Textos de reflexão teórica

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Como a Esquerda Ocidental perdeu o jogo…

IntelNomics in 'O TORNADO' 19 Ago. 2019

Robert Pfaller, um universitário austríaco, põe a nu a miséria teórica e o percurso errante da esquerda “pós-modernista”, numa entrevista muito crítica, tanto da “esquerda de governo” como da “esquerda de contestação”.

 

 

A entrevista tem ainda o curioso (ou nem tanto…) interesse de ser uma iniciativa da agência iraniana ILNA…

 

Postmodernism: The Ideological Embellishment of Neoliberalism

Robert Pfaller interviewed by Kamran Baradaran, via ILNA | Aug.11, 2019

“This is how the left became “cultural” (while, of course, ceasing to be a “left”): from now on the marks of distinction were produced by all kinds of concerns for minorities or subaltern groups. And instead of promoting economic equality and equal rights for all groups, the left now focused on symbolic “recognition” and “visibility” for these groups… Thus not only all economic and social concerns were sacrificed for the sake of sexual and ethnic minorities, but even the sake of these minorities itself. “

Teoria, Esquerdas



A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

Página Global 19 Ago. 2019

 
 
Como país constrói uma economia de mercado regulada. Por manter finanças e moeda sob controle público, investe em infraestrutura, reduz rapidamente a pobreza e resiste a crises. O que esta experiência pode ensinar ao resto do mundo
 
Ellen Brown | Outras Palavras | Tradução: Felipe Calabrez
 
Quando o banco central dos EUA (o Federal Reserve, Fed) cortou as taxas de juros na semana passada, comentaristas ficaram se perguntando sobre o porquê. Segundo dados oficiais, a economia estava se recuperando, o desemprego estava abaixo de 4% e o crescimento do produto interno bruto estava acima de 3%. Pelo raciocínio do próprio Fed, o que se esperaria era, ao contrário, um aumento das taxas.
 
Os especialistas de mercado explicaram tratar-se de uma guerra comercial e de uma guerra cambial. Outros bancos centrais estavam cortando suas taxas, e o Fed teve que segui-los para evitar que o dólar ficasse supervalorizado em relação a outras moedas. A teoria é que um dólar mais barato tornará os produtos norteamericanos mais atraentes nos mercados externos, ajudando as bases industriais e a mão-de-obra do país.
Economia política, China, Teoria



O último Império ocidental?

Página Global 13 Ago. 2019

 
 
The Saker, Unz Review e The Vineyard of the Saker * | Tradução de Vila Mandinga

"Veem as árvores, mas não veem a floresta" é boa metáfora para muitos dos comentários que circulam sobre os últimos vinte e poucos anos pelo planeta. E o período é notável pelo número genuinamente tectônico de mudanças pelas quais passou o sistema internacional.  
 
Tudo começou durante o que chamo de a "Kristallnacht [Noite dos Cristais] da lei internacional", dia 30 de agosto-setembro de 1995, quando o Império atacou os sérvios-bósnios, em direta e total violação dos mais fundamentais princípios do Direito Internacional. Depois foi o 11/9, que deu aos neoconservadores, segundo eles, o "direito" de ameaçar, atacar, bombardear, matar, violar, sequestrar, assassinar, torturar, chantagear e todas as demais práticas para fazer o mal a qualquer pessoa, grupo ou país em todo o planeta, 'porque' "somos a nação indispensável" e "ou você está conosco ou está com os terroristas".
Imperialismo, Teoria, Geoestratégia



[DIEGO FUSARO] A QUARTA GUERRA MUNDIAL

Manuel Banet 10 Ago. 2019

Diego Fusaro2

 

Uma exposição genial e condensada deste jovem filósofo da política italiano, sobre os desafios do século vinte e um.
 
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Teoria, Geoestratégia



Economics and Interdisciplinarity: One Step Forward, N Steps Back

09 Ago. 2019

face capa rccs 119 small325Economia e interdisciplinaridade: um passo em frente, n passos para trás?
Économie et Interdisciplinarité: un pas en avant, n pas en arrière?
Ben Fine
 
Este artigo procede a uma crítica à inovação impulsionada, desde as décadas finais do século xx, como grande projecto das sociedades. O texto apresenta duas contribuições principais para a elucidação do que está em causa nesse empreendimento. A primeira consiste em sustentar que a orientação para a inovação é uma política económica, de carácter neoliberal, que tem como objectivo o aumento da produtividade e dos lucros, através da anexação da ciência e da tecnologia, e abrindo o caminho aos mercados de novos âmbitos do mundo natural e da vida humana. A segunda é sugerir que o projecto da inovação é uma nova manifestação de historicismo, mais propriamente de historicismo tecno-liberal. O texto conclui com a defesa da necessidade de avaliar as políticas da inovação segundo valores adequados para alcançar fins socialmente equitativos e ecologicamente viáveis.
Economia política, Teoria



Economia política para trabalhadores

resistir.info 08 Ago. 2019

– Resenha do livro de Sofia Manzano

por Edmilson Costa [*]

As últimas três décadas foram marcadas pela hegemonia do pensamento único em todas as esferas da vida social, especialmente na área da economia. Retornou-se nesse período a um estatuto teórico do século XVIII fantasiado de modernidade, como o mercado regulador das atividades econômicas, sociais e políticas da humanidade, a retirada do Estado da economia, a desregulamentação financeira e das leis de proteção social, as privatizações do patrimônio público e o estímulo permanente a um individualismo doentio na sociedade.

Esses mitos neoliberais, estimulados diariamente pelos meios de comunicações a serviço do capital, fincaram raízes profundas em vastos setores da população, inclusive entre os trabalhadores. A televisão, o rádio e os jornais transformaram-se em porta-vozes dos segmentos mais reacionários do capital, enquanto os pós-modernos passaram a hegemonizar vários setores da universidade.

... Economia política, Teoria



Marxistas somos todos nós

resistir.info 01 Ago. 2019

por Atílio Bóron [*]

Atílio Bóron.Os trogloditas da direita argentina quiseram desqualificar Axel Kicillof acusando-o de "marxista". Este ataque revela o nível cultural primário dos seus críticos, ignaros quanto à história das ideias e teorias científicas elaboradas ao longo dos séculos.

É óbvio que na sua inépcia desconhecem que Karl Marx produziu uma revolução teórica de enorme alcance na história e nas ciências sociais, equivalente, segundo muitos especialistas, ao que no seu tempo produziu Copérnico no campo da Astronomia.

Por isso hoje, quer o saibamos ou não (e muitos não o sabem) somos todos copernicianos e marxistas, e quem quer que negue essa verdade revela-se como um grosseiro sobrevivente de séculos passados alheado das categorias intelectuais que lhe permitem entender o mundo de hoje.

Copérnico argumentou na sua grande obra, A Revolução das Esferas Celestes, que era o Sol e não a Terra quem ocupava o centro do universo. E, além disso, ao contrário do que sustentava a Astronomia de Ptolomeu, ele descobriu que nosso planeta não era um centro imóvel em torno do qual giravam todos os outros, mas ela mesma se movia e girava. Lembre-se das palavras de Galileu quando os médicos da Inquisição o obrigaram a retratar-se da sua adesão à teoria de Copérnico: "E no entanto ela move-se", sussurrou para os seus censores que ainda estavam enfurecidos com Copérnico mais de um século depois da formulação da sua teoria.

Teoria



A fraqueza da ilusão democrática:  um ensaio político não sentimental

resistir.info 29 Jul. 2019

– O golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro impõem um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas. Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.

por Jones Manoel [*]

'.O ano de 2016 foi emblemático na história política brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT), organização política surgida no bojo da resistência à ditadura empresarial-militar, originalmente com tendências pronunciadamente socialistas, foi despojado da Presidência da República. O PT tem que viver com a amarga experiência de redescobrir a existência da luta de classes, do imperialismo, da não-neutralidade republicana dos aparelhos do Estado etc. Marilena Chaui, lamentavelmente, também teve que lembrar que o maior mal do mundo não reside na "classe média" paulista.

Aparentemente, a burguesia brasileira, em suas diversas frações, não aprendeu o respeito bobbiano às regras do jogo. Já a esquerda pós-comunista, como muitos queriam nos anos 1980 do século XX, aprendeu o "valor da democracia":

Brasil, Teoria, Esquerdas



Descolonizar o saber e o poder

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 17 Jul. 2019

“A continuidade da dominação segrega um senso comum capitalista, racista e sexista que serve as forças de direita, até porque é reproduzido incessantemente por grande parte da opinião publicada e pelas redes sociais”, escreve o sociólogo Boaventura de Sousa Santos


Os conflitos sociais têm ritmos e intensidades que variam consoante as conjunturas. Muitas vezes acirram-se para atingir objectivos que permanecem ocultos ou implícitos nos debates que suscitam. Num período pré-eleitoral em que as opções políticas sejam de espectro limitado os conflitos estruturais são o modo de dramatizar o indramatizável.

Os conflitos estruturais do nosso tempo decorrem da articulação desigual e combinada dos três modos principais de desigualdade estrutural nas sociedades modernas. São eles, capitalismo, colonialismo e patriarcado, ou mais precisamente, hetero-patriarcado. Esta caracterização surpreenderá aqueles que pensam que o colonialismo é coisa de passado, tendo terminado com os processos de independência. Realmente, o que terminou foi uma forma específica de colonialismo — o colonialismo histórico com ocupação territorial estrangeira. Mas o colonialismo continuou até aos nossos dias sob muitas outras formas, entre elas, o

Teoria, Capital, Colonialismo



O enigma da sobrevivência neoliberal

Página Global 13 Jul. 2019

Como um projeto fracassado, social e economicamente, mantém-se há 30 anos? Em parte, devido ao poder de uma minoria ínfima. Mas é preciso encontrar resposta mais profunda – e, em especial, uma saída que convença as maiorias

Robert Kuttner | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins
Desde o final dos anos 1970, vivemos um enorme experimento para testar a afirmação segundo a qual mercados “livres” realmente funcionam bem. Esta ressurreição ocorreu apesar do fracasso do laissez-faire, nos anos 1930, a humilhação consequente da teoria dos mercados “livres” e, em contraste, o sucesso do capitalismo regulado, durante o boom de três décadas do pós-II Guerra.

Quando o crescimento arrefeceu, nos anos 1970, a teoria econômica ultraliberal teve uma nova chance. Ela demonstrou ser muito conveniente para os conservadores, que voltaram ao poder na década seguinte. A contrarrevolução neoliberal, na teoria e na prática, reverteu ou solapou quase todos os aspectos do capitalismo regulado – a tributação progressiva, as transferências de renda em favor do bem-estar, as políticas antitruste, o empoderamento dos trabalhadores e a regulamentação dos bancos e outros grandes setores econômicos.
Economia política, Teoria



Os herdeiros dos austro-marxistas

08 Jul. 2019

por Miguel Urbano Rodrigues

Austromarxistas Está na moda em determinados meios intelectuais a campanha para renovação do marxismo. Sendo o marxismo, na fidelidade ao pensamento de Marx, um sistema que exige permanente renovação para manter as suas potencialidades criadoras, esse debate deveria ser saudado como positivo.

Muitos dos que participam nessa campanha perseguem, entretanto, um objectivo oposto ao enunciado. Na pratica assume um ostensivo caracter anticomunista, sobretudo em países onde existem partidos comunistas com forte implantação entre as massas.

A leitura de textos dessa vaga de «renovadores» europeus e latino-americanos, supostamente empenhados em dar um novo impulso ao marxismo e reformar partidos em que alguns ainda militam, fez-me voltar à leitura de textos que lera na juventude.

As analogias históricas na analise política, erigidas em método, sempre se me afiguraram perigosas. Mas o conhecimento das grandes lutas revolucionarias do inicio do século XX, no quadro em que elas se desenvolveram, bem como as ideias e a personalidade dos protagonistas é indispensável à compreensão do presente.

Teoria



A atualidade de Marx face à financeirização: capital fictício, divida e juro

08 Jul. 2019

por Daniel Vaz de Carvalho
 
O idiotismo do mundo burguês não pode ser melhor descrito do que pelo respeito que a "lógica" do milionário – essa aristocracia de esterqueira – infunde [1] (479)

O banco e o crédito tornam-se o meio mais poderoso para impelir a produção capitalista para além das suas barreiras próprias e um dos veículos mais eficazes das crises e da vigarice (684)

Em defesa das suas falácias a social-democracia declarou Marx desatualizado e quem isto contesta corre o risco de se tornar suspeito de "estalinismo". Marx não esteve nem está desatualizado e se numa sociedade futura análises em "O Capital" poderão não se aplicar, nem por isso o materialismo-dialético deixa de ser válido.

A financeirização, o neoliberalismo, não passa de um abastardamento do liberalismo do século XIX, num processo para salvar o capitalismo das suas insanáveis contradições. As teses de Marx no Livro III, tomo VII, de "O Capital", são uma base fundamental para a compreensão dos processos capitalistas atuais e neste particular as políticas da UE e do euro.

