Reino Unido

Venezuela vai recorrer de decisão britânica que deu a Guaidó direitos sobre US$ 1 bi em reservas de ouro do país

 

Reuters - O Reino Unido reconheceu o líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, como presidente do país, decidiu o Supremo Tribunal inglês nesta quinta-feira, em um caso sobre quem deve controlar 1 bilhão de dólares em ouro venezuelano armazenado em Londres.

Uma audiência ao longo de quatro dias na semana passada foi a última parte de uma batalha relacionada às reservas de ouro mantidas no Banco da Inglaterra e centrada em qual dos dois presidentes rivais —Nicolás Maduro ou Guaidó— o Reino Unido consideraria como líder legítimo da Venezuela.

No início de 2019, o governo britânico juntou-se a dezenas de nações para apoiar Guaidó, chefe da Assembleia Nacional controlada pela oposição, depois que ele se autodeclarou presidente interino e denunciou Maduro como um usurpador que garantiu uma reeleição fraudulenta.

O juiz da Suprema Corte Nigel Teare proferiu uma sentença determinando que o Reino Unido havia “inequivocamente” reconhecido Guaidó como presidente interino constitucional. Teare baseou sua decisão na chamada doutrina de “uma voz”, na qual o tribunal deve aceitar como conclusiva uma declaração inequívoca do governo britânico que reconheça o líder de uma nação estrangeira.

“O Judiciário e o Executivo devem falar a uma só voz”, disse Teare. “Não podem existir dois presidentes da Venezuela.”

A equipe jurídica de Maduro disse que seu Banco Central (BCV) quer vender o ouro para financiar a resposta da Venezuela ao novo coronavírus. O BCV entrou com uma ação contra o Banco da Inglaterra em maio, alegando que o acesso às reservas de ouro da Venezuela fora proibido.

 

Sarosh Zaiwalla, um dos advogados que representam Maduro, disse nesta quinta-feira que o BCV estaria buscando uma saída para recorrer da sentença.

No Twitter, o BCV classificou a decisão como “absurda” por privar a Venezuela “do ouro de que precisa urgentemente para enfrentar a pandemia”.

A oposição alega que Maduro quer usar o ouro para pagar seus aliados estrangeiros, o que seus advogados negaram. Nos últimos dois anos, o governo de Maduro retirou cerca de 30 toneladas de suas reservas na Venezuela para vender no exterior por moedas mais valorizadas.

 

“Garantimos o ouro para o futuro do povo venezuelano”, disse à Reuters a embaixadora de Guaidó no Reino Unido, Vanessa Neumann.

Nova ronda presencial de acordo pós-Brexit em Bruxelas

29/06/2020
 

Uma nova ronda de negociações entre a União Europeia (UE) e o Reino Unido para um acordo pós-‘Brexit’ decorre a partir de hoje, em Bruxelas, com sessões “restritas” entre os negociadores dos blocos comunitário e britânico e reuniões especializadas.

“As equipas de negociação da UE e do Reino Unido vão reunir-se, na próxima semana, para uma nova ronda restrita com reuniões entre os principais negociadores Michel Barnier e David Frost, além de sessões especializadas”, anunciou quinta-feira o porta-voz da Comissão Europeia para a futura relação de Londres e Bruxelas, Daniel Ferrie, numa publicação feita na rede social Twitter.

Segundo o calendário desta nova ronda, divulgado pelo executivo comunitário no seu portal na Internet, os negociadores da UE e do Reino Unido, respetivamente Michel Barnier e David Frost, vão reunir-se hoje e na próxima sexta-feira.

Pelo meio, e durante toda essa semana, serão realizadas reuniões técnicas sobre alguns dos temas que estão a causar mais divergências entre Bruxelas e Londres, sendo eles o acesso equilibrado a ambos os mercados, a governança da futura parceria, a proteção dos direitos fundamentais e o setor das pescas.

O Reino Unido abandonou oficialmente a UE em 31 de janeiro passado, mas permanece dentro do seu espaço económico e regulatório até ao final do ano, durante o chamado período de transição.

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https://www.plataformamedia.com/2020/06/29/nova-ronda-presencial-de-acordo-pos-brexit-em-bruxelas/

Reino Unido deverá excluir Portugal da lista de destinos seguros para férias

Erika Nunes - 25/06/2020
 

Pandemia em Lisboa retirou o país da lista de destinos seguros que deverá ser anunciada no fim de semana.

O Reino Unido deverá excluir Portugal dos destinos que os britânicos poderão visitar neste verão sem ter de ficar 14 dias em quarentena ao regressar, noticiou a imprensa inglesa, citando fontes do governo. A lista oficial de quem participa na “ponte aérea” também excluirá nesta primeira fase a Turquia, a Croácia e os Estados Unidos e inclui apenas Espanha, França, Grécia, Itália, Alemanha e Austrália.

De acordo com o jornal inglês “Telegraph“, que cita fontes do governo, o motivo pelo qual Portugal ficará de fora tem a ver com “o pico de covid-19 registado nos últimos dias em Lisboa”, uma vez que, reconhece, o país teve apenas 150 mortes por milhão de habitante, menos do que a Espanha (606), a Itália (573) e o próprio Reino Unido (647). A “ligação [de Lisboa] ao Brasil” onde os casos “também têm aumentado em espiral” será outro fator de risco a pesar contra Portugal.

Leia mais em Jornal de Notícias

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/25/reino-unido-devera-excluir-portugal-da-lista-de-destinos-seguros-para-ferias/

Reino Unido ainda não decidiu se retira quarentena a quem viaje de Portugal

O Governo britânico vai dispensar o cumprimento de quarentena a pessoas que viajem entre o Reino Unido e alguns países com um risco baixo de infeção com covid-19, mas a inclusão de Portugal está incerta, noticia hoje o The Times.

De acordo com o diário, o Governo de Boris Johnson está perto de fechar uma lista de 10 países considerados seguros para os turistas britânicos viajarem sem que seja necessário ficarem em isolamento durante duas semanas no regresso, como acontece atualmente.

A lista inclui países como França, Espanha, Grécia, Itália e Turquia devido aos baixos níveis de infeção com coronavírus, mas Portugal, adianta o Times, é objeto de um “debate intenso” devido ao recente surto no Algarve.

Uma fonte do governo disse ao jornal que “qualquer decisão em aceitar corredores de viagens com outros países será baseada em critérios rigorosos de saúde pública”.

Uma festa em Odiáxere, no concelho de Lagos, resultou em pelo menos 111 pessoas infetadas, das quais 19 são crianças com menos de 9 anos, indicou a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, que terá realizado cerca de 2.500 testes covid-19 para conter o surto.

O Governo português tem sido ativo na pressão junto das autoridades britânicas para abrir um “corredor aéreo” para Portugal, destino de mais de 2,5 milhões de britânicos todos os anos, que representaram quase 20% das dormidas de estrangeiros em 2019.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a disse à BBC no início de junho estar em negociações com Londres e manifestou esperança de alcançar um acordo até ao final do mês e no sábado o embaixador de Portugal no Reino Unido, Manuel Lobo Antunes, voltou a manifestar interesse num entendimento.

“Nós pensamos que a situação está sob controlo e ficaríamos felizes em receber, como antes, o maior número possível de britânicos”, afirmou também à BBC.

Desde 08 de junho que todas as pessoas que chegam do estrangeiro ao Reino Unido, incluindo britânicos, são obrigadas a permanecer em isolamento durante 14 dias para reduzir a probabilidade de contágio da covid-19.

As transgressões serão puníveis com multas de mil libras (1.100 euros), estando isentas pessoas vindas da Irlanda, motoristas de transportes de mercadorias, médicos que estejam envolvidos no combate à pandemia de covid-19 e trabalhadores agrícolas sazonais.

A data formal para as condições desta medida serem revistas é na próxima semana, mas o ministro da Saúde, Matt Hancock, revelou na segunda-feira que o anúncio poderá acontecer antes.

“Temos uma data formal de reavaliação da política da quarentena no final do mês e vamos garantir a publicação com antecedência do que planeamos fazer em termos de para onde pensamos, com base nos pareceres epidemiológicos, sermos capazes de formalizar corredores de viagem”, afirmou.

De acordo com os dados de segunda-feira, o Reino Unido registou 42.647 mortos desde o início da pandemia covid-19, o mais alto na Europa e o terceiro maior número a nível mundial, atrás dos EUA e Brasil.

Portugal contabiliza pelo menos 1.534 mortos associados à covid-19 em 39.392 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

A nível global, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 469 mil mortos e infetou mais de 9 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

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Mais de 1.000 mortes durante 22 dias consecutivos. Ministros britânicos acusados de subestimar covid-19

 

Alguns ministros britânicos estão a ser acusados de subestimar a gravidade da pandemia de covid-19, depois de ter sido revelado que mais de mil pessoas morreram diariamente durante 22 dias consecutivos.

 

De acordo com o jornal britânico The Guardian, o pior dia da pandemia no país foi dia 8 de abril, quando o país se preparava a celebração da Páscoa, já em confinamento, e se registaram 1.445 mortes pelo novo coronavírus em 24 horas.

De acordo com os dados desse dia, o país tinha registado 938 óbitos, mas o Governo veio mostrar agora os novos dados que incluíam as vítimas mortais que sucumbiram ao vírus em hospitais, lares e residências privadas, verificando-se uma diferença de 507 óbitos.

No dia 9 de abril, Boris Johnson, que se encontrava hospitalizado devido ao vírus, foi substituído por Dominic Raab, que tinha afirmado que tinham ocorrido mais 881 mortes face ao dia anterior, quando o valor era 64% mais elevado.

Os ministros britânicos estão a ser criticados pela sua abordagem e os críticos dizem que deviam ter referido com mais clareza que os números que estavam a ser divulgados só contabilizavam as mortes em hospitais após os testes positivos para a covid-19.

A 29 de abril, 21 dias após o dia mais fatal, o Governo anunciou a nova contagem, que incluía as vítimas mortais em lares e residências privadas, bem como pessoas sem testes.

Durante 22 dias consecutivos, entre 2 de abril e 23 de abril, o número de mortes nunca atingiu os quatro dígitos, sendo que o valor mais elevado divulgado pelo Governo fixou-se em 980 óbitos. Os dados recolhidos pela publicação mostram que mais de 32 mil pessoas morreram em hospitais e mais de 16 mil morreram em lares de idosos.

Em três semanas morreram 26.566 pessoas, mais de metade do total de mortes registados até 5 de junho, que só contando com as mortes em hospitais se fixa em 52.161 mortes.

A atualização deste valor levou a que o Reino Unido fosse o país mais afetado na Europa em termos de mortes.

ZAP //

 

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Protestos em Londres acabam em violência. Mais de 100 detidos e vários feridos

 

Mais de 100 pessoas foram detidas após os confrontos deste sábado em Londres entre a polícia e manifestantes, entre os quais alguns de extrema-direita, que alegavam querer proteger estátuas.

 

Os manifestantes envolveram-se em confrontos com a polícia, junto ao Parlamento, em Londres, durante manifestações contra o racismo, segundo as autoridades.

Os agentes policiais foram atacados com garrafas, latas e outros objetos cortantes num dia marcado pela violência na zona governamental desta capital, durante uma manifestação antirracista.

Segundo a Polícia Metropolitana de Londres (Met), as pessoas detidas foram presas por agressão aos agentes, por atos de violência, posse de drogas e embriaguez.

Quinze pessoas, incluindo dois policias, ficaram feridas e seis foram hospitalizadas, segundo o Serviço de Ambulâncias, que não forneceu mais pormenores sobre o seu estado.

Os ativistas da extrema-direita, muitos dos quais estavam bêbados, reuniram-se em Londres para defender estátuas de figuras históricas britânicas, depois dos atos de vandalismo do fim-de-semana passado.

A estátua do ex-primeiro-ministro, Winston Churchill, por exemplo, apareceu pintada, forçando o Governo a protegê-la e a cobri-la para evitar danos.

Com os braços erguidos e gritando “Inglaterra”, os ativistas da extrema-direita atiraram garrafas, latas e pontapearam os agentes, enquanto a Polícia Metropolitana de Londres está a investigar um homem que urinou numa placa dedicada ao polícia Keith Palmer, que morreu no atentado terrorista de 2017 no Parlamento de Westminster.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, escreveu no Twitter que “o vandalismo racista não tem lugar” nas ruas e a quem atacar a polícia, será dado todo o peso da lei.

Racist thuggery has no place on our streets. Anyone attacking the police will be met with full force of the law. These marches & protests have been subverted by violence and breach current guidelines. Racism has no part in the UK and we must work together to make that a reality.

— Boris Johnson #StayAlert (@BorisJohnson) June 13, 2020

 

A secretária do Interior, Priti Patel, também já tinha criticado o “vandalismo inaceitável” dos manifestantes que provocaram a polícia. “Qualquer pessoa que cometer violência ou vandalismo deve esperar toda a força da lei. A violência contra os nossos polícias não será aceite. O coronavírus continua a ser uma ameaça para todos”, escreveu na mesma rede social.

Throughly unacceptable thuggery.

Any perpetrators of violence or vandalism should expect to face the full force of the law. Violence towards our police officers will not be tolerated.

Coronavirus remains a threat to us all. Go home to stop the spread of this virus & save lives. https://t.co/HsOx9cgrqD

— Priti Patel (@pritipatel) June 13, 2020

 

Para além destes incidentes, houve manifestações pacíficas em Hyde Park e noutras cidades britânicas, incluindo Belfast e Brighton, por grupos que procuraram expor o racismo na sequência do assassinato do afro-americano George Floyd.

Este sábado, também houve protestos antirracismo em Paris, França, que, segundo o jornal online Observador, juntaram entre 15 mil a 20 mil pessoas. Também se registaram confrontos com a polícia, depois de lhes terem sido atirado objetos, e contra-protestos de ativistas de extrema-direita.

Também decorreram protestos noutras cidades francesas como Marselha, Lyon, Montpellier, Nantes e Bordéus. Segundo o mesmo jornal, para este domingo estão já marcados novos protestos em Estraburgo.

As manifestações estão a ser promovidas pelo “Comité Adama Traoré”, grupo que lembra a morte de um jovem negro, em 2016, na capital.

ZAP // Lusa

 

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Secreta britânica recrutou terroristas como espiões na Síria

Em declarações a jornalistas russos, um ex-membro do Daesh explica como os serviços de inteligência britânicos o recrutaram para espiar e fotografar posições militares sírias e russas em território sírio.

Símbolo do Daesh numa cidade síria de onde o grupo terrorista foi obrigado a retirar-se graças às ofensivas do Exército sírio e dos seus aliadosCréditos / The Independent

Mohammad Hussein Saud, ex-membro do Daesh (também conhecido como Estado Islâmico), afirma que o grupo terrorista obrigava os civis sírios a cooperar sob ameaça de morte.

Num depoimento publicado esta segunda-feira pelas agências russas TASS e Sputnik, Saud diz que, «antes da guerra, trabalhava no município de Palmira», na recolha de lixo. Acrescenta que, quando o Daesh controlou a cidade, na região desértica da província de Homs, todos os trabalhadores foram forçados a intregar-se nas fileiras do grupo terroristas. «Se não fizéssemos, éramos decapitados. Não tínhamos escolha», diz.

Saud, que integrou as fileiras do Daesh em 2015, confessa que colocavam explosivos nas estradas e diz que muitos dos terroristas eram estrangeiros. Conseguiu escapar ao Daesh em 2016, depois de o grupo ter assassinado o seu irmão – um antigo militar sírio –, por traição.

Em declarações recolhidas pela Sputnik, diz que fugiu para Raqqah e, depois, para a região de al-Tanf, perto da fronteira com a Jordânia e o Iraque, e onde os EUA têm uma base militar. Ali, teve como missão patrulhar o território da base norte-americana.

«Não houve qualquer treino. Entrei e comecei imediatamente a roubar os beduínos. Tirávamos-lhes a água e os objectos de metal, que depois vendíamos. O nosso chefe era um sírio, um delinquente; vendia drogas e armas. Pagavam-me 300 dólares por mês. Os norte-americanos pagavam ao nosso chefe e ele distribuía o dinheiro», conta Saud.

Contactos com os serviços secretos britânicos

«Decidi regressar à minha cidade natal. Os britânicos souberam disso através dos seus intermediários e disseram-me que ia trabalhar para eles como espião», diz Saud aos jornalistas russos.

Garante que os britânicos lhe ofereceram dinheiro e lhe deram ordens para fotografar instalações importantes dos serviços secretos sírios e dos militares russos e sírios. «Tinha de lhes enviar as imagens pela Internet», acrescenta.

O ex-membro do Daesh confessa que os serviços secretos britânicos o contactaram ainda na região zona de al-Tanf e explica que queriam informação detalhada sobre a vigilância das instalações russas e sírias, para depois poderem levar a cabo acções terroristas.

Os agentes britânicos, diz Saud, nomearam um guia turístico de Palmira, que sabia várias línguas, como chefe do grupo de espiões. Confirma que os serviços secretos sírios conseguiram capturar um dos espiões.

A cientista política Karine Guevorguián esclareceu aos jornalistas que a presença das forças britânicas é há muito conhecida.

«Os instrutores britânicos (...) ensinavam a fazer fortificações. Os jihadistas do Daesh fizeram todos os túneis com as instruções dos britânicos (…). Também lhes ensinaram a fazer artefactos de artilharia com meios caseiros (…). É o que sabem fazer e sempre se dedicaram a isso», afirmou Guevorguián à Sputnik.

Por seu lado, o cientista político Andrei Manoilo acredita que apenas 10% dos espiões conseguem informação concreta para os serviços britânicos Mi-6 e para a CIA.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/secreta-britanica-recrutou-terroristas-como-espioes-na-siria

Uma unidade secreta em Londres para a «reconstrução» da Venezuela




O “site” de informação anglo-saxônico The Canary acaba de obter a desclassificação de documentos oficiais britânicos relacionados à Venezuela. Eles provam a existência, desde janeiro de 2019, de uma unidade secreta dentro de Whitehall (o Ministério Britânico de Relações Exteriores e da Commonwealth) responsável pela desestabilização, depois reconstrução, do país.

Nós havíamos anunciado, em Dezembro de 2018, que os Estados Unidos estavam preparando uma guerra de países Latino-americanos contra a Venezuela [1], depois, em Abril de 2020, tínhamos já revelado a existência de uma coordenação de antigas potências coloniais do continente (Espanha, França, Portugal, Holanda, Reino Unido) sob a presidência dos EUA para raptar o Presidente constitucional, Nicolas Maduro [2].

Os documentos consultados pelo The Canary atestam o investimento do Reino Unido nesse projeto. As pessoas que poderiam ser levadas ao Poder, incluindo Juan Guaidó, se comprometeram em favorecer os interesses econômicos da Coroa às custas de sua própria população.

Revealed: Secretive British unit planning for ‘reconstruction’ of Venezuela” («Revelado: Unidade Secreta Britânica planejando “reconstrução” da Venezuela» -ndT), John McEvoy, The Canary, May 13th, 2020.

Voltairenet.org| Tradução Alva

Notas:
[1] “Os Estados Unidos preparam uma guerra entre Latino-americanos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Dezembro de 2018.
[2] «Trump adapta a estratégia energética dos EUA», Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Abril de 2020.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/uma-unidade-secreta-em-londres-para.html

Veterano que angariou milhões para o NHS vai ser nomeado cavaleiro pela Rainha Isabel

O veterano inglês Tom Moore tornou-se um verdadeiro herói nacional

O veterano britânico vai ser nomeado cavaleiro pela Rainha Isabel II, depois dos seus esforços para angariar dinheiro para o serviço nacional de saúde (NHS) para ajudar no combate à pandemia de covid-19.

 

Tom Moore, veterano da II Guerra Mundial, tornou-se um verdadeiro herói nacional quando, no mês de abril, conseguiu angariar 33 milhões de libras, cerca de 37 milhões de euros, para o serviço nacional de saúde britânico (NHS), ao dar 100 voltas no jardim de sua casa, em Bedfordshire.

O ex-combatente da II Guerra Mundial, que completou recentemente 100 anos de vida, vai agora ser nomeado cavaleiro pela Rainha Isabel II, noticia a BBC, depois de uma indicação especial do primeiro-ministro.

Em comunicado, Boris Johnson afirmou que o centenário, que tinha como objetivo inicial angariar mil libras, “quebrou recordes e inspirou todo o país”, tendo sido “um farol de luz através da névoa do coronavírus”.

“Em nome de todos os que se emocionaram com a sua incrível história, quero muito agradecer-lhe. Tom é um verdadeiro tesouro nacional“, disse ainda Johnson, citado pela emissora britânica.

De acordo com o Diário de Notícias, as doações do povo britânico chegaram aos 33 milhões de libras no dia em que o veterano comemorou 100 anos, tendo recebido algumas honras, como o voo de dois aviões da Royal Air Force e a chegada de 140 mil cartões de aniversário vindos de todo o mundo.

Entretanto, Moore viu o seu nome ser dado a um comboio de alta velocidade, o serviço postal britânico criou um selo especial em sua homenagem e foi nomeado membro honorário da seleção de críquete inglesa.

O veterano era engenheiro civil antes de se ter alistado no Exército britânico durante a II Guerra. Esteve na Índia, no Myanmar e na Indonésia, tendo chegado ao posto de Capitão.

ZAP //

 
 

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https://zap.aeiou.pt/veterano-nomeado-cavaleiro-rainha-325534

Esperanças do acordo comercial pós-Brexit diminuem à medida que novas negociações terminam

EU's Brexit negotiator Michel Barnier says he has COVID-19- The...

Londres, 15 mai (Xinhua) - As esperanças da Grã-Bretanha de garantir um acordo comercial pós-Brexit com a União Europeia (UE) atingiram um grande obstáculo na sexta-feira, quando terminou a última rodada de negociações bilaterais.

Palavras irritadas foram trocadas pelos principais negociadores do Brexit de Londres e Bruxelas no final de uma terceira rodada de negociações de alto nível, conduzidas virtualmente através de links de vídeo entre canais.

Deixa ambos os lados com apenas seis semanas para chegarem a um acordo antes do prazo para a decisão de estender o período de transição além de 31 de dezembro.

Com apenas mais uma rodada de negociações, programada para começar no dia 1º de junho, comentaristas políticos estavam perguntando na sexta-feira à noite se era hora do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, entrar na briga na tentativa de romper o impasse.

O que está em jogo é se a Grã-Bretanha terá um novo acordo comercial em janeiro ou se os dois lados serão forçados a seguirem as regras de exportação e importação da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Johnson sempre insistiu que a Grã-Bretanha não buscará uma extensão do chamado período de implementação durante o qual o país segue as regras da UE enquanto as negociações continuam.

A primeira ressalva na última troca de palavras raivosas veio do principal negociador britânico, David Frost.

Após a rodada intensiva de negociações desta semana, concluída na sexta-feira, ele disse: "Lamento que tenhamos feito muito pouco progresso no sentido de chegar a um acordo sobre as questões pendentes mais significativas entre nós".

"O principal obstáculo é a insistência da UE em incluir um conjunto de propostas novas e desequilibradas no chamado 'campo de jogo equitativo' que vincularia esse país às leis ou normas da UE ou determinaria nossos regimes jurídicos internos, de uma maneira que seja sem precedentes nos acordos de livre comércio e não previstos na Declaração Política", acrescentou Frost.

Apressando uma questão em Bruxelas, Frost disse: "Assim que a UE reconhecer que a Grã-Bretanha não concluirá um acordo nessa base, ambos os lados poderão progredir".

Palavras duras também foram ditas em Bruxelas, com o negociador-chefe da UE no Brexit, Michel Barnier, dizendo: "Parece haver uma real falta de entendimento sobre as consequências mecânicas objetivas da escolha britânica de sair".

Ele retrucou a questão da UE, dizendo: "O Reino Unido terá que ser mais realista. Ele terá que ir além dessa falta de entendimento".

Em Bruxelas, Barnier disse aos repórteres que a última rodada de negociações foi muito decepcionante, dizendo que não estava otimista com o resultado.

Mantendo a esperança de um avanço em algum momento, Frost disse que "o Reino Unido continuará trabalhando duro para encontrar um acordo, enquanto houver um processo construtivo e continuar acreditando que isso é possível".

Os confrontos verbais levaram o Daily Telegraph em Londres a descrever a situação como um jogo competitivo.

O Telegraph disse que os pesos pesados ​​do Brexit britânico e da UE trocaram farpas em público pela primeira vez hoje e revelaram o estado lúgubre das negociações comerciais entre Londres e Bruxelas.

O comentário do jornal dizia que se a Grã-Bretanha não concordar com um acordo de livre comércio com a UE até outubro, o que permitiria a ratificação do acordo antes de 31 de dezembro, ela será forçada a negociar nos termos da OMC apenas com seu principal parceiro comercial.

O The Guardian também sugeriu que Johnson talvez tenha que lutar ao lado da Grã-Bretanha.

"Existe agora uma suposição de atividade no lado do Reino Unido de que será realizada uma cúpula entre Johnson e a presidente da comissão, Ursula von der Leyen, em meados de junho para romper o impasse", informou o Guardian.

Enquanto isso, Johnson manteve conversas com seu colega irlandês, Leo Varadkar, discutindo o Brexit e o Reino Unido e as abordagens da Irlanda para combater o coronavírus.

Downing Street disse que os dois líderes falaram sobre a última rodada de negociações entre o Reino Unido e a UE.

"O primeiro-ministro disse que o Reino Unido continuará trabalhando duro para chegar a um acordo e continua acreditando que isso é possível", disse um porta-voz oficial do Número 10.

 

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/17/c_139063577.htm

Polícia de Londres prende 19 pessoas durante protesto contra lockdown

O manifestante é detido por policiais durante protesto contra o lockdown, em Londres, no Reino Unido, em 16 de maio de 2020.
© REUTERS / Peter Nicholls

Neste sábado (16), a polícia de Londres interrompeu uma manifestação em Hyde Park contra o confinamento imposto para conter a pandemia do novo coronavírus.

Os policiais prenderam 19 manifestantes acusados de desrespeitar as regras de distanciamento social, disse o vice-comissário assistente Laurence Taylor através de um comunicado.

"Os policiais, mais uma vez, adotaram uma abordagem comedida e tentaram fazer com que o grupo se dispersasse. Eles [os manifestantes] claramente não tinham intenção de fazê-lo, e isso resultou na prisão de 19 pessoas", disse o vice-comissário, acrescentando que outras dez pessoas receberam advertências.

O Reino Unido passou a relaxar as restrições impostas durante a pandemia em 13 de maio, permitindo que até duas famílias pudessem se encontrar em parques. No entanto, aglomerações maiores seguem não sendo permitidas.

Funcionários realizam limpeza de praça no Reino Unido para deter a propagação do coronavírus

© AP Photo / Kirsty Wigglesworth
Funcionários realizam limpeza de praça no Reino Unido para deter a propagação do coronavírus

A polícia londrina disse que, enquanto a maioria das pessoas cumpria as orientações, um "grupo relativamente pequeno" na manifestação em Hyde Park, se uniu para protestar em clara violação das regras, colocando a si e a outras pessoas em risco de infecção.

O Reino Unido tem hoje 241.043 casos confirmados do novo coronavírus, sendo assim o terceiro país com mais casos no mundo, atrás de Estados Unidos e Rússia. Já em relação às mortes, os britânicos são o segundo país com mais óbitos registrados causados pela COVID-19, com 34.546 mortes. Os dados são da Universidade Johns Hopkins.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020051615589765-policia-de-londres-prende-19-pessoas-em-protesto-contra-lockdown/

Relatório do antissemitismo do Partido Trabalhista inglês: a caça às bruxas

 
 
Thomas Scripps | WSWS

Uma investigação de 860 páginas intitulada “O trabalho da Unidade de Governação e Jurídica [GLU, na sigla em inglês] em relação ao antissemitismo, 2014-2019” descreve um retrato devastador das operações sujas da direita blairista. Ao fazer isso, ressalta o papel politicamente criminoso desempenhado pelo ex-líder do partido, Jeremy Corbyn, na proteção dessas perigosas forças antissocialistas e contra a classe trabalhadora das demandas pela sua expulsão.
 
Escrito pelos aliados de Corbyn, para mostrar supostamente que uma “atmosfera de luta entre frações” minou a resposta do partido para as denúncias de antissemitismo, o documento prova que o aparato do partido realizou uma implacável e reacionária campanha contra os seus próprios membros, e que Corbyn compactuou com essa caça às bruxas.

O relatório baseia-se por volta de 10 mil emails, milhares de mensagens trocadas no serviço de mensagens interno do partido, e 400 mil palavras de mensagens em dois grupos de WhatsApp para membros sênior do partido. Enquanto centenas de milhares de trabalhadores e jovens se inscreviam no Partido Trabalhista, com ilusões de que Corbyn lideraria uma luta contra a austeridade e a guerra, os funcionários na sede do Partido Trabalhista estavam, para usar as suas próprias palavras, mantendo um “sistema Stasi” para expurgar o sentimento de esquerda.



A anatomia de uma conspiração

O conteúdo do documento confirma a análise historicamente elaborada feita pelo Partido Socialista pela Igualdade em 2015 após a eleição de Corbyn como líder do Partido Trabalhista:

“Ninguém pode propor seriamente que este partido - que, em sua política e organização e na composição social do seu aparato, é como o Partido Conservador - pode ser transformado em um instrumento de luta da classe trabalhadora. O Partido Trabalhista britânico não começou com Blair. Ele é um partido burguês de mais de um século de existência e um instrumento comprovado do imperialismo britânico e do seu aparato de estado. Seja liderado por Clement Attlee, James Callaghan ou Jeremy Corbyn, sua essência permanece inalterada”.
 
Embora os casos específicos de abuso detalhados sejam chocantes, eles apenas evidenciaram uma conspiração que já era amplamente conhecida. Os membros do Partido Trabalhista tiveram que esperar por anos pelos detalhes porque Corbyn e seus aliados se recusaram a se opor à campanha contra eles e suprimiram sistematicamente qualquer luta dos trabalhadores contra essa conspiração. Seus discursos sobre o “salão amplo” do partido e a “união” partidária eram uma blindagem política, por trás da qual um perigoso pequeno grupo poderia continuar policiando o Partido Trabalhista.

Em 2015, quando a campanha de Corbyn começou a ganhar força nas eleições pela liderança do Partido Trabalhista, o aparato iniciou uma ofensiva, procurando por pretextos para expulsar membros e apoiadores ou impedi-los de votar. O WSWS escreveu: “Todo o pessoal de tempo integral do Partido Trabalhista, junto à filiais do partido e clubes universitários do partido, estão agora ocupados com a investigação daqueles que pagaram três libras para se tornar apoiadores do Partido Trabalhista e votar na disputa pela liderança... O fedor do macarthismo circula sobre o Partido Trabalhista, que é reforçado pelo nome da investigação das inscrições: ‘Operação Picareta’, uma referência obscena à arma usada para assassinar Leon Trotsky.”

O relatório vazado mostra que esses novos apoiadores foram apontados por pelo menos 40 funcionários do Partido Trabalhista como “troskos”. A palavra - um termo pejorativo para trotskistas - aparece centenas de vezes no documento, no contexto de um ódio violento compartilhado em todos os gabinetes do Partido Trabalhista por qualquer um à “esquerda de Brown [Gordon Brown, ex-primeiro-ministro e chanceler de Tony Blair]”.

Autoridades do partido escreveram sobre a necessidade de “spray de pimenta” e “canhões de água” na conferência anual e grandes comícios do Partido Trabalhista, que eles temiam que seriam lotados com “troskos desenfreados”. Fazendo referência a um comício com grande participação, o Diretor da Unidade de Governança e Jurídica (GLU), John Stolliday, escreveu: “Tirem os cacetetes, vamos derrubar uns troskos”.

Corbyn, que foi responsabilizado pela entrada de membros inclinados à esquerda, foi abusado em um nível psicopata. Um funcionário escreveu: "qualquer um que nomear corbyn [sic] ‘para ampliar o debate’ merece ser levado para fora e fuzilado”. Outro disse que um membro de gabinete que apoiasse um dos discursos de Corbyn “deveria ser fuzilado”. Dois diferentes funcionários discutiram “enforcar e queimar” Corbyn e outro disse “morte por fogo é muito gentil” para ele e sua equipe de liderança. Sarah Mulholland, Secretária do Partido Trabalhista Parlamentar (PLP, na sigla em inglês), disse de um membro apoiador de Corbyn do grupo Trabalho Jovem, que se sabia estar sofrendo de problemas de saúde mental: “Eu espero [que o jovem membro] morra em um incêndio”.

Conforme se tornou claro que os milhares de novos membros e apoiadores do partido trariam Corbyn para a liderança, funcionários sênior discutiram atrasar ou cancelar o processo, seja sob o pretexto “de se temos os recursos para fazer as checagens” ou fazendo com que os outros candidatos “saiam na semana que vem e a coisa toda teria que ser parada”.

Quando esses planos se mostraram impossíveis, a sede do Partido Trabalhista organizou a expulsão em massa de membros. O trabalho, considerado “uma prioridade”, foi discutido em termos de “caçar milhares de troskos”, “reprimir troskos”, “bater em troskos”, “procurar troskos”, “expurgar troskos” e “caça aos troskos”. Pessoas que se juntaram a grupos protestando contra essas ações, como a página do Facebook “Stop the Labour Purge” (Parem o expurgo no Partido Trabalhista), foram alvos de exclusão escolhidos especificamente. Outros foram expulsos por dar “gostei” ou retuitar material de organizações como a People’s Assembly (Assembleia do Povo), UK Uncut (Reino Unido sem Cortes), National Health Action Party (Partido Nacional de Ação na Saúde) e o Green Party (Partido Verde).

Essa caça às bruxas não conseguiu impedir a vitória de Corbyn com um mandato esmagador. O sentimento na sede do Partido Trabalhista foi apocalíptico, com membros do gabinete escrevendo: “nós estamos ferrados”, “irreversivelmente fodidos”, “não sei quanto mais eu aguento”.

Porém, todo o desânimo foi imediatamente dissipado pela seleção de Corbyn de um gabinete de defensores da guerra, sua desmobilização da oposição à austeridade com a ordem de que os conselhos do Partido Trabalhista impusessem os cortes do Partido Conservador, e seu apoio à campanha pela permanência do Reino Unido na União Européia no referendo do Brexit. Encorajados pelas capitulações de Corbyn, a conspiração direitista foi intensificada com as eleições para a liderança de 2016, provocada por um golpe orgnaizado pelos parlamentares blairistas do Partido Trabalhista. Em uma declaração distribuída no congresso especial do Partido Trabalhista naquele ano, o Partido Socialista pela Igualdade explicou: “A campanha feita tem sido violenta - incluindo negar a mais de 130 mil membros e apoiadores o direito ao voto, e utilizando a orwelliana Unidade de Obediência para fazer buscas em contas online para encontrar ‘evidências’ de crimes de pensamento”.

“O desígnio desse expurgo como ‘Operação Picareta’, junto à rotina de denúncias de ‘infiltradores trotskistas’ é adequado, dado que um precedente histórico só pode ser encontrado na Rússia de Stalin”.

De acordo com o relatório, a sede do Partido Trabalhista solicitou inicialmente conselhos jurídicos para argumentar que Corbyn não deveria aparecer automaticamente como opção nas eleições se não fosse nomeado por parlamentares. Quando isso fracassou, a GLU começou a fazer buscas nas contas nas redes sociais de membros do partido e apoiadores inscritos para encontrar um pretexto para a expulsão ou rejeição.

Algoritmos foram criados para procurar comentários negativos sobre parlamentares blairistas de uma lista específica. Depois da publicação do Inquérito Chilcot da Guerra do Iraque, uma busca geral foi feita pela frase “criminoso de guerra” ou por referências feitas à “defensores da guerra”, com os funcionários preocupados com “uma entrada de pessoas revoltadas contra a guerra”. Frases como “Conservador vermelho”, “pseudo Conservador”, “blairista disfarçado”, “traidor” e “Conservador light” também foram procuradas como uma razão para expulsão. Operações de busca específicas foram lançadas contra aqueles inscritos em grupos de Facebook de esquerda. O Chefe de Disputas e então Diretor Interino da GLU, Sam Matthews, disse sobre o site “Nye Bevan News”, que se descreve como “A sua fonte de mídia de esquerda pró-NHS”: “Nós podemos provavelmente suspender todo mundo que seja um membro da página”.

Fora das eleições pela liderança, funcionários sênior buscaram persistentemente interferir ou reverter processos democráticos para impedir aqueles considerados esquerdistas de ganharem cargos. Matthews e a diretora executiva da GLU, Emilie Oldknow, trabalharam para impedir a aliada de Corbyn, Rebecca Long-Bailey de ser selecionada deputada pelo distrito de Manchester no órgão de governo do partido. Eles também discutiram a manutenção da suspensão do Partido Trabalhista do Distrito de Wallasey para dar à parlamentar anti-Corbyn, Angela Eagle, mais “tempo para se organizar” e ganhar a reunião geral anual. O secretário geral do partido, Ian McNicol discutiu com outros funcionários sênior planos para atrasar mudanças nas eleições da juventude do Partido Trabalhista, que beneficiariam grupos pró-Corbyn.

A sede do Partido Trabalhista agiu repetidas vezes contra os interesses eleitorais do Partido Trabalhista com a esperança de desmoralizar os apoiadores de Corbyn, e ajudou o vice-líder, Tom Watson, a vazar documentos do partido. Funcionários da GLU planejaram instalar Watson como um líder interino após o que eles esperavam que seria uma derrota para o Partido Trabalhista em 2017, e desviaram centenas de milhares de libras do partido para financiar uma “equipe de cargos-chave secretos” para apoiar parlamentares blairistas.
 
Esses esforços foram um fracasso. Corbyn surgiu da eleição de 2017 em uma posição incontestável. Se ele quisesse, Corbyn teria espulso os conspiradores blairistas com o apoio completo dos membros do Partido Trabalhista. Ao invés disso, Corbyn trabalhou com o aliado próximo, Jon Lansman, para estabelecer sua própria força policial na forma do Momentum - o suposto grupo de campanha “de base” criado nominalmente para avançar a transformação do Partido Trabalhista para a esquerda. Na realidade, desde o início, essa organização foi a ferramenta auxiliar de Lansman, pensada para neutralizar qualquer oposição da base que se desenvolvesse contra o núcleo blairista do partido.

A investigação explica que “trotskistas” - pelo que significa vários grupos de pseudoesquerda - “tentaram se organizar dentro de grupos locais do Momentum. Porém, em janeiro de 2017, o Momentum implementou uma constituição que excluía qualquer um que não fosse um membro do Partido Trabalhista...”

No congresso anual do Partido Trabalhista de 2018, o Momentum se juntou a Corbyn e aos sindicatos para impedir uma nova seleção obrigatória dos parlamentares do Partido Trabalhista. Em 2019, uma campanha nacional organizada fraudulentamente para reverter a seleção dos parlamentares blairistas foi levada a uma completa derrota. Onde quer que os membros do Partido Trabalhista tentassem iniciar uma luta contra os parlamentares e políticos blairistas e por sua própria iniciativa, Corbyn interveio pessoalmente para pôr fim a elas.

Os eventos dos últimos cinco anos não podem ser entendidos sem levar em conta as ações dos chamados “esquerdistas do Partido Trabalhista”, que foram os elementos decisivos na vitória da conspiração blairista.


Corbyn e a caça às bruxas de antissemitismo

As declarações de que o Partido Trabalhista era “institucionalmente antissemita” - que alcançaram um auge histérico e cínico de rotular o partido uma “ameaça existencial” para os judeus britânicos - foram uma continuação da campanha de direita do partido contra os seus membros por outros meios. Em um chamado para os membros do Partido Trabalhista em 2018, “Pela rejeição dos ataques de antissemitismo contra Jeremy Corbyn! Expulsem a direita do Partido Trabalhista!”, o Partido Socialista pela Igualdade advertiu: “ Nas últimas semanas houve uma aceleração da campanha direitista do Partido Trabalhista britânico para retratar Jeremy Corbyn como um antissemita, na esperança de expulsá-lo da sua posição como líder do partido.

“Em sua escala e ferocidade, esses esforços possuem todas as marcas de uma campanha de desestabilização envolvendo o MI5 no Reino Unido, o Mossad em Israel e a Agência Central de Inteligência (CIA) nos Estados Unidos... o objetivo dessa campanha é de descreditar o socialismo na esperança de impedir qualquer desafio pela classe trabalhadora à austeridade e ao avanço cada vez intenso do militarismo e da guerra no Oriente Médio e em todo o mundo”.

Utilizando estatísticas internas do partido, a investigação vazada do Partido Trabalhista conclui que houve 34 ações realizadas contra membros por antissemitismo entre novembro de 2016 e fevereiro de 2018, quando os blairistas controlavam o aparato do partido. Os autores da investigação estimam que houve mais 170 denúncias que deveriam ter sido processadas, resultando em um total de 204 casos, ou 0,037% dos membros do Partido Trabalhista. Em 2018, houve 283 suspensões e investigações, sem qualquer ação posterior contra 133 pessoas, e 10 expulsões de membros. Em 2019, com a pressão por “ação” contra o antissemitismo alcançando um nível febril, houve 579 suspensões e investigações (0,1% dos membros), sem qualquer ação tomada contra 255 pessoas e 45 expulsas.

Mesmo aceitando que todas essas expulsões foram justas, e os casos de figuras importantes mostram que elas não foram, o antissemitismo era um fenômeno marginal minúsculo no Partido Trabalhista.

A “crise” de antissemitismo foi politicamente fabricada. Indivíduos direitistas apoiadores do estado de Israel enviaram milhares de denúncias falsas de suposto antissemitismo e contaram histórias de terror inventadas para a mídia. A GLU ignorou ou atrasou respostas para um conjunto de casos genuínos de antissemitismo enquanto apresentava uma imagem enganosa do número e da natureza das denúncias sendo recebidas. Isso embasou notícias histéricas sobre a “inação” do Partido Trabalhista e o antissemitismo da “esquerda”.

No início de 2017, dossiês de alegações foram submetidos pelo grupo Partido Trabalhista contra o Antissemitismo. O grupo declarou publicamente em 2018 ter enviado 700 relatos individuais de suposto antissemitismo, quando o verdadeiro número era de pouco mais de 100.

Em 2019, metade das queixas de antissemitismo vieram de um membro do Partido Trabalhista “que está procurando nas redes sociais por evidências” e é frequentemente “rude e abusivo” com os funcionários e membros do partido. Uma “grande parte” de suas denúncias são duplicatas, e não se referem a membros do Partido Trabalhista ou a membros que já estão em processo disciplinar, “algo que já foi dito ao reclamante repetidas vezes”. Eles “enviam regularmente denúncias sobre pessoas compartilhando artigos relacionados aos judeus, com o comentário ‘eles não são judeus’”.

Material desse tipo foi manipulado pelos funcionários do partido para ter um máximo efeito. No meio do ano passado, vários sites de notícias noticiaram que funcionários na sede do Partido Trabalhista haviam se demitido dos seus gabinetes e destruído documentos importantes de denúncias antes de ir embora, guardando cópias que foram então vazadas para a mídia como evidências de “inação”. O relatório oferece exemplos similares.

Entre novembro de 2016 e fevereiro de 2018, 79% dos processos levantados contra membros por antissemitismo não foram resultado do trabalho da GLU. Matthews deixou que os casos não resolvidos se acumulassem na caixa de entrada de “Disputas”. Quando solicitado a apresentar registros de processos de denúncias de antissemitismo em 2018, ele ofereceu números imprecisos. Matthews e McNicol declararam repetidas vezes estar trabalhando em casos quando não estavam. Uma vez que um arquivo foi criado, e depois que McNicol havia deixado o cargo de secretário geral, Matthews e Oldknow romperam com os procedimentos anteriores e começaram a encaminhar casos para o gabinete da liderança do Partido Trabalhista. Esses emails foram então vazados para a mídia como “evidências” de interferência da liderança no processo das denúncias.

Todas as acusações foram ampliadas por uma mídia corporativa cúmplice. Em julho de 2019, McNicol e Matthews foram convidados para um trabalho de difamação no programa “Panorama” da BBC, intitulado “O Partido Trabalhista é antissemita?” para espalhar mentiras sobre os membros e criticar as falhas que eles haviam orquestrado.

Entre os casos que foram atrasados repetidas vezes, havia denúncias de negação do Holocausto com extensas evidências. Pelo menos um foi ignorado deliberadamente para avançar uma investigação maliciosa contra o ativista esquerdista e membro do Voz Judaica pelo Partido Trabalhista, Glyn Secker.

Diante de todas essas evidências, o relatório aceita mesmo assim as alegações do problema do antissemitismo do Partido Trabalhista como uma verdade, afirmando explicitamente aquilo que é claramente falso: “Esse relatório refuta qualquer sugestão de que o antissemitismo não é um problema no Partido, ou que é tudo uma ‘difamação’ ou uma ‘caça às bruxas’”.

Para legimitar a caça às bruxas, as ações traiçoeiras de Matthews e McNicol são tratadas absurdamente como o produto de “desvios e inércia burocráticos”.

A investigação afirma até mesmo que o significado essencial da conspiração generalizada contra os membros do partido era que ela encorajava uma suposta cultura de “negacionismo” em relação ao antissemitismo, que os membros são acusados de abrigar. Essa acusação desprezível tem como objetivo justificar não apenas as ações dos blairistas, mas de Corbyn ao se alinhar com a caça às bruxas de antissemitismo. Conforme explicado pelo WSWS: “Diante da enorme oposição dos membros do Partido Trabalhista, os blairistas só foram capazes de prosseguir com uma campanha baseada em tal conjunto de mentiras por conta das constantes capitulações de Corbyn e seu círculo interno”.

Uma parte da investigação conclui: “Essa seção demonstrou que Jeremy Corbyn, [o chanceler de seu gabinete] John McDonnell e os funcionários do Gabinete dos Líderes pediram para que os candidatos acusados de antissemitismo fossem removidos e que medidas disciplinares fossem tomadas...” Eles pediram especificamente que os casos de Ken Livingstone, Marc Wadsworth e Jackie Walker fossem “concluídos rapidamente, conforme solicitado pelos acionistas judeus”. O parlamentar Chris Williamson recebeu o mesmo tratamento.
 
Nenhum desses indivíduos é antissemita e todos eles passaram décadas na “esquerda” do Partido Trabalhista, trabalhando em estreita colaboração política com Corbyn. Ainda assim, quando Livingstone recebeu uma suspensão de dois anos pelo Comitê Constitucional Nacional em abril de 2018, o relatório constata que “mensagens de WhatsApp esclarecem que os funcionários do LOTO [Gabinete do Líder da Oposição, isto é, Corbyn] esperavam que Livingstone fosse expulso e ficaram chocados e infelizes com essa decisão”.

Posteriormente, a “GLU não iniciou uma nova investigação de Ken Livingstone, e foi o pessoal do LOTO que insistiu para que ela fizesse isso”.

Finalmente, o assessor de Corbyn, Seumas Milne, “discutiu com Oldknow tentando garantir que Ken Livingstone se demitisse do partido ao invés de sofrer outro processo disciplinar”.

Walker, que é negro e judeu, foi expulso após “Jeremy Corbyn e [a nova secretária geral e aliada de Corbyn] Jennie Formby se reuniu com o Conselho de Deputados, o Conselho da Liderança Judaica e o Fundo de Comunidade e Segurança, que disseram que o partido deveria agilizar os casos de Ken Livingstone e Jackie Walker”.

O relatório detalha como “o caso de Walker demonstra um esforço contínuo dos membros do LOTO... para buscar uma resolução rápida e decidida”.

A suspensão de Williamson recebeu o aval da secretária política de Corbyn, Amy Jackson: “Eu concordo que algo precisa ser feito hoje. Pessoas de todos os lados do partido estão absolutamente furiosas com ele”.

O chefe do Momentum, Jon Lansman, tornou-se encarregado da coordenação com os mais ardentes reacionários sionistas. Conforme o relatório explica, ele foi decisivo no apoio do Partido Trabalhista da definição da Associação Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês) de antissemitismo. A definição inclui como exemplos de suposto antissemitismo negar aos judeus seu direito à autodeterminação, por exemplo, declarando que a existência de um estado israelense é um esforço racista, e fazendo comparações da política israelense contemporânea em relação aos palestinos com aquela dos nazistas.

Em 2018, o gerente de mídia digital do Momentum, Harry Hayball, coordenou as investigações e punições da própria organização das pessoas acusadas de antissemitismo. Ele “se reuniu com um amplo conjunto de acionistas da JLM, organizações comunais judaicas e a comunidade judaica mais ampla”, afirma a investigação, e que “estudou a história do antissemitismo na esquerda em trabalhos como o ‘That’s Funny You Don’t Look Antisemitic’ [Que engraçado, você não parece antissemita] de Seteve Cohen e ‘The Left’s Jewish Problem’ [O problema judeu da esquerda] de Dave Rich”.

Hayball foi contratado pela própria GLU no ano seguinte, em julho de 2019, como um encarregado da governança sênior, lidando especificamente com antissemitismo. Ele se juntou à Patrick Smith, tornado chefe de disputas em junho de 2019. O relatório afirma que Smith “foi contratado especificamente por conta do seu conhecimento de antissemitismo e as formas que ele assume na esquerda...”.
 
Smith é um ex-organizador do grupo antitrotskista, Aliança pela Liberdade dos Trabalhadores. Junto a Smith, Laura Murray - filha do assessor stalinista de Corbyn, Andrew Murray - foi enviada para a GLU em 2019 como sua chefe de denúncias. Hayball e Smith intensificaram dramaticamente as investigações dos membros do Partido Trabalhista, fazendo buscas nas redes sociais por termos de busca “problemáticos” e evidências de “negacionismo”, postura “defensiva”, ou críticas aos “parlamentares e afiliados do Partido Trabalhista” pró-sionistas.

De acordo com as orientações elaboradas pela equipe, exemplos de postagens “problemáticas” incluem “argumentar que Israel utiliza incorretamente o Holocausto para os seus próprios objetivos”, “compartilhamento indevido por judeus, como Norman Finkelstein, falando sobre o Holocausto de uma maneira agressiva ou indevida” e “ênfase indevida em vítimas não judaicas do Holocausto, como se houvesse foco excessivo sobre os judeus”. Sobre Israel e o sionismo, as orientações dizem que “deve-se esperar que o povo judeu ou o povo israelense tenha maior liberdade para discutir essas questões”.

Esses não foram apenas exemplos de covardia política, mas também um apoio político a uma caça às bruxas direitista. Isso é confirmado pelo fato de que os aliados de Corbyn coordenaram e até mesmo ampliaram o processo disciplinar a partir de janeiro de 2018, depois de garantir uma maioria no Comitê Executivo Nacional (NEC, na sigla em inglês) do Partido Trabalhista. Conforme o WSWS escreveu durante as eleições gerais de 2019: “Nenhuma vez [Corbyn] defendeu seus próprios apoiadores, incluindo Ken Livingstone, Marc Wadsworth, Jackie Walker e Chris Williamson, que foram expulsos ou forçados a se desligar do partido por falsas acusações de antissemitismo. Ao invés disso, ele pediu desculpas repetidas vezes recentemente por uma suposta incapacidade para lidar rigorosamente e rapidamente com o antissemitismo”.

Uma força policial política antitrotskista

O momento do vazamento da investigação do Partido Trabalhista marca um desfecho apropriado para o histórico de cinco anos de Corbyn de rendição e conivência políticas. O relatório não foi revelado em um grande comício público ou apresentado para as seções do partido como a base para uma campanha política contra os conspiradores. Pelo contrário, os autores do relatório fingem estar surpresos pelas suas descobertas, escrevendo que “Espera-se que os funcionários do Partido Trabalhista, que, ao invés de serem assessores políticos para os políticos, são empregados pelo partido, ajam imparcialmente e sirvam ao partido, independentemente do atual líder...” Eles declaram diretamente até mesmo que “não estão preocupados com os acertos e erros de diferentes posições políticas defendidas por diferentes frações e indivíduos no Partido Trabalhista nos cinco anos anteriores”.

A investigação só foi vazada depois que Corbyn e McDonnell já haviam se desligado, após um novo gabinete de governo de reacionários ter sido instalado sob o novo líder, Sir Keir Starmer, e após o próprio Corbyn nomear Tom Watson e Ian McNicol para cargos vitalícios na Câmara dos Lordes!

O único objetivo de vazar a investigação é de prevenir a sua supressão como evidência no inquérito politicamente motivado da Comissão da Igualdade e dos Direitos Humanos sobre a discriminação antissemita no Partido Trabalhista. Corbyn queria transmitir a mensagem de que ele e sua equipe estavam ansiosos para remover o antissemitismo do partido, mas foram impedidos de fazer isso pela “atmosfera hiperfracional” gerada por seus oponentes.

Enquanto isso, os membros do Partido Trabalhista estão manchados com a acusação de antissemitismo, ou pelo menos de “negacionismo”, e deixados vulneráveis contra um novo ataque direitista. O escândalo pela investigação já foi usado como uma plataforma para uma nova ofensiva. Starmer não tomou quaisquer medidas diante das claras evidências contra os funcionários do Partido Trabalhista, dizendo aos membros: “Nós temos que parar o fracionalismo no nosso partido”. Na última quinta-feira, o NEC do Partido Trabalhista concordou em abrir uma investigação dos conteúdos do relatório e da maneira como foi feito e vazado, e um relatório foi agendado para meados de julho. O encontro do NEC, que incluiu múltiplos supostos “esquerdistas”, incluindo Jon Lansman, foi descrito pela Labour List como um “que não foi difícil”.

Enquanto isso, o ataque dos blairistas e sionistas continua sem impedimentos. O Partido Trabalhista está enfrentando até 8 milhões de libras em ações judiciais por violação de privacidade de criminosos direitistas apontados no relatório. A Skwawkbox cita fontes do Partido Trabalhista, segundo as quais as pessoas que acreditam terem tido um papel em compilar e vazar a investigação já estão sendo suspensas.

Em 16 de abril, membros do sindicato GMB na sede do Partido Trabalhista aprovaram uma moção de desconfiança contra a secretária geral, Jennie Formby, alegando que ela havia “efetivamente colocado unilateralmente todos os funcionários sob investigação”, e exigindo que ela “pedisse desculpas pessoalmente aos atuais funcionários nomeados no relatório”.

Uma reação nas redes sociais forçou o secretário geral da GMB, Tim Roache, a declarar que o sindicato “não estava atacando” Formby e esperaria ao menos pelo “inquérito independente” do Partido Trabalhista antes de fazer isso! Sua posição foi esclarecida pelo comentário de que “Vazar um relatório não editado, contendo nomes e mensagens pessoais de funcionários e os nomes das pessoas que fizeram denúncias sobre racismo concordando sob a premissa do anonimato, é inaceitável”.

Novara Media noticiou que o Movimento Trabalhista Judeu pró-sionista (JLM) está chamando pela suspensão de quaisquer organizações do Constituency Labour Party (Partido Trabalhista Distrital) que sequer discutam o documento. Starmer já prometeu uma caça às bruxas intensificada dos membros do Partido Trabalhista em cooperação com o JLM, o Conselho de Deputados de Judeus Britânicos e o Fundo de Comunidade e Segurança. Esse expurgo poderia acontecer sob a supervisão de ninguém menos do que a conspiradora líder, Emilie Oldknow, uma das principais escolhas de Starmer para substituir Formby como secretária geral do Partido Trabalhista - novamente, de acordo com a Novara Media.

Oldknow é secretária geral adjunta no sindicato da Unison, uma empresa que ela compartilha com o ex-colega da GLU, John Stolliday, que é hoje o chefe da Unidade de Coordenação de Membros da Unison. Pelo menos um jornalista noticiou que o secretário geral do sindicato, Dave Prentis, garantiu a esses dois conspiradores direitistas o seu apoio e proteção. A Unison apoiou Starmer na competição pela liderança recente, dizendo que ele era o “melhor colocado para unir” o Partido Trabalhista.

Esses são eventos historicamente significativos.

O ponto político mais chocante a surgir de todo esse episódio sujo é a denúncia patológica dos “troskos” pelo Partido Trabalhista. Essa obsessão com o trotskismo aponta para o fato de que o que era temido e foi rechaçado pelo Partido Trabalhista não era o próprio Corbyn - que, conforme os relatórios mostram, colaborou com a direita do partido - mas o movimento mais amplo para a esquerda da classe trabalhadora e da juventude que ele tentou encurralar.

O aparato do Partido Trabalhista e os assessores stalinistas de Corbyn, como Seumas Milne e Andrew Murray da fração linha dura Straight Left do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB, na sigla em inglês), estavam de pleno acordo. De fato, a Straight Left estava entre os maiores torcedores da verdadeira “stasi” - a polícia secreta stalinista da Alemanha Oriental - e da verdadeira “Operação Picareta” conduzida por Joseph Stalin, que resultou no assassinato de Leon Trotsky em 1940.

O stalinismo em todo o mundo levou a política de subordinação às reacionárias burocracias trabalhistas nacionais e ao imperialismo mundial, e de hostilidade mortal ao socialismo internacional, aos seus níveis contrarrevolucionários mais extremos. Hoje, profundamente descreditado como uma tendência política, seus ideólogos no Reino Unido funcionam como os burocratas mais leais dos sindicatos e da social-democracia e fervorosos opositores acadêmicos de qualquer movimento independente da classe trabalhadora.

Corbyn também foi moldado por essa política desde o seu envolvimento com a burocracia sindical e o tempo gasto escrevendo uma coluna para o Morning Star, órgão do Partido Comunista. Guiado pela sua perspectiva nacionalista reacionária, ele buscou consistentemente uma aliança com os sabotadores, caçadores de bruxas e parlamentares blairistas contra os seus próprios apoiadores.

O WSWS comentou em sua declaração de Ano Novo de 2020: “O corbynismo, que promoveu a ilusão de um renascimento do Partido Trabalhista como um instrumento de luta anticapitalista, provou no final ser um sinônimo de covardia política e prostração diante da classe dominante”.

Essas forças se reúnem na instituição do Partido Trabalhista, que foi fundado no início do século passado e, desde então, desenvolveu-se na mais importante fortaleza do capitalismo britânico contra o socialismo.

Tanto os stalinistas como os social-democratas, aqueles na “esquerda” nominal tanto quanto aqueles na direita, veem Trotsky e o trotskismo com hostilidade aberta e venenosa. Nenhuma outra figura ou movimento incorpora mais completamente a luta pela revolução socialista mundial. Trotsky foi o co-líder da Revolução de Outubro com Lenin, fundador da Quarta Internacional e o oponente mais implacável das tendências burocráticas que traíram a classe trabalhadora por décadas - a social-democracia e o stalinismo.

Desde a degeneração stalinista do Partido Comunista da Grã-Bretanha e dos outros partidos afiliados à Terceira Internacional, o trotskismo tem sido a única tendência política buscando separar a classe trabalhadora do Partido Trabalhista e dos sindicatos para consruir uma liderança revolucionária. Por isso, tornou-se um sinônimo para a burocracia para qualquer ameaça emergente ao seu controle político sobre a classe trabalhadora.

O ódio sentido pelo aparato do Partido Trabalhista pelo trotskismo foi reforçado durante os anos pós-guerra pelo crescimento extraordinário no apoio político ao movimento trotskista sob a liderança de Gerry Healy. Trabalhando dentro do Partido Trabalhista durante os anos 1950 e 1960, os trotskistas britânicos se opuseram não apenas à direita do Partido Trabalhista, mas aos “esquerdistas” dos quais ela dependia, e que procuravam manter a lealdade de membros de mentalidade socialista.

O Partido Socialista pela Igualdade explica no seu documento FundamentosHistóricos e Internacionais que os ganhos obtidos naquele período “foram o produto do apoio do grupo de Healy à Carta Aberta, publicada por James P. Cannon do Partido Socialista dos Trabalhadores dos EUA em 1953, defendendo o trotskismo das tentativas dos pablistas de liquidar a Quarta Internacional”.

O pablismo - cujo nome vem de seu principal teórico, Michel Pablo - surgiu como uma resposta impressionista à reestabilização pós-guerra do capitalismo mundial. Sustentando-se no impacto somado da traição das lutas revolucionárias pelo stalinismo, social-democracia e movimentos nacionalistas burgueses, o imperialismo estadunidense foi capaz de utilizar sua hegemonia econômica para restaurar a produção e o comércio globais.
 
Os stalinistas em particular, limitando os movimentos que eles dirigiam a uma perspectiva democrática burguesa e avançando políticas da “détente” e da “coexistência pacífica”, encorajaram a ilusão de que ganhos permanentes poderiam ser obtidos através das políticas da reforma nacional que receberam um novo sopro de vida após a guerra.

As forças pequeno-burguesas dentro da Quarta Internacional se uniram em uma tendência revisionista sob a liderança de Pablo e Ernest Mandel, declarando que os partidos stalinistas e social-democratas e movimentos nacionalistas burgueses eram um meio alternativo para alcançar o socialismo. A Quarta Internacional, eles insistiram, não teria um papel independente a desempenhar, mas deveria agir como um grupo de pressão buscando pressionar a liderança existente da classe trabalhadora para a esquerda.

Conforme o documento de criação do SEP de 2011 explicou, como resultado da luta contra o pablismo e pela perspectiva da revolução socialista mundial liderada por um partido de vanguarda marxista, os trotskistas britânicos obtiveram enormes ganhos: “A criação do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) foi crítica para o fortalecimento político dos trotskistas britânicos para intervirem em um meio político hostil. Na crise no stalinismo britânico após o Discurso Secreto de Khrushchev em 1956, eles foram capazes de conquistar forças importantes do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Isso permitiu que o grupo de Healy ganhasse apoio significativo no Partido Trabalhista e nos sindicatos, centrados no seu trabalho de expor os ‘esquerdistas’, exigindo que eles se separassem da direita e assumissem a luta por um governo do Partido Trabalhista comprometido com políticas socialistas”.

A burocracia do Partido Trabalhista retaliou com uma agressiva caça às bruxas contra os seus oponentes trotskistas, que respondeu em março de 1959 formando a Liga Socialista Trabalhista (SLL, na sigla em inglês) como uma tendência política declarada. A SLL foi proibida e dúzias de seus membros líderes foram expulsos do Partido Trabalhista, mas a sua luta de princípios conquistou a liderança do movimento de juventude do Partido Trabalhista, os Jovens Socialistas (YS, na sigla em inglês). O jornal da juventude Keep Left foi proibido, seus apoiadores foram expulsos e filiais apoiadoras dos YS foram fechadas.

A partir dessa experiência, o Partido Trabalhista aprendeu uma lição que não esqueceu desde então: sem a supressão burocrática mais implacável dos seus próprios membros, existia o perigo de que o trotskismo, i.e., socialismo internacional revolucionário, chegasse à liderança de poderosas seções de trabalhadores e jovens.

Nos anos 1980, o Partido Trabalhista iniciou um abandono de qualquer conexão com a classe trabalhadora, conforme respondia ao desenvolvimento da produção globalizada descartando seu programa de reformismo nacional em favor de uma glorificação direta do capitalismo. Esse processo teria desfecho na formação do New Labour sob Tony Blair e Gordon Brown.

Inevitavelmente, esse processo se iniciou com mais uma caça às bruxas, abrindo o caminho para uma série de enormes traições, incluindo a da greve dos mineradores de 1984-1985. Dessa vez, o alvo foi a Tendência Militante, apesar de sua obediente lealdade à burocracia e sua insistência de que o Partido Trabalhista e os sindicatos eram o mecanismo para alcançar o socialismo. Os futuros heróis do New Labour removeram seus próprios apoiadores nesse expurgo, ao lado daqueles com passados stalinistas, incluindo Peter Mandelson, John Reid, Charles Clarke e Alan Johnson. Outros, como Alan Milburn e Alistair Darling, possuíam um passado no Grupo Marxista Internacional pablista.

A vitória da liderança por Corbyn em 2015 foi exaltada universalmente pela fraternidade de organizações pseudoesquerdistas, no Reino Unido e internacionalmente, como um marco do retorno ao passado reformista do Partido Trabalhista. Ao invés disso, o vazamento da investigação confirma que o caráter pró-empresarial, pró-austeridade e pró-guerra do partido, irreconciliavelmente hostil à classe trabalhadora e ao socialismo, permanece inalterado.

Contra os defensores de Corbyn no Partido Socialista e Partido Socialista dos Trabalhadores pseudoesquerdistas, o Partido Socialista pela Igualdade insistiu desde o início que o Partido Trabalhista “nunca se recuperará” das traições do corbynismo. Com base no método marxista, na experiência de um século com a social-democracia e no exemplo recente do papel reacionário do SYRIZA na Grécia, nós explicamos, citando Trotsky:

“Se os sucessos eleitorais do Partido Trabalhista o elevarem novamente ao poder, as consequências não seriam uma transformação socialista pacífica, mas uma consolidação da reação imperialista, isto é, uma época de guerra civil, diante da qual a liderança do Partido Trabalhista revelará inevitavelmente a sua completa falência”.

Corbyn realizou uma supressão de cinco anos da luta de classes - desmobilizando greves e protestos - que prepararam o caminho para o governo mais direitista na história britânica sob a liderança de Boris Johnson. O último ato político significante de Corbyn foi declarar lealdade à Sir Keir Starmer, que, por sua vez, prometeu imediatamente apoiar o governo do Partido Conservador e tem levado o partido direitista herdado de Corbyn para o que é, para todos os propósitos, um governo de união nacional com Johnson.

A social-democracia britânica está comendo as próprias entranhas conforme entra na sua agonia mortal final, causada por uma mudança fundamental nas relações de classe internacionais que está se acelerando rapidamente como resultado da pandemia do coronavírus. Um novo estágio na vida política da classe trabalhadora está começando.

Milhares de membros e apoiadores do Partido Trabalhista já deixaram o partido enojados e em busca de um movimento socialista genuíno. Porém, a questão central que precisa ser abordada é de qual partido representa o socialismo genuíno. Essa resposta só pode ser encontrada lidando com a história e o programa das tendências políticas que se promovem como uma alternativa ao Partido Trabalhista. O Partido Socialista pela Igualdade chama todos os trabalhadores e jovens buscando um novo lar político para que estudem a nossa história política e aquela do Comitê Internacional da Quarta Internacional e tomem a decisão de se juntar ao movimento trotskista mundial.

