Racismo

Portugal | Trivela contra vozes de burros, cabazada de Quaresma

 
 
Ferreira Fernandes | Diário de Notícias | opinião

 

 
Eu não vou falar da coelha anã "Acácia, a coelha anã do deputado do Chega", fotografada em pose e em gesto fofo com o referido político. Não vou porque também tive um sagui com o qual dormia, agarradinho ao meu pescoço. É certo que eu ainda não tinha idade para ser elegível, tinha oito anos, mas defendo que todos temos direito às nossas idiossincrasias peludas e não devemos ser julgados por elas.

 


Venturinha001Outra coisa é o caráter que um eleito revela em público. Se for muito peçonhento há que estar atento. Vota-se, espero, pelas propostas políticas de um candidato, mas alguns traços da personalidade ajudam ou desajudam - e, às vezes chegam a ser determinantes. Ao André Ventura, chegam-me as suas ideias políticas, que me repugnam. Acresce, porém, que o homem, pessoa, vai consoante o seu papel político.

Sorte a do bem público, porque assim, juntar a pessoa mais as ideias, tudo mau, então, aumentam as probabilidades do político ser rechaçado - dirá um ingénuo. Errado. Primeiro, porque aquelas inomináveis criaturas serem o Donald e o Jair, não as impediu de serem eleitas com os execráveis programas deles. Segundo, porque o narcisismo patológico, de um, e o ser calhau, de outro, tiveram um efeito de corrupção sobre as sociedades respetivas. E a maré pútrida já se espalhou mundo fora.

 


É assim que os malefícios que são de prever vindos do político André Ventura, mesmo antes de se transformarem em leis, salvo seja, já o seu comportamento público faz razias sociais. Deixar-se enxovalhar num programa televisivo da CMTV, engolir os insultos, de "vigarista!" a "palhaço!", não desminto a justeza, preocupa-me é o exemplo, é de um, como dizer... pusilânime. Repetir semanas a fio esses tristes diálogos com o mesmo indivíduo que o amarrota e humilha é de um... de um... não há volta a dar, um pusilânime.

 


E que é um pusilânime? É uma coisa em forma de descer as escadarias da Assembleia da República, numa manif de polícias, os olhinhos circundantes, medrosos, "onde m"estou a meter, valha-me Deus...", apesar do seu grupinho lhe ter garantido o afeto, "e, credo!, se eles me confundem com um político a sério..." Um pusilânime nota-se pelos olhinhos e transpira pusilanimidade pelos poros.

 


Também há pusilânimes lá fora. O mais famoso foi um adepto de futebol, desses raquíticos e língua de víbora, com um truque: ele insultava os atletas famosos porque estes tinham tudo a perder se respondiam... Ter na mão um poderoso, ah o prazer cobarde da chantagem!

 

 
A amiba, num dia de 1995, apanhou o Cantona a caminho do balneário. Cantona, soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada, e o nosso pusilânime, a metro e meio, tungas: insultou. O Cantona levou nove meses de suspensão, e os adeptos do truque sentiram um choque (um deles, literalmente): se calhar é melhor não... Foi remédio santo.

 


Onde é que eu estava? Ah, no André Ventura, esse que tem um truque: diz o que lhe vem à cabeça, tem parangonas, mobiliza os excitados e recolhe os votos dos cobardes. Esta semana, ele disse ser necessário "um plano de confinamento específico para a comunidade cigana." E aqui faço um salto epistemológico, do indivíduo André, o pusilânime, para o político Ventura, o sem princípios. O que disse o líder do Chega, o deputado Ventura, foi indecente.

 


Antes desta bojarda de Ventura, o futebolista Quaresma, no início da quarentena, publicou um vídeo, no Facebook, em casa com a família. Ele, a mulher e o casalinho de filhos jogavam cartas, riam e fingiam discutir. Olhem um cidadão, pelo texto que escreveu: "Desta vez quem resolve o jogo é a quarentena não é o Quaresma! Cumpram as regras que vos são pedidas pelas autoridades. Metam a bandeira portuguesa na janela de casa para apoiar os nossos campeões que estão a trabalhar nos hospitais. Em breve teremos uma vacina, mas até lá a melhor vacina é ser solidário uns com os outros. Obrigado Portugal." 15 de março.

 


Um mês e picos depois, o cidadão Ricardo Quaresma soube que um deputado português propôs que ele, a mulher e os dois filhos podiam não estar na casa que ele comprou com o seu trabalho e talento e que tantas alegrias deram a Portugal. O tal deputado propunha que se discutisse como pôr as famílias ciganas - o que quer dizer, a de Quaresma também - num "confinamento específico" para ciganos.

 


Eu estou a transmitir um facto, as minhas palavras são substantivas. Cito André Ventura por palavras da boca dele. Vão lê-las. Sobre isso, para mim, ponto final. Se o leitor, o meu patrão, o polícia da rua, o meu dentista, um parente chegado e a quem devo muito, o cardeal patriarca, Costa ou Marcelo, se alguém quiser ponderar a questão do confinamento específico de ciganos, já não aviso segundo ponto final. Mando à merda.

 


Já discuto gostosamente sobre o que Quaresma fez por nós. Se o leitor não teve a dita de ver ao vivo, recorra a vídeos. Os cruzamentos de trivela de Quaresma são dos maiores momentos do futebol mundial. Um misto de ciência, pela curva traçada, um sentido dramático pelo espanto de colegas, adversários e público, e uma beleza pegada. Como o outro, Garrincha, também magnífico e demasiado povo, Quaresma teve como destino ser a alegria do povo.

 


Dito isto, Ricardo Quaresma é soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada, um senhor como Cantona, e ainda maior talento. A Quaresma podia ter-lhe dado na veneta lembrar-se do ocorrido numa tarde de futebol em 1995. Mas não, e um artista da Net, a bela página Insónias em Carvão, criou esta semana um Quaresma, príncipe do séc. XIX, farda de gala e condecorações. Apanhou-o bem: apesar da indecência do pusilânime desbocado, Quaresma não sujou as botas nas trombas dele.

 


Ricardo Quaresma voltou ao twitter e publicou: "Olhos abertos, amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros..." Que frase política, de quem podia aproveitar-se para soprar no fogo, e não o fez. Sem ter andado em seminário, nem universidade inglesa, que respeito pela comunidade, a estreita e a Pátria. Que sentido de Estado!

 


Que sabedoria de quem, sabendo que há problemas, quer resolver e não inquinar. Quanto mais fácil seria, para uma vedeta que tem a sua vida e a dos seus materialmente resolvida, poder juntar a isso a vã glória de cavalgar uma qualquer rebeldia. Os meus, disse Quaresma aos seus e a nós, somos nós todos. Que lição do que é ser português!

 


Até a mim enganaste, Ricardo Quaresma, com o teu entrar em campo sempre de sobrecenho carregado, o último gole de água bocejado e cuspido, um agarrar impudico nas partes baixas, as tatuagens expostas... Sabia-te artista mas misturado com um bruto. Mas o que tu és é isso tudo e também um homem comovedor. Chapeau. Respect. Dá cá um abraço.

 


E ontem, ainda no Facebook, publicas a recordação do teu tio-avô, também futebolista, Artur Quaresma, do Belenenses. Num Portugal-Espanha, 1938, ele e dois colegas da seleção e do clube (José Simões e Mariano Amaro), não fizeram a saudação fascista. Portugal-Espanha, resultado: um hat-trick, ganhámos nós todos a memória de uma coragem. Não era um gesto sem risco: depois daquilo, Cândido dos Reis, treinador dos três no clube e na seleção, foi parar ao campo de concentração do Tarrafal.

 


Ricardo Quaresma à escrita: "Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história." Talvez cientificamente a frase não valha uma passagem por universidade inglesa, mas há mestrados que são desmentidos à primeira oportunidade. Já a tua frase tem a vantagem de ser dita com o penhor de uma vida assim cumprida. Quaresma, não chegarás a deputado mas chega para eu me sentir honrado em atravessar a rua para te dizer, "Obrigado, senhor."

 


Sobre tudo isto, André Ventura, que em programas sobre futebol na CMTV ganhou a notoriedade que lhe permitiu ser eleito deputado, disse ao Correio da Manhã: "É lamentável que um jogador da seleção nacional se envolva em política." Quer dizer, além de confinamento específico por ser cigano, avisa-se Quaresma com a mordaça por ser jogador da seleção.

 


E para remate final, André Ventura ainda disse: "Espero que as autoridades do futebol não deixem que isto se torne o novo normal." É a posição em que o político Ventura melhor joga. Mandar os outros dar porrada porque com o André ele não conta, é um fraco.

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Martin Luther King Jr. e a luta pela igualdade social

 
 
Tom Mackaman e Niles Niemuth | WSWS

Na segunda-feira, os Estados Unidos comemoraram o Dia de Martin Luther King Jr., um feriado que marca o nascimento do líder dos direitos civis.

 

 
Desde a sua criação nos anos 1980, o feriado teve como objetivo transformar King em um ícone inofensivo da conciliação social, ofuscando ao mesmo tempo suas críticas radicais ao capitalismo e ao militarismo estadunidenses. Mas hoje, em 2020, isso foi somado a um novo impulso. A concepção de King de um movimento democrático de massa pelos direitos civis baseado na ação unificada de todas as seções oprimidas da população está sendo substituída por uma narrativa essencialmente racialista que apresenta toda a história dos EUA em termos de uma luta entre brancos e negros. Essa narrativa racial exige a marginalização do papel histórico de King.

 


Isso se mostra claramente no Projeto 1619 do New York Times, que faz uma “reformulação” da história das relações raciais estadunidense sem mencionar King. Isso não é um descuido por parte de um projeto que se declara nada menos do que um novo currículo para a educação básica. O centro da política de King - a luta pela igualdade - é contrária aos objetivos do liberalismo contemporâneo, que é baseado em uma luta por privilégios dentro da classe média alta.

 


King, um pastor e teólogo batista, tornou-se o mais proeminente líder e voz da massiva luta dos direitos civis pela igualdade racial que surgiu no período após a Segunda Guerra Mundial - desde o boicote dos ônibus de Montgomery contra a segregação Jim Crow no estado do Alabama em 1955 até 1968, quando King foi assassinado em Memphis, no estado do Tennessee, enquanto estava apoiando os lixeiros em greve.

 


King nasceu na cidade de Atlanta, Georgia em 1929, durante um período que os acadêmicos chamaram de o “pior momento” das relações raciais nos EUA. No Sul durante as leis Jim Crow, a partir dos anos 1890, um conjunto de leis retirou o direito ao voto da ampla maioria dos negros. Todos os espaços públicos foram segregados pela lei ou pelo costume - escolas e faculdades; ônibus, trens, bondes; bebedouros e banheiros; restaurantes e cinemas. O casamento inter-racial era ilegal e mesmo interações casuais entre brancos e negros, por exemplo em calçadas, aconteceriam dentro de uma etiqueta criada para humilhar e depreciar os negros.

 


O Partido Democrata governou o Sul durante as leis Jim Crow sem ser desafiado. Por trás dele havia a ameaça constante da violência racista sancionada pelo governo. Estima-se que multidões e gangues de assassinos lincharam mais de 4 mil negros no Sul dos anos 1870 até os anos 1940.

 

 
Contudo, o racismo não era um fim em si próprio. Conforme C. Vann Woodward estabeleceu há muito tempo em A estranha carreira de Jim Crow (1955), ele foi imposto como uma resposta direta ao movimento Populista de fazendeiros pobres, que, nos anos 1880, havia levantado o espectro da união inter-racial entre os oprimidos. O fato de que o livro de Woodward era tido como “a bíblia histórica” do movimento dos direitos civis refletia a concordância desse movimento com sua decisiva conclusão, que, como King disse, “a segregação racial como um estilo de vida não surgiu como um resultado natural do ódio entre as raças” - a posição promovida pelo Projeto 1619 - mas “foi na verdade um estratagema político empregado pelos interesses dos Bourbon no Sul para manter as massas sulistas divididas e o trabalho sulista o mais barato na região”.

 


O movimento Populista entrou em colapso algumas décadas antes do nascimento de King. A sua incapacidade de superar a oligarquia sulista foi resultado da sua composição social de fazendeiros rurais isolados, uma seção indiferenciada e em rápido declínio da população. Ainda assim, suas conquistas foram extraordinárias. Abalando o sistema de dois partidos até as suas bases, o desafio do Populismo ao capitalismo impulsionou em última instância o surgimento do socialismo estadunidense.

 



A “grande migração” e o crescimento da classe trabalhadora

 


Apesar de King buscar inspiração no Populismo, o que ofereceu a base para o movimento dos direitos civis foi, em última instância, uma transformação muito mais profunda, a partir do poderoso desenvolvimento do capitalismo estadunidense: o desenvolvimento da classe trabalhadora.

 


Em 1900, depois da derrota do movimento Populista, 90% dos afro-americanos viviam no Sul, a maioria isolada em regiões rurais. Nos anos 1920, mais de 1,5 milhão de negros deixaram o Sul e foram para cidades do Norte em busca de trabalho assalariado. Muitos outros se mudaram para as cidades do Sul - incluindo Atlanta, onde King nasceu, assim como as cidades industriais do estado do Alabama, Birmingham e Montgomery, que deram origem ao movimento dos direitos civis moderno. Até 1960, apenas 15% dos afro-americanos permaneciam nas fazendas, uma transformação social dramática que os historiadores chamam hoje de Grande Migração.

 

 
Nas cidades, os migrantes negros enfrentaram novas formas de racismo e, como nas cidades de East St. Louis em 1917 e de Chicago em 1919, ocasionais ataques de grande violência, tipicamente organizados por seus oponentes históricos no Partido Democrata. Mesmo assim, é inegável que esse vasto movimento - do interior para a cidade, da fazenda para a fábrica, e do Sul para o Norte e o Oeste - foi um acontecimento intensamente libertador. Seu impacto na cultura estadunidense foi revigorante.

A chegada às cidades dessas pessoas brutalmente oprimidas, apenas meio século após a escravidão, originou o crescimento cultural e intelectual associado ao “Harlem Renaissance” (Renascimento do Harlem), as primeiras organizações políticas de massa e sindicatos afro-americanos, assim como as grandes formas de música popular, incluindo ragtime, rhythm e blues, jazz, e rock and roll.

 


A Grande Migração tornou os trabalhadores afro-americanos uma decisiva seção da classe trabalhadora. Porém, a fusão dessa classe, atravessando divisões raciais e nacionais, não era uma tarefa fácil em condições nas quais os empresários capitalistas sabiam que poderiam colocar os trabalhadores – brancos, negros, imigrantes – uns contra os outros em uma competição por salários. A Federação Estadunidense do Trabalho (AFL), que está entre as organizações trabalhistas mais provinciais e reacionárias no mundo, incentivou essas divisões. A maioria dos seus sindicatos impôs exclusões raciais contra os negros e incitou a hostilidade aos imigrantes. Socialistas reformistas que se alinharam à AFL, como Victor Berger, da cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, também excluíram negros de sua concepção de classe trabalhadora.

 


Nessas condições - o surgimento de uma poderosa classe trabalhadora industrial, porém limitada por formas de organização obsoletas -, a Revolução Russa de 1917 teve um enorme impacto. Entre os intelectuais negros inspirados pelos bolcheviques estavam Claude McKay, Jean Toomer, Langston Hughes, Paul Robeson, e A. Philip Randolph, que foi cocriador da revista socialista The Messenger em 1917 e, depois, liderou o maior sindicato predominantemente negro, a Irmandade dos Carregadores de Bagagem (Brotherhood of Sleeping Car Porters).

 


Esses intelectuais imediatamente compararam a situação deles com a dos judeus sob a aparentemente eterna dinastia Romanov. “Para os negros estadunidenses, o fato indiscutível e de destaque da Revolução Russa”, explicou McKay em 1921, “é que um punhado de judeus, proporcionalmente muito menores do que o número de negros na população dos EUA, adquiriu, através da Revolução, todos os direitos políticos e sociais negados a eles sob o regime do Czar”.

 

 
No Norte, os socialistas assumiram a dianteira na luta pelos grandes sindicatos industriais no setor automotivo, frigorífero, da borracha e siderúrgico, insistindo que os negros fossem aceitos em pé de igualdade com todos os outros. Mesmo no extremo Sul, os socialistas lutaram sob a bandeira da Revolução Russa nos anos 1920 e 1930, ganhando o apoio de trabalhadores militantes, negros e brancos, em lugares como o estado do Alabama, onde a defesa dos Garotos de Scottsboro, nove jovens afro-americanos falsamente acusados de estupro, ganhou o apoio dos trabalhadores no mundo inteiro. É difícil exagerar ao falar sobre o heroísmo desses trabalhadores, que resistiram à ira da polícia sulista, assim como à Ku Klux Klan.

 


Os stalinistas do Partido Comunista, junto à burocracia supostamente esquerdista do Congresso das Organizações Industriais (CIO), traíram esses trabalhadores em nome da sua aliança com o Partido Democrata, cuja ala sulista permanecia nas mãos da oligarquia supremacista branca. Mesmo assim, o socialismo permaneceu causa de grande irritação para os políticos pró-Jim Crow, que viam em toda agitação de trabalhadores sulistas o trabalho de “provocadores externos” e “comunistas”. Além disso, apesar dos maiores esforços dos reacionários difamadores da esquerda, o socialismo continuou a influenciar uma camada de intelectuais e líderes sulistas.

 


A importância de King

 


King não era um marxista ou revolucionário. Porém, suas simpatias socialistas, e aquelas de sua esposa, Coretta Scott King, eram conhecidas. Ele defendeu uma reestruturação econômica significativa da sociedade estadunidense, embora não chamasse pela derrubada do sistema capitalista. Apesar de adaptar cautelosamente a sua política às pressões do clima anticomunista nos Estados Unidos dos anos 1950, King falava uma linguagem completamente incompatível com a narrativa racial dos atuais nacionalistas pequeno-burgueses privilegiados de direita.

 


O comunismo “deve nos desafiar primeiro a nos preocuparmos mais com a justiça social”, disse King em um sermão proferido pela primeira vez em 1953. “Por mais que muito esteja errado com o comunismo, nós precisamos admitir que ele surgiu como um protesto contra as dificuldades daqueles que não são privilegiados. O Manifesto Comunista, que foi publicado em 1847 por Marx e Engels enfatiza em todas as suas partes como a classe média explorou a classe baixa. O comunismo enfatiza uma sociedade sem classes. O comunismo busca transcender as superficialidades de raça e cor, e você pode aderir ao partido comunista qualquer que seja a cor de sua pele ou a qualidade do sangue nas suas veias”.

 


King articulou eloquentemente os sentimentos democráticos dos estadunidenses de todas as raças e etnias, que estavam lutando para derrubar as barreiras artificiais levantadas pela classe dominante em um esforço consciente para dividir a classe trabalhadora.

 


Em um sermão de 1965, King explicou que as “majestosas palavras” da Declaração de Independência escrita por Thomas Jefferson, que “todos os homens são criados iguais”, eram a base do movimento dos direitos civis. Ele não via aquele documento, que dava expressão aos princípios do Iluminismo, que motivaram a Revolução Americana, como uma narrativa cínica ou uma mentira - como a representante do Projeto 1619, Nikole Hannah-Jones, vê a Declaração -, mas como uma promessa ainda não cumprida, “elevada a proporções cósmicas” e que o movimento dos direitos civis estava lutando para tornar uma realidade.

 


Ele e muitos outros que fizeram parte do movimento de massa nos anos 1950 e 1960 entendiam muito bem que nenhum progresso duradouro poderia ser alcançado sem a união da classe trabalhadora e reconheciam que, sob o capitalismo, os trabalhadores estavam sendo oprimidos independentemente da cor de sua pele.

 


Escrevendo em 1958, King disse que dois verões de trabalho em uma fábrica quando era adolescente haviam exposto ele à “injustiça econômica em primeira mão, e percebi que o branco pobre era explorado tanto quanto o negro. Através dessas experiências iniciais eu cresci profundamente consciente das variedades de injustiça na nossa sociedade”.

 


Independentemente do assassinato de King ter sido ou não apenas o trabalho do criminoso James Earl Ray, é um fato documentado que, desde o início dos anos 1960, o FBI sob J. Edgar Hoover tinha como objetivo destruir o líder dos direitos civis através de uma campanha de truques sujos, vazamentos na mídia, intensa vigilância e até mesmo incentivando King a se matar. “Mesmo assim, de algum modo”, escreveu o historiador William Chafe, “King saiu desses eventos como um líder mais forte, mais resoluto, mais corajoso”.

 

King respondeu ao ataque do FBI em 1967 lançando sua Campanha dos Pobres inter-racial, uma iniciativa buscando justiça econômica para todos os estadunidenses empobrecidos. Ele também se tornou um dos mais abertos críticos da chacina dos EUA no Vietnã, denunciando de forma marcante o governo dos EUA como o “maior criador da violência hoje” em seu discurso na Igreja Riverside em 1967.

 


King havia se convencido, disse ele ao seu gabinete no mesmo ano, “que não podemos resolver nossos problemas agora até que haja uma radical redistribuição de poder econômico e político”. Era o momento, ele disse, “de levantar certas questões básicas sobre a toda a sociedade... Nós estamos engajados em uma luta de classes... lidando com o problema do abismo entre aqueles que têm e aqueles que não têm”.

 


O reconhecimento de King da necessidade da luta inter-racial e das contribuições dos brancos para o movimento dos direitos civis sustentou a crítica de King ao separatismo racial apoiado pelo movimento Black Power, que ele chamou corretamente, em 1967, de “um grito de decepção... nascido das feridas do desespero”.

 


King e o Projeto 1619

 


A guinada de King para a esquerda alarmou líderes dos direitos civis conservadores. Para eles, King respondeu - em palavras que ecoam com a mesma força contra os “especialistas raciais” generosamente financiados de hoje -: “O que vocês estão dizendo pode lhes dar uma bolsa em uma fundação, mas não vai levá-los ao Reino da Verdade”.

 


A lógica dessas posições, de fato do trabalho de toda a sua vida, colocou King em uma rota de colisão com o Partido Democrata - o mesmo partido que governou o Sul durante as leis Jim Crow e os aparatos políticos das grandes cidades no Norte, e que havia levado os Estados Unidos ao Vietnã. Mesmo se as suas limitações políticas o fizeram adiar esse acerto de contas até o fim, o trabalho de sua vida teve um real impacto nas vidas de milhões.

 


Hoje, os princípios universais e iluministas, pelos quais King lutou e defendeu, estão sendo ferozmente atacados. É impressionante que, no Projeto 1619, a iniciativa do Times de escrever a “verdadeira” história dos EUA como tendo origem na escravidão e no racismo, a contribuição de King para a luta pela igualdade seja totalmente ignorada. Isso não representa uma interpretação diferente dos fatos ou um mero descuido, mas uma verdadeira falsificação histórica.

 


O Times procura impor uma nova “narrativa” sobre a história dos EUA, segundo a qual o racismo contra o negro é apresentado como uma característica imutável do “DNA estadunidense”. Isso, defende Hannah-Jones, surgiu do “pecado original” da escravidão, que não foi em si causada pela exploração do trabalho, mas pelo racismo branco contra os negros.

 

 
Promovido pelo Centro Pulitzer para Cobertura de Crises, que é amplamente financiado por corporações e bilionários, o Projeto 1619 propõe-se como um novo currículo para a educação pública. Escolas em péssimas condições e crianças famintas da cidade de Chicago até Buffalo estão recebendo planos de aula que defendem que a Revolução Americana e a Guerra Civil foram conspirações para perpetuar o racismo branco, e que todo o tipo de problemas sociais contemporâneos - falta de acesso à saúde, obesidade, congestionamentos no tráfego, etc. - são resultados diretos da escravidão.

 


Seguindo outros importantes historiadores entrevistados pelo WSWS, o professor Clayborn Carson da Universidade de Stanford, diretor do Instituto de Pesquisa e Educação Martin Luther King, Jr., criticou o Projeto 1619 do ponto de vista do seu tratamento da história, sua falta de compromisso com a Revolução Americana, e o obscuro e rápido processo de sua elaboração. Ele foi além, entretanto, fazendo poderosas observações sobre King e o movimento dos direitos civis que ele passou a liderar - dois assuntos quase inteiramente ausentes no Projeto 1619.

 


Carson apontou que os ideais da Revolução Americana e o Iluminismo tiveram um papel decisivo no movimento dos direitos civis e no papel do próprio King como um líder político. Carson explicou: “Uma maneira de abordar a criação deste país é entender a ousadia de algumas centenas de homens brancos da elite se reunindo e declarando um país - e declarando-o um país baseados na noção dos direitos humanos”.

 


“Obviamente, eles estavam sendo hipócritas, mas também foi audacioso. E é disso que se tratam direitos”, apontou Carson. “É a história de pessoas dizendo, ‘Eu declaro que tenho o direito de determinar o meu destino, e nós temos coletivamente o direito de determinar o nosso destino’. Essa é a história de todos os movimentos, todos os movimentos de liberdade na história do mundo. Em algum momento você tem que chegar naquele ponto em que você precisa dizer isso, publicamente, e lutar por isso.”

 


São esses princípios e perspectiva que estão sendo rejeitados explicitamente pelo New York Times conforme as camadas de classe média organizam diversas formas de política identitária para competir por uma maior proporção das massivas quantidades de riqueza que têm sido depositadas nos cofres dos 1% mais ricos. Nessa luta por privilégios e riqueza, os princípios políticos que King defendeu não têm lugar e, portanto, ele também precisa ser removido da narrativa histórica.

 

 
Nas imagens: 1 - Martin Luther King, Jr. durante discurso em marcha de 1963 até Washington; 2 - 

 

Martin Luther King, Jr. e Coretta Scott King lideram marcha de 1965 de Selma até Montgomery pelo direito ao voto
 
 
 
Publicado originalmente em 23 de janeiro de 2020

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André Ventura e «a cobardia de querer calar quem lhe faz frente»

«André Ventura fez uma proposta inqualificável, de decidir o confinamento de pessoas, tendo em conta a sua origem étnica. Teve a resposta que devia por um campeão português, Ricardo Quaresma, e veio logo sugerir que os futebolistas deveriam ter direitos limitados à opinião. Ficámos portanto a saber que o Chega não só tem opiniões repugnantes, como André Ventura tem a cobardia de querer calar quem lhe faz frente. Senhor deputado André Ventura, eu lutarei pelo seu direito a ter opiniões sobre o futebol. Embora também vá lutar para acabar com a pouca vergonha de receber vários salários, além do de deputado. E no que disser respeito ao Bloco, fique certo que as suas ideias racistas hão-de ir parar ao caixote do lixo, de onde nunca deviam ter saído».

