Teoria

As lições da Grande Depressão de 1929*

Avelãs NunesAntónio Avelâs Nunes    16.Oct.19

As crises cíclicas são um fenómeno inerente ao capitalismo, e há factores estruturais que vêm tornando a ocorrência de crises uma possibilidade cada vez mais forte, e que vêm gerando crises cada vez mais prolongadas e mais profundas, acentuando as dificuldades do capitalismo em lidar com elas. O seu estudo constitui um instrumento essencial na luta anti-capitalista.

1 – O início da produção em série do famoso Ford Model T marca, simbolicamente, o início da sociedade de consumo, sociedade que fez da indústria automóvel o seu centro dinâmico e fez do automóvel o seu ‘deus’ mais venerado.

O fordismo significou, entre outras coisas, a redução substancial dos custos de produção, e a baixa dos preços tornando o automóvel, por volta de 1926, um bem de consumo de massa na sociedade americana. Em 1930 o número de automóveis registados nos EUA ultrapassava os 26.500.000 (apenas cerca de 5 milhões em toda a Europa). Em contrapartida, metade das dívidas das famílias americanas tinham sido contraídas para comprar automóveis.

Com efeito, a sociedade de consumo não está ao serviço dos consumidores, antes serve os interesses das grandes estruturas produtivas, que precisam de vender, a quem lhas possa pagar, todas as mercadorias que lançam no mercado. Daí a publicidade, a criação de necessidades, o aprofundamento do desejo de consumir. Daí a necessidade de facilitar as compras às pessoas de rendimentos médios e baixos: o crédito ao consumo tem desempenhado, desde então, este papel, levando as famílias a endividar-se, por vezes para além do que seria razoável.

Talvez a consciência disto mesmo tenha levado Henry Ford a perceber a necessidade de tornar acessível também aos operários a compra dos automóveis e dos demais bens de consumo duradouros. Daí a defesa das vantagens (para o sistema) da melhoria dos salários e das condições de vida dos trabalhadores, que começaram a ser vistos não apenas como um elemento dos custos, mas também como compradores dos bens que era preciso vender para assegurar a realização da mais-valia.

A década que se iniciou em 1920 foi uma época de ouro do capitalismo à escala mundial. Nos EUA, no início de 1929 o volume da produção era cerca de 65% superior ao de 1913.

Porque o crescimento da indústria automóvel arrastou consigo o crescimento de outras actividades com ela relacionadas (as indústrias mecânica, do petróleo e da borracha) e também da construção civil (novas estradas, novos bairros nos arrabaldes, pontes e viadutos nas cidades), que, por efeito de arrastamento, incrementou vários outros sectores.

A euforia dos negócios foi um fenómeno contagiante, alimentado pelo aumento acentuado das cotações dos títulos negociados na bolsa. Os rendimentos das aplicações financeiras ultrapassaram em muitos casos o rendimento dos investimentos produtivos; as actividades especulativas cresceram exponencialmente, atraindo mesmo uma boa parte do crédito concedido pelas instituições financeiras.

No terreno da economia, a “livre concorrência” deu o lugar à luta oligopolística. A concentração monopolista tornou-se indisfarçável. Foi o tempo das teorias sobre as vantagens da produção em grande escala (Joseph Schumpeter) e sobre a concorrência monopolista e a concorrência imperfeita (Edward Chamberlin e Joan Robinson).

As actividades especulativas favoreceram a concentração económica e as práticas oligopolistas, e estas encorajaram e alimentaram aquelas. Os negócios prosperaram enquanto foi possível manter o crescimento do consumo das famílias a uma taxa idêntica à do aumento da produção, o que aconteceu até finais de 1926. Mas em 1929 a capacidade de produção instalada na economia americana ultrapassava em 20% a capacidade de escoamento das mercadorias produzidas. Ficava a descoberto a instabilidade estrutural da economia capitalista.

2 – A euforia marcava ainda um relatório do governo americano: «economicamente, temos um terreno sem limites à nossa frente; há necessidades novas que abrirão incessantemente caminho para outras mais novas ainda, à medida que forem satisfeitas. (…) Parece termos apenas tocado na orla das nossas potencialidades.»

No entanto, o crash na bolsa de Nova York, na célebre quinta-feira negra de 29.10.1929, marcou o início da Grande Depressão, a primeira grande crise do capitalismo num quadro de predomínio do capital financeiro sobre o capital produtivo e a mais séria crise do capitalismo no século XX, que depois se propagou à Europa capitalista e a todo o mundo capitalista. Os preços baixam (deflação), as falências sucedem-se, a produção diminui enormemente, o desemprego alastra: mais de 30 milhões de desempregados no conjunto dos países capitalistas (cerca de 6 milhões só na Alemanha).

Na Europa, as destruições da guerra viram os seus efeitos potenciados por processos inflacionistas de grandes proporções. A crise europeia não trouxe consigo a baixa dos preços e a destruição do capital indispensável ao início de um novo período de prosperidade, com um grau de concentração e de centralização do capital ainda maior. As dificuldades na Europa afectaram negativamente o desenvolvimento do comércio internacional (factor agravado ainda com a adopção de medidas proteccionistas).

Neste quadro, ficou patente que a prosperidade não poderia manter-se, isoladamente, nos EUA. As dificuldades ao nível da economia terão levado a desviar muitos fundos do investimento produtivo para a especulação bolsista, alimentada por uma enorme expansão do crédito. Muita da prosperidade assentava em lucros fictícios, resultantes de capitais fictícios, criados na bolsa, sem nenhuma relação com a actividade produtiva.

Aos primeiros sinais de quebra de confiança no andamento da economia, muitos quiseram salvar o dinheiro que tinham apostado na bolsa e, ao tentarem vender a qualquer preço, originaram o grande crash: várias empresas e instituições financeiras sucumbiram à baixa das cotações bolsistas; muitos bancos entraram em colapso, porque os seus empréstimos tinham servido para financiar actividades especulativas e não investimentos produtivos; a corrida aos bancos fez o resto.

À medida que o tempo passava, as pessoas encaravam a situação como se tivesse havido uma catástrofe natural: assim como veio, há-de ir-se embora. Entretanto, por não poderem pagar a renda da casa e a conta do gás, muitas famílias foram despejadas, e milhões de pessoas passaram a viver em campos de tendas e barracas. Propagaram-se as doenças epidémicas, juntamente com a prostituição e o crime. O exército foi chamado a intervir para reprimir manifestações.

E a Administração Hoover nada fazia para combater a crise, agarrada à velha tese de que as finanças sãs (o equilíbrio das contas públicas) eram a primeira exigência da ‘confiança’ necessária para o regresso à prosperidade e de que a presença do estado na economia, ao substituir as leis naturais da economia pelo arbítrio do Governo, equivaleria à destruição do capitalismo.

Numa comunicação ao país (1931), o Presidente dos EUA proclamou que a crise só poderia ser enfrentada com base na «manutenção do espírito de ajuda mútua através de donativos voluntários. Isto é de infinita importância para o futuro da América. Nenhuma acção do estado, nenhuma doutrina económica, nenhum projecto ou plano económico pode substituir a responsabilidade que Deus impôs a cada homem e a cada mulher para com os seus vizinhos.»

Pela mesma altura, o Presidente da National Association of Manufacturers imputa aos desempregados e aos pobres a responsabilidade pela sua própria miséria, porque «eles não praticam o hábito da poupança, antes perdem as suas poupanças nos jogos da bolsa. Com que razão culpam o nosso sistema económico, o governo ou a indústria?»

3 – Em Março de 1932, «os bancos estavam fechados e gente de bem vendia maçãs na rua.» (Averell Harriman) Eleito para a presidência dos EUA, Franklin Roosevelt parece ter pressentido o perigo da revolução. Truman confirmaria mais tarde esta ideia: «Em 1932 o sistema de livre empresa privada estava próximo do colapso. Havia verdadeiro perigo de que o povo norte-americano adoptasse um outro sistema.»

Empenhada em salvar o capitalismo de uma morte que parecia eminente, a Administração Roosevelt abandonou as concepções liberais do Partido Republicano e adoptou um conjunto de medidas de política activa que ficaram conhecidas por New Deal.
No início, mais do que um programa de estímulo à recuperação da economia e do emprego através do aumento da despesa pública, o New Deal foi um conjunto de operações de salvamento (envolvendo dezenas de milhares de milhões de dólares) de que beneficiaram maiormente a banca, os caminhos de ferro, alguns estados federados e governos locais, a par de proprietários de casas adquiridas a crédito e de empresas agrícolas endividadas.

Mas o Governo de Roosevelt procurou também atender algumas das necessidades mais prementes dos trabalhadores, com o propósito de os furtar à tentação revolucionária e de conseguir o apoio popular para as suas políticas: atribuiu subsídios aos desempregados e aos idosos e pensões aos veteranos de guerra; concedeu apoios aos agricultores; desvalorizou o dólar e abandonou o padrão-ouro (o que a Inglaterra já tinha feito em 1931); baixou as taxas de juro; apoiou a recuperação e a reestruturação de empresas; lançou grandes programas de obras públicas para combater o desemprego e reconheceu alguns direitos dos trabalhadores.

O New Deal apostou igualmente na regulação da actividade bancária e do mercado financeiro em geral, procurando deste modo satisfazer os (grandes) empresários industriais e fazendo deles parceiros privilegiados do estado no ‘governo da economia’.

Coerentemente, em Junho/1933, através do National Industrial Recovery Act, o estado concede às associações profissionais (ao jeito das soluções corporativas na Europa) o poder de elaborar e fazer aplicar coercivamente regulamentos que podem determinar as condições da produção, os limites e as formas de concorrência (em última instância, os preços) nos vários sectores. Nesta medida, a economia americana passou a ser uma economia organizada corporativamente, com base nas associações profissionais autónomas, às quais era confiado o ‘governo’ do respectivo sector de actividade económica.

Ainda em 1933, foi criada a National Recovery Administration, uma estrutura de planificação económica centralizada de tipo moderno, à qual foram atribuídos, entre outros, poderes para obrigar a indústria a reorganizar-se, para fixar os preços, para distribuir quotas de produção. A National Recovery Administration foi declarada inconstitucional em 1935, com o fundamento de que a Constituição americana não permitia o socialismo. Já então podia concluir-se que não há constituições neutras, porque, afinal, mesmo a mais ‘neutra’ das constituições, proclamadamente aberta a todos os programas políticos resultantes da alternância democrática, veicula um projecto político que exclui qualquer outro.

Mas o New Deal prosseguiu, e alguns autores valorizam particularmente o por vezes designado «segundo New Deal», a fase que se iniciou após a vitória esmagadora de Roosevelt nas eleições de 1936. Só a partir de então o New Deal privilegiou as políticas activas de promoção do emprego e de apoio aos trabalhadores, em resposta, aliás, às pressões sindicais, que se faziam sentir, de forma sistemática, desde o início da década.

Neste período foi instituído o salário mínimo, o subsídio de desemprego, o direito de livre organização sindical e o direito à contratação colectiva, mudanças que criaram as condições que permitiram aos sindicatos penetrar em sectores industriais que até aí os tinham mantido afastados dos respectivos trabalhadores (aço, borracha, têxtil, automóvel).

Permaneceu, no entanto, a preocupação com o equilíbrio orçamental, o que se traduziu na travagem do processo de recuperação da economia que se vinha registando desde 1933 e no aumento da taxa de desemprego aumentou (de 14% em 1937 para 19% em 1938). Perante esta realidade assustadora, a Administração Roosevelt antecipou, de algum modo, as propostas keynesianas, passando a combater a crise compensando a quebra do investimento e do consumo privados com o aumento das despesas públicas financiadas mediante o recurso ao défice (deficit financing).
4 – A doença do capitalismo era, porém, muito mais grave do que os ‘remédios’ inventados para curar, o que justifica o profundo sentimento de frustração e inquietação que se apossou do país ao aproximar-se o fim do segundo mandato de Roosevelt.
Em 1939, havia ainda nos EUA 10 milhões de desempregados (nunca se conseguiu uma taxa de desemprego inferior a 15%) e o investimento privado era ainda cerca de 17% inferior ao de 1929, antes da crise. O desencanto era de tal ordem que o Presidente da Works Progress Administration (uma das principais agências do New Deal) chegou a escrever [pasme-se!] que «as pessoas estão fartas dos pobres e dos desempregados. (…) Esta gente não conta para o bem-estar da população como um todo. São uma casta fora dos grupos que estão dentro do sistema económico. Elas não têm mercado para o seu único bem económico, a sua competência e o seu trabalho. (…) O que é natural é que a sociedade ignore esta classe de pessoas e as abandone. Existirão como uma não-entidade, ninguém se preocupará com o que lhes acontece. Os seus membros roubarão, pedirão esmola e viverão na miséria como os seus irmãos na Índia.» Talvez tenha surgido aqui a ‘filosofia’ que pode servir de base ao moderno fenómeno da exclusão social: porque não estão dentro do sistema económico, os excluídos são uma não-entidade, são ignorados como se não existissem…, salvo quando se pensa que os ‘bárbaros’ podem um dia invadir a cidade…

Alguns autores sustentam que o peso dos interesses económicos dominantes nos EUA e a estrutura do poder político que representa esses interesses é muito difícil conseguir que as despesas civis (educação, saúde, habitação, infraestruturas…) ultrapassem certos limites. Estes limites (à roda de 14% do PIB) terão sido alcançados em 1939. Perante o enorme aumento das despesas militares em resultado do esforço de guerra, as despesas civis de consumo e de investimento do estado sofreram uma quebra nos anos 1940; recuperaram nos anos 1950, 1960 e 1970, tendo atingido o seu máximo em 1975 (15,4% do PIB); mas estabilizaram à roda dos 14% do PIB (14,6% em 2007, sensivelmente o mesmo que em 1938/1939).

5 – A Grande Depressão de 1929-1933 foi precedida de um período caracterizado por intensa actividade especulativa liderada pelo grande capital financeiro e por uma enorme desigualdade. O mesmo se verificou agora. Desde meados dos anos 1980, os ricos foram ficando cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Entre 2000 e 2007, os 1% do topo arrecadaram 75% da riqueza criada nos EUA. Em 2007, a elite dos mais ricos (0,1%) tinha um rendimento 220 superior à média dos 90% da base.

Tomando como ponto de partida o crash da bolsa de Nova York em 1967, a desregulação acelerada a partir dos anos 1980 gerou mais de cem crises em todo o mundo. Registo algumas: a crise dos países em desenvolvimento em 1982; a crise dos mercados de acções nos EUA em 1987; a crise (também nos EUA) dos mercados de obrigações de alto risco e das caixas económicas (savings and loans), em 1989/1990; a crise bancária dos países escandinavos no início da década de 1990; a crise no Japão, ao longo desta década; a crise do Sistema Monetário Europeu, em 1992/93; em 1994, nova crise no mercado obrigacionista americano; ainda em 1994/1995, a crise do peso mexicano; a crise das moedas asiáticas em 1997/98; a crise do rublo em 1998/99; o chamado e-crash, a crise (2000-2002) que afectou a chamada ‘nova economia’ (a economia das novas tecnologias: biotecnologia, informática, computação, telecomunicações), particularmente nos EUA e na Europa; a crise do real brasileiro em 1999; a grave crise financeira, económica, política e social da Argentina (2001/2002), por muitos considerada o maior desastre das receitas neoliberais impostas pelo FMI enquanto ‘gestor de negócios’ do grande capital financeiro internacional.

Apesar do alarme, e perante o risco evidente de pandemia, os defensores do mercado livre, da liberalização, da desregulamentação e da desregulação deixaram a sida alastrar e continuam a proteger os mesmos tipos, defendendo com unhas e dentes os seus santuários (os paraísos fiscais, paraísos bancários, paraísos judiciários, verdadeira casa-abrigo dos especuladores, dos grandes conglomerados financeiros, dos grandes ‘padrinhos’ do crime sistémico e dos seus operacionais, na finança e na política).

Crise após crise, a sida tomou conta da economia mundial, debilitando-a pela via do aumento do desemprego, do trabalho precário e da diminuição dos salários reais e dos direitos dos trabalhadores, do aumento da desigualdade e da exclusão social. E os abalos das várias crises nas últimas décadas faziam esperar um ‘terramoto’ de maiores dimensões. Porque as crises são inerentes ao capitalismo, e porque, como todos sabemos, o carnaval acaba sempre em quarta-feira de cinzas…

6 – Os primeiros sinais da crise estrutural que se adivinhava foram:

1)a rotura unilateral dos Acordos de Bretton Woods por parte dos EUA (Agosto/1971): os EUA deixaram de garantir a conversão do dólar em ouro a uma certa paridade e o mundo passou rapidamente a viver em regime de câmbios flutuantes (o preço das divisas passou a ser regulado pelo mercado, i. é, pelos especuladores);

2) as chamadas crises do petróleo (1973,1975), à qual se seguiria uma outra ‘crise do petróleo’ em 1978-1980.

Estes dois episódios puseram a nu os limites do estado keynesiano e das políticas keynesianas e abriram o caminho à contra-revolução monetarista/neoliberal.
Em 2007/2208, rebentou nos EUA a mais grave crise do capitalismo depois de 1929, uma crise que, num quadro de acentuada hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo, começou por ser uma crise financeira, relacionada com as práticas especulativas em que se especializou o grande capital financeiro (a história do capitalismo mostra que a especulação financeira tem sempre gerado crises).

Num país em que o endividamento das famílias, graças ao ‘estímulo’ do crédito ao consumo, representava 120% do rendimento disponível, a fantasia desfez-se quando, em meados de 2006, os preços das habitações começaram a baixar e, no primeiro trimestre de 2007, cerca de 15% das pessoas (mais de dois milhões de famílias) que tinham sido atraídas pelo crédito fácil deixaram de pagar os seus encargos. Foi o início da subprime crisis, com a falência do subprime market, no qual se negociavam produtos financeiros derivados do crédito de baixa qualidade concedido a empresas de construção civil e a compradores de casa (subprime credit).

Dizem os especialistas que a prática do subprime foi um fruto da «depravação moral» dos banqueiros, que fizeram do subprime a forma mais escandalosa de explorar os mais pobres e os menos educados e mal informados, obtendo deles somas elevadíssimas, «saqueando estes grupos com empréstimos predatórios e práticas abusivas em cartões de crédito.» Já em 2004, o próprio FBI chamava a atenção, publicamente, para o que designava «uma epidemia de fraudes hipotecárias.» Mas o grande capital financeiro impôs as suas leis e o regabofe continuou.

A crise resultante da perda de valor de mercado dos prédios hipotecados afectou rapidamente os bancos, companhias de seguros e fundos de investimento. A banca do ‘casino’ ficou sem fundos, os bancos deixaram de confiar uns nos outros e a crise alastrou ao mercado interbancário. Por pressão do capital financeiro, o estado capitalista, fiel aos dogmas do neoliberalismo, concedeu todas as liberdades à especulação. Quando o ‘negócio’ faliu, foi chamado para salvar os especuladores, tendo respondido à chamada com toda a solicitude e determinação, convocando o povo para pagar a factura. Invocando o risco sistémico, a Administração de G. W. Bush, que sempre considerou a ‘intervenção’ do estado na economia como um dos sinais da existência do império do mal, protagonizou a mais dispendiosa operação do estado desde os anos trinta (700 mil milhões de dólares para salvar os bancos).
O banco Lehman Brothers não resistiu aos ferimentos provocados pela especulação e anunciou falência em 15.9.2008. G. W. Bush proclamou que não deixaria falir mais bancos. Estava inventado o capitalismo sem falências.

No final de 2008, a crise financeira degenerou em crise económica, que teve o momento mais simbólico no afundamento da General Motors, salva à custa de milhões e milhões de dólares saídos dos bolsos dos contribuintes.

7 – As crises cíclicas são um fenómeno inerente ao capitalismo, e há factores estruturais que vêm tornando a ocorrência de crises uma possibilidade cada vez mais forte, e que vêm gerando crises cada vez mais prolongadas e mais profundas, acentuando as dificuldades do capitalismo em lidar com elas.
No entanto, perante a crise, alguns ‘sábios’ anunciaram que a Europa estava protegida. Mas todos os produtores e difusores da ideologia dominante tentaram esconder, por todos os meios, a sua natureza de «crise estrutural do capitalismo.»

Defenderam uns que esta era uma crise do neoliberalismo, procurando passar a ideia de que o capitalismo não é para aqui chamado: o capitalismo não tem nada que ver com as crises, porque o capitalismo é eterno (é o fim da história) e não há alternativa ao capitalismo.

Insinuaram outros que se tratava de uma ‘doença benigna’, resultante de «excessos do mercado», uma simples crise de costumes, por falta de ética do capital financeiro, patente na actuação desregrada e imoral de uns quantos gestores da alta finança.

Na mesma onda, houve quem sustentasse que o que falhou foi a regulação e a supervisão (o capitalismo, esse, continua perfeito e eterno, sem alternativa…).
De todo o modo, o Conselho Europeu de Outubro/2008 anunciou também a entrada na era do capitalismo sem falências, ao decidir que não deixaria falir nenhuma instituição financeira importante, oferecendo assim ao grande capital financeiro um seguro gratuito, que cobre mesmo acções irresponsáveis e até criminosas. Esta política ‘salvadora’ foi depois consagrada em vários documentos das mais altas instâncias da UE.

O esforço financeiro feito para salvar os especuladores (muitíssimo mais do que para aliviar o sofrimento das vítimas do capitalismo de casino), conduziu ao aumento do défice público e da dívida externa de vários países. Seguiu-se a guerra contra os trabalhadores, condenados a pagar os ‘crimes’ que outros cometeram através das políticas de austeridade punitiva (falam alguns, cinicamente, de austeridade regeneradora…), que estão a pôr em causa o estado social, a democracia e a paz, na Europa e no mundo.

São as consequências de mais uma crise do capitalismo, uma crise estrutural do capitalismo, cujas causas últimas, indo além das bolhas especulativas e dos jogos de casino que tornaram a crise indisfarçável, radicam na própria essência do capitalismo, tendo-se acentuado progressivamente à medida que se foram consolidando os resultados da mundialização feliz de que falam os apóstolos da política de globalização neoliberal dominante.

Não será a última, mas ela ajudará a enfraquecer ainda mais este corpo condenado a morrer (como tudo o que é histórico) e a dar lugar a um mundo diferente, apesar de todos os meios – e são muitos – que podem ainda prolongar-lhe a vida.

 

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O VALOR-FÉTICHE DO DINHEIRO-PAPEL E A RAZÃO ÚLTIMA DA SUBIDA DO OURO

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Considero irónico que seja alguém como Egon Von Greyerz, um gestor de armazenamento de ouro de grandes fortunas, na Suiça, que nos venha mostrar de forma clara e inequívoca, no artigo «Num mundo ilusório, é o ouro que fala verdade», a inanidade do pensamento económico contemporâneo, a criminalidade dos que gerem os nossos destinos e a obscuridade em que nos deixa a media corporativa!
A realidade é a coisa mais difícil de se reconhecer, especialmente quando se tem sido toda a vida condicionado por um conjunto de crenças, alicerçadas em práticas sociais, em pseudo-ciência, em coação também, em suma: a pensar-se dentro do rebanho. Porém, há verdades evidentes que acabam por furar a redoma de ilusão na qual é mantida a sociedade, para benefício de alguns poucos e para grave prejuízo da imensa maioria.
Uma das ficções mais persistentes que a nossa sociedade tem suportado, e que está agora a ruir, é a do valor do papel-moeda. Com efeito, as moedas de todos os países, estão (desde há cerca de 45 anos...) adoçadas em nada mais que a promessa, do governo respectivo que a emitiu, em reconhecer e aceitar esse papel impresso, como forma válida dos cidadãos pagarem as suas dívidas, nomeadamente ao Estado, sob forma de impostos, taxas, etc. Estão hoje em dia à vista os malabarismos decorrentes deste extraordinário postulado, que seria extravagante, não fosse ele suportado pelos muito reais e materiais meios de coerção que os Estados possuem para obrigar os cidadãos a cumprir com as suas obrigações fiscais.
No entanto, os que estão a destruir a moeda-papel, são - nada mais nada menos - que os próprios bancos centrais e os Estados respectivos.  Com efeito, a impressão monetária (quer se chame QE= quantitative easing, ou outro nome) constante e em grandes quantidades, vai parar às contas da banca, supostamente «demasiado grande para ir à falência», não da economia comum, do dia-a-dia. Este dinheiro é também responsável pelo inflacionar de bolhas, sobretudo no sector financeiro, embora as pessoas comuns possam notar mais isso no imobiliário, pois vai inviabilizar o seu acesso à habitação, sob forma de casa própria, ou de aluguer.
Como é evidente, o papel-moeda em si mesmo, vale - na medida e somente na medida - em que as pessoas lhe atribuem e reconheçam valor. O valor facial ou nominal de uma nota bancária não é mais do que uma unidade de contabilidade. O valor reside na capacidade ou potencialidade desse bocado de papel ser trocado por outra(s) coisa(s).  Ora, as pessoas trabalham por esses bocados de papel porque sabem que estes lhes permitem comprar os bens e serviços indispensáveis para si e para suas famílias, sem o que é evidente que não se incomodariam a trabalhar longas e penosas horas, cinco dias por semana (ou mais) para «um papel sem valor».
É aqui que nasce o duplo paradoxo: - a atribuição (universal) de valor a algo que não tem intrinsecamente nenhum; algo que pode ser fabricado a custo zero pelo Estado; o dinheiro-papel é um símbolo. - mas símbolo de quê, da equivalência ao trabalho, directamente ou indirectamente, investido na obtenção desse tal papel colorido?
Afinal, essa era a tese de Marx, de que o dinheiro é apenas uma forma «congelada» e condensada  de capital, resultante do trabalho. Com efeito, esse tipo de relação com o dinheiro está inegavelmente presente nas sociedades contemporâneas. A imensa maioria precisa de trabalhar para obter a quantidade suficiente dessas unidades, às quais é atribuído valor (quase a magia) para aquisição de bens e serviços.
Porém, a essa forma de obter dinheiro, por transformação do trabalho em mercadoria ou serviço (a essência da economia capitalista), sobrepõe-se outra, que atingiu um volume deveras monstruoso e não tem nada que ver com a progressão das forças produtivas, com a produção de mercadorias ou serviços.  Refiro-me ao dinheiro criado «ex nihilo» pelos bancos centrais e pela banca comercial. Este dinheiro serve, directa ou indirectamente, para alimentar a especulação.  Fortunas, baseadas nesta economia de casino, têm esta origem: a riqueza, como a matéria e a energia, não se destrói...transforma-se.
Quando vemos vivendas que mais parecem palácios, iates, carros de luxo, mas também grandes edifícios de grandes companhias multinacionais, eles próprios obras de arte dos melhores arquitectos, recheadas de equipamento e decoração muito dispendiosos, sabemos que estes correspondem a um excedente, que não foi resultante de trabalho árduo e honesto dos seus proprietários, mas de uma qualquer manigância ou soma de manigâncias, que permitiu amassar fortuna.  Esta fortuna, embora tenha uma componente de exploração directa do trabalho assalariado de outrem, é sobretudo, hoje, resultante de especulação, do acesso privilegiado a empréstimos a custo zero (ou quase) ao qual certos indivíduos e empresas têm acesso, como privilégio de sua proximidade ao poder. 
A obtenção, por uma pequeníssima oligarquia, do dinheiro dito «fiat» (= não tem suporte, senão a palavra do governo) constitui um fenómeno totalmente novo no capitalismo, ao qual nem Marx, nem muitos outros depois dele (incluindo muitos contemporâneos) podiam ter sequer imaginado. A especulação existia, nas bolsas e noutros aspectos da economia, mas no tempo de Marx (e mesmo bem mais tarde) era um fenómeno marginal.  Quando Marx explicou o início dos empórios capitalistas através da ACUMULAÇÃO PRIMITIVA, sobre os despojos coloniais não podia prever que outras formas de acumulação teriam lugar, século e meio depois de sua morte. 
Hoje em dia, a acumulação de capital que permite o amontoar de fortunas colossais é obtida por meios bem diferentes. Hoje, trata-se simplesmente de obter dos Estados e respectivos bancos centrais, elevadas somas como empréstimos, as quais têm a característica de ter um juro próximo de zero. Estas benesses porem, não estão ao alcance de qualquer pessoa, nem mesmo dos capitalistas com dimensão média. Apenas multinacionais, a grande banca, fundos trilionários e as esferas mais próximas do poder, possuem esse privilégio.  Por exemplo, ao «postular» que um banco não pode ir à  falência... o que se está a proporcionar?  - Que todas as apostas, mesmo as mais arriscadas, mesmo as mais idiotas, que a direcção desse banco faça terão a garantia do respectivo Estado: lá estará ele para «amparar», «limpar», «reparar» os estragos feitos!
Mas afinal, o Estado obtém o dinheiro dos impostos, os quais são pagos pelos cidadãos. Estes, de uma forma ou de outra, contribuíram com o seu trabalho para criar valor e foram remunerados em dinheiro. É apenas devido à ocultação de todo o esquema de gatunagem  que esse dinheiro, resultante dos que trabalham, vai impunemente parar aos bolsos das empresas, da banca e dos fundos que se «portaram mal»!
É um autêntico ataque em forma, que é feito às pensões de reforma  e aos salários dos funcionários, pelo Estado, pelo governo, pelos dirigentes que choram lágrimas de crocodilo.. Uma media ao serviço dos poderosos encarrega-se de ocultar e baralhar os factos (na essência, muito simples), que poderiam emergir da análise fria e objectiva... .

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

O capitalismo, do jeito que vai, caminha pra um desastre

Saiu outro livro do Thomas Piketty, o economista francês cujo livro anterior, O Capital no Século 21, causou enjoos na direita e euforia na esquerda porque destruía a tese de que era só deixar o capitalismo solto que, com o tempo, ele resolveria tudo, da desigualdade social ao bicho-de-pé. O título do novo livro é Capitalismo e Ideologia, e ele consegue ser maior em número de páginas do que o anterior.

 

 

Apesar do alvoroço que causou, O Capital no Século 21 não fez maiores estragos no pensamento econômico da época porque, segundo os cínicos, ninguém conseguia carregar, o que dirá ler, um volume daquele tamanho. Ler na cama, arriscando um aprofundamento do esterno, então, nem pensar.

Mesmo assim, O Capital no Século 21 vendeu mais de 2 milhões de exemplares e foi considerado o mais bem-sucedido livro sobre economia publicado no mundo depois da Teoria Geral do John Maynard Keynes. Com uma diferença: o livro de Keynes foi lançado no fim da 2ª Guerra Mundial, quando o mundo se organizava para evitar a repetição de tragédias como a guerra, e o clima geral de otimismo permitia pensar na economia como uma entidade racionalizável, seguindo a teoria de Keynes.

Já Piketty lança seus livros num mundo radicalizado pelo predomínio do capital financeiro e uma desigualdade social explosiva, que parece irreversível, imune a qualquer tipo de racionalização. Outra diferença entre Keynes e Piketty é o estilo, não das teses, mas da sua apresentação. Keynes era um intelectual de gostos finos, Piketty recorre à cultura pop e a personagens da ficção popular (Jane Austen, Dickens, Balzac) para tornar a leitura dos seus tijolos mais agradável.

O novo Piketty foi publicado, por enquanto, só na França. Sairá em inglês em março. Sua mensagem é a mesma do outro livro: o capitalismo, do jeito que vai, caminha pra um desastre. Como evitar o desastre? Taxar mais os mais ricos. Mudar as leis de sucessão que só favorecem fortunas herdadas etc. Piketty não é comunista. Se declara um social-democrata no modelo europeu, só disposto a levar o social e o democrático um pouco mais longe. Um bom exemplo.


por Luis Fernando Verissimo, Escritor, e colunista de jornais como O Globo e Estadão  | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-capitalismo-do-jeito-que-vai-caminha-pra-um-desastre/

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pdf Capital et idéologie (13.72 MB)

pdf O Capital no Seculo XXI (20.48 MB)

pdf A economia da desigualdade (3.05 MB)

pdf É possível salvar a Europa (1.05 MB)

pdf Às Urnas Cidadãos (1.58 MB)

 

 

Duas conferências de Walden Bello em Lisboa

 
Walden Bello, activista e teórico da desglobalização e da dependência, professor de sociologia na State University of New York e fundador do Focus on the Global South, estará no ISEG nesta 5ª feira para uma conferência e lançamento do seu mais recente livro "Counter revolution: the global rise of the far right". É na 5ª feira, às 18h, no Auditório 3 do Edifício do Quelhas. Na 6ª feira, também às 18h, mas desta feita no ISCTE (Auditório Silva Leal, Ala Autónoma), proferirá outra conferência com o título "The political economy of deglobalization". Estão tod@s convidad@s para os dois eventos.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

 

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pdf Deglobalization Ideas for a New World Economy (1.41 MB)

pdf Asia's new battlefield the USA, China and the struggle for the Western Pacific (4.67 MB)

pdf Capitalism's Last Stand Deglobalization in the Age of Austerity (1.89 MB)

Sim, eu apoio a Coreia do Norte!

– Notas sobre anticolonialismo, imperialismo e hegemonia

por Jones Manoel [*]

Soldados da RDPC. No distante ano de 2013, tive contato com o artigo de Domenico Losurdo " Como nasceu e como morreu o 'marxismo ocidental ". Nele, Losurdo observa a certa altura como Michael Hardt e Antonio Negri afirmam que os palestinos podem contar com a simpatia deles, mas que, a partir do momento em que a libertação nacional palestina for conquistada, quando for construído o Estado nacional, não se pode mais estar do "lado deles". Ao ler esse trecho imediatamente pensei: ninguém em sã consciência deve concordar com isso. Imaginei ser um raciocínio por demais infantil crer que só podemos apoiar um povo oprimido no seu momento de máxima opressão e, quando esse povo começar a construir sua emancipação – o objetivo da luta –, o encanto se acaba.

Eu estava errado. No ano seguinte, ainda cursando História na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), eu conversava com um professor que me disse ter participado quando jovem de protestos contra a Guerra do Vietnã. A pergunta imediata que lhe fiz foi a respeito da situação do bravo país asiático hoje. A resposta não poderia ser mais chocante: "não sei, depois que eles conseguiram derrotar os Estados Unidos, houve um processo de burocratização com a construção do Estado Nacional, deixou de ser um processo revolucionário".

Oper A resposta do meu antigo professor, longe de ser uma compreensão particular, exprime o espírito de nosso tempo: o Vietnã só interessava quando era a encarnação máxima e mais brutal da opressão, uma espécie de representação asiática da fábula bíblica de Davi contra Golias; mas depois da libertação, quando a prioridade da luta anticolonial e anti-imperialista passa a ser a construção econômica e a institucionalização da descolonização, a luta perde o seu charme.

Em 2018, a Boitempo lançou no Brasil o livro O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer . O marxista italiano trabalha vários problemas nesse livro, mas dois são os que mais nos interessam nessa reflexão. Primeiro, Losurdo aponta como uma tendência de longo prazo do que chama de "marxismo ocidental" – sem o tom elogioso normalmente atrelado ao termo – a exclusão da reflexão sobre a questão nacional e colonial. Com análises rápidas, mas profundas, coloca em revisão a obra de uma série de pensadores como Adorno, Horkheimer, Žižek, Althusser e muitos outros, para demonstrar sua tese.

Ao mesmo tempo, nomes como Jean-Paul Sartre e Herbert Marcuse, intelectuais europeus que dedicaram grande atenção política e teórica a luta dos Condenados da Terra, são criticados por uma espécie de absolutização do momento da resistência como oprimidos. Losurdo classifica o anticolonialismo de Sartre como populista e idealista. Não tenho certeza se concordo com essa caracterização de Sartre, mas vale a pena ler as palavras do italiano:

"Concentrando sua atenção apenas no esforço desesperado dos "condenados da terra" para romper as correntes da escravidão colonial e reservando sua simpatia exclusivamente para o grupo em fusão, protagonista do momento mágico, mas breve, da revolução, aquele entusiasmo gera responsável pela destruição de um antigo regime universalmente odiado, Sartre é o defensor de um anticolonialismo certamente apaixonado e meritório, mas que ao mesmo tempo é, contudo, populista e idealista. É um anticolonialismo que não consegue compreender a fase da revolução empenhada na construção da nova ordem." ( O marxismo ocidental , p. 115)

Esse argumento será o fio condutor de nossa reflexão. A Palestina é um exemplo de colonialismo clássico . Ocupação militar direta, regime de segregação racial, papel central das forças repressivas como mediação de controle, desumanização e animalização do povo oprimido e produção política-ideológica do colonizador como um ser superior que quer apenas viver sua vida, mas os bárbaros, o Outro violento, não permitem e, portanto, suas ações coloniais são apenas a defesa do seu "estilo de vida". Mas há muito tempo sabemos que existem várias formas de dominação colonial-imperialista. É possível que um povo se liberte da ocupação militar direta do colonizador e continue dominado sob um regime classicamente denominado neocolonial.

Museu de Hist A independência política, caso não acompanhada do desenvolvimento de um aparato produtivo, científico e técnico desenvolvido, além de uma capacidade de defesa efetiva da nova ordem, torna-se apenas formal. Um exemplo bastante ilustrativo é a situação de vários Estados africanos e sua dependência neocolonial à França. Esses Estados africanos, por exemplo, até hoje não têm um Banco Central e é a França que controla a emissão de suas moedas .

Vários pensadores revolucionários, como Frantz Fanon, Ho Chi Minh, Mao Tsé-Tung, Amílcar Cabral etc., perceberam que a independência política, ou a emancipação nacional formal, pode se tornar uma hábil armadilha do imperialismo. Quando a Revolução Chinesa triunfou complemente em 1949, o imperialismo estadunidense flertou com a ideia de atacar o país com bombas atômicas e reduzi-lo a um grande nada, mas logo as mentes astutas do Império passaram a uma estratégia mais realista. Conscientes da pouca experiência dos comunistas na administração da economia urbana e cientes das próprias dificuldades de reconstrução do país devastado por décadas de ocupação colonial e guerras, os Estados Unidos passaram a aplicar uma série de bloqueios econômicos, sabotagens, pressões diplomáticas e cercos de todo tipo. Era necessário impedir com todas as forças o desenvolvimento econômico para tornar a revolução anticolonial e socialista uma casca vazia.

Planet Quando o desenvolvimento econômico da nação revolucionária não é totalmente impedido, o imperialismo, via de regra, parte para uma estratégia de cerco e isolamento mundial, transformando o país em uma espécie de pária do mundo. Enquanto existia campo socialista, União Soviética e movimento terceiro-mundista, a eficácia dessa estratégia de isolamento era relativa. Mas, como sabemos, desde o início dos anos 1990 o terceiro-mundismo e o comunismo foram derrotados. Os povos que ousam ser livres estão mais sozinhos do que nunca.

Mas e a Coreia?

Agora podemos começar a falar da República Popular Democrática da Coreia, normalmente chamada de Coreia do Norte. Mas falar da Coreia Popular, na conjuntura brasileira, significa antes de mais nada chamar atenção para dois aspectos. O primeiro é a nossa ignorância não só sobre o país como sobre o continente asiático de maneira geral. Repare: nas universidades brasileiras, os centros de estudo sobre a Ásia, como o que existe na UFPE, são raríssimos. A oferta de disciplinas sobre o tema também é algo bastante difícil de encontrar. A exceção vem sendo o crescimento do interesse pela China – como o trabalho incrível do LabChina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Retrocedendo um pouco mais, na escola, os professores não estão preparados para trabalhar história da Ásia e nos livros didáticos em geral ainda predomina a perspectiva eurocêntrica da história, de forma que a Ásia comparece no conteúdo didático apenas como elemento para contar a história europeia (como a expansão imperialista do século XIX).

No mercado editorial a situação não é melhor. O número de autores asiáticos consumidos na cultura brasileira é reduzidíssimo. Quando publicados, como no caso dos sul-coreanos Ha-Joon Chang e Byung-Chul Han, são autores com produção teórica ocidentalizada. Estudiosos acadêmicos da Ásia de grande importância, como o norte-americano Bruce Cumings, não têm tradução para o português. Também não preciso falar muito sobre a ausência de publicação das reflexões de intelectuais da Coreia Popular sobre os rumos do seu próprio país. Em suma, somos dominados por um colonialismo cultural de base eurocêntrica que condiciona o nosso conhecimento para um estranhamento/desconhecimento não só da África e da Ásia, como de nosso próprio território – a Amérca Latina.

A despeito disso, quase todos os militantes de esquerda no Brasil têm uma opinião negativa sobre a Coreia Popular. Quem forma essa opinião? Os monopólios de mídia. É necessário refletir com mais profundidade sobre a produção dessas notícias. No geral, sobre os monopólios de mídia nativos, sabemos que pertencem a um pequeno número de famílias e têm ramificações com diversos negócios capitalistas e com partidos e políticos da ordem. Mas e quanto às notícias internacionais? Como elas são produzidas? Domenico Losurdo, no seu livro Democracia ou Bonapartismo , cita um dado do final dos anos 1990 muito interessante:

"O mercado da informação é quase monopólio de quatro agências: Associated Press e United Press (Estados Unidos), Reuters (Grã-Bretanha) e France Press. Todas as rádios, todas as cadeias de televisão, todos os jornais do mundo compram os serviços destas agências. 65% das "informações" mundiais partem dos Estados Unidos". (Latouche apud Losurdo, 2004, p. 280-281)."

Recentemente, fui buscar dados atualizados sobre as famigeradas Agências de Notícias – tema pouco falado, mas de fundamental importância para entender a disputa pela hegemonia no mundo. Hoje apenas três agências de notícia controlam o mercado global de "informações". Associated Press (EUA), Agence France-Presse (França) e Reuters (Inglaterra, mas como escritório principal em Nova York). Essas três agências têm um poder tão grande que "um estudo sobre a cobertura da guerra na Síria por nove dos principais jornais europeus ilustra claramente essas questões: 78% de todas as publicações foram baseadas, completa ou parcialmente, em notícias de agências e 0% em pesquisa investigativa". Ou seja, é de Paris, Londres e Nova York que são distribuídas as "notícias internacionais" sobre o mundo. Alguém pode argumentar que essa concentração monopólica não significa que a qualidade em si das notícias seja ruim.

Arranha-c Vejamos a questão mais de perto. O estudo que acompanhamos mostra como as agências de notícia são onipresentes no jornal, na TV, no rádio, nos portais da internet e afins. Normalmente, esses veículos de comunicação não citam suas fontes, mas elas são essas agências. Se alguma das três grandes não noticia um acontecimento, ele se torna de automático um não-acontecimento. Mas e os correspondentes internacionais? No geral, são poucos ou inexistentes- – e quando atuam, não têm capacidade de oferecer um volume de informações como essas agências.

Também não é raro encontrar correspondentes internacionais que mal dominam o idioma local ou que não têm qualquer bagagem intelectual sobre o país. Sua função, no geral, é servir de elo entre a agência de notícias e a redação da empresa no qual são empregados, ou aparecer ao vivo no local de modo a emprestar um ar de maior credibilidade à notícia produzida. O ambiente construído não permite muitos questionamentos sobre a versão oficial dos fatos. Algumas pessoas poderiam pensar que isso está relacionado apenas aos interesses privados, comerciais e financeiros envoltos na questão. Na realidade, não é só isso.

"Entre os atores mais ativos em 'plantar' notícias geopolíticas questionáveis estão os ministérios militares e de defesa. Em 2009, por exemplo, o chefe da agência de notícias americana AP, Tom Curley, divulgou que o Pentágono emprega mais de 27 mil especialistas em RP que trabalham na mídia circulando manipulações direcionadas, com um orçamento anual de quase 5 bilhões de dólares. Não obstante, generais de alto escalão dos EUA ameaçaram "arruinar" a AP e o Tom Curley caso os jornalistas cobrissem criticamente demais o exército dos EUA. Apesar – ou por causa? – de tais ameaças dos militares, nossos meios de comunicação publicam, regularmente, informações duvidosas com base em 'informantes' não identificados dos 'círculos de defesa dos EUA' […] Obviamente, os serviços de inteligência também possuem um grande número de contatos diretos na nossa mídia, os quais podem 'vazar' informações se necessário. Porém, sem o papel central das agências de notícias globais, a sincronização mundial de propaganda hegemônica e de desinformação nunca seria tão eficiente. Por meio do 'multiplicador de propaganda', histórias e informações suspeitas de especialistas em RP – que trabalham para governos, militares e serviços de inteligência – chegam ao público em geral praticamente sem serem checadas ou filtradas. Isto é, os jornalistas citam as agências de notícias, e as agências de notícias citam as suas fontes; embora, muitas vezes, os jornalistas tentem apontar incertezas com termos como 'aparente', 'alegado' e similares para se protegerem, embora a essa altura o boato já se espalhou para o mundo e causou seu efeito". [1]

A informação é uma questão de poder político e geopolítico, tratada como razão de Estado pelo imperialismo mundial. Com o sucesso das interpretações reformistas da obra de Antônio Gramsci, passou a se tratar a luta pela hegemonia (isto é, a disputa pela direção moral e intelectual da sociedade a partir de aparelhos 'privados' de hegemonia), como algo que se realizaria a partir de condições democráticas: uma espécie de competição mais ou menos igual entre as classes exploradas e burguesas na disputa pela hegemonia. [2] Nada mais falso.

Junte o orçamento de todos os aparelhos de hegemonia das classes populares brasileira que se dedicam ao jornalismo: esse montante não vai chegar nem perto dos 5 mil milhões de dólares gastos pelo Pentágono para propagar as notícias "adequadas". A despeito disso, há uma estranha lógica na militância de esquerda brasileira: repetem como mantra que a "Globo ou a mídia no geral mentem", mas acreditam piamente nas "notícias internacionais" estilo Assad usando armas químicas contra civis quando a guerra estava quase ganha, Venezuela prendendo crianças, Cuba torturando opositores, Kaddafi bombardeando civis com caças aéreos etc, etc, etc.

No caso da Coreia Popular, a ação dos monopólios de mídia é ainda mais brutal. O país é provavelmente o mais caricaturado do mundo. Volta e meia, aparece nos monopólios de mídia com amplo destaque alguma notícia fantástica sobre a Coreia Popular: o "ditador" Kim Jong-Um teria forçado todos os habitantes do país a usar o mesmo corte de cabelo; arqueólogos norte-coreanos descobriram a existência de unicórnios; os cidadãos acreditam que a Coreia ganhou a Copa de 2014; Kim Jong-Un mandou matar o tio com um lança mísseis porque ele dormiu numa reunião (minha preferida!); Kim mandou matar a namorada porque ela falava muito e assim segue. Poucos dias depois, é claro, os supostos mortos aparecem vivos e as notícias falsas, muitas vezes propagandeadas pelo Serviço Secreto da Coreia do Sul, não desmentidas são 1% da publicidade da mentira original.

O anticomunismo se combina com o orientalismo e o racismo colonial (só o racismo colonial para fazer uma pessoa achar crível um líder de Estado matar seu tio com um lança mísseis porque dormiu numa reunião ou que na Coreia existe um canibalismo onipresente, imagens típicas da representação europeia da Ásia durante a expansão colonial-imperialista do final do século XIX) para fazer da Coreia do Norte um dos países mais atacados do mundo e um pária que quase ninguém no campo intelectual brasileiro abre a boca para defender. Malcolm X disse certa vez que "se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar o oprimido e amar o opressor". Nesse caso, as mídias no geral, incluindo os jornais, já conseguiram fazer isso com militantes pouco "cuidadosos".

O que você deveria saber sobre a Coreia Popular, mas não sabe

O importante intelectual canadense Michel Chossudovsky, escreveu um artigo falando sobre as conquistas sociais da Coreia Popular. Usando apenas dados oficiais de fontes ocidentais (esquivando-se assim da eventual "acusação" de fazer apologia ao "regime" por usar dados produzidos no próprio país), o pesquisador começa mostrando que o relatório da Anistia Internacional que indica uma crise na saúde da Coreia Popular e uma sistemática falta de médicos e enfermeiros é falso. Diz o trecho:

Gabinete de dentista para crian

"A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que o relatório da Anistia Internacional sobre o sistema de saúde da Coreia do Norte não é científico e está desatualizado. A Amnistia afirmou que a Coreia do Norte não está conseguindo atender às necessidades básicas de saúde de seu povo. O relatório da Amnistia é baseado em entrevistas com 40 desertores norte-coreanos e profissionais da saúde estrangeiros. Em abril, a diretora da OMS [Organização Mundial da Saúde] visitou a Coreia do Norte e disse que seu sistema de saúde era o motivo de inveja pelo mundo em desenvolvimento".

Qual seria o motivo da inveja? Chossudovsky cita os dados da Divisão Federal de Pesquisas da Biblioteca do Congresso dos EUA, que afirma

"A Coreia do Norte tem um serviço médico nacional e um sistema de seguro de saúde. Em 2000, cerca de 99% da população tinha acesso a saneamento e 100% tinham acesso à água, mas a água nem sempre era potável. O tratamento médico é gratuito. No passado, havia um médico para cada 700 habitantes e uma cama de hospital para cada 350 habitantes."

O acesso a água e saneamento, na Coreia Popular, é melhor que no Brasil e que na maioria dos países asiáticos (lugar por excelência de comparação com a situação da Coreia). A relação de médicos e leitos por número de habitantes também é melhor que a nossa. Ainda no âmbito da exposição de dados, diz o pesquisador "em 2006, a expectativa de vida era estimada em 74,5 anos para mulheres e 68,9 para homens, ou quase 71,6 anos no total" (esses números não combinam com o retrato de um país tão sem comida ao ponto de existir um suposto canibalismo onipresente. É necessário lembrar que pessoas sem comida não vivem em média até os 71 anos). E, para concluir, Michel Chossudovsky fala sobre a educação na Coreia Popular:

"Segundo a Unesco, a educação pública na República Democrática Popular da Coreia (RPDC) é universal e totalmente financiada pelo Estado. De acordo com fontes oficiais do governo americano (Divisão Federal de Pesquisa da Biblioteca do Congresso): "A educação na Coreia do Norte é, há 11 anos, gratuita, obrigatória e universal dos quatro aos 15 anos de idade nas escolas estatais. A taxa nacional de alfabetização para os cidadãos com 15 anos de idade ou mais é de 99%." ( Biblioteca do Congresso, Divisão Federal de Pesquisa , p. 7).

Em 2013, a Vice realizou uma entrevista com Pier Luigi Cecioni, curador responsável pelo site ocidental do Estúdio de Arte Mansudae, em Pyongang (capital da Coreia Popular), provavelmente um dos estúdios com maior produção no mundo. A matéria aborda o realismo socialista na Coreia Popular e o papel do Mansudae, que tem quatro mil funcionários e mais de mil artistas. Cecion, respondendo às perguntas da jornalista Nadja Sayej, começa explicando a produção cultural na Coreia:

"A maioria dos melhores artistas do país está no Mansudae. Praticamente todos eles têm um curso universitário ou formação em belas-artes. Quando um estudante se destaca na universidade, ele ou ela é convidado a se juntar ao Mansudae. E se um artista se destaca em outro centro, ele ou ela pode ser convidado a entrar para o estúdio. É uma grande honra fazer parte do Mansudae."

Em seguida, o italiano, deixando claro não ser especialista no tema, descreve o que sabe do sistema educacional do país, afirmando que as crianças e adolescentes frequentam a escola pela manhã e no período da tarde, voluntariamente, podem praticar música, dança, teatro, esportes etc (bem pouco parecido, infelizmente, com as escolas do Brasil). Responde perguntas sobre a experiência da visita dos coreanos à Europa e conclui com um balanço sobre o realismo socialista na Coreia Popular:

"Eu não diria que o propósito de toda a arte norte-coreana seja mensagem política. O realismo socialista representa a Coreia do Norte sob uma luz positiva e, num sentido mais amplo, quer inspirar os espectadores a ter sentimentos positivos, patrióticos e a celebrar; especialmente as grandes esculturas e pinturas exibidas em espaços públicos: os líderes. Os temas estão frequentemente relacionados ao trabalho, um assunto que não é comum no ocidente. Uma forma particular do realismo socialista são os cartazes. Eles são pintados à mão, não impressos, e têm mensagens políticas e sociais. Muitos têm como alvo os Estados Unidos, visto como um agressor do passado e um agressor em potencial. Além do realismo socialista, pinturas de paisagens são muito populares. Assim como pinturas de flores e da natureza em geral. Há também muitos retratos, principalmente de trabalhadores. Mas há tantos tipos de arte – escultura, cerâmica, bordado, vários tipos de pintura, xilografia, caligrafia e algumas outras – que não é possível generalizar".

O professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Paulo Ferracioli, especialista em política de comércio exterior e com vasta experiência de pesquisa sobre a Coreia do Sul, fez uma viagem à Coreia Popular. Em seu relato de viagem , o professor, que não é nenhum fã da ideologia Juche, diz que as cidades são limpas, bem organizadas e que em uma quadra da Avenida Paulista você vê mais pessoas em situação de rua do que em toda Pyongyang. Por falar em Pyongyang, continua Ferracioli, é possível ver no final da tarde pessoas nos vários jardins e praças públicas conversando, rindo, brincando com os filhos (ele destaca que não se vê nenhuma criança em situação de vulnerabilidade, como é possível entrar em toda cidade brasileira) ou em estabelecimentos conversando e tomando cervejas.

O leitor pode pensar que estou falando das conquistas sociais mas ocultando a dimensão política do país. A Coreia é normalmente retratada como uma monarquia, um país dominado por uma família, uma espécie de stalinismo de maior intensidade. Como costuma ocorrer nos tratamentos dados às experiências de transição socialista, é tomado como um consenso óbvio que nada existe de democracia, poder popular ou liberdade no país. Bem, primeiro, chamar a Coreia de monarquia é uma prova de extrema superficialidade.

O professor Paulo Visentini, um dos autores de um livro recente sobre a Coreia Popular ( A revolução coreana: o desconhecido socialismo Zuche ) – livro aliás ignorado no geral pela militância de esquerda (desconheço, por exemplo, qualquer intelectual de esquerda que tenha escrito ou resenha ou tentado refutar as análises de Visentini) –, diz o seguinte sobre a ideia da Coreia ser uma monarquia:

"É importante ressaltar que o sistema político norte-coreano é republicano e bastante complexo, havendo limites ao poder do dirigente e certo grau de liderança coletiva e participação popular. Por outro lado, a situação de tensão militar externa reforça os elementos para a identificação da nação com uma pessoa, cuja liderança de continuidade também é fundamental para evitar crises sucessórias que, no caso da RPDC, seriam, certamente, fatais. A liderança quase sacralizada representa mais um símbolo de unidade nacional do que o poder em si mesmo. O povo norte-coreano e sua liderança expressam orgulho por suas realizações e não se dobram sequer à China, cujos interesses são oscilantes. A ideologia Zuche, de autossuficiência, representa uma política de autopreservação que não pretende ser imposta a outras nações, apesar da grande cooperação existente com dezenas de Estados em desenvolvimento." (A revolução coreana , São Paulo, Unesp, 2015, p. 23)

E continua em outro momento do livro:

"A compreensão do ethos norte-coreano depende do conhecimento das origens da revolução (relacionadas à guerrilha antijaponesa) e, principalmente, do terrível impacto que a guerra teve sobre o país. A luta pela libertação nacional foi condicionada pela intensa mobilização de diferentes grupos sociais e pela percepção das lideranças de que a unidade deveria ser construída através de uma consciência nacional. Foi nesse cenário que Kim Il-Sung expôs os elementos constitutivos da Ideia Zuche (ou Juche) e a linha revolucionária baseada nessa doutrina, cujos princípios já faziam parte das raízes do movimento. O Zuche se desenvolveu em um quadro de lutas externas e internas e seria aprofundado como base para a reorganização do país no pós-guerra. Fortemente apoiado em uma visão nacionalista, serviu como teoria e método para o regime consolidado. A Guerra da Coreia foi uma guerra de extermínio, com o uso de napalm e bombardeios massivos para destruir todas as cidades e a infraestrutura do país. Houve ameaça nuclear explícita, como visto anteriormente, e chegou a ser defendida a criação de um corredor radioativo de até 60 km junto à fronteira com a China. Como resultado, o país desenvolveu uma mentalidade de bunker e centenas de quilômetros de túneis, assim como 15 mil refúgios profundos foram construídos, abrigando depósitos de mantimentos e armamentos, hospitais, fábricas, hangares para aviões e refúgios para a população. O medo de um ataque nuclear foi real nesse momento, inclusive porque os EUA estacionaram armas atômicas na Coreia do Sul e no Japão." (p. 67)

Visentini desenvolve ainda uma excelente argumentação sobre as influências pré-revolucionárias na estrutura de poder atual da Coreia Popular e a mescla, única no mundo, entre elementos da cultura asiática, o neoconfucionismo e o marxismo. Não podemos, no âmbito desta coluna, abordar a complexidade do assunto, mas adiantamos que quem não conhece nada da milenar história coreana, das tradições estatais e do confucionismo, provavelmente vai cair na tentação fácil e preguiçosa de assimilar a dinâmica da Coreia Popular à da União Soviética de Stálin, colocando à ambos o rótulo fácil e que nada diz de culto à personalidade.

Em uma fortaleza sitiada, toda dissidência é traição

A frase acima é de Fidel Castro. O revolucionário e estadista cubano conseguiu compreender o grande problema da transição socialista do século XX, ainda que tardiamente, no final da sua vida. Ao contrário de certa compreensão hegemônica, pautada diretamente pelos monopólios de mídia e pela ideologia dominante, o grande problema do socialismo no século passado não foi a falta de democracia ou liberdade, mas o desafio de se conseguir construir uma democracia operária, superior na forma e no conteúdo à democracia burguesa, em um estado de guerra permanente durante a tentativa de superar o subdesenvolvimento e a dependência .

Restos de muni Muitas vezes, ao olharmos nossa história, deixamos de racionalizar um dado básico: toda experiência socialista até hoje passou por uma invasão militar imperialista ou teve que enfrentar uma cruel guerra civil antes da conquista do poder e com a revolução vitoriosa. Na imensa maioria das vezes, essa invasão militar foi derrotada, mas não sem enormes custos humanos e de riqueza. Toda experiência de transição socialista, as passadas e as atuais, teve ou tem que despender enormes quantidades de riqueza material para defender sua soberania nacional. E como bem disse Fidel, "em uma fortaleza sitiada, toda dissidência é traição". O estado de guerra não condiciona o fortalecimento da democracia – de qualquer forma de democracia, inclusive a burguesa. E quando falamos estado de guerra, a questão não diz respeito apenas a confrontos militares diretos. Mais uma vez, um dado universal, mas pouco estudado: toda experiência socialista passada e atual sofreu/sofre com asfixiantes bloqueios econômicos do imperialismo (convido o leitor a refletir: quantos artigos ou livros você já leu sobre bloqueios econômicos? Sabe como funcionam? Seus impactos?).

Recentemente o Center for Economic and Policy Research lançou um estudo dirigido por Mark Weisbrot e Jeffrey Sachs – respectivamente, um jornalista progressista e um economista liberal – que analisa os impactos das sanções econômicas dos Estados Unidos contra a Venezuela impostas de 2017 até os dias atuais e chega a uma conclusão perturbadora: "[as sanções] foram responsáveis pela morte dezenas de milhares de venezuelanos no biênio de 2017-2018 – uma estimativa de aproximadamente 40 mil pessoas". Esse estudo não teve qualquer repercussão na mídia ou entre os intelectuais de esquerda – inclusive, os "críticos" do "autoritarismo de Maduro".

Já a Coreia Popular é o país mais bloqueado do mundo. A situação do país depois do fim da URSS e do campo socialista foi catastrófica, com o padrão de vida decrescendo em ritmo assustador. A partir dos anos 2000, conseguiu superar a crise econômica e seus efeitos mais agudos, período chamado de Árdua Marcha, mas não consegue forcar no desenvolvimento econômico e no bem-estar do seu povo. O imperialismo não permite. No último dia 9 de maio, o navio cargueiro Wise Honest que transportava carvão e maquinaria para Coreia Popular foi apresado por ordem do Departamento de Estado dos EUA em uma manobra única, acusando-o de violar as sanções dos Estados Unidos.

O blog De Pyongyang a La Habana lançou um estudo completo sobre todos os bloqueios e sanções econômicas que sofre a Coreia Popular. Esse texto mostra o grau de severidade do bloqueio contra a Coreia Popular – novamente, um estudo ignorado pela maioria dos militantes brasileiros. Já o jornal The New York Times, em matéria de 2017 coloca como título [tradução livre] "A fome na Coreia do Norte é devastadora. E a culpa é nossa" . Apesar do tom sensacionalista e do uso de alguns dados questionáveis, a matéria do jornal estadunidense é certeira ao apontar que as dificuldades alimentares do país têm uma origem bem precisa: a sabotagem econômica do imperialismo ocidental. Diz Kee B. Park, que assina a coluna:

"Liderada pelos Estados Unidos, a comunidade internacional está estrangulando a economia da Coreia do Norte. Em agosto e setembro [de 2017], o Conselho de Segurança da ONU aprovou resoluções banindo a exportação de carvão, ferro, chumbo, frutos do mar e têxteis e limitando a importação de óleo bruto e derivados de petróleo refinado. Os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul, cada um, impuseram sanções à Pyongyang para isolar ainda mais o país."

A justificativa oficial para essa asfixia econômica, como sabemos, é impedir a Coreia Popular de desenvolver seu programa nuclear. Supostamente, o país seria uma ameaça ao mundo. Um país pequeno sem qualquer histórico de golpes militares, invasões ou sabotagens contra seu vizinho, é atacado pela "comunidade internacional" liderada pelos Estados Unidos: país com mais de 800 bases militares espalhadas pelo mundo, mais de 50 golpes de estado aplicados com participação direta e indireta, uma série de invasões neocoloniais (Iraque, Afeganistão, Panamá, Vietnã, Guatemala etc, etc, etc) e a ação da CIA pelo mundo todo buscando a "mudança de regime" de projetos políticos que buscam algum grau de soberania nacional.

A realidade é que a guerra é um perigo real para o povo coreano. Na guerra de 1950-1953, cerca de 30% da população coreana foi morta e o país completamente destruído – um país já devastado devido à guerra de libertação contra o colonialismo japonês. O nível de brutalidade por parte dos EUA foi tão grande que E ainda depois do cessar-fogo temporário de 1953, juridicamente, a Guerra da Coreia nunca acabou: além da milenar Nação Coreana ter sido dividida em duas, os Estados Unidos nunca deixaram de manter uma pressão militar permanente.

Até hoje a Coreia Popular é cercada por mais ou menos 20 mil soldados dos Estados Unidos e arsenal atômico. Não é a Coreia Popular que está na fronteira dos EUA buscando uma "mudança de regime", mas o contrário. Os líderes coreanos aprenderam desde muito cedo que o imperialismo só entende a linguagem da força. Quem discorda, basta olhar para Líbia, que de país com melhor IDH e infraestrutura da África passou a um mar de lama e sangue dominado por grupos armados fundamentalistas, contando, inclusive, com o tráfico de humanos escravizados.

Conclusão

Diante de tudo que escrevemos, a conclusão é inequívoca: eu apoio e defendo a Coreia Popular. Esse apoio e defesa não se confunde com uma adoração acrítica do país. Mesmo sendo um historiador que dentro dos seus limites estuda a história asiática, conhece um pouco as tradições do país e o confucionismo, a forma-política do Estado coreano não me agrada. Também não tenho qualquer simpatia por desfiles militares pomposos e culto de armas. Mas não sou idealista. O mundo não é, ainda, o que queremos.

No mundo real, temos uma experiência revolucionária que desde que nasceu não consegue se desenvolver livremente. É atacada, caluniada, cercada, perseguida, asfixiada economicamente. Todo esse bloqueio do imperialismo gera deformações e certo nível de burocratização pouco agradável a alguém que defende uma democracia operária. Mas a prioridade quando o assunto é a Coreia Popular, é defender o país do imperialismo. Agitar a bandeira da autodeterminação dos povos, contra o uso de armas nucleares e da reunificação pacífica na península.

Temos uma experiência igualitária (ainda que com privilégios corporativos), fundamentada no ideário socialista e com um povo com ardentes sentimentos anti-imperialistas. É uma experiência nossa, do nosso campo, com todos seus erros e acertos, glórias e caricaturas, e eu a abraço sem reservas envergonhadas ou tímidas geradas por sentimentos liberais, anticomunistas ou orientalistas.

Não tenho medo de ser chamado de dogmático, stalinista, fanático ou qualquer coisa do tipo por manifestar meu apoio a um povo que deseja ser livre. Meu maior medo, quando o assunto é a Coreia Popular, é ver esse povo terminar como o líbio ou o palestino. Mas isso, tenho certeza, não irá acontecer. A Revolução Coreana segue firme. E o imperialismo, por mais ameaçador que pareça, é um tigre com dentes de papel!

29/Maio/2019
[1] Vinícius Moraes, "A Propagação Hegemônica: como as agências globais e a mídia ocidental cobrem a geopolítica (parte 2)",  Revista Ópera , 23 abr. 2019.
[2] Caio Navarro de Toledo, "A modernidade democrática da esquerda: adeus à revolução?", em: Crítica Marxista n. 1 , 1994.

Ver também:

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/coreia/jones_29mai19.html

Humanismo urgente - Por Fernando Buen Abad

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Humanismo urgente
 
“Salvar a humanidade”: moral e ética do século XXI (também)
 
 Por Fernando Buen Abad
 
  Uma Revolução Cultural chamada humanismo. Contra as desesperanças e as depressões, urge um Humanismo renovado no seu caráter emancipador e mobilizador. Urge nas afirmações supremas das lutas sociais, como Marx pensava, à luz da História, e indivisível no conteúdo consciente insuflado pelas forças sociais nas suas lutas. Humanismo de "novo género" como solução possível para as forças baseadas na democracia participativa. Humanismo, hoje mais necessário que nunca, para não sucumbir ao mercantilismo extremo e à opressão ideológica mais feroz na subtração da mais-valia. Humanismo contra o capitalismo selvagem "per se", que não se detém ante nada, que devora a natureza, que destrói o património cultural, financiando os negócios das guerras, dos bancos e dos "mass media".
 
Muitos pensam, não sem razão, que toda a luta que tenha como prioridade suprema o desenvolvimento de sociedades emancipadas (sem opressores nem oprimidos) já contém a ideia de Humanismo. Que, em qualquer caso, invocar o Humanismo exige atualizá-lo contra qualquer emboscada ideológica que o reduza ao individualismo. Que o Humanismo necessário, neste momento da História, deve ter um programa concreto de ação direta que não sirva para esconder a luta de classes e, tão-pouco, eclipse a também urgente tarefa de salvar o planeta. Em todo o caso um Humanismo antitético do capitalismo. Ainda que haja quem creia que é um tanto “vulgar” falar de Humanismo, é necessário ratificar o que mil vozes propuseram para um Humanismo de novo género, sem ilusionismos nem idealismos.
 
Quem imaginaria que a espécie humana, ao olhar-se à beira do abismo neoliberal, se inspiraria para iniciar a sua própria transformação e converter-se, ela própria, numa Revolução Cultural? Temos uma história latino-americana sobre um Humanismo nosso (Guadarrama) desprendido das lutas contra o colonialismo, a alienação e a exclusão, História que possui heranças extraordinárias cozinhadas entre os vapores de combate (Fidel) como projeto dos povos oprimidos. Mas o humanismo não aceita sectarismos territoriais. Herança plena de posições anticapitalistas, declarando-se abertamente pela necessidade de encontrar paz com identidade e dignidade para todos e em todo o mundo. (Martí) Um Humanismo que também é de paz, sem abandonar uma só das suas armas. (Fernández Retamar)
 
A história exige-nos que ratifiquemos o Humanismo, como um projeto emancipador, porque é necessário e útil não só para uma crítica "recarregada" contra o capitalismo, mas porque impõe uma rota precisa para não nos perdermos em emboscadas ideológicas. E isso também implica uma Guerrilha Semiótica no coração do Humanismo, as suas heranças, as desfigurações infligidas, a escravidão a que tem sido submetida ao capricho de verborreias filantrópicas escapistas, distintas. Para a construção ou consolidação de tal Humanismo, para reforçar a sua capacidade mobilizadora nas massas, exigimos um Humanismo objetivo, como um programa que ascende à prática de forma inconfundível, convertido em carne da luta, até alcançar o seu ponto de não retorno no imediato. (Chávez).
 
