher entre os interesses “únicos” do partido, assumindo o poder com base nos resultados das eleições ou dando primazia aos interesses do país e protegendo a precária experiência democrática tunisina. A importância da reconciliação inter-partidária deve ser enfatizada durante uma fase de transição democrática. Por exemplo, o movimento Nahdha concordou em participar do governo de unidade nacional para apoiar a experiência democrática incipiente.

Porque devem estar no foco da nossa atenção estes Movimentos Islâmicos? Porque facilitam a nossa compreensão do seu paradigma que talvez não seja assim tão distante do paradigma das igrejas ditas cristãs.

E o tema será continuado numa crónica seguinte!


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/movimentos-islamicos/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=movimentos-islamicos

Estudo sugere que modernização reduz importância da religião na felicidade das pessoas

echiner1 / Flickr

 

Em países mais desenvolvidos e em que há uma maior perceção de liberdade, a religião desempenha um papel menos importante na felicidade das pessoas.

 

Um novo estudo sugere que em países em que a felicidade das pessoas está mais associada à conformidade religiosa, esta tende a estar menos ligada à liberdade subjetiva e vice-versa. A investigação foi publicada este mês na revista científica Journal of Happiness Studies.

Assim sendo, as conclusões do estudo apontam que a “evolução cultural” associada à modernização reduz “a importância da fé religiosa para a felicidade das pessoas, enquanto aumenta a importância da liberdade subjetiva”.

“Como pessoa que cresceu num regime comunista, sempre olhei para a religião da mesma maneira que o comunismo: um instrumento de manipulação, usado principalmente nas sociedades opressivas pelas elites locais, a fim de obter submissão e manter os seus privilégios sem serem desafiadas”, disse o autor do estudo, Michael Minkov.

Num questionário online feito a mais de 40 mil pessoas de 43 países diferentes, foram recolhidos dados da felicidade das pessoas, adesão às regras religiosas e da perceção de liberdade que têm.

A equipa de investigadores descobriu que a relação entre felicidade e conformidade religiosa era mais forte em países mais coletivistas com menos desenvolvimento económico. Por outro lado, a relação entre felicidade e liberdade subjetiva era mais fraco neste países.

Pelo contrário, em países mais desenvolvidos economicamente e mais individualistas, as associações verificadas eram contrárias. Assim sendo, quanto maior a liberdade subjetiva, mais felizes as pessoas eram. Contudo, a conformidade religiosa acabava por não influenciar muito a felicidade das pessoas.

Minkov confessou não estar surpreendido com os resultados, explicando que percebe que a religião traga mais felicidade às pessoas em países com mais dificuldades. No entanto, ficou surpreendido ao notar que os Estados Unidos tinham um padrão semelhante apesar de serem muito desenvolvidos economicamente.

“Os Estados Unidos são um país rico, mas têm muita desigualdade e muitos dos seus cidadãos sentem-se desprivilegiados. Aparentemente, a religião ajuda-os a lidar com as dificuldades”, disse Minkov ao PsyPost.

O antropólogo conclui que o conformismo religioso tem um efeito negativo na capacidade de uma nação em inovar.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/modernizacao-religiao-felicidade-pessoas-302858

Ensurdecedor silêncio de Frei Bento, op, no PÚBLICO – HÁ ALGO DE VERDADE NO NATAL DAS IGREJAS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

"No solstício de inverno – o momento preciso em que a duração do dia ultrapassa a duração da noite – os antigos romanos celebravam o Sol invictus, quer dizer, a vitória do deus Sol sobre a noite e sobre a morte. A Igreja de Roma resolveu designar essa data como a do nascimento de Jesus, o verdadeiro sol da vida: foi Ele que enfrentou a morte e a venceu!’ As palavras são do meu amigo Frei Bento Domingues, na sua Crónica de domingo 15 de Dezembro, no PÚBLICO".

 

Abro este Texto Fraternizar 3, Edição 153, Dezembro 2019, com esta citação, para a refutar liminarmente, uma vez que o judeo-cristianismo de Pedro-Tiago-e-Paulo, tal como o judaísmo bíblico ainda hoje o faz, não celebrava a festa do natal. Os Livros da sua Bíblia, então, a mesma dos judeus, fazem alusão a múltiplas festas dos judeus, nenhuma, porém, alusiva ao natal. De modo que, quando o cristianismo, depois da hecatombe que foi a destruição total e absoluta de Jerusalém e do seu templo pelos exércitos do império romano, avança à conquista das mentes-consciências das pessoas residentes nas principais cidades do império romano, vê-se obrigado a praticar o velho provérbio, ‘Quando os não podes vencer, junta-te a eles’, e acaba por fazer sua a festa religiosa do natal do Solstício de inverno das religiões politeístas e converte-a na festa do seu mítico Cristo ou Jesuscristo davidico. O que, além de descarada apropriação, é uma imperdoável mentira que vigora até aos dias de hoje.

 

É claro que o meu amigo Frei Bento Domingues, especialista em Cristologia, não escreve exactamente assim na sua Crónica como eu acabo de escrever aqui. Dividido entre Jesus histórico, em que não é perito, e o chamado ‘Cristo-da-fé’, em que é um dos peritos academicamente reconhecido, não hesita em considerar sinónimos – Jesus e Cristo – quando historicamente são antónimos. Só por isso é que ele escreve, com o maior dos à-vontades e o maior dos descaramentos,’ A Igreja de Roma resolveu designar essa data como a do nascimento de Jesus, o verdadeiro sol da vida: foi Ele que enfrentou a morte e a venceu!’. E, depois de isto escrever, ei-lo aí, impávido e sereno, como se não houvessse contradição no que escreveu. Quando há e clamorosa.

 

Primeiro, muda o nome da estrela Sol, à volta da qual a Terra gira num movimento de trasladação de 365 dias e mais cerca de 6 horas, para Jesus, o filho de Maria, o camponês-artesão nascido 5-6 anos anos antes do ano1, em Nazaré, não em Belém, como rezam os dois primeiros capítulos apócrifos do Evangelho de Mateus e do Evangelho de Lucas, Volume I. E não satisfeito com esta sua arbitrariedade que é confundir um ser humano, nascido de mulher, com um mito messiânico da Casa de David, criado e alimentado demencialmente pelos profetas do judaísmo, ainda nega a evidência dos factos, ao escrever, ‘Jesus enfrentou a morte e a venceu’. Mas é assim tão cego que não vê que a morte continua aí a acontecer, tal e qual como antes de Jesus, o filho de Maria, nascer e morrer?

 

Confesso que tudo isto me causa calafrios. E tanto mais quanto a Morte, ao contrário do que prega e escreve o fariseu judeu Paulo de Tarso, não é ‘o último inimigo a ser vencido’. Nada antropologicamente mais absurdo do que esta afirmação paulina e cristã. Porque a Morte – nunca é demais sublinhá-lo – mais não é do que a nossa irmã gémea. De modo que morrermos, não é o fim do nosso ser-viver, mas a plenitude do ser-viver de todos e cada um dos nascidos de mulher. Pelo que não tem que ser vencida. Tem que ser acolhida, como o coroamento do nosso ser-viver na História- É graças a ela que nos tornamos definitivamente viventes, fecundo corpo-sopro, por isso, definitivamente invisíveis aos olhos dos demais. Como de resto tudo o que é Essencial.

 

Outra falha grave do meu amigo Frei Bento nesta sua Crónica, é o ensurdecedor silêncio que faz do meu Livro 50, ‘Jesus, Segundo os 4 Evangelhos em 5 volumes’, Seda Publicações, Junho 2019. Com a agravante de ele próprio escrever, ‘Alguns leitores pediram-me que apresentasse, também, livros [sobre Jesus histórico] de fácil acesso em Portugal’. Refere quase nenhuns, e nenhum de significativa qualidade; e silencia escandalosamente o meu. O que chega a ser inconcebível num Cronista do matutino de maior qualidade jornalística do País. Aqui, a sua omissão é de bradar aos céus e à terra. Tem, obviamente, todo o direito de não gostar do meu Livro, nem da minha actividade de presbítero-jorrnalista, desde Janeiro de 1975, mas não pode, só porque se não revê minimamente nesta minha actividade, silenciar a existência de um Livro que já mereceu do renomado Jornalista do DN, João Céu e Silva, uma longa Entrevista Premium, hoje acessível a toda a gente interessada (abrir site https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-ago-2019/padre-mario-da-lixa-este-livro-e-a-reposicao-da-verdade-sobre-jesus-historico-11232393.html).

 

É com posturas destas e outras muitíssimo mais escabrosas de quase todos os clérigos e teólogos eruditos que os cristianismos conseguiram manter-se nos dois terríficos milénios anteriores, e que, felizmente, o terceiro milénio, está a tornar cada vez mais residuais.Por isso, à pergunta do título, Há algo de verdade no natal das igrejas?, a resposta só pode ser uma, No natal das igrejas não há ponta de verdade. Tudo é mito, como mito é o Cristo ou Messias da casa real de David, dos profetas bíblicos e de S.Pedro-S.Paulo-imperador Constantino. Hoje sabemos, de fonte segura, que Jesus histórico é o camponês-artesão, o filho de Maria (cf. Marcos 6, 3), nascido comprovadamente 5-6 anos antes do ano 1, em Nazaré, onde cresce até à idade de sair para a sua militância política, altamente subversiva, realizada entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, na Galileia e finalmente em Jerusalém, onde é traído pelo grupo dos Doze que havia escolhido um a um para andarem com ele, e logo preso, julgado, condenado à morte pelo Sinédrio dos sumos sacerdotes, os quais, não satisfeitos, ainda vão com ele preso ao Pretório, exigir a Pilatos que o crucifique. Para, desse modo, se cumprir a Escritura ou Bíblia deles, e, desse modo, ele ficar maldito para sempre (Dt 21, 23).

P. S.

Este é o último Texto da Edição 153, Dez.º 2019. Contamos regressar com a Edição 154, Janeiro 2020, na sexta-feira 10.

 

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e ainda a Recensão Crítica do Livro, IRMÃO ISLÃO, de JJ. Tamayo / Editorial Trotta.

www.jornalfraternizar.pt

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/12/22/fraternizar-ensurdecedor-silencio-de-frei-bento-op-no-publico-ha-algo-de-verdade-no-natal-das-igrejas-por-mario-de-oliveira/

Fátima

Fátima surge no meio do grande conflito entre a I República e a Santa Madre Igreja, que nunca deixa nada ao acaso e sempre soube, desavergonhada e odiosamente explorar os sentimentos da ignorância e do medo.

 

 

Só possível aqui. Num contexto de um povo assustadoramente analfabeto, miserável e ignorante. Fátima surge no meio do grande conflito entre a I República e a Santa Madre Igreja, que nunca deixa nada ao acaso e sempre soube, desavergonhada e odiosamente explorar os sentimentos da ignorância e do medo. É essa mesma Igreja, essa imensa empresa dos homens e das almas, inventando e fabricando o maior dos Embustes – Fátima – que soube conduzir maliciosamente à maior e à mais sinistra e maquiavélica mentira de todos os tempos.

O “fenómeno” (Fátima) jamais seria possível ter lugar numa Holanda ou numa Suécia. Por razões tão óbvias que me dispenso de as enumerar.

Com a invenção, fortemente influenciada pelas estórias que ouvia naquele tempo e repetidas em casa pela sua mãe, como a Missão Abreviada (muito semelhantes ao que ela depois repetia ter “visto” e “ouvido” a “nossa senhora”) Lúcia, uma pobre coitada, um tanto retardada mental, desgraçou assim a sua vida, sendo obrigada a meter-se num convento de clausura (…). Os outros pastores, Jacinta e Francisco, que nunca afirmaram ter “visto” ou “ouvido” coisa alguma, morrem prematuramente de pneumónica (a chamada gripe espanhola), muito comum à época.

Às “aparições de Lourdes” (outra invenção), não quis a igreja portuguesa aqui ficar atrás (…). De tal modo que levaram e abusaram levando a mentira a níveis e consequências nunca vistas até aos dias de hoje. As proporções a que chegou – e ao negócio – é de lamentar profundamente.

Os “segredos” que acompanharam toda a mentira durante muitos anos, não passaram também disso mesmo, de mais mentiras, como se pôde verificar.

“As Memórias da Irmã Lúcia” 3 versões no total, todas elas cheias de contradições entre si, são todas elas um autêntico tratado e atentado à mais baixa das inteligências humanas. Escritas ao sabor dos acontecimentos e pelo clero, claro está.

Já aquando dos cem anos das “aparições”, em 2017, já vários padres, muito timidamente, vieram a público dizer que “não podemos entender Fátima como se nossa senhora tivesse ali aparecido”; e da forma como a igreja sempre dá a volta quando se vê questionada, daqui a algum tempo que ninguém se admire que venham dizer que “Fátima e o seu fenómeno, nada mais foi do que um fenómeno/acontecimento subjetivo (…)”

E as contas do chamado terço contadas como mantras, são usadas há muitos milhares de anos no Budismo, no Islamismo, no Siquismo e no Hinduísmo. A igreja católica apenas as imitou. Como imitou a construção de uma senhora mãe que outras religiões possuíam.

Deixo a recomendação de leituras sobre a invenção Fátima. Para que se comece a pensar com inteligência e sentido crítico. Porque só o conhecimento é libertador. Nelas irão encontrar as explicações do “milagre do sol” e tantas outras fantasias para que Fátima mais consistente se tornasse. Porque a fé e a espiritualidade não é crer-se em invenções e mentiras. É vivê-las fazendo sempre o bem, com honestidade e verdade. Isso é tudo.

  • “Fátima, Milagre ou Construção” da jornalista Patrícia Carvalho
  • “Cova dos Leões” de Tomás da Fonseca
  • “Fátima Desmascarada”, de João Ilharco (1971)
  • “O Sol Bailou ao Meio-Dia, a criação de Fátima”, do historiador Luís Filipe Torgal
  • “As aparições de Fátima, temas e debates”, de Luís Filipe Torgal
  • “Fátima, Milagre, Ilusão ou Fraude?”, do jornalista irlandês Len Port
  • “A Senhora de Maio, Todas as Perguntas Sobre Fátima”, dos jornalistas António Marujo e Rui Paulo da Cruz
  • “Videntes e Confidentes, um estudo sobre as aparições de Fátima”, do antropólogo Aurélio Lopes
  • “Fátima nunca mais” do Pe Mário de Oliveira

Nota: Para quem quer adquirir um dos livros acima, e não tendo possibilidades de adquirir toda a bibliografia, recomendo o primeiro da lista (“Fátima, Milagre ou Construção” da jornalista Patrícia Carvalho), já se ficando com uma boa ideia de como tudo se construiu e arquitetou.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/fatima/

“Sob os nossos olhos” (7/25)O Daesh realiza o sonho dos Irmãos Muçulmanos : o Califado

Concluímos a publicação da parte do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os nossos olhos), consagrada aos Irmãos Muçulmanos. Neste episódio, a Irmandade realiza com o Daesh (E.I.) o seu sonho de restabelecer o Califado. Este primeiro Estado terrorista consegue funcionar durante dois anos com a ajuda ocidental.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Daesh torna-se conhecido pelos seus actos de tortura e degolamentos em público.

14— O Daesh e o Califado

Inicialmente, os membros da Frente Al-Nusra(Alcaida na Síria) são Sírios que tinham ido combater no Iraque após a queda de Bagdade, em 2003. Eles voltam à Síria para participar na operação planificada contra a República, a qual será, em definitivo, adiada para o mês de Julho de 2012. Durante dois anos —até 2005—, eles beneficiaram da ajuda da Síria que os deixou circular livremente pensando que combatiam o invasor norte-americano. No entanto, ficou claro logo que que o General David Petraeus chegou ao Iraque que a sua real função seria a de combater os xiitas Iraquianos, para grande deleite dos ocupantes. Em Abril de 2013, o Emirado Islâmico no Iraque, do qual eles são oriundos, é reactivado sob o nome de Emirado Islâmico no Iraque e no Levante (ÉIIL). Os membros da Frente Al-Nusra, que se apropriaram de grandes porções da Síria, recusam então reintegrar a sua casa-mãe.

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John McCain na Síria ocupada. No primeiro plano, à direita, reconhece-se o director da Syrian Emergency Task Force. Na moldura da porta, ao centro, o porta-voz da Tempestade do Norte (Alcaida), Mohammad Nour. As famílias de reféns libaneses apresentarão queixa contra o «Senador» por cumplicidade em sequestro. Este garantirá que não conhecia Nour. Ele ter-se-ia infiltrado nesta tomada de foto oficial difundida pelo seu secretariado parlamentar.

Em Maio de 2013, uma associação sionista americana, a Syrian Emergency Task Force, organiza a viagem do Senador McCain à Síria ocupada. Lá, ele encontra diversos criminosos entre os quais Mohammad Nour, porta-voz da katiba (brigada) Tempestade do Norte (Alcaida), que tinha raptado e sequestrava 11 peregrinos xiitas libaneses em Azaz. Uma fotografia difundida pelo seu serviço de imprensa mostra-o numa grande conversa com os líderes do Exército Sírio Livre, entre os quais alguns também carregam o estandarte da Frente Al-Nusra. Surge a dúvida sobre a identidade de um deles. Eu escreverei em seguida que se trata do futuro Califa do Daesh (E.I.), o que o secretariado do Senador desmentirá formalmente [1]. Tendo o mesmo homem servido de tradutor aos jornalistas, a dúvida é permitida. O secretariado afirmará que a minha hipótese é absurda, já que o Daesh ameaçara de morte o Senador várias vezes . Pouco depois, John McCain afirma na televisão, sem receio de se contradizer, conhecer pessoalmente os dirigentes do Daesh e estar «em contacto permanente com eles». Embora o Senador não tenha nenhuma ilusão sobre os Islamistas, ele afirma ter tirado lições do Vietname e apoiá-los contra o «regime de Bashar» por necessidade estratégica. Ora, ele tinha, no entanto, antes do início dos acontecimentos na Síria, organizado o seu aprovisionamento em armas a partir do Líbano e escolhido a vila de Ersal como futura base de retaguarda das operações. Durante esta deslocação à Síria jiadista, ele avalia as condições de funcionamento futuro do Daesh.

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John McCain e o Estado-Maior do Exército sírio livre. No primeiro plano, à esquerda, o homem que jogará mais tarde o papel de «Califa Ibrahim» do Daesh (E.I.), com quem o Senador está em via de trocar impressões. Precisamente a seguir, o Brigadeiro-General Salim Idriss (com óculos). O «Califa» é um actor que jamais teve quaisquer funções de responsabilidade. Segundo John McCain, não se tratava do califa, mais de uma pessoa parecida. No entanto o Senador confessará em seguida estar «em contacto permanente» com o Daesh.

Em Dezembro de 2013, a Polícia e a Justiça turcas estabelecem que o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan recebe em segredo, desde há vários anos, Yasin Al-Qadi, o banqueiro da Alcaida. Fotografias provam que ele veio várias vezes, de avião particular, e foi recebido após as câmeras de vigilância do aeroporto terem sido desligadas. Anteriormente, Al-Qadi era (e é provavelmente ainda) amigo pessoal do Vice-presidente norte-americano Dick Cheney. Ele só foi removido da lista de pessoas procuradas pela ONU a 5 de Outubro de 2012 e pelo Departamento do Tesouro dos EUA a 26 de Novembro de 2014, mas vinha desde há muito mais tempo a encontrar-se com Erdoğan. Ele reconheceu ter sido responsável pelo financiamento da Legião Árabe de Bin Laden, na Bósnia-Herzegovina (1991-95), e ter financiado o presidente Alija Izetbegović. Segundo o FBI, teria igualmente jogado um papel central no financiamento dos atentados contra as embaixadas dos Estados Unidos na Tanzânia e no Quénia (1998). Sempre segundo o FBI, teria sido proprietário da empresa de informática Ptech (agora Go Agile), suposta de jogar um papel no terrorismo internacional.

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As câmaras de vigilância do aeroporto de Istambul surpreenderam Bilal Erdogan recebendo o tesoureiro da Alcaida, Yasin el-Kadi.

Pouco tempo depois, a polícia turca revista a sede do IHH e aí interpela Halis B., suspeito de ser o líder da Alcaida na Turquia e İbrahim. Ş., comandante-adjunto da organização para o Próximo-Oriente. Erdoğan acaba por conseguir despedir os polícias e manda libertar os suspeitos.

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No canal público saudita Al-Arabiya, um oficial do Daesh declara que a organização é dirigida pelo Príncipe Abdul Rahman Al-Faiçal

Em Janeiro de 2014, os Estados Unidos iniciam um vasto programa de desenvolvimento de uma organização jiadista, cujo nome não é comunicado. Três campos de treino são instalados na Turquia, em Şanlıurfa, Osmaniye e Karaman [2]. Chegam armas às carradas para o EIIL despertando a cobiça da Al-Nusra. Durante vários meses os dois grupos entregam-se a uma guerra sem quartel. A França e a Turquia que não compreenderam logo o que se prepara, enviam ao princípio munições para Al-Nusra (Alcaida) afim de que ela se apodere do espólio do EIIL. A Arábia Saudita reivindica o seu controlo sobre o EIIL, e indica que ele é agora dirigido pelo Príncipe Abdul Rahman al-Faiçal (irmão do Embaixador saudita nos Estados Unidos e do Ministro saudita dos Negócios Estrangeiros).

As coisas clarificam-se progressivamente: a Casa Branca convoca os Chefes dos Serviços Secretos da Arábia Saudita, da Jordânia, do Catar e da Turquia, em 18 de Fevereiro. A Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, anuncia-lhes que o Príncipe Bandar não recupera a sua saúde e que será substituído pelo Príncipe Mohammed bin Nayef na supervisão dos jiadistas. Mas, Nayef não tem autoridade natural sobre esta gente, o que aguça os apetites dos Turcos. Ela comunica-lhes o novo organigrama do Exército Sírio Livre e informa-os que Washington lhes vai confiar uma vasta operação secreta para remodelar as fronteiras. No início de Maio, Abdelhakim Belhaj (antigo quadro da Alcaida, governador militar de Trípoli na Líbia e fundador do Exército Sírio Livre) dirige-se a Paris para informar o governo francês dos planos EU-jiadistas e pôr fim à guerra que a França faz ao EIIL. Ele é, nomeadamente, recebido no Quai d’Orsay. De 27 de Maio a 1 de Junho, vários chefes jiadistas são convidados para consultas em Amã (Jordânia).

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Extracto do processo verbal da reunião presidida pela CIA em Amã, redigida pelos Serviços de Inteligência turcos (documento difundido pelo quotidiano curdo «Özgür Gündem», de 6 de Julho de 2014).

De acordo com a acta desta reunião, os combatentes sunitas serão agrupados sob a bandeira do EIIL. Eles irão receber armas ucranianas, às toneladas, e meios de transporte. Eles irão assumir o controle de uma vasta zona a cavalo sobre a Síria e o Iraque, principalmente no deserto, e aí proclamarão um Estado independente. A sua missão é, ao mesmo tempo, a de cortar a estrada Beirute-Damasco-Bagdade-Teerão e a de apagar as fronteiras franco-britânicas da Síria e do Iraque. O antigo Vice-presidente iraquiano Ezzat Ibrahim al-Duri, que é o Grão-mestre da Ordem dos Nachqbandis no seu país, anuncia que providencia 80.000 antigos soldados do exército de Saddam. A CIA confirma que 120.000 combatentes das tribos sunitas de Al-Anbar se juntarão ao EIIL à sua chegada, e lhe darão o armamento pesado que o Pentágono irá encaminhar para o terreno, oficialmente para o exército iraquiano. Masrour «Jomaa» Barzani, Chefe dos Serviços Secretos do Governo Regional curdo do Iraque, obtém luz verde para poder anexar os territórios contestados de Kirkuk assim que o EIIL anexar Al-Anbar. Não se compreende o significado da presença do Mulá Krekar, o qual cumpre uma pena de prisão na Noruega e que veio num avião especial da OTAN. Com efeito, desde há vários anos ele desempenha um papel importante na preparação ideológica dos islamistas para a proclamação do Califado. Mas este assunto não será abordado durante a reunião.

Na mesma altura, na Academia militar de West Point, o Presidente Barack Obama anuncia a retoma da «guerra ao terrorismo» e a afectação de um orçamento anual de 5 mil milhões de dólares. A Casa-Branca anunciará ulteriormente que este programa prevê, entre outras, a formação de 5. 400 rebeldes moderados por ano.

Em Junho, o Emirado Islâmico lança um ataque primeiro no Iraque, depois na Síria, e proclama um califado. Até então, o Daesh(EI) –-é assim que é chamado agora segundo o seu acrónimo árabe--- era suposto não ter mais que algumas centenas de combatentes, mas miraculosamente, de repente, ele dispõe de várias centenas de milhares de mercenários. As portas do Iraque são-lhe abertas pelos antigos oficiais de Saddam Hussein, que se vingam assim do Governo de Bagdade, e por oficias xiitas que emigram então para os Estados Unidos. O Daesh(E.I.) apropria-se de armas do exército iraquiano, que o Pentágono acaba de fornecer, e das reservas do Banco Central em Mossul. Simultaneamente, e de forma coordenada, o Governo Regional do Curdistão anexa Kirkuk e anuncia a realização de um referendo de autodeterminação. De maneira a evitar que jiadistas de grupos concorrentes ao Emirado Islâmico recuem para a Turquia, Ancara fecha a sua fronteira com a Síria.

Desde a a sua instalação, o Daesh coloca administradores civis formados em Fort Bragg (EUA), e dos quais alguns fizeram parte até há pouco da Administração americana do Iraque. Do dia para a noite, o Daesh dispõe da administração de um Estado na acepção do State building do exército norte-americano. É, evidentemente, uma transformação completa para aquilo que não passava, ainda há algumas semanas atrás, de um grupúsculo terrorista.

Quase tudo foi previsto antecipadamente. Assim, logo que o Daesh captura os aeroportos militares iraquianos, ele dispõe instantaneamente de pilotos de avião e de helicópteros aptos para combate. Não podem ser pilotos do antigo exército iraquiano, já que a capacidade operacional é considerada como perdida ao fim de 6 meses de interrupção de vôo. Mas, os planeadores esqueceram-se das equipes técnicas necessárias, de maneira que uma parte deste equipamento não poderá ser utilizado.

O Daesh dispõe de um serviço de comunicação, que parece sobretudo formado por especialistas do MI6, ao mesmo tempo encarregue, tanto de editar os seus jornais, como de encenar a violência de Alá. É uma outra mudança para os jiadistas. Até aqui, eles utilizavam a violência para aterrorizar as populações. Agora, eles vão amplificá-la afim de as chocar e de as hipnotizar. Notavelmente filmados e com estética apurada, os seus vídeos vão impressionar os espíritos e recrutar os amantes de snuff movies.

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John McCain e Abdelhakim Belhaj. No momento em que esta foto é tomada a Interpol procura Belhaj como o emir do Daesh no Magrebe.

O retumbante sucesso do Daesh (EI) leva os islamistas do mundo inteiro a virar-se para ele. Se a Alcaida era a sua referência na época de Osama bin Laden e dos seus sósias, o califa «Ibrahim» é o seu novo ídolo. Um a um, a maioria dos grupos jiadistas no mundo juram fidelidade ao Daesh. A 23 de Fevereiro de 2015, o Procurador-Geral do Egipto Hichem Baraket, dirige uma nota à Interpol afirmando que Abdelhakim Belhadj, Governador militar de Trípoli, é o chefe do Daesh para o conjunto do Magrebe.

