Reação

Dando breve atenção ao coro das carpideiras

Ontem, ao ver o Jornal da Noite da SIC, armei-me de estoicismo para ouvir o Bernardo Ferrão e, sobretudo, o José Gomes Ferreira a comentarem as mais recentes medidas decididas pelo governo para consubstanciar o atual estado de emergência. Se o primeiro não me suscitou grande agravamento do estado de urticária mental sentida quando os ouço, o segundo esteve ao seu «melhor» nível, apelando à pieguice dos prosélitos a respeito dos pobres dos patrões, que a malvadez governamental impede de despedir trabalhadores conforme muitos o vêm fazendo nos últimos dias. No fundo tivemos o José Gomes Ferreira - nunca me conformo com o facto dele obnubilar a memória de um grande poeta do século XX com o mesmo nome! - a fazer de... José Gomes Ferreira.

 

Há, porém, algo a ler colateralmente na sua função de indignada carpideira: o facto do capitalismo à portuguesa ser o que é. Quando tantas vozes costumam enaltecer o facto do tecido empresarial português ser constituído por micro, pequenas e médias empresas, secundarizamos o facto de terem acionistas com escassa formação académica. E isso paga-se, porque a aposta é sempre no curto prazo sem atentar nas possibilidades adversas para as quais se enfia a cabeça debaixo da areia.

 

Sei-o por experiência própria: depois de duas dúzias de anos na marinha mercante, sedentarizei-me enquanto diretor de uma empresa de engenharia com uma centena de colaboradores, apostados na manutenção das instalações e equipamentos em grandes edifícios. Nesses anos deu para sentir bem a diferença entre o que era trabalhar para algumas das maiores empresas nacionais e multinacionais e o que significavaprestar serviços a marcas e insígnias, cujos responsáveis se afirmavam cheios de ambição, mas que bastava um inesperado percalço - e ele foi de monta quando se tratou da crise de 2011 - para verem as receitas reduzirem drasticamente e deixarem-me com o problema de muita faturação em atraso ou mesmo incobrável. Apostas de gestão como as agora demonstradas pelos donos d’«A Padaria Portuguesa» ficaram expostos em poucos meses: empresários que nada aprenderam com a fábula de la Fontaine sobre o sapo que queria ser tão grande quanto um touro e a procuraram replicar no seu negócio. Investiam sempre mais, recorrendo ao crédito bancário com a avidez de multiplicarem a dimensão, tornando-a crítica pela impossibilidade de não a prepararem para as contingências inesperadas.

 

Para José Gomes Ferreira, também ele um curioso da economia sem formação académica que lhe sustente as pretensões, o problema não é o facto de ser porta-voz de quem merece censura em vez de injustificada compreensão quanto à iniquidade das decisões para com os trabalhadores despedidos ou em vias de o serem. Nunca lhe ouvimos alguma censura por tais empresários sempre viverem dos salários de miséria e do frequente desrespeito pelos direitos laborais de quem empregavam.

 

Nesta altura esses empresários afirmam-se incapazes de suportarem dois meses de paralisação no seu negócio mas, muito mais provavelmente, se dispõem a abrir mão da acumulação de capital, que nunca terá deixado de ser o foco diário da sua gestão, para mostrarem-se solidários com os mais expostos à crise, ou seja com esses trabalhadores que terão explorado sem grande escrúpulo.

 

O problema maior que temos no país pós-crise é que os José Gomes e aqueles que defende nada aprenderam com a crise de 2011 nem nada serão capazes de reter de substancial da atual. As suas mentes cristalizadas balizam-se em estreitas análises, que os forçarão a defender e a agir futuramente com a mesma inépcia. E, no entanto, as circunstâncias bem justificam que este tipo de capitalismo seja equacionado e posto em causa, ainda que porventura não seja ainda chegado o momento de lhe dar o merecido desiderato.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/dando-breve-atencao-ao-coro-das.html

Grupos antivacina mudam foco para covid-19 e trazem sérios problemas à saúde pública

Young male researcher carrying out scientific researcher, working at laboratory.
 

