USA

Os labirínticos meandros em que o populismos e vai enredando

1. A realidade anda a virar-se contra Donald Trump. As certezas quanto a um segundo mandato vão-se esboroando à medida que o seu radicalismo suicidário começa a perder seguidores. Exemplo: o uso ou não de máscaras de proteção contra ocovid-19.Quando as sondagens indicam uma clara adesão dos norte-americanos a elas perante os avassaladores números das vítimas do vírus, ele afronta esse sentimento maioritário passeando-se sem tal proteção e abrindo guerra contra os governadores, que insistem na sensatez contra a adversidade sanitária. 

 

Trump tem pressa em ver infletida a taxa de desemprego, que sobe a níveis há muito desconhecidos. Perante ela o discurso eleitoral para sair-se vencedor em novembro peca pela inverosimilhança e falta de substância: nem os chineses parecem grandemente responsáveis pelo que sucede em território norte-americano, nem a mirifica hidroxicloroquina confirma a bondade das supostas virtudes nas presentes circunstâncias. Assim o demonstra a revistaLancetinum artigo letal para com os seus defensores. Daí que, prudentemente, e pela primeira vez, a empresa gestora do Twitter passou a aconselhar aos seguidores dostweetsfraudulentos de Trump a aferirem noutras fontes de informação a veracidade do que ele diz. O que poderá impulsionar as demais redes sociais a escrutinarem mais aprofundadamente asfake newsprovenientes da Casa Branca.

 

Por estes dias Trump só se pode consolar com o apoio dado por Elon Musk ao convidá-lo para o lançamento da nave, que encaminhará dois astronautas norte-americanos para a estação espacial. Mas, desconfia-se que, por esta altura, os eleitores norte-americanos andem demasiado assoberbados com os problemas na Terra para se entusiasmarem com os novos feitos da aeronáutica.

 

2. Completamente desconhecido entre nós, o professor Raoult ganhou imerecida notoriedade em França à conta da intransigente defesa da mesma cloroquina, que Trump e Bolsonaro têm promovido como falsa solução de combate aocovid-19.Considerado quase um deus em Marselha, donde perora sucessivas diatribes, chegou a merecer a visita de Macron, quando um estudo, logo denunciado pela comunidade científica, o dava como inventor da panaceia para a atual crise.

 

Agora que aLancet o dá indiretamente como mentiroso, escusa-se a pedir desculpas públicas e dispara em todas as direções, mas sobretudo contra a indústria farmacêutica que, farejando ganancioso negócio com as futuras vacinas, estaria a retardar a cura dos milhões de infetados a nível mundial. Tal teoria da conspiração foi logo agarrada pelas extremas-direitas, que se pelam por histórias de audazes heróis solitários contra grandes potentados, por agora a estratégia mais eficaz para continuarem a enganar os muitos imbecis, que nelas acreditam...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/05/os-labirinticos-meandros-em-que-o.html

[William Binney] O objectivo é o controlo total da população

william binney
 
 
Este vídeo de 2014 vale a pena ser ouvido atentamente. Nele, é entrevistado Binney, um importante ex-membro da comunidade de espionagem dos EUA, que ajudou a construir o aparato da agência NSA, a qual tem capacidade para espiar «tudo o que mexe», dentro e fora dos EUA, como ele muito claramente explica.
Múltiplos artigos, vídeos e outros materiais documentam o estado de vigilância permanente que é o do nosso mundo actual. Um mundo onde não existe real respeito pelos direitos do indivíduo. Onde somas colossais, infraestruturas tecnológicas e agências com dezenas de milhares de funcionários dedicam-se a recolher, coligir, armazenar e processar informações «em bruto», o chamado «big data», para - depois de filtradas - servirem para rastrear e espiarquem eles desejem. Em paralelo, graças à capacidade em recolher essa soma astronómica de dados e aos seus programas de algorítmos, conseguem conhecer com grande rigor a reacção da população face a este ou aquele assunto, tirando uma radiografia muito precisa das tendências de opinião prevalecentes num dado momento, numa dada sociedade. 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Documento do Departamento de Estado dos EUA sem peso nem credibilidade

 
 
Documento enganador não contém provas de ligação entre COVID-19 e laboratório, diz mídia australiana
 
Sydney, 26 mai (Xinhua) -- Um documento do Departamento de Estado dos EUA, que foi usado por alguns jornais australianos para vincular a COVID-19 a um laboratório, não contém provas sólidas, mas sim baseando-se em informações publicamente disponíveis, noticiou a Australian Broadcasting Corporation (ABC) na terça-feira.
 
O documento apareceu na mídia de propriedade da News Corp Australia no início deste mês e foi presumido como inteligência de alto nível de governo ocidental.
 
A embaixada dos EUA em Canberra realizou reuniões com autoridades australianas para esclarecer o documento como um pró-memória, destinado apenas ao uso nos bastidores, de acordo com a ABC.
 
"Um pró-memória é um documento diplomático que pretende ter um status essencialmente não oficial, quase negável e usado basicamente para gerar discussões com governos estrangeiros. Ele não tem grande peso ou credibilidade", disse à ABC Rory Medcalf, chefe da Faculdade de Segurança Nacional da Universidade Nacional da Austrália.
 
A ABC citou vários altos funcionários do governo australiano que pediram anonimato mas confirmaram a verdadeira natureza do documento, dizendo que ele era amplamente distribuído pelo Departamento de Estado dos EUA.
 
Outras áreas da mídia australiana, bem como líderes políticos, estão entre os que criticam o uso do documento para criar conteúdo enganoso e lançar calúnias infundadas contra o tratamento do surto da COVID-19 pela China e sua origem.
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/documento-do-departamento-de-estado-dos.html

Regresso da equipa de Michael Flynn

 

No momento em que o Departamento de Justiça dos EUA acaba de deixar cair todas as acusações contra o antigo Director da DIA (Agência de Inteligência da Defesa-ndT) e efémero Conselheiro de de Segurança Nacional, o General Michael Flynn, um dos seus próximos, Ezra Cohen-Watnick (foto), deverá ser nomeado Assistente-adjunto do Secretário da Defesa. Será encarregado da luta contra os estupefacientes e as ameaças globais (deputy assistant secretary of defense for counternarcotics and global threats).

Ele desempenhou um papel central na transmissão de documentos a Devin Nunes, provando um complô dos Serviços de Inteligência na Administração Obama contra a futura Administração Trump. Devin Nunes, Presidente da Comissão de Inteligência da Câmara de Representantes, liderara então a contestação à investigação do Procurador (Promotor-br) Robert Mueller sobre o Russiagate.

Assumindo as rédeas da luta contra os narcóticos no Pentágono, Ezra Cohen-Watnick deverá tomar conhecimento dos planos dos neo-conservadores para derrubar o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Em 24 dias, a equipe de Michael Flynn tivera tempo para afastar todos os Irmãos Muçulmanos que a Administração Obama tinha no seu seio.

Simultaneamente, o novo Director nacional de Inteligência, Richard Grenell, acaba de desclassificar documentos indicando os nomes de membros da Administração Obama que organizaram o complô, antes mesmo da eleição de Donald Trump. Estes poderão ser tornados públicos a qualquer momento.

Estas personagens deverão responder então por terem montado, com todos os detalhes, o Russiagate, e mesmo o Ucrâniagate, que envenenou a vida política norte-americana durante os últimos três anos.

Na sua conta do Twitter, o Presidente Trump postou: «Espero que vocês se tenham divertido ao investigar a meu respeito. Agora é a minha vez».

 
Tradução
Alva
 
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Ver original na 'Rede Voltaire'



«Não consigo respirar»: grandes protestos em Minneapolis após morte de afro-americano

Milhares de pessoas protestaram esta terça-feira em Minneapolis (EUA) contra a detenção policial violenta de George Floyd, um afro-americano de 46 anos que veio a falecer num hospital.

Milhares de pessoas mobilizaram-se em Minneapolis contra a brutalidade e o racismo da Polícia nos EUACréditos / Star Tribune

Com o joelho, um agente da Polícia pressionou o pescoço de Floyd contra o solo durante vários minutos, apesar de o detido estar algemado e ter afirmado mais que uma vez que não conseguia respirar. Levado para um hospital, foi dado como morto na segunda-feira.

A detenção violenta foi filmada por um transeunte e publicada nas redes sociais, rapidamente gerando revolta a nível nacional. Quatro agentes foram despedidos pelo papel que desempenharam no caso, que está a ser investigado, segundo revelam os portais da CBS e do Star Tribune.

Ontem ao fim da tarde, milhares de pessoas juntaram-se na capital do estado norte-americano do Minnesota, na Avenida de Chicago, perto do local onde George Floyd foi violentamente detido por «suspeita de falsificação».

Dali seguiram em manifestação de protesto, num trajecto de cerca de três quilómetros, até uma das estações da Polícia de Minneapolis, que, de acordo com a CBS Minnesota, se encontrava rodeada pela Polícia de intervenção. Em vídeos publicados nas redes sociais, vê-se os agentes a recorrer a gás lacrimogéneo, granadas de fumo e balas de borracha contra os manifestantes.

Um repórter do Star Tribune, que foi publicando informações sobre a mobilização à medida que ia decorrendo, mostrou imagens de pessoas a usarem leite depois de serem atingidas com gás lacrimogéneo e a utilizarem carros de compras de um supermercado como barreira de protecção.

Esse mesmo repórter afirmou ter sido atingido por uma bala de borracha enquanto fazia a cobertura dos protestos, que foram maioritariamente pacíficos, embora alguns manifestantes tenham expressado a sua revolta lançando tijolos e pedras aos carros da Polícia ou partindo janelas.

O presidente do município de Minneapolis, Jacob Frey, que não comentou os protestos, lamentou o que se passou com Floyd, classificando a situação como «horrível». Antes, no Twitter, escreveu que «ser negro na América não devia ser uma sentença de morte».

Revolta, frustração e exigência de condenação

Ao longo da marcha, o alerta de Floyd «I can't breathe» (não consigo respirar) tornou-se um grito de revolta dos manifestantes, que sublinharam que não basta o despedimento dos agentes envolvidos e exigiram o seu «rápido processamento judicial».

«Isto vai acontecer outra vez se não viermos para a rua fazer frente a isto», disse o manifestante e «activista comunitário» Al Flowers ao Star Tribune. Como muitos outros presentes no protesto, exigiu o julgamento dos agentes. «[O Floyd] não se estava a mexer. Não estava a fazer nada… Eles mataram-no», disse Linda Bias, residente em Minneapolis.

«Onde ele morreu foi aqui mesmo», disse Charles McMillian, outro habitante, ao apontar para os balões e as flores que se amontoavam em memória de Floyd na Avenida de Chicago.

McMillian, de 60 anos, disse que a morte de Floyd fazia lembrar a de Eric Garner, que morreu em 2014, depois de ser asfixiado por um agente da Polícia de Nova Iorque que o tentava prender. Então, os gritos de Garner «Não consigo respirar» ecoaram por todo o país, em manifestações contra a brutalidade e o racismo da Polícia nos EUA.

De acordo com os dados divugados pelo The Washington Post, em 2019 mais de mil pessoas foram mortas pela Polícia nos Estados Unidos, sendo os afro-americanos os mais visados.

O grupo The Sentencing Project analisa em profundidade as «disparidades raciais» na actuação policial nos EUA, sendo que os afro-americanos adultos e jovens têm mais probabilidades de ser detidos ou ir parar à prisão.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/nao-consigo-respirar-grandes-protestos-em-minneapolis-apos-morte-de-afro-americano

Coronavírus pode causar uma crise de longo prazo no ensino superior. Por Mark Huelsman

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Coronavírus pode causar uma crise de longo prazo no ensino superior

Mark Huelsman 

Por Mark Huelsman

Publicado por Inside Higher em 12/03/2020 (Coronavirus Could Cause a Long-Term Higher Ed Crisis, ver aqui)

123 Universidade Declinio Coronavírus pode causar uma crise a longo prazo no ensino superior 1

Istockphoto.com/Erhui1979

 

 

Anos de cortes orçamentais e a incapacidade de responder às necessidades básicas dos estudantes tornam o ensino superior potencialmente mal equipado para lidar com uma crise como esta, adverte Mark Huelsman.

 

O impacto da epidemia do coronavírus no ensino superior tem sido rápido. O surto já alterou os horários das conferências e dos eventos desportivos, tendo as instituições começado a cancelar as aulas e a colocá-las em linha na Internet. Está a forçar as faculdades a considerar medidas preventivas em larga escala para manter os estudantes e o corpo docente saudáveis, bem como a criar planos para quando as infeções se materializarem nos seus campus. As instituições também estão a lutar com o impacto nos programas de intercâmbio e nos estudantes internacionais. As faculdades e universidades continuarão a ter de lidar com estes e uma série de outros desafios profundos e complexos a curto prazo.

O perigo real, porém, pode estar à espreita nas consequências a longo prazo da epidemia. Anos de cortes orçamentais e a incapacidade de dar resposta às necessidades básicas dos estudantes tornam o ensino superior particularmente vulnerável e potencialmente não preparado para lidar com uma crise como esta. É crucial que o Congresso dos EUA e o Ministério da Educação atuem de forma rápida e agressiva e forneçam aos Estados e às instituições o apoio de que tanto necessitam antes que seja demasiado tarde.

O primeiro, e mais claro, impacto a longo prazo do surto da COVID-19 será provavelmente nos orçamentos estaduais. Não se sabe ao certo se o coronavírus provoca uma recessão a longo prazo e profunda a nível interno, mas é certo que terá um efeito no crescimento económico. E um crescimento mais lento pressagia coisas terríveis para as faculdades e universidades estaduais, especialmente para as faculdades comunitárias. Quase uma década após a recuperação económica, o financiamento estadual por estudante ainda se encontra abaixo dos níveis anteriores à recessão. De facto, em Estados como o Arizona, o financiamento por estudante foi reduzido em mais de 40 por cento desde a Grande Recessão. Se algo causasse um abrandamento prolongado, teria as consequências devastadoras habituais nos orçamentos públicos do ensino superior – no entanto, hoje, para além disso, muitos Estados e sistemas têm menos recursos para começar do que há cerca de uma década. Uma epidemia global, associada a uma baixa contínua no numero de matrículas de estudantes internacionais, poderia lançar todo o modelo empresarial de alguns sistemas universitários no caos.

Mesmo na ausência de uma recessão, as faculdades e universidades irão provavelmente enfrentar cortes no próximo ano ou nos próximos dois, à medida que o dinheiro do Estado flui do ensino superior para a saúde pública. Tal como o ensino superior, os sistemas estaduais de saúde pública estão sobrecarregados e, dito de ânimo leve, os Estados não estão muitas vezes dispostos a orçamentar para fazer face a pandemias globais. O orçamento dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças para a prevenção de emergências estaduais e locais foi significativamente reduzido, levando Estados como Nova Iorque a apropriarem-se de dezenas de milhões de dólares para equipar os trabalhadores do setor da saúde e proporcionar os fornecimentos necessários aos doentes.

Como os Estados direcionam os seus recursos para os tão necessitados serviços de saúde pública e retirando-os do ensino superior, cabe ao Congresso agir a curto prazo, prestando apoio orçamental – alguns dos quais podem ir no sentido de fazer face a um surto, e outros podem ir no sentido de apoiar quaisquer receitas perdidas para as quais as instituições de ensino superior não se poderiam ter preparado. A longo prazo, precisamos de uma sólida parceria federal-estadual que ajude os Estados a reembolsar consistentemente as faculdades e universidades públicas, permitindo a essas instituições resistir a recessões e outros choques económicos. Poder-se-ia imaginar uma nova parceria que automaticamente dê origem a novos financiamentos para os sistemas estaduais de ensino superior quando algo inesperado como o coronavírus ameaça sobrecarregar os orçamentos.

Além disso, também estamos hoje menos preparados para ajudar os estudantes a navegar face a um surto. Os estudantes podem ter de enfrentar elevadas despesas médicas, mais de vários milhares de dólares, que não podiam esperar nem orçamentar, o que os leva a desistir ou a contrair dívidas médicas ou estudantis para cobrir essas despesas. Embora alguns Estados, incluindo Nova Iorque, tenham começado a renunciar às taxas associadas aos testes do coronavírus, isso está longe de estar garantido que outros Estados ou o governo federal façam o mesmo. Para os estudantes, em particular para os que têm planos de seguro com elevado valor de franquia um diagnóstico infeliz poderia ser a diferença entre permanecer na faculdade e ter de abandonar os seus sonhos de formação.

Por último, a rede de segurança para os estudantes financeiramente necessitados continua a ser muito frágil. Se os campus encerrarem por algum tempo, aqueles que não têm acesso aos  apoios alimentares dos campus e dos seus outros serviços  podem não conseguir tirar partido de programas como o SNAP, cujas novas regras já tornaram mais difícil para os estudantes a tempo parcial o acesso a alimentos. Do mesmo modo, para um número significativo de estudantes que enfrentam a insegurança na habitação, qualquer perturbação na habitação no campus, ou cortes orçamentais que impeçam as faculdades de abordar a questão da habitação a preços acessíveis, poderia deixar muitos sem qualquer lugar para onde ir. E os 3,8 milhões de estudantes com filhos poderiam ser forçados a encontrar novas estruturas de acolhimento de crianças que não nas instalações do campus, numa altura em que os custos das creches são elevados.

Estas questões – a continuação do subfinanciamento e a falta de uma rede de segurança básica para os estudantes – devem ser tratadas independentemente do atual mal-estar em torno do coronavírus. Mas este momento está a colocar em evidência o facto de nem o Congresso nem os Estados nos terem preparado para qualquer tipo de choque financeiro para as faculdades e universidades, estados ou estudantes. Sem uma injeção de apoio de Washington, a situação atual ameaça passar de um pesadelo logístico de curto prazo para um desastroso arrastamento a longo prazo do ensino superior.

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O autor: Mark Huelsman é o director associado de política e investigação da Demos, uma organização multissectorial de políticas públicas centrada na construção de uma democracia justa, inclusiva e multiracial. A sua investigação centra-se na acessibilidade dos preços das faculdades, na dívida estudantil e na equidade racial no ensino superior. Os seus artigos têm aparecido na CNN, The Washington Post, Slate, The Nation, The Guardian, The New Republic, Salon, Inside Higher Ed, The Hill, The American Prospect, e U.S. News and World Report. Licenciado em Governança e Política pela Universidade de Maryland e mestre em Política de Educação Internacional pela Universidade de Harvard.

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/27/a-universidade-em-declinio-a-alta-frequencia-coronavirus-pode-causar-uma-crise-de-longo-prazo-no-ensino-superior-por-mark-huelsman/

[Manlio Dinucci] O EXÉRCITO USA RETOMA AS GRANDES MANOBRAS NA EUROPA

                                   
                                                  US ARMY EUROPE
                                                        EXERCISES
                          (Clicar para ver todos os exercícios de guerra em 2020)
 
O Exército dos EUA na Europa, “após cuidadosa avaliação e planificação”, decidiu que efectuará na Polónia, de 5 a 19 de Junho, o exercício Allied Spirit , no âmbito da grande manobra estratégica Defender-Europe 20 (Defensor da Europa 2020). Participarão 4.000 soldados americanos de unidades blindadas e de infantaria, apoiados por 2.000 polacos.
O exercício, que deveria ter acontecido em Maio, foi adiado porque, devido ao Covid-19, o Defender-Europe 20 foi parcialmente modificado. Mas, especifica o US Army Europe, quando em Março, foi suspenso o envio de forças dos Estados Unidos, “mais de 90% dos equipamentos destinados ao Defender-Europe 20 já estavam a bordo de aviões e navios com destino à Europa”.
No total, chegaram mais de 3.000 equipamentos, a começar por tanques, aos quais foram adicionados mais de 9.000 veículos blindados e outros veículos provenientes dos depósitos “pré-posicionados” que o Exército USA mantém na Alemanha. Dos Estados Unidos chegaram mais de 6.000 soldados, incorporados por milhares de outros estacionados na Europa.
Apesar do “ajuste devido ao Covid-19”, comunica o Exército o US Army, “muitos dos objectivos de prontidão estratégica foram ralizados”. Anuncia portanto, que, para compensar o tempo perdido, “o US Army Europe está a planear exercícios complementares nos próximos meses, baseados em muitos dos objectivos originais do Defender-Europe 20 para aumentar a prontidão e a interoperabilidade das forças USA e aliadas”.
O Allied Spirit faz parte de uma série de exercícios nesse quadro estratégico de nítida função anti-russa. Não é por acaso que ocorre na Polónia. Segundo, o que se estabeleceu na Declaração Militar assinada pelo Presidente Trump e pelo Presidente Duda da Polónia, em Setembro passado - os Estados Unidos estão a aumentar fortemente a sua presença militar. O número de soldados que mantém em permanência, através de um sistema de rotação, foi acrescido de 4.500 para 5.500.
 
Em Poznan, o US Army instala um verdadeiro quartel general de divisões numa base avançada.
Em Drawsko Pomorskie, as forças armadas USA abrem um Centro de Treino de Combate.
Em Wrocław-Strachowice, a US Air Force constrói um grande aeroporto de desembarque.
Em Lask, a US Air Force transfere uma equipa de aviões pilotados remotamente, incluindo drones Reaper.
Em Powidz, uma brigada aérea de combate.
Tanto em Powidz como em Lubliniec, as Forças USA de Operações Especiais estabeleceram as suas bases.
 
Num localidade ainda a ser determinada, será destacada em permanência a equipa de combate de uma brigada blindada USA. Todo o equipamento já está armazenado em Bergen-Hohne, na Alemanha. O US Army Europe também comunica que a 173ª Brigada Aerotransportada, com sede em Vicenza, está a planear operações nos Balcãs e na região do Mar Negro, enquanto o 10º Comando de Defesa Aérea e de Mísseis participará em exercícios no Báltico.
A US Air Force comunica que os três tipos de bombardeiros estratégicos convencionais e nucleares de dupla capacidade USA - B-2 Spirit, B-1B Lancer e B-52H - realizaram em Maio, missões na Europa, a partir dos Estados Unidos. O que demonstrou que “a pandemia do Covid-19 não comprometeu a prontidão e o alcance dos bombardeiros estratégicos dos EUA”.
Estes factos, ignorados pelo principais meios de comunicação social que tinham anunciado o cancelamento do Defender-Europe 20 devido ao Covid-19, confirmam que os USA não cancelaram, mas apenas remodelaram a operação estratégica, prolongando-a.
Permanece o objectivo de Washington de aumentar a tensão com a Rússia, usando a Europa como primeira linha do confronto, o que permite aos Estados Unidos reforçar a sua liderança sobre os aliados europeus e orientar a política externa e militar da União Europeia, na qual 22 dos 27 membros pertencem à NATO, sob comando USA.
Manlio Dinucci
il manifesto, 26 Maio de 2020
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Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com
 
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Enquanto trabalhador empobrece, patrimônio de bilionários cresce

O patrimônio dos bilionários dos Estados Unidos cresceu cerca de 15% nos dois meses que se passaram desde o início da pandemia do novo coronavírus.

 

 

O patrimônio dos bilionários dos Estados Unidos cresceu cerca de 15% nos dois meses que se passaram desde o início da pandemia do novo coronavírus, segundo relatório da Americans for Tax Fairness (Americanos pela Justiça Fiscal, em uma tradução livre) em conjunto com Programa de Desigualdade do Institute for Political Studies dos Estados Unidos.

O relatório baseia-se em dados da revista Forbes – conhecida por estampar os donos das maiores fortunas no mundo em suas páginas – coletados entre 18 de março e 19 de maio.

O relatório da entidade afirma que a fortuna total dos mais de 600 bilionários americanos aumentou em US$ 434 bilhões nesse período. Jeff Bezos, CEO da Amazon, e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, obtiveram os maiores ganhos. Bezos adicionou US$ 34,6 bilhões à sua fortuna e Zuckerberg ficou US$ 25 bilhões mais rico.

Ainda segundo o relatório, Zuckerberg aumentou sua fortuna pessoal em 45%, chegando a um patrimônio de US$ 80 bilhões. Já Bezos, que viu seu patrimônio crescer 30% este ano com os recentes bons resultados da Amazon, foi recentemente apontado como o possível primeiro homem trilionário da história.

Os números revelam como a pandemia de coronavírus recompensou as maiores empresas de tecnologia do mercado, mesmo com a economia e a força de trabalho enfrentando a pior crise econômica da história recente. Segundo o relatório, o patrimônio líquido total dos bilionários americanos cresceu para US$ 3,382 trilhões ante os US$ 2,948 trilhões do período pré-crise.

Os crescimentos mais significativos de fortuna ocorreram no topo da pirâmide bilionária, entre os cinco bilionários mais ricos do país: Bezos, Bill Gates, Zuckerberg, Warren Buffett e Larry Ellison. Juntos, esses bilionários somam ganhos de US$ 76 bilhões. Elon Musk, CEO da Tesla, teve um dos maiores ganhos percentuais de bilionários nos dois meses, vendo seu patrimônio líquido subir 48% nos dois meses, para US$ 36 bilhões.

A ex-mulher de Bezos, MacKenzie Bezos, que recebeu ações da Amazon em seu acordo de divórcio, também viu sua riqueza aumentar em um terço, para US$ 48 bilhões.

No entanto, também houve “perdas”, especialmente para bilionários nos negócios de viagens, hotelaria ou varejo. É o caso de Ralph Lauren que viu seu patrimônio diminuir em US$ 100 milhões, para a casa dos US$ 5,6 bilhões.

O que não representada nada em comparação com a forma cruel como a pandemia atingiu os trabalhadores comuns. Desde o início da crise do coronavírus, cerca de 25 milhões de americanos entraram com pedido de seguro-desemprego.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/enquanto-trabalhador-empobrece-patrimonio-de-bilionarios-cresce/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=enquanto-trabalhador-empobrece-patrimonio-de-bilionarios-cresce

O sistema de admissão mais equitativo às nossas faculdades de elite é fazer uma lotaria. Por Natasha Warikoo

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O sistema de admissão mais equitativo às nossas faculdades de elite é fazer uma lotaria

Natasha Warikoo 

Por Natasha Warikoo

Publicado por Parte II texto 15 Market Watch em 13/03/2019 (“The fairest admissions system for elite colleges is a lottery”, ver aqui)

 

122 Universidade Declinio O sistema admissão mais equitativo faculdades elite é fazer uma lotaria 1

Getty Images

Uma lotaria poupará tempo e dinheiro a uma universidade quando confrontada com demasiados candidatos qualificados

Se os processos das admissões em Harvard nos ensina alguma coisa, é que há nos Estados Unidos mais jovens brilhantes e bem sucedidos, desejosos de uma educação de alto nível, do que lugares para os acolher. Lugares como Harvard e outras faculdades de elite selecionam estudantes de um viveiro de candidatos bem qualificados, capazes de seguirem os cursos, contribuir para a vida no campus e continuar a fazer grandes coisas depois da universidade.

O antigo presidente de Harvard, Drew Faust, disse uma vez que Harvard podia encher a turma “duas vezes com os melhores alunos“. E, no quadro da sua argumentação no que ficou conhecido como “o julgamento da ação afirmativa“, a universidade disse que também poderia encher a sua nova classe de cerca de 2.000 alunos quase duas vezes com alunos com notas perfeitas no SAT (Scholastic Aptitude Test) de matemática.

Como especialista em admissões universitárias, vejo uma solução simples para este desafio das admissões que não só poderia poupar às universidades o escrutínio sobre a forma como admitem os seus, como também poderia poupar-lhes muito tempo e dinheiro. Como sugiro no meu livro “The Diversity Bargain And Other Dilemmas of Race, Admissions, and Meritocracy at Elite Universities“, as universidades deveriam tentar experimentar uma lotaria de admissões para admitir estudantes.

O professor de ciências políticas Peter Stone argumenta que, quando há mais candidatos do que lugares e não há forma de distinguir quão merecedores são, a lotaria torna-se a forma mais justa de escolher os candidatos num sistema seletivo. Se alguma vez existisse uma universidade nesta situação, esta faculdade seria a de Harvard.

A lotaria de admissões que prevejo – que envolveria candidatos que atingissem um determinado limiar académico – ajudaria as universidades confrontadas com um grande número de candidatos qualificados, como Harvard, a admitir estudantes de uma forma mais equitativa. A lotaria atingiria dois objetivos importantes.

 

1. Tornar o processo mais justo

A chamada “justiça” das admissões de Harvard tem um significado simbólico incrível na sociedade americana. O grupo que processou Harvard por admissões baseadas na raça até se intitula “Students for Fair Admissions” (Estudantes para Admissões Justas). A coisa mais justa que faculdades como Harvard podem fazer é reconhecer que a seleção favorece inevitavelmente aqueles que têm recursos. Com efeito, quanto mais seletivas são as faculdades, mais privilegiados são os estudantes admitidos.

Uma admissão por lotaria enviaria uma mensagem clara de que a admissão se baseia significativamente no acaso, e não apenas no mérito, que é na verdade como as admissões funcionam agora – é que os estudantes pensam que se baseia exclusivamente no mérito quando não é. Mesmo as extensas análises dos economistas de topo, tanto a favor como contra Harvard no processo de ação afirmativa, não poderiam prever os resultados das admissões de um em cada quatro candidatos.

Por outras palavras, mesmo quando se constrói um modelo estatístico que inclui desde as notas de um candidato e os resultados do SAT até às profissões dos seus pais, em que estado vivem e muitos outros fatores, é difícil compreender as decisões de admissão. Isto sugere resultados semelhantes aos da lotaria.

Além disso, o atual processo de admissão sugere aos alunos que entram em Harvard que mereciam o seu lugar exclusivamente pelos seus próprios méritos – isto é, independentemente da riqueza dos pais, quer os pais tenham frequentado ou não a escola, e de quaisquer vantagens decorrentes das escolas secundárias que frequentavam que eles esperam terem entrado na decisão. Como demonstro no meu livro, a maior parte dos licenciados das universidades da Ivy League pensam que o processo de admissão nas suas universidades é justo e é a melhor forma de selecionar os estudantes.

Mas está bem estabelecido que aqueles que entram em faculdades como Harvard provêm de famílias mais ricas e mais instruídas do que os adolescentes em geral nos EUA. Eles também tendem a ser mais frequentemente brancos ou asiáticos. Assim, a menos que a sociedade acredite que o mérito não está distribuído uniformemente pela população, fingir que as admissões são meritocráticas faz parecer que os estudantes de elite são mais dignos do que aqueles que estão em desvantagem, quando a realidade é que eles apenas têm mais vantagens.

 

2. Poupar tempo e dinheiro

Uma lotaria de admissões pouparia às universidades recursos incríveis. Por exemplo, em Harvard, uma comissão de 40 pessoas, a trabalhar em tempo integral e remuneradas, decide em conjunto sobre cada um de entre as dezenas de milhares de candidatos quem é admitido em Harvard.

Mas se os estudantes qualificados forem admitidos numa lotaria, a universidade poderia simplesmente escolher nomes de um “chapéu” eletrónico, por assim dizer, poupando centenas de milhar de dólares em horas de trabalho. Poderia haver poupanças semelhantes também para outras universidades.

Uma lotaria também pouparia aos pais e aos adolescentes inúmeras horas de tempo e dinheiro e eliminaria muito stress à medida que tentam navegar num sistema de admissões cada vez mais competitivo. As admissões universitárias levaram muitos alunos do ensino secundário a esforçarem-se por atingir padrões de excelência cada vez mais exigentes, tanto no meio académico como extracurricular. Isto leva a níveis pouco saudáveis de stress e ansiedade para um número crescente de adolescentes.

Não estou a sugerir que o processo de candidatura seja eliminado por completo. Pelo contrário, as universidades devem refletir cuidadosamente sobre as qualidades que procuram nos estudantes. Uma qualidade razoável seria um nível básico de desempenho académico, de tal forma que um estudante – com os apoios disponíveis no campus – seja capaz de lidar com as expectativas académicas da universidade.

A fim de garantir que todos os jovens tenham uma oportunidade, estas expectativas e apoios deveriam acomodar os melhores estudantes das escolas secundárias de todo o país, incluindo as comunidades mais carenciadas e com menos recursos. As faculdades seletivas poderiam comprometer-se a satisfazer as necessidades educativas dos melhores alunos de todas as escolas secundárias, independentemente dos resultados do SAT desses alunos ou de outras medidas que os comparem com os dos seus pares de outras escolas mais ricas em recursos.

Além disso, as universidades podem defender que certos indivíduos ou grupos têm um estatuto especial – filhos de dadores ricos, atletas para equipas universitárias, músicos para a orquestra. Se esses estudantes são tão desejáveis que as faculdades não querem deixar a sua admissão ao acaso, esses estudantes poderiam ser dispensados da lotaria. O meu próprio instinto é descartar estas categorias especiais, mas elas não excluem uma lotaria. Com efeito, uma lotaria a par de disposições relativas ao estatuto especial tornaria claro o estatuto especial que certos candidatos têm, como ficou provado no julgamento de Harvard. Um estatuto especial pode também ser concedido para aumentar as oportunidades para grupos sub-representados, no interesse da diversidade do campus.

Algumas faculdades poderão ter relutância em ser as primeiras a adotar o sistema de lotaria para selecionar os seus candidatos. Essas faculdades deveriam considerar como faculdades como Bates e Bowdoin se tornaram as primeiras a ir à prova opcional quando se trata do SAT, muito antes de centenas de outras faculdades o terem feito. Mesmo assim, estas escolas alcançaram uma maior diversidade e mantiveram as suas taxas de sucesso ao mesmo nível.

Por outro lado, se muitas faculdades mudassem para uma lotaria de admissões, elas poderiam desenvolver juntas um sistema de “match”, semelhante ao sistema que coloca os estudantes de medicina nos seus programas de residência. Os alunos seriam primeiro classificados nas suas escolas de primeira escolha e, em seguida, o conjunto dos alunos que chegassem à barra de elegibilidade seria inscrito numa lotaria para a seleção dos alunos. Depois de feitas as primeiras escolhas, as lotarias para as segundas escolhas aconteceriam, e assim por diante. Este sistema também aliviaria o custo para as famílias associado aos estudantes que se candidatam a um número crescente de faculdades. Reduziria também os custos associados à avaliação do número crescente de candidatos devido ao número crescente de estudantes que se candidatam a tantas faculdades.

A luta em torno das admissões nas faculdades levou ao aumento dos custos, à ansiedade entre os adolescentes americanos e a uma perceção injusta do mérito como domínio exclusivo das elites. Mas esta situação pode ser evitada se as faculdades tomarem medidas corajosas no sentido de uma lotaria para selecionar os seus candidatos.

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A autora: Natasha Warikooé professora associada de educação na Universidade de Harvard.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/27/a-universidade-em-declinio-a-alta-frequencia-o-sistema-de-admissao-mais-equitativo-as-nossas-faculdades-de-elite-e-fazer-uma-lotaria-por-natasha-warikoo/

Os EUA declaram guerra ao mundo através das vacinas

(Comentário:
Um artigo elucidativo sobre os negócios da 'Big Pharma' que também ajuda a compreender por que é que os medicamentos genéricos têm tido tanta obstaculização em Portugal e por que é que o 'Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos' deve produzir medicamentos)
 
por Prabir Purkayastha

Cartoon do cubano José Alberto Rodriguez Avila. Donald Trump lançou uma nova guerra de vacinas, mas não contra o vírus. Foi contra o mundo. Na Assembleia Mundial da Saúde, os EUA e o Reino Unido foram os dois únicos países a se manifestarem contra a declaração de que as vacinas e os medicamentos para o Covid-19 deveriam estar disponíveis como bem público, e não através de direitos exclusivos de patente.

Tendo falhado na sua resposta ao Covid-19, Trump tenta recuperar as suas hipóteses eleitorais para as eleições de Novembro deste ano, prometendo uma vacina precoce. O seu lema "Fazer a América grande outra vez" (Make America Great Again) consiste agora em vacinas para "US" ( (nós ou Estados Unidos), mas o resto do mundo terá que fazer fila, esperar e pagar o que as grandes empresas farmacêuticas peçam, pois são elas que irão deter as patentes.

Em contraste, todos os outros países concordaram com a proposta da Costa Rica na Assembleia Mundial da Saúde, de que deveria haver uma fusão das patentes para todas as vacinas e medicamentos Covid-19. O presidente Xi disse que as vacinas chinesas estariam disponíveis como bem público, visão compartilhada também pelos líderes da UE. Entre as oito vacinas na Fase 1 e 2 dos ensaios clínicos, os chineses têm quatro, os EUA duas, o Reino Unido e a Alemanha uma cada um.

Trump apresentou um ultimato à OMS com a retirada permanente de fundos se a organização não alterar as suas orientações no prazo de 30 dias. Em nítido contraste, quase todos os países na Assembleia apoiaram a OMS, incluindo aliados próximos dos EUA. O fracasso dos CDC (Centers for Disease Control and Prevention) contra o Covid-19, com quatro vezes o orçamento anual da OMS, é bem visível. O CDC falhou em fornecer um teste bem-sucedido para o SARS-CoV-2, mesmo dois meses depois de a OMS ter distribuido kits de teste bem-sucedidos para um grande número de países. Trump ainda tem que responsabilizar a sua administração e o CDC por esse erro criminoso. Isso, mais do que qualquer outra falha, é a razão pela qual os números dos EUA para o Covid-19 são agora mais de 1,5 milhões (em 16 de Maio) e cerca de um terço de todas as infecções globais. Compare-se com a China, a primeira a enfrentar uma epidemia desconhecida, parando-a nos 82 mil infectados e aquilo que países como o Vietname e Coreia do Sul fizeram.

Escrevemos anteriormente que, se não abordarmos a questão dos direitos de propriedade intelectual nesta pandemia, provavelmente veremos uma repetição da tragédia da HIV. Durante 10 anos morreram pessoas, porque o medicamento patenteado contra o HIV custava entre 10 e 15 mil dólares para o fornecimento para um ano, muito além das possibilidades das pessoas. Finalmente, foram as leis de patentes indianas que até 2004 não permitiam tais patentes, que ajudaram as pessoas a receber remédios contra o HIV a menos de um dólar por dia, ou 350 dólares pelo fornecimento para um ano. Hoje, 80% dos remédios contra o HIV no mundo vêm da Índia. Para as grandes empresas farmacêuticas, os lucros estavam acima das vidas e continuarão a estar, a menos que mudemos o mundo.

A maioria dos países possui disposições de licenciamento obrigatórias [NT] que lhes permitem interromper direitos de patentes ("quebra de patentes") em caso de epidemias ou emergências de saúde. Até a OMC depois de dura discussão aceitou na sua Declaração de Doha (2001) que países com uma emergência de saúde, têm o direito de permitir que qualquer empresa fabrique um medicamento patenteado ou importá-lo de terceiros países.

Por quê, então, os países são incapazes de quebrar direitos de patentes, mesmo que haja disposições nas suas leis e no Acordo TRIPS (Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights)? Trata-se da intimidação dos EUA. Sob a lei de comércio interno, os EUA emitem Relatórios Especiais – USTR 301 – ameaçando com sanções comerciais qualquer país que tente emitir licenças obrigatórias para qualquer produto. A Índia figura com destaque a cada ano, por ousar emitir uma licença obrigatória em 2012 para a Natco Pharma (empresa farmacêutica indiana) para o Nexavar, um medicamento contra o cancro que a Bayer vendia por US$65 mil para o tratamento durante um ano. Marijn Dekkers, CEO da Bayer, foi amplamente citado dizendo tratar-se de "roubo" e "Não desenvolvemos este medicamento para indianos... Desenvolvemos para pacientes ocidentais que podem pagar".

Isto deixa sem resposta quantas pessoas, mesmo no ocidente, podem pagar 65 mil dólares por um tratamento. Mas não há dúvida de que isso seria uma sentença de morte para qualquer pessoa, excepto os super-ricos em países como a Índia. Embora na época vários outros medicamentos também estivessem a ser considerados para o licenciamento obrigatório, a Índia não voltou a exercer essa disposição após ameaças dos EUA.

Foi o medo de que os países pudessem quebrar patentes usando as suas disposições de licenciamento obrigatório que levou a propostas de fusão de patentes. O argumento era que, como muitas dessas doenças não afectam os países ricos, as grandes empresas farmacêuticas deveriam abandonar as suas patentes nessas fusões ou o capital filantrópico deveria fornecer fundos adicionais para o desenvolvimento de novos medicamentos nessa fusão. É esta ideia do agrupamento ou fusão de patentes que tem sido apoiada por todos os países da OMS, excepto os EUA e o seu fiel seguidor, o Reino Unido.

Embora a fusão de patentes (pooling) seja bem-vinda se nenhuma outra medida estiver disponível, também faz parecer que os países não têm outro recurso além da caridade do grande capital. O que isso oculta, como a caridade sempre faz, é que pessoas e países têm direitos legítimos, mesmo sob o TRIPS, de ultrapassar patentes.

Os EUA, que gritam assassinato se a licença obrigatória for emitida por qualquer país, não têm tal escrúpulo quando seus próprios interesses são ameaçados. Durante o susto com o antraz em 2001, o secretário da Saúde dos EUA emitiu uma ameaça à Bayer sob "domínio eminente de patentes", por licenciar ciprofloxacina a outros fabricantes. A Bayer vergou-se e concordou em fornecer a quantidade requerida a um preço exigido pelo governo dos EUA. E sem um gemido. Sim, a mesma Bayer, que considerou a Índia um ladrão por emitir uma licença obrigatória.

As vacinas para o Covid-19 podem precisar ser repetidas cada ano, pois ainda não sabemos a duração de sua protecção. É improvável que proporcione uma imunidade vitalícia como a vacina contra varíola. Ao contrário do HIV, onde os números de pacientes eram menores e poderiam ser estigmatizados de maneiras diferentes, o Covid-19 é uma ameaça visível para todos. Qualquer tentativa de convencer as pessoas e governos a ficarem reféns de vacinas ou medicamentos Covid-19 verá o colapso de todo o edifício de patentes do TRIPS, criado pelas grandes empresas farmacêuticas apoiadas pelos EUA e pelos principais países da UE. É por isso que os mais inteligentes do mundo capitalista alteraram a sua posição para uma fusão de patentes nos medicamentos e vacinas para o Covid-19.

Diferentemente do capital inteligente, a resposta de Trump à vacina Covid-19 é simplesmente a intimidação. Ele acredita que com dinheiro ilimitado que está disposto a colocar nos esforços de criar uma vacina, os EUA derrotariam todo mundo na posição de vencedores ou comprariam a empresa que obtivesse sucesso. Se for bem-sucedido, poderá usar a "sua" vacina Covid-19 como um novo instrumento de poder global. Serão os EUA que decidirão quais os países que recebem a vacina e quais os que não recebem.

Trump não acredita numa ordem global baseada em regras, mesmo que as regras sejam a favor dos ricos. Ele está a abandonar vários acordos de controlo de armas e prejudicou a OMC. Ele acredita que os EUA, sendo a maior economia e o poder militar mais poderoso do mundo, têm o direito de dar ordens a todos os países. Ameaças de bombardeios e invasões podem ser combinadas com sanções unilaterais e, no seu mais recente arsenal imaginário, negando vacinas.

O seu problema é que os dias de uma hegemonia global única já terminaram. Os EUA mostram-se um gigante em ruínas e a resposta à epidemia foi simbólica. Foi incapaz de fornecer testes de vírus ao seu povo a tempo e interromper a epidemia, como vários outros países fizeram.

A China e a UE já concordaram que qualquer vacina desenvolvida por eles será considerada como bem público. Mesmo sem isso, uma vez que um medicamento ou vacina seja bem-sucedido, qualquer país com uma infraestrutura científica razoável pode replicar o medicamento ou a vacina e fabricá-lo localmente. Na Índia, como em muitos outros países, existe a capacidade científica. Também existe uma das maiores capacidades de fabricação de medicamentos genéricos e vacinas do mundo. O que nos impede, ou qualquer país, de fabricar vacinas ou medicamentos depois de desenvolvidos? Apenas a ameaça vazia de uma hegemonia falhada em patentes? Ou a crença de que, na guerra das vacinas EUA-China, têm de se estar do lado dos EUA?

24/Maio/2020
 
[NT] A licença compulsória ou obrigatória de patentes ( compulsory licensing provisions ), conhecida como "quebra de patente" significa uma suspensão temporária do direito de exclusividade do titular de uma patente, permitindo a produção, uso, venda ou importação do produto ou processo patenteado. Esse instrumento é accionado pelo governo do país que concede a patente, intervindo sobre o monopólio da sua exploração, constituindo um mecanismo de defesa contra possíveis abusos cometidos pelo detentor de uma patente ou para os casos de "interesse público".

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2020/0524_pd/us-declares-vaccine-war-world.

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/pandemia/eua_declaram_guerra_das_vacinas.html

Relatório de empresa do Pentágono sobre origens da COVID-19 é "falso", diz mídia dos EUA

Washington, 25 mai (Xinhua) -- O relatório de uma empresa militar dos EUA de que o novo coronavírus foi vazado do Instituto de Virologia de Wuhan está "cheio de informações que estão simplesmente erradas", disse o The Daily Beast em uma reportagem recente.

"Há uma falha crítica no relatório", segundo um artigo publicado no site de notícias e opiniões dos EUA em 17 de maio, acrescentando que "algumas de suas evidências mais aparentemente persuasivas são falsas - comprovadamente falsas".

O documento em circulação foi produzido pelo MACE (Multi-Agency Collaboration Environment), da Sierra Nevada, uma das principais empresas contratadas pelo Departamento de Defesa, informou o The Daily Beast.

O documento de 30 páginas afirmava contar com publicações nas mídias sociais, imagens comerciais de satélite e dados de localização de telefones celulares para concluir que algum tipo de "evento perigoso" ocorreu no laboratório de Wuhan em outubro de 2019.

"Mas a reivindicação do relatório está centrada na falta de dados de localização para até sete telefones - e em muitos casos, menos que isso", disse o artigo. "É um tamanho de amostra muito pequeno para provar muita coisa."

"O surgimento do documento do MACE ocorre em meio a um esforço conjunto para culpar diretamente Beijing pela pandemia do coronavírus", segundo o artigo. "E sua existência é a confirmação de que os recursos do governo estão sendo dedicados à exploração dessa proposição, mesmo que a inteligência real permaneça muito menos conclusiva".

"Tudo sobre a evolução gradual ao longo do tempo indica fortemente que (o novo coronavírus) evoluiu na natureza e depois saltou espécies", disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, segundo a National Geographic.

"Quem escreveu este documento está claramente confuso sobre a natureza das informações de 'código aberto'. Não apenas as informações principais que ele contém não parecem ser de código aberto, mas uma simples pesquisa no Facebook pode refutar um dos princípios fundamentais da avaliação", disse Nick Waters, investigador sênior do Bellingcat, um canal de notícias investigativas de código aberto, citado pelo The Daily Beast.

"Talvez os autores devessem ter passado mais tempo testando suas análises, em vez de descobrir como desviar os olhos de Sauron (principal antagonista do Senhor dos Anéis) em um logotipo copiado e colado da internet", diz Waters.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/26/c_139088466.htm

São Francisco: uma cidade de desigualdades

A cidade que se esvai São Francisco, em tempos um pilar do tech-capitalism e actualmente a segunda cidade mais cara da América (apenas atrás de Nova Iorque), desvia-se pelas ruas da amargura.

CréditosInês Pedrosa e Melo

A pandemia traz ao de cima as feridas de uma metrópole cuja infra-estrutura não foi pensada a longo prazo, ou de forma igualitária. Há muito que São Francisco deixou de ser uma cidade para todos.

Quando me mudei para a Califórnia, em Setembro de 2017, já tinha recebido avisos de amigos que por lá tinham passado. Diziam-me que esquecesse o sonho da cidade de colinas e da ponte sobre a baía e tão perto do Pacífico, nevoeiro espesso e frio húmido que nos envolve dos pés à cabeça, de flores em cabelos longos dos anos 60, contracultura e revolta política, liberdade sexual e amor sem fim, que de há muito deixara de ser realidade. Vinha alimentada por esses mesmos sonhos, sonhos de uma Califórnia ensolarada, «tão europeia, tão cosmopolita», que se distinguia do resto da América. No fundo, queria viver na América que fosse o menos parecida com a América. Aquela América que, embora real, é a América que a Europa fetichiza, dos pobres racistas em pick-up trucks, defensores dos direitos às armas, anti-imigração. Queria a anti-América. A América que queria ser melhor.

«A desigualdade é visível há vários anos, mas a pandemia veio trazer ao de cima a mentalidade de uma cidade que julga estar acima de tudo e de todos, imune a qualquer fenómeno exógeno que a afecte. São Francisco não escapará ao COVID-19 sem feridas pronunciadas – feridas essas antigas, de há anos, nunca saradas»

É inegável a relevância política que a zona da baía de São Francisco tem na história da revolução política, e mentiria se dissesse que não foi esse lado mítico que me fez procurá-la. Seja pelos direitos à liberdade de expressão, direitos civis, protestos contra a guerra do Vietname, direitos de portadores de deficiência, movimento do black power – os Black Panthers, por exemplo, são originários de Oakland, cidade vizinha de São Francisco. Um pouco a norte de Oakland está Berkeley, cidade de uma das mais prestigiadas universidades americanas públicas, palco de movimentos estudantis. Acima de tudo, qualquer um provavelmente reconhece imediatamente aquilo por que São Francisco é principalmente conhecido: como sendo o centro nevrálgico do movimento de defesa dos direitos da comunidade gay, lésbica e trans, nos anos 70, com Harvey Milk como o seu protagonista mais reconhecido, e como sendo também um dos palcos mais dramáticos da epidemia de HIV/sida nos anos 80/90.

Viver em São Francisco (ou nas imediações de São Francisco) significava, para mim, viver num sítio em que cada rua carregava em si uma força invisível, viver num palco de liberdade e poder e revolta que alcança. Sou dada a símbolos, a valorizar a História, a emocionar-me com lutas que não foram nem são minhas mas que as sinto como se fossem. E São Francisco dava-me – dá-me? – isso mesmo.

Mas falar de São Francisco e da San Francisco Bay Area, que engloba não apenas a cidade mas toda as cidades em torno da baía em si, como Oakland e Berkeley na zona este, San Jose e todas as cidades no eixo de Silicon Valley mais a sul, é falar de crescimento exponencial, investimento financeiro e tecnológico, coração pulsante de uma região da América com um dos níveis de crescimento económicos mais elevados, casa das grandes corporações americanas, como a sagrada tríade do Facebook, Google e Apple, e tantas outras que nos habituámos hoje a usar no dia-a-dia: Linkedin, Netflix, Uber, YouTube… A lista é interminável.

Falar desse crescimento significa também mencionar a forma como a cidade se foi esculpindo e auto-determinando, livrando-se (ou tentando livrar-se) de quem não cabia dentro do seu potencial económico. Minorias económicas, raciais, étnicas foram a pouco e pouco expulsas da cidade por falta de poder económico – a sua presença, quando existe, é minoritária, ou limitada geograficamente, em bairros como o Mission District, bairro historicamente latino em processo de gentrificação há vários anos. A São Francisco de hoje é uma cidade de desigualdades sociais extremas, onde sem-abrigos vivem em tendas alinhadas nas principais artérias da cidade e que dividem o FiDi (Finantial District) e a Downtown, tendas que se estendem nos passeios em frente aos escritórios das grandes empresas, onde jovens engenheiros e software developers se passeiam com portáteis topo de gama nas mãos; onde casas em estado de desarranjo são vendidas por valores absurdos e onde uma renda «baixa» de um quarto equivale ao triplo de um salário mínimo em Portugal. Viver em São Francisco hoje, para mim, é viver em dissonância cognitiva entre várias realidades, a realidade de quem se habituou a pagar valores tão elevados por um simples quarto em mau estado mas que sabe a loucura que isso significa.

«Mesmo com uma pandemia em potência completa, e sem previsão certa de um regresso a qualquer tipo de normalidade, São Francisco continua a fazer aquilo que faz melhor: vender-se a preço elevado, prometer sonhos de riqueza e felicidade a quem chega, enquanto o mundo à sua volta se desmorona»

A desigualdade é visível há vários anos, mas a pandemia veio trazer ao de cima a mentalidade de uma cidade que julga estar acima de tudo e de todos, imune a qualquer fenómeno exógeno que a afecte. São Francisco não escapará à COVID-19 sem feridas pronunciadas – feridas essas antigas, de há anos, nunca saradas.

O que parece distinguir São Francisco de muitas outras cidades durante a actual pandemia é talvez a absurda confiança de como a cidade, e os seus habitantes mais privilegiados, se consideravam imediatamente a salvo de um potencial colapso económico. O nervosismo, se existia, era apenas miudinho, paralelo à estranha crença de invencibilidade, uma sensação de impossibilidade de sofrer com a pandemia. Eu própria, tenho de admitir, faço parte desta indústria de uma forma muito insignificante, com uma função temporária que acabará em breve, numa área criativa – trabalho como editora de vídeo – e portanto, menosprezada. Mas claro que ninguém conseguiria prever o que realmente aconteceu.

No início desta semana, e sessenta dias depois de termos entrado em shelter-in-place (um período de confinamento), a Uber, conhecida multinacional de ridesharing, despediu cerca de 3 mil trabalhadores, juntando-se aos mais de 3700 que já tinham sido despedidos no início de mês de Maio. No total, perdeu cerca de 6700 trabalhadores, o que constitui um impressionante corte de 25% da força laboral da empresa. Simultaneamente a estes cortes, a empresa decidiu também encerrar um total de 40 escritórios pelo mundo, um deles na cidade, onde investia numa das suas principais inovações tecnológicas – os self-driving cars. A Yelp, plataforma de agregação de informações e reviews a estabelecimentos comerciais, despediu um total de 2 mil empregados e encerrou a sua sede no FiDi (Financial District) da cidade. Empresas atrás de empresas, entre as pequenas start-ups e as grandes tech corporations, despedem em massa funcionários em tempos altamente desejáveis, extraordinariamente bem pagos, deixando-os à deriva em tempo de pandemia, sem acesso a um seguro de saúde ou a planos de poupança. Por arrasto sofrem também outras actividades comerciais que, muito embora não estejam necessariamente ligadas ao universo da tecnologia, dependem quase exclusivamente da sua existência: entre ginásios, restaurantes, cafés, bares, discotecas, estúdios de ioga, boutiques de luxo, spas, salões de cabeleireiro e estética, uns atrás dos outros encerram as portas definitivamente, numa cascata interminável de falência atrás de falência. Empregos perdidos, vidas postas em pausa.

«No meio das desgraças, há um silver lining, como dizem os americanos. Ou uma luz ao fundo do túnel. Uma esperança de que a quebra da economia torne possível uma diminuição dos preços das casas, uma reestruturação do mercado de trabalho, um retorno a vidas mais simples, a uma cidade movida pela cultura e pela diversidade e não pelo dinheiro»

O mercado de arrendamento é invadido de imediato por pedidos desesperados de socorro de jovens cujas possibilidade foram imediatamente diminuídas a pó – gente que tenta escapar a contratos de arrendamento de um ano, com rendas bem acima dos seus rendimentos actuais; pessoas que, como eu, são obrigadas por senhorios sem escrúpulos a encontrar novos colegas de casa para substituir quem sai, sabendo bem que pouca gente tem a possibilidade de alugar. A associação de protecção dos direitos dos inquilinos de São Francisco não tem mãos a medir com a quantidade de pedidos de ajuda que chegam todos os dias. Os preços? Exorbitantes, ao valor de um mercado que já não existe, cobrando 1500 dólares por quartos em casas minúsculas, ou estúdios a mais de 2000 e tal dólares, variando consoante a zona da cidade. Quartos a valores que não fazem sentido numa cidade encerrada, uma cidade pendente. Quartos a valores que nunca fizeram sentido, em mais lado nenhum. Apenas aqui.

Mesmo com uma pandemia em potência completa, e sem previsão certa de um regresso a qualquer tipo de normalidade, São Francisco continua a fazer aquilo que faz melhor: vender-se a preço elevado, prometer sonhos de riqueza e felicidade a quem chega, enquanto o mundo à sua volta se desmorona.

No meio das desgraças, há um silver lining, como dizem os americanos. Ou uma luz ao fundo do túnel. Uma esperança de que a quebra da economia torne possível uma diminuição dos preços das casas, uma reestruturação do mercado de trabalho, um retorno a vidas mais simples, a uma cidade movida pela cultura e pela diversidade e não pelo dinheiro. Uma cidade, talvez, mais como a São Francisco com que sonhei, com a São Francisco de tempos idos.

Não gosto de cair em estereótipos. Passo uma boa parte do meu tempo a debater críticas generalizadas que europeus gostam de endereçar aos americanos, mas reconheço na América a mentalidade infeliz de encontrar formas de fazer da desgraça uma oportunidade de negócio. E embora a ideia de reinvenção seja positiva, peca por se deixar contaminar por uma lógica de mercado. Raramente a reinvenção é para algo melhor, mais equilibrado, mais justo e equitativo, mais diversificado. Normalmente surge para resolver as necessidades exclusivas a um grupo limitado, que já se encontra no poder. A uma elite, digamos. Não existe vontade de estudar o que correu mal, tentar construir algo novo e positivo; mas sim algo que sirva como solução temporária, que agrade muito a poucos e pouco a muitos.

Não faço palpites sobre o que vai acontecer a São Francisco depois do fim da pandemia, chegue esse tão desejado fim quando chegar. Sei apenas que não é a mesma cidade que conheci pela primeira vez há quase três anos, e que será uma cidade muito diferente daquela que deixarei daqui a uns meses, e não questiono o efeito devastador que a COVID-19 terá na economia local nos próximos anos. Espero apenas que não regresse nunca à loucura desenfreada dos últimos anos, ao profit for the sake of profit, ao desenvolvimento e progresso tecnológico sempre e exclusivamente a favor de uma lógica de capital. Já não peço de volta São Francisco e flores em cabelos compridos, mas sim um pouco do sentido revolucionário que governou a cidade durante tanto tempo.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/sao-francisco-uma-cidade-de-desigualdades

Estrategistas militares dos EUA aconselham guerra psicológica contra a China

 

Enquanto as forças armadas dos EUA voltam sua atenção do Oriente Médio para o conflito com a Rússia e a China, os planejadores de guerra americanos estão aconselhando que os Estados Unidos expandam bastante suas próprias “operações psicológicas” online contra Pequim.

Um novo relatório do Financial Times detalha como os altos escalões de Washington estão planejando uma nova Guerra Fria com a China, descrevendo-a menos como a Terceira Guerra Mundial e mais como um conflito em que os países “se chutam debaixo da mesa”. Na semana passada, o general Richard Clarke, chefe do Comando de Operações Especiais, disse que as “missões de captura e morte” que os militares realizaram no Afeganistão eram inapropriadas para este novo conflito, e as Operações Especiais devem avançar para campanhas de influência cibernética.

O analista militar David Maxwell, um ex-soldado de Operações Especiais, defendeu uma guerra cultural generalizada, que incluiria o Pentágono comissionando o que ele chamou de  romances de “Tom Clancy taiwanês”, com o objetivo de demonizar a China e desmoralizar seus cidadãos, argumentando que Washington deveria “transformar em arma” a política de filho único da China, bombardeando o povo chinês com histórias de mortes em tempo de guerra de seus filhos únicos e, portanto, sua linhagem.

Uma tática não muito diferente foi usada durante a Primeira Guerra Fria contra a União Soviética, quando a CIA patrocinou uma enorme rede de artistas, escritores e pensadores para promover críticas liberais e social-democratas da URSS, sem o conhecimento do público e, às vezes, até dos próprios artistas.

Fabricando consenso

No espaço de apenas alguns meses, o governo Trump deixou de elogiar a resposta da China à pandemia do COVID-19 para culpá-la pelo surto, sugerindo até que paguem reparações por sua suposta negligência. Apenas três anos atrás, os norte-americanos tinham uma visão neutra da China (e nove anos atrás era fortemente favorável). Hoje, as mesmas pesquisas mostram que 66% dos norte-americanos não gostam da China, com apenas 26% mantendo uma opinião positiva do país. Quatro em cada cinco pessoas apoiam uma guerra econômica em grande escala com Pequim, algo que o presidente ameaçou decretar na semana passada.

Leia também: O coronavírus e a propaganda anti-china

A imprensa corporativa também está fazendo sua parte também, constantemente enquadrando a China como uma ameaça autoritária aos Estados Unidos, em vez de uma força neutra ou mesmo um aliado em potencial, levando a uma onda de ataques racistas anti-chineses dentro dos EUA.

Reequipando para uma guerra intercontinental

Embora os analistas avisem há muito tempo que os Estados Unidos “levam a pior” em simulações de guerra quente com a China ou mesmo com a Rússia, não está claro se se trata de uma avaliação sóbria ou de uma tentativa egoísta de aumentar os gastos militares. Em 2002, os EUA realizaram um teste de guerra de invasão do Iraque, onde foram derrotados catastroficamente pelo tenente-general Paul Van Riper, comandando as forças iraquianas, levando todo o experimento a ser anulado no meio do caminho. No entanto, a invasão subsequente foi realizada sem perda maciça de vidas americanas.

O pedido de orçamento do Pentágono para 2021, publicado recentemente, deixa claro que os Estados Unidos estão reorganizando uma possível guerra intercontinental com a China e / ou a Rússia. Ele pede 705 bilhões de dólares para “mudar o foco das guerras no Iraque e Afeganistão e uma ênfase maior nos tipos de armas que poderiam ser usadas para enfrentar gigantes nucleares como Rússia e China”, observando que isso exige “sistemas de armas mais avançadas e de ponta, que proporcionam maior capacidade de impasse, letalidade aprimorada e direcionamento autônomo para o emprego contra ameaças de pares próximos em um ambiente mais contestado”. Os militares receberam recentemente o primeiro lote de ogivas nucleares de baixo rendimento, que, de acordo com especialistas, confundem a linha entre conflitos convencionais e nucleares, tornando muito mais provável um exemplo completo desse último.

Uma questão bipartidária

Não houve resposta significativa dos democratas. De fato, a equipe de Joe Biden sugeriu que toda a política industrial dos Estados Unidos girasse em torno de “competir com a China” e que sua “principal prioridade” fosse lidar com a suposta ameaça que Pequim representa. O ex-vice-presidente também atacou Trump pela direita na questão China, tentando apresentá-lo como uma ferramenta de Pequim, lembrando como Clinton o retratou em 2016 como um ativo do Kremlin. (O candidato do Partido Verde, Howie Hawkins, prometeu reduzir o orçamento militar em 75% e fazer um desarmamento unilateral).