O Daesh explora o petróleo iraquiano e sírio [3]. O crude é transportado quer por oleoduto, controlado pelo Governo Regional curdo do Iraque, ou por camiões-cisterna das empresas Serii e Sam Otomotiv através dos postos fronteiriços de Karkamış, Akcakale, Cilvegozu e Oncupınar. Uma parte do crude é refinada para consumo turco pela Turkish Petroleum Refineries co. (Tupraş) em Batman. É embarcado em Ceyhan, Mersin e Dortyol em navios da Palmali Shipping & Agency JSC, a companhia do bilionário turco-azeri Mubariz Gurbanoğlu. A maior parte do crude é transportada para Israel onde recebe falsos certificados de origem e, depois, é expedida para a Europa (entre outros para França, para Fos-sur-Mer, onde é refinado). O resto é enviado directamente para a Ucrânia. Este dispositivo é perfeitamente conhecido dos profissionais e evocado durante o Congresso Mundial de companhias petrolíferas (15-19 de Junho em Moscovo). Oradores asseguram que a Aramco (EUA/Arábia Saudita) organiza a distribuição do petróleo do Daesh na Europa, enquanto a Exxon-Mobil (a companhia dos Rockefeller que reina sobre o Catar) escoa o da Al-Nusra [4]. Alguns meses mais tarde, a representante da União Europeia no Iraque, a Embaixatriz Jana Hybaskova, confirmará, durante uma audição perante o Parlamento Europeu, que Estados-membros da União financiam o Daesh ao escoar o seu petróleo.

Num primeiro tempo, o Conselho de Segurança da ONU não chega a denunciar este tráfico, no máximo o seu Presidente lembra a proibição de comerciar com organizações terroristas. É preciso esperar por Fevereiro de 2015 para que seja votada a Resolução 2199. Mubariz Gurbanoğlu aposenta-se então e vende vários dos seus navios (os Mecid Aslanov, Begim Aslanova, Poet Qabil, Armada Breeze e o Shovket Alekperova) à BMZ Group Denizcilik ve İnşaat A.Ş., a companhia de navegação de Bilal Erdogan, filho do Presidente Recep Tayyip Erdoğan,que prossegue o tráfico. Só em Novembro de 2015, aquando da Cimeira do G20, em Antalya, é que Vladimir Putin acusa a Turquia de violar a Resolução da ONU e de comercializar o petróleo do Daesh (EI). Face às negativas do Presidente Erdoğan, o Chefe de operações do Exército russo, o General Sergueï Rudskoy, torna públicas, durante uma conferência de imprensa, as imagens de satélite dos 8.500 camiões-cisterna cruzando a fronteira turca. De imediato a aviação de combate russa destrói os camiões presentes na Síria, mas o essencial do tráfico continua via Curdistão iraquiano, sob a responsabilidade do Presidente Massoud Barzani. Em seguida obras são empreendidas para aumentar o terminal petroleiro «Yumurtalık» (ligado ao oleoduto turco-iraquiano Kirkuk-Ceyhan), cuja capacidade de armazenamento subiu para 1,7 milhões de toneladas.

Os camiões-cisterna pertencem todos a uma empresa que tinha obtido, sem qualquer concurso, o monopólio do transporte de petróleo em território turco, a Powertans. Ela é controlada pela muito secreta Grand Fortune Ventures, sediada em Singapura, depois transferida para as Ilhas Caimão. Por trás desta montagem esconde-se a Calık Holding, a companhia de Berat Albayrak, o genro do Presidente Erdoğan e seu Ministro da Energia [5].

O petróleo que transitou pelo pipeline curdo é identicamente comercializado. No entanto, quando o Governo Iraquiano denuncia quer a cumplicidade dos Barzani com o Daesh, como o roubo de bens públicos iraquianos, ao qual eles procedem em conjunto, Ancara simula surpresa. Erdoğan bloqueia então os ganhos dos Curdos iraquianos numa conta bancária turca, esperando que Irbil e Bagdade clarifiquem as suas posições. É claro, estando este dinheiro supostamente bloqueado, os proveitos gerados pelo seu investimento não são declarados no orçamento turco, antes são pagos ao AKP.

Em Setembro de 2014, o califa purga os quadros da sua organização. Os oficiais magrebinos em geral, e os tunisinos em particular, são acusados de desobediência, condenados à morte e executados. São substituídos por Tchechenos da Geórgia e Uigures chineses.

O oficial da Inteligência militar georgiana, Tarkhan Batirashvili, torna-se o braço direito do califa, sob o nome de «Abu Omar al-Chichani». Inocentemente, o Ministro Georgiano da Defesa e antigo chefe do «governo abecásio no exílio» (sic), Irakli Alasania, anuncia, na mesma altura, aprestar-se para abrigar campos de treino para jiadistas sírios no seu país.

Reagindo às atrocidades cometidas em grande escala e à execução de dois jornalistas norte-americanos, o Presidente Obama anuncia, a 13 de Setembro, a criação de uma Coligação anti-Daesh. Aquando da batalha de Kobane (Síria), os aviões da Força aérea dos EU fazem durar a brincadeira bombardeando em certos dias o Daesh e lançando-lhe de pára-quedas armas e munições noutros.

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Segundo a imprensa norte-americana, o Francês David Drugeon, oficial dos Serviços Secretos militares franceses, era o perito bombista do Daesh que formou Mohammed Merah e os irmãos Kouachi. O Ministério da Defesa francês desmente tê-lo empregado enquanto a imprensa dos EUA mantêm a sua asserção. Oportunamente, ele foi dado como desaparecido depois de um bombardeamento aliado.

A Coligação declara realizar uma operação contra um certo grupo Khorasan da Alcaida na Síria. Embora não haja nenhuma evidência da existência deste grupo, a imprensa americana diz que é dirigido por um perito em explosivos dos Serviços Secretos franceses em missão, David Drugeon, o que o Ministério francês da Defesa desmente. Subsequentemente, a imprensa norte-americana afirma que Drugeon formou, por conta dos Serviços Secretos franceses, Mohammed Mera (responsável pelos atentados de Toulouse e Montauban, em 2012) e os irmãos Kouachi (responsáveis pelo atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, em 2015).

Para aumentar os seus recursos, o Daesh cria impostos nos territórios que administra, impõe resgates de prisioneiros e trafica antiguidades. Esta última actividade é supervisionada por Abu Sayyaf al-Iraqi. As peças roubadas são encaminhadas para Gaziantep (Turquia). Elas são, ou expedidas directamente para colecionadores que as encomendaram através das empresas Şenocak Nakliyat, Devran Nakliyat, Karahan Nakliyat e Egemen Nakliyat, ou vendidas no mercado de Bakırcılar Carşısi [6].

Por outro lado, a máfia turca, dirigida pelo Primeiro-ministro Binali Yıldırım, instala fábricas de contrafacção no território do Emirado Islâmico e com elas inunda o mundo Ocidental.

Finalmente, quando o Presidente afegão Hamid Karzai deixa o Poder, ele retira o transporte do ópio e da heroína afegã aos Kosovares e passa-o para o Califado. Desde há muitos anos que a família do Presidente afegão —nomeadamente o seu irmão Ahmed Wali Karzai, até ao seu assassinato— reina sobre o principal cartel de ópio. Sob a proteção das Forças Armadas norte-americanas o Afeganistão produz 380 toneladas de heroína por ano, no total das 430 do mercado mundial. Este comércio teria trazido ao clã Karzai a soma de US $ 3 mil milhões de dólares em 2013. O Daesh (E.I.) é encarregado de transportar as drogas para a Europa através das suas filiais africanas e asiáticas.

15— A liquidação do Daesh

A 21 de Maio de 2017, o Presidente Donald Trump anuncia em Riade que os Estados Unidos renunciam a criar um «Sunnistão» (o Califado do Daesh), a cavalo sobre o Iraque e a Síria, e cessarão de apoiar o terrorismo internacional. Ele insta todos os Estados muçulmanos a fazer o mesmo. Este discurso foi cuidadosamente preparado com o Pentágono e o Príncipe Mohamed Bin Salman, mas não com Londres. Como boa obediente, a Arábia Saudita começa a desmantelar o gigantesco dispositivo de apoio aos Irmãos Muçulmanos que ela colocou em marcha nos últimos sessenta anos, o Reino Unido, o Catar, a Turquia e a Malásia recusam a mudança dos EUA.

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Tal como no Afeganistão o MI6 renomeara a «Frente unida islâmica para a salvação do Afeganistão» em «Aliança do Norte», afim de obter o apoio da opinião pública ocidental para estes «resistentes face aos Talibã», assim o MI6 renomeou no Mianmar o «Movimento para a Fé» em «Exército de libertação dos Rohingyas do Arakan». Nos dois casos, é preciso fazer desaparecer qualquer menção aos Irmãos Muçulmanos.

Em Agosto 2017, Londres lança O Exército de salvação dos Rohingyas do Arakan contra o governo birmanês. Durante um mês, a opinião pública internacional é inundada com informações truncadas atribuindo o êxodo dos Royinghas muçulmanos do Myanmar para Bengala à violência do Exército budista birmanês. Trata-se de lançar a segunda fase da guerra das civilizações : depois do ataque dos muçulmanos contra os cristãos, agora o dos budistas contra os muçulmanos. No entanto, a operação é interrompida assim que a Arábia Saudita cessa o seu apoio ao Exército de salvação dos Rohingyas, cuja sede era em Meca [7].

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Três dias antes dos atentados no Sri Lanka, o Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita envia um telegrama secreto à sua embaixada em Colombo. Insta-a a confinar, tanto quanto possível, todo o seu pessoal durante três dias e de o interditar, em absoluto, de frequentar os locais que serão destruídos pelos atentados (fonte : Alahed News).

No fim, os Estados Unidos, o Irão e o Iraque liquidam o Daesh (E.I.) no Iraque, enquanto que a Síria e a Rússia o caçam na Síria.

A terminar, uma grande operação é organizada pelo Daesh(EI) no Sri Lanka por ocasião da festa cristã da Páscoa, a 21 de Abril de 2019, matando 258 pessoas e ferindo 496.

A restauração do califado, imaginada em 1928 por Hassan el-Banna, havia sido tentada pelo Presidente Anuar al-Sadate para seu proveito pessoal, o que lhe custou a vida. Ela foi finalmente realizada pelo Daesh(EI), mas saldou-se por um fiasco. A resistência das populações árabes foi muito forte e a oposição do Presidente Trump não permitiu prosseguir a experiência. Não é possível de momento saber se o Emirado Islâmico tinha mandato do Guia para se proclamar em Califado ou se ele se aproveitou do seu apoio ocidental para o fazer. Seja como for, os jiadistas não vão desistir.

(Continua …)


[1] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.

[2] “Israeli general says al Qaeda’s Syria fighters set up in Turkey”, Dan Williams, Reuters, January 29, 2014.

[3] Documento ONU S / 2016/94. «Información sobre el comercio ilegal de hidrocarburos por el Estado Islámico en el Iraq y el Levante (EIIL)», Red Voltaire , 29 de enero de 2016.

[4] “Jihadismo e indústria petrolífera”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 23 de Junho de 2014.

[5] “Hacked Emails Link Turkish Minister to Illicit Oil”, Ahmed Yayla, World Policy, October 17, 2016.

[6] Documento ONU S/2016/298. «Informe de la inteligencia de Rusia sobre el tráfico de antigüedades de Daesh», Red Voltaire , 8 de marzo de 2016.

[7] “O islão político contra a China”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Outubro de 2017.



Ver original na 'Rede Voltaire'



“Sob os nossos olhos” (6/25)Primeiros reveses dos Irmãos Muçulmanos

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os Nossos Olhos). A sorte dos acontecimentos dá uma volta neste episódio. O Presidente Americano-Egípcio Mohamed Morsi é derrubado no seguimento de manifestações monstras, enquanto que a tomada de Damas falha.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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Apesar dos 40. 000 homens envolvidos, os Irmãos Muçulmanos não conseguem tomar a capital síria. Longe de apoiar os «libertadores», a população resiste e a operação é um fiasco.

11— A «Primavera Árabe» na Síria

Desde 4 de Fevereiro, dia da abertura da reunião do Cairo, a coordenação da «Primavera Árabe» na Síria é assegurada pela conta de Facebook Syrian Revolution 2011. O enunciado é suficiente para compreender que a operação deveria derrubar rapidamente a República Árabe Síria, tal como foi o caso com outras «revoluções coloridas» uma vez que o objectivo não é mudar as mentalidades, mas unicamente as equipas dirigentes e algumas leis do país. No próprio dia da sua criação, a conta Syrian Revolution 2011 lança um apelo para manifestações em Damasco, que é difundida pela Al-Jazeera, enquanto o Facebook lhe cola dezenas de milhares de «Followers»(«Seguidores»-ndt). Pura magia de informática. Esta conta jogará um papel central durante os próximos cinco anos. Ela irá dedicar cada uma das sextas-feiras, dia de oração dos muçulmanos, a um objectivo dos Irmãos.

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O deputado harirista Okab Sakr

A 22 de Fevereiro, John McCain está no Líbano. Ele encontra-se com diversos dirigentes da Coligação pró-saudita do 14-Março, entre os quais o deputado Okab Sakr, a quem ele confia o encaminhar das armas para os Islamistas que atacam na Síria [1]. Depois, deixa Beirute e vai inspeccionar a fronteira Síria. Ele escolhe a aldeia de Ersal como futura base de operações.

Apesar dos apelos da misteriosa conta Syrian Revolution 2011, é preciso esperar até ao meio de Março para que as movimentações arranquem na Síria. Os Irmãos agrupam em Daraa, uma cidade do Sul reputada como muito Baathista, antigos jiadistas do Afeganistão e do Iraque. Eles desviam uma manifestação de funcionários que exigia um aumento dos seus salários e iniciam um saque ao Palácio da Justiça. No mesmo dia, enquadrados por agentes da Mossad, atacam um centro dos Serviços Secretos, situado fora da cidade, e exclusivamente utilizado para vigiar a actividade israelita no Golã ocupado.

Dando conta do acontecimento, a Al-Jazeera garante que os habitantes de Daraa protestam após a polícia ter torturado crianças que tinham tatuado slogans hostis ao Presidente Assad. A confusão reina enquanto os vândalos continuam a destruição do centro da cidade. Durante as semanas seguintes três grupos de Islamitas circulam no país atacando alvos secundários, mal defendidos. A impressão de agitação generaliza-se por todo o país, embora os distúrbios só atinjam três locais distintos ao mesmo tempo. Em algumas semanas, contam-se mais de 100 mortos, principalmente polícias e militares.

O Presidente Assad reage ao contrário do que se espera dele : longe de impor um Patriot Act local, ele revoga o estado de emergência que continuava em vigor —a Síria continua em estado de guerra contra Israel que ocupa o planalto do Golã— e dissolve o Tribunal de Segurança do Estado. Faz votar uma lei garantindo e regulando o direito de manifestação, denuncia um complô conduzido a partir do estrangeiro e apela ao Povo para apoiar as Instituições. Reúne os Chefes de Estado-Maior e interdita que os soldados façam uso das suas armas se existir risco de colateralmente matar civis.

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O Guia dos Irmãos Muçulmanos sírios, Ali Sadreddine al-Bayanouni (refugiado em Londres), faz aliança com o antigo Vice-presidente sírio Abdel Halim Khaddam (refugiado em Paris). Este último havia fugido do seu país quando se descobriu a maneira como ele cobria, junto com o Chefe dos Serviços de Inteligência Ghazi Kanaan, a pilhagem do Líbano pelo saudita Rafic Hariri.

Tomando o Presidente à letra, os Irmãos atacam um comboio militar em Banias (a cidade do antigo Vice-presidente Abdul Halim Khaddam) durante várias horas, à vista da população. Com medo de ferir os espectadores, os soldados obedecendo ao seu Presidente não fazem uso das suas armas. Uma dezena dentre eles são mortos. O Sargento que comanda o destacamento perde as duas pernas ao abafar com o seu corpo uma granada para que esta não mate os seus homens. A operação é organizada a partir de Paris pela Frente de Salvação de Khaddam e pelos Irmãos Muçulmanos. A 6 de Junho, são 120 polícias que são mortos numa situação idêntica em Jisr al-Shughur.

Manifestações hostis à República Árabe Síria acontecem em várias cidades. Contrariamente à ideia que repercutem os média ocidentais, jamais os manifestantes exigem Democracia. Os slogans mais gritados são: «O Povo quer a queda do regime», «Os cristãos para Beirute, os alauítas para o caixão», «Queremos um presidente que tema a Deus», «Abaixo o Irão e o Hezbolla». Vários outros slogans evocam a «liberdade», mas não no sentido ocidental. Os manifestantes exigem é a liberdade de aplicar a Charia.

Naquela altura, as pessoas só consideram como fonte credível de informação a Al-Jazeera e a Al-Arabiya que apoiaram as mudanças de regime na Tunísia e no Egipto. Elas são pois persuadidas que na Síria, também, o Presidente vai abdicar e os Irmãos Muçulmanos vão chegar ao Poder. A grande maioria dos Sírios assiste ao que pensa ser uma «revolução» e prepara-se para uma viragem islamista. É muito difícil quantificar o número de Sírios que se manifestam contra a República ou que apoiam os Irmãos Muçulmanos. Quando muito pode-se constatar que centenas de pequenas manifestações ocorrem no país e que a mais importante reuniu cerca de 100.000 pessoas em Hama. Os seus organizadores são recebidos pelo Presidente Assad em Damasco. Quando ele lhes pergunta quais são as suas reivindicações, eles respondem-lhe «interdição de acesso dos alauítas a Hama». Estupefacto, o Presidente —ele próprio um alauíta— põe fim à reunião.

A 4 de Julho em Paris, os Irmãos e o governo Israelita organizam, na sombra, uma reunião pública para mobilizar a classe dirigente francesa. Respondendo ao apelo do «filósofo» Bernard-Henry e dos antigos e futuros Ministros dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, e Laurent Fabius, deputados de direita, do centro, de esquerda e ecologistas dão o seu apoio ao que lhes é apresentado como uma luta pela democracia. Ninguém assinala a presença na sala dos verdadeiros organizadores: Alex Goldfarb (conselheiro do ministro israelita da Defesa) e Melhem Droubi (responsável mundial das Relações externas da Irmandade, vindo especialmente da Arábia Saudita).

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Burhan Ghalioun deixa a Síria aos 24 anos e prossegue uma carreira de universitário em Paris. Paralelamente, com a ajuda da NED, ele cria a Organização árabe dos direitos do homem, em 1983, na Tunísia. Quando o Argelino Abassa Madani (da Frente Islâmica de Salvação) parte para o exílio no Catar, este laico ajuda-o a escrever os seus discursos. Em Junho de 2011, ele participa na Conferência para a Salvação Nacional dos Irmãos Muçulmanos e, sob proposta dos Estados Unidos, é eleito no mês seguinte para a presidência do Conselho Nacional Sírio (CNS). Desde logo, fica a receber um salário do Departamento de Estado por «representar o Povo Sírio».

Em Agosto, um Conselho Nacional Sírio é constituído em Istambul, copiando o modelo do Conselho Nacional de Transição Líbio. Ele reúne personalidades a viver desde há anos fora da Síria, uns poucos tendo acabado de sair do país, e Irmãos Muçulmanos. A estranha ideia de que este grupo procura estabelecer uma «democracia» parece ser validada pela presença de personalidades da extrema-esquerda, como o professor Burhan Ghalioun, o qual é catapultado a presidente. Ora, eis que ele há anos trabalha com a NED e os Irmãos Muçulmanos. Muito embora seja laico, escreveu, entre outros, os discursos de Abassi Madani (o presidente da Frente Islâmica da Salvação Argelina) desde que ele se exilou no Catar. É igualmente o caso de George Sabra e Michel Kilo, que trabalham, esses, com os Irmãos desde há mais de trinta anos e que seguiram os trotskistas norte-americanos para a NED, em 1982. Sob a liderança do Líbio Mahmoud Jibril, Sabra trabalhou, nomeadamente, no programa infantil Rua Sésamo, produzido pela francesa Lagardère Media e pela catariana Al-Jazeera, com Cheryl Benard, esposa do Embaixador dos EUA na ONU, e depois no Iraque, Zalmay Khalilzad. Ou, ainda Haytham Manna, o gestor de investimentos dos Irmãos sudaneses.

O Catar compra à OLP a Presidência rotativa da Liga Árabe por US $ 400 milhões de dólares. Violando os estatutos, consegue então fazer suspender a República Árabe Síria, portanto um dos membros fundadores da organização. Em seguida, propõe uma missão de observação no terreno presidida pelo Sudão (sempre governado pelos Irmãos). Este designa o antigo chefe dos Serviços Secretos e antigo embaixador no Catar, o General Mohammed Ahmed Mustafa al-Dabi, para chefiar a missão. Cada Estado-membro envia observadores, de maneira a representar todas as tendências. A República Árabe Síria concorda em receber a Liga e deixa a Missão instalar-se em todo o seu território. É a primeira e única vez que um órgão pluralista vai ao terreno, se encontra com todos os actores, e visita todo o país. É, na realidade, a única fonte externa digna de fé durante todo o conflito.

A nomeação do general Al-Dabi é saudada unanimemente por todas as partes. O homem negociou a separação do Sudão e do Sudão do Sul e é proposto por numerosos Estados árabes para o Prémio Nobel da Paz. No entanto, resulta da leitura dos relatórios preliminares que o Sudanês não pretende escrever o relatório do costume, mas, antes conduzir uma autêntica observação pluralista. Bruscamente, os média internacionais mudam de tom e acusam-no de ter sido um genocida no Darfur. Todos aqueles que tinham aprovado a sua designação exigem, agora, a sua demissão. O General atira-se ao ar.

Finalmente, um relatório intercalar é publicado atestando que não há revolução na Síria. A Missão confirma que os conflitos foram consideravelmente exagerados, que o Exército se retirou das cidades, que não há repressão, que as vítimas são principalmente soldados e policias, que mais de 5. 000 presos, dos quais ela transmitiu os nomes às autoridades, foram libertados, e que os média estrangeiros que o solicitaram puderam cobrir os acontecimentos. O Catar fica enraivecido e atira 2 mil milhões de dólares ao Sudão para que chame o General Al-Dabi de volta. E, opõe-se a que a Liga lhe designe um sucessor. Privada de chefe, a Missão é dissolvida no início de 2012.

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O jovem Abou Saleh torna-se correspondente permanente da France 24 e da Al-Jazeera no Emirado islâmico de Baba Amr (em Homs). Ele encena o bombardeamento imaginário do bairro durante dois meses pelas «forças do regime», participa na condenação à morte de 150 habitantes do bairro, dirige-se como se estivesse moribundo aos seus espectadores (foto), depois subitamente voltando à vida mete fogo a um "pipe-line", etc. Foge para Paris assim que o Emirado caí e irá reaparecer ulteriormente em Idlib.

Furiosos por ver a República Árabe Síria escapar incólume, os Irmãos decidem criar um Emirado Islâmico. Após várias tentativas, será num bairro novo de Homs, Baba Amr, onde foram previamente escavados e preparados túneis para assegurar o aprovisionamento em caso de cerco, que 3. 000 combatentes se concentram, entre os quais 2. 000 taqfiristas sírios. Estes, são os membros de um sub-grupo da Confraria, «Excommunicação e imigração», criado sob Sadate.

Eles montam um «Tribunal Revolucionário», julgam e condenam à morte mais de 150 habitantes locais que são degolados em público. Os habitantes fogem, à excepção de umas 40 famílias. Os taqfiristas erguem barricadas em todos os acessos ao bairro que as Forças Especiais francesas fortificam com material pesado. A campanha terrorista do primeiro ano evolui para uma guerra de posições, de acordo com o plano estabelecido, em 2004, na obra La Gestion de la barbarie. Agora, os Islamistas recebem da OTAN um armamento mais sofisticado que os Sírios, cujo exército está sob embargo desde 2005.

Uma manhã, o Exército Árabe Sírio entra em Baba Amr, cujas defesas foram desactivadas. Os Franceses, os jornalistas e alguns líderes fugiram e reaparecem alguns dias mais tarde no Líbano. Os taqfiristas rendem-se. A guerra que arrancava parece chegar ao seu fim, tal como no Líbano em 2007, aquando da vitória do Exército libanês sobre a Fatah al-Islam. Mas, os islamistas ainda não desistiram.

Uma nova operação está em preparação a partir da Jordânia, sob comando da OTAN. Ela prevê o ataque a Damasco no contexto de uma gigantesca operação psicológica. Mas é anulada à última hora. Os Islamistas, que foram abandonados pela França em Baba Amr, acabam de ser desconvocados pelos Estados Unidos. Estes últimos discutem uma possível partilha do Médio-Oriente com a Rússia. Uma promessa de paz é assinada em Genebra, a 30 de Junho de 2012.

12— O fim da «Primavera Árabe» no Egipto

No Egipto, a nova assembleia é dominada pelos Irmãos. Ela considera que a nova Constituição —que foi redigida para permitir a sua eleição—, não faz mais que retomar um texto antigo, com ligeiras emendas, muito embora tenha sido aprovada a 77% em referendo. Ela designa, pois, uma Assembleia Constituinte de 100 membros, dos quais desta vez 60 são Irmãos.

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Assim que o Presidente Mubarak é forçado por Washington a demitir-se, o Xeque Youssef Al-Qaradâwî regressa do Catar ao seu país em avião privado. Administrador do Centro de Oxford para os estudos islâmicos, presidido pelo Príncipe Charles, e Conselheiro espiritual na Al-Jazeera, anima uma emissão semanal sobre a Charia. Na praça Tahrir, ele aparece para rejeitar a democracia e defender a execução dos homossexuais.

Os Irmãos sublinham que os jovens democratas poderiam pôr em causa o Poder do exército. A sua campanha para a eleição presidencial é a ocasião de apelar à regeneração do país pelo Corão. Yussef al-Qaradâwî prega que é mais importante lutar contra os homossexuais e recuperar a Fé que combater contra Israel pelo reconhecimento dos direitos do Povo palestino [2]. Enquanto a abstenção dos sunitas é maciça, a Irmandade impede a realização das eleições nas cidades e aldeias cristãs, de modo que 600.000 eleitores não podem votar.

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A Comissão eleitoral presidencial «confirma Mohamed Morsi como presidente do Egipto, de maneira a prevenir um destino sangrento para o país se [ela proclamasse] a eleição do General Ahmed Shafiq».

Entretanto, os resultados das urnas dão o General Ahmed Chafik, antigo Primeiro-ministro de Mubarak, vencedor com uma ligeira vantagem de 30. 000 votos. A Irmandade ameaça então os membros da Comissão Eleitoral e as suas famílias, até que esta se decide, após 13 dias, a proclamar a vitória do Irmão Mohamed Morsi [3]. Fechando os olhos, a «comunidade internacional» congratula-se com o carácter «democrático» da eleição.

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Conferência de imprensa na sede dos Irmãos Muçulmanos com o Guia mundial da Irmandade e o Presidente Mohamed Morsi.