Análise feita por projeto da USP em postagens de rede social mostra alteração na temática durante pandemia; conteúdo vai desde informações falsas até uso de produtos tóxicos como cura

Por Thais Cardoso – Jornal USP

Enquanto autoridades, profissionais de saúde e cientistas no Brasil e no mundo estão se esforçando para combater a covid-19 e seus efeitos, uma outra ameaça tem se espalhado principalmente por meio de redes sociais: a desinformação.

 

Uma análise produzida pela União Pró-Vacina, projeto desenvolvido por instituições de pesquisa e acadêmicas da USP em Ribeirão Preto, mostra que grupos tradicionalmente conhecidos por disseminarem informações falsas sobre vacinas agora estão mudando o alvo e concentrando-se na doença causada pelo novo coronavírus.

Os métodos da desinformação continuam os mesmos: distorcer conteúdo científico e jornalístico, espalhar teorias da conspiração e até oferecer falsas curas usando produtos conhecidamente tóxicos para a saúde humana. Entre as publicações, há insinuações de que o vírus seria uma ferramenta para instituir uma nova ordem mundial ou mesmo uma arma produzida pela China. Outras afirmam que a vacina da gripe seria a responsável pela disseminação da covid-19 e que a doença seria facilmente curada por meio da frequência do cobre ou de zappers, supostos antibióticos eletrônicos.

 

A análise

A União Pró-Vacina analisou 213 postagens feitas entre 15 e 21 de março nos dois maiores grupos públicos brasileiros de conteúdo antivacina no Facebook, O Lado Obscuro das Vacinas e Vacinas: O Maior Crime da História, que atuam há cinco e dois anos, respectivamente.

Em média, os grupos produzem 30 publicações por dia, mas o ritmo mostrou um crescimento no período analisado. O pico chegou a 43 postagens no dia 21 de março. Embora os dois grupos reúnam mais de 20 mil membros, apenas 58 foram responsáveis por todas as publicações nesse período. Dois desses integrantes fizeram mais de 40% das postagens, um total de 87 em sete dias.

 

Conteúdo e engajamento

Embora os grupos se concentrem basicamente na negação de evidências científicas sobre os benefícios da vacinação, durante os sete dias da análise houve um impressionante crescimento das publicações que abordavam a covid-19. No total, foram 139 postagens com essa temática (65,3%). Esse período praticamente coincide com o aumento de buscas de informações sobre a doença, segundo relatório do próprio Google.

Mais de 90% das publicações compartilham links (33,8%), vídeos (33,3%) e imagens (23,9%), itens que também podem ser facilmente disseminados em outras plataformas de redes sociais, aumentando o alcance de informações falsas.

O conteúdo das postagens é preocupante: 78,4% apresentam sérios problemas, como a disseminação de teorias da conspiração, utilização de informações falsas e de afirmações sem evidências, a distorção de informações confiáveis, a sugestão de uso e até a comercialização de produtos e tratamentos que não possuem comprovação científica ou aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Além do material compartilhado, o levantamento avaliou os comentários que acompanham as publicações nos grupos. Essa abordagem foi escolhida porque, na maioria dos casos, mesmo quando o conteúdo da postagem era verídico, esse espaço era usado para distorcer ou desacreditar as fontes e os dados, gerando uma nova interpretação deturpada para o conteúdo original.

 

O resultado é alarmante. Enquanto a média geral de interações (reações, comentários e compartilhamentos por postagem) das demais publicações no período avaliado foi de 16, esse número dobra nas publicações equivocadas sobre o novo coronavírus, chegando a 32. Esses conteúdos tiveram no total 1.891 reações, 1.011 comentários e 617 compartilhamentos.

A postagem com maior envolvimento (204 interações) aborda o uso de uma substância conhecida como MMS na cura da COVID-19. A sigla vem de Mineral Miracle Solution, ou solução mineral milagrosa, em português. O produto é composto por dióxido de cloro e é semelhante à água sanitária usada como alvejante. Sua ingestão ou administração pelo reto pode causar lesões no intestino, vômito, diarreia, desidratação, insuficiência renal, anemia, entre outros problemas de saúde graves.

