União Soviética

“A União Soviética é um vencedor militar indiscutível, mas um vencedor ferido até à morte”

Entrevista de RT France a Annie Lacroix-Riz *

Os atuais livros de história franceses, retrabalhados com o molho académico da União Europeia e dos Estados Unidos, violam a verdade histórica com uma ousadia em que se testemunha o capítulo comum a todo o ensino médio: unifica no “totalitarismo” a URSS, o Reich nazi e a Itália fascista. A história baseada em arquivos, incluindo a da Segunda Guerra Mundial, foi varrida.

 

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Fonte: Sputnik, O desfile da Vitória na Praça Vermelha, em 24 de junho de 1945

Annie Lacroix-Riz, professora emérita de história contemporânea, autora de numerosas obras, analisa a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial e a reescrita da história pelos países ocidentais.

RT France: Bom dia, pode explicar-nos porque é que esse dia é tão importante na história contemporânea russa?

Annie Lacroix-Riz (em diante ALR): A sua data simboliza a implacabilidade alemã, que foi levada até ao último extremo: foi em 9 de maio que Praga caiu, um dia após a capitulação alemã em Berlim. Fica patente a crueldade desta guerra que foi para a Rússia uma verdadeira guerra de extermínio. O 8 de maio, em Berlim, finalmente na presença de Jukov, ainda podia passar, em certos aspetos, pela confirmação da primeira tentativa “ocidental” de Reims, em 7 de maio. A atitude indignou tanto mais os soviéticos quanto os anglo-americanos lhes infligiram, em 2 de maio, a severa humilhação de uma capitulação separada da Wehrmacht em Itália, com graves consequências políticas, em particular jugoslavas.

Essas más maneiras, somadas a um imenso litígio acumulado desde 22 de junho de 1941, antecipavam a celebração do fim da guerra europeia como uma vitória “ocidental”. Exigia que os soviéticos proclamassem solenemente diante do seu povo que os “ocidentais” tinham obtido indiscutivelmente a vitória militar.

Já em 1968, o excelente historiador americano Gabriel Kolko, estudando a política de guerra dos Estados Unidos (The Politics of War: The World and United States Foreign Policy [A Política de Guerra: A Política Externa do Mundo e dos Estados Unidos] 1943-1945), demonstrou que a Rússia tinha suportado a quase totalidade do esforço militar. Entre muitas outras, acaba de ser publicada uma obra anglo-russa sobre a correspondência Stalin-Churchill, de julho de 1941 a julho de 1945 (Churchill e Stalin. Comrades-in-arms during the Second World War [Camaradas de armas durante a Segunda Guerra Mundial]), que mostra que a União Soviética suportou o peso do conflito desde o ataque Barbarossa, em 21 de junho de 1941, sozinha em todas as etapas, até, grosso modo, o desembarque de 6 de junho de 1944. No Ocidente, esse desembarque só foi possível porque a União Soviética desencadeou a gigantesca ofensiva Bagration, que aliviou o peso da Wehrmacht para os ocidentais. [...] Se a guerra foi terrível para a União Soviética, foi bem melhor para as tropas ocidentais. Após a ofensiva das Ardenas, em janeiro de 1945, a Wehrmacht deixou de combater a oeste. Kolko fez as contas precisas, através dos arquivos americanos publicados (Foreign Relations of the United States [Relações Exteriores dos Estados Unidos]): ainda existem 270 divisões alemãs que lutam com fúria até ao último dia na frente oriental; existem 27 na Frente ocidental, 26 das quais estão envolvidas na evacuação de unidades da Wehrmacht e do seu material para os Ocidentais e subtraí-las ao Exército Vermelho. 300.000 mortes soviéticas na última fase da tomada de Berlim, contra 200.000 para os americanos em todas as frentes, europeia (incluindo o norte da África) e asiática, de 1941 até à capitulação japonesa [...]

O dia 9 de maio tem uma componente soviética e russa particularmente forte: com o que os russos mais sofrem atualmente é que a sua contribuição para a guerra e a vitória, espontaneamente reconhecida por todos os povos da Europa e do mundo em 1945, é negada agora num “Ocidente” muito ampliado desde 1989. A tal ponto que o seu país nem sequer foi convidado para as celebrações “ocidentais” do fim da Segunda Guerra Mundial.

[...] Trata-se de um verdadeiro negacionismo. Como francesa e historiadora, observo um fenómeno constante ao longo das décadas, muito amplificado nos últimos vinte anos. É caricatural – seja em maio de 1945 ou no aniversário do desembarque anglo-americano de 6 de junho de 1944 na Normandia: a União Soviética desapareceu do campo de guerra. A questão não se colocava assim em 1945, por causa da experiência geral dos povos, em particular dos países ocupados, em 1939-1945: apesar da inundação de propaganda, imediata, em 1944-1945, sobre a libertação pelos americanos (ou os anglo-americanos), essa experiência excluía a contestação do papel do Exército Vermelho.

No decorrer das celebrações, 6 de junho de 1944, 8 ou 9 de maio de 1945, a União Soviética desapareceu do campo de guerra militar, apesar de ter vencido na frente oriental. O facto é reconhecido por todos os observadores sérios, especialmente nos países de língua inglesa, onde foi publicada uma abundante literatura militar desde os anos 90.

Além dos arquivos examinados pelos historiadores, existem documentos de guerra contemporâneos preciosos. Penso em particular no Diário de Guerra de um advogado anticomunista, antissoviético e antissemita, Maurice Garçon. O seu testemunho reflete fielmente o comportamento das elites ocidentais descritas pelos arquivos e, em particular, os relatórios das eminências de Vichy e da polícia, que examinei. Entendemos que o momento decisivo da guerra não é, como costumamos pensar, Stalinegrado, por muito que tenha sido decisiva essa derrota esmagadora do Reich, nem mesmo a travagem da Wehrmacht frente a Moscovo na viragem de 1941.

O verdadeiro ponto de viragem da guerra ocorreu em junho-julho de 1941. Foi o momento em que os grandes observadores ocidentais garantiram que a guerra já não podia ser vencida pelos alemães. A Blitzkrieg morreu nos dias seguintes à Operação Barbarossa: a resistência do povo soviético (digo bem, o povo) e do Exército Vermelho e a eficácia da “tática da terra queimada” imediatamente atingiram os círculos “bem informados”. Descobri os testemunhos formais convergentes de 9 e 16 de julho de 1941 de dois soldados proeminentes, um ex-ministro da Guerra belga e o general Doyen, chefe da delegação francesa na Comissão Alemã do Armistício: se a resistência continuasse mais dois meses, os alemães encontrar-se-iam numa situação muito comprometida; ao fim de três, a derrota estaria garantida.

Doyan, portanto, escreve a Pétain: a Alemanha já não garante a nossa proteção, devemos voltar-nos rapidamente para os Estados Unidos “saídos da guerra de 1918 como os únicos vencedores” e que “ainda mais vencedores sairão do conflito atual”. “Aconteça o que acontecer, o mundo deve, nas próximas décadas, submeter-se à vontade dos Estados Unidos”, conclui este general, que cito literalmente.

Mas o seu poder económico avassalador não quer dizer capacidade militar. E, neste ponto, toda a burguesia concorda, preocupada com a resistência soviética desde o verão de 1941 e, cada vez mais, quando a vitória militar soviética se perfila. Assim, Maurice Garçon desespera a partir de Stalinegrado e, ainda mais, depois de Kursk. Porque é que o raio desses anglo-americanos não avançam? A sua litania de 1943-1944 confirma o escárnio (também textual) do chefe dos RG de Melun, em fevereiro-março de 1943: “a burguesia, na sua imensa maioria, impacienta-se com a passividade anglo-saxónica” na frente ocidental inerte. Ela nunca criticou tanto, “desde o armistício, a atitude [...] excessivamente pacífica ao bel-prazer dos exércitos anglo-saxões [...], os burgueses franceses sempre consideraram que o soldado americano ou britânico deveria estar naturalmente ao seu serviço no caso de uma vitória bolchevique”.

Hoje, no entanto, as pessoas acreditam que os ocidentais lutaram com valentia até 8 de maio de 1945. Você perguntar-me-ia se estávamos em situação de negação: sim. Mas muitos campos históricos, os da guerra e muitos outros, são hoje objeto de uma reescrita total da história, na qual, além disso, a ciência histórica não conta para nada.

RT France: Pode explicar-nos por que razão, no ensino da história na França, a parte de leão volta a insistir na vitória americana? De onde vem essa “reescrita da história” de que fala?

ALR: Eu lecionei no ensino secundário, de 1972 a 1984, antes de me tornar professora universitária. Certamente, aquilo de que está a falar constituía o assunto da propaganda persistente da grande média, mas tínhamos alguns bons manuais, como a coleção dirigida por Jacques Bouillon (Bordas). Deixe os ouvintes entrarem no mercado dos livros em segunda mão. Existia então uma apresentação honesta da coisa, que já não existe.

Os cruzados do Ocidente agarraram no assunto muito depressa. No início de 1985, na revista Historiens et Géographes [Historiadores e geógrafos], apareceu um artigo impressionante da cientista política americana Diana Pinto, desde então ao serviço de numerosos think tanks americanos oficiais e não oficiais. Analisando a nova fornada de livros didáticos do ensino secundário, ela exultou: os historiadores franceses mudaram, temos agora livros didáticos de história franceses satisfatórios para a sua visão da “América”, há muito considerada “imperialista”. É a União Soviética, até então considerada o país libertador, vitorioso sobre o nazismo, agora como ditadura “totalitária”, que concentra todas as críticas. A Sr.ª Pinto também ficou aborrecida com o “atraso” dos geógrafos franceses que ainda simpatizavam com a União Soviética e tinham a audácia de continuar a falar do imperialismo americano (“América nos livros de história e geografia das aulas finais francesas” (Historiens et Géographes n ° 303, março de 1985, pp. 611-620).

Os atuais livros de história franceses, retrabalhados com o molho académico da União Europeia e dos Estados Unidos, violam a verdade histórica com uma ousadia em que se testemunha o capítulo comum a todo o ensino médio: unifica no “totalitarismo” a URSS, o Reich nazi e a Itália fascista. A história baseada em arquivos, incluindo a da Segunda Guerra Mundial, foi varrida. Os comentários de Doyen, em julho de 1941, sobre a hegemonia americana, prenunciavam o triunfo da lenda negra sobre a URSS e o seu papel nulo na Segunda Guerra mundial.

