Socialismo

O socialismo é um humanismo

O Estado indiano de Kerala, governado quase sempre pelos comunistas e seus aliados desde meados dos anos cinquenta, destaca-se agora no combate ao Covid-19, tal como foi assinalado pelo insuspeito Washington Post (via AbrilAbril): uma abordagem humana e rigorosa, dizem os peritos, em contraste com o fascismo hindu, que desgraçadamente hoje domina a vida política daquela grande nação. A história recente conta.

Na saúde ou na educação, nada bate os socialismos, sabemo-lo há já algum tempo. Em algumas áreas é prudente confiar, até ver, nas relações capitalistas, desde que devidamente enquadradas. A dificuldade intelectual e política está em traçar linhas e em conseguir complementaridades institucionais propiciadoras de desenvolvimento. É preciso ter atenção ao contexto.

Realmente, na Índia, há décadas que temos uma espécie de experiência natural, com o contraste entre o Estado de Kerala, que está longe de ser dos mais ricos em termos de PIB per capita, e tantos outros Estados da união, com níveis de desenvolvimento humano aterradores.

Amartya Sen, que é, a par de Gunnar Myrdal, o Prémio dito Nobel de Economia mais humanista, tem dado como exemplo o Estado de Kerala nos seus trabalhos. A mobilização social e política pode fazer toda a diferença nos processos de desenvolvimento, enquanto expansão das liberdades positivas, onde a liberdade para levar uma vida relativamente longa, instruída e saudável não se reduz à, não está tão dependente da, bitola pecuniária.

Ter redes densas de educação e de saúde públicas requer organização e vontade políticas. E nem é preciso ter rendimentos per capita elevados para se obterem resultados impressionantes.

O socialismo só faz sentido se for um humanismo radical, que se institucionaliza nos sistemas de provisão fundamentais à vida e que não faz concessões a certos relativismos. Afinal de contas, como dizia uma filósofa social conhecida, estar vivo é mesmo o contrário de estar morto.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Que características terá o socialismo no século XXI?

Makis Papadopoulos

A contrarrevolução não teria vencido se tivesse havido uma atempada preparação coletiva teórica e política para responder aos difíceis problemas colocados pelo novo nível de desenvolvimento da produção social.

 

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Makis Papadopoulos (Archive Photo)

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O texto seguinte é a transcrição de um discurso proferido por Makis Papadopoulos , membro da Comissão Política do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE), no “Simpósio sobre o futuro e planificação socialistas”, organizado pela Academia de Ciência e Investigaçãoda Turquia (BAA), entre 6 e 8 de dezembro, em Ancara.

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Que características terá o socialismo durante o século XXI

Makis Papadopoulos

Em nome do Comité Central do KKE gostaria de lhes agradecer o honroso convite e dar-lhes os parabéns pelo tema que escolheram para a vossa conferência, um tema que prova que o vosso partido se esforça constantemente por desempenhar o seu papel de vanguarda revolucionária.

Para examinar as características do socialismo no século XXI devemos, com base nos princípios teóricos do marxismo-leninismo, explorar, por um lado, a experiência histórica do século XX e, por outro, as novas possibilidades objetivas e os novos problemas decorrentes do progresso científico e tecnológico, nas novas condições da economia digital e da chamada 4ª Revolução Industrial.

Em particular, devemos examinar, com base nos princípios do materialismo dialético e histórico e do método lógico-histórico, as contradições que determinam o movimento da sociedade socialista. Devemos examinar o processo de evolução histórica da construção socialista durante o século XX. Devemos estudar os esforços e o grau de utilização consciente pelo poder soviético da lei básica económica do socialismo, que é a coordenação de todos os objetivos da produção tendo em vista a satisfação geral das necessidades da sociedade. Examinar até que ponto esta lei fundamental atuou como a força motriz para a solução da contradição entre o grau de desenvolvimento da produção e a contínua e ininterrupta expansão das necessidades da sociedade. Examinar até que ponto foi desenvolvida a planeada e programada organização da produção social para garantir o bem-estar e o livre desenvolvimento de todos os membros da sociedade.

Após os desenvolvimentos contrarrevolucionários, o KKE começou, no início dos anos 90, e continua hoje, um sério esforço para contribuir para o estudo deste complexo e difícil problema.

Na curta palestra de hoje, vamos concentrar-nos em alguns pontos-chave.

A vitória da Revolução Socialista de outubro de 1917 na Rússia demonstrou a natureza libertadora das relações de produção socialistas para o desenvolvimento das forças produtivas. Outubro de 1917 revelou a superioridade da Planificação central científica no desenvolvimento das forças produtivas, no sólido terreno do poder da classe operária e da propriedade social dos meios de produção. A eliminação do desemprego e da iliteracia, a educação geral, obrigatória e gratuita, as oito horas diárias de trabalho, a verdadeira igualdade entre homens e mulheres no trabalho e na vida, a libertação de preconceitos raciais, a épica conversão da indústria do tempo de paz em indústria de guerra, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, são alguns exemplos característicos das primeiras décadas do poder soviético, assim como, mais tarde, o salto na exploração espacial.

Durante este particular período histórico, ficou demonstrada a capacidade de direção da produção social planificada e centralizada para obter um caráter cada vez mais científico e melhorar a organização e coordenação dos esforços coletivos de milhões de trabalhadores soviéticos. Confirmou-se a necessidade da implementação do plano estatal unificado, do princípio do centralismo democrático e da utilização da emulação socialista como método de direção, a fim de aumentar a eficácia da planificação central da economia.

Para entender o significado dessas realizações na União Soviética, precisamos de pensar nas condições históricas em que foram concretizadas. As conquistas do poder soviético foram alcançadas em condições de invasão e cerco imperialistas, ameaças internacionais permanentes e enfraquecimento da produção interna. Foram alcançados sob condições de grande escassez de bens materiais e de técnicos científicos especializados, e sob pressão do tempo para avançar no desenvolvimento de setores de importância estratégica na competição da URSS com o sistema imperialista internacional. Além disso, o poder soviético rapidamente superou as abissais diferenças que separavam a Rússia czarista pré-revolucionária dos fortes estados capitalistas, como os EUA, a Grã-Bretanha e a Alemanha.

O salto dado na União Soviética durante as suas primeiras décadas prova que, com a expansão da propriedade social dos meios de produção e a planificação científica central da economia, a produtividade do trabalho e as aplicações tecnológicas inovadoras na economia aumentaram enormemente. O objetivo e o ritmo de desenvolvimento das forças produtivas mudaram. O trabalhador, a principal força produtiva, foi libertado das suas algemas, já que não mais procurou um patrão na selva do mercado capitalista para vender a sua força de trabalho. Um novo exército de cientistas foi criado entre os filhos da classe operária e dos camponeses pobres.

O poder da classe operária soviética foi fundado na década de 1920 no terreno sólido dos Sovietes, as Assembleias Gerais de trabalhadores em todos os locais de trabalho, com representantes da Assembleia nos mais elevados órgãos do poder em todos os ramos, representantes que poderiam ser substituídos pelos seus eleitores. Este foi um passo importante para o exercício efetivo do poder da classe trabalhadora.

Ficou demonstrada a superioridade da planificação central do poder da classe operária sobre o mercado capitalista, onde os grupos monopolistas planeiam e competem para garantir a maior margem de lucro, uma maior parcela.

A experiência histórica soviética também mostrou que, objetivamente, o curso da construção socialista não é um mar de rosas, que não ocorre sem percalços e em linha reta. Vários problemas reais que surgiram, como atrasos na modernização tecnológica da indústria, com consequências negativas na qualidade e adequação dos produtos, foram mal interpretados como fraquezas inerentes às relações de produção socialistas. Segundo estimativas soviéticas, o volume da produção industrial da URSS no início dos anos 50 era menos de um terço da produção dos EUA, para não falar da liderança militar dos EUA no desenvolvimento de armas nucleares.

Particularmente após a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética teve de atualizar a sua produção e serviços com base num novo e mais alto nível de necessidades sociais. Teve de resolver este problema sob condições de assustadoras perdas humanas nas idades mais produtivas, durante o período da guerra.

Era um problema particularmente complexo, que dizia respeito à garantia de um desenvolvimento proporcional de todos os setores de produção, à melhoria qualitativa dos produtos de consumo populares, à prioridade na produção de meios de produção, à extensão da automação em muitos setores da economia, às medidas necessárias para assegurar que a contradição entre o trabalho de gestão e de execução não se intensificasse.

Em termos mais gerais, isso tinha a ver com a capacidade de garantir a prioridade no desenvolvimento dos modernos meios de produção sobre os meios de consumo, de manter as proporções básicas de todas as partes e elementos da economia, de melhorar a qualidade e eficiência da produção, de aplicar rapidamente as novas conquistas científicas e técnicas, de elevar a consciência socialista e a iniciativa criativa dos trabalhadores.

Neste crucial momento histórico, a solução tinha de ser encontrada olhando em frente, através da expansão planeada das relações de produção comunistas.

A julgar pelos resultados, na década de 1950, tornou-se evidente que não havia potencial teórico conquistado coletivamente para dirigir efetivamente esses problemas.

Discussões teóricas e controvérsias sérias nos campos da filosofia e da economia política ocorreram durante o percurso histórico da União Soviética. A discussão teórica do período 1927-1929 sobre a relação dialética e a interação entre forças produtivas e relações de produção foi importante. O debate destacou o papel ativo das relações de produção socialistas no desenvolvimento das forças produtivas. O papel ativo das relações de produção é realizado através dos esforços do poder da classe operária para eliminar as sobrevivências da propriedade privada e orientar o desenvolvimento das forças produtivas na direção da plena satisfação das necessidades sociais. 