Impacto negativo da desinformação

A ação desses grupos é um dos fatores que estão impactando negativamente campanhas de imunização em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, em 2019, o país não conseguiu bater a meta de vacinar 95% do público-alvo em nenhuma das 15 vacinas do calendário anual. Foi a primeira vez em 25 anos que isso aconteceu.

Por conta disso, doenças que já estavam praticamente erradicadas por aqui, como o sarampo, estão voltando com força e fazendo um grande número de vítimas fatais. O País alcançou o 5° lugar no ranking mundial de casos da doença em 2019. Somando-se os casos dos últimos sete meses, o Brasil alcança o primeiro lugar.

Diante dos resultados e em tempos de uma pandemia de covid-19, o efeito da desinformação gerada por grupos como esses em redes sociais pode gerar um problema de saúde ainda mais grave em nível nacional.

 

 

Como combater a desinformação?

Embora o mundo ainda esteja aprendendo a lidar com – e a combater – a produção e a disseminação de notícias falsas por meios digitais, o Brasil já se movimenta para enquadrar essas atividades como crime.

Um dos projetos de lei que trata desse tema é o PL 3842/2019, da deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), que propõe acrescentar ao Código Penal a detenção de um mês a um ano ou multa para quem deixar de vacinar criança ou adolescente sob sua guarda e também para quem divulgar, por qualquer meio, notícias falsas sobre as vacinas do calendário nacional. O projeto ainda está em tramitação na Câmara dos Deputados.

No Estado de São Paulo, a Assembleia Legislativa aprovou no dia 11 de março um projeto de lei que prevê multa a partir de R$ 5 mil para quem produzir e difundir informações falsas que afetem o interesse público ou tenham como objetivo a obtenção de vantagem de qualquer natureza. Apesar do pagamento de multa, a proposta não exime os autores das responsabilidades previstas em outras leis, como os Códigos Penal e Civil. O projeto ainda aguarda sanção do governador paulista.

O Ministério da Saúde também tem tomado providências para combater a desinformação. Foram criados a plataforma Saúde sem Fake News, que se dedica a desmentir boatos que circulam na rede, e um bot (espécie de robô virtual) que auxilia na checagem de informações específicas sobre a covid-19 via Whatsapp. Para ter acesso ao bot, basta salvar o número +55 (61) 9938 0031 e enviar um “oi” para iniciar a conversa. Caso o acesso seja pelo Whatsapp Web, basta clicar neste link para interagir com ele.

As redes sociais também se movimentam para combater a onda de informações falsas que se espalha pela internet durante a pandemia. Facebook e Twitter afirmam que estão removendo conteúdos falsos sobre o coronavírus e direcionando os usuários que buscam informações sobre a pandemia para o Ministério da Saúde. No Instagram, a ação é semelhante, mas o redirecionamento é feito para a página da Organização Mundial da Saúde.

 

O YouTube lançou uma página específica para atualizar usuários sobre a pandemia. Além de excluir conteúdos falsos, a plataforma está bloqueando a monetização de conteúdo sobre o tema, exceto em canais já verificados. Já o Whatsapp, que é de propriedade do Facebook, não consegue coibir a disseminação das notícias falsas por conta da criptografia das mensagens. Portanto, o próprio usuário precisa estar atento às informações que recebe para não colaborar com essa propagação.

Mas ainda é pouco
As medidas tomadas por autoridades e empresas de tecnologia e comunicação são um avanço, mas ainda falta muito para um cenário ideal. A União Pró-Vacina destaca que é preciso uma fiscalização mais efetiva e uma maior responsabilização dos usuários que criam e compartilham esse tipo de desinformação, além da desarticulação dos grupos que mantêm sites e páginas em redes sociais que funcionam como repositório desse conteúdo.

O mais importante, segundo o projeto, é investir na educação da própria população, já que o problema não é apenas o conteúdo falso, mas principalmente a falta de preparo do público para reagir de forma correta e barrar a disseminação das fake news. Iniciativas abrangendo alfabetização midiática, informacional e científica direcionadas a todas as idades e públicos são urgentes e fundamentais para que a sociedade possa ter uma opinião embasada em fontes confiáveis sobre esses temas.