Teoria



Smith, Marx e alienação

08 Jul. 2019

 

por Prabhat Patnaik [*]

Adam Smith, 1723-1790, retratado por Muir. Entre não marxistas há sempre uma tendência a ignorar a especificidade das percepções de Marx no âmago da economia política e reduzi-las, ao invés, a ideias semelhantes mas anteriores que podem ser encontradas em Adam Smith ou David Ricardo. O economista Paul Samuelson exprimiu esta tendência da maneira mais flagrante, se não deliberadamente provocatória, quando se referiu a Marx como um "pós ricardiano menor".

O problema com esta tendência é que ela perde o salto que Marx deu sobre os seus antecessores e portanto interpretou-o muito mal. O caso clássico de tal má interpretação é a teoria de valor de Marx, a qual é erradamente tomada como não diferente daquela de David Ricardo (um erro que conforma a caracterização de Marx feita por Samuelson). Um erro análogo é cometido também quanto à visão de Marx da alienação.

Adam Smith, seria de recordar, enfatizou o significado profundo da divisão do trabalho tanto na sociedade como um todo como também dentro da fábrica. Em relação a esta última, ele deu o famoso exemplo da fábrica de alfinetes onde o trabalho de manufacturar alfinetes era segmentado em numerosas actividades separadas e diferentes trabalhadores eram assinalados a estas diferentes actividades, o que resultava num enorme aumento da produtividade por trabalhador. Smith havia sustentado que tal aumento de produtividade e o rácio no qual o total da força de trabalho era dividido em "trabalhadores improdutivos" (tais como servidores domésticos) e "trabalhadores produtivos" (os quais produziam valor excedente) como os dois factores chave que determinavam o aumento da riqueza das nações.

Teoria



Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"

08 Jul. 2019

Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"

Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"

por Domenico Losurdo [*]

1. O "marxismo ocidental" e a remoção da questão colonial
2. Althusser e a crítica do "humanismo"
3. Da história à "ciência" ou do materialismo ao idealismo, da história mundial ao eurocentrismo
4. O "marxismo ocidental" lê o "marxismo oriental": um equívoco coletivo
5. De Foucault a Negri: a progressiva transfiguração do Império
6. "Marxismo ocidental", "marxismo oriental"
    Referências
    Notas
    Losurdo na TV Boitempo
    Trabalhos de e sobre Losurdo em resistir.info

Domenico Losurdo, 1941-2018.Por muito tempo o "marxismo ocidental" celebrou a sua superioridade em relação ao marxismo dos países que se remetiam ao socialismo e que estavam todos situados no Oriente. Em decorrência dessa atitude arrogante, o marxismo ocidental nunca se empenhou seriamente em repensar a teoria de Marx à luz de um balanço histórico concreto: qual era o papel do Estado e da nação nesses países e no "campo socialista"? Como promover a democracia e os direitos humanos e como estimular o desenvolvimento das forças produtivas e o bem-estar das massas numa situação caracterizada pelo bloqueio capitalista? Ao invés de pôr-se essas questões difíceis, o marxismo ocidental preferiu abandonar-se à cômoda atitude autoconsolatória de quem cultiva em particular as suas utopias e rejeita, como uma contaminação, o contato com a realidade e a reflexão sobre a realidade. Disso derivou uma progressiva capitulação à ideologia dominante. Por fim, a autocelebração do marxismo ocidental desembocou na sua autodissolu...

Teoria



O autismo do marxismo europeu

05 Jul. 2019

O autismo do marxismo europeu

A propósito do Congresso "Actuel Marx" em Paris

por Luciano Vasapollo (entrevista) [*]
Luciano Vasapollo. O Congresso "Marx Internacional IV", organizado pela Actuel Marx , decorreu entre 29 de Setembro e 2 de Outubro último. Nas páginas desta prestigiosa revista apresentou-se nestes últimos anos o debate e as contribuições marxistas europeias. O facto meritório de não haver dado o braço a torcer durante a caça às bruxas desencadeada nos anos noventa não impediu que a reflexão marxista europeia tornasse a cair naquele defeito perfeitamente identificado, já há mais de 30 anos, por Perry Anderson em "O debate no marxismo ocidental". Anderson criticava os marxistas europeus por haverem abandonado a sua relação com o conflito de classes e os movimentos reais e haverem-se refugiado nos aspectos superestruturais e académicos. A definição de Katedhersocialisten não é um anátema e sim algo mais que uma crítica.

Nesta entrevista, Luciano Vasapollo, estudioso marxistas italiano, autor de numerosos trabalhos traduzidos em várias línguas, tem contribuído para reabrir nestes últimos anos um debate sobre questões decisivas como a teoria marxista do valor, o imperialismo ou a centralidade do conflito entre capital e trabalho. Vasapollo participou no congresso de Paris com a apresentação de comunicações em várias secções e numa das sessões plenárias finais. Em mais de uma ocasião enfrentou as demais escolas do marxismo ocidental. Nesta entrevista explica como foram as discussões.

Teoria



Marx e a crise:   os fantasmas, agora, são eles

05 Jul. 2019

por Mauro Luís Iasi [*]
"Marx, hoje, volta a rondar a Europa, os EUA, a Ásia, nossa América Latina. Não somos mais um mero espectro. Somos cada vez mais de carne, osso, sangue e sonhos, enquanto eles se transformam a cada dia em fantasmas."

Túmulo de Marx, em Londres. A atual crise do capitalismo mundial, além das graves consequências que traz para os trabalhadores, acabou por propiciar um efeito direto no debate teórico e acadêmico: uma retomada das ideias de Marx. Por que isso ocorre? Que tipo de previsão foi realizada por Marx que o faz tão maldito, perseguido e tão renitente em nascer e renascer cada vez que o julgam morto em definitivo?

Passamos, nós marxistas, pelas décadas de 1980 e 1990 resistindo no universo acadêmico como se fôssemos dinossauros anacrônicos, insistindo em teses que desmoronam diante das "evidências" pós-modernas, que afirmavam o fim da validade da teoria do valor, o fim da centralidade do trabalho, das classes e, por consequência, das formas organizativas e dos projetos políticos próprios da classe trabalhadora.
Teoria



“Crise do capitalismo”, pós-desenvolvimento, decrescimento: apenas variações semânticas?

Classe Política 30 Jun. 2019

A Areia dos Dias
O período de crise em que vivem as nossas sociedades está a ser particularmente fértil no aparecimento de soluções e alternativas que visam enquadrar o futuro no após crise.  A antropologia social salienta este facto quando se refere à multiplicidade dos discursos da transição (DT) e à necessidade de se proceder a um profundo esclarecimento ontológico já que são as próprias categorias em que aqueles discursos se baseiam que estão em causa[1].
Do ponto de vista da economia e, muito especialmente da economia ecológica e da sustentabilidade, parece-nos que um tal trabalho de análise ontológica e epistemológica é também da maior oportunidade. Especialmente porque, como sabemos, o ensino da economia está a ser objecto de uma análise crítica sem precedentes e a abordagem da pluralidade e do conhecimento do real, que abertamente se defendem, devem ir ao fundo das questões, esclarecendo conceitos e categorias entre distintos pontos de vista.
Não, não estamos só perante variações semânticas:
Teoria



O liberalismo está obsoleto?

Carolina Maria Ruy, em São Paulo in 'O TORNADO' 28 Jun. 2019

“O liberalismo está obsoleto”. Quem disse isso foi ninguém menos que Vladimir Putin, o poderoso presidente da Rússia, para a edição de 28 de junho do jornal inglês Financial Times. Ele disse mais. Em pleno G20 afirmou que a chanceler alemã, Angela Merkel, havia cometido um erro fundamental ao adotar uma política liberal para imigração do Oriente Médio. Merkel autorizou a entrada de mais de um milhão de refugiados na Alemanha, principalmente sírios, fugindo da guerra.

 

Putin disse que “A ideia liberal (…) está em conflito com os interesses de uma maioria esmagadora da população”. Para ilustrar o que seriam esses “interesses da maioria” afirmou que, embora, segundo ele, a Rússia não seja um país marcado pela homofobia, a disposição do Ocidente em abraçar a homossexualidade e a fluidez de gênero são excessivas “num mundo baseado em valores bíblicos”.

Em suma, disse, liberais já “não podem simplesmente ditar qualquer coisa para qualquer um, como vêm tentando fazer ao longo das últimas décadas”. O liberalismo ocidental perdeu espaço devido ao ressentimento com imigração, multiculturalismo e valores seculares.

Teoria



O Marxismo-Leninismo já passou à história?

in 'Alpendre da Lua' 09 Jun. 2019


Ontem, em torno de um enredo que metia gelado e medo, insinuava alguém que o Marxismo-Leninismo tinha acabado, jazia morto e enterrado e fazia-o observando que tinha passado à história. 
Aqui se demonstra o contrário. Está mais presente que nunca:

«Os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens caros, casas e tecnologia, impulsionando-a cada vez mais ao caro endividamento, até que sua dívida se torne insuportável» -Marx, citado por mim

«A dívida pública tornou-se uma das mais enérgicas alavancas da acumulação original. Como com o toque da varinha mágica, reveste o dinheiro improdutivo de poder procriador e transforma-o assim em capital, sem que, para tal, tivesse precisão de se expor às canseiras e riscos inseparáveis da sua aplicação industrial e mesmo usurária. Na realidade, os credores do Estado não dão nada, pois a soma emprestada é transformada em títulos de dívida públicos facilmente negociáveis que, nas mãos deles, continuam a funcionar totalmente como se fossem dinheiro sonante. Mas também (...) a dívida do Estado impulsionou as sociedades por acções, o comércio com títulos negociáveis de toda a espécie, a agiotagem, numa palavra: o jogo da bolsa e a moderna bancocracia.»

Teoria



Dois marxismos?

resistir.info 24 maio 2019

por Greg Godels

O Google sabe que tenho um interesse permanente no marxismo. Consequentemente, recebo links frequentes para artigos que os algoritmos do Google seleccionam como populares ou influentes. Sistematicamente, no topo da lista, estão artigos de ou sobre o irreprimível Slavoj ŽZiZžek. ZiZžek dominou os truques de um intelectual público – divertido, pomposo, escandaloso, calculadamente obscuro e amaneirado. A pose desalinhada e a barba desgrenhada somam-se a uma quase caricatura do professor europeu, a presentear o mundo com grandes ideias profundamente embebidas em camadas de obscurantismo – uma maneira infalível de parecer profundo. E uma maneira infalível de promover o valor comercial do entretenimento.

. Seguidores próximos do "mestre" até postam vídeos de ZiZžek a devorar hot dogs – um em cada mão ! Ele está actualmente a ganhar dinheiro com um debate público com um congénere de direita que é um saco vazio, o qual supostamente torna obscenos os preços dos ingressos. O marxismo como empreendedorismo.

Teoria



Todos os lugares

Ladrões de Bicicletas (Nuno Serra) 06 maio 2019


«Nos anos 1990, Castells (1996) e outros autores defenderam que estava então a ocorrer a emergência de uma geografia de fluxos em detrimento da velha geografia dos lugares, no quadro de uma sociedade organizada em rede, potenciada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, mas, também, pela crescente mobilidade de ideias, bens, capitais e pessoas no contexto da globalização das economias e das sociedades. (...) O anúncio, ilustrado com múltiplos exemplos factuais, não constituiu uma verdadeira surpresa. Afinal, a chamada livre circulação dos fatores de produção sempre foi um princípio fundamental das teorias económicas liberais e alcançou uma centralidade particularmente decisiva com o neoliberalismo e a financeirização da economia.
(...)

 

A leitura linear da emergência da geografia dos fluxos em detrimento da geografia dos lugares foi de imediato criticada por diversos autores (p. ex., Smith, 1996; Graham, 1998). Mas a resposta mais clara chegou 20 anos mais tarde e proveio, como sempre, da própria sociedade, ainda que de uma forma para muitos inesperada: a emergência dos movimentos de direita populistas, nacionalistas e xenófobos na Europa e nos EUA, primeiro num número reduzido de países, como a Itália, a França e a Áustria, mas de forma mais generalizada
Teoria



Os conceitos históricos de esquerda e direita

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 04 Abr. 2019

O nazi-fascismo e o neoliberalismo são manifestações inequívocas do capitalismo. 

A alma da quinta coluna é o integralismo. Esse slogan marcou a Editorial Calvino, que publicava livros sobre o socialismo nos anos 1945 e 1946. O mundo acabara de sair da Segunda Guerra Mundial e o trauma da experiência nazi-fascista ainda era forte. O termo “quinta coluna” designava os traidores dos países que estavam na mira do nazi-fascismo. O traidor norueguês Vidkun Abraham Lauritz Jonsson Quisling, um major, se tornou ativo colaborador dos nazistas em seu país no começo do conflito e seu nome ficou associado ao termo.

A ideia de “quinta coluna” surgiu nos anos 1930, na guerra civil espanhola, quando o líder fascista Francisco Franco se preparava para marchar sobre Madri com quatro colunas e o general Queipo de Llano disse: “A quinta-coluna está esperando para saudar-nos dentro da cidade.” Pela primeira vez, o mundo ouvia a palavra fatídica — “quinta-coluna”. Mais à frente, ela ganhou o termo “quisling” como sinônimo. Com o passar do tempo, essas palavras saíram de cena, mas o seu sentido está mais atual do que nunca.

