Xenófobia

“Tsunami de xenofobia”. Guterres pede ação para fortalecer imunidade das sociedades ao vírus do ódio

 

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse nesta sexta-feira que a pandemia da covid-19 continua a provocar “um tsunami de ódio e xenofobia”.

O chefe da ONU afirmou que “o sentimento contra estrangeiros aumentou online e nas ruas, as teorias de conspiração anti-semitas espalharam-se, e ocorreram ataques contra muçulmanos relacionados com a covid-19”.

Guterres sublinhou que migrantes e refugiados “foram difamados como fonte do vírus, e depois negaram-lhes acesso a tratamento médico”.

“Com os idosos entre os mais vulneráveis, surgiram memes desprezíveis, sugerindo que também são os mais descartáveis”, alertou. “E jornalistas, denunciantes, profissionais de saúde, trabalhadores humanitários e defensores dos direitos humanos estão a ser alvejados simplesmente por fazerem seu trabalho”.

 
 

O português que preside à ONU apelou a “um esforço total para acabar globalmente com o discurso de ódio”. Num vídeo, de acordo com a Renascença, Guterres salienta que é preciso “fortalecer a imunidade das sociedades ao vírus do ódio“.

https://twitter.com/antonioguterres/status/1258613180030431233?ref_src=twsrc%5Etfw

 

O secretário-geral exortou os líderes políticos a expressarem solidariedadecom todas as pessoas, e as instituições de ensino a concentrarem-se na “alfabetização digital”, num momento em que “os extremistas procuram garantir audiências prisioneiras e potencialmente desesperadas”.

Desafiou os media, sobretudo aqueles com presença nas redes sociais, a “remover o conteúdo racista, misógino e outro que seja prejudicial”, e a sociedade civil a fortalecer o contacto com as pessoas vulneráveis, bem como os líderes religiosos a servirem como “modelos de respeito mútuo”.

“E peço a todos, em todos os lugares, que se levantem contra o ódio, que se tratem com dignidade e aproveitem todas as oportunidades para espalhar bondade”, salientou Guterres.

Sobre a doença, António Guterres sublinhou: “Não se importa com quem somos, onde vivemos, no que acreditamos ou sobre qualquer outra distinção”.

O apelo global para combater o discurso de ódio relacionado com a covid-19 surge após a mensagem de 23 de abril, quando apelidou a pandemia de “uma crise humana que está rapidamente a tornar-se numa crise de direitos humanos”.

Guterres disse então que a pandemia teve “efeitos desproporcionais em certas comunidades, levou ao aumento do discurso de ódio, da segmentação de grupos vulneráveis e dos riscos de opções securitárias que minam a resposta à saúde”.

Com o “crescente etno-nacionalismo, populismo, autoritarismo e retrocesso nos direitos humanos em alguns países, a crise pode fornecer um pretexto para a adoção de medidas repressivas para propósitos não relacionados com a pandemia”, alertou.

Em fevereiro, Guterres fez um apelo à ação de países, empresas e pessoas para ajudar a renovar e reviver os direitos humanos em todo o mundo, estabelecendo um planode sete pontos relacionado com as mudanças climáticas, conflitos e repressão.

A nível global, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 269 mil mortos e infetou mais de 3,8 milhões de pessoas em 195 países e territórios.

ZAP // Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/tsunami-xenofobia-guterres-odio-323345

EUA: Para nacionalistas brancos, Covid-19 veio na hora exata

Relatos de violência e assédio contra asiáticos vêm de todos os lados: sites de extrema-direita e redes sociais estão repletas de mensagens e teorias conspiratórias e racistas, especialmente contra chineses.

 

 

por Scot Nakagawa – The Nation (EUA) | Tradução de Fernando Damasceno

A pandemia de Covid-19 colocou em evidência as debilidades do neoliberalismo, tornando-o repentinamente uma caricatura grotesca. Quem cantava de galo, tomou um grande baque – alto o bastante para evidenciar não somente a desigualdade social nos Estados Unidos, mas também a racial. Enquanto isso, os “haters”, personificados nos Nacionalistas brancos, estão bem atentos ao que se passa. E eles não estão sozinhos. A ala apocalíptica da direita religiosa também aproveita para, a seu modo, decretar o fim dos tempos.

Relatos de violência e assédio contra asiáticos vêm de todos os lados: sites de extrema-direita e redes sociais estão repletas de mensagens e teorias conspiratórias e racistas, especialmente contra chineses. Ressurge o mito do “perigo amarelo” – e com ele o poder do Orientalismo para fazer dos asiáticos alvos fáceis por seus gostos, interesses e cultura. A insistência do presidente Trump em chamar o Covid-19 de “chinês”, embora seja um aceno para sua base eleitoral, acaba se tornando um importante fator aqui, legitimando teorias racistas e conspiratórias da extrema-direita. Essa legitimidade é amplificada quando o governo federal pouco faz diante do aumento de crimes de ódio contra essas comunidades.

Essa é uma aposta alta. Esse nacionalismo branco não é apenas um movimento marginal, guiado por figuras exóticas e foras-da-lei. Eles são bem organizados politicamente e jogaram um papel importante para a eleição do atual presidente norte-americano.

Como resultado, a extrema-direita está mais bem posicionada para exercer influência do que a extrema-esquerda. Somados, os teocráticos cristãos e os nacionalistas brancos são suportados pelas oligarquias conservadoras; eles têm faculdades, escolas de Direito, mídia e, sobretudo, um exército paramilitar muito bem armado. E, desde a vitória de Trump, passaram a fazer parte da coalizão Republicana, influenciando até mesmo parte dos funcionários da Casa Branca.

Para esses grupos, a atual pandemia chegou em um bom momento, pois quando se trata de ocupar espaços, nacionalistas brancos são especialistas. No vácuo do Atentado de Oklahoma, há 25 anos, eles souberam como agir nas sombras. Na ocasião, fizeram excelente uso de tecnologia para criar sofisticados sites que recrutaram, radicalizaram e orientaram politicamente. Quando o sistema político e econômico pareceu frágil, eles souberam usar esses fatores para galvanizar movimentos radicais, chegando até mesmo a incitar revoluções e uma guerra civil.

O assédio e a violência que temos visto contra asiáticos pode ser somente um pequeno terremoto anterior ao tsunami. Quando estamos todos em quarentena, eles estão em plena atividade, arquitetando danos reais à sociedade. Nacionalistas brancos, identificando os chineses citados por Trump como um sinônimo de “globalistas” (uma espécie de atualização para “judeus”), poderiam tranquilamente surgir prontos para ação.

Eu temo que esta pandemia possa se tornar o Incêndio do Reichstag do nosso tempo (nota do tradutor: referência ao acontecimento de 1933 que é tido como crucial para o estabelecimento do nazismo na Alemanha). Pode ser um tipo de evento aterrorizante que sirva como bode expiatório para o domínio de autocratas. Temos visto vários autoritários em ação pelo mundo usando a pandemia para ampliar seus poderes. Aqui nos EUA, Trump falou em nacionalizar indústrias e espera poder usar as medidas contra a Covid-19 para se apresentar como um tipo de “ditador benigno”. Se a direita nacionalista branca surgir ao passo em que a pandemia se esvair, gerando ondas de violência, o autoritarismo se verá livre para crescer.

Ativistas identitários de esquerda nos EUA têm uma certa dose de cinismo em relação à aplicação da lei e a governar. Mas a luta contra o movimento nacionalista branco deveria ser vista como uma luta PELO Estado, e não CONTRA o Estado. Deveríamos fazer da luta contra esses grupos uma bandeira pela responsabilidade e controle policial – não uma espécie de vale-tudo. Se falharmos nisso, temo que o autoritarismo se tornará cada vez maior.


por Scot Nakagawa – The Nation (EUA) | Texto em português do Brasil | Tradução e edição de Fernando Damasceno

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eua-para-nacionalistas-brancos-covid-19-veio-na-hora-exata/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=eua-para-nacionalistas-brancos-covid-19-veio-na-hora-exata

Atriz portuguesa de ascendência chinesa alvo de racismo em Cascais

A artista usou as redes sociais para contar o episódio.

Atriz portuguesa de a

A atriz e modelo portuguesa, de ascendência chinesa, Jani Zhao, foi vítima de um ataque xenófobo em Cascais, devido ao Covid-19, que já infetou 39 pessoas em Portugal. A artista usou as redes sociais para partilhar o episódio que a deixou "petrificada".

"Fui almoçar a uma esplanada de uma praia na Linha de Cascais. Quando estava a arrumar as coisas para me ir embora, aproximou-se uma família (os pais e uma rapariga já crescida agarrada à sua prancha de surf). Enquanto esperavam que saísse, o pai achou por bem mandar uma piada (pareceu-me que não foi com a intenção de a ouvir) relacionada com o Coronavírus. Fiquei petrificada", começou por escrever a artista de 28 anos.

"Só consegui olhar-lhe fixamente nos olhos. Ele percebeu que tinha ouvido. A filha ficou cheia de vergonha. O empregado, de uma simpatia estrondosa, começou a arrumar a mesa e percebeu, provavelmente pela minha cara, que algo se tinha passado. Partilhei que aquela pessoa tinha dito algo ofensivo", continuou.

"O senhor empregado mostrou-se pronto para me defender quando disse que não era necessário. Acho sinceramente que nestas alturas não é com conversa que se vai lá. É um gasto da nossa energia e tempo em vão. A indiferença é a melhor resposta. Por mais que nos custe. O senhor empregado disse prontamente que a mesa estava reservada e disse-me entredentes "assim vão ficar em pé à espera". Sorri e agradeci o gesto e o apoio", acrescentou. Jani Zhao acabou por criticar a postura do agressor. "Há pessoas mal formadas e dão o pior exemplo aos seus filhos. Que triste."

 

 
 
 
 
 
 
 

Veja aqui a notícia

O covid-19, os populismos e os infiltrados nas polícias

Na semana passada contratámos uma pequena empresa de serviços para cuidar da substituição dos roletes de um guarda-fatos, que temos no hall de entrada e cujas portas coincidem com o pé-direito da fração. Não se trataria de assunto para aqui chamado se o carpinteiro não viesse acompanhado da esposa e relações públicas, cuja natureza de marechala pronta para dar ordens ao conjugue depressa me impressionou. E, às tantas, falando com a minha mulher sobre a epídemia, que está em todas as conversas, essa interlocutora saiu-se com uma tirada digna dos mais entusiastas apoiantes do Chega: referindo-se aos chineses, particularmente visados pelo novo vírus disse com satisfação algo do género“tomem lá a ver se gostam!”

 

Lembrei esse episódio ao deparar com a interpretação de Ugo Tramballi, um especialista do Instituto Italiano de Estudos políticos Internacionais, que encara a atual situação com uma preocupação indisfarçável:“Se o vírus for reforçado por uma recessão económica, assistiremos a um crescimento dos populismos e dos nacionalismos, de uma forma ainda mais rápida do que agora.”

 

Num caldo de cultura, que misture perda de rendimentos com a xenofobia pode potenciar-se o crescimento dos novos monstros surgidos das catacumbas nos últimos anos. Até porque, muitos deles, têm estado a infiltrar-se nas polícias de acordo com uma reportagem dedicada a uma clínica situada no Parque das Nações e cuja publicitada especialidade é remover tatuagens comprometedoras da pele de candidatos às nossas forças armadas ou militarizadas. O anúncio, que atrai a clientela diz precisamente isto:“Se o seu objetivo é concorrer para o Exército, GNR, PSP ou Força Aérea e pretende eliminar a sua tatuagem, entre em contacto connosco”.O jornalista que foi ouvir as funcionárias ouviu-lhes relatos sobre a dissipação de tatuagens de conteúdo racista, extremista e partidário, algumas com a cruz suástica, outras com o próprio nome de Hitler.

 

Quando lemos sobre intervenções particularmente musculadas dos polícias no Bairro Jamaica, na Cova da Moura ou na Bela Vista podemos sempre questionar-nos até que ponto os «guardiões da ordem» envolvidos não terão comportado alguns desses infiltrados, disponíveis para atirarem combustível para fogueiras entretanto ateadas.

 

Mas, porque é um fenómeno novo, o Covid-19 também está a sugerir perspetivas de sinal contrário: tendo em conta que a saúde privada nem quer ouvir falar de encargos com esta epidemia voltando a demonstrar quão inútil se revela quando poderia justificar a sua existência, há a antevisão do que pode significar se os Estados Unidos vieram a ser afetados numa dimensão semelhante à da Itália: sem seguros de saúde os eventuais contaminados ver-se-ão abandonados à sua sorte, tornando-se focos difusores da epidemia. A socióloga Nadia Urbinati formula a hipótese de Trump ter no covid-19 o maior obstáculo á reeleição. Porque, de um momento para o outro, os discursos de Bernie Sanders sobre um Serviço Nacional de Saúde replicado dos melhores exemplos europeus - entre os quais citou Portugal - poderá ecoar nos que comprovam a incapacidade da atual Administração para contrariar uma crise sanitária de enorme dimensão...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/o-covid-19-os-populismos-e-os.html

Filme de Carlos Fraga alerta para discriminação de chineses em Portugal

 
 
Um grupo de jovens chineses, residentes em Portugal há vários anos, pediu ao realizador Carlos Fraga para fazer um vídeo com o objectivo de combater a discriminação de que a comunidade chinesa em Portugal está a ser vítima devido ao surto do novo coronavírus.
 
O filme passa-se na zona do Chiado, em Lisboa, onde o grupo de jovens, com máscaras, enverga cartazes que apelam à não discriminação. No final, vários transeuntes dão abraços e apertos de mão, solidários com a acção.
 
Ao HM, Carlos Fraga diz que resolveu dar o seu contributo a esta causa por conhecer de perto vários casos de discriminação. “Falo principalmente de discriminação no trabalho. Alguns estão dispensados do trabalho durante dois ou três meses, quando são pessoas que nasceram cá ou que vivem cá há vários anos. Não há explicação. Não vieram da China, nem estão cá temporariamente. São diversos os empregos que têm, mas trabalham por conta de outrem. Os que têm negócios próprios, como lojas ou restaurantes, também se estão a ressentir seriamente.”
 
COM FÉRIAS E SEM TRABALHO
 
Anting Xiang, uma das promotoras do vídeo, vive em Portugal há vários anos e trabalha numa loja de uma conhecida marca de alta costura na Avenida da Liberdade há cinco anos. Apesar de não ter viajado para a China recentemente, os chefes pediram-lhe para tirar férias durante dois meses assim que começou a crise do coronavírus. Anting acabou por tirar apenas um mês de férias.
 
“Ligaram-me a dizer que podia tirar as férias todas naquele momento. Mas tenho uma amiga que tem uma filha na escola e os colegas não querem aproximar-se dela, dizem-lhe coisas más. Os colegas não se querem aproximar no recreio. Por isso quis fazer este vídeo para dizer às pessoas de todo o mundo para nos dar apoio e para dizer que não somos um vírus”, disse ao HM.
 
A jovem assegura que as lojas na Avenida da Liberdade se ressentiram muito com a falta de turistas chineses. Já Lucas Borges, um colega de trabalho brasileiro, diz ter assistido a muitas cenas na loja, em que clientes estrangeiros evitaram aproximar-se de clientes chineses.
 
Xu Ye, com 23 anos, também participa no vídeo e viu-se obrigado a deixar de trabalhar temporariamente como agente de viagens. Daniela Yin, trabalhadora num escritório de contabilidade, não foi vítima de discriminação, pois o patrão é chinês. Mas a jovem deseja que o racismo não estrague a boa relação que portugueses sempre tiveram com chineses. “A relação entre a China e Portugal é muito boa e vai desenvolver-se”, adiantou ao HM.
 
Andreia Sofia Silva | Hoje Macau

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/filme-de-carlos-fraga-alerta-para.html

Propaganda de ódio supremacista atinge níveis máximos nos EUA

 
 
Em 2019, os Estados Unidos atingiram o nível mais elevado de propaganda de ódio supremacista, que aumentou com a chegada do presidente Donald Trump ao poder, em 2016, de acordo com um relatório da Liga Contra a Difamação.
 
O relatório diz que a propaganda tem um enviesamento patriótico e atinge todos os Estados norte-americanos (com exceção do Hawai), mas sobressaem a Califórnia, Texas, Nova Iorque, Massachusetts, New Jersey, Ohio, Virgínia, Kentucky, Washington e Florida.
 
A propaganda é veiculada através de folhetos, autocolantes, 'banners', pósteres e mensagens nas redes sociais.
 
De acordo com o documento da Liga Contra a Difamação, os centros estudantis são alvos preferenciais deste género de propaganda, que, em 2019, registou 2.713 casos de distribuição de literatura supremacista, dentro e fora dos 'campus' universitários.
 
Por comparação com este número, em 2018, o número de registo de casos era de apenas 1.214, com uma estratégia semelhante à que tem sido verificada nos últimos anos.
 