Publicado originalmente em 27 de abril de 2020

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Governo britânico não vê nenhuma evidência de que o coronavírus tenha sido criado na China

 

 

Londres, 7 mai (Xinhua) -- O governo britânico não encontrou nenhuma evidência que o novo coronavírus causador da COVID-19 tenha sido criado pelo homem, disse o secretário de Saúde Matt Hancock.

Hancock fez a observação enquanto participava de um programa de Perguntas e Respostas com a Sky News na quarta-feira para responder a perguntas dos telespectadores e leitores da emissora sobre o coronavírus.

Perguntado pelo espectador John Fletcher se há alguma ligação entre o vírus e os laboratórios que pesquisam o vírus em Wuhan, China, o secretário disse: "bem, nós examinamos isso, mas não temos nenhuma evidência de que este é um coronavírus feito pelo homem."

"Eu entendo o que John (o espectador) está aludindo, mas não vimos nenhuma evidência dessa ligação", acrescentou.

Hancock foi então questionado sobre por que o presidente dos EUA, Donald Trump, havia promovido a teoria e se os americanos compartilhavam alguma evidência com seu homólogo britânico.

Ele disse: "Nós não vimos nenhuma evidência de uma ligação e, portanto, não há nada que eu tenha visto que confirme a alegação que John está se referindo e que algumas pessoas estão falando."

Em 1º de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reiterou que o coronavírus causador da COVID-19 é "de origem natural".

Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências de Saúde da OMS, disse em uma coletiva de imprensa virtual, em Genebra, que os cientistas que estão examinando as sequências genéticas do vírus garantiram "repetidamente que esse vírus é de origem natural".

No mês passado, a OMS disse que todas as evidências disponíveis sugerem que o novo coronavírus tem origem animal, e não é um vírus "manipulado ou construído" em um laboratório ou outro lugar.

As pessoas fazem fila fora da área de partidas no Aeroporto de Heathrow em Londres, Grã-Bretanha, em 1º de maio de 2020. (Foto por Tim Ireland/Xinhua)

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http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/08/c_139040076.htm

Reino Unido ultrapassa Itália e se torna país mais atingido pelo coronavírus na Europa

 

 

Londres, 6 mai (Xinhua) -- O Reino Unido ultrapassou a Itália como o país mais atingido na Europa pelo novo coronavírus, de acordo com os últimos dados oficiais divulgados nesta terça-feira.

Presidindo a coletiva de imprensa de Downing Street da terça-feira, o secretário britânico das Relações Exteriores, Dominic Raab, disse que outros 693 pacientes da COVID-19 morreram, elevando o número total de mortes relacionadas ao coronavírus no Reino Unido para 29.427.

Os números incluem óbitos em todos os ambientes, incluindo hospitais, casas de repouso e comunidade em geral.

No início do dia, o Escritório Nacional de Estatísticas (ONS, na sigla em inglês) publicou seus últimos números de mortes registrados por coronavírus, mostrando que o total de mortos havia passado de 32 mil, tornando o Reino Unido o país mais atingido na Europa, seguido pela Itália.

O ONS utiliza uma medida alternativa, pois seus números são baseados em todas as menções da COVID-19 em uma certidão de óbito, incluindo COVID-19 suspeita.

O número de mortes relacionadas ao coronavírus na Itália atualmente fica em 29.315.

Respondendo a uma pergunta da BBC sobre sua reação sobre o número de mortes no Reino Unido, Raab chamou-o "tragédia maciça", mas disse que é difícil comparar entre diferentes países antes que a pandemia acabe.

"É importante, mas não acho que você possa fazer as comparações internacionais que está fazendo nesta fase", disse ele.

"Não acho que teremos um veredicto real sobre o quão bem os países reagiram até que a pandemia termine e, particularmente, até termos dados internacionais abrangentes sobre todas as causas da mortalidade", disse ele.

Ao mesmo tempo, Raab disse que seu país continua a ver evidências do achatamento do pico do vírus.

A próxima etapa "não será fácil" à medida que os britânicos passem para a próxima fase de adaptação a um "novo normal", disse ele.

Um app de rastreamento de coronavírus começou a ser testado a partir da terça-feira na Ilha de Wight. O governo espera lançar o aplicativo em todo o país em "meados deste mês", de acordo com o secretário de Saúde, Matt Hancock.

O primeiro-ministro Boris Johnson disse na quinta-feira passada que o país "passou do pico" do surto da COVID-19 e que um plano "abrangente" será publicado ainda esta semana sobre "como podemos continuar a suprimir doenças" enquanto reiniciamos a economia.

 

 

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http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/06/c_139034727.htm

Covid-19 já fez 27.510 mortos no Reino Unido. São mais 739 em 24 horas

 
 
A informação foi avançada por Matt Hancock, esta sexta-feira, em conferência de imprensa.
 
Na conferência de imprensa diária em Downing Street, Matt Hancock, secretário de Estado de Saúde britânico, revelou que a Covid-19 fez mais 739 nas últimas 24 horas. No total, o novo coronavírus já matou 27.510 pessoas no Reino Unido. 
 
Quanto ao número de infetados, há a registar mais 6.201 casos positivos, o que perfaz um total de 177.454 desde que a pandemia chegou ao Reino Unido. Continuam hospitalizadas 15.111 pessoas, mais do que as 15.043 do dia anterior.
 
O governante revelou ainda que foi superada a meta dos 100.000 testes diários, sendo que na quinta-feira foram realizados 122.347. 
 
Os dados sobre as mortes foram recolhidos até às 17h00 da véspera, mas o número dos testes inclui aqueles que foram feitos até às 09h00 de hoje.
 
Desde quarta-feira que este balanço passou a incluir as mortes fora dos hospitais, como lares de idosos ou em residências particulares. Para acertar os dados, as autoridades sanitárias adicionaram mais das 3.811 mortes registadas desde 2 de março.
 
Filipa Matias Pereira | Notícias ao Minuto | Imagem: © REUTERS/Henry Nicholls
 
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Covid-19: Reino Unido é o país europeu com segundo maior número de mortes

 
 
Subdiretor-geral da Saúde de Inglaterra, Jonathan Van Tam, admite que o balanço final só vai ser conhecido quando for apurado o excesso de mortalidade
 
Reino Unido passou a ser o país com o segundo maior número de mortes provocados pela pandemia de covid-19 na Europa, atrás da Itália, graças à contabilização dos óbitos fora dos hospitais feita a partir desta quarta-feira pelo governo.
 
Esta nova forma de contabilização só é comparável com Itália, Alemanha e Suécia, pois não é certo que Espanha ou os EUA contem as mortes registadas em lares de idosos, indicou a diretora clínica do sistema de saúde público de Inglaterra, Yvonne Doyle. "Percebe-se, porque é complicado e complexo obter isto numa base diária", comentou.
 
A seguir a Itália, que registou 27.682 mortos de acordo com o balanço desta quarta-feira, e Reino Unido estão Espanha (24.275 mortos) e França (23.660 mortos). Mas o subdiretor-geral da Saúde de Inglaterra, Jonathan Van Tam, admite que o balanço final só vai ser conhecido quando for apurado o excesso de mortalidade.
 
"A seu tempo, teremos uma resposta melhor quando começarmos a olhar para o excesso de mortalidade, que vai ter em conta as mortes relacionadas com a covid-19 e as mortes que poderão ter acontecido, não devido à covid-19, mas como consequência da crise", afirmou esta quarta-feira, na conferência de imprensa diária do governo britânico.
 
 
Após pressão para incluir os dados relativos aos lares de idosos, devido ao receio de o impacto da pandemia estar a ser subestimado, o governo britânico adicionou mais 3.811 mortes desde 02 de março, agravando em 17% o número de mortes verificadas apenas nos hospitais.
 
O total de óbitos de pessoas que foram confirmadas como estando infetadas no Reino Unido, passou a ser 26.097 registados até às 17:00 de terça-feira, 765 dos quais nas últimas 24 horas. De acordo com o Ministério da Saúde britânico, foram registados mais 4.076 casos de contágio nas últimas 24 horas, aumentando o total para 165.221 até às 09:00 de hoje.
 
Os dados oficiais são revistos regularmente devido a atrasos na recolha de informação e agravados quando o instituto nacional estatísticas (ONS) inclui mortes que não foram confirmados por teste, mas cuja certidão de óbito refere covid-19.
 
A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 217 mil mortos e infetou mais de 3,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios. Perto de 860 mil doentes foram considerados curados.
 
Por regiões, a Europa soma mais de 129 mil mortos (mais de 1,4 milhões de casos), Estados Unidos e Canadá mais de 61 mil mortos (mais de um milhão de casos), América Latina e Caribe mais de 9.800 mortos (mais de 189 mil casos), Ásia mais de 8.300 mortos (mais de 213 mil casos), Médio Oriente mais de 6.500 mortos (mais de 164 mil casos), África mais de 1.500 mortos (quase 35 mil casos) e Oceânia 116 mortos (mais de oito mil casos).
 
Em Portugal, morreram 973 pessoas das 24.505 confirmadas como infetadas, e há 1.470 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.
 
Expresso | Lusa

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Covid-19: Reino Unido ultrapassa as 21 mil vítimas mortais

 
 
O ministro da Saúde britânico revelou que morreram mais 360 pessoas nas últimas 24 horas, aumentando o total para 21.092 óbitos.
 
O ministro da Saúde britânicoMatt Hancock anunciou, esta segunda-feira, que o Reino Unido registou 360 mortes nas últimas 24 horas por causa do novo coronavírus, o balanço diário mais baixo desde o final do passado mês de março. março.
 
Matt Hancock explicou que este número corresponde às mortes por Covid-19 em contexto hospitalar. No total, 21.092 pessoas morreram nos hospitais britânicos devido à Covid-19 desde o início da pandemia. Destes óbitos, 82 foram de trabalhadores do Serviço Nacional de Saúde britânico e 16 de funcionários de assistência social.
 
As 360 mortes registadas nas últimas 24 horas representam uma descida significativa face às 413 de domingo, e também menos de metade das anunciadas no passado sábado (813).
 
Os números das mortes referem-se a óbitos registados até às 17:00 da véspera apenas em hospitais e são compilados a partir de dados das direções regionais de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
 
O número total de casos de contágio, contabilizado até às 09:00 de hoje, é agora de 157.149, mais 4.309 do que no dia anterior, referiu Hancock no início da conferência de imprensa diária do governo sobre a crise.
 
 
A redução do número de pessoas hospitalizadas levou as autoridades a mostrar confiança de que o Reino Unido poderia estar prestes a ultrapassar o pico da pandemia, mas hoje o primeiro-ministro, Boris Johnson, rejeitou a pressão crescente para aliviar as medidas de distanciamento social. 
 
"Temos de reconhecer o risco de um segundo pico, o risco de perder o controlo sobre este vírus e deixar que a taxa de contágio volte a subir (...). Porque isso significaria, não só uma nova vaga de mortes e doença, mas um desastre económico", justificou.
 
O Governo anunciou em 09 de abril um prolongamento do regime de confinamento inicialmente decretado a 23 de março, estando uma revisão das condições prevista para a primeira semana de maio. 
 
Na semana passada, os governos autónomos da Escócia e País de Gales publicaram documentos com os princípios que vão guiar o desconfinamento nas regiões e hoje a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse que revelar as diferentes opções existentes "nos próximos dias". 
 
O primeiro-ministro britânico recusou publicar já um plano, mas prometeu novidades para os próximos dias e preparar o desconfinamento com "a maior transparência possível", em consenso com empresas, diferentes regiões do Reino Unido e também com os partidos da oposição.
 
Boris Johnson voltou hoje ao trabalho após duas semanas em convalescença na sua residência de campo fora de Londres a recuperar de uma infeção com o novo coronavírus que implicou a sua hospitalização durante uma semana, incluindo três noites nos cuidados intensivos. 
 
No sábado, o Reino Unido tornou-se no quinto país a ultrapassar a barreira das 20.000 mortes provocadas pelo novo coronavírus, depois dos EUA, Itália, Espanha e França.
 
A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 206 mil mortos e infetou quase três milhões de pessoas em 193 países e territórios. Perto de 810 mil doentes foram considerados curados.
 
Notícias ao Minuto | Imagem: © Getty Images
 
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ONU arrasa comportamento "hipócrita" do Reino Unido no combate à pandemia

 
 
Philip Alston acusa o governo britânico de causar "dano e miséria" à população com as políticas de "austeridade".
 
Philip Alston, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a pobreza extrema e os direitos humanos, apontou, esta segunda-feira, o dedo à forma como o Reino Unido se comportou durante o combate à pandemia de Covid-19.
 
O responsável sublinha que, pese embora os rasgados elogios que o governo liderado por Boris Johnson tem tecido ao serviço nacional de saúde britânico (NHS), este foi delapidado pelas políticas de "austeridade" dos últimos anos.
 
"Os meus pensamentos remontam ao sentido de quão tremendamente hipócrita é agora abandonar a austeridade com tamanho entusiasmo, após todo o dano e miséria causados a indivíduos e ao fatal enfraquecimento da capacidade da comunidade em lidar e reagir ao longo dos últimos dez anos", atirou, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.
 
"E, claro, muitos dos piores e mais danosos aspetos da austeridade não podem e não vão ser revertidos. Os danos causados à coesão da comunidade e à infraestrutura social irão, provavelmente, revelar-se permanentes", acrescentou o especialista.
 
Philip Alston não ficou, no entanto, por aqui, e afirmou que "as políticas de vários estados refletem uma filosofia de Darwinismo social que prioritiza os interesses económicos dos mais ricos, ao passo que pouco fazem por aqueles que trabalham arduamente para providenciar serviços essenciais ou são incapazes para se sustentarem a si mesmos
 
"Os governos fecharam países inteiros sem fazerem, sequer, o mínimo esforço para assegurar que as pessoas conseguem sobreviver. Muitas delas, que estão na pobreza, vivem diariamente, sem poupanças nem comida excedente. E, claro, os sem-abrigo não podem, simplesmente, ficar em casa", concluiu.
 
Notícias ao Minuto | Imagem: © Getty Images
 
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A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 31. Banco de Inglaterra quebra o tabu do não-financiamento governamental. Por Martine Orange

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 31. Banco de Inglaterra quebra o tabu do não-financiamento governamental.

Martine Orange 

Por Martine Orange

Publicado por Mediapart(La banque d’Angleterre brise le tabou du non-financement des Etats) em 09/04/2020 (ver aqui)

 

O banco central britânico financiará diretamente o Tesouro para o ajudar a fazer face à devastação sanitária e económica provocada pela epidemia do Covid-19. Um dos pilares do neoliberalismo desmorona-se.

 

No dia 9 de Abril caiu um tabu. E não um tabu qualquer. Um dos pilares do neoliberalismo: a independência dos bancos centrais e a proibição financiarem diretamente os Estados. O Banco de Inglaterra anunciou, de manhã cedo, que iria financiar diretamente “numa base temporária e de curto prazo” as despesas adicionais do Governo britânico relacionadas com as consequências da pandemia do Covid-19.

A partir de agora, todas as novas emissões do Tesouro serão subscritas diretamente pelo banco central. Isto significa que o governo deixará de ter de passar pelos mercados obrigacionistas e poderá escapar às restrições e exigências dos mercados financeiros, pelo menos momentaneamente.

Embora o Banco de Inglaterra já tivesse utilizado este mecanismo muito brevemente e de forma muito limitada (apenas 20 mil milhões de libras esterlinas na época) na altura da crise de 2008, esta decisão marca uma reviravolta dramática, tanto intelectual como prática. Porque desta vez, o Banco de Inglaterra diz estar disposto a conceder um financiamento ilimitado, dada a gravidade da crise provocada pelo coronavírus.

Texto 31. Banco de Inglaterra quebra o tabu do nãofinanciamento governamental 1

Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra © Tolga Aklen / AFP

O novo governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, tinha excluído o recurso a um tal dispositivo. Em meados de Março, considerava que tal medida não era adequada para lidar com a epidemia do coronavírus. Em 6 de Abril, continuava a utilizar uma coluna do Financial Times para se opor a todas as propostas de monetização da dívida pública britânica.

A ideia é avançada pelos apoiantes da Política Monetária Moderna, que argumentam que os Estados podem financiar-se a si próprios tanto quanto querem através da criação de dinheiro, especialmente para iniciar a transição ecológica. Foi recentemente retomada por Adair Turner, antigo presidente da Autoridade dos Serviços Financeiros do Reino Unido durante a crise de 2008. Na sua opinião, dadas as circunstâncias excecionais, os bancos centrais devem alinhar-se atrás dos governos para os ajudar a fazer face a este cataclismo económico.

A monetização da dívida “prejudicaria a credibilidade [do banco central] no controlo da inflação ao minar a sua independência operacional. A prazo isto iria conduzir a um balanço insustentável do banco central e é incompatível com a prossecução de um objetivo de inflação por um banco central independente“, escreveu Andrew Bailey no domingo. Em apoio à sua afirmação, citava os exemplos inevitáveis da República de Weimar, na década de 1920, ou do Zimbabué, que tanto fez a rotativa trabalhar a imprimir notas de banco para se financiar a si própria, que levou a uma hiperinflação de vários milhares de por cento e à destruição da economia.

A conversão brutal do Governador do Banco de Inglaterra ilustra a enorme convulsão que a pandemia do coronavírus está a causar em todo o mundo. Entretanto, os primeiros números da devastação provocada por esta crise sanitária, os confinamentos impostos, o encerramento da economia em quase todos os países começaram a aparecer. São espantosos, sem precedentes nos países em tempo de paz. De um país para outro, entre um quarto e um terço da economia está parada. Milhões estão desempregados ou desempregados a tempo parcial. E, contrariamente às esperanças alimentadas pelos governos e pelos financeiros, esta crise promete ser longa, imprevisível, marcada por uma recessão que deverá ser muito forte e muito longa.

Confrontados com esta situação extraordinária, todos os economistas, mesmo os mais liberais, só veem os Estados como os únicos capazes de segurarem com firmeza as economias em colapso. Porque também neste domínio os dogmas estão a ser postos de lado: o Estado, que é suposto ser a fonte de todos os problemas, está a tornar-se a solução. “Os governos devem continuar a apoiar o setor privado, incluindo a tomada de participações de capital, e o emprego. Tal exigirá um aumento acentuado das despesas e dos investimentos públicos, enquanto as receitas diminuem. Uma política monetária ultracomodativa continuará a ajudar a aumentar as dívidas…. As fortes exigências das finanças públicas não devem conduzir a uma dívida insustentável que assuste os mercados: isto exige uma reflexão nova e criativa sobre as questões de política macroeconómica“, argumentou Laurence Boone, economista-chefe da OCDE, nos últimos dias. Uma instituição que há mais de vinte anos tem denunciado sistematicamente a dívida pública.

Desde que a epidemia atingiu a Europa, os governos já anunciaram planos no valor de dezenas de milhares de milhões para apoiar as suas economias e empresas. Mas tudo está a sair a um ritmo acelerado.

Após o início do confinamento, o Reino Unido necessita de mais 2,5 mil milhões de libras (2,8 mil milhões de euros) por dia para satisfazer as necessidades imediatas (hospitais, seguro de desemprego, assistência às empresas).

Para abril, o Governo já planeou triplicar as suas idas ao mercado de capitais em relação às suas previsões: em vez de 15 mil milhões de libras esterlinas, prevê angariar 45 mil milhões de libras esterlinas dentro de um mês. Mas isto é apenas a ponta do icebergue, receiam alguns economistas, pois esperam que o governo enfrente gigantescas necessidades de financiamento. As estimativas iniciais sugerem que a dívida adicional da Grã-Bretanha poderá exceder 200 mil milhões de libras esterlinas este ano.

O aumento da procura nos mercados, em concorrência com todos os outros Estados, poderá levar a um aumento das tensões, fazer subir as taxas com o risco de criar uma dívida insustentável e provocar novas crises de dívida soberana.

Neste contexto, a decisão do Banco de Inglaterra de adquirir diretamente as novas emissões de dívida constitui um auxílio incomensurável ao Tesouro do Reino Unido. Sabe que tem segurança ilimitada neste momento de provação, mesmo que seja “temporário e de curto prazo“. “Este mecanismo facilitará temporariamente os fluxos de tesouraria do governo e apoiará o funcionamento do mercado, minimizando o impacto imediato da captação de fundos adicionais nos mercados obrigacionistas e monetários“, afirmou o Tesouro num comunicado.

O Banco de Inglaterra pode fazer escola com este exemplo? Certamente nos Estados Unidos. A Reserva Federal já afetou recursos ilimitados para apoiar o mundo financeiro e certas empresas. Diz que está pronto para ir para além disso, se houver necessidade. Na realidade, existem precedentes. Em 1941, a Reserva Federal abdicou totalmente da sua independência e forneceu financiamento ilimitado ao Governo dos Estados Unidos em nome do “esforço de guerra“.

Na Europa, a dúvida é mais do que permitida. Embora o Banco Central e o Governo britânico não hesitem em contornar todas as regras e costumes para fazer face a uma crise sem precedentes, os Ministros das Finanças europeus continuam a discutir em intermináveis reuniões do Eurogrupo se é ou não possível contornar certas condições nestes tempos inéditos. Assim, imaginar que eles poderiam tocar na independência do BCE e financiar diretamente os Estados, princípios que estão consagrados nos Tratados europeus, é um mito. A União Europeia prefere ver as suas economias afundarem-se, como tem feito com a austeridade imposta ao longo desta década, ou mesmo a estilhaçarem-se todos, do que tocar nos seus dogmas. Para ela, um tabu não pode ser quebrado.

 

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A autora: Martine Orange[1958 -], jornalista da área economia social em Mediapart desde 2008, ex-jornalista do Usine Nouvelle, Le Monde, e La Tribune. Vários livros: Vivendi: A French Affair; Ces messieurs de chez Lazard, Rothschild, um banco no poder. Participação em obras colectivas: a história secreta da V República, a história secreta da associação patronal, Les jours heureux, informer n’est pas un délit. Recebeu o prémio de ética Anticor em 2019.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Com mais de 18 mil óbitos, Reino Unido atravessa “pico” de pandemia

 

O Reino Unido está no “pico” da pandemia covid-19, afirmou esta quarta-feira o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, que disse que o respeito pelas regras de distanciamento social evitou que os hospitais ficassem sobrecarregados.

 

“Quero agradecer a todas as pessoas em todo o país pelo empenho firme em respeitar as regras, incluindo nesta Câmara. Está a fazer a diferença, estamos no pico”, disse esta quarta-feira Matt Hancock, durante uma declaração na Câmara dos Comuns sobre as medidas do governo para o combate à doença.

O ministro da Saúde britânico falava no primeiro dia de funcionamento do parlamento em formato híbrido, com alguns deputados sentados nas bancadas, mas separados por vários lugares vazios, e outros deputados a participar por videoconferência.

Hancock disse existirem atualmente 10.000 camas vagas nos hospitais públicos e que os cuidados intensivos foram reforçados com mais 3.000 camas desde o início da crise. “Queremos abrir o NHS [serviço nacional de saúde britânico] a pacientes sem sintomas do coronavírus ou com doenças não relacionadas com o coronavírus assim que for seguro fazê-lo”, adiantou o governante.

 
 

Porém, adiantou, antes de as medidas de distanciamento social serem aliviadas ou alteradas, terão de ser preenchidos os critérios estipulados pelo Governo, nomeadamente que os serviços de saúde continuam a aguentar a pressão e que o número de mortos e taxa de contágio diminuam.

Mais de 18 mil óbitos, 69 dos quais no NHS

O ministério da Saúde britânico anunciou também nesta quarta-feira que, até às 17:00 de terça-feira, tinham morrido nos hospitais britânicos 18.100 pessoas infetadas com o novo coronavírus, mais 763 óbitos do que no dia anterior.

Na conferência de imprensa na terça-feira, o sub-diretor geral da Saúde de Inglaterra, Jonathan Van Tam, disse acreditar que o pico de infeções já passou em Londres, onde terá acontecido antes da Páscoa, mas em outras partes do Reino Unido ainda não.

“Em termos do número de pessoas no hospital, houve um pico em Londres, provavelmente à volta de 10 de abril, e desde então tem existido um declínio. Mas as outras regiões, Escócia, País de Gales e Inglaterra, registam um planalto nesta altura”, vincou.

O governo adiantou que terão morrido 69 profissionais do NHS e 15 empregados de lares de idosos, um número substancialmente inferior aos 112 identificados no memorial da página eletrónica NursingNotes [https://nursingnotes.co.uk/covid-19-memorial].

Uma análise do jornal Financial Times sugere que o número total de mortes no Reino Unido durante a pandemia possa chegar a 41.000, mais do dobro do registado oficialmente pelo governo, que só contabiliza os óbitos nos hospitais.

ZAP // Lusa

 
 
 

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Boris esteve “desaparecido em combate” e Reino Unido teme segunda vaga de covid-19

 

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi acusado de estar “desaparecido em combate” nos primeiros dias da pandemia. O Governo teme uma segunda vaga de covid-19, mas pondera aligeirar as medidas de contenção.

Boris Johnson tem muito a provar nos próximos dias no que toca à gestão da pandemia de covid-19. O seu plano para controlar o surto do novo coronavírus foi muito criticado e chegou a altura do primeiro-ministro britânico provar que consegue manter a situação sob controlo.

O Governo está dividido entre os que defendem alívio das restrições e os que privilegiam supressão do vírus, mas está já a preparar a discussão sobre o calendário para o alívio das medidas de contenção. O medo é que uma segunda vaga da doença volte a colocar o país de joelhos, escreve o jornal Público.

Johnson tem estado no centro das críticas após a imprensa britânica ter revelado que falhou cinco reuniões ministeriais de emergência no início da pandemia, numa altura em que foram tomadas decisões importantes sobre como gerir a crise. De acordo com o The Times, o primeiro-ministro do Reino Unido entendeu não ser prioritário marcar presença nestas reuniões.

 
 

Jonathan Ashworth, “ministro-sombra” da Saúde, acusa o chefe do Governo britânico de ter estado “desaparecido em combate” numa altura em “o mundo inteiro já tinha percebido a gravidade do que estava para vir”.

A primeira abordagem do Reino Unido à pandemia foi relaxada, procurando criar imunidade de grupo. No entanto, apenas dez dias depois, esta estratégia foi abandonada.

“Todos os governos cometem erros, incluindo o nosso. Procuramos aprender e melhorar todos os dias. No futuro teremos a oportunidade de olhar para trás, de refletir e de retirar algumas lições importantes”, justificou o líder do Conselho de Ministros, Michael Gove.

Entretanto, acabou por ser imposto o confinamento obrigatório no Reino Unido, no dia 23 de março. Agora, o Governo discute o possível levantamento ou suavização de algumas das medidas de contenção impostas. O Executivo está dividido entre aliviar gradualmente as medidas ou prolongar a quarentena.

Atualmente, com a capacidade de realizar 38 mil testes por dia, o Reino Unido está longe da meta de 100 mil testes por dia que se propôs a atingir até ao final deste mês.

“A grande preocupação é um segundo pico”

O número de óbitos no Reino Unido durante a pandemia covid-19 subiu para 16.509 após ter sido registada a morte de mais 449 pessoas infetadas nas últimas 24 horas, informou esta segunda-feira o Ministério da Saúde britânico. O número total de casos de contágio é agora de 124.743, mais 4.676 do que no dia anterior, referiu.

Na conferência de imprensa diária do Governo sobre a crise, no domingo, a sub-Diretora Geral da Saúde, Jenny Harries, recusou dizer se o Reino Unido já tinha ultrapassado o pico da curva epidemiológica, mas admitiu que “as coisas estão a ir na direção certa”.

A responsável acrescentou que se as medidas de distanciamento social forem relaxadas, existe o risco de uma segunda vaga de infeções, opinião que hoje o porta-voz do primeiro-ministro, Boris Johnson, também reiterou, a propósito do fim do regime de confinamento.

A grande preocupação é um segundo pico. É isso que, em última análise, vai causar mais danos à saúde e mais danos à economia. Se avançarmos depressa demais, o vírus pode começar a espalhar-se exponencialmente novamente”, referiu, citado pelo The Guardian.

O porta-voz disse hoje que Boris Johnson continua a recuperar da infeção do novo coronavírus e não está a trabalhar, mas que tem recebido atualizações sobre o combate à pandemia.

Johnson está em convalescença na sua residência de campo em Chequers Court, nos arredores de Londres, desde que recebeu alta a 12 de abril do hospital de St. Thomas, em Londres, onde passou uma semana internado devido ao agravamento dos sintomas do novo coronavírus, incluindo três noites nos cuidados intensivos.

ZAP // Lusa

 
 
 

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Reino Unido | Médicos 'convidados' a não escrever Covid-19 em certidões de óbito

 
 
Denúncia foi pela Good Law Project, uma organização sem fins lucrativos que atua no Reino Unido.
 
Segundo uma denúncia da organização Good Law Project, há hospitais a recomendarem aos médicos que não escrevam que a causa de morte dos seus pacientes tenha sido por Covid-19.
 
De acordo com o declarado, com base em documentos de circulação interna de hospitais, os médicos são convidados a não declarar a morte por Covid-19, mas sim por "pneumonia" ou "pneumonia adquirida na comunidade".
 
A recomendação, intitulada 'guia para a certificação de óbito em casos de pacientes de Covid-19 confirmados durante a pandemia', esclarece que todas as mortes pelo novo coronavírus devem ser reportadas aos responsáveis do hospital.
 
Porém, num ponto inferior, explica-se que "não é obrigatório escrever Covid-19 como parte do certificado médico de causa de morte", explica o jornal Daily Mail.
 
"Se os médicos estão a ser gentilmente desencorajados a reportar mortes por Covid-19, não temos forma de saber que os dados do Governo por coronavírus são precisos", esclareceu a fundação responsável pela denúncia, informando, contudo, que este tipo de caso só terá sido verificado na gestão de um hospital.
 
Sérgio Abrantes | Notícias ao Minuto | Imagem: © Reuters
 
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Reino Unido sem plano para sair do "bloqueio total" devido à pandemia

 
 
Várias fontes governamentais adiantam ao The Guardian que não há, neste momento, um plano ou uma previsão para combater o impacto da pandemia no país, sendo a única solução, "uma vacina", quando ela chegar.
 
Quando vários países europeus começam já a falar em levantar restrições no próximo mês, várias fontes do Governo britânico adiantam, esta quarta-feira, ao The Guardian que não há, neste momento, um plano para fim do "bloqueio total" no país.
 
Isso mesmo referiu, esta tarde, o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, afirmando que o Reino Unido ainda não alcançou o ponto de viragem na pandemia, pelo que "é demasiado cedo" planear o levantamento do regime de confinamento.
 
A estas declarações, o diretor-geral de Saúde de Inglaterra, Chris Whitty, acrescentou que, embora tenha referido sinais positivos em termos da estabilização do número de hospitalizações, ainda são esperados mais dados sobre a evolução da curva epidemiológica e que espera um aumento das mortes nos próximos dias. 
 
"Ainda não chegámos a um ponto em que podemos dizer com confiança e segurança que passámos o pico e que podemos pensar nas próximas fases", disse o responsável. 
 
A subsecretária do estado da saúde, Nadine Dorries, vai mais longe, e num tweet partilhado pelo jornal britânico, afirma mesmo que o fim das restrições só vai acontecer quando houver uma vacina contra a Covid-19. Acontece que, segundo as previsões, tal não acontecerá ainda este ano.
 
"Os jornalistas devem parar de perguntar sobre uma 'estratégia de saída'. Há apenas uma maneira de 'sair' do bloqueio total e é quando tivermos uma vacina. Até lá, precisamos de encontrar maneiras de adaptar a sociedade e encontrar um equilíbrio entre a saúde da nação e nossa economia", escreve Nadine Dorries.
 
Saliente-se que, o principal partido da oposição desafiou esta quarta-feira o governo de Boris Johnson a tornar pública a estratégia de saída do regime de confinamento imposto a 23 de março para travar a transmissão do novo coronavírus, mais tarde do que outros países europeus. 
 
O recém-eleito líder do partido Trabalhista, Keir Starmer, defendeu, em declarações à BBC, que as pessoas precisam "ver a luz no fim do túnel".
 
Notícias ao Minuto

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CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXII – O CUSTO DE NADA FAZER OU DE NÃO O FAZER BEM – uma carta de GIUSEPPE IMBALZANO

 

 

I COSTI DEL NON FARE O DEL NON FARE BENE, del dr Giuseppe Imbalzano

L’Italia e il Mondo, 19 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O Dr. Giuseppe Imbalzano leu o meu artigo sobre Os dois estilos estratégicos de gestão de epidemias em confronto [1] e enviou-me o texto abaixo como comentário  que publicamos,  agradecendo-lhe vivamente.

O que  escreve deve ser lido  com muita atenção, porque o Dr. Imbalzano tem a competência  e a experiência necessárias para saber muito bem do que fala e do que escreve: basta olhar para o seu curriculum  profissional.

Giuseppe Imbalzano, médico, especialista em Higiene e Medicina Preventiva. Diretor Médico da ASL Lombardia há 17 anos (Ussl Melegnano, Asl Milano 2, Asl Legnano, Asl Lodi, Asl Bergamo, Asl Milano 1). Director Científico de projetos da UE (Serviço ao Cliente, Informatização da Medicina Geral). Tem-se ocupado da  organização do  serviço de saúde, prevenção, informática médica, ética, humanização hospitalar e psicanálise._Roberto Buffagni

P.S.: Tratamo-lo assim,  porque somos da mesma idade, mas até agora não nos conhecíamos.

 

Carissimo Roberto,

 

Tem um estilo forte, um encadeamento e uma fluidez de raciocínio, uma harmonia na leitura que fascina pela simplicidade e decisão, que imediatamente nos salta  aos olhos e nos entra  no coração.

Mas  terá pensado que estava a ser duro, incisivo, decidido,  e, em vez disso, é bondoso, delicado, quase ternurento.

As suas pinceladas são surpreendentes pela consistência dos valores que  expressam, mas está bem abaixo da realidade.

No seu texto descobre  a coragem e as lacunas no mundo civilizado.

O que é necessário, o que deve ser, o que se deve  saber.

 

O custo infinito.

 

Para fazer a prevenção comunitária é necessário ter um sistema já operacional e pronto para a intervenção sempre e em qualquer caso. Um compromisso que poucos têm, uma rede sempre pronta.

A Alemanha, o Reino Unido e outros países não têm um sistema de prevenção sanitária que esteja sempre pronto, ativo e universal.

Um sistema que  se preocupe  com a saúde e bem-estar dos seus cidadãos, que trabalhe sempre, que  verifique e  remova os perigos e riscos que nós temos, riscos que aparecem de repente, laboratórios de saúde pública, serviços de segurança alimentar e nutrição, higiene ambiental, ambientes confinados, vacinas, controles de água e como é útil para toda a comunidade, bem como medicina no trabalho  para a segurança dos trabalhadores.

Custa e isso é verdade, mas é um sistema silencioso e precioso, é o nosso sistema de garantia.

Não é apenas o custo, felizmente não infinito, mas a vigilância constante, instrumento rigoroso e barreira de proteção  para o nosso bem-estar. E o tempo para gerir e formar pessoal, para criar médicos e especialistas apenas por segurança, não é nem rápido nem simples.

E se há uma infeção, deteta a situação, cuida dos casos, acompanha-os e protege-os e, dessa forma, protege-nos a todos.

 

Seleção das espécies

 

Com esta infeção descobrimos que existe um novo modelo de seleção humana, de comunidade, baseado na relação custo/utilidade, “habitue-se a perder os seus entes queridos”.

Não que isto não tenha acontecido  no passado, Sparta docet, mas  nunca o foi de forma  tão lúcida, clara e precisa, talvez nunca o tenhamos ouvido nos últimos 75 anos.

E no  berço da democracia, da Magna Charta, da Constituição, do direito moderno.

A seleção não pela raça, mas sim pela  utilidade.

“Fizeste tudo o que podias pelo  teu país, precisas de uma pensão. De apoio  médico, de  medicamentos, de cuidados de saúde, de meios de mobilidade, precisas também de ternura, bem, agora obrigado.”

Uma bela poupança para o Estado. Grandes poupanças para o Bem-estar Nacional.

Com olhos pungentes, brihantes, muito loiro e, como hoje é moda, despenteado.

Mas sem nenhum esforço, em particular, uma bela tesourada de sujeitos inúteis.

Uma Flauta Mágica e muitos idosos atrás (não crianças, desta vez).

As infeções não afetam necessariamente os idosos,  mas este vírus  tem um  particular tropismo em relação à idade não infantil (talvez por causa do “excesso” de vacinação das crianças, como estamos a tentar compreender) e, como todas as doenças, tende a fazer enormes estragos em algumas categorias específicas  (doenças degenerativas crónicas e idosas no nosso caso).

A escolha biológica ideal (e depois dizem que não a fizeram  num laboratório na Inglaterra…)

Mas não se preocupem, isso afeta a todos, sem nenhuma preocupação com o cartão de identidade, ano e o século de nascimento.

Eles podem não morrer, mas eles  têm também necessidade  de cuidados de saúde.

E depois toda a família  do paciente, deixam-no em casa com os outros.

Mas o vírus criaram-no defeituoso!

Ai, ai, ai, a genética!

É letal numa certa idade, mas nem sempre é suave para  com as outras.

Para muitos, digamos 80%, passa rapidamente e nem  sentem nada ou quase nada, mas para 20% mais ou menos após uma semana, começam os problemas, o oxigénio, os cuidados intensivos, a reanimação ou com oxigenação de membrana extracorpórea, também conhecida como ECMO nas iniciais em inglês. E medicação. E cuidados hospitalares.

Mas onde vou encontrá-los se os doentes, os mal comportados aparecerem, numa ambulância, todos juntos?

E não apenas aqueles que passaram para lá da idade deles e  que só são bons apenas para pedir pensões, assistência e medicamentos.

Há motoristas, eletricistas, canalizadores, operários, guardas noturnos, bombeiros, polícias, socorristas, médicos e enfermeiros, todos juntos e nem sempre, agora mesmo, a salvar  a vida de outros.

Selecionemos, também aqui, antes de gastar dinheiro com aqueles que não vão sobreviver. Mas entre estes, quem tem mais direito? E depois também pedem para serem tratados  durante duas ou três semanas. E depois  disto, a situação  não está resolvida.

Ah, mas eles ficaram em casa?

Então, em 7 dias, temos de acomodar toda a família.

Mas nós não temos mais lugares.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Então já não temos de decidir.

E mesmo os jovens perdem as suas vidas nesta roleta do Estado onde  só o zero sai sempre.

E já não é esperado apoio do  grupo  dos 1% que tanto beneficiaram com o Estado …

Mas, além do mais, eles não têm idade, nem  primeiro, nem último nome.

Será que estão 60% doentes?

Não, de forma alguma.

Eles não chegarão a tempo.

Nem mesmo a possibilidade de ficar doente com a ajuda deste novo e precioso kit viral.

Os nossos especialistas internacionais devem ter estudado num muito  conhecido livro de virologia, higiene e programação de saúde, de um quase ganhador do Prémio Nobel – O meu primo tem papeira.

O que é que aconteceu, que  não demos por nada?

Aqueles com maior risco nos locais onde habitam ou trabalham ficam doentes

Pessoal médico – pessoal móvel – motoristas – serviços 24 horas por dia com abertura de turnos e suspensão de serviços

Hospitais – transportes – serviços essenciais (eletricidade, gás, água, combustível,  supermercados, entregas ao domicílio, bancos, seguros, pensões, computadores, semáforos e comboios, produtos de segurança, farmácias, oxigénio, lixo e tudo o que é socialmente útil, polícia, exército, bombeiros e tudo o que se possa pensar, o sistema de segurança, o sistema social, os telefones e telemóveis, o computador de onde se está a ler e por isso mais simples).

E assim seja.

E cadáveres por todo o lado, na pior representação de uma praga induzida e  deixada à solta.

E é  apenas um pouco mais que uma gripe, como muitos têm estado ocupados a dizer a partir das poltronas e nos seus lugares de administradores.

Todo o sistema social está suspenso e toda a nação está paralisada…

Mas isso é assim, muito, muito, muito antes de 60% da população ser infetada.

Malta, podemos ajudar, e até certo ponto…

A Grã-Bretanha  não.

A ponte sob o Canal da Mancha está bloqueada e o país inteiro está isolado.

Os ferries não têm combustível nem eletricidade para os serviços.

Os faróis vão estar apagados.

Então há  ninguém para ir buscar o pneu se quisermos atracar.

E a rede 5G estará disponível para as futuras gerações de polacos que virão para a ilha.

Não é ficção científica, é a fantasia de alguém que imagina que tudo está a andar  e que acompanha  de forma ordenado a película, o filme, a narrativa que foi criada e que nos é contada.

Que talvez Alain Deneault esteja certo ao afirmar  que somos governados por uma mediocracia?

“Não houve nenhuma tomada  da Bastilha, nada comparável ao incêndio do Reichstag, e o cruzador Aurora ainda não disparou um único canhão. Mas, na verdade, o assalto ocorreu, e foi coroado de sucesso: a mediocridade  tomou o poder”.

E é uma traição ao pacto democrático, eu o elejo e você vai-me proteger e irá fazer com que eu passe a viver melhor, pacificamente e por muito tempo.

Um pacto fundamental da nossa comunidade. Da democracia.

Por outro lado, quem tiver feito uma intervenção para prevenir o desenvolvimento infecioso e erradicar a infeção (como indicado pela OMS), terá preservado a sua própria população em risco e o seu sistema social de apoio à gestão da comunidade.

Um verdadeiro projeto criminoso, o outro.

E sem atingir 60% porque não haverá mais população viva após alguns dias.

A água não chegará às torneiras,  a comida não estará disponível, a polícia não estará ativa e todos os acidentes não serão tratados.

As projeções de Johnson ou  de outros são feitas por aqueles que não sabem onde e porque é que vivem bem.

Os mortos não serão 100.000

E aqueles que irão à Grâ-Bretanha para ajudar terão de ser bem protegidos, porque os cadáveres serão em número quase infinito.

E as ratazanas, vivas, contar-se-ão aos  milhões.

Se elas não conseguirem mais comida nos esgotos, todos elas vão sair. E elas estão livres de infeção.

Os outros animais, os que precisam de cuidados e assistência, desaparecerão.

Chernobyl no seu sarcófago de cimento  será um exuberante cartão de Primavera.

As centrais nucleares deixarão de serem controladas  e as armas, aviões, mísseis e bombas atómicas serão apanhadas por quem chegar primeiro.

O efeito Dunning-Kruger é uma distorção cognitiva devido à qual indivíduos com pouca experiência em dado campo tendem a superestimar as suas próprias capacidades, autoavaliando-se erradamente como especialistas nesse campo, enquanto que, por outro lado, pessoas verdadeiramente competentes tendem a depreciar ou subestimar as suas reais  competências. Como corolário desta teoria, os incompetentes muitas vezes provam ser extremamente opinativos (da Wikipédia).

E eles aí estão, por todo o lado.

Talvez os custos de nada fazer ultrapassem os benefícios de fazer.

 

Fonte: DR GIUSEPPE IMBALZANO,  I COSTI DEL NON FARE O DEL NON FARE BENE . Texto disponível em:

http://italiaeilmondo.com/2020/03/19/i-costi-del-non-fare-o-del-non-fare-bene-del-dr-giuseppe-imbalzano/

__________

[1]  Pode ler  a tradução do artigo de Roberto Buffagni, publicada ontem, 12 de Março de 2020, clicando em:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/12/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxi-epidemia-coronavirus-duas-abordagens-estrategicas-em-confronto-por-roberto-buffagni/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/13/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxii-o-custo-de-nada-fazer-ou-de-nao-o-fazer-bem-uma-carta-de-giuseppe-imbalzano/

Reino Unido bate recorde diário de óbitos. Mundo ultrapassa as 100 mil mortes

 

O Reino Unido registou a morte de 980 pessoas devido à covid-19 nas últimas 24 horas, um novo máximo diário, elevando para 8.958 o total de óbitos no país devido à pandemia, comunicou o Ministro da Saúde, Matt Hancock.

 

Trata-se do maior número de óbitos em 24 horas em território britânico.

Na atualização dos dados feita nesta sexta-feira, o número de pessoas diagnosticadas com o novo coronavírus aumentou para 70.783 casos positivos, mais 5.706 do que no dia anterior. Na quinta-feira, o balanço diário tinha registado um aumento de 881 mortes e mais 4.344 novas infeções relativamente ao dia anterior.

Os números das mortes referentes a cada dia referem-se a pacientes diagnosticados com a covid-19 que morreram no hospital até às 17:00 horas da véspera e são compilados a partir de dados das direções regionais de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. O número de pessoas infetadas é contabilizado de forma diferente e inclui os diagnósticos feitos até às 9:00 horas desta sexta-feira.

 
 

A agência Lusa frisa ainda que estas estatísticas não incluem mortes fora do hospital, como aquelas registadas em lares de idosos, e algumas podem não ser incluídas no balanço diário devido a atrasos no registo dos óbitos.

Para tentar travar o contágio, o Reino Unido encontra-se em regime de confinamento desde 23 de março, estando em vigor restrições ao funcionamento de bares, cafés e restaurantes, autorizados apenas a vender para fora, enquanto que outros estabelecimentos, como lojas de roupa, cinemas, teatros e ginásios, estão encerrados.

As pessoas só estão autorizadas a sair para comprar bens essenciais, como comida ou medicamentos, para fazer exercício uma vez por dia, para ajudar pessoas vulneráveis ou para trabalhar quando não o possam fazer de casa.

Boris Johnson continua a melhorar

Também nesta sexta-feira, um porta-voz do Governo britânico revelou que o primeiro-ministro, Boris Johnson, já consegue fazer “pequenas caminhadas” no hospital, onde continua a recuperar da infeção de covid-19.

“O primeiro-ministro conseguiu fazer pequenas caminhadas, entre períodos de descanso, como parte dos cuidados que está a receber para ajudar na recuperação”, referiu. Johnson terá ainda conversado com os médicos que o estão a tratar e agradeceu “a toda a equipa clínica pelo incrível atendimento que recebeu”, acrescentou.

Antes, um porta-voz do primeiro-ministro britânico tinha confirmado que Boris Johnson continuava a recuperar da doença no hospital St. Thomas, em Londres. “O primeiro-ministro está de volta numa enfermaria e continua a sua recuperação, que estes numa fase inicial. Ele continua muito animado”, disse na altura.

Johnson saiu na quinta-feira dos cuidados intensivos, onde passou três noites, devido à persistência dos sintomas da doença, com a qual foi diagnosticado a 26 de março.

Mundo ultrapassa 100 mil óbitos

Também nesta sexta-feira, o mundo ultrapassou as 100.000 vítimas mortais de covid-19, segundo um balaço divulgada pela agência France Press.

De acordo com os dados recolhidos pela agência noticiosa junto de fontes oficiais, e divulgados às 18:30 (hora de Lisboa), 100.661 pessoas morreram por causa do novo coronavírus, 70% (70.245) das quais na Europa.

Itália é o país com mais mortos contabilizados (18.849), seguindo-se os Estados Unidos (17.925), Espanha (15.843) e França (13.197). Segundo a France Press, foram confirmados 1.650.651 casos de infeção em todo o mundo, sobretudo na Europa (857.233 casos) e nos Estados Unidos, com mais de 475 mil pessoas infetadas.

A agência noticiosa alerta, contudo, que o número de casos diagnosticados reflete apenas uma fração do número real de infeções, já que um grande número de países está agora a testar apenas os casos que requerem atendimento hospitalar.

ZAP // Lusa

 
 
 

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A lei marcial aprovada na Grã-Bretanha ameaça com a possibilidade de um Golpe de Estado a qualquer momento

por MPR [*]

A lei marcial, os estados de emergência e demais formas de terrorismo de Estado não acabam nunca e isso por dois motivos: facilitam a dominação de classe e, além disso, justificam-na. Cabe acrescentar que as normas que se impõem não expiram nunca, nem tão pouco as instituições que são criadas por motivos extraordinários.

As formas de dominação são de tal modo favorecidas que a burguesia suspira para que surjam dramas, como a demolição por explosivos das Torres Gémeas, ou vírus assassinos, até o ponto de que se não surgem convém iniciá-los, magnificá-los e inclusive inventá-los.

Na Grã-Bretanha a Lei sobre o Coronavírus recém aprovada [1] desencadeou, como de costume, uma campanha de imprensa para deixar claro aos mais temerosos que "não cria um estado policial" e que as faculdades extraordinárias concedidas à polícia e aos militares "só" vão durar dois anos.

Como tudo o que se refere a esta pandemia, também essa campanha de imprensa é falsa. Para isso basta ler o artigo 89, que esclarece as partes que são temporárias, as que não são e as que podem ser prorrogadas com diferentes pretextos e ardis do primeiro-ministro ou de qualquer outro do governo que as considere necessárias.

Em consequência, uma quarta parte (e talvez mais) de toda a Lei não expirará nunca, por mais que a pandemia retroceda, deixe de haver mortos, vacinem toda a população maciçamente e os hospitais se esvaziem.

As leis de emergência aprovam-se para fazer parte do elenco repressivo de forma permanente. "Per omnia saecula seculorum", diziam os juristas romanos.

Desde há séculos um capítulo fundamental de toda lei marcial, especialmente na Grã-Bretanha, é sempre a impunidade: o que façam ou deixem de fazer aqueles que tomas as decisões e que as executam não são submetidos à responsabilidade. O governo e seus funcionários não prestam contas, têm carta branca para fazer qualquer coisa, o que se pode denominar de muitas maneiras, como "carta de corso" ou impunidade.

Várias secções da nova lei britânica esclarecem que a carta branca é permanente: os funcionários públicos estão isentos de responder por qualquer dano que causem a um paciente que esteja a ser tratado pelo coronavírus e inclusive de qualquer outra doença que se "suspeite" que possa estar relacionada com o coronavírus.

Por outras palavras, a responsabilidade médica desapareceu, tanto para os médicos como para os hospitais. Se matarem um doente já não acontece nada, pode-se continuar a matar tranquilamente tal como ordenam os protocolos sanitários que o próprio governo aprovou.

Por exemplo: se alguma multinacional inventa uma vacina, o governo pode acelerar sua aplicação aos doentes (e aos suspeitos) sem necessidade de seguir os protocolos habituais de segurança. Para dizer isso em linguagem clara: podem utilizar os doentes e suspeitos de contágio como cobaias de laboratório.

Precisam de mais exemplos? Vejam: os artigos 59 a 70 permitem dar um golpe de Estado uma vez que o governo pode adiar as eleições e essa faculdade não tem um prazo de caducidade. O golpe de Estado é uma ameaça que ficará para sempre. "Per saecula seculorum".

08/Abril/2020

[*] Movimiento Poltico de Resistencia

O original encontra-se em movimientopoliticoderesistencia.blogspot.com/

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/pandemia/lei_marcial_08abr20.html

O tabu foi novamente quebrado

O Vicente Ferreira já se referiu ao assunto: o Banco de Inglaterra vai financiar diretamente a política orçamental tornando-se, assim, claro que o Estado, não só não necessita dos mercados privados para se financiar numa moeda que ele próprio emite, como, frequentemente, o interesse público determina a necessidade de os colocar fora cena. O termo de economia política apropriado à situação é, julgo, repressão financeira.
Uma das características diferenciadoras de um regime monetário neoliberal, talvez a mais importante de todas, é a autoimposição, política e institucionalmente construída, da subordinação creditícia do Estado soberano colocando-o numa situação em que concede o monopólio da emissão monetária, hoje inteiramente fiduciária e da sua força legal inteiramente dependente, a um banco central e, simultaneamente, se auto exclui da possibilidade de, junto deste, se financiar diretamente, colocando-se, assim, por escolha, na dependência dos mercados financeiros privados. É um desenho institucional irracional, injusto e ineficiente. É irracional porque a instabilidade intrínseca dos mercados financeiros requer a existência de um prestamista de último recurso que seja capaz de atuar como garante do funcionamento do sistema, ou seja, o Estado. O fato do Estado depender do crédito de agentes privados, cuja solvência tem de assegurar, é uma contradição nos seus próprios termos que inviabiliza o exercício daquela função de prestamista de último recurso e gera situações como a que Portugal, e restante periferia da zona euro, viveu a partir de 2010, com a instabilidade provocada pelos negócios especulativos do sector financeiro a alimentar a instabilidade das contas públicas, num círculo vicioso que só terminou quando o BCE (whatever it takes) garantiu que o Estado teria os meios necessários para se financiar e para financiar a banca. É injusto porque, excluindo o Estado de se financiar diretamente num banco central que canaliza toda a sua oferta monetária para um mercado primário fechado e cativo de uma mão cheia de grande empórios financeiros privados, permite a essas instituições privadas, que têm o privilégio exclusivo de ali aceder à oferta monetária criada do nada pelo banco central, usar aquele posição oligopolista para financiar o orçamento do Estado apropriando-se, no processo, da renda que resulta de emprestarem a esse Estado a uma taxa de juro sempre superior àquela a que o banco central (no uso do monopólio emissor que, novamente, o mesmo Estado lhe permite), previamente, lhes empresta. É ineficiente porque, criando um falso e autoimposto constrangimento às finanças públicas, “não há dinheiro”, impede a sociedade do pleno emprego dos recursos à sua disposição. Como afirmou Keynes, uma sociedade pode sempre pagar o que pode produzir. Enquanto houver desemprego, o Estado pode e deve garantir trabalho. O valor do que é produzido por quem tem acesso a um novo posto de trabalho é a garantia de que é possível pagar-lhe. Este distópico regime monetário tem beneficiado de uma laboriosamente produzida opacidade, assente em mecanismos que só aparentemente são complexos, para fabricar a subordinação do Estado a interesses particulares e lhes permitir uma injustificada extração de valor através de actividades que não o criam. A crise do coronavírus estilhaçou o tabu e tornou ainda mais claro quão contra o interesse público é este regime monetário neoliberal. Não podemos esquecê-lo nos tempos difíceis que se avizinham.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Breaking News

Quatro dias depois de o seu governador ter garantido que não o fariam, o governo confirmou que o Banco de Inglaterra vai financiar diretamente a despesa pública no combate à pandemia.
Esta atuação do banco permite que o governo não fique dependente dos mercados e do ânimo dos investidores para mobilizar fundos e financiar um programa de resposta económica à crise, como tem sido defendido neste blog (aqui, aqui ou aqui).

Depois de até o Financial Times ter dedicado um editorial a defender a medida, o governo decidiu avançar e aumentar o volume da sua conta no banco central, conhecida como a "Ways and Means Facility", para um valor ilimitado, permitindo que os ministérios gastem mais - algo que, até há cerca de um mês, quase todos nos garantiam não ser possível.

Com a crise, as regras do jogo já estão a mudar.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Para que os tempos sejam mesmo outros (I)

«Esta crise está a expor as vulnerabilidades da nossa economia e da nossa sociedade. O subfinanciamento crónico dos serviços públicos, a precariedade laboral e a erosão do sistema de previdência têm um custo muito elevado, normalmente oculto, mas que está hoje à vista de todos, com a atual crise de saúde pública.
 
Mas esta crise está também a mostrar-nos o quanto dependemos uns dos outros, os inúmeros laços de entreajuda que tecem a nossa sociedade. Nós podemos sair desta crise com esse tecido social fortalecido, se nos valorizarmos uns aos outros. O primeiro passo desse caminho é dizermos obrigado. Obrigado a todos cujo esforço nos vai ajudar a superar o vírus. Um agradecimento, desde logo, aos que asseguram o funcionamento de serviços públicos essenciais, e em especial às equipas do Sistema Nacional de Saúde (NHS), que estão na linha da frente: médicos, enfermeiros, auxiliares, administradores e todos os que estão em todas as unidades de saúde, sobrecarregados e sob uma pressão inimaginável. Um obrigado, também, aos assistentes sociais, que cuidam de muitos dos mais vulneráveis. E aos funcionários públicos, que trabalham longas horas na administração local, no ensino, professores, carteiros e tantos outros.

Mas quando falamos de trabalhadores essenciais, não são apenas estes que mencionei que mantém a sociedade em movimento. Na passada segunda-feira, um ex-deputado de North West Hampshire disse - e cito - que "Quando sairmos desta crise... temos que fazer uma reavaliação sobre quem é importante neste país e o que significa ser um "trabalhador-chave"". E eu acho que ele tem toda a razão. Constatamos hoje muitas profissões e trabalhos que nunca valorizámos devidamente e que são essenciais para que uma sociedade funcione. Estou a pensar em quem recolhe o lixo, nos arrumadores de prateleiras dos supermercados, nos motoristas que fazem o transporte de bens, naqueles que fazem a limpeza. Trabalhadores que são muitas vezes desvalorizados, definidos como pouco qualificados.
 
Mas eu pergunto: quem nos faz mais falta numa crise, o trabalhador que recolhe o lixo ou o gestor de fundos bilionário? Todos estes trabalhadores merecem muito mais que o nosso obrigado. Neste momento eles precisam da nossa ajuda. Mas depois da crise vão precisar do nosso respeito. Para que não sejam tratados como foram tratados ao longo da última década de austeridade.»

Da intervenção de Jeremy Corbyn no recente debate sobre o Coronavírus, na Câmara dos Comuns.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Premiê britânico Boris Johnson será ligado ao ventilador, informa fonte

Primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson.
© AP Photo / Matt Dunham

O primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson foi hospitalizado e será ligado ao ventilador disse à Sputnik uma fonte próxima à administração do Serviço Nacional de Saúde do país.

"Será realizada a ventilação mecânica dos pulmões" disse a fonte.

Anteriormente, o representante oficial do premiê britânico tinha informado que Johnson, que havia testado positivo para o novo coronavírus na semana passada, continuava sofrendo de sintomas persistentes devido à doença – a febre e a tosse permaneciam. Agora, por recomendações do médico, o primeiro-ministro foi transferido para o hospital.

No entanto, o escritório do premiê assegura que ele continua em contato com o Gabinete de Ministros. Boris Johnson estava isolado na sua residência oficial em Downing Street havia dez dias.

Desde o início do surto da COVID-19, o Departamento de Assistência Social do Reino Unido confirmou 48.440 casos da doença, com 4.943 falecidos.

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020040615419596-premie-britanico-boris-johnson-sera-ligado-ao-ventilador-informa-fonte/

Idosos no Reino Unido aconselhados a assinar ordens de «não reanimação»

A denúncia levanta preocupações relacionadas com o valor da vida dos idosos, na medida em que, por critérios economicistas, sejam empurrados para recusar os cuidados médicos e terminar a vida.

Créditos / hoyweb

O Serviço Nacional de Saúde do País de Gales foi obrigado a pedir desculpas públicas depois de um centro de saúde perto de Port Talbot ter recomendado aos pacientes com outras doenças que assinassem cláusulas de «não-reanimação» (DNAR - Do Not Attempt Resuscitation), noticiou o The Guardian.

«Gostaríamos de pedir-lhe que preenchesse um formulário DNAR que possamos partilhar com os serviços de saúde locais. Isto significa que, em caso de deterioração repentina da sua condição devido a infecção com covid-19, os serviços de urgência não serão chamados e não serão realizadas tentativas de reanimação para reiniciar o batimento do seu coração ou a sua respiração», dizia a carta enviada aos utentes, que elencava ainda os benefícios desta prática.

«Em primeiro lugar o seu médico de família e, mais importante, os seus amigos e familiares saberão que não têm de ligar para as urgências e, em segundo lugar, os escassos recursos podem ser direccionados para jovens e pessoas em boa forma física, que têm maior probabilidade de sobreviver», pode ler-se no documento, que acrescenta também o facto de, não sendo chamada uma ambulância, os profissionais de saúde correrão menos risco de contágio.

As famílias e os médicos que seguem algumas destas pessoas, preocupados com o que consideram uma ordem «em massa» para não ressuscitar os mais idosos na eventualidade de enfrentarem complicações de saúde graves por causa do novo coronavírus, decidiram expor o caso ao The Guardian

A Comissão da Qualidade de Cuidados, organismo britânico que escrutina os cuidados de saúde, já emitiu um aviso e classifica a prática como «inaceitável».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/idosos-no-reino-unido-aconselhados-assinar-ordens-de-nao-reanimacao

Covid-19: Reino Unido regista 563 mortes, o número mais alto num só dia

 
 
País conta já com 29.474 casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus e 2.352 mortes.
 
O Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido (DHSC) anunciou, ao início da tarde desta quarta-feira, que a pandemia de Covid-19 provocou a morte de mais 563 pessoas no país ao longo das últimas 24 horas.
 
Este é, de resto, o mais alto número registado no país desde o arranque do surto do novo coronavírus num só dia, superando os 381 óbitos registados na passada terça-feira.
 
Feitas as contas, o SARS-CoV-2 culminou, até agora, com 2.352 vítimas mortais desde que o primeiro caso foi registado no Reino Unido, no passado dia 30 de janeiro.
 
Além disso, foram já registados 29.474 casos positivos de infeção pelo novo coronavírus no país, o que representa um aumento de 4.324 casos em comparação com o dia anterior.
 
Notícias ao Minuto | Imagem: © Reuters
Leia em Notícias ao Minuto:

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/covid-19-reino-unido-regista-563-mortes.html

Boris Johnson, o Coriolano

CARLOS MATOS GOMES

A resposta à epidemia e a metafísica

La manipulación del ser humano, telón de fondo de «Coriolano»

Há dez anos sofremos a crise do subprime, ou do Lehman Brothers. Uma crise longa, com resultados devastadores nas economias e na vida dos cidadãos europeus. Essa crise foi um fator influenciador do Brexit e da ascensão de vários políticos populistas ao governo dos seus países, na Europa e pelo mundo.

A crise do euro, dos resgates, das troikas foi aparentemente resolvida, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres mais pobres. Negócio habitual. Mas na Europa as feridas mantiveram-se e numa reunião de há dias, num conselho europeu destinado a discutir medidas de combate à pandemia do Covid-19, elas foram reabertas a propósito da questão essencial da solidariedade entre os estados da União Europeia. Vieram de novo ao cimo os nacionalismos mais ou menos racistas dos nórdicos (germânicos, também) e as visões mais integradoras dos países do sul. Ricos e pobres. Ressurgiu a velha fábula da formiga e da cigarra, a que o então ministro das finanças holandês Jeroen Dijsselbloem deitou mão, dirigindo-se aos países do sul: “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda”.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Os nacionalistas ricos ganharam então em toda a linha, impuseram medidas draconianas de rigidez orçamental, destruíram empregos, causaram uma crise social, transferiram riqueza do Sul para o Norte, acentuaram as desconfianças entre os povos, puseram em causa a utilidade e até a viabilidade do projeto europeu e, com o argumento da inutilidade da União (que eles promovem), fizeram eleger uma piara de dirigentes populistas à custa das críticas a estas políticas, que, no fundo são as suas, as do salve-se cada um como puder, sem olhar para o lado. O objetivo final era e é matar a União Europeia como espaço decisivo no xadrez político, militar e económico mundial.

A forma como na Europa foi enfrentada a crise iniciada há mais ou menos uma década promoveu a emergência de um discurso político e de atores que, no fundo, justificaram os sofrimentos com as leis naturais, salvaram-se os mais fortes, os mais espertos, pagaram os mais fracos e desprotegidos, evitou-se o crescimento da União Europeia e a sua entrada na arena das lutas decisivas pelo poder no mundo. Esses castradores (ou capadores), que tiveram Durão Barroso como voz do dono na presidência da Comissão Europeia, minando-a por dentro, cumprindo o papel de infiltrado por conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, de Bush e de Blair, deram o que tinham para dar, estão agora na “banca privada”, são consultores eméritos, dedicam-se ao lobismo e à manipulação das opiniões públicas mascarados de comentadores. É fatal que esta presente crise ainda em desenvolvimento gere e promova novos atores, uma nova tropa de arruaceiros políticos armados com um discurso adaptado às circunstâncias e com os velhos truques embrulhados noutras roupagens.

Nas Américas, do Norte e do Sul, a nova pregação já está em pleno desenvolvimento (nunca deixou de estar) através dos evangelistas, do discurso milenarista, das mixórdias bíblicas, da promessa de uma salvação baseada na fé e no saque aos miseráveis, aos recursos naturais, no primarismo e no aproveitamento do desespero. No final, reinará o complexo militar-industrial americano. E na Europa, a nossa terra-mãe? A Europa, nunca tendo sido uma entidade política, exceto, talvez, durante as Cruzadas, dispõe de uma civilização com dois mil anos de fermentação, nascida na Grécia, uma religião milenar com o seu sistema de valores, produziu ao longo de séculos sistemas racionais de interpretação do mundo, separou a Igreja do Estado e resistiu com algum sucesso à epidemia do populismo, manteve-se em banho-maria. As injeções de venenos para matar a Europa como ator de relevo mundial têm, por isso, de ser ministradas por celebrantes mais sofisticados. A Europa é, numa imagem popular, um lar de velhas meretrizes que podem ser seduzidas, mas são relapsas às paixões. Para as rugosas madames se deixarem levar é necessário um sedutor competente, um proxeneta de alto gabarito, e os que apareceram a candidatar-se a galo da capoeira foram até agora figuras menores e sem credibilidade. A exceção foi Boris Johnson, o populista triunfante revelado no Brexit da Inglaterra.

Esse populismo triunfante parece ser o que apresenta as melhores condições para tomar o facho do populismo europeu no pós segunda crise. A situação na Europa está hoje politicamente muito mais apodrecida do que há dez anos, e os europeus mais disponíveis para acolher um salvador, alguém que convença as velhas damas de prazeres a desmontarem o bordel e a voltarem a trabalhar por conta própria. Julgo que o novo Messias do populismo da segunda vaga será Boris Johnson, apesar da imagem de desajeitado, de ser cambaleante, propositadamente desmazelado, de anti sex simbol, o que transmite confiança, pois não é agressivo, nem assusta. Há quem o apelide de palhaço. Seja. Mas o palhaço é a alma do circo! Boris Johnson lembra-me uma personagem de Shakespeare, Coriolano, por sua vez inspirado na obra de Plutarco «Vidas dos Nobres Gregos e Romanos».