Ainda assim, as vozes que suscitam preocupação com uma nova corrida armamentista são poucas e distantes. O ativista veterano da deproliferação Andrew Feinstein é uma exceção, dizendo:

“Nossos governos gastam mais de 1,75 trilhão de dólares todos os anos em guerras, armas, conflitos… Se pudéssemos empregar esse tipo de recurso para enfrentar a crise de coronavírus que estamos vivendo atualmente, imagine o que mais poderíamos estar fazendo. Imagine como poderíamos estar combatendo a crise climática, como poderíamos enfrentar a pobreza global, a desigualdade. Nossa prioridade nunca deve ser guerra; nossas prioridades precisam ser saúde pública, meio ambiente e bem-estar humano.”

No entanto, se o governo vai lançar uma nova guerra psicológica contra a China, é improvável que vozes anti-guerra como a de Feinstein venham a aparecer muito na grande imprensa.

 

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OTAN | Aliados apelam aos EUA para que não se retirem do Tratado de Céus Abertos

 
 
Numa reunião de emergência realizada na sexta-feira (22), todos os aliados da OTAN teriam apelado aos Estados Unidos para não deixarem o Tratado de Céus Abertos, informa a agência AMNA.

Após os EUA terem anunciado sua retirada do Tratado de Céus Abertos na sexta-feira (22), os chanceleres dos países-membros da OTAN realizaram uma reunião urgente para discutir a "salvação" do tratado internacional. Alemanha insistiu para que os EUA revissem sua posição, segundo informa a agência grega AMNA.

Chanceleres da Alemanha, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Portugal, República Tcheca e Suécia assinaram um comunicado onde expressaram seu "lamento pelo anúncio do governo dos EUA sobre sua intenção de se retirar do Tratado de Céus Abertos".

"O Tratado de Céus Abertos é um elemento fundamental do quadro de consolidação de confiança que foi criado nas últimas décadas com o objetivo de melhorar a transparência e a segurança abrangendo a zona euro-atlântica", diz o comunicado publicado no site do Ministério das Relações Exteriores da França.

 
Entretanto, o secretário-geral da aliança, Jens Stoltenberg, declarou que a "implementação seletiva da Rússia de suas obrigações no âmbito do Tratado de Céus Abertos tem prejudicado a contribuição deste importante Tratado para a segurança e estabilidade na região euro-atlântica" e apelou para que país volte a implementar suas obrigações.

"O retorno da Rússia ao cumprimento é a melhor maneira de preservar os benefícios do tratado", afirmou Stoltenberg em comunicado publicado no site da OTAN na sexta-feira (22).

O chefe da aliança lembrou que "os aliados pediram à Rússia que cumprisse totalmente o tratado desde a Cúpula de Gales em 2014, um apelo que repetiram na Cúpula de Varsóvia em 2016 e na Cúpula de Bruxelas em 2018".

"Os aliados da OTAN e os países associados mantiveram contactos com a Rússia, tanto das capitais quanto da OSCE [Organização para Segurança e Cooperação na Europa] em Viena", para trazer Moscovo "de volta ao cumprimento o mais rápido possível".

Além disso, segundo Stoltenberg, os países da OTAN "permanecem abertos ao diálogo no Conselho Rússia-OTAN sobre redução de riscos e transparência".

EUA anunciam saída

Na quinta-feira (21), o presidente dos EUA, Donald Trump, confirmou que seu governo abandonará o Tratado de Céus Abertos e explicou que a decisão se dará por supostas violações do acordo por parte da Rússia.

No entanto, o presidente mencionou a possibilidade de reverter essa decisão ou elaborar um acordo semelhante, se a Rússia cumprir o tratado novamente.

Por sua vez, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, afirmou em comunicado que seu país deixará o Tratado de Céus Abertos dentro de seis meses a partir desta sexta-feira (22).

O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Alexandr Grushko, afirmou que a Rússia respeitará o Tratado de Céus Abertos enquanto permanecer em vigor e confia que outros Estados-partes farão o mesmo.

O Tratado de Céus Abertos, assinado em 1992 em Helsínquia, permite que observadores militares realizem voos desarmados de vigilância aérea para obter imagens de movimentos de tropas e navios em um vasto território, da cidade canadense de Vancouver ao porto de Vladivostok, no Extremo Leste da Rússia.

Hoje, esse documento, em vigor desde 2002, possui 34 signatários, incluindo a Rússia, que o ratificou em maio de 2001.

Sputnik | Imagem: © AP Photo / Virginia Mayo
 

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A nova estratégia anti-chinesa de Washington

 
 
Thierry Meyssan*
 
Independentemente da histeria anti-chinesa do grupo que impôs as respostas políticas sanitárias ocidentais à epidemia de Covid-19, esta demonstrou a dependência ocidental dos produtos manufacturados chineses. Esta constatação conduz a Administração Trump a passar de uma vontade de reequilíbrio das trocas comerciais para um confronto militar, sem chegar, no entanto, ao recurso à guerra. A sabotagem de Rotas da Seda tem assim oficialmente início.

Uma das consequências da epidemia de Coronavirus é que os Ocidentais verificaram a sua dependência face às capacidades de manufacturação chinesas. Nem os Europeus, nem os Norte-Americanos, estavam à altura de fabricar os milhões de máscaras cirúrgicas que entendiam ser urgente distribuir à sua população. Tiveram que ir comprá-las na China e bateram-se várias vezes entre si, até aos terminais de aeroporto, para as levar para casa em detrimento dos seus aliados.

Neste contexto de salve-se quem puder geral, a liderança dos EUA sobre o Ocidente já não fazia nenhum sentido. É por isso que Washington decidiu não reequilibrar mais as relações comerciais com a China, mas opor-se à construção das Rotas da Seda e ajudar os Europeus a relocalizar uma parte da sua indústria. Poderia tratar-se de um ponto de viragem decisivo: a interrupção parcial do processo de globalização que tinha começado com o desaparecimento da União Soviética. Mas, atenção : não se trata de uma decisão económica que questione os princípios do livre comércio, sim de uma estratégia geopolítica de sabotagem das ambições chinesas.

Esta mudança de estratégia fora anunciada pela campanha, não só económica mas também política e militar, contra a Huawei. Os Estados Unidos e a OTAN temiam que, se a Huawei ganhasse os contratos ocidentais para a instalação da G5, o Exército chinês poderia interceptar as comunicações. Acima de tudo, sabiam que se os chineses controlassem estes mercados, se tornariam tecnicamente os únicos a poder avançar para a etapa seguinte [1].

 
Não se trata de uma adesão da Administração Trump aos fantasmas da “Alvorada Vermelha” [2]. cuja obsessão anti-chinesa se baseia num anti-comunismo primário, mas, antes na tomada de consciência dos gigantescos progressos militares de Pequim. Claro, o orçamento do Exército Popular de Libertação é insignificante comparado ao das Forças Armadas dos EUA, mas, precisamente a sua estratégia muito frugal e os seus progressos técnicos permitem-lhe hoje em dia desafiar o monstro norte-americano.

No fim da Primeira Guerra Mundial, os Chineses do Kuomintang e do Partido Comunista comprometeram-se, em conjunto, em reunificar o seu país e tirar desforra por um longo século de humilhação colonial. Uma figura do Kuomintang, Chang Kaï-chek, tentou eliminar o Partido Comunista, mas acabou vencido e exilou-se em Taiwan. Mao Zedongprosseguiu esse sonho nacionalista enquanto guiava o Partido Comunista numa transformação social do país. No entanto, o seu objectivo permaneceu sempre, e acima de tudo, de carácter nacionalista, como o demonstrou a guerra sino-russa pela ilha Zhenbao, em 1969. Nos anos 80, o Almirante Liu Huaqing (o que reprimiu na Praça de Tienanmen a tentativa de Golpe de Estado de Zhao Ziyang) concebeu uma estratégia para empurrar os Exércitos dos EUA para fora da zona cultural chinesa. Isso está a ser pacientemente posto em prática desde há quarenta anos. Sem nunca chegar à guerra, Pequim estende a sua soberania territorial no Mar da China e aí assedia a marinha dos EUA. Já não está longe o dia em que essa se terá que retirar, deixando a China recuperar Taiwan pela força.

Após a dissolução da URSS, o Presidente George Bush Sr considerou que os Estados Unidos já não tinham rivais e que era tempo de ganhar dinheiro. Ele desmobilizou um milhão de soldados e abriu a via da globalização financeira. As multinacionais dos EUA transferiram as suas empresas para a China, onde os seus produtos começaram a ser fabricados por inúmeros trabalhadores não-qualificados, remunerados vinte vezes abaixo dos operários norte-americanos. Progressivamente, quase todos os bens consumidos nos EUA eram importados da China. A classe média dos EUA empobreceu, enquanto a China formou os seus trabalhadores e se enriquecia. Graças ao princípio do livre comércio, o movimento estendeu-se a todo o Ocidente, depois ao mundo inteiro. O Partido Comunista decidiu restaurar um equivalente moderno à antiga Rota da Seda e, em 2013, elegeu Xi Jinping para concretizar este projecto. Assim que ele estiver concluído, se chegar a ser, a China poderá ter o quasi-monopólio de fabrico de produtos manufacturados do mundo inteiro.

Ao decidir sabotar as Rotas da Seda, o Presidente Donald Trump tenta empurrar a China para fora de sua própria zona cultural, tal como esta empurra os EUA para fora da sua. Para isso, ele poderá contar com os seus «aliados», cujas empresas estão já devastadas pelos excelentes produtos chineses a baixo preço. Por causa disto, alguns deles tiveram já revoltas populares como a dos Coletes Amarelos, em França. No passado, a antiga Rota da Seda fazia chegar à Europa produtos desconhecidos, enquanto as actuais rotas encaminham os mesmos produtos que os produzidos na Europa, mas muito mais baratos.

Contrariamente a uma ideia feita, a China poderia renunciar às Rotas da Seda por motivos geoestratégicas, seja qual for o montante dos seus investimentos. Já o fez no passado. No século XV, ela pensara abrir uma Rota da Seda marítima e enviara, à frente de uma formidável armada, o Almirante Zheng He, «o eunuco das três jóias», até à África e ao Médio-Oriente, antes de se retirar e, depois, afundar a sua gigantesca frota para nunca mais voltar.

O Secretário de Estado Mike Pompeo viajou em pleno confinamento para Israel. Ele tentou convencer os dois futuros Primeiros-Ministros, Benjamin Netanyahu (colonialista judeu) e o seu Vice, e nem por isso menor adversário, o General Benny Gantz (nacionalista israelita), a interromper os investimentos chineses no país. [3]. As empresas chinesas controlam já metade do sector agrícola israelita e deverão controlar nos próximos meses 90% das suas trocas comerciais. Mike Pompeo deverá, de forma idêntica, dedicar-se a convencer o Presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sissi. Com efeito, o Canal de Suez e os portos israelitas de Haifa e de Ashdod deveriam tornar-se os terminais da moderna Rota da Seda no Mediterrâneo.

Após diversas tentativas, a China levando em conta a instabilidade do Iraque, da Síria e da Turquia renunciou a fazer por eles passar uma das rotas. Um acordo tácito foi alcançado entre Washington e Moscovo para deixar uma bolsa jiadista, em qualquer lugar da fronteira sírio-turca, a fim de desencorajar os investimentos chineses nesta zona. Moscovo entende basear a sua aliança com Pequim em Rotas da Seda que atravessem o seu próprio território e não os países ocidentais. Esse é o projecto da «Grande Parceria Eurasiática» do Presidente Vladimir Putin [4].

Volta-se repetidamente ao mesmo dilema (« a armadilha de Tucídides ») : face à ascensão de uma nova potência (a China), a potência dominante (os Estados Unidos) deve, ou lançar-lhe uma guerra (como Esparta face a Atenas), ou ceder um espaço ao recém-chegado, quer dizer, aceitar a divisão do mundo.

Thierry Meyssan* | Voltairenet.org |  Tradução Alva

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] «Huawei», Rede Voltaire.
[2] “O Covid-19 e a Alvorada Vermelha”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Abril de 2020.
[3] “A "Rota da Seda" passará pela Jordânia, Egipto e Israel”, “A Rota da Seda e Israel”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 30 de Outubro de 2018.
[4] «Discurso de Serguei Lavrov en el ‎74º periodo de sesiones de la Asamblea General de la ONU», por Sergéi Lavrov, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2019.
 

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“Nenhuma era apenas um número”. NYT dedica toda a primeira página às 100.000 vítimas da pandemia

(dr) NYT

 

Mil nomes de pessoas numa primeira página. O jornal norte-americano The New York Times dedicou a primeira página da edição deste domingo a mil vítimas mortais da pandemia de covid-19, para assinalar a iminente passagem do número de 100.000 mortes nos Estados Unidos.

 

O New York Times dedica a sua primeira página à memória de mil pessoas que morreram devido à pandemia da covid-19 e evoca a vida de cada uma. “Estas mil pessoas representam apenas um por cento do total. Nenhuma delas era apenas um número”, escreve o jornal na capa, que se encontra totalmente preenchida por texto.

Os Estados Unidos são o país mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, tanto em número de mortes quanto em casos, com 97.087 mortes para 1.621.658 casos, de acordo com os dados mais recentes. Segundo a agência noticiosa France-Presse, no sábado, os Estados Unidos registaram 1.127 novas mortes em 24 horas, e atravessar a marca de 100.000 mortes aparenta ser uma questão de dias.

Entre as vítimas mortais da covid-19 citadas pelo jornal The New York Times neste domingo, estão JoeDiffie, 62 anos, de Nashville, “estrela da música country distinguida por um Grammy”, e Lila A. Fenwick, 87 anos, de Nova Iorque, a “primeira mulher negra a formar-se na Harvard Law School”.

 
 

Da lista também constam MylesCoker, 69 anos, de Nova Iorque, que foi “libertada após ser condenada à prisão perpétua”, e Jordan Driver Haynes, 27 anos, de CedarRapids, Iowa, um “jovem generoso com um sorriso encantador”.

“Queria algo que as pessoas pudessem reler daqui a 100 anos para entender o peso do que estamos a passar”, disse Marc Lacey, chefe de redação do jornal norte-americano, para justificar a primeira página da edição deste domingo.

“Em vez dos artigos, fotografias ou gráficos que normalmente aparecem na primeira página do The New York Times, este domingo há apenas uma lista: uma lista longa e solene de pessoas cujas vidas foram perdidas devido à pandemia do coronavírus”, pode ainda ler-se no artigo que explica o projeto do NYT.

A passagem esperada da marca de 100.000 mortes por covid-19 surge no contexto de debates sobre o confinamento, quando vários estados se comprometem a facilitar as medidas restritivas decididas contra a propagação da doença.

https://twitter.com/AndrewSolender/status/1264551648178946049?ref_src=twsrc%5Etfw

 

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, candidato à reeleição em novembro, preocupado com a recuperação económica, está a pedir aos governadores democráticos que “libertem” o seu Estado, num desafio aos avisos dos consultores científicos.

No sábado à noite, o Presidente norte-americano escreveu na sua conta na  rede social Twitter “transição para maior”, usando o slogan com que defende a reabertura da economia, o que deu origem a muitos comentários discordantes.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 339 mil mortos e infetou mais de 5,2 milhões de pessoas em 196 países e territórios. Os Estados Unidos são o país com mais mortos (97.087) e mais casos de infeção confirmados (mais de 1,6 milhões).

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/nenhuma-era-apenas-um-numero-nyt-dedica-toda-primeira-pagina-mil-vitimas-da-pandemia-326322

EUA destroem deliberadamente quadro global de estabilidade estratégica

Retirada dos EUA do Tratado de Céus Abertos é um estratagema deliberado que visa a destruição do sistema de estabilidade estratégica e segurança no mundo, afirma representante oficial do MRE russo.

Os Estados Unidos, através de suas ações estão sistematicamente quebrando o quadro de estabilidade estratégica, afirmou a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.

Em uma entrevista ao canal de televisão russo Rossiya 1 em 24 de maio, Maria Zakharova observou que os EUA estão se retirando de todos os acordos que lhes limitem a ação, como é o caso do Tratado de Céus Abertos.

"A estabilidade estratégica e todos as convenções que formaram sua base e que criaram um quadro jurídico para as ações dos Estados, tudo isso tem sido sistematicamente destruído pelos Estados Unidos [...] Isso mostra que os Estados Unidos [...] estão deliberadamente trabalhando na destruição do sistema de estabilidade estratégica", afirmou Zakharova.

A diplomata lembrou que o Tratado de Céus Abertos foi assinado em 1992, incluindo neste momento 33 países, após a saída dos EUA.

Os Estados participantes do acordo fazem voos de observação como medida de segurança coletiva e "de acordo com as cotas e regulamentos acordados", especificou a diplomata.

"Durante muitos anos, não houve nenhum problema global com este acordos. Todas as questões problemáticas eram resolvidas no âmbito de uma comissão especial", prosseguiu Zakharova.

Segundo a porta-voz, os EUA regressaram ao método habitual de campanhas públicas de culpabilização da Rússia.

Voo de reconhecimento conjunto sobre o território russo realizado pelos EUA e Alemanha

Voo de reconhecimento conjunto sobre o território russo realizado pelos EUA e Alemanha

"Em todos os problemas dos Estados Unidos, a culpa é de Moscou", afirmou ironicamente Zakharova.

A diplomata relembrou que os EUA se retiraram do Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM) em 2002 e que se recusaram a ratificar o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.

"Agora é a vez do Tratado de Céus Abertos. Ainda temos o START-III, que é o último que resta", previu Zakharova, para quem a explicação para esta posição dos EUA reside no seu conceito de exclusividade como país.

"Posicionar-se como um país que tem poderes especiais, que não está vinculado a obrigações e não joga segundo as regras é um conceito dos EUA que tem sido muito claro há décadas", disse ela.

Vale recordar que os Estados Unidos se retiraram do Tratado de Céus Abertos alegando incumprimento por parte da Rússia, não descartando o seu regresso caso Moscou "cumpra as suas obrigações".

Moscou rejeitou as insinuações, afirmando que se tratou de um mero pretexto para os EUA se livrarem das obrigações existentes.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2020052515620742-moscou-eua-destroem-deliberadamente-quadro-global-de-estabilidade-estrategica/

USA | O barulho dos empréstimos a pequenas empresas

Eve Ottenberg *

Os governantes do império estão cegos pelo dogma da direita, do funcionamento de cima para baixo – por isso, a sua reação instintiva ao desastre é pôr dinheiro nas mãos dos ricos. 

 

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Foto de Nathaniel St. Clair

Um escândalo explodiu, recentemente, sobre o fundo de empréstimos a pequenas empresas. O primeiro Programa de Proteção de Salários (PPS), de US $ 350 biliões, foi criado para ajudar pequenas empresas – atacadas pelos confinamentos da Covid-19 –  a continuar a pagar aos empregados. Mas os bancos ficaram encarregados de desembolsar esses empréstimos. E apareceram então a distribuir US $ 365 milhões em empréstimos perdoáveis ​​a grandes cadeias de capital aberto, como a Potbelly Sandwich Shop, Shake Shack e Quantum Corp.No meio de grandes protestos, a Shake Shack devolveu o seu empréstimo de US $ 10 milhões. A Potbelly e a Sweetgreen disseram que também o fariam. Assim como, em 27 de abril, 13 grandes empresas prometeram devolver o dinheiro que haviam ilegalmente recebido, com, supostamente, US $ 2 biliões devolvidos ao programa. Mas os bancos ficaram expostos, como tendo ajudado 94 ou mais empresas de capital aberto a arrebatar benefícios sociais atribuídos pelo governo a negócios familiares. Muitas dessas mais de 94 empresas, incluindo navios de cruzeiro, demonstraram pouca vergonha. Não têm a intenção de devolver os seus empréstimos. Ajudaram a esvaziar o fundo. Não é admissível. Têm de ser obrigados a devolver o dinheiro.

Parte daquele dinheiro do PPS foi para empresas mega doadoras da campanha de reeleição de Trump, de acordo com o The Intercept. Essas doadoras receberam montes de dinheiro. No topo da lista havia hotéis de luxo administrados pela família Bennett. Receberam, até agora, mais dinheiro do PPS do que qualquer outro doador conhecido. Os Bennetts deram liberalmente a Trump e ao GOP [abreviatura de Grand Old Party, referência comum ao Partido Republicano dos EUA – NT]. Também recebeu esses empréstimos, que não precisam de ser reembolsados, uma empresa conetada a um lobista e angariador de fundos para Trump; de igual modo, a Continental Materials Corp, a Easy Post e vários outros benfeitores de Trump e do GOP. Isto cheira a corrupção.

Entre outras ricas empresas que capturaram tanto dinheiro que esgotaram o fundo para as pequenas empresas, esteve a biotecnológica Athersys, que recebeu US $ 1 milhão, segundo a Zerohedge, “apesar de ter angariado quase US $ 60 milhões numa oferta de ações, numa segunda-feira. Entretanto, a Nikola Motor… anunciou uma avaliação de US $ 4 biliões, no início de março”, mas pediu US $ 4 milhões ao PPS. Também esteve nas manchetes a cadeia nacional Ruth Chris Steakhouse, que captou US $ 20 milhões do fundo para as pequenas empresas, que agora devolverá. A AP informou que os empréstimos destinados às pequenas empresas foram para “empresas com milhares de empregados, com multas aplicadas por investigações governamentais e riscos de falência financeira”. Nada como dinheiro grátis para os que já nadam em dinheiro.

Os bancos eram a raiz do problema. Assim, em 23 de abril, o senador Marco Rubio – num recente intervalo dos seus ataques verbais sanguinários ao governo venezuelano – escreveu para 12 CEO de bancos, para saber como escolheram aqueles mutuários. Uma excelente pergunta e, sem dúvida, as respostas serão ambíguas. Entre esses bancos, o JP Morgan destaca-se. Para citar Zerohedge de novo: “De todos os bancos que trapacearam as pequenas empresas com o auxílio para o Coronavírus, o JP Morgan leva o troféu”. Esses bancos agiram como veículos, recompensando os seus comparsas. Os seus comparsas são as grandes e ricas corporações. Qual é o problema do dinheiro ter sido  destinado a pequenas empresas? Os bancos preferem os super-ricos.

O governo não parece disposto a punir os bancos responsáveis ​​por esta pilhagem. O próximo desenvolvimento – o novo segundo projeto de PPS – prova esta afirmação. Bem ciente deste recente e caro roubo, o Congresso sentou-se com o Tesouro e redigiu um novo projeto de empréstimos, sem novos constrangimentos! Nenhuma linguagem que, dada a última pilhagem, prevenisse a sua repetição com novas salvaguardas. Nenhum ataque aos bancos por, essencialmente, encorajarem uma fraude. O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, prometeu novas diretrizes e instou as grandes empresas a devolverem os seus empréstimos obtidos sob o primeiro PPS. Ameaçou com “severas consequências” se não o fizerem, incluindo investigações. Vamos esperar que ele mantenha a sua palavra no futuro e alargue as ameaças aos bancos, porque é tudo o que temos para prevenir outro desastre com os novos fundos.

O novo projeto foi aprovado na Câmara 388-5. Coloca US $ 321 biliões no PPS para que as empresas possam continuar a pagar aos trabalhadores e, segundo informações, já está quase esgotado. Também concede US $ 60 biliões para empréstimos de emergência para pequenas empresas, US $ 75 biliões para hospitais e US $ 25 biliões para testes Covid-19. Tudo isto parece bom, mas se os bancos direcionarem novamente esse dinheiro para empresas de capital aberto – e por que não? – é apenas mais uma roubalheira dos plutocratas, os piores dos quais a pandemia trouxe à tona. O governo investiu triliões de dólares em bilionários, oligarcas e chefões de empresas, e eles querem tudo, incluindo aqueles empréstimos a fundo perdido ​​para pequenas empresas.

Entretanto, mais de 26 milhões de pessoas perderam os seus empregos e aqueles que não precisam de ajuda mantêm-nos. Mas o governo federal parece incapaz de fazer a única coisa decente: aprovar um projeto de lei especificamente para aquelas pessoas – e para mais ninguém. Os governantes do império estão cegos pelo dogma da direita, do funcionamento de cima para baixo – por isso, a sua reação instintiva ao desastre é pôr dinheiro nas mãos dos ricos. Este dogma é uma forma de extrema estupidez e que, tragicamente, significa a ruína para multidões de americanos.

* Eve Ottenberg é romancista e jornalista. O seu último livro é Further Adventures of Feckless Frank [Outras aventuras do irresponsável Frank]. Pode encontrar-se no seu website.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/05/01/the-small-business-loan-racket/, colocado e acedido em 2020/05/01.

Tradução do inglês de PAT

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/o-barulho-dos-emprestimos-a-pequenas-95138

China e EUA devem alcançar coexistência pacífica apesar de diferentes sistemas, diz chanceler

Ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi (foto de arquivo)
© Sputnik / Ilia Pitalev

Wang Yi, chefe da diplomacia da China, disse que seu país e os EUA estão "à beira de uma guerra fria" e que Pequim não tem intenção de pagar qualquer indenização pela COVID-19.

Ainda de acordo com a autoridade, "a China não tem intenção de mudar, muito menos de substituir os EUA" na arena internacional.

Em declarações feitas por vídeoconferência hoje (24), Wang Yi afirmou que seu país "mantém-se preparado para trabalhar com os EUA em espírito de cooperação e respeito mútuo".

Para ele, ambos os países "irão ganhar com a cooperação, mas perder com a confrontação". Além disso, a China e os EUA "precisam começar a coordenar" políticas macroeconômicas tanto para suas economias como para a global.

Ao mesmo tempo, Wang Yi alertou que as duas potências estão "à beira de uma guerra fria".

Hong Kong

Comentando o retorno das tensões em Hong Kong, o chanceler chinês afirmou que, ao invés de estarem preocupadas, as pessoas deveriam estar mais confiantes na estabilidade de Hong Kong.

Enquanto moradores do ex-território britânico protestam contra novas leis sobre segurança nacional apoiadas por Pequim, Wang Yi afirmou que a nova legislação "não impactará nas liberdades, bem como nos direitos e interesses das empresas estrangeiras", mas que as leis de segurança devem ser impostas "sem qualquer demora".

Coronavírus

Enquanto os EUA acusam a China de cometer erros no contexto da pandemia, Wang Yi afirmou que seu país está pronto para unir esforços com a comunidade internacional para encontrar a origem do coronavírus.

Contudo, ele alertou que tal processo não deve ser político. Além disso, ações judiciais contra a China devido à pandemia não teriam base legal, e quem deseja que a China pague compensações pela propagação do SARS-CoV2 "está sonhando", segundo Yi.

 

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2020052415617287-chanceler-chines-eua-e-china-estao-a-beira-de-guerra-fria/

Possível teste nuclear dos EUA trará 'nova Guerra Fria', diz grupo ganhador do Nobel da Paz

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala com repórteres na Casa Branca.
© AP Photo / Patrick Semansky

O grupo Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares (ICAN) criticou os Estados Unidos depois que surgiram relatos de que o governo do presidente norte-americano, Donald Trump, pode retomar os testes nucleares.

Na sexta-feira (22), o jornal Washington Post informou que membros da Casa Branca estariam discutindo a realização dos primeiros testes nucleares dos EUA desde 1992, diante de supostas ameaças da Rússia e da China.

"Um teste nuclear de Trump cruzaria uma linha que nenhum país pensou que os EUA voltariam a cruzar e está ameaçando a saúde e a segurança de todas as pessoas", disse a diretora executiva da ICAN, Beatrice Fihn, através de comunicado.

A declaração também relata que norte-americanos teriam problemas de saúde até os dias de hoje devido aos testes nucleares realizados pelo país no passado.

Teste de míssil de cruzeiro realizado em 18 de agosto na ilha de San Nicolas, na Califórnia, EUA

© AP Photo / Scott Howe
Teste de míssil de cruzeiro realizado em 18 de agosto na ilha de San Nicolas, na Califórnia, EUA

Fihn afirma ainda que a realização de novos testes iniciaria uma nova Guerra Fria e acabaria com qualquer chance de evitar uma nova corrida nuclear, concluindo o que ela chama de "erosão da estrutura global de controle de armas".

"Somente uma solução multilateral pode fortalecer os tratados bilaterais que Trump está destruindo. O TPNW [sigla em inglês para Tratado de Proibição de Armas Nucleares] é essa solução", afirmou a diretora executiva da ICAN.

Adotado na Organização das Nações Unidas (ONU) em 2017, o TPNW visa alcançar a eliminação total de armas nucleares no mundo. Para entrar em vigor, são necessários 50 estados para ratificá-lo. Até agora, 37 países o fizeram.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020052415617118--possivel-teste-nuclear-dos-eua-torna-nova-guerra-fria-inevitavel-diz-grupo-ganhador-do-nobel/

Hidroxicloroquina que Trump está a tomar pode aumentar risco de morte em doentes com covid-19

Um estudo divulgado sexta-feira sugere que os antimaláricos cloroquina e hidroxicloroquina podem aumentar o risco de morte e arritmias em doentes hospitalizados com covid-19, defendendo que o seu uso como antivirais deve ser devidamente testado antes de tratar pacientes.

 

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na segunda-feira que estava a tomar, a título preventivo, hidroxicloroquina, apesar de a agência norte-americana do medicamento ter desaconselhado a utilização destes fármacos “fora do meio hospitalar ou de ensaios clínicos, devido ao risco de complicações cardíacas”.

O estudo, divulgado pela revista médica britânica The Lancet, baseou-se na observação de dados de 14.888 doentes hospitalizados com covid-19 (infeção respiratória viral) que foram tratados com um ou ambos os medicamentos para a malária, combinados ou não com a administração dos antibióticos azitromicina e claritromicina, utilizados no tratamento de infeções pulmonares bacterianas.

Os dados foram comparados com os de 81.144 doentes com covid-19 que foram igualmente hospitalizados, mas sem receber tratamento com estes medicamentos.

 
 

Os doentes que foram alvo do estudo — ao todo 96.032 — estiveram internados em 671 hospitais entre 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020. Todos estavam infetados pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 e, à data de 21 de abril, tiveram alta hospitalar ou morreram.

No grupo de controlo, o dos 81.144 doentes que não receberam tratamento com antimaláricos, um em cada 11 morreu no hospital. Em média, quase um em cada seis doentes medicados com um dos antimaláricos morreu.

Segundo o estudo, mais de um em cada cinco doentes tratados com cloroquina e um antibiótico (azitromicina ou claritromicina) morreu e quase um em cada quatro doentes morreu quando medicado com hidroxicloroquina em combinação com um dos antibióticos.

Apesar dos dados, os autores do estudo ressalvam que poderá haver outros fatores,não avaliados, na origem da possível ligação entre o tratamento de doentes com covid-19 com medicamentos para a malária e uma diminuição da sua sobrevivência.

Neste contexto, pedem para que sejam realizados com urgência ensaios clínicos aleatórios para aferir a eficácia e segurança do uso destes fármacos como antivirais antes de serem administrados a doentes com covid-19.

“Ensaios clínicos aleatórios são essenciais para confirmar danos ou benefícios associados a estes agentes. Até lá, propomos que estes medicamentos não sejam usados como tratamentos para a covid-19 fora dos ensaios clínicos”, afirmou, citado em comunicado, o primeiro autor do estudo, Mandeep R. Mehra, médico e diretor-executivo do Centro para a Doença Avançada do Coração no Hospital Brigham, nos Estados Unidos.

O estudo concluiu, ainda, que 8% dos doentes medicados com hidroxicloroquina e um antibiótico (azitromicina ou claritromicina) desenvolveram arritmia (alteração no ritmo cardíaco), por comparação com 0,3% dos doentes do grupo de controlo (sem qualquer medicação antimalárica).

Os autores advertem que não é possível inferir uma relação de causa e efeito entre o tratamento de doentes com covid-19 com medicamentos para a malária e o aparecimento de arritmias, uma vez que não foram avaliados outros fatores, e insistem para que se façam ensaios clínicos robustos, apesar dos efeitos antivirais dos fármacos cloroquina e hidroxicloroquina demonstrados em testes laboratoriais anteriores.

Em Portugal, o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, medicamentos aprovados para a malária, está autorizado para o tratamento de doentes com covid-19 internados nos hospitais que manifestem, por exemplo, insuficiência respiratória e pneumonia.

A nível global, a pandemia de covid-19 já provocou quase 330 mil mortos e infetou mais de 5,1 milhões de pessoas em 196 países e territórios. Mais de 1,9 milhões de doentes foram considerados curados. Em Portugal, morreram 1.289 pessoas das 30.200 confirmadas como infetadas, e há 7.590 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde. A covid-19, doença respiratória aguda, é causada por um novo coronavírus (tipo de vírus) detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

ZAP // Lusa

 
 
 

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EUA: Congressistas querem controlar Trump no abandono de acordos internacionais

 
 
Para aprovação projeto de lei que impeça presidente de abandonar acordos internacionais sem consultar Congresso
 
Dois membros do Congresso dos EUA pretendem evitar a saída unilateral de acordos pela administração Trump, depois que ela abandonou um novo tratado internacional, desta vez o Tratado de Céus Abertos.

Dois legisladores norte-americanos, ambos do Partido Democrata, introduziram na quinta-feira (21) um projeto de lei para impedir que o presidente dos EUA, Donald Trump, retire a nação de tratados internacionais sem primeiro obter a aprovação do Congresso.

Na quinta-feira (21), o presidente dos EUA, Donald Trump, confirmou que sua administração vai retirar o país do Tratado de Céus Abertos, mas acrescentou que o acordo poderia ser recuperado ou substituído mais tarde por uma nova versão.

"O senador Edward J. Markey e o congressista Jimmy Panetta apresentaram hoje a Lei de Prevenção de Ações que Prejudiquem a Segurança sem Aprovação [PAUSE, na sigla em inglês] para evitar que um presidente dos EUA se retire de tratados internacionais sem a aprovação do Congresso", disse a declaração de Markey.

Na declaração, o senador disse que a retirada "imprudente" de Trump dificulta os esforços dos EUA para conter os militares russos, e teria um efeito adverso sobre os interesses dos Estados Unidos e aliados num futuro próximo.

 
Primeiras reações

O chefe do Departamento de Não-Proliferação e Controle de Armas do Ministério das Relações Exteriores russo, Vladimir Ermakov, disse recentemente que Moscovo ainda não recebeu uma notificação oficial de Washington sobre a sua decisão de deixar o Tratado de Céus Abertos. No entanto, se acontecesse, a eventual retirada dos Estados Unidos seria lamentável, afirmou.

O chefe do Comité de Assuntos Internacionais da câmara baixa do Parlamento russo, Leonid Slutsky, comentando as intenções dos EUA, destacou que a Rússia tem um plano para responder a uma retirada dos EUA do Tratado de Céus Abertos, argumentando que tal passo de Washington seria "uma decisão destrutiva que poderia colocar em risco o sistema de segurança militar no continente europeu".

"Este será mais um passo da administração dos EUA para destruir acordos fundamentais de controle de armas após o colapso do Tratado INF [sobre controle de armas nucleares]".

Na quinta-feira (21), o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo esclareceu que os EUA deixariam o Tratado de Céus Abertos daqui a seis meses, mas poderiam reconsiderar a retirada se "a Rússia voltasse a cumprir plenamente" o acordo, ao mesmo tempo que afirmava que a Rússia "transformou o tratado numa ferramenta de intimidação e ameaça".

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, tinha dito que Moscovo não recebeu notificação oficial ou esclarecimento dos Estados Unidos, observando que "declarações públicas, no mínimo, não são suficientes para tirar conclusões sobre as intenções do lado norte-americano".

Donald Trump acabou por confirmar a saída do tratado na quinta-feira (21).

O Tratado de Céus Abertos, que entrou em vigor em 2002, estabelece um programa de voos desarmados de vigilância aérea sobre todo o território dos 34 Estados participantes, incluindo os EUA e a Rússia.

Sputnik | Imagem: © AP Photo / Mark Tenally

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China ameaça "retaliar" em caso de sanções norte-americanas

 
Pequim, 21 mai 2020 (Lusa) -- A China avisou hoje que adotará "medidas de retaliação" se o Congresso dos Estados Unidos aprovar sanções contra Pequim, que é responsabilizada por Washington pela pandemia de covid-19.

"Somos firmemente contra esses projetos de lei e aprovaremos uma resposta firme com medidas de retaliação" se o Congresso norte-americano as aprovar, advertiu o porta-voz da Assembleia Nacional Popular (ANP, o parlamento chinês), Zhang Yesui, numa conferência de imprensa.

Em Washington, os senadores republicanos apresentaram em meados de maio um projeto de lei que dá o poder ao Presidente norte-americano, Donald Trump, para impor sanções à China se Pequim não esclarecer completamente a forma como se desencadeou a pandemia de covid-19.

O vírus surgiu em fins do ano passado em Wuhan, cidade no centro da China, que só viria a ser colocada em confinamento a partir de 23 de janeiro já deste ano por um período de dois meses e meio.

A pandemia estendeu-se, depois, a todo o mundo, contaminando mais de cinco milhões de pessoas, que levaram à morte cerca de 330 mil infetados, tendo mais de 1,8 milhões de infetados recuperado.

 
A administração Trump tem acusado as autoridades chinesas de ter tardado em alertar o mundo para a epidemia e de ter dissimulado a amplitude na China.

Tanto Trump como o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, manifestaram abertamente suspeitas de que Pequim escondeu um suposto acidente num laboratório de virologia em Wuhan, que estará na origem da pandemia.

Em resposta, Pequim acusou Washington de tentar fazer da China um "bode expiatório" e de desviar as atenções para a amplitude do número de infetados nos Estados Unidos, de longe o país mais afetado pela pandemia.

"Não é uma atitude responsável dissimular os seus próprios problemas e acusar os outros. Jamais aceitaremos processos judiciais injustificados nem pedidos de indemnização", declarou Zhang Yesui, horas antes da abertura da sessão anual da ANP.

O contágio de covid-19 praticamente parou na China, em que, segundo o balanço mais recente, dá conta de quase 83.000 casos de contaminação, 4.634 deles mortais.

Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano passou a ser o que tem mais casos confirmados (mais de 2,2 milhões contra cerca de dois milhões no continente europeu), embora com menos mortes (mais de 133 mil contra mais de 169 mil).

Os Estados Unidos são o país com mais mortos (93.439) e mais casos de infeção confirmados (mais de 1,5 milhões).

Seguem-se o Reino Unido (36.042 mortos, perto de 251 mil casos), Itália (32.330 mortos, mais de 227 mil casos), França (28.132 mortos, mais de 181 mil casos) e Espanha (27.940 mortos, mais de 233 mil casos).

A Rússia, com menos mortos do que todos estes países (3.099), é, no entanto, o segundo país do mundo com mais infeções (mais de 317.500), seguido pelo Brasil (mais de 291.500 casos e 18.859 mortes).

Por regiões, a Europa soma mais de 169.900 mortos (quase dois milhões de casos), Estados Unidos e Canadá mais de 99.500 mortos (mais de 1,6 milhões de casos), América Latina e Caribe mais de 33.900 mortos (mais de 612 mil casos), Ásia mais de 13.100 mortos (mais de 399 mil casos), Médio Oriente mais de 8.400 mortos (mais de 309 mil casos), África mais de 2.900 mortos (mais de 95.500 casos) e Oceânia com 128 mortos (mais de 8.400 casos).
 
JSD // EL
 

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China se opõe firmemente às vendas de armas dos EUA a Taiwan

 

Beijing, 21 mai (Xinhua) -- A China se opõe firmemente às vendas de armas dos EUA para a região chinesa de Taiwan, disse na quinta-feira Ma Xiaoguang, porta-voz do Departamento dos Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado.

A China se opõe resolutamente a que Estados Unidos tenham laços militares ou qualquer outra forma de contato oficial com Taiwan, disse Ma.

Ma fez as observações ao responder a uma pergunta sobre a aprovação do Departamento de Estado dos EUA de um plano para vender armas no valor de US$ 180 milhões para Taiwan.

"A autoridade do Partido Progressista Democrático de Taiwan comprou repetidamente armas dos EUA com o dinheiro dos contribuintes. Isso só prejudicará a paz e a estabilidade através do Estreito de Taiwan e prejudicará os interesses do povo de Taiwan", disse ele. Fim

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http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/21/c_139076139.htm

Retirada dos EUA de Tratado de Céus Abertos obriga a reunião de emergência da NATO

Bombardeiros Rockwell B-1B Lancer da Força Aérea dos EUA

Os embaixadores dos Estados-membros da NATO foram convocados para uma reunião de emergência, esta sexta-feira, depois do anúncio da retirada dos Estados Unidos do Tratado de Céus Abertos, acusando a Rússia de o violar.

 

Os Estados Unidos informaram os parceiros internacionais que iriam retirar-se do chamado Tratado de Céus Abertos, que permite a mais de 30 países promover voos de observação desarmados sobre os respetivos territórios e que foi estabelecido há décadas para promover a confiança mútua, acusando Moscovo de não cumprir os termos do acordo.

O anúncio de retirada dos Estados Unidos prejudica as relações com a Rússia e deixou um rasto de desconforto em alguns aliados europeus, que beneficiam das imagens obtidas pelos voos do Céus Abertos.

Entretanto, os embaixadores dos países membros junto da NATO foram convocados para uma reunião de emergência para analisar a situação, depois de reações de preocupação por parte da Rússia e mesmo de uma admissão de possibilidade de recuo na intenção por parte do Presidente norte-americano, Donald Trump.

 
 

A diplomacia russa já tinha alertado para os riscos da decisão dos Estados Unidos. “A retirada dos Estados Unidos deste tratado significa não apenas um golpe para a fundação da segurança europeia, mas também para os mecanismos militares de segurança e para os interesses essenciais dos próprios aliados dos Estados Unidos”, reagiu o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Alexandre Grouchko.

Após esta reação de Moscovo, Trump admitiu que os Estados Unidos pudessem reconsiderar a decisão de sair do tratado, desde que a Rússia cumpra o estabelecido.

“A Rússia não cumpriu o tratado. Por isso, até que eles o cumpram, nós manteremos a decisão de sair. Mas há boas hipóteses de podermos fazer um novo acordo ou fazer alguma coisa para o recuperar”, disse aos jornalistas.

“O que eu acho que vai acontecer é que vamos sair e [os russos] vão querer voltar e fazer um acordo”, explicou o Presidente norte-americano.

A Administração Trump justificou a decisão de abandonar o Tratado de Céus Abertos (Treaty on Open Skies) pelo facto de a Rússia estar a violar o tratado, para além de argumentar que imagens recolhidas durante os voos podem ser obtidas mais rapidamente e com menos custos através dos satélites comerciais norte-americanos.

No entanto, a retirada de Washington deste tratado destinado a promover a confiança mútua entre os países signatários e evitar conflitos, deverá agravar as relações com Moscovo e suscitar críticas dos aliados europeus e de alguns membros do Congresso.

Em 1955, o Presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, propôs que os EUA e a União Soviética permitissem voos de reconhecimento aéreo mútuos nos respetivos territórios.

Moscovo rejeitou inicialmente a ideia, mas o Presidente George H. W. Bush retomou a proposta em maio de 1989, e o tratado entrou em vigor em janeiro de 2002. 34 países assinaram o tratado, enquanto o Cazaquistão também se comprometeu com projeto, mas optou por não o ratificar até ao momento.

// Lusa

 
 
 

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EUA ameaçam aumentar repressão à Huawei caso empresa contorne novas restrições de venda de chips

Bandeira dos EUA e smartphone com o logotipo da rede Huawei e 5G em uma placa-mãe de computador, 29 de janeiro de 2020
© REUTERS / Dado Ruvic

O Departamento de Comércio dos EUA anunciou novas restrições de venda de semicondutores à Huawei e Departamento de Estado diz estar analisando "as tentativas de contornar as regras".

O Departamento de Comércio dos EUA impôs licenças obrigatórias a produtores mundiais para a venda de semicondutores à Huawei que sejam feitos usando tecnologia dos EUA. A regra não cobre os chips que são enviados diretamente para os clientes da Huawei, o que gera preocupações nos EUA de que a empresa possa se aproveitar dessa lacuna.

As autoridades norte-americanas indicaram que podem restringir ainda mais as leis que visam limitar as vendas globais de chips ao gigante tecnológico chinês.

Na semana passada, o Departamento de Comércio dos EUA anunciou uma nova regra que exige que as empresas estrangeiras obtenham uma licença norte-americana para poderem vender semicondutores à Huawei fabricados com tecnologia dos EUA.

A restrição expandiu o controle de Washington sobre o fornecimento de chips, que anteriormente cobria apenas equipamentos fabricados nos Estados Unidos. A TSMC, sediada em Taiwan, uma das principais fornecedoras de chips para a filial de semicondutores HiSilicon da Huawei, já suspendeu novas encomendas para cumprir as regras dos EUA.

Tanto a Huawei como a China criticaram a nova proibição, e Pequim ameaçou retaliar. Um mês antes do anúncio da nova restrição, a Huawei tinha começado a reduzir a produção de chips em Taiwan e a transferi-la para a China continental.

O presidente da China, Xi Jinping, e o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, chegam ao Congresso Nacional do Povo, em Pequim, no dia 22 de maio de 2020.

© REUTERS / CARLOS GARCIA RAWLINS
O presidente da China, Xi Jinping, e o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, chegam ao Congresso Nacional do Povo, em Pequim, no dia 22 de maio de 2020.

As novas licenças do Departamento de Comércio só se aplicam a chips concebidos pela Huawei, e não incluem as entregas diretas aos clientes da companhia chinesa, algo que os observadores da indústria chamam de lacuna.

Em resposta à pergunta se os EUA iriam fazer algo para tapar essa lacuna, Christopher Ashley Ford, funcionário do Departamento de Estado, disse aos repórteres na quarta-feira (20) que a própria regra forneceria ao governo "muito mais informações para fundamentar as decisões de controle de exportação, à medida que avançamos e tentamos encontrar a resposta certa para esses desafios, inclusive por meio de adaptação, se necessário, se a Huawei tentar contornar nossas regras de alguma forma".

Um funcionário do Departamento de Comércio, Cordell Hull, disse no mesmo briefing que os reguladores "vão analisar as tentativas de contornar as regras".

A administração Trump explorou várias outras formas de pressionar a Huawei, proibindo a empresa de concorrer a licitações do governo norte-americano e de fazer negócios com corporações dos EUA.

Ações anti-Huawei anteriores

Em dezembro de 2018, a diretora financeira da companhia chinesa, Meng Wanzhou, foi detida no Canadá e levada a tribunal com o objetivo de ser extraditada para os EUA sob acusação de fraude financeira com empresas que teriam violado proibições de comércio com o Irã. O Departamento de Justiça dos EUA ordenou a investigação.

Os EUA justificam as ações dizendo que a Huawei roubou propriedade intelectual e está espionando em nome do governo chinês, embora nenhuma evidência tenha sido liberada até agora para apoiar essas alegações, que tanto a Huawei quanto a China negam.

De acordo com muitos especialistas, a repressão contra a Huawei se encaixa em uma estratégia mais ampla de procurar minar a crescente influência política e econômica de Pequim.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020052215609905-eua-ameacam-aumentar-repressao-a-huawei-caso-empresa-contorne-novas-restricoes-de-venda-de-chips/

Cientista é demitida por se recusar a manipular dados sobre COVID-19 da Flórida, diz imprensa

 

Washington, 20 mai (Xinhua) -- Uma cientista norte-americana que criou o site de dados da COVID-19 na Flórida foi demitida no início desta semana por se recusar a manipular os dados da forma que as autoridades estaduais precisam para reabrir a economia, de acordo com a reportagem de um jornal local.

O Florida Today informou na quarta-feira que Rebekah Jones, que era a arquiteta-chefe do painel de dados e vigilância da COVID-19 da Flórida, destinado a fornecer um panorama em tempo real da situação local do coronavírus, foi demitida na segunda-feira pelo Departamento de Saúde do estado depois que foi removida de seu cargo como gerente de Sistemas de Informação Geográfica em 5 de maio.

A reportagem citou Jones dizendo à emissora de televisão CBS-12 em West Palm Beach que, ela foi demitida porque se recusou a "mudar manualmente os dados para reforçar o plano de reabertura" como ordenado.

Jones não deu mais detalhes, segundo a notícia.

O jornal, que primeiro cobriu a remoção de Jones de seu cargo no comando do portal de dados COVID-19 da Flórida, disse que Jones confirmou sua demissão em um e-mail, escrevendo: "Eu trabalhei nisso sozinha, dezesseis horas por dia durante dois meses, a maioria das quais eu nunca fui paga, e agora que isso aconteceu eu provavelmente nunca vou ser paga."

A reportagem disse que em um e-mail enviado na sexta-feira para pesquisadores e outros usuários de dados, Jones alertou que poderia haver mudanças em relação à acessibilidade e transparência dos dados do painel da Flórida sobre COVID-19.

As reportagens dos meios de comunicação locais e outros sobre a demissão de Jones levantaram uma preocupação com a integridade dos dados da COVID-19 na Flórida, que são citados como a base científica para apoiar as decisões sobre a reabertura da economia local.

O governador da Flórida, Ron DeSantis, disse que teve como base a ciência sua decisão de começar a reabrir seu estado, e que o site de dados da Flórida havia sido elogiado por especialistas federais em saúde.

Captura da tela do website de dados sobre COVID-19 da Florida em 21 de maio de 2020. (Xinhua)

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/21/c_139075106.htm

Recomendação de Trump sobre coronavírus pode matar pessoas vulneráveis, alerta especialista britânico

 

 Londres, 20 mai (Xinhua) -- Um professor britânico alertou que a recomendação do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre tomar uma droga antimalária para se proteger contra o novo coronavírus "poderia matar pessoas vulneráveis", informou em seu site o jornal britânico Liverpool Echo.

Trump disse à imprensa na segunda-feira que tomou hidroxicloroquina, que ele disse que poderia ser um tratamento potencial para o coronavírus, diariamente, apesar das advertências de que o medicamento pode causar problemas cardíacos.

"Algumas semanas atrás, comecei a tomá-la", disse ele. "Tudo o que posso dizer é, até agora eu pareço estar bem."

Calum Semple, professor de saúde infantil e medicina de surto na Universidade de Liverpool, disse na terça-feira que ele não recomenda o medicamento especialmente para as pessoas com maior risco de doença grave, emitindo uma forte refutação à sugestão de Trump.

"A cloroquina é absolutamente contra-indicada para as pessoas que têm diabetes e estão tomando medicamentos contra a doença. Ela pode causar uma queda profunda no açúcar no sangue e isso pode levar à morte, OK? Então, vamos ser absolutamente claros sobre isso, isso não é algo que estamos recomendando particularmente para as pessoas com maior risco de doença grave", disse Semple, citado pelo Liverpool Echo.

"Ela também causa problemas para as pessoas com doença hepática e os idosos, que têm má função renal, eles estão com alto risco de efeitos colaterais da cloroquina também, então sinto muito, estou muito decepcionado por ouvir isso", acrescentou Semple.

A Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos EUA alertou no final de abril contra o uso da hidroxicloroquina ou cloroquina para COVID-19 "fora do ambiente hospitalar ou um teste clínico, devido ao risco de problemas de ritmo cardíaco".

"A hidroxicloroquina e a cloroquina não se mostraram seguras e eficazes para tratar ou prevenir a COVID-19", disse a FDA em um comunicado. "Elas estão sendo estudadas em ensaios clínicos para a COVID-19."

Separadamente, um estudo divulgado pela Administração de Saúde dos Veteranos dos EUA no mês passado sugeriu que o medicamento é ineficaz no tratamento dos pacientes com COVID-19 e descobriu que os dois resultados primários para os pacientes tratados com o medicamento eram a necessidade de ventilação mecânica e morte.

Uma trabalhadora médica coleta amostra de cotonete em um ponto de teste COVID-19 de drive-thru em Washington D.C., nos Estados Unidos, em 19 de maio de 2020. (Foto por Ting Shen/Xinhua)

Uma mulher com máscara passa pelo Capitólio dos Estados Unidos em Washington D.C., nos Estados Unidos, em 15 de maio de 2020. (Xinhua/Liu Jie)

 

 

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http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/21/c_139074436.htm

O Mundo nunca mais vais ser o que já foi...

 CHINA VAI CONTRA ATACAR “ONDE MAIS DÓI”
 
A China está preparada para tomar uma série de medidas de resposta contra um plano dos Estados Unidos para bloquear o envio de semicondutores destinados à empresa chinesa de telecomunicações Huawei. Entre essas acções estão a de colocar empresas norte-americanas numa “lista de entidades que não são dignas de confiança”, a imposição de restrições a empresas norte-americanas como a Apple e a interrupção de compra de aviões à Boeing. As informações foram divulgadas por uma fonte próxima do governo de Pequim.
«Foi a segunda vez em apenas dois dias que as autoridades de Pequim sublinharam a intenção de reagir contra os Estados Unidos; e a primeira em que uma fonte associada ao governo citou empresas norte-americanas específicas. A reacção surge na sequência da sucessão de ataques de Washington contra a China, suficientes para provocar o que parece ser “um tsunami” de descontentamento entre as autoridades oficiais chinesas e também nos círculos de negócios.
Pequim já anteriormente reagira à acumulação de acções litigiosas nos Estados Unidos contra a China a propósito de alegadas responsabilidades chinesas na disseminação da pandemia de COVID-19 e, nesse sentido, está a ponderar tomar medidas preventivas punitivas contra indivíduos e entidades norte-americanas.
De acordo com análises que circulam na capital chinesa, os últimos movimentos de Pequim manifestam uma intenção de resposta de igual para igual no âmbito do aumento de tensão em curso entre as duas maiores economias do mundo e que tem repercussões políticas e económicas.
Muito recentemente o governo Trump fez adiar o embarque de semicondutores para a Huawei produzidos por fabricandos globais de chips. O Departamento do Comércio dos Estados Unidos informou que o adiamento decorre da alteração das regras de exportação e da lista de entidades envolvidas, de modo “a atingir estrategicamente a aquisição de semicondutores por parte da Huawei que resultem directamente de softwares e tecnologias norte-americanas”, de acordo com uma informação oficial.

Fazê-los “sentir onde mais dói”
“A China tomará contramedidas vigorosas para defender os seus direitos legítimos” no caso de os Estados Unidos avançarem com a intenção de alterar as regras e de impedirem que fornecedores essenciais de chips, incluindo a TSMC de Taiwan, vendam esses produtos à Huawei, disse uma fonte próxima do governo em declaração exclusiva ao Global Times.
As medidas incluem agregar as empresas norte-americanas envolvidas à “lista de entidades que não são dignas de confiança” da China, impor restrições ou iniciar processos nesse sentido a empresas norte-americanas como a Qualcomm, a Cisco e a Apple, de acordo com as leis chinesas sobre Revisão de Cibersegurança e Antimonopólio; Pequim pode também suspender a compra de aviões à Boeing.
As empresas citadas – Apple, Qualcomm, Cisco e Boeing – são todas altamente dependentes do mercado chinês.
“A China devem implementar essas contramedidas de maneira a que os Estados Unidos não ousem pedir por uma milha depois de terem entregado uma polegada”, disse He Weiwen, um ex-alto funcionário comercial e membro do Conselho Executivo da Sociedade Chinesa para Estudos da Organização Mundial de Comércio.
Nesse sentido, aconselhou a China a promover “investigações completas sobre empresas norte-americanas relevantes” e “fazê-las sentir onde mais lhes dói”.
Medidas punitivas contra grandes empresas dos Estados Unidos como a Qualcomm, Cisco e Apple” são como “bombas nucleares”, comentaram analistas.
“A China deverá iniciar uma interminável série de investigações sobre essas empresas, fazendo pairar espadas sobre as suas cabeças, o que diminuirá a confiança dos investidores e reduzirá as suas receitas no mercado chinês”, revelou uma outra fonte que desejou manter o anonimato. No primeiro trimestre de 2020 o mercado chinês representou 14,8% das receitas totais da Apple.

Uma reacção em cadeia na economia dos Estados Unidos
Os analistas económicos consideram que se os chips fabricados por essas empresas norte-americanas não puderem ser vendidos no mercado chinês, uma das suas mais importantes fontes de receitas, isso tornaria extremamente difícil às empresas tecnológicas dos Estados Unidos recuperar o investimento. Algumas poderão ficar atoladas nessas perdas.
A indústria de chips é uma das principais actividades exportadoras dos Estados Unidos e um dos poucos sectores que ainda gera superavit comercial, impulsionado, em grande parte, pelo crescimento de vendas na China, de acordo com um trabalho publicado pelo The Wall Street Journal; segundo este texto, a proibição de vendas de chips à China pode custar aos fabricantes norte-americanos a perda de receitas da ordem dos 36 mil milhões de dólares.
“O que também irá gerar uma reacção em cadeia atingindo outras actividades a montante e a jusante da produção de chips nos Estados Unidos”, sublinhou a fonte.

Boeing em queda livre
Quanto à Boeing, a China poderá anular todas as encomendas feitas ao grupo se os Estados Unidos insistirem nas suas posições, mesmo que isso implique que algumas empresas chinesas tenham de pagar pela quebra de contratos, disse uma fonte do sector da aviação ao Global Times.
Se a Boeing perder as encomendas chinesas, tratando-se de uma empresa à beira da falência só poderá salvar-se recorrendo à ajuda do governo dos Estados Unidos, acrescentou a fonte; salientou ainda que além das encomendas que já existiam a China poderia ainda contratar a compra de mais de cem aparelhos ao grupo norte-americano, num valor de mais de quatro mil milhões de dólares anuais.
A “dor” de que falam as fontes chinesas decorrente das respostas em preparação em Pequim atingirá não apenas as empresas citadas, como a Apple, a Cisco e a Boeing, mas também outras menores, provavelmente mais vulneráveis.
A maioria das empresas norte-americanas incluídas na lista das “entidades que não são dignas de confiança” são mais pequenas que os gigantes citados e altamente dependentes de empresas chinesas, disse Gao Lingyun, um especialista da Academia Chinesa de Ciências Sociais e próximo do governo de Pequim.
“Trata-se de empresas vulneráveis a medidas restritivas”, afirmou. “Do lado chinês, os custos da imposição de sanções são baixos; porém, a maioria dessas empresas norte-americanas de menores dimensões poderão ficar à beira do colapso”, acrescentou Gao. Essas contramedidas poderão, portanto, servir como um aviso “de primeiro nível” ao lado norte-americano.
O Ministério do Comércio da China anunciou há um ano que divulgará a sua própria lista de entidades estrangeiras que comprometem seriamente os interesses legítimos das empresas chinesas.
Essa lista de entidades “que não são dignas de confiança” incluirá organizações estrangeiras, indivíduos e empresas que bloqueiam ou encerram cadeias de abastecimentos ou adoptam medidas discriminatórias por razões não comerciais e cujas acções colocam em risco os negócios de empresas chinesas, consumidores e empresas globais. Uma vez integrada na lista, uma empresa enfrentará as medidas legais e administrativas consideradas necessárias; e a população chinesa será informada da situação.

Taiwan sofre por tabela
Especialistas revelaram que os procedimentos administrativos para a concretização dessas contramedidas serão os seguintes: as empresas chinesas informam as autoridades relevantes sobre os comportamentos inadequados de empresas norte-americanas em termos de mercado; os reguladores recebem, investigam e reúnem provas desses comportamentos; depois decidirão em conformidade se revogam as licenças de actuação dessas empresas na Chinas ou se se irão impor outras penalidades.
As restrições impostas à Huawei são um lembrete firme de que Taiwan não pode confiar nos Estados Unidos como parceiro comercial ou económico, disse Tom Fowdy, analista britânico de relações políticas e internacionais. Sublinhou, a propósito, que a Casa Branca pressionou a empresa taiwanesa TSMC a investir nos Estados Unidos e, poucas horas depois de dado esse passo, decidiu restringir os negócios com a Huawei em que também aquela está envolvida.
“É um comportamento extraordinariamente desonesto”, declarou Fowdy.
A Taiwan Semicondutor Manufacturing Co ou TSMC – a terceira maior fabricante de chips do mundo – anunciou recentemente que pretende construir uma fábrica de semicondutores de 12 mil milhões de dólares no Arizona no início do próximo ano, segundo a CNN. No entanto, de acordo com as mais recentes medidas norte-americanas de controlo das exportações, empresas estrangeiras como a TSMC que usem equipamentos de chips dos Estados Unidos têm de solicitar uma licença antes de enviarem componentes para a Huawei.
“O que o governo de Washington está efectivamente a fazer é forçar a TMSC a diminuir os seus negócios na Ásia devido a interesses específicos da política externa norte-americana, o que é extremamente traiçoeiro e desprezível”, afirmou Tom Fowdy.
Apesar de tudo, a China está a agir passivamente e em termos defensivos, protegendo os seus interesses legítimos, uma vez que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, montou uma conspiração contra a China a pretexto da pandemia de COVID-19. Em 6 de Maio, Trump prorrogou por mais um ano a ordem executiva assinada em 2019 em que declara uma “emergência nacional” que impede as empresas norte-americanas de usarem equipamentos de telecomunicações fabricados por entidades que representem “um risco contra a segurança nacional”, informou a Reuters.
A decisão foi concebida para atingir directamente as empresas chinesas Huawei e ZTE Corp.
Os Estados Unidos fracassaram na intenção de liquidar a Huawei com uma proibição que se prolongou por mais de um ano; e também estão cientes de que quanto mais durar a proibição maior será o custo a pagar pelas empresas norte-americanas, pelo que o tiro está prestes a sair pela culatra.
Por isso, o Departamento do Comércio dos Estados Unidos está prestes a assinar uma nova regra que permitiria a empresas baseadas no país trabalharem com a Huawei na definição de padrões para as redes 5G, informou a Reuters em 7 de Maio.
Analistas chineses consideram, porém, que não existe qualquer gesto de boa vontade nesta medida. Ela significa apenas que os Estados Unidos perceberam os custos de se recusarem absolutamente a cooperar com o maior contribuinte de patentes para a tecnologia de próxima geração, a 5G. As empresas norte-americanas estão a ficar bem atrás da Huawei nas patentes 5G.