Tal Humanismo entranha a consciência que o anceia, a sua possibilidade e sua realização (o desejável, o possível e o realizável: Sánchez Vázquez) porque evidencia os valores que dignificam a espécie humana que renova a sua moral de luta, ou seja, revolucionária, que é o seu mais alto degrau (Ché) e coloca ao alcance de toda a compreensão o valor da sua consolidação imediata. Irrefutável e valioso porque justifica a sua natureza axiológica na superioridade dos seus valores contra todo o sistema opressor e explorador. Porque mobiliza todos até uma meta que pode ser alcançada se cumprirmos com os nossos compromissos pela unidade e organização dos povos. (Perón, Puiggros, Jaramillo)
 
Não se trata de um Humanismo reformista ou anestésico nem decorativo, do que se trata é de transformar o mundo existente e não de conservá-lo ou de com ele nos reconciliarmos. (Mondolfo) Trata-se sim de um Humanismo como programa do imediato capaz de elevar a consciência, com reivindicações de liberdade, igualdade, justiça e democracia, até passar dos bons desejos à sua realização concreta. Humanismo para mudar o modo de produção e as relações de produção. Humanismo para não perder as esperanças de lutar contra subterfúgios e ampliar as liberdades, a igualdade e justiça social. Humanismo, democrático e pleno, de seres humanos livres e criativos. (Althuser)
 
Insistamos. Trata-se de uma conceção do Humanismo ligado à crítica social. Não um Humanismo abstrato ou filantrópico burguês, não reduzido a um ponto de vista gnosiológico, mas ativado como uma ação social transformadora. Humanismo real "renovado". Humanismo de uma nova (renovada) integridade moral, ética e estética necessariamente histórica e social para a agir no coração, na barriga e no cérebro das relações sociais. Humanismo de um tempo e um lugar concretos para a Revolução cultural e científica que nos permite assumir a realidade em termos de significado, desta vez, transformando o mundo. (Mészáros)
 
Expressão crítica da história, seus processos políticos e económicos... a ideologia da classe dominante. O Humanismo como medida que reforme a fé objetiva num mundo humano, capaz de humanizar o que toque. Ou, noutros termos, Humanismo, onde o poder do humano seja criação que emana e renova, sem limites. Humanismo expressão de liberdade, de espiritualidade concreta, do verdadeiramente criador, projétil contra a mediocridade, o vazio espiritual e o "gosto" banal... Humanismo para elevar a consciência da realidade com seus próprios meios coletivos.
 
Humanismo atento à dialética cultural das lutas entre classes sociais e sensível à dialética, realmente existente, do internacionalismo e os sentimentos nacionais. Humanismo pela vida e contra tudo o que a corrói, destrói ou deprime. Humanismo como ética da resistência. Também.
 
A essência humana exige a sua emancipação revolucionando as relações sociais. Isso requer um Humanismo produto da sua própria práxis, transformando-se também nas suas próprias circunstâncias. Humanismo pleno, histórico e criador. Tal Humanismo não pode nascer senão no próprio coração da barbárie capitalista, é a sua contradição mais aguda. Foi chamado como força emergente superadora de uma etapa histórica amplamente “desumanizada”, vergonhosa e macabra. Humanismo que deve reunir o melhor dos seres humanos para rejuvenescer em nós e connosco. Humanismo como uma conceção lógica da política e como ética do coletivo. Uma ideia do humano que, no entanto, sem lançar a filosofia ao mar, permite distinguir claramente os territórios das suas lutas mais concretas e imediatas. Do que se trata é de o acrisolar na práxis. Estamos a tempo.
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Governar para a confiança

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 03/09/2019)

A confiança é fundamental para o desenvolvimento das economias. A ideia é tão intuitiva que dificilmente pode ser rebatida. Como muitas ideias intuitivas, é explorada à exaustão – muitas vezes para justificar o injustificável. Os governos devem promover a confiança, sim. O modo como isto se traduz em políticas específicas é menos óbvio do que parece.

Numa economia de mercado capitalista as decisões de investimento são tomadas por um conjunto alargado e disperso de agentes. A maioria deles aplica os seus recursos em novas actividades produtivas (ou endivida-se para o efeito junto de quem tem esses recursos) se e só se acreditar que os retornos dessa decisão compensarão o investimento num horizonte temporal não muito distante. Quando o futuro é muito incerto há menos gente disposta a arriscar. Por isso, a instabilidade e a imprevisibilidade são inimigas da actividade económica.

Esta conclusão tem um travo conservador óbvio. Levada ao extremo leva a que as transformações sociais relevantes sejam sempre adiadas, com receio da instabilidade que podem gerar.

O conservadorismo que decorre de endeusar a confiança tem associado três tipos de problemas. Primeiro, contribui para perpetuar injustiças que só podem ser combatidas através de mudanças sociais profundas. Segundo, tende a impedir soluções que seriam mais eficientes no médio e no longo prazos, apesar da incerteza que geram no imediato. Terceiro, mesmo na resposta aos problemas de curto prazo, sobrevalorizar a confiança pode ser uma resposta desastrosa aos problemas que as sociedades enfrentam.

O erro de sobrevalorizar a confiança dos investidores face a outras dimensões do funcionamento das economias e das sociedades ficou patente no modo como a União Europeia lidou com a crise internacional há uma década. A tese então dominante, a “austeridade expansionista”, defendia que a melhor forma de responder à crise seria a austeridade orçamental e a redução dos salários. Só assim, dizia-se, os governos transmitiriam aos investidores internacionais a sua determinação em pôr as suas economias em ordem. Foi esta tese que os governos portugueses (e muitos outros) seguiram entre 2010 e 2015.

O apelo à “fada da confiança”, como então lhe chamou Paul Krugman, teve como resultado uma recessão muito mais profunda e uma recuperação muito mais lenta na UE do que noutras geografias e noutros períodos. O pânico e a revolta que gerou na maioria das populações afectadas sobrepuseram-se a qualquer avaliação positiva que alguns actores financeiros podem ter feito da estratégia adoptada.

Inevitavelmente, o argumento da confiança será de novo esgrimido em Portugal até às eleições legislativas de Outubro. O facto de a taxa de juro da dívida pública portuguesa estar em mínimos históricos, sendo já inferior à do Estado espanhol, será apresentado como prova da confiança conquistada junto dos investidores internacionais. Sem surpresas, tal feito será atribuído à gestão das contas públicas do actual governo.

É aqui que uma ideia intuitiva se transforma em abuso de lógica. Sem dúvida que a responsabilidade orçamental é um indicador fundamental para os mercados financeiros, num mundo onde o financiamento dos Estados depende dos investidores privados internacionais. No entanto, como já aqui escrevi, a política financeira do governo é apenas um de vários factores explicativos para a evolução dos juros sobre a dívida pública portuguesa.

Para além disso, reduzir a importância da confiança ao comportamento dos actores financeiros é menosprezar o que sabemos sobre o funcionamento das sociedades. Os cientistas sociais enfatizam desde há muito o papel da confiança interpessoal e nas instituições como factor de coesão social e de estabilidade. O historiador Yuval Harari, no seu muito badalado Sapiens, refere-se às “ordens intersubjectivas” que asseguram a coordenação e a cooperação em sociedades complexas. Tais ordens, assentes em crenças e valores partilhados, incluem o sistema de leis e a ideia de nação, mas não só.

As pessoas precisam de acreditar que a democracia contribui para traduzir a vontade colectiva, que o Estado está ao serviço de todos e nāo de uns poucos, que a justiça social orienta a acção das instituições públicas. Este é o tipo de confiança decisivo para o desenvolvimento a prazo das sociedades. A gestão prudente das contas públicas é apenas uma pequena parte de uma governação responsável. Quem governa deve ter a ambição de ir muito além disto.

*Economista e Professor do ISCTE-IUL

[O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.]

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Wallerstein, o sociólogo da descolonização

 
Ele difundiu o conceito de sistema mundo, que permitiu às ciências sociais enxergar além dos espaços nacionais. Longe de se limitar à teoria, apoiou movimentos anticoloniais e reconstruiu comunidades científicas em países liberados
 
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
 
A morte de Immanuel Wallerstein é uma perda irreparável para as ciências sociais. Foi, sem sombra de dúvida, o mais notável sociólogo norte-americano do século XX e o de maior projeção internacional. O seu maior mérito foi ter levado gerações sucessivas de sociólogos a deixarem para trás a unidade de análise em que se tinham treinado (as sociedades nacionais) e a debruçarem-se sobre o sistema mundo (a economia-mundo e o sistema de Estados soberanos).
 
Na esteira de Fernand Braudel, Wallerstein estava convencido de que as dependências e interdependências crescentes no sistema mundial faziam dele a unidade de análise donde se poderiam gerar melhores hipóteses de trabalho para o estudo das próprias sociedades nacionais. Esta ruptura analítica criou-lhe muitas incompreensões nos EUA. Mas, como era um intelectual global e que lia as ciências sociais em várias línguas, ao contrário da maioria dos seus compatriotas, isso pouco o afetou. Conviveu com quase todos os líderes dos movimentos de libertação contra o colonialismo antes e depois das independências, e organizou projetos com os cientistas sociais desses países no sentido de ajudar a construir as novas comunidades científicas. Recordemos um caso em particular, o do Centro de Estudos Africanos da recentemente criada Universidade Eduardo Mondlane, coordenado por Aquino de Bragança. Foi um sociólogo comprometido com o destino do mundo e, sobretudo, com o destino das populações mais vulneráveis, cuja libertação só seria possível numa sociedade pós-capitalista, socialista. Por essa razão, acompanhou-nos desde a primeira hora no Fórum Social Mundial, de 2001 a 2016, ano em que, pela última vez, estivemos juntos.
 
 
A sua atitude científica levou-o questionar todo o pensamento ocidental eurocêntrico, uma das muitas afinidades que nos uniram. Guardo com carinho, do início das nossas relações, a leitura generosa que Immanuel fez de um livrito de reflexões epistemológicas que eu acabara de publicar: Um discurso sobre as ciências (1987). De imediato se propôs publicá-lo em Review, a prestigiada revista do Fernand Braudel Center, de que era então diretor, na Universidade de Nova Iorque-Binghamton. Pouco depois, dirigiu um grande projeto internacional com profundas preocupações epistemológicas antieurocêntricas financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o qual intitulou To Open the Social Sciences.
 
Foi muito intensa a relação de Immanuel Wallerstein com o Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Um dos nossos professores e investigadores, Carlos Fortuna, tinha já feito o doutoramento em Binghamton sob a sua orientação. Numa das primeiras visitas de Wallerstein ao CES, discutimos amplamente a relevância do conceito de semiperiferia para caracterizar países como Portugal. Acontece que este e outros países situados na Europa tinham características sociais muito distintas das de países semiperiféricos em outros continentes. Começou aí o nosso trabalho de reformular a teoria da semiperiferia de modo a adequá-la à nossa realidade, o que viria a resultar num dos modos mais frutuosos de analisar a sociedade portuguesa. Foi por nossa iniciativa que a Universidade de Coimbra teve a honra de lhe outorgar o Doutoramento Honoris Causa.
 
A melhor maneira de honrar a memória de Immanuel Wallerstein é continuar o nosso trabalho sem esquecer o entusiasmo, o profissionalismo e a forma brilhante como soube combinar objetividade científica e compromisso com os deserdados da terra, uma atitude que sempre procurou incutir em todos nós. 
 
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Relacionado em PG
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/wallerstein-o-sociologo-da.html

Do querido mês de Agosto para este

O Paulo Coimbra e eu publicámos um artigo no Le Monde diplomatique - edição portuguesa do passado querido mês de Agosto que agora deixo por aqui, com referências omitidas e sem os dois gráficos, acompanhado de mais um excerto de um dos meus filmes preferidos, lembrando o óbvio: uma certa política económica é só uma condição necessária, mas obviamente não suficiente, para um projecto nacional-popular.

Uma teoria da poupança que não poupa o país Na recente apresentação do esboço do programa eleitoral do Partido Social-Democrata (PSD), Rui Rio defendeu a urgência de se promover, incluindo por via fiscal, «uma cultura da poupança» interna, em nome da necessária redução do endividamento externo do país e da promoção do investimento. Naturalmente, o programa do PSD reflecte a teoria económica convencional. O economista Luís Aguiar-Conraria sintetizou num título da sua coluna regular esta teoria: «sem poupança não há investimento e sem investimento não há crescimento». Num estudo, em co-autoria, para a Associação Portuguesa de Seguros, este mesmo economista já havia identificado a provisão pública da Segurança Social como uma das causas institucionais desta escassez de poupança. Por sua vez, o economista Vítor Bento também já havia dramatizado a questão, no fundo «cultural», numa entrevista: na ausência de hábitos de poupança por parte dos portugueses, a acumulação de capital continuará a ser baixa e dependente do estrangeiro, sendo a «própria soberania nacional que fica em causa», num país desta forma reduzido a um «estatuto quase colonial». Com ilações mais ou menos dramaticamente oportunistas do ponto de vista político, os exemplos deste tipo de diagnóstico e das suas causas não têm fim. É de hegemonia que estamos a falar. Uma das instituições internacionais quase coloniais que a assegura é o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ainda recentemente, no seu relatório sobre economia portuguesa, o FMI alertava para os efeitos perversos da baixa taxa de poupança em Portugal, nomeadamente ao nível da incapacidade de aumentar o investimento nacional sem criar desequilíbrios externos, apelando ao fomento da poupança por via da promoção de planos privados de pensões complementares. A hegemonia merece ser contestada, até pelas suas implicações claramente regressivas: no fim contas, os ricos teriam uma maior propensão à virtuosa poupança, pelo que intensificar a redistribuição de baixo para cima na pirâmide social, por via fiscal, laboral ou da privatização da Segurança Social favoreceria o aumento do investimento. É de contra-hegemonia que também é necessário falar. Não há nada mais prático do que a teoria económica, neste caso.

Da contabilidade à causalidade A hegemonia serve para tornar as coisas aparentemente evidentes e a contabilidade nacional também: no fim de contas, sabemos que, em cada ano, o investimento tem de ser igual à poupança; esta última, por sua vez, tem de ser igual à soma da poupança dos que vivem por cá e da poupança dos que vivem para lá da fronteira; se, em cada ano, o país depender da poupança dos que vivem para lá da fronteira, tal significa que o país está a registar um défice de balança corrente no mesmo montante, estando a aumentar o endividamento externo; se, pelo contrário, o país registar um superávite de balança corrente, tal significa que está a canalizar poupança para o exterior, reduzindo a sua dívida. No entanto, estas evidências contabilísticas nada nos dizem sobre a resposta à questão mais importante: qual é a relação de causalidade entre a poupança e o investimento, ou seja, o que é que determina o quê, em última instância? As questões de causalidade só podem dilucidadas através de uma útil prática teórica. Para a teoria económica convencional, de matriz neoclássica, a resposta é óbvia, como já vimos: a poupança, seja ela interna e/ou externa, precede, determina ex-ante, o investimento que um país conseguirá realizar. Basicamente, os agentes económicos nacionais e/ou estrangeiros decidem quanto consumir e quanto poupar; o que é poupado é então canalizado pelos bancos nacionais ou estrangeiros para os que estão dispostos a investir e a criar riqueza por cá. Estamos perante relações reais, onde a moeda nada é mais do que um véu, neutro e facilitador. (...) [S]e a chamada poupança nacional bruta, em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), caiu em Portugal, entre final da década de noventa do século XX e o ano anterior ao resgate da Troika (2010), é compreensível que o investimento também tenha caído, em percentagem do PIB. E o investimento só não caiu mais porque o país teve acesso a poupança externa, com défices sucessivos de balança corrente ao longo destes anos, o que se traduziu em endividamento crescente ao exterior: em suma, o país teria vivido acima das suas possibilidades. Com a Troika, se é verdade que o investimento caiu e a poupança nacional bruta aumentou ligeiramente, também é verdade que foi esta conjugação que precisamente permitiu equilibrar a balança corrente: graças à Troika, teríamos aprendido a viver dentro das nossas possibilidades. Se, antes da crise, o investimento financiado por poupança externa era visto como natural, dada a hipótese da eficiência dos mercados financeiros, há alguns anos que nos é dito que temos de travar uma luta para continuar a aumentar a poupança nacional. Só assim o investimento pode crescer sem que se comprometa a trajectória de redução do endividamento externo. Existe, no entanto, uma alternativa a esta teoria económica e à narrativa política que alimenta. Se a teoria convencional pode ser apodada de pré-keynesiana, a alternativa pode ser designada como pós-keynesiana, na medida em que desenvolve o melhor das pistas lançadas, entre outros, por John Maynard Keynes. Em traços muito gerais, segundo esta tradição, o capitalismo é uma economia monetária de produção em que tudo começa pelas decisões de investimento. A qualquer montante poupado corresponde uma dívida de igual montante pecuniário. A poupança não financia a actividade económica (ao contrário, necessita de ser financiada), estando, isso sim, dependente ex-post do rendimento gerado por aquela actividade económica. O investimento é posto em marcha pela moeda-crédito, criada endogenamente pelos bancos, onde se inclui o banco central, pináculo do sistema financeiro. Isto significa que nem os bancos são meros intermediários entre aforradores e investidores, nem a taxa de juro é o mecanismo equilibrador entre a procura e a oferta de crédito. Numa economia monetária de produção, dado que a sua procura tende a ser ilimitada, o crédito é racionado, o que significa que o mercado de crédito é determinado pela quantidade oferecida e não pelo preço e que, neste processo necessariamente discricionário de alocação, decidindo quem obtém e não obtém crédito, os bancos desempenham um papel crucial. Os investidores tomam decisões nesta área em função das suas expectativas de rendibilidade pecuniária e o mesmo se passa com os bancos. Quando estes últimos descobrem um investimento potencial que lhes parece viável, concedem crédito, ou seja, realizam um depósito na conta do agora credor, que tem como contrapartida um passivo: o investidor realiza então despesas monetárias com a aquisição de bens de capital e com o pagamento de salários, pondo em marcha um processo produtivo, onde se gera o valor, que será eventualmente realizado com a venda bem-sucedida do produto. A poupança depende do investimento e este depende das expectativas quanto ao futuro, mormente no que diz respeito às vendas. Cada empresário no fundo sabe que o seu rendimento depende da despesa que outros fizerem. Em economia, a despesa de uns é o rendimento de outros. Esta perspectiva, que parece bizarra à teoria convencional, é defendida por influentes economistas do insuspeito Banco de Inglaterra: «O empréstimo e o depósito criados levam a investimento adicional que doutro modo não teria ocorrido porque o investidor não teria tido acesso ao necessário poder de compra. [Empréstimo e depósito] têm de levar, por definição, a poupança adicional, tendo em conta a identidade da contabilidade nacional entre poupança e investimento (numa economia fechada e a nível global), e não enquanto resultado de um equilíbrio entre poupança e investimento gerado por uma taxa de juro de equilíbrio. A direcção da causalidade é, portanto, do financiamento para o investimento para a poupança. Por outras palavras, a poupança não financia investimento, é o financiamento que o faz». Da causalidade à política  Um dos efeitos perversos da confusão, gerada pela teoria económica convencional, no nexo causal entre poupança e investimento é a promoção política de falácias da composição, ou seja, de situações em que aquilo que é verdadeiro para um agente económico individualmente considerado, para a microeconomia, pode ser falso para a sociedade no seu conjunto, para a macroeconomia. Uma dessas situações é o chamado paradoxo da poupança. Assim, lá porque um indivíduo pode aumentar a poupança reduzindo as suas despesas, tal não significa que isto seja macroeconomicamente verdadeiro. Como já se viu, «a poupança não é uma fonte de financiamento ao nível agregado». Dado que a despesa de uns é o rendimento de outros, se chegarmos ao ponto em que todos reduzem as suas despesas de investimento e de consumo, os rendimentos diminuem e, logo, a poupança também diminui. Neste contexto, aliás, pode ser muito mais difícil servir a dívida previamente contraída, já que o seu fardo aumenta em termos reais, devido à quebra dos rendimentos e dos preços. Entretanto, se usarmos a abordagem dos saldos financeiros sectoriais, favorecida pela teoria pós-keynesiana, e dividirmos uma economia monetária de produção nacional em três sectores – público, privado e externo –, sabemos que a diferença entre os rendimentos e as despesas dos três sectores tem de ser conjuntamente igual a zero. É falacioso pretender que todos poupem em termos líquidos ao mesmo tempo: se um sector melhorar o seu saldo financeiro, ou seja, se a diferença entre o seu rendimento e a sua despesa melhorar (se aumentar a chamada poupança líquida), então o saldo financeiro de pelo menos um dos outros sectores tem de se deteriorar no mesmo montante (tem de diminuir a sua poupança líquida). Portugal (...) não escapa a esta lógica. Assumindo que o saldo do sector externo é igual a zero, o que significa que a balança corrente está equilibrada, então o aumento da poupança líquida do sector privado implica necessariamente uma degradação da posição do sector público, e o inverso também é verdadeiro. Os sectores público e privado só podem gerar poupança líquida em simultâneo, só podem ter saldos positivos se o país registar superávites de balança corrente (é como se o país, neste caso, financiasse o resto do mundo). Tal só pode acontecer, por definição, se houver outros países com défices de balança corrente. Sendo que é impossível exportar para Marte, e que as exportações de uns são as importações de outros, pretender que todos os países podem manter, simultaneamente, balanças correntes superavitárias é outra faceta da já referida falácia da composição. Adicionalmente, um país com superávites também fica macroeconomicamente exposto, já que a sua economia passa a depender demasiado de terceiros, contribuindo além disso para gerar desequilíbrios internacionais. Numa economia monetária de produção, em funcionamento normal e com relativo equilíbrio do sector externo, o Estado tende a incorrer em défices crónicos e o sector privado em superávites crónicos. É esta situação, aliás, que cria sustentabilidade no sector privado, dada a atenção que neste sector tem de se ter à geração de rendimentos suficientes para assegurar a solvência, o que cria limites ao endividamento. Numa economia monetária de produção que esteja nesta situação, enquadrada por um Estado monetariamente soberano, que se endivida na moeda por si controlada, o sector público é diferente do sector privado, não tendo problemas de insolvência, dado que pode sempre pagar as suas dívidas, em última instância através de emissão monetária. Neste contexto, em que o Estado não depende dos mercados financeiros para o seu financiamento, não há qualquer problema em assumir que o défice é uma variável endógena, dependente do comportamento do sector privado. O Estado deve estimulá-lo e controlá-lo, impedindo aí uma poupança líquida negativa que ponha em causa a solvabilidade das famílias e das empresas. Contas certas não podem querer então dizer equilíbrio orçamental e muito menos superávite orçamental, o que implicaria saldos financeiros negativos no sector privado e um aumento da sua fragilidade financeira, mas antes um saldo do sector público negativo o suficiente para gerar procura ao nível do pleno emprego e solvabilidade no sector privado. Esse saldo negativo, o défice orçamental, deve ser usado também para induzir uma transformação da estrutura produtiva, facilitadora de um equilíbrio externo que não dependa da repressão da procura interna, e para aumentar os activos úteis na economia, tornando-a socialmente mais justa, ambientalmente mais sustentável e tecnologicamente mais capaz, o que obviamente beneficiará as gerações futuras. Se assim não for, ficamos confrontados com a situação actual: por muito que politicamente as taxas de juro desçam e que o Banco Central Europeu (BCE) tente estimular monetariamente a economia, o sector privado não investe o suficiente, não por falta de crédito da parte dos bancos, mas sim por falta de projectos viáveis.Isto é assim, dada a periclitante evolução da procura agregada na ausência de uma política orçamental que oriente e estimule o sector privado através do consumo e do investimento públicos. A Zona Euro está desenhada para perpetuar a estagnação e o estatuto quase colonial dos países periféricos que dela fazem parte. O único constrangimento que um Estado monetariamente soberano, como Portugal deve voltar a ser, enfrenta e que deve merecer toda a sua atenção é o constrangimento externo, cuidando de que não sejam criados défices de balança corrente, gerando dívida externa. Para tal objectivo, uma política cambial adequada e a existência de controlos de capitais, bem como uma política comercial selectivamente proteccionista são essenciais. Tudo o resto, incluindo a conversa moralista sobre a poupança, serve propósitos imorais. Para lá de disciplinar a força de trabalho, um dos seus principais objectivos é o de transferir rendimentos para o casino da especulação, através da privatização da Segurança Social, esquecendo que, qualquer que seja o sistema, estamos sempre perante uma transferência de recursos entre trabalhadores no activo e trabalhadores inactivos em cada momento do tempo. A diferença substantiva é que no sistema de Segurança Social por repartição essa transferência é alvo de uma deliberação pública, enquanto que, no sistema de capitalização, essa transferência é alvo dos apetites predadores e desestablizadores dos mercados financeiros. Também aqui a falaciosa teoria económica convencional não poupa o povo deste país.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Morreu Immanuel Wallerstein

 
 
“O tempo em que podemos mudar o mundo”
 
Immanuel Wallerstein, que morreu ontem, foi o grande pensador dos sistemas-mundo. Examinava o declínio do capitalismo, mas frisava: falta saber o que irá substituí-lo; a transição não será apocalíptica e dependerá das escolhas de agora
 

 

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Wallerstein em Outras Palavras
Desde seu lançamento, em 2010, Outras Palavras traduziu e publicou dezenas de textos de Immanuel Wallerstein. Neles, o sociólogo trata de temas centrais da conjuntura global e também de sua visão particular sobre a crise do capitalismo e a indefinição do futuro. Um índice destes artigos pode ser encontrado aqui.
 

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Entrevista de Sophie Shevarnadze
 
(Publicada originalmente em 14/10/2011)
 
A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.
 
Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma “bifurcação”, um momento histórico único nos últimos 500 anos.Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.
 
Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”
 
É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.
 
As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT (abaixo). A transcrição e a tradução para o português são iniciativas de “Outras Palavras”.
 
Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?
 
Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.
 
Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?
 
Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.
 
Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?
 
Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.
 
Qual a sua visão?
 
Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.
 
Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?
 
Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.
 
Esses tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?
Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.
 
Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?
 
Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.
 
O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?
 
A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.
 
Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século 21?
 
Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século 19. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século 20.
 
Do século 21, agora.
 
É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século 20, eu sinto que sou um produto do século 20. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.
Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?
 
Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século 20. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.
 
Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?
 
Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.
 
Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?
 
Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.
 
É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?
 
É o que vemos há 500 anos.
 
O vídeo da entrevista
 
 
 
 
 

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A concentração de riqueza conduz o novo imperialismo global

 
 
Peter Phillips*
  
As mudanças de regime no Iraque e na Líbia, a guerra na Síria, a crise na Venezuela, as sanções a Cuba, Irão, Rússia e Coreia do Norte reflectem o novo imperialismo global imposto por um núcleo de nações capitalistas em apoio a triliões de dólares em riqueza acumulada pelos investidores. Esta nova ordem mundial do capital massivo tornou-se num império totalitário de desigualdade e repressão.
 
Os 1% do globo, constituídos por mais de 36 milhões de milionários e 2.400 bilionários, aplicam o seu excedente de capital em empresas de gestão de investimentos como a BlackRock e o J.P. Morgan Chase. As dezassete principais empresas de gestão destes triliões de dólares controlavam 41,1 triliões de dólares em 2017. Estas empresas investem todas directamente umas nas outras e são geridas por meras 199 pessoas que decidem como e onde investir este capital global. O seu principal problema é possuírem mais capital do que as oportunidades de investimentos seguros actualmente existentes, o que dá azo a arriscados investimentos especulativos, a um aumento com os custos de guerra, à privatização dos bens públicos e a pressionar para que se criem novas oportunidades de investimento deste capital por intermédio da mudança de regimes políticos.
 
As elites do poder que apoiam o investimento de capitais estão colectivamente imiscuídas num sistema de crescimento obrigatório. O falhanço do capital em continuar a atingir um crescimento contínuo leva à estagnação económica, o que pode resultar em depressão, em quebras bancárias, em colapsos de moeda e desemprego em massa. O capitalismo é um sistema económico que inevitavelmente se autoajusta por intermédio de contracções, recessões e depressões.
 
As elites do poder estão encurraladas numa rede de crescimento forçado que requer uma gestão global constante e a formação de oportunidades de investimento de capital em constante crescimento. Este crescimento forçado tornou-se num destino manifesto a nível mundial que procura o domínio total do capital em todas as regiões da Terra e além.
 
Sessenta porcento do núcleo duro dos 199 gestores da elite do poder global são naturais dos EUA, sendo este balanço arredondado por pessoas de vinte nações capitalistas. Estes gestores da elite e os um porcento que lhes estão associados participam activamente nos grupos de políticas globais e nos governos. Trabalham como conselheiros do FMI, da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial, no Banco de Pagamentos Internacionais, na administração da Reserva Federal, nos G7 e G20. A maior parte deles participa no Fórum Económico Mundial. As elites do poder envolvem-se activamente nos conselhos privados para a política internacional, tais como o Grupo dos Trinta, a Comissão Trilateral e o Conselho Atlântico. Muitos dos membros da elite global dos EUA são membros do Conselho para Relações Estrangeiras e da Business Roundtable. O foco crucial destas elites do poder é proteger o investimento de capitais, assegurar o pagamento da dívida e criar oportunidades para aumentar o seu retorno financeiro.
 
 
 A elite do poder global está ciente da sua existência como minoria numérica no vasto mar da humanidade empobrecida. Cerca de 80% da população mundial vive com menos de dez dólares por dia e metade desta vive com menos de três dólares diários. A concentração do capital global tornou-se no alinhamento institucional que levaram os capitalistas transnacionais a transformarem-se num imperialismo global facilitado pelas instituições económicas/de comércio e protegidas pelo império militar dos EUA/NATO. Estas concentrações de riqueza trouxeram-nos uma crise na humanidade, na qual a pobreza, a guerra, a fome, a alienação em massa, a transformação da comunicação social em propaganda e a destruição ambiental atingiram níveis que ameaçam o futuro da humanidade.
 
O ideal de Estados-nação independentes e soberanos foi durante muito tempo considerada como sacrossanto nas economias liberais capitalistas convencionais. Contudo, a globalização impôs um novo conjunto de exigências ao capitalismo que requerem que os mecanismos transnacionais apoiem o crescimento perpétuo do capital que está cada vez mais para lá das fronteiras dos Estados individuais. A crise financeira de 2008 foi um reconhecimento da ameaça ao sistema do capital global. Estas ameaças encorajam o abandono por atacado dos direitos dos Estados-nação e a formação de um imperialismo global que reflicta os prenúncios da nova ordem mundial para proteger o capital transnacional.
 
As instituições no seio dos países capitalistas, entre elas os ministérios governamentais, as forças de defesa, as agências de espionagem, o sistema judicial, as universidades e os corpos representativos, reconhecem em vários graus que as exigências cada vez maiores do capital transnacional ultrapassam as fronteiras dos Estados-nação. O novo alcance mundial motivou uma nova forma de imperialismo global que se evidencia pelas coligações das nações do núcleo duro capitalista que se envolveram e envolvem nos actuais esforços para mudanças de regime por via de sanções, acções encobertas, coacções e guerra com as nações não cooperantes - Irão, Iraque, Síria, Líbia, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e Rússia.
 
A tentativa de golpe na Venezuela demonstrou o alinhamento dos Estados que apoiam o capital transnacional no reconhecimento das forças da elite que se opõe à presidência socialista de Maduro. Está aqui em acção um novo imperialismo global, no qual a soberania da Venezuela é abertamente minada por uma ordem imperial do capital mundial que procura não só controlar o petróleo da Venezuela, mas também a plena oportunidade para atingir investimentos amplos por intermédio de um novo regime.
 
A disseminação em massa da negação do presidente eleito da Venezuela por parte da comunicação social empresarial demonstra que essa comunicação social é propriedade de, e controlada pelos ideólogos da elite do poder global. A comunicação social empresarial actual encontra-se extremamente concentrada e é completamente internacional. O seu principal objectivo é a promoção da venda de produtos e da propaganda pró-capitalista por intermédio do controlo psicológico dos desejos, emoções, crenças, receios e valores humanos. A comunicação social empresarial atinge isto através da manipulação das emoções e da percepção dos seres humanos à escala global, e ao promover o entretenimento como distracção das desigualdades globais.
 
Reconhecer que o imperialismo global é uma manifestação da concentração de riqueza, gerida por umas parcas centenas de pessoas, é crucial por parte dos activistas democráticos e humanistas. Temos que nos basear na Declaração Universal dos Direitos Humanos e desafiar o imperialismo global, os seus governos fascistas, a sua propaganda mediática e os exércitos do império.
 
*Peter Phillips é professor de Sociologia Política na Universidade Estatal de Sonoma. Giants: The Global Power Elite, 2018, publicado pela  Seven Stories Press é o seu 18º livro. Dá aulas nos cursos de Sociologia Política, Sociologia do Poder, Sociologia da Comunicação Social, Sociologia das Conspirações e Sociologia de Investigação. Foi director do Project Censored entre 1996 e 2010 e presidente da Media Freedom Foundation entre 2003 e 2017. É investigador associado do Centre for Research on Globalization (CRG)
 

A imagem que ilustra este artigo é da Images.com/Corbis
 

 
 

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Há oitenta anos, o pacto germano-soviético: um símbolo da história desfigurado pelos reaccionários!

Fadi Kassem    30.Ago.19   

A falsificação da história é um instrumento privilegiado da ofensiva anticomunista. A mesma grande burguesia ocidental que via em Hitler um útil instrumento contra a URSS prossegue empenhadamente o desfiguramento dos antecedentes imediatos da 2ª Guerra Mundial: trata-se não apenas de ocultar o papel decisivo da União Soviética na derrota do nazi-fascismo, mas também de ocultar a simpatia e cumplicidade com que as potências ocidentais assistiram à ascensão do fascismo.



As efabulações dogmáticas dos anticomunistas primários

“Porque também se trata do 80º aniversário do «pacto germano-soviético», verdadeiro tratado de aliança com o regime de Hitler (que quase imediatamente levará, para começar, ao desmembramento da Polónia entre os dois predadores) é bom esclarecer esse pacto e as suas implicações “: eis o que se pode ler no blog de Marc Daniel Lévy, no site da Médiapart [1] sobre o pacto germano-soviético assinado em 23 de Agosto de 1939 entre Molotov e Ribbentrop.

Para além da argumentação próxima da nulidade - menos de 20 linhas contentando-se com as acusações -, encontramos as efabulações clássicas dignas dos mais ferozes anticomunistas, que o título do artigo (”20 de Agosto de 40: é o grande aliado da Gestapo quem faz matar Trotsky”) ilustra perfeitamente.

De facto, desde a assinatura do pacto em 23 de Agosto de 1939, anticomunistas de todos os tipos entoam a plenos pulmões esse refrão de uma suposta “aliança” entre Hitler e Stalin, à imagem de Jean-François Copé: já pouco à vontade para dominar os números – recordemos a sua incapacidade em avaliar o preço de um pão com chocolate [2] ou de seus problemas de contabilidade para a campanha de Sarkozy em 2012 [3] – o homem que obteve 0,3% nas primárias da direita para as presidenciais de 2017 [4] – ou seja menos votos do que Jean-Luc Bennahmias nas primárias do Partido Socialista! - já se tinha ilustrado no decurso da campanha para as eleições europeias ao declarar: “Sim, há 75 anos dia por dia, Stalin e Hitler assinavam um pacto de aliança que levou ao esmagamento da Europa sob a bota nazi: 60 milhões de mortos “[5]. Não poderia ser-se mais inventor do que isto…

Não importa: sob a pressão dos países da Europa Central e Oriental que aderiram à “democracia liberal” após a implosão do bloco socialista em 1989-1991, o Parlamento Europeu adoptou em 2 de Abril de 2009 uma “resolução sobre a consciência europeia e o totalitarismo “,”que reclama, entre outras coisas, que os seus Estados-Membros e outros países europeus proclamem o 23 de Agosto “Dia Europeu da Memória” para a comemoração, com dignidade e imparcialidade, das vítimas de todos os regimes totalitários e autoritários» [6] Amplamente aprovada pelos eurodeputados alimentados a anticomunismo primário, esta falsificação enganadora da história faz a alegria de todos os reaccionários de todo o género, felizes em apoiar a insustentável equação veiculada por “historiadores” como Stéphane Courtois - um fanático da “obsessão comparatista” (Marc Ferro) [7] - segundo a qual «nazismo = comunismo = totalitarismo». Infelizmente para os (não) «historiadores» anticomunistas, uma tal interpretação falsificadora não pode resistir à prova dos factos.

A URSS, cidadela sitiada desde 1917

É claro que Lévy, Copé, Courtois e tantos outros desconhecem que a “guerra fria” (que em qualquer caso certamente não o foi para a Rússia bolchevique, a Coreia, o Vietname, a América Latina, etc.) que conhecem as alegrias dos bombardeamentos e das guerras conduzidas pelo imperialismo norte-americano e seus parceiros anticomunistas) teve efectivamente início em 1917, como o afirmam André Fontaine [8] e a chamada escola “revisionista” nos Estados Unidos na década de 1950, e como muito bem analisaram Anatoli Chouryguinine e Yuri Korablev, na Guerra de 1918-1922.

Quatorze potências coligadas contra a Revolução Russa [9]. Porquê lembrar este elemento? Simplesmente porque a Rússia bolchevique, e depois a URSS, vivem perante a ameaça de um ataque do campo capitalista, que se desenrola efectivamente a partir do final de 1917 a partir de todos os lados, incluindo o Pacífico, onde o Japão se junta à coligação internacional formada sob a égide de Wilson, Clemenceau e Lloyd George. Este cerco é retomado quando o Japão fascista e a Alemanha nazi assinam o pacto anti-Comintern em 25 de Novembro de 1936. Curiosamente, nenhuma reacção das “democracias liberais”, efectivamente todos felizes por ver contido o “perigo vermelho”. Por outras palavras, enquanto a Alemanha nazi ameaça desde a primavera de 1939 invadir a Polónia, Stalin teme encontrar-se sozinho perante as forças do Eixo - Alemanha, Japão e a Itália que aderiu ao pacto anti-Comintern em 1937, aos quais se junta a Hungria reaccionária em Fevereiro de 1939 e da Espanha franquista em Março de 1939. Enquanto isso, as “democracias liberais” tão comprometidas com a defesa da “paz”, das “liberdades” e dos “direitos humanos”, permanecem instalados na sua hipocrisia, na sua covardia … e acima de tudo no seu anticomunismo primário e vulgar.

As “democracias liberais”, entre compromissos e traições

Pois esse é outro elemento que Lévy, Copé, Courtois, Furet e a empresa esquecem conscientemente - ou por pura ignorância - a saber, os sucessivos compromissos e traições das “democracias liberais” contra os seus “inimigos” e os seus “aliados”. Compromissos? O Reino Unido e a França não estão nada determinados a conter o perigo fascista e nazi na Europa, visto como um excelente meio de luta contra o bolchevismo. O resultado? Eis uma amostra sortida:
> Ausência de reacção face à invasão japonesa da Manchúria na China a partir de Setembro de 1931, com o Japão a ser visto como um baluarte contra o bolchevismo na Ásia;
> Ausência de reacção à reintrodução do serviço militar obrigatório na Alemanha em Março de 1935 - medida proibida pelo Tratado de Versalhes de 28 de Junho de 1919;
> O veto franco-britânico contra a “aliança inversa” sem trégua proposta pela URSS desde 1933, depois pelo pretenso “pacto franco-soviético” de Maio de 1935 sabotado do lado francês (é verdade que quem tinha assinado esse pacto pela França fora … Pierre Laval! Um verdadeiro desgosto para o futuro colaboracionista …);
> Acordo anglo-alemão de Junho de 1935, permitindo um poderoso rearmamento naval da Alemanha nazi;
> Contactos mantidos e reforçados entre as elites francesas [10] e britânicas em particular, com as elites alemãs na década de 1930, a ponto de o ex-primeiro-ministro britânico Lloyd George, de visita ao chalé do Führer em Berchtesgaden em Setembro de 1936, declarar acerca deste último: “Hitler não sonha com uma Alemanha que ameace a Europa. Os alemães perderam todo desejo de entrar em conflito connosco “[11];
> Acordo secreto entre a França e o Reino Unido com a Itália fascista [12] para anexar uma grande parte da Etiópia em Maio de 1936 - registar que a Itália não é sancionada pela Liga das Nações (SDN) na altura…;
> Remilitarização da Renânia em Março de 1936 (proibida pelo Tratado de Versalhes …);
>Guerra da Espanha no decurso da qual apenas a URSS e as Brigadas Internacionais vêm em socorro do campo republicano contra Franco e seus aliados fascistas e nazis, operando em total cumplicidade com o Reich e a Itália;
> Obviamente, a criação do pacto anti-Komintern acima mencionado;
> Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha) em Março de 1938, entretanto proibida pelo Tratado de Versalhes;
> E, momento alto do espectáculo, entrega da Checoslováquia aos apetites hitlerianos pela França - todavia ligada à Checoslováquia por um tratado desde 1924 … - e Reino Unido no seguimento da assinatura dos vergonhosos acordos de Munique na noite de 29 para 30 de Setembro de 1938 (decisão definitivamente tomada em Londres pelos britânicos e franceses em 29 de Novembro de 1937 [13]). Notar que a URSS estava ausente deste acordo (e por boas razões), ao contrário da Itália fascista que, tal como a Alemanha nazi, a França e o Reino Unido, não desejava a presença dos soviéticos ( nem aliás dos checoslovacos …).
> Chamberlain (Reino Unido), Daladier (França), Hitler (Alemanha) e Mussolini (Itália) assinam o Acordo de Munique em 30 de Setembro de 1938. Um ano antes de a URSS, por falta de resposta aos seus pedidos de um acordo de defesa com a França e a Alemanha, se ver reduzida a assinar o pacto germano-soviético.
Em suma, enquanto a URSS apontou claramente o perigo fascista, apelando à fundação da “segurança colectiva” contra os agressores e à constituição de Frentes populares - ver o famoso relatório Dimitrov publicado quando do 7º Congresso do Comintern em Julho de 1935 - voando em socorro da Espanha republicana, propondo ajudar a Checoslováquia através do envio de tropas (cuja passagem foi oficialmente recusada pela Polónia reaccionária e anticomunista, aliada teórica da França antissoviética e ligada à Alemanha pelo “tratado de amizade” de 26 de Janeiro de 1934), e enquanto os deputados comunistas em França denunciam a traição de Blum em relação à Espanha - Blum que de resto desabafa: “Somos uns patifes! “- e recusam em bloco os acordos de Munique, as” democracias liberais “capitulam ainda e sempre face à ameaça fascista, cegos pelo ódio ao bolchevismo e pela sua sedução do fascismo: o ministro das Relações Exteriores francês na época dos acordos de Munique, Georges Bonnet, homem da “alta banca”, “pacifista” convencido e futuro apoio do regime de Petain, não o desmentirá! Um “entendimento cordial” que se reencontra do outro lado do Atlântico: pensemos em Charles Lindbergh, condecorado por Herman Göring, e que vê Hitler como um “grande homem” bem menos perigoso do que Stalin [14], ou ainda Henry Ford, grande financiador do partido nazi durante os anos 1930 e até 1945 [15] – tal como todos os credores ocidentais do Reich desde 1933.

Uma decisão táctica decisiva de Stalin

É nesse contexto que Stalin aceitará assinar o pacto germano-soviético que, lembremos, é um pacto de não agressão, e certamente não uma “aliança”, como é tão frequentemente afirmado. Poder-se-ia aliás imaginar por um momento uma aliança sincera quando sabemos que o objectivo de Hitler é a conquista de um vasto Lebensraum (espaço vital) a leste da Europa para o seu projecto de “Reich para mil anos? O próprio Hitler o repete em Mein Kampf: “Detemos a marcha eterna dos alemães em direção ao sul e em direção a oeste da Europa, e lançamos o nosso olhar para leste. ” “A luta contra a bolchevização mundial judaica exige uma atitude clara em relação à Rússia soviética. Não podemos perseguir o diabo utilizando Belzebu. [16] E, de facto, é difícil acreditar que os líderes soviéticos sejam ingénuos quando assinam esse famoso pacto: desejoso de atacar a Polónia, Hitler, assina todavia em Janeiro de 1934 um pacto de não agressão válido por pelo menos 10 anos com … a Polónia.

Trata-se efectivamente de ganhar tempo na industrialização em marcha forçada da URSS, que se torna a terceira potência industrial do mundo em 1941 e se encontra em situação de enfrentar a Alemanha nazi, Hitler não tendo nunca abandonando o seu projecto de conquista de espaço vital. É desde logo inútil contar com um apoio das “democracias ocidentais”, apesar de alguns relâmpagos de lucidez de nacionalistas ferozmente anticomunistas como Henri de Kérillis, que se opôs aos acordos de Munique.
Assim, enquanto Hitler embarca nas suas “guerras relâmpago” na Polónia e depois no oeste da Europa, a URSS prossegue a sua preparação para a guerra, enquanto obtém benefícios das “cláusulas secretas” do pacto. A URSS é frequentemente criticada por anexar parte da Polónia e os países bálticos - lembremos que estes pertenciam à Rússia até a paz germano-russa de Brest-Litovsk, em Março de 1918; será necessário lembrar que a Polónia tinha deslocado as suas fronteiras orientais 250 km para leste da linha Curzon fixada pelos tratados de paz de 1919-1920 (por outras palavras, anexando territórios pertencentes à Rússia bolchevique)? Os dirigentes soviéticos veem nisso uma oportunidade de lavar a afronta ao Tratado de Riga, de Março de 1921 e, ao mesmo tempo, de afastar o mais possível o risco de uma invasão alemã, agora mais do que nunca provável após a liquidação do Polónia: dispor de um “cordão sanitário” antinazi antes que atinja Moscovo, Leningrado e Stalingrado, eis razão principal para o pacto de não agressão.

Quanto à ruptura do pacto pela Alemanha nazi em 22 de Junho de 1941 no seguimento do lançamento da operação Barbarossa, não foi uma “surpresa” para Stalin, vendo acumularem-se mais de 4 milhões de soldados da Wehrmacht e países aliados e satélites da Alemanha, 600.000 camiões, 4.000 tanques, 7.000 canhões e 3.000 aviões nas fronteiras soviéticas [17]; a verdadeira surpresa foi sobretudo para os alemães, que constataram a extensão da feroz resistência e da eficaz industrialização soviética e rapidamente se aperceberam dos riscos de operar em duas frentes como em 1914.

Assim, os dirigentes soviéticos, com Stalin à cabeça, foram capazes de reagir rapidamente (como o ilustra o “discurso ao povo soviético de 3 de Julho de 1941″), a fim de organizar a resistência e a contra-ofensiva na “Grande Guerra Patriótica”, sob a direcção do marechal Zhukov [18] .

Uma história direitizada e travestida pelos reaccionários

As amálgamas grosseiras de reacionários de todos os tipos não poderia resistir a uma análise rigorosa da história; mas permanece devido ao facto de esta última ser travestida pelos defensores da ordem capitalista, imperialista e atlantista (CIA), que falsificam a história à imagem de um Parlamento Europeu fraco em contrapartida na luta contra os desfiles de antigos Waffen SS na Letônia ou a presença no poder em Kiev de neonazis reivindicando-se de Stepan Bandera, grande colaborador durante a Segunda Guerra Mundial [19].

Quanto a Jean-François Copé, ele certifica com sua habitual segurança desconcertante e desdenhosa que a assinatura deste pacto é responsável pela morte de 60 milhões de pessoas - esquecendo de passagem que houve mais de 20 milhões de mortes na Ásia oriental, dos quais mais de 15 milhões de vítimas chinesas do Japão fascista: foi realmente por culpa do pacto germano-soviético, quando o Japão tinha iniciado a invasão da China em Setembro de 1931?
A história é também travestida mesmo na identidade do principal vencedor da Alemanha hitleriana: se a resposta não suscitava qualquer dúvida em 1945, ou seja: a URSS, uma boa lavagem de cérebros produziu o seu efeito uma vez que, em 2004, 60% dos franceses afirmam que foram os Estados Unidos que desempenharam o papel principal contra a Alemanha nazi [20].

No entanto, como um artigo no Le Monde Diplomatique de Agosto de 2009 justamente nos lembra: “quatro em cada cinco soldados alemães foram mortos na Frente Oriental; as batalhas de Stalingrado e Kursk não tiveram equivalente real em nenhum outro teatro de operações europeias (em Julho de 1943, a batalha de Kursk envolve 4 milhões de homens e causa mais de um milhão de mortos e feridos, dos quais quase 500.000 do exército alemão; durante todo o ano de 1943, as perdas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha não excedem 60.000 homens) “[21]. De facto, o pacto germano-soviético, a opção menos má possível quando foi assinado, torna-se a melhor solução possível, sancionada pela vitória final de 1945, como recentemente lembrado pelo representante especial do Presidente russo para a ecologia e os transporte e ex-chefe da administração presidencial Sergei Ivanov [22].

Assim se escreve todos os dias um pouco mais de história direitizada, que invade os aparelhos de TV e alimenta as análises dos “editocratas”, umas cães de guarda mediáticos sensacionalistas (à imagem do Le Point, que chegou ao ponto de dizer que Stalin planeou no final de sua vida … um novo Shoah! [23]), os manuais escolares, as declarações confusas de políticos como Copé e, bem entendido sem obscurecer as explicações “científicas” de “historiadores” anticomunistas como Stéphane Courtois, pai do famoso Livro Negro do Comunismo e aiatola obsessivo da comparação nazismo-comunismo para explicar, tal como seu mestre de pensamento François Furet, que os dois são “gémeos”; e tanto pior se o comunismo, que emana do Iluminismo e o reivindica, combate o nazismo fundamentalmente anti-humanista [24] … Mais do que nunca, face a uma tal vaga de mentiras tão grosseiras quanto perigosas para o comunismo, o combate pela “hegemonia cultural” deve ser empreendido e vencido, tal como o faz o Pólo de Renascimento Comunista em França (PRCF) através de historiadores como Gisele Jamet, Annie Lacroix-Rice e Gilda Landini (em particular) e filósofos como Aymeric Monville e Georges Gastaud.

Essa batalha é tanto mais fundamental quanto, como Marx prevenia, “aquele que não conhece a história está condenado a revivê-la”.

Notas:
[1] Ver o seguinte link: https: //blogs.mediapart.fr/marc-daniel-levy/blog/200819/20-aout-40-c-e .
[2] Ver o seguinte link: https: //www.huffingtonpost.fr/2016/10/24/for-jean-francois-cope-un-pa …
[3] Ver o seguinte link: https: //www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2016/09/13/les-exageratio … Observemos que se Jean-François Cope não foi processado foi por “falta de prova” e não por “inocência” proclamada pelo tribunal de justiça …
[4] Ver o seguinte link: https: //www.lemonde.fr/big-browser/article/2016/11/21/jean-francois-co .
[5] Ver o seguinte link:

5′50.
[6] Ver o seguinte link: https://en.wikipedia.org/wiki/European_Country_of_Souvenir
[7] Ver o seguinte link: https://www.monde-diplomatique.fr/2000/01/VIDAL/2079
[8] Ver o seguinte link: http://www.seuil.com/ouvrage/la-guerre-froide-andre-fontaine/9782020861205
[9] Ver o seguinte link: http://editionsdelga.fr/produit/la-guerre-de-1918-1922/
[10] É altamente recomendável ler Annie Lacroix-Riz, Le Choix de la défaite. Les élites françaises dans les années 1930, Armand Colin, 2010 (edição aumentada).
[11] Ver o documentário Hitler, la folie d’un homme,, exibido no M6 em 2004. Documentário disponível no seguinte link:

[12] Trata-se do acordo Laval-Hoare; constata-se já de passagem a atração de Laval pelos regimes fascistas …
[13] É altamente recomendável ler Annie Lacroix-Riz, De Munich à Vichy : l’assassinat de la Troisième République, 1938-1940, Armand Colin, 2008.
[14] Ver o seguinte link: https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Lindbergh#Lindbergh,_the_nazis_and_antitiism
[15] Ver o seguinte link: https: //www.liberation.fr/planete/1998/12/04/ford-fournisseur-du-iiie -…
[16] Estas são apenas algumas citações não exaustivas que podem ser encontradas no seguinte link (páginas 493 e 507): https://beq.ebooksgratuits.com/Propagande/Hitler-combat-2.pdf
[17] Números do documentário Apocalypse. La Seconde Guerre mondiale : le choc. Para mais informações sobre a invasão alemã, ler Geoffrey Roberts, Les guerres de Staline (1939-1953), Delga, 2006.
[18] Para mais detalhes sobre este assunto, ler Domenico Losurdo, Staline. Histoire et critique d’une légende noire, Aden Bélgica, 2011.
[19] Ver, em particular, o seguinte link: https: //www.initiative-communiste.fr/articles/europe-capital/quand-un -…
[20] Ver o seguinte link: http://www.slate.fr/story/88935/defaite-nazis-sondage
[21] Ver o seguinte link: https://www.monde-diplomatique.fr/carnet/2009-08-24-Perm-germano-sovietique
[22] Ver o seguinte link: https: //fr.sputniknews.com/international/201907081041618429-pacte-molo …
[23] Ver o seguinte link: https: //www.lepoint.fr/editos-du-point/michel-colomes/staline-aussi-vo ..
[24] Ler em particular Enzo Traverso, A feu et à sang. De la guerre civile européenne, 1914-1945, Stock, 2007.

 

Fontes: https://www.initiative-communiste.fr/articles/culture-debats/il-y-a-80…[1]

https://www.legrandsoir.info/il-y-a-80-ans-le-pacte-germano-sovietique-un-symbole-de-l-histoire-detournee-par-les-reactionnaires.html[2]

Divulga o endereço[3] deste texto e o de odiario.info[4] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

A crise sistémica do capitalismo mundial

por Prabhat Patnaik [*]

A marca registada de uma crise sistémica, distinta de uma crise cíclica ou esporádica do capitalismo, é que todo esforço para resolver a crise dentro dos limites vastos do sistema, definido em termos da sua configuração de classe predominante, apenas agrava a crise. É neste sentido que o capitalismo neoliberal entrou agora numa crise sistémica. Esta não pode ser resolvida por meros remendos; e as tentativas de ir além de meros remendos – como por exemplo com a introdução do proteccionismo sem transcender a estrutura ampla da globalização neoliberal, ou seja, sem superar a hegemonia do capital financeiro internacional, que é a força motriz por trás desta globalização, tal como Trump está a fazer nos EUA – só agravará a crise.


 

Os sintomas da crise são bem conhecidos. A crise de 2008 foi seguida pela busca de uma "política de dinheiro barato" nos EUA e alhures, de modo que as taxas de juros foram deitadas abaixo, até quase zero. Isso mal conseguiu fornecer algum espaço temporário de respiração ao capitalismo mundial. Mas agora, mais uma vez, ele está confrontado com uma recessão iminente. Nos EUA, o investimento das empresas está em declínio e a produção industrial em Julho foi 0,2 por cento mais baixa do que no mês anterior. A economia britânica contraiu-se durante o segundo trimestre deste ano, assim como a da Alemanha. O quadro é praticamente o mesmo por toda a parte, tal como na Itália, Brasil, México, Argentina e Índia. Até mesmo a China está a testemunhar uma desaceleração da sua taxa de crescimento em consequência da recessão mundial.

A resposta dos decisores políticos em toda a parte a esta recessão emergente é propor mais uma vez um corte nas taxas de juros. O Banco Central Europeu, que já empurrou a sua taxa de juros chave para a região negativa, está a planear reduzi-la ainda mais. Na Índia, as taxas de juros já foram cortadas. A ideia por trás destes cortes nas taxas de juros não é tanto que taxas mais baixas causem maiores investimentos. É, em vez disso, que taxas mais baixas provoquem "bolhas" no preço dos activos – as quais promoveriam a procura agregada por meio de maiores gastos por parte daqueles que se sentem mais ricos devido às "bolhas" de tais preços de activos.

Seria preciso esclarecer porque esta tinha de ser a resposta típica de decisores políticos por toda a parte. No período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, ou seja, antes do aproximar da globalização neoliberal, os gastos do governo podiam ser aumentados a fim de promover a procura agregada sempre que houvesse uma ameaça de recessão. Os governos podiam elevar os défices orçamentais, se necessário, uma vez que os controles de capital estavam em vigor e não havia o perigo de fugas de capitais caso houvesse aumentos do défice orçamental.

Este fora o mundo visualizado por John Maynard Keynes, o famoso economista que foi um dos arquitectos da ordem económica capitalista do pós-guerra. Ele se opusera à internacionalização das finanças ("as finanças, acima de tudo, devem ser nacionais", disse ele), com a justificativa de que tal internacionalização minava a capacidade do Estado-nação de aumentar o emprego tornando-o um prisioneiro da finança, a qual sempre se opunha a maiores gastos governamentais para esta finalidade. Como defensor do sistema capitalista, Keynes temia que, a menos que o Estado-nação pudesse aumentar suficientemente o emprego, o capitalismo não pudesse sobreviver à ameaça socialista.

Mas com maciças acumulações financeiras nos bancos metropolitanos, por causa dos contínuos grandes défices em conta corrente na balança de pagamentos dos EUA durante este período, e também, numa data posterior, por causa dos grandes depósitos de receitas ganhas pelos produtores da OPEP com as altas dos preços do petróleo na década de 1970, houve uma enorme pressão do capital financeiro em favor de um levantamento dos controles de capitais. Ele queria que todo o globo fosse aberto para que as finanças se movimentassem à vontade e, em última análise, isso aconteceu. A hegemonia do capital financeiro internacional foi então estabelecida, o que também significou uma retirada do Estado-nação de seu papel de manutenção do nível de emprego através da intervenção orçamental. O único modo de promover a procura agregada sob o regime do capitalismo neoliberal que continuou a existir foi portanto através do estímulo a "bolhas" de preços de activos; e a política de taxa de juros foi utilizada para este propósito.

Mas, ao contrário das despesas do governo, que podem ser reguladas à vontade, não se pode fazer aparecer uma "bolha" à vontade. Por algum tempo, nos anos noventa (a "bolha das dot.com" nos Estados Unidos) e nos primeiros anos deste século (a "bolha habitacional" nos EUA), este modo de estimular a procura agregada pareceu funcionar. Mas o colapso da "bolha" habitacional tornou as pessoas cautelosas e nenhuma nova "bolha" de magnitude semelhante apareceu, apesar de as taxas de juros serem reduzidas a zero.

Entretanto, há outro factor que actua poderosamente para reduzir a procura agregada dentro de cada país e no mundo como um todo; e este é o aumento da fatia do excedente na produção total. A globalização significou acima de tudo a livre circulação do capital, incluindo o financeiro, através das fronteiras, e isto resultou na relocalização de um certo número de actividades das metrópoles de altos salários para os países de terceiro mundo com baixos salários a fim de atender à procura global. Ao tornar os trabalhadores dos países avançados sujeitos à competição dos trabalhadores do terceiro mundo, isto tendeu a diminuir os salários dos primeiros. Ao mesmo tempo, os salários destes últimos continuam a permanecer num nível de subsistência nulo, porque as reservas de mão-de-obra do terceiro mundo não se esgotam apesar de tal relocalização. O vector das taxas salariais em todo o mundo portanto não aumenta, mesmo quando o vector das produtividades do trabalho por todo o mundo aumenta. Esta é a razão para o aumento da fatia do excedente dentro de cada país e no mundo como um todo.

Este aumento na participação do excedente cria uma tendência à superprodução, porque o consumo por unidade de rendimento é muito maior entre os assalariados do que entre os que recebem os excedentes. Esta tendência poderia ter sido compensada por um aumento nos gastos governamentais dentro de cada país. Mas, como isso não é mais possível, a única tendência contrabalançadora que é possível contra essa tendência rumo à superprodução é a formação de bolhas de preços de activos. Na ausência de tais bolhas, a tendência rumo a superprodução opera com força total, que é o que estamos hoje a assistir.

Como o instrumento convencional de reduzir taxas de juros não funciona em tal situação, e como os gastos do governo não podem ser aumentados para compensar a deficiência da procura agregada, os EUA sob Donald Trump tem tentado superar sua própria crise exportando-a para outros países, especialmente a China, através da adopção de medidas proteccionistas. Sobre toda uma gama de importações da China ele impôs tarifas de 25% e isto, por sua vez, levou a uma retaliação da China através da imposição de uma tarifa de 25% sobre um conjunto de importações dos EUA.

Esta guerra comercial, iniciada pelos EUA como forma de se livrar da crise, agora está a acentuar a crise da economia global, porque ela mina qualquer pequeno incentivo para investir entre os capitalistas do mundo. Longe de estimular uma nova bolha de preços de activos, o que era a intenção original por trás da redução das taxas de juros, ela tem como efeito provocar um colapso nos mercados de acções por todo o mundo. A Wall Street, por exemplo, testemunhou a maior queda do ano no dia 14 de Agosto; e em reacção mercados de todo o mundo também registaram quedas.

Se os gastos do governo pudessem ser aumentados dentro de cada país, então a necessidade de tais políticas de "mendigar teu vizinho" ("beggar-thy-neighbour") não surgiria. Mesmo que se recorra a algum proteccionismo para assegurar que o aumento da procura causado pelos gastos do governo não "vazasse" para o exterior, isso não precisaria levar a qualquer redução nas importações de outros países uma vez que o próprio mercado estaria a crescer. Mas, na ausência de um aumento de despesas governamentais, às quais o capital financeiro internacional se opõe (razão porque a maior parte dos países aprovou leis que restringem a dimensão do défice orçamental), as políticas de empobreça teu vizinho permanecem como uma das poucas opções possíveis para um país. Isto, contudo, piora a crise para todos.

Isto é precisamente a marca registada de uma crise sistémica. Na medida em que a hegemonia do capital financeiro internacional continuar, e em que países permanecem presos no turbilhão de fluxos financeiros globais, não só a crise continuará como todo o esforço para ultrapassá-la, através de quaisquer meios disponíveis dentro do sistema, só agravará a crise.

Ultrapassar a hegemonia do capital financeiro internacional exige, contudo, que dentro de cada país o povo trabalhador seja mobilizado em torno de uma agenda alternativa.

25/Agosto/2019
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2019/0825_pd/systemic-crisis-world-capitalism
Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/patnaik/patnaik_25ago19.html

O capitalismo em debate

 
 
Depois de várias décadas de cozidos requentados pós-modernos, sopas “pós-marxistas”, saladas reformistas e sobremesas pós-coloniais à la carte, a discussão sobre o capitalismo mundial volta ao centro da mesa.
 
Néstor Kohan*
 
Nos movimentos sociais, nas organizações políticas e no mundo cultural. Já ninguém se conforma com os “microrrelatos”, os “micropoderes”, a “micro-história”. Todos os pretextos e malabarismos para não encarar as crises selvagens que atravessam o sistema capitalista são afastados, como migalhas sujas, para fora da toalha.
 
O incêndio da crise de 2008 não se apaga. O fogo estende-se. O planeta range. Cada vez se tornam mais inadiáveis as explicações totalizantes sobre o que atravessamos.
 
Estaremos, por fim, numa época de capitalismo “desterritorializado” e interdependente, sem imperialismo, metrópoles, dependências nem periferias, onde um grupo de vendedores ambulantes de um bairro perdido do Haiti desempenha o mesmo papel no sistema mundial que o Bundesbank alemão, uma aldeia longínqua da Indonésia tem a mesma categoria de poder financeiro e político-militar que a Wall Street ou o Pentágono? Ou talvez continuemos localizados, ainda que não percebamos, no antigo capitalismo keynesiano do pós-guerra, com cadeias produção de valor ancoradas em cada país e capitais regulados em escala puramente nacional? Terá sido totalmente inócua a contraofensiva capitalista iniciada em setembro de 1973 no Chile, estendida a seguir à Argentina de 1976 e finalmente aplicada durante 1979-1980 na Londres de Margaret Thatcher e na Washington de Ronald Reagan? Que alguém avance uma explicação por favor e nos esclareça o panorama!
 
Não estaremos vivendo, talvez, uma nova fase do capitalismo, na qual se combinam as revoluções tecnológicas do capitalismo tardio estudadas por Erneste Mandel, os cinco monopólios mundiais explicados por Samir Amin e a reconquista planetária por expropriação (desposesión) sobre a qual nos alertou David Harvey?
 
 
Seja qual for a resposta correta, o que está claro é que a partir da crise feroz de 2008 e da reconversão dos antigos fanáticos do livre comércio em “protecionistas” e “guerreiros comerciais” (EUA, Alemanha, China, etc), somadas às invasões, bombardeios, bloqueios econômicos e intervenções político-militares imperialistas da última década, qualquer análise séria do presente já não pode continuar a repetir os tiques, os slogans e as modulações da “coexistência pacífica” de 1960.
 
Aquele tosco e demasiado inocente “pacifismo” de Nikita Kruschev dos velhos documentários em branco e preto, uma década mais tarde adotado nas metrópoles ocidentais pelo eurocomunismo (acompanhado de refinadas e esquisitas argumentações epistemológicas), hoje... nos atrasa!
 
Afirmar que a grande meta estratégica do comunismo é... “a paz” (assim, em geral, como diziam os soviéticos) e a defesa “da democracia” (também em geral, sem especificações e qualificações), está demodé. Não vai mais. Não corresponde ao planeta em que vivemos.
Flower power frente ao imperialismo ou estratégia comunista?
 
O mundo mudou. Lamentavelmente não foi para melhor. O movimento hippie de John Lennon e Yoko Ono, junto com o flower power, ficaram no belo rincão da nostalgia estética e da memória musical. Longe daqueles cabelos compridos e dos seus protestos pacifistas em lençóis brancos, nosso mundo atual parece-se muito mais com as sombrias imagens distópicas onde proliferam as invasões, as bases militares em escala planetária, a vigilância global, a repressão das massas empobrecidas migrantes e as guerras por recursos naturais não renováveis.
 
Se tivermos os pés na terra e não confundirmos o princípio do prazer (e a imaginação psicodélica) com o princípio da realidade, o trauma da queda do Muro de Berlim e as antigas nostalgias, hoje imperantes, devem ser superadas de uma vez por todas. De nada serve invocá-las periodicamente para reinventar novos reformismos.
 
Num livro recente, Estudiando la contrainsurgencia de Estados Unidos. Manuales, mentalidades y uso de la antropología (2019), o antropólogo mexicano Gilberto López y Rivas descreve o sistema mundial capitalista da nossa época. É só uma tentativa possível, mas a nosso ver muito útil e realista.
 
No momento de definir as características centrais e o tipo de capitalismo que predomina nos nossos dias, o autor recusa de fato as versões apologéticas de uma suposta globalização “homogênea, plana, sem assimetrias nem desenvolvimentos desiguais”. Gilberto López y Rivas afirma que o sistema capitalista do nosso presente constitui um imperialismo global lançado sem escrúpulo algum numa “recolonização do mundo”. Sua tese, arriscada e precisa, desmonta na prática esse lugar comum das academias (financiadas por fundações “desinteressadas” como a NED ou a USAID) segundo a qual “num mundo globalizado, governado pela informação e o capitalismo cognitivo, os Estados Unidos, a Europa ocidental e os países capitalistas mais desenvolvidos já não necessitam da América Latina, África nem dos países pobres da Ásia, ou seja, do Terceiro Mundo”. Essa formulação trivial, repetida até à exaustão por especialistas em guerra psicológica, opiniólogos do marketing midiático e diletantes vários a soldo do império, depara-se com as guerras permanentes contra países periféricos, os bombardeios “humanitários” contra as sociedades dependentes, os bloqueios econômicos e comerciais contra qualquer governo desobediente – nomeados com desdém como um “regime” só pelo facto de não se ajoelhar perante as ordens das embaixadas estadunidenses, da União Europeia ou as receitas do FMI e do Banco Mundial – e o saqueio ininterrupto dos recursos naturais e da biodiversidade do Terceiro Mundo. Esse processo renovado de dominação e apropriação, ou a tentativa de levá-lo a cabo por métodos violentos, constitui a manifestação de um “neocolonialismo imperialista”, segundo a análise rigorosa de Gilberto López y Rivas. Toda uma definição.
 
O arco-íris da bandeira vermelha
 
Dentro deste contexto global, não cabe a passividade. As resistências são múltiplas. Ainda que nem todas tenham a mesma capacidade de organização, mobilização, nem a mesma nitidez ideológica para convocar e unir em escala internacional as iras populares, as rebeldias antissistêmicas e as dissidências contra “a nova ordem mundial”, cada dia mais caótica, cruel e desapiedada. As bandeiras das massas oprimidas e dos movimentos sociais em escala planetária têm as cores mais diversas, desde o verde ecologista e o violeta feminista até o emblema multicor LGTBI, entre muitíssimas outras expressões da palestra rebelde. Mas de todas as cores e matizes, necessariamente variados e coexistentes, acreditamos que o horizonte vermelho do marxismo continua a ser a perspectiva teórico-política mais abrangente, inclusiva e integradora e a que permite articular e unir todas as demais rebeldias à escala mundial, como há alguns anos assinalou a pensadora dos Estados Unidos Ellen Meiksins Wood no seu conhecido livro A renovação do materialismo histórico. Democracia contra capitalismo (2000).
 