A tragédia Coriolano deve ter sido a última escrita por Shakespeare e expressa a visão de um observador genial da humanidade no ocaso da vida. Coriolano reflete uma opinião desiludida, irónica, depressiva da humanidade, num anticlímax, como o que hoje vivemos. Shakespeare, em Coriolano, apresentou os poderosos do mundo fascinados por eles próprios, narcísicos, orgulhosos, atentos às circunstâncias e, principalmente às suas conveniências, mas também cegos e sem consciência dos seus limites. Personagens que atraem multidões e provocam emoções, como os cometas. Os ingleses utilizam a expressão “we are doomed!” (estamos condenados, ou lixados) quando querem referir a aproximação de um cataclismo, que tanto pode ser um raio letal, um asteróide, como um maltrapilho com poderes mágicos e de quem se espera o melhor e o pior. Apostam neles como nos cavalos de corrida! Já agora, ad latere, um dos grandes campeões no século dezanove teve até o portuguesíssimo e vernáculo nome de “Filho da Puta”!

Não sou, muito longe disso, especialista em Shakespeare (aliás, não sou especialista em coisa alguma), mas por razões que não vêem ao caso emprateleiram-se cá por casa muitas obras de Shakespeare em várias versões, maioritariamente em inglês, entre elas encontrei uma tradução em português, da antiga Lello & Irmão, do Porto, de que me voltei a servir com o gosto da releitura em circunstâncias diferentes. Coriolano já constituía para mim a personagem mais fascinante da galeria de Shakespeare. Era, em meu entender, a personagem mais diretamente envolvida na luta pelo poder. Apesar de Coriolano ser apresentado por alguns conceituados shakespirianos como um antipopulista trágico, agora, ao reler a tragédia com os olhos de hoje, deste tempo, vi nele a matriz do que imagino será a nova vaga de políticos populistas que irão surgir na babugem da crise e de que Boris Johnson me parece ter as condições para servir de referência, ou modelo. É a minha leitura. Rever a personagem de Coriolano pode ajudar a conhecer o mais brilhante dos seus sucessores, aquele que, julgo, será o líder populista do futuro na Europa.

Ler Coriolano ajuda-me a compreender Boris Johnson, que é, em minha opinião, o mais insidioso e eficaz vírus do populismo europeu. Shakespeare, através de Coriolano, explica não só como chegámos a esta espécie, como nos fornece pistas sobre modo de infetar dos vírus que lhe sucederão. Boris Johnson é um revelador das pandemias futuras, daí a sua importância.

Tal como Coriolano foi no seu tempo de cônsul romano, Boris Johnson é um aristocrata a vários títulos, por origem familiar, por pertença social, por cultura, o que o distingue das torres de Trump ou de vermes como Bolsonaro. Boris Johnson, tal como Coriolano, entende e assume que para os nobres como ele as virtudes e defeitos são naturais e equivalem-se, são inseparáveis e da mesma grandeza. Para ele, as virtudes, sendo privadas, servem pouco na arena amoral e impiedosa da política. As ações arbitrárias são bem-vindas sempre que reforcem o poder. O crime é um instrumento, nada mais. Desprezam a virtude, a moral, a ética. A natureza de personalidades como Coriolano ou Boris Johnson não se altera perante qualquer catástrofe, e apenas temem aquilo que Aristóteles designou como erro trágico, ou hamártia, o mal (o que neles equivale a uma ação com maus resultados) cometido pelo protagonista de uma tragédia, que origina a peripécia que o derruba.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Boris Johnson, tal como Coriolano, governa em conflito, de um lado a sua arrogância pessoal, de aristocrata e do outro a realidade política, que o opõe aos tribunos populares, no caso atual os membros do parlamento inglês escolhidos para representar os interesses das pessoas comuns, os eleitores. No Brexit, Boris Johnson agiu como Coriolano contra os tribunos, os MP, incluindo o simpático que gritava Order!, pateticamente, e que tentavam bloquear as tentativas que levou a cabo de impor a sua vontade e de se apresentar ao povo como o herói que lhe satisfez as suas aspirações, incluindo as traições a Theresa May. Boris Johnson, tal como Coriolano, pretende governar saltando por cima dos deputados e do parlamento e fá-lo-á, está a fazê-lo. Este salto, ou by pass, é o sonho de todos os líderes populistas, mas ele conseguiu implantá-lo sem dor e com a conivência dos subjugados. Venceu a guerra sem combate, a prova do génio do general, segundo Sun Tzu. O Parlamento Inglês é hoje um balcão da geral dos teatros onde uma claque bate palmas ao cônsul Boris Johnson, agora com poder absoluto (apesar de infetado) depois de banir os adversários. Resistem os bárbaros escoceses, mas julgo que se servirá deles, soltando-os do Reino Unido sem real tristeza, para se servir da sua secessão como exemplo a seguir por outros nacionalismos europeus…

Na peça de Shakespeare, tal como na atuação de Boris Johnson, vemos num primeiro ato uma mistura de elementos aristocráticos e democráticos e, num segundo, a derrota do regime de poderes balanceados que existiu no senado até Coriolano tomar o poder. Boris Johnson, do mesmo modo que Shakespeare representou Coriolano, toma a multidão e seus tribunos eleitos como os inimigos da prerrogativa hierárquica e, no seu caso, aristocrática.

Os líderes populistas europeus pós crise vão copiar os métodos de Boris Johnson e seguir os seus princípios. O seu programa assenta no confisco do poder pela demagogia, mesmo à custa de provocar a anarquia, o que para os ingleses pode ser aliciante. A apregoada disciplina dos ingleses é aparente e fruto de uma sociedade estratificada e hierarquizada. Sóbrios, os ingleses são obedientes, nada mais. O modo como os lordes tratam os criados, os cavalos e os cães são exemplares da ordem inglesa. As assistências aos jogos de futebol da Premier League explicam a diferença entre a sobriedade e a bebedeira nas classes médias e baixas inglesas, nas multidões.

Em Coriolano os homens são guiados por uma luz que os cega. Boris Johnson sabe que a multidão é facilmente encadeável e manipulável. Não tendo nenhuma filosofia política consistente, a multidão seguirá qualquer pregador que saiba aliciá-la com promessas agradáveis. A partir da tomada do poder fornecerá um programa de venda contínua de emoções. Será um take away de promessas. Receberá o desprezo das multidões e o aplauso com o mesmo sorriso e o mesmo gesto de desgrenhar os cabelos. É o comportamento que vemos à porta do 10 de Downing Street, ou na entrada do Parlamento. Para ele a multidão, a populaça, é uma “hidra com muitas cabeças,” sem direção e irresponsável. Em privado, falando aos da sua classe, Coriolano descreve a multidão como uma turba mal cheirosa, “de hálito fedorento”, “pescoços enfumaçados”, “fétidos bonés engordurados” e “dentes sujos”. Os cidadãos romanos são um rebanho, “comedores de alho”, “patifes como as raposas e os gansos, insolentes e sediciosos”.

Esse retrato deliberadamente repulsivo de Coriolano sobre os romanos não é muito distinto do que Boris Johnson terá dos londrinos e dos ingleses em geral. Excrementos. É o mesmo que o ministro das finanças holandês tem dos latinos e os populistas latinos, que Le Pen, Salvini, o espanhol do Vox e o português do Chega têm, por sua vez, dos ciganos e imigrantes em geral.

Os novos tribunos que surgirão no rescaldo desta crise do Covid-19 estarão dispostos a desencadearem a violência da multidão para alcançarem os seus objetivos, encorajarão a “populaça” a agitar-se à sua ordem. A sua estratégia, como a de Coriolano, será a de fomentar o clamor, sobrepondo a histeria à razão, como escreveu Shakespeare. Na peça de Shakespeare os tribunos temem que Coriolano busque “um só trono, sem assistência” e que suprima as liberdades. Não é um medo infundado, e os próprios amigos de Coriolano o aconselham a somente atacar os tribunos, os eleitos, apenas depois de alcançar o poder, não antes.

A insolência aristocrática de Boris Johnson é a reprodução do desprezo de Coriolano pelo povo de Roma, a quem tratava como “trapaceiros discordantes” e como “cães rafeiros abaixo da abominação”. Boris Johnson demonstrou durante o processo do Brexit ser relutante no cumprimento da Constituição (de normas arrevesadas para um não indígena) e em submeter-se aos cidadãos, mas soube interpretar com falsa humildade o papel de leal servidor da Coroa que eles lhe pediram em troca doa seus votos.

Melhor morrer, definhar de fome
Que mendigar a paga que merecemos.
Por que ficar aqui em túnica de Job
A implorar a um José Ninguém
O seu voto dispensável

“É um papel, que eu até coro ao representá-lo,” confessa Coriolano aos seus amigos na peça de Shakespeare. Mesmo aqueles que admiram os seus talentos concedem que é desagradável aceitar bajular o povo para ter o seu amor, mas esse é o preço a pagar para não ter contra ele a sua má vontade, ou, pior, o seu desprezo. Coriolano professa em público o amor ao seu país, mas é um patrício e tornar-se-á um traidor contra uma Roma que dá voz política aos plebeus que ele tanto abomina. É assim também o seu patriotismo — o amor à Britânia pátria amada — de Boris Johnson e dos populistas que o imitarão. Aconteça o que acontecer, Boris Johnson acredita como Coriolano que as prerrogativas da aristocracia (seja a de sangue seja a dos negócios) são os únicos bastiões de Roma (tal como de Londres) contra o caos. Boris vê o povo como um seu rebanho privado, insaciável e irracional, instintivamente invejoso dos seus melhores, mas felizmente incapaz de compreender às subtilezas do governo — a série Yes Minister é uma boa caricatura da apreciação do povo feita pelos líderes populistas. Coriolano sabe que a tendência que hoje diríamos do politicamente correto, a moda, é a de agradar às exigências populares com o compromisso, mas os populistas preferem uma escaramuça a fingir de batalha, como Boris Johnson no conflito para a aprovação do Brexit. Ele tentará que os outros acreditem que o erro está no mundo em vez de em si.

A tragédia Coriolano descreve uma sociedade fascista? Coriolano era um proto-fascista? Há que analisar as situações no seu contexto histórico. O fascismo contém elementos de populismo, de egoísmo, de demagogia, de racismo, incluindo o de classe social e atores como estes da tragédia Coriolano, mas o populismo Boris Johnson e dos que o replicarão será uma adaptação do poder dos tiranos à capacidade de ler a realidade das contemporâneas sociedades caraterizadas por fracos laços de coesão, constituída por indivíduos atomizados e à mercê das tecnologias da manipulação.

Que antídoto para os Coriolanos? Identificá-los e barrá-los à nascença, por muito fascinantes que pareçam as suas promessas e até as suas vitórias. Levar Boris Johnson a sério ajuda. Como ajudou Ulisses a escapar ao canto das sereias, porque conhecia o resultado de seguir os seus cânticos.

Qual o fim de Coriolano?

Coriolano acaba morto por Aufídio, o general aliado, depois de o ter traído assinando uma paz com Roma. A sua morte foi necessária para que a sociedade romana pudesse reconstruir um regime republicano (democrático). Coriolano foi vítima do seu êxito, sacrificado para instaurar uma nova ordem. Boris Johnson sabe, como Coriolano, que o seu caminho só pode terminar com a sua morte política. Se negociar com Bruxelas um acordo, mesmo que seja um acordo favorável a Inglaterra, estará morto por não ter conseguido a vitória absoluta de destruir a União Europeia. Se tiver destruído a União Europeia estará morto porque nada mais lhe resta do que ser um herói inútil.

Na peça Galileu de Bertold Brecht, o seu destino é o do herói que não encontra quem precise dele.

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/04/01/boris-johnson-o-coriolano/

Governo britânico reduz apoio a cidadãos europeus para combater pandemia

 

 

O governo britânico vai reduzir o apoio ao processo de candidaturas à residência no Reino Unido obrigatório para europeus por causa do Brexit e encaminhar recursos para a resposta à pandemia de covid-19.

 

Numa comunicação enviada esta segunda-feira, o Ministério do Interior disse que o centro de contacto deixou de responder a telefonemas, os locais de verificação de documentos de passaporte fecharam e o serviço de verificação via postal foi suspenso. Para dúvidas e apoio, a organização vai continuar por correio eletrónico e a verificação de documentos pode ser feita através da aplicação móvel.

As medidas foram tomadas, justifica o Ministério, para respeitar as orientações das autoridades sanitárias, prometendo retomá-las “assim que for seguro”.

Na passada segunda-feira, o governo britânico decretou o confinamento obrigatório para todos os cidadãos, os quais só podem sair para fazer compras de bens essenciais, exercício uma vez por dia, dar assistência a uma pessoa vulnerável ou para trabalhar, se não o puderem fazer de casa.

 
 

Ainda faltam 15 meses para o prazo de 30 de junho de 2021 das candidaturas ao Esquema de Residência da UE, e há muito apoio disponível online para ajudar aqueles que desejam se inscrever”, vinca o correio eletrónico.

As estatísticas mais recentes davam conta de que mais de três milhões de europeus já pediram o estatuto de residente no Reino Unido obrigatório a partir do próximo ano, entre quais 266 mil portugueses.

O sistema de regularização migratória [‘settlement status’] foi aberto no âmbito do processo do Brexit, pois a saída do Reino Unido da União Europeia, concretizada a 31 de janeiro, determina o fim da liberdade de circulação do movimento nestes dois espaços.

Os cidadãos europeus, bem como os suíços, noruegueses, islandeses e nacionais do Liechtenstein, têm até 30 de junho de 2021 para se registarem, processo que é inteiramente digital.

O título permanente (‘settled status’) é acessível aos residentes há cinco anos no Reino Unido e do título provisório (‘pre-settled status’) aos que ainda precisam de completar o tempo necessário.

Londres reitera respeito por europeus

O Reino Unido sublinhou, esta segunda-feira, que vai proteger os direitos dos cidadãos da União Europeia residentes no país e respeitar o protocolo relativo à Irlanda do Norte, como previsto no Acordo de Saída da União Europeia.

Na primeira reunião da Comissão Mista para discutir a aplicação do Acordo para o Brexit, por teleconferência, o governo britânico reiterou o “compromisso de proteger o Acordo de Belfast / Sexta-feira Santa em todos os aspetos e de cumprir as obrigações sob o Protocolo da Irlanda do Norte”, segundo o comunicado do encontro.

No tratado assinado com a UE, ficou estabelecido que a Irlanda do Norte ficaria oficialmente na união aduaneira britânica, mas ao mesmo tempo alinhada num conjunto limitado de regras da UE de forma a evitar uma fronteira física com a República da Irlanda, membro da União Europeia. A liberdade de circulação na ilha é um dos pilares dos acordos de paz de 1998, conhecidos por Acordo de Belfast ou da Sexta-feira Santa.

A solução estipulada no acordo para o Brexit prevê a aplicação de controlos aduaneiros entre aquela província britânica e o resto do Reino Unido por a Irlanda do Norte ser uma porta para o mercado único europeu, mas o primeiro-ministro britânico tem insistido que não vão existir quaisquer controlos aduaneiros.

Esta segunda-feira, o governo britânico enfatizou também o “compromisso com os cidadãos da UE no Reino Unido e a garantia de que os cidadãos do Reino Unido na UE tenham os seus direitos protegidos de acordo com o Acordo de Saída”, nomeadamente que poderão continuar a residir e trabalhar no país depois de 2021.

No comunicado final da reunião, cujo tom foi descrito como “colaborativo e construtivo”, o Reino Unido e a UE concordaram em iniciar o trabalho das seis comissões especializadas, nomeadamente sobre as questões dos direitos dos cidadãos, protocolos relativos à Irlanda / Irlanda do Norte, Gibraltar e base militar no Chipre e sobre as provisões financeiras.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/governo-britanico-reduz-europeus-316585

Declaração acerca da audiência de fiança de Assange, em risco de contrair o coronavírus

por Doctors4Assange

 Doctors4Assange condena fortemente a decisão de quarta-feira da juíza distrital Vanessa Baraitser de negar fiança a Julian Assange. Apesar da nossa anterior declaração inequívoca [1] de que o sr. Assange está em risco acrescido de doença grave e de morte caso contraia coronavírus, bem como a evidência de peritos médicos, Baraitser descartou o risco mencionando linhas de orientação do Reino Unidos para prisões em resposta à pandemia global: "Não tenho razão para não confiar neste conselho como baseado em provas, confiável e apropriado". [2]

Observe-se, no entanto, que Baraitser não tratou do risco acrescido para o sr. Assange relativo à população prisional geral do Reino Unido, muito menos à do [presídio] HMP Belmarsh onde ele está encarcerado. Tão pouco abordou o consenso médico e legal que está a emergir rapidamente de que prisioneiros vulneráveis e de baixo risco deveriam ser libertados, de imediato.

Como ouviu o tribunal, o Sr. Assange corre um risco crescente de contrair e morrer da nova doença do coronavírus (COVID-19), um desenvolvimento que levou a Organização Mundial da Saúde a declarar uma emergência de saúde pública de preocupação internacional [3] e uma pandemia global [4] . As razões para o aumento do risco do Sr. Assange incluem a sua contínua tortura psicológica, a sua história de negligência médica e saúde frágil, assim como doenças pulmonares crónicas.

Edward Fitzgerald, advogado, representando o Sr. Assange, disse: "Estes peritos [médicos] consideram que ele está particularmente em risco de desenvolver o coronavírus e, se isso acontecer, que este redunde em complicações muito graves para ele... Se ele desenvolvesse sintomas críticos, seria muito duvidoso que Belmarsh fosse capaz de lidar com a sua condição" [5] .

A rejeição displicente de Baraitser da terrível situação do Sr. Assange diante da emergência da COVID-19 contrastou fortemente não apenas com as provas médicas periciais, mas com os próprios procedimentos legais. A audiência teve lugar no terceiro dia do encerramento do Reino Unido devido ao coronavírus. Dos dois consultores que representam o Sr. Assange, Edward Fitzgerald usou uma máscara facial e o advogado Mark Summers participou através do audiolink. Os advogados dos EUA juntaram-se aos trabalhos por telefone.

O próprio Sr. Assange apareceu por videolink, o qual foi encerrado após cerca de uma hora, tornando-o incapaz de acompanhar o restante da sua própria audiência, incluindo o sumário da defesa e a decisão da Juíza Distrital. Os apoiantes do Sr. Assange, presentes pessoalmente, observaram medidas de distanciamento social. No total, apenas 15 pessoas estiveram presentes, incluindo juiz, advogados e observadores.

Baraitser mais uma vez errou ao afirmar que como nenhum prisioneiro do HMP Belmarsh actualmente tem coronavírus, Assange ainda não estava em risco. O advogado do Sr. Assange observou, em contraste, que eles tiveram dificuldade em visitá-lo depois de serem informados pelos funcionários de Belmarsh que mais de 100 funcionários do presídio estão actualmente "auto-isolados". Além disso, não está claro se qualquer dos prisioneiros de Belmarsh foi mesmo testado para o coronavírus.

A garantia de Baraitser de que as medidas do governo eram adequadas para proteger o Sr. Assange também soou como falsa no mesmo dia em que o governo do Reino Unido anunciava que o Príncipe Charles deu positivo no teste COVID-19. Se o governo britânico não pode proteger a sua própria família real da doença, como pode ele proteger adequadamente os seus prisioneiros mais vulneráveis nas prisões, os quais foram descritos como "campo de reprodução" para o coronavírus?

Além disso, no dia da audiência surgiram notícias de que 19 prisioneiros em 10 prisões do Reino Unido haviam testado positivo para o coronavírus, um aumento de seis prisioneiros em 24 horas [6] . Desde o dia da audiência até à data, dois condenados no Reino Unido morreram do COVID-19, ambos, tais como Assange, eram homens em grupos de alto risco [7] .

Esta notícia, e a decisão de negar fiança ao Sr. Assange, é alarmante à luz de numerosas declarações e relatórios que chamaram a atenção para o risco dos prisioneiros, recomendando com urgência a libertação de prisioneiros não violentos, bem como acções adoptadas por outros países para moderar o risco.

Especificamente, em 17 de Março um relatório [8] do Professor de Saúde Pública Richard Coker, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, afirmava que "instalações congregadas" tais como prisões proporcionavam condições ideais para a "transmissão explosiva" do coronavírus. A "quantidade de horas" importa em termos de contenção, adverte Professor Coker avisa. O relatório recomenda que "se a detenção for desnecessária, deve ser relaxada. Isto deveria ser feito antes que o vírus tenha a oportunidade de entrar num centro de detenção".

Consequentemente, no mesmo dia da audiência da fiança do Sr. Assange, a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, emitiu uma declaração [9] a conclamar autoridades a libertarem prisioneiros que são particularmente vulneráveis ao COVID-19, bem como condenados de baixo risco. "Agora, mais do que nunca, os governos deveriam libertar toda pessoa detida sem suficiente base legal, incluindo prisioneiros políticos e outros detidos simplesmente por exprimirem pontos de vista críticos ou dissidentes", disse ela.

A Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos advertiu que numa crise de saúde tal como a apresentada pelo COVID-19, os direitos de pessoas detidas devem ser protegidos sob a "Regras Mandela" das Nações Unidas que governam os direitos de prisioneiros, notando que prisões abrigam populações vulneráveis tais como idosos, condenados com doenças ou incapacidade, assim como detidas grávidas ou jovens. Tais populações são frequentemente detidas em instalações "superlotadas" e "não higiénicas", em alguns perigosamente, ela enfatizou.

"O distanciamento físico e o auto-isolamento em tais condições são praticamente impossíveis", escreveu a Alta Comissária. "Com surtos da doença, e um número de mortes crescente, já relatados em prisões e outras instituições num número crescente de países, as autoridades deveriam actuar agora para impedir novas perdas de vida entre detidos e funcionários".

Em consonância com este conselho, no país natal do sr. Assange, a Austrália, em 24 de Março o governo da Nova Gales do Sul anunciou [10] a libertação antecipada de prisioneiros seleccionados, com base na sua "vulnerabilidade de saúde" e status de segurança e condenação, à luz da pandemia do COVID-19.

Nos EUA, o médico chefe de Rikers Island, Nova York, instou juízes e promotores a libertarem condenados, sempre que possível, para protegê-los do coronavírus. E 600 prisioneiros encarcerados por delitos menores e não violentos foram libertados em Los Angeles. Mais de 3000 médicos e trabalhadores da saúde também assinaram uma carta aberta instando as autoridades de imigração dos EUA a libertarem detidos a fim de mitigar a epidemia do COVID-19 [11] .

Acrescentando suas vozes jurídicas a estas autoridades médicas e de direitos humanos, no dia seguinte à audiência de fiança do Sr. Assange, três professores de direito e criminologia recomendaram "conceder fiança a prisioneiros não sentenciados para travar a propagação do coronavírus" [12] .

Julian Assange é exactamente um prisioneiro não sentenciado com vulnerabilidade de saúde significativa. Ele está detido em prisão preventiva, sem pena de prisão ou acusação no Reino Unido, muito menos condenação.

Doctors4Assange também se preocupa com o facto de manter Assange em Belmarsh não só aumenta o seu risco de contrair coronavírus, como também aumentará o seu isolamento e a sua incapacidade de preparar a sua defesa para a sua próxima audiência de extradição, em violação do seu direito humano de preparar uma defesa. As visitas dos advogados do Sr. Assange têm sido cada vez mais restringidas devido ao confinamento de presos a fim de evitar a propagação do coronavírus.

Estes dois factores já contribuem grandemente para a tortura psicológica do Sr. Assange e estamos alarmados porque a combinação da decisão de Baraitser, juntamente com restrições prisionais cada vez mais rigorosas em resposta à pandemia, irá intensificar essa mesma tortura. Isto aumenta ainda mais a sua vulnerabilidade ao coronavírus.

Além disso, testemunhas de Assange provavelmente não poderão viajar para a sua audiência de extradição no mês de Maio devido a restrições de viagem impostas tanto pelo Reino Unido ou seus países de origem. Isto poderia resultar em novo adiamento da sua audiência de extradição, prolongando dessa forma o seu abuso medicamente perigoso de tortura psicológica e negligência médica politicamente motivada, como pormenorizámos na nossa carta publicada no número de 7 de Março de The Lancet [13] .

Kristinn Hrafnsson, editor chefe da WikiLeaks, resumiu a decisão de Baraitser de uma maneira coerente com o claríssimo consenso médico e legal, assim como ética médica há muito estabelecida: "Expor um outro ser humano a doença grave e à ameaça de perder a sua vida é grotesco é totalmente desnecessário. Isto não é justiça, é uma decisão bárbara" [14] .

27/Março/2020

[1] From the Doctors4Assange website: doctorsassange.org/...
[2]  From Marty Silk live tweet during the proceedings:  twitter.com/MartySilkHack/status/1242807708778192897
[3]  From the World Health Organization website:  www.who.int/...
[4]  From the World Health Organization website:  www.euro.who.int/...
[5] Bridges for Media Freedom, Briefing, Assange Bail Application, 25 March 2020.
[6]  www.expressandstar.com/news/...
[7]  metro.co.uk/...
[8]  detentionaction.org.uk/...
[9]  www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=25745&LangID=E
[10]  www.smh.com.au/...
[11]  countercurrents.org/...
[12]  theconversation.com/...
[13]  www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30383-4/fulltext
[14]  www.independent.co.uk/

O original encontra-se em doctorsassange.org/...

Esta declaraçãoencontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/varios/doctors4assange_27mar20.html

'As coisas vão piorar antes de melhorarem', alerta premiê do Reino Unido

Primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, sai de sua residência oficial, em Downing Street, durante aplausos ao pessoal do serviço público de saúde, em 26 de março de 2020
© REUTERS / Hannah Mckay

Primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que está com COVID-19, envia mensagem aos cidadãos alertando que os momentos mais difíceis da pandemia no país ainda estão por vir.

Boris Johnson enviou uma carta às famílias no Reino Unido, na qual afirma compreender "as dificuldades" que as medidas para conter a propagação do novo coronavírus causaram na rotina dos britânicos, mas pede para que permaneçam em casa.

"Em poucas semanas, a rotina deste país mudou de forma dramática. Todos nós estamos sentindo o impacto profundo do coronavírus não só em nós mesmos, mas também nos nossos entes queridos e nas nossas comunidades", declarou.

"É importante que seja sincero com vocês: sabemos que as coisas vão piorar antes de melhorarem. Mas estamos tomando as medidas adequadas e, quanto mais pessoas aderirem às regras, menos vidas se perderão e mais cedo poderemos voltar à normalidade", destacou.

O primeiro-ministro Boris Johnson escreve a cada família no Reino Unido para pedir que fiquem em casa, protejam o Sistema Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) e salvem vidas.

Nesta quinta-feira (27), Johnson anunciou nas redes sociais que contraiu a COVID-19. Ele relatou ter realizado o teste após apresentar sintomas leves e disse estar em auto-isolamento, reportou a RT. 

O Reino Unido é o 8º país mais afetado pela COVID-19 no mundo, com 17.325 casos confirmados e 1.021 vítimas fatais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020032915390906-as-coisas-vao-piorar-antes-de-melhorarem-alerta-premie-do-reino-unido/

Boris Johnson infetado com Covid-19

 
 
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está infetado com o novo coronavírus
 
"Durante as últimas 24 horas, desenvolvi sintomas ligeiros e acusei positivo para coronavírus. Estou agora em isolamento, mas continuarei a liderar a resposta do Governo [à pandemia] via videoconferência enquanto combatermos este vírus", escreveu o chefe de Governo no Twitter, na legenda de um vídeo em que detalhou ter sentido "alguma temperatura e tosse persistente" e agradeceu a todos os profissionais do serviço nacional de saúde britânico (NHS).
 
Jornal de Notícias
 
 
Na imagem: Boris Johnson sentiu sintomas "ligeiros" Foto: AFP

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/boris-johnson-infetado-com-covid-19.html

Coronavírus: o primeiro-ministro britânico Boris Johnson deu positivo para Covid-19

 
 

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson testou positivo para coronavírus e está atualmente em auto-isolamento. Depois do príncipe Charles , o primeiro-ministro também contraiu o Covid-19.

Segundo um porta-voz do governo, os sintomas apareceram na quinta-feira, um dia após Johnson ter ido ao Parlamento do país para uma sessão de perguntas e respostas.

 

A mídia britânica afirma que outros ministros poderão se isolar, por terem tido contato com Johnson.

Isso foi comunicado pelo próprio Primeiro Ministro em um vídeo no Twitter:

https://twitter.com/BorisJohnson/status/1243496858095411200?ref_src=twsrc%5Etfw

“Nas últimas 24 horas, desenvolvi sintomas leves e testei positivo para o coronavírus”, disse Johnson. “Agora estou em auto-isolamento, mas continuarei a orientar a resposta do governo em videoconferência na batalha contra esse vírus”

 

Johnson havia sido fortemente criticado por sua abordagem inicial à pandemia, na qual apelou a uma estratégia focada na chamada imunidade de rebanho, no lugar de fechamento de negócios e bloqueio total. Estrada, isso, realizado apenas na última semana, após a expansão em todo o país da epidemia.

O Reino Unido tem 11.658 casos confirmados de coronavírus. Até sexta-feira (27), 578 pessoas haviam morrido por causa da doença que ele causa.

O país mudou de estratégia para combater a Covid-19. Inicialmente, o Reino Unido adotou a estratégia de mitigação da pandemia e de “imunização de rebanho”, ou infecção de grande parte da população, que, na teoria, desenvolveria imunidade coletiva com o objetivo de proteger todos os cidadãos.

Com informações de G1

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/coronavirus-o-primeiro-ministro-britanico-boris-johnson-deu-positivo/

O peso das escolhas orçamentais

O Financial Times de hoje discute a capacidade de resposta à pandemia no Reino Unido. Um dos problemas é o legado de décadas de restrição do investimento público na saúde.
 
“As políticas, assim como o financiamento reduzido, moldaram o serviço [NHS, o Serviço Nacional de Saúde britânico]. Durante décadas, cortou o número de camas hospitalares a um ritmo superior à maioria das restantes nações."
 

Um dos entrevistados no artigo lembra que o NHS tem operado "no fio da navalha" durante anos e que a sua capacidade é posta à prova todos os invernos devido aos surtos de gripe e outras doenças, sendo que "não é preciso muito para que o sistema enfrente dificuldades severas das quais tem cada vez mais dificuldade em recuperar".

Não é novidade que o Reino Unido tem atravessado um longo período de austeridade, marcado pela contenção da despesa pública e diminuição do peso do Estado. O NHS não escapou a esta tendência. Os últimos dez anos de governos Conservadores foram, neste sentido, uma "década perdida" e ajudam a explicar alguns dos problemas que o país enfrenta hoje. Sem surpresa, as escolhas orçamentais têm mesmo um grande impacto nas nossas vidas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

China está disposta a ajudar Reino Unido a combater COVID-19, diz chanceler chinês

Beijing, 21 mar (Xinhua) -- O conselheiro de Estado e ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, disse na sexta-feira que a parte chinesa está disposta a colaborar com a parte britânica, que está realizando uma dura batalha contra a epidemia do novo coronavírus.

Wang fez as declarações durante sua conversa telefônica com o secretário das Relações Exteriores britânico, Dominic Raab.

Wang disse que a epidemia está surgindo em muitas partes do mundo, e que o número de casos confirmados nos países europeus como o Reino Unido está aumentando, pelo que a China expressa sua sincera solidariedade com a parte britânica e considera que o povo britânico pode se unir e finalmente superar a epidemia.

"Quando o povo chinês enfrentava o severo desafio da epidemia, a parte britânica estendeu a mão de ajuda, o que recordaremos no coração", disse Wang, que acrescentou que nesse tempo difícil, quando o Reino Unido está combatendo a epidemia, a China também está disposta a trabalhar junto com o Reino Unido.

A China ainda enfrenta uma árdua tarefa na prevenção e controle da epidemia, mas fará todo o possível para proporcionar um lote de suprimentos médicos à parte britânica e ajudará a facilitar a compra através dos meios comerciais, disse o chanceler chinês.

Também disse que a principal prioridade para a prevenção e controle da epidemia da China é evitar um rebote, e acrescentou que a China está disposta a empreender a prevenção e o controle conjuntos com o Reino Unido, e espera que a parte britânica possa fortalecer o controle fronteiriço, manter o fluxo fronteiriço essencial entre os dois países, e evitar as infecções cruzadas no maior grau possível.

Wang disse que a parte chinesa esteve compartilhando informação relacionada com a epidemia e cooperando com a comunidade internacional contra a epidemia de maneira aberta, transparente e responsável desde que começou sua luta contra o surto, e acrescentou que o país está fornecendo diversas formas de apoio a cerca de 100 países necessitados.

O que resulta alarmante é que algumas pessoas estão tratando de politizar a epidemia, de etiquetar o vírus e de estigmatizar a China, disse Wang, que acrescentou que esses atos prejudiciais escavarão a solidariedade e a cooperação da comunidade internacional e obstaculizarão os esforços conjuntos de todas as partes para combater a epidemia.

Wang disse acreditar em que todos os países, incluindo o Reino Unido, adotarão uma atitude objetiva e justa e resistirão a essa mentalidade de vistas curtas.

Ao assinalar que muitos chineses de exterior, incluindo estudantes chineses, trabalham, estudam e vivem no Reino Unido, Wang os descreveu como pontes de amizade entre os dois países.

Espera-se que a parte britânica conceda uma grande importância a eles e proteja sua saúde e segurança, e lhes proporcione atenção médica oportuna e necessária, acrescentou.

Raab elogiou os notáveis feitos da China no combate à epidemia, e agradeceu à China sua solidariedade com o Reino Unido e por proporcionar fornecimentos médicos e facilitar as compras.

Depois de assinalar que a parte britânica concede grande importância à experiência da China na luta contra a COVID-19, Raab disse que seu país está preparado para fortalecer a coordenação com a China e outros países na prevenção e controle da epidemia, a pesquisa e desenvolvimento de vacinas, e para ajudar aos países com sistemas médicos frágeis, para promover a cooperação internacional e lutar por uma pronta vitória sobre a epidemia.

O governo britânico não regulará esforços para garantir a saúde e segurança dos chineses de exterior em seu país, acrescentou.

Depois de expressar sua oposição à politização da epidemia, Raab enfatizou que a parte britânica está completamente de acordo com a posição da China de que a origem do vírus é um tema científico que exige opiniões científicas e profissionais.

Também pediu a todas as partes que trabalhem juntas para superar as dificuldades em meio à epidemia.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/21/c_138902604.htm

Um certo cheiro a nazismo

Resultado de imagem para boris jonhson capitalism

O modo como o governo de Boris Johnson resolveu de início responder à pandemia do coronavírus foi deixar que a doença se espalhasse para que a população, dizia, adquirisse imunidade — “a imunidade de manada”.

Era uma forma de não pôr à vista as debilidades do Serviço Nacional de Saúde, degradado por políticas de desinvestimento, e de evitar o colapso da economia, já de si abalada pelo marasmo geral do capitalismo e pelo Brexit. Foi preciso o protesto de umas centenas de cientistas e médicos, demonstrando que iriam morrer uns 300 mil britânicos para Boris e a sua trupe governativa mudarem de procedimentos e declararem medidas de quarentena.

Não é de crer que o governo não soubesse desde início as consequências da sua política de deixa andar.

Simplesmente, as vítimas mortais seriam sobretudo os velhos e os fracos — ou seja, os “inúteis”, os “pesos mortos”, os “descartáveis” de que um capitalismo em crise anseia ver-se livre. Espontaneamente, Boris e a sua equipa adoptaram a linha do controlo da população de Malthus, do eugenismo de Francis Galton ou do “melhoramento da raça” dos nazis.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

IMUNIDADE DE GRUPO... NO CASO DO COVID-19?

                A homeless man wearing a protective face mask sits outside a bakery in Newcastle, UK, as another man looks on. Photo: Reuters
                   Fig.1 (*): pedinte com máscara numa cidade britânica
 
O governo britânico, sob a direcção de Boris Johnson e aconselhado por «especialistas» decidiu que  - também em termos de saúde pública-  deveria ter uma política e estratégia de combate à epidemia [*] completamente dissociadas dos outros países europeus. 
Evidentemente, o Covid-19 está-se marimbando para fronteiras e para querelas políticas. Em consequência, o saldo no Reino Unido, neste momento, não poderia ser pior. 
É que as precauções, quando se trata de uma epidemia grave como esta, nunca são prematuras e, neste caso, elas acontecem só agora, quando já é demasiado tarde. 
 
A estratégia inicial do governo britânico estava baseada numa falácia pseudo-científica: 
Segundo esta, a «imunidade de grupo» seria o objectivo a alcançar, para conseguir-se debelar a epidemia, sem afectar demasiado a economia... sempre, os sacro-santos negócios! 
Isto significa que pessoas irão morrer (inutilmente) em grande quantidade, pois é uma doença muito mais mortífera que a gripe. 
Calcula-se que a mortalidade da gripe seja de 2 mortes por mil infectados (0.2%). 
No caso do Covid-19, segundo os números provisórios da província cuja capital é Wuhan, a mortalidade seria de 3.6% - ou seja, 36 pessoas falecidas por cada mil que contraíram o vírus. 
Por fim, o alarme soou no Reino Unido, o governo compreendeu o seu enorme disparate e está a tentar emendar a mão...  
É verdade que, quando se tem uma população imune, num grau muito elevado, o agente patogénico ficará bloqueado - impedido de invadir a população em geral. É, aliás, este o princípio subjacente à eficácia das vacinas, embora raramente se chegue a uma proporção de vacinados na população da ordem dos 100%. Mas este princípio é muito geral: na prática, as situações diferem consoante a transmissibilidade da doença epidémica. Por exemplo, no caso da papeira, altamente contagiosa, só se atinge o tal patamar da imunidade de grupo, quando 90% da população já foi imunizada. Pelo contrário, em doenças menos infecciosas, pode ser suficiente um grau de imunização de 70%, para garantir esse mesmo patamar de «segurança colectiva». Porém, nas epidemias de gripe, vírus aparentados ao diversificado grupo  dos «coronavírus», a imunidade de grupo observa-se somente durante um período que vai de semanas a alguns meses. No caso da gripe, existe um grande número de estirpes. Assim, é provável que alguma estirpe esteja causando uma epidemia num ponto do globo, enquanto outras zonas geográficas ainda não entraram em contacto essa mesma estirpe. Logo que essa estirpe se disseminar em zonas onde antes nunca esteve, causará uma epidemia. Portanto, a imunidade passiva das pessoas que foram previamente infectadas, no caso da gripe, apenas é garantia para a estirpe que foi a causa da infecção e por poucos meses, pois a taxa de mutação das estirpes de gripe é muito elevada. Os vírus replicam-se biliões de vezes dentro de cada população e vão infectar muitos milhões de seres humanos e ao replicar-se adquire novas características. Estamos perante um exemplo da lei dos grandes números, pois cada nova mutação, por muito improvável que seja, será conservada e disseminada se ela conferir vantagem à estirpe viral.   
 
Em relação ao Covid-19 não sabemos, nem podemos saber, muitos dos parâmetros que são conhecidos para outras epidemias virais. Só conseguiremos ter os dados após um certo tempo, depois da epidemia se ter difundido durante certo tempo, em comunidades diversas.  
Podemos depositar esperanças na construção e utilização de uma vacina, mas é preciso ter em conta que às vezes as coisas não são assim tão fáceis, apesar dos progressos técnicos consideráveis. O caso das vacinas contra o SARS são um exemplo notório e recente: Houve um grande atraso, devido a factores imprevisíveis de intolerância da vacina nos humanos, contrariamente aos animais de laboratório, nos quais ela funcionava sem problemas... 
 
----------
[*] 
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Estudo levou Trump e Boris Johnson a reverem posição sobre Covid-19

Um estudo do Imperial College de Londres prevê 2,2 milhões de mortes nos EUA e 500 mil no Reino Unido se não forem adotadas medidas para conter velocidade de transmissão. A informação é de O Globo.

 

 

Um estudo do Imperial College de Londres teria levado Donald Trump e Boris Johnson, dois líderes de direita que vinham minimizando os impactos da pandemia do novo coronavírus, a mudaram de estratégia.

O estudo aponta a possibilidade de 2,2 milhões de morte nos Estados Unidos e 500 mil mortes no Reino Unido caso não sejam tomadas medidas governamentais e individuais para conter a velocidade de transmissão do Covid-19. As informações são de O Globo.

As recomendações da Casa Branca agora incluem um apelo para que os americanos evitem aglomerações com mais de 10 pessoas – medida mais restritiva que a anunciada há apenas dois dias, no domingo, que se referia a grupos com mais de 50 pessoas. O governo também recomendou que os americanos trabalhem de casa, evitem sair para fazer compras não essenciais e refeições em restaurantes.

As restrições valem para os próximos 15 dias, mas, segundo Trump, poderão ser endurecidas e prolongadas por meses, caso haja a necessidade. Alguns estados e cidades vêm implementando medidas mais duras por conta própria. Trump anunciou ainda que pretende enviar remessas de US$ 1 mil por pessoa, parte de um plano de estímulo de US$ 850 bilhões.

No caso do Reino Unido, Boris Johnson havia sido duramente criticado por sua estratégia diante da pandemia, que era de adiar a imposição de medidas estritas tomadas em outros países europeus. O premier britânico reviu sua estratégia e pediu na segunda-feira à população que evite qualquer “contato não essencial” e as “viagens desnecessárias”, trabalhando de casa e não frequentando bares, restaurantes, teatros e outros eventos sociais.

Boris Johnson ainda pediu para que todas as famílias que tenham um membro com febre ou tosse adotem o confinamento em suas casas, sem sair “nem para fazer compras” se possível.


Confira a íntegra do estudo que teria influenciado os dois líderes:



Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV  / Tornado


 
 

 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/estudo-levou-trump-e-boris-johnson-a-reverem-posicao-sobre-covid-19/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=estudo-levou-trump-e-boris-johnson-a-reverem-posicao-sobre-covid-19

IMBECIL! BORIS JOHNSON ADOPTA ESTRATÉGIA DE PASSIVIDADE FACE A PANDEMIA

Já tinha ouvido falar da «imunidade de rebanho?» 
Uma história deveras estranha:
Inicialmente, não lhe dei crédito... mas agora, com a notícia mais detalhada publicada por Zero Hedge, começo a acreditar na veracidade desta posição grotesca do chefe do governo britânico: «não fazer nada para conter o coronavirus.»
Isto é equivalente a dizer, deixem que sejam infectados pelo menos uns 40 milhões, deixem morrer os velhos, os restantes irão sobreviver e terão adquirido imunidade ao vírus!
 
Veja o twitter abaixo que reproduz parte de conversa televisionada de Boris Johnson:
                        https://twitter.com/i/status/1237050695330775042



Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Brexit, continuação do processo

 
 
31 de janeiro de 2020 é uma data que ficará marcada na história do Reino Unido como o dia da saída oficial do país da União Europeia (UE). Porém, ela é muito mais simbólica do que efetiva. De fato, os britânicos continuarão seguindo as regras do Mercado Comum Europeu até o dia 31 de dezembro de 2020, o que inclui a manutenção da livre circulação de pessoas* durante o período. Enquanto isso, nos próximos 11 meses, ambos os lados negociarão uma nova relação comercial.
 
Oprimeiro-ministro Boris Jhonson declarou que buscará um Acordo de Livre-Comércio muito parecido com o em vigor entre a UE e o Canadá, o chamado CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement, ou Acordo Comercial UE-Canadá, em português). Isso significaria a eliminação da maioria das tarifas sobre os bens comercializados entre o Reino Unido e o Bloco Europeu. Porém, o acordo traria controles alfandegários (hoje praticamente inexistentes) e não cobriria grande parte do comércio de serviços, setor vital para a economia britânica.
 
As negociações não serão fáceis, tudo dependerá da disposição do Governo britânico em manter as regulamentações existentes do Mercado Europeu. Boris, em discurso na segunda-feira, dia 3 de janeiro de 2020, deixou claro não querer aceitar as regras europeias de competição, subsídios, proteção social e meio-ambiente. Porém, Michel Barnier, o negociador oficial da UE com o Reino Unido, lembrou que o Primeiro-Ministro havia declarado, ano passado (2019), que manteria o alto padrão das regulamentações existentes. Caso um acerto não avance, a nova relação será governada pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), o que significaria maiores tarifas e barreiras para o comércio entre os dois lados.
 
Nota:
* O princípio da livre circulação de pessoas é o que permite aos cidadãos europeus viverem legalmente em qualquer outro país da UE. O princípio está ligado à observação das leis contidas nos tratados europeus. A residência em um país por um período superior a três meses é permitida desde que o cidadão europeu ou seus familiares exerçam uma atividade profissional, ou possuam recursos suficientes para se auto-sustentar no local. Com o Brexit, os cidadãos europeus que chegarem ao Reino Unido até o dia 31 de dezembro de 2020 poderão continuar residindo no país e manter boa parte dos seus direitos, desde que se registrem no novo sistema de registro de cidadãos da UE – o “Settle Status Scheme”. Os cidadãos britânicos que iniciarem sua residência em um país da UE antes do final de 2020 também deverão se registrar de acordo com as leis locais para continuarem exercendo seus direitos de residência de longo termo.
 
Andre Miquelasi | Ceiri News
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/brexit-continuacao-do-processo.html

França tranca arquivos sobre morte da princesa Diana até 2082, segundo mídia

Arquivos Secretos do Vaticano (imagem referencial)
© AP Photo / Giovanni Ciarlo, ho

Justiça francesa teria negado acesso a arquivos sobre morte da princesa Diana por 75 anos, enquanto investigação jornalística levanta dúvidas sobre versão oficial do caso.

Embora mais de 20 anos tenham se passado após a morte da princesa de Gales, comumente chamada de Lady Di, as autoridades francesas estariam encobrindo detalhes de seu falecimento.

Pela versão oficial, a princesa morreu no dia 31 de agosto de 1997 em um acidente de carro em Paris. Para a polícia, o motorista de Diana, Henri Paul, estava dirigindo embriagado no momento do acidente.

Contudo, segundo investigação jornalística publicada pelo tabloide Daily Star, as autoridades francesas concluíram em 2007 um dossiê de 6.000 páginas contendo relatos de cerca de 200 testemunhas, fotos nunca antes vistas do acidente e das vítimas fatais, assim como entrevistas com todas as pessoas envolvidas no caso.

No entanto, o arquivo tem sido mantido em absoluto segredo na Corte de Recursos de Paris.

Arquivo secreto?

De acordo com o tabloide, o governo francês só admitiu a existência do dossiê após requerimento da mídia, tendo em seguido lacrado seu acesso até 2082, ou seja, 75 anos após sua conclusão em 2007.

O embasamento jurídico usado pelas autoridades francesas é o artigo L. 213-2 de seu Código do Patrimônio, que regula a confidencialidade das investigações no país.

O arquivo, feito por 30 policiais franceses, poderá não ser liberado ao público mesmo após 2082.

Dossiê 'sumido'

Ainda em 2007, o advogado Jean-Louis Pelletier pediu às autoridades francesas acesso ao material. Ele recebeu como resposta que o dossiê havia sumido naquele ano.

"Eu sei que de tempos em tempos os arquivos somem, mas tendo em conta o tamanho e a importância deste em particular, é extraordinário", afirmou Pelletier ainda em 2007, segundo a mídia.

Tendo tais fatos em mente, alguns conspiracionistas acreditam que tais circunstâncias "provariam" que a morte de Diana foi muito além de um simples acidente de carro.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020031515332250-franca-tranca-arquivos-sobre-morte-da-princesa-diana-ate-2082-segundo-midia/

Casos de coronavírus no Reino Unido podem ser quase 20 vezes superior ao oficial

 
 
Estimativa de um especialista do Governo britânico
O número de pessoas infetadas pelo novo coronavírus Covid-19 no Reino Unido é "provavelmente" cerca de dez a vinte vezes maior do que o registado oficialmente, estimou hoje um especialista do Governo britânico.
 
"Provavelmente estamos entre 5.000 e 10.000 pessoas atualmente infetadas", afirmou o consultor científico do governo, Patrick Vallance, durante uma conferência de imprensa com o primeiro-ministro, Boris Johnson, onde foi anunciada a intensificação de medidas para conter o surto.
 
No balanço feito hoje, o número de pacientes infetados no Reino Unido subiu para 590 entre 29.764 pessoas testadas, das quais dez morreram e mais de 20 estão em cuidados intensivos.
 
"Estamos numa trajetória que nos mostra que estamos quatro semanas atrás da Itália e de outros países europeus", acrescentou Vallance.
 
A Itália é o caso mais grave depois da China, com mais de 12.000 infetados e pelo menos 827 mortos, o que levou o Governo a decretar a quarentena em todo o país.
 
Hoje (12.03), o governo britânico ativou a segunda fase do plano de combate ao Covid-19, destinada a controlar a propagação do novo coronavírus, urgindo a todas as pessoas com sintomas para se auto-isolarem durante uma semana.
 
"Estamos agora a avançar para a próxima fase do plano, não só de forma a tentar conter a doença o máximo possível, mas também para retardar a propagação e, assim, minimizar o sofrimento", afirmou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.
 
 
A partir de sexta-feira, se as pessoas tiverem sintomas indicativos de coronavirus, mesmo ligeiros, nomeadamente tosse persistente e febre elevada, devem permanecer em casa e auto-isolarem-se durante sete dias, bem como os restantes membros do agregado familiar.
 
"Se atrasarmos o pico, mesmo em algumas semanas, o nosso NHS [sistema nacional de saúde] estará numa posição mais forte. À medida que o tempo melhora, e menos pessoas sofrerem de doenças respiratórias normais, mais camas ficarão disponíveis e teremos mais tempo para fazer investigações médicas."
 
Nas medidas anunciadas hoje, o governo proíbe visitas de estudo ao estrangeiro e aconselha as pessoas idosas, mais vulneráveis a esta doença, a não viajarem em cruzeiros. Boris Johnson disse ainda que o governo está a considerar a proibição de grandes eventos desportivos, mas por enquanto afastou o encerramento de escolas.
 
O primeiro-ministro britânico afastou comparações entre o Covid-19 com uma gripe normal e qualificou esta "a pior crise de saúde pública" das últimas décadas, prognosticando mais mortes.
 
"Devido à falta de imunidade, esta doença é mais perigosa e vai-se espalhar ainda mais e tenho de ser honesto com os britânicos: muito mais famílias vão perder entes queridos antes do tempo".
 
SIC | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/casos-de-coronavirus-no-reino-unido.html

Boris enfrenta primeira rebelião no seu próprio partido (por causa da Huawei)

 

O Governo britânico de Boris Johnson enfrentou a primeira rebelião no seu próprio grupo parlamentar conservador devido à oposição de um bloco de deputados à participação da Huawei no desenvolvimento do 5G no Reino Unido. 

 

Liderados por Ian Duncan Smith, ex-chefe do Partido Conservador, 38 parlamentares conservadores apoiaram uma emenda ao projeto de lei de telecomunicações e infraestruturas que tentava garantir que a tecnologia da empresa chinesa deixasse de ser usada nas redes britânicas.

Duncan Smith, que em tempos comparou a China ao regime alemão nazi, é um dos históricos conservadores que não querem ver a tecnologia chinesa no interior dos dispositivos de telecomunicações. Liam Fox, ex-ministro conservador do Comércio Internacional, também faz parte do grupo.

Assim, para alguns deputados conservadores britânicos, as “ordens” vindas da Casa Branca, segundo as quais a Europa deve abster-se de usar tecnologia chinesa no 5G são para serem seguidas.

 
 

Porém, de acordo com o Jornal Económico, Boris conseguiu que a emenda, apoiada pela oposição trabalhista, não tivesse êxito, mas a votação ficou em 282 votos a favor da emenda e 306 contra – os conservadores têm 365 lugares e os trabalhistas 202 -, o que constitui um alerta para primeiro-ministro.

O governo de Boris resistiu à pressão dos Estados Unidos e deu luz verde, com condições, à participação da Huawei no desenvolvimento da nova fase do 5G no Reino Unido. A empresa não poderá monopolizar mais de 35% das infraestruturas implantadas ou aceder aos núcleos mais sensíveis da nova rede.

Boris prometeu aos deputados rebeldes que o assunto será debatido com pormenor antes de surgir a futura lei.

Segundo Steve Baker, um eurocético aliado de Boris, a batalha sobre o caso Huawei está, no interior da Câmara dos Comuns, apenas a começar. De mais 12 deputados mudarem o seu sentido de voto e a emenda regressar à votação, Johnson sofre uma derrota.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/boris-primeira-rebeliao-huawei-313113

Ministra da Saúde do Reino Unido contrai coronavírus

Turistas usando máscaras para se protegerem do coronavírus em Londres, no Reino Unido
© AP Photo / Matt Dunham

A ministra da Saúde do Reino Unido, Nadine Dorries, contraiu a COVID-19 após ficar doente na última sexta-feira (11), ainda que seja desconhecida a forma como foi infectada.

Segundo o jornal britânico The Telegraph, trata-se da primeira governante a contrair a doença no Reino Unido.

"Posso confirmar que tive resultado positivo para o coronavírus. Assim que me informaram, tomei todas as precauções recomendadas e me isolei em casa", comunicou Dorries, deputada desde 2005, revela a agência Europa Press.

O anúncio da ministra se seguiu à confirmação da sexta morte por coronavírus no país europeu, onde já foram registrados 382 casos.

 

​Atualizações ao vivo sobre o coronavírus: Ministra da Saúde do Reino Unido Nadine Dorries entra em isolamento após testar positivo para o vírus

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou emergência sanitária internacional no final de janeiro e pediu à comunidade internacional que dobre seus esforços para conter a propagação do vírus.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020031115317808-ministra-da-saude-do-reino-unido-contrai-coronavirus/

A invenção do mito da «revolução síria» pelo Reino Unido

Numa fuga, novos documentos foram revelados sobre a organização da propaganda britânica contra a Síria. Eles permitem compreender como jornalistas de boa fé puderam ser permanentemente intoxicados pelo mito da «revolução síria», como também por que é que o Reino Unido se retirou da Síria apesar do sucesso desta operação.

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A democracia supõe que se possa realizar debates públicos honestos. Por conseguinte, a propaganda seria, pois, apanágio de regimes não-democráticos. Ora, a História ensina-nos que a propaganda moderna foi concebida no Reino Unido e nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e que a URSS e a Alemanha nazista não passaram de pálidos imitadores.

Durante a guerra contra a Síria, explicamos muitas vezes que a realidade no terreno não correspondia, de forma nenhuma, à imagem que os Ocidentais dela recebiam. Denunciamos a montagem de “provas” pelos Serviços Secretos norte-americanos, britânicos, franceses e turcos para esconder a agressão ocidental e fazer crer numa revolução contra uma ditadura.

Quando o Reino Unido já não está presente no terreno desde 2018, o jornalista Ian Cobain acaba de publicar no Middle East Eye documentos oficiais britânicos que nos esclarecem sobre a maneira como Londres intoxicou maciçamente jornalistas de boa fé e depois se retirou [1]. Ele já havia publicado no Guardian, em 2016, revelações sobre a organização do MI6 na matéria [2].

Sobretudo, é importante lembrar que os Britânicos não perseguiam, de forma alguma, o mesmo objectivo que os seus aliados dos EUA. Londres esperava recuperar a sua influência da época colonial (como Paris). O Reino Unido não acreditava que os Estados Unidos pretendiam destruir as estruturas estatais de conjunto do Médio-Oriente Alargado (estratégia Rumsfeld/Cebrowski). Por isso, concebera a operação das «Primaveras Árabes», baseada no modelo da «Grande Revolta Árabe» de Lawrence da Arábia (os Irmãos Muçulmanos desempenhando hoje em dia o papel dos Wahhabitas da Primeira Guerra Mundial). A sua propaganda fora, portanto, imaginada para criar a “Nova Síria” em volta desta Confraria e não para a dividir tal como desejava e ainda deseja a CIA.

Os Ocidentais haviam já sido convencidos da existência de revoluções na Tunísia, no Egipto e na Líbia. Era, portanto, mais fácil vender-lhes a ideia de um quarto cenário de operações.

Jornalistas de boa fé foram levados por revolucionários (na realidade os Serviços Secretos turcos e os da OTAN) a uma aldeia síria, Jabal Al-Zaouia, a fim de assistir a reuniões do Exército Livre da Síria e filmá-las. Foram muitos os alvos desta intoxicação e a acreditar num levantamento popular. Assim que essa encenação foi denunciada por Daniel Iriarte no diário espanhol ABC – já que, no local, ele tinha reconhecido não combatentes sírios, mas líbios, sob as ordens de Aldelhakim Belhaj e Mehdi al-Harati [3]— a imprensa recusou reconhecer a manipulação de que tinha sido alvo. A incapacidade de jornalistas para admitir os seus erros, mesmo quando alguns dos seus colegas os baralham, continua a ser o melhor trunfo dos mestres da propaganda.

Como sempre, os Britânicos do RICU (Research, Information and Communications Unit - Unidade de Pesquisa, Informação e Comunicações) recorreram a um cientista, neste caso um «antropólogo», para supervisionar a manipulação. Ele confiou a realização a vários subcontratados, entre os quais um «antigo» oficial do MI6, o Coronel Paul Tilley; a palavra «antigo» é aqui importante, já que se tratava de poder negar toda a responsabilidade se a operação desse para o torto. Para estar próximo do terreno de operações, três gabinetes ad hoc foram abertos pelos subcontratados do MI6 em Istambul, Reyhanli (Turquia) e Amã (Jordânia), enquanto a CIA operava a partir da Alemanha.

Esta operação começou a partir do caso das armas químicas, no Verão de 2013, quando a Câmara dos Comuns, escaldada pela propaganda durante a guerra contra o Iraque, havia interdito, de forma estrita, ao Ministério da Defesa a colocação de tropas no terreno.

Por isso, o orçamento inicial do Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros-ndT) foi ampliado e assumido pelo Ministério da Defesa britânico e por Agências canadianas (canadenses-br) e norte-americanas, já que os militares não tinham outros meios para intervir.

Ela foi colocada sob o comando de um oficial do MI6, Jonathan Allen, que se tornou o número 2 da Delegação diplomática britânica no Conselho de Segurança da ONU.

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O oficial dos Serviços Secretos britânicos e Encarregado de Negócios de Sua Majestade, Jonathan Allen, dando uma conferência de imprensa na ONU na companhia do seu aliado privilegiado, o Embaixador da França, François Delattre.

A originalidade da operação, realizada, entre outros, pela Innovative Communications & Strategies (InCoStrat), é de ser apresentada como uma parceria comercial sem vínculo com as autoridades do Reino Unido. Os Sírios que nela participavam não tinham o sentimento de estar a trair o seu país, mas apenas de ter encontrado uma ocasião de ganhar dinheiro para sobreviver apesar da guerra. Em relação ao seu nível de vida, as remunerações pagas eram com efeito muito substanciais.

O sistema de « cidadãos-jornalistas» era muito económico tendo em vista as £ 500.000 libras mensais do orçamento britânico (US $ 50 a US $ 200 dólares por um vídeo, US $ 250 a US $ 500 dólares por colaborações regulares) para encontrar «informações» ou «provas» atestando a repressão do regime contra a sua própria população. Esses materiais, uma vez triados, eram enviados pelo MI6 à BBC, Sky News Arabic, Al-Jazeera (Catar) e Al-Arabiya (Arábia Saudita), quatro estações que participam totalmente no esforço de guerra ocidental, em violação das resoluções das Nações Unidas que proíbem a propaganda de guerra. Os colaboradores sírios deviam comprometer-se por escrito em permanecer anónimos, salvo autorização expressa, e a não divulgar as suas ligações a nenhuma empresa, fosse ela qual fosse.

Os jornalistas de boa-fé ocidentais, não podendo chegar até aos «jornalistas-cidadãos» sírios e verificar o contexto dos vídeos e de outras «provas» —o que é a razão de ser da sua corporação—, deixam-se convencer pelo ruído das quatro estações de televisão.

Os documentos de Ian Cobain atestam que a este alvo internacional se acrescentava um outro alvo na Síria. Londres desejava provocar uma mudança de atitude da população em favor dos «moderados» face aos «extremistas». Neste ponto, não parece que a Middle East Eye tenha percebido que essas palavras não devem ser interpretadas no sentido comum, mas à luz das decisões do Primeiro-Ministro Tony Blair. Este, durante a elaboração do plano das «Primaveras Árabes», postulara que o governo de Sua Majestade devia considerar como aliados os líderes «moderadamente anti-imperialistas», como os Irmãos Muçulmanos, enquanto os adversários seriam os «extremistas anti-imperialistas», tal como o regime nacionalista do Baath sírio [4].

O antropólogo que supervisionava o programa indicou além disso a necessidade de criar serviços de emergência no terreno (a Polícia Livre e os Capacetes Brancos do «antigo» oficial do MI6, James Le Mesurier) não tanto para vir em socorro da população, mas para lhe dar confiança nas futuras instituições uma vez derrotado o regime de União Nacional em torno do Baath. Sobre este ponto, ele fez referência ao plano de rendição total e incondicional da Síria, redigido pelo Alemão Volker Perthes para o número 2 da ONU, Jeffrey Feltman [5], que os Britânicos, no entanto, interpretaram mal.

Este desacordo foi a principal causa da confusão nesta operação quando Washington tentou criar o «Sunnistão» com o Daesh (E.I.) e o «Curdistão Livre» com o PKK turco e o PDK iraquiano. Os Britânicos, considerando que já não era a sua guerra, decidiram então retirar-se.

O programa do MI6 tinha três vectores:

- Identidade síria :
«Unir os Sírios pela afirmação positiva de culturas, de práticas comuns e de restabelecer a confiança entre vizinhos, ao mesmo tempo mostrando a força dos Sírios pelo número».
- Síria livre :
«Procurar reforçar a confiança num futuro da Síria isenta de regime “extremista”».
- Acção de Sapa :
«Procurar degradar a eficácia das redes extremistas violentas (EV) na Síria sabotando a credibilidade das narrativas e dos actores EV e isolando, para isso, as organizações EV da população».

Segundo os documentos de Ian Cobain, os subcontratados do MI6 treinaram igualmente porta-vozes da oposição síria, desenvolveram contas em redes sociais e organizaram gabinetes de imprensa funcionando 24h/24. Eles não citam o design dos logotipos e as encenações hollywoodescas que nós havíamos relatado, tal como o desfile militar na Ghuta com tanques passando à frente das câmaras e com figurantes incluídos.

Os gabinetes de imprensa visaram pôr em ligação porta-vozes da oposição síria com jornalistas ocidentais e a dar-lhes resumos informativos antes das negociações. Dessa forma, a imprensa ocidental acreditava de boa fé obter as suas informações de fonte independente e a baixo custo. Se, no início, aquando da fase de desestabilização (até ao meio de 2012), todos os média (mídia-br) internacionais enviavam repórteres para o terreno (que os Britânicos manipulavam), hoje em dia não há lá nenhum. Os Ocidentais adquiriram o hábito de acreditar na agência de notícias criada, em Londres, pelo MI6 com os Irmãos Muçulmanos, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, muito embora este último não disponha dos meios para saber seja o que for de certos acontecimentos que finge cobrir.



[1] “REVEALED: The British government’s covert propaganda campaign in Syria”, Ian Cobain & Alice Ross, Middle East Eye, February 20th, 2020.

[2] “How Britain funds the ’propaganda war’ against Isis in Syria”, Ian Cobain, Alice Ross, Rob Evans, Mona Mahmood, The Guardian, May 3rd, 2016.

[3] «Islamistas libios se desplazan a Siria para «ayudar» a la revolución», por Daniel Iriarte, ABC (España), 17 de diciembre de 2011.

[4] Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump, Thierry Meyssan, éditions Demi-Lune.

[5] “A Alemanha e a ONU contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 28 de Janeiro de 2016.
“Draft Geneva Communique Implementation Framework”, “Confidence Building Measures”, “Essential Principles”, “Representativness and Inclusivity”, “The Preparatory Phase”, “The Transitional Governing Body”, “The Joint Military Council and Ceasefire Bodies”, “The Invitation to the International Community to Help Combat Terrorist Organizations”, “The Syrian National Council and Legislative Powers during the Transition”, “Transitional Justice”, “Local Governance”, “Preservation and Reform of State Institutions”, “Explanatory Memorandum”, “Key Principles revealed during Consultations with Syrian Stake-holders”, “Thematic Groups”, United Nations Department of Political Affairs (DPA), 2012-2014 (unpublished).



Ver original na 'Rede Voltaire'



Os britânicos vão passar a comer galinha lavada com cloro?

 
 
"Se os britânicos passarem a comer galinha lavada com cloro, a divergência entre o Reino Unido e a UE terá sido substantiva"
 
Entrevista a Bernardo Ivo Cruz, editor da The London Brexit Monthly Digest, sobre o estado das relações entre o Reino Unido e a União Europeia um mês depois da saída dos britânicos da organização que integravam desde 1973.
 
O The Guardian dava o exemplo do frango lavado com cloro para mostrar o quão complicado podem ser as negociações entre o Reino Unido e a União Europeia para definir a relação pós-Brexit. É um exagero?
O frango lavado com cloro é mais uma das expressões que entrou no léxico britânico com o Brexit, já que enquanto que os Estados Unidos permitem que frangos lavados com cloro entrem no mercado, a União Europeia proíbe-o por razões de saúde pública. A questão que se coloca até ao final das negociações (seja em julho, em dezembro, em 2021 ou mesmo em 2022) é saber qual o grau de divergência regulatória que o Reino Unido poderá introduzir nas regras da UE e continuar a ter acesso ao mercado Europeu. Se for longe de mais, deixará de poder vender para os 500 milhões de consumidores europeus mas se continuar muito alinhado não terá as vantagens competitivas que o Brexit prometeu. Se os britânicos passarem a comer galinha lavada com cloro, a divergência entre o Reino Unido e a União Europeia terá sido substantiva.
 
Tendo em conta as divisões entre os restantes 27 em temas como o orçamento plurianual, é de prever que o negociador-chefe Michel Barnier apresente linhas claras do que pretende a União Europeia ou vai estar sujeito à tentação de alguns países de reformularem por si sós a relação com o Reino Unido?
A história recente do Brexit mostrou que a UE unida tem um poder negocial muito relevante e consegue "levar a água ao seu moinho". Mas há sempre o risco de haver divisões entre os 27, principalmente agora que estaremos a negociar o futuro das relações com Londres e não a regular o passado. Temos que ter em atenção que há áreas de negociação que pertencem à UE, onde Bruxelas fala pelos 27 e há outras áreas onde cada Estado membro é livre de negociar os seus próprios acordos. É, portanto, possível que os 27 mantenham a unidade nas questões da UE e tenham posições individuais noutras áreas. Como também é possível que os interesses nacionais falem mais alto. Teremos que ver como o processo se desenrola.
 