Resposta assente na experiência
A China “documentou-se muito bem” sobre as ameaças e técnicas de repressão praticadas por Washington contra empresas chinesas, incluindo a Huawei, durante anteriores fases de confronto; por isso, possui agora um amplo conjunto de contramedidas nas mãos que podem atingir com precisão a economia dos Estados Unidos, disse Gao Lingyun. Daí, acrescentou, que se os Estados Unidos continuarem por esse caminho a China reagirá certamente sem qualquer hesitação.
“Adoptando contramedidas, a China acabará por beneficiar a situação entre Pequim e Washington, pois as relações e o comércio entre os dois países apenas podem voltar ao normal quando for derrotada a pequena fracção de políticos norte-americanos que prejudicam as relações bilaterais”, disse Gao.

Global Times/O Lado Oculto
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Sem água e entregue à má sorte. Nos EUA, teme-se uma “carnificina” na Nação Navajo

A Nação Navajo é a maior reserva índia dos EUA, abrangendo territórios dos Estados do Arizona, Utah e Novo México.

Os navajo, o maior povo indígena dos EUA, arriscam ser vítimas de uma verdadeira “carnificina humana” devido à pandemia de covid-19. Na Nação Navajo, a maior reserva índia dos EUA, é impossível cumprir a mais básica recomendação contra a covid-19 – lavar as mãos com frequência -, uma vez que muitas pessoas não têm sequer água potável.

 

A Nação Navajo é a zona dos EUA onde há mais casos de infectados per capita, com um número de contágios superior a Nova Iorque (em termos de proporção das respectivas populações residentes).

A CNN avança que a Nação Navajo, onde vivem cerca de 170 mil pessoas, tem 4 mil casos de infectados confirmados, o que significa à roda de 2,304 casos de covid-19 por 100 mil pessoas.

Em comparação, Nova Iorque tem uma taxa de 1,806 casos por 100 mil pessoas.

 
 

Uma prevalência de casos que muitos associam à pobreza e à falta de condições gerais, inclusive à escassez de água potável. Há quem tenha que percorrer 30 quilómetros para encontrar uma fonte de água potável para beber, cozinhar ou simplesmente lavar as mãos.

Abrangendo o território de três Estados (Arizona, Utah e Novo México), a extensão de terras da Nação Navajo é uma pequena parte do território que, outrora, foi dos índios. Se fosse um Estado, seria o mais pobre dos EUA.

Quase 40% dos navajos que vivem na reserva não têm água potável, segundo dados apurados pela BBC Mundo. Muitas pessoas reutilizam água para lavar as mãos, o que põe em causa a manutenção de boas condições de higiene.

A electricidade é outro luxo que não chega a todos.

O território tem elevados índices de pobreza, problemas de drogas, de violência sexual e de desemprego, além de baixos níveis de educação e condições de habitação precárias. A falta de serviços de saúde é outro dilema que os locais enfrentam.

“Somos um deserto de comida”

Mas até o acesso a comida saudável é complicado. Há quem tenha que se deslocar 65 quilómetros para chegar ao supermercado mais próximo.

Somos um deserto de comida, os supermercados são poucos e as ofertas são escassas. Isto faz com que o distanciamento social seja mais difícil” e “por estarmos mal alimentados, podemos fazer menos frente ao vírus”, destaca em declarações à BBC Mundo a delegada Kanazbah Crotty do Conselho da Nação Navajo, um órgão que faz parte do governo da reserva.

“A comida mais acessível é a de pior qualidade e isso leva a que tenhamos altos índices de diabetes, de obesidade, de doenças cardiovasculares, que são condições que sabemos que influenciam na mortalidade do coronavírus”, aponta Kanazbah Crotty.

“Também temos problemas respiratórios e cancro porque temos minas de carvão e de urânio que são coisas que impactaram os nossos corpos durante anos e que debilitaram a resposta que podíamos ter contra o vírus”, diz ainda a delegada do Conselho da Nação Navajo.

Cerca de metade da população da reserva é obesa e quase um quarto sofre de diabetes, o que pode ajudar a explicar que haja uma grande taxa de mortalidade na faixa etária entre os 55 e os 65 anos de idade, ao contrário da maioria dos países, onde as mortes ocorrem, sobretudo, em pacientes com mais de 70 anos.

“A tempestade perfeita” para “carnificina humana”

Na análise da directora do Centro Johns Hopkins para a Saúde dos Índios Norte-Americanos, Allison Barlow, a pobreza e as dificuldades da Nação Navajo que se têm arrastado ao longo dos anos criaram “a tempestade perfeita” para que uma crise como a do coronavírus provoque uma “carnificina humana”, como destaca na BBC Mundo.

“O que vemos hoje é resultado de um sistema falido e disfuncional que se manteve geração após geração”, critica Allison Barlow, apontando o dedo à “inacção do Governo federal que não respeitou, durante anos, as condições dos acordos com estas nações”.

Após a usurpação de terras aos índios, o Governo dos EUA assinou com a Nação Navajo um acordo, onde se comprometia a disponibilizar-lhes serviços de Saúde, Educação e Segurança Social.

Mas, “na prática, o Governo federal falhou em financiar adequadamente e apoiar estes programas”, refere Allison Barlow. “O mau trato às comunicados índias foi uma constante”, quer com democratas, quer com republicanos na Casa Branca, diz.

“A covid-19 só trouxe à luz o sistema falhado em que o Governo dos EUA os obriga a viver”, conclui Allison Barlow.

“Circunstâncias que são frequentes em nações de África”

Há relatos de pessoas que perderam grande parte da família em poucas semanas devido à covid-19.

“Nestas comunidades, às vezes há quatro gerações na mesma casa, pelo que se um fica doente, os demais membros da família também ficarão”, destaca à BBC Mundo a médica brasileira Carolina Batista que integra uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras que presta ajuda na reserva.

“Como podes implementar a básica e elementar medida de lavar as mãos quando não tens água corrente”, questiona ainda, em jeito de resposta para o dilema que os médicos enfrentam diariamente.

“O que muitos não esperavam é que circunstâncias que são frequentes em nações de África ou nações pobres da Ásia ou América Latina, também possam encontrar-se no país mais desenvolvido do mundo”, critica ainda Carolina Batista.

“Os hospitais são escassos e carentes de recursos e de pessoal”, lamenta ainda a médica brasileira.

Já a médica Michelle Tom, ex-basquetebolista profissional que voltou à Nação Navajo para ajudar o seu povo depois de se formar em Medicina, fala dos desafios que enfrenta, no seu dia-a-dia, num hospital do Arizona, na fronteira com a reserva. Falta de testes e de cardiologistas ou outros especialistas necessários para atender os casos mais complicados são algumas das situações que Michelle Tom cita num testemunho à BBC Mundo.

“Para toda a Nação Navajo, há apenas 25 camas de cuidados intensivos, pelo que muitos pacientes precisam de ser transferidos por ar para outros hospitais, a centenas de milhas daqui, e nesta doença, o tempo pode também significar a vida ou a morte”, desabafa.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/sem-agua-entregue-ma-sorte-nos-eua-teme-carnificina-na-nacao-navajo-325674

Desemprego nos EUA atinge 39 milhões de pessoas durante a pandemia

Um pedestre caminha de máscara durante a pandemia da COVID-19 em frente a uma barbearia fechada em Washington, nos EUA, em 8 de maio de 2020.
© REUTERS / Leah Millis

O número total de perdas de desempregados nos Estados Unidos chegou 39 milhões durante a pandemia do novo coronavírus.

O número de desempregados aumentou em 2,5 milhões apenas nas semana passada, informou o Departamento do Trabalho dos EUA nesta quinta-feira (21). Apesar do aumento geral, houve uma queda em relação à semana passada, quando quase 3 milhões de pessoas entraram com pedidos de seguro-desemprego no país.

Com o aumento de cerca de 1,7 ponto percentual de uma semana para a outra, a taxa de desemprego nos EUA chegou a 17,2%, ainda segundo o Departamento do Trabalho.

No primeiro trimestre de 2020, a economia dos EUA encolheu 4,8%, o maior declínio econômico desde a crise de 2008-2009. Embora quase todos os 50 estados norte-americanos tenham dado início à reabertura da economia, os economistas alertam para uma forte recessão no segundo trimestre, o que significa que as perdas de empregos podem permanecer consideráveis.

Moradora da cidade de Chelsea leva comida para casa, no estado de Massachusetts, EUA, 19 de maio de 2020

© REUTERS / Brian Snyder
Moradora da cidade de Chelsea leva comida para casa, no estado de Massachusetts, EUA, 19 de maio de 2020

Os maiores aumentos nos pedidos de seguro-desemprego no país aconteceram na Flórida. O estado norte-americano com forte impulso econômico em atividades de turismo e lazer, teve 48.222 pedidos a mais do que na semana anterior devido às demissões provocadas pela queda nas viagens de férias, situação forçada pela pandemia.

A Califórnia, por outro lado, teve a maior queda no número de pedidos de auxílio. O estado mais populoso dos EUA, com uma das economias mais diversificadas do país, viu uma queda de 103.590 registros em relação à semana anterior.

Os EUA são o país mais afetado pela pandemia do novo coronavírus. O país registrou mais de 1,5 milhão de casos de COVID-19 e 93.863 mortes causadas pela doença.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020052115608014-desemprego-nos-eua-atinge-39-milhoes-de-pessoas-durante-a-pandemia/

Donald Trump confirma saída dos Estados Unidos do Tratado de Céus Abertos

Avião de observação aérea Tu-214ON do Tratado Céus Abertos
© Sputnik / Maksim Blinov

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu retirar o seu país do Tratado de Céus Abertos, que permite o monitoramento periódico de seu território por aeronaves de outros países, de maneira a aumentar a confiança mútua.

De acordo com o chefe de Estado norte-americano, as motivações seriam o "fato" de que a Rússia estaria violando o acordo e porque as imagens obtidas durante esses voos de observação poderiam ser capturadas de maneira mais eficiente pelos satélites mantidos pelos EUA.

"A Rússia não aderiu ao tratado", disse Trump em conversa com repórteres, citado pela AFP. "Então, até eles aderirem, nós vamos ficar fora."

Segundo autoridades do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, não procede a acusação de que o país teria violado o tratado e Moscou rejeita qualquer tentativa de justificar uma saída citando alguma questão técnica desse acordo, que se mostrou uma base sólida para o aumento da segurança na Europa. 

 

​Mais cedo, o New York Times informou, citando fontes na Casa Branca, que os Estados Unidos planejam notificar a Rússia nesta sexta-feira (22) sobre sua saída do Tratado de Céus Abertos.

"A Rússia viola flagrante e continuamente suas obrigações sob o Céus Abertos e implementa o tratado de maneiras que contribuem para ameaças militares contra os EUA e nossos aliados e parceiros", afirmou mais cedo Jonathan Hoffman, assessor do secretário de Defesa norte-americano, Mark Esper.

Criado em 1992, o Tratado de Céus Abertos entrou em vigor no ano de 2002, sendo considerado, desde então, um importante dispositivo multilateral de monitoramento de possíveis atividades militares e, consequentemente, de aumento da segurança internacional. 

 

​​Para o vice-chanceler russo, Aleksandr Grushko, a saída dos EUA do acordo afetará os interesses de todos os outros 34 Estados-membros, incluindo os parceiros de Washington na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Mikhail Ulyanov, representante permanente da Rússia em organizações internacionais em Viena, destacou que o tratado funcionou por duas décadas garantindo transparência e alto nível de confiança em assuntos militares na região transatlântica. Mas a decisão do atual presidente norte-americano parece refletir a ideia de "nova era" no controle de armamentos do governo dos EUA, para quem isso deve significar "controle nenhum".

"Os Estados Unidos decidiram cortar mais um tratado multipartidário sobre controle de armas, desta vez, um que foi iniciado pelos próprios EUA", disse o diplomata.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020052115607714-donald-trump-confirma-saida-dos-estados-unidos-do-tratado-de-ceus-abertos/

Invadindo primeiro, negociando depois

Chegou a hora de negociar

Representante dos EUA na ONU propõe a Israel e Palestina iniciarem negociações enquanto governo israelense considera declarar soberania sobre territórios palestinos.

Em declaração na Organização das Nações Unidas, a embaixadora dos EUA na ONU, Kelly Craft, tentou ditar o que o Conselho de Segurança da ONU pode ou não fazer no conflito israelense-palestino:

"Este conselho não pode ditar o fim para este conflito. Nós só podemos encorajar as partes a se sentarem [à mesa de negociações] para determinar como eles querem progredir", publicou a Reuters.

Anteriormente, o chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, decidiu romper todos os acordos com os EUA e Israel como resposta aos planos de Tel Aviv de expandir sua soberania sobre territórios palestinos, em particular no Vale do Jordão.

Por sua vez, o enviado da ONU para o Oriente Médio, Nickolay Mladenov, disse que "Israel deve abandonar sua ameaça de anexação".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2020052115606767-invadindo-primeiro-negociando-depois/

Por que as relações entre EUA e China atingiram ponto tão baixo?

Pedestre passa por muro grafitado com imagem do presidente da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, em Berlim, Alemanha, 29 de abril de 2020
© AP Photo / Markus Schreiber

A Sputnik explica por que as relações entre os EUA e a China estão em um ponto tão baixo e investiga se há risco de conflito militar entre as duas potências econômicas mundiais.

Nesta semana, a comunidade internacional se reuniu em assembleia na Organização Mundial da Saúde (OMS) para debater estratégias de combate à pandemia de COVID-19.

Mas os esforços foram parcialmente minados por uma renovada campanha anti-China, conduzida pelos EUA, cujo recrudescimento surpreendeu especialistas. O presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou inclusive romper relações diplomáticas com a China.

A China, por sua vez, passou a responder de maneira ríspida às acusações de que é alvo. Essa nova postura chinesa foi apelidada pela mídia local de "diplomacia do lobo guerreiro".

Porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, durante briefing, em Pequim (foto de arquivo)

© AP Photo / Andy Wong
Porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, durante briefing, em Pequim (foto de arquivo)

Por que as relações entre EUA e China vão tão mal? Existe risco das duas maiores economias do mundo entrarem em conflito armado? A Sputnik Brasil conversou com dois especialistas para entender o que está por trás da troca de acusações entre Pequim e Washington.

Campanha eleitoral nos EUA

Para começo de conversa, é necessário considerar que o presidente dos EUA, Donald Trump, está em plena campanha eleitoral.

Para o professor do Insper e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP Carlos Eduardo Lins da Silva, a retórica dura de Trump "tem muito mais a ver com a campanha eleitoral [nos EUA] do que com qualquer mudança programática de política externa".

"Trump precisa mostrar a seus eleitores que ele é duro tanto com a China, quanto com a Rússia. E para ele não há nada mais prioritário do que reeleger-se", disse Lins da Silva à Sputnik Brasil.

No entanto, independentemente da reeleição, há consensos bipartidários nos EUA em torno da necessidade de conter a China, acredita Bruno Hendler, coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria.

Presidente dos EUA, Donald Trump, usa óculos protetores durante visita a fábrica de máscaras em Phoenix, no Arizona (EUA), 5 de maio de 2020

© AFP 2020 / Brendan Smialowski
Presidente dos EUA, Donald Trump, usa óculos protetores durante visita a fábrica de máscaras em Phoenix, no Arizona (EUA), 5 de maio de 2020

"Os EUA conduzem uma política de Estado voltada para a contenção geopolítica da China. A estratégia é constante, mas a tática pode variar de governo para governo", disse Hendler à Sputnik Brasil.

Interdependência econômica?

As economias de China e Estados Unidos são mutuamente dependentes e já estiveram tão conectadas que especialistas acreditavam que, entre os dois países, havia uma situação de destruição econômica mútua assegurada: "Se um quebrasse, o outro também quebraria", explicou Hendler.

Essa interdependência, no entanto, vem mudando e favorece cada vez mais a China, acredita Hendler. "A China não é mais aquele país que vende produtos de baixo valor agregado para serem consumidos a preços baixos nos EUA."

"Temos três grandes fases da interdependência [...] Na primeira fase, nos anos 80 e 90, ela é favorável aos EUA. Na segunda fase, nos anos 2000, é uma interdependência virtualmente simétrica, ou equilibrada. A partir da crise de 2008, no entanto, ela vem se tornando gradualmente mais favorável para a China", explicou Hendler.

Depois da crise de 2008 nos EUA, a China teria percebido a necessidade de diminuir sua dependência dos consumidores norte-americanos e passado a investir em seu mercado interno.

Chinesas usam smartphones em parque da capital chinesa, Pequim, 14 de maio de 2020

© AP Photo / Ng Han Guan
Chinesas usam smartphones em parque da capital chinesa, Pequim, 14 de maio de 2020

Neste momento, a "China para de comprar títulos da dívida pública dos EUA" para investir "em empresas nacionais de infraestrutura e tecnologia de ponta". Essas "campeãs nacionais" vão receber apoio de bancos de fomento chineses.

"Nesse contexto, temos iniciativas como a Rota da Seda", que investe recursos chineses em países em desenvolvimento, e "bancos de fomento", como o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS.

Dessa forma, "a China tenta buscar outros mercados para ser menos dependente dos norte-americanos, e está sendo bem sucedida nisso".

Investimentos dos EUA na China

A retórica dura de Washington pode ser interpretada não como sinal de poder, mas de fraqueza. Os EUA seguem dependentes do mercado chinês, principalmente do retorno dos investimentos que suas empresas realizam na China.

"Os EUA estão muito vulneráveis porque não estão conseguindo conter o fluxo de investimentos que empresas norte-americanas fazem na China", explicou Hendler.

Em 2017, a renda total das companhias americanas na China foi estimada em US$ 544 bilhões (cerca de R$ 3 trilhões), recursos dos quais a economia dos EUA não pode prescindir.

"Enquanto a dependência da China em relação aos EUA diminui, a dependência dos EUA em relação à China aumenta cada vez mais", o que gera frustração em Washington, disse Hendler.

Empresas norte-americanas "do setor de entretenimento, da esfera de serviços e bens de consumo, seguem buscando o mercado chinês" em busca de melhores retornos.

Garota faz selfie durante reabertura de parque temático da Disney, em Xangai, na China, 11 de maio de 2020

© REUTERS / Aly Song
Garota faz selfie durante reabertura de parque temático da Disney, em Xangai, na China, 11 de maio de 2020

Essa frustração é expressa na "retórica dura" de Trump, que busca mobilizar seus eleitores e aliados europeus em uma campanha abrangente contra a China.

Pandemia de COVID-19

Se o relacionamento entre Pequim e Washington já estava bastante complicado em função das "guerras comerciais" travadas antes da COVID-19, a pandemia veio para complicar ainda mais esse quadro.

"A pandemia é uma oportunidade para endurecer o discurso em relação à China. É nítido que ela é usada como uma forma de populismo pelo Trump", acredita Hendler.

Lins da Silva nota que, apesar da "a China também se enfraquecer economicamente com a crise do coronavírus", ela está melhor posicionada para se beneficiar diplomaticamente da pandemia.

"[A China] tentará continuar ocupando o vácuo de liderança deixado por Trump nas organizações multilaterais e em diversas regiões do mundo, como África e América Latina", acredita Lins da Silva.

Vendedora de máscaras e protetores faciais fala com cliente em Nova York, EUA, 19 de maio de 2020

© REUTERS / Brendan Mcdermid
Vendedora de máscaras e protetores faciais fala com cliente em Nova York, EUA, 19 de maio de 2020

Hendler concorda, e acredita que a China utilizará o momento para impulsionar sua "diplomacia de saúde", voltada para países em desenvolvimento.

"A China tem uma política de exportações de serviços de saúde muito antiga. Com a COVID-19 eles estão exportando médicos e aumentando a sua projeção no sul global e na Europa", notou.

Os EUA, por outro lado, são o país mais afetado pela COVID-19 mundialmente e tomou algumas medidas pouco diplomáticas para garantir seu suprimento de equipamentos médicos, gerando atrito inclusive com França e Alemanha.

Agente de saúde se prepara para realizar teste de COVID-19 em criança, na cidade de Jian, província de Jiangxi, na China, 13 de maio de 2020

© AFP 2020 / STR
Agente de saúde se prepara para realizar teste de COVID-19 em criança, na cidade de Jian, província de Jiangxi, na China, 13 de maio de 2020

Portanto, os EUA podem sentir-se coagidos a recrudescer sua retórica contra a China e o clima "deve continuar tenso pelo menos até a eleição americana se realizar".

Conflito militar

Apesar da pandemia e das acusações mútuas, os especialistas não acreditam na eclosão de um conflito militar entre as duas potências.

"A possibilidade de um conflito aberto é mínima", acredita Hendler, que cita o "dilema nuclear" e lembra que "uma guerra aberta entre duas potências nucleares nunca aconteceu".

Além disso, apesar da retórica do presidente, "tem pessoas altamente qualificadas por trás da formulação da política externa norte-americana", que não apostam em uma guerra aberta com Pequim.

USS Barry navega pelo estreito de Taiwan, 23 de abril de 2020

USS Barry navega pelo estreito de Taiwan, 23 de abril de 2020

Lins da Silva argumenta que nem o presidente Donald Trump estaria interessado em um conflito militar de larga escala.

"Não vejo ameaça séria à segurança global nesse período, porque não interessa a Trump um conflito aberto e perigoso durante a sua campanha", concluiu Lins da Silva.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sputnik_explica/2020052115606406-por-que-as-relacoes-entre-eua-e-china-atingiram-ponto-tao-baixo-/

EUA bloqueiam proposta da Rússia sobre soberania da Venezuela no Conselho de Segurança da ONU

Sede das Nações Unidas com pouco tráfego por perto devido ao coronavírus, 15 de maio de 2020, Nova York
© AP Photo / Frank Franklin II

Representante russo na ONU confirmou a rejeição por parte dos EUA, nove minutos após a apresentação, da proposta russa sobre um diálogo intra-venezuelano para resolver a crise política do país.

Os EUA bloquearam uma proposta de resolução apresentada pela Rússia no Conselho de Segurança da ONU pedindo respeito à soberania venezuelana, relatou Dmitry Polyansky, vice-chefe da delegação russa.

Na quarta-feira (20), o Conselho de Segurança da ONU realizou uma discussão sobre a recente tentativa de incursão armada da Venezuela. O ministro venezuelano do Interior, Jorge Arreaza, disse que em 3 de maio as autoridades do seu país evitaram uma invasão naval de combatentes colombianos em embarcações de alta velocidade provenientes do departamento de La Guajira.

O presidente da Assembleia Constituinte da Venezuela, Diosdado Cabello, especificou que foram mortos oito atacantes. O presidente Nicolás Maduro disse que o objetivo da invasão era o seu assassínio e que entre os atacantes detidos estavam dois cidadãos norte-americanos, a quem ele chamou de agentes da guarda pessoal do presidente dos EUA.

As autoridades dos Estados Unidos e da Colômbia afirmaram não ter nada a ver com os acontecimentos.

A proposta de resolução dizia que os membros do Conselho de Segurança rejeitavam o uso ou ameaça de uso da força, conforme previsto na Carta da ONU, reafirmavam as resoluções sobre a condenação do terrorismo e todas as suas formas e manifestações, bem como o uso de mercenários.

"Os membros do Conselho de Segurança pedem que a situação atual na República Bolivariana da Venezuela seja tratada através do diálogo entre venezuelanos, sem interferência externa, por meios pacíficos e políticos" no quadro da Constituição do país "e com pleno respeito à soberania e integridade territorial da Venezuela", indicava o documento.

 

Este é o projeto proposto pela Rússia para ser adotado hoje, após videoconferência do Conselho de Segurança da ONU. Sem acusações, apenas apoio a coisas básicas comuns. Os EUA mataram a proposta no espaço de nove minutos após o início do procedimento de silêncio. Alguma pergunta sobre a posição "construtiva" dos EUA sobre a Venezuela?

Os protestos em massa contra Maduro começaram na Venezuela no início de 2019, após ele ter sido empossado como presidente. Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, controlada pela oposição, então se autoproclamou chefe de Estado interino.

Vários países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, reconheceram Guaidó como chefe de Estado. Por sua vez, Maduro chamou o dirigente do parlamento de "fantoche dos Estados Unidos". Rússia, China, Turquia e vários outros países seguem apoiando Maduro como presidente legítimo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020052115605657-eua-bloqueiam-proposta-da-russia-sobre-soberania-da-venezuela-no-conselho-de-seguranca-da-onu/

Trump volta a disparar contra China: 'Poderiam facilmente ter parado a praga'

Presidente dos EUA, Donald Trump, usa óculos protetores durante visita a fábrica de máscaras em Phoenix, no Arizona (EUA), 5 de maio de 2020
© AFP 2020 / Brendan Smialowski

O presidente norte-americano, Donald Trump, disparou mais um ataque verbal contra China, dizendo que Pequim poderia ter "facilmente" freado a pandemia e que agora está travando uma guerra de informação para escapar da responsabilidade.

Trump atacou Pequim em uma enxurrada de publicações no Twitter, aparentemente em resposta à recente declaração do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, que acusou o líder americano de "tentar enganar o público, difamar os esforços da China e transferir a culpa da incompetência dos EUA" ao lidar com a crise da COVID-19.

 

​O porta-voz fala estupidamente em nome da China, tentando desesperadamente desviar a dor e a carnificina que seu país espalhou pelo mundo. Sua desinformação e ataque de propaganda a Estados Unidos e Europa é uma desgraça...

… Isso tudo vem de cima. Eles poderiam facilmente ter parado a praga, mas não o fizeram!

O comentário da chancelaria chinesa veio após o envio de uma carta da Casa Branca à Organização Mundial da Saúde (OMS), ameaçando suspender permanentemente o financiamento americano se a organização não fizesse melhorias substanciais. Zhao pediu à comunidade internacional que continue apoiando a organização.

"Implicando com a China enquanto evitavam e barganhavam suas próprias obrigações internacionais na OMS, os EUA obviamente calcularam mal a situação e fizeram um movimento mal direcionado", ponderou o porta-voz chinês.

A carta da Casa Branca à OMS repetiu uma série de argumentos que o presidente Trump fez nas últimas semanas, acusando a organização de apresentar um viés pró-China e de ajudar Pequim a encobrir a gravidade do surto de coronavírus.

 

Presidente da China, Xi Jinping, durante participação por videoconferência na Assembleia da Organização Mundial da Saúde (OMS), 18 de maio de 2020

© AFP 2020 / Organização Mundial da Saúde
Presidente da China, Xi Jinping, durante participação por videoconferência na Assembleia da Organização Mundial da Saúde (OMS), 18 de maio de 2020

Washington inicialmente congelou o financiamento à OMS em abril sob as mesmas alegações, prometendo fazer uma revisão de sua resposta à crise do coronavírus, enquanto pedia a Pequim que aumentasse suas contribuições para a organização.

A China rejeita as acusações de Trump e prometeu um financiamento adicional à organização de dois bilhões de dólares (R$ 11,3 bilhões) nos próximos dois anos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020052115603669-trump-volta-a-disparar-contra-china-poderiam-facilmente-ter-parado-a-praga/

Trump: maior número de casos da COVID-19 dos EUA é 'distintivo de honra'

Presidente dos EUA, Donald Trump, fala com executivos do setor de serviços, na Casa Branca, em Washington, 18 de maio de 2020
© REUTERS / Leah Millis

O presidente dos EUA respondeu às críticas sobre a suposta falta de testes realizados no país, dizendo que o elevado número de casos é porque "nossos testes são muito melhores".

Donald Trump tem enfrentado críticas generalizadas pelo que foi visto como uma resposta lenta à pandemia e atrasos na mobilização eficiente dos testes para COVID-19 em todo o país, o que foi dificultado pela falta de disponibilidade de equipamentos e suprimentos cruciais.

O presidente norte-americano afirmou durante a primeira reunião do gabinete na Casa Branca desde o surto da COVID-19 nos EUA, na terça-feira (19), que era "um distintivo de honra" o país ter o maior número de casos confirmados de coronavírus no mundo.

"A propósito, você sabe quando você diz que nós lideramos nos casos, isso é porque temos mais testes do que o resto do mundo. Então, quando temos muitos casos, eu não vejo isso como uma coisa ruim, eu vejo isso como, de certa forma, como sendo uma coisa boa, porque significa que nossos testes são muito melhores", disse Trump.

O presidente dos EUA, que estava respondendo a uma pergunta de repórteres sobre se ele estava introduzindo uma proibição de viagens contra Brasil principalmente devido ao aumento de casos de COVID-19 lá, acrescentou:

"Então eu vejo isso como um distintivo de honra. Realmente, é um distintivo de honra. É uma grande homenagem aos testes e a todo o trabalho que muitos profissionais têm feito."

Combate ao coronavírus

Os membros do gabinete norte-americano saudaram os esforços do presidente em lidar com a pandemia da COVID-19, com o vice-presidente Mike Pence, que tem liderado a força-tarefa para coronavírus, anunciando que todos os 50 estados americanos abriram parcialmente suas economias.

O povo americano "está respirando ar livre e fazendo isso com responsabilidade", afirmou Pence, citado pela emissora CNN.

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, gesticula durante o evento de criação da Força Espacial dos EUA.

© AP Photo / Evan Vucci
O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, gesticula durante o evento de criação da Força Espacial dos EUA.

Um tweet do Comitê Nacional Democrata chamou 1,5 milhão de casos de COVID-19 de "completo fracasso da liderança" por parte do presidente.

As taxas de testes para coronavírus e o tratamento inicial da pandemia por parte da administração presidencial nos EUA têm sido criticados.

No final de abril, Trump afirmou em um briefing da força-tarefa da Casa Branca para coronavírus que as críticas à capacidade de testes do país para a COVID-19 eram "partidárias", acrescentando que "estamos lidando com política, estamos lidando com uma coisa chamada 3 de novembro, é chamada de eleição presidencial".

O presidente dos EUA atribuiu nesse mês responsabilidade aos estados.

 

Os estados têm que intensificar seus TESTES!

Até 19 de maio, os EUA haviam realizado 12,6 milhões de testes para coronavírus. Entre 300 mil e 400 mil testes foram realizados diariamente nos EUA na última semana, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

Estatísticas para os EUA

Atualmente, os Estados Unidos têm mais de 1,5 milhão de casos registrados de coronavírus, com o número de mortes em torno de 92 mil, de acordo com a Universidade Johns Hopkins.

Segundo Our World in Data, uma publicação científica baseada na Universidade de Oxford, Reino Unido, os EUA realizaram mais testes para a nova doença respiratória, por volume, do que qualquer outro país. No entanto, isto não é verdade em uma base per capita.

Os EUA estão na 38ª posição mundial em termos de testes por um milhão de pessoas, de acordo com o portal Worldometer. Isso os coloca à frente da Alemanha ou Coreia do Sul, mas atrás de Espanha, Portugal, Rússia, Itália ou Reino Unido.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020052015602405-trump-maior-numero-de-casos-da-covid-19-dos-eua-e-distintivo-de-honra/

'Império em declínio': EUA negam colapso econômico futuro no palco mundial, diz especialista

O Touro de Wall Street no bairro de Manhattan de Nova York, Estados Unidos, 16 de janeiro de 2019
© REUTERS / Carlo Allegri

Na opinião de um professor norte-americano, os déficits fiscais do governo dos EUA são benéficos para os ricos, que ganham cada vez mais dinheiro para tornar o resto do país dependente deles.

Os EUA estão vivendo uma ilusão sendo financiados pelo bloco de ricos com fortunas cada vez maiores, disse na terça-feira (19) um especialista à Sputnik Internacional.

Richard Wolff, professor emérito de economia da Universidade de Massachusetts, em Amherst, discutiu a economia dos Estados Unidos e falou da dívida do país, que está engordando.

"Somente na América existe alguma ambiguidade" sobre se os EUA "perderam ou não seu poder econômico global", argumentou Wolff. "Todo mundo vê isso, e é isso que Trump representa para o resto do mundo: a flacidez em torno de um império em declínio."

"Isto é um sinal para todos de que algo está errado", disse ele. "[Se é errado] por si só? Não, mas em conjunto com outros sinais é muito perigoso estar contraindo dívidas do jeito que estamos neste país, neste momento."

O professor argumentou que, ao invés disso, o governo norte-americano deveria tributar os indivíduos ricos e as grandes corporações a um grau mais elevado. "Se o governo fizesse isso, não teria que pedir emprestado", argumentou ele.

Um grupo de pedestres caminha pela Times Square enquanto as ruas permanecem relativamente calmas devido à continuação do surto da doença do coronavírus (COVID-19) no bairro de Manhattan, Estados Unidos, 5 de maio de 2020.

© REUTERS / Lucas Jackson
Um grupo de pedestres caminha pela Times Square, Nova York, em meio ao surto da doença do coronavírus

O economista explicou que quando indivíduos ricos e grandes corporações não são tributados adequadamente ou recebem grandes cortes de impostos, como os concedidos por uma lei do Partido Republicano em dezembro de 2017, eles então pegam o dinheiro que economizaram e "emprestam-no ao mesmo governo", que tem que pagá-lo de volta com juros.

Déficits correntes podem ser bons para os ricos, afirmou, mas "isso é terrível para a economia como um todo".

Wolff destacou que este tipo de comportamento que beneficia os ricos em detrimento da economia "é típico dos finais de um império, e é o tipo de comportamento que acaba mordendo os ricos e as corporações onde mais dói, por que sua ganância os levou para além de uma situação razoável".

Situação com a China

O professor também destacou que a República Popular da China é atualmente o maior credor dos EUA. Isso significa que uma parcela dos impostos pagos ao governo federal por cidadãos norte-americanos é enviada à China para cobrir dívidas de Washington.

"O mesmo governo que é atacado por Trump e pela maioria dos republicanos e democratas, como um esporte político diário, é financiado por essas mesmas pessoas, e tem sido durante décadas", apontou Richard Wolff.

No entanto, quando Trump foi perguntado em 30 de abril se ele cancelaria as obrigações de Washington com Pequim como medida de retaliação por seu suposto fracasso em conter o novo coronavírus dentro da cidade de Wuhan, ele considerou em vez disso a ideia de colocar novas tarifas à China.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020052015602208-imperio-em-declinio-eua-negam-colapso-economico-futuro-no-palco-mundial-diz-especialista/

Os ataques do governo Trump à China e à OMS

A OMS, no contexto de escassa solidariedade internacional e enfraquecimento dos organismos multilaterais, tem cumprido papel destacado em termos de orientação cientifica, emitindo protocolos sanitários e diretrizes eficientes, como o isolamento social a testagem em massa.

 

 

A Assembleia Mundial da Saúde, reunião anual de tomada de decisões da Organização Mundial da Saúde (OMS) por seus 194 membros, foi um palco para o mundo conhecer ideias e propostas para o combate à Covid-19. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recusou-se a discursar, ao passo que o presidente da China, Xi Jinping, falou logo na abertura, anunciando que Pequim doará US$ 2 bilhões para combater o coronavírus e despachar médicos e suprimentos médicos para países pobres.

A contribuição é superior ao dobro do que os Estados Unidos estavam contribuindo com a OMS antes de Trump cortar o financiamento do seu país no mês passado, o que faz da China a vanguarda dos esforços internacionais para conter a pandemia. Xi Jinping afirmou que uma eventual vacina em seu país será imediatamente universalizada. “Na China, depois de fazer esforços e sacrifícios minuciosos, mudamos a situação do vírus e protegemos vidas”, disse ele. “Fizemos tudo ao nosso alcance para apoiar e ajudar os países necessitados”, enfatizou.

Os Estados Unidos reagiram batendo na velha tecla de que o presidente chinês estava tentando ocultar informações sobre a Covid-19. Alex Azar, secretário de Saúde e Serviços Humanos do governo estadunidense – conhecido lobista e executivo farmacêutico – atacou a China acusando o país de ser o responsável pelo descontrole do surto mundial de coronavírus, com a conivência da OMS.

Outros líderes mundiais criticaram a falta de unidade no combate à pandemia. Sem citar nenhum país, instaram as nações a deixar de lado suas diferenças. “Nenhum país pode resolver esse problema sozinho”, disse, por exemplo, a chanceler Angela Merkel, da Alemanha. “Devemos trabalhar juntos.”

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ignorou o governo Trump ao não considerar as suas alegações amplamente rejeitadas por cientistas de que o coronavírus se originou em um laboratório na China. Em seu discurso, Xi Jinping afirmou que a China, “com árduos esforços e enormes sacrifícios, tem revertido a situação, conseguindo proteger a vida e a saúde do povo”.

Segundo ele, com atitude de abertura, transparência e responsabilidade, o país informou regularmente a OMS e seus países membros sobre a Covid-19. “Disponibilizamos na primeira hora a sequência genética do vírus, compartilhamos, sem reserva nenhuma, as experiências do controle e tratamento com todas as partes, e oferecemos todos os apoios e assistências dentro das nossas capacidades aos países em necessidade”. afirmou.

A OMS, no contexto de escassa solidariedade internacional e enfraquecimento dos organismos multilaterais, tem cumprido papel destacado em termos de orientação cientifica, emitindo protocolos sanitários e diretrizes eficientes, como o isolamento social a testagem em massa. Mesmo dispondo de poucos recursos, tem ajudado sistematicamente os países mais pobres.

Ao atacar a OMS e a China, o governo dos Estados Unidos expõe a diferença entre duas concepções para o combate à Covid-19. A China, seguindo as orientações da OMS, controlou o coronavírus e criou as condições para a retomada da economia.

Já o governo Trump minimizou a pandemia e se ocupou de usá-la em sua guerra geopolítica, propagando fake news sobre a China. O resultado aparece nas estatísticas que mostram os Estados Unidos na liderança de contágios e mortes.

No Brasil, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, vai pelo mesmo caminho. Segundo ele, o país vive em cenário cor-de-rosa, absolutamente irreal. Na verdade, o Brasil está sem orientação, com o governo Bolsonaro insistindo no desrespeito às regras da OMS, atacando governadores que instituíram o isolamento social e se omitindo ao não garantir emprego e salário, sobretudo com socorro a micro, pequenas e médias empresas.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-ataques-do-governo-trump-a-china-e-a-oms/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=os-ataques-do-governo-trump-a-china-e-a-oms

[Manlio Dinucci] PLANO USA: Controlo Militarizado da População

Rockefeller Foundation Lays Out Massive COVID-19 Testing Action...
 
 
 
A Fundação Rockefeller apresentou o “Plano de Acção Nacional Covid-19”, indicando os “passos pragmáticos para reabrir os nossos locais de trabalho e a nossa comunidade”. No entanto, como aparece no título, não se trata apenas de medidas de saúde.

 

 
O Plano - para o qual contribuíram algumas das universidades de maior prestígio (Harvard, Yale, Johns Hopkins e outros) - prefigura um verdadeiro modelo social hierárquico e militarizado.

 

 
No topo, o “Conselho de Controlo da Pandemia, análogo ao Conselho de Produção de Guerra que os Estados Unidos criaram na Segunda Guerra Mundial”. Seria composto pelos “‘leaders’ do mundo dos negócios, do governo e do mundo académico” (assim enumerados por ordem de importância, em primeiro lugar, não os representantes do governo, mas os das finanças e da economia).

 

 
Este Conselho Supremo teria o poder de decidir produções e serviços, com uma autoridade semelhante à conferida ao Presidente dos Estados Unidos em tempo de guerra pela Lei de Produção de Defesa.

 

 
O plano prevê que sejam submetidos semanalmente ao teste Covid-19, 3 milhões de cidadãos dos EUA e que esse número deve ser elevado a 30 milhões de testes por semana, dentro de seis meses. O objectivo, a ser alcançado dentro de um ano, é atingir a capacidade de testar Covid-19 em 30 milhões de pessoas por dia. Para cada teste, prevê-se “um reembolso adequado, ao preço do mercado, de 100 dólares”. Assim, serão necessários, em dinheiro do erário público, “biliões de dólares por mês”.

 

 
A Fundação Rockefeller e os seus parceiros financeiros ajudarão a criar uma rede para o fornecimento de garantias de crédito e a assinatura de contratos com fornecedores, ou seja, com grandes empresas produtoras de medicamentos e equipamentos médicos.

 

 
  De acordo com o Plano, o “Conselho de Controlo de Pandemia” também está autorizado a criar um

 

 
“Corpo de Resposta à Pandemia”: uma força especial (não é por acaso que é denominada “Corpo” como o dos Marines/Fuzileiros Navais) com uma equipa de 100 a 300 mil componentes. Seriam recrutados entre os voluntários do Peace Corps e  dos Americacorps (oficialmente criados pelo Governo dos EUA para “ajudar os países em desenvolvimento”) e entre os militares da Guarda Nacional.(1)

 

 
Os membros do “Pandemic Response Corps” receberiam um salário bruto médio de 40.000 dólares/ano, para o qual está prevista uma despesa estatal de  4 a 12 biliões de dólares por ano.

 

 
O “Corpo de Resposta à Pandemia” teria, sobretudo, a tarefa de controlar a população com técnicas do tipo militar, através de sistemas de rastreio e identificação digital, nos locais de trabalho e estudo, nos bairros residenciais, nos locais públicos e de deslocação. Sistemas deste tipo - recorda a Rockefeller Foundation - são fabricados pela Apple, Google e Facebook.

 

 
De acordo com o Plano, as informações sobre os indivíduos, relacionadas com o seu estado de saúde e com as suas actividades, permaneceriam confidenciais “na medida do possível”. No entanto, todas seriam centralizadas numa plataforma digital co-gerenciada pelo Estado Federal e por empresas privadas. Com base nos dados fornecidos pelo “Conselho do Controlo da Pandemia”, seria decidido, periodicamente, quais as áreas que estariam sujeitas a ‘lockdown’ e por quanto tempo. Este é, em resumo, o plano que a Fundação Rockefeller deseja concretizar nos Estados Unidos e não só.

 

 
Se fosse efectivado, ainda que parcialmente, haveria uma maior concentração do poder económico e político nas mãos de elites ainda mais reduzidas, em prejuízo de uma maioria crescente que seria privada dos direitos democráticos fundamentais. Operação realizada em nome do “controlo Covid-19”, cuja taxa de mortalidade, segundo dados oficiais, até agora tem sido inferior a 0,03% da população dos EUA.

 

 
No Plano da Fundação Rockefeller, o vírus é usado como uma arma real, mais perigosa do que o próprio Covid-19.
Manlio Dinucci
 
 
(1) Mencionado na pag. 17 do PDF da 'The Rockefeller Foundation'.  
     
 
 
il manifesto, 19 de Maio de 2020

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos 
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com
Webpage: NO WAR NO NATO

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

De um formal a um informal império americano no Afeganistão

A guerra quase esquecida

por B. Arjun

Mapa do Afeganistão. Em 21 de Fevereiro, iniciou-se o plano de sete dias de redução da violência no Afeganistão, negociado pelos EUA com os Talibãs. Posteriormente, as duas partes em guerra assinaram em 28 de Fevereiro um acordo para trazer a paz ao Afeganistão. Os Estados Unidos prometeram a retirada gradual das suas forças militares no Afeganistão. Espera-se que isto marque o princípio do fim do envolvimento americano da guerra no Afeganistão, com quase duas décadas, após os ataques de 11 de Setembro de 2001.

O ambíguo acordo entre os EUA e os Talibãs assinado em Doha, no Qatar, foi negociado durante mais de um ano. O governo do Afeganistão, apoiado pelos EUA, foi excluído destas negociações. Tratou-se de um acordo directo entre o império norte-americano e uma organização não governamental, o Emirado Islâmico do Afeganistão ou os Talibãs.

Este chamado acordo de paz é bastante ambicioso. O objectivo é atingir a redução do nível actual de tropas dos EUA e coligação de 12 a 13 mil para 8600 e é "baseado em condições". Segundo o acordo, espera-se que os Talibãs abandonem o movimento de rebelião e não estabeleçam contactos com grupos terroristas como a Al Qaeda.

Apesar de alguns sinais de despeito dentro da elite política afegã, o desejo de paz e do fim do domínio estrangeiro dos EUA é esmagador entre o povo do Afeganistão. O povo afegão está ansioso por um amplo diálogo intra-afegão para alcançar um cessar-fogo e uma paz duradoura no seu país.

Casa construída com mísseis. No dia seguinte à assinatura do acordo de Doha, os Talibãs lançaram um ataque contra forças do governo afegão. O ataque chocou a comunidade internacional que esperava que o acordo inaugurasse uma nova era em Cabul. Porém, após o choque inicial, as coisas parecem estar a voltar ao normal.

Os Talibãs reivindicam o acordo como uma vitória da sua luta nacionalista. No entanto, é tolice imaginar que os Estados Unidos estão a deixar o Afeganistão para sempre. O crescente envolvimento de Washington no Irão e na Ásia Central, para combater a aliança sino-russa simplesmente não permite que os norte-americanos voltem para casa.

É provável que o carácter do império dos EUA no Afeganistão possa sofrer uma mudança. De colónia formal, Cabul pode tornar-se uma colónia informal dos EUA. As autoridades militares americanas presentes em Cabul podem chegar a 1 000 ou até menos, mas os EUA continuarão a governar o Afeganistão.

Para muitos norte-americanos, o acordo de Doha é, em vários sentidos, um amargo de boca. Pouco faz para resolver as diferenças entre os vários senhores da guerra afegãos e o governo central em Cabul, há muitos anos um fantoche dos EUA.

Plantação de papoula. Andar de mãos dadas com os Talibãs, é uma proposta difícil para os liberais dos EUA. Nas mentes dos norte-americanos a rebelião dos Talibãs enquadra-se na categoria de "guerras injustas". São considerados uma organização terrorista, em torno da qual a narrativa de "guerra ao terror" foi construída nos últimos 20 anos.

Por outro lado, para os afegãos, é igualmente perturbador aceitar um acordo com a América que se dedica sem piedade a bombardear as suas cidades e arruinar o seu país.

Os EUA conseguiram superar a sua aversão aos Talibãs por razões pragmáticas. Como afirma um professor: "Sair do Médio Oriente pode realmente significar mais violência, em vez de menos, a curto prazo. Também pode significar que organizações como os Talibãs afegãos acabem detendo o poder nos seus próprios países, em vez dos liberais que os americanos preferem. Mas se alguém leva a sério o fim de uma guerra sem fim, essas são as trocas, às vezes dolorosas, que devem ser levadas em consideração."

Quem diz que os Estados Unidos saem porque não conseguiram vencer a guerra, recusa-se a entender que os EUA nunca ocuparam Cabul para construí-la nem conquistar os corações e mentes do povo afegão. Os Estados Unidos basicamente entraram em Cabul para alcançar os seus estritos objectivos geopolíticos, reforçar sua hegemonia e engordar o complexo industrial militar (CMI).

Esta prolongada guerra não é necessária aos interesses de segurança dos EUA, nem a oposição foi grande, continuou principalmente porque as elites políticas e económicas dos EUA precisam de violência contínua para justificar o seu imenso orçamento anual de defesa de 700 mil milhões de dólares.

A política internacional do pós-Guerra Fria deu a Washington um amplo espaço para se envolver em guerras ilusórias para apaziguar o CMI.

Dado que apenas 3 500 militares americanos e da coligação foram perdidos no Afeganistão, a elite americana usufruiu desta "guerra sem fim" na qual foram gastos cerca de 2 milhões de milhões de dólares e mortos dezenas de milhares de afegãos.

A questão é: por que desejam os Estados Unidos negociar com o seu inimigo das últimas duas décadas? Por que desejam os EUA considerar os Talibãs guardiões dos seus interesses no Afeganistão?

Uma razão clara é que a posição financeira americana está apertada. Nos EUA agora repensa-se nos custos envolvidos numa guerra prolongada, especialmente quando é difícil manter os interesses dos aliados. Além disso, à medida que o desafio sino-russo cresce, os EUA pretendem alcançar muito mais com muito menos e preservar os seus recursos para outras batalhas.

A assinatura do pacto de paz no Qatar foi testemunhada pelo embaixador indiano no Qatar, P. Kumaran. No entanto, foi um revés para a diplomacia indiana que trabalhou duramente para garantir que os Talibãs, apoiados pelo Paquistão, permanecessem na periferia de Cabul.

Agora, a Índia não tem escolha a não ser aceitar que os Talibãs não são mais um pária para os Estados Unidos, que pouco se importa com os interesses nacionais indianos.

O Paquistão certamente está feliz com a evolução, porque terá um regime que trabalhará para reduzir o envolvimento da Índia no Afeganistão.

Além disso, a elite diplomática paquistanesa congratula-se por ter desempenhado um papel crucial ao ajudar o governo de Trump a fazer um acordo com os Talibãs.

Olhando para o estado actual da geopolítica, é difícil ser optimista quanto às perspectivas de paz na região. Os Talibãs prometeram cuidar dos interesses de segurança de Washington no país, impedindo qualquer outra força estatal ou não estatal de usar o solo afegão para ameaçar os interesses dos EUA.

A questão é: como se comportará um regime dominado pelos Talibãs na Organização de Cooperação de Xangai e como reagirá às propostas da China e da Rússia para investimentos em infraestruturas. Os EUA permitirão que se aproximem da China e do Irão? Por quanto tempo os Talibãs continuarão a servir aos interesses americanos na região?

E, mais importante, por quanto tempo o CMI dos EUA continuará sem uma guerra? O desenvolvimento de novas armas exigirá novos campos de tiro real como o Afeganistão e a estratégia americana continuará a identificar novos locais para novas guerras.

17/Maio/2020

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/asia/afeganistao_17mai20.html

Inspetor demitido por Trump estaria a investigar venda de armas à Arábia Saudita

 

Representantes democratas no Congresso dos Estados Unidos afirmaram, esta segunda-feira, que o inspetor-geral do Departamento de Estado despedido na semana passada pelo presidente Donald Trump estava a investigar uma possível ilegalidade de uma venda de armas à Arábia Saudita.

 

O negócio terá sido efetuado em 2019 e, segundo os democratas, a informação “levanta novas questões” à forma como o inspetor-geral Steve Linick acabou abruptamente demitido, tendo o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo, vindo já a público negar qualquer ato de represálias quanto ao inquérito que estava em curso.

Os democratas indicaram que Linick estava a investigar a forma como o Departamento de Estado conseguiu vender armamento à Arábia Saudita no valor de 7.000 milhões de dólares (cerca de 6,5 milhões de euros) depois das objeções apresentadas pelo Congresso.

Inicialmente, os democratas tinham sugerido que a demissão teria ligações à investigação de alegações de que Pompeo possa ter dado ordens impróprias para elementos próximos de si transmitirem recados pessoais.

Até agora, nem a Casa Branca nem o Departamento de Estado avançaram qualquer explicação para o afastamento de Linick, situação que acontece no meio de preocupações dos democratas sobre a decisão de Trump demitir vários inspetores-gerais e alguns executivos de diferentes departamentos.

O Presidente dos Estados Unidos limitou-se a indicar que tinha perdido a confiança nos que despediu, mas não avançou as razões específicas.

Eliot Engel, o líder do Comité para os Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes, afirmou estar preocupado por Linick ter sido afastado antes de completar a investigação.

Engel, aliás, tinha pedido a investigação após Pompeo ter, em maio de 2019, invocado uma lei federal raramente utilizada para contornar a revisão do Congresso sobre as vendas de armas à Arábia saudita e aos Emirados Árabes Unidos.

“[O inspetor-geral] estava a investigar, a meu pedido, a falsa declaração de emergência de Trump para que se pudesse enviar as armas para a Arábia Saudita. Não temos ainda todos os dados, mas é preocupante que o secretário de Estado Pompeo tenha afastado Linick antes de a investigação acabar”, sublinhou Engel.

O presidente do Comité para os Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes disse ter pedido ao Departamento de Estado para entregar todos os documentos relacionados com o despedimento de Linick que ele próprio, bem como o senador Bob Menendez, também democrata e membro do Comité dos Negócios Estrangeiros mas por parte do Senado, tinham solicitado sábado passado.

Hoje, Pompeo negou que o afastamento de Linick esteja ligado a um “ato de represália” tendo como base a investigação em curso contra ele próprio.

“Não é possível que essa decisão seja fruto de uma vontade de represálias contra um inquérito que estava ou está em curso. É tão simples como isso, uma vez que nem sequer estava ao corrente” da investigação, afirmou o chefe da diplomacia norte-americana em declarações ao diário Washington Post.

Sábado passado, os eleitos democratas no Congresso dos Estados Unidos iniciaram o inquérito ao despedimento de Linick, medida anunciada por Engel e por Menendez.

“Contestamos firmemente o afastamento de inspetores-gerais por motivos políticos”, declararam Engel e Menendez, num comunicado. “O facto de Linick ter sido demitido das suas funções no decurso deste inquérito sugere fortemente tratar-se de um ato ilegal de represálias”, indicou Engel.

Os dois eleitos democratas exigem que os altos responsáveis do Governo conservem todos os documentos relacionados com este despedimento e que os transmitam até 22 de maio às comissões responsáveis pelo inquérito.

Segundo a CNN, o próprio Pompeo sugeriu o afastamento de Linick e escolheu pessoalmente o seu sucessor, Stephen Akard, um antigo colaborador do vice-Presidente Mike Pence.

De acordo com a lei norte-americana, a administração deve prevenir o Congresso com 30 dias de antecedência da sua intenção de demitir um inspetor-geral, para permitir a contestação da decisão pelos deputados.

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, declarou que Linick, nomeado em 2013 por Barack Obama para supervisionar os 70 mil milhões de dólares (64,7 mil milhões de euros) gastos pela diplomacia norte-americana, foi “punido por ter cumprido honradamente o seu dever de proteção da Constituição” e da “segurança nacional”.

Donald Trump afastou ou demitiu inspetores-gerais para o Pentágono, os serviços de informações ou o departamento de Saúde, e ainda um alto responsável científico, Rick Bright, que até finais de abril dirigia uma agência responsável pelas vacinas (Barda).

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/inspetor-demitido-trump-venda-armas-325275

Síria apreende estoque de armas dos terroristas incluindo vários mísseis antitanque dos EUA (FOTOS)

Armamentos abandonados por radicais na província de Daraa
© Sputnik / Ilya Smagin

Durante os últimos três anos as autoridades da Síria apreenderam armamento, munições, equipamentos de comunicação e materiais médicos suficientes para equipar um pequeno exército.

Muitas destas armas teriam sido secretamente enviadas para o país do exterior e pagas por governos que buscam a derrubada armada do governo da Síria.

Autoridades locais encontraram nesta terça-feira (19) no sul da Síria outro grande estoque de armas e munições, incluindo mísseis antitanque TOW de fabricação americana, informa a agência de notícias SANA.

As imagens mostram mais de uma dúzia de metralhadoras pesadas, um esconderijo de lançadores de granadas propulsadas por foguete, alguns ainda selados no invólucro de proteção, centenas de caixas de munição de vários calibres e pelo menos seis mísseis antitanque TOW, assim como bazucas de fabricação israelense M72 LAW, entre outros armamentos que incluem fuzis automáticos e de precisão e granadas de mão.

 

Quantidades de armas e munições foram apreendidas hoje, entre eles mísseis de fabricação americana deixados por terroristas na região sul da Síria.

Segundo informações, as armas foram apreendidas no âmbito das recentes operações de inspeção completa de áreas libertadas em províncias do sul do país árabe.

Em comentários à SANA, uma fonte do governo sírio disse que é habitual as autoridades encontrarem armamento fabricado nos EUA e em Israel entre os estoques de armas usadas por terroristas, além de descobrirem dezenas de túneis, armazéns de armas subterrâneos, grandes quantidades de equipamento logístico e quartéis-generais de comando e controle que eram utilizados para atacar postos avançados e áreas civis controlados pelo Exército sírio.

Nos últimos anos, em meio a suas operações exitosas para recuperar o controle das áreas anteriormente ocupadas por rebeldes e militantes jihadistas, o Exército da Síria descobriu dezenas de milhares de toneladas de armas, que variam desde armamentos ligeiros e lançadores de foguetes e explosivos C4, a caminhões armados com metralhadoras e até mesmo tanques.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020051915597853-siria-apreende-estoque-de-armas-dos-terroristas-incluindo-varios-misseis-antitanque-dos-eua-fotos/

EUA dão ordem de zarpar a diversos submarinos no Pacífico como mensagem para China, diz mídia

Marinha americana enviou simultaneamente ao mar todos seus submarinos de primeira linha localizados no Pacífico em mensagem "incomum" supostamente destinada à China.

A mobilização da flotilha de submarinos dos EUA no Pacífico teria como objetivo a condução de "operações de resposta de contingência" no oeste do oceano.

Além disso, o movimento seria uma prova de que a força militar não perdeu capacidade de agir, mesmo durante a pandemia do coronavírus, publicou o portal Military.com.

O movimento teria contado com pelo menos sete submarinos, incluindo quatro submarinos de ataque com base em Guam, o USS Alexandria, com porto em San Diego, Califórnia, assim como diversos vasos baseados no Havaí.

Mensagem à China

Ainda de acordo com o portal, o Pentágono deseja ser flexível e imprevisível na competição de potências globais com a Rússia e a China.

"Nossas operações são uma demonstração de nossa vontade de defender nossos interesses e liberdades de acordo com o direito internacional", publicou a Marinha americana citando o contra-almirante Blake Converse, comandante da força de submarinos dos EUA no Pacífico.

É válido ressaltar que submarinos de ataque tiram vantagem de sua "invisibilidade" para torpedear navios, disparar mísseis e conduzir operações de vigilância enquanto o inimigo aplica esforços a sua procura.

"A força de submarinos da Frota do Pacífico continua letal, ágil e pronta para lutar esta noite", acrescentou Converse.

Contudo, a movimentação de embarcações dos EUA em certas regiões do Pacífico gera atritos em suas relações com Pequim.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2020051915597215-eua-dao-ordem-de-zarpar-a-diversos-submarinos-no-pacifico-como-mensagem-para-china-diz-midia/

Rússia critica ameaças de Trump contra OMS: alegações dos EUA são insustentáveis

Donald Trump anuncia que os Estados Unidos vão suspender...
 

Rússia condena as ameaças feitas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de retirar os Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde devido a seu manejo da situação da pandemia do novo coronavírus.

A Rússia está contra as ameaças dos EUA contra a OMS, as alegações dos EUA são insustentáveis, afirmou Gennady Gatilov, o representante permanente da Rússia junto do Escritório das Nações Unidas em Genebra.

"É evidente que nós estamos contra [as alegações dos EUA], porque tanto nós como em princípio a maioria da comunidade internacional acreditamos que a OMS é exatamente aquela organização que deve coordenar a nível internacional as atividades dos Estados em matéria da saúde, e neste momento a prioridade é combater o coronavírus", disse Gatilov.

"Estes ataques de Washington à OMS são simplesmente insustentáveis. Se a OMS foi acusada de não ser transparente e ser ineficaz, então como devemos avaliar a situação de que, na sede da organização, a direção da OMS é composta por aproximadamente 90% de especialistas americanos, que ocupam posições de liderança, e eles estavam bem cientes tanto do início da pandemia, como de seu desenvolvimento", comentou.

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2020051915597206-russia-critica-ameacas-de-trump-contra-oms-alegacoes-dos-eua-sao-insustentaveis/

EUA e o seu estranho conceito de terrorismo

Melhores ofertas em voos para a Cuba | Air Europa

EUA vão incluir Cuba na lista de países que não cooperam na luta contra o terrorismo.

Não podemos dizer que a notícia cause estranheza, mas que constitui imensa desfaçatez é óbvio. Mas que lista é esta e qual a instituição credível e idónea que a publica?

Uma administração que alimenta focos de tensão a nível planetário, fornece equipamento e treino militar a grupos terroristas como é o caso do Daesh, ocupa países soberanos como é o caso do Iraque e da Síria, apoia o terrorismo na Venezuela como ainda recentemente se comprovou com a tentativa da invasão mercenária para derrubar um governo legitimamente eleito fala de combate ao terrorismo? …

Quem não servir os seus interesses usurpadores, aplica sanções unilaterais, não respeita o direito internacional, apodera-se de fundos de estados soberanos que se encontram em bancos americanos, incrementa um bloqueio genocida contra o povo cubano, e semeia o ódio entre as nações. O Imperialismo é maléfico, é criminoso.

Os argumentos do presidente Trump são bem conhecidos dos povos que lutam pela sua soberania.

É claro que sabemos que o conceito de terrorismo para os EUA do Sr. Trump não é o mesmo conceito dos combatentes pela Paz. Só é estranho, ou talvez não, que receba o apoio de muitos na Europa que hipocritamente empunham a bandeira da democracia.

Os EUA representam na actualidade o maior perigo à paz mundial tal é o seu envolvimento em conflitos de toda a ordem a nível planetário. Onde há guerra declarada lá estão os Yankees, e quando a guerra não é declarada são as ameaças, as sanções e a chantagem politica.

Os EUA provocam a guerra, Cuba apoia a vida e a saúde dos povos.

É bom que ninguém se esqueça disto!

Maio, 2020

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/19/eua-e-o-seu-estranho-conceito-de-terrorismo/

Helicóptero norte-americano incendeia campos de trigo no Nordeste da Síria

Um helicóptero tipo Apache incendiou cerca de 20 hectares de trigo na província de Hasaka. O ataque, denunciado pela população, insere-se na escala de provocações dos EUA no Nordeste do país árabe.

As forças dos EUA têm intensificado o patrulhamento nos campos de petróleo e gás no Nordeste da SíriaCréditos / Sputnik News

«Voando a baixa altitude, um helicóptero Apache dos EUA lançou várias bombas incendiárias, no domingo de manhã, ateando fogos e incendiando cerca de 20 hectares de campos de trigo perto da aldeia de Adlah, na região agrícola de Shaddadi», informou a agência SANA, com base em relatos dos habitantes.

As mesmas fontes acrescentaram que os caças norte-americanos costumam efectuar «voos de provocação», a rasar as casas dos agricultores e os campos agrícolas, «provocando o pânico e o medo, especialmente entre as crianças».

Estas acções enquadram-se num contexto de ocupação e acções de provocação crescentes, por parte das forças militares dos EUA, na região Nordeste da Síria, onde Washington mantém mais de uma dezena de bases militares ilegais e controla, juntamente com as chamadas Forças Democráticas Sírias (FDS; maioritariamente curdas), campos de petróleo e gás.

Damasco tem denunciado repetidamente a presença ilegal das tropas norte-americanas em território sírio, que classifica como «forças de ocupação», bem como o «roubo de recursos» sírios que levam a cabo.

