Social-Democracia

As confusões sobre a social-democracia

(José Pacheco Pereira, in Público, 14/09/2019)

Pacheco Pereira

Na actual vida política portuguesa, há dois partidos de génese social-democrata, o PS e o PSD, um partido com um pé dentro e outro fora, o Bloco de Esquerda, e dois fora: o PCP e o CDS.


As declarações de Catarina Martins suscitaram a habitual tempestade num copo de água, no anedotismo da cobertura jornalística e comentarial, na qual se mistura muita ignorância e o tribalismo cada vez mais crescente na vida política portuguesa.

 

A afirmação de que o Bloco de Esquerda é social-democrata pode ser meramente táctica, mas não é um disparate por aí além. Na actual vida política portuguesa, há dois partidos de génese social-democrata, o PS e o PSD, um partido com um pé dentro e outro fora, o Bloco de Esquerda, e dois fora: o PCP e o CDS.

O PCP é um partido marxista-leninista, em termos de programa e de organização, embora desde o 25 de Abril tenha andado a arranjar diferentes cosméticas para disfarçar ao que vém. Foi o abandono táctico da ditadura do proletariado, a “democracia avançada” e um silêncio incomodado sobre a revolução no sentido leninista do termo. Mas, pesadas as distâncias e os eufemismos, o PCP nunca repudiou esse património. Por seu lado, o CDS teve uma matriz democrata-cristã, com que rompeu na sua metamorfose de Partido Popular pelas mãos de Monteiro e Portas. Ai abandonou muito do seu vocabulário social de origem na democracia cristã e assumiu-se como partido de direita, com as causas da direita, anti-europeu, e com um braço populista que depois teve que cortar, o Independente.

A tradição social-democrata pode ser definida de forma simplista como a combinação de uma dimensão democrática, após o abandono da ideia de revolução no início do século XX pelos socialistas alemães, facilitada com a ruptura com a Internacional Comunista, com uma ideia de justiça social para a qual o estado é um elemento fundamental como instrumento equilibrador das desigualdades e distributivo. O PS vem directamente desta tradição, como os partidos socialistas europeus da Internacional Socialista, e o PSD contem essa componente, combinando-a na experiência sui generis portuguesa com o liberalismo político e o personalismo cristão, na visão do homem e da política.

Os fundadores do PSD e em particular Sá Carneiro repetiram incessantemente que o PSD “não era um partido de direita”, e desafio alguém a encontrar uma única citação em contrário. E Sá Carneiro fê-lo de 1974 a 1980, e o mesmo repetiu várias vezes Magalhães Mota, Balsemão, Barbosa de Melo, Mota Pinto, Nuno Rodrigues dos Santos, Vítor Crespo, etc., etc., pelo que não estamos a falar apenas das circunstâncias do PREC, como muitas vezes, os defensores da colocação do PSD na direita, repetem e sugerem. Todos estes homens tinham uma formação política e ideológica muito consistente, pelo que é quase um insulto achar que o estavam a fazer apenas para disfarçar a verdadeira posição do PSD.

Há outro argumento habitual, o de que os dirigentes podiam ser assim, mas a “base” era politicamente de direita. Sim e não. Havia zonas do país onde o eleitorado do PSD se colocava mais à direita, mas isso porque esse eleitorado era muito anticomunista (e diga-se de passagem, anti-maçónico…), mas a política do PSD até aos dias de Passos e do seu grupo neo-liberal, nunca o foi. Nessa época é que muita coisa mudou, seja-se justo, com continuidade a sinais que já vinham de Barroso e Santana Lopes.

Na verdade, muita da confusão ideológica actual vem do PSD ter objectivamente abandonado a sua postura social-democrata e não apenas ter virado à direita, mas virado muito à direita, a uma direita para quem a palavra social-democrata era maldita. E a “culpa” não foi a troika, foram as ideias do “ajustamento”, os seus métodos e os seus alvos e a sua retórica. Esses anos podem muito bem ter destruído a autonomia e o papel do PSD na sociedade portuguesa, tirando-lhe a identidade.

Quando Rio tomou conta do PSD, encontrou de imediato várias oposições aliadas entre si, desde o núcleo mais à direita, quer os perdedores internos, com Lopes à frente, a finalmente fazer, com os resultados que se vêm, um partido só dele. Mas a principal dificuldade para recentrar o PSD e fazê-lo voltar às propostas moderadas e reformistas da social-democracia é a gigantesca orfandade e correlativa pressão da direita portuguesa que conheceu o período áureo nos anos da troika, com as ideias neo-liberais a serem executadas por um partido que tinham capturado e que tinha uma coisa que eles não tinham, votos. Com a activa colaboração da matilha de jornalistas com contas a ajustar com Rio, podem ter conseguido estragar o PSD. O tempo mostrará que este já o recebeu muito e muito estragado.

Voltando agora ao Bloco. O Bloco é hoje a ala esquerda do PS, o PS radical. Daí a acrimónia entre ambos, visto que estão demasiado perto. O Bloco abandonou a tradição marxista-leninista que vinha da UDP e do PC(R), herdou o folclore trotsquista que era mais moderno e comunicacional do que o dos maoistas, e instalou-se no território da burguesia radical chic com enorme sucesso.

Abandonou a revolução, e associou-se a reivindicações de carácter socio-económico, o que lhe dá uma componente social-democrata. Porém, afasta-se da social-democracia nas chamadas “causas fracturantes” e na cultura feminista, ecologista, LGBT+, etc. Isso, queira o Bloco ou não, significou uma subvalorização das causas socialistas clássicas, numa tradição que vinha do marxismo. Por isso, o Bloco tem um pé fora da social-democracia, visto que essas causas contra-culturais, de género e de identidade, sobrepõe factores culturais no sentido lato à determinação económico-social. Por exemplo, a condição feminina deixa de se entender como mudando essencialmente por factores socio-económicos que dão mais “liberdade” à mulher e por isso a emancipam, em detrimento de uma guerra cultural e de linguagem à volta da identidade feminina.