"Os supremacistas brancos veem a distribuição de propaganda, incluindo boletins, folhetos e autocolantes, como uma maneira conveniente e praticamente anónima de promover as suas mensagens de ódio e de intolerância", explica Jonathan Greenblat, dirigente da Liga, num comunicado.
 
"Embora saibamos que extremistas e grupos de ódio são encorajados pelo ambiente atual, esse aumento na distribuição de folhetos e propaganda mostra como os fanáticos são capazes de espalhar a sua mensagem sem arriscar o anonimato", acrescentou Greenblat.
 
A Liga também revelou que dezenas de grupos supremacistas distribuíram propaganda em 2019, mas os responsáveis por cerca de 90% dessa atividade foram organizações extremistas como a Frente Patriota, o Movimento de Identidade Americano e a Associação European Heritage.
 
A Frente Patriota tem sido a organização mais ativa, sendo responsável por 66% dos casos registados no ano passado.
 
Em 2019, esse grupo divulgou mensagens como "Uma nação contra a invasão", "Pela nação contra o Estado" e "Os Estados Unidos não estão à venda".
 
A Frente Patriota, fundada em 2017, justifica com a sua versão de "patriotismo" a promoção da supremacia branca e da ideologia neofascista, segundo o comunicado da Liga.
 
"A grande quantidade de propaganda, que apresenta predominantemente uma linguagem supremacista branca velada com uma inclinação 'patriótica', é uma tentativa de normalizar a sua mensagem e de aumentar os esforços de recrutamento, enquanto ataca grupos minoritários como judeus, negros, muçulmanos, imigrantes não-brancos e comunidade LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros]", segundo Oren Siga, vice-presidente da Liga para o Centro de Extremismo.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Getty Images
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/propaganda-de-odio-supremacista-atinge.html

Nem oito nem oitenta

Por estes dias os noticiários televisivos têm, inevitavelmente, o coronavírus como tema de abertura. À falta de um caso positivo em Portugal, que leve ao paroxismo as ansiedades das audiências, repetem-se as escassas atualizações oriundas das lonjuras asiáticas, tantas vezes quantas as necessárias..

 

O sobressalto coletivo vai sendo alimentado por muito que a Organização Mundial de Saúde racionalize a situação com a evidência de não estarmos perante uma pandemia, que justifique tamanhos receios, entretanto traduzidos em formas mais ou menos óbvias de um estúpido racismo antichinês.

 

Com uma média de 2% de mortalidade no universo dos contaminados, o coronavírus está muito longe da perigosidade do Ébola que, regularmente, causa um número bem mais significativo de vítimas mortais no continente africano sem que os grandes laboratórios farmacêuticos invistam recursos suficientes para lhe encontrarem a cura. Este coronavírus acaba por revelar-se elucidativo quanto à desigual importância atribuída a ameaças à saúde pública, consoante se perspetivam maiores ou menores riscos para as populações do próspero Ocidente. Com os vírus, que provocam razias em África, mas não encontram condições de propagação nas latitudes situadas fora dos limites tropicais, a preocupação mingua-se.

 

Ademais, para as atuais linhas editoriais, influenciadas pelos tiques de Guerra Fria em que os chineses tomaram o lugar outrora conferido aos soviéticos, uma situação comprometedora para a grande potência económica emergente revela-se autêntico maná, alimentando - mesmo que por alguns dias! - a inconfessada esperança de se manter inalterada a relação de forças atual, com os Estados Unidos a manterem-se como farol de referência do capitalismo selvagem. Mesmo que adivinhemos a facilidade com que esses mesmos diretores de «informação se renderão novamente aos encantos dos capitalistas chineses, se forem eles a melhor lhes garantirem o adiamento do previsível dia em que nenhuma recauchutagem desesperada conseguirá remendar o que já, há muito, se afigura condenado pela dialética evolução das sociedades futuras...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/02/nem-oito-nem-oitenta.html

Intolerância: bar de refugiados em São Paulo sofre ataque

Bar de refugiados palestinos em São Paulo, Al Janiah, foi alvo de ataque.
Reprodução da Internet

O Bar e Restaurante Al Janiah, em São Paulo, foi atacado neste domingo por um grupo que atirou bombas no estabelecimento.

O ataque aconteceu às 3h30 do domingo, durante a apresentação de músicos brasileiros e sul-africanos. Um grupo de cinco pessoas com facas, spray de pimenta e garrafas com gás foi registrado pelas câmaras de segurança atirando objetos para dentro do bar e fugindo logo em seguida.

Ninguém se feriu durante o ataque, mas a ação provocou grande repúdio nas redes sociais.

​Al Janiah foi construído por palestinos refugiados da Guerra na Síria e por militantes do Movimento Palestina Para Todos (MOP@T).

"Uma das maiores barbáries que já presenciei. Xenofobia não é mimimi. Jogaram garrafas e gás de pimenta dentro do Al Janiah, um local de refugiados, que emprega 35 pessoas. É revoltante e triste presenciar isso. Esse ódio por causa da cor, etnia e opção sexual é algo que não tem como aceitar", escreveu nas redes o DJ Marcel Rouge, que estava trabalhando no local no momento do ataque, citado pela Revista Forum.

A direção do estabelecimento informou por nota que pretende adotar medidas legais cabíveis e ressaltou a importância de continuar atuando para e "se manter firme" na defesa da Cultura e da Democracia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019090114468705-httpswwwfacebookcomstoryphpstoryfbid939965356358009id183073728713846sfnsnmo/

Atirador de El Paso confirmou à polícia que alvos eram 'mexicanos'

Algumas pessoas entram em uma escola para procurar parentes próximos ao local de um tiroteio em El Paso, no Texas, no dia 3 de agosto de 2019. Dezenas de pessoas foram mortas no incidente.
© AP Photo / Rudy Gutierrez

O atirador acusado de matar 22 pessoas no Walmart em El Paso, no Texas, neste fim de semana, declarou à polícia que estava atacando "mexicanos", informou o Washington Post nesta sexta-feira.

O jornal afirmou ter obtido um documento da polícia, segundo o qual Patrick Crusius, de 21 anos, teria confessado ser o autor dos disparos.

"Eu sou o atirador", disse Crusius à polícia quando o prenderam, de acordo com o relato do Washington Post, baseado em relatório escrito pelo detetive Adrian Garcia no domingo, um dia depois do tiroteio.

"O réu declarou que, dentro da loja, abriu fogo usando seu AK-47, atirando em várias vítimas inocentes", escreveu Garcia. Crusius disse que seus alvos eram "mexicanos", afirmou o detetive, segundo o jornal, citado pela Reuters.

Crusius é acusado de matar 22 pessoas e ferir outras 24 no sábado passado, pouco depois de um manifesto ter aparecido on-line, explicando sua motivação e condenando uma "invasão hispânica" dos Estados Unidos.

Apenas algumas horas depois, um atirador abriu fogo em um bairro de Dayton, Ohio, matando nove pessoas, incluindo sua própria irmã.

O presidente Trump visitou ambas as comunidades na quinta-feira e foi recebido com manifestantes que o acusavam de inflamar as tensões com retórica anti-imigrantes e racistas.

O massacre na cidade predominantemente hispânica de El Paso está sendo investigado como um crime de ódio e um ato de terrorismo doméstico, disseram autoridades. O FBI informou que o atirador de Dayton também se interessava por ideologias violentas.

Candidatos à presidência democrata acusaram Donald Trump de ter criado um clima político propício à violência baseada em ódio.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019080914369163-atirador-de-el-paso-confirmou-a-policia-que-alvos-eram-mexicanos/

incendiários

 
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Sabem aquela piada do homem que lançava os foguetes, fazia "pum!" e ia apanhar as canas?
É o jornal alemão Bild.

O caso mais recente: por motivos de simplificação logística e redução de custos, um infantário de Leipzig optou por não ter carne de porco na ementa semanal. Os infantários estatais costumam ter vários pratos diários à escolha, mas aquele infantário privado, que ao almoço tem um prato único para todas as crianças, optou pela solução mais simples: deixar a carne de porco de fora, para não ter de se preocupar com uma ementa alternativa para duas das crianças, que são de famílias muçulmanas. De qualquer modo, já só oferece carne em dois dias da semana - nos restantes, os miúdos comem pratos vegetarianos ou com peixe. Perante isto, que faz o jornali Bild? Agarra neste não-assunto e faz uma capa alarmista a incitar ao ódio contra os muçulmanos:

POR RESPEITO À "SALVAÇÃO DA ALMA"
Infantário proíbe todas as crianças de comer carne de porco

A versão online acrescentava ainda uma linha venenosa: "as gomas estão proibidas, com efeitos imediatos".

Note-se que este infantário é um dos muitos estabelecimentos alemães que tomaram essa decisão, sem que alguma vez tivesse havido protestos por parte dos pais ou da comunidade. Ninguém impede os miúdos de trazerem de casa o seu pãozinho com fiambre ou as suas gomas, e muito menos os impede de comerem em casa um belo lombo de porco assado. Mas depois desta capa do jornal Bild os políticos de extrema-direita agitaram quanto puderam ("proibir carne de porco nos infantários é capitular perante o Islão!" - Beatrix von Storch, AfD), as redes sociais foram ao rubro ("hoje é a carne de porco... / amanhã será a obrigação de cobrir a cabeça... / e depois de amanhã? / seremos obrigados a converter-nos ao Islão? a obedecer à sharia? a casar a nossa filha à força com um homem de 40 anos?") e o infantário viu-se alvo de inúmeras críticas e ameaças violentas. Naturalmente contactaram a polícia, e o Bild aproveitou para fazer nova capa, com a fotografia de um polícia a entrar no edifício:

Protecção policial para infantário sem carne de porco

Lançar os foguetes, fazer "pum" e ir apanhar as canas: pegar numa não-notícia para fazer uma capa incendiária, alimentar a falsa ideia de que os muçulmanos estão a invadir a Europa para destruir a cultura ocidental, instigar os ódios que dão força à extrema-direita e a seguir fazer outra capa a dar aos neonazis a sensação de que são poderosos e fazem tremer as instituições. Avisem o Putin que não precisa de se ocupar tanto a destruir as Democracias europeias - os nossos jornais já fazem o trabalhinho.

O socialista Burkhard Jung[1], presidente da Câmara de Leipzig, tomou uma posição muito clara sobre o assunto na sua página de facebook, que traduzo aqui rapidamente:

Não posso deixar de comentar os acontecimentos da semana passada.

O que se passou: dois infantários de Leipzig decidiram alterar a ementa dos almoços das crianças. Não há nisso nada de anormal - muitos infantários e escolas mudam frequentemente o fornecedor de refeições. Há muitas razões para isso, e resultam antes de mais de decisões que os infantários tomam em conjunto com os pais, tendo em conta os interesses das crianças. Os motivos para que o infantário e os pais tomem uma decisão relativa à alimentação, seja a favor ou contra a carne de porco, a comida vegetariana ou até vegan, podem ser de vária ordem: culturais, fisiológico-alimentares, ou simplesmente porque os gostos são diferentes.

É irresponsável estilizar esta escolha de ementa de um infantário para o tornar num símbolo da destruição da nossa cultura, como pessoas da CDU, da AfD e de um modo geral de círculos conservadores fizeram nos últimos dias. Não, a decisão dos infantários de Leipzig não é uma derrota cultural, mas uma decisão livre num país livre. Quem não aceita isso, não aceita a liberdade e até a põe em risco.   
O que se seguiu é inacreditável:

"À forca, ou fuzilamento segundo a lei vigente" [texto na imagem acima] "Senhora..., ou repõe imediatamente a carne de porco na ementa, até 30.7, ou o seu infantário vai arder, mesmo que isso prejudique as crianças. Não, isto não é uma piada. E mesmo que avise a polícia, o infantário vai arder. E vou-lhe dar uma tareia tamanha que a mando para o hospital e a deixo incapaz de voltar a trabalhar!!! Portanto: ou muda, ou fogo!"
"Não vou apenas espancá-la até precisar de ir para o hospital, vou matá-la com uma facada no coração." 

Trata-se de uma pequena selecção das ameaças que os infantários receberam, tanto por carta como em forma descaradamente verbal.

Estou sem palavras. Há três, quatro anos, quando tantas pessoas em terrível estado de necessidade buscaram a nossa ajuda, houve por toda a Alemanha ataques pessoais e alojamentos incendiados. Não fomos capazes de proteger todos os abrigos, e a nossa sociedade não foi agitada por um choque de indignação moral. Em vez disso, os Gaulands, Weidels e Höckes [políticos da AfD] continuam a zurzir verbalmente os mais frágeis.

E as suas sementes estão a dar fruto: em 2019, há infantários que são ameaçados apenas por terem mudado a sua ementa semanal de uma forma que não se enquadra numa visão mesquinha do mundo.

A queda do Ocidente e o perigo para a nossa liberdade esclarecida não provêm daqueles que, por qualquer razão, têm uma cultura alimentar diferente da culinária tradicional alemã, mas daqueles que perderam todas as referências morais e o sentido de decência.

Não podemos ignorar, não podemos calar, não podemos ceder: no nosso país, a liberdade, a igualdade e a empatia estão em risco. O que aqui aconteceu e acontece é apenas uma amostra do que nos espera se nas próximas eleições o poder ficar nas mãos destes que já hoje preparam a terra com as suas sementes de ódio.

Permanecei vigilantes!

Dois meses após o assassinato de Walter Lübcke por um neonazi que não gostou de algo que esse político da CDU dissera sobre os valores da nossa sociedade e a obrigação moral de acolher os refugiados, esta tomada de posição parece-me um acto de enorme coragem.

Nos difíceis tempos que vivemos, há demasiados extremistas violentos predispostos a ameaçar qualquer político que defenda destemidamente os valores de uma sociedade pluralista e democrática.

Perante o clima de violência verbal e física contra políticos que hoje se vive na Alemanha, pergunto-me como é possível ainda alguém argumentar com o batido "não concordo com o que dizes, mas estaria disposto a dar a vida para que tu possas dizer o que pensas" - como se certos discursos não fossem o gatilho que accionam a violência latente e letal que já existe entre nós.

De facto, em 2019 aquele "dar a vida" pelos valores democráticos já não se formula no condicional.    
Burkhard Jung assume com frontalidade a defesa dos valores democráticos em que acredita, mesmo sabendo o risco que corre.

Pergunto aos que defendem a liberdade de expressão custe o que custar: querem mesmo - querem mesmo mesmo - dar a vida pela defesa da liberdade de expressão de quem já começou a matar aqueles com quem não concorda? Querem dar a vida pelo direito do jornal Bild torcer a realidade para fazer um discurso incendiário que dá origem a ameaças de destruição e morte num infantário?

O jogo já não é a feijões.

References

  1. ^ Burkhard Jung (www.facebook.com)

Ver o original em Dois Dedos de Conversa - clicar aqui

A xenofobia como subproduto do esclavagismo

Embora o antissemitismo tenha conhecido dimensão particularmente assassina, quando a cristandade se arvorou de um fanatismo inquisitorial adotado pelos islamitas muitos anos depois, pode-se considerar que a distinção entre os brancos e os negros ficou definida a partir do momento em que as plantações de cana-de-açúcar das Antilhas se encheram de escravos trazidos da África subsariana a partir do início do século XVIII.

 

Embora as roças do Brasil já estivessem pejadas de gente trazida à força dessa mesma proveniência, o tráfico ainda não ganhara a escala de uma fileira comercial, que alavancaria o desenvolvimento do sistema capitalista e contribuiria para tornar obsoletas as derradeiras manifestações do feudalismo. A transformação da exploração cruel do trabalho dos cativos num negócio, que faria enriquecer banqueiros e companhias seguradoras de navios negreiros, também transformaria a ordem social, ainda empírica, numa outra bem estruturada. O racismo como vertente específica da xenofobia dos brancos teve aí um momento fundador.

 

Depressa, porém, a sociedade branca passou a intimidar-se com as sucessivas revoltas dos escravos, a mais bem sucedida das quais aconteceu em São Domingo, liderada de início por Toussaint Louverture, depois por Dessalines, sob inspiração da Revolução Francesa. Aumentou a brutalidade sobre os cativos, procurando intimidá-los pelo medo. No século XIX a acumulação de capital na Europa nunca fora tão rápida por conta da exploração dos chamados «territórios ultramarinos».

 

Paradoxalmente a abolição da escravatura marcou o arranque em força da expansão colonial em África. Privados das mais valias até então auferidas pela diferença ente os custos de produção das mercadorias e recursos mineiros trazidos das Américas e os preços por que eram vendidos nos mercados europeus, as várias nações imperialistas viraram-se para os territórios africanos em que haviam estabelecido entrepostos e feitorias, tornando-os bases de apoio para reivindicarem os vastos territórios do interior do continente, convencidos - com razão! - de aí se encontrarem prodigiosas riquezas naturais capazes de compensarem a perda dos anteriores fluxos de transferência de capitais.