Catarina Martins

«Nós discordamos do pressuposto: nós não temos nenhum problema com a comunidade cigana em Portugal. Nós temos problemas, em Portugal, com pessoas que cumprem, ou não cumprem, as normas sanitárias. É muito simples, a lei é para cumprir e deve ser aplicada a todos por igual. (...) O senhor deputado é que tem um problema, é que já foi de trivela. (...) É que o senhor deputado resolveu criar um caso com uma parte importante dos portugueses, que é a comunidade cigana. Como se eles fossem estrangeiros. E não sabendo que, há séculos, que eles são tão portugueses como qualquer um de nós. E aquilo que teve foi uma resposta à altura de um grande campeão nacional e de um grande jogador da nossa seleção. E que de facto é ter muito mau perder quando, depois de levar um baile do Quaresma, a única resposta que teve para dar foi dizer que, sendo jogador da seleção nacional, só tinha a obrigação de estar calado. Não, o direito à palavra e o direito à opinião é uma liberdade de todos, sua, do Quaresma, minha, ou de quem quer que seja.»

António Costa

Via Uma Página Numa Rede Social, as respostas da Coordenadora do Bloco de Esquerda e do Primeiro-Ministro ao deputado do Chega, André Ventura, no debate quinzenal desta quinta-feira. Como bem se assinala nesta Página, não tendo soluções para os verdadeiros problemas do país, os partidos populistas «distraem a sua base eleitoral com temas como o dos ciganos», como se esta comunidade «fosse responsável por algum dos grandes problemas do país» e quando «não são os ciganos que todos os anos fogem com milhares de milhões de euros para offshores, não são os ciganos que arruinaram bancos e, com eles, as poupanças de muitas famílias e as contas do país, e não foram os ciganos que venderam empresas públicas estratégias e lucrativas a fundos de investimento, que agora enriquecem à custa do trabalho do povo português». Por isso, sempre que ouvirem «André Ventura repetir que vem combater "o sistema", recordem que ele trabalha, em regime de acumulação de funções, numa empresa de engenharia fiscal que ajuda pessoas ricas a desviarem fortunas para offshores. Enquanto Ventura acena com os ciganos numa mão, para distrair os incautos, a outra mão está a ajudar algumas das pessoas mais poderosas do país a fugir aos impostos».

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Quaresma no lugar certo – o da Política

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 07/05/2020)

FUTEBOL – Ricardo Quaresma. Jogo de qualificacao para o Campeonato do Mundo 2018, Portugal – Ilhas Faroe, realizado Estadio no Bessa, no Porto. Quinta, 31 de Agosto de 2017. (EPOCA 2017/2018) (Vitor Garcez)
 

Os racistas podem ser os monstros que a memória do século XX não apaga e podem ser figurinhas medíocres, sem convicção, oportunistas do momento. Mas o racismo é sempre assunto sério, é sempre coisa da polis, porque os racistas, os grandes monstros ou os pequenotes anedóticos, comungam no objetivo do apagamento do outro. Discriminar em função da etnia é sempre apagar, é tirar do mapa e esse objetivo é conseguido pelo verbo, pela ação, com pequenos e com grandes gestos.

Pretender que se crie um plano de confinamento específico para a comunidade cigana, devidamente estereotipada e falsamente acusada de comportamentos alucinantes em tempos de pandemia, remete-nos para a máquina jurídico-administrativa que o nazismo montou para que, numa política de pequenos passos, os judeus fossem despojados da sua humanidade com adesão consequente dos alemães “puros” ao novo normal, ao afastamento (apagamento) dos judeus da cidade. Criou-se, também pelo Direito, uma consciência coletiva de obediência ao normativo.

Pretender que haja regras de confinamento para a todos e outras à parte para as pessoas ciganas faz-nos pensar nos tempos que um parlamento aprovou leis para proteger o sangue de um povo idealizado.

Felizmente, a esmagadora maioria das portuguesas e dos portugueses sabe que somos comunidade junta e que o recurso à ciganofobia em tempos de menor atenção mediática é coisa de racista aflito. Mas o racismo é sempre assunto sério e é sempre assunto político. Todas e todos nós temos lugar aí mesmo, na cidadania livre.

Ricardo Quaresma deu um pontapé no racismo de Ventura. Ventura, nervoso, pediu para calarem o jogador, dizendo que não lhe cabe falar de política.

Ricardo Quaresma, na verdade, erguendo-se como pessoa cigana, foi a pessoa livre e responsável que recusou o nosso apagamento e que falando no lugar certo engrandeceu a política.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

EUA: Para nacionalistas brancos, Covid-19 veio na hora exata

Relatos de violência e assédio contra asiáticos vêm de todos os lados: sites de extrema-direita e redes sociais estão repletas de mensagens e teorias conspiratórias e racistas, especialmente contra chineses.

 

 

por Scot Nakagawa – The Nation (EUA) | Tradução de Fernando Damasceno

A pandemia de Covid-19 colocou em evidência as debilidades do neoliberalismo, tornando-o repentinamente uma caricatura grotesca. Quem cantava de galo, tomou um grande baque – alto o bastante para evidenciar não somente a desigualdade social nos Estados Unidos, mas também a racial. Enquanto isso, os “haters”, personificados nos Nacionalistas brancos, estão bem atentos ao que se passa. E eles não estão sozinhos. A ala apocalíptica da direita religiosa também aproveita para, a seu modo, decretar o fim dos tempos.

Relatos de violência e assédio contra asiáticos vêm de todos os lados: sites de extrema-direita e redes sociais estão repletas de mensagens e teorias conspiratórias e racistas, especialmente contra chineses. Ressurge o mito do “perigo amarelo” – e com ele o poder do Orientalismo para fazer dos asiáticos alvos fáceis por seus gostos, interesses e cultura. A insistência do presidente Trump em chamar o Covid-19 de “chinês”, embora seja um aceno para sua base eleitoral, acaba se tornando um importante fator aqui, legitimando teorias racistas e conspiratórias da extrema-direita. Essa legitimidade é amplificada quando o governo federal pouco faz diante do aumento de crimes de ódio contra essas comunidades.

Essa é uma aposta alta. Esse nacionalismo branco não é apenas um movimento marginal, guiado por figuras exóticas e foras-da-lei. Eles são bem organizados politicamente e jogaram um papel importante para a eleição do atual presidente norte-americano.

Como resultado, a extrema-direita está mais bem posicionada para exercer influência do que a extrema-esquerda. Somados, os teocráticos cristãos e os nacionalistas brancos são suportados pelas oligarquias conservadoras; eles têm faculdades, escolas de Direito, mídia e, sobretudo, um exército paramilitar muito bem armado. E, desde a vitória de Trump, passaram a fazer parte da coalizão Republicana, influenciando até mesmo parte dos funcionários da Casa Branca.

Para esses grupos, a atual pandemia chegou em um bom momento, pois quando se trata de ocupar espaços, nacionalistas brancos são especialistas. No vácuo do Atentado de Oklahoma, há 25 anos, eles souberam como agir nas sombras. Na ocasião, fizeram excelente uso de tecnologia para criar sofisticados sites que recrutaram, radicalizaram e orientaram politicamente. Quando o sistema político e econômico pareceu frágil, eles souberam usar esses fatores para galvanizar movimentos radicais, chegando até mesmo a incitar revoluções e uma guerra civil.

O assédio e a violência que temos visto contra asiáticos pode ser somente um pequeno terremoto anterior ao tsunami. Quando estamos todos em quarentena, eles estão em plena atividade, arquitetando danos reais à sociedade. Nacionalistas brancos, identificando os chineses citados por Trump como um sinônimo de “globalistas” (uma espécie de atualização para “judeus”), poderiam tranquilamente surgir prontos para ação.

Eu temo que esta pandemia possa se tornar o Incêndio do Reichstag do nosso tempo (nota do tradutor: referência ao acontecimento de 1933 que é tido como crucial para o estabelecimento do nazismo na Alemanha). Pode ser um tipo de evento aterrorizante que sirva como bode expiatório para o domínio de autocratas. Temos visto vários autoritários em ação pelo mundo usando a pandemia para ampliar seus poderes. Aqui nos EUA, Trump falou em nacionalizar indústrias e espera poder usar as medidas contra a Covid-19 para se apresentar como um tipo de “ditador benigno”. Se a direita nacionalista branca surgir ao passo em que a pandemia se esvair, gerando ondas de violência, o autoritarismo se verá livre para crescer.

Ativistas identitários de esquerda nos EUA têm uma certa dose de cinismo em relação à aplicação da lei e a governar. Mas a luta contra o movimento nacionalista branco deveria ser vista como uma luta PELO Estado, e não CONTRA o Estado. Deveríamos fazer da luta contra esses grupos uma bandeira pela responsabilidade e controle policial – não uma espécie de vale-tudo. Se falharmos nisso, temo que o autoritarismo se tornará cada vez maior.


por Scot Nakagawa – The Nation (EUA) | Texto em português do Brasil | Tradução e edição de Fernando Damasceno

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eua-para-nacionalistas-brancos-covid-19-veio-na-hora-exata/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=eua-para-nacionalistas-brancos-covid-19-veio-na-hora-exata

Europa lembra vítimas de atentados racistas

 
 
Apesar de eventos para lembrar o Dia Europeu em Homenagem às Vítimas do Terrorismo em todo o continente, muitos dos atingidos e seus familiares se sentem deixados sozinhos em sua dor.
 
Por toda a Europa, diversos eventos marcam nesta quarta-feira (11/03) o Dia Europeu de Homenagem às Vítimas de Terrorismo. Na França, onde nos últimos cinco anos mais de 250 morreram em ataques terroristas, o presidente Emmanuel Macron esteve à frente das celebrações que reuniram 900 vítimas e seus familiares em Paris.
 
Em Zwickau, no estado da Saxónia, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, reuniu-se já na terça-feira com prefeitos de todo o país para falar sobre ódio e violência.
 
Muitas vítimas de ataques terroristas lutam por toda a vida com as consequências das atrocidades sofridas. Elas costumam se sentir decepcionadas com a postura da sociedade, um sentimento que mesmo um dia memorial pouco poderá mudar.
 
Como no caso de Đ Anh Lân, morto por três coqueteis molotov na noite de 22 de agosto de 1980. Ele tinha 18 anos quando fugiu do Vietname para a Alemanha, onde vivia num centro de refugiados em Hamburgo. Terroristas de extrema direita jogaram os dispositivos incendiários pela janela. Đ Anh Lân morreu de queimaduras dias depois, assim como seu vizinho, Nguyn Ngc Châu. "Fora estrangeiros!", escreveram os assassinos na fachada do abrigo de migrantes.
 
Nas estatísticas, esse dia marcou os primeiros assassinatos de cunho racista na República Federal da Alemanha. Passados 40 anos, a mãe, Đ Mui, luta até hoje com sua dor e para que seja construído um memorial em Hamburgo, oficial e aberto ao público, um local que dê visibilidade à dor. "Ninguém se importa", disse Đ Mui em entrevista ao jornal Die Zeit.
 
 
Assassinatos racistas
 
A Alemanha tem dificuldade de lidar com a cultura moderna de lembrança das vítimas do terrorismo. É claro que há uma memória viva, como agora após os assassinatos na cidade de Hanau, no estado de Hessen. Em 19 de fevereiro de 2020, um homem de 43 anos matou nove pessoas a tiro. As vítimas ou suas famílias eram imigrantes, o motivo: racismo. A cerimónia fúnebre contou com a presença do presidente Frank-Walter Steinmeier e da chanceler federal Angela Merkel.
 
Foi uma celebração digna. Mas as famílias das vítimas temem, em breve, serem novamente deixadas sozinhas com sua dor – e, acima de tudo, com seus medos. "Agora estamos recebendo cada vez mais relatos de alguns parentes que estão com medo de levar seus filhos à escola", relata Robert Erkan, do Centro de Assistência a Vítimas em Hanau.
 
Para os familiares das vítimas, o terror de direita não é um caso isolado: é uma realidade amarga, porque, apesar de todos os alertas e declarações da política, nunca deixou de existir.
 
Memoriais vandalizados
 
Obviamente também existem inúmeros locais importantes para lembrar as vítimas do terrorismo na Alemanha, especialmente na capital Berlim: o Memorial do Holocausto ou o centro de documentação Topografia do Terror estão entre os pontos mais visitados do país, com milhões de visitantes. Mas eles lembram as vítimas do nacional-socialismo, ou seja, de uma época anterior à fundação da República Federal da Alemanha.
 
Para novos memoriais, a situação não é fácil. Algumas vezes, sua construção é rejeitada, como no caso de Đ Anh Lân, outras, eles são vandalizados. Em muitas cidades, há memoriais em homenagem às vítimas da série de assassinatos de cunho racista praticados pelo grupo autodenominado Clandestinidade Nacional Socialista (NSU). Eles foram danificados, roubados ou escritos e com suásticas. Na cidade de Kassel, os pais do Halit Yozgat, morto pela NSU, desejam há anos que a rua em que ele nasceu ganhe o nome Halitstrasse, o que a prefeitura da cidade rejeita.
 
Para os parentes, é difícil de aceitar. Eles não estão exigindo dinheiro do Estado, nenhuma indemnização, mas resgate crítico e locais memoriais que devolvam ao falecido um pouco de dignidade. Muitas vezes, trata-se de uma dura luta: na cidade de Zwickau, na região da antiga Alemanha Oriental, um pequeno carvalho lembrava as vítimas. A árvore foi serrada. Como em outros casos, os autores provavelmente eram extremistas de direita.
 
O presidente Steinmeier foi a Zwickau conversar com os prefeitos do país na véspera do Dia Europeu de Homenagem às Vítimas de Terrorismo. Porque cada vez mais políticos locais estão sendo vítimas de ataques e insultos, o que foi confirmado por metade dos prefeitos, que afirmaram ter sido abordados várias vezes.
 
O presidente alemão lhes falou de coragem. No entanto dirigiu-se principalmente ao centro mais amplo da sociedade: "Ninguém deve mais dizer: isso não me interessa. E ninguém pode ficar calado. O chamado centro silencioso da sociedade ficou quieto por muito tempo, mas também sabemos: ela existe, sim existe essa maioria em nosso país que quer viver pacificamente e condena explicitamente a violência. Mas é justo essa maioria que precisa falar alto agora."
 
O recado do presidente alemão para essa parcela maior da sociedade é: "Não nos calemos. Devemos nos unir contra o ódio."
 
Hans Pfeifer (ca) | Deutsche Welle

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/europa-lembra-vitimas-de-atentados.html

COMBAT – Um projeto de estudo sistemático das políticas públicas de combate ao racismo

© Museu do Aljube Resistência e Liberdade

Seminário no Museu do Aljube

Ponto de chegada (e ponto de partida) de um estudo que se debruçou sobre áreas de observação pública que os números e os processos de estudo sistemático comprovaram constituir formas de opressão racista: na habitação, no emprego, nas políticas de segurança… não há forma de os tratar todos, porque o racismo é fruto de uma atitude e de uma cultura, mas também fruto de políticas públicas insuficientes e preconceituosas e, portanto, institucional.

Quando este grupo de investigadoras do CES mergulhou nos dados existentes, nos textos jurídicos ou nas normas de segurança, deu-se conta de termos e expressões que denunciam, de forma subtil, as práticas comuns e a linguagem grosseira que todos ouvimos, todos os dias. Por exemplo, medidas de segurança sustentadas sobre o preconceito de «territórios e populações suspeitas», ou sobre a banalização da injúria como qualquer coisa de tão natural que não merece sequer ser considerada como matéria de crime.

Do público alguém lembrava que estaria ainda muito longe a situação de se considerar o racismo como um crime público. Do CES chegou este estudo corajoso de denúncia e de exigência de reflexão coletiva.

Ver original em 'Museu do Aljube' na seguinte ligação:

https://www.museudoaljube.pt/2020/02/28/combat-um-projeto-de-estudo-sistematico-das-politicas-publicas-de-combate-ao-racismo/

FRATERNIZAR – O que nos revela o ‘Caso Marega’ -RACISMO OU A NEGAÇÃO DO DESPORTO COMO ARTE?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 
 

 

Aconteceu no passado fim de semana, em Guimarães, no Estádio D. Afonso Henriques. Num jogo da Primeira Liga entre o VSC de Guimarães, de Júlio Mendes, treinado por Ivo Vieira, e o FCP, de Pinto da Costa, mais que vitalício no cargo, treinado por Sérgio Conceição. Depois de tantos escândalos já divulgados e muitos outros, ainda por divulgar pelo Futebol Leaks, inevitáveis todos neste tipo de Futebol dos milhões, qual é, a meu ver, a pior revelação que o ‘Caso Marega’ nos faz – um caso de Racismo, ou a negação pura e simples do Desporto, como actividade saudável ao ar livre e com todos os ingredientes para desfrutarmos uns com os outros, sem necessidade de recorrermos a qualquer tipo de policiamento nos respectivos locais?

Podem acusar-me de sonhador e utópico. Mas, então, deixemos de falar de Desporto, sempre que nos referimos ao futebol de milhões, implantado hoje tanto no Ocidente como no Oriente. Fazê-lo, é agredir o desporto como tal e os seus praticantes. O ‘caso Marega’ é uma acha mais, na fogueira que alimenta jornais desportivos – só em Portugal, pequeno país à beira-mar plantado, há três diários, sete dias por semana!!! E há as tvs privadas e as das SADs, entenda-se, Sociedades Anónimas Desportivas em que se transformaram os clubes. E há comentadores televisivos a granel que enchem horas, noites e dias de cada semana, durante todo o ano, a esmiuçar tudo ao pormenor e sempre com grandes audiências. E há jogadores e treinadores que se compram e se vendem por somas astronómicas e obscenas, onde o Senhor Dinheiro dita as regras e corrompe tudo e todos, sem quaisquer escrúpulos e possibilidades de controlo. Graças à cobertura de Federações nacionais e internacionais, onde a UEFA que a tudo preside, põe e dispõe na mais completa amoralidade. Porque a única coisa que conta é o Lucro, sem que os Estados e respectivos Governos tenham mão nesta máquina devoradora e trituradora do Humano, que converte nascidos de mulher em famosas marcas, como é o caso da marca CR7, nascido de uma mulher da Região Autónoma da Madeira.

Não há como conter esta trituração do Humano. Seja a dos craques que se compram e se vendem, numa sofisticada forma de prostituição, seja a dos frequentadores de todos aqueles-estados catedrais, como, na idade média, frequentavam as catedrais dos bispos e os templos paroquiais das aldeias. O resultado é o mesmo, num e noutro caso. As mudanças são pouco mais do que cosméticas, mais maléficas estas hoje, do que aquelas do passado. O ‘racismo’ então também era de outro tipo. Não tinha que ver com a cor da pele, embora, ‘descobridores’ e ‘conquistadores’ da era de Quinhentos, chegassem a perguntar se aqueles aborígenes residentes nus ou seminus, com os quais se deparavam, ao saírem das caravelas, e facilmente subjugavam mediante a Cruz e a Espada, ‘tinham alma’. Por então, ainda se não havia inventado a palavra ‘racismo’, mas já se praticava, sob outras designações, como a escravatura, à beira das quais o ‘caso Marega’ nem sequer o chega a ser. De modo que todo o alarido que em seu redor se criou e se vai alimentar por muitos dias serve sobretudo para esconder um dos piores crimes contra a Humanidade e contra o Desporto, como prática saudável ao ar livre , que é a existência cientificamente organizada do Futebol dos milhões.

Alerta, pois! Porque o Senhor Dinheiro tem o perverso condão de envelhecer-matar não só o corpo dos nascidos de mulher, mas também e sobretudo a sua ‘alma’, o Eu-sou único e irrepetível que cada uma cada, cada um de nós é. E que o ‘caso Marega’ ajuda a esconder, quando mais parece revelar. Ou acabamos já com o Futebol dos milhões e suas SADs e regressamos aos clubes de Futebol com equipas formadas exclusivamente por profissionais de cada um dos países, entre os quais se busca o desporto como Arte e fonte de amizade e da entre-ajuda, ou acabamos todos comidos por ele e seus abutres.

 

www.jornalfraternizar.pt

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/23/fraternizar-o-que-nos-revela-o-caso-marega-racismo-ou-a-negacao-do-desporto-como-arte-por-mario-de-oliveira/

Portugal | Um racista militante pode ser inteligente?

 
 
Pedro Tadeu | TSF | opinião
 
Um racista militante é, simplesmente, um estúpido ignorante.
 
Infelizmente há muitas pessoas racistas, cultas, e há outras pessoas racistas menos cultivadas.
 
Os racistas cultos acham o racismo razoável, dentro de alguns limites que defendem ser racionais: não querem fazer mal a ninguém mas preferem não conviver com pessoas de outras raças, querem mandá-las para a "terra delas", mesmo quando essas pessoas nasceram na mesma pátria que eles.
 
Os racistas menos cultos nem percebem como são racistas, dizem que até têm amigos de outras raças, mas acham que essas pessoas são diferentes delas e apontam-lhes alguns defeitos através de generalizações patetas: ou porque são mais preguiçosas, ou porque são lentas, ou porque falam alto nos transportes públicos, ou porque andam a roubar, ou porque não trabalham ou porque lhes ficam com os empregos ou por outra coisa qualquer que os incomoda.
 
Mas, seja por vergonha, seja por receio da pressão do resto da sociedade, seja por terem medo de serem condenados por um crime, normalmente os racistas portugueses, sejam os mais cultos, sejam os menos cultivados, evitam, com vergonha, praticar o seu racismo.
 
Um racista militante joga em outro campeonato.
 
Um racista militante é estúpido e não quer saber das consequências do seu racismo. Por isso, grita-o com toda a força, com todo o ar que esteja guardado nos seus pulmões.
 
Um racista militante não pensa, não ouve, não lê, não elabora sobre o seu racismo - apenas quer vomitar a sua ira a outras raças.
 
Um racista militante é um borjeço, um animal que não controla o impulso de querer bater, mutilar e mesmo matar as pessoas de outras raças.
 
Um racista militante é como um boi de uma manada que investe furiosa, descontrolada, contra todos os obstáculos que tentam impedir a sua correria pelo ódio.
 
No futebol, o racista militante encontrou a manada que precisa para fazer essa correria e exprimir, brutalmente, o quanto detesta os outros.
 
O futebol, berço e escola no nosso país da corrupção de colarinho branco; treino de bebedeiras, pancadaria, facadas e até de homicídios em grupo; universidade de insultos e impropérios; escola oficial da má criação, grande educador generalizado para o sectarismo e clubismo - é também centro de formação de fascistoides e de racistas.
 
É no futebol que os racistas cultos e os racistas menos cultos acabam por perder a vergonha de exprimir publicamente o seu racismo, contagiados pelo ambiente, pela linguagem, pela permissão de tudo o que a sociedade, lá fora, condena. Juntam-se assim à manada do ódio e começam, nas suas vidas pessoais e profissionais, a ser agentes de uma campanha de normalização das ideias do racismo.
 
Mesmo assim ainda têm má consciência e culpam as outras raças pela sua violência e alegam sentirem-se provocados pelo chamado "politicamente correcto", por "agora não se poder dizer nada".
 
É assim que vemos o líder do Chega, a propósito do caso Marega, o jogador do Futebol Clube do Porto que saiu do campo em protesto contra os insultos racistas do público, a comentar dessa forma as reações de apoio ao jogador e a dizer que agora "tudo é racismo".
 
André Ventura é um bom exemplo de como alguém encontrou na estupidez uma forma de se valorizar na sociedade: ele tentou notabilizar-se na sociedade do "politicamente correto", com crónicas e comentários inteligentes, através do que sabia sobre lei e direito, mas quando passou a opinar sobre futebol rapidamente encontrou o êxito pessoal e uma tropa de apoio na manada dos ridiculamente estúpidos, onde se encontram os racistas militantes. Ele acha que os pode manipular. É uma pena...
 
O futebol tem de deixar de ser uma escola dos piores hábitos da sociedade e tem de ser limpo. Esta deveria ser uma tarefa prioritária dos dirigentes dos clubes e dos governos.
 
Isto não só salvará o futebol de si próprio como, principalmente, tornará novamente eficaz aquilo que durante muitos anos conteve a expressão pública do racismo latente dentro de muitos de nós e que a educação não conseguiu eliminar: a vergonha de ser racista.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-um-racista-militante-pode-ser.html

Portugal | Não ao racismo: mais que palavras, são precisos actos

 
 
Os insultos racistas ocorridos este domingo têm merecido condenação pública transversal. Mas para derrotar este flagelo, que não se cinge ao desporto, é preciso ir às causas e agir de forma consequente.
 
AbrilAbril | editorial
 
O País acordou na segunda-feira a condenar, de forma generalizada, o sucedido na disputa de futebol realizada ontem entre o Vitória Sport Clube e o Futebol Clube do Porto, onde muitos adeptos vimaranenses proferiram, de forma sistemática, insultos racistas contra Marega, que acabou por abandonar o campo.
 
A questão ficou naturalmente mediatizada por ter sucedido no palco onde ocorreu – um jogo da primeira liga de futebol – e já está a ser objecto de comentários e análises das mais diversas esferas da sociedade, em particular no mundo do desporto.
 
Condenação é a palavra mais ouvida. E procuram-se culpados, em concreto. Mas, se do ponto de vista dos princípios, (quase) todos apontam estar do mesmo lado, é na acção concreta e posicionamento político que as responsabilidades também devem ser assacadas.
 
 
O racismo não é um problema exclusivo do terreno desportivo, e muito menos ocorre apenas no futebol. Recentemente têm sido trazidos a público diversos casos que demonstram haver ainda muito caminho a fazer no combate a quaisquer expressões de racismo na nossa sociedade.
 
A discriminação racial é, a par da xenofobia, uma das mais velhas armas daqueles que se querem manter no poder através da exploração. Assiste-se à manipulação e promoção, por parte de diversas forças, de sentimentos e emoções que alimentam discriminações, medos, ódio e divisões sociais.
 