Voltaremos noutra altura, porque isto dá pano para mangas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os equívocos de João Miguel Tavares sobre a social-democracia

"Ao contrário do que JMT sugere, não é uma suposta convergência dos partidos em torno de um programa social-democrata que afasta os eleitores da política e cria condições para o surgimento de movimentos que querem romper com a democracia dita liberal.
O que a história recente nos mostra é o contrário: foi nos países em que os partidos socialistas e social-democratas mais se afastaram da sua tradição doutrinária (e onde os partidos da esquerda anti-capitalista são menos expressivos) que a confiança na democracia mais se degradou e onde a crise política é maior.
A preservação da diversidade ideológica no sistema político português - tendo por base comum o respeito pela democracia representativa e a defesa da justiça social - é provavelmente o principal factor de estabilidade democrática em Portugal." O resto do meu texto de hoje no DN pode ser lido no site do jornal.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | Os equívocos de João Miguel Tavares sobre a social-democracia

 
 
Ricardo Paes Mamede | Diário de Notícias | opinião
 
A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, afirmou numa entrevista que o programa eleitoral do BE é social-democrataJoão Miguel Tavares (JMT) concluiu daí que todos os principais partidos portugueses se revêem hoje na social-democracia. Segundo o colunista isto é um risco para o sistema político, pois reduz as possibilidades de escolha, alimenta a abstenção e abre caminho a partidos anti-sistema. O texto de JMT está cheio de equívocos.
 
O primeiro e decisivo equívoco de JMT está no entendimento do que é a social-democracia. Segundo afirma, "social-democracia é defender a democracia representativa e a justiça social dentro de um sistema capitalista, atribuindo ao Estado um papel de regulação, protecção e distribuição de riqueza". De facto, estes são traços característicos da doutrina social-democrata. Mas não são nem necessários nem suficientes para distinguir a social-democracia de outras correntes políticas e ideológicas.
 
Por exemplo, no liberalismo clássico de John Stuart Mill encontramos tanto a defesa de um sistema de mercado capitalista, como argumentos poderosos para sustentar a intervenção do Estado nas economias visando corrigir injustiças, aumentar a eficiência dos mercados e alargar o espaço de liberdade dos indivíduos. O liberalismo clássico de Mill ainda hoje inspira grande parte dos partidos liberais europeus. Da mesma forma, a doutrina democrata-cristã, seguida pela maioria dos governos europeus durante os trinta anos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial, assenta na defesa do sistema capitalista, ao mesmo tempo que defende a necessidade de proteger os mais fracos.
 
A proximidade entre o programa social-democrata e aquele que é seguido pelos partidos da direita tradicional (conservadores e liberais) é explicado por JMT com base na tese de que estes partidos foram integrando ao longo do tempo a agenda da social-democracia. Também aqui está equivocado. Historicamente, o que se verifica é principalmente o contrário.
 
 
A social-democracia é frequentemente associada ao Estado Social, às políticas económicas contra-cíclicas e ao planeamento económico. Acontece que nenhum destes pilares foi concebido nem inicialmente implementado por social-democratas.
 
O Estado Social foi primeiro estabelecido (na sua versão corporativa) por Bismark, um chanceler conservador alemão, e mais tarde (na versão universalista) por Beveridge, um político inglês liberal. Da mesma forma, a ideia de políticas contra-cíclicas têm o seu expoente em Keynes, também ele um inglês apoiante do liberalismo. No quadro das democracias ocidentais, o planeamento económico foi abraçado no pós-Segunda Guerra Mundial por várias áreas políticas, sendo Jean Monet (um político francês insuspeito de simpatias socialistas) um dos seus principais impulsionadores. Nestes aspectos decisivos foi a social-democracia que se apoderou de ideias de conservadores e liberais e não o contrário.
 
A regulação do capitalismo não é nem nunca foi o aspecto que permite distinguir a social-democracia das restantes ideologias e práticas políticas. A social-democracia (quando o é de facto) distingue-se pela ênfase que atribui à promoção das igualdades, ao combate às discriminações e à utilização do sistema de impostos e de serviços públicos universais para assegurar direitos e redistribuir recursos. Outros dão prioridade à acumulação capitalista, defendendo que "primeiro é preciso crescer, para depois distribuir", secundarizando assim o combate às desigualdades.
 
Outro equívoco de JMT consiste em confundir o programa social-democrata com a aceitação do capitalismo. Uma das clivagens históricas dentro do partido social-democrata alemão (e que se reflectiu nos debates internos na maioria dos outros partidos da mesma área) foi o contraste entre as visões de Kautsky e de Bernstein. O primeiro, cuja influência foi dominante na tradição social-democrata até meados do século XX, defendia como objectivo de longo prazo a construção de uma sociedade socialista, sem prejuízo da implementação de reformas sociais favoráveis aos trabalhadores no quadro do capitalismo. Bernstein destacou-se na história do movimento por atribuir ao sistema capitalista a capacidade de responder às aspirações dos trabalhadores e das classes médias, defendendo para os sociais-democratas o papel de gestores do sistema, deixando cair a ambição de o suplantar.
 
A partir da década de 1950, a diferença entre aqueles que pretendem superar o capitalismo e os que apenas se propõem geri-lo melhor (eventualmente para nele introduzir elementos de natureza socialista) tornou-se um elemento diferenciador entre os partidos social-democratas e os partidos revolucionários de matriz marxista. Por quererem mais do que gerir o capitalismo e não aceitarem os constrangimentos externos que limitam o alcance de acção dos Estados nacionais, os partidos revolucionários raramente almejaram ou aceitaram participar nos governos. Isto nunca os impediu de lutarem por reformas sociais no quadro do capitalismo, mas limitou fortemente o seu grau de envolvimento na governação.
 
JMT ou ignora todas estas clivagens dentro e fora das doutrinas socialistas ou considera-as irrelevantes. No entanto, sempre que existiram de facto elas conduziram a uma diferenciação significativa nos programas e na prática dos partidos europeus.
 