Mohamed Morsi é um engenheiro da NASA. Ele tem cidadania norte-americana e dispõe da autorização Segredo-de-Defesa do Pentágono. Desde a sua chegada ao Poder, começa a reabilitar e a favorecer o seu clã, e a reforçar os laços com Israel. Recebe no Palácio presidencial os assassinos do Presidente Sadate para o aniversário da sua execução. Nomeia Adel Mohammed al-Khayat, um dos chefes do Gamaa Al-Islamiya, (o grupo responsável do massacre de Luxor, em 1997), governador desse distrito. Persegue os democratas que se haviam manifestado contra certos aspectos da política de Hosni Mubarak (mas não pela sua demissão). Apoia uma vasta campanha de pogroms dos Irmãos Muçulmanos contra os Cristãos, e encobre os seus abusos: linchamentos, saque dos arcebispados, incêndios das igrejas. Simultaneamente, privatiza as grandes empresas e anuncia a possível venda do canal de Suez ao Catar, o qual apadrinha então a Irmandade. A partir do palácio presidencial, ele liga por telefone pelo menos quatro vezes a Ayman al-Zawahiri, o Chefe mundial da Alcaida. Em resumo, reúne a unanimidade contra si. Todos os partidos políticos, incluídos os salafistas (excepto, claro, a Irmandade) se manifestam contra ele. São 33 milhões a tomar conta das ruas e a apelar ao Exército para devolver o país ao Povo. Insensível ao grito da rua, o Presidente Morsi ordena ao Exército para se preparar para atacar a República Árabe Síria, afim de ir ajudar os Irmãos Muçulmanos sírios. Esta será a gota de água.

A 3 de Julho de 2013, à hora de fecho dos escritórios em Washington para o fim de semana do Dia Nacional, o Exército dá um Golpe de Estado. Mohamed Morsi é preso, enquanto as ruas se transformam em campo de batalha entre os Irmãos e suas famílias, de um lado, e as forças da Ordem do outro.

13— A Guerra contra a Síria

«Em política, as promessas apenas comprometem aqueles que nelas acreditam», diz-se. Um mês após a Conferência de Genebra e a assinatura da paz, e alguns dias após a Conferência dos «Amigos da Síria» em Paris, é novamente lançada a guerra. Não se tratará de uma acção da OTAN assistida pelos seus ajudantes jiadistas, mas, sim, unicamente de um ataque jiadista, apoiado pela OTAN. O seu nome de código : «Vulcão de Damasco e Terremoto na Síria»

Sumariamente treinados na Jordânia, 40.000 homens cruzam a fronteira e dirigem-se para a capital síria, enquanto um atentado mata os participantes de uma reunião do Conselho Nacional de Segurança. O Exército e os Serviços secretos são decapitados. Ainda hoje em dia, é difícil dizer se um kamikaze colocou uma bomba no lustre da sala ou se um drone atirou um míssil ao edifício. O Exército e os Serviços Secretos continuam decapitados.

Os jiadistas são mercenários que foram recrutados entre os pobres do mundo muçulmano. Muitos não falam árabe e tiveram um treino militar de apenas uma semana. Alguns acreditam que vêm combater contra os israelitas. Sofrem baixas consideráveis e retiram.

A longa guerra que se segue opõe um Exército Árabe Sírio que tenta proteger a sua população, e para isso deve recuar para as grandes cidades, a jiadistas que buscam tornar a vida impossível em vastos espaços. Estes combatentes são substituíveis até ao infinito. Todos os meses, chegam novos recrutas que substituem os mortos ou os desertores. Num primeiro tempo, todos os malandros do mundo muçulmano vêm tentar a sua sorte por algumas centenas de dólares ao mês. Escritórios de recrutamento são abertos publicamente em países como a Tunísia ou o Afeganistão, enquanto agem com mais discrição em outros países, como em Marrocos ou no Paquistão. No entanto, as perdas de combatentes são extremamente altas. Em Julho de 2013, de acordo com a Interpol, operações de evasão muito sofisticadas são montadas em nove Países para fazer escapar chefes islamistas e transferi-los para a Síria. Por exemplo:

- a 23 de Julho, 500 à 1. 000 presos evadem-se das prisões de Taj e de Abu Graïb (Iraque).
- a 27 de Julho , 1. 117 presos evadem-se da prisão de Kouafia (zona de Bengazi, Líbia) no seguimento de um motim interno combinado com um ataque externo.
- na noite de 29 para 30 de Julho, 243 Talibã evadem-se da prisão de Dera Ismaïl Khan (zonas tribais paquistanesas).

O Exército Árabe Sírio queima a maioria dos corpos de combatentes, mas conserva aqueles que consegue identificar. Eles são devolvidos às suas famílias. Vários Estados organizam discretamente canais de repatriamento, como por exemplo a Argélia com a Fundação Abdelkader. No entanto, o Exército Árabe Sírio guarda até hoje mais de 30.000 cadáveres identificados, mas não reclamados.

Os Estados ocidentais que, no início, tinham enviado Forças Especiais para o terreno, recrutando-as entre os seus soldados com dupla nacionalidade, geralmente muçulmanos originários do Magrebe, organizam os seus próprios canais de recrutamento de jiadistas. Assim, em França uma rede é estabelecida entre as prisões e as mesquitas salafistas. Esses poucos milhares de indivíduos juntam-se às dezenas de milhares vindos do «Médio-Oriente Alargado». Embora se ignore quantas pessoas irão participar nesta guerra, estima-se que o total de jiadistas combatendo, ao mesmo tempo, na Síria e no Iraque, locais e estrangeiros, desde 2011, ultrapassa os 350. 000. É um número superior ao de qualquer Exército regular da União Europeia e duas vezes maior que o Exército Árabe Sírio no fim da guerra.

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Nas ondas da televisão saudita al-Safa, o Xeque sírio Adnan Al-Arour apela ao massacre dos Alauítas. Ele irá tornar-se a referência religiosa do Exército sírio livre.

A unidade ideológica dos jiadistas é assegurada pelo «chefe espiritual do Exército Sírio Livre», o Xeque Adnan al-Aroor. Este personagem colorido atinge um público vasto, a cada semana, durante o seu programa de TV. Ele inflama paixões apelando ao derrube do tirano e defende uma visão patriarcal autoritária da sociedade. Progressivamente, deriva para apelos sectários ao massacre de Cristãos e de Alauítas. Oficial subalterno no Exército Árabe Sírio, foi preso depois de ter violado jovens recrutas. Fugiu então para a Arábia Saudita, onde se tornou xeque ao serviço de Alá.

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Reunião no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, a 13 de Junho de 2013, na Casa Branca. Reconhece-se Gayle Smith (segundo à direita) e o Irmão Rashad Hussain (quarto à esquerda). O Conselheiro de Segurança Nacional, Tom Donilon, participava igualmente na reunião, mas não aparece na foto. Sobretudo, vemos o representante dos Irmãos Muçulmanos e adjunto de Youssef al-Qaradâwî, o Xeque Abdallah Bin Bayyah (segundo à esquerda com o turbante).

Os jiadistas recebem em geral um armamento básico e dispõem de uma quantidade ilimitada de munições. Estão organizados em katibas, pequenas unidades de algumas centenas de homens cujos chefes recebem armamento ultra-sofisticado, nomeadamente maletas de comunicação permitindo-lhes receber, em directo, imagens de satélite dos movimentos do Exército Árabe Sírio. É, portanto, um combate assimétrico com o Exército Árabe Sírio que está realmente muito melhor treinado, mas cujas armas são todas anteriores a 2005 e que não dispõe de informações por satélite.

Contrariamente ao Exército Árabe Sírio, em que todas as unidades são coordenadas e colocadas sob a autoridade do Presidente Bachar Al-Assad, as katibas jiadistas não param de se atacar entre elas, como em todos os campos de batalha onde rivalizam «senhores de guerra». Todos, no entanto, recebem os seus reforços, armas, munições e informações, a partir de um Estado-maior único ao qual eles estão pois obrigados a obedecer. No entanto, os Estados Unidos têm a maior dificuldade em fazer funcionar este sistema porque inúmeros actores entendem executar operações às escondidas dos outros aliados, por exemplo os Franceses à revelia dos Britânicos, ou ainda os Catarianos em detrimento dos Sauditas.

Assim que um território é evacuado pelo Exército Árabe Sírio, os jiadistas que o ocupam “enterram-se” nele. Aí, eles constroem túneis e bunkers. Os Sauditas haviam enviado o bilionário Osama Bin Laden para o Afeganistão porque era um especialista em obras públicas. Ele supervisionara a construção de túneis nas montanhas –-ou mais exactamente o alargamento de rios subterrâneos---. Desta vez, os engenheiros da engenharia civil da OTAN vêm supervisionar a construção de linhas de defesa gigantescas.

(Continua…)


[1] « Un député libanais dirige le trafic d’armes vers la Syrie », Réseau Voltaire, 5 décembre 2012.

[2] Global Mufti: The Phenomenon of Yusuf Al-Qaradawi, Bettina Graf & Jakob Skovgaard-Petersen, Hurst (1999); Hamas and Ideology. Sheikh Yūsuf al-Qaraḍāwī on the Jews, Zionism and Israel, Shaul Bartal and Nesya Rubinstein-Shemer, Routledge (2018).

[3] “A Comissão Eleitoral das presidenciais Egípcias cede à chantagem da Irmandade Muçulmana”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2016.



Ver original na 'Rede Voltaire'



"A Religião dos Fracos"



Início do livro "A Religião dos Fracos", de Jean Birbaum, que acaba de sair na Gradiva
«O crente é o espelho do crente»

Uma vez que os dominantes precisam de ter a última palavra, os guerreiros da jihad não descuram as conclusões. No final das proclamações que fazem, introduzem aquilo a que os manuais de retórica chamam «cláusula», isto é, uma fórmula explosiva que conclui o discurso impressionando o auditório. Neste caso, o procedimento é tanto mais poderoso porque o orador pronuncia as suas derradeiras palavras: os mais célebres vídeos jihadistas exibem um homem que morre depois de ter matado. Aqueles que acaba de eliminar não eram dignos de existir, e ele próprio se prepara para conhecer o sacrifício absoluto. Desde logo, matar outro e matar‑se a si abre‑lhe o caminho de uma sobrevida, ou seja, uma vida mais elevada, mais real, mais intensa. Perante a câmara, o soldado do Califado reivindica o gesto. Está convencido de que as palavras que utiliza serão as palavras do fim: fim dos infiéis, fim da perversão, fim da História. E este fim coincide com um início radical, o advento do Reino divino.

Uma destas fórmulas definitivas marcou‑me particularmente. Uma simples frase pronunciada por Larossi Abballa, um jovem que apunhalou um casal de polícias, Jean‑Baptiste Salvaing e Jessica Schneider, em Magnanville, nos arredores de Paris, em 13 de Junho de 2016. O vídeo que Larossi Abballa publicou no Facebook imediatamente a seguir ao duplo assassínio foi gravado em casa das vítimas. Dura cerca de dez minutos. Junto dele, o cadáver de Jessica Schneider, mas também o filho dos dois polícias, com três anos. O assassino vira a câmara para a criança e indica: «Ainda não sei o que vou fazer com ele.» Trata‑se de um dos raros instantes de improviso da sequência. Quanto ao resto, Abballa lê um texto escrito previamente. Antes de chegarmos à cláusula da sua proclamação, épreciso descrever o movimento de conjunto.

De cabeça rapada e longa barba, Larossi Abballa começa por fazer uma oração ritual, em árabe. Jura fidelidade ao Estado Islâmico e diz: «As minhas primeiras palavras são para a comunidademuçulmana, para a Oumma al‑islamiya: que se passou contigo? Como chegaste a este ponto? Que castigo se abateu sobre ti? Antes, governavas o mundo; agora, vês‑te governada! Aplicavas asleis de Alá na terra, e hoje aplicam‑te as leis do Taghout [o poder ilegítimo, que corresponde ao homem desnaturado]! Desviaste‑te do caminho de Alá e do seu profeta. Por isso, o castigo de Aláabateu‑se sobre a tua nuca.
O conjunto deste palavrório desenvolve a mesma ideia, bastante vivaz no discurso jihadista: os muçulmanos dominavam, agora já não dominam. Se conheceram a decadência — afirma Larossi Abballa, entre tantos outros —, a razão é simples: desviaram‑se do combate ao serviço de Alá. Quem abandonar a jihad condena‑se ao aviltamento: entre o domínio e a humilhação, não há meio‑termo. Dirijo‑me aos muçulmanos de França, aqueles que Alá privilegiou ao conceder‑lhes a compreensão adequada dos textos: ataquem os infiéis como preferirem! Façamtremer as almas deles e toda a França! Façam que Alá devolva a supremacia à sua religião.»

Restabelecer o islão na sua posição hegemónica, é esta a urgência, um objectivo para o qual é justo e bom sacrificar‑se. De repente, Larossi Abballa mostra um sorriso caloroso e uns olhos húmidos quando declara em tom fraternal: «Basta que nos lancemos, que morramos, e ver‑nos‑emos
no paraíso! [...] E, nesse momento, desaparecerão as preocupações, os problemas; restará apenas um prazer infinito.» No entanto, o semblante de Abballa não tarda a endurecer, para exortar os «irmãos» a assassinarem guardas prisionais, representantes eleitos da República, jornalistas e rappers, cujos nomes fornece numa lista. Pouco depois de ter fechado este parêntesis operacional, o jovem chega à conclusão. É o momento da cláusula para que convergia o conjunto da declaração. «Gostaria de concluir com estas palavras: o crente é o espelho do crente.»

Esta formulação foi retirada de um hádice, das palavras atribuídas ao profeta Maomé. Na tradição islâmica, foi objecto de abundantes comentários, os quais frequentemente a interpretaram como forma de sublinhar a responsabilidade e a sinceridade do muçulmano para com os outros muçulmanos: cada qual deve servir de espelho aos outros, devolver o reflexo tanto das suas qualidades quanto dos seus defeitos, tanto da sua fidelidade quanto da sua errância. No caso em apreço, esta formulação pode ser entendida de outra forma. Pronunciada por um jihadista que acaba de massacrar dois «infiéis» à frente do filho destes, dirigida aos franceses e à Europa como um gesto de desafio, ela poderia significar: «Vocês, que nunca levam as nossas palavras a sério, revejam‑se no meu discurso, pois a minha crença é o espelho das vossas crenças. Europeu, vê‑te em mim. Contempla a minha fé e vê aquilo em que acreditas.»

Este efeito de espelho era já central no meu livro anterior. Com Un silence religieux1, pretendi mostrar como a fé dos jihadistas nos revela — a nós, europeus secularizados — a nossa certeza de que a crença religiosa não é nada. Ou, então, nada de real, quando muito um ornamento que oculta as coisas sérias (políticas, económicas, sociais...), um arcaísmo destinado a ser dissipado pelo progresso. Mas o essencial, naquela altura, era quebrar o silêncio, o nosso silêncio exaltado quanto à religião, para finalmente ouvirmos o que diziam os jihadistas. Levar a sério o seu fervor sem o limitar a algo que não fosse ele próprio, apreender a visão do mundo que os move, sem continuar a fazer deles simples casos sociais ou lunáticos: tratava‑se de compreender o seu ímpeto, a imensa sedução que exercem por todo o mundo, o seu poder de atracção.

Nós, apesar de tudo?

Agora, a tarefa é outra. É preciso voltar o espelho e segurá‑lo com firmeza. Enfrentá‑lo, definitivamente. Contemplar a imagem maior que nos devolve, visto que exibe um nós, apesar de tudo. Nós, precisamente, que somos tão reticentes a dizer «nós», porque traçar um «nós» implica obrigatoriamente delimitar uma fronteira com «eles», sob pena de excluir, de discriminar. No entanto, o jihadista solicita‑nos. «Amamos a morte como vocês amam a vida», repete ele de geração em geração, de Osama bin Laden a Mohamed Merah. Ao dizer «vocês», ele arpoa um «nós» ao nosso corpo defensivo. Um «nós» de todas as origens e de todas as sensibilidades, que é preciso evitar enclausurar em limites arbitrários, mas cujos contornos é urgente deixar emergir formulando a pergunta: «O que preza este ‘nós’? Que prezamos nós?»

O presente ensaio gostaria de contribuir com alguns elementos de resposta. Para isso, por vezes teremos de ser drásticos. Quando assume como objectivo penetrar camadas e mais camadas de não‑ditos, a pluma vê‑se obrigada a ser firme. Capítulo após capítulo, estrato após estrato, ela atravessará episódios diversos, logo, implicações múltiplas (sociais, políticas, religiosas, culturais, sexuais...), de modo a descobrir a crença que o jihadismo nos obriga a olhar de frente. Esta crença, como veremos, coincide em parte com um conjunto de convicções tradicionalmente associadas àquilo que se chama «a esquerda». Porém, dado que em França, e frequentemente noutros países europeus, a esquerda gozou por muito tempo de uma «superioridade de prestígio», para usar a expressão de Raymond Aron, analisar estas evidências comuns equivale a explorar um espaçode doutrina que as extravasa largamente.

Conheço bem tal crença. Nasci no seio dela. Como foi já o caso no meu livro anterior, não julgarei a partir do exterior as certezas que gostaria de explorar aqui. São as minhas certezas, recebi‑ascomo herança e por muito tempo aderi a elas sem reservas. Será o efeito da idade ou o calor dos acontecimentos? Seja como for, comecei a duvidar. Depois, após discussões entre amigos e debates públicos, percebi que não era o único. Concluí que chegara o momento de falar disso e, portanto, de questionar: que crença é esta que nos desarma? Dado que faz coincidir um estado de vulnerabilidade e um sentimento de omnipotência, chamar‑lhe‑ei Religião dos Fracos."

(...)
 

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2019/07/a-religiao-dos-fracos.html

“Sob os nossos olhos” (5/25)Os Irmãos Muçulmanos como membros do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca

Nós prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os Nossos Olhos). Neste episódio, ele regressa ao primeiro semestre de 2011 no decurso do qual, apoiados pelos Estados Unidos e o Reino Unido, os Irmãos Muçulmanos se aproximaram ou acederam ao Poder na Tunísia, no Egipto e na Líbia.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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Ben Ali (Tunísia), Kadhadi (Líbia) e Mubarak (Egipto) eram, em 2011, três chefes de Estado às ordens de Washington (Kadhafi desde a sua reviravolta de 2003, os dois outros desde sempre). Apesar dos serviços prestados, eles foram varridos em proveito dos Irmãos Muçulmanos.

7— O início das «Primaveras Árabes» na Tunísia

A 12 de Agosto de 2010, o Presidente Barack Obama assina a directiva presidencial de Segurança n° 11 (PSD-11). Ele informa todas as suas embaixadas no Médio-Oriente Alargado para se prepararem para «mudanças de regime» [1]. Ele nomeia Irmãos Muçulmanos para o Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos a fim de coordenarem a acção secreta no terreno. Washington vai colocar em acção o plano britânico da «Primavera Árabe». Para a Irmandade, chegou o momento de glória.

A 17 de Dezembro de 2010, um comerciante ambulante, «Mohamed» (Tarek) Bouazizi, imolou-se pelo fogo na Tunísia após a polícia ter apreendido a sua carroça. A Irmandade apropria-se do caso e faz circular boatos segundo os quais o jovem era um universitário no desemprego e que tinha sido esbofeteado por uma mulher-polícia. Imediatamente, os homens da National Endowment for Democracy (a NED, a falsa ONG dos serviços secretos dos cinco Estados anglo-saxónicos) pagam à família do falecido para que ela não revele a tramóia e semeiam a rebelião no país. Enquanto se sucedem as manifestações contra o desemprego e os abusos policiais, Washington pede ao Presidente Zine El-Abidine Ben Ali para deixar o país, ao mesmo tempo que o MI6 organiza a partir de Londres o retorno triunfal do Guia dos Irmãos, Rached Ghannouchi.

É a «Revolução de Jasmim» [2]. O esquema desta mudança de regime é copiado tanto do da partida do Xá do Irão, seguida do regresso do imã Khomeiny, como do das revoluções coloridas.

Rached Ghannouchi havia formado um ramo local dos Irmãos Muçulmanos e tentado um golpe de Estado em 1987. Detido e encarcerado várias vezes, ele exila-se no Sudão, onde beneficia do apoio de Hassan al-Turabi, depois na Turquia onde se aproxima de Recep Tayyip Erdoğan (então dirigente da Millî Görüş). Em 1993, obtêm asilo político no Londristão onde fica a residir com as suas duas mulheres e filhos menores.

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Duas personalidades apresentam-se como «anti-americanas» : Moncef Marzouki (extrema-esquerda trabalhando para a NED — EUA) e Rached Ghannouchi (Irmão Muçulmano trabalhando para a Westminster Foundation — RU)
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A «Liga de protecção da revolução» (LPR) é o equivalente tunisino do «Aparelho secreto» egípcio. O seu chefe, Ihmed Deghij, recebe de Rached Ghannouchi as instruções quanto às personalidades a eliminar.

Os Anglo-Saxónicos ajudam-no a melhorar a imagem do seu Partido, o Movimento de tendência islâmica renomeado Movimento da Renascença («Ennahda»). Para acalmar os receios da população em relação à Irmandade, a NED chama os seus peões da extrema-esquerda. Moncef Marzouki, o Presidente da Comissão Árabe dos Direitos Humanos faz de caução moral.

Ele garante que os Irmãos mudaram muito e que se tornaram democratas. É eleito Presidente da Tunísia. Ghannouchi ganha as eleições legislativas e consegue formar um governo que vai de Dezembro de 2011 a Agosto de 2013. Nele introduziu outros peões da NED, como Ahmed Najib Chebbi, ex-maoísta, depois trotskista reconvertido por Washington. Seguindo o exemplo de Hassan al-Banna, Ghannouchi forma então paralelamente ao partido uma milícia, a Liga de Protecção da Revolução, que procede aos assassinatos políticos, entre os quais o do líder da oposição Chokri Belaïd.

No entanto, apesar de um incontestável apoio de uma parte da população tunisina aquando do seu regresso, cedo o Ennahda é colocado em minoria. Antes de deixar o Poder, Rached Ghannouchi faz votar leis fiscais visando arruinar, a prazo, a burguesia laica. Desta forma, ele espera transformar a sociologia do seu país e voltar rapidamente para a frente do palco político.

Em Maio de 2016, o Xº Congresso do Ennahda é encenado pela Innovative Communications & Strategies, uma empresa criada pelo MI6. Os comunicadores asseguram que o Partido se tornou «civilista» e separa as actividades políticas e religiosas. Mas esta evolução não tem qualquer ligação com o laicismo, simplesmente pede-se aos responsáveis para dividir as tarefas e não exercer, ao mesmo tempo, como eleito e como imã.

8— A «Primavera Árabe» no Egipto

A 25 de Janeiro de 2011, quer dizer uma semana após a fuga do Presidente Ben Ali, a festa nacional egípcia transforma-se em manifestação contra o Poder. Os protestos são enquadrados pelo dispositivo tradicional dos EUA de revoluções coloridas: Os Sérvios treinados por Gene Sharp (teórico da OTAN, especializado em mudanças de regime suaves, sem recurso à guerra [3]) e os homens da NED. Os seus livros e brochuras traduzidos em árabe, e incluindo instruções para as manifestações, são amplamente distribuídas desde o primeiro dia. A maior parte destes espiões serão ulteriormente presos, julgados, condenados e depois expulsos. Os manifestantes são sobretudo mobilizados pelos Irmãos Muçulmanos, os quais dispõem de um apoio de 15 a 20% no país, e pelo Kifaya (Basta!), um grupo criado por Gene Sharp. É a «Revolução do Lótus» [4]. Os protestos ocorrem principalmente no Cairo, na Praça Tahrir, e também em sete outras grandes cidades. No entanto, está-se muito longe da vaga revolucionária que sacudiu a Tunísia.

Desde o princípio, os Irmãos utilizam armas. Na Praça Tahrir, eles recolhem os seus feridos para uma mesquita totalmente equipada para lhes fornecer os primeiros socorros. Os canais de TV das petro-ditaduras catariana, Al-Jazeera, e saudita, Al-Arabiya, apelam ao derrube do regime e difundem em directo informações vitais. Os Estados Unidos trazem de volta o antigo Director da Agência de energia atómica, o prémio Nobel da Paz Mohamed El-Baradei, presidente da Associação Nacional para a mudança. El-Baradei foi homenageado por ter acalmado os ardores de Hans Blix, o qual denunciara, em nome da ONU, as mentiras da Administração Bush visando justificar a guerra contra o Iraque. Ele preside há mais de um ano a uma coligação criada no modelo da Declaração de Damasco: um texto razoável, signatários de todos os quadrantes, mais os Irmãos Muçulmanos cujo programa é, na realidade, totalmente oposto ao da plataforma.

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Para o porta-voz dos Irmãos Muçulmanos no Egipto, Essam Elarian, pouco importam os Acordos de Camp David, a urgência está em criminalizar a homossexualidade.

Em última análise, a Irmandade é a primeira organização egípcia a apelar para o derrube do regime. As televisões de todos os Estados-membros da OTAN ou do Conselho de Cooperação do Golfo predizem a fuga do Presidente Hosni Mubarak. Enquanto o enviado especial do Presidente Obama, o embaixador Frank Wisner (o padrasto de Nicolas Sarkozy), simula primeiro apoiar Mubarak e depois alinha atrás da multidão e o pressiona a retirar-se. Finalmente, após duas semanas de tumultos e de uma manifestação reunindo 1 milhão de pessoas, Mubarak recebe ordem de Washigton para ceder e demite-se.

No entanto, os Estados Unidos entendem mudar a Constituição antes de colocar os Irmãos no Poder. O Poder permanece pois temporariamente nas mãos do exército. O Marechal Mohammed Hussein Tantawi preside o Comité Militar que administra os assuntos correntes. Ele nomeia uma Comissão constituinte de 7 membros, entre os quais 2 Irmãos Muçulmanos. É, aliás, um deles, o juiz Tareq Al-Bishri, quem preside aos trabalhos.

No entretanto, a Irmandade mantém manifestações todas as sexta-feiras à saída das mesquitas e dedica-se a linchamentos de cristãos coptas sem qualquer intervenção da polícia.

9— Nada de revolução colorida no Barém e no Iémene

Não tendo a cultura iemenita nenhuma relação com a da África do Norte, a não ser o uso comum da mesma língua, uma contestação significativa sacode desde há vários meses o Barém e o Iémene. A concomitância com os eventos da Tunísia e do Egipto arrisca baralhar os dados. O Barém hospeda a Vª Frota dos E.U.A e controla o tráfego marítimo no Golfo Pérsico, enquanto o Iémene controla com o Djibuti a entrada e saída do mar Vermelho e do Canal de Suez.

A dinastia reinante teme que a revolta popular derrube a monarquia e acusa, por reflexo, o Irão de a organizar. Com efeito, em 1981, um Aiatola(xiita) iraquiano tentou exportar a revolução do imã Khomeini e derrubar o regime fantoche colocado no Poder pelos Britânicos aquando da independência, em 1971.

O Secretário da Defesa, Robert Gates, dirige-se ao local e autoriza a Arábia Saudita a abafar estas genuínas revoluções à nascença. A repressão é dirigida pelo Príncipe Nayef. Ele pertence ao clã dos Sudeiris, tal como o Príncipe Bandar, embora Nayef seja seu primogénito e Bandar não passe do filho de uma escrava. A repartição de papéis entre os dois homens é clara: o tio mantém a Ordem reprimindo os movimentos populares, enquanto o sobrinho desestabiliza Estados através do terrorismo. O importante é distinguir muito bem os países nos quais eles operam [5].

10— A Primavera Árabe na Líbia

Se Washington previu o derrube das administrações aliadas de Ben Ali e de Mubarak sem recurso à guerra, a coisa vai ser diferente relativamente à Líbia e à Síria, governadas pelos revolucionários Kadhafi e Assad.