A questão central da igualdade e da unidade em torno daquilo que nos une torna-se premente na sociedade actual, quando são aqueles que alimentam o sistema que beneficia das divisões e ódios entre aqueles que mais ganhariam se estivessem lado a lado na luta por melhores condições de vida.
 
A luta pela igualdade e contra todo o tipo de discrimações é, pois, actual. E merece firme combate contra as políticas de portas fechadas praticadas pela União Europeia, os ataques a direitos sociais e laborais que promovem as desigualdades, os entraves administrativos e materiais aos serviços e forças de segurança que deviam estar na primeira linha deste combate, ou a tolerância zero para com os que nutrem elementos de divisão com carácter racista ou xenófobo.
 
Será pois na prática que se diferenciarão aqueles que apenas se insurgem por palavras daqueles que estão do lado da efectiva mudança, por via de acções práticas, exigindo respostas e mais meios para este combate.
 
Imagem: António Petinga / Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-nao-ao-racismo-mais-que.html

Este país não pode ser racista

Augusto Santos Silva tem sido aqui frequentemente criticado. Esta semana, quero elogiá-lo pela posição que assumiu, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, a propósito do caso Marega. Santos Silva criticou o atentado à dignidade humana, como não podia deixar de ser, mas sublinhou, de forma complementar, como “as manifestações de racismo prejudicam a imagem internacional de Portugal”.

Lembro que o anti-racismo foi inscrito no sistema internacional graças sobretudo à libertação nacional dos povos colonizados, à emergência de países cuja maioria da população foi durante séculos vítima do racismo, filho ideológico do imperialismo colonial. Houve e há um nacionalismo com efeitos anti-racistas. Qualquer política externa de um antigo país colonial tem de ter um dos maiores progressos históricos de sempre em consideração. Qualquer boa política externa começa, aliás, por uma decente política interna. Todas as formas de racismo são contrárias aos interesses nacionais, qualquer forma de racismo é anti-patriótica, até por isto:

“Portugal é um país justamente reconhecido e justamente respeitado. Não por não ter racismo, porque, infelizmente, esse mal existe por muito lado, mas por o racismo não ter uma expressão social significativa, não ter expressão política (...) nem ocupar o espaço público.”

Mais do que ser verdade, e eu creio de facto que dela não anda muito afastada, esta hipótese de Santos Silva exprime uma certa ideia de comunidade que quer que isto seja verdade: Portugal não é um país racista, não pode e não deve ser.

No fundo, creio que são contraproducentes, para um popular combate anti-racista, dois hábitos políticos prevalecentes entre certos sectores e que consistem em dizer que os portugueses são racistas ou maioritariamente racistas, e que o nacionalismo, assim no singular, conduz ao racismo. O racismo combate-se onde existe em concreto e é preciso fazer também esse combate, mas não só, claro, em nome dos valores e interesses de todos os que fazem este país. Ou seja, em nome de uma primeira pessoa do plural inclusiva.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Por que de racismo se fala

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Crónica lida na ‘Rádio Baia’
 
Por que de racismo se fala
 
A ciência revelou-nos o óbvio: Os Humanos não são divisíveis por raças. Há no entanto uns menos humanos que outros: os racistas.
Agosto. Lisboa é uma cidade sonolenta, aconchegada na modorra que o calor transporta. As ruas estreitas são canais de frescura, veias onde circulam os que lhe mantêm a tonicidade indispensável ao ritmo estival. Hora de almoço. Restaurantes e tascos de portas amordaçadas. No interior as cadeiras em exercícios de equilíbrio fazem o pino sobre as mesas, cenários de abandono cumprindo o calendário.
Aproveito as sombras somíticas que o sol do meio-dia nos permite. A cidade repousa, respira tranquilidade. O movimento é escasso. Sem pressas e muita curiosidade reparo na toponímia: “Conde Barão”. Sorrio. Conde e Barão... Que exagero! “Poço dos Negros”... Para quando a “Fonte dos Negros”? Pensei, matreiro, satisfeito pela ideia prenhe de malícia.
O olfato guia-me, não sei bem para onde; misturado com o podre das sarjetas chega um odor a peixe grelhado, sigo o filão, o cheiro encorpa, a curiosidade e a imaginação fundem-se em apetite, a mensagem vai-se tornando clara, começo a aperceber-me do tipo de pescado que me espera, mais uma ruela, ainda outra... E um recanto de cenário tipicamente alfacinha surge sem surpresa. No braseiro, à entrada da tasca, carapaus e sardinhas mostram-se fumegantes oferecendo-se a quem passa.
Cortadas a meio pelo sol que faz fronteira com a sombra que o afasta, quatro pequenas mesas alinhadas com o assador confundem-se com a parede. O lugar é tranquilo, a frescura do peixe faz alarde. Aproveito a meia sombra de uma das mesas. Sento-me.
A higiénica e proletária toalha e guardanapo de papel não demoram, o simpático galheteiro não se faz esperar. E neste vai e vem do empregado, pronuncio: Carapaus.
Sóbrio e preciso, o breve monólogo ajustava-se à simplicidade do estabelecimento, além do mais não me apetecia falar, predisposto que estava a usufruir da oportunidade que a cidade me oferecia neste singular dia de Agosto. Numa das restantes mesas três operários comiam mansamente. Junto deles uma mulher falava, falava, falava. Mansamente os homens continuavam a comer esboçando um sorriso de vez em quando.
Não longe de mim, os carapaus rechinavam na grelha deixando cair gotas de gordura como que dizendo: vais gostar!
Entretanto a mulher continuava a pregar. Entretido que estava com o meu peixe e de apetite em crescendo, desejoso de um repasto calmo, só dava pelo som agudo da sua voz que me começava a enfadar.
Falava dos pretos. Olhei-a, tinha os olhos em mim, e quando se apercebeu que nela reparei subiu o tom de voz, ganindo: pretos. E sorrio-me. Os operários enlevados chupavam as cabeças dos peixes que sublinhavam com um gole de tinto. Gente que sabe misturar sabores.
O sol teimava em não me libertar a mesa, os carapaus faziam-me negaças e não se despachavam, e a mulher, porque os três homens não lhe davam troco, virava para mim o discurso racista: os pretos, os pretos, os pretos. Os meus olhos azuis num rosto branco, agora certamente lívido, tomaram-na por alvo.
“Também sou racista!”, Disse. A mulher devolveu-me de imediato um jubiloso sorriso de reconhecimento. E não lhe dando tempo de maior euforia, continuei firme, seco: “Não posso com os brancos!”.
Toda a expressão de alegria transfigurou-se numa metamorfose súbita, dando lugar a um semblante amorfo onde o espanto e a perplexidade se confundiam. Fixava-me e não entendia, havia algo que a ultrapassava, não estava ouvindo bem ou não enxergava de feição.
E para que não lhe restassem dúvidas, repeti de modo compassado e agressivo: “Não posso com os brancos, ouviu bem!? E sabe porquê? Porque são os únicos que me têm lixado a vida.”
A catarse resultou, acalmei. Os carapaus impecavelmente grelhados apresentaram-se-me alinhados, enfeitados com um raminho de salsa. Era carapau do branco, branquinho como eu. Não gosto do carapau negrão, prefiro o chicharro. 
Já bem-humorado ia degustando deliciado esta refeição tão nossa, e repetia para comigo: Só os brancos me têm lixado, é certo, porque todos os outros não têm tido essa oportunidade.
Quando dei uma espreitadela para o lado, os homens já bebiam o café e a mulher eclipsara-se.
O vírus do racismo, mantém-se latente em todas as mentes, intervém se nos apanha desprevenidos, e prolifera rapidamente se lho permitimos, atingindo por vezes graus preocupantes.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

O BOM POVO PORTUGUÊS

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Das muitas entrevistas a cidadãos de Guimarães que se cruzaram com os jornalistas que os questionaram sobre os acontecimentos ocorridos no estádio da sua cidade a maioria não considerou como sendo racistas os adeptos do seu clube que sugeriram que um ser humano que já tinha sido um deles fosse colocado ao nível de gorilas. Pior ainda, consideraram que a reação podia ser considerada como legitimada só porque o atleta se lembrou de festejar o golo que marcou junto dos adeptos sofredores, a quem deveriam ser dado mimos porque a sua equipa viu uma bola entrar na sua baliza.
 
 
Entre todos os cidadãos comuns de Guimarães que não hesitaram em dizer o que sentiam perante as televisões poucos se manifestaram contra o racismo e apenas uma senhora associou o sucedido com a infiltração da extrema-direita nas claques de futebol. Toda a gente sabe que a extrema-direita encontrou nas claques um pasto ideal para crescer, mas a generalidade dos presidentes dos clubes fazem de conta que não percebem. Como durante muito tempo não perceberam os comandos da PSP ou mesmo os dirigentes sindicais, que parecem confortáveis vendo cada vez mais sindicatos a trilharem pelo mesmo caminho.
 
E como é que personalidades como Sousa Tavares tratam políticos oportunistas que para subirem na vida são o que for necessário e surfando na onda da extrema-direita optaram por ser racistas? Dando-lhes credibilidade cedendo-lhes palco em programa de prime time como se tivessem na sua frente uma grande personalidade mundial. Do alto da sua vaidade sentiram-se grandes democratas do Porto “desfazendo” um benfiquista racista, desta forma minimizaram a questão do racismo a mais um incidente Benfica-Porto ou norte-sul.
 
É óbvio que o Chega do oportunista vai crescer nas eleições mas isso não sucede porque de um dia para o outro passámos a ser racistas, a deixar de gostar de ciganos ou mesmo a ser imbecis. No bom povo português há de tudo e à medida que a imbecilidade, a xenofobia, o racismo e outras coisas vão perdendo a vergonha o Chega vai crescendo. Afinal, temos tanta extrema-direita como o resto da Europa.
 
Vivemos num país onde dizemos que não somos racismo mas empaturramos a caixa do WhatsApp dos amigos com piadas racistas, defendemos a doutrina social da igreja e somos democratas exemplares mas há noite cultivamos a imagem do Salazar e dizemos que o Tarrafal não passou de um pequeno beliscão. Somos todos amigos dos africanos mas provavelmente ainda guardamos as fotos de cabeças de africanos espetadas em paus ou mesmo alguma orelha guardada numa caixinha, recordações das primeira campanha em Angola.
 
 

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

Moussa Marega, deixa-me dizer-te uma coisa

(Adriano Miranda, in Público, 17/02/2020)

 

A rua do meu bairro era bastante larga para a época. Não era asfaltada. Era de terra batida. E ao fim do dia, depois das aulas, os amigos juntavam-se em redor da bola de futebol. A rua era o nosso campo de futebol. Jogávamos com os nossos ídolos na cabeça. Não existiam camisolas dos clubes com os craques gravados por cima do número. O Eusébio, o Coluna, o Yazalde, o Damas, o Dinis, o Torres, o Simões estavam todos dentro da nossa cabeça. Guardados em sonhos na esperança de um dia sermos como eles. No meio do pó, braços e pernas dançavam ao som das melhores fintas, na proeza da melhor defesa. Estava o filho do bancário e o filho do sapateiro. O branco. O negro. O cigano. Estávamos todos unidos. A bola era o ponto da nossa união.

Como se poderia adivinhar pelo jeito que eu tinha a rematar, o sonho foi-se desvanecendo. Não aprendi a dar mais que três toques seguidos nem a fazer a finta genial. O Damas, o meu herói, fez-me sportinguista. Serei sempre. Mas os miúdos da minha rua ensinaram-me o valor das palavras amizade e solidariedade. O mais importante. Foi o que ficou das “futeboladas” ao final do dia.

Todos os domingos vou ao futebol. Ver o Filipe. Tem 15 anos. Joga desde os seis anos. É mil vezes melhor que o pai. Gosto de ver a sua combatividade. As suas fintas. Ouvir o nome dele na bancada com palavras de incentivo. Gosto. Mas do que gosto mais é quando o Filipe aleija algum adversário e fica junto dele até saber que a dor é passageira. Pede-lhe desculpa. Afaga-lhe sempre a cabeça. Ou quando aconchega algum adversário ou companheiro de equipa que chora com a derrota ou com o falhanço de um penálti. O Filipe já não joga numa qualquer estrada empoeirada. Joga em relva sintética, com chuteiras de marca. Mas o Filipe sabe o valor das palavras que o pai aprendeu: amizade e solidariedade. Ele também já as aprendeu. E isso vale mais do que qualquer golo.

Todos os fins-de-semana os campos de futebol dos clubes mais recônditos enchem-se de pais, treinadores, jogadores e dirigentes assanhados. Violência verbal, violência física. Tudo vale num estado quase hipnótico, esquecendo que na relva falsa estão crianças e jovens a praticar desporto. Tudo vale no chamado “futebol de formação”. Compra de resultados, aliciamento de árbitros, sorteios viciados, fugas fiscais, branqueamento de capitais, apadrinhamentos, ofensas verbais, ofensas corporais e ofensas racistas. Tudo vale e tudo assobia para o lado. Todos os maus exemplos do futebol sénior são implementados no “futebol de formação”. E quem pode acabar com isto de uma vez por todas? O Moussa Marega já lançou a semente.

Na sala, onde damos descanso aos músculos e enaltecemos a preguiça, o pivô deu-nos a notícia. Na televisão com alta definição, vimos, incrédulos, a arena selvagem própria dos tempos de Nero. Marega não me fez chorar pelo golo que marcou. Se fosse do Sporting, talvez chorasse. Chorei ao ritmo da sua indignação, da sua humilhação. Chorei ao vê-lo apontar a sua pele tingida com um cartão amarelo. Note-se que Marega foi o único castigado. Ofendido e castigado. Sinal de que caminhamos a passos largos para uma sociedade sem valores, Marega não teve a amizade e a solidariedade de ninguém. Nem daqueles que têm a mesma cor na camisola. Nem daqueles que têm a mesma cor de pele. A humilhação também era para eles. E o melhor golo da partida era vê-los abraçados a Marega a abandonarem a arena de Nero. E nas bancadas, os homens e as mulheres de bem, aplaudirem de pé os bravos.

Sabemos que o futebol é uma indústria de ódios e fanatismos. Irracional. Terreno lamacento para a extrema-direita se alimentar de recrutamentos e multidões. No jogo entre a Lazio e o Tottenham, numa tarja enorme, podia ler-se: “Auschwitz a vossa pátria, o forno a vossa casa.” São tantos os exemplos. De gente que não é gente. Eles começam a andar por aí. Até nós deixarmos.

Moussa Marega, deixa-me dizer-te uma coisa. Desde domingo que fazes parte dos meus ídolos. Os ídolos que marcavam golos do outro mundo, os que ensopavam a camisola de suor, e agora tu, um ser humano excepcional. O Filipe, o aspirante a jogador, viu-te sair com a indignação no rosto. Aprendeu muito contigo. Aprendeu que somos todos filhos do mesmo chão. Obrigado, Marega. A promessa fica feita. O Filipe, se marcar algum golo, vai tirar a camisola de jogo e vai mostrar outra com o teu nome – MAREGA. Levará um cartão amarelo, até podia levar um vermelho. Que se lixe. Existem valores que falam mais alto. E a luta pela dignidade não conhece castigos.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | O RACISMO ESTÁ PROFUNDAMENTE ENRAIZADO EM NÓS

António Jorge* | opinião
Não basta criticar e criminalizar quando o racismo se assume como besta e ataca. É preciso ir profundamente ao fundo do problema, que subsiste, enquanto não se fizer a pedagogia da humanidade pela verdade sincera de combate ao racismo e ao pré-conceito racial. As diferenças étnicas, tem uma explicação cientifica, são consequência em primeiro lugar da geografia e da relação de cada Continente ou lugar em que cada um de nós nasceu ou é originário, e das razões das adaptações genéticas humanas ao meio ambiente de onde é natural.
Se eu for originário do norte do Hemisfério, tenho um nariz mais estreito para melhor resistir ao frio... se for originário do hemisfério sul, tenho um nariz mais aberto, para respirar melhor na relação com o calor dos trópicos.
O ser-se de etnia, branca, morena, castanha ou negra... vem das mesmas razões. O resto é uma história secular da submissão de uns pelos outros... os do sul pelos do norte... e que também se relaciona com a geografia... os povos do Hemisfério norte, tiveram de ser mais operativos para se adaptarem e transformarem o meio ambiente em que nasceram, adaptando-o para nele viverem e conseguirem resistir ao frio dos invernos.
É isso que explica até... porque desde há alguns séculos se processou a mudança dos principais centros do saber da humanidade que surgiram na bacia do mediterrâneo, a sul e a norte, tivessem sido substituídas pelas sociedades europeias que antes eram conhecidas e habitadas pelos povos designados, como bárbaros no centro e norte da Europa. Como é sabido... a história que nos é contada é feita em função dos vencedores, e o racismo também é consequência disso.
Fomos habituados pela escravatura e o colonialismo a desvalorizar e discriminar os africanos, confundindo a submissão pela força, com a ausência de igualdade do género humano. O poder político tem algumas culpas pela manutenção da força do racismo entre nós - Portugal e os portugueses tem uma experiência da África e dos africanos de mais de meio milhar de anos... apesar disso, o problema continua por resolver, porque onde o racismo desde logo deve ser combatido, é no berço... na escola, pela educação e o seu enquadramento histórico e compreensão nos manuais escolares. O racismo não se combate só pela criminalização... dos que ousam assumir-se como racistas, é preciso persistência e pedagogia e sobretudo - CORTAR O MAL PELA RAÍZ! *António Jorge - editor e livreiro em Angola

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Portugal | Marega reage novamente a insultos: "Senti-me realmente uma m****"

 
 
Depois da publicação, ainda a quente após o jogo, o avançado maliano voltou a falar sobre os insultos racistas em Guimarães.
 
Moussa Marega voltou, esta segunda-feira, a falar sobre os insultos racistas no Estádio D. Afonso Henriques, durante o Vitória SC - FC Porto. Em entrevista a uma rádio francesa, o atacante dos dragões desabafou e disse que ficou realmente "desiludido" com todos os comentários de que foi alvo.
 
"Ontem [domingo], senti-me realmente uma m****. Foi, verdadeiramente, uma grande humilhação, tocou-me verdadeiramente", disse Marega, em declarações ao programa ‘Team Duga’, da RMC Sport.
 
"Se pudesse falar com o presidente da República? Seria um honra e podia dizer-lhe o que senti ao ser insultado daquela forma. Não gostei mesmo nada de sentir aquele ódio, fiquei muito desiludido",  acrescentou ainda.
 
Recorde-se que Marega já tinha reagido aos insultos de que foi alvo em Guimarães, num texto publicado alguns minutos após o apito final do encontro.
 
Notícias ao Minuto | Imagem: © Getty Images
 
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CGTP-IN condena racismo no futebol

mmaregaA CGTP-IN considera intoleráveis e inaceitáveis os actos de racismo cometidos ontem no Estádio D. Afonso Henriques em Guimarães contra o jogador Moussa Marega.

Para a CGTP-IN, qualquer forma de racismo, xenofobia e discriminação, seja no desporto, no trabalho, na escola ou em qualquer outro local ou circunstância, é sempre inadmissível e incompatível com os princípios e valores da dignidade humana e da igualdade, que defendemos e que estão também inscritos e consagrados na nossa Constituição.

A verdade é que os episódios de racismo se têm repetido nos estádios nacionais e nem todos têm sido punidos como é devido.

Em nosso entender, quer as instâncias desportivas, quer o próprio Governo têm-se vindo a demitir das suas responsabilidades nesta matéria e não têm agido em conformidade com a gravidade destes factos que estão a ocorrer cada vez com maior frequência.

Consideramos, por isso, que nem as instâncias desportivas nem sobretudo o Governo podem continuar a alhear-se dos comportamentos racistas e ou xenófobos ocorridos nos estádios de futebol, os quais devem ser severamente punidos e os seus perpetradores definitivamente banidos destes eventos.

DIF/CGTP-IN

Lisboa, 17.02.2020

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|RACISTAS, COBARDES E IDIOTAS|

 
Quando Eusébio marcava golos ninguém era racista, ninguém lhe disse para que fosse para Moçambique, nem sequer que o enterrassem na terra dele, nem um se lembrou de contar anedotas, imitar gorilas ou dizer as barbaridades se vão ouvindo. Mais recentemente todos os racistas deste país sentiram o ego nacionalista em alta quando o Éder ou o Ederzinho despachou a França e apagou a luz da Torre Eiffel, não lhes passou pela cabeça sugerir que fosse para a Guiné.
 
Mas no anonimato do magote de uma claque ou de uma multidão eis que o pior deles veio ao de cima, agora a frustração era descarregada na pele de um jogador. Mas como a claque parecem ser os modelos de virtudes dos presidentes dos clubes o presidente do Vitória logo descobriu que a culpa não seria do racismo, seria uma resposta quase legítima às provocações do jogador. E para o André Ventura a culpa era da Joicine.
 
Não, em Portugal não há racismo, o que há são muitos cobardes que gostam de se sentir superiores porque com luz natural a sua pele fica branca, como se um qualquer idiota deixasse de o ser só porque a sua pele fica mais branca que a dos outros quando é iluminada. Não lhes basta ser racistas, são também cobardes e idiotas.
 

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

Portugal | Governo diz que racismo é intolerável e que responsáveis vão ser punidos

 
 
O secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, assegurou o empenho das autoridades para a identificação e punição dos responsáveis por estes atos.
 
O secretário de Estado da Juventude e Desporto considerou o incidente com o futebolista maliano do FC Porto Marega intolerável é inaceitável, assegurando que as autoridades estão a identificar os responsáveis, a fim de serem punidos.
 
"O que aconteceu esta noite no jogo entre Vitória Sport Clube e FC Porto é absolutamente intolerável é inaceitável. Os insultos dirigidos ao jogador Marega envergonham todos quantos pugnam por uma sociedade inclusiva. Os valores do desporto nada têm que ver com estas atitudes racistas, xenófobas e ignóbeis", começou por dizer João Paulo Rebelo, em declarações à agência Lusa.
 
O avançado pediu para ser substituído, ao minuto 71 do jogo da 21.ª jornada da I Liga, por alegados cânticos racistas dos adeptos da formação vimaranense, numa altura em que os 'dragões' venciam por 2-1, resultado com que terminaria o encontro.
 
 
João Paulo Rebelo assegurou o empenho das autoridades para a identificação e punição dos responsáveis por estes atos.
 
"A Autoridade para Prevenção e o Combate à Violência no Desporto está desde já a trabalhar em articulação com as autoridades policiais e desportivas no sentido de identificar e punir exemplarmente os responsáveis deste triste episódio que enche de vergonha todos quantos lutam por uma sociedade mais tolerante. Todos os agentes desportivos e, em particular, os seus dirigentes além do repúdio têm de atuar de forma a que isto não se repita", frisou o governante.
 
A terminar, o secretário de Estado elogiou o avançado dos 'dragões', que, depois de pedir a substituição, apontou para as bancadas do recinto vimaranense, com os polegares para baixo, numa situação que originou uma interrupção de cerca de cinco minutos.
 
"Por fim, uma palavra ao injuriado Marega, excelente profissional, a quem quero reconhecer uma atitude de grande dignidade e que ajuda a que todos quantos amam o desporto se juntem no combate à intolerância, ao racismo e violência no desporto", rematou João Paulo Rebelo.
 
TSF | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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A cobardia e a incoerência dos fascistas

Sabe-se que Benito Mussolini era um cobarde: quando mandou invadir a Etiópia, para alimentar uma campanha de propaganda capaz de iludir milhões de italianos, enviou tanques, aviões e armas químicas contra um exército cujos meios defensivos não admitiam a mais pequena comparação. E, no entanto, na impressionante manifestação de 18 de setembro de 1938 em Trieste, centenas de milhares de seus admiradores celebraram-no como grande herói nacional. (Quantos deles celebrariam menos de seis anos depois a macabra exposição do seu cadáver, quando essas ilusões se haviam convertido em terrível pesadelo?)

 

No discurso desse dia, o ditador italiano decidiu dar mais uma guinada nas suas incoerentes opiniões. Embora assumidamente racista, pois fora sob a alegação «científica» da inferioridade dos negros que, às suas custas, quis fundar o império em África, ele não se virara até então contra os judeus. Pelo contrário até lhes endereçara palavras simpáticas quando, de alguns deles, colhera elogios pela «obra« em curso. Mas, nesse dia, anunciou as leis racistas que, aprovadas dois meses depois, condenaram os judeus italianos ao mais rigoroso ostracismo, levando os que podiam a rapidamente atravessarem o oceano para juntarem-se aos familiares acoitados em território norte-americano e os outros a optarem pelo suicídio ou a desesperarem na expetativa do momento em que se se veriam enfileirados e enviados para um destino desconhecido, depois crismado com os nomes de alguns dos mais horrendos campos de morte. De um momento para o outro, e para agradar a Hitler de quem pretendia obter proveitosa boleia e colher as sobras do banquete expansionista, Mussolini acabou com a proteção da Casa de Saboia aos judeus italianos e que lhes valera, no século anterior, a saída definitiva dos guetos a que estavam cingidos.

 

Cobardia de quem se julga forte e se dispõe a espezinhar os mais fracos é o que se viu ontem em Guimarães com uma turba fascista a invetivar um futebolista só por ser negro. Uma vez mais demonstra-se a urgência de se proibirem as claques de futebol tão evidente é o caldo de cultura, que lhes potencia o arreigado racismo dos seus apaniguados. Nesse comportamento de seita convencida de tudo poder por ser menor a força de quem toma por ódio de estimação, está escarrapachada a essência do fascismo mais primário.