Isto leva-me ao último equívoco de JMT. Ao contrário do que sugere, não é a convergência dos partidos em torno de um programa social-democrata que afasta os eleitores da política e cria condições para o surgimento de movimentos que querem romper com a democracia dita liberal. O que a história recente nos mostra é o contrário: foi nos países em que os partidos socialistas e social-democratas mais se afastaram da sua tradição doutrinária (e onde os partidos da esquerda anti-capitalista são menos expressivos) que a confiança na democracia mais se degradou e onde a crise política é maior. A preservação da diversidade ideológica no sistema político português - tendo por base comum o respeito pela democracia representativa e a defesa da justiça social - é provavelmente o principal factor de estabilidade democrática em Portugal.
*Economista e Professor do ISCTE-IUL
 
[O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.]
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/portugal-os-equivocos-de-joao-miguel.html

Um outro mundo é possível!

Como socialistaincomoda-me a tendência de alguns dirigentes socialistas (e espante-se, até do Bloco!) em considerarem-se sociais-democratas.
O termo obedece a conceitos que nada têm a ver com o Socialismo enquanto sistema alternativo ao capitalismo, tendo apenas a ver com uma forma de reformismo eivado da pretensão de tornar mais suportáveis os métodos da atual exploração do homem pelo homem. Daí que, pese embora ter ficado associado a formas de governo, que foram-se progressivamente desviando do que ele propusera nos seus textos teóricos, Marx ficou injustamente depreciado com a queda do Muro de Berlim. E, no entanto, os meios académicos não são os únicos a reconhecerem-lhe o mérito de ter construído a análise mais aprofundada, e correta, sobre o capitalismo. Também nos meios financeiros há quem se aperceba da justeza desses argumentos, porque o seu postulado fundamental mantém-se pertinente: o capitalismo é instável, as crises sucedem-se e as sociedades vão vendo agravadas as desigualdades de rendimento entre os detentores dos meios de produção e os que apenas têm a força do trabalho para venderem como empregados daqueles. As últimas décadas têm acentuado esse desequilíbrio de rendimentos entre o fator capital e o fator trabalho não havendo ainda as mais do que justificadas tensões sociais, só porque o sistema teve a habilidade de neutralizar os partidos e movimentos políticos dotados de uma visão estratégica substantiva, sendo substituídos por contestações inorgânicas como as protagonizadas recentemente em França pelos coletes amarelos.

 

Não tivesse o movimento contestatário ao capitalismo perdido a noção do interesse coletivo em detrimento dos de raiz corporativa e estaríamos bem mais próximos do desiderato anunciado por Marx: o derrube de um sistema que levara os patrões a maximizarem a exploração da mão-de-obra no sentido de alcançarem o lucro máximo sob pena de serem substituídos por quem se mostrasse mais eficiente nesse objetivo.

 

O que Marx não anteviu foi que demorasse tanto tempo a chegar-se a essa agudização decisiva: vivendo exilado em Inglaterra na fase da intensificação da industrialização, ele assistiu à degradação das condições de vida dos operários que, em Liverpool, em 1869, só tinham uma esperança de vida de 28 anos, indicador que desde a Peste Negra nunca estivera tão baixo. Ele acreditou que as razões da revolta estavam a crescer de uma forma irreversível. Só que os reformistas, entre os quais se contaram os sociais-democratas, vieram aligeirar os níveis de exploração ao mesmo tempo que os lucros promoviam um rápido desenvolvimento económico, que tornava acessíveis, mesmo aos operários, o acesso ao consumo de bens anteriormente proibitivos.

 

Pode-se considerar que, ao longo do século XX, as condições de agudização social tendentes a apressarem ou a adiarem as condições para a mudança qualitativa do sistema económico, ora foram avançando, ora recuando. A globalização foi a derradeira oportunidade para o capitalismo iludir as populações com as vantagens da concorrência e da superioridade da propriedade privada. Sem poder expandir-se mais do que já conseguiu o capitalismo não consegue prosseguir com as suas economias de escala em mercados sem outras geografias por onde se expandir. Pode-se até considerar que, não fosse esse fôlego derradeiro garantido pela globalização e as desregulamentações laborais lançadas por Reagan ou Thatcher, já se teria agravado o panorama de emprego nas sociedades ocidentais, ainda assim, marcado pelo trabalho precário, pelo desemprego dos jovens e pela dura realidade de, em diversos países - a começar por essa montra mais vistosa do capitalismo, que são os Estados Unidos -, o facto de se ter um emprego (ou dois, ou três) não ser condição bastante para sair da espiral de empobrecimento por que passam muitos setores sociais.

 

Momentaneamente aqueles que poderiam incluir-se nos que Dostoievski crismou de «Humilhados e Ofendidos», podem andar a ser enganados por opiáceas religiões, tendentes a convencê-los de existirem paraísos no Além para quem aqui se conformar com o Inferno quotidiano. Podem errar ao deixarem-se arrastar por gente da extrema-direita, que anseia por os ter como exército de idiotas, que os ajude a criar melhores condições políticas para melhor os amordaçar. Ou podem subsistir outras formas de os enganar, seja sob a forma de fanatismos futebolísticos ou mentiras descaradas nos jornais, nas televisões ou nas redes sociais. Mas foi Brecht quem lembrou que um rio, que se veja muito apertado no seu leito, acabará por extravasar violentamente para as margens. E lá irá para o caixote do lixo da História este modelo económico que, hoje em dia, beneficia um número progressivamente diminuto de plutocratas e condena a enorme maioria à frustração de ter cada vez mais mês para caber em tão exígua paga.

 

Sobra, enfim, outro fator, que ganha crescente importância: se o capitalismo obriga a que se produza cada vez mais, sem olhar a como nem com quê, o aquecimento global e a redução progressiva dos recursos sustentáveis do planeta obrigam a pôr-lhe urgente fim. Como um número crescente de intelectuais e políticos começam a considerar, importa criar as bases sólidas de um Eco-Socialismo alternativo, que ganhe arrebatador apoio nos que pretendem ver cumpridos os pressupostos marxistas de uma maior igualdade na distribuição de rendimentos ao mesmo tempo que se respeite a sustentabilidade do planeta que nos serve de casa.

