União Europeia

Os 20 anos do euro: o problema das lentes a “preto e zero”

O enquadramento actual e as reformas em curso promovem a divergência entre Estados ricos e pobres e asseguram que países como Portugal irão, lentamente, definhar. Seremos capazes de perceber o que esse percurso representa para o futuro do país e mudar de rumo?

Ricardo Sousa
 
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O euro entranhou-se na vida dos portugueses. Os "benefícios" que lhe estão associados são conhecidos e continuam a aliciar.

O “discurso pró-euro” e a “sensação de liberdade” convencem: para 64% dos portugueses e dos cidadãos da Zona Euro, o euro é uma "coisa boa" – o suficiente para as autoridades europeias declararem que a moeda única beneficia todos!

Contudo, é surpreendente que a maioria dos decisores políticos continue a ter uma perspectiva “demasiado optimista” em relação ao euro. Essa perspectiva das “elites” tem-se mantido historicamente.

Não obstante, cada vez mais portugueses têm a noção das dificuldades acrescidas que vieram com o euro. Têm razão nessa avaliação.

Um desempenho económico medíocre...

Entre 1975 e 1998, o PIB per capita português cresceu à taxa real média anual de 3,2%. O país tinha uma posição de investimento internacional líquida de -24,4% do PIB em 1998. A sua dívida pública era de 51,8% do PIB em 1998.

Na primeira década do euro (entre 1998 e 2008), a taxa de crescimento real média do PIB per capita baixou para 1,2%; na segunda década (entre 2008 e 2018), caiu para 0,5%. A taxa de desemprego média dos últimos dez anos foi muito mais elevada (11,6%) do que entre 1976 e 2008 (7,4%). Entre 2011 e 2016, emigraram do país, em termos líquidos, cerca de 147 mil pessoas, tendo a Alemanha se tornado num destino popular para emigrantes qualificados.

Entre 1998 e 2018, a dívida pública subiu para 122,2% do PIB, quadruplicando em termos nominais. A propriedade das grandes empresas portuguesas passou para não residentes e a posição de investimento internacional líquida agravou-se quatro vezes para -100,8% em 2018. Apesar do enorme ajustamento da procura interna que levou a uma balança corrente ligeiramente excedentária desde 2012, esta passou, novamente, a deficitária em 2018.

A convergência nominal imposta como critério para a adopção do euro não teve qualquer tradução em termos de convergência real. E quando teve, foi conseguida à custa da acumulação de “desequilíbrios macroeconómicos”, como caracterizam as autoridades europeias.

Volvidos 20 anos do euro, o rácio entre o PIB per capita português e o PIB per capita alemão é de cerca de 50%, ou seja, deteriorou-se em 4,7 pontos percentuais (pp) entre 1998 e 2018. O nível de vida dos portugueses divergiu do dos alemães.

O crescimento de outros Estados-membros confirma a decepção que foi a ausência de convergência real deste período. Em 2018, o PIB per capita grego representava apenas 50,8% do PIB per capita alemão (ou seja, -9,2 pp do que em 1998); o italiano fixava-se em 74,3% (-19.8pp).

Se a “aceitação” do euro pelos cidadãos aparenta ser um sucesso, a divergência acumulada ao longo destes anos coloca em causa essa avaliação.

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Portugal perdeu com a moeda única!

Num estudo recente, Alessandro Gasparotti e Matthias Kullas (Centre for European Policy) concluem que o euro trouxe ganhos e perdas muito diferenciados entre os Estados-membros.

Do lado dos vencedores, o maior beneficiário do euro foi a Alemanha, com ganhos de cerca de 23.116 euros por habitante (1,9 biliões de euros), tendo estes sido “particularmente elevados depois da crise da dívida soberana”.

Do lado dos perdedores, destaca-se a Itália, com uma perda de 73.605 euros por habitante (4,3 biliões de euros).

Portugal sai, igualmente, perdedor: 40.604 euros por habitante (424 mil milhões de euros), ou seja, mais de oito vezes o valor do empréstimo das autoridades europeias no âmbito do resgate de 2011 ao país (52 mil milhões de euros).

O país perdeu ininterruptamente desde 2003; entre 2011 e 2014 (durante o programa de assistência económica e financeira concluído com “sucesso") perdeu, cumulativamente, 19.716 euros por habitante; e, entre 2015 e 2017 (anos em que as reformas estruturais entretanto encetadas produziriam os efeitos “desejados"), perdeu mais 16.348 euros por habitante.

A questão que este estudo suscita é: não teríamos vivido melhor sem o euro?

Bem-vindos ao clube de credores e devedores

Antes do euro, as moedas de alguns dos actuais Estados-membros da união económica e monetária eram, naturalmente, mais fortes em resultado de estruturas produtivas baseadas em sectores de mais alto conteúdo tecnológico e maior produtividade (p. ex., Alemanha ou Holanda). Outras eram mais fracas, dada a estrutura económica de menor valor acrescentado (p. ex., Portugal, Espanha, Grécia ou Itália).

A partir de 1 de Janeiro de 1999, o euro tornou-se na média ponderada de moedas com taxas de câmbio (reais) associadas a estruturas produtivas diversas. Ao aderirem a uma moeda demasiado forte, os decisores políticos de países como Portugal aceitaram aplicar um imposto implícito sobre os seus sectores transaccionáveis, transferindo-o todos os anos, sob a forma de subsídio implícito, para os sectores transaccionáveis de países como a Alemanha, para o qual o euro permanece subvalorizado.

A moeda única resulta, assim, num subsídio recorrente aos países com estruturas produtivas mais fortes e num imposto, também recorrente, aos países com estruturas produtivas mais fracas. É, portanto, falacioso o discurso da Alemanha quando, a respeito dos superávites excessivos da sua balança corrente no "procedimento relativo aos desequilíbrios macroeconómicos” (PDM) da Comissão Europeia, invoca não fazer sentido aplicar impostos à sua “competitividade”.

Como refere Jan Priewe (HTW Berlin –​ University of Applied Sciences), a força da indústria alemã “surge paralelamente à desindustrialização de outros Estados-membros” e o superávite da balança corrente reflecte as “disfuncionalidades” da União Europeia. É uma "bomba-relógio” para a coesão.

O euro – enquanto sistema de impostos-transferências implícitos – deveria, por isso, ser compensado por um sistema de transferências-impostos explícitos (de Estados ricos para pobres).

Da retórica do castigo para o “aluno mal comportado”...

O esforço de persuasão da audiência levado a cabo pelas autoridades europeias ignora os enormes “custos” associados ao euro.

Aos supra-mencionados, acrescem outros extremamente importantes:

  • A política monetária é uma função da dinâmica da Zona Euro como um todo, na qual pesam mais as economias maiores e menos as menores. Por isso, pode ser “óptima” para alguns e “sub-óptima” para muitos;
  • A ausência da política cambial impede que a taxa de câmbio actue como estabilizador automático face a choques. Como enfatizam Enrico Perotti e Oscar Soons (University of Amsterdam), dado que os preços de mercado e fluxos comerciais se ajustam mais rapidamente do que as estruturas produtivas, a união monetária gera efeitos redistributivos persistentes;
  • E, no que diz respeito à política orçamental, a maior fragilidade é estrutural: o euro foi desenhado sem um credor de última instância e sem dívida federal.

A ameaça de sanções pelo desrespeito de regras orçamentais, a dependência da política do BCE e a exposição a mudanças na notação do risco pelas agências de rating transformam os Estados-membros em “presas fáceis” dos mercados financeiros.

Como notam Paul De Grauwe (London School of Economics) e Yuemei Ji (University College of London), numa união monetária, disciplinar um Estado soberano através dos mercados financeiros é equivalente a estimular ataques especulativos periódicos à dívida dos membros mais frágeis.

... à intransigência do “aluno exemplar” em mudar!

O mau desempenho económico nas últimas duas décadas deve-se à deficiente arquitectura do euro. Esta explica-se pela inflexível oposição alemã a reformas que promoveriam uma mais justa distribuição dos ganhos do euro.

Décadas depois do lançamento deste, uma união de transferências que garanta a convergência estrutural continua a ser “assunto-tabu” para os países ricos e o orçamento europeu que está a ser projectado é uma versão “light” sem capacidade de estabilização.

De igual modo, a União Bancária só avançou de forma faseada e desprovida de um esquema comum de garantia de depósitos (o “terceiro pilar") por manifesta falta de vontade de partilha do risco dos países credores.

Finalmente, a criação de um activo sem risco europeu e a subsequente mutualização da dívida pública não se materializarão num futuro próximo. Mais, a sua potencial introdução faseada desestabilizaria os mercados de dívida, transformando (ainda mais) as obrigações alemãs em activos refúgio e afugentando (ainda mais) os investidores de obrigações de outros países.

Hoje, como no passado, “o aluno exemplar” considera-se – nas palavras de Wolfgang Streeck (Max Planck Institute) – um "poder hegemónico benevolente, que mais não faz do que distribuir bom senso e virtudes morais aos seus vizinhos" desse “império liberal” chamado União Europeia!

Mas hoje, contrariamente ao passado, assistimos, como frisa Peter Ramsay (London School of Economics), àquele império ”...que mais não é do que uma forma de governo improvisada pelas elites nacionais... relutantes ou incapazes de aceitar a autoridade política que advém da democracia...” e que se desdobram “...no estabelecimento de arranjos intergovernamentais supra-nacionais para alimentar essa autoridade”.

Os efeitos da estratégia alemã são claros: impõem uma pressão crescente, limitam as transferências a um nível negligenciável e estão na origem do clube de credores e devedores em vigor na Zona Euro.

A história repete-se, “primeiro como tragédia, depois como farsa” (Karl Marx)

Num texto publicado no Project Syndicate, Robert Skidelski (Warwick University) argumenta que a Alemanha está a fazer aos países devedores o que os Aliados lhe fizeram a seguir à Primeira Guerra Mundial, quando impuseram enormes reparações de guerra àquela que, em resultado, ficou com uma dívida externa elevada.

Entre 1929 e 1931, na sequência da Grande Depressão, o governo alemão adoptou uma política de austeridade, de forma pró-cíclica, para tentar reembolsar aquela dívida. A economia encolheu 25%, o desemprego disparou para 35% e os Nazis (os “populistas” da altura) chegaram ao poder.

A maior parte da dívida acabou por ser perdoada na sequência de várias reestruturações, tendo a Alemanha pago apenas uma ínfima parte.

A 1 de Outubro de 2012, Paolo Savona (até há alguns meses, ministro italiano para os Assuntos Europeus) escreveu uma carta aos amigos alemães e italianos. Relembrou que o objectivo do avanço civilizacional europeu é o de garantir “felicidade para o maior número de pessoas”.

Argumentou ainda que o comportamento da Alemanha se assemelhava ao Plano de 1936 de Walther Funk (destacado membro do Partido Nazi e, a partir de 1938, ministro da Economia de Adolf Hitler).

Esse Plano visava fazer com que:

  • as diversas moedas nacionais “convergissem para a zona do Marco Alemão";
  • o desenvolvimento industrial prevalecesse na Alemanha (e na França); e
  • os restantes países se dedicassem à agricultura e ao turismo.

Na visão de Savona, organismos “bio-jurídicos” como o euro e as políticas orçamentais europeias parecem revitalizar o Plano de Funk. Caberia, assim, à Alemanha clarificar as suas reais intenções quanto ao projecto europeu.

20 anos a não repetir!

O enquadramento actual e as reformas em curso promovem a divergência entre Estados ricos e pobres e asseguram que países como Portugal irão, lentamente, definhar.

Estarão os portugueses conscientes da rede de interações entre elites nacionais (que os governam) e elites supra-nacionais (que governam aquelas)?

Seremos capazes de perceber o que esse percurso representa para o futuro do país e mudar de rumo?

Para que estes 20 anos não se repitam, é necessário deixar de olhar para o euro através de lentes “schwarze null”, estabelecendo, de forma informada e inconformada, linhas vermelhas em relação ao status quo.

Ricardo Cabral é professor auxiliar de Economia na Universidade da Madeira. Ricardo Sousa é professor associado na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

 

 Ver original em 'Público' na seguinte ligação:
 
 
 

EUA aplicam tarifas punitivas sobre produtos da UE

 
 
Após aval da OMC, entram em vigor aumentos tarifários de 10% e 25%, afetando 7,5 biliões de dólares em produtos do bloco europeu. Bruxelas poderá retaliar com sanções.
 
As autoridades de comércio dos Estados Unidos confirmaram que passam a valer nesta sexta-feira (18/10) os aumentos planeados de 10% e 25% nas tarifas de importação sobre aviões da Airbus e uma série de produtos europeus, somando 7,5 biliões de dólares.
 
A medida entra em vigor após o aval da Organização Mundial do Comércio (OMC), que considerou as novas tarifas americanas proporcionais aos efeitos adversos sofridos pela empresa americana Boeing, a maior concorrente da Airbus, em termos de perdas de vendas e impedimentos na entrega de suas aeronaves.
 
Nesse litígio que já dura 15 anos, as perdas teriam sido acarretadas por subsídios ilegais fornecidos para a Airbus principalmente pela França, Alemanha, Espanha e Reino Unido. Segundo a OMC, esses quatro países ofereceram financiamentos a juros mais baixos do que os do mercado, o que teria permitido à empresa desenvolver alguns de seus modelos mais recentes e avançados.
 
 
A partir desta sexta-feira, os EUA passam a impor tarifas de 10% aos aviões da Airbus, e 25% sobre uma variedade de mercadorias europeias totalizando 7,5 biliões de dólares. A lista inclui produtos espanhóis, como queijos, manteiga, azeite de oliva e carne de porco em conserva, além de vinhos e queijos franceses, waffles e biscoitos alemães, whisky e doces britânicos, e queijos italianos como parmesão e provolone. Incluídos estão também alguns frutos do mar, como mariscos, mexilhões e uma variedade de moluscos.
 
A União Europeia (UE) que, por sua vez, aguarda uma decisão da OMC sobre um caso de ajuda do governo americano á Boeing, deverá adotar medidas semelhantes contra os EUA. Apesar de Alemanha, França e Espanha serem os mais afetados pelo aumento, os efeitos das medidas americanas também se farão sentir nas demais economias do bloco.
 
O presidente americano, Donald Trump, disse não acreditar que a UE adote medidas de retaliação. "Em teoria, não pode haver retaliação. Isso foi um prémio que recebemos pelo tratamento injusto dado aos Estados Unidos pela União Europeia. Foi uma questão de ficar quites."
 
No entanto o ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, anunciou que a UE se prepara para reagir com suas próprias medidas punitivas: "Se o governo americano rejeitar a mão que foi estendida pela França e pela União Europeia, estamos preparando nossas próprias sanções", alertou.
 
Por sua vez, o ministro alemão das Finanças, Olaf Scholz, adotou um tom mais conciliador, comentando nesta sexta-feira que as autoridades europeias trabalham nos bastidores para selar um acordo comercial com os EUA e evitar tarifas ameaçadas. Ele se disse favorável a uma abordagem mais ponderada, que não agrave ainda mais as tensões com Washington.
 
Deutsche Welle | RC/afp/rtr/efe

Brexit, mais uma vez, com jeitinho

 
 
Numa segunda tentativa, UE e o governo britânicos chegaram a um acordo sobre o Brexit. E novamente nada garante que o Parlamento em Londres vá aprovar o pacto. O drama ainda não terminou, opina Barbara Wesel.
 
E mais uma vez a União Europeia e o governo britânico chegaram a um acordo. E, enquanto a excitação é grande no Reino Unido, em Bruxelas impera a sensação de déjà vu. Porque foi exatamente nesse ponto que já estivemos, um ano atrás, com Theresa May.
 
E, mais uma vez, não são boas as chances de o acordo ser aprovado na próxima sessão da câmara baixa do Parlamento britânico. Muitos deputados estão preocupados, porque querem permanecer na UE ou devido à futura posição do Reino Unido, que Boris Johnson quer ver muito mais distante da Europa do que sua antecessora.
 
Também nesta segunda tentativa, mais uma vez foi difícil se chegar a um acordo, que só se tornou possível depois que o primeiro-ministro da Irlanda sugeriu a seu colega britânico uma solução criativa para o problema irlandês. E Boris Johnson já havia entendido que, em vista da situação política em Londres, o Brexit só poderia ser alcançado com um acordo.
 
Então ele resolveu dar uma virada, esqueceu sua baboseira do passado, jogou escada abaixo todas as preocupações de indivisibilidade da Irlanda do Norte, defendidas com tanta veemência por May. O que foi acordado agora é muito semelhante ao velho backstop norte-irlandês, proposto originalmente pela UE para evitar uma "fronteira rígida" na ilha.
 
 
Ambos os lados fizeram concessões – os britânicos um pouco mais: a UE permitiu que a província britânica deixasse formalmente a união aduaneira. Londres, por sua vez, teve de engolir que a Irlanda do Norte tenha que continuar a cumprir as regras europeias de fato, a fim de preservar o status quo nos dois lados da fronteira. Aliás, não se trata apenas de um problema de economia e comércio, mas vai muito além, influenciando identidade, filiação cultural e vida quotidiana dos habitantes da região.
 
Os europeus e o governo em Dublin aceitam essa solução. E a UE prestou muita atenção às notas de pé de página, como é sua natureza, para que também possa fazer valer seus direitos. No geral, é um bom negócio para Bruxelas, que ao mesmo tempo permite a Johnson seu grito de triunfo, de que agora tirará o Reino Unido inteiro da UE, e no futuro retomará o controle de tudo. Assim, afinal é a propaganda do Brexit, não importa quão pouco reflita a verdade.
 
Portanto, há um acordo sobre a mesa. Mas as perspectivas de uma aprovação no Parlamento britânico não são boas. Se o Partido Unionista Democrático (DUP) da Irlanda do Norte não disser "sim", por achar que as concessões vão longe demais, Johnson poderá perder mais alguns defensores linha-dura do Brexit.
 
É duvidoso que ele consiga reconquistar os parlamentares conservadores que expulsou recentemente de seu partido, com arrogância; enquanto a oposição, salvo poucas exceções, é contra, de qualquer modo. Talvez Johnson consiga fazer um milagre até o sábado. Caso contrário, a questão do Brexit, da qual a UE tanto gostaria de se livrar, logo retornará à mesa em Bruxelas.
 
Uma das muitas falsas promessas do Brexit é que ele se conclui com a saída do Reino Unido. Essa é a esperança de muitos cidadãos: vamos acabar com a coisa, finalmente. Mas isso é uma falácia, pois aí é que ele realmente começa.
 
O período de transição negociado a tanto custo dura apenas um ano. Se o governo de Londres não o prorrogar, o que se segue é a queda na incerteza. Todos os aspectos do relacionamento futuro precisam ser renegociados – do tráfego aéreo até a cooperação científica ou de segurança, passando pelas licenças para camiões.
 
Portanto, o que está sendo vendido agora para os britânicos é uma falsa paz. Sobretudo as negociações sobre o acordo de livre-comércio – em que a meta de Johnson é o mínimo de integração possível – podem se provar acirradas: a UE mostrou que não dá nada de graça.
 
No entanto os britânicos devem decidir nas urnas se realmente querem imaginar um futuro no modelo "Cingapura do Tâmisa", com o desmantelamento dos direitos de propriedade intelectual e um mercado financeiro desregulado – ou não. A questão é se querem um modelo puramente neoliberal anglo-saxão ou um modelo mais europeu de economia e vida. Eles ainda têm a chance de rejeitar a corrida para o abismo abaixo defendida por Boris Johnson.
 
Barbara Wesel (md) | opinião | Deutsche Welle

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/brexit-mais-uma-vez-com-jeitinho.html

A convergência por um canudo

A expectativa criada foi grande, mas o resultado é o esperado. O instrumento orçamental para a convergência na zona euro, anunciado por Centeno no Eurogrupo, é de 17 mil milhões para os anos de 2021-2027: feitas as contas, a média não chega a 130 milhões por ano para cada país. Mais uma prova de que, na zona euro, a convergência continua a não passar de uma miragem.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Europa promete retaliar tarifas dos EUA e mira Boeing

Bandeiras dos EUA e da União Europeia (UE)
© AFP 2019 / Thierry Charlier

O ministro da Economia e das Finanças da França, Bruno Le Maire, condenou a adoção de novas tarifas nos EUA sobre produtos agrícolas e industriais da União Europeia.

O ministro observou que, se os Estados Unidos não querem negociar, os países europeus estão dispostos "a responder com pesadas sanções no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC)".

"Atacar os nossos produtores de vinho é um ato agressivo. Os Estados Unidos deveríam seguir a lógica das negociações. Seria uma maneira sábia", twittou Le Maire.

Por outro lado, a Comissária Europeia do Comércio, Cecilia Malmstrom, alertou que a União Européia será forçada a impor tarifas no "caso Boeing" em resposta às novas medidas dos EUA.

"Lamentamos a decisão dos EUA de avançar na área de tarifas. Essa etapa não nos deixa outra alternativa a não ser aplicar nossas próprias tarifas com os devidos procedimentos no caso da Boeing", afirmou Malmstrom em comunicado.

A Comissária enfatizou que "a imposição mútua de tarifas não serve aos interesses de ninguém a longo prazo".

"Isso provocará danos significativos na cadeia de suprimentos altamente integrada dos setores aeronáuticos nos EUA e na UE, além de resultar em danos colaterais a muitas outras áreas", alertou.

Nesse contexto, Malmstrom disse que a Comissão Europeia pretende monitorar o impacto das medidas norte-americanas "nos produtos europeus, especialmente no setor agrícola".

Em 3 de outubro, a Organização Mundial do Comércio decidiu que os EUA podem impor tarifas no valor de 7,5 bilhões de dólares aos produtos europeus, para compensar os subsídios concedidos pela UE à empresa Airbus.

As tarifas norte-americanas, adotadas em 18 de outubro, são de 10% para aviões e de 25% para produtos agrícolas e industriais da UE.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019101814662243-europa-promete-retaliar-tarifas-dos-eua-e-mira-boeing/

Acordo de Johnson com a UE pode levar Reino Unido a um Brexit 'bastante difícil'

Boris Johnson em Moscou.
© Sputnik / Aleksei Filipov

A Grã-Bretanha estará a caminho de laços econômicos mais distantes com a União Europeia (UE), tornando o país mais pobre, se o primeiro-ministro Boris Johnson ganhar apoio parlamentar para o acordo do Brexit que ele firmou com Bruxelas nesta quinta-feira.

Comparado com o acordo que sua antecessora, Theresa May, alcançou no ano passado - que o Parlamento rejeitou três vezes -, o acordo de Johnson visa menos alinhamento regulatório à UE e maiores barreiras comerciais entre a Grã-Bretanha e seu maior parceiro comercial.

Johnson agora enfrenta uma luta para convencer o Parlamento, no qual o seu Partido Conservador não possui maioria, para aprovar o acordo em uma votação que deve ocorrer neste sábado.

"Mesmo que Boris Johnson consiga fechar o acordo, a celebração dos investidores poderá em breve ser prejudicada pelo reconhecimento de que este é um Brexit bastante difícil", analisou Paul O'Connor, gerente de fundos da Janus Henderson.

O Ministério das Finanças da Grã-Bretanha e quase todos os economistas externos previram que o aumento das barreiras comerciais fará com que a economia britânica cresça mais lentamente do que se ficasse na UE, e os danos aumentam à medida que as barreiras comerciais aumentam.

Com base no que se sabia dos planos de Johnson na semana passada, o Reino Unido em uma Europa em mudança estimou que eles tornariam os britânicos mais de 6% mais pobres per capita do que permanecer na UE - o equivalente a 2.000 libras (US$ 2.570) por ano em um prazo médio.

© Sputnik / Justin Griffiths-William
Manifestante expressa apoio ao Brexit nas ruas de Londres.

O acordo de May reduziria a renda em pouco menos de 5% por pessoa, enquanto o chamado Brexit sem acordo - que deixaria o Reino Unido sendo negociado exclusivamente nos termos da Organização Mundial do Comércio (OMC) - reduziria a renda em pouco mais de 8%.

"Isso é mais prejudicial do que o Brexit de Theresa May em termos de impacto econômico", explicou Anand Menon, Reino Unido, em um diretor da Change Europe.

Menon disse que não acha que essas estimativas precisem ser alteradas significativamente, com base no acordo final alcançado nesta quinta-feira. Ele esperava que Johnson recuasse contra os requisitos de "igualdade de condições" no alinhamento regulatório que a UE quer ser uma condição para um relacionamento comercial próximo e futuro.

Em contrapartida, o Partido Trabalhista da oposição afirmou que buscará uma relação comercial mais estreita, com mais alinhamento com as regras da UE sobre meio ambiente e proteção dos trabalhadores, se estiver encarregado das negociações depois que a Grã-Bretanha deixar a UE.

Se a Grã-Bretanha deixar a UE em 31 de outubro, conforme programado, o acordo de Johnson garantirá um período de transição que durará até pelo menos o final de 2020, durante o qual não haverá grandes mudanças econômicas.

Esse período pode ser prorrogado até o final de 2022, enquanto a Grã-Bretanha e a UE negociam um novo acordo comercial com menos regras compartilhadas e novas restrições ao comércio transfronteiriço de bens e serviços.

Mercados financeiros

Os mercados financeiros reagiram positivamente ao acordo, uma vez que reduz o risco de um Brexit sem acordo.

Mas Dean Turner, economista da UBS Wealth Management, disse que, embora possa dar um breve recorte ao crescimento britânico, havia muita incerteza sobre o ambiente comercial de longo prazo para reviver investimentos moribundos nos negócios.

"Eu ainda não tiraria as bandeiras", avaliou. "Acho que veremos um pequeno aumento na atividade, mas nada que seja significativo o suficiente para tirar o Reino Unido de uma fraca tendência de crescimento".

O Centro de Reforma Europeia estimou que a economia da Grã-Bretanha já era quase 3% menor do que teria sido se tivesse votado para permanecer na UE no referendo de junho de 2016.

Embora a maior parte do acordo Johnson tenha sido vista em grande parte a mesma que foi acordada entre a UE e maio, analistas observaram que as aspirações de maio por um acordo comercial próximo e futuro foram atenuadas na declaração política que o acompanhava.

Enquanto a versão de maio aspirava "o mais próximo possível" a uma futura relação comercial com a UE, essa linha foi substituída por meramente "ambiciosa" no texto revisado.

Cédulas de euro, libra e dólar
Cédulas de euro, libra e dólar

"O acordo de Theresa May terminaria em um acordo mais suave do que apenas um acordo de livre comércio", destacou Alex Stojanovic, do Institute for Government.

"Este governo parece querer um [acordo de livre comércio] e isso é muito diferente: isso significa que ainda haveria barreiras regulatórias, especialmente em produtos entre a Grã-Bretanha e a UE", prosseguiu.

Rachel Kent, advogada de serviços financeiros da Hogan Lovells, disse que a declaração política original já vinculava o alinhamento regulatório ao acesso ao mercado em um futuro acordo comercial do Reino Unido com a UE, o maior cliente de serviços financeiros da Grã-Bretanha.

Mas a revisão tornou isso mais explícito, disse ela. Os reguladores britânicos afirmaram que não querem se tornar "tomadores de decisão" em vez de tomadores de decisão após o Brexit, aumentando a chance de divergência e barreiras entre os mercados de serviços financeiros britânicos e da UE.

Stojanovic acrescentou que a nova liberdade da Grã-Bretanha de assinar seus próprios acordos comerciais bilaterais em todo o mundo provavelmente não compensará a atividade econômica perdida.

"Se o Reino Unido fez um acordo com todo mundo [...] beneficiaria em 15 anos o PIB do Reino Unido em 0,2%. A maioria dos acordos de livre comércio não beneficia muito o PIB", concluiu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019101714655962-acordo-de-johnson-com-a-ue-pode-levar-reino-unido-a-um-brexit-bastante-dificil/

Reino Unido e União Europeia chegam a novo acordo do Brexit

Brexit
CC0 / Pixabay

O anúncio acontece antes da importante cúpula da União Europeia em Bruxelas, que deve ocorrer nesta quinta-feira (17).

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou que Reino Unido e a União Europeia chegaram a um "grande novo" acordo do Brexit.

 

Conseguimos um grande novo acordo de recuperação do controle. Agora o Parlamento deve cumprir o Brexit no sábado para podermos seguir em frente com outras prioridades como custo de vida, Serviço Nacional de Saúde, criminalidade e nosso meio-ambiente

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, confirmou o novo acordo do Brexit.

As partes continuam negociando o teste legal de um novo acordo do Brexit. Contudo, o acordo ainda precisa ser aprovado pelos Parlamentos do Reino Unido e da Europa.

 

Onde há uma vontade, há um acordo. Temos um [acordo]! Um acordo justo e equilibrado para a União Europeia e o Reino Unido, isso é uma prova do nosso empenho para encontrar soluções.

Enquanto isso, o Partido Unionista Democrático (DUP) afirmou que o acordo anterior permanece inalterado, mesmo depois do anúncio de que um novo acordo foi fechado.

Arlene Foster, líder do DUP, afirmou anteriormente que seu partido não poderia apoiar um acordo que manterá a Irlanda do Norte na união aduaneira da União Europeia.

Anteriormente, Johnson sugeriu que a Irlanda do Norte deixasse a união aduaneira da União Europeia com o resto do Reino Unido depois que o período de transição terminasse. Entretanto, a ideia foi rejeitada pelo DUP e pela UE.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019101714652626-acordo-reino-unido--brexit-acordo-foi-concluido/

Uma correção necessária sobre a votação no Parlamento Europeu

A Plataforma Cascais divulgou em 9 de outubro o artigo de Jacques-Marie Bourget "A UE mata-nos a foice! E o Martelo! Só nos resta a clandestinidade" que havia sido traduzido e editado pelo jornal 'ODiario.info'. Nesse artigo é feita uma crítica justa e mordaz à Resolução sobre "a importância da memória europeia para o futuro da Europa" aprovada pelo Parlamento Europeu sobre a qual o autor refere estranhar "que as pessoas que amontoaram vinte e cinco milhões de cadáveres para derrotar os nazis e de caminho para nos libertar, sejam colocados no mesmo mausoléu que o monstruoso cabo e seus amigos exterminadores"
De facto a referida resolução constitui uma equívoca peça de revisionismo histórico que abre campo às posições e ações neofascistas que pretendem equiparar o nazismo e o comunismo designadamente no período da 2ª Guerra Mundial.
 
Nesse artigo é referido, entre outros, o deputado europeu do Bloco de Esquerda José Gusmão que ter-se-ia abstido, ao contrário da generalidade dos membros da sua bancada,que teriam votado contra. Tal referência está errada.
 
Ainda que sendo essa a votação que figurava na Ata da sessão tal ter-se-á devido a um erro que já foi corrigido.
Assim, tanto José Soeiro como Marisa Matias, eleitos pelo BE, votaram CONTRA a globalidade da Resolução.
Igualmente contra votaram João Ferreira e Sandra Pereira eleitos pela CDU.
O deputado José Pizarro, eleito pelo PS, absteve-se.
 
Todos os restantes deputados eleitos pelo PS, pelo PSD, pelo CDS e pelo PAN votaram, a favor da Resolução que "expressa preocupação com a continuação da utilização de símbolos de regimes totalitários em espaços públicos e para fins comerciais e recorda que vários países europeus proibiram a utilização de símbolos nazis e comunistas".
 
Aqui fica feita a correção de um lapso do qual não temos qualquer responsabilidade mas que nos apraz esclarecer.
 
 
O Bloco de Esquerda apresentou a seguinte Declaração de Voto:
 
«Importância da memória europeia para o futuro da Europa (RC-B9-0097/2019, B9-0097/2019, B9-0098/2019, B9-0099/2019, B9-0100/2019)  
 

O Bloco de Esquerda condena inequivocamente os crimes cometidos por todos os regimes totalitários, incluindo os do nazi-fascismo, do stalinismo e do chamado "socialismo real". O Bloco rejeita e continuará a rejeitar a tentativa de associar partidos nazi-fascistas a partidos comunistas, associação que tem servido para perseguir partidos comunistas e outros partidos progressistas por regimes neofascistas, incluindo no espaço europeu, regimes esses que integram alguns dos grupos proponentes (PPE e ECR).
Repudiamos a leviandade e cobardia com que a resolução abre a possibilidade de proibir símbolos de partidos comunistas ou mesmo os partidos propriamente ditos. Opor-nos-emos sempre a qualquer tentativa de marginalizar o Partido Comunista Português, que desempenhou um papel histórico essencial na construção da nossa democracia. Votámos contra porque não aceitamos que a evocação dos crimes do passado seja usada para abrir caminho a novos totalitarismos com novos nomes e novas fachadas.»

A CDU apresentou a seguinte Declaração de Voto:

«Importância da memória europeia para o futuro da Europa (RC-B9-0097/2019, B9-0097/2019, B9-0098/2019, B9-0099/2019, B9-0100/2019)  

 

Esta resolução constitui um abjecto e deplorável acto de revisionismo histórico.
Pela mão da direita e da social-democracia, são promovidas as mais reaccionárias concepções e falsificações da História contemporânea, numa deplorável tentativa de equiparar fascismo e comunismo, minimizando e justificando os crimes do nazi-fascismo.
Centrando essa despudorada equiparação no contexto do Pacto Ribbentrop-Molotov, escondendo o seu enquadramento histórico, esta resolução omite importantes comportamentos de tolerância, cumplicidade e alinhamento das principais potências capitalistas com o ascenso do fascismo em vários países europeus, motivados pelo combate ao ideal comunista e às enormes realizações e conquistas económicas e sociais alcançadas pelos trabalhadores e os povos da URSS, que alentavam a luta e anseios dos trabalhadores e dos povos por toda a Europa.
Esta resolução procura apagar o contributo decisivo dos comunistas e da União Soviética para a derrota do nazi-fascismo. Tenciona, igualmente, silenciar o papel dos comunistas na libertação dos povos da opressão fascista, como ocorreu em Portugal, ou o papel que desempenharam e desempenham no avanço da conquista de direitos democráticos – políticos, económicos, sociais e culturais – dos trabalhadores e dos povos. Ao mesmo tempo, pretende abrir caminho para intensificar a perseguição e proibição de partidos comunistas, e outras forças progressistas, como vem sucedendo, com a cumplicidade da UE, em vários países.»

 
Sobre esta resolução pode ler também: O revisionismo histórico do Parlamento Europeu
 
 
 
 

O futuro da Europa: O caso espanhol. Por Ryan Bridges

Espuma dos dias UE e Espanha 1

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Publicado por Geopolitical Future em 25 de setembro de 2019 (ver aqui)

 

Como é que um colapso da União Europeia afetaria os seus Estados-Membros?

O que é que acontece com organizações supranacionais como a União Europeia, que prometem prosperidade aos seus membros em troca da renúncia a alguma soberania quando esses organismos já não conseguem cumprir a sua promessa?

Tivemos vislumbres da resposta na década anterior, quando a Grécia, a Itália, a Espanha, Portugal e a Irlanda foram atingidas pela crise. As forças anti-UE ganharam destaque em todo o bloco, e um país até votou para abandonar a UE completamente (embora as razões do Reino Unido para o fazer sejam complexas e vão muito além da crise dos últimos anos). E há quase um ano que a Alemanha, o motor de crescimento da Europa, se esforça por superar a recessão. Quer esta corrida termine numa catástrofe semelhante à Grande Depressão ou apenas num período de estagnação prolongada, a Alemanha parece provável que venha a perder e inevitavelmente arrastará na sua queda o resto da Europa. O que é que isso pressagia para a UE como um todo? Esta é uma questão que vamos investigar a seguir.

Em primeiro lugar, é importante estabelecer alguns limites para este exercício. Sabemos que a unidade europeia está em dificuldades, mas não sabemos que forma assumirá a crise. O resultado depende de questões como a de saber se existe uma rutura completa e súbita; uma rutura gradual e parcial que deixe o traseiro da UE intacto; ou apenas uma progressiva irrelevância e perda de influência crescentes por parte de Bruxelas. Se houver uma rutura, importa se esta é pacífica ou violenta.

Igualmente crítico é a liquidação das obrigações da dívida e questões como o que acontece à dívida de um Estado denominada em euros se este país sair. E se o euro for eliminado? Estas últimas questões serão especialmente importantes para os Estados altamente endividados, mas, por uma questão de brevidade, teremos de as deixar de lado. Vamos também assumir, por uma questão de simplicidade, o cenário mais extremo para a UE: o colapso total.

 

O caso de Espanha

Vamos concentrar-nos aqui em Espanha – um Estado-Membro frequentemente ignorado, mas significativo, com um conjunto único de circunstâncias. A população e a economia da Espanha são ambas a quinta maior da UE, com 47 milhões de pessoas e um produto interno bruto de US $ 1,4 milhão de milhões. Um pouco milagrosamente, sobreviveu à queda, aos resgates e à austeridade da última década e, em 2019, é uma das poucas economias da Europa Ocidental que ainda apresenta um crescimento moderado.

Deixando de lado as questões financeiras e económicas, um primeiro desafio para a Espanha após a UE seria o restabelecimento do controlo interno. A estabilidade interna nunca foi o ponto forte da Espanha, mesmo nos dias de glória do Império Espanhol. As cadeias montanhosas esculpem o país e nenhum dos seus principais rios, exceto o Guadalquivir, é navegável (e de qualquer modo não se ligam). Esta é uma receita para a fratura e a Espanha tem a sua quota-parte, liderada pela Catalunha e pelo País Basco, na periferia nordeste.

34 O futuro da Europa O caso espanhol

 

Quando, nos anos 70, Madrid iniciou o processo de candidatura para aderir às Comunidades Europeias, a antecessora da UE, esperava que a mudança dissipasse as tensões com a periferia do país. A implicação era que a autoridade centralizada se estenderia simultaneamente às regiões espanholas e até Bruxelas. Claro que, como agora sabemos, a CE e, mais tarde, a adesão à UE não puseram fim ao nacionalismo basco ou catalão. Assim, um dos primeiros desafios para o governo central espanhol num cenário pós UE seria evitar que os separatistas capitalizassem o caos e se separassem – o que essas regiões estariam mais inclinadas a fazer se algum tipo de bloco da Europa Ocidental sobrevivesse sem a Espanha. É especialmente importante para a Espanha manter a Catalunha porque é a segunda comunidade autónoma espanhola mais populosa, tem o quarto maior PIB per capita, acolhe o terceiro porto marítimo mais importante de Espanha em Barcelona e, tal como a região basca, faz fronteira com uma grande potência militar, a França.

A segunda prioridade para a Espanha teria de ser o restabelecimento de laços económicos profundos com a Europa Ocidental. Quarenta e dois por cento do comércio espanhol é com a França, Alemanha, Itália, Portugal e Reino Unido. Os trabalhadores espanhóis na França, Alemanha e Reino Unido respondem por cerca de 40% das remessas para a Espanha, que são uma importante fonte de fundos para o país, e os turistas desses três países são os principais viajantes para a Espanha. Empresas de automóveis alemãs e francesas investiram na Espanha, ajudando a torná-la a segunda maior fabricante de automóveis da Europa. O sector agroalimentar é também uma fonte importante de exportações, especialmente para o resto da Europa. Aumentar o comércio com os EUA ajudaria, mas mesmo que a Espanha triplicasse as suas exportações para os EUA, os números seriam pálidos em comparação com o seu comércio com a Europa Ocidental. Por mais perturbadora que fosse a desagregação da UE, a Europa continuaria a ser o foco principal da política comercial espanhola.

Uma terceira prioridade próxima, e o desafio mais importante para a segurança e defesa externa, está no Mediterrâneo e no Magrebe. De momento, todos os desafios para a Espanha que emanam desta região são não convencionais – terrorismo, militância, migração e contrabando – e uma disrupção económica complicaria a capacidade de Madrid em lidar com tudo isto. As missões da UE em que a Espanha participa, como as missões de treino militar em partes do Sahel e as operações antipirataria como a Operação Atalanta ao largo do Corno de África, entrariam em colapso. Se a França tivesse de reduzir a sua Operação Antiterrorismo Barkhane no Sahel, teria implicações significativas para o esforço de combate ao terrorismo na região. Por outras palavras, uma região que não constitui, neste momento, uma grande ameaça à segurança espanhola poderia tornar-se mais volátil e, por conseguinte, constituir uma maior ameaça à medida que as potências europeias necessariamente recuam.

Nesse caso, a cooperação espanhola em matéria de defesa com os Estados Unidos (assim como com a França e o Reino Unido) assumiria uma nova urgência. Com o colapso da incipiente cooperação e integração militar da UE, a NATO seria uma prioridade ainda maior. Localizada tão longe das principais preocupações de Washington (nomeadamente a Rússia) na Eurásia, a Espanha não seria uma prioridade máxima para os Estados Unidos, especialmente num momento em que poderia haver conflito noutras partes do continente europeu, embora seja importante observar que o sul da Espanha abriga uma estação naval americana em Rota e uma base aérea em Moron. No entanto, os EUA e a Espanha têm interesses comuns em manter o controlo do terrorismo transnacional em locais como o Sahel e o Magrebe. E economicamente, os EUA são o sexto maior parceiro comercial da Espanha e uma importante fonte de remessas para a Espanha.

A última área de importância seriam as relações da Espanha com a América Latina. As relações históricas são óbvias e, em termos de comércio, a América Latina no seu conjunto é o quarto maior parceiro comercial da Espanha, atrás apenas da França, Alemanha e Itália. A Espanha exporta principalmente máquinas e veículos para a América Latina e importa principalmente minérios e petróleo bruto (o México é a quarta maior fonte de petróleo da Espanha, atrás apenas da Nigéria, Argélia e Arábia Saudita). Além disso, a América Latina é uma rampa de lançamento para a Espanha comercializar e construir relações com a Ásia Oriental.

A dissolução da União Europeia seria devastadora para todos os envolvidos, mas a Espanha está entre o grupo de países para os quais seria especialmente traumática. Os problemas económicos e financeiros da Espanha são bem conhecidos, mas temos também de ter em conta as repercussões políticas. Há mais de 100 anos, quando a Espanha ainda estava a recuperar da derrota de 1898 às mãos dos Estados Unidos e da perda de Cuba, das ilhas Filipinas, Porto Rico e Guam, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset declarou: “A Espanha é o problema, e a Europa é a solução”.

Após a Segunda Guerra Mundial, passou décadas à procura da legitimação por meio da participação em organizações internacionais ocidentais, mas a participação na CE escapou de Madrid até a morte do ditador de longa data Francisco Franco. Para os espanhóis, a adesão à CE teve um significado simbólico especial, marcando o fim do autoritarismo e do atraso económico e social.

Essa atitude para com a Europa explica muito bem porque é que o apoio espanhol à adesão e à integração permaneceu tão alto mesmo depois da crise da zona do euro. É difícil exagerar a dor que a desagregação da UE infligiria aos espanhóis e ao Estado espanhol.

 

_________________________________

O autor: Ryan Bridges Ryan Bridges é analista em Geopolitical Futures. Antes de ingressar na Geopolitical Futures, o Sr. Bridges trabalhou como editor na Stratfor durante sete anos. O seu foco é a Europa, onde já viajou muito. Obteve um bacharelato na Universidade do Texas, onde estudou Ciências Políticas com uma licenciatura em Filosofia. Ele fala um pouco de alemão.

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/10/16/o-futuro-da-europa-o-caso-espanhol-por-ryan-bridges/

O revisionismo histórico do Parlamento Europeu

Por iniciativa do grupo Renew Europe de Emmanuel Macron e de Dacian Cioloș, o Parlamento Europeu adoptou, em 19 de Setembro de 2019, uma Resolução «sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa» [1]. Este documento pretende criar um mito justificando a posteriori a criação da União Europeia contra a Rússia. Ele afirma que, ao assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop, a URSS partilhou os objectivos funestos do Reich nazi e desencadeou a Segunda Guerra Mundial.

Este mito opõe-se ao, fundador, da Federação da Rússia segundo o qual, pelo sacrifício que aceitou na sua luta contra o nazismo, o Povo russo formou a sua nação.

A realidade histórica é que durante seis anos, de 1933 a 1939, a diplomacia soviética não parou de instar os Europeus do Ocidente a formar uma aliança antinazi, enquanto que estes apoiavam abertamente o projecto nazi para colocar os Eslavos na escravatura (untermenschen) e colonizar o seu território.

O pacto germano-soviético de 23 de Agosto de 1939 previa efectivamente esferas de influência dos dois países e antecipava uma possível partilha da Polónia. Mas, ele não pode ser interpretado sem o situar no seu contexto. Em 30 de Setembro de 1938, o Pacto Chamberlain-Daladier-Hitler-Mussolini, dito «Acordo de Munique», partilhava a Checoslováquia —na ausência dos seus representantes— entre a Alemanha, a Hungria e a Polónia. Ele abria a via ao projecto nazi de colonização da Europa central e oriental, afastando assim o espectro de um confronto entre o Reich e os Impérios inglês e francês. Estes acordos foram confirmados pelo Tratado franco-alemão, de 6 de Dezembro de 1938, o Pacto Bonnet-Ribbentrop.

Como é evidente, a URSS tem uma responsabilidade quanto à Segunda Guerra Mundial, mas muito menos importante que a do Reino Unido e sobretudo a da França.

É preciso notar que as razões que conduziram à guerra são hoje em dia sistematicamente ocultadas. Já não se fala mais da colonização da Europa central e oriental e da continuação das colonizações britânica e francesa fora da Europa. Da mesma maneira, já não se fala mais de projecto de escravatura dos Eslavos, mas, antes do extermínio dos judeus que, aliás, só começou em 1942.




Ver original na 'Rede Voltaire'



Líderes da França e Alemanha se reunirão no fim de semana com Brexit nos planos

Paris, 9 de outubro (Xinhua) - Líderes da França e da Alemanha se reunirão em Paris no dia 13 de outubro para se preparar para a cúpula da União Europeia e discutir formas de garantir um Brexit ordenado, disse a presidência francesa na quarta-feira em um comunicado.

 

O presidente da França, Emmanuel Macron, receberá a chanceler alemã, Angela Merkel, no dia 13 de outubro no Palácio do Eliseu, onde trocariam, durante um jantar de trabalho, pontos de vista sobre os assuntos europeus antes da cúpula da UE prevista para 17 e 18 de outubro, de acordo com o Eliseu.

 

Autoridades em Bruxelas e Londres consideram as negociações do Brexit esta semana tão cruciais quanto tentam estabelecer um novo acordo antes que os líderes europeus se encontrem na próxima semana.

 

No início deste mês, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, enviou uma carta a Bruxelas, descrevendo seu acordo final para romper o impasse de três anos sobre o Brexit.

 

Johnson propôs que a Irlanda do Norte, controlada pela Grã-Bretanha, e a Irlanda, membro da União Europeia (UE), permanecessem em uma zona de comércio regulamentar para toda a Irlanda, para evitar a necessidade de verificações.

 

Johnson prometeu tirar seu país do bloco europeu até o final deste mês, com ou sem acordo.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-10/11/c_138463738.htm

A UE mata-nos a foice! E o martelo! Só nos resta a clandestinidade

Jacques-Marie Bourget    09.Oct.19

[VER a correção feita a este artigo quanto à votação do deputado José Gusmão]

Um texto indignado e irónico acerca da iníqua resolução anticomunista recentemente aprovada no Parlamento Europeu. Haverá ainda muito mais a dizer sobre esta matéria e sobre as enormes ameaças que comporta. Desde já, registar que a grande maioria dos deputados portugueses no PE votou a favor. E dois outros votos merecem um sublinhado: um, a abstenção de Manuel Pizarro do PS, num grupo que votou em peso a favor; outro a abstenção de José Gusmão do BE, num grupo que votou em peso contra.


Importância da memória europeia para o futuro da EuropaO Parlamento de Bruxelas pôs em marcha a Europa Nova e “anti totalitária”.

Vamos descolar o Affiche Rouge, destruir no cemitério de Ivry o monumento dedicado a Manoukian e seus amigos da MOI, espancar Aragon e Ferré. Só depois viveremos em liberdade.

Em breve, em qualquer caso o mais rapidamente possível, o Palais du Luxembourg mudará o nome para “Espace Gérard Larcher”. É garantido. Não me pediram a opinião, mas concordo. A República Francesa não pode continuar a ter uma alta assembleia que que congrega os seus sábios, certamente sob dourados, mas num lugar que evoca Rosa Luxemburg. Se a notícia vos surpreende, pior ainda para a defunta praça do Vieux Marché em Rouen, é que passaram em claro um importante degrau na escada da informação, de quebra-costas porque sem rampa.

Ignoram então que, em 19 de Setembro passado, o elegíaco Parlamento Europeu, que nos guia tão apropriadamente, votou um texto a fim de estabelecer desde agora que o comunismo e nazismo são a mesma coisa [Veja abaixo o link para texto completo. LGS].

Como sinto um momento de agitação no aperto da mandíbula e a polícia está ocupada a disparar LBDs contra pessoas inocentes, infiltro-me num último espaço de liberdade para levantar o dedo e dizer: “Estranho que as pessoas que amontoaram vinte e cinco milhões de cadáveres para derrotar os nazis e de caminho para nos libertar, sejam colocados no mesmo mausoléu que o monstruoso cabo e seus amigos exterminadores “… Os tempos são estranhos, surpreendentes e o ar cheira a verdete. Então, Stalingrado foi por diversão. Apenas um ajuste de contas entre fachos, como na faculdade de Assas nestes dias. E Yalta passa à borracha de apagar a história. Mas vamos facilmente reconstruir. Desta vez na ordem certa, e Eric Zemmour e seus amigos têm um plano.

Antes de prosseguir um pouco mais, ausento-me um instante para vomitar dispensando-vos, como um Deliveroo, os nomes dos gloriosos eurodeputados que votaram este texto indigno. Uma ofensa à verdade, um insulto ao sangue derramado pelos mártires “Mortos pela França”. O corpo sacrificado para que, 75 anos depois, esses queridinhos de Bruxelas tenham o direito, com as suas pequenas nádegas no quente, de votar pelos seus fantasmas.

[O texto original enumera os deputados franceses ao PE que votaram a favor e contra, nomes que provavelmente dirão pouco aos leitores de odiario.info. Em vez disso, podemos juntar informação sobre o voto dos parlamentares portugueses: votaram a favor desse vergonhoso texto os deputados de PS (com a excepção de Manuel Pizarro, que se absteve), PSD, CDS e PAN; votaram contra os deputados da CDU e Marisa Matias. O Outro eleito do BE, José Gusmão, absteve-se.]

Neste carro de polícia da história, registemos em particular os algemados com cabeça de pau mais mediáticos: Guetta, do LREM e Glucksmann, de P … Public. Com o bronze da sua convicção deveremos ser capazes de fabricar o foguete que lançará o “Novo Mundo” e nos permitirá gritar, finalmente livres: “good bye Lénine”. Não vos vou franquear a porta da minha sacristia, mas de qualquer maneira apenas um pouco. Acontece que, quatro vezes por ano, o meu pai e a minha mãe muito gaullistas, versão “resistência”, me arrastavam ao domingo para um lugar do qual nada entendia. A vantagem sendo de escapar às vésperas. Era um grande buraco na areia e na terra, o meu pai falava de uma “pedreira”, todavia uma relva crescia no fundo. Ao meio havia um monumento estranho, homens nus presos no mesmo bloco de pedra e as suas cabeças erguidas para o céu. Era em Châteaubriant, a uma hora de distância no “Simca 5″ da casa.