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Depois de ter ensinado a linguagem democrática aos petro-ditadores, ter reorganizado a Al-Jazeera e instalado as sociedades dos EUA na Líbia, o Irmão Mahmoud Jibril torna-se o cabeça da «revolução» contra o regime que ainda na véspera servia.

No início de Fevereiro, quando Mubarak ainda é Presidente do Egipto, a CIA organiza no Cairo o lançamento da continuação das operações. Uma reunião junta diversos actores, incluindo a NED (representada pelos senadores republicano John McCain e democrata Joe Liberman), a França (representada por Bernard-Henri Lévy) e os Irmãos Muçulmanos. A delegação líbia é dirigida pelo Irmão Mahmoud Jibril (o que formou os dirigentes do Golfo e reorganizou a Al-Jazeera). Ele entra na sala como número 2 do governo da Jamahiriya, mas sai como... chefe da oposição à «ditadura». Ele não voltará ao seu luxuoso gabinete de Trípoli, antes regressará a Bengazi, na Cirenaica. A delegação síria inclui Anas al-Abdeh (fundador do Observatório Sírio dos Direitos do Homem) e o seu irmão Malik al-Abdeh (director da Barada TV, uma televisão anti-síria financiada pela CIAe pelo Departamento de Estado). Washington dá instruções para o desencadear das guerras civis, tanto na Líbia como na Síria.

A 15 de Fevereiro, Fathi Terbil, advogado das famílias das vítimas do massacre na prisão de Abu Salim, em 1996, percorre a cidade de Bengazi garantindo que a prisão local está em chamas e apelando para a libertação dos presos. Ele é detido por pouco tempo e libertado no mesmo dia. No dia seguinte, a 16 de Fevereiro, sempre em Bengazi, desordeiros atacam três esquadras da Polícia, as instalações da Segurança Interna e as do Procurador. Defendendo o arsenal da Segurança Interna, a polícia mata 6 atacantes. Neste entretanto, em Al-Bayda, entre Bengazi e a fronteira egípcia, outros desordeiros atacam igualmente esquadras da Polícia e os serviços da Segurança Interna. Tomam o quartel Hussein Al-Jwaifi e a Base Aérea militar de Al- Abrag. Apoderam-se de uma grande quantidade de armas, dão uma tareia aos guardas e enforcam um soldado. Outros incidentes, menos espectaculares, ocorrem de forma coordenada em sete outras cidades [6].

Estes atacantes reivindicam-se do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL-Alcaida) [7]. São todos membros, ou antigos membros, dos Irmãos Muçulmanos. Dois dos seus chefes foram submetidos a uma lavagem de cérebro, em Guantánamo, segundo as técnicas dos Professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. No fim dos anos 90, o GICL tentou por quatro vezes assassinar Mouamar Kadhafi a pedido do MI6, e estabelecer uma guerrilha nas montanhas de Fezzan. Foi então tenazmente combatido pelo General Abdel Fattah Younés, que o forçou a abandonar o país. Ele figura desde os atentados de 2001 na lista das organizações terroristas estabelecida pelo Comité 1267 da ONU, mas dispõe de um escritório em Londres, sob a proteção do MI6.

O novo chefe do GICL, Abdelhakim Belhaj, que se batera no Afeganistão, ao lado de Osama Bin Laden, e no Iraque, havia sido detido na Malásia em 2004, depois transferido para uma prisão secreta da CIA na Tailândia, onde foi submetido ao soro da verdade e a tortura. No seguimento de um acordo entre os Estados Unidos e a Líbia foi reenviado para a Líbia, onde foi de novo torturado, mas, desta vez, por agentes britânicos na prisão de Abu Salim. Em 2007, o GICL e a Alcaida fundem-se. Entretanto, no quadro de negociações com os Estados Unidos, durante o período de 2008-10, Saif al-Islam Kaddafi tinha negociado uma trégua entre a Jamahiriya e o GICL (AlCaida). Este havia publicado um longo documento, Os Estudos Correctivos, no qual admite ter cometido um erro ao apelar para a jiade contra outros muçulmanos num país muçulmano. Em três vagas sucessivas, todos os membros da Alcaida foram amnistiados e libertados sob a exclusiva condição de renunciarem por escrito à violência. Em 1. 800 jiadistas, apenas uma centena recusa este acordo e prefere ficar na prisão. Após a sua libertação, Abdel Hakim Belhadj deixou a Líbia e instalou-se no Catar. Todos acabaram por conseguir regressar à Líbia sem despertar atenções,

A 17 de Fevereiro, os Irmãos organizam uma manifestação em Bengazi em memória dos 13 mortos ocorridos durante a manifestação contra o Consulado da Itália, em 2006. Segundo os organizadores, fora Muammar Kaddafi quem teria à época montado o caso das «caricaturas de Maomé» com a ajuda da Liga do Norte italiana. A manifestação degenera. Registam-se 14 mortos, entre os manifestantes e os polícias.

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Os Irmãos Muçulmanos distribuem a nova bandeira que querem para a Líbia : é a do antigo rei Idris e da colonização britânica.

É o inicio da «revolução». Na realidade, os manifestantes não buscam derrubar a Jamahiriya, mas proclamar a independência da Cirenaica. Assim, em Bengazi, distribuem-se dezenas de milhar de bandeiras do rei Idris (1889-1983). A Líbia moderna agrupa três províncias do Império Otomano, que formam um país único apenas a partir de 1951. A Cirenaica foi governada de 1946 a 1969 pela monarquia dos Senussi –-uma família wahhabita apoiada pelos Sauditas--- que acabou por estender o seu poder sobre toda a Líbia.

Muammar Kadhafi promete «fazer correr rios de sangue» para salvar a sua população dos Islamistas. Em Genebra, uma associação criada pela NED, a Liga Líbia dos Direitos do Homem, retira estas declarações do seu contexto e apresenta-as à imprensa ocidental como sendo ameaças contra o Povo Líbio. Ela garante que ele está a bombardear Tripoli. Na realidade, a Liga é uma espécie de concha vazia reunindo os futuros ministros do país após a invasão da OTAN.

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Mahmud Jibril reorganizou a Al-Jazeera, em 2005, para fazer dela o canal dos Irmãos Muçulmanos. Foi ela que manteve o mito de um Bin Laden sempre vivo. O seu conselheiro espiritual, o Xeque Youssef Al-Qaradâwî, mantêm aí uma emissão semanal no decurso da qual apela para o assassínio de Muamar Kadhafi.

A 21 de Fevereiro, o Xeque Youssef al-Qaradawi lança na Al-Jazeera uma fátua ordenando aos militares líbios que salvem o seu povo assassinando Muammar Kaddafi.

O Conselho de Segurança, baseando-se nos trabalhos do Conselho dos Direitos do Homem em Genebra —o qual ouviu a Liga e o Embaixador líbio— e a pedido do Conselho de Cooperação do Golfo, autoriza a utilização da força afim de proteger a população do ditador.

Quando o Pentágono lhe ordena para se coordenar com o GICL (Alcaida), o sangue do comandante do AfriCom, o General Carter Ham, ferve. Como podemos cooperar na Líbia com os indivíduos que combatemos no Iraque, e que mataram GI.s? Ele é imediatamente demitido das suas funções em favor do comandante da EuCom e da OTAN, o Almirante James Stavridis.

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Dos 38 soldados dos Navys Seals (aqui em treino) que participaram no pretenso assassinato de Osama Bin Laden no Paquistão, 30 foram morrendo no decurso de diversos acidentes nas semanas a seguir a esta operação.

Intermezzo : A 1 de Maio de 2011, Barack Obama anuncia que, em Abbottabad (Paquistão), o comando 6 dos Navy Seals (tropa de fuzileiros- ndT) eliminou Osama bin Laden, do qual se estava sem novas credíveis desde há quase 10 anos. Este anúncio permite fechar o dossier Alcaida e renovar a imagem dos jiadistas para os refazer como aliados dos EUA, tal como nos bons velhos tempos das guerras do Afeganistão, Bósnia-Herzegovina, da Chechénia e do Kosovo. O corpo de «Bin Laden» é submerso em alto mar [9].

Durante seis meses, a linha da frente na Líbia permanece inalterada. O GICL controla Bengazi e proclama um Emirado islâmico em Derna, a cidade de onde a maioria dos seus membros são originários. Para aterrorizar os Líbios, rapta gente ao acaso. Mais tarde encontra-se os seus corpos desmembrados, os seus membros espalhados nas ruas. Sendo os jiadistas à partida pessoas normais, fazem-lhes tomar uma mistura de drogas naturais e sintéticas que lhes faz perder toda a razão. Podem pois, então, cometer atrocidades sem ter consciência das mesmas. Tendo a CIA subitamente necessidade de grandes quantidades de Captagon —um derivado de anfetaminas— solicita o Primeiro-ministro búlgaro, o chefe mafioso Boïko Borissov ---o qual presidirá o Conselho Europeu em 2018--- . Este é um antigo guarda costas que se juntou à Security Insurance Company, uma das duas grandes organizações mafiosas dos Balcãs. Esta companhia dispõe de laboratórios clandestinos que produzem esta droga para os desportistas alemães. Borissov vai fornecer pastilhas milagrosas às toneladas, para tomar fumando juntamente haxixe [10].

O General Abdel Fattah Younes deserta e junta-se aos «revolucionários». É pelo menos o que se diz no Ocidente. Na realidade, ele permanece ao serviço da Jamahiriya tornando-se o chefe das forças da Cirenaica independente. Os Islamistas, que se lembram da sua ação contra eles uma década antes, não tardam a descobrir que ele está ainda em contacto com Saif al-Islam Kadhafi. Estendem-lhe uma armadilha, matam-no, queimam-no e devoram uma parte de seu corpo.

O Emir Hamad do Catar espera acabar com a Jamahiriya e instalar o novo Poder como já tinha feito com o “Presidente” inconstitucional do Líbano. Enquanto a OTAN se limita a atacar por via aérea, o Catar instala um aeroporto de campanha no deserto e desembarca homens e material. Mas as populações de Fezzan e da Tripolitânia permanecem fiéis à Jamahiriya e ao seu Guia.

Enquanto a OTAN lança um dilúvio de fogo sobre Tripoli, em Agosto, o Catar reuniu Forças especiais e desembarcou blindados na Tunísia. Estes milhares de homens não são evidentemente Cataris, mas mercenários –-principalmente Colombianos--- treinados pela Academi (ex-Blackwater/Xe) nos Emirados Árabes Unidos. Eles juntam-se à Alcaida (tornada aceitável, embora ainda considerada como terrorista pela ONU) em Trípoli, vestidos e encapuçados de negro, afim de que só se possa ver os seus olhos.

Apenas dois grupos de Líbios participam na tomada de Tripoli, os combatentes de Misrata, os quais obedecem à Turquia, e o GICL. A brigada de Tripoli (Alcaida) é comandada pelo Irlandês-Líbio Mahdi al-Harati e enquadrada por oficiais regulares do Exército francês.

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Sob proposta da OTAN, Abdelhakim Belhaj (no centro), o chefe do GICL (ramo líbio da Alcaida) torna-se governador militar de Tripoli. Mahdi al-Harati (à esquerda), que o Presidente Erdogan tinha vindo felicitar aquando do episódio da Flotilha da Liberdade em Gaza, é o seu adjunto.

Antes mesmo de Muammar Kaddafi ser linchado, um governo provisório é formado por Washington. Nele encontramos todos os heróis desta história : sob a presidência de Mustafa Abdel Jalil (o que encobriu as torturas às enfermeiras búlgaras e ao médico palestiniano), Mahmoud Jibril (que treinou os emires do Golfo, reorganizou a Al-Jazeera, e participou na reunião do Cairo em Fevereiro), Fathi Terbil (o que lançou a «revolução» em Bengazi). O chefe do GICL, e antigo número 3 mundial da Alcaida, Abdel Hakim Belhadj (implicado nos atentados da estação de Atocha, em Madrid), é nomeado «governador militar de Tripoli».

(Continua…)


[1] “Obama’s low-key strategy for the Middle East”, David Ignatius, Washington Post, March 6, 2011. “Identifiying the enemy: radical islamist terror”, Statement by Peter Hoekstra, House Committe on Homeland Security, United States House of Representatives, September 22, 2016.

[2] “Washington face à cólera do povo tunisino”, Thierry Meyssan, Tradução Resistir.info, Rede Voltaire, 27 de Janeiro de 2011.

[3] « L’Albert Einstein Institution : la non-violence version CIA », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 4 juin 2007.

[4] The International Dimensions of Democratization in Egypt: The Limits of Externally-Induced Change, Gamal M. Selim, Springer (2015).

[5] « La Contre-révolution au Proche-Orient », par Thierry Meyssan, Komsomolskaïa Pravda (Russie), Réseau Voltaire, 11 mai 2011.

[6] Rapport de la Mission d’enquête sur la crise actuelle en Libye, FFC (2011).

[7] “Once NATO enemies in Iraq and Afghanistan, now NATO allies in Libya”, by Webster G. Tarpley, Voltaire Network, 24 May 2011.

[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.

[9] “Reflexões sobre o anúncio oficial da morte de Osama Bin Laden”, Thierry Meyssan, Tradução David Lopes, Rede Voltaire, 4 de Junho de 2011.

[10] “Como a Bulgária forneceu drogas e armas à Al-Qaida e ao Daesh”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 4 de Janeiro de 2016.



Ver original na 'Rede Voltaire'



“Sob os nossos olhos” (4/25)Os Irmãos Muçulmanos como auxiliares do Pentágono

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sobos Nossos Olhos). Neste episódio, ele descreve como a organização terrorista dos Irmãos Muçulmanos foi integrada no Pentágono. Ela foi ligada às redes anti-Soviéticas constituídas com antigos nazis durante a Guerra Fria.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Saudita Ousama Bin Laden e o seu médico pessoal, o Egípcio Ayman al-Zawahiri, publicam em 1998 «A Frente islâmica mundial contra os judeus e os cruzados». Este texto foi difundido pelo seu escritório no Londonistan ("Londristão"-ndT), o Advice and Reformation Committee. Al-Zawahiri organizou o assassínio do Presidente Sadate, depois trabalhou para os Serviços Secretos sudaneses de Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir. Ele dirige agora a Alcaida.

5— Os islamistas nas mãos do Pentágono

No início dos anos 90, o Pentágono decide incorporar os islamistas —que até aí estavam unicamente na dependência da CIA— às suas operações. É a Operação Gládio B, em referência aos Serviços Secretos da OTAN na Europa (Gládio A [1]).

Durante uma década, todos os chefes islamistas —aí incluídos Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri— se deslocam a bordo de aviões da US Air Force (Força Aérea americana). O Reino Unido, a Turquia e o Azerbaijão participam na operação [2]. Por conseguinte, os islamistas —que até aí eram combatentes da sombra— são agora «publicamente» integrados nas Forças da Otan.

A Arábia Saudita que é ao mesmo tempo um Estado e propriedade privada dos Saud— torna-se oficialmente a instituição responsável pela gestão do islamismo mundial. O Rei proclama uma Lei Fundamental, em 1992, segundo a qual «O Estado protege a fé islâmica e aplica a Charia. Impõe o Bem e combate o Mal. Cumpre os deveres do Islão (...) A defesa do islamismo, da sociedade e da pátria muçulmana é o dever de todo o súbdito do Rei».

Em 1993, Carlos, o Príncipe de Gales, coloca o Oxford Center for Islamic Studies sob o seu patrocínio, enquanto o Chefe dos Serviços Secretos sauditas, o Príncipe Turki, toma a direcção do mesmo.

Londres torna-se abertamente o centro nevrálgico da Gládio B, a tal ponto que se fala de «Londonistan» («Londristão»-ndT) [3]. Sob a égide da Liga Islâmica Mundial, os Irmãos Muçulmanos árabes e a Jamaat-i-Islami paquistanesa criam uma quantidade de associações culturais e religiosas ligadas à mesquita de Finsbury Park. Este dispositivo irá permitir recrutar inúmeros kamikazes, desde aqueles que irão atacar a escola russa de Beslan até Richard Reid, o «Shoe bomber». O Londristão inclui, em especial, inúmeros média, editoras, jornais (al-Hayat e Asharq al-Awsat —ambos dirigidos por filhos do actual Rei Salman da Arábia—) e televisões (o grupo MBC do Príncipe Walid bin Talal emite uma vintena de canais), que não são destinados à diáspora muçulmana no Reino Unido, mas, sim com emissões dirigidas ao mundo árabe; tendo o acordo entre os Islamistas e a Arábia Saudita sido estendido ao Reino Unido –-total liberdade de acção, mas interdição de ingerência na política interna. Este conglomerado emprega vários milhares de pessoas e movimenta gigantescas quantias de dinheiro. Ele irá permanecer aberto até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando se tornará impossível aos Britânicos continuar a justificar a sua existência.

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Abu Mussab « o Sírio » (aqui com Osama Bin Laden) teorizou em termos islâmicos a «estratégia da tensão». Ele criou uma agência em Madrid e outra em Londres, às claras, para supervisionar os atentados na Europa.

Abu Mussab, «O Sírio» —um sobrevivente do golpe de Estado abortado de Hama, tornado agente de ligação entre Bin Laden e o Grupo Islâmico Armado (GIA) argelino— teoriza a «jiade descentralizada». No seu Appel à la résistance islamique mondiale, ele coloca em termos islâmicos a já bem conhecida doutrina da «estratégia da tensão». Trata-se de provocar as autoridades para suscitar uma terrível repressão que levará o povo a revoltar-se contra elas. Esta teoria fora já utilizada pelas redes Gládio da CIA /OTAN ao manipular a extrema-esquerda europeia nos anos 70-80 (Grupo Baader-Meinhof, Brigadas Vermelhas, Action Directe). É claro que estava fora de questão que esta estratégia vencesse e a CIA/OTAN sabiam que não havia nenhuma chance de êxito —ela jamais fora bem sucedida, fosse onde fosse—, pretendia sim utilizar a reacção repressiva do Estado para colocar os seus homens no Poder. «O Sírio» designa a Europa —e, claramente, nunca os Estados Unidos— como o próximo campo de batalha dos islamistas. Em 1995, ele foge de França após os atentados desse ano. Dois anos mais tarde, cria em Madrid e no Londristão o Islamic Conflict Studies Bureau, dentro do modelo da Aginter Press, que a CIA tinha criado em Lisboa durante os anos 60-70. As duas estruturas superam-se na organização de atentados de falsa-bandeira (desde o atribuído à extrema-esquerda na Piazza Fontana, em 1969, até aos atribuídos aos muçulmanos em Londres, em 2005).

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O assessor de comunicação dos Irmãos Muçulmanos, Mahmoud Jibril el-Warfally, treina os ditadores muçulmanos para falarem a linguagem democrática. Ele reorganizou a Al-Jazeera, depois tornou-se responsável da implantação das empresas dos EUA durante o regime Kadhafi na Líbia, e por fim dirige o derrube do próprio Kadhafi.

Simultaneamente, os Irmãos elaboram um vasto programa de formação de líderes árabes pró-EU. O Líbio Mahmoud Jibril El-Warfally, professor na Universidade de Pittsburg, ensina-os a falar de forma «politicamente correcta». Assim, ele forma emires e generais da Arábia Saudita, do Barém, do Egipto, dos Emirados, da Jordânia, do Kuwait, de Marrocos e da Tunísia (mas também de Singapura). Misturando princípios de Relações Públicas e estudo dos relatórios do Banco Mundial, os piores ditadores são agora capazes de falar, sem se rir, dos seus ideais democráticos bem como do seu profundo respeito pelos Direitos do Homem.

A guerra contra a Argélia transborda para a França. Jacques Chirac e o seu Ministro do Interior, Charles Pasqua, interrompem o apoio de Paris aos Irmãos Muçulmanos e tratam mesmo de interditar os livros de Yussef al-Qaradawi (o pregador da Irmandade). Para eles trata-se de manter a presença francesa no Magrebe que os Britânicos querem riscar do mapa. O Grupo Islâmico Armado (GIA) toma como reféns os passageiros do vôo da Air France Argel-Paris (1994), faz explodir bombas no RER, e em diversos pontos da capital (1995), e planeia um gigantesco atentado —que será impedido— aquando do Campeonato do Mundo de futebol (1998), incluindo a queda de um avião sobre uma central eléctrica nuclear. Em todos os episódios, os suspeitos, que conseguem escapar, encontram asilo no Londristão.

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Desfile da « Legião Árabe » de Osama Bin Laden para o Presidente Alija Izetbegovic na Bósnia-Herzegovina.

A guerra da Bósnia-Herzegovina começa em 1992 [4]. A ordens de Washington, os Serviços Secretos paquistaneses (ISI), sempre apoiados financeiramente pela Arábia Saudita, enviam 90.000 homens para participar nela contra os Sérvios (apoiados por Moscovo). Osama Bin Laden recebe um passaporte diplomático bósnio e torna-se conselheiro militar do Presidente Alija Izetbegović (de quem o Norte-americano Richard Perle é conselheiro diplomático e o Francês Bernard-Henri Lévy, conselheiro de imprensa). Ele monta a Legião Árabe com antigos combatentes do Afeganistão e arranja financiamento da Liga Islâmica Mundial. Por reflexo comunitário, ou em competição com a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irão vai também em socorro dos muçulmanos da Bósnia. Em perfeita combinação com o Pentágono, ela envia várias centenas de Guardas da Revolução e uma unidade do Hezbolla libanês. Acima de tudo, fornece o essencial das armas utilizadas pelo Exército bósnio.

Os Serviços Secretos russos, que infiltraram o campo de Bin Laden, constatam que toda a burocracia da Legião Árabe é redigida em inglês e que a Legião recebe as suas ordens directamente da OTAN. Após a guerra, um Tribunal Internacional especial é criado. Este processou inúmeros combatentes por crimes de guerra, mas nenhum membro da Legião Árabe.

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O Egípcio Muhammad al-Zawahiri participou junto com o seu irmão, Ayman (actual chefe da Alcaida), no assassínio do Presidente Sadate. Também participou ao lado da OTAN nas guerras da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo. Ele comandou também uma unidade do UÇK (Exército de Libertação do Kosovo).

Após três anos de calma, a guerra entre muçulmanos e ortodoxos reacende-se na ex-Jugoslávia, no Kosovo desta vez. O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) é formado a partir de grupos mafiosos treinados em combate pelas Forças Especiais Alemãs (KSK) na base turca de Incirlik. Os Albaneses e os Jugoslavos muçulmanos têm uma cultura Naqchbandie. Hakan Fidan, o futuro chefe dos Serviços Secretos turcos, é o oficial de ligação entre a OTAN e a Turquia. Os veteranos da Legião Árabe integram o UÇK, do qual uma brigada é comandada por um dos irmãos de Ayman al-Zawahiri. Este destrói sistematicamente as igrejas e os mosteiros ortodoxos, e caça os cristãos.

Em 1995, revivendo a tradição dos assassinatos políticos, Osama Bin Laden tenta eliminar o Presidente egípcio, Hosni Mubarak. Ele volta a tentar no ano seguinte com o Guia líbio, Muammar Kaddafi. Este segundo atentado é financiado, pela soma de £ 100.000 libras, pelos Serviços Secretos britânicos que querem punir o apoio líbio à resistência irlandesa [5]. Azaradamente a operação falha. Vários oficiais líbios fogem para o Reino Unido. Entre eles, Ramadan Abidi, cujo filho será encarregado anos mais tarde, sempre pelos serviços britânicos, de realizar um atentado em Manchester. A Líbia transmite provas à Interpol e emite o primeiro mandato de prisão internacional contra o próprio Osama Bin Laden, o qual continua a manter um escritório de relações públicas no Londristão.

Em 1998, a Comissão Árabe dos Direitos Humanos é fundada em Paris. Ela é financiada pela NED. O seu presidente é o Tunisino Moncef Marzouki, e o seu porta-voz o Sírio Haytham Manna. O seu objectivo é defender os Irmãos Muçulmanos que foram presos nos diferentes países árabes, por causa das suas actividades terroristas. Marzouki é um médico de esquerda que trabalha com eles há longo tempo. Manna é um escritor que gere os investimentos de Hassan al-Turabi e dos Irmãos sudaneses na Europa. Quando Manna se retira, a sua companheira mantêm-se como directora da associação. Ele é substituído pelo Argelino Rachid Mesli, que é advogado e é, nomeadamente, o de Abassi Madani e dos Irmãos argelinos.

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Filho espiritual do islamista turco Necmettin Erbakan (ao centro), Recep Tayyip Erdogan (à direita) dirigiu o seu grupo de acção secreta, a Millî Görüs. Ele organizou o encaminhamento de armas para a Tchechénia e abrigou, em Istambul, os principais emires anti-Russos

Em 1999 (ou seja, após a guerra do Kosovo e a tomada do Poder pelos islamistas em Grozny), Zbigniew Brzeziński funda com uma coorte de neo-conservadores o American Committee for Peace in Chechnya (Comité americano para a paz na Tchechénia). Se a primeira guerra na Tchechénia fora um assunto interno russo, no qual alguns islamistas se tinham imiscuído, a segunda visa a criação do Emirado Islâmico da Ichquéria. Brzeziński, que preparava esta operação há vários anos, tenta reproduzir a experiência afegã.

Os jiadistas tchechenos, como Chamil Bassaïev, não foram treinados no Sudão por Bin Laden, mas, sim no Afeganistão pelos Talibã. Durante toda a guerra, beneficiam do apoio «humanitário» da Millî Görüş turca de Necmettin Erbakan e Recep Tayyip Erdoğan e da «IHH - Direitos do homem e Liberdades». Esta Associação turca foi criada na Alemanha sob o nome de Internationale Humanitäre Hilfe (IHH). Em seguida, estes jiadistas organizarão várias grandes operações : nomeadamente contra o Teatro de Moscovo (2002, 170 mortos, 700 feridos), contra uma escola de Beslan (2004, 385 mortos, 783 feridos) e contra a cidade de Naltchik (2005, 128 mortos e 115 feridos). Após o massacre de Beslan e a morte do líder jiadista Chamil Bassaïev, a Milli Görüş e a IHH organizam, na mesquita de Fatih de Istambul, enormes exéquias sem o corpo mas com dezenas de milhares de militantes.

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Apresentado como um atentado «anti-americano», a destruição da embaixada dos Estados Unidos em Dar es-Salaam (Tanzânia), em 7 de Agosto de 1998, fez 85 feridos e 11 mortos… mas nenhuma vítima norte-americana.

Durante este período, três atentados importantes são atribuídos à Alcaida. No entanto, por muito importantes que estas operações sejam, elas representam um falhanço para os islamistas, os quais, por um lado, são integrados no seio da OTAN e se veem simultaneamente despromovidos para o nível de terroristas anti-americanos.
- Em 1996, um camião armadilhado faz explodir uma torre de oito andares em Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 soldados dos EUA. Primeiro atribuído à Alcaida, a responsabilidade do atentado é transferida para cima do Irão, depois finalmente para ninguém.
- Em 1998, duas bombas explodem diante das embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salam (Tanzânia), matando 298 africanos —mas nenhum Norte-americano— e ferindo mais de 4.500 pessoas. Estes atentados são reivindicados por um misterioso Exército Islâmico de Libertação dos Lugares Santos. Segundo as autoridades dos EU, eles teriam sido cometidos por membros da Jiade Islâmica egípcia em retorsão pela extradição de quatro dos seus membros. Ora, as mesmas autoridades acusam Osama Bin Laden de ser o comanditário e o FBI emite —por fim— um mandado de prisão internacional contra ele.
- Em 2000, uma embarcação suicida explode contra o costado do destróier USS Cole fundeado em Áden (Iémene). O atentado é reivindicado pela Alcaida na Península Arábica (AQPA), mas um tribunal norte-americano tornará responsável o Sudão.