 
Como estão os setores anti-Brexit britânicos a gerir a situação atual? Conformaram-se com a rutura ou continuam a trabalhar para que em algum momento num futuro mais ou menos distante o Reino Unido volte à União Europeia?
Os apoiantes da continuação do Reino Unido na União Europeia na Inglaterra aparentam estar conformados. Perderam o referendo e perderam as eleições de 2019 e agora esperam para ver como decorrem as negociações. Se houver um acordo equilibrado entre Londres e Bruxelas, o Brexit será uma realidade com a qual terão que viver durante muitos anos. A questão coloca-se, portanto, se o acordo for mau ou mesmo se não houver acordo. Já os opositores ao Brexitna Escócia estão galvanizados. Não quiseram o Brexit em 2016 e votaram fortemente no Partido Nacionalista Escocês em 2019, que promete lutar pela independência da Escócia e voltar a integrar a União Europeia. O Parlamento e o Governo de Edimburgo já aprovaram a realização do referendo, mas Londres está contra. Será uma longa batalha política e jurídica com um final incerto.
 
Vitória do Sinn Féin nas eleições irlandesas vem ameaçar ainda mais a sobrevivência do Reino Unido, com a Irlanda do Norte ate mais próxima da rutura do que a própria Escócia ultra-europeísta?
A vitória do Sinn Féin na República da Irlanda, que se soma à eleição na Irlanda do Norte de mais deputados que defendem a reunificação da Irlanda do que os que defendem a continuação do Reino Unido, são sinais importantes e que podem ter consequências para o futuro. Note-se que os Acordos de Sexta-Feira Santa (que puseram fim a 30 anos de quase guerra civil na Irlanda do Norte) prevê que quando houver uma maioria que o desejem, possa haver um referendo na Irlanda do Norte - seguido de um outro referendo na República da Irlanda - para decidir o futuro das província.
 
Boris Johnson reformulou há semanas o governo britânico. O objetivo foi torná-lo mais à sua imagem ou ainda tem que ver com a estratégia pós-Brexit?
O primeiro-ministro enfrenta vários desafios nos próximos meses e anos: a negociação com a União Europeia, as negociações com outros países para estabelecer novos acordos comerciais e, internamente, lidar com as consequências do Brexit e tentar curar uma sociedade muito dividida. É natural que deseje ter à sua volta uma equipe em que confie. A surpresa da remodelação foi a demissão do ministro das Finanças, que não aceitou a ordem para demitir todos os seus assessores e trabalhar com os assessores do Gabinete do PM, o que poderá significar a vontade do Boris Johnson em controlar muito mais de perto o funcionamento do Governo.
 
Ao manter o 5G da Huawei, o Reino Unido rejeita as pressões americanas contra a empresa chinesa, um pouco com estão a fazer os 27. Isso significa que a tão falada parceria entre Johnson e Donald Trump não é assim tão certa?
Brexit significa que o Reino Unido terá que construir uma nova rede de parceiros económicos e comerciais e que a China, tal como os Estados Unidos ou a União Europeia, não pode ser ignorada. Londres terá agora que fazer um exercício de equilíbrios e negociações entre interesses opostos. Aceitar a participação da Huawei contra a vontade expressa dos Estados Unidos poderá ser um sinal desses equilíbrios.
 
O PIB britânico foi ultrapassado em 2019 pelo da Índia, o que é simbólico do fim de uma era. Que sinais há de desempenho da economia britânica neste primeiro mês pós-Brexit?
Em bom rigor, e sendo certo que o Reino Unido já não é um Estado membro da União Europeia, até ao fim do período de transição continua a ter o mesmo acesso ao Mercado Comum que tinha antes. Assim ainda não é possível avaliar o impacto do BREXIT na economia britânica. E esse impacto dependerá dos acordos que Londres consiga com a UE e com os outros potenciais parceiros E, mesmo que as coisas não corram assim tão bem, poderão passar alguns meses ou mesmo anos até podermos avaliar esses impactos, pois o Governo Britânico tem previsto um programa de investimento público massivo, o que fará acelerar a economias.
A Defesa, nomeadamente a cooperação no âmbito da NATO, continuará a ser o principal ponto de união entre o Reino Unido e os 27?
A Defesa foi sempre um caso de amor-ódio entre o Reino Unido e alguns Estados da União Europeia, pois enquanto Londres sempre defendeu o primado da NATO, outros entendem que a UE deve ter capacidade militar autónoma. Os discursos e proclamações dos dois lados do Canal da Mancha são unânimes em afirmar a colaboração em questões de defesa e segurança, e esperemos que assim seja, pois o Reino Unido tem o maior exército europeu e é um dos dois países no continente com capacidade nuclear e com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
 
Algum sinal até agora de impacto do Brexit nas relações luso-britânicas?
Até à data nada mudou e nada mudará durante o período de transição. Mas importa começar já a trabalhar no modelo de relacionamento entre Lisboa e Londres após 2020. E devemos trabalhar igualmente na criação de condições para que as Universidades, as Organizações da Sociedade Civil e as Empresas dos dois países possam manter e até aprofundar as suas relações. Portugal e o Reino Unido são aliados antigos, são democracias atlânticas e têm interesses comuns. Dentro ou fora da União Europeia, temos o dever e temos o interesse partilhado em estabelecer as mais vastas e mais profundas relações bilaterais em todas as áreas possíveis.
 
Leonídio Paulo Ferreira | Diário de Notícias

Propaganda britânica encena a guerra da Síria

 
 
O «jornalismo cidadão» que alimenta a comunicação social corporativa sobre a guerra na Síria é, afinal, contratado e pago pelo governo britânico. As provas constam de documentos oficiais, expostos em fugas de informação.
 
José Goulão | AbrilAbril| opinião
 
A informação supostamente com origem na «oposição da Síria» divulgada pela comunicação social corporativa a propósito da guerra contra este país é gerada por um tentacular sistema de propaganda montado pelo governo britânico em conjunto com empresas privadas pertencentes a ex-oficiais das forças armadas e dos serviços secretos de Londres. As provas constam de documentos oficiais resultantes de fugas de informação recentes.
 
De acordo com elementos constantes dessa documentação, a operação tem como objectivo «dinamizar os valores e a reputação da oposição síria» para «minar a narrativa de legitimidade» do governo de Damasco, de modo a «promover os interesses estratégicos do Reino Unido na Síria e no Médio Oriente».
 
Esta estratégia de comunicação foi lançada pelo Comando Estratégico britânico (UKStratCom)1 na sequência de uma iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Londres, que mantém a supervisão e delega a execução em empresas privadas contratadas para o efeito. O financiamento é suportado essencialmente pelos ministérios da defesa britânico, dos Estados Unidos e do Canadá.
 
A gestão directa do processo está entregue a um «antropólogo» dos sectores «anti-terroristas» do Ministério da Defesa, sob a tutela de Jonathan Allen, oficial do MI6, serviços de espionagem britânicos, e também número dois da delegação do Reino Unido no Conselho de Segurança na ONU.
 
A iniciativa desenvolveu-se a partir do momento em que a Câmara dos Comuns do Parlamento britânico decidiu, em 2013, que o Reino Unido não poderia participar em quaisquer operações militares em território sírio, ao contrário do que acontece com os Estados Unidos e a França. A medida parlamentar, no entanto, veio a ser violada pelas forças armadas através da participação no bombardeamento efectuado em 7 de Abril de 2017 contra território sírio – como «resposta» a um «ataque químico» que não existiu, como agora está plenamente provado; e também pela participação de pilotos militares britânicos, aos comandos de aviões de outras bandeiras, em acções aéreas contra a soberania síria.
 
 
Uma teia de intoxicação
 
A base da estratégia montada em Londres foi a seguinte: dar voz à «oposição síria» através de canais de comunicação montados por empresas privadas britânicas controladas por meios militares e de espionagem, por sua vez contratadas pelo governo do Reino Unido.
 
A proliferação do «jornalismo cidadão»; a criação de fontes de informação e de assessorias tornadas «fidedignas» e «indispensáveis», de que é exemplo o «Observatório Sírio dos Direitos Humanos»2, significativamente a funcionar em Londres; e a preparação de «porta-vozes» para transmitir os pontos de vista de uma «oposição», de facto, sem rostos credíveis, são caminhos explorados de uma maneira orgânica e tentacular e que moldam a informação dominante à escala global sobre a guerra contra a Síria.
 
Os megafones privilegiados pelos gestores da rede são as estações de televisão, designadamente a Sky News, a BBC, especialmente os seus canais em árabe, a Al Jazeera do Qatar e a Al Arabyia da Arábia Saudita. A partir daí as mensagens tornam-se imparáveis, bebidas pela teia da informação corporativa sedenta por tudo quanto possa estigmatizar o governo legítimo de Damasco.
 
Os documentos governamentais revelam que, no âmbito da operação, o Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros montou escritórios especiais em Istambul, Amã e ainda na cidade turca de Reyhanli para os quais foram seleccionados membros da diáspora «oposicionista» síria através das empresas privadas envolvidas no processo3.
 
A tarefa dos contratados é, por exemplo, estabelecer a rede de «jornalismo cidadão» através da Síria, integrando pessoas que, em muitos casos, nem sequer sabem que estão a ser pagas por governos estrangeiros. Devem produzir textos, pequenos vídeos, programas de rádio, posters, até banda desenhada para plataformas, blogues, redes sociais – um abundante manancial capaz de «expor os crimes, os fracassos, os erros do regime de Assad». Os membros da rede recebem entre 50 e 200 dólares por peça, supostamente pagos por «organizações de oposição»; o dinheiro, no entanto, escorre realmente de um orçamento mensal de um pouco mais de 500 mil euros, financiado pelos ministérios da defesa do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá.
 
A gestão e o encaminhamento deste imenso espólio envenenado está nas mãos das empresas de comunicação que gerem os escritórios da Turquia e da Jordânia a rogo das autoridades britânicas.
 
Assim nasceram os Capacetes Brancos
 
Outra missão desta rede de propaganda é «promover a sociedade civil» nas zonas sob domínio da «oposição», leia-se terroristas da al-Qaeda e, durante muito tempo, também do Estado Islâmico, embora a documentação oficial fale sempre em «organizações moderadas». Em boa verdade, os terroristas «moderados» nunca foram relevantes e estiveram sempre sob o controlo operacional dos braços locais da al-Qaeda e do Estado Islâmico.
 
Um exemplo da construção dessa «sociedade civil» foi a criação de «polícias livres»4 e de organizações de «socorro humanitário», como por exemplo os Capacetes Brancos.
 
O tempo e os factos demonstraram que tais estruturas estiveram sempre ao serviço do terrorismo: os Capacetes Brancos, comprovadamente um braço da al-Qaeda, acabaram por tornar-se conhecidos pelas encenações de vários «ataques químicos», realizadas aliás pela Olive, uma produtora cinematográfica e agência de comunicação britânica, como as outras agregadas à gigantesca operação de propaganda, mentira e intoxicação.
 
O facto de os Capacetes Brancos terem sido fundados e dirigidos por um antigo agente dos serviços secretos britânicos, James Le Mesurier, não pode ser considerado, nestes contextos, uma pura coincidência. Assim como a circunstância de Le Mesurier ter falecido recentemente em Istambul, caindo de maneira muito suspeita da janela do seu escritório5.
 
Os meios de comunicação social nacionais e internacionais que se tornaram acriticamente clientes desta rede de mistificação – fruto da experiência secular do Império Britânico – não podem alegar que estão enganados ou são burlados na sua boa-fé.
 
O processo, no fundo, é clássico, apenas aprimorado pelas dinâmicas tornadas possíveis pelas novas tecnologias. E o seu funcionamento foi desmascarado desde o início da própria guerra de agressão, quando o jornalista espanhol Daniel Iriarte denunciou a encenação que foi a apresentação do «Exército Livre da Síria» em Jabal al-Zounia. Um corpo que deveria ser constituído por desertores do exército regular reuniu sobretudo mercenários «importados» da Líbia, sob a chefia operacional do dirigente terrorista Abdelhakim Belhadj, transferido entretanto do posto de comandante militar de Tripoli para o qual fora designado pela NATO. Daniel Iriarte identificou a trapaça e demonstrou que o corpo «revolucionário» era tutelado pelo coronel britânico Paul Tilley, antigo oficial do MI6. A encenação para apresentação do «Exército Livre da Síria», para que conste, foi montada pela empresa britânica Innovative Communications & Strategies (InCoStrat)6.
 
Porta-vozes amestrados
 
Outra área tutelada pelos escritórios britânicos em Istambul e Amã, integrada portanto na envolvente operação de propaganda, é a dos porta-vozes da «oposição síria». Tal como os «jornalistas cidadãos», são figuras recrutadas pelos contratados na diáspora síria, sempre sob o controlo dos responsáveis britânicos.
 
De acordo com os documentos oficiais, os porta-vozes são seleccionados, contratados e treinados pelas mesmas agências de comunicação que gerem as assessorias de informação que trabalham 24 horas por dia, o expediente produzido pelos «jornalistas cidadãos» e pelas actividades dos «Capacetes Brancos» nas suas missões de «socorro humanitário».
 
Uma vez em condições de exercer o cargo, porém, os porta-vozes da «oposição síria» cujos testemunhos correm mundo só podem usar da palavra depois de autorizados pelo consulado britânico em Istambul.
 
Os beneficiários deste sistema articulado e multidisciplinar de mistificação queixam-se de que o apoio britânico perdeu dinâmica quando mais precisavam dela, sobretudo a partir de 2015, ano em que a Rússia entrou na guerra a pedido do governo sírio. De facto registou-se uma alteração de forças em detrimento de «organizações de oposição» – grupos terroristas – que perderam os seus principais feudos urbanos; no entanto, ter-se-ão registado também dissonâncias estratégicas entre Londres e Washington associadas, ao que consta, às relações ambíguas entre os Estados Unidos e o Isis ou Estado Islâmico e também ao facto de a parte norte-americana, ao contrário da britânica, insistir no desmantelamento da Síria como país.
 
É fácil perceber, porém, que a operação de propaganda de matriz britânica continua activa. Basta observar a esta luz a cobertura que está a ser feita mundialmente sobre a «corajosa resistência da oposição» – a al-Qaeda apoiada por tropas regulares turcas – contra o assalto das tropas do «regime de Assad» – o governo soberano do país – à província de Idlib, por sinal o último reduto da organização de Bin Laden criada pela CIA e o MI6.
 
Por isso, qualquer semelhança entre a narrativa da guerra da Síria feita pela comunicação social corporativa e a realidade no terreno é pura coincidência.
 
Este artigo é um exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril
 
Notas:
1_.O Comando Estratégico do Reino Unido foi formado em 2018, a partir do antigo Comando Conjunto. É chefiado pelo general Nick Carter, Chefe do Estado-Maior da Defesa do Reino Unido.
 
2.NR: Aqui já denunciado como «algumas dezenas de amanuenses contratados pelos serviços secretos britânicos e afins emitindo de um escritório em Londres as mensagens “em directo” da Síria que logo se transformam em manchetes de jornais e aberturas de telejornais em todo o mundo e numa babel de idiomas». Ver, de José Goulão, «A guerra contra a Síria, ou de como se falsifica a história», de 22 de Março de 2018.
 
3.Os documentos e a operação foram recentemente revelados pelo Middle East Eye – insuspeito de simpatias pelo governo legítimo sírio – em «REVEALED: The British government’s covert propaganda campaign in Syria». A iraniana Press TV sublinha que, aparentemente, a operação de propaganda britânica se destinaria a «anteceder uma intervenção militar [na Síria] envolvendo forças britânicas». Em Abril de 2018 a agência iraniana Fars anunciara a prisão, pelo exército sírio, de operacionais britânicos da SAS que dirigiam as operações terroristas, com militares dos EUA e da NATO.
 
4.Em outro artigo do Middle East Eye, de Janeiro de 2019, lamentam-se os prejuízos causados à «causa rebelde» pela liquidação da chamada «Polícia da Síria Livre» – uma criação propagandística do Reino Unido – pelo grupo terrorista Hayat Tahrir al-Sham, da al-Qaeda. Derrotados em Alepo, Ghouta Oriental, Douma e outras frentes na Síria, os combatentes jihadistas evacuados desses pontos de conflito foram autorizados a partir para Idlib com as suas famílias. Com a agregação de «radicais» e «moderados» em torno do Hayat Tahrir al-Sham e a hegemonia deste desapareceram as veleidades propagandísticas e foi estabelecido sobre os habitantes da província um brutal regime fundamentalista. A Turquia tem apoiado o grupo tudo tem feito para evitar a sua derrota final, um objectivo central do governo legítimo de Damasco e dos seus aliados no terreno.
 
5.A jornalista Vanessa Beeley denunciou, em Dezembro de 2019, a campanha de «limpeza de imagem» de Le Mesurier e da organização por ele criada, desencadeada após a sua morte.Ver, também, os trabalhos do Working Group on Syria, Propaganda and Media, um grupo de académicos britânicos que investigou pormenorizadamente as actividades de James Le Mesurier e se preparava, no final de 2019, para expor o seu papel na encenação de ataques químicos que, «em pelo menos três incidentes, envolveram assassinatos em massa de prisioneiros civis». Surpreendido pela morte de Le Mesurier, o grupo decidiu publicar o relatório que já aprontara, a fim de contribuir para levar os responsáveis por esses incidentes perante a justiça – o que, até agora, não se verificou.
 
6.Tanto a Innovative Communications & Strategies (InCoStrat), como a empresa que a precedera na consultadoria de imagem dos jihadistas sírios, a Regester Larkin, são encabeçadas pelo coronel Paul Tilley e financiadas pela Research, Information and Communications Unit (RICU), uma unidade britânica de «comunicação estratégica» voltada para o mundo islâmico, estabelecida em 2007 por Jonathan Allen (ver início do artigo) e por este dirigida durante vários anos.
 

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A invenção do mito da «revolução síria» pelo Reino Unido

 
 
Thierry Meyssan*
 
Numa fuga, novos documentos foram revelados sobre a organização da propaganda britânica contra a Síria. Eles permitem compreender como jornalistas de boa fé puderam ser permanentemente intoxicados pelo mito da «revolução síria», como também por que é que o Reino Unido se retirou da Síria apesar do sucesso desta operação.
 
A democracia supõe que se possa realizar debates públicos honestos. Por conseguinte, a propaganda seria, pois, apanágio de regimes não-democráticos. Ora, a História ensina-nos que a propaganda moderna foi concebida no Reino Unido e nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e que a URSS e a Alemanha nazista não passaram de pálidos imitadores.
 
Durante a guerra contra a Síria, explicamos muitas vezes que a realidade no terreno não correspondia, de forma nenhuma, à imagem que os Ocidentais dela recebiam. Denunciamos a montagem de “provas” pelos Serviços Secretos norte-americanos, britânicos, franceses e turcos para esconder a agressão ocidental e fazer crer numa revolução contra uma ditadura.
 
Quando o Reino Unido já não está presente no terreno desde 2018, o jornalista Ian Cobain acaba de publicar no Middle East Eye documentos oficiais britânicos que nos esclarecem sobre a maneira como Londres intoxicou maciçamente jornalistas de boa fé e depois se retirou [1]. Ele já havia publicado no Guardian, em 2016, revelações sobre a organização do MI6 na matéria [2].
 
Sobretudo, é importante lembrar que os Britânicos não perseguiam, de forma alguma, o mesmo objectivo que os seus aliados dos EUA. Londres esperava recuperar a sua influência da época colonial (como Paris). O Reino Unido não acreditava que os Estados Unidos pretendiam destruir as estruturas estatais de conjunto do Médio-Oriente Alargado (estratégia Rumsfeld/Cebrowski). Por isso, concebera a operação das «Primaveras Árabes», baseada no modelo da «Grande Revolta Árabe» de Lawrence da Arábia (os Irmãos Muçulmanos desempenhando hoje em dia o papel dos Wahhabitas da Primeira Guerra Mundial). A sua propaganda fora, portanto, imaginada para criar a “Nova Síria” em volta desta Confraria e não para a dividir tal como desejava e ainda deseja a CIA.
 
 
Os Ocidentais haviam já sido convencidos da existência de revoluções na Tunísia, no Egipto e na Líbia. Era, portanto, mais fácil vender-lhes a ideia de um quarto cenário de operações.
 
Jornalistas de boa fé foram levados por revolucionários (na realidade os Serviços Secretos turcos e os da OTAN) a uma aldeia síria, Jabal Al-Zaouia, a fim de assistir a reuniões do Exército Livre da Síria e filmá-las. Foram muitos os alvos desta intoxicação e a acreditar num levantamento popular. Assim que essa encenação foi denunciada por Daniel Iriarte no diário espanhol ABC – já que, no local, ele tinha reconhecido não combatentes sírios, mas líbios, sob as ordens de Aldelhakim Belhaj e Mehdi al-Harati [3]— a imprensa recusou reconhecer a manipulação de que tinha sido alvo. A incapacidade de jornalistas para admitir os seus erros, mesmo quando alguns dos seus colegas os baralham, continua a ser o melhor trunfo dos mestres da propaganda.
 
Como sempre, os Britânicos do RICU (Research, Information and Communications Unit - Unidade de Pesquisa, Informação e Comunicações) recorreram a um cientista, neste caso um «antropólogo», para supervisionar a manipulação. Ele confiou a realização a vários subcontratados, entre os quais um «antigo» oficial do MI6, o Coronel Paul Tilley; a palavra «antigo» é aqui importante, já que se tratava de poder negar toda a responsabilidade se a operação desse para o torto. Para estar próximo do terreno de operações, três gabinetes ad hoc foram abertos pelos subcontratados do MI6 em Istambul, Reyhanli (Turquia) e Amã (Jordânia), enquanto a CIA operava a partir da Alemanha.
 
Esta operação começou a partir do caso das armas químicas, no Verão de 2013, quando a Câmara dos Comuns, escaldada pela propaganda durante a guerra contra o Iraque, havia interdito, de forma estrita, ao Ministério da Defesa a colocação de tropas no terreno.
 
Por isso, o orçamento inicial do Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros-ndT) foi ampliado e assumido pelo Ministério da Defesa britânico e por Agências canadianas (canadenses-br) e norte-americanas, já que os militares não tinham outros meios para intervir.
 
Ela foi colocada sob o comando de um oficial do MI6, Jonathan Allen, que se tornou o número 2 da Delegação diplomática britânica no Conselho de Segurança da ONU.
 
A originalidade da operação, realizada, entre outros, pela Innovative Communications & Strategies (InCoStrat), é de ser apresentada como uma parceria comercial sem vínculo com as autoridades do Reino Unido. Os Sírios que nela participavam não tinham o sentimento de estar a trair o seu país, mas apenas de ter encontrado uma ocasião de ganhar dinheiro para sobreviver apesar da guerra. Em relação ao seu nível de vida, as remunerações pagas eram com efeito muito substanciais.
 
O sistema de « cidadãos-jornalistas» era muito económico tendo em vista as £ 500.000 libras mensais do orçamento britânico (US $ 50 a US $ 200 dólares por um vídeo, US $ 250 a US $ 500 dólares por colaborações regulares) para encontrar «informações» ou «provas» atestando a repressão do regime contra a sua própria população. Esses materiais, uma vez triados, eram enviados pelo MI6 à BBC, Sky News Arabic, Al-Jazeera (Catar) e Al-Arabiya (Arábia Saudita), quatro estações que participam totalmente no esforço de guerra ocidental, em violação das resoluções das Nações Unidas que proíbem a propaganda de guerra. Os colaboradores sírios deviam comprometer-se por escrito em permanecer anónimos, salvo autorização expressa, e a não divulgar as suas ligações a nenhuma empresa, fosse ela qual fosse.
 
Os jornalistas de boa-fé ocidentais, não podendo chegar até aos «jornalistas-cidadãos» sírios e verificar o contexto dos vídeos e de outras «provas» —o que é a razão de ser da sua corporação—, deixam-se convencer pelo ruído das quatro estações de televisão.
 
Os documentos de Ian Cobain atestam que a este alvo internacional se acrescentava um outro alvo na Síria. Londres desejava provocar uma mudança de atitude da população em favor dos «moderados» face aos «extremistas». Neste ponto, não parece que a Middle East Eye tenha percebido que essas palavras não devem ser interpretadas no sentido comum, mas à luz das decisões do Primeiro-Ministro Tony Blair. Este, durante a elaboração do plano das «Primaveras Árabes», postulara que o governo de Sua Majestade devia considerar como aliados os líderes «moderadamente anti-imperialistas», como os Irmãos Muçulmanos, enquanto os adversários seriam os «extremistas anti-imperialistas», tal como o regime nacionalista do Baath sírio [4].
 
O antropólogo que supervisionava o programa indicou além disso a necessidade de criar serviços de emergência no terreno (a Polícia Livre e os Capacetes Brancos do «antigo» oficial do MI6, James Le Mesurier) não tanto para vir em socorro da população, mas para lhe dar confiança nas futuras instituições uma vez derrotado o regime de União Nacional em torno do Baath. Sobre este ponto, ele fez referência ao plano de rendição total e incondicional da Síria, redigido pelo Alemão Volker Perthes para o número 2 da ONU, Jeffrey Feltman [5], que os Britânicos, no entanto, interpretaram mal.
 
Este desacordo foi a principal causa da confusão nesta operação quando Washington tentou criar o «Sunnistão» com o Daesh (E.I.) e o «Curdistão Livre» com o PKK turco e o PDK iraquiano. Os Britânicos, considerando que já não era a sua guerra, decidiram então retirar-se.
 
O programa do MI6 tinha três vectores:
 
- Identidade síria :
«Unir os Sírios pela afirmação positiva de culturas, de práticas comuns e de restabelecer a confiança entre vizinhos, ao mesmo tempo mostrando a força dos Sírios pelo número».
- Síria livre :
«Procurar reforçar a confiança num futuro da Síria isenta de regime “extremista”».
- Acção de Sapa :
«Procurar degradar a eficácia das redes extremistas violentas (EV) na Síria sabotando a credibilidade das narrativas e dos actores EV e isolando, para isso, as organizações EV da população».
 
Segundo os documentos de Ian Cobain, os subcontratados do MI6 treinaram igualmente porta-vozes da oposição síria, desenvolveram contas em redes sociais e organizaram gabinetes de imprensa funcionando 24h/24. Eles não citam o design dos logotipos e as encenações hollywoodescas que nós havíamos relatado, tal como o desfile militar na Ghuta com tanques passando à frente das câmaras e com figurantes incluídos.
 
Os gabinetes de imprensa visaram pôr em ligação porta-vozes da oposição síria com jornalistas ocidentais e a dar-lhes resumos informativos antes das negociações. Dessa forma, a imprensa ocidental acreditava de boa fé obter as suas informações de fonte independente e a baixo custo. Se, no início, aquando da fase de desestabilização (até ao meio de 2012), todos os média (mídia-br) internacionais enviavam repórteres para o terreno (que os Britânicos manipulavam), hoje em dia não há lá nenhum. Os Ocidentais adquiriram o hábito de acreditar na agência de notícias criada, em Londres, pelo MI6 com os Irmãos Muçulmanos, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, muito embora este último não disponha dos meios para saber seja o que for de certos acontecimentos que finge cobrir.
 
 
Imagem: O oficial dos Serviços Secretos britânicos e Encarregado de Negócios de Sua Majestade, Jonathan Allen, dando uma conferência de imprensa na ONU na companhia do seu aliado privilegiado, o Embaixador da França, François Delattre.

 

 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 

Notas:

[1] “REVEALED: The British government’s covert propaganda campaign in Syria”, Ian Cobain & Alice Ross, Middle East Eye, February 20th, 2020.
[2] “How Britain funds the ’propaganda war’ against Isis in Syria”, Ian Cobain, Alice Ross, Rob Evans, Mona Mahmood, The Guardian, May 3rd, 2016.
[3] «Islamistas libios se desplazan a Siria para «ayudar» a la revolución», por Daniel Iriarte, ABC (España), 17 de diciembre de 2011.
[4Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump, Thierry Meyssan, éditions Demi-Lune.
[5] “A Alemanha e a ONU contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria), Rede Voltaire, 28 de Janeiro de 2016.
“Draft Geneva Communique Implementation Framework”, “Confidence Building Measures”, “Essential Principles”, “Representativness and Inclusivity”, “The Preparatory Phase”, “The Transitional Governing Body”, “The Joint Military Council and Ceasefire Bodies”, “The Invitation to the International Community to Help Combat Terrorist Organizations”, “The Syrian National Council and Legislative Powers during the Transition”, “Transitional Justice”, “Local Governance”, “Preservation and Reform of State Institutions”, “Explanatory Memorandum”, “Key Principles revealed during Consultations with Syrian Stake-holders”, “Thematic Groups”, United Nations Department of Political Affairs (DPA), 2012-2014 (unpublished).

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A ERA DO MEDO

 
 
Pedro Augusto Pinho*
 
O século XX foi um século de progressos, de transformações sociais e económicas e, também, de grandes males e criminosos. Trataremos brevemente de dois destes, pouco analisados sob esta vertente, ambos súbditos britânicos: Winston Churchill (1874-1965) e Margaret Thatcher (1925-2013). Nossa ênfase será nas consequências de seus crimes.
 
Curiosamente suas vidas percorreram todo o século, de 1900 a 1999. E deixaram enorme trilha de mortes, misérias, devastações ao redor do mundo, apenas conduzidos por uma vaidade ideológica e a sede política de poder.
 
Churchill queria restabelecer um fantasma cruel do século XIX, o Império Britânico. Este extinguiu etnias, idiomas, populações, espaços e bens culturais, corrompeu e assassinou apenas para enriquecer uma aristocracia fútil e capitalista.
 
A senhora Thatcher, aliada ao Império que passou a conduzir a tocha britânica a partir da II Grande Guerra – os Estados Unidos da América (EUA), aniquilou a economia mundial, até então produtora, desenvolvimentista, industrial, no sentido amplo de indústria que incorpora novas tecnologias, para estabelecer a economia estéril do rentismo monetário.
 
Com o financismo neoliberal de Thatcher houve o empoderamento dos capitais ilícitos, marginais no sentido penal, que hoje dominam a economia de quase todo mundo, e é o hegemónico no ocidente, compreendido em seu sentido político, não geográfico.
 
Este capital financeiro – controlado pelas drogas, pelo tráfico de pessoas e de órgãos humanos, e que tem a colaboração do contrabando de armas – domina, atualmente, por corrupção, golpes e subornos quase todos os governos ocidentais e controla a maior parte do fluxo internacional de capitais. Representa um poder enorme, nada desprezível, para a vida de pessoas e para a existência de Estados Nacionais.
 
 
Com esta origem escusa, nada surpreende que os métodos torpes e ardilosos sejam usados para atingir seus objetivos, dentre os quais ressalta o controle planetário dos recursos naturais e daqueles processados, transformados, industrializados, ao controlar as empresas produtoras/transformadoras.
 
E facilmente se comprovam estas afirmativas observando que são as denominadas empresas “gestoras de ativos”, onde se destaca a BlackRock, que dominam o capital da ExxonMobil, da IBM e inúmeras outras multinacionais, de todos os ramos de negócio.
 
É a meta do capital ilícito, neoliberal, que nos insere na Era do Medo.
 
Em 1º de fevereiro de 2020, o portal Pátria Latina editou artigo de Chris Summers, com título “A economia mundial entraria em colapso se a City de Londres deixasse de fazer lavagem de dinheiro”.
 
Ora, caros leitores, quem é a City de Londres, quem é a Wall Street nova-iorquina, quem são estas praças de especulação financeira ao redor do mundo?
 
Aqueles desregulados centros, recriados, reformatados por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, onde capitais tradicionais e ilícitos, com o mesmo objetivo do lucro rápido e fácil, aplicam sucessivos golpes na população em geral. Especialmente naquela classe média que sonha ser rentista.
 
Vamos transcrever do citado artigo um trecho especialmente adequado à formação da Era do Medo.
 
“Numa intervenção no Hay-on-Wye Book Festival (2016), o jornalista italiano Roberto Saviano disse ao público:
 
“Se eu perguntasse qual é o lugar mais corrupto do mundo, você poderia dizer-me que é o Afeganistão, talvez a Grécia, a Nigéria, o sul da Itália e eu vou dizer-lhe: é o Reino Unido. Não é a burocracia, não é a polícia, não é a política, mas o que é corrupto é o capital financeiro: 90% dos proprietários de capital em Londres têm sua sede no exterior”.
 
Em resposta, Nicholas Wilson (advogado britânico), disse:
“Concordo com isso. Ele está falando sobre a City de Londres, que é a capital mundial da lavagem de dinheiro. Nada pode ser feito para limpar a City. Se algum político tentasse desmantelá-la, a economia mundial entraria em colapso. O dinheiro das drogas foi a única coisa que manteve em funcionamento os bancos durante a crise financeira de 2008”.
 
Em 2016, o Home Affairs Select Committee declarou que 100 biliões de libras de dinheiro ilícito eram lavados no mercado imobiliário de Londres todos os anos”.
 
Neste mesmo artigo, onde confirma a péssima reputação do banco inglês HSBC, criado para servir de suporte financeiro na guerra do ópio empreendida pelo Reino Unido contra a China, 1839 – 1860, também se lê:
 
“Rona Fairhead, ex-diretora do HSBC, que também foi presidente do BBC Trust e é atualmente membro da Câmara dos Lordes, foi ministra no governo de Theresa May, até maio do ano passado”.
 
E há quem diga que corrupção é no Brasil. Que a Lava Jato, criada na inteligência estadunidense para extinguir a competitiva engenharia brasileira, foi necessária. Isso também nos dá medo.
 
*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado
 
Artigo publicado em Oriente Mídia  --  Fevereiro 2020

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RAIVA DA CLASSE TRABALHADORA, BREXIT E AS ELEIÇÕES GERAIS DE 2019, por LISA MCKENZIE

 

Working-Class Anger, Brexit and the 2019 General Election, por Lisa McKenzie

The Full Brexit, 13 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Brexit e o resultado das eleições gerais de 2019 levaram  40 anos em construção – o resultado de uma implacável guerra de classes travada contra a classe trabalhadora britânica.

A realização do referendo da União Europeia e agora das eleições gerais de 2019 foi um processo que durou 40 anos. De certa forma, eu estava a escrever  sobre o Brexit muito antes disso acontecer. Eu tinha captado na minha vida e na minha pesquisa uma raiva crescente entre as pessoas da classe trabalhadora, e dessa raiva surgiu o desespero pela mudança – mas também uma desconfiança crescente em relação aos políticos, aos media  e a qualquer coisa relacionada com Westminster ou com a Câmara. Eu não sou um Brexiteer e nunca fui. Sinceramente, não sei se deixar a União Europeia é uma coisa boa ou má. Mas sei que a ideia de democracia – que todos nós temos uma palavra a dizer e que todos devemos estar representados de alguma forma – é importante na sociedade britânica. O que a minha experiência, e a minha investigação, mostrou foi que a ideia de que as pessoas da classe trabalhadora estavam a ser ouvidas e representadas tinha vindo a sofrer uma erosão constante.

 Onde é que tudo correu mal, John?

​”Quando John Prescott anunciou em 1997 que ‘agora somos todos classe média’, foi recebido com zombaria; 13 anos depois, provou-se que ele demonstrou uma rara presciência”,  escreveu Judith Woods no Telegraph, em janeiro de 2010.

Lembro-me de ler isto algumas semanas depois do meu doutoramento e, na verdade, de ter rido às gargalhadas.  Primeiro, em  John Prescott e como ele tinha passado facilmente de membro da classe trabalhadora e sindicalista de homens e mulheres  do povo, para a barba da classe trabalhadora de Tony Blair, e, em segundo lugar, face ao entusiasmo do autor em falar sobre como todos agora fazem compras em Boden e declarar que a política de classe já não importava, enquanto  esperava um governo conservador progressista liderado por David Cameron. Quando esse artigo foi escrito, Gordon Brown ainda era primeiro-ministro. Quanto tempo e a que distância é que isso parece estar agora? Aqui estamos agora numa  nova década, os anos 2020, e com um novo governo, e o sistema de classes britânico ainda está bem no topo da nossa lista de coisas a fazer, embora todos nós tenhamos interesses diferentes na forma como administramos essa lista.

Aqueles de entre nós que compreendem e têm estado na ponta do sistema de classes britânico sabem muito bem que nunca se deve subestimar a sua resiliência, e o seu poder para moldar a política britânica. Tenho escrito sobre isso desde 2001, quando entrei no ensino superior como uma estudante madura muito “não tradicional” – entrando nos terrenos da Universidade de Nottingham na minha cidade natal pela primeira vez, aos 31 anos de idade,  depois de um curso de acesso a uma faculdade de ensino superior. A única razão pela qual fui para a Universidade de Nottingham foi porque eu tinha lido um livro, Poverty: The Forgotten Englishmen, de Ken Coates e Bill Silburn, investigadores durante os anos 60 na Universidade de Nottingham.

O livro era baseado em inquéritos que tinham feito com a Autoridade de Educação dos Trabalhadores em St Ann’s, em Nottingham, onde eu morava. O livro mostra claramente que, apesar de todos os bens sociais pelos quais se tinha lutado e depois introduzidos pelo consenso político do pós-guerra, ainda havia uma pobreza profunda na Grã-Bretanha. As pessoas da classe trabalhadora viviam em moradias sem casas de banho no interior das casas, sofrendo superlotação, altos níveis de mortalidade infantil, baixos níveis de educação e salários extremamente baixos, insuficientes para alimentar uma família. Eu conhecia esta pobreza: Eu tinha crescido nela. O bolor na parede do meu quarto ainda está nos meus pulmões 50 anos depois. Eu tinha crescido através e dentro da Grã-Bretanha de Thatcher, mas protegida da crueldade do neoliberalismo por uma comunidade mineira unida, até que a política vingativa do ódio de classe penetrou violentamente no meu mundo, aquando na greve dos mineiros de 1984.  A minha comunidade, a minha família e a minha classe já não eram mais a espinha dorsal do país; nós éramos “o inimigo dentro”. E foi aí que ficámos praticamente desde então.  Eventualmente, o Partido Tory acabou por deixar cair a  Thatcher. O Exterminador ideológico de direita inserido numa  sacola  foi substituído por um homem que tinha fugido do seu salão de música, membro de uma família da classe trabalhadora para se tornar um Conservador. John Major: um homem conduzido não pela ideologia, mas pelas páginas do The Daily Mail, The Express e The Telegraph, pelo amor à cerveja quente e ao jogo de cricket e pelo ódio da classe média à classe trabalhadora. A sua visão era “voltemos ao  básico”, o que significava a divisão voluntária  da classe trabalhadora em duas partes, uma rude e a outra respeitável. O ódio de  classe  face à primeira delas  foi narrado pelos grandes títulos das notícias sobre as  mulheres da classe trabalhadora que engravidavam para obter moradia municipal. Major fez aprovar a  maior parte das políticas mais nocivas dirigidas às mulheres da classe trabalhadora, como foi a Lei das Pensões de alimentos para as crianças, (the. Child Support Act.)

O seu  governo foi recentemente renomeado pelas classes políticas como uma época em que Major estava principalmente ocupado com a luta contra os “bastardos” do seu próprio partido na Europa. A verdade para as mulheres da classe trabalhadora na época era que John Major tinha a sua visão sobre os nossos bastardos: os filhos bastardos daqueles que iriam estragar o seu idealismo de respeitabilidade britânica. Durante este tempo, Bev Skeggs produziu um dos livros mais importantes alguma vez escritos – Formations of Class and Gender: Becoming Respectable  -Formações de Classe e Género: Tornando-se Respeitável – que delineou perfeitamente como as mulheres da classe trabalhadora eram julgadas impiedosamente como rudes até que provassem o contrário.

New Labour  e Gentrificação

Tony Blair, que se seguiu a  Major em 1997, foi apresentado como sendo  uma nova esperança. Nós, eleitores, comprámos esta esperança. Nós precisávamos dela. Os Novos Trabalhistas  aparentemente tinham algo para todos. O sociólogo Tony Giddens vendeu-nos a banha da cobra que é a “Terceira Via”. A classe média já não precisava de se sentir culpada pelas suas posições de classe privilegiada injustas e não conquistadas; podiam enviar os seus filhos para escolas privadas sabendo que “as coisas só podiam melhorar” para os restantes que somos todos nós.  E, de facto, o dinheiro foi gasto em centros comunitários,  na base do programa New Deal for Communities, ou no apoio à criança, na base do programa Sure Starts: milhões de libras foram gastos nas cidades Labour. Havia bilhetes de cinema grátis para os miúdos dos bairros sociais; todos podiam fazer um curso sobre ser DJ – nenhuma despesa foi poupada. A retórica de Blair era que a classe trabalhadora estava acabada, antiquada. Tinha de se mudar para um novo mundo onde os indivíduos se tornassem seres móveis, plenos de civismo, um mundo Britpop onde Noel Gallagher e Tony Blair representassem o  futuro.

E mesmo assim, como Coates e Silburn antes de mim, eu sabia que algo ainda estava muito errado. Sem dúvida, o dinheiro estava a ser gasto, mas havia pessoas e lugares que não faziam parte do futuro do New  Labour, ou porque não podiam ser, ou porque não queriam ser. As pessoas da minha zona  na cidade de Nottingham ainda não conseguiam encontrar trabalho suficiente que pagasse o suficiente, e as pessoas da minha antiga cidade mineira nem sequer existiam neste tempo de nova esperança e do New Labour. Eles estavam a ser desvalorizados pela política e de propósito. As mulheres da classe trabalhadora estavam ainda mais pressionadas à medida que o New Labour procurava mudar “a cultura das famílias da classe trabalhadora” através das suas políticas de exclusão social, que eram encharcadas de desrespeito e desprezo pelas pessoas da classe trabalhadora. A voz de John Prescott repreendia as mães trabalhadoras para fazer melhor – para sermos melhores – porque agora éramos todas de classe média. Mas, é claro, não podíamos, e não o fizemos; não éramos da classe média. Fomos considerados fracassadas por nos recusarmos a mudar, apesar de todo o dinheiro que estava a ser injetado.

As pessoas da classe trabalhadora não gostam de ser desrespeitadas e sabem quando isso está a acontecer. Elas convivem com isso diariamente. Elas também não gostam de caridade – e quando falo de caridade quero dizer quando se  dá algo muito pequeno, como um pacote de  comida mas em que  o preço que se tem de pagar é enorme: a última vergonha de se ser uma falhada como mãe porque não se pode alimentar os filhos.

As pessoas da classe trabalhadora não gostam de ser desrespeitadas e sabem quando isso está a acontecer. Eles vivem com isso diariamente. Elas também não gostam de caridade – e quando falo de caridade quero dizer onde se dá algo muito pequeno, como uma encomenda de comida, mas o preço que se tem de pagar é enorme: a última vergonha de se ser uma falhada como mãe porque não se pode alimentar os filhos. A forma como os bens sociais como a habitação social, as pensões e a educação são agora explicados  está ligada e ligada ao fracasso e à caridade. Você quer viver em uma casa do conselho em uma propriedade perto de sua família onde você se sente apoiado? O preço que você paga é que você é um completo fracasso, no fundo, imóvel, um resíduo.

Um dos legados mais amplamente reconhecidos do New Labour tem sido a gentrificação. Isto é amplamente compreendido na forma como Ruth Glass entendia  o termo: significa um processo urbano relativo à propriedade, comunidade e pessoas – a substituição de um grupo de pessoas – a classe trabalhadora – de uma área por pessoas “melhores” – mais abastadas e de classe média. No entanto, outro processo de gentrificação tem acontecido simultaneamente na nossa política, na nossa cultura e nos nossos media. Os poucos espaços onde as pessoas da classe trabalhadora poderiam existir nestas áreas – o Partido Trabalhista, os sindicatos e a cultura popular – têm sido firmemente fechados. Mesmo a expressão “classe trabalhadora” foi retirado da nossa língua: os meios de comunicação social convencionais evitam-na, o Partido Trabalhista e os sindicatos aboliram-na. Em vez disso, os trabalhistas  preferiram utilizar “gente trabalhadora “, enquanto os conservadores preferiram “gente trabalhadora empenhada “. O termo “classe trabalhadora” tornou-se mais ofensivo do que a palavra “cona” na sociedade polida. Sei que quando digo às pessoas que sou um académico da classe trabalhadora ouço a arfar da sua respiração e quando falo das pessoas da classe trabalhadora sinto o mal-estar das pessoas da classe média à minha volta que preferiam que eu não o mencionasse e que, em vez disso, falasse em terreno mais seguro, usando as palavras “mobilidade social” ou “desigualdade”.

O que nos leva a 2020, onde Boris Johnson, um “aristocrata” de Eton , foi colocado no poder não só pelos seus eleitores tradicionais Tory, mas também pelos eleitores trabalhistas tradicionais. “Como é que foi possível isto  acontecer?!” O pânico era visível na cara dos leitores do Guardian. A consternação da nova demografia de Corbyn dos “jovens” (quem quer que sejam), que ainda não tiveram a experiência de viver a vida, e de ter uma comunidade e uma família ao longo de gerações que, quem quer que tenha sido primeiro-ministro, ainda não foi representado em Westminster. Os gritos daqueles partidários trabalhistas de “como  é que isto foi possível? Os Tories estão no poder há uma década e causaram tanta dor!” Isto é verdade, mas falta outra declaração. Nas comunidades da classe trabalhadora, os trabalhistas estão no poder desde sempre: nas prefeituras e com os deputados a virem de  paraquedas, cujos eleitores nunca tinham ouvido falar deles antes de serem eleitos e raramente  os viam depois. A política do segundo referendo trabalhista simplesmente empurrou as pessoas da classe trabalhadora para o limite.

A ideia de que esta votação, ou o voto Brexit antes dela, era sobre homens brancos saudosos do império, é um disparate. A raiva subjacente a ambas as votações tem vindo a ferver há décadas, e não está limitada aos homens; de facto, as mulheres da classe trabalhadora têm razões especiais para estarem zangadas. Como uma menina e tendo crescido numa comunidade pobre da classe trabalhadora no final dos anos 60 e 70, as expectativas em relação a mim eram muito limitadas. Eu tornar-me-ia uma operária de fábrica, depois uma mãe, e criaria a próxima geração de operários e mineiros. Mas para a minha geração, que deixava a escola aos 16 anos em 1984, esses caminhos limitados para o respeito e a dignidade fecharam-se em simultâneo  com as fábricas e as minas. Em vez de produzir a próxima geração de trabalhadores, a nossa reprodução tornou-se uma ameaça. Estávamos a produzir  uma geração de pessoas da classe trabalhadora que era excedentária face *as necessidades  – daí as políticas específicas voltadas para as mulheres da classe trabalhadora, tanto no governo conservador como no governo trabalhista. As mulheres e as famílias da classe trabalhadora têm estado sob pressão durante gerações; o terremoto político dos últimos quatro anos está intimamente relacionado com uma dramática perda de dignidade e respeito nas mãos dos formuladores de políticas.

Então, tal como com o  Brexit, as eleições gerais de 2019 foram sobre o sistema de classes britânico. A classe trabalhadora britânica conhece o Partido Conservador, e também conhece o Partido Trabalhista. Eles não são tolos. Eles não são perus a votar no Natal. Eles ainda estão connosco, trabalhando nas novas casas de trabalho, como Amazon e Sports Direct. Eles estão a limpar os  seus escritórios e as suas casas. Estão a frequentar os bancos alimentares  e ainda tentam  agarrar-se a tudo o que lhes resta – a sua dignidade. São mães e crianças a serem  forçadas a ficar sem teto ou banidas para o norte pelos conselhos trabalhistas em Londres. E eles estão com raiva. Eles precisam e querem mudanças, e se a classe política, os meios de comunicação ou a academia pensam que a classe trabalhadora pode ser enganada por “Somos todos classe média agora” ou “Estamos todos juntos no mesmo barco” ou “Para muitos não poucos”, ou até mesmo com  “Faça Brexit”, então a classe política está a cometer um grande erro.

Sobre a Autora

Dr Lisa McKenzie is Assistant Professor in the Department of Sociology at Durham University, and author of Getting By: Estates, Class and Culture in Austerity Britain (Policy Press, 2015). Her research on working-class attitudes to Brexit can be found here and here.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/21/a-derrota-de-corbyn-uma-consequencia-da-crise-politica-a-ocidente-ix-raiva-da-classe-trabalhadora-brexit-e-as-eleicoes-gerais-de-2019-por-lisa-mckenzie/

A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – VIII – AS RAÍZES BLAIRISTAS DO CORBYNISMO, por DANNY NICOL

 

The Blairite Roots of Corbynism, por Danny Nicol

The Full Brexit, 7 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

A perda do apoio da classe trabalhadora sob Corbyn reflete a sua continuidade com o Blairismo: o seu descuido com a política de classes, o seu desrespeito pela democracia nacional e partidária e a sua desonestidade na questão crucial de Brexit.

 

O Corbinismo e o Blairismo eram “os dois lados do mesmo rabo”, como mediocremente disse um comentador? Jeremy Corbyn era suposto ser muito diferente, o primeiro líder trabalhista de esquerda desde os anos de entre guerras. Os instintos residuais de esquerda de Corbyn e dos seus aliados inspiraram políticas a que Blair e a sua comitiva se opunham fortemente, tais como a extensão da propriedade pública nos serviços públicos, a política de internalizar  todas as atividades do SNS, a promessa de acabar com os sem abrigo, as mudanças na política externa. Infelizmente, esta distinção foi em grande parte corroída pelo que o Corbynism e o Blairismo têm em comum.

O capitalismo, a classe trabalhadora e a política da negação

A sua semelhança fundamental está relacionada com a classe e o capitalismo. Sociologicamente, os membros do Partido Trabalhista da era Corbyn eram mais Blairistas do que Blair, refletindo uma classe média, uma estreita faixa  sul/metropolitana. Conscientemente ou não, esses membros do partido estavam imbuídos do interesse próprio da classe média. Sem uma base de classe trabalhadora, a maioria dos corbinistas rejeitou a visão tradicional da esquerda trabalhista de que os trabalhistas deveriam tornar-se os partidários inabaláveis da classe trabalhadora (ver Análise #25 Analysis #25 – The EU, Corbyn and the “Hollowing Out” of Labour’s Left Wing) – A UE, Corbyn e o “Esvaziamento” da Ala Esquerda Trabalhista). Em seu lugar, os corbynistas preferiram em grande parte promover políticas de identidade e de “interseccionalidade”, através das quais uma coligação de arco-íris dos vulneráveis exige protecção não só dos capitalistas mas também uns dos outros (ver – Analysis #44 – The Limits of Populism). -Análise #44 – Os Limites do Populismo). Como resultado, um esquerdismo  de virtudes e sem uma focagem precisa  substituíram largamente a política de classe. Este problema não residia simplesmente em Jeremy Corbyn, mas em toda a composição do partido: gabinete sombra, deputados, membros. Todos promoveram a marginalização política da classe trabalhadora. Evans e Tilley mostraram que esta marginalização reduziu o alcance ideológico nas posições políticas entre os principais partidos, excluiu a representação da classe trabalhadora (de modo que os políticos, incluindo os trabalhistas, são mais do que nunca saídos  de uma base de pessoas similares da  classe média alta e altamente formadas) e apagou a classe social o que é  algo de que os políticos até falam disso [1].

O fraco compromisso dos trabalhadores com a classe trabalhadora impulsionou, portanto, o Partido Trabalhista, e a sua suposta esquerda, para o conservadorismo económico. Até aos anos 80, a esquerda trabalhista distinguiu-se da direita trabalhista pelo seu desejo de substituir o capitalismo por um planeamento económico abrangente imposto pela propriedade pública. Décadas de governo neoliberal, porém, levaram a esquerda trabalhista a desistir inteiramente de qualquer análise socialista do capitalismo. Em vez disso, adotou uma ideologia moralista, distintamente de esquerda-liberal, tacitamente motivada pelo pressuposto fundamental de que o capitalismo deve ser  mantido. O corbinismo não oferecia, portanto, uma rutura com uma política em que não existe alternativa imaginável ao capitalismo. [2]

Em vez de procurar substituir o capitalismo, o Partido Trabalhista sob Corbyn optou por uma versão mais intervencionista do mesmo, centrada em torno da “Revolução Industrial Verde” do partido e de uma extensão limitada da propriedade pública. No entanto, mesmo estas modestas propostas eram impossíveis de implementar no mercado único da UE, no qual o Partido Trabalhista desejava permanecer ou manter-se próximo dele. Qualquer nacionalização que introduza um monopólio público é presumivelmente ilegal ao abrigo da legislação da UE ( Analysis #33 – Nationalisation and the fraud of “Remain and Reform”  – Nacionalização e a fraude do “Permanecer  e Reformar”). Se a Revolução Industrial Verde tivesse sido algo realmente significativo, o seu financiamento através do aumento da tributação provocaria greves de investimento e fuga de capitais por parte de empresas e indivíduos ricos. Mas, como a lei da UE consagra a livre circulação de capitais, um governo Corbyn teria sido impotente para impedir a elite económica de retirar o seu dinheiro do país. Além disso, a livre circulação de trabalhadores da UE significa que um programa massivo  de obras públicas sugaria os trabalhadores dos estados membros mais pobres da UE, diluindo enormemente  o benefício para os trabalhadores britânicos, os únicos que têm os votos para reeleger um governo trabalhista. A postura europeísta dos Trabalhistas neutralizou as suas outras políticas – uma capitulação antecipada. Muito provavelmente, o aconselhamento jurídico dos altos funcionários públicos teria impedido que muitas das políticas fossem sequer tentadas.

Sem a vontade séria dos corbynistas de transformar a economia nacional, houve menos resistência à exigência dos Blairistas de um segundo referendo da UE. A cedência a esta exigência representou um forte distanciamento do eleitorado da classe trabalhadora, do qual quase dois terços tinham votado a favor de uma saída da EU.  Novos inquéritos de Telford e Wistow mostraram que o voto da classe trabalhadora defensora de Leave foi determinado  pelos efeitos do neoliberalismo na vida da classe trabalhadora nos últimos 40 anos, juntamente com a sua insatisfação desta classe face ao distanciamento criado pelas elites do Partido e de   toda a elite social, cultural e política do país (ver Análise #16 – Analysis #16 – Understanding Leave Voters’ Motivation in Northeast England – Procurando entender  a motivação dos leitores para o Leave no Nordeste da Inglaterra) [3].

A viragem trabalhista – de respeitar o resultado do referendo até exigir uma segunda consulta pública – envolveu profunda cumplicidade entre Corbynistas e  op New Labour com consequências terríveis nas sondagens, como é bem analisado em O Brexit Completo (Analysis #42 – Labour Lost Because It Failed to Grasp The Democratic Opportunity of BrexitAnalysis #43 – The Workers’ Revolt Against Labour e um texto publicado no blog  More On Why Labour Lost: A Failure of Leadership).  Isto não só foi profundamente insultuoso para os eleitores  ao ser-lhes pedido para um novo referendo, mas as propostas detalhadas para a segunda votação cheiravam a chicana. A questão do referendo teria sido praticamente uma escolha entre Permanecer e Permanecer, e os adolescentes e residentes estrangeiros deveriam ser acrescentados à franquia na esperança de fixar o resultado em favor do statu quo. Os Corbynistas, tendo estado durante anos a serem vitimas do desprezo  dos blairistas e da manipulação das regras, vieram equivocadamente a acreditar que poderiam tratar o eleitorado da mesma maneira mesquinha.

Democracia do Partido e Democracia Nacional

Se os corbinistas mostraram pouco respeito pela democracia nacional, a democracia partidária não se saiu muito melhor. Quando Corbyn foi eleito, ele prometeu “uma revolução na democracia partidária”. Isto era muito necessário para romper com o Blairismo. Como primeiro-ministro, Blair reconheceu que manter o novo compromisso do Partido Trabalhista com o neoliberalismo exigiria uma repressão contra a democracia partidária.  Mais cedo ou mais tarde, os sindicatos filiados e os membros do partido eram obrigados a pressionar um governo trabalhista para se afastar do neoliberalismo e adotar políticas mais pró-classe trabalhadora. A direção do Partido introduziu, portanto, mudanças constitucionais. A Conferência do Partido Trabalhista deixou de agir como o órgão supremo do partido, limitando-se a debater apenas algumas moções por ano. Sempre que essas moções fossem aprovadas e inaceitáveis para a liderança (nacionalização dos caminhos-de-ferro, por exemplo), os ministros do governo simplesmente anunciariam aos media  que a nova política não seria implementada. Não havia uma verdadeira resistência a este poder de veto assumido. Por uma boa medida, foi estabelecido um Fórum Nacional de Políticas, ostensivamente para assumir o papel de formulação de políticas da Conferência, mas na realidade para mascarar o monopólio de poder da liderança. O Comité Executivo Nacional foi reformulado em um “NEC das partes interessadas”, no qual os representantes do partido foram diluídos por um grande número de seus membros sendo escolhidos pelas elites – o governo, o partido parlamentar e os conselheiros dos trabalhistas. A reeleição obrigatória dos deputados trabalhistas foi considerada totalmente fora dos limites. Mesmo as mudanças no processo pelo qual o líder do partido é eleito, que acidentalmente permitiram a vitória surpresa de Corbyn, destinavam-se a diluir ainda mais os votos dos sindicatos.

Era, pois, preciso  mudar muita coisa. No entanto, a “revolução na democracia partidária” de Corbyn foi um insucesso.  Salvo para um modesto aumento no número de resoluções que a Conferência pode debater, o modelo Blairista  foi substancialmente mantido. O NEC de “partes interessadas ” não foi transformado; a reeleição obrigatória foi rejeitada; o Fórum Nacional de Políticas continua a existir. A Esquerda foi manietada pela sua própria  ordenança de autodenuncia   de que as mudanças de regras deveriam, por alguma razão, normalmente refletir o compromisso entre a ala Esquerda e Direita.

O desejo da direção da  esquerda trabalhista de evitar demasiada democracia também se traduziu na insistência de que os ativistas de esquerda devem conhecer o seu lugar em relação à liderança de esquerda do partido. O grupo de pressão Momentum surgiu no início da liderança de Corbyn para defender a sua posição e promover a marcha para a frente da esquerda. Em poucos meses foi vítima de um golpe em que o seu potencial para influenciar a política de esquerda foi obliterado e foi reduzido a um clube de fãs  para fornecer trabalho de burro aos Trabalhistas. Corbyn apoiou publicamente esta despromoção. As diferenças entre o Blairismo e o Corbynismo na democracia partidária eram, portanto, bastante mínimas. E o desdém pela democracia partidária transformou-se  em desdém para com a democracia nacional sobre  o Brexit.

“Política Honesta”.

Finalmente, a corrente de Corbyn veio a assemelhar-se aos Blairistas em termos de confiança. O slogan de Corbyn ao procurar ser eleito como líder do Partido Trabalhista  era “política honesta”.  Isto era compreensível: Os Trabalhistas festavam atormentados  por Tony Blair ter liderado a  a participação da  Grã-Bretanha na invasão do Iraque com a falsa alegação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa . Este caso, segundo Peter Oborne, foi apenas um exemplo de uma invasão crescente de falsidades assustadoras que veio impregnar  a política britânica durante os anos Major e Blair. Os trabalhistas viram em Corbyn a perspetiva de um líder trabalhista que seria mais direto com o público e com o partido. No entanto Corbyn não foi capaz de manter esta diferença, graças à sua capitulação sobre Brexit. Corbyn foi um eterno opositor à  UE e que votara contra a adesão à CEE no referendo de 1975, contra o Ato Único Europeu, contra Maastricht, contra Nice e contra Lisboa. Porque é que ele mudou para os Remainers ? E qual a razão, após o referendo, que o levou a mudar  novamente – de respeitar o resultado do referendo passou a querer que o povo voltasse  a votar?

Quase certamente a mudança inicial de Corbyn foi impulsionada pela ameaça de um golpe contra ele por parte do Partido Trabalhista Parlamentar (que acabou por acontecer apesar da sua capitulação).  Mas Corbyn não disse isto. Em vez disso, ele explicou o seu novo apreço  pela UE com uma tagarelice sobre uma fogueira dos direitos dos trabalhadores e os perigos para os empregos de se poder perturbar as cadeias de abastecimento just-in-time (ver Análise #13 – A Quimera dos Direitos dos Trabalhadores na UE). A conversão Damascena de Corbyn a um segundo referendo minou ainda mais a sua capacidade de se apresentar como um político que  diz as coisas como elas são.  Os membros do partido e os meios de comunicação social podem ter ficado contentes por ignorar esta reviravolta: os eleitores nas terras do coração dos Trabalhistas  não ficaram.

Conclusão

Os Blairistas perderam quatro milhões de votos trabalhistas durante o mandato do New Labour e ofereceram cerca de 50 lugares no antigo coração escocês do partido ao Partido Nacional Escocês. Desta vez, os Corbynistas perderam dois milhões e meio de votos trabalhistas e ofereceram um número semelhante de lugares no parlamento  aos Conservadores  nas antigas terras do coração dos trabalhistas galeses, das Terras Médias e do Norte. Estes colapsos no apoio dos trabalhistas não são coincidentes, mas representam uma continuação. O fio condutor comum é o abandono do Partido Trabalhista face á classe trabalhadora. Ao deixar de respeitar o resultado do referendo, o Corbynismo afastou ainda mais os Trabalhistas dos eleitores da classe trabalhadora, transformando-se assim Corbyn em ” a continuidade de Blair” através da  única questão que mais significado teve para o eleitorado nas circunscrições eleitorais  mais cruciais do partido. No entanto, os trabalhistas em 2019 poderiam tão facilmente terem  sido os beneficiários da rebelião da classe trabalhadora contra o establishment político. Ao colocar-se do lado do establishment contra a classe trabalhadora sobre Brexit, os trabalhistas asseguraram que se tornariam vítimas dessa mesma rebelião. O eleitorado revoltou-se contra o status quo, exatamente quando os trabalhistas deixaram  esse status quo de pé . Quando os trabalhistas precisavam desesperadamente de fazer uma rutura com o Blairismo no  Brexit para vencerem, o Corbynismo falhou ao não conseguir fazê-la.

 

Sobre o Autor

Danny Nicol is Professor of Public Law at the University of Westminster and author of EC Membership and the Judicialisation of British Politics (2001) and The Constitutional Protection of Capitalism (2010).

Referências

[1] Geoffrey Evans and James Tilley, The New Politics of Class: The Political Exclusion of the British Working Class (Oxford: Oxford University Press, 2017), p. 192.

[2] See Mark Fisher, Capitalist Realism: Is There No Alternative? (Winchester: Zero Books, 2009); Jeremy Gilbert, “What Kind of Thing is Neoliberalism?” in Jeremy Gilbert (ed.) Neoliberal Cultures (London: Lawrence & Wishart, 2006), pp. 10-32.

[3] Luke Telford and Jonathan Wistow, “Brexit and the Working Class on Teeside: Moving Beyond Reductionism”, Capital and Class (early online, 16 September 2019), 1-20

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/20/a-derrota-de-corbyn-uma-consequencia-da-crise-politica-a-ocidente-viii-as-raizes-blairistas-do-corbynismo-por-danny-nicol/

Pós-Brexit. Imigrantes do Reino Unido vão ter de falar inglês e ter qualificações

 

O Reino Unido apresentou detalhes sobre as novas regras para a imigração pós-Brexit, que vão dificultar o acesso dos cidadãos da União Europeia (UE) e impor requisitos, como falar inglês, qualificações e um salário mínimo de 25.600 libras (cerca de 30.800 euros).

 

“Vamos pôr em prática um sistema que funcione no interesse de todo o Reino Unido e priorize as competências que uma pessoa tem para oferecer, não de onde elas vêm. Durante demasiado tempo, distorcido pelo direito de livre circulação europeu, o sistema de imigração não respondeu às necessidades do povo britânico”, referiu o Governo no documento apresentado esta quarta-feira, citado pela agência Lusa.

Segundo o novo sistema, os candidatos têm de preencher requisitos que garantam um mínimo de 70 pontos, como falar bem inglês (10 pontos), ter uma oferta de emprego (20 pontos) ou, como qualificações académicas mínimas, o 12.º ano ou superior (20 pontos).

A oferta de trabalho deve garantir um salário mínimo de 25.600 libras (20 pontos), ou inferior, de 20.480 libras (24.700 euros), para empregos com falta de mão-de-obra, como enfermagem ou se os candidatos tiverem um doutoramento.

 
 

O Governo admite regras específicas para certos setores, como a investigação científica ou a agricultura, tendo esta quarta-feira quadruplicado o número de trabalhadores sazonais autorizados, de 2.500 para 10 mil, que podem ser contratados por empresas agro-alimentares, no âmbito de um sistema paralelo.

O novo sistema de imigração por pontos visa ser implementado no início de 2021, quando acabar o período de transição após a saída do Reino Unido da UE, que estendeu a liberdade de circulação europeia até ao fim de dezembro.

Atualmente, vivem no Reino Unido mais de três milhões de cidadãos da UE, dos quais centenas de milhares trabalham em setores como agricultura, saúde e restaurantes com salários relativamente baixos.

Os empregadores dessas indústrias receiam uma escassez de trabalhadores devido às regras mais rígidas de imigração. A Associação de Assistência Domiciliar do Reino Unido descreveu a falta de provisões para trabalhadores imigrantes mal remunerados nas propostas como “irresponsável”.

“Cortar a oferta de profissionais em tratamento sob um novo sistema de migração abrirá o caminho para mais pessoas que esperam desnecessariamente no hospital ou ficam sem atendimento”, afirmou.

A deputada do Partido Trabalhista Diane Abbott apontou para os “defeitos” do novo sistema, porque “vai precisar de ter tantas isenções para o serviço nacional de saúde, para assistência social e muitas partes do setor privado que vai deixar de fazer sentido”.