 

A escravatura prosseguiria nos Estados Unidos, apesar da vitória nortista sobre os confederados, porque as leis segregacionistas decretadas até aos anos sessenta, cuidaram de manter uma desproporcionada distribuição das riquezas. E, hoje em dia, multiplicam-se os exemplos de manter-se a exploração do trabalho escravo como o comprovam as imagens recolhidas na Líbia sobre leilões de infelizes apostados em saírem dos seus países para demandarem paraísos europeus e sujeitos a violências semelhantes às dos seus antepassados que, acorrentados, morreram aos milhares, para satisfazerem a ganância criminosa das cortes europeias.

Xenofobia contra estudantes brasileiros motiva ação do parlamento português (FOTOS)

Estudantes participam do protesto condenando a xenofobia contra alunos brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
© Sputnik / Caroline Ribeiro

Deputados do parlamento português endereçaram um documento ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior cobrando um posicionamento do governo de Portugal diante da denúncia de xenofobia contra alunos brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL).

Na tarde desta quinta-feira (2), os estudantes realizaram um novo protesto na frente da instituição. Com cartazes e gritos de "xenofobia não" os alunos ocuparam a entrada da faculdade. A manifestação já é a segunda realizada desde o começo da semana, quando o caso ganhou repercussão em Portugal e no Brasil. O ato foi acompanhado por dois deputados do parlamento nacional.

"Fizemos uma pergunta ao governo, em um documento por escrito entregue através da Assembleia da República, que o governo pode, e deve, responder no prazo de 30 dias. Questionamos sobre o seu papel, que é o da responsabilidade de garantir que a universidade continue democrática e antirracista. Esperamos que responda o quanto antes", afirmou à Sputnik Brasil o deputado Luís Monteiro, do Bloco de Esquerda.

Caixa com pedras no hall do edifício da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, sinalizada com placas onde se lia Loja de souvenirs. Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado
© Foto : Flora Almeida
Caixa com pedras no hall do edifício da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, sinalizada com placas onde se lia "Loja de souvenirs. Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado"

Na última segunda-feira (29), integrantes de um movimento acadêmico colocaram uma caixa com pedras no hall do prédio, sinalizada com placas onde se lia "Loja de souvenirs. Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado". "Zuca" vem do termo "brazuca", comumente utilizado em Portugal como referência aos brasileiros.

"Assim que vi fui logo questionar e me informaram que era uma piada. Muita gente se sentiu ofendida e com toda a razão. Realmente tinha pedras ali dentro. A gente sai de um país onde está sofrendo violência e discurso de ódio para chegar aqui na faculdade e sofrer mais violência? Foi muito chocante, porque não é o normal da faculdade, que geralmente é muito amistosa com os brasileiros. Meus colegas portugueses estão chocados, os professores também", conta à Sputnik Brasil a estudante Flora Ferreira de Almeida, autora das fotos que viralizaram nos últimos dias.

Através de um comunicado, o Movimento Cívico Os Marretas caracteriza a ação como uma sátira. "Somos um grupo que se compromete a satirizar todas as situações potencialmente prejudiciais para os alunos, com um objetivo final de fazer a comunidade refletir sobre os respetivos problemas", lê-se na nota. Segundo o movimento, o ato "visava meramente o regime de acesso aos mestrados".

A crítica é em referência à ponderação das médias para o acesso e ao período em que as inscrições para os cursos são abertas, dois fatores que acabariam favorecendo os brasileiros na seleção. De acordo com a direção da FDUL, as candidaturas para os mestrados abrem antes do fim do ano letivo em Portugal, que só ocorre em junho, pensando em dar oportunidade para quem já concluiu uma graduação.

"Nós temos duas fases de candidaturas, a primeira das quais inicia-se normalmente em abril e que é para alunos que já estão licenciados. Os alunos que ainda estão a concluir a licenciatura só podem se candidatar naturalmente na segunda fase. De fato, na segunda fase concorreram vários brasileiros já licenciados no ano anterior. Eles concorrem com uma ponderação diferente, porque as notas no Brasil são de 0 a 10 e em Portugal são de 0 a 20. O aluno que tem um 8 no Brasil corresponde a um 16 em Portugal, mas isso não tem nenhum impacto. Não houve nenhum aluno português da faculdade que tivesse ficado excluído do mestrado, todos tiveram acesso. Na realidade, quando vemos a entrada, aparecem os nomes deles depois dos alunos brasileiros, é verdade, mas isto não tem efeito nenhum porque a nota de entrada não tem nenhuma correspondência com as notas que vão ter no mestrado", explica à Sputnik Brasil o diretor da faculdade, Prof. Dr. Pedro Martinez.

Depois de uma reunião entre a direção da FDUL, o Núcleo de Estudantes Luso-Brasileiro (NELB) e os alunos que se identificaram como autores da instalação com as pedras, foi aberto um inquérito para apurar as responsabilidades, que poderá, de acordo com o diretor Pedro Martinez, resultar na instauração de um procedimento disciplinar. O diretor também encaminhou um ofício para a Embaixada do Brasil em Portugal reiterando que o episódio é "condenável" e que "a xenofobia e o incitamento à violência patentes no cartaz que esteve temporariamente exposto na Faculdade de Direito não representam o sentimento generalizado da comunidade acadêmica". Em resposta à Sputnik Brasil, a assessoria da Universidade de Lisboa lamentou o incidente e informou que está acompanhando o caso. 

Atendendo à reivindicações dos estudantes, o NELB promete intensificar os debates sobre xenofobia no ambiente acadêmico. “A partir de hoje, o núcleo abre um tópico específico na sua ouvidoria para tratar disso e a faculdade disse que vai recepcionar imediatamente sempre que as questões forem repassadas. As pessoas às vezes passam por alguma situação e não comunicam por medo. Vai ser possível denunciar mesmo anonimamente”, explica à Sputnik Brasil o assessor de comunicação do núcleo e estudante de mestrado na faculdade, Cláudio Cardona.

  • Estudante Flora Ferreira de Almeida oferecendo flores aos alunos
    Estudante Flora Ferreira de Almeida oferecendo flores aos alunos
    © Sputnik / Caroline Ribeiro
  • Participantes do protesto condenando a xenofobia contra alunos brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
    Participantes do protesto condenando a xenofobia contra alunos brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
    © Sputnik / Caroline Ribeiro
  • No protesto de 2 de maio, os estudantes ofereceram flores a quem passava, em uma alusão às pedras usadas na ação anterior
    No protesto de 2 de maio, os estudantes ofereceram flores a quem passava, em uma alusão às pedras usadas na ação anterior
    © Sputnik / Caroline Ribeiro
  • Uma participante do protesto contra xenofobia contra alunos brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa na frente da instituição
    Uma participante do protesto contra xenofobia contra alunos brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa na frente da instituição
    © Sputnik / Caroline Ribeiro
  • Hall do edifício da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se encontra uma caixa sinalizada com placa Loja de souvenirs. Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado
    Hall do edifício da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se encontra uma caixa sinalizada com placa "Loja de souvenirs. Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado"
    © Foto : Flora Almeida
  • A caixa realmente tinha pedras ali dentro
    A caixa realmente tinha pedras ali dentro
    © Foto : Flora Almeida

Atualmente, os brasileiros representam mais de 31% dos alunos estrangeiros da Universidade de Lisboa, umas das instituições de ensino mais prestigiadas de Portugal. Na Faculdade de Direito são maioria absoluta entre os estudantes de outras nacionalidades. No protesto desta quinta-feira, o grupo ofereceu "flores grátis" a quem passava, em uma alusão às pedras anunciadas na instalação. No comunicado, o movimento responsável afirma que não houve intenção de fazer com que "qualquer estudante se sentisse ameaçado. Nunca foi o objetivo ou sentimento, nem é a postura do Movimento nem a de qualquer membro, fazer com que os nossos colegas não se sintam bem-vindos".

Os estudantes brasileiros prometem acompanhar o caso. "Eles já fizeram esse tipo de brincadeira com africanos, muçulmanos, sempre com minorias, mas também com políticos. É um grupo muito antigo aqui dentro da faculdade, com uma sala, inclusive, onde se reúne. A gente espera que o grupo se retrate e que passe pelas sanções que a faculdade entender devidas, inclusive perdendo o espaço que tem aqui dentro da universidade", diz a aluna Flora de Almeida.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019050313800377-xenofobia-contra-estudantes-brasileiros-motiva-acao-do-parlamento-portugues-fotos/

Bannon e Le Pen participam de encontro anti-imigração na Bélgica

Líder da direita francesa, Marine Le Pen (à direita), e o ex-estrategista da Casa Branca, Steve Bannon (à esquerda) durante um congresso partidário na região Norte da França, em Lille.
© AP Photo /

O ex-estrategista Steve Bannon e a ex-candidata à presidência da França, Marine Le Pen, chegaram neste sábado (8) ao Parlamento belga, em Bruxelas, para participar de uma reunião contra o Pacto Global da ONU para a Migração.

A reunião foi organizada com o apoio do Europa das Nações e da Liberdade — um grupo político cétidco em relação à União Europeia que participa do Parlamento Europeu. No início da reunião, os anfitriões listaram as principais disposições do pacto, que deverá ser formalmente aprovado em uma conferência intergovernamental na cidade marroquina de Marrakech, já na próxima semana.


A alegação do anfitrião de que o pacto era "suicida" para a Europa foi recebida com aplausos. Representantes do partido de direita local, Vlaams Belang, também participaram da reunião, uma vez que se opõem firmemente à ideia de a Bélgica assinar o pacto.

No início da semana a situação política na Bélgica foi tensionada pelo maior partido da coalizão governista belga, Nova Aliança Flamenga. O partido ameaçou deixar a coalizão caso o primeiro-ministro belga, Charles Michel, assinasse o Pacto Global pela Migração da ONU.

O Pacto Global das Nações Unidas para a Migração, cujo texto foi finalizado em 13 de julho por todos os Estados membros da ONU, exceto os Estados Unidos, representa a tentativa da comunidade internacional de estabelecer uma abordagem global comum aos diversos aspectos da imigração internacional. O pacto compreende 23 objetivos para melhor gerenciar a migração em nível local, nacional, regional e global.

O pacto histórico causou polêmica em toda a Europa, pois alguns países acreditam que o acordo colocará restrições às suas políticas nacionais de migração.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2018120812867677-steve-bannon-marine-le-pen-anti-migracao-onu/

Cidadãos dos PALOP na Alemanha denunciam racismo na cidade do Pegida

Em Dresden, o racismo piorou desde que o movimento anti-imigração Pegida surgiu em 2014, afirmam cidadãos dos PALOP a morar na cidade. Dizem ainda que o partido de extrema-direita AfD legitima a discriminação.
O movimento anti-imigração Pegida realiza frequentemente protestos em várias cidades da Alemanha. Em Dresden, os protestos são semanais. Nas suas manifestações, os apoiantes do movimento, os chamados "Patriotas Europeus Contra a Islamização do País", proferem um discurso de ódio contra estrangeiros, exigem o encerramento das fronteiras da Alemanha e o fim da imigração ilegal, entre outras exigências.

Quem vive na cidade diz que o racismo tem sido rotina desde a criação do movimento, em 2014.

"Está muito pior aqui. Está muito mal mesmo, aqui na Saxónia. Estamos a viver com muita dificuldade nessa cidade," afirma o soldador angolano Massumo Neluimba, que mora há 18 anos em Dresden
Legitimação do racismo

Além das manifestações semanais do Pegida, a capital da Saxónia é um dos redutos mais fortes do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Depois de eleita como a terceira maior força do Parlamento alemão, a AfD quer agora tornar-se o maior partido no Parlamento da Saxónia, nas eleições estaduais de 2019.

Massumo Neluimba conta que já foi vítima de racismo nos transportes públicos da cidade e que, nos dias em que o Pegida sai às ruas, evita estar por perto.

"Todas as segunda-feiras eu fico em casa, não saio à rua. Quando eles fazem a manifestação, não tenho coragem de sair. Fico em casa, porque sei que são pessoas que não gostam de estrangeiros. Sinto-me intimidado. Pode acontecer alguma coisa ou podem bater-me. Antes das 18 horas tenho de estar em casa para não acontecer um problema grave", relata.

Matilde Djaló é portuguesa de origem moçambicana. Veio para Dresden há três anos, para fazer uma formação para cuidar de idosos. Logo à chegada, deparou-se com um protesto do Pegida.

"Num dia desses, eu saí à rua e havia essa manifestação. Foi muito estranho, porque todo o mundo praticamente só olhava para mim e dizia 'Ausländer raus, Ausländer raus,' que significa imigrante fora, não queremos imigrantes aqui", descreve.
"Foi um choque para mim, foi um grande choque, porque eu não estava à espera daquilo. Porque eu acordo às quatro da manhã para trabalhar e chego à rua e as pessoas dizem 'Ausländer raus," lamenta.

Matilde relata também outras situações em que se sentiu constrangida: "É um bocadinho estranho chegar à rua e as pessoas dizerem: 'aquela é preta'. É triste, ninguém gosta de ouvir isso. Eu nunca ouvi isso em toda a minha vida. Chego aqui, as pessoas olham para mim, já me chamam de preta. Eu sei que sou, mas não preciso que alguém me diga, aquela é preta," critica.

Propaganda anti-imigrantes

Nas suas campanhas contra os imigrantes, tanto o Pegida como a AfD divulgam constantemente, nas redes sociais, reportagens sobre crimes cometidos por estrangeiros. Matilde Djaló diz que sofre na pele este tipo de manipulação da informação.

"Eu sinto que sou colocada no mesmo pacote, mas não é o que acontece no dia a dia.Porque também qualquer um pode cometer [crimes], mesmo os próprios alemães fazem isso. Só que escondem, não contam a realidade deles, contam a realidade dos outros. Porque também a preocupacao maior é afastar os imigrantes", avalia.
A moçambicana Olga Carlos é enfermeira e vive há 32 anos em Dresden. Ao longo de todo esse tempo, viu o racismo passar por altos e baixos. Para ela, as manifestações contantes do Pegida e a presença da AfD nos parlamentos estadual e alemão têm contribuído para o aumento do racismo nos últimos anos.

"Naturalmente senti tanta, tanta diferença, porque já em 1991 havia muito racismo aqui na Alemanha. Depois ficou muito calmo aqui em Dresden e sentia-me à vontade. Mas depois começou este movimento Pegida e, então, a pessoa já sentia alguma diferença na rua, nos carros elétricos".

Tratamento hostil

A enfermeira trabalha há 27 anos num hospital religioso, atualmente com pacientes com cancro. Apesar de contribuir para o bem estar dos doentes, muitas vezes recebe de volta um tratamentto hostil.

"Os doentes que estão aí perguntam se naquela enfermaria só meteram estrangeiros para trabalhar. Até já tive doentes que disseram: 'Hoje é segunda-feira. Se eu estivesse lá fora, hoje teria ido à manifestação'. Exatamente esses doentes é que têm tido esses problemas de nos chamar de estrangeiros. Isso não foi sempre assim. Aliás, no local de serviço nunca senti nenhum racismo. Tanto com os médicos, como com as colegas enfermeiras, não há nenhum racismo, nunca senti isso," afirma Olga Carlos.

Segundo dados de um inquérito de 2016, 22,5% da população alemã tem origem migratória, mais da metade destas pessoas são cidadãos alemães. Boa parte deles contribuem para impulsionar a forte economia do país, com a sua força de trabalho e o pagamento regular de impostos. Apesar disso, o racismo faz parte da vida destes cidadãos. Muitos não acreditam que a discriminação racial irá diminuir em Dresden.
"Com o número de imigrantes que vêm entrando aqui, acho que as coisas vão piorando, porque o Pegida vai sempre tocar na mesma tecla, que são os imigrantes que fazem isso. Acho que isso vai aumentar, não vai parar", considera Matilde Djaló.

"Aqui não se muda nada. Já estou aqui há 18 anos. O que eu vejo ou o que eu já vi... Não melhora aqui, nunca vai melhorar", acrescenta Massumo Neluimba.

Já a enfermeira moçambicana Olga Carlos entende que muitos alemães ainda não se adaptaram a esta realidade e batalha por uma maior consciencialização.

"Eu digo-lhes: vocês têm de ter cuidado. O alemão, hoje em dia, não é mais loiro e com os olhos azuis, porque já estamos misturados. Eu, por exemplo, não sou estrangeira, sou alemã. Os meus filhos também são alemães. Então, eles só veem a cor e começam logo a dizer que você é estrangeiro", finaliza.