Estes atentados ocorrem enquanto a colaboração entre Washington e os Islamistas continua. Assim, Osama bin Laden, conservou o seu escritório no Londristão até 1999. Situado no bairro de Wembley, o Advice and Reformation Committee (ARC) visa, ao mesmo tempo, difundir as declarações de Bin Laden e cobrir as actividades logísticas da Alcaida, inclusive em matéria de recrutamento, de pagamentos e de aquisição de materiais. Entre os seus colaboradores em Londres encontra-se o saudita Khaled al-Fawwaz e os egípcios Adel Abdel Bary e Ibrahim Eidarous, três homens que são alvo de mandados de detenção internacionais, mas que, no entanto, receberam asilo político no Reino Unido. É na mais perfeita legalidade, em Londres, que o escritório de Bin Laden publicará, em Fevereiro de 1998, o seu célebre Apelo à Jiade contra os Judeus e os Cruzados. Gravemente doente dos rins, Bin Laden é hospitalizado, em Agosto de 2001, no hospital Americano do Dubai. Um chefe de Estado do Golfo confirmou-me tê-lo ido visitar ao seu quarto, onde a sua segurança era garantida pela CIA.

6— A fusão das duas « Gládio » e a preparação do Daesh

Dentro da mesma lógica, a Administração Bush torna os Islamistas responsáveis pelos brutais atentados que ocorrem a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. A versão oficial impõe-se embora ela comporte numerosas incoerências. O Secretário da Justiça assegura que os aviões foram sequestrados por islamistas, muito embora segundo as companhias de aviação nenhum dos suspeitos tenha estado a bordo. O Departamento da Defesa publicará um vídeo no qual Bin Laden reivindica os atentados, quando o próprio os tinha rejeitado publicamente e os peritos em reconhecimento facial e vocal afirmam que o homem do vídeo não é Bin Laden.

Seja como for, estes acontecimentos servem de pretexto a Washington e a Londres para lançar a «Guerra sem fim» e atacar os seus antigos aliados, os Talibã no Afeganistão, e o Iraque de Saddam Hussein.

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Em 11 de Setembro de 2001, Osama Bin Laden não estava em estado de dirigir a menor operação terrorista. Ele estava, à beira da morte, sob diálise no hospital militar de Rawalpindi (Paquistão).

Muito embora ele já sofresse de insuficiência renal crónica, Osama Bin Laden apenas sucumbe à sua doença a 15 de Dezembro de 2001 como resultado de um síndrome de Marfan. Um representante do MI6 assiste às suas exéquias no Afeganistão. Posteriormente, vários sósias, mais ou menos parecidos, irão manter o seu simulacro vivo, dos quais um será assassinado por Omar Sheikh, em 2005, segundo a Primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhuto.

Em Agosto de 2002, o MI6 organiza uma conferência da Irmandade Muçulmana sobre o tema «a Síria para todos». Aí, os oradores desenvolvem a ideia que a Síria estaria a ser oprimida pela seita dos Alauítas e que apenas os Irmãos Muçulmanos garantiriam uma genuína igualdade.

Após Sayyed Qutb e Abu Mussab, «o Sírio», os Islamistas dotam-se de um novo estratega, Abu Bakr Naji. Em 2004, este personagem, que parece nunca ter existido, publica um livro na Internet, A Gestão da Barbárie, uma teoria do caos [6]. Embora alguns autores tenham acreditado reconhecer o estilo de um autor egípcio, parece que a obra foi escrita em inglês, depois enriquecida com citações corânicas supérfluas e traduzido para árabe. A «Barbárie» no título do livro, não designa o recurso ao terror, mas, sim o retorno ao estado da natureza antes da civilização ter criado o Estado. Trata-se de fazer regressar a Humanidade ao ponto onde «o homem é um lobo do homem». A estratégia do caos desenrola-se em três fases:
- Primeira, desmoralizar e esgotar o Estado atacando nos seus flancos menos bem protegidos. Escolhem-se portanto alvos secundários, muitas vezes sem interesse, mas fáceis de destruir e separados. Tratar-se-á de dar a impressão de um levantamento generalizado, de uma revolução.
- Em segundo lugar, assim que o Estado se tiver retirado dos subúrbios e dos campos, conquistar certas zonas e administrá-las. Impor a Charia para marcar a passagem a uma nova forma de Estado. Durante este período, serão estabelecidas alianças com todos aqueles que se opõem ao Poder, e que não se deixará de armar. Irá conduzir-se então uma guerra de posições.
- Em terceiro lugar, proclamar o Estado Islâmico.

Este tratado transpira ciência militar contemporânea. Ele dá uma enorme importância às operações psicológicas, nomeadamente à utilização da violência mediática. Na prática, esta estratégia nada tem a ver com uma revolução, mas com a conquista de um país por potências exteriores, já que ela pressupõe um investimento maciço. Como sempre na literatura subversiva, o mais interessante reside naquilo que não é dito ou apenas é mencionado de passagem:
- a preparação das populações para que elas acolham os jiadistas supõe a construção prévia de uma rede de mesquitas e de obras sociais, tal como foi feito na Argélia antes da guerra «civil».
- para serem postas em marcha, as primeiras operações militares necessitam de armas que é preciso importar de antemão. Sobretudo, em seguida, os jiadistas não terão nenhum meio para obter armas e ainda menos munições. Portanto, eles terão que ser apoiados a partir do exterior.
- A administração das zonas conquistadas supõe que se disponha de quadros formados previamente, como os dos exércitos regulares encarregados de «reconstruir Estados».
- Finalmente a guerra de posições supõe a construção de vastíssimas infra-estruturas que necessitarão de uma grande quantidade de materiais, de engenheiros e de arquitectos.

De facto, o reclamar a autoria desta obra atesta que os islamistas entendem continuar a jogar um papel militar por conta de potências exteriores, só que desta vez em grandíssima escala.

Em 2006, os Britânicos pedem ao Emir Ahmad do Catar para colocar o seu canal de televisão pan-árabe, Al-Jazeera, ao serviço dos Irmãos Muçulmanos [7]. O Líbio Mahmoud Jibril, que treinou a família real a falar em linguagem democrática, é encarregue de introduzir, passo a passo, os seus Irmãos no canal e de criar canais em línguas estrangeiras (inglês e, a seguir, bósnio e turco), assim como um canal para as crianças. O pregador Yusuf al-Qaradawi torna-se «conselheiro religioso» da Al-Jazeera. É claro, o canal irá transmitir e validar as gravações de áudio ou os vídeos dos «Osama Bin Laden».

No mesmo período, as tropas dos EUA no Iraque tem que fazer face a uma revolta que se generaliza. Depois de terem sido derrotados pela rapidez e pela brutalidade da invasão (técnica do «choque e pavor»), os Iraquianos organizam a sua resistência. O Embaixador norte-americano em Bagdade, depois Director da Inteligência Nacional, John Negroponte, propõe-se vencê-los pela divisão e virando a sua raiva contra si próprios, quer dizer transformar a Resistência à ocupação em guerra civil. Perito em operações secretas, ele participou, nomeadamente, na Operação Fénix no Vietname, montando depois a guerra civil civil em El Salvador e a operação Irão-Contras na Nicarágua, e levou ao colapso a rebelião no Chiapas mexicano. Negroponte chama um dos homens em que se apoiou em El Salvador, o Coronel James Steele. Confia-lhe a tarefa de criar milícias iraquianas de xiitas contra os sunitas e sunitas contra os xiitas. Quanto à milícia sunita, Steele recorre aos Islamistas. A partir da Alcaida no Iraque, ele arma uma coligação tribal, o Emirado islâmico no Iraque (futuro Daesh) sob cobertura da polícia especial («Brigada dos Lobos»). Para aterrorizar as vítimas e as suas famílias, ele treina o Emirado na tortura, segundo os métodos da Escola das Américas (School of América) e da Political Warfare Cadres Academy de Taiwan, onde ensinou. Em poucos meses, um novo horror abate-se sobre os Iraquianos e divide-os segundo a sua confissão religiosa. Em seguida, assim que o General David Petraeus assumir o comando das tropas norte-americanas no país, irá designar o Coronel James H. Coffman para trabalhar com Steele e lhe fornecer relatórios sobre a operação, enquanto Brett H. McGurk dará conta directamente ao Presidente. Os principais chefes do Emirado Islâmico são recrutados no campo de concentração de Bucca, mas são objecto de preparação na prisão de Abu Ghraib, segundo os métodos de «lavagem ao cérebro» dos professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. Tudo é supervisionado desde Washington pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, de quem Steele depende directamente.

Em 2007, Washington informa a Irmandade que vai derrubar os regimes laicos do Médio-Oriente Alargado, incluindo os dos Estados aliados, e que ela se deve preparar para exercer o Poder. A CIA organiza alianças entre os Irmãos e partidos, ou personalidades laicas, de todos os Estados da região. Simultaneamente, ela liga os dois ramos da «Gládio» tecendo laços entre os grupos nazis ocidentais e os grupos islamistas orientais.

Estas iniciativas de aliança são às vezes inconclusivas, como, por exemplo, aquando da «Conferência Nacional da Oposição Líbia», em Londres, onde os Irmãos não conseguem federar à sua volta senão o Grupo Islâmico Combatente na Líbia (Alcaida na Líbia) e a Irmandade wahhabita Senussi. A plataforma programática prevê restabelecer a monarquia e fazer do Islão a religião do Estado. Mais convincente é a constituição da Frente da Salvação Nacional, em Berlim, que oficializa a união dos Irmãos com o antigo Vice-presidente baathista sírio Abdel Halim Khaddam.

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Dmytro Iarosh durante o Congresso da Frente anti-imperialista de Ternopol (2007). Ele vai realizar a junção entre os nazis da Gládio A e os islamistas da Gládio B, depois irá tornar-se Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia após a «revolução colorida» do EuroMaidan (2014).

A 8 de Maio de 2007, em Ternopol (oeste da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criam uma Frente anti-imperialista para lutar contra a Rússia. Organizações da Lituânia, da Polónia, da Ucrânia e da Rússia participam nela, entre as quais os separatistas Islamistas da Crimeia, da Adigueia, do Daguestão, da Inguchia, da Cabardino-Balcária, da Carachai-Cerquéssia, da Ossétia, da Chechénia. Não podendo viajar para lá devido as sanções internacionais impostas contra ele, Dokou Umarov —que aboliu a República da Chechénia e proclamou o Emirado Islâmico da Ichquéria—, fez ler a sua proclamação. A Frente é presidida pelo nazi Dmytro Yarosh, o qual se tornará durante o golpe de Estado de Kiev, em Fevereiro de 2014, Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia.

No Líbano, em Maio-Junho de 2007, o Exército nacional empreende o cerco do campo palestino de Nahr el-Bared depois de membros da Fatah al-Islam se terem lá entrincheirado. Os combates duram 32 dias e custam a vida a 76 soldados, dos quais uma trintena são decapitados.

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O Turco-Irlandês El Mehdi El Hamid El Hamdi dito «Mahdi Al-Harati», agente da CIA presente na Flotilha da Liberdade, abraçado pelo Presidente Erdogan que veio visitá-lo ao hospital. Em seguida, ele irá tornar-se o número 2 do Exército sírio livre.

Em 2010, a Irmandade organiza a Flotilha da Liberdade através da IHH. Oficialmente trata-se de desafiar o embargo israelita e de levar assistência humanitária aos habitantes de Gaza [9]. Na realidade, o principal barco desta frota muda de bandeira durante a travessia e prossegue sob pavilhão turco. Numerosos espiões misturam-se com os militantes não-violentos participando na expedição, entre os quais um agente irlandês da CIA, Mahdi al-Harati. Caindo na armadilha que lhe estende os Estados Unidos, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordena o assalto aos barcos, em águas internacionais, provocando 10 mortos e 54 feridos. O mundo inteiro condena esse acto de pirataria sob o olhar sarcástico da Casa Branca. Israel, que fornecia armas aos jiadistas no Afeganistão e apoiou a criação do Hamas contra a OLP de Yasser Arafat, virara-se contra os Islamistas em 2008 e bombardeou-os, assim como à população de Gaza. Netanyahu paga assim, desta maneira, a operação «Chumbo Endurecido» que levou a cabo, junto com a Arábia Saudita, contra a opinião da Casa Branca. No fim, os passageiros da Flotilha são libertados por Israel. A imprensa turca mostra então o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan visitando Mahdi al-Harati num hospital.

(Continua …)


[1] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Foreword by Dr. John Prados, Frank Cass/Routledge (2005).

[2] Classified Woman: The Sibel Edmonds Story : A Memoir, Sibel Edmonds (2012).

[3] Londonistan, Melanie Phillips, Encounter Books (2006).

[4] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, NP Verlag (2005); Intelligence and the war in Bosnia 1992-1995: The role of the intelligence and security services, Nederlands Instituut voor Oologsdocumentatie (2010). Al-Qaida’s Jihad in Europe: The Afghan-Bosnian Network, Evan Kohlmann, Berg (2011).

[5] «David Shayler: «Dejé los servicios secretos británicos cuando el MI6 decidió financiar a los socios de Osama ben Laden»», Red Voltaire , 23 de noviembre de 2005.

[6] The Management of Savagery: The Most Critical Stage Through Which the Umma Will Pass, Abu Bakr Naji, Harvard University (2006).

[7] «Wadah Khanfar, Al-Jazeera y el triunfo de la propaganda televisiva », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2011.

[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.

[9] «Flotilla de la Libertad: el detalle que Netanyahu no conocía», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 11 de junio de 2010.



Ver original na 'Rede Voltaire'



as oito razões para um pouco religioso ódio “sunita-xiita”

Uma interessante resenha histórica da fractura sunita-xiita no islão, do seu peso na evolução da situação no Médio Oriente, e sobretudo do seu papel de bloqueio de uma perspectiva de resolução dos confrontos entre Estados cuja visão da realidade é distorcida por “um olhar metafísico”.


 

“Bombardear o Irão” tem sido desde há anos uma exigência do Reino da Arábia Saudita (RAS) aos EUA. Para o conseguir, contribuiu para a campanha eleitoral de Donald Trump, investiu largos milhões de dólares na economia militar dos EUA e até adaptou aos interesses de Washington o fornecimento de petróleo da OPEP ao mercado mundial. Achará que o presidente dos EUA tem um “preço” ou é homem de mão seu?

Mas, por que é que o principal país islâmico-sunita do mundo, a Indonésia, mantém boas relações com a República Islâmica xiita do Irão enquanto o RAS sonha com transformá-lo num monte de cinzas?

1. Passam quatorze séculos sobre a invasão dos árabes procedentes das actuais terras da Arábia Saudita a um império persa exausto e decadente. Nem as bolas de cristal do seu rei dos reis o avisaram do devastador ataque que destruiria o único espaço em torno do Irão que este não conquistara (por ser deserto), nem do Ouro Negro que se escondia debaixo das suas areias. Durante os dois séculos de domínio árabe sobre o Irão, ocorreram numerosos movimentos populares e políticos para expulsar os ocupantes do poder. Embora o tenham conseguido, e um Irão cristão, mitríaco, budista e zoroástrico tenha sido islamizado, ele recusou a arabizar-se, mantendo a sua língua, a sua cultura e as suas tradições milenares, os derrotados atreveram-se a iranizar o islão: criaram o xiismo, marcada por alguns elementos da mitologia persa, como os 12 apóstolos de Ormuz e a vinda de um Salvador quando o mundo chegar ao fim. Assim, em 1501, o xiismo sai da clandestinidade para se converter na religião oficial do Estado, derrubando o sunismo (”tradicionalismo”). Será por decreto-lei das mãos do guerreiro azerbaijão Ismael I (1487-1524), fundador da dinastia Safávidas «Os Suflos».

O objectivo de Ismael I, filho da princesa Marta (neta da grega Teodora), ao fundir duas identidades, - a “iraniedade” e o “xiismo” - foi levantar uma rígida fronteira com o principal inimigo do Irão: os “turcos-sunitas “do Império Otomano (os árabes encontravam-se sob domínio turco). Ser iraniano-xiita era e é uma identidade única, que não se encontra em outro Estado. O desejo de derrotar os otomanos foi tal que o monarca Shah Abbas I Safavidas (1571 - 1629) procurou aliança na Europa cristã: enviou uma delegação à corte de Filipe III, para negociar um possível pacto. A viagem teve uma curiosa anedota: um dos membros da comitiva, Uruch Beg, apelidado de “Don Juan da Pérsia” foi assassinado em Valladolid, por razões desconhecidas.

Eis outro dado acerca de até que ponto a religião é um instrumento de poder, e os povos não escolhem o seu credo: em 1736, Nader Shah (1688 -1747), o rei do Irão suspendeu o xiismo como religião oficial do Estado, e declarou-o além disso uma escola mais do sunismo; pretendia pacificar as relações com o vizinho otomano, embora tivesse que recuar, devido à resistência do alto clero xiita, que não estava disposto a sacrificar o seu estatuto e os seus interesses mesmo por uma causa suprema.

A batalha entre essas duas identidades incompatíveis teve sua máxima manifestação durante o reinado de Reza Pahlavi (1925-1941). O seu golpe de Estado coincide com o início da formação da RAS. A ditadura Pan-Iranista Pahlavi é modernizadora, semi-laica e anti-árabe,e no centro das suas reformas capitalistas está uma visceral luta contra a casta clerical, considerada na milenar literatura persa de símbolo de corrupção moral, hipocrisia e prepotência. Os castigos cruéis deste rei aos opositores - sobretudo os comunistas e intelectuais progressistas – atingiram também os clérigos islâmicos: são submetidos a “khal-e lebas” ( “despojados da sotaina”) e ser-lhes-á cortada em público a barba e o bigode (símbolos de masculinidade). Aquele rei desmantelou os tribunais religiosos, reformou o Lei de Família, abriu universidades, promoveu o cinema, teatro, música, embora a joia da sua coroa tenha sido proibir em 1935 o véu como passo decisivo da transição social da Idade Média ao século XX, permitindo que as mulheres entrassem no mercado de trabalho nos centros académicos, artísticos e científicos. Mudar o nome de Pérsia para o de Irão, “a Terra dos Arianos”, na Sociedade das Nações foi a culminação de seu desejo de recuperar a “grandeza” do Irão pré-islâmico.

Na RAS, o processo político é o inverso: nasce como resultado da aliança entre a tribo Al Saud e a escola fundamentalista wahhabi. Não haverá um “estado” com as suas instituições, mas uma empresa privada pertencente a uma família de recorte feudal, cuja ambição não irá além de aumentar o peso do ouro das suas propriedades.

Nesta época, as relações entre os dois países são tensas. Os ataques aos peregrinos iranianos em Meca pelos sauditas (que consideram o xiismo uma heresia) e até mesmo a decapitação de um deles, farão com que Teerão encerre a embaixada da Arábia em Teerão e proíba os crentes iranianos de viajar para a cidade santa.

O protagonismo dos EUA na região, após a Segunda Guerra Mundial, forçará Mohammad Reza Pahlavi e o rei Faisal a aproximarem-se: estarão unidos pela luta anticomunista e criarão instituições islâmicas globais, como a Organização do Congresso Mundial Islâmico, a Liga Mundial dos Muçulmanos e da Organização da Conferência Islâmica. O número de mesquitas no Irão dispara na década de 1970 como uma barreira para conter o aumento da simpatia dos jovens em relação aos postulados da esquerda.

Richard Nixon converterá o Irão e o RAS em “Twin Pillars” (Duplo Pilar) dos interesses dos EUA na região mais rica em petróleo do mundo. O Xá estará encarregado de fazer de “Gendarme do Golfo Pérsico”: assim recupera para o Irão as três ilhas da Grande Tomb, Pequeno Tomb e Abu Musa, que tinham sido ocupadas pela Grã-Bretanha no século XIX e cedeu aos Emiratos Árabes em 1968, e a pedido dos britânicos enviará em 1973 o exército iraniano para Omã, para esmagar a guerrilha marxistas de Dhofar, que sonhava com um segundo país árabe socialista (o primeiro foi o Iémen do Sul). A amizade dos sultões de Omã com o Irão perdura até hoje.
Impacto múltiplo sobre Riade da queda do Xá

2. A queda do “Último Imperador” do Irão em 1979, e especialmente o fim da monarquia milenar mais poderosa da região, provocará pânico em Riyadh, que teme o seu efeito borboleta. Na região, as repúblicas iam ganhando terreno às monarquias caducas: antes do Irão, Afeganistão (1973), Líbia (1969), Iémen (1962), Iraque (1958) e Egipto (1952) derrubaram os seus reis.

3. Que o sistema político do Irão, ao contrário de outras repúblicas semisseculares do “mundo islâmico”, se proclamasse “islâmico” colocava um novo desafio a Riade: pela primeira vez terá um competidor. O aiatola Khomeini não era nenhum “republicano”. A sua proposta inicial era estabelecer um okumat-e eslami “Estado Islâmico”, um califado religioso semelhante ao governo de Maomé. Foi a pressão de milhões de iranianos que exigiam uma república, para poder eleger e mudar o chefe de Estado, que forçou o aiatola a colocar o adjectivo de “república” uma criatura sem precedentes na história: um califado dirigido por um clérigo todo poderoso e não eleito que gerirá Welayat-e Faghih, a “tutela do jurista islâmico”, com capacidade legal para suspender o parlamento e o presidente “eleito” (que deve ser do sexo masculino, xiita, e fiel ao Tutor) e num sistema com base na Sharia xiita, em que os habitantes do país terão direitos diferentes em resultado do seu sexo, nacionalidade, religião e fidelidade ao “Tutor” que, por razões desconhecidas, é apelidado “Líder espiritual” pela imprensa ocidental.

4. Que Khomeini apresentasse o novo estado como uma república “islâmica”; mas não “xiita” e acusasse os sauditas de “adulterar o Islão”, de serem “peões de Israel e dos EUA”, “infiéis” ou “corruptos e criminosos”, arrebatou o monopólio que os Saud reivindicavam sobre os “muçulmanos Sunitas “do mundo, que são cerca de 80% da comunidade.

5. Uma comparação rápida entre o RAS e a RI transmitia a ideia de que o Islão iraniano permite a arte, eleições, ou certas liberdades para as mulheres, sem ter em conta a história do próprio país (que teve até ministras antes da RI), apresentando a teocracia saudita como um sistema menos desenvolvido do que o xiita. Sendo o Irão um país mais avançado do que o RAS, os seus fundamentalistas também o são.

6. A carga “social” da revolução iraniana, recolhida por Khomeini que inicialmente, e sob a grande influência da esquerda iraniana, prometeu justiça aos “deserdados,” introduzindo o factor “luta de classes” na comunidade religiosa, que costuma dar prioridade à fé do crente em função da sua conta bancária. Pelo caminho, descobrir-se-á que o aiatola se referia à “igualdade dos muçulmanos perante Deus”, insistindo em que “a propriedade é sagrada no Islão”; e para dissipar dúvidas, em resposta aos trabalhadores que pediam uma vida decente, sentenciou: “preocupar-se com o estômago (ou seja, com a economia) é coisa de animais”. No final, não houve teologia xiita da libertação, confirmando o princípio de que a justiça social só é possível em um sistema socialista de produção e distribuição justa dos recursos, e apenas sob a direcção das forças de esquerda.

7. O aumento da influência da RI na região colocará em xeque os sauditas, que além disso têm fiéis ao xiismo no seu próprio país, e que ainda por cima habitam a região mais petrolífera do país.

8. A intenção da RI de desenvolver um programa nuclear. Em 2002, o Conselho de Segurança da ONU impõe duras sanções contra o Irão.

A partir da RI, as batalhas na região, que tinham matriz nacional (árabe-israelita, iraniano-árabe etc.), passarão pela primeira por linhas religiosas xiitas-sunitas, dividindo ainda mais os trabalhadores da região face aos seus inimigos. A Palestina foi a primeira vítima dessa nova situação. A Organização para a Libertação da Palestina perderá sua força: além de lutar contra a ocupação israelita tem de se proteger dos ataques de grupos religiosos patrocinados pela RI e pelo RAS.

A resposta de Riadh ao desafio da RI

• Financiar a guerra de Saddam Hussein contra o Irão entre 1980-1988.

• Fundar o Conselho de Cooperação do Golfo em 1981 como sistema de segurança “anti-xiita” e promover com os EUA uma “NATO sunita”.

• Consolidar seu controlo sobre o preço do petróleo e a OPEP.

• Impedir, juntamente com a Turquia e Israel, que no Iraque os iranianos pudessem aproveitar o “erro” de Bush de implementar um governo xiita depois de derrubar o sunita Saddam Hussein. É a primeira vez que o Irão obtém uma influência de envergadura num país árabe.

• Enviar milhares de “jihadistas” para a Síria, para derrubar Bashar al-Assad, o único aliado da RI na região.

• Planear em 2009 o desenvolvimento de um programa nuclear, enquanto “ajuda” o Paquistão a manter a sua bomba atómica.

• Pedir aos governos de Bush e Obama que bombardeiem o Irão.

• Patrocinar a campanha eleitoral de Trump em troca de que este rompa o acordo nuclear dos EUA assinado em 2015, apesar de beneficiar a Arábia (e Israel), já que o levantamento das sanções económicas ao Irão foi o último golpe nas esperanças dos sauditas numa ação bélica de Washington contra o Irão. O acordo permitia que Teerã normalizasse seu relacionamento com o mundo, aumentasse os seus mercados e também a sua área de influência em detrimento dos seus concorrentes regionais, justamente quando a Arábia sofria um déficit orçamentário de 87.000 milhões de dólares e tomava em consideração vender a ARAMCO, a sua empresa estatal. de petróleo e gás.
Segundo o FMI, o país árabe pode ficar sem activos financeiros em poucos anos. Para Riyadh, que se converteu no primeiro comprador de armas no mundo, era urgente fazer desaparecer o Irão enquanto potência. E para isso começou a pagar milhões de euros à imprensa e ao “Google” para apagar o adjectivo “Pérsico” ao golfo com esse nome desde antes do aparecimento da Arábia, quando a Grécia antiga o chamava de “Limen Persikos”. Daí “a Guerra do Golfo”, de um golfo sem nome e localização geográfica.

E estas não são as únicas ameaças de que Riad se dá conta:

• Os extremistas sunitas acusam-no de ser pouco islâmico permitir que nas terras sagradas do Islão, por exemplo, piscinas mistas na base militar dos EUA.

• Os sectores liberais “sunitas” – como o jornalista Jamal Khashoggi, as mulheres feministas e jovens seculares, como blogger Raif Badawi ou o poeta palestiniano Ashraf Fayadh, acusados de apostasia.

• E os próprios EUA, que ameaçaram eliminá-la em duas semanas.

Passa um século sobre o Tratado Sykes-Picote, que repartiu o Médio Oriente entre as superpotências da época, França e Grã-Bretanha. Os EUA procuram agora uma nova arquitectura geopolítica que garanta os seus interesses de longo prazo nesta estratégica região do mundo, e a Arábia Saudita não é mais do que uma ferramenta nas suas mãos para executar esse projeto.