= = =
Trecho do texto: El fantasma comunista en su laberinto: notas "desde un oscuro rincón del mundo". In: La Haine.
 
 
*Néstor Kohan | Investigador e docente na Universidade de Buenos Aires (UBA). Publicou numerosas obras sobre teoria marxista e história do pensamento revolucionário, entre os quais destacam: “O capital: história e método”; “Ernesto Che Guevara: o sujeito e o poder”, “Gramsci para principiantes” e “Fidel para principiantes”. Vários deles têm sido editados na Argentina, Brasil, México, Cuba, Venezuela, Colômbia e no Estado espanhol.
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/o-capitalismo-em-debate.html

Estarão os ventos a mudar de direcção?

A Areia dos Dias

Têm-se multiplicado, nos últimos anos, as reflexões e tomadas de posição sobre o modelo capitalista e as suas notórias disfuncionalidades, a ponto de algumas vozes se interrogarem sobre o fim próximo do capitalismo. Ainda recentemente se publicou em português um livro de Bernard Maris intitulado O futuro do capitalismo que mereceu a apresentação do Prof. José Reis.

Não são de agora as críticas ao paradigma de capitalismo, ao conceito de empresa que lhe subjaz e ao mito do crescimento ilimitado e do efeito trickle down que traria a prosperidade para todos, pessoas e povos. Não obstante a solidez dos fundamentos teóricos e empíricos destas posições críticas, que cohecemos desde os anos 70, estas não passaram para a cultura dominante das grandes empresas nem para as suas práticas de gestão.

Assim sendo, é de assinalar o alcance de um recente manifesto assinado por quase 200 CEOs de grandes empresas transnacionais e gigantes financeiros de Wall Street no qual se afirma que o lucro e o primado dos accionistas não podem mais ser os únicos princípios que norteiam uma empresa. 

Com essa declaração, os diretores executivos comprometem-se em liderar as suas empresas em benefício de todas as partes interessadas, a saber: empregados, clientes, fornecedores e toda a comunidade local de referência. Para além dos accionstas, todos os stakeolders devem ter uma participação equitativa no produto gerado pela empresa.

Stefano Zamagni, que é um defensor deste princípio, desde longa data, comenta este acontecimento num interessante artigo. Ver aqui[1].
 

References

  1. ^ aqui (www.ihu.unisinos.br)

Ver o original em

Como a Esquerda Ocidental perdeu o jogo…

Robert Pfaller, um universitário austríaco, põe a nu a miséria teórica e o percurso errante da esquerda “pós-modernista”, numa entrevista muito crítica, tanto da “esquerda de governo” como da “esquerda de contestação”.

 

 

A entrevista tem ainda o curioso (ou nem tanto…) interesse de ser uma iniciativa da agência iraniana ILNA…

 

Postmodernism: The Ideological Embellishment of Neoliberalism

Robert Pfaller interviewed by Kamran Baradaran, via ILNA | Aug.11, 2019

“This is how the left became “cultural” (while, of course, ceasing to be a “left”): from now on the marks of distinction were produced by all kinds of concerns for minorities or subaltern groups. And instead of promoting economic equality and equal rights for all groups, the left now focused on symbolic “recognition” and “visibility” for these groups… Thus not only all economic and social concerns were sacrificed for the sake of sexual and ethnic minorities, but even the sake of these minorities itself. “

Robert Pfaller is one of the most distinguished figures in today’s radical Left. He teaches at the University of Art and Industrial Design in Linz, Austria. He is a founding member of the Viennese psychoanalytic research group ‘stuzzicadenti’. Pfaller is the author of books such as “On the Pleasure Principle in Culture: Illusions Without Owners”, “Interpassivity: The Aesthetics of Delegated Enjoyment”, among others. Below is the ILNA’s interview with this authoritative philosopher on the Fall of Berlin Wall and “Idea of Communism”.

 

The ideology of postmodernism is to present all existing injustice as an effect of discrimination; Robert Pfaller tells ILNA

The ruling ideology since the fall of the Berlin Wall, or even earlier, is postmodernism. This is the ideological embellishment that the brutal neoliberal attack on Western societies’ welfare (that was launched in the late 1970s) required in order to attain a “human”, “liberal” and “progressive” face.

ILNA: What is the role of “pleasure principle” in a world after the Berlin Wall? What role does the lack of ideological dichotomy, which unveils itself as absent of a powerful left state, play in dismantling democracy?

Until the late 1970s, all “Western” (capitalist) governments, right or left, pursued a Keynesian economic policy of state investment and deficit spending. (Even Richard Nixon is said to have once, in the early 1970ies, stated, “We are all Keynesians”). This lead to a considerable decrease of inequality in Western societies in the first three decades after WWII, as the numbers presented by Thomas Piketty and Branko Milanovic in their books prove. Apparently, it was seen as necessary to appease Western workers with high wages and high employment rates in order to prevent them from becoming communists. Ironically one could say that it was precisely Western workers who profited considerably of “real existing socialism” in the Eastern European countries.

At the very moment when the “threat” of real existing socialism was not felt anymore, due to the Western economic and military superiority in the 1980ies (that led to the fall of the Berlin Wall), the economic paradigm in the Western countries shifted. All of a sudden, all governments, left or right, pursued a neoliberal economic policy (of privatization, austerity politics, the subjection of education and health sectors under the rule of profitability, liberalization of regulations for the migration of capital and cheap labor, limitation of democratic sovereignty, etc.).

Whenever the social democratic left came into power, for example with Tony Blair, or Gerhard Schroeder, they proved to be the even more radical neoliberal reformers. As a consequence, leftist parties did not have an economic alternative to what their conservative and liberal opponents offered. Thus they had to find another point of distinction.

This is how the left became “cultural” (while, of course, ceasing to be a “left”): from now on the marks of distinction were produced by all kinds of concerns for minorities or subaltern groups. And instead of promoting economic equality and equal rights for all groups, the left now focused on symbolic “recognition” and “visibility” for these groups. Thus not only all economic and social concerns were sacrificed for the sake of sexual and ethnic minorities, but even the sake of these minorities itself. Since a good part of the problem of these groups was precisely economic, social and juridical, and not cultural or symbolic. And whenever you really solve a problem of a minority group, the visibility of this group decreases. But by insisting on the visibility of these groups, the policies of the new pseudo-left succeded at making the problems of these groups permanent – and, of course, at pissing off many other people who started to guess that the concern for minorities was actually just a pretext for pursuing a most brutal policy of increasing economic inequality.

ILNA: The world after the Berlin Wall is mainly considered as post-ideological. Does ideology has truly decamped from our world or it has only taken more perverse forms? On the other hand, many liberals believe that our world today is based on the promise of happiness. In this sense, how does capitalism promotes itself on the basis of this ideology?

The ruling ideology since the fall of the Berlin Wall, or even earlier, is postmodernism. This is the ideological embellishment that the brutal neoliberal attack on Western societies’ welfare (that was launched in the late 1970s) required in order to attain a “human”, “liberal” and “progressive” face. This coalition between an economic policy that serves the interest of a tiny minority, and an ideology that appears to “include” everybody is what Nancy Fraser has aptly called “progressive neoliberalism”. It consists of neoliberalism, plus postmodernism as its ideological superstructure.

The ideology of postmodernism today has some of its most prominent symptoms in the omnipresent concern about “discrimination” (for example, of “people of color”) and in the resentment against “old, white men”. This is particularly funny in countries like Germany: since, of course, there has been massive racism and slavery in Germany in the 20th century – yet the victims of this racism and slavery in Germany have in the first place been white men (Jews, communists, Gypsies, red army prisoners of war, etc.). Here it is most obvious that a certain German pseudo-leftism does not care for the real problems of this society, but prefers to import some of the problems that US-society has to deal with. As Louis Althusser has remarked, ideology always consists in trading in your real problems for the imaginary problems that you would prefer to have.

The general ideological task of postmodernism is to present all existing injustice as an effect of discrimination. This is, of course, funny again: Since every discrimination presupposes an already established class structure of inequality. If you do not have unequal places, you cannot distribute individuals in a discriminating way, even if you want to do so. Thus progressive neoliberalism massively increases social inequality, while distributing all minority groups in an “equal” way over the unequal places.


Interview by: Kamran Baradaran | INLA

 

 
 
 

Exclusivo Tornado / IntelNomics


 
 
 
 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/como-a-esquerda-ocidental-perdeu-o-jogo/

A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

 
 
Como país constrói uma economia de mercado regulada. Por manter finanças e moeda sob controle público, investe em infraestrutura, reduz rapidamente a pobreza e resiste a crises. O que esta experiência pode ensinar ao resto do mundo
 
Ellen Brown | Outras Palavras | Tradução: Felipe Calabrez
 
Quando o banco central dos EUA (o Federal Reserve, Fed) cortou as taxas de juros na semana passada, comentaristas ficaram se perguntando sobre o porquê. Segundo dados oficiais, a economia estava se recuperando, o desemprego estava abaixo de 4% e o crescimento do produto interno bruto estava acima de 3%. Pelo raciocínio do próprio Fed, o que se esperaria era, ao contrário, um aumento das taxas.
 
Os especialistas de mercado explicaram tratar-se de uma guerra comercial e de uma guerra cambial. Outros bancos centrais estavam cortando suas taxas, e o Fed teve que segui-los para evitar que o dólar ficasse supervalorizado em relação a outras moedas. A teoria é que um dólar mais barato tornará os produtos norteamericanos mais atraentes nos mercados externos, ajudando as bases industriais e a mão-de-obra do país.
 
No fim de semana, o presidente Trump foi além ds cortes de juros, ameaçando impor, em 1º de setembro, uma tarifa suplementar de 10% sobre produtos chineses no valor de 300 bilhões de dólares. A China respondeu suspendendo as importações de produtos agrícolas dos EUA por empresas estatais e deixando cair o valor do yuan. Na segunda-feira, o índice Dow Jones Industrial Average caiu quase 770 pontos, seu pior dia em 2019. A guerra prosseguia.
 
 
O problema é que as guerras cambiais não têm vencedores. Isso foi demonstrado políticas de “peça a seu vizinho” [“beggar-thy-neighbor”] dos anos 1930, que apenas aprofundaram a Grande Depressão. Como o economista Michael Hudson observou em uma entrevista concedida em junho à jornalista Bonnie Faulkner, tornar os produtos norte-americanos mais baratos no exterior pouco contribuirá para a economia do país, que não tem mais uma base de produção competitiva ou produtos para vender. Os trabalhadores de hoje estão em grande parte nas indústrias de serviços – motoristas de táxi, funcionários de hospitais, agentes de seguros e afins. Um dólar mais barato no exterior só faz com que os bens de consumo no Walmart e as matérias-primas importadas para as empresas dos EUA fiquem mais caras.
 
O que é realmente desvalorizado, quando a cotação de uma moeda cai, diz Hudson, são o preço e as condições de trabalho de seus assalariados. A razão pela qual os trabalhadores norte-americanos não podem competir com estrangeiros não é a sobrevalorização do dólar. São os custos maiores de moradia, educação, serviços médicos e transporte. Nos países concorrentes, esses custos são geralmente subsidiados pelo Estado.
 
O principal concorrente dos EUA na guerra comercial é obviamente a China, que subsidia não apenas os custos dos trabalhadores, mas também os custos de suas empresas. O governo controla 80% dos bancos, que fazem empréstimos em condições favoráveis a empresas nacionais, especialmente estatais. Se as empresas não puderem pagar os empréstimos, nem os bancos nem as empresas são levadas à falência, pois isso significaria perder empregos e fábricas. Os empréstimos inadimplentes são apenas contabilizados nos balanços ou caducam. Nenhum credor privado é ferido, uma vez que o credor é o governo e os empréstimos foram criados nos livros dos bancos, em primeiro lugar (seguindo, aliás a prática bancária padrão a nível global). Jeff Spross analisou o fenômeno em detalhes, em um artigo da Reuters de maio de 2018 intitulado “Os bancos chineses são grandes. Muito grandes?
 
Como o governo chinês é dono da maioria dos bancos, e imprime a moeda, tecnicamente pode manter esses bancos vivos e emprestando para sempre. Pode soar estranho dizer que os bancos da China nunca entrarão em colapso, não importando o quão absurdas sejam suas posições de empréstimo. Mas os sistemas bancários são assim: lidam apenas com o fluxo de dinheiro.
 
Spross citou Richard Vague, ex-executivo-chefe de banco e presidente da Governor’s Woods Foundation, de Filadélfia, que explicou: “A China comprometeu-se com um alto nível de crescimento. E crescimento depende fundamentalmente do financiamento. Pequim vai “entrar e determinar a lucratividade, o capital, sanar a dívida ruim dos bancos estatais… por todos os meios que você e eu não veríamos adotados nos Estados Unidos”.
 
Agitação política e trabalhista é um grande problema na China. Spross escreve que o governo mantém a população satisfeita ao estimular crescimento econômico alto e distribuir seus frutos entre os cidadãos. Cerca de dois terços da dívida chinesa são devidos apenas pelas corporações, que também são em grande parte estatais. O crédito corporativo é, portanto, uma forma indireta de política industrial financiada pelo governo – não por meio de impostos, mas pelo privilégio exclusivo que os bancos têm de criar dinheiro em seus balanços.
 
A China considera que este é um modelo bancário melhor do que o sistema ocidental privado, focado em lucros de curto prazo para seus acionistas. Mas os formuladores de políticas dos EUA [e de quase todos os países ocidentais] consideram os subsídios que a China oferece a suas empresas e trabalhadores como “práticas comerciais desleais”. Eles querem que a China renuncie aos subsídios do Estado e a outras políticas protecionistas para nivelar a competição. Mas Pequim argumenta que as reformas exigidas equivalem a um “golpe de Estado econômico”. Como diz Hudson: “Essa é a luta que Trump tem contra a China. Ele quer que os bancos governem a China e tenham um “livre” mercado a seu dispor. Ele diz que a China enriqueceu nos últimos cinquenta anos por meios injustos, com ajuda do governo e empreendimento público. Na verdade, ele quer que os trabalhadores chineses sintam-se tão ameaçados e inseguros quanto os norte-americanos. Eles devem se livrar de seus transportes públicos. Eles devem se livrar de seus subsídios. Eles devem deixar muitas de suas empresas irem à falência para que as corporações estadunidenses possam comprá-las. Eles devem ter o mesmo tipo de mercado livre que destruiu a economia dos EUA.“
 
Num artigo publicado em 1º/8, na revista “Foreign Affairs”, Kurt Campbell e Jake Sullivan chamam isso de “uma emergente disputa de modelos”.
 
Um Guerra Fria Econômica
 
Para entender o que está acontecendo, vale olhar um pouco para a História. O modelo de livre mercado esvaziou a base industrial dos EUA no início da era Thatcher / Reagan, dos anos 70 e 80, quando as políticas econômicas neoliberais se consolidaram. Enquanto isso, as economias emergentes da Ásia, lideradas pelo Japão, roubavam a cena com um novo modelo econômico chamado “capitalismo de mercado guiado pelo Estado“. O Estado determinou as prioridades, encomendou o trabalho e contratou empresas privadas para executá-lo. O modelo superou os defeitos do sistema comunista, que havia colocado a propriedade e o controle direto nas mãos do Estado.
 
O sistema japonês de mercado guiado pelo Estado foi eficaz e eficiente – tão eficaz que foi considerado uma ameaça à existência do modelo neoliberal baseado em dívida e em “mercados livres”, promovido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo o autor William Engdahl em A Century of War, no final da década de 1980 o Japão era considerado a principal potência econômica e bancária do mundo. Seu modelo guiado pelo Estado também provou ser altamente bem-sucedido na Coreia do Sul e nas outras economias dos “Tigres Asiáticos”. Quando a União Soviética entrou em colapso no final da Guerra Fria, o Japão propôs seu modelo aos antigos países comunistas, e muitos começaram a considerá-lo, bem como o exemplo da Coreia do Sul, como alternativas viáveis ao sistema de livre mercado dos EUA. O capitalismo guiado pelo Estado assegurava o bem-estar geral sem destruir o incentivo capitalista. Engdahl escreveu:
 
As economias dos Tigres Asiáticos criaram um grande embaraço para o modelo de livre mercado do FMI. Seu sucesso em conciliar empresas privadas com um papel econômico forte do Estado foi uma ameaça à agenda do Fundo. Enquanto os Tigres Asiáticos demonstrassem sucesso com um modelo baseado em um forte papel estatal, os antigos estados comunistas, e não apenas eles, poderiam argumentar contra o projeto extremista representado pelo FMI. No leste da Ásia, durante a década de 1980, taxas de crescimento econômico anual de 7-8%, segurança social crescente, educação universal e alta produtividade do trabalho foram todas apoiadas por orientação e planejamento estatal, embora em uma economia de mercado – uma forma asiática de paternalismo benevolente.
 
Assim como os EUA entraram em uma Guerra Fria para destruir o modelo comunista soviético, os interesses financeiros ocidentais começaram a destruir essa ameaça emergente asiática. Ela foi desarmada quando economistas neoliberais ocidentais persuadiram o Japão e os Tigres Asiáticos a adotar um sistema de livre mercado e abrir suas economias e empresas a investidores estrangeiros. Os especuladores ocidentais então derrubaram os países vulneráveis, um por um, na “crise asiática” de 1997-8. Somente a China permaneceu como uma ameaça econômica ao modelo neoliberal ocidental, e essa ameaça existencial é o alvo das guerras comerciais e monetárias hoje.
Se não se pode vencê-los…
 
Em seu artigo de 1º/8 na Foreign Affairs, intitulado “Competição sem catástrofe”, Campbell e Sullivan escrevem que a tentação é comparar essas guerras comerciais econômicas com a Guerra Fria contra a Rússia; mas a analogia é inadequada:
 
“A China é hoje uma concorrente mais formidável economicamente, mais sofisticada diplomaticamente e mais flexível ideologicamente do que a União Soviética jamais foi. E, ao contrário da União Soviética, a China está profundamente integrada ao mundo e entrelaçada com a economia dos EUA.”
 
Ao contrário do sistema comunista soviético, não se pode esperar que o sistema chinês “desmorone sob seu próprio peso”. Os EUA não podem esperar, e nem deveriam querer, destruir a China, dizem Campbell e Sullivan. Em vez disso, devem buscar um estado de “coexistência em termos favoráveis aos interesses e valores dos EUA”.
 
A implicação é que a China, sendo forte demais para ser eliminada do jogo como a União Soviética foi, precisa ser coagida ou bajulada a adotar o modelo neoliberal e abandonar o apoio estatal de suas indústrias e a propriedade de seus bancos. Mas o sistema chinês, embora obviamente não seja perfeito, tem um histórico impressionante de sustentar o crescimento e o desenvolvimento a longo prazo. Enquanto a base manufatureira dos EUA estava sendo solapada sob o modelo de livre mercado, a China estava sistematicamente construindo sua própria base de manufatura e investindo pesadamente em infraestrutura e tecnologias emergentes, e o estava fazendo com o crédito gerado por seus bancos estatais. Em vez de tentar destruir o sistema econômico da China, poderia ser mais “favorável aos interesses e valores dos EUA” adotar suas práticas industriais e bancárias mais eficazes.
 
Os EUA não podem vencer uma guerra cambial através da adoção de medidas de desvalorizações cambiais competitivas que desencadeiam uma “corrida para o fundo do poço”. E não podem vencer uma guerra comercial instalando barreiras comerciais competitivas que simplesmente os afastem dos benefícios do comércio cooperativo. Mais favorável aos interesses e valores norte-americanos do que a guerra com seus parceiros comerciais seria cooperar no compartilhamento de soluções, incluindo soluções bancárias e de crédito. Os chineses provaram a eficácia do seu sistema bancário público no apoio às suas indústrias e seus trabalhadores. Em vez de vê-lo como uma ameaça existencial, os EUA poderiam agradecê-los por testar o modelo e obrigá-los a uma virada.
 
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O último Império ocidental?

 
 
The Saker, Unz Review e The Vineyard of the Saker * | Tradução de Vila Mandinga
"Veem as árvores, mas não veem a floresta" é boa metáfora para muitos dos comentários que circulam sobre os últimos vinte e poucos anos pelo planeta. E o período é notável pelo número genuinamente tectônico de mudanças pelas quais passou o sistema internacional.  
 
Tudo começou durante o que chamo de a "Kristallnacht [Noite dos Cristais] da lei internacional", dia 30 de agosto-setembro de 1995, quando o Império atacou os sérvios-bósnios, em direta e total violação dos mais fundamentais princípios do Direito Internacional. Depois foi o 11/9, que deu aos neoconservadores, segundo eles, o "direito" de ameaçar, atacar, bombardear, matar, violar, sequestrar, assassinar, torturar, chantagear e todas as demais práticas para fazer o mal a qualquer pessoa, grupo ou país em todo o planeta, 'porque' "somos a nação indispensável" e "ou você está conosco ou está com os terroristas". Durante esses mesmos anos, vimos a Europa tornar-se colônia de 3ª classe dos EUA, incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos europeus mais fundamentais, ao mesmo tempo em que os EUA tornou-se colônia de 3ª classe de Israel e igualmente incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos mais fundamentais dos EUA. Ainda mais interessante, se se observa esse passado próximo, ao mesmo tempo em que EUA e União Europeia colapsavam sob o peso dos próprios erros, Rússia e China estavam em clara ascensão. Rússia, principalmente em termos militares (ver aqui e aqui), e China principalmente em termos econômicos. Mais crucialmente importante,  Rússia e China gradualmente concordaram em se tornar corpos simbiontes, processo pelo qual, na minha avaliação, tornaram-se ambos ainda mais fortes e mais significativos do que se os dois países se unissem mediante algum tipo de aliança formal: alianças podem ser partidas (especialmente quando esteja envolvida uma nação ocidental), mas relacionamentos de simbiose de modo geral duram para sempre (sim, sim, nada dura para sempre, é claro, mas quando o tempo de vida mede-se em décadas, uma relação simbiótica é o equivalente funcional de "para sempre", pelo menos em termos de análise estratégica). Os chineses desenvolveram recentemente uma expressão oficial, especial e única para caracterizar esse relacionamento com a Rússia. Falam de uma "Parceria estratégica abrangente de coordenação para a nova era." É o pior pesadelo dos anglo-sionistas, e a respectiva mídia sionista faz de tudo para ocultar o fato de que Rússia e China são, sim, para todas as finalidades práticas, aliadas estratégicas. Tentam até, empenhadamente, convencer o povo russo de que a China seria ameaça à Rússia (usam os argumentos mais ridículos, mas nada disso é importante). A coisa não funcionará, mesmo que alguns russos tenham alguns medos relacionados à China, porque o Kremlin sabe dos fatos e da verdade desses assuntos e continuará a aprofundar cada vez mais o relacionamento simbiótico da Rússia com a China. E não só isso.
 
Hoje já parece que o Irã está sendo admitido gradualmente nessa aliança. Já temos disso a confirmação mais oficial possível, em palavras do general Patrushev enunciadas em Israel depois de se reunir com funcionários dos EUA e de Israel: "O Irã sempre foi e continua a ser nosso aliado e parceiro." Poderia estender muito a lista dos vários sinais do colapso do Império Anglo-sionista, e dos sinais de que uma nova ordem paralela internacional mundial está em processo de construção bem aí, diante de nossos olhos. Já fiz isso muitas vezes e não repetirei aqui (os interessados podem clicar aqui e aqui). Direi então que os anglo-sionistas chegaram a um estágio terminal de degeneração no qual o "se" da pergunta é substituído por "quando?". Mas ainda mais interessante seria examinar o "quê?": o que realmente significa o colapso do Império Anglo-sionista? Raramente vejo essa questão ser discutida; e quando é, a discussão só visa a repetir e repetir, para 'garantir' que o Império não, de modo algum, jamais colapsará; que é poderoso demais, rico demais e grande demais para desandar, e que as atuais crises políticas nos EUA e Europa resultarão em mera transformação reativa do Império, tão logo os problemas específicos que o atingem tenham sido devidamente resolvidos. Esse tipo de irracionalidade delirante absolutamente nada tem a ver com a realidade. E a realidade do que tem lugar agora, aí, diante de nossos olhos é muito, muito, muito mais dramática e seminal do que alguns poucos problemas simples, que ganhem remendos aqui e ali, e tudo possa continuar alegremente como sempre foi. Um dos fatores que nos induzem a uma espécie de relaxamento complacente é que já vimos tantos outros impérios colapsar ao longo da história para, em seguida, serem substituídos bem rapidamente por outro império, que não conseguimos nem imaginar que o que acontece hoje é fenômeno muito mais dramático: estamos vivendo o trânsito gradual rumo à irrelevância, de uma civilização inteira!
 
Mas comecemos por definir nossos termos. Diferente do que ensinam escolas ocidentais obcecadas com engrandecer o 'ocidente', a civilização ocidental não tem raízes em Roma nem, e menos ainda, na Grécia antiga. Fato é que a civilização ocidental nasceu da Idade Média em geral e, muito especialmente, do século 11, o qual, coincidentemente assistiu à seguinte sequência de passos empreendidos pelo Papado:
1054: Roma separa-se do resto do mundo cristão, no chamado Grande Cisma; 1075: Roma adota os chamados Decretos Papais; e 1095: Roma lança a Primeira Cruzada.
Esses três eventos tão intimamente relacionados entre eles têm importância absolutamente decisiva para a história do ocidente. O primeiro passo que o ocidente tinha de dar era libertar-se da influência do restante do mundo cristão. Tão logo foram quebrados os laços entre Roma e o mundo cristão, foi fácil e lógico que Roma decretasse que o Papa passava a ter os mais incríveis superpoderes, maiores que tudo que qualquer bispo até então se atrevera a imaginar. E por fim, a nova autonomia e a ânsia de controle absoluto sobre todo o planeta resultou no que bem se pode definir como "a primeira guerra europeia imperialista": a Primeira Cruzada. Dito sucintamente: os francos do século 11 foram os verdadeiros pais da moderna Europa "ocidental"; e o século 11 marcou a primeira "guerra estrangeira" (para usar termo moderno) imperialista. Ao longo dos séculos mudou o nome do Império dos Francos, mas não a natureza, a essência ou o propósito. Hoje, os verdadeiros herdeiros dos francos são os anglo-sionistas (para discussão realmente *soberba* do papel dos francos na destruição da verdadeira, antiga civilização cristã romana do ocidente, ver aqui). Ao longo dos mais de 900 anos seguintes, muitos diferentes impérios substituíram o Papado dos Francos, e muitos países europeus viveram "momentos de glória" com colônias no além-mar e alguma espécie de ideologia que, por definição e axioma se autodeclarava o único bem (ou mesmo "o único cristão"), com o resto do planeta vivendo em condições não civilizadas e de modo geral terríveis, as quais só poderiam ser mitigadas pelos que *sempre* acreditaram que eles, a religião deles, a cultura deles ou a nação deles teriam algum tipo de papel messiânico na história (chamem de "destino manifesto" ou de "a carga que o homem branco tem de suportar às costas", ou deKulturträger [al. no orig., "portador de cultura"]), todos eles sempre em busca de um Lebensraum [al. no orig., aprox. "espaço vivo", "habitat"] muito perfeitamente merecido; "eles" aí, são os europeus ocidentais. Parece que a maioria das nações europeias tentaram a sorte na empreitada de converter-se em império e em guerras imperialistas. Mesmo miniestados modernos como Holanda, Portugal ou Áustria já tiveram seus dias como temidas potências imperiais. E cada vez que caiu um Império Europeu, lá estava outro para assumir aquele lugar. Mas... e hoje? Quem, imaginam vocês, poderia criar império suficientemente poderoso para preencher o vazio resultante do colapso do Império Anglo-sionista? A resposta canônica é "China." Para mim, não faz sentido, é nonsense. Impérios não podem ser exclusivamente comerciais. O comércio, só ele, não basta para manter viável um império. Impérios também precisam ter força militar, mas o tipo de força militar que torna fútil qualquer resistência. A verdade é que NENHUM país moderno está sequer próximo de ter as capacidades necessárias para tomar o papel dos EUA na função de Hegemon Mundial: nem se se somassem as forças militares russas e chinesas se chegaria àquele resultado, porque esses dois países não têm:
1) suficiente rede mundial de bases (que os EUA têm, entre 700 e 1.000 bases, dependendo de como você conte); 2) capacidade importante para projetar poder estratégico por ar e por mar; e 3) suficiente rede dos chamados "aliados" (na verdade, fantoches coloniais) que sempre ajudarão em qualquer deslocamento de força militar.
Mas ainda mais crucialmente importante que isso: China e Rússia não têm desejo algum de voltar a ser império. Esses dois países finalmente compreenderam a verdade eterna segundo a qual impérios são como parasitas que se alimentam do corpo que os hospeda. Sim, não apenas todos os impérios são sempre e inerentemente maus, como tampouco seria difícil demonstrar que as primeiras vítimas do imperialismo são sempre as nações que "hospedam o império", por assim dizer. Ah, sim, claro, chineses e russos desejam que o próprio país seja realmente livre, poderoso e soberano; e compreendem que isso só é possível quando o país conta com forças armadas realmente capazes de conter um ataque, mas nem China nem Rússia tem qualquer interesse em policiar o planeta ou em impor mudança de regime a outros países. A única coisa que China e Rússia realmente querem é salvarem-se, os próprios países, da agressão norte-americana. É isso. Essa nova realidade é especialmente visível no Oriente Médio, onde países como EUA, Israel ou Arábia Saudita (o chamado "Eixo da Gentileza") só tem capacidade militar para massacrar civis ou destruir a infraestrutura dos países, mas não tem suficiente capacidade militar para lançar-se contra as duas reais potências regionais - Irã e Turquia -,porque essas potências regionais têm poder militar moderno e efetivo. Mas o teste crucial e mais revelador foi a tentativa dos EUA para subjugar a Venezuela e forçá-la de volta à submissão. Apesar de todas as ameaças fedendo a enxofre feitas por Washington, todo(s) o(s) "plano(s) (?) de Bolton" para a Venezuela resultaram em muito embaraçoso fracasso. Se a Única "Hiperpotência" do planeta não consegue subjugar nem um país tremendamente enfraquecido e bem ali, no seu quintal, e país que enfrenta crise gravíssima... fica provado que as Forças Armadas dos EUA estão obrigadas a se conformar com só invadir pequenos países como Mônaco, Micronésia e talvez o Vaticano (supondo que a Guarda Suíça resista à tentação de dar uns tiros no traseiro dos representantes da "nação indispensável"). Fato é que um número crescente de países de tamanho médio estão hoje adquirindo gradualmente os meios para resistir a um ataque dos EUA. A pergunta é: em que pé estamos, se já se lê escrito pelos muros que se esgota o tempo do Império Anglo-sionista, e não se vê país à vista para substituir os EUA como hegemon imperial mundial? A resposta é que 1.000 anos de imperialismo europeu estão chegando ao fim! Dessa vez, nem Espanha nem Reino Unido nem Áustria tomarão o lugar dos EUA nem tentarão tornar-se hegemon planetário. De fato, não há nenhuma nação europeia que tenha capacidade militar sequer remotamente capaz de promover ações do tipo "pacificação colonial", indispensáveis para manter colônias em estado de permanente desespero e terror. Os franceses emitiram o último vagido na Argélia; o Reino Unido, nas Falklands; a Espanha não consegue nem recuperar Gibraltar; e a Holanda nem tem Marinha de verdade, da qual valha a pena falar. Quanto a países da Europa central, estão muito ocupados lambendo botas do império agonizante e não lhes resta tempo para cuidar de se converterem em império (ok, talvez com exceção da Polônia, que sonha com algum tipo de Império Polonês entre o Báltico e o Mar Negro. Que sonhem; sonham com isso há séculos, e continuarão a sonhar com isso ainda por muitos outros séculos...). Agora compare as forças armadas europeias e o tipo de forças armadas que os EUA podem encontrar na América Latina ou na Ásia. Há uma suposição tão irrefletida de superioridade na maioria dos anglos, que sequer veem completamente que países de médio e pequeno porte podem desenvolver forças armadas suficientes para tornar impossível uma invasão dos EUA; ou, pelo menos, para tornar qualquer ocupação proibitivamente cara em termos de vidas humanas e dinheiro (ver aquiaqui e aqui). Essa nova realidade também torna quase completamente inútil a típica campanha de mísseis e ataques aéreos dos EUA: destruirão muitos prédios e pontes, converterão as estações de TV locais ("pontos de propaganda", na terminologia imperial) em pilhas gigantes de escombros fumegantes e cadáveres, matam muitos inocentes, mas nem assim obterão algum tipo de mudança de regime. O fato a observar é que se aceitarmos que a guerra seja a continuação da política por outros meios, também temos que admitir, que sob essa definição, as forças armadas dos EUA são totalmente inúteis, pois não conseguem ajudar os EUA a alcançar quaisquer objetivos políticos significativos. Verdade é que, em termos militares e econômicos, o "ocidente" já está derrotado. E não faz qualquer diferença que quem compreende isso não diga, e que os que falam sobre isso (só para negar, é claro) nada compreendam do que está realmente acontecendo. Em teoria, poderíamos imaginar que algum tipo de líder forte chegaria ao poder nos EUA (os outros países ocidentais são totalmente irrelevantes), esmagaria neoconservadores, como Putin esmagou os neoconservadores na Rússia, e evitaria o colapso brutal e repentino do Império. Mas não vai acontecer. Se há coisa que as últimas duas décadas provaram para além de qualquer dúvida razoável é que o sistema imperial é totalmente incapaz de se autorreformar, apesar de gente como Ralph Nader, Dennis Kucinich, Ross Perrot, Ron Paul, Mike Gravel ou, mesmo ,Obama e Trump - todos esses homens que prometeram mudança significativa e que foram realmente impedidos pelo sistema de alcançar qualquer resultado significativo. Implica dizer que o sistema ainda é 100% eficaz, pelo menos dentro dos EUA: os neoconservadores precisaram de menos de 30 dias para esmagar Trump e todas as suas promessas de mudança. E já conseguiu, até agora, que Tulsi Gabbard se curvasse e cedesse à ortodoxia e aos mitos políticos absolutamente obrigatórios dos neoconservadores. Assim sendo, o que acontecerá a seguir? Simplificando: a Ásia substituirá o Mundo Ocidental. Mas - e isso é crucial - desta vez nenhum império aparecerá para substituir o Império Anglo-sionista. Em vez disso, uma coalizão fluida e informal de países principalmente asiáticos oferecerá um modelo econômico e civilizacional alternativo e imensamente atraente para o resto do planeta. Quanto ao Império, ele se dissolverá muito efetivamente; e lentamente se tornará irrelevante. Tanto os americanos como os europeus terão, pela primeira vez na história, de se comportar como pessoas civilizadas. Significa que o seu tal tradicional "modelo de desenvolvimento" (saquear todo o planeta e roubar tudo de todos) terá de ser substituído por outra coisa, alguma espécie de arranjo pelo qual norte-americanos e europeus terão de trabalhar como todos os outros, para acumular riqueza. Essa ideia horrorizará absolutamente as atuais elites dominantes imperiais, mas aposto que será bem recebida pela maioria dos povos, especialmente quando este "novo" modelo (para eles) provar que gera mais paz e prosperidade do que o anterior! De fato, se os neocons não explodirem o planeta num holocausto nuclear, EUA e Europa sobreviverão, mas somente depois de um doloroso período de transição, que pode durar uma década ou mais. Um dos fatores que complicarão imensamente a transição do Império para a situação de país "normal" é profunda influência que tiveram sobre as culturas ocidentais os 1.000 anos de imperialismo, especialmente sobre os EUA já completamente megalomaníacos (a série de conferências do Professor John Marciano, "Empire as a way of life" [Império como modo de vida] discute magnificamente esse tópico - recomendo vivamente!). Um milênio de lavagem cerebral não é coisa que se supere facilmente, especialmente quando já penetrou no nível subconsciente. Finalmente, a reação bastante desagradável que se vê contra o multiculturalismo imposto pelas elites dominantes ocidentais, não é menos patológica, para começar, este o próprio multiculturalismo corrosivo. Refiro-me às novas teorias que "revisitam" a Segunda Guerra Mundial e encontram inspiração em tudo que tenha a ver com o TerceiroReich, incluindo um renascimento das teorias racistas/racialistas. É especialmente ridículo (e ofensivo) quando vem de gente que tenta fazer-se passar cristãos, mas cujos lábios, em vez de orações, só bobagens semelhantes às de 1488. Essas pessoas representam precisamente o tipo de "oposição" que os neoconservadores amam ter pela frente, e que os neoconservadores sempre (e quando digo "sempre" é *sempre* mesmo) acabam derrotando. Esta oposição (que se faz de oposição; de fato, são idiotas úteis) permanecerá forte enquanto permanecer bem financiada (o que ela hoje é). Mas assim que a atual megalomania ("Nós somos a Raça Branca! Nós construímos Atenas e Roma! Nós somos Evropa!!!") cair de cara inevitavelmente no chão, as pessoas recuperação a sanidade e perceberão que o atual estado do ocidente não é coisa que se possa atribuir a algum bode expiatório externo. A triste verdade é que o ocidente fez tudo isso a si mesmo (principalmente por orgulho e arrogância!). As atuais ondas de imigrantes nada são além de 1.000 anos de carma de sofrimento e dor sendo devolvidos para onde tudo começou. Não quero sugerir que as pessoas no Ocidente seriam individualmente responsáveis pelo que está acontecendo agora. O que digo é que todas as pessoas no Ocidente vivem hoje com as consequências de 1.000 anos do mais desenfreado imperialismo. Será difícil, muito difícil, mudar de rumo, mas uma vez que essa é também a única saída viável, é o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Mas ainda assim, há esperança. Se os neoconservadores não explodirem o planeta, e se a humanidade tiver tempo suficiente para estudar a própria história e entender onde enveredou pela trilha errada, então talvez, apenas talvez, haja esperança. Acho que todos podemos encontrar consolo no fato de que por pior, mais feio, estúpido e maligno seja ainda o Império Anglo-sionista, é o último. E não haverá outro império para substituí-lo. Em outras palavras, se sobrevivermos ao império atual (o que absolutamente não é garantido!), então, pelo menos, poderemos afinal, olhar para um planeta sem impérios, feito só de países soberanos.
Entendo que esse é futuro pelo qual vale a pena lutar.
 
[assina] The Saker
 
 
 
 
 

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Economics and Interdisciplinarity: One Step Forward, N Steps Back

face capa rccs 119 small325Economia e interdisciplinaridade: um passo em frente, n passos para trás?
Économie et Interdisciplinarité: un pas en avant, n pas en arrière?
Ben Fine
 
Este artigo procede a uma crítica à inovação impulsionada, desde as décadas finais do século xx, como grande projecto das sociedades. O texto apresenta duas contribuições principais para a elucidação do que está em causa nesse empreendimento. A primeira consiste em sustentar que a orientação para a inovação é uma política económica, de carácter neoliberal, que tem como objectivo o aumento da produtividade e dos lucros, através da anexação da ciência e da tecnologia, e abrindo o caminho aos mercados de novos âmbitos do mundo natural e da vida humana. A segunda é sugerir que o projecto da inovação é uma nova manifestação de historicismo, mais propriamente de historicismo tecno-liberal. O texto conclui com a defesa da necessidade de avaliar as políticas da inovação segundo valores adequados para alcançar fins socialmente equitativos e ecologicamente viáveis.
 
 

Economics Is as Economics Does

  • * Based on a plenary address to the founding conference of the Portuguese Association of Political Ec (...)

1The purpose of this piece is to assess the prospects for political economy, especially in the context of interdisciplinarity. A necessary starting point for making such an assessment is the current state of mainstream economics. I approach this obliquely in the first instance, and anecdotally. I was recently invited to give a lecture at the Institute of German Historical Research in London as part of a series to mark the 200th anniversary of Karl Marx’s birth, May 5th, 1818, and I sought to address the theme of Marx’s continuing influence on contemporary social science. Other talks in the series included politics, sociology, anthropology and history. I explained that the one on economics would necessarily be extremely short as Marx had predominantly been excluded from mainstream economics today, since the mainstream totally dominates the discipline with little room for, let alone tolerance of, alternatives. This is so whether deriving from Marx, other classical authors, or political economy or otherwise more widely. As a result, I offered to give a lecture explaining why this was so, whether this was or was not a sign of health of the dismal science, and what sets economics apart as a social science in being so negligent of Marx (and others), themes to which I will return below.

  • 1  For an account of the “superiority” (if not the arrogance) of economists, see Fourcade et al. (201 (...)

2First, though, let me recall an earlier lecture I gave a few years ago for the Association of Social Economies, in which I suggested that the mainstream is unfit for purpose, focusing on just one of the many dimensions for which this is so, that is, its own heavy ethical content which it seeks to deny as being present in view of its putative scientific/positive content as opposed to normative content (Fine, 2013). In preparing the lecture, I undertook a simple test of the self-confidence of the discipline, comparing it with sociology. In the wake of the 2007/2008 Global Financial Crisis (GFC), I searched the scholarly literature employing the terms “crisis of sociology” and “crisis of economics”. Sociology had a steady stream (if not a torrent) of contributions, numbering in the thousands, persisting over time and suggesting a commendable degree of self-critical examination. Economics, by contrast, barely totalled 100, most of these dating to a debate from the 1930s on Schumpeter. Especially in the wake of the GFC, one has to wonder whether this lack of critical self-examination is a mark of the mainstream’s success or of its failure.1

  • 2  Discussed at length in Fine (2013).
  • 3  The main thrust of what follows is to be found in Milonakis and Fine (2009) and Fine and Milonakis (...)

3This is indicative of one of a number of other features of the mainstream: 1) its absolute self-confidence; 2) its lack or misuse (if not abuse) of the history of economic thought; 3) its lack of engagement with alternatives; 4) its poverty of methodology; 5) its lack of realism; and 6) denial of, and so lack of attention to, normative content and issues.2 As a result, the absence of Marx from the mainstream is not a targeted exception, as much as the same is true of all major figures in the history of economic thought, and, other than opportunistically, most major figures in social science as well. Does this mean that there is no interdisciplinarity with respect to and within mainstream economics? I would suggest not at all, hardly surprising as I have been critically peddling the notion of economics imperialism, the colonisation of the subject matter of other social sciences by economics for twenty years or more now. Let me explore this in detail in order both to specify the nature of contemporary mainstream economics, its approach to interdisciplinarity, and the potential for alternatives.3

Economics Imperialism

4The term economic(s) imperialism dates from the 1930s, but it only really gathers momentum after the Second World War (WWII). From there, it has gone through three phases, ones which I have called the “old”, the “new” and the “newer”. The first phase reflects the Post WWII period, the second corresponds in part to a reaction to the monetarist counter-revolution built upon the first phase (although this second phase had a dynamic and logic of its own), with the current phase just about preceding but intensified by the GFC.

  • 4  Marshall’s Principles was the main microeconomic textbook until the end of the 1930s, laying out a (...)

5Analytically speaking, the logical origins of economics imperialism lie in what I have termed as its historical logic, which will require a bit of a narrative in the history of economic thought to specify. With the Marginalist Revolution of the 1870s, especially through Marshall rather than Jevons, Menger and Walras,4 we receive the key concepts of what I call the Technical Apparatus, TA1, which has remained persistent within mainstream economics to the present day. It is the apparatus attached to utility and production functions and their application to supply and demand through the market. In what was to be termed microeconomics from the 1930s, and as the junior partner to macroeconomics that distinguished itself and became the senior branch given the pressing problems of unemployment, TA1 set itself two major problems. The first refers to the properties of supply and demand functions, given that they derive from optimising individuals, and the second addresses what I call the Technical Architecture, denoted by TA2, which gave rise to the problem of forming the aggregate economy out of those individuals coordinated through the market, otherwise known as general equilibrium, and whether it exists and is unique, stable and Pareto efficient. Forging these two problems, and TA1 and TA2 together and we get what might be designated as TA2.

  • 5  Made explicit by Friedman (1953) in dismissing the need for realism in assumptions, although the s (...)

6The first of these problems was solved in the late 1930s and the second in the 1950s, via what are known, respectively, as the Hicks-Slutsky-Samuelson conditions and by Arrow and Debreu for General Equilibrium. I am less concerned with the solutions than with the process and context by and within which they occurred. I call the process an implosion – for it involved making whatever assumptions are necessary to be able to derive meaningful results, assumptions such as fixed individuals, preferences, endowments, technologies, single motivation, fixed goods, etc., even technical assumptions within its own frame such as no externalities, increasing returns, concavities and imperfect competition. These are the origins of the mainstream’s deviation from whatever we mean by realism since, whatever the extent of use of empirical information in econometrics or otherwise, it is theoretically embedded in assumptions that suit the theory rather than the evidence.5 Theoretically, we do whatever is necessary to get what we want. Indeed, this actually sets a standard method within the discipline: make whatever assumptions (and exclusions) we need for our purposes and reality will have to fit, giving rise to all sorts of problems, even on its own terms, as a result of what are known as aggregation problems, the theory of the second best, the Cambridge critique of capital theory, and so on. This is indicative of a myth that the mainstream purveys of itself, that it is first and foremost committed to mathematical rigour. This may be so in obtaining mathematical results themselves if by virtue of mathematical reasoning alone. But such rigour derived from the mathematics is far from being carried over when observing the implications of mathematical reasoning, which asserts that most standard assumptions and results are implausible (as with existence, uniqueness, efficiency and stability of general equilibrium, for example).

7So much for the process by which these results were derived with corresponding implications for the content of economic theory that was to become standardised, natural to economists if totally unnatural in relation to realism. The context in the interwar period within which such TA2 microeconomics emerged and began to flourish was one in which it did so alongside the increasingly prominent and more significant macroeconomics and what we now call the old or, more recently, the original institutional economics, both to distinguish it from the new and to indicate that it remains relevant, respectively. The latter had, and increasingly, covered a wide range of what became more generally dubbed as applied economics, reflecting inductive, practical fields with mixed methods suitable to the subject matter at hand (public economics, labour economics, business cycles, technical change, and so on). This was very strong at the time in the United States and, alongside economic history, comprised core components of teaching and research, concerning itself with unavoidably contemporary developments for those who cared to see them, not least with the rise of large corporations, labour movements, technical change, consumerism and short- and long-term business cycles. These traditions survived into the post-war period but were subject to erosion and even marginalisation as such, if not immediately and only gradually.

  • 6  For discussion of the mathematization of economics, see Milonakis (2017).

8When I began studying economics in the late 1960s, such subjects were still a core part of the curriculum but had already begun to be subject to accelerating capture in light of, and as raw material for, the internal colonisation of the discipline by microeconomics and its more limited methods (see below). Further, the so-called formalist revolution of the 1950s, which began the heavy mathematisation of the discipline,6 adopting the methods of the newly-established microeconomics, heavily consolidated the division between economics and the other social sciences (with its wider range of methods and conceptualisations including that of the economy).

  • 7  This is made clear by Robbins (1935 [1932]) defining economics ahistorically and asocially as the (...)

9So, with the two basic microeconomic problems set and solved on their own terms, microeconomics and its core TA2 were established at the heart of at least one major field within the discipline. I can now specify the historical logic of economics imperialism, for, historically, TA2 was derived out of addressing the problem of the consequences for supply and demand in the context of an entirely idealised and isolated market system. What are the (formally-derived) implications for supply and demand curves arising out of one part of individual economic behaviour in the context of a disembedded market? But, remarkably, and logically, the core concepts that were deployed (self-interest, inputs and outputs, efficiency, equilibrium and optimisation) depended purely upon universal, general, asocial, ahistorical (use whatever terms you wish) concepts with no relation to the market as such – specifically utility and production functions and the mathematical formulations associated with them. Hence, this gave rise to a tension of historical confinement to the market at one extreme, reflecting the origins of TA2 and a logic of universal, not market-confined conceptualisations and potential application, at the other.7 As a result, there was potential to move in the direction of greater scope of application of TA2, to apply supply and demand as it were beyond the market, according to whatever took the economists’ fancy and to whatever extent it would be accepted by fellow economists or even those from other disciplines. Against the historical origins of TA2, the logic pushed towards using its methods and tools to expand its application. The implosion to establish the TA2, and its subsequent implications, was to be thrown into reverse, slowly and surely at first but, as will be seen, in an increasingly explosive manner, as it gathered momentum.

10This, then, gave rise to the first phase of economics imperialism, a reflection of this historical logic, with the most notable exponent being Gary Becker. What characterises this first phase, the old economics imperialism, is that it seeks to apply TA2 not only to its initiating problem of the implications of individual optimising behaviour in a market context (supply and demand) but across other economic and social problems, in principle without limit. It comes to treat the non-market, the social, as if a market were present, as if family members trade with one another, for example, or criminal activity is simply a matter of potential rewards set against potential punishment at the margin. Initially, the most prominent applications were to be found with human capital theory (treat skills and learning and their application as if a fixed asset), the new economic history (or cliometrics, which treats the past as if models of supply and demand) and public choice theory (politics as markets). But in the context of the post-war boom and the intellectual triumph of Keynesianism, microeconomics remained subservient to macroeconomics (in the form of IS/LM), and there remained some continuing strength of applied economics, as well as respect for, possibly intellectual intimidation by, disciplinary boundaries.

11But the stagflation of the 1970s gave rise to the monetarist counterrevolution most closely associated with Milton Friedman. Yet, ultimately, and equally and intellectually much more important or wide-ranging, something else was gathering momentum, possibly less likely to be recognised because of the dramatic demise of the previously hegemonic Keynesianism both as a field of macroeconomic scholarship and as a rationale for much more wide-ranging interventionism. For, generally, the monetarist counter-revolution also signalled a watershed for the reversal of the macroeconomic/microeconomic hierarchy within the discipline. In turn, it was associated with two effects of importance for our narrative. First, the applied fields became subject to “theory”, i.e. microeconomics, and became squeezed out as alternatives, most notably in the appropriately dubbed new development economics and the Washington Consensus, examples of the first phase of economics imperialism (treat everything as if, and to be made into, perfectly working markets) par excellence. This signified the extent to which economics imperialism was internally colonising the discipline of economics, not least macroeconomics itself, with its reduction to microeconomics. With the New Classical Economics (NCE), and the emergence of rational expectations, representative individuals, and so on, macroeconomics was increasingly driven to the extremes of microeconomics, and assumptions to suit the theory rather than the subject matter.

  • 8  By which we mean, here and elsewhere, the hegemonic IS/LM framework of the Keynesian period, as op (...)
  • 9  For Blanchard (2008: 1; italics added), erstwhile Chief Economist at the International Monetary Fu (...)
  • 10  Thus, as opposed to stochastic risk, “in cases of uncertainty economic reasoning will be of no val (...)

12Second, and subsequently, there came the restoration of (hydraulic) Keynesianism8 through asymmetric information, market imperfection economics, consolidating (rather than breaking with) the reliance upon microeconomics, and many of the extreme assumptions attached to the NCE, such as rational expectations, representative individuals, and reduction of finance to the supply of and demand for money. In time, the New Consensus Macroeconomics emerged, and rose to hegemony until it was rudely shattered by the GFC, exposing even for its exponents how impoverished macroeconomics had become in content and scope.9 With real business cycles, and technical change treated as random shocks, the NCE was macro treated as micro, and not only taken to extremes but also in extreme ways. Lucas (2003) famously declares that micro has the prospect of making macro superfluous, possibly by defining as economics only what can be done by microeconomics.10

  • 11  Thus, for the neoclassical Keynesian, Solow, extreme distaste for the NCE is expressed and widely (...)

13Inevitably, there were (orthodox) Keynesian reactions against such extremes, although they are striking for incorporating rather than rejecting much of the initiatives attached to NCE (especially in terms of continuing reliance upon microeconomics and rational expectations if not perfectly working markets and completely ineffective state intervention).11 Such were the market imperfection foundations for what was to give rise to the second phase, the new, economics imperialism. Unlike the old economics imperialism, which treated the non-market as if market (the choice between apples and pears is exactly the same as between war and peace, for public choice Nobel prize-winner James Buchanan), the new economics imperialism treats non-market as if it were a response to market imperfections. So, for example, the family, the state, institutions, customs and culture are all to be explained as the response to the failure of the market to work perfectly. As a result, non-market relations emerge, if still on the basis of optimising behaviour. These have the potential either to improve equilibrium outcomes or even to worsen them (as would be argued by those who believe in market perfections where interventions to improve upon the market merely make it work worse).

  • 12  Also space was found for game theory and its application to behavioural economics (strategising to (...)

14This held out the prospect of a more widespread and palatable economics imperialism from the perspective of other social sciences, in light of not reducing everything to be market-like, thereby giving rise to a whole range of “new” or renewed fields for the mainstream – such as the new economic sociology, the new welfare economics, the new institutional economics, the revitalisation of the new economic history (led by Douglas North with the startling claim that institutions matter), the new growth theory, and the shift from new to “newer” development economics (and from Washington to post-Washington Consensus).12 This is all reflected in what can be termed a “bringing back in”, or BBI syndrome. This is paradoxical, even perverse, since given that the TA2could only be established by omitting legions of considerations in order to be able to establish core results, that apparatus was now to be more broadly applied, precisely in order to address those considerations upon which its legitimacy depended on them being absented.

15As is well-known, the emblematic example of the new market imperfections economics is Akerlof’s market for second-hand cars considered to be lemons. Asymmetric information between buyers and sellers means the market is inefficient. Those wishing to get together to exchange a superior (inferior) car at higher (lower) price cannot do so since such cars are indistinguishable from one another and so must sell at the same price. Higher quality cars may be excluded from the market at too low a price, and lower quality cars crowd in at price higher than value. This is inefficient as such but it is also possible that there will be excess supply (demand) if prices settle high (low) or absence of markets altogether if no one trusts quality sufficiently. But this has nothing to do with second-hand cars in particular. The same could happen in any market. Concerned dealers might group together and offer a warranty scheme, a non-market, collective solution. By the same token, this is the embryonic form of the state, culture, habit, institutions, etc. Microeconomic market imperfections are enabled to explain the non-market as responses to those imperfections.

16So, microeconomics and market imperfections allow more or less any economic and social variable to be incorporated on the basis of optimising individuals. This potential inclusion of variables as a response to market imperfection holds the key to the current, newer phase of economics imperialism, emerging prior to but accelerated by the GFC. This phase is characterised, relative to the market imperfections phase, by what I call “suspension”. The BBI could only become increasingly significant once TA2 was so strongly and unquestioningly deployed that it could be done so without being threatened by confrontation, combination even, with inconsistent assumptions or conceptualisations around what has been left out. Most notable, for example, is bounded rationality, and behavioural economics more generally, and game theory (treated with suspicion as TA2 was being consolidated because of its behavioural interdependencies). But the BBI associated with the new phase of economics imperialism is akin to an original sin, motivating the inclusion of any variable as subject to optimisation. But, by the same token, once these variables have been introduced on this basis, it is a simple step to continue to use them on whatever basis is chosen without necessarily relying completely and exclusively on optimising behaviour alone.

  • 13  There are also claims not only of understanding the world as deriving from markets, working perfec (...)

17As a result, the exclusive preoccupation with optimisation can be suspended, but it is not discarded. It might be combined with other motivations and constraints other than the market. Even where optimisation (especially as utility maximisation) is abandoned altogether, there is a tendency for it to remain present in the form of what individuals would do if they or the world in which they live were perfect. Such suspension enriches the scale and scope of BBI, allowing for mixed theories in the formulation of the loosest of models – throw in variables and estimate, dovetailing with increasing presence of econometrics which allows a corresponding shift in meaning of model from theory to an equation or six. The world becomes a Cobb-Douglas function, or CES (constant elasticity of substitution) if you can manage it, most notably in empirical applications of the new, endogenous growth theory. And, with suspension, the mainstream economist can claim no longer to be neoclassical, to have become more realistic, and even to be interdisciplinary and heterodox in departing from what has gone before – although the reality is that the methods, theories and conceptualisations of the latest phase of economics imperialism remain negligent of, and hostile to, those of other disciplines and heterodoxy especially regarding the analysis of the systemic, power, conflict, class and so on that take suspension too far from core dependence upon TA2.13

Acknowledging the Strengths, Exposing and Exploiting the Weaknesses

18In short, economics and economics imperialism in its latest phase of suspension is so powerful and confident in its core, TA2, that it is able to breach it at will in extending itself to ever more areas of application. In a sense, it is fake news within the realm of academia. It also projects itself from an extraordinarily powerful position of institutional, Americanised strength, over training of PhDs, control of journals, command of Nobel Prizes, and so on.

19But, equally, matching the overwhelming and even increasing institutional hold of the mainstream over the discipline, there are striking and increasingly overt intellectual weaknesses. The first and most stunningly obvious one is incapacity relative to the GFC: the inability to explain, even after the event, how it could have happened. Second is the lack of a coherent world vision – whether Ricardian, Keynesian or even monetarist – which commands general support despite the unanimity on unquestioned methods, centred on, even if suspended from, TA2. Third is the inability of economics to explain the economy, the need to draw upon other social sciences and variables to do so, an implicit acceptance that economics as such is unfit for the economy without supplementation from the non-economic and the other social sciences. Fourth, once the mainstream trespasses onto other disciplines, outside its extreme methods, conceptualisations and assumptions, it exposes itself to critical alternatives drawn from the other social sciences. Fifth, the systemic and interpretative aspects of the other social sciences and the humanities are the least amenable to economics imperialism although weak assaults are and can be made; mainstream economics is extremely uncomfortable with the non-individualistic or what can be derived from it, not least with respect to issues of power and conflict, and equally ill at ease with the critical examination of the meaning and reconstruction of concepts and their normative content.

  • 14  See Dymski (2015) although, unsurprisingly, diluted understandings of financialisation have begun (...)

20The most recent and obvious example of most of these weaknesses is provided by the concept of financialisation. This has exploded across the social sciences over the last decade but it has as yet had no presence at all within the mainstream,14 with the presumption that all that has happened in the intervening period can be sufficiently addressed through the suspensions previously suggested, broader behavioural assumptions in particular to the fore. But, whilst understandably prominent as a deficiency of the mainstream, brought to light by the GFC, this is merely the tip of the iceberg of a legion of deficiencies driven even by a suspended methodological individualism: how we deal with innovation, distribution, monopolisation, globalisation, neoliberalisation, the exercise of power, conflicts, their meanings, contextualisation and determinants.

21This allows for a more positive turn in our account, especially where interdisciplinarity is concerned and through which mainstream economics is exposed by the mainstream let alone radical social science. For it is precisely with its narrow and reduced conceptualisation of the economy that mainstream economics’ weaknesses have their other worldly mirror images in other social sciences. Nor is this merely a matter of logic and differences in interdisciplinary boundaries and inner content. Following a period of postmodernism, without ever fully discarding its fecund successors (varieties of post- this and that -isms) over the past twenty years, the social sciences have taken a more material or realist turn, as reflected in the treatments of neoliberalism and globalisation and, as already mentioned, financialisation. Attention has turned to how these developments with respect to neoliberalism, globalisation and, increasingly, financialisation, have affected everything from systemic functioning to our daily lives of situated individuals as opposed to those defined by exogenously given utility functions.

22The result has been a blossoming of political economy across the social sciences and a sort of Cold War between it and mainstream economics, in which limited serious engagements take place other than in the unfulfilled demands of students for the Rethinking of Economics and its more pluralistic teaching. This is why the formation of Political Economy associations are so important in bringing together critiques of the mainstream, its putative interdisciplinarity, and its intolerance of alternatives. This has underpinned my own intellectual motivation in part for a number of decades, not least in how to sustain and to reproduce traditions and knowledges of alternatives, with critical knowledge of (and to be turned against) the increasingly intolerant monopoly of the mainstream.

23Rhetorically speaking, where does this leave political economy and interdisciplinarity strategically, given the huge scope for analytical criticism? It is not, then, especially through “suspension”, to be underestimated how much the mainstream is capable of striking back by making minimal concessions through economics imperialism itself, as if such developments were capable of negating all criticisms from pluralist perspectives. There is thus the need for continuing to expose and critique the mainstream, even if doing so is arduous and unrewarding in certain respects. Also, as reflected in the movement for a pluralist economics, one must be mindful that there is considerable potential for both unity and division despite what might otherwise appear to be a common purpose. Across almost all criteria, mainstream economics is methodologically, conceptually, theoretically, by its standard assumptions even, positioned at far extremes from the standard perspectives of other social sciences let alone political economy. Accordingly, there is so much to criticise from so many different standpoints that often the only thing critiques need to have in common is the multiplicity of (and not necessarily shared) ways of disagreeing with the mainstream, whether minimally or as outright rejection. With the latest phase of economics imperialism as suspension, we are all pluralists now – although it is commonplace to find that mainstream economists accept pluralism in principle (or as a strategic response to what is perceived to be uninformed grumbles) whilst the practice is to reject alternatives as unscientific by some unspecified criterion (generally lack of mathematical modelling around TA2, suspended or otherwise).

24In short, with suspension, we are all pluralists now although some are far more pluralist than others. To some degree, this situation plays into the hands of the latest phase of economics imperialism in a number of ways. First, it can selectively plunder heterodox economics in a marginal way, just as previously it has plundered social sciences, for variables to include in its (suspended) deployment of TA2. Second, this allows for what might be termed mainstream heterodoxy as a defence of the discipline – consider that we are responding to criticism, we are becoming more realistic, we are interacting with other social sciences. Third, this gives rise to claims that, far from perpetrating economics imperialism, economics is becoming more rounded, and even subject to, a reverse imperialism (as if the adoption of Indian cuisine in the United Kingdom, takeaways in particular, at the expense of fish and chips, is evidence of historical reversal of British imperialism).

  • 15  For my own critique and more general debate over Lawson’s stance, see Fine (2016b) and Morgan (201 (...)

25In this light, vigorous debate on whether the current nature of the mainstream and its relationship with other social sciences is vital to situating and promoting alternatives. And there is such debate, on which considerable disagreements have arisen. An example of this is how Tony Lawson, the leading exponent of Critical Realism in Economics (CRE) has argued that neoclassical economics does not exist or, at the very least, is a misleading term insofar as it does not have a common theoretical and conceptual core and certainly does not continue the traditions nor renew classical (political) economy. However, I would suggest that a trip to any number of lecture rooms, textbooks or journals, let alone economics departments, would indicate otherwise at least as far as core analytical content is concerned.15 For Lawson, mainstream economics is defined by its deterministic, deductive methodology as opposed to substantive theory, and this is reflected in its increasing reliance upon mathematical modelling. A different if, to some degree, consistent interpretation is offered by Colander (2010) in which he sees neoclassical economics as disintegrating from outside, as new methods and factors are brought to bear, drawn for example from other social sciences (i.e. reverse imperialism and more). As is apparent, I disagree with both of these interpretations and can explain why they might be termed a real illusion. In the case of mathematics (and econometrics) the discipline relies upon the false presumption that it is emulating some invented notion of the methods of the natural sciences. But, as I have sought to emphasise, alongside increasing mathematisation, there remains a core analytical content around TA2 even if suspended in the latest phase of economics imperialism. And the idea that this represents the disintegration of the mainstream from without is contradicted by the simple observation that, as the mainstream has expanded its scope and methods, it has become even more (and not less) tolerant of alternatives beyond what are very narrow boundaries. Indeed, put the issue of the disintegration of the mainstream before any heterodox economist seeking a job or student seeking a course of political economy or history of economic thought, economic methodology, etc. Instead, as I have argued, at the heart of mainstream economics lies TA2 even though it is now embedded in suspension, giving the appearance of no such thing as neoclassical economics (Lawson) and disintegration from outside (Colander).

  • 16  Interestingly, Hodgson (2018) strongly supports the idea that TA2 remains paramount, at least thro (...)
  • 17  For a spirited critique of Colander, and especially that heterodoxy does not have anything to offe (...)

26Such different takes on the nature of the mainstream, and its interdisciplinarity, have significant implications on how to situate opposition and alternatives. For Lawson, the main line of attack is through social ontology where the mainstream is admittedly weak but not debilitatingly so. Tellingly, the mainstream has primarily and studiously ignored, even dismissed, methodological issues for decades. Whatever the intellectual merits of Lawson’s approach – and they are considerable – there must be doubts over its impact in persuading those within the mainstream to abandon it, and whether they might be better drawn to do so by questioning many of its extreme characteristics apart from those derived from its impoverished and ill-considered methodology. In short, CRE is just one amongst any number of avenues for critical assessment of the mainstream and for posing alternatives.16 And contra Colander, the idea that the mainstream will disintegrate from the outside through concerted but compliant contribution from heterodoxy is far-fetched.17

  • 18  Consider, for example, how many departments of economics would join an association of pluralist ec (...)

27Nonetheless, my own inclination is unambiguously to lean towards being tolerant of all of the forms of heterodoxy, whilst engaging in vigorous and critical debate over alternatives, mindful of the extent to which the monopoly of the discipline of economics by the mainstream renders any opposition extremely difficult, fragile and to be welcomed and nourished. Nonetheless, there is much to be said both for intellectual integrity – saying how it is as opposed to what is acceptable to the mainstream – and never forgetting that pluralism is a stance of equal voice in very unequal circumstances, given the mainstream’s dominance.18 But in the realm of scholarship, at least in principle, it is the power of ideas and arguments that should prevail, and we have superior weapons across methodology, realism and interdisciplinarity especially as the mainstream exposes its weaknesses through economics imperialism. So, whilst we must be aware of the dangers of intellectual opportunism parading itself as strategic compromise, in the realm of ideas, intellectual integrity should take pride of place, alongside tolerance of its blooming wherever and however it can.

28As a result, those engaged in heterodox, pluralist and/or interdisciplinary political economy should not underestimate the challenges they face from a hostile and dominant mainstream. But opportunities will open and close, possibly within economics itself (in response to student demands for example) as well as within other disciplines. In the United Kingdom for example, political economy is strong within business and management schools for peculiar reasons: that it is interdisciplinary and successful (students think it gets them a job), that it corresponds to financial and hence intellectual independence and has some attachment to the real world (of business or otherwise), or that it represents an institutional strength of heterodoxy (Critical Management Studies), and a history of restructuring many disciplines under a single umbrella, at times under the leadership of radical academics from the 1960s as they attain institutional seniority. More generally, and more important, the turn against postmodernism (where it is not being reinvented) and towards the real in light of the privations of neoliberalism, and the stark realities of the GFC and its consequences, have meant that political economy has been centrally located in many disciplines and topics across the social sciences.

29Different countries will have different disciplinary trajectories and contexts although the overall trend everywhere has been for the reduction and marginalisation of political economy even where it might previously have been both strong and vibrant. At an individual level, as opportunities equally open and close, compromises are needed with respect to publications and teaching, and these should be tolerated whilst advocating for progress towards alternatives to the mainstream. Such developments are that much stronger and secure the more they are linked to, and supported by, associations of political economy, these in turn committed not only to the critique of the mainstream but also to interdisciplinarity. Having played a role in founding the International Initiative for Promoting Political Economy – IIPPE (http://iippe.org/​) a decade ago, and now serving as its Chair, I have been delighted that it has been able to engage with similar organisations, not least the Association française d’économie politique – AFEP (http://assoeconomiepolitique.org/), the Turkish Social Sciences Association – TSSA (http://tsbd.org.tr/​), and the Brazilian association Sociedade Brasileira de Economia Política – SEP (http://sep.org.br). IIPPE has held joint conferences with AFEP (another in 2019), and TSSA, and has longstanding relations with SEP. The same will apply to the newly-formed Rethinking Economics for Africa – REFA (http://www.rethinkeconomics.org/​re-group/​rethinking-economics-africa-wits/​) which has just held its founding conference. IIPPE held its 2016 Conference in Lisbon and a future joint conference surely represents a promising step for promoting political economy both within and across national and disciplinary borders.

 

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Notas

* Based on a plenary address to the founding conference of the Portuguese Association of Political Economy, held at Lisbon, ISCTE‑IUL, 25‑27 January 2018. Thanks to journal editors and referees for most helpful comments and suggestions.

1  For an account of the “superiority” (if not the arrogance) of economists, see Fourcade et al. (2015).

2  Discussed at length in Fine (2013).

3  The main thrust of what follows is to be found in Milonakis and Fine (2009) and Fine and Milonakis (2009) but for some more recent material and reflections around other themes, see my other later contributions (Fine, 2010, 2011, 2016a, 2016b, 2016c, 2017a, 2017b and 2018; Fine and Dimakou, 2016; Fine and Milonakis, 2011), where extensive references to, and discussion of, the broader literature can be found.

4  Marshall’s Principles was the main microeconomic textbook until the end of the 1930s, laying out and applying the technical apparatus. General equilibrium, despite preoccupying Walras, only drew concerted attention from the mid‑1930s (Marshall, 1959 [1890]).