Teoria, Capital



As três ignorâncias contra a democracia

in 'Estátua de Sal' 17 Mar. 2019

(Boaventura Sousa Santos, in Outras Palavras, 15/03/2019)

Escrevi há muito que qualquer sistema de conhecimentos é igualmente um sistema de desconhecimentos. Para onde quer que se orientem os objetivos, os instrumentos e as metodologias para conhecer uma dada realidade, nunca se conhece tudo a respeito dela e fica igualmente por conhecer qualquer outra realidade distinta da que tivemos por objetivo conhecer. Por isso, e como bem viu Nicolau de Cusa, quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos. Mas mesmo o conhecimento que temos da realidade que julgamos conhecer não é o único existente e pode rivalizar com muitos outros, eventualmente mais correntes ou difundidos. Dois exemplos ajudam. Numa escola diversa em termos étnico-culturais, o professor ensina que a terra urbana ou rural é um bem imóvel que pertence ao seu proprietário e que este, em geral, pode dispor dela como quiser.

Uma jovem indígena levanta o braço, perplexa, e exclama: “professor, na minha comunidade a terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra”. Para esta jovem, a terra é Mãe Terra, fonte de vida, origem de tudo o que somos. É, por isso, indisponível. Durante um processo eleitoral numa dada circunscrição de uma cidade europeia, onde é majoritária a população roma (vulgo, cigana), as seções de voto identificam individualmente os eleitores recenseados. No dia das eleições, a comunidade roma apresenta-se em bloco nos lugares de votação reivindicando que o seu voto é coletivo porque coletiva foi a deliberação de votar num certo sentido ou candidato. Para os roma não existem vontades políticas individuais autônomas em relação às do clã ou família. Estes dois exemplos mostram que estamos em presença de duas concepções de natureza (e propriedade), num caso, e de duas concepções de democracia, no outro.

Comunicação, Memória, Teoria



Os perigos do presentismo

Rui Bebiano in «A Terceira Noite' 22 Fev. 2019


O presentismo é uma categoria de análise do tempo, criada pelo historiador francês François Hartog, segundo a qual passado e presente desaparecem como referentes da experiência humana, seja esta pessoal ou coletiva, dado passarem a valer apenas pela forma como são compreendidos no momento. Nestas condições, o próprio futuro desvincula-se de toda a construção utópica, sendo visto como mais do mesmo e deixando de suscitar esperança nos indivíduos e nas comunidades. Resta única e exclusivamente o presente como instância de orientação no tempo: tudo é apresentado como se passado e futuro fossem realidades incertas, que não têm lições a dar-nos, nem projetam a nossa vida para horizontes de progresso. Para os presentistas, vivemos um eterno presente e só este é real.

Dizer isto na atualidade parece um paradoxo, pois na aparência fala-se muito, como nunca se falou, do passado e do futuro. Todavia, eles não são apresentados como diferentes do mundo em que vivemos, surgindo antes como algo que hoje apenas repete o que aconteceu ou que antecipa o que pode vir a acontecer, sem que exista uma atitude crítica e uma manifestação de conhecimento em relação a acontecimentos ou a momentos do passado nos quais ocorreu uma viragem profunda. Por exemplo, das revoluções esconde-se muitas vezes a violência, a mudança das atitudes sociais que provocaram, a criação de uma nova ordem política e cultural por elas impostas. Por sua vez, dos projetos para o futuro desaparece a possibilidade de transformações profundas e duradouras,como se não fossem possíveis os momentos de significativa viragem. Passado,presente e futuro são assim colocados numa linha de continuidade, esquecendo que não é esta, mas sim a mudança profunda e acelerada, e a criação de alternativas, que...

Teoria, 25Abril



A fase predatória do capitalismo

Página Global 21 Fev. 2019

Jorge Figueiredo
Já houve tempo em que o capitalismo era uma força progressista, na medida em que avançava o nível de desenvolvimento das forças produtivas. As empresas então produziam novos bens e serviços que acrescentavam riqueza às sociedades, desenvolvendo-as. Era a fase da ascensão do capitalismo, uma outra era, antes de a queda inexorável das taxas de lucros começar a manifestar-se. 

Hoje isso não é mais assim. Actualmente estamos na fase predatória do capitalismo, que é comandada pelo capital financeiro. O objectivo agora é a apropriação da riqueza existente, criada por outros. Daí a catadupa de fusões e aquisições, OPAs amistosas ou hostis, leverage buy-outs(LBOs) [1] , engenharias financeiras, etc. Nada disso pode aumentar a riqueza de um país. Tais operações significam apenas transferências de riquezas de uns (geralmente muitos) para outros (poucos). É assim que hoje mais de 80% da riqueza mundial é apropriada por 1% da população do planeta. Essa realidade é reconhecida mesmo por entidades que não põem em causa o capitalismo, como a Oxfam 
Economia política, Teoria



Em defesa do marxismo

José Carlos Ruy, em São Paulo in 'O TORNADO' 21 Fev. 2019

A campanha conservadora contra o marxismo é intensa; ela cresceu desde a campanha eleitoral de 2018 e, agora, sob o governo de direita de Jair Bolsonaro, alguns membros do governo federal multiplicam os ataques contra o que chamam de “cultura marxista”, generalisando as acusações contra o pensamento avançado de todos os matizes.

Em relação ao marxismo não há argumentos novos, mas repetem a longa série de inverdades usadas desde os tempos em que Marx e Engels escreviam e atuavam, no século XIX. A violência verbal continua igualmente simplista, repetitiva, e reflete a indigência intelectual dos acusadores.

O marxismo continua sendo, como disse o pensador francês Jean-Paul Sartre, a filosofia insuperável de nosso tempo. Embora simpatizaante, Sartre não foi propriamente marxista mas um existencialista com forte influência da fenomenologia. Mas esteve decididamente envolvido na luta democrática, popular e anti-imperialista de seu tempo.

Sartre tinha razão. O marxismo, como pensamento radical e avançado é, sobretudo num país tão desigual, injusto e autoritário como o Brasil, mais que uma necessidade. É uma exigência ética e moral, científica e política que se impõe aos que se esforçam em entender, explicar e lutar contra as injustiças e a desigualdade extrema entre os homens que há no mundo capitalista.

Teoria, Esquerdas



Ativismo: necessidade e limites

Rui Bebiano in «A Terceira Noite' 29 Jan. 2019

ativismo01Ao privilegiar a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa, o ativismo é absolutamente essencial para que a política não se reduza à teoria ou à intervenção sempre pesada, lenta e burocrática das instituições e dos partidos. E para que não se circunscreva apenas ao momento do voto. Sem ele, em todas e cada uma das suas variantes, a democracia permaneceria sempre incompleta. Sem ele, sem os caminhos que aponta e abre, sem a dose de perturbação necessária que impõe, pouco mudaria. Ou mudaria apenas quando algo de mais avançado estivesse já a revelar-se necessário.

Tenho um respeito muito grande pela intervenção dos homens e das mulheres que fazem dele o eixo das suas vidas. Penso até que a maior parte não tem o reconhecimento devido, sendo muitas vezes política e socialmente marginalizada. Mas isto não me leva a que deixe de criticar o modo como muitas das escolhas que fazem se fecham tantas vezes em combates muito específicos, radicalizando-se rapidamente nas palavras de ordem e metas, e esquecendo que sem a busca de consensos razoáveis entre quem na diferença deseja também a mudança esta não ocorrerá. Sem ela serão reconhecidos dentro do seu pequeno grupo, mas não fora dele.

Teoria



Oito demandas marxistas que podem surpreender

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 20 Jan. 2019

Os críticos de Marx costumam errar sobre o grande pensador socialista. Este texto procura esclarecer seu pensamento.

Existem muitas maneiras de interpretar Marx. Muitas são legítimas. Mas muitas outras procuram se desfazer de Marx ao invocar a retórica anticomunista eco. O ridicularizam como um determinista econômico estéril ou criticam sua análise e previsões como terrivelmente equivocadas.

Marx nem sempre foi correto (quem é?). Mas ele estava correto ou fazia reivindicações defensáveis com mais frequência do que se imagina.

Então, com o objetivo de refutar alguns dos retratos mais impacientes do grande pensador, aqui estão oito demandas que qualquer interpretação confiável de Marx ou do marxismo deveria incluir.

1

Marx simplesmente não dispensou o capitalismo, mas ficou impressionado com ele. Argumentou que foi o sistema mais produtivo que o mundo já viu.

A burguesia, durante seu domínio de poucos séculos, desde a revolução industrial de 1750, criou forças produtivas mais massivas e mais colossais do que todas as gerações precedentes juntas. Sujeição das forças da natureza ao homem, maquinário, aplicação da química à indústria e agricultura, navegação a vapor, ferrovias, telégrafos elétricos, limpeza de continentes inteiros para cultivo, canalização de rios, populações inteiras arrancadas do solo – o século anterior tinha mesmo um pressentimento de que tais forças produtivas dormiam no colo do trabalho social?

Teoria



FRATERNIZAR – Três eleições num só ano – DELEGARMOS, OU DECIDIRMOS RELIGADOS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

joaompmachado in 'A Viagem dos Argonautas' 19 Jan. 2019

 

Bem se pode dizer que 2019 é o ano de todas as eleições. Para o Parlamento europeu. Para o da Região Autónoma da Madeira. Para o Parlamento Nacional. Estamos à porta da terceira dezena de anos do século XXI, mas continuamos com modelos e institucionais de todo o tipo que herdamos de gerações antepassadas. Quando a Política ainda podia influenciar a importante área da Economia-e-Finanças. E o medo do ‘inferno’ continha potenciais prevaricadores. Felizmente, esses tempos, com laivos de Idade Média, já se foram e não voltam mais. E, se voltam, é sob outros nomes e outras máscaras, que não as dos nossos antepassados.

O facto e demasiado óbvio, só não o é para os dirigentes dos múltiplos institucionais do Poder. Agarrados ao ‘osso’ dos privilégios, são incapazes de ceder o lugar às novas gerações. Fazem tudo, isso sim, para as integrar nos velhos institucionais, sem se aperceberem que para gerações novas, institucionais novos. Ou assim, ou os ‘demónios’ de velhos e novos ‘ismos’ entrarão depressa em acção. Ao menos, não culpemos as novas gerações. Culpemos as mais velhas, por não largarem o ‘osso’ dos privilégios e do comando. Esta é a hora de desistirem do leme a favor das gerações recém-chegadas à maioridade e colocarem-se humildemente na posição de discípulos delas. Inclusive, deixar-se surpreender com a sua capacidade de iniciativa, de inovação e de vanguarda.

Juventude, Teoria



A ilusão das elites

in 'Estátua de Sal' 19 Jan. 2019

(António Guerreiro, in Público, 18/01/2019)

Guerreiro

António Guerreiro

A questão das elites, tão apta a alimentar uma indústria do ressentimento, foi convocada há dias pelo Presidente da República, numa frase em que explicitava a sua prática e a sua noção de — chamemos-lhe assim – democracia compassiva. O Presidente limitou-se a pronunciar a palavra “elites” como se fosse o nome de uma evidência, quando na verdade ela arrasta consigo uma problemática interna que não tem um momento de paz: as elites são Deus e o Diabo, o remédio e o veneno.

E podem ser isto tudo para a mesma pessoa, ao mesmo tempo, no mesmo discurso. Na circunstância, Marcelo Rebelo de Sousa, o nosso Presidente termostato, designou as elites como um centro de gravidade que o atrai apenas mediatamente, em contraste com a sua relação imediata (e que já vem de longe, acrescentou ele) com o povo.

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O conceito de elite e uma correspondente teoria das elites têm o seu autor canónico: o sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto (1848-1923). A frase mais citada da sua análise social e histórica dessa categoria plural — “elites” — é aquela em que define a história como “um cemitério de aristocratas”. Ele resumia assim a sua ideia de que aqueles que num determinado momento concentram os privilégios da riqueza, do poder e do prestígio, por posição que lhes foi outorgada ou por terem alcançado o posto mais elevado no seu ramo de actividade, estão condenados à caducidade e a serem substituídos por uma nova elite que, por sua vez, vai ter o mesmo destino, quando já estiver prisioneira dos seus hábitos. A tese central desta teoria é a de que o equilíbrio social é assegurado pela circulação das elites. E a teoria da história que lhe corresponde é a de que esta é movida por uma minoria de homens notáveis, de “génios”. Pareto via esta circulação de minorias como uma prova de vitalidad...

Teoria



Edgar Morin: “É preciso ensinar a compreensão humana”

Pensar Contemporâneo 18 Jan. 2019

Matéria originalmente publicada em Fronteira do Pensamento

Nos acostumamos a acreditar que pensamento e prática são compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo não faz o mundo e vice-versa.

Mas, houve um tempo em que os sábios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matemática, física, arquitetura, pintura, escultura eram matéria-prima do pensamento e da ação.

A revolução industrial veio derrubar a ideia do saber renascentista e, desde o século 19, a especialização foi ganhando força. Porém, sempre haverá quem nos lembre que a vida é produto de um contexto, de um acúmulo de vivências e ideias.

Pense em um filósofo que pegou em armas contra o nazismo para depois empunhar as ferramentas da retórica contra o stalinismo, que reconhece a importância dos saberes dos povos originais sem abrir mão de pensar e repensar a educação formal.