Desde a primeira vez compreendi que se tratava de um assunto triste. E heróico. Homens que tinham “dado a vida”, explicava a minha mãe. Às vezes íamos a uma margem do lago de Blisière, onde troncos de árvores ainda carregavam os traços deixados pelas balas depois de perfurarem o peito de outros heróis que eu não conhecia. Estava apegado a esse culto. E ainda o estou.

Não foi senão quase vinte anos depois que descobri que os meus pais, católicos e conservadores, me propunham desde a infância chorar por comunistas fuzilados. O meu pai dizia: “Entre eles havia uma criança, pouco mais velha do que tu”. O que realmente não me tocava uma vez que a morte faz parte da juventude. Era de todos estes fuzilados, em conjunto, que eu gostava. Em bloco, como a estátua. Perguntei ao meu pai, que detestava os vermelhos, o motivo dessa peregrinação à pedreira? “Devemos rezar por eles, tê-los como exemplos, pois são irmãos”.

Essas são realidades. Grandes demais para cruzar a soleira do cérebro de um Glucksmann ou de um Guetta. Para os quais não há bom vermelho senão morto. No apodrecido texto votado em Bruxelas, assinalemos as mais belas pérolas do colar.

Há a “importância da memória europeia para o futuro da Europa” e, para que esta última viva, o Parlamento recorda “que os regimes comunista e nazi são responsáveis ​​por massacres, genocídio, deportações, perda de vidas humanas e privação de liberdade numa escala sem precedentes na história da humanidade, que terão marcado para sempre o século XX “. Os parlamentares condenam sem reserva “os actos de agressão, os crimes contra a humanidade e as violações dos direitos humanos em larga escala perpetrados por regimes totalitários nazis, comunistas e outros”.

Com essa pequena palavra deixada passar na pressa pelo redactor, “outros”, o Parlamento deveria ter sido mais cuidadoso. Imaginem que os palestinianos, os iemenitas (e “outros”) vêm pedir à UE que aplique os seus princípios. Pobre Guetta, pobre Glucksmann, pobre miséria.

Em boa forma, esperando para breve as primeiras férias de esqui, o Parlamento lançou-se noutra pista e “condena qualquer manifestação e disseminação de ideologias totalitárias, como o nazismo e o stalinismo, na União Europeia” e diz-se “preocupado pelo facto de os símbolos de regimes totalitários continuarem a ser utilizados em espaços públicos e para fins comerciais, lembrando que um certo número de países europeus proibiram o uso de símbolos nazis e comunistas “.

O segundo cartucho desta espingarda de dois canos será então de nos proibir de vestir uma camisa adornada com “Che”, ou uma foice e um martelo. Aqui podemos eventualmente aprovar, sendo o martelo é uma ferramenta de argumentação muito popular no Parlamento Europeu, não deve ser compartilhado. A imprecisão deste texto, que certamente ganhará peso e boa cotação, é hoje embaraçosa. Marx era coco? E Engels? Os nossos amigos no Parlamento levarão Lénine para a esquadra? E Louise Michel? O que fazemos com eles? Vai dar muito trabalho, bem capaz de causar bolhas no cérebro. Sobretudos neste período em que as Urgências não funcionam. E as penalidades incorridas? Prisão ou, pior, recitar um artigo antigo de Guetta? Pessoal, há que trabalhar.

Devo em breve retornar à pedreira, pois os meus antecessores já lá não irão … Quero saber o que arrisco? Devemos passar à clandestinidade? Dado o peso desse dossier ninguém pode dizer que os nossos deputados não fazem nada: eles estão a bombar.

Preparemo-nos também para o novo plano do metro de Paris. Que nos desorientará. Claro que a estação Stalingrado desaparece. Mas há muitas outras paragens em que os sujos cocos (se me permitem o pleonasmo) deixaram seus nomes. Bem, eles foram fuzilados pelos alemães. Sim, é claro, mas se colocarmos o evento no contexto do tempo, o da grande partida de nazis contra comunistas, não vamos agora exagerar.

Torturados, frequentemente! E então eu torturo-te, tu torturas-me, torturamo-nos. É isso o totalitarismo tal como gostamos.

Um pequeno lembrete de que lerão na cesta a caminho da Santé (prisão). O CNR, acabado, os FTP, acabados, o Affiche Rouge, descolado e Aragon e Ferré em Guantánamo. Os Vaillant Couturier, Rol Tanguy, o Coronel Fabien, Raymond Losserand, Léon Frot, Gaston Carré, Ambroise Croizat, Corentin Celton, Charles Michels, Corentin Cariou, Gabriel Péri, Frederic Joliot Curie, Pablo Picasso. Esta lista vermelha anuncia uma prosperidade para os negociantes de cartazes e o comércio dos planos do Metro.

E ia esquecer esse lixo do Eluard, uma víbora lasciva que tentou ensinar-nos: “Não é preciso tudo para fazer um mundo”. Que pulha!

PS. Peço desculpa se, perdido em algum canto do caixão, esqueci qualquer velho comunista fuzilado. O futuro “Comissariado Europeu para os Assuntos Comunistas” tratará da questão.

[O texto votado no PE encontra-se em - http://www.europarl.europa.eu/doceo/document/TA-9-2019-0021_FR.html[1] ]

Fonte: https://www.legrandsoir.info/l-europe-nous-supprime-la-faucille-et-le-marteau-nous-reste-plus-que-le-maquis.html[2]

Divulga o endereço[3] deste texto e o de odiario.info[4] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/TA-9-2019-0021_PT.html (www.europarl.europa.eu)
  2. ^https://www.legrandsoir.info/l-europe-nous-supprime-la-faucille-et-le-marteau-nous-reste-plus-que-le-maquis.html (www.legrandsoir.info)
  3. ^endereço (www.odiario.info)
  4. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

'Não houve progresso', diz presidente do Parlamento Europeu após reunião com Johnson por Brexit

Manifestante pró-UE protesta contra o Brexit em frente ao Parlamento em Londres (novembro de 2017)
© AP Photo / Kirsty Wigglesworth

O presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, afirmou após reunião com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que não recebeu nenhuma proposta para solucionar o Brexit.

"Acabei de me encontrar com o primeiro-ministro Johnson; vim aqui na esperança de ouvir propostas que possam ajudar a avançar nas negociações, mas tenho que ressaltar que não houve progresso", afirma Sassoli em comunicado. 

O presidente do Parlamento Europeu também afirmou que o acordo sobre o Brexit costurado em 2018 continua sendo a melhor opção. 

O Brexit vive um impasse. O Parlamento do Reino Unido rejeitou em votação os termos acordados para a saída da bloco europeu e não há definição sobre como o Brexit acontecerá. O Parlamento também já rejeitou que a saída da União Europeia aconteça sem nenhum tipo de acordo com Bruxelas. 

A União Europeia rejeita uma renegociação dos termos acordados pela antecessora de Johnson, Theresa May, e a saída da Reino Unido está agendada para 31 de outubro. 

Johnson defende que seu país deixará o bloco europeu na data prevista, com ou sem acordo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019100814613158-nao-houve-progresso-diz-presidente-do-parlamento-europeu-apos-reuniao-com-johnson-por-brexit/

EUA vão impor tarifas a US$ 7,5 bilhões em produtos da UE

 
 
Organização Mundial do Comércio autoriza sobretaxas devido a subsídios cedidos pela União Europeia ao fabricante de aviões Airbus. Apoio ilegal causou perdas a americana Boeing.
 
A Organização Mundial do Comércio (OMC) autorizou nesta quarta-feira (02/10) os Estados Unidos a imporem tarifas punitivas contra a União Europeia (UE) sobre 7,5 bilhões de dólares em produtos do bloco devido a subsídios cedido ao fabricante de aviões Airbus. A sentença é um marco no conflito comercial iniciado há 15 anos.
 
Na decisão histórica, a OMC considera que o valor autorizado é proporcional aos efeitos adversos sofridos pela americana Boeing em termos de perdas de vendas e impedimentos na entrega de suas aeronaves. Essas perdas teriam sido causadas devido a subsídios ilegais fornecido principalmente pela França, Alemanha, Espanha e Reino Unido para as grandes aeronaves civis da Airbus.
 
Bruxelas e Washington se acusam mutuamente de subsídios injustos concedidos à americana Boeing e à europeia Airbus em uma disputa "olho por olho" que já dura 15 anos. Trata-se da mais longa e complexa disputa já intermediada pela OMC, com vitórias e derrotas para ambos os lados.
 
A UE reagiu imediatamente, salientando que, mesmo que os EUA tenham obtido autorização para aplicar represálias comerciais contra eles, estas seriam "míopes e contraproducentes" e que preferiria chegar a um acordo com o país para evitar uma guerra tarifária.
 
 
A comissária Europeia do Comércio, Cecilia Malmstrom, advertiu que se os Estados Unidos decidem impor as sanções autorizadas, "pressionará a União Europeia" a "fazer o mesmo", pois, em um caso paralelo, Genebra também concederá à UE em alguns meses o direito a impor contramedidas aos EUA como resultado de ter infringido de forma contínua as mesmas normas da OMC com relação a Boeing.
 
Apesar das ameaças, o governo americano anunciou que sobretaxará diversos produtos europeus, entre eles, alimentos e aviões, a partir de 18 de outubro. Os EUA vão impor tarifas de 25% sobre o vinho francês, whisky escocês e queijo italiano, além de biscoitos, salame, linguiças de porco, manteiga e iogurte. As taxas serão aplicadas ainda a roupas e câmaras fotográficas alemãs. Já uma taxa de 10% será aplicada a aeronaves fabricadas na UE.
 
O presidente americano, Donald Trump, considerou a decisão um "grande triunfo" para os Estados Unidos.  "Nunca tínhamos tido vitórias assim com outros presidentes, verdade? Estamos conseguindo muitos triunfos na OMC", disse.
 
Os 7,5 bilhões de dólares representam uma fração das exportações europeias para os EUA, que no ano passado chegaram a 688 bilhões de dólares. As sobretaxas, porém, chegam num momento delicado. O uso da estratégia por Trump, especialmente contra a China, abalou o mercado financeiro e prejudicou o comércio global, além de fabricantes diante incertezas sobre a continuidade de negócios.
 
A OMC é há anos palco de uma disputa entre a Boeing e a Airbus, devido às subsídios e ajudas concedidas, respetivamente pelos Estados Unidos e pela UE, à sua indústria aeronáutica. Sediada em Genebra, na Suíça, a entidade tem como função mediar as relações comerciais globais.
 
Deutsche Welle | CN/efe/ap/lusa/rtr/afp
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/eua-vao-impor-tarifas-us-75-bilhoes-em.html

Johnson apresenta proposta de acordo sobre o Brexit

 
 
Oferta enviada à UE propõe eliminar controverso backstop ao manter Irlanda do Norte alinhada a normas do bloco. Primeiro-ministro britânico diz que essa é sua concessão final e que conduzirá divórcio mesmo sem acordo.
 
O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, enviounesta quarta-feira (02/10) à União Europeia (UE) uma nova proposta de acordo sobre o Brexit, que prevê "suprimir" a salvaguarda elaborada para evitar uma fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte. Esse backstop, considerado indispensável pelos europeus, é o principal ponto de discórdia entre as partes. 
 
O PM britânico afirmou que essa é sua oferta final e que o Reino Unido deixará o bloco no final deste mês com ou sem um acordo. "Hoje vamos apresentar em Bruxelas o que acredito que são propostas razoáveis e construtivas", anunciou Johnson, no encerramento do congresso anual do Partido Conservador, onde disse que se a UE não estiver disposta a fazer concessões a Londres, "a alternativa é que não haja acordo".
 
Johnson afirmou que a proposta protegerá as "atuais regulações para os agricultores e outras empresas em ambos os lados da fronteira irlandesa". "Ao mesmo tempo, permitirá ao Reino Unido sair completamente da União Europeia, com o controle sobre a nossa própria política comercial desde o primeiro momento", explicou.
 
 
A proposta prevê substituir a salvaguarda por uma área "reguladora" provisória na ilha que evitaria controles de fronteira. Esse mecanismo estabelecido pela UE visa evitar uma nova imposição de uma "fronteira rígida" entre a Irlanda, membro do bloco europeu, e a Irlanda do Norte, parte do Reino Unido.
 
A intenção do mecanismo é manter uma fronteira aberta caso Londres e Bruxelas não cheguem a um acordo comercial pós-Brexit. A medida implicaria na manutenção de uma relação estreita entre Londres e o bloco europeu, por um prazo indefinido.
 
De acordo com a proposta de Johnson, endereçada ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, o mecanismo seria removido e a Irlanda do Norte abandonaria a união aduaneira do bloco quando o Reino Unido romper os laços com a UE, uma vez transcorrido um período de transição que se alargaria, previsivelmente, até finais de 2020.
 
A região se manteria, porém, alinhada com as regulações do mercado único, mas apenas no que se refere à livre circulação de mercadorias, o que evitaria a imposição de barreiras fronteiriças entre Irlanda e Irlanda do Norte, como exigem os acordos de paz assinados em 1998. Seria ainda criada uma zona regulatória comum. A proposta não prevê um prazo para o fim deste status, que seria reavaliado a cada quatro anos pela Irlanda do Norte.
 
A tramitação de documentos necessários para importar e exportar bens através da fronteira irlandesa, o único limite terrestre que haverá entre Reino Unido e UE após o Brexit, será feita de maneira "electrónica", segundo essa proposta, que agora precisará ser avaliada pelos 27 Estados-membros do bloco.
 
O líder conservador argumenta na carta envida a Bruxelas que a salvaguarda aceita por sua antecessora no cargo, Theresa May, era uma "ponte" para a futura relação que ela queria estabelecer com a União Europeia. O acordo aprovado por May foi rejeitado pelo Parlamento britânico.
 
Johnson, no entanto, não deseja que o Reino Unido esteja tão "integrado" nas estruturas do bloco como May pretendia, mas visa assinar um acordo de livre-comércio que o permita "retomar o controle" completo da sua política com outros países. O Parlamento autónomo norte-irlandês precisaria dar o sinal verde antes que esse acordo entre em vigor, assim como ratificar a sua aprovação a cada quatro anos.
 
"Espero que nossos amigos [da EU] compreendam e também façam concessões. Se não pudermos chegar a um acordo por isso, que essencialmente é uma discussão técnica sobre a natureza exata dos futuros controles de fronteira, quando a tecnologia está melhorando continuamente, a alternativa é que não haja acordo", disse o PM, ao declarar que a oferta contém concessões por parte do Reino Unido.
 
"Esse não é o resultado que queremos, mas deixem-me dizer que é um desenlace para o qual estamos preparados", comentou Johnson. O líder conservador insistiu que a sua intenção é que o Reino Unido abandone a UE na data prevista por enquanto, 31 de outubro, sem solicitar nenhuma extensão, de modo que o governo possa se concentrar nas "prioridades dos cidadãos".
 
Num comunicado, a Comissão Europeia afirmou que vai examinar a proposta "objetivamente e à luz dos critérios conhecidos", que inclui evitar uma fronteira física entre as duas Irlandas e proteger regulamentações europeias no comércio fronteiriço.
 
Em nota, Juncker reconheceu avanços positivos na proposta, porém, destacou que "ainda existem alguns pontos problemáticos que exigirão um trabalho suplementar nos próximos dias, principalmente no que diz respeito à governação do backstop".
 
O processo de saída do Reino Unido da UE está num impasse desde janeiro, quando o acordo negociado por May foi rejeitado pelo Parlamento britânico, resultando num adiamento do Brexit, cujo prazo está previsto para 31 de outubro. O impasse levou a queda daPM, que foi substituída por Johnson.
 
O primeiro-ministro assumiu o cargo pleiteando levar a cabo o Brexit na data prevista, mesmo sem acordo. Muitos parlamentares querem evitar esse divórcio desgovernado e aprovaram uma lei que obriga o governo a pedir um adiamento do prazo, caso não seja alcançada uma solução aceita pelas duas partes até 19 de outubro.
 
Deutsche Welle | CN/efe/lusa/rtr/ap
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/johnson-apresenta-proposta-de-acordo.html

ONU : a China e a Rússia opõem o seu veto à Alemanha

 

O Conselho de Segurança fez uma viagem no tempo, a 19 de Setembro de 2019. Os argumentos trocados estavam em todos os pontos conformes ao que eram, há cinco anos atrás na Conferência de Genebra 2 sobre a Síria : de um lado a China e a Rússia denunciando o apoio militar ocidental aos jiadistas em violação ao direito internacional [1], do outro a Alemanha, a Bélgica e o Koweit acusando a Síria de matar o seu próprio povo sob a cobertura de luta contra o terrorismo [2].

Eis as únicas coisas que mudaram, centenas de milhares de mortos depois,
- já não há combates disseminados por toda a Síria, mas unicamente numa parte da província de Idlib;
- e os Estados Unidos e Arábia Saudita já não dirigem o bloco de irredutíveis ocidentais, mas, antes a Alemanha e o Kuwait.

Enquanto os Estados Unidos e a Rússia se concertam para encontrar uma solução na Síria, sem perder as vantagens que adquiriram, a União Europeia, dirigida pela Alemanha, prossegue o jogo duplo abandonado por Washington: Alemanha e a França fornecem armas e assistência aos jiadistas e enquadram as suas tropas, ao mesmo tempo utilizando civis como escudos humanos face aos ataques do Exército Árabe Sírio.

Lembremos que a Alemanha e a França elaboram todos os dias uma posição comum no Conselho de Segurança [3]. Não tendo a coragem de enfrentar as suas contradições, a França não assinou o projecto de resolução alemão, mas pediu à Bélgica que o fizesse.

Nós sublinhamos repetidas vezes que a Alemanha e a França tinham continuado a manter a sua ajuda aos jiadistas, que tinham contratado, para derrubar a República Árabe Síria. São as ONGs subsidiadas por esses dois países que, desde há vários anos, alimentam a população de Idlib, já que os jiadistas não atendem às necessidades dela. Estas duas potências são, portanto, co-responsáveis pela edificação do Emirado Islâmico de Idlib pelo Hayat Tahrir al-Cham. Pelo contrário, pragmática, Washington, considerando que sua missão falhou, trata de apagar os traços de seu envolvimento passado [4].

Este debate surrealista ocorre no Conselho de Segurança, 19 dias após o Exército Árabe Sírio ter proclamado um cessar-fogo unilateral em Idlib.

É por isso que a China e a Rússia mais uma vez opuseram o seu veto a esta mascarada.

Todos podem constatar aqui as mentiras ocidentais quanto à pretensa «guerra ao terrorismo». Todos podem igualmente constatar a eficácia da censura, ou autocensura, em França, onde este veto é ignorado pelos média.


[1] « Projet de résolution de la Chine et de la Russie sur la Syrie », Réseau Voltaire, 19 septembre 2019.

[2] « Projet de résolution de l’Allemagne, de la Belgique et du Koweït sur la Syrie », Réseau Voltaire, 19 septembre 2019.

[3] “A Alemanha e França ocuparão conjuntamente a presidência do Conselho de Segurança em Março e Abril de 2019”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Fevereiro de 2019.

[4] “Os EUA bombardeiam a Alcaida em Idlib”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Setembro de 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Europeus dizem a Bruxelas: nem Moscovo nem Washington

 
 
Um estudo divulgado pelo Centro Europeu de Relações Externas revela uma absoluta falta de sintonia entre a prática das instituições de Bruxelas e Estrasburgo e a opinião dos cidadãos.
 
esmagadora maioria dos cidadãos europeus defende a neutralidade da União Europeia no caso de deflagrarem conflitos armados entre os Estados Unidos e a Rússia ou a China. Esta não é a única matéria em que existe dissonância absoluta entre as políticas de Bruxelas e a vontade dos cidadãos, mas revela até que ponto as instâncias não-eleitas da União Europeia estão distantes da opinião dos cidadãos e, por consequência, do respeito pela democracia.
 
Um estudo publicado pelo Conselho Europeu de Relações Externas, um think tank com escritórios em sete capitais europeias vocacionado para o reforço do «europeísmo», não deixa dúvidas quanto às desconfianças que a maioria dos cidadãos europeus têm em relação não tanto à União mas, sobretudo, quanto às políticas que aplica em termos de posicionamento internacional, segurança, opções militares e até comércio.
 
Os dados provam claramente: as pessoas desejam uma coisa, Bruxelas dá-lhes outra. Isto é verdade para as relações externas, militares e de segurança, comerciais e até quanto ao comportamento da União em relação à guerra contra a Síria e as ameaças ao Irão. O estudo comprova que a tão falada empatia e fraternidade entre os europeus e os Estados Unidos da América não passa de um mito inscrito forçadamente na efabulação histórica com a colaboração dos dirigentes políticos e militares e ampliado pelos megafones mediáticos. Nada pode estar mais longe da realidade – testemunham as opiniões dos cidadãos.
 
O trabalho do Conselho de Relações Externas, assinado por Susi Dennison, resulta de dados obtidos junto de 60 mil eleitores de 14 países da União Europeia, entre eles os mais populosos e influentes – uma amostra que tem um significado muito relevante.
 
 
Nem Washington nem Moscovo, neutralidade
 
Os dados que mais traduzem a clivagem entre o comportamento das instituições europeias e a opinião dos cidadãos relacionam-se com o posicionamento internacional, especialmente em hipóteses de conflitos de grande envergadura.
 
Quando convidados a sugerir a atitude da União Europeia perante uma eventual guerra entre os Estados Unidos e a Rússia ou entre os Estados Unidos e a China, a resposta é tão esmagadora que não deixa margem para dúvidas: nem Washington nem Moscovo, uma estrita neutralidade.
 
A opinião manifestada tem graduações conforme os países e as suas posições geográficas e geoestratégicas, mas caracteriza-se por uma indubitável particularidade: a neutralidade está sempre acima dos 50% dos inquiridos, excepto no caso da Polónia, perante hipótese de conflito entre Washington e Moscovo; nesta eventualidade são 45% os polacos que defendem a neutralidade, ainda assim muito à frente dos que se declaram pela parte norte-americana, 33%.
 
No caso de conflito entre Estados Unidos e a Rússia a neutralidade varia entre os citados 45% da Polónia e os 85% da Áustria, com destaque ainda para os 81% da Grécia, os 70% da Alemanha, os 63% da França, os 65% da Itália – valores idênticos aos registados na Holanda, Espanha e Suécia.
 
Em 11 dos 14 países a maioria dos cidadãos preferem os Estados Unidos à Rússia, mas sempre em percentagens ínfimas perante a neutralidade. São relevantes os 33% da Polónia favoráveis a Washington e os 28% da Dinamarca, mas os restantes são sempre abaixo dos 20%, como a França e a Holanda (18%), sendo que na Alemanha não passam de 12%, contra 7% que preferem o lado russo.
 
Há ainda três casos especiais que são de ter em conta porque reforçam a preferência pelo distanciamento da política oficial actual e a falsidade da pretensa fraternidade europeia com os Estados Unidos da América. Gregos, eslovacos e austríacos pronunciaram-se favoravelmente a Moscovo em relação a Washington. E se a diferença é apenas de dois pontos percentuais na Grécia e na Áustria – onde apenas 4% apoiam os Estados Unidos – torna-se abissal na Eslováquia: 6% contra 20% caindo para o lado russo, sendo 65% a aposta na neutralidade. Lá terão as suas razões.
 
Os resultados são do mesmo tipo em caso de conflito entre os Estados Unidos e a China, com reforço da posição de neutralidade – todos os países acima dos 54% - resultante de um ainda menor apoio à parte norte-americana.
 
Há também dois casos particulares a registar, e também eles com características idênticas. Na Eslováquia, a percentagem dos que apoiam Moscovo e Pequim é a mesma (8%), numa situação de 73% de neutralidade; na Áustria, porém, são mais (6%) os que apoiam Pequim do que Washington (4%), sendo 83% os partidários da neutralidade.
 
A Áustria é, como se percebe pela leitura conjugada dos dados, um país com escassas simpatias pelos Estados Unidos embora com uma assinalável vocação europeia em termos de confiança, optimismo e neutralidade. Viena afirma-se como um pilar da União Europeia, mas certamente uma União muito diferente da que é formatada em Bruxelas.
 
Muita desconfiança
 
Um dos dados em que estas opções austríacas são mais visíveis extraem-se do apuramento dos índices de confiança na União Europeia, nos Estados Unidos ou em nenhum deles, segundo as opções apresentadas pelos responsáveis do estudo. Apenas 3% dos austríacos confiam nos Estados Unidos contra 60% identificando-se com uma ideia virtual de União Europeia.
 
Neste painel da confiança são quatro os países – dois deles pilares estruturais - onde a maioria dos eleitores se recusam a escolher entre Washington e Bruxelas, preferindo a alternativa «nenhum». Trata-se da Grécia (58%), da República Checa (54%), da França e da Itália, respectivamente com 41% e 37%.
 
A União Europeia, através das suas políticas, mina até as próprias estruturas.
 
Os eleitores europeus desconfiam também da capacidade da União Europeia em poder garantir a sua própria segurança, por estar dependente dos Estados Unidos (e da NATO), uma situação que, no mínimo, a maioria dos inquiridos não pretende que seja alargada.
 
Se passarmos dos domínios da segurança aos do comércio a desconfiança é a mesma, ou até mais profunda.
 
Apenas os cidadãos de um entre os 14 países, a Roménia, consideram que as negociações comerciais internacionais estão mais bem entregues à União Europeia do que ao governo nacional. Em todos os outros casos os eleitores preferem os governos dos seus países, com percentagens que vão dos 26% da França e da Hungria aos 46% da República Checa. Em relação à França, porém, a confiança na União não vai além dos 12%, preferindo a hipótese mista governo/União (27%).
 
A Alemanha confia muito mais no próprio governo (29%) do que na União Europeia (12%), apesar de a política de Bruxelas não passar de um instrumento de germânico. Berlim prefere apostar pela certa mesmo que a outra face da moeda exponha uma profunda ingratidão.
 
A própria Áustria, com o seu «optimismo» europeísta, confia muito mais nas negociações comerciais conduzidas pelo governo de Viena (41%) do que por Bruxelas (17%).
 
A União Europeia de um lado, os cidadãos do outro
 
Contas feitas e provas aferidas, o estudo divulgado pelo Centro Europeu de Relações Externas revela uma absoluta falta de sintonia entre a prática das instituições não-eleitas de Bruxelas (e mesmo a eleita de Estrasburgo) e a opinião dos cidadãos.
 
A uma União Europeia que age na total dependência dos Estados Unidos em termos económicos, militares e de segurança, esmagadoras maiorias de eleitores europeus contrapõem um comportamento de neutralidade nas questões internacionais e um distanciamento – quando não rejeição – em relação a Washington e respectiva influência.
 
Nenhuma das posições que a maioria dos eleitores europeus expressaram no estudo sustenta a política assumida por Bruxelas correspondendo aos interesses internacionais e expansionistas norte-americanos. Logo, a política da União Europeia é autocrática em relação aos seus cidadãos.
 
Exemplos práticos?
 
Enquanto os Estados Unidos continuam a inventar pretextos para uma guerra contra o Irão 
– sem que a União Europeia se distancie credivelmente desse crime militarista – esmagadoras maiorias dos cidadãos em todos os países europeus abrangidos pelo estudo defendem a manutenção do acordo nuclear com Teerão.
 
Em 12 dos 14 países a maioria dos cidadãos consideram que a União Europeia não fez o suficiente para acabar com a guerra contra a Síria. Apenas a Dinamarca e a Holanda acham que sim.
 
Sobre este assunto, o estudo/inquérito teria sido mais profundo se pedisse aos inquiridos para se pronunciarem sobre a participação da União Europeia no lançamento e no desenvolvimento da própria guerra em território sírio, mas a autora e os mentores do projecto entenderam que não seria conveniente seguirem por esse caminho.
 
Mesmo sem esse importante item, sobejam elementos, neste estudo, para se concluir que a democracia é um mito cultivado pela União Europeia à altura de outros, como a suposta admiração dos cidadãos europeus pelos Estados Unidos.
 
Através destes jogos de mistificação não surpreende que as respostas sobre temas como as sanções contra a Rússia e a «protecção» que os governos europeus deverão montar contra a China sejam dispersas e sem coerência interna.
 
A conjugação destes enviesamentos com a comunicação social dominante transformada em propaganda, principalmente em matérias de política internacional e geoestratégia, proporciona magmas inconclusivos como os observados no estudo. Sendo que o modo como estes temas foram abordados na construção do estudo também não ajuda – dir-se-ia haver receio de usar vias de inquirição mais objectivas.
 
Independente disto, o estudo do Centro Europeu de Relações Externas1 é um importantíssimo documento sobre o que é a União Europeia e o que deveria ser – nos antípodas – segundo a opinião da maioria dos seus cidadãos.
 
E se a União faz uma coisa e os cidadãos eleitores desejam outra, bem diferente, podem extrair-se conclusões objectivas:
 
- os eleitores votam, pensam, dão opiniões mas as instituições de Bruxelas, que já de si não são eleitas, decidem por livre arbítrio;
 
- para a União Europeia a democracia é um conceito vazio, utilizado para florear discursos e programas;
 
- a «inalienável» e «fraternal» aliança entre a União Europeia e os Estados Unidos da América é uma mistificação que já não ilude a maioria dos europeus.
Mas que arrasta o risco de criar situação dramáticas de que as principais vítimas serão esses mesmos europeus.
 
Nota:

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/europeus-dizem-bruxelas-nem-moscovo-nem.html

UE impõe novas sanções à Venezuela

Prédio do Conselho Europeu em Bruxelas, Bélgica
© AP Photo / Virginia Mayo

A União Europeia anunciou novas sanções contra membros das forças de segurança da Venezuela.

Entre os alvos das sanções estão sete autoridades da Direção Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM), Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) e o Escritório Nacional contra o Crime Organizado e Financiamento ao Terrorismo (Oncdoft).

Os venezuelanos seriam Néstor Blanco Hurtado (DGCIM), Rafael Blanco Marrero (DGCIM), Carlos Calderón (Sebin), Alexis Escalona Marrero (Oncdoft), Rafael Antonio Quintero (Sebin), Alexander Granko Artega (DGCIM) e Hannover Guerrero Mijares (DGCIM).

As medidas restritivas incluem a proibição de viajar e o congelamento de seus bens, conforme publicou em nota o Conselho Europeu. A decisão de hoje eleva para 25 o número total de venezuelanos sujeitos a sanções por parte da União Europeia.

Os funcionários venezuelanos estariam envolvidos em violações dos direitos humanos, segundo a UE. Alguns deles também são acusados de torturar e matar o capitão da Marinha da Venezuela Rafel Acosta Arévalo.

Histórico de sanções

A Venezuela já estava sob sanções da UE desde 2017, que restringiam seu acesso a armamentos e "equipamentos usados para repressão interna".

Segundo o bloco europeu, as medidas restritivas seriam uma resposta ao "desmantelamento das instituições democráticas no país", contra o suposto governo ditatorial de Maduro.

Por sua parte, os Estados Unidos têm pressionado a UE a adotar um tom mais crítico contra Caracas.

Neste mês, o representante especial dos EUA para o país caribenho, Elliott Abrams, disse a jornalistas que pediu para a "UE se unir aos EUA em sua pressão" sobre o governo Maduro, já que "eles não querem deixar o poder", publicou a Reuters.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019092714568308-ue-impoe-novas-sancoes-a-venezuela/

Resistentes antifascistas rejeitam «falsificações históricas» promovidas pela UE

A Federação Internacional de Resistentes (FIR) rejeita, numa nota, a resolução do Parlamento Europeu (PE) aprovada no passado dia 19 em que se «equipara e condena nazi-fascismo e comunismo».

A 27 de Janeiro de 1945, as tropas soviéticas libertaram o campo de concentração de AuschwitzCréditos

Tanto a FIR como as federações que a integram – como é o caso da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) – não podem de modo algum concordar com a resolução que, a 19 de Setembro de 2019, foi aprovada no PE, com os votos favoráveis de 535 deputados, a oposição de 66 e a abstenção de 52, e que alegadamente abordava «o significado do passado europeu (ou consciência histórica europeia) para o futuro da Europa».

Para a FIR, o «texto da declaração não mostra o futuro da Europa, mas é uma recaída ideológica nos piores tempos da Guerra Fria, que estão expressos nesta resolução, que surgiu por iniciativa dos estados Bálticos e da Polónia».

«Contrariamente a todas as evidências científicas, o texto alega que foi apenas com o Tratado de Não Agressão Germano-Soviético que «ficou marcado o rumo para a Segunda Guerra Mundial», denuncia a FIR, sublinhando que «a reconstrução dos acontecimentos que conduziram à Segunda Guerra Mundial é limitada, tendenciosa, instrumental e não tem qualquer base científica».

«Junta opressores e oprimidos, vítimas e carniceiros, invasores e libertadores. A resolução é um texto grosseiro de propaganda ideológica, digna dos piores momentos da Guerra Fria», declara-se na nota.

A FIR questiona os deputados sobre a ameaça externa actual a que se referem quando, na resolução aprovada, se afirma, «perversamente», que «assume uma importância decisiva para a unidade da Europa e dos seus povos, e para o fortalecimento da resistência da Europa às actuais ameaças exteriores que as vítimas dos regimes autoritários e totalitários sejam lembradas».

«Não» às falsificações da história

«A declaração criticou de facto um novo revisionismo histórico». No entanto, «se os membros do PE condenam nalguns estados europeus a glorificação das pessoas que colaboraram com os nazis, ao mesmo tempo adoptaram a narrativa histórica desses mesmos estados europeus de que a Rússia alegadamente falsifica factos históricos e encobre os "crimes cometidos pelo regime totalitário da União Soviética"», denuncia a Federação de Resistentes.

Neste sentido, a FIR e todas as federações dos «sobreviventes da perseguição fascista, os combatentes contra a barbárie nazi e todos os antifascistas dizem “não” a tais falsificações históricas» e acusam a resolução do PE de «escolher um caminho de divisão lacerante, em vez de uma responsável e rigorosa unidade», num tempo de «perigo crescente de fascismo, racismo e nacionalismo».

A FIR, que rejeita a recente resolução do PE em que se equipara e condena nazi-fascismo e comunismo, lembra as palavras do escritor alemão Thomas Mann, que, em 1945, avisou: «Colocar comunismo russo no mesmo plano moral que o nazi-fascismo, porque ambos seriam totalitários, é, na melhor das hipóteses, superficial; na pior, é fascismo. Quem insiste nesta equiparação pode considerar-se um democrata, mas, na verdade e no fundo do seu coração, é um fascista, e irá seguramente combater o fascismo de forma aparente e hipócrita, e deixa para o comunismo todo ódio».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/resistentes-antifascistas-rejeitam-falsificacoes-historicas-promovidas-pela-ue

LER A CHINA

 
 
Henrique Burnay | Diário de Notícias | opinião
 
A Alemanha já fez saber que uma das prioridades da sua presidência rotativa da União Europeia, que acontece no segundo semestre do ano que vem, exactamente antes da portuguesa, é organizar uma cimeira com a China em que estejam sentados à volta da mesa, do lado europeu, não apenas as insituições europeias mas também cada um dos 27 (ou 28, nunca se sabe) Estados Membros.
Esta originalidade - incluir todos e cada um dos países da UE - tem um significado externo e interno. O que Berlim quer é mostrar, aos chineses mas sobretudo aos restantes europeus, que o quadro das relações com a China se define a nível europeu e, é esse o ponto, compromete todos. O bilateralismo é só às vezes e só para alguns. Desta vez, querem os grandes Estados Membros (França pensa a mesma coisa), não é para ninguém.
 
Em Março deste ano, um mês antes da última cimeira UE - China, a Comissão Europeia publicou um documento que pretende ser um olhar estratégico para o futuro das relações entre ambos. O mais significativo desse documento é que define a China, simultaneamente, como "um parceiro de cooperação" com quem a Europa tem objectivos alinhados; um "parceiro negocial" com o qual é necessário encontrar equilíbrios na defesa dos respectivos interesses; "um competidor económico" que sabemos que procura liderança tecnológica; e "um rival sistémico" que promove modelos de governança alternativos. O que isto quer dizer é que, no mais relevante, na economia e nas relações internacionais, não lhe chama inimigo mas chama-lhe competidor e rival. E, expectável, diz que com um parceiro destes se tem de agir em comum.
 
 
No tempo da Guerra Fria, que não serve para ler a actualidade mas a ajuda a pensar, do lado de lá estavam inimigos, e com os inimigos não havia intensas trocas comerciais nem parcerias estratégicas. Nesse tempo, a prova derradeira de que o nosso sistema era preferível é que havia muros para impedir os de leste de fugirem para o Ocidente. Hoje, os chineses que podem viajar não tentam desertar, como os artistas e turistas vindos da União Soviética tantas vezes faziam. Hoje, há investimento externo chinês (directa ou indiscretamente público) na Europa e aproximações selectivas aos Estados Membros da UE com mais fragilidades (necessidades) económicas. Foi assim em Portugal e na Grécia, tem sido assim a leste.
 
Quem percorra as estantes das livrarias portuguesas encontrará pouca literatura sobre a China e a sua visão do mundo escrita ou traduzida em português (ainda que um dos autores internacionais relevantes sobre o tema seja Bruno Maçães e, em Portugal, Raquel Vaz Pinto tenha escrito sobre China também). Pelo contrário, quem quiser poderá ler extensamente sobre Trump. Apesar de ser expectável que se escreva e leia mais sobre o que nos é próximo, o que isto também quer dizer é que por cá pensamos pouco sobre a enorme transformação que a emergência da China - que já não é de ontem - traz ao Mundo, muito em especial ao nosso.
 
Daqui a um ano haverá uma cimeira, liderada pela Alemanha, entre a Europa e a China, não é a última, a definitiva, mas pretendem que seja um marco. Temos um ano para pensar mais em quais são os nossos interesses nesta relação. Os nacionais e os globais. Veremos se as estantes enchem.
 
*Escreve segundo a grafia anterior ao Acordo Ortográfico

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/ler-china.html

UE não é "de forma alguma responsável" pelas consequências do Brexit, segundo Juncker

Londres, 22 set (Xinhua) -- A União Europeia (UE) não é "de forma alguma responsável" pelas consequências do Brexit, e o bloco não deve ser responsabilizado pelo o que é uma "decisão britânica", o presidente da Comissão Europeia, Jean -Claude Juncker, disse no domingo.

"A União Europeia não está deixando o Reino Unido, o Reino Unido está deixando a União Europeia", disse Juncker em entrevista ao Sky News, que foi transmitido no domingo.

"A UE não é de forma alguma responsável por qualquer tipo de consequência do Brexit", afirmou ele.

"Essa é uma decisão britânica, uma decisão soberana que respeitamos, mas não tentamos cobrar da União Europeia a responsabilidade", afirmou ele.

A declaração veio quando o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está indo para Nova York no domingo para participar do debate anual de alto nível da Assembleia Geral da ONU, e é esperado que ele use a visita para uma cúpula informal do Brexit.

Espera-se que Johnson mantenha discussões com a chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, à margem do Debate Geral da Assembleia Geral, que deve começar na terça-feira na sede da ONU.

Juncker disse no início desta semana que estava "fazendo tudo" para ajudar a garantir um acordo de retirada porque sentia que um Brexit difícil, ou um Brexit sem acordo, seria "catastrófico" para ambos os lados.

"É melhor para a Grã-Bretanha e para a União Europeia ter um acordo organizado", disse ele.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-09/23/c_138415793.htm

Brexit sem acordo trará controles de fronteira na Irlanda, adverte Juncker

 
 
Chefe da Comissão Europeia explica que defesa de interesses da UE obrigará a estabelecer "fronteira dura" entre duas Irlandas. Frisando não achar que Boris Johnson esteja brincando, ele diz ainda acreditar numa solução.
 
Controles de fronteira serão instalados entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, caso o Reino Unido saia da União Europeia sem um acordo, declarou o chefe da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, à emissora britânica Sky News, neste domingo (22/09).
 
O bloco deve "assegurar que os interesses seus e do mercado interno serão preservados", acrescentou. A fórmula para manter uma fronteira sem atritos entre a Irlanda, país-membro da UE, e a Irlanda do Norte, que integra o Reino Unido, é uma das discussões mais árduas em torno do Brexit.
 
A UE teme que uma "fronteira dura" possa causar conflitos na Irlanda do Norte, minando a frágil paz conferida pelo acordo de 1998, que deu fim a três décadas de violência entre os nacionalistas irlandeses, defensores de um país unido, e forças de segurança britânicas e unionistas pró-britânicos.
 
 
Juncker exemplificou que, não havendo uma fronteira após um Brexit sem acordo, um animal que entre na Irlanda do Norte poderia então passar para a UE via Irlanda, sem qualquer controle. "Isso não vai acontecer. Temos que preservar a saúde e segurança de nossos cidadãos", assegurou.
 
A data fixada para o divórcio britânico-europeu é 31 de outubro, constituindo para o Reino Unido a maior reviravolta no comércio e na política externa em mais de 40 anos; além de privar a UE de uma de suas maiores economias. Muitos advertem que uma saída desordenada, sem acordo, causará brutais distúrbios econômicos.
 
Segundo Juncker, ainda há tempo para Londres e Bruxelas fecharem um acordo de separação. Ao jornal espanhol El País, ele revelou que tivera conversas "construtivas e em parte positivas" com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, na última segunda-feira, em Luxemburgo.
 
"Acredito que ainda tenhamos uma chance de alcançar um acerto", citou-o o periódico. "Não partilho as opiniões de quem ache que Johnson esteja fazendo joguinhos conosco e consigo mesmo." O político luxemburguês frisou ainda que, para ele, a partida do Reino Unido é "um momento trágico para a Europa".
 
Deutsche Welle | AV/ap,rtr,afp

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Parlamento Europeu promove o anticomunismo e a reescrita da história

 
 
Em nota os deputados do Partido Comunista Português (PCP) dizem que a maioria do Parlamento Europeu aprovou, com os votos favoráveis dos deputados do PS, PSD, CDS e PAN, uma grave e abjeta resolução, que constitui mais uma deplorável peça na estratégia de revisionismo histórico promovida pela União Europeia.
 
O texto agora aprovado promove as mais reacionárias concepções e falsificações da História contemporânea, numa deplorável tentativa de equiparar fascismo e comunismo, minimizando e justificando os crimes do nazifascismo e silenciando as coniventes responsabilidades das grandes potências capitalistas – como o Reino Unido ou a França – que abriram caminho ao início da Segunda Guerra Mundial na esperança de empurrar as hordas nazis contra a URSS, como efetivamente se veio a verificar, com os imensos custos humanos e materiais para a União Soviética, que nenhum outro país susteve. Centrando essa despudorada equiparação no contexto do Pacto Ribbentrop-Molotov, escondendo o seu enquadramento histórico, a resolução adoptada pela maioria do PE omite importantes comportamentos de tolerância, cumplicidade e alinhamento das grandes potências capitalistas com o ascenso do fascismo em vários países europeus, motivados pelo combate ao ideal comunista e às enormes realizações e conquistas económico e sociais alcançadas pelos trabalhadores e os povos da URSS, que alentavam a luta e anseios dos trabalhadores e dos povos por toda a Europa. Assim se compreende a intencional ausência de referências na resolução adoptada pela maioria do PE ao Pacto de Concórdia e Cooperação, de 15 de Julho de 1933, assinado entre Reino Unido, França, Alemanha e Itália, que abriu caminho ao rearmamento da Alemanha; ou o apoio militar de Hitler e Mussolini a Franco e ao golpe fascista que conduziu à guerra civil em Espanha, cujo governo fascista seria reconhecido por França e Reino Unido em Fevereiro de 1939; ou a Conferência de Munique, de que resultaria o Tratado com o mesmo nome, assinado a 30 de Setembro de 1938 entre Alemanha, França, Itália e Reino Unido, para o desmembramento da Checoslováquia, ocupada pelo exército nazi, com partes do seu território ocupados pela Polónia e Hungria. Ou a sabotagem dos governos francês e inglês aos esforços para negociar um pacto de assistência mútua entre os seus países e a URSS, que impedisse uma segunda guerra mundial, alentando aqueles governos a expectativa de um conflito germano-soviético.
 
A resolução adoptada pela maioria do PE não só apaga o conluio dos grandes monopólios alemães com Hitler, como procura apagar o contributo decisivo dos comunistas e da União Soviética para a derrota do nazifascismo e para a libertação dos povos do jugo colonial após a Segunda Guerra Mundial. Uma resolução que tenciona, igualmente, silenciar o papel dos comunistas na libertação dos povos da opressão fascista, como ocorreu em Portugal, ou o papel que desempenharam e desempenham no avanço da conquista de direitos democráticos – políticos, económicos, sociais e culturais – dos trabalhadores e dos povos. Esta resolução comporta ainda um outro elemento cuja gravidade não pode ser ignorada: ela pretende abrir caminho para intensificar e generalizar a perseguição e proibição de partidos comunistas, e por arrasto de outras forças progressistas e do movimento sindical, como vem sucedendo, com a cumplicidade da União Europeia e da NATO, em vários Estados-membros – como na Lituânia, Estónia, Letónia ou Polónia, entre outros – onde a par da reabilitação e elogio histórico do fascismo e da glorificação dos colaboradores com o nazifascismo, se destroem monumentos da resistência antifascista, incluindo do Exército Vermelho, se fomenta a xenofobia e o racismo, e se promovem forças de cariz fascista. Este revisionismo histórico replica posicionamentos anteriores da UE, entidade que, pretendendo dar ao mundo lições de “democracia” e “direitos humanos”, promove retrocessos de dimensão civilizacional, atacando direitos sociais e laborais, a soberania nacional e a democracia. Uma entidade que está ao serviço do grande capital e das grandes potências, e na qual estão em desenvolvimento tendências e práticas repressivas de limitação de direitos e liberdades fundamentais, assim como militaristas. Políticas que estão, como no passado, na origem do recrudescimento de forças de extrema-direita e de cariz fascista. Os deputados do PCP no PE denunciam esta grave tentativa de falsificação histórica e manifestação anticomunista, que na sua essência é igualmente antidemocrática, que contou com o apoio de PS, PSD, CDS e PAN. Ao mesmo tempo, reafirmam que não permitirão o branqueamento do fascismo e a criminalização do ideal e projeto comunista. Portal Vermelho | Fonte: PCP

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Veto inesperado da Áustria pode atrasar acordo UE-Mercosul em 20 anos

Arame farpado em frente à bandeira da União Europeia.
© REUTERS / Laszlo Balogh

O Parlamento da Áustria colocou um balde de água fria na expectativa da ratificação do acordo entre União Europeia e Mercosul com sua decisão de aprovar uma moção para que a iniciativa seja rejeitada.

Com a decisão dos parlamentares austríacos, o governo local será obrigado a se opor ao acordo entre os dois blocos no Conselho Europeu. Como a aprovação depende da concordância unânime de todos os Parlamentos dos 28 Estados-membros do bloco, a decisão coloca em risco o projeto.

Negociado por mais 20 anos, o acordo de livre comércio foi divulgado como trunfo político durante a cúpula do G20 no Japão.

Para Carlo Barbieri, analista político e presidente da empresa de consultoria financeira Oxford Group, o veto da Áustria é inesperado.

"Em termos de importância internacional é relevante esse veto porque parte de um país que não estava na área interessada, como a Alemanha, ou na área que não tinha nenhum interesse, como a França", diz Barbieri à Sputnik Brasil.

O analista afirma que países de "agricultura subsidiada", como França e Espanha, são opositores esperados ao projeto porque "não teriam condições de competir com os países do Mercosul e o Brasil em particular" na produção agrícola. Enquanto isso, a Alemanha e sua forte exportação de produtos manufaturados está no time favorável à ratificação do acordo.

"Levou 20 anos para chegar a um acordo, talvez tome outros 20 anos para chegar a um consenso se haverá acordo ou não", diz o consultor. 

Ainda de acordo com Barbieri, o efeito da letargia e da possível não aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia será uma aproximação dos países do bloco latino-americano, e do Brasil em particular, com os Estados Unidos. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019092014540051-veto-inesperado-da-austria-pode-atrasar-acordo-ue-mercosul-em-20-anos/

Senhora «austeridade» confirmada no BCE

O Parlamento Europeu aprovou esta terça-feira, com 206 votos contra e 49 abstenções, a nomeação de Christine Lagarde para presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Já tinham vindo várias acusações a público afirmando que Nicolas Sarkozy havia pressionado a ministra das Finanças para beneficiar o empresárioCréditosChristophe Petit Tesson/EPA / Agência LUSA

A votação decorreu na sessão plenária da assembleia europeia, na cidade francesa de Estrasburgo, e foi feita por escrutínio secreto, num total de 394 votos a favor, 206 contra e 49 abstenções.

Esta era uma notícia aguardada desde que a comissão parlamentar dos Assuntos Económicos e Monetários, que ouviu a responsável no início deste mês, recomendou ao plenário do Parlamento Europeu parecer favorável à nomeação de Christine Lagarde para a presidência do BCE.

A imprensa destaca sobretudo o facto de Lagarde ser a primeira mulher a assumir a presidência do BCE, depois de ter sido também a primeira mulher na liderança do Fundo Monetário Internacional (FMI). Porém, tanto para os portugueses como para outros povos da Europa que foram alvo dos chamados «resgates» da troika (com resultados arrasadores nos planos social e económico), é fácil concluir que, para a agenda neoliberal, pouco importa a igualdade de género. 

No passado mês de Abril, a ex-directora-geral do FMI afirmou que Portugal «não pode relaxar ou aproveitar os seus louros» e que «tem de manter o rumo», depois de ter mostrado aos ditos mercados financeiros que era capaz de descer o défice e inverter o rumo da dívida pública, relevando o facto de para tal se terem sacrificado os salários e o emprego. 

A nova presidente do BCE sucede a Mario Draghi, que deixa o cargo no dia 31 de Outubro, devendo tomar posse no dia 1 de Novembro. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/senhora-austeridade-confirmada-no-bce

Os cidadãos da UE recusam tomar partido entre os EUA e a Rússia

Uma sondagem (pesquisa-br) realizada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), equivalente ao Council of Foreign Relations (Conselho de Relações Exteriores- ndT) norte-americano, avalia o apoio actual ao projecto de Estado supranacional do Tratado de Maastricht, capaz de rivalizar com os Estados Unidos e a China —muito embora em 1992, este segundo país não fosse tido como uma super-potência— [1]. Ela mostra que é apoiado por quase um terço dos Franceses, Austríacos e Alemães.

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Mais surpreendente, apesar dos quarenta anos em que foram colocados sob tutela norte-americana, uma maioria de cidadãos europeus não confia mais e não mais se sente solidária com os Estados Unidos. Em caso de conflito entre os Estados Unidos e a Rússia, a maioria deseja que a União permaneça neutra.

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Na realidade, a UE apenas incluía 12 Estados antes do Tratado de Maastricht. À época, havia uma pequena maioria a desejar o Estado supranacional actual. Hoje em dia são menos de um terço. O Tratado de Maastricht confiou a defesa da UE à OTAN, a qual previa um apoio automático aos EUA em caso de conflito com a Rússia. Os cidadãos da UE encontram-se, portanto, embarcados contra sua vontade num Estado supranacional e num confronto militar que rejeitam.

Esta sondagem atesta o apego dos cidadãos europeus ao ideal de cooperação pela paz que prevalecia no continente no início do século XX.