Porém, infelizmente, o conteúdo do debate teórico concentrou-se principalmente na necessidade de definir a questão científica da economia política da questão mais vasta do materialismo dialético e histórico e não orientou a pesquisa teórica para uma mais profunda compreensão da questão crucial da interação entre relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas.

No mesmo período (1924-1929), o debate filosófico entre “dialéticos” e “mecanicistas” foi importante para entender o conceito da contradição dialética e o seu papel no desenvolvimento de fenómenos naturais e sociais. No início dos anos 30, o conceito teórico de “contradições não antagónicas” já havia emergido.

O filósofo soviético Ilyenkov apontará mais tarde que esta abordagem filosófica teria um impacto na discussão das questões da economia política do socialismo, na necessidade de delimitar claramente as relações mercadoria-dinheiro, como um elemento estranho à Planificação Central. Em vez de uma luta decisiva pela abolição da economia de mercado e de mercadorias, irá gradualmente prevalecer a perceção sobre a possibilidade de difusão, integração e utilização limitadas das funções do mercado pelo planeamento central do poder da classe operária.

Nos anos 50, Stáline resumirá esta controvérsia no seu trabalho “Os problemas económicos do socialismo na URSS”. Em conclusão, houve um debate teórico no Partido Bolchevique, no qual as forças revolucionárias lutaram contra os apoiantes do mercado. Mas os passos para o desenvolvimento da economia política marxista do socialismo foram insuficientes para enfrentar os problemas relacionados com a priorização das necessidades sociais e da efetiva planificação para a sua satisfação. Foram insuficientes para formularem claras orientações, métodos e indicadores, a fim de calcular e avaliar o desenvolvimento e o desempenho da indústria e da produção agrícola socialistas, à luz das crescentes necessidades sociais e das novas exigências da produção socializada.

Obviamente, a dificuldade de superar as deficiências teóricas, bem como o conflito ideológico dentro do PCUS e nos restantes partidos comunistas, teve como pano de fundo a existência de diferentes forças sociais e de diferentes interesses materiais nos países socialistas.

Em muitos países socialistas, a propriedade privada da produção agrícola ainda não tinha sido abolida. Nem mesmo o direito de contratar mão-de-obra tinha sido completamente abolido. Na própria União Soviética, além de manter a propriedade coletiva dos kolkhozes no setor agrícola, ocorreu um enfraquecimento da participação e controle dos trabalhadores e a manutenção das diferenças de rendimentos. A contradição entre o trabalho de gestão e o de execução aumentou.

Depois da guerra e, especialmente, após o 20.º Congresso do PCUS, em 1956, foi aberto o caminho para o derrubamento contrarrevolucionário, para um retrocesso no curso da História. As discussões económicas de 1960 serão dominadas pelas visões oportunistas do “socialismo de mercado”, cujo resultado foi a reforma económica de Kosygin de 1965.

Durante o mesmo período, a conceção marxista-leninista do Estado dos trabalhadores foi revista. O 22.º Congresso do PCUS (1961) caracterizou a URSS como um “Estado de todo o povo” e o PCUS como um “partido de todo o povo”.

Em vez de se procurarem soluções numa direção avançada, no sentido de uma expansão e aprofundamento das relações socialistas de produção, foram-se buscar soluções ao passado, usando as ferramentas e as relações de produção do capitalismo. A administração central da economia planeada foi enfraquecida. Cada unidade de produção individual define por si as suas próprias metas de eficiência, fragmentando essencialmente as metas gerais da produção social. A produção de mercado e de mercadorias recuperou terreno; as desigualdades de rendimentos aumentaram, a propriedade individual e de grupo foi reforçada, particularmente no setor agrícola.

A contrarrevolução não teria vencido se tivesse havido uma atempada preparação coletiva teórica e política para responder aos difíceis problemas colocados pelo novo nível de desenvolvimento da produção social.

A experiência histórica, positiva e negativa, do século XX, após a vitória da Revolução Socialista de outubro de 1917, demonstra o papel libertador das relações de produção socialistas no desenvolvimento das forças produtivas, com o objetivo de satisfazer as necessidades da sociedade.

O percurso histórico, desde a vitória da Revolução Socialista de outubro de 1917 até à vitória da contrarrevolução e a derrota do início dos anos 90, realça e sublinha a importância da aplicação criativa dos princípios leninistas da construção socialista.

É uma experiência histórica valiosa que ilumina, por um lado, os resultados benéficos que podem ser alcançados quando a vanguarda revolucionária está consciente e utiliza adequadamente as leis da construção socialista e, por outro lado, as devastadoras consequências negativas quando não é esse o caso – devido a inadequações teóricas e políticas coletivas e à vitória das conceções oportunistas no Partido Comunista, sob a pressão de uma negativa correlação de forças e de grandes dificuldades que possam surgir.

Também realça os objetivos constrangimentos e dificuldades nos esforços de uma direção planificada da economia, conforme exigido pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas, do progresso técnico e da produtividade do trabalho, num dado ponto.

Muito brevemente, o que nos ensinou a experiência do século 20?

Em geral, confirmou que a construção socialista não é um percurso fácil, direto e progressivo e que inclui o risco de uma reação violenta. Confirmou um conjunto de termos básicos e pré-condições inter-relacionados que determinam o resultado dessa difícil tarefa. Mais especificamente:

Confirmou a importância de uma orientação consistente e firme do Partido Comunista e do poder da classe operária para a expansão e domínio completo da propriedade social, das relações de produção socialistas e da eliminação de todas as formas de produção individual e de grupo de mercadorias. Realçou a falência histórica do “socialismo de mercado” como um caminho de transição do estágio imaturo para o estágio maduro do comunismo.

Manter uma orientação revolucionária na construção socialista requer a compreensão teórica de que a lei do valor não é uma lei da economia socialista, que não pode regular as suas relações. Requer o entendimento teórico de que, enquanto as relações mercadoria-dinheiro são mantidas, existe o perigo de um reforço das forças sociais contrarrevolucionárias. O efeito da lei do valor na vida económica está em contradição com a Planificação Central e deve ser decisivamente superada através da conversão planificada de toda a produção em produção social direta.

Limitar o impacto da lei do valor através de certas medidas do Estado socialista, como delimitações de preços e planos de produção, não é uma solução radical e substantiva para se lidar a longo prazo, com o risco de enfraquecimento do poder da classe operária.

A experiência também destacou a crucial importância do esforço da planificação central para a atualização científica e a adaptação criativa e contínua da Planificação Central aos novos requisitos estabelecidos pelo novo nível de desenvolvimento da produção social.

A Planificação Central é uma relação social determinada pela propriedade social dos meios de produção. Expressa a maneira radicalmente diferente pela qual os trabalhadores estão unidos aos meios de produção, sem a intermediação do mercado. Permite o controle dos trabalhadores sobre o que será produzido, como será produzido e como será distribuído aos vários setores de produção.

Enfrenta constrangimentos objetivos, uma vez que o nível de desenvolvimento das forças produtivas, em cada momento, não permite o acesso, no mesmo grau, à totalidade do produto social com base no princípio das necessidades, nem permite uma superação direta da contradição entre trabalho de gestão e de execução e, em geral, da contradição entre trabalho intelectual e trabalho manual.

Sob a pressão de dificuldades objetivas, de diferentes interesses materiais sociais e de inadequações teóricas e científicas, há sempre o risco de cometer graves erros subjetivos no plano, em relação às metas de produção, às prioridades para um desenvolvimento proporcional dos setores de produção, ao treino e especialização da força de trabalho e à tentativa de abolir as diferenciações de classe.

A experiência histórica do século XX revelou o papel insubstituível da ditadura do proletariado na construção socialista, bem como a falência histórica da conceção oportunista do “Estado de todo o povo”. A experiência soviética, tanto na sua trajetória ascendente como na descendente, mostrou que a ditadura do proletariado só pode cumprir a sua missão quando se apoia na mobilização dos trabalhadores, de modo a que as direções e os objetivos sejam ativa e militantemente adotados pelas amplas massas populares.

É por isso crucial que os seus órgãos, do nível inferior aos órgãos centrais do poder, funcionem de maneira substantiva, e não formalmente. Que a Assembleia Geral em todos os locais de trabalho funcione efetivamente, isto é, com base nos princípios de controle, prestação de contas e convocação de representantes eleitos aos mais altos níveis de autoridade. Direitos eleitorais substantivos podem ser estabelecidos desta maneira, em oposição aos direitos eleitorais formais, à igualdade formal da democracia burguesa, da ditadura do capital.

Esta função pode salvaguardar o caminho da construção socialista contra erros e desvios subjetivos na elaboração e implementação do plano, em qualquer momento, no contexto da Planificação Central.

Esse perigo sublinha o papel que o poder revolucionário da classe operária, a ditadura do proletariado, deve desempenhar. O fortalecimento das relações de produção comunistas pressupõe a ação consciente dos trabalhadores. É necessária uma forma superior de democracia, com o envolvimento ativo dos trabalhadores na adoção, implementação e controle das decisões. A conversão do local de trabalho no núcleo organizativo do poder dos trabalhadores é um elemento central dessa qualidade superior da democracia. Mas, com a vitória da revolução socialista, a consciência não fica totalmente enraizada no povo. É por isso que a intervenção de vanguarda do Partido Comunista desempenha um papel decisivo.