Hoje é impossível, e isso foi conseguido por toda uma série de programas de televisão, do género “Apocalipse”, ter uma imagem correspondente às coisas simples que mencionei no início, incluindo a simples correspondência entre Stalin e Churchill: a partir do verão de 1941, Stalin pediu incansavelmente essa famosa abertura da segunda frente. Muitas vezes acabou zangado (em vão), com Churchill, que lhe prometia todos os meses, todos os trimestres, todos os semestres, que a segunda frente estava iminente. Stalin queixa-se, factualmente, que os soviéticos estão sempre sozinhos contra a Wehrmacht. E Churchill fica indignado com o seu mau humor e considera-se ofendido!

Agora, lembremo-nos de que há duas coisas na Segunda Guerra Mundial como, de resto, na Primeira. Há uma guerra militar, vencida na Primeira Guerra Mundial, por um lado, pelos franceses e ingleses e, por outro, pelos russos. Certamente estes abandonaram a guerra em 1917, mas garantiram a sobrevivência da França no verão de 1914 e, além disso, enfrentando metade das divisões alemãs. De resto, até os vencedores oficiais, afinal, dificilmente beneficiam da paz. Não vou debruçar-me sobre a história da Primeira Guerra mundial... Mas tivemos um fenómeno ainda mais massivo durante a Segunda Guerra mundial: a Alemanha entrou como manteiga no Ocidente. A sua triunfal Blitzkrieg afundou-se nas planícies russas a partir de 22 de junho de 1941. A guerra militar terminou na Europa com uma vitória soviética, incontestável.

É uma dupla vitória, tanto para a União Soviética como para os povos. O general Béthouart, membro de La Cagoule [1], apoiante de Vichy, recuperado, como todos os seus pares, pelos americanos, em novembro de 1942, durante o desembarque no norte da África, admite-o simplesmente, em maio de 1944, nas vésperas do desembarque anglo-americano. Faz a seguinte análise: até ao verão de 1943, a URSS estava quase sozinha. Atualmente, 65% da frente europeia é assegurada pelos soviéticos, pelo Exército Vermelho; 30% por resistências internas, ou seja, resistências ativas, não atentistas e pró-soviéticas (partisans italianos, gregos do ELAM-EAS, FTP-MOI [Franc tireurs et partisans – Maind’oeuvre immigrée] da França, etc.); o restante, isto é, 5% é a frente anglo-americana, então em Itália. No entanto, o esforço militar, as perdas, a realidade da guerra soviética, tudo isso foi expulso da história ocidental.

Doyen tinha previsto bem as coisas, em meados de julho de 1941: a União Soviética vence a guerra militar, mas a superioridade económica e financeira dos Estados Unidos permitiu-lhes alcançar, a partir de 1944 e especialmente 1945, os objetivos que eram já os do presidente Wilson, durante a Primeira Guerra Mundial, e que continuaram a ser os de Roosevelt: uma expansão americana global.

Os soviéticos tinham um horizonte muito simples, que tinham enunciado em julho de 1941 como objetivos de guerra, declarados por Stalin: a recuperação do território histórico do antigo Império Russo (menos a Finlândia, porque a URSS permaneceu fiel ao acordo de 12 de março de 1940); e a garantia de que o antigo “cordão sanitário”, liderado pela Polónia, deixaria de ser uma base de agressão contra as suas fronteiras e, portanto, deixaria de ter uma política externa hostil. Os objetivos americanos tinham sido proclamados em 1942 pelos chefes da força aérea: nenhum território mundial escaparia às suas bases aéreas. Esta é a razão, demonstrada por vários historiadores americanos, diplomáticos e militares, pela qual Roosevelt nunca quis discutir as “esferas de influência”: nem com Moscovo, nem com Londres. O princípio de que “nada pertence aos outros, tudo é nosso” é próprio de um imperialismo hegemónico. Os céticos que leiam as Foreign Relations of the United States [Relações Externas dos Estados Unidos] 1941-1945...

A Inglaterra, já muito enfraquecida pelos Estados Unidos durante e depois da Primeira Guerra Mundial, ficou arrumada pela Segunda, sob os golpes do seu grande “aliado”: a demonstração disso tem sido fulgurante desde 1945 e 1947, e o antigo secretário de Estado americano Acheson (1949-1953) disse, em dezembro de 1962, em West Point (ele era o consultor especial de Kennedy para a NATO) “que a Grã-Bretanha tinha perdido um império e não tinha encontrado um papel no mundo”. Os planos americanos de 1942-1945, principalmente os militares, não previam nenhuma “zona de influência” para os dois parceiros da “Grande Aliança”. O riquíssimo Harriman, embaixador em Moscovo, garantiu, em março de 1944, ao Departamento de Estado, que a URSS seria incapaz de criar uma “zona de influência” na Europa Oriental: deveria contentar-se com a promessa americana de um empréstimo de um bilião de dólares (que, de resto, não se concretizou).

Roosevelt e os seus sabiam que a URSS, prostrada pelas perdas, extremamente empobrecida, esvaziada de alguma forma, seria incapaz de lucrar com a sua vitória militar quando as armas fossem abandonadas. Foi o que aconteceu. Os Estados Unidos conseguiram contestar o que tinham de aceitar, principalmente em Yalta e Potsdam, esses famosos acordos que não tinham querido negociar durante a guerra. E Potsdam já marcou um forte recuo soviético em relação a Yalta [...]

Não existem surpresas em História, a História é o resultado de uma relação de forças – e os historiadores que trabalham nos arquivos têm a sorte de ver, com atraso, o que realmente se passou. A terminologia, a ideologia, o negacionismo sobre os quais repousa a apresentação histórica de hoje caem então por terra. Mas entre o que um estudante do ensino secundário hoje aprende, ou um espetador, e a realidade histórica estabelecida por fontes diversas e convergentes, existe um abismo.

RT France: Quais são as consequências positivas desta vitória para a URSS? Porque é que ela não conseguiu preservar as vantagens da sua posição de vencedora?

ALR: Existem fatores positivos que não podem ser negligenciados. Obviamente, o movimento comunista ganhou enorme prestígio pelo seu papel na resistência interna, um papel determinante em toda a Europa. [...]

Houve uma época em que trabalhei muito na Escandinávia, em particular na Noruega, país cuja população tradicionalmente simpatizava com os russos, especialmente os marinheiros. O caso da Islândia é ainda mais espetacular e aí a população resistiu ao rolo compressor da propaganda por mais tempo. Houve sondagens, em maio de 1945, entre a população norueguesa, sobre as alianças político-militares desejadas após a guerra: 89% dos noruegueses, na segunda metade de 1945, defendiam uma aliança com os soviéticos. Em 1947, não passavam de 15%. [...]

Em menos de dois anos, esta esmagadora tutela anglo-americana, especialmente americana, que Doyen tinha previsto em julho de 1941, tinha liquidado as consequências da vitória soviética no Ocidente. Essas são coisas que obviamente só podem ser entendidas com base em fontes. Porque, hoje, se perguntarmos a um estudante comum quem venceu a Segunda Guerra Mundial, ele dirá que foram os Estados Unidos.

A URSS sai da guerra com perdas económicas monstruosas, estimadas em 200 biliões de dólares (Jacques Pauwels, O mito da boa guerra: os EUA e a Segunda Guerra Mundial). No entanto, a reivindicação soviética das reparações de guerra alcançou em Ialta um acordo de 50% do valor total de 20 biliões de dólares, ou seja 10. Esse número, ridículo em comparação com as suas imensas perdas, e em particular a sua parte europeia destruída (base histórica da sua indústria), foi ainda menos respeitada do que as “reparações” após a Primeira Guerra Mundial. A URSS teve de se contentar com um quase-nada, entre outras coisas, sem a “reparação” da Alemanha Ocidental, ou seja, do coração industrial da agressão alemã, o Ruhr, intacto e mesmo reforçado pela guerra.

Dezenas de milhares de Oradour-sur-Glane [2], de aldeias, de cidades arrasadas, de museus destruídos, de fábricas varridas do mapa etc. Se levássemos a história e o nosso povo a sério, deveríamos mostrar-lhes as ruínas de Stalinegrado. Nem um edifício, nem uma fábrica de pé, como em toda a parte europeia da União Soviética.

RT França: Esta vitória militar soviética não é, em última análise, uma vitória de Pirro? As perdas foram colossais. A URSS conseguiu recuperar?

ALR: A União Soviética é um vencedor militar indiscutível, mas um vencedor ferido até à morte, um fator decisivo no período pós-guerra. […] A URSS nunca recuperou das perdas desta guerra. […]

Não é menos verdade que ela se reconstruiu em ritmo acelerado porque, nos anos de 1945 a 1970, o crescimento do mundo socialista atingiu uma taxa muito mais alta do que a dos países capitalistas. Hoje isto é ignorado, mas a economista Marie Lavigne elaborou, designadamente em As economias socialistas soviética e europeias, (1979), um quadro honesto do seu crescimento impressionante. Os países capitalistas foram duramente atingidos pelas crises cíclicas analisadas por Marx e pelos seus antecessores e sucessores. A de 1948-1949 foi terrível nos Estados Unidos, que só emergiram dela com a Guerra da Coreia. Não devemos tornar ainda mais negro o quadro inicial que tracei.

Houve capacidades de recuperação incontestáveis, mas quando se tem de um lado um gigante enriquecido que conserva para si um Ocidente que não foi destruído, porque, quaisquer que tenham sido os sofrimentos da Ocupação dos países ocidentais, nenhum deles conheceu a devastação que afetou os Balcãs e a Europa Oriental […] Entre os necessitados do Oriente e do Ocidente reforçado pela guerra, e especialmente os Estados Unidos, o diferencial foi considerável.

Atualmente estou a trabalhar com os Area studies ou “estudo de zonas”, que os Estados Unidos desenvolveram em 1945-47 com a ajuda de altas competências (académicas) dos chefes do OSS (serviço de informações americano: Office Strategic Service) mais tarde CIA. Eles prepararam, através de universidades e centros de investigação, o controlo de territórios, a investigação científica, o ensino, o que pressupunha um conhecimento preciso dos recursos das zonas visadas. Os Area studies da Rússia e da Europa Oriental foram logicamente uma prioridade desde 1945. Historiadores americanos quase desconhecidos na França, cujos trabalhos não estão traduzidos, estudaram a coisa, e foi surpreendente.