 

Como propunha Marx a meio do século XIX contra este capitalismo, que nos conduz para uma distopia apocalítica, só há uma solução: substitui-lo pelo sistema económico e social, que a História impõe que lhe suceda.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/um-outro-mundo-e-possivel.html

Social-democracia: equívoco ou solução

Quem se interesse de modo crítico pela história das ideias políticas conhece a ambiguidade que há mais de cem anos acompanha o conceito de social-democracia. Declarações de Catarina Martins ao Observador, nas quais considerou existir uma dimensão social-democrata no programa do Bloco de Esquerda, trouxeram de novo alguma atenção a esse equívoco, tantas vezes alimentado por circunstâncias históricas, mas também pelo desconhecimento e pelo dogmatismo. Nada tem isto a ver com o PSD, partido liberal cuja inadequada designação resultou das circunstâncias de Abril, mas antes com os setores que à esquerda olham o conceito com aprovação ou descrédito.

A social-democracia defende a intervenção do Estado na promoção da justiça social, dentro de um sistema económico compatível com políticas de bem-estar, com a iniciativa privada, com o papel dos sindicatos e com instrumentos de regulação económica que promovam uma distribuição mais igualitária dos rendimentos. Define ainda um compromisso inalienável com a democracia representativa. Resultou de lutas travadas dentro da Segunda Internacional operária, fundada em 1889, boa parte a partir do legado de Marx, sobretudo no que toca à apreciação do caráter do capitalismo, das suas perversões e da necessidade da sua superação. Prova do processo contraditório pelo qual passou foi o confronto de Lenine e do seu Partido Operário Social-Democrata Russo, o futuro Partido Comunista, com outro segmento da social-democracia. Boa parte do descrédito da designação resulta, aliás, deste conflito.

No último século a trajetória da social-democracia manteve-se complexa, cada vez mais associada aos setores que privilegiavam inequivocamente o papel do reformismo político e da democracia representativa. Do outro lado, estavam aqueles, sobretudo inspirados na experiência da Revolução de Outubro de 1917, que preferiam um movimento revolucionário, conduzido por uma vanguarda, que após a tomada do poder definisse um sistema centralizado capaz de impor a nova ordem socialista. De alguma forma, «social-democracia» e «socialismo» passaram a opor-se, defendendo a primeira a superação gradual do capitalismo e propondo o segundo a sua rápida destruição e substituição.

A partir desta distinção, o historiador Tony Judt considerou que o socialismo «sob todas as suas múltiplas formas e encarnações com hífenes, falhou», enquanto a social-democracia «não só chegou ao poder em muitos países, como foi além dos melhores sonhos dos seus fundadores». Todavia, alertou também para que esta dicotomia não deve ser interpretada de forma literal, pois o que de positivo as experiências da social-democracia ofereceram, cingiu-se, embora isso não seja de pequena monta, à elevação das condições materiais e da qualidade de vida da maioria dos cidadãos, não sendo, todavia, um modelo de aplicação universal e perpétuo. Nomeadamente em tempos de retração, como aqueles que temos vivido nas últimas décadas.

No Tratado Sobre os Nossos Atuais Descontentamentos (Ill Fares the Land, de 2010, ano da sua morte) Judt escreveu: «Em finais do século XX, a social-democracia na Europa tinha cumprido muitos dos seus objetivos políticos de longa data, mas em grande parte esquecera ou abandonara a sua fundamentação original», passando a assentar a sua atividade em alianças interclassistas que reuniam operários e camponeses, mas também, e cada vez mais, trabalhadores dos serviços e setores da classe média, tendendo a rejeitar as escolhas que perturbassem esse equilíbrio. Seria justamente o abandono da sua fundamentação original a colocar a social-democracia num impasse, bem traduzido nas políticas de Terceira Via dos anos 90 – com Tony Blair como rosto principal – que quase destruíram a identidade e o papel de muitos dos partidos socialistas ou social-democratas herdeiros do movimento emancipatório vindo de Oitocentos.

O que os defensores da parte dinâmica e saudável da tradição social-democrata hoje defendem não é, pois, a continuidade da conciliação com o capitalismo, mas, sob condições sociais e técnicas inteiramente novas, um regresso à matriz socialista, embora na firme recusa de sociedades coletivistas, apoiadas no esmagamento da liberdade e do indivíduo, desacreditadas pela história recente. Se foi para isto que Catarina Martins apontou na sua resposta, terá a minha compreensão e a minha simpatia.

Fotografia de Jonathan Nackstrand/AFP (Estocolomo, 1º de Maio de 2018)
Publicado no Diário As Beiras de 7/9/2019
 
 
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/09/07/social-democracia-equivoco-ou-solucao/

Jeremy Corbyn e a chegada de Boris Johnson ao poder

 
 
Diante da chegada de Boris Johnson à liderança do Partido Conservador e de sua posse como primeiro-ministro britânico, é comum os trabalhadores se perguntarem: “Como isso aconteceu?”.
 
Johnson lidera o governo mais conservador na história britânica, dedicado a uma saída “sem acordo” da União Europeia (UE) que impactará de maneira devastadora os empregos, salários e condições de trabalho. Ex-aluno da Eton College, uma escola britânica de elite, que não consegue esconder seu desprezo pelas “camadas inferiores”, Johnson é desprezado por milhões de trabalhadores. Ainda assim, ele agora ocupa o mais alto cargo político e espera-se que convoque eleições gerais antecipadas para garantir, com alguma chance, um mandato para deixar a União Europeia em 31 de outubro e então implementar sua agenda de cortes de impostos para as grandes corporações e os ricos.
 
Jeremy Corbyn é politicamente responsável pela ascensão de Johnson e seu gabinete ministerial de ideólogos thatcheristas. Ele atuou como um intermediário na formação do governo Johnson ao suprimir todas as tentativas dos trabalhadores de realizar uma luta contra as grandes corporações e seus defensores políticos.
 
Os quatro anos de Corbyn como líder do Partido Trabalhista são uma experiência estratégica para a classe trabalhadora britânica e internacional. Eles confirmam o papel crucial da suposta “esquerda” em impedir qualquer desafio político à burocracia do Partido Trabalhista e sindical, que age para policiar a luta de classes em nome da classe dominante.
 
 
Corbyn foi eleito com folga como líder do Partido Trabalhista em setembro de 2015 com 59,5% dos votos no primeiro turno em uma reação política contra seus três oponentes blairistas e sua política de “leve austeridade” e militarismo imperialista. Quando os blairistas agiram para depô-lo com um voto de desconfiança de 172 deputados em junho de 2016, o resultado foi o contrário do planejado. Corbyn conseguiu 61,8% dos votos, 62 mil a mais do que em 2015. Centenas de milhares de trabalhadores e jovens filiaram-se ao Partido Trabalhista de maneira que, em 2017, os trabalhistas tinham mais de um milhão de membros e eram o maior partido da Europa.
 