O Partido Comunista representa o núcleo liderante do poder revolucionário dos trabalhadores, uma vez que é a única força que pode agir, conscientemente, de acordo com as leis do movimento da sociedade socialista-comunista. É por isso que tem de ser capaz, em todas as circunstâncias, de levar a classe operária a realizar a sua missão histórica.

O Estado socialista, como um instrumento da luta de classes que continua, sob novas formas e novas condições, deve desempenhar o seu papel defensivo-repressivo e a sua função criativa, económica e cultural.

O Estado dos trabalhadores, como mecanismo de domínio política, é necessário até à transformação de todas as relações sociais em relações comunistas, até à formação da consciência comunista entre a grande maioria dos trabalhadores e até à prevalência das relações de produção socialistas na maior parte do mundo.

A experiência soviética mostrou que, para realizar as condições em causa, o Partido Comunista deve manter a capacidade de formular a sua política de maneira científica e de classe. Por outras palavras, o Partido Comunista deve reafirmar constantemente o seu papel de portador da unidade dialética da teoria e prática revolucionárias. Deve contribuir para o desenvolvimento criativo da visão marxista-leninista do mundo, enquanto o objeto de estudo da teoria – a vida, em todas as suas formas –  se está a desenvolver. Não para tratar a teoria como uma coleção religiosa de dogmas e posições, desligada do tempo histórico. O desenvolvimento criativo é necessário perante a revisão oportunista dos princípios e leis teóricos iluminados pela visão marxista do mundo. Não nos esqueçamos de que a revisão teórica é a maior parte das vezes utilizada sob o falso pretexto de enfrentar novos e complexos problemas e fenómenos.

O desenvolvimento criativo da teoria é, certamente, uma tarefa difícil. A pesquisa teórica sobre as leis e a evolução da estrutura económica do socialismo apresenta particulares dificuldades objetivas, quando comparadas à formulação teórica marxista da economia política do capitalismo.

Lembremo-nos que, quando Marx investigava as leis e o funcionamento da economia capitalista, tinham passado séculos desde o surgimento da produção capitalista no seio da sociedade feudal. As relações capitalistas fizeram a sua primeira aparição já no século XVI. No final do século XVI, tivemos o primeiro Estado capitalista na Holanda e, no século XVII, a revolução burguesa na Inglaterra. No final do século XVIII, o modo de produção capitalista prevalecia na Europa Ocidental, com a vitória da Revolução Francesa.

Marx e Engels estudaram o sistema capitalista, como um objeto de conhecimento, num período em que ele existia relativamente maduro, em estado avançado, e em que se podia definir cientificamente todas as condições realmente necessárias para o surgimento e desenvolvimento do capitalismo, os processos internos e essenciais do seu desenvolvimento, em oposição a eventos históricos aleatórios e às suas formas históricas particulares e específicas. Marx e Engels discutiram, utilizaram e derrubaram os estudos teóricos burgueses de Smith e Ricardo, que os tinham precedido.

A tentativa de Lénine de formular a economia política marxista do socialismo começou com abordagens limitadas: a economia política marxista do capitalismo, os princípios teóricos e o método do materialismo dialético e histórico.

Ele teve de lidar com um grande problema objetivo, que foi mais tarde clarificado nas discussões do pensamento filosófico soviético (Ilyenkov, Vaziulin, etc.). Ele só pôde estudar de maneira concreta o início do surgimento das relações de produção socialistas após a revolução socialista na Rússia. Ele só pôde estudar os fundamentos do novo modo de produção, o socialismo. Ao mesmo tempo, ele teve a tarefa de descobrir as leis e prever as questões-chave que a tentativa de construção socialista teria de enfrentar no futuro, sob condições internacionais em que o papel das relações de produção capitalistas permaneciam poderosas e decisivas.

Por outras palavras, a investigação teórica podia focar-se de uma forma específica apenas no estado imaturo (do novo modo de produção), enquanto a economia política marxista do capitalismo olhava para o período maduro, quando as relações de produção capitalistas já eram dominantes e desempenhavam um papel decisivo no processo de desenvolvimento mundial.

Esta maior dificuldade na investigação teórica do curso da construção socialista, comparada com o estudo do modo de produção capitalista, é objetiva, porque, diferentemente da revolução burguesa, que encontra prontas as formas das relações capitalistas, o poder da classe operária ainda não herda relações de produção formadas. As relações socialistas-comunistas de propriedade social só emergem como resultado dos atos políticos revolucionários do poder da classe operária. A investigação teórica que devia apoiar, em qualquer momento, a prática revolucionária, a fim de moldar, expandir e aprofundar as novas relações sociais de produção, tem como objeto primário de estudo algo que está precisamente a nascer. Essa dificuldade objetiva pode facilitar o domínio do empirismo, o método “tentativa e erro” das abordagens positivistas, se não houver vigilância teórica e coletiva atempada.

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Hoje, porém, nós, comunistas, temos mais oportunidades e responsabilidades, porque podemos estudar a experiência histórica do século XX. Podemos estudar e investigar os problemas da economia política do socialismo, observando o curso histórico de décadas.

Ao mesmo tempo, podemos aproveitar-nos da construção socialista e das novas grandes possibilidades objetivas criadas pela era moderna da economia digital e pela “4.ª Revolução Industrial”.

Vale a pena ver quantas restrições técnicas e científicas para o sucesso da planificação central e o aprofundamento das relações de produção socialistas –, que existiam na Rússia de 1917 e na União Soviética, da década de 1950 –, não existem hoje.

Pensar nas oportunidades que o aumento da produtividade no trabalho oferece hoje para aumentar o tempo de lazer e melhorar o conteúdo criativo do trabalho para os trabalhadores, que são a principal força produtiva em todas as épocas. Aqui também devemos levar em conta o exército de cientistas assalariados que, objetivamente, pertencem ou se aproximam da moderna classe operária, um exército que não existia em outubro de 1917.

Pensar nas novas possibilidades da planificação científica, na possibilidade de tomar decisões rápidas e ótimas sobre problemas complexos, utilizando os recursos modernos para recolher rapidamente e processar intensivamente grandes volumes de dados e informações relevantes para a totalidade das necessidades da sociedade. Pensar nas novas possibilidades tecnológicas e científicas para garantir não apenas a adequação dos produtos, mas também a sua melhor qualidade, nos novos recursos para melhorar e controlar rapidamente a produção, nos novos recursos para prevenir e enfrentar os “grandes” acidentes industriais que estão a colocar em risco milhares de pessoas.

Outro aspeto diz respeito às novas possibilidades de investigação interdisciplinar, livres das cadeias da concorrência de mercado, que têm o objetivo de salvaguardar o lucro capitalista. Isto é, a capacidade da investigação interdisciplinar para prever de forma atempada e precisa as futuras necessidades sociais e identificar as prioridades da economia.

Vamos considerar também, dentro da estrutura da construção socialista, o ímpeto que o desenvolvimento criativo do marxismo pode dar à investigação moderna e, em geral, ao processo do conhecimento.

O progresso da investigação científica marxista em todas as disciplinas científicas e na cooperação interdisciplinar contribuirá para a melhoria da documentação científica dos específicos planos quinquenais para o desenvolvimento planificado da economia socialista. Serão superadas as barreiras de natureza epistemológica que dificultam a total correspondência da planificação com as exigências das leis da construção socialista.

O progresso científico ajudará a determinar com mais precisão as proporções quantitativas necessárias para manter um crescimento proporcional entre os principais setores da economia e entre as regiões de um país, assim como nas questões da divisão do trabalho entre Estados, no caso de se tratar de um grupo de países que marche novamente no caminho da construção socialista.

É claro que, juntamente com o surgimento de novas oportunidades também surgiram  novos problemas, criados por essas mudanças na produção, no conteúdo de muitas tarefas laborais específicas e, claro, no correspondente conteúdo da educação.

Confrontados com os novos grandes problemas decorrentes da nova era da 4.ª revolução industrial, sobressai ainda mais a necessidade e a atualidade históricas do socialismo, pois só o poder da classe operária pode fornecer respostas consistentes a esses problemas, na perspetiva do bem-estar social.

O socialismo pode responder às mudanças necessárias no conteúdo do trabalho, aos necessários movimentos de trabalhadores para novas tarefas e objetivos de trabalho, para novos setores, sem que os trabalhadores estejam em risco e a viver com medo de ficar desempregados, sem seguro e sem assistência médica, como acontece no capitalismo.

Sob as condições da propriedade social e da planificação, ao contrário da selva do mercado, pode determinar-se e alterar-se, de maneira científica e planeada, a distribuição da força de trabalho e científica e dos meios de produção em todo o país, em cada região e em cada setor.

O socialismo pode garantir a necessária e contínua especialização e reciclagem, a atualização do conhecimento e das aptidões laborais dos trabalhadores. Pode desbloquear e libertar as suas capacidades criativas, porque as traz coletivamente para a vanguarda do desenvolvimento histórico, para a libertação social. Pode aproveitar o poder do esforço coletivo e o ímpeto da emulação socialista.

Tudo o que antes se disse realça as importantes tarefas do estudo e da investigação para o desenvolvimento criativo do marxismo-leninismo que temos diante de nós, a fim de agirmos, de facto, como uma vanguarda revolucionária no século XXI. Os nossos partidos, o KKE e o Partido Comunista da Turquia, cooperam, decisiva e criativamente, nessa direção. O poder da classe operária para entender, conhecer e mudar o mundo, o seu poder para cumprir a sua missão histórica e liderar a luta revolucionária pelo socialismo- comunismo será reafirmado.