Porque essas “investigações” destinavam-se principalmente a facilitar a expansão económica americana. Mas elas tiveram ao mesmo tempo, desde o início, um significado tanto mais ideológico, quanto o processo foi elaborado e guiado pelas autoridades americanas, civis e militares. […] Essa extraordinária vitória ideológica tornou possível transformar um aliado num lobisomem mortal, diabólico. Entre os dois perigos, o nazista (que nunca foi perseguido pelo “Ocidente”, da década de 1920 até ao presente, é um eufemismo) e o bolchevique, é o último que passa por ser mortal. Ainda levou décadas para se alcançar esse resultado.

RT France : Se se constata uma forma de reescrita do passado, existem historiadores para restabelecer a verdade?

ALR: Num país como a França, a história é, especialmente a partir da Revolução Francesa, um ponto de fricção política permanente. É, portanto, entre as ciências sociais, todas visadas, que se verifica um campo particularmente severo de confronto.

Obviamente, hoje em dia, o debate historiográfico, ainda tão rico nos confrontos académicos dos anos 1960-1970, foi soterrado. Agora que resta apenas um campo vencedor por K.O., ouve-se o mesmo som na grande comunicação social escrita e audiovisual. Quando pudermos refazer a história sem perigo, baseada em fontes, descobriremos, antes de 1945, uma história próxima das realidades que os contemporâneos perceberam […]

Para fazer história, não se pode ficar satisfeito com o trabalho do curto prazo: uma questão que surge em 1989 ou em 2020 é objetivamente colocada passadas décadas, ou até séculos. Quando as fontes são abertas, e esse tem sido o caso há várias décadas, qualquer investigador curioso, competente e corajoso pode acumular materiais e depois construir um edifício sólido.

Se quisermos favorecer o negacionismo histórico, mesmo quando o acesso às fontes é amplo, é preciso dissuadir os jovens investigadores em busca de uma carreira, de uma publicação, de projeção mediática, de procurarem o que desagrada “às pessoas-bem”; e impedir os historiadores teimosos de difundir os seus trabalhos no país e fora dele: eu já disse até que ponto a não tradução dificultava o conhecimento histórico. Autocensura ou censura, o método é imparável, demonstrei isso em A história contemporânea sempre influenciada e em várias contribuições.

 

Notas

[1] La Cagoule, nome dado ao agrupamento político Action Française, oficialmente chamada Comité Secreto de Ação Revolucionária  era um grupo terrorista francês, fascista e anticomunista, ativo ativo de 1935 a 1941, atuando de forma extremamente violenta. – NT

[2] Povoação francesa completamente arrasada pelos alemães durante a guerra. Os seus habitantes foram queimados vivos na igreja onde se refugiaram. – NT

 

* Especialista em Segunda Guerra Mundial, Annie Lacroix-Riz é autora de obras publicadas especialmente por Armand Colin, «O Vaticano, a Europa e o Reich da Primeira Guerra Mundial até à Guerra Fria» (1914-1955) (2010 ); «Industriais e banqueiros franceses sob a ocupação» (2013); «As elites francesas», 1940-1944. «Da colaboração com a Alemanha à aliança americana» (2016); «A não depuração na França de 1943 a 1950» (2019).

Fonte: https://francais.rt.com/opinions/74878-union-sovietique-est-vainqueur-militaire-incontestable-mais-un-vainqueur-blesse-a-mort, colocado em 2020/05/08, acedido em 2020/05/13.

Tradução do francês de TAM

 

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-uniao-sovietica-e-um-vencedor-militar-96188

Guerra de classe: a “esquerda” entra no jogo a perder! Porquê?

O que se passou recentemente com a iníqua resolução anticomunista no Parlamento europeu deixou de novo em evidência que não pode existir anti-comunismo ou anti-sovietismo «de esquerda». Que se trata de opções ideológicas inculcadas pela classe dominante. E que transigir com elas é, desde logo, aceitar a derrota.

“Há uma guerra de classes, é um facto. Mas é a minha classe, a classe dos ricos, que está a travar essa guerra e está em vias de a vencer.” Ninguém esqueceu realmente essa afirmação “chocante” do multimilionário Warren Buffet. Foi no canal CNN dos EUA, em 2005. Após a crise de 2008 e sua “solução” financeira exponencial, ele afirmava mesmo o carácter definitivo dessa vitória …!

Até há pouco tempo, quase 15 anos depois, a história, apesar da violência exacerbada dos vários conflitos no planeta, parecia ainda dar-lhe razão. Nos últimos tempos, no entanto, as múltiplas e massivas revoltas em todo o mundo reintroduziram de certa forma uma séria dúvida sobre essa afirmação. Porque sucede que, apesar de sua aparência maciça, todas essas lutas parecem sistematicamente encalhar em impasses, por falta de uma perspectiva política realmente alternativa ao sistema em vigor, que assim parece permanecer inamovível. E isso apesar da gritante evidência de desigualdades gigantescas que ele continua a cavar e das aberrações económicas e ecológicas que gera.

O gerador desta catástrofe planetária está no entanto perfeitamente identificado, e em particular precisamente desde a crise de 2008: é claramente a dominação planetária do capital financeiro sobre praticamente todas as formas de expressão do poder.
A “democracia” liberal deixou de ser o campo delimitado onde os diferentes lobbies se confrontam pela partilha de influências lucrativas, através de seus fantoches políticos cada vez mais confrangedoramente agitados no palco e dos quais Trump parece ser o arquétipo, caricatural ao extremo.

E a guerra de classes, no domínio ideológico e cultural, nunca parou realmente, muito pelo contrário! A burguesia não deixou de perseguir a menor reminiscência do período em que uma alternativa ao capitalismo parecia possível, e era-o realmente assim, em certa medida.

Por um lado, o absurdo do sistema actual é tão flagrante que uma parte substancial da intelligentsia e das classes médias ao seu serviço regularmente se declara mais ou menos “anticapitalista”, mesmo que isso não tenha outras consequências senão movimentos de contestação puramente formal rapidamente recuperados sob as diferentes formas de reformismo da sua classe política. Mas, por outro lado, o verdadeiro medo que ainda parece afectar a burguesia é o possível ressurgimento do “espectro comunista” que ele não cessa de perseguir onde quer que pudesse retomar forma.

Ao contrário das esperanças que fundou na “queda do muro” e no período 1989-92, é o chamado “fim da história” que pertence já claramente ao passado e, se um “fim” parece estar a aproximar-se novamente a grandes passos, é de facto o” fim” possivelmente apocalíptico do próprio sistema, não necessariamente devido a sabe-se lá qual hipotético” inimigo “, mas muito simplesmente pelas suas próprias contradições. Nestas condições, o sistema mantém constantemente um olho alerta sobre todos os vestígios de memória, sejam eles quais forem, do período soviético. Foi o que vimos por ocasião do centenário de Outubro em que toda uma bateria de “especialistas” e “historiadores” entrou em cena, por vezes muito oficialmente designados e, se não, indirectamente, por para garantir um sono profundo a este terrível fantasma …

Mas o sistema, à falta de resolver a sua própria crise, tem todo o interesse em alimentar ele mesmo o “messianismo” milenar de um fim apocalíptico próximo, seja ele “ecológico” ou não, e contra o qual possa portanto apresentar-se como “baluarte da humanidade”, e assim tentar prolongar-se, através de algumas fórmulas “choque”, como única “alternativa” possível … ao desastre que ele próprio engendrou!

Para a burguesia, tudo o que não é ela própria ou diretamente dependente dela mesmo é “apocalíptico”. Desde o nascimento da URSS, esforçou-se para forjar uma visão “apocalíptica”, a ponto de tentar torná-la um mito de pesadelo federador da sua própria classe, e até mesmo passando por cima dos seus próprios conflitos internos de interesses. . É assim que o verdadeiro monstro nazi, potencialmente criado em 1919 pelo Tratado de Versalhes pôde ser chocado como um antídoto potencial a esse pesadelo, apesar dos seus desmandos no próprio coração do capitalismo europeu e internacional.

Mas a burguesia tinha claramente subestimado a bulimia desse monstro gerado no seu seio, e cuja natureza profunda não era, portanto, diferente dela mesma. Ela esperava simplesmente que essa bulimia apenas fosse orientada para leste …

Esse “erro de perspectiva” acabou por levá-la a uma inversão, mesmo que muito provisória, na atribuição do papel dos monstros a exorcizar …

É isso que nos lembra um filme notável recentemente encontrado por um de nossos camaradas e que apresentamos no TML. Este filme foi realizado no essencial em 1943, pouco depois da vitória soviética de Estalinegrado. Realizado por encomenda para as autoridades dos EUA, foi manifestamente pensado por cineastas que tinham já uma visão histórica espantosamente pertinente do conjunto da “Frente Oriental”, tendo em conta a reduzida distância temporal em relação a acontecimentos muito recentes para eles e para o mundo dessa época!

A Batalha da Rússia pelo governo dos EUA em 1943 !!!
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Evidentemente, esses cineastas tinham portanto acesso a fontes em primeira mão, o que o torna ainda hoje um documento histórico excepcional. Mas o que é mais característico relativamente aos pontos de vista “oficiais” actuais sobre aquela época é a importância que atribuem à vida social das infraestruturas económicas soviéticas, que tornaram precisamente possível e eficaz o esforço de guerra.

Fica claro neste filme que a vitória desse esforço de guerra é de facto a vitória do conjunto da sociedade socialista soviética, e não a de um tirano maquiavélico secundado por um punhado de generais e burocratas despóticos. É a vitória dos soviéticos que se mobilizaram na ordem dos milhões, seja na linha de frente ou como guerrilheiros, por detrás das linhas inimigas, ou simplesmente nos seus postos de trabalho, todos eles essenciais para o esforço de guerra .

É um vislumbre da realidade soviética, neste filme norte-americano de 1943, que é, portanto, concretamente a antítese da visão supostamente “histórica” ​​que nos é dada nos manuais escolares actuais, nos registos Wikipédia, nas emissões de televisão etc.

E, é claro, é também a antítese da desde agora votada “oficialmente” no Parlamento Europeu por sua “resolução” sobre a “memória” da 2ª Guerra Mundial, que atribui sem rodeios à URSS a responsabilidade pelo desencadeamento da guerra! (*)

E é nesse sentido que este filme é hoje particularmente significativo!

De facto, o Parlamento Europeu, ao endereçar directamente a sua “resolução” assimilando o comunismo ao nazismo ao parlamento da Federação Russa, ordena expressamente ao governo russo que na prática cesse de comemorar essa vitória soviética.
E por que razão real, se não para tentar novamente apagar a memória, não apenas dessa vitória, mas da sociedade socialista soviética que a tornou possível?