[1] Give the people what they want: Popular demand for a strong European foreign policy, Susi Dennison, European Council on Foreign Relations, September 10, 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



EURO: As omissões do aluno Trichet. Por Jean-Luc Gréau

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Publicado por revista mensal Causeur.fr em maio de 2019

23 EURO As omissões do aluno Trichet 1

O ex-presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, faz uma avaliação geralmente positiva do euro em Le Debat. Trata-se de esquecer que a moeda única contribuiu para aumentar as divergências entre os Estados-Membros. Com o desemprego em massa, a recessão e a dívida, a zona euro está à beira do desmantelamento.

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O vigésimo aniversário do lançamento do euro em 1 de Janeiro de 1999 foi celebrado com discrição. No entanto, e sem esperar este prazo, um dos mais importantes protagonistas da experiência, o nosso compatriota Jean-Claude Trichet, traçou um balanço geralmente positivo: usando um dos estereótipos utilizados durante a crise de 2008, considerou a zona euro “resiliente”[1].

 

As omissões do aluno Trichet

Neste artigo de pura oportunidade, escrito no rescaldo de um exercício de 2017 que provou ser o melhor da zona do euro desde a crise financeira americana de 2008 e, sobretudo, a crise do euro de 2010, 2011 e 2012, Trichet argumenta que é graças à ação do Banco Central Europeu, sob a sua liderança, que a chamada crise do “suprime” pôde ser ultrapassada. Envolve a crise do euro numa crise de riscos soberanos atribuíveis à ausência de “reformas estruturais” nos países em causa, um facto bem conhecido, esquecendo que o euro nos foi apresentado, entre outras coisas, como um poderoso incentivo para as referidas reformas. Congratula-se com o facto de novos países – Estónia, Lituânia, Letónia e Eslováquia – terem aderido à zona euro. Acima de tudo, reproduz uma estimativa do FMI de que o PIB per capita cresceu ligeiramente mais rápido do que o PIB per capita nos Estados Unidos.

Este ponto deveria ter intrigado o representante dos nossos especialistas saído da ENA. Não só a zona do euro está muito atrás da Ásia industrial em termos de crescimento, como o dinamismo da economia americana desde 2009 criou um abismo nas respetivas evoluções dos dois sistemas. Como é que os serviços do FMI conseguiram alcançar um resultado tão lisonjeiro para a zona euro?

Um primeiro ponto, um ponto menor, ajuda a compreendê-lo. O PIB per capita na zona do euro aumenta mecanicamente devido a uma fecundidade muito inferior à dos Estados Unidos. Os muitos jovens americanos nascidos entre 1999 e 2018 aumentaram a população sem simultaneamente aumentar a produção. O enviesamento estatístico de natureza demográfica ajuda a compreender a tendência algo mais favorável do PIB per capita na área do euro.

Um segundo ponto destaca a natureza faltosa da argumentação de Jean-Claude Trichet. Foi na década de 2000 que a área do euro apresentou, no seu conjunto, desempenhos favoráveis, o que aparentemente atesta o êxito do projeto. A procura interna, o investimento e o consumo combinados, estão nesta década a crescer a um ritmo sustentado. Mas é à custa de dois fatores que irão decidir a terrível crise do euro em 2010. Primeiro, os chamados países do Sul estão desproporcionadamente endividados: o Estado na Grécia, o Estado, as famílias e as empresas em Portugal, as empresas e as famílias em Espanha, os bancos, as famílias e as empresas na Irlanda. Em segundo lugar, as empresas e os Estados destes países, incluindo a Itália, deixam disparar os custos da mão-de-obra a uma taxa total entre 20% e 35%. Como pode ser explicado este descuido? Os nossos parceiros mal orientados tinham levado a sério o insensato slogan dos criadores do euro e da tribo dos meios de comunicação social “O euro é o nosso escudo de proteção”.

Um terceiro ponto chama a atenção. O belo desempenho global esconde desempenhos muito desiguais dos vários países: prosperidade aparente em Espanha e na Irlanda, debilidade da economia italiana, abrandamento do crescimento em França, mas ainda mais na Alemanha, que tinha feito a aposta contrária à dos países do Sul, reduzindo em 15% os seus custos laborais. Desde 2007, pudemos ver o fracasso do euro, que provocou a divergência das economias em causa, apesar de este ter sido concebido para as ajudar a convergir.

Jean-Claude Trichet, então no comando em Frankfurt, não só se manteve cego a esses excessos, como ficou encantado com o crescimento artificial daí resultante. Pior ainda, esquece as consequências irreparáveis da crise interna na região, sob a forma de uma explosão de várias dívidas públicas: 100% do PIB para Espanha, 132% para Itália, mais de 110% para Portugal, o que torna os seus Estados insolventes. Quanto à Irlanda, trata-se de um caso especial, pois o seu PIB é artificialmente inflacionado por falsas exportações que representam mais de 90% da sua produção [2], graças à transferência, no seu território, da produção de empresas farmacêuticas norte-americanas que pretendem beneficiar de uma tributação muito favorável. Como é possível que a zona euro tenha assistido às quatro maiores falências da história, quando estas são vistas face aos números relativos à população? A própria França, menos afetada, viu a sua dívida pública aumentar de 65% do PIB no outono de 2008 para 98% hoje: Trichet acredita que a França e outros países sobre endividados serão capazes de pagar as suas dívidas?

Mudança de programa após 2009. A zona do euro entra num período de estagnação prolongada que está a alargar a diferença com os Estados Unidos. A procura interna na zona euro está agora mais baixa do que antes de 2008, enquanto a procura interna dos EUA disparou, como mostra um gráfico recente da Natixis [3]. Este desenvolvimento ajuda a compreender as dificuldades de gestão dos Estados, mas ainda mais o desemprego estrutural em muitos países, fora da Alemanha, com o desemprego juvenil endémico também esquecido por Trichet, que aparentemente não se importa. “Sem futuro” para todos estes jovens.

23 EURO As omissões do aluno Trichet 2

Mas o estudante Trichet merece uma pontuação próxima de zero se ainda levarmos em conta três parâmetros que não estão incluídos no seu texto. Em primeiro lugar, os desequilíbrios comerciais entre a Alemanha e os seus parceiros na região geraram, em benefício do nosso grande vizinho, um total de quase 1 milhar de milhões de euros em créditos, que não vemos como podem ser reduzidos ou absorvidos. Em segundo lugar, a crise do euro foi superada pela chamada política “Quantitative Easing”, implementada por Mario Draghi, que permitiu retirar da circulação mais de 4 milhões de milhões de dívidas privadas e públicas e, ao fazê-lo, salvar o sistema bancário e o crédito dos Estados da região. Em terceiro lugar, a retoma da área do euro, que pode ser observada em 2017, ocorreu no preciso momento em que “todos os planetas do sistema económico global estavam alinhados”, graças ao estímulo monetário dos seis maiores bancos centrais mundiais, incluindo o Banco Popular da China.

23 EURO As omissões do aluno Trichet 3

A resiliência já não é mais o que costumava ser

No entanto, algumas semanas após a publicação de satisfação do nosso antigo banqueiro central, John Plender, colunista do Financial Times, livre de qualquer lealdade à aventura do euro, chamou a atenção para as nuvens que se acumulam no horizonte da zona. Chega ao ponto de apontar para o risco de uma deflação crescente que a ameaça, no estilo que assola o Japão há trinta anos [4].

Muito apropriadamente, John Plender referiu-se à recente decisão do Presidente do Banco de Frankfurt de conceder um estímulo monetário sob a forma de empréstimos aos bancos a taxas muito baixas durante um período de dois anos. Mario Draghi teve poucas dificuldades em justificar esta decisão: “A zona do euro vive um período de fraqueza contínua e incerteza generalizada” No topo da torre do BCE, o seu Presidente viu os incêndios de crescimento desaparecerem: 2,6% em 2017, mas um ano 2018 que viu o crescimento cair para 0,8% no primeiro semestre e 0,4% no segundo semestre. A Itália entrou em recessão, a Alemanha esteve quase em recessão durante a última metade do ano. Finalmente, os inquéritos de negócios revelam uma deterioração constante no clima de negócios, confirmada ainda mais pelo inquérito realizado por Markit junto às PMEs na área, realizada no início de abril.

É a Alemanha, a super poderosa Alemanha que mais preocupa. O país que garantiu o euro durante a turbulência, através do seu poder industrial, está a sofrer os ventos contrários da desaceleração noutras partes do mundo: a América Latina está numa recessão global, a China e a Ásia industrial estão a travar em todas as quatro direções. As exportações alemãs e, mais ainda, as encomendas para exportação estão a diminuir. Vemos a outra face da medalha alemã: o seu crescimento é excessivamente dependente dos seus mercados externos, que representam, ano após ano, quase metade da sua produção. Assim, Mario Draghi teve de admitir que o regresso à prosperidade dependia do desesperado estímulo monetário da China. Seria divertido organizar um confronto entre ele e o seu antecessor!

 

O forno de deflação do euro

Neste contexto de condições económicas arrefecidas, outros indicadores, destacados por John Plender, defendem a tese deflacionista: inflação muito baixa e fraqueza demográfica – a população em idade ativa está em declínio. Arrisca-se então a uma aproximação à deflação japonesa, mas sublinha o ponto crucial da divergência: o Japão está unificado, a zona euro não é homogénea. É aqui que o problema é mais grave. A moeda única, apresentada como um instrumento de convergência das economias, contribuiu para o aumento das divergências.

A união monetária estava viciada na sua raiz”, diz John Plender. Garantiu uma sobre competitividade à Alemanha e aos países do norte da Europa, sem possibilidade de correção através de medidas compensatórias para as outras economias. Consequentemente, a região permanecerá excessivamente dependente das suas exportações para o resto do mundo e, por conseguinte, do dinamismo do sistema mundial. A “japonização” tornar-se-á uma palavra comum no vocabulário económico e, referens horresco [tremo ao dizê-lo], os populismos irão aumentar.

Acrescentaria um aspeto pouco visível do imbróglio económico da região. A união monetária consistiu em “germanizar” a moeda de três quartos da Europa. Porque o euro é o marco. Isto é exatamente o que pretendiam aqueles que o conceberam. No entanto, alguns anos após a “germanização” monetária da Europa, a Alemanha, sob a liderança do Chanceler Schröder, fez a opção de se globalizar, reduzindo os seus custos laborais em 15%, ao mesmo tempo que deslocalizou uma massa de produções para os países da Europa Central e Oriental. Isto significa que a Alemanha se afastou da zona do euro sendo que esta lhe pediu a sua moeda emprestada. Pode ser vista como uma plataforma industrial “offshore”, que exporta para todo o mundo. É esta escolha que ela está a começar a pagar e de que quer defender-se contra ventos e marés.

 

Em direção a um desmantelamento do euro?

Tudo depende agora da situação fora da zona euro. Ou a desaceleração se espalhará para outras regiões do mundo, como os Estados Unidos, cuja previsão de crescimento acaba de ser reduzida para 2,3% em 2019, como os países produtores de matérias-primas, vítimas por ricochete da queda dos seus clientes. Ou a recuperação da China chegará no momento certo para apoiar o comboio do crescimento global e experimentaremos uma nova recuperação ou, pelo menos, um período de graças antes de uma possível recaída.

Mas a questão do euro mantém-se. Se John Plender tiver razão, não há outra verdadeira solução que não seja preparar o desmantelamento do euro. No entanto, de acordo com rumores que se estão a começar a espalhar, muitos financeiros admitem em privado essa necessidade. Eles temem a saída repentina de um país como a Itália que faria implodir os mercados de crédito. O desmantelamento do euro, preparado conjuntamente pelos Estados-Membros e por eles próprios, seria infinitamente menos prejudicial do que uma saída unilateral. Não estamos destinados a ficar eternamente na armadilha da moeda única.

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Notas

[1] « La zone euro et l’euro : une remarquable résilience dans la crise », Le

Débat, n° 203, janvier 2019.

[2] Cada irlandês exporta tanto quanto 4 alemães. Sic !

[3] « Natixis Flash Économie », n° 995, « Pour l’instant, la zone euro est un échec ».

[4] « Japanification looms for the sluggish eurozone », Financial Times, 13

mars 2019

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O autor: greau jean luc Jean-Luc Gréau (1943 – ), economista, antigo perito do MEDEF. Autor de Le capitalisme malade de sa finance (1998), L’avenir du capitalisme (2005), La trahison des économistes (2008), La Grande Récession (depuis 2005): Une chronique pour comprendre (2012)

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/09/14/euro-as-omissoes-do-aluno-trichet-por-jean-luc-greau/

O Brexit, a UE e a democracia

 
 
Thierry Meyssan*
 
Para Thierry Meyssan, a política de Boris Johnson situa-se na perfeita continuidade da história britânica. Se nos referirmos aos escritos do Primeiro-ministro britânico e não às suas declarações de campanha, ela é muito mais guiada pelo perigo sentido face à nascença de um Estado supranacional continental que por uma vontade de independência económica.
 
A quando da dissolução da URSS, a França e a Alemanha tentaram conservar o seu lugar no mundo resolvendo o problema do seu tamanho face ao gigante norte-americano. Decidiram portanto reunificar as duas Alemanhas e de se fundirem conjuntamente num Estado supranacional : a União Europeia. Seguros, face à sua experiência de cooperação interestatal, acreditaram ser possível construir este Estado supranacional apesar do diktat do Secretário de Estado James Baker para alargamento forçado a Leste.
 
Durante os debates sobre o Tratado de Maastricht, os gaullistas confrontaram o «supranacionalismo europeu» com o «soberanismo». Eles equiparavam o quadro nacional à democracia e a escala europeia à burocracia. Pelo contrário o Presidente François Mitterrand e o Chanceler Helmut Kohl, para vencer a sua resistência, começaram por baralhar o soberanismo democrático (só o Povo é soberano) e o soberanismo nacionalista (a Nação é o único quadro conhecido para exercer um Poder democrático). Depois equipararam toda e qualquer forma de «soberanismo» a «chauvinismo» (ou seja, o facto de se considerar excelente tudo aquilo que é nacional e de desprezar tudo o que é estrangeiro).
 
Este Tratado foi adoptado e transformou um sistema de cooperação interestatal (a Comunidade Económica Europeia) num Estado supranacional (a U.E.), quando ainda nem sequer existia uma «nação europeia».
 
 
Ao mesmo tempo reescrevem a História para equiparar o nacionalismo à guerra e para apagar os traços das políticas chauvinistas anti-Russas. A França e a Alemanha criaram um canal de televisão binacional, o Arte, cujos programas deviam apresentar o nazismo e o sovietismo como sendo dois regimes totalitários originados pelo mesmo conceito de nacionalismo. Confundiu-se o nacionalismo alemão com o racialismo nazista (muito embora este seja incompatível com a ideia nacional germânica, baseada na língua e não na raça). E, apagaram-se os traços dos esforços soviéticos para selar uma aliança anti-nazi antes da guerra. Deste modo, mudou-se o significado do Acordo de Munique e do Pacto Molotov-Ribbentrop [1].
 
Trinta anos mais tarde, as instituições concebidas a 6 e desenvolvidas para 12 provaram ser ingeríveis a 28, tal como haviam antecipado os Estados Unidos. A União Europeia tornou-se um gigante económico, mas continua a não existir nenhuma noção de "Nação" europeia. Os povos europeus perderam em grande medida a sua soberania democrática, e os seus Estados perderam a sua soberania nacional, mas continua a não existir um objectivo político comum.
 
Basta perguntar a um soldado do embrião de exército europeu se está pronto a «morrer por Bruxelas» e observar o seu ar espantado para medir a amplitude do desprezo por tal : ele está pronto a dar a vida apenas pela sua Nação, não pela União Europeia.
 
O mito, segundo o qual «A UE, é a paz», ter-lhe-á valido o Prémio Nobel da Paz em 2012, mas
- Gibraltar continua a ser uma colónia britânica em território espanhol [2];
- a Irlanda do Norte, uma outra colónia em território irlandês ;
- e sobretudo, o Norte de Chipre continua a ser ocupado pelo Exército turco [3].
 
A França e a Alemanha acreditaram, erradamente, que, com o tempo, os particularismos britânicos vindos da História se dissolveriam no Estado supranacional. Isto era esquecer que o Reino Unido não é uma República igualitária, mas sim uma Monarquia parlamentar de classe.
 
Devido aos restos do seu império colonial na Europa Ocidental, o Reino Unido jamais pode aderir ao projecto franco-alemão de Estado supranacional. Ele recusou trechos inteiros do Tratado de Maastricht entre os quais a sua moeda supranacional, o euro. A sua lógica interna empurrava-o irresistivelmente a reforçar a sua aliança com os Estados Unidos, com o qual partilha a mesma cultura assim como uma parte das elites. Pareceu-lhe mais eficaz conservar a sua influência no mundo apoiando-se na força militar de Washington, do que na força económica de Bruxelas. Foi por isso que, em 2000, a Administração Bush encarou incluir o Reino Unido na Alena e organizar a sua saída da UE [4].
 
O facto é que o Parlamento britânico nunca acabou por escolher entre os dois lados do Atlântico. Foi preciso esperar até ao Referendo de 2016 para que o povo decidisse escolhendo o Brexit. Mas a eventual saída britânica da UE abriu de novo uma ferida que se havia esquecido. A criação de uma fronteira aduaneira entre as duas Irlandas põe em causa o acordo de paz irlandês (dito como o «Acordo de Sexta-feira Santa») entre a República da Irlanda e o Reino Unido. Ora, este foi concebido não para resolver o problema mas para o congelar (recorrendo ao princípio religioso de consociatio).
 
O sistema político britânico é fundado na bipolarização. Isto está fisicamente inscrito nos bancos da Câmara dos Comuns, onde os Deputados estão sentados frente a frente e não em hemiciclo. Ora, o Brexit levanta, ao mesmo tempo, duas questões existenciais: a pertença ou não à UE e a manutenção da colonização na Irlanda do Norte. Todos puderam constatar no decurso dos últimos três anos que a Câmara não conseguiu chegar a nenhuma maioria em qualquer uma das quatro opções possíveis. Esta situação afectou gravemente a economia britânica. Segundo um relatório confidencial de Coalition, as comissões bancárias rendem cada vez menos na City e cada vez mais em Wall Street agora. A supremacia financeira britânica declina desde 2008 e está em vias de se afundar.
 
O sistema político britânico é pragmático. Nunca foi pensado noutro sentido e nunca foi passado a escrito. É o fruto de mil anos de confrontos e relações de força. De acordo com o estado actual da tradição constitucional, o monarca só dispõe do Poder quando a sobrevivência da Nação está em jogo [5]. Foi por isso que a Rainha decidiu suspender («prorrogar») o Parlamento para permitir ao seu Primeiro-ministro desbloquear a situação. Em tempos normais, a Rainha só tem o direito de suspender o Parlamento por razões técnicas (uma eleição por exemplo) e nunca para colocar a democracia entre parênteses.
 
É muito interessante observar a emoção provocada no Reino Unido pela decisão da Rainha. Todos aqueles que se opuseram ao Brexit percebem que passaram três anos em discussões estéreis e atingiram o limite da democracia. Alguns, inclusive no continente europeu, descobrem com espanto que a democracia pressupõe a igualdade de todos os cidadãos e é, portanto, incompatível com o que resta de uma monarquia de classe.
 
Este desprezo reenvia-nos até à criação das instâncias europeias baseadas no modelo imaginado por Winston Churchill. Para ele, nunca se tratou de unir democracias, ou de criar um estado supranacional democrático, mas de prevenir a existência de uma potência hegemónica no continente europeu. Quer dizer, ao mesmo tempo impedir a Alemanha de se reerguer e fazer face à União Soviética [6]. Contrariamente aos slogans (eslogans-br) que ele admiravelmente manejou, não se tratava de oposição ao modelo comunista, mas sobretudo de prosseguir a política que tinha aplicado durante a Segunda Guerra Mundial: enfraquecer as duas principais potências continentais, a Alemanha e a URSS, que ele deixou baterem-se sozinhas, uma contra a outra, de Junho de 1941 a Setembro de 1943, sem intervenção de nenhum exército britânico, colónias incluídas.
 
Não é portanto de espantar que François Mitterrand, o qual participou ao lado de Winston Churchill no Congresso fundador de Haia, em 1948, não se tenha inquietado com o déficit democrático do Estado supranacional que ele imaginou com Helmut Kohl aquando da dissolução da URSS.
 
Boris Johnson é um puro produto do Eton College, muito embora em parte criado nos Estados Unidos (ele renunciou em 1996 à nacionalidade dos EUA para se candidatar à Câmara dos Comuns). É um discípulo de duas grandes figuras do Império Britânico. Primeiro de Benjamin Disraeli, o Primeiro-ministro da Rainha Victoria. Dele tomou emprestada a sua concepção de «conservadorismo de nação» (Conservatism One Nation) : a riqueza confere uma responsabilidade social; a elite (upper class) tem o dever de dar trabalho às classes pobres a fim de que todos fiquem no seu lugar. Depois, de Winston Churchill ao qual ele consagrou um livro [7].
 
Theresa May havia sucessivamente encarado três vias diferentes para compensar a saída da UE : Tornar-se a agente de câmbio do yuan chinês no Ocidente, reforçar a «relação especial» com Washington [8], e reavivar a Commonwealth (Global Britain). Boris Johnson, quanto a ele, está no quadro de continuidade dos seus modelos focando-se (se focalizando-br) na «relação especial» com os Estados Unidos e, para isso, tendo-se atirado para os braços do Presidente Trump durante o G7, muito embora não partilhe as suas opiniões nem na economia, nem na política internacional. É igualmente lógico que tenha descaradamente mentido contra a Rússia por ocasião do escândalo Skripal [9], e que ele deseja não apenas a saída britânica da UE, seja qual for o preço, mas prioritariamente a sabotagem desta aventura supranacional continental.
 
Se Boris Johnson permanecer como Primeiro-ministro, a política internacional da «Pérfida Albion» seria a de influenciar Washington e de instilar conflitos entre Bruxelas e Moscovo.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] « Petite leçon d’histoire à Justin Trudeau », par Michael Jabara Carley, Traduction Mouhamadou Mourtada Fall, Strategic Culture Foundation (Russie) , Réseau Voltaire, 7 septembre 2019.
[2] “Para a UE, Gibraltar é agora uma «colónia» da Coroa”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Fevereiro de 2019.
[3] “Cerca de 200.000 Cipriotas não poderão votar nas eleições europeias”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Maio de 2019.
[4] The Impact on the U.S. Economy of Including the United Kingdom in a Free Trade Arrangement With the United States, Canada, and Mexico, United States International Trade Commission, 2000.
[5] “Isabel II suspende o Parlamento Britânico”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Setembro de 2019.
[6] « Discours de Fulton sur le "rideau de fer" », « Discours de Winston Churchill sur les États-Unis d’Europe », par Winston Churchill, Réseau Voltaire, 5 mars et 19 septembre 1946.
[7] The Churchill Factor: How One Man Made History, Boris Johnson, Riverhead Books (2014).
[8] “Theresa May addresses US Republican leaders”, by Theresa May, Voltaire Network, 27 January 2017.
[9] “Peritos militares britânicos contradizem Theresa May”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 7 de Abril de 2018. « L’affaire Skripal : le mensonge de trop ? », par Michael Jabara Carley, Traduction Jean-Marc Chicot, Strategic Culture Foundation (Russie) , Réseau Voltaire, 23 avril 2018.

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Europeus defendem neutralidade da UE em caso de conflito envolvendo EUA

 
 
A maioria dos eleitores da União Europeia (UE) defende a neutralidade do bloco em caso de conflitos entre os Estados Unidos e a Rússia ou a China, segundo um inquérito hoje divulgado por um grupo de reflexão.
 
Segundo um estudo realizado pelo grupo de reflexão em política externa do Concelho europeu para as relações externas (ECFR, na sigla inglesa) em 14 Estados-membros considerados representativos da UE, a maioria dos inquiridos - 60 mil eleitores - defende a neutralidade do bloco em caso de um conflito entre os Estados Unidos e a Rússia ou entre os Estados Unidos e a China.
 
Questionados sobre questões de comércio, os eleitores dos Estados-membros em que decorreu o inquérito - à exceção da França e da Roménia - consideraram que os governos nacionais estão mais bem habilitados do que quaisquer outras autoridades para defender o país em negociações comerciais.
 
 
Os inquiridos duvidam da capacidade da UE de proteger os seus interesses económicos no caso de conflitos comerciais: segundo o inquérito, menos de 20 por cento dos eleitores em cada Estado-membro respondeu que o interesse nacional está bem protegido face a práticas agressivas de concorrência da China.
 
O inquérito, que revela ainda a desconfiança da esmagadora maioria dos europeus face aos Estados Unidos, foi realizado em 14 países cuja dimensão é representativa da média da UE: Alemanha, Áustria, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, França, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Polónia, Roménia, República Checa e Suécia.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Foto: © iStock
 
Leia em Notícias ao Minuto: 
 

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Quando notícias negativas podem não o ser

No «Público» de hoje o economista Ricardo Cabral dá um bom argumento para concluirmos que notícias negativas podem conter em si os germes de outras, que se revelarão bastante positivas. É que se Portugal e outros países do sul da Europa (Grécia, Chipre) foram sujeitos aos ditames da tenebrosa troika. foi em nome da imposição europeia de défices orçamentais abaixo dos 3%. Esse pacto, que Jerónimo de Sousa qualificou muito justamente de «agressão», foi tido como um axioma sem discussão enquanto não suscitou problemas a quem mais teimou em que assim fosse: a Alemanha.

 

Acontece, porém, que a chanceler Merkel tem visto a votação no seu partido e na dos seus aliados sociais-democratas a declinar, com a consequente ascensão fulminante da extrema-direita. Razão para que cresça na Alemanha o consenso em torno de uma revogação dessa imposição orçamental dada a urgência em lançar políticas dirigidas para a melhoria significativa da vida dos cidadãos, que implicam investimentos muito acima dos permitidos pelas folgas das receitas.

 

Obviamente que a alteração desse dogma interno dará argumentos aos que sempre o consideraram desajustado a nível de toda a União Europeia e possibilitaram o crescimento das extremas-direitas por todo o continente à exceção deste cantinho à beira-mar plantado.

 

Decorre daí uma justificada expetativa em que, na próxima legislatura, o governo liderado por António Costa encontre condições externas favoráveis, que se sobreponham aos riscos criados pela guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Ora, mesmo esta, não tardará muito a ficar resolvida, tão-só o fraudulento Trump seja substituído na Casa Branca pela primeira mulher a ali ser empossada como presidente. E ela chama-se Elizabeth Warren, cuja subida nas sondagens está a ganhar uma dinâmica vencedora para confirmar o que desde há dois anos tenho aqui apostado: será ela a futura presidente dos EUA dando ensejo ao antecessor para que continue e dedicar-se às falsas previsões meteorológicas em que esteve tão ocupado esta semana.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

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A Confusão é Geral. Palavra de Dom Casmurro

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 06/09/2019)

Bom dia,

É no velório de Escobar que Bentinho, isto é, Dom Casmurro, a personagem criada pelo escritor brasileiro Machado de Assis, fica com a certeza da culpa, da traição, de Capitu, sua esposa. O problema está em, quando se trata de relações amor/ódio, nenhuma certeza ser absoluta. Há sempre espaço para a dúvida. Afinal, quem traiu quem? É, se quisermos, um pouco o que se passa com a relação tormentosa entre a União Europeia e a Grã Bretanha.

 

Ameaçam separar-se. Mesmo se todos percebem como a lei do divórcio é, no contexto da UE, algo ainda mais complexo que uma escalada dos Himalaias e uma missão à Antártida juntas. Ambos se sentem traídos e já se sabe como nestas situações a culpa nunca está de um lado só. Ontem, no que parece já um ato de desespero, o Primeiro Ministro britânico, Boris Johnson, anunciou o desejo da sua própria morte ao assegurar preferir estar “morto numa vala a pedir novo adiamento do Brexit”.

A UE, para já, segue tudo à distância e no conforto do primeiro balcão, com a aparente tranquilidade de quem sabe ter-se consolidado a ideia de que quem queira abandonar a União, ou é louco, ou é suicida. Isso cria dilemas morais terríveis, como se viu pela reação do próprio irmão de Boris Johnson, que abdicou do cargo de ministro e deputado, derrotado pelo que considera ser “a tensão insolúvel entre a lealdade familiar e o interesse nacional.” O drama é shakespeariano ou freudiano? É uma reação com o poder de espelhar, através das divisões numa família, as profundas clivagens que neste momento corroem a sociedade britânica, desde o contexto familiar às relações entre diferentes comunidades. Numa metáfora dessa realidade, o jornal The Guardian escreve sobre uma família dividida e mostra como o Brexit fraturou os Johnsons.

Outras fraturas se manifestam. As chefias da polícia não gostaram e censuraram o Primeiro Ministro por usar alunos da Academia de Polícia de West Yorkshire como adereço, ou pano de fundo, durante o seu discurso de ontem sobre o Brexit.

Os britânicos irão a votos para resolver a contenda? Sairão da UE com ou sem acordo? Irão mesmo sair? Ou conseguirão adiar mais alguns meses o divórcio, para conseguirem um acordo capaz de satisfazer ambas as partes?

A UE, explica-se no Expresso on line, quer “uma boa razão” para adiar o Brexit. Boris quer ter eleições a 15 de outubro, dois dias antes da reunião do Conselho Europeu. Convencido da vitória e da obtenção de uma maioria no Parlamento, teria assim margem para escapar à obrigação de pedir um adiamento da saída, até porque já sabemos que preferia estar morto numa vala, a fazê-lo. Jeremy Corbin e os trabalhistas não têm tarefa fácil, desde logo por andarem a pedir eleições há muito tempo. Ou aceitam o jogo de Boris, ou, sem perderem a face, reclamam eleições, mas mais tarde, fora da agenda pessoal do Primeiro Ministro.

No meio disto tudo o que andam a fazer os Liberais, essa salgalhada onde vão parar os descontentes dos Conservadores e dos Trabalhistas, e de cuja agenda pouco se fala? É outra das incógnitas da cobertura noticiosa que mereceria reflexão mais aprofundada.

A confusão é geral. Em rigor, Machado de Assis usou o pretérito imperfeito. “A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…”. Como o Brexit vem de um passado na verdade pouco perfeito, embora seja sobretudo presente e futuro, deixemos os tempos verbais e atentemos numa dúvida que nem é existencial: quem faz aqui o papel de Capitu ? E quem será o cadáver?


OUTRAS NOTÍCIAS

Da noite vem o insonso debate entre Rui Rio e Assunção Cristas. Quando se fala de crise de identidade da direita e do centro-direita, ali está a demonstração prática dessa realidade. Num momento de necessária intensa disputa de eleitorado, fizeram pouco pela vida. De tanto não quererem hostilizar-se, acabaram a revelar ténues diferenças. Como se escreve no Expresso, optaram por um pacto de não agressão. Uniram-se no que parece ter-se tornado no mantra da direita: a redução de impostos. Apenas uma diferença assinalável: Cristas assumiu por inteiro as dores do anterior Governo PSD/CDS, ao contrário de Rio e, por consequência, rejeitou em absoluto qualquer espécie de colaboração com um futuro governo do PS. Ao contrário de Rio, disponível para o que chama “reformas estruturais”.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Quem elegeu Ursula von der Leyen?

A canícula de Julho foi providencial! Fez com que não se olhasse para um caso que também é muito revelador das desregulações actuais – mas estas democráticas. Com o suor a cegá-los, poucos europeus repararam, efectivamente, que o discurso político com que os inundavam há pelo menos três anos acabava de explodir.

E a comunicação social, ocupada com outras «investigações», não se esforçou por os informar do ocorrido.

Centenas de milhões de eleitores europeus foram até esse momento embalados por uma grande narrativa maniqueísta. A política da União e o escrutínio de Maio último resumiam-se, diziam-lhes, a um confronto entre dois campos: os liberais contra os «populistas» [1]. A 2 de Julho, uma cimeira de chefes de Estado e de governo da União veio recomendar que a ministra democrata-cristã alemã Ursula von der Leyen se tornasse presidente da Comissão Europeia. A ideia teria vindo de Emmanuel Macron. A sua sugestão foi naturalmente retomada pela chanceler alemã Angela Merkel, mas também… pelo primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

No entanto, desde a sua eleição que o presidente francês havia jurado constantemente que se mostraria irredutível face aos nacionalistas e aos «populistas», portadores de «paixões tristes», de «ideais que, tantas vezes, incendiaram as fogueiras em que a Europa poderia ter perecido». Eles «mentem aos povos» e «prometem[-lhes] o ódio», lançara ele [2]. Macron renunciara até à sua irrepreensível modéstia para desafiar dois destes incendiários, o dirigente de extrema-direita italiano Matteo Salvini e Viktor Orbán: «Se eles quiseram ver na minha pessoa o seu opositor principal, eles têm razão».

A 16 de Julho último, quando os eurodeputados confirmaram a escolha dos chefes de Estado e de governo, as proclamações de campanha – «progressistas» contra nacionalistas – cederam novamente lugar a uma configuração política totalmente diferente. Os parlamentares socialistas tanto votaram contra Ursula von der Leyen (os franceses e os alemães, nomeadamente) como a favor (os espanhóis e os portugueses). E, neste último caso, encontraram-se com os nacionalistas polacos e os fiéis de Orbán. Isto é, exactamente com os que Marine Le Pen aliciava alguns dias antes, com o objectivo de com eles formar um grupo comum em Estrasburgo… Definitivamente, a candidata de Macron ficará a dever o facto de ter sido eleita para a presidência da Comissão Europeia, o que conseguiu com uma maioria de apenas nove votos, a uma coligação heterogénea que incluiu os treze parlamentares húngaros fiéis a Viktor Orbán, bem como os catorze eurodeputados «populistas» do Movimento 5 Estrelas, na altura aliado de Matteo Salvini.

Esta cartografia do escrutínio põe seguramente de parte as historietas que todas as manhãs são contadas aos ouvidos das sensatas e disciplinadas crianças europeias. Apostemos contudo que, mesmo quando as temperaturas regressarem a níveis normais no Velho Continente, a maior parte dos jornalistas vai continuar a repetir as categorias artificiais com que Emmanuel Macron os coze em lume brando.


[1] Ler Serge Halimi e Pierre Rimbert, «Liberais contra populistas, uma clivagem enganadora», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2018.

[2] Discurso da Sorbonne, Paris, 26 de Setembro de 2017.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

União Europeia | CHEGA A URSULA, PARTE O JUNKERS - TUDO PIORA

 
 
 
Chama-se Ursula Von der Leyen, e é alemã, a nova presidente da Comissão Europeia; Fiquemo-nos pela Ursula, para simplificar o pronunciar! Esta nomeação, foi o principal resultado, de três dias de debate acirrado no Conselho da Europa; pela partilha dos lugares de topo na Europa; uma guerra de influências entre o conjunto dos países europeus, em que cada um tentou fazer valer os seus interesses; será sempre de extremo interesse, ter bons amigos no poder; pois a visão da política, de toda esta gente, é o de comércio de influências; mas tem-se visto, que estas amizades valem o que valem; nas grandes horas H, o que valem são os interesses fundamentais de quem manda; o resto, são bocaditos de pão, e demagogias internas, para entreter o pessoal; principalmente quando nos referimos aos países mais pequenos.
Mas algo mudou, durante estes últimos anos na Europa; a correlação de forças entre as várias famílias europeias alterou-se; a partilha pacífica de lugares de destaque, entre os Populares Europeus, Socialistas e Liberais findou. Os desastres eleitorais, protagonizados por socialistas e sociais-democratas, nos principais países europeus, devido ao olvidar dos princípios social-democratas, quando assumiam o poder, enfraqueceu-os. Cientes disso, tentaram a ultrapassagem, pela berma; tentaram cozinhar, à margem da recente cimeira do G20, uma proposta de candidato na pessoa de um socialista holandês; um tal Frans Timmermans; um daqueles socialistas em risco de desemprego, já que o seu partido, na Holanda, praticamente desapareceu. Tal pareceu ter o apoio da Merkel; só que depois, tudo se virou! Pois os da Europa Central, também são muito práticos em termos de controlo do poder! Eles desta vez não precisavam de um “boneco”; também não devem ter gostado das últimas escolhas; o penúltimo, um oportunista sem escrúpulos; o último, um bêbado batoteiro.
Assim as escolhas do antigo bloco dominante foram bloqueadas, pelo grupo de países de Visegrado; Polónia, Hungria, Republica Checa, Eslováquia; para grande irritação do António Costa, e dos seus companheiros; mas no fim de tanto partir pedra, apareceu a Ursula; tirada da algibeira, como solução milagrosa; e bem milagrosa! 
Primeiro, porque resolve o problema alemão; até ao presente, o governo da Merkel, serviu de ponte entre os interesses das multinacionais europeias e a Comissão Europeia; mas esta correia de transmissão, estava em perigo, devido aos péssimos resultados eleitorais da CDU na Alemanha, com a ascensão dos verdes e da extrema-direita alemã; a estrutura do poder na Alemanha pode vir eventualmente a alterar-se; assim nomeia-se esta senhora; uma ministra ligada a grandes escândalos na Alemanha; mas fiel representante desses interesses; esta Ursula, na Comissão Europeia, terá nas suas mãos, a defesa dos tais interesses na Europa; será ela a dar as ordens, que antes eram dadas pela Merkel!
 
 
Segundo aspecto; como alemã, ligada aos interesses multinacionais, todos os países lhe proporcionarão respeito; pois quem tem a faca para a partilha da decisão das benesses orçamentais, será ela; e viu-se, pelo apoio unanime que lhe concederam; ninguém arriscou ficar à margem; muito menos aqueles que apoiavam o tal Timmermens; que apesar de danados, por perceberem que foram marginalizados, dentro da “caldeirada”, não arriscaram qualquer oposição; no fim deram-lhes um prémio de consolação; a eleição de um socialista italiano, para presidente do parlamento europeu; enfim…! Um grande destaque à prenda, se deu; como se grande coisa, fosse!
Terceiro aspecto, a eleição dos olhos gelados da Ursula, centra de vez o poder na Europa, na zona central da mesma; o resto passa a ser periferia; muito provavelmente, as posições do Partido Popular Europeu inflexionarão à direita, para coabitar com as da direita radical ; acredito, que a Europa irá ser menos liberal, e mais nacional-europeista; irá ser mais autónoma, no contexto geo-politico mundial; o que previsivelmente implicará, a formação do tal exército europeu e a militarização da Europa; uma subalternização cada vez mais acentuada dos países pequenos; e enfim, a consolidação do imperialismo interno e o despontar do imperialismo externo europeu.
Desta Europa, estilo Ursula, só espero mais arbítrio e subjugação; perca de identidade nacional; menos democracia; menos soberania! Até um dia.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Meia dúzia de notas no fim do querido mês

1.Parafraseando Mao, há caos debaixo dos céus do G-7, a situação é excelente. Esta organização dos ricos capitalistas, que merece ir para o caixote do lixo da história, foi criada, em 1975, em reacção à assertividade do chamado nacionalismo internacionalista do Terceiro Mundo, manifestada, por exemplo, pela aprovação na ONU, em 1974, do projecto de Nova Ordem Económica Internacional. Este assentava, entre outros, no controlo nacional dos recursos estratégicos. Um espectro a esconjurar pelo G-7. 2.As contradições aparentes entre os países do G-7 e a perigosa deriva russofóbica e sinofóbica, sintomas da preocupação com a necessária multipolaridade que aí se exprime, só são ultrapassadas pela hipocrisia dos países mais ricos em relação à Amazónia que arde. Não é apenas o facto de haver empresas multinacionais do Atlântico Norte aí directamente envolvidas, é também, por exemplo, o facto de a UE ter assinado um princípio de acordo de comércio e investimento ditos livres com o Mercosul de Bolsonaro e de Macri, dando fôlego a uma agronegócio de exportação que avança em direcção à floresta. 17 ago 09 fotografia 33.Como bom globalista, António racha-sindicalistas Costa conseguiu ter o topete de defender este acordo, típico da globalização neoliberal, com o argumento de que haveria uma qualquer cláusula ambiental nele contido. Enfim, a protecção do ambiente requer, pelo contrário, desglobalização, cadeias de valor menos extensas e mais localizadas, menos picanha e carne das pampas deste lado. A incrustração nacional e local de partes crescentes da economia é uma questão de controlo democrático e sem este não há planeamento com preocupações ambientais ou outras que nos valha. 4.Este tipo de acordo com Mercosul deve ser atirado para o caixote do lixo da história, tal como a máquina de liberalização chamada UE que o promove. Que haja gente de esquerda que ainda acha que uma UE que faz acordos destes com gente desta merece ser defendida como uma espécie de baluarte anti-fascista é algo que escapa à compreensão. Na realidade, a UE é hoje uma máquina de geração de fascismo em parte do continente. Os mecanismos gritam. O anti-fascismo, hoje como ontem, só floresce com enraizamento nos concretos solos pátrios, o que não é incompatível, antes pelo contrário, com o internacionalismo mais consequente. 5.  É realmente intolerável, mas sintomático de uma tentação autoritária que casa bem com o globalismo, que o nosso Ministério Público pareça andar agora à caça de sindicatos, complemento do braço direito do Estado à histeria de verão de elites, incluindo de certa esquerda. Esta última é a que não só não mexe uma palha por quem trabalha, como até convive bem com quem aprova prolongamentos da experiência da mais absoluta precariedade e aceita a herança da troika para o mundo do trabalho, desculpem, da colaboração, assim é que é. 6. António racha-sindicalistas Costa diz que não quer a esquerda no governo. Realmente, nesta correlação de forças e com o PS neste estado ideológico, a irrepetível solução foi o melhor que se conseguiu e com nervos de aço para remover as direitas do poder. Esperando assistir a mudança na tal correlação, espero não assistir aos apelos dos do costume para não sei que convergências, baseadas em não sei que vagos programas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Os excluídos...

«O Summer CEmp é, segundo a Representação da Comissão Europeia em Portugal, um seminário que decorre entre 27 e 30 de Agosto, em Monsaraz (Évora), para «40 estudantes universitários portugueses, entre os 18 e os 30 anos, de todos os pontos do País, dando-se prioridade a formação na área das relações internacionais, ciência política, comunicação e jornalismo».
 
Nesta terceira edição do Summer CEmp participarão (...) os comissários europeus Carlos Moedas e Julian King, os ministros Mário Centeno e Tiago Brandão Rodrigues, as secretárias de Estado Ana Paula Zacarias e Maria do Céu Albuquerque, os embaixadores João Vale de Almeida e Tarja Laitiainen, os eurodeputados Francisco Guerreiro (PAN), Lídia Pereira (PSD) e Marisa Matias (BE) e os deputados Duarte Marques (PSD) e Pedro Mota Soares (CDS-PP).»
Ler aquitexto mais completo e muito mais direto.
Eu apenas pergunto: falta alguém? quem?
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A “União” Europeia e a “democracia” deles e dos de cá

Por incrível que pareça
Comissão Europeia exclui PCP de iniciativa em Portugal 28 de Agosto de 2019
A Representação da Comissão Europeia em Portugal  excluiu o PCP e o PEV da iniciativa Summer CEmp, a decorrer em Reguengos de Monsaraz.
Nesta terceira edição do Summer CEmpparticiparão, entre outros que não representantes do PCP e do PEV, os comissários europeus Carlos Moedas e Julian King, os ministros Mário Centeno e Tiago Brandão Rodrigues, as secretárias de Estado Ana Paula Zacarias e Maria do Céu Albuquerque, os embaixadores João Vale de Almeida e Tarja Laitiainen, os eurodeputados Francisco Guerreiro (PAN), Lídia Pereira (PSD) e Marisa Matias (BE) e os deputados Duarte Marques (PSD) e Pedro Mota Soares (CDS-PP).
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Créditos / vozdaplanicie.pt/
 
Segundo o Gabinete de Imprensa do PCP, esta iniciativa contará com um «painel de oradores representantes de todas as forças políticas com representação parlamentar quer na Assembleia da República, quer no Parlamento Europeu, à excepção do PCP e do PEV, para além de representantes de outras forças políticas sem representação parlamentar, não tendo o PCP recebido qualquer convite, a que nível fosse, para a participação como interveniente de um seu representante».
 
Trata-se, segundo o PCP, «de uma iniciativa financiada com dinheiro público, que se prevê tenha grande projecção mediática, a pouco mais de um mês de um acto eleitoral de grande importância para o País, da qual a Representação da Comissão Europeia em Portugal optou por excluir e silenciar o PCP e outras forças que integram a CDU – Coligação Democrática Unitária». Uma exclusão que os comunistas consideram «uma prática discriminatória particularmente grave, que visa, de forma intencional, omitir do debate político o PCP e quaisquer visões divergentes da actual integração capitalista europeia, configurada pela UE, limitando o espectro político representado e a pluralidade do debate político democrático», com o objectivo de «contribuir para condicionar a opinião pública, não apenas quanto à União Europeia, mas igualmente face ao acto eleitoral que se avizinha».
 
O Summer CEmp é, segundo a Representação da Comissão Europeia em Portugal, um seminário que decorre entre 27 e 30 de Agosto, em Monsaraz (Évora), para «40 estudantes universitários portugueses, entre os 18 e os 30 anos, de todos os pontos do País, dando-se prioridade a formação na área das relações internacionais, ciência política, comunicação e jornalismo».
 
Nesta terceira edição do Summer CEmp participarão, entre outros que não representantes do PCP e do PEV, os comissários europeus Carlos Moedas e Julian King, os ministros Mário Centeno e Tiago Brandão Rodrigues, as secretárias de Estado Ana Paula Zacarias e Maria do Céu Albuquerque, os embaixadores João Vale de Almeida e Tarja Laitiainen, os eurodeputados Francisco Guerreiro (PAN), Lídia Pereira (PSD) e Marisa Matias (BE) e os deputados Duarte Marques (PSD) e Pedro Mota Soares (CDS-PP).
Denunciar o gangsterismo político um dever de todos os democratas

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Comissão Europeia exclui PCP de iniciativa em Portugal

Os comunistas acusam a Representação da Comissão Europeia em Portugal de ter excluído o PCP e o PEV da iniciativa Summer CEmp, a decorrer em Reguengos de Monsaraz.

Créditos / vozdaplanicie.pt/

Segundo o Gabinete de Imprensa do PCP, esta iniciativa contará com um «painel de oradores representantes de todas as forças políticas com representação parlamentar quer na Assembleia da República, quer no Parlamento Europeu, à excepção do PCP e do PEV, para além de representantes de outras forças políticas sem representação parlamentar, não tendo o PCP recebido qualquer convite, a que nível fosse, para a participação como interveniente de um seu representante».

Trata-se, segundo o PCP, «de uma iniciativa financiada com dinheiro público, que se prevê tenha grande projecção mediática, a pouco mais de um mês de um acto eleitoral de grande importância para o País, da qual a Representação da Comissão Europeia em Portugal optou por excluir e silenciar o PCP e outras forças que integram a CDU – Coligação Democrática Unitária». Uma exclusão que os comunistas consideram «uma prática discriminatória particularmente grave, que visa, de forma intencional, omitir do debate político o PCP e quaisquer visões divergentes da actual integração capitalista europeia, configurada pela UE, limitando o espectro político representado e a pluralidade do debate político democrático», com o objectivo de «contribuir para condicionar a opinião pública, não apenas quanto à União Europeia, mas igualmente face ao acto eleitoral que se avizinha».

O Summer CEmp é, segundo a Representação da Comissão Europeia em Portugal, um seminário que decorre entre 27 e 30 de Agosto, em Monsaraz (Évora), para «40 estudantes universitários portugueses, entre os 18 e os 30 anos, de todos os pontos do País, dando-se prioridade a formação na área das relações internacionais, ciência política, comunicação e jornalismo».

Nesta terceira edição do Summer CEmp participarão, entre outros que não representantes do PCP e do PEV, os comissários europeus Carlos Moedas e Julian King, os ministros Mário Centeno e Tiago Brandão Rodrigues, as secretárias de Estado Ana Paula Zacarias e Maria do Céu Albuquerque, os embaixadores João Vale de Almeida e Tarja Laitiainen, os eurodeputados Francisco Guerreiro (PAN), Lídia Pereira (PSD) e Marisa Matias (BE) e os deputados Duarte Marques (PSD) e Pedro Mota Soares (CDS-PP).

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https://www.abrilabril.pt/nacional/comissao-europeia-exclui-pcp-de-iniciativa-em-portugal

Elisa Ferreira na Comissão Europeia: que política esperar?

A economista, proposta para comissária pelo Governo do PS, contou já com declarações de apoio de dirigentes do PSD e do BE. O PCP alerta que o mais importante são as «políticas que vão ser seguidas».

Elisa Ferreira, Mário Centeno e Carlos Costa durante a conferência «Portugal: Reforma e crescimento na Zona Euro» organizada pelo Banco de Portugal e FMI. Lisboa, 25 de Março de 2019CréditosJoão Relvas / Agência LUSA

Após a proposta avançada por António Costa para que a ex-ministra Elisa Ferreira venha a integrar a Comissão Europeia, diversas vozes dos vários espectros políticos vieram saudar a escolha, em particular por se tratar de uma mulher.

Entre elogios à sua experiência e competência «com rede europeia», Paulo Rangel, deputado do PSD ao Parlamento Europeu (PE), em declarações à Lusa, destaca o facto de ser, neste cargo, «a primeira mulher portuguesa».

Marisa Matias, eleita pelo BE no PE e falando à mesma agência, admitiu que ambas convergiram «na crítica à política económica monetária europeia […] e à austeridade», e assumiu que espera «que Elisa Ferreira possa ser essa voz forte», mesmo tendo em conta o quadro em que se verificou «o apoio explícito do PS à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, que tem uma política diferente».

Já para João Ferreira, deputado do PCP ao Parlamento Europeu (PE), ouvido pela Antena 1, «interessa muito o tipo de políticas que vão ser seguidas, mais do que quem vai a ser a pessoa designada para as levar a cabo. […] A experiência do PS no PE – numa composição da qual Elisa Ferreira fazia parte – não é propriamente positiva, no sentido em que foram tempos em que, neste domínio dos assuntos económicos, monetários e financeiros, houve sempre uma convergência da social-democracia europeia e do PS com a direita».

A actual vice-governadora do Banco de Portugal tem um vasto currículo em cargos políticos, tendo sido ministra dos governos do PS entre 1995 e 2002 e eleita ao PE entre 2004 e 2016, integrando em todo esse período a Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários. A socialista tem assim assumido, na sua carreira, responsabilidades directas em diversas medidas no âmbito do sistema financeiro de política económica, orçamental e fiscal.

Questões em que o PS sempre deu o seu o voto favorável, como é o caso do pacote da governação económica da União Europeia (UE), não permitem antever que, com Elisa Ferreira no cargo de comissária europeia, seja promovida qualquer inversão das políticas económicas e financeiras que vêm sendo seguidas a partir da vontade dos grandes decisores da UE e das suas instituições.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/elisa-ferreira-na-comissao-europeia-que-politica-esperar

União Europeia | De braços bem fechados

 
 
Não haja ilusões, nem equívocos: aos braços abertos, estendidos aos refugiados pela boa vontade isolada de alguns grupos de pessoas, a União Europeia contrapõe uma política de braços bem fechados.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
Os pouco mais de cem refugiados que penavam à deriva no Mediterrâneo a bordo do barco Open Arms desembarcaram, finalmente, em Lampedusa, Itália. Cem refugiados, cem vidas salvas à condição, mas uma parcela ínfima de um drama que persiste mesmo quando a comunicação social domesticada não dá por ele. A embarcação, porém, foi apresada: parece que salvar vidas é crime.
 
