Unidade

"Avança connosco"

A impotência geral dos cidadãos para mudar o que está mal, a abstenção geral, devia ter uma voz política de movimento social. E não há muitas forças políticas capazes de o organizar. 

Dias depois das eleições, o Partido Comunista Português (PCP) divulgou um vídeo. O João Rodrigues já escreveu sobre ele.

Mesmo sendo propaganda, é uma forma elegante de relativizar o seu resultado eleitoral, a descida lenta mas continuada desde 1980, e de valorizar a importância da generosidade quotidiana dos comunistas, que é por isso mesmo - como já se disse- imprescindível.

Imprescindível, a preserverança - seja ela um sonho acordado, uma utopia ou apenas vontade de mudar o que está mal - de tentar uma outra forma de organizar a sociedade, mais humana e solidária, menos egoísta e desigual, menos predadora e mais desenvolvida, menos escrava e mais emancipada. Foi com essas utopias que o mundo foi avançando. E na sua ausência, recuando.

Essa elegância não pode, contudo, fazer perder de vista as razões da descida de votos que pode reflectir uma redução da influência política do PCP junto da população.

Em 1979, o PCP - então já com 58 anos de vida - chegou a ter 1,1 milhões de votos, correspondente a 18,8% dos votos. É verdade que tinham passado apenas cinco anos desde o 25 de Abril. O PCP tinha saído do fascismo como a força respeitada que resistira teimosamente a todos os ataques da ditadura. A sensação de poder transformar a sociedade era ainda muito viva, mesmo depois do 25/11/1975, da primeira entrada do FMI (com o seu primeiro programa de austeridade) pela mão do PS de Mário Soares empurrado pela social-democracia alemã (ver da pag 159 a 207); e de se viver um forte antagonismo de forças conservadoras que tinham criado uma violenta e terrorista rede bombista de direita.

Revista da Legião Portuguesa, Fev 1948

O PCP era uma organização participada, influente, com um forte sector intelectual, plena de quadros em todos os sectores de actividade, criador de um pensamento enriquecido e com um forte peso sindical, agregando a si quadros e cidadãos não comunistas, realizando conferências nacionais alargadas sobre os temas nacionais e sectoriais, como foi o caso da Saúde em que teve forte presença na criação do Serviço Nacional de Saúde. Influenciou de 1976 a 1990 um jornal de circulação nacional - O Diário. Havia uma capacidade de mobilizar ao lado da organização, muito no seguimento da experiência política durante o fascismo.

A unidade era - umas vezes bem outras vezes mal - objecto de trabalho político organizado do PCP. E por isso havia a ousadia do lema importado de França: eu sou comunista, porque não tu? 

Fruto de muitas causas - que importa aos comunistas analisar e articular  com uma visão para o país (de modo a não caírem nas sucessivas cascas de banana que se lhes colocam) - o certo é que a redução da expressão eleitoral parece ter justificado há algum tempo uma centralização, própria das organizações que visam salvaguardar-se.

Já houve casos semelhantes na História do PCP que foram criticados internamente por ter conduzido a uma sectarização da organização e que foram resolvidos com a mudança de orientação no plano da unidade, invertendo-se a tendência para um fecho em si mesmo (que auto-alimenta essa preocupação de autodefesae recuo). Pugnou-se então por um contacto estratégico, intenso e continuado a outros sectores sociais e políticos da sociedade, capaz de gerar uma dinâmica social incontornável no plano político. Foi o caso do MUNAF, não foi o caso do MUD no seu início, mas foi no seu final até à sua ilegalização, tendo transbordado para o forte apoio popular à candidatura de Humberto Delgado; foi o caso do MUD Juvenil que, mesmo extinto judicialmente em 1957 - sob o argumento de ser uma ramificação do PCP -, reflectiu-se na crise académica de 1961/62 que, por sua vez, se repercutiu noutras vagas de revolta ao fascismo e forneceu muitos quadros no pós-25 de Abril. 

A importância do trabalho de unidade é esse: formar as novas gerações na vontade de mudar, que acabam por prolongar no tempo a sua influência, à medida que essas gerações vão envelhecendo. Não criar gerações novas é condenar o futuro.

Revista da Legião Portuguesa, Fev 1947

Durante o fascismo, o inimigo era claro e - lendo por exemplos a revista da Legião Portuguesa - também era claro para o fascismo quem era o seu principal inimigo a abater. Mas nem por isso se tornou mais fácil o trabalho de unidade.

Hoje, quando se perpetuam condições económicas e sociais gravosas para os trabalhadores e para os jovens, quando se desarticula durante décadas um SNS de qualidade e se sente a falta de uma política coerente de habitação, sem que se consiga ver uma solução estratégica que inverta esta dinâmica neoliberal; parece haver condições para uma discussão profunda sobre a escolha de soluções que impeçam este marasmo político e económico no país.   

Ora, os documentos do PCP saídos das eleições - e o próprio video - enfatizam"uma intensa e prolongada operação de que foi alvo, sustentada na mentira, na difamação e na promoção de preconceitos". Isso apesar de Jerónimo de Sousa, no comício de 11/10/2019 acentuar que o PCP não pretende encontrar "bodes expiatórios para explicar a redução verificada, nem tão pouco esconder as nossas insuficiências e debilidades de natureza diversa que importa avaliar, corrigir e superar".

É verdade que o desgaste mediático é cada vez mais sofisticado, maciço e influente, porque harmonizado internacionalmente e televisivo. Mas esse foi e será sempre um dado do problema para os comunistas, já que, lutando por uma sociedade diferente da capitalista, é normal que haja reacção. Não vale a pena fazer disso um argumento político. Pior é o facto de a mediatização da sociedade e a concorrência na comunicação social obrigarem a um enorme desgaste no acompanhamento do seu ritmo, que - tal como acontece já na actividade jornalística - arrisca-se a que a vida militante se impregne da fúria de ratos que pedalam uma roda que não sai do mesmo sítio. Só que agitação não é movimento.

Revista da Legião Portuguesa, Dez 1948

Mais relevante que isso é a ausência de um trabalho organizado na criação da unidade - em torno de problemas concretos, transversais e a diversos níveis - cheio de paciência e calma, sem pressas, auscultando e debatendo, visando encontrar plataformas comuns, englobando-as nos objectivos do PCP, definidos de forma clara e estratégica, como se fossem governo no dia seguinte.

Porque é a força das propostas, articuladas numa visão para o país - e não dispersas - que torna
forte qualquer movimento ou partido. E ao mesmo tempo, tenderá a esvaziar outros movimentos - inclusive de extrema-direita - que já se encontran no terreno e poderão canalizar para si - e mal dirigir - o descontentamento das pessoas com a vida que levam. Vivem-se tempos perigosos.

Muitas pessoas preocupadas com a evolução eleitoral do PCP foram votar na CDU tentando contribuir de alguma forma. Mas não bastou. E não bastará, se tudo se mantiver igual.

O PCP - porque é um partido com fortes tradições de organização na luta - pode ainda ter um papel organizador, ampliar as suas possibilidades de influência, ganhar mais pessoas para causas comuns e colectivas, engrossar o que hoje parece um esvaimento de quadros, militantes ou apoios, uma impotência geral, uma incapacidade de mudar a realidade, para benefício de um rolo compressor de desigualdade, mesmo na ausência da troica ou de uma maioria de direita. 

Esse é um trabalho penoso, mas também imprescíndivel. Porque é desse trabalho que se faz o lema "avança connosco" com que o video fecha.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

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