De facto, porquê tantos esforços e sacrifícios da parte dos cidadãos soviéticos, se não para defender este país, a URSS, que vinham de reconstruir quase inteiramente numa dezena de anos, desde o final da NEP e o início da colectivização?

Porque teriam eles feito tanto esforço e sacrifícios, se o seu país correspondesse de algum modo à visão de pesadelo que dela dão hoje os manuais escolares, a Wikipédia e outros media?

Porquê tanto esforço e sacrifício por este país, se a “resolução” de 19/09/2019 do Parlamento Europeu não passa simplesmente de uma manipulação enganosa da história?

Através da memória nacional russa, o que ainda hoje é massivamente comemorado, em todas as ocasiões possíveis e com o apoio efectivo do governo da Federação Russa, não é apenas a festa da vitória, mas é precisamente a memória desse esforço colectivo e de todos os sacrifícios que foram necessários para construir, passo a passo, essa vitória.

É nesse sentido que essas comemorações se tornaram uma comunhão nacional popular que constitui ainda hoje uma parte essencial da alma russa.

E acontece que essa memória coletiva da Rússia coincide completamente com a realidade filmada em 1943 pelos cineastas norte-americanos, e não com a actual caricatura ocidental de pesadelo que o Parlamento Europeu vem de “legalizar” pelo seu voto.
Este voto é, no campo da “memória” em que pretende situar-se, uma declaração de guerra ideológica, nem mais nem menos.

O que o Parlamento Europeu procura expressamente, nas expectativas do seu voto, é todo o conjunto do período socialista soviético que permitiu a construção dessa capacidade de derrotar o fascismo. É um momento histórico particularmente emocionante deste período que nos é dado a entender no filme de 1943, e ele mostra-nos precisamente o que o socialismo real significava na URSS, para a classe operária e o conjunto das classes populares desse país. Este acto de guerra ideológica fomentado pelo Parlamento Europeu é, portanto, também, e acima de tudo, um acto de guerra de classe.

Agora, como é que a “esquerda” francesa se situa face a este acto de guerra de classe? Situa-se verdadeiramente do lado do proletariado e das classes populares? É ela é capaz de conduzir uma contra-ofensiva?

Na realidade, desde há décadas que ela não cessa de denegrir a URSS, seja durante a sua vida seja após sua queda! E autoflagela-se pelo o período em que a apoiou.
Orgulha-se de “antifascismo” mas é incapaz de assumir o desafio deste confronto, quando é atacada a memória da URSS que é realmente o país que fez o essencial do esforço de guerra contra o nazismo, infligiu-lhe a primeira derrota às portas de Moscovo em Dezembro de 1941 e finalmente o derrotou em Estalinegrado antes de o vencer finalmente em Berlim!

Uma boa parte da esquerda encaixa-se mesmo directamente nos apoios a esta “resolução”, e se uma outra parte esboça protestos, é sempre de maneira a de algum modo caucionar o anti-sovietismo fundamental, directamente ou não. Nenhum desses “esboços” retóricos, por mais alambicados e sofisticados que sejam, assume o essencial daquilo que exacta e realmente fazia a força da URSS na época: a construção do socialismo e o desenvolvimento das forças produtivas que ele tornou possível, na década anterior à guerra.
A vitória da URSS sobre o nazismo não é simplesmente a vitória do exército de uma nação sobre outra, mas antes de tudo a vitória da construção do socialismo, a vitória do proletariado e das classes populares, precisamente, na guerra de classes!

E certamente a maior vitória histórica do proletariado nesta guerra de classes da qual hoje os financeiros multimilionários, como Warren Buffet, que estão a acabar de destruir o planeta, ousam proclamar-se vencedores!

Reduzir a responsabilidade da vitória histórica proletária da URSS à de um só homem, seu líder político, Joseph Stalin, e tentar fazer dele ao mesmo tempo uma espécie de demiurgo, concentrando na sua pessoa toda força de um país do tamanho de um continente e apresentá-lo como um burocrata despótico irresponsável e paranoico, uma caricatura de diabo de opereta, é essa a estratégia de comunicação conduzida em todas as direcções pelo Ocidente, da direita à «esquerda», desde há décadas, como contra-ofensiva nesta guerra de classe, para mascarar a mais do que culpável tolerância que a burguesia demonstrou em relação à sua própria e verdadeiramente monstruosa descendência, o nazismo!

Não podendo apagar historicamente o comportamento criminoso desse avatar ideológico da sua própria classe, a burguesia negou-o oficialmente como ela sabe fazer de qualquer descendência indigna, escorraçando-o pela grande porta das suas proclamações humanistas, para o deixar entrar pela pequena janela das suas necessidades urgentes, como continua a fazer na Ucrânia, por exemplo.

É o que normalmente emerge desta resolução de 19 de Setembro de 2019, que de facto cauciona os regimes europeus legalizando e incentivando o anticomunismo, o anti-sovietismo e a russofobia.

Pretendendo embora equiparar o comunismo ao nazismo, trata-se de facto de uma tentativa de apagar a responsabilidade do Ocidente “liberal” e a sua complacência de Munique em relação ao nazismo, ou seja, a sua responsabilidade real na génese da Segunda Guerra Mundial, a mais mortífera de todas, e que assassinou mais de 25 milhões de cidadãos soviéticos em quatro anos!

Como pode a actual esquerda pretender afirmar-se antifascista ao caucionar, directa ou hipocritamente, essa mentira da burguesia europeia e sentar-se, de facto, sobre essa montanha de cadáveres proletários?

Como pode ela, por um único segundo, falar em nome das revoltas proletárias e populares que se levantam, um pouco por toda a parte, hoje, ao redor do mundo?
Não apenas não pode, mas é muito natural que se veja rejeitada pelo proletariado pelo que realmente é: uma emanação do pensamento “liberal” escravizada ao sistema que destrói o planeta e condena cada dia para novos retrocessos sociais, e em muitos países a uma miséria cada vez mais negra.

Se alguns raros elementos sinceramente de esquerda, sinceramente decididos a acabar com este sistema ainda estão nessa esquerda, este filme pode constituir para eles matéria de reflexão sobre a realidade histórica da guerra de classe.

E perante a ofensiva ideológica da burguesia expressa nesta “resolução europeia”, deve ser para eles logicamente o tempo de uma escolha política essencial: a do campo em que realmente querem estar na guerra de classe.

Já em 1941, apenas seis meses após a sua entrada “triunfal” na URSS, o exército nazi era detido às portas de Moscou e obrigado a recuar 200 km. Para o nazismo, era o verdadeiro começo do fim.

Na guerra de classe, não há derrota que seja irremediável. Mas sem uma contra-ofensiva adequada, a vitória permanece com os Warren Buffet e seus zeladores políticos, direita e “esquerda” misturados. Eles são o campo determinado a manter o sistema mortífero no seu lugar.

Eles são o campo dos destruidores do planeta, o campo dos financeiros imperialistas para os quais a memória da URSS e da sua vitória antifascista é intolerável. A mentirosa resolução europeia de 19 de Setembro de 2019 é o culminar da sua ideologia na guerra de classe.
A vitória antifascista do proletariado na Segunda Guerra Mundial não repousa obviamente sobre os ombros de um único homem, Joseph Stalin, mas sobre os de todo um país socialista reconstruído em dez anos com base na sua ideologia de classe, o legado da Revolução de Outubro, o legado de Marx e Lénine: o Marxismo-Leninismo.

Enquanto a esquerda continuar a rejeitar os fundamentos que permitiram a histórica vitória do proletariado permanecerá no campo dos inimigos do proletariado, no campo da burguesia e, enquanto se proclamava “antifascista”, no campo dos neonazis, no fim de contas. E a sua derrota não será senão a demolição de um dos muitos palermas descartáveis ​​do sistema, e não a do proletariado que tenta hoje levantar a cabeça por meio das suas múltiplas revoltas no planeta.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/guerre-de-classe-la-gauche-joue-desormais-perdant-pourquoi.html.

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References

  1. ^endereço (www.odiario.info)
  2. ^odiario.info (odiario.info)

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O Pacto Hitler-Stálin: Mito e Realidade

Em um livro extraordinário, “1939: The Alliance That Never Was and the Coming of World War II”, o historiador canadense Michael Jabara Carley descreve como, no final dos anos 30, a União Soviética repetidamente tentou, mas por fim falhou, em estabelecer um pacto de segurança mútua, em outras palavras uma aliança defensiva, com a Grã-Bretanha e a França. Esse arranjo proposto foi planejado para conter a Alemanha Nazista que, sob a liderança ditatorial de Hitler, estava agindo de forma cada vez mais agressiva, e era provável que envolvesse alguns outros países, incluindo Polônia e Checoslováquia, que tinham motivo para temer as ambições alemãs. O protagonista dessa abordagem soviética em relação às potências ocidentais foi o ministro de Relações Exteriores Maxim Litvinov.

Moscou estava ansiosa para concluir tal tratado porque os líderes soviéticos sabiam muitíssimo bem que, mais cedo ou mais tarde, Hitler pretendia atacar e destruir seu Estado. Com efeito, no “Mein Kampf“, publicado nos anos 20, ele deixava bem claro que desprezava a URSS por ser uma “Rússia governada por judeus” (Russland unter Judenherrschaft), já que era o fruto da Revolução Russa, a obra dos Bolcheviques, que supostamente não eram nada além de um bando de judeus. Além disso, nos anos 30, virtualmente todo mundo com algum interesse em relações internacionais sabia muito bem que, com a remilitarização da Alemanha, o programa de rearmamento em larga escala e mais outras violações do Tratado de Versalhes, Hitler preparava-se para uma guerra onde uma das vítimas seria a União Soviética. Isso foi demonstrado muito claramente em um estudo detalhado escrito por um importante historiador militar e cientista político, Rolf-Dieter Müller, intitulado “Der Feind steht im Osten: Hitlers geheime Pläne für einen Krieg gegen die Sowjetunion im Jahr 1939” (“O Inimigo está no Leste: os Planos Secretos de Hitler para uma Guerra Contra a União Soviética em 1939”).

Um cartaz alemão diz: “Por trás dos poderes inimigos: os judeus”.