Fonte:  bilimveaydinlanma.org

Matter, Dialectics and Society”,

Volume III, Edição I

Fonte: http://www.idcommunism.com/2020/02/which-characteristics-will-socialism-have-in-the-21st-century.html?m=1&fbclid=IwAR1_N7sEMDM7DPlprLKdRLJALaxKkXCLF0Yz_bYGLzfAiI44kAWANQReaZg, colocado em 2020/02/20, acedido em 2020/03/03

Tradução do inglês de PAT

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/que-caracteristicas-tera-o-socialismo-91119

Paz social não é armistício, é rendição.

Passam setenta e cinco anos sobre a libertação dos prisioneiros do campo de concentração nazi de Auschwitz. Foi quando o Exército Vermelho, vitorioso e caminhando sobre o Ocidente pela Polónia abriu os portões de Auschwitz que os sete mil e quinhentos últimos sobreviventes viram que o seu futuro não seria o crematório. Não sem que antes mais de um milhão de prisioneiros ali ter sido assassinado das formas mais bárbaras pelo capitalismo nazista.

Os que fazem os filmes e a nova historiografia que apaga ou esconde o papel da União Soviética na derrota dos nazis na Segunda Grande Guerra são os mesmos que dão por adquirido o capitalismo como fase final da História da Humanidade. Afinal de contas, o seu objectivo de manter e agravar o sistema de exploração capitalista mais depressa passará pela reconstituição dos fascismos do que pelo abrandamento da exploração capitalista. A acumulação capitalista não é compatível com a regressão dos seus poderes. Qualquer recuo por parte da classe dominante – em função das lutas das classes dominadas – é necessariamente transitório pois que, segundo as leis do capitalismo, não existe “capitalismo de manutenção”, o “capitalismo ou acumula ou morre”. Isto significa que a ideia de desenvolvimento “nórdico”, “ocidental”, “europeu”, com todas as suas nuances não passa do embuste ideológico que a classe dominante monta para conter a força torrencial do proletariado.

O próprio “eurocomunismo” e outras degenerescências do projecto comunista são apenas expressões dessa visão enviesada da luta de classes que aceita a ideia de que é possível, partindo das conquistas operárias no contexto da democracia burguesa, construir pedra sobre pedra uma democracia que dê resposta aos problemas dos trabalhadores através de alterações sucessivas na correlação de forças política e institucional em favor dos trabalhadores. Há um erro basal na construção de tal “teoria”: a de que em algum momento histórico – independentemente da sua duração – a classe dominante se permitiria ser espoliada dos seus privilégios sem retaliação. Retaliação ideológica, cultural, económica e militar. Tal modelo de desenvolvimento do capitalismo como etapa que se extinguirá pela mera acção de forças progressistas com propostas e projectos, mesmo que acompanhada de uma luta de rua, confronta-se com o inevitável muro da realidade que nos demonstra sem margem para dúvidas que não é possível colocar o edifício legislativo e estatal burguês ao serviço de qualquer outra classe, independentemente do número de remendos que sobre ele, com mais ou menos frequência, lhe consigamos fazer.

“Nada é mais parecido com um fascista do que um burguês assustado” resume bem o que se pode esperar de um avanço tímido das forças progressistas. Ao mesmo tempo, o compromisso de forças progressistas com o funcionamento do capitalismo, mais ou menos humanizado, com a governabilidade e estabilidade de um sistema que é a instabilidade da vida dos trabalhadores no médio e no longo prazo redunda no envolvimento dessas forças com esse sistema a um ponto em que se torna cada vez mais imperceptível para as massas a distinção política e ideológica entre o que deveriam ser dois polos essencialmente antagónicos.

Afirmar isto não significa negar a tese marxista de que cada sistema contém elementos e características dos sistemas que o precedem e do sistema que o sucederá. O capitalismo contém características do feudalismo, como contém características do socialismo. Mas isso não significa que reformas, remendos mais ou menos pontuais ou abrangentes sobre o sistema actual, o aproximem do que o sucederá pelo simples facto de que quanto mais obrigada for a burguesia a recuar sem que lhe seja retirado o poder político e económico, mais agressiva esta se torna enquanto classe e mais instrumentos e mecanismos colocará ao serviço dos seus objectivos.

O primeiro objectivo dos comunistas não pode, pois, ser outro, senão o da revolução socialista, sendo que outras intenções intermédias não se podem constituir como fins mas como instrumentos para que sejam criadas condições para a concretização do primeiro. A fusão entre o que é tático e o que é estratégico torna-se fatal quando as tarefas objectivas dos comunistas se orientam para ilusões eleitoralistas ou para a reivindicação para si mesmos de melhorias tímidas e pontuais que resultam da variável correlação de forças das instituições burguesas.

A agressividade da classe dominante é hoje sentida em Portugal, por exemplo, precisamente na medida em que são introduzidas melhorias pela acção, por exemplo do PCP e do BE, no quadro da legislação nacional. Todavia, essas melhorias não deixam de ser acompanhadas por um sentido geral negativo – ainda que tendencial -, de consolidação da força dos monopólios, de desvio de recursos para o centro económico da União Europeia, para a banca privada, e por um recrudescimento das formas mais reacionárias da política de direita, incluindo dentro do próprio estado.

O racismo, o individualismo, a discriminação com base no sexo, a cultura do ódio, o medo e a sensação de insegurança são amplamente difundidas pelos órgãos da burguesia, criando um enorme reservatório de população reacionária que aguarda o recipiente certo no plano político para ser organizado e criar uma resposta fascista à disputa do poder, contando com o apoio da classe dominante em todos os aspectos. Esse risco é ampliado pela segmentação das lutas, segmentação para a qual muitos dos que se dizem de “esquerda” contribuem, mas para a qual contribui também a incapacidade de incorporação, por falta de atracção ou prioridade do movimento operário, dessas lutas com as suas questões próprias na luta mais ampla pela revolução.

Estamos na fase da passagem do capitalismo ao socialismo.

Estarmos capazes de operar essa mudança é fundamental para o sucesso dessa tarefa histórica que só ao proletariado cabe. E não cabe a nenhuma franja do proletariado, cabe à sua totalidade, ainda que dirigidos pela sua vanguarda de classe. Não existirá uma ruptura funda com o sistema capitalista enquanto da própria luta de classe estiverem alheados os negros da periferia, os despojados de habitação na cidade, os jovens atirados para o ensino profissional desqualificado, as mães despedidas, as mulheres oprimidas, os homossexuais e transexuais reprimidos, os deficientes excluídos, enquanto a política nacional estiver centrada nos assuntos institucionais da república espectáculo e se os comunistas não utilizarem os seus palcos parlamentares para denunciar e desmascarar a ingovernabilidade do capitalismo, sob a batuta de PS seja, com D ou sem D.

 

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/01/paz-social-nao-e-armisticio-e-rendicao.html

Portugal NÃO é um país socialista

Nos últimos 10 anos de vida passei grande parte deles em Portugal, país que se tornou a minha casa e meu refúgio. No período em que cheguei na “terrinha” começava um movimento de retorno de muitos compatriotas ao Brasil, pois o país estava a passar pelo pior período da sua história recente, a viver os refluxos da Crise de 2008. A grave crise económica portuguesa foi agudizada ainda mais pelas imposições da TROIKA e o governo neoliberal de Pedro Passos Coelho. Tive a tristeza profunda em presenciar várias pessoas serem despejadas de suas casas por não terem condições de pagar o aluguer e, colegas e alunos que passavam a semana toda a comer massa com atum enlatado para poder sobrar dinheiro para pagar as despesas de moradia.

Após as eleições para Assembleia da República em 2015, a coligação de direita ainda teve maioria para formar governo, contudo, não era uma maioria absoluta. Ou seja, os partidos de “esquerda” tinham mais deputados do que a direita. E é nesse contexto económico (pauperismo da classe trabalhadora) e político (evitar mais 4 anos de governo neoliberal) que surgiu a tal geringonça, tão adora por parte da “esquerda” brasileira. Essa “unidade” da esquerda (governo era do PS e apoiado pelo Partido Comunista Português, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista “Os Verdes”) não foi o resultado de uma ideia a priori, mas as consequências dos movimentos políticos e de resistência da classe trabalhadora. Sobre o Partido Socialista posso-vos dizer que só tem socialismo no nome, pois seus governos servem com um belo sorriso aos interesses da burguesia e aos ditames neoliberais da União Europeia; por sua vez, a classe trabalhadora nunca foi e não é a prioridade da luta política do PS.

Nos últimos anos o número de imigrantes brasileiros que têm vindo a Portugal aumentou deforma significativa. Todavia, segundo os dados do SEF (Serviço de Estrangeiro e Fronteira) grande parte apresenta “boa” qualificação profissional e afins. Para eles há uma mudança no perfil do emigrante brasileiro, segundo reportagem do Jornal Público.

Por outra palavras, é a classe média brasileira que vem para Portugal em busca de segurança e uma razoável qualidade de vida. O exemplo típico é a celebridade Luana Piovani.

Peço desculpas ao leitor em ter me alongado, mas sem dizer tudo isso não faz sentido eufalar de um mito que muitas pessoas que se dizem de esquerda andam a propalar pelas redes sociais no Brasil: “Vota no Bolsonaro e vai viver em Portugal, um país socialista” - ou coisas do género. Isso é Fake News!