Os náufragos desembarcaram por ordem de um tribunal italiano porque, ao menos uma vez, a justiça conseguiu sobrepor-se a uma política sinistra que não é apenas de Itália – ao contrário do que pretende fazer-se crer – mas de toda a União Europeia. A realidade é esta, não haja ilusões nem equívocos: aos braços abertos, estendidos aos refugiados pela boa vontade isolada de alguns grupos de pessoas, a União Europeia contrapõe uma política de braços bem fechados. Como tenazes.
 
É verdade que, na iminência do desembarque, o governo espanhol mandou um navio de guerra para recolher os náufragos. Porque se tratava de uma «emergência humanitária», disse. Explicação estranha depois de o mesmo governo não ter permitido ao próprio Open Arms recolher-se a um porto espanhol, durante as mais de duas semanas em que andou à deriva1.
 
 
No guião de uma novela assente na interrelação entre os refugiados que procuram abrigo em costas europeias e os picantes episódios da crise política em Itália – e só praticamente por causa dela volta a falar-se no drama humano que cruza ininterruptamente as águas do Mediterrâneo Ocidental – não cabem, sem surpresa, os aspectos essenciais da chamada «crise dos refugiados».
 
Não são «migrantes» ou «imigrantes», como tantas vezes se lhes chama. São seres humanos que procuram sobreviver fugindo da fome, de guerras, do caos climático, de perseguições étnicas, políticas e religiosas.
 
São refugiados.
 
Bruxelas não sabe agora o que fazer com as cem pessoas que chegaram a Lampedusa, um número que representa a sétima parte dos deputados do Parlamento Europeu numa União com 600 milhões de pessoas. Convenhamos que é uma tarefa difícil: acolher uma centena de vivos depois de se contarem por muitos milhares os que já morreram afogados por buscarem o mesmo destino.
 
A questão fundamental da situação não tem a ver com as chamadas «políticas de imigração» deste ou daquele governo da União Europeia; não nasceu por geração espontânea depois da entronização de executivos que já se assumem abertamente como xenófobos, depois de outros lhes franquearem o caminho praticando, de forma encapotada, essa mesma política. Outra vantagem que têm os barcos errando pelo Mediterrâneo recolhendo náufragos – além de salvar vidas – é a de exporem, para quem quiser ver, o vergonhoso e desumano jogo do empurra a que se dedicam todos os governos dos países da União Europeia, tenham costas marítimas na zona de crise ou não, sejam socialistas ou sociais-democratas, direitistas, nacionalistas ou mesmo fascistas.
 
Se dúvidas houvesse em relação ao desprezo pelos direitos humanos em que assentam as políticas europeias, a atitude da União perante os refugiados deixa tudo bem espelhado.
 
Um pouco de história
 
Fazer do mussoliniano Salvini o mau da fita é um descarado exercício de procura do velhíssimo bode expiatório, como se apenas as suas atitudes viessem instaurar uma crise que afinal se arrasta há muitos anos e se agravou desde que potências da União Europeia e da NATO, sob o comando de sucessivos presidentes dos Estados Unidos, democratas ou republicanos, decidiram multiplicar guerras «libertadoras» em África e no Médio Oriente.
Não é altura de remontar aos efeitos das pestes colonial e neocolonial sobre as populações à escala planetária e reflectidos em milhões de refugiados à deriva ou internados em eternos campos «transitórios».
 
Concentremo-nos nos que procuram a Europa como consequência da degradação das condições de vida sobretudo em África e no Médio Oriente. Que são, ainda assim, uma pequeníssima minoria das movimentações totais, que atingem principalmente países vizinhos dos epicentros de crise como a Jordânia, o Líbano, a Turquia, a Líbia. São estes países que estão, na verdade, a contas com problemas trágicos. No Líbano, os 800 mil refugiados da guerra da Síria representam a quinta parte da população do país.
 
Comparando com estas situações, a Europa é uma privilegiada. Não são apenas os neofascismos na Hungria, na Polónia, em Itália que se recusam a receber refugiados. As deambulações do Open Arms à procura de um porto de abrigo revelam, em boa verdade, que para a União Europeia acolher um refugiado já é demais.
 
A União Europeia, porém, é uma das principais responsáveis pelas vagas de refugiados que lhe batem à porta. E que constituem uma parcela dos que perderam a vida nas águas mediterrânicas, em areias do deserto ou são enviados de volta, por exemplo, para os campos de concentração a que estão submetidos na Líbia.
 
Não chegava à Europa um único refugiado da Líbia antes de potências da União, sob bandeira da NATO, procederam à devastação do país sob pretexto de o «libertarem». Desde então, o território líbio tornou-se um paraíso das máfias de tráfico humano que exploram cada um e a totalidade dos refugiados, prometendo-lhes nova vida no Velho Continente.
 
A União Europeia é cúmplice desse tráfico, por um lado ao criar as condições objectivas para que ele exista e funcione rentavelmente; por outro lado, porque contribui directamente para alimentar essas redes mafiosas, ajudando a financiar os campos ditos de refugiados – mas que são de concentração; e apoiando também as polícias marítimas controladas, de facto, pelas milícias que dominam a Líbia, as quais têm como missão interceptar os barcos que se fazem ao mar rumo à Europa e devolvê-los à procedência por incumbência dos conselheiros europeus. Para a União Europeia, os bons refugiados são os que estão ao largo, de preferência o mais longe possível, de maneira a que não lhe cheguem os ecos dos seus trágicos destinos.
 
Também podiam contar-se pelos dedos os refugiados sírios e iraquianos que buscavam a Europa antes de ali terem chegado os arroubos «libertadores» dos mesmos de sempre. Em relação à Síria, por exemplo, o mainstream informa-nos que «a culpa é de Assad». A família Assad, porém, controla o governo de Damasco há décadas e o êxodo só existe há oito anos, quando grupos terroristas islâmicos mais ou menos «moderados», sob a asa da al-Qaeda e sustentados por potências da União Europeia e da NATO, começaram a devastar o país em nome da «democracia».
 
Salvar por obrigação
 
Na Europa existe uma reconhecida indisponibilidade para acolher barcos que transportem refugiados salvos de afogamento. Na verdade, a indisponibilidade é mais lata: abrange todos os refugiados.
 
Por outro lado, quando alguns escapam ao crivo, e são cada vez menos, a União Europeia é incapaz de chegar a um acordo de rateio para que sejam repartidos pelos 28 países. Bruxelas aceita que Estados membros se recusem, pura e simplesmente, a receber um único refugiado mesmo que haja decisões sobre quotas de distribuição.
 
A União Europeia, alérgica a refugiados, tornou-se um vasto e repugnante mecanismo para dar largas à xenofobia.
 
A União Europeia financia campos de concentração na Líbia para impedir que refugiados embarquem para a Europa; paga a polícias marítimas para travarem as embarcações precárias que conseguem fazer-se ao mar – depois de os passageiros terem sido espoliados de todos os seus bens pelas máfias de tráfico humano.
 
A União Europeia prometeu pagar três mil milhões de euros anuais à Turquia para fechar as suas fronteiras europeias, de modo a impedir a passagem de refugiados. O embaraço em Bruxelas agora é grande porque Ancara vai deixar de cumprir o «acordo» – usando as zonas fronteiriças como instrumentos de chantagem.
 
Na União Europeia erguem-se muros, alinham-se cercas, escavam-se valas para caçar refugiados.
 
Em tempos, quando o mussoliniano Salvini ainda nem sequer era um projecto para governar Itália, um alto responsável do Frontex, a «polícia marítima» da União Europeia, explicou que não era missão da organização recolher refugiados náufragos – e que só o fazia por ser uma imposição do direito marítimo.
 
É difícil expor melhor o humanismo do estado de espírito da União Europeia em relação a quem pretende apenas sobreviver, se possível com dignidade.
 
Imagem:Desde a intervenção da NATO na Líbia, um Estado que acolhia imigrantes, o país norte-africano, controlado por milícias, passou a ser uma das principais rotas de passagem de migrantes e refugiados com destino à Europa Créditos/ ladomenicasettimanale.it
 
Nota: 1. O governo espanhol do socialista Pedro Sanchéz ameaçou a catalã Open Arms, no passado mês de Julho, com multas que poderiam ir até 900 mil euros, caso voltasse a tentar resgatar migrantes ao largo da Líbia. «Se temos que decidir entre ser cúmplices no assassinato de pessoas ou ser multados, a nossa decisão é muito clara, (...) preferimos ficar presos em vez de ser cúmplices», respondeu Anabel Montes, a chefe de missão da ONG. Europa Press, 3 de Julho de 2019. Sobre o comportamento do governo de Sanchéz escreve Gabriel Beceiro, no galego Ollaparo, a 21 de Agosto de 2019, ser contra o Código Penal espanhol e contra a Convenção Internacional do direito marítimo.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/uniao-europeia-de-bracos-bem-fechados.html

Reino Unido | O que Johnson espera de encontro com Merkel?

 
 
Primeiro-ministro do Reino Unido exige a reabertura de negociações com a UE sobre o Brexit. Por trás da reunião com a chanceler federal alemã pode estar esperança de obter concessões e tentativa de mostrar esforço aos britânicos.
 
Quando, nesta quarta-feira (21/08), o chefe de governo britânico, Boris Johnson, se encontrar com sua homóloga alemã, Angela Merkel, em Berlim, para discutir o impasse do Brexit, dois mundos distintos entrarão em colisão.
 
De um lado, está o comportamento impulsivo, muitas vezes desastrado, do inglês, associado a sua retórica populista e tendência de ser econômico com a verdade. Do outro, a democrata-cristã que é a própria encarnação de uma abordagem metódica, analítica e sem firulas para lidar com situações difíceis.
 
Mesmo nos melhores tempos, seria necessário um grande esforço para imaginar os dois encontrando muito campo comum. Devido à natureza agressiva e turbulenta das discussões sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, contudo, uma reaproximação parece mais distante do que nunca.
 
 
De fato, excetuada alguma mudança de atitude de última hora, a percepção é que é improvável as conversas de Johnson com Merkel e com o presidente francês, Emmanuel Macron – com quem ele tem reunião marcada na terça-feira –, gerarem qualquer tipo de avanço.
 
"A interpretação cínica é que isso se dirige ao público doméstico, [com Johnson] dizendo que tenta uma última vez. A UE dirá 'não', o acordo de separação tem que ser mantido. E aí, ele poderá retornar com essa espécie de legitimação extra", analisa Charlotte Galpin, professora de política alemã e europeia na Universidade de Birmingham.
 
O primeiro-ministro está basicamente jogando o jogo da culpa e dirá a Merkel e Macron que, caso a UE não ofereça um novo acordo, seu país abandonará o bloco sem acordo nenhum. E a provável resposta deles será tão previsível e consistente como sempre: "Não reabriremos o acordo de rompimento entre Bruxelas e Londres, e com toda certeza não vamos retirar o backstop."
 
Este último é um componente-chave do acordo e entrará em jogo, caso, até o fim de 2020, não se chegue a um acerto para evitar uma "fronteira dura" entre a República da Irlanda, membro da UE, e a Irlanda do Norte, parte do Reino Unido, o qual implicaria a manutenção de uma relação estreita entre Londres e o bloco europeu, por um prazo indefinido.
 
A resposta de Johnson tem sido igualmente sumária: neste caso, ele não teria qualquer escrúpulo em tirar o Reino Unido da UE sem acordo, em 31 de outubro próximo.
 
O tom entre ambas as partes – e, com grande probabilidade, mais do lado britânico – tem se tornado crescentemente beligerante. Galpin aponta como Johnson e sua equipe "estão usando muita linguagem militar, construindo o acordo como uma espécie de guerra". A ideia é que "estamos indo para a batalha, e que os britânicos não devem capitular; que os opositores no país estão colaborando com a UE: acho que esses encontros são parte dessa encenação".
 
O governo alemão, é claro, tem feito seu trabalho de casa ao se preparar para um cenário sem acordo. Um documento interno recente do Ministério das Finanças indica "alta probabilidade" de um "no-dealBrexit" em 31 de outubro, considerando "inconcebível" que Johnson atenue sua posição quanto ao backstop irlandês.
 
O texto enfatiza a firme oposição de Berlim a qualquer renegociação do acordo de rompimento, como exige o premiê conservador, dizendo ser "crucial" todos os Estados-membros da UE se manterem unidos, sem "perder a calma", diante da perspectiva de um Brexit desordenado.
 
A Alemanha já aprovou mais de 50 leis e outras medidas no sentido de um Brexit sem acordo. Elas incluem o recente pacto sobre serviços financeiros transnacionais entre a Autoridade Federal de Supervisão Financeira (BaFin) e sua equivalente britânica, a Autoridade de Conduta Financeira (FCA). Berlim também contratou mais 900 funcionários alfandegários para lidar com um esperado acúmulo de requerimentos de liberação de bens nas fronteiras.
 
Quem precisa mais da UE?
 
A impressão generalizada é que Johnson pensa que a Alemanha precisa mais do Reino Unido do que vice-versa. A ilha decerto é uma importante parceira econômica – nem mais nem menos.
 
"O mais importante para a Alemanha é o mercado único e os negócios com os países-membros restantes da UE. Então, há um limite para o que a Alemanha vá oferecer. E há o outro aspecto prático: desde o início as negociações do Brexit foram delegadas à Comissão Europeia, sob [o negociador-chefe da UE sobre o Brexit] Michel Barnier. Portanto Berlim, por si só, na verdade não tem muito controle sobre o processo", explica Galpin.
 
O raciocínio do premiê britânico parece ser que se, de algum modo, ele conseguisse obter mais concessões de Merkel, os demais no bloco europeu a seguiriam.
 
"A ideia é que a chanceler federal alemã seria muito mais flexível e aparentemente aberta para uma política mais leniente e uma abordagem mais flexível das negociações. De fato, a França parece muito mais linha-dura. Então, se ele [Johnson] conseguir algumas concessões de Merkel, haveria uma chance de reabrir as negociações. Portanto acho que é esse o cálculo", analisa o professor Hussein Kassim, associado ao think-tank UK in a Changing Europe.
 
"Os 27 da UE, na verdade, têm se mantido notavelmente unificados nessa questão, o tempo todo. Se você pensar em como eles estão divididos em outras questões que confrontam a Europa, o fato de terem preservado uma linha consistente é bastante espantoso", observa Galpin.
 
No mínimo, Johnson tem a esperança de poder semear algumas sementes de dúvida e satisfazer a seus apoiadores em casa, onde o debate é bem diferente, segundo Kassim.
 
"Não há necessariamente uma apreciação, entre o público, a classe política ou a mídia britânica do que está acontecendo, exatamente. Então acho que, nestas circunstâncias, a missão diplomática talvez seja interpretada segundo seu valor de fachada. As pessoas não vão ser críticas ou inquisitivas, como se poderia antecipar."
 
Robert Mudge (av) | Deutsche Welle
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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O Estado e os novos desafios – II

Os bancos estatais perderam a sua influência em favor de um único banco central da U.E. que, tenta elencar através do setor privado toda a vida económica e por essa via controlar as sociedades dos diversos Estados.

 

 

Neste contexto, o sistema financeiro tal qual o conhecemos com dinâmicas próprias de ajustamento tem sido, nos últimos tempos, onde se tem operado, também, as maiores transformações e, por consequência direta e indireta, a sua ação  primária de compra e venda de moeda com suporte Estatal em valor real de materiais raros ou de matérias primas com procura acrescida consoante os tempos, à presente criação da transação artificial em suporte virtual através de sistemas operativos alojados.

Temos assim que, a compra e venda de moeda física pelas entidades bancárias com a supervisão de bancos nacionais, no espaço da U.E. desapareceu para ceder lugar a um só banco. O Banco Central Europeu. A moeda deixou de ter a chancela nacional para ter chancela da União e uma nova designação. Euro.

E, como em tudo na vida, as transformações que acontecem geram sempre convulsões próprias.

Os bancos estatais perderam a sua influência em favor de um único banco central da U.E. que, tenta elencar através do setor privado toda a vida económica e por essa via controlar as sociedades dos diversos Estados.

O problema é que a História das civilizações mudou de ritmo lento para um outro ritmo demasiado acelerado tendo em conta a sua dimensão comparativamente à dimensão da capacidade Humana em discernir.

Os problemas Nacionais deixaram há muito de o ser para se converterem em problemas de escala global.

E, essa nova conjuntura, exige medidas de fundo estruturais adequadas direcionadas para um melhor desempenho na gestão dos recursos naturais o que passa por uma autêntica revolução educativa geradora de novos conceitos para novas abordagens.

A sustentabilidade da Segurança Social passa, tal e qual outros Ministérios, pela partilha da receita bruta do Estado que neste momento financia a banca por motivo da estabilidade financeira e outros setores privados como a agricultura, as pescas, a indústria, o turismo, entre outros e, se esquiva da sua obrigação para com os cidadãos que é a razão da sua existência.

O paradigma da iniciativa privada sem investimento dos interessados sustentada por políticas europeias de “tapa buracos” que semeiam à sua volta a subsidiodependência não tem futuro e condiciona o futuro das gerações vindouras que se debaterão com um conceito de estigmatizado de que “quem vier atrás que feche a porta”.

Importa por isso à cidadania olhar o Estado como meio e não como protetor e, aos agentes económicos a consciência de que o lucro tem de ser o resultado do investimento com riscos e não a cultura de que “só perde quem tem” dando azo á irresponsabilidade na assunção das responsabilidades inerentes.

A organização política e financeira carece de ajustamento ao tempo assim como a educação e os seu valores estruturais de suporte.

A Humanidade enfrenta hoje um desafio que ultrapassa o pensamento mediano incapaz de tomar medidas e que exige soluções novas perante o colapso previsível das existentes.

 
Parte I
 
 
 

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 
 
 
 

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https://www.jornaltornado.pt/banco-central-o-estado-e-os-novos-desafios-ii/

Processo às Instituições Europeias por Crimes contra a humanidade

Dois jovens advogados baseados em Paris, Juan Branco, de nacionalidade espanhola, e Omer Shatz, de nacionalidade israelita, instruíram um processo endereçado ao Tribunal Criminal Internacional contra as instituições europeias acusando-as de deliberadamente terem provocado a morte de muitas das 14.000 vítimas de naufrágio registados de 2014 a 2019 nas costas europeias do Mediterrâneo a fim de dissuadir outros potenciais emigrantes.

 

 

 

Pela minha parte, penso que a iniciativa dos dois jovens advogados só peca por tardia e que há muito que a União Europeia recorre a formas bárbaras – que passa pelo puro assassínio – para manter afastada uma massa imensa de gente que foge da guerra, da perseguição, da fome ou que pura e simplesmente procura o melhor para si e para os seus.

A argumentação legal que utilizam os dois jovens parece-me sólida e será incompreensível que o Tribunal Penal Internacional não venha a considerar a abertura do processo.

Trata-se de uma crescente brutalização da humanidade, que passou pela criminalização da emigração e por uma crescente insensibilidade, colaboração com o crime quando não pela sua prática.

Em artigo publicado em Julho de 2008 no jornal de Bruxelas “New Europe” opunha-me à directiva aprovada em Junho pelo Parlamento Europeu – e entrada em vigor no final do ano – que previa o encarceramento de emigrantes ilegais e fazia notar o apoio entusiástico que lhe tinha dado a extrema-direita austríaca.

De lá para cá a situação veio a piorar, com a crescente criminalização não só de quem emigra mas também de quem dá qualquer apoio humanitário a essas pessoas, sendo que a alternativa política é cada vez mais entre os que defendem abertamente essa política e os que o fazem de forma camuflada envolvendo-a num manto feito de hipocrisia e pura mentira.

O caso mais célebre é o de um olivicultor francês de uma zona fronteiriça, Cédric Herrou, condenado por dar abrigo a 200 emigrantes fugidos da Itália numa gare de comboios abandonada. Depois de uma tremenda pressão sobre o sistema de justiça, primeiro o tribunal da relação e depois o Tribunal Constitucional (que em França, como em Portugal, é mais político do que jurídico) ele foi quase totalmente ilibado, tendo-se criado uma jurisprudência que reconhece o princípio constitucional da ‘fraternidade’ como se sobrepondo a qualquer lei ordinária anti-imigrantes.

A Itália aparece aqui como contraponto dado que o seu Ministro do Interior demissionário defende sem o esconder o princípio da criminalização de qualquer acto humanitário para com quem quer que seja considerado ilegalmente em território italiano.

Entender os princípios essenciais

Creio que não iremos a lado nenhum nesta questão sem entender alguns princípios essenciais.

O primeiro é o da existência de grandes fossos nos níveis de desenvolvimento e de remuneração. A questão não é de igualizar níveis, mas é apenas de evitar que eles se tornem de tal forma grandes que faça sentido pôr a vida em risco para os atravessar. Aqui estamos perante muita coisa mas a começar pela fraqueza da chamada ajuda ao desenvolvimento e pior que isso, a sua deformação em larga escala quer por parte de objectivos escondidos de quem dá como da corrupção de quem a gere no local.

O segundo é entender que são os pobres dos países para onde se dirigem os emigrantes que pagam a factura enquanto os menos pobres tendem a lucrar com isso. No nosso país a olivicultura é um exemplo flagrante. Um exército de miseráveis migrantes que aceita trabalhar em condições que felizmente já não são aceitáveis pelos portugueses retira aos nacionais as oportunidades de trabalho, com vantagem evidente para o empresário e desvantagem para o trabalhador.

Enquanto isto não for entendido, e as elites ditas liberais ou de esquerda continuarão a empurrar a massa mais pobre e trabalhadora para os braços da extrema-direita de Salvini ou outra, acusando-a de ser racista, xenófoba e desumana.

Acresce a este facto que a migração clandestina é um grande negócio e que há muita gente disposta a pagar somas por vezes enormes para fugir da guerra ou apenas para se livrar de problemas. É assim que na nossa Europa os criminosos islamistas ou os seus cônjuges que praticaram genocídio sobre minorias (e que as roubaram) têm mais facilmente as portas abertas que essas mesmas minorias.

Em terceiro lugar, a fraternidade tem de jogar obviamente nos dois sentidos. O exemplo da Congressista democrata norte-americana Ilhan Omar, refugiada da Somália nos EUA, é paradigmático, ao sugerir que ‘devemos ter mais medo do homem branco do que dos jihadistas’ depois de ter fugido de um país devastado pelo jihadismo.

 

A questão é que mesmo quando as pessoas fogem para preservar a vida, nem sempre são capazes de se separar das redes mafiosas que as perseguiram em primeiro lugar, sendo que há frequentemente falsas fugas e reais infiltrações.

Mais uma vez a condescendência liberal ou de ‘esquerda’ americana pelo racismo e fascismo que supostamente vem dos povos oprimidos (na verdade vem dos que os oprimem) é a principal razão que leva à alimentação deste fascismo pintado de vermelho que naturalmente leva a que se reaja, sem muitas vezes ser capaz de distinguir o trigo do joio.

Parece-me que qualquer pessoa que mais do que um abrigo temporário queira uma pátria de refúgio tem que aceitar os valores essenciais dessa pátria de refúgio e abandonar as lógicas racistas e fascistas que imperam na sua terra de origem.

Em quarto lugar temos o problema essencial da cobardia política. Dizia Sarkozy que não poderíamos aceitar a Turquia na União Europeia porque nesse caso a Europa faria fronteira com a Síria. Nunca ocorreu a Sarkozy que o problema deveria ser colocado em relação à deriva islamo-fascista da Turquia que a afasta dos valores consagrados na União Europeia e que não são os actos políticos que fazem a geografia.

A realidade é que a cobardia política ocidental levou a que se ignorasse o drama sírio, permitindo primeiro que uma revolução democrática se transformasse num conflito entre jihadismos e depois que assistíssemos à invasão pelo imperialismo teocrático iraniano (o turco, mesmo aí, ficou muito para trás).

A invasão irano-russa da Síria (agora também um pouco alargada à Turquia) levou até agora a um milhão de vítimas, dez milhões de fugitivos e dois milhões de colonos (a maior parte trazidos pelo império teocrático iraniano do Iraque, Iémen, Líbano, Afeganistão e Paquistão, mas há também alguns sírios árabes ou turcomenos deslocados pela Turquia).

O Ocidente olhou para o outro lado (em larga medida em função de leituras erradas do que fez no Iraque ou na Líbia) e permite que tanto a Turquia como o Irão ameacem hoje provocar um êxodo massivo de refugiados se a Europa não se mostrar cooperante com os seus desígnios.

Ou seja, o refugiado, e muitas vezes aquele que passou pela lavagem ao cérebro do jihadismo, é usado como arma de arremesso pelo imperialismo que está às portas da Europa (porque a Síria está mesmo às portas da Europa, quer Sarkozy o entenda ou não) com a intenção de lançar o Caos em território europeu.

A quinta razão é a hipocrisia. É sempre mais fácil dar lições de moral ao mundo inteiro do que enfrentar os problemas reais que se tem pela frente, e o tecido político-social ocidental está profundamente corroído pela hipocrisia.

Enquanto não quisermos equacionar o que temos pela frente e nos quisermos remeter ao papel de pregadores de falsa moral fechando os olhos à realidade, vamos continuar a ter o mesmo problema.

Pela minha parte, os melhores votos para a corajosa dupla de advogados que ousou dizer que o rei vai nu.


 
 
 
 
 

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Viagem ao mundo da verdade única

 
 
Para aos dirigentes europeus só existem a verdade de Bruxelas e a mentira do Kremlin. É preto ou branco, quem discorda de Bruxelas concorda com o Kremlin e com os terroristas islâmicos.
 
 
 
Uma viagem ao mundo da «estratégia de comunicação» da União Europeia e respectivas emanações é uma experiência indispensável para confirmar os indícios de que os dirigentes europeus convivem cada vez mais desconfortavelmente com a liberdade de opinião. Na verdade, como ilustra essa incursão, já encaram a informação como propaganda, o contraditório como um abuso e a liberdade como um delito. Está aberto o caminho para a imposição da opinião única, em que se baseiam todas as formas de censura, desde a dos coronéis à dos «fact-checkers» contratados a peso de ouro por Bruxelas.
 
As poucas linhas introdutórias que o leitor acaba de consultar são uma «desinformação», à luz da «estratégia de comunicação» que a União Europeia tem vindo a por em prática desde que os chefes de Estado e de governo declararam a sua necessidade, numa cimeira em Março de 2015.
 
Uma «desinformação» porque, segundo a definição oficial chancelada pelos órgãos europeus, «distrai e divide, semeia a dúvida através da deformação e falsificação de factos para criar a confusão, mina a confiança das pessoas nos media, nas instituições e nos processos políticos estabelecidos».
 
A simples menção de que a União Europeia continua a dar mostras de uma propensão censória, fruto de uma opinião fundamentada de um jornalista, é inegavelmente uma «desinformação» porque pode «minar» a confiança dos leitores «nas instituições e nos processos políticos estabelecidos».
 
Contra isso age a União Europeia, defendendo-se através da sua «estratégia de comunicação», uma «abordagem coordenada em total conformidade com os nossos valores europeus e os nossos direitos fundamentais». Entre os quais figura, por ironia do destino, o direito de opinião.
 
 
Três mil milhões de euros de investimento
 
Esta é a ocasião em que o leitor pode supor: bom, contestar uma ideia não passa de uma fase de um debate, quanto muito de uma reprimenda moral, uma maneira talvez um pouco excessiva, é certo, de defender a narrativa oficial europeia perante opiniões que a contradizem.
 
Será mesmo assim?
 
A «estratégia de comunicação» europeia já tem o seu histórico desde 2015 através de uma coisa designada East StratCom Task Force (Task Force da Estratégia de Comunicação para Leste), associada ao Serviço Europeu de Acção Externa, e que neste ano de 2019 custa a módica quantia de três mil milhões de euros aos contribuintes europeus.
 
Os serviços da União montaram uma equipa de 16 pessoas a tempo inteiro, todas elas «com vasta experiência em áreas de comunicação» e falando muitas línguas, «entre elas o russo», para responder às opiniões que contradigam ou contrariem o discurso oficial da União Europeia e desmontá-las com supostas provas e argumentos.
 
Entre as opiniões a desmantelar estão, por exemplo, as que acusam as sanções norte-americanas de serem responsáveis pela crise na Venezuela, as que afirmam a presença de neonazis no actual poder ucraniano ou que consideram o Grupo dos Sete (G7) como uma emanação dos interesses que governam o mundo.
Caem nas más graças dos 16 verificadores ou fact-checkers aqueles que dizem ou escrevem que os Estados Unidos abandonaram o Tratado de Mísseis de Médio Alcance (INF) em benefício do seu próprio complexo militar e industrial, que a NATO fez a guerra contra a Jugoslávia violando o direito internacional ou que os «capacetes brancos» na Síria encenam ataques químicos para acusar o governo de Damasco – realidade mais do que provada.
É também uma violação «dos nossos valores europeus e dos nossos direitos fundamentais» negar – mesmo apresentando provas – que a Rússia derrubou o avião malaio que fazia o voo MH-17, dizer que Juan Guaidó usurpou a presidência na Venezuela ou que os protestos em Hong Kong são potenciados por agitadores com ligações ao estrangeiro.
 
EU vs Disinfo
 
Um dos espelhos da campanha permanente de propaganda e de divulgação da verdade única – a da União Europeia – é o website EU vs Disinfo, a União Europeia contra a desinformação.
 
Dia a dia, muitas vezes ao dia, ponto por ponto aqui podem encontrar-se as versões que incomodam a União Europeia e as verdades repostas pelos fact-checkers. É um facto que as provas e os argumentos por eles utilizados são débeis e, quase sempre, excertos de discursos ou declarações de dirigentes da União, da NATO, dos Estados Unidos, do próprio Donald Trump, como não podia deixar de ser. E quase todas as respostas começam com uma espécie de salmo decretando imediatamente a falsidade garantida da asserção: «este texto reproduz uma narrativa recorrente do Kremlin». E o resto vem por acréscimo, dir-se-ia desnecessário.
 
Por exemplo, sempre que EU vs Disinfo rebate o facto óbvio segundo o qual os Estados Unidos dinamitaram o Tratado INF recorre a uma receita padrão: em primeiro lugar, garante que se trata de «narrativa do Kremlin»; em segundo lugar recorda que foi Obama quem descobriu que a primeira violação do Tratado foi um ensaio de um míssil russo, embora o então presidente norte-americano, e o seu sucessor, não tenham apresentado qualquer prova; em terceiro lugar assegura que os ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO assumiram a versão de Obama e Trump. Fica tudo dito e sentenciado sobre o assunto. Provas para quê?
 
Assim funciona o mecanismo. Umas vezes com o primarismo que se percebe pelo que atrás foi dito; em certas situações, porém, existe mais elaboração, não tanto pelo que se afirma mas pelo que os donos da verdade escondem. É o caso, por exemplo, da cumplicidade dos Estados Unidos e da NATO com o tráfico de órgãos humanos nos Balcãs envolvendo figuras do UCK, o grupo fundamentalista islâmico que foi transformado em governo no protectorado do Kosovo. EU vs Disinfo faz os desmentidos canónicos e omite – por óbvia conveniência – a história do relatório britânico que faz luz sobre o escabroso negócio. Um documento pendente há anos no Conselho da Europa, à espera de ser debatido.
 
Para que o processo de verificação da verdade seja «independente», a União Europeia assegura que actividades como as do EU vs Disinfo não têm a chancela que as distingue como «oficiais». Apesar de Bruxelas pagar três mil milhões só este ano e a título, como sublinha, de «investimento nos domínios da vigilância e da educação». Em boa verdade, trata-se de uma grande operação de «reeducação europeísta» a que é suposto nenhum de nós escapar se quiser estar do lado da verdade única e indiscutível.
 
Uma trama ardilosa
 
A União Europeia não assume que estes processos estejam relacionados com a preocupação generalizada de combater as opiniões contrárias e contraditórias. Nada disso, assegura Bruxelas, não se trata de impor uma verdade oficial, uma opinião única.
 
A «comunicação estratégica» foi criada e existe porque «a pressão propagandística da Rússia e dos terroristas islâmicos sobre a União Europeia não deixa de aumentar». Fica definido o pretexto.
 
Deixemos de lado o facto de o EU vs Disinfo defender os «capacetes brancos», um grupo terrorista islâmico associado à al-Qaida, manifestando assim uma apreciável aptidão para os golpes de rins.
 
Esta maneira de glosar a «ameaça russa» leva-nos, de facto, muito mais longe, ao desenvolvimento de uma manobra insidiosa por parte dos propagandistas oficiais da União.
 
No quadro por eles montado só existem a verdade de Bruxelas e a mentira do Kremlin. É preto ou branco, quem discorda de Bruxelas concorda com o Kremlin e com os terroristas islâmicos.
 
Ou seja, qualquer jornalista que, exercendo com independência a sua profissão, chegue a factos e forme opiniões que não coincidam com as da União Europeia estará a servir o Kremlin ou os terroristas islâmicos – o cúmulo do delito de opinião.
 
Denunciar a situação na Venezuela, revelar que os Estados Unidos e outros países da NATO são responsáveis pela guerra contra a Síria, dizer que a invasão do Iraque se baseou em mentiras, demonstrar que as guerras da NATO contra a Jugoslávia e a Líbia, por exemplo, violaram o direito internacional e humanitário, afirmar que o regimento nazi Azov faz parte da estrutura político-militar da Ucrânia, provar que os Estados Unidos e países da União Europeia estiveram por detrás do golpe de 2014 na Ucrânia, manifestar a opinião de que a Europa é um refém militar dos Estados Unidos através da NATO são verdades consabidas, mas para a União Europeia não passam de mentiras que reflectem os inaceitáveis pontos de vista do Kremlin. Isto é, qualquer jornalista ou está com Bruxelas ou está com Moscovo. Nem vale a pena dedicar-se ao seu trabalho, investigar, procurar provas, consultar fontes. Basta-lhe seguir o que diz a União Europeia e estará a cumprir a sua missão; caso contrário identifica-se com Moscovo, incorrendo em delito de opinião.
 
A «comunicação estratégica» da União Europeia não está verdadeiramente incomodada com a propaganda de Moscovo. A «ameaça russa» funciona, hoje como ontem, de pretexto para que a maneira de a União Europeia olhar para si própria e para o mundo seja inquestionável; tal como inquestionáveis são a NATO, a vontade dos Estados Unidos, o G7, o FMI, no limite o regime neoliberal. Quem escapar a este redil, mesmo brandindo provas irrefutáveis, será uma espécie de marginal, talvez mesmo um terrorista. Tais provas não lhe valem de nada. Do outro lado, como no EU vs Disinfo, estão fontes e argumentos definitivos, impossíveis de bater ou rebater como, por exemplo, «uma ONG venezuelana», a «Constituição da Venezuela» interpretada por Guaidó, o «Grupo de Lima», a lei ucraniana «proibindo nazismo e comunismo», as sentenças de Federica Mogherini, o website Bellingcat, financiado pela NATO. Nada mais fiável e objectivo.
Ao pé da engrenagem de propaganda em desenvolvimento na União Europeia os coronéis da censura salazarista e caetanista eram incipientes e burgessos artesãos.
 
Imagem e texto também em O Lado Oculto

A importância de abreviar este momento populista

Numa interessante entrevista ao canal ARTE a antiga ministra socialista Najat Vallaud-Belkacem dá exemplo muito interessante do tipo de pedagogia a implementar junto das pessoas temerosas dos fatores de desestabilização social (caso dos refugiados e da gentrificação dos seus espaços) que não compreendem, mas julgam vir-lhes a afetar o bem-estar, defendendo por isso a necessidade de um governo autoritário. No fundo aquelas que têm dado fôlego aos diversos movimentos populistas de extrema-direita por toda a Europa à exceção do nosso cantinho à beira-mar plantado. Portugal é, para nosso justificado orgulho, a exceção numa Europa assolada por uma vaga de movimentos e partidos políticos xenófobos.

 

Perante tais pessoas Najat Vallaud-Belkacem sugere que se faça uma pergunta muito básica: «Então quer dizer que defende a existência de um governo forte com cujas políticas não concorde e a impeça de contra ele se manifestar?»

 

Invariavelmente a resposta dos interlocutores é imediata na rejeição dessa possibilidade. Momento adequado para lhe endossar a segunda questão: «Então, quer dizer que, afinal, é pela Democracia?»

 

Este exercício pedagógico tem de ser assumido pelas pessoas de esquerda a quem Najat Vallaud-Belkacem apela a que não se deixem cair numa outra armadilha dos populistas: a falsa existência de um «povo», enquanto massa informe com quem se comunique como se não fosse constituído por uma diversidade de pessoas junto das quais a empatia implica igual diferença de conteúdos e vocabulários. Esse conceito de «povo» é uma caricatura primária, que denuncia a falta de substância dos seus promotores. A exemplo do mito de uma suposta contradição entre esse povo e a «elite», que eles dizem execrar - mas que anseiam por se lhe juntar ou substituir - e configura uma estratégia que se torna urgente derrotar.

 

O populismo sempre esteve associado a reações retrógradas a poderes injustos. Nasceu como doutrina nos intelectuais russos do século XIX que, antes da Revolução Russa, pretendiam arregimentar os camponeses para combaterem o czar. Nos EUA o People’s Party foi fundado em 1891 para representar os latifundiários e camponeses na luta contra as transformações económicas e sociais suscitadas pelo crescente capitalismo industrial. Recorriam a argumentos aparentemente válidos, mas pretendiam impor falsas soluções, que nada resolveriam, antes agravariam as condições de vida dos que supostamente diziam defender.

 

Hoje, seja com o rosto de Trump ou de Putin, de Salvini ou de Orban, o populismo veste-se de cores nacionalistas, replicando os movimentos fascistas dos anos 30, como forma de rejeição do que sentem como potencialmente transformador no futuro próximo: um projeto representado por uma União Europeia que, despojada das suas políticas ultraliberais, dê provimento às expetativas criadas historicamente pelos que se filiam na sucessão de Revoluções europeias desde 1789, e reiteram a necessidade de mais liberdade, mais igualdade e mais fraternidade entre os muitos povos, que a integram.

 

É falaciosa a inexistência de grandes diferenças entre as esquerdas e as direitas em nome de um pragmatismo focalizado nos egoísmos individuais em detrimento do bem coletivo. Pelo contrário, mais do que nunca, tem de existir uma estratificação muito clara entre quem continua a defender a exploração do homem pelo homem através da mão invisível dos mercados desregulados e quem vê no Estado o ator determinante na diluição das injustas oportunidades dadas aos indivíduos só por nascerem em sítios, em classes sociais diferentes. A exemplo do que está a verificar-se nos Estados Unidos em que Bernie Sanders ou Elizabeth Warren recorrem sem preconceitos ao Socialismo como guião dos respetivos programas, urge que a Europa se livre de vez dos fantasmas libertados pela queda do muro de Berlim e pela implosão da União Soviética, voltando a trazer para primeiro plano a alternativa socialista como modelo ideológico, económico e cultural para um futuro melhor.
 
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/a-importancia-de-abreviar-este-momento.html

A censura da União Europeia já está em marcha

O processo de evolução da UE no sentido de um super-Estado centralizador prossegue. É evidente que esse super-Estado não pode ser outra coisa senão uma entidade opressora das liberdades. A linha de criminalização do comunismo é um dos indícios. A constituição de uma censura das opiniões publicadas é outro.

Quem ler o “Relatório sobre a elaboração de um plano contra a desinformação” apresentado pela Comissão Europeia em 14 de Junho ficará chocado ao verificar que a criação de uma autoridade de censura à escala da União Europeia já está muito adiantada.

Segundo o documento, ainda pouco divulgado, a difusão de informações consideradas por Bruxelas como falsas e perigosas passará a ser punida em breve através de sanções como o congelamento de contas e a proibição de viajar.

No documento da Comissão Europeia, pelo qual é igualmente responsável Federica Mogherini, ponta de lança da política externa, a palavra “desinformação” é definida como um processo tendo como objectivo “distrair e dividir, semeando a dúvida através da deformação e a falsificação de factos para criar a confusão e minar a confiança das pessoas nas instituições e nos processos políticos estabelecidos”. Neste caso, não se trata de por o acento nos grandes grupos mediáticos que, dia-após-dia, desviam a atenção dos factos reais e deformam a verdade com o objectivo de estabilizar as relações de poder existentes. Um desinformador a combater é, pelo contrário, alguém que os ponha em causa e revele como funcionam as
instituições.

Nesta luta para estabilizar o domínio (do capital) investem-se milhões para criar, segundo a Comissão Europeia, “uma abordagem coordenada em total conformidade com os nossos valores europeus e os nossos direitos fundamentais”. A autoridade, conhecida sob a designação de “Task Force for Strategic Communication”, fiscaliza o respeito pelos verdadeiros valores europeus com a ajuda dos chamados verificadores de factos (executores de
Fact Check), os novos censores.

Nas vésperas das recentes eleições europeias, a Comissão conseguiu arrancar aos gigantes da internet como Google, Facebook, Twitter e – um pouco depois – Microsoft um “código de conduta voluntário de luta contra a desinformação” no quadro de acordos de cooperação, mas não sem ameaçar com acções judiciais se os resultados não forem satisfatórios até ao fim de 2019.

Um sistema de alerta precoce da União Europeia para identificar as informações falsas reforça igualmente a sua cooperação com as organizações globalizadas da estrutura económica e militar ocidental, os “parceiros internacionais como o G7 e a NATO”.

Teia censória e inimigo a Leste

Dentro da Task Force para a Comunicação Estratégica funciona a “East StratCom Task Force”, activa desde Março de 2015, quando foi preciso criar uma hegemonia ocidental sobre o discurso relacionado com a crise ucraniana.

As imagens inquietantes dos combatentes da direita radical na Praça Maidan, em Kiev, utilizando bombas incendiárias e (depois) armas de fogo contra as forças da ordem deveriam ser apresentadas como expressão de uma aspiração à democracia e à liberdade. A tarefa não foi fácil, uma vez que as reportagens dos meios de comunicação russos em inglês, alemão, francês e espanhol desmontavam essa narrativa.

O arranque da autoridade de censura na União Europeia tem, portanto, as suas raízes na crise ucraniana de 2014.

Desde então, quase todos os países da União Europeia formaram grupos de trabalho sobre os media cuja tarefa consiste em observar e combater principalmente os meios de comunicação russos.

No final de 2015, a União Europeia acelerou o seu ritmo, quando a maioria dos votos no Parlamento Europeu deram carta branca e importantes meios financeiros à Task Force. O comunicado de imprensa declarou:

“A pressão propagandística por parte da Rússia e dos terroristas islamitas sobre a União Europeia não deixa de aumentar. Esta pressão pretende torpedear a verdade, expandir o medo, provocar a dúvida e dividir a União Europeia”. Portanto, é necessário envolver com maior vigor a Task Force anteriormente criada para “investir nos domínios da vigilância e da
educação”.

Menos de um ano depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, lançou a ideia de transformar a difusão de notícias falsas numa infracção punível.

Esta ideia ainda não se concretizou, mas os observatórios à escala da União Europeia estão a postos desde Outubro de 2018; e um “sistema de alerta precoce” funciona desde Março de 2019.

Como pode ler-se na página 3 do relatório da Comissão, os dados recolhidos pelos membros da Task Force revelam “uma actividade sustentada e pronunciada de desinformação oriunda de fontes russas”. Os temas sobre os quais, segundo o relatório, a desinformação é difundida são, designadamente, “a colocação em causa da legitimidade democrática da União e os debates sobre migrações e soberania”, isto é, as grandes debilidades de Bruxelas.

Os verificadores de factos encarregam-se, portando, de dissimular essas fraquezas. De acordo com as suas próprias estatísticas, seguiram 998 “casos de desinformação” desde o início de 2019 (até meados de Junho), ou seja duas vezes mais que no mesmo período do ano anterior.

Além da procura da verdade, os censores da UE atribuíram-se como missão fiscalizar e, se necessário, suprimir as inserções publicitárias nas plataformas online. Isto aplica-se, por um lado, aos que utilizam meios astuciosos infectos para aumentar o número de clics; e, por outro lado, aos meios de comunicação indesejados. No relatório da Comissão pode ler-se o seguinte: “as três plataformas online (Facebook, Google, Twitter) intensificaram os esforços para aumentar a transparência da publicidade política”; além disso, “Facebook, ao contrário de Google e Twitter, estendeu a transparência à publicidade temática, mas a sua eficácia suscita dúvidas”. Os assuntos estudados incluem imigração, os valores políticos, os direitos civis e sociais, bem como a política externa e de segurança. As grandes empresas norte-americanas de internet decidiram banir os anunciantes que não lhes convêm (ou que não convêm à União Europeia) e fechar as respectivas contas. RT (Russia Today) e Sputnik já
sentiram esses efeitos com o Twitter em fins de Outubro de 2017.

A NATO está em missão de paz. Ponto final.

Sejamos então sérios e minuciosos. A Comissão Europeia documenta cada “caso de desinformação”. Expõe meticulosamente a pretensa inverdade, o meio de difusão e os resultados da “verificação dos factos” (Fact Check).

O exame da lista disponível no plano “UE contra Desinfo” mostra claramente o objectivo do “Plano de Acção da UE contra a desinformação”: impor a visão de Bruxelas nos domínios da política, da economia e da sociedade. Os verificadores concentram-se, entre outros aspectos, na “nação russa”.
Quando, por exemplo, a publicação Sputnik Deutschland informou em 7 de Junho que:

“O presidente russo, Vladimir Putin, rejeitou as especulações sobre uma eventual unificação entre a Rússia e a Bielorrússia. Segundo Putin, isso não pode acontecer. Não se coloca a questão da unificação destes dois países e ‘vou dizer porquê. Porque a história se desenvolve de uma maneira em que o nosso povo unido – e eu creio que os bielorrussos, os russos e os ucranianos são o mesmo povo, já o disse várias vezes – vive em diferentes países onde se formaram Estados diferentes’, declarou Putin no Fórum Económico Internacional de S. Petersburgo”.

Os verificadores de factos da União Europeia retiveram desta citação de Putin apenas a frase intercalar “eu creio que os bielorrussos, os russos e os ucranianos são o mesmo povo”. E gritam: Desinformação! Qualificam o ponto de vista do presidente russo como “narrativa pró-Kremlin”, reflectindo uma “ideologia imperial e irredentista”. Deste modo, tentam retirar legitimidade ao ponto de vista russo sobre questões culturais e geopolíticas e afirmam o seu próprio ponto de vista como o único legítimo.
Um ponto de vista que corresponde ao avanço económico da União Europeia e à expansão militar da NATO para Leste e, portanto, às ideias de integração ocidental - que devem afirmar-se a par da desintegração a Leste.

Quando no dia anterior, 6 de Junho, a cadeia alemã RT.deutsch acusou Berlim de desacreditar sistematicamente os meios de comunicação russos, os censores da Task Force gritaram: Desinformação! Para o provar citaram Steffen Seibert, o porta-voz do governo, que respondeu assim ao reparo russo: “Quem faz tais acusações absurdas conhece mal a Alemanha e as suas ideias sobre a liberdade de imprensa”. Verdadeiramente. E por aqui se ficam as “informações” avançadas na luta contra a desinformação.

Eis ainda mais dois exemplos de “fact checking” bruxelense para supostamente denunciar desinformações russas, ilustrando assim em que direcções a liberdade de expressão se vai transformando. Os dois dizem respeito à NATO.

Em 5 de Junho, Sputniknews.org mencionou que “em Março de 1999 foi lançada uma guerra da NATO contra a República Federal da Jugoslávia, em violação do direito internacional”. O serviço da verdade da União Europeia reagiu de pronto: Desinformação!… Para explicar, ao-fim-e-ao-cabo, que “a principal razão da campanha da NATO foi acabar com a repressão e a violência e forçar Milosevic a retirar a sua polícia e as suas forças paramilitares”.

E quando uma semana mais tarde, a 10 de Junho, a edição italiana de Sputnik declarou que a NATO põe em perigo o sistema de segurança mundial com o seu reforço militar, os verificadores estavam mais uma vez presentes para gritar: Desinformação!

*Jornalista e editor austríaco com vários livros publicados em alemão pelas Edições Promedia, designadamente “Guerra dos Balcãs: dez anos de destruição da Jugoslávia” e “A ditadura do capital. Perda de soberania na era post-democrática”.

Fonte: www.nachdenkseiten.de/O Lado Oculto; https://www.oladooculto.com/noticias.php?id=465

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

«A CENSURA DA UNIÃO EUROPEIA JÁ ESTÁ EM MARCHA»

Federica Mogherini com Mike Pence, Vice-presidente do EU.
Quem ler o “Relatório sobre a elaboração de um plano contra a desinformação” apresentado pela Comissão Europeia em 14 de Junho ficará chocado ao verificar que a criação de uma autoridade de censura à escala da União Europeia já está muito adiantada. 
Segundo o documento, ainda pouco divulgado, a difusão de informações consideradas por Bruxelas como falsas e perigosas passará a ser punida em breve através de sanções como o congelamento de contas e a proibição de viajar.
No documento da Comissão Europeia, pelo qual é igualmente responsável Federica Mogherini, ponta de lança da política externa, a palavra “desinformação” é definida como um processo tendo como objectivo “distrair e dividir, semeando a dúvida através da deformação e a falsificação de factos para criar a confusão e minar a confiança das pessoas nas instituições e nos processos políticos estabelecidos”. Neste caso, não se trata de por o acento nos grandes grupos mediáticos que, dia-após-dia, desviam a atenção dos factos reais e deformam a verdade com o objectivo de estabilizar as relações de poder existentes. Um desinformador a combater é, pelo contrário, alguém que os ponha em causa e revele como funcionam as instituições.