Hitler, então, estava desenvolvendo a força militar da Alemanha e pretendia usá-la para limpar a União Soviética da face da Terra. Do ponto de vista das elites que ainda estavam dominando o poder em Londres, Paris e em todo lugar no assim chamado “mundo Ocidental”, esse era um plano que eles só podiam aprovar e desejavam encorajar e até mesmo apoiar. Por quê? Porque a União Soviética era a encarnação da temida revolução social, a fonte de inspiração e orientação para revolucionários de seus próprios países e até mesmo de suas colônias, já que os soviéticos eram também anti-imperialistas que, através da Internacional Comunista (ou a Terceira Internacional), apoiavam a luta pela independência nas colônias das potências ocidentais.

Por meio de uma intervenção armada na Rússia em 1918-1919, essas elites já haviam tentado matar o dragão da revolução que havia levantado sua cabeça por lá em 1917, mas tal projeto falhou miseravelmente. As razões para esse fiasco foram, por uma lado, a forte resistência feita pelos revolucionários russos, que desfrutaram do apoio da maioria do povo russo e de muitos outros povos do antigo Império Czarista; e, por outro, a oposição entre os próprios países intervencionistas, onde soldados e civis simpatizavam com os revolucionários Bolcheviques e fizeram o apoio valer através de manifestações, greves, e até mesmo motins. As tropas tiveram que ser retiradas de forma inglória. Os cavalheiros no poder em Londres e Paris tiveram que contentar-se e apoiar Estados antissoviéticos e antirrussos – principalmente a Polônia e os países bálticos – por toda a fronteira ocidental do antigo Império Czarista, assim erguendo um “cordão sanitário” que supostamente seria o escudo do Ocidente contra a infecção do vírus revolucionário bolchevique.

Em Londres, Paris e outras capitais da Europa Ocidental, as elites esperavam que o experimento revolucionário na União Soviética colapsasse por si próprio, mas esse cenário falhou em se desdobrar. Pelo contrário, a partir do início dos anos trinta, quando a Grande Depressão devastou o mundo capitalista, a União Soviética experimentou um tipo de revolução industrial que permitiu que a população gozasse de considerável progresso social, e o país tornou-se mais forte, não só economicamente, mas também militarmente. Como resultado disso, o “contra-sistema” que o socialismo oferecia em relação ao capitalismo – assim como a ideologia comunista – tornaram-se mais e mais atrativos aos olhos dos plebeus no Ocidente, que sofriam cada vez mais com o desemprego e a miséria. Nesse contexto, a União Soviética passou ainda mais a ser um espinheiro bem no pé das elites em Londres e Paris. Inversamente, Hitler, com seus planos para uma cruzada antissoviética, pairava como um elemento cada vez mais útil e compreensivo. Além disso, corporações e bancos, principalmente americanos, mas também britânicos e franceses, fizeram muito dinheiro ajudando a Alemanha Nazista a rearmar-se, emprestando muito do dinheiro necessário para tanto. Por fim, mas não menos importante, acreditava-se que encorajando uma cruzada alemã em direção ao Oriente, isso poderia reduzir, se não eliminar por completo, o risco de uma agressão alemã contra o Ocidente. Assim, podemos entender porque as propostas de Moscou para estabelecer uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista não impressionaram esses cavalheiros. Mas havia uma razão pela qual eles não podiam se dar ao luxo de rejeitar essas propostas sem mais delongas.

Após a Grande Guerra, as elites dos dois lados do Canal da Mancha foram forçadas a introduzir reformas democráticas relativamente abrangentes, por exemplo, uma considerável expansão das eleições na Grã-Bretanha. Por causa disso, tornou-se necessário levar em conta a opinião dos Trabalhistas, assim como de outras “pragas de esquerda” que povoavam as legislaturas, e, às vezes, até mesmo incluí-las em governos de coalizão. A opinião pública, e uma parte considerável da mídia, era esmagadoramente hostil a Hitler e, portanto, fortemente a favor da proposta soviética de uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista. As elites queriam evitar tal aliança, mas também buscavam criar a impressão de que a queriam; pelo contrário, as elites queriam encorajar Hitler a atacar a União Soviética, e até ajudá-lo a tal, mas elas precisavam garantir que as pessoas jamais se dessem conta disso. Esse dilema levou a uma trajetória política cuja função manifesta era convencer o público de que os líderes haviam aceitado a proposta soviética para uma frente comum antinazista, mas cuja função latente – em outras palavras, a função real – era apoiar os projetos antissoviéticos de Hitler: a infame “política de apaziguamento“, associada acima de tudo com o nome do primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain e sua contraparte francesa, Édouard Daladier.

Os partidários do apaziguamento começaram a trabalhar assim que Hitler chegou ao poder na Alemanha em 1933 e deu início à preparação para a guerra, guerra essa contra a União Soviética. Já em 1935, Londres deu a Hitler uma espécie de sinal verde para seu projeto de rearmamento ao assinar com ele um tratado naval. Hitler então continuou violando todo tipo de provisões do Tratado de Versalhes, por exemplo reintroduzindo o serviço militar compulsório na Alemanha, armando a força militar alemã até os dentes, e, em 1937, anexando a Áustria. Em cada ocasião, os estadistas no poder em Londres e Paris queixaram-se e protestaram como forma de causar uma boa impressão no público, mas acabaram aceitando o fato consumado. O público foi levado a acreditar que tal indulgência era necessária para evitar uma guerra. Essa desculpa foi efetiva a princípio, já que a maioria dos britânicos e franceses não desejavam estar envolvidos em uma nova edição da mortífera Grande Guerra de 1914-1918. Por outro lado, logo ficou óbvio que tal apaziguamento fortaleceu a Alemanha militarmente e tornou Hitler cada vez mais ambicioso e exigente. Consequentemente, o público eventualmente sentiu que haviam sido feitas concessões suficientes ao ditador alemão, e nesse ponto os soviéticos, na figura de Litvinov, vieram à frente com a proposta de uma aliança anti-Hitler. Isso causou dores de cabeça para os arquitetos do apaziguamento, de quem Hitler esperava ainda mais concessões.

Cartaz de propaganda nazista em holandês diz: “A Europa avança. Sob o estandarte da SS o oeste luta contra o bolchevismo.”

Graças às concessões que já haviam sido feitas, a Alemanha Nazista estava se tornando uma grande besta militar, e em 1939 somente uma frente comum das forças ocidentais e soviéticas parecia ser capaz de contê-la, já que, em caso de guerra, a Alemanha teria de lutar em duas frentes. Sob forte pressão da opinião pública, os líderes em Londres e Paris concordaram em negociar com Moscou, mas “havia uma mosca na pomada”: a Alemanha não compartilhava nenhuma fronteira com a União Soviética, isso porque a Polônia estava prensada entre esses dois países. Oficialmente, ao menos, a Polônia era uma aliada da França, por isso era esperado que ela fizesse parte em uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista, mas o governo em Varsóvia era hostil em relação à União Soviética, vizinho que era considerado tão ameaçador quanto a Alemanha. A Polônia teimosamente recusou-se a autorizar o Exército Vermelho, em caso de guerra, a cruzar o território polonês como forma de batalhar contra os alemães. Londres e Paris recusaram-se a pressionar Varsóvia, e assim as negociações não resultaram em nenhum acordo.

Enquanto isso, Hitler fazia novas demandas, dessa vez em relação à Checoslováquia. Quando Praga se recusou a ceder um território chamado Sudetos, local habitado por uma minoria de falantes de língua alemã, a situação ameaçou resultar em guerra. Essa foi, de fato, uma oportunidade única para concluir uma aliança anti-Hitler com a União Soviética e a militarmente forte Checoslováquia como parceiras dos britânicos e franceses: Hitler teria enfrentado a escolha entre uma retirada humilhante e a virtualmente certa derrota em uma guerra de duas frentes. Mas isso também significava que Hitler jamais seria capaz de iniciar a cruzada antissoviética que as elites em Londres e Paris estavam esperando. É por isso que Chamberlain e Daladier não aproveitaram a crise na Checoslováquia para formar uma frente comum anti-Hitler com os soviéticos, mas, ao invés disso, correram de avião para Munique para concluir um acordo com o ditador alemão onde as terras dos Sudetos, que por acaso estavam incluídas na versão checoslovaca da linha Maginot, foram oferecidas a Hitler em uma bandeja de prata. O governo checoslovaco, que não foi sequer consultado, não teve escolha a não ser a renúncia, e os soviéticos, que haviam oferecido assistência militar a Praga, não foram convidados para essa infame reunião.

No “pacto” que concluíram com Hitler em Munique, os estadistas britânicos e franceses fizeram enormes concessões para o ditador alemão; não para manter a paz, mas desse modo eles poderiam continuar a sonhar com uma cruzada nazista contra a União Soviética. Para o povo de seus próprios países, no entanto, o acordo foi apresentado como uma solução mais sensata para uma crise que ameaçava dar início a uma guerra geral. “Paz para o nosso tempo!” foi o que Chamberlain proclamou de forma triunfante em seu retorno à Inglaterra. O que ele quis dizer era paz para seu próprio país e seus aliados, mas não para a União Soviética, cuja destruição pelas mãos dos nazistas era largamente esperada.

Na Grã-Bretanha também haviam políticos, incluindo um punhado de membros de boa-fé da elite do país, que se opuseram à política de apaziguamento de Chamberlain, como Winston Churchill. Eles não o fizeram por simpatia pela União Soviética, mas por não confiarem em Hitler e temerem que o apaziguamento poderia ser contraproducente de duas maneiras. Primeiro, a conquista da União Soviética poderia prover a Alemanha Nazista de matéria-prima virtualmente ilimitada, incluindo terra fértil, petróleo, e outras riquezas, e desse modo permitir que o Reich estabelecesse no continente europeu uma hegemonia que representaria um perigo ainda maior para a Grã-Bretanha do que foi Napoleão. Segundo, também era possível que o poder da Alemanha Nazista e as fraquezas da União Soviética fossem ambos superestimados, assim a cruzada antissoviética de Hitler poderia na verdade resultar em uma vitória soviética, resultando em uma potencial “bolchevização” da Alemanha e talvez de toda a Europa. É por isso que Churchill foi extremamente crítico em relação ao acordo concluído em Munique. Ele alegadamente havia observado que, na capital da Baviera, Chamberlain fora capaz de escolher entre a desonra e a guerra, e que ele escolheu a desonra, mas também receberia a guerra. Com seu “paz para o nosso tempo”, Chamberlain na verdade errou lamentavelmente. Apenas um ano depois, em 1939, seu país estaria envolvido em uma guerra contra uma Alemanha Nazista que, graças ao escandaloso pacto de Munique, tornara-se um inimigo ainda mais formidável.