Com mais de 90 anos, o francês Edgar Morin, nascido e criado Edgar Nahoum no início do século 20, é um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo. Com uma gigantesca produção literária, pedagógica e filosófica. Em tempos de radicalismos, Morin é herdeiro do melhor do humanismo francês.

Teoria



A respeito do suposto positivismo de Luiz Carlos Prestes

in ODIARIO.INFO 18 Jan. 2019

É bastante comum a afirmação de que Luiz Carlos Prestes teria sofrido influências positivistas tanto no âmbito familiar quanto na Escola Militar, onde cursou engenharia militar. Neste artigo são apresentados factos e argumentos que desmentem tal afirmação, feita muitas vezes com o objetivo de denegrir a imagem de Prestes, de pôr em causa a sua adesão às ideias de Marx, Engels e Lénine.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

                

Leia original aqui

Teoria



Rosa Luxemburgo, mais atual que nunca?

Página Global 17 Jan. 2019

Tamme de Boer, You Played Yourself, 2012
Em tempos de ultra-capitalismo, três de suas ideias destacam-se: só a revolta salvará o planeta; ela poderá partir das periferias do sistema – mas só em democracia as multidões transformarão o mundo e a si mesmas
Michael Löwy | Outras Palavras
Algumas palavras pessoais, a título de introdução. Descobri a Rosa Luxemburgo por volta de 1955, aos 17 anos, graças ao meu amigo Paulo Singer. Paulo explicou-se longamente a teoria do imperialismo, mas o que me atraiu mesmo foram os textos políticos que me passou, a crítica do centralismo, a visão revolucionária e democrática de Rosa Luxemburgo. Aderimos juntos a uma pequena organização “luxemburguista”, a Liga Socialista Independente, da qual também faziam parte Maurício Tragtenberg, Hermínio Sacchetta e, alguns anos depois, os irmãos Sader. Tínhamos um local de reuniões no centro de São Paulo que media 2×5 metros e cuja única ornamentação era um quadro com um desenho que representava Rosa Luxemburgo.
Teoria, Esquerdas



Quem Matou Rosa Luxemburg?

in ODIARIO.INFO 17 Jan. 2019

Passaram em 15 de Janeiro 100 anos sobre o assassínio de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht. Publicamos em sua memória dois textos que recordam o contexto histórico desse crime. E também quanto desse crime se projectou na história futura da Alemanha.

A história política alemã do século passado pode ser lida como o relato de um crime. Um assassínio político que antecipou um genocídio. Mas para isso foi necessário em primeiro lugar esmagar a esperança de uma revolução,.

Em 15 de Janeiro de 1919, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht foram presos no apartamento onde estavam escondidos e levados para a sede da Cavalaria de Guarda dos Freikorps (forças paramilitares) no aristocrático hotel Éden. Conta uma testemunha que Luxemburg colocou alguns livros numa maleta, pensando que a esperava uma nova temporada na cadeia. Poucas horas depois, o capitão Waldemar Pabst comunicava por telefone com o ministro do Exército do Reich, o social-democrata Gustav Noske, para pedir instruções sobre como proceder com tão importantes prisioneiros. Havia dias que a imprensa lançava ameaças e insultos contra “Rosa, a sanguinária”, líder da Liga Spartacus e do recém-fundado Partido Comunista Alemão (KPD).

Memória, Teoria, Alemanha



O mito da sublevação spartaquista

in ODIARIO.INFO 17 Jan. 2019

Logo em 1919, uma Comissão parlamentar de inquérito desmontou a falsidade das acusações que procuravam justificar o assassínio de Rosa Luxemburg e de Karl Liebknecht e a ilegalização do DKP. Mas o relatório foi abafado. E ainda hoje a verdade não é inteiramente reconhecida.

Em 19 de Março de 1919, a Assembleia Constituinte prussiana eleita após a Revolução de Novembro criou a Comissão de Inquérito para Determinar as Causas e Progressão da Agitação em Berlim e outras Zonas da Prússia no Ano de 1919. Nos meses seguintes, os 21 membros da comissão entrevistaram dezenas de testemunhas enquanto percorriam montanhas de documentos. Em Julho de 1919, ficara estabelecido que os comunistas não haviam provocado, e muito menos dirigido, as revoltas de Janeiro. Em vez disso, os chamados delegados revolucionários e a seção de Berlim do Partido Social-Democrata Independente (USPD) eram no essencial os responsáveis por ambos.

Os Delegados revolucionários eram na maioria sindicalistas que desde 1916 vinham tramando nos arsenais de Berlim o derrube da monarquia, e que em 9 de Novembro de 1918 lançaram as massas nas ruas. A maioria dos Delegados Revolucionários eram membros do USPD, mas queriam preservar sua autonomia em relação à direção do partido. Com o desencadeamento da revolução, converteram-se em candidatos à disputa do poder em Berlim.

Memória, Teoria, Alemanha



Capitalismo e o espírito naif para a construção do futuro

noreply@blogger.com (grazia tanta) 13 Jan. 2019

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Ver o original em "GRAZIA TANTA" na seguinte ligação:

https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/01/capitalismo-e-o-espirito-naif-para.html

Teoria



Sobre o texto de Domenico Mario Nuti e a propósito de um comentário do Professor Marques Mendes (parte 2/2). Por Júlio Marques Mota

franciscogtavares in 'A Viagem dos Argonautas' 11 Jan. 2019

20181212_MarioNuti

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Sobre o texto de Domenico Mario Nuti e a propósito de um comentário do Professor Marques Mendes (parte 2/2)

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 24 de dezembro de 2018

 

(conclusão)

Curiosamente o Professor Marques Mendes irá ler o texto sobre socialismo apenas para perceber o mistério do encantamento de certas pessoas, como Nuti, como eu, como os que trabalharam no texto, como muitos outros universitários, como muitos milhões de outras pessoas, por ideias que ele considera sem sentido e de resultados comprovadamente errados. Não vai lê-lo, é o que se infere, para procurar saber se as linhas de análise propostas por Nuti podem ser um elemento de referência para descortinar políticas mais justas e mais adequadas à situação de crise que atravessamos. Esta hipótese, ele recusa-a liminarmente.  Não, vai lê-lo para esclarecer o mistério, o mistério de gente de interesse se interessar por coisas sem interesse.

Mas curiosamente se os sistemas socialistas presentes ou futuros não têm interesse como objeto de estudo, para Marques Mendes, por considerar serem sistemas que desembocaram e desembocarão sempre em maus resultados, o que hoje se torna também indiscutível é que o sistema que ele não critica, o capitalismo avançado, parece estar a entrar perigosamente em degenerescência. Então, na mesma lógica, não mereceria ser estudado, mas se assim é, o que é que ficaria para estudo, o que é que ficaria para ensinarmos aos nossos estudantes? Nada então.

Teoria



Beleza de Narrativas e Chatice de Realidades

José Mateus in 'O TORNADO' 11 Jan. 2019

Os universos políticos-mediáticos, confrontados com as evoluções das realidades, tendem a produzir “narrativas” para “explicar” e explorar tais evoluções.

Umas vezes, essas “narrativas” são meramente pontuais, de circunstância, e breve desaparecem, mas podem também (embora aconteça menos) tornar-se dominantes e mesmo hegemónicas. O drama acontece quando políticos e ‘opinion makers’ passam a acreditar nas “narrativas” de conveniência que eles próprios inventaram e a tomá-las como palavra sagrada. Está a acontecer agora.

Depois da queda do Muro e do célebre e infeliz “fim da história”, impôs-se a hegemonia de uma “narrativa” criadora das mais líricas ilusões e geradora dos mais perigosos erros. A coisa dizia que as “democracias liberais” (seja lá isso o que for…) eram o supra-sumo da evolução histórica da humanidade e que rapidamente os Estados ainda entregues a partidos únicos (como a China e outros) ou com regimes “musculados” (como a Rússia e outros) iriam, inevitavelmente, evoluir para “democracias liberais.

Teoria



Sobre o texto de Domenico Mario Nuti e a propósito de um comentário do Professor Marques Mendes (parte 1/2). Por Júlio Marques Mota

franciscogtavares in 'A Viagem dos Argonautas' 10 Jan. 2019

20181212_MarioNuti

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Sobre o texto de Domenico Mario Nuti e a propósito de um comentário do Professor Marques Mendes (parte 1/2)

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 24 de dezembro de 2018

Colocámos os textos de Domenico Mario Nuti, intitulados Ascensão e queda do Socialismo e Ascensão, queda e futuro do socialismo numa plataforma eletrónica destinada a Professores universitários.

Face a este texto recebi um comentário do Professor António Marques Mendes, tornado público pelo seu próprio autor:

Irei ler com interesse, não porque espere encontrar algo de novo, mas para tentar perceber o mistério da persistência das ideias socialistas.

Durante mais de um século, o socialismo foi experimentado das mais variadas maneiras e em todo o tipo de países sempre com o mesmo resultado: pobreza e falta de liberdade.

O mistério para mim é perceber como é que pessoas inteligentes, honestas e sinceras como tu ainda continuam a acreditar nessa utopia”.

Este comentário mereceu-me uma resposta simples, de cortesia até, em que afirmei:

Teoria



QUANDO O EFÉMERO É JULGADO PERMANENTE

in Manuel Banet, ele próprio 30 Dez. 2018

economic crisis

Nesta crónica de final de 2018, gostava de veicular aos meus leitores um pouco da minha estranheza, que se desenvolve a par de uma experiência de vida.

Há muito tempo que venho seguindo os mercados para eu próprio estar prevenido e saber como «tirar as castanhas do lume» a tempo. Embora não tenha uma instrução académica nas ciências económicas, tenho muita facilidade em compreender os seus mecanismos, pois estou preparado em termos conceptuais a pensar o funcionamento de sistemas complexos na biologia. Nesta, não apenas estudamos os mecanismos ao nível dos indivíduos, com as suas complexidades intrínsecas, como também as populações e os ecossistemas, sem a compreensão dos quais a vida dum qualquer organismo será  totalmente indecifrável. 

A analogia sistémica é particularmente apropriada aos sistemas sociais, construídos pela sociedade humana, desde que não se caia numa atitude redutora, ou seja, numa falsificação ideológica da biologia evolutiva, que aliás é comum nos comentaristas de meia-tigela. 

Teoria, Crise



O bicentenário do nascimento de Marx

Página Global 28 Dez. 2018

Socialismo e o ressurgimento da luta de classes internacional
“Nós não dizemos ao mundo: Cessem suas lutas, elas são tolas; nós lhe daremos o verdadeiro lema da luta. Nós meramente mostramos ao mundo pelo que ele está realmente lutando, e consciência é algo que que ele tem de adquirir, mesmo que não queira.” [Karl Marx para Arnold Ruge, Setembro de 1843]
“As armas da crítica não podem, é claro, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se torna uma força material uma vez que se apossa dos homens.” [Contribuição para a crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1844]
“A emancipação do alemão é a emancipação do ser humano. A cabeça dessa emancipação é a filosofia, seu coração é o proletariado. A filosofia não pode se tornar realidade sem a abolição do proletariado, o proletariado não pode ser abolido sem a filosofia ter se tornado uma realidade.” [Contribuição para a crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1844]
Teoria



“ASCENSÃO E QUEDA DO SOCIALISMO” e “ASCENSÃO, QUEDA E FUTURO DO SOCIALISMO” – por Mario Nuti – I (6/6)

franciscogtavares in 'A Viagem dos Argonautas' 21 Dez. 2018

20181212_MarioNuti

 

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Texto I (6/6)

ASCENSÃO E QUEDA DO SOCIALISMO

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Domenico Mario Nuti

(continuação)

 

17. A social-democracia pervertida: globalista, austeritária, desigual

No final dos anos 1990, a queda do muro de Berlim e a vitória, aparentemente definitiva na época, do híperliberalismo, provocaram uma conversão tardia e exagerada da social-democracia ao hiperliberalismo.

Isto aconteceu primeiramente nos países da transição, quer pela parte dos governos de direita como de esquerda, (como já anteriormente vimos), depois na Europa Ocidental sob a liderança do New Labour de Tony Blair e da sua Terceira Via, reproduzida depois sob a liderança de Gerhard Schroeder com a Neue Mitte na Alemanha. Até ao final de 1998, 13 dos 15 membros da UE (com excepção da Irlanda e Espanha), tinham governos de coligação socialdemocrata ou de esquerda; Os sociais-democratas também mantiveram uma posição dominante no Parlamento Europeu que perderam rapidamente em 1999. Uma estratégia semelhante pode ser encontrada nas políticas seguidas pelo presidente Bill Clinton nos Estados Unidos (Meeropol 2000).