Pelos Liberais Democratas, a deputada Christine Jardine denunciou as propostas como sendo “baseadas na xenofobia, não nas necessidades sociais e económicas do nosso país” e salientou o reduzido tempo de dez meses para as empresas e organismos se adaptarem.

Lusa //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/imigrantes-reino-unido-ingles-qualificacoes-309402

Saída da Grã-Bretanha da UE

Os comunistas da Grã-Bretanha veem a saída da Grã-Bretanha da UE como uma oportunidade para desenvolver uma ampla luta internacional contra os grandes negócios e o domínio empresarial, seja exercido através da UE ou de outras organizações internacionais.

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Ao deixar a UE, os comunistas da Grã-Bretanha enviam as suas saudações solidárias a todos os que lutam por justiça social e pela emancipação em qualquer parte da Europa e em todo o mundo.

Os comunistas da Grã-Bretanha veem a saída da Grã-Bretanha da UE como uma oportunidade para desenvolver uma ampla luta internacional contra os grandes negócios e o domínio empresarial, seja exercido através da UE ou de outras organizações internacionais.

Para nós, na Grã-Bretanha, perante um governo populista de direita, esta luta não será fácil. No entanto, também entendemos as origens de classe da oposição de massas à UE no nosso país. Em última análise, decorre da profunda raiva dos trabalhadores com a degradação económica sofrida em resultado da austeridade da UE e das medidas a favor dos grandes negócios. É esta luta contra a dominação corporativa empresarial que vamos continuar.

Agora lutamos para transformar os termos da saída da Grã-Bretanha no interesse dos trabalhadores.

Em particular, exigimos que, nas atuais negociações, os termos de qualquer acordo mantenham os direitos democráticos fundamentais dos nossos parlamentos e assembleias para controlar as condições da vida económica. Isto significa que as nossas instituições democráticas devem ter a liberdade de assegurar uma propriedade pública abrangente, fornecer auxílios estatais para prevenir o desemprego, usar contratos públicos para o bem comum e garantir que os trabalhadores fiquem livres das ameaças impostas aos seus direitos coletivos pelos negócios do “direito de estabelecimento” da UE.

Por isso hoje, 1 de fevereiro de 2020, saudamos todos os que, na UE, se batem numa batalha idêntica.

Saudamos os sindicalistas e comunistas da França, que estão a lutar para defender os direitos da segurança social e impedir que o Presidente Macron implemente o Programa de Reformas da UE.

Saudamos os comunistas de Portugal, que mobilizaram os trabalhadores para parar o programa de privatização imposto pela UE.

Saudamos os comunistas da Grécia, que lutaram contra sucessivas ondas de cortes nas pensões, nos serviços sociais e nos salários.

Saudamos os comunistas da Dinamarca, República Checa, Itália, Espanha, Bélgica, Holanda e Alemanha, que lutaram contra a erosão dos direitos coletivos laborais, a imposição, por parte da UE, da flexigurança salarial obrigatória e, na Dinamarca, a imposição do trabalho social.

Saudamos os comunistas da Polónia, Hungria, Estónia, Letónia e Lituânia, que enfrentam a prisão pela sua defesa do socialismo, sem qualquer intervenção da UE para proteger os seus direitos civis; UE que, pelo contrário, elaborou e promoveu uma resolução historicamente falsa e difamatória, que equipara o comunismo ao fascismo.

Saudamos os comunistas de Chipre, cujo território é ocupado pela Grã-Bretanha e pela Turquia e que estão a lutar para garantir uma unidade intercomunitária entre os trabalhadores, por um Chipre federal bicameral e bizonal e o fazem sob condições de austeridade impostas pela UE, por nós [Grã-Bretanha] e pelo jogo de poder israelita e turco.

Saudamos os trabalhadores do Mediterrâneo e da África, cujas economias foram enfraquecidas com os Tratados de Livre Comércio da UE e cujos jovens, que procuram uma nova vida em território europeu, morrem diariamente à vista da polícia de fronteira da “fortaleza da Europa”.

E, finalmente, saudamos os comunistas da Ucrânia, que enfrentam a prisão e a violência estatal num Estado associado da UE, cujo governo legítimo foi derrubado por um golpe sancionado pela UE.

Estamos determinados a que a nossa batalha contra a dominação dos grandes negócios na Grã-Bretanha, por mais limitada que seja, mesmo assim ajudará a luta contra o capitalismo monopolista e o imperialismo na Grã-Bretanha, na UE e em todo o mundo.

Fonte: Boletim Internacional do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCG), 1.ª parte da p. 1: https://www.communist-party.org.uk/images/pdfs/Unity_February_Internat_2020.pdf, acedido em 2020/02/03

Tradução do inglês de PAT

 

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/saida-da-gra-bretanha-da-ue-87455

COMO BORIS JOHNSON ACABOU COM O INTERREGNUM SOBRE O BREXIT – por MAURICE GLASMAN

 

How Boris Johnson Broke the Brexit Interregnum, por Maurice Glasman

The Full Brexit, 20 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota


Boris Johnson acabou com o impasse Brexit através da transformação da base de classe do Partido Conservador, renovando o seu partido por uma geração, assaltando e captando  as terras do coração dos Trabalhistas, alinhando o Brexit com a renovação nacional, e expondo as divisões de classe dentro dos Trabalhistas, ao colocar o  Partido Conservador ao lado dos pobres.


Com um só  lançamento dos dados, Boris Johnson acabou com o interregno Brexit. Após três anos de frenética inércia, ele resolveu o impasse através da transformação da base de classes do Partido Conservador. Ao fazer isso, ele renovou o seu partido por uma geração e rasgou as terras do coração dos trabalhistas, alinhando o Brexit com a renovação nacional e expondo as divisões de classe dentro dos trabalhistas, ao lado dos pobres.

Embora os Conservadores liderassem todas as classes sociais, a sua liderança na classe trabalhadora qualificada e não qualificada era particularmente enfática. Boris não tem igual no governo. Não há uma oposição coerente, a sua maioria é inexpugnável e todos os seus deputados subscreveram a sua agenda. Salve César. Conheça o novo Rei da Inglaterra Feliz. O bom Rei Boris.

O seu objetivo é tornar o seu domínio hegemónico através de duas medidas. A primeira é identificar os Tories com a classe trabalhadora e as cidades do campo e distanciá-los de Londres e das finanças. Putney foi ganha pelo  Labour e Bolsover foi ganha pelos Conservadores.  Procure a diferença nos preços das casas entre os dois. É uma polarização de classe contra a elite financeira e cultural dominante.

Os ministros foram proibidos de ir a Davos. O voto dos Conservadores desceu em todos os condados, especialmente nas áreas mais próximas de Londres. Essa foi a lógica que esteve por detrás  da prorrogação do Parlamento e da expulsão dos Remainers rebeldes do Partido. Os Conservadores ficaram felizes por eles terem votado Lib-Dem e Labour. Em vez disso, o partido concentrou-se inteiramente nas cidades e vilas do Norte e do Sul, no campo e na classe trabalhadora pós-industrial, a base da coligação Brexit. “Que se lixem os negócios.” Os Conservadores serão mais do norte e serão proletários e Boris beberá cerveja com os seus novos deputados nos muitos bares do Parlamento. Os Cavaliers vão dominar sobre os Puritanos.

O segundo passo foi romper com a ortodoxia  orçamental  e defender  o Estado ativista. Esperem até ver mil autocarros encher as estradas das zonas rurais da Inglaterra em parceria com o governo local. Esperem até ver  um boom de construção de casas. O PM violará com prazer as regras da UE sobre auxílios estatais e leis de concorrência, enquanto os Trabalhistas se apegarão às restrições do mercado único e às decisões do  Tribunal de Justiça da União Europeia.

Durante a campanha eleitoral, os Conservadores prometeram ajuda estatal às pequenas empresas regionais, mas não salientaram que metade do manifesto trabalhista teria sido ilegal nos termos da legislação da UE. Eles renunciaram silenciosamente ao Thatcherismo. Boris será o herdeiro de Keynes enquanto os trabalhistas defenderão a retidão de Hayek para sempre consagrada no Tratado de Lisboa e a sua soberania sobre o mercado único e a união aduaneira. Enquanto Boris apontará a distinção entre livre comércio e livre circulação, os Trabalhistas não sabem  a diferença entre os dois conceitos. O interregno foi quebrado, e como em 1979 foi quebrado a favor da  direita.

O Papa Francisco disse recentemente que não estamos a viver uma época  de mudança, mas uma mudança de época. Esta vitória conservadora é uma parte importante para definir quais são as características da nova era. O consenso anterior foi definido por quatro pressupostos comuns; que o Estado-nação, a democracia, a classe trabalhadora e o conservadorismo teriam menos importância. As forças dominantes eram a classe média educada, a globalização, as constituições escritas e o liberalismo. Blair e Cameron expressaram isso perfeitamente.

​Brexit é um sinal dos tempos, um vislumbre do futuro, mas a mente progressista só pode vê-lo como reacionário, nostálgico e retrógrado. O papel decisivo da classe trabalhadora na afirmação da soberania nacional através do seu voto democrático, a fim de renovar as antigas instituições do Parlamento e da lei comum, é incompreensível para a esquerda. A nova era é um país estrangeiro para aqueles que pensavam que o arco da história estava com eles.

A escala da derrota dos trabalhistas na passada quinta-feira é difícil de compreender para a mente progressista. Como a morte de um ente querido, que sobreviveu antes a uma terrível doença, é ao mesmo tempo chocante e previsível. As respostas de culpa, fuga, negação, raiva, deslocamento e depressão da família trabalhista também são chocantes e previsíveis. O  Partido Trabalhista é como uma família vinda do inferno. Cheia de ódio e culpa e incapaz de entender como é que chegou até aqui. Os trabalhistas já não são uma tribo e perderam a sua pátria. Vai ser de solidão  este Natal.

Isto porque o Partido Trabalhista está fora de relação com a sua história, tradições e comunidades que o criaram e acarinharam. Tão desfasada que não podia ver a rejeição que se avizinhava. Partilha agora o destino entrópico dos partidos trabalhistas francês, italiano, alemão, belga e holandês, que se reduziram progressivamente à irrelevância, substituídos por partidos nacionalistas e verdes no seu conjunto. Esvaziados dos seus objetivos nacionais pelas restrições da União Europeia, a social-democracia não tem uma conceção do social, ou da democracia. Os trabalhadores partilham agora o seu destino, o que significa irrelevância e reuniões intermináveis que não levam a lado nenhum. Apenas um lento e inexorável declínio. Marca o fim do excecionalismo britânico de esquerda, tal como nós deixamos a UE.

Poderia ter sido tão diferente. Em 2017, quando os trabalhistas disseram que respeitavam o resultado do referendo, deram a seguir um grande salto durante as duas últimas semanas da campanha. Os Conservadores, que se candidataram à política de “perder a cabeça, perder a casa”, transformaram uma eleição Brexit numa discussão sobre as consequências financeiras da demência.

Havia sinais  de desinteresse quando Mansfield e North Derby viraram azuis; mas o coração da Inglaterra trabalhista acreditava que Corbyn era um filho fiel de Tony Benn, Corbyn que tinha  passado a vida inteira a denunciar  a UE como um clube capitalista onde ninguém era responsável. Contra a corrente da Europa continental, só o Labour era um partido social-democrata vital e renovado, empenhado na nacionalização e na redistribuição da riqueza. Brexit era uma fonte de renovação socialista e a democracia foi reafirmada como o meio de resistir ao domínio dos ricos e às suas décadas de pilhagem implacável. Mas, então, os trabalhistas de Corbyn renunciaram ao Brexit.

Uma das razões pelas quais o resultado das eleições parecia tão chocante era que a classe trabalhadora era suposta  estar do lado errado da história, para já não se dever considerar como relevante. Apesar do resultado do referendo Brexit, partiu-se do princípio de que a tarefa dos trabalhistas era construir uma coligação de eleitores “progressistas” em torno de um segundo referendo a que chamavam “o voto do povo”. A diferença entre 2017 e 2019 foi que a classe trabalhadora notou que os Trabalhistas estavam a bloquear o Brexit e a negar a legitimidade do seu voto (ver Analysis #42 – Labour Lost Because it Failed to Grasp the Democratic Opportunity of BrexitAnalysis #43 – The Workers’ Revolt Against Labour) – O Partido Trabalhista perdeu porque não agarrou a oportunidade democrática do  Brexit; Análise #43 – A Revolta dos Trabalhadores Contra o Partido Trabalhista). O Partido Trabalhista de Corbyn está do lado do capitalismo global. É uma pequena ironia que Andrew Murray e Seamus Milne, que se orgulhavam da sua análise marxista com um papel central para a classe, tenham feito uma campanha baseada em “valores” e tenham sido batidos pelos  conservadores que colocaram uma pressão enormíssima sobre a  classe trabalhadora e conseguiram transferiram as suas lealdades. Os marxistas trabalhistas acabaram por ser Whigs, ou seja  liberais,. Que grande quantidade de bagagem para uma viagem tão curta.

A profunda cumplicidade entre o New Labour  e o Projeto Corbyn foi mostrada aqui. A progressista  certeza era de que a história ia numa direção, rumo à livre circulação de pessoas e coisas, de que a tecnologia dissolveria lugares e fronteiras num redemoinho indiferenciado em que só o indivíduo e o direito dos Tratados importavam.

Que o futuro se baseava na globalização era inquestionável entre eles, assim como a ideia de que o Estado-nação e a democracia já não eram realmente importantes.  Esta teoria Whig da história é tão falsa agora como sempre foi. A classe trabalhadora, o Estado-Nação e a democracia são características chave da nova era. Longe de serem perdedores, a classe trabalhadora pós-industrial decidiu os dois votos mais significativos do nosso tempo.

E a esquerda foi a perdedora. A doença progressista dissolveu os laços que unem porque não tem noção da sociedade, do social, da pertença e da herança. Presa em um agora sem fim, perdeu a ideia de futuro. A coligação de Peter Mandelson e John McDonnell que ligou os trabalhistas a um segundo referendo é a chave para compreender a derrota catastrófica porque acabou por romper a ligação entre a classe trabalhadora e os trabalhistas. Era dito que a classe trabalhadora  não  sabia o que se estava a fazer. Era dito  que a democracia não decide os problemas da nossa sociedade. Era dito  que não havia fé no nosso país para decidir o seu futuro através da política democrática, mas que este tinha de ser sujeita a  um sistema de diretivas e leis que não tinham contas a dar a ninguém.

Ao adotarem  um segundo referendo, os trabalhistas cruzaram a linha. Já não apoiavam  mais os trabalhadores que confiavam mais na democracia do que no Tribunal Europeu de Justiça quando se tratava dos seus direitos. Os Trabalhistas pensavam que as consequências seriam catastróficas e não mostravam confiança em que o nosso país pudesse florescer fora de um capitalismo sem fricções. A esquerda tornou-se subitamente especialista em cadeias de abastecimento just-in-time como se o capitalismo, o sistema económico mais adaptável alguma vez concebido, não fosse capaz de lidar com isso. Eles não eram fiéis ao casamento e este  agora acabou. Não há evidências de que  possa haver uma reconciliação.

Nas últimas eleições, os Trabalhistas perderam Mansfield por mil votos. Agora a maioria é superior a 16.000. A classe trabalhadora escocesa não voltou aos trabalhistas, mas mudou-se para um partido nacionalista e não mostra sinais de remorso. Uma vez rejeitados, eles seguem em frente e não olham para trás. No recente livro de Michael Lind, The New Class War, este  faz a ligação entre classe e geografia, entre os centros urbanos e as terras do coração da Inglaterra trabalhista. Os trabalhistas são o partido dos centros, mas os conservadores agora reivindicam as terras do coração trabalhista.

E para além da devastação imediata da derrota, está o horror existencial do que ela significa. A ruptura do casamento a longo prazo com a classe trabalhadora que criou o Partido Trabalhista em primeiro lugar. Abre o espaço para a emergência de um partido genuinamente populista de direita, como alternativa ao Partido Trabalhista e aos Conservadores. O Partido Brexit é apenas um sabor suave do que o futuro pressagia. O voto dos Conservadores aumentou apenas alguns por cento em geral, muitos antigos eleitores trabalhistas foram para o Partido Brexit. O que ficou claro é que o voto dos trabalhistas caiu nas terras do coração e o Partido Brexit economizou mais assentos trabalhistas do que perdeu.

A glória dos trabalhistas foi a sua capacidade de expressar o interesse trabalhista no quadro das instituições parlamentares e legais herdadas, afirmando a política democrática como uma alternativa à violência. Enquanto o resto da Europa se polarizou e se tornou fascista ou comunista, os trabalhistas mantiveram os afetos da classe trabalhadora e envolveram-se na política de guerra e de paz. Derrotando os nazis  na Coligação de Guerra e, depois, criaram  o Serviço Nacional de Saúde, nacionalizaram o o aço, o carvão e s caminhos-de-ferro e  criaram  o Fundo Nacional e o Cinturão Verde.

As virtudes do civismo,.  generosidade e gentileza na praça pública são fáceis de perder e difíceis de manter. O  Partido Trabalhista foi a fonte dessa política e com o seu afastamento das comunidades da classe trabalhadora que representava, surge agora uma política amargurada e ressentida. Algo que está mais próximo da Frente Nacional ou da AfD na Alemanha.

O novo Governo precisa de oferecer algo mais do que sucesso eleitoral e alguns projetos de infraestruturas; precisa de construir sobre a política de ganhar e pertencer, de contribuir e de  renovar o comportamento de civismo. Ao longo dos últimos 40 anos, os condados e cidades do nosso país foram desvalorizados em relação aos seus bens e à sua herança. Nenhuma das sociedades construtoras que foram desmutualizadas nos últimos 40 anos existe  agora  como instituições locais. A dotação dos bancos regionais para que haja novamente acesso ao capital é uma parte essencial disso. O reconhecimento da vocação é também essencial e a criação de escolas profissionais para a construção, manutenção, assistência social e condução de táxis com leis de aprendizagem que regulamentem a entrada no mercado de trabalho abordariam as competências necessárias para construir lares, cuidar dos idosos e dos 85% da economia que funciona fora da globalização.

A dignificação do trabalho é o fundamento disto. Ela deve ser a base da alternativa do Partido Trabalhista. A questão central para os próximos dez anos é saber se os Conservadores podem reconhecer que o seu futuro está a  partir de agora  ligado ao trabalho.

Sobre o Autor

Maurice Glasman is a member of the House of Lords and the founder of Blue Labour.

 

Para ler este artigo no original clique em:

https://www.thefullbrexit.com/johnson-brexit-interregnum

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/13/a-derrota-de-corbyn-uma-consequencia-da-crise-politica-a-ocidente-vii-como-boris-johnson-acabou-com-o-interregnum-sobre-o-brexit-por-maurice-glasman/

Eleições | Sinn Fein é segunda força política mais votada na Irlanda

 
O partido Sinn Fein, antigo braço político do grupo paramilitar Exército Republicano Irlandês (IRA), tornou-se na segunda força no Parlamento irlandês, de acordo com dados oficias hoje divulgados.
 
Este resultado, após dois dias de contagem de votos, pode representar a queda do primeiro-ministro, Leo Varadkar.
 
O Sinn Fein tem agora tem 37 assentos em 160 na câmara baixa do Parlamento irlandês (Dail).
 
O centro-direita Fianna Fail ocupa mais um assento (38), enquanto o Fine Gael, partido de centro-direita do primeiro-ministro cessante Leo Varadkar, tem 35.
 
Embora os centristas tenham mais um assento, o Sinn Fein foi o partido mais votado nas eleições, obtendo 24,5% dos votos. O Fianna Fail conquistou 22,2%, o Fine Gael 20,9%, o Partido Verde 7,1% e o Partido Trabalhista 4,4%.
 
É necessária uma maioria de pelo menos 80 deputados para uma governação estável, o que torna inevitáveis negociações entre os diferentes partidos políticos.
 
Em 2016, o Fine Gael foi o partido mais votado, mas sem maioria absoluta, e precisou de um compromisso de apoio do rival Fianna Fáil para formar um governo minoritário, o que só foi alcançado após 70 dias de negociação.
 
"O Sinn Fein venceu a eleição, conquistamos o voto popular", disse a líder do partido, Mary Lou McDonald.
 
 
No complexo sistema eleitoral irlandês, os eleitores não votam numa lista estabelecida, mas numa lista própria ao escolher candidatos de diferentes partidos por ordem de preferência.
 
McDonald já iniciou contactos com outras formações minoritárias, como verdes ou trabalhistas, e com deputados independentes e de esquerda para tentar formar um governo, já que nenhum partido alcançou a maioria absoluta.
 
"Esta campanha girou em torno da mudança. As pessoas votaram no Sinn Fein para estar no Governo, para fazer a diferença e manter as promessas", explicou McDonald em entrevista à televisão estatal RTE.
 
McDonald insistiu que quer um governo progressista e, embora não descarte uma coligação com democratas ou centristas, reiterou que prefere governar sem o apoio do Fine Gael e do Fianna Fail.
 
No programa eleitoral, o Sinn Fein defende que o Governo irlandês deve promover um processo de discussão e persuasão para organizar "um referendo, no norte e sul, sobre a Unidade Irlandesa".
 
O Governo britânico tem argumentado que não existem condições para esta consulta pública, que está prevista nos acordos de paz de 1998 para a Irlanda do Norte, e os outros dois principais partidos irlandeses, Fianna Fail e Fine Gael, não consideram a reunificação uma prioridade.
 
A participação num Governo de coligação na Irlanda do Sinn Fein, que também faz parte do governo da Irlanda do Norte, pode dar um novo impulso ao movimento nacionalista e criar um conflito com o Governo britânico semelhante ao que existe na Escócia, onde o governo regional defende o direito de realizar um referendo para a independência.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Lusa
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/eleicoes-sinn-fein-e-segunda-forca.html

Ninguém consegue maioria na Irlanda. Sinn Fein torna-se a segunda força política

Mary Lou McDonald, líder do Sinn Féin

O partido Sinn Fein, antigo braço político do grupo paramilitar Exército Republicano Irlandês (IRA), tornou-se na segunda força no Parlamento irlandês.

 

Este resultado, esta segunda-feira revelado após dois dias de contagem de votos, pode representar a queda do primeiro-ministro, Leo Varadkar.

O Sinn Fein tem agora tem 37 assentos em 160 na câmara baixa do Parlamento irlandês (Dail). O centro-direita Fianna Fail ocupa mais um assento (38), enquanto o Fine Gael, partido de centro-direita do primeiro-ministro cessante Leo Varadkar, tem 35.

Embora os centristas tenham mais um assento, o Sinn Fein foi o partido mais votado nas eleições, obtendo 24,5% dos votos. O Fianna Fail conquistou 22,2%, o Fine Gael 20,9%, o Partido Verde 7,1% e o Partido Trabalhista 4,4%.

É necessária uma maioria de pelo menos 80 deputados para uma governação estável, o que torna inevitáveis negociações entre os diferentes partidos políticos.

Para alcançar esta maioria, frisa a Renascença, será necessária uma coligação entre dois dos três maiores partidos, com o apoio de outros movimentos. Durante a campanha eleitoral, os líderes do Fine Gael e do Fianna Fail garantiram aos seus eleitores que não fariam uma coligação governamental com o Sinn Féin.

Em 2016, o Fine Gael foi o partido mais votado, mas sem maioria absoluta, e precisou de um compromisso de apoio do rival Fianna Fáil para formar um governo minoritário, o que só foi alcançado após 70 dias de negociação. “O Sinn Fein venceu a eleição, conquistamos o voto popular”, disse a líder do partido, Mary Lou McDonald.

Proud to lead. On this day two years ago I was Elected President of @sinnfeinireland This weekend we made history – all of us, together. pic.twitter.com/CWVxZkhLBG

— Mary Lou McDonald (@MaryLouMcDonald) February 10, 2020

 

Sistema eleitoral complexo

No complexo sistema eleitoral irlandês, os eleitores não votam numa lista estabelecida, mas numa lista própria ao escolher candidatos de diferentes partidos por ordem de preferência. McDonald já iniciou contactos com outras formações minoritárias, como verdes ou trabalhistas, e com deputados independentes e de esquerda para tentar formar um governo, já que nenhum partido alcançou a maioria absoluta.

“Esta campanha girou em torno da mudança. As pessoas votaram no Sinn Fein para estar no Governo, para fazer a diferença e manter as promessas“, explicou McDonald em entrevista à televisão estatal RTE. McDonald insistiu que quer um governo progressista e, embora não descarte uma coligação com democratas ou centristas, reiterou que prefere governar sem o apoio do Fine Gael e do Fianna Fail.

No programa eleitoral, o Sinn Fein defende que o Governo irlandês deve promover um processo de discussão e persuasão para organizar “um referendo, no norte e sul, sobre a Unidade Irlandesa”. O Governo britânico tem argumentado que não existem condições para esta consulta pública, que está prevista nos acordos de paz de 1998 para a Irlanda do Norte, e os outros dois principais partidos irlandeses, Fianna Fail e Fine Gael, não consideram a reunificação uma prioridade.

A participação num Governo de coligação na Irlanda do Sinn Fein, que também faz parte do governo da Irlanda do Norte, pode dar um novo impulso ao movimento nacionalista e criar um conflito com o Governo britânico semelhante ao que existe na Escócia, onde o governo regional defende o direito de realizar um referendo para a independência

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/ninguem-consegue-maioria-na-irlanda-sinn-fein-torna-segunda-forca-politica-307920

OS LIMITES DO POPULISMO, por PETER RAMSAY

 

 

The Limits of Populism, por Peter Ramsay

The Full Brexit, 19 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O Partido Brexit contribuiu significativamente para a eleição de um governo pró-Brexit com um mandato inequívoco para deixar a UE, e para o realinhamento histórico na política britânica que se seguiu a essa eleição. A sua política populista, porém, não pode resolver o mal-estar político subjacente que levou o Brexit à primeira linha.

A intervenção do Partido Brexit na política britânica começou com um estrondo nas eleições europeias de Maio, mas parece ter terminado em algo lamuriante nas eleições gerais de Dezembro. No entanto, o impacto do partido não deve ser subestimado. Pode ter ganho apenas cerca de dois por cento dos votos, mas teve um efeito muito significativo sobre o resultado.

A grande vitória do Partido Brexit nas eleições europeias desempenhou um papel decisivo  na queda de  Theresa May, levando Boris Johnson ao poder e afastando a ameaça de um segundo referendo. Também forneceu ao novo líder Tory muito do seu programa político. Johnson proclamou a determinação de ver o seu programa através de Brexit, se necessário sem um acordo, e acrescentou “as prioridades do povo”, sendo esta uma lista de grandes promessas de despesa pública devidas em grande parte ao manifesto do Partido Brexit.

Ao deixar os seus candidatos em cadeiras ocupadas por deputados conservadores, o líder do Partido Brexit, Nigel Farage, evitou dividir o voto dos defensores do Leave  a nível nacional e esperava que os conservadores retribuíssem dando ao seu partido uma oportunidade nas cadeiras trabalhistas, onde os conservadores pareciam ter poucas hipóteses de ganhar. No entanto, os Conservadores eram suficientemente astutos para saberem que poderiam ganhar sem uma aliança, e assim o provaram. No entanto, no próprio dia das eleições, o Partido Brexit ajudou os candidatos conservadores a vencerem em até 20 lugares dos trabalhistas, embora também tenha ajudado os trabalhistas a ganhar em outros lugares  ao dividir o voto do Leave . O Partido Brexit desempenhou o seu papel na derrota eleitoral da resistência dos Remainers  ao referendo de 2016 ao levar ao poder um governo conservador que vai tirar a Grã-Bretanha da União Europeia. Não é uma conquista pequena, especialmente para Farage, que há muito tempo tem procurado alcançar exatamente isso.

 O Partido Brexit também teve um efeito importante no conteúdo do debate político em torno de Brexit. Ao apelar a personalidades  que não eram os tradicionais eurocéticos de direita (como os eurodeputados Henrik Overgaard-Nielsen e Claire Fox, e os apoiantes do Full  Brexit Alka Sehgal-Cuthbert e James Heartfield), o partido conseguiu colocar a questão Brexit como sendo antes de mais uma questão sobre democracia, marginalizando as questões muitas vezes favorecidas pela direita populista, como a imigração, que mal figurava durante a campanha eleitoral (ver Analysis #26 – Why I’m Standing for the Brexit Party– Porque estou de pé para o Partido Brexit).

Ao forçar os Conservadores a “Get Brexit Done”, e a fazê-lo em nome da democracia, o Partido Brexit tem sido o catalisador de um grande realinhamento na política britânica. O  foco  dado quanto ao respeito pelos votos dos trabalhadores que do  Partido Trabalhista que defendiam o Leave, alimentou a revolta dos eleitores da classe trabalhadora do Norte, das Terras Médias e do País de Gales, provocando uma derrota para o Partido Trabalhista de proporções históricas (ver Analysis #43 – The Workers’ Revolt Against Labour– A Revolta dos Trabalhadores Contra o Trabalho). Isto produziu um governo conservador com um grande número de círculos eleitorais predominantemente da classe trabalhadora. No esforço de manter este novo círculo eleitoral, Johnson parece estar à beira de abandonar a política económica dita do  Thatcherismo.

No entanto, os partidos conservadores e trabalhistas ainda dominam o cenário eleitoral. O Partido Brexit não quebrou o molde da política britânica, nem está agora em posição de ir muito mais longe na sua aspiração declarada de “mudar a política para o bem”. Embora os apoiantes da esquerda do Partido Brexit tenham procurado articular um “argumento de esquerda para a soberania”, tanto quanto este argumento  democrático estiver envolto em política populista, não poderá  capitalizar estes esforços para evoluir para algo mais do que um grupo de pressão Brexit sobre os Conservadores.

Os limites do populismo

Parte do problema é que o Partido  Brexit é um partido  apenas de nome. Legalmente, é uma empresa controlada por Nigel Farage. Mesmo que Farage e  o seu colaborador próximo, Richard Tice, não sejam os papões da “extrema-direita” da imaginação de esquerda, eles não  vão fornecer o fórum no qual uma nova política radical se desenvolverá, uma política que pode chegar às causas fundamentais do mal-estar político da Grã-Bretanha. O carácter antidemocrático do partido impede-o de fazer algo mais do que promover a  democracia de nome, nada mais do que isso.

Mas a estrutura jurídica corporativa do Partido Brexit é apenas a forma assumida pelos seus limites políticos substanciais. O problema substancial é a visão populista do Partido Brexit. A sua exigência política central era que a vontade do povo, expressa no referendo de 2016, fosse implementada, apesar da resistência da elite política a essa perspectiva. Essa tem sido, inquestionavelmente, a principal exigência democrática do momento. No entanto, este território foi facilmente ocupado por um Partido Conservador liderado por Johnson, e a partir do verão Johnson teve pouca dificuldade em roubá-la ao partido de Farage. Embora o Partido Brexit tivesse algumas exigências mais radicais, como a abolição da Câmara dos Lordes, estas faziam parte de uma plataforma global concebida para ser imediatamente apelativa para o eleitorado, em vez de oferecer uma alternativa sistemática às tradições políticas dos partidos trabalhistas ou conservadores. A equipa de Johnson podia, oportunisticamente, escolher os bocados de que gostava, descartar os que não gostava e embrulhar tudo num pacote conservador intitulado  “Uma Nação”.

O problema para o Partido Brexit reside na magreza intrínseca da visão de mundo populista subjacente. O populismo entende ,por um lado,  a sociedade como dividida entre pessoas comuns   e uma elite egoísta a pensar sobretudo nos eus interesses  e  que, por outro lado, esta  não  é representativa. À primeira vista, esta ideia de política parece explicar a política de Brexit. Mas a perspetiva populista é uma meia verdade enganadora que se revelará um beco sem saída para aqueles que querem realizar o potencial democrático de Brexit.

A verdadeira parte do populismo é que somos realmente governados por uma elite egoísta a pensar nos eus interesses próprios servir e não representativa. Esta tem sido a visão dominante entre a população durante décadas, mas tornou-se completamente inegável após o referendo da UE, já que a maioria da classe política, apoiada pelos serviços públicos, pelos media de todos  os géneros, pelo poder judicial,  pelas profissões e pelo meio académico, montou abertamente um esforço determinado para garantir que o resultado do referendo não fosse promulgado. Não se tratava simplesmente de Remain ser um projeto de uma elite social e política; o conteúdo político do projeto era pura e simplesmente elitista. O núcleo duro dos Remainers não aceitou a legitimidade da votação de 2016 e exigiu uma reedição  do referendo desde então. Os líderes do movimento Remainers  afirmam ter acesso a conhecimentos especializados que lhes permitem saber que deixar a UE será um desastre económico e que o eleitorado foi enganado em 2016. A crença tecnocrática dos Remainers  na sua própria superioridade sobre as massas ignorantes impulsionou a sua resistência à decisão

Além disso, diante dessa resistência de elite, Leavers reivindicou o mandato do povo. E nós tínhamos fortes razões para o fazer. No referendo de 2016, com uma afluência histórica elevada, a maioria do eleitorado votou a favor da saída da UE. O Partido Brexit, como quase todos os outros Leavers, fez por isso a afirmação fundamentalmente democrática de que a sua posição é “a vontade do povo”. E desta forma os populistas Brexit parecem ter impedido a nossa elite tecnocrática de seguir muitos dos seus confrades continentais para destruir por completo os restos esfarrapados da democracia parlamentar com um segundo referendo (Analysis #20 – Parliament at the Cliff-Edge: Why a Second Referendum Could Destroy its Authority)- Parlamento no Cliff-Edge: Por ue é que um Segundo Referendo poderia Destruir a sua Autoridade).

No entanto, a parte falsa da visão populista é a afirmação de que o enquadramento geral “povo vs elite” pode proporcionar uma prática política para o futuro. É particularmente irónico que os populistas britânicos confiem na oposição entre o povo e a elite política para defender  a causa da soberania e o Brexit, uma vez que assim, afirmá-lo e fazê-lo é ignorar uma visão chave do maior filósofo político da Inglaterra, Thomas Hobbes. No século XVII, Hobbes salientou que sem representação política há apenas muitas pessoas, uma multidão; mas não há um povo singular, não há “o povo”. A existência de “o povo” depende de uma representação política eficaz. Essa representação não tem que ser democrática, argumentou Hobbes. Ele foi um defensor da causa realista na guerra civil inglesa e, numa formulação caracteristicamente bruta, ele afirmou que “O Rei é o Povo”. Mas o seu ponto-chave foi que só através de instituições representativas eficazes é que uma multidão, dividida entre si, pode no entanto se imaginar como uma unidade,  imaginar-se  como um “povo” singular, parte de uma nação soberana. Como se viu, Charles Stuart falhou em fazê-lo  em meados dos anos 1600, enquanto o parlamento foi bem sucedido. Que o binário “povo contra elite” deveria agora parecer fornecer uma descrição precisa da política de Brexit apenas nos diz que as instituições e processos representativos através dos quais nos imaginávamos ser um povo – as instituições que gradualmente surgiram após as guerras civis do século XVII – decaíram até o ponto de ruptura.

Em meados do século XX, os britânicos tinham desenvolvido várias formas institucionais de representação que constituíam a nação. Essas instituições eram uma monarquia protestante, constitucional e imperial que governou através de um parlamento democraticamente eleito e (depois de 1945) assegurou um Estado Providência. Todos estes elementos do Estado estão em decadência avançada. O elemento protestante já se foi há muito tempo, juntamente com o império. Um fantasma do elemento imperial persiste na forma das implacáveis intervenções militares britânicas em todo o mundo. Mas mesmo estas já não são feitas  em nome da glória nacional, mas do humanitarismo, da manutenção da paz e do contra-terrorismo. A união com a Irlanda está em suas últimas etapas. O Estado social sobrevive, mas é murcho e muito diminuído como elemento de identidade nacional, e sujeito a constante disputa política partidária. O atual monarca conta com o apoio da maioria dos cidadãos, mas o futuro da instituição após a sua morte é amplamente debatido. Mais importante, o processo Brexit expôs o declínio em impotência do parlamento democraticamente eleito ((Analysis #39 – A Delinquent Parliament Begets the Rule of Lawyers).

Face a esta decadência, simplesmente reafirmar “o povo” contra a elite fracassada não é suficiente para reconstituir instituições representativas através das quais o povo possa reconhecer-se e afirmar a sua soberania. Os Conservadores podem ter ganho uma eleição roubando as roupas populistas do Partido Brexit, mas isso provavelmente não será suficiente para reconstituir as relações ideológicas e institucionais mais profundas entre os cidadãos e o Estado que fazem a verdadeira soberania, mesmo que deixemos formalmente a UE. Para reavivar a nossa soberania, ainda precisamos de reimaginar o povo através de ideias mais ricas e específicas sobre o que nos une.

O Populismo e a Era Neoliberal

Os políticos  populistas tem prosperado no vazio criado pela decadência histórica das antigas instituições representativas, mas o populismo não pode reverter essa decadência. ((Analysis #27 The Brexit Party: Creature of the Void –O Partido Brexit : uma criatura do vazio) Para entender isto mais completamente, precisamos pensar sobre as circunstâncias em que o populismo contemporâneo tem surgido.

A influência do populismo contemporâneo cresceu ao longo dos últimos 30 anos, juntamente com o triunfo e subsequente fracasso da ordem neoliberal na qual “não há alternativa” ao mercado, como Margaret Thatcher notoriamente colocou. Quando não há alternativa ao mercado, os cidadãos individuais vêm a ser imaginados, na linha da economia neoclássica, como consumidores. A política neoliberal, portanto, constrói a relação do cidadão com o Estado como a de um consumidor com um fornecedor. Cidadãos re-imaginados como consumidores  retiraram-se para a esfera privada; ocupam-se como curadores de uma miríade de identidades e estilos de vida através dos quais procuram a autoestima e a autorrealização. O consumidor-cidadão é também um consumidor de serviços públicos e de política. Como resultado, a política na era neoliberal decaiu numa charada “pós-democrática”, na qual as elites tecnocráticas procuraram produzir produtos políticos atraentes para os cidadãos-consumidores escolherem entre eles: “um espetáculo fortemente controlado e gerido por equipas rivais de profissionais especializados nas técnicas de persuasão, e considerando uma pequena gama de questões selecionadas por essas equipas, nas quais “a massa de cidadãos desempenha um papel passivo, quiescente e até apático”[1].

Os governos nesta ordem pós-democrática foram vividamente descritos por Peter Mair como “governando o vazio“. O vazio  abre-se quando a relação Estado-cidadão é modelada pela  relação de mercado. Por um lado, os consumidores privados procuram a realização plena das   suas identidades nas  suas vidas privadas; por outro lado, os fornecedores políticos vivem a vida do Estado, cada vez mais tecnocrático.

O que é esvaziado  é o espaço verdadeiramente político no qual somos representados como povo e isso é feito pelos líderes políticos que procuram mobilizar o Estado em torno de visões ideológicas concorrentes do que nós temos em comum, visões que informam uma série de instituições mediadoras que no passado tomaram a forma de partidos políticos de massas, sindicatos, igrejas, associações políticas e profissionais e assim por diante. A representação neoliberal de nós como consumidores individualizados e criadores de identidades pessoais é apolítica. A única coisa que ela afirma que temos em comum é a nossa diferença. Na versão dominante esquerda-neoliberal (ou “interseccional”), somos representados como um arco-íris de identidades partilhando apenas a nossa vulnerabilidade  face à hostilidade ou indiferença  dos outros na luta para manter a nossa auto-estima e segurança. A nossa suposta vulnerabilidade mútua invoca o policiamento implacável das nossas palavras, das nossas opiniões e dos nossos hábitos de consumo. Corbyn é por vezes pensado como um populista, mas na verdade “os muitos” no slogan corbinista é precisamente a coligação arco-íris dos vulneráveis, que precisam de protecção não só dos capitalistas, mas também uns dos outros. Nenhum povo singular é possível ou desejável nesta visão.

A afirmação dos interesses do povo feita pelos populistas é uma reação ao vazio neoliberal. A sua atratividade vem do facto de que  ela oferece uma forma de ripostar à substituição do policiamento tecnocrático dos nossos modos de vida através da  política democrática de representação dos nossos interesses. À primeira vista, “o povo” é exatamente o que está a  faltar  na política neoliberal. Mas afirmar simplesmente os interesses do “povo” em abstrato não oferece alternativa à bem estabelecida representação neoliberal de quem somos. Sem essa visão alternativa, ainda somos apenas consumidores individualizados, e a política ainda tem que ser cozinhada por alguns cozinheiros como um produto a ser trazido ao mercado eleitoral, e não a ser objeto de um envolvimento  político entre  os dirigentes políticos, os membros do partido e as coligações de interesse mais amplas que os partidos lutam para representar como sendo o povo.

O populismo não só não oferece a visão mais rica do povo de que precisamos para reconstruir uma ideia de nosso interesse comum num  movimento político vivo, como também muitas vezes engana os eleitores quanto à origem do problema. Na falta de uma visão positiva do povo, é mais fácil construir o povo de forma negativa, por referência ao que não somos. Enquanto a elite tecnocrática confia fortemente na política do medo (como a campanha dos  Remaineers  demonstrou amplamente), os populistas também são atraídos pela política divisória de identidade e vulnerabilidade. Na falta de uma visão ideológica positiva do povo, eles frequentemente encontram um atalho nas ameaças que o crime, a imigração ou as minorias religiosas orais  representam para as ” decentes pessoas comuns”. Desta forma, as pessoas podem ser simplesmente definidas como as (potenciais) vítimas de criminosos ou estrangeiros. Na sua visão  mais extrema, esta tendência pode produzir uma visão racializada defensiva do povo como aqueles que são vítimas das reivindicações das minorias superiores, intensificando uma guerra das culturas identitárias.

Esta particular fraqueza do populismo foi bem marcada no debate Brexit, mesmo depois de Nigel Farage ter abandonado a sua retórica anti-imigração. Ao discutir a própria UE, o Partido Brexit promoveu em grande parte o entendimento eurocéptico de longa data da UE como um super-Estado estrangeiro que governa sobre a Grã-Bretanha, suprimindo a nossa soberania. No entanto, como os colaboradores de The Full Brexit apontaram, isto simplesmente não é verdade (ver Analysis #1 – The EU’s Democratic Deficit: Why Brexit Is Essential for Restoring Popular Sovereignty– O Défice Democrático da UE: Porque é que Brexit é essencial para restaurar a Soberania Popular). A UE é uma das formas em que a elite britânica governa a Grã-Bretanha, cedendo voluntariamente o seu poder legislativo às instituições europeias, onde colabora com as elites de outros estados membros, nomeando Comissários da UE e reunindo-se nos Conselhos de Ministros. A lei é feita nestas instituições europeias por funcionários britânicos, colaborando com os poderes executivos de outros estados membros, e depois torna-se automaticamente vinculativa no Reino Unido, passando por cima dos nossos representantes eleitos. O cerne do problema de soberania colocado pela UE está na nossa própria  casa. Os últimos três anos de resistência das  elites ao Brexit revelaram esta  verdade na prática, mas o populismo tem dificuldade em articular esta experiência prática numa alternativa política coerente, porque isso exigiria uma visão positiva do povo e de como o povo poderia ser institucionalmente reconstituído.

Esta falta de clareza sobre o problema central da política contemporânea deixa os populistas a diagnosticar mal o enfraquecimento da soberania nacional e a obscurecer a sua verdadeira fonte. Incapazes de reconhecer o problema que cria o populismo, quanto mais de lhe dar uma solução, os populistas são incapazes de preencher o vazio político, e encontram-se dependentes da própria perícia tecnocrática a que aparentemente se opõem.  Na Itália, por exemplo, temos visto o movimento populista 5-Estrelas nomear arqui-tecnocratas e colaborar no governo com os partidos da odiada a  casta. Na Grã-Bretanha, a intervenção do Partido Brexit serviu para relançar a sorte da elite política mais antiga do mundo: o Partido Conservador.

O populista Partido Brexit desempenhou um papel importante para garantir que a questão da democracia estivesse no centro da luta por Brexit. Ao fazê-lo, ajudou a classe trabalhadora da Inglaterra e do País de Gales a alcançar algo único: forçar a sua própria classe dominante a implementar o resultado de um referendo da UE. No entanto, a política populista não pode resolver o problema subjacente da pós-democracia ao  querer preencher o vazio entre o Estado e os cidadãos.

Resta construir uma ideia positiva de quem somos como povo, do que nos une. A sociedade é sistematicamente dividida de inúmeras maneiras. É isto que cria a necessidade de representação política e do Estado. O desafio crítico é identificar as categorias através das quais os interesses da maioria podem ser articulados de uma forma que possa ter adequadamente em conta as diferenças reais de classe social, género, etnia e assim por diante. O processo Brexit, em particular, voltou a colocar a classe no centro da vida política. Numa sociedade dividida, qualquer esforço genuíno para reapresentar o povo ideologicamente (isto é, como estando unido por esta ou aquela característica) é obrigado a criar argumentos políticos entre os apoiantes da causa do povo. Uma política populista que se limita a reiterar a oposição entre o povo e a elite escapa aos argumentos duros e divisivos que a representação ideológica implica. Mas estes argumentos são essenciais se queremos realmente reavivar a autoridade política necessária para que possamos agir como povo.

O próprio Brexit, a intervenção do Partido Brexit e a rejeição da classe trabalhadora provincial à posição antidemocrática do Partido Trabalhista têm demonstrado um compromisso profundo e permanente com a democracia na Grã-Bretanha. Esta experiência demonstra que existe uma base real para uma nova ideologia política democrática através da qual nos podemos representar como povo, e preencher o vazio que o populismo não pode preencher. A democracia radical imagina-nos não como consumidores individuais vulneráveis, mas como cidadãos autogovernados. Ela implica uma política que coloca a democracia na raiz não só do Estado, mas também da economia e da vida individual. Devemos fazer nascer  essas políticas democráticas radicais, desenvolver um ethos democrático que englobe todos os aspetos da nossa vida coletiva, um ethos que possa inspirar os cidadãos a rejeitar as temíveis  políticas identitárias  e divisórias da fracassada ordem neoliberal.

 

 

About the Author

​Peter Ramsay is Professor of Law at the London School of Economics and Political Science.

References

[1] Colin Crouch, Post-Democracy (Cambridge: Polity, 2004), p. 4.

 

Para ler este artigo no original clique em:

https://www.thefullbrexit.com/limits-of-populism

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/10/a-derrota-de-corbyn-uma-consequencia-da-crise-politica-a-ocidente-vi-os-limites-do-populismo-por-peter-ramsay/

A REVOLTA DOS TRABALHADORES CONTRA O PARTIDO TRABALHISTA – por PHILIP CUNLIFFE

 

The Workers’ Revolt Against Labour, por Philip Cunliffe

The Full Brexit, 18 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A esmagadora maioria ganha por Boris Johnson nas eleições gerais de dezembro na Grã-Bretanha provocou grande consternação e desordem em toda a esquerda na Grã-Bretanha e ainda mesmo mais longe. Embora o Partido Trabalhista não esperasse mais do que um governo minoritário, na melhor das hipóteses, a escala da vitória eleitoral dos Conservadores fez com que os assentos parlamentares do Partido Trabalhista voltassem a ser em números não vistos desde os anos 30, quando o Partido Trabalhista ainda tinha apenas algumas décadas.

Em vez de aceitar isto como a queda da esquerda, deveríamos, porém, procurar a vantagem política decorrente da derrota do Partido Trabalhista. A esperança aqui reside no facto de que se trata de uma revolta da classe trabalhadora que finalmente soltou a mão morta do Partido Trabalhista dos eleitores da classe trabalhadora britânica. Esta emocionante revolta da classe trabalhadora é, por si só, um tremendo momento da história política britânica e abre uma nova oportunidade para o futuro da política radical. Será que a esquerda vai aproveitá-la?

É difícil subestimar a escala da derrota do Partido Trabalhista. Embora os trabalhistas já tenham sofrido enormes derrotas eleitorais, nomeadamente nos anos 80, esta derrota mais recente é qualitativamente diferente, porque o partido não só foi rejeitado como perdeu os seus bastiões históricos. Os círculos eleitorais em que a própria greve dos mineiros foi combatida votaram agora nos Conservadores, expulsando até a classe trabalhadora e os deputados trabalhistas que apoiam o Brexit, como Dennis Skinner e Caroline Flint. Foi a partir de fortalezas como estas que o Partido Trabalhista conseguiu, outrora, avançar para assegurar os eleitores da classe média nos círculos eleitorais marginais do Sul e, assim, recuperar o poder após as derrotas dos anos 80. Esta foi a estratégia de triangulação que levou Tony Blair ao poder em três eleições depois de 1997. Os eleitores da classe trabalhadora fecharam agora essa opção.

Como a derrota ocorreu sob Corbyn, não surpreende que as pessoas tenham olhado para a sua política e dos  seus apoiantes  para procurarem entender o fracasso do Partido Trabalhista. Sem dúvida que há muito a criticar no Corbynismo, efetivamente um projeto dos  milenários  nascido no sudeste do país, cuja estratégia eleitoral se baseava em prodigalizar o resto do país com promessas de aumento na despesa pública, ignorando ao mesmo tempo a sua exigência para se passar a ter uma influência política real. Deste ponto de vista, o problema com o Partido Trabalhista era que ele se tinha tornado demasiadamente um Partido da classe média, os seus membros eram mais militantes saídos das Universidades   do que  membros de sindicatos, as suas novas bases eleitorais estão mais assentes em cidades universitárias e nos centros das grandes cidades  em vez de nas cidades mais pequenas da classe trabalhadora, comunidades costeiras e da Grã-Bretanha ex-urbana, com os  seus valores demasiado pretensiosos, demasiado liberais e demasiado metropolitanos para a maioria dos eleitores. O próprio Corbyn foi visto como símbolo desta altivez política: um londrino de zona nobre, fundamentalmente como um ativista do norte de Londres e um militante em série cujo patriotismo era sempre suspeito.

Embora esta seja uma imagem precisa do atual quadro de ativistas trabalhistas, o verdadeiro erro seria imaginar que esta  situação era, de alguma forma, uma nova partida para o Partido Trabalhista. Em alguns aspetos, a perda dos trabalhistas nas classes trabalhadoras nas terras do centro e norte da Inglaterra põe o Partido Trabalhista em face às suas origens. O Partido Trabalhista emergiu no liberalismo social radical do final do século XIX e início do século XX. A evolução do Partido Trabalhista começou com o apoio do Partido Liberal aos candidatos sindicais e à formação de pactos eleitorais com políticos proto-trabalhadores como forma de diluir o voto Tory, que o primeiro-ministro Benjamin Disraeli tinha procurado expandir ao emancipar-se da crescente classe trabalhadora através da Lei da Representação do Povo de 1884. O patrocínio liberal permitiu que os líderes sindicais se consolidassem no Partido Trabalhista Independente e no Comité de Representação do Trabalho, no qual os líderes sindicais procuraram promover a sua própria influência e poder como mediadores entre empregadores e trabalhadores. Por muito patriótico que seja ou não seja,  Corbyn, ele é a encarnação viva desta longa tradição do liberalismo radical inglês, desde as suas simpatias pelo nacionalismo irlandês até ao seu vegetarianismo e moralização clerical, passando pela sua parceria na fabricação artesanal de compota!!!!!

O corbinismo não representou uma rutura radical com as tradições trabalhistas porque o Partido Trabalhista sempre foi um veículo para que as ideias liberais da época dominassem a esquerda, uma espécie de ponte da classe média com a classe trabalhadora. A ideia liberal reinante dos nossos dias – o liberalismo interseccional, em que a população está fragmentada em identidades vulneráveis, todas competindo entre si pela proteção do Estado – também sofreu um golpe ao lado da derrota de Corbyn. A derrota dos interseccionalistas[1] será agravada à medida que as suas ridículas tomadas de posição políticas de que o Brexit significaria inaugurar uma nova era de autarcia fascista serão expostas a nu como sendo posições erradas. Embora se revoltem contra a perspetiva da austeridade neoliberal e do nacionalismo racial, os conservadores comprometeram-se a aumentar o salário mínimo e a aumentar os gastos do Estado com infraestruturas, educação e hospitais, num esforço concertado para assegurar os seus novos ganhos eleitorais – tudo sob os auspícios do gabinete mais etnicamente diversificado da história britânica e com uma maioria parlamentar composta por deputados jovens, do norte, homossexuais e  membros da classe trabalhadora.

Ao longo da primeira metade do século XX, intelectuais da classe média aliaram-se aos líderes sindicais para usar o Partido Trabalhista para atrair a classe trabalhadora para o compromisso com os empregadores que reordenaram a Grã-Bretanha depois de 1945. Contudo, quando a classe empresarial se revoltou contra o acordo do pós-guerra nos anos 70 e 80, tanto o Partido Trabalhista como os líderes sindicais não conseguiram defender os interesses da classe trabalhadora. A vida cívica e política da classe trabalhadora foi destruída, deixando os trabalhadores politicamente desorganizados, desmoralizados e desmobilizados. A União Europeia (UE) tornou-se um refúgio transnacional para os líderes sindicais derrotados e para os social-democratas se refugiarem. Os seus fundos de desenvolvimento regional e as lamentáveis proteções laborais foram encaradas  com gratidão como compensação por derrotas políticas a nível nacional. Este recuo para o nível da  UE lançou as bases para o centrismo tecnocrático da Terceira Via da era de Blair, no qual a autoridade supranacional foi utilizada para enraizar os avanços do Thatcherismo sob a forma do Mercado Único. A era Blair nada fez para reverter estas derrotas anteriores; nem uma única parte das leis antissindicais de Thatcher foi revogada, por exemplo.  A hipertrofia das adesões ao partido durante a liderança de Jeremy Corbyn desde 2015 projeta a ausência de qualquer base social organizada. Um núcleo primordial de jovens da geração do milénio, (n.t. – geração Y com elevados níveis académicos, mas em perda de estatuto social) excluídos do mercado de apropriação de riqueza e apaixonadamente apegados à UE enquanto território cosmopolita do interior longínquo, propiciador de refúgio relativamente aos seus concidadãos, nunca ia contrabalançar a densidade sindical e as estruturas articuladas da organização laboral.

Se a eleição é uma derrota para o Corbynismo, não é menos uma derrota para o Blairismo. A premissa do Blairismo – de que o partido tinha de passar a ser um partido do centro no que  diz respeito à  política económica para ganhar as eleições – foi agora desvalorizada pelo próprio Partido Conservador. No contexto atual, os Blairistas são mais conservadores do que os Conservadores atualmente no poder, cujo programa económico se deslocou para a esquerda, evidenciado nas subsequentes declarações  de Boris Johnson sobre o aumento das despesas do Estado e a defesa do  Serviço Nacional de Saúde, após a sua vitória eleitoral. O centro da decisão em termos de política económica está a mudar  para a ajuda estatal, maior despesa pública  e supervisão governamental do mercado, deixando os Blairistas à deriva. Assim como o Thatcherismo tornou o Blairismo viável, a viragem dos Tories para  Uma Nação Conservadora significa que o Blairismo está acabado. Os Conservadores vão agora liderar uma revolta da classe trabalhadora para derrubar a ordem neoliberal. Em última análise, os Blairistas e os interseccionalistas são apenas alas diferentes do neoliberalismo, e o seu ponto comum é bem posto em evidência  na sua reverência conjunta pela autoridade supranacional da UE, vista como um contrapeso para a democracia de massas a nível nacional e é esta última  que tanto os Blairistas como os interseccionalistas temem e desprezam.

 De todas as fações que agora competem pelo futuro do Partido Trabalhista, os Lexiteers ( partidários da saída do Reino Unido da EU mas através de um programa à esquerda) são claramente a que mais ganha, pois a sua posição parece ter sido justificada pelo extermínio eleitoral dos Trabalhistas. Foram os Lexiteers of Blue Labour e a campanha Leave-Fight-Transform (LeFT[2]) que mais consistentemente advertiram contra  o perigo da hostilidade do Partido Trabalhista contra Brexit e contra  a sua deriva para a defesa de um segundo referendo. Foram também os Lexiteers que defenderam consistentemente o majoritarismo democrático e resistiram ao persistente desprestigiar  dos adeptos da classe trabalhadora do Partido Trabalhista que no Partido Trabalhista  defendiam o Leave, acusando-os de serem  ignorantes, senescentes e racistas. Embora os Lexiteers estejam em número inferior aos milenais defensores da interseccionalidade  no Partido Trabalhista, o seu estatuto moral está agora consideravelmente reforçado.

Os Lexiteers comunitarianos do Blue Labour viram corretamente que as estruturas políticas vestigiais da nação continuavam a ser um dos poucos meios pelos quais os trabalhadores podiam responsabilizar os seus governantes cosmopolitas, enquanto as suas famílias forneciam refúgio tanto face ao Estado Providência como ao mercado. No entanto, por todo o seu apoio a Brexit e a sua compreensão da democracia de massas, os Lexiteers partilham semelhanças com os Blairistas e os defensores da interseccionalidade.

Por um lado, o máximo que a fação Blue do Partido Trabalhista pode oferecer é mais política de identidade, é, desta vez, mais política de identidade da “classe trabalhadora tradicional” – “família, fé e bandeira” – do que do multiculturalismo de classe média e do  seu anticolonialismo fantasista,   uma teoria cultural chique  cara aos partidários da interseccionalidade. O Blue Labour reproduz assim a lógica da política de identidade ao procurar reforçar o estatuto de outro grupo desfavorecido, sub-representado, marginalizado, excluído das instituições de elite e a sofrer um apagamento cultural num discurso público dominado pelo interseccionalismo. No entanto, os eleitores da classe trabalhadora a quem apelam já se emanciparam de um dos aspetos mais importantes das suas identidades tradicionais; já não são eleitores trabalhistas. Porque deveriam eles agora limitar-se também a estas outras identidades “tradicionais”?

Por outro lado, os marxistas-lexiteers (marxistas  defensores de um Brexit à esquerda)   da campanha LeFT estão agora na posição em que estiveram os Blairistas no início da década de 1990, procurando, após a derrota, remodelar a estratégia eleitoral do Partido Trabalhista em torno de uma nova economia política Conservadora  – só que esta será uma economia política nacionalista e não globalista, estruturada em torno da saída da UE e não da integração no Mercado Único. Aqui, eles estão apenas a seguir  os Conservadores tal como os Blairistas em tempos fizeram. Pior, ao procurarem restaurar o Partido Trabalhista, neste momento, estão a abdicar até da pretensão de liderança política, em vez de irem muito atrás dos eleitores da classe trabalhadora que se afastaram do Partido Trabalhista. A falta de liderança da campanha de LeFT já foi evidenciada na sua rendição às exigências dos Remaineers para ligar o  Partido Trabalhista a um segundo referendo. Eles serão agora fortemente encurralados  e eventualmente esmagados por completo entre os trabalhistas azuis, por um lado, e os defensores da interseccionalidade, por outro.

Em qualquer caso, os eleitores da classe trabalhadora da Inglaterra e do País de Gales já deixaram os Lexiteers para trás, tendo quebrado a miragem Lexiteer de reavivar a social-democracia sob a hegemonia trabalhista. O que começou como uma insurreição democrática popular contra a tecnocracia neoliberal, com o voto Brexit em 2016, foi agora transportado para uma insurreição democrática da classe trabalhadora contra o próprio Partido Trabalhista, que continuou a vincular-se à UE. Embora tenha havido sempre um núcleo duro e trabalhador de insurreições nas urnas, nos últimos anos, foi mais acentuado nas eleições britânicas de 2019, uma vez que os círculos eleitorais trabalhistas, outrora seguros, ficaram azuis. A classe trabalhadora britânica não só viu o populismo yuppie incarnado na campanha do “Voto do Povo”, como conseguiu algo praticamente sem precedentes na história política da UE – disciplinou a sua própria classe dirigente para se conformar com o resultado de um referendo da UE. Não satisfeitos com isto, continuaram a avançar ainda mais, derrubando os partidos satélites do Norte, dominados durante gerações pelos complacentes e altos cargos dos tribunos  trabalhistas.

Os eleitores da classe trabalhadora do País de Gales, do norte da Inglaterra e das Terras Médias fizeram uma aposta ousada na independência política. Tendo-se libertado da dominação trabalhista, os eleitores da classe trabalhadora destas regiões vêem que os políticos são licitáveis e que têm de competir para os representar com ofertas tangíveis de melhoria material para as suas vidas: eles vivem agora na situação de  “estados eleitoralmente decisivos”. As sondagens sugerem que os eleitores dos círculos eleitorais insurretos estão – com justiça – profundamente desconfiados dos Conservadores, cujas políticas nacionais devastaram os vales galeses e as cidades do norte do País de Gales. Os Conservadores não vão afrouxar a sua legislação anti-laboral repressiva, pois – com amarga ironia – prometeram agora esmagar um dos sindicatos mais militantes contra a UE, o Sindicato dos Trabalhadores dos  Transportes, Marítimos e dos Caminhos-de-Ferro. No entanto, Boris Johnson já foi mais longe do que o indolente Partido Trabalhista, quando observou, no seu discurso de vitória, que os eleitores do Norte apenas lhe “emprestaram” os seus votos, reconhecendo assim os eleitores da classe trabalhadora como atores políticos.

Tendo-se libertado da hegemonia trabalhista, quem poderia em boa consciência procurar pastorear os eleitores do norte rebelde de volta ao mesmo Partido Trabalhista que tanto tempo lhes mentiu? Limitar agora Brexit à restauração da social-democracia seria desperdiçar o seu potencial democrático – o seu potencial para reunificar a Irlanda, para abolir a Câmara dos Lordes, para reformar completamente o sistema político-partidário, para reestruturar a economia política britânica. Afinal, o objetivo do socialismo não é preservar ou respeitar a classe trabalhadora como um grupo de identidade cultural, mas sim de abolir a classe por completo.

Até que ponto esta nova independência política da classe trabalhadora pode ser sustentada depende, portanto, em parte de como os outros trabalhadores aprendem a lição política da exigência do Norte de que seus direitos democráticos sejam respeitados. A esquerda interseccional do Partido Trabalhista, liderada por Paul Mason[3] e Ash Sarkar,[4] exortou os trabalhadores trabalhistas a abandonarem os alegadamente incorrigíveis eleitores racistas da classe trabalhadora do Norte, que eles comparavam aos porcos – “gammon” – e a virarem-se, em vez disso, para a  classe trabalhadora jovem, mais diversificada, multiétnica, do sector dos serviços do interior das cidades e, especialmente, do sudeste: os limpadores, os porteiros e os guardas de segurança que trabalham nos cafés, nos bancos, nos arranha-céus da cidade e nos campus universitários. Infelizmente para Mason e Sarkar, essa “nova classe trabalhadora” precisa de autodeterminação, soberania, democracia e direitos políticos tanto quanto os eleitores da classe trabalhadora do País de Gales, das Terras Médias e do Norte. Mesmo que não os menosprezem abertamente como porcos, ao apelar ao apoio a um segundo referendo para “Permanecer e Reformar ” na UE, Mason e Sarkar mostraram que desprezam esta “nova” classe operária tanto quanto desprezam a classe operária do Norte. Se a eleição geral de 2019 nos ensina alguma lição, é que esta complacência, também, acabará por ser abalada.

Karl Marx disse que, acima de tudo, a burguesia produz os seus próprios coveiros: o proletariado. Ao dizimar a base eleitoral trabalhista, os eleitores da classe trabalhadora do norte da Inglaterra, das Terras Médias e do País de Gales, atiraram o cadáver do Partido Trabalhista burguês para a cova e começaram a atira-lhe a terra por cima. Seria um erro profundo para a esquerda procurar salvar o cadáver por baixo das pás dos trabalhadores.

​__________

[1] (N.T.)A teoria da interseccionalidade é algo complexa. Originalmente, esta teoria foi  concebida como uma estrutura analítica para melhor compreender a natureza da opressão humana. A  teoria interseccional é muitas vezes encarada, fora dos meios académicos, como uma ideologia vitimológica, o inferno determinado a desconstruir o alegado patriarcado hegemónico branco, caracterizado por uma linguagem enredada  e impulsionado pelo estigma da vergonha histórica. A tese central desta descendência da teoria racial crítica e do feminismo da terceira vaga é que devemos interpretar o mundo através de uma análise da intersecção das nossas várias identidades grupais (mulher branca, homem hispânico deficiente, etc.) para melhor compreender a anatomia da opressão sistémica.

Por exemplo, a ideia de que certos grupos sofreram mais opressão histórica do que outros e, portanto, que se lhe devem   certos direitos não é novidade, mas a prescrição interseccional de que a vitimização histórica pode ser entendida como uma espécie de equação matemática de opressão, na qual a intersecção das nossas várias identidades cria uma hierarquia moral imposta, com as vítimas no topo e os privilegiados na base, é um fenómeno bastante recente.

Tem sido desenvolvida com o sentido  de incluir cada vez mais grupos historicamente marginalizados e encapsula um processo de opressão sistémico cada vez mais amplo. Estas ideias tornaram-se a norma entre a geração do milénio, proporcionando a priori um quadro  de perceção , que nos leva a abordar muitos problemas modernos através da lente identitária de grupos  e da opressão histórica – separando as vítimas nobres dos privilegiados para estabelecer quem representa simbolicamente o bem e quem é emblemático o mal. Uma ideologia totalizante como esta está preparada para acender chamas reacionárias em ambos os lados do corredor político e alimentar a guerra cultural na América e noutros lugares.

de Samuel Kronen, in Areo https://areomagazine.com/2019/04/25/intersectionality-is-wrong-for-the-right-reasons/

[2] (N.T.) No Manifesto da criação deste movimento pode-se ler: “Desde os armazéns da Amazon.com  aos estaleiros de Belfast, os trabalhadores exigem uma rutura – uma rutura com o falido sistema de austeridade, neoliberalismo e capitalismo. Os últimos quarenta anos têm sido uma era de declínio dos salários reais, austeridade, ataques aos direitos sindicais e dos trabalhadores, abuso sobre os migrantes, o esvaziamento da democracia e a escalada da crise ambiental. A classe trabalhadora de todo o mundo está a exigir  uma alternativa a este status quo fracassado.