Nesta luta para estabilizar o domínio (do capital) investem-se milhões para criar, segundo a Comissão Europeia, “uma abordagem coordenada em total conformidade com os nossos valores europeus e os nossos direitos fundamentais”. A autoridade, conhecida sob a designação de “Task Force for Strategic Communication”, fiscaliza o respeito pelos verdadeiros valores europeus com a ajuda dos chamados verificadores de factos (executores de Fact Check), os novos censores.
Nas vésperas das recentes eleições europeias, a Comissão conseguiu arrancar aos gigantes da internet como Google, Facebook, Twitter e – um pouco depois – Microsoft um “código de conduta voluntário de luta contra a desinformação” no quadro de acordos de cooperação, mas não sem ameaçar com acções judiciais se os resultados não forem satisfatórios até ao fim de 2019.
Um sistema de alerta precoce da União Europeia para identificar as informações falsas reforça igualmente a sua cooperação com as organizações globalizadas da estrutura económica e militar ocidental, os “parceiros internacionais como o G7 e a NATO”. Teia censória e inimigo a Leste
Dentro da Task Force para a Comunicação Estratégica funciona a “East StratCom Task Force”, activa desde Março de 2015, quando foi preciso criar uma hegemonia ocidental sobre o discurso relacionado com a crise ucraniana.
As imagens inquietantes dos combatentes da direita radical na Praça Maidan, em Kiev, utilizando bombas incendiárias e (depois) armas de fogo contra as forças da ordem deveriam ser apresentadas como expressão de uma aspiração à democracia e à liberdade. A tarefa não foi fácil, uma vez que as reportagens dos meios de comunicação russos em inglês, alemão, francês e espanhol desmontavam essa narrativa.
O arranque da autoridade de censura na União Europeia tem, portanto, as suas raízes na crise ucraniana de 2014.
Desde então, quase todos os países da União Europeia formaram grupos de trabalho sobre os media cuja tarefa consiste em observar e combater principalmente os meios de comunicação russos.
No final de 2015, a União Europeia acelerou o seu ritmo, quando a maioria dos votos no Parlamento Europeu deram carta branca e importantes meios financeiros à Task Force. O comunicado de imprensa declarou:
“A pressão propagandística por parte da Rússia e dos terroristas islamitas sobre a União Europeia não deixa de aumentar. Esta pressão pretende torpedear a verdade, expandir o medo, provocar a dúvida e dividir a União Europeia”. Portanto, é necessário envolver com maior vigor a Task Force anteriormente criada para “investir nos domínios da vigilância e da educação”.
Menos de um ano depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, lançou a ideia de transformar a difusão de notícias falsas numa infracção punível.
Esta ideia ainda não se concretizou, mas os observatórios à escala da União Europeia estão a postos desde Outubro de 2018; e um “sistema de alerta precoce” funciona desde Março de 2019.
Como pode ler-se na página 3 do relatório da Comissão, os dados recolhidos pelos membros da Task Force revelam “uma actividade sustentada e pronunciada de desinformação oriunda de fontes russas”. Os temas sobre os quais, segundo o relatório, a desinformação é difundida são, designadamente, “a colocação em causa da legitimidade democrática da União e os debates sobre migrações e soberania”, isto é, as grandes debilidades de Bruxelas.
Os verificadores de factos encarregam-se, portando, de dissimular essas fraquezas. De acordo com as suas próprias estatísticas, seguiram 998 “casos de desinformação” desde o início de 2019 (até meados de Junho), ou seja duas vezes mais que no mesmo período do ano anterior.
Além da procura da verdade, os censores da UE atribuíram-se como missão fiscalizar e, se necessário, suprimir as inserções publicitárias nas plataformas online. Isto aplica-se, por um lado, aos que utilizam meios astuciosos infectos para aumentar o número de clics; e, por outro lado, aos meios de comunicação indesejados. No relatório da Comissão pode ler-se o seguinte: “as três plataformas online (Facebook, Google, Twitter) intensificaram os esforços para aumentar a transparência da publicidade política”; além disso, “Facebook, ao contrário de Google e Twitter, estendeu a transparência à publicidade temática, mas a sua eficácia suscita dúvidas”. Os assuntos estudados incluem imigração, os valores políticos, os direitos civis e sociais, bem como a política externa e de segurança. As grandes empresas norte-americanas de internet decidiram banir os anunciantes que não lhes convêm (ou que não convêm à União Europeia) e fechar as respectivas contas. RT (Russia Today) e Sputnik já sentiram esses efeitos com o Twitter em fins de Outubro de 2017. A NATO está em missão de paz. Ponto final.
Sejamos então sérios e minuciosos. A Comissão Europeia documenta cada “caso de desinformação”. Expõe meticulosamente a pretensa inverdade, o meio de difusão e os resultados da “verificação dos factos” (Fact Check).
O exame da lista disponível no plano “UE contra Desinfo” mostra claramente o objectivo do “Plano de Acção da UE contra a desinformação”: impor a visão de Bruxelas nos domínios da política, da economia e da sociedade. Os verificadores concentram-se, entre outros aspectos, na “nação russa”. Quando, por exemplo, a publicação Sputnik Deutschland informou em 7 de Junho que:
 “O presidente russo, Vladimir Putin, rejeitou as especulações sobre uma eventual unificação entre a Rússia e a Bielorrússia. Segundo Putin, isso não pode acontecer. Não se coloca a questão da unificação destes dois países e ‘vou dizer porquê. Porque a história se desenvolve de uma maneira em que o nosso povo unido – e eu creio que os bielorrussos, os russos e os ucranianos são o mesmo povo, já o disse várias vezes – vive em diferentes países onde se formaram Estados diferentes’, declarou Putin no Fórum Económico Internacional de S. Petersburgo”.
Os verificadores de factos da União Europeia retiveram desta citação de Putin apenas a frase intercalar “eu creio que os bielorrussos, os russos e os ucranianos são o mesmo povo”. E gritam: Desinformação! Qualificam o ponto de vista do presidente russo como “narrativa pró-Kremlin”, reflectindo uma “ideologia imperial e irredentista”. Deste modo, tentam retirar legitimidade ao ponto de vista russo sobre questões culturais e geopolíticas e afirmam o seu próprio ponto de vista como o único legítimo. Um ponto de vista que corresponde ao avanço económico da União Europeia e à expansão militar da NATO para Leste e, portanto, às ideias de integração ocidental - que devem afirmar-se a par da desintegração a Leste.
Quando no dia anterior, 6 de Junho, a cadeia alemã RT.deutsch acusou Berlim de desacreditar sistematicamente os meios de comunicação russos, os censores da Task Force gritaram: Desinformação! Para o provar citaram Steffen Seibert, o porta-voz do governo, que respondeu assim ao reparo russo: “Quem faz tais acusações absurdas conhece mal a Alemanha e as suas ideias sobre a liberdade de imprensa”. Verdadeiramente. E por aqui se ficam as “informações” avançadas na luta contra a desinformação.
Eis ainda mais dois exemplos de “fact checking” bruxelense para supostamente denunciar desinformações russas, ilustrando assim em que direcções a liberdade de expressão se vai transformando. Os dois dizem respeito à NATO.
Em 5 de Junho, Sputniknews.org mencionou que “em Março de 1999 foi lançada uma guerra da NATO contra a República Federal da Jugoslávia, em violação do direito internacional”. O serviço da verdade da União Europeia reagiu de pronto: Desinformação!... Para explicar, ao-fim-e-ao-cabo, que “a principal razão da campanha da NATO foi acabar com a repressão e a violência e forçar Milosevic a retirar a sua polícia e as suas forças paramilitares”.
E quando uma semana mais tarde, a 10 de Junho, a edição italiana de Sputnik declarou que a NATO põe em perigo o sistema de segurança mundial com o seu reforço militar, os verificadores estavam mais uma vez presentes para gritar: Desinformação!
Hannes Hofbauer*, www.nachdenkseiten.de/O Lado Oculto *Jornalista e editor austríaco com vários livros publicados em alemão pelas Edições Promedia, designadamente “Guerra dos Balcãs: dez anos de destruição da Jugoslávia” e “A ditadura do capital. Perda de soberania na era post-democrática”.
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Para quem é a entrega?

por Henrique Júdice Magalhães

Clique a imagem para ampliar. Em 1703, Portugal, à época uma potência decadente, assinou com a Inglaterra (potência ascendente) o Tratado de Methuen. A troco da isenção de tarifas no ingresso de vinhos portugueses em território britânico, a coroa lusitana cedeu perpetuamente à indústria inglesa seu mercado consumidor de tecidos – que incluía o Brasil. Em 1785, Lisboa ordenou a destruição de quase todos os bens de produção manufatureira existentes aqui [1] .

Em 1933, a Argentina firmou com a Inglaterra o Pacto Roca-Runciman. A troco do compromisso britânico de continuar comprando sua carne bovina desde que ela fosse mais barata que a de outros países, o governo argentino assegurou a frigoríficos ingleses 85% do setor frigorífico e ainda eliminou ou reduziu as tarifas de importação de 235 produtos britânicos, entre outras concessões. Arturo Jauretche definiu esse tratado como o "marco legal da colonização".

O tratado Mercosul – União Européia (UE) anunciado no começo de julho é igual, ou até pior. Ao prever a eliminação geral de tarifas entre países dos dois blocos a curtíssimo prazo (menos de 10 anos), condena à morte o que resta da indústria sul-americana. Até a produção de vinhos – usada como "compensação" no Tratado de Methuen – está ameaçada, pois nem a reconhecida excelência da Argentina e do Chile é páreo, em tais condições, para a concorrência europeia.

No Brasil, os segmentos mais favorecidos, até agora, são os da cana de açúcar, suco de laranja e café solúvel. Soja e milho ficam de fora enquanto durar o laivo de sensatez que impede a Europa de se abrir aos transgênicos e a certos agrotóxicos.

E isso deve durar pouco: além de aniquilar a pouca indústria que ainda há nos países do Mercosul, o tratado é um duro golpe contra a soberania e a segurança alimentares que a Europa (especialmente França e Itália) sempre se preocupou em manter acima de considerações econômicas imediatas. Os subsídios europeus à produção camponesa não deixam de existir, mas, ao isentar de tarifas a importação de frutas e legumes produzidos a baixo custo na América do Sul, a UE impõe a seu campesinato uma concorrência tão predatória quanto a que sua indústria faz à sul-americana.

Colônias por procuração

Detalhes do acordo ainda pendem de definição, pois, após o anúncio oficial realizado dias atrás, ele ainda precisa ser assinado e aprovado pelos parlamentos dos países envolvidos. Mas seu espírito está suficientemente claro para permitir algumas constatações.

O tratado estava em negociação havia 20 anos. Em algum momento, chegou a ser concebido como um instrumento para que os dois blocos adquirissem maior autonomia comercial e política face aos EUA, ainda que – para o Mercosul – sem maior conotação emancipatória, e sim no grau primário de barganha com dois imperialismos (o estadunidense e o europeu).

Mas seu fechamento se dá no ápice da submissão de ambos blocos aos EUA. Brasil, Argentina, Paraguai e Chile se encontram hoje sob os governos mais submissos a Washington que já tiveram em toda a história. Na Europa, se apaga a cada dia a lembrança da época em que – por exemplo – a direita gaullista francesa, sob a liderança de Chirac, tentava que a UE alçasse vôo próprio no cenário internacional. Predomina, hoje, o mais acerbo atlantismo, e o fato de Merkel ser mais sensata que Trump não é, nem de longe, suficiente para estabelecer-lhe um contraponto.

A hipótese mais plausível é que, por trás, esteja a mão dos EUA para assegurar o domínio sobre a América Latina usando a UE como intermediária e ainda liquidar as restrições europeias ao envenenamento de comida e à dependência alimentar. Exatamente como fez a Inglaterra para anexar economicamente o Brasil via Portugal com o tratado de Methuen e o alvará industricida de 1785.

 

Xadrez geopolítico

Na última década e meia, ao mesmo tempo em que agiam de forma dócil ou neutra face ao capital estadunidense, alguns governos sul-americanos atingiram em cheio o interesse geopolítico dos EUA ao incrementar em demasia as relações com a China e – no caso venezuelano – a Rússia.

O dado mais importante para entender as recentes reviravoltas no quadro sul-americano é que a China se tornou o mais importante parceiro comercial de Brasil e Argentina, e isso começava a se desdobrar para a dimensão política mediante acordos como o BRIC, que punha em risco o controle dos EUA sobre sua tradicional zona de influência geopolítica.

O acordo UE-Mercosul é parte da contraofensiva estadunidense para reter tal controle. Fazer isso usando os europeus como intermediários tem, para os EUA, diversas vantagens.

  1. Suscita menor resistência: facções parlamentares que teriam reticências a um acordo desse tipo diretamente com Washington confraternizam com organizações europeias congêneres na II Internacional "Socialista", ou são clientes habituais da Fundação Friedrich Ebert.

     

  2. Convém mais aos EUA afiançar a aliança com o latifúndio exportador sul-americano destruindo a produção agroalimentar europeia do que a sua própria. E é duvidoso que a decadente economia estadunidense possa suprir, de imediato, a demanda sul-americana de manufaturados.

     

  3. O ponto de partida: a UE já é, hoje, o segundo parceiro comercial do Mercosul, depois da China.

     

  4. O tratado afasta não só o Mercosul, mas também a UE da influência chinesa. O latifúndio sul-americano e a indústria europeia ganham mercados de muito peso, alternativos ao chinês.

     

  5. Em paralelo, os EUA preparam acordos diretos tanto com a UE como com o Mercosul. Essa intenção foi explicitada por Maurício Macri dois dias após o anúncio do tratado Mercosul-UE.
 

Compensações. Tácitas?

Ao mesmo tempo em que é parte da disputa econômica e geopolítica entre China e EUA, o acordo embute compensações – tácitas ou negociadas detrás da cortina – a Pequim.

O atual nível de integração entre as economias industriais chinesa e europeia e a própria localização da Europa apontam para a possibilidade de que esta se transforme em entreposto para mercadorias produzidas na China – o que asseguraria a Pequim uma compensação econômica expressiva, ao mesmo tempo em que corta as asas da expansão geopolítica chinesa.

Algo assim já ocorreu no Brasil, onde a abertura da exploração do pré-sal – obra da intensa e irrestrita ação de lobby das seis irmãs e da embaixada estadunidense – embutiu generosas cotas a firmas chinesas nos leilões subsequentes.

Mas é improvável que o grupo dirigente chinês se contente com isso. A disputa tende a sair dos bastidores e a se intensificar. Seus desdobramentos políticos também.

O original encontra-se em anovademocracia.com.br/no-225/11515-para-quem-e-a-entrega

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/europa/mercosul_ue.html

Alemanha não descarta missão europeia de segurança no Golfo Pérsico

Helicóptero MH-60S voa enquanto o navio USS John C. Stennis chega ao Golfo através do estreito de Ormuz, 21 de dezembro de 2018 (imagem de arquivo)
© REUTERS / Hamad I Mohammed

O vice-porta-voz do governo alemão, Ultrike Demmer, disse nesta quarta-feira (30) que a Alemanha não descarta participar de uma missão naval de segurança europeia no estreito de Ormuz.

O Reino Unido conclamou uma missão europeia com o objetivo de garantir a segurança comercial de navios no estreito que é a porta de entrada e saída do Golfo Pérsico. A região concentra um terço de todo o transporte marítimo de petróleo do mundo.

A missão proposta pelo britânicos é uma resposta aos iranianos devido á apreensão de um petroleiro de bandeira britânica na região, o Stena Impero.

"Em princípio, o governo considera que ainda vale a menção da proposta de uma missão naval de proteção, e está em contato com os parceiros europeus, França e Reino Unido, principalmente", afirmou Demmer a repórteres.

De acordo com a imprensa, os EUA oficialmente propuseram nesta semana que a Alemanha se juntasse a uma coalizão norte-americana também o o objetivo de garantir a navegação comercial na região.

Apesar disso, os alemães afirmaram que não farão parte da campanha de "pressão máxima" que Washington exerce sobre o Irã.

A Alemanha tem mantido uma postura crítica à política dos EUA em relação ao Irã após a saída unilateral de Washington, em 2018, do Plano Conjunto de Ação Integral (JCPOA), o acordo nuclear iraniano.

Os signatários europeus do tratado de 2015 tem afirmado que querem manter o acordo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019073114316992-alemanha-nao-descarta-missao-europeia-de-seguranca-no-golfo-persico/

UE não participa da coalizão dos EUA no estreito de Ormuz

Helicóptero MH-60S voa enquanto o navio USS John C. Stennis chega ao Golfo através do estreito de Ormuz, 21 de dezembro de 2018 (imagem de arquivo)
© REUTERS / Hamad I Mohammed

A União Europeia não participa das negociações dos Estados Unidos com países europeus para a criação de uma coalizão para patrulhar o Estreito de Ormuz, disse nesta quarta-feira o porta-voz da Comissão Europeia para o Desenvolvimento e Cooperação Internacional, Carlos Martín Ruiz de Gordejuela.

Em 22 de julho, Washington declarou a intensão de criar uma coalizão para patrulhar o estreito de Ormuz, que conecta o golfo Pérsico e o golfo de Omã. Washington enviou convites ao Reino Unido, França, Alemanha, Noruega, Japão, Coreia do Sul e Austrália para se juntar à iniciativa.

"Acompanhamos a situação e pedimos moderação máxima e redução da escalada (das tensões), mas com relação às negociações, a União Europeia, como tal, não faz parte delas", disse o porta-voz sobre a iniciativa norte-americana referente ao estreito de Ormuz.

Ele acrescentou que a União Europeia apela ao respeito pela liberdade de navegação.

As primeiras propostas para integrar a coalizão foram feitas pelos EUA no final de junho durante as consultas ministeriais com os aliados da OTAN em Bruxelas.

Por outro lado, a França, o Reino Unido e a Alemanha pretendem lançar "uma iniciativa europeia" para garantir a segurança marítima no golfo Pérsico.

As discussões sobre uma missão naval conjunta para proteger navios comerciais na área começaram depois do Irã ter detido o petroleiro Stena Impero, que navegava sob a bandeira britânica no estreito de Ormuz.

Como Teerã reconheceu, Stena Impero foi preso em resposta à prisão de Grace 1, o petroleiro que foi detido no início deste mês em Gibraltar com um carregamento de petróleo iraniano.
Para o presidente do Irã, Hassan Rouhani, a presença de forças estrangeiras no golfo Pérsico é a principal causa das tensões regionais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019073114315061-ue-nao-participa-da-coalizao-dos-eua-no-estreito-de-ormuz/

“Assassinos do Mediterrâneo” abundam na União Europeia

 
 
Os responsáveis da União Europeia, eleitos e não eleitos, assim como os responsáveis dos respetivos países integrantes da dita união, demonstrariam ser homens e mulheres com alguma vergonha se borrassem as suas caras com o negro mais negro existente em fossas e esgotos de modo a demonstrar a sua auto-condenação e auto-critica pelas responsabilidades acrescidas que lhes cabe na mortandade que há anos se regista nas águas do Mediterrâneo. 
 
Pelo menos 14 mil pessoas morreram no Mediterrâneo por morte provocada pela UE. Afinal estamos a referir-nos a engravatados de colarinhos brancos (ou não) mais conhecidos por “Assassinos do Mediterrâneo”, como já há muito lhes chamam.
 
Entretanto o cenário tende a agravar-se. A legenda da foto acima exibida é exata e muito elucidativa. Autoria de Chris MacCrath / Getty Images. Específica: “Exilados pedem ajuda ao largo de Lampedusa. A época em que as águas estão mais calmas e menos frias já começou - e num Mediterrâneo Central quase sem barcos de resgate, a situação humanitária vai complicar-se.”
 
O artigo provém do Expresso e por lá existem outros a abordar o macabro tema. Evidentemente que não o publicamos na totalidade porque “não há almoços grátis” nem o senhor Balsemão/Impresa abre mão dos cifrões com que depois vai comprar os “melões” de luxo e que garantem a sustentabilidade das suas espampanantes mordomias e boas viduxas… Essa é outra faceta da “história global” dos tempos que correm e que esbarra na dicotomia pobres e ricos… São coisas de “outros trocados”, em montanhas de notas de euros e de dólares, de ouro, jóias, existências nababas, casarões, etc.
 
Leia-se o possível do artigo no Expresso, que reproduzimos a seguir.
 
Redação PG

 
Esta é a acusação mais grave e séria: a UE “provocou conscientemente a morte de mais de 14 mil pessoas”
 
Ele diz que não se trata de uma catástrofe natural e que as mortes podiam ter sido evitadas - a acusação é séria, a mais séria de todas. Juan Branco quer os dirigentes da UE julgados por crimes contra a Humanidade pela forma como lidaram com a crise migratória nos últimos quatro anos. O jovem advogado acredita que os líderes europeus “não só deixaram morrer mais de 14 mil pessoas no Mediterrâneo como têm provocado a morte de tantas outras”, vítimas de “execuções, tortura e abusos sexuais” nos centros de detenção na Líbia para onde são enviados depois de resgatados
 
A chanceler alemã, Angela Merkel, recebeu a 17 de janeiro de 2017 uma nota com pormenores assustadores. Um diplomata da embaixada da Alemanha no Níger escreve-lhe que visitou os campos de detenção na Líbia e comparou o que viu aos campos de concentração durante o Holocausto, “com execuções, tortura, abusos sexuais e extorsões todos os dias”, sendo ali cometidas “as mais graves e sistemáticas violações dos direitos humanos”. Entre 2016 e 2018, mais de 40 mil pessoas foram trazidas dos barcos em que tentavam fugir de regresso a estes centros. Duas semanas depois daquele aviso, a 3 de fevereiro, os líderes da UE encontraram-se em Malta e assinaram mesmo assim um protocolo de cooperação com as autoridades líbias. Foram mobilizados 200 milhões de euros para parar, ou pelo menos reduzir em muitas centenas, o fluxo migratório.
 
Esta é uma das razões que levaram Juan Branco, advogado franco-espanhol que estagiou no Tribunal Penal Internacional (TPI), a desenvolver, em conjunto com o advogado israelita Omer Shatz, um processo penal contra Estados-membros da UE e diretores-gerais da Comissão Europeia. A outra tem que ver com o fim, em 2014, da operação de salvamento Mare Nostrum, que era financiada por Itália e permitiu salvar milhares de pessoas - mas depois as mortes aumentaram com o fim dessa operação. Segundo números da Organização Internacional das Migrações, 3.200 migrantes morreram afogados em 2014, em 2015 esse número subiu para 4.000 e em 2016 para 5.000. “Estamos a acusar dirigentes europeus e funcionários da UE, assim como os governos de alguns dos seus Estados-membros, por terem deixado morrer ou provocar conscientemente a morte de mais de 14 mil pessoas entre 2014 e 2018, pessoas que eram civis e que foram atacadas de maneira sistemática e generalizada”, explica Juan Branco em entrevista ao Expresso.
 
Ana França | Helena Bento | Expresso
 
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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/assassinos-do-mediterraneo-abundam-na.html

A política monetária esgotou-se

 

A política monetária esgotou-se

(Martin Wolf, Abril de 2019)

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Fez piorar a estagnação secular. As alternativas orçamentais parecem uma aposta mais segura.


 

Porque é que as taxas de juro são tão baixas? A hipótese de “estagnação secular” ajuda a explicá-la? O que é que essas taxas de juro baixas implicam para a provável eficácia da política monetária durante outra recessão? Que outras políticas poderiam ser tentadas, seja como alternativa à política monetária ou como forma de torná-la mais eficaz? Estas são as questões mais importantes na macroeconomia. São também extremamente controversas.

Um artigo recente de Lukasz Rachel e Lawrence Summers esclarece essas questões. O seu  objetivo é apoiar e elaborar a hipótese de “estagnação secular”, reavivada pelo Prof Summers como relevante para a nossa era em 2015. A principal inovação deste artigo é tratar as grandes economias avançadas como um bloco único. Aqui estão quatro conclusões.

Em primeiro lugar, ocorreu um declínio dramático e progressivo nas taxas de juros reais sobre ativos seguros, de mais de 4% na década de 1980 para cerca de zero agora. Além disso, as alterações nas preferências de risco não explicam este declínio, uma vez que as diferenças das taxas de rendibilidade dos ativos mais arriscados em relação aos ativos seguros pouco mudaram. (Ver gráficos.)

Em segundo lugar, esta queda secular das taxas de juro reais implica uma queda aproximadamente equivalente da taxa (não observável) “neutra” ou de “equilíbrio” – a taxa à qual a procura corresponde à oferta potencial.

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Em terceiro lugar, os governos não estão a gerar esta fraqueza estrutural na procura. Pelo contrário, ao expandir as despesas sociais, os défices  e a dívida, os governos aumentaram  as taxas de juros reais de longo prazo em equilíbrio, sendo os outros fatores iguais.

Finalmente, mudanças no setor privado, por si só, teriam gerado uma queda de mais de sete pontos percentuais na taxa real de juros de equilíbrio. Entre os muitos fatores que impulsionaram este acentuado declínio devem ter estado o envelhecimento, a diminuição do crescimento da produtividade, o aumento da desigualdade, a diminuição da concorrência e a queda dos preços dos bens de investimento.

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Os autores concluem que a hipótese de “estagnação secular” nas economias de rendimento elevado – procura cronicamente fraca, relativa ao produto potencial – é altamente credível. Afinal, eles escrevem, “antes da crise financeira, as taxas de juros reais de curto prazo negativas, uma enorme bolha imobiliária, a erosão dos padrões de crédito e a política fiscal expansionista eram apenas suficientes para alcançar um crescimento moderado. O crescimento adequado na Europa só foi mantido através do que, em retrospetiva, parece ter sido claramente insustentável a concessão continuada de empréstimos à periferia”.

Esta análise tem agora grandes implicações. Em períodos de recessão,  as taxas de juro reais de curto prazo têm de baixar drasticamente e a curva de rendimentos (que mostra as taxas das obrigações de diferentes prazos) tem de se tornar fortemente inclinada para cima, para que a política monetária possa estabilizar a economia. Suponhamos, então, que as nossas economias caíssem numa profunda recessão, mas ainda assim tivessem taxas de juros reais próximas de zero e taxas nominais muito baixas também.

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Suponha-se, também, que a inflação se situa algures entre zero e dois por cento. Assim, a resposta a uma recessão exigiria taxas de juro nominais de curto prazo fortemente negativas, possivelmente tão baixas como menos 5 por cento. Isso criaria, no mínimo, um ninho de problemas técnicos, financeiros e políticos.

Esta análise implica que os bancos centrais não estão a criar taxas de juro reais baixas, como acusam os  críticos, mas sim a fornecerem  taxas reais baixas de que a economia necessita. Um artigo de Claudio Borio e outros do Bank for International Settlements assume precisamente o ponto de vista oposto: argumenta que os regimes monetários fixam as  taxas de juros reais, mesmo no longo prazo – uma posição que contradiz as opiniões correntes sobre a necessidade de separar a moeda dos processos reais na economia.

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Isto parece difícil de aceitar, em geral. Mas é altamente relevante num aspeto crítico: é que as taxas de juro desempenham um papel importante na condução dos ciclos de crédito. De facto, é assim que a política monetária funciona normalmente. Se o banco central quiser aumentar a inflação numa economia com uma procura estruturalmente fraca, fá-lo-á encorajando o crescimento do crédito e da dívida. Pode então não conseguir aumentar a inflação, mas criar uma crise de dívida. Isso é deflacionário, não é inflacionário.

Assim, a política monetária pré-crise, destinada a aumentar a inflação, criou agora o oposto: uma dívida deflacionária que funciona através do que Richard Koo de Nomura chama de “deflação do balanço”. Isso, por sua vez, leva a taxas nominais (e reais) ainda mais baixas. Assim, os mecanismos financeiros utilizados para gerir a estagnação secular exacerbam-na.

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Precisamos de mais instrumentos de política. O óbvio é a política orçamental. Se a procura privada é estruturalmente fraca, o governo tem de preencher a diferença. Felizmente, as baixas taxas de juro tornam os défices mais sustentáveis. De acordo com documentos recentes de Olivier Blanchard, antigo economista-chefe do FMI, e Jason Furman, antigo presidente do conselho de consultores económicos dos EUA, juntamente com o Professor Summers, esta combinação não é apenas verdadeira agora, mas tem sido  também verdadeira no passado. Isso torna a política orçamental uma aposta muito mais segura.

É, evidentemente, essencial perguntar qual a melhor forma de utilizar esses défices de forma produtiva. Se o sector privado não quiser investir, o governo deve decidir fazê-lo. Mas também pode melhorar o incentivo privado ao investimento. O mundo precisa de fazer enormes investimentos em novos sistemas energéticos: uma mistura de investimento público e privado é claramente a melhor resposta.

A credibilidade da tese da “estagnação secular” e a nossa experiência infeliz com o impacto da política monetária provam que nos tornámos demasiado dependentes dos bancos centrais. Mas estes não conseguem gerir com êxito a estagnação secular. A longo prazo, pioram o problema. Precisamos de outros instrumentos. A política orçamental é o ponto de partida.


Este foi o último texto desta série.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/07/23/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-i-grandes-planos-sobre-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-12o-texto-a-politica-monetaria-esgotou-se/

O dilema democrático de Von der Leyen

(Jan Zielonka, in Diário de Notícias, 22/07/2019)

Ursula Von der Leyen

 

A legitimidade democrática é um precioso tesouro político e a Europa está desesperadamente a tentar obtê-la. No entanto, o processo de seleção para o novo chefe da Comissão Europeia deixará muitos cidadãos confundidos. Desapareceu a única, e menor, reforma democrática dos últimos anos, que previa que o Spitzenkandidat do maior partido europeu fosse escolhido como presidente da Comissão. De regresso está o poder dos Estados membros de nomear o seu próprio candidato em negociações privadas. O Parlamento Europeu pode mostrar o seu descontentamento mas, no final, não tem alternativa viável senão concordar, como aconteceu ontem, por mais estreita que seja a margem.

O poder do Conselho costumava ser justificado em termos democráticos, porque os seus membros representam democracias vibrantes. No entanto, esta asserção torna-se duvidosa se olharmos para alguns países da Europa Central e de Leste. Mesmo os líderes de países ocidentais como a Itália, o Reino Unido ou a França estão agora confrontados com uma grave crise de legitimidade.

O sistema de representação parlamentar na Europa foi sempre opaco porque não existe aquilo a que possamos chamar um demos europeu; em vez disso, temos uma coleção solta de numerosos demos nacionais, manifestando pouca coerência e solidariedade. Além disso, o Parlamento Europeu nunca foi autorizado a controlar o governo europeu. Paradoxalmente, isso pode ser uma bênção para uma Europa integrada. O PE alberga cada vez mais políticos determinados a retirar o poder de Bruxelas e levá-lo de volta para os seus próprios parlamentos nacionais. Talvez não tenham conseguido conquistar o PE nas eleições de maio, mas têm agora a capacidade de bloquear decisões importantes no seio do Parlamento e do Conselho, como Frans Timmermans tomou consciência recentemente.

As experiências da Europa com a democracia direta mostraram-se ainda mais imperfeitas. A maioria dos referendos europeus assemelhou-se a um festival de populismo com um amplo espaço para demagogia e pouco para deliberação. Outras formas de participação direta, tais como inquéritos e petições online, diálogos cívicos ou redes pessoais, podem funcionar bem em comunidades locais ou municipais, mas são menos adequadas para um vasto espaço europeu com diferentes idiomas e preocupações.

Ursula von der Leyen não é obviamente responsável por essas deficiências democráticas da União Europeia, mas é muito aconselhável que ponha a democracia no topo da sua agenda. Von der Leyen prevaleceu sobre Frans Timmermans graças ao apoio recebido de políticos soberanistas (populistas). Eles esperam que Von der Leyen seja tão amigável com eles quanto o seu colega de partido, Manfred Weber, o Spitzenkandidat fracassado.

A posição de Von der Leyen sobre a violação do Estado de direito nos Estados membros será, portanto, o primeiro teste da sua presidência. No entanto, é difícil para a UE dar lições de democracia aos seus Estados membros se ela própria não é vista como muito democrática. O que pode fazer dadas as complicações acima mencionadas?

A UE deve começar com a questão da transparência, sem a qual as pessoas dificilmente podem controlar qualquer governo. A UE tem relações mais próximas com os lobistas do que com os cidadãos, demonstra maior determinação em reduzir os gastos sociais “excessivos” do que a fuga aos impostos, e a sua estratégia de comunicação é altamente seletiva. Soubemos recentemente que o PE desprezou uma proposta para tornar os contactos com os representantes dos grupos de interesses mais transparente, enquanto a Comissão se recusou durante meses a divulgar os resultados dos testes de emissões de veículos a gasóleo produzidos pela Porsche. Detalhes dos paraísos fiscais usados ​​pelas empresas europeias foram revelados pelo portal WikiLeaks e não pelos senhores Juncker ou Tajani. Estas são provavelmente apenas as pontas simbólicas dos icebergues, e Von der Leyen deve começar a limpar essa confusão rapidamente, tranquilizando o público europeu em relação à sua conduta imparcial e transparente.

Ela também deve identificar maneiras práticas de envolver os cidadãos no processo de tomadas de decisão. Isto não significa mais referendos, mas um sólido sistema institucional de consulta dos demos da Europa sobre os assuntos mais importantes abordados pela UE. Estas consultas devem ser genuínas e não devem ser realizadas em Bruxelas, mas em todo o continente.

A criação de uma segunda câmara do Parlamento Europeu com representantes de cidades, regiões, ONG e associações empresariais poderia também aproximar os cidadãos da UE. Esta câmara apresentaria principalmente ativistas locais e representantes sectoriais que estão mais próximos dos cidadãos comuns do que os políticos profissionais atualmente com assento no PE. Naturalmente, Von der Leyen não está em condições de criar uma segunda câmara, mas pode abraçar empenhadamente a ideia. E também pode propor dar aos cidadãos da Europa maneiras significativas de contestar as decisões que os afetam diretamente. As prerrogativas e o orçamento do Provedor de Justiça Europeu poderiam aumentar e o âmbito do contencioso privado no Tribunal de Justiça da União Europeia poderia ser alargado.

A questão mais delicada diz respeito aos poderes da Comissão Europeia em si, que muitos críticos consideram demasiado vastos e com um nível insuficiente de responsabilização. A supervisão parlamentar da Comissão é importante, mas provavelmente inadequada, dada a escala do empreendimento. Portanto, é importante pensar noutro modelo democrático-padrão, que equivale a conter e dispersar o poder centralizado. A descentralização aproxima o poder dos cidadãos e facilita a responsabilização. A UE tem mais de quarenta agências reguladoras localizadas em diferentes países e que lidam com questões tão diversas como os direitos humanos, o tráfego marítimo ou a segurança alimentar. Elas poderiam receber mais poder e recursos à custa da Comissão Europeia. Tal passo não enfraquecerá necessariamente a Comissão, mas libertá-la-á de alguns encargos atuais e reforçará a sua legitimidade.

Com a UE a ver-lhe outorgados cada vez mais poderes, há pressão para legitimar as suas decisões. No passado, o projeto europeu dependia principalmente da legitimidade da produção – o principal objetivo era tornar a Europa mais eficiente e próspera. No entanto, o crescimento económico dececionante a partir da década de 1970 e, depois, uma série de crises económicas e migratórias tornaram pertinente que a UE aumentasse a confiança na legitimidade baseada em algum tipo de democracia.

Além disso, as ondas sucessivas de alargamento da UE tornaram cada vez mais difícil chegar a decisões por consenso, pelo que as decisões maioritárias no seio do Conselho Europeu foram sendo progressivamente introduzidas. Como os Estados membros já não podem vetar certas decisões da UE, há a necessidade de legitimar as decisões maioritárias num quadro pan-europeu.

A democracia tem que ver com participação, contestação, responsabilização e representação. Eleições e parlamentos são apenas alguns dos inúmeros dispositivos institucionais possíveis para garantir a democracia. A UE não é um Estado, por isso precisamos de ser inovadores e forjar algumas experiências. A presidente da Comissão Europeia não pode, sozinha, alterar os tratados existentes, mas pode falar com convicção sobre a democracia e propor formas de a fortalecer. Os antecessores de Von der Leyen não o fizeram com convicção suficiente, e daí a atual crise de todo o projeto europeu. Esperemos que a primeira mulher chefe da Comissão não passe à história apenas como uma burocrata habilidosa, mas também como uma voz ou uma defensora do povo da Europa. Ou será muito ingénuo ter esperança em tal coisa?


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os governos húngaro e polaco que se cuidem

Não gostei propriamente que Úrsula von der Leyen fosse eleita, quando havia a hipótese de Franz Timmermans vir a ser um bem mais interessante presidente da Comissão Europeia. Mas é bom sinal que de Bruxelas se reafirme a intenção de penalizar os governos polaco e húngaro pelos desvios aos valores exigíveis para pertencer à União Europeia. Confirmam-se assim os resultados decorrentes das negociações de bastidores, que possibilitaram a eleição da antiga ministra da Defesa de Angela Merkel: mesmo sem ter existido a desejada «Geringonça» europeia ela pode vir a expressar-se por outros caminhos, que não pelos almejados atalhos.

 

Conquanto a meta se mantenha inalterada, pouco importa a forma como será alcançada. Porque, como dizia um antigo dirigente chinês, seja branco ou preto, de um gato só se espera que apanhe os ratos...
 
 

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/os-governos-hungaro-e-polaco-que-se.html

A União Europeia avaliza a nomeação de quatro altos funcionários

Thierry Meyssan*

Tendo-se tornado a União Europeia por força dos Tratados numa estrutura supra-nacional, como podem os Estados-membros designar altos funcionários que lhes darão ordens ? De facto, não o fazem, limitam-se a avalizar as escolhas da OTAN, discutidas entre a Alemanha e a França.

Em princípio, foi decidido pelos Estados Unidos, a Alemanha e a França, antes das eleições para o Parlamento Europeu, que o Presidente da Comissão seria o alemão Manfred Weber. Este havia-se comprometido a fazer cessar os trabalhos de construção do gasoduto Nord Stream 2 e a limitar a compra de hidrocarbonetos russos pela União em benefício do gás dos EUA, muito mais caro a produzir e a transportar.

Para adormecer os eleitores europeus, uma intensa propaganda assegurara que o Presidente da Comissão iria ser eleito de acordo com uma «regra democrática»: seria o cabeça de lista do mais importante grupo parlamentar eleito. E não havia dúvida de que seria Manfred Weber como Líder dos Conservadores (EPP). É claro que esta regra jamais foi democrática uma vez que democrático teria sido designar uma pessoa apoiada, não por um grupo parlamentar, mas sim por uma maioria. No entanto, a imprensa e os candidatos repetiram esta incongruência, conscientes de que a União não passa de um logro.

Ora, no último momento, a França voltou atrás no seu compromisso. O Presidente Emmanuel Macron pretextou que o seu grupo parlamentar (ALDE, entretanto tornado Renew Europe) tinha alcançado um claro avanço e assim exigir um dos quatro postos dos altos cargos mais importantes. Assim, ele fez com que Manfred Weber fosse insultado pela cabeça de lista do seu partido, Nathalie Loiseau, que o qualificou de «ectoplasma» e vetou a sua nomeação. No fim, ele próprio propôs um novo candidato alemão, Ursula von der Leyen, uma vez que a designação da francesa Christine Lagarde para a chefia do Banco Central Europeu tinha sido confirmada.

Estas duas mulheres ocuparão pois os dois postos mais importantes, enquanto o belga Charles Michel presidirá o Conselho de Chefes de Estado e de Governo —assim como o da eurozona— e o espanhol Josep Borrell será o Alto Representante para os Negócios Estrangeiros (Relações Externas-br) e para a Política de Segurança. Estas duas funções são puramente formais. A Presidência do Conselho consiste unicamente em dar a palavra aos oradores e em representar a União no estrangeiro. O Alto Representante é o porta-voz de uma política que todos sabem de antemão ser fixada em Washington e não em Bruxelas.

Estas nomeações não foram escolha do Conselho Europeu, mas, antes da Chancelerina alemã e do Presidente francês, aquando duma conversa particular, depois confirmadas pelo Conselho.

Como foram estes quatro altos-funcionários selecionados? Eles devem obedecer a dois critérios: 

-- ser atlantistas;
-- ter qualquer coisa a esconder que permita fazê-los saltar se lhes acontecer perderem a sua fé atlantista.

Ser atlantista

Ser atlantista é uma evidência para qualquer funcionário europeu já que o Tratado de Maastricht e os seguintes estipulam que a Defesa da União é garantida pela OTAN, a aliança militar anti-Russos.

Assim, Ursula von der Leyen publicou uma oportunamente, no início do ano, uma coluna de opinião no New York Timespara fazer a apologia da OTAN que «defende a ordem mundial» [1].

O atlantismo de Christine Lagarde não precisa sequer de ser demonstrado uma vez que ela iniciou a sua carreira como assistente parlamentar no Congresso dos EUA e se tornou lóbista da indústria de Defesa dos EUA contra o seu contraparte francês. Foi ela que convenceu a Polónia a comprar o armamento feito pela Boeing e Lockheed-Martin em vez do da Airbus e Dassault [2].

Charles Michel é o Primeiro-ministro do país anfitrião da OTAN e é recomendado pelo seu pai, Louis Michel, antigo Comissário Europeu para a Cooperação Internacional, a Ajuda Humanitária e a Resposta a Crises. Josep Borrell, um antigo do kibutz de Gal On (Deserto do Neguev), foi Presidente do Parlamento Europeu, onde ardentemente defendeu o princípio da vassalagem europeia à Aliança Atlântica.

Os quatro candidatos foram convidados, é claro, para as reuniões do grupo Bilderberg, o clube da OTAN. No entanto, Josep Borrell não pode lá ir no mês passado, tendo-lhe esta participação sido interdita pelo seu Primeiro-ministro.

«Ter um esqueleto no armário»

Por muito que confiem nos seus empregados, os Estados Unidos preferem sempre dispor de um meio de pressão para os meter na linha. De facto, acontece demasiadas vezes que altos funcionários não se limitem ao astronómico salário que lhes é pago e lhes dê na cabeça de se porem a servir, realmente, os seus concidadãos.

Uma investigação judicial estava em curso sobre a gestão do Ministério da Defesa por Ursula von der Leyen. Enquanto o exército alemão está notoriamente sub-equipado, a gigantesca ultrapassagem de orçamentos em vários casos havia já desencadeado uma investigação por uma empresa de auditoria, a qual achou as explicações fornecidas satisfatórias. Mas, a descoberta que, no seio dessa empresa, a auditoria havia sido dirigida pelo filho desta grande aristocrata alertara a Procuradoria (Promotoria-br). O chamado «Estado de direito» alemão é tal que a Chancelaria tem o poder de parar as investigações judiciais a membros do governo.

Christine Lagarde foi condenada por «negligência» pelo Tribunal de Justiça da República Francesa, mas foi isenta de punição. Ela tinha decidido levar um litígio financeiro opondo um banco público a um antigo ministro a um tribunal de arbitragem em vez dos tribunais comuns.

Ora, a arbitragem foi contra o Estado e deu razão ao antigo ministro, o que jamais devia ter acontecido.

Eu ignoro em que casos escuros Charles Michel e Josep Borrell se terão envolvido, mas seguramente existem : o primeiro não aceitou dirigir um governo minoritário e o segundo, quando estava no topo da sua carreira, não se afastou por sua própria iniciativa da vida política durante uma dezena de anos?

Os salários de cada um destes quatro altos funcionários serão duas vezes mais elevados que o do Presidente francês. Não se trata de remunerar as suas qualidades excepcionais, mas de garantir que eles as coloquem ao serviço do seu suserano. É esse o preço da sua traição.

* Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
Notas:
[1] “The World Still Needs NATO”, Ursula von der Leyen, New York Times, January 18, 2019.
[2] « Avec Christine Lagarde, l’industrie US entre au gouvernement français », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 22 juin 2005. Após ler este artigo, o Presidente Jacques Chirac suspendeu o direito de assinatura da sua nova ministra que tinha que reportar-se, a propósito, em todos os assuntos ao Primeiro-ministro.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/a-uniao-europeia-avaliza-nomeacao-de.html

A União Europeia avaliza a nomeação de quatro altos funcionários

Tendo-se tornado a União Europeia por força dos Tratados numa estrutura supra-nacional, como podem os Estados-membros designar altos funcionários que lhes darão ordens ? De facto, não o fazem, limitam-se a avalizar as escolhas da OTAN, discutidas entre a Alemanha e a França.

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Em princípio, foi decidido pelos Estados Unidos, a Alemanha e a França, antes das eleições para o Parlamento Europeu, que o Presidente da Comissão seria o alemão Manfred Weber. Este havia-se comprometido a fazer cessar os trabalhos de construção do gasoduto Nord Stream 2 e a limitar a compra de hidrocarbonetos russos pela União em benefício do gás dos EUA, muito mais caro a produzir e a transportar.

Para adormecer os eleitores europeus, uma intensa propaganda assegurara que o Presidente da Comissão iria ser eleito de acordo com uma «regra democrática»: seria o cabeça de lista do mais importante grupo parlamentar eleito. E não havia dúvida de que seria Manfred Weber como Líder dos Conservadores (EPP). É claro que esta regra jamais foi democrática uma vez que democrático teria sido designar uma pessoa apoiada, não por um grupo parlamentar, mas sim por uma maioria. No entanto, a imprensa e os candidatos repetiram esta incongruência, conscientes de que a União não passa de um logro.

Ora, no último momento, a França voltou atrás no seu compromisso. O Presidente Emmanuel Macron pretextou que o seu grupo parlamentar (ALDE, entretanto tornado Renew Europe) tinha alcançado um claro avanço e assim exigir um dos quatro postos dos altos cargos mais importantes. Assim, ele fez com que Manfred Weber fosse insultado pela cabeça de lista do seu partido, Nathalie Loiseau, que o qualificou de «ectoplasma» e vetou a sua nomeação. No fim, ele próprio propôs um novo candidato alemão, Ursula von der Leyen, uma vez que a designação da francesa Christine Lagarde para a chefia do Banco Central Europeu tinha sido confirmada.

Estas duas mulheres ocuparão pois os dois postos mais importantes, enquanto o belga Charles Michel presidirá o Conselho de Chefes de Estado e de Governo —assim como o da eurozona— e o espanhol Josep Borrell será o Alto Representante para os Negócios Estrangeiros (Relações Externas-br) e para a Política de Segurança. Estas duas funções são puramente formais. A Presidência do Conselho consiste unicamente em dar a palavra aos oradores e em representar a União no estrangeiro. O Alto Representante é o porta-voz de uma política que todos sabem de antemão ser fixada em Washington e não em Bruxelas.

Estas nomeações não foram escolha do Conselho Europeu, mas, antes da Chancelerina alemã e do Presidente francês, aquando duma conversa particular, depois confirmadas pelo Conselho.

Como foram estes quatro altos-funcionários selecionados ? Eles devem obedecer a dois critérios :
- ser atlantistas ;
- ter qualquer coisa a esconder que permita fazê-los saltar se lhes acontecer perderem a sua fé atlantista.

Ser atlantista

Ser atlantista é uma evidência para qualquer funcionário europeu já que o Tratado de Maastricht e os seguintes estipulam que a Defesa da União é garantida pela OTAN, a aliança militar anti-Russos.

Assim, Ursula von der Leyen publicou uma oportunamente, no início do ano, uma coluna de opinião no New York Times para fazer a apologia da OTAN que «defende a ordem mundial» [1].

O atlantismo de Christine Lagarde não precisa sequer de ser demonstrado uma vez que ela iniciou a sua carreira como assistente parlamentar no Congresso dos EUA e se tornou lóbista da indústria de Defesa dos EUA contra o seu contraparte francês. Foi ela que convenceu a Polónia a comprar o armamento feito pela Boeing e Lockheed-Martin em vez do da Airbus e Dassault [2].

Charles Michel é o Primeiro-ministro do país anfitrião da OTAN e é recomendado pelo seu pai, Louis Michel, antigo Comissário Europeu para a Cooperação Internacional, a Ajuda Humanitária e a Resposta a Crises. Josep Borrell, um antigo do kibutz de Gal On (Deserto do Neguev), foi Presidente do Parlamento Europeu, onde ardentemente defendeu o princípio da vassalagem europeia à Aliança Atlântica.

Os quatro candidatos foram convidados, é claro, para as reuniões do grupo Bilderberg, o clube da OTAN. No entanto, Josep Borrell não pode lá ir no mês passado, tendo-lhe esta participação sido interdita pelo seu Primeiro-ministro.

« Ter um esqueleto no armário »

Por muito que confiem nos seus empregados, os Estados Unidos preferem sempre dispor de um meio de pressão para os meter na linha. De facto, acontece demasiadas vezes que altos funcionários não se limitem ao astronómico salário que lhes é pago e lhes dê na cabeça de se porem a servir, realmente, os seus concidadãos.

Uma investigação judicial estava em curso sobre a gestão do Ministério da Defesa por Ursula von der Leyen. Enquanto o exército alemão está notoriamente sub-equipado, a gigantesca ultrapassagem de orçamentos em vários casos havia já desencadeado uma investigação por uma empresa de auditoria, a qual achou as explicações fornecidas satisfatórias. Mas, a descoberta que, no seio dessa empresa, a auditoria havia sido dirigida pelo filho desta grande aristocrata alertara a Procuradoria (Promotoria-br). O chamado «Estado de direito» alemão é tal que a Chancelaria tem o poder de parar as investigações judiciais a membros do governo.

Christine Lagarde foi condenada por «negligência» pelo Tribunal de Justiça da República Francesa, mas foi isenta de punição. Ela tinha decidido levar um litígio financeiro opondo um banco público a um antigo ministro a um tribunal de arbitragem em vez dos tribunais comuns.

Ora, a arbitragem foi contra o Estado e deu razão ao antigo ministro, o que jamais devia ter acontecido.

Eu ignoro em que casos escuros Charles Michel e Josep Borrell se terão envolvido, mas seguramente existem : o primeiro não aceitou dirigir um governo minoritário e o segundo, quando estava no topo da sua carreira, não se afastou por sua própria iniciativa da vida política durante uma dezena de anos?

Os salários de cada um destes quatro altos funcionários serão duas vezes mais elevados que o do Presidente francês. Não se trata de remunerar as suas qualidades excepcionais, mas de garantir que eles as coloquem ao serviço do seu suserano. É esse o preço da sua traição.


[1] “The World Still Needs NATO”, Ursula von der Leyen, New York Times, January 18, 2019.

[2] « Avec Christine Lagarde, l’industrie US entre au gouvernement français », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 22 juin 2005. Após ler este artigo, o Presidente Jacques Chirac suspendeu o direito de assinatura da sua nova ministra que tinha que reportar-se, a propósito, em todos os assuntos ao Primeiro-ministro.



Ver original na 'Rede Voltaire'



UE admite falha de cooperação a não ajudar Portugal no combate de incêndios

Um Kamov apaga incêndio em Alvaizere, no centro de Portugal, em 3 de setembro de 2012
© AP Photo / Francisco Seco

A União Europeia lamentou não ter sido capaz de atender ao pedido de ajuda de Portugal, quando o país sofreu com os incêndios em outubro de 2017.

"Foi doloroso não ter resposta para Portugal", confessou o comissário europeu de Ajuda Humanitária e Gestão de Crise, Christos Stylianides.

A declaração foi dada nesta segunda-feira (8), em Madri. O comissário também afirmou que, na ocasião, telefonou para cada um dos governantes que integram a União Europeia com o intuito de conseguir ajuda para Portugal, conforme cita o Observador.

Perante o pedido de ajuda de Portugal, alguns países da UE afirmaram que precisavam de seus meios de combate a incêndios, enquanto que outros afirmaram não dispor dos meios na época dos incêndios.

"A minha angústia perante as respostas dos outros ministros, dizendo que não tinham meios", lamentou o comissário europeu perante a falta de colaboração, ressaltando que jamais esquecerá os incêndios que atingiram Portugal em outubro.

Bombeiros portugueses combatem o fogo no Vale da Ponte, em Pedrógão Grande, em 20 de junho de 2017
© AFP 2019 / Miguel Riopa
Bombeiros portugueses combatem o fogo no Vale da Ponte, em Pedrógão Grande, em 20 de junho de 2017

"Uma das situações mais dolorosas da minha vida foi não ter resposta para Portugal", completou.

Após a desastrosa reação da UE, o comissário decidiu criar um plano para reforçar a resposta europeia a situações de catástrofes, o rescUE, que tem como objetivo corrigir falhas de solidariedade e mobilização dos meios de combate a incêndios entre os países do bloco.

"Em 2017, não tivemos os meios suficientes para suprir as necessidades. Foi desesperador", afirmou Johannes Luchner, diretor do Serviço de Proteção Civil e de Operações de Ajuda Humanitária da União Europeia, desabafando que não irá se esquecer do episódio.