Teoria



“ASCENSÃO E QUEDA DO SOCIALISMO” e “ASCENSÃO, QUEDA E FUTURO DO SOCIALISMO” – por Mario Nuti – I (5/6)

franciscogtavares in 'A Viagem dos Argonautas' 20 Dez. 2018

20181212_MarioNuti

 

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Texto I (5/6)

ASCENSÃO E QUEDA DO SOCIALISMO

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Domenico Mario Nuti

(continuação)

15. A transição e o seu fiasco

Não há dúvida de que a transição pós-socialista trouxe a expansão das liberdades políticas e a redução das tensões internacionais. No entanto, ninguém tinha previsto que isso significou também – nas palavras de Ellman (2002b) – “mergulhar dezenas de milhões de pessoas num mundo de conflitos militares, de desigualdade, insegurança, pobreza, desemprego, crime, doença, deterioração dos serviços públicos e abandono forçado das suas casas. Que “o progresso da causa da liberdade individual e nacional à escala global” [prevista por Shtromas 1981] custaria o que foi pago pelas vítimas do conflito armado entre a Arménia e o Azerbaijão, dos conflitos na Moldávia, Geórgia, Tajiquistão, Chechénia, e ex-Jugoslávia, pelas vítimas russas e ucranianas da difteria, tuberculose, sífilis e alcoolismo que se tinham disseminado nestes paises; e pelos pobres na Rússia, Ucrânia, Cazaquistão, Bielorrússia, Lituânia, Roménia e Bulgária… Nem os assuntos internacionais se tornaram mais harmoniosos. O colapso...

Teoria



Anticientismo - Uma entrada do "Dicionário dos Antis"

Carlos Fiolhais in 'De Rerum Natura' 16 Dez. 2018


Uma das minha entradas no "Dicionário dos Antis" (IMPRENSA NACIONAL):
O cientismo ou cientificismo é uma doutrina filosófica que teve origem em França no séc. xix (o termo original é scientisme), que defende o primado, para não dizer mesmo a exclusividade, da ciência empírica na aquisição de conhecimento. Segundo os seus adeptos, nada mais interessa ao entendimento que o ser humano faz do mundo do que as descrições fornecidas pela ciência dos fenómenos naturais. Nos alvores do séc. XXI, sem prejuízo do reconhecimento do papel relevante e, em alguns casos, único da ciência na descoberta do mundo, o cientismo é considerado uma visão dogmática e ultrapassada.
 
A ascensão da ciência deu-se no séc. xvii com a Revolução Científica, cujos nomes cimeiros foram o italiano Galileu Galilei e o inglês Isaac Newton, na física, e o inglês William Harvey, na medicina. No século das luzes, a ciência triunfou ao conseguir descrever o funcionamento do Universo por meio de leis universais: de facto, com a teoria de Newton conseguia-se ao mesmo tempo descrever os movimentos dos astros e dos objetos em queda na superfície da Terra. Apesar de Newton ter sido claramente um teísta, foi um seu seguidor, o matemático e astrónomo francês Pierre-Simon de Laplace, que,
Teoria



“ASCENSÃO E QUEDA DO SOCIALISMO” e “ASCENSÃO, QUEDA E FUTURO DO SOCIALISMO” – por Mario Nuti – I (1/6)

franciscogtavares in 'A Viagem dos Argonautas' 16 Dez. 2018

20181212_MarioNuti

 

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AGRADECIMENTOS

 

O BLOG A VIAGEM DOS ARGONAUTAS AGRADECE À DIRECÃO DE DOC RESEARCH INSTITUTE A SUA AUTORIZACÃO PARA A EDICÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA DO TEXTO ASCENSÃO E QUEDA DO SOCIALISMO.

O BLOG A VIAGEM DOS ARGONAUTAS AGRADECE A DOMENICO MARIO NUTI A SUA CONSTANTE DISPONIBILIDADE PARA NOS ACOMPANHAR AO LONGO DA TRADUÇÃO DOS DOIS TEXTOS AGORA EDITADOS, NO SENTIDO DE CLARIFICAÇÃO DE UM OUTRO PONTO SOBRE O QUAL TIVEMOS ALGUMA DIFICULDADE EM TRANSPOR PARA A LÍNGUA DE CAMÕES EXPRESSÕES DO AUTOR EXPRESSAS NA LÍNGUA DE DANTE OU DE SHAKESPEARE.

POR FIM, AGRADECEMOS A COLABORAÇÃO DE JOAQUIM FEIO E DE FRANCISCO TAVARES PELO EMPENHO NA REVISÃO E NO CUIDADO HAVIDO PARA A EDIÇÃO DOS PRESENTES TEXTOS, BEM COMO DE PEDRO GRANDÃO NA PREPARAÇÃO DA EDIÇÃO DOS MESMOS, SENDO CERTO QUE SE EXISTIREM ERROS OU OMISSÕES SERÃO DA NOSSA INTEIRA RESPONSABILIDADE.

JM

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Teoria



Ensaio sobre o desespero da classe média – III, IV e V

António Fernandes, em Braga in 'O TORNADO' 16 Dez. 2018

O Virar do Século

Com o virar do século a “mãe” de todas as revoluções – a revolução industrial – é confrontada com a necessidade em se modernizar para responder com eficácia às necessidades da nova Ordem Mundial das Sociedades Civilizadas em que o conhecimento cresceu exponencialmente em função dos progressos da Humanidade no domínio de literacia individual necessária ao manuseamento das novas tecnologias e aos equipamentos que as Civilizações foram desenvolvendo, acrescentando sempre mais saber e conhecimento a cada cidadão comum.

Ora, é esta condição, a de o saber, passar a ser comum que, dispensa uma classe intermédia, propiciando um cenário em que a correlação das forças sociais nacionais e internacionais fica fora de controlo com enfoque no Continente Europeu onde as fissuras existentes são já de difícil solução, extinta que está a ser a classe média, em completo desnorte, serve-se de todos os meios que tem ao seu dispor para reagir sem que, em concreto, saiba muito bem contra o quê ou quem.

Teoria



Ensaio sobre o desespero da classe média – I e II

António Fernandes, em Braga in 'O TORNADO' 11 Dez. 2018

Teorias sobre as Origens da Classe Média – I

A classe média é uma distinção social que surge em consequência da necessidade em mediar as rivalidades existentes entre tribos na disputa e defesa de territórios ao tempo da sedentarização, estabelecer a ordem no povoado e o cumprimento dos deveres acordados pelas comunidades, comercializar os produtos excedentes entre os diversos povoados, entre outras funções de intermediação, condição que a torna em uma classe abastada de condição nómada mas possuidora do conhecimento necessário no tempo, o que lhe transmitia capacidade de influência nas chefias tribais e por essa via o poder de mediar.

Esta é uma das várias teorias sobre a origem da classe média primitiva.

Outra teoria é a de que a classe média surge por alturas da idade média, entre a nobreza proprietária das terras e os camponeses que trabalhavam essas terras, para que gerisse o seu património e assim ficar, a nobreza, mais liberta para as parcimónias sociais, mas também, para de se distanciar os famintos e demais miseráveis. A classe média beneficiou desse exercício de poder intermédio e de gestão dos conflitos travando, ou promovendo, a sua eclosão, sendo remunerada de acordo com a função exercida.

Teoria



O declínio de três grandes narrativas

jorge rocha in 'Ventos Semeados' 08 Dez. 2018


Não subscrevo muito do pensamento de Yuval Noah Harari, mas as suas vinte e uma lições para o século XXI apresentam propostas pertinentes, que fazem todo o sentido escalpelizar. Por exemplo aquela com que inicia o ensaio e constata como nós, humanos, valorizamos as histórias que nos contam, em detrimento do que nos revelam os números ou equações facilmente acessíveis à análise. Somos sensíveis a mistificações e dificilmente as sujeitamos ao escrutínio da sua coerência.
Harari sugere uma estruturação da História do século XX em torno de três narrativas, que nela terão desempenhado importância maior: a fascista, a comunista e a liberal.
A Segunda Guerra eliminou a alternativa fascista, apesar de Salazar e Franco terem escapado a tal funeral. O Muro de Berlim terá acabado com a ilusão comunista (e está aqui um dos motivos de divergência com o autor, porque ela constituíra praxis desviante da matriz marxista original). O suposto fim da História, com a triunfante primazia da falácia liberal, que daria livre curso aos mercados, mas também à pluralidade das ideias e dos costumes, ruiu com a falência da Lehamn Brothers em setembro de 2008.
Teoria



Chomsky completa 90 anos mais atual que nunca

Página Global 08 Dez. 2018

Intelectual revolucionou a linguística, denunciou injustiças e se tornou figura de referência para a esquerda mundial. Em seu nonagésimo aniversário, ele diz ver a humanidade na fase mais ameaçadora de sua história.

Os temas com que se ocupa são os que deveriam aparecer, mas nunca aparecem nas capas dos jornais: a crítica à destruição do clima, ao neoliberalismo e à globalização, disse Noam Chomsky cinco anos atrás, no Global Media Forum da Deutsche Welle.

Aos 90 anos, completados nesta sexta-feira (07/12), o intelectual americano continua a lutar por mudanças e pode olhar em retrospecto para três áreas que ajudou significativamente a moldar desde meados do século 20 até os dias de hoje – como linguista, filósofo e ativista político de esquerda.

Avram Noam Chomsky nasceu em 1928 na Filadélfia, numa família de imigrantes judeus. Seu pai era da Ucrânia e fugiu para os Estados Unidos. A mãe vinha de Belarus. Comprometida com o sionismo de esquerda, a família vivia numa espécie de gueto judeu. Aos dez anos de idade, Chomsky escreveu um primeiro artigo sobre a ameaça do fascismo e, na adolescência, começou a se identificar com a política anarquista.
Teoria



Direita, esquerda e Gramsci na cena histórica

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 07 Dez. 2018

É a extrema-direita quem está implementando a dita hegemonia cultural – sobre a qual refletiu Gramsci – com sua indústria de fake news, seu exército neopentecostal, o discurso fácil e maniqueísta contra corrupção, a aliança com elites do aparato repressivo, a mídia e o mercado.

Várias vozes da direita, em diversos tons e conteúdos, atribuem à esquerda um marxismo cultural ou uma revolução gramsciana, termos concebidos por esses críticos como práticas que propiciam conspirações surdas. As novas direitas vêm se levantando contra esse marxismo cultural, que, banalizações pseudo-intelectuais à parte, atribuem, aqui no Brasil, a Gramsci e, nos EUA, à Escola de Frankfurt. Vou me referir apenas ao marxista italiano.

Se deixarmos de lado o viés conspiratório de personalidades bizarras como Olavo de Carvalho e do futuro chanceler Ernesto Araújo, e se tentarmos nos munir do realismo analítico e dos conceitos de Gramsci para entender o processo político brasileiro, quem lançou mão, a qualquer preço, do “gramscismo” tão denunciado pelos conservadores, a não ser eles próprios?

Brasil, Teoria



A colonização vista por Marx e Engels

in ODIARIO.INFO 04 Dez. 2018

Evoluções (e limites) de uma reflexão comum

Remy HerreraEste texto é efectivamente mais longo do que os textos que habitualmente publicamos.

Mas trata-se de um notável ensaio sobre um aspecto particular da investigação e do pensamento de Marx e Engels, e é igualmente uma forma de prosseguir, em odiario.info, a celebração do bicentenário do nascimento de Karl Marx.

Leia original aqui

Teoria



Hegemonia e miséria do “management”

Marco Antonio Gonsales de Oliveira in 'Outras Palavras' 24 Nov. 2018


 Um pilar oculto do domínio neoliberal sustenta: Estado, escola, família e até a vida pessoal devem orientar-se pelas lógicas e éticas das corporações. É uma prisão, mas há rotas de fuga

Por Marco Antonio G. de Oliveira | Imagem: Davide Bonazzi

É comum ouvir que o problema do Brasil é de gestão. No entanto, se há uma área em que grande parte dos seus termos, conceitos e valores foram disseminados a ponto de se incorporarem ao senso comum da sociedade contemporânea, essa área é a da gestão, dos negócios, do business. Há menos de uma semana, em um simpósio de início de semestre organizado por uma universidade de renome da capital paulista, com cursos em diversas áreas como filosofia, direito, fisioterapia, psicologia, entre tantos outros, ouvi, do atual executivo-chefe (não mais reitor), que a educação do futuro é a educação empreendedora, do aluno empreendedor, polivalente, inovador, de atitude e sem medo de assumir responsabilidades. Em suma, ele recitou o conhecido conceito pregado pelos estudiosos e profissionais de gestão de pessoas como determinante para o sucesso dos alunos de todos os cursos da universidade: o famoso conceito CHA (competência, habilidade e atitude).

Teoria



Quebrando os grilhões do condicionamento social

Pensar Contemporâneo 13 Nov. 2018

O que um hooligan, um kamikaze e um racista têm em comum?

Todos eles não usam seu cérebro.

O que quero dizer com “eles não usam o cérebro” é que eles não pensam – ou, para ser mais preciso, não pensam criticamente .

Mas não são apenas eles que não. Na verdade, a maioria das pessoas não é diferente quando se trata disso.

Claro, todos nós temos nossos pensamentos e, ao longo dos anos, formamos certas opiniões. Mas quantas dessas opiniões são apenas crenças resultantes do condicionamento social e quantas delas são baseadas em nosso próprio entendimento? E, claro, sabemos muitas coisas, mas quanto do nosso conhecimento vem da experiência pessoal e quanto do aprendizado de papagaio?

Você vê, desde quase o dia em que nascemos, fomos forçados a não pensar. Pegue a escola , por exemplo – uma instituição que supostamente ajuda as crianças a desenvolver seu intelecto, mas faz exatamente o oposto.