Em 2017, a primeira-ministra Theresa May convocou eleições gerais antecipadas, calculando que ela conseguiria reunir apoio político ao prometer garantir um acordo favorável com a UE para o Brexit. Ao invés disso, o voto dos trabalhistas aumentou de 30%, em 2015, para 40% – o maior aumento nos votos trabalhistas desde Clement Atlee, em 1947. Os conservadores tiveram que formar um governo de minoria, que passou a depender do apoio dos 10 deputados do Partido Unionista Democrático.
 
Não poderia haver situação mais favorável para um líder do Partido Trabalhista lutar contra a direita blairista e então combater os conservadores. Corbyn liderava uma onda de esquerda anti-austeridade e anti-militarista que poderia tê-lo levado ao poder. Mas o objetivo central de Corbyn era desviar todas as tentativas de expulsar os blairistas enquanto ele adotava o programa principal deles. Corbyn permitiu um voto livre sobre a guerra na Síria, aceitou a participação como membro na OTAN e o sistema de mísseis nucleares, Trident, e insistiu que as autoridades na esfera local administradas pelos trabalhistas impusessem lealmente os cortes ditados pelos conservadores.
 
No auge de sua popularidade, Corbyn agiu para suprimir toda a oposição aos blairistas. Em 2018, ele se uniu com a burocracia sindical para se opor ao chamado para uma re-seleção obrigatória de deputados blairistas, enquanto o número dois dos trabalhistas, John McDonnell, organizou uma ofensiva de “chá e biscoitos” para ganhar o apoio do centro financeiro de Londres.
 
Quando a crise dos conservadores em torno do Brexit ameaçou a queda de May em abril deste ano, Corbyn prontificou-se a salvar seu governo. Ele abandonou o chamado por eleições gerais e começou a conversar com May para defender o “interesse nacional”. O golpe final contra May foi deixado para a fração pró-Brexit de seu próprio partido, que terminou com a chegada de Johnson ao poder, o segundo primeiro-ministro conservador não eleito desde 2016.
 
Johnson lidera um governo que continua profundamente dividido por causa do Brexit, formando uma maioria de apenas três deputados. Corbyn, entretanto, entregou a iniciativa política de seu próprio partido aos blairistas, que estão ocupados em uma caça às bruxas a membros trabalhistas de esquerda sob falsas alegações de antissemitismo e conspirando ativamente para tirar Corbyn da liderança do partido. Deputados trabalhistas “contaram privadamente” ao Sun que a chegada de Johnson ao poder “vai quase certamente ‘acelerar’ as tentativas de golpe para mudar o líder dos trabalhistas. Um deles disse: ‘Ter Boris lá será bom para nós porque vai acelerar o que tem que acontecer’”.
 
Os blairistas estão insistindo que os trabalhistas devem se comprometer com a permanência na UE. Sua perspectiva é a de um governo de união nacional com o Partido Liberal Democrata, o Partido Nacional Escocês e o Plaid Cymru, o Partido do País de Gales. Isso pode permitir que os conservadores vençam uma eleição antecipada no terceiro trimestre em aliança com o Partido Brexit de Nigel Farage, que está incitando uma campanha nacionalista centrada na traição da “elite de Westminster” ao resultado do referendo de 2016.
 
Apesar de a maioria dos simpatizantes trabalhistas terem votado para permanecer na UE, entre 26% e 34% deles votaram a favor do Brexit, em sua maior parte nos centros da classe trabalhadora no norte do país e que agora serão alvo do Partido Brexit nas eleições. A combinação de confusão e desorientação geradas por Corbyn foi expressa nas eleições europeias de 26 de maio, que fez o voto nos trabalhistas diminuir 15%, tendo perdido apoio em regiões que haviam votado pela permanência na EU para o Partido Liberal Democrata e para o partido xenofóbico de Farage em áreas que apoiam o Brexit.
 
Johnson poderia até mesmo deixar de convocar eleições se for verdadeira a alegação de Caroline Flint de que mais de 40 outros deputados trabalhistas que apoiam o Brexit apoiariam seu governo em uma votação parlamentar sobre a saída da UE. Sob a liderança de Corbyn está totalmente excluída a possibilidade de a classe trabalhadora intervir segundo seus próprios interesses na maior crise de governo enfrentada pelo imperialismo britânico desde a Segunda Guerra Mundial.
 
O papel de Corbyn não é um caso especial. Ele segue os passos políticos do Syriza na Grécia, que chegou ao poder em janeiro de 2015 e jurou combater a austeridade da UE para depois impor cortes ainda maiores do que os de seus antecessores de direita da Nova Democracia. Em todos os lugares, a “esquerda” oficial, seja Corbyn no Reino Unido ou Bernie Sanders nos EUA, trabalha para suprimir a luta de classes e entregar a vitória política para a direita – de maneira que agora o Reino Unido tem o seu equivalente político de Donald Trump ocupando o número 10 da Downing Street.
 
Tudo depende de a classe trabalhadora tirar as conclusões políticas necessárias.
 
O Partido Trabalhista é um partido de governo imperialista e não pode ser transformado pela pressão da base em um instrumento para se opor à austeridade, ao militarismo e à guerra. “Esquerdistas” como Corbyn são leais defensores da classe capitalista. Eles preferem expulsar seus próprios apoiadores do que se arriscarem a mobilizar um movimento da classe trabalhadora que pode sair de seu controle.
 
Nem as pálidas panaceias reformistas defendidas por Corbyn, a permanência na UE ou o Brexit conseguem solucionar a enorme crise social que a classe trabalhadora enfrenta. O conflito nos círculos dominantes em torno do Brexit é sobre aliar-se com os Estados Unidos ou a Alemanha e a França em uma guerra comercial cada vez maior que ameaça mergulhar o mundo inteiro em um conflito militar. A classe trabalhadora pagará por uma austeridade cada vez maior em nome da competitividade global e do crescimento da extrema direita.
 