O principal determinante da falha de negociações entre a dupla anglo-francesa e os soviéticos foi a falta de vontade tácita dos apaziguadores de concluir um acordo anti-Hitler. Um fator auxiliar foi a recusa do governo em Varsóvia em permitir a presença das tropas soviéticas em território polonês no caso de uma guerra contra a Alemanha. Isso deu a Chamberlain e Daladier um pretexto para não concluir um acordo com os soviéticos, pretexto esse necessário para satisfazer a opinião pública (mas outras desculpas também foram evocadas, por exemplo a alegada fraqueza do Exército Vermelho, o que supostamente faria da União Soviética um aliado inútil). Com relação ao papel desempenhado pelo governo Polonês neste drama, existem alguns sérios mal-entendidos. Vamos dar uma olhada neles.

Primeiramente, deve ser levado em consideração que a Polônia do entreguerras não era um país democrático, longe disso. Após seu (re)nascimento no fim da Primeira Guerra Mundial como uma democracia, não levou muito tempo até que o país se encontrasse governado com mão de ferro por um ditador militar, o general Józef Pilsudski, em nome de uma elite híbrida que representava a aristocracia, a Igreja Católica, e a burguesia. Esse regime antidemocrático continuou a governar após a morte do general em 1935, sob a chamada liderança dos “coronéis Pilsudski” cujo primus inter pares (primeiro entre iguais) era Józef Beck, o ministro de Relações Exteriores. Sua política estrangeira não refletia sentimentos calorosos em relação à Alemanha, que havia perdido uma parte de seu território para o novo Estado polonês, incluindo um “corredor” que separava a região alemã no leste da Prússia do resto do Reich; além de um atrito com Berlim por conta de Gdansk (Danzig), importante porto no mar Báltico que havia sido declarado uma cidade-estado independente pelo Tratado de Versalhes, mas era reivindicado tanto pela Polônia como pela Alemanha.

A atitude da Polônia em relação ao seu vizinho ao Leste, a União Soviética, era ainda mais hostil. Pilsudski e outros nacionalistas poloneses sonhavam com a volta do grande Império Polaco-Lituano [República das Duas Nações] dos séculos XVII e XVIII, que se estendia do mar Báltico ao Mar Negro. Ele aproveitou a revolução e a subsequente Guerra Civil na Rússia para tomar uma vasta parte do território do antigo Império Czarista durante a Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921. Esse território, que ficou conhecido de forma imprecisa como “Polônia Oriental,” se estendia por várias centenas de quilômetros ao leste da famosa Linha Curzon que deveria ter sido a fronteira oriental do novo Estado polonês, pelo menos de acordo com as potência ocidentais que tinham sido os padrinhos da nova Polônia ao final da Grande Guerra. A região era essencialmente habitada por russos brancos e ucranianos, mas nos anos seguintes a Varsóvia buscou “polonizar” a região o quanto fosse possível, trazendo colonos poloneses. As chamas da hostilidade polonesa em relação à União Soviética também foram ventiladas pelo fato de que os soviéticos simpatizavam com os comunistas e outros plebeus da própria Polônia que se opunham ao regime aristocrático. Finalmente, a elite polonesa era antissemita e tinha abraçado o conceito de “judeu-bolchevismo”, a noção de que o comunismo e todas outras formas de marxismo eram parte de uma nefasta conspiração judaica, e que a União Soviética, o produto de um esquema revolucionário bolchevique, e portanto supostamente judaico, representava nada mais do que uma “Rússia governada por judeus.” Ainda assim, as relações com os dois poderosos vizinhos foram normalizadas o quanto possível com Pilsudski e com a conclusão de dois tratados de não-agressão, um com a União Soviética em 1932 e um com a Alemanha logo após Hitler subir ao poder, firmado em 1934.

Após a morte de Pilsudski, os líderes poloneses continuaram a sonhar com expansão territorial para as bordas da praticamente mítica “Grande Polônia” de um passado distante. Para a realização desse sonho, pareciam haver diversas possibilidades no Oriente, e particularmente na Ucrânia, parte da União Soviética que se estendia de forma convidativa entre a Polônia e o Mar Negro. Apesar das disputas com a Alemanha e uma aliança formal com a França, que contava com ajuda polaca em caso de conflito com a Alemanha, primeiro o próprio Pilsudski, e então seus sucessores, flertaram com o regime nazista na esperança de uma conquista conjunta dos territórios soviéticos. Antissemitismo era outro denominador comum dos dois regimes que armaram esquemas para livrarem-se de suas minorias judaicas, por exemplo, deportando-as para a África.

A aproximação de Varsóvia em relação a Berlim refletia a megalomania e ingenuidade dos líderes poloneses, que acreditavam que seu país era uma grande potência do mesmo calibre que a Alemanha, um país que Berlim respeitaria e trataria como um parceiro de pleno comprometimento. Os nazistas estimularam essa ilusão, já que dessa forma enfraqueceriam a aliança entre a Polônia e a França. As ambições orientais da Polônia também foram encorajadas pelo Vaticano, que esperava que dividendos consideráveis fluíssem das conquistas da Polônia católica na majoritariamente ortodoxa Ucrânia, vista como madura para a conversão ao catolicismo. É nesse contexto que um novo mito foi conjurado pela máquina de propaganda de Goebbels em colaboração com a Polônia e o Vaticano, a saber, a ficção de uma grande fome na Ucrânia orquestrada por Moscou. A ideia era poder apresentar futuras intervenções militares da Polônia e da Alemanha por lá como sendo uma ação humanitária. Esse mito foi ressuscitado durante a Guerra Fria e tornou-se o mito criador do estado independente ucraniano que emergiu das ruínas da União Soviética. Para uma visão objetiva acerca do período de fome, recomendamos os vários artigos do historiador americano Mark Tauger, um especialista em história da agricultura soviética; tais artigos foram reunidos e publicados em uma obra francesa intitulada “Famine et Transformation agricole en URSS“.

O conhecimento desse contexto nos permite entender a atitude do governo polonês durante as negociações para o estabelecimento de uma frente defensiva comum contra a Alemanha Nazista. Varsóvia obstruiu essas negociações, não por medo da União Soviética, mas ao contrário, por causa de aspirações antissoviéticas e de seu acordo concomitante com a Alemanha. A respeito disso, a elite polonesa encontrava-se no mesmo barco que as contrapartes britânica e francesa. Desse modo, também podemos entender porque, após a conclusão do Acordo de Munique, que permitiu que a Alemanha anexasse a região dos Sudetos, a Polônia pegou um pedaço da pilhagem do território checoslovaco, mais especificamente a cidade de Cieszyn (Teschen) e seus arredores. Ao descer para essa parte da Checoslováquia como uma hiena, como observou Churchill, o regime polonês revelou suas reais intenções – e sua cumplicidade com Hitler.

As concessões feitas pelos arquitetos do acordo fizeram da Alemanha Nazista ainda mais forte do que antes e deixaram Hitler mais confiante, arrogante e exigente. Após Munique, ele revelou-se longe de estar satisfeito, e, em março de 1939, violou o Acordo de Munique ocupando o restante da Checoslováquia. Na França e na Grã-Bretanha, o público estava chocado, mas as elites dominantes não fizeram nada além de expressar a esperança de que o “Herr Hitler” eventualmente passasse a ser “sensível”, isso é, começasse sua guerra contra a União Soviética. Hitler sempre teve a intenção de fazê-la, mas, antes de satisfazer os apaziguadores britânicos e franceses, ele queria extorquir mais algumas concessões deles. Afinal de contas, parecia não haver o que eles pudessem recusar a ele; além disso, tendo fortalecido ainda mais a Alemanha com suas concessões anteriores, estariam eles em uma posição de negar a Hitler aquele que era presumidamente o último favor que ele pediria? Esse pequeno favor final dizia respeito à Polônia.

Ao final de março de 1939, Hitler subitamente exigiu Gdansk, assim como algum território polonês entre a Prússia Oriental e o resto da Alemanha. Em Londres, Chamberlain e seus colegas arqui-conciliadores estavam de fato inclinados a ceder mais uma vez, mas a oposição por parte da mídia e da Câmara dos Comuns provou-se muito forte para permitir que isso acontecesse. Chamberlain então repentinamente mudou de direção, e, em março de 1931, ele formalmente – mas de forma totalmente não realista, como Churchill observou – prometeu assistência armada à Varsóvia em caso de uma agressão alemã contra a Polônia. Em abril de 1939, quando pesquisas de opinião revelaram o que todo mundo já sabia, ou seja, que quase noventa porcento da população britânica desejava uma aliança anti-Hitler ao lado da União Soviética e também da França, Chamberlain viu-se obrigado a demonstrar oficialmente um interesse na proposta soviética de estabelecer diálogos a respeito da “segurança coletiva” frente a uma ameaça alemã.

Na realidade, os partidários do apaziguamento não estavam interessados na proposta soviética, e pensaram em todo tipo de pretexto para evitar a conclusão de um acordo com um país que eles desprezavam e contra um país com quem eles secretamente simpatizavam. Foi somente em julho de 1939 que eles se declararam preparados para dar início às negociações militares, e foi somente ao fim de agosto que uma delegação franco-britânica foi enviada para Leningrado com esse propósito. Em forte contraste com a velocidade com que, um ano antes, o próprio Chamberlain (acompanhado por Daladier) correu de avião para Munique, dessa vez um time de subalternos anônimos foi enviado para a União Soviética a bordo de um lento cargueiro. Além disso, quando finalmente chegaram em Moscou, após passarem por Leningrado, no dia 11 de agosto, descobriu-se que eles não possuíam as credenciais ou a autoridade necessária para realizar tais discussões. A essa altura, os soviéticos já haviam tido desprezo o bastante, e qualquer um pode entender porque eles resolveram romper as negociações.

Enquanto isso, Berlim discretamente deu início a uma aproximação com Moscou. Por que? Hitler sentiu-se traído por Londres e Paris, que a princípio haviam feito todo tipo de concessões, mas agora lhe negavam a pequena Gdansk e ficavam ao lado da Polônia. Desse modo, Hitler já encarava a perspectiva de uma guerra contra a Polônia, que negava entregar Gdansk, e também contra a dupla franco-britânica. Para poder vencer essa guerra, o ditador alemão precisava que a União Soviética se mantivesse neutra, e para tal ele estava disposto a pagar um preço alto. Da perspectiva de Moscou, a proposta de Berlim contrastava fortemente com a atitude dos apaziguadores ocidentais, que demandavam que os soviéticos fizessem promessas obrigatórias de assistência, mas sem oferecer uma contraparte significativa. O que havia começado em maio como discussões informais entre a Alemanha e a União Soviética no contexto de negociações comerciais sem importância, discussões nas quais os soviéticos inicialmente não mostraram interesse, eventualmente se transformou em um diálogo sério envolvendo os embaixadores dos dois países e até mesmo seus ministros das Relações Exteriores, Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov – este último substituindo Litvinov.