5  Made explicit by Friedman (1953) in dismissing the need for realism in assumptions, although the so‑called F‑twist rejected as such by Samuelson (1963).

6  For discussion of the mathematization of economics, see Milonakis (2017).

7  This is made clear by Robbins (1935 [1932]) defining economics ahistorically and asocially as the allocation of scarce resources to competing ends.

8  By which we mean, here and elsewhere, the hegemonic IS/LM framework of the Keynesian period, as opposed to the many varieties of Keynesianism that have both co‑existed with and succeeded it.

9  For Blanchard (2008: 1; italics added), erstwhile Chief Economist at the International Monetary Fund: “For a long while after the explosion of macroeconomics in the 1970s, the field looked like a battlefield. Over time however, largely because facts do not go away, a largely shared vision both of fluctuations and of methodology has emerged. Not everything is fine. Like all revolutions, this one has come with the destruction of some knowledge, and suffers from extremism and herding. None of this deadly however (sic). The state of macro is good”. Subsequently, five mea culpas were confessed in explaining how the state of macro was no longer good, that: low inflation should be a primary target of policy; this could be achieved through the single instrument of the interest rate; fiscal policy was of limited significance; financial regulation was not a macroeconomic matter; and, with the Great Moderation, continued stability was more or less guaranteed (Blanchard et al., 2010).

10  Thus, as opposed to stochastic risk, “in cases of uncertainty economic reasoning will be of no value” (Lucas 1981: 224).

11  Thus, for the neoclassical Keynesian, Solow, extreme distaste for the NCE is expressed and widely cited as follows: “Suppose someone sits down where you are sitting right now and announces to me that he is Napoleon Bonaparte. The last thing I want to do with him is to get involved in a technical discussion on cavalry tactics at the Battle of Austerlitz. If I do that, I’m getting tacitly drawn into the game that he is Napoleon Bonaparte” (Solow inKlamer, 1984: 146). But his own promotion of the economy as a single production function, and treatment of technical change as a residual in the 1950s is no less extreme and, indeed, facilitated further the macro as micro extremes of what was to follow, however much unpalatable to him as a Keynesian.

12  Also space was found for game theory and its application to behavioural economics (strategising to optimise rather than allowing for other behavioural motivations in the first instance).

13  There are also claims not only of understanding the world as deriving from markets, working perfectly or otherwise, but also of capacity to create better‑performing markets through appropriate design and regulation of markets and behaviour. Here, there are affinities with the performativity thesis (for example, the role of Black‑Scholes in creating financial markets) but see Fine (2016d) for a critique.

14  See Dymski (2015) although, unsurprisingly, diluted understandings of financialisation have begun to appear within mainstream literature.

15  For my own critique and more general debate over Lawson’s stance, see Fine (2016b) and Morgan (2016), respectively.

16  Interestingly, Hodgson (2018) strongly supports the idea that TA2 remains paramount, at least through dependence upon utility maximisation if, ironically, he ignores the role of production functions. He puts this down to the inability to falsify the U max hypothesis empirically. He argues that reference to ethics and broader individual motivation may be the most effective strategy in displacing the mainstream. However, this overlooks the extent to which the mainstream remains committed to its core even where it can be falsified, not least the Cambridge Critique of Capital Theory in which he has himself somewhat previously made a telling contribution in pointing to neglect of its implications (Hodgson, 1997).

17  For a spirited critique of Colander, and especially that heterodoxy does not have anything to offer other than critique, see Lee (2013).

18  Consider, for example, how many departments of economics would join an association of pluralist economics.

 

Referência do documento impresso

Ben Fine, « Economics and Interdisciplinarity: One Step Forward, N Steps Back? », Revista Crítica de Ciências Sociais, 119 | 2019, 131-148.

Referência eletrónica

Ben Fine, « Economics and Interdisciplinarity: One Step Forward, N Steps Back? », Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 119 | 2019, colocado online no dia 06 agosto 2019, criado a 09 agosto 2019. URL : http://journals.openedition.org/rccs/9230 ; DOI : 10.4000/rccs.9230

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Autor/a

Ben Fine

Emeritus Professor of Economics at SOAS, University of London |
Visiting Professor, Wits School of Governance, University of the Witwatersrand
Thornhaugh Street, Russell Square, London WC1H 0XG, United Kingdom
bf@soas.ac.uk
orcid: https://orcid.org/0000-0002-4301-0730

 

Economia política para trabalhadores

– Resenha do livro de Sofia Manzano

por Edmilson Costa [*]

As últimas três décadas foram marcadas pela hegemonia do pensamento único em todas as esferas da vida social, especialmente na área da economia. Retornou-se nesse período a um estatuto teórico do século XVIII fantasiado de modernidade, como o mercado regulador das atividades econômicas, sociais e políticas da humanidade, a retirada do Estado da economia, a desregulamentação financeira e das leis de proteção social, as privatizações do patrimônio público e o estímulo permanente a um individualismo doentio na sociedade.

Esses mitos neoliberais, estimulados diariamente pelos meios de comunicações a serviço do capital, fincaram raízes profundas em vastos setores da população, inclusive entre os trabalhadores. A televisão, o rádio e os jornais transformaram-se em porta-vozes dos segmentos mais reacionários do capital, enquanto os pós-modernos passaram a hegemonizar vários setores da universidade.

Especialmente nos cursos de economia, os currículos foram alternados para se adaptar à nova ordem. Formaram-se assim duas gerações sem oportunidades de conviver com outras teorias econômicas, pois qualquer tentativa de questionar o pensamento único era imediatamente desqualificada e retirada de cena.

No entanto, como sempre acontece historicamente, a realidade da vida termina se impondo na conjuntura. E foi exatamente isso que ocorreu com a crise sistêmica que emergiu em 2008. Quando menos o grande capital esperava, a crise roubou-lhe os fundamentos e, como num passe de mágica, todos os mitos construídos nestas três décadas neoliberais foram se desmoralizando como um castelo de cartas. Em desespero, o capital financeiro foi obrigado a pedir socorro ao Estado que tanto procurou espezinhá-lo por mais de 30 anos. O mito do mercado como regulador das atividades econômicas e sociais esfacelou-se, a eficiência da iniciativa privada, que justificava as privatizações, também evaporou-se. A crise deixou o rei inteiramente nu!

Nesse contexto em que o velho ainda não morreu e o novo ainda não teve condições de se impor é que tem grande importância o lançamento do livro "Economia Política para Trabalhadores", da professora Sofia Manzano. Trata-se de um trabalho introdutório sobre a economia política, mas bem justificado teoricamente. O livro utiliza de vastas passagens dos clássicos num diálogo que procura aproximar os principais pensadores das ciências sociais com todos aqueles que estão se iniciando na leitura da economia. Além disso, as longas citações dos clássicos evitam as construções manualísticas tão comum em trabalhos desse tipo.

Com esta publicação, o Instituto Caio Prado Jr. (ICP) não apenas dá continuidade à publicação dos [seus] Cadernos (este é o de número 2), como também contribui de maneira efetiva para a construção contra-hegemônica num campo em que há poucas publicações progressista, como é o caso da economia. Com este trabalho, os leitores também têm oportunidade de conhecer os intrincados caminhos tanto da construção histórica do capitalismo como das principais variáveis da política econômica praticada na atualidade.

O livro está dividido em cinco capítulos, todos integrados, que possibilitam uma compreensão do estado da arte da economia contemporânea. O primeiro capítulo faz um relato histórico sobre o desenvolvimento do processo de produção, desde as sociedades primitivas, envolvendo uma abordagem sobre a divisão social do trabalho, o processo de troca e a formação do excedente, a questão do valor, da moeda, bem como o processo em que o dinheiro se transforma em capital para gerar a acumulação do capital.

O capítulo dois traça uma trajetória do desenvolvimento capitalista, desde o processo de transição do feudalismo, passando pela acumulação primitiva, o papel dos regimes absolutistas, a centralização do Estado na figura do rei, a unificação jurídica, tributária e monetária e a relação dessa nova conjuntura com os interesses da burguesia nascente. Um aspecto interessante é o fato de que, ao contrário do que dizem os escribas do capitalismo, que procuram embelezar a história e desenvolvimento desse modo de produção, o livro relata, baseado nos clássicos, as barbaridades, a pilhagem e a violência realizadas contra os camponeses e trabalhadores em geral para a consolidação da burguesia. Pode-se constatar também que o processo de assalariamento foi realizado a ferro e fogo, com a burguesia obrigando os trabalhadores a trabalhar sob pena do açoite. Desprovidos dos meios de produção, expulsos de suas terras e passando a vagar pelas cidades, os trabalhadores não tinham outra opção a não ser vender sua força de trabalho para ganhar a sobrevivência, numa jornada de trabalho que não raro se estendia por mais de 16/17 horas, com os trabalhadores tendo que comer ao pé da máquina. Não é nada idílica a história do capitalismo.

O capítulo três vai analisar o capitalismo contemporâneo, não sem antes explicar a transição do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista. O livro analisa a importância das descobertas tecnológicas como fator importante para a formação das grandes empresas, bem como o processo de concentração e centralização do capital e a formação da sociedade por ações, fator fundamental para aglutinar capitais e dar um salto de qualidade no desenvolvimento do capitalismo.

Essa nova fase do capitalismo, que os clássicos denominaram de imperialismo, é objeto de cuidadosa análise, onde se demonstra que a formação dos monopólios é um processo natural do capitalismo, em função da concentração e centralização do capital. O livro analisa, ainda, os elementos constitutivos que levam às crises no capitalismo, ressaltando que, quando mais esse modo de produção se desenvolve, mais entra em contradição com as bases estreitas do consumo, o que faz a crise ser uma companheira inseparável deste modo de produção.

A autora avalia ainda que o capitalismo, em função da concorrência acirrada entre os monopólios, tende a levar a uma queda da taxa de lucro, em função da composição orgânica do capital, que é a relação existente entre o capital constante e o capital variável: "A queda da taxa de lucro é, portanto, resultado, em última instância, da tendência à substituição do "trabalho vivo" (trabalhadores) pelo trabalho morto (máquinas, equipamentos), fazendo reduzir a fonte de mais-valia, o que acaba por originar uma super-acumulação de capital e de mercadorias, ao mesmo tempo em que promove uma restrição na capacidade de consumo da sociedade, por causa do desemprego que desencadeia".

O livro trata ainda da questão do capitalismo do pós-guerra, período em que a burguesia sai enfraquecida dos conflitos e os trabalhadores emergem com grande força, pelo fato de que foram os principais baluartes da luta contra o nazi-fascismo. Essa conjuntura, aliada ao fato de que a União Soviética também saiu da Segunda Guerra com enorme prestígio, em função de ter sido a principal força para a derrota do nazismo, vai explicar porque os trabalhadores tiveram condições de impor ao capital uma série de direitos e garantias, constituindo-se aquilo que ficou conhecido como Estado do Bem Estar Social.

Ainda neste capítulo o livro aborda um conjunto de crises mais recentes do capitalismo, desde a crise na Bolsa de Valores em 1987, passando pela crise asiática, crise da Rússia, Brasil, Argentina até desembocar na crise sistêmica global, que já dura cerca de seis anos: "A crise econômica atual se alastrou rapidamente por todo o sistema capitalista e todos os países do mundo, pois como o capitalismo está globalizado, seja no comércio de bens e serviços, nas cadeias produtivas, no caráter mundial das grandes empresas ou na movimentação financeira, a crise atinge simultaneamente o centro do sistema, ou seja, Estados Unidos Europa e Japão, assim como os demais países como China Rússia, Índia e Brasil".

Como em todas as crises, o capital procura jogar todo o ônus na conta dos trabalhadores, fazendo uma espécie de socialização dos prejuízos e colocando o Estado mais abertamente a serviço do capital para sair da crise: "Nesse quadro, aprofunda-se a ofensiva contra os salários, direitos e garantias dos trabalhadores, assim como ganham maior expressão posturas direitistas e fascistizantes em favor de modelos autoritários de exercício de poder", o que já vem acontecendo em vários países da Europa.

Nos capítulos quatro e cinco a autora trata do funcionamento do sistema econômico, dos mercados capitalistas, bem como da política econômica desenvolvida nos vários países atualmente. Elaborado de forma didática, esses dois capítulos abordam o mercado da terra, o mercado de trabalho, o mercado de capitais, o sistema financeiro, bem como um conjunto de variáveis macroeconômicas como o Produto Interno Bruto, o balanço de pagamentos e as políticas econômicas práticas desenvolvidas no capitalismo atual.

Dessa forma, "Economia Política para Trabalhadores" cumpre um papel fundamental não apenas por se contrapor ao pensamento único que vigorou nos últimos 30 anos, mas especialmente se constitui numa ferramenta importante para a formação dos trabalhadores e dos estudantes num terreno (a economia) dominado pelos neoclássicos e escribas do capital, tanto nas escolas e universidades quando nos meios de comunicação. Esperamos que os movimentos sociais (não fragmentários) e os sindicatos em geral se apropriem das informações contidas neste livro para melhor desenvolverem as suas lutas cotidianas.

07/Agosto/2019
 
 
 
[*] Secretário-geral do PCB, doutorado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas. Artigo publicado em 2013, aquando da primeira edição da obra.

O original encontra-se em pcb.org.br/portal2/23740/economia-politica-para-trabalhadores/ e em lavrapalavra.com/...

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/brasil/resenha_ept_07ago19.html

Marxistas somos todos nós

por Atílio Bóron [*]

Atílio Bóron. Os trogloditas da direita argentina quiseram desqualificar Axel Kicillof acusando-o de "marxista". Este ataque revela o nível cultural primário dos seus críticos, ignaros quanto à história das ideias e teorias científicas elaboradas ao longo dos séculos.

É óbvio que na sua inépcia desconhecem que Karl Marx produziu uma revolução teórica de enorme alcance na história e nas ciências sociais, equivalente, segundo muitos especialistas, ao que no seu tempo produziu Copérnico no campo da Astronomia.

Por isso hoje, quer o saibamos ou não (e muitos não o sabem) somos todos copernicianos e marxistas, e quem quer que negue essa verdade revela-se como um grosseiro sobrevivente de séculos passados alheado das categorias intelectuais que lhe permitem entender o mundo de hoje.

Copérnico argumentou na sua grande obra, A Revolução das Esferas Celestes, que era o Sol e não a Terra quem ocupava o centro do universo. E, além disso, ao contrário do que sustentava a Astronomia de Ptolomeu, ele descobriu que nosso planeta não era um centro imóvel em torno do qual giravam todos os outros, mas ela mesma se movia e girava. Lembre-se das palavras de Galileu quando os médicos da Inquisição o obrigaram a retratar-se da sua adesão à teoria de Copérnico: "E no entanto ela move-se", sussurrou para os seus censores que ainda estavam enfurecidos com Copérnico mais de um século depois da formulação da sua teoria.

Descoberta revolucionária, mas não apenas no campo da Astronomia, pois punha em questão crenças políticas cruciais de sua época. Como recorda Bertolt Brecht na sua magnifica peça Galileu, a dignidade e a sacralidade dos tronos e poderes foram irremediavelmente prejudicados pela teorização do astrónomo polaco. Se, na teoria geocêntrica de Ptolomeu, o papa, reis e imperadores eram excelsas figuras que estavam no topo de uma hierarquia social num planeta que não era nada menos que o centro do universo, com a revolução coperniciana eles foram reduzidos à condição de frágeis reizinhos de um pequeno planeta, que como tantos outros, girava em torno do sol.

Quatro séculos depois de Copérnico, Marx produziu una revolução teórica de envergadura semelhante ao deitar por terra as concepções dominantes sobre a sociedade e os processos históricos. A sua genial descoberta pode resumir-se assim: a forma como as sociedades resolvem as suas necessidades fundamentais – alimentar-se, vestir-se, abrigar-se, proteger-se, promover o bem-estar, possibilitar o crescimento espiritual da população e garantir a reprodução da espécie – constituem a indispensável sustentação de toda a vida social.

Sobre este conjunto de condições materiais cada sociedade constrói um imenso entrelaçado de agentes e estruturas sociais, instituições políticas, crenças morais e religiosas e tradições culturais que vão variando à medida em que o substrato material que as sustem se vai modificando.

Da sua análise, Marx extraiu duas grandes conclusões: primeiro, que o significado profundo do processo histórico assenta na sucessão das maneiras pelas quais homens e mulheres enfrentaram esses desafios ao longo de milhares de anos. Segundo, que essas formações sociais são inerentemente históricas e transitórias: elas surgem sob certas condições, expandem-se, consolidam-se, atingem o seu pico e então começam um declínio irreversível. Portanto, nenhuma formação social pode aspirar à eternidade e muito menos o capitalismo, dada a densidade e a velocidade com que as contradições que lhe são próprias se desenvolvem. Más notícias para Francis Fukuyama e seus discípulos que no final do século passado anunciaram ao mundo o fim da história, o triunfo dos mercados livres, da globalização neoliberal e da vitória final da democracia liberal.

Tal como acontecera com Copérnico na Astronomia, a revolução teórica de Marx deitou por terra o conhecimento convencional que prevalecera durante séculos. Este conhecimento concebia a história como um desfile caleidoscópico de personalidades notáveis (reis, príncipes, papas, presidentes, chefes de Estado, líderes políticos, etc) pontuado por grandes eventos (batalhas, guerras, inovações científicas, descobertas geográficas).

Marx pôs de parte todas essas aparências e descobriu que o fio condutor que permitia decifrar o hieróglifo do processo histórico foram as mudanças que ocorreram no modo como homens e mulheres se alimentavam, vestiam, abrigavam e davam continuidade à sua espécie, tudo o que sintetizou sob o conceito de "modo de produção". Essas mudanças, nas condições materiais da vida social, deram origem a novas estruturas sociais, instituições políticas, valores, crenças, tradições culturais, enquanto decretavam a obsolescência das precedentes, embora não houvesse nada de mecânico ou linear nesse condicionamento "em última instância" do substrato material da vida social.

Com isto Marx desencadeou na história e nas ciências sociais uma revolução teórica tão retumbante e transcendente quanto a de Copérnico e, quase simultaneamente, como a que fluiu das revelações sensacionais de Charles Darwin. E assim como hoje se tornaria objecto de riso mundial quem reivindicasse a concepção geocêntrica de Ptolomeu, não teriam melhor sorte aqueles que acusassem alguém de "marxista". Porque isso nega o papel fundamental que a vida económica desempenha na sociedade e também os processos históricos (dos quais Marx foi o primeiro a colocar no centro da cena).

Quem profere tal "insulto" confessa, para sua vergonha, a sua ignorância dos últimos dois séculos no desenvolvimento do pensamento social. Personagens grotescos como esses não apenas se tornam pré-copernicianos, mas também pré-darwinianos, pré-newtonianos e pré-freudianos. Eles representam, em suma, uma fuga para a parte mais obscura do pensamento medieval.

Bem, mas acima foi dito é que "somos todos marxistas"? Acho que sim, e pelas seguintes razões: se algo caracteriza o pensamento e a ideologia da sociedade capitalista, é a tendência para a comercialização total da vida social. Tudo em que o capital toca se torna mercadoria ou um facto económico: das crenças religiosas a antigos direitos, consagrados em tradições multisseculares; da saúde à educação; da segurança social às prisões, ao entretenimento e informação.

Sob o domínio do capitalismo, as nações degradam-se à categoria de mercados e o bem estar ou mal social são medidos exclusivamente pelos números da economia, pelo PIB, pelo défice das contas públicas ou pela capacidade exportadora.

Se alguma impressão deixou o capitalismo na sua passagem pela história – transitória, porque como sistema está destinado a desaparecer, como aconteceu sem excepção com todas as formas económicas que o precederam – tem sido tornar a economia o parâmetro supremo para distinguir a boa e a má sociedade.

A ordem do capital erigiu o mercado como seu deus e as únicas ofertas que este moderno Moloch admite são as mercadorias e os lucros que a sua troca produz. A ênfase subtil e cautelosa que Marx deu às condições materiais – sempre mediada por componentes não económicos, como cultura, política, ideologia – atinge no pensamento burguês extremos de vulgaridade que confinam o obsceno.

Escutemos aquilo com que Bill Clinton confrontou George Bush na campanha presidencial de 1992: "É a economia, idiota!". E é suficiente ler os relatórios de governos, académicos e organizações internacionais para verificar se o que distingue o bem do mal de uma sociedade capitalista é o progresso da economia. Quer saber como é um país? Veja como os seus títulos do Tesouro são negociados na Wall Street ou qual é o índice de "risco" do seu país. Ou ouçam o que os governantes da direita lhe dizem mil vezes para justificar o holocausto social a que submetem o povo através dos ajustes no orçamento, afirmando que "os números governam o mundo".

Personagens como esses compõem uma classe especial e aberrante de "marxistas" porque reduziram a descoberta radical de seu fundador e toda a complexidade do seu aparelho teórico a um economicismo grosseiro. O "materialismo economicista" é uma versão abortada, incompleta e distorcida do marxismo, mas é muito conveniente para as necessidades da burguesia e de uma sociedade que só conhece preços e nada de valores. Um marxismo deformado e abortado porque a burguesia e seus representantes só se apropriaram de parte do argumento marxista: o que destacava a importância decisiva dos factores económicos na estruturação da vida social.

Por instinto certeiro puseram de lado a outra metade: a que estabelecia a dialéctica das contradições sociais – o incessante conflito entre as forças produtivas e as relações de produção e a resultante luta de classes – que conduziriam inexoravelmente à abolição do capitalismo e à construção de um tipo histórico de sociedade pós-capitalista. Que isso não esteja iminente não significa que não vá acontecer. Por outras palavras: o "marxismo" de que as classes dominantes no capitalismo se apropriaram através dos seus intelectuais orgânicos foi reduzido a um materialismo economicista grosseiro.

Por isso hoje somos todos marxistas. Os marxistas mais aberrantes, de "cozedura incompleta", exaltam até ao paroxismo a importância dos acontecimentos económicos e ocultam conscientemente que as dinâmicas sociais levarão, mais cedo ou mais tarde, a uma transformação revolucionária da sociedade actual. Esse economicismo é o grau zero do marxismo, seu ponto de partida, mas não o ponto de chegada. É um marxismo truncado no seu desenvolvimento teórico; Ele contém os germes do materialismo histórico, mas estagna nas suas primeiras hipóteses e ignora – ou esconde conscientemente – o resultado revolucionário e a proposta de construir uma sociedade mais justa, livre e democrática.

Mas temos outros marxistas para quem a revolução teórica de Marx não só corrobora a transitoriedade da sociedade actual como também sugere os caminhos prováveis da sua superação histórica, seja por diferentes meios revolucionários ou pela dinâmica imparável de um processo de reforma radicalizado.

Contra os marxistas inacabados, da "cozedura incompleta", apologistas da sociedade burguesa, defendemos a tese de que o modo de produção capitalista será substituído, por meio de intensos conflitos sociais (porque nenhuma classe dominante abdica do seu poder económico e político sem lutar até ao fim) para finalmente dar à luz uma sociedade pós-capitalista e, como disse Marx, pôr fim à pré-história da humanidade. Porém, para além dessas diferenças, somos todos filhos do marxismo no mundo de hoje. Não poderíamos deixar de ser marxistas, assim como não poderíamos deixar de ser copernicianos.

O capitalismo contemporâneo é muito mais "marxista" do que quando, há quase dois séculos, Marx e Engels escreveram o Manifesto do Partido Comunista. A diatribe contra Axel Kicillof é um desabafo que pinta o brutal anacronismo de vastos sectores da direita argentina e latino-americana e dos seus representantes políticos e intelectuais, que no seu escandaloso atraso receiam os avanços produzidos pelos grandes revolucionários do pensamento contemporâneo. Eles desconfiam de Darwin e Freud e acreditam que o marxismo é o delírio de um judeu alemão.

Mas, como Marx disse com astúcia, alguns são marxistas como Monsieur Jourdain, aquela curiosa personagem de O Burguês Gentil-Homem de Molière que falava em prosa sem o saber. Eles balbuciam um marxismo desenfreado, transformado num economicismo grosseiro e sem a menor consciência da origem dessas ideias na obra de um dos maiores cientistas do século XIX. Outros, por seu lado, sabem que o marxismo é a teoria que nos ensina como o capitalismo funciona e que, portanto, fornece os instrumentos que nos permitirão deixar para trás este sistema desumano, predatório e destrutivo da natureza e das sociedades, que se alimenta de inúmeras e intermináveis guerras que ameaçam acabar com toda a vida deste planeta.

Portanto, longe de ser um insulto, ser um marxista no mundo de hoje, no capitalismo de nosso tempo, é um timbre de honra, constituindo uma nódoa indelével naqueles que o expressam como um insulto.


[*] Doutorado em Filosofia pela Universidade de Harvard. Foi Professor de Ciências Políticas no Instituto Latino-Americano de Ciências Sociais e na Universidade de Buenos Aires. Foi secretário-geral do CLACSO .

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/argentina/boron_21jul19.html

A fraqueza da ilusão democrática:  um ensaio político não sentimental

– O golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro impõem um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas. Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.

por Jones Manoel [*]

'. O ano de 2016 foi emblemático na história política brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT), organização política surgida no bojo da resistência à ditadura empresarial-militar, originalmente com tendências pronunciadamente socialistas, foi despojado da Presidência da República. O PT tem que viver com a amarga experiência de redescobrir a existência da luta de classes, do imperialismo, da não-neutralidade republicana dos aparelhos do Estado etc. Marilena Chaui, lamentavelmente, também teve que lembrar que o maior mal do mundo não reside na "classe média" paulista.

Aparentemente, a burguesia brasileira, em suas diversas frações, não aprendeu o respeito bobbiano às regras do jogo. Já a esquerda pós-comunista, como muitos queriam nos anos 1980 do século XX, aprendeu o "valor da democracia": as principais tendências da esquerda nos últimos trinta anos respeitaram religiosamente os limites impostos pela democracia burguesa no Brasil e, de tanto respeitarem, como prezam as regras explícitas, mas não ditas do jogo, passaram a ser fiéis gerentes do sistema.

As esperanças brasileiras no processo de redemocratização – que optamos por chamar de otimismo democrático – foram derrotadas. Aliás, mais que isso, esperava-se dos anos 1980 uma oportunidade única para combater o "autoritarismo" e a "exclusão social" históricos da formação socioeconômica brasileira.

Inegavelmente, o otimismo tinha uma razão de ser. Afinal não é em toda conjuntura histórica que, depois de mais de duas décadas de ditadura, emerge um pulsante movimento operário e popular. Tudo podia acontecer. E, no que é essencial, nada aconteceu. O sistema político brasileiro continuou fundamentado numa democracia restringida e com uso dilatado do terrorismo de Estado por meio de uma política sistemática de extermínio frente a segmentos da classe trabalhadora – notadamente, a população negra das favelas brasileiras.

No ano do golpe parlamentar, pudemos constatar que o Estado brasileiro mata, tortura e viola mais os direitos humanos que na época da ditadura empresarial-militar. O extermínio sistemático – enquanto política de Estado – segue firme e encontra até uma forma jurídica e constitucional para sua reprodução: os autos de resistência (Zaccone, 2014). A militarização da vida social não parou de crescer: um soldado do Exército Brasileiro passa, em média, cem dias do ano em atividades "internas" (policiamento) – ver a coletânea  Até o último homem , organizada por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira.

Ironicamente, Orlando Zaccone pergunta "o que resta da ditadura?" E responde, ecoando Tales Ab'Saber, tudo, menos a ditadura! A democracia burguesa é bem mais parecida com a ditadura militar burguesa do que suspeitava o otimismo democrático dos anos 80. Porém, curiosamente, a cada nova constatação de que a democracia e o famoso "Estado de Direito" estão longe das ideias dos livros e dos discursos, os setores hegemônicos da esquerda, ao invés de questionarem a própria ideia de democracia abraçada, optam por reforçar suas convicções anteriores insistindo que a democracia é pouco democrática e precisa ser democratizada [1] . Num ciclo de imunidade auto-atribuída, o problema da democracia se resolve com mais democracia e cada "regressão democrática" deve ser respondida com uma defesa mais enfática da democracia.

O objetivo dessa reflexão é debater a regressão democrática da democracia, abordar o processo de retirada dos direitos democráticos da classe trabalhadora no âmbito da democracia burguesa e o consequente empobrecimento teórico e político dos setores majoritários da esquerda brasileira e mundial na crítica à democracia realmente existente. A chave analítica fundamental que guiará nossa análise é a  distinção política e teórica entre direitos democráticos e democracia burguesa, buscando demostrar as diferenças e os desencontros entre ambos e como a confusão entre as duas produziu nas últimas décadas um enfraquecimento significativo na crítica e nas possibilidades revolucionárias.

Somos todos democratas

Na história de organização da classe trabalhadora, desde a gênese do capitalismo, sempre houve concepções diferentes do que é democracia. Até mesmo nas revoluções burguesas europeias, especialmente francesa e inglesa, é possível identificar setores mais radicalizados que apresentavam propostas avançadas do que chamaríamos hoje de soberania popular e igualdade social – como o caso do jacobinismo, na França.

A primeira grande expressão da maturidade organizativa e política da classe operária europeia, a socialdemocracia, continha um projeto de democracia antagônico ao defendido pela classe dominante: o liberalismo, expressão ideológica da burguesia, compreendia uma concepção jurídico-formal e restritiva de democracia (igualdade jurídica e direitos políticos apenas para os homens brancos, proprietários e europeus) e descarta qualquer conteúdo "social" na dimensão do regime político.

A socialdemocracia apresentava uma concepção ampla de democracia, alargando a esfera dos iguais e dos portadores de direitos políticos e exigindo, de forma indispensável, que a democracia tivesse um conteúdo social: o fim da propriedade privada e da anarquia na produção, compreendidos, à época, como os principais elementos do capitalismo, eram determinantes fundamentais da realização da verdadeira democracia.

Durante boa parte do século XX, por matrizes diferentes, houve um confronto entre concepções diferenciadas de democracia. Esse gigantesco embate teórico e político foi esvaziado nos anos 1980. De 1917 até a década de 1970 – entre grandes derrotas, como a Revolução Alemã e a Guerra Civil Espanhola, e grandes vitórias, como as revoluções Russa, Chinesa, Cubana e Coreana – o conflito entre capital e trabalho no âmbito mundial encontrava-se numa situação de relativo equilíbrio. Embora a maioria do mundo fosse capitalista, a distância entre, por um lado, as forças do capital e, por outro, as forças dos povos coloniais e da classe trabalhadora, não era tão discrepante e existiam ameaças reais de superação do capitalismo.

Com a contrarrevolução neoliberal e neocolonial que avançou ao final dos anos 1970, ganhou forças na década seguinte e foi finalmente vitoriosa nos anos 90 – indo além dos sonhos mais otimistas da ordem dominante com a derrubada da União Soviética e das democracias populares do Leste Europeu –, instala-se uma situação social na qual a crítica radical do existente, e, portanto, da democracia, não estava na ordem do dia e foi banida do debate teórico. A despeito da valentia de intelectuais tomados individualmente que se recusaram a capitular e a aceitar "o fim da história", formou-se um "consenso conservador sobre a democracia [2] .

A democracia em sua versão liberal parlamentar, tida apenas como uma competição eleitoral regular entre partidos semelhantes, passou a ser o sinônimo da única democracia possível e aceitável. O revezamento sistemático do poder entre partidos da classe dominante, liberais ou conservadores, socialdemocratas ou neoliberais, que executam basicamente o mesmo programa e garantem que "não há alternativa".

Nesse cenário, os poucos que se atreviam a debater os limites da democracia burguesa – agora não mais adjetivada como tal – eram logo tachados de autoritários ou totalitários. Três noções são fundamentais para a hegemonia do consenso conservador em torno da democracia burguesa. A primeira (talvez a que se mantém mais sólida nos dias atuais) é que a esquerda revolucionária (sobretudo os comunistas) seria antidemocrática, violadora dos direitos humanos e que sacrifica no altar da igualdade social as liberdades individuais. Como consequência disso, as experiências de transição socialista, chamadas em linguagem jornalística de "países" ou "governos" comunistas, se resumiriam a regimes autoritários ou totalitários – e a crítica/denúncia do "stalinismo" evidentemente desempenha um papel central nessa narrativa [3] .

Se o principal problema das experiências de transição socialista foi a ausência de democracia e o autoritarismo dos Partidos Comunistas, é necessário compreender a importância do valor em si da democracia. Aqui entramos na segunda noção. Os anos 1980 e 90 marcaram processos muito importantes: o fim do apartheid na África do Sul e o término de várias guerras de libertação nacional em África, a saída de cena do ciclo de ditaduras militares do grande capital na América Latina e a legalização/desarmamento de agrupamentos político-militares revolucionários na América Central. Nesses processos, já numa correlação de forças política e militar em âmbito mundial desfavorável e com a hegemonia neoliberal consolidada, vários ex-revolucionários das mais diversas matizes, aceitaram que não se tratava de pôr termo à dependência, ao subdesenvolvimento e às democracias burguesas, mas recuperar ou criar uma democracia liberal burguesa.

O desenrolar histórico é, por si só, expressivo, e podemos abordar rapidamente como exemplo o caso da África do Sul. O regime pós-apartheid, dirigido Nelson Mandela e seu partido (Congresso Nacional Africano), garantiu a vigência de uma igualdade jurídico-formal, mas a segregação étnico-racial nos seus vários determinantes (geográfico, econômico, cultural, social e político) não só se manteve, como foi ampliada. Em suma, na democracia pós-apartheid na África do Sul, mantém-se intacto o Estado racialista [4] .

O complemento necessário desse violento desarme político e teórico é o  banimento  da tematização do imperialismo, do colonialismo e da máquina de guerra operante em todos os cantos do planeta, mas em especial na periferia do sistema – a terceira noção desse consenso democrático. A derrota do movimento comunista no século XX foi acompanhada da derrota da revolução anticolonial que marcou a América, a África e a Ásia (revolução que politicamente teve várias expressões, como o movimento terceiro-mundista, o nacionalismo revolucionário e a fusão entre patriotismo e marxismo, como na Revolução Coreana e Chinesa); o imperialismo, nos anos 90, retoma uma ofensiva neocolonial de proporções assustadoras e, justamente nesse momento, some de cena a reflexão sobre o imperialismo, o colonialismo e o complexo industrial-militar [5] .

Enquanto o neocolonialismo vivia seu melhor momento desde a ascensão do nazifascismo, as modas acadêmicas do momento falam em micropoder, disciplina, poder simbólico, fim do Estado Nacional e dominação burguesa especialmente por meio da ideologia. Poucas vezes na história foi possível achar um momento em que reflexões que se pretendiam críticas ao  establishment (em aspectos totais ou parciais) se descolaram tanto da realidade [6] . Como ciclos que se completam, a negação de qualquer "aspecto positivo" nas experiências de transição socialista se combina com a canonização "crítica" ou acrítica da democracia (burguesa) e se fundem com o banimento de qualquer reflexão a respeito do imperialismo, do militarismo e do colonialismo. Surge o melhor dos mundos: um mundo em que não haveria mais espaço para ditaduras, golpes militares ou o fascismo e todos serão beneficiados pela globalização. O grande problema da ideologia dominante é que a realidade teima em contradizê-la.

A regressão democrática da democracia

Domenico Losurdo, no seu livro Contra-história do liberalismo , demostra que o pensamento liberal, desde o seu surgimento, foi uma ideologia que buscou compreender a liberdade como um direito da comunidade dos livres: homens brancos, proprietários e europeus (dos países centrais da Europa). Os trabalhadores eram considerados não-humanos, como máquinas falantes, os escravos e os povos coloniais apareciam como essência da inumanidade, e as mulheres recebiam a qualificação de seres inferiores.

Nunca houve dúvidas para a burguesia de que era necessário construir um sistema político que tivesse como objetivo primeiro a defesa da propriedade privada e da riqueza fruto da exploração: o mecanismo de câmaras legislativas para os lordes, o voto censitário, a proibição da montagem de partidos operários e sindicatos, a negação de votos para analfabetos e mulheres, a perseguição à imprensa operária, o terrorismo estatal etc. exemplificam esse momento histórico.

Portanto, a burguesia nunca confundiu a democracia política (isto é, liberdade de organização partidária, imprensa, reunião, manifestação, etc.) para a classe trabalhadora (ou seja, a imensa maioria da população), com seu regime constitucional-parlamentar. A primeira é criação  da classe trabalhadora nos seus enfrentamentos contra o capital , enquanto o último é criação da burguesia sob o liberalismo. A relação entre regime burguês e democracia política em tempo algum foi harmoniosa. Ao aceitar pela força a participação da classe operária no "jogo" democrático-burguês, a classe dominante nunca deixou de buscar mecanismos de exclusivismo no exercício do poder: a lógica é permitir a participação política da classe trabalhadora negando sua incidência nos centros de controle do poder político.

Não é nosso objetivo nesta coluna detalhar os mecanismos mobilizados pela classe dominante a fim de esvaziar qualquer possibilidade mínima de incidência da classe trabalhadora no poder por meio da participação política institucional. O fato importante é o seguinte: para a ordem do capital sempre foi clara a distinção entre os direitos democráticos e seu regime constitucional.

Contudo, há que se considerar um fenômeno importante já brevemente pontuado: durante a fase de ascensão das lutas proletárias e dos povos coloniais, a tensão entre regime burguês e direitos democráticos chegou a tal ponto que condicionou várias rupturas democráticas, ensejando soluções fascistas, ditaduras militares e/ou invasões militares neocoloniais. Houve, efetivamente, momentos em que a burguesia não suportou a sua democracia burguesia , porém, ao mesmo tempo em que a democracia política sob o Estado burguês era um impedimento temporário para seguir num padrão de acumulação de capital desejável, era um limitador da ação das classes subalternas contra a ordem do capital; exemplo significativo é o Chile da Unidade Popular [7] .

Durante a contrarrevolução neoliberal e neocolonial, ganhou força um fenômeno novo em sua proporção:  a gigantesca regressão dos direitos democráticos da classe trabalhadora sem precisar de rupturas institucionais. Um dos exemplos mais significativos desse processo é a chamada "onda punitiva" e a formatação do Estado penal nos países centrais do capitalismo (ver as obras do sociólogo francês Loïc Wacquant, em especial As duas faces do gueto e As prisões da miséria ).

Todo esse processo de regressão democrática dos direitos da classe aconteceu com uma inestimável contribuição dos aparelhos de repressão e espionagem do Estado burguês. A narrativa de uma "sociedade ocidental" na qual a repressão cede lugar progressivamente à luta pelo consenso na dominação burguesa, perde de vista que, frente ao aumento da densidade da rede associativa das classes em luta na disputa ideológica, a classe dominante respondeu com a criação de aparelhos de repressão/controle/vigilância herméticos a qualquer controle popular ou público. Esses aparelhos atuam numa permanente "guerra suja" contra os movimentos e organizações das classes subalternas: sequestros, assassinatos, infiltrações, roubos, sabotagens, apoio a golpes de Estado, falsificação de eleições, promoção de determinadas vertentes culturais e guerra econômica estão entre algumas atividades promovidas pela CIA e o FBI – paradigmas maiores desse tipo de aparelho estatal burguês, que se generalizou e profissionalizou nos países centrais do capitalismo no pós Segunda Guerra [8] .

O avanço da classe dominante em seus objetivos de fazer regredir os direitos democráticos dentro da democracia burguesa é sempre facilitado pela própria posição de classe das personificações do capital. Democracia política não é a mesma coisa que dominação burguesa, mas, sob o Estado burguês, toda democracia política é uma forma de dominação burguesa.

Isso ocorre porque: a) Os centros decisórios estratégicos do Estado estarão sempre subordinados ao interesse geral de acumulação do capital (o que não se confunde com o interesse de um capitalista ou um de grupo deles tomado como exemplo "empírico"); b) são tomados como fato dado, natural de um ponto de visto ideológico, político e jurídico, a propriedade privada dos meios de produção, a apropriação privada da riqueza e a mercantilização da força de trabalho; c) por ter o poder econômico concentrado, a burguesia em suas diversas frações está estruturalmente em vantagem na disputa pelo controle dos diversos aparelhos do Estado e, quando perde aparelhos centrais, como um Governo Federal, dispõe de uma rede de aparelhos de hegemonia privados que conseguem com relativa facilidade paralisar ou destruir a ação incômoda do aparelho estatal que se tornou disfuncional.

Dito de maneira mais simples: sobre a base capitalista, toda democracia é burguesa, embora os direitos democráticos sejam conquistas da classe trabalhadora . Cabe, portanto, a pergunta: qual é o fator determinante que permite em determinadas conjunturas a classe trabalhadora impor conquistas democráticas ou tornar disfuncional a democracia burguesa? Resposta: a ação de classe com radicalidade na defesa não da democracia em si, mas dos direitos democráticos da classe [9]. Em todos os momentos históricos em que a classe trabalhadora avançou em conquistas democráticas se deu em um horizonte onde se pretendia muito mais que melhorar o Estado burguês. Isto é, foi criticando agudamente os limites da democracia burguesia e buscando radicalmente superá-la que foi possível impor uma relativa democratização do Estado burguês.

No caso brasileiro, o Partido dos Trabalhadores, em sua origem advoga a conquista do poder político. O PT dizia, numa formulação de clara inspiração leninista clássica, que não existe exemplo de transição socialista iniciada sem os trabalhadores tomarem o poder do Estado (ver as obras de Mauro Iasi, em especial, As metamorfose da consciência de classe e Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural ).

A não aliança com partidos da ordem, independência financeira e política, o foco na luta de massas e não na disputa institucional e o programa político radical foi o principal vetor de resistência à transição conservadora da ditatura empresarial-militar à democracia burguesa. Por uma série de determinantes históricos que não cabe aprofundar nesse momento, o PT progressivamente suavizou a radicalidade do programa, abrandou a independência de classe financeira e política, centrou-se na luta institucional e passou a defender como sinônimo de "caminho democrático ao socialismo" a atuação nos marcos da democracia (burguesa) brasileira.

A consequência é o esvaziamento da ação de classe dos subalternos como vetor de resistência ao fortalecimento da autocracia burguesa, e a conversão do PT em operador político do sistema, deixando "legados" perfeitos à dominação de classe, como a lei antiterrorismo, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e o apassivamento dos explorados. Nas palavras de Mauro Iasi:

"As mudanças que se verificam não se operam aleatoriamente, mas no sentido de recolocar a consciência que se emancipava de volta nos trilhos da ideologia. Não é, em absoluto, certas palavras-chaves vão substituindo, pouco a pouco, alguns dos termos centrais das formulações: ruptura revolucionária por rupturas, depois por democratização radical, depois por democratização e finalmente chegamos aos "alargamento das esferas de consenso"; socialismo por socialismo democrático, depois por democracia sem socialismo; socialização dos meios de produção por um controle social do mercado; classe trabalhadora, por trabalhadores, por povo, por cidadãos; e eis que palavras como revolução, socialismo, capitalismo, classes, vão dando lugar cada vez mais marcante para democracia, liberdade, igualdade, justiça, cidadania, desenvolvimento com distribuição de renda".
Mauro Luis Iasi, As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento (São Paulo: Expressão Popular, 2006), p. 435.

Em resumo, o consenso conservador em torno da democracia é o norte de uma época histórica de brutal regressão da democracia política, e as respostas hegemonicamente formuladas pela esquerda (a perspectiva de democratizar a democracia) não estão conseguindo fazer frente a esse fenômeno. O desarme teórico está imbricado com a derrota política num processo de retroalimentação.

Conclusão

O adversário de classe não está retrocedendo na democracia. Esta conclusão não impõe posturas esquerdistas e mecanicistas que não conseguem apreender, para as classes dominadas, a diferença entre lutar sob uma democracia burguesia ou sob uma ditadura fascista. A mudança de rota que deve ser operada pelas forças de esquerda empenhadas em derrubar a ordem capitalista tem como prisma primeiro encarar a democracia burguesa como ela realmente é: na democracia realmente existente, a violência, o terrorismo estatal, a negação de direitos básicos (como liberdade de imprensa e organização sindical), os massacres no campo, os autos de resistência e a história de milhares na mesma situação de Rafael Braga não constituem um desvio, uma perversão, do ideal do Estado democrático de Direito – são o seu funcionamento concreto, são a sua essência de classe em movimento.

O confronto da democracia realmente existente deve andar casado com a defesa intransigente, estratégica, dos direitos democráticos da classe trabalhadora. A democracia política sempre carregou altíssimo potencial de contradição com a ordem burguesa. A novidade, contudo, é que nesse momento de crise estrutural do capital e ofensiva neocolonial, tal contradição é aguçada. O golpe parlamentar de 2016 e a posterior eleição de Jair Bolsonaro, enquanto particularidades da conjuntura brasileira, impõem, igualmente, um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas.

Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.

A conclusão que se impõe, portanto, é máximo combate à democracia burguesa e máxima defesa dos direitos democráticos da classe trabalhadora . Dentro desta perspectiva temos um norte de atuação para uma retomada crítica da luta política no âmbito da "questão democrática". Democratizar a democracia é a forma política do reformismo burguês. Tal como as ideologias do crescimento econômico com a distribuição de renda , democratizar o Estado burguês retira do horizonte a luta pelo poder popular, isto é, pela derrubada do Estado burguês e a construção de uma verdadeira democracia fundada na propriedade social com economia planificada e democracia operária. Não há futuro fora da luta pelo poder popular.

 


Vídeo do autor na TV Boitempo, onde apresenta os quatro vetores fundamentais da obra do filósofo marxista italiano Domenico Losurdo:
www.youtube.com/watch?time_continue=21&v=ReVUgX5Mw34 Notas
[1] "O feitiço do Estado democrático de Direito faz dele uma entidade idealizada que alimenta uma retórica sustentada na fé, malgrado as práticas coloquem os seus ideais em questão. Acredita-se no Estado Democrático de Direito e, como toda crença, é alvo de fé e não de questionamentos. Naturaliza-se o seu sentido e a sua lógica. A força das consignas e dos princípios é despotencializada no seu processo de institucionalização, quando práticas contraditórias com as promessas liberais e democráticas são entendidas como erro e não percebidas como coerentes com o ideário político que as produz […] Fertiliza com isto a ilusão de ser possível cumprir as promessas quebradas" (Coimbra, Scheinvar, 2012, p.62).
[2} "[…] segundo o qual qualquer tentativa de alterações substanciais no modelo representativo parlamentar nas conduziria necessariamente a algum beco sem saída, como algumas formas de autoritarismo, o que pode ser facilmente detectado como suposto de inúmeras análises teóricas do tema, de ampla aceitação na mídia impressa e televisionada" (VIEIRA, 2006, p. 15).
[3] O estudo "Fuga da História? A Revolução Russa e a Revolução Chinesa vista de hoje", de Domenico Losurdo, sintetiza com brilhantismo os argumentos dessa larga tendência teórico-política e, ao mesmo tempo, fornece subsídios essenciais para refutá-la.
[4] "Na África do Sul, a vida miserável da maioria pobre em geral continua a mesma de antes do apartheid, e o crescimento dos direitos civis e políticos é contrabalançado pelo aumento da insegurança, da violência e do crime. A grande mudança é que à antiga classe branca dominante se somou a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas se lembram do antigo Congresso Nacional Africano que prometeu não apenas acabar com o apartheid, mas também justiça social e até mesmo uma espécie de socialismo. Esse passado bem mais radical do CNA é gradualmente obliterado da nossa memória. Não é de espantar que o ódio entre os pobres e negros sul africanos esteja aumentando". Slavoj Žižek, "Por que o socialismo de Mandela Fracassou?", Pragmatismo Político . Acessado em 20/07/2017.
[5} "Durante quase todo o século XX, o conceito de imperialismo foi excluído do conjunto dos discursos políticos aceitáveis para os círculos dominantes do mundo capitalista […] Em 1971, no "Prefácio" à edição americana do Imperialism is the Seventies de Pierre Anime, Harry Magdoff aponta: "Como regra, os corteses acadêmicos preferem não usar o termo imperialismo. Acham-no de mau gosto e não científico" (Foster, 2006, p.431)
[6} Nesse ponto é necessário evitar confusões. Não estamos afirmando que esses estudos são irrelevantes. Ao contrário. Muitos deles, como as contribuições de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, são importantes na compreensão de aspectos tópicos das estruturas de poder no capitalismo contemporâneo. O norte da crítica é que essas pesquisas no momento de sua produção e difusão ignoraram a tendência principal da dominação política burguesa, produzindo um empobrecimento da compreensão do problema enquanto totalidade.
[7] Para uma análise brilhante dessa contradição chilena da Unidade Popular, conferir o clássico de Ruy Mauro Marini El reformismo y la contrarrevolución estudios sobre Chile
[8] Um tratamento mais ou menos sistemático do tema pode ser encontrado no livro de Sérgio Lessa Capital e Estado de bem-estar: o caráter de classe das políticas públicas , (São Paulo, Instituto Lukács: 2013), p. 135-149.
[9] "A classe molda o comportamento político dos indivíduos tão-somente se os que são operários foram organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos não mobilizam as pessoas como operários, e sim como "as massas", "o povo", "consumidores", "contribuintes" ou simplesmente "cidadãos", os operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da classe e, consequentemente, a votar como operários" (Przeworski, 1991, p. 42).

Referências
Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.), Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social . São Paulo: Boitempo Editoral, 2013.
Cecília Coimbra e Estela Scheinvar, "Subjetividades punitivo-penais" Em: Vera Malaguti Batista (org.), Loïc Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal . Rio de Janeiro: Editora Revan, 2012.
Mauro Luis Iasi,  As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento . São Paulo: Expressão Popular, 2006.
_____________,  Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural . São Paulo: Instituto Caio Prado Jr, 2017.
Domenico Losurdo,  Contra-história do liberalismo . São Paulo: Editora Ideias e Letras, 2006.
Loïc Wacquant.  As duas faces do gueto . São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.
____________.  As prisões da miséria. , Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011.
Adam Przeworski,  Capitalismo e social-democracia . São Paulo: Cia das letras, 1991.
Luiz Vicente Vieira,  A democracia com os pés de barro . Recife: Editora UFPE, 2006.
Orlando Zaccone,  Indignos de vida: a forma jurídica da política de extermínio de inimigos na cidade do Rio de Janeiro . São Paulo: Editora Revan, 2014.

17/Julho/2019
[*] Brasileiro, de Pernambuco, professor de história, militante do PCB. Mantém um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow.

O original encontra-se em blogdaboitempo.com.br/...

Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

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Descolonizar o saber e o poder

“A continuidade da dominação segrega um senso comum capitalista, racista e sexista que serve as forças de direita, até porque é reproduzido incessantemente por grande parte da opinião publicada e pelas redes sociais”, escreve o sociólogo Boaventura de Sousa Santos


Os conflitos sociais têm ritmos e intensidades que variam consoante as conjunturas. Muitas vezes acirram-se para atingir objectivos que permanecem ocultos ou implícitos nos debates que suscitam. Num período pré-eleitoral em que as opções políticas sejam de espectro limitado os conflitos estruturais são o modo de dramatizar o indramatizável.

Os conflitos estruturais do nosso tempo decorrem da articulação desigual e combinada dos três modos principais de desigualdade estrutural nas sociedades modernas. São eles, capitalismo, colonialismo e patriarcado, ou mais precisamente, hetero-patriarcado. Esta caracterização surpreenderá aqueles que pensam que o colonialismo é coisa de passado, tendo terminado com os processos de independência. Realmente, o que terminou foi uma forma específica de colonialismo — o colonialismo histórico com ocupação territorial estrangeira. Mas o colonialismo continuou até aos nossos dias sob muitas outras formas, entre elas, o neocolonialismo, as guerras imperiais, o racismo, a xenofobia, a islamofobia, etc. Todas estas formas têm em comum implicarem a degradação humana de quem é vítima da dominação colonial. A diferença principal entre os três modos de dominação é que, enquanto o capitalismo pressupõe a igualdade abstracta de todos os seres humanos, o colonialismo e o patriarcado pressupõem que as vítimas deles são seres sem plena dignidade humana, seres sub-humanos. Estes três modos de dominação têm actuado sempre de modo articulado ao longo dos últimos cinco séculos e as variações são tão significativas quanto a permanência subjacente. A razão fundante da articulação é que o trabalho livre entre seres humanos iguais, pressuposto pelo capitalismo, não pode garantir a sobrevivência deste sem a existência paralela de trabalho análogo ao trabalho escravo, trabalho socialmente desvalorizado e mesmo não pago. Para serem socialmente aceitáveis, estes tipos de trabalho têm de ser socialmente vistos como sendo produzidos por seres humanos desqualificados. Essa desqualificação é fornecida pelo colonialismo e patriarcado. Esta articulação faz com que as pessoas que acham desejável a desigualdade social do capitalismo tendam a desejar também a continuação do colonialismo e do patriarcado, e sejam, por isso, racistas e sexistas, mesmo que jurem não sê-lo. Esta é a verdadeira natureza dos grupos políticos de direita e de extrema direita. Se, numa dada conjuntura, as preferências racistas e sexistas vêm ao de cima é quase sempre para expressarem a oposição ao governo do dia, sobretudo quando este é menos pró-capitalista que o desejado por tais grupos.

O drama do nosso tempo é que, enquanto os três modos de dominação moderna actuam articuladamente, a resistência contra eles é fragmentada. Muitos movimentos anticapitalistas têm sido muitas vezes racistas e sexistas, movimentos anti-racistas têm sido frequentemente pró-capitalistas e sexistas e movimentos feministas têm sido muitas vezes pró-capitalistas e racistas. Enquanto a dominação agir articuladamente e a resistência a ela agir fragmentadamente, dificilmente deixaremos de viver em sociedades capitalistas, colonialistas e homofóbicas-patriarcais. Talvez, por isso, e como se tem visto ultimamente, aos jovens de muitos países seja hoje mais fácil imaginar o fim do mundo (pelo agravamento da crise ambiental) do que o fim do capitalismo. A assimetria entre a dominação articulada e a resistência fragmentada é a razão última da tendência das forças de esquerda para se dividirem em guetos sectários e das forças de direita para se promiscuirem em amálgamas ideológicas na mesma cama do poder.

A continuidade da dominação segrega um senso comum capitalista, racista e sexista que serve as forças de direita, até porque é reproduzido incessantemente por grande parte da opinião publicada e pelas redes sociais. Porque age na corrente, a direita pode dar-se ao luxo de ser indolente e transmitir a ideia de “estar ao corrente” e, quando tal não funciona, acciona a sua asa de extrema direita (tão presa ao seu tronco quanto a asa de direita moderada) para dramatizar o discurso e provocar novas divisões nas esquerdas, sobretudo se estas ocupam o poder de governo e estamos em período pré-eleitoral e a ausência de alternativas credíveis salta aos olhos. Pelo contrário, as forças de esquerda estão sempre à beira do abismo da fragmentação por terem sido treinadas no mundo eurocêntrico para desconhecer ou descartar as articulações entre os três modos de dominação. As dificuldades são ainda maiores por terem de agir contra a corrente do senso comum reacionário. Identifico duas tarefas urgentes para superar tais dificuldades. A primeira é de curto prazo e tem um nome: pragmatismo. Se a agressividade do pensamento reacionário, explicitamente racista e encobertamente hiper-capitalista e patriarcal, é a que se observa e ocorre num país cujos cidadãos ainda há cinquenta anos eram vítimas de racismo por toda a Europa dita desenvolvida e antes disso tinham sido ostracizados como brancos escuros — ou portygyes nas Caraíbas, Hawaii e EUA — se tudo isto ocorre num país cujo poder de governo é ocupado por forças de esquerda, é fácil imaginar o que será quando voltarmos (se voltarmos) a ser governados pela direita. O entendimento entre as forças de esquerda tem contra si forças imensas, nacionais e internacionais: capitalismo financeiro global, privatarias público-privadas, Comissão Europeia, Embaixadas norte-americana e de muitos países europeus, agências da sociedade civil supostamente promotoras da democracia, Igrejas conservadoras, a razão indolente da direita infiltrada há muito no PS português contra a militância corajosa do último Mário Soares, a razão indolente do sectarismo de pequenos grupos de esquerda radical que têm sempre os dois pés no mesmo sítio para acreditarem que são firmes em vez de estáticos. Mas o que está em jogo é muito e o pragmatismo impõe-se. Quando a direita começa a defender transportes públicos e saúde pública, a esquerda no governo deve lembrar-se do que está a esquecer. A resposta à extrema-direita racista tem de ser tanto política como jurídica e judicial. Defendo há muito que as lutas jurídicas contra o senso comum reacionário só devem ocorrer depois de tais lutas terem adquirido forte densidade política. É, pois, imprudente determinar em abstracto a validade da via jurídico-judicial ou da via política.

A segunda tarefa é de longo prazo e consiste em descolonizar o saber científico e popular e o poder, tanto social como cultural e político. Esta tarefa é particularmente difícil em Portugal por duas razões. Em primeiro lugar, a última fase da descolonização do colonialismo português ocorreu há muito pouco tempo (1961-1975). As feridas coloniais estão ainda tão abertas e fundas que, tal como as crateras produzidas pela mineração a céu aberto, parecem parte integrante da paisagem. O longo ciclo colonial está inscrito na carne do país até ao mais íntimo tutano. Um país com tanta falsa esperança histórica sente-se agora dominado por tanto falso medo de ser menos europeu que a Europa desenvolvida que sempre recolonizou o colonialismo português para maior benefício dela. Por sua vez, os países que nasceram da luta anticolonial contra Portugal tiveram o privilégio de sofrer o menor ónus neocolonial. Todos sem excepção se afirmaram orgulhosamente socialistas e não apenas independentes. Foram, porém, rapidamente postos na ordem pelo capitalismo financeiro global. Sucederam-se lideranças que querem esquecer a violência e rapina colonialistas para melhor ocultarem a violência e a rapina que elas próprias vão exercendo contra as suas populações.

A segunda decorre do facto de os processos de independência terem ocorrido como uma dupla revolução: nas então colónias, a revolução da independência, e em Portugal, a revolução da democracia do 25 de Abril de 1974. Os mesmos militares, que sustentaram o regime colonial no seu último período, participaram na guerra dita de pacificação e certamente cometeram as atrocidades correspondentes, são também os heróis de que muito nos orgulhamos por terem aberto o caminho às independências sem peias neocoloniais e pela democracia que nos devolveram em Portugal. Passará ainda algum tempo para que as feridas se exponham, e assim possam ser eficazmente curadas.


por Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo. Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/descolonizar-o-saber-e-o-poder/

O enigma da sobrevivência neoliberal

Como um projeto fracassado, social e economicamente, mantém-se há 30 anos? Em parte, devido ao poder de uma minoria ínfima. Mas é preciso encontrar resposta mais profunda – e, em especial, uma saída que convença as maiorias

Robert Kuttner | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins
Desde o final dos anos 1970, vivemos um enorme experimento para testar a afirmação segundo a qual mercados “livres” realmente funcionam bem. Esta ressurreição ocorreu apesar do fracasso do laissez-faire, nos anos 1930, a humilhação consequente da teoria dos mercados “livres” e, em contraste, o sucesso do capitalismo regulado, durante o boom de três décadas do pós-II Guerra.

Quando o crescimento arrefeceu, nos anos 1970, a teoria econômica ultraliberal teve uma nova chance. Ela demonstrou ser muito conveniente para os conservadores, que voltaram ao poder na década seguinte. A contrarrevolução neoliberal, na teoria e na prática, reverteu ou solapou quase todos os aspectos do capitalismo regulado – a tributação progressiva, as transferências de renda em favor do bem-estar, as políticas antitruste, o empoderamento dos trabalhadores e a regulamentação dos bancos e outros grandes setores econômicos.

A premissa neoliberal sustenta que mercados “livres” podem regular a si mesmos; que o Estado tem incompetência inerente, deixa-se capturar por certos interesses e representa uma intrusão na eficiência do mercado; que, em termos da distribuição de riquezas, os resultados sancionados pelo mercado são, em essência, merecidos; e que a redistribuição cria incentivos perversos, ao punir os vencedores econômicos e recompensar os perdedores. Por isso o Estado deveria afastar-se das relações de mercado.

Nos anos 1990, mesmo a esquerda moderada havia se convertido à crença de que os objetivos de justiça social podem ser alcançados reforçando o poder dos mercados. Períodos intermitentes de governo da esquerda atrasaram, mas não reverteram a deriva rumo à doutrina e às políticas neoliberais. As alas empresariais dos partidos que compuseram esta esquerda aplaudiram.

Agora, depois de quase meio século, o veredito é claro. Virtualmente todas estas políticas fracassaram, mesmo em seus próprios termos. As empresas foram recompensadas; os impostos, cortados; a regulação, reduzida ou transferida ao setor privado. E a economia é muito mais desigual; no entanto, o crescimento econômico é muito mais lento e caótico que durante a era do capitalismo regulado. A desregulação não produziu competição salutar, mas concentração de mercado. O poder econômico produziu mudanças no poder político, por meio das quais as elites impõem regras que produzem mais concentração.

O culpado não são propriamente os “mercados” – uma força impessoal que de algum modo tornou-se descontrolada de novo. Trata-se de um caso de controle de poder por meio da manipulação da teoria. A economia regulada foi desfeita pelas elites econômicas, que refizeram as regras em seu próprio benefício. Elas patrocinaram pesadamente teóricos “amigos”, que apresentaram a mudança como algo necessário e saudável; e políticos “amigos”, que colocaram as teorias em prática.

Nos últimos anos, houve dois casos espetaculares de erros de mercado, com consequências devastadoras: a quase-depressão iniciada em 2008 e os sinais de mudança climática irreversível. O colapso econômico de 2008 foi o resultado da desregulação das finanças. Só nos EUA, custou à economia 15 trilhões de dólares e, dependendo do cálculo, muito mais que qualquer ganho de eficiência concebível, que pudesse ser creditado à inovação financeira. A teoria dos mercados “livres” presume que a inovação é necessariamente benigna. Mas muito da engenharia financeira da era desregulatória favorecia os que a adotavam, era opaca e corrupta – o oposto de um mercado eficiente e transparente.

A ameaça existencial da mudança climática global reflete a incompetência dos mercados para precificar de modo acurado as emissões de carbono e os custos crescentes da poluição. O economista britânico Nicholas Stern classificou os riscos crescentes de catástrofe climática como o maior caso de fracasso dos mercados da história. Também aqui, não é apenas o resultado de erros teóricos. O poder arraigado das indústrias extrativas e de seus aliados políticos influencia as regras e o preço de mercado do carbono. Isso é menos a “mão invisível” que uma garra. A permissão de “mercados eficientes” oferece útil cobertura.

O grande experimento neoliberal dos últimos 40 anos demonstrou que os mercados são incapazes de se autorregular. Mercados regulados pelo setor público são menos desiguais e mais eficiente. No entanto, a teoria e a influência prática do neoliberalismo avançam, porque ele é muito útil para os setores mais poderosos da sociedade – com um verniz acadêmico recobrindo o que seria, de outra forma, uma captura de poder sem disfarces. O economista político britânico Colin Crouch registrou esta anomalia num livro de título sugestivo: pdf The Strange Non-Death of Neoliberalism (1.23 MB) [“A estranha não-morte do Neoliberalismo”]. Por que o neoliberalismo não morreu? Com o autor observa, ele fracassou tanto como teoria quanto em seus resultados práticos, mas foi extremamente bem-sucedido como política de poder para as elites econômicas.

O avanço neoliberal teve outro custo calamitoso – a legitimidade democrática. À medida em que o Estado deixou de mitigar as forças de mercado, a vida cotidiana tornou-se, para as pessoas comuns, uma luta árdua. As bases de uma vida decente são evidentes – empregos e carreiras seguras, aposentadorias adequadas, atendimento à Saúde, habitação acessível, acesso à Educação sem endividamento por toda a vida. No entanto, a vida tornou-se cada vez mais fácil para as elites econômicas, cujas renda e riqueza multiplicaram-se e cuja lealdade local e à nação tornou-se mais incerta e menos segura.

Vastos setores da sociedade, em consequência, abandonaram a crença em governos realizadores e na própria democracia. Depois que o Muro de Berlim caiu, em 1989, acreditou-se que a nova era seria marcada pelo triunfo do capitalismo liberal e da democracia. Mas em poucas décadas, a segurança aparente da democracia desabou em cada vez mais países, num ecoar dos anos 1930.

Como advertiu o grande historiador da Política, Karl Polanye, quando os mercados oprimem as sociedades, os cidadãos comuns frequentemente voltam-se para os tiranos. Em regimes que se aproximam do neofascismo, clepto-capitalistas confraternizam com ditadores, minando a premissa de que capitalismo e democracia são complementares. Muitos gângsters autoritários tornam-se surpreendentemente populares ao mobilizar os nacionalismos tribais como antídoto ao cosmopolitismo capitalista.

Também vale a pena observar que neoliberalismo não é laissez-fair. Classicamente, a premissa de um “livre” mercado é a de que o Estado simplesmente se retira. É algo sem sentido, já que todos os mercados são criados por regras – fundamentalmente as que definem a propriedade, mas também as que estabelecem condições para o crédito, a dívida, as falências; as que criam patentes, marcas e propriedade intelectual; as que organizam o trabalho e tantas outras. Mesmo a desregulação exige regras. Nas palavras de Polanyi, “o laissez-faire foi planejado”…

A questão política é quem faz as regras e em benefício de quem. O neoliberalismo de Friedrich Hayek e Milton Friedman invocava os mercados “livres”, mas na prática o regime neoliberal promove regras criadas por e para os proprietários de capital privado, para manter o Estado distante da definição de regras de competição justa e dos interesses sociais. O regime tem regras para proteger os gigantes farmacêuticos do direito dos consumidores a ter acesso a genéricos. As regras de competição e propriedade intelectual são concebidas para proteger as empresas já estabelecidas. As regras de falência foram desenhadas para favorecer os credores financeiros. Hipotecas exigem regras elaboradas, escritas pelo setor financeiro e colocadas em vigor pelo Estado. As regras de patentes permitiram que o agronegócio e companhias químicas gigantescas, como a Monsanto, se apoderassem de muito da agricultura – o oposto de mercados “livres”. O setor inventou regras, exigindo que os trabalhadores e consumidores se submetessem a arbitragens obrigatórias e desistissem de um conjunto de normas e costumes.

Neoliberalismo como Teoria, Política e Poder

Vale a pena tomar um momento para desembrulhar o termo “neoliberalismo”. “Liberal” refere-se não ao oposto de conservador, mas ao liberalismo econômico clássico, também conhecido como economia dos “livre” mercados. O prefixo “neo” refere-se à reafirmação da ideia segundo a qual o modelo econômico do laissez-faire estava, ao fim das contas, correto.

Poucos proponentes destas ideias adotaram o termo neoliberal. A maior parte preferiu chamar-se de “conservadores do livre mercado”. “Neoliberal” foi um termo cunhado principalmente pelos críticos, às vezes como um termo descritivo neutro, outras como um epíteto. O uso difundiu-se na era de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Para aumentar a confusão, um uso distinto, e em parte sobreposto, foi adotado nos anos 1970 pelo grupo formado em torno da revista Washington Monthlly. Eles usavam “neoliberal” para designar uma nova forma, mesmo “estatista” do liberalismo norte-americano. Mais ou menos à mesma época, o termo neoconservadores foi usado, nos Estados Unidos, para auto-descrever antigos liberais que adotavam o conservadorismo nos terrenos cultural, étnico, econômico e geopolíticos. Os neoconservadores eram neoliberais, na economia.

A partir dos anos 1970, a teoria revivida dos “livres” mercados entrelaçou-se tanto com a política conservadora quanto com investimentos significativos na produção de intelectuais acadêmicos e políticos.  Isso ocorreu não apenas nos thinktanks conservadores mais conhecidos, como  American Enterprise Institute, Heritage, Cato e Manhattan Institute, mas por meio de investimentos ousados na academia. Centros de estudos foram generosamente financiados por fundações de extrema direita como  Olin, Scaife, Bradley e outras, para promover variantes da teoria dos “livre” mercados – como as “escolhas racionais”, a “escolha pública”, as “análises de custo-benefícios”, a “maximização da importância dos acionistas”. Estas teorias colonizaram diversas disciplinas acadêmicas. Todas eram variações em torno da afirmação de que os mercados são eficientes e os Estados devem deixá-los “livres”.

Cada um destes corpos de sub-teoria apoiava-se sobre sua própria variante de ideologia neoliberal. Uma versão mais crua da teoria das vantagens comparativas foi usada não apenas para cortar tarifas de importação, mas para transformar a globalização numa ferramenta geral para desregular. A teoria de maximizar a importância dos acionistas foi empregada para dinamitar um vasto espectro de regulações financeiras e de normas em favor do direito dos trabalhadores. As análises de custo-benefícios, que enfatizavam custos e desprezavam benefícios, foram usadas para desacreditar normas de Saúde, Segurança e Ambiente. A teoria da “escolha pública”, associada ao economista Jamis Buchanan e uma vasta escola de Economia e Ciência Política, foi usada para bloquear a própria democracia, sob a premissa de que a política estava irreparavelmente contaminada pelos busca de vantagens indevidas e pelos aventureiros.