Sobre a União Pró-Vacina

A União Pró-Vacina é uma iniciativa organizada pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) Polo Ribeirão Preto da USP em parceria com o Centro de Terapia Celular (CTC), o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), os projetos de divulgação científica Ilha do Conhecimento e Vidya Academics, e o Gaming Club da FEA-RP.

O objetivo é unir instituições acadêmicas e de pesquisa, poder público, institutos e órgãos da sociedade civil para combater a desinformação sobre vacinas, planejando e coordenando atividades conjuntas durante todo o ano de 2020, explorando as potencialidades de cada instituição participante.

Entre as ações que serão realizadas estão: colaboração para elaboração e melhoria de políticas públicas; produção de material informativo; intervenções em escolas, espaços públicos e centros de saúde; eventos expositivos; combate às informações falsas e desenvolvimento de games.

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/grupos-antivacina-mudam-foco-para-covid-19-e-trazem-serios-problemas-a-saude-publica/

Os talibãs de São Francisco

Para «resistir» bem ao racismo americano será preciso destruir as pinturas murais de um artista comunista financiado pelo New Deal [1]? A questão pode parecer ainda mais absurda porque o conjunto de treze obras de Victor Arnautoff intitulado Life of Washington, condenado por alguns «resistentes» californianos, exibe um conteúdo antiracista, e revolucionário para a sua época. Com efeito, numa superfície total de cento e cinquenta metros quadrados, as pinturas atacam a hipocrisia das proclamações virtuosas dos Pais Fundadores da Constituição americana, entre os quais George Washington.

Apesar disso, a comissão escolar de São Francisco, na Califórnia, aprovou por unanimidade, a 25 de Junho último, o apagamento das treze pinturas de Arnautoff que decoram os muros da Escola Secundária George Washington desde a sua inauguração, em 1936.

Longe de homenagear o primeiro presidente dos Estados Unidos, como sugere o nome do estabelecimento de ensino a que estas obras se destinavam, Arnautoff teve a insolência de representar Washington como proprietário de escravos e instigador das primeiras guerras de extermínio dos índios. Contudo, não foi Donald Trump que, através de tuítes racistas e irascíveis, reclamou a destruição da obra desmistificadora do romance americano concebida por um muralista comunista que terminou a vida na União Soviética; foram os seus adversários mais militantes que se encarregaram de o substituir no papel de inquisidores.

Um «grupo de reflexão e de acção» de treze elementos veio esclarecer a escolha da comissão escolar de São Francisco. Com um certo atrevimento, decidiu o destino a dar às pinturas de Arnautoff pretendendo que elas «glorificam a escravatura, o genocídio, a colonização, o destino manifesto [a ideia de que os colonos protestantes tinham a missão divina de «civilizar» o continente americano], a supremacia branca, a opressão, etc.».

Esta interpretação é insustentável. Com efeito, a tradição realista socialista em que Arnautoff se inspirava não deixa qualquer lugar para equívocos de boa fé. Foi por isso preciso juntar à decisão um outro motivo, considerado mais aceitável, ainda que igualmente inquietante. Parece que as pinturas Life of Washington, que incluem a representação do cadáver de um índio morto por colonos, «traumatiza os estudantes e os membros da comunidade». Mas então, há que escolher: deve-se recordar a escravatura e o genocídio, ou esquecê-los? Como é que se pode garantir que um artista que evoca a história de um país nunca irá incomodar «membros da comunidade», os quais têm, de qualquer forma, mil outras ocasiões para serem diariamente confrontados com cenas de brutalidade, reais ou figuradas? Obras como Guernica, de Pablo Picasso, ou Tres de mayo, de Francisco de Goya, não são igualmente violentas e traumatizantes?

Por agora, a controvérsia de São Francisco mobiliza sobretudo a parte da esquerda americana mais disposta à escalada sobre as questões identitárias (ler nesta edição o artigo de Rick Fantasia). Mas, tendo em conta que esta mesma vanguarda da virtude já exportou, com certo sucesso, algumas das suas mais estranhas teimosias, mais vale que todos estejam de sobreaviso…


[1] Ler Evelyne Pieiller, «Quand le New Deal salariait les artistes», em «Artistes, domestiqués ou révoltés?», Manière de voir, n.º 148, Agosto- Setembro de 2016.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

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