Uma mudança de mentalidade parece difícil, mas certamente seria um bom caminho para um futuro de mais igualdade numa sociedade tão plural como a alemã.
Cristiane Vieira Teixeira (Dresden) | Deutsche Welle
Na foto: Manifestação do Pegida no centro histórico de Dresden

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/08/cidadaos-dos-palop-na-alemanha.html

Violência racista dá sinais de escalada na Itália

País registra nove ataques a bala contra integrantes de minorias étnicas em 50 dias. Onda de agressões se intensificou desde a posse do novo governo. Ministro do Interior declarou que "racismo é invenção da esquerda".
O estrondo de uma arma de ar comprimido que no início de julho perturbou a calma da arborizada estrada provincial, primeiramente provocou incredulidade – nem todo mundo em Forli, no centro da Itália, presta muita atenção aos eventos locais.

Hugues Messou, natural da Costa do Marfim, de 34 anos, não teve como escapar do fato: ele estava a caminho de casa de bicicleta quando o tiro o atingiu no abdômen. Tendo vivido na cidade por mais de dez anos, nunca a considerara um lugar perigoso, nem mesmo hostil, apesar de uma ou outra palavra racista lançada contra ele.

"O carro parou por uns segundos na minha frente, mas não consegui ver exatamente quem estava dentro. Eram pelo menos duas pessoas, por volta dos 30 anos, talvez mais velhos", conta.

No dia seguinte, ele fez um boletim de ocorrência na delegacia. Há câmeras estrada abaixo, a cerca de 200 metros do local do incidente. Até hoje, o costa-marfinense não teve novidades sobre as investigações, e, até a data de publicação desta reportagem o departamento de polícia local não respondeu aos pedidos de comentários da DW.

"Quem fez isso, saiu de casa com a intenção de atirar numa pessoa negra", diz ele. "Era tarde da noite, e aconteceu duas vezes no espaço de dois dias."

Dois dias antes desse ataque, uma nigeriana fora atingida por um projétil disparado de uma lambreta numa rua próxima. No entanto, ela não registrou queixa.

"Eu estava conversando no bar sobre o que tinha me acontecido e foi quando [o outro ataque] veio à tona", conta Messou. "Se eles estão usando armas de fogo, a coisa é preocupante."

"Teste de espingarda", "brincadeira", "um pombo"

Nos últimos 50 dias, ao menos nove integrantes de minorias étnicas foram feridos a bala na Itália. Em oito das agressões foram usadas espingardas de ar comprimido – cujas balas redondas e de metal podem causar lesões graves – e na outra, uma arma de fogo.

Num dos casos, um menino da etnia nômade rom de um ano recebeu um disparo nas costas. O atirador, um funcionário público, disse à polícia que atirou "para testar a espingarda".

O episódio mais recente ocorreu um Pistoia, na região da Toscana: dois garotos de 13 anos atiraram num homem do Gâmbia. Segundo a agência de notícias italiana Ansa, ao serem identificados pela políci,a ambos afirmaram ter se tratado de uma simples brincadeira, "sem motivação racial nem política". Essa versão foi aceita pela opinião pública em geral.

Em 11 de junho, dois refugiados do Mali, residentes de um centro de recepção próximo a Nápoles, relataram à mídia local que haviam sido alvejados a partir de um carro que passava, cujos ocupantes gritavam slogans de apoio ao ministro do Interior Matteo Salvini, do partido direitista Liga.

Um mês depois, em Latina, ao sul de Roma, dois nigerianos levaram tiros de ar comprimido disparador de um carro. Os agressores foram mais tarde identificados e respondem por lesões corporais com agravante de discriminação racial.

No fim de julho, um operário cabo-verdiano trabalhava num andaime na mesma cidade quando foi atingido nas costas por um tiro disparado de uma varanda próxima. Segundo a imprensa local, o atirador contou aos investigadores que pretendia atirar num pombo.

No início de agosto, três tiros de arma de fogo foram disparados por dois desconhecidos de lambreta contra um vendedor de rua senegalês de 32 anos. Apenas uma delas o acertou, fraturando-lhe o fêmur.

Retórica de incitação racista

Serge Diomande integra o comitê do conselho de cidadãos em Forli, além de ser presidente da Associação Nacional Além das Fronteiras (Anolf). O costa-marfinense, que vive na Itália há quase dez anos e trabalha como guardador em um armazém, considera difícil ignorar o que tem acontecido.

"Até que [os responsáveis] sejam apanhados, vamos ficar sempre na dúvida. Queremos saber quem e por quê. Isso nunca aconteceu aqui. Forli sempre foi uma cidade muito aberta", diz. "Os partidos políticos não deveriam brincar com a migração. É como brincar com a cultura italiana."

Desde que assumiu em 1º de junho, o governo de coalizão entre a Liga, de extrema direita, e o populista Movimento Cinco Estrelas tem se recusado a permitir o desembarque de navios de resgate de migrantes no Mediterrâneo. Salvini anunciou, ainda, que aceleraria as deportações de ilegais e que as comunidades rom deveriam ser recenseadas, e seus membros estrangeiros, deportados.

O governo tem respondido às acusações de que suas políticas e retórica instigam medos e legitimam a violência, negando que haja algum problema. Segundo Salvini, racismo é "uma invenção da esquerda".

O jornalista Luigi Mastrodonato documentou mais de 30 agressões físicas a membros de minorias no país desde o princípio de junho. O site antirracismo Cronache di Ordinario Razzismo (crônicas de racismo comum), da ONG Lunaria, publicou um relatório computando 169 incidentes de discriminação nos primeiros três meses de 2018.

"Motivos fúteis"

Não há dados policiais sobre crimes de ódio na Itália. Os mais recentes – do Escritório para as Instituições Democráticas e os Direitos Humanos (ODIHR), que monitora esses delitos entre os países-membros da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) – são de 2016, quando a organização contabilizou 803 crimes de ódio com registro na polícia. A maior parte se origina em racismo ou xenofobia.

Quando a polícia investiga as causas, o cunho racista nem sempre é reconhecido, e muitas vezes é minimizado, principalmente na presença de outros motivos possíveis ou de motivação múltipla.

Um dia após a eleição na Itália, o vendedor senegalês Idy Diene foi morto em Florença por um homem que declarou que pretendia cometer suicídio, mas em vez disso decidiu voltar sua arma contra um transeunte qualquer. A polícia rapidamente classificou o homicídio como "por motivos fúteis".

Em Aprilia, ao sul de Roma, um marroquino foi morto no início de agosto, numa perseguição de carro, por três homens. Estes negaram qualquer motivo racial, alegando ter acreditado que ele fosse um ladrão e decidido tomar a justiça nas próprias mãos. As circunstâncias do crime estão sendo investigadas.

"Com o passar do tempo, estamos vendo um processo de legitimação crescente de um comportamento que, no melhor dos casos, é de hostilidade e intolerância declaradas contra minorias", aponta Grazia Naletto, presidente da ONG Lunaria, que há dez anos vem documentando e conscientizando sobre o racismo no país.

"As notícias das últimas semanas são preocupantes, independentemente dos números, pois estamos falando de agressões físicas, em alguns casos, graves. Em alguns deles, as autoridades encarregadas das investigações não reconheceram o elemento racial", diz. "Com certeza há no país um clima cultural, social e político que tende a incentivar certas condutas sociais. Temos visto como elas se tornam agressivas."

Ylenia Gostoli (de Roma / av) | Deutsche Welle

 

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http://paginaglobal.blogspot.com/2018/08/violencia-racista-da-sinais-de-escalada.html

O populismo mata

«O que está a matar os refugiados no Mediterrâneo é o populismo e o crime. Do lado africano, os maiores culpados são os criminosos que traficam corpos como se fossem mercadoria sem valor. Do lado europeu, é o discurso populista dos líderes de esquerda e de direita que buscam ganhos de curto prazo agitando o medo face aos estrangeiros.
Em Itália, um navio devolveu à Líbia mais de cem imigrantes recolhidos em águas internacionais, num claro desvio à lei internacional. E isto ao mesmo tempo em que os líderes protofascistas do novo Governo de Roma facilitam uma vaga de ataques racistas um pouco por todo o país.
Já em Espanha, Pablo Casado, o novo líder do Partido Popular espanhol, fez questão de começar o seu mandato alinhando com o discurso vulgar e populista de Órban, primeiro-ministro húngaro, e seus amigos. É pena que o tenha feito. Ao agitar o fantasma da chegada de “milhões de imigrantes” e a “defesa das fronteiras”, pode ter ganho notoriedade, mas teve um discurso ao nível de um líder de uma sociedade feudal dos idos de 1300.
Com a investigação do Parlamento britânico descobriu-se que já na campanha do “Brexit” um dos argumentos mais populares a favor da saída da União Europeia foi a iminente “entrega de vistos aos 75 milhões de turcos”, algo que revela uma reacção própria do tempo das cruzadas.
E nem sequer interessa que uma das vítimas dos ataques racistas em Itália tenha sido uma atleta italiana. Ou que os pedidos de asilo em Espanha se reduzam a menos de 20 mil por ano. Ou que Bruxelas nunca tenha sequer considerado a hipótese de abrir as fronteiras à Turquia. Os factos valem pouco, quando o que interessa é agitar emoções. E estamos em tempos de indignação – em que se empunham facilmente as forquilhas virtuais para discutir nas redes sociais, ampliando o discurso de ódio e propagando ainda mais a ignorância.
Estes discursos revelam mais do que as necessidades de ganhos de curto prazo. Revelam o desprezo pelo espaço público e pela comunidade que estes políticos devem servir. Quando à verdade se sobrepõe a demagogia, a democracia está em risco e a política morre mais um bocadinho.
Se estes políticos querem reforçar as fronteiras, que se preocupem em construir uma União Europeia mais forte – porque é garantido que não será a fronteira em Melilla ou a costa escarpada da Sardenha que vão, por si só, impedir de existir o problema dos imigrantes. Se o querem resolver, ajudem a criar uma política verdadeiramente continental e parem de bloquear os esforços para o conseguir. Mas isso exigiria postura de Estado, algo que neste momento não abunda na Europa.»
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Leia original aqui

A memória é um país distante (IV)

«A política é linguagem. Quando a linguagem muda, é também a natureza da política que muda. A brutalização dos actos começa com a brutalização das palavras: estupefação, ressentimento, exclusão, racismo, frieza, criminalização e, finalmente, a política da morte, aceite ou planeada. Tudo o que os seres humanos fazem é preparado por palavras. É disso que hoje se trata, numa escala idêntica ao que se passou há oitenta anos. Em 1938, os representantes de 32 Estados reuniram-se na cidade termal francesa de Evian, entre 6 e 15 de julho, para discutir como poderiam ser distribuídos 540 mil judeus oriundos da Alemanha e da Áustria. A conferência foi um fracasso e, poucos meses depois, durante as perseguições de novembro, muitos judeus foram assassinados, as suas lojas saqueadas e as sinagogas incendiadas. A comunidade dos povos tinha falhado.» Georg Diez, Monsterworte Apesar de expressarem simpatia pelos judeus perseguidos pelo Terceiro Reich, os delegados da Conferência de Evian, em julho de 1938, não chegaram ao acordo que permitiria a sua distribuição e acolhimento nos respetivos países (sendo invocada, entre outras razões, a incapacidade para receber mais refugiados ou os perigos raciais que daí adviriam). Meses depois, em novembro, muitos destes judeus encontravam-se entre as vítimas da Noite dos Cristais.
Em 1979, lembrando a reação de Hitler às notícias sobre a conferência («eu espero que o outro mundo, que tem uma profunda simpatia por esses criminosos, seja realmente generoso e converta essa simpatia em ajuda concreta. Da nossa parte, estamos prontos para colocar todos esses criminosos à disposição destes países (...), em navios de luxo se necessário»), o vice-presidente dos EUA, Walter Mondale, sublinhou que o que estava em causa eram vidas humanas «e a decência e respeito próprio do mundo civilizado. Se cada nação em Evian tivesse naquele dia concordado em receber 17 mil judeus, todos os judeus que foram vítimas do Reich poderiam ter sido salvos. (...) Evian começa com grandes esperanças. Mas falha o teste da civilização».

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Noções elementares de xenofobia

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Somos favoráveis a uma política muito responsável em matéria de imigração. Temos um perfil demográfico assustador e temos dados concretos que não correspondem ao desejo dos portugueses. Os estudos mostram que os portugueses gostariam de ter mais filhos, achamos que temos de ter políticas de natalidade e de apoio às famílias e continuaremos a apresentar estas medidas. Agora, também não gostamos daquela visão que diz que como não temos filhos vamos abrir portas à imigração porque essa é a solução. Isso é instrumentalizar as pessoas e isso não é a nossa visão.

O que Assunção Cristas nos diz, mais ponto menos vírgula, é "nasceu em Portugal não é português", não basta nascer em Portugal para se ser português [apesar de ser filho de imigrante, que trabalha, produz riqueza, e paga impostos em Portugal. Mas isso são outros quinhentos].

Voltamos ao início da entrevista: "Nasceu em Luanda cinco meses e três dias depois do 25 de Abril de 1974. Casada, tem quatro filhos, é católica praticante [...]"

Nascida fora do rectângulo, uma branca de segunda, como eram denominados pelo Estado Novo do "doutor Salazar, como se usa dizer no CDS, os descendentes dos colonos, em Angola obrigados a sentar-se atrás dos brancos de primeira nas escolas e nos transportes, chega a ministra da Nação. O resto, o catolicismo praticante, deixamos à "doutrina social da igreja".

Ver original em "DER TERRORIST" (aqui)

Alemanha e refugiados

«Chanceler acordou com Seehofer que imigrantes registados noutros países da UE sejam levados para campos de detenção e a constituição imediata de três desses campos na fronteira com a Áustria. Marisa Matias alerta: “ou acordamos a tempo ou seremos cúmplices da barbárie que está a avançar na Europa”.
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Merkel e ministro do Interior chegam a acordo sobre refugiados

Após reunião em Berlim, chanceler federal e Seehofer anunciam entendimento sobre questão migratória, aliviando a crise que ameaçava derrubar o governo. Ministro, que chegou a oferecer renúncia, diz que ficará no cargo.
O atual ministro alemão do Interior e líder do partido União Social Cristã (CSU), Horst Seehofer, anunciou na noite desta segunda-feira (02/07) que chegou a um acordo com a chanceler federal Angela Merkel sobre a questão migratória e, portanto, se manterá em ambos os cargos.
O anúncio foi feito em coletiva de imprensa após uma reunião em Berlim entre os líderes dos dois partidos irmãos, tida como o último ato de uma queda de braço que vinha se estendendo há duas semanas e ameaçava derrubar o governo. Na véspera, Seehofer chegou a oferecer sua renúncia.
"Após intensas negociações entre a CDU [União Social Cristã, de Merkel] e a CSU, chegamos a um acordo sobre como podemos, no futuro, evitar a imigração ilegal na fronteira entre a Alemanha e a Áustria", disse Seehofer ao deixar a sede da CDU. "Ficou provado, mais uma vez, que vale a pena lutar por uma convicção."
A chefe de governo, por sua vez, também disse estar satisfeita com as negociações. Segundo ela, os dois partidos – que formam há décadas uma única bancada parlamentar – chegaram a um "acordo realmente bom" depois de um "duro impasse".
"Com o acordo, respeitamos o verdadeiro espírito de colaboração que reina na União Europeia e, ao mesmo tempo, damos um passo decisivo para o controle da migração secundária", disse Merkel, referindo-se aos casos em que um requerente vem de um outro país do bloco europeu. "É exatamente isso que me pareceu e me parece mais importante."
Durante as negociações, Merkel e Seehofer concordaram em estabelecer um "novo regime na fronteira" entre Alemanha e Áustria, que inclui a criação de centros de trânsito, onde seriam alocados os requerentes de refúgio que já estão registrados em outros países da UE.
Esses centros seriam edifícios controlados, de onde os migrantes não poderiam sair até que sua situação seja resolvida e seja decidido se eles podem ou não ficar na Alemanha. Em caso de negativa, os refugiados seriam transportados dali mesmo em direção ao país europeu por onde entraram.
O compromisso satisfaz ambas as partes, evitando a renúncia de Seehofer e, ao mesmo tempo, a maior crise dos quase 13 anos da era Merkel, que vinha mantendo a classe política em suspense.
Partidos reagem à crise
Ainda não está claro se o Partido Social-Democrata (SPD), o terceiro da coalizão governista, aceitará o acordo. Após a reunião na sede da CDU em Berlim, os líderes se dirigiram para a chancelaria federal para um encontro com representantes social-democratas.
Mais cedo, a presidente do SPD, Andrea Nahles, havia rejeitado o "plano mestre" sobre imigração de Seehofer, afirmando que sua legenda se manterá firme com o que determina o acordo de coalizão fechado com o bloco conservador.
Nahles, ao comentar sobre a crise em Berlim em coletiva de imprensa, a descreveu como um "drama implacável". "Minha paciência está ficando cada vez menor", afirmou.
A maioria dos partidos da oposição também disse reprovar a crise em torno do governo. A líder da bancada da sigla A Esquerda no Parlamento, Sahra Wagenknecht, afirmou que projetos importantes, como a criação de empregos seguros, estão sendo deixados de lado.
A populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), por outro lado, demonstrou satisfação com o impasse. "Eles [CDU e CSU] estão ocupados com eles mesmo – e isso pode ser atribuído a nós. Agora você vê como vai a caça. Nós estamos caçando", disse Alice Weidel, líder da bancada.
A declaração da parlamentar se referia a um comentário do copresidente da AfD, Alexander Gauland, na noite das eleições alemãs, em setembro de 2017, quando afirmara que seu partido "caçaria" o governo federal.
A guinada mais à direita no discurso de Seehofer e de sua CSU se deve também a uma questão interna: o partido perdeu espaço na Baviera para a AfD, abertamente anti-imigração, e teme encolher ainda mais se não adotar mudanças em sua política.
Impasse sobre migração
Seehofer, um veterano político bávaro, defende uma abordagem mais dura e mais independente de Bruxelas na questão migratória, em confronto direto com Merkel. No domingo, ele ameaçou renunciar, colocando em dúvida a sobrevivência do governo.
"Não me deixarei dispensar por uma chanceler que só é chanceler por minha causa", disse o ministro do Interior nesta segunda-feira, antes da reunião com Merkel, ao jornal Die Süddeutsche Zeitung.
Isso porque, sem a CSU, a líder alemã não teria mais maioria no Parlamento para governar – a CDU depende de sua aliada bávara para manter o poder na coalizão que também inclui o SPD. A possibilidade de novas eleições não estava descartada.
Seehofer criticara os resultados obtidos por Merkel na cúpula da União Europeia, na semana passada, afirmando não terem o mesmo efeito das medidas internas defendidas por ele para impedir a chegada de requerentes de refúgio à Alemanha.
Segundo o ministro, as propostas no nível da UE são menos eficazes do que o controle de fronteiras e a rejeição de requerentes de refúgio já cadastrados em outros países europeus, duas medidas que ele defende e que estão na origem da crise dentro do governo alemão.
As últimas duas semanas confirmaram, assim, o desgaste de Merkel, desde 2015 assombrada pela questão migratória. A crise em Berlim é o mais recente sinal de divisão na União Europeia sobre como lidar com a chegada de refugiados
Ainda que tenha caído drasticamente nos último anos, o fluxo migratório continua a dar combustível a populistas de direita na Europa, que ganham terreno do establishment político.
EK/afp/dpa/efe/dw | Deutsche Welle