As falhas dos mercados foram desprezadas, como se fossem casos raros e especiais. As falhas do Estados eram vistas como ubíquas. Os teóricos, lobistas e funcionários atuavam lado a lado. Mas em cada caso importante em que a teoria neoliberal gerava políticas, o resultado era sucesso político e fracasso econômico.

Um exemplo: a Economia da oferta tornou-se justificativa para cortes de impostos, sob a premissa de que estes puniam o empreendimento. Supostamente, se fossem cortados – especialmente os que incidem sobre o capital e suas rendas – o estímulo resultante, sobre a atividade econômica, seria tão potente que os déficits seriam muito menores que os previstos pelas projeções econômicas “estatistas”. Nos EUA, houve seis rodadas deste experimento, dos cortes de impostos patrocinados por Jimmy Carter em 1978 à mastodôntica Lei de Cortes de Impostos e Empregos, assinada por Donald Trump em 2017. Em todos os casos, houve algum estímulo econômico, principalmente originado no impacto keynesiano sobre a demanda, mas os déficits sempre cresceram de modo significativo. Os conservadores simplesmente pararam de falar no tema. Os cortes de impostos eram, frequentemente, ineficientes e desiguais, já que inúmeras brechas dirigiam os investimento para atividades fiscalmente favorecidas, em vez de orientá-los para usos mais lógicos do ponto de vista econômicos. Dezenas das mais lucrativas corporações dos EUA deixaram de pagar impostos.

O “paradoxo antitruste” de Robert Bork, segundo o qual medidas antitruste acabavam enfraquecendo a competição, foi usado como doutrina para acompanhar inúmeras leis. Supostamente, se o Estado se afastasse, as forças de mercados iriam tornar-se mais competitivas, porque os preços de monopólio iriam suscitar inovação e novos ingressantes no mercado. Na prática, todos os setores tornaram-se mais pesadamente concentrados. As corporações estabelecidas adquiriram o hábito de comprar os inovadores ou de usar seu poder de mercado para esmagá-los. Este padrão é especialmente insidioso na economia dos monopólios de plataformas na internet, onde os gigantes como Google e Amazon usam seu poder e seu acesso muito superior aos dados dos consumidores para excluir rivais. Os mercados, também aqui, exigem regras que levem em conta muito mais que a competição supostamente “benigna”. Só governos democráticos podem estabelecer regras que estabeleçam a igualdade. E quando a democracia é inibida, governos antidemocráticos, em associação com plutocratas privados corruptos, fazem as leis.

A teoria do “capital humano”, outra variante do uso de visões neoliberais dos mercados para lidar com questões sociais, justificou a desregulamentação dos mercados de trabalho e o esmagamento dos sindicatos. Estes, assim como as leis trabalhistas, supostamente usavam seu poder para fazer com que os trabalhadores recebessem mais que seu valor de mercado. Mas a era dos salários deprimidos é acompanhada por um declínio das taxas de crescimento da produtividade. Em paralelo, alguma pessoa séria acredita que o pagamento hiperinflacionado dos magnatas financeiros que quebraram a economia reflete sua contribuição para a atividade econômica? No caso dos fundos de hedge e de private equity, as altíssimas rendas dos patrocinadores dos fundos são o resultado de capturas de riqueza e de renda dos assalariados e de outros agentes, não frutos de gerenciamento eficiente.

Uma vasta literatura critica, em detalhe, este corpo de trabalhos pseudo-acadêmicos. Muito do neoliberalismo representa a vitória da presunção sobre a evidência. Mas a teoria neoliberal sobreviveu por ser conveniente para as elites, e devido ao poder inercial do capital intelectual que havia criado. Um habitat neoliberal muito bem financiado ofereceu carreiras confortáveis para duas gerações de acadêmicos e pseudo-acadêmicos, que transitam entre a academia, os think tanks, as empresas de lobby, as páginas dos jornais, o Estado e os mercados financeiros. Ainda que a teoria tenha sido demolida tanto pela refutação acadêmica quanto pelos fatos, ela realimenta-se em instituições poderosas e aliados políticos musculados.

O fracasso prático das políticas neoliberais

A desregulação financeira é o fracasso desregulatório mais palpável do neoliberalismo, mas está longe de ser o único. A desregulação elétrica elevou, em muitos países, o poder de um oligopólio e elevou os custos para os consumidores – mas foi incapaz de oferecer oportunidades significativas para reduzir os preços. Retrocedemos de monopólios estatais regulados, com ganhos, custos, salários e proteções ao consumidor previsíveis, para oligopólios desregulados, com enorme poder de estabelecer seus próprios preços. As telecomunicações viveram processo quase idêntico de competição restrita, disparata de preços e restrições aos sindicatos.

O transporte aéreo é quase sempre apresentado como um caso exemplar, pelos defensores da desregulação, mas os resultados são, se muito, ambíguos. A desregulação produziu quebradeiras em série das empresas, muitas vezes atingindo os salários e aposentadorias dos trabalhadores. Os preços das passagens declinaram na média, nas últimas décadas, mas o público sofre com um louco mosaico de tarifas, piora dos serviços, encolhimento dos assentos e distância entre eles e penalidades exorbitantes quando é necessário fazer mudanças de horários absolutamente normais. Diversos estudos demonstraram que os preços caíram mais rapidamente nos 20 anos antes da regulamentação que no período posterior, já que a fonte principal de eficiência é a introdução de aviões que usam combustível de modo mais eficiente. As oscilações bruscas entre lucro e prejuízo das empresas reduziu a capacidade de adquirirem aviões mais econômicos e a idade média das frotas sobe.

Além da desregulação, três grandes áreas das políticas neoliberais são a privatização dos serviços públicos, o emprego de vouchers para remunerar a Educação ou Saúde prestada por particulares e o uso, para o mesmo fim, de subsídios fiscais, em vez de desembolsos diretos do Estado. Em todos os casos, estão envolvidas receitas do Estado. Por isso, estamos muito longe de um mercado “livre”. Mas a premissa é que a disciplina de mercado permite obter resultados melhores que os da prestação direta pelo Estado.

As evidências não ajudam estas afirmações. Um problema central é que os programas invariavelmente transferem muito para os intermediários privados, às custas do supostos beneficiários. Um problema relacionado é que o uso de vouchers e contratos é um convite à corrupção. É uma forma de busca de privilégios de monopólio [“rent-seeking”] diferente da que os teóricos da “escolha pública” atribuem ao Estado – mas igualmente corruta. Quase sempre, a oferta direta de serviços, pelo setor público, é muito mais transparente e sujeita a responsabilização que uma rede de contratados.

Um problema adicional é que na prática há sempre muito menos competição do que o imaginado, devido ao poder dos oligopólios e à influência política dos prestadores de serviços. Os experimentos de mercantilização para alcançar objetivos sociais não se dão em laboratórios político platônicos, onde a única meta é a eficiência. Eles ocorrem no mundo fétido da política prática, onde os prestadores estão frequentemente aliados a políticos conservadores, cujo propósito pode ser desacreditar os investimentos sociais, recompensar aliados políticos ou favorecer-se de propina direta, ou contribuições às campanhas eleitorais.

Os presídios privatizados são outro exemplo. Um punhado de enormes empresas, protegidas de escândalos, obteve a maior parte dos contratos, quase sempre por meio de influência política. Em vez de apostar mais qualidade e eficiência gerencial, lucraram desviando fundos operacionais, piorando condições que já eram deploráveis e encontravam novas formas de cobrar, dos presos, tarifas mais altas por serviços essenciais, como chamadas telefônicas. A maior parte das “economias” veio da redução dos salários e do profissionalismo dos guardas, de superlotação cada vez maior e da redução de orçamentos inadequados para alimentação e cuidados com saúde.

Um exemplo similar é a privatização das estruturas de transportes, como rodovias e mesmo parquímetros. Em muitos países e regiões, as estradas foram transferidas a concessionários privados. As autoridades que fazem o negócio ganham um impulso fiscal temporário, enquanto os usuários acabam pagando os pedágios mais altos por décadas. Os banqueiros que financiam o negócio também se apropriam de uma fatia gorda. Uma parte do dinheiro acaba dirigida a melhoras nas estradas, mas isso poderia ser feito de modo muito mais eficiente via propriedade pública direta e licitações competitivas.
(…)

À medida em que mais sistemas hospitalares e planos de saúde passam a visar lucro, investimentos maciços fluem para atividades indesejáveis como a manipulação das cobranças, a “seleção de riscos” e outras formas de burlar as regras. Sistemas semi-públicos de Saúde requerem regulação maciça para trabalhar com eficiência tolerável. Na prática, a terceirização degenera numa disputa interminável entre reguladores e gestores interessados na “eficiência” lucrativa, com as empresas privadas recorrendo aos governos para alterar as regras.

Uma vasta literatura demonstrou que instituições de ensino privadas, que recebem incentivos públicos para admitir alunos, têm resultados muito piores que escolas públicas, e são vulneráveis a múltiplas formas de manipulação e corrupção. Os proprietários destas escolas são muito hábeis para encontrar meios de excluir estudantes.
(…)

A influência neoliberal sobre a esquerda

À medida em que as teorias de “livre” mercado ressurgiram, elas foram abraçadas por muitos integrantes da esquerda moderada. Nos anos 1970, marcados por inflação, a regulação tornou-se um bode expiatório acusada de supostamente bloquear a competição salutar por preços. Alguns, como o economista Alfred Kahn, conselheiro do presidente norte-americano Jimmy Carter, apoiaram a desregulação por enxergar seus supostos méritos. Outros esquerdistas moderados defenderam as políticas neoliberais de modo oportunista, para prestar favores a setores econômicos poderosos e doadores de campanha. As políticas de mercado também foram adotadas pela esquerda moderada como medida tática para chegar a acordos com os conservadores.

Nos EUA, diversas formas de desregulação – do setor aéreo, transporte de carga e fornecimento de eletricidade começaram, nos Estados Unidos, não sob Reagan, mas sob o democrata Jimmy Carter. A desregulação financeira decolou sob outro democrata, Bill Clinton, mas só republicanos promoveram acordos comerciais que destruíram padrões sociais. As análises de custo-benefício do Escritório de Informação e Assuntos Regulatórios de Washington causaram mais danos sob Barack Obama que sob George W. Bush.

“Comando e controle” tornou-se um pejorativo geral para depreciar regulações inteligentes e eficientes. “Semelhante ao dos mercados” [“market-like”] tornou-se um conceito de moda, não apenas entre a direita, mas também nos ambientes de esquerda moderada. Cass Sunstein, que foi o czar anti-regulação no governo Obama, usa a imagem de “cutucões”, como uma alternativa “semelhante à dos mercados” e, portanto, superior, diante da regulação direta. No entanto, o impacto destes “empurrões”, salvo raras exceções, é trivial – eles só funcionam, de fato, em conjunto com processos regulatórios.

Há, de fato, certas políticas intervencionistas que utilizam incentivos de mercado para atender objetivos sociais. Mas, ao contrário do que dizem as teorias de “livre” mercado, estes incentivos exigem regulação substancial – não são uma alternativa a ela. Há muitos outros temas, como os rótulos nutricionais, informação precisa sobre empréstimos e controle das emissões de carbono em que as premissas de mercado, de um consumo informado, conduzem a regulação – mas também não a substituem. Quase todo o aumento de eficiência energética, por exemplo, são resultado de regulações obrigatórias, que exigem das frotas automotivas cumprir metas de economia. O fato de os índices de consumo serem exibidos com destaque, nos novos carros, pode ter influência modesta, mas os combustíveis estão tão depreciados que as empresas conseguem vender com sucesso automóveis muito perdulários a despeito das informações ao consumidor.

Politicamente, qualquer que fosse a lógica para a adesão da esquerda moderada às teses ultraliberais, ela se esgotou. Hoje, a direita ataca os direitos sociais e reduz os impostos dos ricos sem nenhum diálogo com seus oponentes. Também abandonou o esforço para chegar a consensos sobre políticas ambientais, combate a pobreza e serviços públicos – ou seja, quase tudo. A ideologia neoliberal cumpriu sua tarefa histórica de enfraquecer o apoio popular e intelectual à proposição segundo a qual ações afirmativas do Estado podem melhorar as vidas dos cidadãos.

Neoliberalismo e hiperglobalismo

As regras pós-1990 da globalização, apoiadas tanto pelos conservadores quanto pela esquerda moderada, são a quintessência do neoliberalismo. Na Conferência de Bretton Woods, em 1944, o uso de taxas fixas de câmbio e os controles sobre o movimento de capitais privados especulativos, mais a criação do FMI e do Banco Mundial, visam permitir que os países-membros praticassem formas de capitalismo regulado, livres das influências destrutivas e deflacionárias dos fluxos  especulativos de capitais. Quando a doutrina e o controle de poder mudaram, nos anos 1970, o FMI, o Banco Mundial e, mais tarde, a OMC (que substituiu o antigo GATT) transformaram-se no oposto ideológico. Em vez de instrumentos de apoio para as economias nacionais, eles passaram a exigir a aplicação das políticas neoliberais.

O pacote padrão do Consenso de Washington, de políticas impostas às nações em desenvolvimento incluía demandas de abertura dos mercados de capitais para as transações financeiras especulativas, o corte de impostos sobre o capital, o enfraquecimento dos gastos sociais, a redução dos direitos trabalhistas e das empresas públicas. Mas o investimento de capitais privados em nações empobrecidas demonstrou-se volátil. O resultado foram fluxos excessivos, durantes os períodos de boom e retiradas punitivas, nas fases de contração – o oposto dos capitais pacientes, de longo termo, de que estes países necessitavam e que haviam sido oferecidos pelo Banco Mundial da fase anterior. Nos momentos de contração, o FMI tipicamente impõe as exigências neoliberais de maneira ainda mais dramática, como contrapartida a seus “resgates”. Entre as medidas, estão austeridade orçamentária perversa, supostamente para restaurar a confianças dos mesmos mercados de capital altamente especulativos responsáveis pelos ciclos de boom e retração.

Dezenas de países, da América Latina ao Sudeste Asiático, afundaram neste ciclo e, em seguida, na submissão ao FMI. A Grécia ainda sofre o impacto. Depois de 1990, o hiper-globalismo também incluiu tratados comerciais cujos termos favoreceram as corporações. Tradicionalmente, as cláusulas destes acordos envolviam principalmente a redução de tarifas de importação. Os países que os assinavam eram livres para manter as medidas de regulação, o investimento público ou as políticas sociais que desejassem. Com o advento da OMC, muitas políticas, além das tarifas, foram rotuladas como “distorções do ‘livre’ comércio”. Os acordos comerciais foram usados para dar ao capital externo livre acesso a seus objetivos e para desmantelar as regulações a empresas nacionais. Tribunais especiais foram criados. Neles, as corporações estrangeiras e os investidores podiam obrigar as autoridades nacionais a abrir mão de regulação, tratada como “impeditiva ao comércio”.

O dano não se restringiu, porém, aos países em desenvolvimento. Como demonstrou um trabalho do economista Dani Rodrik, a democracia exige um espaço político. Para o bem ou para o mal, tanto este espaço quanto a cidadania são nacionais. Ao adotar o mercado global, às custas do Estado democrático, o padrão atual de hiperglobalização enfraquece deliberadamente a capacidade dos Estados para regular mercados – e enfraquece a própria democracia.

Quando os mercados funcionam?

O fracasso do neoliberalismo como política econômica e social não significa que os mercados nunca funcionem. Uma economia de comando central pode ser ainda mais irreal e perversa que uma neoliberal. A questão prática é como encontrar uma alternativa eficiente e igualitária.

A narrativa neoliberal sobre como a economia opera pressupões um mercado sem conflitos, em que os preços são estabelecidos pela oferta e demanda, e o mecanismo de preços aloca os recursos em direção a seu melhor uso, para a economia como um todo. Para que este esquema funcione como supõe a propaganda, porém, não pode haver poder de mercado. A competição deve ser plena. Vendedores e compradores precisam ter acesso, basicamente, à mesma informação. Não pode haver externalidades significativas. O século XX foi, em boa parte, a prova prática de que estas condições não descrevem a economia real. E se os mercados precificaram os produtos de modo errado, o sistema de mercado não produziu um equilíbrio eficiente e as depressões poderiam aprofundar a si mesmas em espiral descendente. Como Keynes demonstrou, apenas um aumento maciço do gasto governamental é capaz de religar os motores – mesmo quando violam, ainda que parcialmente, o estabelecimento de preços pelos mercados…

Mesmo assim, em muitos setores da economia, o processo de compra e venda é suficientemente próximo das condições ideais de competição perfeita – e o sistema de preços funcional de modo tolerável. Os supermercados, por exemplo, oferecem preços mais ou menos acurados, devido à liberdade dos consumidores e a seu conhecimento sobre as lojas da redondeza. É o mesmo com boa parte do setor de varejo. No entanto, quando se entra nos grandes setores da economia, como a Educação e a Saúde, os mercados não são suficientes. E em outros grandes setores, como a indústria farmacêutica, em que as corporações usam seu poder político para estabelecer as regras de patentes, o mercado não oferece uma saída.

O argumento essencial do neoliberalismo pode ser resumido num adesivo de para-choques: “Os mercados funcionam; os governos, não”. Se você deseja adocicar a narrativa, há alguns acréscimos: “Os mercados fortalecem a liberdade humana. E com mercados, as pessoas obtêm essencialmente aquilo que merecem”. “Alterar os resultados dos mercados é espoliar os pobres e punir os produtivos”. Estas conclusões derivam, logicamente, da premissa segundo a qual os mercados são eficientes. Milton Friedman tornou-se rico, famoso e influente por defender as diversas implicações destas premissas simples.

É muito mais difícil articular a defesa de economias complexas que a dos “livres” mercados, precisamente porque as economias complexas são complexas. A refutação exige vários parágrafos. A narrativa mais complexa sustenta que os mercados são substancialmente eficientes em alguns setores, mas estão distantes disso em muitos outros, porque as externalidades positivas e negativas, a tendência dos mercados financeiro a criar ciclos de expansão e contração, a interseção entre auto-interesse e competição, a assimetria de informação entre empresas e consumidores, a assimetria de poder entre corporações e empregados, o poder dos poderosos para burlar as regras e o fato de haver setores da vida humana (o direito ao voto, a liberdade humana e a segurança de qualquer  pessoa, por exemplo) que não deveriam ser mercantilizados.

E se os mercados não são perfeitamente eficientes, as questões redistributivas são, em parte, escolhas políticas. Algumas sociedades pagam a professores pré-escola básica o salário mínimo. Outras educam e recompensam seus profissionais. Não há nenhum salário “correto” a partir de critérios de mercado, porque a educação pré-escola básica é um bem social e o tema de como treinar e compensar os professores é uma escolha social, não uma definição de mercado. O mesmo é verdade para muitos outros serviços humanos, entre eles a Medicina. Também não é um conjunto de regras “corretas” para patentes, marcas e propriedade intelectual. Tudo isso é derivado da política – ou as normas equilibrar os interesses da inovação com os da difusão, ou são politicamente capturados pelas empresas estabelecidas.

Os governos podem, em princípio, aperfeiçoar os resultados dos mercados, por meio da regulação. Isso torna-se mais complexo devido ao risco de captura regulatória. Por isso, surge o tema da falha dos mercados versus falha da política – o que nos remete novamente à urgência de democracias fortes e governos efetivos.

Depois do Neoliberalismo

A reversão política do neoliberalismo poderá vir somente por meio de políticas e decisões práticas que demonstrem como os Estados podem servir os cidadãos de modo mais igualitário e eficiente que os mercados. Não faltam economistas dissidentes e pesquisadores políticos cujos trabalhos acadêmicos foram confirmados pelos fatos. Não precisam de mais teoria, mas de mais influência política, tanto na academia quanto nos corredores do poder. Eles poderão assessorar novos governos progressistas se estes puderem ser eleitos e se estiverem dispostos a desistir de buscar auxílio de neoliberais.

Também há algumas áreas relativamente novas que convidam à inovação política. Entre elas estão a regulação dos direitos de privacidade versus as liberdades das empresas, na era digital; como pensar na internet como um Comum; como atualizar as políticas de competição e combate aos oligopólios, quando os monopólios de plataforma exercem novas formas de poder de mercado; como modernizar as políticas de trabalho na era da economia uberizada; e o papel das políticas de Renda Cidadã, num tempo em que as máquinas substituem o trabalho humano.

O experimento neoliberal fracassado não sugere apenas, como alternativa, um capitalismo melhor regulado – mas a ação pública direta. A atividade bancária, quando exercida corretamente – em especial a provisão de crédito imobiliário – é algo muito próximo a um bem público. Poderia ter este caráter. Uma boa parte da pesquisa científica e tecnológica é feita mais honesta e eficazmente em instituições públicas do que num setor particularmente corrupto como a indústria farmacêutica. A habitação social é quase sempre melhor que os esquemas oferecidos pelo mercado. A geração de energia é mais eficiente, menos suscetível a preços de monopólio e mais aberta a políticas ambientais quando estatal. A Saúde pública é muito mais eficiente. Serviços oferecidos pelo Estado requerem supervisão das sociedades, mas esta é muito mais direta e transparente que a dança bizantina de regulação e contrarregulação.

Os outros dois benefícios da oferta direta pelo Estado são: a sociedade tem evidência direta da entrega, pelos governos, de algo de valor; e o poder da democracia para controlar os mercados é ampliado. Uma economia complexa depende, sobretudo, de uma democracia forte – ainda mais do que aquela que sucumbiu à influência corrupta das elites econômicas e dos defensores do neoliberalismo nos últimos 50 anos. O antídoto para a fábula neoliberal é a ressurreição de uma democracia suficientemente forte para domar os mercados.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/o-enigma-da-sobrevivencia-neoliberal.html

Smith, Marx e alienação

 

por Prabhat Patnaik [*]

Adam Smith, 1723-1790, retratado por Muir. Entre não marxistas há sempre uma tendência a ignorar a especificidade das percepções de Marx no âmago da economia política e reduzi-las, ao invés, a ideias semelhantes mas anteriores que podem ser encontradas em Adam Smith ou David Ricardo. O economista Paul Samuelson exprimiu esta tendência da maneira mais flagrante, se não deliberadamente provocatória, quando se referiu a Marx como um "pós ricardiano menor".

O problema com esta tendência é que ela perde o salto que Marx deu sobre os seus antecessores e portanto interpretou-o muito mal. O caso clássico de tal má interpretação é a teoria de valor de Marx, a qual é erradamente tomada como não diferente daquela de David Ricardo (um erro que conforma a caracterização de Marx feita por Samuelson). Um erro análogo é cometido também quanto à visão de Marx da alienação.

Adam Smith, seria de recordar, enfatizou o significado profundo da divisão do trabalho tanto na sociedade como um todo como também dentro da fábrica. Em relação a esta última, ele deu o famoso exemplo da fábrica de alfinetes onde o trabalho de manufacturar alfinetes era segmentado em numerosas actividades separadas e diferentes trabalhadores eram assinalados a estas diferentes actividades, o que resultava num enorme aumento da produtividade por trabalhador. Smith havia sustentado que tal aumento de produtividade e o rácio no qual o total da força de trabalho era dividido em "trabalhadores improdutivos" (tais como servidores domésticos) e "trabalhadores produtivos" (os quais produziam valor excedente) como os dois factores chave que determinavam o aumento da riqueza das nações.

Mas tendo enfatizado o papel da divisão do trabalho como causa do progresso económico, no sentido de aumentar a "riqueza das nações", Smith avançou para destacar o facto de que tal especialização tendia a causar a "mutilação mental" dos trabalhadores, uma vez que cada um deles estava restrito a desempenhar uma única tarefa repetitiva. Vale a pena aqui citar Smith na íntegra:

"O homem cuja vida inteira é gasta no desempenho de umas poucas operações simples, das quais os efeitos são talvez sempre os mesmos, ou muito aproximadamente os mesmos, não tem oportunidade de exercer o seu entendimento ou de exercitar o seu poder inventivo na descoberta de expedientes para remover dificuldades que nunca ocorrem. Ele naturalmente perde, consequentemente, o hábito de tal esforço e torna-se geralmente tão estúpido e ignorante quanto é possível tornar-se uma criatura humana. O torpor da sua mente torna-o não só incapaz de desfrutar ou participar de qualquer conversação racional, nem de conceber qualquer sentimento generoso, nobre ou delicado e, consequentemente, de formar qualquer julgamento justo referentes mesmo a muitos dos deveres comuns da vida privada... Mas em toda sociedade aperfeiçoado e civilizada isto é o estado no qual os trabalhadores pobres, isto é, o grande conjunto do povo, deve necessariamente cair, a menos que o governo faça alguns esforços para impedi-lo".

Se bem que esta visão de Smith sem dúvida apreenda um aspecto importante da produção capitalista, um aspecto acerca do qual muitos marxistas também escreveram e que de modo impressionante foi captado no filme Tempos Modernos de Charlie Chaplin, ela é frequentemente mantida como sendo a precursora da teoria da "alienação" de Marx e como contendo a sua ideia central. Esta última afirmação no entanto é errónea e enganosa, não obstante a perspicácia contida nas observações do próprio Smith.

Smith queria que os "governos" nas "sociedades civilizadas" impedissem este torpor da mente que sobrevém aos pobres trabalhadores, como complemento necessário ao progresso económico da nação. Comunistas pré-marxistas como Proudhon [NR] também trataram das consequências adversas da divisão do trabalho e exprimiram-se sobre como ultrapassar este torpor. Marx resumiu a visão de Proudhon sobre isto, em A pobreza da filosofia, com as seguintes palavras;

"O sr. Proudhon... propõe ao trabalhador que faça não só um doze avos do alfinete, mas sucessivamente todas as doze partes dele. O trabalhador viria então a conhecer e compreender o alfinete. Isto é a síntese do trabalho do sr. Proudhon... ele não pode pensar em nada melhor do que em levar-nos de volta ao artesão ou, no máximo, ao mestre-artífice da Idade Média".

Portanto a alienação, como Smith ou mesmo Proudhon a viam, não exige a transcendência do capitalismo para ser ultrapassada (isto apesar do facto de que o próprio Proudhon era comunista [NR]). O entendimento de Marx da alienação, embora não negando a percepção que Smith e, a seguir a ele, Proudhon, haviam avançado, era no entanto completamente diferente disto; e a ultrapassagem exigia uma transcendência do capitalismo.

A ULTRAPASSAGEM DA ALIENAÇÃO NECESSITA DA TRANSCENDÊNCIA DO CAPITALISMO

Em Smith, eram apenas os trabalhadores que eram alienados desta maneira. Mas em Marx, a alienação era uma característica universal do sistema, afectando todos, não apenas os trabalhadores mas também os capitalistas. E a universalidade da alienação caracterizando o sistema significa que ela não podia ser ultrapassada dentro do próprio sistema; ela necessariamente exigia a sua transcendência.

A alienação era imanente na própria forma mercadoria. Uma mercadoria é naturalmente um valor de uso e um valor de troca; mas ela não é um valor de uso para o produtor. Enquanto para o comprador ela é tanto um valor de troca, representando uma certa soma de dinheiro como um valor de uso, com certas propriedades físicas e químicas as quais satisfazem suas exigências, para o vendedor ela é só um valor de troca, só uma certa soma de dinheiro. As propriedades físicas e química da mercadoria são inúteis para ele pessoalmente.

Isto é um ponto básico de diferença entre a economia política marxiana e a economia política burguesa "convencional" ("mainstream"), uma vez que esta última é fundamentada sobre a presunção de que a mercadoria que é trocada por dinheiro entre o vendedor e o comprador constitui um valor de uso para ambos (além naturalmente de ser um valor de troca para ambos). Mas se a mercadoria é apenas um valor de troca, não um valor de uso, para o produtor, então o produtor não pode simplesmente retirar-se do mercado e consumir sua própria mercadoria. Venha o inferno ou a tempestade ele deve vendê-la por uma certa soma de dinheiro; se não puder vender então está condenado, a menos que tenha algumas reservas de cash a que recorrer.

Uma vez que todos os vendedores sabem disto, construir tais reservas pela ampliação do negócio a expensas de rivais torna-se essencial para cada um. A competição, por outras palavras, introduz uma luta darwiniana entre produtores de mercadorias; e isto transmite-se ao capitalismo, o qual é nada mais que a produção generalizada de mercadorias (onde o próprio valor-trabalho tornou-se uma mercadoria). É a esta luta darwiniana que está subjacente o impulso para a acumulação de capital e para a introdução do progresso tecnológico.

O que isto significa é que não são apenas os trabalhadores que têm de competir uns contra outros pelo emprego num mundo caracterizado pelo desemprego (isto é, pela presença perene de um exército de reserva do trabalho), mas os capitalistas também têm de competir uns contra os outros. Em suma, todos os participantes neste sistema têm de representar papeis particulares, quer gostem ou não; pois se não o fizerem então dão-se por vencidos. Cada um deles pode conservar a sua posição dentro do sistema, não importa se essa posição implica ser um explorador ou quem é explorado, só representando um certo papel, actuando e comportando-se de uma maneira particular. Cada participante individual no sistema aparece como tendo "arbítrio" ("agency") no sentido de ser aparentemente livre para fazer o que preferir fazer; mas de facto esta aparência é enganosa porque o modo da sua acção é determinado pela sua posição dentro do sistema e o papel deste impõe-se sobre ele ou ela. É digno de nota que Marx chamou o capitalista de "capital personificado", isto é, as tendências imanentes do sistema actuam elas próprias entre outras através do "arbítrio" nominal dos capitalistas (tal como efectivamente dos trabalhadores).

O capitalismo, por outras palavras, não é apenas um sistema explorador; não é apenas um sistema anárquico onde a resultante agregada das acções de indivíduos revela-se diferente do que pretendiam; ele é também, além disso, um sistema "espontâneo", onde o modo de influir sobre parte dos próprios indivíduos não é determinada pela sua vontade mas é-lhes imposta pela posição que ocupam dentro do sistema.

A LÓGICA COERCIVA DO SISTEMA

A alienação sob o capitalismo está basicamente ligada a isto, isto é, ao facto de que as acções dos indivíduos não são baseadas na sua própria vontade mas derivam da lógica coerciva do sistema. O capitalista acumula não porque goste mas porque não tem outra opção dentro da lógica do sistema se não quiser dar-se por vencido. Os trabalhadores obedecem ordens porque se não o fizessem seriam despedidos e postos à margem. O progresso tecnológico é introduzido porque se um capitalista com acesso à nova tecnologia não a introduzisse, então algum outro o faria; e o primeiro capitalista ficaria fora da competição e seria descartado. É esta coerção que é alienante, o facto de que o arbítrio nominal não implique arbítrio autêntico, mas seja meramente a mediação através do qual funcionaa lógica imanente do sistema.

Contudo é precisamente esta espontaneidade que é desafiada pelos trabalhadores através de "combinações" que impõem cada vez mais complexidade política (com a ajuda de teoria trazida de "fora"). Tais combinações, por outras palavras, constituem passos para ultrapassar a alienação imposta pelo sistema sobre os trabalhadores. Mas as tendências imanentes do mesmo (ex. a tendência rumo à centralização do capital, sua formação em blocos cada vez maiores), actua sempre para frustrar e reverter estes esforços em direcção à ultrapassagem da alienação dentro do próprio sistema.

O facto de que a globalização do capital, a qual é expressão do mais alto nível de centralização até hoje alcançado, tenha servido para minar os movimentos sindicais por todo o mundo capitalista, e com isto o movimento político de esquerda, só confirma esta afirmação. Disto se segue que a ultrapassagem da alienação, como entendida por Marx, não é possível dentro do próprio sistema; ela só é possível através da sua transcendência. Este facto apenas enfatiza a diferença básica entre o entendimento smithiano e o entendimento marxiano da alienação.

[NR] Ao invés de "comunista pré-marxista" seria preferível classificá-lo como socialista utópico.

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia .

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2014/0323_pd/smith-marx-and-alienation . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

28/Mai/14

“Crise do capitalismo”, pós-desenvolvimento, decrescimento: apenas variações semânticas?

A Areia dos Dias
O período de crise em que vivem as nossas sociedades está a ser particularmente fértil no aparecimento de soluções e alternativas que visam enquadrar o futuro no após crise.  A antropologia social salienta este facto quando se refere à multiplicidade dos discursos da transição (DT) e à necessidade de se proceder a um profundo esclarecimento ontológico já que são as próprias categorias em que aqueles discursos se baseiam que estão em causa[1].
Do ponto de vista da economia e, muito especialmente da economia ecológica e da sustentabilidade, parece-nos que um tal trabalho de análise ontológica e epistemológica é também da maior oportunidade. Especialmente porque, como sabemos, o ensino da economia está a ser objecto de uma análise crítica sem precedentes e a abordagem da pluralidade e do conhecimento do real, que abertamente se defendem, devem ir ao fundo das questões, esclarecendo conceitos e categorias entre distintos pontos de vista.
Não, não estamos só perante variações semânticas: o paradigma do decrescimento exige uma mudança radical de modo de vida e de pensar.
Na edição de Abril de 2018 da revista Ecological Economics, um artigo de H. Buch-Hansen chama a atenção para os quatro requisitos básicos indispensáveis para uma mudança de paradigma socio-económico no sentido do decrescimento: uma crise profunda do capitalismo, a existência de um projecto político alternativo, uma ampla coligação de forças políticas e sociais que, abraçando tal projecto, o promovam através de acções de luta e um amplo consenso social. E conclui que os dois últimos requisitos estão longe ainda de se verificar[2].
Também Escobar, no já referido contributo, insiste que a Grande Transição (GT) terá necessariamente de se fazer fora dos actuais limites epistemológicos e institucionais do modelo de produção dos últimos séculos, chamemos-lhe capitalismo, modernidade, neo-liberalismo… Outros economistas da mesma linha vão mais longe e defendem que aquela transição exige uma mudança radical de valores e de instituições socio-económicas: The GT involves an alternative global vision that replaces ‘industrial capitalism’ with a ‘civilizing globalization’ (Buch-Hansen, op. cit). “Progresso” é redefinido in terms of non-material human fulfillment, pressupõe uma separação radical entre bem-estar e crescimento e consumo material bem como o desenvolvimento e a apropriação de novos valores sociais – solidariedade, ética, sentido da vida, vivência comunitária… Não admira que muitas destas perspectivas defendam a redeslocalização da economia e dos processos de produção a favor das comunidades locais e de uma forma mais próxima de articulação entre a propriedade dos meios e recursos e o controlo dos processos de produção.
Sendo o pós-desenvolvimento uma visão mais ampla e indefinida, onde cabem diversas propostas alternativas de superação da crise do capitalismo, o decrescimento constitui-se, assim, como uma categoria mais exigente: não chega defender o regresso à economia cooperativa e solidária, uma maior justiça económica e social, políticas fiscais e redistributivas mais progressistas, é antes toda uma nova concepção de vida que não corra o risco de se limitar a promover a “economia verde” e o post-desenvolvimento deixando intactas as bases do economicismo.
Autores de inspiração neo-marxista, como L. Vergara-Camus, da SOAS da Universidade de Londres[3] são de opinião que não é o crescimento em si que tem vindo a provocar a crise do capitalismo mas a forma como esse crescimento tem vindo a ocorrer neste modo de produção: com a separação entre trabalhadores e meios de produção, com o trabalho alienante, com os imperativos da competitividade[4] e as restrições inerentes à democracia liberal. E continua: From this perspective, I argue that growth could be greened in a post-capitalist society if the institutions and dynamics that force capitalist accumulation and competition were abolish and full democracy was established [5]
Estaremos, assim, e no entanto, num exercício de pura especulação, como sugere o autor na sua introdução? Seja como for, o aprofundamento e o debate sobre o pós-capitalismo impõem-se como nunca.


[1] Ver, por exemplo, Escobar, A. (2015). Degrowth, post-development and transitions: a preliminary conversation. Sustain Sci, https://www.degrowth.org/wp-content/uploads/2015/07/ESCOBARDegrowth-postdevelopment-and-transitions_Escobar-2015.pdf
[2] Buch-Hansen, H. (2018). The Prerequisites for a Degrowth Paradigm Shift: Insights from Critical Political Economy. Ecological Economics, Volume 146, Abril 2018, Pp. 157-163, https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0921800916313726
[3]Onde se insere um dos programas do ensino da economia alternativos ao mainstream que constam da lista do Institute of New Economic Thinking (INET-Rethinking Economics), como se descreveu no estudo do GES Por Onde vai o Ensino da Economia?
[4] Que implica acumulação crescente de capital, que produz e exige nova acumulação, protegida e promovida pelos mercados e instituições do capitalismo… até que se verifique nova/a grande(?) crise despoletada pela “queda tendencial da taxa de lucro” descrita por Marx.
[5]Vergara-Camus, L. (no prelo). Capitalism, Democracy, and the De-growth Horizon. Department of Development Studies SOAS University of London. Capitalism, Nature, Socialism, Taylor and Francis online.

Ver o original em "A Areia dos Dias" (clicar aqui)

O liberalismo está obsoleto?

“O liberalismo está obsoleto”. Quem disse isso foi ninguém menos que Vladimir Putin, o poderoso presidente da Rússia, para a edição de 28 de junho do jornal inglês Financial Times. Ele disse mais. Em pleno G20 afirmou que a chanceler alemã, Angela Merkel, havia cometido um erro fundamental ao adotar uma política liberal para imigração do Oriente Médio. Merkel autorizou a entrada de mais de um milhão de refugiados na Alemanha, principalmente sírios, fugindo da guerra.

 

Putin disse que “A ideia liberal (…) está em conflito com os interesses de uma maioria esmagadora da população”. Para ilustrar o que seriam esses “interesses da maioria” afirmou que, embora, segundo ele, a Rússia não seja um país marcado pela homofobia, a disposição do Ocidente em abraçar a homossexualidade e a fluidez de gênero são excessivas “num mundo baseado em valores bíblicos”.

Em suma, disse, liberais já “não podem simplesmente ditar qualquer coisa para qualquer um, como vêm tentando fazer ao longo das últimas décadas”. O liberalismo ocidental perdeu espaço devido ao ressentimento com imigração, multiculturalismo e valores seculares.

O que me chamou a atenção ao ler esta notícia, além, é claro, de seu reacionarismo fundamental, foi a crítica ao liberalismo vindo da direita. Desde que o liberalismo dita as regras é a esquerda sua mais feroz opositora. Isso porque o liberalismo prega, grosso modo, estado mínimo e liberdade do setor privado em colocar seus preços, de acordo com a concorrência, e regulamentar sua força de trabalho, de acordo com a oferta e demanda.

Mas, se para exemplificar Putin fala de homossexuais, de qual liberalismo estamos falando?

Aí é que está. Para os americanos, e o presidente russo usar o termo liberalismo neste sentido, ser liberal é ser progressista, é abraçar o estado de bem-estar social. Ao dizer que o liberalismo está obsoleto, na entrevista, ele refere-se à pauta dos costumes, à pauta identitária, e não ao liberalismo econômico. Esta visão abrange sim a questão dos homossexuais, dos imigrantes e dos valores bíblicos a que se refere. Ele está errado, claro. A evolução de uma nação passa justamente por aceitar e afirmar todas as identidades humanas e por derrubar dogmas opressores. Meu ponto aqui, entretanto, não é nem desmontar a visão retrógrada de Putin, nem refletir sobre o esfacelamento do discurso da esquerda em diversas bandeiras específicas. É entender se o seu antiliberalismo abrange também um protecionismo econômico e um estado forte, ou se limita a dizer como as pessoas devem se comportar. Meu ponto é também trazer esta questão para a nossa realidade tropical, onde os conceitos de liberal e conservador estão juntos e misturados.

Bolsonaro, com seu Chicago Boy, Paulo Guedes, ganhou a eleição apresentando o liberalismo como farol da salvação econômica. Isso não condiz com seu histórico parlamentar, mais próximo de Cháves do que de Reagan. Desde sua posse, em janeiro, ele não parece muito afeito a lidar com assuntos da economia, os quais delega para o ministro. Mas, diversas vezes interferiu pesadamente em decisões “liberais” de Guedes, mostrando que ele, que nesta história representa o estado, é quem determina as coisas. A intervenção no preço do Diesel foi a mais escandalosa delas. Além disso, chamou a atenção o viés autoritário com o qual demitiu o liberal Joaquim Levy do BNDES por questões políticas e até mesmo pessoais.

O presidente e os ministros com os quais tem mais afinidade, que são dos da “ala ideológica” (Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e Damares Alves) reiteradamente afirmam que a linha do governo é a da família patriarcal e dos dogmas religiosos. E fazem questão de apresentar aos brasileiros suas referências ao modo de ser. Talvez nisso ele esteja de acordo com Putim.

Paulo Guedes, entretanto, tenta ser liberal em meio aos desvarios do governo. Tenta defender e emplacar reformas austeras, antissociais e impopulares, justificando com cálculos e tabelas a necessidade do “ajuste”, como bom liberal.

Vivemos, então, o pior de dois mundos. Um liberalismo tosco, com menos proteção social e mais liberdade para exploração do capital, e um conservadorismo tosco, com o aumento da discriminação entre homossexuais, negros, mulheres, imigrantes. Em um real liberalismo econômico não faria sentido discriminar as chamadas “minorias” dado seu poder de consumo e de movimentação da economia. Por outro lado, de um estado que se diz mais conservador, espera-se maior proteção social, mais serviços públicos, maior regulamentação do trabalho.

Concluo que, embora haja globalmente uma reação conservadora ao liberalismo dos costumes, que Putin diz estar obsoleto, ele é um caminho sem volta. Hoje a humanidade já tem um repertório acumulado que sustenta a luta pela liberdade, igualdade e pela emancipação das pessoas, sejam elas como forem. Na economia, em contrapartida, não são os estados, mas as grandes empresas, hoje atuando na era digital, que é ainda mais difícil de delimitar, que continuam ditando as regras, com base na concorrência, na oferta e na demanda.


Texto em português do Brasil


 

 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-liberalismo-esta-obsoleto/

O Marxismo-Leninismo já passou à história?

Ontem, em torno de um enredo que metia gelado e medo, insinuava alguém que o Marxismo-Leninismo tinha acabado, jazia morto e enterrado e fazia-o observando que tinha passado à história. 
Aqui se demonstra o contrário. Está mais presente que nunca:

«Os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens caros, casas e tecnologia, impulsionando-a cada vez mais ao caro endividamento, até que sua dívida se torne insuportável» -Marx, citado por mim

«A dívida pública tornou-se uma das mais enérgicas alavancas da acumulação original. Como com o toque da varinha mágica, reveste o dinheiro improdutivo de poder procriador e transforma-o assim em capital, sem que, para tal, tivesse precisão de se expor às canseiras e riscos inseparáveis da sua aplicação industrial e mesmo usurária. Na realidade, os credores do Estado não dão nada, pois a soma emprestada é transformada em títulos de dívida públicos facilmente negociáveis que, nas mãos deles, continuam a funcionar totalmente como se fossem dinheiro sonante. Mas também (...) a dívida do Estado impulsionou as sociedades por acções, o comércio com títulos negociáveis de toda a espécie, a agiotagem, numa palavra: o jogo da bolsa e a moderna bancocracia.» -Marx, citado pelo "Castendo"

 «Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.»
Karl Marx, in "Salário, Preço e Lucro"
«Chama-se compromisso em política ao abandono de certas exigências, à renúncia a uma parte das reivindicações próprias, em virtude de um acordo com outro partido (...) A tarefa de um partido verdadeiramente revolucionário não consiste em proclamar impossível a renúncia a quaisquer compromissos, mas em saber permanecer fiel, através de todos os compromissos, na medida em que eles são inevitáveis, aos seus princípios, à sua classe (...) »
Lénine, «Sobre os compromissos»

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Dois marxismos?

por Greg Godels

O Google sabe que tenho um interesse permanente no marxismo. Consequentemente, recebo links frequentes para artigos que os algoritmos do Google seleccionam como populares ou influentes. Sistematicamente, no topo da lista, estão artigos de ou sobre o irreprimível Slavoj ŽZiZžek. ZiZžek dominou os truques de um intelectual público – divertido, pomposo, escandaloso, calculadamente obscuro e amaneirado. A pose desalinhada e a barba desgrenhada somam-se a uma quase caricatura do professor europeu, a presentear o mundo com grandes ideias profundamente embebidas em camadas de obscurantismo – uma maneira infalível de parecer profundo. E uma maneira infalível de promover o valor comercial do entretenimento.

. Seguidores próximos do "mestre" até postam vídeos de ZiZžek a devorar hot dogs – um em cada mão ! Ele está actualmente a ganhar dinheiro com um debate público com um congénere de direita que é um saco vazio, o qual supostamente torna obscenos os preços dos ingressos. O marxismo como empreendedorismo.

ZiZžek é uma das mais recentes repetições de uma longa linhagem de académicos em grande parte europeus que constroem uma modesta celebridade pública a partir de uma identificação com o marxismo ou a tradição marxista. De Sartre e o existencialismo até o estruturalismo, pós-modernismo, pós-essencialismo, pós-fordismo e política identitária, académicos apropriaram-se de partes da tradição marxista e afirmaram repensar aquela tradição, enquanto mantinham uma distância segura e bem medida em relação a qualquer movimento marxista. Eles são marxistas quando isso lhes traz uma audiência, mas raramente respondem ao chamado à acção.

O curioso sobre este marxismo intelectual, de salão de conversa, o marxismo diletante, é que nunca é completo; é marxismo com reservas sérias. O marxismo é bom se for o do Marx "primitivo", do Marx "humanista", do Marx "hegeliano", do Marx dos Grundrisse, do Marx sem Engels, do Marx sem a classe trabalhadora, do Marx antes do bolchevismo, ou antes do comunismo. Compreensivelmente, se quiser ser o próximo grande domador de Marx, deve separar-se da manada, deve repensar o marxismo, redescobrir o Marx "real", mostrar onde Marx errou.

Gerações anteriores de estudantes universitários bem-intencionados, mas com confusão de classe, foram seduzidas por pensadores "radicais" que oferecem um gostinho de rebeldia num pacote académico sexy. Estudantes carregam montes de livros não lidos, mas livros de autores na moda como Marcuse, Althusser, Lacan, Deleuze, Laclau, Mouffe, Foucault, Derrida, Negri e Hardt – autores que compartilhavam características comuns com livros de títulos exóticos e provocativos e prosa impenetrável. Livros que prometiam muito, mas entregavam trevas.

Com uma nova geração de jovens de mentalidade radical em busca de alternativas ao capitalismo e curiosos acerca do socialismo, é inevitável que muitos estejam a olhar para Marx. E para onde se voltam?

Um professor de Yale desavergonhadamente apresenta na badalada Jacobin Magazine uma cartilha para iniciantes intitulada Como ser um marxista . O professor Samuel Moyn actualmente exerce na cadeira Henry R. Luce [1] de jurisprudência. Aparentemente, Moyn não se sente desconfortável em possuir uma cadeira dotada por um dos mais notórios editores anti-comunistas e anti-marxistas do país quando apresenta o seu guia para o marxismo.

A pretensão de Moyn de guiar os que não têm conhecimento do marxismo não se justifica nem se explica. No entanto, ele sente-se confiante para recomendar dois académicos recentemente falecidos, Moishe Postone e Erik Olin Wright (juntamente com o ainda vivo Perry Anderson), como representando os últimos da "…geração de grandes intelectuais cujas experiências da década de 1960 levaram-nos a dedicar a vida inteira a recuperar e re-imaginar o marxismo".

Confesso que a sua escolha de Moishe Postone deixou-me desconcertado. Deveria eu ficar embaraçado por dizer que nunca conheci o trabalho do professor Postone ou que não o conheci como marxista? Quando encontrei no YouTube uma entrevista com o estimado Professor Postone, descobri rapidamente que ele enfaticamente e sem reservas nega ser marxista. Além disso, Postone pretende que a maior parte do que chamamos de marxismo foi escrita por Frederick Engels. Postone admite que Engels era "realmente um bom rapaz", mas que Engels nunca entendeu Marx adequadamente. Postone, por outro lado, sim. E o seu Marx não "glorifica" a classe trabalhadora industrial.

Estou no entanto familiarizado com o outro alegado exemplar de uma devoção de "grande intelectual" ao marxismo, Erik Olin Wright. Wright foi um membro consagrado e proeminente da chamada escola do "Marxismo Analítico". Wright, como os demais membros desse movimento intelectual, tentou colocar o marxismo numa base "legítima", onde a legitimidade era obtida submetendo o marxismo aos rigores da ciência social anglo-americana convencional. O conceito de que a ciência social anglo-americana é sem viézes ou que nada tem a aprender com o método de Marx jamais é questionado com essa gente. Mas, para crédito de Wright, ele lutou com unhas e dentes para apreender o conceito de classe social.

A fim de "salvar a esquerda de se meter em vários becos sem saída", o professor Moyn oferece o último livro de seu "colega brilhante", Martin Hägglund. Moyn assegura-nos que "This Life: Secular Faith and Spiritual Freedom" ("Esta vida: Fé laica e libertação espiritual") é excelente para começar por aqueles que querem estimular a teoria do socialismo, ou mesmo construir a sua própria teoria de uma variante marxista dela".

Basta apenas um breve momento para verificar que Martin Hägglund e seu admirável colega estão a levar-nos a outros becos sem saída, alguns pisados por muitas gerações anteriores. A jornada de Hägglund revisitaria o existencialismo, Hegel e as tradições cristãs em busca do evasivo "sentido da vida". Embora muitos de nós pensassem que Marx oferecia uma análise profundamente informada da mudança social e da justiça social, Moyn / Hägglund, seguindo Postone, avançam com "as perguntas finais que todos devem fazer: que trabalho deveria eu fazer? Como deveria gastar meu tempo finito?" Acumular capital contrapõe-se, sugerem eles, a "maximizar... o tempo livre individual a despendê-lo como lhe agradar..."

Assim, a luta pela emancipação, neste repensar do marxismo, não é a emancipação da classe trabalhadora, mas o arrebatar de tempo livremente descartável das garras do trabalho. Os professores admitem que esta luta é muito mais fácil para académicos do que para os "miseráveis da terra".

"E finalmente", conclui Moyn, "há a proposta de Hägglund de que os marxistas podem abandonar o comunismo – que, em qualquer caso, Marx descreveu vagamente – em favor da democracia. Não está totalmente claro o que Hägglund quer dizer com democracia, algo que nem o próprio Marx nem muitos marxistas optaram por investigar teoricamente. Assim, Hägglund destila "marxismo" numa rejeição do comunismo e num abraço de uma vaga "democracia". Eu teria de concordar com Moyn quando ele diz: "Na verdade, é notável quão poucas pessoas pensaram que a teoria marxista tornara-se a tentativa de Hägglund de recomeçá-la no nosso tempo". Aparentemente, o segredo agora revelado de se tornar um marxista é descartar Marx

Tal como muitos auto-proclamados "marxistas", que antecederam Postone, Hägglund e Moyn, a intenção dos mesmos parece ser mais a de defraudar o marxismo do que a de promovê-lo.

Ideias perigosas

A verdade nua e crua é que o marxismo – desde a época da censura de Marx e das suas múltiplas expulsões de diferentes países – é uma ideia perigosa. A incapacidade de Marx de assegurar nomeações académicas e a sua constante vigilância e perseguição por parte das autoridades provou ser um precursor do destino de quase todos os intelectuais marxistas autênticos. O capitalismo não dá àqueles que defendem a destruição do capitalismo honra académica ou celebridade. E aqueles "marxistas" que se tornam aclamados por académicos, que obtêm lucrativos negócios de livros, que desfrutam de exposição nos media, raramente representam grande ameaça ao sistema.

É um facto revelador que, embora a história tenha produzido muitos marxistas "orgânicos", marxistas com raízes na classe trabalhadora e em movimentos que desafiam o capitalismo, suas contribuições raramente povoam as bibliografias de professores universitários, a menos que sejam para ridicularizá-las. O emprego universitário raramente está disponível para fornecedores de ideias perigosas ou para a defesa de uma versão de Marx que apele a mudanças revolucionárias.

Um historiador marxista como o falecido Herbert Aptheker– que fez mais do que qualquer outro intelectual para desafiar a representação distorcida, em Nascimento de uma nação / E tudo o vento levou, de um Sul benévolo e da sua heróica defesa de um nobre estilo de vida – não conseguiu encontrar trabalho em universidades dos EUA. Na verdade, até foi preciso um movimento pela liberdade de expressão para que lhe fosse permite falar nos campi dos EUA. Seus livros desapareceram da circulação e poucos estudantes de história afro-americana têm acesso às suas contribuições.

Ninguém elaborou uma história do movimento trabalhista americano que rivalizasse com a do falecido marxita Phillip Foner , os 10 volumes de History of the Labor Movement. Os cinco volume de The Life and Writings of Frederick Douglass , também de Foner, restabeleceram Douglasse como uma figura proeminente na abolição da escravatura nos EUA. Uma universidade historicamente negra, a Lincoln University, corajosamente contratou Foner após anos de listas negras. Infelizmente, hoje, suas obras são amplamente ignoradas nos campos em que foi pioneiro.

As sérias contribuições de muitos outros intelectuais marxistas dos EUA podem ser encontradas em edições antigas de publicações como Science and Society , Political Affairs, Masses, Masses and Mainstream e Freedomways a descansarem em prateleiras recônditas e poeirentas, diminuídas pelo macarthismo, pelas listas negras, pela covardia académica e pelo anticomunismo grosseiro.

As portas e o discurso público da academia e dos mass media foram igualmente fechados aos marxistas da classe trabalhadora (a menos que renunciem a seus pontos de vista!). Apesar de sua liderança dos movimentos da classe trabalhadora e de escrever prolificamente, os trabalhos marxistas de William Z. Fostersobre organização, estratégia e tácticas trabalhistas e economia política estão em grande medida esquecidos, a menos que reapareçam como o pensamento de outra pessoa. A outras importantes figuras marxistas responsáveis por alguns dos melhores momentos da força de trabalho e pela sua interpretação, como Len De Caux e Wyndham Mortimer, é-lhes negada a entrada no clube.

Analogamente, pioneiros marxistas nos movimentos de igualdade dos negros e das mulheres, como Benjamin Davis, William Patterson e Claudia Jones, não são nem louvados como tais nem são apresentados como exemplos de "Como ser um marxista".

A obra do economista político marxista Victor Perlona identificação dos mais altos limites do capital financeiro e da teoria económica do racismo estão curiosamente ausentes de qualquer conversação académica relevante.

O que todos esses marxistas compartilham é uma vida política activista no Partido Comunista dos EUA, um distintivo orgulhoso, mas denegrido pela maior parte dos intelectuais americanos.

Os melhores escritos da venerável Monthly Review sofrem a mesma marginalização. Seus fundadores foram ameaçados o suficiente para serem vitimizados pelo Red scare . E o seu co-fundador Paul Sweezy, um sério economista político marxista, nunca foi entusiasticamente recebido nos círculos académicos.

Hoje, Michael Parenti é o mais perigoso intelectual marxista nos EUA. Sei disto porque apesar de incontáveis livros, vídeos e palestras, apesar de um compromisso intransigente com uma interpretação marxista da história e dos acontecimentos actuais, apesar de um profundo, mas fundamentado ódio ao capitalismo, e apesar de um estilo admiravelmente acessível e com grandes ideias, ele não tem emprego em universidades e é-lhe negado acesso a todos os media, excepto os mais à esquerda ou marginais.

Outro impressionante estudioso marxista dos EUA, Gerald Horne, embora desfrutando de estabilidade académica, merece ser estudado por todos os "esquerdistas" nos EUA pela integridade, acessibilidade e qualidade do seu trabalho.

O marxismo autêntico, em oposição ao marxismo da moda, do modismo, ou do marxismo caprichoso, é implacável, agressivo e inspirador de acção. Ele disseca diligentemente o funcionamento interno do sistema capitalista. É implacável e impiedoso na sua rejeição ao capitalismo. Ele desafia o pensamento convencional, fazendo poucos amigos na imprensa capitalista e abalando a gentileza e a colegialidade do liberalismo tranquilo da academia. O marxismo não é um avanço de carreira, mas um compromisso ingrato.

Os marxistas reais são necessariamente anómalos (outliers). Até as condições para mudanças revolucionárias amadurecerem, eles são frequentemente sujeitos a cepticismo, desinteresse, até escárnio e hostilidade. Os que posam como marxistas são alérgicos a organizações políticas, activismo e risco intelectual, ao passo que marxistas comprometidos são obrigados a buscar e unir movimentos pela mudança. Eles são levados a servir a muito citada tese de Marx e raramente atendida na décima primeira tese sobre Feurbach: "Os filósofos só interpretaram o mundo de várias maneiras; a questão no entanto é mudá-lo".

 

30/Abril/2019
[1] Magnata da imprensa, en.wikipedia.org/wiki/Henry_Luce

O original encontra-se em https://mltoday.com/two-marxisms/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/dois_marxismos.html

Todos os lugares

«Nos anos 1990, Castells (1996) e outros autores defenderam que estava então a ocorrer a emergência de uma geografia de fluxos em detrimento da velha geografia dos lugares, no quadro de uma sociedade organizada em rede, potenciada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, mas, também, pela crescente mobilidade de ideias, bens, capitais e pessoas no contexto da globalização das economias e das sociedades. (...) O anúncio, ilustrado com múltiplos exemplos factuais, não constituiu uma verdadeira surpresa. Afinal, a chamada livre circulação dos fatores de produção sempre foi um princípio fundamental das teorias económicas liberais e alcançou uma centralidade particularmente decisiva com o neoliberalismo e a financeirização da economia.
(...)

 

A leitura linear da emergência da geografia dos fluxos em detrimento da geografia dos lugares foi de imediato criticada por diversos autores (p. ex., Smith, 1996; Graham, 1998). Mas a resposta mais clara chegou 20 anos mais tarde e proveio, como sempre, da própria sociedade, ainda que de uma forma para muitos inesperada: a emergência dos movimentos de direita populistas, nacionalistas e xenófobos na Europa e nos EUA, primeiro num número reduzido de países, como a Itália, a França e a Áustria, mas de forma mais generalizada a partir de 2016.

 

(...) Quem são, então, os "descontentes" que apoiam soluções populistas de natureza conservadora, protecionista e xenófoba? São sobretudo os residentes em áreas em declínio estrutural e persistente, vítimas dos efeitos da globalização económica, do cosmopolitismo universalista, do triunfalismo metropolitano e, mais recentemente, da recessão económica e das políticas de austeridade.

 

(...) Sabemos há muito que os territórios não são meros palcos, onde "algo" sucede, ou meros espelhos, onde "algo" se reflete. A geografia dos "lugares que não contam" contribuiu para a politização das desigualdades territoriais, para usar uma expressão de Rodriguez-Pose. Mas a análise dessa politização permite-nos compreender que não estamos perante uma guerra entre territórios. Enfrentamos, sim, graves problemas de injustiça espacial e de falta de coesão territorial decorrentes dos processos de globalização, do poder das redes cosmopolitas desterritorializadas e do ideário do triunfalismo urbano. O regresso da geografia dos lugares ao debate científico e político não deve, por isso, ter como objetivo único ou mesmo primordial o combate ao fator que nos relembrou a importância dos lugares, de todos os lugares – o voto da direita populista, nacionalista e xenófoba – mas antes o modelo socioeconómico, cultural e político que o explica e promove.»

 

João Ferrão, Para uma geografia de todos os lugares

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Marx e a crise:   os fantasmas, agora, são eles

por Mauro Luís Iasi [*]
"Marx, hoje, volta a rondar a Europa, os EUA, a Ásia, nossa América Latina. Não somos mais um mero espectro. Somos cada vez mais de carne, osso, sangue e sonhos, enquanto eles se transformam a cada dia em fantasmas."

Túmulo de Marx, em Londres. A atual crise do capitalismo mundial, além das graves consequências que traz para os trabalhadores, acabou por propiciar um efeito direto no debate teórico e acadêmico: uma retomada das ideias de Marx. Por que isso ocorre? Que tipo de previsão foi realizada por Marx que o faz tão maldito, perseguido e tão renitente em nascer e renascer cada vez que o julgam morto em definitivo?

Passamos, nós marxistas, pelas décadas de 1980 e 1990 resistindo no universo acadêmico como se fôssemos dinossauros anacrônicos, insistindo em teses que desmoronam diante das "evidências" pós-modernas, que afirmavam o fim da validade da teoria do valor, o fim da centralidade do trabalho, das classes e, por consequência, das formas organizativas e dos projetos políticos próprios da classe trabalhadora.

Karl Offe [2] chegou a afirmar que, depois das ideias de Touraine, Foucault e Gorz, o pensamento marxista não teria mais muita "respeitabilidade cientítico-social". O próprio Keynes, que alguns se preparam para resgatar como balsamo benígno contra os males da desregulação, sobre O Capital de Karl Marx decretou:

"Como posso aceitar uma doutrina que estabelece como bíblia, acima e além de qualquer crítica, um manual econômico obsoleto que reconheço não só como científicamente errôneo, mas também sem interesse ou aplicação para o mundo moderno?" [3]

Logo na sequência do mesmo texto, Keynes confirmará sua postura "científica" ao declarar preferir a burguesia que "apesar de suas falhas, representa a prosperidade"e certamente leva as "sementes de todo avanço humano", criticando aqueles que "preferem a lama ao peixe" e "exaltam o proletariado rude" contra a burguesia.

Parece que a burguesia continua, em sua incansável rota em direção ao avanço humano, cometendo "algumas falhas", que ameaçam a humanidade para garantir o avanço do capital. O proletariado rude, imerso na lama na qual tem que viver, mais uma vez tenta compreender a natureza da vaga que ciclicamente o afoga e, mais uma vez, o velho Karl Marx se levanta de seu descanso no cemitério de Londres para assombrar os respeitáveis senhores da ciência.

Qual seria o elemento teórico que encontramos em O Capital que permite que Marx seja ainda tão contemporâneo? Primeiro, poderíamos dizer que Marx era, de certa forma, mais anacrônico em sua época do que agora. Como pensa o capital como um conceito, um movimento do real que dialeticamente transita através de suas formas e, sendo histórico, nasceu, se desenvolveu e um dia irá ser superado, Marx projeta, pela análise precisa do ser do capital, aquilo que denomina de modo de produção especificamente capitalista, ou seja, um mundo subsumido inteiramente ao metabolismo do capital, no qual reina a subordinação real do trabalho ao capital, no qual a mercadoria e o dinheiro são realidades universais, subordinando o valor de uso ao valor de troca.

Ao projetar o capital maduro e completo é que Marx pode avaliar o processo possível de sua superação. Um procedimento que os antigos, antes que os pós-modernos convencessem o mundo acadêmico a aderir a um novo agnosticismo, chamavam de ciência. Ora, este capital maduro estava longe de corresponder à realidade de meados do século XIX; no entanto, para desespero da respeitável intelligentsia, o capitalismo contemporâneo se parece muito mais com a previsão de Marx do que com a projeção mítica anunciada pelos arautos do liberalismo e da economia política.

Apesar de autores como Boaventura de Souza Santos afirmarem que, considerando os três gigantes clássicos do pensamento social (Marx, Durkheim e Weber), Marx teria sido entre eles o que "errou de forma mais espetacular" [4] . Mas o desfecho do mundo burguês no inicio do século XXI se caracteriza inequivocamente por uma constatação: o mito liberal morreu!

Qual é a essência do mito liberal e como Marx se contrapôs a ele? O fundamento do mito liberal pode ser resumido da seguinte maneira: o capitalismo é um sistema virtuoso, pois permite que cada um, buscando seu próprio interesse egoísta, contribua para o estabelecimento do bem comum. Dessa maneira, é o único que pode articular de maneira eficiente os valores do indivíduo, da liberdade, da propriedade e da igualdade. O capitalista busca lucro, mas para obtê-lo produz mercadorias e para tanto gera emprego. O trabalhador quer pagar suas contas e viver e por isso vende sua força de trabalho. Com seu salário compra as mercadorias oferecidas pelos capitalistas e assim se fecha o ciclo. O burguês tem seu lucro, o trabalhador seu salário e a sociedade cada vez mais mercadorias com que satisfazer suas necessidades.

O sistema capitalista seria, ainda, virtuoso não apenas pelo equilíbrio entre interesses individuais egoístas e interesse geral, mas por sua dinâmica: quanto mais o capital produz mercadorias, mais contrataria, mais salários distribuídos intensificariam o consumo, que levaria a nova produção, mais contratações e novos salários que induziriam ao aumento do consumo e assim por diante, da melhor forma possível e no melhor dos mundos.

Recentemente, o presidente Lula conjurou o mito com todas suas letras ao afirmar que diante da crise os trabalhadores em vez de pedir aumento deveriam fazer com que suas empresas produzissem mais, para aquecer o Mercado, atender as necessidades do mercado consumidor e daí garantir, não apenas empregos como a possibilidade futura de melhores salários.

Apesar da fé consagrada de muitos ao mito, Marx escreveu O Capital para comprovar a falácia deste argumento central do pensamento burguês. Podemos resumir desta forma as principais conclusões do pensador alemão para contrapor uma visão científica à ideologia liberal: a) quanto mais cresce a concorrência entre os capitalistas, menor é a livre concorrência e maior é a tendência ao monopólio; b) nas condições de uma concorrência entre monopólios, os capitalistas tendem sempre a investir mais em capital constante (máquinas, instalações, novas matérias primas, etc) para aumentar a produtividade do trabalho, do que em capital variável (a compra da força de trabalho) alterando drasticamente a composição orgânica do capital em favor do trabalho morto; c) o resultado aparentemente paradoxal desse processo é uma tendência à queda na taxa de lucro, ou seja, quanto mais o capital cresce, maior é a produtividade do trabalho pela aplicação consciente da técnica e da ciência ao processo de trabalho, quanto mais o capital se torna monopolista e mundial, menor é a taxa de lucro.

Na verdade, a tautologia liberal afirma que quanto mais o capital cresce, mais ele cresce. O que Marx anunciou pela dialética do capital, compreendido pela minuciosa análise que se nega a permanecer na superfície aparente dos fenômenos, é que quanto mais o capital cresce, mais ele produz a crise que é própria à sua natureza, ou seja, de ser valor em constante processo de valorização, ou seja, uma crise de superacumulação que se combina de forma explosiva com manifestações de superprodução, subconsumo e queda tendencial da taxa de lucro.

O fato desconcertante para os adeptos dos planos de aceleração do crescimento, ou da irracionalidade exuberante como batizou Greenspan (ex-presidente do Banco Central norte-americano), é que o que causa a crise não é a carência, mas a abundância, a pletora. Um raciocínio típico de Marx, isto é, não argumenta com o adversário teórico pela negação de sua tese, mas pela suposição de sua plena realização. No caso concreto de nossa análise, afirma que a dinâmica do capital leva à aparente confirmação do mito liberal, levando a sociedade a uma espiral irresistível de produção, consumo e reinvestimento; no entanto este reinvestimento sempre se dá, pela própria concorrência, seja livre ou monopólica, alterando a composição orgânica em favor do capital constante e, portanto, alimentando a queda tendencial da taxa de lucro.

No momento agudo deste processo, o capital realizado ao final do ciclo, e que deveria voltar ao início como novo capital inicial, encontra todo o metabolismo do capital saturado de investimentos, muitos meios de produção instalados, muitos trabalhadores empregados, muitas mercadorias produzidas, e tudo isso com taxas de lucro menores. Em momentos normais, o capital migra para outra área, seja para produzir outro tipo de mercadoria, seja para outra região em busca de elementos que possam baratear seus custos com força de trabalho, matérias primas ou outros elementos do capital constante. No entanto, nas épocas que antecedem às crises, considerando o capital total, é como se o capital não encontrasse onde aportar e começa a parar.

Como o capital é, antes de qualquer coisa, movimento do valor em constante processo de valorização, sua crise ocorre quando este movimento se paralisa em algum ponto do ciclo do capital: como dinheiro que não consegue virar crédito, como capacidade instalada e ociosa, como força de trabalho contratada e impedida de trabalhar, como mercadoria produzida e que não encontra o consumo na proporção de sua oferta, ou ainda pior, como consumo realizado que alimenta a fogueira da superacumulação.

Para que possamos entender o desfecho da crise e, principalmente, os efeitos sobre a classe trabalhadora, é necessário recorrer a um raciocínio essencial que Marx desenvolve ao tratar de sua tese sobre a queda tendencial da taxa de lucro no Livro III de O Capital: as contratendências.