É também neste contexto que Washington tem procedido ao reforço regular das suas bases na Síria, transportando material a partir no Iraque. No domingo, uma nova caravana, composta por 50 camiões e blindados, entrou na província de Hasaka através do posto fronteiriço de al-Walid, informou a SANA. Levava equipamento logístico e armas, segundo revelaram fontes locais, e dirigiu-se para Remelan, onde fica um dos maiores campos petrolíferos do país.

Entretanto, segundo informa a Prensa Latina, as tropas norte-americanas têm intensificado o patrulhamento nos campos de petróleo e gás nas províncias de Hasaka e Deir ez-Zor, com o apoio de helicópteros, aviões de reconhecimento e blindados.

Tropas turcas e seus mercenários também incendeiam campos

Extensas áreas de trigo e cevada foram queimadas, esta terça-feira, na província de Hasaka, perto da cidade de Ras al-Ain, junto à fronteira com a Turquia, informa a agência SANA, explicando que os fogos foram «ateados pelas forças de ocupação turcas como parte da sua estratégia terrorista para pressionar as populações a sair, sabotando as suas propriedades e colheitas».

Os incêndios hoje registados, que abrangeram campos em redor de várias aldeias, seguem-se a outros que, segundo a agência estatal síria, têm sido intencionalmente provocados pelos terroristas apoiados pela Turquia.

Os habitantes locais têm também acusado os mercenários ao serviço da Turquia e as forças curdas aliadas dos EUA de os impedirem de aceder aos campos agrícolas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/helicoptero-norte-americano-incendeia-campos-de-trigo-no-nordeste-da-siria

Trump dá ultimato à OMS após divulgar lista de 'erros' da organização no início da pandemia

Presidente dos EUA Donald Trump (foto de arquivo)
© AFP 2020 / MANDEL NGAN

Presidente americano acusa OMS de cometer erros no início da pandemia da COVID-19 e ameaça sair da organização caso essa não passe por reforma em 30 dias.

Donald Trump, presidente dos EUA, afirmou que seu governo conduziu uma investigação sobre o trabalho da Organização Mundial da Saúde (OMS) em relação ao início da pandemia do coronavírus, no final de 2019.

De acordo com Trump, a investigação apontou erros que a OMS teria cometido, afirmando que a organização teria trabalhado a favor da China.

"A Organização Mundial da Saúde ignorou sistematicamente reportes confiáveis sobre a propagação do vírus em Wuhan no início de dezembro de 2019 ou até mais cedo, incluindo reportes do jornal médico Lancet", afirmou o presidente em carta direcionada ao diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Ghebreyesus, e publicada em seu Twitter.

"É evidente que as repetidas falhas de sua parte e de sua organização em responder à pandemia têm sido extremamente caras para o mundo", escreveu Trump.

A organização foi acusada de saber que havia uma situação preocupante "de saúde pública" em Wuhan e não avisar o mundo.

Da mesma forma, a China também teria errado ao não reportar ao mundo sobre o início da propagação do SARS-CoV-2 a tempo, segundo Trump.

Sendo assim, a "falha em pressionar a China" para receber agentes de saúde da OMS de "forma oportuna" por parte da organização também foi objeto de crítica pela autoridade americana.

"O senhor parabenizou as restrições de viagens internas da China, mas inexplicavelmente foi contra o fato de eu fechar as fronteiras dos EUA, ou a proibição de entrada de pessoas vindas da China", acrescentou Trump.

Ultimato

Na carta de quatro páginas, além de apontar supostos erros da OMS e voltar a incriminar a China no contexto da pandemia, Trump expressou a possibilidade de seu país abandonar a OMS.

"Minha administração já discutiu com você em como reformar a organização. Porém, é necessária uma ação rápida [...] Por isso, é meu dever como presidente dos EUA lhe informar que, se a OMS não realizar melhorias substanciais nos próximos 30 dias, eu tornarei permanente meu congelamento do financiamento dos EUA à OMS e reconsiderarei nossa filiação na organização", afirmou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051915595306-trump-da-ultimato-a-oms-apos-divulgar-lista-de-erros-da-organizacao-no-inicio-da-pandemia/

(Multimídia) Chefe do Fed diz que recuperação econômica pode se estender até o final de 2021

Washington, 17 mai (Xinhua) -- A economia dos EUA se recuperará da pandemia COVID-19, mas o processo pode se estender até o final de 2021, disse o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell.

"Supondo que não haja uma segunda onda do coronavírus, acho que você verá a economia se recuperar de forma constante até o segundo semestre deste ano", disse Powell em uma entrevista que foi ao ar na manhã de domingo no programa "Face the Nation", da CBS.

"Para que a economia se recupere totalmente, as pessoas terão que estar totalmente confiantes. E isso pode ter que esperar a chegada de uma vacina", disse.

O chefe do Fed observou que as pessoas não devem "apostar" contra a economia americana no longo prazo, mesmo no médio prazo.

"Essa economia vai se recuperar. Pode demorar um pouco. Pode levar um período de tempo. Pode se estender até o final do ano que vem. Nós realmente não sabemos", disse ele.

Em um evento online realizado na quarta-feira pelo think tank Peterson Institute for International Economics, com sede em Washington, Powell alertou que uma recessão prolongada e uma fraca recuperação da pandemia poderiam levar a um longo período de baixo crescimento da produtividade e renda estagnada.

Embora a resposta econômica tenha sido "oportuna e apropriada no geral", pode não ser o capítulo final, dado que o caminho à frente é "altamente incerto" e sujeito a "riscos descendentes significativos", disse ele.

"O escopo e a velocidade desta desaceleração não têm precedentes modernos, significativamente piores do que qualquer recessão desde a Segunda Guerra Mundial", disse o chefe do Fed.

Mais de 36,5 milhões de americanos solicitaram o seguro-desemprego desde que a pandemia COVID-19 forçou o fechamento generalizado de negócios em meados de março, de acordo com o Departamento do Trabalho.

Foto tirada em 29 de abril de 2020 mostra o prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington D.C., nos Estados Unidos. (Xinhua/Liu Jie)

 

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/18/c_139066060.htm

EUA convocam a frente anti-China, que responde com a cooperação internacional

Diz-se que os anos 1900 foram o século americano. A assertiva não é tão fiel aos fatos, pois o século 20 foi a época também das revoluções populares e do socialismo, da União Soviética, da bipolaridade e da Guerra Fria.

Por José Reinaldo Carvalho*

china x eua

 

Decerto, foi o século em que entre os países imperialistas o hegemonismo estadunidense substituiu o britânico, quando os Estados Unidos constituíram o maior poderio político e militar, com o que cometeram crimes de lesa-humanidade, entre estes o uso – impune até hoje – da arma nuclear.

Foi o século americano no sentido da diplomacia do porrete, do intervencionismo, das políticas de guerra, das bases militares, da Otan como braço armado, das tentativas de exercício de domínio unipolar e unilateralismo, a despeito da existência da ONU e da consagração pela maioria dos países dos princípios do Direito Internacional.

Foi o século da ameaça americana.

Já os anos 2000 começaram e tendem a decorrer como o século do declínio desse imperialismo, de perda de terreno e fracasso. O século da ilusão americana.

Isto não significa que já esteja cristalizado um sistema internacional multipolar, que o mundo se desenvolverá isento de conflitos ou que o direito já venceu a força. Menos ainda que já esteja estabelecida a hegemonia da China, até porque não parece que o Partido Comunista, força dirigente daquele Estado socialista, persiga este objetivo.

Seja como for, os Estados Unidos orientam suas ações políticas, diplomáticas e militares para a luta anti-China, contra a qual propõem agora uma espécie de “frente ampla mundial”, meta inexequível na atual conjuntura, quando se revelam duas concepções e condutas antagônicas em política externa. E quando o mundo já não está disposto a se curvar perante as ameaças americanas.

Esse antagonismo se revela com toda a nitidez em meio à pandemia da covid-19. Neste domingo (17), na tentativa de fazer valer sua vontade imperial, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, afirmou que “o mundo deve se unir” para obrigar a China a pagar “os danos causados pela covid-19”.

O chefe da diplomacia americana insiste na surrada tese de que a China deve compensar os Estados Unidos e o mundo pelos danos que a pandemia causou à economia mundial: “o mundo deve impor o pagamento de custos à China” pelo coronavírus, disse Pompeo, que busca respaldar sua proposta em acusações infundadas: “sabemos que o vírus se originou em Wuhan” e que “o Partido Comunista Chinês foi implacável em nos negar a capacidade de determinar exatamente onde”. Pompeo afirma ainda que a China não informou a OMS em tempo hábil sobre o surto do novo coronavírus, “permanecendo calada sobre a magnitude da pandemia” e sonegando informações necessárias às pesquisas dos cientistas americanos.

A China já tinha dado uma resposta à altura a essas acusações infundadas. Na semana passada, o Ministério das Relações Exteriores da nação asiática publicou um artigo de 30 páginas refutando as “24 acusações absurdas” dos Estados Unidos.

Tudo indica que o governo de Donald Trump busca fora de suas fronteiras os pretextos para encobrir seu próprio fracasso no combate à covid-19 em seu território, onde a pandemia assume todas as características de crise humanitária. Em ano eleitoral, o inquilino da Casa Branca necessita de um apelo “nacionalista” renovado. O slogan “America first” já parece surrado e necessita do complemento de um inimigo externo a combater.

Mas a China não está disposta a ser o bode expiatório de Trump. Nesta segunda-feira, a resposta assertiva do presidente chinês Xi Jinping lançou a pá de cal sobre as pretensões dos EUA de criar a “frente mundial” anti-China. Em pronunciamento perante a 73ª Assembleia Mundial da Organização Mundial de Saúde (OMS), o líder comunista assumiu o compromisso de tornar “um bem público mundial” uma eventual vacina fabricada na China contra a covid-19 e dedicar US$ 2 bilhões em dois anos à luta global contra a enfermidade.

Uma lição na prática sobre o significado da política de desenvolvimento compartilhado formulada e aplicada pelo governo chinês.

O sonho americano de mandar no mundo esboroa-se ante a força dos fatos e a inelutabilidade das atuais tendências. Tudo indica que será em torno da China e não do imperialismo estadunidense que poderá ser formada uma frente de países, sob a bandeira da paz e da cooperação internacional.

*José Reinaldo Carvalho é jornalista e secretário-geral do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) 

 
 

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

China ameaça retaliar após restrições impostas pelos Estados Unidos à Huawei

 

A China classifica as restrições adotadas pelos Estados Unidos como “abuso do poder estatal” e ameaça retaliar.

 

O Ministério do Comércio da China disse, esta segunda-feira, que vai tomar “todas as medidas necessárias” para retaliar as restrições impostas pelos Estados Unidos ao uso de tecnologia norte-americana pelo grupo chinês das telecomunicações Huawei.

Em comunicado, o Ministério classificou as restrições adotadas por Washington como “abuso do poder estatal” e “violação dos princípios do mercado” e advertiu que constituem uma ameaça para a segurança da “cadeia industrial e de fornecimento global”.

“Os EUA usam o poder do Estado, recorrendo à desculpa da segurança nacional, e abusam das medidas de controlo sobre as exportações para oprimir continuamente e conter empresas específicas de outros países.” A China “vai tomar todas as medidas necessárias para salvaguardar, de forma determinada, os direitos e os interesses legítimos das empresas chinesas”, lê-se na mesma nota.

As novas regras estipulam que os fabricantes estrangeiros de semicondutores que usem tecnologia norte-americana devem obter licença para vender semicondutores fabricados para a Huawei.

 
 

O equipamento de design e fabrico de chips usado nas fábricas de semicondutores do mundo é fabricado sobretudo nos EUA, pelo que a nova regra afeta produtores estrangeiros que vendem para a Huawei e afiliadas, incluindo a HiSilicon, que projeta principalmente chipsets usados em telemóveis e estações base para redes sem fio da Huawei.

O Departamento de Comércio norte-americano disse que as empresas têm um período de carência de 120 dias para os chips já em produção.

A Huawei Technologies, a primeira marca global de tecnologia da China e líder no fabrico de equipamentos de rede e dispositivos móveis, está no centro de um conflito entre os Estados Unidos e a China motivado pelas ambições tecnológicas de Pequim.

Os Estados Unidos acusam a maior fabricante mundial de cooperar com os serviços secretos chineses. A Huawei nega a acusação e as autoridades chinesas dizem que o Governo de Donald Trump está a usar leis de segurança nacional para restringir um rival que ameaça o domínio exercido pelas empresas de tecnologia dos EUA.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/china-ameaca-retaliar-huawei-325043

O que Washington fez prova ser um obstáculo na luta global contra a COVID-19

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Beijing, 17 mai (Xinhua) -- Enfrentando os severos desafios da pandemia da COVID-19, o mundo vem fazendo esforços conjuntos para combater a doença nos últimos meses, enquanto os Estados Unidos têm debilitado os empenhos globais para lidar com a crise.

 

INCOMPETÊNCIA NO ENFRENTAMENTO DA PANDEMIA

O número de casos de COVID-19 nos Estados Unidos ultrapassou 1,46 milhão com mais de 88 mil mortes até o domingo, de acordo com o Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas da Universidade de Johns Hopkins, tornando o país o lugar mais duramente atingido em todo o mundo.

Resposta tardia, ignorância da ciência e má coordenação nacional têm representado o problemático desempenho do governo dos EUA nos esforços antiepidêmicos.

Em 31 de dezembro de 2019, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) publicaram em seu site que as autoridades de saúde chinesas haviam relatado uma série de casos de doença respiratória aguda em Wuhan, Província de Hubei, no centro da China. Desde então, Washington tem recebido cada vez mais informações sobre a doença, mas não deu a devida importância.

Em 22 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse à CNBC um dia depois de o CDC ter confirmado o primeiro caso de COVID-19 no país, que os Estados Unidos tinham a situação "totalmente sob controle", e que "iria ficar tudo bem".

Embora o governo dos EUA tenha declarado uma emergência de saúde pública para responder à COVID-19 no final de janeiro, as convenções democratas e republicanas ainda foram realizadas no estado americano de Iowa em fevereiro. As seguintes primárias presidenciais em muitos estados levaram a várias reuniões em massa.

Na coletiva de imprensa da Casa Branca em 28 de fevereiro, Trump disse que alguns meios de comunicação dos EUA estavam "fazendo tudo o que podem para espalhar o medo entre a população e eu acho que isso é ridículo e que eles são muito desacreditados".

Foi só em 16 de março que a Casa Branca mudou sua postura anteriormente de descaso e anunciou diretrizes contra a epidemia.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, disse que se as diretrizes tivessem sido implementadas anteriormente, um período crucial na propagação exponencial do vírus teria sido mitigado e vidas americanas, salvas.

 

TRANSFERIR A CULPA E EVITAR RESPONSABILIDADES

Enquanto a China apela pela cooperação internacional na luta contra a COVID-19, Washington segue ocupado caluniando Beijing para desviar a atenção sobre sua própria resposta ineficiente à pandemia, avaliou um ex-diplomata sérvio.

Em 16 de março, Trump tuitou estigmatizando a China com acusações maliciosas, o que causou controvérsia e críticas dentro os Estados Unidos. Outros políticos de Washington também questionaram a transparência e acusaram a China de violar os direitos humanos por adotar as medidas necessárias de quarentena, e reforçaram o discurso racista.

Em 10 de maio, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, levantou "evidências significativas" sobre a origem do vírus em Wuhan. No entanto, ele não especificou quais eram as evidências nem entregou qualquer prova concreta para validar suas alegações.

Trump também acusou a Organização Mundial da Saúde (OMS) de "gerenciar e encobrir severamente a propagação do coronavírus" em abril.

"Seu poder deve se concentrar em cuidar dos outros e organizar recursos para a prevenção de doenças - não em transferir a culpa, elevar as classificações de aprovação, acertar pontuações ou demonizar as pessoas por causa da etnia ou nacionalidade", mencionou uma carta assinada publicada pelo The New York Times por mais de 70 estudiosos em saúde pública dos Estados Unidos e da China.

 

INTERRUPÇÃO À LUTA NACIONAL E GLOBAL

Em vez de coordenar os esforços contra o inimigo comum, a administração dos EUA manteve suas próprias formas de agir contra a disseminação da COVID-19.

A nível nacional, não houve nenhum esforço "que tenha reunido nada como o financiamento, coordenação ou recursos reais que os especialistas de todo o espectro político dizem ser necessário para reabrir o país com segurança", disse um artigo publicado pelo The Atlantic.

A nível internacional, Trump anunciou em 14 de abril que seu governo suspenderia o financiamento para a OMS. O anúncio foi então recebido com forte reação e crítica em todo o mundo.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a OMS lamentou a decisão dos EUA, pedindo a todas as nações que se unissem na luta contra o inimigo comum.

"A decisão do presidente Trump de desfinanciar a OMS é simplesmente - um crime contra a humanidade", tuitou Richard Horton, editor-chefe da The Lancet, acrescentando que "cada cientista, cada profissional de saúde, cada cidadão deve resistir e se rebelar contra essa terrível traição da solidariedade global".

"Como é míope quando a cooperação global é mais necessária agora do que nunca", tuitou Lawrence Gostin, diretor do Instituto O'Neill de Direito Nacional e Global em Saúde na Universidade de Georgetown, referindo-se à decisão da Casa Branca. E Washington "abandonou totalmente" a liderança dos EUA em saúde global.

O que o governo dos EUA tem feito prejudicou severamente a cooperação internacional que o mundo precisa para neutralizar essa crise sanitária.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/17/c_139064246.htm

Pentágono lançará enorme frota de pequenos satélites que poderão cobrir todo o planeta

Satélite espacial orbitando a Terra (imagem referencial)
© Depositphotos / Andrey Armyagov

EUA estão desenvolvendo programa militar que visa lançar ao espaço grande frota de satélites de órbita baixa capazes de monitorar toda a superfície do planeta.

Atualmente, o Pentágono opera satélites de grande porte e de grande custo operacional.

Para reduzir os gastos e aumentar a eficiência de seu sistema de satélites em caso de um deles ser abatido ou vir a cair, os militares americanos decidiram pela criação de frotas de satélites pequenos, de baixo custo e que ocuparão a órbita baixa da Terra.

Para tanto, está em desenvolvimento o Projeto Blackjack que deverá lançar seus primeiros satélites já em 2020 e 2021, publicou a Agência de Projetos de Investigação Avançados de Defesa dos EUA (DARPA, na sigla em inglês).

Ideia civil?

A ideia teria partido do programa Starlink da SpaceX. Atualmente, o programa opera diversos satélites em órbita baixa e que visam prover acesso à Internet a qualquer lugar do globo.

De forma semelhante, os satélites do projeto militar poderão cobrir todas as regiões do planeta dando informações importantes para o Pentágono de forma rápida e precisa.

Além disso, em caso de conflito militar, se os EUA vierem a perder um de seus satélites, este poderia ser substituído por outro próximo.

Tal substituição seria difícil de realizar caso o país dependa somente de grandes satélites para suas operações.

Por sua vez, o sistema Pit Boss será usado para o gerenciamento da frota, excluindo assim a necessidade de interferência humana no gerenciamento.

O primeiro aparelho a ser lançado ao espaço será o Mandrake 1, que carregará a bordo chips de processamento de supercomputadores. Logo em seguida, será lançado o Mandrake 2, um par de satélites pequenos com ligações intersatélite.

Como parte do projeto, a primeira constelação de satélites deverá carregar sensores para passar dados via rádio às tropas, assim como auxiliar sistemas de navegação, localização e cronometragem.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/defesa/2020051715590524-pentagono-lancara-enorme-frota-de-pequenos-satelites-que-poderao-cobrir-todo-o-planeta/

Covid-19: dois países nos EUA

 
 
 
Tal como no rescaldo do furacão Katrina em 2005, aepidemia Covid-19 põe a nu, de forma brutal, a realidade social da superpotência imperialista e o total desprezo das classes dominantes para com os trabalhadores e o povo dos EUA. Nem a comunicação social de regime consegue esconder essa realidade dramática.
 

As consequências desta Primavera (no Hemisfério Norte) de 2020 vão ser tremendas, e a História está ainda por escrever. Ainda é cedo para avaliar todo o impacto da pandemia Covid-19, mas as suas consequências serão múltiplas e profundas. Em muitos países, e nomeadamente nos centros imperialistas que são hoje o epicentro da epidemia, uma crise de saúde pública está a transformar-se numa catástrofe social. Mas as classes dominantes ao serviço do grande capital estão já a procurar usar a crise provocada pelo coronavirus SARS-CoV-2 como pretexto para justificar mais prebendas para o grande capital e mais sacrifícios para quem trabalha. Tal facto, que marca todo o mundo capitalista, é particularmente evidente nos Estados Unidos da América.


Os EUA: uma tragédia com marca de classe

Tal como no rescaldo do furacão Katrina em 2005, aepidemia Covid-19 põe a nu, de forma brutal, a realidade social da superpotência imperialista e o total desprezo das classes dominantes para com os trabalhadores e o povo dos EUA. Nem a comunicação social de regime consegue esconder essa realidade dramática.

Escrevendo ainda antes de os Estados Unidos se tornarem o país com (de longe) o maior número de casos de Covid-19, o Financial Times (6.3.20) antevia a vulnerabilidade da superpotência imperialista. As causas referidas reflectem uma brutal e desenfreada exploração: «Responsáveis de saúde pública e académicos estão preocupados por a conjugação de um elevado número de pessoas sem seguros [de saúde], a inexistência de baixas médicas pagas e uma classe política que minimizou a ameaça poderem vir a significar que [o vírus] venha a alastrar de forma mais rápida do que noutros países […] alguns consideram que o país poderá vir a ser um dos mais afectados pela pandemia global. […] O alastramento do coronavirus pode ser alimentado pelo facto de pacientes recearem procurar cuidados [médicos], devido aos elevados custos do sistema de saúde nos EUA. Quase 18 milhões de americanos não tinham seguro [de saúde] em 2018 […]. Mesmo pacientes com seguros podem ver-se em dificuldades para pagar as contribuições que asseguram esses cuidados. […] Embora 11 Estados e 25 cidades tenham aprovado leis que obrigam as empresas a pagar baixas médicas, continua a não existir a exigência a nível Federal de o fazer, e activistas afirmam que cerca de 30% dos trabalhadores dos EUA ainda não têm esse direito. Peritos afirmam que isso pode aumentar o alastramento do coronavirus se trabalhadores doentes, com receio de perder a sua paga, acabam por ir trabalhar e infectar outros. De acordo com um estudo académico publicado em2012, a falta de políticas laborais tais como baixas médicas pagas levou a um excesso de 5 milhões de doenças de tipo gripal durante a eclosão da gripe porcina H1N1 em 2009».

Também no princípio de Março, o New York Times (9.3.20) explicava porque é que «o encerramento das escolas públicas será um último recurso»: «a cidade de Nova Iorque tem a maior rede de escolas públicas dos Estados Unidos […] com cerca de 750 000 crianças pobres, incluindo cerca de 144 000 sem abrigo [!]. Para estes estudantes, a escola pode ser o único lugar onde conseguem ter três refeições quentes por dia e cuidados médicos, ou até lavar a sua roupa suja. É por isso que as escolas públicas da cidade deverão permanecer abertas mesmo que o novo coronavirus se torne mais prevalente em Nova Iorque». Acrescenta que «mesmo um único dia de neve pode perturbar seriamente as vidas das crianças mais vulneráveis de Nova Iorque e os seus pais e outros parentes, cujos empregos muitas vezes não asseguram o pagamento de baixas». O artigo do NYT transmite um testemunho sobre a realidade da maior cidade dos EUA, nesta ‘era digital’: «Nicole Manning, uma professora de matemática do 9.º ano no liceu Herbert H. Lehman, no Bronx, calcula que quase metade dos seus alunos não têm acesso à internet em casa. ‘Não podemos fazer ensino à distância’, afirma. ‘Não seria justo’».

Ainda o NYT informava (20.3.20) que «pode afirmar-se que os EUA não estão apenas a seguir o curso de Itália, mas estão pior preparados, pois a América tem menos médicos e camas hospitalares per capita do que Itália – e uma esperança de vida menor, mesmo em tempos melhores». E isto apesar de em Itália o número de camas hospitalares por mil habitantes ter descido cerca de 25% nas últimas duas décadas de ‘euro-austeridade’ (Estatística de Saúde da OCDE).

Um artigo da CNN online (23.3.20) estima em 320 mil o número dos sem-abrigo no Reino Unido, para quem as instruções para «ficar em casa» têm um sabor particularmente amargo. Dá conta que «os bancos alimentares que garantem apoio vital a alguns dos 14 milhões de pobres estimados estão com falta de voluntários, muitos dos quais se viram forçados a auto-isolar-se, bem como da própria comida, no seguimento do pânico de compras nos supermercados». E acrescenta que a situação social agravou-se «após a crise financeira global de 2007-8» quando «milhares de milhões de libras foram retiradas do sistema de segurança social» a fim de efectuar «cortes radicais nas despesas estatais». Se nos lembrarmos dos milhões de milhões que têm sido entregues à banca neste mesmo período, para manter à tona um sistema financeiro falido, torna-se evidente que o capitalismo, mesmo nos seus principais centros, é uma criminosa máquina de gerar riquezas imensas à custa duma enorme pobreza.

A situação social agravou-se abruptamente com a eclosão da epidemia. Em apenas três semanas do final de Março a início de Abril, o número oficial de novos desempregados nos Estados Unidos cresceu quase 17 milhões, «um número que os economistas dizem que pode elevar a taxa de desemprego para 14%, superior ao pico da última crise financeira» (Financial Times, 9.4.20). Economistas do Banco da Reserva Federal de St. Louis estimam que o número de novos desempregados possa mesmo chegar aos 47 milhões, com uma taxa de desemprego de 32% (CNBC, 30.3.20). Esta realidade dramática levou à quebra de alguns sistemas informáticos para pedidos de subsídio, com a formação de longas filas de recém-desempregados (Newsweek, 8.4.20), que arriscaram o contágio para não ficarem sem o jantar. Nos EUA, a perda de emprego é também, muitas vezes, a perda a prazo da casa ou (se existir) do seguro de saúde.

Mesmo no plano estritamente médico, o impacto da epidemia tem a marca de classe. A ABC (3.4.20) relata que, «o vírus não poupou nenhuma parte da Cidade de Nova Iorque, mas novos dados mostram que os bairros mais pobres de Queens, Bronx e Brooklyn estão a ser particularmente atingidos». Uma fonte noticiosa de Chicago (WBEZ, 5.4.20) relata que «em Chicago, 70% dos mortos de Covid-19 são negros», uma percentagem muito superior aos 29% na população. E explica: «Historicamente, as comunidades negras de Chicago têm sido atingidas de forma desproporcionada por problemas de saúde, dadas a pobreza, a poluição ambiental, a segregação e o acesso limitado a cuidados médicos».

 


Os outros EUA

Mas se para os trabalhadores e o povo dos EUA a tragédia sanitária se transforma em calamidade, a realidade é outra para o grande capital. Tal como em 2008, o ‘dinheiro dos contribuintes’, que ‘não existe’ para despesas sociais, aparece logo, e em quantidades astronómicas, para sustentar o grande capital financeiro. Ainda antes do final de Março, o governo dos EUA abriu os cordões à bolsa, com «uma resposta fiscal no valor de 2 triliões de dólares», ou seja, $2.000.000.000.000. Mas o Financial Times (Martin Wolf, FT, 31.3.20) esclarece: «apenas um vigésimo [5%] desta quantidade irá para os hospitais […] e haverá um fundo de 500 mil milhões de dólares [25%] para as grandes empresas, que provavelmente estará debaixo do controlo, não supervisionado, do Sr. Trump». Os ‘mercados’ (nome de código para o grande capital financeiro) reagiram extasiados: o índice Dow Jones teve uma subida de 11,4% «a maior desde 1933» (FT, 24.3.20). Poucos dias depois, ‘há dinheiro’ para um novo pacote de «$2,3 triliões em créditos e para apoiar o mercado de dívidas de alto rendimento de grandes empresas [high-yield corporate debt]» (FT, 9.4.20). O ‘dinheiro dos contribuintes’ que estão nas filas do desemprego é usado para «apoiar o mercado», de «dívidas», de «alto rendimento», de «grandes empresas»!

A verdade é que, longe do jargão com que o capital financeiro procura camuflar as suas negociatas, o sistema financeiro capitalista, já sustentado pela metadona do Estado desde 2008, está hoje totalmente quebrado e precisa desesperadamente da heroína do Estado. Só sobrevive com a total ficção de os Estados inventarem dinheiro (que ficará nas dívidas públicas) para comprarem tudo aquilo que ‘os mercados’ querem desesperadamente vender. Um articulista do Financial Times (24.3.20) fala na «‘nacionalização’ do mercado de Títulos do Tesouro que ajudou a acalmar os nervos». Ou seja, o Estado a comprar a dívida do Estado… E acrescenta: «a [Reserva Federal] comprometeu-se a comprar dívida governamental em quantidades ilimitadas, na mais recente tentativa de impedir que o choque económico do coronavirus se transforme numa derrocada dos mercados. A decisão segue-se a medidas semelhantes do Banco Central Europeu e do Banco de Inglaterra». Outro articulista escreve (FT, 23.3.20) «os gigantescos e actualmente disfuncionais mercados de Títulos do Tesouro dos EUA, crédito hipotecário e de grandes empresas, têm agora um comprador de último recurso – a Reserva Federal», isto é, o ‘banco central’ dos EUA que, sendo um conjunto de bancos privados, assenta no dinheiro do Estado. O FT fala em «Quantitave Easing infinito» e afirma que as dívidas da Reserva Federal «aumentarão de forma assinalável, à medida que se torna no comprador de último recurso nos mercados», não antevendo nenhuma alteração da situação «dada a dimensão da euforia de endividamento após 2009» (lembram-se de quando prometiam ‘reduzir o endividamento’?).

A vergonha pós-2008 (que Portugal conheceu tão bem) vai-se repetir numa escala incomensuravelmente maior: os dinheiros públicos vão ser entregues aos bancos para estes fazerem negócio. Escreve de novo o Financial Times (1.4.20): «[os banqueiros] estão a ser chamados para ajudar a distribuir programas de estímulo sem precedentes, no valor de triliões de dólares […]. Embora os governos e os bancos centrais estejam a fornecer boa parte do dinheiro, está a ser pedido aos emprestadores que sirvam de ‘correia de transmissão’ para assegurar que o apoio chegue às empresas e consumidores que dele mais necessitam». Os prejuízos e as dívidas serão dos Estados, dos trabalhadores, dos pequenos e médios empresários. Para o grande capital financeiro irão os lucros e mais alguns milhões de escravos, subjugados por essas dívidas. A ‘solidariedade do capital financeiro’ vê-se até nos pormenores: «na terça-feira, os maiores bancos do Reino Unido cederam à pressão do Banco de Inglaterra e suspenderam [o pagamento de] todos os dividendos [aos accionistas]. A iniciativa chocou os investidores e provocou profundas quebras no preço das suas acções» (FT, 1.4.20).

Lições

Se há algo que a pandemia Covid-19 pôs em evidência é a criminalidade de um sistema social e económico que apenas existe em função duma parasitária minoria de ultra-ricos. Décadas de cortes nas políticas e investimentos sociais revelam agora os seus efeitos. Estes cortes, tal como toda a política económica e social das grandes potências capitalistas, tem servido apenas um objectivo: enriquecer ainda mais quem já era obscenamente rico.

É também para impedir que esta realidade básica se transforme em consciência de largas massas que foi desencadeada a monumental campanha de falsidades que visa encontrar o ‘inimigo externo’. É fácil desmontar a mentira, propalada profusamente por Trump e os escribas ao seu serviço, que a China ‘escondeu’ a doença. Ela foi comunicada oficialmente à OMS no dia 31 de Dezembro (se tivesse sido mais tarde, seria Covid-20…), quando havia poucas dezenas de casos de uma doença ainda desconhecida (WHO Situation Report 1). Durante dois meses, quando parecia que a epidemia se confinava à China, Irão e países vizinhos, a comunicação social entretinha-se a denegrir a China e os seus esforços de contenção e combate à epidemia. Tudo era ‘culpa do regime’. Falavam do «momento Chernobil de Xi Jinping» e anteviam o «colapso». Mas a realidade é que, com medidas firmes, apoiadas em mecanismos de protecção social, a China foi capaz de conter a epidemia essencialmente numa única província, e pode bem vir a ser dos países menos afectados (em relação à sua população) pela pandemia. Não fez as manchetes, mas no final duma notícia do New York Times (20.3.20) lê-se que «não se conhece nenhum caso, entre os 42 000 trabalhadores da saúde enviados para Wuhan, de infecção com o coronavirus. Os Estados Unidos não estão a proteger os trabalhadores da saúde com a mesma determinação: parecem estar a traí-los».

O ‘salve-se quem puder’ das principais potências imperialistas tornou-se degradante. Destruindo os mitos da ‘solidariedade europeia’, França e Alemanha proibiram a exportação dos seus materiais sanitários quando a tragédia italiana estava no auge, e assobiaram para o lado. É conhecido o banditismo na disputa por máscaras e testes, na qual os EUA se destacam. Pelas malhas da censura passa a realidade bem diferente, solidária mesmo quando afectada pela crise, de países ‘párias’ como Cuba, a China, a própria Rússia. Factos que deixarão marcas em países como a Itália.

Nem em tempo de pandemia os centros imperialistas cessam a sua política de guerra, subversão e ingerência. No Conselho de Segurança da ONU uma moção proposta pela Rússia e 27 outros países, pedindo o levantamento das sanções unilaterais impostas à margem da ONU, dada a pandemia, foi rejeitada pelos EUA e pelos países da UE (os sancionadores unilaterais). Novas sanções foram impostas pelos EUA ao Irão. As manobras de guerra dos EUA contra a Venezuela (que, contrariando as previsões – quase súplicas – da comunicação social imperialista, tem escapado até agora à pandemia), estão a ser intensificadas por Pompeo, o amigo do MNE Santos Silva. Mas o país ‘excepcional’, que não poupa meios na promoção da guerra e subversão no planeta inteiro, quantas vezes invocando pretextos ‘humanitários’, não é capaz de proteger a sua população quando atingida por tragédias naturais ou de saúde pública.

Apesar dos muitos milhões de milhões de apoios públicos ao grande capital financeiro, o capitalismo mundial estava já a entrar num novo pico da crise, mesmo antes da eclosão da pandemia. Se o Covid-19 age como catalizador para «a pior recessão desde a Grande Depressão» dos anos 30, nas palavras da Directora-Geral do FMI (Reuters, 9.4.20), a verdade é que o capitalismo mundial nunca saiu da crise de 2008 e já só vive da teta do Estado. O coronavirus veio agravar tudo, mas também criar uma desculpa que será usada até à exaustão. O vírus é muito pequeno mas tem as costas muito largas.

Talvez a principal lição a extrair disto tudo seja constatar como ao fim de tantos anos de destruição de empregos, vidas, reformas, serviços públicos – tudo em nome dos ‘mercados’ e da sua ‘lógica’ – a prioridade nas despesas em tempo de pandemia não vai para a saúde e o povo, mas para os multimilionários banqueiros porque, dizem, sem esses apoios o sistema financeiro internacional vai ao fundo. A pergunta é óbvia: mas afinal para que serve esse ‘sistema financeiro internacional’? É urgente mandá-lo mesmo ao fundo.

Fonte: http://www.omilitante.pcp.pt/pt/366/Internacional/1426/Covid-19-dois-pa%C3%ADses-nos-EUA.htm?tpl=142

 

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Acusações dos EUA sobre resposta chinesa contra COVID-19 estão deslocadas

 
 
 
Washington, 12 mai (Xinhua) -- As acusações sobre as supostas falhas relacionadas à COVID-19 da China são na maioria deslocadas, destaca um relatório recente de um think tank norte-americano.
 
"Não houve grandes falhas na parte chinesa em alertar os EUA e a comunidade internacional de saúde pública", aponta o relatório de Sourabh Gupta, membro sénior do Instituto de Estudos China-EUA, em Washington.
 
O relatório indica que não houve atraso de três semanas no movimento chinês. Pelo contrário, as autoridades estavam focadas totalmente na investigação, isolamento e detecção da disseminação precoce da COVID-19.
 
"Para aqueles que alegam que o país não fazia nada durante os primeiros dias do surto, o ritmo frenético da resposta inicial da China repugna totalmente sua reivindicação", afirma o documento.
 
O texto salienta que Taiwan não alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) para evidências de transmissão interpessoal da COVID-19 em 31 de dezembro de 2019.
 
"O que Taiwan transmitiu à OMS em 31 de dezembro continha informações que não eram mais úteis do que o que a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan já havia anunciado publicamente até essa data".
 
O relatório observa que um evento de pandemia que ocorre de cem em cem anos não se presta a um gerenciamento previsível e a soluções simples, e os Estados Unidos e a comunidade internacional têm a obrigação de considerar honestamente os factos da resposta precoce ao coronavírus da China.
 
"Não obstante o 'nevoeiro de guerra' inicial, a integridade da resposta e do sucesso inicial das autoridades chinesas, particularmente em termos de isolamento do vírus que provoca a doença e estabelecimento de ferramentas de diagnóstico, superam amplamente as falhas", afirma o documento.
 
À medida que as mortes pela COVID-19 continuam a aumentar nos Estados Unidos, alguns indivíduos do governo Trump tentam desesperadamente desviar as críticas sobre seus erros, culpando a China.
 
O coronavírus infectou mais de 1,35 milhão de pessoas nos Estados Unidos, com mais de 80.000 mortes, segundo uma contagem da Universidade de Johns Hopkins.
 
Xinhua

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Enésimo plano fracassado para derrubar Maduro – “O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete a recompensa oficial dos Estados Unidos, autoriza o assassinato por esquadrões da morte”. Por Alan MacLeod

Espuma dos dias Venezuela golpe GIDEON maio2020

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Em 19 de abril passado, divulgámos aqui no blog a denúncia feita em 3 de abril por Caroline Popovic em Franceinfo sobre o envio de guerra norte-americanos para as Caraíbas – “o maior destacamento militar dos EUA para as Caraíbas desde a invasão do Panamá em 1989” – com o pretexto de apoiar a detenção do presidente Maduro acusado de tráfico de droga. Como diz Caroline Popovic, “ironicamente, é através da Guatemala que a maioria dos estupefacientes transita para os Estados Unidos” sendo a Venezuela “um pequeno operador no setor”. Este dado é confirmado por Alan MacLeod no seu artigo de 10 de maio (“O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete a recompensa oficial dos Estados Unidos, autoriza o assassinato dos esquadrões da morte”, ver aqui), quando diz que “…o tráfico de droga está muito menos presente na Venezuela do que em Estados vizinhos alinhados com os EUA, como a Colômbia e o Equador, como reconhecem os relatórios oficiais dos EUA”.

A partir de 5 de maio começaram a chover inúmeros artigos sobre uma fracassada tentativa de golpe de Estado, com inúmeras e variadas versões sobre o sucedido.

Depois de repassarmos estas múltiplas notícias sobre a tentativa de golpe, concluímos que ele se produziu na madrugada de domingo 3 de maio, quando dois antigos membros das forças especiais dos Estados Unidos – Airan Berry e Luke Denman – foram detidos no mar, antes mesmo de porem os pés em solo venezuelano. Pensa-se que na operação morreram 8 pessoas e mais de 100 acabaram detidas.

Seguindo o relato de eldiario.es de 8 de maio, os dois norte-americanos detidos apareceram na televisão pública venezuelana e deram detalhes sobre o plano para assaltar o palácio do Presidente Maduro e enviá-lo para os Estados Unidos. Publicamente, o governo de Trump desmentiu qualquer envolvimento. Mas as evidências mostram, mais uma vez, o gato escondido com o rabo de fora.

Ou seja, enquanto na Venezuela, entre outras frentes, se luta contra o Covid-19, os Estados Unidos, através da sua marionete Guaidó dedicam-se a lançar tentativas de golpe de Estado contra o Presidente Maduro.

A seguir ao relato de Leonardo Flores, analista político, sobre esta atamancada incursão, que publicámos ontem, divulgamos hoje, pela escrita de Alan MacLeod, mais detalhes sobre a fracassada tentativa de golpe e sobre o contrato estabelecido entre Guaidó e os mercenários.

FT

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O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete a recompensa oficial dos Estados Unidos, autoriza o assassinato por esquadrões da morte

Alan MacLeod Por Alan MacLeod

Publicado em 10 de maio por The Grayzone (ver aqui)

 

O contrato que entre Juan Guaidó e a empresa mercenária Silvercorp USA assemelha-se muito a uma recompensa atribuída pela DEA à cabeça do Presidente Nicolas Maduro e aos membros do seu círculo interno em Março deste ano. O acordo autoriza tacitamente a eliminação dos venezuelanos da classe trabalhadora nas actividades propostas dos esquadrões da morte.

 

115 O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete 1

Juan Guaidó esperava estar agora no palácio presidencial da Venezuela. Mas a tentativa de invasão cómica de 3 de Maio por mercenários dos EUA e membros da oposição foi a última indicação das medidas desesperadas a que ele e os seus camaradas recorreram.

Os combatentes contratados sob o nome de Guaidó foram imediatamente dominados na adormecida aldeia costeira de Chuao por membros descontentes da Casa dos Pescadores Socialistas, e alguns dos mercenários altamente treinados pareceram molhar-se literalmente de terror quando foram detidos.

Agora, foi divulgado um contrato de 41 páginas que descreve os pormenores e as condições da tentativa de golpe. Ele lança uma nova luz sobre o acordo entre Guaidó e a Silvercorp, a empresa americana de segurança privada que ele contratou. O auto-declarado presidente interino da Venezuela prometeu pagar a Jordan Goudreau, fundador da empresa sediada na Florida, 212,9 milhões de dólares para capturar, deter ou “remover” o Presidente Nicolas Maduro e instalá-lo a ele no seu lugar.

O contrato entra em pormenores sobre quem os mercenários estavam autorizados a envolver-se em “ataques cinéticos” (ou seja, assassinar e matar). Nomeia em primeiro lugar uma série de organizações paramilitares como as FARC colombianas, e bizarramente, o Hezbollah. Mas também estão na lista várias das “forças ilegítimas venezuelanas”, que incluem quaisquer apoiantes armados de Maduro e do Presidente da Assembleia Constituinte, Diosdado Cabello.

115 O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete 2

Acontece que Maduro e Cabello são as figuras colocadas no topo de uma lista de alvos da US Drug Enforcement Administration. O Governo dos EUA ofereceu 15 e 10 milhões de dólares, respectivamente, pela sua captura, efectivamente pondo a prémio as cabeças do presidente eleito e do principal membro do principal órgão legislativo do seu país.

O contrato assinado por Guaidó e a Silvercorp também permite o assassinato de qualquer pessoa que eles considerem “colectivos armados e violentos”. Para um setor da oposição de classe alta da Venezuela, o termo “colectivo” é um termo desumanizador e frequentemente utilizado para designar qualquer pessoa da classe trabalhadora.

Os sindicalistas, os manifestantes pró-governamentais, mesmo quem ande de motocicleta, são presumivelmente parte de um bando armado e perigoso, nas fantasias lúbricas dos elitistas de pele clara de Caracas Oriental. Por conseguinte, o contrato permite essencialmente à Silvercorp matar impunemente qualquer membro da base de apoio popular do governo.

115 O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete 3

 

Um novo esquadrão da morte

No entanto, mais preocupante ainda é aquilo que a Silvercorp previa ser o seu papel após um golpe de Estado bem sucedido.

O contrato estipula que a organização mercenária “se converteria numa Unidade Nacional de Ativos que actuaria sob a direcção da Administração [Guaidó] para combater as ameaças à estabilidade do governo, as ameaças terroristas e trabalhar em estreita colaboração” com outras forças de segurança.

As suas missões incluiriam, entre outras, a vigilância, operações encobertas e programação de alvos.

Por outras palavras, a Silvercorp transformar-se-ia num esquadrão paramilitar privado responsável apenas perante Guaidó, esmagando qualquer oposição à sua ditadura, de forma muito semelhante aos esquadrões da morte na Colômbia e noutros países da América Latina que operam há décadas.

 

A ligação dos EUA

O Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo anunciou recentemente que os seus planos para “restaurar a democracia” no país estavam a “ganhar impulso” e previu que, muito em breve, iríamos assistir a uma mudança de governo.

115 O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete 4

Outros planificadores de mudança de regime, como John Bolton, passaram o fim-de-semana a tweetar de forma não tão críptica de que um golpe estava prestes a acontecer.

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A recompensa do DEA por Maduro e Cabello está estreitamente alinhada com o contrato Guaidó-Silvercorp, incluindo a obsessão de matar ou capturar especificamente esses dois indivíduos, e a retórica incessante sobre os traficantes de droga. (Na realidade, o tráfico de droga está muito menos presente na Venezuela do que em Estados vizinhos alinhados com os EUA, como a Colômbia e o Equador, como reconhecem os relatórios oficiais dos EUA).

Nos dias que antecederam a atamancada invasão da Silvercorp, Trump ordenou à Marinha que se deslocasse e navegasse para a Venezuela, supostamente para contrariar um quase inexistente fluxo de drogas.

O contrato estipula também especificamente que o comandante da operação pode utilizar drones AC-130 e Predator. Estas plataformas de armamento são utilizadas quase exclusivamente pelos militares americanos, o que levanta ainda mais questões. Será que se limitaram a copiar alguns documentos americanos existentes ou estavam à espera de reforços?

Na sequência do fracasso, Pompeo emitiu uma negação extremamente tímida, alegando apenas que “não houve qualquer envolvimento direto do Governo dos EUA” na operação falhada. O Secretário de Estado confirmou que estava ciente de quem a financiava, prometendo “desembalar” essa informação mais tarde.

 

A honra entre os ladrões

Uma análise do documento sugere uma sensação de que Goudreau via Guaidó como um pássaro tonto pronto para ser desplumado. Apesar de cobrar quase um quarto de milhão de dólares por um eventual dia de trabalho, a Silvercorp também inseriu uma miríade de cláusulas e aumentos onerosos, incluindo um bónus de 10 milhões de dólares por uma missão bem sucedida. Os mercenários acrescentaram juros sobre os pagamentos e uma taxa administrativa de 10% (portanto, mais de 20 milhões de dólares) sobre todas as transacções.

No entanto, parece que os mercenários americanos acabaram por ser os otários, pois Goudreau admitiu que Guaidó não lhe transferiu nem um cêntimo, nem sequer a taxa de retenção, desde Outubro. “Eles continuaram a prometer pagar, semana após semana”, disse Goudreau a uma estação de televisão de língua espanhola.

Guaidó é famigerado por não ser digno de confiança com o dinheiro e tem sido amplamente acusado de desviar dezenas de milhões de fundos de ajuda norte-americanos. Porquê avançar com uma missão tão perigosa? Talvez tenha ficado cego com a perspectiva de um dia de pagamento massivo, recolhendo quantias tanto do DEA como da equipa de Guaidó.

Ao mesmo tempo que cobrava centenas de milhões de dólares, Goudreau também estava a enganar os seus próprios funcionários, prometendo pagar aos mercenários americanos agora detidos apenas entre 50 000 e 100 000 dólares para arriscarem as suas vidas pela operação, tudo isto enquanto permanecia na sua casa na Florida. Continua a não ser claro quem foi o maior idiota da operação: Guaidó, Goudreau, ou os seus ingénuos cúmplices.

 

Negação oficial

Numa entrevista à CNN, o consultor político latino-americano de direita J.J. Rendon, com sede em Miami, confirmou que o contrato era genuíno.

Por seu lado, Guaidó insiste agora que todo o projecto era uma operação de bandeira falsa do governo. “Ninguém acredita nas suas mentiras”, disse ele a Maduro através do Twitter.

No entanto, a moeda política de Guaidó continua em declínio. Uma sondagem realizada em Janeiro por uma empresa anti-Maduro revelou que a sua taxa de aprovação tinha baixado cerca de 20 pontos desde Abril de 2019. Dias mais tarde, Guaidó recusou-se a renunciar ao seu papel de liderança após o fim do seu ano de mandato, encenando uma manobra publicitária embaraçosa e muito ridícula em que tentou e não conseguiu subir a cerca que rodeava o edifício da Assembleia Nacional.

Mais tarde, Guaidó “demitiu-se” do seu próprio partido, optando por saltar antes de ser empurrado. No meio do seu embaraço nacional, deixou o país para ser um convidado de honra no discurso do Estado da União de Trump, em Fevereiro, onde recebeu uma ovação bipartidária de pé.

Enquanto Guaidó viaja pelo mundo fazendo pressão para que sejam aplicadas sanções e supervisionando golpes e operações terroristas no seu país, numa tentativa de alcançar o poder por meios decididamente antidemocráticos, ainda não foi detido pelo Governo da Venezuela.

Mas, como mostrou o seu último e embaraçoso fracasso, uma das armas mais potentes contra a oposição poderão ser os actos bufões que Guaidó comete rotineiramente como homem livre.

 

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O autor: Alan MacLeod é um académico e jornalista. É redator da Mintpress News e colaborador da Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR). Ele é o autor de “Bad News from Venezuela: Twenty years of fake news and misreporting”. É membro do Grupo de Media da Universidade de Glasgow. O seu último livro, Propaganda in the Information Age: Still Manufacturing Consent, foi publicado pela Routledge em maio de 2019. Siga-o no Twitter: @AlanRMacLeod.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/16/enesimo-plano-fracassado-para-derrubar-maduro-o-contrato-dos-mercenarios-de-guaido-sobre-o-venezuelano-maduro-reflete-a-recompensa-oficial-dos-estados-unidos-autoriza-o-assassinato-por-esquadroes/

Farpas de EUA à China lesam ambas economias e impedem luta com futuras pandemias, avisam analistas

Bandeiras da China e dos EUA
© AP Photo / Andy Wong

Ataques da administração Trump à China podem reduzir drasticamente ou destruir a cooperação bilateral, ameaçando ambas economias e os esforços mútuos contra futuras pandemias, alertam especialistas.

Em 15 de maio, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, afirmou que seria melhor a China e os Estados Unidos cooperarem para acabar com a pandemia a fim de revitalizar suas respectivas economias.

A declaração de Lijian foi enunciada a seguir à ameaça de Trump, proferida em 14 de maio, que os Estados Unidos poderiam cortar completamente as relações diplomáticas com a China durante a crise atual da COVID-19.

Cooperação essencial

No início desta semana, legisladores norte-americanos propuseram um projeto de lei para sancionar Pequim se a China não fornecesse um relatório completo da epidemia em solo chinês, ao mesmo tempo que o FBI abriu uma investigação contra alegados ciberataques chineses visando impedir as pesquisas norte-americanas sobre o coronavírus.

Zhao Lijian refutou as acusações, frisando ser a China líder na pesquisa de opções de tratamento da COVID-19 e, ela sim, teria mais motivos para se preocupar com furto de informações.

Pequim já por diversas vezes reiterou que divulgaria mais informações sobre o surto quando fosse oportuno.

Michael T. Klare, professor de Estudos de Paz e Segurança Mundial em Hampshire College (EUA) e membro sênior da Associação de Controle de Armas, advertiu que considerar a China como bode expiatório pode destruir as perspectivas de uma recuperação econômica bem-sucedida após a pandemia do novo coronavírus.

"Neste momento em que o mundo inteiro está sofrendo as consequências do coronavírus, é essencial que todos os países cooperem para superar seus efeitos e prevenir futuras pandemias", comentou Klare à Sputnik Internacional.

Para o especialista, as consequências econômicas da pandemia estão se mostrando especialmente duras e poderiam ser melhor geridas através de esforços coordenados de recuperação por parte das grandes potências econômicas, especialmente os EUA, China, Japão e União Europeia.

Trump pondo fogo em todas as lembranças chinesas

© Sputnik / Vitaly Podvitsky
Trump pondo fogo em todas as lembranças chinesas

"Por estas razões, lamento os esforços da administração Trump para explorar as ansiedades públicas sobre a pandemia e demonizar a China, impondo novas sanções, impedindo assim os esforços de cooperação para superar os danos econômicos impostos pela pandemia", afirmou o analista.

"Isso só pode servir para prolongar os danos e impedir a cooperação na prevenção de futuras pandemias, o que devemos supor que é provável que ocorra", concluiu Klare.

Recuperação ameaçada

O diretor do Centro de Paz e Liberdade do Instituto Independente (EUA), Ivan Eland, opina que a retórica hostil da administração Trump contra a China está condenada a ser um tiro pela culatra, prejudicando as perspectivas de recuperação econômica dos EUA.

"É estúpido exacerbar ainda mais o marasmo econômico dos Estados Unidos ao reduzir a relação econômica mutuamente benéfica entre os dois países", observou Eland, para quem movimentações já em andamento no Congresso arriscam colocar Pequim e Washington em uma perigosa rota de colisão.

"Se o projeto de lei do [senador] Tom Cotton for aprovado, o qual fornecerá US$ 43 bilhões [R$ 251,98 bilhões] em armas adicionais dos EUA para a Ásia Oriental e acelerará a venda de armas para Taiwan, isso pode agravar ainda mais o déficit e a dívida dos EUA, arrastar mais a economia norte-americana e aumentar as tensões militares com a China, podendo mesmo levar à guerra", alertou.

Para o especialista, Trump está provocando confrontos com a China por razões de política interna, e não de política externa, como forma de aumentar suas próprias chances de reeleição.

"Trump está tentando fazer da China um bicho-papão para desviar a atenção de seus próprios fracassos em resposta ao surto pandêmico", garantiu Eland.

Eland concluiu alertando que a China, como nação poderosa, jamais permitiria que sua soberania fosse violada por uma investigação federal norte-americana sobre as origens do vírus.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020051615588919-farpas-de-eua-a-china-lesam-ambas-economias-e-impedem-luta-com-futuras-pandemias-avisam-analistas/

China pede cooperação com EUA após Trump ameaçar suspender relações

 
 
Pequim, 15 mai 2020 (Lusa) - A China apelou hoje a uma cooperação "mais próxima" com os Estados Unidos na luta contra a pandemia de covid-19, após o Presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçar "interromper todas as relações" com Pequim.

"Manter relações estáveis entre a China e os Estados Unidos é do interesse fundamental dos dois povos e da paz e estabilidade no mundo", afirmou o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Zhao Lijian.

Zhao pediu maior cooperação entre o seu país e os Estados Unidos na luta contra o novo coronavírus.

Há várias semanas que Trump repete que o pesado número de mortes devido a infeção pela Covid-19 - mais de 300.000 em todo o mundo - poderia ter sido evitado se a China tivesse agido responsavelmente quando o novo coronavírus foi inicialmente detetado na cidade de Wuhan, no centro da China, no final do ano passado.

Questionado sobre possíveis medidas de retaliação, Trump, disse que "há muitas coisas" que pode fazer, inclusive "terminar com o relacionamento" entre Pequim e Washington.

"Se o fizéssemos, o que aconteceria? Pouparíamos 500 mil milhões dólares se rompêssemos todas as relações", afirmou Trump, sugerindo o fim do deficit comercial norte-americano no comércio com a China.

O Presidente dos EUA, que disse estar "muito dececionado" com a forma como Pequim geriu a crise, rejeitou a ideia de conversar diretamente com o homólogo chinês, Xi Jinping, para aliviar as tensões.

JPI // FPA | Imagem: Kevin Lamarque / Reuters

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/china-pede-cooperacao-com-eua-apos.html

Trump pondo fogo em todas as lembranças chinesas

 
Trump pondo fogo em todas as lembranças chinesas

O presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou interromper toda a relação sino-americana, e relembrou que a pandemia atual provou que ele estava certo em buscar a reestruturação das cadeias de suprimentos globais.

Em entrevista ao canal FOX Business, Trump disse que estava muito desapontado com o fracasso da China em conter a COVID-19, e que a pandemia havia deixado de lado seu acordo comercial de janeiro com Pequim, que ele já havia considerado uma grande conquista.

"Há muitas coisas que poderíamos fazer. Nós poderíamos fazer coisas. Poderíamos cortar toda a relação", ressaltou Trump, acrescentando que isso ajudaria os EUA a "economizar US$ 500 bilhões" (R$ 2,9 trilhões), referindo-se às importações anuais americanas provenientes da China.

O governo dos EUA está agora considerando maneiras de punir ou receber uma compensação financeira da China pelo fato de Pequim, segundo a Casa Branca, estar escondendo informações sobre o vírus.

Previamente, o chefe da Casa Branca em reunião com os governadores disse que poderia apoiar as sanções contra a China propostas pelo senador Lindsey Graham.

O Ministério das Relações Exteriores chinês emitiu um artigo refutando declarações das autoridades norte-americanas sobre o envolvimento do lado chinês na propagação do coronavírus.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2020051515584748-trump-pondo-fogo-em-todas-as-lembrancas-chinesas/

Venezuela, Afeganistão, Nicarágua: como eram as guerras não 'declaradas' da CIA

Emblema da CIA em sua sede em Langley, Virgínia, EUA
© AP Photo / Carolyn Kaster

Os EUA têm há décadas uma história de envolvimento em guerras não-declaradas, usando organizações privadas para derrubar governos no exterior.

A participação de soldados norte-americanos na incursão marítima na Venezuela lembra outras operações que a CIA financiou, armou e treinou para desestabilizar outros governos no passado, em um período que vai desde os Contras da Nicarágua até os atuais mercenários da Silvercorp.

A prisão de dois cidadãos norte-americanos após a fracassada incursão marítima na costa da Venezuela, em 3 de maio, voltou a colocar a questão da estratégia norte-americana de apoiar não oficialmente, ou através de empresas militares privadas, a formação e treinamento de guerrilheiros ou grupos armados com mercenários para derrubar governos latino-americanos.

Nos anos 80, os Contras, como eram conhecidos os contrarrevolucionários ou Resistência Nicaraguense, procuraram derrubar o governo revolucionário da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que havia chegado ao poder após a revolução de 1979 na Nicarágua.

Em seus esforços para derrubar o governo sandinista, os Contras realizaram mais de 1.000 ataques terroristas entre 1980 e 1991. Eles eram conhecidos por terem armas muito sofisticadas para um grupo guerrilheiro, o que levantava suspeitas de serem fortemente financiados.

Utilizavam espingardas de assalto e metralhadoras de origem americana em suas operações. Até usavam com sucesso mísseis antiaéreos Red Eye fabricados nos EUA, tendo derrubado vários helicópteros sandinistas.

Revelações diretas

Um ex-membro dos Contras, Oscar Sobalvarro, conhecido como comandante Rubén, reconheceu ele próprio em entrevista ao jornal nicaraguense La Prensa que o governo norte-americano lhes forneceu 270 mísseis Red Eye para combater os helicópteros e aviões que a Força Aérea Sandinista havia importado da União Soviética. O ex-revolucionário admitiu que a entrega dos mísseis pelo governo dos EUA foi feita em "operações secretas".

Como parte de seu apoio aos Contras, a CIA foi responsável por minar vários rios e portos da Nicarágua. Os contras também sabiam como torturar e executar camponeses suspeitos de serem sandinistas.

Rebeldes Contra no vilarejo de montanha Destino, Nicarágua, se recusam a entregar suas armas às forças de paz da ONU, 26 de abril de 1990

© AP Photo / Michael Stravato
Rebeldes Contra na Nicarágua

 

Muitas dessas técnicas haviam sido treinadas meses antes em instalações militares na Califórnia e na Flórida, EUA, quando as operações antinicaraguenses começaram a partir de Washington.

O apoio dos EUA aos terroristas nicaraguenses foi finalmente demonstrado em 1986, quando o Exército Popular Sandinista abateu um avião militar de El Salvador que sobrevoava o território nicaraguense. O único sobrevivente daquele voo acabou confessando que o avião carregava armas destinadas aos Contras.

A descoberta foi um dos pontos de um escândalo que acabou demonstrando a existência de um plano do governo norte-americano de Ronald Reagan para vender armas à República do Irã, na época em guerra com o Iraque.

O plano era uma triangulação que incluía a utilização dos fundos provenientes dessas vendas para apoiar os nicaraguenses. A mente por trás dessa operação era Oliver North, um ex-militar que se havia tornado conselheiro de Reagan.

O envolvimento comprovado da CIA nas operações e financiamento dos Contras levou o governo sandinista a denunciar os Estados Unidos no Tribunal Internacional de Justiça em 1984, alegando que havia elementos suficientes para provar a assistência militar e logística da potência mundial ao grupo armado ilegal.

Em sua decisão de 27 de junho de 1986, a Corte Internacional de Justiça não pôde estabelecer que Washington tinha criado o grupo paramilitar, mas "considerou provado" que os norte-americanos "tinham financiado, treinado, equipado, armado e organizado em grande parte a FDN [Força Democrática Nacional], um dos elementos dessa força".

O tribunal decidiu que os Estados Unidos deveriam compensar a Nicarágua pelos danos causados, algo que nunca fizeram e que foi perdoado em 1992 pelo governo anti-sandinista de Violeta Chamorro. O caso dos Contras nicaraguenses entrou para a história como um dos mais claros exemplos de apoio dos EUA a dissidentes e rebeldes em outros países.

Afeganistão, Iraque e os exércitos privados

Esse exemplo não foi o primeiro. A Guerra do Afeganistão entre 1978 e 1992 tinha visto a intervenção dos EUA no treino e fornecimento de armas e apoio econômico aos rebeldes islâmicos conhecidos como mujahedin. Mais uma vez, a CIA treinou rebeldes recrutados para combater as forças da União Soviética, que apoiavam o governo afegão.

Regimento de tanques se preparando para regressar à URSS durante a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão

© Sputnik / Aleksandr Grashenkov
Regimento de tanques se preparando para regressar à URSS durante a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão

 

Já no séc. 21, o Afeganistão e o Iraque têm sido cenário de um novo modelo de envolvimento dos EUA em conflitos. Desta vez, isso não foi feito diretamente pela CIA, mas através de exércitos privados contratados por Washington.

A empresa Blackwater, atualmente chamada Academi, é um exemplo dessa estratégia: seu exército privado participou de intervenções armadas e até de execuções extrajudiciais no âmbito de seus contratos com a CIA.

O uso de mercenários e exércitos privados em incursões militares contra o governo de Nicolás Maduro já havia sido mencionado em 2019, quando a agência Reuters informou que a empresa havia preparado um contingente de entre 4.000 e 5.000 soldados para entrar na Venezuela a partir da Colômbia.