 A história mostra que se a esquerda não oferece uma alternativa genuína e transformadora ao capitalismo em crise, os falsos profetas da direita vão intervir com suas promessas vazias e utopias reacionárias. Para oferecer uma alternativa séria, a esquerda deve exigir e liderar uma rutura com um sistema de capitalismo global que é irremediável e podre até ao seu núcleo. Para os socialistas de hoje na Grã-Bretanha isso significa pedir uma rutura com a UE, romper com a lógica do neoliberalismo e construir uma alternativa radical.

Partir – Lutar – Transformar: A Campanha LeFT é uma rede de base de socialistas, sindicalistas e ativistas comunitários, empenhados com a democracia, o internacionalismo e o socialismo. Reconhecemos que o modelo económico neoliberal falhado ajudou a produzir tanto a votação para deixar a UE no referendo de 2016, como o aumento do apoio a um Partido Trabalhista de esquerda nas eleições gerais de 2017 com um manifesto radical, em que se promete uma mudança genuína.”

[3] (N.T.) Para se perceber a importância do que  escreve Philip Cunliffe frise-se que Mason é um Remainer e foi o conselheiro de  John McDonnell, a segunda figura do governo sombra trabalhista . Deixemos aqui na língua original algumas das afirmações de  Mason, reproduzidas de um texto de HuffPost:

“: Labour should ignore right-wingers who “hate blacks, hate women and hate gays” in order to win a second referendum campaign to stay in the EU, Paul Mason has said.

The former advisor to John McDonnell said the party should stop trying to convince the “ex-miner sitting in the pub calling migrants cockroaches” to change their mind – and instead focus on inspiring progressive or centrist voters.

It comes in the wake of a disastrous European election for Labour, which saw Jeremy Corbyn’s party haemorrhage support to the Greens and Liberal Democrats.

Mason, who was speaking at an event on the future of the pro-Remain left at the London School of Economics, said Labour should use the summer to embark on a ‘stop Brexit’ tour of Britain by organising “conventions of progressive people”.

He added: “And if people who hate blacks, hate women, hate gays, don’t want to come to them – don’t bother.

“Don’t worry about it. They can go off and do their own thing. We need Labour to bring in the Greens, the Lib Dems and the millions who didn’t vote over.”

He added: “I’m done with triangulation, not only with right wing voters. I’m done with triangulation from members of the shadow cabinet.”

He added: “I’m done with people saying ‘we can’t lose the working class’, a Lithuanian nurse is working class, an Afghan taxi driver is working class.

“An ex-miner sitting in the pub calling migrants cockroaches has not only no added human capital above the people I just mentioned but it’s also not the person we are interested in.”

[4] (N.T.) Quanto  a Sarkar diz-nos um analista: Sarkar “came up with a brilliant long-term solution to Labour losing working-class support: just redefine what it means to be working class! In a piece for the Guardian, she argued that it was a myth that Labour had lost touch with working-class people because it is supported by young people and low-paid white-collar graduates. The idea here is that woke young graduates in the inner cities are the new working-class bedrock of the Labour Party and that the voters Labour went on to lose in towns like Dudley and Wrexham are expendable.” Veja-se: (a) Ieuan Joy, Corbyn’s media outriders need to go away, disponível em: https://www.spiked-online.com/2019/12/23/corbyns-media-outriders-need-to-go-away/. Veja-se ainda o elucidative texto de Ash Sarkar: Opinion-General election 2019 .It’s a myth that Labour has lost the working class, publicado pelo The  Guardian e disponível aqui. Se o leitor leu o artigo de Sarkar  , sugiro então que leia o texto de Sir John Curdice aqui:

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/09/a-derrota-de-corbyn-uma-consequencia-da-crise-politica-a-ocidente-v-a-revolta-dos-trabalhadores-contra-o-partido-trabalhista-por-philip-cunliffe/

5G da discórdia: Trump eleva o tom contra Boris Johnson em conversa sobre Huawei

Donald Trump fala com repórteres no jardim externo da Casa Branca, em Washington, EUA, em 7 de fevereiro de 2020
© AP Photo / J. Scott Applewhite

Donald Trump repreendeu o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, após Londres ter rejeitado as exigências dos EUA e autorizado a instalação da rede 5G da empresa chinesa Huawei.

A administração Trump tentou persuadir o Reino Unido a recusar os equipamentos da Huawei durante meses, mas sem sucesso.

Há indícios de que a visita do primeiro-ministro britânico a Washington seja adiada por causa da discórdia em torno da Huawei.

A reação dura do presidente dos EUA, Donald Trump, reportada inicialmente pelo jornal britânico Financial Times, pode prejudicar a posição britânica durante o processo de negociação do novo acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

O futuro acordo de livre comércio entre os dois países foi apontado pelo governo de Johnson como um dos principais trunfos que Londres poderá obter após a saída do país da União Europeia, concretizada em 31 de janeiro.

Primeiro ministro britânico, Boris Johnson, observa performance em comemoração ao Ano Novo chinês, em Downing Street, Londres, Reino Unido, em 24 de janeiro de 2020
© AP Photo / Matt Dunham
Primeiro ministro britânico, Boris Johnson, observa performance em comemoração ao Ano Novo chinês, em Downing Street, Londres, Reino Unido, em 24 de janeiro de 2020

No dia 28 de janeiro, o governo do Reino Unido optou por permitir que a Huawei instale equipamentos "não centrais" para operar a rede 5G do país.

A gigante tecnológica chinesa ficará limitada a 35% do mercado do Reino Unido e não poderá operar em locais considerados sensíveis, como instalações nucleares ou militares.

Os Estados Unidos adotaram uma política de contenção da expansão da empresa chinesa Huawei, que tomou a dianteira no desenvolvimento da infraestrutura para a tecnologia 5G e oferece acesso mais rápido à Internet para os consumidores.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020020915198793-5g-da-discordia-trump-eleva-o-tom-contra-boris-johnson-em-conversa-sobre-huawei/

A União Europeia (UE), o Brexit e o reinocídio

A UE iniciou o mês de fevereiro com a redução drástica da área, do PIB, da segurança e da estabilidade, amputada do RU, numa aventura que abala a economia, os mercados e a paz, que os secessionistas comprometeram nos dois lados do Canal da Mancha.

A UE perdeu a segunda economia, a primeira potência militar e o país que equilibrava a ambição dos maiores. A UE ficou mais pobre e o RU mais dividido, isolado, decadente e xenófobo, a lamber feridas do império perdido, mais só, com instituições anacrónicas, em risco de reservar a Cruz de S. Jorge para a bandeira da Inglaterra e País de Gales.

O RU foi a esperança da Europa na mais velha democracia quando a horda nazi parecia invencível, e cumpriu o dever que alimentou essa esperança. Hoje é um país à procura de identidade perante a fronteira que ameaça rasgar o Acordo de Sexta Feira Santa e dilacerar de novo a Irlanda, o pendor europeísta da Escócia e os humores da presidência dos EUA, de que ficará cada vez mais refém.

Até Gibraltar e as Ilhas Malvinas podem ser um problema para a maior potência nuclear a leste da Rússia, enquanto se acentua a predisposição de offshore financeiro de que não prescindiu durante a permanência na UE.

A rainha de Inglaterra é a metáfora de um país decadente e envelhecido, enquanto a UE arrisca a explosão de nacionalismos e a implosão. Espanha, Itália e Bélgica aguardam a oportunidade para se fragmentarem, e a paz e prosperidade de 75 anos podem não durar muito no espaço para onde olham a Rússia e a Turquia e cujos mercados são disputados, com a sua progressiva irrelevância geoestratégica, pelos EUA, China e Índia.

Sem barreiras alfandegárias nem passaporte, apenas restará na UE o inglês, como língua comum da Europa cosmopolita e culta.

O meu entusiástico europeísmo sofreu uma dolorosa derrota.

 

Ponte Europa / Sorumbático

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/02/a-uniao-europeia-ue-o-brexit-e-o.html

UE e Reino Unido sinalizam divergências sobre comércio pós-Brexit

 
 
Bruxelas oferece negociação de um acordo comercial "altamente ambicioso", mas exige que Reino Unido se atenha aos padrões do bloco e que sejam incluídos termos relativos à pesca, ponto que deve ser motivo de discórdia.
 
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o negociador-chefe da União Europeia (UE) para o Brexit, Michel Barnier, falaram na segunda-feira (03/02) sobre seus planos para as relações comerciais entre o bloco europeu e o Reino Unido, três dias após o país deixar oficialmente a UE. 
 
Com o Brexit, teve início um período de transição de 11 meses durante o qual o futuro das relações bilaterais deve ser regulamentado. Nos seus discursos, Johnson e Barnier deixaram claro que ambos os lados estão dispostos a ficar sem um acordo comercial caso não se chegue a um consenso nas questões-chave.
 
Em Bruxelas, Barnier ofereceu ao Reino Unido a negociação de um pacto "altamente ambicioso", sem tarifas ou cotas para as mercadorias que entram no mercado único, desde que a concorrência seja "aberta e justa", que o Reino Unido se atenha aos padrões do bloco e que seja incluído um acordo de pesca.
 
"Este acordo deve prever o acesso recíproco contínuo aos mercados e às águas com quotas de mercado", disse Barnier.
 
 
O setor pesqueiro de oito países do bloco europeu depende altamente das águas britânicas e pode servir de moeda de troca para Londres nas negociações. Johnson já havia destacado que retomar o controle das águas é uma de suas prioridades.
 
Em discurso para empresários e embaixadores em Londres, o PM britânico disse que o seu país não deixou o bloco europeu para minar os padrões da UE e não realizará "nenhum tipo de dumping, seja comercial, social ou ambiental". 
 
Devido à proximidade física, a UE teme que o Reino Unido se torne um concorrente se não concordar em cumprir as suas normas ambientais, alimentares e de trabalho.
 
Sobre a questão da pesca, Johnson disse que serão necessárias "negociações anuais" sobre cotas, pois a prioridade é garantir o acesso dos pescadores britânicos às águas destas ilhas.
 
Boris prometeu que seu governo será um campeão global do livre-comércio num mundo em que "protecionistas estão conquistando terreno". Ao mesmo tempo, ele afirmou que o Reino Unido quer um acordo de livre-comércio, mas não a qualquer custo.
 
"Eu não vejo necessidade de nos vincularmos a um acordo com a UE", afirmou Johnson. "Nós vamos restaurar controles soberanos completos sobre nossas fronteiras, imigração, concorrência, regras de subsídios, proteção, proteção de dados." Ele pediu um acordo comercial semelhante ao CETA (entre Canadá e UE).
 
Ambos os lados têm até ao final do período de transição para alinhar suas posições. Se não houver acordo até ao final de 2020, e o Reino Unido recusar prolongar o período de negociação, o país pode enfrentar uma ruptura económica abrupta com o bloco europeu, com a imposição imediata de tarifas e outros obstáculos para o comércio bilateral.
 
O mandato de negociação de Barnier será discutido e aprovado pelos 27 países-membros da UE no final deste mês, com negociações comerciais diretas com Londres previstas para começar no início de março.
 
Deutsche Welle | FC/afp/ap/rtr/dpa
 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/ue-e-reino-unido-sinalizam-divergencias.html

Reino Unido | Boris tentou escolher jornalistas para conferência, todos se foram embora

 
 
Alguns jornalistas de política que estavam na residência oficial do primeiro-ministro para ouvir uma conferência foram impedidos de entrar. E os outros o que fizeram?
 
Os correspondentes de política de várias publicações britânicas abandonaram esta tarde o número 10 de Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro, em protesto para com a tentativa de selecionar os jornalistas que podiam ouvir uma conferência de imprensa de Boris Johnson sobre a União Europeia.
 
De acordo com o reportado pelo Guardian, os jornalistas que estavam no local foram separados em dois grupos por um segurança. Um dos assistentes do primeiro-ministro disse, depois, a um dos grupos que tinha que sair do edifício.
 
E em protesto contra a tentativa de escolher quem pode ou não noticiar sobre o governo britânico, os restantes jornalistas saíram também.
 
 
Os jornalistas que estavam fora da lista pertenciam, por exemplo, ao The Mirror, i, Huffington Post, PoliticsHome, Independent. E os correspondentes da BBC, ITV, Daily Mail, Telegraph, The Sun, Financial Times e o próprio Guardian, segundo a mesma publicação, decidiram não ficar para ouvir a conferência e saíram.
 
"A conferência de imprensa iria ser feita por representantes do governo, que devem ser neutros e não com tendência política", escreve o Guardian. "A tática de Downing Street imita aquelas do Donald Trump nos Estados Unidos, que é conhecido por tentar impedir jornalistas de noticiar as suas atividades e representa uma escalada das tensões com os meios de comunicação", acrescenta a publicação.
 
Um antigo editor de política do Guardian, Patrick Wintour, elogiou os colegas através do Twitter, indicando que "estão grandes princípios em causa". "Downing Street parece apoiar o comércio livre de bens mas não de informação", escreveu.
 
British political reporters right to stick together to stop No 10 choosing who scrutinises the PM. Big principles at stake. Number 10 seems to back free trade in goods but not in information. pic.twitter.com/QBfISztnhj
 
— Patrick Wintour (@patrickwintour) February 3, 2020
 
Notícias ao Minuto | Imagem em Google
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/reino-unido-boris-tentou-escolher.html

PORQUE É QUE A “MURALHA VERMELHA” DOS TRABALHISTAS DESABOU, por CHRIS MCGLADE

 

Why Labour’s “Red Wall” Finally Crumbled, por Chris McGlade

The Full Brexit, 19 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Para defender o valor dos nossos votos, as comunidades da classe trabalhadora não tiveram outra escolha senão votar Partido Conservador, devido a sentirem-se traídas  pelo Partido Trabalhista, escreve Chris McGlade.

 

Eis-nos perante um testemunho fundamental para compreender a situação não só na Grã-Bretanha, mas em todos os países da Europa. Publicado no site “Fullbrexit”, este testemunho tem sido amplamente divulgado.

 

“Eu sou de Redcar, uma antiga cidade industrial em Teesside. Nunca tivemos um deputado conservador, mas apesar dos conservadores terem dizimado a nossa indústria siderúrgica, fechado o nosso forno de coque e o maior e mais antigo alto forno da Europa, a Redcar  votou esta semana mesmo assim  como conservadora, por uma enorme margem de 15,5% face ao  Partido Trabalhista. Eu já fui membro do Partido Trabalhista. Eu estive afetivamente muito próximo de Militant  quando tinha 18 anos. Já estive em três sindicatos. Toda a minha família é da classe trabalhadora, saída da imigração irlandesa e tem sido apoiante do Partido Trabalhista durante décadas. Não nos fizeram uma lavagem cerebral, mas todos votámos Conservadores.

 

Porque é que votámos conservador? Porque esperamos ser ignorados pelos Conservadores, mas não esperamos ser ignorados pelo nosso próprio partido e foi isso que aconteceu. O Partido Trabalhista é dominado e controlado por liberais progressistas de classe média que não pensam como nós, não falam como nós, não agem como nós, que não sofreram como nós. Eles olham-nos de cima como se tivessem a andar sobre  alguma coisa. Eles  preocupam-se tão pouco connosco exatamente como os Conservadores, mas esperamos isso dos Conservadores. Não esperamos isso do nosso partido, o partido criado para nos defender, não para zombar de nós e pensar que somos uns brutos e racistas  porque votamos para deixar o clube dos mega ricos conhecido sob o nome de  União Europeia.

 

As pessoas da classe trabalhadora não são intolerantes. Pouco importa a raça, cor, credo, religião, sexo ou sexualidade. Mas os liberais progressistas estão convencidos de que todos nós somos atrasados. Desde as eleições, eles vêm para o  Facebook e chamam as pessoas da classe trabalhadora de ignorantes, estúpidas e racistas, dizendo que nós mesmos estamos a dar cabo das nossas vidas. Uma mulher culpou-me por ter arruinado a educação da filha. Outra mulher disse que arruinámos o serviço de saúde, que piorámos a nossa situação. Outro até disse que a classe trabalhadora seria a primeira a ser atacada.  Manifestantes nas ruas de Londres e Leeds, vieram para as ruas gritavam sobre o resultado de uma eleição democrática,  “oh, Jeremy Corbyn”. Mas Jeremy Corbyn odeia a UE tanto quanto nós. Você pode ser a favor da EU mas não ele. Ele foi forçado, com uma faca ao peito, a apoiar os Remainers.

 

Os operários sempre tiveram uma vida difícil. Não recebemos esmolas da mãe e do pai, não recebemos uma mesada para irmos fazer uma sabática à volta do  mundo. Quando o Sul estava  próspero, as nossas comunidades estavam  dizimadas. As nossas minas estavam a fechar. As nossas siderurgias estavam a ser encerradas. Sempre conhecemos a adversidade aqui e, sim, agora estamo-nos a  preparar  para mais adversidades. Quando a educação pública e os serviços de saúde declinam, são os nossos filhos que vão sofrer. Mas nós levamos tudo isso em consideração e, APESAR DE TUDO, O VALOR DO NOSSO  VOTO,  A DEMOCRACIA NESTE PAÍS, SIGNIFICAVA MAIS. PORQUE SE PERDERMOS ISSO, NÃO TEMOS MAIS NADA.

 

Falei com o meu tio de 72 anos, um canalizador reformado. Um homem duro no seu tempo, um homem orgulhoso, um homem que nunca votou Conservador até agora, e ele disse que o seu pai iria rebolar na sua sepultura se soubesse que ele o tinha feito agora. Ele votou nos Conservadores porque, como eu, não teve escolha. Votámos LEAVE, ou seja, defensores da saída da EU,  e os liberais progressistas de classe média que dominam o Partido Trabalhista fizeram de nós um partido de Remainers, defensores da permanência do Reino Unido na EU.   O meu tio disse: “Como posso eu votar num deputado que ignorou os seus próprios eleitores?” E a resposta foi, não podemos. Ela não merecia ser reeleita só porque usava uma rosa vermelha.

 

O Partido Trabalhista já não representa  os trabalhadores do Nordeste. Já não fala mais connosco. Não pensa como nós. Já não é como  nós. Nós não temos voz. E assim votámos no único partido que se ofereceu para respeitar aquilo em que votámos em 2016. Ontem votámos em Redcar pela democracia e pelo valor do nosso voto. Se tivéssemos perdido isso por causa de um grupo de liberais progressistas de classe média que foram eleitos e que organizaram  um segundo referendo, teríamos perdido tudo. Eles levaram-nos  tudo daqui, até o nosso Partido.. O nosso voto, a nossa única proteção contra eles, não nos poderia ser tirada também.

 

A relação entre trabalhadores do norte e os trabalhistas  é como uma relação de violência, em que se está com uma pessoa horrorosa que nos maltrata , eles continuam a mentir-nos nas nossas costas com outras pessoas. Mas porque se gosta do Partido Trabalhista, continua-se a apoiá-lo,  , porque ele é tudo o que sabes, porque tens medo de a deixar, porque fomos  enganados a pensar que não conseguimos  viver sem ele e que precisas dele. Então de repente, numa manhã, acordas e pensas: Não tenho de aturar mais isto. Não tenho necessidade de ninguém a olhar para mim. Eu vou deixar o Partido. E de repente vai-se  acabar com isto,  vai-se  encontrar outra pessoa. Podem ser melhores, podem ser piores – quem sabe? Quando se  termina uma relação abusiva, a pessoa que abusou de você volta, tenta abraçá-lo, tenta voltar a  juntar-se, e quando  não se lhe dá o que ela  quer, ela torna-se má e começa a abusar de nós.  É exatamente assim que tem sido a relação entre o povo do Norte, a classe trabalhadora, e o Partido Trabalhista. Eles tomaram-nos  por garantidos, trataram-nos como lixo,  desprezaram-nos, cortejam os liberais progressistas de classe média, e nós estamos fartos. Merecemos mais do que ser mantidos de rastos e aí ficar todo o tempo.

 

Dizem-nos constantemente que não devemos fazer discriminação  com base no sexo, género, raça e religião. Mas há uma discriminação constante contra a classe trabalhadora – branca, negra, muçulmana, cristã. Toda e qualquer instituição e profissão na sociedade é dominada pela classe média liberal, que constantemente nos insulta, depois nos liga e nos deseja mortos porque estamos fartos de um Partido Trabalhista que já não nos representa e não tivemos outra escolha senão votar no único partido que manteria a decisão que tomamos em 2016. Quanto mais estamos a ser vítimas de abusos  mais justificado eu me sinto em ter votado no Partido Conservador.

Fonte:  Chris McGlade, sitio The Full Brexit, Why Labour’s “Red Wall” Finally Crumbled. Texto disponível em:

https://www.thefullbrexit.com/post/why-labour-s-red-wall-finally-crumbled

Sobre o autor:

Chris McGladeis a comedian who came up through the Working Men’s Club circuit, and who performed as George the boxing coach in the West End run of Billy Elliot. His new show, Forgiveness, runs at London’s Soho Theatre from 26-29 February 2020.

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/03/porque-e-que-a-muralha-vermelha-dos-trabalhistas-desabou-por-chris-mcglade/

Incidente terrorista em Londres. Um morto, três feridos (um em perigo de vida)

 

A polícia de Londres informou que o incidente “relacionado com terrorismo” registado hoje num bairro da capital britânica, e que a fez abater um homem, resultou em três feridos, estando um em perigo de vida.

 

Um homem foi esta tarde abatido pela polícia de Londres, durante um incidente que foi considerado como “terrorismo” e que a polícia acredita ter motivações religiosas.

Segundo a polícia metropolitana, citada pela AP, 3 pessoas ficaram feridas, uma das quais, em estado grave, está a ser tratadoa ferimentos que o colocam em risco de vida.

Ao início da tarde de hoje, agentes da polícia londrina balearam mortalmente um homem, suspeito de estar envolvido numa cena de esfaqueamento decorrida numa rua de comércio do bairro de Streatham, no sul de Londres.

A polícia metropolitana declarou de imediato que o incidente violento está “relacionado com terrorismo” e que existem razões para crer que o homem era islamita. Segundo testemunhas citadas pela AP, o homem estava vestido com o que parecia ser um colete parecido com os que são usados em ataques-suicida.

De acordo com a estação de televisão britânica BBC, várias testemunhas relataram ter ouvido dois tiros cerca das 14:00, hora a que a polícia indicou ter “abatido” o suspeito.

Após o alerta, vários veículos de emergência médica deslocaram-se rapidamente para a rua onde aconteceu o incidente, igualmente sobrevoada por helicópteros, segundo vídeos partilhados nas redes sociais e citados pela AP.

O mayor de Londres, Sadiq Khan, confirmou o incidente e reagiu através de um comunicado publicado no seu perfil no Twitter.

 
 

My statement on today's incident in Streatham. pic.twitter.com/x7rWASs1Xs

— Mayor of London (@MayorofLondon) February 2, 2020

 

“Os terroristas querem dividir-nos e destruir o nosso modo de vida. Aqui em Londres nunca iremos deixar que isso aconteça”, declarou o autarca.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/incidente-terrorista-londres-um-morto-tres-feridos-um-perigo-vida-306363

A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – I – A GRANDE BRETANHA É TAMBÉM A FRANÇA … AS SUAS LIÇÕES DIZEM RESPEITO A TODA A EUROPA – por JACQUES COTTA

 

 

A Grande Bretanha É Também A  França … As Suas Lições Dizem Respeito A Toda A Europa, por Jacques Cotta

 

La Sociale, 15 de Dezembro de 2019

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A vitória de Boris Johnson e dos Conservadores na Grã-Bretanha é histórica. Tal como o colapso do Partido Trabalhista, que está a perder bastiões que eram desde há décadas considerados inexpugnáveis. Isto deve dar origem a algumas reflexões  que nos dizem diretamente respeito.

 

1. Ouvimos na rádio e televisão  que a derrota de Corbyn e dos Trabalhistas se deveu a uma agenda social excessiva. Fala-se de nacionalizações, emprego, serviços públicos. Mas este programa foi o que lhe deu a sua retumbante vitória nos anos 2015. Não a sua derrota atual.

 

2. A vitória de Johnson e dos Conservadores foi alcançada a partir de uma questão: Brexit e a soberania nacional. Foi sobre isso que Corbyn capitulou. Foi por isso que ele foi derrotado.

 

3. a campanha de Johnson retomou elementos da política social (nomeadamente nos serviços públicos, no seu desenvolvimento e na saúde) que tinham sido o alicerce da base teórica do  Partido Trabalhista. Isto explica em parte a vitória esmagadora que ele pode desfrutar.

 

4.  Corbyn fez das questões sociais e das  não sociais, uma parte central do seu programa. (os direitos dos transexuais, a questão islamita, etc.). Os trabalhadores nos seus bastiões eleitorais  mandaram-no  de volta para os bobos a quem ele se dirigia.

 

Estas são lições que nos dizem diretamente respeito, a nós  e a todos os países da Europa.

 

Na Itália, pelas mesmas razões, Matteo Salvini está prestes a assumir os bastiões históricos da esquerda italiana, em particular os bastiões do  antigo Partido Comunista Italiano. Depois da Umbria, ele pode agora voltar a sua atenção para as regiões de Emilia Romagna e Toscana. Um terremoto comparável na península ao que ocorreu do outro lado do Canal da Mancha.

 

Em cada país, os qualificativos de   “populistas” escondem esta realidade, as causas políticas para as quais massas inteiras estão a cair ou estão prestes a cair.

 

E na França, onde a esquerda está em vias de se estilhaçar, a situação não é exceção à regra. Muito justamente, Jean Luc Mélenchon vê    os zig-zagues de Corbyn com o Partido Trabalhista  como uma das causas do seu fracasso. Mas curiosamente, ele não identifica as causas, a recusa de afirmar a importância da Nação, dos seus valores, a recusa de afirmar claramente o Brexit, a adaptação a algumas questões sociais para as quais o eleitorado popular não tem qualquer utilidade, a “islamofobia” que o impele a manifestar-se  com aqueles que se reconhecem no slogan Alá Akbar, a assistência médica para todos seja na  procriação medicamente assistida seja  na procriação com barriga de aluguer, e todos estes temas são temas que basicamente evacuam a questão social e a luta contra o capitalismo contra o qual  se insere desde há mais de um ano a luta desencadeada pelos  Coletes Amarelos e na qual estes estão hoje empenhados contra o regime com a Macaronésia. Talvez não seja demasiado tarde para abrir o debate? Porque a Grã-Bretanha é a França e, mais amplamente, é cada um dos  países da Europa de hoje.

 

 

Fonte: Jacques Cotta, sitio La Sociale- Analyses et débats pour le renouveau d’une pensée de l’émancipation, LA GRANDE  BRETAGNE C’EST AUSSI LA FRANCE… SES LEÇONS CONCERNENT TOUTE L’EUROPE…… à travers la victoire de Jonhson et des conservateurs et la déroute de Corbyn et des travaillistes. Texto disponível em:

http://la-sociale.viabloga.com/news/la-grande-bretagne-c-est-aussi-la-france-ses-lecons-concernent-toute-l-europe

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/02/a-grande-bretanha-e-tambem-a-franca-as-suas-licoes-dizem-respeito-a-toda-a-europa-por-jacques-cotta/

Brexit | Um reino desunido a caminho da insignificância

(Comentário:

Será? Esta 'estranha' teimosia em diabolizar o Brexit terá fundamento ou haverá uma recusa consciente em aceitar que o Reino Unido saiu da UE porque, desde há 40 anos, os seus cidadãos estão a viver pior?)

 
 
Agora é oficial: o Reino Unido se divorcia da União Europeia. Os caminhos do Brexit foram tortuosos e assustadores, mas nada se compara ao que está por vir para o país e seus habitantes, opina Rob Mudge*.
 
Pouco mais de três anos e meio atrás, na manhã de 23 de junho de 2016, eu me forcei a pular meu ritual diário de viciado em notícias, deixando de conferir o pinga-pinga constante do meu news feed, e fui para o trabalho beatamente ignorante sobre o estado das coisas no mundo.
 
Eu havia preparado dois artigos de opinião para o dia: um para a altamente improvável eventualidade de que o Reino Unido tivesse votado para deixar a União Europeia; e o outro sobre como nós – obviamente – ficamos no bloco.
 
Não me agrada usar estes termos levianamente, mas eu estava realmente em estado de choque ao entrar na redação. Meus colegas alemães mais tarde me contaram que eu parecia ter visto um fantasma.
 
Nos últimos anos, a aparição do Brexit tomou uma forma corpórea. Mesmo naquele momento eu – ingenuamente, como se constataria – me agarrei à esperança de que o país voltaria à razão, revertendo a decisão. Enquanto amigos e colegas meus requeriam a cidadania alemã, eu adiei essa decisão até mais ou menos o último momento.
 
Embora acatando plenamente o resultado de um voto democrático, eu ainda me recuso a aceitar o processo que nos levou até aqui: uma trama baseada em falsas noções, mentiras e desinformação.
 
 
Muitos dos que foram enganados pelos líderes solipsísticos e agindo em serviço próprio – do arquiteto do Brexit David Cameron ao atual primeiro-ministro, Boris Johnson – são defensores de um Reino Unido preso no passado. É risível a noção de que uma nação que certa vez ostentou um império de colónias oprimidas tivesse que se livrar das correntes da UE.
 
Essas regras e normas, tão desprezadas por personagens governamentais tanto passadas quanto presentes, foram elaboradas e configuradas, de uma maneira ou outra, pelo Reino Unido. E quando o país não gostava delas, se eximia. Nenhum outro Estado-membro da UE se beneficiou de tantas isenções e descontos.
 
A UE não é perfeita – longe disso. Mas é uma ilusão pensar que Londres vá obter um acordo melhor com os Estados-membros e outros concorrentes importantes. Até o momento, foram assinados assim chamados "acordos de continuidade" com países como Liechtenstein, as Ilhas Faroé, Geórgia e Líbano, entre outros.
 
Sem querer desrespeitar, essas não são exatamente potências económicas. Contudo ainda não é hora de pânico. O ministro do Comércio, Liam Fox ("O acordo comercial com a UE deverá ser um dos mais fáceis da história humana"), diz que tem 40 acordos a serem assinados "um segundo" depois do Brexit. Hm, espera aí, estou tentando achar aquela lista...
 
Quão atraente é para os investidores externos um país que está perdendo suas indústrias e serviços chaves em decorrência do Brexit? Não é preciso ser um génio para deduzir por que líderes do setor automotivo estão fechando fábricas e se mudando para o continente europeu; ou por que operadores financeiros de ponta estão indo para Paris e Amsterdão. Para não falar da evasão de cérebros, quando cidadãos da UE que estiveram atuando em ciência e educação em solo britânico fizerem as malas e se forem.
 
Mas não temam, ainda há esperança. Um dos adeptos do Brexit que vive num universo paralelo é o secretário de Estado para o Brexit, Steve Barclay. Recentemente ele lembrou que 99% do vinho consumido no país é importado. Uma vez que o Reino Unido saia da UE, contudo, esse "setor vital" poderá florescer. Não estou inventando. Duas coisas: ele já parou para pensar por que todo esse vinho é importado? E desde quando a indústria vinícola britânica é um "setor vital"?
 
Vamos para um nível de ignorância mais acima – e, também aqui, ninguém seria capaz de inventar tal coisa: a deputada do Parlamento Europeu June Mummery teve recentemente uma epifânia, ao tuitar que, uma vez que o Reino Unido deixe a UE, ele não mais terá representação em Bruxelas para a política pesqueira. Se a ironia ainda não estivesse morta, esse teria sido o golpe de misericórdia. (Ela pode sempre conferir se Johnson não tem uns arenquezinhos escondidos no geladeira.)
 
O Brexit deixará a Grã-Bretanha quebrada, um reino desunido. Geograficamente, a ilha sempre esteve à parte da Europa continental. Essa distância ficará cada vez mais palpável – política, económica e socialmente.
 
Pode ser que eu não vá estar aqui para ver (uma bênção dúbia, de certo modo), mas prevejo que, dentro dos próximos 20 anos, Londres virá de rabo entre as pernas, implorando para voltar para a União Europeia – mas em termos infinitamente piores do que os que pôde disfrutar por tanto tempo.
 
Rob Mudge* Deutsche Welle | opinião

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/brexit-um-reino-desunido-caminho-da.html

PRONTO, JÁ FOI INDO (mas não será fácil ir, sem dar o litro)

«Chegou o dia. É hora de consumar o Brexit, um movimento que contraria o dogma tácito totalitário instituído pelos eurocratas de que “da União Europeia não se sai”. Verifica-se agora que sair é possível, embora a duras penas, sob enxovalhos da democracia, neste caso contra os desafiadores britânicos como se deduz ainda dos tons ameaçadores usados nas últimas horas pelas instituições de Bruxelas em relação aos 11 meses do período de transição. A situação colonial da Irlanda do Norte vai ser explorada pelo federalismo europeísta no capítulo que se segue, dentro da estratégia de transformar o Brexit num processo exemplar a não seguir por qualquer outro Estado membro.»
Ler tudo, n´O LADO OCULTO
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A economia mundial entraria em colapso se a City de Londres deixasse de fazer lavagem de dinheiro

por Chris Summers

City de Londres. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia em 31 janeiro, mas não há sinais de que os bancos deixem a City de Londres, uma das principais reivindicações dos Remainers [NT] antes do referendo do Brexit. Mas serão as engrenagens da City mantidas a girar apenas com a lavagem de dinheiro?

Nicholas Wilson , que denunciou escândalos financeiros e deu a conhecer os milhões de libras de cobranças injustas a clientes, tendo em consequência sido demitido do escritório de advocacia britânico Weightmans, afirma que a City de Londres depende do "dinheiro sujo" e diz que a economia mundial entraria em colapso se ela parasse de lavá-lo .

O Reino Unido tentou bloquear uma proposta da UE para apertar o controlo à lavagem de dinheiro

Nicholas Wilson, um ex-gerente de litígios, afirmou: "A UE queria reforçar o controlo à lavagem de dinheiro, o Reino Unido foi o único país que votou contra". "O capitalismo depende do dinheiro sujo, movimentado para realizar investimentos em todo o mundo".

Um relatório do ano passado do Centro de Pesquisa Bancária da Cass Business School pintou um quadro róseo da City no pós-Brexit. A coautora do relatório, professora Barbara Casu Lukac, escreveu: "Londres continuará sendo um elemento importante no sector global dos serviços financeiros e no mercado de capitais após o Brexit. No entanto, algumas de suas operações, capacidades e margens serão afetadas pela incerteza política da regulação a longo prazo, subjacente ao processo Brexit".

Isto contrasta fortemente com as declarações alarmistas sobre o futuro da City feitas pelo então Chanceler George Osborne, como parte de seu "Projeto Medo", antes do referendo do Brexit em 2016.

Após o referendo, David Cameron renunciou e foi substituído por outro Remainer, Theresa May. Quando seus esforços para aprovar um acordo no Brexit falharam, ela foi substituída por Boris Johnson , desde o início um entusiástico defensor da saída de UE. Em junho de 2019, durante a campanha para a liderança do Partido Conservador, Boris Johnson gabou-se de quanto havia feito pela City de Londres.

Johnson renegociou um novo acordo com a UE, mas o futuro da City fará parte das negociações sobre comércio, a realizarem-se ainda este ano. Os bancos poderão continuar a prestar serviços durante o período de transição, a começar em 1 de fevereiro, mas devem perder os seus "direitos de passaporte", que lhes permitiam oferecer serviços aos clientes nos 27 estados da UE. Uma solução possível é que os bancos do Reino Unido precisem criar uma subsidiária num estado membro da UE e então, nesse país, solicitar uma "licença de passaporte".

O Chefe da Financial Conduct Authority foi promovido, mas será que ele estava a 'dormir ao volante'?

No mês passado, o governo anunciou a nomeação de Andrew Bailey, atual chefe do Departamento Financeiro, da Financial Conduct Authority – o regulador que supervisiona os serviços financeiros e os mercados de capitais no Reino Unido – para o cargo de Governador do Banco da Inglaterra, que assumirá em março.

Mr. Bailey disse: "O Banco tem um trabalho muito importante e, como Governador, continuarei o trabalho que Mark Carney fez para garantir que o interesse público esteja no centro de tudo o que faz. É importante para mim que o Banco continue trabalhando para o público, mantendo a estabilidade monetária e financeira, garantindo que as instituições financeiras sejam seguras e sólidas."

Mas Nicholas Wilson, declarou que apenas nos últimos 12 meses Bailey fracassou em vários escândalos de destaque, como o colapso da empresa London Capital and Finance , a implosão da Woodford Investment Management e o bloqueio do imobiliário da M&G Property Portfolio por questões de liquidez. Acrescentando: "Mr. Bayley falhou seguramente ao longo de todos estes anos ao lidar com a fraude do HSBC , que relatei pela primeira vez à FCA em 2012".

Wilson foi demitido depois de ter demonstrado que o HFC Bank, uma subsidiária do HSBC, impunha ilegalmente uma sobretaxa de 16% aos clientes caso não cumprissem pontualmente o pagamento dos créditos contratados e empréstimos subprime.

Em 2017, venceu a sua batalha contra o HSBC, que foi forçado a pagar mais de 4 milhões de libras a milhares de clientes. Em 2019, outras 18 500 vítimas foram identificadas. Até agora, o HSBC concordou em pagar 30 milhões de libras e Wilson acredita que o total chegará a 200 milhões de libras.

Em março de 2019, Adrian Hill , ex-CEO do HFC Bank, afogou-se na sua casa de luxo em Oxfordshire. Num inquérito sobre sua morte, foi dito que sofria de stress, por estar convencido de que seria enviado para a prisão em resultado da investigação da FCA sobre o HFC.

Nicholas Wilson salientou que o chanceler do Tesouro do governo sombra, John McDonnell, afirmou no Parlamento em 8 de janeiro, que o histórico de Bailey na FCA deveria ter sido levado em consideração antes de ser nomeado. McDonnell disse que Bailey esteve "a dormir ao volante durante seu mandato na FCA".

O chanceler, Sajid Javid, insistiu que Bailey era "um excelente candidato, o mais relevante candidato para ser o próximo governador do Banco da Inglaterra".

Reino Unido, o país mais corrupto do mundo

Em 2016, o jornalista italiano Roberto Saviano , que passou a maior parte de sua carreira investigando a máfia, disse que a Grã-Bretanha era o país mais corrupto do mundo.

Numa intervenção no Hay-on-Wye Book Festival, Saviano disse ao público:

"Se eu perguntasse qual é o lugar mais corrupto do mundo, você poderia dizer-me que é o Afeganistão, talvez a Grécia, a Nigéria, o sul da Itália e eu vou dizer-lhe: é o Reino Unido. Não é a burocracia, não é a polícia, não é a política, mas o que é corrupto é o capital financeiro: 90% dos proprietários de capital em Londres têm sua sede no exterior".

Em resposta, Nicholas Wilson, disse: "Concordo com isso. Ele está falando sobre a City de Londres, que é a capital mundial da lavagem de dinheiro. Nada pode ser feito para limpar a City. Se algum político tentasse desmantelá-la, a economia mundial entraria em colapso. O dinheiro das drogas foi a única coisa que manteve em funcionamento os bancos durante a crise financeira de 2008".

Em 2016, o Home Affairs Select Committee declarou que 100 mil milhões de libras de dinheiro ilícito eram lavados no mercado imobiliário de Londres todos os anos.

Wilson disse ainda que o banco com a pior reputação era o HSBC , que estava envolvido em 18 dos 25 principais escândalos de corrupção listados pelo órgão de fiscalização Transparency International no ano passado. Rona Fairhead, ex-diretora do HSBC, que também foi presidente do BBC Trust e é atualmente membro da Câmara dos Lordes, foi ministra no governo de Theresa May, até maio do ano passado.

Como afirmou Wilson, as instituições políticas e financeiras estão estreitamente entrelaçadas. Existem vários exemplos de ex-parlamentares e ministros que foram trabalhar para bancos e ex-banqueiros a entrarem na política ou em cargos influentes.

A City of London Corporation recusou-se a comentar e a Financial Conduct Authority, que também foi abordada, não fez comentários.

[NT] Remainers: pessoas que no referendo de 2016 votaram pela permanência do Reino Unido na União Europeia.

O original encontra-se em sputniknews.com/...

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/financas/summers_colapso_jan20.html

Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 5 – conclusão. Por Bill Mitchell

Espuma dos dias_porcos podem voar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Publicamos uma minisérie de 8 textos sobre o debate rendimento básico universal versus garantia de emprego. O primeiro texto (ver aqui) – de Guy Standing – datado de 15 de janeiro último, escrito no rescaldo dos resultados das últimas eleições gerais no Reino Unido, reflete sobre como construir uma aliança progressista na Grã-Bretanha, colocando à cabeça dos elementos chave “combater a desigualdade e a precariedade avançando para um rendimento básico …” e terminando com uma proposta de mudança de nome de partido Trabalhista para partido Progressista.

O segundo texto é uma certeira e bem articulada resposta de Bill Mitchell (ver aqui). Como muito bem diz: “E os porcos podem voar!” Conclui ele que “As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo [emissor de moeda] não pode …… sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.”

Este oitavo (e último) texto (para o terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo textos, ver aqui, aqui, aqui, aquiaqui) faz parte de um conjunto de seis textos que são uma análise detalhada feita em 2016 por Bill Mitchell sobre a proposta de um rendimento básico garantido (ou universal), onde finalmente conclui que pela sua oposição à introdução deste Sistema, que cria um grupo estigmatizado por não trabalhar, que não fornece nenhum amortecedor de inflação, que não acrescenta nada produtivo à sociedade, independentemente do estado do ciclo económico, não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento das capacidades individuais, trata as pessoas como meras unidades de consume. Afirma Mitchell que, “essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado”. Ao contrário, “A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais” e “Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

FT

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8. Justificar-se-á o rendimento básico garantido?Parte 5 – conclusão

Bill Mitchell I Por Bill Mitchell

Publicado em 27 de setembro de 2016 http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=34479

 

Modern Monetary Theory … macroeconomic reality

logo bill mitchell

 

Esta é a Parte 5 na mini-série que discute os méritos relativos da proposta de rendimento básico garantido e da proposta de Garantia de Emprego. Termina esta parte da nossa discussão. Hoje, considero como a sociedade estabelece um ambiente de transição justo para enfrentar as mudanças climáticas e os impactos da informatização, etc. Traço um quadro de ajustamento coerente para permitir que estas transições ocorram de forma equitativa e onde não são possíveis (devido aos limites da capacidade dos trabalhadores) são desenvolvidas visões alternativas de trabalho produtivo. Eu defendo que enquanto o trabalho, em geral, é coercivo sob o capitalismo, a provisão de garantias de emprego é uma abordagem mais equitativa do que confiar como os defensores do rendimento básico na perspectiva da exploração de uns para dar liberdade a outros. Além disso, defendo que a Garantia de Emprego é um veículo melhor para a criação de novas formas de trabalho produtivo. Adoptar um rendimento básico garantido neste contexto equivale apenas a uma rendição. O nosso manuscrito está quase terminado e esperamos completar as edições difíceis no próximo mês e ter o livro disponível para venda até ao final deste ano. Mais informações sobre isso mais tarde.

Quadro de Transição Justo

O Quadro de Transição Justo (Just Transition Framework) entrou pela primeira vez no debate público nos anos 90 como resultado do trabalho pioneiro do sindicalista canadiano Brian Kohler, que sublinhou que a preservação ambiental e o emprego não eram contrapartidas entre si.

Num artigo editorial em 1996, Brian Kohler escreveu (Kohler, 1996):

A verdadeira escolha não é entre o emprego ou o ambiente. É ambos ou nenhum dos dois.

[Referência: (1996) ‘Sustainable development: a labor view’, San Diego Earth Times, May 1997, Based on presentation at the Persistent Organic Pollutants Conference, Chicago, December 5, 1996. LINK.]

Esta visão foi formalizada no seu artigo de 1998 – Just Transition – A labour view of Sustainable Development – e foi adoptada pelo movimento sindical canadiano em 2000 (CLC, 2000).

[Referência: Kohler, B. (1998), ‘Just Transition – A labour view of Sustainable Development’, CEP Journal on-line, Summer, 6(2).] [Referência: Canadian Labour Congress (2000) Just Transition for Workers During Environmental Change, LINK.]

A iniciativa estava relacionada com os desafios que as mudanças climáticas apresentavam para os sindicatos que estavam interessados em promover o crescimento dos chamados “empregos verdes”, por um lado, mas sabiam muito bem que “quando criarmos empregos verdes, haverá uma transição industrial – isto significa que os trabalhadores das indústrias tradicionais devem ser protegidos” (CLC, 2000).

A ideia de uma Transição Justa é que ela permite introduzir os benefícios das novas tecnologias verdes mas, ao mesmo tempo, proporciona uma “salvaguarda” para as pessoas que “trabalham em empregos que se tornarão obsoletos” como resultado de processos de “produção insustentável” (CLC, 2000).

A Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2010: 141) observa que a “definição, fronteiras e âmbito” do conceito de Transição Justa “evoluiu” desde que a ideia inicial foi apareceu no movimento sindical canadiano.

A OIT (2010: 141) dá esta definição de “Transição Justa”:

pode ser entendido como o quadro conceptual no qual o movimento laboral capta as complexidades da transição para uma economia de baixo carbono e resistente ao clima, destacando as necessidades das políticas públicas e visando maximizar os benefícios e minimizar as dificuldades dos trabalhadores e das suas comunidades nesta transformação.

Não é um quadro de bloqueio – mas sim “um mecanismo de apoio à acção climática, e não a inacção” (OIT, 2010: 141).

[Referência: International Labour Organisation (2010) ‘Climate Change and Labour: the need for a “just transition”‘, International Journal of Labour Research, 2(2), Geneva, International Labour Office.]

O Centro Canadiano para Políticas Alternativas (Cooling et al., 2015: 5) introduziu um enfoque distributivo ao afirmar que:

Subjacente ao conceito de transição justa está o princípio de que os custos dos ajustamentos ambientais devem ser partilhados por toda a sociedade, em vez de serem suportados apenas pelas pessoas mais afectadas por eles.

[Referência: Cooling, K., Lee, K., Daub, S. and Singer, J. (2015) ‘Just Transition: Creating a green social constrat for BC’s resource workers’, Canadian Centre for Policy Alternatives, Canadian Justice Project, January]

Quer a fonte de perturbação seja a mudança climática ou a marcha dos robots, a reestruturação económica é um processo doloroso e, normalmente, concentrado espacialmente, o que levanta questões significativas para o assentamento social (onde as pessoas vivem).

É responsabilidade do Estado estabelecer um quadro que minimize o impacto destas perturbações nas pessoas e regiões por elas afectadas.

Uma visão progressista deve assegurar que estes impactos não só sejam minimizados, mas também partilhados por todo o país.

A provisão de uma renda básica é suficiente para absorver esses impactos negativos sobre as pessoas pela perda de empregos que se seguem à introdução acelerada de robôs?

A resposta é claramente não.

Uma resposta melhor é proporcionar novas oportunidades de trabalho aos trabalhadores que, no interesse da sociedade em geral, têm de abandonar o trabalho em consequência das alterações climáticas ou que são deslocados pelas manifestações da “segunda era da máquina”.

Uma “transição justa” garante que os custos da reestruturação económica e da mudança para a sustentabilidade não recaiam sobre os trabalhadores das indústrias visadas e suas comunidades. Ajudaria também a gerir os impactos da segunda era da máquina.

Uma transição justa em qualquer região ou sector ameaçado requer intervenção governamental e parcerias comunitárias para criar o quadro regulamentar, infra-estruturas e incentivos de mercado para a criação de empregos bem remunerados, seguros, saudáveis, que satisfaçam os empregos amigos do ambiente com especial atenção à satisfação adequada das necessidades dos trabalhadores afectados e das suas comunidades..

O apoio governamental num mundo progressivo deve incluir:

  • Assistência tanto para os trabalhadores deslocados como para os os seus contratantes;
  • Aviso adequado de mudança e encerramento do local de trabalho;
  • Consulta e pleno envolvimento dos sindicatos relevantes;
  • Apoio à inovação e parcerias para novas indústrias locais, investigação e desenvolvimento e investimentos em infra-estruturas;
  • Formação e emprego alternativo adaptado às necessidades e oportunidades locais e individuais;
  • Apoio especial dirigido aos trabalhadores mais velhos, deficientes e menos instruídos;
  • Assistência à recolocação de trabalhadores deslocados;
  • Manutenção de rendimentos, direitos a indemnização por despedimento e requalificação;
  • Empréstimos e subsídios baratos para novas indústrias e empregadores;
  • Compensação e compra de equipamento para contratantes;
  • Programas de assistência estendidos aos trabalhadores empregados por contratantes;
  • Uma transição justa requer investimento em programas de treino e aprendizados para criar uma força de trabalho “verde” altamente treinada;
  • A introdução de uma Garantia de Emprego para proporcionar emprego contínuo a todos aqueles sem trabalho.

Estes elementos de apoio vão muito além da conceptualização do indivíduo, uma vez que apenas necessitam de segurança de rendimento para manter os níveis de consumo actuais.

O quadro da Transição Justa proporciona um ambiente dinâmico para permitir que um indivíduo, as suas famílias, as suas regiões possam fazer ajustamentos que melhorem as suas perspectivas futuras.

Entre outras coisas, o Quadro valoriza os empregos e exige que todas as pessoas tenham acesso a um trabalho decente onde quer que escolham viver.

Se o sector privado não for capaz de criar oportunidades de emprego suficientes, então o sector público tem de estar preparado para fornecer o emprego vital.

Esta é a base da Garantia de Emprego, que é uma tábua num ambiente de ajustamento amplo descrito acima.

A “liberdade” de um rendimento básico garantido contra a “escravidão” de uma garantia de emprego

Embora muitos adversários da garantia de emprego pareçam acreditar que são apenas esquemas para escravizar os trabalhadores no trabalho inútil (a crítica “boondoggling”), a Garantia de Emprego deveria, de facto, ser uma parte essencial de uma agenda progressista liberal e radical para transformar a forma como usamos a economia para fazer avançar uma concepção muito ampla e igualitária do objectivo público.

Os defensores do rendimento básico não parecem ser capazes de entender porque é que isto é assim.

Eles parecem não conseguir ir além de uma construção da Garantia de Emprego como sendo um veículo para defender o status quo do capital industrial.

A Garantia de Emprego pode ajudar a sociedade a reconstruir noções de vontade coletiva e rejeitar a ênfase neoliberal no individualismo e ver a economia como geradora de benefícios para o planeta e para as pessoas que o ocupam.

Essa é uma concepção bem diferente da proposta de rendimento básico garantido.

Como discutido anteriormente, o trabalho é intrínseco à existência humana. Nós procuramos transformar a natureza para viver.

Certamente, a história evoluiu para o estágio em que a organização desse esforço – o capitalismo – é opressiva e o anátema da libertação, apesar da forma salarial fazer parecer que temos liberdade de escolha.

Mas precisamos de separar a forma específica de organização do trabalho do significado intrínseco do trabalho para as pessoas. As pessoas ainda vão procurar formas de “trabalhar” e terão de continuar a trabalhar, mesmo que nos libertemos do jugo específico do capitalismo.

O rendimento básico parece construir os seres humanos como fracas unidades de consumo, onde um pequeno estipêndio, de quantidade suficiente para que a pessoa possa continuar a consumir a níveis de sobrevivência é fornecida.

Os indivíduos vão então alegadamente “trabalhar” no jogo enquanto uma sociedade não preparada aplaude a sua criatividade. A realidade seria bem diferente.

Os defensores do rendimento básico gostam de construir o que para eles é uma dicotomia significativa, que contrasta a chamada “liberdade” que a provisão de um rendimento básico proporciona aos indivíduos com a “escravidão” que uma garantia de emprego oferece.

No entanto, se a “liberdade” do não-trabalho for contrária às atitudes sociais em relação ao trabalho e ao não-trabalho e não proporcionar “renda” suficiente sob o rendimento básico garantido em reconhecimento do facto de que o consumo de lazer requer recursos monetários, então o apelo pode ser oco.

Além disso, como vimos anteriormente nesta mini-série, há um reconhecimento crescente de que o trabalho desempenha um papel muito mais significativo na sociedade e na vida dos indivíduos do que meramente proporcionar um rendimento. Nós não somos apenas “unidades de consumo”.

Até que mudemos os valores sociais, na medida em que eles pertencem ao conceito de esforço produtivo e ampliemos o que é considerado trabalho significativo, temos de conceber soluções que reconheçam esses valores.

Neste contexto, o caso da Garantia de Emprego deixa duas questões pendentes e importantes a serem discutidas:

  • Uma garantia de emprego obrigatória é excessivamente coerciva?; e
  • O modelo de rendimento básico introduz dinâmicas que podem levar-nos para lá da dependência opressiva do trabalho para a segurança do rendimento?

Tratamos do primeiro ponto nesta secção e do segundo ponto na secção seguinte.

Devemos começar por notar que uma sociedade pode optar por ter qualquer sistema de transferência que considere adequado (incluindo a prestação de subsídios de desemprego) a funcionar em paralelo com a introdução de uma Garantia de Emprego.

Esta última não exige um abandono total dos regimes de apoio ao rendimento existentes.

Mas pode-se argumentar fortemente que os indivíduos em qualquer sociedade coerente têm a obrigação de devolver à comunidade que lhes está garantindo um emprego e os amplos benefícios que acompanham essa garantia.

A maioria das sociedades ainda não está preparada para criar uma classe de indivíduos em idade de trabalhar e com saúde para obter uma renda de subsistência sem contribuir diretamente para a sociedade (produção).

Esse ponto de partida condiciona a forma como podemos pensar em coerção no contexto de uma Garantia de Emprego.

Uma garantia de emprego obrigatória é excessivamente coerciva? Um dos critérios essenciais para uma política de pleno emprego sustentável é que ela não viole as actuais atitudes sociais em relação ao trabalho e ao não-trabalho.

Robert Van der Veen e Philippe Van Parijs (1987: 642) argumentaram que a introdução de um rendimento universal garantido pode proporcionar um “caminho capitalista para o comunismo”, que se relaciona com a necessidade de ir além da opressão do local de trabalho capitalista e “avançar em direção à distribuição de acordo com as necessidades”.

[Referência: Van der Veen, R. and Van Parijs, P. (1987) ‘A capitalist road to communism’, Theory and Society, 15(5), 635-655. LINK]

Contudo, eles qualificam essa noção observando que existe uma “restrição à maximização da participação relativa do produto total da sociedade distribuído de acordo com as necessidades” (pp.644-45) e que “algumas economias são incapazes de satisfazer essa restrição” (p.645), o que significa que a rendimento básico garantido não é um caminho geral para um futuro melhor para todos.

O seu apelo aos conceitos marxistas da liberdade de uma era comunista é parcial, no entanto.

Em 1851, o político socialista e historiador francês Louis Blanc estabeleceu um esquema em que oficinas cooperativas sob controle dos trabalhadores seriam apoiadas pelo Estado para garantir emprego aos cidadãos empobrecidos nas cidades francesas.

Blanc (1851: 92) discutiu se o sistema seria prático (“Le système proposé est-il practiable?”). Ele escreveu que tínhamos que ir além da histeria e construir tais argumentos com base no que considerávamos serem os princípios fundamentais para uma sociedade futura.

Como parte da sua visão sobre o papel do Estado e as responsabilidades dos indivíduos a este respeito, ele disse que a “base fundamental da sociedade futura, pedra angular do mundo novo” era (Blanc, 1851: 92):

As part of his view of the role of the state and the responsibilities of individuals in this regard he said the ‘base fondamentale de las société future, pierre angulaire du Monde nouveau” was (Blanc, 1851: 92):

De cada um de acordo com as suas faculdades, a cada um de acordo com as suas necessidades

[Referência: Blanc, L.J.J. (1851) Plus de Girondins, Paris, Charles Joubert. LINK]

O que se traduz para o famoso (neutro em termos de género):

De cada um de acordo com as suas capacidades, a cada um de acordo com as suas necessidades.

Em algum ponto do caminho os nossos campeões do rendimento básico deixaram cair o “cada um de acordo com a habilidade” (a opção de dar) e apresentaram apenas uma opção de ficar. Não consideramos isso como a base de uma sociedade saudável baseada na reciprocidade.

Marx também incorporou esse princípio fundamental na Parte I de sua Crítica do Programa Gotha (Marx, 1875).

Numa fase mais elevada da sociedade comunista, após a subordinação escravizadora do indivíduo à divisão do trabalho, e com isso também a antítese entre o trabalho mental e físico, ter desaparecido; após o trabalho ter-se tornado não apenas um meio de vida, mas a principal necessidade da vida; após as forças produtivas terem também aumentado com o desenvolvimento integral do indivíduo, e todas as fontes de riqueza cooperativa fluírem mais abundantemente – somente então o estreito horizonte da direita burguesa poderá ser cruzado na sua totalidade e a sociedade poderá inscrever-se nas suas bandeiras: De cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades!

[Referência: Marx, K. (1875) Critique of the Gotha Program, Moscow, Progress Publishers. LINK]

Assim, o “caminho capitalista para o comunismo” do rendimento básico, que abandona o princípio de que os indivíduos que podem trabalhar e têm a capacidade de trabalhar, devem fazê-lo em benefício de todos, parece ser uma interpretação muito parcial do conceito de uma sociedade comunista onde os trabalhadores são “livres”.

Tem havido pesquisas consideráveis feitas por cientistas sociais que sugerem que as pessoas ainda consideram o trabalho como um aspecto central da vida e há opiniões profundamente enraizadas sobre o merecimento e a responsabilidade pelas circunstâncias de cada um.

Estes pontos de vista traduzem-se em atitudes muito firmes sobre a obrigação mútua (reciprocidade) e sobre o apoio que deve ser dado aos desempregados.

Embora estas atitudes sejam por vezes expressas de uma forma feia e exploradas por alas direitas para dividir e conquistar a classe trabalhadora, o facto é que elas estão enraizadas e levarão tempo a mudar.

Além disso, a maioria dos trabalhadores desempregados indica em inquéritos que prefere trabalhar em vez de receber apoio ao rendimento.

Ao criar circunstâncias em que a oportunidade de um indivíduo se envolver num emprego remunerado e ganhar o seu salário é garantida, a Garantia de Emprego apoiaria as actuais atitudes sociais em relação ao trabalho e ao não-trabalho; e como mecanismo político, atenuaria qualquer ressentimento sentido em relação a essa proporção de pessoas desempregadas que são actualmente consideradas como não merecedoras do apoio e assistência do Estado.

A abordagem de Garantia de Emprego substitui a opção de parasitismo que se apresenta disponível no sistema de rendimento básico incondicional.

Numa sociedade que valoriza a noção de reciprocidade, o modelo de trabalho garantido assegura que nenhum grupo social seja considerado apenas como “unidades de consumo” – a serem alimentadas e vestidas pelo Estado, mas ignoradas em termos das suas necessidades sociais de trabalho e interacção humana dentro do local de trabalho.

Se a grande maioria dos trabalhadores prefere trabalhar, então a falha sistémica em fornecer um quantum suficiente de empregos impõe custos duros que podem ser aliviados pela introdução de uma Garantia de Emprego.

Neste sentido, a Garantia de Emprego é uma fonte de liberdade – não obstante as relações de propriedade capitalista.

Mas é inteiramente possível que algumas pessoas não valorizem o trabalho em nenhum sentido intrínseco e, se confrontadas com a escolha entre a Garantia de Emprego e uma garantia básica de rendimento, tomariam sempre esta última opção. Uma Garantia Geral de Emprego é assim coerciva no seu impacto sobre este grupo em particular.

Os defensores do rendimento básico provavelmente recomendariam uma simples modificação que ‘meramente’ tornaria a Garantia de Emprego voluntária dentro do contexto de um rendimento básico garantido universal.

Para compreender esta crítica à Garantia de Emprego, noto que a unidade de análise subjacente na literatura básica sobre rendimentos é um indivíduo que parece assemelhar-se à teoria X de McGregor (1960).

As teorias X pessoas são encontradas nos principais livros de microeconomia e são construídas como maximizadores autocentrados e racionais.

Lester Thurow (1983: 216) disse que esta concepção neoliberal da pessoa X considerava que “o homem é basicamente um gafanhoto com um horizonte de tempo limitado e curto que, gostando do lazer, deve ser forçado a trabalhar e a poupar atraído por recompensas muito maiores do que aquelas que recebe do lazer”.[1]

[Referência: Thurow, L. (1983) Dangerous Currents, Allen and Unwin, Sydney.]

Reforçar esta concepção de comportamento humano é um conceito libertário de liberdade. Resultados ótimos exigem que um indivíduo tenha liberdade de escolha e os defensores do rendimento básico vêem a dissociação da renda do trabalho como um passo essencial para aumentar a escolha e a liberdade.

Assim, ao permitir o individualismo a este nível – o Estado apoiar os indivíduos no seu consumo mas não exigir qualquer reciprocidade – limita as possibilidades de mudança social e de envolvimento comunitário.

Os progressistas devem, antes, estar na vanguarda do comprometimento coletivo, em vez de defender políticas que cheiram a individualismo.

É claro que o rendimento básico garantido não impede a ação comunitária. Os indivíduos podem adotar toda uma gama de campanhas e agendas ativistas ainda que estejam a ser apoiados pelo mais básico rendimento garantido.

Uma característica da era neo-liberal tem sido a elevação do “voluntariado” a alturas virtuosas. A moralidade percorre profundamente as narrativas neoliberais quando trabalha para reforçar a redistribuição do rendimento em direção ao topo.

A realidade é que as funções que hoje são consideradas como sendo do âmbito dos voluntários eram anteriormente, em muitos casos, empregos remunerados.

Então, se os beneficiários do rendimento básico estão envolvidos nessas agendas, por que não hão-de querer ser pagos pelo seu trabalho?

A Garantia de Emprego substituiria a agenda neoliberal para reduzir o tamanho do setor público contida na chamada cruzada do “voluntariado”.

Também destacaria quantos empregos anteriores se tornaram actividades voluntárias, apesar do seu valor para a sociedade.

Além disso, de uma perspectiva marxista, um rendimento básico garantido oferece a esperança de separar a subsistência de um indivíduo de qualquer necessidade de que ele produza mais-valia.

Consequentemente, propostas como a Garantia de Emprego são ridicularizadas porque representam a antítese da liberdade individual. Mesmo que a grande maioria dos indivíduos deseje ser empregado, um sistema flexível também permitiria àqueles que não querem trabalhar desfrutar da vida com o rendimento garantido.

Ao negar aos cidadãos a oportunidade de escolher entre a Garantia de Emprego e a alternativa sem trabalho do rendimento básico garantido, alega-se que a Garantia de Emprego se torna um sistema desnecessariamente coercivo e severo.

No entanto, a maioria dos defensores do rendimento básico garantido também considera que o governo nacional enfrenta uma restrição orçamental – o que torna a sua concepção macroeconómica indistinguível daquela apregoada pelos neoliberais.

Ao tomar a versão ortodoxa da restrição orçamental do rendimento básico garantido pelo valor nominal, os seus proponentes são confrontados com um importante dilema.

Para “financiar” o esquema algumas pessoas têm que trabalhar e assim, criar mais-valia. É difícil acreditar que todos aqueles que estão a trabalhar estão a optar por trabalhar em vez de não trabalhar. No entanto, nas relações de propriedade capitalista, os trabalhadores em geral têm de trabalhar para sobreviver.

Phillipe Van Parijs (1993: 179), o principal proponente do rendimento básico garantido, é representative quando pergunta:

… o que tem de “injusto” viver do trabalho dos outros quando a todos é dada a mesma possibilidade? Diante dessa possibilidade, alguns optarão por não fazer nenhum ou pouco trabalho remunerado. Outros vão querer trabalhar muito, seja pelo dinheiro adicional ou pela diversão de trabalhar, e assim financiar a subvenção universal. Se os últimos invejam a ociosidade dos primeiros, por que não lhes seguem o exemplo?

[Referência: Van Parijs, P. (1993) Marxism Recycled, Cambridge University Press, Cambridge.]

Operando sob o pressuposto errado adotado por Van Parijs e outros de que existe uma restrição financeira obrigatória para os governos, Cowling, Mitchell e Watts (2003: 19) articulam uma série de problemas com esta concepção de um sistema livre e justo. Primeiro, as nossas vidas não começam todas no momento do início do rendimento básico garantido. Os indivíduos que, em circunstâncias diferentes, podem ter tomado a opção de não trabalhar, assumiram compromissos, como ter filhos. Nesse sentido, as restrições anteriores impedem-nos de “desfrutar” da liberdade.

Em segundo lugar, a lógica do “financiamento” falha devido à falácia inerente à composição. O sistema de rendimento básico garantido torna-se indefinido (ou seja, não haveria produção ou renda) se todos optassem pela opção de não trabalhar. Assim, ficamos com a incómoda conclusão de que sob o rendimento básico garantido, a “coerção do trabalho” é claramente transferida para aqueles que não aceitam esse rendimento básico, enquanto sob a Garantia de Emprego a “coerção do trabalho” é compartilhada por todos.

[Referência: Cowling, S., Mitchell, W.F. and Watts, M.J. (2003) ‘The right to work versus the right to income’, Working Paper No 03-08, Centre of Full Employment and Equity, Australia.]

De um modo mais geral, nenhuma forma de trabalho assalariado é não-coerciva sob o capitalismo. A questão é saber quais as formas de coerção mais susceptíveis de conduzir a mudanças no modo de produção ao longo do tempo. A importância da ética do trabalho no reforço das relações sociais capitalistas não pode ser subestimada.

Sharon Beder (2000: 2) observa que o problema está em que o trabalho permanece no:

… coração da cultura capitalista … e é visto como uma característica essencial do ser humano. Por mais enfadonho que seja, qualquer trabalho é geralmente considerado melhor do que nenhum trabalho.

[Referência: Beder, S. (2000) Selling the Work Ethic: From Puritan Pulpit to Corporate PR, Scribe Publications, Carlton North.]

Além disso, muitas economias capitalistas sofrem agora o duplo desperdício – desemprego enraizado e crescente subemprego relacionado com o tempo (com implícita inadequação das situações de emprego).

É altamente provável que a introdução da Garantia de Emprego pressione os empregadores privados, particularmente nos sectores de serviços de baixa qualificação, a reestruturarem os seus locais de trabalho para ultrapassar o descontentamento que os seus trabalhadores subempregados sentem.

Uma posição de Garantia de Emprego a tempo inteiro com salários não significativamente diferentes dos baixos salários no sector privado dos serviços pareceria atraente em relação a um emprego privado que raciona as horas de trabalho do trabalhador.