 

Mas desconfio que, nos próximos dias, também o candidato aducelusitano sentirá a urgência de ler o clima criado à volta deste caso e imite Mussolini no oportunismo com que mudava de opinião: sendo tão veemente a condenação pública do comportamento ultrajante dos adeptos vimaranenses, o tratante deverá engolir as palavras de apoio a eles endereçadas apressadamente e que arriscam a deixá-lo isolado no Parlamento onde este assunto não deixará de ser abordado. Ora já vimos que os fascistas adoram agredir em grupo, mas fazem tudo por escapar com o rabo entre as pernas, quando se sentem sós. E com Marcelo e António Costa a juntarem-se ao ruidoso coro de personalidades e de gente anónima, que se envergonha com a imagem do país dada pelos criminosos de Guimarães, será provável ver o seu defensor a arranjar uma desculpa esfarrapada para se ausentar da previsível condenação. Para ele a coerência com o que pensa não bastará para que a ela se agarre quando os ventos lhe não sopram de feição...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/02/a-cobardia-e-incoerencia-dos-fascistas.html

MAREGA CAMPEÃO

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Quem tem animais de criação sabe que não pode juntar galináceos ou suínos a outros animais da mesma raça porque os donos do território (galinheiro ou pocilga) os matam.

Há, dizem os mais velhos e sabidos do assunto, que untar o porco com creolina ou juntar os galináceos durante a noite, sem que deles deem conta.

Os seres humanos quando se juntam e atuam segundo os princípios tribais ou de horda não são muito diferentes.

Nos humanos a justificação para humilhar, prender, torturar, escravizar e aniquilar pode ser a cor da pele.

Milhões de africanos foram arrancados dos seus lares, embarcados e enjaulados , tendo -se chegado a discutir no seio da própria Igreja (que tinha tantos escravos como os outros esclavagistas) se tinham alma.

Esta é uma chaga do passado da Humanidade. É revoltante e chocante que, depois de séculos de escravatura, de novo salte para a luz dos dias as trevas mais negras nas relações entre os humanos, mulheres e homens providos de cérebro.

Sem o contributo de jogadores negros o futebol não era o que hoje é. Sem o Rei Pelé que seria do perfume deste desporto? Quem seria capaz de fazer passar a bola por cima de três adversários (um de cada vez) e depositá-la no fundo das redes no último arco a passar por cima da cabeça do guarda-redes? Quem seria capaz de parar a corrida do pantera negra deixando para trás brancos e negros que quisessem travá-lo? Quem como o grande Eusébio seria capaz de bater a bola àquela velocidade e naquele alvo? Quem podia ombrear com a arte de George Whea? Quem como Matateu ou Hilário, um à frente outro atrás, encheria os campos de aceleração ou travão nos momentos ofensivos e defensivo respetivamente? Quem? Como se pode imaginar o futebol sem Eto, Drogba e por que não Marega?

Os racistas que vão ao futebol não gostam de futebol, nem dos clubes que dizem apoiar; gostam da violência de grupo que lhes garante a “ousadia” e a proteção.

O futebol abarca a Humanidade inteira num abraço de divertimento. Por vezes vira um espetáculo deprimente de violência, mesquinhez e até quase sempre de cobardia de catervas de energúmenos.

Em Guimarães, a selva no que ela tem mais cruelmente bárbaro, saiu de casa e foi parar às bancadas do estádio.

Os humanos têm sentimentos quando são verdadeiros humanos portadores de humanismo.

Mas os humanos portadores de maldade e covardia juntam-se, formas hordas para se promoverem através da agressão, tentando desvalorizar aqueles que tendo outra cor de pele suplantam no seu ofício os adversários. Só o puro instinto primitivo e descontrolado pode justificar que após um jogador negro marcar um golo, adeptos do Guimarães se tenham unido em coro para o achincalhar, insultar e agredir.

É a mentalidade que se pode equiparar ao cérebro dos galináceos e dos suínos que rejeitam outros que não sejam os do grupo.

São assim os cérebros desta gente que se continua a passear pelos estádios e a comportar-se como galináceos ou grunhos.

Só nos faltava, em nome desta bestialidade, os surdos que dizem não ter ouvido o que todos ouviram. Pilatos também lavou as mãos permitindo a crucificação.

E faltava também um deputado achar normal este mundo de bestialidades, e recalcitrante voltasse a insultar e a agredir todos os negros e brancos enquanto seres humanos. Os racistas nunca dizem que o são.

https://www.publico.pt/2020/02/17/desporto/opiniao/marega-campeao-1904461

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/02/17/marega-campeao/

O Marega? É o Futebol, Estúpido!

O que acontece com os insultos ao Marega e a outros atletas é o que acontecia nas batalhas antigas em que os guerreiros se insultavam com as piores ofensas para se sentirem fortes e desmoralizarem o inimigo. São manifestações de animalidade contra um concorrente.

 

 

E o futebol é o Circo romano! Ou o auto de fé!

Os abutres que vivem do futebol lançaram uma campanha, de sucesso, diga-se, e grande alarido a culpar o racismo pelos insultos sofridos por um jogador do Futebol Clube do Porto. Um escândalo! Uma vergonha!

Ninguém se lembrou, que eu tenha visto ou lido, de reparar que há centenas de atletas portugueses das mais variadas proveniências e com as mais variadas tonalidades de pele que nunca foram insultados por motivos racistas, lembro ao correr da pena o Nelson Évora, a Mamona, o Obikwelu, no atletismo, Jorge Fonseca no Judo, a Fu Yu no pinguepongue, há jogadores e jogadoras de todas as cores no basquetebol, no voleibol, no râguebi, na ginástica sem problemas de racismo. Orgulhamo-nos deles e eu respeito-os, tal como ao Marega.

Onde o centro do problema dos cobardes insultos se coloca não é no racismo – embora o racismo seja um fator presente nas sociedades, em todas – é no mundo do futebol. É no facto do futebol ter sido erigido, eleito pelos manipuladores do poder, como o escape das frustrações dos povos, como o ponto de reunião da sociedade do vale tudo, do sucesso sem regras, da lei da selva, que o futebol tenha sido na Europa o substituto do Circo romano e dos autos de fé como espetáculo de alienação dos grupos sociais que se sentem à margem do sucesso, do enriquecimento rápido, da subida ao olimpo dos “famosos”. O futebol é o meio pantanoso onde os dirigentes e os atores obtêm reconhecimento social apesar das graves suspeitas que sobre eles impendem. O problema do Marega é do futebol e da sociedade que se alimenta e bem dele.

O que acontece com os insultos ao Marega e a outros atletas é o que acontecia nas batalhas antigas em que os guerreiros se insultavam com as piores ofensas para se sentirem fortes e desmoralizarem o inimigo. São manifestações de animalidade contra um concorrente.

Os insultos racistas são uma imagem da nossa barbárie e do triste e perigoso reconhecimento que essa barbárie organizada para alienar, para lavar dinheiro, para promover negócios obtém junto de instituições que deviam ser referências morais e éticas.

Quando um Presidente da República ou de Câmara recebe o “mundo do futebol” está a avalizar estas práticas.

Do mundo do futebol e dos seus donos e pregadores (aquilo tem dono e tem homens de mão) se dirá, como Nietszche disse de certas espécies perigosas que não se deve estender a mão, mas as garras. É gente que não se pode convidar para casa.

Mas a questão da unanimidade acrítica, do rasgar de véus e de afirmações “Eu sou Marega” ainda levanta mais questões. É que entre muitos dos que ”são Marega” – e eu sou antirracista desde que estudei com tantos colegas africanos no Colégio Nun’Alvares de Tomar – estão muitos que não se coíbem de insultar o primeiro-ministro como o “Chamuça”! E estão muitos dos que se benzem e cospem nos que defendem uma morte digna através da eutanásia e estão muitos que defendem as touradas, como escape tradicional de violência. Um escape do mesmo tipo dos insultos racistas, embora me possam dizer que as ofensas a um toiro não têm a mesma gravidade das feitas a um ser humano, o que é certo, mas a raiz da violência e da ausência de respeito é do mesmo tipo: o outro tem de ser humilhado, seja com farpas, seja com palavras.

Mas, mais grave, é que é deste mundo corrupto e que apela aos mais primários instintos, ao pior que os seres humanos têm, que saem políticos com ambições a governarem a República, comentadores que falam de moral! Ora, o mundo desta gente da bola não é compatível com o mundo de valores éticos e morais.

Há quem acredite que a salvação lhe poderá vir das fossas e dos esgotos! Eu não!

O Marega, um africano que procurou uma vida melhor utilizando um talento nos circos dos europeus, foi atirado às feras para gáudio dos empresários do futebol, não por ser negro, mas por ser o que marcou um golo no mundo do futebol!

O futebol, tal como está, não é frequentável, nem regenerável!


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-marega-e-o-futebol-estupido/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-marega-e-o-futebol-estupido

Marega

 
Marega foi um homem de coragem. Não apenas ao querer abandonar o campo, quando alvo de insultos racistas, mas especialmente ao levar o seu ato até ao fim, não obstante as pressões que sofreu.
 
Combater abertamente o racismo é um imperativo, se queremos continuar a ser um país decente.
 

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

Propaganda de ódio supremacista atinge níveis máximos nos EUA

 
 
Em 2019, os Estados Unidos atingiram o nível mais elevado de propaganda de ódio supremacista, que aumentou com a chegada do presidente Donald Trump ao poder, em 2016, de acordo com um relatório da Liga Contra a Difamação.
 
O relatório diz que a propaganda tem um enviesamento patriótico e atinge todos os Estados norte-americanos (com exceção do Hawai), mas sobressaem a Califórnia, Texas, Nova Iorque, Massachusetts, New Jersey, Ohio, Virgínia, Kentucky, Washington e Florida.
 
A propaganda é veiculada através de folhetos, autocolantes, 'banners', pósteres e mensagens nas redes sociais.
 
De acordo com o documento da Liga Contra a Difamação, os centros estudantis são alvos preferenciais deste género de propaganda, que, em 2019, registou 2.713 casos de distribuição de literatura supremacista, dentro e fora dos 'campus' universitários.
 
Por comparação com este número, em 2018, o número de registo de casos era de apenas 1.214, com uma estratégia semelhante à que tem sido verificada nos últimos anos.
 
"Os supremacistas brancos veem a distribuição de propaganda, incluindo boletins, folhetos e autocolantes, como uma maneira conveniente e praticamente anónima de promover as suas mensagens de ódio e de intolerância", explica Jonathan Greenblat, dirigente da Liga, num comunicado.
 
"Embora saibamos que extremistas e grupos de ódio são encorajados pelo ambiente atual, esse aumento na distribuição de folhetos e propaganda mostra como os fanáticos são capazes de espalhar a sua mensagem sem arriscar o anonimato", acrescentou Greenblat.
 
A Liga também revelou que dezenas de grupos supremacistas distribuíram propaganda em 2019, mas os responsáveis por cerca de 90% dessa atividade foram organizações extremistas como a Frente Patriota, o Movimento de Identidade Americano e a Associação European Heritage.
 
A Frente Patriota tem sido a organização mais ativa, sendo responsável por 66% dos casos registados no ano passado.
 
Em 2019, esse grupo divulgou mensagens como "Uma nação contra a invasão", "Pela nação contra o Estado" e "Os Estados Unidos não estão à venda".
 
A Frente Patriota, fundada em 2017, justifica com a sua versão de "patriotismo" a promoção da supremacia branca e da ideologia neofascista, segundo o comunicado da Liga.
 
"A grande quantidade de propaganda, que apresenta predominantemente uma linguagem supremacista branca velada com uma inclinação 'patriótica', é uma tentativa de normalizar a sua mensagem e de aumentar os esforços de recrutamento, enquanto ataca grupos minoritários como judeus, negros, muçulmanos, imigrantes não-brancos e comunidade LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros]", segundo Oren Siga, vice-presidente da Liga para o Centro de Extremismo.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Getty Images
 
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Portugal | Três centenas marcham em Lisboa contra o racismo e a violência policial

 
 
ONTEM EM LISBOA
 
Cerca de três centenas de pessoas desceram hoje a Avenida da Liberdade, em Lisboa, para protestar contra a "violência policial" e pedir justiça para a mulher alegadamente agredida pela polícia na Amadora.
 
"Racismo e fascismo não passarão" e "direitos iguais", foram algumas das palavras de ordem proferidas pelos manifestantes, durante o percurso entre a rotunda do Marquês de Pombal e o Rossio, sempre acompanhado por um forte contingente policial.
 
Esta ação de protesto foi convocada por vários movimentos e associações antirracistas, entre elas o SOS Racismo, Instituto da Mulher Negra em Portugal, Brutalidade Policial, Consciência Negra, Frente Antifascista, Djass - Associação de Afrodescendentes.
 
Alguns deputados deslocaram-se ao local de partida da manifestação para demonstrar a sua solidariedade, nomeadamente Beatriz Dias (Bloco de Esquerda), Joacine Katar Moreira (eleita pelo Livre) e Rita Rato (PCP).
 
Em declarações aos jornalistas, a deputada bloquista afirmou que "os recentes casos envolvendo a PSP e a comunidade africana não podem ficar sem resposta".
 
"É extremamente olhar para eles como são. Casos de violência racista, na medida em que eles afetam de uma forma bastante desproporcional pessoas provenientes das comunidades racializadas", sublinhou Beatriz Dias.
 
Por seu turno, em declarações à agência Lusa, a deputada eleita pelo Livre, Joacine Katar Moreira, defendeu que a luta antifascista e racista "deve ser de toda a sociedade civil e não apenas dos afrodescendentes".
 
"Queria apelar aqui a uma maior participação, pois ainda é insuficiente", apontou.
 
Presente na manifestação esteve também a mãe de Cláudia Simões, a mulher que foi detida há duas semanas na Amadora pela PSP e que diz ter sido agredida por um polícia.
 
"O regime tem de mudar. A minha filha não é um animal. Ela nem sequer consegue sair de casa. Só quero que se faça justiça", afirmou, de forma emocionada, Maria Simões.
 
Além de Cláudia Simões, os participantes neste protesto evocaram o nome de Giovanni Rodrigues, jovem cabo-verdiano que perdeu a vida em Bragança, em dezembro do ano passado, e de Alcindo Monteiro, assassinado em 1995 em Lisboa por um grupo de extrema direita.
 
A manifestação terminou no Largo de São Domingos, na zona do Rossio, com intervenções de vários ativistas antirracistas, não se tendo verificado quaisquer incidentes.
 
Notícias ao Minuto | Lusa
 
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Racismo primário – pertencemos todos!

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 30/01/2020)

Este podia ser um texto jurídico. Um texto a explicar que a Constituição rejeita o racismo, que a República quer dizer alguma coisa, que somos mesmo todos e todas iguais perante a lei.

Esqueçam o Direito. Por um instante.

O que temos visto por estes dias por parte de André Ventura é o regresso à essência mais radical do racismo.

 

André Ventura usa das palavras – e as palavras têm muita força – para nos devolver ao horror da separação de identidades entre brancos e não brancos. Quem diz identidades diz pertenças. O não branco não pertence, o branco pertence. Daí que lhe saia sem pudor a proposta de deportar a Deputada portuguesa Joacine Katar Moreira, uma não branca que ele faz por identificar como estrangeira, ela que vá para a “terra dela”, eis o apelo aos instintos primários do racismo.

Não consegue o racista André Ventura dizer de mim o mesmo, não consegue sugerir que eu vá para o Brasil, onde nasci, porque não surte efeito. No lodo racista ninguém ousa não identificar-me como portuguesa de origem, natural de gema da terra lusa, enquanto que a pele negra tresanda a estrangeiro.

O regresso de André Ventura à essência do racismo faz dos corpos fronteiras, lugares, este e aquele corpo são ou não daqui consoante a pigmentação, não há cá cidadania no seu discurso fora da lei.

Evidentemente esta jogada monstruosa conta com o racismo presente na sociedade, racismo tão evidente que quando se fala nele salta a indignação em vez de saltar a reflexão.

Portugal é dos poucos países que conheço onde o racismo não é unanimemente reconhecido como um problema sério, estrutural, sendo antes visto como uma “causa” de alguns ativistas que vieram atrapalhar a calma lusa.

Assim sendo, neste caldo, André Ventura avança e adianta que se Joacine Katar Moreira pensa o que pensa é caso para perguntar porque não se vai embora.

La está. Mais uma vez faz de uma deputada portuguesa uma visitante. E faz do racismo um problema das pessoas racializadas. Como se não devesse ser um desconforto ético e moral para qualquer pessoa a existência de racismo, de sexismo, de homofobia ou de qualquer tipo de fenómeno discriminatório, independentemente de se pertencer a uma categoria discriminada. Seria caso para eu fugir do mundo, sendo mulher, por causa do sexismo? Não, mas a resposta é a mesma em relação ao racismo não sendo eu uma pessoa racializada.

A pergunta de Ventura é estúpida mas carregada de intenção. A intenção é a de sempre: gerar divisão, ódio, para crescer nessa onda.

Não é preciso explicar que não se concorda com a proposta x ou y de Joacine Katar Moreira para depois se dizer que estes dias foram alucinantes. As propostas devem ser debatidas com argumentos racionais, em sede própria.

O que não podemos admitir, o que deve merecer a nossa luta feroz, a luta de todas e de todos os democratas, é o racismo primário de Ventura, um cobarde cheio de vergonhas.

Pertencemos todos.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Se promove um racista, se apoia um racista, se defende um racista, então…


Este podia ser um texto jurídico. Um texto a explicar que a Constituição rejeita o racismo, que a República quer dizer alguma coisa, que somos mesmo todos e todas iguais perante a lei.

Esqueçam o Direito. Por um instante.

O que temos visto por estes dias por parte de André Ventura é o regresso à essência mais radical do racismo.

André Ventura usa das palavras - e as palavras têm muita força - para nos devolver ao horror da separação de identidades entre brancos e não brancos. Quem diz identidades diz pertenças. O não branco não pertence, o branco pertence. Daí que lhe saia sem pudor a proposta de deportar a Deputada portuguesa Joacine Katar Moreira, uma não branca que ele faz por identificar como estrangeira, ela que vá para a “terra dela”, eis o apelo aos instintos primários do racismo.

Não consegue o racista André Ventura dizer de mim o mesmo, não consegue sugerir que eu vá para o Brasil, onde nasci, porque não surte efeito. No lodo racista ninguém ousa não identificar-me como portuguesa de origem, natural de gema da terra lusa, enquanto que a pele negra tresanda a estrangeiro.

O regresso de André Ventura à essência do racismo faz dos corpos fronteiras, lugares, este e aquele corpo são ou não daqui consoante a pigmentação, não há cá cidadania no seu discurso fora da lei.

Evidentemente esta jogada monstruosa conta com o racismo presente na sociedade, racismo tão evidente que quando se fala nele salta a indignação em vez de saltar a reflexão.

Portugal é dos poucos países que conheço onde o racismo não é unanimemente reconhecido como um problema sério, estrutural, sendo antes visto como uma “causa” de alguns ativistas que vieram atrapalhar a calma lusa.

Assim sendo, neste caldo, André Ventura avança e adianta que se Joacine Katar Moreira pensa o que pensa é caso para perguntar porque não se vai embora.

La está. Mais uma vez faz de uma deputada portuguesa uma visitante. E faz do racismo um problema das pessoas racializadas. Como se não devesse ser um desconforto ético e moral para qualquer pessoa a existência de racismo, de sexismo, de homofobia ou de qualquer tipo de fenómeno discriminatório, independentemente de se pertencer a uma categoria discriminada. Seria caso para eu fugir do mundo, sendo mulher, por causa do sexismo? Não, mas a resposta é a mesma em relação ao racismo não sendo eu uma pessoa racializada.

A pergunta de Ventura é estúpida mas carregada de intenção. A intenção é a de sempre: gerar divisão, ódio, para crescer nessa onda.

Não é preciso explicar que não se concorda com a proposta x ou y de Joacine Katar Moreira para depois se dizer que estes dias foram alucinantes. As propostas devem ser debatidas com argumentos racionais, em sede própria.

O que não podemos admitir, o que deve merecer a nossa luta feroz, a luta de todas e de todos os democratas, é o racismo primário de Ventura, um cobarde cheio de vergonhas.

Pertencemos todos.

 

Isabel Moreira

 

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

Portugal radical | Os sete minutos da detenção de Cláudia Simões

 
 
Aconteceu com uma mulher de pele escura, despoletado pela não apresentação do passe de viageens de uma criança que por lei até beneficia de viagens gratuitas (8 anos). Informou a mãe ao motorista que se havia esquecido do referido passe da criança – que parece que existe somente… parece que por nada.
 
Não estando pelos ajuste o motorista-cobrador da Vimeca solicitou a intervenção da polícia. Um polícia presente quis fazer a detenção da mulher, devido à falta de passe viagens da criança, quis algemá-la para a deter e levar para a esquadra. Com o que ela não concordou por considerar que tudo não passava de um exagero… e provável comportamento racista.
 
O que se deve perguntar é a razão que justifica tanto radicalismo, tanto exagero, provavelmente tanto racismo. Se acaso a pele da mulher não tivesse aquele tom escuro, se fosse “branca” (raça superior?), ocorreria tanto radicalismo, tanto exagero? E porque é necessário um passe para viagens que são legalmente gratuitas?
 
Diz-se compreensivelmente, justificadamente que o racismo é estúpido – mas que ele existe todos sabemos, também a exigência de um passe é algo muito estúpido para uma criança a quem a lei reserva beneficio de gratuitidade nas viagens em transportes públicos. Igualmente estúpido foi a postura do motorista-cobrador, assim como a do elemento da PSP. E estúpida foi a reação da mãe da criança às posturas estúpidas do motorista-cobrador e do PSP.
 
Se fosse verdade que em Portugal não existe racismo e que o pomo da questão e atitudes não foi o racismo, então o que foi?
 
A seguir leia o constante no Jornal de Notícias de hoje, que o conduzirá ao visionamento de um vídeo de luta em parte semelhante a greco-romana. Prevaricadora (mãe da criança) a rebolar-se no chão em amálgama com um agente da PSP. Rebolanços no chão que só terminaram com a ajuda de populares que contribuíram para que o agente conseguisse algemar a senhora interveniente na luta radical gerada por mentes radicais, senão racistas. O que dificilmente será entendido por juízes igualmente radicais, racistas ou adeptos de exageros.
 
Além de tudo, o incidente mancha todos os intervenientes e a instituição PSP, mostrando, entre outras tendências e atitudes, quanto os seres humanos são capazes de se prestarem ao ridículo devido a mentes psicóticas e em certos lapsos de tempo ausentes de um pingo de humanidade e inteligência.
 
Entretanto houve uma criança a presenciar toda aquela cena execrável. Lembrem-se disso, pois é ainda o mais lamentável e condenável.

 

MM | PG

 
Leia e veja do Jornal de Notícias o texto e a ligação ao vídeo:

 

Os sete minutos da detenção de Cláudia Simões 

 

O JN teve acesso a um vídeo, de sete minutos, em que se vê um agente da PSP a deter Cláudia Simões, a mulher que se queixa de ter sido agredida pela Polícia e que foi constituída arguida por ofensas contra o elemento policial.
 
No vídeo vê-se que o PSP tenta dominar a mulher e queixando-se, várias vezes, de estar a sofrer mordidelas da mulher. Pede-lhe ainda que pare de resistir à detenção. Por outro lado, também se ouve a mulher a queixar-se de racismo por parte do agente e diz-lhe que nada fez, pedindo-lhe para a largar.
 
Alexandre Panda | Jornal de Notícias
 
 
Leia em Jornal de Notícias
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-radical-os-sete-minutos-da.html

Outra vez arroz?

PSP Amadora
Pá, eu queria dizer-te isto de mansinho, mas não dá. Não dá! Se tu olhas para uma mulher com a cara toda esmurrada e começas logo a procurar justificar aquilo que lhe aconteceu, desculpando quem lhe fez aquilo, és uma besta.

"Ai mAs TeMoS dE cOnHeCeR oS dOiS lAdOs Da HiStÓrIa..."

Não, não temos, pá. Não temos. O que temos de saber é que um facínora com a nossa bandeira ao ombro espancou uma mãe à frente duma filha. Esta merda não o envergonha só a ele, não envergonha só a polícia, envergonha o país inteiro. E acontece, e continua a acontecer, uma vez, e outra, e outra, e os facínoras que fazem isto sabem que podem continuar a fazê-lo e vão continuar a fazê-lo porque a maioria da opinião pública - OU SEJA, TU - tem um respeitinho sagrado à polícia, fruto duma mentalidade de merda de submissão à repressão da lei e da farda, que 48 anos de fascismo impuseram a todo um povo. Para que é que queres ouvir o outro lado da história do brutal espancamento que lhe deixou a cara num bolo? Também fazes questão de ouvir o lado nazi do Holocausto, o lado salazarista do Tarrafal? É essa mania de merda de querer ficar a meio, em cima do muro, armado em mediador imparcial do conflito, que lhes dá espaço de manobra para fazerem o que fazem.

"Ai AgOrA tAmBéM é TuDo RaCiSmO!"

Sempre foi racismo, pá. Não havia era telefones com câmara de filmar e redes sociais. Eu lembro-me de ser chavalo e saber que um negro se suicidou na esquadra do Miratejo às cabeçadas ao lavatório: é o que consta do relatório oficial. Lembro-me de um toxicodependente ter conseguido sair da cela e se ter mandado das escadas abaixo várias vezes. A diferença entre "antes" e "agora" é que as vítimas começaram a ter voz.

"lÁ eStÁs Tu A aTaCaR a PoLíCiA!"

Acho que já te respondi a essa treta da última vez que houve um caso de violência policial. E da outra, e da outra, e da outra... Mas tu insistes sempre nessa tecla. E eu até podia aqui entrar numa conversa mais teórica, e dizer que em termos históricos e materialistas, a polícia nasce e existe como um corpo repressivo ao serviço do Estado, e que "O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes". Podia, mas isso é conversa para outro dia. Hoje, basta dizer que condenar a actuação individual de um polícia ou da direcção nacional da PSP não é o mesmo que atacar TODOS os profissionais da polícia. Quando eu condeno acontecimentos como este e exijo que sejam punidos com mão pesada, isso também é proteger os polícias decentes de serem confundidos com os facínoras que, com a mesma farda, mancham a imagem de todos.

"mAs nÃo DeViA tEr ReSiStIdO!"

Porquê? Mas vivemos numa ditadura, num estado policial? Ninguém tem de obedecer a um polícia só porque ele é polícia. Há uns anos numa manif a polícia mandou dispersar e o meu pai disse "a Constituição dá-me o direito de me manifestar!", e o polícia respondeu "Eu quero é que a constituição se foda" e desceu o cassetete. Tu é que és obedientezinho à polícia, e se o bófia te mandasse baixar as calças e te enrabasse tu deixavas e no fim ainda agradecias. Nunca na vida ofereceste resistência a nada, nunca lutaste, nunca te manifestaste, e só por isso é que achas que és muito livre.