A escola obriga as crianças a ficar confinadas em uma sala de aula por cerca de 8 horas quase todos os dias por um total de (mais ou menos) 12 anos, onde estão aprendendo coisas que não gostam de aprender, sendo forçadas a obedecer a figuras de autoridade. Inquestionavelmente aceitar o que eles estão sendo ensinados, não sendo permitido a liberdade de fazer nada por conta própria, sem pedir permissão primeiro (mesmo para ir fazer xixi).

Teoria



O sujeito oculto: ao vencedor as batatas

in ODIARIO.INFO 13 Nov. 2018

Mauro Luis Iasi * No Brasil, uma questão continua sem resposta: por que não saiu a classe trabalhadora em defesa, primeiro do governo do PT e depois da democracia contra o fascismo? Ou pelo menos, por que não o fez na dimensão e força que poderia?


 

Uma pergunta assombra os cérebros inquietos que procuram compreender o cenário que se abre com a eleição de Bolsonaro: como isso foi possível? É compreensível, uma vez que essas pessoas se pautam pela razão e o bom senso e imaginam que os acontecimentos se definem por uma certa razoabilidade. Infelizmente, o que a história nos comprova é que na luta de classes, como na guerra, a primeira vítima é a razão.

Em um importante documentário de 2003, dirigido por Errol Morris, chamado Sob a névoa da guerra, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, McNamara, afirma exatamente isso: “a racionalidade não nos salvará”. É evidente que qualquer pessoa sensata, diante das alternativas apresentadas, não escolheria alguém que revelasse o despreparo, a barbárie explícita e a evidente idiotia do candidato em questão. Mas não se trata de escolhas movidas pela razão e, por mais que doa constatar, não se trata de pessoas sensatas.

Brasil, Teoria



Imaginar o fim do capitalismo

in 'Estátua de Sal' 09 Nov. 2018

(António Guerreiro, in Público, 09/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

É bem conhecido o paradoxo que o norte-americano Fredric Jameson, nome importante da teoria e crítica da cultura, enunciou há alguns anos: actualmente, é mais fácil para nós imaginarmos o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É significativo que ele tenha utilizado a palavra “imaginar”, já que o colapso do capitalismo foi muitas vezes anunciado como previsão de ciência certa — e outras tantas vezes desmentido — desde Marx até ao pensamento ecologista actual que denuncia a impossibilidade (a “insustentabilidade”, como se diz hoje) do modelo “extractivista”, segundo o qual ele se constrói (e Marx parece não ter pensado nos limites dos recursos naturais quando escreveu: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”).

Uma teoria ecológica mais elaborada e de mais vasto alcance diz que o capitalismo é insustentável do ponto de vista das três ecologias de que falava Félix Guattari: a ecologia natural dos recursos físico-biológicos, a ecologia política das relações sociais (que, como sabemos continua a degradar-se com a exacerbação das desigualdades), a ecologia mental das nossas capacidades “atencionais” (se me é permitido este neologismo um pouco bárbaro), esgotadas quer pelo crescimento dos processos competitivos, quer por uma estimulação incessante por meio das novas tecnologias digitais da informação e da comunicação.

Ambiente, Teoria



Nicolau Maquiavel e a ética do poder político

Pensar Contemporâneo 09 Nov. 2018

“A partir disso, aprendemos que um príncipe sábio faz com que nunca, para atacar alguém, ele se torne o aliado de um príncipe mais poderoso do que ele, exceto quando a necessidade o obriga, como eu disse acima. Se você vencer, você é o poderoso prisioneiro do rei, e os sábios príncipes evitam o máximo que podem no poder de outros homens. ”Nicolau Maquiavel

O nome de Nicolau Maquiavel nos dá a palavra comumente usada “maquiavélica”, que indica um tipo perigoso de astúcia sem escrúpulos. Assim, uma pessoa maquiavélica – o tipo de pessoa que elabora e executa os planos maquiavélicos – é inteligente e intrigante de maneiras profundamente antiéticas.

Maquiavel era um diplomata, funcionário público e teórico do poder político que alcançou proeminência na cidade italiana de Florença na virada do século XVI. Após sua morte em 1527, seu nome se tornou um sinônimo do mal. Ele foi descrito ou mencionado em muitas obras literárias, talvez mais proeminente em sua encarnação como o sinistro Machiavel, cujo discurso de auto-congratulação introduz o livro O judeu de Malta, de Christopher Marlowe (realizado pela primeira vez em 1592). Aqui, Maquiavel se orgulha de sua própria crueldade e amoralidade; Ele alegra que até mesmo aqueles que o odeiam seguem seus conselhos em suas respectivas missões de poder.

Teoria



Breve ensaio sobre a irracionalidade humana

Página Global 06 Nov. 2018

Historiadora norte-americana descreve, em livro, a louca propensão das sociedades a insistir em seus próprios erros, ignorando os fatos “incômodos”. Algo a ver com o Brasil de 2018?

Ladislau Dowbor | Outras Palavras | Imagem: Louise Williams

Resenha de:
The March of Folly: from Troy to Vietnam [“A marcha da Insensatez: de Troia ao Vietnã”]
De Barbara W. Tuchman – Random House, New York, 2014 – 470 p.

_
A minha idade e a minha confiançana racionalidade do ser humano têm evoluído em sentidos inversos. Mas como somos animais sofisticados, quanto mais absurdo o que defendemos, mais argumentos racionais inventamos. E, sobretudo, quando já fomos identificados com uma posição ou atitude política completamente absurda, conseguimos apenas nos aprofundar na burrice. Segundo as sábias palavras de Barbara Tuchman, a propósito de como os norte-americanos foram se afundando no Vietnã, ao custo de imenso sofrimento daquele povo, e desgaste político de quatro sucessivos presidentes, “uma vez que uma política foi adotada e implementada, toda atividade subsequente se transforma num esforço para justificá-la.” (263) Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás, mesmo depois de 4 anos de desastre, não é evidentemente uma coincidência, é a regra. No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de a...
Teoria



20 grandes citações de Cícero

Pensar Contemporâneo 04 Nov. 2018

Marcus Tullius Cicero foi um político, advogado e orador romano que viveu de 106 aC a 43 aC. Ele foi um dos poucos “novos homens” em Roma, significando o primeiro homem de sua família a se tornar senador e obter o mais alto cargo de cônsul. Ficou mais conhecido por parar a Conspiração Catilina, por seus trabalhos filosóficos e sua devoção à República. Cícero foi convidado a integrar a poderosa união política formada por César, Crasso e Pompeu, mas recusou-se e tornou-se oponente de César. As citações seguintes vêm de seus vários escritos, discursos e cartas.

1) “A ignorância é a maior enfermidade do gênero humano.”

2) “Os tempos são ruins. As crianças não mais obedecem aos pais e todos escrevem um livro ”.

3) “Minha refutação seria enquadrada em termos consideravelmente mais fortes se eu não me sentisse inibido pelo fato de que o marido da mulher – desculpe, quero dizer irmão, eu sempre faço esse deslize – ser meu inimigo pessoal.

Teoria



Os perigos da cristalização do pensamento – I

António Fernandes, em Braga in 'O TORNADO' 04 Nov. 2018

O contexto; o enquadramento; a mudança necessária!

A vida tem, em si própria, uma dinâmica constante e implícita de interação com o meio em que o seu ajustamento é sempre imprevisível por muito que se equacionem probabilidades, com maior ou menor precisão técnica e científica em virtude de uma condição elementar: a incerteza no que aos acontecimentos de origem da Ordem Natural, diz respeito.

Ora, é em função desta dinâmica que a vida se movimenta. Num constante auscultar de sensibilidades e limites do existencialismo. Entre a incerteza e a certeza, científica ou outra, da previsão.

A incerteza motiva a necessidade de organização. E esta, exige certezas de precisão nas análises gerais de forma a que no horizonte hajam fundamentadas previsões.

Finitas ou infinitas – consoante as convicções. Mas serão, no momento preciso, as certezas de que o caminho político seguido é o mais adequado ao momento que se vive no tempo e que, o enquadramento dos contextos político e social contemplem.

Teoria



Da importância da música para pastores e domadores

Carlos de Matos Gomes in 'O TORNADO' 28 Out. 2018

A propósito da vitória de Bolsonaro no Brasil, João Miguel Tavares escreveu no Público de 29 de Outubro uma reflexão típica de intelectual clássico sobre a eficácia nula dos intelectuais sobre as massas.

"As elites artísticas, intelectuais e jornalísticas têm de meter na cabeça de uma vez por todas que a sua influência sobre o povo, na hora do voto, é nula. Que os seus poderes de mediação e de persuasão, na era das redes, evaporaram-se de vez. Que ter escritores, comentadores, historiadores, músicos ou jornais a criar vídeos, e manifestos, e hashtags, e editoriais, e o diabo a quatro, onde do alto da sua imensa sabedoria tentam explicar ao povo brasileiro (como já haviam tentado explicar ao povo americano) em quem ele deve votar, é uma ridícula figura, por uma razão muito simples – aquele voto, o voto de dezenas de milhões de brasileiros e de norte-americanos, também é contra nós. Quando eu digo “contra nós” refiro-me a uma elite privilegiada, da qual eu próprio faço parte, e que ao longo dos séculos se convenceu de que a sua missão no mundo era desempenhar o papel social de porta-voz das minorias, dos descontentes, dos pobres, dos oprimidos, e que através desse movimento foi valori...
Teoria, Intelectualidade



Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno

Página Global 24 Out. 2018

Intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de "O pêndulo de Foucault" e "O Nome da Rosa", morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos; "O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis", diz Eco

A Revista Samuel reproduz o texto de Umberto Eco "Ur-Fascismo", produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa:

"O Fascismo Eterno"

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto. 
Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.
Memória, Teoria



O que está acontecendo? Uma onda conservadora?

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 16 Out. 2018

A pesquisa Ibope divulgada na noite de ontem demonstra ampliação da vantagem de Bolsonaro diante do candidato da Frente Democrática, Fernando Haddad.

A rejeição ao candidato do tal PSL estaria na casa de 35% enquanto Haddad passa dos 50%. Um quadro terrível ao nosso campo que não deve servir para desânimo ou prostração. A mim não cabe, Hegel e Kondratiev são bússolas anexas à minha cabeça. A pergunta que todos se fazem: o que está acontecendo? Sei que em alguns anos milhares de dissertações e teses de doutorado irão jorrar das linhas de produção montadas nos moldes americanos enfiados goela abaixo na universidade brasileira. O tema: a “onda conservadora”.

Em Economia Política (principalmente em sua “crítica”) com muito esforço aprendi que quando um fenômeno é tratado como “padrão”, “modelo” ou “milagre” é sinal de que as teorias à disposição do “mercado de ideias” não são capazes nem, utilizando Kant, de explicar o “fenômeno”. Menos ainda adentrar ao seu “nômeno”. Na política é a mesma coisa. Chamar de “onda” algo construído historicamente é preguiça de sentar, estudar e passar horas, dias, meses e anos não somente estudando história, mas aprendendo a observar o fenômeno com visão de “processo histórico”.

Teoria



O Problema da Política Identitária de Direita e de Esquerda

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 16 Out. 2018

Em uma época como esta, em que o processo eleitoral é marcado por um debate acirrado entre as pautas de esquerda e de direita, vale resgatar o artigo de Gilad Atzmon, que trata de como a pauta identitária está relacionada à atentados de extrema direita como o ocorrido em Charlottesville, no estado da Virgínia (EUA), em agosto de 2017. Ele nos dá pistas sobre o que causou o avanço da onda ultra reacinária no Brasil.

No meu recente livro Being in Time – a Post Political Manifesto, ressaltei que o Ocidente e especialmente os EUA têm sido levados na direção de um duelo identitário. Nesta semana no estado da Virgínia (Charlottesville) vimos uma amostra disso.  No livro argumento que a transição política da esquerda tradicional para a neo-esquerda (New Left) pode ser entendida como a defesa feroz de ideologias desagregadoras e sectárias. Enquanto a antiga esquerda esforçou-se para aglutinar todos: gays, negros, judeus ou brancos em uma luta política contra o capital, a neo-esquerda tem conseguido nos dividir em segmentos identitários.

Teoria, Esquerdas



Tempo de autocrítica

Ladrões de Bicicletas (Jorge Bateira) 12 Out. 2018

Lendo estetextode Brian Winter, fica-se com a sensação de que estamos num mundo cada vez mais parecido com os anos trinta. A causa? O capitalismo selvagem de que foram cúmplices, ou agentes directos, os partidos democratas, trabalhistas, social-democratas, socialistas democráticos, ... enfim, todos os que, mesmo dizendo-se de esquerda e executando políticas sociais, quase sempre desgarradas e epidérmicas, nos conduziram até aqui. 
A direita antidemocrática e desumana, a direita que só deseja eliminar quem dela discorda, a direita que se propõe resolver todos os problemas pela força bruta e à margem do direito, essa direita, é a expressão da raiva perante os efeitos da globalização sem freio, a especulação financeira numa espiral de ganância global, a erosão das leis que protegiam o trabalho e garantiam alguma dignidade à vida humana, o financiamento dos partidos pelo mundo dos negócios, as algemas que os Estados se puseram a si mesmos perante uma finança em roda livre, a entrega de boa parte da comunicação social, da saúde, da educação, das pensões a parasitas do Estado, as políticas geradoras do desemprego de massa, a desigualdade escandalosa, o esvaziamento do sentido da vida e a frivolidade promovidos pela moda, a publicidade e o marketing, a precarização e a erosão de tudo o que cria laços de respeito mútuo, e de cuidado pelo outro e pelo bem-comum.
Teoria



O CREPÚSCULO DA INTELIGÊNCIA PÚBLICA NO OCIDENTE

in Manuel Banet, ele próprio 08 Out. 2018

Resultado de imagem para controle des masses

"A ditadura perfeita seria a que tivesse as aparências da 

democracia, uma prisão sem muros, cujos prisioneiros

não sonhassem sequer se escapar. Um sistema de

escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento,

os escravos amassem a sua servidão."