Incêndios atingem Portugal

Em 2016, Portugal também foi vítima de intensos incêndios que atingiram diversas regiões do país, tanto na parte continental quanto na ilha da Madeira.

Avião anfíbio Be-200 (foto de arquivo)
© Sputnik / Roman Denisov
Avião anfíbio Be-200 (foto de arquivo)

Na ocasião, o governo português solicitou ajuda ao governo russo, que prontamente lançou uma ação coordenada do grupo aéreo internacional, que incluía aviões anfíbios russos Be-200, e do corpo local de bombeiros.

No total, dois aviões russos lançaram 444 toneladas de água nos focos de incêndio, conseguindo apagar mais de 50 incêndios e salvando quatro povoados e dois parques nacionais portugueses.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019070914179675-ue-admite-falha-de-cooperacao-a-nao-ajudar-portugal-no-combate-de-incendios/

A Europa na estratégia nuclear do Pentágono

Manlio Dinucci*

A França já não dispõe da tríade nuclear (vectores com base no solo, no ar e no oceano), desde 1996 e o Reino Unido nunca a teve. Só os Estados Unidos, a Rússia e a China têm esse privilégio. Num novo documento, o Comandante da Comissão Conjunta de Chefes do Estado-Maior dos EUA afirma a sua disposição de desarmar nuclearmente os seus aliados que, num desfecho, não teriam o direito de utilizar senão as bombas dos EUA e não as deles.

Os Ministros da Defesa da NATO (de Itália, Elisabetta Trenta, M5S, de Portugal, João Gomes Cravinho) foram convocados para reunir em Bruxelas, em 26 e 27 de Junho, a fim de aprovar as novas medidas de “dissuasão” contra a Rússia, acusada, sem qualquer prova, de ter violado o Tratado INF.

Fundamentalmente, irão alinhar-se com os Estados Unidos que, retirando-se definitivamente do Tratado, em 2 de Agosto, preparam-se para instalar na Europa, mísseis nucleares de alcance intermédio (entre 500 e 5.500 km) com base no solo, semelhantes aos da década dos anos 80 (os Pershing II e mísseis de cruzeiro) que foram eliminados (juntamente com os SS-20 soviéticos) pelo Tratado assinado em 1987 pelos Presidentes Gorbachev e Reagan.

As principais potências europeias, cada vez mais divididas dentro da UE, reúnem-se na NATO sob o comando USA para apoiar os seus interesses estratégicos comuns.

A mesma União Europeia - da qual 21 dos 27 membros fazem parte da NATO (assim como faz parte a Grã-Bretanha, de saída da UE) - rejeitou nas Nações Unidas, a proposta russa de manter o Tratado INF. Sobre uma questão de tal importância, a opinião pública europeia é deixada, deliberadamente, no escuro pelos governos e pelos principais meios de comunicação mediática. Assim, não se avisa sobre o perigo crescente que paira sobre nós: aumenta a possibilidade que, um dia, se venha a usar armas nucleares.

Confirma-o, o último documento estratégico das Forças Armadas dos EUA, “Nuclear Operations” (11 de Junho), redigido sob a direcção do Presidente do Estado Maior reunido. Dado que “as forças nucleares fornecem aos EUA a capacidade de atingir os seus objectivos nacionais", o documento salienta que as mesmas devem ser “diversificadas, flexíveis e adaptáveis” a “uma ampla gama de adversários, ameaças e contextos”.

Enquanto a Rússia adverte que mesmo o uso de uma única arma nuclear de baixa potência desencadearia uma reacção em cadeia que poderia levar a um conflito nuclear em grande escala, a doutrina dos EUA está-se orientando com base num conceito perigoso de “flexibilidade”. ’Alvos (esclarece o mesmo documento) realmente escolhidos pelas agências de inteligência/serviços secretos, que avaliam a vulnerabilidade a um ataque nuclear, prevendo também os efeitos da chuva radioactiva.

O uso de armas nucleares – sublinha o documento – “pode criar as condições para resultados decisivos: especificamente, o uso de uma arma nuclear mudará fundamentalmente o quadro de uma batalha criando as circunstâncias que permitem aos comandantes prevalecer no conflito”. As armas nucleares também permitem aos EUA “salvaguardar os seus aliados e parceiros" que, confiando neles, “renunciam à posse das suas próprias armas nucleares, contribuindo para os propósitos de não-proliferação dos EUA".

No entanto, o documento deixa claro que “os EUA e alguns aliados selecionados da NATO mantêm aviões de capacidade dupla capazes de transportar armas nucleares ou convencionais”. Admite, assim, que quatro países europeus não nucleares - Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda – e a Turquia, violando o Tratado de Não-Proliferação, não só hospedam armas nucleares americanas (as bombas B-61 que, a partir de 2020, serão substituídas pelas B61-12, mais mortíferas ), mas estão preparados para usá-las num ataque nuclear sob comando do Pentágono.

Tudo isto é omitido pelos governos e parlamentos, televisões e jornais, com o silêncio cúmplice da grande maioria dos políticos e jornalistas, que, pelo contrário, nos repetem, quotidianamente, como é importante para nós, italianos e europeus, a “segurança”. Garantem-na os Estados Unidos, instalando na Europa, outras armas nucleares.

Imagem:O General da Infantaria da Marinha, Joseph Dunford, Presidente da Comissão Conjunta dos Chefes do Estado-Maior, concedeu os diplomas aos alunos da Universidade da Defesa Nacional, em 13 de Junho de 2019. Aproveitou a oportunidade para assegurar que “É aos oficiais generais que compete conduzir a mudança, num mundo incerto”.

Documentos anexados
Nuclear Operations | Joint Chiefs of Staff, June 11, 2019  (PDF - 1.1 Mb)

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/a-europa-na-estrategia-nuclear-do.html

As escolhas

(Miguel Sousa Tavares, in Ex+resso, 06/07/2019)

Miguel Sousa Tavares

 

1 A imagem dos deputados europeus do Partido do Brexit de costas voltadas para os seus colegas na primeira sessão do novo Parlamento eleito, em Estrasburgo, atingiram o efeito pretendido: ofender e manifestar o seu desprezo pelos seus colegas, pelo Parlamento, pela União Europeia e por todos os quase trezentos milhões de cidadãos europeus que votaram nas eleições europeias de Maio. Pela parte que me toca, senti-me ofendido, mas devolvo o insulto: aqueles imbecis, que seguem um idiota vulgar como Nigel Farage e se preparam para eleger um PM ao nível do demagogo de feira Boris Johnson, não fazem falta nenhuma à Europa: que se vão e sejam muito felizes entrincheirados na ilha. Só não percebo que não tenham tido o mínimo de dignidade de renunciarem ao cargo de deputados e respectivas regalias, deixando os lugares vazios em Estrasburgo.

Eles não fazem falta, mas a Inglaterra faz. Faz falta como terceiro pilar entre a França e a Alemanha, faz falta para acrescentar dimensão atlântica à geografia europeia, para, com outra gente que não a do ‘Brexit’, ensinar maneiras e democracia aos mal-educados e recém-chegados. Faz falta, assim como a Europa vai fazer falta à Inglaterra, sobretudo aos jovens e aos que não pertencem ao clube dos privilegiados que se imaginam guardiões de um império que já não existe ou ao novo lumpen-proletariado que forma as suas opiniões nas redes sociais e depois vota nos Johnsons, Farages, Salvinis, Bolsonaros ou no maior ídolo desses pobres de espírito, Donald Trump — o tal que escreveu no Twitter que se tinha encontrado com o príncipe de Whales (das Baleias), em vez do príncipe de Wales (de Gales).

Mas esta semana, olhando para o que foi a tremenda batalha no Conselho Europeu entre os defensores dos princípios básicos e fundadoras da UE — o Estado de direito e a democracia — e os seus opositores, representando quase metade dos 28, é provável que um inglês dos que lamentam a saída da UE tenha pensado que, afinal, talvez o clube europeu já não seja assim tão recomendável. E, todavia, há uma quantidade de outros domínios — como a ciência, a investigação, a energia, o clima, a fiscalidade, a banca, o euro, o combate contra as multinacionais — em que apenas a coesão europeia poderá salvar do esmagamento todos e cada um dos seus membros. Pelo que é impensável, é insustentável, que tudo isso possa ficar paralisado porque um grupo de países baptizado de Visegrado, aliado a uns quantos países de Leste apressadamente integrados na UE e alguns saudosos de regimes autoritaristas de direita, como a desgraçada Itália actual do tenebroso Salvini — todos eles, aliás, convergindo num ódio declarado à UE — possam estar lá dentro a desempenhar o papel de cavalo de Tróia, partindo da rejeição daquilo que é essencial no Tratado de Roma.

O consenso provisório e remendado a que se chegou terça-feira em Bruxelas, sendo o mínimo aceitável e possível nas circunstâncias actuais, prenuncia porém tempos futuros de constante desgaste e paralisia, não a combater os desafios e ameaças externas, mas os inimigos internos. Isto não é uma União, é um casamento podre e sem conserto.

A chamada Europa a duas velocidades é pouco e é provavelmente impraticável. É chegada a altura de ir mais além e iniciar a discussão sobre o que deve ser posto em cima da mesa: a refundação da UE. Partir os 28 a meio, entre os que querem a Europa e não discutem os seus fundamentos e os que estão lá dentro para a minar e para ajustarem contas com os seus próprios fantasmas do passado.


2 Decorria sem novidades e sem grande interesse a entrevista do ministro da Agricultura ao “Público”, quando lhe falaram do olival intensivo e super-intensivo em Alqueva. Aí, Capoulas Santos saltou, como se lhe tivessem atacado um parente de família. E o que disse deixou-me atordoado: pelo que disse e por vir dele, de quem não esperava tanto assanhamento, embora já soubesse que também é um defensor não confesso do eucaliptal intensivo. Começa por dizer o ministro que o olival é milenar em Portugal e a ninguém ocorre que faça mal à saúde. Começou mal: uma coisa é o olival milenar e tradicional; outra, completamente diferente, quer no tipo de árvores quer no tipo de exploração, é o olival intensivo. E ninguém disse que um olival faça mal à saúde, o que faz mal à saúde das populações locais é o fumo das chaminés que extraem o bagaço da azeitona e que vem acompanhado de compostos químicos nocivos à saúde. Gostaria de ver o ministro ir lá dizer às populações, cujas queixas não têm parado, que a sua qualidade do ar é irrepreensível.

Como é evidente, eu não tenho a pretensão de saber sobre o assunto, apenas me tenho tentado manter informado, lendo tudo o que se escreve sobre isto. E há muitas opiniões contraditórias, sendo que, como é natural, todos ou quase todos os defensores do olival intensivo ou são aqueles que estão em posição de o autorizar, ou estão ao serviço das empresas que o exploram, ou são os próprios interessados: é um negócio de muitos milhões e compreende-se que o defendam. Mas há uma coisa que mesmo os defensores não conseguem negar: está mais do que estudado e mais do que demonstrado que qualquer monocultura, em especial se em exploração intensiva, é uma ameaça a todo o eco-sistema de uma região e à sua regeneração posterior — como ali já vai sendo testemunhado. É, aliás, por não o poder ignorar, e constatando que o olival já atingiu metade da área do perímetro de rega de Alqueva, que Capoulas Santos anunciou há dias a suspensão de apoios à sua extensão. (Mas, sabendo o que a casa gasta, aposto que a suspensão será bem provisória). De resto, que toda a paisagem envolvente esteja a mudar, já não lhe faz impressão nenhuma, apesar de ser alentejano e agricultor. “É natural — diz ele — antes era sequeiro e agora é regadio e isso muda a paisagem”. Mas, não, não é assim tão natural e é preciso ir lá ver, sobretudo para aqueles que acham que quem contesta aquilo são os que gostariam de ver para sempre o Alentejo salpicado apenas por um chaparro aqui ou ali. Vão lá, vejam e imaginem também a Serra de Sintra, ou a da Arrábida, ou o Gerês, transformadas num olival intensivo.

Mas para Capoulas Santos tudo faz parte de uma “campanha” e o que o preocupa é que ela colha frutos junto dos “eleitores” (reparem que não é a opinião pública ou a opinião de alguns que o preocupa, mas a dos eleitores, a dos votos). Compreende-se esta obsessão com o lado rentável da politica, vindo de quem afirma que “o maior desgosto da vida”, que o fez “pensar abandonar a politica”, foi um dia ter sido convidado para secretário de Estado da Agricultura às 16 horas e desconvidado às 23. E de quem iria ele ser secretário de Estado? De Álvaro Barreto, o ministro da Agricultura que vendeu a dita a Bruxelas pelo preço de 120 milhões de contos de então, achando que o futuro do mundo rural estava nos campos de golfe e florestas de eucaliptos.

Pensando bem, sou capaz de concordar com Capoulas Santos: tudo isto faz parte de uma campanha. E bem antiga, por sinal. A campanha a favor do olival intensivo, a que ele acaba de se arregimentar, é apenas o culminar de uma longa tradição — em particular, sempre presente entre os ministros do Ambiente e da Agricultura socialistas: a de ignorarem a relação íntima entre Agricultura e Ambiente, entre paisagem e património natural, e desprezarem as consequências futuras de facturar agora à tripa-forra e pensar depois nas consequências. Portugal é uma triste paisagem povoada de irremediáveis asneiras levadas a cabo pelo voluntarismo de uns quantos, sempre sob o argumento do progresso e do desenvolvimento. Raramente se estudou, se pensou, se planeou primeiro. Avança-se e logo se vê. E quem ousa levantar dúvidas e objecções só pode fazer parte de alguma obscura campanha.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Onde está a bomba atómica da Europa?

Que pensam sobre a força – as armas da Europa – os deputados europeus que acabaram de tomar posse em Estrasburgo?

Em o “Príncipe”, Maquiavel escreveu que é impossível existirem boas leis se antes destas não existirem boas armas.

Luís XIV, o rei Sol, mandou inscrever na boca dos seus canhões a frase latina: Ultima Ratio Regum – o último argumento dos reis.

Mao Tse Tung, o chefe da revolução que está na origem da China potência mundial de hoje, proclamou que o poder está na ponta da espingarda.

Que pensam sobre a força – as armas da Europa – os deputados europeus que acabaram de tomar posse em Estrasburgo?

Estes deputados vão representar os cidadãos da União Europeia num jogo de forças mundial. Vão negociar tratados de comércio, valores de moedas, acessos a mercados de matérias-primas e de produtos manufacturados, vão lutar por recursos essenciais, mas escassos, por direitos de tráfego de pessoas e bens. Pensam estes deputados participar nesta guerra e nas suas batalhas de mãos nuas e sorrisos cândidos?

Algum deputado aqui em Portugal ou em qualquer estado europeu, falou destes assuntos? Ouvi-os e li-os em várias línguas a exigirem “fundos”. Os cidadãos europeus estão, pelo que parece, embevecidos com a conversa da treta e da teta.

Onde está a força – as tais boas armas de que falava Maquiavel – para a União Europeia impor as boas leis, as boas políticas, para defender os interesses dos europeus no mundo? – Algum dos deputados que hoje debutam em Estrasburgo é capaz de explicar aos seus eleitores?

Ter boas armas para um Estado se afirmar autonomamente no xadrez da política internacional implica hoje o domínio de três vectores. Muito resumidamente e em linguagem simples: um sistema de informações (tecnologias da informação – recolha, tratamento e armazenamento de dados) próprio, um sistema aeroespacial com satélites de várias configurações para comunicações, leitura da superfície terrestre, luta entre satélites e, por fim um sistema de armas nucleares, de destruição massiva ou contra alvos precisos, que possibilite o seu lançamento a partir de plataformas terrestres, aéreas, marítimas e espaciais.

Algum deputado europeu referiu o assunto do armamento, das “boas armas” para a União Europeia ter um papel nos conflitos do mundo?

Ninguém gosta das popularmente designadas de “bombas atómicas”, mas elas existem, já foram utilizadas e não podem ser “desinventadas”. Temos de viver (se conseguirmos) com elas.

A tensão causada pelo programa nuclear do Irão e os salamaleques que o presidente da Coreia do Norte tem merecido das superpotências reinantes, por parte dos dirigentes dos EUA, da Rússia e da China provam que só a posse da “bomba atómica” e da capacidade tecnológica de a usar garante a sobrevivência desses estados e dos seus dirigentes.

Os chefes religiosos do Irão e o chefe da Coreia do Norte, com as respectivas cortes, aprenderam a lição de Saddam Hussein e de Khadafi: estes dois não tinham as tais armas de destruição massiva de que eram acusados e tramaram-se por isso, um enforcado e o outro empalado.

Para os ayatolah de Teerão e para Kim Jong-un em Pyongyang as “bombas atómicas” são o mesmo que o colete de explosivos dos bombistas suicidas: com elas ninguém se atreve a atacá-los. São o seu seguro de vida. Mas são também um bilhete para as grandes récitas mundiais. Equipados com “bombas atómicas” eles podem dar-se ao luxo de só negociar com quem possua armas nucleares!

Goste-se ou não, quem não possui armas nucleares e a tecnologia para ameaçar credivelmente com a sua utilização é e será um Estado dependente de um outro que as possua. Será um Estado suserano, que subsiste em condições de aparente autonomia, mas rende vassalagem ou paga tributo a um estado soberano.

Algum deputado europeu falou desta condição de menoridade da União Europeia e a defendeu, ou se propôs alterar a situação?

A União Europeia não dispõe de um sistema autónomo de gestão de dados, não dispõe de um sistema aeroespacial autónomo e não dispõe de armas nucleares credíveis (a force de frappe francesa são dinky toys para satisfazer o ego nacional e as armas nucleares inglesas fazem parte da panóplia americana).

Algum deputado europeu abordou o assunto de a União Europeia vir a ser em ponto grande aquilo que a Cuba de Fulgêncio Batista foi para os Estados Unidos em ponto pequeno? Um bordel, uma estância para tráficos dos grandes gângsteres, um espaço sujeito à lei do mais forte?

A questão central da União Europeia é a de saber se esta quer ser um grande espaço político no mundo, sentar-se à mesma mesa com os Estados Unidos, a Rússia, a China, porventura a Índia, ou se quer sentar-se na mesa dos serviçais, dos dependentes de hálito pestífero, como o Brasil de Bolsonaro, as Filipinas de Duterte, Israel (que possui cerca de 100 ogivas nucleares) de Netanyahu, a Arábia Saudita do esquartejador, a Ucrânia sabe-se lá de quem…

A questão da União Europeia é ser um dos grandes no mundo, ou ser um dos subordinados, um protectorado. Qual a opção dos deputados europeus? O que faz um ministro dos negócios estrangeiros da UE (agora um espanhol) sem força para negociar, sem força para escolher aliados, sem força para recusar ultimatos e dicktats de potências imperiais? Fala baixinho, mexe-se sem causar perturbações, mete o rabo entre as pernas. Será o papel do senhor Borrell, que substituiu a senhora Mogherini no cargo com o pomposo título de Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança! Equipado com uma fisga de ir aos pardais. Se o PAN deixar.

Ser um dos grandes actores da política mundial – e a União Europeia deve (devia) ter essa ambição – implica possuir armas nucleares e todos os sistemas associados para as produzir e lançar. É desagradável? Mas é mais perigoso para a defesa dos princípios da liberdade e do bem-estar que usufruímos na Europa, apesar das limitações, estar à mercê de quem nos cobra o imposto para nos garantir a segurança, como fazem as organizações mafiosas aos comerciantes indefesos.

A independência da União Europeia neste mundo dividido em coutadas implica ter a coragem de se afirmar tão disposto a utilizar a força quanto os seus parceiros e concorrentes se afirmam.

Algum deputado referiu o assunto?

O que se tem visto da parte dos dirigentes europeus é a barganha por lugares ditos de topo para os seus homens e mulheres de mão. Uma luta ridícula e suicida pelos melhores camarotes de um desarmado navio de comércio enquanto os barcos de piratas rondam com os canhões apontados!

A história de Portugal, mas também a da Inglaterra e a da Holanda revelam que antes do comerciante vai o soldado, o navio, o canhão. Que não há comércio sem uma armada, nem povos livres sem uma arma de dissuasão, ou de imposição de vontade. Na Europa é uma lição com meio milénio, pelo menos. A “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, é um compêndio de como foram os canhões dos navios de Afonso de Albuquerque que garantiram à Europa e a Portugal o comércio das especiarias do Oriente. O que fizemos com a riqueza obtida é outra história.

Nenhum deputado europeu referiu a questão central da força da Europa no mundo armado em que vivemos. Temos um parlamento europeu de anjos e arcanjos, de querubins e querubinas (é um assunto importante, de género) que lutam por um pequeno altar para fazer uns negócios.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/onde-esta-a-bomba-atomica-da-europa/

Paulo Nogueira Júnior: não estamos diante de um acordo de livre-comércio

247 - O economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, Paulo Nogueira Júnior, emartigono jornal Folha de S.Paulo, afirma que "transcorreu de forma opaca a negociação entre União Europeia e Mercosul, concluída na semana passada" e que "não estamos diante de um acordo de livre-comércio".

"O acordo Mercosul-União Europeia segue, em larga medida, o modelo geral da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), lançada pelos Estados Unidos nos anos 90, que incluía todo um conjunto de normas detalhadas, nas áreas acima citadas, em troca de poucas vantagens comerciais nos Estados Unidos. "

"Outro risco agora é que os EUA e demais países desenvolvidos queiram fazer acordos semelhantes com o Mercosul para evitar que os europeus levem vantagem nos mercados do bloco sul-americano. À medida que isso ocorrer, ficará agravada a perda de autonomia na definição das políticas de desenvolvimento. "

"O leitor poderá perguntar, perplexo: europeus e americanos pensam, então, que somos idiotas? Talvez. "

"Eles contam, provavelmente, com o nosso fascínio atávico por aspectos intangíveis, etéreos desse tipo de negociação, entre eles o “prestígio” de fechar acordos com os principais países, a inserção no mundo “globalizado”, o sinal de “confiança” para os mercados e investidores internacionais etc."

Putin: Rússia quer retomar relações plenas com UE

Presidente russo Vladimir Putin durante reunião do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo 2019 (SPIEF 2019), em 7 de junho de 2019
© Sputnik / Grigory Sysoev

O presidente russo, Vladimir Putin, que visita a Itália nesta quinta-feira para encontro com autoridades, disse à imprensa local que o seu país deseja retomar relações completas com a União Europeia.

Em entrevista ao Corriere della Sera, o chefe de Estado da Rússia afirmou que os recentes boatos sobre uma suposta interferência russa em eleições na Europa teriam como objetivo continuar demonizando Moscou no continente. Segundo ele, o seu país está pronto para trabalhar com as forças eleitas pela população europeia a fim de manter a segurança e a estabilidade no território europeu. 

"Eu gostaria de deixar isso bem claro. Nós não nos intrometemos e não planejamos nos intrometer em assuntos internos de nenhum dos países da União Europeia nem de outros Estados do mundo. Essa é a nossa principal diferença em relação aos Estados Unidos e a alguns de seus aliados, que, por exemplo, apoiaram o golpe na Ucrânia em fevereiro de 2014", disse ele.

No que diz respeito à Europa Oriental, Putin declarou que o Kremlin se dispõe a estabelecer um diálogo construtivo com a Ucrânia se seu novo presidente, Vladimir Zelensky, fizer jus às promessas de campanha. 

​"Sim, é possível se Zelensky começar a cumprir suas promessas de campanha", disse quando perguntado se a vitória de Zelensky permitiu um degelo nas relações entre Moscou e Kiev, abrindo caminho para a resolução do conflito em Donbass e para o estabelecimento de um diálogo construtivo entre Rússia e Ucrânia. O líder russo lembrou que, durante o período de campanha eleitoral, Zelensky prometeu "estabelecer contatos diretos com seus compatriotas em Donbass e parar de chamá-los de separatistas".

Além das relações Europa-Rússia, o presidente russo também comentou os recentes desenvolvimentos do novo tratado START. De acordo com Putin, Moscou não vê nenhuma disposição de Washington para discutir a possível extensão do tratado de controle de armas, enquanto as perspectivas de cooperação EUA-Rússia na esfera das armas estratégicas permanecem incertas. No entanto, ele garantiu que Moscou tem vontade política para chegar a um acordo com os Estados Unidos na área de redução de armas, acrescentando que "a bola está agora na quadra dos EUA". 

Vladimir Putin visitará a Itália nesta quinta-feira para conversar com o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, o presidente Sergio Mattarella e o papa Francisco sobre uma ampla gama de questões. De acordo com o assessor do Kremlin Yury Ushakov, a agenda do líder russo incluirá temas como cooperação Rússia-UE, programa nuclear iraniano, situação na Síria, Líbia e Ucrânia, além de assuntos relacionados a questões bilaterais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019070314160244-putin-russia-quer-retomar-relacoes-plenas-com-ue/

Como a estratégia imperialista está a enfraquecer a Europa

A impossibilidade de se chegar a algum consenso quanto às lideranças europeias tem de se imputar à herança de Durão Barroso enquanto esteve à frente da Comissão para cumprir as ordens de quem o promoveu àquele cargo para cumprir a etapa final da fase Guerra Fria do Ocidente contra a Rússia pós-soviética. A pressa com que os países anteriormente vinculados ao Pacto de Varsóvia foram puxados para o lado da NATO, decerto com a ajuda de muito dinheiro fluído através dos agentes da CIA ali colocados, traduziu-se na sua trágica viragem para as direitas mais extremas. E são elas quem estão a servir de idiotas úteis a quem, no outro lado do Atlântico, afina as miras contra a China na convicção de ter, entretanto, neutralizado a concorrência comercial e política da Rússia e da Velha Europa, tal qual a designava Donald Rumfeld.

 

E ainda há quem por estas bandas continue a perorar sobre as vantagens das relações transatlânticas! «Amigos» daqueles é pô-los a muitas léguas de distância...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/como-estrategia-imperialista-esta.html

A ignóbil porcaria

(Rui Tavares, in Público, 02/07/2019)

Rui Tavares

No pino do Verão de 1901, os partidos então dominantes na monarquia portuguesa decidiram juntar esforços para alterar a lei eleitoral de forma a contrariar a ameaça de crescimento dos republicanos e de um novo partido “regenerador liberal”. Chamou-se a essa manobra a “Ignóbil Porcaria”.

 

Pois bem, o que acabou de se passar no Conselho Europeu foi uma ignóbil porcaria à escala europeia. Talvez os envolvidos não tenham ainda noção disso, talvez alguns até estejam convencidos das suas boas intenções, ou queiram convencer-nos delas, mas a verdade é que se não quiserem chamar-lhe “ignóbil porcaria” chamem-lhe “conchavo vergonhoso” ou outro qualquer sinónimo.

Pior do que isto era impossível. Os europeus foram votar há pouco mais de um mês, aumentando até as taxas de participação em resposta a um apelo para que se socorresse o projeto europeu contra aqueles que o querem destruir. Nesse processo foram apresentados candidatos à Presidência da Comissão Europeia, transmitiram-se debates em que eles estiveram presentes, redigiram-se e legitimaram-se plataformas programáticas. E que fazem agora os chefes de estado e de governo reunidos no Conselho? Mercadejam lugares à porta fechada como no passado, eliminando todos os candidatos à presidência da Comissão Europeia que foram a votos e apresentando a 500 milhões de cidadãos da UE alguém escolhido à revelia do processo democrático que se tentava construir.

Pior era impossível: os chefes de governo aceitaram eliminar o segundo candidato mais bem posicionado à Presidência da Comissão Europeia, e o único que até agora tinha demonstrado ter uma maioria no Parlamento Europeu, o holandês Frans Timmermans, por causa deste ter defendido o estado de direito e os valores da UE, fazendo o seu trabalho de comissário, em processos envolvendo os governos da Hungria e da Polónia. Não adianta tapar o sol com uma peneira. Foi por isso, e exclusivamente por isso, que os governos polaco e húngaro bloquearam o nome de Timmermans.

E que fizeram os outros governos, incluindo os socialistas de Portugal e Espanha? Puseram-se de joelhos. Não acreditam em mim? Acreditem em Orbán: “Mantivemos a nossa linha como prometemos. Os Quatro de Visegrado [a Hungria, a Polónia, a República Checa e a Eslováquia] ganharam”. Qual é a mensagem que passa para o próximo comissário com a pasta do estado de direito? Não te dês ao trabalho de defender os valores europeus se queres ter carreira política. Já se sabia que a suspensão de Orbán do PPE era uma farsa. Agora sabe-se que Orbán “suspenso” manda mais ainda do que antes: manda no PPE, e de caminho humilha os socialistas europeus também.

Pior era impossível: os chefes de estado e de governo não esperaram sequer para para ver se a liberal Margrethe Vestager, a terceira candidata mais bem posicionada, conseguiria formar uma maioria parlamentar. É verdade que Vestager não foi uma cabeça de lista formal, mas esteve presente como candidata liberal à presidência da Comissão nos debates eleitorais, e foi apresentada como tal pelo seu partido ao Conselho Europeu. Como Timmermans, Vestager foi uma comissária corajosa (pelos vistos, uma cláusula de exclusão para o Conselho) contra as multinacionais do digital americanas e as suas práticas de evasão fiscal. Além disso, seria a primeira mulher à frente da Comissão. Quando os chefes de governo nos quiserem convencer que escolheram também uma mulher, urge a pergunta: e por que não escolheram uma mulher legitimada pelos votos?

Pior era impossível: os chefes de estado e de governo apresentaram a sua escolha com uma sobranceria e uma arrogância que está já para lá da política do facto consumado, quando na verdade só têm poder formal para um decidir um dos cargos que apresentaram — o de presidente do Conselho. Dizer que “Ursula von der Leyen será Presidente da Comissão”, como escreveu António Costa, é esquecer-se que ela só o será se for aprovada pelo Parlamento Europeu.

Só que, pior ainda, o Conselho decidiu escolher também o presidente do Parlamento. E não contentes com isso, escolheram já dois, o próximo e o seguinte! Então para que raio votaram os europeus a 26 de maio? E para rematar, os nossos queridos líderes nacionais fizeram aquilo que disseram que não fariam, e embrulharam no pacote também a futura presidente do BCE (talvez querendo disfarçar a falta de paridade das outras escolhas), escolha que antes tinham dito obedecer a critérios diferentes de independência e competência técnica. Pior, de facto, era impossível.

Não está em causa a competência (aliás pouco consensual no seu país, onde ela terá de enfrentar um julgamento por irregularidades de contratação pública) de Ursula von der Leyen, a ministra da defesa alemã com que os líderes nacionais decidiram presentear-nos. Nem dos outros escolhidos. Está em causa andarem a gozar com os eleitores, desrespeitarem o Parlamento Europeu e deixarem que os aprendizes de ditadores como Orbán lhes ditem as suas estratégias.

E Portugal, no meio disto tudo? Como pode um governo minoritário, sem qualquer debate na Assembleia da República, mergulhar o nome e o voto de Portugal neste repugnante cozinhado que levará a direita austeritária alemã diretamente à presidência da Comissão, permitindo ao PPE dominar vinte anos inteiros o executivo da UE? Quem votou no PS em maio pode não ter sabido que votava nisto. Mas quem votar em outubro, saberá o que estará a legitimar.

Neste momento, só um sobressalto do Parlamento Europeu rejeitando por inteiro as escolhas do Conselho nos salvaria. Não sei se virá, mas seria um gesto de revolta, de maioridade e de sanidade democrática.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Christine Lagarde

Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, é a escolhida para suceder a Mario Draghi na presidência do Banco Central Europeu. A escolha dos socialistas e liberais europeus é um dos principais rostos da austeridade e dos desastrosos programas de ajustamento da troika. Sinal preocupante para o futuro do BCE, com implicações diretas para Portugal, muito dependente das decisões de política monetária europeia.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

«Consenso de Bruxelas» ou a UE exposta: «novos cargos», velhas políticas

O processo mediatizado em torno das «novas» caras para a direcção das instituições da UE confirmam um amplo consenso para a prossecução das políticas que têm prejudicado as populações dos estados-membros.

Ilustração de Irene SáCréditosIrene Sá

O compromisso agora alcançado introduz a novidade de o Partido Socialista Europeu (PSE) e o Partido Popular Europeu (PPE) passarem a incluir os designadados «liberais», estendendo a estes o «Consenso de Bruxelas». Aqueles dois partidos a isso foram obrigados perante os resultados eleitorais para o Parlamento Europeu (PE).

O desfecho que agora se afigura em torno das diferentes propostas a designar para a chefia da Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE), Conselho Europeu (CE) e PE confirma que os países com maior peso na União Europeia (UE) acertaram posições, uma vez mais, para criarem condições para o desenvolvimento da política que tem sido seguida até aqui.

Assim, os processos de negociação, que envolveram inclusive Cimeiras extraordinárias, foram gerando notícias de avanços e recuos quanto a determinados nomes, expressando as diferentes contradições sintomáticas da própria UE.

Por outro lado, todo o processo deita por terra a tese dos candidatos a presidente da CE. Aliás, um velho truque utilizado também em Portugal com as pseudo-candidaturas a primeiro-ministro, também ele desmascarado com a solução política encontrada após as eleições de 2015.

As eleições para o PE, tal como para a Assembleia da República, servem exclusivamente para eleger deputados. Por outro lado, todo o processo parece querer sedimentar a ideia junto das populações de que se elegem «candidatos» à direcção desses cargos, contribuindo para a mistificação do conceito de democracia na UE.

Os nomes mudam, mas a política é a mesma

Ainda que tenha demorado o consenso para a definição dos representantes maiores das instituições da UE, o acordo foi rápido quanto à política a ser seguida. Foram aprovados, em sede do CE, a 20 de Junho, a «Agenda Estratégica da União Europeia 2019-2024», a qual revela a intenção de se aprofundar o caminho desenvolvido até aqui.

Decisões que fazem cair por terra as linhas trazidas para a campanha eleitoral, que visavam associar estes partidos a uma maior preocupação social, nomeadamente com a ideia de «contratos sociais» na UE.

Aquela Agenda, pelo contrário, vai ao encontro de inúmeras questões que têm significado ataques aos direitos dos trabalhadores, privatizações de sectores económicos estratégicos e de funções sociais dos Estados, e maior aprofundamento de políticas defensoras dos grupos económico-financeiros dominantes.

É o que acontece com o objectivo de aprofundamento da União Económica e Monetária, em detrimento da soberania dos estados-membros; da conclusão da União Bancária e da União do Mercado de Capitais, para determinar maior centralização da economia em grandes grupos económicos e financeiros; do desenvolvimento do «Pilar Europeu dos Direitos sociais» para privilegiar medidas de retrocesso social; e da defesa do Mercado Único, que tem como bandeiras a liberalização, privatização e concentração de sectores estratégicos da economia dos estados.

Nomes que pesam e pesaram na política de regressão de direitos

Os nomes que se esperam vir a liderar as instituições da UE são protagonistas de políticas neoliberais que, em diferentes contextos, contribuíram para retrocessos sociais, ataques aos direitos dos trabalhadores e funções sociais, e que vêem agora reconhecidos os seus «contributos» nas suas áreas de trabalho: Ursula von der Leyen, actual ministra da Defesa alemã, do governo da CDU de Merkle; Charles Michel, o primeiro-ministro belga, para chefiar o CE; Christine Lagarde para a direcção do BCE, anterior líder do FMI; e Josep Borrel, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, para alto representante para as relações externas da UE.

Já para a presidência do PE prevê-se uma divisão do mandato entre Manfred Weber (pelo PPE) e David-Maria Sassoli (pelo PSE).

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/consenso-de-bruxelas-ou-ue-exposta-novos-cargos-velhas-politicas

Socialista italiano Sassolini é eleito presidente do Parlamento Europeu

Reuters - O Parlamento Europeu elegeu nesta quarta-feira o socialista italiano David Sassoli como presidente pelos próximos 2 anos e meio, completando as indicações aos principais cargos do bloco após as eleições europeias de maio.

No Parlamento há uma década, Sassoli, ex-jornalista de Florença de 63 anos, substitui, agora, outro político italiano, o conservador Antonio Tajani, que ocupava o cargo desde 2017.

A eleição de Sassoli para o papel predominantemente cerimonial ocorreu após a decisão tomada pelo bloco na terça-feira de nomear a conservadora alemã Ursula Von der Leyen como presidente da Comissão Europeia e a francesa Christine Lagarde como chefe do Banco Central Europeu.

Em seu discurso de posse, Sassoli pediu aos europeu que contenham o “vírus” do nacionalismo extremista e fez um apelo por uma reforma das normas da UE sobre imigração e asilo político.

O parlamentar foi eleito após duas rodadas de votação, obtendo 345 votos na assembleia de 751 membros.

Ele disse que negociações com o Reino Unido sobre o Brexit deveriam ser conduzidas com “bom senso e um espírito de diálogo e amizade”.

“Para nós, é doloroso conceber Londres distante de Paris, Madri, Berlim, Roma”, afirmou Sassoli. O apoio do Parlamento é necessário para concluir o acordo sobre a separação entre o Reino Unido e o bloco.

Acordo Mercosul e União Europeia

A viagem do capitão para Osaka, com o intuito de participar da reunião do G-20, tinha tudo para se converter num verdadeiro fiasco. Começou com o escândalo do “aerococa”, envolvendo um sargento FAB, integrante da comitiva presidencial, flagrado com uma mala contendo 39 kg de cocaína no aeroporto de Sevilha, durante uma escala na Espanha.

 

Em seguida, vieram as saias justas apresentadas pelas lideranças europeias, em especial da parte de Angela Merkel (Alemanha) e Emmanuel Macron (França), exigindo recuos oficiais de Bolsonaro a respeito de temas sensíveis, como o meio ambiente.

As fotos e imagens do encontro no Japão, onde os chefes de Estado se apresentam para a História, ofereciam o triste retrato do isolamento diplomático a que o Brasil vem sendo empurrado desde outubro do ano passado. O atual ocupante do Palácio do Planalto aparece sempre num canto, desprestigiado, aquela figura perto de quem ninguém quer aparecer nem ficar. Vergonha alheia. Mas eis que, de repente, sinais são subitamente emitidos desde Genebra, na Suíça. E a comitiva presidencial busca se agarrar como pode no anúncio da finalização das negociações em torno do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia. Ufa, que alívio!

A verdade é que Bolsonaro voltou do Japão sem nada de concreto ou de positivo para apresentar ao nosso País, com exceção de seus apertos de mão e elogios recíprocos trocados com Donald Trump. Argh! A realidade que fala mais alto é a insistência de seu Ministro das Relações Exteriores em priorizar temas que apenas contribuem para aprofundar as dificuldades dos nossos diplomatas nas negociações com seus pares de outros países. Assim foi com a insistência em mudar a Embaixada brasileira para Jerusalém ou com os repetitivos pronunciamentos justificando a intolerância de todos os tipos. Uma tragédia.

Do fracasso do G20 ao Acordo com União Europeia

Bolsonaro sempre se manifestou contra os caminhos adotados pela unificação dos países aqui na porção meridional da América. Seus pronunciamentos contra o Mercosul são conhecidos desde os tempos em que o militar, punido por indisciplina no Exército, converteu-se em deputado federal excêntrico e direitista. Por outro lado, sua visão chauvinista e pseudo-nacionalista também o fazia ser um crítico da União Europeia. Para além da guerra – que ele pretende chamar de “ideológica” – contra China e Rússia, resta apenas um alinhamento automático e subserviente aos desejos dos Estados Unidos e de Trump.

Mas agora ele vai para os holofotes em uma tentativa – um tanto desajeitada para quem conhece seu currículo, diga-se de passagem – de vender a imagem de um grande negociador, que teria conseguido apresentar um acordo entre os integrantes do bloco europeu e os nossos vizinhos aqui do sul. No entanto, convenhamos que se trata de missão bem difícil convencer quem acompanha o tema há tanto tempo.

As negociações para esse fim tiveram início há mais de 20 anos, em 1999, ainda durante o governo FHC. Como todo tipo de acordo comercial, esse também envolveu – e ainda envolve, com toda a certeza – um sem número de temas polêmicos e aspectos sensíveis para cada uma das partes envolvidas. Com o agravante de que a negociação entre blocos também precisa levar em conta as particularidades de cada um dos países integrantes de cada bloco. Ora, frente a um mosaico tão complexo como esse, nada mais compreensível que os tempos sejam assim tão lentos para se chegar a uma versão mais próxima de um consenso.

Diante desse quadro, surge a pergunta inevitável. Por que, passados mais de 200 meses de vai-e-vem entre os negociadores, em apenas 6 meses de um governo que sempre se colocou contra o acordo, chegou-se a uma solução quase definitiva? As respostas tampouco são simples. Porém, o aspecto essencial refere-se à profunda crise na esfera das relações internacionais, em razão do tom semi belicoso das disputas comerciais entre o governo dos Estados Unidos e a China. A Rússia também segue tangenciando esse clima de tensão e a falta de perspectivas claras em relação a um cenário de médio ou longo prazo contribuem para arrefecer os negócios em escala global.

Acordo para europeu ver

Com isso, os atores iniciam estratégias de busca de parceiros alternativos, para evitar a dependência da incerteza no eixo sino-norte-americano. Esta parece ser a intenção da União Europeia em acelerar o ritmo das negociações nos tempos mais recentes. Os dois principais membros do Mercosul (Argentina e Brasil) passam por momentos de crise interna e tudo indica que devem ter perdido um pouco a mão nas tratativas com os seus interlocutores do outro lado do Atlântico.

É importante frisar que os termos oficiais e detalhados do acordo ainda não foram divulgados. Mas o que se sabe é que ele avança bastante na liberação do fluxo de comércio com redução ou eliminação de tributos e outros entraves nas trocas entre os dois blocos. No entanto, como esse tipo de procedimento incomoda interesses cristalizados em todos os países, é necessário ver o texto definitivo para sabermos como serão implementadas as medidas e quais serão suas consequências econômicas e sociais.

De todo modo, ao contrário do que tentam nos iludir Bolsonaro e sua equipe, os efeitos não serão sentidos logo ali na esquina. Muito pelo contrário. Para que os termos do acordo entrem em vigor, cada bloco deverá ratifica-lo internamente em cada um dos países. São processos políticos e parlamentares longos, sujeitos a muita pressão e negociação. A consolidação plena das novas condições de maior liberdade comercial entre União Europeia e Mercosul levará um bom tempo até ser alcançada. Assim, apostar todas as fichas de que a simples divulgação da intenção impulsione alguns pontos no nosso PIB é mais uma falácia sem sustentação na realidade.

Reprimarização de nossa economia

Apesar de não serem públicas todas as regras e dispositivos do acordo, podemos avançar com algumas hipóteses, tendo em vista o histórico de duas décadas de negociação. O mais provável é que se mantenham os rascunhos iniciais, onde se identifica a tendência dos países do Mercosul em se especializar na exportação de produtos primários, particularmente minérios e “commodities” agrícolas. Ocorre que existe uma enorme resistência dos produtores rurais no continente europeu a esse tipo de liberalização, uma vez que a atividade é altamente subsidiada por lá. A produção e comercialização do campo são bastante protegidas nos países e existe também um instrumento importante de âmbito europeu – a Política Agrícola Comum (PAC).

Isto posto, é muito difícil imaginar um cenário em que os governos europeus aceitem entregar seus setores agrícolas à concorrência da produção originária do Mercosul. Apesar do viés conservador de suas políticas públicas, não creio que haja espaço para o tipo de obsessão entreguista que vemos grassar aqui em nossas terras.

Na direção oposta, os europeus têm todo o interesse de ampliar as exportações de produtos industrializados para o continente sul-americano. A redução das barreiras impostas a esse fluxo de comércio pode se converter em importante mecanismo para que os mercados brasileiro e de nossos vizinhos sejam atingidos pela produção do velho continente. O processo é ainda mais facilitado tendo em vista as reduzidas resistências que costumam ser impostas entre os agentes internos frente a esse tipo de abertura comercial. As elites por aqui ainda se sentem iludidas com a possibilidade de consumo das marcas importadas. Très chic!

Ao longo das últimas três décadas o Brasil – e também o Mercosul – viveu um processo agudo de desindustrialização. Políticas de juros elevados e política cambial de sobrevalorização do real foram minguando aos poucos o espaço da atividade industrial interna, principalmente em relação à incapacidade de prover alguma resistência frente às importações de manufaturados. Por aqui, abertura comercial foi sinônimo de destruição do parque industrial. Assim, tudo indica que o processo vai ter continuidade.

Romper com subordinação!

A maior probabilidade colocada no cenário é que seja aprofundado o processo de divisão neocolonial do trabalho. Os países em desenvolvimento permanecem com sua especialização em exportar bens primários e de baixo valor agregado, ao passo que continuam totalmente dependentes da importação de bens industrializados e manufaturados, de alto valor agregado. Isso para não incluir os setores de serviços e de insumos tecnológicos, onde a assimetria entre os dois blocos é mais do que evidente. A tendência é de continuidade do processo de reprimarização de nossos economias.

A naturalização desse tipo de desigualdade é instrumento de dominação dos mais poderosos no cenário internacional e de perpetuação da relação de dependência. Esse nó de perversidade apenas pode ser desfeito com a afirmação de uma vontade própria dos países sujeitos a tal espoliação. Mas para tanto é fundamental a existência de um projeto de desenvolvimento orientador de estratégias a serem adotadas. E também a certeza de que se faz essencial o protagonismo do setor público, por meio da ação de empresas estatais, de políticas públicas afirmativas desse norte e orçamento alocando recursos nos setores que se pretende estimular. Isso significa romper com a atual subordinação à lógica dos desenvolvidos.

Conhecendo os governos Macri e Bolsonaro, é muito provável que os termos do acordo não sejam de interesse da grande maioria da população dos principais países do bloco de cá. Por outro lado, o profissionalismo e a competência da diplomacia europeia na defesa dos desejos de seus representados devem nos alertar para os riscos de descompasso nos dispositivos a serem referendados pelos parlamentos locais.

Nada está definido por enquanto. Basta ver a grita dos agricultores europeus contra a medida e as pressões de seus governos para obter compromissos explícitos do governo do Brasil no que se refere à política ambiental. Assim, do nosso lado é necessário também que os setores afetados se manifestem para pressionar Bolsonaro. Esse é caso concreto da indústria brasileira, que pode ser ainda mais reduzida do que tem sido ultimamente. Onde estão seus líderes? Mesmo vale para os representantes dos trabalhadores, que deverão ver ainda mais distantes as possibilidades de recuperação do emprego com tal projeto de subordinação aos interesses estrangeiros.


por Paulo Kliass, Doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal   | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/acordo-mercosul-e-uniao-europeia/

Os nossos Óscares, as nossas Valerias e a comoção grátis

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/07/2019)

Daniel Oliveira

 

A foto dos cadáveres de pai (Óscar) e filha (Valeria) nas margens do Rio Grande, na fronteira entre os EUA e o México, perturbou a opinião publica norte-americana. Os mais otimistas acreditam que o choque demonstra que a América de Trump pode ter sido abalada por este confronto com a realidade. Pensaram o mesmo quando ouvimos os diálogos com crianças em centros de detenção de imigrantes. Claro que a esmagadora maioria dos apoiantes de Trump não são monstros. Sentem exatamente o mesmo que nós ao ver aquela foto. O processo de desumanização do outro ainda não chegou a esse ponto. Isso é coisa que demora décadas, como podemos aprender na relação que a maioria dos israelitas tem com os palestinianos ou que os europeus tinham, num passado recente, com os judeus. O segredo de Trump ainda não foi impor a total indiferença em relação ao sofrimento dos imigrantes, foi separar esse sofrimento das suas políticas.

Claro que há uma América que volta a acordar com estas imagens. E não é só a América da elite urbana, intelectual e liberal. Foi também esta semana que os trabalhadores da Wayfair, uma das principais lojas de mobiliário online nos EUA, se manifestaram por terem descoberto que havia um contrato com uma empresa que gere um centro de detenção para crianças migrantes no Texas. Mas a América que reage com um discurso político é a que não votou no Trump. Que foi, devo recordar, a maioria.

Quem acredita que o mundo muda com a comoção de uma imagem terá de puxar pela cabeça para se lembrar o que aconteceu na Europa depois de uma imagem semelhante, do cadáver de Aylan Kurdi, uma criança síria de três anos que perdeu a vida no Mediterrâneo. Partidos de extrema-direita vencerem eleições e os governos endureceram as suas politicas anti-imigração. Não é a comoção de uma imagem que vence estes combates. O máximo que pode fazer é dar um argumento emocional passageiro a uma luta bem mais difícil do que uns milhões de partilhas virais.

A prova da inconsequência das reações a esta imagem está na Europa. O coro indignado contra Trump e o seu muro é um monumento à nossa hipocrisia. Há anos que debatemos o muro de Trump enquanto em Ceuta, em Melilla e na Hungria a Europa fortaleza mantém os seus próprios muros. Orgulhamo-nos da Europa sem fronteiras, mas ela é um condomínio onde todos podem circular e usar os serviços comuns na condição de ter grades cada vez mais altas e porteiros cada vez mais zelosos que não deixem mais ninguém entrar. E não foi nem Salvini, nem Orban, nem Farage que criaram esta fortaleza, que substituíram operações de resgate por operações de patrulhamento ou que assinaram acordos com a Turquia e o Estado falhado da Líbia para nos livrarem de forma expedita dos refugiados. Foram civilizados e muito democráticos governos de centro-direita, centro-esquerda ou até de esquerda.

Tratamos as novas políticas de imigração norte-americanas como indecorosas mas mesmo depois de todas as mudanças elas continuam a ser mais permissivas do que as nossas. Eles estão a discutir o muro há anos, com um congresso a criar uma crise política para impedir o seu financiamento. E têm, nesse gesto de resistência, o apoio de pelo menos metade da população. Enquanto isso, nós erguemos os nossos muros, assinámos acordos criminosos e pusemos fim aos resgates quase sem oposição para além de pequenas minorias tratadas como delinquentes extremistas. E no fim, enojados com Trump, ainda explicamos ao mundo como somos um exemplo de direitos humanos. Os norte-americanos podiam dar-nos lições de civismo.

Querem uma prova de que a comoção com a terrível imagem de Óscar e Valeria nas margens do Rio Grande é enganadora? A Europa comoveu-se. E nem por um segundo se lembrou das 20 mil pessoas que morreram no Mediterrâneo nos últimos cinco anos. 550 só desde janeiro. Mais de um ser humano por dia. Muitas crianças a quem recusamos auxílio, uma boia. É mais fácil combater Trump. São os muros dele e a comoção sai de borla.

Esta coluna regressa a 8 de julho

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Quanto maior a frustração, melhor

Parece que Costa está frustrado com o impasse no Conselho Europeu. Infelizmente, o impasse e a paralisia são ainda demasiado reduzidos nas instituições europeias. Caso contrário, a UE não tinha chegado a acordo com Bolsonaro e quejandos do Mercosul para mais um acordo dito de livre comércio, que blinda institucionalmente os processos de neoliberalização, impedindo cada vez mais políticas desenvolvimentistas dos dois lados do Atlântico. A verdadeira natureza da UE vê-se nisto. A inanidade da posição dos que querem fazer da UE uma barreira contra Bolsonaro e quejandos vê-se nisto. Portanto, quanto maior a frustração dos europeístas, melhor.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

França declara 'não estar pronta' para ratificar acordo comercial entre UE e Mercosul

Mercosul e UE podem fechar acordo este ano
Sakis Mitrolidis/AFP

A porta-voz do governo da França, Sibeth Ndiaye, disse que o país não está preparado para ratificar o acordo comercial selado entre a União Europeia e o bloco sul-americano Mercosul.