O escravo que não se mexe também não sente o peso das correntes.

André Solha 24.1.20

 

 

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/01/outra-vez-arroz.html

Grunhos à solta lá para os lados da Amadora

As reações corporativas dos polícias tentaram minimizar os efeitos negativos da notícia sobre a bárbara agressão a uma cidadã da Amadora, mas elas só demonstraram como os sindicatos representativos dessa classe profissional estão dissonantes do sentimento de uma grande maioria dos portugueses. Porque de pouco lhes vale virem lamentarem-se por terem má imprensa e pior opinião pública se não sabem dissociar-se de quem age com uma agressividade tal que não se justifica olhar para os seus associados como honrados servidores do interesse coletivo, porque até são internamente elogiados pelos comportamentos próprios dehooligans, senão mesmo de biltres neonazis.

 

Por muito que Cláudia Simões tenha mordido quem a agredia ou procurava sufocar, nenhuma pessoa pode sujeitar-se tal selvageria apenas porque a filha de oito anos se esquecera do passe em casa. Se foi esse o motivo fútil, que esteve na origem da intervenção policial, qual a estratégia policial perante algo consensualmente aceite como um delito? Encostam o arguido à parede e fuzilam-no sem sequer o levarem a tribunal?

 

Nesse aspeto não é só o polícia, cujo rosto conhecemos de uma gravação colhida no momento da agressão, que está em causa. Estão-no também os colegas que vieram apoiá-lo no carro-patrulha onde terão ocorrido as mais violentas agressões e, sobretudo, o pouco falado motorista do autocarro da Vimeca, que esteve na origem do incidente. Os telejornais quase nada disseram sobre ele, mas a imprensa escrita deu conta dos insultos racistas com que invetivou a passageira e a entregou ao primeiro polícia que encontrou. Que se saiba a transportadora ainda não veio anunciar que o terá suspendido para que responda perante o mais do que justificado processo disciplinar.

 

Este episódio, que importa ser rapidamente esclarecido, não deve possibilitar quaisquer contemplações com quem esteve, direta ou indiretamente, envolvido nos efeitos da «queda» da referida cidadã. O Estado não pode ignorar que a sociedade portuguesa integra uma percentagem não negligenciável de grunhos racistas, que importa controlar e punir sempre que passem das palavras injuriosas aos atos assassinos. E se eles se acoitam nas polícias, repetindo-se suspeitas quanto à infiltração de gente de extrema-direita no seu seio, então o trabalho do ministro Eduardo Cabrita ganha uma acuidade que importa apoiar sem reservas...

 

 

“Mulher acusa Polícia de agressões” – pequena amostra de comentários online num país sem racismo

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 22/01/2020)

(Se calhar a outra, a dos Santos é que tem razão. Se vemos uma negra a andar de iate, sobe-nos a inveja à cabeça, e queremos-lhe ficar com o barco. Se vemos uma negra a falar alto e a barafustar – tenha ou não razão -, vamos-lhe logo à cara.

Comentário da Estátua de Sal, 22/01/2020)


 

 

“O motorista teve necessidade de chamar a polícia imagine-se o nível de simpatia que foi a senhora, foi igualmente simpática para a polícia. A amiga só filmou o que lhe interessou. Aposto que já ia acompanhada por um advogado. Verdadeiros profissionais da insinuação e indemnização”

“A senhora tem hematomas? Ups foi para a zona dos bares com a filha bebeu uns copos a mais e caiu, por amor à Santa”

“Olha eu acredito, e é assim que elas fazem para armar confusão”

 

“A nossa comunicação social está cada vez mais a gerar ondas de racismo com estas imagens. Quantos brancos também são agredidos e quase nunca mostram as imagens e quantos agentes de autoridade também são agredidos por pessoas de cor e também não mostram as imagens? As leis foram feitas para se cumprir se não se cumprem há que responsabilizar. Deixem-se de racismo o povo Português até é bem calmo”

“Vamos ter mais respeito pelas autoridades e todas as estações de TV até gostam disto, até dá ideia que já estava alguém ali à espera que se passasse alguma coisa para filmar”

“Eu fico admirada pois não acredito que estas coisas aconteçam assim por uma coisinha qualquer !!!???? Fico com pena e que quando agridem os nossos policiais não exista ninguém que partilhe as agressões… esta gente são todas /Santas… há muita forma de ganhar dinheirinho… Santas e Santos somos muitos de nós que o dinheiro tem sido ganho com o suor do nosso rosto… neste mundo não falta quem provoque quem trabalha pois os que trabalham não podem gastar os míseros ordenados na justiça para andar a pagar a advogados através de impostos para defender muita gente… que não merecem… eu nunca fui ofendida por nenhum polícia nem GNR!!!??? Imagino se me visse a ser mordida à dentada!!??? Já pensaram que hoje em dia as doenças contagiosas!!!?? Se eu fosse ao polícia exigia já análises ao sangue”

“Para variar a comunicação social a enterrar as nossas forças de segurança. O que acho estranho é que as pessoas quando se veem aflitas chamam a PSP ou GNR”

“Está Sra. Não pagou bilhete para a filha esta Sra. negou-se a sair do autocarro esta Sra. mordeu o polícia várias vezes arranjou o várias vezes, que exemplo estava ela a dar à filha andando no transporte público sem pagar e morder a um polícia arranhando-o? Coitadinha só mostra o resultado final e as imagens do polícia agredido? LOL tenha vergonha”

“É triste, mas as pessoas não sabem k se nos transportes públicos eu na carris no 50 vejo muita coisa certas pessoas de cor principalmente os jovens entram não pagam gozam com o motorista e querem lugar sentados acho k deviam de ouvir as duas partes para não passarem coitadinhos”

“Se o policia fosse da mesma cor que esta senhora nem vídeo havia… para mim a autoridade não é ela… e pelas imagens bem vejo ela a resistir… já nem falo do propósito de não haver inicio do filme… mas claramente é racismo contra o policia que fez o seu trabalho sob pressão de alguém a filmar a resistência de alguém que é infrator…”

“Deixem-se de tretas e cumpram as regras como o resto da população”

“São notícias que só servem para denegrir os nossos agentes de segurança, devia ser proibido estas publicações”


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

“É um mal necessário”. Mulher que acusa PSP de agressão foi constituída arguida

(Comentário:

Isto não é um pouco preocupante ? Serve para que os cidadãos confiem na polícia e, ou, na justiça?

A 'publicação' do "Sindicato Unificado da PSP não é um iniludível apelo ao racismo?

Está tudo bem ?)

Tiago Petinga / Lusa

 

Cláudia Simões, a mulher que apresentou uma denúncia contra um polícia que a terá detido violentamente, no domingo, na Amadora, foi constituída arguida.

 

De acordo com a Lusa, que cita a PSP, a mulher que diz ter sido brutalmente agredida por um agente ficou ainda sujeita à medida de coação de termo de identidade e residência.

Presente a um juiz de instrução criminal, a mulher ficou indiciada do crime de resistência e coação sobre agente da autoridade, enquanto o polícia envolvido “não foi constituído arguido”, adiantou fonte da Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública.

“O caso transitou para processo comum [segue para investigação]”, disse fonte policial à Lusa, acrescentando que, devido às versões contraditórias da mulher e do polícia, está a decorrer um inquérito para averiguar as circunstâncias da ocorrência.

 

Neste âmbito, a investigação inclui o interrogatório de todas as pessoas envolvidas, assim como a identificação da “extensão dos ferimentos” da mulher detida e do polícia e quais as mazelas para o futuro, uma vez que foram ambos assistidos no Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora.

Em declarações ao semanário Expresso, Ana Cristina Domingues, advogada de Cláudia Simões, diz que o facto de a sua cliente ter sido constituída arguida é um “mal necessário”.

“Há uma ideia generalizada de que a constituição como arguido é uma coisa negativa mas não o é necessariamente (…) Por exemplo, um arguido tem direito ao silêncio, enquanto se alguém estiver a ser ouvido como testemunha é sempre obrigado a falar. Ser arguido pode ser uma defesa”, explicou a advogada, precisando que a sua cliente estava no Hospital Amadora- Sintra, em Lisboa, quando recebeu o auto de constituição”.

Sindicato espera que agente não tenha “apanhado doenças graves

A página oficial do Sindicato Unificado da PSP no Facebook publicou esta terça-feira um texto no qual envia “as melhoras ao colega” que interveio “numa ocorrência na Amadora”.

Na publicação, que é acompanhada por algumas fotografias que mostram o “estado” em que terá ficado ao agente após a ocorrência, o sindicato diz ainda esperar que este não tenha apanhado “doenças graves”.

“Foi neste estado que ficou hoje o colega, ao intervir numa ocorrência na Amadora. As melhoras ao colega e espero que as análises sejam todas negativas a doenças graves. Contudo a defesa da cidadã está a começar a ser orquestada pelo ódiomor de brancos. Está tudo bem, não se passa nada”, pode ler-se na publicação.

Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública

 

 

ZAP //


Fabian Figueiredo

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/mulher-acusa-psp-agressao-constituida-arguida-303890

Crime em Bragança | Justiça para Giovani: quem tem medo do racismo?

 
 
Ninguém externo ao caso pode afirmar com seriedade o que aconteceu ao Luís Giovani e talvez nunca se chegue a saber a verdade. O que importa é compreender porque é que, nas nossas cabeças de pessoas racializadas, ouvimos “jovem negro agredido com paus e ferros” e não podemos deixar de pensar na hipótese do ódio racial.
 
Luísa Semedo | Público | opinião
 
Eram brancos os que por ódio racial, ao longo dos anos, me agrediram física e verbalmente na escola e na rua. Eram brancos os que escreveram nas paredes do recreio do nosso liceu “Raça”, “Nação” e “Pretos fora de Portugal” e os que deixaram aquela propaganda racista tempo demais exposta. Eram brancos os membros do KKK que vi na televisão, quando era criança, e entendi que para além de insultados e brutalizados também éramos assassinados em outras partes do mundo. Razão pela qual guardo, até hoje, uma fobia real de máscaras.
 
Pouco tempo depois compreendi que, durante séculos, brancos escravizaram, torturaram e mataram negros e violaram inúmeras mulheres negras e “mulatas”. Não me esqueço do meu primeiro contacto com um olhar erotizado de adulto sobre o meu corpo ainda infantil, o de um familiar por aliança, branco, que me disse “cabritinhas como tu eram muito apreciadas quando estava na guerra”. O mesmo que gostava de dizer “o meu amigo... é preto, mas não é como os outros que merecem um tiro na cabeça”. A brutalidade racista continua ainda hoje com a violência policial e os ataques terroristas da extrema-direita.
 
 
No imaginário coletivo, os corpos negros são mais resistentes, inclusive ao terror que constitui o racismo, mas é falso. O corpo negro sente, chora e tem medo da mesma forma. Racismo é terrorismo e traumatismo. Da mesma forma que não temos o privilégio de olhar para um “pai extremoso” tatuado na TV e não entender de imediato que estamos perante um neonazi, também não temos o privilégio de ouvir a história de um rapaz cabo-verdiano que teria sido espancado por um grupo de pessoas com ferros, paus e cintos e não pensar na hipótese de um crime racista. É natural, a isto se chama ter uma experiência traumática. Esta imagem de linchamento convoca de imediato imagens que estão gravadas a ferro quente no nosso ser, que povoaram os nossos pesadelos enquanto crianças e adultos.
 
 
Ninguém externo ao caso pode afirmar com seriedade o que aconteceu ao Luís Giovani e talvez nunca se chegue a saber a verdade. A motivação racial pode estar tanto na origem do ato como na intensidade do golpe desferido. O Giovani já cá não está para contar. Os agressores dirão aquilo que lhes apetecer. E os agressores até podem ser negros, não é isso que importa. O que importa é compreender porque é que, nas nossas cabeças de pessoas racializadas, ouvimos “jovem negro agredido com paus e ferros” e não podemos deixar de pensar na hipótese do ódio racial. A resposta está no nosso traumatismo individual e coletivo. Esse trauma tem um nome, chama-se racismo.
 
Habituámo-nos a silenciar estas vivências porque conhecemos bem demais a insuportável reação que consiste em descredibilizar as nossas vozes, em acusarem-nos de vitimização e até de racismo e identitarismo. Os identitários são os que defendem a superioridade racial, os que consideram que não pertencemos à mesma esfera da humanidade, que nos agridem por sermos como somos, sem qualquer outro motivo. Sem qualquer outro motivo! Comparar a luta pela Igualdade à luta pela desigualdade, a luta antirracista a neonazismo é um insulto, e é um insulto racista. O sistema de hierarquização de pessoas é extremamente resiliente e toma sempre novas formas. Estas vergonhosas equivalências ou inversões da realidade, operadas até por autoproclamados “aliados”, para preservar privilégios e calar vozes é só mais uma dessas formas.
 
Compreende-se que possa ser irritante para uma pessoa branca ouvir falar de racismo, pois sente-se de repente incluída numa estranha categoria, ainda por cima sem provas neste caso. É injusto, é desesperante... É o que as pessoas racializadas vivem há tanto tempo. Sabemos que não é agradável. “Não somos todos uns criminosos racistas!”, dizem-nos. Claro que não! E é por disso termos consciência que, apesar de tudo o que foi perpetrado até hoje ao longo dos séculos, não andamos por aí organizados em milícias de tatuagens, máscaras e armas na mão à “caça ao branco” por vingança e ainda menos por nos considerarmos superiores.
 
Temos o privilégio de ter acesso a uma história múltipla, complexa, profunda do que é ser branco através da nossa convivência, do acesso à cultura e história das pessoas brancas, e das nossas lutas conjuntas. Felizmente não nos é imposta uma “história única”, como nos explica a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, uma história como a que é imposta sobre os negros que são ou escravos ou gangsters, passivos ou agressivos sem grande profundidade interior. Razão mais do que necessária para ouvir mais, conversar mais, ler mais.
 
Ainda não conseguimos, enquanto espécie, fazer coincidir o “somos todos seres humanos” biológico com o social. Vamos continuar a trabalhar juntos para que seja um dia realidade. Entretanto, queremos justiça para o Giovani.
A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
 
Imagem: Fernando Pina / Lusa
 
Leia em Público:
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/crime-em-braganca-justica-para-giovani.html

«Nu kre justiça»: milhares em homenagens a jovem cabo-verdiano assassinado

Foram organizadas este sábado várias marchas e concentrações que reivindicaram o fim da violência e do racismo, na sequência da morte de Luís Giovani Rodrigues, em Bragança.

Aliados, PortoCréditos

Pouco depois da hora marcada para o início da vigília em Lisboa, centenas de pessoas juntaram-se no Terreiro do Paço, em Lisboa, muitas vestindo t-shirts brancas com a fotografia do jovem e segurando panfletos onde podia ler-se #justiçaparaogiovani.

Os participantes começaram a juntar-se frente à estátua de D. José I onde estiveram em silêncio, formando primeiro um círculo que no seu interior tinha velas e flores brancas.

No Terreiro do Paço, onde eram visíveis muitas bandeiras de Cabo Verde, reuniram-se pessoas de todas as idades, que respeitaram o silêncio pedido pelos organizadores, empunhando cartazes exigindo justiça.

«Tire o seu racismo do caminho» ou «Nu kre justiça» [Queremos justiça, em crioulo], eram outros dos cartazes empunhados pelas pessoas, entre alguns balões brancos e pretos espalhados pela praça.

«Esta marcha tem por intuito demonstrar a indignação perante a violência que vitimou o nosso colega, solidariedade e homenagem a Luís Giovani», lia-se na mensagem que acompanhou a convocatória para a vigília marcada para o Terreiro do Paço, em Lisboa, que foi organizada pelos Caloiros de Cabo Verde, colegas do jovem, e difundida através da rede social Facebook.

Luís Giovani dos Santos Rodrigues morreu a 31 de Dezembro no hospital, após ter sofrido uma agressão perto de uma discoteca em Bragança onde estivera com amigos. 

Foram também organizadas vigílias na cidade da Praia, no Porto, em Bragança, Londres, Paris e Luxemburgo, que contaram com milhares de participantes.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/nu-kre-justica-milhares-em-homenagens-jovem-cabo-verdiano-assassinado

"Silêncio sobre a morte de Luís é revelador do racismo em Portugal"

 
 
Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, diz ser “inacreditável” que “nenhum dirigente do país” tenha vindo a público falar do caso do jovem cabo-verdiano que morreu no dia 31 de dezembro após ter sido alegadamente espancado por um grupo de 15 pessoas, em Bragança. O Ministério dos Negócios Estrangeiros pronunciou-se, pela primeira vez, este domingo à noite.
 
“Mesmo que não seja uma razão racial que esteja na origem do assassinato, independentemente das circunstâncias da sua morte, o silêncio sobre a morte de Luís é revelador do racismo que existe em Portugal. Não tenho a menor dúvida”, sublinhou Mamadou Ba em declarações ao Notícias ao Minuto. 
 
Para o ativista, o facto de “nenhum dirigente do país” ter vindo a público falar sobre o crime é “inacreditável”.
 
“Imaginemos que tinha sido um jovem branco a ser espancado por 15 jovens negros e que essas agressões resultassem numa morte. Teríamos o país inteiro mobilizado, indignado, a exigir Justiça e o apuramento das responsabilidades. Todas as entidades públicas e políticas estariam neste momento já em campo a dizer o que pensavam sobre a situação e a exigir responsabilidades. Não foi o caso”, conjeturou.
 
Apontando que “o caso ficou 10 dias a marinar e só se soube porque se tornou viral nas redes sociais”, o ex-assessor bloquista reforçou que “se tivesse sido ao contrário” já teriam surgido vozes “da extrema-direita a exigir mão forte contra os criminosos e que se fizesse justiça”, tal como, “responsáveis de tutela a dizer que se tem de garantir a ordem pública”. “É absolutamente revoltante”, acrescentou.
 
 
Sem esquecer “as conquistas do último ano” no que diz respeito ao combate contra o racismo em Portugal, Mamadou Ba afirmou que a “indiferença total que se nota neste caso” demonstra falta de “clarividência institucional” e uma incapacidade da sociedade portuguesa em confrontar a “vivacidade do racismo” presente no país.
 
“As pessoas não querem ouvir falar de racismo, não querem admitir que há racismo no país e parece-me também que há uma espécie de cedência das forças políticas relativamente a esta questão. Somos um país que se quer enganar a si próprio, pensando que não falando da situação ela deixa de existir”, sustentou.
 
“Não podemos continuar a fechar os olhos, temos de confrontar esta questão é a única maneira de a resolvermos”, concluiu.
 
Ao Notícias ao Minuto, o ativista confirmou ainda que irá marcar presença numa das várias marchas de silêncio em homenagem ao estudante, que irão decorrer no dia 11 de janeiro, por volta das 15h, no Terreiro do Paço, em Lisboa, na Avenida dos Aliados, no Porto, na Praça da República, em Coimbra, e na Igreja da Sé, em Bragança. O SOS Racismo estará representado na capital. 
 
Durante a última semana, recorde-se, Joacine Katar Moreira, do partido Livre, as deputadas socialistas Edite Estrela e Isabel Moreira e o bloquista José Soeiro foram algumas das vozes que se insurgiram e vieram a público condenar o homicídio.
 
Contudo, durante a noite de ontem, após o ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades de Cabo Verde, Luís Filipe Tavares, ter pedido "celeridade" no "esclarecimento cabal" pelas autoridades portuguesas da "trágica" morte do estudante e o Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, ter adiantado que também estava a acompanhar os contornos da "morte brutal" do estudante, o Governo português reagiu pela primeira vez
 
"Lamentamos profundamente a bárbara agressão de que resultou a morte, em Bragança, de um estudante cabo-verdiano. Os responsáveis serão identificados e levados à justiça", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal através da sua conta na rede social Twitter.
 
"Os cabo-verdianos são nossos irmãos e muito bem-vindos em Portugal", acrescentou a tutela. 
 
Por sua vez, o embaixador de Cabo Verde em Portugal, Eurico Monteiro, pedira já, este sábado, a clarificação "cabal" das circunstâncias da morte do estudante cabo-verdiano, informando que o corpo do jovem deverá ser transladado para o seu país natal esta semana.    
 
Giovani, como era conhecido, estava a viver há apenas dois meses em Portugal para estudar Design de Jogos Digitais no Instituto Politécnico de Bragança. O jovem, de 21 anos, acabou por morrer no Hospital de Santo António, no Porto, no dia 31 de dezembro do ano passado, devido às agressões que sofreu, no dia 21 de dezembro, depois de ter estado 10 dias internado.
 
A polícia portuguesa já terá identificado dois suspeitos, mas, até ao momento, não houve qualquer detenção. O caso acabou por gerar uma onda de indignação nas redes sociais, manifestando-se em críticas à falta de “comoção nacional” para com o caso e à falta de atuação por parte das autoridades. 
 
“Mesmo que não seja uma razão racial que esteja na origem do assassinato, independentemente das circunstâncias da sua morte, o silêncio sobre a morte de Luís é revelador do racismo que existe em Portugal. Não tenho a menor dúvida”, sublinhou Mamadou Ba em declarações ao Notícias ao Minuto. 
 
Para o ativista, o facto de “nenhum dirigente do país” ter vindo a público falar sobre o crime é “inacreditável”.
 
“Imaginemos que tinha sido um jovem branco a ser espancado por 15 jovens negros e que essas agressões resultassem numa morte. Teríamos o país inteiro mobilizado, indignado, a exigir Justiça e o apuramento das responsabilidades. Todas as entidades públicas e políticas estariam neste momento já em campo a dizer o que pensavam sobre a situação e a exigir responsabilidades. Não foi o caso”, conjeturou.
 
Apontando que “o caso ficou 10 dias a marinar e só se soube porque se tornou viral nas redes sociais”, o ex-assessor bloquista reforçou que “se tivesse sido ao contrário” já teriam surgido vozes “da extrema-direita a exigir mão forte contra os criminosos e que se fizesse justiça”, tal como, “responsáveis de tutela a dizer que se tem de garantir a ordem pública”. “É absolutamente revoltante”, acrescentou.
 
Sem esquecer “as conquistas do último ano” no que diz respeito ao combate contra o racismo em Portugal, Mamadou Ba afirmou que a “indiferença total que se nota neste caso” demonstra falta de “clarividência institucional” e uma incapacidade da sociedade portuguesa em confrontar a “vivacidade do racismo” presente no país.
 
“As pessoas não querem ouvir falar de racismo, não querem admitir que há racismo no país e parece-me também que há uma espécie de cedência das forças políticas relativamente a esta questão. Somos um país que se quer enganar a si próprio, pensando que não falando da situação ela deixa de existir”, sustentou.
 
“Não podemos continuar a fechar os olhos, temos de confrontar esta questão é a única maneira de a resolvermos”, concluiu.
 
Ao Notícias ao Minuto, o ativista confirmou ainda que irá marcar presença numa das várias marchas de silêncio em homenagem ao estudante, que irão decorrer no dia 11 de janeiro, por volta das 15h, no Terreiro do Paço, em Lisboa, na Avenida dos Aliados, no Porto, na Praça da República, em Coimbra, e na Igreja da Sé, em Bragança. O SOS Racismo estará representado na capital. 
 
Durante a última semana, recorde-se, Joacine Katar Moreira, do partido Livre, as deputadas socialistas Edite Estrela e Isabel Moreira e o bloquista José Soeiro foram algumas das vozes que se insurgiram e vieram a público condenar o homicídio.
 
Contudo, durante a noite de ontem, após o ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades de Cabo Verde, Luís Filipe Tavares, ter pedido "celeridade" no "esclarecimento cabal" pelas autoridades portuguesas da "trágica" morte do estudante e o Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, ter adiantado que também estava a acompanhar os contornos da "morte brutal" do estudante, o Governo português reagiu pela primeira vez
 
"Lamentamos profundamente a bárbara agressão de que resultou a morte, em Bragança, de um estudante cabo-verdiano. Os responsáveis serão identificados e levados à justiça", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal através da sua conta na rede social Twitter.
 
"Os cabo-verdianos são nossos irmãos e muito bem-vindos em Portugal", acrescentou a tutela. 
 
Por sua vez, o embaixador de Cabo Verde em Portugal, Eurico Monteiro, pedira já, este sábado, a clarificação "cabal" das circunstâncias da morte do estudante cabo-verdiano, informando que o corpo do jovem deverá ser transladado para o seu país natal esta semana.  
  
Giovani, como era conhecido, estava a viver há apenas dois meses em Portugal para estudar Design de Jogos Digitais no Instituto Politécnico de Bragança. O jovem, de 21 anos, acabou por morrer no Hospital de Santo António, no Porto, no dia 31 de dezembro do ano passado, devido às agressões que sofreu, no dia 21 de dezembro, depois de ter estado 10 dias internado.
 
A polícia portuguesa já terá identificado dois suspeitos, mas, até ao momento, não houve qualquer detenção. O caso acabou por gerar uma onda de indignação nas redes sociais, manifestando-se em críticas à falta de “comoção nacional” para com o caso e à falta de atuação por parte das autoridades.
 
Mafalda Tello Silva | Notícias ao Minuto | Imagem: © Global Imagens
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/silencio-sobre-morte-de-luis-e.html

Portugal garante que responsáveis por morte de cabo-verdiano serão levados à Justiça

 
 
O Governo português lamentou a "bárbara agressão" que resultou na morte de um estudante cabo-verdiano em Bragança, deixando garantias de que os responsáveis serão identificados e levados à justiça.
 
“Lamentamos profundamente a bárbara agressão de que resultou a morte, em Bragança, de um estudante cabo-verdiano. Os responsáveis serão identificados e levados à justiça", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal através da sua conta na rede social Twitter.
 
"Os cabo-verdianos são nossos irmãos e muito bem-vindos em Portugal", acrescentou o MNE.
 
A 21 de dezembro de 2019, um estudante cabo-verdiano do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), Luís Giovani dos Santos Rodrigues, terá sido agredido por vários homens à saída de uma discoteca da cidade.
 
Transportado para o Hospital de Santo António, no Porto, o estudante de 21 anos acabou por morrer a 31 de dezembro, segundo um comunicado da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa.
 
O ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades de Cabo Verde, Luís Filipe Tavares, pediu "celeridade" no "esclarecimento cabal" pelas autoridades portuguesas da "trágica" morte do estudante e o Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, adiantou também estar a acompanhar, através da Embaixada em Lisboa, os contornos da "morte brutal" do estudante.
 
O embaixador de Cabo Verde em Portugal, Eurico Monteiro, tinha igualmente pedido a clarificação "cabal" das circunstâncias da morte do jovem.
 
TSF | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-garante-que-responsaveis-por.html

Se não é racismo… é Folquismo

Bem !! vocês não vão acreditar o interrogatório que foi, quando eu disse à família que este verão, não vamos de férias a Portugal. Uma chuva de perguntas… meu Deus!!.

 

 

Tenho três meninos de 10 anos, são trigémeo, a Barbara, a Viva e o Ivo. Eles estão habituados desde sempre que em Agosto vamos a Portugal…..Vivem o ano a sonhar com isso…

Não vamos a Portugal !!!??? Porquêéé papa?. … Infelizmente o Papa já não tem carro… Como assim ? …. caí numa emboscada dos Folquistas e ficaram-me com o carro.

Quem !?Como!?..pergunta a Barbara…. O Estado Português, levaram-me o carro. Sem tu saberes?… sim sem eu saber…. Não me devolvem o carro e assim fiquei sem carro.. Não é verdade!! o Estado Português roubou-te o carro?!. Ché!!, não fala assim!, diz o Ivo, É falta de respeito, o Estado não rouba.

Que eu saiba, quem pega um carro, não avisa, nem devolve…. está a roubar (as respostas da Viva são sempre muito inconvenientes)…

E volta à carga…. Papa, cometeste algum crime?. Não filha deixei o carro no lugar do costume e viemos para Luanda. Só que nesse entretanto, aquela empresa dos parquímetros, estão a ver aquelas máquinas que vocês lutam pra por uma moeda quando se estaciona, sai um papelinho e coloca-se no para-brisas?. Pois, essa empresa mesma, chama-se Emel… é do Estado Português e resolveu instalar novas máquinas de moedas na nossa rua e eu não podia adivinhar… tinha que se pagar……… acabaram por levar o carro pediram muiiitos euros para devolver…

Quer dizer que quando eles põem os parquímetros nem os vizinhos podem mais estacionar sem pôr moedinhas ??……nNão é isso. Os moradores devem inscrever-se na Emel e pagam só 14 euros por mês pra poderem estacionar à vontade. São só 140 euros por ano.

E o Papa não tinha 140 euros?. Tas assim tão pobre papa !? (novamente a viva..).Tinha sim filha, o problema é que quando levam o carro começam a contar uma multa de 22 euros por dia….passaram-se muito dias até que alguém me avisasse. Quando chegamos em agosto a multa já ia em 2300 euros, com as voltas que me deram, acabou por chegar aos 5300 Euros.

Como o Papa ultimamente anda mesmo pobrezinho sem dinheiro, eles mandaram o carro para o abate… isto é, venderam a outra pessoa …

Como assim?…. não explicastes que não estavas em Lisboa….expliquei sim, pedi perdão, pedi de joelhos… pedi várias vezes para ser recebido pela Dra. Luisa Folque…. mesmo assim nada !. mostrei os nossos bilhetes de passagem, fui lá até cansar… nunca me recebeu.. nem a mim nem aos outros Angolanos com carros apreendidos… só querem dinheiro, pagamento, mais nada!!. Folquismo é assim…..

Folquismo? Nunca ouvi essa palavra ??.

Já sei!!, é Racismo!, (diz o Ivo), como vocês são angolanos não devolvem os carros. Não filho não é Racismo…. então é Escravatura!! (diz a Viva), não! Não! é Colonialismo!, (remate da Barbara) a minha professora lá na escola falou nisso……. (Trigémeo são uma competição permanente…..)

Não meninos…nada disso… é Folquismo, vou explicar:

Escravatura, Colonialismo, Racismo ou Folquismo tem tudo a mesma intenção. Acontece quando as pessoas de Poder numa Etnia ou raça se sentem superiores e entendem que por uma razão qualquer, pessoas de outras raças não são capazes de se defender. Daí cresces-lhes a ganância e engendram formas de lhes extorquir dinheiro.

Papa, desculpa… não entendi nada !!.

Calma, .. estou a explicar ….

Escravatura é quando a Lei de um Estado permite que os indivíduos de uma raça comprem e vendam pessoas de outra raça, como se fosse gado. Põem-nas a trabalhar nas suas casas e não lhes pagam salários.

Na América, era assim, os brancos compravam e vendiam os negros…. só que depois os negros não chegavam para todos e os brancos começaram-se a matar uns aos outros. Foi a Guerra Civil Americana. Quando acabou, os brancos estavam tão cansados, que decidiram abolir a Escravatura em 1865.

Agora o Colonialismo é diferente. Os militares de um País ocupam outro país e dizem que é dele. Imagina, estas em Angola à tua volta toda gente é negra, mas o Presidente, os Ministros, os Governadores, enfim todos que mandam são brancos de Portugal, quer dizer,… os brancos eram os ricos, os negros estavam aí para os servir… mas do mal o menos…já recebiam salário.. Isso foi durante centenas de anos.

Mas depois vieram os Combatentes da Liberdade, Agostinho Neto, Amílcar Cabral da Guiné e Cabo-Verde, Samora Machel e outros de Moçambique e correram com os Portugueses…. Graças ao sacrifício desses homens, vocês já nasceram numa Angola libertada, , o povo é negro os dirigentes também são negros…..Também já não há nada disso de Colonialismo.

Então e o Racismo? Pergunta a Barbara.

É assim, todos são do mesmo país Brancos e Negros, mas a Lei do Estado é diferente para uns e para outros. Tipo, os brancos podem votar os negros não… Faz de conta, estás na América …. queres andar de autocarro, compras o teu bilhete numa fila só de negros, e vês outra fila só dos brancos….. pagas o mesmo pelo bilhete mas vais pra te sentar encontras uma placa que diz “só pra brancos” teu lugar é lá no fundo.….. bancos de metal.…. Ai de ti ocupar um assento dos brancos…eles juntam-se e dão-te uma surra de morte… chama-se a isso linchar… quando a polícia chega… explicam que eras um negro teimoso, lançam o teu cadáver na lixeira e já está, todos vão pra casa.. Isso era o Racismo; na África do Sul chamava-se Apartheid.

O Martin Luther King lutou contra isso, acabou morto a tiro pelos brancos aos 39 anos. O Presidente Mandela foi torturado 27 anos na prisão por lutar contra o Apartheid. Deram as suas vidas ao Inferno para que todos os meninos de pele escura como vocês, nascessem livres do Racismo.



 
 


Sim Papa entendemos… então e agora o Folquismo?.

O Folquismo não… O Folquismo é outro estratagema,.. A Lei diz que brancos negros ciganos, chineses, todos são iguais…. Democracia…. verdade? Ya!.  Folquismo é quando os agentes do Poder usam a mesma Lei de Todos, para extorquir mais benefícios de uns do que dos outros…. Por exemplo, o papa vai à discoteca em Lisboa com o Tio Zézé, passeamos de bar em bar, meninos e meninas brancas aos milhares. Divertem-se, dançam, bebem nós lá também no meio, somos minoria… No regresso a casa, a Policia pára-nos… olhamos prós carros à volta, de repente somos maioria !?, só negros a soprar o balão!… Engraçado, né !?. Enquanto isso os meninos brancos passam em velocidade, de cerveja na mão, cumprimentam os policias “Oh Manel!!” seguem na sua alegria. Isso é Folquismo. Tão a ver ?.

Mas Papa,.. se a Lei é igual para todos….?, A Lei é igual para todos sim, a sua leitura é que não é igual. A Lei é um texto escrito pelos homens e portanto tem imperfeições. Ela é contraditória, admite circunstâncias,  excepções, atenuantes, etc… Conforme a intenção do agente que a lê e faz cumprir,  a mesma Lei pode perdoar uns ou penalizar outros, ao ponto de tornar-se injusta. Se a intenção é extorquir dinheiro ao cidadão de uma etnia particular, ele vai encontrar os argumentos e a leitura certa, para atribuir culpa aqueles cidadãos. Se a intenção é salvar os brancos, ainda que com culpa comprovada, vai procurar os mecanismos na Lei que permitem diminuir ou mesmo suprimir a pena… Tudo depende da intenção do agente. Se é um Folquista tas frito!.

Então a culpa é do Estado que roubou o carro pra ficar com dinheiro? (pergunta o Ivo). Não filho, o Estado nunca tem culpa. Ele criou duas Leis, uma que obriga a pessoa a pagar um imposto do carro por andar 365 dias do ano na rua e outra que proíbe a pessoa de deixar o carro na rua mais de 30 dias. Depois deixou os Folquistas escolher as suas vítimas……

São milhões de brancos que estacionam os seus carros na rua por mais de 30 dias, os doentes, os velhos, os que querem poupar e andam de metro, os que têm o carro avariado e estão a espera de ter dinheiro para comprar as peças, os que viajam em serviço ou de férias, os emigrantes, os que têm mais de um carro…… milhões!… Os Folquistas não se alimentam desses….

Haa eu tenho medo dos Folquistas Papa!! são muito perigosos !!(diz a barbara).

Não filha.. os  Folquistas não matam, nem são violentos. São só pessoas de espírito podre. São mestres na arte do cinismo. O Folquista é civilizado, de sorriso na boca, palmadinha nas costas… como se tivesse preocupado contigo e te quisesse ajudar. O braço do Folquista aponta para Norte, a boca diz Sul. O Folquista nunca sabe de nada. O Folquista escreve pouco, talvez três palavras na areia… logo apaga. O Folquista acompanha os teus movimentos por detrás do espelho, telefona mas não atende chamadas; O Folquista é surdo quando lhe falas e mudo quando lhe perguntas. Sai quando chegas e chega quando já saístes. O Folquista guia os teus passos, do princípio ao fim, manobra-te até ao precipício, mas não te empurra. Tu próprio tropeças…. a culpa é tua.

O Folquismo é a última brasa de um grande incêndio que arde há 500 anos, começou com a Escravatura, o Colonialismo e o Racismo até chegar aqui… Nunca perdeu o seu foco: abuso de uma raça sobre outras, para extorquir dinheiro.….. onde o branco é perdoado, tu és culpado porque és negro. Na ideia do folquista o negro não sabes se defender.

Então e agora papa? .. vais fazer o quê?. Vais fazer queixa da Emel no tribunal ?…. não me parece (diz a viva)..Se a Emel é do Estado, os Folquistas são do Estado e os tribunais também são do Estado, hahaha não vais longe….

Entendestes tudo minha filha….. mas imagina que o Presidente Mandela me estivesse a ver lá do céu… o que é que havia de dizer?. Haaa esquece isso, somos mesmo uma raça incapaz… seremos eternamente abusados.. não vais conseguir rehaver o teu dinheiro.Achas !?.. Não!”.

O vosso avô dizia, “ganhando ou perdendo temos de lutar!”. Queixar-me em Tribunal é uma homenagem a todos os que se sacrificaram. É mais  uma Denúncia Pública ao Folquismo. É um alerta que há de sair nos jornais, nas televisões no whatsap, no facebook, aqui em Angola, como em Portugal, na Guiné, Moçambique, São Tomé… até que todos os negros saibam reconhecer o mau hálito do Folquista quando fala e saibam defender-se. Só assim o mundo melhora.

Para denunciar é preciso acreditar que o Povo Português não é Folquista. Só umas poucas almas cobardes, consumidas pela inveja, que sentem vergonha quando se olham ao espelho é que são Folquistas…..

Ok meninos !, por hoje chega! vamos mudar de assunto.

Papa! não ! só mais uma pergunta….. Então e porquê que se chama Folquismo ?….

… pois é… se não é Racismo, tem de ter outro nome. Ora vejamos, definem-se as coisas pelas suas semelhanças e diferenças.

… Por exemplo: estão a ver a Gazela Thomson ?… aquela que as cheetahs caçam muito no Animal Planete? ….. A  Gazela Thomson não é um cabrito. É como um cabrito, mas com pernas altas que lhe permitem correr a 90 km/hora e dar saltos espectaculares de 15 metros.

A Gazela chama-se Thomson porque foi um caçador de fortunas escocês, Joseph Thomson, que num passeio por África em 1878, tirou-lhe umas fotos e ao dar entrada nas bibliotecas da Ciência, assinou por baixo. Ficou a chamar-se “Gazela Thomson”.

Folquismo também não é Racismo. É usar uma combinação habilidosa e cínica das Leis da Democracia, para tornar uma raça culpada e extorquir-lhe dinheiro.

Chama-se Folquismo porque foi a Doutora Luisa Folque, Provedora do Cliente da Emel que assinou por baixo o documento que em suposta Democracia, me tornou culpado, confiscou-me o carro para revenda, arrecadando de um só golpe 5300 Euros, equivalente à cobrança de 140 euros/ano de estacionamento, durante os próximos 40 anos.

Quer dizer…., muito depois do carro ser lançado à sucata, vocês já velhinhos, o Papa morto e enterrado, ainda estarei a pagar estacionamento à Emel….


por Gentil Viana, Angola | Texto em português de Angola


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/se-nao-e-racismo-e-folquismo/

Racismo e prepotência na EMEL

Da SOS Racismo recebemos a seguinte denúncia em relação à EMEL.

 

O esclarecimento de Gentil Viana é perfeitamente claro e exige uma atuação contra este abuso de autoridade e desprezo a um cidadão luso-angolano.

Em baixo segue o email de Gentil Viana.

 

Date: quarta, 4/12/2019 à(s) 18:51
Subject: SOLICITAÇÃO DE AJUDA A CASO DE ABUSO ASSENTE NO PRECONCEITO RACISTA DA PROVEDORA DA EMEL (DRA. LUISA FOLQUE)

Exmos Senhores (as).

Chamo.me Gentil Viana, sou cidadão de dupla nacionalidade (Angolana e Portuguesa) e venho solicitar a ajuda da SOS RACISMO para o enquadramento de um caso de absoluto abuso da EMEL ( gestores dos parquímetros – Lisboa), que assume um formato claramente racista.

O caso resume-se ao seguinte episódio:

Trabalho em Luanda, e uma mês por ano, (Agosto), trago a minha família para férias a Portugal.

Comprei um apartamento em Lisboa (Lumiar) e um carro, que normalmente deixo estacionado à meu prédio, numa rua sem parquímetros da Emel.

Em Maio deste ano, a Emel decidiu expandir os seus parquímetros Rua Ladislau Patrício, onde desde sempre deixo estacionado o meu carro.

Semanas antes a Emel desenvolveu uma campanha de sensibilização com folhetos e avisos nos edifícios à volta, facto que não chegou ao meu conhecimento, já que só chego a Lisboa normalmente em agosto e a minha residência fica vazia, durante a restante parte do ano.

Os mesmos avisos dão a cada morador do bairro a oportunidade de inscreverem os seus automóveis na Emel e por uma taxa mensal de 12 euros (144 euros ano), continuarem a estacionar os seus carros na mesma rua ou nos bairros adjacentes.

Dias após a instalação dos seus parquímetros, a Emel, decidiu recolher os automóveis que não estavam inscritos e continuavam estacionar e levá-los para um chamado PARQUE DE REBOCADOS, onde a partir daí uma multa seria cobrada (22 euros dia) até à regularização da situação.

Por uma coincidência sou avisado por um primo meu, em Julho que o meu carro estava apreendido pela Emel, (que a contagem já estava em mais de 1000 Euros de multa), mas que se eu enviasse um email à Emel a retratar a minha situação, suspenderiam a contagem das multas diárias e eventualmente compreenderiam a minha situação particular, após o que poderia recuperar o meu carro, sem custas maiores. Obviamente, na mesma altura comuniquei à Emel a minha situação, via email, avisando que estaria em Lisboa nos primeiros dias de Agosto para levantar o carro.  Recebi um ofício da EMEL a solicitar que comprovasse a minha ausência com documentos válidos. Até aí achei que estava tudo dentro do correto e resolvido…..

Assim fiz, mandei os documentos em posse e logo à chegada Lisboa, dirigi-me ao Parque de Rebocados para levantar o carro. Infelizmente  encontrei que a contagem de multa continuava ativa ( já ía em 2300 Euros), mas que (do mal o menos),  ….o pessoal de balcão achavam a minha situação fácil de resolver, desde que eu apresentasse a PROVEDORA da Emel ( DRA LUISA FOLQUE), os comprovativos da minha ausência do país. Para o efeito teria que me dirigir à Provedoria, que por coincidência fica mesmo à frente do meu apartamento no Lumiar. Mandei um milhão de email com as minhas passagens, as páginas todas dos meus dois passaportes a comprovar a minha ausência…..mas nunca recebia qualquer tipo de resposta.

Desesperado e  a precisar do carro para não arruinar as férias dos meus filhos….(acabaram mesmo arruinadas)….dirigi-me pessoalmente para a Provedoria e é aí que me apercebo que o caso assumia uma configuração claramente racista:

1o. O Segurança (  …também de minoria étnica…) avisou-me logo na porta….” está a perder o seu tempo, não é o primeiro caso, já estiveram aqui vários angolanos com casos parecidos. A Provedora não recebe africanos e eles acabam todos por pagar ou perder os seus carros…aconselho-o a pagar e levantar o carro, …….seja qual for a multa…antes que seja tarde….”.

2o. Efetivamente após várias tentativas de me explicar, solicitações de audiências, cartas escritas, email enviados nunca fui recebido, nem obtive respostas, nem ninguém da minha família  (incluindo o meu primo que vive em Lisboa e a minha sobrinha advogada, a quem pedi que intercedessem a meu favor).

3o. recebi sim um único email, 60 dias depois de eu enviar os emails a explicar a minha situação, dizendo que em 45 dias, se o carro não fosse levantado (ja multa de balcão ía em 3000 Euros), seria considerado abandono de veículo, sendo o mesmo conduzido ao PARQUE DOS ABATES, para venda em asta pública.

Assim aconteceu. Perdi o carro porque não tinha o dinheiro para o levantar e ( em desespero de causa), optei por vendê-lo à primeira pessoa que me aparecesse com o valor da multa cobrada até aquela data pela Emel + custo do reboque. (5600 Euros). Este valor corresponde a um oitavo do que paguei pelo carro, e a 40 anos de estacionamentos oficialmente cobrados pela EMEL (140 Eur/ano), a que eu tinha direito…..se o direito fosse efetivamente concedido a africanos…..que conforme aprendi, é exclusivo dos não-africanos…

Obviamente indignado e revoltado por essa privação do respeito e da dignidade mínima humana, por essa fraude cínica de Estado, encapuçada na Lei e na Constituição Portuguesa, gostaria de saber se a Associação SOS-RACISMO pode ajudar-me a :

1o. DIVULGAR MASSIVAMENTE ESTA SITUAÇÃO, NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, REDES SOCIAIS E OUTRAS PARA QUE OS AFRICANOS QUE INVESTEM OS SEUS RECURSOS EM PORTUGAL, POSSAM ESTAR DE SOBREAVISO SOBRE OS PRECONCEITOS RACISTAS DA PROVEDORA DA EMEL (DRA LUISA FOLQUE).

2o. ENCONTRAR APOIO PARA EM FÔRO JUDICIAL, LEVAR A EMEL A PAGAR POR ESTA MANOBRA CRIMINOSA DE MULTIPLICAR 40 VEZES AS SUAS RECEITAS, PELA DESINFORMAÇÃO E NEGAÇÃO DOS DIREITOS BÁSICOS DO CIDADÃO DE ETNIA AFRICANA.

Do meu lado em Angola, vou usar de todas as minhas forças para divulgar esta atitude racista da DRA LUISA FOLQUE, junto das instituições oficiais, nomeadamente o MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS DE ANGOLA,  a EMBAIXADA DE PORTUGAL EM ANGOLA e a EMBAIXADA DE ANGOLA EM PORTUGAL, tal como irei conduzir uma campanha junto da comunicação social e redes sociais angolanas, para avisar os Angolanos que gostam de Portugal e divulgar estas injustiças praticadas sob o guarda-chuva do ESTADO PORTUGUÊS.

Aguardo com expectativa o vosso feedback.

Gentil Viana

 


 

Exma. Sra. Dra. Fátima Vaz,

Boa tarde,

Na sequência dos vários emails trocados com a EMEL, foi me indicado que poderia dirigir-me ao Parque de Rebocados para recuperar a viatura.

Quando lá cheguei fui propriamente atendido com a seguinte explicação:

“pode levantar a viatura imediatamente se pagar as custas”

” para completar o seu processo de prova de ausência do país, faltam o bilhete de partida e respectivo boarding pass”.

Assim, voltei para o meu computador recolher o maior número de elementos possível que atestam a minha ausência à data da implantação dos parquímetros pela EMEL. Junto nas mensagens seguintes os elementos que consegui reunir.

Como a minha partida (Lisboa-Luanda), aconteceu a 5 de Setembro de 2018 ( 1 ano atrás), apenas consegui resgatar o print do bilhete de passagem conjunto, incluindo o da minha mulher FATIMA MONTEIRO e dos meus 3 filhos ( Barbara, Viva e Ivo Viana). Os prints dos Boarding Passes não consegui recuperar pois já se passou muito tempo e nunca poderia imaginar que havia de precisar deles agora…..

Entretanto ao longo destes meses, só me desloquei, junto com a minha esposa de Luanda para Africa do Sul ( LUANDA-JOHANNESBURGO), para assistir à entrega do Diploma de Formação da nossa filha TAMARA LUANA MONTEIRO VIANA.

Essa deslocação consigo provar com bilhete de passagem/ boarding pass e carimbo de entrada  e saída tanto de Luanda como de Johannesburg no meu passaporte Angolano. (…para fazer essa viagem 14 de Outubro 2018, teria que estar fora de Lisboa ….obviamente). Daquela data em diante, uma vêz regressado a Luanda, só voltei a saír de Luanda para Lisboa a 2 Agosto 2019, conforme prova o boarding pass junto em email anterior….

Para que não haja quaisquer dúvidas quanto à minha ausência de Lisboa aquando da implantação dos parquímetros, optei por fotografar todas as páginas dos meus dois passaportes ( Português e Angolano), e junta-las em anexo.

Faço igualmente o forward dos prints enviados pela minha esposa para o meu email comprovando o referido percurso….

Se necessário posso levar os meus passaportes aos vossos escritórios para uma análise em detalhe….

Obrigado pela Compreensão.

Gentil Viana

 

Nota de edição: tentamos obter uma declaração da parte da EMEL, mas o telefone esteve sempre indisponível.


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/racismo-e-prepotencia-na-emel/

Fred Hampton: Um visionário negro assassinado pelo FBI

Cinquenta anos atrás, um esquadrão de policiais de Chicago matou os líderes dos Panteras Negras Fred Hampton e Mark Clark em uma operação antes do amanhecer no apartamento onde estavam dormindo. Nas décadas seguintes, um conjunto de evidências reveladoras surgiu, mostrando que Hampton foi vítima de um assassinato político, sancionado nos níveis mais altos do governo dos EUA.

A história segue sendo importante hoje, mas não porque o FBI ainda se envolve em assassinatos. O Bureau tem como alvo os “extremistas da identidade negra” por motivos frágeis, mas não há evidências de que tenha matado nenhum deles. De fato, o diretor do FBI, Christopher Wray, diz que novos agentes são obrigados a estudar o famigerado COINTELPRO (Programa de Contrainteligência) precisamente para aprender o que não fazer.

O que Wray prefere não contar a seus funcionários ou ao público é que um de seus antecessores, J. Edgar Hoover, instigou o assassinato de um promissor líder político afro-americano e se safou. O assassinato de Hampton foi um exemplo de como as agências policiais e de inteligência dos EUA roubaram os EUA a esperança e a mudança pacífica sem que nunca tenham sido responsabilizadas.

Ninguém nunca foi condenado pelo assassinato de Hampton. Até hoje, muitos jornalistas e historiadores não estão dispostos a afirmar que Hoover e outras altas autoridades americanas apoiaram o assassinato de inimigos domésticos. No entanto, evidências circunstanciais convincentes demonstram que eles fizeram exatamente isso no caso de Fred Hampton.

A história do assassinato de Hampton não é tão conhecida como a do presidente Kennedy, Martin Luther King, Robert Kennedy e Malcolm X. Em 2018, um grupo diversificado de cidadãos formou o Comitê de Verdade e Reconciliação, que pede a reabertura do investigações desses quatro assassinatos famosos. (Sou um membro.) A história de Fred Hampton mostra por que isso é necessário.

O terrível assassinato de Hampton tem muito em comum com as mortes de JFK, MLK, RFK e Malcolm. Trata-se de um crime político não resolvido, repleto de improbidade oficial e envolto em uma cobertura aduladora por parte da mídia.

Quem era Fred Hampton?

Aos 21 anos, Hampton era um estudante de honra do subúrbio de Chicago e um líder experiente. Ele começou como organizador da Associação Nacional Integracionista para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP). Ele ganhou destaque como líder do Partido dos Panteras Negras, que desprezava a NAACP como muito acomodadora para os brancos. Numa época em que muitos militantes negros preferiam dashikis e jaquetas de couro, Hampton usava uma camisa de botão e um pulôver.

Um auto-descrito “revolucionário”, Hampton imaginou o futuro do movimento dos direitos civis como uma “coalizão arco-íris” de pessoas brancas, pretas, marrons, amarelas e vermelhas. Jesse Jackson adotaria mais tarde o termo como o nome de sua organização e o tema de suas inovadoras campanhas presidenciais de 1984 e 1988. Em resumo, Hampton era um líder carismático com uma visão de casar o evangelho social de King ao nacionalismo militante de Malcolm X.

Não por acaso, Malcolm X, King e Hampton foram assassinados no espaço de quatro anos.

O FBI estava envolvido?

O ataque que matou Hampton foi o culminar do notório Programa de Contrainteligência do FBI. O COINTELPRO, como é conhecido, geralmente é identificado como um programa do FBI. Na realidade, o COINTELPRO se originou na CIA. Quando o chefe de contra-inteligência da CIA, James Angleton, lançou um programa secreto e ilegal para abrir as cartas dos norte-americanos em 1957, ele forneceu os resultados a Hoover, juntamente com as técnicas para “neutralizar” os inimigos. O COINTELPRO foi a implementação doméstica dos procedimentos operacionais padrão da CIA em outros países.