Este conflito entre as duas teocracias ocorre no Estreito de Ormuz, e no solo de países terceiros como Iraque, Síria, Líbano e Afeganistão: trata-se de um jogo de soma zero, e não apenas devido à incompatibilidade dos seus interesses, mas também pelo seu olhar metafísico que distorce a realidade que os rodeia.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5847/arabia-saudi-lran-los-ocho-motivos-de-un-odio-sunnita-chiita-poco-religioso/[1]

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Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

“Sob os nossos olhos” (3/25)Os Irmão Muçulmanos como força de apoio do MI6 e da CIA

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos Olhos». Neste episódio, ele descreve a maneira como o Presidente Jimmy Carter e o seu Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, usaram as capacidades terroristas dos Irmãos Muçulmanos contra os Soviéticos.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, imaginou utilizar os Irmãos Muçulmanos para operações terroristas contra o governo comunista afegão; o que provocou a intervenção da URSS.

3— A Irmandade ao serviço da estratégia Carter/Brzeziński

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Sir James Macqueen Craig, especialista sobre o Médio-Oriente, convenceu o Reino Unido a utilizar os Irmãos Muçulmanos para operações secretas fora do Egipto. Foi também ele quem concebeu o plano das «Primaveras Árabes» no modelo da operação realizada em 1915 por Lawrence da Arábia.

Em 1972-73, um responsável do Foreign Office —e provavelmente do MI6—, James Craig, e o embaixador britânico no Egipto, Sir Richard Beaumont, começam um intenso lóbing para que o seu país e os Estados Unidos se apoiem nos Irmãos Muçulmanos não apenas no Egipto, mas em todo o mundo muçulmano contra os Marxistas e os Nacionalistas. Sir Craig será em breve nomeado embaixador de sua Majestade na Síria, depois na Arábia, e terá ouvidos atentos na CIA. Muito mais tarde, ele será o ideólogo das «Primaveras Árabes».

Em 1977, nos Estados Unidos, Jimmy Carter é eleito Presidente. Ele designa Zbigniew Brzeziński como Conselheiro de Segurança Nacional. Este último decide utilizar o islamismo contra os Soviéticos. Dá luz verde aos Sauditas para aumentar os seus financiamentos à Liga Islâmica Mundial, organiza mudanças de regime no Paquistão, no Irão e na Síria, desestabiliza o Afeganistão e faz do acesso norte-americano ao petróleo do Médio Oriente um objectivo de segurança nacional. Finalmente, ele confia meios militares à Irmandade.

Esta estratégia é claramente explicada por Bernard Lewis aquando da reunião do Grupo de Bilderberg [1] que a OTAN organiza em Abril de 1979 na Áustria. O islamólogo anglo-israelo-americano assegura aí que os Irmãos Muçulmanos podem não só jogar um grande papel face aos Soviéticos, e provocar distúrbios internos na Ásia Central, mas, também balcanizar o Próximo-Oriente no interesse de Israel.

Contrariamente a uma ideia feita, os Irmãos não se limitaram apenas a seguir o plano Brzeziński, eles visaram mais longe e obtiveram a assistência de Riade e de Washington para formar outros ramos da Irmandade noutros países; ramos que irão dinamizar mais tarde o seu projecto. O rei da Arábia concede uma média de 5 mil milhões de dólares anuais à Liga Islâmica Mundial que estende as suas actividades a 120 países e financia guerras. A título indicativo, US $ 5 mil milhões de dólares era o equivalente ao orçamento militar da Coreia do Norte. A Liga obtém o Estatuto consultivo junto do Conselho Económico e Social da ONU e um estatuto de Observador junto da Unicef.

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O General Muhammad Zia-ul-Haq, primeiro Chefe de Estado membro dos Irmãos Muçulmanos fora do Egipto, permite aos combatentes da Irmandade dispor de uma base de retaguarda contra os comunistas afegãos.

No Paquistão, o General Muhammad Zia-ul-Haq, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, formado em Forte Bragg nos Estados Unidos, derruba o Presidente Zulfikar Alî Bhutto e fá-lo enforcar. Membro da Jamaat-e-Islami, quer dizer da versão local da Irmandade Muçulmana, ele islamiza a sociedade. A Charia é progressivamente estabelecida –-incluindo a pena de morte por blasfémia--- e uma vasta rede de escolas islâmicas é instalada. É a primeira vez que a Irmandade está no Poder fora do Egipto.

No Irão, Brzeziński convence o Xá a sair e organiza o retorno do Imã Rouhollah Khomeini, o qual se define como um «islamista xiita». Na sua juventude, Khomeini tinha-se encontrado com Hasan el-Banna, no Cairo, em 1945, para o convencer a não alimentar o conflito sunitas/xiitas. Em seguida, ele traduziu dois livros de Sayyid Qutb. Os Irmãos e o Revolucionário iraniano concordam quanto a assuntos de sociedade, mas nada sobre as questões políticas. Brzeziński percebe o seu erro de cálculo no próprio dia da chegada do Aiatola a Teerão, porque este vai orar aos túmulos dos mártires do regime do Xá e apela ao exército para se revoltar contra o imperialismo. Brzeziński comete um segundo erro ao enviar a Força Delta socorrer os espiões norte-americanos que são feitos reféns na sua Embaixada em Teerão. Apesar de ter conseguido esconder aos olhos dos Ocidentais que os seus diplomatas eram falsos, ele mete os seus militares a ridículo com a falhada operação «Garra de Águia», e instala no Pentágono a ideia segundo a qual será preciso melhorar os meios para vencer os muçulmanos.

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O bilionário saudita Oussama Ben Laden, herói do Ocidente contra os Soviéticos.

No Afeganistão, Brzeziński põe de pé a «Operação Ciclone». Entre 17 a 35.000 Irmãos Muçulmanos, vindos de 40 países, irão bater-se contra a URSS que tinha vindo defender, a seu pedido, a República Democrática do Afeganistão do terrorismo dos Irmãos [2] –-jamais houve qualquer «invasão soviética» como alega a propaganda dos EUA---. Eles nunca ultrapassarão os 15. 000 à vez. Estes homens veem em reforço de uma Coligação de combatentes conservadores e de Irmãos Muçulmanos locais, entre os quais o pashtun Gulbuddin Hekmatyar e o tajique Ahmed Shah Massoud. Recebem o seu armamento essencialmente de Israel [3] –-oficialmente seu inimigo jurado, mas agora seu parceiro---. O conjunto destas forças é comandado a partir do Paquistão pelo General Muhammad Zia-ul-Haq, e financiado pelos Estados Unidos e Arábia Saudita. É a primeira vez que a Irmandade é usada pelos Anglo-Saxões para travar uma guerra.

Entre os combatentes presentes encontram-se os futuros responsáveis das guerras no Cáucaso, da Jamiat Islamyiah Indonésia, do grupo Abbou Sayaf nas Filipinas e, é claro, da Alcaida e do Daesh (EI). Nos Estados Unidos a operação anti-soviética é apoiada pelos Republicanos e um pequeno grupo de extrema-esquerda, os trotskistas do Social Democrats USA.

A estratégia Carter-Brzeziński representa uma mudança de escala [4]. A Arábia Saudita, que até aqui fora a financiadora dos grupos islamistas, vê-se encarregada de gerir os fundos da guerra contra os Soviéticos. O Director-geral da Inteligência saudita, o Príncipe Turki (filho do rei à época, Faisal), torna-se uma personalidade incontornável de todas as cimeiras ocidentais de Inteligência.

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O Palestino Abdallah Azzam e o Saudita Oussama Ben Laden foram treinados em Riade por Mohammad Qutb, o irmão de Sayyid Qutb. Eles dirigiram sucessivamente os combatentes dos Irmãos Muçulmanos no Afeganistão.

Sendo os problemas entre Árabes e Afegãos recorrentes, o Príncipe Turki envia primeiro o Palestino Abdullah Azzam, o «imã da Jiade», restaurar a ordem entre os Irmãos e administrar o escritório local da Liga Islâmica Mundial, depois o bilionário Ossama Bin Laden. Azzam e Bin Laden foram formados na Arábia Saudita pelo irmão de Sayyid Qutb.

Ainda durante o mandato de Carter, os Irmãos Muçulmanos empreendem uma longa campanha de terror na Síria, incluindo o assassínio de cadetes não-sunitas na Academia Militar de Alepo pela «Vanguarda Combatente». Dispõem de campos de treino na Jordânia, onde os Britânicos lhes dispensam uma formação militar. Durante estes anos de chumbo, a CIA consegue selar uma aliança entre os Irmãos Muçulmanos e o grupúsculo de ex-Comunistas de Ryad al-Turk. Este e os seus amigos, Georges Sabra e Michel Kilo, tinham rompido com Moscovo durante a guerra civil libanesa para apoiar o campo ocidental. Filiam-se no grupo trotskista norte-americano, Social Democrats USA. Os três homens redigem um manifesto no qual afirmam que os Irmãos Muçulmanos formam o novo proletariado, e que a Síria só poderá ser salva por uma intervenção militar norte-americana. Por fim, os Irmãos tentam um golpe de Estado em 1982, com o apoio do Baath iraquiano (o qual colaborava então com Washington contra o Irão) e da Arábia Saudita. Os combates que se seguiram em Hama fazem 2.000 mortos segundo o Pentágono, cerca de 40.000 segundo a Irmandade e a CIA. Posteriormente, centenas de prisioneiros são assassinados em Palmira pelo irmão do Presidente Hafez Al-Assad, Rifaat, que será demitido e forçado ao exílio em Paris quando ele tenta, por sua vez, um golpe de Estado contra o seu próprio irmão. Os trotskistas são presos, e a maioria dos Irmãos foge, quer para a Alemanha (onde reside já o antigo Guia sírio Issam al-Attar), quer para França (como Abu Mussab, o Sírio), onde o Chanceler Helmut Kohl e o Presidente François Mitterrand lhes dão asilo. Dois anos mais tarde, um escândalo rebenta no seio da Oposição, agora no exílio, no momento da partilha: 3 milhões de dólares desapareceram de um total de $ 10 milhões dados pela Liga Islâmica Mundial.

4— Para a constituição de uma Internacional da Jiade

Durante os anos 80, a Liga Islâmica Mundial recebe instruções de Washington para transformar a sociedade argelina. Durante um decénio, Riade oferece a construção de mesquitas nas aldeias. São-lhe acrescentadas sempre uma escola e um dispensário. As autoridades argelinas regozijam-se tanto mais com esta ajuda quanto elas já não conseguem garantir o acesso de todos à Saúde e à Educação. Progressivamente, as classes trabalhadoras argelinas distanciam-se de um Estado que não lhes vale de grande coisa e aproximam-se de tão generosas mesquitas.

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O Preidente Bush Sr, antigo director da CIA, toma-se de amizades pelo Embaixador saudita, o Príncipe Bandar ben Sultan ben Abdelaziz Al Saoud, que se tornará mais tarde seu homólogo, enquanto chefe dos Serviços de Inteligência do seu país. Ele considera-o como seu filho adoptivo, de onde lhe surge a alcunha de Bandar Bush.

Quando o Príncipe Fahd se torna rei da Arábia Saudita, em 1982, coloca o Príncipe Bandar (filho do Ministro da Defesa) como embaixador em Washington, cargo que ocupará durante todo o seu reinado. A sua função é dupla: por um lado, ele gere as relações saudo-americanas, por outro serve como uma interface entre o Director da Inteligência Turki e a CIA. Torna-se amigo do Vice-presidente e antigo chefe da CIA, George H. W. Bush, que o considera como seu «filho adoptivo»; depois com o Secretário da Defesa, Dick Cheney, e o futuro director da CIA, George Tenet. Ele insere-se na vida social das elites e integra tanto a seita cristã dos chefes de Estado-Maior do Pentágono, The Family, como o ultra-conservador Bohemian Club de San Francisco.

Bandar comanda os jiadistas a partir da Liga Islâmica Mundial. Ele negoceia com Londres, junto da British Aerospace, a compra de armamento para o seu Reino em troca de petróleo. Os contratos de «pato», (em árabe Al Yamamah), custarão entre 40 e 83 mil milhões de libras esterlinas a Riade, dos quais uma parte significativa será devolvida pelos Britânicos ao Príncipe.

Em 1983, o Presidente Ronald Reagan confia a Carl Gershman, o antigo líder dos Social Democrats USA, a direção da nova National Endowment for Democracy (NED) [5]. É uma agência dependente do acordo da «Cinco Olhos», camuflada em ONG. Ela é a fachada legal dos Serviços secretos australianos, britânicos, canadianos, norte-americanos e neo-zelandeses. Gershman já trabalhara com os seus camaradas trotskistas e os seus amigos dos Irmãos Muçulmanos no Líbano, na Síria e no Afeganistão. Ele põe a funcionar uma vasta rede de associações e de fundações que a CIA e o MI6 usam para apoiar a Irmandade, onde quer que seja possível. Ele reclama-se da «doutrina Kirkpatrick» : todas as alianças são correctas desde que sirvam o interesse dos Estados Unidos.

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Neste contexto, a CIA e o MI6 que haviam criado no mais aceso da Guerra Fria a Liga anti-comunista mundial (WACL), vão utilizá-la para encaminhar para o Afeganistão os fundos necessários à Jiade. Osama Bin Laden adere a esta organização que conta com vários chefes de Estado [6].

Em 1985, o Reino Unido, fiel à sua tradição de qualidade académica, dota-se de um Instituto encarregue de estudar as sociedades muçulmanas e a maneira pela qual os Irmãos as podem influenciar, o Oxford Center for Islamic Studies.

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Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir impõem os Irmãos Muçulmanos no Sudão. No contexto particularmente sectário a atrasado do seu país, eles vão entrar em choque com a Irmandade antes de se destruírem mutuamente.

Em 1989, os Irmãos têm êxito num segundo Golpe de Estado, desta vez no Sudão em benefício do Coronel Omar al-Bashir. Ele não perde tempo a colocar o Guia local, Hassan al-Turabi, na presidência da Assembleia Nacional. Este último, numa conferência dada em Londres, anuncia que o seu país se vai tornar na base de retaguarda dos grupos islamistas do mundo inteiro.

Ainda em 1989, a Frente Islâmica da Salvação (FIS) surge na Argélia, em torno de Abassi Madani, enquanto o partido no Poder se afunda em diversos escândalos. A FIS é apoiada nas mesquitas «oferecidas» pelos Sauditas, e por conseguinte pelos Argelinos que as frequentam desde há uma década. Devido à rejeição aos dirigentes no Poder, e não por adesão à sua ideologia, ela ganha as eleições locais. Verificando o falhanço dos políticos e a impossibilidade ontológica de negociar com os islamistas, o exército dá um Golpe de Estado e anula as eleições. O país afunda-se numa longa e mortífera guerra civil da qual pouco se virá a saber. A guerrilha islamita fará mais de 150.000 vítimas. Os islamitas não hesitam em aplicar, ao mesmo tempo, punições a nível individual e colectivo, por exemplo, como quando massacram os habitantes de Ben Talha –-culpados de ter votado apesar da fátua a proibir--- e arrasam a aldeia. Como é evidente, a Argélia serve como laboratório para novas operações. Espalha-se o boato que é o exército e não os islamistas quem massacra os aldeões. Na realidade, vários altos responsáveis dos Serviços Secretos, que foram treinados nos Estados Unidos, juntam-se aos islamistas e semeiam a confusão.

Em 1991, Osama bin Laden, que voltou à Arábia Saudita como um herói da luta anti-comunista no fim da guerra do Afeganistão, oficialmente desentende-se com o Rei quando os «sururistas» se rebelam contra a monarquia. Esta insurreição, o «Despertar Islâmico», dura quatro anos e termina com a prisão dos principais líderes. Ela mostra à monarquia –-que supunha ter uma autoridade inquestionável--- que ao misturar religião e política, os Irmãos tinham criado as condições para uma revolta através das mesquitas.

É neste contexto que Osama bin Laden afirma ter proposto a ajuda de alguns milhares de veteranos combatentes do Afeganistão contra o Iraque de Saddam Husseini, mas, ó escândalo, o Rei preferira o milhão de soldados dos Estados Unidos e seus aliados. Ele parte «portanto» para o exílio, no Sudão, na realidade com a missão de retomar o controlo dos islamistas que escaparam à autoridade dos Irmãos e se tinham levantado contra a monarquia. Junto com Hassan al-Turabi, ele profere palestras populares pan-árabes e pan-islâmicas onde alicia os representantes dos movimentos islamistas e nacionalistas de cinquenta países. Trata-se de criar, ao nível dos partidos, o equivalente ao que a Arábia Saudita tinha feito com a Organização da Conferência Islâmica que reúne, essa, Estados. Os participantes ignoram que as reuniões são pagas pelos Sauditas e que os hotéis onde se realizam são monitorizados pela CIA. De Yasser Arafat ao Hezbolla libanês, todos participam nelas.

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O FBI consegue levar à condenação do BCCI, um gigantesco banco muçulmano que se tornara, com o decorrer do tempo, o banco utilizado pela CIA para as suas operações secretas, nomeadamente o financiamento da guerra no Afeganistão –-mas, também, o narcotráfico na América Latina [7]---. Quando a falência do banco é declarada, os seus pequenos clientes não são reembolsados, mas Osama bin Laden consegue recuperar $ 1,4 mil milhões de dólares para prosseguir o envolvimento dos Irmãos Muçulmanos ao serviço de Washington. A CIA movimenta então as suas actividades através do Faysal Islamic Bank e da sua filial Al-Baraka.

(Continua…)

 

[1] “O que Você ignora sobre o Grupo de Bilderberg”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Komsomolskaïa Pravda (Rússia) , Rede Voltaire, 23 de Setembro de 2012.

[2] « Brzezinski : "Oui, la CIA est entrée en Afghanistan avant les Russes …" », par Zbigniew Brzeziński, Nouvel Observateur (France) , Réseau Voltaire, 15 janvier 1998.

[3] Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of How the Wildest Man in Congress and a Rogue CIA Agent Changed the History of Our Times, George Crile, Grove Press (2003).

[4] Les dollars de la terreur, Les États-Unis et les islamistes, Richard Labévière, Éditions Bernard Grasset (1999). English version: Dollars for Terror: The United States and Islam, Algora (2000).

[5] “A NED, vitrina legal da CIA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 16 de Agosto de 2016.

[6] Inside the League: The Shocking Expose of How Terrorists, Nazis, and Latin American Death Squads Have Infiltrated the World Anti-Communist League, Scott & Jon Lee Anderson, Dodd Mead & Company éd. (1986). « La Ligue anti-communiste mondiale, une internationale du crime », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 12 mai 2004.

[7] The BCCI Affair, John Kerry & Hank Brown, US Senate (1992); Crimes of a President: New Revelations on the Conspiracy and Cover Up in the Bush and Reagan Administration, Joel Bainerman, SP Books (1992); From BCCI to ISI: The Saga of Entrapment Continues, Abid Ullah Jan, Pragmatic Publishing (2006).



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“Sob os nossos olhos” (1/25)De 11-de-Setembro a Donald Trump

Iniciamos a publicação por episódios do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos Olhos». Trata-se de contar por escrito de forma ambiciosa a História dos dezoito últimos anos a partir da experiência do autor ao serviço de vários povos. Este livro não tem equivalente, e não pode ter, na medida em que nenhum outro homem participou nestes acontecimentos sucessivos na América Latina, em África e no Médio-Oriente ao lado dos governos postos em causa pelos Ocidentais.

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«Todos os Estados se devem abster de organizar, de ajudar, de fomentar, de financiar, de encorajar ou de tolerar actividades armadas subversivas ou terroristas destinadas a mudar pela violência o regime de um outro Estado, assim como de intervir nas lutas intestinas de um outro Estado» _ Resolução 2625, adoptada a 24 de Outubro de 1970 pela Assembleia Geral das Nações Unidas

Preâmbulo

Nenhum conhecimento é definitivo. A História, como qualquer outra ciência, é uma constante interrogação sobre o que se acreditava ser certo e o que, considerando novos elementos, se modifica, ou seja, é até mesmo desmentido.

Eu rejeito a escolha que nos é proposta entre o «limite da razão» e o «pensamento único» por um lado, e as emoções e a «post-verdade» por outro. Situo-me num outro plano : eu busco distinguir os factos das aparências, a verdade da propaganda. Acima de tudo, enquanto alguns homens tentarem explorar outros não creio que as relações internacionais possam ser totalmente democráticas e portanto transparentes. Por conseguinte, para lá da astúcia, por natureza é impossível interpretar com certeza os acontecimentos internacionais quando eles se dão. A verdade apenas pode vir à luz do dia com o tempo. Eu aceito a ideia de me poder enganar no imediato, mas jamais renuncio a questionar as minhas impressões e a refazê-las. Este exercício é tanto mais difícil quando o mundo experimenta guerras que nos obrigam a tomar posição sem demoras.

Pela minha parte, eu alinho no partido dos inocentes, os quais veem desconhecidos penetrar nas suas cidades e aí impor a sua lei, inocentes que ouvem as televisões internacionais repetir o mantra segundo o qual os seus dirigentes são tiranos e que devem ceder a posição aos Ocidentais, inocentes que se revoltam e são então esmagados pelas bombas da OTAN. Eu reivindico ser, ao mesmo tempo, um analista tentando analisar com objectividade e um homem que trás socorro, dentro dos seus meios, àqueles que sofrem.

Ao escrever este livro, pretendo ir ao fundo da documentação e dos testemunhos directos actuais. No entanto, ao contrário dos autores que me precederam, eu não procuro demonstrar a boa fé da política do meu país, mas antes compreender o encadear dos acontecimentos, a propósito dos quais acontece ter eu sido tanto um espectador como um interventor.

Alguns objectarão que, contrariamente a minha profissão de fé, eu busco, na realidade, justificar a minha acção e que, consciente ou inconscientemente, dou mostras de parcialidade. Espero que eles venham a participar no estabelecimento da verdade e me indiquem ou publiquem os documentos que eu ignoro.

Acontece, de facto, que o meu papel nestes acontecimentos me permitiu apreender, e verificar, numerosíssimos elementos desconhecidos do grande público, e bastantes vezes de muitos outros actores. Adquiri este conhecimento de maneira empírica. Só progressivamente é que eu compreendi a lógica dos acontecimentos.

Para permitir ao leitor seguir o meu percurso intelectual, eu não escrevi uma História Geral da Primavera Árabe, mas, sim três histórias parciais dos últimos dezoito anos, a partir de três pontos de vista diferentes : o dos Irmãos Muçulmanos, o dos sucessivos governos Franceses, e o das autoridades Norte-americanas. Para esta edição, inverti a ordem destas partes em relação às edições precedentes onde havia colocado a acção da França em primeiro lugar. Com efeito, trata-se aqui de abranger um público internacional.

Em busca do Poder, os Irmãos Muçulmanos colocaram-se ao serviço do Reino Unido e dos Estados Unidos, enquanto ponderavam sobre como atrair a França para a sua luta de domínio sobre os Povos. Perseguindo os seus próprios objectivos, os dirigentes franceses não procuraram compreender a lógica dos Irmãos Muçulmanos, nem a do seu suserano norte-americano, mas unicamente acertar nas vantagens da colonização e encher os bolsos. Apenas Washington e Londres tinham toda a informação sobre o que se passava e aquilo que preparavam.

O resultado assemelha-se pois ao das matrioskas russas: só com o desenrolar do tempo se percebe a organização dos acontecimentos que pareciam, à primeira vista, espontâneos, tais como as premissas e as conclusões de determinadas decisões.

O meu testemunho é de tal modo diferente do que os leitores terão lido ou ouvido sobre o mesmo assunto que alguns ficarão assustados com o que escrevo. Outros, pelo contrário, irão interrogar-se sobre esta gigantesca manipulação e do modo como lhe pôr um fim.

É provável que este livro, que expõe centenas de factos, inclua alguns erros que eu irei corrigindo no futuro. É possível que uma ou outra das correlações que eu saliento sejam apenas fruto do acaso, mas, seguramente, não a sua totalidade.

Inúmeras pequenas rectificações foram sendo incluídas em função de sucessivas revelações ulteriores sobre este período.

Que não restem dúvidas, os partidários do imperialismo não deixarão de me acusar de «conspiracionismo», de acordo com a sua expressão fetiche. É uma acusação gratuita que usam desde há 15 anos. Têm abusado dela desde que eu comecei a contestar a versão oficial dos atentados do 11-de-Setembro de 2001. Eles persistem na sua negação (ou mentira ?) e, claro, desmascaram-se quando apoiam publicamente a Alcaida na Líbia e na Síria ao mesmo tempo que a acusam de massacre nos Estados Unidos, na França, na Bélgica, etc.

O consenso de jornalistas e de políticos não tem mais valor do que o dos teólogos e dos astrónomos face às descobertas de Galileu. Jamais qualquer consenso permitiu estabelecer a verdade. Apenas a Razão aplicada às provas nos permite a sua aproximação.

Em última análise, uma vez os erros menores corrigidos, é a este somatório de factos que cada qual, sendo honesto, deverá responder propondo para tal uma explicação lógica e coerente.

(a continuar …)





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O Estado relativamente laico e as capelanias absolutamente intoleráveis

(Carlos Esperança, 02/07/2019)

Doentes, presos, militares e polícias, à semelhança de quaisquer crentes, podem recorrer aos ministros do culto das suas religiões, se isso lhes dá prazer ou conforto. Faz parte da liberdade religiosa, inerente a qualquer democracia.

 

não se percebe que os hospitais, prisões e quartéis tenham padres católicos privativos, os únicos que, na ditadura, tinham o monopólio desses espaços. É uma ofensa ao Estado laico e a prorrogação da regalia da Concordata de 1940, agora alargada às forças policiais, assinada no apogeu do fascismo, entre o Estado salazarista e o Vaticano de Pio XII, o Papa de Hitler.

Se o Estado permite que a Igreja católica domicilie os padres nos hospitais, prisões e quartéis, ainda que teoricamente aceite a invasão de outras confissões, não se percebe por que motivo os exclui das repartições de Finanças, centros de emprego, ministérios, autarquias, lojas do cidadão e outros organismos públicos.

Se é intenção capitular perante o proselitismo religioso, abdicar da ética republicana, ajoelhar perante as sotainas e esquecer a Constituição, é justo solicitar um sacristão para cada edifício público e uma freira para vigiar as consultas de planeamento familiar.

A Concordata de 2004, desnecessária e indigna de um Estado laico, foi uma concessão ao clero católico que cria desigualdades entre as várias religiões e ao País sujeições inaceitáveis.

Portugal recorda o ridículo das mais altas figuras do Estado a integrarem a comissão de honra da canonização de Nuno Álvares Pereira, herói nacional que a Igreja capturou. O PR e o presidente da AR caucionaram a cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com óleo de fritar peixe, por intercessão de D. Nuno. Cavaco e Jaime Gama, exorbitando as funções, integraram a junta médica que confirmou o embuste e injuriaram todos aqueles que negam ao Estado competência para certificar milagres.
Agora é Marcelo que se desdobra em missas, procissões e outras diversões pias, genufletido e osculador dos anelões episcopais a mostrar que acima da República estão os encarregados dos negócios distritais da fé.

O Governo em vez de defender a laicidade no aparelho do Estado, como deve, abre as portas ao incenso e à água benta sem respeitar a pituitária e a pele dos que não suportam o odor do primeiro e o contacto da última, por alergia às benzeduras.