Ao citar o acordo comercial entre a UE e o Canadá, que levou anos para ser ratificado, Ndiaye afirmou que Paris fará "o mesmo com os países do Mercosul", adicionando que a decisão será tomada depois da análise dos detalhes, escreveu AFP.

"A França ainda não está pronta para ratificar [o acordo]", declarou a porta-voz nesta terça-feira (2) em entrevista ao canal de notícias BFM.

O acordo alcançado na sexta-feira (28) é o maior já fechado entre a aliança europeia e os quatro países sul-americanos (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), sendo classificado por ambos os lados como um forte sinal a favor do livre comércio e do multilateralismo, principalmente em meio às crescentes tensões comerciais entre os EUA e a China.

Receios no setor agrícola

Apesar das vantagens, a decisão levantou preocupações entre os agricultores europeus que receiam uma concorrência desleal por parte da América do Sul, bem como entre as ONGs preocupadas com as consequências climáticas.

O agricultor e deputado do partido governista Jean-Baptiste Moreau escreveu ao jornal Le Monde que se opõe à importação de produtos agrícolas do Brasil, pois, segundo ele, tinha "um dos setores agrícolas mais prejudiciais do mundo".

Bolsonaro está confiante

Em entrevista à Sputnik Brasil, Leonardo Trevisan, especialista em geoeconomia internacional e professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM/SP), ressaltou que Bolsonaro está otimista quanto ao contrato.

No último domingo (30), o presidente Jair Bolsonaro disse que espera que a resolução entre os blocos entre em vigor em até três anos.

"[O acordo] entra em vigor em 1 ou 3 anos, depende dos parlamentos. Vamos ver se o nosso aqui, talvez sejamos um dos primeiros a aprovar, espero e a luta continua", declarou o presidente, citado pela Reuters.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019070214151449-franca-nao-esta-pronta-ratificar-acordo-comercial-uniao-europeia-mercosul/

Os comissários de Bruxelas: ao serviço de si próprios e das multinacionais

 

As portas giratórias na Comissão Europeia
Os comissários de Bruxelas: ao serviço de si próprios e das multinacionais

por Bernard Gensane
09/11/2015

Dos comissários da época Barroso, um terço é agora influente membro executivo de grandes empresas. Um levantamento da ONG, Corporate Europe Observatory , cuja razão de ser é estudar os grupos de pressão que operam em Bruxelas, estabeleceu uma lista dos ex-membros da Comissão presidida por Durão Barroso tendo encontrado chorudas situações em empresas multinacionais. A porosidade entre a Comissão e estas grandes empresas é tal que constituem um único e o mesmo mundo. Assim, quase não ficamos surpreendidos ao saber que a Comissão estava perfeitamente ao corrente das tramoias em larga escala da Volkswagen e que o Parlamento tinha decidido votar contra uma Comissão de inquérito antes de autorizar uma margem de tolerância para as emissões de gasóleo que continuarão a matar cerca de 100 mil pessoas por ano na Europa. Se nos debruçarmos sobre a lista de antigos comissários, o conflito de interesses é quase a regra. Um terço dos comissários da época Barroso são agora influentes executivos de grandes empresas privadas. A luxemburguesa Viviane Reding que, do alto de sua grandeza moral, comparou a política da França em relação à etnia cigana à da Alemanha nazi, foi comissária da educação e cultura e depois da justiça, tendo sido autorizada pela Comissão Europeia a tornar-se membro do Conselho de administração da empresa mineira belga Nyrstar , bem como do Kuratorium uma instituição que trabalha para a promoção do Tratado de livre comércio entre a Europa e os Estados Unidos. Karel de Gucht, ex-comissário para o comércio e o negociador do referido Tratado transatlântico, está agora em funções como gestor de património da Merit Capital. A empresária holandesa Neelie Kroes, cabeça da privatização dos correios no seu país, antiga comissária para a concorrência, foi para a Merrill Lynch. A sua nomeação fora criticada pelo Parlamento Europeu, porque ela havia detido mandatos de administradora em 43 grandes empresas (incluindo a Thales e a PriceWater House Coopers, gabinete de auditoria próximo dos serviços secretos dos EUA). Ela também havia sido posta em causa na Holanda pela gestão do seu património imobiliário: efetivamente omitira a declaração de vários imóveis que lhe pertenciam em Roterdão, jurando não mais se lembrar como tinham sido financiados. Enfim, criticaram as suas relações de negócios com o enxofrado promotor Willem Holleeder, condenado a 11 anos de prisão pelo sequestro do magnata da cerveja Heineken . Foi ela quem intimou o primeiro-ministro Villepin a não se opor a aquisição da Arcelor pela Mittal, em nome da concorrência livre e não falseada. A Arcelor, uma empresa siderúrgica franco-luxemburguesa, que se tornou, concluído o negócio, um conglomerado anglo-indiano. Igualmente preocupante é o caso do antigo comissário para o ambiente, o esloveno Janez Potoènik. Este antigo Professor Universitário, membro do Forum for the Future of Agriculture , um grupo de pressão criado pela agroquímica Syngenta , líder mundial em pesquisas relacionadas com a agricultura, especialmente na produção de pesticidas e que só nos quer bem… Quanto a José Manuel Durão Barroso, aloja-se em 22 organizações, certamente a maior parte honoríficas mas, no entanto, muito influentes, como as conferências de Bilderberg ou a European Business Summit. Para o Corporate Europe Observatory, o microcosmo de Bruxelas "conduziu a uma proximidade de relações nocivas entre legisladores e os que são objeto da legislação” Estas elites econômicas e políticas não querem saber dos povos. A Comissão está estruturada para reinar a opacidade, para que a finança governe sem controlo dos governos nacionais. Os comissários são os intermediários e agentes da globalização liberal, o que implica, concretamente, o fim das prerrogativas de governos e parlamentos nacionais. A Comissão está a serviço da otimização (fuga) fiscal, paraísos fiscais e do mínimo social. Estas políticas são implementadas por homens e mulheres cujo objetivo de vida é servir os grandes interesses e que, portanto, são recompensados nos finais das suas vidas profissionais, com grandes sinecuras, quando não se trata de tráfico de influências.

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/... . Tradução de DVC. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
09/Nov/15

Mercosul e União Europeia fecham acordo de livre comércio

Em nota conjunta dos ministérios da Economia e das Relações Exteriores, o governo brasileiro destaca que o acordo é um marco histórico no relacionamento entre o Mercosul e a União Europeia, que representam, juntos, cerca de 25% do PIB mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas.

 

“Em momento de tensões e incertezas no comércio internacional, a conclusão do acordo ressalta o compromisso dos dois blocos com a abertura econômica e o fortalecimento das condições de competitividade”, diz a nota.

O acordo entre os dois blocos foi fechado após dois dias de reuniões ministeriais em Bruxelas, ontem (27) e hoje. Representaram o Brasil os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o secretário Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo.

“O acordo comercial com a UE constituirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Pela sua importância econômica e a abrangência de suas disciplinas, é o acordo mais amplo e de maior complexidade já negociado pelo Mercosul”, ressalta o governo brasileiro.

Acordo

O acordo cobre temas tanto tarifários quanto de natureza regulatória, como serviços, compras governamentais, facilitação de comércio, barreiras técnicas, medidas sanitárias e fitossanitárias e propriedade intelectual. Conforme nota do governo federal, produtos agrícolas de grande interesse do Brasil terão suas tarifas eliminadas, como suco de laranja, frutas e café solúvel. Os exportadores brasileiros obterão ampliação do acesso, por meio de quotas, para carnes, açúcar e etanol, entre outros produtos. O acordo também reconhecerá como distintivos do Brasil vários produtos, como cachaças, queijos, vinhos e cafés.

As empresas do país serão beneficiadas com a eliminação de tarifas na exportação de 100% dos produtos industriais. Segundo o governo brasileiro, serão, desta forma, equalizadas as condições de concorrência com outros parceiros que já têm acordos de livre comércio com a União Europeia.

O acordo garantirá ainda acesso efetivo em diversos segmentos de serviços, como comunicação, construção, distribuição, turismo, transportes e serviços profissionais e financeiros. Em compras públicas, empresas brasileiras obterão acesso ao mercado de licitações da União Europeia, estimado em US$ 1,6 trilhão. Os compromissos assumidos também vão agilizar e reduzir os custos dos trâmites de importação, exportação e trânsito de bens.

O governo brasileiro destaca ainda que o acordo propiciará um incremento de competitividade da economia brasileira ao garantir, para os produtores nacionais, acesso a insumos de elevado teor tecnológico e com preços mais baixos. “A redução de barreiras e a maior segurança jurídica e transparência de regras irão facilitar a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, com geração de mais investimentos, emprego e renda. Os consumidores também serão beneficiados pelo acordo, com acesso a maior variedade de produtos a preços competitivos”, diz a nota.

Balança comercial

Desde 1999, os integrantes do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e os 28 países da União Europeia iniciaram negociações para um acordo de livre comércio. As conversas foram interrompidas em 2004 e retomadas em 2010.

A União Europeia é o segundo parceiro comercial do Mercosul, atrás da China, e o primeiro em matéria de investimentos. Já o Mercosul é o oitavo principal parceiro comercial extrarregional da União Europeia.

Em nota conjunta dos ministérios da Economia e das Relações Exteriores, o governo brasileiro destaca que o acordo é um marco histórico no relacionamento entre o Mercosul e a União Europeia, que representam, juntos, cerca de 25% do PIB mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas. “Em momento de tensões e incertezas no comércio internacional, a conclusão do acordo ressalta o compromisso dos dois blocos com a abertura econômica e o fortalecimento das condições de competitividade”, diz a nota.

O acordo entre os dois blocos foi fechado após dois dias de reuniões ministeriais em Bruxelas, ontem (27) e hoje. Representaram o Brasil os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o secretário Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo.

O acordo comercial com a UE constituirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Pela sua importância econômica e a abrangência de suas disciplinas, é o acordo mais amplo e de maior complexidade já negociado pelo Mercosul”.
governo brasileiro

A corrente de comércio birregional foi de mais de US$ 90 bilhões em 2018. Em 2017, o estoque de investimentos do bloco europeu no bloco sul-americano somava cerca de US$ 433 bilhões.

Os sul-americanos vendem, principalmente, produtos agropecuários. Já os europeus exportam produtos industriais, como autopeças, veículos e farmacêuticos.

No ano passado, o Brasil registrou comércio de US$ 76 bilhões com a União Europeia e superávit de US$ 7 bilhões. As vendas para esse bloco totalizaram mais de US$ 42 bilhões, aproximadamente 18% do volume exportado pelo país.

O Brasil destaca-se como o maior destino do investimento externo direto (IED) dos países da União Europeia na América Latina, com quase metade do estoque de investimentos na região. O Brasil é o quarto maior destino de IED do bloco europeu, que se distribui em setores de alto valor estratégico.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


 

Nos vinte anos do euro

Partilho alguns parágrafos de um texto que escrevi para um livro que tarda em sair: Ascensão e Queda da UE: uma avaliação negativa dos 20 anos do euro, capítulo de Ética, Economia e Sociedade, eds. Sandra Lima Coelho e Gonçalo Marcelo (Porto: Universidade Católica Editora - Porto) [no prelo]

 

É dedicado àqueles que querem que o euro sobreviva mais vinte anos até que o país se transforme numa estância turística subdesenvolvida; um território (não um País) onde a maioria dos nossos netos só encontrarão empregos precários com salários de subsistência.

 

"Em boa verdade, a gestação da crise começou logo após o Tratado de Maastricht com a preparação para a entrada na moeda única. Os países da periferia abdicaram da desvalorização das suas moedas ficando a sua competitividade determinada pela evolução dos custos internos. Sendo a inflação o factor decisivo, cedo se percebeu que a Alemanha conseguia fazer evoluir os seus custos salariais em linha com uma inflação inferior à dos seus concorrentes, em particular a Itália e a França. Ou seja, na ausência de uma taxa de câmbio nominal susceptível de desvalorização, é a taxa de câmbio real – um indicador da posição relativa dos custos de produção – que sinaliza a competitividade de sistemas produtivos nacionais. Tendo estes características sociais, culturais, institucionais e políticas muito específicas, naturalmente a dinâmica dos salários e preços será muito diferente no centro e na periferia. A verdade é que, na concorrência pela mais baixa inflação, a Alemanha vence sempre. Após as reformas Hartz (2003-5), a eficácia alemã na contenção salarial permitiu a criação de elevados excedentes comerciais. Em contrapartida, as periferias acumularam défices e dívida externa (Storm, 2017). Portugal, não sendo concorrente directo dos produtos industriais alemães, foi sobretudo afectado pela sobrevalorização do euro, pela abertura do mercado único à China, e pelo alargamento a Leste.
Como se não bastasse a crise financeira, com os seus efeitos no crédito às empresas, consumo, investimento e emprego, a União Europeia acrescentou a partir de 2010 um novo factor de crise para os países da periferia: a imposição de uma política orçamental recessiva, a liberalização do mercado de trabalho, e o recuo na protecção do frágil Estado social, como condição para os empréstimos que haveriam de garantir a solvência da dívida pública pré-existente e o resgate dos bancos falidos. Mais ainda, desmentindo a ideia de que a moeda única oferecia protecção contra choques externos, a UE chamou o FMI para beneficiar da sua experiência na aplicação da terapia de choque executada noutros continentes, a estratégia consagrada no Consenso de Washington (Chang e Grabel, 2004)."

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O Império Romano e a União Europeia

O cartógrafo, designer e artista Sasha Trubetskoy representou a rede das principais estradas do Império Romano com os artifícios que hoje se usam para representar redes de metropolitano. O resultado é a ilustração que publicamos e a explicação do trabalho pode ser encontrada aqui: Ancient Rome’s Roads Reimagined as a Modern Subway Map. Isto lembrou-me um texto que publiquei anteriormente (pela primeira vez, em 2007, aqui no blogue) e que me pareceu candidato a ser lembrado mais uma vez, porque toca um ponto que merece reflexão permanente.
***
I
Muitos creditam à União Europeia (ex-CEE) 50 anos (1957-2007) de paz e prosperidade a benefício dos povos europeus. Contudo, mesmo entre os que foram intensamente financiados por outros mais prósperos (como os portugueses), parece haver uma moda de indiferença ou até desconfiança face a essa “casa comum”. Parece pairar a convicção de que o que temos está garantido e não nos pode ser tirado, mesmo que demos largas aos egoísmos nacionais e cuidemos pouco de participar na construção europeia. Será assim? Procuremos contribuir para uma resposta com um paralelo com o império romano e a sua queda. Poderíamos sempre tentar uma resposta “cultural”. Por exemplo, lembrando que ferramentas culturais básicas se ressentiram: a capacidade de ler e escrever, muito difundida no império romano devido às necessidades burocráticas e económicas, não apenas entre as elites mas também nas “classes médias”, regrediu no período pós-romano até ao ponto de mesmo grandes reis ocidentais terem sido analfabetos. (O clero foi, em larga medida, uma excepção importante.) Mas nesse campo poderíamos apontar, após a queda do império romano, o florescimento de formas superiores de cultura, por exemplo aquelas que foram protegidas e praticadas nos círculos religiosos. Por exemplo nos mosteiros e nas catedrais. Mas não vamos por aí. Vamos às coisas “menores”, à vida material quotidiana. No auge da sua extensão o Império Romano incluía quase toda a Europa ocidental, largas faixas em redor do Mediterrâneo, bem como regiões mais orientais, desde os Balcãs à Grécia, Egipto, Ásia Menor, chegando à Síria e fazendo a oriente fronteira com a Pérsia e com as regiões caucasianas. A queda do Império a Ocidente, em 476 d.C., deu lugar a um longo período de retrocesso sócio-económico, como escreve Bryan Ward-Perkins, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”: “o domínio romano, e sobretudo a paz romana, trouxe níveis de conforto e sofisticação para o Ocidente que não tinham sido vistos anteriormente e que não seriam vistos de novo durante muitos séculos”. Veremos, amanhã, o que quer isso dizer mais em concreto.
II
O que Bryan Ward-Perkins procura mostrar, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”, é que a queda do império romano do ocidente representou um retrocesso na vida material da maioria da população. Vejamos alguns dos seus exemplos. Os romanos produziam bens de uso corrente (não apenas de luxo), de qualidade muito elevada, em enormes quantidades, e depois difundiam-nos largamente, sendo por vezes transportados por muitas centenas de quilómetros para serem consumidos por todos os grupos sociais (não apenas por ricos). A existência de “indústrias” muito desenvolvidas, funcionando com trabalhadores razoavelmente especializados, produzindo em grandes quantidades e vendendo para zonas remotas do império, suportadas em sofisticadas redes de transporte e de comercialização, era possível graças à infra-estrutura de estradas, pontes, carroças, hospedarias, barcos, portos de rio e de mar – e à burocracia imperial, incluindo um exército numeroso, para enquadrar e proteger todo esse fervilhar. Exemplos concretos são como seguem. A cerâmica, utilizada para o armazenamento, preparação, cozedura e consumo de alimentos, era de alta qualidade, tanto em termos práticos como em termos estéticos. O nível de sofisticação da cerâmica romana usada para preparar e servir alimentos só volta a ser observado alguns 800 anos depois, pelo século XIV. Também as artes da construção de edifícios, que os romanos tinham sofisticado quer para casas luxuosas quer para casas vulgares, em vastas regiões do antigo império perderam-se e deram lugar a povoados construídos quase inteiramente de madeira, onde antes se construía de pedra e tijolo (para já não falar das casas mais sofisticadas com aquecimento por baixo do chão e água canalizada). Já a fundição de chumbo, cobre e prata, que permitia a realização de muitos utensílios sofisticados, também entrou em queda com o desabar do império e só nos séculos XVI e XVII terá voltado a atingir os níveis da época romana. Enquanto no império as moedas de ouro, prata e cobre eram perfeitamente acessíveis e largamente utilizadas nas trocas económicas, o que veio depois foi o desaparecimento quase total da utilização diária da moeda, a par com o desaparecimento de indústrias inteiras e de redes comerciais. Os produtos de luxo continuaram, em maior ou menor grau, a ser produzidos para os mais ricos, mas os produtos de uso mais geral e de qualidade é que escassearam ou desapareceram. Em certas zonas do antigo império, certos aspectos da economia e do bem-estar material regrediram para níveis da Idade do Bronze. Mesmo muitas economias regionais foram destroçadas pela instabilidade política e militar. Os benefícios do império também se estenderam à agricultura. Um exemplo curioso: até o tamanho médio do gado aumentou consideravelmente no período romano, graças à disponibilidade de pastos de boa qualidade e de forragem abundante no Inverno. O tamanho do gado regrediu, depois da queda do império, para níveis pré-históricos. E que é que isto tem a ver com a União Europeia?
III
Em que é que a queda do Império Romano do Ocidente pode contribuir para uma reflexão sobre a União Europeia? O que é que interessa que a queda do Império Romano do Ocidente tenha tido como consequência um abaixamento dos níveis de conforto e de sofisticação da vida de largos estratos da população? A queda do império romano do ocidente não foi, como vimos antes, apenas um abalo para as elites políticas, sociais e culturais. Representou um retrocesso no conforto material da esmagadora maioria da população. Já para não falar de que desapareceu assim o instrumento do maior período contínuo de paz (500 anos) vivido na região mediterrânica. Talvez seja útil reflectir nisto: o progresso e o bem-estar (material e espiritual) não estão nunca garantidos. Podem sofrer atrasos profundos e duradouros se não soubermos preservar e melhorar as formas sociais e políticas que são as suas condições de possibilidade. O império romano durou muitos séculos e foi finalmente abalado e destruído. E demorou muitos séculos a recuperar o que se perdeu. A “nossa Europa” tem 50 anos e há nela ainda muito por fazer. E também ela não está garantida para todo o sempre, dependendo da sabedoria com que soubermos ajustá-la continuamente às novas necessidades. Estaremos conscientes disso quando alimentamos o cepticismo, ou mesmo a indiferença, face a essa realização comum de paz e de progresso? Estaremos cientes de que nenhuma realização das sociedades humanas pode sobreviver à indiferença dos seus principais beneficiários? Quererá isto dizer que devemos aceitar a UE como o melhor dos mundos possíveis? Aceitar sem crítica as suas políticas (e os seus políticos)? Não. Quererá isto dizer que a UE é intrinsecamente boa? Que devemos prescindir de tentar torná-la mais útil aos seus povos e aos outros povos do mundo? Não. Isto quer apenas dizer que nada está historicamente garantido e que, se não assumirmos (individual e colectivamente) a nossa quota-parte de responsabilidade pelo futuro comum, as consequências podem ser desagradáveis. Porfírio Silva, 23 de Junho de 2019

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

Neonacionalismo na União Europeia – plataformas e ações de política social e económica

Neonacionalismo na União Europeia – plataformas e ações de política social e económica   

(Joachim Becker, Fevereiro de 2019)

nacionalismo1

O neonacionalismo tem ressurgido e crescido  na UE nos últimos anos, especialmente desde a crise financeira mundial de 2008 e dos anos seguintes. Os partidos neonacionalistas estão na base deste crescimento . Eles ganharam uma influência crescente no debate público e conseguiram expandir a sua presença nos parlamentos de muitos países da UE. Fazem parte de uma coligação governamental em vários países da UE (como a Itália, a Finlândia, a Áustria e – até ao final de 2018 – a Bélgica) e governam mesmo sozinhos em alguns países, como a Hungria e a Polónia. Nos casos em que têm uma influência considerável na política governamental, iniciaram mudanças no sistema político das instituições, o que também afeta as organizações laborais. Os partidos neonacionalistas estão a beneficiar da erosão e da crise de representação dos partidos cristãos e social-democratas tradicionais. A sua ascensão não deve, portanto, ser vista como um mero fenómeno cíclico ou uma tendência a curto prazo. As tendências políticas na Europa estão em mudança  constante  hoje em dia.

O debate público sobre os partidos neonacionalistas está fortemente centrado nos aspetos nacionalistas e, por vezes, xenófobos dos seus programas. No entanto, os partidos neonacionalistas têm posições  programáticas muito mais extensas sobre questões económicas e sociais que já foram implementadas pelos governos em alguns casos. Os partidos neonacionalistas têm uma influência considerável no ambiente político em que as organizações de trabalhadores  operam.

Por conseguinte, é importante que as organizações sindicais abordem tanto os programas mais amplos dos partidos neonacionalistas como as políticas que estes desenvolvem e praticam ao nível de  governo. Este estudo centra-se nas seguintes questões: Que atores são incluídos pelos partidos neonacionalistas na formulação de políticas? Que papel eles atribuem às organizações de trabalhadores em relação à formulação de políticas e à elaboração de leis? Quais são seus objetivos de política económica e social? Como é que  pretendem moldar as relações laborais? Que iniciativas em matéria de direito do trabalho e de política salarial estão a desenvolver?

As orientações programáticas dos partidos neonacionalistas diferem consideravelmente. As forças neonacionalistas de direita podem ser divididas em três vertentes – uma vertente neoliberal, uma vertente conservadora nacional e uma vertente fascista (marginal). Essas ideologias podem ser identificadas nos vários campos políticos. As plataformas de política social e económica também dependem do papel do respetivo país dentro da divisão europeia do trabalho, da posição do país nas cadeias de produção internacionais e da importância do sector financeiro do país e dos problemas enfrentados por esse sector. Este estudo, portanto, analisa as ligações entre os programas sociais e económicos, o papel do país dentro da divisão internacional do trabalho, e a crise do país e situação pós-crise. Esse aspeto tem até agora desempenhado apenas um papel menor nos debates entre os políticos ou entre os  académicos.

Este estudo começa pela elaboração de uma tipologia de partidos neonacionalistas. Isso forma a base para a análise das plataformas de política social e económica das principais forças neonacionalistas e estudos de caso das ações tomadas como  governo. Os programas dos partidos são analisados no contexto dos papéis dos respetivos países na divisão europeia do trabalho. Este estudo trata principalmente de partidos importantes do espectro neoliberal e conservador nacional. Os partidos que só recentemente adotaram posições neonacionalistas mais pronunciadas, como a União Social Cristã da Baviera (CSU), não são incluídos no estudo. Portanto, este estudo não pretende ser exaustiva.

As medidas tomadas no governo demonstram mais claramente o que os objetivos políticos significam na prática. As questões que são destacadas nos programas podem, mas não necessariamente assim, sobrepor-se às prioridades na prática. Por razões de táticas eleitorais, algumas questões sociais e económicas importantes e questões de política social são apenas brevemente abordadas ou completamente ignoradas nos programas dos partidos. As relações laborais são muitas vezes um dos temas que são marginalizados nos programas. Uma vez no governo, os partidos neonacionalistas também abordam questões que foram negligenciadas nos seus programas. As medidas tomadas no governo também mostram quais os atores que os partidos neonacionalistas envolvem na elaboração de políticas governamentais e como lidam com os conflitos que são desencadeados pelas suas políticas. O estudo inclui, portanto, três estudos de caso sobre as ações dos partidos neonacionalistas no governo. A Bélgica, a Hungria e a Polónia foram selecionadas para esse efeito. Os partidos neonacionalistas desempenham, ou desempenharam até muito  recentemente, um papel significativo no governo nestes  três países. Eles estão mesmo a governar sozinhos na Hungria (desde 2010) e na Polónia (desde 2015). A Hungria, em particular, serve de modelo para muitos partidos neonacionalistas. Os três países diferem, no entanto, no que diz respeito aos seus papéis dentro da divisão europeia do trabalho. A Bélgica é uma economia altamente desenvolvida com um setor financeiro significativo que foi duramente atingido pela crise de 2008 e nos  anos seguintes. A Bélgica tem fortes estruturas de parceria social. O modelo de crescimento da Hungria e da Polónia depende fortemente das exportações para a Europa Ocidental, em particular. No entanto, o seu crescimento económico antes da crise foi também, em grande medida, impulsionado pela dívida privada. A Hungria foi fortemente afetada pela crise de 2008 e nos anos seguintes, devido à prevalência dos empréstimos em moeda estrangeira. Os partidos neonacionalistas dos três países reagiram à situação económica, social e política de formas distintas. Os partidos neonacionalistas seguem diferentes vertentes do neonacionalismo. Nieuw-Vlaamse Alliantie (N-VA) tem uma forte postura neoliberal, enquanto as políticas do Fidesz são um amálgama de pensamento neoliberal e nacional conservador. Prawo i Sprawiedliwość (PiS) na Polónia tem uma abordagem conservadora nacional firme. Este estudo analisa tanto as semelhanças quanto as diferenças em relação às ações tomadas pelo governo nos três países e  coloca-as num contexto político e económico mais amplo.

Quais são as principais características das três vertentes do neonacionalismo? A vertente neoliberal empurra para estruturas estatais tecnocráticas e visa isolar os centros de decisão do Estado dos grupos de interesses, especialmente dos sindicatos. Exige políticas económicas baseadas em regras, autoridades reguladoras “independentes” sem responsabilidade democrática e impostos baixos e regressivos. Em termos de política social, apoia a segurança social mínima do Estado e visa a comercialização dos sistemas de segurança social. Embora não defenda abertamente o nacionalismo económico protecionista, apoia uma forma de nacionalismo de comércio livre nas economias centrais da UE. Além disso, o nacionalismo neoliberal opõe-se à migração e apoia o nacionalismo exclusivista  do Estado-Providência .

A vertente conservadora nacional  envolve-se na repolitização à direita dos problemas, empurra para a democracia direta para legitimar as suas políticas, e tende a deslegitimar atores “não-nacionais”. Tende a ser flexível em termos de política económica e subscreve uma política económica pró-ativa. No que diz respeito à política social, defende um Estado social conservador que gira em torno das instituições de segurança social. Visa preservar as diferenças de estatuto e os papéis tradicionais de género. O nacionalismo económico é de importância primordial para os conservadores nacionais. O objetivo é promover o capital nacional e prosseguir uma política de protecionismo seletivo. O nacionalismo exclusivista  de Estado-Providência só desempenha um papel se houver uma população substancial com antecedentes migratórios. No que diz respeito à re-politização à direita,  em particular, das  questões e da  política económica ativa, o conservadorismo nacional apresenta-se como uma alternativa conservadora ao neoliberalismo.

A vertente fascista procura por vezes ocultar os seus objetivos autoritários, pelo menos a nível dos programas políticos. Tem um conceito de Estado altamente autoritário. Desenvolve um culto da violência, desenvolve estruturas paramilitares e é abertamente racista. Esta vertente não tem, por si só, quaisquer conceitos de política económica que ultrapassem a forte preferência pelos atores nacionais. Em termos de política social, geralmente apoia um modelo conservador de Estado-Providência. No entanto, defende uma forte exclusão nacionalista. A vertente fascista também apoia as posições de nacionalismo económico  que visam impulsionar o capital nacional.

Este estudo baseia-se na classificação acima das três vertentes. Nem todos os partidos podem ser claramente identificados como pertencendo a uma dessas categorias. No entanto, as suas abordagens aos projetos de Estado  (por exemplo, no que diz respeito à separação de poderes, ao Estado de direito e ao neocorporativismo), assim como à política económica e social podem ser categorizadas com base na tipologia acima referida.

Os partidos neonacionalistas têm as seguintes características políticas nos vários países e macrorregiões da UE. Os elementos neoliberais predominam entre as forças neonacionalistas de direita na Alemanha, que está no centro da UE e da área do euro, bem como no Reino Unido, que se prepara para sair da UE. A situação é semelhante nos principais países da UE: Áustria, Benelux e Escandinávia, bem como nos países bálticos. Em todos esses países, os partidos neonacionalistas têm uma  abordagem de política económica fortemente neoliberal, enquanto as suas políticas sociais e projetos estatais têm elementos conservadores nacionais.

As suas  políticas fiscais tendem a favorecer as empresas e os grupos de altos  rendimentos. Os partidos neonacionalistas também apelam à desregulamentação dos mercados de trabalho e dos horários de trabalho, especialmente em países com padrões sociais relativamente elevados. O argumento a favor das políticas económicas neoliberais baseia-se na necessidade de tornar o país mais atrativo enquanto local de implantação de empresas e, especialmente nas economias periféricas da UE, pela  necessidade de atrair capital estrangeiro.

Os elementos não neoliberais da política social visam expandir a base eleitoral do respetivo partido. Nos países centrais, as políticas económicas neoliberais são estrategicamente combinadas com o nacionalismo exclusivista de Estado‑Providência. As campanhas dos partidos neonacionalistas de extrema-direita nos países centrais da UE, como Alternative für Deutschland (AfD), Partij voor de Vrijheid (PVV), FPÖ e Vlaams Belang, tendem a colocar especial ênfase na oposição à migração.

Nos países de Visegrád, que seguem um modelo de industrialização dependente da exportação, os partidos neo-nacionalistas têm abordagens diferentes. Alguns partidos apresentam um forte perfil neoliberal, como Občanská demokratická strana (ODS) na República Tcheca e Sloboda a Solidarita (SaS) na Eslováquia. Eles visam aprofundar o modelo de crescimento baseado no capital estrangeiro e nos baixos salários, promulgando políticas de baixa tributação e desregulamentação do mercado de trabalho. Em contrapartida, Prawo i Sprawiedliwość (PiS) na Polónia e – em menor grau – Fidesz na Hungria têm políticas com elementos conservadores nacionais relativamente mais pronunciados. Em termos de política económica, na Hungria, o governo do Fidesz combina a criação de empresários nacionais estreitamente associados ao Fidesz em sectores protegidos (banca, retalho, construção) com a promoção da indústria de exportação, que é predominantemente controlada pelo capital estrangeiro, através de políticas neoliberais mais radicais, em particular reduções fiscais. Em contrapartida, o PiS na Polónia procura alterar o modelo económico no sentido de uma produção tecnologicamente mais avançada

Podem ser observados claros elementos conservadores nacionais não só nos países de Visegrado  mas também em dois países centrais da UE que estão a sofrer de desindustrialização, nomeadamente a Itália e a França. Os elementos conservadores nacionais das políticas da Lega Nord e da Front National visam sobretudo ultrapassar certos obstáculos ao desenvolvimento. A Lega Nord, em particular, está empenhada em abandonar a zona euro, o que beneficiaria as pequenas e médias empresas orientadas para a exportação.

Os partidos fascistas e para-fascistas conseguiram sobretudo uma representação parlamentar na Europa Central e Oriental e na Europa do Sudeste (incluindo a Grécia). Em alguns casos, estão relativamente bem implantados em antigas regiões industriais. Na Grécia, beneficiaram politicamente da grave crise económica e da resposta que à mesma foi dada.

Que características das políticas neonacionalistas podem ser observadas nos vários campos? A política económica neoliberal destaca as políticas baseadas em regras e políticas de baixa tributação, enquanto os poucos programas de política económica conservadora nacional promovem políticas de desenvolvimento pró-ativas e medidas de política industrial.

A política fiscal constitui uma prioridade elevada, tanto a nível dos programas de política económica neoliberais como da sua execução. Esta politica fiscal  implica a redução da carga fiscal e, além disso, a redução dos impostos sobre as sociedades e a redução da carga fiscal sobre o rendimento, em especial sobre os rendimentos elevados. Os partidos nos países periféricos são ainda mais radicais do que os partidos nos países centrais a este respeito, tanto nos seus programas como na sua prática. Isto está relacionado com a posição mais fraca das economias periféricas, uma vez que foram relegadas para o papel de fornecedores das economias centrais. As multinacionais dominam em setores-chave das economias periféricas. Nos países periféricos, uma estratégia económica baseada no investimento estrangeiro tem sido impulsionada pela Comissão Europeia, especialmente na Europa Central e Oriental e no Sudeste Europeu. As forças neoliberais nos países periféricos veem os impostos baixos – especialmente o imposto sobre as sociedades e o imposto sobre o rendimento – como fatores-chave para atrair capital estrangeiro. Esse tipo de política fiscal é regressivo e desvantajoso para os trabalhadores.

Em consonância com a grande importância  dada à politica neoliberal  sobre as reduções de impostos, a ênfase é colocada na redução da despesa pública, em especial das despesas sociais. Alguns partidos neo-nacionalistas também exigem políticas baseadas em regras. Os partidos neonacionalistas dos países centrais que afirmam seguir uma agenda social, como a AfD, Front National (agora Rassemblement National) e FPÖ, combinam essa abordagem restritiva da política social com as exigências de uma “preferência nacional” na política social. Além disso, certos grupos de pobres são muitas vezes estigmatizados e propaga-se a ideia de que os benefícios sociais devem ser apenas para “os merecedores”. Muitos partidos com uma abordagem amplamente neoliberal têm uma conceção de política social que contém elementos conservadores nacionais, em particular políticos familiares que são concebidas para restaurar os papéis tradicionais de género. Isso envolve principalmente destacar o papel de cuidado das mulheres na família. O objetivo é que as mulheres desempenhem um papel menos proeminente no mercado de trabalho e sejam ainda mais relegadas para o emprego a tempo parcial.

Os partidos neonacionalistas com uma abordagem neoliberal proeminente, como o Nieuw-Vlaamse Alliantie (N-VA) na Bélgica, ODS e SaS, têm insistido na desregulamentação do horário de trabalho e das relações laborais. Como parte do governo de coligação na Bélgica, a N-VA deu passos claros nessa direção. No entanto, os partidos neonacionalistas que têm um programa de política económica altamente neoliberal, mas também procuram apresentar-se como prosseguindo uma agenda social – como o FPÖ e o Front National/Rassemblement National – também impulsionam o enfraquecimento institucional das organizações laborais e a desregulamentação das relações laborais e do horário de trabalho. No entanto, estes partidos tendem a não colocar em destaque  as questões das relações laborais nos seus programas políticos. Os passos dados no governo pelo neonacionalismo neoliberal na UE – plataformas e ações de política social e económica na Bélgica e, mais ainda, na Hungria – enfraqueceram as estruturas de consulta tripartida entre o Estado, os sindicatos e as associações patronais, enquanto na Polónia o governo conservador nacional ressuscitou essa estrutura institucional, embora o governo PiS procure manter as principais questões de contenção fora do debate. Os sindicatos dos três países procuraram manter abertos os canais institucionais de diálogo. No caso da Hungria, em particular, mesmo os sindicatos com diferentes filiações ideológicas ou políticas têm procurado coordenar o seu trabalho face a uma política ativa de cooptação. Os sindicatos participaram em ações sindicais em domínios específicos, especialmente na Bélgica, com o seu elevado nível de sindicalização.

Os projetos estatais neonacionalistas têm elementos autoritários. As tendências autoritárias manifestam-se nos projetos de Estado neoliberais das forças neonacionalistas no reforço das estruturas tecnocráticas e das políticas baseadas em regras.

Os projetos nacionais conservadores do Estado  envolvem a repolitização à direita  das questões, tanto no nível das plataformas políticas quanto da prática política. Esta é uma resposta à despolitização neoliberal ao nível da UE e às práticas correspondentes ao nível do Estado-nação. No entanto, os projetos estatais conservadores nacionais restringem massivamente o campo dos atores políticos legítimos e deslegitimam os atores “não-nacionais”. Na prática, a separação de poderes tem sido significativamente minada na Hungria e na Polónia, e há uma tendência para uma política conservadora nacional de erosão do pluralismo dos media,  das instituições culturais e das ONGs. Nestes países, foram  sistematicamente substituídos funcionários em setores-chave. As mudanças relevantes foram adotadas pelo Parlamento sem permitir um debate sério e consultas mais amplas. Fidesz e PiS mostraram tendências mais autoritárias no governo no período desde a crise global de 2008 e seguintes do que nos  seus governos anteriores

Que implicações para os trabalhadores têm tido até à data  os objetivos políticos e as ações dos partidos neonacionalistas no governo? Deve-se notar que as plataformas e ações de política social e económica dos partidos neonacionalistas de direita tendem a ser desvantajosas para os trabalhadores. Isso é particularmente verdadeiro para os partidos neonacionalistas com uma forte postura neoliberal. Muitos partidos neonacionalistas têm propostas que visam enfraquecer o poder institucional das organizações dos trabalhadores.  Isso pode implicar a redução do poder dos organismos de parceria social e dos conselhos de empresa. Entre os estudos de caso, o governo Fidesz na Hungria é um exemplo negativo de ações tomadas no governo por partidos neonacionalistas, uma vez que piorou significativamente o ambiente institucional para as organizações  dos trabalhadores. . Em contrapartida, na Bélgica, as instituições de parceria social sofreram uma forte erosão. O governo conservador nacional do PiS tende a ser mais aberto aos sindicatos do que o seu antecessor liberal. Reanimou as estruturas de consulta, mas utiliza-as de forma seletiva.

Os partidos neonacionalistas com uma posição de política económica neoliberal estão a insistir na desregulamentação das relações laborais e, em particular, dos horários de trabalho. Em alguns casos, as suas políticas incluem a redução do nível de proteção contra o despedimento. Há também uma tendência para aumentar a pressão sobre os desempregados e reduzir o nível de segurança social que lhes é concedido. As medidas tomadas pelo governo resultaram numa deterioração particularmente acentuada nestes domínios na Hungria. No entanto, a desregulamentação do tempo de trabalho foi também uma das prioridades do governo belga de direita.

Espelhando políticas orçamentais restritivas e políticas fiscais regressivas que colocam uma carga elevada sobre os trabalhadores com rendimentos mais baixos, a política social tende a ser restritiva, embora o governo conservador nacional do PiS seja uma exceção a este respeito. Nos países da Europa Ocidental – onde uma parte substancial da população tem origem migrante – os partidos neonacionalistas defendem, em graus variáveis, o nacionalismo exclusivista de Estado-Providência. As propostas e políticas discriminatórias são por vezes também dirigidas contra migrantes que são residentes de longa duração. Os cortes nos benefícios sociais de grupos altamente vulneráveis, incluindo os refugiados, preparam parcialmente o caminho para restrições mais amplas aos benefícios sociais.

Muitos partidos neonacionalistas assumem uma posição sobre os papéis de género, tornando-os, por vezes, uma parte até mesmo relativamente proeminente da sua plataforma. As posições conservadoras nacionais neste domínio centram-se na restauração dos papéis tradicionais de género, incluindo uma maior ênfase na definição das mulheres pela via dos  seus papéis como mães e donas de casa. Muitos partidos neonacionalistas que têm posições neoliberais claras sobre a política económica têm uma abordagem conservadora dos papéis de género. Esse objetivo de restaurar os papéis tradicionais de género está estreitamente refletido na política social. Uma forte ênfase é muitas vezes colocada nas políticas da família no campo da política social, tanto ao nível das plataformas partidárias como das ações tomadas pelo governo. As prestações familiares criam frequentemente incentivos para que as mulheres se dediquem à educação dos filhos, o que implica uma menor participação das mulheres no mercado de trabalho. Os partidos neonacionalistas não dão prioridade à expansão das estruturas públicas de acolhimento de crianças ou de outros serviços de cuidados. Nalguns  casos, a prestação de cuidados familiares – que é realizada principalmente por mulheres – tem abertamente precedência sobre os serviços públicos de cuidados de saúde. Alguns partidos neonacionalistas, especialmente os de extrema-direita do espectro político, são muito céticos em relação às políticas de igualdade de género. As políticas neonacionalistas podem, portanto, ser consideradas como particularmente desvantajosas para as  mulheres trabalhadoras.

Que opções de ação existem para as organizações sindicais? Em primeiro lugar, deve-se notar que os programas e ações no governo dos partidos neonacionalistas são uma resposta a questões socioeconómicas específicas. Estas questões são moldadas, em grande medida, pelo papel do respetivo país na divisão europeia do trabalho e pelo modo de regulação neoliberal da UE. Os partidos neonacionalistas enquadram-se em diferentes categorias e têm diferentes orientações programáticas. Essas características específicas precisam ser levadas em conta ao abordar os partidos neonacionalistas. Os fatores políticos e económicos que são conducentes à ascensão dos partidos neonacionalistas precisam de ser identificados e abordados. Esses fatores incluem padrões de desenvolvimento desiguais dentro da UE e o foco quase exclusivo na concorrência. A ênfase destes últimos está fortemente na concorrência de preços, sendo os salários vistos como a variável-chave do ajustamento. As organizações de trabalhadores devem promover mudanças na política económica. Independentemente das diferenças entre as posições neonacionalistas, faz sentido que as organizações laborais da UE troquem experiências relativamente aos partidos neonacionalistas e aprendam umas com as outras.

Elas devem analisar os diagnósticos dos problemas fornecidos pelos partidos neo-nacionalistas e abordar e criticar análises e diagnósticos inadequados e parciais . Vale a pena mencionar dois desses diagnósticos unilaterais e inadequados que são aqui particularmente comuns. Os partidos neonacionalistas com uma ideologia neoliberal veem o Estado como a raiz dos problemas e ignoram completamente as empresas como uma possível causa. Muitos partidos neonacionalistas tornam essencialmente  os migrantes e refugiados os bodes expiatórios, apresentando-os como a principal causa de problemas sociais e económicos, como o desemprego.

A resposta dos partidos neo-nacionalistas às questões sociais e económicas implica frequentemente uma política de exclusão e marginalização dos grupos mais vulneráveis. As suas políticas sociais tendem a ter um carácter de exclusão. As políticas de exclusão visam principalmente os migrantes e os refugiados. Contudo, os grupos altamente vulneráveis, como os desempregados de longa duração e os sem-abrigo, são também estigmatizados. Os cortes nos benefícios dos grupos altamente vulneráveis e estigmatizados abrem caminho a uma política mais ampla de desmantelamento da segurança social. As organizações de trabalhadores devem contrariar esta abordagem de exclusão com uma política inclusiva baseada em normas uniformes e proteções de base alargada. Essa política inclusiva deve também refletir-se nas políticas organizacionais e de representação das próprias organizações de trabalhadores.

As políticas de género das forças neonacionalistas são problemáticas do ponto de vista das organizações de representação dos trabalhadores. As organizações de representação dos trabalhadores devem envidar esforços especiais para combater a discriminação no local de trabalho, a discriminação salarial e a discriminação no mercado de trabalho. A expansão de um sector público abrangente com empregos bem remunerados é fundamental, em particular do ponto de vista do género.

As políticas dos partidos neonacionalistas fortemente neoliberais, em particular, visam enfraquecer as organizações laborais. As forças neonacionalistas visam particularmente o poder institucional das organizações de trabalho, por exemplo, através da erosão dos acordos de parceria social. As organizações dos trabalhadores devem, portanto, enfatizar ativamente a importância do contrapoder dos trabalhadores. Nos casos em que os partidos neonacionalistas no governo atacaram os acordos institucionais existentes, as organizações de trabalhadores têm frequentemente procurado manter canais institucionais e tomar medidas laborais em caso de conflitos específicos.

Os meios de comunicação pluralistas, em especial os públicos, são essenciais para que as organizações sindicais façam valer eficazmente a sua posição no debate político. A ação judicial em caso de conflitos laborais só é eficaz se existir um Estado de direito. A defesa eficaz dos interesses dos trabalhadores depende da pluralidade democrática e do Estado de direito. Por conseguinte, estes fatores devem ter uma elevada prioridade para as organizações sindicais.

Devem ser exploradas as possibilidades de cooperação com outras forças sociais nos domínios acima referidos. É importante que as organizações de trabalhadores tenham uma compreensão abrangente das ideias e práticas de política socioeconómica dos partidos neo-nacionalistas e que sejam também organizadores proativos de agendas.

 


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 12/06/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/06/11/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-i-grandes-planos-sobre-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-7o-texto-neonacionalismo-na-uniao-europeia-plataformas-e-acoes-de-politica-social-e-econom/

A propósito dos resultados das eleições europeias

por Rémy Herrera

A dizer a verdade, os resultados das eleições europeias de 25-26 de maio, poucas surpresas revelaram. Por toda a parte, ou quase, os partidos da extrema-direita obtiveram pontuações boas, ou mesmo muito boas. A tendência não é nova, à escala do continente. Confirma-se, consolida-se. E inquieta. O Rassemblement National (RN, ex-Frente Nacional) de Marine Le Pen foi o vencedor em França, com 23,3% dos votos expressos, enquanto que, em Itália, a Liga do Norte (Lega Nord per l'indipendenza della Padania) do atual ministro do Interior e vice-presidente do conselho de ministros italiano, Matteo Salvini, registou 34,3% dos votos. Para além dos 22 franceses do RN e dos 28 italianos da Liga, o grupo "Europa das nações e das liberdades" contaria igualmente três deputados do Partido da Liberdade da Áustria (Freiheitliche Partei Österreichs), três do partido nacionalista Intérêt flamengo (Vlaams Belang) e um do partido populista estoniano (Eesti Konservatiivne Rahvaerakond). A este grande contingente da extrema-direita oficialmente proclamada, deveriam sem dúvida juntar-se, pontualmente, membros das forças reacionárias "eurocéticas" de Direito e Justiça da Polónia (Prawo i Sprawiedliwoœæ) e da União cívica húngara (Fidesz), entre outros. De modo geral, para além da França e da Itália, as direitas conservadora e neoliberal ganharam em toda a Europa – com exceção notável da Península Ibérica, em que ganhou a esquerda.

Neste quadro europeu, que vai ficando cada vez mais sombrio, o caso da França é muito singular. Aí, o partido da maioria presidencial, La République en Marche (LREM), criado em 2016 por Emmanuel Macron e para ele – que confiscou a campanha das eleições europeias pelos seus " one-man shows " do Grand Débat, e depois envolvendo-se pessoalmente, ao ponto de figurar nos cartazes eleitorais e eclipsar o cabeça de lista – perdeu claramente (22,4%) perante o RN. Perdeu, apesar dos desmentidos de um chefe de estado emparedado no autismo político que se considera "confortado" na sua recusa de "mudar de cap", e apesar das acrobacias de linguagem de um governo decidido a passar para a "segunda fase das reformas" do mandato presidencial. Os dois partidos – de onde saiu parcialmente a LREM –, Les Républicains (a direita tradicional) e os resíduos do Partido Socialista (também de direita, mas com nova tendência neoliberal globalista, euro-idólatra e pró-atlântica), foram ao tapete: 8,5% dos votos para os primeiros, 6,2% para os segundos – tendo a generosidade de arredondar os resultados para a décima superior. Os resultados acumulados das duas formações partidárias que, desde há quase 40 anos, aplicaram em conjunto as políticas neoliberais – por vezes sob a forma de coabitação entre um presidente da República e um primeiro-ministro de bordas "opostas" – não chegam aos 15%. A rejeição do neoliberalismo é, pois, maciça. No entanto, vai continuar a ser imposto aos franceses. Democraticamente, é o que nos dizem. Apesar de 23 613 483 cidadãos (ou seja, quase 49,9% dos inscritos, pouco menos do que os votantes) terem decidido não participar no escrutínio, abstendo-se. E 551 235 decidiram votar em branco (um modo de expressão agora contabilizado). Mais meio milhão suplementar de votos de boletins nulos…

Não era preciso ter estudado latim na escola para constatar que o espetáculo oferecido pela esquerda é sinistro. A France insoumise (com 6,3%) congratulou-se por ter elegido seis deputados, quando não tinha nenhum – o que é normal, porque o movimento liderado por Jean-Luc Mélenchon ainda não existia nas últimas eleições de 2014. Culto do chefe (na verdade, invulgarmente dotado e cultivado), sectarismo do seu círculo próximo, incapacidade definitiva de produzir um programa radical e coerente, explicam esse fiasco. O Partido comunista francês? Há tanto tempo que já não fala de socialismo, apenas por vezes do social e, mais frequentemente, de societal … Conseguiu chegar aos 2,5%, ou seja, abaixo da barra dos 3% (sem reembolso dos custos da campanha) e também abaixo da barra dos 5% (sem assento no Parlamento europeu). Os trotskistas da Lutte ouvrière têm 0,7%; imperturbáveis. Garantidamente não trotskista, o Partido revolucionário comunista ficou em 0,01%. Não deitem mais! A taça está vazia. Dir-nos-ão: o futuro é a ecologia. E terão razão. Mas, provavelmente, não é com os nossos que, do alto dos seus 13,5% sentem crescer as asas e querem "hegemonizar" a esquerda. Porque ainda seria preciso apresentar provas de que o seu partido, Europe Écologie Les Verts , é de esquerda! Yannick Jadot, o cabeça de lista para as Europeias, não se mostrou favorável a uma reforma da função pública e da sua "aproximação com o estatuto da função privada"? Tal como deseja o presidente Macron! Que esperar de Pascal Canfin, eleito deputado europeu – sem a menor vergonha – em segundo lugar na lista de Macron… A lista daquele que não cumpriu a promessa de proibir o glifosato antes de 2021, que se sentou sobre os Acordos de Paris sobre o clima e que fecha os olhos perante os lobbies de poluidores! Que dizer de um Cohn-Bendit? Para evocar este palhaço não vale a pena gastar energia, tinta e papel. Basta papel higiénico. Os meus pensamentos vão apenas para os pobres veteranos de Maio de 68, que devem encher a fronha bochechuda e sorridente de traidor nas fotos dos livros de história!