Silvercorp, a empresa contratada por Guaidó para derrubar a Maduro

A Silvercorp, outra empresa de segurança privada dos EUA, tentou se infiltrar em território venezuelano, afirmou um artigo do jornal Washington Post, que revelou um contrato assinado entre representantes do líder da oposição Juan Guaidó e a empresa, em uma iniciativa chamada Operação Gideon.

"A Silvercorp USA foi fundada com um propósito. Fornecemos a governos e empresas soluções realistas e oportunas para problemas irregulares", diz a mensagem introdutória da empresa em seu site.

A empresa, instalada em 2018 no estado da Flórida, afirma operar em mais de 50 países oferecendo serviços de "planejamento e consultoria, gerenciamento de risco, projetos especiais e análise de risco de infraestrutura crítica".

Soldados venezuelanos usando máscaras faciais cercam um suspeito retirado de um helicóptero depois do que as autoridades venezuelanas descreveram como uma incursão mercenária, em um local desconhecido. Imagem obtida de um vídeo da TV estatal venezuelana, 4 de maio de 2020

© REUTERS / Televisão Estatal da Venezuela / Handout
Soldados venezuelanos usando máscaras faciais cercam um suspeito retirado de um helicóptero

 

Entre seus funcionários, a empresa diz incluir "líderes do setor, ex-diplomatas, ex-chefes de segurança multinacional e os mais experientes militares, policiais e profissionais de inteligência da atualidade".

A Silvercorp oferece a seus clientes o conhecimento "técnico e tático" de seus consultores em combinação com a "visão local" da parte contratante.

A face da Silvercorp no contrato com Guaidó é Jordan Goudreau, um ex-militar americano de 43 anos (embora nascido no Canadá) que agora trabalha para a empresa. Goudreau, segundo um acordo registrado em uma gravação divulgada pelo governo venezuelano, chefiaria a incursão na Venezuela, com a missão de "capturar/deter/remover Nicolás Maduro".

Goudreau já havia estado na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela em fevereiro de 2019, quando foi contratado para garantir a segurança do concerto Venezuela Live Aid na cidade colombiana de Cúcuta.

A empresa receberia pela Operação Gideon um total de US$ 212,9 milhões (R$ 1,28 bilhão), dos quais US$ 50 milhões (R$ 290,5 milhões) seriam pagos na primeira etapa.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051515584200-venezuela-afeganistao-nicaragua-como-eram-as-guerras-nao-declaradas-da-cia/

EUA | A economia capitalista e a política da morte

 
 
Desafiando a oposição popular esmagadora, o governo Trump e a maioria dos governos estaduais, corporações multibilionárias e os interesses financeiros de Wall Street estão dando andamento aos planos para uma rápida reabertura da economia dos EUA.

David North | WSWS

A indústria automobilística está liderando as exigências de um retorno ao trabalho prematuro e mortal. Sucumbindo à enorme pressão política e econômica, a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, sancionou a reabertura, a partir de hoje, das fornecedoras de autopeças e das indústrias de ferramentaria e usinagem. As grandes empresas automobilísticas pretendem retomar a produção no estado na próxima semana.

A Honda está retomando a produção hoje em todos os Estados Unidos e Canadá. Isso inclui fábricas em Ohio, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Indiana, Geórgia e Alabama.

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, permitiu que as fábricas, juntamente com os depósitos e instalações logísticas, reabrissem desde da última sexta-feira.

Na Flórida, Texas e em vários outros estados, os serviços e o comércio, incluindo salões e barbearias, foram – ou serão em poucos dias – reabertos. O Missouri está sancionando a abertura de todos os negócios e permitirá a realização de shows ao grande público.

Na prática, os esforços para conter a propagação da pandemia nos Estados Unidos caíram por terra. O governo Trump está implementando uma política de "imunidade de rebanho" que resultará nos próximos meses em dezenas de milhares – e, potencialmente, centenas de milhares – de mortes que poderiam ser evitadas se medidas apropriadas fossem tomadas para conter a propagação da pandemia.

Mas o governo Trump, que já havia retirado totalmente o apoio dos EUA às operações da Organização Mundial da Saúde, está sabotando ativamente os esforços dos Centros de Controle de Doenças (CDC) de restringir, mesmo que moderadamente, as demandas das corporações de um retorno imediato ao trabalho.

 
A reabertura de fábricas e outros locais de trabalho está ocorrendo enquanto a pandemia segue se propagando sem controle. No fim de semana, o número total de mortes por COVID-19 passou de 80.000 nos Estados Unidos. Durante os primeiros 10 dias de maio, o número de mortes aumentou em mais de 15 mil. Além disso, à medida que o vírus se espalha pela população, a doença está manifestando novos sintomas e ampliando o alcance de suas vítimas.

Os médicos, que se empenharam durante os meses de março e abril para combater o ataque da COVID-19 ao sistema respiratório humano, descobriram nas últimas semanas que o vírus também está atacando rins, cérebro, sistema circulatório e músculos.

A novidade mais assustadora é o surgimento de uma doença mortal entre as crianças pequenas, cujos sintomas se assemelham aos da Doença de Kawasaki, que foi definitivamente associada ao vírus da COVID-19. Epidemiologistas relatam que o período de incubação nas crianças parece ser de duas a quatro semanas. Isso significa que as crianças que foram infectadas em abril ficarão gravemente doentes nas próximas semanas.

Os pais, que haviam sido assegurados de que as crianças pequenas não estavam ameaçadas pela pandemia, ficarão profundamente abalados por este novo perigo. Os trabalhadores que estão sendo forçados a retornar aos seus empregos agora enfrentarão a possibilidade muito concreta de que, se infectados no trabalho, transmitam a doença a seus filhos, com consequências terríveis.

O grau de imprudência e indiferença criminosa da gestão Trump em relação ao destino da população é ressaltado pelo fato de que o vírus se espalha pela Ala Oeste da Casa Branca.
Um empregado pessoal de Trump testou positivo. Katie Miller – a secretária de imprensa do vice-presidente Mike Pence e esposa de um dos principais conselheiros de Trump, o fascista Stephen Miller – também deu positivo. Três altos funcionários da força-tarefa do coronavírus da Casa Branca – Dr. Anthony Fauci, Dr. Robert R. Redfield e Dr. Stephen Hahn – estão agora isolados em quarentena, em consequência da exposição a indivíduos infectados.

Foi relatado que Trump deu um chilique assim que descobriu que pode ter sido exposto ao vírus. De acordo com o Washington Post, Trump "ficou aborrecido ao saber que a Sra. Miller havia testado positivo e tem se irritado com pessoas que se aproximam demais dele...".

O Post ainda relata que "A descoberta dos dois funcionários infectados levou a Casa Branca a intensificar os procedimentos de combate ao vírus, exigindo que mais funcionários trabalhem a partir de casa, a intensificação do uso de máscaras e que se faça uma triagem mais rigorosa das pessoas que entram no complexo".

A situação na Casa Branca expõe a fraude e a hipocrisia, enraizadas em interesses e privilégios de classe, que caracterizam todos os aspectos da resposta do governo Trump à pandemia. Apesar de não ter sido capaz de impedir a disseminação do vírus na própria Casa Branca – o edifício com o maior nível de segurança do mundo – o governo exige que os trabalhadores comuns dos EUA retornem aos seus empregos onde existem poucos ou nenhum procedimento eficaz para evitar a transmissão de infecções. Aqueles que trabalham nas proximidades do presidente são aconselhados a trabalhar a partir casa, um privilégio que não pode ser desfrutado por dezenas de milhões de trabalhadores.

As declarações e ações de Trump são as de uma personalidade sociopata. Mas suas políticas são impulsionadas pelos interesses da elite corporativo-financeira. A demanda pela "reabertura da economia" – a frase que é usada para legitimar uma política criminosa – não significa outra coisa senão a retomada da exploração desenfreada da classe trabalhadora, independente de quantas vidas humanas irá custar.

O Washington Post, de propriedade do dono da Amazon, Jeff Bezos, reconhece abertamente que o governo Trump está "pedindo aos americanos que aceitem uma proposta devastadora: que um acúmulo constante e diário de mortes isoladas será o custo sombrio de reabrir a nação".

Na verdade, os americanos estão sendo mandados, não solicitados, a retornar ao trabalho em condições que resultarão em uma perda maciça de vidas. Na última pesquisa da Pew, divulgada no final da semana passada, dois terços dos entrevistados declararam serem contrários a uma reabertura prematura da economia.

Em um editorial tipicamente cínico, intitulado "A catástrofe do lockdown econômico", o Wall Street Journal questionou: "Bem, depois do horrível relatório sobre os empregos de sexta-feira, o que vocês acham do fechamento agora?" A premissa por trás dessa pergunta traiçoeira é que dezenas de milhões de americanos empobrecerão e passarão fome, a menos que voltem ao trabalho. Não há outra escolha.

Em resposta ao Wall Street Journal, o Partido Socialista pela Igualdade coloca outra questão: Diante da perda de vidas catastrófica e da devastação social que atinge milhões de vidas, o que vocês acham do resgate de Wall Street agora?

Desde os estágios iniciais da pandemia, a resposta da gestão Trump tem se determinado pelos interesses da oligarquia corporativo-financeira. A prioridade do governo tem sido salvar os investimentos de Wall Street e a riqueza dos capitalistas e não vidas humanas. Na verdade, os dois objetivos – proteger os rentistas e especuladores de Wall Street, ou combater a pandemia e proteger os trabalhadores ­– são totalmente incompatíveis.

Essa contradição socioeconômica fundamental – ou seja, o conflito irreconciliável entre a classe capitalista e a classe trabalhadora – encontra sua expressão mais obscena na correlação entre o número de mortos, desempregados e pobres e, no outro extremo, a explosão do valor das ações de Wall Street.

Desde que foi aprovado o resgate de trilhões e trilhões de dólares no final de março, o Índice Dow Jones subiu aproximadamente 35%. O índice Nasdaq está em seu pico de 2020. Ao longo dos primeiros 10 dias de maio, enquanto o número de mortos aumentou em aproximadamente 15.000, o Dow Jones ganhou mais de 600 pontos.

Quanto mais terríveis os relatos de mortes e sofrimento humano, mais extasiante é a resposta dos mercados capitalistas. O contraste entre Wall Street e a economia real é tão extremo que se tornou um assunto amplamente comentado na imprensa financeira.

A razão do aumento explosivo dos valores das ações está bem clara. O governo Trump, com o apoio unânime de deputados republicanos e democratas – incluindo, entre os últimos, o senador Bernie Sanders – alocou trilhões de dólares para salvar Wall Street.

Explicando a euforia em Wall Street, o rigoroso Economist escreve em sua edição mais recente:

A melhora no humor se deve, em boa parte, ao Fed, que agiu mais dramaticamente que outros bancos centrais, comprando ativos em uma escala inimaginável. Ele está empenhado em comprar ainda mais dívidas corporativas, incluindo títulos "podres" de alto rendimento. O mercado para novas emissões de títulos corporativos, que fora congelado em fevereiro, reabriu de maneira espetacular. As empresas emitiram $560 bilhões em títulos nas últimas seis semanas, o dobro do nível normal. Até mesmo as empresas de cruzeiros marítimos foram capazes de levantar capital, embora a um preço elevado. Uma cascata de falências de grandes empresas está sendo evitada. O banco central, na prática, segurou o fluxo de caixa da America Inc. O mercado entendeu rápido o recado e disparou.

Depois de ter gasto, e continuando a gastar, quantias ilimitadas de dinheiro para salvar a elite dominante – e, assim, tendo aumentado massivamente a dívida nacional – o governo Trump, o establishment político e a mídia capitalista exigem que as massas trabalhadoras voltem ao trabalho. Para combater a pandemia e para dar apoio aos desempregados não há dinheiro. O Wall Street Journal cita com aprovação as palavras do governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo: "O governo fez tudo o que pode".

Na verdade, não fez nada. A demanda do governo Trump pelo retorno ao trabalho deixou claro que a luta contra a pandemia não pode ser travada meramente no front da medicina. A classe trabalhadora é confrontada, sobretudo, com a necessidade de uma luta política e social contra todo o sistema capitalista.

O combate à pandemia exige o avanço de um programa socialista, irreconciliavelmente oposto aos interesses econômicos da classe capitalista e do sistema capitalista como um todo.

Diante de uma crise nacional e global sem precedentes, com incontáveis milhões de vidas em jogo, os interesses da classe trabalhadora – a esmagadora maioria da população – só podem ser levados adiante com o fim da ditadura empresarial-financeira sobre a política social e com a redistribuição dos recursos econômicos baseada na reorganização socialista da vida econômica.

Nessa situação crítica, o Partido Socialista pela Igualdade levanta as seguintes reivindicações:

A rejeição a todas as demandas por um retorno ao trabalho até que a propagação da pandemia seja interrompida e condições seguras e saudáveis possam ser estabelecidas em todos os locais de trabalho.

A provisão de uma renda mensal a todas as famílias, em quantidade suficiente para garantir condições de vida dignas, até que seja possível o retorno ao trabalho. Essa renda deve ser complementada com a suspensão de hipotecas, aluguéis, pagamento de juros e contas de serviços públicos, juntamente com o cancelamento das dívidas estudantis.

A provisão de auxílio às pequenas empresas, em quantidade suficiente para manter a viabilidade econômica do empreendimento e os salários e remunerações de seus funcionários até que suas operações possam ser retomadas.

O repúdio imediato à Lei CARES (de resgate às corporações) e a devolução de todos os recursos que foram destinados a instituições privadas financeiras e corporativas.

A expropriação de todas as grandes instituições financeiras e corporativas e sua conversão em serviços públicos controlados democraticamente.

Um aumento substancial da taxa de impostos, para ao menos 90%, sobre os salários e todos os rendimentos derivados de investimentos especulativos responsáveis por manter indivíduos na faixa dos 5% mais ricos da sociedade.

O desmantelamento do complexo militar-corporativo, que é socialmente destrutivo, e o redirecionamento de seu gigantesco orçamento para propósitos socialmente progressistas.

Este programa não pode ser realizado através dos partidos políticos existentes e das instituições da classe capitalista. Só é possível lutar por ele através da mobilização política independente da classe trabalhadora. O objetivo deste programa não é a reforma do sistema capitalista, mas a sua substituição por um sistema econômico socialista, baseado em formas democráticas de governo criadas pela classe trabalhadora no curso da luta.

Acima de tudo, na luta por este programa, a classe trabalhadora americana deverá apelar ativamente para o apoio dos trabalhadores de todo o mundo, seus aliados naturais na luta contra o capitalismo global. A pandemia, que afeta os trabalhadores de todos os países, demonstra a necessidade da unificação da classe operária internacional na luta global pelo socialismo.

O Partido Socialista pela Igualdade está concorrendo às eleições federais de 2020. Seus candidatos a presidente e vice-presidente – Joseph Kishore e Norissa Santa Cruz – utilizarão a oportunidade oferecida por essa campanha para lutar por este programa socialista revolucionário.

Convocamos os trabalhadores e a juventude, os leitores do World Socialist Web Site e apoiadores do Partido Socialista pela Igualdade a envolverem ativamente nesta luta crucial, da qual depende o futuro da humanidade.

David North | WSWS
 
Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/eua-economia-capitalista-e-politica-da.html

China considera retaliação contra sanções de projeto de lei dos EUA pela pandemia, noticia mídia

Mulher usando máscara contra coronavírus olha para globo mostrando a China, em Wuhan, na província de Hubei, 15 de abril de 2020
© AP Photo / Ng Han Guan

A China está extremamente insatisfeita com a posição dos EUA sobre o envolvimento de Pequim na propagação da COVID-19 e considera a imposição de sanções retaliatórias, noticia Global Times.

O país asiático manifestou fortes protestos e disse que o projeto ignora os fatos.

"A China não só responderá simbolicamente, como tomará contramedidas que serão dolorosas para eles", diz a publicação citada pelos analistas.

De acordo com o jornal Global Times, citando fontes, pelo menos quatro congressistas e duas organizações farão parte da lista de sanções.

Projeto de lei contra Pequim

Anteriormente, o republicano norte-americano Lindsey Graham declarou que apresentou ao Senado dos EUA um projeto de lei "sobre a responsabilidade pela COVID-19" relativo a sanções contra a China pela propagação do coronavírus.

"Eu respeito Lindsey Graham, e certamente vou considerar isso. O projeto de lei para sancionar a China — então eu certamente vou analisar isso. Eu não vi isso ainda”, disse o presidente norte-americano Donald Trump, segundo uma transcrição publicada no website da Casa Branca.

O documento propõe a introdução de restrições caso os chineses não apresentem um relatório completo, no prazo de dois meses, sobre o surto da doença, com oito senadores republicanos votando a seu favor.

O presidente dos EUA, Donald Trump, reunido com a liderança militar e a equipe de Segurança Nacional na sala do Gabinete na Casa Branca, em Washington D.C., EUA.
© REUTERS / Yuri Gripas
O presidente dos EUA, Donald Trump, reunido com a liderança militar sênior e a Equipe de Segurança Nacional

Embora os democratas dos EUA, que têm maioria na Câmara dos Deputados, não apoiem a ideia de impor sanções contra Pequim, Trump critica a China e reflete publicamente sobre como fazer com que o país "pague" pela pandemia. A China rejeita todas as acusações.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2020051415577769-china-considera-retaliacao-contra-sancoes-de-projeto-de-lei-dos-eua-pela-pandemia-noticia-midia/

EUA impulsionam gastos globais recordes em armas nucleares, expõe relatório

Explosão nuclear (imagem ilustrativa)
© Foto / Pixabay / geralt

Entre 2018 e 2019, Washington contribuiu com a maior parte do aumento mundial de US$ 7,1 bilhões (R$ 41,7 bilhões) em gastos nucleares, com US$ 5,8 bilhões (R$ 34,1 bilhões) em despesas adicionais.

De fato, esse valor é superior à participação americana nos gastos militares globais, que totalizaram 38% em 2019, de acordo com os últimos dados do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês).

A Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN, na sigla em inglês) calculou que a Rússia, que tem mais ogivas do que os EUA, gastou US$ 8,5 bilhões (R$ 50 bilhões) nelas em 2019, o que equivale a um quarto do gasto nuclear americano, ficando atrás da China (US$ 10,5 bilhões; R$ 61,8 bilhões) e do Reino Unido (US$ 8,9 bilhões; R$ 52,3 bilhões).

Alarmados pelos esforços americanos de reforço do arsenal nuclear, especialistas chineses apelaram para a construção atômica drástica do arsenal da China.

Explosão de bomba atômica (foto de arquivo)
© flickr.com / Pierre J.
Explosão de bomba atômica (foto de arquivo)

Os receios de que os mísseis balísticos de médio alcance na Europa desencadeassem uma guerra nuclear global levaram ao Tratado INF de 1987, que proibiu a entrada deste tipo de armas no continente. Contudo, o governo do presidente norte-americano Donald Trump abandonou o tratado em 2019.

Oficialmente, sem forneceram provas, os EUA afirmaram que a Rússia o tinha violado. Autoridades norte-americanas argumentaram ainda que o INF era obsoleto de qualquer maneira, porque não se aplicava a outras potências nucleares, como a China.

A Marinha dos EUA lançou no início deste ano novas ogivas de baixo rendimento para mísseis lançados por submarinos, argumentando em uma série de documentos de posicionamento que isso tornava menos provável a guerra nuclear porque injetaria incerteza nos esforços russos de "escalar para desescalar", um conceito aparentemente baseado não na verdadeira doutrina russa, mas na ficção militar da era ocidental da Guerra Fria.

Apesar de a ICAN ter observado que seus números são estimativas com base em uma metodologia consistente, o verdadeiro custo das armas nucleares teria que incluir as despesas de compensação das vítimas de testes e limpeza da contaminação ambiental.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/defesa/2020051415577328-eua-impulsionam-gastos-globais-recordes-em-armas-nucleares-expoe-relatorio/

EUA procuram ‘de uma forma ou outra’ garantir prolongamento de embargo de armas ao Irã

© AP Photo / Alex Brandon

Washington busca prolongar a proibição do Conselho de Segurança da ONU que impede a venda de armas ao Irã e atividades ligadas a mísseis balísticos capazes de transportar armas nucleares.

Os Estados Unidos ameaçaram forçar um regresso unilateral de todas as sanções da ONU contra o Irã se o Conselho de Segurança não estender seu embargo de armas. 

Washington pretende garantir "de uma forma ou outra" que o embargo permaneça em vigor, escreveu Brian Hook, enviado especial dos EUA para o Irã e conselheiro sênior de Mike Pompeo, secretário de Estado, em uma coluna do Wall Street Journal publicada na quarta-feira (13). 

Hook acrescentou que os EUA haviam redigido uma resolução do Conselho de Segurança e que "vão prosseguir com a diplomacia e construir apoio". 

O embargo de armas ao Irã, decretado pelas Nações Unidas em março de 2007, deve expirar em 18 de outubro de 2020. A maioria das outras sanções da ONU contra a República Islâmica foi suspensa em 2016, após a entrada em vigor do acordo nuclear, o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês). 

Os Estados Unidos se retiraram do acordo em maio de 2018, após pressão por parte de Israel, alegando que o documento era imperfeito e que funcionava em benefício do Irã, apesar das objeções dos demais signatários (Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha). 

 

Em junho de 2015, um conjunto de países aprovou, na cidade suíça de Lausanne, o Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA, na sigla em inglês), que regula o programa nuclear do Irã.
© AP Photo / Brendan Smialowski
Em junho de 2015, um conjunto de países aprovou, na cidade suíça de Lausanne, o Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA, na sigla em inglês), que regula o programa nuclear do Irã.

Os EUA reimpuseram unilateralmente sanções às exportações de petróleo e ao setor financeiro do Irã. Agora estão buscando prolongar indefinidamente o embargo de armas

Em relação às sanções da ONU, o acordo contém cláusulas que preveem a renovação das sanções caso o Irã não cumpra seus compromissos nucleares. O Irã começou por descumprir algumas partes do acordo em maio de 2019 para pressionar os países europeus a protegê-lo das sanções dos EUA, e anunciou um recuo final em janeiro deste ano. 

No entanto, especialistas internacionais que monitoram seu programa nuclear ainda podem visitar o país, e o Irã se comprometeu a restaurar todos os seus compromissos caso os EUA regressem à sua posição anterior. 

Dentro ou fora?

Embora os EUA tenham abandonado o acordo, o Conselho de Segurança nunca alterou a resolução de maneira a fixar a retirada dos EUA do documento. O Departamento de Estado norte-americano procura usar essa situação para justificar a posição de que, tecnicamente, continua sendo participante, para poder avançar com o embargo. 

O Irã já se opôs a uma prorrogação do embargo, tal como a Rússia. "Não vejo nenhuma razão para que um embargo de armas seja imposto ao Irã", disse nesta semana o embaixador russo na ONU, Vasily Nebenzya. 

"Para poder utilizar os instrumentos fornecidos pelo JCPOA, é preciso primeiro ser participante do JCPOA. Os EUA não são um participante efetivo do JCPOA há dois anos", referiu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051415577307-eua-procuram-de-uma-forma-ou-outra-garantir-prolongamento-de-embargo-de-armas-ao-ira/

EUA 'ignoram' COVID-19 e retomam exercícios militares na Europa

Soldado norte-americano gesticulando enquanto as Tropas Autotransportadas dos EUA e Polônia saltam em exercícios conjuntos (foto de arquivo)
© AP Photo / Lukasz Szelemej

O comando da OTAN anunciou seus planos de conduzir manobras no território polonês após estas terem sido suspensas devido à pandemia

As Forças Armadas dos EUA conduzirão os exercícios Allied Spirit (Espírito Aliado) na Polônia de 5 a 19 de junho, apesar da pandemia de COVID-19, informou a Army Times, citando declaração do Comando do Exército dos EUA na Europa.

As manobras, que contarão com aproximadamente quatro mil soldados norte-americanos e dois mil poloneses, inicialmente foram planejadas para maio, com o objetivo de coincidir com o Defensor da Europa 2020, o exercício mais importante da Aliança desde a Guerra Fria, que foi suspenso devido ao surto de coronavírus.

"Foram tomadas todas as precauções relacionadas à COVID-19 para proteger a saúde das tropas participantes", indica o comunicado do Exército.

O Defensor da Europa 2020 visa praticar operações aéreas no território dos Estados bálticos e da Geórgia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/defesa/2020051415576688-eua-ignoram-covid-19-e-retomam-exercicios-militares-na-europa/

China e EUA devem implementar conjuntamente o acordo comercial, diz porta-voz

Beijing, 13 mai (Xinhua) -- A China e os Estados Unidos devem trabalhar conjuntamente para implementar seu acordo comercial de primeira fase, seguindo o princípio de igualdade e respeito mútuo, disse nesta terça-feira Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês.

A conclusão do acordo comercial China-EUA de primeira fase atende aos interesses da China, dos EUA e do mundo, destacou Zhao em uma entrevista coletiva ao comentar uma pergunta relevante.

Os chefes das equipes de consulta comercial da China e dos EUA tiveram uma conversa por telefone em 8 de maio, concordando em trabalhar para criar uma atmosfera e condições propícias para a implementação do acordo comercial de primeira fase e se esforçar para mais progressos, segundo ele.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/13/c_139052869.htm

COMO OS ESTADOS UNIDOS OBRIGAM OUTROS PAÍSES A PAGAREM PELAS SUAS GUERRAS: A ECONOMIA DO IMPERIALISMO AMERICANO – Transcrição de uma entrevista a MICHAEL HUDSON

 

 

O economista Michael Hudson explica como o imperialismo americano criou um almoço grátis global, em que os Estados Unidos forçam outros países a pagar pelas suas guerras e mesmo pela sua ocupação militar.

Max Blumenthal e Ben Norton discutem a economia do império de Washington, o papel do FMI e do Banco Mundial, as tentativas de criar sistemas financeiros alternativos como os BRICS, e a nova guerra fria contra a China e a Rússia.

SEGUNDA PARTE

(Entrevista gravada em 13 de Abril de 2020)

Ver também:

Part 1: “US coronavirus ‘bailout’ scam is $6 trillion giveaway to Wall St – Economist Michael Hudson explains

(Parte 1: O “Resgate” Americano Coronavírus é  um esquema de 6 milhões de milhões  de dólares)

(para ler em A Viagem dos Argomautas clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/10/covid-19-estados-unidos-moderate-rebels-o-falso-resgate-do-coronavirus-nos-estados-unidos-consiste-numa-doacao-de-6-milhoes-de-milhoes-de-dolares-a-wall-street-transcricao-de-uma-entrevista/)

 

 

Vejam notas e links

Michael Hudson’s website: michael-hudson.com

PDF of his book Super Imperialism: michael-hudson.com/wp-content/uploads/2010/03/superimperialism.pdf

 

 

MICHAEL HUDSON: O Banco Mundial tem um objetivo principal, que é o de tornar outros países dependentes da agricultura americana. Este objetivo está incorporado nos seus artigos de acordo. Só pode fazer empréstimos em moeda estrangeira, pelo que só concederá empréstimos a países para o desenvolvimento agrícola, estradas, se for para promover as exportações.

Assim, os Estados Unidos, através do Banco Mundial, tornaram-se, a meu ver, a organização mais perigosa, de direita e da  má  história moderna – pior  do que o FMI. É por isso que tem sido quase sempre dirigida por um Secretário da Defesa. Tem sido sempre explicitamente militar. É o punho duro do imperialismo americano.

A sua ideia é fazer com que os países latino-americanos, africanos e asiáticos exportem culturas de plantação, especialmente plantações que sejam de propriedade norte-americana ou estrangeira. A principal diretiva do Banco Mundial aos países é: “Não devem alimentar-se com os vossos próprios produtos ; não devem cultivar os seus próprios cereais ou os vossos  próprios alimentos; deve depender dos Estados Unidos para isso. E pode pagar por isso exportando culturas de plantação”.

BEN NORTON: Aqui nos Rebeldes Moderados falamos muito de imperialismo. É realmente o ponto principal deste programa. Este programa explora como é o funcionamento do imperialismo americano, como funciona no palco global, como as políticas neoliberais de austeridade e privatização são forçadas ao cano de uma arma através dos militares americanos, através da invasão e do saque.

Falamos disso na Venezuela, no Iraque, na Síria e em tantos países. Mas muitas vezes não falamos da dinâmica económica específica do seu funcionamento através dos bancos, dos empréstimos e das obrigações.

Bem, hoje continuamos a nossa discussão com o economista Michael Hudson, que é realmente um dos melhores especialistas do mundo quando se trata de compreender como o imperialismo americano funciona como um sistema económico, e não apenas através de um sistema de força militar. É claro que a economia é mantida e sustentada por essa força militar. E falamos da forma como a força militar é expressa através de guerras de mudança de regime e de intervenções militares.

Mas Michael Hudson explica também como é que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, o sistema financeiro dos EUA, os bancos e Wall Street trabalham em conjunto, de mãos dadas com os militares para manter esse estrangulamento financeiro.

Ele escreve tudo isto e de forma brilhante no seu livro chamado Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire. Começou a escrever esse livro em 1968, e depois atualizou-o recentemente em 2002, foi publicado novamente em 2003 com a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão, e de certa forma atualizou e mostrou como se alterou de alguma forma, apesar de o sistema que detalhou há 50 anos não ter realmente mudado. .

Por isso, hoje vamos falar sobre como funciona esse sistema imperialista internacional dominado pelos EUA.

Michael Hudson, que na primeira parte desta conversa falou sobre o esquema que é o resgate  do coronavírus – se quiser ver a primeira parte pode ir ao moderaterebels.com; está no YouTube, Spotify, iTunes, em qualquer outra plataforma.

Michael Hudson é economista e é também um analista financeiro de Wall Street de longa data. Ele também é professor de economia na Universidade do Missouri, Kansas City, e pode encontrar os seus trabalhos em michael-hudson.com, ao qual farei uma ligação nas notas do programa deste episódio.

Portanto, sem mais demoras, aqui está a segunda parte da nossa entrevista com Michael Hudson.

MAX BLUMENTHAL: Penso que é um bom ponto de transição para falar de outro tipo de esquema de vigarice que o Michael identificou. Há um lado realmente hilariante no segundo prefácio do seu livro “Super Imperialismo”, que é quando nos fala de  Herman Kahn, que é, penso eu, um fundador do Hudson Institute, para o qual você foi trabalhar. Ele foi também a inspiração para o personagem do Dr. Strangelove e para o filme do Stanley Kubrick.

Há um prémio que os neocons atribuem todos os anos com o seu nome; Benjamin Netanyahu é um vencedor recente desse  prémio.

Mas Herman Kahn estava num painel para uma das suas conversas, onde expôs a sua teoria do “Super Imperialismo” e como os Estados Unidos conseguem que outros países subsidiem o seu império, e é capaz de se expandir e realizar este enorme projeto imperial sem ter de impor austeridade à sua própria população, como outros países têm de fazer sob o controlo do FMI.

Por isso, Herman Kahn veio  ter consigo depois da conversa e diz: “O senhor identificou perfeitamente o roubo”. E o seu livro começa a ser vendido como bolos quentes em DC, suponho que entre  as pessoas que trabalham para a CIA, e as pessoas que trabalham no aparelho de espionagem militar.

MICHAEL HUDSON: O que ele disse foi: “Conseguimos levar a cabo o maior roubo da  história”. Fomos muito além de tudo o que o Império Britânico alguma vez pensou”. E acrescentou : “Essa é uma história de sucesso. A maioria das pessoas pensa que o imperialismo é mau; o senhor mostrou como é a maior história de sucesso – temos um almoço grátis para sempre”!

MAX BLUMENTHAL: Certo. Portanto, explique-nos o maior roubo da história que identificou  e como é que ele está a ser perpetuada sob a administração Trump de formas que considero bastante espantosas, inclusive através da imposição de sanções sem precedentes a algo como um terço da população mundial.

MICHAEL HUDSON: Bem, eu escrevi “Super Imperialismo” em 1972, e foi publicado exatamente um ano depois de o Presidente Nixon ter retirado a América do padrão-ouro, em Agosto de 1971. A razão pela qual ele tirou a América do padrão-ouro foi que todo o défice da balança de pagamentos, desde a Guerra da Coreia até à Guerra do Vietname, tinha um carácter militar.

Especialmente nos anos 60, o dinheiro que a América gastava no Vietname e no Sudeste Asiático tinha de ser gasto localmente. E os bancos eram bancos franceses, porque se tratava da Indochina francesa. Assim, todo o dinheiro era enviado para Paris, para as sedes dos bancos, transformado de dólares em francos, e o General de Gaulle acabava por ficar com esses dólares. Depois, todos os meses, enviava os dólares e queria o pagamento em ouro. E a Alemanha poderia vir a fazer a mesma coisa.

Assim, quanto mais a América lutava militarmente, mais esgotava o seu stock de ouro, até que finalmente, em Agosto de 1971, disse: “Usamos o ouro como chave da nossa potência mundial desde a Primeira Guerra Mundial, quando pusemos a Europa a rações. Por isso, vamos deixar de pagar em ouro”.

Eles fecharam a janela de ouro. E a maioria dos economistas dizia: “Oh, meu Deus, agora vai ser uma depressão”. Mas eu disse: “Esperem lá, agora que outros países já não conseguem obter ouro de todas estas despesas militares” – e quando se fala do défice da balança de pagamentos, não é o défice comercial, não é o investimento estrangeiro; tudo isto tem um carácter quase exclusivamente militar.

Então, todo este dinheiro que foi gasto no estrangeiro, como é que alguma vez o vamos conseguir de volta? Bem, estes dólares que gastamos em todo o mundo, principalmente para criar e manter as 800 bases militares e para as outras atividades militares que temos, estes dólares acabam nos bancos centrais estrangeiros.

A questão é: o que é que estes bancos centrais estrangeiros vão fazer com essas entradas de dólares no seus livros? Bem, não deixaríamos que os bancos centrais estrangeiros comprassem indústrias americanas. Deixávamo-los comprar ações, mas não para se tornarem  proprietários maioritários.

Um antigo meu mentor, o homem que me ensinou tudo sobre a indústria petrolífera na Standard Oil, tornou-se subsecretário do Tesouro para os assuntos internacionais. Quando Herman Kahn e eu fomos à Casa Branca, ele disse: “Dissemos aos sauditas que podem cobrar o que quiserem pelo seu petróleo, mas todo o dinheiro que conseguirem, têm de o reciclar para os Estados Unidos”. A maioria deles pode comprar obrigações do Tesouro, para que tenhamos o dinheiro para continuar a gastar”. Podem também comprar ações, ou podem fazer o que os japoneses fizeram e comprar imóveis de lixo e perder neles as suas próprias camisas.

Assim, basicamente, quando a América gasta dinheiro no estrangeiro, os bancos centrais realmente não especulam. Eles não compram empresas. Eles compram títulos do Tesouro. Portanto, temos um défice monetário; os dólares são gastos no estrangeiro; os bancos centrais emprestam-nos de volta ao Tesouro; e isso financia o défice orçamental, mas também financia o défice da balança de pagamentos. Por isso, continuamos a dar apenas  papel-moeda e não  ouro.

Penso que o Presidente George W. Bush disse: “Nunca vamos realmente pagar isto. Eles recebem as confirmações, têm os seus registos, mas nós não vamos retribuir”. E depois, por acaso, tem Tom Cotton, um senador do [Arkansas], a dizer: “Bem sabem que a China detém poupanças de cerca de 2 milhões de  milhões  de dólares em obrigações do Tesouro dos EUA”. Porque é que não recusamos pagar?  Eles deram-nos o vírus; vamos ficar com o dinheiro e anular a dívida “.

Podemos anular ativos iranianos, ativos venezuelanos – é como se um banco pudesse simplesmente eliminar outros depósitos que tem, se necessário for, pela via militar. Assim, os Estados Unidos não têm qualquer constrangimento em termos de despesas militares, pois deixaram de estar sob o regime do padrão-ouro.

Agora, Herman Kahn e eu próprio fomos, noutra ocasião, ao Departamento do Tesouro, e falámos sobre como seria o mundo sob o regime padrão-ouro. Eu disse: “O ouro é um metal pacífico”. Se temos de pagar em ouro, nenhum país num sistema de  padrão de ouro se pode dar ao luxo de ir para a guerra. Porque uma guerra implicaria um pagamento em divisas, e ter-se-ia de pagar essa divisa estrangeira em ouro, e não em moeda fiduciária e acabar-se-ia  por ir à falência muito rapidamente”.

Escusado será dizer que alguém do Departamento de Defesa disse: “É por isso que não o vamos fazer”.

Eis um exemplo: Vamos supor que você vai à mercearia e compra comida e depois assina uma declaração de  dívida  para tudo o que compra. Vai-se a uma loja de bebidas, a mesma coisa , dívida. Você compra um carro, a mesma coisa, declaração de dívida.

Você compra tudo o que quer só com uma declaração de dívida. Mas quando as pessoas tentam cobrar essas declarações de dívida, você diz: “Essa declaração de dívida não é para me ser cobrada a  mim”. Troquem-nas  entre vocês. Pensem nisso como  sendo as vossas poupanças, e troquem essas declarações de dívida entre vocês.  Tratem-nas  como um bem, tal como tratam uma nota de dólar guardada num frasco de bolachas e não gasta”.

Bem, assumiria assim a posição do passageiro à borla.  Ser-lhe-ia permitido  comprar o que quisesse e emitir declarações de dívida para tudo, e ninguém jamais lhe poderia cobrar fosse o que fosse. É essa a posição dos Estados Unidos, e é isso que eles querem manter.

E é por isso que a China, a Rússia, e outros países estão a tentar desdolarizar, a tentar ver-se livre do dólar. Estão a comprar ouro para poderem regularizar os défices de pagamentos entre si na sua própria moeda, ou moedas de países amigos, e evitar completamente o dólar.

BEN NORTON: Michael, na primeira parte desta entrevista, quando estávamos a falar do resgate devido à situação de crise do coronavírus e dos 6 milhões de milhões  de dólares que foram basicamente dados a Wall Street, o senhor mencionou que se tratava basicamente de um esquema fraudulento. Mas disse, realmente, que muitas pessoas estão surpreendidas, que acham que o sistema não pode funcionar desta forma, porque parece tão descaradamente montado contra elas, tão descaradamente injusto que é impossível ser verdade.

O seu livro “Super Imperialismo” é tão arrebatador porque, em termos simplistas para alguém que é definitivamente um não-especialista como eu, torna-se tão claro que, como diz, os EUA, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm vindo a obter “o maior almoço grátis alguma vez alcançado na história”. .

Vou ler aqui apenas dois parágrafos muito rapidamente do seu livro, e depois talvez lhe peça para desmontar  detalhadamente como é que  isto funciona. Mas logo no início – e esta é a versão atualizada do seu livro, e vamos fazer a ligação ao seu livro nas notas deste  programa. Por isso, para todos,  eu recomendo vivamente que qualquer pessoa que esteja a ouvir possa ir comprar o Super Imperialismo.

MICHAEL HUDSON: Vou republicá-lo através do meu próprio instituto. É muito difícil conseguir o livro; é por isso que estou a comprar os direitos de volta. Na verdade, não é muito comercializado neste país. De qualquer forma, está no meu site, e não é preciso comprar o livro. Pode ir ao meu site e obter muitos dos capítulos.

BEN NORTON: Excelente, bem, vou fazer um link para o seu site nas notas do programa que é  michael-hudson.com E obrigado por colocar isso, porque tenho estado a ler o PDF, e é incrível.

Por isso escreveu na introdução da nova versão atualizada, que escreveu em 2002, na véspera da invasão do Iraque:

“O padrão de financiamento internacional dos títulos do Tesouro permitiu aos Estados Unidos obter o maior almoço gratuito alguma vez alcançado na história. Os Estados Unidos viraram o sistema financeiro internacional de pernas para o ar, enquanto anteriormente se apoiava no ouro, atualmente as reservas dos bancos centrais são detidas sob a forma de moeda fiduciária do governo dos Estados Unidos, que pode ser aumentada sem limites.

“Com efeito, a América tem vindo a comprar a Europa, a Ásia e outras regiões com crédito em papel fiduciário, os  US Treasury, e  informaram o mundo de que têm pouca intenção de alguma vez pagarem.

“E há pouco que a Europa ou a Ásia possa fazer quanto a isso, exceto abandonar o dólar e criar o seu próprio sistema financeiro”.

Parece-me, portanto, visto de fora, que se trata de uma situação totalmente insana, de um esquema de conluio total. Pode-nos explicar como funciona esse esquema, e especialmente à luz da economia neoliberal?

Tive, apenas na faculdade, aulas básicas de economia introdutória que eram obrigatórias, especialmente de microeconomia, e nessas aulas ensinam-nos esta forma neoliberal e libertária de economia, e ensinam-nos a famosa citação de Milton Friedman: “Em economia não existe uma tal coisa,  almoços grátis”. Mas está a salientar que, na realidade, no palco internacional, tudo isto é um gigantesco almoço gratuito para o império americano.

MICHAEL HUDSON: A economia financeira é basicamente um almoço gratuito. E se vai ter um almoço gratuito, então protege-se dizendo que não existe  uma tal coisa,  um almoço gratuito. Obviamente, não se quer tornar isso visível. Quer tornar-se tão invisível quanto possível.

A maioria destes países da Ásia recebe dólares das despesas militares dos EUA e dizem:  “o que vamos fazer com os dólares?”. Compram obrigações do Tesouro dos EUA, com estas,  financiam-se as despesas militares nas bases militares que  rodeiam esses países. Por isso, financiam o seu próprio cerco militar!

É um fluxo circular. Os Estados Unidos gastam dólares nesses países; os beneficiários locais  desses dólares trocam-nos contra moeda local; os beneficiários da moeda local, os vendedores de alimentos e os fabricantes, entregam os dólares aos bancos contra moeda nacional, que é como eles funcionam; e esses  dólares são enviados de volta para os Estados Unidos; e é um fluxo circular que tem um carácter basicamente militar.

Por isso, se de economia se fala  como se toda a economia consistisse em os trabalhadores gastarem os seus salários em bens e serviços, onde o governo não tem um papel a não ser o de interferir. Mas o governo é 40 por cento do PIB, principalmente de carácter militar. Portanto, é óbvio que em  economia não fala realmente do que  você  pensa da economia. Não se fala sobre a sociedade.

As canhoneiras não aparecem nos seus manuais de economia. Aposto que a vossa teoria de preços  ensinada na microeconomia não tinha barcos armados, nem o sector do crime. E provavelmente  esses agentes da microeconomia  também não tinham dívidas.

Na economia fala-se  de um segmento muito estreito que é  isolado, como se estivéssemos a falar de um pequeno órgão do organismo, sem ver o organismo como um sistema económico global, um sistema inter-relacionado que é dominado e controlado pelo sector financeiro e imobiliário, que também ganhou controlo sobre o governo.

E se o complexo financeiro, segurador e militar-industrial se torna invisível e ausente dos livros de ensino de economia, então as pessoas não vão olhar  para a economia  e perguntar: “Como é  isso afeta a nossa vida? Como é que isso afeta a economia?”. E não vão ver o que está a tornar a economia pobre e a ser levada para a depressão.

MAX BLUMENTHAL: Bem, não posso passar declarações de dívida para tudo, para as minhas próprias dívidas, porque quando o cobrador de dívidas vem, não tenho canhões; não tenho metralhadoras; não tenho nenhuma arma.

Se eu quisesse comprar uma arma, não a conseguiria comprar, porque são todas compradas na Virgínia, do outro lado do rio, porque sabem, todos vivem em  pânico. E tenho a certeza que se estão a defender, como se as suas armas tivessem  sido disparadas acidentalmente e matassem os seus cães.

Mas isso é o que falta também nesta teoria é que, se as pessoas tentarem cobrar a sua dívida aos EUA, os EUA podem fazer-lhes graves danos, militares ou outros.

Vamos jogar a isto. Quero dizer, como veem isto a acontecer na Venezuela, onde o Governo venezuelano tentou contornar as sanções dos EUA, tentou trabalhar com a Rússia e a China para vender ouro; no ano passado foram roubados pelos EUA em cerca de 5 mil milhões de dólares  em ativos  através de pura pirataria.

E agora os EUA enviaram, penso eu, mais navios navais do que aqueles que alguma vez vimos na América Latina ou na América do Sul em qualquer altura nos últimos 30 anos.

MICHAEL HUDSON: Bem, essa é a outra parte do “Super Imperialismo”: a servidão pela  dívida. A Venezuela teve há alguns anos um ditador instalado pelos  Estados Unidos, um homem de direita, e mudou a lei na Venezuela para que a dívida soberana venezuelana, contraída  em dólares, fosse suportada pela garantia das suas reservas de petróleo. E possui as maiores reservas de petróleo da América do Sul.

Por isso, os Estados Unidos querem apanhar  as reservas de petróleo. Tal como o Vice-Presidente Cheney disse que vamos ao Iraque e à Síria para apanhar o petróleo, a América gostaria de fazer o mesmo a   todas essas reservas de petróleo na Venezuela.

Como é que as pode obter? Bem, não tem tecnicamente de levar a cabo uma invasão. As finanças são o novo modo de guerra. Os EUA tentaram agarrar essas reservas dizendo: “Vamos bloquear a Venezuela de ganhar o dinheiro exportando o petróleo e de obter  dinheiro com os seus investimentos americanos para pagar a dívida externa”. Por isso, vamos fixar-nos apenas o investimento e vamos escolher um mini-ditador”. Vamos designar  Guaidó como chefe de Estado e dizer: “Este petróleo e os depósitos bancários não pertencem à Venezuela; estamos a colocar arbitrariamente tudo isto de lado e vamos  dar os ativos de distribuição de petróleo que estão na América do Norte ao Guaidó”. Vamos impedir a Venezuela de pagar a dívida”.”

Isso significa que se irá entrar em incumprimento em dívida estrangeira, pelo que os fundos ditos  abutres [como o de Paul Singer que “visitou Portugal em plena crise da dívida   especulando sobre a então PT] e os obrigacionistas podem agora sacar petróleo venezuelano, em qualquer lugar, ao abrigo do direito internacional, porque é penhorado como garantia da sua dívida, tal como se tivesse contraído uma dívida hipotecária e se tivesse penhorado a sua casa e o credor pudesse tirar-lhe a casa, tal como Obama fez a tanta gente perder as suas casas[1].

Mas a Venezuela ainda está a conseguir sobreviver. Por isso, podem precisar de uma força militar para invadir a Venezuela, como Bush invadiu o Panamá ou Granada. É uma questão de petróleo. Por isso, o que o financiamento não conseguiu, finalmente, precisa mesmo do punho militar. A finança é  basicamente apoiada pelos militares no exterior, e a nível interno a finança é apoiada pela força, pelo xerife, pelo departamento de polícia. É a força necessária para nos expulsar de casa.

Portanto, a questão é: qual é a defesa das pessoas endividadas na América? Será que tem de haver aqui uma revolução armada para anular as dívidas? Será que eles têm de comer os ricos? Essa é a questão que está a moldar a política de hoje na América.

Não a vejo a ser resolvida. Se não for resolvida pelas pessoas endividadas que simplesmente morrem à fome, se suicidam, ficam doentes ou emigram, então terá de haver uma revolução. Estas são as escolhas na América.

A Venezuela disse: “Não vamos morrer à fome no escuro”. Por isso há uma “construção”  militar pretendendo  que se trata de drogas, quando é a Venezuela que ameaça interromper o comércio de drogas da CIA. É essa a ironia da situação! É a CIA que é o traficante de droga, não o governo venezuelano. Portanto, estamos no mundo orwelliano que trabalha através dos órgãos ou do New York Times, do Washington Post, da MSNBC, da Rádio Pública Nacional, a verdadeira direita da América.

Estou tão satisfeito com a exposição que acaba de fazer . Porque muito do que fazemos no Grayzone é esburacar nas construções de propaganda que são usadas basicamente para dar cobertura liberal ao que é puro gangsterismo.

MICHAEL HUDSON: É muito mais preto e branco do que cinzento.

MAX BLUMENTHAL: Sim, bem, devíamos chamar-lhe As Zonas Negra e Branca.

Estamos a vê-la também na Síria, onde temos tido acções de propaganda dos direitos humanos construídas uma após outra. E agora, no fim da linha, quando toda a guerra por procuração terminar, Trump diz: “Temos de manter as tropas lá por causa do petróleo. Precisamos deles para guardar os campos petrolíferos”.

Assim, tudo se torna claro. Mas não é claro para todos aqueles que têm estado confusos nos últimos anos, na sequência da forma como a guerra lhes tem sido propagandeada através destes meios de comunicação social empresariais  e publicações governamentais dos EUA que acabaram de citar. É que nós estamos lá pelo petróleo.

Bem Norton. Michael, quero dizer que há muitas maneiras de explorarmos melhor este tema, e espero que possamos ter-te de volta mais vezes no futuro, porque precisamos definitivamente de mais cobertura económica. Falamos frequentemente sobre o lado político de muitas destas questões do imperialismo americano, mas é claro que o elemento económico é absolutamente fundamental para compreender o que está a acontecer.

Estou também muito interessado, você  mencionou antes de começarmos esta entrevista, que o seu livro “Super Imperialismo” é muito popular na China, e que mesmo nas escolas de lá as pessoas o estão a ler. A questão da China, penso eu, é a questão central deste século – a ascensão da China, a chamada “ameaça” que a China representa, entre aspas assustadoras, para os EUA. É claro que a China não ameaça o povo americano, mas sim o estrangulamento que os EUA fazem sobre o sistema financeiro internacional.

E temos visto sob  Trump – quer dizer, isso já acontece desde há anos. Na verdade, começou sob Obama com o “Pivot to Asia”, e essa foi a estratégia do Departamento de Estado de Hillary Clinton – avançar em direção ao cerco da China.

Mas agora sob Trump tornou-se o principal bicho-papão da política externa da Casa Branca. E especialmente agora com o coronavírus, todos os dias os meios de comunicação social empresariais  estão cheios de propaganda anti-china sem parar – “A China é o regime totalitário maléfico que vai dominar o mundo, e nós temos de nos unir aos republicanos para lutar contra a China”.

E agora até vemos números a defender abertamente a “nova guerra fria”, como eles lhe chamam. Dizem que estamos numa nova Guerra Fria, como disse recentemente o historiador de direita de Harvard Niall Ferguson no New York Times.

Por isso pergunto-me, o seu livro, penso eu, é ainda mais relevante agora do que quando o escreveu pela primeira vez, é mesmo muito mais relevante. Mas então e a questão da China? E quanto à questão desta nova guerra fria? Acha que isso poderia desafiar o sistema financeiro dominado pelos EUA que foi criado após a Segunda Guerra Mundial, utilizando as armas do Banco Mundial e do FMI, tal como o senhor refere? Estaremos talvez a caminhar para a criação de um novo sistema financeiro internacional?

MICHAEL HUDSON: O que torna a China tão ameaçadora é que está a seguir exatamente as  mesmas políticas que tornaram a América rica no século XIX. É uma economia mista. O seu governo está a fornecer infraestruturas básicas a preços subsidiados para baixar o custo de vida e fazer negócios, para que a sua indústria de exportação possa ganhar dinheiro. Está a subsidiar a investigação e o desenvolvimento, tal como os Estados Unidos fizeram no século XIX e no início do século XX.

Assim, a América diz basicamente ao resto do mundo: “Façam como dizemos, não como nós fazemos, e não como nós fizemos”.

A China tem uma economia mista que está a funcionar muito bem. Podemos apenas ver as mudanças que aí ocorrem. Compreende-se que os Estados Unidos estão a tentar desativá-la, que os Estados Unidos querem controlar todos os sectores de produção que têm preços monopolistas – tecnologia da informação, tecnologia de microchips , comunicações 5G, despesas militares.

Os Estados Unidos querem poder pagar por mercadorias do resto do mundo com as suas exportações a preços exagerados, filmes americanos, tudo o que tenha uma patente que produza um preço de monopólio.

A América, nos anos 50, tentou combater a China, sancionando as exportações de cereais para a China. Referiu-se há pouco às sanções, as primeiras sanções foram utilizadas contra a China, tentando matá-la à fome com cereais. O Canadá quebrou esse embargo, e a China foi muito amistosa com o Canadá, até o Primeiro-Ministro do Canadá receber agora as suas ordens de uma pequena cave no Pentágono, e concordar em prender  os funcionários chineses. O Canadá já não é um país. Por isso, a China não se sente tão amiga do Canadá agora que este país se tornou um satélite americano.

A China percebeu que não pode depender da América para nada. Os EUA podem cortar-lhes os víveres com sanções como tentaram fazer com o Irão, com a Venezuela, com Cuba. Assim foi a ideia da China, da Rússia e de outros países da Organização de Cooperação de Xangai: “Temos de ser independentes dentro de nós mesmos  e estabelecer  uma zona comercial euro-asiática, e vamos descolar porque somos um capitalismo industrial bem sucedido, evoluindo para o socialismo, para uma economia mista, com o governo a tratar de todos os sectores monopolistas para impedir a criação aqui de  preços monopolistas”.

“E nós não queremos que os bancos americanos entrem, criem dólares de papel e comprem todas as nossas indústrias. Não vamos deixar a América fazer isso”.

Visitei frequentemente a China. Sou professor na Universidade de Pequim, e tenho cátedras honorárias em Wuhan. Há uma série de artigos no meu site da Academia Chinesa de Ciências Sociais sobre a desdolarização, essencialmente a explicar como  é que a China pode evitar a utilização  do dólar ao tornar-se independente na agricultura, na tecnologia e na banca.

A ameaça da China é a de não ser uma vítima. Os vitimizadores olham sempre  para as vítimas como viciados  agressores  delas mesmas.  A América diz, pois,  que a China é uma ameaça viciosa porque não nos deixa explorá-la  e vitimizá-la. Esta é a retórica orwelliana do valentão. O rufia acredita sempre que a pessoa que está a atacar é uma ameaça. Tal como na Alemanha, Goebbels disse que a sua forma segura de mobilizar a população por detrás de qualquer ataque era dizer: “Estamos a defender-nos contra um ataque estrangeiro”.

Assim, o ataque americano contra a China finge ser uma defesa contra o seu desejo de serem tão independentes quanto  os Estados Unidos sempre foram. Os Estados Unidos não querem que nenhum outro país tenha qualquer influência a exercer sobre os Estados Unidos. Os Estados Unidos insistem em vetar o poder em qualquer organização a que venham a aderir – o Banco Mundial, o FMI, as Nações Unidas.

E a China diz essencialmente, ok, esta é a própria definição de independência nacional, ser independente de outros países capazes de nos sufocar, quer se trate de cereais de que precisamos, ou da tecnologia, ou do sistema de compensação interbancária SWIFT para fazer funcionar o nosso sistema financeiro, ou o sistema da Internet.

Ao travar esta guerra económica contra a China para proteger os monopólios americanos, a América está a integrar a China e a Rússia. E provavelmente o principal nacionalista chinês do mundo, o principal nacionalista russo, é Donald Trump. Ele diz: “Escutem rapazes, eu sei que vocês são influenciados pelos neoliberais americanos. Eu vou ajudar-vos. Acredito que vocês devem ser independentes. Vou ajudar-vos, chineses, russos e iranianos, a serem independentes. Vou continuar a pressionar as sanções na agricultura para garantir que se possam alimentar. Vou continuar a pressionar as sanções sobre a tecnologia, para garantir que se podem defender”. Portanto, é óbvio que é um agente chinês e russo, tal como diz a MSNBC

BEN NORTON: Sim e Michael, isto faz-me lembrar, eu costumava acompanhar-te   regularmente no The Real News, e trabalhei lá durante algum tempo, e infelizmente houve ali um simpático golpe interno, que  levou a que a situação se tenha deslocado  um pouco para a direita.

Mas a questão é que, há alguns anos atrás no The Real News, lembro-me que fizeram um debate incrível entre você e o economista canadiano Leo Panitch, e foi sobre a natureza do sistema BRICS.

Isso foi antes da série de golpes que derrubaram a esquerda no Brasil e instalaram o governo fascista agora de Jair Bolsonaro, um extremista de extrema-direita. E na época havia a Dilma Rousseff, uma progressista do Partido dos Trabalhadores. O Brasil e a Rússia estavam a ajudar a tomar a liderança no sistema BRICS. Ou seja,  Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul.

E, claro, a série de golpes de Estado no Brasil, como que pôs fim a esse projeto de integração regional Sul-Sul. E também a ascensão da direita, da extrema-direita, na Índia, com Narendra Modi.

Mas  houve um momento em que a comunidade BRICS, estes países estavam a tentar construir o seu próprio banco. A China, evidentemente, tem uma série de bancos. Mencionou a Organização de Cooperação de Xangai. Portanto, houve estas instituições internacionais, instituições multilaterais, criadas para desafiar a hegemonia do Banco Mundial e do FMI.

Lembro-me que, nesse debate, Leo Panitch defendia que “Oh, o sistema BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, todas estas instituições vão ser apenas a nova forma de neoliberalismo”. Vão apenas substituir o Banco Mundial e implementar muitas das mesmas políticas”. Não concordou com isso.

Por isso, será que pode, de certa forma, relançar um pouco esse debate aqui e articular um pouco a sua posição para os nossos espectadores?

MICHAEL HUDSON: O Banco Mundial tem um objetivo principal, que é o de tornar outros países dependentes da agricultura americana. Este objetivo está incorporado nos seus artigos de acordo. Só pode fazer empréstimos em moeda estrangeira, pelo que só concederá empréstimos a países para o desenvolvimento agrícola, estradas, se for para promover as exportações.

Assim, os Estados Unidos, através do Banco Mundial, tornaram-se, penso eu, a organização mais perigosa, de direita e maligna da história moderna – mais maligna do que o FMI. É por isso que tem sido quase sempre dirigida por um secretário da defesa. Tem sido sempre explicitamente militar. É o punho duro do imperialismo americano.

A sua ideia é fazer com que os países latino-americanos, africanos e asiáticos exportem culturas de plantação, especialmente plantações que sejam de propriedade norte-americana ou estrangeira. A principal diretiva do Banco Mundial aos países é: “Não devem produzir alimentos para vocês mesmos; não devem cultivar os seus próprios cereais ou os seus próprios alimentos; devem depender dos Estados Unidos para isso. E podem pagar por isso exportando culturas de plantação que não podem ser cultivadas em zonas temperadas como os Estados Unidos”.

Portanto, a China e a Rússia não são realmente economias agrícolas. O pilar da balança comercial da América tem sido a agricultura, não a indústria. Obviamente, nós desindustrializámos. A agricultura, desde a Segunda Guerra Mundial, tem sido a base da balança comercial.

Os EUA exigem uma dependência externa dos seus cereais, tecnologia e finanças. O objetivo do Banco Mundial é fazer com que as economias de outros países sejam distorcidas e empenadas a ponto de dependerem dos Estados Unidos para as estruturas de comércio internacional .

BEN NORTON: Bem, Michael, não é também verdade que a China tem uma produção agrícola massiva  e que a Rússia produz muito trigo, não é assim?

MICHAEL HUDSON: Claro, mas não tem de basear as suas exportações  sobre a agricultura para os países africanos.  A China pode dar-se ao luxo de ter países africanos como seus parceiros comerciais a cultivar para satisfazer as suas próprias necessidades  alimentares  para que não tenham de comprar alimentos americanos.

Imagine, se a China ajudar outros países a cultivar os seus próprios alimentos e cereais, então o excedente comercial americano evapora-se. Porque essa é a principal vantagem que a América tem sobre o setor agroalimentar.

BEN NORTON: Sim, é como aquela famosa citação: Se você der um peixe a um homem, ele  tem comida para um dia; se você ensinar um homem a pescar, ele vai ter comida para o resto da vida. E então eu acho que Marx não complicou isso?

MICHAEL HUDSON: Mas se lhes emprestares o dinheiro para comprar um peixe, então  ele acaba por falir e tu acabas por ficar  com todos os seus  bens.

Sim, quero dizer que vimos claramente este jogo no Haiti.

MICHAEL HUDSON: Sim, isso é o típico – o que a América tem quando tem é completamente livre, é exatamente a história do Haiti. Isso é absolutamente terrível. É deprimente de ler.

Tenho uma dissonância cognitiva, porque é tão injusto. É tão horrível de ler; afasto os meus olhos da página.

MAX BLUMENTHAL: Sim, só de observar tudo isto foi o que me levou ao ponto de concluir que tinha de haver outro sistema financeiro internacional, quando vi como o Haiti foi posto de rastos. Primeiro com a Escola das Américas a realizar um golpe de Estado, e Bill Clinton reinstala Jean-Bertrand Aristide. Tudo se passa sob o pretexto da boa vontade de Washington. Mas Aristide é obrigado a assinar, basicamente a assinar a perda da capacidade de produção agrícola interna do Haiti. E, de repente, a economia do arroz deles fica  dizimada e estão a importar arroz da Louisiana.

E a única economia que resta, a única oportunidade económica, é trabalhar nestas zonas de comércio livre para as empresas americanas. Esse é apenas o modelo em grande escala. Ajudou a levar ao próximo golpe, que afastou Aristide, e vejam onde está hoje o Haiti.

MICHAEL HUDSON: Certo, significa que não deve proteger a sua própria economia; só a América pode proteger a sua própria economia. Mas não deve protegê-la. Isso é comércio livre, ao estilo dos EUA.

MAX BLUMENTHAL: Certo, voltando ao programa JFK Seeds of Peace. São grandes subsídios agrícolas, e depois bombardeiam o Terceiro Mundo com sementes e mercadorias baratas, e depois têm uma crise migratória.

MICHAEL HUDSON: Sementes para a Fome é o nome pelo qual  o programa é conhecido. Porque ao darem um preço baixo de ajuda estrangeira a estes países, impediram o desenvolvimento agrícola interno, porque nenhum agricultor podia competir com as culturas gratuitas que a América estava a dar. O objetivo do programa Sementes para a Fome era impedir que os países se alimentassem a si próprios e torná-los assim dependentes.

MAX BLUMENTHAL: Sim, quando eu vivia em LA encontrava famílias que inicialmente tinham atravessado a fronteira por causa do programa – elas apontavam o dedo diretamente para Seeds for Starvation. Diziam: “Viemos do México rural, e o nosso ganha pão  foi reduzido a nada “.