Marx precisava defender sua tese em um momento no qual o mito liberal esbanjava saúde. A primeira grande crise do capital, entre os anos 1870 e 1880, ofereceu para o autor os elementos centrais de sua afirmação. No entanto, o capital estava destinado a sair dessa crise e de outras. É preciso não confundir a teoria de Marx sobre a crise com qualquer afirmação messiânica sobre uma crise final catastrófica que levaria por si mesma ao fim do capitalismo [5] . Para o autor, o capital desenvolveria elementos contra-tendenciais que fariam da queda na taxa de lucro uma tendência e das crises uma realidade cíclica, ou seja, em outras palavras, não se trata de uma linha descendente que culmina no fim do poço, mas de um movimento de crescimento, auge, crise e retomada até novo ápice que leva a uma nova crise.

As chamadas contratendências [6] seriam todas as ações empreendidas pelo capital no sentido de se contrapor à queda na taxa de lucro. Podemos resumi-las da seguinte maneira: a) aumento do grau de exploração da classe trabalhadora, seja pelo aumento da jornada de trabalho, seja pela intensificação do trabalho; b) redução dos salários; c) redução dos preços dos elementos do capital constante, tais como buscar matérias-primas mais baratas, máquinas mais eficientes, subsídios para insumos e serviços essenciais como aço, mineração, energia, armazenamento, transporte e outros; d) formação de uma superpopulação relativa, ou seja, reunir um contingente de força de trabalho muito além das necessidades do capital e mesmo além do exército industrial de reserva como forma de pressionar o valor da força de trabalho para baixo; e) ampliação e abertura de mercado externo como forma não apenas de desovar o excedente produzido, como de encontrar fontes de matéria prima e recursos abundantes, barateando seus custos; d) o aumento do capital em ações, isto é, buscando compensar a queda na taxa de lucro com juros oferecidos pelo mercado de papéis oferecidos por empresas ou por títulos do Estado.

Notem que todas as contratendências escondem um sujeito oculto. Trata-se, já no final de O Capital, de mais um embate, este decisivo, contra a ideologia liberal. Quem administra os limites da exploração do trabalho, seja pelo tamanho da jornada, seja pelas condições gerais da contratação? Quem determina os limites legais da compra da força de trabalho e seu valor? Quem pode baratear os elementos do capital constante por meio de subsídios, créditos facilitados, isenções e outros meios conhecidos? Quem assume o custo de administração, manutenção e controle sobre uma superpopulação relativa cujo papel é nunca entrar no mercado e trabalho? Quem representa os interesses das corporações monopólicas na ampliação, conquista e manutenção de mercados em disputa com outros monopólios? Finalmente, quem se presta ao papel de oferecer títulos que remuneram com taxas de juros generosas sem se preocupar em perder dinheiro ou comprar de volta títulos podres e sem valor?

Esse sujeito, que mal se oculta, só pode ser o Estado! Eis que se desmorona a mãe de todos os mitos liberais: o Estado não deve intervir na livre concorrência entre os indivíduos pela disputa de riquezas e propriedades, resumido na tese da não intervenção estatal na economia. Para Marx, o Estado sempre foi um fator determinante no sociometabolismo do capital,em seu nascimento na acumulação primitiva de capitais, na garantia das condições gerais chamadas de extraeconômicas (garantia da propriedade, subordinação legal e institucional da força de trabalho ao capital, defesa da ordem, etc.) no período de ouro do liberalismo, na representação dos monopólios na partilha e repartilha do mundo, fazendo dos interesses das corporações o interesse nacional; e, por fim e mais importante, nos momentos de crise em que o custo da exuberância irracional, que levou à apropriação indecente da riqueza socialmente produzida na forma de acumulação privada, tem que ser socializado por toda a Nação.

Além do evidente papel do Estado no comando e gerenciamento das contratendências, fica evidente o caráter de classe destes mecanismos, o que nos ajuda a entender os efeitos que recairão sobre os trabalhadores. A intensificação da exploração, que leva ao aumento do desgaste da força de trabalho e à intensificação dos acidentes e das doenças profissionais; a redução de salários, assim como a precarização das condições de contratação, com relativização e perda de direitos; o aumento da superpopulação relativa, que tem por base a intensificação da expropriação dos camponeses e de todos que ainda conseguem manter seus meios diretos de trabalho, e que leva à explosão urbana com todas suas consequências conhecidas no campo da habitação, dos serviços essenciais como educação e saúde, mas também no que se refere a questão da violência e da criminalidade.

Mesmo as ações que aparentemente não se relacionam diretamente com o agravamento das condições de exploração e a precarização das condições de vida dos trabalhadores acabam por ter efeitos muito sérios sobre a vida de quem trabalha. Os subsídios e isenções ao capital, para baratear os elementos do capital constante ou ajudá-los a manter seus patamares de venda, só podem sair do fundo comum do Estado e, portanto, à custa de cortes dramáticos em serviços públicos duramente conquistados. Só em uma semana, o governo brasileiro gastou R$50 mil milhões para manter o valor do dólar, enquanto durante todo o ano anterior foram gastos um pouco mais de R$ 20 mil milhões com a saúde, apenas para ficar em um exemplo. As fortunas gastas para manter bancos em funcionamento só podem sair do recurso público numa clara expressão de privatizar a pequena parte da produção social da riqueza que ficou no espaço publico, sem que em nenhum momento se questione o volume da riqueza que no ciclo de crescimento permaneceu na esfera da acumulação privada.

Talvez o mais grave quanto aos efeitos da ação do Estado na gestão das contratendências para os trabalhadores e a própria humanidade seja um aspecto para o qual Marx não deu maior atenção: a expansão do mercado externo. Quando Marx escrevia o último livro de O Capital, a ordem monopolista mal fazia sua estreia histórica. Para o autor, tratava-se apenas de encontrar mercados para os produtos e encontrar fontes de matérias-primas. Ocorre que, com o pleno desenvolvimento dos monopólios, passa a ser decisivo, como estudou mais tarde Lenin, a exportação de capitais, e daí a necessidade de controle das áreas de influência, levando a constante partilha e repartilha do globo, primeiro entre os monopólios e depois entre as nações que os representam, levando à Guerra.

A fase imperialista e a prática da guerra, que lhe é inseparável, fizeram desta contratendência quase que a síntese da ação do Estado em defesa do capital e da manutenção de suas taxas de lucro contra a tendências das mesmas em cair. Não apenas pela enorme destruição material que a Guerra causa, abrindo campo para novas inversões em condições de lucratividade retomada em patamares aceitáveis para o capital, como pelo próprio estabelecimento de um complexo industrial-militar que vende ao Estado mercadorias que terão que ser substituídas quer sejam ou não usadas (como no caso do arsenal nuclear), como teorizou de forma precisa Mészáros.

Podemos resumir, afirmando que, na dinâmica das contratendências, as vítimas são os trabalhadores, os beneficiários a burguesia monopolista e o instrumento o Estado, não apenas como aparato técnico jurídico-adiministrativo, mas também e principalmente pela capacidade que lhe é própria de apresentar como universal um interesse que é particular. Nesse campo, o da luta política, a crise é o momento de retirar da gaveta do arsenal da política burguesa a tese do pacto social.

No momento da crise se reapresentam todas as alternativas em disputa. Podemos resumi-las em três posições: a) a afirmação de que tudo não passa de um incidente, mais ou menos grave, mas de qualquer forma um incidente que não compromete a estrutura do mito, ou seja, basta voltar a crescer que os empregos voltam, o consumo cresce, e tudo volta ao círculo virtuoso do capital; b) a retomada da crítica keynesiana, que aparece simultaneamente como afirmação da ordem do capital com todos os elementos que lhe são próprios (inclusive a livre concorrência), mas que afirmará a necessidade de retomar mecanismos de regulação, ou seja, não se trata de evitar a livre concorrência, mas de regular certos aspectos para que suas consequências inevitáveis não gerem condições catastróficas que possam levar ao questionamento do sistema; c) a alternativa socialista, ou seja, aquela que se fundamenta na afirmação sobre a necessidade da produção social da riqueza ser gerida também de forma social, levando à acumulação social da riqueza ser concebida como valor de uso e não mercadoria.

No presente quadro, a primeira, um pouco na defensiva e sem a arrogância que caracterizou o último ciclo, não desaparecerá. Ela se inscreverá na afirmação que basta o Estado dar os elementos para que o capital volte a crescer, sem que interfira na disputa econômica direta, por exemplo, através das estatizações. A segunda, de corte keynesiana, será a mais ativa e, portanto, mais enganosa e perigosa para os trabalhadores. Sob o manto de uma necessidade comprovada de maior regulação, que deverá se inscrever nos limites do mundo financeiro, pode chegar até a defender, como aliás já está acontecendo, algumas ações estatizantes. No entanto, esta opção mal esconde uma enorme luta política que marcou o século XX. Foi preciso ceder a determinadas demandas dos trabalhadores, por direitos e condições de vida, frente à ameaça de superação revolucionária da ordem, representada pelo advento da revolução Russa de 1917.

A solução keynesiana, que não se revestiu no século XX necessariamente com a forma de um Welfare State social democrata de perfil europeu, nos EUA prevaleceu com o New Deal, mantendo a base de uma economia de mercado fundada na livre concorrência, e na América Latina, por exemplo, a regulação estatal se deu na forma de ditaduras militares mais preocupadas com o Estado do que com o bem-estar. No quadro conjuntural atual, de inflexão política, de desmonte e isolamento das tímidas alternativas de transição socialista iniciadas no século XX, os regulacionistas tendem a se comportar mais como liberais contidos e responsáveis do que como social democratas.

Aos trabalhadores cabe uma outra ordem de tarefas. Primeiro: resistir, não aceitando que o ônus da crise recai sobre o setor que mais se penalizou no ciclo de crescimento. Não apenas lutando para que nenhum direito lhe seja retirado, como se recusando a proposta do tipo redução de jornada com redução de salário ou qualquer precarização de suas já precárias condições de contrato e de trabalho. Segundo: forçar o Estado para que se recuse a usar o recurso público para dirimir perdas ou incentivar produtividade de um setor da economia monopolizada, que lucrou fortunas e as acumulou privadamente. Enquanto o governo se regojiza com a informação de que os 20% mais pobres passaram de U$1,00 por dia para U$2,00 de maneira que saíram de uma posição que os colocava abaixo da linha da miséria para uma condição de dignidade duvidosa na linha da miséria, as 500 maiores empresas do Brasil, entre 2002 e 2007 viram seus lucros saltarem de R$ 2,9 mil milhões para R$43 mil milhões.

Em terceiro lugar, está na hora de a classe trabalhadora deixar de optar entre qual é a ortodoxia burguesa que mais lhe convém, se a liberal ou a keynesiana, e dizer a pleno pulmões que as previsões liberais ou regulacionistas, que prometiam que o crescimento econômico levaria a uma paulatina diminuição das desigualdades sociais e a um mundo justo e equilibrado, naufragaram triunfalmente. Depois os marxistas é que são acusados de "determinismo econômico"! O que é a tese de que os problemas sociais só se resolverão com o crescimento econômico de tipo capitalista senão a mais mecânica afirmação economicista?

O Brasil tinha como modelo os EUA e a Europa. Queríamos, na expressão de Galeano, ser como eles. Pois bem, já somos. Somos parte integrante do sistema capitalista mundial, no papel que nos cabe, como área de saque do imperialismo. Uma área especial que, devido ao grau de investimento imperialista dos grandes monopólios, constituímos como uma formação social com um capitalismo moderno e completo que inclusive ensaia seus primeiros movimentos no sentido do imperialismo tupiniquim, como tem teorizado Virgínia Fontes, sem, contudo, nunca sair de baixo das asas dos centros hegemônicos do imperialismo mundial.

Devemos recusar o papel miserável de entrar no debate que busca "como sair da crise". Devemos pautar o debate, o único que interessa aos trabalhadores, sobre qual forma de sociabilidade atende os interesses reais dos trabalhadores e da humanidade e pode, de quebra, evitar que ciclicamente todo o esforço produtivo seja destruído por uma nova crise que, para salvar o capital e suas taxas de lucro, destrói produtos, fábricas e seres humanos em uma escala genocida. Para nós, marxistas, existe essa alternativa: é necessário e urgente que a produção social da vida liberte-se das relações sociais de produção de tipo capitalista, superando a propriedade privada dos meios de produção e desenvolvendo as forças produtivas materiais como recursos coletivos e patrimônio da humanidade, e não propriedade dos monopólios burgueses, de maneira que possamos caminhar para a superação da forma mercadoria e afirmar a centralidade do valor de uso.

Nossa meta socialista pode ser compreendida por aqueles que nos interessam que a compreendam? Em grande parte esta é a arte da política, como disse Bourdieu: a política é a arte de "fazer crer que se pode fazer o que se diz" [7] . Nós acreditamos que sim e que podemos expressar os fundamentos de nossa proposta através de três afirmações muito simples: 1) ninguém pode se apropriar de recursos necessários à produção das condições que garantem a existência coletiva da humanidade; 2) ninguém pode se apropriar em caráter privado da força de trabalho humana, pois ela é a principal força de produção e o principal recurso comum da espécie para garantir sua existência, não podendo assumir a forma de uma mercadoria; e 3) a riqueza coletivamente produzida não pode ser acumulada privadamente.

Como dizia Brecht, "uma coisa muito simples, dificílima de ser feita". No entanto, nesse ponto a crise nos ajuda, Nunca ficou tão didático o caráter destrutivo da atual forma do capitalismo monopolista e imperialista, nunca ficou tão evidente a falácia do mito liberal, nunca foi tão urgente dotar a humanidade de uma alternativa para além da ordem do capital.

Os liberais, velhos, neos e recentes; os pós-modernos, pós-industriais, pós-socialistas; todos timidamente voltam ao "refugo das livrarias vermelhas", ao qual Keynes havia condenado a leitura marxista como nada tendo de aplicabilidade prática para os tempos modernos, para discretamente voltar a ler Marx e entender o que se passou e o que seus ideólogos não conseguem lhes explicar. Marx, hoje, volta a rondar a Europa, os EUA, a Ásia, nossa América Latina. Não somos mais um mero espectro. Somos cada vez mais de carne, osso, sangue e sonhos, enquanto eles se transformam a cada dia em fantasmas.

Notas

1 Apresentado inicialmente no Seminário sobre a Crise Econômica Mundial, promovido pelo PCB São Paulo em novembro de 2008 e modificado para a publicação.

2 Offe, Claus. Capitalismo desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 195.

3 Keynes, John Maynard. A short view of Rússia [1925]. Apud Meszáros, Istvan. Para além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2002, p. 16.

4 "Max Weber e Durkheim falharam menos estrondosamente que Marx nas suas previsões". (Santos, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1999, p. 34.) Do mesmo autor podemos citar a seguinte passagem: "Se o marxismo é uma ciência tem que se submeter à prova dos fatos e os fatos não vão no sentido previsto por Marx" (idem p. 25)

5 Para uma análise crítica sobre a tese da crise final, ver O encontro da revolução com a História, de Valério Arcary (São Paulo: Xamã/ Institute Rosa Sundermann, 2006)

6 Ver o capítulo XIV, do livro III, volume 4 de O Capital de Karl Marx.

7 Bourdieu, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertran Brasil, 1998, p. 185.

[*] Membro do Comitê Central do PCB .

O original encontra-se em pcb.org.br/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

16/Mar/13

O autismo do marxismo europeu

O autismo do marxismo europeu

A propósito do Congresso "Actuel Marx" em Paris

por Luciano Vasapollo (entrevista) [*]
Luciano Vasapollo. O Congresso "Marx Internacional IV", organizado pela Actuel Marx , decorreu entre 29 de Setembro e 2 de Outubro último. Nas páginas desta prestigiosa revista apresentou-se nestes últimos anos o debate e as contribuições marxistas europeias. O facto meritório de não haver dado o braço a torcer durante a caça às bruxas desencadeada nos anos noventa não impediu que a reflexão marxista europeia tornasse a cair naquele defeito perfeitamente identificado, já há mais de 30 anos, por Perry Anderson em "O debate no marxismo ocidental". Anderson criticava os marxistas europeus por haverem abandonado a sua relação com o conflito de classes e os movimentos reais e haverem-se refugiado nos aspectos superestruturais e académicos. A definição de Katedhersocialisten não é um anátema e sim algo mais que uma crítica.

Nesta entrevista, Luciano Vasapollo, estudioso marxistas italiano, autor de numerosos trabalhos traduzidos em várias línguas, tem contribuído para reabrir nestes últimos anos um debate sobre questões decisivas como a teoria marxista do valor, o imperialismo ou a centralidade do conflito entre capital e trabalho. Vasapollo participou no congresso de Paris com a apresentação de comunicações em várias secções e numa das sessões plenárias finais. Em mais de uma ocasião enfrentou as demais escolas do marxismo ocidental. Nesta entrevista explica como foram as discussões.


Qual era o programa de debates do Congresso marxista de Paris? Houve uma confrontação entre as diversas tendências?
LV: O tema do encontro era "Guerra imperial, guerra social" e houve doze sessões científicas, dentre as quais economia, direito, ecologia, género, história, filosofia e socialismo. O enfrentamento deve lugar em grupos fechados entre as diversas tendências e provocou um debate mais de carácter académico.

Mas quais são, em traços largos, as tendências marxistas actuais?
LV: Poderemos definir uma primeira como académica, no sentido estrito da palavra: não se coloca o problema da dialéctica com os movimentos reais e sim o de uma hipotética 'originalidade cultural'.
Depois há outras duas tendências que se exprimem numa linguagem mais radical, refiro-me aos que compartilham as reflexões de Toni Negri e aos estudiosos mais próximos à IV Internacional. Utilizam uma linguagem radical mas, em muitos aspectos, coincidem com a primeira quanto à distância a que se encontram dos movimentos sociais reais.
Finalmente, existe uma quarta, na qual me incluo, que poderemos definir como de 'estudiosos militantes' que têm uma relação mais estreita com os movimentos sociais, sindicais, etc e que se consolidou sobretudo na América Latina.

Após os anos do silêncio e da resistência cultura -- os anos noventa -- em que situação se encontra, na sua opinião, o debate e a reflexão marxista na Europa?
LV: Com a experiência de vários encontros internacionais devo admitir que a nossa posição, que após aqueles anos encontrava-se marginalizada a nível político e cultural, actualmente está a encontrar maiores oportunidades para o debate. Nestes anos reabriu-se um debate amplo e também duro sobre a actualidade da teoria do valor de Marx. A princípio o debate surgiu no âmbito marxista em que se desenvolveram trabalhos que poderemos chamar de 'sraffianos'. Eles afirmavam desejar manter uma visão marxista mas, de facto, haviam-no esvaziado de conteúdo mediante argumentos de escassa relevância no plano científico. Em alguns casos estas posições chegaram ao keynesianismo, ainda que com uma linguagem mais radical. Os próprios keynesianos estão divididos entre keynesianos 'de esquerda' e 'neokeynesianos', como posições diversas. Também há outros que se aproximaram do que chamamos pós-marxismo e que são claros partidários do abandono do marxismo, exceptuando alguns textos anteriores a O Capital, como o Grundrisse.
Há dois anos organizámos um congresso internacional da Universidade de Roma onde, em colaboração com Carchedi, Freeman, Kliman e Giusani, apresentámos uma reflexão colectiva que reafirmava a validade da colocação científica marxiana sobre o valor, enfatizando que a transformação dos valores em preços era um falso problema. Durante três dias debatemos intensa e duramente entre as diversas tendências, incluídas algumas diferentes da nossa (Mogiovi, Foley, Screpanti e outros). Mas o verdadeiro centro da divergência, na minha opinião, continua a ser a dialéctica entre a reflexão teórica e o movimento real.

Houve ausências significativas neste congresso marxista de Paris?
LV: Por paradoxal que possa parecer, houve uma menor presença das áreas que estão mais implicadas no conflito de classe e nos agitados processos de mudança como na América Latina, Ásia, Europa do Leste ou, por exemplo, na Alemanha. Escassíssimos os estudiosos gregos. Há, claramente, um risco de eurocentrismo.

Como explica que o nexo entre teoria e prática, entre a reflexão marxista e a realidade do conflito de classes, se tenha 'amortecido' assim na Europa?
LV: Há que levar em conta que os grandes partidos comunistas desapareceram na Espanha, Itália e França. Neste, o PCF está a voltar-se antes para a socialdemocracia apesar de haver resistências internas. Na Espanha, a experiência da Izquierda Unida está em crise e na Itália temos dois partidos comunistas empatados com um quarto do peso político e eleitoral do velho PCI. Mas na Itália, a inflexão de Bertinotti, que alguns definem como uma nova Bolognina, podemos dizer que foi provocada e que se inscreve precisamente neste enfraquecimento do carácter revolucionários da reflexão marxista na Europa. Não só é o problema do eclectismo como também, por exemplo, da renúncia a questionar os direitos de propriedade ou a eliminação da categoria imperialismo. Estão aplainando o caminho para o keynesianismo, inclusive o radical, como quadro teórico da acção política dos partidos que ainda se chamam comunistas.

Perry Anderson afirmava, já há muitos anos, que o marxismo ocidental havia perdido, de certo modo, a sua carga revolucionária ao passo que no Terceiro Mundo esta aumentava. O que há de certo nesta afirmação?
LV: A tese de Perry Anderson mantem a sua actualidade trinta anos depois. O problema não é o Terceiro Mundo e sim a relação entre objectividade e subjectividade que se manifesta concretamente nas situações em que o conflito de classes é mais agudo. Tão pouco é um problema de linguagem.
Também se recorre à linguagem e a categorias radicais entre os marxistas europeus mas, frequentemente, põem no mesmo plano terrorismo e resistência. Isso é a demonização da violência independentemente dos contextos no quais surge o conflito, aceitam os anátemas e as chaves de leitura imperialistas sobre os 'Estados canalhas'. Tentam constantemente condenar o século XX à fogueira, mas recorre-se sempre às categorias do século XX para definir a realidade ou criticar as diversas posições. Na Europa deu-se o comunismo como fenómeno do século XX e, no melhor dos casos, permanece como horizonte longínquo da Humanidade. É uma posição determinista que espera a queda do capitalismo devido às suas contradições implícitas, omitindo o dado decisivo da subjectividade que se move nessa direcção. Por isso, à espera de que isto aconteça, retiram-se por trás de um programa substancialmente reformista apesar da linguagem algo mais radical. Em outras palavras do mundo a luta pela transformação social coloca-se como alternativa de sobrevivência para uma parte significativa da Humanidade, na América Latina por exemplo.

Consta que tu e outros estudiosos marxistas presentes no congresso tiveram de brigar muito para debater e fazer debater questões como o exemplo de Cuba e dos movimentos na América Latina. Como foi isso?
LV: É uma consequência directa do que dissemos antes. Quando se torna necessário transferir os problemas da dimensão teórica para a prática, muitos marxistas europeus ficam histéricos. Isto se explica porque não compreendem a importância da Venezuela de Chavez, da resistência de Cuba ao projecto hegemónico estadunidense na América Latina, contrapondo a experiência de Lula às outras experiências importantes naquela área do mundo, ou acusando os movimentos sociais latino-americanos de não compreenderem o processo democrático. Os dois debates que organizámos sobre Cuba e a América Latina tiveram como protagonistas alguns estudiosos 'militantes', como Remy Herrera ou Al Campbell, mas sobretudo latino-americanos como Paulo Nakatami, Leda Paulani, Flavio Bezerra de Farias, Isabel Monal, Elena Alvarez e outros, os quais tiveram uma função decisiva de orientação da discussão sobre os problemas conexos ao conflito de classes e à resistência global.

Na sessão plenária, em que participaste junto com George Labica, Samir Amin e Isabel Monal, tu e Samir Amin discutiram acerca do papel da Europa. Quais foram os pontos de divergência?
LV: Para começar quero dizer que na minha opinião Samir Amin é um estudioso marxista honesto e que o tenho em grande estima. A discussão foi sobre as diferentes análises que fazemos sobre o imperialismo europeu e o estadunidense. Numerosos estudiosos e camaradas consideram a Europa como uma espécie de aliado táctico frente ao inimigo principal representado pelos Estados Unidos. Esta posição tem uma legitimidade própria mas leva a subestimar o processo de constituição do polo imperialista europeu. Muitos pensam que a Europa do século XXI é a mesma do século passado, quando existia o enfrentamento EUA-URSS. Creio poder afirmar que não é assim e que esse processo que esteve sujeito aos Estados Unidos durante mais de meio século já não está e não o estará nem no plano político nem no militar, dois aspectos em que o polo imperialista europeu foram débil. É um debate autêntico que exige um aprofundamento rigoroso. Nossa Rede contribuiu com diversos trabalhos como 'A doce máscara da Europa', 'O plano inclinado do capital', ou 'Eurobang'. É material para alimentar esta discussão, e é de agradecer que estudiosos como Samir Amin, que não compartilham necessariamente os nossos pontos de vista, se debrucem a debater acerca disto.

A tese da competição global que propuseste, tu e outros marxistas, reformula, actualizando-a, uma análise do imperialismo e da competição inter-imperialista que foi distorcida ou negada no debate marxista contemporâneo. Em que se diferencia a vossa tese de, por exemplo a do 'Império' ou a da globalização neoliberal.
LV: Dedicámos um livro para a resposta a essas questões, com James Petras, Mauro Casadio e eu próprio, e está a ser lançado outro intitulado "Competição global", no qual há uma colaboração de Henry Veltmeyer.
O 'Império' supõe, entre outras coisas, que no mundo contemporâneo o conflito surge entre um capital colectivo e as multidões, que os estados nação perderam sua função estratégia e que a Europa é o 'topo' (lugar) democrático para a transformação social. Nós, pelo contrário, pensamos que a centralidade do conflito situa-se hoje, mais do que nunca, entre o capital e o trabalho, e que sectores sociais bem definidos desejam recompor seus interesses dentro de um projecto de mudança radical das relações sociais e das de propriedade. A tese da competição global afirma que o Estado-nação não foi superado e sim subsumido no interior dos pólos imperialistas supranacionais que exercem suas funções e, sobretudo, que já não nos encontramos perante a presença de um capital colectivo, como pode ter sido na época da globalização e sim de pólos imperialistas que competem entre si. Para combater os mecanismos regressivos desta renovada competição inter-imperialista são decisivos os movimentos de resistência popular. À competição mundial capitalista é necessário opor hoje uma resistência global que se desenvolveu sobretudo na América Latina e na Ásia, resistência que pode influir na prática concreta, não tanto sobre o terceiromundismo romântico como sobre a luta política daqui, na Europa. Devemos salvaguardar a independência destes movimentos de resistência sabendo congregar suas peculiaridades e os elementos de recomposição mais avançados no terreno anti-imperialismo e da superação do capitalismo.

[*] Professor na Universidade La Sapienza, Roma.

O original encontra-se em
http://www.nodo50.org/cgi-bin/mailman/listinfo/diariodeurgencia

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

29/Nov/04

Os herdeiros dos austro-marxistas

por Miguel Urbano Rodrigues

Austromarxistas Está na moda em determinados meios intelectuais a campanha para renovação do marxismo. Sendo o marxismo, na fidelidade ao pensamento de Marx, um sistema que exige permanente renovação para manter as suas potencialidades criadoras, esse debate deveria ser saudado como positivo.

Muitos dos que participam nessa campanha perseguem, entretanto, um objectivo oposto ao enunciado. Na pratica assume um ostensivo caracter anticomunista, sobretudo em países onde existem partidos comunistas com forte implantação entre as massas.

A leitura de textos dessa vaga de «renovadores» europeus e latino-americanos, supostamente empenhados em dar um novo impulso ao marxismo e reformar partidos em que alguns ainda militam, fez-me voltar à leitura de textos que lera na juventude.

As analogias históricas na analise política, erigidas em método, sempre se me afiguraram perigosas. Mas o conhecimento das grandes lutas revolucionarias do inicio do século XX, no quadro em que elas se desenvolveram, bem como as ideias e a personalidade dos protagonistas é indispensável à compreensão do presente.

Vem isto a propósito da releitura que fiz há dias de um livro em que Trotski se pronuncia sobre a fina flor dos intelectuais marxistas que conheceu em Viena pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

Pertenço a uma geração de velhos comunistas muito distanciados das polémicas teses de Trotski sobre a Revolução Permanente. Admirando o escritor e respeitando o revolucionário, identifico na sua visão voluntarista e prospectiva da historia e na sua concepção administrativista do partido uma atitude idealista, desajustada do marxismo tal como o assimilei. O meu distanciamento de Trotski e uma opinião desfavorável sobre o trotskismo nunca me impediram de considerar uma estupidez e uma iniquidade ética e política o apagamento na URSS do nome e da obra do ex-presidente do Soviete de Petrogrado e ex-Comissário da Guerra.

Para mim nunca foi crime citar Trotski ao encontrar nos seus escritos lições úteis. É o caso do capítulo do seu ensaio autobiográfico [1] em que relata o efeito de choque produzido pelo descobrimento dos principais dirigentes da social democracia austríaca, que na época se assumia como marxista.

Em meia dúzia de paginas retracta Otto Bauer, Carlos Renner, Max Adler e Victor Adler.

«Eram — escreve — pessoas extraordinariamente cultas, que sabiam bastante mais do que eu de muitas coisas».

Na primeira reunião em que participou com eles no Café Central de Viena, a sua sensação foi de deslumbramento. Acompanhou a conversa quase com «devoção». Mas depois o interesse foi superado pelo assombro. Percebeu que aqueles talentosos intelectuais não eram revolucionários: «encarnavam o tipo de homem que é precisamente o oposto ao revolucionário».

Os austro-marxistas eram narcisos que se contemplavam com orgulho; vibravam com o esforço teórico produzido. Conhecedores profundos das obras de Marx e Engels, exegetas de «O Capital», os marxistas vienenses eram «completamente incapazes de aplicar o método de Marx aos grandes problemas políticos e sobretudo ao seu aspecto revolucionário». Escreviam magníficos artigos, reveladores da sua erudição, mas não iam alem da assimilação passiva do sistema.

Trotski é quase cruel ao tentar defini-los: «Estes austro-marxistas não passavam em geral de uns bons senhores burgueses que se dedicavam a estudar esta ou aquela parcela da teoria marxista como podiam estudar a carreira do Direito, vivendo agradavelmente dos juros de O Capital ».
Diferentes, coincidiam num sentimento: todos temiam a revolução cuja apologia faziam nos seus brilhantes trabalhos.

Nos anos que precederam a guerra começaram a sentir-se mal quando a possibilidade de ruptura da velha ordem que combatiam com palavras deixou de ser encarada como utopia. A guerra secou-lhes as gargantas e desviou-lhes o rumo e o significado dos escritos. Depois, a Revolução Russa assustou-os. Tomaram dela prudente distancia.

Que diferença, comenta Trotski, entre aqueles senhores, aristocratas do pensamento, que gostavam de ser tratados pelos operários por «camarada herr doktor» e a simplicidade revolucionaria de Marx e Engels, que «sentiam um sereno desprezo por tudo o que fosse brilho aparente, pelos títulos, pelas hierarquias». Nada do que era humano os deixava indiferentes, mas pairavam acima das ambições temporais, do circunstancial da política, das contingências da historia.

Em Berlim, Trotski registou que a social democracia alemã diferia da austríaca. Fazia-se ainda sentir o peso de personalidades como Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e mesmo o velho Bebel. Mas Kautsky, o «papa da II Internacional », como lhe chamava a direita, envelhecera, acomodara-se. Tratava de vulgarizar o marxismo como um mestre-escola, impondo-se já como única missão conciliar o reformismo com a revolução. Não escondia «a sua aversão orgânica a tudo o que significasse transplantar métodos revolucionários para solo alemão».

O processo de revisão manipulatória do marxismo, iniciado por Edward Bernstein (Cavaco Silva confessou ser seu grande admirador), assente na premissa de que o movimento é tudo pelo que a revolução seria desnecessária e aberrante, contaminava muitos dos dirigentes, contendo o ímpeto do partido, tornando-o quase inofensivo. O velho SPD exibia ainda uma imagem revolucionária, mas nele estava em rápida ascensão a corrente reformista que viria a ser liderada por Ebert, o futuro presidente da Republica de Weimar, o carrasco dos espartaquistas que após a Guerra viria a afogar em sangue a revolução alemã.

Trotski recorda que enquanto Rosa e ele participaram como militantes numa grande manifestação de massas em Berlim, Kautsky optou por assistir como mero espectador. Entre ele e o sentir do proletariado revolucionário surgira um abismo .

 

XXX

Durante a ditadura dos generais, trabalhei no Brasil com duas ou três gerações de intelectuais de esquerda que então se diziam marxistas. A maioria galopou para a direita. Actualmente, muitos defendem a globalização capitalista, como o Presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-príncipe da Sociologia Marxista, pai, com o chileno Enzo Faletto, da teoria da dependência, hoje por ele renegada.

Na Europa pululam entre os críticos do neoliberalismo sacralizado e do hegemonismo imperial dos EUA reformadores da sociedade capitalista cujo único denominador comum é uma aversão insuperável ao comunismo como projecto, mesmo remoto, de um mundo futuro, longínquo. Uns dizem ser marxistas, outros não.

Faz oito anos, fui em Pontevedra, com Boaventura Sousa Santos, um dos participantes num Seminário promovido pela Aula Castelao de Filosofia. O tema era a Democracia no mundo que emergia da Guerra Fria, da Descolonização, do desaparecimento da União Soviética.

Recordo que Boaventura, numa mesa redonda final, depois de expressar a sua inaceitação do leninismo, sublinhou que a postura crítica que assumia perante a obra teórica de Lenine e a intervenção na historia do grande revolucionário russo não implicava uma rejeição global do marxismo. Para ser mais explícito informou que admirava os austro-marxistas.

Foi breve a minha réplica. Lembrei-me dos Adler, de Otto Bauer e também do alemão Bernstein. Achei oportuno o esclarecimento; demonstrava, afinal, óbvio.

Você, Boaventura — comentei — deixou tudo muito claro. Em Lenine não aprecia o revolucionário. Aqui poucos dos presentes, admito, leram os austro-marxistas. Mas por que os admira você? Porque não foram revolucionários, porque nunca constituíram ameaça para o sistema. Eram inofensivos».

 

XXX

Incontáveis vezes ao longo da vida, sobretudo durante os anos do exílio brasileiro, nas décadas em que a América Latina foi um efervescente laboratório ideológico, intervim no debate travado em torno do binómio antinómico reforma-revolução.

O tema voltou a ser actual, embora o interesse da discussão seja inseparável da recusa de paralelos descabidos e da consciência de que o contexto histórico é profundamente diferente do anterior. Não será com citações de Rosa Luxemburgo e Bernstein, fundamentando o discurso em situações históricas e sociais da época, que o debate poderá adquirir hoje significado e utilidade.

O mundo contemporâneo, hegemonizado pelas globalização neoliberal, é uma herança do capitalismo reformado. Mas neste início do século XXI a ideia de revolução, a fronteira entre o reformismo revolucionário e as reformas de defesa do capitalismo são outros, inimagináveis na época da Revolução de Outubro.

A correlação de forças existente na Terra, submetida a um sistema de poder que desenvolve uma estratégia fascistizante, agressiva e irracional, de dominação planetária não permite sequer prever como e quando surgirão condições para rupturas revolucionarias que ponham fim ao flagelo do capitalismo desumanizante. Mas a nossa incapacidade para definir sequer os contornos que assumirá o socialismo futuro, não impede, antes exige, a condenação firme das campanhas desenvolvidas por aqueles que, invocando farisaicamente a necessidade de renovar o marxismo, se empenham, através de um discurso confusionista, — imitando o que aconteceu na Itália e está a ocorrer em França — se esforçam, repito, não para renovar, mas na pratica para dividir partidos que não renunciaram ao marxismo-leninismo, criando condições para o lançamento de pontes que levem à sua descaracterização e posterior assimilação pelo sistema dominante.

Portugal é, no momento, exemplo desse fenómeno político como palco de um espectáculo no qual não faltam cenas de estridências shakespeareanas, que os revolucionários de outros países, por desinformação, acompanham mal.

Modernas caricaturas dos austro-marxistas do começo do século, os encenadores portugueses da peça em exibição (não me refiro aos militantes que são arrastados e confundidos pela sua pregação) têm de comum com os Adler, os Bauer e os Renner — sem o seu talento, cultura, desambição pessoal e sentido da ética política — a aceitação inconfessada da ordem capitalista, a recusa de identificar no povo o sujeito da historia e o temor mal consciencializado da intervenção das massas rumo a rupturas (embora distantes) que abalem os alicerces da engrenagem capitalista. Não são marxistas esses dirigentes com rotulo de «renovadores». Nunca foram comunistas. Não é o cartão de um partido que faz o dirigente revolucionário, sequer a passagem pela Comissão Política do seu Comité Central.

É minha convicção que aquilo que está em discussão nestas semanas no Partido Comunista Português merece ser acompanhado com atenção pelos partidos, organizações e movimentos de esquerda de todo o mundo.

_____________
[1] Leon Trotski, Mi Vida , pags 217 a 225, Compañia General de Ediciones SA, México, 1960.

[*] Publicado originalmente em vários sítios web hispano-americanos, em Rebelion e no jornal brasileiro Correio da Cidadania .

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

13/Jun/02

Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"

Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"

Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"

por Domenico Losurdo [*]
1. O "marxismo ocidental" e a remoção da questão colonial
2. Althusser e a crítica do "humanismo"
3. Da história à "ciência" ou do materialismo ao idealismo, da história mundial ao eurocentrismo
4. O "marxismo ocidental" lê o "marxismo oriental": um equívoco coletivo
5. De Foucault a Negri: a progressiva transfiguração do Império
6. "Marxismo ocidental", "marxismo oriental"
    Referências
    Notas
    Losurdo na TV Boitempo
    Trabalhos de e sobre Losurdo em resistir.info

Domenico Losurdo, 1941-2018. Por muito tempo o "marxismo ocidental" celebrou a sua superioridade em relação ao marxismo dos países que se remetiam ao socialismo e que estavam todos situados no Oriente. Em decorrência dessa atitude arrogante, o marxismo ocidental nunca se empenhou seriamente em repensar a teoria de Marx à luz de um balanço histórico concreto: qual era o papel do Estado e da nação nesses países e no "campo socialista"? Como promover a democracia e os direitos humanos e como estimular o desenvolvimento das forças produtivas e o bem-estar das massas numa situação caracterizada pelo bloqueio capitalista? Ao invés de pôr-se essas questões difíceis, o marxismo ocidental preferiu abandonar-se à cômoda atitude autoconsolatória de quem cultiva em particular as suas utopias e rejeita, como uma contaminação, o contato com a realidade e a reflexão sobre a realidade. Disso derivou uma progressiva capitulação à ideologia dominante. Por fim, a autocelebração do marxismo ocidental desembocou na sua autodissolução.

1. O "marxismo ocidental" e a remoção da questão colonial

Por que o marxismo ocidental, após desfrutar de um sucesso extraordinário até se tornar a koiné das décadas de 1960 e 1970, mergulhou numa crise tão profunda? Sem dúvida, os fatos históricos que todos conhecemos e que culminaram com a queda da União Soviética e do "bloco socialista" desempenharam neste caso um papel fundamental. No entanto, embora inevitável, esse tipo de explicação não é exaustivo: é necessário aprofundar a análise, concentrando a atenção nas fraquezas intrínsecas que o marxismo ocidental revela no Ocidente, mesmo na época em que sua hegemonia parece incontestável. Nada é mais verdadeiro em relação à Itália. É preciso partir de um debate suscitado por Norberto Bobbio em 1954. Ele, embora insistindo justamente na irrenunciabilidade da liberdade formal e das suas garantias jurídico-institucionais, atribui como mérito dos Estados Socialistas o fato de eles "terem começado uma nova fase de progresso civil em países politicamente atrasados, introduzindo instituições tradicionalmente democráticas, de democracia formal, como o sufrágio universal e a elegibilidade dos cargos, e de democracia substancial, como a coletivização dos instrumentos de produção". Entretanto, é a conclusão crítica, o novo "Estado Socialista" não soube transplantar em seu bojo o governo da lei e os mecanismos de garantias liberais, não soube ainda proceder à "limitação do poder" e derramar "uma gota de óleo (liberal) nas engrenagens da revolução já realizada" [2] . Como se vê, estamos bem longe das posições assumidas pelo filósofo de Turim na última fase da sua evolução, no momento em ele se torna, em última análise, um ideólogo da guerra do Ocidente: em 1954 (faltam dois anos para o XX Congresso do PCUS e a revolta húngara) a influência do marxismo e o prestígio dos países que fazem referência a ele são grandes; nesse momento, ao lado da "democracia formal", Bobbio teoriza também uma "democracia substancial"; além disso, expressa um juízo a respeito dos países socialistas que não é univocamente negativo, nem mesmo a respeito da "democracia formal".

Quais são as reações dos intelectuais comunistas italianos? Para rechaçar ou atenuar as críticas dirigidas, em primeiro lugar, à União Soviética, eles poderiam ter alegado o estado de exceção permanente imposto ao país surgido da Revolução de Outubro como justificativa parcial do atraso, bem como a ameaça do aniquilamento nuclear que pairava de forma contínua sobre ele. Galvano Della Volpe, ao contrário, segue uma estratégia totalmente diferente, concentrando-se na celebração da libertas maior (o desenvolvimento concreto da individualidade garantido pelas condições materiais de vida). Desse modo, por um lado, as garantias jurídicas do Estado de Direito são desvalorizadas, implicitamente rebaixadas à condição de libertas minor; por outro lado, acaba-se valorizando a transfiguração realizada por Bobbio da tradição liberal, enquanto campeã da causa da fruição universal (pelo menos dos direitos civis), da liberdade formal, da libertas minor, da "limitação do poder". Para sustentar essa visão, Bobbio remete ao hino que John Stuart Mill, em seu ensaio dedica à liberdade, talvez o mais célebre: On Liberty. Entretanto, é justamente nesse ensaio que vemos o liberal inglês justificar o "despotismo" do Ocidente sobre as "raças" ainda "menores de idade", obrigadas a aceitar uma "obediência absoluta", de tal forma que possam ser guiadas no caminho em direção ao progresso [3] . Em 1954, o "despotismo" e a "obediência absoluta" impostos pelo Ocidente eram muito bem percebidos no mundo colonial; nos Estados Unidos, os negros continuavam excluídos maciçamente dos direitos políticos e, às vezes, até dos direitos civis (no Sul ainda não desaparecera o regime de segregação racial e da white supremacy ). Della Volpe, completamente absorvido pela celebração da libertas maior, não se preocupa ou não é capaz de chamar a atenção para o equívoco clamoroso de Bobbio.

O fato é que, embora apresentando-se cada vez de maneira diferente, a remoção da questão colonial caracteriza amplamente o marxismo ocidental daqueles anos. Em 1961, Ernest Bloch publica Direito Natural e Dignidade Humana. Como o próprio título revela, estamos bem longe da subestimação da libertas minor, tão cara a Della Volpe; ao contrário, a reivindicação da herança da tradição liberal é explícita, submetida, contudo, a uma crítica que infelizmente parece uma transfiguração. Bloch critica o liberalismo por defender uma "igualdade formal e apenas formal". E acrescenta: "Para impor-se, o capitalismo está interessado só na realização de uma universalidade da regulamentação jurídica, que abraça tudo de maneira igual" [4] .

Essa afirmação pode ser lida num livro publicado no mesmo ano em que a polícia, em Paris, desencadeia uma caça impiedosa contra os argelinos, afogados no rio Sena ou mortos a pauladas; e tudo isso à luz do dia, aliás, na presença de cidadãos franceses que, sob a proteção do governo da lei, assistem divertidos ao espetáculo: belo exemplo de "igualdade formal"! Na capital de um país capitalista e liberal assistimos a ação de uma dupla legislação, que entrega ao arbítrio e ao terror policial um grupo étnico bem definido. Se, depois, considerarmos as colônias e as semi-colônias e olharmos, por exemplo, a Argélia ou então o Quênia ou a Guatemala (um país formalmente livre, mas, de fato, sob o protetorado norte-americano), veremos o Estado dominante, capitalista e liberal, lançando mão, de forma ampla e sistemática, da tortura, dos campos de concentração e das práticas genocidas contra os povos indígenas. Disso tudo não há vestígio nem em Bobbio, nem em Della Volpe e tampouco em Bloch.

Os povos coloniais ou de origem colonial continuam ausentes quando o autor de Direito Natural e Dignidade Humana trata de Grotius e de Locke (o apreço por sua orientação jusnaturalista não menciona o empenho de ambos em justificar a escravidão negra), ou no momento em que faz referência à Guerra de Independência americana (a homenagem feita aos "jovens Estados livres" nem sequer menciona o peso da escravidão na realidade político-social e na própria Constituição dos EUA) [5] .

Esse silêncio é ainda mais singular porque, justamente nesses anos, começa a desenvolver-se, na república do outro lado do Atlântico, a luta dos afro-americanos. É um acontecimento que chama a atenção de Mao Tsé-tung, em Pequim, e pode ser interessante confrontar os posicionamentos de duas personalidades tão diferentes entre si. Se o filósofo alemão denuncia o caráter meramente "formal" da igualdade liberal e capitalista, o dirigente comunista chinês procede, por sua vez, de maneira bem diferente. Decerto, ele ressalta o fato de os negros apresentarem uma taxa de desemprego bem maior que a dos brancos, além de serem confinados aos segmentos inferiores do mercado de trabalho e serem obrigados a contentar-se com salários reduzidos. Isso, porém, não é tudo: Mao chama a atenção para a violência racista desencadeada pelas autoridades do Sul e pelos bandos tolerados ou encorajados por elas e celebra a "luta do povo negro americano contra a discriminação racial e pela liberdade e a igualdade dos direitos" [6] . Bloch critica a revolução burguesa pelo fato de ela "ter limitado a igualdade à liberdade política"; em relação aos afro-americanos, Mao observa que "a maioria deles está desprovida do direito de voto" [7] . Reduzidos à mercadoria e desumanizados pelos seus opressores, os povos coloniais travaram batalhas memoráveis pelo reconhecimento durante séculos, mas em Bloch se lê: "O princípio pelo qual os homens nascem livres e iguais já está presente no direito romano; agora deve estar presente também na realidade". E vejamos agora a conclusão do artigo de Mao de 1963, acima citado: "O perverso sistema colonial-imperialista desenvolveu-se graças à escravidão e ao tráfico negreiro, e ele certamente chegará ao fim com a total libertação dos negros" [8] .

Sinais semelhantes manifestam-se no Vietnã, onde está ocorrendo uma grande luta de libertação nacional guiada por Ho Chi Minh, que, já em 1920, acusara a Terceira República francesa nestes termos: "A chamada justiça indochinesa, naquela região, tem dois pesos e duas medidas. Os anamitas não têm as mesmas garantias dos europeus e dos europeizados". Não são apenas "vergonhosamente oprimidos e explorados" mas também "horrivelmente martirizados" e sofrem "todas as atrocidades cometidas pelos bandidos do capital" [9] . Como se vê, nos textos aqui citados de Mao e de Ho Chin Minh, a libertas minor tão cara a Della Volpe não é subestimada e tampouco a ilusão (comum, com modalidades diferentes, em Bobbio, Della Volpe e Bloch), segundo a qual o capitalismo e o liberalismo garantiriam de qualquer modo a "igualdade formal" ou até mesmo a "igualdade política". Tanto o líder chinês como o líder vietnamita têm, de alguma forma presente, a indicação de Lênin: "Os homens políticos mais liberais e radicais da livre Grã-Bretanha […] se transformam, quando se tornam governadores da Índia, em verdadeiros Genghis Khan" [10] . Na própria metrópole capitalista e liberal manifestam-se "contínuas violações da igualdade (inclusive) jurídica das nações": a esse respeito, Lênin cita em 1920 o exemplo da "Irlanda" e dos "negros da América"; tanto na Inglaterra, como nos Estados Unidos, as "garantias dos direitos das minorias nacionais" [11] são vilipendiadas. E tanto Mao como Ho Chi Minh poderiam ter mencionado as páginas em que Marx denuncia o tratamento da Inglaterra liberal em relação à Irlanda (uma colônia situada na Europa): trata-se de uma política ainda mais cruel e terrorista do que a praticada pela Rússia czarista e autocrática contra a Polônia (MEW, XVI, 552). Como se vê, o marxismo "oriental" empenha-se, compreensivelmente, muito mais do que o marxismo "ocidental" na denúncia das cláusulas macroscópicas de exclusão da liberdade liberal.

2. Althusser e a crítica do "humanismo"

Voltemos ao debate suscitado por Bobbio em 1954. Há uma intervenção sensivelmente diferente daquela de Della Volpe. A polêmica com o filósofo de Turim desenvolve-se agora assim: "Quando e em que medida foram aplicados aos povos coloniais aqueles princípios liberais sobre os quais se diz fundado o Estado inglês do século XIX, modelo, creio, de regime liberal perfeito para aqueles que raciocinam como Bobbio?". A verdade é que a "doutrina liberal […] está fundada numa discriminação bárbara entre as criaturas humanas", que se alastra não só nas colônias, mas na própria metrópole, como demonstra o caso dos negros estadunidenses, "na maioria privados dos direitos elementares, discriminados e perseguidos" [12] . Nessa tomada de posição não há nenhuma degradação da "liberdade formal" à libertas minor, mas, ao mesmo tempo, não se perde de vista o fato de sua fruição ter sido historicamente negada às massas incalculáveis de homens pelo próprio Ocidente liberal. Essa intervenção deve-se a um autor hoje quase completamente esquecido, mas que responde pelo nome de Palmiro Togliatti, na época secretário-geral do PCI. Estamos diante de um expoente do "marxismo ocidental"? No entanto, deve-se notar que não se trata de um filósofo profissional, e sim de um político profissional, além disso ligado organicamente – pelo menos assim julgam seus críticos – ao orientalizante "socialismo real".

Concentremo-nos, contudo, na expressão utilizada por Togliatti: "discriminação bárbara entre as criaturas humanas". Trata-se de uma condenação inspirada por aquele "humanismo integral" em que, segundo Gramsci, consiste o comunismo; por outro lado, vimos Bloch levantar, em 1961, a bandeira em defesa da "dignidade humana". Naqueles mesmos anos, o humanismo exerce um papel fundamental em Sartre, que faz uma denúncia apaixonada do colonialismo evidenciando justamente teorias e práticas de desumanização por ele desenvolvidas. Estamos diante de expressões diferentes daquele "humanismo" que mais tarde se torna o bicho-de-sete-cabeças de Louis Althusser. Como é sabido, o jovem Marx denuncia a sociedade existente como negação do "humanismo positivo" ( positiver Humanismus ) e do "humanismo realizado" ( vollendeter Humanismus ) (MEW, Erg. Bd., I 583 e 536), do "humanismo real" ( realer Humanismus ) (MEW, II, 7), e formula seu programa revolucionário, enunciando o "imperativo categórico de derrubar todas as relações em que o homem é um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezado" (MEW, I, 385). Para Althusser, essas formulações são ingenuidades ideológicas, felizmente superadas pelo Marx maduro, a partir aproximadamente de 1845, quando teria ocorrido a "ruptura epistemológica" e a retórica humanística, que esqueceu a luta de classes, que teria sido suplantada pelo materialismo histórico, ou melhor, pela ciência da história.

Na realidade, essa suposta retórica continua ecoando mais forte do que nunca no Manifesto do Partido Comunista, que convida a derrubar um sistema, o capitalista, que desconhece a dignidade humana da imensa maioria da população: no banco dos réus são colocadas as relações econômicas e sociais que implicam a "transformação em máquina" dos proletários (MEW, IV, 477), rebaixados desde a infância a "meros artigos de comércio e instrumentos de trabalho" (MEW, IV, 478), a "simples acessório da máquina" (MEW, IV, 468), à apêndice "dependente e impessoal" do capital "independente e pessoal" (MEW, IV, 476).

Para Althusser, o Manifesto do Partido Comunista faz parte das "obras de maturação teórica" e não das "obras da maturidade" plenamente alcançada [13] . Vejamos, então, em que termos O Capital coloca no banco dos réus o sistema capitalista: a busca pelo lucro implica um "desperdício" de vida humana , digno de Timur-Tamerlão" (MEW, XXIII, 279, nota 208). É um sistema que não hesita em sacrificar vidas humanas em formação e incapazes de se defender: eis o "grande rapto herodiano das crianças realizado pelo capital no início do sistema fabril nas casas dos pobres e dos orfanatos, através do qual ele incorporou um material humano totalmente desprovido de vontade" (MEW, XXIII, 425, nota 144). São terríveis os custos humanos do capitalismo. Basta pensar na formação da indústria têxtil na Inglaterra: procura-se a matéria-prima necessária cercando e destinando às pastagens as terras comuns que antes asseguravam a subsistência de grande parte da população que, expropriada, é condenada à fome e ao desespero: sim – sintetiza O Capital citando Thomas More – "as ovelhas devoram os homens " (MEW, XXIII, 747, nota 193). A sociedade burguesa ama celebrar a si mesma como "um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem ", na realidade no seu âmbito o "trabalho humano", aliás, "o homem enquanto tal […] desenvolve ao contrário um papel miserável" (MEW, XXIII, 189 e 59). Se passarmos apenas da esfera da circulação à da produção, notamos que, bem longe de ser reconhecido em sua dignidade de homem, o trabalhador assalariado "leva ao mercado a sua própria pele e não tem outra coisa a esperar a não ser o… curtume" (MEW, XXIII, 191).

A crítica dos processos de desumanização ínsitos no capitalismo ressoa com força ainda maior quando Marx fala do destino reservado aos povos coloniais: com "a aurora da era da produção capitalista", a África se transforma em uma "reserva de caça para os mercadores de pele negra" (MEW, XXIII, 779). Passemos agora para a Ásia e para o império colonial holandês: aí funciona "o sistema de roubo de homens nas Célebes para obter escravos para Java", com "ladrões de homens" ( Menschenstehler ) propositalmente "adestrados para tal finalidade" (MEW, XXIII, 780). Ainda na metade do século XIX vemos nos EUA o escravo negro assumindo completamente a forma de simples "propriedade" tanto quanto as outras, enquanto a lei sobre a restituição dos escravos fugitivos determina a transformação dos próprios cidadãos do Norte em "caçadores de escravos" (MEW, XV, 333). Nesse meio-tempo, alguns Estados no Sul especializam-se na "criação de negros" ( Negerzucht ) (MEW, XXIII, 467), ou seja, no "breeding of slaves" (MEW, XXX, 290: carta a Engels de 29 de outubro de 1862). Renunciando aos tradicionais "artigos de exportação", esses Estados "criam escravos" como mercadorias de "exportação" (MEW, XV, 336). Por outro lado, quando estoura a guerra, eis que proprietários de escravos abandonam áreas consideradas pouco seguras para transferir-se para o Sul, arrastando consigo seu excelente " black chattel" (MEW,XXX, 290: carta a Engels de 29 de outubro de 1862). Como se vê, também nos escritos da maturidade, recorre em Marx a motivação crítica que censura a sociedade burguesa por ela reduzir a grande maioria da humanidade à "máquinas", a "instrumentos de trabalho", à "mercadoria" que pode ser tranquilamente "esbanjada", a "produtos de comércio" e a "artigos de exportação", a bens móveis dos quais o dono pode dispor como uma "bagagem", a animais de criação, ou seja, à pele objeto de caça ou a ser destinada ao curtume.

A denúncia do anti-humanismo do sistema capitalista não desapareceu de modo algum e nem pode desaparecer, porque está no centro do pensamento de Marx: a comparação, tão importante para ele, entre escravidão moderna e escravidão antiga, escravidão assalariada e escravidão colonial, significa a permanência, no âmbito do capitalismo, daquele processo de reificação que se manifesta em toda a sua crueza em relação ao escravo propriamente dito, completamente reduzido à mercadoria ou à condição de animal. O rigor científico e a indignação moral resultam tão entrelaçados entre si, e é somente este entrelaçamento que pode explicar o apelo à revolução. Por mais fiel e impiedosa que possa ser, a descrição da sociedade existente não pode por si só estimular a ação para a sua derrubada, se não houver a mediação da condenação moral; e essa condenação moral brota em Marx da constatação dos processos de desumanização ínsitos ao sistema capitalista; a partir daí, a realização de uma nova ordem é percebida como um "imperativo categórico", e isso tanto nos escritos de juventude quanto nos escritos de maturidade. Se as Teses contra Feuerbach se concluem com a condenação dos filósofos que se revelam incapazes de "transformar" um mundo no qual o homem é esmagado e humilhado, O Capital é uma "Crítica da Economia Política" – como reza seu subtítulo – também no plano moral: o "economista político" é criticado não apenas por seus erros teóricos, mas também por sua "imperturbabilidade estóica", isto é, por sua incapacidade de indignação moral diante das tragédias provocadas pela sociedade burguesa (MEW, XXIII, 756). A continuidade na evolução de Marx é evidente, e aquilo que Althusser descreve como ruptura epistemológica nada mais é que a passagem para um discurso no âmbito do qual a condenação moral do anti-humanismo da sociedade burguesa é expressa de maneira mais sintética e mais elíptica.

3. Da história à "ciência" ou do materialismo ao idealismo, da história mundial ao eurocentrismo

Podemos perfeitamente compreender as razões da posição adotada pelo filósofo francês: são os anos em que a bandeira do "humanismo" é agitada para abafar a luta contra o imperialismo; iniciou-se o processo que mais tarde levará à capitulação de Gorbachev. Analisando melhor, a crítica filosófica do humanismo, enquanto inclinada a ocultar o conflito social e sua aspereza, é, ao mesmo tempo, a polêmica contra as "concepções tingidas de reformismo e de oportunismo ou, mais simplesmente, revisionistas", que vinham se difundindo naquela época [14] . Infelizmente, essa polêmica é conduzida a partir de posições erradas. Em primeiro lugar, deve-se considerar que não só o apelo à humanidade comum (e à moral), mas também o apelo à ciência pode levar ao esquecimento da luta de classes. E, todavia, o filósofo francês toma posição justamente contra o slogan "ciência burguesa, ciência proletária" e atribui como mérito de Stalin o fato de este ter-se oposto à "loucura" que exigia "a todo custo fazer da língua uma superestrutura" ideológica. Graças a essas "simples páginas" – conclui Althusser – "vislumbramos que o uso do critério de classe não era ilimitado e que nos faziam tratar como uma ideologia qualquer ciência, cujo título incluía as próprias obras de Marx" [15] . Pode ser considerado ilimitado o uso do critério de classe pela moral? Podem ser realmente postas no mesmo plano posições que reivindicam a unidade do gênero humano e posições que, na prática, e às vezes de maneira explicita até na teoria, promovem a desumanização das grandes massas de homens, rebaixados a Untermenschen e destinados somente a serem escravizados ou aniquilados?

Polemizando contra a leitura humanista do marxismo, Althusser não se cansa de repetir que Marx não parte do "homem" ou do "indivíduo" mas da estrutura histórica das relações sociais. Contudo, é estranho que o conceito de "homem" ou de "individuo" seja considerado óbvio. Convém, então, remeter a Nietzsche que, após ter condenado a Comuna de Paris desencadeada por uma "classe bárbara de escravos" em nome da "dignidade do homem" e da "dignidade do trabalho" humano [16] , condena a "agitação individualista" [17] , de um movimento, o socialismo, cuja erro é querer transformar em indivíduos e em pessoas aqueles que por natureza "não são nenhuma pessoa", mas simples "portadores, instrumentos de transmissão" [18] . Ou seja, longe de ser um dado óbvio, o conceito de indivíduo e de homem enquanto tal é o resultado de lutas gigantescas pelo reconhecimento, conduzidas agitando justamente a bandeira do humanismo tão desprezado por Althusser. Isso já vale para os trabalhadores assalariados da metrópole (muitas vezes desumanizados pela tradição liberal e assimilados a instrumentos de trabalho, a máquinas bípedes, a bestas de carga), mas vale de maneira toda especial para os povos coloniais. Não faz sentido contrapor a estrutura histórica das relações sociais ao conceito de homem ou de indivíduo como tal, pelo fato de que esse mesmo conceito pressupõe radicais transformações políticas e sociais. Quando afirma que o humanismo em última análise é burguês, Althusser argumenta de maneira análoga a Bloch: tanto num caso como noutro a sociedade burguesa é recriminada por se ater apenas à "igualdade formal" e, desse modo, são removidas também as desigualdades formais e os profundos processos conexos que caracterizam o capitalismo.

É verdade, o filósofo francês reconhece que pode existir também um "humanismo revolucionário" originado pela Revolução de Outubro [19] , mas nesse ponto é muito hesitante; e assim impede a si mesmo a compreensão das lutas gigantescas por reconhecimento conduzidas pelos "escravos das colônias" (para usar uma linguagem tão cara a Lênin). Esse resultado é ainda mais inevitável pelo fato de a teoria de Marx ser, em Althusser, só um capítulo da história do pensamento científico: "Antes de Marx só dois grandes continentes haviam sido abertos ao conhecimento científico, após rupturas epistemológicas sucessivas: o continente matemático graças aos gregos […] e o continente físico, graças a Galileo e seus sucessores" [20] . É um enfoque que determina duas consequências muito relevantes: 1) Marx insistiu várias vezes sobre o fato de que a sua teoria é a expressão teórica de um movimento real; agora, porém, é o movimento real que é considerado o produto, para dizer com Althusser, de uma "ruptura epistemológica", ou, para dizer com Della Volpe, de um método científico que aprende a lição de Galileo e, antes ainda, de Aristóteles, crítico de Platão. Assistimos assim a uma distorção idealista do materialismo histórico, visto como o resultado da genialidade de um único indivíduo que se aventurou na descoberta de um novo continente! Após ter censurado repetidamente o humanismo por ocultar a luta de classes, agora é o próprio Althusser que faz desaparecer a luta de classes atrás da elaboração do materialismo histórico. 2) A distorção idealista do marxismo é, ao mesmo tempo, sua reinterpretação em termos eurocêntricos. Para Engels, Lênin e Gramsci, o marxismo tem atrás de si a Revolução Francesa, e esta acabava remetendo, pelo menos potencialmente, às lutas gigantescas suscitadas por ela em Santo Domingo e que culminaram com a abolição da escravidão nas colônias. Agora, ao contrário, a elaboração do materialismo histórico é o capítulo de uma história que se desenvolve exclusivamente no Ocidente.

4. O "marxismo ocidental" lê o "marxismo oriental": um equívoco coletivo

'O marxismo ocidental', editado pela Boitempo. Althusser segue com profunda participação as lutas realizadas pelos povos coloniais, e olha com simpatia para a China que aspira pôr-se à frente do movimento anti-imperialista; contudo, do ponto de vista teórico, ele não parece capaz de apreender plenamente o significado dessas lutas. Estamos diante de um fenômeno de caráter geral. No decorrer dos anos de 1960 e 1970, um equívoco coletivo caracteriza a esquerda de orientação marxista na Europa e nos Estados Unidos: as grandes manifestações em favor do Vietnã se entrelaçam tranquilamente com a homenagem tributada a autores propensos a considerar definitivamente superados os movimentos de libertação nacional. Em 1966, Adorno, em A Dialética Negativa, liquida a tese hegeliana do "espírito do povo" ( Volksgeist ), ou seja, o caráter essencial da dimensão e da questão nacional, como "reacionária" e regressiva "em relação ao universal kantiano de seu período, a humanidade agora visível", como eivada de "nacionalismo" e "provinciana na época de conflitos mundiais e do potencial de uma organização mundial do mundo". Pior ainda, tratar-se-ia do culto tributado a um "fetiche", a um "sujeito coletivo" (a nação), no âmbito do qual "os sujeitos individuais desaparecem sem deixar vestígios" [21] . É uma tomada de posição que a posteriori deslegitimava a guerra conduzida pela Frente de Libertação Nacional da Argélia, um povo e um país sem dúvida mais provinciano, mais atrasado e menos cosmopolita do que a França, contra a qual se insurgiram. Em todo caso, Adorno colocava-se na impossibilidade de entender as grandes lutas que estavam acontecendo inclusive debaixo de seus olhos, a começar por aquela guiada pela Frente de Libertação Nacional do Vietnã.

De resto, vejamos de que maneira o "marxismo oriental" argumenta sobre esse ponto. Três anos depois da publicação de Dialética Negativa, Ho Chi Minh morre. Em seu testamento, depois de ter convocado seus concidadãos à "luta patriótica" e ao compromisso "pela salvação da pátria", no plano pessoal ele traça este balanço: "Por toda vida eu servi minha pátria de corpo e alma, servi a revolução, servi o povo" [22] . Por outro lado, já em 1960, por ocasião do seu septuagésimo aniversário, o dirigente vietnamita recordara seu percurso intelectual e político afirmando que: "no começo fora o patriotismo e não o comunismo que me levou a acreditar em Lênin e na Terceira Internacional". Em primeiro lugar, os apelos e os documentos que apoiavam e promoviam a luta de libertação dos povos coloniais, ressaltando seu direito de constituir-se como Estados nacionais independentes, provocaram grande emoção: "As teses de Lênin sobre a questão nacional e colonial despertavam em mim grande comoção, um grande entusiasmo, uma grande fé, e me ajudavam a ver claramente os problemas. Tão grande era a minha alegria que até chorei" [23] . No que diz respeito a Mao, basta pensar na declaração que ele dera na véspera da fundação da Republica Popular Chinesa, em 1949: "A nossa não será mais uma nação sujeita ao insulto e à humilhação. Já nos levantamos […] A época na qual o povo chinês era considerado selvagem agora acabou" [24] .

Compreende-se perfeitamente a atitude dos dois grandes revolucionários. Atrás deles estava agindo a lição de Lênin, que assim caracterizara o imperialismo: trata-se de um sistema em cujo âmbito algumas pretensas "nações-modelo" atribuem a si mesmas "o privilégio exclusivo da formação do Estado", negando-o aos povos das colônias [25] ; sim, "poucas nações eleitas" pretendem construir o próprio "bem-estar" e estabelecer a própria primazia na pilhagem e no domínio do resto da humanidade [26] . Ou seja, além da pilhagem econômica e da opressão política, o imperialismo é também caracterizado pela hierarquização das nações. Os povos explorados e oprimidos são, ao mesmo tempo, rotulados como incapazes de se autogovernar e de se constituir como Estado nacional; a luta para livrar-se desse estigma é uma grande luta pelo reconhecimento.

Mas naquela época a homenagem a Ho Chi Minh, a Mao ou a Castro, não favorecia, de forma alguma, posições de distanciamento do niilismo nacional absorvido na escola do marxismo ocidental. E nem mesmo Sartre era capaz de opor resistência ao niilismo nacional, apesar de seu grande compromisso na luta contra o colonialismo. Como esclarece um capítulo fundamental de Crítica da Razão Dialética (Livro I, cap. C), o filósofo francês faz derivar os vários conflitos humanos, em última análise, da "penúria" ( rareté ). O resultado dessa abordagem é avassalador. Na medida em que parece determinar uma luta pela vida e pela morte, a condição de penúria acaba, de alguma forma, justificando os responsáveis pela opressão. Eles aparecem como os protagonistas de uma luta trágica pela sobrevivência que, no presente se impõe de maneira fatal e, no futuro, pode ser eliminada apenas por um extraordinário desenvolvimento das forças produtivas. No lado oposto, os oprimidos aparecem movidos apenas pelo desejo de escapar das intoleráveis condições de vida; mas, então, posto que a língua, a cultura, a identidade e a dignidade nacional não desempenham nenhuma função, não se compreende a participação na luta contra a opressão nacional por parte de camadas sociais que gozam de um padrão de vida confortável ou de uma comodidade mais ou menos relevante. Como se vê, a simpatia pelos "deserdados da terra" e a indignação pelos crimes do colonialismo e do imperialismo na Argélia ou no Vietnã, embora meritórias, não garantem por si só uma compreensão adequada da questão nacional.

A razão profunda dessa atitude contraditória será esclarecida, de maneira exemplar, algumas décadas mais tarde por Hardt e Negri: "Da Índia à Argélia, de Cuba ao Vietnã, o Estado é a dádiva envenenada da libertação nacional". É verdade, os palestinos podem contar com a nossa simpatia; mas, a partir do momento em que "forem institucionalizados", não se pode mais estar do "lado deles". O fato é que "no momento em que a nação começa a se formar e se torna um Estado soberano, suas funções progressistas desaparecem" [27] . Ou seja, pode-se ter simpatia pelos vietnamitas, pelos palestinos ou por outros povos somente enquanto eles forem oprimidos e humilhados; pode-se apoiar uma luta de libertação nacional apenas na medida em que ela continua sendo derrotada! A derrota ou a incapacidade de um movimento revolucionário são a premissa para que o rebelde possa autocelebrar-se e deleitar-se como rebelde que recusa em qualquer circunstância contaminar-se com o poder constituído!