Voltemos antes ao essencial, ou seja, à vitória da extrema-direita em França. Porque é que ela ganhou? Porque é que ela beneficia de um apoio crescente nas classes populares que, no entanto, dado o seu pronunciado gosto pela mestiçagem, não parecem racistas? Poderão ser invocadas numerosas causas, trabalhando a sociedade em profundidade e durante um longo período, de natureza socioeconómica, ideológica, psicológica mesmo. Explicando que as nossas hipóteses são, quanto a isto: que o racismo é uma doutrina intrinsecamente de direita e visceralmente segregada pelo pensamento burguês com o objetivo de dividir as classes dominadas; que as classes populares não são geneticamente mais estúpidas que as outras, portanto – embora manipuladas pelos media – não são menos capazes do que as outras de identificar o seu interesse de classe; e que estão hoje disponíveis componentes bastante grandes dessas mesmas classes trabalhadoras para uma mudança social radical, preparadas para uma "saída do sistema" (certas porções das classes médias parecem a ponto de se inclinar para o campo das precedentes). Arrisquemo-nos a avançar uma destas causas, entre outras, importante no que diz respeito à esquerda. Mas tabu. É esta: segmentos cada vez mais maciços das classes trabalhadoras dão apoio à extrema-direita porque consideram esta última – mas erradamente – como a que melhor lhes fornecerá resposta aos inúmeros sofrimentos que os afligem e aos medos que os perseguem. Medo perante o desemprego, a precarização, a desclassificação social, medo perante a abertura das fronteiras e a perda de soberania nacional, medo enfim perante a imigração. Tudo isto ao mesmo tempo, como diz o outro. Porque eles também pensam – desta vez, com razão – que a maior parte das organizações partidárias de esquerda, tal como funcionam atualmente, nas suas contradições, nas suas divisões, nas suas hesitações, nas suas insuficiências, renunciaram (ou já não têm capacidade) a defendê-las.

As forças de esquerda não estão encostadas à parede, estão ao pé da parede. Da parede capitalista. Quer compreendam finalmente que não haverá saída para a crise capitalista a não ser pela saída do próprio sistema capitalista, quer o país (e a Europa com ele) siga inevitavelmente a via que os Estados Unidos adotaram, a do acesso ao poder duma extrema-direita. Como é o caso dos dois aliados que são Israel e a Arábia Saudita. E recentemente o Brasil, onde Jair Bolsonaro é um produto fatal do fracasso do reformismo. Assim, sair do capitalismo aparece com um imperativo absoluto de todos os verdadeiros progressistas. Ecologistas inclusive, evidentemente, em primeiro lugar, que devem tomar consciência que se trata duma questão de vida ou de morte, que a alternativa fundamental se mantém sempre, mais do que nunca, entre o socialismo ou a barbárie. Se 88 milhões de europeus vivem em condições inaceitáveis de pobreza, uns privados de emprego, outros abandonados na concorrência entre trabalhadores, todos eles vendo os seus direitos espezinhados, é porque reina a lei da selva do capitalismo. Se o "Estado francês" – para referir aquilo que está em vias de vir a ser – vende aos bocados os emblemas da indústria nacional (entre mil exemplos possíveis, o ramo da energia da Alstom à General Electric… que despede mil assalariados em Belfort), é porque escolhe abdicar face aos ditames de Bruxelas e à ditadura do grande capital globalizado. Se migrantes procuram chegar às costas da Europa – que deve acolhê-los e tratá-los dignamente – é porque a miséria e a guerra os empurram, arriscando a vida, porque o capitalismo pilha as suas sociedades e o imperialismo que gera lhes faz sofrer conflitos criminosos. Se a crise climática faz tanta destruição, é porque não se pôs nenhum limite à loucura e à ganância dos exploradores. É preciso sairmos desta espiral destrutiva.

O espírito de justiça exige uma rotura com o capitalismo e o fim das guerras imperialistas. Face aos ódios, às fúrias, às violências que germinam na extrema-direita – último bastião do sistema capitalista – a razão pede a radicalização das forças progressistas que passam pelo abandono do reformismo hipócrita e colaboracionista e o regresso ao projeto pós-capitalista de transições socialistas. Nos anos 20 e 30, os fascismos invadiram o continente europeu para combater os comunistas que, depois de não terem triunfado na esteira de Outubro vermelho, combateram de armas na mão, heroicamente, até ao fim, do Spartakusbund às Brigadas Internacionales. Os nomes que nos dominam e nos fazem erguer a cabeça são Rosa Luxemburg ou Dolores Ibárruri Gómez. As extremas-direitas modernas cresceram naturalmente no estrume nauseabundo deixado no meio da cena política pelos líderes duma esquerda social-democratizada, aburguesada, feita de vacuidade, saciada com as migalhas que os capitalistas lhes lançam, domesticada por uma renda imperialista extorquida aos povos do Sul. Líderes que se confessaram vencidos e capitularam lamentavelmente sem sequer pensarem em dar luta.

31/Maio/2019

Tradução de Margarida Ferreira.

Ver também vídeo de Remy Herrera:

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/franca/remy_31mai19_p.html

A União Europeia não defende ambiente. E os deputados portugueses?

A defesa do ambiente e as alterações climáticas aumentaram no debate político, desde a pré-campanha eleitoral para o Parlamento Europeu.

/PixabayCréditos

Nos últimos meses, as questões ambientais têm ganho particular espaço mediático e as candidaturas dos partidos com assento no Parlamento Europeu (PE) vão ao encontro da discussão. Para além de propostas, o AbrilAbril olhou para algum do trabalho feito nos últimos cinco anos no PE pelos deputados portugueses.

É consensual que para a defesa do ambiente e para o combate das chamadas alterações climáticas, mais do que proclamações, são necessárias medidas concretas. O ritmo e o alcance dessas medidas é que contêm já divergências, sobretudo quando os objectivos passam pela alteração do modelo em que vivemos. A União Europeia (UE) não assume um verdadeiro combate pela defesa do planeta, pese embora assente muita da sua acção política, legislativa e de propaganda em alegadas pretensões de combate às alterações climáticas.

Uma das bandeiras da UE é a chamada União Energética, que, para além de promover a concentração do poder na Comissão Europeia (CE), no seu regulamento permite que sejam aplicadas sanções financeiras aos estados-membros (e a história recente de Portugal demonstra bem o que de mais negativo representam este tipo de sanções), ao mesmo tempo que não tem nenhuma disposição sobre o necessário combate a fazer à pobreza energética.

A UE também está comprometida com o Acordo de Paris, alcançado a 12 de Dezembro de 2015. Este acordo apresenta um plano de acção destinado a diminuir o aquecimento global para um valor abaixo dos 2 °C no período a partir de 2020, e assenta a resolução da questão numa lógica mercantilista e de expectativa que, no actual modelo económico, se façam investimentos que gerem baixas emissões de gases, através da perspectiva do lucro e negócio.

A realidade tem demonstrado que o Mercado de Carbono não funciona e, pelo contrário, tem tido um efeito perverso. Este mercado de emissões é um negócio de compra e venda de doses de poluição, e permite que os países com maior poder económico possam comprar poluição a países com mais dificuldades económicas, o que significa que se promove a negociação da poluição, quando deveria estar a pôr-se em prática políticas eficazes de redução das emissões carbónicas.

Aliás, com a crise que trouxe uma redução da actividade económica, os produtores de gases com efeito de estufa diminuíram a sua procura de licenças de produção de CO2. A diminuição da procura fez baixar o preço das licenças, pelo que se tornou muito barato poluir. A tonelada de CO2 chegou a atingir os três euros e, mesmo após intervenção da UE, apenas aumentou para os oito euros, o que faz com que seja barato utilizar combustíveis mais poluentes.

O que propõem e o que fizeram os deputados portugueses no PE

Olhando para manifestos e programas eleitorais, assim como para recentes declarações, encontram-se alguns dos objectivos de cada força política em matéria de ambiente.

O PS defende, no seu programa, a necessidade de «acelerar o caminho para a União Energética» e assume o objectivo de «desenvolver uma nova estratégia europeia de crescimento e desenvolvimento sustentável, assente numa utilização sustentável dos recursos».

O candidato do PSD, Paulo Rangel, tem defendido que a UE pode ir mais longe no combate às alterações climáticas, incluindo esta questão no seu manifesto eleitoral como uma das suas principais orientações.

A CDU defende que é através de políticas públicas que a defesa do ambiente deverá ser feita.

No programa do CDS-PP pode ler-se que «a PAC tem como objectivos garantir a autonomia alimentar da UE, [...] proteger o ambiente, o bem-estar dos animais, ajudar ao correcto ordenamento do território e à sustentabilidade dos recursos naturais».

Do manifesto do BE resulta que este partido não condena o comércio europeu de licenças de emissões, uma vez que propõe taxar, neste âmbito, os sectores que participam no comércio europeu de licenças de emissões. Este partido defende a criação de um estado de emergência climática a nível europeu, assim como um plano de investimentos públicos para o combate às alterações climáticas e aquilo que designam de políticas para o «emprego verde».

«(...) com a crise que trouxe uma redução da actividade económica, os produtores de gases com efeito de estufa diminuíram a sua procura de licenças de produção de CO2. A diminuição da procura fez baixar o preço das licenças, pelo que se tornou muito barato poluir.»

Nos últimos cinco anos, as diferenças quanto ao trabalho desenvolvido podem ser traduzidas em diversos exemplos concretos.

João Ferreira, o cabeça-de-lista da CDU, trabalhou «na directiva sobre as emissões industriais que, […] com base numa avaliação das melhores tecnologias disponíveis, estabelece limites máximos de emissão».

Os deputados comunistas intervieram pelo reforço dos programas da UE destinados ao ambiente, como o programa LIFE, propondo a duplicação das suas verbas, a implementação de políticas de reforço da sustentabilidade energética através do aproveitamento de recursos endógenos e com energias renováveis.

Estes parlamentares foram também os únicos deputados portugueses a questionar a CE sobre questões ligadas à utilização de glifosato.

Relativamente à questão da água, a CDU defende que a sua gestão deve manter-se nas entidades públicas, e que devem promover-se sistemas públicos de distribuição de água e de saneamento que correspondam às necessidades das populações e dos sectores produtivos.

No PE, o trabalho do BE sobre questões do ambiente passou por preocupações como a inclusão das emissões e remoções de gases com efeito de estufa resultantes de actividades relacionadas com o uso do solo; a alteração do uso do solo e das florestas no quadro relativo ao clima e à energia para 2030; ou a criação de um mecanismo de monitorização e de comunicação de informações sobre emissões de gases com efeito de estufa e de outras informações relevantes no que se refere às alterações climáticas.

O BE, não obstante, votou contra uma alteração quanto ao procedimento de autorização para pesticidas que pretendia que a mesma fosse gerida pelos estados-membros e que visava melhorar o nível de protecção dos consumidores e dos agricultores.

PSD e CDS-PP votaram contra uma directiva que visava a redução do impacto de determinados produtos de plástico no ambiente. Esta directiva definia que os estados-membros teriam de estabelecer metas nacionais e incentivar a reutilização de produtos, os quais possam ser reutilizados e reciclados, além de que promovia a proibição de artigos de plástico descartáveis.

PS e CDS-PP votaram contra propostas de alteração às orientações do Orçamento 2020 que visavam o reforço do programa LIFE e que incluíam dotações específicas para a biodiversidade e a gestão da rede Natura 2000 e que propunham assegurar uma repartição equitativa do financiamento entre os estados-membros. Essa mesma proposta previa ainda o apoio à avaliação da saúde ecológica e vegetal das florestas, incluindo a reflorestação com espécies nativas, em particular nos países fustigados pelos incêndios.

O CDS-PP votou contra a criação de um sistema de vigilância de pesticidas que permitisse desencadear um alerta assim que o produto fosse colocado no mercado.

 

O CDS-PP aprovou e o BE absteve-se na proposta de directiva, do PE e do Conselho, relativa à qualidade da água destinada ao consumo humano, a qual introduz graves riscos nesta matéria. Entre outras questões, aumenta significativamente os custos directos do abastecimento de água, faz subir os encargos públicos indirectos para fiscalização e controlo, e põe entraves à prestação do serviço público, ao mesmo tempo que favorece a privatização.

O CDS-PP é o partido menos amigo da água pública, tendo votado contra diversas iniciativas que pugnavam pela sua defesa, nomeadamente de medidas que visavam proporcionar a garantia de abastecimento a todos os cidadãos, em todas as circunstâncias, de uma quantidade mínima vital de água destinada ao consumo humano, garantindo que, em caso de atrasos de pagamento, as empresas de abastecimento pudessem instalar um limitador que forneça o nível diário essencial, por pessoa, recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

O planeta merece e agradece: a defesa do ambiente é incompatível com produção pelo lucro

São sérios os problemas ambientais vividos no actual paradigma que só serão resolvidos se se compreenderem as suas causas.

O modelo de produção vigente, assente no lucro imediato, não tem interesse em contribuir para dar resposta à defesa ambiental. E, sendo importante a aposta no desenvolvimento tecnológico, esse não pode ser o único caminho a prosseguir. É preciso, entre outras coisas, garantir a biodiversidade e questionar os interesses das multinacionais do agronegócio e as fitofarmacêuticas.

 

São falsos amigos do ambiente aqueles que insistem no recurso a mecanismos financeiros e especulativos ou na taxação dos comportamentos individuais e de consumo de mercados ditos verdes, quando, por um lado, essas soluções oneram sobretudo as populações mais desfavorecidas e os trabalhadores (colocando a estes os custos com a protecção do ambiente) e, por outro lado, alimentam um novo negócio feito à custa da legítima preocupação com a defesa do ambiente, quando esta matéria tem necessariamente de ser uma política de Estado.

A defesa do planeta e da sua sustentabilidade ambiental passa por encontrar alternativas energéticas aos combustíveis fósseis, que passam pelo investimento público designadamente em empresas públicas de energia, assim como pela promoção do transporte público, em detrimento de soluções que apontam para manter o paradigma do transporte individual.

É necessário defender a produção local, contrariando a liberalização do comércio mundial. A redução de emissões tem de ser feita com normativos específicos e não com atribuição de licenças transaccionáveis que potenciam a especulação e não resolvem o problema.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/uniao-europeia-nao-defende-ambiente-e-os-deputados-portugueses

O despovoamento do Interior «não é uma fatalidade»

Os candidatos dos partidos com assento no Parlamento Europeu trouxeram para a campanha eleitoral, nos últimos dias, questões relacionadas com a necessidade de valorizar o Interior do País.

Créditos / Visit Portugal

O debate sobre o Interior, em plena campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, acontece num quadro em que está prevista, para Portugal, uma redução de 7% das verbas dos fundos para a coesão sócio-económica e territorial. Redução que acresce aos impactos negativos para o País da desvalorização, nesta matéria, nos últimos três quadros de financiamento da União Europeia (UE) e que se têm traduzido, na prática, numa diminuição da coesão desde 1993.

Aqueles quadros comunitários registaram o voto favorável e o acordo dos diferentes governos de PS, PSD e CDS-PP.

Pelas diferentes candidaturas vão sendo apresentadas algumas propostas.

João Ferreira, cabeça-de-lista da CDU, entende que a «desertificação e despovoamento não são fatalidades» e podem ser revertidas com políticas diferentes daquelas que têm sido determinadas pela UE com a aceitação dos governos portugueses de PS, PSD e CDS-PP e que levaram ao encerramento de inúmeros serviços públicos determinantes para a fixação da população no Interior.

Essas políticas, segundo o candidato, passam pela regionalização, por investimento público com forte descriminação positiva dos territórios do Interior. O deputado ao Parlamento Europeu lembra o exemplo da «aplicação dos fundos comunitários na ligação ferroviária de Sines a Badajoz, que deixou esquecida a zona dos mármores e a possibilidade de transporte de mercadorias e de passageiros».

Já o candidato do PS ao Parlamento Europeu, Pedro Marques, defendeu a importância da inovação no sector primário para a criação de emprego, sobretudo em regiões como o Alentejo.

Os candidatos de PSD e CDS-PP lembraram, no mesmo dia, a importância da requalificação do IP3. E, pelo CDS-PP, Assunção Cristas referiu a necessidade da UE em reconhecer «um verdadeiro estatututo fiscal para o Interior», como forma de fixar população nesta parte do território.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/o-despovoamento-do-interior-nao-e-uma-fatalidade

Salários "imorais" dos eurodeputados deviam equiparar-se à realidade lusa

Os representantes portugueses ao Parlamento Europeu concordam que os salários dos eurodeputados são demasiado elevados quando comparados com o vencimento dos portugueses, defendendo uma redução do valor, que oscila entre os 15 e os 20 mil euros mensais.

"É evidente que estes salários são imorais. São imorais relativamente a Portugal. Não é concebível que haja estes vencimentos quando o salário mínimo em Portugal é de 600 euros. E para se aumentar uns cêntimos por dia é sempre o cabo dos trabalhos", argumentou Miguel Viegas, que procura que o excedente entre o salário do PE e o que efetivamente aufere, equiparado ao de deputado à Assembleia da República, "reverta para a sociedade através de um conjunto de instrumentos, relacionados com a política interna do PCP".
A opinião do eurodeputado comunista é partilhada por Marisa Matias, para quem "é impossível" olhar "para aquele que é o padrão salarial da grande maioria dos países europeus e achar que os salários dos eurodeputados não são elevados".

"Os salários não são aquilo que muita gente diz, a não ser que essas pessoas fiquem com dinheiro que não lhes corresponde para uso pessoal. Até mesmo alguns colegas, que de forma muito pouco leal e muito pouco verdadeira, anunciam valores de 20 mil euros e coisas assim... seja como for, acho que 6.000 mil e tal euros líquidos por mês é um valor elevado. Obviamente, os custos de vida são muito mais elevados, mas conseguiríamos fazer um trabalho com dignidade, garantindo que conseguiríamos pagar as despesas em Portugal, em Estrasburgo e em Bruxelas, com um salário digno, mas mais baixo", analisou a única representante do Bloco de Esquerda no PE.


O salário base de um eurodeputado é de 8.757,70 euros brutos (à data de julho de 2018), 6.824,85 euros depois de pagarem o imposto comunitário e contribuições para seguros. A esta verba acresce um subsídio fixo de 320 euros/dia para cobrir despesas de alojamento e despesas conexas por cada dia que os deputados ao PE compareçam em reuniões oficiais, em Bruxelas ou Estrasburgo, desde que assinem um registo para atestar a sua presença.

Existe ainda uma verba máxima mensal de 4.513 euros para as despesas resultantes das atividades parlamentares dos deputados, como os custos de arrendamento e gestão do gabinete do deputado, despesas de telefone e assinaturas, atividades de representação, computadores, organização de conferências e exposições, recebendo ainda os eurodeputados o reembolso dos voos a Portugal, mediante a apresentação dos respetivos recibos, até ao montante correspondente à tarifa aérea em classe executiva (ou similar), à tarifa de comboio em primeira classe ou a 0,53 euros por quilómetro, caso a viagem seja efetuada em automóvel privado (limitado a 1.000 quilómetros).

"Não se pode ganhar 30 vezes mais, ou 20 vezes mais o salário mínimo para representar pessoas que recebem o salário mínimo. Devia haver alguma moderação na forma como se remunera as funções políticas. E sobretudo deveria haver mais pudor, na forma como se isentam de impostos essas remunerações", defendeu António Marinho e Pinto, que vincou que "uma pessoa em Portugal que receba mais de 4,50 euros de subsídio de alimentação tem de o declarar para efeitos de IRS", mas os eurodeputados recebem "cerca de 10, 12 mil euros" totalmente isento de impostos.

Para o eurodeputado do Partido Democrático Republicano, é tão nefasto para o trabalho político ganhar-se de mais como ganhar-se de menos. "E a prova está aí nas listas que os grandes partidos fazem. Nos partidos de base clientelar, como é o Partido Socialista e como é o PSD, os lugares do PE não são para aqueles que melhor possam desempenhar a função parlamentar, mas para aqueles que mais fiéis foram às direções dos partidos e os premeiam com um lugar bem remunerado", acusou.

A ideia é, no entanto, desmistificada pelo socialista Francisco Assis que, apesar de reconhecer que os salários são elevados quando comparados com o dos portugueses, diz não conhecer ninguém, "da direita à esquerda", que esteja no PE por causa da remuneração.

"As pessoas vêm para aqui porque este é um local de grande realização política, até pelas próprias condições de trabalho. Têm que ver com o facto de, por exemplo, termos possibilidade de contratar assistentes diretamente, o que em Portugal não existe", apontou aquele que foi o cabeça de lista pelo PS nas últimas eleições europeias, em 2014.

Segundo Marisa Matias, que canaliza parte do seu salário para ajudar "projetos que são importantes", um salário na ordem dos 4.000 euros permitiria que os eurodeputados pudessem desempenhar as suas funções "com dignidade, mas sem excessos", tendo em conta aquele que é o custo de vida em Bruxelas e os encargos no país de origem.

Lusa | Notícias ao Minuto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/salarios-imorais-dos-eurodeputados.html

Esta Europa e as nações

UE001A Europa enquanto continente político-geográfico é o resultado da afirmação das nações. Foram elas que fizeram da Europa o continente mais avançado em termos de conquistas políticas, sociais, culturais e ambientais.

Também é verdade que foram algumas delas que arrasaram o continente a ferro e fogo em guerras que explodiram no século passado e assumiram dimensões mundiais.

Foi essa horrenda devastação que gerou a ideia de uma Europa de nações a viver em paz e em cooperação.

Neste nosso tempo as nações não passaram à História, estão aí, nalguns casos exacerbadas por líderes que delas se servem para combater rumos que os seus povos rejeitam. Os mais “europeístas” como Merkel ou Macron pensam em primeiro lugar na Alemanha e França respetivamente e veem o continente à luz dos seus interesses.

A Europa continua a assentar nas nações e só a sua união voluntária de baixo para cima e não imposta de cima para baixo pode permitir a cooperação à escala continental onde está a U.E. e onde estão outras nações.

A crise que atravessa a U.E. de onde sobressaem tendências xenófobas, fascistas, nacionalistas, austeritárias, resulta também do rumo que leva a sua edificação.

Ninguém se pode sentir bem numa organização que impede de alimentar as suas aspirações por chocarem com  regras impostas por elites desligadas dos povos.

No passado a construção de grandes impérios tolheu o desenvolvimento da ideia da Europa e levou sempre a confrontos militares. O império era mais que o continente.

Em 2019 será mais difícil impor políticas com base nos tanques ou aviões ou ainda nos navios de guerra. Hoje, os meios são muito mais sofisticados e os países mais fortes atraem por via das elites os mais fracos para um espaço continental onde aqueles dominam através de mecanismos económicos e financeiros.

As regras resultantes do Pacto de Estabilidade configura um certo tipo de poder imperial, na medida em que condiciona de modo decisivo uma parte muito importante da soberania nacional de muitos dos Estados que outros conservam a todo o custo. Outrora os Filipes, os Habsburg, os czares, os sultões, Bonnaparte , Bismark, ou a Rainha Vitória, impunham por outros meios essa limitação.

Fazer parte de uma organização de nações em que as mais ricas continuarão mais ricas e as mais pobres não terão possibilidade de se desenvolverem porque as regras existentes as impedem de gerir os seus recursos de acordo com os seus interesses trará grandes e graves problemas. Atente-se nos que está a enfrentar o Reino Unido com o seu divórcio que poderá acabar no ponto em que começou.

É um mal-estar que alimenta toda a espécie de extremismos. As eleições para o Parlamento Europeu não entusiasmam ninguém. Até o PS sentiu que ninguém ia à bola com a sua política centenista/europeísta  e Costa arranjou uma crise que não queria, mas queria….

Porém, o cabeça de lista do PS continua um ilustre desconhecido, o do PSD é aquele que continua como sócio de uma sociedade de advogados e o Nuno Melo acha que o Vox não é de extrema direita… É esta União Europeia criada por estas elites que desmotiva os povos. Uma União em que mandam os mais poderosos não é uma união. É uma organização que tem um diretório para submeter os outros. É precisa outra União onde os povos e nações sejam realmente pares e parceiros.

In Público online

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Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/05/10/esta-europa-e-as-nacoes/

Directivas comunitárias visam liquidar o sector ferroviário nacional

As comissões de trabalhadores da CP e da Infraestruturas de Portugal denunciam que as directivas comunitárias liquidam o sector ferroviário nacional e exigem mais investimento estatal.

Foto de Arquivo.CréditosMário Cruz / Agência LUSA

A posição das comissões de trabalhadores foi enviada esta quinta-feira à Autoridade de Mobilidade e Transportes, relativamente ao Projecto de Regulamento do Teste de Equilíbrio Económico, no âmbito do Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros. 

No documento, a que o AbrilAbril teve acesso, dizem ser «lamentável que, apesar dos desastrosos resultados dos sucessivos pacotes», estas directivas «continuem a encontrar em Portugal cúmplices para as defender e executar». 

Na opinião dos trabalhadores, o projecto de regulamento que foi submetido a consulta pública destina-se a completar o «quadro regulatório que irá permitir a entrada de operadores estrangeiros nas linhas potencialmente lucrativas».

Isto é, sempre que o Estado português investir «uns largos milhões na infra-estrutura», um operador privado e estrangeiro «receberá o direito de explorar essa infra-estrutura». O resultado, dizem, conduzirá à « destruição da CP» e à entrega de mais um sector económico aos grupos multinacionais. 

Em jeito de alerta, as comissões de trabalhadores afirmam que não são necessários «regulamentos e testes» para saber que qualquer operador estrangeiro que venha a operar em Portugal retirará receitas à CP que farão falta para manter a funcionar sectores «comercialmente deficitários», como o Regional. 

Além de exigirem que o Estado invista nas infra-estruturas e no material circulante da CP, esclarecem que a directiva comunitária «não impõe» a abertura do mercado nacional e que o País não deve «cair nas mesmas armadilhas». 

Porém, sublinham, é nos sectores «potencialmente lucrativos da ferrovia nacional», designamente o corredor Braga-Faro (longo curso) e os urbanos de Lisboa e Porto, que não há previsão de qualquer investimento para material circulante da CP nos próximos anos. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/directivas-comunitarias-visam-liquidar-o-sector-ferroviario-nacional

A União Europeia, no momento e no futuro

Thierry Meyssan*

Os cidadãos da União Europeia, que deverão eleger o seu parlamento a 25 e 26 de Maio, aprestam-se a fazer a pior escolha. Observando os seus problemas imediatos, eles hesitam entre as diversas prioridades. Mas, se pelo contrário, analisassem um extenso período da sua história, eles compreenderiam a origem dos seus problemas sociais, económicos e políticos e, sem qualquer dúvida, decidiriam de forma diferente.

Na sequência da Segunda Guerra Mundial, em 1947, o Embaixador George Kennan concebeu a política de contenção (containment) [1] e o Presidente Harry Truman formou as instituições de segurança nacional (CIA, Comité conjunto permanente dos Chefes de Estado-Maior, Conselho Nacional de Segurança) [2].

Washington e Londres viraram-se então contra Moscovo (Moscou-br), o seu anterior aliado. Cogitaram criar uma nacionalidade anglo-saxónica comum e decidiram incorporar a Europa Ocidental ao seu estandarte criando para isso os «Estados Unidos da Europa», sob o seu controlo.

Tratava-se para eles de estabilizar a parte que ocupavam da Europa Ocidental, face à Europa Oriental ocupada pelos Soviéticos. Beneficiaram do apoio das burguesias, particularmente daquelas que haviam colaborado com o Eixo nazi, assustadas pela nova legitimidade dos partidos comunistas, principais forças vitoriosas ao lado da União Soviética.

Eles apoiaram-se no sonho de um alto-funcionário francês, Louis Loucheur: juntar-se à gestão do carvão e do aço necessários às indústrias de armamento da Alemanha e da França, de tal modo que não mais pudessem guerrear-se entre si [3]. Isto deu origem à CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), antecessora da União Europeia.


No contexto da guerra entre as duas Coreias, Washington decidiu rearmar a Alemanha Ocidental face à de Leste. De modo a que os Estados Unidos da Europa em formação pudessem gerir um exército comum, mas não se atrevessem a transformar-se numa força independente e permanecessem sob controle anglo-saxão, foi criada a União da Europa Ocidental (UEO). Ela ficou responsável pela política externa e de defesa comum.

As relações entre Londres e Washington azedaram durante a crise do Suez, em 1956. Os Estados Unidos, que se orgulhavam de estar entre os libertadores do jugo nazista, não podiam a maneira como Londres geria o seu antigo Império colonial. Eles aproximaram-se de Moscovo a fim de sancionar o Reino Unido.

Já não se tratava mais de criar uma nacionalidade anglo-saxónica comum e a influência de Londres no mundo deslizava, inexoravelmente, para os braços de Washington. O Reino Unido decidiu, então, aderir aos Estados Unidos da Europa em formação.

Charles De Gaulle opôs-se a isso. Era com efeito previsível que a reconciliação entre Londres e Washington seria daria privando os Estados Unidos da Europa em formação de todo o poder político e colocando-os numa zona de livre comércio transatlântico. A Europa Ocidental seria, então, castrada e se tornaria um vassalo de Washington dirigido contra «os Russos» [4].

Não sendo De Gaulle eterno, o Reino Unido acabou por aderir a estes Estados Unidos da Europa anti-Russos em 1973. Como previsto, transformou a Comunidade Europeia numa zona de comércio livre, pelo Acto Único Europeu, e abriu a via a negociações transatlânticas.

É a época das «quatro liberdades» (por analogia com o discurso de Roosevelt em 1941): a livre circulação de bens, de serviços, de pessoas e capitais. As alfândegas internas são progressivamente revogadas. Insensivelmente, os Anglo-Saxões impuseram o seu modelo de sociedade multicultural que se achava incompatível com a cultura europeia.

Apenas quando a URSS foi dissolvida, em 1991, é que o projecto de 1947 se concretizou. Washington decidiu transformar a organização bruxelense numa estrutura supranacional e aí introduzir as nações do Pacto de Varsóvia. De colocar esta «União Europeia» anti-Russa sob a protecção da OTAN e de lhe interditar qualquer papel político.

Foi o Secretário de Estado dos EUA, James Baker, e não os Europeus, quem anunciou a abertura a Leste e o Tratado de Maastricht. A estrutura bruxelense metamorfoseou-se : as 15 nações do bloco ocidental pós-Guerra mundial abriram-se às 13 nações pós-Pacto de Varsóvia, a UEO foi dissolvida e uma Alta Representante para a Política Externa e de Defesa Comum foi nomeada —sempre sob o controlo anglo-saxão selado pelo Tratado de Maastricht—, por fim uma nacionalidade europeia foi criada.

Desde aí, Washington encarou fazer Londres aderir ao Acordo de livre comércio norte-americano [5] e que fosse criada, como previsto em 1947, uma nacionalidade anglo-saxónica. Foi este projecto que levou o Reino Unido a sair da União Europeia e que Theresa May veio, em vão, defender do outro lado do Atlântico, nuns perturbados Estados Unidos que acabavam de eleger Donald Trump.

O Brexit, se acabasse por acontecer, não mudaria em nada a dependência da União escrita em mármore pelos Tratados. As coisas voltariam simplesmente ao que tinha sido planeado (planejado-br) em 1947, na época em que Churchill encorajava os Estados Unidos da Europa, sem o Reino Unido [6].

Balancete

É por isso que, em 2007, Vladimir Putin veio à União Europeia proferir o seu sonante discurso de Munique [7]. A história da União Europeia mostra que esta organização jamais foi concebida no interesse dos povos europeus, mas contra a Rússia.

A União Europeia conseguiu, durante décadas, garantir a prosperidade económica, mas não após a dissolução da URSS. Hoje em dia, ela ficou para trás : desde 2009 (quer dizer posteriormente à crise financeira mundial de 2008) os Estados Unidos tiveram um crescimento de +34%, a Índia de +96%, a China de +139%, enquanto que a União Europeia caiu -2%.

Por outro lado, a União Europeia nunca conseguiu ajudar os pobres a emanciparem-se. No máximo, pode pensar em subsídios para que os necessitados não morram de fome.

Por fim, mas não menos importante, a União Europeia jamais lutou pela paz, apenas pelos seus senhores anglo-saxões. Ela apoiou todas as guerras dos EUA [8], incluindo a guerra contra o Iraque que a França e o Chanceler Schröder, portanto, denunciaram. Covardemente, ela abandona seus membros à sua sorte: o seu próprio território está ocupado, no Nordeste de Chipre, pelo Exército turco, membro da OTAN, sem jamais levantar o menor protesto.

Futuro

Nos dias 25 e 26 de Maio, a União Europeia anti-Russa elegerá o seu Parlamento, sem que se saiba por quanto tempo os Britânicos aí se sentarão.

Os povos demoram a reagir: se, durante a Guerra Fria, era legítimo preferir mais um campo que outro e, para alguns, escolher servir Anglo-Saxões em vez de um Georgiano [9], é absurdo hoje em dia continuar a obedecer-lhes como prevenção de um inexistente «perigo russo».

Depois de três quartos de século de vassalagem, os partidos políticos opostos aos Tratados Europeus hesitam em definir a sua prioridade: devem primeiro recuperar a sua independência face aos Anglo-Saxões ou defender a sua cultura em relação à dos Árabe-Turcos? Ora, o segundo problema é consequência do primeiro e não o inverso.

Não se trata de imaginar uma pseudo-superioridade de uma cultura sobre outra, nem sequer de falar de religião, mas de constatar a impossibilidade de coexistência numa mesma sociedade de duas organizações sociais diferentes. Para simplificar, não se pode celebrar ao mesmo tempo o domingo e a sexta-feira.

Foi por causa da sua dependência que os Europeus imaginaram uma sociedade multicultural. Esta não funciona no seu território. E, só sendo independentes é que eles conseguirão salvar a cultura europeia.

Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

Notas:
[1] The long telegram, by George Kennan to George Marshall, February 22, 1946.
[2] National Security Act of 1947.
[3] « Histoire secrète de l’Union européenne », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 28 juin 2004.
[4] De Gaulle considerava secundária a oposição capitalista/comunista em relação à geopolítica Anglo-Saxões/Rússia. Ele evitava falar de URSS, referindo-se antes a Rússia.
[5] The Impact on the U.S. Economy of Including the United Kingdom in a Free Trade Arrangement With the United States, Canada, and Mexico, United States International Trade Commission, 2000.
[6] “Winston Churchill speaking in Zurich on the United States of Europe”, by Winston Churchill, Voltaire Network, 19 September 1946.
[7] “O carácter indivisível e universal da segurança global”, Vladimir Putin, Tradução Resistir.info, Rede Voltaire, 11 de Fevereiro de 2007.
[8] “A União Europeia é forçada a participar nas guerras dos EUA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Abril de 2019.
[9] Joseph Stalin não era Russo, mas Georgiano. NdR.

A União Europeia, no momento e no futuro

Os cidadãos da União Europeia, que deverão eleger o seu parlamento a 25 e 26 de Maio, aprestam-se a fazer a pior escolha. Observando os seus problemas imediatos, eles hesitam entre as diversas prioridades. Mas, se pelo contrário, analisassem um extenso período da sua história, eles compreenderiam a origem dos seus problemas sociais, económicos e políticos e, sem qualquer dúvida, decidiriam de forma diferente.

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Na sequência da Segunda Guerra Mundial, em 1947, o Embaixador George Kennan concebeu a política de contenção (containment[1] e o Presidente Harry Truman formou as instituições de segurança nacional (CIA, Comité conjunto permanente dos Chefes de Estado-Maior, Conselho Nacional de Segurança) [2].

Washington e Londres viraram-se então contra Moscovo (Moscou-br), o seu anterior aliado. Cogitaram criar uma nacionalidade anglo-saxónica comum e decidiram incorporar a Europa Ocidental ao seu estandarte criando para isso os «Estados Unidos da Europa», sob o seu controlo.

Tratava-se para eles de estabilizar a parte que ocupavam da Europa Ocidental, face à Europa Oriental ocupada pelos Soviéticos. Beneficiaram do apoio das burguesias, particularmente daquelas que haviam colaborado com o Eixo nazi, assustadas pela nova legitimidade dos partidos comunistas, principais forças vitoriosas ao lado da União Soviética.

Eles apoiaram-se no sonho de um alto-funcionário francês, Louis Loucheur: juntar-se à gestão do carvão e do aço necessários às indústrias de armamento da Alemanha e da França, de tal modo que não mais pudessem guerrear-se entre si [3]. Isto deu origem à CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), antecessora da União Europeia.

No contexto da guerra entre as duas Coreias, Washington decidiu rearmar a Alemanha Ocidental face à de Leste. De modo a que os Estados Unidos da Europa em formação pudessem gerir um exército comum, mas não se atrevessem a transformar-se numa força independente e permanecessem sob controle anglo-saxão, foi criada a União da Europa Ocidental (UEO). Ela ficou responsável pela política externa e de defesa comum.

As relações entre Londres e Washington azedaram durante a crise do Suez, em 1956. Os Estados Unidos, que se orgulhavam de estar entre os libertadores do jugo nazista, não podiam aceitar a maneira como Londres geria o seu antigo Império colonial. Eles aproximaram-se de Moscovo a fim de sancionar o Reino Unido.

Já não se tratava mais de criar uma nacionalidade anglo-saxónica comum e a influência de Londres no mundo deslizava, inexoravelmente, para os braços de Washington. O Reino Unido decidiu, então, aderir aos Estados Unidos da Europa em formação.

Charles De Gaulle opôs-se a isso. Era com efeito previsível que a reconciliação entre Londres e Washington privaria os Estados Unidos da Europa em formação de todo o poder político e colocando-os numa zona de livre comércio transatlântico. A Europa Ocidental seria, então, castrada e se tornaria um vassalo de Washington dirigido contra «os Russos» [4].

Não sendo De Gaulle eterno, o Reino Unido acabou por aderir a estes Estados Unidos da Europa anti-Russos em 1973. Como previsto, transformou a Comunidade Europeia numa zona de comércio livre, pelo Acto Único Europeu, e abriu a via a negociações transatlânticas.

É a época das «quatro liberdades» (por analogia com o discurso de Roosevelt em 1941): a livre circulação de bens, de serviços, de pessoas e capitais. As alfândegas internas são progressivamente revogadas. Insensivelmente, os Anglo-Saxões impuseram o seu modelo de sociedade multicultural que se achava incompatível com a cultura europeia.

Apenas quando a URSS foi dissolvida, em 1991, é que o projecto de 1947 se concretizou. Washington decidiu transformar a organização bruxelense numa estrutura supranacional e aí introduzir as nações do Pacto de Varsóvia. De colocar esta «União Europeia» anti-Russa sob a protecção da OTAN e de lhe interditar qualquer papel político.

Foi o Secretário de Estado dos EUA, James Baker, e não os Europeus, quem anunciou a abertura a Leste e o Tratado de Maastricht. A estrutura bruxelense metamorfoseou-se : as 15 nações do bloco ocidental pós-Guerra mundial abriram-se às 13 nações pós-Pacto de Varsóvia, a UEO foi dissolvida e uma Alta Representante para a Política Externa e de Defesa Comum foi nomeada —sempre sob o controlo anglo-saxão selado pelo Tratado de Maastricht—, por fim uma nacionalidade europeia foi criada.

Desde aí, Washington encarou fazer Londres aderir ao Acordo de livre comércio norte-americano [5] e que fosse criada, como previsto em 1947, uma nacionalidade anglo-saxónica. Foi este projecto que levou o Reino Unido a sair da União Europeia e que Theresa May veio, em vão, defender do outro lado do Atlântico, nuns perturbados Estados Unidos que acabavam de eleger Donald Trump.

O Brexit, se acabasse por acontecer, não mudaria em nada a dependência da União escrita em mármore pelos Tratados. As coisas voltariam simplesmente ao que tinha sido planeado (planejado-br) em 1947, na época em que Churchill encorajava os Estados Unidos da Europa, sem o Reino Unido [6].

Balancete

É por isso que, em 2007, Vladimir Putin veio à União Europeia proferir o seu sonante discurso de Munique [7]. A história da União Europeia mostra que esta organização jamais foi concebida no interesse dos povos europeus, mas contra a Rússia.

A União Europeia conseguiu, durante décadas, garantir a prosperidade económica, mas não após a dissolução da URSS. Hoje em dia, ela ficou para trás : desde 2009 (quer dizer posteriormente à crise financeira mundial de 2008) os Estados Unidos tiveram um crescimento de +34%, a Índia de +96%, a China de +139%, enquanto que a União Europeia caiu -2%.

Por outro lado, a União Europeia nunca conseguiu ajudar os pobres a emanciparem-se. No máximo, pode pensar em subsídios para que os necessitados não morram de fome.

Por fim, mas não menos importante, a União Europeia jamais lutou pela paz, apenas pelos seus senhores anglo-saxões. Ela apoiou todas as guerras dos EUA [8], incluindo a guerra contra o Iraque que a França e o Chanceler Schröder, portanto, denunciaram. Covardemente, ela abandona seus membros à sua sorte: o seu próprio território está ocupado, no Nordeste de Chipre, pelo Exército turco, membro da OTAN, sem jamais levantar o menor protesto.

Futuro

Nos dias 25 e 26 de Maio, a União Europeia anti-Russa elegerá o seu Parlamento, sem que se saiba por quanto tempo os Britânicos aí se sentarão.

Os povos demoram a reagir: se, durante a Guerra Fria, era legítimo preferir mais um campo que outro e, para alguns, escolher servir Anglo-Saxões em vez de um Georgiano [9], é absurdo hoje em dia continuar a obedecer-lhes como prevenção de um inexistente «perigo russo».

Depois de três quartos de século de vassalagem, os partidos políticos opostos aos Tratados Europeus hesitam em definir a sua prioridade: devem primeiro recuperar a sua independência face aos Anglo-Saxões ou defender a sua cultura em relação à dos Árabe-Turcos? Ora, o segundo problema é consequência do primeiro e não o inverso.

Não se trata de imaginar uma pseudo-superioridade de uma cultura sobre outra, nem sequer de falar de religião, mas de constatar a impossibilidade de coexistência numa mesma sociedade de duas organizações sociais diferentes. Para simplificar, não se pode celebrar ao mesmo tempo o domingo e a sexta-feira.

Foi por causa da sua dependência que os Europeus imaginaram uma sociedade multicultural. Esta não funciona no seu território. E, só sendo independentes é que eles conseguirão salvar a cultura europeia.


[1] The long telegram, by George Kennan to George Marshall, February 22, 1946.

[2] National Security Act of 1947.

[3] « Histoire secrète de l’Union européenne », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 28 juin 2004.

[4] De Gaulle considerava secundária a oposição capitalista/comunista em relação à geopolítica Anglo-Saxões/Rússia. Ele evitava falar de URSS, referindo-se antes a Rússia.

[5] The Impact on the U.S. Economy of Including the United Kingdom in a Free Trade Arrangement With the United States, Canada, and Mexico, United States International Trade Commission, 2000.

[6] “Winston Churchill speaking in Zurich on the United States of Europe”, by Winston Churchill, Voltaire Network, 19 September 1946.

[7] “O carácter indivisível e universal da segurança global”, Vladimir Putin, Tradução Resistir.info, Rede Voltaire, 11 de Fevereiro de 2007.

[8] “A União Europeia é forçada a participar nas guerras dos EUA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Abril de 2019.

[9] Joseph Stalin não era Russo, mas Georgiano. NdR.



Ver original na 'Rede Voltaire'



É costume mas continua a ser inaceitável !

Notícias sobre
o meter o bedelho


UE001Moscovici :
Costa «foi sábio e firme »
(sobre professores)

Juncker sobre o Brexit:
«La deuxième erreur que j'ai
commise, c'est d'avoir écouté le gouvernement britannique de Monsieur
[David] Cameron, a-t-il lancé.Parce que ce Premier
ministre de l'époque m'avait
demandé de ne pas intervenir
dans la campagne du référendum
sur le Brexit.
C'était une erreur
de ne pas intervenir
. Parce
que nous aurions été les seuls
à démonter les mensonges
proférés. J’ai eu tort de me
taire à un moment important.
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Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

O euro tem 20 anos: quem são os perdedores? quem são os ganhadores? – Parte II


O euro tem 20 anos: quem são os perdedores? quem são os ganhadores?

Mesmo 20 anos após a sua introdução, o euro continua a ser controverso. No presente trabalho utilizou-se o método do controlo sintético para analisar quais os países que beneficiaram e os que perderam  com a criação do euro

► A Alemanha é de longe o país que mais beneficiou com a introdução do euro: de 1999 a 2017, com um ganho de quase  1,9 milhão de  milhões  de euros. Isto corresponde a cerca de 23.000 euros por habitante. Além da Alemanha  só os Países Baixos beneficiaram substancialmente com a introdução do euro.

► Nos primeiros anos após a introdução do euro, a Grécia beneficiou massivamente  do euro, mas sofreu perdas significativas desde 2011. Durante todo o período, o saldo é levemente  positivo em +2 mil milhões de euros, ou seja, +190 euros por habitante.

► Em todos os outros países estudados, o euro levou a uma queda na prosperidade: em França, 3,600 milhões de  milhões de euros e até mesmo 4,300 milhões de  milhões de euros na Itália. Isto corresponde a uma perda de 56 000 euros por habitante em França e 74 000 euros por habitante em Itália.


(Alessandro Gasparotti et Matthias Kullas, Fevereiro de 2019)

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  1. Resultados por país

Este capítulo apresenta os retratos dos países da zona euro analisados. Trata-se da Bélgica, Alemanha, França, Grécia, Itália, Holanda, Portugal e Espanha.

Cada um dos retratos começa por indicar, para cada país, os efeitos da introdução do euro sobre a riqueza, durante todo o período desde a adesão , tanto per capita como para a economia no seu conjunto.

Cada retrato de país também contém duas ilustrações. O primeiro gráfico compara a evolução real do PIB per capita do país da zona  euro desde a introdução do euro (linha azul) com o cenário contra factual, que mostra a evolução hipotética do PIB per capita se o país não tivesse adotado o euro (linha laranja).

O segundo gráfico mostra, para cada ano desde a introdução do euro, o impacto da introdução do euro no PIB per capita do país da zona do euro em análise. Os valores negativos (destacados a vermelho) indicam que a introdução do euro reduziu o PIB per capita no ano em causa. Os valores positivos (destacados a verde) indicam que a introdução do euro aumentou o PIB per capita no ano em causa. Além disso, cada retrato apresenta uma conclusão que resume os principais resultados para o país da zona euro em causa.

Bélgica

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Conclusão: A Bélgica beneficiou da sua entrada na zona euro entre 2009 e 2012 e sofreu prejuízos antes e desde então. Entre 1999 e 2017, o euro conduziu a um declínio acumulado da prosperidade de 69 mil milhões de euros, ou seja, 6.370 euros per capita.


Alemanha

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Conclusão: Com exceção de 2004 e 2005, a Alemanha tem beneficiado anualmente da introdução do euro, especialmente desde a crise do euro em 2011: de 1999 a 2017, o euro permitiu à economia alemã obter um ganho acumulado de 1,9 milhões de milhões de euros, ou 23.116 euros per capita. Entre os países observados, a Alemanha foi, por conseguinte, o país que mais beneficiou com o euro.


França

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Conclusão: Em França, a adesão à  zona euro levou a um declínio na prosperidade ano após ano. Desde a introdução do euro, estas perdas ascenderam a 3,6 mil milhões de euros. Isto corresponde a uma perda de 55.996 euros por habitante. Depois da Itália, a França é, portanto, o país onde o euro causou o declínio mais significativo no PIB. Esta evolução mostra que a França ainda não encontrou uma forma de reforçar a sua competitividade na zona  euro. Nas décadas anteriores à introdução do euro, a França desvalorizou regularmente a sua moeda para este efeito. Desde então, isto já deixou de ser possível. Em vez disso, são necessárias reformas estruturais. Para beneficiar do euro, a França deve prosseguir na via das reformas iniciadas pelo Presidente Macron.


Grécia

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Conclusão: Na Grécia, a adesão à zona euro conduziu a grandes ganhos de prosperidade entre 2001 e 2010. Esta situação alterou-se em 2011, depois de  ter rebentado a bolha em 2009, bolha esta criada em anos anteriores.  Desde então, o euro resultou numa queda da prosperidade. Em resultado dos ganhos de prosperidade nos primeiros anos após a introdução do euro, o saldo global no final de 2017 era de cerca de 2 mil milhões de euros, ou seja, 190 euros per capita. Para garantir que assim continue a ser a médio prazo, o Governo grego deve realizar reformas para aumentar o PIB per capita. Tal inclui medidas para aumentar a competitividade e melhorar o clima de investimento. O exemplo da Espanha mostra que as reformas estruturais podem inverter a tendência negativa de perdas de prosperidade cada vez maiores.


Itália

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Conclusão: Em nenhum outro país dos países examinados o euro conduziu a perdas de prosperidade tão elevadas como em Itália. As perdas sofridas desde a introdução do euro ascendem a 4,3 mil milhões de euros no total, ou seja, 73 605 euros per capita. Tal deve-se ao facto de o PIB per capita italiano ter estagnado desde a introdução do euro. A Itália ainda não encontrou uma forma de se tornar competitiva na zona euro. Nas décadas anteriores à introdução do euro, a Itália desvalorizou regularmente a sua moeda para este efeito. Após a introdução do euro, isso já não era possível. Em vez disso, foram necessárias reformas estruturais. A Espanha mostra como as reformas estruturais podem inverter a tendência negativa de perdas de prosperidade cada vez maiores.


Holanda

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Conclusão: Os Países Baixos lucraram com o euro todos os anos desde a sua introdução, especialmente em 2008 e 2009. No seu conjunto, o euro deu origem a um aumento da prosperidade de 346 mil milhões de euros, ou seja, 21 003 euros per capita. Dos países da zona euro examinados, apenas a Alemanha ganhou mais com o euro.


Portugal

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Conclusão: Portugal apenas beneficiou marginalmente do euro nos primeiros anos após a sua introdução. Nos anos seguintes, o euro conduziu cada vez mais a perdas de prosperidade. No seu conjunto, deu origem a uma quebra de prosperidade de 424 mil milhões de euros, ou seja, 40 604 euros per capita. Só em França e em Itália é que as perdas foram maiores.

Portugal tem de realizar reformas urgentes para aumentar o PIB per capita, se quiser beneficiar do euro a médio prazo. Por conseguinte, as condições de enquadramento para o investimento devem ser melhoradas e as despesas públicas utilizadas em maior medida para o investimento do que para o consumo.


Espanha

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Conclusão: De 1999 a 2010, a Espanha ganhou com a introdução do euro. Desde 2011, a adesão ao euro resultou numa redução da prosperidade. As perdas atingiram o seu pico em 2014. Desde então, essas perdas têm vindo a diminuir de forma constante. As reformas que foram levadas a cabo estão a dar os seus frutos. No entanto, uma vez que as reduções anuais da prosperidade entre 2011 e 2017 foram superiores aos ganhos anteriores, o saldo global permanece atualmente negativo em 224 mil milhões de euros ou 5,031 euros per capita. Esta situação poderá inverter-se em apenas alguns anos se a Espanha se mantiver firme no seu caminho de reformas.


Anexo

Os quadros seguintes indicam quais os países que constituem o grupo de controlo para cada um dos países da zona euro examinados e a ponderação utilizada para criar o cenário contra factual. O gráfico seguinte mostra a tendência real do PIB per capita (linha azul) e do PIB per capita hipotético (linha laranja) de 1980 a 2017.

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