Portanto, este é um programa de longa data. E já vimos no resgate  do coronavírus cinco vezes mais dinheiro fornecido à USAID para os chamados programas de estabilização do que para os trabalhadores hospitalares. Foi exatamente isso que acabou de descrever: A USAID é a ponta de lança destes programas que visam acabar com os programas de reforma agrária e substituí-los por ajuda dos EUA sob a forma destas sementes baratas, etc., bananas baratas para o Burundi, e para todo o lado.

Vê então, através da sua experiência na China, que a Iniciativa Uma estrada, uma cintura(Belt and Road) é uma verdadeira alternativa a este modelo?

MICHAEL HUDSON: Bem, eles estão certamente a tentar que assim seja. A propósito, o que você acabou de descrever, não é um bug; é uma característica. Quando você tem o mesmo problema a ocorrer  desde há mais  de 50 anos, ou é insanidade – e nós sabemos que não é – ou é a intenção. Você tem que assumir em dado  ponto que os resultados destes programas de ajuda são os resultados pretendidos. E certamente se você olhar para os testemunhos do Congresso, o Congresso sabe disso, mas os meios de comunicação social não captam nada disso.

Na China, eles estão realmente a tentar criar uma alternativa. Eles querem libertar-se dos Estados Unidos. E se as políticas do Trump de “América Primeiro” continuarem, e como ele disse, “temos que ganhar todos os acordos”, isso significa que qualquer acordo que fizermos com qualquer país estrangeiro, esse país tem que perder.

Então ele está a integrar o mundo inteiro, e a isolar os Estados Unidos. Quando você isola os Estados Unidos, a China percebe que o que será isolado é a filosofia neoliberal que é a história de capa, a economia do lixo que justifica essas políticas destrutivas.

BEN NORTON: Bem Michael, este foi, penso eu, um dos nossos episódios mais interessantes. Queremos mais cobertura económica, por isso esperamos poder falar mais contigo e obter mais algumas das tuas análises.

Acho que só para concluir aqui, mencionei que o termo Guerra Fria tem sido muito usado. E, claro, a Nova Guerra Fria vai ser diferente da velha Guerra Fria de muitas maneiras diferentes.

E é claro que a Rússia não é de todo a União Soviética. A Rússia não tem um sistema socialista. O sistema chinês, como referiu, é misto, ainda existem elementos socialistas, mas mesmo a economia da China não é tão controlada pelo Estado como a União Soviética era no auge da Guerra Fria. Por isso, pergunto-me, é bastante claro se ouvirmos a retórica vinda do Pentágono, que a ” concorrência das grandes  potências”, como lhe chamam, é agora a filosofia subjacente à política externa dos EUA. Onde está a economia nisto?

Porque a economia do neoliberalismo, após a destruição do Bloco Socialista, e a declaração de George H. W. Bush de uma “Nova Ordem Mundial”, que é obviamente apenas neoliberalismo e hegemonia americana – nesse período, a filosofia económica clara, o tipo de política externa orientadora, foi a destruição de Estados independentes e socialistas e a integração forçada desses países na economia neoliberal internacional. Vimos isso com o Iraque; vimos isso com a ex-Jugoslávia; vimos isso com a Líbia – que é realmente apenas um Estado falhado.

Por isso, agora penso que estamos numa espécie de nova fase. O Pentágono lançou há dois anos a sua estratégia de segurança de defesa nacional dizendo que o novo objetivo da política externa do Pentágono e dos EUA é conter a China e a Rússia. Esse é o objetivo declarado. Será que isso parece ser economicamente viável para o futuro?

MICHAEL HUDSON: Penso que é muito correto. Irá conter a Rússia e a China, e não há nada que a Rússia e a China queiram mais do que ser contidas.

Por outras palavras, estão a falar da dissociação da economia dos EUA. E os EUA vão dizer: “Bem, não vamos deixá-los ter acesso ao mercado dos EUA, e não vamos ter nada a ver com eles”. E a Rússia e a China dizem: “Rapaz, isso é maravilhoso, OK, estamos no mesmo comprimento de onda lá. Podem conter-nos; nós vamos conter-vos”. Vocês seguem o vosso caminho; nós seguiremos o nosso”.

Assim, basicamente a Guerra Fria foi uma tentativa de neoliberalismo e privatização. É o Thatcherismo. É: “Como é que fazemos a China e a Rússia parecerem a Inglaterra de Margaret Thatcher, ou a Rússia nos anos 90 sob o jugo de Boris Ieltsine?

“Como impedir que outros países protejam a sua indústria e o seu sistema financeiro do sistema financeiro dos Estados Unidos e das exportações americanas? Como impedir que outros países façam por si próprios o que a América faz por si própria? Como se introduz uma duplicidade de critérios nas finanças mundiais, no comércio mundial e na política mundial?”

O resultado de tentar evitar que outros países o façam é simplesmente apressar o convidado de saída, acelerar a sua compreensão de que têm de fazer uma pausa. Têm de criar o seu próprio abastecimento alimentar, não depender das exportações americanas de alimentos. Eles têm de criar o seu próprio sistema 5G, não deixar que o 5G da América com os seus portais de espionagem incorporados os invada. Eles têm de criar a sua própria sociedade, e seguir o seu próprio caminho.

Esta era a filosofia chinesa antes do século XVI. Foi sempre o Reino do Centro [Império do Meio, para os portugueses]; a China via-se como independente do resto do mundo. Está a voltar a isso, excepto que sabe que precisa de matérias primas de África e de outros países.

A questão é a seguinte: o que é que a Europa vai fazer? Será que a Europa vai simplesmente seguir as políticas deflacionárias da direita à Thatcher na zona euro e acabar por se parecer com a Grécia? Ou vai juntar-se à Eurásia, à Rússia e à China, e fazer todo um continente asiático?

A Guerra Fria é realmente sobre o que vai acontecer à Europa. Porque já isolámos a China e a Rússia e a Organização de Cooperação de Xangai.

A questão é o que vai acontecer à Europa, e o que vai acontecer a África?

BEN NORTON: Ótimo, bem, penso que é a nota perfeita para terminar. Estávamos a falar com o economista Michael Hudson. Ele é um analista financeiro de Wall Street e um distinto professor de economia na Universidade do Missouri – Kansas City.

É também autor de muitos livros, e estávamos a falar de Super Imperialismo: A Estratégia Económica do Império Americano. Ele tem duas versões disso, e nós vamos ligar-nos a esse livro nas notas do programa deste episódio.

Também faremos um link para o seu site, onde poderá encontrar muitas entrevistas fantásticas com transcrições, os seus artigos – que é michael-hudson.com.

Michael, muito obrigado. Foi uma entrevista realmente fantástica, em duas partes. Aprendi muito, e penso que os nossos espectadores irão beneficiar muito.

Sim, muito obrigado, Michael.

MICHAEL HUDSON: Obrigado. Espero que possamos preencher todos os detalhes em transmissões subsequentes.

MAX BLUMENTHAL: De acordo,  muito obrigado Michael.

__________

[1] Nota do tradutor:  Pode-se estranhar a dureza para com Obama. Mas, curiosamente basta comparar a atitude firme de George Bush pai contra os fundos  abutres, e em particular contra Paul Singer,  e a posição bastante complacente de Obama face a este mesmo personagem com a crise da Argentina, e as dúvidas desaparecem.

___________

Pode ler este artigo no original clicando em:

Transcript – How the US makes countries pay for its wars: Economics of American imperialism with Michael Hudson

Também o pode ler clicando em:

Max Blumenthal and Ben Norton With Michael Hudson: How The US Makes Countries Pay For Its Wars – Economics Of American Imperialism

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/13/covid-19-estados-unidos-moderate-rebels-como-os-estados-unidos-obrigam-outros-paises-a-pagarem-pelas-suas-guerras-a-economia-do-imperialismo-americano-trans/

EUA enviam bombardeiros nucleares para missões de 'dissuasão estratégica' no Pacífico (FOTOS)

Bombardeiro estratégico B-52 da Força Aérea dos EUA (foto de arquivo)
© AP Photo / Mindaugas Kulbis

Os EUA enviaram bombardeiros B-52 Stratofortress e B-2 Spirit para missões simultâneas na Europa e no Pacífico, enquanto os B-1B Lancer seguem no mar do Sul da China.

No dia 7 de maio, seis bombardeiros B-2 Spirit e B-52 Stratofortress foram enviados para as áreas do Comando Europeu e Indo-Pacífico para missões de "prontidão e controle global", segundo o Comando Estratégico dos EUA (STRATCOM, na sigla em inglês).

A STRATCOM comunicou que dois bombardeiros furtivos B-2 da base aérea de Missouri, dois B-52H da base aérea de Dakota do Norte e dois B-52H da base aérea de Louisiana haviam partido para conduzir as missões.

"A implantação dinâmica dos bombardeiros de longo alcance e aeronaves de apoio do STRATCOM norte-americano mostrou a capacidade dos EUA de conduzir dissuasão estratégica sincronizada em qualquer parte do mundo contando com uma força pronta e letal", afirmou o STRATCOM.

"Apesar do surto de COVID-19, estamos comprometidos com nossa missão em todos os domínios (aéreo, naval, terrestre, espacial e cibernético) contando com nossos aliados e parceiros", destaca.

Um bombardeiro B-52 Stratofortress da Força Aérea dos EUA se afasta de um KC-135 da 100ª Ala de reabastecimento aéreo, no Reino Unido, após receber abastecimento durante uma missão do bombardeiro estratégico no dia 7 de maio de 2020
Um bombardeiro B-52 Stratofortress da Força Aérea dos EUA se afasta de um KC-135 da 100ª Ala de reabastecimento aéreo, no Reino Unido, após receber abastecimento durante uma missão do bombardeiro estratégico no dia 7 de maio de 2020

Anteriormente, dois bombardeiros B-1B Lancer foram enviados à base aérea de Andersen em Guam, após embarcações chinesas "expulsarem" um destróier norte-americano das ilhas disputadas.

A Força Aérea do Pacífico (PACAF, na sigla em inglês) descreveu a missão como "dissuasão estratégica para reforçar a ordem internacional baseada em regras na região indo-pacífica".

Um B-1B Lancer do Nono Esquadrão Expedicionário de Bombardeio conduz uma missão de treinamento nas proximidades do Japão, onde foi integrado à Força Aérea de Autodefesa do Japão, 12 de maio de 2020
Um B-1B Lancer do Nono Esquadrão Expedicionário de Bombardeio conduz uma missão de treinamento nas proximidades do Japão, onde foi integrado à Força Aérea de Autodefesa do Japão, 12 de maio de 2020

Os EUA seguem tentando frear o avanço e a presença chinesa na região, e além dos bombardeiros, os norte-americanos ainda usam a pandemia contra a China.

Isso porque a administração Trump segue tentando "responsabilizar a China" pelo surto de COVID-19, alegando que Pequim organizou propositalmente a pandemia global e o colapso da economia dos EUA, chegando a sugerir que cientistas chineses haviam criado o vírus em laboratório. Entretanto, o Pentágono confirmou que não há qualquer evidência para acusar a China e que o vírus teria surgido de maneira natural.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/defesa/2020051315573771-eua-enviam-bombardeiros-nucleares-para-missoes-de-dissuasao-estrategica-no-pacifico-fotos/

Joe Hill – A Rapariga Rebelde

Durante os 22 meses que passou no corredor da morte, Hill continuou a escrever canções, incluindo a “Rebel Girl”, dedicado à mulher proletária.

Quando Hill ouviu a notícia da sua execução, enviou uma mensagem a Bill Haywood, dirigente do sindicato:
 
Adeus Bill. Morro como um verdadeiro rebelde.
“Não percas tempo com luto. Organiza!”
 
Sindicalista, poeta e compositor assassinado em 1915 nos EUA
 
 
A Rapariga Rebelde
 
Há mulheres muito diferentes
Neste estranho mundo, como todos sabemos.
Algumas vivem em belas mansões,
E vestem os mais finos trajes.
Há rainhas e princesas de sangue azul
Que têm encantos lavrados de diamantes e pérolas.
Mas a única que é um puro-sangue
É a Rapariga Rebelde.
 
É a Rapariga Rebelde, a Rapariga Rebelde!
Para a classe operária, ela é uma pérola preciosa.
Ela dá coragem, orgulho e alegria
Ao Rapaz Rebelde que luta.
Tivemos já muitas raparigas, mas necessitamos de muitas mais
No sindicato dos Trabalhadores Industriais do Mundo.
Porque é ótimo lutar pela liberdade
Com uma Rapariga Rebelde
Sim, ela tem as mãos calejadas do trabalho,
E o vestido talvez não seja o mais bonito.
 
Mas o coração que bate no seu peito
É autêntico para ela e para a sua classe.
E os trapaceiros tremem de medo
Quando ela grita o seu despeito.
Porque a única dama puro-sangue
É a Rapariga Rebelde!
……
 

The Rebel Girl
There are women of many descriptions
In this queer world, as everyone knows.
Some are living in beautiful mansions,
And are wearing the finest of clothes.
There are blue blood queens and princesses,
Who have charms made of diamonds and pearl
But the only and thoroughbred lady
Is the Rebel Girl

That’s the Rebel Girl, the Rebel Girl!
To the working class, she’s a precious pearl.
She brings courage, pride and joy
To the fighting Rebel Boy
We’ve had girls before, but we need some more
In the Industrial Workers of the World.
For it’s great to fight for freedom
With a Rebel Girl.

Yes, her hands may be hardened from labor
And her dress may not be very fine
But a heart in her bosom is beating
That is true to her class and her kind.
And the grafters in terror are trembling
When her spite and defiance she’ll hurl
For the only and thoroughbred lady
Is the Rebel Girl.

Via: voar fora da asa https://bit.ly/2LsJlmI

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/13/joe-hill-a-rapariga-rebelde/

Depoimento de «traidor» confirma envolvimento de EUA e Colômbia na «incursão armada»

O ministro venezuelano da Informação apresentou as declarações do «desertor e traidor» Antonio Sequea, que confirmam a articulação da Colômbia e dos EUA com o narcotráfico para atacar a Venezuela.

Pescador venezuelano armado, em Chuao, estado de La Guaira, aborda lancha com mercenáriosCréditos / TeleSur

Na conferência de imprensa que deu esta terça-feira no Palácio de Miraflores (sede do executivo), Jorge Rodríguez, ministro da Comunicação e Informação da Venezuela, apresentou vários vídeos com depoimentos de detidos ligados à fracassada tentativa de incursão terrorista do passado dia 3 de Maio, que tinha como principal alvo o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Entre os depoimentos mostrados conta-se o de Antonio Sequea, «chefe operacional» do plano abortado e, nas palavras de Rodríguez, «desertor e traidor à pátria». Segundo este mercenário, ao serem levados para a península de La Guajira, em território colombiano, foram recebidos por um dos principais narcotraficantes da região, Elkin Javier López, Doble Rueda.

Alegadamente, o presidente colombiano, Iván Duque, exige a sua captura e os Estados Unidos pediram a sua extradição. No entanto, López leva a cabo as suas actividades numa quinta localizada ao lado de uma instalação da Administração para o Controlo de Droga (DEA, na sigla em inglês) em território colombiano, disse Sequea, tendo afirmado que o grupo esteve na quinta pelo menos 40 dias – onde foi treinado por militares norte-americanos com vista à missão de 3 de Maio.

Sequea referiu ainda que comunicava diariamente com o mercenário e militar Jordan Goudreau, dono da empresa Silvercorp, o que lhes dava confiança, uma vez que os seus planos tinham como base um contrato assinado pelo deputado da oposição Juan Guaidó – reconhecido por Washington como presidente interino da Venezuela – e apoiado pelo presidente norte-americano, Donald Trump.

A este propósito, o desertor venezuelano revelou que Goudreau se reuniu com Guaidó na Casa Branca para coordenar a incursão marítima armada e garantiu que as forças de segurança dos Estados Unidos estavam inteiramente a par da «Operação Gedeón», informa a TeleSur.

«Fica totalmente provada a participação de Juan Guaidó nesta acção; ele deu a ordem para que a invasão armada contra a Venezuela fosse levava a cabo», frisou Jorge Rodríguez.

Coordenação da Colômbia e da DEA com o narcotráfico

Num outro vídeo mostrado pelo ministro venezuelano, apareceu o depimento do detido José Alberto Socorro, Pepero, que reafirmou a ligação existente entre o narcotráfico, que «faz vida impunemente em La Guajira colombiana», e a DEA no apoio logístico a este tipo de operações militares que visam agredir a Venezuela.

«É uma prática comum da Colômbia e da DEA capturarem narcotraficantes para os extorsionar e utilizar no financiamento a incursões homicidas, como é o caso do narcotraficante Doble Rueda, responsável pela logística dos mercenários em La Guajira», reiterou Rodríguez, citado pela Prensa Latina.

Acrescentou que as confissõese dos mercenários respondem às perguntas feitas pelo presidente do Comité de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes dos EUA, Elliot Engel, ao Departamento de Estado, numa comunicação enviada ao secretário Mike Pompeo, que até ao momento não teve resposta.

Engel exigiu ao governo de Trump esclarecimentos sobre o planeamento da «Operação Gedeón» na costa venezuelana, no estado de La Guaira, que tinha como propósito executar Nicolás Maduro e outros altos funcionários, bem como perpetrar um golpe de Estado no país caribenho.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/depoimento-de-traidor-confirma-envolvimento-de-eua-e-colombia-na-incursao-armada

EUA vão 'apoiar constantemente' direito de Israel de se defender, afirma Pompeo

Encontro entre Mike Pompeo e Benjamin Netanyahu em Israel
© AP Photo / Sebastian Scheiner

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, reafirmou apoio norte-americano durante um encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, nesta quarta-feira (12).

"Eu quero expressar minhas condolências ao soldado que foi morto [ontem] e lembrar a todos nós da importância de assegurar a todos de Israel o direito de se defender e os Estados Unidos vão apoiar constantemente vocês [israelenses] neste empenho", afirmou Pompeo.

As condolências do secretário norte-americano se devem a um soldado israelense morto na terça-feira (12). Segundo o Jornal Haaretz, o soldado foi apedrejado durante uma operação no território palestino da Cisjordânia.

Netanyahu, por sua vez, agradeceu a Pompeo por se arriscar ao viajar ao país do Oriente Médio durante à pandemia, qualificando o ato como uma prova de força da aliança entre os dois países e a determinação do presidente norte-americano Donald Trump com Israel.

"Em breve formaremos um governo de unidade nacional, amanhã, acredito esta é uma oportunidade para promover a paz e segurança baseadas no entendimento alcançado com o presidente Trump em minha última visita a Washington em janeiro. E estes são grandes desafios e oportunidades que podemos realizar, porque temos uma ligação tão forte que faz a aliança entre Israel e Estados Unidos se destacar [...]", declarou Netanyahu.

Além disso, se espera que Pompeo se encontre com o porta-voz do Parlamento israelense e adversário político de Netanyahu, Benny Gantz. Após três eleições gerais em um ano, os dois políticos israelenses assinaram um acordo de coligação para formar um governo, que deve tomar posse em 14 de maio.

O secretário norte-americano viajou a Israel para felicitar o país pelo novo governo e discutir questões bilaterais, regionais e globais, assim como um plano de anexação de territórios palestinos por parte do Estado de Israel.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020051315573323-eua-vao-apoiar-constantemente-direito-de-israel-de-se-defender-afirma-pompeo/

Capitão detido na Venezuela revela reunião na Casa Branca entre Guaidó e líder da incursão marítima

Membros de grupo de operações especiais da Venezuela observam costa marítima do país, após incursão militar estrangeira, em Macuto, 3 de maio de 2020
© REUTERS / Manaure Quintero

O vice-presidente de Comunicação, Turismo e Cultura da Venezuela, Jorge Rodríguez, mostrou na terça-feira (12) um vídeo de um dos chefes da invasão marítima falhada, o capitão Antonio Sequea.

De acordo com o capitão Antonio Sequea, o ex-boina verde Jordan Goudreau se reuniu na Casa Branca com o líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, para coordenar a operação de incursão marítima na Venezuela.

"Em meados de março, quando Guaidó viajou da Colômbia durante turnê [internacional] até Estados Unidos, Jordan Goudreau parou de se comunicar com a gente. Passamos um tempo sem contato telefônico, e logo voltou a se conectar e me informou que estava em reunião com Guaidó na Casa Branca, que o haviam reafirmado novamente conselheiro militar para a saída do governo da Venezuela", depôs Antonio Sequea.
 

Aqui [está] parte do testemunho do mercenário Antonio Sequea apresentado pelo vice-presidente Jorge Rodríguez, onde o terrorista afirmou que se reuniram na Casa Branca Donald Trump, Juan Guaidó e Jordan Goudreau para derrubar o presidente Nicolás Maduro.

Segundo o capitão, a novidade contada por Jordan Goudreau os encorajou a seguir com o plano de incursão marítima.

"Nos deu um pouco mais de força, nos motivou, já que um ano atrás, nós víamos Jordan por trás da segurança do presidente Donald Trump, e depois estava nos aconselhando militarmente, o que nos dava e criava em nós uma sensação de segurança", acrescentou o capitão, informa TV venezuelana.

Antonio Sequea afirmou que Goudreau e a administração Trump desempenhou um papel fundamental na incursão fracassada.

"Qualquer situação complicada para nós, Goudreau procurava uma forma de resolvê-la e nos mantinha informados de todos os procedimentos de segurança que iria fazer o governo dos EUA", disse Sequea.

Jordan Goudreau pediu-lhes que confiassem "no governo e no chefe [norte-americano], que é o presidente dos EUA, Donald Trump", pois Trump "estava ciente de todo o procedimento".

Em 3 de maio, militares venezuelanos detectaram duas lanchas na costa norte do estado venezuelano de La Guaira com supostos mercenários tentando invadir o território venezuelano, segundo autoridades bolivarianas.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, afirmou ter provas, testemunhos e vídeos de que este grupo treinou no território colombiano e foi financiado pela Colômbia e pelos Estados Unidos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051315572709-capitao-detido-na-venezuela-revela-reuniao-na-casa-branca-entre-guaido-e-lider-da-incursao-maritima/

Relatório aponta déficit recorde de US$ 738 bilhões nos EUA em meio à COVID-19

George Washington usando máscara médica na nota de um dólar
© REUTERS / DADO RUVIC

Os EUA registraram um déficit recorde de US$ 738 bilhões (R$ 4,3 trilhões) no mês de abril, segundo o Departamento do Tesouro.

De acordo com o relatório mensal do Tesouro, o déficit orçamentário norte-americano foi de US$ 738 bilhões (R$ 4,3 trilhões) em abril, quando o país teve de enfrentar o surto de COVID-19.

O relatório mostra que o governo norte-americano obteve uma receita de US$ 242 bilhões (R$ 1,4 trilhão), mas gastou US$ 980 bilhões (R$ 5,7 trilhões). Este défice é US$ 604 bilhões (R$ 3,5 trilhões) superior em relação ao mesmo mês do ano passado.

Até o momento, no ano fiscal de 2020, os EUA registraram um déficit de US$ 1,4 trilhão (R$ 8,2 trilhões).

Em meio à COVID-19, o governo norte-americano desembolsou até US$ 4 trilhões (R$ 23,5 trilhões), incluindo ajuda financeira a pessoas e famílias, apoios aos governos estaduais, territoriais, locais e indígenas, pagamentos a setores relacionados à saúde e subsídios de desemprego.

 

Cédulas de dólar norte-americano
© Sputnik / Aleksei Sukhorukov
Cédulas de dólar norte-americano

Caso as leis atualmente em vigor sobre despesas e receitas não sofram alterações e não haja nenhum financiamento emergencial, o país terá um déficit federal de aproximadamente US$ 3,7 trilhões (R$ 21,7 trilhões) no ano fiscal de 2020 e de US$ 2,1 trilhões (R$ 12,3 trilhões) em 2021, conforme estimativas do Escritório Central de Orçamento.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051315572667-relatorio-aponta-deficit-recorde-de-us-738-bilhoes-nos-eua-em-meio-a-covid-19/

China responde às "24 mentiras" que norte-americanos inventaram

 
 
Chineses recorrem a frase de Abraham Lincoln para dizer que políticos norte-americanos não vão conseguir enganar as pessoas.

A China respondeu àquilo que denomina de "24 mentiras" inventadas pelos políticos norte-americanos, que acusam o país de ter manipulado em laboratório o novo coronavírus.

A resposta vem num texto de onze mil palavras partilhada na página do ministro dos negócios estrangeiros chinês no sábado, noticia a CNN. O documento assume-se como uma resposta às "alegações e mentiras absurdas" inventadas pelos políticos e meios de comunicação social norte-americanos que tentam "atribuir à China a culpa de não terem tido uma resposta eficaz" contra a Covid-19.

"No entanto, como disse Abraham Lincoln, 'é possível enganar algumas pessoas todo o tempo; é também possível enganar todas as pessoas por algum tempo; o que não é possível é enganar todas as pessoas todo o tempo'", começa o texto.

Entre as várias mentiras que tenta esclarecer, pode ler-se no documento que o facto de o primeiro caso ter sido detetado em Wuhan não significa que este vírus tenha tido origem ali; alega-se que a China tomou todas as medidas para não propagar o vírus, pelo que é errado acusar o país de ter propagado a doença pelo mundo; ou ainda que os morcegos não fazem parte da dieta dos chineses, pelo que não se pode dizer que os chineses contraíram a doença por comer este animal.

O governo chinês refuta ainda, mais uma vez, a teoria de que a China tenha criado o vírus em laboratório, referindo que "todas as provas disponíveis mostram que o SARS-CoV-2 é de origem natural e não humana".

O artigo é uma tentativa de refutar as acusações de encobrimento inicial da China e da divulgação tardia de informações sobre o vírus, oferecendo um calendário para mostrar a forma aparentemente "aberta, transparente e responsável" adotada pelo governo chinês no fornecimento de "informações atempadas" ao mundo.

Andreia Pinto | Notícias ao Minuto | © Reuters
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/china-responde-as-24-mentiras-que-norte.html

Trump rejeita ideia de novas negociações comerciais com China

O presidente dos EUA, Donald Trump, se reune com a liderança militar sênior e a Equipe de Segurança Nacional na sala do Gabinete na Casa Branca, em Washington D.C., EUA.
© REUTERS / Yuri Gripas

O presidente dos EUA disse que o acordo assinado em janeiro é para cumprir, e que a China se aproveitou da política econômica norte-americana das últimas décadas.

Donald Trump, o presidente norte-americano, diz não estar aberto a novas negociações sobre o acordo comercial, segundo o jornal South China Morning Post. "Nem um bocadinho, não. Eu não estou interessado", respondeu.

"Nós assinamos um acordo. Eu também tinha ouvido isso, [que] eles gostariam de reabrir as negociações comerciais para fazer um acordo melhor para eles", comentou o presidente dos EUA em uma coletiva de imprensa na Casa Branca.

Em referência a uma matéria do jornal Global Times, o jornalista da Reuters que fez a pergunta a Donald Trump assegurou que no governo chinês surgiram "falcões" que desejam novas negociações e pretendem responder diretamente à escalada de acusações por parte dos EUA sobre a COVID-19.

"Após assinarem a primeira fase do acordo, os EUA intensificam as medidas punitivas em outras áreas, como tecnologia, política e ações militares contra a China. Portanto, se não recuarmos nas questões comerciais, os EUA podem ficar encurralados", observou um conselheiro comercial do governo chinês.

Trump afirmou que a China tem se beneficiado durante décadas com a política benévola dos presidentes norte-americanos, os quais "permitiram que isso acontecesse".

"Vamos ver se eles [a China] cumprem o acordo que assinaram", acrescentou.

Conflitos comerciais

Depois de uma guerra comercial em 2018 e 2019, no final do último ano as duas maiores economias do mundo concluíram a "fase um" de um acordo comercial, que foi assinado em janeiro de 2020.

Os EUA acordaram em baixar para metade (7,5%) as tarifas aplicadas a mercadorias chinesas no valor de US$ 120 bilhões (R$ 698,3 bilhões), e cancelaram tarifas propostas no valor de US$ 155 bilhões (R$ 901,8 bilhões), mantendo no entanto uma taxa de 25% sobre produtos no valor de US$ 250 bilhões (R$ 1,45 trilhão).

Em troca, a China garantiria a compra durante dois anos de produtos norte-americanos em um valor superior a US$ 200 bilhões (R$ 1,16 trilhão), abrangendo artigos manufaturados, produtos e serviços energéticos e produtos agrícolas.

Trump ameaçou sair do acordo se a República Popular da China não cumprisse os compromissos assinados. Anteriormente, o presidente dos EUA havia abandonado unilateralmente o Acordo de Paris de 2017 sobre mudanças climáticas e, em 2018, o acordo nuclear com o Irã.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051215570151-trump-rejeita-ideia-de-novas-negociacoes-comerciais-com-china/

Obama critica resposta de governo Trump à pandemia de coronavírus como "desastre absolutamente caótico"

Washington, 9 mai (Xinhua) - O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, em uma conversa recente, criticou a resposta à pandemia de coronavírus pelo governo atual como "desastre absolutamente caótico".

Uma gravação dos comentários de Obama, feita durante uma conversa com membros da Associação Alumni Obama na sexta-feira e obtida e divulgada pela primeira vez pelo Yahoo News, mostrou que o ex-presidente disse que o atual ocupante da Casa Branca fez do egoísmo, tribalismo e divisão e animosidade "um impulso mais forte na vida americana", que impediu a contenção da pandemia de coronavírus em todo o mundo.

"Estamos lutando contra essas tendências de longo prazo em que ser tribal, ser dividido e ver os outros como inimigos, isso se tornou um impulso mais forte na vida americana", disse Obama. "E, a propósito, estamos vendo isso internacionalmente também. É parte da razão pela qual a resposta a essa crise global foi tão anêmica e irregular".

Obama continuou: "Teria sido ruim mesmo com os melhores governos. Foi um desastre absolutamente caótico quando essa mentalidade, de 'o que tem a ver comigo' e 'não me importo com o resto', quando essa mentalidade é operacionalizada em nosso governo".

"É por isso que eu, a propósito, vou gastar tanto tempo quanto necessário e fazer campanhas o máximo possível por Joe Biden", acrescentou ele, se referindo ao ex-vice-presidente que atuou durante sua presidência, que agora é o presuntivo

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/11/c_139047280.htm

Contrato com empresa dos EUA para invadir Venezuela previa instalar Guaidó na presidência

 
 
Acordo firmado com SilvercorpUSA ainda estabelecia possibilidade de financiamento de 'investidores privados' com a garantia de 'preferências de investimento' durante o suposto governo de Guaidó
 
O governo da Venezuela revelou na sexta-feira (08/05) partes dos anexos do contrato firmado entre a oposição venezuelana e a empresa de segurança privada dos EUA SilvercorpUSA que comprovam que os objetivos da operação eram invadir o país, sequestrar o presidente Nicolás Maduro e instalar um governo presidido por Juan Guaidó.

"O Provedor de Serviços [SilvercorpUSA] irá aconselhar e auxiliar o Grupo Parceiro [militares venezuelanos dissidentes] no planejamento e execução de uma operação para capturar/deter/remover Nicolás Maduro (daqui para frente referido como 'Objetivo Primário'), remover o regime vigente e instalar o presidente reconhecido da Venezuela Juan Guaidó", expressa o contrato divulgado na íntegra pelo jornal Washington Post.

O governo da Venezuela preparou uma tradução para o espanhol da íntegra do documento, que circula entre autoridades e funcionários do Estado venezuelano. Opera Mundi teve acesso a essa versão que pode ser lida aqui.

Sobre os custos da operação, que foi interceptada pelas autoridades venezuelanas no domingo (03/05), o contrato deixa claro que os opositores liderados por Guaidó deveriam pagar a quantia inicial de 1,5 milhão de dólares e, "após a conclusão do projeto, um valor mínimo de 10,86 milhões de dólares, uma média de 14,82 milhões de dólares e um máximo de 16.456 milhões de dólares".

 


O acordo ainda abre a possibilidade para "investidores privados" com a garantia de "preferências de investimento" durante o suposto governo de Guaidó. "O Provedor de Serviços irá assegurar uma linha de crédito para investidores privados financiarem o projeto. Após a conclusão do projeto, esses investidores terão um status preferencial com o novo governo da Venezuela", diz o texto.

A Silvercorp ainda se compromete em criar uma "Unidade de Objetivo Nacional" que agiria sob comando de Guaidó para, após a derrubada de Maduro, "conter ameaças à estabilidade do governo e ameaças terroristas". 

"Esses serviços incluem, mas não se limitam a aconselhamento de missões, recrutamento, seleção e escolha [de pessoas], programa de testes físicos, programação de alvos, remédios, comunicações, demolições, métodos de invasão, vigilância, reconhecimento de alvos", afirma o acordo.

Definindo como "forças hostis" o presidente Nicolás Maduro, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello, e "qualquer apoiador armado" do governo, o contrato destaca que "o uso da força para completar as missões autorizadas será necessário e proporcional, ou seja, razoável em intensidade, duração e magnitude".

Invasão fracassada

Um grupo armado tentou invadir a Venezuela no domingo (03/05), em uma operação interceptada pelas autoridades venezuelanas na região portuária de La Guaira. Na segunda (04/05), outros oito membros da operação de invasão, entre eles dois norte-americanos, foram presos em Chuao, cidade costeira ao norte da Venezuela. De acordo com o governo venezuelano, os criminosos foram interceptados pelos próprios moradores da vila e pela milícia bolivariana local, para depois serem entregues à FANB.

Juan José Rendón, assessor político do autoproclamado presidente da Venezuela Juan Guaidó, admitiu ter contratado a Silvercorp, empresa de segurança e gerenciamento de risco da Flórida, cujo dono diz já ter prestado serviços na área para Donald Trump, para invadir o território venezuelano e sequestrar lideranças do governo legítimo do país, incluindo o presidente Nicolás Maduro.

As declarações foram dadas à CNN em espanhol na noite de quarta-feira (06/05), logo após o governo venezuelano anunciar a captura de um terceiro grupo de pessoas envolvidas na tentativa de invasão que ocorreu no domingo (03/05).
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/contrato-com-empresa-dos-eua-para.html

Pandemia leva Irão a sugerir trocas incondicionais de prisioneiros com os EUA

 

Com receio de que o coronavírus coloque em causa a vida dos reclusos, o Irão disse estar preparado para negociar trocas incondicionais de prisioneiros com os Estados Unidos (EUA), informaram os media iranianos no domingo.

Segundo avançou a Time, o site de notícias iraniano Khabaronline.ircitou o porta-voz do gabinete Ali Rabiei, que afirmou haver “prontidão para [que a transferência de] todos os prisioneiros” seja discutida sem condições.

“Mas, até agora, os EUA recusaram-se a responder”, disse Rabiei. “Esperamos que, como o surto da doença covid-19 que ameaça a vida dos cidadãos iranianos nas prisões dos EUA, o governo dos EUA eventualmente prefira vidas à política”, sublinhou.

Uma autoridade dos EUA, não autorizada a discutir o assunto publicamente e que falou sob anonimato, disse: “Não houve oferta nem oferta de conversas diretas”.

De acordo com Rabiei, o Irão considera o governo dos EUA responsável pela saúde dos prisioneiros iranianos. Embora o responsável não tenha detalhado a situação, os media iranianos apontaram, nos últimos meses, para vários iranianos sob custódia dos EUA, incluindo Sirous Asgari, um professor universitário de 60 anos. As autoridades dos EUA tentam deportar Sirous Asgari desde o ano passado, indicou a Time.

Na semana passada, as autoridades norte-americanas disseram que estavam a progredir nos esforços para garantir a libertação de um veterano da Marinha, detido no Irão.

Ken Cuccinelli, vice-secretário de Segurança Interna, disse quarta-feira que os casos de Michael White, norte-americano detido no Irão, e Sirous Asgari nunca foram conetados, criticando os comentários recentes das autoridades iranianas sobre uma possível ligação entre os dois, apontando ainda que o Irão demorou a aceitar o retorno do professor.

Michael White, de Imperial Beach, Califórnia, foi detido em julho de 2018 enquanto visitava a namorada no Irão, tendo sido condenado por insultar o líder supremo do Irão e por publicar informações confidenciais ‘online’.

Foi libertado em março, devido a uma licença médica que exigia que permanecesse no país. Michael White faz parte das dezenas de milhares de prisioneiros aos quais foram concedidas licença médica no Irão, um dos primeiros países a ser fortemente atingido pelo pela propagação do coronavírus.

Autoridades do governo Trump disseram repetidamente que consideram a libertação de reféns e detidos norte-americanos uma prioridade. Em dezembro, o Irão libertou um estudante da Universidade de Princeton, preso durante três anos sob acusações de espionagem, em troca da libertação de um cientista iraniano.

Em março, a família do ex-agente do FBI Robert Levinson, que desapareceu no Irão há 13 anos, disse ter sido informada pelas autoridades norte-americanas que este estava provavelmente morto, não esclarecendo como chegaram a essa conclusão.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/pandemia-irao-trocas-incondicionais-prisioneiros-eua-323771

Chomsky é taxativo: Trump é o culpado pelas mortes nos EUA

“O presidente esfaqueou os cidadãos nas costas enquanto fingia ser o salvador da nação durante a mais grave crise sanitária do último século”, diz.

 

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é o culpado pelas milhares de mortes ocorridos em território estadunidense, por usar a pandemia do coronavírus para impulsionar sua campanha eleitoral, em linha com os interesses das grandes corporações do país. A opinião é do intelectual Noam Chomsky, em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”.

O linguista estadunidense não mede palavras: “O presidente esfaqueou os cidadãos nas costas enquanto fingia ser o salvador da nação durante a mais grave crise sanitária do último século”. Chomsky dá um exemplo concreto para seu argumento: Trump, que tentará se reeleger em novembro deste ano, cortou recursos para investimentos na Saúde e para o combate de doenças, mesmo tento destinado vultuosas cifras no auxílio financeiro de empresas em dificuldades econômicas.

“Isso é algo que Trump fez ano após ano em seu mandato, cortando cada vez mais. E ele segue cortando, tornando a população tão vulnerável quanto for possível, fazendo-a sofrer cada vez mais, mas sem deixar de dar a ajuda necessária às grandes corporações”, argumenta.

Chomsky diz que os governadores foram abandonados à própria sorte no combate à pandemia. “É uma estratégia para matar uma quantidade imensa de pessoas e não se responsabilizar por suas políticas”. O intelectual criticou também o corte nos pagamentos dos EUA destinados à Organização Mundial da Saúde (OMS). “Para tentar esconder seus erros, Trump vem tentando encontrar bodes expiatórios”, afirmou. “O problema é que isso vai resultar em mortes no Iêmen e por todo o continente africano”.

Chomsky falou à imprensa durante o lançamento da “Internacional Progressista”, iniciativa global organizada e constituída por nomes de destaque do cenário político de diversos países, numa tentativa de se contrapor ao ideário neoliberal. Em setembro, se a pandemia permitir, o grupo se reunirá na Islândia para seu lançamento oficial.


Texto em português do Brasil com tradução e edição de Fernando Damasceno

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/chomsky-e-taxativo-trump-e-o-culpado-pelas-mortes-nos-eua/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=chomsky-e-taxativo-trump-e-o-culpado-pelas-mortes-nos-eua

Tempos de teste: um jornal do início do ano da peste. Por Ann Jones

Espuma dos dias 2 Coronavirus Trump

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Ann Jones Por Ann Jones

Publicado por tomdispatch_logo_v2 em 07/05/2020 (ver aqui)

 

Tomgram: Ann Jones, completamente arrasada com o Covid-19 e com Trump

As maiores histórias americanas sempre foram de ficção. Refiro-me a isto tanto em modo literal como figurativo. Refiro-me a The Great Gatsby, Moby-Dick, Invisible Man, e Little Women, mas refiro-me também ao excepcionalismo americano, às guerras “boas”, percursos dos trapos para as riquezas, à liberdade e justiça para todos. Qual é, então, a grande história americana de não-ficção? Eu digo que pode ser a crónica não escrita de uma criança nascida na sequência da Grande Guerra e do cataclismo da Grande Depressão, uma jovem mulher que sobreviveu à raiva pós-traumática do seu pai herói, alimentada pelas trincheiras e que concluiu o ensino secundário nos “dias felizes” de meados da década de 1950.

Havia um caminho de bom percurso que ela poderia ter seguido, mas esta jovem brilhante cortou o seu próprio caminho. Ela prosseguiu sendo uma motoqueira de um dos primeiros grupos de mulheres rock, esteve envolvida no tumulto ativista dos anos da Guerra do Vietname e ainda encontrou tempo para se doutorar em literatura americana e história intelectual na Universidade de Wisconsin-Madison. Incapaz de encontrar um emprego remunerado no clube dos rapazes da torre de marfim, foi para sul dar aulas numa pequena faculdade negra a que chamou “Uncle Tom’s Campus”, onde lutou com a diferença entre “disciplina mental e suicídio moral”. Esta mulher escreveu um livro sobre o assunto, publicado em 1973, e depois passou a escrever mais oito tomos – todos tipificados por prosa assombrosa, candura selvagem e humor sarcástico – durante as seguintes quatro décadas.

Durante esse tempo, teve experiências de ensino mais felizes no City College of New York, na Universidade de Massachusetts (organizou o seu programa de estudos para mulheres) e no Mount Holyoke College. Tornou-se uma das maiores especialistas do mundo (para não mencionar a primeira) em violência contra as mulheres; cobriu o globo como jornalista e fotógrafa, escrevendo para revistas que vão desde a National Geographic Traveler à Town and Country; viajou por toda a África num Land Rover Série III do exército azul-pólvora, em busca de Modjadji V, a rainha do povo Lovedu, que ama a paz; apanhou um voo para o Afeganistão na sequência do 11 de Setembro para passar a maior parte de uma década a trabalhar como voluntária com mulheres; liderou um projeto especial para a Comissão Internacional de Salvamento em países em situação de pós-conflito em toda a África e Ásia, capacitando as mulheres, ajudando-as a documentar as suas vidas através da fotografia digital; serviu como conselheira de emergência para as Nações Unidas em matéria de género; e, nos seus setenta anos de idade, pediu emprestada algum colete à prova de balas e integrou-se com a U. S. Army, numa base operacional avançada perto da fronteira afegã-paquistanesa. E isso é apenas uma miniatura de uma fração da sua “história”, um conto demasiado fantástico para F. Scott Fitzgerald ou Louisa May Alcott terem escrito, um conto demasiado espantoso para ficção, demasiado incrível para ser tudo menos verdade.

Ann Jones tem vivido uma grande história americana, mas do tipo que não é opção para Hollywood ou transformável numa série documental da Netflix. É um conto de força e coragem invulgar, uma vida ruidosa vivida em silêncio, e uma vida de triunfos sobre inúmeras adversidades, incluindo (como ela escreve hoje) o Covid-19. Não me surpreende que ela tenha vencido o vírus letal que matou mais de 74.000 dos nossos concidadãos americanos e mais de 264.000 pessoas em todo o mundo, porque a sua história é também uma história de sobrevivência. Hoje, Jones, uma colaboradora regular de TomDispatch, oferece uma imagem elegante e evocativa de alguns dos dias mais estranhos que já vimos – o Covid-19 experimentado a partir de dois países e de duas visões do mundo. É apenas o último capítulo de uma grande história americana, escrita por um dos nossos verdadeiros tesouros nacionais.

 Nick Turse, editor associado e diretor de investigação do blog TomDispatch

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Tempos de teste: Um Jornal do Início do Ano da Peste

Por Ann Jones

 

Donald Trump não é um presidente. Ele nem sequer consegue representar na televisão. É um fanfarrão corrupto e perigoso com aspirações mal disfarçadas a uma Coroa e, com as eleições à porta, tem vindo a monopolizar o horário nobre todos os dias, a proferir autocongratulações e desinformações. (Não, não injetem esse Lysol!) As suas intermináveis atuações absurdas são uma farsa contra o trágico pano de fundo da pandemia do Covid-19 que varre todo o país. Se tivéssemos um verdadeiro presidente, ou seja, quase qualquer outra pessoa, as coisas seriam diferentes. Teríamos visto a pandemia a chegar. Não me teria atacado na minha velhice. E a maioria dos mortos talvez ainda estivesse viva.

Os registos de outros países deixam isso claro. A Coreia do Sul, Taiwan, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Islândia, Nova Zelândia e Noruega tiveram todos um êxito louvável na proteção da sua população. Será por acaso que sete das oito nações mais bem sucedidas no combate à pandemia de Covid-19 são lideradas por mulheres? Tsai Ing-wen de Taiwan, Mette Frederiksen da Dinamarca, Sanna Marin da Finlândia, Angela Merkel da Alemanha, Katrín Jakobsdóttir da Islândia, Jacinda Ardern da Nova Zelândia e Erna Solberg da Noruega foram todas descritas em termos semelhantes: como líderes calmas, confiantes e compassivas. Todas elas foram elogiadas pelos preparativos exaustivos, uma ação rápida e decisiva e uma comunicação clara e empática. Erna Solberg foi mesmo aclamada como a “landets mor”, a mãe do seu país.

Talvez em tempos tão inquietantes como estes sintamos alguma ânsia primordial por uma mãe capaz e reconfortante, mas não precisamos de recorrer a tal especulação psicológica. Os países afortunados acabam por ser aqueles com a justeza e a clarividência de terem acolhido as mulheres no governo há décadas.

O que parece anacrónico neste momento crítico é a presença em postos de liderança de tantos autocratas masculinos, sociopatas e autocratas auto-engrandecedores: Jair Bolsonaro do Brasil, Recep Tayyip Erdogan da Turquia, Alexander Lukashenko da Bielorrússia, Viktor Orbán da Hungria, Vladimir Putin da Rússia, Donald Trump dos Estados Unidos, e outros. Perante a pandemia, nenhum destes homens “poderosos” fazia ideia de como responder. Encontraram um invasor que não podia ser intimidado, subornado, banido ou bombardeado. E pela sua ignorância e vaidade, o povo paga (e paga, e paga).

 

Lições de Liderança

Sei algo sobre a diferença que uma boa liderança faz, porque já estive confinada em dois países diferentes. Um manteve-me em segurança, o outro quase me matou. Por acaso, eu estava na Noruega quando o vírus chegou e vi em primeira mão o que um governo bem dirigido pode realmente fazer. (Sim, sei que a Noruega parece de facto pequena quando comparada com os Estados Unidos, mas ambos os governos me obrigaram ao confinamento, a Noruega e a Commonwealth do Massachusetts, onde resido agora, representam cerca de 5,5-6,5 milhões de pessoas, e a capital da Noruega, Oslo, é apenas ligeiramente mais populosa do que Boston. Por isso, algumas comparações podem ser reveladoras).

Mais concretamente, com qualquer população, a diferença entre o sucesso e o fracasso é a preparação, a ação rápida e as técnicas aplicadas para ultrapassar a pandemia. Em 26 de Fevereiro, o Instituto Norueguês de Saúde Pública anunciou o primeiro caso de Covid-19: uma mulher que tinha regressado uma semana antes da China. No dia seguinte, comunicou dois casos em viajantes que regressavam de Itália e outro do Irão. Depois disso, dois esquiadores também regressaram de Itália. Um deles, funcionário do maior hospital de Oslo, regressou imediatamente ao trabalho, onde os rastreadores iriam testemunhar em breve a rapidez com que o vírus invisível se poderia espalhar.

E eis a chave que escapa aos líderes políticos na América: na Noruega, os testadores e os rastreadores  estavam a trabalhar desde o início. No mês de fevereiro, já estavam a testar e a seguir cerca de 500 esquiadores noruegueses que regressavam dos Alpes austríacos e do norte de Itália. Alguns tinham lá frequentado as tabernas de convívio dos esquiadores e, depois de regressarem a casa, foram rápidos a entrar em contacto com os amigos. Um dos rastreadores noruegueses rotulou esses esquiadores como “pessoas muito sociáveis”.

Sistematicamente, a Noruega testaria todos os seus viajantes que regressassem (todos eles!), depois localizaria todos os contactos daqueles que tivessem tido um resultado positivo e testaria também os seus contactos, e assim por diante.

Trabalhando com notável rapidez, os rastreadores usaram os resultados imediatos dos testes – uma ferramenta aparentemente disponível nos EUA apenas para os ricos e famosos – para rastrear as trajetórias do vírus à medida que ele se espalhava. Quando os casos começaram a multiplicar-se sem contactos conhecidos, os rastreadores sabiam que o vírus tinha começado a apanhar boleia através de uma comunidade desprevenida e foram rápidos a cercá-lo e a fechá-lo.

Em resposta à pandemia, o governo fechou gradualmente a capital e outros centros de contágio. Em Oslo, os locais de reunião foram os primeiros: teatros, cinemas, salas de concertos. Os noruegueses foram mesmo convidados a manter-se afastados do Campeonato do Mundo de Esqui que se realiza em Holmenkollen, à beira de Oslo.

Universidades e escolas mudaram-se para aulas online, enquanto escritórios de todos os tipos logo lhes seguiram o exemplo. Restaurantes e bares fecharam as suas portas. A 12 de Março, apenas duas semanas após o primeiro caso relatado, a capital e grande parte do país tinham fechado as portas. Nesse dia, de facto, os funcionários relataram a morte de um homem idoso, a primeira baixa norueguesa por Covid-19.

Em meados de abril, cerca de cinco semanas após o encerramento ter entrado em vigor, o Governo começou a abrir novamente a vida pública, avançando cuidadosamente passo a passo. As crianças de tenra idade foram as primeiras a regressar aos seus infantários no dia 20 de abril, com os alunos do ensino básico a seguir. Em 30 de Abril, a Noruega tinha realizado 172.586 testes e registado 7.667 casos positivos de coranavírus, 2.221 dos quais em Oslo. Os mortos eram 207, o que sugere uma taxa de mortalidade per capita inferior à de qualquer outro país europeu e longe da trágica perda de vidas na América. Mas como explicar este recorde norueguês?

Os peritos atribuem-no aos primeiros e profundos preparativos do governo, permitindo-lhe responder imediatamente ao primeiro caso a surgir no país e, depois disso, aos seus testes rápidos e implacáveis e ao rastreio do contágio. Este esforço meticuloso, apoiado pelo sistema de saúde universal da Noruega, permitiu ao Estado antecipar-se ao vírus, salvar vidas e pôr cobro à pandemia

O sistema de bem-estar social do país, notavelmente eficaz, amparou a sua população durante todo o período de confinamento. Neste período os trabalhadores assalariados auferiram o salário integral pelo  governo durante 20 dias e cerca de 62% dos seus salários integrais após esse período. Voltarão aos seus empregos prontos para trabalhar em fábricas, lojas e empresas, à medida que a quarentena for sendo levantada. As despesas eficazes e bem orientadas do governo estão a garantir transições suaves; um rápido regresso à produção; e, o melhor de tudo neste período conturbado, alguma paz de espírito para empregadores, trabalhadores e famílias. O confinamento será, sem dúvida, dispendioso, talvez o pior golpe para a economia desde a Segunda Guerra Mundial, mas estes arranjos tão minuciosos e de baixo para cima são menos dispendiosos – tanto em termos financeiros como humanos – do que a negligência flagrante dos trabalhadores marginais (também conhecidos como “essenciais”) americanos, atirados para debaixo do autocarro do capitalismo de clientelismo, sem nada mais do que palestras sobre a sobrevalorizada liberdade dos americanos para se defenderem a si próprios.

Na Noruega, a invasão do Covid-19 foi vista desde o início como um problema nacional e como parte de uma emergência global. Nunca foi politizada. A primeira-ministra conservadora da Noruega, Erna Solberg, está agora a receber notas altas, mesmo dos partidos da oposição, pela sua calma liderança. As crianças também gostam dela. Durante a crise, deu duas “conferências de imprensa” a nível nacional a crianças para responder às perguntas que estas apresentaram sobre a pandemia. (“Posso ter uma festa de aniversário?” “Quanto tempo demora a fazer uma vacina?”). Desde o início, disse-lhes que não havia problema em ter medo. E depois deu, assim, um exemplo do que um líder inteligente e trabalhador e um parlamento colaborativo e muito participado podem fazer por todas as pessoas, mesmo em tempos assustadores.

Curiosamente, a Noruega atingiu muito rapidamente a mais baixa taxa de contágio da Europa. Desde o início, o seu objetivo era asfixiar o vírus até ao ponto em que uma pessoa infetada pudesse infetar apenas mais uma. Em termos científicos, o seu objetivo era atingir uma taxa R-0 (taxa de reprodução) de 1,0. No entanto, quando Solberg anunciou esse objetivo, em 24 de Março, o número mágico já tinha caído para 0,71. Hoje, com apenas 81 pacientes Covid-19 hospitalizados e os seus contactos já rastreados e testados, os noruegueses podem começar a retornar com considerável confiança a algo que se aproxima cada vez mais da vida normal.

 

Noite dos Amadores

Os Estados Unidos tornaram-se para o mundo um exemplo precisamente oposto: um governo corrupto nada preparado para a pandemia e mesmo em negação contra os avisos vindos de dentro e de fora. Há anos, o Presidente Obama criou no Conselho Nacional de Segurança uma direção para a segurança global da saúde e a defesa biológica, a fim de se preparar para as pandemias que certamente viriam. Essa direção informou mesmo a recém-chegada equipa Trump sobre a urgência dos preparativos para a pandemia antes da tomada de posse do Presidente. Mas ao tomar posse, Trump eliminou a ameaça, eliminando a direção para a segurança interna .

Como Presidente, foi também informado de um surto viral em Wuhan, na China, no início de janeiro deste ano, mas ignorou a mensagem. Como foi amplamente noticiado, desperdiçou pelo menos dois meses em fantasias interesseiras, alegando que a pandemia desapareceria por sua própria iniciativa, ou era uma Fake News, ou um “novo embuste” dos Democratas a conspirar para a sua queda. Em março, a sua conduta tinha-se tornado cada vez mais errática, obtusa, combativa e, muitas vezes, apenas nojenta. Em abril, abandonou completamente o seu mais premente dever presidencial, primeiro reivindicando “poder total” como presidente e depois transferindo a tarefa de testar e proteger a população de uma pandemia desenfreada para governadores de Estado que já lutavam para encontrar material médico básico para o pessoal de saúde da linha da frente nos seus próprios Estados.

Pior ainda, instigou  os seus apoiantes  mais militantes, alguns fortemente armados, para desafiarem as diretivas de emergência de vários Estados liderados por governadores democratas. Em suma, primeiro descarregou as responsabilidades do seu gabinete sobre os governadores de Estado, depois aproveitou a sua posição para minar e ameaçar alguns deles. Para compor o cenário, cortou o financiamento dos EUA à Organização Mundial de Saúde, a única agência das Nações Unidas mais bem equipada para lidar com emergências globais de saúde. Trump já tinha um registo orgulhoso de se ter safado de atos altamente ofensivos, mesmo criminosos, à vista de todos. Agora, através do egoísmo, da bravata e da simples ignorância, ele tornou uma epidemia novamente grande (MEGA!), pois os casos de Covid-19 e as vítimas mortais nos Estados Unidos já ultrapassaram de longe os de qualquer outro lugar.

 

Bem-vindo à América

Em 11 de Março, quando Oslo estava a aplicar o confinamento, o Presidente Trump emitiu uma ordem para entrar em vigor dentro de 72 horas: ninguém que viesse da Europa seria autorizado a entrar nos Estados Unidos. Parecia uma loucura, mas – preocupada com o pior que poderia acontecer – mudei o meu voo de regresso para cumprir o prazo estipulado pelo Presidente. No dia seguinte, a embaixada americana esclareceu o ultimato do Presidente: a proibição de viajar não se aplicava aos cidadãos norte-americanos. Nessa altura, é claro, era impossível para mim alterar o meu bilhete de volta.

Por isso saí de Oslo a 14 de março, depois de ter assegurado aos meus amigos que estaria bem, porque Massachusetts, a casa de Elizabeth Warren, é um Estado progressista.

Hah!

Mudando de avião em Londres, vi-me num mundo diferente: metida na parte de trás desse voo entre uma multidão de estudantes americanos de universidades europeias convocados para casa pelos seus ansiosos pais. Alguns estavam em trânsito vindos do norte de Itália, já então o coração do surto europeu de Covid-19. Dos lugares atrás de mim vieram sons insistentes de rapazes a tossir. As hospedeiras usavam luvas de borracha e tornavam-se escassas. Embrulhei um longo lenço à volta do meu rosto, sentindo como se de alguma forma tivesse sido sugada para dentro de uma armadilha.

Sete horas mais tarde, tropeçámos no aeroporto de Logan, em Boston, destinados a passar mais algumas horas, todos juntos, juntos uns aos outros. Circulei por um trilho em ziguezague, no meio daqueles rapazes com tosse, sem haver forma de nos distanciarmos, até aos inspetores de passaportes e depois para além deles. Finalmente, um a um, fomos conduzidos a uma área com cortina para vivenciarmos a primeira noite de rastreio” oficial daquele aeroporto.

Fiquei satisfeita por pensar que todos nós, pelo menos, iríamos ser testados para deter o vírus. Mas não tivemos essa sorte. Quando chegou a minha vez, o examinador oficial não se pronunciou, não fez perguntas, não ofereceu nada mais do que uma única sugestão: “Vá para casa e veja a sua temperatura.” Terei sido retida todo esse tempo entre aqueles rapazes com tosse para  isto? Mais para o final da semana, um jornal local informou que o novo rastreio no aeroporto, a primeira linha de defesa contra a peste estrangeira, demorou “menos de um minuto”.

Fiquei zangada por ter sido forçada a embarcar naquele perigoso voo pela decisão arbitrária do Presidente e duplamente zangada por ele ter acabado com as viagens a partir da Europa sem consultar nenhum dos seus homólogos europeus. Ao que parece, nessa noite, ninguém da sua administração tinha sequer informado os principais aeroportos americanos que receberam voos da Europa até ao último minuto. Vi um bando daqueles jovens a tossir a entrarem num autocarro da Silver Line para Boston e outros a apanharem táxis. E por isso todos nós saímos à noite, aparentemente sem deixar qualquer vestígio do nosso estado de saúde ou para onde nos dirigimos. Alguns dias depois, eu não estava apenas zangada, estava muito doente.

Dez dias depois, num parque de estacionamento do hospital, uma enfermeira equipada de máscara aplicou-me uma zaragatoa no nariz. Um médico disse-me para me pôr em quarentena em casa (como eu estava a fazer de qualquer forma) até receber os resultados dos exames em cerca de 5 dias. Mas porque demoraria tanto tempo? O objetivo de um teste não era saber o que se estava a passar o mais rapidamente possível? A velocidade do resultado do teste tinha sido o próprio objetivo na Noruega. Combinado com o trabalho imediato dos rastreadores, isso  permitiu ao Serviço Nacional de Saúde manter-se à frente da pandemia e, no final, essencialmente, encerrar o processo.

Fui para casa e piorei. Passaram-se cinco dias sem que houvesse notícias. Ao décimo-segundo dia, senti-me suficientemente bem para telefonar ao meu médico, que localizou o resultado do meu teste (“acabou de chegar”). Deu positivo, mas datava de há quase duas semanas. Assim, por telefone, o médico deu-me a autorização para colocar a máscara (uma lembrança da minha viagem às Urgências) e ir às compras. Sabendo que nenhum médico norueguês me iria soltar tão cedo sem outro teste, pedi um. Desculpe-me, não temos muitos, um só por paciente. Desde então, meti-me de quarentena em casa.

 

O Covid-19 apanha boleia pela América

Em 10 de Abril, chegou a notícia da morte de Vitalina Williams, 59 anos, uma imigrante da Guatemala, que trabalhava a tempo inteiro num estabelecimento  Walmart em Lynn, Massachusetts, bem como um emprego a tempo parcial num supermercado em Salem. Tal como a enfermeira e o médico nas Urgências, esta caixa era uma “trabalhadora essencial”, a primeira funcionária de uma mercearia no Massachusetts a trabalhar até à morte. Há aqui uma diferença imensa entre o Massachusetts e a Noruega. Na Noruega, um empregador ter-lhe-ia pago um bom salário e também lhe teria dado uma licença remunerada para consultar o seu próprio médico no Serviço Nacional de Saúde, quando se sentiu doente pela primeira vez. Teria sido acolhida, diagnosticada, tratada e, muito provavelmente, salva. É simplesmente assim que funciona um sistema nacional de saúde numa social democracia.

Então, para que foi o meu teste Covid-19? Que informação útil é que deu a alguém? Eu tinha ido a pé para casa, vindo das Urgências, no escuro (para não pôr os outros em perigo apanhando um autocarro) e fui para a cama. Ninguém me examinou porque ninguém sabia que o meu teste era positivo – algo que eu, claro, também não sabia. E ao longo dessas quase duas semanas de espera pelos resultados do teste, nenhum rastreador me chamou para saber se eu vivia com outras pessoas que poderiam estar em perigo e disponíveis para serem testadas. (Não havia, de facto, rastreadores  nessa altura.) Ninguém me fez uma única pergunta sobre a minha família, amigos ou outros que eu possa ter contactado desde aquele “rastreio” no aeroporto. E se eu tivesse morrido na minha cama, ninguém teria ou poderia ter traçado aquela linha vermelha brilhante entre mim, aqueles rapazes com tosse  e o voo obrigatório de Donald Trump para um Estado apanhado totalmente desprevenido num país, tanto disfuncional como não preparado.

A 20 de Abril, cinco semanas após o meu regresso a Boston, Massachusetts foi designado como “ponto quente” do Covid-19. Com 38.077 casos e 1.706 mortes nessa altura, o Estado ocupava o terceiro lugar, atrás de Nova Iorque e Nova Jersey. Isto não foi uma honra, mas pode ter sido o que levou o governador Charlie Baker a recorrer a testes – e, tardiamente, a rastrear.

O número de novos casos neste Estado estava a aumentar todos os dias, como aconteceu com o primeiro caso comunicado em fevereiro. O governador, que também realiza uma conferência de imprensa todos os dias, explicou que estamos agora “no meio de um surto esperado”, pelos vistos sem saber que um “surto” é o que se obtém quando se perdeu a oportunidade de fazer testes preventivos e de rastrear. (É também o que se obtém quando, como na capital do país, são os políticos e não os cientistas a dirigir o espetáculo).