É óbvio que os líderes dos povos em luta pela própria emancipação argumentam de maneira totalmente diferente. Em setembro de 1949, às vésperas da conquista do poder pelos comunistas, Mao chama a atenção para o desejo de Washington de que a China "se reduza a viver com a farinha americana", acabando assim por "tornar-se uma colônia americana" [28] ; a luta pelo desenvolvimento da produção se configurava então como uma continuação da luta pela independência nacional.

Na verdade, já o Manifesto do Partido Comunista afirmara que o "proletário usará seu poder político" e o controle dos meios de produção, em primeiro lugar, "para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas" e, em particular, para desenvolver as "novas indústrias", que não têm mais uma base nacional e cuja "introdução" é "uma questão de vida e de morte para todas as nações civis" (MEW, IV, 481 e 466). E, contudo, o problema de caráter geral sobre o qual Marx e Engels chamam a atenção adquire no Oriente uma urgência toda particular. Depois de ter se livrado do jugo colonial, os países e os povos recém-independentes estão comprometidos em consolidar a independência no plano econômico: não querem mais depender da esmola ou do arbítrio de seus ex-patrões; consideram essencial quebrar o monopólio que os países mais poderosos detêm sobre a tecnologia mais avançada.

De fato, podemos ver no Vietnã uma orientação semelhante àquela já analisada em relação a Mao. Em plena guerra pela independência e pela unidade nacional, o então primeiro secretário do Partido dos Trabalhadores do Vietnã do Norte declara que, depois da conquista do poder, a tarefa mais importante reside na "revolução técnica". Agora "são as forças produtivas que desempenham o papel decisivo"; trata-se portanto de empenhar-se com afinco para "alcançar uma produtividade mais elevada, estimulando a construção da economia e o desenvolvimento da produção" [29] .

Mas no Ocidente, justamente no momento em que se desenvolve com mais intensidade o movimento de apoio à resistência vietnamita e a influência da China se faz sentir com mais força, ressoam vozes muito diferentes no âmbito da esquerda marxista. Na Itália, Mario Tronti publica um livro que tem logo um grande sucesso. Eis uma de suas teses principais: a revolução socialista "suprime o trabalho. E justamente assim elimina o domínio de classe. Supressão operária do trabalho e destruição violenta do capital são, portanto, uma coisa só" [30] . Estamos em 1966, ano em que na China eclode a Revolução Cultural. E é nesse momento que a comédia de equívocos chega ao ápice.

A Revolução Cultural é lançada com uma palavra de ordem bem precisa: "Fazer a revolução e estimular a produção". Entre os marxistas ocidentais não são raras as tomadas de posição concordantes ou entusiastas; a segunda parte desta palavra de ordem, porém, acaba sendo esquecida. Entretanto, ainda em 1969, por ocasião do IX Congresso do Partido Comunista Chinês, Lin Piao, herdeiro designado por Mao naquele momento, afirma:

"Justamente como foi ressaltado em Os 16 pontos que três anos antes haviam inaugurado a Revolução Cultural: 'A Grande Revolução Cultural Proletária constitui uma poderosa força motriz para o desenvolvimento das forças produtivas sociais no nosso país' , a produção agrícola no nosso país obteve boas colheitas por vários anos consecutivos; apresenta-se também uma situação vigorosa na produção industrial, na ciência e na tecnologia; o entusiasmo das grandes massas trabalhadoras pela revolução e a produção alcançou um nível sem precedentes; numerosas fábricas, minas e outras empresas bateram continuamente recordes de produção, chegando assim a um nível jamais visto na história e a revolução técnica está em contínuo desenvolvimento […] 'Fazer a revolução e estimular a produção' – este princípio é absolutamente justo" [31] .

Lin Piao reafirmava com insistência este ponto: "Devemos […] fazer com firmeza a revolução e estimular com vigor a produção, cumprindo e superando o plano de desenvolvimento da economia nacional. É claro que a grande vitória da Grande Revolução Cultural Proletária continuará alavancando novos saltos para frente na economia e na nossa causa, para a edificação socialista em seu conjunto". Aliás, uma das principais acusações contra o presidente deposto da República Popular Chinesa, Liu Shao-chi, era "a teoria dos passos de lesma", ou seja, a incompreensão de que a Revolução Cultural teria prodigiosamente acelerado o desenvolvimento das forças produtivas e levado o país, em curto espaço de tempo, ao nível dos países capitalistas mais avançados [32] . Não por acaso, a Revolução Cultural retomava e relançava o Grande Salto para a Frente de 1958 mediante o qual a China esperava queimar as etapas para alcançar os países capitalistas mais avançados.

Não se deve esquecer que já, em 1937, em seu ensaio Sobre a Prática, retomando um tema do Manifesto do Partido Comunista, Mao sublinhara a centralidade da "atividade produtiva material" e do desenvolvimento das forças produtivas para o aumento não apenas da riqueza social, mas também do "conhecimento humano": sim, "a produção em escala reduzida limitava o horizonte dos homens"; e é em virtude dessa sua função pedagógica que a atividade produtiva material não está destinada a desaparecer nem mesmo "na sociedade sem classes", no comunismo [33] . Mas no Ocidente, a celebração de Mao podia conjugar-se bem com a espera do fim do trabalho; muitas vezes citava-se o ensaio Sobre a Prática, para remeter, porém, só à luta de classes, removendo seja a luta pela produção, seja a luta pela experimentação científica.

No marxismo ocidental, a divisão populista em duas partes da principal palavra de ordem lançada pela Revolução Cultural, corresponde à divisão do pensamento de Mao. Ele se sentia fortemente empenhado na eliminação de dois tipos de desigualdade: a que vigorava dentro do povo chinês mas também, e talvez mais ainda, a que separava a China dos países mais avançados. Acelerando poderosamente o desenvolvimento das forças produtivas, a superação da primeira contradição tornaria possível a superação também da segunda; dessa forma, a nação chinesa se levantaria de modo estável e definitivo, a longa luta pelo reconhecimento da China tornada necessária pela opressão e pela humilhação impostas pelo imperialismo seria coroada de um sucesso total.

No Ocidente, contudo, a Revolução Cultural, o pensamento e a obra de Mao, a Revolução Chinesa em sem conjunto acabava sendo reduzida a um único slogan: "Rebelar-se é justo". O grande revolucionário, já dividido no sentido que conhecemos, era submetido ainda a uma leitura anarcóide. Derrotado a duras penas na época da Segunda Internacional, o anarquismo obtém uma clamorosa revanche no movimento de 1968.

5. De Foucault a Negri: a progressiva transfiguração do Império

Nesse clima espiritual e político, a cultura de orientação marxista começa a ser seduzida e subvertida por autores e correntes de pensamento que deveriam, no entanto, ter sido vistos com um certo distanciamento crítico. Apoiado desde o início por Althusser [34] , Foucault irrompe fortemente com sua análise da difusão ou da onipresença do poder não só nas instituições e nas relações sociais, mas também no dispositivo conceitual. É um discurso que fascina por seu radicalismo e, além disso, permite um acerto de contas com o poder e a ideocracia que estão na base do "socialismo real", cuja crise se manifesta cada vez mais nitidamente. Na realidade, o radicalismo não é só aparente mas se transforma em seu contrário. A atitude que condena toda relação de poder, aliás, toda forma de poder, tanto no âmbito da sociedade, como no âmbito do discurso sobre a sociedade, torna muito problemática, ou impossível, a "negação determinada" ( bestimmte Negation ), aquela negação de um "conteúdo determinado" que, hegelianamente, é o pressuposto de uma transformação real da sociedade, o pressuposto da revolução [35] . Além disso, esse esforço de individuação e desmistificação do domínio em todas as suas formas manifesta lacunas surpreendentes, justamente onde o domínio se manifesta em toda a sua brutalidade: a atenção reservada ao domínio colonial é muito escassa ou inexistente.

Pierre Boulez, amigo de Foucault, participa do protesto promovido por Sartre contra o massacre dos argelinos em Paris. Foucault parece não aderir. De maneira geral, ele não parece desempenhar nenhum papel na luta contra a tortura e a cruel repressão com que o poder procura debelar a luta pela libertação nacional. Foi justamente observado, a respeito de Foucault, que "sua crítica do poder continua olhando para a Europa" [36] . Mas é possível ir além: o colonialismo e a ideologia colonial estão amplamente ausentes na história do mundo moderno e contemporâneo reconstruída pelo filósofo francês. A julgar por essa história, o "surgimento do racismo de Estado deve ser colocado no início do século XX" [37] , enquanto é o advento do Terceiro Reich que marca o "aparecimento de um Estado absolutamente racista" [38] . Essa periodização foi posta em dúvida com muita antecedência pelos abolicionistas que, no século XIX, queimavam em praça pública a Constituição americana, tachada de ser um pacto com o diabo por consagrar a escravidão racial; ou aqueles abolicionistas que recriminavam a lei sobre os escravos fugitivos de 1850 por ela obrigar todo cidadão estadunidense "a se tornar um caçador de homens": era passível de punição não só quem tentasse esconder ou ajudar o negro perseguido pelos seus legítimos proprietários, mas também quem não colaborasse para a sua captura [39] . Como justificativa parcial de Foucault, poder-se-ia dizer que ele ignora esse capítulo da história; mas, pelo menos, ele poderia ter lido o comentário de Marx sobre a Fugitive Slave Law: "Exercer a função de caçador de escravos por conta dos proprietários sulistas de escravos parecia ser a tarefa constitucional do Norte" (MEW, XV, 333). Em todo caso, não estamos diante de um racismo que se manifesta apenas no âmbito da sociedade civil: o que decide a colocação social e o destino de um indivíduo, na base de normas jurídicas e constitucionais explícitas, é sua pertença racial. A realidade do Estado racial surge com mais clareza nos Estados Unidos antes da Guerra de Secessão do que no Terceiro Reich: segundo as leis de Nuremberg, o que definia o judeu era também a pertença à religião judaica deste ou daquele seu antepassado, enquanto nos EUA a religião não exercia nenhuma função na definição do negro. O sangue decidia tudo: one drop rule. Hitler não possuía escravos (nem negros, nem judeus), enquanto nas primeiras décadas de história da república norteamericana quase todos os presidentes são proprietários de escravos (negros).

Se não na história dos Estados Unidos, Foucault poderia ter se concentrado na história da Confederação Secessionista ou da África do Sul, ou poderia ter manifestado uma consideração de caráter global: se analisarmos os países capitalistas juntamente com as colônias que eles possuíam, podemos perceber facilmente que o fenômeno denunciado por Ho Chi Minh em relação à Indochina tem um caráter geral: estamos diante de uma dupla legislação, uma para a raça dos conquistadores, outra para a raça dos conquistados. Nesse sentido, o Estado racial segue como uma sombra a história do colonialismo em seu conjunto; só que esse fenômeno se apresenta com mais evidência nos Estados Unidos por causa da contiguidade espacial em que vivem diferentes raças. Mas Foucault não dedica nenhuma atenção à história dos povos coloniais ou de origem colonial.

A história da ideologia racial traçada pelo filósofo francês também faz pensar. Assim, "na metade do século XIX", em contraposição à tradição da Escola dos Anais empenhada em consagrar a soberania, afirma-se um discurso completamente novo, antiautoritário e revolucionário, que decompõe a sociedade em raças (ou classes) em luta e introduz "um princípio de heterogeneidade: a história de uns não é a história de outros" [40] . Entretanto, algum tempo depois, verifica-se uma reviravolta: "a ideia de raça, com tudo aquilo que ela implica ao mesmo tempo em termos monista, estatal e biológico, substituirá a ideia de luta de raças". Trata-se de uma verdadeira inversão: "O racismo representa, literalmente, o discurso revolucionário, mas o representa pelo avesso". Permanece o fato que "a raiz da qual se parte é a mesma" [41] . Desse quadro desapareceram "literalmente" os processos seculares de racização e desumanização que acometem os povos coloniais, assim como as grandes lutas pelo reconhecimento a começar daquela que, com a radicalização da Revolução Francesa, leva à abolição da escravidão nas colônias.

Linchamento de negro em Omaha, Nebraska, 1919. Enfim, Foucault acredita poder afirmar que "a grande ritualização pública da morte desapareceu […] a partir do final do século XIX" [42] . Na realidade, ainda nas primeiras décadas do século XX, nos EUA da white supremacy, o linchamento dos negros é organizado como espetáculo de massa, anunciado pela imprensa local, a que são chamados a assistir e participar também mulheres e crianças e que termina com a distribuição de lembrancinhas do rito sacrificial.

As remoções macroscópicas aqui evidenciadas produzem resultados muito significativos também no plano político. No momento que em Foucault ministra o seu curso no Collège de France aqui analisado – estamos em 1976 – ainda vigora o regime de apartheid da África do Sul racista. Por outro lado, cerca de dez anos antes, Hanna Arendt chamara a atenção sobre a proibição que, em Israel, ainda atingia os casamentos interraciais e sobre outras normas de inspiração análoga, em paradoxal analogia com as "infames leis de Nuremberg de 1935" [43] . Mas, quando o autor francês começa a procurar outra realidade para comparar ao Terceiro Reich em termos de "racismo de Estado", ele consegue identificá-la apenas na União Soviética, país que desde sua fundação tivera um papel decisivo na promoção da emancipação dos povos coloniais e que, ainda em 1976, estava em primeiro plano na denúncia da política antinegra e antiárabe conduzida, respectivamente, pela África do Sul e por Israel!

Foi observado que Foucault exerce uma influencia considerável sobre Antonio Negri. Com efeito… Hoje em dia, importantes autores norte-americanos de orientação liberal descrevem a história de seu país como a história de uma Herrenvolk democrac y, ou seja, de uma democracia que vale apenas para o Herrenvolk (é significativo o recurso de linguagem caro a Hitler), para os "povos dos senhores" e que, por outro lado, não hesita em escravizar negros e exterminar os peles-vermelhas da face da terra. Empire , no entanto, fala em tom compungido de uma "democracia americana" que rompe com a visão "transcendente" do poder, típica da tradição europeia [44] . A apologia, porém, não para aqui. Tomemos uma figura central da história do imperialismo americano, ou seja, Wilson. No momento em que ele começa sua carreira política, o Sul, de onde provém, assiste a irrupção dos esquadrões do Ku Klux Klan contra os negros. Mas o futuro presidente toma a palavra, com um artigo do Atlantic Monthly de janeiro de 1901, para pronunciar um libelo contra as vítimas: os "negros" são "excitados por uma liberdade que não compreendem", são "insolentes e agressivos, preguiçosos e ávidos de prazeres"! Em todo caso, a "emancipação repentina e absoluta dos negros" foi uma catástrofe: causou uma situação "muito perigosa", que a "as assembleias legislativas do Sul" (isto é, os brancos) são obrigadas a enfrentar com "medidas extraordinárias" (os linchamentos e o terror) [45] .

Wilson permanecerá sempre fiel a essa plataforma ideológica e política, em conformidade com a white supremacy no plano interno e internacional. Nesse mesmo contexto pode ser colocado o grande bastão agitado e usado contra a América Latina. Não se deve esquecer que as próprias relações com os aliados europeus, muitas vezes, são caracterizadas por uma rude Realpolitik . Não é por acaso que desde jovem Wilson sente a atração de Bismarck [46] . Tudo isso não impede o presidente norte-americano de intervir na Primeira Guerra Mundial em nome da missão democrática universal dos Estados Unidos: é uma "guerra santa, a mais santa de todas as guerras", um "empreendimento transcendente", do qual são protagonistas os "cruzados" protagonistas americanos. Esse entrelaçamento singular da Realpolitik e da ideia religiosa de missão selada por uma relação privilegiada e direta com o Senhor, provoca a pungente ironia de Freud [47] . Mas esse entrelaçamento torna mais fácil o recurso ao punho de ferro contra a oposição pacifista. É uma repressão bem mais dura do que aquela desencadeada no mesmo período na Alemanha guilhermina e que, não por acaso, provoca a admiração de Mussolini, que está percorrendo a passos largos o caminho que o conduzirá ao movimento esquadrista e ao fascismo [48] . Agora, porém, leiamos Negri (e Hardt): o que caracteriza Wilson é "uma ideologia pacifista internacionalista", bem distante da "ideologia imperialista tipicamente europeia" [49] ! Desde sempre, os ideólogos do Manifest Destiny insistem no primado moral e político dos Estados Unidos, na exceção, ou melhor, no "excepcionalismo" representado por um país, que é a única ilha de liberdade num imenso oceano de despotismo: Empire não argumenta de maneira diferente.

A essa altura proponho uma espécie de exercício intelectual ou, se quisermos, de jogo. Confrontemos dois trechos de dois autores sensivelmente diferentes entre si, mas ambos empenhados em contrapor positivamente os Estados Unidos à Europa. O primeiro celebra a "experiência americana", ressaltando "a diferença entre uma nação concebida na liberdade e devota ao princípio segundo o qual todos os homens foram criados iguais e as nações do velho continente, que certamente não foram concebidas na liberdade" [50] .

Vejamos agora o que diz o segundo:

"O que era a democracia americana senão uma democracia fundada no êxodo, em valores afirmativos e não dialéticos, no pluralismo e a liberdade? Esses mesmos valores – juntamente com a ideia da nova fronteira – não alimentavam continuamente o movimento expansivo do seu fundamento democrático para além das abstrações da nação, da etnia e da religião? […] Quando Hannah Arendt escrevia que a Revolução Americana era superior à Revolução Francesa, pois a Revolução Americana devia ser entendida como uma busca sem fim da liberdade política, enquanto que a Revolução Francesa havia sido uma luta limitada em torno da escassez e da desigualdade, ela exaltava um ideal de liberdade que os europeus tinham perdido, mas que reterritorializavam nos Estados Unidos" [51] .

Qual dos dois trechos aqui citados é mais apologético? É difícil dizer, embora o segundo pareça mais inspirado e lírico: ele foi escrito por Negri (e Hardt), enquanto o primeiro é de Leo Strauss, o autor de referência dos neoconservadores americanos! Vem à mente a observação de Marx a respeito de Bakunin que, com todo seu radicalismo anti-estatalista, acaba poupando a Inglaterra, "o Estado propriamente capitalista", aquele que constitui "a ponta de lança da sociedade burguesa na Europa." (MEW, XVIII, 610 e 608). O anarquismo dos nossos dias vai além, poupando o país que, aos olhos de uma grande e crescente opinião pública mundial, é sinônimo não só de capitalismo, mas também de militarismo e imperialismo. É um país que, aos olhos de eminentes historiadores norte-americanos de orientação liberal, encarna um "excepcionalismo" bem diferente daquele imaginado por Strauss, Negri e Hardt: "Só nos Estados Unidos houve uma ligação estável e direta entre propriedade em escravos e poder político. Só nos EUA os proprietários de escravos tiveram um papel decisivo para fundar uma nação e criar instituições representativas" [52] .

Sartre denunciava, na sua época, "aquele monstro supereuropeu, a América do Norte" [53] . Agora, porém, Empire não só contrapõe positivamente os Estados Unidos à Europa, mas subscreve, ainda, a tese de Arendt sobre a nítida superioridade da Revolução Americana em relação à Revolução Francesa: é evidente que nesse confronto em preto e branco a deportação e a dizimação dos peles-vermelhas e a escravidão dos negros, desenvolvida vigorosamente pela primeira e abolida pela segunda, não exercem nenhum papel. Negri e Hardt não se deixam impressionar pelo fato que, junto com o jacobinismo, Arendt arrasta também Marx para o banco dos réus, o autor da "doutrina politicamente mais prejudicial da Idade Moderna", o responsável por "uma verdadeira capitulação da liberdade diante da necessidade": nisso ele deixou-se influenciar por "seu mestre de revolução, Robespierre" e influenciou, de forma ruinosa, por sua vez, "seu maior discípulo, Lênin" [54] . Portanto, juntamente com a condenação sem atenuantes das duas Revoluções que puseram em discussão o sistema mundial da escravidão e da opressão colonial, Negri e Hardt subscrevem a liquidação do filósofo que, ao condenar a escravidão assalariada praticada na metrópole, remete, às vezes de modo explícito, outras de modo implícito, à escravidão propriamente dita que subsiste nas colônias. É a autodissolução do "marxismo ocidental".

6. "Marxismo ocidental", "marxismo oriental"

A essa altura, é oportuno examinar de novo a distinção-contraposição formulada por Perry Anderson, à época, entre "marxismo ocidental" e "marxismo oriental" [55] . Primeiramente, convém analisar as condições históricas diferentes em que um e outro viveram e operaram. Partiremos de 1917. Se no Ocidente prevalece, em primeiro lugar, a denúncia das consequências nefastas (a carnificina e o afundamento da democracia) provocadas pela competição e pela guerra inter-imperialista, no Oriente, ao contrário, a Revolução de Outubro tem uma repercussão extraordinária graças ao apelo aos "escravos das colônias" para quebrar as correntes da opressão e da humilhação nacional. Se no Ocidente o Estado-nação era o Moloc sanguinário que sacrificava milhões de homens à sede de domínio e aos interesses do grande capital, no Oriente era o objetivo a ser alcançado para livrar-se do jugo colonial e acabar com as práticas escravagistas e genocidas realizadas pelas grandes potências capitalistas contra os bárbaros. Nas duas áreas em que o mundo estava dividido, o imperialismo era percebido de modo diferente; não há contradição, e sim plena convergência entre esses dois aspectos. Entretanto, o marxismo ocidental e o marxismo oriental nunca se encontraram? Será que o primeiro nunca compreendeu realmente o segundo?

É preciso fazer uma ulterior consideração. A partir do momento em que se esboçam as primeiras dificuldades e tragédias do regime nascido da Revolução de Outubro mas sobretudo a partir do momento em que se evidencia a crise do "socialismo real", a divergência entre marxistas orientais e marxistas ocidentais assistiu à contraposição entre marxistas que, de um lado, exercem o poder e marxistas que, de outro, estão na oposição e se concentram cada vez mais na "teoria crítica", na "desconstrução", aliás, na denúncia do poder e das relações de poder como tais. Está aqui precisamente o ato de nascimento do "marxismo ocidental", o qual, distanciando-se progressivamente do poder, julga identificar a condição privilegiada para redescobrir o marxismo "autêntico", não mais reduzido à ideologia de Estado.

Contudo, esta autoconsciência orgulhosa e, talvez, arrogante, possui um fundamento real? Há o outro lado da moeda, muitas vezes esquecido. Poder-se-ia dizer que o marxismo oriental encontrou-se numa situação mais favorável para compreender e assimilar uma tese essencial de Marx:

"A profunda hipocrisia, a intrínseca barbárie da civilização burguesa estão diante de nós sem véus, não apenas nas grandes metrópoles, onde elas assumem formas respeitáveis, mas voltemos os olhos às colônias, onde perambulam nuas". (MEW, IX, 225).

O marxismo ocidental, no entanto, concentrou-se quase exclusivamente nas "formas respeitáveis" do domínio burguês e capitalista. Após perder de vista a sorte que, em primeiro lugar, estava reservada aos povos coloniais e de origem colonial, a crítica do "socialismo real", embora absolutamente necessária, desembocou numa banal apologética liberal e numa liquidação indiferenciada da história do comunismo do século XX. Esclarecedora é a parábola de Colletti, discípulo de Della Volpe. Mas não menos significativa é a atitude de dois autores que continuam sendo uma referência para a esquerda. Falando da União Soviética de Stalin (e implicitamente de todos os países, que tiveram de curvar-se à lógica do "socialismo num só país"), Hardt e Negri escrevem: "É uma trágica ironia do destino que, na Europa, o socialismo nacionalista acabasse por assemelhar-se ao nacional-socialismo […]. A máquina abstrata da soberania constituía o centro de ambos os sistemas" [56] . Nesse balanço histórico temerário, os povos em condições coloniais ou semicoloniais continuam sem desempenhar nenhum papel. Dois países são tranquilamente comparados e assimilados, dos quais o primeiro deu um forte impulso ao processo de descolonização, e o segundo se propôs herdar e radicalizar a tradição colonial, chegando ao ponto de considerá-la atual na própria Europa oriental.

Se, por outro lado, considerarmos o mundo colonial, o balanço histórico do século XX é bem diferente daquele tão caro à ideologia dominante (e, hoje, até mesmo para os sobreviventes do "marxismo ocidental"). Mesmo concentrando a atenção exclusivamente na "democracia formal", ou seja, no governo da lei e nas liberdades clássicas da tradição liberal, podemos dizer que as sociedades nascidas do Outubro Revolucionário se fecharam sobre si mesmas e acabaram anulando toda forma de democracia; portanto, ao mesmo tempo, elas estimularam a demanda por democracia e emancipação, por reconhecimento, as demandas provenientes dos países coloniais ou dos países colocados na periferia da metrópole capitalista. Neste segundo caso, foi justamente a metrópole democrático-burguesa que sufocou no sangue as reivindicações democráticas.

A influência positiva da União Soviética e do "campo socialista" pode ser constatada também no que diz respeito a uma população de origem colonial colocada no próprio coração da metrópole capitalista. Refiro-me aos afro-americanos. Eles são oprimidos por um regime da white supremacy terrorista no momento em que eclode a Revolução de Outubro. Mas é a partir dela que se percebe uma nova inquietação entre os negros que, sem se deixar intimidar pela caça às bruxas, declaram: "Se lutar pelos próprios direitos significa ser bolchevista, pois bem, nós somos bolchevistas e os outros devem se resignar" [57] . Façamos um salto de quinze anos. É o período mais trágico na história da União Soviética. Imposta fundamentalmente do alto e de fora, a coletivização da agricultura difundiu o gulag em larga escala, enquanto no horizonte vislumbra-se o Grande Terror. É interessante ver, contudo, de que maneira continua sendo recebido pelos afro-americanos o país nascido da Revolução de Outubro. Eles, graças à ação do Partido Comunista dos Estados Unidos, começam a receber aquilo que o regime de supremacia branca obstinadamente lhes negava: uma cultura que ia além da instrução elementar, tradicionalmente dada àqueles que estavam destinados a fornecer trabalho semisservil a serviço da raça dos senhores. Agora, porém, nas escolas organizadas pelo Partido Comunista no Norte dos EUA ou nas escolas de Moscou, os negros se empenham no estudo da economia, da política e da história mundial; questionam essas disciplinas para compreender as razões do destino cruel a eles reservado num país que se vangloria, no entanto, de ser o campeão da liberdade. Ocorre uma mudança profunda naqueles que frequentam essas escolas: a "impudência" que lhes é recriminada pelo regime da white supremacy é, na realidade, a autoestima até aquele momento cerceada e esmagada. Uma mulher negra, delegada no Congresso Internacional das Mulheres contra a Guerra e o Fascismo, realizado em Paris em 1934, ficou profundamente impressionada pelas relações de igualdade e fraternidade, apesar das diferenças de língua e de raça, que se instauram entre as participantes desta iniciativa promovida pelos comunistas. "Era o paraíso na terra". Aqueles que chegam em Moscou – observa um historiador estadunidense contemporâneo – "experimentam um sentido de liberdade inaudito no Sul" dos EUA. Um negro se apaixona por uma mulher branca soviética e casa-se com ela, ainda que mais tarde, ao voltar para a pátria, não possa trazê-la consigo, conhecendo bem o destino que no Sul aguarda os que se mancham com a culpa da miscegenation e com o abastardamento racial [58] . Contudo, mesmo onde grassa o regime da white supremacy, percebe-se um clima novo: olha-se com esperança para a União Soviética e para Stalin como o "novo Lincoln", o Lincoln que acabaria desta vez, de maneira definitiva, com a escravidão dos negros, a opressão, a degradação, a humilhação, a violência e os linchamentos que continuavam sofrendo [59] .

Essas esperanças não foram totalmente frustradas. Pensemos no período e nas modalidades que caracterizam o fim do regime de supremacia branca. Em dezembro de 1952, o ministro da Justiça norte-americano envia uma carta eloquente à Suprema Corte, empenhada em discutir a questão da integração nas escolas públicas: "A discriminação racial alimenta a propaganda comunista e suscita dúvidas também entre as nações amigas sobre a intensidade da nossa devoção à fé democrática". Washington – observa o historiador norte-americano que em nossos dias reconstrói esse acontecimento – corria o risco de se tornar inimigo das "raças de cor" não só no Oriente e no Terceiro Mundo mas no próprio coração dos Estados Unidos: aqui também a propaganda comunista conseguia um sucesso considerável na sua tentativa de ganhar os negros para a "causa revolucionária" abalando-lhes a "fé nas instituições americanas" [60] . Não há dúvida: nesse caso teve papel decisivo a preocupação com o desafio representado objetivamente pela URSS de Stalin e pela influência exercida por ela sobre povos coloniais e de origem colonial.

Vimos que, ao contrário de grande parte do marxismo ocidental, o "marxismo oriental" soube focalizar bem a barbárie colonial do capitalismo. Mas não se trata só disso. Lembremos que Lênin subscreve e considera "magnífica" a "fórmula" da Lógica hegeliana segundo a qual o universal deve ser de forma tal que contenha em si "a riqueza do particular" [61] . É em homenagem a esse enfoque que personalidades como Lênin, Ho Chi Min, Mao, Castro etc. nunca puseram em contradição patriotismo e internacionalismo, aliás, sempre enxergaram na luta de libertação das nações oprimidas um momento essencial da marcha do internacionalismo e do universalismo, daquilo que Gramsci define como "humanismo integral". Não é assim porém no marxismo ocidental. Por um lado – pensemos sobretudo em Althusser – as categorias de humanidade, povo e nação foram vistas com suspeita, como traição da luta de classes. Trata-se de uma atitude de purismo supersticioso, que esquece como as categorias de socialismo, revolução e classe operária podem ser submetidas em sentido conservador e até mesmo reacionário (como no caso da National-sozialistische deutsche Arbeiterpartei de funesta e hitleriana memória). Em todo caso, as preocupações de Althusser podem ser respondidas com uma penetrante observação de Mao: "Em última análise, a luta nacional é uma questão de luta de classes" [62] .

Por outro lado – pense-se sobretudo em Adorno e atualmente em Negri – difundiu-se o desprezo para com as lutas de libertação nacional, postas em contradição com o internacionalismo e o universalismo. Não por acaso, hoje em dia, é grande o desprezo que os sobreviventes do marxismo ocidental ostentam pelos esforços que países como a China e o Vietnã fazem para consolidar a independência, também no plano econômico, de modo a poder dar – declara Deng Xiaoping em 1987 – "uma contribuição real à humanidade" [63] . De um lado ou de outro, devido à visão reducionista da luta de classes ou da visão abstrata do universal, o marxismo ocidental, em geral, não conseguiu entender a unidade entre universal e particular.

Esse apego a uma visão abstrata e pura do universal, se de um lado impediu uma adequada compreensão dos movimentos de libertação nacional (que continuam a se desenvolver também depois da conquista o poder), de outro tornou impossível a compreensão de um motivo de fundo da crise do "campo socialista". A ruptura entre URSS e Iugoslávia em 1948, e depois a invasão soviética da Hungria e da Tchecoslováquia, os conflitos intensos, as quase-guerras ou as guerras propriamente ditas que surgem entre URSS e China, China e Vietnã e Vietnã e Camboja, tudo isso revela como é difícil a necessária obra de conciliação do internacionalismo (o universal) com o respeito dos interesses, das identidades, das sensibilidades nacionais (o particular). O Partido Comunista Chinês [64] mencionou esse problema algumas vezes em seus melhores momentos; quanto ao marxismo ocidental, este quase sempre leu esses conflitos de modo estereotipado como choques entre despotismo estalinista e espírito libertário, entre burocracia e massas, ou entre coerência revolucionária de um lado e oportunismo ou revisionismo de outro, ou ainda, de modo mais apressado, como demonstração do estranhamento substancial de ambas as partes em luta pelo "autêntico" socialismo e marxismo.

Por fim, o marxismo ocidental desfrutou de sua distância do poder como uma condição privilegiada ou exclusiva para o desenvolvimento das potencialidades críticas da teoria de Marx. Mas se por um lado a distância do poder e o desdém diante do poder podem ofuscar a lucidez do olhar, por outro podem turvar a visão, tornando mais difícil a compreensão dos conflitos mundiais, favorecendo uma atitude idealista e, em última análise, a fuga da história. Só assim pode-se explicar a tese de Bloch segundo a qual a revolução burguesa "limitou a igualdade à igualdade política". Mesmo querendo ocupar-se exclusivamente da metrópole ocidental, trata-se de uma afirmação historicamente insustentável: basta pensar na longa duração da discriminação censitária e sexual.

No conjunto, com o passar dos anos, o marxismo ocidental acabou involuntariamente representando duas figuras fundamentais da filosofia hegeliana: na medida em que se satisfaz com a crítica e, aliás, encontra sua razão de ser na crítica, sem pôr-se o problema de formular alternativas possíveis e de construir um bloco histórico alternativo àquele dominante, ele é a ilustração da sabichonice do dever ser; quando, pois, desfruta da distância do poder como uma condição da própria pureza, ele encarna a bela alma. Talvez não seja por acaso que hoje tenha tanto sucesso no ambiente de esquerda um livro, que desde o título convida a mudar o mundo sem tomar o poder. 65 A autodissolução do marxismo ocidental se configura aqui como o abandono do terreno da política e o desembarque na religião.

Referências
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Notas
1 Artigo publicado originalmente na revista de Estudos sociológicos de Araraquara (v.16, n.30, p.213-242, 2011). A tradução e a revisão técnica são de Carlo Alberto Dastoli.
NE: o artigo está publicado de acordo com a versão apresentada originalmente, inclusive a normalização, na obra: Wie der «westliche Marxismus» geboren wurde und gestorben ist. In: Erich Hahn, Silvia Holz-Markun (eds.), Die Lust am Widerspruch. Theorie der Dialektik-Dialektik der Theorie. Symposium aus Anlass des 80. Geburtstag von Hans Heinz Holz, Trafo, Berlim, 2008, pp. 35-60.
2 Bobbio, 1977, pp. 164, 167 e 280.
3 Mill, 1972, p. 73.
4 Bloch, 1961, p. 157.
5 Bloch, 1961, p. 80.
6 Mao Tsé-tung, 1998, p. 377.
7 Bloch, 1961, p. 7; Mao Tsé-tung, 1998, p. 377.
8 Bloch, 1961, p. 79; Mao Tsé-tung, 1998, p. 379.
9 In: Lacouture, 1967, p. 37.
10 Sostanze infiammabili nella politica mondiale (1908), In: Lênin 1955-70, vol. XV, pp. 178-9.
11 Primeiro esboço de teses sobre a questão nacional e colonial (junho 1920), In: Lênin 1955-70, vol. XXXI, p. 162.
12 Togliatti, 1974-84, p. 866.
13 Althusser, 1967, pp. 17-8.
14 In: Althusser, Balibar, 1968, p. 149.
15 Althusser, 1967, p. 06.
16 Nietzsche, 1988, vol. I, p. 117 ( O Nascimento da Tragédia , 18)
17 Nietzsche, 1988, vol. XII, p. 503.
18 Nietzsche, 1988, vol. XII, p. 491-2.
19 In: Althusser, Balibar, 1968, p. 150.
20 Althusser, 1969, p. 24.
21 Adorno, 1970, pp. 304-5 e 307.
22 Ho Chi Minh, 1969, pp. 75 e 78.
23 In: Lacouture, 1967, pp 39-40.
24 Mao Tsé-tung, 1998, pp. 87-8.
25 Sobre o Direito das Nações à Autodeterminação (maio de 1914), ver Lênin 1955-70, vol. XX, p. 416-7.
26 Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado (1918), In: Lênin 1955-70, vol. XXVI, p. 403.
27 Hardt, Negri, 2002, pp. 133 e 112.
28 Mao Tsé-tung, 1969-75, vol. IV, p. 467 ( A falência da concepção idealista da história, 16 de setembro de 1949).
29 Le Duan, 1969, pp. 61-3.
30 Tronti, 1966, p. 263.
31 Lin Piao, 1969, pp. 61-2.
34 In: Althusser, Balibar, 1968, p. 27.
35 Hegel, 1969-79, vol. V, p. 49.
36 Taureck, 2004, pp.40 e 116.
37 Foucault, 1990, p. 52.
38 Foucault, 1990, p. 169.
39 Cf. Losurdo, 2005a, cap. IV, 2.
40 Foucault, 1990, pp. 62 e 56.
41 Foucault, 1990, p. 63.
42 Foucault, 1990, p. 160.
43 Arendt, 1993, pp. 15-6.
44 Hardt, Negri, 2002. p. 158.
45 In: Logan, 1997 p. 378.
46 Heckscher, 1991, pp. 44 e 298.
47 Losurdo, 2007, cap. VI, 11 e cap. II, 1.
48 Losurdo, 1993, cap. 5, 2 e 7.
49 Hardt, Negri, 2002, pp. 166-7.
50 Strauss, 1998, pp. 43-4.
51 Hardt, Negri, 2002, pp. 352-3.
52 Davis, 1982, p. 33.
53 Sartre, 1967, p. XXII.
54 Arendt, 1983, pp. 65-6.
55 Anderson, 1997.
56 Hardt, Negri, 2002, p. 115.
57 Franklin, 1983, p. 398.
58 Kelley, 1990, pp. 94-6.
59 Kelley, 1990, p. 100.
60 Cf. Losurdo, 2005a, cap. X, 6.
61 Lênin, 1969, p. 89.
62 Mao Tsé-tung, 1998, pp. 379.
63 Deng Xiaoping, 1994, p. 222.
64 Losurdo 2005b, cap. V, 2.
65 Halloway, 2004.

Losurdo na TV Boitempo
A TV Boitempo está atualmente preparando a publicação de uma série inédita de vídeos com Domenico Losurdo sobre comunismo e revolução no século XXI, gravados aqui na sede da editora durante sua última visita ao Brasil. Enquanto o material não fica pronto, fizemos uma seleção de vídeos do canal com o filósofo, a começar pelo espirituoso depoimento em apoio aos atos contra o governo ilegítimo de Michel Temer e suas reformas, que acabaram redundando no cancelamento de uma de suas conferências aqui em São Paulo.

10/Jul/18

A atualidade de Marx face à financeirização: capital fictício, divida e juro

por Daniel Vaz de Carvalho
 
O idiotismo do mundo burguês não pode ser melhor descrito do que pelo respeito que a "lógica" do milionário – essa aristocracia de esterqueira – infunde [1] (479)

O banco e o crédito tornam-se o meio mais poderoso para impelir a produção capitalista para além das suas barreiras próprias e um dos veículos mais eficazes das crises e da vigarice (684)

Em defesa das suas falácias a social-democracia declarou Marx desatualizado e quem isto contesta corre o risco de se tornar suspeito de "estalinismo". Marx não esteve nem está desatualizado e se numa sociedade futura análises em "O Capital" poderão não se aplicar, nem por isso o materialismo-dialético deixa de ser válido.

A financeirização, o neoliberalismo, não passa de um abastardamento do liberalismo do século XIX, num processo para salvar o capitalismo das suas insanáveis contradições. As teses de Marx no Livro III, tomo VII, de "O Capital", são uma base fundamental para a compreensão dos processos capitalistas atuais e neste particular as políticas da UE e do euro.

1 – Capital fictício e especulação

Na formação do capital fictício, o capital aparece como fonte misteriosa e autocriadora de juro, como fonte do seu aumento próprio. É como um feitiço automático em que o valor se valoriza a si próprio, dinheiro procriando dinheiro. (440)

Em D – D' temos a forma desprovida de conceito, a mistificação do capital na sua forma mais aberrante. Para a Economia vulgar que quer expor o capital como fonte autónoma de valor esta forma é naturalmente aquilo que convém, uma forma em que a fonte de lucro já não é mais reconhecível, e em que o resultado do processo capitalista de produção - separado do próprio processo - recebe uma existência autónoma. (441)

Perde-se assim até ao último vestígio toda a conexão com o processo real de valorização do capital. O capital aparece como um autómato que se valoriza a si próprio. (531)

Nas crises o capital fictício fica enormemente reduzido. A redução dos nominativos em dinheiro destes títulos de valor no boletim de cotações nada tem que ver com o capital real que representam, mas pelo contrário muito a ver com a capacidade de pagamento dos donos dele. (560)

Porém, com o estouro destas bolhas de sabão de capital-dinheiro nominal (capital-fictício) a nação não ficou um cêntimo mais pobre. A acumulação do capital-dinheiro não é senão uma acumulação do preço de mercado do valor do capital ilusório. (533)

A maior parte do capital de banqueiro é portanto puramente fictício. Além disto este capital fictício de banqueiro em grande parte não representa capital dele, mas capital que o público depositou nele, com ou sem juros. (534)

Com o desenvolvimento do capital portador de juro e do sistema de crédito todo o capital parece duplicar-se e por vezes triplicar-se através de diversos modos pelos quais o mesmo capital ou também apenas título de dívida aparece em diversas mãos sob diversas formas. (535) É o que ocorre com os chamados "produtos derivados".

Porém, como normalmente acontece pouco antes das crises estourarem: os "economistas vulgares" na terminologia de Marx, incorrem na ilusão do capital fictício "felicitando-se reciprocamente pelo florescimento e boa saúde dos negócios" até que de repente acontece o desmoronamento. (550) Contudo, quer o êxito quer o fracasso desta situação conduzem simultaneamente à centralização dos capitais e portanto à expropriação a uma escala mais enorme. (498)

2 – Financeirização

O objetivo da financeirização é transformar o usurário no único capitalista e o seu capital no único capital. (583) O sistema de crédito tem o seu centro nos bancos alegadamente nacionais e nos grandes emprestadores de dinheiro usurários à volta deles. Dá a esta classe de parasitas um poder fabuloso que não só dizima periodicamente capitais industriais mas também intervém do modo mais perigoso na produção real. Este bando não quer saber da produção real, não tem nada que ver com ela. (617)

Marx antecipa neste contexto Keynes: A economia esclarecida procurava inculcar precisamente que dinheiro não é capital. Esta economia de banqueiros procura inculcar que de facto o dinheiro é o capital por excelência. (525). A massa de capital-dinheiro emprestável não é ela própria uma massa de capital reprodutivo. (572)

A desregulamentação financeira aumenta a concorrência e daqui ativos financeiros de má qualidade mas que momentaneamente apresentam mais lucro. Como se recusa a noção de capital fictício a crise é inevitável. A ilusão do capital fictício funciona como um alucinogénio da ganância, só que depois da euforia vem a ressaca da crise que os trabalhadores e o povo em geral têm de pagar para o sistema se manter…é o "risco sistémico". Declarada intocável a finança torna-se à conta da especulação sobre capitais fictícios senhora absoluta dos nossos destinos. Desta forma, está colocado aos povos o dilema entre soberania e dependência da usura.

Tudo aquilo que traz facilidades ao negócio traz facilidades à especulação (e à corrupção) ambos estão em alguns casos tão perto que é impossível dizer em que ponto preciso começa o negócio e começa a especulação (459) [2]

O grande capital concentrando-se em oligopólios, substitui-se à concorrência do mercado. É a supressão do modo de produção capitalista no interior do modo de produção capitalista. Reproduz uma nova aristocracia de finança, uma nova espécie de parasitas, todo um sistema de vigarice e de fraude. É a produção privada sem o controlo da propriedade privada. (496/497) Tenta-se expor como idênticos os interesses do capital-dinheiro e do capital industrial quando a lei bancária está calculada para explorar a diferença desses interesses para vantagem do capital-dinheiro. (582) E é assim que esta ninhada de jogadores cresce. (579

Os sistemas de crédito apresentam um carácter dual: por um lado mola propulsora da produção capitalista para desenvolver o enriquecimento através da exploração do trabalho alheio no mais puro e colossal sistema de vigarice e para limitar cada vez mais o número dos poucos que exploram a riqueza nacional; por outro lado porém, a mola propulsora para formar a transição para um novo modo de produção. (500)

3 – Divida e juro

Marx aprofunda a questão das dívidas de Estado. A dívida pública aparece como uma armadilha, pois enquanto existir capital-dinheiro, como capital dinheiro ele tem sempre de voltar a ser emprestado. (417) O sistema de endividamento público é uma necessidade dos credores, representa a possibilidade de emprestar capitais por tempos perpétuos dado que enquanto se encontrar na mão dos capitalistas não lhes traz nenhuns juros e não opera como capital. (416) Que a poupança nacional apareça como lucro privado não choca nada os economistas burgueses uma vez que o lucro em geral é a apropriação do trabalho nacional. (614)

No sistema criado, o Estado é forçosamente obrigado a endividar-se para as suas despesas correntes, devido às distorções da fiscalidade e às privatizações. Assim, a classe de banqueiros está sempre à espreita de comprar títulos do Estado garantidos, como forma de transformar capital fictício em juro. O resultado é a austeridade predatória.

A acumulação de capital de dívida do Estado não significa mais que o aumento de uma classe de credores que estão autorizados a levantar para si certas somas sobre o montante dos impostos (541) Porção retirada aqueles que produzem para ser dada aos credores. (Sismondi) (542) Através dos empréstimos o usurário adquiriu para si o título de propriedade das condições de trabalho, etc. (671) E nisto se resumem a austeridade e as "medidas estruturais".

A dívida pública permanece um capital fictício. A soma que foi emprestada ao Estado em geral não existe mais. Ela nunca esteve em geral destinada a ser despendida como capital e apenas pelo seu investimento como capital teria podido ser transformada num valor que se mantém. Por mais que estas transações se possam multiplicar a partir do momento em que se tornem invendáveis a aparência desse capital desapareceu. (529) Mas que uma coisa possa por fim destruir a sua própria causa só é um absurdo para o usurário enamorado da taxa de juro alta. (479)

Compreende-se que a renegociação da dívida (juros, prazos e montantes) seja algo que o sistema não aceita. A prioridade é proteger os usurários e isso parece-lhes justo, pois "o conceito é justo desde que corresponda ao modo de produção, lhe esteja adequado. É injusto desde que o contradiga." (381) O social é portanto preterido em relação aos interesses financeiros.

Uma das razões da disfuncionalidade do capitalismo consiste em considerar que títulos de dívida são dinheiro, não distinguindo entre capital que pode criar valor e dinheiro não capital. Uma acumulação de dívidas aparecer como uma acumulação de capital mostra a deturpação que tem lugar no sistema de crédito. (542)

Qualitativamente considerado o juro é mais-valia que a mera propriedade de capital fornece, que o capital em si rende apesar dos possuidores permanecerem fora do processo de produção: mais-valia que portanto o capital rende separado do processo de produção. (423) Pressupondo um dado lucro médio, a taxa de lucro do empresário não está determinada pelo salário, mas pela taxa de juro, Ela (a taxa de lucro) é alta ou baixa na relação inversa desta. (426)

Acrescente-se ainda uma realidade que o grande capital esconde, mas que os MPME bem conhecem: o juro é uma relação entre dois capitalistas não entre capitalista e operário, a oposição entre capital e trabalho é remetida para além do processo de exploração a saber: para o capital portador de juro em que o capitalista que funciona apenas executa outro trabalho que o operário. De tal maneira que o trabalho de explorar e o trabalho explorado, ambos enquanto trabalho são idênticos. (429) Ou seja, a usura explora um modo de produção dado, não o cria, procura mantê-lo para o poder explorar sempre de novo". (686, 687)

Marx mostra-nos assim a verdadeira natureza lucro financeiro: uma dedução à mais-valia e simultaneamente apropriação de uma parte do juro de poupanças alheias. (569) E mais, a taxa de juro é desprovida de lei, a sua determinação é puramente arbitrária. (399) De facto, à arbitrariedade das agências de rating ao serviço dos usurários.

4 – A resolução do capital fictício pela austeridade

Os "quantitative easing" na UE e nos EUA são medidas desesperadas – e absurdas – para tentar deter os danos das políticas neoliberais. Os objetivos são incongruentes: impedir os Estados de terem estratégias próprias, reforçar a finança especuladora, promover a usura à custa das contas dos Estados. Apenas mostra o desajuste do sistema relativamente às necessidades produtivas e sociais. Por detrás disto, está a baixa tendencial da taxa de juro e a tentativa de a contrariar pelo aumento da exploração e o crescimento do capital fictício e usurário.

Com a austeridade, a loucura do modo capitalista de representação das coisas atinge o seu cume: em vez de explicar a valorização do capital a partir da exploração da força de trabalho ser inversamente a força de trabalho, um capital portador de juro. (530)

Aqueles que dizem que existe uma falta de capital ou falam meramente daqueles trafulhas do crédito que estão postos agora em circunstâncias que já não podem obter mais capital alheio para com ele laborar e que exigem que o banco (na UE o BCE e os governos) os ajude não só a pagar o capital perdido mas que os habilite à continuação da vigarice. São doidos que creem que é obrigação do banco e que está no poder dele transformar através de papelinhos todos os capitalistas na bancarrota em capitalistas sólidos e solventes. (583)

Isto pode ser levado ao extremo através de uma legislação falsa repousando sobre teorias falsas acerca do dinheiro e imposta à nação pelo interesse dos negociantes do dinheiro. (584) Nenhuma espécie de legislação bancária pode eliminar a crise. (555)

Enquanto o carácter social do trabalho aparecer como existência em dinheiro das mercadorias e por conseguinte como uma coisa fora da produção real as crises de dinheiro são (independentemente ou como agudização das crises reais) inevitáveis. (584)

O descalabro que o sistema financeiro atingiu na UE (vejam-se os casos da Itália, Espanha e também da Alemanha) não tem nada de misterioso e inevitável. O marxismo não apenas explica as causas como aponta as soluções. Que se desenganem, portanto os que julgam que as crises podem desaparecer com as "reformas" da social-democracia e suas ilusórias "alterações" às regras da UE e do euro.

[1] Marx, O Capital, Livro Terceiro, Tomo VII , Ed. Avante, 2016. Os números entre parêntesis designam páginas relativas aos textos referidos.
[2] Marx cita J.W. Gilbert em The history and principles of banking, Londres, 1834.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

09/Jan/17

Os conceitos históricos de esquerda e direita

O nazi-fascismo e o neoliberalismo são manifestações inequívocas do capitalismo. 

A alma da quinta coluna é o integralismo. Esse slogan marcou a Editorial Calvino, que publicava livros sobre o socialismo nos anos 1945 e 1946. O mundo acabara de sair da Segunda Guerra Mundial e o trauma da experiência nazi-fascista ainda era forte. O termo “quinta coluna” designava os traidores dos países que estavam na mira do nazi-fascismo. O traidor norueguês Vidkun Abraham Lauritz Jonsson Quisling, um major, se tornou ativo colaborador dos nazistas em seu país no começo do conflito e seu nome ficou associado ao termo.

A ideia de “quinta coluna” surgiu nos anos 1930, na guerra civil espanhola, quando o líder fascista Francisco Franco se preparava para marchar sobre Madri com quatro colunas e o general Queipo de Llano disse: “A quinta-coluna está esperando para saudar-nos dentro da cidade.” Pela primeira vez, o mundo ouvia a palavra fatídica — “quinta-coluna”. Mais à frente, ela ganhou o termo “quisling” como sinônimo. Com o passar do tempo, essas palavras saíram de cena, mas o seu sentido está mais atual do que nunca.

Expansionismo norte-americano

No Brasil, esse papel foi desempenhado pelos integralistas, também chamados de “galinhas verdes” em alusão às sua camisa esverdeada, mas pode-se dizer que muitas outras forças políticas, ou correntes ideológicas, também agiram como “quisling” ou “quinta coluna”. O exemplo mais explícito é o do regime militar de 1964, um golpe que interrompeu a mais importante experiência desenvolvimentista da história do Brasil, a Revolução de 1930. 

Aquele movimento golpista falava pela cartilha do expansionismo do regime norte-americano do pós-Segunda Guerra Mundial e rezava pela ladainha do anticomunismo da chamada Guerra Fria. Com a derrota do nazi-fascismo, os Estados Unidos surgiram na arena mundial como o maior inimigo do socialismo, retomando o fio histórico do combate à União Soviética e seus aliados anteriormente conduzido pelo governo de Adolf Hitler na Alemanha. 

Bretton Woods

No Brasil, o golpe de 1964 fez parte da ofensiva militar norte-americana pós-Segunda Guerra Mundial, a mesma da guerra na Coreia e no Vietnã. O sangue derramado naqueles países asiáticos foi pelos mesmos motivos do derramado na América Latina. E os métodos de formar movimentos políticos traidores da pátria seguiu a mesma regra dos que o regime de Hitler usou no processo de ascensão do chamado Terceiro Reich, a escalada nazi-fascista que ensanguentou o mundo.

A ofensiva militar norte-americana tinha como causa a aplicação dos ditames do acordo de Bretton Woods, quando os Estados Unidos assumiram a rédea da economia do ocidente com instituições como e Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Para dar garantias a esse arranjo, o regime de Washington criou a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, o poderoso braço armado dos Estados Unidos e seus aliados. 

Por esse breve histórico já é possível concluir que socialismo e fascismo são antípodas — a ascensão de um freia o outro. Não há uma neutralidade que, do ponto histórico, substitua ambos. A questão é saber qual é o portador do progresso e, consequentemente, qual é o responsável por sua negação. Por todos os ângulos que se olhe para essa dicotomia, é fácil concluir que as ideias socialistas são a essência do processo histórico que levaram a humanidade a dar magníficos saltos civilizatórios. 

Propriedade privada

Esse deve ser o ponto de partida para se entender o que é ser de direita e de esquerda, conceitos que vêm da Assembléia Nacional, em Paris, logo após a Revolução Francesa. Nas galerias à esquerda da mesa diretora ficavam os jacobinos, radicais quanto ao fim da monarquia e quanto aos rumos da Revolução. À direita ficavam os girondinos, que defendiam posições conservadoras e não simpatizavam com a ideia da França transformada em república.

Já no século XIX, quando a maioria dos países havia trocado a monarquia de base feudal pela república baseada no liberalismo, direita passou a representar a defesa dos valores conservadores, como a tradição familiar patriarcal e a propriedade privada dos meios de produção, e esquerda a crítica a esses valores. Quando os projetos socialistas e capitalistas passaram a disputar a hegemonia política e econômica do planeta, no século XX, a denominação de esquerda coube aos socialistas e a de direita aos liberais.

Esquerda passou a significar o projeto de modificação da estrutura republicana arquitetada pela desigualdade social e do sistema econômico baseado na propriedade privada das forças produtivas, na acumulação em detrimento da distribuição social da ruiqueza produzida. Seu ideário reivindica a precedência do trabalho em relação ao capital, da propriedade social em relação à propriedade privada dos meios de produção. E direita tomou o significado de manutenção do status quo do sistema econômico e político sustentado pela correlação de forças favorável aos capitalistas. Seu ideário advoga a primazia do capital em relação ao trabalho, da propriedade privada em relação à propriedade social dos meios de produção.

Variantes do capitalismo

De um lado está o pensamento elitista e excludente, que privilegia a acumulação da riqueza em relação à sua distribuição, a ordem macroeconômica em relação à qualidade de vida dos indivíduos, a benesse de poucos em relação ao bem-estar de todos. De outro lado, está o pensamento que considera o todo e busca incluir, que busca aumentar e distribuir a riqueza, que eleva a qualidade de vida dos indivíduos à condição de prioridade econômica, que privilegia as pessoas em relação aos monopólios financeiros, o bem-estar de todos em relação ao acúmulo de alguns.

Essa dicotomia se acentuou com o triunfo das ideias neoliberais. Um de seus líderes, o norte-americano Milton Friedman, dizia que a pessoa só nada quando a alternativa a isso é afundar e morrer afogado. Ele apostava que a melhor maneira de produzir bons nadadores é não fornecer coletes salva-vidas nem equipes de salvamento. 

Ou seja: acabar com qualquer mecanismo de proteção social. Muitos, claro, vão afundar, mas esse seria o preço a pagar para ter os vencedores. Há grandes diferenças entre essas ideias e as do fascismo? Como exemplo, há o caso da ditadura do general Augusto Pinochet, que já no início da década de 1970 implantou as ideias de Friedman no Chile.

O nazi-fascismo, assim como o neoliberalismo, são variantes do capitalismo. Ao se considerar as categorias da ciência econômica e as teorias da formação social nesse período histórico pós-Revolução Industrial e pós-Revolução Francesa, constata-se que direita e esquerda são formulações que definem bem o que uma e outra representam. Afora a vulgaridade de quem não tem compromisso com a verdade e com os fatos da história, um comportamento muito comum entre historiadores e escribas desprovidos de ética, não há como negar a ligação do nazi-fascismo com o capitalismo. 


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-conceitos-historicos-de-esquerda-e-direita/

As três ignorâncias contra a democracia

(Boaventura Sousa Santos, in Outras Palavras, 15/03/2019)

Escrevi há muito que qualquer sistema de conhecimentos é igualmente um sistema de desconhecimentos. Para onde quer que se orientem os objetivos, os instrumentos e as metodologias para conhecer uma dada realidade, nunca se conhece tudo a respeito dela e fica igualmente por conhecer qualquer outra realidade distinta da que tivemos por objetivo conhecer. Por isso, e como bem viu Nicolau de Cusa, quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos. Mas mesmo o conhecimento que temos da realidade que julgamos conhecer não é o único existente e pode rivalizar com muitos outros, eventualmente mais correntes ou difundidos. Dois exemplos ajudam. Numa escola diversa em termos étnico-culturais, o professor ensina que a terra urbana ou rural é um bem imóvel que pertence ao seu proprietário e que este, em geral, pode dispor dela como quiser.

Uma jovem indígena levanta o braço, perplexa, e exclama: “professor, na minha comunidade a terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra”. Para esta jovem, a terra é Mãe Terra, fonte de vida, origem de tudo o que somos. É, por isso, indisponível. Durante um processo eleitoral numa dada circunscrição de uma cidade europeia, onde é majoritária a população roma (vulgo, cigana), as seções de voto identificam individualmente os eleitores recenseados. No dia das eleições, a comunidade roma apresenta-se em bloco nos lugares de votação reivindicando que o seu voto é coletivo porque coletiva foi a deliberação de votar num certo sentido ou candidato. Para os roma não existem vontades políticas individuais autônomas em relação às do clã ou família. Estes dois exemplos mostram que estamos em presença de duas concepções de natureza (e propriedade), num caso, e de duas concepções de democracia, no outro.

O primeiro modo de produção de ignorância (chamemos-lhe Modo 1) reside precisamente em atribuir exclusivamente a um modo de conhecimento o monopólio do conhecimento verdadeiro e rigoroso e desprezar todos os outros como variantes de ignorância, quer se trate de opiniões subjetivas, superstições ou atavismos. Este modo de produção de ignorância continua a ser o mais importante, sobretudo desde que a cultura eurocêntrica (um certo entendimento dela) tomou contato aprofundado com culturas extra-europeias, especialmente a partir da expansão colonial moderna. A partir do século XVII, a ciência moderna consolidou-se como tendo o monopólio do conhecimento rigoroso. Tudo o que está para além ou fora dele é ignorância. Não é este o lugar para voltar a um tema que tanto me tem ocupado. Direi apenas que o Modo 1produz um tipo de ignorância: a ignorância arrogante, a ignorância de quem não sabe que há outros modos de conhecimento com outros critérios de rigor e tem poder para impor a sua ignorância como a única verdade.

O segundo modo de produção de ignorância (Modo 2) consiste na produção coletiva de amnésia, de esquecimento. Este modo de produção tem sido frequentemente ativado nos últimos cinquenta anos, sobretudo em países que passaram por longos períodos de conflito social violento. Esses conflitos tiveram causas profundas: gravíssima desigualdade socioeconômica; apartheid baseado em discriminação étnico-racial, cultural, religiosa; concentração de terra e consequente luta pela reforma agrária; reivindicação do direito à autodeterminação de territórios ancestrais ou com forte identidade social e cultural, etc. Estes conflitos, que muitas vezes se traduziriam em guerras prolongadas, civis ou outras, produziram milhões de vítimas – entre mortos, desaparecidos, exilados e internamente deslocados. Para além das partes em conflito, houve sempre outros atores internacionais presentes e interessados no desenrolar do conflito; a sua intervenção tanto conduziu ao agravamento do conflito como (menos frequentemente) ao seu término. Em alguns poucos casos houve um vencedor e um vencido inequívocos. Foi esse o caso do conflito entre o nazismo e os países democráticos. Na maioria dos casos, porém, tende a ser questionável se houve ou não vencedores e vencidos, sobretudo quando a parte supostamente vencida impôs condições mais ou menos drásticas para aceitar o fim do conflito (veja-se o caso da ditadura brasileira que dominou o país entre 1964 e 1985).

Em ambos os casos, terminado o conflito, inicia-se o pós-conflito, um período que visa reconstruir o país e consolidar a paz. Nesse processo participam com destaque as comissões de verdade, justiça e reconciliação, muitas vezes como componentes de um sistema mais amplo que inclui a justiça transicional e a identificação e apoio às vítimas. São disso exemplo a Coreia do Sul, Argentina, Guatemala, África do Sul, ex-Iugoslávia, Timor-Leste, Peru, Ruanda, Serra Leoa, Colômbia, Chile, Guatemala, Brasil. Na maioria dos processos pós-conflito, forças diferentes militaram por razões diferentes para que a verdade não fosse plenamente conhecida. Quer porque a verdade era demasiado dolorosa, quer porque obrigaria a uma profunda mudança do sistema econômico ou político (desde a redistribuição de terra ao reconhecimento da autonomia territorial e a um novo sistema jurídico-administrativo e político). Por qualquer destas razões, preferiu-se a paz (podre?) à justiça, a amnésia e o esquecimento à memória, à história e à dignidade. Assim se produziu uma ignorância indolente.

Modo 3 de produção de ignorância consiste na produção ativa e consciente de ignorância por via da produção massiva de conhecimentos de cuja falsidade os produtores estão plenamente conscientes.Modo 3 produz conhecimento falso para bloquear a emergência do conhecimento verdadeiro a partir do qual seria possível superar a ignorância. É este o domínio das fake news. Ao contrário dos Modos 1 e 2, a ignorância não é aqui um subproduto da produção. É o produto principal e a sua razão de ser. Os exemplos, infelizmente, não faltam: a negação do aquecimento global; os imigrantes e refugiados como agentes de crime organizado e ameaça à segurança da Europa ou dos EUA; a distribuição de armas à população civil como o melhor meio de combater a criminalidade; as políticas de proteção social das classes mais vulneráveis como forma de comunismo; a conspiração gay para destruir os bons costumes; a Venezuela ou Cuba como ameaças à segurança dos EUA; etc., etc.

Os três modos de produção produzem três tipos diferentes de ignorância, estão articulados e acarretam consequências distintas para a democracias. O Modo 1 produz uma ignorância arrogante, abissal, que é simultaneamente radical e invisível na medida em que o monopólio do conhecimento dominante é generalizadamente aceito. As verdades que não cabem na verdade monopolista não existem e tão-pouco existem as populações que as subscrevem. Abre-se assim um campo imenso para a sociologia das ausências. Foi por isso que o genocídio dos povos indígenas e o epistemicídio dos seus conhecimentos (passe o pleonasmo) andaram de mãos dadas. O Modo 2 produz a ignorância indolente que se satisfaz superficialmente e que, por isso, permanece como ferida que arde sem se ver. É a ignorância-frustração que sucede à verdade-expectativa. Uma ignorância que bloqueia uma possibilidade e uma oportunidade emancipadoras que estiveram próximas, que eram realistas e, que, além disso, eram merecidas, pelo menos na opinião de vastos setores da população. Esta ignorância sugere uma sociologia das emergências, da emergência de uma sociedade que se afirma reconciliada consigo mesma, com base em justiça social, histórica, étnico-cultural, sexual. O Modo 3 cria uma ignorância malévola, corrosiva e, tal como um cancro, dificilmente controlável, na medida em que as redes sociais têm um papel crucial na sua proliferação. Esta ignorância está para além da ausência e da emergência. Esta ignorância é a prefiguração da estase, a imobilidade que estrutura a vertigem do tempo imediato.

Os três modos de produção e as respectivas ignorâncias que produzem não existem na sociedade de modo isolado. Articulam-se e potenciam-se por via das articulações que os tornam mais eficazes. Assim, a ignorância arrogante produzida pelo Modo 1 (monopólio da verdade) facilita paradoxalmente a proliferação da arrogância malévola produzida pelo Modo 3 (falsidade como verdade alternativa).

É que uma sociedade saturada pela fé no monopólio da verdade científica torna-se mais vulnerável a qualquer falsidade que se apresente como verdade alternativa usando os mesmos mecanismos da fé.

Por sua vez, a ignorância indolente produzida pelo Modo 2(amnésia, esquecimento) desarma vastos setores da população para combater a ignorância produzida quer pelo Modo 1, quer pelo Modo 3.

A ignorância arrogante é uma das principais causas da ignorância indolente, ou seja, da facilidade com que se esquece, normaliza e banaliza um passado de morte de inocentes, de sofrimento injusto, de pilhagens convertidas em exercícios de propriedade, de corpos de mulheres e de crianças violentados como objetos de guerra. Quando a ignorância arrogante se complementa com a ignorância malévola, a ignorância indolente torna-se tão invisível que é praticamente impossível de erradicar.

O impacto destes três tipos principais de ignorância nas democracias do nosso tempo é convergente, embora diferenciado. Todas estas ignorâncias contribuem para produzir democracia de baixa intensidade. A ignorância arrogante torna impossível a democracia intercultural e plurinacional, na medida em que outros saberes e modos de vida e de deliberação são impedidos de contribuir para o aprofundamento democrático; e faz com que vastos setores da população não se sintam representados pelos seus representantes e nem sequer participem nos processos eleitorais de raiz liberal. A ignorância indolente retira da deliberação democrática decisões sobre justiça social histórica, sexual, e descolonizadora, sem as quais a prática democrática é vista por vastas camadas da população como um jogo de elites, uma disputa interna entre os vencedores dos conflitos históricos. Mas a ignorância malévola é a mais antidemocrática de todas. Sabemos que as deliberações democráticas são tomadas com base em fatos, percepções e opiniões. Ora a ignorância malévola priva a democracia dos fatos e, ao fazê-lo, converte a boa fé dos que dela são vítimas em figurantes ou jogadores ingênuos num jogo perverso onde sempre perdem e, mais do que isso, se auto-infligem a derrota.


Fonte aqui.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os perigos do presentismo

O presentismo é uma categoria de análise do tempo, criada pelo historiador francês François Hartog, segundo a qual passado e presente desaparecem como referentes da experiência humana, seja esta pessoal ou coletiva, dado passarem a valer apenas pela forma como são compreendidos no momento. Nestas condições, o próprio futuro desvincula-se de toda a construção utópica, sendo visto como mais do mesmo e deixando de suscitar esperança nos indivíduos e nas comunidades. Resta única e exclusivamente o presente como instância de orientação no tempo: tudo é apresentado como se passado e futuro fossem realidades incertas, que não têm lições a dar-nos, nem projetam a nossa vida para horizontes de progresso. Para os presentistas, vivemos um eterno presente e só este é real.

Dizer isto na atualidade parece um paradoxo, pois na aparência fala-se muito, como nunca se falou, do passado e do futuro. Todavia, eles não são apresentados como diferentes do mundo em que vivemos, surgindo antes como algo que hoje apenas repete o que aconteceu ou que antecipa o que pode vir a acontecer, sem que exista uma atitude crítica e uma manifestação de conhecimento em relação a acontecimentos ou a momentos do passado nos quais ocorreu uma viragem profunda. Por exemplo, das revoluções esconde-se muitas vezes a violência, a mudança das atitudes sociais que provocaram, a criação de uma nova ordem política e cultural por elas impostas. Por sua vez, dos projetos para o futuro desaparece a possibilidade de transformações profundas e duradouras,como se não fossem possíveis os momentos de significativa viragem. Passado,presente e futuro são assim colocados numa linha de continuidade, esquecendo que não é esta, mas sim a mudança profunda e acelerada, e a criação de alternativas, que fazem mover a História e que criam o novo.

Boa parte desta vertigem presentista fica a dever-se à expansão muito rápida dos meios de comunicação, aliada a muitos dos novos movimentos pela recuperação da memória socialmente partilhada. No primeiro caso, a constante e acelerada proliferação de informações sobre o passado nos jornais, na televisão ou na Internet faz com que muitas vezes este seja demasiado «normalizado», ou mesmo banalizado, não se percebendo a diferença que existe entre situações vulgares e momentos excecionais. No segundo caso, a obsessão pela memória faz com que inúmeras vezes se misture o que a tradição diz como tendo sido a realidade dos acontecimentos ocorridos noutro tempo com o que hoje realmente acontece, como se o hoje fosse uma mera repetição do ontem e um prelúdio do amanhã.