Para a minha grande tristeza, Portugal não é e nunca foi um país socialista, apesar de ter se libertado do fascismo da Salazar com um movimento revolucionário de cariz socialista. Gentilmente, peço-vos, parem de falar coisas que não são verdadeiras, pois isso só faz esvaziar a referência do que é ser um país socialista.

Posso enumerar muitos problemas estruturais que afectam a classe trabalhadora em Portugal todos os dias, nas suas mais variadas formas. Um exemplo típico: se você ficar 3 dias de atestado médico em casa, será descontando do seu salário e não há cobertura por parte da seguridade social; então, muitas pessoas vão trabalhar mesmo doentes. Outro: se for numa consulta médica no centro de saúde terá que pagar uma taxa moderadora que varia de 25 a 70 reais e a depender no seu quadro clínico ficará umas 4 a 5 horas para ser atendido. Para estudar numa universidade pública, paga-se no mínimo 5 mil reais por ano. E poderia continuar, mas não quero me estender.

Escrevi no Twitter: Portugal não é um país socialista, mas uma nação que tem resquícios do Welfare State que está em decomposição. Os partidos de “esquerda” que têm expressão eleitoral e nos movimentos trabalhistas e sociais não têm como eixo central do seu discurso e intervenção política a Revolução Socialista e a luta de classes; o dogma da “santa propriedade privada” dos meios de produção não é colocado como causa primeira dos problemas sociais; muito menos partidos que assumam com firmeza pautas como abolicionismo penal. Ou seja, os problemas centrais e estruturais não são combatidos e denunciados! Não temos uma esquerda radical com expressões nas massas trabalhadoras.

Portugal Não é um país socialista, por agora, mas a nossa esperança é que num futuro bem próximo possamos colocar fim a barbárie da exploração capitalista. O SOCIALISMO é lindo, mas por agora esse cravo e espírito revolucionário não floresceu na terra de Fernando Pessoa.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/portugal-nao-e-um-pais-socialista

China assombra o mundo e tira 850 milhões de pessoas da pobreza

A China está próxima de extinguir a pobreza. Os dados são espetaculares. E os chineses são mais rigorosos que o Banco Mundial na definição de 'linha da pobreza'. Isso, em um governo oficialmente "comunista".

E pensar que Lula realizou praticamente a mesma proeza em um país capitalista selvagem, infestado por uma elite predatória e apátrida, com forte corrupção empresarial e dono da imprensa mais desqualificada do mundo.

Essa imprensa brasileira celebra a China neste momento, até para fazer doer mais ainda sua indiferença com o combate à pobreza bem sucedido dos governos Lula e Dilma.

A China tirou 850 milhões de pessoas da pobreza desde 1978. É a maior economia do mundo no índice 'Big Mac' (Paridade do Poder de Compra): seu PIB de 2017 foi de 23.159 bilhões. A União Europeia vinha em segundo lugar, com 20.989 bilhões e os EUA só em terceiro, com 19.391 bilhões.

Hoje, a diferença deve ser muito mais elástica, porque a China cresce muito mais que seus principais concorrentes.

Sim, a China, um país comunista.

Talvez, tenha chegado a hora de atualizar as configurações sobre o sentido de "comunismo". Aquele comunismo do passado que produzia pobreza e escassez me parece extinto.

Esse é o dilema político deste momento: a China se tornou a maior potência econômica mundial, com seu comunismo 4.0 que, para desespero dos capitalistas, não deixa de ser comunismo.

Muitos economistas liberais se negam a aceitar que a China seja comunista, justamente porque não têm argumentos para admitir o sucesso econômico do país. Eles travam uma batalha semântica. Dizem que "aquilo" não é comunismo.

 

Ora, e quem define o que é comunismo, cara pálida?

Na verdade, o comunismo não ficou parado no tempo, como o capitalismo, essa máquina de produzir pobreza social.

Duvidam?

Os EUA têm 140 milhões de pessoas na pobreza, diz a ONG Poor People's Campaign. É importante dizer que a linha da pobreza estadunidense é diferente da linha da pobreza do Banco Mundial (lá são US$ 31/dia, no mundo, US$ 1,9).

Mas não deixa de ser um escândalo. O berço do capitalismo com 43% da população em condições de miséria é uma senhora pedra no meio do caminho do liberalismo.

E os EUA não têm SUS nem universidade pública.

O mundo vive essa tensão conceitual. Com a internet, houve uma onda de informações mentirosas que espalharam o pânico em leitores preguiçosos (que não sabem checar informações), mas também uma tsunami de informações diretas, sem o filtro editorial das agências internacionais pró-Ocidente, que também espalharam um pânico, só que o pânico de se deparar com a verdade pela primeira vez na vida.

Esse volume colossal de informações, sob o crivo de milhões de usuários de rede que sabem ler (que são a melhor checagem e significam a 'sobrevivência' da informação nas redes não instrumentalizadas), amenizou o isolamento de regimes supostamente "fechados".

Isso explica em parte o fenômeno chinês de crescimento, distribuição de renda e produção das tecnologias, estas últimas que, ao que tudo indica, irão dominar o mercado internacional nos próximos anos (a tecnologia 5G, por exemplo).

Eu diria: o capitalismo nunca esteve tão em xeque como no presente momento. E a opção a ele não é mais o comunismo obsoleto dos anos 50, mas o comunismo chinês de 2020, que produz uma soberania tecnicamente irretocável, uma diplomacia inteligente e protege seu povo e sua força de trabalho de maneira obsessiva.

É praticamente a antítese dos EUA, que empesteiam o mundo com ódio e violência.

E pensar que Lula promoveu essa engrenagem virtuosa de produção de riqueza dentro dos parâmetros capitalistas.

Seguindo esse raciocínio, Lula seria a última esperança do capitalismo, pois ele construiu um governo capitalista que deu certo e que seguiu princípios humanistas de combate à pobreza e à desigualdade.

Tristes tempos em que nós, brasileiros, temos de lamentar a proscrição criminosa de uma das maiores experiências de governança pública da história - para erigir o mais abominável dos seres e maior destruidor de futuro que a humanidade já teve a infelicidade de testemunhar.

Talvez o PT seja a eterna vacina contra a procrastinação estrutural da sociedade brasileira: nos tempos de Lula e Dilma, o Brasil era o país do presente, incensado pelos principais analistas internacionais como uma espécie de ponto de equilíbrio econômico global.

Tinha superado a síndrome de "país do futuro".

Com Temer e Bolsonaro, o Brasil sequer volta a ser o país do futuro, do presente ou do passado. Não há tempo verbal que se permita conceder algum significado a "isso" que assistimos por aqui.

O Brasil mergulhou na solidão geopolítica e na devastação moral interna para ser o "país da humilhação".

Hoje, posso dizer com frieza de um cético: é uma humilhação ser brasileiro.

Lula e o PT, no entanto, são as nossas reservas de esperança. São entidades que convivem democraticamente com a complexidade brasileira, teimosos feito a Dona Lindu.

Eles reforçaram a democracia brasileira enquanto ela existiu. Perderam eleições, sofreram ataques covarde, mas tiveram a decência e a dignidade de travar um debate civilizado com toda a sociedade brasileira até chegarem ao governo e demonstrarem uma gigantesca capacidade técnica, conceitual e moral para conduzir o país, com resultados absolutamente impensáveis nos tempos sombrios de FHC, para lembrar o mais apagado dos antecessores.

Para eles, nada nunca estará perdido. São os inimigos reais do sistema (e os mais perigosos, pois usam o próprio sistema para vencê-lo).

Esta semente ninguém pode desplantar.

JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – SOCIALISMO AGORA

SOCIALISM NOW

Fabian Society, 9 de Outubro de 2012,

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Em 1974, Tony Crosland, o principal intelectual do Partido Trabalhista do pós-guerra, escreveu o seu último grande trabalho, Socialismo Agora. Três anos depois, morreu . O título pode ser entendido de duas maneiras. A primeira é uma análise do socialismo (ou social-democracia) nas condições contemporâneas, uma avaliação do passado recente e da melhor forma de avançar. Isto ele fez com uma avaliação crítica do governo Wilson de 1964-70 e das suas lições para a próxima administração trabalhista. Mas também pode significar uma exigência  instantânea de socialismo. Provavelmente, é mais uma vez o momento para o socialismo agora, em ambos os sentidos do termo. O governo de coligação  parece cada vez mais de direita, enquanto a liderança de Ed Miliband se aproxima agora de seu terceiro ano.

 

Precisamos  de defender mais uma vez o socialismo. Isto tem como base a forte crença de que os fins (valores) são a base adequada para os meios (políticas) se o Partido Trabalhista deve, primeiro, ganhar a próxima eleição geral, e depois ser um governo radical. Há três elementos para essa reavaliação do socialismo. O primeiro é fornecer uma descrição clara dos valores socialistas, realçando  os seus fundamentos liberais contra os apelos a uma base comunitarista ou mesmo conservadora. A segunda é voltar a sublinhar a importância do Estado central como mecanismo essencial através do qual o socialismo é realizado, rejeitando o localismo e os argumentos sobre a falta de capacidade governativa. O elemento final é que o socialismo assim entendido é inerentemente democrático e tem implicações para a estratégia política e eleitoral do Partido Trabalhista atual.

Os valores socialistas

Como Tony Blair disse uma vez, embora talvez se tenha arrependido mais tarde, os governos não têm leme sem um conjunto claro de princípios orientadores. É o compromisso com fins claramente percetíveis que define governos radicais. Foi o caso do governo liberal de 1906-14, do governo trabalhista de 1945-51 e dos governos conservadores de 1979-97. Cada um tinha um claro senso de propósito e de  missão.