Aldous Huxley 

O Melhor dos Mundos


A minha tese é muito simples:

De maneira deliberada ou não, a civilização ocidental vem produzindo - geração após geração - cidadãos mais ingénuos, incapazes de racionalidade, de raciocínio lógico, de visão clara da realidade.

A falsa informação sobre o 11 de Setembro[1] de 2001, foi talvez o ponto de partida: Um golpe monstruoso dos neocons que precisavam do seu «Pearl Harbour» para ar o golpe final às liberdades nos EUA e transformar o seu regime em tudo o que caracteriza um fascismo, embora guardando aparências de democracia. 

Digo que foi o ponto de partida pois, a partir deste ponto, causaram guerras de agressão, em si mesmas crimes contra a humanidade, sem que houvesse um sobressalto da generalidade do público das «democracias ocidentais», aliadas do Império. 

Teoria



O Capital, 150 anos depois

Ladrões de Bicicletas (Vicente Ferreira) 03 Out. 2018


Em outubro, a cooperativa Cultra organiza dois cursos de leitura d'O Capital de Marx: no Porto nos dias 13 e 14, e em Lisboa nos dias 20 e 21. Aqui fica o texto de apresentação do curso:

"Embora o seu primeiro volume tenha sido publicado em 1867, O Capital já estava a ser preparado por Marx há pelo menos duas décadas. Para decifrar os mistérios da organização económica, Marx propôs uma investigação às raízes do problema – era essa a chave do radicalismo, como defendia numa carta a Kugelmann em julho do mesmo ano. A obra partia, por isso, da análise da mercadoria e da sua troca, passando pelo estudo do valor, do trabalho e da exploração, das relações entre classes, da acumulação de capital e das crises do sistema.

Porque passam agora 150 anos desde a sua publicação, a Cultra organiza um curso de leitura da obra que expõe as contradições ocultas do capitalismo. Neste curso, discutimos ainda outras obras fundamentais de Marx e Engels, percorrendo a história dos conceitos e do método condensados nos três livros d’O Capital.
Teoria



Marx hoje e amanhã

Ladrões de Bicicletas (João Rodrigues) 02 Out. 2018


[A] interdisciplinaridade com que o leitor se depara neste livro não se fica a dever a um especial rasgo de criatividade por parte dos coordenadores. É o alcance e a estrutura da obra de Marx, a unidade dos seus múltiplos saberes que estão, obviamente, na base do carácter interdisciplinar de O Capital de Karl Marx 150 anos depois (…) O mecanismo de exploração capitalista exposto em O Capital, a luta de classes que nele está implicada, o carácter instável do capitalismo, sistema, por natureza, sujeito a crises recorrentes – permanecem elementos essenciais das dinâmicas do capitalismo actual (…) Acresce que o marxismo permanece ainda hoje como referência maior de qualquer visão emancipatória e de qualquer imaginário de uma sociedade pós-capitalista. 

Excertos da introdução, da autoria de Carlos Bastien e de João Vasco Fagundes, os dois corrdenadores desta obra colectiva de referência.
Amanhã, dia 3 de Outubro, terei o prazer de fazer a sua apresentação em
Teoria



Polêmica: Esquerda sem Antígona?

Thiago Canettieri in 'Outras Palavras' 08 Set. 2018

Todas as ferramentas conceituais e experimentais da esquerda estão sujeitas a uma submissão às formas sociais do capital. Os escritos de Adorno e Kurz nunca fizeram tanta falta.

Por Thiago Canettieri

e deixai que os mortos enterrem os seus mortos (Mateus, 8-22)

A peça Antígona, integrante da TrilogiaTebana, escrita por Sófocles[1], é, talvez, uma das mais conhecidas passagens da tragédia grega sobre o luto e a morte.  Quando Creonte, rei de Tebas, entrega o trono a Édipo, que havia derrotado a Esfinge, este também se casa com Jocasta e, com ela, tem quatro filhos: Etéocles, Polinices, Antígona e Ismene. Como se sabe, Édipo havia matado Laio, antecessor de Creonte, seu pai, e se casou com a própria mãe, Jocasta. Ao descobrir tal infortúnio Édipo se cega e pede para ser exilado. Com isso, o trono passa para seus dois filhos homens: Etéocles e Polinices, que prometem revezar no trono. O primogênito, Etéocles, reina primeiro, mas não cumpre a promessa, iniciando uma guerra entre os irmãos que, em batalha, se matam. A maldição de Édipo segue seu curso, mesmo com seu exílio. Assim, Creonte reassume o trono de Tebas que, por sua vez, determina que todas as honras da morte, com sua pompa e circunstância, sejam dadas a Etéocles, enquanto proíbe que Polinices, considerado um traidor, seja sepultado ou receba o fu...

Teoria



Não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno

in ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA 05 Set. 2018



Marisa Matias na abertura do Fórum Socialismo 2018, no debate “A Europa da xenofobia e da austeridade tem futuro?”, que teve lugar a 31 de agosto de 2018:
A social-democracia demitiu-se de uma tarefa fundamental no espaço da UE: evitar a cultura tecnocrática dominante e o esvaziamento da democracia. As recentes declarações de Centeno são uma triste imagem desta realidade.
5 de Setembro, 2018 - 13:45h  Marisa Matias

A Europa da xenofobia e da austeridade tem futuro?”*

Tem. A questão é como evitá-lo.

Não só tem futuro, como tem muitos aliados e cúmplices. Cúmplices nas políticas racistas e xenófobas, que não precisaram de ver a extrema-direita chegar ao poder para se começarem a instalar na União Europeia, na narrativa de descredibilização do sistema político e no esvaziamento democrático da União. Quando a extrema-direita começou a chegar ao poder já lá encontrou as suas políticas. Quem irresponsavelmente acusa os extremos políticos de serem iguais, legitima e naturaliza a extrema-direita como uma alternativa democrática. A tentativa de descredibilizar as forças de esquerda não é mais do que uma preciosa ajuda à extrema-direita.

União Europeia, Teoria, Social-Democracia



Boaventura: Excessos do Judiciário podem levar à destruição do sistema democrático

Página Global 04 Set. 2018

"Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direita, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato", diz sociólogo português
Glauco Faria, da RBA
São Paulo –  "Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do próprio sistema democrático." A avaliação é do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, que aponta os riscos para o Brasil de um cenário no qual não se distinguem os três poderes da República.

Paradoxalmente, aquele que seria o mais autônomo entre eles é quem mais depende do poder político. "Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia", aponta. "Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade."
Brasil, Teoria



Os interesses do “mercado” e os nossos

Róber Iturriet Avila in 'Outras Palavras' 03 Set. 2018

Às vésperas das eleições, aristocracia financeira volta argumentar que seus projetos interessam a toda a sociedade. Até economistas liberais — como David Ricardo (na imagem) —  sabem como este discurso é falso

Por Róber Iturriet Avila

Em tempo de disputa política eleitoral, as narrativas do “interesse geral” são explicitados nas manchetes. O “mercado” — traduzido como sintoma da “economia” — tem suas preferências. O que seria bom para a “economia”? Impõe-se a clarificação de tais conceitos.

Nosso sistema é de economia de mercado: capitalismo. A “economia” envolve preços, lucros, salários, juros, renda, produção, taxa de câmbio, déficit, superávit, exportação, importação, etc. O “mercado” é a instituição em que se articulam os negócios. As relações de oferta e de demanda, os preços, a produção, o consumo, são relações de mercado. Há reconhecidamente, nestas relações, interesses contraditórios. Seja quando se analisa pela ótica consumidor/produtor, seja quando se analisa pela ótica trabalhador/empresário.

Economia política, Teoria



As estruturas elementares do Amor

Marília Moschkovich in 'Outras Palavras' 30 Ago. 2018

Coluna “Mulher Alternativa” reestreia e provoca: e se o Amor, visto como o sentimento mais verdadeiro e inabalável, for essencialmente uma construção ideológica?

Por Marilia Mosckhovicht | Imagem: Holly Roberts, Couple in Love (2006)

O ensaio “Marriage and Love”(Amor e Casamento), de Emma Goldman, publicado em 1902, começa com um questionamento da noção popular de que amor e casamento estão ligados. Essa noção aparece de duas maneiras: quando vemos o casamento como expressão máxima do amor (por exemplo nas ideias de que “casaram-se e foram felizes para sempre…”, ou de que a relação tem que chegar “em algum lugar” e esse lugar é invariavelmente o casamento); ou quando contamos, mais comumente em outros tempos, que mesmo pessoas em casamentos arranjados ou casais que tiveram momentos difíceis “aprenderam a amar um ao outro”. A militante anarquista e feminista segue o texto, e diz:

“Se por um lado é verdade que alguns casamentos são baseados em amor, e igualmente verdade que em alguns casos o amor continua na vida de casados, defendo que isso acontece apesar do casamento – e não por causa dele”

Teoria



composição orgânica do capital

resistir.info 28 Ago. 2018

por JJacques Gouverneur e Marcel Roelandts.acques Gouverneur [*]
e Marcel Roelandts [**]

 

I- Taxa de lucro, Taxa de mais-valia, Composição orgânica do capital. Estados Unidos, 1951-2010

II- Taxa de mais-valia e seus determinantes, Estados Unidos, 1948-2010

III- Composição orgânica do capital e seus determinantes, Estados Unidos, 1951-2010

IV- Salários e produtividade, Estados Unidos

I- Taxa de lucro, Taxa de mais-valia, Composição orgânica do capital. Estados Unidos, 1951-2010

Gr

A taxa de lucro mede a rentabilidade do capital total investido. Ela indica como este último se valoriza e exprime assim o grau de cumprimento da finalidade capitalista. De todas as leis do capitalismo é essa a que Marx considerava como a historicamente mais importante [1] . Suas flutuações nos apresentam duas dinâmicas:

1. Por um lado, as pulsações do curto prazo dos ciclos de acumulação, compostos sucessivamente de um período de alta da taxa de lucro, seguido de uma baixa, e terminando por uma recessão (1954, 1958, 1970, 1974-75, 1980-82, 1991, 2001, 2007-08). São os ciclos econômicos tipicamente estudados por Marx

Economia política, Teoria



30 anos depois

noreply@blogger.com (vítor dias) in "O Tempo das Cerejas" 27 Ago. 2018

Fukuyama um bocadinho atrasado
Francis Fukuyama
adia o fim da história
(artigo a sair no número de 3 de
Setembro da «The New Yorker»)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Teoria



A ditadura do presente, a força do passado

in 'Estátua de Sal' 26 Ago. 2018

(António Guerreiro, in Público, 24/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Deve-se ao historiador francês François Hartog a invenção de um conceito com o qual designa um “regime de historicidade” marcado pelo ditadura do presente — o conceito de presentismo. O presentismo faz com que não consigamos sair do tempo da urgência, do imediato, do horizonte de onde desapareceu qualquer ideia de progresso. Num tempo presentista, a lei fundamental é a da aceleração (e daí o fascínio do nosso tempo pelo fim e pela catástrofe).

A política que hoje vigora exclusivamente é presentista, vive na lógica da reacção e remeteu para o domínio da efabulação encantatória todo o discurso que abre para o futuro. A política não tem tempo e tudo aquilo que precisa de tempo encontra hoje imensas dificuldades para subsistir.

Tudo conspira para que não sejam admitidas as discordâncias dos tempos. Tornando-se presentista, a política nega-se enquanto tal e torna-se gestionária. É verdade que esse problema não começou hoje: o presentismo é o culminar do processo da modernidade, que impôs um novo ritmo temporal que já não é o da maturação lenta e orgânica próprio de outras épocas.