Um fator que teve um papel secundário, mas que não deve ser subestimado, é o fato de que, na primavera de 1939, tropas japonesas com base no norte da China invadiram o território soviético no Extremo Oriente. Eles seriam derrotados e recuariam em agosto, mas essa ameaça japonesa confrontou Moscou com a possibilidade de ter que travar uma guerra em duas frentes, a menos que fosse encontrada uma maneira de eliminar a ameaça proveniente da Alemanha Nazista. Finalmente, Moscou viu uma forma de neutralizar essa ameaça por intermédio da proposta de Berlim, refletindo seu próprio desejo de evitar uma guerra em duas frentes.

Foi somente em agosto, porém, quando os líderes soviéticos perceberam que a Grã-Bretanha e a França não pretendiam conduzir negociações de boa-fé, que o nó foi cortado e que a União Soviética assinou um pacto de não-agressão com a Alemanha Nazista, mais especificamente no dia 23 de agosto. Esse acordo foi nomeado como “Pacto Ribbentrop-Molotov”, em homenagem aos ministros das relações exteriores, mas também ficou conhecido como o “Pacto Hitler-Stálin”. A conclusão desse acordo dificilmente chegou como uma surpresa: um número de políticos e líderes militares na Grã-Bretanha e na França já haviam previsto em diversas ocasiões que a política de apaziguamento de Chamberlain e Daladier levaria Stálin “aos braços de Hitler”.

“Aos braços” é na verdade uma expressão inadequada nesse contexto, já que o pacto certamente não refletia sentimentos calorosos entre os signatários. Stálin, inclusive, recusou uma sugestão de incluir no texto algumas linhas convencionais sobre uma hipotética amizade entre os dois povos. Ademais, o acordo não era uma aliança, mas somente um pacto de não-agressão. Desse modo, foi similar a diversos outros pactos de não-agressão que foram assinados anteriormente com Hitler, por exemplo o pacto com a Polônia de 1934. Tudo se resumia a uma promessa de não atacar um ao outro e de manter relações pacíficas, uma promessa que cada lado provavelmente manteria enquanto lhes fosse conveniente. Uma cláusula secreta foi anexada ao acordo com respeito à demarcação de esferas de influência na Europa Oriental para cada um dos signatários. Essa linha correspondia mais ou menos à Linha Curzon, o que fazia da “Polônia Oriental” parte da esfera soviética de influência. O que esse arranjo teórico significava em termos práticos estava longe de ser claro, mas o pacto certamente não implicava uma partição ou amputação territorial da Polônia comparável ao destino imposto à Checoslováquia pelos britânicos e franceses no pacto que assinaram com Hitler em Munique.

O fato de a União Soviética reivindicar uma esfera de influência além de suas fronteiras é por vezes descrito como evidência de sinistras intenções expansionistas; contudo, o estabelecimento de esferas de influência, seja de forma unilateral, bilateral, ou multilateral, tem sido uma prática largamente aceita entre grandes potências e outras não tão grandes, sendo muitas vezes algo planejado com a intenção de evitar conflitos. A Doutrina Monroe, por exemplo, que “afirmou que o Novo Mundo e o Velho Mundo permaneceriam como esferas de influência distintas”, pretendia impedir novas incursões coloniais de potências europeias que poderiam levá-las aos conflito com os Estados Unidos. De forma similar, quando Churchill visitou Moscou em 1944 e ofereceu a Stálin a divisão da Península Balcânica em esferas de influência, a intenção era evitar o conflito entre seus respectivos países após o fim da guerra contra a Alemanha Nazista.

Hitler agora era capaz de atacar a Polônia sem correr o risco de ter de travar uma guerra tanto contra a União Soviética como contra a dupla franco-britânica, embora o ditador alemão tivesse bons motivos para duvidar de que Londres e Paris declarariam guerra. Sem a assistência soviética, ficou claro que nenhuma ajuda efetiva poderia ser oferecida à Polônia, de modo que não demoraria para a Alemanha derrotar o país (somente os coronéis em Varsóvia acreditavam que a Polônia era capaz de suportar a investida das poderosas hordas nazistas). Hitler sabia muito bem que os arquitetos do apaziguamento continuavam a esperar que, cedo ou tarde, ele acabaria por realizar seu desejo e destruiria a União Soviética, de maneira que estavam dispostos a fechar os olhos para sua agressão contra a Polônia. Ele também estava convencido de que os britânicos e os franceses, mesmo que declarassem guerra contra a Alemanha, não atacariam pelo lado ocidental.

O ataque alemão contra a Polônia foi iniciado em 1 de setembro de 1939. Londres e Paris ainda hesitaram alguns dias, antes de reagirem com uma declaração de guerra contra a Alemanha, mas eles acabaram não atacando o Reich no momento em que a maior parte de suas forças armadas estava invadindo a Polônia, que era o que alguns generais alemães temiam. Na verdade, os protagonistas do apaziguamento somente declararam guerra contra Hitler porque a opinião pública a demandava. Em segredo, eles esperavam que a incursão na Polônia logo terminasse; desse modo “Herr Hitler” poderia finalmente voltar sua atenção para a União Soviética. A guerra que eles travaram foi somente uma “guerra de mentira”, como seria corretamente chamada, uma farsa na qual suas tropas, que poderiam virtualmente ter marchado na Alemanha, permaneceram inativamente instaladas atrás da Linha Maginot. Hoje é quase certo que os simpatizantes de Hitler no campo francês, e, possivelmente, os apaziguadores britânicos também, fizeram saber ao ditador alemão que ele poderia usar todo o seu poder militar para acabar com a Polônia sem precisar temer um ataque das potências ocidentais (aqui nos referimos aos livros de Annie Lacroix-Riz, “Le choix de la défaite“, “Les élites françaises dans les années 1930“, e “De Munich à Vichy. L’assassinat de la 3e République“.)

Os defensores poloneses ficaram impressionados, e logo ficou óbvio que os coronéis que governavam a Polônia teriam que se render. Hitler tinha todos os motivos para acreditar que eles o fariam, e suas condições implicariam, sem dúvida, em grandes perdas territoriais, especialmente, é claro, nas regiões ocidentais do país, em sua fronteira com a Alemanha. No entanto, uma Polônia mutilada provavelmente continuaria a existir, do mesmo modo que a França, após sua rendição em junho de 1940, continuou a existir sob o disfarce da França de Vichy. Em 17 de setembro, no entanto, o governo polonês repentinamente fugiu para a vizinha Romênia, um país neutro. Ao fazer isso, o governo deixou de existir, já que, de acordo com a lei internacional, não somente os militares, mas também os membros do governo de um país em guerra, devem ser detidos ao entrar em um país neutro durante um período de hostilidades. Esse foi um ato irresponsável e até mesmo covarde, com consequências nefastas para o país. Sem um governo, a Polônia efetivamente degenerou-se em uma espécie de terra de ninguém – uma terra nullius, em terminologia jurídica – onde os conquistadores alemães poderiam fazer o que quisessem por não haver ninguém com quem negociar a respeito do destino do país derrotado.

Essa situação também deu aos soviéticos o direito de intervir. Países vizinhos podem ocupar uma potencialmente anárquica terra nullius; além disso, se os soviéticos não interviessem, os alemães iriam, sem a menor sombra de dúvida, ocupar cada centímetro quadrado da Polônia, com todas as consequências que isso implicaria. É por isso que, no mesmo 17 de setembro de 1939, o Exército Vermelho cruzou a Polônia e começou a ocupar as regiões do leste do país, a já mencionada “Polônia Oriental”. O conflito com os alemães foi evitado porque tal território era pertencente à esfera soviética de influência estabelecida no Pacto Ribbentrop-Molotov. Aqui e ali, as tropas alemãs que haviam penetrado a leste da linha de demarcação tiveram que se retirar para dar espaço aos homens do Exército Vermelho. Onde fosse que fizessem contato, os militares alemães e soviéticos se comportaram de forma adequada e seguiram o protocolo tradicional, o que, às vezes, envolvia algum tipo de cerimônia, mas jamais houve qualquer tipo de “parada da vitória” conjunta.

Como seu governo fora reduzido a fumaça, as forças armadas polonesas que continuaram a oferecer resistência foram reduzidas ao nível de irregulares, de guerrilheiros, expostas a todos os riscos associados a esse papel. A maioria das unidades do exército polonês se deixou desarmar e ser detida pelo Exército Vermelho, mas as vezes houve resistência, por exemplo, pelas tropas comandados por oficiais hostis aos soviéticos. Muitos desses oficiais haviam servido na Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921, tendo alegadamente cometido crimes de guerra como a execução de prisioneiros. É amplamente aceito que tais homens foram liquidados pelos soviéticos em Katyn e em outros lugares (ainda que, com relação a Katyn, tenham surgido questionamentos recentemente; esse assunto foi analisado em grandes detalhes em um livro de Grover Furr, “The Mystery of the Katyn Massacre“).

Muitos soldados e oficiais poloneses foram detidos pelos soviéticos de acordo com as regras do direito internacional. Em 1941, depois que a União Soviética passou a estar envolvida na guerra, e, portanto, não mais sujeita às regras que regem a conduta dos neutros, esses homens foram transferidos para a Grã-Bretanha (pelo Irã) para participarem da guerra contra a Alemanha Nazista ao lado dos aliados ocidentais. Entre 1943 e 1945, eles dariam uma grande contribuição para a libertação de uma parte considerável da Europa Ocidental (destino muito mais trágico tiveram os militares poloneses que caíram nas mãos dos alemães). Outros que se beneficiaram da ocupação de territórios da chamada “Polônia Oriental” pelos soviéticos foram os habitantes judeus. Eles foram transferidos para o interior da União Soviética e, desse modo, escaparam do destino que os esperava se eles tivessem continuado em seus shtetls quando os alemães chegaram em 1941. Muitos sobreviveram à guerra e puderam começar uma nova vida nos Estados Unidos, Canadá e, claro, Israel.