 

Uma das características marcantes ao ler o trabalho de Crosland, ou o de outros líderes revisionistas do pós-guerra, como Hugh Gaitskell ou Douglas Jay, é a confiança que eles tinham na sua ideologia socialista. Desde a década de 1970, os socialistas perderam a confiança na sua doutrina em face da contra-revolução neoliberal, apesar de alguns trabalhos muito eficazes de Roy Hattersley e Raymond Plant na década de 1980. A terceira via de Blair e Tony Giddens poderia ser vista como a capitulação final perante a globalização e os mercados livres. A crise bancária e a recessão deveriam agora instilar um maior sentido de crença nos socialistas que viram o neoliberalismo fracassar de forma tão espectacular.

 

Crosland salientou que o socialismo não é um compromisso com certos meios, como a nacionalização, mas é sim um compromisso com fins a alcançar. Os principais fins são a igualdade, a justiça social, os direitos e a liberdade. O mecanismo: a democracia. O objectivo: a emancipação individual. O socialismo, devidamente entendido, é uma doutrina libertadora. Não se trata da extensão do poder estatal à custa da liberdade individual, nem é puritanismo.

 

Em primeiro lugar, a igualdade foi o princípio que mais claramente definiu os socialistas em relação aos seus opositores políticos. Sem um empenho absoluto  com a igualdade, o socialismo não tinha sentido.  Igualdade não significava uma completa igualdade de resultados em que o duque tinha tanto quanto o homem que lhe trata da rega do jardim, mas significava mais do que igualdade de oportunidades em que todos tinham as mesmas oportunidades de competir pelas melhores formações  e salários. Envolveu a ideia radical de que os mercados produziam resultados injustos, recompensando excessivamente aqueles que eram bem sucedidos no mercado e penalizando aqueles que não o eram. Uma vez que não fomos totalmente responsáveis pela nossa posição em relação à distribuição de recursos, não conseguir retificar as desigualdades que foram criadas pelo mercado seria uma injustiça. A forma mais eficaz de corrigir estas desigualdades injustificadas foi através da tributação redistributiva. O resultado foi uma sociedade mais justa. Os argumentos recentes sobre a “pré-distribuição” – reformar a economia para evitar a criação destas desigualdades injustificadas – são uma evolução positiva, mas não substituem a necessidade de redistribuir: primeiro, estimular a atividade económica em tempo de recessão; segundo, corrigir as injustiças já existentes; e, também, assegurar que o mercado continue a agir de uma forma que não infrinja ainda mais a justiça social.

 

Sem a correção de desigualdades injustificadas, os direitos fundamentais não poderiam ser concretizados. Os desfavorecidos teriam mais probabilidades de ter um fraco desempenho na educação, de sofrer de problemas de saúde e de morrer numa idade mais jovem. Além disso, a igualdade e a justiça social são  necessárias para alargar a liberdade individual. A liberdade só faria sentido no uso positivo desse termo; isto é, a menos que alguém tenha os meios para dar efeito prático à sua liberdade teórica, caso contrário não é então verdadeiramente livre. Alguns dos privilégios dos afortunados podem ser perdidos como resultado da redistribuição, mas o aumento da posição absoluta e relativa dos mais desfavorecidos prolongaria a sua liberdade prática.

 

O que impressiona nesta compreensão do socialismo é o seu radicalismo em comparação com os anos do New Labour, onde houve uma redistribuição significativa, mas o fosso entre ricos e pobres aumentou à medida que os aumentos de salários e bónus no topo ultrapassavam os ganhos fiscais para os que estão na base. O New Labour parecia muito disposto a aceitar tais desigualdades em nome da concorrência global ou da eficiência económica. Eles defenderam  a meritocracia, enquanto os socialistas tinham-na tradicionalmente rejeitado.

 

Também significativa é a natureza inerentemente liberal do socialismo. A visão neoliberal da liberdade – de que as pessoas são livres enquanto não estão sujeitas à coerção – não fornece uma compreensão adequada da liberdade, que só os socialistas compreendem adequadamente: que sem igualdade as pessoas não podem ser verdadeiramente livres. O objetivo é a emancipação de todos os cidadãos nas sociedades em que vivem. Estes princípios abstractos constituem a base mais eficaz para uma abordagem socialista dos grandes males económicos e sociais da atualidade. Os apelos à comunidade e à tradição – mais recentemente associados ao Blue Labour  – são, pelo contrário, inadequados e podem funcionar contra o tipo de sociedade que os socialistas desejam criar. Os defensores do Blue Labour  parecem nostálgicos no seu apelo à solidariedade da classe trabalhadora, enquanto as tradições são constantemente feitas e refeitas à luz da evolução das circunstâncias sociais e económicas. O apelo emocional e intelectual do socialismo liberal é, portanto, muito maior do que o do “Blue Labour “.

 

O socialismo e o Estado

Outro argumento popular nos últimos tempos tem sido o localismo. O Estado central é considerado distante, burocrático e autoritário, enquanto as pessoas podem ser responsabilizadas nas comunidades locais participativas.

 

Deve-se salientar que este foco no localismo, que tem sido uma característica do Blue Labour e do Purple Book Progressive[1] , é uma reação excessiva à agenda da “grande sociedade” e é fútil e irrelevante em muitos dos desafios centrais que a Grã-Bretanha enfrenta hoje. Não há dúvida de que a sociedade de teatro amador local, a associação comunitária ou o instituto das mulheres estão cheios de cidadãos bem-intencionados, mas é impossível encontrar formas de resolver as grandes questões da atualidade, como a recessão económica, a regulação dos bancos, a crise da zona euro e as alterações climáticas. Só o Estado central o pode fazer.

 

Foi este o argumento que apresentei numa recente contribuição para o debate com Roy Hattersley e que ainda me parece incontroverso. Em  momento algum dissemos que o Estado central deve agir isoladamente. Em alguns casos, o Estado central deve trabalhar com o governo regional e local e, noutros casos, com instituições internacionais como a União Europeia, mas deve agir. Também não significa que os centralistas se oponham à reforma democrática do Estado.

 

Os localistas entendem mal a natureza do poder, que muitas vezes é menos sobre o “poder para” e mais sobre o “poder sobre”. Para ganhar poder, outra pessoa deve perdê-lo. Dado que o poder considerável reside nas grandes empresas, tais transferências de poder só podem ser alcançadas pelos estados-nação. Ao retirar o poder às elites empresariais do setor privado, o Estado socialista democratiza o poder económico no interesse de muitos. Crosland argumentou que essa transferência de poder já tinha ocorrido na Grã-Bretanha nos anos 50, uma vez que a classe capitalista tinha perdido o poder para o Estado, para o trabalho organizado e para uma classe empresarial autónoma. Muitas destas mudanças foram invertidas pelo Thatcherismo e agora é necessário reconsiderar novamente estas questões.

 

No entanto, alguns responderiam que o Estado não pode agir porque foi esvaziado de conteúdo por processos como a globalização. Esta ideia, pode ser argumentado, teve um efeito importante no New Labour. O papel do Estado limita-se a manter a confiança dos mercados financeiros e a atrair para o país o  investimento  das empresas multinacionais. Estamos, segundo os teóricos da globalização, num mundo sem fronteiras onde os Estados não têm qualquer poder para seguir um rumo diferente. No entanto, mesmo um olhar rápido sobre as diferentes estruturas estatais que existem atualmente mostra claramente que não estamos num mundo de tamanho único para todos e que existem melhores modelos de capitalismo que poderiam ser seguidos por uma administração trabalhista do que o modelo dos Estados Unidos neoliberais – como o sistema mais assistencialista na Suécia ou o modelo corporativista alemão, com a sua ênfase no planeamento e na parceria entre gestores e trabalhadores. Ambos os sistemas provaram ser mais resistentes à crise bancária do que a economia britânica, que dependia excessivamente dos serviços financeiros.

O socialismo e o eleitorado

Aparentemente seguros no conhecimento de que a história estava do seu lado e que a vitória final do comunismo era inevitável, os socialistas marxistas não sentiram a necessidade de convencer o eleitorado da superioridade moral do socialismo. No entanto, mesmo no final do século XIX, os revisionistas a partir de Bernstein têm apontado o fracasso da análise marxista em explicar os desenvolvimentos do capitalismo, enquanto o colapso do comunismo na Europa Oriental mostrou que não era a fase final da história.

 

Sem essa fé nas leis da história, os socialistas democráticos tiveram de persuadir o eleitorado de que o socialismo oferecia o caminho para uma sociedade melhor e uma forma superior de organização económica. O socialismo, entendido na sua forma não marxista, é uma doutrina inerentemente democrática. Ele envolve a elaboração e apresentação de argumentos ao eleitorado para ganhar o  seu apoio e confiança para que o socialismo possa ser introduzido através do Estado.  Inicialmente carente de uma teoria económica rigorosa, o Partido Trabalhista recorreu fortemente à análise keynesiana na década de 1930 e conseguiu apresentar-se com sucesso ao eleitorado em 1945 e novamente em 1966, com vitórias menores em 1950, 1964 e 1974.

 

Muitas vezes, porém, o Partido Trabalhista parece não ter fé na sua própria ideologia.  Isto era verdade para muitos à esquerda do partido nos anos 50 e início dos anos 80, que argumentavam que era melhor esperar na  oposição pela inevitável crise do capitalismo  para que, quando forem eleitos, poderem então introduzir o verdadeiro socialismo. O New Labour, embora em todos os outros sentidos distante da esquerda trabalhista, também partilhava esse sentimento de pessimismo de que o socialismo pudesse  ser popular numa base regular. Houve um compromisso, um trade-off,  entre poder e princípios e, portanto, o socialismo deve ser abandonado para alcançar o poder. A eleição geral de 1992 foi, sem dúvida, a última vez que o Partido Trabalhista apresentou um manifesto socialista.