Apenas um movimento unificado da classe trabalhadora britânica, europeia e internacional pelo socialismo oferece um caminho a seguir. Após décadas de supressão da luta de classes, o mundo está testemunhando a expressão inicial de uma rebelião política contra os descreditados partidos socialdemocratas e os sindicatos em uma onda de greves em vários países. Denunciar a alegação de Corbyn de que ele representa uma alternativa de esquerda abre o caminho para os trabalhadores do Reino Unido ocuparem seu lugar nesse movimento emergente sob a liderança do Partido Socialista pela Igualdade.
 
Chris Marsden | WSWS.org/pt
 
Foto: O primeiro-ministro Boris Johnson chega à Downing Street [Crédito: Flicker – Number 10 Downing Street]
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/jeremy-corbyn-e-chegada-de-boris.html

Não há acasos

Mais ricos de França enriquecem mais depressa do que quaisquer outros. Não é por acaso que chama a Macron o presidente dos ricos. Não é por acaso que as suas políticas fiscais e laborais têm por objectivo transferir recursos de baixo para cima. Não é por acaso que este político maquilhado é o alvo da justa ira das classes populares francesas. Não é por acaso que é a esperança dos europeístas. Não é por acaso que uma moribunda social-democracia europeia decidiu ir morrer nos braços de quem lhe deu o derradeiro golpe em França. Não é por acaso que Costa se entende ideologicamente tão bem com Macron. Não é por acaso que na UE a social-democracia perde sempre, incluindo na chamada corrida aos chamados lugares europeus. Não é por acaso que se insiste no aviso: Macro 2017 = Le Pen 2022. É que não há acasos em política e muito menos em economia política internacional.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Partido Social-Democrata vence eleição parlamentar na Finlândia

Eleição na Finlândia.
© REUTERS / Lehtikuva/Emmi Korhonen

O Partido Social-Democrata, da oposição finlandesa, venceu as eleições parlamentares na Finlândia, enquanto o Partido Nacionalista Finlandês ficou em segundo lugar, disse o Ministério da Justiça depois que 100% dos votos foram contados.

"O Partido Social-Democrata ganhou 17,7% ou 40 assentos no Parlamento, o Partido Nacionalista Finlandês 17,5% ou 39 assentos no Parlamento, o Partido da Coalizão Nacional obteve 17% dos votos ou 38 assentos no Parlamento, o Partido Centro da Finlândia obteve 13,8% dos votos ou 31 assentos no Parlamento, a Liga Verde 11,5%, ou 20 assentos, o resto é inferior a 10%", diz a declaração.

Assim, pela primeira vez, nenhum dos partidos nas eleições parlamentares conseguiu mais de 20% dos votos.


O comparecimento foi de 72%, de acordo com o ministério.

O líder do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda, prometeu se concentrar em políticas climáticas e sociais depois que os resultados das eleições indicaram que seu partido conquistou a maioria dos assentos parlamentares.

Antti Rinne, um ex-líder sindical e ex-ministro da Fazenda, comemorou com apoiadores no centro de Helsinque.

Rinne prometeu "levar a sociedade finlandesa a um clima sustentável, políticas sociais e econômicas".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019041413681781-partido-social-democrata-vence-eleicao-finlandia/

Fim da linha?

Parece que a social-democracia na UE chegou ao fim da linha quando o “guião” para os trabalhos da sua conferência, realizada no passado fim-de-semana em Lisboa, resultou do trabalho de uma “comissão independente para a igualdade sustentável”. A força do hegemónico consenso de Bruxelas e da sua novilíngua revela-se nos nomes das coisas. Parece que a social-democracia chegou ao fim da linha quando ainda decide participar na farsa da “eleição” do Presidente da Comissão Europeia e com Frans Timmermans como “candidato”, ou seja, com a versão em negócios estrangeiros de Dijsselbloem, ambos membros de um agora merecidamente pequeno partido holandês, indicando portanto aos outros o seu provável futuro. Parece que a social-democracia chegou ao fim da linha, graças sobretudo à integração europeia irremediavelmente neoliberal, quando a grande esperança no regresso às suas raízes, Jeremy Corbyn, escreve um artigo para o ilegível The Guardian, onde toma o comércio internacional “sem fricções” como uma referência para o Brexit, o que está em flagrante contradição com certos aspectos do seu programa, incluindo as ajudas de Estado aí afloradas, parte de uma necessária política industrial. Espero que seja tudo táctica para trabalhista europeísta, uma contradição nos termos, ver. Veremos. Entretanto, Brexit só há um e é duro, como agora se diz de forma manipuladora, aliás como dura será sempre a luta democrática contra a lógica pós-democrática do mercado único. Parece que a social-democracia chegou ao fim da linha quando Geórgios Papandreou, o da pasokização, lidera um apelo a Corbyn, publicado no The Guardian, para que cometa suicídio político, lutando pela manutenção do Reino Unido na UE, travando o Brexit. Só por cinismo se compreende que Assis subscreva tal apelo. Afinal de contas, a UE é o fim da social-democracia, o fim de Corbyn. E por falar em cinismo euro-liberal, que dizer do discurso pretensamente idealista do dirigente social-democrata Augusto Santos Silva, que pelos vistos desconhece o pretensamente realista Ministro dos Negócios Estrangeiros português Augusto Santos Silva? Enfim, parece que a social-democracia chegou ao fim da linha quando o partido socialista deste país é uma referência para o resto. O governo deste país aprovou recentemente a transposição do pacote europeu de liberalização da ferrovia. O fim da linha passa de metáfora a realidade...

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno

Marisa Matias na abertura do Fórum Socialismo 2018, no debate “A Europa da xenofobia e da austeridade tem futuro?”, que teve lugar a 31 de agosto de 2018:
A social-democracia demitiu-se de uma tarefa fundamental no espaço da UE: evitar a cultura tecnocrática dominante e o esvaziamento da democracia. As recentes declarações de Centeno são uma triste imagem desta realidade.
5 de Setembro, 2018 - 13:45h  Marisa Matias

A Europa da xenofobia e da austeridade tem futuro?”*

Tem. A questão é como evitá-lo.