Como vice de Hoover (e amigo próximo de Angleton) William Sullivan explicou mais tarde aos investigadores do Senado, o “duro, duro negócio sujo” da contra-espionagem estrangeira foi “trazido para casa contra qualquer organização contra a qual fossemos direcionados.”

Hoover considerava todos os líderes afro-americanos, exceto os mais quiescentes, como defensores do “ódio”. Era a projeção bizarra de um homem odioso, não muito diferente da retórica da descendência política de Hoover – Rush Limbaugh e Donald Trump – que zomba de Barack Obama como um “racista”.

O significado de “neutralizar”

Um dos primeiros alvos do COINTELPRO foi Martin Luther King, um defensor religioso da não-violência e da integração. Em 1964, agentes do FBI enviaram a King uma carta dizendo que “seu fim está se aproximando…. Acabou para você…. Existe apenas uma saída para você.” Os colegas de King entenderam a carta como um convite não muito sutil para cometer suicídio.

Quando o movimento pelos direitos civis floresceu na década de 1960, Hoover se tornou mais explícito sobre suas técnicas de repressão. Em um memorando de agosto de 1967, disponível no site do FBI, Hoover disse que o objetivo do COINTELPRO era “expor, interromper, desviar ou neutralizar as atividades de nacionalistas negros, organizações e grupos de ódio, suas liderança, porta-vozes, associações e apoiadores”.

Quando o Partido dos Panteras Negras (BPP) explodiu como um movimento popular entre afro-americanos impacientes com a abordagem de “dar a outra face” de King, Hoover enviou outro memorando ordenando aos escritórios do FBI que submetessem “medidas de contra-inteligência imaginativas e contundentes destinadas a incapacitar o BPP.”

A linguagem era um convite à violência política: imaginativa, contundente, incapacitante. O propósito, enfatizou o diretor racista, era “prevenir a violência … identificar os causadores de problemas e neutralizá-los antes que eles exercessem seu potencial de violência”. O objetivo, ele explicou, era impedir o surgimento de líderes que pudessem “unificar e eletrificar” a comunidade negra, como Malcolm X e King aspiravam fazer.

A maioria dos policiais brancos com armas e distintivos entendeu muito bem o que Hoover pretendia quando usou a palavra “neutralizar”. Mas muitos jornalistas e historiadores brancos ainda não o fazem.

Em um memorando de janeiro de 1969, Hoover reiterou que os Panteras eram um alvo principal do COINTELLPRO porque o grupo estava tentando melhorar sua imagem. Não por acaso, Hampton estava nas manchetes, com seus esforços para forjar uma trégua entre as gangues de rua e ativistas revolucionários de Chicago.

Na época, os agentes da COINTELPRO regularmente infiltravam informantes e provocadores nas gangues e nos Panteras com o objetivo de provocar violência entre eles. Essa tática foi letalmente bem-sucedida. E qualquer um que ousasse dizer que o FBI se envolvia em tais táticas certamente seria descrito pela grande imprensa como um “teórico da conspiração”.

Diante de uma terrível violência, os Panteras se recusaram a se render (o que é uma das razões pelas quais a Hollywood negra sonhou com um super-herói chamado “Pantera Negra”). O FBI saqueou a sede dos Panteras em Chicago em julho e outubro de 1969. Em novembro de 1969, um dos Panteras foi emboscado e morto em um tiroteio que deixou dois policiais de Chicago mortos.

Àquela altura, o FBI havia um informante pago, William O´Neal, dentro da organização dos Panteras Negras. De acordo com advogados da família de Hampton, O´Neal deu uma planta baixa do apartamento onde Hampton morava para seu contato da polícia. O plano foi passado a um esquadrão especial de policiais de Chicago que trabalhavam para o Ministério Público do Condado de Cook. O escritório era chefiado por Edward Hanrahan, um promotor politicamente ambicioso. Em 3 de dezembro de 1969, o escritório de Hanrahan notificou Hoover de um plano para invadir o apartamento de Hampton para buscar por armas ilegais.

O que aconteceu em 4 de dezembro?

Os Panteras e a polícia deram versões diametralmente opostas da morte de Hampton. A polícia disse que, quando se anunciaram, foram recebidos com um tiro de espingarda. Os Panteras disseram que os policiais abriram fogo primeiro. Hampton morreu em sua cama, ao lado de sua esposa grávida. Outro líder dos Panteras, Mark Clark, foi morto em outra sala. Quatro pessoas no apartamento ficaram feridas e três saíram ilesas.

As autoridades de Chicago então deram a O´Neal um bônus de 300 dólares e acusaram os sete sobreviventes da invasão por tentativa de assassinato contra os policiais. No julgamento, um examinador da cena do crime do FBI testemunhou que a polícia havia disparado pelo menos 89 tiros e as pessoas no apartamento haviam disparado exatamente um. E ele não veio do quarto de Hampton.

À medida que a indignação pública aumentava, o Departamento de Justiça dos EUA começou a investigar, e Hanrahan retirou as acusações. Um promotor especial do estado indiciou mais tarde ele e outros 13 policiais por obstrução da justiça. Eles foram absolvidos em 1972.

O COINTELPRO foi exposto por um bando valente de assaltantes de esquerda que invadiram um escritório do FBI na Pensilvânia e de lá saíram com um tesouro de documentos secretos do FBI, que compartilharam com repórteres. Em 1975, o Comitê de Inteligência do Senado para as atividades da CIA, conhecido como “Church Comittee“, investigou e documentou uma série de crimes do COINTELPRO. O diretor do FBI, Clarence Kelley, emitiu um pedido de desculpas formal.

Mas o “desculpe” não pagou nenhuma conta pela viúva de Hampton, pelo seu filho pequeno e pelos outros sobreviventes. As famílias das vítimas entraram com uma ação civil de 47 milhões de dólares contra Hanrahan e os policiais, que foram demitidos e reintegrados. Treze anos depois, em 1982, a cidade de Chicago, o Condado de Cook e o Departamento de Justiça dos EUA concordaram em pagar um acordo de 1,85 milhão de dólares, uma admissão tardia de que Hampton havia sido alvejado ilegalmente. Para o sofrimento de sete vítimas e suas famílias, foi um pagamento bem-vindo, mas relativamente parcimonioso.

Hanrahan concorreu duas vezes a prefeito de Chicago; ele perdeu em ambas as vezes. Ele morreu em 2009.

Um assassinato sancionado pelo Estado

O relatório final do Church Comittee denunciou o COINTELPRO, mas se absteve de usar a palavra “assassinato.”

“O COINTELPRO foi mais do que simplesmente violar a lei ou a Constituição. No COINTELPRO, o FBI secretamente tomou a lei em suas próprias mãos, indo além da coleta de informações e além da função de aplicação da lei para agir completamente fora do processo legal e para disfarçar, desacreditar e assediar secretamente grupos e indivíduos.”

Isso foi muito caridoso com o FBI. É verdade que Fred Hampton e seus colegas Panteras foram perturbados, desacreditados e perseguidos. É verdade que alguns Panteras Negras, em outras ocasiões, cometeram crimes ou provocaram encontros violentos com a polícia. Hampton não era um deles. A verdade simples, ainda em grande parte indizível em Washington, é que Hampton foi assassinado – assassinado por razões políticas. Ele foi, em uma palavra, “neutralizado” a pedido dos líderes do governo dos EUA.

É certo que J. Edgar Hoover e James Angleton não conspiraram para matar Fred Hampton em sua cama. Eles apenas incentivaram e permitiram que outros fizessem o “duro, duro negócio sujo” da repressão política, em casa e no exterior. Homens de poder nos EUA sabiam como manter suas impressões digitais longe dos crimes resultantes.

A perda é dolorosa de se contemplar. Se ele tivesse vivido, Fred Hampton teria 71 anos, mais velho que Barack Obama, Kamala Harris e Cory Booker, mais jovem que Donald Trump, Elizabeth Warren, Bernie Sanders e Joe Biden. Talvez ele tivesse feito a revolução. Talvez ele tivesse concorrido à presidência. Talvez ele tivesse feito as duas coisas. Só podemos imaginar as possibilidades que foram extintas naquela noite, há 50 anos.

 

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Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Não estamos todos no café, Tânia Laranjo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/11/2019)

Esta quarta-feira, Tânia Laranjo, jornalista do “Correio da Manhã” e da CMTV, local onde André Ventura se fez político às cavalitas do futebol, partilhou uma piada no seu Facebook. Num “meme”, lê-se: “Black Friday. Leve dois e não pague nenhum.” A acompanhar, as fotografias de dois dos poucos políticos negros deste país: Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba. O post foi apagado depois de uma reação viral.

 

Não sei se consigo explicar, pela enésima vez, que o humor não é uma espécie de salvo conduto para se dizer tudo o que se queira e não se tem coragem. Claro que o humor deve ser lido e ouvido como humor. Conta o contexto em que é dito. É por isso que não foram muitas as vezes que me viram protestar com piadas, mesmo de mau gosto. Raramente dou para esse peditório, porque as fronteiras entre o puritanismo e a exigência ética nem sempre são claras. Mas isso não implica que o humor nos limite a capacidade crítica. Pelo contrário, ele deve servir para a aguçar. E “só” humor não chega.

Não tenho dúvidas que Tânia Laranjo não queria ser racista. Quando se insiste que o racismo não é uma questão meramente pessoal, é porque se tem consciência que o racismo social começa pela insensibilidade perante a sensibilidade dos outros. É a ausência desses outros, quase sempre com menos poder para reagir no espaço público, que permitiu que imensa gente se convencesse que isso não os incomodava. É como se fossem todos nossos amigos, não tem mal nenhum. Neste caso, a coisa é um pouco pior. Uma piada com a compra de negros num dia de saldos, num país que tem uma história de escravatura, é especialmente ofensiva. Obviamente tal ideia nem sequer ocorreu a Tânia Laranjo. A pouca gente, aliás. No país que transformou a escravatura num negócio global nada que não engrandeça os nossos feitos é tema. Publicasse esta piada nos EUA ou em muitos países europeus e Tânia Laranjo estaria em muito maus lençóis.

Dirão que estou ser hipersensível com o post de Tânia Laranjo. A minha sensibilidade é a mesma que Tânia Laranjo demonstrou, e muito bem, quando o inenarrável advogado de José Sócrates lhe disse “a senhora devia tomar banho, cheira mal!” Pôs-lhe um processo, para além da multa de oito mil euros que João Araújo teve de lhe pagar. Não me parece que se o advogado dissesse que aquilo era só uma piada se tivesse livrado da condenação. Pois a sensibilidade de Tânia Laranjo não vale mais do que a sensibilidade de Mamadou Ba e Joacine Katar Moreira.

Agrava tudo isto o facto de a piadista ser jornalista. Uma jornalista que, a qualquer momento, poderá ter de contactar ou entrevistar a deputada do Livre. Ao abrigo da liberdade de imprensa e dos deveres dos deputados perante os eleitores, espera-se que Joacine fale com jornalistas. Mas estará obrigada a falar com uma jornalista que fez piadas com a sua cor? Terão alguns jornalistas que usam as redes sociais como se fossem cidadãos comuns a consciência da situação em que se colocam e em que colocam os órgãos de comunicação social para que trabalham? código deontológico dos jornalistas é, no seu ponto 9, bastante claro: “O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da ascendência, cor, etnia, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social, idade, sexo, género ou orientação sexual.” Não me parece que esta rejeição só se aplique à hora de expediente. Aplica-se a todos os momentos públicos, que são os únicos que interessam.

Quis o destino que este episódio acontecesse no mesmo dia em que a deputada Joacine Katar Moreira resolveu fazer-se acompanhar por um sargento da GNR nos corredores da Assembleia da República para não ser importunada por jornalistas. Carregado de razão, o Sindicato dos Jornalistas considerou que “a decisão da deputada atenta contra a liberdade de imprensa e revela uma prática antidemocrática tomada dentro da própria Casa da Democracia”. A própria secretaria-geral da Assembleia da República foi obrigada a esclarecer que os oficiais da GNR de São Bento só podem acompanhar os deputados quando estiver em causa a sua segurança. Não são um escudo contra jornalistas atrevidos que fazem perguntas a deputados. Espero que à justa condenação da atitude prepotente da deputada se venha a juntar a condenação de mensagens racistas de uma jornalista que a teve como alvo. Seja a sério ou em versão piadística.

A reação de muita gente a este tipo de casos é dizer que há uma hipersensibilidade com piadas que antes se diziam sem qualquer problema. Isso pode ser verdade, e significa apenas que há gente que se ofende e antes não tinha voz (vejam a etnia de muitas das pessoas que, ofendidas, partilharam o post da jornalista). Mas a principal mudança não é essa.

A grande mudança destes tempos é que, com as redes sociais, as pessoas passaram a escrever no espaço público o que antes diziam aos amigos, numa mesa de café. E há uma diferença, que provavelmente temos de reaprender, entre o espaço privado, onde falamos com pessoas que conhecemos e cuja sensibilidade podemos prever, e o que dizemos no espaço público, onde ajudamos a formar opinião, damos força a preconceitos e ódios ou ferimos pessoas que não conhecemos de lado nenhum.

Assim como a frase “a senhora devia tomar banho, cheira mal!” dita numa discussão privada ou em frente às câmaras é bastante diferente. Os limites do humor são seguramente outros, mas nada disto deixa de ser verdade por ser uma piada. E achem o que acharem da história de Bernardo Silva, não são legítimas quaisquer comparações. Tânia Laranjo tem outras responsabilidades e, que se saiba, não é amiga de Mamadou Ba e Joacine Katar Moreira.

Tania Laranjo

Para se defender, a jornalista socorreu-se da velha frase “até tenho amigos pretos”. No caso, “tenho na minha família angolanos pretos”. Pouco interessa se Tânia Laranjo é racista com familiares negros ou não é racista, mesmo que só tenha parentes brancos. Interessa que é jornalista, que fez uma piada evidentemente racista num espaço público com um dirigente associativo e um deputado sobre o qual poderá escrever a qualquer momento. Isto não é como se estivéssemos todos à volta de uma mesa de café. E está na altura de pessoas que têm responsabilidades públicas e usam redes sociais o começarem a perceber.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O socialismo tem que ser antirracista

As medidas tomadas após o triunfo de janeiro de 1959 foram um golpe devastador para os componentes estruturais do racismo. A outra grande batalha é exibir métodos educacionais e culturais que contribuam para uma nova subjetividade

Autor: Pedro de la Hoz | pedro@granma.cu

Novembro, 2019

Poster do artista cubano Raúl Martinez.

 Na estante de uma feira de livros, a inscrição gravada numa camiseta chamou a minha atenção: «Não existem raças; racismo sim». Fernando Ortiz escreveu em 1946, El engaño de las razas  (O engano das raças), um ensaio-chave na evolução de um pensamento antropológico que o levou a pensar no etno cubano em termos de plena integração. Este sábio, cientificamente e conceitualmente, desmantelou a aplicação de padrões raciais para classificar os seres humanos e tentar justificar a superioridade de um sobre o outro pela cor da pele.

Meio século depois, quando a vanguarda da comunidade científica decifrou o genoma humano, a afirmação ortodoxa antecipada foi novamente confirmada: existe apenas uma raça, a humana.

Via: Home http://bit.ly/2OkLVxr

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/11/25/o-socialismo-tem-que-ser-antirracista/

SOS Racismo apresenta hoje a sua Agenda para 2020

É este domingo que o SOS Racismo apresenta a sua Agenda anual para 2020. Capa de autoria de João de Azevedo, e grafismo da DDLX.

 

 

Evento Agenda SOS Racismo

Hoje, 24 Novembro, às 18:00
Com Calma – Espaço Cultural
Rua República da Bolívia 5 C, 1500-543 Lisboa

Editorial

 

Genocídios, panaceia letal dos projetos de desumanização

Ao longo dos últimos 15 anos, mais concretamente desde 2004, data da primeira agenda temática do SOS Racismo, temo-nos esforçado, através do encadeamento cronológico quotidiano de cada do ano, por tornar mais presente a relação das diversas dimensões políticas, teóricas, ideológicas e culturais que se relacionam com o racismo. A escolha dos temas de cada agenda corresponde aos debates contemporâneos que marcam o debate público e as disputas políticas e ideológicas sobre as diversas formas de expressão do racismo na nossa sociedade. O fio condutor de todas estas escolhas temáticas das nossas agendas é a necessidade de, para além de conseguir aliar a militância à nossa própria formação política, contribuir para trazer ao debate, de forma mais simples e pragmática, aspetos estruturantes do racismo que, na maior parte das vezes, estão ausentes por omissão deliberada ou por insuficiências várias.

Deste modo, a agenda deste ano 2020 está centrada no tema dos genocídios que, apesar da sua quase inquestionável relação com a questão racial, continua infelizmente a ser um dos temas pouco abordados no debate público sobre o racismo, mas obviamente cujas origem e consequência têm no colonialismo e no racismo o seu âmago.

O tema dos genocídios, as suas manifestações, os seus significados e os seus impactos ao longo da História da Humanidade, assim como as suas influências nas diversas continuidades históricas que marcam a questão racial, são obviamente controversos e muito complexos.

 
 

Por isso mesmo, temos consciência de que não será nesta agenda temática que, por economia de tempo e espaço e pela própria natureza do instrumento, se poderá discutir teórica e ideologicamente cada um destes aspetos da forma mais aprofundada. Naturalmente, face às profundidade e complexidade do tema, assumimos que nossa escolha é não só bastante modesta como evidentemente limitada em termos de abrangência temporal e geográfica. Porque, por agora, o que se propõe é simplesmente trazer de forma pedagógica ao lume a questão dos genocídios, nomeadamente aqueles de que não se fala, com a intenção de lançar o debate sobre uma das questões pouco discutidas e cujos impactos sobre os imaginários coletivos nos processos de racialização, são ainda hoje fulcrais para entender a permanência das estruturas do racismo.

Pese embora situados em épocas e geografias distintas, historicamente os genocídios têm essencialmente um traço comum pelo fato de todos radicarem num projeto de aniquilação e de negação da humanidade que se sustenta em processos de despossessão material e cultural, apropriação económica forçada através da ocupação territorial e dominação política, alimentadas e justificadas pela racialização das populações vitimizadas pelos horrores genocidários. Esta mecânica política, que se constrói por cima ou resulta na mortandade em massa, tem outro traço estrutural comum a quase todos os genocídios: a sua quase sempre colonialidade.

No bojo dos genocídios está intrinsecamente albergado um projeto político de sociedade baseado na ideia de que a existência e a sobrevivência de determinadas comunidades políticas implicam não apenas a subjugação ou exploração de outras, mas também a sua eliminação. Assim, da Escravatura ao Colonialismo, passando pelo Holocausto até às mais variadas chacinas em massa ao longo da História, ancoradas em disputas políticas, podemos constatar que todos os mecanismos de aniquilação humana tiveram como pesada fatura a negação da Humanidade como valor e património universalmente inviolável e inquestionavelmente partilhado por todos os seres humanos, independentemente da sua pertença étnico-racial, geográfica e cultural.

Se naturalmente a ideia não é tanto estabelecer uma métrica do sofrimento e da indignidade da violência que percorre as chacinas em massa dos projetos políticos de extermínio de populações ao longo da História, não deixa também de ser claro para nós que a escolha deste tema tem o objetivo de romper com a hegemonia da classificação, catalogação, interpretação e valoração dos crimes de extermínio como genocídio, como têm sido feitas até agora.

Sendo a nossa uma escolha arbitrária e não exaustiva dos crimes em massa, optamos por nos afastarmos das convenções classificativas do conceito genocídio que deixam de fora muitos horrores históricos de extermínio de populações e circunscrevem a definição de genocídio a uma leitura muito eurocêntrica e totalmente omissa, por exemplo, em relação à Escravatura e ao Imperialismo colonialista e o seu cortejo de assassinatos em massa. Daí que, para além dos mais conhecidos e divulgados extermínios populacionais ao longo da História, encontrar-se-ão, por exemplo, nesta edição da agenda 2020, os muitos genocídios esquecidos ou omissos. Escolhemos falar, por exemplo, dos massacres menos conhecidos ou falados, como a chacina de Leopoldo da Bélgica contra os congoleses ou dos vários massacres coloniais em África e não só, ou ainda do primeiro genocídio do sec. XX perpetrados pelos alemães em África, o dos Hererós e Namaquas, que ocorreu trinta anos antes do início do Holocausto nazi. Assinalamos vários massacres passados ou contemporâneos, como, por exemplo, o  extermínio do povo lapão ou sámi nas regiões norte da Noruega, Suécia, Finlândia e da península de Kola, na Rússia; o genocídio filipino perpetrado pelos EUA na guerra com as Filipinas, ou ainda do Holodomor, conhecido por “Holocausto Ucraniano”; o genocídio cambojano; os massacres do Tibete ou de Nanquim; os massacres do Darfur; o extermínio dos Aborígenes; o genocídio povos indígenas pelos colonialismos ocidentais;  os massacres dos povos Mapuche; o massacre de Srebrenica no genocídio bósnio; os ainda massacres dos  povos yazidi, rohingas, uigures curdos, saharauis, palestianos, etc.

Portanto, assumimos com clareza que, com a escolha do tema do genocídio para a edição da agenda deste ano, o objetivo é tentar resgatar do silêncio as carnificinas motivadas por disputas político-ideológicas, ocultas na narrativa hegemónica sobre os vários horrores da História e, desta forma, contribuir assim para descentrar as suas leituras e interpretações, incorporando um olhar crítico e contra-hegemónico dos seus significados e impactos na questão racial de hoje.

Esperamos, assim, que fique claro para quem usar esta agenda que a ideia não é retratar de forma exaustiva ou cronológica todos os massacres em massa da História, nem discutir concetualmente os alcances e os limites da definição convencionada do genocídio, mas sim, contribuir para romper com as leituras que até agora não foram capazes de registar e elevar a dor e indignidade de atrocidades humanas que não foram acolhidas enquanto tal pela normatividade do conceito de genocídio propagado pelo ocidente. A falta de empatia ou de interesse genuíno para com tantas atrocidades e o desprimor com que são classificadas no sinistro ranking dos malefícios que abalaram a Humanidade, é motivo bastante para não apenas os dar a conhecer, mas até romper com a hierarquização subalternizante das ignomínias que fustigaram partes da Humanidade.

Até agora, a forma como se convencionou erigir determinadas mortandades em genocídios ilustra perfeitamente como, na verdade, a fábrica da comoção coletiva face às barbáries que se abatam sobre muitos povos fora do Ocidente é quase sempre seletiva na “opinião pública” ou publicada. A fábrica da comoção coletiva é tão seletivamente eurocentrista e racista que a maior parte das tragédias assassinas que fustigaram algumas partes da Humanidade é, por omissão ou por negligência despropositada, retratada entre nós sem contundência nem grande indignação moral e, quase sempre, num tom de indiferença.

Numa altura em que a disputa sobre o significado e o impacto dos legados históricos nas formas de expressão do racismo contemporâneo nas nossas sociedades se revelam, simultaneamente, numa vontade de passado e numa obsessão pela absolvição histórica, a memória tem de se transformar numa trincheira política a disputar para garantir que estes crimes não se perpetuam no presente e que não terão nenhuma hipótese de se repetir no futuro. É por isso que, mais do que uma trincheira, a memória é um lugar donde se devem projetar as lutas do presente por um futuro melhor, porque lembrar as atrocidades que fustigaram a Humanidade exige muito mais do que o dever de não esquecer. É uma exigência que convoca sobretudo a obrigação de continuar a lutar contra toda e qualquer barbárie que possa beliscar qualquer parte da humanidade.

Estamos cientes que desenterrar todos os esqueletos putrefactos das barbáries contra a Humanidade do silenciamento das convenções classificativas das atrocidades mortíferas é, sem dúvida, uma tarefa difícil e dolorosa. Mas sem esta capacidade de enfrentar os horrores do passado, mais difícil se tornará a tarefa de operar uma catarse histórica que permita trilhar o caminho da reparação simbólica e real das injustiças da História.

Por acreditar que a disputa pela memória e as suas continuidades históricas é a disputa sobre as formas de enfrentar as suas consequências nos dias de hoje, mesmo com todas as suas limitações, estamos convictos que a escolha do tema dos genocídios para a agenda 2020 participa das possibilidades de resgatar do silêncio e do esquecimento todos os sofrimentos humanos que ainda hoje marcam as relações sociais das nossas sociedades.

MB- 29-08-19

 

Capa de autoria de João de Azevedo e grafismo da DDLX

 

 


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/sos-racismo-apresenta-hoje-a-sua-agenda-para-2020/

Governos conservadores empoderam o racismo

 
 
 
A Nação brasileira é constituída por diferentes matrizes, de várias partes do mundo que, ao longo desses 519 anos de história, tornaram o Brasil um país plural, com uma população diferente de qualquer outra em qualquer parte do mundo.
 
Wadson Ribeiro* | Vermelho | opinião
 
Aqui, além dos nativos, se instalaram europeus, árabes, asiáticos e, de forma mais volumosa, escravos vindos da África. Essa diversidade, que de acordo com Darcy Ribeiro fez do povo brasileiro um povo novo, fruto de toda essa miscigenação, que conferiu ao Brasil a unicidade e a riqueza cultural de seu povo, mas, por outro lado, não corrigiu as assimetrias socioeconômicas advindas da colonização e que ainda hoje se manifestam. Há duas semanas, durante o clássico entre Atlético e Cruzeiro os irmãos Adrierre e Natan da Silva, torcedores do Atlético, agrediram o segurança do Mineirão Fábio Coutinho chamando-o de “macaco” e cuspindo em sua direção. Dias antes, a cuidadora de idosos Eliangela Carlos Lopes, denunciou à Polícia mineira um anúncio de emprego recebido que vetava a seleção de negros. Em outro episódio condenável, o representante do MBL (Movimento Brasil Livre) em Minas, Tiago Dayrell, ofendeu a cozinheira de um restaurante da capital chamando-a de crioula. Esse fato, aliás, parece ter sido premeditado, pois o agressor filmou a confusão que provocou para sensacionalizar nas redes sociais, algo típico desse movimento de caráter fascista.
 