 

É essencial que o apelo eleitoral do Partido Trabalhista seja mais ideológico, dados os grandes choques económicos dos últimos quatro anos e a natureza do desempenho eleitoral do Partido Trabalhista desde 1997. A melhor forma, senão mesmo a única forma de o Partido Trabalhista ganhar, é ser explícito no seu compromisso socialista. Uma determinação para igualar os cortes de despesa pública  da coligação, como é defendido por alguns, não é uma estratégia eleitoral viável, para não falarmos também dos argumentos éticos contra uma tal postura política.

 

Entre 1997 e 2010, o Partido Trabalhista perdeu cinco milhões de votos. A maior perda de votos ocorreu entre 2001 (já em baixa desde 1997) e 2005, com quatro milhões de votos perdidos sob Blair e mais um milhão sob Brown. Destes cinco milhões, apenas um milhão foi para outros partidos. Alguns foram para os Conservadores acreditando que tinham realmente mudado, enquanto outros foram para partidos alternativos situados  ” à esquerda do centro”, incluindo os Liberais Democratas, SNP e Plaid Cymru. Quatro milhões de pessoas abstiveram-se. A explicação mais provável para isto é que muitos eleitores ficaram desiludidos com o Novo Partido Trabalhista e, portanto, responderiam positivamente a um partido trabalhista mais radical.

 

A ênfase Blairista  num apelo ao “eleitor mediano” inamovível e àqueles que sofrem de “desconforto do sul” com base em sondagens de opinião e dados focados sobre  grupos  é inadequada, tanto como estratégia eleitoral como uma  crença socialista na capacidade de transformação democrática da economia e da sociedade através do Estado. A democracia, tal como os socialistas entendem o termo, não é passiva, mas sim pró-ativa, envolvendo liderança e debate na crença de que o socialismo pode ser tornado relevante e popular e que a opinião pública responde aos argumentos políticos.

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Em momentos de agitação, como aquele em que vivemos agora, há uma oportunidade para reformular a agenda política. Não é inevitável que a opinião política avance para a esquerda. Na verdade, pode mover-se para a direita, pois as pessoas procuram bodes expiatórios como culpados pelas dificuldades atuais. Só defendendo o socialismo poderemos persuadir as pessoas de que a esquerda oferece uma alternativa melhor, com valores mais atraentes e políticas mais sensatas. Uma vez que oferece as únicas respostas reais para as grandes questões do nosso tempo,  o socialismo é, tal como acima referido, -democrático; transformador; preocupado com as questões reais, que só podem ser abordadas através da ação concertada do Estado central; e baseado em valores socialistas explicitamente liberais – essa é a base mais adequada para o Partido Trabalhista à medida que avança para as próximas eleições gerais e mais além.

 


[1] Constituído por políticos trabalhistas  de que muitos são considerados como pertencendo à ala blairista do Partido Trabalhista.

 

Fonte. FABIAN SOCIETY-THE FUTURE OF THE LEFT SINCE 1884, SOCIALISM NOW, texto disponível em: https://fabians.org.uk/socialism-now/

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/12/18/jeremy-corbyn-um-politico-que-se-distingue-pela-sua-seriedade-socialismo-agora/

Um outro mundo é possível!

Como socialistaincomoda-me a tendência de alguns dirigentes socialistas (e espante-se, até do Bloco!) em considerarem-se sociais-democratas.
O termo obedece a conceitos que nada têm a ver com o Socialismo enquanto sistema alternativo ao capitalismo, tendo apenas a ver com uma forma de reformismo eivado da pretensão de tornar mais suportáveis os métodos da atual exploração do homem pelo homem. Daí que, pese embora ter ficado associado a formas de governo, que foram-se progressivamente desviando do que ele propusera nos seus textos teóricos, Marx ficou injustamente depreciado com a queda do Muro de Berlim. E, no entanto, os meios académicos não são os únicos a reconhecerem-lhe o mérito de ter construído a análise mais aprofundada, e correta, sobre o capitalismo. Também nos meios financeiros há quem se aperceba da justeza desses argumentos, porque o seu postulado fundamental mantém-se pertinente: o capitalismo é instável, as crises sucedem-se e as sociedades vão vendo agravadas as desigualdades de rendimento entre os detentores dos meios de produção e os que apenas têm a força do trabalho para venderem como empregados daqueles. As últimas décadas têm acentuado esse desequilíbrio de rendimentos entre o fator capital e o fator trabalho não havendo ainda as mais do que justificadas tensões sociais, só porque o sistema teve a habilidade de neutralizar os partidos e movimentos políticos dotados de uma visão estratégica substantiva, sendo substituídos por contestações inorgânicas como as protagonizadas recentemente em França pelos coletes amarelos.

 

Não tivesse o movimento contestatário ao capitalismo perdido a noção do interesse coletivo em detrimento dos de raiz corporativa e estaríamos bem mais próximos do desiderato anunciado por Marx: o derrube de um sistema que levara os patrões a maximizarem a exploração da mão-de-obra no sentido de alcançarem o lucro máximo sob pena de serem substituídos por quem se mostrasse mais eficiente nesse objetivo.

 

O que Marx não anteviu foi que demorasse tanto tempo a chegar-se a essa agudização decisiva: vivendo exilado em Inglaterra na fase da intensificação da industrialização, ele assistiu à degradação das condições de vida dos operários que, em Liverpool, em 1869, só tinham uma esperança de vida de 28 anos, indicador que desde a Peste Negra nunca estivera tão baixo. Ele acreditou que as razões da revolta estavam a crescer de uma forma irreversível. Só que os reformistas, entre os quais se contaram os sociais-democratas, vieram aligeirar os níveis de exploração ao mesmo tempo que os lucros promoviam um rápido desenvolvimento económico, que tornava acessíveis, mesmo aos operários, o acesso ao consumo de bens anteriormente proibitivos.

 

Pode-se considerar que, ao longo do século XX, as condições de agudização social tendentes a apressarem ou a adiarem as condições para a mudança qualitativa do sistema económico, ora foram avançando, ora recuando. A globalização foi a derradeira oportunidade para o capitalismo iludir as populações com as vantagens da concorrência e da superioridade da propriedade privada. Sem poder expandir-se mais do que já conseguiu o capitalismo não consegue prosseguir com as suas economias de escala em mercados sem outras geografias por onde se expandir. Pode-se até considerar que, não fosse esse fôlego derradeiro garantido pela globalização e as desregulamentações laborais lançadas por Reagan ou Thatcher, já se teria agravado o panorama de emprego nas sociedades ocidentais, ainda assim, marcado pelo trabalho precário, pelo desemprego dos jovens e pela dura realidade de, em diversos países - a começar por essa montra mais vistosa do capitalismo, que são os Estados Unidos -, o facto de se ter um emprego (ou dois, ou três) não ser condição bastante para sair da espiral de empobrecimento por que passam muitos setores sociais.

 

Momentaneamente aqueles que poderiam incluir-se nos que Dostoievski crismou de «Humilhados e Ofendidos», podem andar a ser enganados por opiáceas religiões, tendentes a convencê-los de existirem paraísos no Além para quem aqui se conformar com o Inferno quotidiano. Podem errar ao deixarem-se arrastar por gente da extrema-direita, que anseia por os ter como exército de idiotas, que os ajude a criar melhores condições políticas para melhor os amordaçar. Ou podem subsistir outras formas de os enganar, seja sob a forma de fanatismos futebolísticos ou mentiras descaradas nos jornais, nas televisões ou nas redes sociais. Mas foi Brecht quem lembrou que um rio, que se veja muito apertado no seu leito, acabará por extravasar violentamente para as margens. E lá irá para o caixote do lixo da História este modelo económico que, hoje em dia, beneficia um número progressivamente diminuto de plutocratas e condena a enorme maioria à frustração de ter cada vez mais mês para caber em tão exígua paga.

 

Sobra, enfim, outro fator, que ganha crescente importância: se o capitalismo obriga a que se produza cada vez mais, sem olhar a como nem com quê, o aquecimento global e a redução progressiva dos recursos sustentáveis do planeta obrigam a pôr-lhe urgente fim. Como um número crescente de intelectuais e políticos começam a considerar, importa criar as bases sólidas de um Eco-Socialismo alternativo, que ganhe arrebatador apoio nos que pretendem ver cumpridos os pressupostos marxistas de uma maior igualdade na distribuição de rendimentos ao mesmo tempo que se respeite a sustentabilidade do planeta que nos serve de casa.

 

Como propunha Marx a meio do século XIX contra este capitalismo, que nos conduz para uma distopia apocalítica, só há uma solução: substitui-lo pelo sistema económico e social, que a História impõe que lhe suceda.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/um-outro-mundo-e-possivel.html

COMUNISMO NOS EUA?

 
 
Marino Boeira* 
 
Você já imaginou um país chamado Estados Socialistas da América do Norte? Em vez de USA (United States of America), SSNA (Socialist States of North America)
 
Utopia? Provavelmente. Mas, mesmo que seja um sonho quase impossível, existem alguns dados para justificar esse quase da frase.
 