Tardiamente, o Massachusetts começou a testar pessoas ao ritmo de cerca de 9 000 por dia, enquanto agências privadas financiadas pelo Estado estão a contratar talvez 1 000 rastreadores para fazerem entrevistas telefónicas com os contactos de todos os residentes do Massachusetts que já deram resultados positivos. Hoje, dia 6 de maio, oficializamos o número de casos “positivos” em 70.271, embora 4.212 de nós já estejam mortos.

Nos primeiros dias de maio, o número de pacientes positivos hospitalizados diminuiu ligeiramente e os funcionários do Estado adotaram uma atitude de “otimismo cauteloso”. Presumivelmente, algo de importante será aprendido com esses testes tardios. No entanto, como a Noruega reconheceu, se não se saltar rapidamente para cima deste vírus, ele dispersa-se rapidamente para além dos simples contactos de pessoa para pessoa. Ele espalha-se de maneira sociável como muitos esquiadores noruegueses – ou estudantes americanos. Ele anda de teleférico e de autocarro. Entra no avião. Fica no aeroporto. Apanha boleia com alguém que para na mercearia. Para contabilizar os seus contactos basta-nos, por vezes, contar os seus mortos.

Os rastreadores na Noruega já passaram a outros testes para encontrar transportadores assintomáticos que possam ser contagiosos ou talvez tenham desenvolvido anticorpos. Qualquer pessoa nesse país, mesmo com os sintomas mais ligeiros, pode solicitar um teste. Estes estudos de precaução são essenciais no caso de o vírus encontrar nova vida à medida que a quarentena é levantada. O que os cientistas poderão aprender com tais estudos, como o novo rastreio no Massachusetts, ainda está para ser visto, mas uma conclusão inevitável é certamente que este vírus é mais inteligente, mais ágil e mais rápido de pé do que qualquer um dos seus associados que conhecemos anteriormente ou, aliás, do que a maioria dos nossos funcionários públicos, a começar por um Presidente completamente falhado. E para todos os leitores que acreditam mais na política do que na ciência, permitam-me apenas dizer que sem ciência nem sequer saberão o que os atingiu.

 

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A autora: Ann Jones [1937 – ], é colaboradora regular de TomDispatch, membro não residente doQuincy Institute for Responsible Statecraft. Está a trabalhar num livro sobre social-democracia na Noruega (e a sua ausência nos Estados Unidos). É autora de vários livros, nomeadamente, “Cabul no Inverno: Life Without Peace in Afghanistan” e mais recentementeThey Were Soldiers: How the Wounded Return from America’s Wars — the Untold Story, um original de Dispatch Books.(H ymarket, 2013).

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/11/tempos-de-teste-um-jornal-do-inicio-do-ano-da-peste-por-ann-jones/

Desemprego nos EUA sobe para nível da Era da Depressão, com analistas dizendo que irá piorar

Washington, 8 mai (Xinhua) - Novos dados mostraram que os empregadores dos EUA cortaram impressionantes 20,5 milhões de empregos em abril, apagando uma década de ganhos de emprego desde a crise financeira global e elevando a taxa de desemprego para um recorde de 14,7 por cento.

Embora esse seja o nível mais alto de desemprego desde a Grande Depressão, analistas disseram que o número não condiz com toda a escala da crise de emprego induzida pelo COVID-19, e o pior ainda está por vir.

 

MERCADO DE TRABALHO "EM QUEDA LIVRE"

Em abril, a taxa de desemprego subiu 10,3 pontos percentuais, para 14,7 por cento, o maior aumento ao longo do mês na história da série desde janeiro de 1948, informou sexta-feira o Secretaria de Estatísticas Trabalhistas (BLS) dos EUA.

"Por mais trágico que esse número seja, não surpreende que mais de 26 milhões de pessoas tenham requerido benefícios de desemprego entre a pesquisa de emprego de março e abril", escreveu em uma análise, Jay H. Bryson, economista-chefe interino da Wells Fargo Securities.

Desde meados de março, vários estados dos EUA adotaram políticas de "ficar em casa" e fecharam negócios não essenciais, em uma tentativa de diminuir a propagação do vírus, levando as empresas a cortarem milhões de empregos em semanas.

"Não houve subcategoria que foi poupada da carnificina", disse Bryson.

O emprego em lazer e hospitalidade caiu 7,7 milhões, ou 47 por cento, segundo o relatório. Quase três quartos da queda, ou 5,5 milhões, ocorreram em serviços de alimentação e bares.

O setor manufatureiro perdeu 1,3 milhão de trabalhadores e o emprego no comércio varejista caiu 2,1 milhões de vagas. O setor de educação e saúde, que é um criador confiável de empregos em tempos "normais", perdeu 2,5 milhões de empregos, observou Bryson.

O emprego no governo também caiu 980.000 em abril, de acordo com a agência. O emprego no governo local caiu em 801.000, em parte refletindo o fechamento de escolas.

"O devastador relatório de empregos de hoje confirma que o mercado de trabalho está em queda livre, desfazendo anos de progresso econômico", disse Shai Akabas, diretor de política econômica do Bipartisan Policy Center. "Infelizmente, já sabemos que irá piorar".

Hispânicos e afro-americanos foram os mais atingidos na crise de emprego. Os dados mostraram que a taxa de desemprego em abril saltou para 18,9 por cento para hispânicos, 16,7 por cento para afro-americanos, 14,5 por cento para asiáticos e 14,2% por cento para brancos.

O salário médio por hora em abril aumentou 1,34, ou 4,7 por cento, para 30,01 dólares, mostrou o relatório. Observando que o salário médio por hora tem aumentado de 0,2 a 0,3 por cento em média nos últimos anos, Bryson disse que o aumento repentino é "dificilmente um sinal de força".

"Como as perdas de empregos em abril caíram desproporcionalmente entre os trabalhadores com baixos salários, o salário médio aumentou", disse Bryson. "Se, como esperamos, a taxa de desemprego permanecer elevada nos próximos meses, o crescimento dos ganhos por hora deve diminuir consideravelmente".

 

DESEMPREGO PODE SER MAIS ALTO

O número recorde de desemprego, no entanto, pode não condizer com toda a escala de perda de emprego em meio às consequências do COVID-19, devido ao tempo da pesquisa e à definição tradicional de desemprego, entre outros detalhes.

"Devido ao tempo da pesquisa, esses dados fornecem uma visão geral do mercado de trabalho de três semanas atrás", disse Akabas. O período de referência da pesquisa domiciliar do BLS geralmente é na semana do calendário que contém o 12º dia do mês, neste caso de 12 de abril a 18 de abril.

"Desde então, outros milhões perderam seus empregos, como evidenciado pela série de reivindicações recordes de seguro-desemprego", disse Akabas.

Os novos dados sobre desemprego foram divulgados um dia depois que o departamento informou que o número inicial de pedidos de desemprego totalizava quase 3,2 milhões na semana passada. Na semana anterior, o número chegou a 3,8 milhões.

Além disso, o BLS afirmou que, se os trabalhadores registrados como empregados, mas ausentes do trabalho devido a "outras razões", acima do número de abril típico, fossem classificados como desempregados com demissão temporária, a taxa geral de desemprego teria sido quase 5 pontos percentuais acima do relatado.

A ex-comissária do BLS, Erica Groshen, observou que milhões foram demitidos ou deixaram um emprego e não estão à procura de um novo em meio à pandemia, e eles podem não ser definidos como desempregados, informou o Marketplace.

O relatório do BLS também mostrou que a taxa de participação da força de trabalho caiu 2,5 pontos percentuais no mês, para 60,2 por cento, a menor taxa desde janeiro de 1973, quando era de 60 por cento.

"A taxa de desemprego teria aumentado ainda mais se 6,4 milhões de indivíduos deixassem a força de trabalho", disse Bryson.

Considerando esses fatores, os economistas do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) de Chicago, Jason Faberman e Aastha Rajan, disseram em um blog no início desta semana que os dados oficiais de abril poderiam subestimar amplamente a destruição de empregos pela pandemia.

"Para contar como desempregado, é preciso estar desempregado e com demissão temporária ou ativamente procurando e disponível para novo trabalho. Isso deixa de fora muitas pessoas que querem trabalhar, mas não procuraram trabalho no período coberto pelos dados, assim como pessoas que podem permanecer empregadas, mas com horas substancialmente reduzidas", eles argumentaram.

 

Os economistas do Fed de Chicago estimaram uma taxa de 'U-Cov' em abril entre 25,1 e 34,6 por cento.

 

A REABERTURA PODE SALVAR EMPREGOS?

Como a economia dos EUA testemunha sua maior queda desde a crise financeira global, com 33 milhões de reivindicações de desemprego registradas dentro de sete semanas, a potencial recuperação econômica após a reabertura pode ser boa notícia para muitos.

De acordo com uma projeção recente da Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, a reabertura parcial aumentaria o PIB em 30 de junho em 1 por cento em relação ao ano anterior, para uma contração de 10,7 por cento. Cerca de 4,4 milhões de empregos seriam salvos, embora 14 milhões ainda sejam perdidos entre 1º de maio e 30 de junho.

O consultor-econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, disse recentemente que todos os estados dos EUA reabrirão em sua maioria até o final de maio, e a maioria dos analistas prevê uma recuperação econômica na segunda metade do ano.

O presidente Donald Trump disse sexta-feira na Fox News que, com a reabertura da economia, os empregos perdidos voltarão. "Esses empregos voltarão e brevemente", disse o presidente.

Os economistas, no entanto, parecem acreditar no contrário. Michael Hicks, diretor do Centro de Negócios e Pesquisa Econômica da Universidade Estadual Ball, em Indiana, disse que "a maior parte das perdas de empregos caem em setores que continuarão sofrendo baixa demanda depois que as ordens de abrigo foram perdidas".

"Independentemente da ação do Estado para relaxar as regras de abrigo, a economia continuará experimentando níveis de estresse de grande depressão até que as vacinas ou tratamentos com COVID-19 estejam disponíveis", disse Hicks.

Hicks, no entanto, disse que a boa notícia é que dos 20,5 milhões de trabalhadores desempregados ao longo do mês, 18 milhões relataram estar sofrendo uma demissão temporária. "Isso sinaliza a expectativa de que eles possam recuperar seus empregos à medida que as condições melhorarem", disse Hicks.

Segundo Bryson, a taxa de desemprego "ainda será superior a 6 por cento no final do próximo ano".

Jason Furman, professor da Universidade de Harvard e ex-consultor econômico do presidente Barack Obama, disse no Twitter que "não sei como estará o desemprego em dois anos. Receio que ainda estará muito alto, mas podemos ter sorte".

"De qualquer maneira, a política correta é a mesma: inclua gatilhos que condicionem assistência ao futuro assistente ao que realmente acontece. Se a taxa de desemprego for alta, continue automaticamente", disse Furman, se referindo ao pacote de auxílio de COVID-19 aprovado pelo Congresso dos EUA.

Analistas disseram que pode levar anos para retornar à historicamente baixa taxa de desemprego de 3,5 por cento que o país experimentou antes do surto de COVID-19. Desde setembro do ano passado, a taxa de desemprego oscilava entre 3,5 e 3,6 por cento até fevereiro.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/10/c_139044871.htm

Casos da COVID-19 superam 1,3 milhão nos EUA, diz Universidade de Johns Hopkins

Nova York, 9 mai (Xinhua) -- O número de casos da COVID-19 nos Estados Unidos atingiu 1.300.079 até às 15h32 deste sábado (horário local, 1932 GMT), anunciou o Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas da Universidade de Johns Hopkins.

Além disso, o total de mortes causadas pela doença chegou a 78.320 no país, de acordo com a entidade.

Nova York é o estado mais afetado, com 333.122 casos e 26.563 mortes, seguido por Nova Jersey, com 137.397 casos e 9.116 mortes. Outros estados com mais de 50 mil casos incluem Massachusetts, Illinois, Califórnia e Pensilvânia. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/10/c_139045000.htm

COVID – 19 – ESTADOS UNIDOS – MODERATE REBELS – O FALSO RESGATE DO CORONAVÍRUS NOS ESTADOS UNIDOS CONSISTE NUMA DOAÇÃO DE 6 MILHÕES DE MILHÕES DE DÓLARES A WALL STREET – transcrição de uma entrevista a MICHAEL HUDSON

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Face à pandemia de Covid-19, o Congresso dos Estados Unidos aprovou e entrou já em vigor o CARES Act – que o economista Michael Hudson explica não ser um “resgate”, mas uma doação massiva  de 6 milhões de milhões  de dólares a Wall Street, bancos, grandes empresas e acionistas.

Max Blumenthal e Ben Norton discutem o enorme esquema financeiro com Hudson, que nos revela como funciona realmente a economia, com a Reserva Federal a imprimir dinheiro para que as elites ricas não percam os seus investimentos.

Michael Hudson’s website: michael-hudson.com

Michael Hudson, “A debt jubilee is the only way to avoid a depression,” The Washington Post, March 21, 2020

(Michael Hudson, “Um jubileu da dívida é a única forma de evitar uma depressão”, The Washington Post, 21 de Março de 2020)

MMT research at New Economic Perspectives: neweconomicperspectives.org

Michael Hudson, “A debt jubilee is the only way to avoid a depression,” The Washington Post, March 21, 2020

 

Transcrição da entrevista

(Entrevista gravada a 13 de Abril de 2020)

 

MICHAEL HUDSON: Basta pensar quando, nos debates com Bernie Sanders durante a Primavera, Biden e Klobuchar continuavam a dizer: “O que estamos a pagar pela Medicare-for-All será cerca de 1  milhão de milhões  de dólares ao longo de 10 anos”. Bem, aqui o Fed pode criar 1,5 milhões de milhões de dólares numa semana só para comprar ações.

Porque é que o Fed pode criar 1,5 biliões de dólares para comprar ações para evitar que os ricos percam nas suas ações, quando não é possível imprimir apenas 1 milhão de milhões  de dólares para pagar um Medicare gratuito para toda a população em 10 anos? Isto é uma loucura!

A ideia é que só os ricos possam imprimir dinheiro para si próprios, mas o governo não deve ser autorizado a imprimir dinheiro para qualquer fim público, qualquer fim social – não para medicina, não para escolas, não para orçamentos pessoais, não para o pleno emprego – mas apenas para dar aos 1%.

As pessoas hesitam em pensar assim. Pensam: “Não pode ser assim tão mau”. Mas para aqueles de nós que trabalharam em Wall Street, durante 60 anos, como é o meu caso, é isso que os números mostram.

Mas não temos os meios de comunicação social a falar de números reais. Eles dizem-nos apenas  palavras e usam eufemismos. É uma espécie de vocabulário orwelliano, que descreve um mundo interior e exterior.

BEN NORTON: O mundo está a sofrer neste momento de uma das piores crises económicas da história moderna. Definitivamente, a pior crise desde o crash financeiro de 2008. E muitos especialistas em economia dizem que estamos a viver a pior recessão desde a Grande Depressão de 1929.

Bem, juntando-se a nós para discutir isto hoje, temos um dos melhores economistas contemporâneos, que está realmente bem preparado para explicar o que tem acontecido nesta recessão global durante a pandemia do coronavírus. E hoje vamos falar especificamente sobre o pacote de ajuda de 6 milhões de milhões  de dólares que o Congresso dos EUA aprovou.

A administração Trump está basicamente a tomar o resgate empresarial de Obama  como exemplo e a injetar  milhões de milhões de dólares no sector empresarial. E hoje, para discutir o que significa exatamente o resgate provocado pelo coronavírus, temos a companhia do economista Michael Hudson.

Ele é autor de muitos livros. E na segunda parte deste episódio vamos falar sobre o seu livro Super Imperialismo: A Estratégia Económica do Império Americano. Portanto, isso será muito mais na linha dos tradicionais episódios dos Rebeldes Moderados, em que falamos de imperialismo, de política externa dos EUA e de tudo isso.

Michael Hudson é também um antigo analista financeiro de Wall Street, por isso está muito bem preparado para falar sobre o roubo financeiro que se passa em Wall Street. E é um distinto professor de economia na Universidade do Missouri, em Kansas City.

Portanto, Michael, vamos começar por aqui. Consegues dizer-nos como responder a esta depressão global que estamos a viver neste momento, no meio da pandemia de Covid-19? E o que pensas deste novo resgate  que foi aprovado?

MICHAEL HUDSON: Bem, a palavra resgate (bailout), como acabaste de referir, foi realmente usada por Obama e só para os bancos. A palavra coronavírus serve apenas como um slogan publicitário.

Os bancos e as empresas, as companhias aéreas, têm pronta uma lista de objetivos, preparada pelos seus advogados e lobistas para uma oportunidade dessas. E quando surge a oportunidade – quer seja o 11 de Setembro com o Patriot Act, quer seja o coronavírus de hoje – eles simplesmente colaram a palavra coronavírus numa Lei, no que deveria ser chamado de “dar de beber” ao grande sector bancário.

Falemos de quem não está a ser resgatado. Quem não  é resgatado são  os pequenos empresários, os restaurantes, as empresas que nós encontramos quando passeamos pelas  ruas de Nova Iorque ou de outras cidades, e todos eles estão cobertos de painéis: fechados. As suas rendas estão a acumular-se, mês após mês.

Restaurantes, ginásios e lojas são empresas de pequenas marcas, pequenas empresas de margens reduzidas, onde, uma vez que não tenham vendas durante talvez três meses e renda acumulada durante três meses, não vão ter dinheiro suficiente para  terem lucros  para conseguirem pagar as rendas que acumularam nos últimos três meses.

As outras pessoas que não estão a ser socorridas são os trabalhadores – especialmente as pessoas a quem chamam os trabalhadores de primeira necessidade, que é o seu eufemismo para trabalhadores com salários mínimos sem qualquer segurança de emprego. Tem havido enormes despedimentos de trabalhadores com salários mínimos, trabalho manual, de  todo o tipo de trabalho.

Eles não estão a receber rendimentos, mas as rendas que têm de pagar estão a aumentar. E as suas contas de serviços públicos estão a acumular-se. Os seus empréstimos estudantis estão a acumular-se. E as suas dívidas de cartão de crédito estão a aumentar a taxas de juros e de penalização, que são ainda maiores do que as taxas de juros. Portanto, todas estas dívidas estão a acumular-se.

A verdadeira explosão vai ocorrer dentro de três meses, quando, de repente, este dinheiro se tornar exigível. O governador de Nova Iorque disse: “Bem, temos uma moratória sobre o despejo efetivo de pessoas durante três meses”. Portanto, há restaurantes e outras pessoas, indivíduos, assalariados, que vão poder viver nos seus apartamentos e não ser despejados. Mas, ao fim de três meses, é aí que os avisos de despejo vão chegar. E as pessoas vão decidir, será que vale a pena?

Bem, especialmente os restaurantes vão decidir. E vão dizer: “Não há maneira de conseguirmos ganhar dinheiro para pagar, porque não temos tido o rendimento para pagar”. Vão ficar sem negócio. Eles não vão ser ajudados.

O tipo semelhante de presente  ocorreu após o 11 de Setembro. Eu tive uma casa durante 20 anos em Tribeca, a um quarteirão do World Trade Center. O dinheiro era dado pelo governo aos senhorios, mas não às pequenas empresas que lá alugavam – as lojas Xerox e as outras coisas. Os senhorios tomaram para eles  toda a aparente perda de renda,  e ainda assim tentaram cobrar a renda das lojas xerox, das lojas de alimentos, e acabaram por cobrar duas vezes, e expulsá-las.

Por isso estão a ter o simulacro de um resgate, mas o resgate é realmente um resgate ao estilo de Obama. Vai para os bancos; vai para aquelas companhias que elaboraram listas de desejos pelos seus lobistas tentarem satisfazer, como as companhias aéreas, a Boeing e os grandes bancos.

Os bancos e os interesses imobiliários vão ser os maiores beneficiários. Mudaram a legislação imobiliária de modo a que os proprietários imobiliários, durante uma geração, fiquem isentos de impostos sobre o rendimento. Estão autorizados a cobrar amortizações e têm outras amortizações rápidas para fingir que os seus bens imobiliários estão a perder valor, independentemente de estarem a subir ou não de valor.

Donald Trump diz que adora a depreciação, porque pode afirmar que está a perder dinheiro, e obtém uma remissão fiscal, mesmo enquanto os preços dos seus imóveis sobem.

Por isso, há muitas letras pequenas. O diabo está nas letras pequenas do anúncio. E mesmo  o Presidente Trump tem o seu próprio fundo de 500 mil  milhões de dólares sobre o qual diz não ter de informar o Congresso ou  estar sujeito a qualquer lei de Liberdade de Informação. Ele pode dar aos seus apoiantes nos Estados Republicanos  milhões de milhões

E os estados e municípios ficam falidos. Imagine a cidade de Nova Iorque e outros estados. A maioria dos estados e cidades têm restrições constitucionais sobre o equilíbrio orçamental. Isso significa que não estão autorizados a ter um défice.

Agora, se estes Estados e cidades têm de pagar o seguro de desemprego e têm de pagar encargos com as escolas e serviços públicos, mas não recebem os impostos sobre as vendas, não recebem os impostos sobre o rendimento, dos restaurantes e de todas as empresas que estão fechadas, ou dos trabalhadores porque  são despedidos, vão ficar com um défice enorme.

Nada se faz a esse respeito. Não houve qualquer tentativa de os resgatar. Portanto, daqui a três meses, terão Estados falidos, municípios falidos, mão-de-obra que não pode aguentar, cujas poupanças foram já gastas.

Como tenho a certeza de que relatou no seu programa, a Reserva Federal diz que metade dos americanos não tem 400 dólares de  poupanças para responder a despesas de emergência. Bem, agora vão ter  milhares de dólares de renda e de  contas mensais.

Portanto, o desastre está prestes a acontecer. Eles não vão ser socorridos. Mas nenhum grande investidor, na verdade, vai perder. Na semana passada, o mercado bolsista deu o maior salto desde a depressão – o maior salto dos últimos 90 anos. E isso porque Trump diz: “A economia é a bolsa de valores, e a bolsa de valores é o grupo de 1%. “.

Por isso, desde o início, o seu ponto de referência para o mercado e para a economia é o 1 % o. Os 99 % são simplesmente despesas gerais. A indústria é uma sobrecarga. A agricultura é uma despesa geral. E a mão-de-obra é uma despesa geral,  para o que é realmente uma economia financeira que estabelece e faz aprovar todo o plano de ajuda.

Não é um resgate  –  é uma enorme prenda que os torna mais ricos do que alguma vez foram antes.

BEN NORTON: Sim e Michael, em relação a isso – o senhor mencionou que as letras miúdas são importantes. Mas eu também tenho uma espécie de pergunta ainda mais importante: é que eu não  sei exatamente de onde vêm estes números.

Oficialmente, o resgate é de 2 milhões de milhões  de dólares. Muitos meios de comunicação social noticiaram-no efetivamente como sendo de 4 milhões de milhões de dólares. Mas, na verdade, segundo Larry Kudlow – que é o director do Conselho Económico Nacional dos EUA, é o tipo de economista-chefe da administração Trump – Larry Kudlow diz agora que, na realidade, são 6 milhões de milhões  de dólares no total, o que corresponde a um quarto de todo o PIB dos EUA.

E isso inclui 4 milhões de milhões  de dólares em poder de empréstimo para a Reserva Federal, bem como 2 milhões de milhões de dólares no pacote de ajuda.

Por conseguinte, está em discussão este pacote de ajuda, mas na verdade o pacote de ajuda de 2 milhões de milhões de dólares é, na verdade, metade do montante dos 4  milhões de milhões  de dólares que são concedidos à Reserva Federal.

O que são exatamente esses 4 milhões de milhões de dólares que a Reserva Federal tem disponíveis? Será isto uma espécie de saco preto  ou como é que funciona?

MICHAEL HUDSON: Não, a Reserva Federal recebeu poderes especiais para criar 10 vezes mais empréstimos ou swaps do que outros. A Reserva Federal representa os bancos comerciais e os investidores comerciais.

Agora o problema é este: muitas empresas estavam a emitir títulos não pretendidos pelos mercados, títulos “podres” . Estavam a descer muito nos preços, especialmente as junk bonds para a indústria de fracking, isto é, do petróleo. A Reserva Federal diz: “Vamos ter o apoio do Tesouro”. Podemos simplesmente criar – como sabem, a Teoria Monetária Moderna – podemos simplesmente criar dinheiro num computador, e trocá-lo por títulos. Por isso, vamos dizer: aos mercados “Dêem-nos os vossos pobres”. É como a Estátua da Liberdade: “Dá-nos os teus pobres, os teus oprimidos,” ou a  velha  lâmpada  de Aladino para as novas: “Dá-nos os teus títulos de lixo, e nós damos-te um depósito  de confiança, um depósito da Reserva Federal “.

Assim, a Reserva Federal tem vindo a injetar milhões de milhões de  dólares para o mercado bolsista. É isso que tem estado a empurrar o mercado de ações, isso é obra da  Reserva Federal. O resgate foi para o mercado de ações. Como se a bolsa de valores tivesse coronavírus! As ações não apanham coronavírus! Elas não adoecem com o vírus! E, no entanto, é a bolsa de valores que está a subir através da ação da Reserva Federal.

Há também outros 2 milhões de milhões de dólares, 2 a 4 milhões de milhões de dólares que o governo dos EUA tem, para além dos 2  milhões de milhões  de dólares que vão para o povo. Por isso, a maioria dos cálculos que foram publicados citam-no como um resgate  no valor total de 10 milhões de milhões  de dólares. Dos quais os jornais, para não embaraçar o Sr. Trump, apenas se referem ao dinheiro dado aos trabalhadores assalariados. E estão um pouco embaraçados pelo facto da  grande maioria ser dada ao sector financeiro que não precisa de um resgate, mas que não quer perder um único cêntimo do que o vírus lhes pode dar a ganhar.

Por isso, quando se vê o mercado bolsista recuperar quase até ao que era antes do vírus, enquanto a economia está em queda, percebe-se que estão a poupar o 1%, ou os 10% da população que detém 85% das ações e obrigações. Eles estão a poupar os bancos. Não estão a salvar as pessoas e não estão a salvar a economia; não estão a salvar a indústria; e não estão a salvar as pequenas empresas.

Por isso, é uma hipocrisia espantosa que a grande imprensa não esteja a discutir isto, e é por isso que a vossa emissão    é muito  importante.

MAX BLUMENTHAL: Sim, e aqui em Washington, DC, recebemos, penso eu, 500 milhões de dólares para, penso eu, aquilo que descreve com precisão como o salvamento da bolsa de valores. E isso é muito menos do que um número de estados vermelhos que são menos populosos do que Washington, DC, recebem. Portanto, há aqui um enorme  desvio de fundos.

E depois, a cidade só tem sido capaz de prover a certos sectores da economia. Os imigrantes indocumentados, que aqui fazem muitos trabalhos , não conseguiram nada da cidade. Os vendedores, que são uma grande parte da economia informal em DC, apesar de terem de ser regulamentados, não conseguiram nada.

E depois mencionam todos estes sectores da economia – jovens, jovens com formação universitária, que estão profundamente endividados e, portanto, menos inclinados a gastar – que estão a ser enganados aqui.

Por isso, o senhor  apela  a uma solução – bem, acho que, conhecendo tantas dessas pessoas, elas contribuem tão pouco para a economia porque não podem; estão apenas meter o seu dinheiro na dívida. Por isso, apelaram a um jubileu da dívida.

O senhor diz que as dívidas que não podem ser pagas não o serão, e esta é a melhor saída.

Talvez possa explicar aos nossos telespectadores e ouvintes o que isso é e porque razão seria o melhor remédio?

MICHAEL HUDSON: Bem, eis o que acontece se não depreciarem as dívidas que vão acumular-se nos próximos três meses: Se não disseres: “As rendas não terão de ser pagas, e os trabalhadores não terão de pagar as dívidas que acumularam”, se deixares essas dívidas na contabilidade, e obrigares os trabalhadores a continuar a pagar as suas dívidas de estudantes, e as outras dívidas, e as dívidas hipotecárias, e as rendas, então eles não vão ter mais dinheiro para comprar bens e serviços.

Quando tudo acabar, eles vão receber os seus cheques de pagamento salarial e à cabeça vai estar a retenção salarial, e a retenção na fonte, e o Medicare, e se não quiserem ser expulsos de casa, vão ter de pagar todo este dinheiro que é acrescido enquanto não têm rendimentos.

Portanto, vai ter uma contração da economia, uma vasta contração. Como é que se podem dar ao luxo de comprar tudo menos os bens de primeira necessidade, os alimentos mais baratos, o transporte necessário? Obviamente, não vão comprar os tipos de bens e serviços que supostamente fazem parte do fluxo circular de bens e serviços.

Os manuais de economia dizem que os empregadores pagam aos trabalhadores para que estes possam ter dinheiro suficiente para comprar o que produzem. Mas os trabalhadores não gastam os seus rendimentos apenas com o que produzem. Gastam a maior parte do seu rendimento no aluguer, no serviço da dívida, nos impostos, nas finanças, nos seguros e nos bens imobiliários. E esta é a única parte da economia que está a ser capaz de sobreviver.

Como se pode ter a superestrutura de rendas e dívidas, de encargos com seguros, numa economia que não tem rendimentos para comprar bens e serviços? E se não podem comprar bens e serviços, vão ter as lojas a fechar, porque as pessoas não têm dinheiro para comprar o que as lojas estão a vender.

Vai ter uma onda brutal  de encerramentos. E vocês vão para as ruas, e certamente em cidades como Nova Iorque, ou onde eu vivo em Queens, nos arredores de Manhattan, onde quarteirão após quarteirão, vão ser sinais de “Para alugar”. As casas estão a ficar vazias.

E a única maneira de evitar isso é com  uma redução da dívida.

Há 5.000 anos que isto acontece. Vou dar-lhe um exemplo que talvez seja fácil de entender.

Na Babilónia, temos as Leis de Hamurabi, em 1800 AC. Uma das leis diz que quando se comprava cerveja ou outras coisas, escrevia-se numa conta no bar, na casa da cerveja, e todas as dívidas eram mantidas até ao fim da colheita. Pagava-se a dívida sazonalmente.

Bem, disse Hammurabi, se houver uma seca, ou se houver uma inundação, então não tens de pagar as dívidas. A maioria das dívidas tinha a ver com o palácio, e outros.

A política implícita é a seguinte: “A razão pela qual estamos a fazer isto é que, se não o fizermos, então vão fazer com que estes devedores se tornem servos da dívida, servos das obrigações para com os credores; vão dever o seu trabalho aos credores; vão perder as suas terras para os credores”; e não vão poder trabalhar em projetos de infraestruturas públicas; não vão trabalhar para a Babilónia; não vão servir no exército, e nós podemos ser invadidos; e não vão poder utilizar as suas colheitas como impostos, porque vão ficar em dívida  a ser paga  com as colheitas. Por isso vamos depreciar a dívida”.

Assim, toda a ideia durante milhares de anos, de cada governante do Médio  Oriente ao iniciar o seu reinado era depreciar as dívidas, era começar tudo de novo, em equilíbrio.

Porque  aperceberam-se, apenas matematicamente, que as dívidas crescem a juros compostos. Viram o coronavírus aumentar a uma taxa exponencial. É assim que as dívidas acumulam os juros, a uma taxa exponencial.

Mas a economia cresce numa curva em S, e depois afunila. A economia americana, o PIB, desde os resgates de Obama de 2008, todo o crescimento do PIB só aumentou para 5 por cento para toda a população. . Para 95% da economia, o PIB é inferior ao que era antes. 95% dos americanos têm menos rendimento disponível para gastar em bens e serviços depois de pagarem o serviço da dívida mensal, renda ou custos de habitação, seguro médico, outras dívidas e contas de serviços públicos.

Portanto, já estamos numa depressão desde há  12 anos, a depressão de Obama, a que eles gostam de chamar recessão, porque a maioria dos meios de comunicação social são pessoas do Partido Democrata.

Mas esta recessão vai transformar-se numa verdadeira depressão, e vai continuar até que a dívida pública, ou seja, as dívidas estatais e locais, sejam depreciadas; as dívidas hipotecárias depreciadas; e as dívidas pessoais depreciadas, a começar pelos empréstimos estudantis, a dívida mais obviamente impagável.

E a escolha é: queres a depressão, ou queres que os bancos se possam cobrar de todo o excedente económico para si próprios? Bem, Donald Trump, apoiado unanimemente pelo Congresso Democrata, diz: “Queremos proteger os bancos, não a população, não a economia”. Que a economia encolha, desde que os nossos eleitores, a classe dos doadores, sejam capazes de evitar ter  prejuízos. Que a perda seja suportada pelos 99%, não pela nossa classe de doadores”.

BEN NORTON: Sim, e Michael, tu mencionaste algo, voltar à Reserva Federal e compreender como todo este sistema funciona. Quero dizer, francamente, parece-me ser uma espécie de castelo de cartas.

Mas mencionaste esta ideia da Teoria Monetária Moderna e de criar dinheiro a partir do nada. Podes falar mais sobre isso? Sabes que este é um termo que se tornou mais proeminente, especialmente à esquerda: MMT, teoria monetária moderna.

Há socialistas que argumentam a favor da MMT e depois há outros que são um pouco céticos em relação a toda a noção de que se pode simplesmente imprimir todo este dinheiro para financiar estes programas sociais que se quer criar, e que isso não vai criar inflação.

Mas, ao mesmo tempo, tu e outras pessoas salientam que é exatamente assim que a economia já funciona. Onde, por exemplo, se quer financiar uma guerra, nunca há – sabes que  frequentemente  quando alguém da esquerda pede cuidados de saúde universais ou educação pública gratuita, os membros não só do Partido Republicano mas muitos democratas neoliberais dizem frequentemente: “Bem, sim, onde é que vai arranjar o dinheiro? E a resposta de alguns dos apoiantes do MMT é: “Bem, nós apenas financiamos o programa e apenas criamos o dinheiro porque controlamos a criação do dólar”.

E vemos essa mesma atitude utilizada neste momento pela Reserva Federal, mas para socorrer Wall Street. “Sim, vamos apenas imprimir” – imprimiram 1,5 milhão de milhões de dólares e depois deram-no, injetaram-no diretamente em Wall Street.

Então isso não cria inflação, ou o que é que está a acontecer  economicamente com  Wall Street? Quero dizer, parece-me uma fraude; parece-me totalmente uma fraude.

MICHAEL HUDSON: Desde 2008, tivemos a maior inflação de dinheiro da história. E tivemos também a maior inflação da história, mas é inteiramente inflação de preços de ativos.

Tens toda a razão: o dinheiro foi para a bolsa e para o mercado obrigacionista, para apoiar os preços das obrigações, o que significa que teve o maior boom obrigacionista da história. Tivemos  um enorme boom na bolsa de valores. Mas os preços ao consumidor desceram. Portanto, aqui temos uma enorme quantidade de dinheiro criado, e os preços ao consumidor e os salários reais têm vindo a descer.

Portanto, são realmente duas economias. A questão é: vão criar dinheiro para fins públicos, gastando-o na economia, na indústria, na agricultura, na produção de bens e serviços e na economia de consumo, ou vão colocá-lo na economia financeira?

Pois bem, todo o nosso sistema bancário assenta em que  os bancos criam crédito. Se entrarem num banco e contraírem um empréstimo, dizem, vou pedir emprestados 5 000 dólares para  qualquer coisa. O banqueiro não lhe vai  dizer: “Deixa-me ver se temos dinheiro para te emprestar; ele diz: “Está bem, eu vou inscrever um empréstimo no meu computador. Vou creditar a sua conta com um depósito de $5.000, e o senhor vai assinar este este documento IOU, e nós temos um ativo. E o ativo é de 5 000 dólares, sobre o qual vamos cobrar juros sobre o que lhe creditamos”.

Portanto, é feito apenas por computador, num balanço. E enquanto o dinheiro for criado num computador, o único custo é a eletricidade utilizada para fazer esse registo da dívida.

Agora os bancos, quando fazem empréstimos, 80% são contra o imobiliário. Por isso dizem, no caso de não se poder pagar, está-se a hipotecar o imóvel – a casa que se compra, ou o edifício comercial que se está a comprar, como garantia. Portanto, vamos emprestar-lhe até 80%, talvez 100%, do valor do que está a comprar, e essa é a garantia que temos.

Portanto, eles emprestam contra garantias. Bem, se emprestam o dinheiro contra garantia para comprar um edifício, ou para comprar ações e obrigações, que são a outra garantia, então obviamente que este dinheiro que estão a criar para comprar casas, ou imóveis comerciais, ou ações e obrigações vai fazer subir os preços do que se está comprar .

Os bancos não dão empréstimos a pessoas que dizem: “Quero ir às compras e comprar mais bens porque preciso do dinheiro”. Isso pode ser um pouco simplista, é para isso que servem os cartões de crédito, mas isso é uma pequena parte da oferta global de dinheiro. Portanto, os bancos não fazem em geral empréstimos para comprar bens e serviços; fazem empréstimos para comprar ativos que obviamente inflacionam o preço dos ativos.

E quanto mais dinheiro se paga por casas que estão a subir de preço, ou seguro médico, ou ações e títulos, para fazer um rendimento de reforma para o seu fundo de pensões; quanto mais dinheiro se paga por casas que estão a subir de preço devido ao crédito bancário, menos dinheiro se tem para comprar bens e serviços.

Portanto, na verdade, quanto mais dinheiro criam, mais os preços dos bens e serviços no consumidor caem. É exatamente o oposto da teoria do costume.

No meu website tenho muitos artigos sobre isso, e hoje tenho algo em Counterpunch sobre isso. É sobre a forma como a economia funciona, ao contrário do que dizem os livros de texto.

Agora, infelizmente, a  esquerda não estuda muito finança e moeda. A discussão sobre finança  e moeda  tem sido monopolizada pela direita,  é o que  a esquerda  pensa,   e com isso não se apercebe de que está a apanhar uma espécie de teoria do lixo das relações monetárias e das relações da dívida que tem sido retomada por todo o espectro  político.

É uma espécie de universo paralelo. Não é assim que a economia funciona realmente, mas trata-se  de uma forma que é fácil de entender. E é muito fácil fazer com que uma visão errada e simplificada do mundo seja fácil de compreender.

E quando se repete vezes sem conta, nos meios de comunicação social, no New York Times e na MSNBC, as pessoas pensam realmente que, bem, talvez seja assim que o mundo funciona – mais dinheiro vai fazer subir os preços, por isso é melhor não insistirmos nisso, é melhor seguirmos a teoria do trickle down, segundo a qual favorecer os ricos significa favorecer depois os pobres .

E a maioria da esquerda acredita na teoria do “trickle-down”. A liderança do Partido Democrata está absolutamente convencida de que, se se der dinheiro suficiente aos primeiros 1%, ou 5%, ou a Wall Street, tudo isso é trickle down, tudo isso é uma via para vir a favorecer os pobres.

BEN HORTON: É claro que o Partido Democrata não é a esquerda.

MICHAEL HUDSON: É verdade, mas finge ser. E tem excluído a esquerda. Podem ver nas recentes primárias eleitorais que a sua função é proteger o Partido Republicano de qualquer crítica feita pela esquerda real, situando-se  entre o Partido Republicano e qualquer possível movimento de reforma.

BEN NORTON: Exatamente.

MAX BLUMENTHAL: Pois bem, eles  levantaram-se  com muita força contra o resgate  – quero dizer, o que foi, 96 contra  zero? E aquando da votação, eu estava a ouvir a votação, à noite,  para ouvir o que era dito na Assembleia; não ouvi a voz da Alexandria Ocasio-Cortez  contra.

MICHAEL HUDSON: Falaram de um modo  para que todos pudessem dizer: “Oh, não fui eu!”.

MAX BLUMENTHAL: Não, não! Então, o senhor  mencionou que o rei da execução hipotecária, Steve Mnnuchin, tem um saco azul , um fundo, de 500 mil milhões de dólares. Não tenho ouvido muita discussão sobre isso. O que irá ele fazer com este tipo de fundo opaco, e como irá isto – quero dizer, é uma pergunta importante, mas como irá  evoluir este tipo de reforço ou consolidação da desigualdade para a próxima geração?

MICHAEL HUDSON: Bem, espero que ele dê alguma coisa a Kamala Harris, que foi o procurador-geral que o deixou fazer tudo isto, e que o apoiou completamente e liderou a execução hipotecária, foi o punho de ferro por detrás do seu programa de execução hipotecária. Por isso, tenho a certeza de que ele vai fazer pressão para que Kamala seja a vice-presidente na lista.

Os Democratas têm um problema. Como podem eles garantir que o seu candidato ganha? O seu candidato é Donald Trump. Como podem eles garantir que têm um candidato tão fraco que  tem a certeza que vai perder para Donald Trump? E a escolha é: vamos ter um vice-presidente que seja tão impopular que eles têm a certeza que vão perder.

Agora é uma corrida entre Kamala Harris e a senhora do Minnesota.

MAX BLUMENTHAL: Klobuchar? Aquela que atira agrafadores ao pessoal da sua equipa de trabalho . Ela parece muito encantadora.

Michael Hudson. Não sei nada quanto a isso. Mas a minha mulher nem consegue olhar para ela na televisão. Mas acho que a pretensão é que ela vai ajudar a conseguir o Minnesota, como se os seus eleitores deste estado de onde eu venho, fossem tão burros só para votar em alguém de lá. Mas ao conseguir o Minnesota, eles vão perder todo o resto do país.

Portanto, penso que ela será a vice-presidente, porque isso garante uma vitória do Trump. E isso permitirá aos Democratas dizer, aqui – terão o presidente que querem, isto é, para a sua classe de dadores, mas podem dizer: “Não somos nós os responsáveis; são os republicanos”. É essa, portanto, a estratégia democrática.

MAX BLUMENTHAL: Certo, então eles podem levantar muito dinheiro para a “Resistência”, e para todos os centros de reflexão externos que os apoiam, ditos os  think tanks. E essa era a velha estratégia republicana, a de William F. Buckley,  para quem é melhor atirar pedras para fora do edifício e angariar uma tonelada de dinheiro para a National Review do que ter de governar de facto. E essa parece ser a estratégia democrática.

Mas acho que estava a perguntar como vêem a economia a transformar-se, porque o salvamento Obama transformou-a ou consolidou a economia gigante, onde todos têm de trabalhar três a cinco postos de trabalho, e o que era suposto ser uma classe média altamente educada está profundamente endividada.

Como se verá isto depois do próximo conjunto de resgates na bolsa?

MICHAEL HUDSON: Ok, vamos olhar para daqui a três meses. As empresas mais pequenas vão ser espremidas, porque todas as suas despesas vão aumentar. As pequenas empresas tiveram de aumentar as suas dívidas e têm todo o tipo de outros problemas, e os seus lucros, os seus lucros potenciais, não vão parecer tão bons. Porque não vai haver mercado para as coisas que vendem, por causa da deflação da dívida de que falei.

Então, o que vai acontecer? Vamos ter uma situação de  bonança para o capital privado. Os que têm  liquidez, as pessoas que compõem o 1%,  têm acesso ao crédito bancário e têm o seu próprio capital próprio, vão voltar  e apropriar-se de muitos bens imobiliários que vão ficar em situação de incumprimento – tal como fizeram depois de Obama ter perdido a sua base eleitoral, em que a os 1% de então, a  máfia com toda a agressividade,  fez  exatamente o mesmo.

Blackstone irá obter  mais bens imobiliários. As grandes empresas vão engolir  as pequenas empresas. Vão emergir com uma economia altamente monopolizada, muito mais centralizada.

O importante a perceber sobre economia de mercado livre e os libertários, é que os libertários defendem o planeamento central, a Chicago School of monetaristas defende o planeamento central; os defensores dos mercados livres querem planeamento central. Mas os bancos devem ser os planificadores, não o governo. Querem excluir o governo do planeamento, exceto na medida em que possam assumir o governo, como fez Trump, e planear todos os rendimentos a transferir para si próprio a partir do resto da economia.

Portanto, vamos ter um planeamento muito mais central por parte de uma coligação de monopólios e do governo. Na década de 1930, isso chamava-se fascismo.

MAX BLUMENTHAL: É o que chamamos uma “parceria público-privada” ou algo assim.

MICHAEL HUDSON: É isso mesmo.

MAX BLUMENTHAL: Apenas muito rapidamente, e talvez possamos fazer uma espécie de transição depois disto, mas mencionou Blackstone. Penso que esta é uma das componentes-chave do plano de ajuda. Eles têm tanta participação em tantas das empresas que estão a ser salvas. Pode descrever apenas o seu papel e o que é ela representa ?

MICHAEL HUDSON: É apropriado que tenham sido encarregados do resgate. Trata-se  da maior empresa a comprar bens imobiliários em situação de incumprimento, a absorver  os fracos – chama-se a isso mover ativos das mãos dos fracos para as  dos fortes – então mais vale que sejam eles a mandar, porque vão ser a empresa que vai  apanhar o grosso de tudo isso. Por isso, é claro que são eles que mandam.

Chama-se grabitização. Essa era a palavra russa para privatização nos anos 90. Portanto, grabitização é, a meu ver, uma palavra melhor do que parceria público-privada. Não é realmente um parceiro; é uma espécie de parceria unidireccional; há um parceiro subsidiário. É realmente uma financeirização e uma grabitização.

MAX BLUMENTHAL: Certo, é isto  exatamente  o saque dos bens do Estado.

BEN NORTON: Voltando um passo atrás, Michael,  estavas a falar  sobre a forma como as pessoas deveriam pensar sobre como a economia realmente funciona. E eu mencionei o MMT. Podes voltar a passar por este tema ? Porque estavas a falar de como, na realidade, quando o Fed cria moeda – refiro-me realmente a mim, como alguém, não sou definitivamente um especialista em economia, só não compreendo realmente como é que todo este processo funciona, porque para mim parece simplesmente que, literalmente, eles estão apenas a criar dinheiro e apenas a dá-lo aos bancos, às elites empresariais e às pessoas ricas.

Talvez seja isso que é. Mas não compreendo, este é o maior esquema que consigo imaginar, em que a Reserva Federal está a criar todo este dinheiro, a imprimir – eles estão a imprimir dinheiro fisicamente é o que eu entendo. E depois estão apenas a dá-lo a estes bancos, aos detentores de obrigações. E depois, mas disseste que o que faz é, em vez de criar inflação, o que faz é, se bem entendi, aumentar o valor de ativos como os imóveis, ao mesmo tempo que deflaciona os salários e os preços das mercadorias.

Então, se for esse o caso, como é que as pessoas que defendem programas socializados como o Medicare for All, a educação pública gratuita, a licença de maternidade e os cuidados infantis, e todos esses programas que a campanha e o movimento Bernie Sanders têm defendido, como é que devemos andar a falar da forma de pagar todos esses programas, se a realidade da economia é que o Fed está a imprimir  milhões de milhões de dólares, e depois apenas a dar esse dinheiro aos bancos?

MICHAEL HUDSON: Bem, penso que a razão pela qual estás a ter dificuldades em compreender o MMT é porque o que descreveste é o que está a acontecer, mas pensa: “Mas isso é injusto!”. E há uma tendência para pensar, se for injusto…

MAX BLUMENTHAL: Não é apenas injusto. É o maior esquema de golpe que eu posso imaginar. Não há outra palavra que não seja apenas um esquema de vigarice.

MICHAEL HUDSON: Sim, e o cérebro recuar do pensamento: “Será que o governo pode realmente estar a fazer-nos isso?” Bem, sim, pode.

E basta pensar quando, nos debates com Bernie Sanders durante a Primavera, Biden e Klobuchar continuam a dizer: “O que estamos a pagar pelo Medicare-for-All será de 1 milhão de milhões de dólares  em 10 anos”. Bem aqui o Fed pode criar 1,5  milhão de milhões  de dólares numa semana só para comprar ações.

Porque é que o Fed pode criar 1,5 milhão de milhões de dólares para comprar ações  de  maneira a evitar que os ricos percam no valor das suas ações, quando não é possível imprimir apenas 1  milhão de milhões de dólares a pagar por um Medicare gratuito para toda a população? Isto é uma loucura!

A ideia é de que só os ricos devem ser autorizados a imprimir dinheiro para si próprios, mas o governo não deve ser autorizado a imprimir dinheiro para qualquer fim público, qualquer fim social – não para a medicina, não para as escolas, não para os orçamentos pessoais, não para o pleno emprego – a não ser  para dar aos 1 por cento.

As pessoas hesitam em pensar assim. Pensam: “Não pode ser assim tão mau”. Mas para aqueles de nós que trabalharam em Wall Street, durante 60 anos, como é o  meu caso, é isso que os números mostram.

Mas não têm os meios de comunicação social a falar de números reais. Eles falam apenas de palavras e usam eufemismos. É uma espécie de vocabulário orwelliano, que descreve um mundo interior e exterior do qual estão a falar.

Eles vão comprar ações; vão dizer que vamos comprar um milhão de ações da Boeing; vão apenas passar um cheque, e o cheque será da Reserva Federal, e a Boeing vai receber o dinheiro. A Reserva Federal pode criar um depósito, tal como um banqueiro lhe fará um empréstimo quando  entrar no banco e pedir emprestado. É feito num computador – sem cobrança de impostos. A Reserva Federal pode fazer a mesma coisa.

Stephanie Kelton, presidente do meu departamento há muitos anos na Universidade do Missouri, em Kansas City, descreve isto. O website da Universidade do Missouri, Novas Perspectivas Económicas, tem uma descrição do mesmo. Por isso, se as pessoas quiserem pesquisar no Google, ou sobre ela, UMKC, ou o que eu escrevi, ou Randall Wray no Instituto Levy, vão podem consultar muita coisa sobre o tema.

Se não se está já a pensar em termos de balanços, o que a maioria das pessoas não pensa, é preciso lê-lo uma e outra vez, e depois, de repente, “Ah, agora percebo. Eureka ! É criado do nada. Agora percebo”.

BEN NORTON: É apenas um castelo de cartas. Para mim,  isto prova o tipo – costumava haver este tipo de visão marxista ortodoxa muito grosseira de que a economia segue estritamente a política, e parece-me que este é um caso em que a economia é apenas criada pela política.

MICHAEL HUDSON: Isso é verdade, e não é uma posição não marxista. Marx fez a distinção entre oligarquias e democracias, entre  financiar economias capitalistas e economias capitalistas industriais.

MAX BLUMENTHAL: Certo. E os 17 mil milhões de dólares para “medidas urgentes de segurança nacional” foram diretamente para os bolsos da Boeing, que teve os seus 737 máximos a cair do céu, e há muito tempo que clamava por este resgate .

Viu a 3M, o fabricante destas máscaras que subitamente não estão disponíveis, obter  uma isenção total de processos judiciais, se as máscaras que produziu agora em massa falharem de alguma forma.

Por isso, todas estas coisas que estavam metidas na ajuda eram o que a indústria e as finanças vinham a  reclamar desde há  anos. E finalmente tiveram a oportunidade de o fazer.

BEN NORTON: Muito bem, vamos fazer uma pausa. Foi o fim da parte um da nossa entrevista aqui com o economista Michael Hudson. Ele é um analista financeiro de Wall Street, um distinto professor de economia da Universidade do Missouri Kansas City, e, claro, autor de muitos livros sobre economia.

Podem encontrar parte do seu trabalho clicando em michael-hudson.com. Faremos o link nas notas. Tem entrevistas com transcrições e artigos.

Pode também encontrar alguns dos seus trabalhos de economia e o trabalho de alguns dos seus colegas de pensamento semelhante no departamento de economia do website da Universidade do Missouri Kansas City. Vou também fazer um link para isso nas notas do programa. Pode encontrar as notas da entrevista  em  moderaterebels.com.

Na parte dois deste episódio, vamos continuar a nossa discussão sobre o castelo de cartas que é o sistema financeiro internacional, o sistema económico. E na segunda parte vamos falar sobre o seu livro “Super Imperialismo”: A Estratégia Económica do Império Americano”.

 

Este é um livro incrível. Sabem, aqui nos Rebeldes Moderados, Max e eu falamos frequentemente sobre o lado político e militar do imperialismo.

Michael Hudson explica, em termos fáceis de compreender, como é que o imperialismo funciona ao nível económico, como é que o governo e o tesouro dos Estados Unidos, com apoio da força militar, forçam países de todo o mundo a comprar títulos americanos, e como há um esquema fraudulento para fazer os países pagarem a sua ocupação militar pelos Estados Unidos  comprando títulos do tesouro norte-americano.

Michael Hudson explica tudo isso usando termos simples. E falamos também sobre o crescimento da China, e sobre como a China constitui o que se pode chamar uma ameaça, em termos de receios concretos,  não para o povo americano, mas sobretudo para a hegemonia do sistema financeiro norte-americano – e para os principais instrumentos financeiros, as armas que os Estados Unidos usam para manter essa hegemonia, o Fundo Monetário Internacional  e o Banco Mundial.

E Hudson descreve como, do seu ponto de vista, o FMI e o Banco Mundial, especificamente, são algumas das instituições  mais perversas que na realidade mantêm o jugo ditatorial e autoritário americano sobre o sistema financeiro global.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/10/covid-19-estados-unidos-moderate-rebels-o-falso-resgate-do-coronavirus-nos-estados-unidos-consiste-numa-doacao-de-6-milhoes-de-milhoes-de-dolares-a-wall-street-transcricao-de-uma-entrevista/

Milionários e o governador de Nova York

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, observa o presidente executivo do Google, Eric Schmidt, à esquerda, conversando durante o relatório da Comissão de Escolas Inteligentes na Mineola Middle School em 27 de outubro de 2014 em Mineola, NY

Naomi Klein

May 8 2020

https://theintercept.com/2020/05/08/andrew-cuomo-eric-schmidt-coronavirus-tech-shock-doctrine/


 
 
Por  alguns momentos fugazes durante o briefing diário de coronavírus do governador de Nova York, Andrew Cuomo, na quarta-feira, a cara sombria que enche nossas televisões há semanas foi brevemente substituída por algo parecido com um sorriso.
“Estamos prontos, estamos all-in”,  declarou o governador .“Somos nova-iorquinos, por isso somos agressivos e ambiciosos.… Percebemos que a mudança não é apenas iminente , mas  que também pode ser amiga se for feita da maneira certa. ” 
A inspiração para essas vibrações estranhamente boas foi uma visita em vídeo do ex-CEO do Google, Eric Schmidt, que se juntou ao briefing do governador para anunciar que ele estará liderando uma comissão de “fita azul” para reimaginar a realidade pós-covida do estado de Nova York, com ênfase em integrar permanentemente a tecnologia em todos os aspectos da vida cívica.
“As primeiras prioridades do que estamos tentando fazer”, disse Schmidt, “estão focadas em telessaúde, aprendizagem remota e banda larga.… Precisamos  de procurar soluções que possam ser apresentadas agora e aceleradas e usar a tecnologia para melhorar as coisas. ”Para que não houvesse dúvida de que os objetivos da   Google eram puramente benevolentes, o fundo de seu vídeo apresentava um par de asas de anjo douradas e emolduradas.
Apenas um dia antes, Cuomo haviaanunciado uma parceria semelhante com a Fundação Bill e Melinda Gates para desenvolver “um sistema educacional mais inteligente”.Chamando Gates de “visionário”, Cuomo disse que a pandemia criou “um momento na história em que podemos realmente incorporar e avançar as idéias [de Gates] … todos esses edifícios, todas essas salas de aula físicas – para quê , com toda a tecnologia que você tem?” perguntou ele retórico .
 
(,,,)
 

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/10/milionarios-e-o-governador-de-nova-york/

O que foi que aconteceu?

 
As linhas em baixo não mostram a situação sanitária nos Estados Unidos e na Europa. Pertencem ao mesmo país e distam apenas uns 400km.
Como já se escreveu noutros posts, aqui e aqui, as duas regiões - a Lisboa e Vale do Tejo e a do Norte, têm populações relativamente aproximadas, mas uma tem uma população industrial e a trabalhar na construção bem mais numerosa que a de Lisboa, que está muito mais dedicada aos serviços. Essa diferença poderá explicar que, enquanto os serviços foram forçados por decreto a fechar, a produção industrial e de construção se manteve activa. E resta saber em que condições de produção. Por outro e contrariando um estranho artigono Boletim Trimestral do Banco de Portugal - que concluía que o Covid prejudicava mais as agregados familiares de maiores rendimentos - um estudo da Escola de Saúde Pública estabelece uma relação com os concelhos de mais elevado desemprego e desigualdade e que  são os pobres quem mais perde com a pandemia.
Independentemente dessas diferenças, a questão essencial é saber o que foi feito - ou não foi feito - para, do ponto de vista sanitário, evitar que essas diferentes situações se traduzissem em resultados tão distintos no combate à pandemia.
Como foi que se deixou, durante tanto tempo, a progressão expandir-se? Desde meados de Março que a região Norte tem - até hoje - cerca de 2,5 vezes o número de infectados de Lisboa e, por isso se calhar, tem 3 vezes o número de mortos de Lisboa. Mesmo quando parece ser semelhante a tendência, o Norte está à frente de Lisboa na relação do número de mortos face ao número de infectados.
O que foi que realmente aconteceu? Alguém sabe? 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

China dá alfinetada nos EUA com vídeo animado sobre evolução da pandemia

usa china

 
 
O vídeo chama-se 'Era uma vez um vírus' e foi publicado pela agência noticiosa estatal chinesa Xinhua.

A China publicou um pequeno vídeo de animação onde faz troça, de forma declarada, da resposta norte-americana ao evoluir da situação pandémica.
 
Usando figuras de Lego representativas dos dois países, o vídeo, intitulado 'Once Upon a Virus' ('Era uma vez um vírus'), faz um resumo básico da posições de Pequim e de Washington relativamente ao vírus desde dezembro.

Quando colocadas em sucessão, as reações assumem um caráter ainda mais insólito, principalmente porque, no que respeita ao novo coronavírus, os Estados Unidos têm contrariado todas as informações que chegam da China, assim como da Organização Mundial de Saúde.

Um dos pontos de maior divergência é a origem do vírus, que Donald Trump insiste ter tido origem num laboratório de Wuhan, epicentro do surto viral, ainda que sem apresentar provas.

O vídeo foi primeiramente publicado no canal de YouTube da agência noticiosa estatal Xinhua (New China TV), tendo sido visto mais de 960 mil vezes - sendo que o YouTube e o Twitter estão bloqueados na China - e partilhado por vários diplomatas chineses.

A LEGO já indicou que não está envolvida na produção da animação, de acordo com o New York Times.

Notícias ao Minuto ! Vídeo: © Reprodução Xinhua

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/china-da-alfinetada-nos-eua-com-video.html

EUA | FRACO CONTROLO DA PANDEMIA

 
 
 
No passado dia 3 de maio, a pandemia nos EUA atingiu mais de um milhão de casos confirmados, ou seja, um terço do número total global, e o número continua a crescer.
 
David Chan | Plataforma | opinião

A situação está fora do controlo no país e a população está a revoltar-se contra o governo de Trump pela sua incompetência. A implementação do isolamento social só veio aumentar ainda mais este descontentamento, com protestos a serem organizados em vários estados. Em termos internacionais a situação também não é a melhor, à medida que vários países analisam a origem do vírus e encontram provas da possibilidade de este não ter surgido na China, as críticas ao país continuam. As guarnições militares fora dos EUA foram constantemente provocadas, houve vários reajustes estratégicos, recrutamentos militares e evacuação de nacionais americanos no estrangeiro para atrair a atenção do mundo.

Por um lado, esta estratégia veio reforçar a propaganda de que o vírus teve origem num laboratório em Wuhan, por outro lado veio mobilizar as forças militares. No final do mês de abril o secretário da Defesa americano anunciou o estabelecimento de uma ala secreta no Pentágono para uso contra a epidemia, porém, de seguida, o porta-aviões USS Harry S. Truman atracou em solo nacional e foi ordenado o regresso da 82ª Divisão Aerotransportada americana para uma série de exercícios enquanto o país falhava no controlo do vírus. Ao mesmo tempo que os protestos da população continuavam a crescer, foi criada esta ala secreta, que poderá ser usada pelo exército para combater a violência e protestos caso o surto fique fora de controlo, mantendo-se ainda claramente a hipótese de ser iniciada uma guerra internacional para aliviar esta pressão nacional.

A base militar Cheyenne Mountain, que durante anteriores epidemias foi utilizada como um "bunker", estará sob a liderança do Comando Norte dos Estados Unidos. Estes dois modelos militares mostram o nível de preparação dos EUA na eventualidade de uma epidemia ou guerra, e a probabilidade de o país iniciar uma após a situação nacional melhorar, demonstrando a força militar ao resto do mundo. Caso a epidemia não seja controlada, também não significa que esta estratégia de guerra não será utilizada, trata-se apenas de uma questão de tempo.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/eua-fraco-controlo-da-pandemia.html

Especialistas em saúde da China e dos EUA concordam em agir juntos contra COVID-19

 

 

São Francisco, 8 mai (Xinhua) -- Os principais especialistas em saúde da China e dos Estados Unidos concordaram, durante um webinar (seminário via web), em agir em conjunto e seguir as orientações científicas na luta contra a COVID-19, disse a organizadora do evento nesta sexta-feira.

"Eles trocaram opiniões e chegaram a uma conclusão muito positiva no final. Como dito pelo professor Barry Bloom, de Harvard, os cuidados de saúde são locais, mas a pesquisa de saúde é global. O mundo deve confiar em métodos científicos para lidar com a pandemia. Também devemos usar métodos científicos para encontrar a origem do vírus", disse Florence Fang, co-fundadora da recém-criada Aliança Global para Combater COVID-19 (GACC, sigla em inglês), um órgão sem fins lucrativos.

"Se queremos vencer esta guerra contra o coronavírus, devemos trabalhar juntos globalmente e não sermos enganados pela desinformação de todos os tipos. Devemos ouvir informações científicas e deixar a ciência nos dizer o que fazer. Esse é o consenso que alcançamos neste webinar", disse Fang.

Os palestrantes chineses no webinar incluíram Zhong Nanshan, renomado especialista em respiração e acadêmico da Academia Chinesa de Engenharia; Qiao Jie, presidente do Terceiro Hospital da Universidade de Pequim e também acadêmica da Academia Chinesa de Engenharia; e Zhang Wenhong, chefe da equipe de especialistas clínicos da COVID-19 de Shanghai.