Na foto: Merkel e o nazi Seehofer, ministro do interior da Alemanha

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União Europeia se entrega à pressão dos populistas

Sem muita resistência, bloco se curva à vontade de Salvini, Kurz e Orbán e decide fechar suas fronteiras para refugiados. CSU deveria pensar melhor nos riscos do que está fazendo, opina a correspondente Barbara Wesel.
Se o resultado da cúpula vai ou não vai salvar o mandato da chanceler federal alemã não foi decidido em Bruxelas – os neopopulistas de Munique é que terão agora de quebrar a cabeça com isso. Todo mundo sabe que essa briga pelo poder encenada em Berlim não tem nada que ver com os fatos sobre a atual migração para a União Europeia (UE). É, na verdade, uma insolência como um punhado de bávaros megalômanos tenta tomar refém a União Europeia e manipulá-la para tomar o poder da ala mais liberal do conservadorismo alemão, liderada por Merkel.
O destino quis que justamente a Áustria assumisse a presidência temporária da União Europeia pelos próximos seis meses. O chanceler Sebastian Kurz agarra com entusiasmo essa chance de dar uma guinada à direita dentro da União Europeia, a mesma que os conservadores, liderados por ele, já deram em Viena, por meio da aliança com a extrema direita do FPÖ. Esta se apresenta em íntima aliança com a Liga na Itália, onde Matteo Salvini se vê como o nove Duce, na sucessão direta de Mussolini, e eleva a misantropia a uma nova forma de arte.
E este novo eixo de extrema direita está unido em amizade também com o húngaro Viktor Orbán, o pai das campanhas difamatórias, dos discursos de ódio e do populismo desenfreado na Europa. A receita dele: basta repetir várias vezes que estrangeiros e migrantes são o inimigo para que as pessoas passem a acreditar nisso. E, na Hungria, isso funciona às maravilhas.
A CSU já parou para pensar que tipo de pregadores de ódio e demagogos ela está imitando? Será que todos esses bávaros faltaram nas aulas de história ou não entenderam os mecanismos com os quais se estabelece o autoritarismo e se destrói as estruturas democráticas? Isso é um atestado de ignorância política, ainda mais para alemães!
O complicado sistema chamado União Europeia é um produto da democracia liberal na Europa. Ele se baseia em direitos e deveres equitativos dos Estados-membros, no espírito de cooperação e de solidariedade, esta uma qualidade que praticamente já virou palavrão. O slogan "A Itália em primeiro lugar", porém, como ele é repetido pelo novo governo em Roma, é o ressurgimento do nacionalismo egoísta, um veneno mortal para a Europa. Ou vale o sistema da busca de compromissos, do equilíbrio e do interesse conjunto, ou vale o benefício próprio nacional. Os dois ao mesmo tempo não dá.
No momento parece que o novo nacionalismo está em alta. Mas a assombrosa miopia de seu defensores faz com que eles estejam cortando o galho sobre o qual todos nós estamos sentados. Orbán só consegue criar sua autocracia particular na Hungria porque está sentado sobre os bilhões que vêm de Bruxelas. Se ele ajudar a destruir a União Europeia, vai cair como um pino de boliche.
Ao longo de décadas, a União Europeia assegurou liberdade, bem-estar e paz para todos nós. Quão cegos precisam ser esses conservadores da Baviera para ignorar que eles – junto com o norte da Itália – se tornaram uma das regiões mais ricas do mundo principalmente por causa da União Europeia? Só o fechamento das fronteiras dentro do espaço de Schengen custará bilhões em curto espaço de tempo. E tudo isso por causa de uma histeria ideológica que transforma os migrantes no pior de todos os males.
E onde ficam, por falar nisso, os valores humanitários? E os chamados valores cristãos? Em vez de dependurar cruzes em repartições públicas, os bávaros deveriam cultivar a virtude da compaixão. Mas a única que ainda ousa falar, cuidadosamente, em direitos humanos, é Angela Merkel. Infelizmente quase ninguém mais dá ouvidos a ela.
Sem oferecer grande resistência, a União Europeia se entrega à pressão dos populistas. E deixa de lado seus verdadeiros problemas: a ameaçadora desmontagem da Otan, a guerra comercial com Donald Trump, as regiões e populações negligenciadas, a economia digital – não faltam coisas a fazer! Mas tudo indica que os democratas na Europa deixaram escapar a hora certa de resistir. Merkel está enfraquecida, Emmanuel Macron faz apenas cálculos de poder e, de um modo geral, falta o contrapeso político para defender o núcleo da Europa.
E justamente os conservadores da Baviera contribuem fortemente para essa situação desoladora. Porém, se a CSU, em meio à sua tentativa desesperada de se apresentar como a Liga Sul na Alemanha, der uma olhada nas pesquisas, vai ficar preocupada. Seus líderes, Horst Seehofer e Markus Söder, estão em queda livre. Um europeu convicto não tem outra opção que não seja desejar a eles que caiam ainda mais.
Barbara Wesel (as) | Deutsche Welle | opinião
Na foto: Chanceler austríaco, Sebastian Kurz, assume presidência temporária da UE

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A História não se repete?

Paula Ferreira* | Jornal de Notícias | opinião
A crise migratória em curso é apenas a ponta do icebergue do que se está a passar na Europa. É a face visível de algo a emergir (ou a renascer), que a maioria de nós acreditava nunca defrontar. A recusa em prestar apoio humanitário a homens, mulheres e crianças, fugidos da guerra, fugidos da fome, à procura de uma vida digna, devia fazer corar de vergonha as velhas e novas democracias europeias. Além disso, a recusa de acolhimento contradiz a necessidade de rejuvenescimento de uma Europa envelhecida, sem vontade de contribuir para o aumento da natalidade.
Quando vemos os barcos de socorro das ONG a serem retidos pelas autoridades de Malta, ou a chanceler Merkel a ser chantageada pelo seu ministro do Interior, para não falar já da lei agora aprovada pelo regime húngaro, que condena a prisão quem auxiliar imigrantes ilegais, devemos perguntar: o que está afinal a acontecer nesta Europa construída a pensar no bem comum, seguindo a matriz dos Direitos do Homem, da igualdade, da fraternidade.
Em Itália, o impensável aconteceu. Movimentos populistas e de extrema-direita tomam o poder. E querem lançar raízes, chegar a outras geografias. São eles que estão a condicionar a política europeia, a sua força levou Bruxelas, para salvar a honra, após longas horas de negociação no último Conselho Europeu, a propor a criação de campos de imigrantes em Marrocos.
Matteo Salvini, o ministro do Interior italiano, o mesmo que impediu o acolhimento do navio Aquarius com centenas de imigrantes a bordo, lança agora as sementes para a criação de uma rede europeia de partidos nacionalistas. Basta vento de feição e o fogo propaga. E quando acordarmos, poderá ser tarde para uma reação eficaz contra a barbárie. Dizem, a História é longa e nunca se repete. Pelos sinais que nos chegam, é melhor duvidar da sentença. Talvez seja o momento de se criar uma nova divisa: não deixes que a História se repita.
*Editora-executiva-adjunta

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Lições da História: quando os refugiados éramos nós, os portugueses

Quando uma crise de refugiados sírios se alastra pela Europa, importa esclarecer o público sobre quando os refugiados éramos nós próprios, os portugueses.


 emigração001Emigrantes portugueses em França

Em plena crise internacional de refugiados sírios, um drama humano às portas da Europa, é importante relembrar e aprender com a história. A emigração portuguesa durante o estado novo, vista por um Francês em 1969.

“São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho

emigração002Emigrantes portugueses em França

Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião.

emigração003Emigrantes portugueses em França

Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

emigração004Emigrantes portugueses em França

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. Não têm, por isso, noção de amor à nação.

emigração005Emigrantes portugueses em França

Fogem em vez de defenderem o seu país e lutarem por uma vida melhor lá, na terra deles, vêm para aqui sujar o nosso país com a sua imundície. Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui.

emigração006Emigrantes portugueses em França

 Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.

emigração007Emigrantes portugueses em França

 Bem, na verdade, não roubam exactamente o nosso trabalho, porque aqui há leis que não nos permitem trabalhar 18 horas diárias, embora isso exista e dê jeito a alguns patrões. Mas de certeza que nos roubam qualquer coisa. São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão.

emigração008Emigrantes portugueses em França

Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.”

Diário de um Parisiense, 1969

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Deputados repudiam racismo e xenofobia

Um segurança da empresa 2045, ao serviço da STCP, agrediu uma jovem de nacionalidade colombiana. «Queres apanhar um autocarro, apanhas no teu país», terá dito. Partidos já questionaram o Governo.

Créditos / Mais Televisão

Nicol Cunayas, de 21 anos, natural da Colômbia e a morar no Porto desde os cinco anos de idade, tornou-se conhecida por ser vítima de insultos racistas, tendo sido expulsa do autocarro onde tentou entrar e, de seguida, violentamente agredida.

Segundo os relatos de várias testemunhas, o segurança da 2045 insultou a jovem e as pessoas que a acompanhavam dizendo: «tu aqui não entras preta de merda», «pessoas como vocês só arranjam problemas» ou «estes pretos não mudam».

Apesar dos insultos e da violenta agressão, revelada em vídeo, que provocou em Nicol várias e graves lesões, os agentes da PSP que se dirigiram ao local não registaram a ocorrência nem falaram com a vítima, tendo ouvido apenas o agressor.

Numa pergunta dirigida pelo PCP ao Ministério da Administração Interna, lê-se que os vários cidadãos contactados pelos jornalistas referiram um clima de impunidade em que a PSP não acautelou a defesa dos direitos liberdades e garantias desta cidadã.

Até porque, lê-se de seguida, «não tendo sido ouvida no local, esta cidadã dirigiu-se a uma esquadra da PSP no dia seguinte e aí constatou que não havia qualquer registo da ocorrência nem sequer a identificação do segurança».

O grupo parlamentar do PCP afirma que a gravidade do episódio e as suspeitas existentes quanto ao comportamento dos agentes da PSP «impõem que a Inspeção Geral da Administração Interna (IGAI) apure todos os factos eretire as respectivas ilacções».

Quanto ao comportamento racista e xenófobo do segurança da empresa 2045, advoga que o Ministério da Administração Interna avalie as consequências legais e adopte medidas de erradicação destes comportamentos.

A situação motivou também a apresentação de perguntas ao Governo por parte do BE. Já o PS, pela voz do presidente do seu grupo parlamentar, pede que se aprofunde o debate nacional em torno do racismo e apela ao Governo que conclua o diploma sobre segurança privada que está em preparação.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Migrações: Proposta que vai ao Conselho Europeu “é das coisas mais vergonhosas”

Marisa Matias apelou na terça-feira à coragem dos governos europeus para vetarem a proposta de criar mais campos de retenção de migrantes nos países às portas da UE.
As políticas migratórias na Europa e nos Estados Unidos foram o tema da sessão pública promovida pelo Bloco de Esquerda, que juntou esta terça-feira em Lisboa as eurodeputadas Marisa Matias e Ana Gomes e o comentador político Pedro Marques Lopes.
A poucos dias da realização da reunião do Conselho Europeu que tem na agenda a revisão da política migratória, com uma propostada Comissão para replicar o modelo dos campos de retenção de migrantes nos países que fazem fronteira com a UE, como já acontece com a Turquia em relação aos refugiados sírios, Marisa Matias afirmou que “a proposta que vai ao Conselho Europeu desta semana é provavelmente das coisas mais vergonhosas” alguma vez ali aprovada. “Espero que haja governos com a coragem de vetar documentos desta natureza”, defendeu Marisa, acrescentando que esse tipo de medidas contribuem para a “normalização de uma visão colonialista do mundo”, com a UE “a ajudar a este recuperação da visão colonial”.
Também Ana Gomes se referiu à proposta da Comissão como “uma maneira de externalizar as nossas responsabilidades”, lembrando que o acordo com a Turquia para receber financiamento em troca de reter migrantes e refugiados “foi imposto por alguns estados membros”.
Marisa Matias sublinhou ainda que “o Egito, Líbia, Argélia, Turquia não são países seguros” para os migrantes que a UE pretende deixar às suas portas nas chamadas “plataformas de desembarque regionais”. O que devia estar em cima da mesa do Conselho, defenderam Marisa e Ana Gomes, era a revisão das regras de asilo do Acordo de Dublin, que já teve luz verde do Parlamento Europeu e continua a ser adiada e bloqueada pelos decisores políticos governamentais.
Para a eurodeputada socialista Ana Gomes, o modelo do acordo da Turquia está a ser seguido pelo governo italiano em relação à Líbia, onde “fabricaram a ficção de que existe uma guarda costeira”. “O que há são milícias que controlam, detêm e torturam os migrantes”, afirmou Ana Gomes, acrescentando que “um terço do rendimento da Líbia vem do tráfico de seres humanos”, alimentado por “máfias do lado de lá e do lado de cá”.
“É a linha política do grupo de Visegrado que está a dominar as forças da direita europeia”
Estas medidas em debate mostram como o discurso oficial da UE já incorpora as ideias defendidas pelos governos xenófobos. “É a linha política do grupo de Visegrado que está a dominar as forças da direita europeia”, apontou Marisa Matias, alertando que “não há países que estejam imunes à naturalização do racismo e da xenofobia”.
“A Hungria criminalizou há uma semana a ajuda humanitária e não se ouviu uma palavra” dos responsáveis europeus, enquanto “o Partido Popular Europeu convive perfeitamente bem com o partido de Orbán na Hungria”, prosseguiu Marisa, apontando as responsabilidades e sobretudo a “incapacidade das famílias políticas que governaram a europa nesta reconfiguração profunda do espaço político e democrático”.
Marisa Matias contrariou ainda algumas das “mentiras que são reproduzidas diariamente”: a “mentira da invasão”, quando “já temos fluxos migratórios há muito tempo, e houve a exceção da Síria, que foi o maior êxodo da história da humanidade”; a mentira de que as ONG que salvam migrantes no Mediterrâneo têm ligações às redes criminosas, “quando são as únicas que as combatem”; e a mentira de que é legal cada país limitar a sua participação no acolhimento, uma vez que se trata de uma “violação do direito internacional e dos acordos de proteção da vida humana”.
O colunista e comentador Pedro Marques Lopes também elencou alguns mitos à volta do tema da imigração, defendendo que “os imigrantes não constituem ameaça ao emprego na Europa” e que “o que está a contribuir para a desagregação das nossas sociedades não tem a ver com a imigração, tem a ver com a falta de expectativas”.
Para Pedro Marques Lopes, o centro da questão está “no bloqueio completo do elevador social que temos nas sociedades ocidentais”. “Em particular nos EUA, onde o american dream é a maior treta que alguma vez existiu”, acrescentou, concluindo que “a erguer muros entre nós e esses nossos irmãos concidadãos, não vamos a lado nenhum”.