A ocupação da “Polônia Oriental” foi realizada corretamente, isso é, de acordo com as regras do direito internacional, de modo que essa ação não constituiu um “ataque” contra a Polônia, como muitos historiadores (e políticos) têm apresentado, e certamente não foi um ataque em colaboração com o “aliado” Nazi-Alemão. A União Soviética não se tornou aliada da Alemanha Nazista por concluir um pacto de não-agressão com esta, assim como não passou a ser aliada por conta de sua ocupação da “Polônia Oriental”. Hitler teve que tolerar essa ocupação, mas ele certamente teria preferido que os soviéticos não interviessem, permitindo que ele pudesse tomar toda a Polônia. Churchill expressou publicamente sua aprovação à iniciativa soviética, principalmente porque isso impediu que os nazistas também conquistassem a Polônia. O fato de essa iniciativa não constituir um ataque, e, portanto, um ato de guerra contra a Polônia, também se mostrou claramente no fato de que a Grã-Bretanha e a França, antigos aliados da Polônia, não declararam guerra contra a União Soviética, como eles certamente deveriam fazer. E a Liga das Nações Unidas não impôs sanções à União Soviética, o que também deveria ter acontecido se tal ação fosse considerada um ataque autêntico contra um de seus membros.

Leia também – Liberais e anticomunistas: ninguém solta a mão de ninguém

Do ponto de vista soviético, a ocupação das regiões orientais da Polônia significava a recuperação de parte de seu território que fora perdido no conflito de 1919-1921. É verdade que Moscou havia reconhecido sua perda no Tratado de Paz de Riga que pôs um fim à guerra em março de 1921, mas Moscou seguiu buscando uma oportunidade para recuperar a “Polônia Oriental”, e em 1939 essa oportunidade se materializou e foi agarrada. Pode-se estigmatizar os soviéticos por isso, mas nesse caso pode-se também estigmatizar a França, por exemplo, por recuperar a Alsácia-Lorena no fim da Primeira Guerra Mundial, já que Paris havia reconhecido sua perda de território no Tratado de Paz de Frankfurt que pôs um fim à Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871.

Mais importante é o fato de que a ocupação – ou libertação, ou retomada, ou recuperação, ou qualquer nome que se queira dar – da “Polônia Oriental” deu à União Soviética um ativo extremamente útil que, no jargão da arquitetura militar, é chamado de “glacis“, ou seja, um espaço aberto onde um agressor pode atravessar antes de alcançar o perímetro defensivo de uma cidade ou fortaleza. Stálin sabia que, apesar do pacto, Hitler atacaria a União Soviética mais cedo ou mais tarde, e esse ataque veio a ocorrer de fato em junho de 1941. Naquele momento, Hitler teve que iniciar seu ataque de um ponto de partida muito mais distante das importantes cidades no coração da União Soviética do que teria sido o caso em 1939, quando ele já estava ansioso para iniciar o ataque. Por causa do pacto, os pontos de partida para a ofensiva nazista de 1941 estavam várias centenas de quilômetros mais a oeste, e, portanto, a uma distância muito maior de seus objetivos estratégicos nas profundezas do território soviético. Em 1941, as forças alemãs chegaram a pouca distância de Moscou, o que significa que, sem o pacto, eles certamente teriam tomado a cidade, podendo resultar na capitulação dos soviéticos.

Graças ao Pacto Ribbentrop-Molotov, a União Soviética não somente ganhou um espaço valioso, mas também um tempo valioso, a saber, o tempo extra que eles precisavam para se preparar para o ataque alemão que estava originalmente agendado para 1939, mas que foi postergado até 1941. Entre 1939 e 1941, infraestruturas de importância crucial, sobretudo as fábricas que produziam todo tipo de material de guerra, foram transferidas para o outro lado dos Montes Urais. Além disso, entre 1939 e 1940, os soviéticos tiveram a oportunidade de observar e examinar a guerra que estourava na Polônia, Europa Ocidental, e outros lugares, e assim estudar valiosas lições sobre o estilo moderno, motorizado e “rápido como um relâmpago” da ofensiva militar alemã, a blitzkrieg. Os estrategistas soviéticos aprenderam, por exemplo, que a concentração da maior parte das forças armadas para propósitos defensivos próximo da fronteira seria fatal, e que somente uma “defesa em profundidade” ofereceria a possibilidade de parar o rolo compressor nazista. Seria, entre outras coisas, graças às lições aprendidas dessa maneira que a União Soviética conseguiria – reconhecidamente com grande dificuldade – sobreviver ao ataque nazista em 1941 e eventualmente vencer a guerra contra esse poderoso adversário.

Para tornar possível a defesa de Leningrado em profundidade, uma cidade com vitais indústrias de armas, a União Soviética propôs trocar territórios com a vizinha Finlândia no outono de 1939, um arranjo que teria mudado a fronteira dos dois países, deixando a cidade soviética mais distante. A Finlândia, aliada da Alemanha Nazista, recusou, mas através da “Guerra do Inverno” de 1939-1940, Moscou finalmente conseguiu realizar essa modificação da fronteira. Por causa do conflito, entendido como uma agressão, a União Soviética foi excomungada pela Liga das Nações. Em 1941, quando os alemães, auxiliados pelos finlandeses, atacaram a União Soviética e cercaram Leningrado durante muitos anos, foi o ajuste de fronteira que permitiu a sobrevivência da cidade durante esta provação.

Não foi a União Soviética, mas a Alemanha, quem tomou a iniciativa para as negociações que eventualmente resultaram no pacto. Eles o fizeram porque esperavam obter um vantagem disso, uma vantagem temporária, porém muito importante: a neutralidade da União Soviética enquanto a Wehrmacht atacava primeiro a Polônia e depois a Europa Ocidental. Mas a Alemanha Nazista também obteve um benefício adicional do acordo comercial que fora associado ao pacto. O Reich sofria com uma penúria crônica de todo tipo de matérias-primas estratégicas, e essa situação ameaçava se tornar catastrófica quando, como era de se esperar, uma declaração de guerra britânica levasse ao bloqueio da Alemanha pela Marinha Real. Esse problema foi neutralizado pela entrega de produtos como o petróleo por parte dos soviéticos, tal como fora estipulado no acordo. Não está claro o quão cruciais essas entregas realmente foram, especialmente as entregas de petróleo: não muito importantes, de acordo com alguns historiadores; extremamente importantes, de acordo com outros. De todo modo, a Alemanha Nazista continuou a depender de uma grande quantidade de petróleo importado – principalmente através de portos da Espanha – dos Estados Unidos, pelo menos até o Tio Sam entrar na guerra em dezembro de 1941. No verão de 1941, dezenas de milhares aviões, tanques, caminhões e outras máquinas de guerra nazistas envolvidas na invasão da União Soviética ainda eram dependentes em grande parte do combustível fornecido pelos fundos de petróleo americanos.

Ainda que seja incerto o quão importante o petróleo fornecido pelos soviéticos foi para a Alemanha Nazista, é certo que o pacto exigiu que o lado alemão retribuísse fornecendo aos soviéticos uma série de produtos industriais acabados, incluindo equipamento militar de ponta, o que foi usado pelo Exército Vermelho para atualizar suas defesas contra o possível ataque alemão que eles esperavam que fosse acontecer cedo ou tarde. Esse foi um dos maiores fatores de preocupação para Hitler, que estava interessado em iniciar sua cruzada antissoviética o mais cedo possível. Ele decidiu por fazê-lo ainda que, após a queda da França, a Grã-Bretanha estivesse longe de ser levada em conta. Consequentemente, em 1941, o ditador alemão teria que enfrentar o tipo de guerra em duas frentes que ele esperava evitar em 1939 graças ao seu pacto com Moscou, dessa vez enfrentando um inimigo soviético que havia se tornado muito mais forte do que era em 1939.

Stálin assinou um pacto com Hitler porque os arquitetos do apaziguamento em Londres e Paris recusaram todas as ofertas soviéticas de formar uma frente comum contra o ditador alemão. E os apaziguadores recusaram essas ofertas porque esperavam que Hitler marchasse para o Leste e destruísse a União Soviética, um trabalho que eles procuraram facilitar ao oferecerem a ele um “trampolim” sob o disfarce do território checoslovaco. É praticamente certo que, sem o pacto, Hitler teria atacado a União Soviética em 1939. Por causa do pacto, contudo, Hitler teve que esperar dois anos antes que finalmente estivesse apto a lançar sua cruzada antissoviética. Isso deu à União Soviética tempo e espaço extras que permitiram que suas defesas fossem aperfeiçoadas o suficiente para sobreviver à investida quando Hitler finalmente enviou seus cães de guerra para o Leste em 1941. O Exército Vermelho sofreu terríveis perdas, mas eventualmente conseguiu parar a avalanche nazista. Sem esse sucesso soviético, uma conquista descrita pelo historiador Geoffrey Roberts como “o maior feito das armas na história mundial”, a Alemanha muito provavelmente venceria a guerra, já que eles teriam ganho o controle dos campos de petróleo do Cáucaso, as ricas terras agrícolas da Ucrânia, e muitas outras riquezas do vasto território dos soviéticos. Tal triunfo teria transformado a Alemanha Nazista em uma superpotência insuperável, capaz de travar guerras ainda mais longas contra qualquer um, incluindo uma aliança anglo-americana. Uma vitória contra a União Soviética teria dado à Alemanha Nazista hegemonia sobre a Europa. Hoje, no continente, a segunda língua não seria o inglês, mas o alemão, e em Paris os fashionistas iriam subir e descer os Champs-Élysées usando lederhosen(traje típico alemão).

Sem o Pacto, portanto, a libertação da Europa, incluindo a libertação da Europa Ocidental pelos americanos, britânicos, canadenses, etc., nunca teria ocorrido. A Polônia não existiria; os poloneses seriam “untermenschen”, servos dos colonos “arianos” em uma Ostland germanizada do Báltico aos Cárpatos ou até mesmo aos Urais. E um governo polonês nunca teria ordenado a destruição de monumentos honrando o Exército Vermelho, como tem sido feito recentemente, não somente porque não haveria Polônia e, portanto, um governo polonês, mas porque o Exército Vermelho nunca teria libertado a Polônia e esses monumentos nunca teriam sido erguidos.

A ideia de que o Pacto Hitler-Stálin desencadeou a Segunda Guerra Mundial é pior do que um mito, é uma mentira completa. O oposto é verdade: o pacto foi a precondição para o feliz resultado do armageddonocorrido entre 1939 e 1945, isso é, a derrota da Alemanha Nazista.

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