Não só tem futuro, como tem muitos aliados e cúmplices. Cúmplices nas políticas racistas e xenófobas, que não precisaram de ver a extrema-direita chegar ao poder para se começarem a instalar na União Europeia, na narrativa de descredibilização do sistema político e no esvaziamento democrático da União. Quando a extrema-direita começou a chegar ao poder já lá encontrou as suas políticas. Quem irresponsavelmente acusa os extremos políticos de serem iguais, legitima e naturaliza a extrema-direita como uma alternativa democrática. A tentativa de descredibilizar as forças de esquerda não é mais do que uma preciosa ajuda à extrema-direita.

As políticas de extrema-direita entraram na União Europeia por via da social-democracia e da democracia cristã, tal como a austeridade. Conselho após Conselho, os governos anteciparam sempre a agenda da extrema-direita e consolidaram a política de austeridade como o único caminho possível. As forças políticas dominantes no espaço europeu renderam-se aos ideais neoliberais e à ideia feita de que os mercados livres se traduziriam em liberdade pessoal. Nada mais ao lado, o capitalismo e as políticas neoliberais traduzem-se em dominação e exclusão, não em liberdade. A prova dos factos está na forma como as novas gerações europeias viram negada a promessa da liberdade por via de baixos salários, precariedade, rendas altas e ausência de futuro. Os defensores dos poderes irrestritos do sector financeiro e das grandes corporações, associados a uma protecção mínima dos trabalhadores, foram longe demais no fingimento de serem os defensores da liberdade. O que, na realidade, estão a fazer é a procurar eliminar o princípio fundamental da liberdade nas sociedades actuais.

As políticas de extrema-direita entraram na União Europeia por via da social-democracia e da democracia cristã, tal como a austeridade

Em parte, a extrema-direita foi sendo alimentada pelo medo e pelas desigualdades, pela descrença na política e também pelo eleitoralismo acrítico da social-democracia, que entre perder eleitores para a direita ou perder a sua ideologia de base foi preferindo perder a ideologia, mas isso não justifica tudo. Não é apenas nas sociedades mais desiguais que cresce a extrema-direita. Nos países mais igualitários da Europa também cresceram, e muito, as forças de extrema-direita. O desemprego, a precariedade, os baixos salários justificam descontentamento face ao sistema político, mas a equação não é assim tão simples. O Estado social forte dos países nórdicos não foi tampão suficiente para impedir o crescimento do racismo e da xenofobia. A maior segurança económica em alguns países não foi sinónimo de ausência de racismo ou de “ansiedades” em relação a migrantes. As desigualdades e o abandono podem até ser condições necessárias em alguns casos, mas não são suficientes.

A história da extrema-direita organizada não é de agora

A história da extrema-direita organizada não é, como bem sabemos, de agora. A questão é: como é que voltou a ressurgir timidamente no final do século passado e começa perigosamente a alastrar no inicio deste século. Movimentos de extrema-direita estiveram fora do “sistema” durante muitos anos e só recentemente voltaram a estar representados, mas, apesar de tudo, continuam ainda a ser percepcionadas como as forças que mais fora do sistema estão e assim se continuam a vender. 

Em 1984, a Frente Nacional conseguia, em França, 11% dos votos e hoje disputa ser a primeira força política. Em 1999, o Freedom Party da Áustria ficou em segundo e formou coligação de governo com o Partido Popular austríaco (o PSD lá do sítio). Em 2002, a lista de Pim Fortuyn for a segunda nas eleições holandesas. Hoje perdemos a conta aos governos europeus dominados pela extrema-direita e aos países onde ela tem influência e marca a agenda política. Hungria, Polónia, República Checa, Itália, Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Suécia, Holanda… Se olharmos para os programas económicos destas forças políticas há muito pouco em comum. Se na França há um programa orientado para uma redefinição da auto-suficiência  económica, na Áustria a linha é muito semelhante à da direita liberal mais convencional. Se as políticas económicas são completamente distintas, as posições sobre migrações e identitárias são muito semelhantes. O outro - seja o migrante, o refugiado, o homossexual, o não cristão - é o que justifica o alargamento de uma base identitária comum. O programa que une estas forças é restaurar uma sociedade branca, heterossexual e patriarcal. O mote é fazer uma aliança por via da exclusão.

A naturalização da política de extrema-direita na UE

Quando assistimos a uma redução drástica das chegadas de migrantes à Europa, que caíram 95% desde 2012 até agora, é quando o discurso da invasão e da ameaça começam a entrar de forma mais consolidada nos documentos oficiais

Quando assistimos a uma redução drástica das chegadas de migrantes à Europa, que caíram 95% desde 2012 até agora, é quando o discurso da invasão e da ameaça começam a entrar de forma mais consolidada nos documentos oficiais. Se olharmos para as conclusões mais recentes do Conselho Europeu encontramos as tradicionais propostas de outsourcing, mas também novas e perigosas propostas como as da criação de centros de “internamento” para os refugiados com o apoio de governos como o de Angela Merkel. As lutas internas do seu partido, motivadas pela disputa de poder com Horst Seehofer, levam à aceitação de medidas que pura e simplesmente anulam a característica mais intrínseca dos direitos humanos, a da sua universalidade. A leitura comum é a de que Merkel paga um preço político na Alemanha pelo facto de ter aberto as portas a mais de 1 milhão de refugiados, mas a verdade é que bastou Salvini ameaçar com um veto, que qualquer governo pode activar em qualquer circunstância, para que o governo alemão cedesse em toda a linha e, com ele, todos os governos europeus, incluindo o português. Da Dinamarca chegam as propostas sobre o novo pacote legislativo intitulado de “pacote do gueto”, que entre outras coisas obrigará os pais de crianças nascidas em bairros dinamarqueses com baixos níveis de rendimentos, designados por guetos, a entregar os seus filhos a partir de um ano de idade a instituições do Estado pelo menos durante 25 horas semanais, para que lhes sejam incutidos “valores dinamarqueses” entre os quais a celebração de festividades cristãs, como o Natal e Páscoa. Já tinha havido um sinal em 2015, quando nas eleições nacionais a social-democracia apresentou como programa de governo cortar nos apoios aos refugiados. E a Hungria, e a Polónia, e a Áustria, e Malta, e a Itália, tantos e tantos exemplos que todos os dias nos fazem questionar como é que em menos de um século podemos estar a pôr em risco uma das maiores conquistas civilizacionais, a da consagração e da defesa dos Direitos Humanos.