Lentamente, as sotainas vão invadindo o espaço público à semelhança dos países islâmicos, enquanto a ciência dá lugar à fé e a cidadania às genuflexões.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

“Sob os nossos olhos” (2/25) - Os Irmãos Muçulmanos como assassinos

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos olhos». Neste episódio, ele descreve a criação de uma sociedade secreta egípcia, os Irmãos Muçulmanos, depois a sua recriação após a Segunda Guerra Mundial pelos Serviços Secretos britânicos. Finalmente, a utilização deste grupo pelo MI6 para proceder a assassinatos políticos nesta antiga colónia da Coroa.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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Hassan el-Banna, fundador da sociedade secreta dos Irmãos Muçulmanos. Sabe-se pouco sobre a sua história familiar, apenas que eram relojoeiros; um ofício reservado à comunidade judaica no Egipto.

As «Primaveras Árabes»,
vividas pelos Irmãos Muçulmanos

Em 1951, os Serviços Secretos anglo-saxónicos constituíram, a partir da antiga organização homónima, uma sociedade secreta política : os Irmãos Muçulmanos.
Utilizaram-nos, sucessivamente, para assassinar personalidades que lhes opunham resistência, depois, a partir de 1979, como mercenários contra os Soviéticos. No início dos anos 90, incorporaram-nos na OTAN e nos anos 2010 tentaram levá-los ao Poder nos países árabes. Os Irmãos Muçulmanos e a Ordem sufi dos Naqchbandis são financiados, à escala de 80 mil milhões de dólares anuais, pela família reinante saudita, o que os transforma num dos mais importantes exércitos do mundo. Todos os líderes jiadistas, aqui incluídos os do Daesh (E.I.), pertencem a este dispositivo militar.

1— Os Irmãos Muçulmanos Egípcios

Quatro impérios desaparecem durante a Primeira guerra mundial, o Reich alemão, o Império austro-húngaro, a Santa Rússia czarista e a Sublime Porta otomana. Os vencedores não têm o menor bom senso ao impor as suas condições aos vencidos. Assim, na Europa, o Tratado de Versalhes aplica condições terríveis à Alemanha, que torna como única responsável do conflito. No Oriente, o retalhar do Império Otomano dá para o torto : na Conferência de San Remo (1920), em conformidade com os acordos secretos de Sykes-Picot-Sazonov (1916), o Reino Unido é autorizado a estabelecer o lar judeu da Palestina, enquanto a França pode colonizar a Síria (incluindo à época o actual Líbano). No entanto, no que resta do Império Otomano, Mustafá Kemal revolta-se tanto contra o Sultão, que perdeu a guerra, como contra os Ocidentais que se apoderam do seu país. Na Conferência de Sèvres (1920), cortam o Império em pequenos pedaços para criar toda a espécie de novos Estados, entre os quais um Curdistão. A população turco-mongol da Trácia e da Anatólia revolta-se e leva Kemal ao Poder. No fim, a Conferência de Lausana (1923) traça as fronteiras actuais, renuncia a um Curdistão e organiza gigantescas transferências de população que provocam mais de meio milhão de mortos.

Mas, tal como na Alemanha onde Adolf Hitler irá contestar a sorte do seu país, do mesmo modo no Próximo-Oriente, um homem se levanta contra a nova divisão da região. Um professor egípcio funda um movimento para restaurar o Califado que os Ocidentais venceram. Este homem é Hassan el-Banna, e esta organização é a Irmandade Muçulmana (1928).

O Califa é, em princípio, o sucessor do Profeta, ao qual todos devem obediência; um título de facto muito cobiçado. Sucessivas grandes linhagens de Califas se sucederam, os Omíadas, os Abássidas, os Fatímidas e os Otomanos. O próximo Califa deveria ser aquele que se apoderasse do título, neste caso o «Guia Chefe» da Irmandade, que se veria seguramente como senhor do mundo muçulmano.

A sociedade secreta espalha-se muito rapidamente. Ela entende operar no interior do sistema para restaurar as instituições islâmicas. Os candidatos devem jurar fidelidade ao fundador sobre o Alcorão e sobre um sabre, ou sobre um revólver. O objectivo da Irmandade é exclusivamente político, mesmo se ela o expressa em termos religiosos. Jamais, Hassan el-Banna ou os seus sucessores falarão de Islão como de uma religião, ou evocarão uma espiritualidade muçulmana. Para eles, o Islão é unicamente um dogma, uma submissão a Deus, e um meio de exercício do Poder. É claro, os Egípcios que apoiam a Irmandade não o percebem assim. Eles seguem-na porque ela alega seguir a Deus.

Para Hassan el-Banna, a legitimidade de um governo não se mede pela sua representatividade tal como se estima a dos governos ocidentais, mas, antes pela sua capacidade de defender o «modo de vida islâmico», ou seja, o do Egipto otomano do século XIX. Os Irmãos jamais considerarão que o Islão tenha uma História, e que os modos de vida muçulmanos variem consideravelmente segundo as regiões e as épocas. Jamais considerarão, sequer, que o Profeta tenha revolucionado a sociedade beduína na qual vivia, e que o modo de vida descrito no Alcorão fosse apenas uma etapa fixada para estes homens. Para eles, as regras penais do Alcorão –—a Charia--- não correspondem, portanto, a uma dada situação, fixam, isso sim, leis imutáveis nas quais o Poder se pode apoiar.

O facto de a religião muçulmana ter sido muitas vezes difundida pela espada justifica para a Irmandade o uso da força. Jamais os Irmãos reconhecerão que o Islão tenha podido propagar-se também pelo exemplo. Isso não impede al-Banna e os seus Irmãos de se apresentarem a eleições –-e de perder---. Se eles condenam os partidos políticos, não é por oposição ao multipartidarismo, mas, antes porque separando a religião da política cairiam na corrupção.

A doutrina dos Irmãos Muçulmanos, é a ideologia do «islão político», em francês diz-se do «islamismo» ; uma palavra que vai levantar celeuma.

Em 1936, Hassan el-Banna, escreve ao Primeiro-ministro Mustafá el-Nahhass Pacha. Exige-lhe: - «uma reforma da legislação e a colocação de todos os tribunais sob a Charia;
- o recrutamento no seio do exército instituindo para tal um voluntariado sob a bandeira da jiade;
- a conexão dos países muçulmanos e a preparação da restauração do Califado, em aplicação da unidade exigida pelo Islão».

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Irmandade declara-se neutral. Na realidade, ela transforma-se num serviço de Inteligência do Reich. Mas a partir da entrada na guerra dos Estados Unidos, assim que a sorte das armas parece inverter-se, ela faz um jogo duplo e faz-se financiar pelos Britânicos para lhes fornecer informações sobre o seu primeiro empregador. Ao fazer isto, a Irmandade mostra a sua total ausência de princípios e o seu puro oportunismo político.

A 24 de Fevereiro de 1945, os Irmãos tentam a sua sorte e assassinam, em plena sessão parlamentar, o Primeiro-ministro egípcio. Segue-se uma escalada de violência: uma repressão contra eles e uma série de assassinatos políticos, indo até à do novo Primeiro-ministro, a 28 de Dezembro de 1948, e em retaliação a do próprio Hassan al-Banna, a 12 de Fevereiro de 1949. Pouco tempo depois, um tribunal estabelecido pela lei marcial condena a maior parte dos Irmãos a uma pena de detenção e dissolve a sua associação.

Esta organização secreta não era mais, no fundo, que um bando de assassinos que ambicionava apoderar-se do Poder, mascarando a sua cobiça atrás do Alcorão. A sua história deveria ter terminado por ali. Mas, não foi nada disso que aconteceu.

2— A Confraria reformada pelos Anglo-Saxões e a paz separada com Israel

A capacidade da Confraria em mobilizar as pessoas e em as transformar em assassinos não deixa de intrigar as Grandes Potências.

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Contrariamente aos seus desmentidos, Sayyid Qutb era franco-mação. Ele publicou um artigo intitulado «Porque me tornei franco-mação», aparecido na revista al-Taj al-Masri (a «Coroa do Egipto»), em 23 de Abril de 1943.

Dois anos e meio após a sua dissolução, uma nova organização é formada pelos Anglo-Saxões reutilizando, para isso, o nome dos «Irmãos Muçulmanos». Aproveitando-se da prisão dos dirigentes históricos, o antigo juiz Hassan al-Hodeibi é eleito Guia-chefe. Contrariamente a uma ideia muitas vezes aceite, não há nenhuma continuidade histórica entre a antiga e a nova Irmandade. Verifica-se que uma unidade da antiga sociedade secreta, o «Aparelho Secreto», tinha sido encarregado por Hassan el-Banna de perpetrar os atentados dos quais ele negava a paternidade. Esta organização dentro da organização era tão secreta que ela não foi tocada pela dissolução da Irmandade e coloca-se agora à disposição do seu sucessor. O Guia decide repudiá-la e declara querer atingir os seus objectivos apenas de forma pacífica. É difícil estabelecer o que se passou exactamente naquele momento preciso entre os Anglo-Saxões, que queriam recriar a antiga sociedade secreta, e o Guia, o qual apenas queria recuperar sua audiência junto das massas. Em qualquer caso, o Aparelho Secreto perdurou e a autoridade do Guia apagou-se em proveito da de outros responsáveis da Irmandade, abrindo uma verdadeira guerra interna. A CIA colocou na sua direcção o franço-mação Sayyid Qtub [1], o teórico da Jiade, que o guia condenou antes de concluir um acordo com o MI6.

É impossível especificar as relações de subordinação interna entre uns e outros, por um lado porque cada ramo estrangeiro tem a sua própria autonomia e, por outro lado, porque as unidades secretas no seio da organização não dependem mais, absolutamente, nem do Guia-chefe, nem do Guia local, mas, por vezes, directamente da CIA e do MI6.

Durante o período seguinte à Segunda Guerra mundial, os Britânicos tentam organizar o mundo de maneira a mantê-lo fora do alcance dos Soviéticos. Em Setembro de 1946, em Zurique, Winston Churchill lançou a ideia dos Estados Unidos da Europa. Dentro do mesmo princípio, ele lança a Liga Árabe. Em ambos os casos, trata-se de conseguir a unidade de uma região sem a Rússia. Desde o início da Guerra Fria, os Estados Unidos da América, por seu lado, criam associações encarregadas de acompanhar este movimento em proveito próprio, o American Committee on United Europe e os American Friends of the Middle East [2]. No mundo árabe, a CIA organiza dois golpes de Estado, primeiro em favor do General Hosni Zaim em Damasco (Março de 1949), depois com os Oficiais Livres no Cairo (Julho de 1952). Trata-se de apoiar os nacionalistas que se supõe serem hostis aos comunistas. É com este estado de espírito que Washington traz ao Egipto o General SS Otto Skorzeny e ao Irão o General nazi Fazlollah Zahédi, acompanhados de centenas de antigos responsáveis da Gestapo para dirigir a luta anti-comunista. Skorzeny infelizmente modelou a polícia egípcia numa tradição de violência. Em 1963, ele escolherá a CIA e a Mossad contra Nasser. Zahédi, quanto a ele, criará a SAVAK, a mais cruel polícia política da época.

Se Hassan el-Banna tinha fixado o objectivo —tomar o Poder manipulando a religião—, Qutb definiu o meio : a jiade. Uma vez tendo os adeptos admitido a superioridade do Alcorão, podemos apoiar-nos nele para os organizar em exército e enviá-los para o combate. Qutb desenvolve uma teoria maniqueísta diferenciando o que é islamista e o que é «tenebroso». Para a CIA e o MI6, esta lavagem cerebral permite utilizar os fiéis para controlar os governos nacionalistas árabes, depois para desestabilizar as regiões muçulmanas da União Soviética. A Irmandade torna-se um inesgotável reservatório de terroristas sob o slogan : «Alá é o nosso fim. O Profeta é o nosso chefe. O Alcorão é a nossa lei. A jiade é a nossa via. O martírio, o nosso voto».

O pensamento de Qutb é racional, mas não razoável. Desenvolve uma retórica invariável Alá/Profeta/Corão/Jiade/Martírio que não permite nunca qualquer possibilidade de debate. Ele coloca a superioridade da sua lógica acima da razão humana.

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Recepção de uma delegação da sociedade secreta pelo Presidente Eisenhower na Casa Branca (23 de Setembro de 1953).

A CIA organiza um colóquio na Universidade de Princeton sobre «A situação dos muçulmanos na União Soviética». É a ocasião de receber nos Estados Unidos uma delegação dos Irmãos Muçulmanos conduzida por um dos chefes do seu ramo armado, Saïd Ramadan. No seu relatório, o oficial da CIA encarregue do acompanhamento nota que Ramadan não é um extremista religioso, antes se parece mais com um fascista ; uma maneira de sublinhar o carácter exclusivamente político dos Irmãos Muçulmanos. O colóquio concluiu com uma recepção na Casa Branca pelo Presidente Eisenhower, a 23 de Setembro de 1953. A aliança entre Washington e o jiadismo está firmada.

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(Da esquerda para a direita) Hassan el-Banna casou a sua filha com Saïd Ramadan, fazendo dele o seu sucessor. O casal dará origem a Hani (director do Centro Islâmico de Genebra) e Tariq Ramadan (que será professor titular da cadeira de estudos islâmicos contemporâneos na universidade de Oxford).

A CIA, que tinha recriado a Irmandade contra os comunistas, primeiro utilizou-a para ajudar os nacionalistas. Nesta época a Agência era representada no Médio-Oriente por anti-sionistas, saídos da classe média. Rapidamente, eles foram afastados em proveito de altos-funcionários de origem anglo-saxónica e puritana, saídos das grandes universidades e favoráveis a Israel. Washington entrou em conflito com os nacionalistas e a CIA voltou a Irmandade contra eles.

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Said Ramadan e Abdul Ala Mawdudi animaram uma emissão semanal na Rádio Paquistão, uma estação criada pelo MI6 britânico.

Said Ramadan tinha comandado alguns combatentes da Irmandade durante a breve guerra contra Israel em 1948, depois tinha ajudado Sayyid Abul Ala Maududi a criar no Paquistão a organização para-militar da Jamaat-i-Islami. Tratava-se, então, de fabricar uma identidade islâmica para os Indianos muçulmanos de modo a que eles constituam um novo Estado, o Paquistão. A Jamaat-i-Islami redigirá, aliás, a constituição paquistanesa. Ramadan desposa a filha de Hassan al-Banna e torna-se o chefe do braço armado dos novos «Irmãos Muçulmanos».

Enquanto no Egipto, tendo os Irmãos participado no golpe de Estado dos Oficiais Livres do General Mohammed Naguib –-Sayyid Qutb era o seu agente de ligação--- eles são encarregues de eliminar um dos seus líderes, Gamal Abdel Nasser, o qual entrou em conflito com Naguib. Não apenas falham, a 26 de Outubro de 1954, como Nasser toma o Poder, reprime a Irmandade e coloca Naguib sob prisão domiciliar. Sayyid Qutb será enforcado alguns anos mais tarde.

Interditos no Egipto, os Irmãos recuam para os Estados wahhabitas (Arábia Saudita, Catar e emirado de Sharjah) e para a Europa (Alemanha, França e Reino Unido, mais a neutral Suíça). Em todas as ocasiões, são acolhidos sempre como agentes ocidentais lutando contra a nascente aliança entre os Nacionalistas árabes e a União Soviética. Saïd Ramadan recebe um passaporte diplomático jordano e instala-se em Genebra, em 1958, de onde ele dirige a desestabilização do Cáucaso e da Ásia Central (ou seja o Afeganistão-Paquistão e o vale soviético de Ferghana). Ele assume o controle da Comissão para a construção de uma mesquita em Munique, o que lhe permite supervisionar quase todos os muçulmanos da Europa Ocidental. Com a ajuda do American Committe for Liberation of the Peoples of Russia (AmComLib), quer dizer da CIA, ele dispõe da Radio Liberty/Radio Free Europe, uma estação directamente financiada pelo Congresso norte-americano para difundir a ideologia da Irmandade [3].

Após a crise do Canal de Suez e a espectacular reviravolta de Nasser para o lado soviético, Washington decide apoiar sem limites os Irmãos Muçulmanos contra os Nacionalistas árabes. Um alto quadro da CIA, Miles Copeland, é encarregado –-em vão--- de selecionar na Irmandade uma personalidade que possa desempenhar no mundo árabe um papel equivalente ao do Pastor Billy Graham nos Estados Unidos. Será preciso esperar pelos anos 80 para encontrar um pregador desta envergadura, o egípcio Youssef al-Qaradawi.

Em 1961, a Irmandade estabelece uma conexão com outra sociedade secreta, a Ordem dos Naqchbandis. Trata-se de uma espécie de franco-maçonaria muçulmana misturando iniciação Sufi e política. Um dos seus teóricos indianos, Abu al-Hasan Ali al-Nadwi, publica um artigo na revista dos Irmãos. A Ordem é antiga e está presente em inúmeros países. No Iraque, o grão-mestre não é outro senão o futuro Vice-presidente Ezzat Ibrahim al-Duri. Ele apoiará a tentativa de golpe de Estado dos Irmãos na Síria, em 1982, depois a «campanha de retorno à Fé» organizada pelo Presidente Saddam Hussein, para reforçar a identidade do seu país, após o estabelecimento da área de exclusão aérea pelos Ocidentais. Na Turquia, a Ordem jogará um papel mais complexo. Ela irá incluir como responsáveis tanto Fethullah Gullen (fundador do Hizmet), como o Presidente Turgut Özal (1989-93) e o Primeiro-ministro Necmettin Erbakan (1996-97), fundador do Partido da Justiça (1961) e da Millî Görüş (1969). No Afeganistão, o antigo presidente Sibghatullah Mujaddidi (1992) foi seu grão-mestre. Na Rússia, com a ajuda do Império Otomano, a Ordem havia revoltado a Crimeia, o Usbequistão, a Tchechénia e o Daguestão, no século XIX, contra o czar. Até à queda da União Soviética, não teremos notícias deste ramo; tal como no Xinjiang chinês. A proximidade entre os Irmãos e os Naqchbandis muito raramente é estudada tendo em conta a oposição de princípios dos Islamistas à mística e às ordens Sufis em geral.

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A sede saudita da Liga Islâmica Mundial. Em 2015, o seu orçamento era superior à do Ministério saudita da Defesa. Primeiro comprador mundial de armas, a Arábia Saudita adquire armas que a Liga distribui às organizações dos Irmãos Muçulmanos e Naqchbandis.

Em 1962, a CIA encoraja a Arábia Saudita a criar a Liga Islâmica Mundial e a financiar, ao mesmo tempo, a Irmandade e a Ordem contra os nacionalistas e os comunistas [4]. Esta organização é, a principio, financiada pela Aramco (Arabian-American Oil Company). Entre a vintena dos seus membros fundadores conta-se três teóricos islamitas de que já falamos : o egípcio Saïd Ramadan, o paquistanês, Sayyid Abul Ala Mawdudi e o indiano Abu al-Hasan Ali al-Nadwi.

De facto a Arábia, que dispõe subitamente de enorme liquidez graças ao comércio do petróleo, torna-se a madrinha dos Irmãos no mundo inteiro. Em casa, a monarquia confia-lhes o sistema de ensino escolar e universitário, num país onde quase ninguém sabe ler e escrever. Os Irmãos têm de se adaptar aos seus anfitriões. Com efeito, a sua vassalagem ao rei impede-os de prestar fidelidade ao Guia-chefe. Seja como for, eles organizam-se em torno de Mohamed Qutb, o irmão de Sayyid, em duas correntes : os Irmãos sauditas de um lado e os «Sururistas», de outro. Estes últimos, que são Sauditas, ensaiam uma síntese entre a ideologia política da Irmandade e a teologia Wahhabista. Esta seita, da qual a família real é parte, defende uma interpretação do Islão extraída do pensamento beduíno, iconoclasta e anti-histórica. Até Riade dispor de petro-dólares, ela lançava anátemas às escolas muçulmanas tradicionais que, por sua vez, a consideravam como herética.

Na realidade, a política dos Irmãos e a religião Wahhabista nada têm em comum, mas são compatíveis. Salvo, que o pacto que liga a família dos Saud aos pregadores wahhabistas não pode subsistir com a Irmandade : a ideia de uma monarquia de direito divino esbarra no apetite dos Irmãos pelo Poder. É pois acordado que os Saud apoiarão os Irmãos por todo o mundo, com a condição de estes se absterem de entrar em política na Arábia.

O apoio dos wahhabitas sauditas aos Irmãos provoca uma rivalidade suplementar entre a Arábia e os dois outros Estados wahhabitas que são o Catar e o Emirado de Sharjah.

De 1962 a 1970, os Irmãos Muçulmanos participam na guerra civil do Iémene do Norte e tentam restabelecer a monarquia, ao lado da Arábia Saudita e do Reino Unido, contra os Nacionalistas árabes, o Egipto e a URSS; um conflito que prefigura o que se vai seguir durante meio século.

Em 1970, Gamal Abdel Nasser consegue estabelecer um acordo entre as facções Palestinas e o rei Hussein da Jordânia que põe um fim ao «Setembro Negro». Na noite da Cimeira da Liga Árabe que ratifica o acordo ele morre, oficialmente de ataque cardíaco, muito mais provavelmente assassinado. Nasser tinha três vice-presidentes, um de esquerda –-extremamente popular---, um centrista –-muito famoso---, e um conservador escolhido a pedido dos Estados Unidos e da Arábia Saudita: Anwar al-Sadate. Sujeito a pressões, o vice-presidente de esquerda diz-se incapaz para o cargo. O vice-presidente centrista prefere abandonar a política. Sadate é designado como candidato dos Nasseristas. Este é o drama de muitos países: o Presidente seleciona um Vice-Presidente entre os seus rivais de maneira a alargar a sua base eleitoral, mas este substitui-o quando ele morre e arrasa o seu legado.

Sadate, que havia servido o Reich durante a Segunda Guerra mundial e professa uma grande admiração pelo Führer, é um militar ultra-conservador que servia de alter-ego a Sayyid Qutb como agente de ligação entre a Irmandade e os Oficiais Livres. Logo após a sua ascensão ao Poder, ele liberta os Irmãos presos por Nasser. O «Presidente crente» é um aliado da Irmandade quanto à islamização da sociedade (a «revolução da rectificação»), mas seu rival quando pretende um proveito político. Esta relação ambígua é ilustrada pela criação de três grupos armados, que não são cisões da Irmandade mas unidades externas que lhe obedecem : o Partido da libertação islâmica, a Jiade Islâmica (do Xeque Omar Abdul Rahman) e a Excomunicação e Imigração (o «Takfir»). Todos declarando aplicar as instruções de Sayyid Qutb. Armada pelos serviços secretos, a Jiade Islâmica lança ataques contra os Cristãos coptas. Longe de acalmar a situação, «o Presidente crente» acusa os coptas de sedição e prende o seu Papa e oito dos seus bispos. Por último, Sadate intervêm na condução da Irmandade e toma posição pela Jiade Islâmica contra o Guia-chefe, que ele manda prender [5].

A instruções do Secretário de Estado, Henry Kissinger, ele convence a Síria a juntar-se ao Egipto para atacar Israel e restaurar os direitos dos Palestinianos. Em 6 de Outubro de 1973, os dois exércitos envolvem o país hebreu num movimento de pinça durante a festa do Yom Kippur. O Exército egípcio atravessa o canal do Suez, enquanto o sírio ataca a partir do planalto do Golã. No entanto, Sadate apenas utiliza parcialmente a sua cobertura anti-aérea e manda parar o seu exército a 15 km a Leste do canal, enquanto os Israelitas se precipitam sobre os Sírios, que se veem armadilhados e gritam contra o complô. Só após os reservistas israelitas mobilizados e o Exército sírio cercado pelas tropas de Ariel Sharon, é que Sadate ordena ao seu exército para retomar a progressão, depois pará-lo para negociar um cessar-fogo. Assistindo à traição egípcia, os Soviéticos que já tinham perdido um aliado com a morte de Nasser, ameaçam os Estados Unidos e exigem a paragem imediata dos combates.

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Antigo agente de ligação com Sayyid Qutb entre os «Oficiais Livres» e a Confraria, o «Presidente crente» Anuar al-Sadate devia ser proclamado «sexto califa» pelo Parlamento egípcio. Aqui, este admirador de Adolf Hitler no Knesset ao lado dos seus parceiros Golda Meïr e Shimon Peres.

Quatro anos mais tarde –-prosseguindo o plano da CIA--- o Presidente Sadate vai a Jerusalém e decide assinar uma paz separada com Israel em detrimento dos Palestinianos. Agora, a aliança entre os Irmãos e Israel está selada. Todos os Povos árabes vaiam esta traição e o Egipto é excluído da Liga Árabe, cuja sede é passada para Tunes.

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Responsável do «Aparelho secreto» dos Irmãos Muçulmanos, Ayman al-Zawahiri (actual chefe da Alcaida) organiza o assassinato do Presidente Sadate (6 de Outubro de 1981).

Washington decide virar a página, em 1981. A Jiade Islâmica é encarregue de liquidar Sadate, agora sem interesse. Ele é assassinado durante uma parada militar, quando o Parlamento se aprestava para o proclamar «Sexto Califa». Na tribuna oficial 7 pessoas são mortas e 28 feridas, mas, sentado ao lado do Presidente, o seu Vice-presidente, o General Mubarak, escapa. Prevenido, era a única pessoa na tribuna oficial a usar um colete à prova de bala. Ele sucede ao «Presidente crente» e a Liga Árabe pode agora ser repatriada para o Cairo.

(Continua …)

 

[1] “Sayyid Qutb era franco-maçom”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Junho de 2018.

[2] America’s Great Game: The CIA’s Secret Arabists and the Shaping of the Modern Middle East, Hugh Wilford, Basic Books (2013).

[3] A Mosque in Munich: Nazis, the CIA, and the Rise of the Muslim Brotherhood in the West, Ian Johnson, Houghton Mifflin Harcourt (2010).

[4] Dr. Saoud et Mr. Djihad. La diplomatie religieuse de l’Arabie saoudite, Pierre Conesa, préface d’Hubert Védrine, Robert Laffont (2016). English version: The Saudi Terror Machine: The Truth About Radical Islam and Saudi Arabia Revealed, Skyhorse (2018).

[5] Histoire secrète des Frères musulmans, Chérif Amir, préface d’Alain Chouet, Ellipses (2015).



Ver original na 'Rede Voltaire'



Pós-cristãs, pós-religiosas e pós-partidos políticos – COM OS POVOS ORGANIZADOS AO LEME – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Dizem-nos os sinais dos tempos que as sucessivas gerações do terceiro milénio são gerações maioritariamente pós-cristãs, pós-religiosas e pós-partidos políticos. Por mais que se danem as actuais elites do poder, as gerações do terceiro milénio, mulheres e homens, apresentam-se dispostas a abrir os seus próprios caminhos e a percorrê-los. Nem igrejas, nem partidos políticos lhes interessam mais. São tudo coisas das gerações dos milénios anteriores que trouxeram o mundo para o estado em que ele hoje desgraçadamente se encontra. E que não é um tipo de mundo que se apresente.

O sangue que lhes corre nas veias e o sopro que as faz correr são os da fecundidade e do cuidado, da proximidade, da relação, da ciência, do humano, das práticas políticas, das práticas económicas outras. Sem que o Dinheiro lhes diga o que hão-de fazer. Nascem e vêm ao mundo para o transformar. De selvagem em humano. De humano em fraterno. Por mais que se danem os clérigos e os pastores, os governos e os partidos políticos, as gerações do terceiro milénio nascem determinadas a rasgar os seus próprios caminhos. E todos, felizmente, alternativos. Caminhos ainda não abertos, por isso, ainda não andados. Em que o Ter é gerido pelo Ser. A Política praticada destrona o Poder e derruba todos os seus tronos e palácios. Para dar lugar à Maiêutica.