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O paraíso na terra só pode ser um offshore

«Associar imigração, delinquência e terrorismo é uma falácia que o populismo nacionalista dos dois lados do Atlântico utiliza cinicamente para subir nas sondagens e ganhar eleições. Não interessa que a combinação seja simplesmente mentirosa, como fez Donald Trump, ao proclamar que a delinquência na Alemanha subiu com a entrada de refugiados no país, quando a verdade é substancialmente oposta: a criminalidade desceu cinco por cento (para o nível mais baixo desde 1992). Não interessa sequer que os crimes cometidos por imigrantes tenham descido 23%. Vale tudo quando o objectivo é a demonização dos imigrantes; quando o alvo é o outro. Não interessa que os principais actos terroristas nos EUA tenham sido praticados por cidadãos de países muçulmanos excluídos da lista de impedidos a entrar nos EUA.
A deriva xenófoba da extrema-direita europeia no poder utiliza o imigrante politicamente de forma desonesta para conquistar e manipular eleitorado, recorrendo a uma retórica desprezível, seja a Liga de Salvini no novo Governo italiano, seja a CSU para travar a escalada da AfD na Baviera ou Os Republicanos franceses para competir com a Frente Nacional rebaptizada. “Ontem os refugiados, hoje os ciganos” [que a Itália quer recensear, para expulsar quem está “em situação irregular”], amanhã a legalização das armas”, dizia ironicamente o ex-primeiro-ministro italiano Paolo Gentiloni, mas a lista pode expandir-se sem grande originalidade. A lógica é simplesmente assustadora e assustadoramente simples: é a retórica do quanto pior, melhor. Uma Europa que não é capaz de se pôr de acordo em matéria de asilo, o chamado regulamento de Dublin, não é capaz de se pôr de acordo quanto ao respeito pela vida humana.
Os globalizadores de ontem são os nacionalistas de hoje: sonham com muros bonitos e grandes por todo o lado, fronteiras bem fechadas, homogeneidade ética e aquilo a que chamam centros de acolhimento, bem longe das suas fronteiras. Os globalizadores de ontem fazem do antigo estratega da administração Trump, Steve Bannon, um ideólogo e acreditam que chegou o momento de lançar um movimento internacional nacionalista com o objectivo de “devolver o poder às pessoas numa revolta popular”. A quem?
Só o dinheiro poderá continuar a circular por onde muito bem entender. O dinheiro pode ser clandestino; os humanos não. O paraíso na terra só pode ser um offshore.»
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ONU: mudança de opinião de Trump sobre crianças não tem sentido

“Entendemos que agora a prática será colocar as crianças com seus pais nos centros de detenção de imigrantes, e dissemos várias vezes que as crianças nunca devem ser retidas por razões relacionadas com sua situação migratória”, disse a porta-voz do organismo da ONU, Ravina Shamdasani.

O Escritório de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) destacou ontem (22) a “mudança sem sentido” anunciada pelo governo dos Estados Unidos na questão das crianças migrantes, porque fazer com que elas fiquem com seus pais nos centros de detenção, em vez de separá-las deles, não é uma solução para o problema.

“Entendemos que agora a prática será colocar as crianças com seus pais nos centros de detenção de imigrantes, e dissemos várias vezes que as crianças nunca devem ser retidas por razões relacionadas com sua situação migratória”, disse a porta-voz do organismo da ONU, Ravina Shamdasani.

Ela destacou que em nenhuma circunstância se pode deixar uma criança em um centro de detenção argumentando que isto se faz pelo seu interesse.

O interesse superior da criança é um princípio reconhecido e protegido nas principais normas internacionais sobre direitos humanos, incluindo a Convenção sobre os Direitos da Criança, assinada por 195 Estados, dos quais apenas dois não a ratificaram: Estados Unidos e Somália.

Em entrevista coletiva, Ravina reiterou o pedido da ONU para que os Estados Unidos adotem políticas migratórias que integrem opções diferentes da detenção, como aquelas baseadas na participação das comunidades.

Pedimos um enfoque que não consista na detenção de pais e a manutenção de seus filhos com eles, mas se apoie nas comunidades”.
Ravina Shamdasani

A porta-voz destacou que a ONU defende “alternativas que respeitem plenamente os direitos humanos dos migrantes”.

Sobre a avaliação que faz atualmente o Departamento de Defesa dos EUA para receber cerca de 20 mil crianças imigrantes sozinhas em bases militares, Shamdasani insistiu que “a migração irregular não é um crime e os migrantes não devem ser tratados como criminosos”.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 (Agência EFE) / Tornado

Ver artigo original em "O TORNADO"

Drogam as crianças | … E AINDA MAIS SOBRE O TERRORISMO DOS EUA E DE TRUMP

Parece um filme de terror mas não é um filme. É o terror dos EUA e de Trump exercido contra os latino americanos adultos e que também aterroriza os seus filhos. Os EUA são profícuos em aterrorizar populações, vimos no Vietnamee em outros terríveis teatros de guerra, vimos os seus parceiros de Israel a fazer o mesmo na Palestina, o que ainda não tínhamos visto com tanta nitidez é nos próprios EUA as crianças latino americanas sofrerem traumas irremediáveis devido ao terrorismo dos EUA, de Tump e da súcia de criminosos a viverem com gáudio na opulência da Casa Branca e noutros departamentos governamentais associados.
Trazemos ao PG novo texto do Expresso acerca do tema. Pouco importa ser dito que vão abrandar as ações coercivas praticadas contra os latino americanos e contra as suas crianças porque a maquilhagem que possa aplicar à realidade e drama do sofrimento de milhares de crianças e de adultos já não nos permite acreditar numa única palavra do criminoso Trump, nem dos que o ladeiam. Segue o texto de Hélder Gomes. Mais um com mais do mesmo: terrorismo dos EUA e de Trump. (MM | PG)
A badalada “tolerância zero” do Presidente dos EUA, Donald Trump, em relação aos migrantes sem documentos conheceu nas últimas horas avanços e recuos. Face à pressão política e humanitária, Trump pareceu recuar e assinou um decreto a proibir que as crianças fossem afastadas dos pais para, pouco depois, assegurar que continuará a agir com mão dura. Mais preocupante ainda parece ser a administração de enormes quantidades de psicotrópicos a crianças, entretanto revelada. “O sofrimento e o desamparo têm efeitos para toda a vida”, diz um dos psicólogos ouvidos pelo Expresso
os últimos dias, circulou uma gravação áudio de crianças da América Central, separadas dos pais, e mantidas num centro de detenção na fronteira entre o México e os EUA. “Há pessoas que não a conseguem ouvir porque o choro das crianças é excruciante. Esta nossa reação dá-nos uma curta medida da angústia e do sofrimento em que estas crianças se encontram”, avalia a psicóloga e psicoterapeuta Ana Moniz.
“A probabilidade de desenvolverem uma depressão reativa, perturbações de ansiedade e de personalidade e problemas comportamentais é muito alta”, continua, acrescentando que “algumas já podem estar a manifestar esses sintomas, enquanto outras só irão manifestá-los mais tarde”.
Ao contrário dos adultos, que têm “a capacidade intelectual de saber o que está a acontecer”, estas crianças “só comunicam entre si, com outras crianças também desesperadas e que também não sabem o que se passa”, contrapõe Tânia Dinis, também psicóloga e psicoterapeuta. Perante uma situação que não entendem, começam a revelar sinais de profunda insegurança.
Para tentarem remediar a situação, os adultos que se ocupam delas nos centros poderão pintar um cenário de esperança, que acaba por não se concretizar, “mentindo-lhes”, e as crianças rapidamente percebem e começam a desconfiar. “Quanto mais precocemente se manifestar essa desconfiança, maior será a dificuldade de estabelecer relações futuras – amorosas, no trabalho, etc. – porque sentirão sempre que qualquer pessoa lhes pode puxar o tapete a qualquer momento”, alerta.
Uma criança desamparada até pode aproximar-se de um adulto, em busca de conforto, de uma ligação segura. “Pode até agarrar-se às pernas de um adulto porque só quer que qualquer pessoa cuide dela, mas isso não é afeto genuíno”, sublinha Tânia Dinis. Do ponto de vista emocional, ligar-se ou não se ligar são cenários semelhantes, porque “não há segurança no vínculo”.
Por isso, a especialista defende que uma tentativa de aproximação é “um desastre tão grande como a situação em que a criança se encolhe num canto e não quer contacto com ninguém”. Por outro lado, as crianças detidas estão “entregues a adultos sem capacidade para lidar com elas e, mesmo que tivessem essa capacidade, não teriam mãos para atender a tantos casos”, refere.
“PODERIA SER TRAUMÁTICO PARA QUALQUER PESSOA E EM QUALQUER IDADE”
“O que se está a passar poderia ser traumático para qualquer pessoa e em qualquer idade”, ressalva Ana Moniz. “Mas estamos a falar de crianças de um a cinco anos, idades em que a ligação às figuras de vinculação é crucial para desenvolverem uma noção de confiança em si próprias, nos outros e no mundo. É uma necessidade básica”, defende. E acrescenta: “As grades não são nada comparadas com a separação dos pais. O sofrimento e o desamparo têm efeitos para toda a vida”. A diretora executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori, concorda que se trata de uma “situação deveras traumática” e que, do ponto de vista clínico, “essas crianças poderão ter necessidade de acompanhamento”.
Beatriz Imperatori qualifica a situação atual como “um óbvio exercício de violência”, que põe em causa “o superior interesse da criança nos princípios fundamentais da segurança e do bem-estar”. De qualquer modo, a secção portuguesa da agência das Nações Unidas para a proteção das crianças mostra-se “satisfeita com a alteração da política”, anunciada esta quarta-feira por Donald Trump, e sobretudo com as “consequências no terreno”, ou seja, “não haver mais crianças desacompanhadas”, que passam agora a ser detidas juntamente com os pais.
No entanto, pouco depois de ceder à pressão interna e internacional e assinar uma ordem executiva para acabar com a separação de famílias na fronteira, o Presidente dos EUA assegurou que a política de “tolerância zero” em relação aos migrantes era para continuar. Trump garantiu então que os Estados Unidos iam mandar os migrantes de volta, numa formulação agressiva e difícil de traduzir de uma forma que lhe faça justiça: “we’re sending them the hell back”.
Por outro lado, de acordo com a própria administração americana, a tal ordem executiva não será aplicada às mais de 2300 crianças que já foram separadas dos pais. A responsável da UNICEF defende que é crucial “resolver a situação dessas crianças já separadas”, sublinhando que há uma “óbvia urgência na reunificação dessas famílias”. No processo de relativa normalização que venha a acontecer, o pediatra Hugo Faria defende que “é fundamental explicar à criança o que se passou”. Quando “a rede de suporte se rompe, é necessário ajudar a restabelecer os laços”, devolvendo às crianças “o conforto e a segurança” perdidos, acrescenta.
NOVE COMPRIMIDOS DE MANHÃ E SETE À NOITE
Na quarta-feira, o jornal “Huffington Post” revelou, citando documentos judiciais, que funcionários dos centros de reinstalação de refugiados estão a administrar psicotrópicos a crianças sem o consentimento dos pais. Num dos casos denunciado, uma criança tomou nove comprimidos de manhã e outros sete à noite, uma prática que, segundo a documentação médica e judicial a que o jornal teve acesso, é generalizada.
Hugo Faria mostra-se “profundamente chocado”, dizendo que isso “revela a intensidade do desespero e da angústia” por que passam as crianças quando é necessário administrar “uma quantidade tão grande de medicamentos”. “O fármaco pode ajudar, mas deve ser o último recurso. Não é desejável que a criança necessite dele”, acrescenta. E, tendo em conta a quantidade de medicamentos administrada, deixa a pergunta: “qual será a intensidade de um stress pós-traumático?”. “A confirmar-se este caso e existindo uma denúncia sólida, acreditamos que os mecanismos de supervisão atuarão da forma que for necessária”, afirma, por sua vez, Beatriz Imperatori.
A psicóloga e psicoterapeuta Tânia Dinis levanta um problema raramente considerado: o trauma dos próprios agentes nos centros de detenção. “A conformidade e a obediência de quem está no terreno poderão levá-los a considerar que a responsabilidade não é sua, que estão apenas a cumprir a lei. Mas quando um dia lhes passar o nevoeiro, que os faz acreditar que os imigrantes são más pessoas e que os culpados são os pais, isso poderá persegui-los para o resto da vida”, explica.
O stress, a irritabilidade, o consumo abusivo de álcool e drogas e até a violência doméstica são alguns dos cenários possíveis, refere, acrescentando a possibilidade de virem a ter “pesadelos com as caras das crianças”. Quanto às vítimas mais imediatas, Ana Moniz diz que “no limite, estas crianças vão sobreviver, é provável que sobrevivam”. “Mas é uma tragédia como sociedade que estejamos ao nível da sobrevivência”, conclui.
Hélder Gomes | Expresso

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EUA | Não são jaulas, apenas “campos de férias”