Ironicamente, a União Europeia continua a vender-se a si mesma como um exemplo nesta matéria, e disso retira “legitimidade” para intervir fora do seu espaço territorial. É à luz dos desenvolvimentos mais recentes que o inaceitável acordo com a Turquia se vai naturalizando como modelo de acção e justifica avanços para novos acordos para os mesmos fins com a Líbia, quando todos sabemos a forma como os migrantes aí estão a ser torturados e escravizados. Como se nada disto bastasse, normaliza-se também a criminalização das ONGs que operam tentando salvar migrantes que ficam à mercê da morte no Mediterrâneo, onde este ano, o ano de menor afluência desde 2012, já morreram 1549 pessoas.

A social-democracia falhou o projecto de travar a extrema-direita. Seremos nós capazes de fazê-lo?

A Europa dos vencedores e vencidos, a Europa das desigualdades foi o modelo de normalização obtido com a desistência da social-democracia

A Europa do mercado único e da livre circulação de capitais, a Europa do dumping, a Europa dos vencedores e vencidos, a Europa das desigualdades foi o modelo de normalização obtido com a desistência da social-democracia. Os desequilíbrios macro-económicos passaram a ser a identidade da União. O que restou de esquerda à social-democracia europeia foram generalidades que qualquer liberal também diz. Generalidades em cima do abandono dos serviços públicos e da protecção do trabalho. A social-democracia demitiu-se, assim, de uma tarefa fundamental no espaço da União Europeia: evitar a cultura tecnocrática dominante e o esvaziamento da democracia.

As recentes declarações de Centeno a propósito da conclusão do programa de ajustamento na Grécia são uma triste imagem desta realidade. Tal como previsto, não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno, e o seu programa nunca foi outro senão o da austeridade. Se limites houve à austeridade em Portugal nos últimos anos foi pelas imposições da esquerda portuguesa e, em particular, do Bloco de Esquerda. Se dependesse do programa de Centeno ainda estaríamos em ajustamento permanente. A Europa sem austeridade de que falou António Costa em Itália é uma ficção. Pelo menos, Centeno não finge.

Ora, com o crescimento e a normalização de extrema-direita e a proliferação de fake news assistimos a um outro fenómeno. O espaço político converteu-se num campo de batalha e a agressão substitui o debate de ideias. Uma coisa parece evidente nestes desenvolvimentos recentes: não é possível derrotar os populistas em termos de populismo, esse é o seu campo. Resta-nos, por isso, não sair da política.

A política populista é a política de sarjeta, a do quanto pior melhor, a do ataque e do aprofundamento da divisão, a do medo e do ressentimento

A política populista é a política de sarjeta, a do quanto pior melhor, a do ataque e do aprofundamento da divisão, a do medo e do ressentimento. A extrema-direita ganhou espaço com a promessa de segurança num mundo fora de controlo. As mensagens são muito claras: é preciso restabelecer a ordem e o controlo, oferecer respostas simples para problemas complexos, separar pessoas de acordo com a sua “cultura”, origem ou religião e delimitar bem os espaços de cada um, em suma, e como já referi, restaurar uma sociedade branca, heterossexual e patriarcal. 

É este programa que tem permitido fazer alargar a aliança chauvinista no espaço europeu, o que em si mesmo seria, em tempos normais, uma contradição nos termos. A recente aliança entre Salvini e Órban é disso exemplar: Salvini quer os restantes países da UE recebam os migrantes que chegam a Itália; Órban quer que nenhum migrante entre na Hungria. Esta aparente contradição só é explicável pelo que os une: fazer aliança por via da exclusão. É certo que, para ambos, melhor seria deixar os migrantes a morrer no Mediterrâneo ou que nem sequer aí chegassem.

Se é certo que temos de voltar ao essencial - democracia, trabalho, Estado social - também me parece cada vez mais evidente que para derrotar a extrema-direita é preciso muito mais do que economia. Falar de futuro é preciso. São precisas novas narrativas de identidade colectiva que abarquem o pluralismo. Há milhões de pessoas que não se revêem nas políticas dominantes da UE e que não são racistas, que têm medos e que esses medos não significam abandonar os direitos das minorias, os direitos sexuais ou os direitos religiosos.

É também necessário trabalhar a sério numa recuperação de soberania que seja progressista. Se se considerar à partida que as pessoas que se consideram patriotas são de extrema-direita estamos perdidos. Alianças internacionalistas democráticas e que salvaguardem a soberania são não só possíveis como necessárias. E isso implica uma aliança alargada de sociedade.

Recusamos o maistream actual e acreditamos que não há apenas uma escolha simples entre o status quo e a barbárie da extrema-direita. A escolha hoje é outra Europa

A social-democracia está a ser pulverizada pela obsessão pela União Europeia tal como ela existe hoje, a União Europeia do dumping. Recusamos o maistream actual e acreditamos que não há apenas uma escolha simples entre o status quo e a barbárie da extrema-direita. A escolha hoje é outra Europa. Talvez um dia tenhamos uma Europa democrática. Uma condição essencial para isso é não abandonarmos nenhum espaço de luta e reforçarmos as democracias nos espaços nacionais com agendas progressistas que recusam fatalismos. A Europa da xenofobia e da austeridade tem futuro? Tem. Mas há outros futuros possíveis. E desses não podemos abdicar. Eles incluem direitos sociais, onde a austeridade cavou mais fundo, e cultura humanista apoiada em colectivos não amedrontados. Esses outros futuros são a razão da nossa luta, dia após dia, sem nunca desistir.

* Texto de abertura do Fórum Socialismo2018,no debate “A Europa da xenofobia e da austeridade tem futuro?”, que teve lugar a 31 deagosto de 2018

.

Leia original aqui

Últimos posts

Itens com Pin
Atividades Recentes
  • Vasco Graça updated his profile
    Publicação sobre moderação
    Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
Aqui ainda não existem atividades
LOGO4 vert01
A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
exceto quando expressamente assinadas por esta.
 

SSL Certificate
SSL Certificate