Entre as décadas de 1920 e 1940, o Partido Comunista dos Estados Unidos, o Communist Party USA (CPUSA) foi um partido marxista bastante atuante, fruto principalmente da ação dos emigrantes italianos que chegaram ao País após a Primeira Grande Guerra.
 
Seus membros tiveram atuação importante nos movimentos sindicais e na defesa dos direitos civis dos negros.
 
Após a segunda guerra mundial, 1945, com o início da guerra fria e de uma ampla campanha de mídia, principalmente, o cinema, contra o comunismo, o partido foi diminuindo de importância, mas ainda permanece vivo.
 
O CPUSA, dirigido em escala nacional por Sam Webb, tem sua sede no Bairro Chelsea, em Nova York e conta hoje com entre 3 e 3,5 mil membros, mas seus dirigentes esperam que a atual crise económica nos Estados Unidos, com o aumento cada vez maior da pobreza tragam novos adeptos para o partido.
 
Aparentemente essa não é uma expectativa de todo irreal.
 
 
Uma pesquisa patrocinada por uma instituição anti-comunista, a Foundation Victims of Commnism Memorial revelou que o número de pessoas nascidas entre 1980 e 2000, ou seja jovens entre 20 e 30 anos, que prefeririam viver num regime socialista, é de 44% do total dos entrevistados, contra 42% que escolheriam o capitalismo. Outros 14% se disseram divididos entre comunismo e fascismo.
 
É importante levar em conta o alto grau de desconhecimento dessa faixa de público sobre a política, refletindo uma alienação que é bastante grande em todos os segmentos de público nos Estados Unidos.
 
Um exemplo disso é que 66% dos entrevistados foram incapazes de dar uma definição correta de socialismo e 30% confundem comunismo com fascismo.
 
Mesmo assim, preocupou os pesquisadores que Karl Marx (32%), Che Guevara (31%), Lenin (23%) Mao (19%) e até Stalin (6%) recebessem opiniões favoráveis dos jovens.
 
Se na área política, o comunismo e mesmo as ideias socialistas, têm pouca força na vida política, o Marxismo, que dá sustentação ideológica ao comunismo, cresce em influência na área cultural, principalmente nas universidades.
 
Os filósofos alemães, como Adorno e Marcuse, da Escola de Frankfurt, entre outros, ao fugirem do nazismo e se radicarem nos Estados Unidos, deixaram muitas ideias de cunho marxista nos meios académicos americanos.
 
Hoje, nomes importantes como David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson, Erik Olin Wright e Michael Burawoy seguem essa tradição académica em estudos que refletem uma influência marxista.
 
Perry Anderson, historiador e professor da UCLA e editor da revista  New Left Review, acredita numa possível reunificação do marxismo com as lutas populares concretas, principalmente por causa da globalização da economia, abrindo um novo caminho para as revoluções sociais, que não deixariam de fora os Estados Unidos.
Portanto, camaradas, não percamos as esperanças.
 
*Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/comunismo-nos-eua.html

Pensar o socialismo nunca fez tanto sentido

Faz sentido falar de socialismo hoje? Este é o pontapé de saída do recente livro ABC do Socialismo: um guia para pensar e agir, coordenado por Catarina Príncipe e João Mineiro e que conta com capítulos de várias autoras e autores com percursos diferentes.

 

As notícias do fim da história depois da queda da União Soviética foram manifestamente exageradas, bem o sabemos. Os autores recordam, com razão, que o mundo vive hoje “velhas-novas atribulações” – a recente crise económica, os problemas ambientais, a ascensão dos fascismos e as lutas e movimentos sociais. Um dos autores notava, em resposta a uma recensão do livro, que este “se posiciona perante uma tripla fronteira: a da rendição da social-democracia ao neoliberalismo; a da degenerescência autoritária do socialismo real; e a da suposta autossuficiência das lutas autónomas.” 

 

Se o fim da história não se verificou, e se continuamos a ser confrontados com problemas incontornáveis, talvez não seja má ideia (re)pensar as formas de combate e as possibilidades de transformação da sociedade. É isso que o livro faz, percorrendo vários temas, da democracia e das formas de distribuição da riqueza às alterações climáticas, passando pela guerra, o feminismo, o racismo, os bancos e até os robots, tratando-os de forma informada, acessível e convincente na crítica à atual organização das sociedades em torno do dinheiro e do individualismo e na defesa do socialismo, esse domínio “onde não haja lugar para nenhuma forma de exploração (o domínio económico de pessoas sobre pessoas) ou opressão (o domínio social, político, cultural e interpessoal de pessoas sobre pessoas)”.

 

A relevância da pergunta inicial e a qualidade da escrita justificariam, por si só, uma leitura atenta. Mas acima de tudo, talvez encontremos o motivo mais forte na recente carta de Jamie Dimon, CEO de um dos maiores bancos de investimento norte-americanos (JP Morgan Chase), aos seus acionistas. Nesta carta anual, Dimon percorre os assuntos da atualidade, a guerra comercial com a China, as novas tecnologias, as disputas políticas internas dos EUA, as tendências de endividamento globais, mas acaba por concluir que tudo isso é pequeno face ao principal risco para o futuro: o “socialismo”. Dimon diz que este “seria um desastre para o país” porque “leva a empresas e mercados ineficientes, favorecimentos e corrupção”, e pior, “produz inevitavelmente estagnação e formas de autoritarismo”.

 

Quem, por cá, notou esta carta, fez bem em lembrar que o JP Morgan Chase tem sido sempre protegido pelo Estado, tanto no favorecimento de negócios como em financiamento público em alturas de sufoco e alívios fiscais já com a administração de Trump – “uma espécie de socialismo dos bancos”, como foi descrito nesse texto. Além desta farsa do banqueiro, importa reter o seu receio de que o socialismo, que tem ganho popularidade no seu país e não só, deixe de ser só para as elites. É por isso que pensar o socialismo nunca fez tanto sentido - trata-se de um combate que continua a ser "perigoso" porque vai à raiz dos problemas e coloca em causa a forma como tudo é distribuído. Se precisávamos de motivos que nos recordassem da sua importância, justificando a leitura do livro, este é um dos mais fortes – e quem diria que o maior elogio viria de um banqueiro?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Cinco ideias de Karl Marx que continuam válidas

No dia do aniversário do nascimento de Karl Marx, lembram-se algumas ideias do filósofo, economista e lutador pela emancipação dos trabalhadores do sistema do capital.

Instalação do artista Ottmar Hörl, numa das praças emblemáticas de Trier, a 5 de Maio de 2013, para celebrar a passagem do 195.º aniversário do nascimento, naquela cidade alemã, de Karl Marx.Créditos / Pinterest

Karl Marx nasceu a 5 de Maio de 1818 em Trier e morreu em Londres a 14 de Março de 1883. O filósofo e economista que dedicou a sua vida ao estudo do sistema do capital foi também um revolucionário consequente, que pôs o seu talento ao serviço da emancipação da classe operária e dos trabalhadores e lançou as bases do socialismo científico.

Marx continua a ser recordado e lido por milhões de pessoas no mundo inteiro, geração após geração. A teoria de Marx mudou a forma de entender o mundo, a economia e a sociedade capitalista. Da lei da mais-valia à alienação do trabalho recordam-se aqui, hoje, cinco ideias suas cuja actualidade permanece.

1. «A história de todas as sociedades que existiram, até aos nossos dias, é a história da luta de classes», em Manifesto do Partido Comunista (1848), com Friedrich Engels.

Marx deixou claro que a história da humanidade não tem sido outra coisa senão a luta de classes pelo controlo dos meios sociais de produção – como acontece hoje. [e isto não mudou].

2. «A contradição essencial na sociedade capitalista é a contradição entre o capital e o trabalho».

Marx previu que essa contradição apenas podia ser resolvida através de uma revolução social, cuja necessidade se mantém.

3. A alienação no trabalho.

O trabalhador, ao ser despojado da sua força de trabalho e do valor que produz, sente-se alienado. Embora saiba que produz valor e riqueza, o seu trabalho não lhe pertence. Só está consigo quando está fora do trabalho, e quando está no trabalho sente-se fora de si.

4. A ideia de mais-valia.

A mais-valia é o valor que o trabalho não remunerado do trabalhador cria sobre ele e de que o capitalista se apropria gratuitamente. Na sua essência radica a exploração, que não mudou muito.

5. O valor de uso, o valor de troca, o dinheiro e o mundo das mercadorias.

O capitalismo cria um valor para além do valor do uso das coisas. Reduz tudo a uma mercadoria, a um valor de troca que simboliza e resume a expropriação, pelo capital, do trabalho.

A obra de Karl Marx não só permite compreender o sistema capitalista no século XXI como, para aqueles que estão interessados na sua eliminação – os trabalhadores e todos os explorados – se tornou uma ferramenta indispensável para a transformação revolucionária da sociedade.

Com Telesur.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/cinco-ideias-de-karl-marx-que-continuam-validas

Socialismo amanhã

A revista Jacobin é a melhor expressão intelectual que eu conheço da actual emergência de um movimento socialista nos EUA, com particular apoio entre os jovens, embora seja ainda cedo para declarar caduca a clássica questão: porque é que não há aí socialismo? Aqui há uns tempos, a Jacobin publicou um livro de divulgação intitulado ABC's of socialism. Não por acaso, Catarina Príncipe, uma das dinamizadoras da revista, coordena, com João Mineiro, a versão nacional do livro, desta vez com vários contributos, de autores portugueses e estrangeiros, em torno das questões do socialismo. Bhaskar Sunkara, o principal rosto da Jacobin, também contribui para uma obra que será lançada amanhã.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

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