Em Washington tenta-se pôr água na fervura e remendar uma política de imigração que não agrada a ninguém e está a gerar uma contestação e emoção crescentes por todo o mundo, devido à medida das autoridades norte-americanas de separar as crianças dos pais ou outros familiares que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos.
A acusação formal de todos os ilegais que passam a fronteira dos EUA começou em abril. Seguiu-se a separação das famílias e, com as primeiras imagens, a opinião pública mobilizou-se. Uns defendem a prática, recusando comparações com os nazis, outros não só a comparam às políticas de Hitler como às dos próprios norte-americanos quando criaram campos de internamento para japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial.
Mais de dois terços dos norte-americanos têm vergonha do que está a passar-se na fronteira sul com o México, onde cerca de duas mil crianças foram separadas dos pais, todos eles imigrantes ilegais, enquanto as autoridades processam as suas entradas.
As imagens dos menores a dormir no chão em celas que mais se assemelham a jaulas foi a gota de água que fez transbordar um copo que se encheu aos poucos, fruto do paulatino endurecimento das políticas de integração.
“Isto não é o Texas que eu conheço”, confessa ao Expresso Dora Saavedra, que, desde domingo, não arreda pé da entrada do centro de acolhimento de McAllen, naquele estado do sul do país. “O que estamos a fazer enquanto nação é infligir enorme sofrimento nestas crianças e nos seus pais”.
James Wegman, assessor do senador republicano Ben Sasse, resumiu-nos o sentimento coletivo dos aliados políticos da Casa Branca: “É errado! A América não retém crianças como se fossem reféns, ponto.”
Esta terça-feira, dois outros senadores conservadores, Susan Collins e Jeff Flake, escreveram uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pedindo que pare com o método. Até à hora de fecho desta edição, ainda não tinham recebido qualquer resposta.
Desde abril, todos os indivíduos apanhados a tentar passar a fronteira de forma clandestina são acusados formalmente, uma política batizada tolerância zero. Esta atitude contrasta com a que foi levada a cabo nos 15 meses anteriores, quando mais de 100 mil pessoas foram capturadas, mas depois libertadas, entre elas 37 mil jovens.
Trump afirma que o antecessor, Barack Obama, fez o mesmo. Por exemplo, no verão quente de 2014, quando se bateu o recorde de entrada de ilegais, a U.S. Customs and Border Protection (USCBP) reteve 68 mil menores e segundo o magnata nova-iorquino “muitos deles” acabaram naquelas jaulas.
Gil Kerlikowske, democrata e antigo chefe da USCBP, agência responsável pela fiscalização da fronteira, defendeu-se terça-feira, durante uma entrevista à rádio pública (NPR). “Nos casos em que esses mesmos menores foram acusados de trazer drogas, sem dúvida que as famílias acabaram separadas.”
UM ALERTA COM MAIS DE UM ANO
Independentemente da troca de acusações, a verdade é que o anúncio da detenção de todos aqueles que ousem entrar nos EUA ilegalmente, assim como a inevitável separação das famílias, ocorreu há mais de um ano.
Nessa altura, o general John Kelly, então líder do Department of Homeland Security (Departamento de Segurança Interna, organismo criado após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001), hoje chefe de Gabinete da presidência, avisou: “Sim, considero a possibilidade de separar os menores dos seus pais, de maneira a acabar com os movimentos no interior dessa terrível organização”.
Kelly referia-se à teoria de que há membros do gangue MS-13 infiltrados nas vagas de clandestinos. O receio deve-se ao facto de, ao longo dos últimos anos, aquele grupo ter espalhado o terror em algumas das maiores cidades americanas - Nova Iorque, Los Angeles, Miami, etc..
O seu colega de Executivo Jeff Sessions, ministro da Justiça, também defendeu a decisão. Em declarações à Fox News, acrescentou que a medida “pretende dissuadir entradas ilegais e reafirmar princípios básicos de um Estado de Direito. Todos os que quiserem entrar, devem fazê-lo pelas vias legais”.
Porém, desde que a política de tolerância zero foi posta em prática, o fluxo migratório manteve-se. Todos os meses, calcula-se que mais de 50 mil pessoas passam ilegalmente do México para os EUA, ao longo de um corredor sinuoso de cerca de três mil quilómetros entre San Diego, na Califórnia, e Loredo, no Texas. O processamento cadastral de todos eles é quase impossível, indicam ao Expresso vários advogados especializados em lei de imigração.
SOLUÇÃO PROCURA-SE
Mesmo assim, Trump insiste que “os Estados Unidos não se tornarão um campo de refugiados”. De forma mais elaborada, o seu diretor de assuntos legislativos, Marc Short, reconheceu à rádio pública de Boston (WBUR) que “há uma crise na fronteira”, mas que “cabe ao Congresso resolver o problema, visto que a Casa Branca não gosta de soluções binárias (deportação ou simples libertação)”.
Num discurso em Nova Orleães, na terça-feira, a sucessora de Kellly à frente do DHS, Kirstjen Nielsen, também colocou o foco no Congresso. “Há muita consternação e francamente desinformação por parte de congressistas, jornalistas e ativistas, alegando que o DHS está de forma intencional a fazer coisas desumanas, cruéis e imorais. Não estamos a fazer nada disso. Estamos a cumprir a lei emanada do Congresso. Mudem a lei e nós mudaremos também”.
Nielsen explicou depois a complicada trama legal. “Não podemos manter as crianças com os seus pais de acordo com uma decisão do tribunal, datada de 2015. Ou libertamos pais e filhos, prática levada a cabo pela anterior Administração e que ditou a anarquia, ou o menor e o adulto serão separados na sequência do processamento da entrada do mais velho”.
Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara dos Representantes, negou responsabilidades, esclarecendo que “não é um assunto de política de imigração. É uma questão humanitária”.
HITLER E OS “CAMPOS DE FÉRIAS”
Perante as críticas contra a política de tolerância zero, Sessions insistiu em cerrar fileiras. Na segunda-feira, desmentiu que as separações forçadas se assemelhem às políticas de Hitler, visto que “os nazis proibiam os judeus de regressar”.
Laura Ingraham, estrela da Fox News e putativa secretária de Imprensa, optava pelo mesmo tipo de comparações coloridas, revelando que os centros de acolhimento para menores “no fundo, são campos de férias”.
“Enojada”, Laura Bush, antiga primeira-dama, já tinha traçado um outro paralelo histórico num artigo de opinião publicado no “The Washington Post”, mas desta vez para arrasar o comportamento da Administração. “Estas imagens são reminiscentes dos campos de internamento para japoneses nos EUA, criados durante a Segunda Guerra Mundial.”
A este propósito, o Expresso conversou durante alguns minutos com May Yamaoka, uma dessas vítimas de um pesadelo com mais de 75 anos, e registou que as memórias do cárcere ainda a consomem. “Foram tempos de exceção. Era uma criança e os meus pais tinham um alvo na testa. Mesmo com o fim da guerra, a discriminação continuou. Não quero acreditar que iremos repetir a mesma fórmula tanto tempo depois”.
O MURO
A propósito do pedido de Nielsen, ou seja da alteração da lei de Imigração, note-se que a proposta da Casa Branca está congelada na Câmara dos Representantes. A causa do impasse relaciona-se com dois pontos fundamentais: muro na fronteira com o México e legalização dos “Dreamers”, os menores que entraram ilegalmente com os pais no início deste século e que obtiveram um estatuto legal provisório graças a um despacho assinado por Barack Obama.
Trump e o Freedom Caucus (movimento de extrema direita no Congresso, com raízes no movimento Tea Party) pretendem a edificação da barreira no sul do país, enquanto a oposição democrata e o “establishment” republicano (núcleo conservador do Partido) se opõem de forma mais ou menos clara.
Antecipa-se que o preço a pagar por uma legalização dos “Dreamers" (cerca de dois milhões, 55 deles portugueses) seja, por isso, a construção desse mesmo muro.
“Do ponto de vista político, Trump julga que o muro e as detenções irão beneficiá-lo junto dos republicanos. No caso das separações forçadas, há um documento que circula na Casa Branca provando que a Administração acredita que, ao deter estes pais, aqueles que se preparam para iniciar viagem irão pensar duas vezes e desistir”, diz ao Expresso Paul Miller, professor de Ciência Política na Universidade do Texas.
Até ao final desta semana, prevê-se um longo debate na Câmara dos Representantes em torno da alteração da polémica lei. Existem duas propostas e ambas têm o apoio de Trump, que mesmo assim irá sempre “ler e avaliar antes de assinar”, recordou ontem.
“É a semana da imigração”, ironiza James Wegman. “Vamos ver o que dá, mas duvido que haja progressos”. Miller concorda. “É um problema sem solução”.
Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA | Expresso | Fotos: Getty

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Monstruosidade e cobardia

«Os norte-americanos foram confrontados com a ignomínia e obrigados a ver os rostos e a ouvir as vozes da crueldade do seu governo. A violência imposta a estas crianças, que são separadas dos seus num momento especialmente traumatizante e ficam sem qualquer apoio ou carinho de um adulto, entregues a si mesmas, transporta-nos para o passado. Mas o abjeto attorney general, Jeff Sessions, não se mostrou especialmente ofendido com a comparação. Disse que era um exagero. Explicou: os nazis prendiam as pessoas e separavam famílias para elas não fugirem, eles prendem e separam famílias para elas não entrarem. Faz toda a diferença.» Daniel Oliveira, «Imigração: Contra a crueldade, política» Uma das formas mais execráveis de tortura, pela sua monstruosidade e cobardia, consiste em forçar alguém a falar através da ameaça e exibição de dor e sofrimento infligidos a um familiar ou amigo. Monstruosidade porque a tortura se torna ainda mais cruel e inumana. Cobardia porque se retira ao próprio o derradeiro direito, de falar ou resistir.
Não sabemos se a ideia de separar na fronteira bebés e crianças imigrantes dos seus pais, e de as encarcerar como se fossem adultos e criminosos, partiu de Donald Trump ou dos seus próximos. Mas sabemos que apenas a uma mente muito tortuosa, e desprovida de qualquer resquício de humanidade e escrúpulos, poderia ocorrer uma coisa assim. Tal como num interrogatório sob tortura, infligida de forma indireta, para se obter uma «confissão», também aqui se instrumentaliza a dor de terceiros, bebés e crianças, para intimidar e suster a imigração. É grave, demasiado grave e insuportável para haver, sobretudo no espaço europeu, tanto silêncio no ar.

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Ainda se encarceram crianças, no século 21? (com vídeo)

Política anti-imigrantes dos EUA vai muito além. Em um ano, 38 mil foram presos, por serem estrangeiros. Um milhão de outros podem ser deportados. Crianças aprisionadas podem nunca mais encontrar os pais
Amanda Holpuch*, no The Guardian | Outras Palavars | Tradução: Mauro Lopes
Um mês antes de Donald Trump promulgar uma política que permite a seu governo tirar milhares de crianças migrantes de seus pais, o presidente disse duas vezes a multidões, em seus comícios, que membros de gangues de imigrantes não eram pessoas. “Eles são animais”, afirmou em maio. No último fim de semana, surgiram vídeos e fotos dos centros de detenção, semelhantes a gaiolas, onde crianças, separadas de seus pais, estão abrigadas.
O comentário de Trump foi dirigido a membros violentos da gangue MS-13 [uma gangue formada sobretudo por migrantes de origem salvadorenha Mara Salvatrucha’, uma combinação das palavras Mara (“gangue”), Salva (“Salvador”) e trucha (“malandros da rua”)]. Trump rejeitou a idéia de que estivesse falando sobre todos os imigrantes. Hoje, no entanto, na medida em que surgem críticas sobre um conjunto draconiano de políticas de imigração,ativistas e advogados especulam sobre até que ponto o presidente dos EUA e sua equipe estão dispostos a ir para impedir a entrada de imigrantes no país.
O exemplo mais extremo desta política é a prática da separação familiar, com mais de 1.600 crianças tiradas dos pais. Ativistas dizem que a prática ocorreu discretamente por meses, antes de o governo adotá-la como política em abril. “Isso vai totalmente contra o espírito com que este país foi fundado”, disse Janet Gwilym, uma advogada que representa crianças no estado de Washington. “Temos a responsabilidade moral de aceitá-los. É lei internacional aceitar refugiados; é o que são essas pessoas e, em vez disso, estamos apenas aumentando o trauma pelo qual elas estão passando. ”
Gwilym, diretora da filial de Seattle da Kids in Need of Defense – Kind [Crianças que Precisam de Defesa], um grupo de defesa de crianças imigrantes desacompanhadas dos pais, disse que crianças de 12 a 17 anos que estão no centros de detenção consolam crianças que, como elas, acabam de ser tiradas de seus pais.
Ela afirmou ainda que as crianças denunciam que as autoridades de imigração lhes dizem que elas vão ver seus pais novamente em poucos minutos, mas que ela ficam sem vê-los por meses.
Mesmo diante da generalizada condenação bipartidária [democrata e republicana] e das advertências de organizações médicas sobre as consequências de longo prazo que essas separações têm sobre as crianças, Trump e seu gabinete permaneceram firmes. “Os Estados Unidos não serão um campo de migrantes e não terão instalações com benefícios para refugiados. Não seremos”, disse Trump em um encontro com a imprensa na Casa Branca nesta segunda-feira (18).
Essa defesa estridente de Trump acontece na medida em que se aproximam as eleições de novembro e dois anos depois da tentativa fracassada do presidente norte-americano de cumprir sua promessa de campanha de expandir o muro fronteiriço entre o México e os Estados Unidos.
O Congresso não concedeu verbas a Trump para edificar novos trechos da muralha na fronteira, mas nesse ínterim, seu governo criou um muro invisível de políticas que os ativistas e advogados dizem que devem conter todos os tipos de imigração. A separação das crianças de seus pais é apenas a mais dramática de muitas medidas tomadas pela Casa Branca para combater a imigração ilegal nos Estados Unidos.
As pessoas afetadas por essas medidas incluem refugiados e adultos e crianças sem o green card, que também foram alvo de uma série de ações, como o cancelamento de um programa de refugiados para crianças que viajam de países perigosos do norte da América Central até os EUA.
Há histórias diárias de pessoas sem visto, mas residentes nos Estados Unidos há décadas e com filhos nascidos no país, sendo localizadas em seus locais de trabalho e forçadas a voltar para seus países de origem. Quando se trata de população sem visto que vive nos EUA, aos olhos da governo parece não haver mais nenhuma distinção entre criminosos violentos e pessoas que vivem discretamente há décadas, sem status legal. De outubro de 2016 a setembro de 2017, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA prendeu cerca de 38 mil pessoas que não tinham condenações criminais – um aumento de 146% em relação ao ano anterior.
Da mesma forma que aplica a política de separação de famílias, o governo cancelou abruptamente um programa que fornecia suporte temporário para imigrantes sem documentação, conhecido como Dreamers (Sonhadores). Após o encerramento do Dreamers e de um programa do governo de socorro aos migrantes, chamado de Status Temporário de Proteção destinado a pessoas de seis países, 1.038.600 pessoas não estão mais protegidas da deportação, segundo dados do próprio governo.
A repressão política avançou em muitas frentes, mas a virada mais extraordinária ocorreu em abril, quando o governo Trump possibilitou a separação familiar, dizendo que haveria “tolerância zero” para as pessoas que cruzam a fronteira ilegalmente. Na fronteira, esses pais são considerados criminosos e separados de seus filhos, que não podem ser mantidos em centros de detenção para adultos.
A posição do governo, que inclui culpar os opositores do Partido Democrata e defender a separação das famílias com base em supostos motivos bíblicos, ignora os alertas das principais organizações de saúde e bem-estar infantil do país, incluindo a Associação Americana de Pediatria.
Os pais também estão sofrendo com a separação, disse Lee Gelernt, vice-diretor do Projeto de Direitos dos Imigrantes da ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis). Gelernt entrou com uma ação coletiva em março contra a prática de separação familiar do governo Trump, após se encontrar com uma mulher congolesa que não via sua filha de sete anos havia quatro meses. Ela e sua filha foram reunidas depois que Gelernt entrou com uma ação legal em seu nome. “Essa é uma política de imigração chocante, a que vemos no governo Trump; francamente, venho fazendo esse trabalho há quase três décadas, e essa é a política de imigração mais terrível que já vi”, disse Gelernt.
Gelernt afirmou ainda que os pais detidos com quem ele fala têm medo de perguntar demais aos agentes de imigração sobre seus filhos, por receio de suas crianças sofrerem retaliação. O líder da ACLU relatou que uma família disse a ele que desde que eles se reencontraram, o filho de quatro anos pergunta repetidamente se o governo vai tirá-lo do covívio familiar novamente.
Os processos legais por iniciativa ACLU buscam reunir as famílias que foram separadas e impedir que outras famílias sejam separadas no futuro. Conforme os casos caminham nos tribunais, os impactos da separação das famílias são agravados pela falta de uma infraestrutura mínima para apoiar a política de Trump. O governo tem um sistema tão caótico que os defensores dos filhos estão fazendo buscas desesperadas para localizar os pais.
“O que estamos descobrindo é que não há nenhum mecanismo, nenhuma política para comunicar ou mesmo encontrar os pais enquanto a criança estiver separada”, disse Megan McKenna, diretora sênior de comunicações e mobilização da Kind. Ela afirma que quando os pais e filhos foram separados, cada um deles recebeu o número de seu processo individual ao qual sua mãe, pai, filha ou filho não tiveram acesso. Imaginando que esses números fossem sequenciais, os defensores da Kind começaram a procurar no sistema de rastreamento de casos, na esperança de que isso os levasse aos pais que eles estavam procurando.
“É como um jogo: talvez o número da criança termine em cinco, então o número do adulto pode terminar em seis”, disse Megan. “Você coloca isso no sistema e vê se dá certo. Mas poderia ser o contrário. Ou tenta outra lógica”. Essa tática funcionou em alguns casos, mas não em número suficiente para ser uma solução. Ela disse que outros problemas incluem o fato de as crianças em muitos casos não saberem por que sua familia estava fugindo, o que poderia afetar o resultado de seu caso de imigração.
Outro desafio é o fato de os advogados não saberem o que pais separados das crianças querem para seus filhos. Por exemplo, se um pai ou mãe é deportado, ele pode querer que seu filho seja devolvido ao país de origem com ele. Ou pode haver tanto perigo em seu país de origem que eles prefeririam que a criança ficasse com autoridades de imigração nos EUA. E mesmo que as preferências dos pais fossem conhecidas, não há um procedimento claro para reunir os pais, especialmente se um deles já tiver sido deportado.
Megan disse que a Kind estava defendendo uma criança de dois anos que foi separada de seu pai em março último. O pai foi deportado em abril, mas até 12 de junho a menina ainda estava sob a custódia do governo dos EUA.
“As conseqüências em termos de sofrimento humano não podem ser subestimadas”, disse Megan. “As crianças estão sendo tirados de seus pais.”
*Amanda Holpuch - Repórter do The Guardian sediada em Nova York

Fronteira EUA / México: O que estamos a fazer é diabólico

Na foto: um requerente de asilo, hondurenho, de dois anos, prestes a ser tirado de sua mãe e colocado numa instalação onde o pessoal (de acordo com uma entrevista) ” Não é permitido confortá-la.”
Mais uma vez. * Suspiro.* por favor leia-o de qualquer maneira. )

Estamos essencialmente torturando pais que legalmente procuram asilo nos Estados Unidos (e seus filhos), tirando suas crianças menores, enjaulamento essas crianças, e dizendo aos pais que eles podem nunca se reunir — todos para ” Impedi-los (e aqueles como eles) De exercer os seus direitos legais sob a lei dos EUA. Esta nova “Política de tolerância zero”(anunciada e implementada em 6 de Abril de 2018 por Jeff Sessions) é má e não baseada em nossas leis.

Como alguns de vocês sabem, eu costumava ser advogado, e na década de 1980 eu costumava fazer um trabalho de asilo político pro bono para os salvadorenhos que fugiam da morte, a lei dos EUA permite-lhe reivindicar asilo político aqui se você tem um “receio bem fundamentado de perseguição” No seu país de origem que se encaixa em categorias especificadas. Pode apresentar-se num ponto de entrada e reivindicar asilo (arriscado – Não lhe é concedido um advogado e a maioria dos pedidos de asilo são indeferidos) ou pode reivindicar asilo como defesa para a deportação.