Neste sentido, a Garantia de Emprego ofereceria flexibilidade aos trabalhadores. Alguns prefeririam empregos a tempo parcial, enquanto outros exigiriam empregos a tempo inteiro dentro da Garantia de Emprego.

Deve ser óbvio que esta flexibilidade pode acomodar praticamente qualquer exigência dos trabalhadores. Além disso, é muito fácil conceber o programa de forma a que os serviços de cuidados infantis sejam prestados pelos trabalhadores da Garantia de Emprego, para acomodar as necessidades dos pais.

Uma estrutura transformadora e radical para uma sociedade inclusiva

Os proponentes do rendimento básico garantido argumentam que a introdução de uma garantia de renda “nos aproxima (ceteris paribus) do comunismo, como definido pela distribuição de acordo com as necessidades” (Van Parijs, 1993: 162).

Por outras palavras, a abordagem do rendimento básico garantido contém uma dinâmica que pode desviar a sociedade do capitalismo para um estado comunista. Os defensores marxistas do rendimento básico garantido vêem nisso uma grande vantagem, um paliativo sob o capitalismo, mas também a semente para o seu fim.

Qual é a validade desta afirmação?

Em todo o mundo existem várias tendências que desafiam as noções tradicionais de trabalho e rendimento:

  • Há um aumento do trabalho a tempo parcial e precário.
  • Elevados e persistentes níveis de desemprego.
  • Subemprego crescente significativo.
  • Aumento da polarização da distribuição de rendimentos e aumento da desigualdade de rendimentos e riqueza.
  • Os impactos da “segunda era da máquina”.

A visão moral tradicional sobre as virtudes do trabalho – que são exploradas pela classe capitalista – precisa claramente de ser reformulada.

Uma visão progressista não pode aceitar um mercado de trabalho capitalista onde um número crescente e uma proporção crescente de trabalhadores têm dificuldade em obter trabalho suficiente e/ou aumentos salariais em linha com a produtividade.

Em muitos países, o crescimento dos salários reais estagnou ou regrediu desde há algumas décadas, à medida que os do topo captam uma proporção crescente do rendimento real produzido.

Alguma coisa tem de dar. O Nosso Manifesto Progressista procura maneiras de fazer a transição para longe da dinâmica destrutiva que caracteriza o mercado de trabalho neoliberal.

Claramente, a política social pode desempenhar um papel na génese deste debate e ajudar a estabelecer dinâmicas de transição. No entanto, é provável que seja necessário um sistema não capitalista de trabalho e geração de rendimento antes que o jugo da ética do trabalho e a estigmatização do não-trabalho seja totalmente eliminada.

A questão é como fazer essa transição à luz das restrições que o capital impõe à classe trabalhadora e ao Estado.

Os defensores do rendimento básico garantido consideram que a sua abordagem oferece aos trabalhadores as opções necessárias para rejeitar a abordagem do trabalhador “ganancioso” capitalista, quebrando o nexo entre a criação de mais-valia e o recebimento de rendimento a nível individual.

Mas, os proponentes da Garantia de emprego argumentam que há necessidade de adotar um conceito mais amplo de trabalho na primeira fase de dissociação entre trabalho e rendimento.

No entanto, eles argumentam que tentar impor esta nova cultura de não trabalho à sociedade, tal como ela existe actualmente, é pouco provável que seja uma abordagem construtiva. O ressentimento dos desempregados só será transferido para os “surfistas de Malibu” (usando a concepção de vida de Van Parijs sobre o rendimento básico)!

A Garantia de Emprego fornece um veículo superior para estabelecer um novo paradigma de emprego onde os empregos de desenvolvimento comunitário se tornam valorizados.

Com o tempo e dentro deste novo paradigma da Garantia de Emprego, o debate público e a educação podem ajudar a alargar o conceito de trabalho valioso até que as actividades que hoje podemos interpretar como sendo “lazer” (não-trabalho) acabem por ser consideradas como emprego produtivo.

Por exemplo, imagine que nós permitimos que músicos, artistas, surfistas, atores dançarinos e afins, em dificuldades, possam ser empregados dentro da Garantia de Emprego.

Em troca da segurança de rendimento, o surfista pode ser requerido a conduzir a consciencialização da segurança da água para crianças em idade escolar; e os músicos podem ser obrigados a ensaiar alguns dias por semana na escola e assim transmitir conhecimento sobre a dinâmica da banda e aumentar a apreciação da música para as crianças interessadas.

A reciprocidade é clara nestes casos. O surfista recebe segurança de rendimento porque é empregado para surfar, mas é produtivo porque também fornece valor à sociedade além da sua própria felicidade. Ganham todos.

Um surfista que não tenha responsabilidades recíprocas sob um rendimento básico garantido não oferece nada à sociedade em geral.

Além disso, os defensores do rendimento básico gostam de manter o ativismo comunitário como algo que aumentaria sob umrendimento básico garantido.

Mas porque não declarar estas actividades como sendo um trabalho de Garantia de Emprego. Por exemplo, organizar e gerir uma horta comunitária para fornecer alimentos aos pobres poderia ser classificado como um trabalho remunerado. Veríamos mais dessa actividade se ela fosse recompensada desta forma. O que poderia ser uma atividade egoísta sob o rendimento básico poderia tornar-se uma atividade produtiva e enriquecedora para a sociedade se os jardineiros fossem obrigados a redistribuir os seus produtos.

Ao redefinir gradualmente o conceito de trabalho produtivo muito para além dos domínios do “trabalho remunerado”, especificamente relacionado com actividades que geraram lucros privados para as empresas, a Garantia de Emprego coloca-nos no caminho do futuro.

A concepção de produtividade (e eficiência) como resultado social, compartilhado e público é então limitada apenas pela imaginação de cada um.

Desta forma, a Garantia de Emprego torna-se uma força evolutiva – proporcionando segurança de rendimento àqueles que a querem, mas também a plataforma para definições mais amplas do que queremos definir como trabalho!

As atitudes sociais levam tempo a evoluir e são melhor reforçadas pelas mudanças no sistema educacional. O tecido social deve ser reconstruído ao longo do tempo.

A mudança no modo de produção através de meios evolutivos não acontecerá da noite para o dia, e os conceitos de riqueza comunitária e de responsabilidade cívica que foram erodidos ao longo do tempo, pela divisão e conquista do individualismo da era neoliberal, têm de ser restaurados.

A Garantia de Emprego proporciona uma forte dinâmica evolutiva em termos de estabelecer transições históricas mais amplas longe do desemprego (e da insegurança de rendimentos) que é intrínseca ao modo capitalista de produção. A Garantia de Emprego proporciona um paliativo de curto prazo e uma força de longo prazo para a mudança histórica.

O rendimento básico garantido, a este respeito, falha em todos os aspectos.

 

Conclusão

Esboçámos muitas razões para nos opormos à introdução de um rendimento básico garantido. Pensamos que ele reforça a noção de uma dependência de pagamentos passivos da previdência social.

Dados os valores sociais actuais em relação ao trabalho e ao não-trabalho, um rendimento básico garantido cria um grupo estigmatizado.

Ele não fornece nenhum amortecedor de inflação. Ou o esquema é mal-intencionado (baixa remuneração) e, portanto, autodestrutivo, ou proporciona um rendimento de vida decente, mas depois explode como resultado do seu enviesamento inflacionista.

Muitas pessoas argumentam que o não trabalho dos beneficiários do rendimento básico é equivalente ao trabalho improdutivo de um trabalhador com Garantia de Emprego (usando concepções restritas de produtividade).

É discutível se a garantia de emprego dos trabalhadores aumenta ou não a capacidade produtiva da economia que pode absorver o crescimento da procura nominal.

O grupo de Garantia de Emprego será pequeno quando a economia estiver a operar em alta pressão e grande quando a procura privada for fraca. Funciona de forma contra-cíclica (como um estabilizador automático), portanto, mesmo que os trabalhadores não estejam a acrescentar nada de produtivo ao conjunto de bens e serviços para venda, a procura também será fraca.

Os beneficiários do rendimento básico não acrescentam nada produtivo à sociedade (no mesmo sentido que estamos usando o termo aqui), mas recebem o mesmo rendimento, independentemente do estado do ciclo. Isso introduz o viés inflacionista.

Além disso, o rendimento básico garantido não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento de capacidades individuais. A garantia básica de rendimento trata as pessoas que não conseguem encontrar um trabalho adequado baseado no mercado como entidades de ‘consumo’ e tenta satisfazer as suas necessidades de consumo.

A provisão de um rendimento básico garantido não oferece nenhuma formação adicional ou estruturas de apoio para o avanço individual. Alguns beneficiários podem estar individualmente motivados o suficiente para avançar nas suas competências. Outros não o farão, a menos que haja mecanismos de apoio formal.

Essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado.

Diz-se por vezes que para além de todos os benefícios em termos de auto-estima, inclusão social, criação de confiança, aumento de competências e afins, um benefício inestimável da criação do pleno emprego é que as “crianças vêem pelo menos um dos pais a ir trabalhar todas as manhãs”.

Por outras palavras, cria um estímulo intergeracional que a abordagem de rendimento básico nunca pode criar.

Ao contrário do modelo de rendimento básico garantido, o modelo de garantia de emprego atende a essas condições dentro das restrições de um sistema capitalista monetário.

A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais.

Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

A questão é que, com o tempo, as atividades que os defensores do rendimento básico pensam que representam a liberdade (surf) tornar-se-iam empregos sob a Garantia de Emprego, à medida que as atitudes para com o trabalho evoluem de forma progressista.

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Nota

[1] N.T. Sobre a teoria X, também chamada “Hipótese da mediocridade das massas”, que diz que os funcionários possuem aversão ao trabalho e o encaram como um mal necessário para ganhar dinheiro, vd https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_X_e_Y in Wikipedia.

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics(Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Employment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/01/ajudara-o-rendimento-basico-universal-a-recuperacao-do-trabalhismo-britanico-8-justificar-se-a-o-rendimento-basico-garantido-parte-5-conclusao-por-bill-mitchell/

Após Brexit, líder da Escócia promete recolocar o país na União Europeia

A chefe do Partido Nacional Escocês (SNP), Nicola Sturgeon, prometeu neste sábado que a Escócia retornará à União Europeia (UE) como um Estado independente.

Na noite desta sexta-feira, o Reino Unido deixou a UE depois de 47 anos sendo parte do bloco europeu, incluindo 3,5 anos após o referendo. A Escócia, ao contrário da Inglaterra e do País de Gales, votou em 2016 contra a saída do bloco.

"A Escócia retornará ao coração da Europa como um país independente - #LeaveALightOnForScotland", escreveu Sturgeon em sua página no Twitter.

Em dezembro, Sturgeon pediu ao governo do Reino Unido que autorizasse o segundo referendo de independência da Escócia, expressando a crença de que o sucesso do SNP nas primeiras eleições gerais do Reino Unido, realizadas em 12 de dezembro, contribuiu para um "caso democrático" da independência da Escócia.

Como a proposta foi rejeitada pela administração do premiê Boris Johnson, Sturgeon afirmou que as autoridades da Escócia decidiriam sobre os próximos passos e depois pediriam aos legisladores escoceses que apoiassem a iniciativa do referendo.

'Parceria nova e ambiciosa'

A União Europeia lamentou a decisão do Reino Unido de deixar o bloco, mas considera Londres como um de seus principais parceiros, declarou o chefe de política externa da UE, Josep Borrell, neste sábado.

Escoceses pedem independência da Grã-Bretanha, após o anúncio dos resultados do referendo sobre o Brexit, Glasgow, Escócia, 30 de julho de 2016
© AFP 2019 / Andy Buchanan
Manifestantes defendem a independência da Escócia e agitam bandeiras da UE em Glasgow, Escócia, 30 de julho de 2016
"Enquanto a União Europeia e eu pessoalmente lamentamos muito a decisão do Reino Unido de deixar nossa união, respeitamos totalmente essa escolha e estamos prontos para avançar", comentou Borrell em um vídeo.

Ele ressaltou a necessidade de garantir a implementação do acordo de retirada e negociar as relações pós-Brexit entre Londres e Bruxelas.

"Nosso desejo é construir uma parceria nova e ambiciosa com o Reino Unido através da cooperação comercial e econômica, aplicação da lei e justiça criminal, política externa, segurança e defesa. O Reino Unido continuará sendo um parceiro-chave da União Europeia", acrescentou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020020115082253-apos-brexit-lider-da-escocia-promete-recolocar-o-pais-na-uniao-europeia/

Brexit é 'sinal de alarme histórico' que pede uma reforma profunda na UE, diz Macron

O presidente da França, Emmanuel Macron, é visto durante o Fórum Econômico Internacional em Davos em 24 de janeiro de 2018
© AP Photo / Markus Schreiber

Em um discurso televisionado para marcar a retirada do Reino Unido da União Europeia (UE), o presidente francês Emmanuel Macron classificou o Brexit como um "sinal de alarme histórico" que deve "estimular" a profunda reforma da UE para construir um bloco poderoso e eficiente.

Descrevendo a sexta-feira como um "dia triste", Macron disse que a campanha do Brexit de 2016 foi baseada em mentiras, exageros e verificações prometidas, mas nunca se concretizarão.

Ele declarou ainda que o Reino Unido deixando o bloco foi um choque, mas que isso aconteceu porque a Europa havia sido usada como bode expiatório para dificuldades "com muita frequência".

Macron também falou sobre as relações históricas e futuras entre o Reino Unido e a França, dizendo que a longa história da dupla é "uma feita de sangue, liberdade, coragem e batalhas".

Apoiadores do Brexit comemoram a oficialização da saída da União Europeia em frente ao Parlamento.
© REUTERS / Simon Dawson
Apoiadores do Brexit comemoram a oficialização da saída da União Europeia em frente ao Parlamento

O líder francês disse que seus compatriotas nunca esqueceriam o quanto devem ao Reino Unido, acrescentando que, embora o povo britânico não terá mais os mesmos direitos na UE após o Brexit, os cidadãos britânicos que vivem na França ainda estarão "em casa" lá.

Macron afirmou que quer ver um relacionamento próximo com o Reino Unido pós-Brexit, mas o país não pode simplesmente entrar e sair da UE ao mesmo tempo, e a França continuará a defender os interesses de suas áreas de pesca e agricultura - duas áreas-chave que os países já enfrentaram antes.

"E nesta negociação, permaneceremos unidos, todos nós 27", destacou ele sobre os demais países-membros da UE.
Macron assumiu uma posição dura nas negociações sobre o Brexit, principalmente porque o governo britânico pediu uma série de extensões à data de saída original de 29 de março de 2019.

O presidente francês também estava entre os líderes mais expressivos da UE ao se opor aos esforços do primeiro-ministro britânico Boris Johnson de reabrir as negociações do Brexit depois que ele assumiu o cargo antes ocupado por Theresa May.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020013115082190-brexit-e-sinal-de-alarme-historico-que-pede-uma-reforma-profunda-na-ue-diz-macron/

Brexit começa a valer e Reino Unido está oficialmente fora da União Europeia

Apoiadores do Brexit comemoram a oficialização da saída da União Europeia em frente ao Parlamento.
© REUTERS / Simon Dawson

O Reino Unido já pode se considerar oficialmente fora do bloco da União Europeia. Às 23 horas (20 horas em Brasília) desta sexta-feira (31) o Brexit entrou em vigor.

Pelos próximos 11 meses, o Reino Unido e a União Europeia vão manter as regras atuais e negociar um acordo comercial que irá valer para os anos seguintes. 

Este é o primeiro dos 28 países a sair do bloco desde sua criação, em 1958.

Em Londres, os apoiadores do Brexit se reuniram na praça do Parlamento e fizeram uma contagem regressiva.

O primeiro-ministro Boris Johnson divulgou um vídeo nas redes sociais em que diz saber que há britânicos felizes com o Brexit.

"Vamos espalhar esperança e oportunidade para todas as partes", afirmou.

 

Hoje nós estamos deixando a União Europeia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020013115082064-brexit-comeca-a-valer-e-reino-unido-esta-oficialmente-fora-da-uniao-europeia/

Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 3. Por Bill Mitchell

Espuma dos dias_porcos podem voar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Publicamos uma minisérie de 8 textos sobre o debate rendimento básico universal versus garantia de emprego. O primeiro texto (ver aqui) – de Guy Standing – datado de 15 de janeiro último, escrito no rescaldo dos resultados das últimas eleições gerais no Reino Unido, reflete sobre como construir uma aliança progressista na Grã-Bretanha, colocando à cabeça dos elementos chave “combater a desigualdade e a precariedade avançando para um rendimento básico …” e terminando com uma proposta de mudança de nome de partido Trabalhista para partido Progressista.

O segundo texto é uma certeira e bem articulada resposta de Bill Mitchell (ver aqui). Como muito bem diz: “E os porcos podem voar!” Conclui ele que “As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo [emissor de moeda] não pode …… sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.”

Este sexto texto (para o terceiro, quarto e quinto textos, ver aqui, aqui e aqui) faz parte de um conjunto de seis textos que são uma análise detalhada feita em 2016 por Bill Mitchell sobre a proposta de um rendimento básico garantido (ou universal), onde finalmente conclui que pela sua oposição à introdução deste Sistema, que cria um grupo estigmatizado por não trabalhar, que não fornece nenhum amortecedor de inflação, que não acrescenta nada produtivo à sociedade, independentemente do estado do ciclo económico, não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento das capacidades individuais, trata as pessoas como meras unidades de consume. Afirma Mitchell que, “essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado”. Ao contrário, “A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais” e “Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

FT

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Justificar-se-á o rendimento básico garantido?Parte 3

Bill Mitchell I Por Bill Mitchell

Publicado em 22 de setembro de 2016 em http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=34462

Modern Monetary Theory … macroeconomic reality

logo bill mitchell

 

Esta é a Parte 3 na mini-série discutindo os méritos relativos da proposta de rendimento básico garantido e da proposta de Garantia de Emprego. Embora haja muita literatura sobre os méritos da introdução de um rendimento básico garantido muito raramente você lerá um relato detalhado das implicações macroeconómicas de tal esquema. É inescapável que a proposta de rendimento básico carece do que eu chamo uma âncora de inflação. Ou seja, para proporcionar um salário adequado e gerar pleno emprego (garantir que haja empregos suficientes para todos os que querem trabalhar), o rendimento básico garantido é inerentemente inflacionário e estabelece uma dinâmica macroeconómica destrutiva que o torna insustentável. Para suprimir o enviesamento inflacionário inerente à proposta, o subsídio tem de ser tão baixo que os beneficiários são libertados do trabalho, mas não da pobreza. A Garantia de Emprego, por contraste, foi concebida para fornecer uma âncora de inflação explícita e permite ao governo manter continuamente o pleno emprego e proporcionar um salário decente àqueles que, de tempos em tempos, estarão no grupo da Garantia de Emprego. Não depende dos salários de pobreza ou do desemprego para manter a estabilidade dos preços. Só isso é uma vantagem fundamental da Garantia de Emprego sobre a garantia básica de rendimento – é sustentável.

A proposta de rendimento básico carece de qualquer controle coerente da inflação

A proposta de rendimento básico aborda diretamente a insegurança de renda, fornecendo um estipêndio garantido aos indivíduos. Está na classe de intervenções políticas que os autores da Teoria Monetária Moderna (MMT) referem como “expansão generalizada”, no sentido de que o estímulo governamental proporcionado pelo estipêndio irá competir indiscriminadamente por recursos a preços de mercado.

Quanto maior o subsídio, maior o estímulo e maior é o grau de concorrência pelos recursos reais para venda a preços de mercado.

Devemos notar que os defensores do rendimento básico que adotam posições neoliberais em relação à capacidade orçamental do governo e não entendem a natureza do desemprego que motiva a sua defesa do rendimento básico, geralmente preferem um salário baixo – para aliviar a carga sobre os gastos do governo e reduzir a carga tributária sobre aqueles que “pagam” pelo esquema (na sua lógica).

Mas é claro que existem proponentes de rendimento básico que são motivados por noções de liberdade individual e defendem estipêndios mais altos. Estes defensores tendem a não se atolar nas discussões sobre as causas do desemprego ou se o governo está financeiramente constrangido.

Podem também operar dentro de um paradigma financeiro funcional (consistente com a TMM) e assim compreender que um governo emissor de moeda não enfrenta nenhuma restrição financeira.

A sua esmagadora motivação começa com uma visão filosófica de que os indivíduos não devem ter de se envolver em trabalho remunerado para obter apoio da capacidade de geração de renda da sociedade. Esta é uma declaração de liberdade. Eles rebelam-se se são chamados de neoliberais e com razão.

No entanto, se as propostas básicas de renda emergem ou não de um quadro neoliberal é discutível num sentido importante. Qualquer que seja a motivação para um rendimento básico garantido permanence o facto de que o conceito carece de qualquer controlo coerente da inflação.

As propostas mais neo-liberais, que defendem a concessão de bolsas modestas com um ambiente orçamentalmente neutro, teriam um impacto relativamente pequeno nos gastos agregados e no emprego, e mesmo com alguma redistribuição do horário de trabalho; é provável que persistam níveis elevados de subutilização do trabalho.

Com esses estipêndios, a proposta de rendimento básico não melhoraria os direitos dos mais desfavorecidos nem proporcionaria trabalho para aqueles que o desejam (ver Cowling, Mitchell e Watts, 2003).

Adrian Little (1998: 131) assinala que enquanto o rendimento básico pode permitir que os indivíduos sobrevivam sem trabalho:

… não oferece nenhuma promessa firme de trabalho remunerado para aqueles que não têm emprego, mas que querem contribuir com o seu trabalho para a geração de riqueza social.

[Referência: Little, A. (1998) Post-Industrial Socialism – Towards a New Politics of Welfare, Routledge, London.]

No entanto, uma promessa mais profunda surge se introduzirmos o rendimento básico garantido dentro de um paradigma de finanças funcionais. Isto porque a introdução de um rendimento básico garantido prenderia a economia a um viés inflacionário que, quando combinado com os atuais bancos centrais “independentes”, a impediria de alcançar crescimento suficiente para oferecer opções reais de emprego aos trabalhadores (ver Mitchell e Watts, 2004: 11).

Quanto mais alto o estipêndio, maior o risco de inflação. Esse risco é visto numa economia monetária moderna como estando relacionado com a relação entre o crescimento da despesa nominal (procura) e a capacidade da economia para responder a essa procura com o aumento da oferta de bens e serviços reais.

Dentro de um paradigma financeiro funcional, o governo usa a sua capacidade orçamental para aumentar os gastos gerais na economia para evitar o desemprego em massa. O objectivo é o crescimento do produto e do emprego e não qualquer resultado orçamental em particular (em termos monetários).

Compreendemos que o desemprego em massa surge quando o défice orçamental é inadequado para compensar o desejo do sector não governamental de poupar globalmente.

Alguns leitores podem argumentar que o culpado aqui não é o défice orçamental ser demasiado pequeno, mas sim o não gasto pelo sector não governamental ser demasiado grande.

No entanto, os autores da Teoria Monetária Moderna (MMT) assumem que as decisões de despesa e poupança do sector não governamental se baseiam na escolha individual em relação às oportunidades disponíveis e aos constrangimentos que se interpõem.

Nesse sentido, argumentar que a poupança global não governamental é demasiado grande equivale a questionar as motivações dos indivíduos que se combinaram para criar esse resultado. Esse tipo de ênfase parece estar em desacordo com a exaltação da liberdade individual que parece estar na base das propostas do rendimento básico garantido.

De qualquer forma, os autores da TMM preferem concentrar-se na responsabilidade do emissor da moeda para usar essa capacidade para preencher as lacunas deixadas pelas decisões individuais (privadas).

Seguindo essa lógica, se houver desemprego em massa, então a solução é o governo expandir o seu impacto orçamental líquido (gastos sobre a tributação) e permitir que o défice aumente.

Assim, a passagem de um estado de desemprego em massa para a introdução de um rendimento básico garantido exigiria um estímulo líquido do governo (ou seja, um défice orçamental crescente).

Neste sentido, o rendimento básico garantido (financiado por um défice orçamental crescente) constitui uma expansão keynesiana indiscriminada e, como carece de quaisquer mecanismos embutidos de estabilização de preços, resultariam pressões inflacionistas.

Os trabalhadores que retiram os seus rendimentos do ciclo de produção também acrescentaram produção (através do seu trabalho) a esse ciclo. Para um determinado nível de produtividade (produção por unidade de inputs), quanto mais pessoas têm acesso à renda, gastam essa renda a preços de mercado, mas não adicionam à produção (ou seja, são apoiadas em termos reais pela produção de outros), maior é o risco de inflação.

Além disso, quanto maior for a parcela de renda gerada em qualquer período que é recebida por pessoas que não oferecem nada em troca, maior é o risco de inflação.

Nestas circunstâncias, quanto mais as pessoas perseguem a “liberdade” de não trabalhar sob o rendimento básico garantido, pior se torna a situação porque, para uma dada produtividade, isso significaria que o lado da oferta da economia continua a diminuir, enquanto o lado da procura se mantém estável (dependendo do nível da bolsa).

Assim, voltamos ao ponto em que, para minimizar o risco de inflação, a renda básica tem que ser pequena, o que, por sua vez, significa que o esquema dificilmente resolve a dignidade de uma existência independente. As pessoas têm segurança de renda, mas estão na pobreza.

Podemos explorar melhor esta vulnerabilidade.

Se o governo aumenta a despesa líquida (o seu défice) para financiar um generoso rendimento básico, então a procura de trabalho aumenta em resposta à maior despesa agregada na economia. Claramente, a procura de trabalho seria mais elevada do que sob uma introdução orçamentalmente neutra de um rendimento básico garantido.

A verdadeira questão é o que acontece com a oferta de mão-de-obra.

Se o estímulo fosse dado através do pagamento de um generoso rendimento básico, é razoável supor que a oferta total de trabalho diminuiria.

Por outras palavras, o nível de emprego que coincide com o “pleno emprego” onde todos que querem um emprego podem encontrar um é artificialmente reduzido na presença do rendimento básico garantido (se suficientemente generoso).

O espaço real de recursos disponível para o estímulo é assim reduzido. Quanto mais pessoas recebessem a bolsa e se retirassem da força de trabalho, menos capacidade real haveria na economia para responder ao crescimento do gasto nominal.

Com menos trabalhadores produtivos disponíveis, o estímulo causaria o que os economistas chamam de inflação por “pressão da procura”. A taxa de inflação é puxada para cima por uma incompatibilidade do gasto nominal em relação à capacidade produtiva.

As empresas competiriam por cada vez menos trabalhadores e aumentariam os salários, o que teria a consequência de tornar o rendimento básico garantido menos atrativo na margem.

Alguns ‘surfistas de Malibu’ podem decidir retomar o trabalho novamente. O governo poderia responder aumentando os impostos e/ou reduzindo as despesas governamentais, o que tenderia a aumentar o desemprego.

O banco central, sob o actual regime que rege a política monetária, responderia também através do aumento das taxas de juro.

A combinação destas respostas de política reduziria a pressão da procura, mas na medida em que o processo inflacionista tivesse assumido uma forma de compressão de custos (luta distributiva sobre o rendimento real disponível), a inflação dos salários e dos preços poderia apenas diminuir lentamente.

Assim, é possível que se gere uma dinâmica insustentável, na qual há fases periódicas de inflação pela procura – inflação puxada e inflação induzida pelos custos – a baixas taxas de desemprego, seguida de uma política contracionista e de taxas de desemprego elevadas.

Estes resultados económicos são consistentes com as expansões políticas indiscriminadas (generalizadas) keynesianas do passado.

A nossa conclusão é que a introdução de um rendimento básico garantido que visa também manter o pleno emprego (ou seja, dar a todos aqueles que querem trabalhar a oportunidade) é susceptível de ser altamente problemática dadas as prováveis consequências inflacionistas.

A Garantia de Emprego é consistente tanto com o pleno emprego como com a estabilidade de preços

Uma economia dependente do rendimento básico garantido para resolver os problemas de insegurança de renda trazidos pela tendência das economias capitalistas ao desemprego em massa é inerentemente a inflacionista.

Ainda que a introdução de um RBG possa engendrar um estado de pleno emprego se o estímulo orçamental associado à sua introdução for suficiente, fá-lo-á promovendo uma redução artificial da oferta de trabalho e a consequente retracção da capacidade produtiva da economia torna essa economia vulnerável à aceleração da inflação.

Por outras palavras, uma economia construída sobre um RBG não tem a capacidade de proporcionar quer pleno emprego sustentado quer estabilidade de preços.

Em contraste, a abordagem da Garantia de Emprego é uma forma muito superior de sustentar o pleno emprego com estabilidade de preços face às flutuações dos gastos privados.

A observação inicial é que a Garantia de Emprego foi concebida com base num reconhecimento explícito de que um governo soberano nunca está limitado em termos de receitas porque é o emissor monopolista da moeda.

A partir daí, condiciona a narrativa que pode ser desenvolvida para apoiar a introdução da política. Ela liberta os proponentes dos debates arcanos sobre se o governo pode “pagar” o esquema.

Cair nestes debates neoliberais sobre sustentabilidade orçamental leva tipicamente os proponentes de um RBG a propor um sistema que só oferece estipêndios a nível de pobreza – para acalmar ataques de que o governo não será capaz de “financiar” o programa.

A Garantia de Emprego é um conceito simples com consequências de grande alcance. Implica que o governo faça uma oferta de emprego incondicional a qualquer pessoa que esteja disposta a trabalhar com um salário mínimo socialmente aceitável e que não possa encontrar trabalho em outro lugar.

Isto cria um stock tampão de empregos pagos, que se expande (declina) quando a atividade do setor privado declina (expande).

Para evitar perturbações na estrutura salarial do sector privado e para assegurar que a Garantia de Emprego seja coerente com uma inflação estável, a taxa salarial da Garantia de Emprego é fixada ao nível do salário mínimo, definido para assegurar que o trabalhador não seja socialmente excluído.

O salário mínimo deve ser expressão da aspiração da sociedade quanto ao mínimo nível de vida material que é aceitável. Considerações semelhantes determinariam o rendimento básico adequado, embora a capacidade do governo para manter esse rendimento sem inflação seja, na melhor das hipóteses, limitada.

Como o salário de Garantia de Emprego é aberto a todos, ele torna-se o salário mínimo nacional. Os trabalhadores com Garantia de Emprego gozariam de rendimentos estáveis, e o aumento das suas despesas aumentaria a confiança em toda a economia e sustentaria uma recuperação das despesas privadas.

Ao manter um stock tampão de emprego, a Garantia de Emprego opera sob o que os economistas denominam “uma regra de preço fixo/quantidade flutuante”.

Isso significa que a oferta incondicional de emprego do governo é a um salário fixo (regra do preço fixo) e o stock tampão de empregos flutua de acordo com a força dos gastos do setor não governamental (uma quantidade flutuante).

Dado que a Garantia de Emprego contrata a um preço fixo em troca de horas de trabalho e não compete com os salários do sector privado, as redistribuições de emprego entre o sector privado e o stock tampão podem sempre ser conseguidas para estabilizar qualquer inflação salarial no sector não pertencente à Garantia de Emprego.

O governo compra a mão-de-obra dos trabalhadores da Garantia de Emprego fora do “fundo” da distribuição salarial não governamental. Por definição, não há procura do sector não-governamental para os recursos ociosos (desemprego).

Uma vez que o esquema esteja em funcionamento, os mecanismos anti-inflação são fáceis de entender. Se houver pressões inflacionistas no sector não governamental à medida que este atinge a sua capacidade total, o governo manipularia os cenários de política fiscal e monetária para restringir os gastos do sector não governamental para evitar o sobreaquecimento da economia.

Isto implicaria a transferência de mão-de-obra do sector não governamental inflacionista para o sector de “salário fixo”, o que acabaria por resolver as pressões inflacionistas.

Claramente, quando o desemprego é elevado, esta situação não vai surgir. Em geral, não pode haver pressões inflacionistas decorrentes de uma política que vê o governo oferecer um salário fixo a qualquer trabalho que seja indesejado por outros empregadores (ver Mitchell e Muysken, 2008).

O stock tampão de garantia de emprego é uma reserva qualitativamente superior de combate à inflação do que o stock tampão de desemprego. Alguns discordam, argumentando que os trabalhadores podem considerar a Garantia de Emprego como uma opção melhor do que o desemprego.

Sem a ameaça de desemprego, os trabalhadores que negociam salários podem então ter menos incentivo para moderar as suas exigências salariais, não obstante o provável papel disciplinador do desemprego nos mercados de trabalho qualificados.

Mas os trabalhadores da Garantia de Emprego manterão níveis de qualificação mais elevados do que aqueles que são forçados a sucumbir a longos períodos de desemprego.

Os trabalhadores da Garantia de Emprego constituiriam assim uma ameaça mais credível para os actuais trabalhadores do sector não governamental do que aqueles que definham na lista de desempregados. Quando as pressões salariais aumentam, é mais provável que a entidade patronal exerça resistência se puder contratar trabalhadores do fundo de garantia de emprego de preço fixo.

Além disso, se o governo pagasse salários de mercado aos trabalhadores da Garantia de Emprego, isso prejudicaria o mecanismo de contra-inflação incorporado e a política de pleno emprego seria equivalente a uma expansão keynesiana indiscriminada (generalizada).

Assim, a diferença fundamental em relação à inflação entre a proposta de RBG e a Garantia de Emprego é que a primeira gasta numa regra de quantidade (o estímulo compete com outros preços de mercado) enquanto a segunda gasta numa regra de preço (os gastos são na forma de uma oferta de preço fixo para recursos ociosos sem nenhuma oferta de mercado).

A Garantia de Emprego proporciona assim ao governo um mecanismo de controlo da inflação, evitando ao mesmo tempo os custos massivos do desemprego.

A proposta de rendimento básico garantido só pode reduzir o risco de inflação pagando um salário baixo e suprimindo os gastos gerais da economia, mantendo o desemprego em massa.

Assim que a renda básica aumenta o suficiente para se tornar amplamente atrativa, a contração da oferta de trabalho desencadeia forças que levam à aceleração da inflação.

A Garantia de Emprego representa uma abordagem de gastos mínimos para o pleno emprego. Mas, mais importante, não substitui o uso convencional da política orçamental para alcançar resultados sociais e económicos.

O governo complementaria o salário de Garantia de Emprego com uma ampla gama de despesas salariais sociais, nomeadamente níveis adequados de educação pública, saúde, cuidados infantis e acesso a assistência jurídica.

Além disso, o fornecimento de infra-estruturas públicas de grande escala continua a ser crucial e a introdução da Garantia de Emprego não prejudica a capacidade do governo para prosseguir estes projectos.

Embora seja fácil caracterizar a Garantia de Emprego como uma estratégia de criação de emprego puramente do sector público concebida para reduzir a insegurança de rendimentos, é importante ter em conta que se trata, na realidade, de um quadro de política macroeconómica concebido para proporcionar o pleno emprego e a estabilidade de preços com base no princípio dos stocks de reserva em que a criação e destruição de emprego é apenas uma componente.

É assim um quadro de estabilidade macroeconómica e não uma resposta ad hoc à crise.

A Garantia de Emprego também proporciona à economia um poderoso “estabilizador automático”, característica que falta no conceito básico de garantia de rendimento.

O emprego e as despesas governamentais aumentam automaticamente (diminuem) à medida que se perdem (ganham) postos de trabalho no sector não governamental.

A Garantia de Emprego cumpre assim uma função de absorção para minimizar as perdas de emprego e rendimento actualmente associadas ao fluxo de despesa do sector não governamental.

Quando o emprego no sector não governamental diminui, o emprego no sector público reage automaticamente e aumenta a sua folha de pagamentos.

A nação permanece sempre com pleno emprego, com apenas a mistura entre emprego não governamental e emprego do setor público flutuando à medida que responde às decisões de gastos do setor não governamental.

A Garantia de Emprego mantém o que é referido como pleno emprego “solto” porque o governo oferece a compra de mão-de-obra para a qual não há procura actual no mercado.

O aumento dos gastos do governo não compete com outros usuários de recursos. A Garantia de Emprego recruta assim mão-de-obra “fora do fundo do mercado” em contraste com os gastos do governo em geral, o que implica que o governo concorra com outros compradores por recursos, incluindo mão-de-obra.

Ao não competir com o mercado não governamental por recursos, a Garantia de Emprego evita as tendências inflacionistas da tradicional bomba keynesiana, que tenta manter a plena utilização da capacidade através da “contratação de pessoal de topo”, ou seja, competir por recursos a preços de mercado e contar com os chamados multiplicadores de gastos para gerar empregos extras necessários para alcançar o pleno emprego.

Esta última abordagem não fornece um quadro integrado de políticas de emprego e de preços de âncora. Como vimos, a proposta RBG está nesta classe de intervenções e, portanto, é inferior à Garantia de Emprego.

A única questão que se coloca à Garantia de Emprego é se existe capacidade real suficiente na economia (recursos disponíveis e espaço de produção) para os gastos extras do governo.

A existência de trabalhadores ociosos é uma forte evidência de que existe um escopo não-inflacionista para gastar. Além disso, o governo sabe quando já gastou o suficiente. Sob a Garantia de Emprego, a última pessoa que procura um emprego em qualquer dia em particular define quanto gasto governamental é necessário para garantir que há empregos suficientes disponíveis.

Também é verdade que, porque seria impossível gerir uma Garantia de Emprego que igualasse todas as competências a empregos, o stock de reserva de emprego compreende o pleno emprego “solto”, no sentido de que haveria algum subemprego baseado em competências existente quando a reserva era grande.

Em tempos melhores, à medida que o conjunto de garantia de emprego diminuía, e era predominantemente ocupado por trabalhadores que normalmente seriam os últimos empregados por qualquer empresa privada (se é que alguma vez o foram), a diferença entre “solto” e “verdadeiro” seria cerca de zero.

Conclusão

Na Parte 4, passamos a discutir a segunda era da máquina, coerção e capacidades de transformação da Garantia de Emprego.

Isso deveria ser suficiente.

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics(Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Employment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/30/ajudara-o-rendimento-basico-universal-a-recuperacao-do-trabalhismo-britanico-6-justificar-se-a-o-rendimento-basico-garantido-parte-3-por-bill-mitchell/

Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 1. Por Bill Mitchell.

Espuma dos dias_porcos podem voar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Publicamos uma minisérie de 8 textos sobre o debate rendimento básico universal versus garantia de emprego. O primeiro texto (ver aqui) – de Guy Standing – datado de 15 de janeiro último, escrito no rescaldo dos resultados das últimas eleições gerais no Reino Unido, reflete sobre como construir uma aliança progressista na Grã-Bretanha, colocando à cabeça dos elementos chave “combater a desigualdade e a precariedade avançando para um rendimento básico …” e terminando com uma proposta de mudança de nome de partido Trabalhista para partido Progressista.

O segundo texto é uma certeira e bem articulada resposta de Bill Mitchell (que publicámos em 26 de janeiro, ver aqui). Como muito bem diz: “E os porcos podem voar!” Conclui ele que “As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo [emissor de moeda] não pode …… sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.”

Este quarto texto (para o terceiro texto, ver aqui) faz parte de um conjunto de seis textos que são uma análise detalhada feita em 2016 por Bill Mitchell sobre a proposta de um rendimento básico garantido (ou universal), onde finalmente conclui que pela sua oposição à introdução deste Sistema, que cria um grupo estigmatizado por não trabalhar, que não fornece nenhum amortecedor de inflação, que não acrescenta nada produtivo à sociedade, independentemente do estado do ciclo económico, não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento das capacidades individuais, trata as pessoas como meras unidades de consume. Afirma Mitchell que, “essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado”. Ao contrário, “A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais” e “Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

FT

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4. Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 1

 

Bill Mitchell I Por Bill Mitchell

Publicado em 17 de setembro de 2016 em http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=34448

Modern Monetary Theory … macroeconomic reality

logo bill mitchell

 

Esta é a Parte 1 da mini-série que dedico ao debate entre garantia de emprego e garantia de rendimento. Um texto anterior pertence por direito à série enquanto Parte 0 – O trabalho é importante para o bem-estar humano. Este debate constituirá a Parte 3 do meu próximo livro (em co-autoria com o jornalista italiano Thomas Fazi) que traça a forma como a esquerda caiu presa daquilo que designamos como mito da globalização e começou a acreditar que o Estado se atrofiou e é impotente perante os movimentos transnacionais de bens e serviços e os fluxos de capital. Consequentemente, os políticos social-democratas afirmam frequentemente que a política económica nacional tem de ser aceitável para os mercados financeiros mundiais e em resultado disso comprometem o bem estar dos seus cidadãos. Na Parte 3 do livro, que estamos agora a completar, queremos apresentar um ‘Manifesto Progressista’ para orientar o desenho a escolha de políticas de governos progressistas. Esperamos também que o ‘Manifesto’ fortaleça os grupos comunitários demonstrando que a mantra do TINA, na qual os alegados objetivos dos amorfos mercados financeiros mundiais têm prioridade sobre os verdadeiros objetivos tais como o pleno emprego, as energias renováveis e a revitalização dos setores fabris, pode ser afastada e que estão disponíveis uma série de opções, que atualmente são tabu neste mundo neoliberal. Para onde quer que nos viremos nos dias de hoje, aparece um chamado progressista com um megafone (concetual) gritando que o rendimento básico garantido é a panaceia para todos os males – começando alguns anos atrás com o desemprego e deslocando-se mais recentemente, à medida que esse raciocínio foi exposto, para a necessidade de contrariar as esperadas devastações da segunda era das máquinas. Como os meus leitores saberão sou um reconhecido defensor das garantias de emprego. Considero as propostas de rendimento básico uma rendição às forças neoliberais – uma aceitação da inevitabilidade do desemprego massivo. Além disso, o argumento da robotização não pega. De qualquer modo, na Parte 0 – O trabalho é importante para o bem-estar humano – defendi a necessidade de se alargar a definição de trabalho produtivo. Salientei também a importância de uma avaliação contínua do bem estar humano. No presente texto esboçamos os argumentos que têm sido avançados para justificar a proposta de rendimento básico e constatamos que são inconsistentes, ilógicos e deficientes.

 

O Rendimento Básico Garantido (RBG) – justificação duvidosa, macroeconomia predisposta ao erro

A proposta de Rendimento Básico Garantido (RBG) tem sido defendida por uma diversidade de interesses do lado direito e do lado esquerdo do espetro político.

O traçado das origens das propostas de RBG mostra que as justificações dos proponentes em diferentes momentos da história variaram. Desde aqueles que querem acima de tudo cortar na despesa pública e empurrar a responsabilidade da manutenção da ‘segurança social’ para os indivíduos, até aos que acreditam que o desemprego é uma violação da justiça mas que está fora da capacidade dos governos para o resolver, e, mais recentemente, aqueles que invocam o receio da chamada segunda era das máquinas e afirmam que a robotização vai eliminar postos de trabalho a uma escala massiva (a justificação da ‘robotização’).

Vozes da esquerda e da direita apontam vários aspetos destas justificações, frequentemente por formas que se sobrepõem, para justificar as suas exigências de um rendimento básico a ser pago pelo Estado a todos os indivíduos (embora mesmo assim, a unidade que receberia o benefício seja motivo de desacordo).

A célebre ativista conservadora britânica Juliet Rhys-Williams era membro do Beveridge Committee, que procurou reformar o sistema de apoio ao rendimento nos inícios dos anos 1940. O seu relatório final – Social Insurance and Allied Services (vulgarmente conhecido como Beveridge Report) proporcionou o desenho do que se tornaria o Estado de Previdência Social na Grã-Bretanha após a II Guerra Mundial.

A ideia apresentada pelo Committee era que um sistema de taxa fixa de contribuição para a segurança social poderia sustentar um esquema de benefícios fixo. Os críticos de uma grande intervenção estatal afirmavam que estes sistemas eram complexos, onerosos e promoviam distorções entre grupos (em que uma pessoa poderia criar características que lhe permitiriam ‘encaixar’ numa ou outra categoria para assegurar que obteria o apoio de rendimento).

Rhys-Williams era uma voz discordante no Beveridge Committee e opunha-se à solução proposta para apoio ao rendimento. Em vez disso, ela formulava um esquema de imposto negativo sobre o rendimento, que significaria a eliminação do Estado de Previdência Social ao proporcionar um rendimento mínimo garantido através de incentivos fiscais para se ganhar um maior rendimento (Rhys-Williams, 1953).

[Referência: Rhys-Williams, J.E. (1953) Taxation and Incentive, New York, Oxford University Press.]

A sua justificação era reduzir o tamanho e raio de ação do governo, mas proporcionando ao mesmo tempo meios para reduzir a pobreza, uma importante preocupação dos conservadores na época, preocupação que se perdeu nesta era neo-liberal.

Nesta mesma justificação assentou a posterior proposta de Milton Friedman de uma tributação negativa sobre o rendimento, em que uma pessoa receberia um reembolso por deduções fiscais ou subsídios não utilizados até um determinado pequeno montante limite (a componente de garantia de rendimento) e depois teria uma diminuição de subsídio até ao patamar em que pagaria integralmente impostos pelo rendimento obtido (Friedman, 1962).

[Referência: Friedman, M. (1962) Capitalism and Freedom,Chicago, University of Chicago Press.]

Friedman propunha deliberadamente que a componente de garantia para quem não tivesse rendimentos deveria ser pequena pois a motivação dessa garantia deveria ser para que as pessoas obtivessem emprego e se a componente de subsídio fosse demasiado generosa o incentivo funcionaria contrariamente a essa motivação.

Fundamentalmente, a tributação negativa do rendimento substituiria o corpo existente de medidas de apoio ao rendimento em vez de constituir uma medida adicional de previdência social.

A sua proposta fundamentava-se na noção de que o mercado livre, com proteção social exclusivamente privada, era mais eficaz e que o papel do governo deveria reduzir-se ao mínimo.

Dificilmente poderia ser a base de uma visão progressista de uma sociedade fortemente ligada por responsabilidades coletivas e de uma visão em que as falhas sistémicas frequentemente têm um impacto negativo e desproporcionado nos cidadãos mais desfavorecidos.

A visão libertária foi reafirmada por Charles Murray no seu artigo no Wall Street Journal (3 de junho de 2016) – A Guaranteed Income for Every American – que era uma repetição do seu pensamento de 2006 (Murray, 2006).

[Referência: Murray, C. (2006) In Our Hands : A Plan To Replace The Welfare State, Washington, Aei Press.]

Murray trabalha no American Enterprise Institute, fundado em 1938 e é uma das principais vozes do movimento neo-conservador nos Estados Unidos. Foi fundado pelos interesses empresariais de New York em 1938 como veículo para defender os seus interesses e opôr-se ao New Deal.

Entre os seus famosos ao longo dos anos incluíam-se nomes como Irving Kristol e Milton Friedman. As raízes da abordagem de Murray são consistentes com esse legado.

Ao American Enterprise Institute juntou-se uma coleção de think tanks de direita, estratégicos e extremamente influentes, estabelecidos pelo capital nos anos de 1970 (após a publicação do Manifesto Powell) para recuperar o poder para os interesses das empresas depois de a era do pleno emprego ter forçado uma partilha mais equitativa entre o trabalho e o capital do crescimento do rendimento nacional.

Murray não é economista mas escreve sobre política económica.

Tal como Friedman, Murray considera o rendimento básico garantido desejável “apenas se substituir todos os outros pagamentos e as burocracias que os controlam”. É a filosofia do Estado mínimo o que é consistente com as suas raízes libertárias do ‘mercado livre’.

Em termos de preços de 2016, Murray defendia que:

… cada cidadão americano de 21 ou mais anos de idade receberia uma subvenção de 13.000 dólares anuais depositados eletronicamente numa conta bancária em prestações mensais. 3.000 dólares deverão ser utilizados no pagamento de seguro de saúde … ficando cada adulto com 10.000 dólares de rendimento anual disponível para o resto das suas vidas.

Além do subsídio público implícito aos gananciosos e ineficazes fornecedores privados de seguros de saúde dos Estados Unidos, a proposta apresenta um rendimento garantido que colocaria as pessoas abaixo do umbral de pobreza. Segundo o Federal Poverty Guidelines dos Estados Unidos, a estimativa do patamar mínimo para um adulto era de 11.880 dólares.

Como qualquer proposta de imposto negativo sobre o rendimento, uma pessoa pode ganhar um adicional de 20.000 dólares sem com isso atingir o escalão positivo de tributação do rendimento. Para lá desse patamar, os dólares ganhos são subtraídos ao rendimento básico na medida do rendimento que ganhe no mercado de trabalho.

Murray também é motivado pela sua preferência por uma menor despesa pública, afirmando que quando o sistema estivesse ajustado (por volta de 2020), o governo dos Estados Unidos gastaria quase “um milhão de milhões de dólares” menos.

A questão que obviamente se coloca se estas reduções líquidas de despesa pública se concretizarem é: que componentes de despesa não pública crescerão para preencherem este diferencial de despesa e manter o crescimento económico.

A redução líquida da despesa pública viria, em parte, da redução de custos não laborais da administração pública, mas viria também da redução dos rendimentos de apoio pagos às pessoas.

Embora a justificação fundamental de Murray seja a redução do tamanho da administração e empurrar a responsabilidade de manutenção dos níveis de vida para os indivíduos, também invocou recentemente a justificação da ‘robotização’.

Ele escreveu que enquanto muitos “seguramente sairiam da força de trabalho ativa” se fosse introduzido um rendimento básico garantido, esta redução de oferta seria insignificante em comparação com o impacto dos robôs.

Escreve ele:

Estamos a caminhar para um mercado de trabalho em que negócios e profissões inteiras serão meras sombras do que foram no passado.

Rejeita também a defesa ‘anti-progresso’ contra o medo ao ‘robot’ porque, afirma ele, “desta vez é indiferente” em que milhões de postos de trabalho serão apagados.

Afirma que a disponibilização nestas circunstâncias de um rendimento básico revitalizaria a “sociedade civil” sob os auspícios de uma multiplicação de “organizações voluntárias” que lidariam “com os problemas locais”.

As agências públicas de previdência social e “todo o aparelho governamental burocrático de trabalhadores sociais” desapareceriam, mas as pessoas “teriam os seus subsídios” assegurando-se que ninguém passaria fome.

A proposta de Murray, como a maioria das propostas de rendimento básico, é a hipocrisia levada ao extremo. Em primeiro lugar, se um indivíduo está abaixo da linha de pobreza segundo o seu esquema, congregando dois abaixo dessa linha significa simplesmente que dois indivíduos permanecem abaixo do limiar de pobreza, salvo se forem realizadas sistemáticas economias de escala nos custos.

Frequentemente, quando confrontados com situações como esta, as pessoas com deficiente apoio ao rendimento arranjam maneira de poupar amontoando-se em alojamentos sociais. Embora resolvam o seu problema de sem-abrigo as suas comodidades diminuem significativamente. Fraca libertação!

Mas mais ainda: se os robots vão efetivamente eliminar todos os postos de trabalho, isso começará pelos postos de trabalho de que dependem os prováveis beneficiários do RBG.

Assim, todos os esquemas de ‘incentivos’ desenhados para encorajar as pessoas a obter postos de trabalho extra se quiserem ter um nível de vida decente, que são utilizados para justificar o rendimento básico garantido inferior ao limiar de pobreza, são tão somente uma elaborada mentira para esconder o facto de que este esquema criaria pobreza de rendimentos e levaria ao abandono da responsabilidade que os governos têm de criarem postos de trabalho com um nível de rendimento suficiente para se manterem razoáveis padrões de vida.

Esta característica é comum à maior parte dos esquemas de rendimento básico, embora poucas propostas sejam tão concretas como as de Murray ao especificar o nível exato de rendimento básico que seria assegurado. Por exemplo, a recentemente rejeitada proposta suíça para prover um rendimento básico que permitiria “uma existência humana e a participação de toda a população na vida pública”.

Similarmente, a proposta pelo governo finlandês de um rendimento básico tornou-se tão mitigada que não proporcionaria alívio para a pobreza de um trabalhador desempregado.

A sua motivação é claramente cortar as despesas públicas com a previdência social pelo que o problema é que muito provavelmente o desemprego aumentaria e seguir-se-ia um círculo vicioso de pobreza.

A justificação da ‘robotização’ foi também utilizada pelo FMI recentemente para justificar um rendimento básico garantido.

As anteriores propostas dos seguidores do economista belga Philippe Van Parijs foram motivadas pelo desejo de resolver uma crise de desemprego que os proponentes do rendimento básico consideravam que ultrapassava a capacidade dos governos para a enfrentar (Van Parijs, 1995).

[Referência: Van Parijs, P. (1995) Real Freedom for All, What (if anything) can justify capitalism, Oxford, Clarendon Press.]

Regressamos à questão de que a argumentação, diferentemente da justificação libertária do mercado livre, que é motivada pelo desejo de cortar em geral a despesa pública e empurrar mais responsabilidade para as pessoas consideradas individualmente, é apoiada por gente quer da esquerda quer da direita.

Mais adianta demonstraremos que a justificação da ‘robotização’ é também insuficiente.

A justificação ‘progressista’ para o rendimento garantido

Muitos comentadores progressistas defendem a introdução de um Rendimento Básico Garantido (RBG) como a principal arma política contra a pobreza e consideram que a política de emprego garantido é coerciva.

Eles sublinham o facto de que se existem falta de alternativas de emprego disponíveis para os cidadãos então a concessão incondicional de um RBG, estabelecido a um nível ‘suficiente para viver’ e aplicável a todos os cidadãos, é o meio mais direto de enfrentar a insegurança de rendimento.

Mitchell e Watts (2004) apresentaram uma detalhada crítica da proposta de rendimento básico garantido e concluíram que a conceção do RBG para insegurança de rendimento e desemprego é altamente problemática.

[Referência: Mitchell, W.F. and Watts, M.J. (2004) ‘Comparison of the Macroeconomic Consequences of Basic Income and Job Guarantee Schemes’, Rutgers Journal of Law and Urban Policy, 2 1-24.]

Importantes defensores do RBG (por exemplo, o belga Phillipe Van Parijs) afirmam tipicamente que o desemprego (escassez de postos de trabalho) é provocado por trabalhadores que gozam de salários excessivos em relação aos que resultam do mercado livre.

Os sindicatos e a legislação de salário mínimo dos governos são responsabilizados pela criação deste estado de escassez de postos de trabalho. Não é reconhecido que o desemprego massivo é sempre o resultado de uma deficiência na despesa total da economia. Isto é, o desemprego massivo é uma falha sistémica e não uma falha individual.

Além disso, os proponentes do RBG adotam o pressuposto neo-liberal de que os governos se encontram financeiramente constrangidos e deste modo propõem o financiamento do rendimento garantido de diversas maneiras.

Van Parijs, por exemplo, propõe tributar os que estão empregados em virtude de os seus salários excessivos privarem os desempregados da possibilidade de encontrarem trabalho.

Está-se deste modo a considerar que os desempregados estão a ‘permitir’ que os têm emprego estejam empregados e em virtude disso deverão ser recompensados pelo seu sacrifício.

O conceito de pleno emprego que está subjacente é igualmente bizarro. Os defensores do RBG resolvem o problema do desemprego massivo engendrando uma retirada artificial da oferta de trabalho disponível, de modo que alguns dos desempregados são reclassificados não como força de trabalho mas como beneficiários da atribuição de rendimento básico.

Independentemente de o RBG ser modesto ou não, problemas macroeconómicos profundos acompanharão, mesmo assim, a sua introdução.

A literatura dominante sobre o RBG defende a introdução do RBG dentro de um ambiente de ‘neutralidade orçamental’. Presumivelmente isto destina-se a apaziguar a crítica dos neo-liberais que não querem défices orçamentais.

Assim, uma das questões sensíveis dos proponentes do RBG é a perceção do seu ‘custo’.

Com neutralidade orçamental o valor máximo sustentável de RBG seria modesto. A procura agregada e os impactos no emprego seriam pequenos, e mesmo com alguma redistribuição de horas de trabalho; muito provavelmente persistirão elevados níveis de subutilização da força de trabalho.

Em geral esta estratégia não fortalece os direitos dos mais desfavorecidos, nem proporciona trabalho àqueles que o querem.

É óbvio que o desemprego persistente poderia ser facilmente evitado com a introdução do RBG se fosse acompanhado de um estímulo orçamental (défice).

Isto é o reconhecimento de que em todas as circunstâncias, dadas as decisões de despesa e poupança do setor não público, o nível de desemprego existente é uma escolha dos governos com capacidade de emissão de moeda – por outras palavras, o desemprego massivo significa que o défice é demasiado pequeno em relação à vontade de poupança não pública.

Mas, sem um apropriado estímulo orçamental, a proposta de rendimento básico atingiria o pleno emprego se persuadisse os desempregados a abandonarem a força de trabalho mediante o recebimento de um rendimento garantido.

Mas então o valor da moeda cairia uma vez que nada seria fornecido em troca da despesa pública.

O resultante enviesamento inflacionário apelaria a ajustamentos da taxa de juro (dada a abordagem prioritária de controlo da inflação adotada pelos bancos centrais) que limitariam que a economia atingisse um crescimento suficiente para poder oferecer opções reais de emprego a todos os que aspiram a trabalhar.

Mas então qual seria o impacto na oferta de mão-de-obra?

Se o nível de RBG aumentasse, a oferta total de mão-de-obra provavelmente diminuiria bem como tanto os desempregados como os empregados abandonariam a força de trabalho.

A economia orientar-se-ia para um falso pleno emprego – empurrando os trabalhadores para fora da força de trabalho em vez de proporcionar-lhes trabalho.

Mas então emerge um novo dilema. Um RBG mais generoso provavelmente estimularia uma despesa total de tal modo que haveria uma escassez de mão-de-obra no ‘pleno emprego’, resultante da redução artificial do nível de emprego no estado de pleno emprego, o que então agrava a pressão inflacionária.

A alternativa seria que o excesso de procura de bens seria satisfeito crescentemente através de importações com os consequentes efeitos sobre a taxa de câmbio e o nível dos preços domésticos, que acentuariam a pressão inflacionária.

Mitchell e Watts (2004) analisaram estas e outras destrutivas dinâmicas em detalhe. A conclusão é que a introdução de uma política de RBG será provavelmente altamente problemática em relação à sua capacidade para produzir pleno emprego sustentável e estabilidade de preços.

Uma política correta tem de ser viável se for possível encontrar os extremos dessa política. É óbvio que a proposta de rendimento básico não satisfaz esse requisito.

Quantos mais e mais indivíduos optassem pelo rendimento básico sem trabalhar, a produção cairia dramaticamente e a prosperidade seria lesada. Lazer e consumo estão estreitamente relacionados.

Além disso, dada a lógica aplicada pelos proponentes do rendimento básico de que o fornecimento do rendimento básico pelos governos está financeiramente limitado, a lógica é que à medida que aumentasse o número de trabalhadores ‘libertados’ a receber o rendimento básico, diminuiria a capacidade dos governos para o sustentarem.

Por outras palavras, nos seus próprios termos, a proposta de rendimento básico é uma proposta de âmbito limitado.

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics(Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Emplyment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/28/ajudara-o-rendimento-basico-universal-a-recuperacao-do-trabalhismo-britanico-4-justificar-se-a-o-rendimento-basico-garantido-parte-1-por-bill-mitchell/

Trabalho, não ao Rendimento Básico Universal – a esperança, não a rendição. Por Bill Mitchell

Espuma dos dias_porcos podem voar

Ajudará o rendimento básico universal à recuperação do trabalhismo britânico?

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Publicamos uma minisérie de 8 textos sobre o debate rendimento básico universal versus garantia de emprego. O primeiro texto – de Guy Standing – datado de 15 de janeiro último, escrito no rescaldo dos resultados das últimas eleições gerais no Reino Unido, reflete sobre como construir uma aliança progressista na Grã-Bretanha, colocando à cabeça dos elementos chave “combater a desigualdade e a precariedade avançando para um rendimento básico …” e terminando com uma proposta de mudança de nome de partido Trabalhista para partido Progressista.

Este segundo texto é uma adequada e bem articulada resposta de Bill Mitchell. Como muito bem diz: “E os porcos podem voar!” Conclui ele que “As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo [emissor de moeda] não pode …… sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.”

Os seis textos seguintes são uma análise detalhada feita em 2016 por Bill Mitchell sobre a proposta de um rendimento básico garantido (ou universal), onde finalmente conclui que pela sua oposição à introdução deste Sistema, que cria um grupo estigmatizado por não trabalhar, que não fornece nenhum amortecedor de inflação, que não acrescenta nada produtivo à sociedade, independentemente do estado do ciclo económico, não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento das capacidades individuais, trata as pessoas como meras unidades de consume. Afirma Mitchell que, “essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado”. Ao contrário, “A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais” e “Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

FT

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2. Trabalho, não ao Rendimento Básico Universal – a esperança, não a rendição

Bill Mitchell I Por Bill Mitchell

Publicado em 21 de janeiro de 2020 http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=44133

Modern Monetary Theory … macroeconomic reality

logo bill mitchell

 

Há muito que discordo do Guy Standing sobre as soluções para o desemprego. Há 20 anos atrás cruzamo-nos em painéis e na literatura onde ele argumentava que o Rendimento Básico Universal (RBU) era o caminho a seguir e eu argumentava que era uma trama neoliberal e que, em vez disso, precisávamos de puxar pela criação de emprego.

A minha opinião sempre foi que ceder aos neoliberais na sua afirmação de que os governos não podem gerar empregos suficientes para satisfazer os desejos de trabalho dos desempregados era um terreno escorregadio. Standing continua a publicar a sua ficção. No seu último artigo sobre a Europa Social (15 de janeiro de 2020) – Construindo uma aliança progressista na Grã-Bretanha – ele procura integrar as propostas do RBU com um plano de recuperação do trabalhismo britânico. A minha opinião é que isso não ajudaria os trabalhistas a recuperarem-se dos tiros que dispararam nos seus próprios pés no período anterior às eleições de dezembro, ouvindo os que como Standing e que defendiam a Regra da Credibilidade Fiscal e a renegação do compromisso Brexit.

A aversão da Standing à criação de emprego está em contradição com uma recomendação do Wetenschappelijke Raad Voor Het Regeringsbeleid (WRR ou, Conselho Científico para Políticas Governamentais dos Países Baixos) ao governo holandês para lidar com os desafios de conseguir “bom trabalho”, em parte, introduzindo um “emprego básico” que no meu linguajar significa introduzir uma Garantia de Emprego. Eles são motivados por uma profunda veia de ciência social e pesquisa médica que enaltece as virtudes do trabalho além das suas qualidades óbvias de geração de rendimento. Empurrar para um RBU é, à luz dessa pesquisa, apenas um resgate lamentável.

O WRR é “um órgão consultivo independente para a política governamental … [e] … A tarefa do WRR é aconselhar o governo e o Parlamento holandeses sobre questões estratégicas que provavelmente terão consequências políticas e societais importantes”.

Ele reúne pesquisas e tipos através de “opiniões opostas”, a fim de chegar a “opiniões bem pensadas”.

Em 15 de janeiro de 2020, ele lançou o seu relatório – Het betere werk. De nieuwe maatschappelijke opdracht – (Melhor trabalho: a nova missão das sociedades), que delineou três condições essenciais que emergem da literatura científica para o que eles chamam de “bom trabalho”.

Dizem que estes elementos estão de acordo com os “desejos e expectativas das pessoas na sociedade”.

Um resumo em inglês de 11 páginas está disponível.

O relatório complete em holandês está aqui – WRR-rapport nr.102: Het betere werk. De nieuwe maatschappelijke opdracht.

Essencialmente, sem analisar todo o relatório, que agora pude ler, o Relatório observa que há três desenvolvimentos que terão impacto no futuro do trabalho:

  1. A nova tecnologia (robôs, etc.) que resulta na perda de empregos também apresenta novas oportunidades de trabalho. Concluem que a política tem de se concentrar na “complementaridade” entre pessoas e máquinas para garantir que a era tecnológica promove o bem-estar humano e não o corrói.
  2. A crescente flexibilidade do trabalho aumentou a probabilidade de desenvolvimento da precariedade.
  3. A intensidade variável do trabalho também é importante e que uma proporção crescente de trabalhadores relatam que “frequentemente ou sempre têm que trabalhar rapidamente para fazer o trabalho” e que “a pressão de trabalho é muito alta”.

O Relatório diz que “Uma maior autonomia no trabalho – ou seja, mais liberdade para executar as tarefas como se julgar conveniente – é um tampão contra tal intensificação”.

Uma importante contribuição do trabalho, que recorre a muitas disciplinas das ciências sociais (incluindo sociologia, psicologia, etc.), é que:

Estar no trabalho é bom, tanto pela renda como pelo auto-respeito que proporciona aos indivíduos e pelos seus benefícios para a sociedade. Mas isto aplica-se sobretudo quando esse trabalho é um bom trabalho.

Por outras palavras, eles reconhecem que embora “bom trabalho seja trabalho que proporciona segurança financeira suficiente” (ou seja, garantir o rendimento e o crescimento dos salários reais), também é importante para a nossa posição social, o nosso sentido de valor e auto-estima, o nosso sentido de que estamos a contribuir para algo de uma forma coletiva usando nossas próprias competências e esforços.

O diagrama que se segue traça os benefícios dos governos que garantem a existência de um bom trabalho disponível para o sentido individual de bem-estar até aos benefícios para a “economia e a sociedade”, no agregado.

53 2 Trabalho não ao Rendimento Básico Universal a esperança não a rendição

Eles dizem que:

Um bom trabalho melhora a saúde e o bem-estar das pessoas … assim como o seu envolvimento … tudo isto contribui para uma maior produtividade e organizações de trabalho inovadoras e que funcionam bem. Um bom trabalho também ajuda a garantir que as pessoas possam continuar a trabalhar por mais tempo e limita o custo dos cuidados de saúde. Finalmente, um bom trabalho para todos é melhor para a coesão social … uma vez que torna as pessoas mais capazes de entrar nas relações humanas e de se conectar com a sociedade como um todo. Para uma coesão social óptima, é melhor, portanto, que todos tenham um bom trabalho.

O relatório da WRR também defende que um programa de políticas que promove o objetivo da segurança financeira deve reconhecer que há muitas pessoas nas nossas sociedades que querem trabalhar mas não conseguem encontrar trabalho ou que estão sub-empregadas.