Tudo o que vem dos milénios anteriores carrega um vírus mortal. Cujo é exactamente, a ideologia-e-a-teologia deísta e ateísta do Poder e dos seus livros sagrados. Encobre a realidade. Mascara-a de mil e uma maneiras. Um planetário Stop a todo este mal estrutural mascarado de bem é o que as gerações nascidas neste terceiro milénio são e fazem. O sopro que as anima faz novas todas as coisas. Elas sabem que o Poder as cerca por todos os lados. A ingenuidade já não anda mais casada com elas. São gerações cultas que se regem pela Ciência e pela Fé de Jesus, sistematicamente ostracizada pelas elites dos milénios anteriores, porque, ao contrário da fé religiosa e cristã, as deslegitima e derruba. Como não é religião praticada, mas política praticada, remete as mulheres e os homens do terceiro milénio para um Deus que nunca ninguém viu. Como tal, nunca pode ser invocado na História. Cuja há-de fazer-se, está a fazer-se, como se Ele não existisse.

Os únicos responsáveis pela História são as sucessivas gerações terceiro milénio. Mais cedo do que tarde, todas elas dão-se conta de que nunca estão sós. São gerações constituídas por mulheres e homens que vemos, e se experimentam ininterruptamente habitados. Potenciados de dentro para fora. Religados entre si. Quanto mais religados, mais capazes de gerir os próprios destinos, os destinos uns dos outros e os destinos do planeta. Sem nenhum tipo de intermediários. Nem de tutores. A maiêutica praticada é o segredo da sua fecundidade e do seu viver desarmado. Nos antípodas da planetária monstruosidade militarizada que são os milénios anteriores. O pleno da demência.

Estes primeiros 19 anos do terceiro milénio são ainda regidos pelas elites dos milénios anteriores. Andam numa roda viva. Sentem o chão fugir-lhes de debaixo dos pés. Quanto mais correm, mas se afundam no abismo. Há o risco de levarem com elas os povos da terra, até agora, todos capachos seus. Sabem-se em vias de extinção e não têm como impedir as gerações do terceiro milénio de se afirmarem em toda a sua originalidade. Cabe a estas destroná-las e ao Poder. Derrubar os seus tronos e palácios. E decapitar a sua ideologia-e-teologia deísta e ateísta.

O enfrentamento é inevitável. E duélico. Mas o terceiro milénio é, tem de ser, das sucessivas gerações que nele nascem e crescem. As elites dos milénios anteriores já não têm mais como fazer parar este processo. Estes dias são de parto. E de dores. É o nascer do mundo da maiêutica e o fim do mundo do Poder. Com os Povos organizados ao leme!

 

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Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/14/fraternizar-pos-cristas-pos-religiosas-e-pos-partidos-politicos-com-os-povos-organizados-ao-leme-por-mario-de-oliveira/

FRATERNIZAR – A pergunta que ninguém ousa formular -IGREJAS: UM BEM OU UM MAL ESTRUTURAL?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Com o terceiro milénio acabado de chegar à maioridade, as igrejas cristãs são hoje olhadas-experimentadas como um Bem ou um Mal estrutural entre os povos? Houve tempos em que a Europa e o Ocidente se orgulhavam das suas raízes cristãs. Os países onde elas estavam plantadas orgulhavam-se de serem outras tantas mátrias-pátrias dos grandes valores morais, das grandes virtudes cristãs, terras de mártires, de heróis e de santos. Até Martinho Lutero, séc. XVI, que introduz no coração da Cristandade o vírus da divisão, reina e impera a igreja católica de Roma, definida pelo imperador Constantino e o seu Credo de Niceia-Constantinopla, como ‘una, santa, católica e apostólica’. As populações, formatadas pelos clérigos, não tinham escolha. Nasciam católicas, viviam católicas, morriam católicas. E nem depois de morrer, deixavam de ser católicas. Ou no céu, onde, desde então, passam o tempo a ver deus e a louvá-lo numa liturgia sem fim. Ou no purgatório, onde as suas ‘almas’ tinham de arder por um espaço de tempo mais ou menos longo até entrarem no céu. Ou a arder no inferno, sem nunca mais poderem de lá sair. De modo que todos os que tenham morrido em pecado mortal, ainda hoje lá estão a arder. Embora já ninguém se lembre deles, à excepção dos que morreram nas fogueiras da Inquisição. Para poderem servir de exemplo e de dissuasão a potenciais ‘dissidentes’.

Para espanto meu, andam agora certos teólogos de renome, entre os quais os meus dois amigos Pe. Anselmo Borges e Frei Bento Domingues, a congratular-se, por, finalmente, o nosso século XXI conhecer um papa cristão, oriundo da Argentina. Onde, devido à sua avançada idade, já estava dado como incapaz de presidir à diocese de Buenos Aires. Mas como também é cardeal, acabou por ser dado como capaz de presidir à diocese imperial de Roma e, por via disso, a toda a igreja católica no mundo!!! E não é que estes meus dois amigos teólogos cantam loas ao papa, sem sequer verem – o fanatismo cristão que mentalmente professam cega-os e de que maneira – que Jorge Mário Bergóglio, para poder ser papa, teve, primeiro, de ser morto como filho de mulher, para, em seu lugar, surgir o papa Francisco, filho do Poder imperial de Roma. E não é que, no seu entender, a grande missão deste papa cristão é fazer cristãos os cardeais, os bispos residenciais e os poucos párocos que teimam em gastar a vida a repetir estéreis ritos, sempre os mesmos?

Vejo, oiço e leio, não posso deixar de me indignar e denunciar-alertar. Os povos têm de saber que Jesus Nazaré, o filho de Maria, não é, nunca foi cristão. E o que mais combate no seu curtíssimo viver político militante, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, no seu país natal é precisamente o mito chamado messias, que na escrita e fala grega de então, se traduz por ‘cristo’. Um mito criado pela casa-dinastia de David-Salomão, a mesma que manda escrever a Bíblia com o objectivo não declarado de justificar todos os seus crimes e todas as suas ambições de dominar os povos do mundo. Um objectivo que o actual Estado de Israel e o seu primeiro-ministro em funções, Benyamin Netanyahou, continuam a buscar por todos os meios, inclusive, os massacres que forem precisos.

A esta luz, ninguém já liberto dos fanatismos religiosos cristãos e católicos, pode dizer que as igrejas actualmente existentes são um bem entre os seres humanos e os povos. Têm todas na sua origem um pecado estrutural. Para serem e se afirmarem, têm de fazer cristãos, a bem ou a mal os nascidos de mulher e com isso matar a originalidade única e irrepetível de cada ser humano. São todas, no lúcido ver-dizer de Jesus Nazaré, aquele tipo de sal estragado que está aí só para corromper a sociedade e, assim, matar a especificidade de cada ser humano e de cada povo. Daí o meu voto neste início de novo ano – Um 2019 sem cristãos. Sem igrejas. Sem sacerdotes. Sem templos nem altares. Sem livros sagrados. Apenas seres humanos e povos maieuticamente religados uns aos outros ao modo dos vasos comunicantes. Sim, porque urge passar da escuridão de milénios à Luz!

 

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https://aviagemdosargonautas.net/2019/01/06/fraternizar-a-pergunta-que-ninguem-ousa-formular-igrejas-um-bem-ou-um-mal-estrutural-por-mario-de-oliveira/

FRATERNIZAR – O QUE ESPERAR DA GERAÇÃO NASCIDA NO ANO 2000? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Depois de dois mil anos de (in)civilização ocidental cristã que tem estado aí só para roubar, matar e destruir os povos e o planeta, a geração nascida no ano 2000 e que completa 19 anos em 2019 apresenta-se disposta a pôr fim a todos estes crimes e pecados institucionalizados. Vistos desde o início do terceiro milénio, estes dois milénios têm tudo de pré-história. Com as minorias privilegiadas ao comando das nações e dos Estados. Conseguem, desse modo, branquear todos os seus crimes e pecados. Que apresentam como outros tantos feitos gloriosos e virtudes heróicas. Condecoram e premeiam os seus mais eficientes carrascos institucionais armados e não armados. E canonizam como santos e mártires os seus clérigos e sacerdotes, frades e monges e casais cristãos ricos que erguem Misericórdias e Hospitais para os pobres produzidos por eles próprios. Dois mil anos de cristianismo são dois mil anos de horrores. Cometidos sob a presidência do papa de Roma, ou Santo Padre. Tudo nomes e títulos pomposos que mais não fazem do que esconder e branquear o absurdo e o horror institucionais.

A geração nascida no ano 2000 completa no próximo ano 19 anos. Confirma-se no estado de maioridade e apresenta-se disposta a pôr fim a toda esta desordem mascarada de ordem, a todo este crime-e-pecado mascarado de heroicidade e de virtude. Basta de crime e de pecado. Cabe à primeira geração do terceiro milénio pôr fim à pré-história que foi a (in)civilização ocidental cristã e iniciar a história dos povos, com todos como sujeitos e protagonistas. Sem religiões e sem igrejas. Sem clérigos e sem pastores. Sem grupos financeiros formatados para liquidar os povos e a Natureza. O novo milénio é , tem de ser, dos povos. Das maiorias empobrecidas e excluídas. Se há criminosos e pecadores são as minorias privilegiadas. As maiorias são as vítimas. Este,porém, é o milénio das vítimas tomarem a palavra. Sem pedirem autorização às minorias que teimam em manter-se ao comando dos Estados criados por elas. Sem perceberem que o seu tempo já passou.

Dois mil anos de cristianismo e de (in)civilização ocidental cristã são demasiado tempo. Tempo demais. Todos os institucionais criados nestes dois mil anos e ainda aí a funcionar em pleno são lixo tóxico que adoece, cega, paralisa e mata os povos. Já não é possível disfarçar mais. Está tudo a rebentar pelas costuras. A implodir. Serviram só para gerar, manter e legitimar as minorias dos privilégios. Mais não são do que corporações inimigas dos povos que ainda se arrogam o direito de os guiar e conduzir. Governam-se, a pretexto de governarem os povos. Só que, ao contrário das gerações anteriores, a primeira geração do terceiro milénio vê esta clamorosa injustiça e apresenta-se determinada a mudar radicalmente o mundo. ‘Para vinho novo, odres novos’, diz a Sabedoria que as minorias privilegiadas logo matam e expulsam da História. Pensam-se livres dela, mas ela, como Sabedoria que é, actua dia e noite, feriados e domingos incluídos, como fermento na massa. É chegada a sua hora. A hora de erguer, imparável, uma nova terra. Com os povos todos religados uns aos outros, ao modo dos vasos comunicantes.

‘Eis que faço novas todas as coisas’, diz o contínuo respirar da geração que no próximo ano completa 19 anos. Dos milénios passados nada se aproveita. Até o objectivamente óptimo depressa se corrompeu e passou a péssimo. É que tudo o que as minorias privilegiadas concebem e tocam apresenta-se movido por um sopro ideológico e teológico que só sabe roubar, matar e destruir. Para um novo milénio, respostas novas. Alegremo-nos. As presentes dores são de parto. Não é o fim. É o começo do mundo finalmente Humano. Com todos os povos, nascidos de mulher, religados entre si. Sem fronteiras nem Estados. Guiemo-nos pelos Sinais dos tempos. São eles a nossa estrada para a realidade. Concretamente, os Povos e a Natureza que vemos. Por isso, ainda antes de Deus que nunca vemos!

N.D.

Como é habitual, JF interrompe a sua regular actividade para uns dias de descanso natalício. Contamos reaparecer em Janeiro 2019, dia 4. Com a Edição 144.

 

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Ver original em 'A Noite dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/12/23/fraternizar-o-que-esperar-da-geracao-nascida-no-ano-2000-por-mario-de-oliveira/

Allahu Akbar!

“A jihad [guerra santa] é o teu dever sob qualquer governante, seja ele ímpio ou devoto” (hadith, geralmente invocado para justificar ataques aos infiéis e apóstatas).

“Deus é grande” não é só o grito selvagem que precede uma carnificina, é a apoteose da demência mística, o sintoma da intoxicação divina pelo mais boçal dos livros sagrados.

Deus podia ter sido uma ideia interessante, mas converteu-se num pesadelo cujo nome, em árabe, remete para o mais implacável dos homólogos que alimentam o proselitismo dos desvairados da fé. Alá consegue ser o pior dos avatares monoteístas.

O islamismo, plágio tosco do judaísmo e do cristianismo, ditado pelo arcanjo Gabriel ao “beduíno analfabeto e amoral”, como lhe chamou Atatürk, ao longo de vinte anos, entre Meca e Medina, deu origem à mais sombria mutação do deus abraâmico.

O islamismo já foi mais tolerante do que o judaísmo e o cristianismo, o primeiro com a única vantagem de não ser prosélito, mas a decadência da civilização árabe transformou o monoteísmo do condutor de camelos no mais implacável e anacrónico dos três, e fonte da raiva e ressentimento contra o Ocidente.

Hoje, o cristianismo, impregnado pelo Renascimento e o Iluminismo, graças à repressão política do clero, é a religião mais pacífica, apesar do aguerrido proselitismo de algumas Igrejas evangélicas e de raras seitas católicas radicais.

O primarismo ideológico da religião, que se fundamenta em cinco pilares pueris e cuja violência seduz cada vez maior número de pessoas, exige vigilância policial e impõe um combate ideológico determinado, sem medo das fatwas e do clero que expele versículos e hadiths nas mesquitas e transmite os alegados ensinamentos do profeta nas madraças.

A Europa, onde progressivamente recruta bandoleiros de deus, deve obrigar ao respeito pelo ethos civilizacional que a moldou e defender a laicidade sem contemplações com a pedofilia, a poligamia, a opressão da mulher e outras taras especialmente islâmicas.

Podem os crentes rezar as 5 orações diárias, urinar em sentido contrário ao das orações, manter o ódio ao toucinho e aos cães, mas não podem atropelar, esfaquear ou explodir infiéis numa demencial orgia mística que lhes assegure a viagem rumo ao Paraíso.

O respeito pelos Direitos Humanos é a exigência comum a todos os homens e mulheres, sem qualquer discriminação, nesta Europa que afrouxa a defesa dos seus valores.

Ponte Europa / Sorumbático

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2018/12/allah-akbar.html

Sobre Saramago e Deus

 
Com a devida vénia transcrevemos a crónica de  Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia, publicada recentemente no DN:                                                                  
O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”. Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.
1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. “Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo — uma coisa é um teólogo e outra um padre — Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro”. Mas na Net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.
2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.
Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer — os crentes também só o são verdadeiramente, se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na Universidade alemã — em todas as Universidades, há duas Faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante —, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.
2. 1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que “só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”.
Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto, muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX, Norbert Lohfink, quando constatou que a Bíblia judaica é “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”.
Como aceitar um deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?
E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da Humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?
Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...
Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.  
Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.
Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?
Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.
Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.
Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...
Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?      
2. 2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores,  do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz.Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: “Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia.”
 Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, “algo que ainda não tinha acontecido”. Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a Humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.
O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser “tratado como gado”: foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.
Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?
Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.
Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus”, acrescentando logo a seguir: “Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar”.
Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. A sua leitura foi unilateral.
3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.
Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.
Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo.  Onde no Evangelho se diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, lê-se em Saramago: “Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez”.
A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário, não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Anti-mal.
De qualquer modo, segundo Saramago, “Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi”, escreveu o teólogo Juan José Tamayo. “Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu”.
4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: Sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram, e Saramago: “Os sinos tocam porque está um teólogo a passar”. E Tamayo retorquiu: “Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”.
 
Anselmo Borges

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/sobre-saramago-e-deus.html

Síria: a paz supõe a condenação internacional da ideologia dos Irmãos Muçulmanos

Enquanto vários projectos de paz na Síria circulam actualmente pelas chancelarias, Thierry Meyssan sublinha a sua inadaptação a este tipo de guerra. Segundo ele, partindo de uma análise truncada do conflito, os que acreditam estar a agir bem vão, não apenas falhar na resolução do problema, mas, sobretudo preparar a via para uma nova guerra. É imperativo tratar prioritariamente a questão ideológica.


 

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A Síria deverá atingir em breve o fim das hostilidades armadas no conjunto do seu território, à excepção de zonas ocupadas pela Turquia e pelos Estados Unidos. A imprensa internacional preocupa-se, agora, com o regresso dos refugiados, com a reconstrução das zonas devastadas, e em impedir o retorno dos jiadistas europeus.

Mas estas questões são secundárias em relação a outras duas.

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No dia a seguir ao 11 de Setembro de 2001, o Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, nomeou o Almirante Arthur K. Cebrowski como Director do Gabinete de Transformação de Forças. Ele ensinou imediatamente a sua doutrina, primeiro aos oficiais generais do Pentágono, depois nas diferentes academias militares. Ele permanece como a principal referência estratégica nos Estados Unidos, mesmo depois da eleição de Donald Trump.

Acabar a guerra

Desde 2001, o Pentágono adoptou a doutrina do Almirante Arthur Cebrowski, Director do Gabinete de Transformação de Forças de Donald Rumsfeld. O objectivo já não é o de capturar para si os recursos naturais, mas, sim de controlar o acesso dos outros a estes recursos. E para isso, é necessário manter indefinidamente um caos que apenas as Forças dos EUA poderão enfrentar. É, segundo a fórmula do Presidente George W. Bush, uma «guerra sem fim», na qual os Estados Unidos, acima de tudo, não devem nem perder, nem ganhar [1].

É assim que a guerra contra a Líbia se eterniza desde há sete anos, a do Iraque vai em 15 anos e a contra o Afeganistão dura há 17 anos. Apesar de todos os belos discursos, nenhum desses países conheceu a paz desde que foi atacado pelo Pentágono.

O mesmo acontecerá com a Síria enquanto os Estados Unidos não tiverem oficialmente abandonado a doutrina Cebrowski. Claro, o Presidente Donald Trump tinha anunciado a sua intenção de acabar com o «imperialismo americano» e regressar a uma forma de «hegemonia». No entanto, apesar dos seus esforços, ele não parece ter sido bem sucedido.

Não está claro se o anúncio feito pelo General James Mattis (Secretário da Defesa) e por Michael Pompeo (Secretário de Estado) sobre a vontade dos EUA em restabelecer a paz no Iémene, dentro de trinta dias, deve ser interpretada como o fim de uma actuação saudita ou como o da doutrina Cebrowski [2].

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Os dois sabres e o Corão formam o logo dos Irmãos Muçulmanos (ao alto, aquando de uma conferência do Presidente egípcio, Mohamed Morsi, e do Guia da Confraria). Este símbolo foi interdito no Egipto após os crimes cometidos em nome desta ideologia, tal como a cruz gamada é proibida na Europa Ocidental e na Rússia após os crimes cometidos em nome do nazismo. Ele foi substituído por um sinal de mão que se vê (aqui, em baixo) a ser orgulhosamente exibido pelo Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan.

Eliminar a ideologia dos jiadistas

Apesar dos acontecimentos na Síria terem sido apresentados como uma guerra civil, trata-se, sem dúvida nenhuma, de um conflito ideológico. Os dois principais slogans das manifestações de 2011 eram :
- «Alá, Síria, liberdade!» (não designando esta última palavra a liberdade política ocidental, antes a liberdade para aplicar a xaria).
- «Os cristãos para Beirute, os alauítas para o cemitério !»

O conflito é muito mais profundo do que se crê. As palavras de ordem iniciais não eram contra à República Árabe Síria, nem contra o seu Presidente Bashar al-Assad, mas, sim contra à própria essência da civilização síria. Tratava-se de por fim a uma sociedade multi-confessional sem equivalente no mundo e de impor um modo de vida conforme com os princípios da Irmandade Muçulmana.

A Síria é um espaço no qual, ao mesmo tempo, todos podem livremente praticar a sua religião e ajudar os outros a praticar a sua. Assim, a Grande Mesquita dos Omíadas de Damasco é um santuário dedicado à relíquia da cabeça de João o Baptista. Durante séculos, todos os dias, sem excepção, judeus [3], cristãos e muçulmanos aí tem orado em conjunto.

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A segunda parte do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos olhos», constitui, até à data, o único estudo sobre a história internacional dos Irmãos Muçulmanos.

Os Irmãos Muçulmanos não são um grupo religioso, antes uma confraria política. Estão organizados dentro do modelo das lojas maçónicas europeias que vários dos seus fundadores frequentaram. Os seus membros militam no seio de diferentes partidos políticos públicos e grupos jiadistas. A totalidade, sem excepção, dos chefes jiadistas, de Osama Bin Laden a Abu Bakr al-Baghdadi, são membros ou antigos membros da Irmandade.

A ideologia dos Irmãos Muçulmanos divide os actos em dois: aqueles que, segundo eles, são autorizados por Deus e aqueles que são proibidos por Ele [4]. Sem cessar, dividem o mundo em dois: os servos e os inimigos de Deus. Finalmente, exaltam aqueles que seguem sua concepção de actos autorizados por Deus e encorajam o massacre dos outros.

Esta ideologia é professada pelos pregadores sauditas (mesmo que actualmente eles condenem a Irmandade e prefiram a família real), tal como pelos governos turco e catari. Os Irmãos estão em acção não só na guerra da Síria, como igualmente por trás de todos os atentados jiadistas cometidos no mundo inteiro.

Assumindo que os Estados Unidos estão prontos para a paz na Síria, esta só é possível se a Assembleia Geral das Nações Unidas, ou, na falta desta, o Conselho de Segurança, condenem explicitamente a ideologia da Irmandade Muçulmana. Como resultado, a paz na Síria simplificaria enormemente a situação na Líbia, no Iraque e no Afeganistão, e contribuiria para o enfraquecimento do terrorismo internacional.

É, portanto, perigoso falar de uma «amnistia geral» quando é necessário expor e julgar os crimes imputáveis a esta ideologia. Da mesma forma que, no fim da Segunda Guerra Mundial, se julgaram os ideólogos e apologistas do nazismo, assim devem ser julgados hoje em dia aqueles que difundiram esta ideologia. E, ao contrário de Nuremberga, deve-se fazê-lo no respeito pelo Estado de Direito, quando lá foram usados textos retroactivos. Entenda-se bem : o que é importante não é condenar os indivíduos, mas, sim compreender uma ideologia para a poder eliminar.

Em 1945, a URSS / Rússia reconstruiu-se em torno de um único facto comum: a luta contra a ideologia racial do nazismo —quer dizer, a afirmação de que todos os homens são iguais e que todas as religiões são dignas de respeito— . Identicamente, a Síria só poderá reconstruir-se em torno da luta contra a ideologia da Irmandade Muçulmana —a afirmação de que todos os homens são iguais e que todas as religiões são dignas de respeito—.

Tendo a Confraria dos Irmãos Muçulmanos beneficiado e beneficiando ainda do apoio do Reino Unido [5], não será possível julgar os seus líderes. Pouco importa, o que conta é denunciar publicamente estas ideias e os crimes aos quais elas levam de forma directa.

Conclusão

Uma guerra termina sempre com vencedores e vencidos. Esta destruiu vidas não apenas na Síria, mas também na França e na Bélgica, na China e na Rússia, e em muitos outros países. A paz na Síria deve, portanto, ser pensada não apenas em função de realidades locais, mas também dos crimes cometidos pelos jiadistas em outros Estados.

Sabendo-se que os 124 auto-proclamados Estados «Amigos da Síria» perderam militarmente, mas que tendo agido por interpostos mercenários raramente sofreram qualquer contratempo militar no seu território, eles não estão prontos para aceitar a sua derrota e buscam, unicamente, dissimular as suas responsabilidades nos crimes cometidos.

Não apenas só haverá paz na Síria se se condenar a ideologia dos Irmãos Muçulmanos, como esta guerra continuará em outros países se tal não for feito.

[1] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.

[2] “James Mattis Remarks at the United States Institute for Peace”, by James Mattis, Voltaire Network, 30 October 2018. “Michael R. Pompeo : Ending the Conflict in Yemen”, by Mike Pompeo, Voltaire Network, 31 October 2018. “Washington quer acabar com a guerra no Iêmene”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 4 de Novembro de 2018.

[3] Depois de 1967, a maior parte dos judeus sírios saíram do país para Israel. No entanto inúmeros visitantes estrangeiros judeus continuam a vir orar na Grande Mesquita.

[4] Ma’alim fi tarîq, Sayyid Qutb, 1964. Version française : Jalons sur la route de l’islam, Sayyid Qutb, Ar-Rissala.

[5] De leitura obrigatória : «Les Printemps arabes vécus par les Frères musulmans», o único estudo actualmente disponível sobre a história internacional da Irmandade. Em Sous nos yeux («Sob os nossos olhos»), por Thierry Meyssan, Demi-Lune 2017.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Fé customizada: Deus ou amigo imaginário? – por Leandro Karnal

O século 19 falava na morte de Deus e o século 20 enfatizou o vazio de sentido. A fé customizada e pouco desafiadora dominou o século 21 ao lado da emersão de uma nuvem tecnológica que paira sobre todos como o espaço intangível da sociabilidade e da existência. Seria um risco fenomenológico classificar a internet como o novo espaço do sagrado e do sentido? Quem seria o homem religioso do mundo líquido? Qual o espaço específico do Cristianismo no “Admirável mundo novo”?

Nesse fragmento do Café Filosófico – Fé Líquida, com Leandro karnal (vídeo na íntegra aqui)  o professor fala da customização da fé, de como Deus é entendido no homem contemporâneo. Assista o vídeo ou leia a transcrição logo abaixo.

O grande fenômeno de hoje não é o esvaziamento das religiões, que vão bem,
obrigado. Não é o fenômeno da morte de Deus que foi superado . O grande
fenômeno atual, com qual eu vou dialogar é a Customização da fé. Se eu disse
que parte da filosofia abandonou a ideia de uma verdade fora do discurso, parte
dos religiosos abandonou a existência de um Deus fora da sua própria biografia.
O que significa isso? parece dominar a anti-kenosis. Ao invés do esvaziamento
humano para o preenchimento da plenitude divina, (vou dialogar aqui
naturalmente com o cristianismo por ser dominante no Brasil) há um esforço da
minha subjetividade me preencher, dos meus desejos, da minha consciência.

Como funciona essa anti kenosis? Se eu quero prosperidade, Deus também
quer. Se eu quero que o meu candidato vença, Deus está ao meu lado. Se eu
quero que os meus inimigos pereçam, Deus abençoa. Deus sempre quer o que
eu quero. Deus nunca me contraria, nunca pensa diferente de mim, nunca realiza
o terceiro dos sete pedidos encontrados no Pai-Nosso: “Seja feita a vossa
vontade, assim na Terra como no céu” .

Essa categoria de Deus mereceria o título de “amigo imaginário” , ou seja, ao
invés de eu pensar no radicalmente outro, no radicalmente oposto a tudo que
existe, eu vou pensar no radicalmente eu, a anti kenosis.

Não estou assumindo o papel dos profetas do Antigo Testamento ou dos
moralistas cristãos, especialmente da Idade moderna. Aponto a incoerência
entre o plano divino e humano, entre o texto sagrado e a minha biografia, ou
como quer Agostinho, entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. O que eu
indico é bem mais grave e é típico de um mundo líquido, de uma fé líquida, de
uma religiosidade contemporânea.

Via canal Saber Filosófico

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/fe-customizada-deus-ou-amigo-imaginario-por-leandro-karnal/

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