Agora em nossa fronteira sul, os EUA é (ao contrário da lei) se recusando a admitir aqueles legalmente reivindicando asilo (esta entrevista de hayes / Beto o ‘ Rourke, nos comentários.) eles estão forçando imigrantes a cruzar os EUA ilegalmente, e depois prendê-los E (mesmo que eles tenham uma defesa para ser deportada por causa de um pedido de asilo potencialmente válido) levando seus filhos para serem alojados em um campo de concentração – Um Wal-Mart abandonado cheio de gaiolas ou um novo acampamento de tenda em 100 graus Texas heat numa base militar. Isso está sendo feito, por Jeff Sessions e mitch mcconnell, para ” Impedi-los de procurar asilo – Isso é, como punição para eles, dissuadir outros de fazer a mesma coisa. Mesmo que essa coisa (reivindicação de asilo) seja completamente legal sob a lei dos EUA.

Relatos de representantes do congresso e advogados pró-Bono revelam que os pais dizem que seus filhos estão sendo levados “para tomar banho” e então as crianças não são devolvidas. Quando perguntado como eles vão se reunir, os pais estão sendo dito ” suas famílias já não existem.” os pais foram deportados e eles não sabem onde seus filhos estão. Porque há pelo menos quatro burocracias federais envolvidas (Cbp, dhs, ice, orr, além de corporações prisionais privadas e do doj) e não havia planejamento para implementar a política nenhum dos advogados que os representam, a alfândega e a patrulha de fronteira, nem os EUA Os representantes do congresso podem ter a confirmação de que as crianças estão mesmo a ser mantidas em linha de família.

Não surpreendentemente, um homem, depois de saber que o seu filho tinha sido levado, matou-se recentemente.

Jeff Sessions anunciou a nova política em 6 de Abril de 2018 (link nos comentários) mas Trump agora (1) afirma, incorretamente, que é “os democratas” (uma mentira completa) e (2) Twittou hoje que ele não vai mudar a nova política, a menos que o congresso concorde em financiar o muro e acabar com o asilo político e acabar com o ” Catch-and-Release.” (isto é, temos de tornar a actual política permanente e pior. )

Hoje, o DHS revelou que quase duas mil crianças foram tiradas de seus pais nas últimas seis semanas sob a nova política. As crianças estão alojadas em gaiolas em pisos de Betão. Muitas das crianças não têm acesso a ninguém que fale a sua língua. O pessoal não tem formação para lidar com o trauma das crianças, e um delator explicou recentemente que tanto o pessoal como as crianças estão traumatizados, enquanto o CEO da companhia privada de prisão foi pago 1 milhões de dólares. (Chris Hayes, depois da entrevista o ‘ Rourke, nos comentários. )

Hoje, três organizações médicas anunciaram a sua denúncia unânime desta nova política, porque separar as crianças dos seus pais e encarcerar-as é permanentemente traumatizante.

Aqui estamos, amigos. Esta é uma violação da quinta emenda da garantia do processo de direito. É uma violação da proibição da oitava emenda contra um castigo cruel e invulgar. É uma violação do direito internacional. Espero que qualquer um daqueles que continuam a ajudar a implementação desta nova política sejam evitados pelas suas congregações de fé até que isso mude. (Os bispos católicos já discutiram a possibilidade de avaliar as penalidades canônicas aos agentes do ICE, desde a recusa do sacramento da comunhão à excomunhão.) Espero que os nossos tribunais, em última ordem, desistam e desistam, e se não o fazem, estão presos por desrespeito ao Tribunal. Espero que sejam processados como criminosos de guerra internacionais e que nunca possam viajar fora dos EUA enquanto isso, cada um deles violou o seu juramento de defender a Constituição dos EUA, e eles merecem o nosso horror e o nosso desprezo.

Passei hoje em pânico, sabendo que precisava de escrever isto, e odiar esse facto. Eu tenho, apesar de todas as coisas horríveis até os últimos meses, tenho orgulho de ser um americano, escolhendo concentrar-se em nossas sublimes aspirações (igualdade de protecção, liberdade de expressão) em vez de nossas trágicas falhas (escravidão, segregação, supremacia branca, mccarthismo . )

Mas isto é simplesmente um mal absoluto. E a recusa de enfrentá-lo ou de reconhecê-lo ou de o possuir, é covardia e uma escolha deliberada para permitir o mal. (sim, amigos, esta _ é _ América, hoje. Isto é exactamente o que somos, até o mudar.)

Estamos a aterrorizar famílias. Estamos a traumatizante crianças. Estamos a violar os nossos princípios e as nossas leis para mais uma ideologia racista dos nossos governantes mal comportados. Estamos a fazer o mal. Temos de fazer tudo o que está ao nosso alcance para impedir isso. Agora.

Tradução de texto do advogado Dean Gloster, Nevada, EUA

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Ver artigo original em "O TORNADO"

Amanhã

«A existência de campos de detenção junto à fronteira entre os Estados Unidos e o México, onde pelo menos duas mil crianças imigrantes estariam encarceradas sem contacto com os seus pais e famílias, desde maio deste ano, ofende os mais elementares princípios de humanidade.
As crianças, algumas apenas com seis anos de idade, terão sido propositadamente separadas dos seus pais pelas autoridades norte-americanas como forma de dissuadir os fluxos migratórios para os Estados Unidos. O próprio Presidente Donald Trump confirmou publicamente que é assim. O conhecimento dos detalhes de toda esta prática só aumenta a nossa convicção de que estamos perante um ato cruel e de flagrante violação de direitos humanos.
As imagens publicadas pela comunicação social norte-americana mostram centros de detenção formados por jaulas onde as crianças são colocadas a dormir no chão com um cobertor térmico. Os centros estão iluminados 24 horas por dia, igualando condições próximas da tortura.
Segundo a informação pública, após a separação, não existe qualquer hipótese de reunião das crianças com as suas famílias, nem de contacto ou sequer de informação sobre o paradeiro de cada membro da família.
Manifestamos a nossa indignação e protesto veementes contra esta política desumana e indigna de qualquer sociedade civilizada e democrática, e exigimos que estas famílias sejam reunidas e livres de prosseguirem a sua vida. Certos de que esta reação é largamente partilhada, convocamos uma concentração contra a separação de crianças migrantes nos EUA, a realizar esta quinta-feira, às 19h, no Largo de Camões, em Lisboa.»

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Deputados do PS escrevem carta aberta ao Embaixador dos E.U.A.

Exmo. Senhor Embaixador Jorge E. Glass Foram divulgadas imagens de crianças atrás de grades em centros de detenção junto à fronteira dos Estados Unidos da América com o México, separadas das suas famílias que foram acusadas de atravessar ilegalmente a fronteira americana. Estas imagens são chocantes e são um atentado flagrante contra os Direitos Humanos.
Desde que o Procurador Geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, anunciou uma política de “tolerância zero” contra a imigração ilegal, o Departamento de Segurança Nacional separou das suas famílias, cerca de 2000 crianças.
Foi ainda veiculado pela comunicação social que as crianças estão dentro de gaiolas metálicas com folhas de papel térmico a servir de cobertores e que a iluminação do espaço está acesa 24h por dia. O Governo Federal deu ordens aos agentes que trabalham nestes locais para não terem contacto físico com as crianças mesmo que para oferecer conforto.
Esta política da Administração Norte-americana, para além de provocar um resultado desumano e de violência extrema contra estas crianças e as suas famílias, viola, com clareza, os princípios fundamentais do direito internacional humanitário.
Os Estados Unidos da América não ratificaram a Convenção dos Direitos das Crianças, mas esse facto não deve impedir um Estado de Direito Democrático de cumprir os direitos das crianças. Como afirmou o porta-voz do Alto-Comissário para os Direitos Humanos das Nações Unidas “Separar crianças das suas famílias equivale a uma interferência ilegal na vida familiar e constitui uma grave violação dos direitos da criança”.
As Nações Unidas instaram os Estados Unidos a acabar com a separação à força das crianças dos seus pais e evocaram a Associação de Pediatras norte-americana, que considera que tal prática pode causar danos irreparáveis com consequências para toda a vida dos menores.
Esta situação vivida na fronteira dos Estados Unidos com o México levanta ainda questões relativas à legislação nacional e internacional de proteção das pessoas refugiadas, que tem como objetivo proteger e dar segurança àqueles e àquelas que fogem dos seus países por motivos relacionados com conflitos armados, perseguição política e graves violações dos Direitos Humanos.
Perante esta realidade cruel e inaceitável, juntamos a nossa voz à onda de indignação mundial, apelando aos Estados Unidos da América que ponha fim imediato a esta política de separação das crianças das suas famílias, no cumprimento estrito da lei nacional e internacional e no respeito pelos Direitos Humanos. Palácio de São Bento, 20 de junho de 2018 Os/As Deputados/as do Partido Socialista
Catarina Marcelino
Paulo Pisco
Pedro Bacelar de Vasconcelos
Constança Urbano de Sousa
Margarida Marques
Pedro Delgado Alves
Elza Pais
Alexandre Quintanilha
Isabel Santos
José Miguel Medeiros
Carla Miranda Sousa
Porfírio Silva
Wanda Guimarães
Jorge Lacão
Edite Estrela
Ivan Gonçalves
Maria Antónia Almeida Santos
Paulo Trigo Pereira
Isabel Moreira
Tiago Barbosa Ribeiro
Carla Tavares
Helena Roseta

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

Justiça nazi

justiça nazi.jpg

Em "Justiça Nazi, a lei do holocausto" Richard Lawrence Miller explica como o poder legislativo alemão se transformou numa organização criminosa e em como "a vida pública foi gradualmente dominada por um aparelho burocrático indiferente ao atropelo dos direitos humanos com a comunidade a colaborar de boa mente no processo [...], e alerta-nos para "o desfecho inevitável da pretensão de excluir determinados membros da sociedade, mediante abusos sistemáticos da interpretação da lei, susceptíveis de ocorrerem em qualquer país do Ocidente".

Uma semana depois de Jeff Sessions, secretário da Justiça norte-americano, citar a Bíblia para legitimar as políticas de imigração da administração Trump e a separação de filhos dos pais, temos o país de André Biss de "Como Foi Salvo Um Milhão de Judeus", governado por Viktor Orbán, com assento no Parlamento Europeu na bancada do Partido Popular Europeu, do PSD e CDS, no dia Mundial dos Refugiados a aprovar um pacote legislativo que torna crime prestar auxílio a quem entre no país sem documentos legais e criminaliza os sem-abrigo.

Onde é que falhámos todos, individualmente e como comunidade, 70 anos passados sobre a derrota do nazismo e do fascismo? Foi no não contar, no não falar, no não passar a memória.

Ver original em "DER TERRORIST" (aqui)

O eixo do mal

«Os imigrantes ou são heróis como Mamoudou Gassana, que salvou uma criança de cair da varanda de um quarto andar de Paris e que a França regularizou num ápice, ou, então, não são nada. Os imigrantes ou são ricos e têm visto gold ou são considerados indocumentados, ilegais, sem direitos (como na abjecta separação entre menores e adultos na fronteira dos EUA com o México). Num país presidido pelo neto de um imigrante — ele próprio casado com uma imigrante —, crianças são colocadas em gaiolas pelo simples crime de acompanharem adultos na ânsia de uma vida melhor, com a intenção de assim castigar quem o fez e de dissuadir quem o queira vir a fazer.
PUB O racismo é um rolo compressor que cresce de forma larvar de eleição em eleição como o ovo de uma serpente. O ódio aos imigrantes trava qualquer solução política entre Estados e não olha a meios, por mais desumanos que estes possam ser, para atingir os seus fins. Jeff Sessions, ministro da Justiça da Administração Trump, e Sarah Sanders, porta-voz da Casa Branca, nem sequer têm pejo em invocar a Bíblia para defender o indefensável: “Obedecer às leis do Governo” é “muito bíblico”. Tudo isto é muito pouco cristão.
Trump e o "Brexit" catalisaram esta onda galopante de extrema-direita que faz do imigrante, do refugiado ou do candidato a asilo o bode expiatório de todo o mal na Europa. As declarações do ministro do Interior alemão, que anunciou um eixo Roma-Viena-Berlim contra políticas de aceitação de mais imigrantes, são o último passo em direcção a um abismo. O eixo não está só. Os três podem contar com o apoio férreo de países como Hungria, Polónia, Eslováquia ou Dinamarca e com a complacência dos demais, o que transforma a Península Ibérica num oásis de lucidez. Neste cenário, estão reunidas as condições para que a cimeira da próxima semana seja mais um fracasso e para que pareça mais fácil erradicar a malária ou a poliomielite do que o racismo ou a xenofobia.
O relatório anual sobre os casos de asilo na UE, que desceram 44% em 2017, permite concluir que hoje a crise migratória é, antes de mais, “uma crise de vontade política”, como sugerem responsáveis do Gabinete Europeu de Apoio em Matéria de Asilo e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. E ela aí está. O eixo Salvini-Kurz-Seehofer faz parte de um mundo que nos quer voltar a impor fronteiras e muros, e que pretende destruir qualquer noção de solidariedade entre Estados e povos.»
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Leia original aqui

EUA-México: mundo cão é isto

This is the face of a two-year-old girl screaming as her loving mother is being handcuffed and taken from her for trying to protect her and take her away from violence and poverty and despair and give her a better life—in short, for being a good mother. This is happening in the U.S. right now and is affecting hundreds of small children who are being taken to detention centers. This evil must stop!.

Leia original aqui

As lágrimas amargas de Olajumoke Ajayi

(A DOR DA GENTE NÃO SAI NO JORNAL) - Chico Buarque)
«Começo a escrever quando está o dia a nascer no Mediterrâneo. O meu relógio marca uma hora menos do que registará, caso o tenha, o de Olajumake Adeniran Ajayi, a mulher de 30 anos que, acompanhada do marido e dois filhos está agora a bordo de um dos barcos que nos próximos dias transportará para Valência, em Espanha, 629 refugiados e migrantes. Uma centena destes homens, mulheres, adolescentes e crianças estão no “Aquarius”, a embarcação que os salvou na madrugada de sábado e manhã de domingo. Os restantes seguem em duas embarcações italianas. Começaram por ser rejeitados pela extrema-direita italiana no poder, depois por Malta e de novo por Itália.
Enredada nas suas contradições e na incapacidade de assumir uma política séria e consistente, de modo a dar resposta a estas vagas migratórias, a EU foi salva no último momento da exposição crua da tragédia da sua própria insignificância. Respirou de alívio com a decisão corajosa, arrojada, solidária, e de uma grande dignidade do novo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ao evitar o que poderia ser uma catástrofehumanitária.
A congratulação pela lição dada por Sánchez não pode esconder, como escreve o El Mundo, que “as consequências desta decisão são imprevisíveis e seria negligente ignorá-lo. O seu impacto sobre as rotas, as expectativas dos emigrantes, os interesses das máfias e a reação nos países vizinhos é impossível de calcular”.
No Expresso Diário, Ricardo Costa escreve que “A cegueira de Bruxelas deu a maior borla de sempre aos movimentos xenófobos europeus, sobretudo aos que enfrentam rotas migratórias”.
Espanha não pode ficar sozinha no seu altruísmo. Tudo será inútil, caso a EU continue prisioneira dos seus fantasmas e não defina uma estratégia e um acordo a médio e longo prazo entre os países. A pressão migratória vai continuar e aumentar nos próximos anos e décadas, e essa é a “maldição dos ricos”, como escreve no El País o economista Branko Milanovic. África é o continente com a maior expectativa de crescimento demográfico, por isso, não adianta construir muros, como pretende a Hungria, a Eslováquia ou a Itália. Ou fechar os olhos á realidade, como disse Marcelo Rebelo de Sousa em Boston.
Para já ainda há países a aceitarem acolher refugiados e migrantes por questões humanitárias.Mas a tendência é para a introdução de um sistema de pagamento por cabeça. Não é já o que a EU está a fazer com as milionárias transferências de dinheiro para a Turquia? Se agora são um negócio controlado por máfias, os refugiados podem transformar-se num negócio à escala dos países, e com pouca diferença dos sistemas de escravatura. Quais são os limites morais do mercado? Quanto custa um refugiado?
Num mundo em que tudo se liberaliza, em particular o movimento de capitais, é revelador perceber que o único tabu, aquilo que continua a defrontar uma total resistência, é a livre circulação de pessoas.
Assim, e como não é sério passar dias inteiros das semanas todas a debater os delírios do presidente de um clube de futebol e pensar que daí não advêm consequências para a definição da sociedadeque somos; como não é possível ficar indiferente ao drama de milhões de pessoas a viverem na pobreza extrema, mas sentem ter à distância de um braço de mar a hipótese de uma vida nova; como a odisseia dos refugiados e migrantes raramente consegue mais que os 15 minutos de fama enunciados por um pintor pop; como a dor da gente nunca vem no jornal, de uma forma consistente e continuada; e quando os holofotes mediáticos estão centrados no campeonato do mundo de egos de dois presidentes perdidos nos seus próprios labirintos, o Curto de hoje só podia ter como tema principal a dor da gente. A dor que conta.»
Valdemar Cruz
Expresso curto, 13.06.2018
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Leia original aqui

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