Nos Países Baixos, esse número chega a “cerca de um milhão”.

Outros 1,6 milhões estão “a receber benefícios”, enquanto há uma proporção crescente de pessoas, por exemplo, com incapacidades, que estão “fora do mercado de trabalho” porque não conseguem encontrar trabalho, mas estão dispostas e aptas a trabalhar.

Eles relatam que:

Ao mesmo tempo, os Países Baixos praticamente deixaram de investir na política activa do mercado de trabalho … As pessoas sem emprego quase não recebem qualquer formação ou orientação pessoal, apesar de estar no trabalho ser tão importante para a saúde e bem-estar pessoais e para a coesão social nacional. Uma vez que o trabalho é tão importante do ponto de vista psicológico e social, não devemos simplesmente “enganar as pessoas” com benefícios. Um emprego básico, em vez de benefícios, deve ser a peça final da estrutura da segurança social.

Este é o papel de uma Garantia de Emprego – para assegurar que qualquer trabalhador possa obter um emprego produtivo com um salário socialmente inclusivo a qualquer momento à sua escolha – incluindo horas de trabalho suficientes para satisfazer as suas preferências.

A Garantia de Emprego proporcionaria um trabalho inclusivo para todos os tipos de trabalhadores e pode ser organizada de forma flexível para acomodar aqueles com necessidades especiais (deficiências, etc.).

Tenho escrito sobre os benefícios do trabalho ao longo de toda a minha carreira (há várias décadas), e é por isso que defendo que a responsabilidade do governo é perseguir o pleno emprego, e não abandonar essa missão e optar por opções bastante inferiores, como o RBU.

O WRR faz um excelente ponto na página 182 do Relatório completo:

O emprego básico é também, em parte, uma resposta à ideia de um rendimento básico. Se o trabalho é tão importante psicológica e socialmente para as pessoas, por que devemos “socorrer” aqueles que querem e podem trabalhar com um rendimento em vez de proporcionar um bom trabalho?

O que significa que o WRR vê a provisão de um emprego básico que é inclusivo para todos e proporciona benefícios psicológicos e sociais para as pessoas, como sendo uma solução superior à provisão de um rendimento básico.

Eles perguntam “por que ‘privaríamos’ nós aqueles que querem e podem trabalhar com um rendimento em vez de garantir um bom trabalho”?

Justaponha-se essa narrativa positiva, que é informada pela extensa evidência de pesquisa das ciências sociais quanto ao valor do trabalho, com o tipo de coisas que Guy Standing põe cá para fora, e que muitos progressistas pensam ser a resposta.

Ele afirma que:

  1. O desastre eleitoral britânico para os trabalhistas é o “jogo final do ‘laborismo’ fundado no apelo ao proletariado industrial”.
  2. Os Tories são o “partido populista” – usar esse termo é uma típica derrota progressista, embora sem sentido – a própria arte da política é ser a opção popular.
  3. “a velha classe trabalhadora… o trabalhismo fracassou.”
  4. A redistribuição de renda não é possível porque “exigiria o desmantelamento do capitalismo rentista sobre o qual a plutocracia prospera”.

Entre outras propostas estúpidas, em que ele se aventura para resolver tudo isso, estão:

… combater a desigualdade e a precariedade, avançando para um rendimento básico … criar um fundo de capital nacional com receitas provenientes da exploração comercial dos nossos bens comuns – naturais e sociais – que poderiam ser utilizados para pagar um rendimento básico como “dividendos comuns”

Aparentemente, isto iria “apelar ao precariato … e ao assalariado … querendo ação sobre as mudanças climáticas e o meio ambiente”.

Assim, forma-se uma “aliança precariato-assalariado” que exigiria que o Partido Trabalhista se tornasse o “Partido Progressista”.

E os porcos podem voar!

Há também uma proposta de imposto sobre os ricos – que é agora uma ilusão padrão de urbanismo progressista – de que tudo ficará bem e todos os serviços essenciais poderão ser financiados se apenas utilizarmos o dinheiro dos ricos.

A dissonância entre essas duas visões da humanidade (WRR e Standing) é extrema.

Standing parece pensar que a provisão de um rendimento básico:

  1. Irá satisfazer todos os desejos humanos de trabalho não satisfeitos.
  2. Vai exigir que os governos cobrem impostos para obter os fundos necessários para pagar o RBU.
  3. Irá unir os beneficiários do globalismo com os perdedores.

Ele tem andado a vender este disparate há anos.

O que o Partido Trabalhista precisa de fazer é:

  1. Dispensar todos os mitos macroeconómicos neoliberais sobre a tributação dos ricos, a necessidade de ter Regras de Credibilidade Fiscal impraticáveis, e tratar as pessoas como se fossem apenas unidades de consumo (que um RBU irá satisfazer as necessidades).
  2. Esboçar um plano de emprego ousado para assegurar que o governo britânico crie trabalho suficiente de um padrão razoável que afaste todos os fornecedores de trabalho precário ou os obrigue a reestruturar os seus locais de trabalho para prover os componentes de bom trabalho que o Relatório WRR articula.
  3. Passar este período em ignomínia eleitoral para educar o público de que o governo britânico só está limitado nos seus gastos pela disponibilidade real de recursos e tem opções disponíveis para redirecionar os recursos que estão sendo usados atualmente, para fins socialmente mais produtivos, caso isso seja considerado necessário e desejável.
  4. Não ouvir os conselhos daqueles que os empurraram para a sua posição actual insuperável, incluindo pessoas como Guy Standing.

Conclusão

Um governo emissor de moeda pode sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.

Esse deve ser o ponto de partida para uma política social de rede de segurança.

As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo não pode fazer isso.

Não é uma posição progressista, mas continua o regime de desemprego que convém ao capital – eles beneficiam com a supressão dos salários e mantêm as vendas através do RBU.

 

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics(Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Employment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/26/ajudara-o-rendimento-basico-universal-a-recuperacao-do-trabalhismo-britanico-2-trabalho-nao-ao-rendimento-basico-universal-a-esperanca-nao-a-rendicao-por-bill-mitchell/

Brexit já recebeu luz verde da Comissão e do Conselho Europeu

(dr) Twitter

 

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, formalizaram esta sexta-feira o Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia (UE), faltando agora apenas a “luz verde” final do Parlamento Europeu.

 

“Charles Michel e eu acabámos de assinar o Acordo sobre a Saída do Reino Unido da UE, abrindo caminho para a sua ratificação pelo Parlamento Europeu”, informou a líder do executivo comunitário através de uma publicação feita na rede social Twitter.

A publicação é acompanhada de uma fotografia na qual aparece Ursula von der Leyen, Charles Michel, e o negociador-chefe da UE para o Brexit, Michel Barnier, que conduzirá as negociações sobre futuras relações comerciais após este ‘divórcio’.

https://twitter.com/vonderleyen/status/1220602177774813184
 
 

 

Este passo formal dado esta sexta-feira surge um dia depois de a Comissão de Assuntos Constitucionais do Parlamento Europeu ter aprovado uma recomendação que espelha a posiçãofavorável da assembleia europeia ao Acordo de Saída do Reino Unido da UE, faltando só a ‘luz verde’ final em plenário.

Falta agora a ‘luz verde’ dos eurodeputados em plenário, que deverá acontecer na próxima quarta-feira, durante a mini-sessão que decorre em Bruxelas. Para entrar em vigor, o Acordo de Saída tem de ser aprovado por uma maioria dos votos expressos.

Enquanto a Comissão de Assuntos Constitucionais estava reunida e aprovava o documento, a rainha Isabel II promulgava o contestado e adiado projeto de lei que formaliza a saída do Reino Unido da UE, viabilizando o ‘Brexit’ dentro de uma semana, a 31 de janeiro.

O consentimento da rainha veio horas depois de o projeto ter concluído a sua passagem pelo Parlamento britânico, obtendo a aprovação da Câmara dos Lordes (câmara alta).

Três anos e meio depois de o ‘Brexit’ ter sido decidido num referendo por 52% dos eleitores, em junho de 2016, o processo provocou uma crise política devido ao impasse no parlamento, que rejeitou três vezes o acordo negociado pela antiga primeira-ministra Theresa May e forçou o adiamento da saída.

Theresa May acabou por se demitir e foi substituída por Boris Johnson, que só conseguiu ultrapassar o impasse após as eleições legislativas de 12 de dezembro de 2019, as quais venceu com maioria absoluta. A saída do Reino Unido da UE será oficialmente registada às 23:00 locais (mesma hora em Lisboa) de 31 de janeiro, iniciando-se depois um período de transição, até 31 de dezembro de 2020.

ZAP // Lusa

 
 
 

Escócia na busca da independência

Enquanto a Inglaterra amarga os resultados trágicos da última eleição geral, o cenário político da Escócia foi extremamente positivo e aponta no sentido que o movimento independentista já acusa há muito tempo: O Reino Unido está com os dias contados.

Dos 59 assentos relativos à Escócia no Palácio de Westminster, o Partido Nacional Escocês (SNP) conseguiu 48, doze mais do que na eleição passada.

Causa histórica

Desde o século X, o povo escocês tem lutado contra os ingleses para manter suas terras e soberania. Depois de inúmeras batalhas, durante séculos, a história até hoje deixa marcas profundas no país.

No início do século 18, os povos nas terras baixas da Escócia eram majoritariamente anglicizados. Estavam mais alinhados com a Inglaterra em termos de cultura, idioma e política do que com seus conterrâneos escoceses dasHighlands (terras altas). 

O povo das highlands, área que abrange a metade norte da Escócia, vivia majoritariamente em áreas rurais e tentava sobreviver em uma terra amplamente empobrecida. Sua cultura e idioma eram predominantemente o escocês gaélico. Os Highlanders ainda seguiam o sistema de clãs, que estava em vigor há centenas de anos. O clã era governado por uma família, da qual seu chefe era escolhido. Os parentes e outros que compunham o clã viviam juntos em municípios agrícolas que funcionavam como coletivos ou fazendas conjuntas. A terra era controlada pelo chefe, mas arrendada para pessoas que a alugavam para agricultores arrendatários, que por sua vez empregavam cotas para ajudar a cultivá-la. O sistema tinha ainda grande influência feudal, e o clã também servia a um sistema marcial baseado na obrigação de seus arrendatários de prestar serviço militar ao chefe, a quem deviam lealdade pessoal.

Em 1745, Charles Edward, (chamado “Bonnie Prince Charlie“), liderou a quinta rebelião jacobita que a casa dos Stuart empreendeu na tentativa de recuperar o trono britânico (o avô de Charles, James II, foi deposto como rei na Revolução Gloriosa). Charles ganhou apoio entre os escoceses para combater os ingleses mas, após algum sucesso inicial, ele e suas tropas foram derrotados na Batalha de Culloden (16 de abril de 1746), durante a qual milhares deHighlanders foram mortos. Nas semanas e meses subsequentes, cerca de 1.000Highlanders foram caçados e mortos. No processo, clãs inteiros das montanhas foram destruídos ou forçados a fugir.

A interrupção subsequente do estilo de vida tradicional e a desapropriação de terras que ocorreram durante o próximo século se tornaram conhecidas como “highland clearances”. Asclearances são geralmente consideradas como tendo ocorrido em uma série de ondas, cuja natureza e circunstâncias variadas ocorreram em vários momentos durante o século XVIII. À medida que as doenças e a fome se espalhavam, crescia a diáspora escocesa, principalmente para as Terras Baixas da Escócia (onde poderiam ser encontrados trabalhos nas fábricas), Canadá, Estados Unidos e Austrália. Frequentemente, oshighlanders saíam como servos contratados, esperando um dia possuir fundos para comprar suas próprias terras.

Esses processos deixaram marcas profundas que são sentidas até hoje, como o apagamento da cultura tradicional escocesa e especialmente o preconceito linguístico. Ainda hoje é comum ouvir relatos de habitantes das ilhas escocesas que durante a década de 40 e 50 foram enviados pelo governo britânico para estudarem na ilha principal, pois não falavam inglês, apenas seus idiomas tradicionais. E desde a unificação da Escócia com o Reino Unido, é grande o sentimento de supressão de identidade nacional e a insatisfação de viver sob o domínio de um governo que constantemente os subestima por não serem ingleses. 

Representação política?

Quase 90% da população do Reino Unido é inglesa. Existe uma desigualdade básica na divisão dos poderes no Reino Unido que resulta da fusão de quatro países com populações desiguais e condições sócio-econômicas mais desiguais ainda. Mesmo que um escocês seja eleito primeiro-ministro britânico, ele só chegaria lá com o apoio dos ingleses, e alcançar esse apoio não é fácil. O sistema de assentos no Parlamento foi criado deliberadamente para sub-representar a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte, com a Inglaterra possuindo 532 dos 650 assentos.

Os políticos escoceses estão contornando o problema da maneira que podem, peça por peça, com poderes adicionais que foram dados ao seu parlamento próprio. No entanto, essas “migalhas democráticas”, deixam os escoceses impossibilitados de tomar conta de questões importantes como defesa do país, possibilidade de acordos de relações exteriores e imigração, fazendo assim com que o poder de decisão fique nas mãos de Westminster. 

Em 1997, a Escócia votou pelo estabelecimento de um parlamento escocês. Estava claro que o antigo sistema de Westminster para a Escócia era desacreditado. Os eleitores reconheceram que não era democrático, e que produziu políticas e legislações que apenas os prejudicava. 

Apesar das limitações, muitas coisas boas aconteceram na Escócia graças ao seu parlamento: como uma reforma agrária parcial e inédita em comparação aos outros países do Reino Unido, uma legislação mais progressista em relação à igualdade de gênero, igualdade sexual, sectarismo e multiculturalismo que agora inspira outros países.

O referendo

A demanda por autonomia escocesa, incluindo a independência, não é um fenômeno novo. Surgiu em várias etapas desde o Ato da União em 1707, particularmente em momentos de dificuldade econômica ou luta revolucionária. Um dos fundadores do movimento sindical e do Partido Trabalhista na Escócia, Keir Hardie, apoiou a existência do governo escocês como uma demanda democrática natural inteiramente consistente com o objetivo de construir um movimento unido em todas as ilhas britânicas.

O reaparecimento da demanda por independência se deve principalmente ao declínio econômico do imperialismo britânico, e especialmente à insatisfação com as políticas neoliberais do parlamento de Westminster. 

O estado de bem-estar social e o Serviço Nacional de Saúde no pós-guerra expandiu bastante o “salário social” escocês, e ajudou a solidificar um sentimento anglicista.

Em setembro de 2014, depois de uma campanha exaustiva de ambos os lados, o povo escocês foi às urnas, e o “Não” (que se opunha à independência) venceu com 2.001.926 votos sobre 1.617.989 pelo “Sim”.

O primeiro ministro da Escócia na época, Alex Salmond, pediu unidade entre os partidos e sindicalistas para que ao menos eles exigissem mais poderes ao Reino Unido.

Críticos dentro do próprio movimento da Independência disseram que perderam em 2014 pois os argumentos sobre o futuro econômico da Escócia, sobre moeda, pensões, fundamentos econômicos e controle financeiro do novo estado, não foram fortes o suficiente, não conseguindo convencer as pessoas da classe média e indecisos em geral. A possibilidade de expulsão da União Europeia também assustou muitos escoceses.

Brexit e a Escócia 

A Escócia foi o único dos quatro países do Reino Unido em que nenhuma área eleitoral votou favorável à saída da União Europeia, e o voto favorável à continuação na UE na capital do país, Edimburgo, foi o mais alto de qualquer cidade do Reino Unido, com 74,4%. A maior cidade da Escócia, Glasgow, votou 66,6%, enquanto a maioria de Londres foi de 59,9%. 

O SNP, partido de centro-esquerda e pró-independência, que está no poder na Escócia desde 2007, elegeu Nicola Sturgeon ao cargo de primeira ministra em 2014. O partido tem uma ideologia de nacionalismo cívico, em oposição ao étnico, com um discurso de integração dos povos no país.

A posição em relação ao Brexit do governo escocês afirma de maneira um tanto ambígua: “O Reino Unido pode estar saindo da União Europeia”, enquanto a página equivalente do governo do Reino Unido diz: “O Reino Unido deixará a União Europeia”.  Holyrood (como é conhecido o parlamento escocês), tem sido inequívoco em sua oposição. No dia seguinte ao resultado da Brexit, Sturgeon voltou a abordar diretamente os cidadãos da UE que moram na Escócia. Ela escreveu: “Gostaria de garantir que o governo escocês está buscando todas as opções possíveis para proteger a posição da Escócia na Europa e, por extensão, os interesses das pessoas de toda a União Europeia que vivem aqui.” Esse fator está fazendo com que muitas pessoas mudem sua opinião em relação à independência, já que durante toda a falta de coordenação do governo conservador, para ao menos apresentar um acordo de saída do bloco econômico que parecesse palpável, os ministros e eurodeputados do SNP, passaram todos esses anos estreitando relações com os líderes europeus. E embora a questão da Brexit não tenha consenso entre os apoiadores da Independência, todos concordam que um Brexit negociado e liderado pelos Tories (conservadores)  ingleses será catastrófica ao país. 

Futuro

Uma das perguntas que mais tem sido feita desde o resultado da última eleição geral é se o desempenho positivo e histórico do SNP nas eleições significa que há apoio a um novo referendo pela independência da Escócia. O cenário político no país é complexo, e há um cruzamento entre o Brexit, a independência e as questões domésticas, dificultando a atribuição do resultado a apenas um fator.

Nicola Sturgeon e Boris Johnson estão agora em rota de colisão sobre a possibilidade de um segundo referendo de independência. A primeira-ministra quer que Westminster conceda uma ordem de Seção 30 (a base legal para um referendo) para que a votação possa ser realizada dentro de 12 meses.

O Parlamento escocês aprovou no dia 18 de dezembro de 2019 a Lei dos Referendos, concordando efetivamente que oIndyRef2(segundo referendo de independência) deve ser realizado se o primeiro-ministro permitir. Isso aconteceu depois que Nicola Sturgeon escreveu formalmente a Boris Johnson, exigindo um novo referendo sobre a independência escocesa.

O projeto de lei, aprovado por 68 votos a 54, estabelece quais devem ser as regras para o referendo. No entanto, deve ser necessário que os parlamentares escoceses precisem aprovem mais leis antes que uma votação possa ser realizada.

O governo da Escócia publicou o ManifestoRight to Choose (tradução livre: direito de escolha), que apresenta o “caso democrático” para o pedido e o porquê da necessidade do consentimento de um novo referendo de Independência vindo do governo do Reino Unido.

No lançamento do manifesto, Nicola Sturgeon afirmou que “a democracia prevalecerá” devido ao mandato “indiscutível” do SNP na Escócia. Porém, no dia 14 de janeiro de 2020, Boris Johnson escreveu um documento rejeitando oficialmente um novo referendo de independência. No documento, Johnson alegou que, no referendo de 2014, Sturgeon e seu partido estavam cientes de que aquilo seria uma oportunidade única.

Nicola Sturgeon respondeu dizendo que “aparentemente os conservadores estão tentando impedir a democracia e que o governo escocês defina sua resposta e os próximos passos antes do final do mês, e que o parlamento escocês novamente seja convidado a apoiar o direito da Escócia de escolher nosso próprio futuro”. O projeto da independência do SNP é por essência de centro-esquerda, com planos de um estado fortalecido, aumento no acesso aos serviços públicos para todos e um sistema imigratório menos cruel. Porém o SNP é apenas uma das vozes do movimento de independência, e, por ser o partido que está no poder da Escócia, está mais vulnerável às críticas.

Na opinião dos grupos e partidos socialistas, o SNP se mantém demasiadamente ligado às grandes corporações e se esforça demais no sentido de defender a adesão à UE. Segundo um manifesto escrito pelo líder doPartido Socialista Escocês, Colin Fox, os escoceses da classe trabalhadora não exercem tanto os benefícios de se serem membros da UE quanto seus colegas da classe média. Eles estão muito mais interessados na independência, por isso condicioná-la a uma alternativa ao Brexit é um erro na opinião de Fox. 

Em seu discurso de Ano Novo, Sturgeon disse que “2020 será um ano onde a Escócia será o centro das atenções internacionais.” A despeito de para muitos o momento político não ser considerado o ideal para outra mudança tão  abrupta, enquanto outros exigem algo mais rápido e radical, Sturgeon parece estar certa: 2020 será um ano de atenção para a Escócia.

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Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

“Economia global entraria em colapso” se City de Londres parasse de lavar dinheiro

 
 
Para o delator de fraudes financeiras Nicholas Wilson, o centro financeiro de Londres é a "capital mundial da lavagem de dinheiro" e se ele parasse suas atividades "a economia global entraria em colapso".
 
"Nada pode ser feito para limpar a City de Londres. Se algum político tentasse desmantelar o esquema da City de Londres a economia global entraria em colapso", disse.
 
Segundo o delator, durante a crise financeira de 2008, "dinheiro do tráfico de drogas foi a única coisa que manteve os bancos funcionando".
 
 
"A União Europeia queria endurecer as regras sobre lavagem de dinheiro e o Reino Unido foi o único país que votou contra", contou.
 
Wilson foi demitido após denunciar uma fraude milionária no Banco HFC, subsidiário do HSBC, que impunha ilegalmente uma taxa de 16% em consumidores com dificuldades para pagar seus créditos e hipotecas.
 
Em 2017, Wilson ganhou a batalha judicial contra o banco HSBC, que foi obrigado a pagar cerca de R$ 21 milhões aos clientes prejudicados.
 
Em 2019, mais 18 mil vítimas da fraude foram identificadas, forçando o HSBC a pagar mais R$ 162 milhões em compensações. Segundo as estimativas de Wilson, o banco deve arcar com cerca de R$ 1 bilião em pagamentos decorrentes da fraude.
 
 
Reino Unido é o 'país mais corrupto do mundo'
 
O jornalista italiano, Roberto Saviano, que passou boa parte de sua carreira investigando a máfia, acredita que o Reino Unido é o país “mais corrupto do mundo”.
 
"Se eu perguntasse para você qual é o país mais corrupto do planeta, você iria me responder que é o Afeganistão, talvez a Grécia, Nigéria, o sul da Itália, mas eu te digo que é o Reino Unido. Não é a burocracia, não é a polícia, não é a política: o que é corrupto é o capital financeiro", afirmou Saviano.
 
O jornalista disse que 90 por cento dos donos de capital em Londres têm contas offshore, sugerindo que teriam interesse em esconder a origem dos recursos que mantêm.
 
Nicholas Wilson disse concordar com a afirmação de Saviano, dizendo que a City de Londres é a "capital mundial de lavagem de dinheiro".
 
Em 2016, o Comité do Interior do Reino Unido alegou que cerca de R$ 544 biliões são lavados a cada ano no mercado imobiliário londrino.
 
Para Wilson, o banco com a pior reputação é o HSBC, que estaria implicado em 18 dos 25 escândalos de corrupção listados pela organização Transparência Internacional em junho de 2019.
 
Para o delator, a classe política e financeira britânica são bastante interligadas. Inclusive muitos membros alternariam cargos políticos com altos postos em instituições financeiras.
 
Procurada pela redação da Sputnik Internacional, a Corporação da City de Londres não quis comentar as declarações de Wilson.
 
Sputnik | Imagem: © Sputnik / Alex MacNaughton
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/economia-global-entraria-em-colapso-se.html

Príncipe Harry, duque de Sussex®: tão improdutivo como um aristocrata, tão banal como um burguês

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/01/2020)

 

O poder do mercado é avassalador. Como canta Caetano Veloso, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. E está a destruir a monarquia inglesa, que não é tão bela assim.

O príncipe Harry desistiu do privilégio do título em nome do privilégio do dinheiro. Ou, como ele preferiu dizer, em nome da sua “independência financeira”. Ato corajoso? Pelo contrário. Aquilo de que o príncipe desistiu foi dos seus deveres. E, sentado na herança, incluindo a da família real, dispensou apenas 5% dos seus rendimentos – os que eram garantidos diretamente pelo Estado. Sem nenhuma das responsabilidades reais, guardou para si a fama e o estatuto que o privilégio lhe dá, pondo-os a render.

Os duques Harry e Meghan registaram a Sussex ® e SussexRoyal ® e vão viver da marca, sobretudo na América do Norte, onde o showbiz rende mais. O que produz essa marca? Nada. Produz o que o seu estatuto real lhe deu. Um estatuto a que é suposto corresponder responsabilidades. Chamar a isto “independência financeira” é arrojado. Parece-me mais uma forma de chular a monarquia sem sequer se dar ao trabalho de cortar umas fitas, fazer uns discursos anódinos e dar uns beijos por ela.

Há quem compare isto à vida que hoje tem o casal Obama, tentando descansar quem teme o abastardamento do nome real. Dizem que é possível manter a classe. A comparação é absurda. Barack Obama construiu uma carreira política, venceu eleições, governou a maior potência mundial e, sabendo que um Presidente dos EUA não pode ter uma carreira, vive da fama que conquistou com o seu trabalho. Harry limitou-se a nascer. Foi o que teve de fazer para merecer a fama.

Imagino que o gesto dos duques de Sussex ® arrepie qualquer defensor das vantagens da monarquia sobre a República. Que deite por terra a conversa sobre a intemporalidade dos símbolos pátrios (registados ou por registar), representada pelo monarca e nunca por um Presidente da República eleito e transitoriamente no poder.

Mas, como se vê, a monarquia transformou-se em pouco mais do que um ativo para o mundo do espetáculo. A ser usado por quem não tem de ter mais talentos do que qualquer participante num reality show. Basta ser famoso.

O português Fernando Mascarenhas, 12º marquês de Fronteira, mecenas culto e generoso, via o seu estatuto de aristocrata como um dever que herdava com o património, o título e o apelido. Explicou-o numa frase óbvia: “os privilégios trazem consigo responsabilidades.” Nunca aceitarei privilégios de sangue. É por isso que sou republicano. Mas nunca negarei a nobreza a quem a merece, com ou sem título. E se é no título e na herança de um nome que alguém encontra a razão para assumir as responsabilidades do seu privilégio, não deixarei de o respeitar.

No “sermão” que escreveu ao seu sucessor, Fernando Mascarenhas dizia que “qualquer cidadão tem a obrigação de tratar corretamente o seu semelhante, mas o aristocrata tem-na a triplicar, seja pela melhor educação que deve ter recebido, seja pelo crédito de que à partida normalmente beneficia, seja ainda pelo necessário e salutar exercício de dobrar o orgulho que facilmente tenderá a ter”. Nada disto faz sentido para mim. Mas fazia sentido na coerência daquele homem, até porque coerentemente praticou a nobreza de espírito e o que julgava ser o seu dever. E isso chegava e contrasta com o comportamento de Harry e Meghan.

Há qualquer coisa de tristemente poético neste gesto. A lógica mercantil volta a ganhar, esmagando o mundo anacrónico em que vivem reis, rainhas e príncipes, transformados em pouco mais do que estrelas do espetáculo mediático.

Mas é a um novo capitalismo que se vergam. Tão improdutivos como um aristocrata, tão comuns como um burguês.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

GRÃ-BRETANHA: AS RAZÕES DE UMA DERROTA – LUTO E ORGANIZAÇÃO, por TARIQ ALI

 

Faire son deuil et s’organiser, por Tariq Ali

 

Contretemps, 16 de Dezembro de 2019

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A recusa dos trabalhistas  em apoiar a implementação dos resultados do referendo Brexit e, na sua maioria, em ignorar os seus apoiantes pró-Brexit no norte do país levou-os à sua derrota. Alguns de nós já tínhamos apontado os perigos, mas um partido e uma liderança divididos (sobre este ponto John McDonnell deveria ser culpado por insistir num compromisso para um segundo referendo) foi sancionado pelos seus próprios eleitores. Esta foi a principal razão para a derrota. Um erro estratégico de enorme magnitude.

 

O fracasso no combate ao “anti-semitismo” [atribuído pelos media  a Corbyn e aos setores do Partido Trabalhista que o apoiam] também foi um erro, embora em menor escala. O ataque coordenado dos media a Jeremy Corbyn também teve um impacto. A cobertura da BBC dos debates trabalhistas poderá agora voltar às opções ‘centristas’. Emily Thornberry é a candidata mais provável à “unidade”.

 

No entanto, existe uma esquerda social-democrata radical dentro e fora do Partido Trabalhista. As eleições não são tudo. A mobilização autónoma da nova geração não deve ser excluída e deve ser encorajada e apoiada. As políticas económicas da Johnson irão acelerar a crise e a mobilização e as greves serão a única resposta, como os franceses estão a demonstrar atualmente. A Escócia agora vai querer a sua independência e os irlandeses vão querer alguma forma de unidade, por isso os Conservadores ingleses não poderão fazer o que quiserem.

 

Colocado na página Facebook de Tariq  Ali em 12 de dezembro de  2019 – publicado com a permissão do autor.

 

Tariq Ali é uma figura histórica da esquerda radical na Grã-Bretanha. Um dos líderes do protesto estudantil e contra-cultural dos anos 60, ele foi um ativista de longa data nas fileiras da seção britânica da Quarta Internacional. É autor de numerosos livros e membro do conselho editorial da New Left Review. Vários dos escritos de Tariq Ali podem ser lidos no nosso site.

Para ler este artigo no original clique em: https://www.contretemps.eu/grande-bretagne-corbyn-defaite/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/16/jeremy-corbyn-um-politico-que-se-distingue-pela-sua-seriedade-gra-bretanha-as-razoes-de-uma-derrota-luto-e-organizacao-por-tariq-ali/

Harry e Meghan em part-time real

O Reino Unido, vulgo Inglaterra, é um país de reis, rainhas e nobres, apesar de toda a modernidade espalhada pelos quatro cantos do país.

Nascer-se filho daquelas famílias é um acontecimento mundial que nenhum media quer perder. Os filhos dos duques são apresentados como se o mundo tivesse recuado séculos, embora na City as cotações do mundo financeiro continuem a sua saga e a inteligência artificial se estenda pelo planeta, essa é que é essa.

A família real tem mansões, grandes propriedades, castelos, fundos e muito metal sonante daquele com que se compram Roll-Royes, Bentleys , aviões e outros que tais,  leva muito a sério o mundo dos negócios.

O filho de Diana, o príncipe Harry, sexto na linha sucessória, casado com a atriz Meghan, apesar de todas as múltiplas benesses, deve estar farto daquela velharia infernal, sempre a trabalhar, em que o pai Carlos mais parece um bisavô que  pai (deve ser da Camila ou quiçá do trabalho a despachar secretários). Há que dizê-lo – conspirar na família real dá muito trabalhinho.

A família real conclavou no castelo de Sandringham e determinou por via de Her Majesty que Harry e Meghan são livres (não o seriam), mas atenção que quanto a serem independentes ela vai ver dentro de dias como se processará a alforria.

A rainha e a sua família prefeririam que Harry e Meghan continuassem “…a trabalhar como membros da família real a tempo inteiro…” Mas, como não querem trabalhar a tempo inteiro para a família real talvez seja possível encontrar um part-time (a palavra é inglesa) em que os “independentistas” continuem a usufruir de certos castelos, de certas mansões, propriedades e outras roiyalties.

Fantástica esta família que pretende que os seus membros a tempo inteiro trabalhem auxiliados por uma caterva de criados e assessores e assim fiquem quietinhos a trabalhar a tempo inteiro. O problema é que os secretários empurram na família uns contra os outros e os familiares não se seguram, coisas da nobreza.

Como o mundo se move, como disse Galileu Galilei que não era de sangue azul, Her Majesty the Queen admite, melhor, aceita que os duques poderão trabalhar em part-time para a família real.

Que Deus abençoe a Rainha nesta hora dramática e trágica em que Harry e Meghan se mudarão para um novo tipo de trabalho. E terão a tempo inteiro a  parte do fundo soberano e a quota da herança da mãe de Harry, a malograda Diana. Ao que se diz o príncipe Carlos não vê com bons olhos este part-time porque coitado dele, tirando o criado que o veste e calça, tem de se levantar todos os dias à espera de ser Rei. Uma chatice a tempo inteiro.

https://www.publico.pt/2020/01/15/mundo/opiniao/parttime-duque-duquesa-sussex-1900469

 
 

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CORBYN TROPEÇA NO BREXIT, por STATHIS KOUVÉLAKIS

 

Introduction: Corbyn trébuche sur le Brexit, par Stathis Kouvélakis, por Stathis Kouvélakis

 

Contretemps, 16 de Dezembro de 2019

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Neste terrível verão de 2015, o inesperado sucesso de Jeremy Corbyn, eleito líder de um partido do qual foi durante várias décadas uma figura isolada, corajosa e estoicamente acampado numa esquerda marginalizada, foi um dos raros raios de sol para a esquerda europeia, atingido no coração pela capitulação de Tsipras e do seu governo à Troika. A emergência de Corbyn e Sanders, ou mais precisamente a emergência das forças que lhes permitiram sair das margens da vida política em que estavam há muito confinados, foi sem dúvida o único sinal de esperança para a esquerda nos países ocidentais nos anos que se seguiram. É por isso que o fracasso do Partido Trabalhista sob Corbyn assume um significado completamente diferente para a esquerda radical e anti-capitalista do Ocidente do que qualquer fracasso passado desse mesmo partido ou desse tipo de força política.

A perda de bastiões históricos do Trabalho

O mapa desenhado pelos resultados das eleições de 12 de dezembro é inequívoco. A célebre “muralha vermelha”, os históricos redutos trabalhistas do Norte de Inglaterra e das Midlands, o antigo coração industrial do país devastado por décadas de neoliberalismo e pelo domínio do capitalismo financeiro, cedeu e voltou-se em grande parte para os conservadores. Os lugares ocupados desde a década de 1930 pelo partido fundado na viragem  do século por Keir Hardie e os sindicatos, no coração das comunidades mineira e operária, passaram para as mãos dos conservadores, herdeiros e continuadores do campo monárquico e da ordem imperial e aristocrática. No centro desta mudança totalmente sem precedentes na história do país está a questão Brexit, que tem dominado a agenda política desde o referendo de junho de 2016.

 

A maioria destes círculos eleitorais tinha de facto votado esmagadoramente a favor de Brexit, incluindo, não obstante os clichés, aqueles com grandes comunidades de imigrantes da classe trabalhadora pós-colonial. Nas eleições de 2017, os trabalhistas, apesar de terem feito campanha em 2016 para se manterem na União Europeia (UE) [posição de permanência, dita Remain], conseguiram mantê-los no seu seio, adotando uma posição de respeito pelo resultado do referendo. Corbyn tinha mesmo insistido que deixar a UE facilitaria a implementação de partes fundamentais do seu programa, tais como a nacionalização total dos caminhos-de-ferro e o restabelecimento de um monopólio público no fornecimento de eletricidade. No entanto, nos dois anos seguintes, sob crescente pressão dos apoiantes do Remain  dentro e fora do seu partido, Corbyn teve de concordar relutantemente em mudar a posição do partido em favor do Remain. Na votação, os Trabalhistas comprometeram-se a renegociar o acordo de Brexit entre Boris Johnson e a UE e a submeter o novo acordo a um referendo que deverá incluir também a opção Remain. Embora Corbyn tenha afirmado ser “neutro” quanto às opções sujeitas a tal referendo, colocando-se numa posição de facto não entendível (como é possível não querer defender um acordo que ele próprio teria renegociado?), quase todos os líderes do partido e a maioria dos seus representantes eleitos já se tinham comprometido em defender Remain, incluindo John McDonnell, o braço direito de Corbyn responsável pela política económica no “gabinete sombra” trabalhista, que tinha colocado todo o seu peso para conseguir a posição de um segundo referendo (incluindo a opção Remain) adoptada no congresso do partido[1].

 

Como era de esperar, o eleitorado, e em particular as classes trabalhadoras das regiões mais pobres que apoiaram amplamente Brexit, sancionaram este desejo mal escondido de derrubar o resultado do referendo de 2016. . Isto parecia ser o que é, ou seja, uma negação da democracia. O trabalho com uma liderança corbinista deixou-se levar pelo discurso determinado pelo desprezo de classe das elites e das classes médias “liberais” para com  os plebeus ignorantes, supostamente motivados apenas pelos seus vil instintos xenófobos e racistas. Para além do Partido Trabalhista, os Democratas Liberais, que se fizeram passar por zelotas do Remain propondo-se simplesmente anular o pedido de abandonar a UE sem sequer passar por um segundo referendo, pagaram também o preço. As suas esperanças de vitória – a sua líder Jo Swinson abriu a campanha ao apresentar-se como futura primeira-ministra – foram rapidamente frustradas e reduzidas a um modesto ganho percentual de quatro pontos e a um único lugar no parlamento, com Jo Swinson a não conseguir sequer ganhar a reeleição no seu círculo eleitoral. Quanto aos Trabalhistas, de um saldo negativo de sessenta lugares, perdeu quarenta e três nos seus bastiões tradicionais nas Terras do Norte e Midlands e caiu globalmente em quase oito pontos, de 40% para 32,2% dos votos.  Uma parte destas perdas é certamente compensada por um afluxo de votos da classe média pró-Remain : o partido ganha assim 27% do eleitorado democrata liberal em 2017, e mesmo 8% do eleitorado conservador pró-Remain em 2017, o que explica porque é que, enquanto  a “parede vermelha” dos antigos bastiões operários se desmorona, ganha lugares  em círculos eleitorais de classe média como Putney ou Canterbury [2]. Mas, no final, a deserção de uma parte substancial do núcleo do eleitorado histórico revelou-se fatal, como ditaria uma “lei” bem conhecida dos especialistas em sociologia eleitoral.

Uma sociologia eleitoral sem precedentes

Não há dúvida de que foi Brexit que permitiu aos Conservadores ganhar esta eleição com uma nova configuração eleitoral, nomeadamente absorvendo parte da histórica base trabalhista e popular eleitoral. Não foi uma aposta de antemão segura. Na verdade, os Conservadores estão agora à frente do Partido Trabalhista em mais de 11 pontos (contra apenas 2,4% em 2017), com um aumento de apenas 300.000 votos – e 1,4% em termos percentuais em comparação com as eleições anteriores. Mas as grandes mudanças tiveram lugar dentro do seu próprio eleitorado. Porque a radicalização dos conservadores, sob a liderança de Boris Johnson, num partido pró-Brexit não terá sido uma boa notícia uma boa notícia para todos os conservadores. Os conservadores sofreram perdas significativas entre os seus eleitores de 2017, dos quais pouco menos de um terço tinha votado permanecer   na UE no referendo de 2016. No entanto, um terço deste eleitorado  pró-Conservadores  já desertou, na sua maioria para os Democratas Liberais (21%), e até 8% deles para o Partido Trabalhista. Estas perdas foram, no entanto, amplamente compensadas pela contribuição dos eleitorados pró-Brexit  do Partido Trabalhista, ou, ainda mais significativamente, mas completamente ignoradas pelo discurso dominante, pelos eleitorados pró-Remain que rejeitaram o questionamento do resultado do referendo de 2016. De facto, ao contrário do que os meios de comunicação e as campanhas pró Remain  têm repetido constantemente, as fileiras deste último grupo provaram ser muito mais numerosas do que as do eleitorado pró-Brexit de 2016, que se mudou  para o  campo Remain (13% contra 5%, respetivamente, no eleitorado britânico como um todo). Os Conservadores conseguiram assim atrair 25% do eleitorado pró-Brexit Labour em 2017, mas também 18% de todos os eleitores que votaram Remain em 2017, mas que queriam que o resultado do referendo fosse respeitado e implementado.

O quadro torna-se ainda mais marcante se passarmos a uma análise do voto por categoria social. De acordo com a nomenclatura da estratificação social britânica, os Conservadores estão agora de 6 e de  20 pontos à frente dos Trabalhistas  nas categorias da parte baixa da escala, respetivamente nas categorias DE (desempregados, trabalhadores manuais qualificados e semiqualificados) e C2 (trabalhadores qualificados de colarinho azul). Em comparação com 2017, os trabalhistas caiem  nestas categorias em 9 e 6 pontos, respetivamente, e os Conservadores sobem 9 e 6%. É razoável supor que se os desempregados forem extraídos do grupo DE, a liderança dos Conservadores sobre os Trabalhistas seria ainda maior nesta categoria, na qual eles estão a alcançar  um avanço histórico de qualquer maneira.

A pontuação dos Trabalhistas  na categoria C2, ou seja, o coração do seu eleitorado na força de trabalho ativa, apresenta-se não  menos desastrosa. Distanciado por 20 pontos pelos conservadores, o seu desempenho aí é ainda ligeiramente inferior (30%) ao das classes altas (31%), do grupo AB de gestores seniores e médios e das profissões liberais. Dito de outra forma, o Labour pontua igualmente em todas as categorias sociais, em torno de sua média nacional de 32%. O seu desempenho é perfeitamente transversal as diferentes classes,  sem o menor sinal de voto preferencial nas classes trabalhadoras, em contraste com a votação de 2017, na qual onze pontos separaram o seu desempenho entre o topo e a base das categorias sociais (a favor desta última). Quanto aos conservadores, conseguiram o feito sem precedentes para um partido de direita da elite aristocrática, e cujo último executivo teve uma proporção sem precedentes de milionários, de fazer melhor na categoria central da classe trabalhadora (C2) do que entre as classes altas, o pilar tradicional do seu eleitorado (50% na categoria C2, 44% na AB).

Apenas a distribuição geracional proporciona uma visão inversa, e ainda mais clara. De facto, o Partido Trabalhista  ganha massivamente nos votos dos jovens (de 55% para 57% nos grupos etários 18-24 e 25-34 anos), embora em proporções muito menores do que em 2017, caindo 10 e 3 pontos, respetivamente, nos dois primeiros grupos etários. Esta diferença inverte-se da faixa etária 45-54 (8 pontos à frente para os conservadores) e torna-se verdadeiramente abismal entre os mais velhos (54 pontos à frente para os conservadores entre aqueles com mais de 65 anos).  Como os textos que se seguem apontam, o apoio dos jovens é sem dúvida uma formidável conquista do corbinismo, mas revelou-se insuficiente para ganhar eleições e compensar a perda das raízes de classe. Tanto mais que a abstenção é elevada entre os jovens, especialmente entre os jovens da classe trabalhadora, estimada em mais de 50%, o que, ao mesmo tempo, relativiza o significado do espetacular desempenho dos Trabalhistas  entre os eleitores destas faixas etárias.

A esquerda virada para a UE: crónica de um desastre

Deve ser salientado que esta configuração não é de forma alguma uma exceção ao excecionalismo britânico. A União Europeia é objeto de uma profunda e crescente rejeição por parte das classes trabalhadoras e populares do continente. Como alguém tão insuspeito do “anti-europeísmo” como Thomas Piketty salientou num recente texto de opinião baseada num estudo comparativo dos resultados eleitorais em vários países da UE, “os votos em torno da União Europeia ainda se caracterizam por uma divisão de classes muito  acentuada”. Rejeitando as explicações que atribuem esta rejeição à xenofobia e ao racismo supostamente inerente às classes trabalhadoras brancas, Piketty apresenta “uma explicação muito mais simples: a União Europeia, tal como foi construída nas últimas décadas, baseia-se na concorrência generalizada entre territórios, no dumping fiscal e social em favor dos atores económicos mais móveis, e funciona objetivamente em benefício dos mais favorecidos”[3].

Pode-se dizer, portanto, que a derrota do projeto Corbyn, o único projeto de esquerda digno desse nome que provavelmente chegará ao poder governamental durante o último período nesta região do mundo, é o segundo desastre da esquerda europeia diante da União Europeia, depois do de Syriza, em 2015. Como mostram os textos dos ativistas britânicos que posteriormente publicamos, todos os participantes na empresa de Corbyn, este fracasso é o resultado de uma recusa em formular uma estratégia de rutura com a União Europeia “pela esquerda”, uma recusa que deriva de uma perda de contacto da esquerda com os seus trabalhadores históricos e a sua base social popular e a sua cultura de confronto com os pontos fortes da hegemonia do adversário e que, por sua vez, conduz inexoravelmente à sua amplificação. As tentativas de lançar um verdadeiro debate dentro do Partido Trabalhista, permitindo que uma campanha “Lexit” (posição Brexit esquerdista) se desenvolva, chocaram-se  por uma recusa frontal da direção do partido, incluindo parte do grupo Corbynista em torno de John McDonnell e Diane Abbott, apesar do apoio tácito do próprio Corbyn e da sua pequena equipa (o antigo jornalista do Guardian Seumas Milne e o sindicalista comunista Andrew Murray).

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Agora torna-se ainda mais difícil negá-lo: uma tal recusa só pode levar ao fracasso garantido de qualquer tentativa de reanimar a “esquerda”, seja ela anti-capitalista ou “reformista de esquerda”, como Corbyn ou, de uma forma mais híbrida, Syriza. É completamente ilusório pensar que é possível recuperar qualquer credibilidade como força de contestação da ordem existente sem enfrentar a questão da estratégia de rutura com a UE e, digamo-lo claramente: de saída unilateral das suas instituições-chave, em primeiro lugar da zona euro para os países que dela fazem parte. Depois do desastre grego, que demonstrou a impossibilidade de conduzir uma política de esquerda (mesmo muito moderada) no quadro da UE, é completamente ilusório pensar que será possível recuperar o ouvido das classes trabalhadoras esmagadas e exasperadas sem uma clara posição de rutura clara  sobre esta questão. Não é menos ilusório pensar que será possível convencer para além das fileiras – muito minoritárias – dos já convencidos. Não é menos ilusório pensar que será possível convencer para além das fileiras – muito minoritárias – daqueles que já estão convencidos sobre as questões da política de acolhimento incondicional dos migrantes e não menos incondicional da defesa dos grupos racializados sem uma verdadeira vontade de enfrentar a UE que é também, nunca o esqueçamos, esta “Fortaleza Europa” que envia todos os anos milhares de seres humanos para a morte no Mediterrâneo (e nos desertos do Sara) e forja incansavelmente uma identidade “europeia” diretamente herdada dos estereótipos “brancos” da era colonial.

 Alguns, à  esquerda,  pensaram que poderiam enterrar o debate estratégico sobre a União Europeia, especialmente depois da normalização do Podemos e do recuo da França insubmissa sobre este assunto. As duras lições da Grã-Bretanha devem fazê-los pensar duas vezes. Pois, como a história nos ensina, sempre que o movimento operário e os ativistas da emancipação social se revelam incapazes de compreender as questões levantadas pela situação económica e pela evolução do sistema, são as forças da barbárie que se aproveitam delas e as fazem funcionar emk seu proveito.

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[1] Sobre as clivagens internas dentro do Partido Trabalhista e do grupo dirigente corbynista, veja este relatório de Heather Brown no Guardian em 13 de dezembro: theguardian.com/politics/2019/dec/13/inside-labours-campaign-behind?fbclid=IwAR28aaWTOlXwaBu6YgX7Zcf4zqzclWw8iIqxUynv6%E2%80%A6

[2] Todos os dados sociológicos eleitorais provêm dos inquéritos “à saída das urnas” ” realizadas pelo Lord Ashcroft Institute em 2017 e 2017 numa amostra de aproximadamente 14.000 eleitores. Os resultados de 2017 estão disponíveis em :

lordashcroftpolls.com/2017/06/result-happen-post-vote-survey/ 

e os resultados de  2019 em lordashcroftpolls.com/2019/12/how-britain-voted-and-why-my-2019-general-election-post-vote-poll/

 

 

Para ler no original clique em: https://www.contretemps.eu/grande-bretagne-corbyn-defaite/

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/15/jeremy-corbyn-um-politico-que-se-distingue-pela-sua-seriedade-gra-bretanha-as-razoes-de-uma-derrota-introducao-corbyn-tropeca-no-brexit-por-stathis-kouvelakis/

Autoridades britânicas esconderam de Bruxelas dados de 75 mil condenações de estrangeiros

As autoridades britânicas não partilharam os dados de 75 mil condenações aos países da União Europeia (UE) de onde são os criminosos, com receio de  manchar a reputação perante Bruxelas.
 

Segundo revelou o Guardian, citado pelo Diário de Notícias, durante cinco anos não foram detetados erros informáticos da polícia britânica, período em que um em cada três alertas sobre criminosos – que podiam incluir assassinos e violadores – não foi enviado para os países da União Europeia (UE).

De acordo com o jornal britânico, os países não foram informados dos crimes cometidos, das sentenças ou dos riscos que os criminosos representavam para a sociedade. A falha de informação permitiu que os criminosos, condenados no Reino Unido, pudessem viajar até aos seus países de origem sem que as autoridades nacionais fossem notificadas.

Quando o Ministério do Interior britânico detetou o erro, continuou o Guardian, optou por esconder de Bruxelas, receando a possibilidade de dificultar a relação entre Londres e a UE.

O jornal britânico teve acesso à ata da reunião da unidade da polícia britânica sobre registos criminais, realizada em maio de 2019, na qual era referido que existia “um nervosismo do Ministério do Interior ao enviar as notificações desde 2012 devido ao impacto na reputação que isto poderia ter”.

Numa reunião realizada em junho do mesmo ano, ainda não se sabia se os registos criminais recebidos do Ministério do Interior iriam ser partilhados com os estados da UE, uma vez que “havia um risco reputacional para o Reino Unido”.

Esta falha surge com a aproximação da data para a saída do Reino Unido da UE e das negociações pós-Brexit sobre a futura relação entre Londres e Bruxelas. Com a saída, e após o fim do período de transição, o Reino Unido deixará de ser membro da Europol e a sua polícia e serviços de segurança deixarão de ter acesso às bases de dados da UE.

“Esta falha de não alertar as autoridades sobre criminosos e o encobrimento posterior lançam sérias dúvidas sobre o Reino Unido como um parceiro confiável”, afirmou ao Guardian a eurodeputada holandesa Sophia in’t Veld.

E frisou: “O objetivo da troca de informações é aumentar a segurança. Se um lado falha, os ganhos de segurança são zero e a cooperação não faz sentido. O governo do Reino Unido deve considerar com muito cuidado como pretende restaurar a confiança, tendo em vista que as negociações devem ser concluídas até o outono deste ano”.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/autoridades-britanicas-bruxelas-75-mil-condenacoes-estrangeiros-302619

Boris nega autorização para novo referendo sobre independência da Escócia

O pedido do Governo escocês para um novo referendo sobre a independência da Escócia foi chumbado esta terça-feira pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

 

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, rejeitou esta terça-feira formalmente o pedido do Governo escocês para a realização de um novo referendo sobre a independência da Escócia este ano.

Numa carta dirigida à chefe do governo autónomo, Nicola Sturgeon, tornada pública, Johnson lembrou que ela e o antecessor, Alex Salmond, prometeram que o referendo de 2014 seria uma oportunidade “única no espaço de uma geração“. Na consulta pública realizada há cinco anos, 55% dos eleitores votaram contra a independência.

“O Governo britânico vai continuar a respeitar a decisão democrática do povo escocês e a promessa que lhe fizeram. Por essa razão, não posso aceitar o pedido de transferência de poderes que levaria à realização de mais referendos sobre a independência”, justifica.

Nicola Sturgeon apresentou em dezembro uma proposta formal para que Boris autorizasse um novo referendo sobre a independência da Escócia relativamente ao Reino Unido em 2020, alegando que os resultados do Partido Nacionalista Escocês (SNP) nas eleições de 12 de dezembro, nas quais conquistaram 48 dos 59 assentos eleitos na região, representam um “mandato democrático” para realizar um segundo referendo no final de 2020.

“A Escócia deixou muito claro na semana passada que não quer que um Governo conservador liderado por Boris Johnson nos tire da União Europeia”, argumentou então a também líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP).

No referendo de 2016, quando 52% dos eleitores britânicos votaram a favor do Brexit, 62% dos escoceses votaram a favor da permanência do Reino Unido na UE.

A via legal para realizar um novo referendo implica que o governo britânico transfira para o executivo escocês os poderes contidos na chamada Secção 30 da lei sobre a autonomia da Escócia, o que daria ao Parlamento escocês a capacidade de convocar um referendo, tal como foi aconteceu em 2012.

ZAP // Lusa

 
 
 

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https://zap.aeiou.pt/boris-nega-autorizacao-referendo-escocia-302359

JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – PARA UM BREXIT DE ESQUERDA – por COSTAS LAPAVITSAS

 

Pour un Brexit de gauche, de Costas Lapavitsas

 

Contretemps, 5 de Agosto de 2019

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

epa05812065 Labour Party leader Jeremy Corbyn delivers a speech on Brexit in London, Britain, 24 February 2017. Corbyn outlined his party’s policy on Brexit. EPA/ANDY RAIN


Jeremy Corbyn recebe cada vez mais apelos  para transformar o Partido Trabalhista no Partido dos Remainers  [os defensores da permanência do Reino Unido na União Europeia]. Mas o cancelamento do Brexit tornaria a União Europeia e o seu dogma neoliberal ainda mais agressivos – com consequências desastrosas para a esquerda de toda a Europa.

 

A nova base militante do Labour, embora hostil ao neoliberalismo, é bastante relutante em relação ao Brexit, pois teme que possa levar a um declínio das lutas feministas, anti-racistas, ecológicas ou solidárias com os migrantes. Neste artigo, Costas Lapavitsas defende a necessidade de um Brexit de esquerda para poder conduzir uma política a favor dos assalariados.

 

Esta é a tradução de Ramzi Kebaïli de uma versão resumida de um artigo a ser publicado na Revista Mensal de Outubro. A revista Monthly Review  conduzirá um debate sobre a UE e o Brexit com base no livro de Costas Lapavitsas, The Left case against EU (Polity Press, 2018). Foram assim  publicados dois outros artigos: um de Andy Storey e outro de Neil Davidson.

***

 

Assinado em 1992, o Tratado de Maastricht representou uma vitória do neoliberalismo na União Europeia, através do mercado único e da moeda única. Desde então, temos assistido ao constante declínio da democracia em toda a UE e ao colapso da soberania popular, ou seja, da capacidade dos trabalhadores e dos pobres de alterarem as suas condições de vida e de trabalho.

 

O declínio no poder dos trabalhadores e dos pobres é particularmente evidente na esfera económica – talvez a componente mais importante das políticas governamentais. No âmbito do mercado único europeu e da moeda única, a política económica está, de facto, cada vez mais desligada das eleições parlamentares. Uma vez que um governo está no poder, as suas políticas são ditadas principalmente pelas exigências da chamada “economia”, termo que geralmente se refere ao establishment  neoliberal da UE.

 

De facto, mesmo na Grã-Bretanha – que não é signatária do Pacto Orçamental de 2012, reafirmando o compromisso neoliberal de austeridade da UE – o software de austeridade que surgiu desde a crise de 2007-2009 procurou explicitamente cumprir os requisitos do Tratado de Maastricht (a dívida pública e o défice orçamental não devem exceder 60% e 3% do PIB, respectivamente).

 

O dramático declínio da soberania popular está a alimentar a crescente frustração dos trabalhadores e dos pobres no Reino Unido, como em toda a Europa. Assim, a confiança do proletariado britânico na sua capacidade de enfrentar o capital está num nível historicamente baixo. De facto, a “classe para  si mesma” recebeu um duro golpe após décadas de neoliberalismo.

 

Durante essas décadas de neoliberalismo, outro processo igualmente notável ocorreu: o avanço inexorável do liberalismo cultural na Grã-Bretanha. Nos últimos quarenta anos, a sociedade britânica tem visto avanços progressivos nas áreas de orientação sexual, género, raça, atitudes em relação aos imigrantes… Especialmente entre os jovens.

 

Isto não quer dizer que estes problemas culturais profundos do capitalismo avançado tenham sido resolvidos. Na verdade, o neoliberalismo teve um impacto deletério em termos de alienação individual e repressão moral na sociedade britânica. Mas não houve um regresso  aos valores culturais conservadores: o neoliberalismo económico aprendeu a coexistir com o liberalismo cultural. A mudança é tão marcada que até mesmo um primeiro-ministro da burguesia como David Cameron adotou o credo do liberalismo cultural e a um  nível que teria sido totalmente inimaginável para os líderes conservadores anteriores

 

O desenvolvimento de comportamentos progressistas entre setores inteiros do novo proletariado britânico foi um elemento decisivo do debate político que se seguiu ao referendo de 2016. As organizações sindicais e a capacidade de ganhar a luta de classes declinaram precipitadamente, mas em muitas áreas a agenda progressista pareceu alcançável. É neste contexto que a UE tem estado ideologicamente envolvida na defesa dos direitos dos trabalhadores, bem como na promoção do liberalismo cultural no Reino Unido.

 

O fracasso da esquerda radical em obter amplo apoio para uma “Lexit” (Brexit de Esquerda), especialmente entre os jovens, bem como o aumento dos apelos para “Permanecer e Reformar”, estão ambos relacionados com estes desenvolvimentos complexos.

A transformação da base de ativistas trabalhistas

Após o referendo de 2016, a atitude racional da esquerda britânica deveria ter sido apoiar o Brexit como uma oportunidade decisiva para escapar ao espartilho neoliberal da UE e para reformar a economia britânica a favor dos trabalhadores e dos pobres. A saída da UE abriria potencialmente o caminho para a nacionalização de sectores estratégicos, um sector bancário público, uma política industrial transformadora, a redistribuição do rendimento e da riqueza, ao fim  da austeridade, tudo isto absolutamente necessário para a reestruturação da economia britânica. A saída seria também uma oportunidade para renovar a democracia e reforçar a soberania popular e nacional, em consonância com as exigências populares expressas durante o referendo.

 

No contexto do mercado único europeu, estas políticas são impossíveis de implementar ao nível exigido de radicalidade socialista. Este é precisamente o significado e a promessa do Brexit de esquerda. Infelizmente, a maior parte da esquerda britânica, e em particular a trabalhista, não conseguiu avançar nessa direção e apegou-se profundamente à linha de “Permanecer e Reformar”.

 

Sem dúvida que Jeremy Corbyn lidera o Partido Trabalhista, ciente dos obstáculos colocados pela UE neoliberal à implementação de um programa socialista radical. Mas a base militante do Partido Trabalhista também foi renovada nos últimos anos, refletindo a transformação da economia e da sociedade britânicas. Os trabalhadores de colarinho branco e os trabalhadores qualificados são particularmente prevalecentes nas grandes áreas urbanas, e têm uma perspetiva muito diferente da dos membros tradicionais do Partido Trabalhista. A “política das identidades”, que reflete o crescimento do liberalismo cultural nas últimas décadas, tornou-se a abordagem dominante entre os ativistas. A base do Partido Trabalhista  voltou-se para “Permanecer e Reformar”.

 

 A dificuldade política colocada pelo Brexit ao trabalho pode agora ser claramente avaliada: o Partido Trabalhista  tem uma liderança de esquerda que se opõe principalmente à UE, uma forte base militante a favor de “Permanecer e Reformar”, e um eleitorado baseado principalmente em círculos eleitorais que votaram a favor de Sair (Leave) da UE. A maioria dos deputados trabalhistas é a favor da “Permanecer e Reformar “, mas dois terços foram eleitos em círculos eleitorais que votaram a favor da saída da UE.  A equação política que o Partido Trabalhista enfrenta é, portanto, terrivelmente complexa. Dar a resposta errada teria implicações desastrosas para a esquerda no Reino Unido e em toda a Europa.

O fim de Theresa May

Estes desenvolvimentos na esquerda britânica ocorreram ao mesmo tempo que as tentativas de Theresa May de conduzir o Brexit se revelaram como desastrosas. É importante compreender que o Acordo de Saída de Theresa May e a declaração política que o acompanha são atos que estão em total consonância com o bloco governante britânico. Do ponto de vista da City de Londres e do grande capital britânico, o Acordo de Maio é totalmente aceitável.

 

Foi formalmente planeado retirar o Reino Unido da UE, das suas instituições e até da jurisdição do Tribunal de Justiça da UE após um período de transição de menos de dois anos. Em suma, o Acordo tiraria o país da mascarada das manobras políticas da UE organizadas sob a égide hegemónica da Alemanha. Acabaria com a pressão sobre o bloco dirigente britânico, substituindo a sua estratégia de longa data de pedir “opt-out” (derrogações) no seio da UE, uma estratégia que expirou em 2015-2016. Poupava à Grã-Bretanha a contribuição anual líquida para o orçamento da UE. Garantia que as regras do mercado único seriam mantidas para a indústria britânica, aceitando permanentemente o quadro do mercado único para a produção e a troca de bens. Dava à City de Londres uma forte oportunidade de perpetuar a sua liderança na Europa. Mantinha a união aduaneira durante o período de transição e, talvez indefinidamente, se não fosse possível encontrar um novo estatuto para a Irlanda do Norte, o que era um custo aceitável para a capital britânica. Também incorporava as normas existentes na UE em matéria de auxílios estatais, contratos públicos, concorrência, atuando assim como uma forte barreira contra um futuro governo socialista intervencionista, que poderia ser liderado por Corbyn.

 

O acordo de May fracassou devido às profundas divisões políticas no seio dos conservadores, que perderam grande parte da sua capacidade tradicional de defender os interesses do bloco dominante britânico. Os principais centros de poder económico e social do Reino Unido prefeririam certamente que o Parlamento aprovasse uma variante do acordo de Theresa May, mas o Partido Conservador não está atualmente em condições de o implementar. Além disso, todas as outras opções após a eleição de um novo líder conservador são muito dolorosas.

 

A perspectiva de o Reino Unido deixar a UE sem um acordo, assumindo o estatuto de “país terceiro” fora do mercado único e fazendo comércio com a UE com base nas regras da OMC, enche de horror os industriais britânicos, em especial a City de Londres. A saída  “sem acordo ” poderia ter-se tornado a posição de referência  para os candidatos à liderança conservadora, mas suas chances práticas de sucesso são baixas, já que nem a aritmética parlamentar nem a posição minoritária do governo conservador foram alteradas pela renúncia de Theresa May .

 

Além disso, a perspetiva de abandonar o Brexit, quer através da revogação unilateral da decisão de sair, quer através de um novo referendo, apresenta riscos políticos importantes. Uma revogação formal unilateral do artigo 50º – inicialmente desencadeada pelo Governo de May  para deixar a UE – constituiria uma humilhação internacional considerável para o bloco governamental  britânico. A sua posição na UE ficaria permanentemente enfraquecida e enfrentaria uma profunda  cólera  interna.

 

Por outro lado, além de ser uma humilhação grave, qualquer tentativa de abandonar o Brexit através de um segundo referendo dividiria o país sem oferecer uma resposta definitiva. Apesar das alegações casuais do lado “Remain” de que o povo britânico lamenta o seu voto de 2016, não há provas substanciais de que este seja o caso. Pelo contrário, as eleições europeias provaram amplamente que o campo “Leave” é maciço  e furioso. A súbita ascensão do partido Brexit, liderado por Nigel Farage, mostra que o enfraquecimento político da Grã-Bretanha desde 2016 criou profunda frustração entre os trabalhadores e os pobres. O eleitorado reagiu energicamente contra as manobras parlamentares que se seguiram ao referendo e ao consequente défice democrático.

 

A canalização da ira popular nos últimos dois anos para o populismo de direita é um desenvolvimento politicamente desastroso. Mas a situação tornar-se-ia verdadeiramente desastrosa se, no preciso momento em que os Conservadores se estavam a despedaçar cegamente em busca de uma solução para o problema do Brexit, os Trabalhistas  se posicionassem abertamente do lado dos “Remainers”  e se empenhassem na busca impossível do “Permanecer  e Reformar”. Tal mudança na linha defendida pelo Partido Trabalhista quebraria os seus vínculos com os trabalhadores e enfraqueceria o projeto socialista de Corbyn e a  sua posição como líder. Também poderia destruir as chances de vitória eleitoral dos trabalhistas, uma vez que os círculos eleitorais onde a vitória é estrategicamente necessária são geralmente a favor do Leave. O apoio à revogação do artigo 50º poria fim ao Partido Trabalhista e seria simultaneamente uma bofetada na cara da democracia e uma enorme humilhação nacional para uma Grã-Bretanha.

 

Para a esquerda europeia em geral, o apoio explícito ao “Remain”  pelo Partido Trabalhista  constituiria um golpe terrível contra as possibilidades de desenvolver uma posição socialista radical sobre a UE. Isso seria um triunfo para as forças neoliberais que dominam o continente e beneficiaria grandemente a direita autoritária, afastando a esquerda da oposição popular ao status quo europeu.

 

É vital para a esquerda no Reino Unido e na Europa que o Partido Trabalhista continue a apoiar o resultado do referendo de 2016. É ainda mais importante que o Partido Trabalhista finalmente comece a defender vigorosamente os seus argumentos em favor das possibilidades radicais abertas pelo Leave. A determinação em abandonar a UE é, de facto, o verdadeiro teste da oposição socialista à camisa-de-forças neoliberal de aço que está atualmente a estrangular a Europa.

 

Por uma posição socialista sobre a União Europeia

A preparação da rutura com as instituições da UE é uma condição necessária para as políticas socialistas na Europa. Isto é evidente a partir do dilema entre a saída ou “Permanecer e Reformar” encontrado numa vasta gama de Estados-Membros da UE, que molda outras questões importantes como a imigração, a austeridade e as desigualdades. A Grã-Bretanha não é, obviamente, membro do euro, pelo que a saída toma uma direção parcialmente diferente da posição da Grécia, por exemplo. No entanto, o Brexit teve um impacto maior no debate político do que o Grexit, porque levantou diretamente a questão da adesão à UE. Em suma, o Brexit é o desafio político mais importante para a esquerda europeia desde a humilhante rendição de Syriza em 2015.

 

As condições gerais para uma mudança socialista radical na Grã-Bretanha podem ser identificadas de uma forma que é amplamente aplicável a outros países europeus. O Reino Unido necessita de financiar a sua economia através da redução do peso, do impacto e do papel do sistema financeiro. Para tal, deve também adotar uma política industrial que altere o equilíbrio sectorial das atividades em detrimento dos serviços, começando ao mesmo tempo a enfrentar a profunda crise ambiental causada pelo capitalismo financeiro.

 

Uma política industrial orientada para objetivos específicos seria necessária para alcançar tanto o crescimento económico como a proteção do ambiente. Seria também acompanhada pelo fim da austeridade e pelo abandono de políticas absurdas para reduzir a dívida pública. Tal posição proporcionaria uma base para a reconstruç