Teoria



A ideologia da classe dominante

in AS PALAVRAS SÃO ARMAS 20 Ago. 2018

A ideologia da classe dominante
Entre a falsa consciência e a consciência do falso.
Como o capital de modo engenhoso pretende convencer-nos, além do mais, que é humano e lindo. 
É tão amplo e concreto o repertório ideológico desenvolvido pela “classe dominante” que as melhores definições têm requerido métodos dinâmicos e instrumentais e muito precisos para caracterizar as suas raízes, efeitos e perspetivas. No objetivo e no subjetivo. Marx escreveu: [30] As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder materialdominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual”. [1. A classe dominante e consciência dominante. Formação da conceção de
Teoria



"Terceira via", cemitério do socialismo democrático

20 Ago. 2018

Alfredo Barroso
Cronista
30/04/2018 in "jornal i"

A "terceira via" de Tony Blair inseriu-se num movimento europeu de convergência ideológica dos partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas em direção a algo que não passa de uma versão atenuada de neoliberalismo


“Quando observamos atentamente a “terceira via”, ela não se parece com um “modelo” mas tão-só com “trabalhos em curso”… Ela nem sequer consegue saber se o seu objectivo é captar o “centro radical” ou é modernizar o “centro esquerda”. Não deveria, pois, espantar-se por ver tantos jovens eleitores situarem-se no “centro direita”!” - Stuart Hall, em “O grande desfile rumo a lado nenhum” (1998)

1. É hoje uma evidência que os partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas europeus, membros da Internacional Socialista (IS), foram contaminados, sobretudo na última década do século XX, pelas ideias veiculadas pela chamada “Terceira Via” - defendidas, sobretudo, por

Partido Socialista, Teoria



Teses ao VI Congresso do PCM: A situação Internacional, contradições interimperiais, a luta da Classe Operária

in ODIARIO.INFO 20 Ago. 2018

Odiario

Leia original aqui

Teoria, México



Uma feminista propõe repensar a esquerda

Redação in 'Outras Palavras' 18 Ago. 2018

Diante do crescimento do populismo de direita em todo o mundo, Nancy Fraser sustenta: há revolta positiva no ar; é preciso dar-lhe sentido

Entrevista a Shray Mehta | Tradução: Inês Castilho

Quando emergem na cena política personagens como Jair Bolsonaro, parte da esquerda tende a uma atitude defensiva. Em face de um perigo corretamente associado ao fascismo e à violência, seria o caso de preservar a normalidade do sistema institucional, e mesmo de convocar alianças em seu favor. A repercussão que o discurso de ódio encontra entre parcelas amplas da sociedade indicaria que é hora de refrear o passo, até que a onda regressiva se esvazie.

Associada a um marxismo heterodoxo, a filósofa e feminista norte-americana Nancy Fraser julga que esta atitude não afastará o perigo — e pode, ao contrário, torná-lo maior. Uma visão particular sobre o chamado “populismo de direita” a faz  pensar assim. As maiorias, crê Fraser, têm boas razões para se revoltar contra a ordem. Ao longo das três últimas décadas, elas foram castigadas, na maior parte dos países, pelo desmonte dos direitos sociais. Em muitos casos, partidos associados à esquerda envolveram-se ativamente neste processo (no Brasil, vale lembrar a adesão do segundo governo Dilma ao “ajuste fiscal” proposto pela direita). Agora, há raiva e rancor. Enxergar os que nutrem estes sentimentos como “fascistas” só agravará o cenário.

Género, Teoria



Sobram Mujica e Che

in 'Estátua de Sal' 17 Ago. 2018

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/08/2018)

daniel2

O “Observador” titulava, na semana passada, que Evo Morales tinha triplicado a sua conta bancária em 12 anos de poder. A triplicação era de 18 para 51 mil euros, facilmente explicável para quem ocupa um cargo que garante as despesas de representação e um exemplo de frugalidade se comparado com a generalidade dos chefes de Estado. Já o vice-presidente duplicou: de dois mil para 3500 euros.

Para além da busca fácil de visualizações na internet, o bombástico anúncio da “triplicação” de rendimentos denuncia uma ideia: a de que um político de esquerda deve empobrecer. Pelo contrário, à direita tudo se permite porque não sendo supostamente moralista o político de direita está livre do julgamento moral e nada tendo contra o capitalismo o seu enriquecimento legal é sempre legítimo.

É por isto que, apesar de Robles não me interessar grandemente, o caso que o envolveu me interessou bastante. Porque a sua demissão, depois de uma pressão púbica e mediática que não deixou outra alternativa a um partido que sempre cavalgou algum moralismo político, institucionaliza esta duplicidade de critérios. Políticos de esquerda buscam uma coerente santidade, os de direita tratam da sua vida.

Teoria



Corbyn e Democracia Económica: além da dicotomia estado-corporações

Nélson Abreu, em Los Angeles in 'O TORNADO' 17 Ago. 2018

Uma leitura cuidadosa da plataforma do Partido Trabalhista (Labour) do Reino Unido (Para Muitos, Não Alguns) revela sementes para um afastamento radical dos modelos cansados ​​do século XX da “esquerda”.

A visão presente não procura simplesmente centralizar o poder no estado, nem promove o domínio corporativo neoliberal com alguma redistribuição.

Em vez disso, exige uma federalização do poder para democratizar o poder económico e político em relação às entidades locais e regionais. Ao promover a criação e retenção de riqueza em nível local, por meio de mecanismos como empresas de propriedade de trabalhadores, o poder é distribuído a partir de grandes monopólios corporativos e políticos.

Corbyn está promovendo políticas como:

  • Levando as grandes empresas de serviços públicos, ferrovias e serviços postais para longe das grandes corporações dirigidas por elites que buscam a renda e que extraem riquezas;
  • Estabelecimento de um fundo de investimento nacional para ajudar a “reconstruir comunidades destruídas pela globalização”, sem pagamentos excessivos de juros para aqueles que não criam valor económico;
Teoria



Eles ainda comem tudo, no presente – II

António Fernandes, em Braga in 'O TORNADO' 17 Ago. 2018

O poder tem destas coisas. “Eles comem tudo eles comem tudo. Eles comem tudo e não deixam nada”. Como o disse e cantou José Afonso.

As sociedades atuais, com suporte tecnológico que dispensa o Homem, poderão ser sociedades de sucesso ou de retrocesso consoante as lideranças que tiverem:

  • Se tiverem lideranças com visão de solidariedade e respeito social. Terão sucesso.
  • Se tiverem lideranças com visão meramente economicista de pendor neoliberal. Terão retrocesso.

O que presumo estar a acontecer é haverem duas frentes em disputa pelas lideranças políticas nacionais:

  • Uma que defende a organização política e social do Estado assente numa maior distribuição da receita comum para a qual todos contribuirão de acordo com os seus rendimentos. Em que o cidadão percebe que, pagando impostos, está a salvaguardar a sua qualidade de vida presente e futura. Mas também percebe que, ao elevar o nível cultural existente, usufruindo de rendimento salarial ou outro compatíveis com o nível de vida balizado por fatores credíveis de satisfação avalizada, as suas ambições serão de sustentáculo ético e solidário para com a sociedade no seu todo e a fasquia dos valores sociais será sempre de um nível elevado para responder em tempo útil a todas as necessidades que cada vez vão serão de grau mais elevado. Em qualidade e eficácia ambientalmente sustentável.
Economia política, Teoria



Relações Internacionais: um olhar marxista

Henrique Paiva in 'Outras Palavras' 09 Ago. 2018

O brasileiro Theotônio dos Santos, que morreu em fevereiro: protagonista do terceiro grande debate sobre Geopolítica e Relações Internacionais, na tradição marxista

Do “Capital” e dos “Grundisse” a Negri, David Harvey e Theotônio dos Santos. Livro de pesquisador brasileiro sistematiza os três grandes debates que marcaram corrente crítica das RIs

Por Henrique Paiva

O mito fundador das Relações Internacionais como ciência é a aporia diante da questão de como evitar uma nova barbárie da dimensão da I Guerra Mundial. O esforço acadêmico para se responder a esse dilema, particularmente nas universidades britânicas e norte-americanas, resultou em teorias mais interessadas em oferecer soluções convenientes para o projeto de poder das grandes potências no pós-guerra do que refletir sobre as fontes reais da instabilidade sistêmica, como, por exemplo, as desigualdades estruturais e crescentes decorrentes do imperialismo.

“Imperialismo, Estado e Relações Internacionais”: em breve, também na livraria virtual de “Outras Palavras”

Teoria



As opções da Res Publica

Rui Mendes in 'Navegando à Bolina' 06 Jul. 2018

A Fundação Res Pública foi fundada pelo Partido Socialista, em 2008, por fusão das anteriores Fundações Antero de Quental e José Fontana. Tem atualmente como seu presidente o euro-deputado Pedro Silva Pereira.
Recebi desta um missiva em que informava que «a formação política da Fundação Res Pública está de volta» e dava conta do programa das sessões que irão decorrer em Outubro e Novembro.
Uma plêiade de académicos irá, nesse período, à Av da República  proferir 16 palestras sobre outros tantos «autores de referência para o pensamento político e económico progressista».
Certamente muitas destas conferências terão interesse seja pela qualidade dos oradores convidados seja pela importância dos autores em análise.
A escolha dos 16 autores procurou ser criteriosa à luz do que a Fundação considera o "pensamento progressista". Dada a natureza da Fundação certamente estes pensadores da economia e da política são considerados como referências essenciais para o ideário atual do Partido Socialista.
Partido Socialista, Teoria



O Velho Marx, pela luta até o fim

Jornal Tornado in 'O TORNADO' 23 Jun. 2018

O livro “O Velho Marx”, do doutor em filosofia e política pela Universidade de Nápoles e professor de teoria sociológica na Universidade de York no Canadá, Marcello Musto, veio para mudar a noção de que em seus últimos anos de vida Karl Marx teria parado de trabalhar. Em entrevista para o PV, o autor conta como, na verdade, Marx nunca saciou a sua própria curiosidade intelectual.

Com uma escrita acessível e de fácil andamento, Musto traz uma analise aprofundada dos feitos de Marx em seus últimos anos de vida. Nos primeiros capítulos, temos uma rápida contextualização do momento vivido na Europa por Marx e sua família; Musto faz um retrato da relação do economista com seus netos, dos quais sentiu muita falta após a mudança da filha e do genro. Revela-se, nessas primeiras páginas, um olhar mais sensível quanto a personalidade de Marx, incluindo as descrições simpáticas feitas por jornalistas que puderam entrevista-lo na época.

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Teoria

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  • Voltaram as Festas do Mar e vale a pena ir ver alguns dos espetáculos.
    A Câmara autopropagandeia-se com elas, claro.
    Na televisão vemos um dos organizadores do evento dizer que as Festas são muito boas para a "vila" (vila é o que a aritocratoburguesia local gosta de chamar a esta terra por estultas razões que estão devidamente caracterizadas) e que não têm nenhuns custos para os munícipes.

    Duvidamos mas ele argumenta que o dinheiro vem das verbas do jogo (Casino) e dos patrocinadores. Claro...
    Voltaram as Festas do Mar e vale a pena ir ver alguns dos espetáculos.
    A Câmara autopropagandeia-se com elas, claro.
    Na televisão vemos um dos organizadores do evento dizer que as Festas são muito boas para a "vila" (vila é o que a aritocratoburguesia local gosta de chamar a esta terra por estultas razões que estão devidamente caracterizadas) e que não têm nenhuns custos para os munícipes.

    Duvidamos mas ele argumenta que o dinheiro vem das verbas do jogo (Casino) e dos patrocinadores. Claro que as verbas do jogo são verbas dos munícipes (não são um 'dinheiro de bolso' para festejos e mais o que alguns queiram) mas, mesmo assim, duvidamos. Seria bom que oposição camarária tentasse (sabemos que é muito difícil conhecer as contas da Câmara) deslindar quanto é que os cascalenses pagam efetivamente por estas Festas.


    Ao ouvir o dito organizador percebia-se que a conversa era de jotinha de carreira (não obrigatoriamente do Carreiras, entenda-se) e fomos ver.

    Bastou googlar para nos aparecer à cabeça que o Dr. Bernardo Barros é um distinto Administrador Executivo da Empresa Municipal "CASCAIS DINÂMICA" (as empresas municipais, em geral, servem para fazer o que a Câmara deixa de fazer porque é mais fácil meter os boys e girls nestas empresas, pagas pelos munícipes, do que na própria Câmara) com um currículo com muitas derivações do seu enlace camarário (do "Americas Cup World Series - Cascais" à "NOVA SBE – Intensive Management Program " passando pelo "Sailors for the Sea Portugal – Presidente" e pela "Escola Superior de Hotelaria do Estoril (ESHTE) – Membro do Conselho Geral").

    Mas o que conta verdadeiramente é que, depois de uns anitos como escuteiro já em 2006 era " Conselheiro Distrital de Lisboa da JSD" e em 2010 passou a "Conselheiro Nacional da JSD"o que, entretanto, lhe permitiu ingressar como " Secretário Político do Vereador na Câmara Municipal de Cascais" até com "representação do Vereador em atos oficiais, visitas diplomáticas e conferências".

    A partir daí foi só subir. Em 2011 já estava na " Comissão Política Distrital de Lisboa do PSD" e logo (2012) passava para "Adjunto do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais" e, simultaneamente, para "Vice-Presidente da Associação de Turismo de Cascais (Associação de direito privado)", seguindo-se, em 2015, o atual lugar de "Administrador Executivo na Cascais Dinâmica" onde organiza as Festas do Mar.

    Nada nos move contra este distintíssimo quadro da esfera camarária cascalense. Provavelmente é uma excelente pessoa e um funcionário exemplar.

    Apenas se lamenta constatar que o poder político/administrativo é cada vez mais feito destas carreiras partidarizadas e clientelares.

    Certamente que há gente competente nos Partidos do velho "Arco da Governação" (os outros ficam de fora obviamente). Mas só há quadros competentes com o cartão destes Partidos ? Não há muita gente competente que não esteja em Partido nenhum ou que opte por outros dos muitos Partidos existentes ?

    É que isto, aqui por Cascais, tresanda.
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