Um bom exemplo disto é a «normalização» do modo de observar o período revolucionário que Portugal viveu em 1974-1975. Quando observamos os discursos comemorativos ou aquilo que dizem os manuais escolares sobre aquele tempo, tudo parece simples, linear, como se o que aconteceu fosse apenas uma perturbação ocasional da ordem política, determinada pela iniciativa de algumas pessoas mais ousadas, e não um movimento profundo, com passado e futuro, que abalou profundamente a sociedade e marcou para sempre a vida das novas gerações. A estas é-lhes dito que vivem em democracia, sem que se lhes mostre que esta nasceu de um parto difícil e é algo que precisa ser exercido,defendido, pensado e desenvolvido todos os dias.

Neste sentido, o presentismo pode levar-nos, como está já a acontecer em vários países da Europa, a um regresso a situações de autoritarismo, intolerância e violência que no passado já causaram tantos danos e tão graves conflitos, entre eles as duas guerras mundiais e as experiências totalitárias. Falando tantas vezes em nome do passado, ou da história das nações e dos povos, os novos fascismos alimentam-se do excesso de presente, como se os direitos sociais e políticos que estruturam a vida coletiva não tivessem sido conquistados gradualmente, a pulso, com lutas e sacrifícios vividos por tantos homens e tantas mulheres ao longo de décadas ou mesmo de séculos. Como se eles fossem algo descartável da memória de um presente vivido na indiferença, sem causas e ideais mobilizadores. Este é um perigo que deve ser enfrentado, pois não podemos viver sem passado e sem futuro, sob pena de retornarmos ao estado de barbárie do qual um dia partimos.

Rui Bebiano

Fotografia: Chittakone Baccam
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 23/2/2019
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/02/23/os-perigos-do-presentismo/

A fase predatória do capitalismo

Jorge Figueiredo
Já houve tempo em que o capitalismo era uma força progressista, na medida em que avançava o nível de desenvolvimento das forças produtivas. As empresas então produziam novos bens e serviços que acrescentavam riqueza às sociedades, desenvolvendo-as. Era a fase da ascensão do capitalismo, uma outra era, antes de a queda inexorável das taxas de lucros começar a manifestar-se.  Hoje isso não é mais assim. Actualmente estamos na fase predatória do capitalismo, que é comandada pelo capital financeiro. O objectivo agora é a apropriação da riqueza existente, criada por outros. Daí a catadupa de fusões e aquisições, OPAs amistosas ou hostis, leverage buy-outs(LBOs) [1] , engenharias financeiras, etc. Nada disso pode aumentar a riqueza de um país. Tais operações significam apenas transferências de riquezas de uns (geralmente muitos) para outros (poucos). É assim que hoje mais de 80% da riqueza mundial é apropriada por 1% da população do planeta. Essa realidade é reconhecida mesmo por entidades que não põem em causa o capitalismo, como a Oxfam [2] . Assim, estamos em meio a um processo de pauperização numa escala quase universal. Pode-se dizer que se trata da fase autofágica do capitalismo pois ele já pouco desenvolve as forças produtivas e começa a predar as existentes. Será isto um modo de produção? Ou um modo de destruição? Como se processa este processo de expropriação de riquezas? Há poucos estudos empíricos acerca dos mecanismos actuais e reais de concentração [3] e centralização do capital [4] (tudo indica que na fase actual do capitalismo a última tende a predominar sobre a primeira). Uma das razões para esta ausência é a opacidade com que tais processos se realizam, o que é compreensível pois geralmente estão associados à corrupção em larga escala com conluios encobertos entre vendedores e compradores. Por isso, torna-se extremamente difícil detectar os processos reais pelos quais se verifica este autêntico roubo legal (pois sacramentado pelos poderes públicos e batalhões de juristas e contabilistas ao serviço do capital). Este é o grande o mérito do livro recente de Catherine Le Gall e Denis Robert, Les prédateurs: Des milliardaires contre les États [5] – trata-se de uma investigação empírica. Para fazê-la eles examinaram três casos de vigarices: a venda da Quick, cadeia belga de hamburguers, ao banco estatal francês; a venda da refinaria de Pasadena à Petrobrás; e a venda de uma obscura empresa mineira à Areva, poderosa empresa francesa da energia nuclear. Para isso os autores deram-se ao trabalho de examinar milhares de relatórios, balanços, demonstrações de resultados, artigos em publicações e efectuar inúmeras entrevistas com intervenientes nas referidas operações. Uma característica comum a todos os três casos é que foram lesadas empresas estatais através de maquinações cuidadosamente conduzidas. No primeiro deles, o da cadeia Quick, o lesado foi a Caisse, o banco do Estado francês. O preço de venda que os donos haviam proposto em 2004 fora de 300 milhões de euros e não encontrara comprador. Mas em 2006 a Caisse comprou-a pela quantia de 760 milhões de euros (p.156). Também caberia perguntar porque é que o maior banco estatal da França precisaria de uma cadeia de fast-food, mas ninguém respondeu a essa pergunta. O livro contém uma insinuação clara de que a operação serviu para ajudar a financiar a campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy (p.119). O segundo caso, muito maior, foi o da refinaria de Pasadena, na Califórnia, vendida à Petrobrás em 2012 (com aprovação de Dilma Rousseff). A refinaria era uma verdadeira sucata que o seu proprietário, a Astra Oil, vendera a um grupo belga por 42,5 milhões de dólares. Mas o montante que a Petrobrás acabou por pagar foram uns incríveis 1,18 mil milhões de dólares, ou seja, um salto mortal de 1600%. A operação contou com conivências internas dentro da Petrobrás (um tal Nestor Cervero) e com pelo menos um ex alto funcionário da Petrobrás (Alberto Feilhaber) que passou a trabalhar para o outro lado. O contrato foi feito com tal habilidade e cláusulas tão diabólicas que a Petrobrás acabou por ficar presa, sem qualquer saída razoável. Para poupar pormenores, bem descritos no livro, os autores resumem assim a situação:
"A Petrobrás está de pés e mãos amarrados com um parceiro de que ela não pode se livrar a menos que pague um preço delirante. A refinaria está obsoleta, os trabalhos estão em ponto morto, as discussões com a Astra Oil são tensas. Os dirigentes da Petrobrás (enfim, aqueles que não são corrompidos) descobrem a amplitude do desastre e acreditam que ainda é tempo de encontrar uma porta de saída. Mas todas as soluções são piores umas que as outras: manter a refinaria no estado em que está provocar perdas colossais, começar trabalhos para produzir 100 mil barris por dia como previsto relançaria o conflito com a Astra, subir para 200 mil barris equivaleria a conceder uma enorme prenda à Astra. Finalmente, comprar a parte da Astra para se desembaraçar do parceiro recalcitrante custaria uma fortuna. A armadilha imaginada pela equipe belga – e por Albert [Frère]? – se fecha sobre o dinossauro Petrobrás. Não há meio de escapar. Em frente, a equipe dos belgas vê a sua presa entrar em pânico. É tempo de apresentar o grande jogo para aterrorizá-la totalmente". (p.236)
É então que a Petrobrás vai ser depenada. Num golpe de poker, a parte belga propõe-se a comprar a parte da Petrobrás na refinaria cuja gestão está paralisada devido aos diferendos entre os sócios – o que impede a empresa de se por de pé. O contrato continha uma cláusula insidiosa, aparentemente anódina. Dela se concluía que não era tanto a casa que valia caro e sim quem possuía a chave: o contrato de comercialização. A Petrobrás acaba por levar o caso à justiça americana, a qual vem a condená-la a pagar uma soma vertiginosa. Fecha-se a armadilha. As maravilhas do capitalismo actual permitem este género de operações. O terceiro caso é o da Uramin, uma empresa constituída em paraísos fiscais que na verdade é uma concha vazia. As três jazidas de urânio que ela afirma ter em África pouco ou nada valem pois não são economicamente exploráveis. A Areva, uma importante empresa estatal francesa dedicada ao nuclear, possui uma base de dados com dados de minas de todo o mundo – mas os seus geólogos e peritos não foram achados nem ouvidos acerca da aquisição desta Uramin. Mas o dossier desta casca vazia foi cuidadosamente manipulado pelos seu proprietários, através de pareceres da consultora SRK e por outros meios, a fim de dar a entender que valia muito. A presidente da Areva, Anne Lauvergeon, fora reconduzida à testa da empresa após a eleição de Nicolas Sarkozy à presidência da República. A ligeireza com que ela procedeu a operação de compra da Uramin foi estarrecedora. E mais estarrecedor ainda foi o preço estratosférico que foi pago: 2,49 mil milhões de dólares, sempre com a assistência do banco Rothschild, muito ligado a Sarkozy. Uma consultora de negócios explica a regras do jogo nos negócios de petróleo, gás e urânio: "Se eu vendo caro, muito caro, demasiado caro, eu agradeço o comprador. Sempre" (p. 263). O que estes três casos recentes têm em comum é a acção predatória do capital financeiro privado sobre empresas públicas e estatais. Isto parece confirmar uma lei geral e certamente é uma consequência da queda da taxa de lucro nas actividades produtivas da economia capitalista. O capital já não pode arrecadar os lucros "normais" a que estava habituado com a produção de mercadorias. Assim, passou a nova fase e agora dedica-se à actividade predatória de empresas produtivas – sobretudo daquelas no âmbito estatal. Os autores afloram também o caso escandaloso da fusão da empresa Gaz de France (GDF) com a privada Suez. A GDF, uma empresa pública exemplar criada após a II Guerra Mundial, foi atacada pelos predadores da Suez e acabou por fundir-se com ela. Nem a GDF nem o povo francês foram beneficiados com tal fusão, bem pelo contrário. Agora a lógica de funcionamento da empresa está voltada para o máximo lucro e não mais para prestar um serviço público e servir a população do país. É outro caso exemplar que merece ser examinado. Seria desejável que em Portugal houvesse estudos empíricos como esse para as rapinas sofridas pelo Sector Empresarial do Estado. Exemplo recente é a escandalosa privatização dos correios, a seguir transformado também no Banco CTT, com a drástica perda de qualidade de um serviço em que no passado Portugal já foi exemplar. Esta privatização, feita quando o governo Passos Coelho estava moribundo, não foi revertida pelo governo PS. As palavras privatização e corrupção constituem rimas perfeitas. 
[1] LBO: Aquisição de uma empresa essencialmente através do recurso a fundos alheios, normalmente por parte de um grupo em que se incluem alguns dos gestores da empresa-alvo.
[2] Oxfam: oxfamilibrary.openrepository.com/...
[3] Concentração de capital: Acréscimo interno do capital por acumulação e concentração da mais-valia.
[4] Centralização de capital: Um dos meios de acumulação do capital representando um processo de acréscimo do capital pelo agrupamento de vários capitais num só, pela absorção de outros capitais já existentes.
[5] Les prédateurs: Des milliardaires contre les Étas, leur rapacité face à nos lâchetés , ed. Le Cherche-Midi, 2018, 300 p., ISBN 978-2-7491-5593-7 Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/a-fase-predatoria-do-capitalismo.html

Em defesa do marxismo

A campanha conservadora contra o marxismo é intensa; ela cresceu desde a campanha eleitoral de 2018 e, agora, sob o governo de direita de Jair Bolsonaro, alguns membros do governo federal multiplicam os ataques contra o que chamam de “cultura marxista”, generalisando as acusações contra o pensamento avançado de todos os matizes.

Em relação ao marxismo não há argumentos novos, mas repetem a longa série de inverdades usadas desde os tempos em que Marx e Engels escreviam e atuavam, no século XIX. A violência verbal continua igualmente simplista, repetitiva, e reflete a indigência intelectual dos acusadores.

O marxismo continua sendo, como disse o pensador francês Jean-Paul Sartre, a filosofia insuperável de nosso tempo. Embora simpatizaante, Sartre não foi propriamente marxista mas um existencialista com forte influência da fenomenologia. Mas esteve decididamente envolvido na luta democrática, popular e anti-imperialista de seu tempo.

Sartre tinha razão. O marxismo, como pensamento radical e avançado é, sobretudo num país tão desigual, injusto e autoritário como o Brasil, mais que uma necessidade. É uma exigência ética e moral, científica e política que se impõe aos que se esforçam em entender, explicar e lutar contra as injustiças e a desigualdade extrema entre os homens que há no mundo capitalista.

A dimensão ética e moral do marxismo foi exposta de maneira cabal quando Marx, ainda jovem, em novembro de 1837, escreveu uma carta ao pai justificando sua troca do curso de Direeito pelo de Filosofia. E expôs sua profunda necessidade de compreender as injustiças do mundo burgês e lutar contra elas.

Marx não aceitava a igualdade meramente formal do direito burguês e exigia a igualdade real e concreta entre todos os seres humanos como prenúncio da emancipação da humanidade. A compreensão da igualdade que decorre do direito burguês é apenas formal. Contra ela, Marx compreendia que todos os homens são substancialmente iguais e, assim, tem igual direito ao acesso aos meios que tornem a vida possível . Tem igual direito à alimentação, abrigo. saúde, educação – e tudo isso resulta do trabalho de todos, que é igualmente um direito.
Este princípio ético, de que todo os homens tem igual direito à vida e aos meios de vida nunca foi abandonado por Marx, embora tenha compreendido como ninguém que a igualdade entre os homens não decorre de uma condição moral mas resulta do desenvolvimento material e cultural da sociedade para criar as condições para o atendimento das necessidades de toda a humanidade.

A moral por trás destas idéias de Marx é a da fraternidade universal, que rejeita a desigualdade concreta imposta pelo capitalismo e disfarça, sob o rótulo da igualdade formal perante a lei, a verdadeira espoliação dos trabalhadores implícita neste sistema que transforma a força de trabalho em mercadoria, no qual a “justiça” se resume ao respeito ao preço daquela mercadoria no mercado comandado pelo direito à propriedade privada encarada como o principal dos chamados direitos humanos, e que permite a exploração do homem pelo homem disfarçada como “justiça”.

Foi com esta convicção que o jovem Marx, partindo da filosofia, passou ao estudo da sociedade e, mais adiante, da economia política: o estudo da sociedade para compreender suas contradições. O passo seguinte foi a compreensão da maneira como os homens produzem seus meios de vida e distribuem o produto do trabalho coletivo: a economia política.

A compreensão da forma de produção e de divisão do resultado do trabalho leva à outra dimensão fundamental do pensamento de Marx: a luta política.

Foi também naqueles anos de passagem dos escritos e estudos da juventude para a maturidade que Marx formulou, em “A Ideologia Alemã” (1845), as condições para que a história ocorra: é preciso comer, beber, abrigar-se, criar as condições materiais de vida para que a história seja feita. Assim, o primeiro ato histórico é a produção – e distribuição – dos meios de vida, que resultam do trabalho de todos. Produto que, nas diferentes formas históricas da organização da sociedade e do trabalho, é apropriado de maneira desigual entre o conjunto dos indivíduos. Em todas elas – com exceção do período inicial do comunismo primitivo – as sociedades são divididas em classes antagônicas, opondo aqueles que trabalham à minoria que controla o trabalho dos demais e é privilegiada na divisão e apropriação do resultado da ação coletiva.

A organização social que surge para garantir essa situação contraditória e a exploração de uma parte da sociedade (a maioria) por um setor minoritário da população, é o Estado. A ação política é a forma assumida pela luta para controlar o poder do Estado e tornar menos predatória a apropriação privada do resultado do trabalho coletivo. Neste sentido a luta política em torno do poder do Estado é fundamentalmente a luta pelo reconhecimento e ampliação dos direitos sociais, pela redistribuição do produto do trabalho social de forma que possa atender às necessidades de todos e, fundamentalmente, pela apropriação coletiva da propriedade privada dos meios de produção, colocando-os sob controle da sociedade, fora do domínio privado.

É nesse sentido que a luta política se torna uma necessidade fundamental para o marxismo. É na política que o domínio de uma minoria sobre os demais pode ser derrotado para abrir caminho para a reorganização radical da sociedade, para eliminar as injustiças que decorrem da exploração do homem pelo homem.

O marxismo se distingue de outras formas de pensamento social e correntes do movimento social (como os anarquistas e os socialistas utópicos) ao adotar o adjetivo “científico” para cracterizar a análise para fundamentar a organização eficiente da luta: “socialismo científico”. A proposta de mudança social (revolucionária) do marxismo deriva não da mera vontade individual e subjetiva, mas da análise científica das condições sociais, da correlação de forças na sociedade, do grau de amadurecimento das condições sociais para a mudança, que resulta da situação concreta e subjetiva existente, e não da mera vontade de cada um. Nesse sentido, a mudança social obedece a leis que precisam ser conhecidas para que seja possível intervir nelas para haver a mudança.

Marx começou a amadurecer seu método ainda muito jovem, num artigo que publicou em 1843, no qual analisou a Lei da Repressão ao Roubo de Lenha, aprovada em 1842.

O estudo do chamado “roubo da lenha” levou Karl Marx ao caminho do comunismo. Aquela lei proibia e tornava crime o hábito secular dos camponeses pobres de coletar, nas terras comunais agora transformadas em propriedade privada, galhos caídos e gravetos para usar como lenha.

O estudo científico da sociedade e das relações de dominação que regem o direito passou a se impor de maneira crescente para Marx. De que maneria, e atendendo a que interesses um costume camponês tão antigo foi transformado em crime? Marx compreendeu, desde então, a dinâmica avassaladora da propriedade privada, que chega ao auge sob o capitalismo. Nesta altura a ética dá as mãos à ciência em seu pensamento.

Anos mais tarde, no prefácio de “Para a Crítica da Economia Política” (1859) ele reconheceu a importância daquele episódio para o desenvolvimento de suas idéias: “Vi-me pela primeira vez, perplexo, perante a dificuldade de ter também de dizer alguma coisa sobre o que se designa por interesses materiais”, entre eles o “roubo de lenha” e o parcelamento da propriedade da terra. Marx escreveu, naquele prefácio: “tinha-se nesse tempo – em que a boa vontade de ‘ir adiante’ repetidas vezes contrabalançava o conhecimento das questões – tornado audível na redação da Rheinische Zeitung um eco do socialismo e do comunismo francês, sob uma tênue coloração filosófica. Declarei-me contra esta remendaria, mas ao mesmo tempo confessei abertamente, numa controvérsia com a Allgemeine Augsburger Zeitung, que os meus estudos até essa data não me permitiam arriscar eu próprio qualquer juízo sobre o conteúdo das orientações francesas”. Concluiu dizendo: preferi “me retirar do palco público e recolher ao quarto de estudo”.

Ele revela aqui o impulso científico do marxismo: não basta a mera vontade subjetiva de “ir adiante”; é preciso o estudo cauteloso, acurado e aprofundado das condições para a mudança. O resultado final daquele recolhimento “ao quarto de estudos” começou a vir a público mais de duas décadas depois com a publicação do primeiro volume de “O Capital” (1867), a obra genial de Marx que orienta não só o pensamento econômico inspirado por ele, mas sobretudo o pensamento filosófico, político e social.

O governo de direita instalado no Palácio do Planalto pretende afastar a influência do pensamento marxista, que cresce entre os brasileiros. É uma tarefa vã; o marxismo já enfrentou, no Brasil, períodos de grande adversidade e saiu fortalecido da luta. A união entre as dimensões ética e moral, científica e política faz do marxismo o pensamento insuperável de nosso tempo. Resistente às críticas interesseiras daqueles que defendem o sistema injusto e desumano que é o capitalismo, querem sua manutenção mas não tem uma filosofia que justifique a defesa desta sociedade desigual.


Texto em português do Brasil

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/em-defesa-do-marxismo/

Ativismo: necessidade e limites

ativismo01Ao privilegiar a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa, o ativismo é absolutamente essencial para que a política não se reduza à teoria ou à intervenção sempre pesada, lenta e burocrática das instituições e dos partidos. E para que não se circunscreva apenas ao momento do voto. Sem ele, em todas e cada uma das suas variantes, a democracia permaneceria sempre incompleta. Sem ele, sem os caminhos que aponta e abre, sem a dose de perturbação necessária que impõe, pouco mudaria. Ou mudaria apenas quando algo de mais avançado estivesse já a revelar-se necessário.

Tenho um respeito muito grande pela intervenção dos homens e das mulheres que fazem dele o eixo das suas vidas. Penso até que a maior parte não tem o reconhecimento devido, sendo muitas vezes política e socialmente marginalizada. Mas isto não me leva a que deixe de criticar o modo como muitas das escolhas que fazem se fecham tantas vezes em combates muito específicos, radicalizando-se rapidamente nas palavras de ordem e metas, e esquecendo que sem a busca de consensos razoáveis entre quem na diferença deseja também a mudança esta não ocorrerá. Sem ela serão reconhecidos dentro do seu pequeno grupo, mas não fora dele.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/30/ativismo-necessidade-e-limites/

Oito demandas marxistas que podem surpreender

Os críticos de Marx costumam errar sobre o grande pensador socialista. Este texto procura esclarecer seu pensamento.

Existem muitas maneiras de interpretar Marx. Muitas são legítimas. Mas muitas outras procuram se desfazer de Marx ao invocar a retórica anticomunista eco. O ridicularizam como um determinista econômico estéril ou criticam sua análise e previsões como terrivelmente equivocadas.

Marx nem sempre foi correto (quem é?). Mas ele estava correto ou fazia reivindicações defensáveis com mais frequência do que se imagina.

Então, com o objetivo de refutar alguns dos retratos mais impacientes do grande pensador, aqui estão oito demandas que qualquer interpretação confiável de Marx ou do marxismo deveria incluir.

1

Marx simplesmente não dispensou o capitalismo, mas ficou impressionado com ele. Argumentou que foi o sistema mais produtivo que o mundo já viu.

A burguesia, durante seu domínio de poucos séculos, desde a revolução industrial de 1750, criou forças produtivas mais massivas e mais colossais do que todas as gerações precedentes juntas. Sujeição das forças da natureza ao homem, maquinário, aplicação da química à indústria e agricultura, navegação a vapor, ferrovias, telégrafos elétricos, limpeza de continentes inteiros para cultivo, canalização de rios, populações inteiras arrancadas do solo – o século anterior tinha mesmo um pressentimento de que tais forças produtivas dormiam no colo do trabalho social?

2

Marx previu com precisão que o capitalismo fomentaria o que hoje é chamado de globalização. Ele viu o capitalismo criando um mercado mundial no qual os países se tornariam cada vez mais interdependentes.

A burguesia tem, pela exploração do mercado mundial, um caráter cosmopolita para a produção e o consumo em todos os países. Para grande desgosto dos reacionários, domina, sob os pés da indústria, o território nacional onde se encontra. Todas as indústrias nacionais antigas são destruídas ou estão diariamente sendo destruídas…. No lugar do antigo isolamento local e nacional e da auto-suficiência, temos relações em todas as direções, interdependência universal das nações.

3

Ao contrário das sociedades anteriores, que tendiam a conservar tradições e modos de vida, o capitalismo inventa maneiras novas e alternativas de produzir que afetam a maneira como vivemos. As tecnologias mudam nossas vidas a um ritmo cada vez mais rápido. Produtos antigos devem abrir caminho para novos (e para aqueles que os produzem).

Embora os capitalistas tipicamente retratem isso como um bem puro, ele pode ser profundamente inquietante, mesmo se mudanças específicas forem positivas. Pode levar as pessoas a sentirem que seus valores e modos de vida não têm mais lugar no mundo. Além disso, o emprego de novas tecnologias e maneiras de produzir, na busca de lucro para poucos, pode levar a consequências imprevistas. (Em nossos tempos, sem dúvida Marx indicaria a mudança climática como conseqüência do capitalismo não regulado.)

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, portanto, as relações de produção e, com elas, as relações da sociedade como um todo…. Revolução constante da produção, perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, incerteza e agitação sem fim distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e ultra-congeladas, com o seu leque de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas, todas as novas formadas tornam-se antiquadas antes de poderem se fixar. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente obrigado a encarar com sentidos sóbrios suas reais condições de vida e suas relações com sua espécie.

4

Empresas poderosas, concentrações de riqueza e novos métodos de produção tornam cada vez mais difícil para profissionais independentes e comerciantes de classe média manter seu status. Eles acabam com o conjunto de habilidades erradas ou trabalhando para empresas que os colocaram fora do negócio. Em outras palavras, Marx antecipou a Walmartificação das sociedades capitalistas.

Os estratos mais baixos da classe média – os pequenos comerciantes, lojistas e comerciantes aposentados em geral, os artesãos e camponeses – afundam-se gradualmente no proletariado, em parte porque seu pequeno capital não é suficiente para a escala exigida pela indústria moderna. E é atropelado pela competição com os grandes capitalistas, em parte porque sua habilidade especializada é inutilizada por novos métodos de produção.

5

Marx não defendeu a abolição de todas as propriedades. Ele não queria que a grande maioria das pessoas tivesse menos bens materiais. Ele não era um utopista anti-materialista. O que ele se opunha era a propriedade privada – as vastas quantidades de propriedade e riqueza concentrada pertencentes aos capitalistas, à burguesia. De fato, no final da seguinte passagem, ele e Engels acusam ironicamente o capitalismo de privar as pessoas de sua “propriedade auto-conquistada”.

A característica que distingue do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. A propriedade privada burguesa moderna é a expressão final e mais completa do sistema de produção e apropriação de produtos, que é baseado em antagonismos de classe, na exploração dos muitos por poucos. Nesse sentido, a teoria dos comunistas pode ser resumida na única sentença: Abolição da propriedade privada. Nós, os comunistas, temos sido acusados do o desejo de abolir o direito de adquirir pessoalmente a propriedade como fruto do trabalho de um homem, cuja propriedade é supostamente a base de toda a liberdade pessoal, atividade e independência.”

Propriedade adquirida por si mesma, auto-adquirida, duramente conquistada! Isso quer dizer, a propriedade do pequeno artesão e do pequeno camponês, uma forma de propriedade que precedeu a forma burguesa? Não há necessidade de abolir isso; o desenvolvimento da indústria já o destruiu em grande parte e ainda o está destruindo diariamente.

6

Marx pensava que os seres humanos têm uma inclinação natural para se sentirem conectados aos objetos que fizeram ou criaram. Ele chamou isso de “objetificação” do trabalho, com o que quis dizer que colocamos algo de nós mesmos em nosso trabalho. Quando alguém não consegue se conectar com a própria criação, quando se sente “externo” a ela, resulta em alienação. É como se você fosse esculpir uma estátua, então alguém tirou de você, e você nunca teve permissão para vê-la ou tocá-la novamente. Marx argumentou que os trabalhadores estavam em uma posição comparável nas fábricas capitalistas do século XIX.

O que, então, constitui a alienação do trabalho?

Primeiro, o fato de que o trabalho é externo ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua natureza intrínseca; que em sua obra, portanto, ele não se afirma, mas nega a si mesmo, não se sente contente, mas infeliz, não desenvolve livremente sua energia física e mental, mas mortifica seu corpo e arruína sua mente. O trabalhador, portanto, se sente fora de seu trabalho, e em seu trabalho sente-se fora de si mesmo; se sente em casa quando não está trabalhando e, quando está trabalhando, não se sente em casa. Seu trabalho, portanto, não é voluntário, mas coagido; é trabalho forçado.

7

Marx queria que nos libertássemos da tirania da divisão do trabalho e dos longos dias de trabalho, que impedem os indivíduos de desenvolver diferentes tipos de capacidades e talentos. Nós nos tornamos escravos de um tipo de atividade e outras dimensões de nossas personalidades são deixadas de lado, não desenvolvidas. Quando jovem, ele moldou sua visão da seguinte maneira:

Pois assim que a divisão do trabalho exista, cada homem tem uma esfera particular e exclusiva de atividade, que é forçada sobre ele e da qual ele não pode escapar. Ele é um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico, e deve permanecer assim, se não quiser perder seus meios de subsistência; na sociedade comunista, onde ninguém tem uma esfera exclusiva de atividade, mas cada uma pode realizar-se em qualquer ramo que deseje, a sociedade regula a produção geral e assim possibilita que faça uma coisa hoje e outra amanhã, caçar de manhã , pescar à tarde, pescar gado à noite, criticar depois do jantar, assim como tenho vontade, sem nunca me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico.”

8

Marx não era um determinista econômico. O que importa é como as pessoas pensam e agem. Em uma carta escrita por Engels depois da morte de Marx, ele enfatizou a importância da economia, mas também tentou deixar claro que Marx e ele foram mal interpretados, e foi parcialmente culpa deles .

Marx e eu somos parcialmente culpados pelo fato de que os mais jovens às vezes depositam mais ênfase no lado econômico do que é devido. Tivemos que enfatizar o principal princípio vis-à-vis nossos adversários, que o negavam, e nem sempre tínhamos tempo, lugar ou oportunidade de dar a devida atenção aos outros elementos envolvidos na interação. Mas quando se tratava de apresentar um aspecto da história, isto é, fazer uma aplicação prática, era uma questão diferente e não havia erro algum. Infelizmente, porém, acontece com demasiada frequência que as pessoas pensem que compreenderam completamente uma nova teoria e podem aplicá-la sem mais demora desde o momento em que assimilaram seus princípios básicos, e mesmo eles nem sempre corretamente. E eu não posso isentar muitos dos ‘marxistas’ recentes desta censura, pois o lixo mais surpreendente foi produzido neste trimestre, também …”


por Mitchell Aboulafia, Professor de filosofia no Manhattan College, em Nova York | Texto em português do Brasil com tradução de José Carlos Ruy

Fonte: Jacobin


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https://www.jornaltornado.pt/oito-demandas-marxistas-que-podem-surpreender/

Capitalismo e o espírito naif para a construção do futuro

A - A estrutura e a atuação do capital

O capitalismo aprecia lucros, acima de tudo; e para os garantir atende a todos os meios de os conseguir, avaliando os custos que tem de incorrer para o efeito, procedendo tecnicamente ao que se chama análise custo-benefício. 
Essa análise cinge-se a uma abordagem meramente técnica e contabilística, no caso de pequenos negócios. Isso já não acontece quando se trata de grandes negócios, envolvendo vultuosos meios financeiros, humanos e de capital; aí, além daquelas abordagens, triviais, são enquadradas as variáveis envolventes, como as económicas, as sociais, as políticas, as ideológicas e, mais recentemente, as ecológicas.
  
Vejamos de seguida, um ensaio de definição da organização global do capitalismo
  

1 - Objetivo essencial do capitalismo - A acumulação de capital

Essa acumulação alimenta-se da produção de bens e serviços, para consumo ou investimento, tendo como base o trabalho humano;
E, sob a forma de especulação no mercado financeiro, com base em decisões tomadas por algoritmos.

2- Principais instrumentos da acumulação capitalista

consumismo é captura psicológica de massas, é um vício, uma adição que alimenta o "mercado". Essa captura torna as próprias vítimas do capitalismo em interessados na sua continuidade; 
endividamento é uma alavanca do consumo e para o comprometimento de rendimentos futuros. Por seu intermédio, o sistema financeiro apossa-se dos salários e dos bens das pessoas; garante uma fatia da carga fiscal aplicada pelos governos sobre a multidão; e condiciona ad aeternum as finanças públicas através da dívida:
Os gastos militares animam a atividade económica dos países produtores; são elementos de contenção de intervenções externas, embora na generalidade pouco possam conter; ou, são instrumentos de intervenções no exterior na base de um ilegítimo direito de intervenção. Em todos os casos suportam parasitárias castas militares; 
  
As transnacionais, o sistema financeiro e o capital do crime entrelaçam-se numa matriz complexa e mutável de conluios e conflitos, cujos fins justificam todos os meios, incluindo um cortejo enorme de disfunções e sofrimento nas relações entre os povos e no seio de cada um destes. São os elementos estruturantes da reprodução de capital;
Os estados-nação são unidades geográficas de divisão e gestão diferenciada do rebanho humano, uma herança do capitalismo colonialista e concorrencial dos séculos passados, atualmente enquadrados, na sua grande maioria, pelas transnacionais e pelo capital financeiro que estruturam o mundo globalizado de hoje. É no seu âmbito que as classes políticas nacionais procedem à gestão de proximidade da mansidão dos povos;
Várias organizações internacionais funcionam como gestores setoriais de nível planetário - OMC. FMI/BM, OMS, UNCTAD... - ou associando vários países, num âmbito regional alargado - OCDE, UE, NATO, ASEAN, OCX... Claro que nessas organizações se evidencia a hierarquia existente entre os estados-nação, muitos dos quais não têm sequer capacidades de acompanhamento dos assuntos, por dificuldades financeiras ou técnicas, limitando-se a votar ao lado dos mais fortes, por convicção ou compra de voto;
As classes políticas nacionais são as zeladoras dos interesses dos capitalistas nacionais e da sua integração e compatibilização face ao capital global; hierarquizam os interesses dos grupos nacionais que bem sabem como cooptar ou corromper membros influentes das classes políticas. Em regra, apresentam-se divididas entre governo e oposição, um género de Dupont e Dupond mas, com mais aptidões para o teatro. Em fora como o Bilderberg são chamados anualmente a prestar provas os mandarins locais tomados como promissores candidatos a cargos supranacionais;
As ideologias nacionalistas, patrioteiras ou xenófobas atravessam os espetros políticos nacionais como instrumentos de divisão, diversão e controlo dos povos. O inimigo torna-se a globalização - embora já tenha séculos e as suas crises de depressão tenham promovido nacionalismos e guerras apocalíticas. Os capitalistas nacionais ficam isentos de responsabilidades e a culpa das desgraças é o Outro - imigrante, refugiado, islâmico, negro, estrangeiro; um discurso que inflama gente perdida num mundo que não entende, que a tv não explica;
Os grandes media conjugam várias caraterísticas - manipuladores de opinião, por ocultação ou deturpação de factos, propagandistas de futilidades sociais, desportivas ou políticas e de tradutores dos grandes media globais. Essas qualidades empurram as pessoas para as redes sociais onde, no seio de uma grande vacuidade é possível alguma expressão livre, com uma margem menor quanto a censura; embora a contrapartida seja a exploração massificada de dados. Como pertencentes a grupos empresariais detêm relações íntimas com os grandes negócios e as classes políticas;
autoridade estatal desenvolve atividade no âmbito da repressão policial ou judiciária, socialmente muito discriminatória e ainda, através da via fiscal no contexto da redistribuição regressiva do rendimento. É o Estado que procura conjugar benefícios que atendam à competitividade dos capitalistas com uma carga fiscal que se torne compaginável com as capacidades dos sindicatos para a contenção social; e ainda que proceda à produção legislativa que forneça de modo discreto, elementos favoráveis ao empresariato, à movimentação de capitais, à exploração dos trabalhadores;
simbiose entre o Estado e o capital, mormente financeiro, corresponde a uma captura do primeiro pela lógica do segundo; são os casos dos sistemas de saúde, educação, ação social, segurança social, do abandono de uma política de habitação, dos transportes públicos, das vias de comunicação, do abastecimento público de água, eletricidade, comunicações, etc;
sistema educativo - público ou privado - encontra-se mercantilizado, parcelarizado em extremo (ao contrário do que significa universidade) mormente a nível superior. É o grande doutrinador do individualismo, da competição e do empreendedorismo tecnocrático, da preparação para o "mercado" de trabalho, para a máquina burocrática das empresas ou das instituições públicas e ainda para enformar a classe política;
democracia de mercado vulgarmente conhecida por representativa (embora só os gangs partidários estejam representados) não passa de um placebo de uma real democracia. Estabelece um fosso entre os eleitos e os eleitores, colocados de fora de qualquer possibilidade de representação; eterniza os membros da classe política como "representantes"; exclui, na realidade, qualquer referendo ou outra iniciativa popular, sobretudo para a retirada de mandatos a quem demonstre incapacidade ou comportamentos indignos.

3 - Efeitos colaterais do modelo de acumulação de capital

Desenvolve-se uma luta acerba - comercial, política, militar - entre empresas e Estados, pelos recursos materiais do planeta, como pelo controlo dos ditos mercados consumidores;
Face aos danos ambientais motivados pela competição inerente aos grupos capitalistas e aos seus Estados, revelam-se duas atitudes por parte de capitalistas e das classes políticas - a da gestão mercantil desses danos, como mais uma oportunidade de negócio ou, a da sua efetiva desvalorização enquanto problema, como se observa pelas considerações de Trump e Bolsonaro;
Na ausência de uma narrativa política globalizante e suficientemente consensual de superação do capitalismo, tornam-se dominantes fórmulas tecnocráticas ou politicamente inócuas de encarar os problemas sociais, políticos, económicos ou ambientais; e, recentemente têm surgido narrativas fascizantes recolhidas no sótão de avós pouco recomendáveis;
O aumento da parcela dos rendimentos nacionais embolsados pelos ricos - bem como da riqueza na sua posse - empurra as populações para dificuldades económicas que geram estagnação ou redução dos seus padrões de vida que, contudo, não têm sido origem de levantamentos populares; Perante a crise sistémica de baixas taxas de reprodução do capital é mobilizado o Estado para desempenhar um papel supletivo ou preventivo dos efeitos da desestruturação económica, social e ambiental, causados pela acumulação capitalista. Esse papel consubstancia-se ainda no apoio a grupos capitalistas, mormente bancos ou, no apoio a desempregados para que se lancem na aventura do empresariado em nome individual, que na grande maioria dos casos termina em falência, endividamento e frustração;
O papel da propaganda promovida pelas classes políticas tem-se acentuado para gerar a mansidão da multidão - com a criteriosa utilização de instrumentos vários, como a manipulação, a ameaça e a repressão. A ideia de que os modelos em vigor - económico e político - são os melhores e os mais eficientes de todos - there is no alternative - vai vingando, ao contrário de outras épocas, dada a ausência de uma esquerda anticapitalista com notoriedade e alheia aos novelos que embrulham e indiferenciam as classes políticas;
O magno objetivo da acumulação vem conduzindo ao afogamento da Humanidade em dívida[1] - pública ou privada - com regulares crises financeiras que a inércia dos povos permite sejam temporariamente superadas. A dívida, em geral, serve para antecipar consumos e, sobretudo, capturar os devedores; desse ponto de vista não é pagável, haja ou não pífias reestruturações. Por outro lado, as cascatas de títulos de dívida que alimentam a especulação financeira servem para esse efeito e não para serem liquidadas; até porque o devedor inicial, o real, rapidamente fica desconhecido após sucessivas titularizações;
Parte das inovações tecnológicas visam o controlo social através da vacuidade e da manipulação - redes sociais, media, a focagem de tempo e atenção em smartphones - para além de gerar negócios impulsionadores de rápidas formas acumulação de capital; um controlo social muito mais intenso e eficaz do que no tempo em que a imprensa era dominante;
A crescente parcela da acumulação de capital que provém dos delírios financeiros, associada aos avanços atuais e futuros na gestão da informação ou na robotização, colocam às altas esferas do capital - e os seus think tanks - a questão, a médio prazo, de uma redução drástica dos efetivos humanos.
  
 

B - A insuficiência de qualquer abordagem parcelar do capitalismo

  
Como sistema, global e integrado, o capitalismo, pode ser observado de vários ângulos - económico, social, político, tecnológico e ambiental, entre outros; e, devido a essas caraterísticas, qualquer medida ou acontecimento setorial, de per si, interage com outros sectores, melhorando o desempenho nuns mas afetando negativamente outros. A II Guerra, provocou enorme destruição material e humana mas, daí resultaram alterações profundas, no ordenamento global a nível tecnológico, económico, social e político. Os celebrados 30 gloriosos anos conduziram, na Europa, à instauração do modelo social europeu que depois foi adulterado e extinto pelo neoliberalismo, o qual, por sua vez, gerou novos paradigmas na área laboral. O desmoronar da URSS e do seu capitalismo de estado facilitou a integração da Europa de Leste na UE e empurrou a Rússia para alianças estratégicas baseadas na Ásia... Contudo, globalmente, pode dizer-se que houve apenas reajustamentos no âmbito do modo de produção capitalista. 
  
Outro caso de reajustamento, obviamente menos profundo e mais estrito, é o da proibição dos clorofluorcarbonetos (CFC) e dos halons em 1987, que contribuiu para a redução do buraco do ozono, embora o acordo para essa supressão tenha sido facilitado porque a sua produção estava centrada uma grande empresa, a DuPont;... e ainda porque logo se encontraram sucedâneos, não havendo danos para o sistema capitalista. Aliás, curiosamente, o CO2 ajuda a aumentar o ozono na estratosfera ao contrário do metano, num efeito líquido que estará em estudo.
  
Enquanto os grupos de contestação - ainda que com méritos técnicos e políticos em questões circunscritas - se cingirem a abordagem parcelares e sem um perfil estratégico, o capitalismo saberá proceder à gestão das concessões, cooptações e repressões, necessárias e convenientes para a sua continuidade; sobretudo, porque dispõe de vários organismos, think tanks e consultores com meios poderosos, de caráter técnico, financeiro e de conhecimentos, capazes de proceder a sínteses, estratégias políticas, táticas, de âmbito geográfico e social, mais específico ou alargado, mais verídico ou mais falsificado[2]
  
Quanto mais circunscrita - no espaço e no âmbito - for a contestação, mais facilitada será a repressão e mais difícil será a congregação de apoios populares face às atitudes do poder. Se os grupos de contestação, cada qual com uma base circunscrita de atuação - aspetos ambientais, sociais, políticos, económicos... - se concertarem ou federarem os seus objetivos contra o capitalismo como elemento bloqueador do bem-estar dos povos, a sua atuação ganhará força, consistência, recursos, visibilidade e abrangência no combate. Por outro lado, essa integração, pela troca de ideias e pela interação entre os vários grupos temáticos, contribuirá para uma maior maturidade na consciência da necessária supressão do capitalismo. 
  
fracasso da luta anticapitalista - mesmo nas suas distintas áreas - está garantido enquanto não tiver por detrás a força vital e a vontade expressa e militante da multidão de seres humanos, despidos de complexos nacionalistas, étnicos ou religiosos; ou ainda, se incorporarem instituições verticalizadas e autoritárias, como são os Estados ou os partidos políticos que, aliás, estão ficando desacreditados, como se tem observado em França na revolta dos Coletes Amarelos. Os Estados nasceram, no dealbar do capitalismo, para dar coesão aos estados-nação, como coutadas de restritos grupos de capitalistas, procurando vincar no "seu" povo, através da escola e do serviço militar, a diferença e o antagonismo face aos outros povos; fazendo esquecer que dos dois lados de uma fronteira há apenas seres humanos com os mesmos propósitos essenciais de vida. 
  
Assim, os estados-nação com os seus instrumentos de repressão e saque da multidão estão sendo, na sua maioria, subalternizados pela globalização daí surgindo duas tendências. Uma cosmopolita, inclusiva, de cruzamento de corpos e culturas, de construção do comum; e outra, temerosa do futuro e que se refugia por detrás da xenofobia, da fronteira e do antagonismo face ao Outro, sempre visto como ameaça, esperando recriar o paraíso dentro da narrativa oitocentista de "a cada povo uma nação".  
  
Assim, na luta global e em todas as frentes nas quais o capitalismo exerce o seu domínio ou influência, a supressão daquele deverá exercer-se a partir de enxames de redes rizomáticas, com decisão democrática, horizontal, tomada por todos, uma vez que a existência de hierarquias e dos privilégios facilita casos de traições, de cooptações ou conluiosvindas de instituições que servem o capital - mormente as classes políticas.
  
Este e outros textos em: 
http://grazia-tanta.blogspot.com/                            
http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

[1]  Como o sistema financeiro captura a Humanidade através da dívida
Reestruturar a dívida pública nada resolve na nossa vida
  
[2]  Como exemplo das típicas manipulações produzidas por consultores, recorde-se, nos anos 90, que a EDP pretendia construir uma barragem no rio Coa mas, a descoberta de pinturas rupestres veio levantar obstáculos ao empreendimento. Expedita, a gestão da EDP recorreu a um "reputado especialista" que negou valor histórico aos achados, que seriam obra de pastores do século... XIX. Descobriu-se que o especialista era um burlão e, com a mudança de governo, a construção da barragem foi abandonada.
Em http://grazia-tanta.blogspot.com/

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/capitalismo-e-o-espirito-naif-para.html

FRATERNIZAR – Três eleições num só ano – DELEGARMOS, OU DECIDIRMOS RELIGADOS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Bem se pode dizer que 2019 é o ano de todas as eleições. Para o Parlamento europeu. Para o da Região Autónoma da Madeira. Para o Parlamento Nacional. Estamos à porta da terceira dezena de anos do século XXI, mas continuamos com modelos e institucionais de todo o tipo que herdamos de gerações antepassadas. Quando a Política ainda podia influenciar a importante área da Economia-e-Finanças. E o medo do ‘inferno’ continha potenciais prevaricadores. Felizmente, esses tempos, com laivos de Idade Média, já se foram e não voltam mais. E, se voltam, é sob outros nomes e outras máscaras, que não as dos nossos antepassados.

O facto e demasiado óbvio, só não o é para os dirigentes dos múltiplos institucionais do Poder. Agarrados ao ‘osso’ dos privilégios, são incapazes de ceder o lugar às novas gerações. Fazem tudo, isso sim, para as integrar nos velhos institucionais, sem se aperceberem que para gerações novas, institucionais novos. Ou assim, ou os ‘demónios’ de velhos e novos ‘ismos’ entrarão depressa em acção. Ao menos, não culpemos as novas gerações. Culpemos as mais velhas, por não largarem o ‘osso’ dos privilégios e do comando. Esta é a hora de desistirem do leme a favor das gerações recém-chegadas à maioridade e colocarem-se humildemente na posição de discípulos delas. Inclusive, deixar-se surpreender com a sua capacidade de iniciativa, de inovação e de vanguarda.

Neste ano de todas as eleições, uma das muitas grandes questões com que estamos confrontados é, Delegamos através do voto, ou decidimos nós próprios religados uns aos outros? Pode, em dado momento da história, ter sido um avanço a institucionalização da chamada democracia partidária. Houve vantagens, na altura, à mistura com desvantagens. No início só se viam vantagens. Das desvantagens, de tão secundárias, nem se falava, como fazemos com os medicamentos. Sabemos que os efeitos secundários estão lá. Mas nem por isso deixamos de os tomar, pelos benefícios que nos causam. Porém, passaram já várias gerações sobre esse início. Até mudamos de século e de milénio. Será que nem tão relevantes mudanças nos levam a perceber que é mais do que tempo de abandonarmos velhos institucionais e confiarmos às gerações mais recentes a criação de outros, mais em conformidade com estes novos tempos?

Quem nasceu no ano 2000 completa agora19 anos. Passa a responder pelos actos que pratica, pelas decisões que toma. Já não é aos pais delas, deles que vamos pedir responsabilidades e contas. É directamente a elas, a eles. Podem continuar a viver em casa dos pais, mas já não são os pais que decidem das vidas delas, deles. Se já é assim na vida civil, não deverá ser assim na vida política? É mais do que saudável que quem acaba de chegar à maioridade, se interrogue, perante cada um destes três actos eleitorais, todos determinantes para o seu amanhã e o amanhã dos seus filhos. Delegar através do voto, ou decidir?, é a questão. Para cúmulo, nesta altura da evolução social, delegar através do voto é confiar a decisão a quem já carrega anos do século XX e do segundo milénio, quando então tudo passava pelas mãos de quem tinha de decidir.

Somos já de um tempo em que muito do que é decisivo para os nossos hoje e amanhã não passa mais pelas nossas mãos, mas pelas máquinas. A uma velocidade que as gerações mais velhas não conseguem sequer acompanhar. Ou temos a humildade de dar voz e vez às novas gerações, a começar pela recém-chegada à maioridade, ou estão criadas as condições para velhos e novos ‘ismos’ ganharem corpo e conduzirem os nossos destinos para onde não queremos ir. Este é o tempo de decidirmos nós próprios religados uns aos outros. Não de delegarmos noutros através do voto. Continuar a delegar noutros, em vez de decidirmos nós próprios religados uns aos outros é renunciar a sermos seres humanos e povos com voz e vez. Sem dúvida, a pior das catástrofes!

 

www.jornalfraternizar.pt

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/01/20/fraternizar-tres-eleicoes-num-so-ano-delegarmos-ou-decidirmos-religados-por-mario-de-oliveira/

A ilusão das elites

(António Guerreiro, in Público, 18/01/2019)

Guerreiro

António Guerreiro

A questão das elites, tão apta a alimentar uma indústria do ressentimento, foi convocada há dias pelo Presidente da República, numa frase em que explicitava a sua prática e a sua noção de — chamemos-lhe assim – democracia compassiva. O Presidente limitou-se a pronunciar a palavra “elites” como se fosse o nome de uma evidência, quando na verdade ela arrasta consigo uma problemática interna que não tem um momento de paz: as elites são Deus e o Diabo, o remédio e o veneno.

E podem ser isto tudo para a mesma pessoa, ao mesmo tempo, no mesmo discurso. Na circunstância, Marcelo Rebelo de Sousa, o nosso Presidente termostato, designou as elites como um centro de gravidade que o atrai apenas mediatamente, em contraste com a sua relação imediata (e que já vem de longe, acrescentou ele) com o povo.

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O conceito de elite e uma correspondente teoria das elites têm o seu autor canónico: o sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto (1848-1923). A frase mais citada da sua análise social e histórica dessa categoria plural — “elites” — é aquela em que define a história como “um cemitério de aristocratas”. Ele resumia assim a sua ideia de que aqueles que num determinado momento concentram os privilégios da riqueza, do poder e do prestígio, por posição que lhes foi outorgada ou por terem alcançado o posto mais elevado no seu ramo de actividade, estão condenados à caducidade e a serem substituídos por uma nova elite que, por sua vez, vai ter o mesmo destino, quando já estiver prisioneira dos seus hábitos. A tese central desta teoria é a de que o equilíbrio social é assegurado pela circulação das elites. E a teoria da história que lhe corresponde é a de que esta é movida por uma minoria de homens notáveis, de “génios”. Pareto via esta circulação de minorias como uma prova de vitalidade das forças sociais, como uma lei de auto-organização da sociedade civil, decalcada dos ciclos biológicos. Na democracia, pelo menos enquanto ideal, não há nenhum indivíduo, nenhuma comunidade, nenhum lobby, que possua uma vocação privilegiada para o exercício do poder. Não deixa de haver elites, mas assegura-se o princípio da produção democrática das elites. Na queixa, actualmente muito repetida, de que as elites (e muito especialmente as elites políticas) são medíocres, é fácil descortinar, muitas vezes, a nostalgia de uma concepção da história fixada nos “grandes homens”.

Que desconfiança, que confissão implícita a do Presidente cyber-simpático quando fala do seu acesso não directo às elites? Trata-se desse sentimento hoje tão partilhado de que está viciada a máquina da produção democrática das elites e esse é um dos factores do mal-estar da democracia. Não é que se tenha regressado exactamente à lei da sucessão de Pareto, ao ciclo das vacas gordas e das vacas magras. Mas há uma nova realidade que veio introduzir uma nova complexidade no conceito de elite. Trata-se de uma ficção estatística político-mediática a que podemos chamar o “homem médio”, com os seus tiques identificáveis, um conceito que permite injectar, à escolha, uma autoridade moral também estatística, que se legitima na visibilidade, no contemporâneo “agir comunicacional”. As elites, aquilo que continuamos a designar assim, já não são formadas por aqueles que produzem diferenças, mas pelos que asseguram o consenso. As elites são consensuais. Quando o Presidente diz que escolheu em primeiro lugar uma comunicação directa com o povo para só depois chegar às elites, nós não sabemos a que elites se refere (Pareto não deixou em silêncio o facto de haver uma pluralidade categorial de elites). Mas se todos nós fomos levados a pensar imediatamente na elite política e na elite económica, na aliança entre ambas, isso mostra que se concretizou uma estabilidade máxima (com que sonhou, aliás, Pareto) a partir do momento em que a política se tornou uma espécie de fotocópia da economia. O Presidente teve vontade de mostrar distância em relação às elites por fidelidade à sua democracia compassiva, em que todos somos igualmente irmãos e sofredores? Talvez esse seja um gesto equivocado de quem está afinal tão perto da elite consensual que não está na melhor posição para perceber que o conceito de elite só pode ser entendido como a ilusão de uma época que já não é a nossa.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Edgar Morin: “É preciso ensinar a compreensão humana”

Matéria originalmente publicada em Fronteira do Pensamento

Nos acostumamos a acreditar que pensamento e prática são compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo não faz o mundo e vice-versa.

Mas, houve um tempo em que os sábios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matemática, física, arquitetura, pintura, escultura eram matéria-prima do pensamento e da ação.

A revolução industrial veio derrubar a ideia do saber renascentista e, desde o século 19, a especialização foi ganhando força. Porém, sempre haverá quem nos lembre que a vida é produto de um contexto, de um acúmulo de vivências e ideias.

Pense em um filósofo que pegou em armas contra o nazismo para depois empunhar as ferramentas da retórica contra o stalinismo, que reconhece a importância dos saberes dos povos originais sem abrir mão de pensar e repensar a educação formal.

Com mais de 90 anos, o francês Edgar Morin, nascido e criado Edgar Nahoum no início do século 20, é um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo. Com uma gigantesca produção literária, pedagógica e filosófica. Em tempos de radicalismos, Morin é herdeiro do melhor do humanismo francês.

Em entrevista ao programa Milênio, Edgar Morin fala sobre o extremismo e o significado da educação na contemporaneidade. Leia abaixo:

Gostaria de começar com uma questão generalista. Sociólogo, antropólogo, filósofo, professor, escritor, e até, às vezes, jornalista. Qual a melhor definição de Edgar Morin e por quê?

Edgar Morin: A melhor definição seria não ter definição. De se bastar. A palavra “filósofo” talvez me conviesse bem, mas hoje a filosofia, no geral, se fechou em si mesma e a minha é uma filosofia que observa o mundo, os acontecimentos, etc. Sou muito marginal, quer dizer, sou marginal em todas essas áreas. Então, sou aquele que querem que eu seja.

Seria mais correto falar em um pensador do estilo renascentista, alguém que mistura um pouco essas histórias todas?

Edgar Morin: Não exatamente que mistura, mas que tenta fazer a ligação, que tenta ter uma cultura feita de conhecimentos que hoje estão dispersos. Mas, é verdade que o Renascentismo foi admirável pelos homens que tinham um conhecimento, não digo enciclopédico, mas aberto a várias áreas. Se quiserem, acho que as perguntas fundamentais de cada um a si mesmo, “quem somos nós, para onde vamos e de onde viemos?”, são questões fundamentais, precisamos respondê-las e não afastá-las.

A tragédia do nosso sistema de conhecimento atual é que ele compartimenta tanto os conhecimentos que a gente não consegue se fazer essas perguntas. Se perguntarmos “O que é o ser humano?”, não teremos respostas, porque as diferentes respostas estão dispersas. E, no fundo, é isso que chamo de pensamento complexo, um pensamento que reúne conhecimentos separados.

E esse pensamento complexo do qual o senhor fala estaria em oposição a um pensamento simples. Como se dá esse duelo hoje, num setor que o senhor conhece bem, o ensino?

Edgar Morin: O que chamo de desafio da complexidade é que estamos em um mundo onde encontramos problemas tão difíceis e separados, e uni-los. Como fazer isso? Eu fiz um trabalho ao longo de muitos anos para, de certa forma, elaborar um método que possibilite a união desses saberes, porque não podemos simplesmente sobrepor, é preciso articulá-los.

Acredito que, para uma melhor compreensão da realidade, para entender quem somos, que você é um ser complexo, que eu sou um ser complexo, não podemos estar reduzidos a um único aspecto da personalidade, para saber que a sociedade é complexa, para entender a globalização. Acredito que é sim necessário um pensamento assim, senão temos um pensamento mutilado, o que é muito grave, porque um pensamento mutilado leva a decisões erradas ou ilusórias.

E como traduzir isso para os alunos, para as novas gerações, por meio do ensino? Como é possível encarar essa tarefa tão difícil para os educadores, para aqueles que estudam a educação e querem passar adiante esse pensamento mais complexo, com uma visão um pouco mais ampla do mundo do que aquela homogeneizada, simplista, com certezas bastante frágeis?

Edgar Morin: Eu proponho, no ensino, a introdução de temas fundamentais que ainda não existem. Quer dizer, proponho introduzir o tema do conhecimento, pois damos conhecimento sem nunca saber o que é o conhecimento. Mas, como todo conhecimento é uma tradução seguida de uma reconstrução, sempre existe o risco do erro, o risco de alucinações, sempre.

Eu proponho o método de incluir esses temas, de incluir o tema da compreensão humana. É preciso ensinar a compreensão humana, porque é um mal do qual todos sofrem em graus diferentes. Começa na família, onde filhos não são compreendidos pelos pais e os pais não entendem seus filhos. Pode continuar na escola, com os professores e os colegas. Continua na vida do trabalho, no amor e acho que temos que ensinar também a enfrentar as incertezas. Porque em todo destino humano há uma incerteza desde o nascimento.

A única certeza é a morte e não sabemos quando. Mas, é claro que estamos em meio, não apenas das incertezas que chamaria de normais, de saúde, casamento, trabalho, mas também uma incerteza histórica impressionante.

Antes, a gente achava que existia um progresso certo e agora o futuro é uma angústia. Por isso, suportar, enfrentar a incerteza é não naufragar na angústia, saber que é preciso, de certa forma, participar com o outro, de algo em comum, porque a única reposta aos que têm a angústia de morrer é o amor e a vida em comum.

Isso nos traz a um dos muitos caminhos que temos para nos conhecer e conhecer o outro, que é a participação política. E o senhor, desde muito cedo, teve uma participação política muito importante. Na Resistência e, depois, com suas relações no Partido Comunista. Mas, muito cedo também, o senhor aprendeu a fazer essa autocrítica e não hesitou em criticar duramente o Partido Comunista e a ascensão da URSS Stalinista, depois da China maoísta. Mais recentemente, a globalização. Politicamente, hoje, qual a luta que o senhor considera que vale a pena lutar? Sabemos que o mundo vive uma crise profunda de representação nas democracias, nos partidos, nos sindicatos. Como fazer essa luta política?

Edgar Morin:Antes de mais nada, é preciso entender bem que estamos ameaçados, cada vez mais, por duas barbáries. A primeira barbárie a gente conhece, vem desde os primórdios da história, que é a crueldade, a dominação, a subserviência, a tortura, tudo isso.

A segunda barbárie, ao contrário, é uma barbárie fria e gelada, a do cálculo econômico. Porque quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, não se vê mais os seres humanos. O que se vê são estatísticas, produtos burros. No fundo, o cálculo, que é útil, mas como instrumento, se torna um meio de conhecimento, mas de falso conhecimento, que mascara a realidade humana.

No fundo, assim que entra o cálculo, os humanos são tratados como objetos. E hoje, com o domínio justamente do poder e do dinheiro, com o domínio do mundo burocrático, tudo isso, é o reino da barbárie gelada. Se preferir, é preciso repensar a política e nós estamos na pré-história desse momento. É preciso saber se as forças negativas, a corrente negativa vai ser mais forte do que as forças positivas que tentam se levantar hoje no mundo e são ainda muito dispersas.

Como fazer com que todas essas ferramentas, que existem e foram desenvolvidas nas últimas décadas, possam ser utilizadas de uma forma, digamos, mais positiva?

Edgar Morin:: Antes de mais nada, é verdade que informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações. Então, estamos imersos em informações e como elas se sucedem dia a dia, de certa forma, não temos como ter consciência disso. De outra parte, os conhecimentos, como eu disse, estão dispersos. É preciso uni-los, mas falta esse pensamento complexo.

Dito isso, quando pensamos sobre a internet, a internet virou uma força incrível, eu diria que em todas as direções, tanto para o lado negativo quando para o positivo.

O que há de extraordinário na internet e em todos esses meios que você citou é que, hoje, um Estado pode controlar um indivíduo em todos os seus gestos e atos, mesmo quando eleestá na rua lendo um jornal. Podemos ser controlados. Mas, ao mesmo tempo, através da internet, um ou dois indivíduos razoavelmente talentosos em matemática podem decifrar os segredos do Pentágono, segredos diplomáticos dos mais importantes do Estado mais forte do mundo.

O senhor acha que neste mundo, com tantas coisas que regridem, um país como o Brasil que o senhor conhece tanto tem algo a ensinar aos outros notadamente quando se vê essa sociedade mestiça, essa mistura que existe de verdade. Mesmo que tenhamos os nossos problemas com o racismo, nossos problemas de exclusão e tudo isso. Mas, o senhor acha que essa sociedade brasileira, com todos esses problemas, tem algo a ensinar?

Edgar Morin:Apesar dos limites, digamos, do caráter de segregação social, é uma sociedade indiscutivelmente mestiça, que conseguiu integrar contribuições vindas da África. Nunca em outro país a contribuição africana foi tão intensamente integrada nos costumes, nem que seja na gastronomia, nas danças, nos cantos.

É um país muito interessante também onde, no Sul, que tem muitos imigrantes alemães e italianos e o Nordeste, que é muito diferente com sua população, os caboclos… Apesar dessa grande diversidade, é um país que nunca quis se separar. Vejam a Itália, a Itália do Norte quer se separar da do Sul, veja a Inglaterra, a Escócia quer deixar o Reino Unido.

No Brasil, mesmo com toda essa extraordinária heterogeneidade, existe uma cultura comum que mantém a unidade. Ou seja, pra mim, o Brasil é um grande estimulante. Um estimulante intelectual, mas também humano, pois tem um calor humano, um sentimento de familiaridade, que também perdemos na França e encontramos, muito vivo, no Brasil.

Eu já o vi e li dizendo que o monoteísmo era o flagelo da humanidade. Queria saber se o senhor mantém essa posição hoje, frente ao que vemos no Oriente Médio e nas lutas nacionalistas que misturam a religião à importância nacional.

Edgar Morin: A fórmula é parcialmente verdadeira. Por quê? Porque há outro aspecto muito presente no Cristianismo, sobretudo no Cristianismo de caráter evangélico, e também no Islã, onde também há como princípio um Deus magnânimo e misericordioso. Existe um universalismo, porque o Cristianismo e o Islã se dirigem a todos os homens, a todos os seres humanos, não importa a raça.

Quando vemos a história do Cristianismo, há uma renovação dessa fonte de fraternidade e de evangelismo. Mas, quando olhamos a mesma história do Cristianismo, também vemos guerras religiosas, a Inquisição, as perseguições, as fogueiras, as cruzadas e tudo isso. E quando olhamos para a história do Islã também.

Dito isso, o que é o monoteísmo? É o que vê a unidade no mundo. O que é o politeísmo? É o que vê a diversidade no mundo, que vê, como os antigos gregos, mas também no Candomblé, vocês têm Iemanjá, deusa das águas, têm os outros, dá pra dizer que são complementares. Uns veem a diversidade e outros a unidade.

Mas, o politeísmo sempre foi mais tolerante do que o monoteísmo, sempre foi menos dogmático. E, se hoje, o Hinduísmo fica agressivo contra o Islã é que ele próprio vive uma luta entre duas religiões, mas, em princípio, as religiões politeístas são mais… Mas, como estou fora dessas religiões, apenas constato.

Acredito que a virtude dos politeístas seja a de respeitar também a natureza. Quando se tem a Pacha Mama, da tradição andina, temos o amor da mãe terra. O Cristianismo separou, como aliás o Islã, os dois tendo a mesma fonte, a Bíblia. Dizem que Deus criou o homem à sua imagem, diferente da dos animais. Paulo disse que os humanos podem ressuscitar, mas os animais não.

Criamos a dissociação com a natureza, acentuada pela civilização ocidental, dizendo que, através da ciência e da tecnologia podemos dominar e controlar a natureza. Mas, é preciso reencontrar o sentido da natureza de uma forma não mais politeísta, mas humana, quer dizer, sentir essa vida, esse sentimento que expressava Spinoza, que a criatividade e a divindade estão na natureza.

Qual seria, então, na sua opinião, o maior desafio do ensino escolar hoje no mundo? Fazer esse equilíbrio sociedade tecnológica e humana, o equilíbrio entre o dinheiro e o saber, entre o humanismo e a individualidade?

Edgar Morin:Antes de mais nada, é não se deixar contaminar pela lógica da empresa. Uma universidade não é uma empresa, é como um hospital, não é uma empresa.

A lógica não é a do lucro, não é a dos benefícios, não é a do equilíbrio orçamentário, é outra lógica. Depois, não obedecer ao dogma da avaliação. Avaliamos e avaliamos, quando, na realidade, a avaliação também é um jeito de calcular que ignora a complexidade das realidades humanas.

O objetivo do ensino deve ser ensinar a viver. Viver não é só se adaptar ao mundo moderno. Viver quer dizer como, efetivamente, não somente tratar as grandes questões de que falamos, mas como viver na nossa civilização, como viver na sociedade de consumo.

Produzimos coisas descartáveis em vez de objetos reparáveis, que possam ser consertados. Então há toda uma lógica e é preciso dar, no ensino, os meios àqueles que vão se tornar adultos, de poder escolher alimentos, consumo, não usar o que não é bom e favorecer o que tem qualidade e o que é artesanal.

Acho que é preciso ensinar não só a utilizar a internet, mas a conhecer o mundo da internet. É preciso ensinar a saber como é selecionada a informação na mídia, pois a informação sempre passa por uma seleção – como e por quê? É preciso ensinar, há todo um ensinamento, para nossa civilização, que não está pronto. Tem isso e ainda o ensino dos problemas fundamentais e globais. Essa é a reforma fundamental que precisa ser feita.

Para terminar, professor, o que é que alimenta suas esperanças num mundo melhor?

Edgar Morin:A esperança é a ideia que o futuro já que é incerto e já que é desconhecido, pode justamente ser melhor e, no fundo, meu sentimento profundo é que eu sou um pedacinho temporário, numa gigantesca aventura, que é a da humanidade, que começou, talvez, há sete milhões de anos, quando um primata virou bípede. Que continuou e seguiu pela pré-história, a história, o fim dos impérios, os acontecimentos, as guerras mundiais. Uma aventura absolutamente incrível. E como o passado é incrível, eu sei que o futuro também será incrível.

Mas, sinto que faço parte dessa totalidade, querendo ou não. Isso também me leva para frente. Não renuncio. Sem querer, sou animado por esse sentimento de estar na aventura e quero também dar, mesmo que seja pequena, minha contribuição a isso. É isso que também me encoraja. Não tenho só esperança, tampouco desespero. Mesmo que saiba que a vida é, ao mesmo tempo, magnífica e trágica.

Uma das minhas máximas favoritas é: “o que não se regenera, degenera.” Nada está estabelecido para sempre. Se você tem a democracia, não é para sempre, pode degenerar. Se acabou com a tortura, não é para sempre, pode voltar. Quer dizer, é preciso estar com as forças da regeneração e sentir a necessidade dessas forças de regeneração me tonifica, me faz bem e espero fazer o bem também.

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/edgar-morin-e-preciso-ensinar-a-compreensao-humana/

A respeito do suposto positivismo de Luiz Carlos Prestes

É bastante comum a afirmação de que Luiz Carlos Prestes teria sofrido influências positivistas tanto no âmbito familiar quanto na Escola Militar, onde cursou engenharia militar. Neste artigo são apresentados factos e argumentos que desmentem tal afirmação, feita muitas vezes com o objetivo de denegrir a imagem de Prestes, de pôr em causa a sua adesão às ideias de Marx, Engels e Lénine.

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Leia original aqui

Rosa Luxemburgo, mais atual que nunca?

Tamme de Boer, You Played Yourself, 2012
Em tempos de ultra-capitalismo, três de suas ideias destacam-se: só a revolta salvará o planeta; ela poderá partir das periferias do sistema – mas só em democracia as multidões transformarão o mundo e a si mesmas
Michael Löwy | Outras Palavras
Algumas palavras pessoais, a título de introdução. Descobri a Rosa Luxemburgo por volta de 1955, aos 17 anos, graças ao meu amigo Paulo Singer. Paulo explicou-se longamente a teoria do imperialismo, mas o que me atraiu mesmo foram os textos políticos que me passou, a crítica do centralismo, a visão revolucionária e democrática de Rosa Luxemburgo. Aderimos juntos a uma pequena organização “luxemburguista”, a Liga Socialista Independente, da qual também faziam parte Maurício Tragtenberg, Hermínio Sacchetta e, alguns anos depois, os irmãos Sader. Tínhamos um local de reuniões no centro de São Paulo que media 2×5 metros e cuja única ornamentação era um quadro com um desenho que representava Rosa Luxemburgo.
Nessa época, recebi da minha mãe um exemplar das cartas de prisão[fn]Rosa Luxemburgo, “Briefe” (Berlim, Verlag der Jugend-Internationale, 1927) que tinha trazido de Viena quando emigrou para o Brasil, o que me permitiu apreciar melhor a dimensão huma