A eles se juntaram Barry Bloom, ex-diretor da Escola de Saúde Pública T. H. Chan de Harvard; Sten Vermund, diretor da Escola de Saúde Pública de Yale; e Brian Bosworth, chefe de medicina do Hospital Langone Health's Tisch da Universidade de Nova York.

Segundo Fang, o webinar recebeu muitos feedbacks de algumas autoridades dos EUA. "Tive um telefonema com a vice-governadora da Califórnia, Eleni Kounalakis. Ela expressou seu apoio e agradecimento por essa atividade", disse Fang à Xinhua em uma entrevista online.

"Um dos propósitos para organizar este webinar é promover as relações e o entendimento sino-americanos. Devemos unir nossas forças para agir contra ameaças comuns. Não podemos lutar separadamente, sem mencionar briga entre nós", acrescentou Fang.

Fang disse que já está planejando outro fórum online para especialistas chineses e americanos se concentrarem no desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus.

A GACC, que visa criar um ambiente colaborativo para que os principais especialistas em saúde do mundo compartilhem experiências e ofereçam suporte técnico, organizará uma série de fóruns e seminários online no futuro próximo. O público-alvo dos eventos será principalmente profissionais de saúde e elaboradores de políticas, com eventos selecionados abertos ao público, de acordo com Fang.

"Essa pandemia passará, mas a saúde humana continuará sendo uma questão global", disse Fang, que também é co-fundadora e vice-presidente da Fundação George H.W. Bush para as Relações EUA-China.

A fundação lançou a Rede de Ação do Coronavírus EUA-China em janeiro, com Fang como presidente, para se juntar ao mundo na luta contra a pandemia da COVID-19 e para reforçar a amizade e cooperação EUA-China.

Foto tirada em 18 de março de 2020 mostra Zhong Nanshan, renomado especialista chinês em respiração, em uma coletiva de imprensa sobre trabalho de prevenção e controle da epidemia em Guangzhou, Província de Guangdong, no sul da China. (Xinhua/Lu Hanxin)

Foto tirada em 28 de março de 2017 mostra a então vice-primeira-ministra chinesa, Liu Yandong, (D) se encontrando com Florence Fang em Beijing, capital da China. (Xinhua/Gao Jie)

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Pompeo admite que provas de que vírus saiu de laboratório em Wuhan podem não ser verdadeiras

Mike Pompeo, secretário de Estado norte-americano, afirma agora que as provas de que o novo coronavírus saiu de um laboratório em Wuhan, na China, podem não ser fidedignas.

O secretário de Estado norte-americano recuou nas acusações feitas à China. No passado domingo, Mike Pompeo garantiu existirem “provas enormes” de que o novo coronavírus tinha saído de um laboratório em Wuhan, mas agora afirma que isso pode não corresponder à verdade.

“Vimos provas de que o vírus veio do laboratório. Poderá não ser esse o caso”, admitiu o responsável norte-americano numa entrevista de rádio, depois de uma outra intervenção, numa outra rádio, em que admitiu que o vírus poderia nem ter surgido especificamente no interior do edifício.

“Há provas de que veio de algum local nas redondezas do laboratório, mas isso poderá estar errado“, disse, citado pelo Público.

A teoria de que o vírus tinha escapado de um laboratório em Wuhan foi inicialmente avançada pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que garantiu ter na sua posse “fortes indícios” deste facto.

Mike Pompeo e Donald Trump contrariaram as indicações da Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, um grupo de 17 agências governamentais, que, depois de investigar a origem do SARS-CoV-2, adiantou que as primeiras conclusões aprontavam que o novo coronavírus não foi criado por humanos ou geneticamente modificado.

Os Estados Unidos são o país mais afetado pelo surto. Desde o início da pandemia, o país registou mais de 1,2 milhões de infetados e 76.101 óbitos.

ZAP //

 
 
 

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Retórica anti-China é semelhante à da era McCarthy, diz ex-embaixador dos EUA

Washington, 7 mai (Xinhua) -- O ex-embaixador dos EUA na China, Max Baucus, disse que a retórica anti-China do governo norte-americano o faz lembrar da era McCarthy.

"A retórica do governo é muito forte contra a China. Está além do limite. Estamos entrando em um tipo de era semelhante a Joe McCarthy quando ele estava acusando o Departamento de Estado, atacando o comunismo", comentou Baucus em entrevista à CNN na quarta-feira.

"Um pouco como Hitler na década de 1930. Muitas pessoas sabiam que o que estava acontecendo era errado. Eles sabiam que estava errado, mas não disseram nada. Sentiram-se intimidados", afirmou.

"E agora nos Estados Unidos, se alguém diz algo razoável sobre a China, ele ou ela se sente intimidado, com medo de que sua cabeça seja cortada. E nos anos 30 na Alemanha era muito parecido. Pessoas responsáveis nos EUA e especialmente na Alemanha não podiam se manifestar", continuou o ex-embaixador.

"Eu me preocupo que algo disso esteja acontecendo agora e é muito perigoso. E acho que é em parte porque o governo republicano, Donald Trump, percebe que a economia não está indo bem, provavelmente por causa do coronavírus e, portanto, eles precisam desviar, eles têm que culpar alguém e culpar a China. E é muito difícil voltar aos trilhos após a eleição, quem quer que seja eleito", acrescentou.

Quando perguntado se sua comparação entre a atmosfera atual em Washington e a da Alemanha na década de 1930 foi "provocativa", Baucus esclareceu que "acho que estamos seguindo nessa direção, e não estou dizendo que ainda estamos lá, mas há muitas pessoas muito responsáveis nos EUA que sabem que esse golpe na China é irresponsável, e pagaremos o preço se continuar mais".

Baucus serviu como embaixador dos EUA na China sob o governo Obama de 2014 a 2017. Antes disso, ele foi senador por Montana por quase 36 anos.

Uma vez que as mortes pela COVID-19 continuam a aumentar nos Estados Unidos, alguns indivíduos do governo Trump tentam desesperadamente desviar as críticas sobre seus erros culpando a China.

Em um artigo publicado na quarta-feira pelo The Washington Post, o embaixador chinês nos Estados Unidos, Cui Tiankai, pediu a alguns políticos dos EUA que terminem o jogo de culpar a China e se concentrem em combater a pandemia da COVID-19 que matou mais de 74 mil americanos até a tarde de quinta-feira.

"É hora de terminar o jogo da culpa. É hora de focar na doença e reconstruir a confiança entre nossos dois países. Como o presidente Abraham Lincoln pediu 'os melhores anjos' em seu discurso de posse, espero que a sabedoria das gerações anteriores nos guiará a escolher o lado certo da história e trabalhar juntos para o nosso futuro comum", afirmou Cui. Fim

Martin Luther King Jr. e a luta pela igualdade social

 
 
Tom Mackaman e Niles Niemuth | WSWS

Na segunda-feira, os Estados Unidos comemoraram o Dia de Martin Luther King Jr., um feriado que marca o nascimento do líder dos direitos civis.

 

 
Desde a sua criação nos anos 1980, o feriado teve como objetivo transformar King em um ícone inofensivo da conciliação social, ofuscando ao mesmo tempo suas críticas radicais ao capitalismo e ao militarismo estadunidenses. Mas hoje, em 2020, isso foi somado a um novo impulso. A concepção de King de um movimento democrático de massa pelos direitos civis baseado na ação unificada de todas as seções oprimidas da população está sendo substituída por uma narrativa essencialmente racialista que apresenta toda a história dos EUA em termos de uma luta entre brancos e negros. Essa narrativa racial exige a marginalização do papel histórico de King.

 


Isso se mostra claramente no Projeto 1619 do New York Times, que faz uma “reformulação” da história das relações raciais estadunidense sem mencionar King. Isso não é um descuido por parte de um projeto que se declara nada menos do que um novo currículo para a educação básica. O centro da política de King - a luta pela igualdade - é contrária aos objetivos do liberalismo contemporâneo, que é baseado em uma luta por privilégios dentro da classe média alta.

 


King, um pastor e teólogo batista, tornou-se o mais proeminente líder e voz da massiva luta dos direitos civis pela igualdade racial que surgiu no período após a Segunda Guerra Mundial - desde o boicote dos ônibus de Montgomery contra a segregação Jim Crow no estado do Alabama em 1955 até 1968, quando King foi assassinado em Memphis, no estado do Tennessee, enquanto estava apoiando os lixeiros em greve.

 


King nasceu na cidade de Atlanta, Georgia em 1929, durante um período que os acadêmicos chamaram de o “pior momento” das relações raciais nos EUA. No Sul durante as leis Jim Crow, a partir dos anos 1890, um conjunto de leis retirou o direito ao voto da ampla maioria dos negros. Todos os espaços públicos foram segregados pela lei ou pelo costume - escolas e faculdades; ônibus, trens, bondes; bebedouros e banheiros; restaurantes e cinemas. O casamento inter-racial era ilegal e mesmo interações casuais entre brancos e negros, por exemplo em calçadas, aconteceriam dentro de uma etiqueta criada para humilhar e depreciar os negros.

 


O Partido Democrata governou o Sul durante as leis Jim Crow sem ser desafiado. Por trás dele havia a ameaça constante da violência racista sancionada pelo governo. Estima-se que multidões e gangues de assassinos lincharam mais de 4 mil negros no Sul dos anos 1870 até os anos 1940.

 

 
Contudo, o racismo não era um fim em si próprio. Conforme C. Vann Woodward estabeleceu há muito tempo em A estranha carreira de Jim Crow (1955), ele foi imposto como uma resposta direta ao movimento Populista de fazendeiros pobres, que, nos anos 1880, havia levantado o espectro da união inter-racial entre os oprimidos. O fato de que o livro de Woodward era tido como “a bíblia histórica” do movimento dos direitos civis refletia a concordância desse movimento com sua decisiva conclusão, que, como King disse, “a segregação racial como um estilo de vida não surgiu como um resultado natural do ódio entre as raças” - a posição promovida pelo Projeto 1619 - mas “foi na verdade um estratagema político empregado pelos interesses dos Bourbon no Sul para manter as massas sulistas divididas e o trabalho sulista o mais barato na região”.

 


O movimento Populista entrou em colapso algumas décadas antes do nascimento de King. A sua incapacidade de superar a oligarquia sulista foi resultado da sua composição social de fazendeiros rurais isolados, uma seção indiferenciada e em rápido declínio da população. Ainda assim, suas conquistas foram extraordinárias. Abalando o sistema de dois partidos até as suas bases, o desafio do Populismo ao capitalismo impulsionou em última instância o surgimento do socialismo estadunidense.

 



A “grande migração” e o crescimento da classe trabalhadora

 


Apesar de King buscar inspiração no Populismo, o que ofereceu a base para o movimento dos direitos civis foi, em última instância, uma transformação muito mais profunda, a partir do poderoso desenvolvimento do capitalismo estadunidense: o desenvolvimento da classe trabalhadora.

 


Em 1900, depois da derrota do movimento Populista, 90% dos afro-americanos viviam no Sul, a maioria isolada em regiões rurais. Nos anos 1920, mais de 1,5 milhão de negros deixaram o Sul e foram para cidades do Norte em busca de trabalho assalariado. Muitos outros se mudaram para as cidades do Sul - incluindo Atlanta, onde King nasceu, assim como as cidades industriais do estado do Alabama, Birmingham e Montgomery, que deram origem ao movimento dos direitos civis moderno. Até 1960, apenas 15% dos afro-americanos permaneciam nas fazendas, uma transformação social dramática que os historiadores chamam hoje de Grande Migração.

 

 
Nas cidades, os migrantes negros enfrentaram novas formas de racismo e, como nas cidades de East St. Louis em 1917 e de Chicago em 1919, ocasionais ataques de grande violência, tipicamente organizados por seus oponentes históricos no Partido Democrata. Mesmo assim, é inegável que esse vasto movimento - do interior para a cidade, da fazenda para a fábrica, e do Sul para o Norte e o Oeste - foi um acontecimento intensamente libertador. Seu impacto na cultura estadunidense foi revigorante.

A chegada às cidades dessas pessoas brutalmente oprimidas, apenas meio século após a escravidão, originou o crescimento cultural e intelectual associado ao “Harlem Renaissance” (Renascimento do Harlem), as primeiras organizações políticas de massa e sindicatos afro-americanos, assim como as grandes formas de música popular, incluindo ragtime, rhythm e blues, jazz, e rock and roll.

 


A Grande Migração tornou os trabalhadores afro-americanos uma decisiva seção da classe trabalhadora. Porém, a fusão dessa classe, atravessando divisões raciais e nacionais, não era uma tarefa fácil em condições nas quais os empresários capitalistas sabiam que poderiam colocar os trabalhadores – brancos, negros, imigrantes – uns contra os outros em uma competição por salários. A Federação Estadunidense do Trabalho (AFL), que está entre as organizações trabalhistas mais provinciais e reacionárias no mundo, incentivou essas divisões. A maioria dos seus sindicatos impôs exclusões raciais contra os negros e incitou a hostilidade aos imigrantes. Socialistas reformistas que se alinharam à AFL, como Victor Berger, da cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, também excluíram negros de sua concepção de classe trabalhadora.

 


Nessas condições - o surgimento de uma poderosa classe trabalhadora industrial, porém limitada por formas de organização obsoletas -, a Revolução Russa de 1917 teve um enorme impacto. Entre os intelectuais negros inspirados pelos bolcheviques estavam Claude McKay, Jean Toomer, Langston Hughes, Paul Robeson, e A. Philip Randolph, que foi cocriador da revista socialista The Messenger em 1917 e, depois, liderou o maior sindicato predominantemente negro, a Irmandade dos Carregadores de Bagagem (Brotherhood of Sleeping Car Porters).

 


Esses intelectuais imediatamente compararam a situação deles com a dos judeus sob a aparentemente eterna dinastia Romanov. “Para os negros estadunidenses, o fato indiscutível e de destaque da Revolução Russa”, explicou McKay em 1921, “é que um punhado de judeus, proporcionalmente muito menores do que o número de negros na população dos EUA, adquiriu, através da Revolução, todos os direitos políticos e sociais negados a eles sob o regime do Czar”.

 

 
No Norte, os socialistas assumiram a dianteira na luta pelos grandes sindicatos industriais no setor automotivo, frigorífero, da borracha e siderúrgico, insistindo que os negros fossem aceitos em pé de igualdade com todos os outros. Mesmo no extremo Sul, os socialistas lutaram sob a bandeira da Revolução Russa nos anos 1920 e 1930, ganhando o apoio de trabalhadores militantes, negros e brancos, em lugares como o estado do Alabama, onde a defesa dos Garotos de Scottsboro, nove jovens afro-americanos falsamente acusados de estupro, ganhou o apoio dos trabalhadores no mundo inteiro. É difícil exagerar ao falar sobre o heroísmo desses trabalhadores, que resistiram à ira da polícia sulista, assim como à Ku Klux Klan.

 


Os stalinistas do Partido Comunista, junto à burocracia supostamente esquerdista do Congresso das Organizações Industriais (CIO), traíram esses trabalhadores em nome da sua aliança com o Partido Democrata, cuja ala sulista permanecia nas mãos da oligarquia supremacista branca. Mesmo assim, o socialismo permaneceu causa de grande irritação para os políticos pró-Jim Crow, que viam em toda agitação de trabalhadores sulistas o trabalho de “provocadores externos” e “comunistas”. Além disso, apesar dos maiores esforços dos reacionários difamadores da esquerda, o socialismo continuou a influenciar uma camada de intelectuais e líderes sulistas.

 


A importância de King

 


King não era um marxista ou revolucionário. Porém, suas simpatias socialistas, e aquelas de sua esposa, Coretta Scott King, eram conhecidas. Ele defendeu uma reestruturação econômica significativa da sociedade estadunidense, embora não chamasse pela derrubada do sistema capitalista. Apesar de adaptar cautelosamente a sua política às pressões do clima anticomunista nos Estados Unidos dos anos 1950, King falava uma linguagem completamente incompatível com a narrativa racial dos atuais nacionalistas pequeno-burgueses privilegiados de direita.

 


O comunismo “deve nos desafiar primeiro a nos preocuparmos mais com a justiça social”, disse King em um sermão proferido pela primeira vez em 1953. “Por mais que muito esteja errado com o comunismo, nós precisamos admitir que ele surgiu como um protesto contra as dificuldades daqueles que não são privilegiados. O Manifesto Comunista, que foi publicado em 1847 por Marx e Engels enfatiza em todas as suas partes como a classe média explorou a classe baixa. O comunismo enfatiza uma sociedade sem classes. O comunismo busca transcender as superficialidades de raça e cor, e você pode aderir ao partido comunista qualquer que seja a cor de sua pele ou a qualidade do sangue nas suas veias”.

 


King articulou eloquentemente os sentimentos democráticos dos estadunidenses de todas as raças e etnias, que estavam lutando para derrubar as barreiras artificiais levantadas pela classe dominante em um esforço consciente para dividir a classe trabalhadora.

 


Em um sermão de 1965, King explicou que as “majestosas palavras” da Declaração de Independência escrita por Thomas Jefferson, que “todos os homens são criados iguais”, eram a base do movimento dos direitos civis. Ele não via aquele documento, que dava expressão aos princípios do Iluminismo, que motivaram a Revolução Americana, como uma narrativa cínica ou uma mentira - como a representante do Projeto 1619, Nikole Hannah-Jones, vê a Declaração -, mas como uma promessa ainda não cumprida, “elevada a proporções cósmicas” e que o movimento dos direitos civis estava lutando para tornar uma realidade.

 


Ele e muitos outros que fizeram parte do movimento de massa nos anos 1950 e 1960 entendiam muito bem que nenhum progresso duradouro poderia ser alcançado sem a união da classe trabalhadora e reconheciam que, sob o capitalismo, os trabalhadores estavam sendo oprimidos independentemente da cor de sua pele.

 


Escrevendo em 1958, King disse que dois verões de trabalho em uma fábrica quando era adolescente haviam exposto ele à “injustiça econômica em primeira mão, e percebi que o branco pobre era explorado tanto quanto o negro. Através dessas experiências iniciais eu cresci profundamente consciente das variedades de injustiça na nossa sociedade”.

 


Independentemente do assassinato de King ter sido ou não apenas o trabalho do criminoso James Earl Ray, é um fato documentado que, desde o início dos anos 1960, o FBI sob J. Edgar Hoover tinha como objetivo destruir o líder dos direitos civis através de uma campanha de truques sujos, vazamentos na mídia, intensa vigilância e até mesmo incentivando King a se matar. “Mesmo assim, de algum modo”, escreveu o historiador William Chafe, “King saiu desses eventos como um líder mais forte, mais resoluto, mais corajoso”.

 

King respondeu ao ataque do FBI em 1967 lançando sua Campanha dos Pobres inter-racial, uma iniciativa buscando justiça econômica para todos os estadunidenses empobrecidos. Ele também se tornou um dos mais abertos críticos da chacina dos EUA no Vietnã, denunciando de forma marcante o governo dos EUA como o “maior criador da violência hoje” em seu discurso na Igreja Riverside em 1967.

 


King havia se convencido, disse ele ao seu gabinete no mesmo ano, “que não podemos resolver nossos problemas agora até que haja uma radical redistribuição de poder econômico e político”. Era o momento, ele disse, “de levantar certas questões básicas sobre a toda a sociedade... Nós estamos engajados em uma luta de classes... lidando com o problema do abismo entre aqueles que têm e aqueles que não têm”.

 


O reconhecimento de King da necessidade da luta inter-racial e das contribuições dos brancos para o movimento dos direitos civis sustentou a crítica de King ao separatismo racial apoiado pelo movimento Black Power, que ele chamou corretamente, em 1967, de “um grito de decepção... nascido das feridas do desespero”.

 


King e o Projeto 1619

 


A guinada de King para a esquerda alarmou líderes dos direitos civis conservadores. Para eles, King respondeu - em palavras que ecoam com a mesma força contra os “especialistas raciais” generosamente financiados de hoje -: “O que vocês estão dizendo pode lhes dar uma bolsa em uma fundação, mas não vai levá-los ao Reino da Verdade”.

 


A lógica dessas posições, de fato do trabalho de toda a sua vida, colocou King em uma rota de colisão com o Partido Democrata - o mesmo partido que governou o Sul durante as leis Jim Crow e os aparatos políticos das grandes cidades no Norte, e que havia levado os Estados Unidos ao Vietnã. Mesmo se as suas limitações políticas o fizeram adiar esse acerto de contas até o fim, o trabalho de sua vida teve um real impacto nas vidas de milhões.

 


Hoje, os princípios universais e iluministas, pelos quais King lutou e defendeu, estão sendo ferozmente atacados. É impressionante que, no Projeto 1619, a iniciativa do Times de escrever a “verdadeira” história dos EUA como tendo origem na escravidão e no racismo, a contribuição de King para a luta pela igualdade seja totalmente ignorada. Isso não representa uma interpretação diferente dos fatos ou um mero descuido, mas uma verdadeira falsificação histórica.

 


O Times procura impor uma nova “narrativa” sobre a história dos EUA, segundo a qual o racismo contra o negro é apresentado como uma característica imutável do “DNA estadunidense”. Isso, defende Hannah-Jones, surgiu do “pecado original” da escravidão, que não foi em si causada pela exploração do trabalho, mas pelo racismo branco contra os negros.

 

 
Promovido pelo Centro Pulitzer para Cobertura de Crises, que é amplamente financiado por corporações e bilionários, o Projeto 1619 propõe-se como um novo currículo para a educação pública. Escolas em péssimas condições e crianças famintas da cidade de Chicago até Buffalo estão recebendo planos de aula que defendem que a Revolução Americana e a Guerra Civil foram conspirações para perpetuar o racismo branco, e que todo o tipo de problemas sociais contemporâneos - falta de acesso à saúde, obesidade, congestionamentos no tráfego, etc. - são resultados diretos da escravidão.

 


Seguindo outros importantes historiadores entrevistados pelo WSWS, o professor Clayborn Carson da Universidade de Stanford, diretor do Instituto de Pesquisa e Educação Martin Luther King, Jr., criticou o Projeto 1619 do ponto de vista do seu tratamento da história, sua falta de compromisso com a Revolução Americana, e o obscuro e rápido processo de sua elaboração. Ele foi além, entretanto, fazendo poderosas observações sobre King e o movimento dos direitos civis que ele passou a liderar - dois assuntos quase inteiramente ausentes no Projeto 1619.

 


Carson apontou que os ideais da Revolução Americana e o Iluminismo tiveram um papel decisivo no movimento dos direitos civis e no papel do próprio King como um líder político. Carson explicou: “Uma maneira de abordar a criação deste país é entender a ousadia de algumas centenas de homens brancos da elite se reunindo e declarando um país - e declarando-o um país baseados na noção dos direitos humanos”.

 


“Obviamente, eles estavam sendo hipócritas, mas também foi audacioso. E é disso que se tratam direitos”, apontou Carson. “É a história de pessoas dizendo, ‘Eu declaro que tenho o direito de determinar o meu destino, e nós temos coletivamente o direito de determinar o nosso destino’. Essa é a história de todos os movimentos, todos os movimentos de liberdade na história do mundo. Em algum momento você tem que chegar naquele ponto em que você precisa dizer isso, publicamente, e lutar por isso.”

 


São esses princípios e perspectiva que estão sendo rejeitados explicitamente pelo New York Times conforme as camadas de classe média organizam diversas formas de política identitária para competir por uma maior proporção das massivas quantidades de riqueza que têm sido depositadas nos cofres dos 1% mais ricos. Nessa luta por privilégios e riqueza, os princípios políticos que King defendeu não têm lugar e, portanto, ele também precisa ser removido da narrativa histórica.

 

 
Nas imagens: 1 - Martin Luther King, Jr. durante discurso em marcha de 1963 até Washington; 2 - 

 

Martin Luther King, Jr. e Coretta Scott King lideram marcha de 1965 de Selma até Montgomery pelo direito ao voto
 
 
 
Publicado originalmente em 23 de janeiro de 2020

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/martin-luther-king-jr-e-luta-pela.html

Empresa chinesa doa 250 mil máscaras faciais para Chicago

Chicago, 7 mai (Xinhua) -- Uma empresa chinesa doou nesta quinta-feira 250 mil máscaras e 30 mil protetores faciais para a cidade de Chicago, nos EUA, para ajudar na luta contra a pandemia da COVID-19.

A cidade de Chicago organizou uma breve cerimônia no United Center, no centro da cidade, para receber os suprimentos anti-coronavírus doados.

Participaram da cerimônia o vice-prefeito, Samir Mayekar, e Ni Pin, presidente da empresa doadora Wanxiang America Corporation, uma filial norte-americana do Wangxiang Group, um fabricante chinês de componentes automotivos.

"Enfrentamos grandes desafios hoje", disse Mayekar à Xinhua. "Nossos ótimos parceiros corporativos afirmam que nos ajudarão no momento que mais precisamos, então recebemos centenas de milhares de equipamentos de proteção pessoal, algo que a cidade nunca esquecerá."

Em sua carta de agradecimento endereçada a Ni Pin e sua empresa dias atrás, a prefeita, Lori Lightfoot, disse que a doação não apenas "apoia os inúmeros habitantes de Chicago que trabalham dia e noite para combater a doença, mas também está ajudando a estabelecer as bases para nossa forte recuperação."

"Estamos juntos nisso", acrescentou.

Depois de saber que as máscaras e protetores faciais estão em grande necessidade em Chicago, "decidimos dar todos os equipamentos de proteção pessoal da China", disse Ni à Xinhua. "Temos muito investimento em Chicago, então isso também é para nós mesmos".

O Wanxiang Group está doando 1,1 milhão de máscaras e 50 mil protetores de rosto para 12 estados dos EUA, incluindo Illinois. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/08/c_139040029.htm

A luta pela hegemonia

por Samuel Pinheiro Guimarães [*]

O fenômeno político, econômico e militar mais importante, anterior à emergência do Coronavírus e que, após o fim da Pandemia, permanecerá, é a firme disposição dos Estados Unidos de manter sua hegemonia mundial, seu poder de Império, face à ascensão e à competição chinesa.

A hegemonia em nível mundial é a capacidade de elaborar, divulgar e fazer aceitar pela maioria dos Estados uma visão do mundo em que o país hegemônico é o centro; de organizar a produção, o comércio e as finanças mundiais de forma a captar para a sede do Império uma parcela maior do Produto Mundial para uso de sua população, e muito em especial de suas classes hegemônicas e de seus altos funcionários; a capacidade de impor a "agenda" da política internacional; a força para punir os Governos das "Províncias" do Império que se recusem a aceitar ou se desviem das normas (informais) de seu funcionamento.

As normas (informais) que os Governos das "Províncias" (que são Estados nacionais) devem seguir são: ter uma economia capitalista, aberta ao capital estrangeiro, com mínima intervenção estatal; dar igualdade de tratamento às empresas de capital nacional e às de capital estrangeiro; não exercer controle sobre os meios de comunicação de massa; ter um regime político pluripartidário com eleições periódicas; não celebrar acordos militares com Estados adversários, a saber Rússia e China; apoiar as iniciativas dos Estados Unidos.

Sempre que conveniente aos interesses do Império Americano estas normas são "flexibilizadas", como, a título de exemplo, no caso de monarquias do Oriente Próximo.

 


Durante, após e desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, ao suceder o combalido Império Britânico, organizaram, em 1946, o sistema político mundial com as Nações Unidas e suas agências na Conferência de San Francisco; o sistema econômico, com o FMI, em 1944, para regular o sistema financeiro internacional, com base em taxas fixas de câmbio e no padrão ouro-dólar; o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, hoje Banco Mundial) criado em 1944 para financiar a reconstrução europeia; o Acordo Geral de Tarifas Aduaneiras e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade, o GATT), em 1947, para regular o comércio internacional com base na cláusula da nação mais favorecida; a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1994, que administra acordos sobre comércio de bens, de produtos agrícolas, de serviços, sobre investimentos e propriedade intelectual, e solução de controvérsias; e o Plano Marshall, em 1948, para, através de doações e de financiamentos a juros baixos, em valor atual de 100 mil milhões de dólares; a reconstrução da Europa, conter a influência dos partidos comunistas e reativar a indústria americana de bens de capital; o sistema militar, com a OTAN, em 1949, que garantiu a presença de tropas americanas em bases na Europa Ocidental; os pactos regionais de defesa "mútua" como o TIAR, o Cento, a SEATO, o acordo com o Japão, o ANZUS (Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos); as bases militares, que fora do território americano são mais de 700; as sete Frotas, que patrulham os mares e oceanos; o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em 1968, que estabelece um oligopólio nuclear que permite aos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia, França e China produzir, exportar, importar, armas e material nuclear e proíbe aos demais Estados; o sistema de "atração dos melhores cérebros" (que é o outro lado do "brain drain" ) de todos os países e de geração de ciência e tecnologia; e o sistema mundial de formação da opinião pública e de interpretação da realidade, através dos meios audiovisuais e da Internet.

Desde 1945, lograram os Estados Unidos e suas classes hegemônicas (o establishment?) extraordinárias vitórias. Executaram uma eficiente política externa bipartidária. Contribuíram para desmantelar os impérios coloniais francês, britânico, holandês e português, através da ONU, e por ações de apoio a movimentos de independência; não objetaram a abertura da China ao capital megamultinacional, em apoio implícito às políticas de Deng Xiaoping; desintegraram a União Soviética com o auxílio de M. Gorbachev e Boris Ieltsin; obtiveram a aceitação como "natural", pelos países subdesenvolvidos, da divisão de trabalho entre produtores de matérias-primas e produtores industriais; superaram as crises de 2001 e 2008; eliminaram (assassinaram ?) Bin Laden e assim vingaram o crime de lesa majestade cometido em 2001; mantiveram esmagadora supremacia militar e nuclear.

A China realizou extraordinários feitos desde 1945. O Exército de Libertação Popular e o Partido Comunista Chinês venceram e expulsaram os exércitos invasores japoneses; derrotaram e puseram em fuga Chiang Kai Shek, o Kuomintang (Partido Nacionalista Chinês), junto com seu exército de dois milhões de soldados para Taiwan; estruturaram o Estado socialista chinês; enfrentaram os Estados Unidos na Guerra da Coréia sem serem derrotados (1950 a 1953); detonaram sua primeira bomba atômica em 1964; obtiveram o reconhecimento diplomático americano; em 1971 ingressaram no Conselho de Segurança e nas agências da ONU no lugar de Taiwan; fizeram a reforma agrária e com amplos movimentos populares romperam as estruturas elitistas herdadas da China imperial e que tinham permanecido durante a China republicana (1911-49); superaram os efeitos do cisma com a URSS, em 1960; auxiliaram o Vietnam em sua vitória final contra os Estados Unidos, em 1975; expandiram os sistemas de educação e saúde e reduziram a pobreza de forma eficaz e significativa, sendo hoje os chineses em situação de extrema pobreza menos de 1% de sua população. O seu míssil Dongfeng-41 desenvolve velocidade de 8.500 m/segundo superior em 25 vezes a velocidade do som que é de 340 m/segundo e pode atingir alvos a 13.000 km, sem que haja arma comparável no arsenal americano.

A China se recusou a fazer parte do Pacto de Varsóvia, assinado em 1955 entre os países do leste europeu, e rejeitou a política de coexistência pacífica de Kruschov (1953-1964) anunciada em 1955, a qual a China denunciou como "revisionista". Em 1958, a China recusou solicitação soviética de uso de portos. A confrontação ideológica fez com que a União Soviética, em 1958, após a Segunda Crise do Estreito de Taiwan, temendo o confronto entre China e EUA, suspendesse a cooperação nuclear; revogasse a promessa de fornecer tecnologia para a construção de bomba atômica pela China e, em 1960, ordenasse a saída de todos os especialistas russos. A aproximação da China dos Estados Unidos, em 1972, fez com que as relações com a URSS se mantivessem distantes até a década de 1980 quando Gorbachev iniciou processo de aproximação que levaria a sua visita à China em 1989.

No Império Americano os sistemas políticos, econômicos e militares estão em reformulação permanente para atender às suas necessidades internas e externas. Assim ocorreu nos episódios de abandono unilateral pelos Estados Unidos da paridade ouro-dólar; de tornar indefinida a vigência do TNP; da aceitação da Índia como potência nuclear; da reformulação da política externa desde 2016 pelo Governo de Donald Trump, com base nos conceitos de America First, de anti-multilateralismo, de desrespeito às decisões do Conselho de Segurança, de unilateralismo, de uso da violência, de negação da mudança climática.

 


Desde o remoto ano de 1607, quando foi fundada a vila de Jamestown, na Virginia, e depois, com a fundação de cada uma das Treze Colônias, os Estados Unidos da América têm a convicção de que cabe a eles liderar o mundo (e não apenas o Ocidente) como nação "indispensável" e "excepcional" por serem a mais antiga democracia, a mais rica e dinâmica economia, a mais poderosa potência militar, a mais benevolente e generosa nação, e aquela que organizou o sistema internacional depois dos desastres da Grande Depressão: os desemprego que chegou a 30% nos EUA; o nazismo com seus campos de extermínio e experiência humana, e trabalho escravo e sua doutrina de superioridade racial ariana; e a Guerra Mundial, quando morreram 50 milhões de pessoas.

Os Estados Unidos da América, desde a Guerra da Independência em 1776 sempre estiveram em conflitos com outros Estados, numa longa prática de intervenção militar ao redor do mundo.

A China que, com cinco mil anos, é a mais antiga civilização, sempre foi a maior economia e o mais poderoso Estado, ainda que humilhada pelas Potências ocidentais entre 1840 e 1949, com um amplo e pioneiro legado de inovações tecnológicas, sempre se manteve um Estado com economia e instituições organizadas, e uma sociedade de grande criatividade filosófica, artística e literária. Hoje, como República Popular, ostenta grande pujança econômica e tecnológica.

A China raramente esteve em conflito militar com outros Estados e quando esteve foi como resultado de agressão externa, como o caso das agressões ocidentais e a invasão japonesa.

 


Deng Xiaoping definiu os requisitos indispensáveis para o desenvolvimento da China: estabilidade interna e ambiente de paz internacional.

Os dirigentes da República Popular reiteram em todas as ocasiões que seu desenvolvimento é pacífico e cooperativo e a China se apresenta como um Estado que deseja participar das instituições internacionais e não destruí-las ou substituí-las, procurando, todavia, reformá-las.

A China procura se apresentar como um parceiro confiável, pacífico, cooperativo em especial em relação aos países de sua vizinhança mais próxima. É importante mencionar que entre os principais investidores na China se encontram empresas de Taiwan e Hong Kong e as comunidades, prósperas e influentes, da Diáspora chinesa em vários países da Ásia, que somam cerca de 10 milhões de descendentes de chineses.

 


A partir de 1978, a reorientação radical, porém gradual e experimental, comandada por Deng Xiaoping da política econômica da República Popular da China com base na abertura externa, na atração do capital multinacional e na economia de mercado, foi possível graças à destruição (ou pelo menos ao forte abalo) das estruturas feudais e elitistas do Império chinês no período de Mao Zedong (1949-1976), quando o PIB da China cresceu à taxa anual de 4-5%.

A China atrai anualmente, após os Estados Unidos, o segundo maior fluxo de investimento estrangeiro direto, promove intensa transferência de tecnologia, expande e diversifica suas exportações, cresceu à média de 10% ao ano entre 1978 e 2008 (trinta anos) e continua a crescer a taxas elevadas. Tornou-se a segunda maior economia do mundo, o maior país exportador e o segundo maior importador, detentor das maiores reservas internacionais (três milhões de milhões de dólares), o maior investidor em títulos do Tesouro americano e grande gerador de tecnologia.

 


Xi Jinping tem insistido que o grande sonho chinês é a revitalização da cultura, do Estado e da civilização chinesa e a unidade do território, com a reincorporação de Taiwan e a realização do socialismo com características chinesas.

A China tem duas metas temporais: a do centenário de fundação do Partido Comunista Chinês, em 2020, e a do centenário da Revolução Comunista, em 2049. A meta estabelecida para o centenário de 2020 era criar uma economia moderadamente próspera e a meta para o centenário de 2049 é atingir uma economia próspera e poderosa.

 


A China executa uma estratégia de política externa com as seguintes características e objetivos:

  • manter relações de não-confrontação em geral e, acima de tudo, evitar a confrontação militar com os Estados Unidos;
  • assegurar fontes diversificadas de matérias primas para a economia chinesa;
  • abrir mercados para as exportações e para os investimentos chineses;
  • não interferir em assuntos internos políticos ou econômicos dos países;
  • não impor condicionalidades políticas ou econômicas para a cooperação econômica nem fazer críticas sobre a situação de direitos humanos ou sobre o regime político de terceiros países;
  • fortalecer seus laços com os países vizinhos através da Organização de Cooperação de Shangai (SCO), do acordo com a ASEAN (Associação de Países do Sudeste Asiático) integrada por Brunei; Camboja; Indonésia; Laos; Malásia; Mianmar; Filipinas; Singapura; Tailândia; Vietnam; de acordos bilaterais com a Rússia e das obras de infraestrutura do Cinturão e Rota da Seda.

    A China desenvolve iniciativas de aproximação e programas de cooperação com os países africanos, com os países latino-americanos, com os países árabes e com os países que se encontram no que se chamou de Cinturão e Rota da Seda.

    Três iniciativas chinesas tiveram grande importância. A primeira foi a criação dos BRICS, em companhia da Rússia, da Índia, do Brasil e África do Sul. No âmbito dos BRICS foi criado, em 2014, o Novo Banco de Desenvolvimento para financiar projetos de infraestrutura e os Acordos de Reserva Contingente, para fazer face a dificuldades de balanço de pagamentos.

    A segunda, a Organização de Cooperação de Shangai (SCO), que foi fundada em 2001, com a Rússia, o Cazaquistão, o Tadjiquistão, Quirquistão e Uzbequistão, e da qual, em 2017, a Índia e o Paquistão se tornaram membros. Sua finalidade principal é a cooperação em matéria de segurança e de combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo.

    A terceira iniciativa foi a criação, em 2014, do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. A criação do Banco atraiu grande interesse europeu e suscitou a oposição americana. Todavia, metade dos países da OTAN e os grandes países asiáticos assinaram, à exceção do Japão. Seus membros fundadores mais importantes foram a Áustria, Reino Unido, Itália, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Austrália, China, Coréia do Sul, Paquistão, Rússia, Índia, África do Sul e Brasil.

     


    Oito presidentes americanos, de Nixon a Obama, executaram uma estratégia de engajamento, baseada na convicção de que abraçando a China política e economicamente fariam com que ela se tornasse gradualmente mais capitalista e liberal.

    Essa estratégia criou a maior relação comercial entre dois países. Há cerca de 70 mil companhias americanas na China e, em 2005, iniciou-se um grande fluxo de estudantes chineses para os Estados Unidos, que são o maior grupo nacional de estudantes nos Estados Unidos.

    Assim, até a presidência de Barack Obama (2007-2015), a estratégia americana se fundava na visão de que o crescimento econômico chinês levaria à abertura política e à democracia e a uma convergência chinesa com as políticas ocidentais.

    Obama se proclamou o "primeiro presidente americano do Pacífico" (America's First Pacific President). Sua política tinha como objetivo conter a ascensão da China que viria, em 2010, a ultrapassar o Japão e a se tornar a segunda maior economia do mundo.

    O fato de a China ter superado os Estados Unidos em produção industrial causou grave preocupação aos estrategistas americanos, pois estes consideram que a manufatura é a base da indústria e que uma manufatura forte permite um poder militar forte e, com ele, a capacidade de competir pela hegemonia global.

    A ênfase na Ásia (rebalance to Asia-Pacific), slogan da política externa de Obama, era sustentada por quatro pilares: a alocação de 60% da força naval e aérea americana para a Ásia; a negociação da Trans-Pacific Partnership, com exclusão da China; a exploração das disputas da China com seus vizinhos; a manutenção do contato com a China.

    Em termos de paridade de poder de compra (PPP) a China superou os Estados Unidos como maior economia do mundo em 2014; em 2016 o Produto real (GDP) chinês era 12% maior que o americano e, em 2015, o produto manufatureiro chinês foi 150% maior. Em cada um dos cinco anos até 2016, a China foi o primeiro país em pedidos de patentes.

    Os Estados Unidos negociaram acordos militares com países da região como o Japão, a Coréia do Sul, a Austrália, as Filipinas. Na área econômica negociaram, sigilosamente e fora da OMC, o TransPacífic Partnership Agreement (TPP), entre 12 países, entre os quais se destacam EUA, Japão, Canadá, Austrália, México e Vietnam, amplo acordo de livre comércio e de normas em muitas áreas, em um esquema de normas OMC-Plus e mesmo KAFUS-Plus, (acordo Coréia do Sul-Estados Unidos).

    A negociação do TPP procurava isolar a China de seus vizinhos próximos. Os Estados Unidos, ademais, insistiam em suas críticas à situação de direitos humanos e ao regime político chinês, acusado de ditatorial, provocando irritação nas autoridades chinesas enquanto sua política de venda de armas a Taiwan e estímulo à sua independência contrariava seus compromissos.

    A estratégia de Obama de ênfase na Ásia não só fracassou como fez aumentar as desconfianças do Governo da China e o estimulou a tentar contrabalançar a ação americana com iniciativas tais como a Parceria Econômica Abrangente; a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacifico; o projeto de Um Cinturão, uma Rota, e a criação do Banco dos BRICS e do Banco Asiático de Infraestrutura. De outro lado, a China tem continuado a expandir sua presença em altos cargos de organismos como o FMI, o Banco Mundial e as Nações Unidas.

    Um conceito estratégico foi proposto por Xi Jinping a Obama em 2013: não ao conflito e não à confrontação; respeito mútuo; cooperação ganha-ganha (win-win). Os Estados Unidos não aceitaram nem rejeitaram este conceito de Xi Jinping para reger as relações China/Estados Unidos.

     


    Barack Obama foi sucedido em 2016 por Donald Trump, assumidamente um "outsider" (estranho) em relação à política e ao próprio Partido Republicano, e que provocou uma reviravolta, inclusive emocional e voluntarista, na condução da política externa americana e, em especial, quanto à China.

    Seu lema America First resume sua visão antagônica em relação a compromissos e organismos internacionais, às negociações multilaterais, em relação à não intervenção política. Trump tende a considerar que a política externa é, em realidade, uma negociação comercial em que ele, Trump, acredita que prevalecerá por ter maior experiência como homem de negócios.

    Donald Trump identificou a China não só como competidora, mas também como a principal adversária econômica, política e militar dos Estados Unidos e que tem de ser tratada com firmeza.

    A abordagem de confrontação de Trump atraiu surpreendente apoio bipartidário. Os empresários americanos passaram a se queixar do roubo de segredos comerciais, de transferência forçada de tecnologia e dos subsídios às empresas chinesas que tornavam a competição impossível. E os políticos denunciaram as prisões de ativistas de direitos humanos e de lideranças de minorias étnicas.

    A estratégia de Donald Trump de decoupling (desconexão) da China para contenção do crescimento econômico e político chinês tem como objetivos:

  • eliminar o déficit comercial bilateral dos EUA, de cerca de US$360 mil milhões anuais;
  • impedir a transferência, por empresas americanas e europeias, de tecnologia avançada; reduzir a presença de estudantes chineses nos EUA, que seriam 370 mil em 2019, dez vezes o número de 2009;
  • impedir a adoção da tecnologia 5G da Huawei;
  • promover o retorno da produção industrial e de empregos para os Estados Unidos;
  • expandir o orçamento e a presença militar na Ásia;
  • alinhar os países europeus com os Estados Unidos contra a China.

    Em março de 2018, Trump declarou que "guerras comerciais são boas e fáceis de vencer" e aumentou tarifas sobre aço e alumínio importados da China. Beijing retaliou com tarifas sobre exportações americanas.

    Em setembro de 2018, um navio de guerra chinês e um navio americano chegaram a 50 metros um do outro no Mar do Sul da China e quase colidiram.

    Em outubro de 2019 os Estados Unidos colocaram em "lista negra" empresas de tecnologia e dirigentes do Partido Comunista Chinês pelo seu envolvimento na prisão de muçulmanos em Xinjiang.

    O secretário de Estado Mike Pompeo declarou que a América e seus Aliados deveriam assegurar que a "China mantivesse apenas seu lugar próprio no mundo". Pompeo declarou que a "China quer ser a potência econômica e militar dominante no mundo, disseminando sua visão autoritária da sociedade e suas práticas corruptas".

    Em março de 2019, o Comitê do Perigo Presente, dos anos 50, foi reativado e um de seus integrantes, Newt Gingrich, que foi Presidente da Câmara de Representantes, republicano e conservador, publicou o livro Trump vs. China e apontou a China como a maior ameaça aos Estados Unidos, muito maior do que fora a Alemanha nazista ou a União Soviética.

    Donald Trump:

  • taxou em 100% as importações chinesas, usando o argumento de segurança nacional, em violação dos compromissos assumidos pelos EUA na OMC;
  • bloqueou o funcionamento do mecanismo de solução de controvérsias da OMC;
  • retirou os EUA da Trans Pacífic Partnership;
  • proibiu a venda de empresas americanas de alta tecnologia;
  • pressionou os países europeus a se alinhar com sua política anti-China;
  • denunciou as despesas militares chinesas como exageradas e provocativas;
  • renovou os tratados de aliança militar com o Japão e a Austrália;
  • retirou os EUA do Acordo de Paris sobre mudança climática;
  • publicou uma lista de dezenas de empresas chinesas, entre elas a Huawei, com as quais as empresas americanas não podem fazer negócios. A China, em retaliação, fez uma lista semelhante de empresas americanas.

     


    Em janeiro de 2020, foi assinada a Fase 1 do acordo comercial entre China e Estados Unidos que prevê:

  • cancelamento de tarifas que passariam a vigorar em 15/12/19 e incidiriam sobre US$160 mil milhões de produtos chineses; redução de 15% para 7,5% das taxas sobre outros produtos no valor total de US$120 mil milhões importados da China;
  • foram mantidas as tarifas americanas de 25% sobre US$250 mil milhões em produtos importados da China;
  • a China assumiu o compromisso de comprar US$200 mil milhões de produtos agrícolas, de energia e manufaturas americanas até 2021; o acordo inclui seções sobre propriedade intelectual, transferência forçada de tecnologia, alimentos, finanças, moeda, câmbio e solução de disputas.

    Estão em curso as negociações da Fase 2 do acordo comercial.

     


    Em 2018, a China superou a duração da URSS (1917-1991) e se tornou o mais antigo Estado comunista sobrevivente.

    A comunidade de inteligência americana espiona governos estrangeiros desde a organização na Segunda Guerra do Office of Strategic Services (OSS), precursor da CIA. Hoje, a China faz o mesmo, sob veementes protestos americanos.

    O governo chinês tem condicionado a presença de companhias americanas a programas de transferência de tecnologia. Empresários, inicialmente entusiastas das relações com a China, vieram a se tornar críticos veementes.

    A principal área de competição entre China e Estados Unidos é pela liderança da próxima geração de tecnologias. Inicialmente os executivos do Silicon Valley minimizaram o desafio chinês em tecnologia, argumentando que controles rígidos na política e na educação na China iriam impedir inovações radicais. Mas esta sua visão não mais prevalece.

    No plano "Made in China 2025" foram destinados milhares de milhões de dólares em subsídios à pesquisa para ajudar as companhias chinesas a superar seus competidores em áreas de fronteira como veículos elétricos e robótica. De seu lado, como percentagem da economia, o investimento federal nos Estados Unidos em pesquisa caiu a seu menor nível desde 1955.

    Em maio de 2019, o Departamento do Comércio proibiu a Huawei de comprar microchips americanos o que prejudicou sua capacidade de produzir smartphones e equipamentos de rede (networking). Os Estados Unidos solicitaram a 61 países que proibissem o uso de equipamento da Huawei, mas somente três atenderam ao seu pedido: Austrália, Nova Zelândia e Japão.

    O sistema 5G é a futura geração de telecomunicação móvel. Cinco empresas vendem equipamentos e sistemas 5G para operadoras: Huawei, ZTE, Nokia, Samsung e Ericsson. Diante da forte campanha contrária americana, que alega riscos para a segurança nacional dos Estados, a China tem desenvolvido intensos esforços diplomáticos para fazer com que o sistema da Huawei de 5G para telefonia venha a ser adotado em especial pelos países europeus.

    Os Estados Unidos não dispõem de uma tecnologia alternativa 5G para competir com a China.

    A imprevista Pandemia do Coronavírus criou uma oportunidade para a China prestar auxílio aos países europeus atingidos, em especial à Itália e à Espanha e demonstrar sua eficiência, como Estado, pela capacidade de controlar a Pandemia com medidas eficazes e rápidas, sofrendo a China relativamente poucos contágios e mortes, suscitando uma comparação com os Estados Unidos, a esses desfavorável.

     


    Dificilmente a estratégia de "decoupling" de Donald Trump poderia ser bem sucedida. A renda [NR] total das companhias americanas na China, em 2017, foi de US$544 mil milhões. Algumas companhias estão construindo fabricas na Índia, no Vietnam e no México, mas a maioria das companhias americanas deseja mais acesso ao mercado chinês. Em plena "guerra comercial" Starbucks anunciou planos para abrir 3.000 lojas na China e a Tesla, companhia de carros automáticos, abriu uma fábrica em Shangai para construir 150.000 carros por ano. A China é o mais lucrativo mercado, com um valor de 4 mil milhões de dólares, para a National Basketball Association (NBA) e a Nike fez mais de 1,5 mil milhões de dólares por ano na China.

    O mercado chinês se tornou tão importante para as companhias americanas que estas estão aceitando pressões para realizar adaptações culturais. Hollywood aceitou editar filmes, como o filme sobre Freddie Mercury, para poder ter acesso ao mercado chinês.

    Em 2019, dez Faculdades americanas fecharam Institutos Confúcio. Em Beijing, o governo determinou que as instituições públicas removessem todo equipamento de computador e programas de software estrangeiros.

     


    Os Estados Unidos tem enormes vantagens militares sobre a China, mais de 20 vezes armas nucleares, força aérea muito superior, e orçamentos de defesa três vezes maiores que os da China, aliados como Japão e Coréia do Sul e potenciais aliados, como Índia e Vietnam, com capacidades militares próprias. A China não desfruta de situação sequer semelhante no Hemisfério Ocidental.

     


    Em 2012, a China lançou seu primeiro porta-aviões e, em 2019, o segundo, e está construindo seis porta-aviões convencionais de natureza defensiva. A China também desenvolveu misseis, equipamento de defesa aérea e submarinos. Os Estados Unidos tem doze porta-aviões nucleares.

    Beijing considera importante controlar o Mar do Sul da China devido aos recursos naturais e a sua localização estratégica. Em 2012, a China ocupou um banco de areia perto das Filipinas chamado Scarborough Shoal ato ao qual os EUA não reagiram. Em 2014, a China começou a construir ilhas artificiais em cima de sete recifes no Mar do Sul, que considera como necessárias à sua defesa.

    A mais perigosa fronteira entre os Estados Unidos e a China se encontra em territórios contestados no Pacífico Ocidental: Taiwan, o Mar do Sul da China e uma série de recifes e bancos de areia. Desde 2016, ocorreram 18 encontros inseguros, de quase colisão no ar ou no mar, entre a China e os EUA.

    Taiwan se encontra a 130 km do Continente chinês. Há 23 milhões de taiwaneses, sendo que 850 mil moram na China Continental e outros 404 mil lá trabalham. Em 2019, 2,71 milhão de chineses visitaram Taiwan.

    Em janeiro de 2019, Xi Jinping declarou que, eventualmente, Taiwan deverá e será reunida à República Popular da China e que a China se reserva o direito de usar de força contra qualquer intervenção de forças estrangeiras.

    A competição entre China e Estados Unidos também envolve pequenas ilhas e rochedos no Mar do Sul da China, sobre os quais diversos Estados reivindicam soberania. Os Estados Unidos tem se colocado do lado desses Estados contra a China, em uma questão importante para a navegação da Sétima Frota americana designada para operar na região oeste do Oceano Pacífico e no Oceano Índico, com base em Yokosuka no Japão.

    Em 2017, Xi Jinping afirmou que a China oferece um novo caminho para países subdesenvolvidos que desejam acelerar seu desenvolvimento e preservar sua independência.

     


    Nas últimas décadas a balança de poder na Ásia Oriental se inclinou em favor da China. A China tem mísseis, aeronaves, navios de tal forma que pode afirmar que atingiu superioridade militar na região, enquanto Washington não consegue afirmar sua supremacia na região. As capacidades navais da China e o desenvolvimento de lasers, drones, ciber operações, e espaço exterior estão alcançando as dos Estados Unidos.

    Os Estados Unidos e a China parecem estar se movendo em direção a uma separação que é menos econômica do que política e psicológica. Haverá uma decisão de "lutar, mas não esmagar" e tudo indica que a coexistência não será nem decoupling (desconexão) nem appeasement (apaziguamento), já que as economias destes dois países estão hoje, e estarão no futuro previsível, ligadas.

     


    A luta pela hegemonia está, em grande parte, em suspenso pela Pandemia. Vencida esta, a luta voltará e será um processo importante para o Brasil devido aos seus importantes vínculos com os Estados Unidos e com a China.

    [NR] No Brasil chamam de renda a qualquer espécie de rendimento.

    [*] Diplomata brasileiro. Foi secretário-geral do Itamaraty (2003-09) e ministro de Assuntos Estratégicos (2009-10).

    O original encontra-se em
    jornalggn.com.br/artigos/a-luta-pela-hegemonia-por-samuel-pinheiro-guimaraes/

     

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/spguimaraes_01mai20.html

Condado nos EUA preocupado com o aparecimento das “festas de covid-19”

 

Num condado de Washington, nos Estados Unidos, pessoas estão a participar em “festas de covid-19” para contraírem intencionalmente o novo coronavírus.

De acordo com a rede de televisão norte-americana NBC, autoridades de saúde do condado de Walla Walla, no estado de Washington, confirmam que se está a registar um aumento de casos de coronavírus devido à moda das chamadas “covid-19 parties”.

Em comunicado, as autoridades do condado explicaram que estas “festas de covid-19” consistem em reunir pessoas não infetadas com outras que já o estão para conseguirem contrair o vírus e, assim, alcançar a imunidade de grupo.

Isto numa altura em que ainda nem a Organização Mundial de Saúde (OMS), nem os cientistas que estudam este novo coronavírus sabem se realmente existe imunidade.

 
 

“As autoridades de saúde salientam que há muito que ainda não se sabe sobre a covid-19. Os epidemiologistas não sabem se a imunidade é algo certo, se a reinfeção é possível, ou se o vírus pode continuar a viver connosco. O que eles sabem é que mesmo os mais jovens podem ser hospitalizados, os sobreviventes podem sofrer danos a longo prazo e mesmo um caso ‘leve’ não é leve”, lê-se na mesma nota, citada pela rede de televisão.

De acordo com o site de Walla Walla, foi registada uma centena de novos casos nos últimos dias e uma pessoa morreu. Meghan DeBolt, diretora de saúde pública deste condado, revelou que muitas destas infeções podem estar relacionadas com estes encontros sociais.

“Não sabemos quando é que isto está a acontecer, só descobrimos depois quando temos novos casos. Perguntámos sobre os contactos e 25 pessoas disseram-nos que estavam ‘numa festa de covid’”, explica a responsável.

Numa mensagem em vídeo partilhada no Facebook, DeBolt explicou que estas festas “não são parte da solução” para reabrir o condado e pediu às pessoas para “usarem o bom senso e serem espertas na resposta à pandemia”.

Os Estados Unidos registam o maior número de mortes (mais de 73 mil) e o maior número de infetados (mais de 1,22 milhões), dos quais 190 mil foram já considerados curados.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/condado-eua-festas-covid-19-323431

Desemprego nos Estados Unidos atinge níveis da Grande Depressão de 1929

 

A taxa desemprego nos Estados Unidos chegou aos 14,7% e, só no mês de abril, perderam-se 20,5 milhões de empregos.

 

A taxa de desemprego nos Estados Unidos atingiu 14,7% em abril, mês em que a economia do país perdeu 20,5 milhões de empregos, devido às medidas para conter a pandemia de covid-19, indicou esta sexta-feira o Departamento do Trabalho dos EUA.

Segundo o The New York Times, a taxa de 14,7% é a maior desde os anos da Grande Depressão de 1929 e ultrapassa o pico de 10% atingido a crise financeira de 2008-2009.

“O emprego caiu fortemente em todos os principais setores, com perdas mais significativas em particular nos sectores da hotelaria e lazer”, informa o comunicado do Departamento do Trabalho norte-americano. Em fevereiro, a taxa de desemprego tinha ficado em 3,5% e em março atingiu 4,4%.

Esta quinta-feira, os dados semanais que dão conta dos novos pedidos de subsídio de desemprego dos Estados Unidos elevaram-se em mais 3,16 milhões, o que eleva a contabilidade para 33,5 milhões de novos desempregados desde 21 de março.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/desemprego-eua-niveis-grande-depressao-323425

Quando até mesmo o próprio time duvida dos seus métodos

Quando até mesmo o próprio time duvida dos seus métodos

Senado norte-americano não anulou veto de Trump contra restrições impostas por resolução de março ao uso de poder militar contra o Irã.

Nesta quinta-feira (7), o Senado americano, cuja maioria pertence ao Partido Republicado nos Estados Unidos, submeteu à consulta de seus senadores o veto do presidente Trump à resolução.

Para perder força, o veto presidencial teria que ser contrariado por não menos que 67 senadores.

Contudo, 49 senadores foram a favor da resolução contra 44, o que não foi suficiente para derrubar a medida de Trump.

Apesar da vitória do presidente, os números mostrariam que seu partido não compartilha das mesmas ideias de Trump sobre o Irã.

A resolução de março impedia Trump de aplicar maior uso da força militar contra o país persa, além de declarar guerra contra o país, o que cabe ao Congresso dos EUA.

A medida também pedia para Trump "encerrar todas as ações hostis direcionadas ao Irã".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2020050815554798-quando-ate-mesmo-o-proprio-time-duvida-dos-seus-metodos/

Assistente pessoal de Donald Trump tem covid-19. Presidente ordena testes diários na Casa Branca

 

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou esta quinta-feira testes diários na Casa Branca depois de se saber que um dos seus assistentes pessoais foi infetado pelo novo coronavírus, que provoca a doença covid-19.

 

“Eu tive muito pouco contacto com essa pessoa. Acabei de fazer um teste, como já devem ter ouvido. Na verdade, eu fiz um [quarta-feira] e outro hoje, e foi negativo”, disse Donald Trump aos jornalistas durante a sua reunião com governador do Texas, Greg Abbott.

No entanto, Trump indicou que havia ordenado que os testes para o novo coronavírus aos funcionários internos da Casa Branca fossem feitos diariamente, em vez de semanalmente, como vinha a ser feito até agora.

No momento, somos todos guerreiros. Vocês são guerreiros. Nós somos guerreiros. Pode ser que você tenha estado com alguém, tudo está a ir bem e então algo acontece com a outra pessoa e, de repente, é positivo”, disse.

Esta manhã, num comunicado, a Casa Branca garantiu que tanto o Presidente quanto o vice-Presidente, Mike Pence, haviam sido submetidos a um teste depois de saberem sobre o caso do funcionário que havia sido infetado.

Os assistentes pessoais fazem parte de unidades militares de elite colocadas na Casa Branca e costumam trabalhar em estreita colaboração com o Presidente e a primeira-dama. Portanto, cresceu a preocupação com a exposição de Trump ao vírus.

Este não é o primeiro caso na residência oficial depois de, em março, um dos conselheiros do vice-Presidente Pence ter testado positivo para a covid-19.

Embora os números em Nova Iorque, epicentro do surto, estejam a cair, o vírus continua a espalhar-se no restante dos Estados Unidos.

Preocupado com a gravidade do impacto económico, Trump insistiu na necessidade de retomar a atividade económica o mais rápido possível e entrou em choque em mais de uma ocasião com médicos especialistas que recomendam agir com maior prudência devido à magnitude desta crise de saúde pública.

“Não podemos permanecer confinados por anos”, sublinhou Trump junto ao governador do Texas, um dos estados que iniciou o levantamento gradual das restrições de mobilidade.

Foram divulgados os dados sobre os pedidos de subsídio de desemprego e, nas últimas semanas, mais de 33 milhões de pessoas inscreveram-se para receber este subsídio nos Estados Unidos.

Por outro lado, os media norte-americanos revelaram que a Casa Branca fez a revisão das diretrizes federais para a retomada das atividades depois de conhecer o esboço preparado pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) sobre a pandemia.

Uma das objeções levantadas pela força-tarefa da Casa Branca de combate ao novo coronavírus reside no facto destas diretrizes não incluírem as diferençasentre áreas urbanas, com o maior número de infeções, e municípios rurais, com menor incidência.

“Há municípios do Texas, por exemplo, que pouco são afetados. O mais importante é colocar a economia de volta aos trilhos”, disse Trump.

No domingo passado, o Presidente reconheceu que o total de mortos pela covid-19 pode chegar a 100 mil, ao mesmo tempo que defendeu a decisão de vários estados de levantar gradualmente as medidas de confinamento, embora tenha admitido que isso causará algumas mortes.

No início da semana, no entanto, um dos modelos de previsão da evolução da pandemia, o do Instituto de Métricas e Avaliações de Saúde (IHME) da Universidade de Washington, atualizou os seus cálculos para prever que, no início de agosto, a pandemia poderá provocar mais de 134 mil mortes nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos são o país com mais mortos (74.844) e mais casos de infeção confirmados (mais de 1,2 milhões). A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou cerca de 267 mil mortos e infetou mais de 3,8 milhões de pessoas em 195 países e territórios.

ZAP // Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/trump-testes-diarios-casa-branca-323335

Dívida pública americana explode em meio à pandemia, batendo novo recorde

Painel com dados financeiros da Bolsa de Valores de Nova York (foto de arquivo)
© AFP 2020 / SPENCER PLATT / Getty Images

Frente à crise provocada pelo SARS-CoV-2, a dívida pública dos EUA aumentou mais de 10% desde 1º de outubro de 2019 e, segundo especialistas, não vai ficar por aqui.

A dívida do governo dos EUA estabeleceu um novo recorde ao ultrapassar os US$ 25 trilhões (R$ 145,75 trilhões), segundo o portal US Debt Clock que a contabiliza ao segundo.

Este número irá forçosamente aumentar, pois a Reserva Federal