O problema é que episódios como esses não se circunscrevem apenas a cidadãos comuns, o que já revelaria uma aberração, e estão ganhando agora dimensão institucional. Na última terça-feira (19) o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP), da tropa de choque de Bolsonaro, quebrou ao meio um quadro que estava em exposição em plena galeria da Câmara Federal e que retratava o genocídio da população negra no Brasil. O quadro do chargista Latuff expunha a condenável estatística que demonstra que entre 2007 e 2017 a taxa de homicídios de negros no Brasil aumentou em 33,1%. Além disso, a taxa de homicídios de negros foi para 43,1 para cada grupo de 100 mil indivíduos em 2017, ou seja, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente 2,7 negros foram mortos. O empoderamento do racismo no período Bolsonaro se caracteriza por atos e gestos que guardam entre si uma conexão subterrânea. A agressão verbal aos brasileiros que vivem no Nordeste, o aumento das manifestações de racismo nas ruas, a relação que o presidente nutre com setores evangélicos mais radicais, que fomentam ataques à outras religiões, especialmente às de matrizes africanas. O relacionamento com milicianos que exterminam jovens negros nas periferias, ou no asfalto, como no caso da vereadora Marielle, o desespero em armar a população branca e de classe média para se defender da ameaça pobre e negra. Esses são exemplos de um ambiente político e, talvez cultural, que vai se criando e que naturaliza o racismo, a exploração e a violência. Por fim, o que torna o futuro um grande desafio para essa Semana da Consciência Negra é que além da luta de classes, que faz com que uma pequena parcela se torne cada vez mais rica e uma imensa maioria cada vez mais pobre, fenômeno que se intensificou nos últimos anos, a população negra tem ainda que lutar contra o racismo, que em governos como o de Bolsonaro ganham força por sua concepção e composição política e econômica.
 
* Presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/governos-conservadores-empoderam-o.html

Milton Santos: Como superar o apartheid à brasileira

 
 
Para o Dia da Consciência Negra, memória de uma provocação do geógrafo. Para ele, racismo em nosso país tem indecente peculiaridade: aqui, os carrascos é que são os ressentidos. Escolas podem ser contraponto — por isso, são tão temidas…
 
Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.
 
 
Milton Santos
500 anos de culpa
 
Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República [Fernando Henrique Cardoso, na época] considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se aproxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?
 
Hipocrisia permanente
 
No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é?
 
Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.
 
Marcas visíveis
 
Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.
 
Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.
 
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.
 
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro -imagem fácil- e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.
 
Olhar enviesado
 
Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em “faits-divers”, em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
 
Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver “subido na vida”.
 
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.
 
Milton Santos, no GGN, publicado em 13/05/2001 | em Outras Palavras
 
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Brasil | O racismo mata, mutila, machuca

 
 
Nesta terça-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra, o deputado federal Coronel Tadeu (PSL), da base do governo Bolsonaro, destruiu charge do artista Latuff que denunciava a violência policial contra os negros em exposição na Câmara dos Deputados. Em 2018, dois trogloditas candidatos que depois viraram deputados, também apoiadores de primeira hora de Bolsonaro, destruíram placa em homanagem a Marielle, vereadora negra brutalmente assassinada.
 
Os dois fatos (bem como a morte de Marielle) estão diretamente relacionados e são sintomáticos do tempo que vivemos. O Brasil está mergulhado numa perigosa onda de ódio, ignorância e preconceito que procura criminalizar e intimidar todos que denunciam e resistem a tudo aquilo que temos de pior, como se o erro estivesse não nos problemas estruturais do país, mas naqueles que se rebelam contra eles e suas causas. Dentre estes problemas estão o racismo e a desigualdade, que seguem sendo ignorados ou minimizados por parcela considerável da população.
 
Ao contrário do que muitos preferem defender, o Brasil é um país profundamente desigual e racista sim. Atingidas pela discriminação e pelo machismo, as mulheres negras sofrem duplamente. O aumento no número de homicídios de mulheres foi pior para as negras, conforme o Atlas da Violência 2019. Em números absolutos, o crescimento foi de 1,7% entre brancas no período de 2007 a 2017, mas de 60% entre as negras. Elas também são as principais vítimas da violência doméstica, do estupro e de agressões. No campo econômico, as negras têm rendimentos 44% inferior aos de um homem branco e a taxa de desemprego ultrapassa os 16% entre elas. Entre os homens, a realidade também é dura: em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram de indivíduos negros, a maioria deles jovens. E a população negra representa 64% dos desocupados e 66% dos subutilizados. Também é negra a população com menor escolaridade, mais vulnerável à violência (inclusive policial), a maioria da população carcerária e com as piores condições de moradia, saneamento e atendimento à saúde. Dados como estes são apenas alguns que mostram a realidade vivida pela maioria da população (55% é composta por pretos e pardos). Não é possível continuar se negando a enxergar tamanha desigualdade, tamanha iniquidade, que atinge os negros e negras. A denúncia e a luta devem ser cotidianas, devem extrapolar o mês de novembro, devem ultrapassar os limites da população negra; tem de envolver todos os brasileiros e brasileiras. Enquanto essa situação persistir, o Brasil continuará sendo uma nação infeliz que, ao invés de enfrentar seus problemas, prefere fingir que eles não existem, quebrando placas e obras para fingir que o racismo não existe.
 
Abigail Pereira | Vermelho | Ilustração: Latuff

Por que é tão difícil acabar com o racismo no Brasil?

Neste Dia da Consciência Negra (20 de novembro) vale refletir sobre como agir contra o racismo no país. Afinal temos uma lei que define o crime de racismo como inafiançável e imprescritível, mas há muita dificuldade em se condenar alguém por essa prática, principalmente ao se ver nas redes sociais e as ruas inúmeras ofensas a negras e negros todos os dias.

 

 

“Acho impressionante que ainda hoje ser negro seja tão complicado neste país”, disse Beatriz Helena Souza ao comentar uma matéria de 2013 no Portal Vermelho. Isso com Dilma Rousseff na Presidência e com várias políticas públicas como as cotas para combater a desigualdade de oportunidades entre negros e brancos.

“Ao olharmos os números de violência, que crescem ano a ano, percebemos que temos muito o que fazer para acabar com o racismo neste país”, afirma Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

Canto dos Escravos, de Doca e Geraldo Filme, com Clementina de Jesus

 

Ela se refere ao verdadeiro genocídio da juventude negra, pobre e da periferia que ocorre no país. “As mães pretas continuam chorando a morte de seus filhos ainda muito jovens”, diz. De acordo com o 13º Anuário de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano passado, a polícia matou 6.220 pessoas, sendo 99,3% do sexo masculino, 77,9% tinham entre 15 e 29 anos e 75,4% eram negros.

A data marca o aniversário da morte de Zumbi – o último líder do Quilombo dos Palmares, assassinado em 1695. Por isso em 2011 foi aprovada a Lei 12.519, decretando essa data como o Dia da Consciência Negra.

Para Marilene Betros, secretária de Políticas Educacionais da CTB, “é fundamental ensinar nas escolas a formação do povo e da nação brasileira para elevar o patamar de identificação e com isso aumentar a autoestima da nossa juventude.” Como acentua Lidiane Gomes, secretária de Igualdade Racial da CTB-SP, “a nossa educação escolar deve conter e reconhecer a necessidade de contar a história da classe trabalhadora também, como determina a Lei 10.639/03.”

Somente com “uma profunda desconstrução da história contada pelos poderosos é que as negras e os negros podem entender que são parte intrínseca da formação da sociedade brasileira”, argumenta Lidiane. Porque “contado de forma tradicional parece que somos meros coadjuvantes da construção do país.”

 

Podes Crer, amizade, de Toni Tornado e Major

 

Os números do Atlas da Violência 2019, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, confirmam a necessidade de um amplo trabalho de mobilização e conscientização da sociedade para o problema do racismo.

Em 2017, ocorreram 65.602 homicídios no Brasil, de acordo com o estudo, 35.783 eram jovens de 15 a 29 anos. O Atlas também evidenciou o crescimento de crimes contra os negros, a população LGBTI+ e contra as mulheres.

A coisa é tão grave que o lema da 16ª Marcha da Consciência Negra de São Paulo (dia 20, com concentração às 12h no vão do Masp, na avenida Paulista) é “Vida, Liberdade e Futuro. Contra o Genocídio e Criminalização do Povo Negro.”  Em Salvador também ocorre a 40ª Marcha da Consciência Negra Zumbi e Dandara, com concentração às 15h, no Campo Grande.

Somente com “uma profunda desconstrução da história contada pelos poderosos é que as negras e os negros podem entender que são parte intrínseca da formação da sociedade brasileira”, argumenta Lidiane Gomes, secretária de Igualdade Racial da CTB-SP. Porque “como é contada a história de forma tradicional parece que somos meros coadjuvantes da construção do país.”

Mônica emenda afirmando que o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão e isso ocorreu porque “temos uma elite rancorosa, egoísta e que odeia o país e o nossos povo. Não se enxergam enquanto brasileiros e que ainda se ressente desse passado escravista.”

Mas a violência não se expressa apenas com a violência física e com a morte. E mesmo que o número de negros e pardos já supere o de brancos nas universidades federais, o mercado de trabalho continua racista e sexista.

 

Da Lama, de Tássia Reis

 

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que em 2018, os trabalhadores brancos (média salarial de R$ 2.897) ganharam cerca de 75% a mais do que os negros (média salarial de R$ 1.636) e pardos (R$ 1.659). Ainda, segundo o IBGE, 39,8% de mulheres negras têm condições precárias de trabalho, os homens negros são 31,6% nessas condições, as mulheres brancas, 26,9% e os homens brancos, 20,6%.

Entre os desempregados de 2018, 14,4% eram negros, 14,1% pardos e 9,5% brancos. Além disso, realça Mónica, “existem poucos negros e menos ainda negras em cargos de chefia”. Para se ter uma ideia em 2018, foram eleitos apenas 4,09% de deputados federais que se identificam como negros e 20,27% como pardos. Isso em uma sociedade composta por cerca de 55% de não brancos.

 

Libertação, de Russo Passapusso, canta Elza Soares

 

Essa dura realidade começará a mudar quando “as negras e os negros se reconhecerem como sujeitos da história e, com conhecimento sobre os nossos antepassados, assumirem o papel de protagonistas na formação do Brasil”, afirma Lidiane.

Mônica reforça a necessidade de “uma união muito forte do movimento negro” com todos os setores progressistas da sociedade para “construir uma plataforma antirracista e em defesa da democracia para recuperarmos o caráter humano de nossa sociedade.”


Texto em português do Brasil


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/por-que-e-tao-dificil-acabar-com-o-racismo-no-brasil/

Brasil | Na véspera do Dia da Consciência Negra, deputado quebra quadro sobre racismo

Charge retrata um negro algemado caído no chão e um policial com uma arma fumegante se afastando
©Pedro Ladeira/Folhapress

Na véspera da celebração do Dia da Consciência Negra, o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP) quebrou um quadro em exposição na Câmara com o desenho de um jovem negro assassinado e um policial com uma arma na mão. 

A mostra, com duração de um mês, foi aberta nesta terça-feira (19) justamente para marcar a data. Abaixo da charge, de autoria do cartunista Latuff, aparece o título "O genocídio da população negra". A obra também apresentava dados sobre a violência do Estado contra negros. 

O parlamentar justificou a atitude afirmando que fez um "protesto em cima do protesto deles", de acordo com matéria publicada no G1. Tadeu disse que a imagem era um "crime contra as instituições". Tadeu quebrou e pisoteou a peça. 

A exposição foi montada no túnel que liga o plenário principal da Câmara ao anexo das comissões, espaço tradicionalmente usado para exposições.

“Absurdo! Um deputado acabou de arrancar um quadro da exposição (Re)Existir no Brasil – Trajetórias negras brasileiras, aqui na Casa. O quadro trazia dados sobre a violência de Estado contra negros e pobres. Não adianta quebrar placas! Precisamos de outra política de segurança!”, criticou a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) pelo Twitter. 

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que irá acionar o Conselho de Ética da Câmara pela atitude do parlamentar. Segundo publicado pelo jornal O Globo, os deputados David Miranda (PSOL-RJ), Talíria Petrone, Áurea Carolina (PSOL-MG) e Benedita da Silva (PT-RJ) registraram um boletim de ocorrência contra Tadeu. 

Durante a confusão, o parlamentar foi acusado de "racistas" pelos colegas. Tadeu postou em seu Twitter um vídeo do momento em que ele arranca e quebra o quadro. 

"Isso aqui não vai ficar na parede, isso aqui é contra a polícia. A polícia está aqui para defender a sociedade. Eu vou queimar esse cartaz que não deveria estar aqui" disse Tadeu no vídeo. Ele ainda afirmou que o "racismo é a coisa mais abominável hoje". 

Em carta enviada ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), após o episódio, ele tentou se explicar. 

"Há a absurda atribuição da responsabilidade pelo genocídio da população negra aos policiais militares, prestando-se, assim, verdadeiro desserviço junto à população que trafega pelas dependências da Câmara", argumentou. 

Segundo o Atlas da Violência 2019, 75,5% das vítimas de homicídios no país em 2017 foram indivíduos negros. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019111914795470-na-vespera-do-dia-da-consciencia-negra-deputado-quebra-quadro-sobre-racismo-/

Cem anos depois, o massacre da “Wall Street Negra” está em pauta

Foi um dos piores capítulos na longa história de violência racial nos Estados Unidos – mas até pouco tempo atrás muitos americanos nunca tinham ouvido falar do massacre que ocorreu em 1921 na cidade de Tulsa, no estado de Oklahoma. Em 31 de maio daquele ano, uma multidão de pessoas brancas invadiu e destruiu o distrito de Greenwood, que na época era uma das comunidades negras mais prósperas do país, apelidada de “Wall Street Negra”.

 

 

A violência se estendeu por 18 horas, durante as quais mais de mil casas e estabelecimentos comerciais foram saqueados e incendiados. Alguns historiadores calculam que até 300 pessoas tenham sido mortas. Cerca de 10 mil ficaram desabrigadas. O episódio, ausente de livros escolares durante décadas, voltou a ganhar atenção na semana passada, quando foi tema do capítulo inicial da série Watchmen, da HBO. Muitos espectadores confessaram que não sabiam do que se tratava.

Wall Street Negra

Uma das atrizes da série, Regina King, chegou a tuitar uma reportagem sobre o tema, depois de ver “tantos tuites (dizendo) que Watchmen era a primeira vez que ouviam sobre a ‘Wall Street Negra’ e que não tinham ideia de que a abertura (da série) mostrava o massacre de Tulsa, que não foi ensinado em aulas de história nos Estados Unidos”.

A Tulsa do início da década de 1920 era uma cidade moderna de mais de 100 mil habitantes. Alguns anos antes, a descoberta de poços de petróleo havia enriquecido muitos moradores brancos e também alguns negros que tinham terras na área. Mas esse era um período de violência racial, com linchamentos e rígidas leis de segregação, que proibiam que negros frequentassem os mesmos ambientes que a população branca. Assim como em várias outras cidades americanas, os trilhos da ferrovia marcavam a separação entre a parte negra e a parte branca da cidade.

O distrito de Greenwood ficava ao norte dos trilhos. A partir de 1905, a área começou a atrair comerciantes e empreendedores negros, dando início ao que ficaria conhecido como a “Wall Street Negra”, uma das mais bem-sucedidas comunidades negras em um país que somente poucas décadas antes havia abolido a escravidão.

Segundo o historiador Scott Ellsworth, autor do livro Death in a Promised Land: The Tulsa Race Riot of 1921 (“Morte em uma terra prometida: o tumulto racial de Tulsa de 1921”, em tradução livre), a maioria dos 10 mil residentes negros da cidade vivia em Greenwood. “Um bairro vibrante que abrigava dois jornais, várias igrejas, uma biblioteca e vários estabelecimentos comerciais que pertenciam a proprietários negros”, escreveu Ellsworth em um artigo para a Oklahoma Historical Society (Sociedade Histórica de Oklahoma).

Os 40 quarteirões que formavam a chamada “Wall Street Negra” eram pontuados por hotéis, restaurantes, joalherias e cerca de 200 estabelecimentos comerciais de pequeno porte, como farmácias, armarinhos, lavanderias, barbearias e salões de beleza. Havia até um cinema. As casas elegantes de Greenwood eram endereço de muitos médicos, dentistas, advogados e outros profissionais negros de renome.

“A. C. Jackson era considerado o melhor cirurgião negro do país. Simon Berry era um piloto negro que tinha seu próprio avião e era proprietário de um serviço de transportes”, diz a diretora de programação do centro cultural de Greenwood, Mechelle Brown. “Era extraordinária a prosperidade que existia na comunidade negra de Tulsa na época.”

Tensão racial e ressentimento

Mas Ellsworth observa que Tulsa também tinha problemas, com altas taxas de criminalidade e casos de linchamento, inclusive o de um jovem branco acusado de assassinato e morto por uma multidão branca meses antes do massacre em Greenwood. Historiadores ressaltam que, nessa época, em todo o país, havia ressentimento por parte de muitos brancos com o fato de alguns negros serem bem-sucedidos. Os anos anteriores já haviam registrado dezenas de conflitos raciais em diversas cidades americanas, com centenas de negros mortos.

 
Muitos brancos tinham inveja do sucesso dos afro-americanos, faziam comentários do tipo ‘como esses negros ousam ter um piano de cauda em sua casa se eu não tenho um piano na minha?’. Também acreditavam que os afro-americanos estavam roubando seus empregos”.
Mechelle Brown
 
 

Segundo ela, o grupo supremacista branco Ku Klux Klan tinha muita força nos anos 1920. A primeira Ku Klux Klan operou entre as décadas de 1860 e 1870, durante o período de Reconstrução. Em 1915, foi fundada a segunda versão do grupo. “Muitos líderes municipais, policiais, bombeiros eram membros da Ku Klux Klan”, afirma Brown.

A “explosão de violência” em Greenwood foi um entre vários episódios semelhantes ao redor do país.

 
Ocorreu durante uma era de profundas tensões raciais, caracterizada pelo nascimento e rápido crescimento da chamada segunda Ku Klux Klan e pelos esforços determinados de afro-americanos para resistir aos ataques contra suas comunidades, particularmente na questão de linchamentos”.
Scott Ellsworth
 
 

O episódio que provocou o massacre em Greenwood ocorreu em 30 de maio de 1921. Naquela tarde, um engraxate negro chamado Dick Rowland, de 19 anos, pegou o elevador no Drexel Building, prédio onde ficava o único banheiro que os negros tinham permissão para usar no centro da cidade. A ascensorista, uma jovem branca chamada Sarah Page, deu um grito. Segundo Ellsworth, não se sabe o que causou a reação da moça, mas “a explicação mais comum é que Rowland pisou no pé de Page ao entrar no elevador, fazendo com que ela gritasse”.

Rowland foi detido e, no dia seguinte, o jornal Tulsa Tribune noticiou que ele havia tentado estuprar Page. “Além disso, segundo testemunhas, o Tribune também publicou um editorial, hoje perdido, intitulado ‘Negro será linchado esta noite'”, escreveu Ellsworth. Uma multidão de brancos se dirigiu à cadeia, mas o xerife se recusou a entregar o prisioneiro.

Ao ficarem sabendo disso, dezenas de homens negros de Greenwood, muitos deles veteranos da Primeira Guerra Mundial que estavam armados, também se dirigiram até a cadeia, para ajudar a proteger Rowland. A ajuda foi recusada pelo xerife. “Quando (os negros) estavam indo embora, um homem branco tentou desarmar um veterano negro, e um tiro foi disparado. O tumulto começou”, relatou Ellsworth.

Destruição

Frustrados por não terem conseguido linchar Rowland, brancos armados começaram a atacar negros aleatoriamente, atirando contra pessoas e casas. De acordo com Ellsworth, as autoridades pouco fizeram para conter o conflito nessas primeiras horas, concentrando-se em proteger bairros com moradores brancos – que não estavam sob ataque.

Quando a madrugada de 1º de junho chegou, a multidão enfurecida já reunia milhares, e se de dirigiu a Greenwood. Segundo testemunhas, os invasores atearam fogo às casas e lojas. Objetos de valor foram roubados, e o resto destruído. Pelo menos uma metralhadora e até aviões foram usados nos ataques.

Sobreviventes relataram ter visto homens, mulheres e crianças mortos a tiros ao tentar escapar das chamas, entre eles A. C. Jackson, o renomado cirurgião negro, que foi alvejado ao sair de sua casa com as mãos para cima e se render a um grupo de homens brancos. O corpo de bombeiros não respondeu aos chamados de emergência.

“Quando o reforço da guarda nacional chegou a Tulsa, às 9h15 da manhã, a maior parte de Greenwood já havia sido destruída”, escreveu Ellsworth.

 
Quando a violência finalmente chegou a fim, a cidade estava sob lei marcial, milhares de cidadãos haviam sido detidos por guardas armados e a segunda maior comunidade afro-americana do Estado havia sido reduzida a cinzas.”
Scott Ellsworth
 
 

Até hoje não há consenso sobre o número de vítimas. Um relatório publicado em 2001 por uma comissão que investigou o episódio diz que foi possível confirmar 39 mortos, sendo 26 negros e 13 brancos, mas que as estimativas anteriores, de até 300 vítimas, podem ser verdadeiras – já que muitos corpos podem ter sido jogados em valas comuns e no rio Arkansas, conforme o relato de testemunhas.

Os sobreviventes do massacre foram detidos e levados a acampamentos. Os moradores de Greenwood declararam prejuízo de US$ 1,8 milhão de dólares na época, mas as seguradoras se recusaram a pagar. Sarah Page, a ascensorista, retirou a acusação contra Dick Rowland, e ele não foi indiciado. Mas, mesmo assim, as autoridades decidiram que os negros eram os culpados pela violência, classificada como um motim racial. Nenhum dos invasores brancos jamais foi responsabilizado.

Segundo Ellsworth, a maior parte da população negra de Tulsa ficou desabrigada após o episódio, mas dias depois já começaram a trabalhar na reconstrução de sua comunidade em Greenwood. Muitos se mudaram para barracas nos terrenos onde originalmente ficavam suas casas. “Eles estavam determinados a ficar em Greenwood”, diz Mechelle Brown. “E em 1925, a comunidade afro-americana já havia reconstruído Greenwood completamente.”

Mas muitas famílias nunca se recuperaram. Com o tempo, o massacre caiu no esquecimento e o assunto virou tabu. “Os brancos não queriam falar sobre isso, muitos tinham vergonha do que tinha acontecido”, observa Brown. “Os negros também não queriam falar sobre isso. Eles diziam que era muito doloroso, e que para seguir em frente e reconstruir era preciso colocar essa parte da história no passado.”

Em 1997, uma comissão estadual formada para investigar o episódio recomendou o pagamento de reparações aos sobreviventes. Também encontrou evidências de valas comuns e recomendou escavações para confirmar sua existência, mas as autoridades na época decidiram não ir adiante com nenhuma das recomendações.

Agora, às vésperas de completar cem anos, o massacre está sendo investigado novamente. No ano passado, o prefeito de Tulsa, o republicano G.T. Bynum, anunciou a reabertura do que chamou de uma “investigação de homicídio”. Cientistas estão usando radares de penetração no solo para tentar encontrar as valas comuns. A investigação deve ser concluída até janeiro. “O país inteiro vai estar olhando para Tulsa em 2021, na comemoração de cem anos, para ver como a cidade abordou essa história, como mudamos, o que aprendemos”, observa Brown.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/cem-anos-depois-o-massacre-da-wall-street-negra-esta-em-pauta/

Portugal | Deputadas afrodescendentes apontam para "nova era" parlamentar

 
 
Na nova legislatura que agora começa, a Assembleia da República vai contar com três deputadas afrodescendentes, o que demonstra que se avizinha "uma nova era" e que as últimas eleições legislativas foram "portadoras de futuro", consideram as eleitas.
 
Nas eleições legislativas de 06 de outubro, os portugueses elegeram pela primeira vez Joacine Katar Moreira, do Livre, Romualda Fernandes, do PS, e Beatriz Dias, do BE, todas elas com origens africanas e ativistas dos direitos humanos e antirracismo.
 
A eleita que mais usou as suas origens como bandeira eleitoral foi Joacine Katar Moreira, do Livre, que se apresentou ao eleitorado como a primeira mulher negra a encabeçar uma lista, e pretendia uma verdadeira revolução na Assembleia da República.
 
"O objetivo do meu partido era o de contribuir para que a Assembleia da República estivesse mais parecida com a nossa sociedade, e a nossa sociedade não é homogénea, é uma sociedade marcada pela diversidade", disse à agência Lusa a deputada eleita, nascida na Guiné-Bissau.
 
Na ótica da ativista antirracismo, a entrada de três mulheres negras no parlamento português "não deve ser olhada apenas como uma conquista, mas como um instrumento fundamental", um "momento histórico", que poderá contribuir "para o reforço da democracia e dos ideais republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade".
 
 
Questionada se a sua eleição pode constituir um incentivo para os mais jovens, Joacine Katar Moreira salientou o facto de "grande parte do eleitorado" do Livre ser estudante.
 
E assinalou: "há uma enorme consciência dos estudantes de que nós estamos a inaugurar uma nova era".
 
Para essa nova fase, o Livre leva medidas "vanguardistas no que diz respeito à luta antirracista", e bandeiras como o direito de voto para imigrantes com autorização de residência em Portugal, o aumento do salário mínimo nacional, alteração à legislação da nacionalidade, maior investimento em habitação pública, recolha de dados étnico-raciais através do recenseamento, investimento em educação, a luta contra a violência doméstica e o combate às alterações climáticas.
 
Pelo BE, a deputada Beatriz Dias salientou à Lusa que a luta antirracista faz "imensa" falta à sociedade portuguesa e que o principal problema é a dificuldade de "reconhecimento de que existem manifestações de racismo".
 
Na ótica da parlamentar, é necessário "reconhecer que há racismo, reconhecer que este racismo decorre do que foi o projeto imperial português e de toda uma narrativa, um imaginário e toda uma propaganda que foi desenvolvida durante esse período, e combater o que ainda permanece dessa lógica de discriminação".
 
Beatriz Dias reconhece também que a sua eleição é sinal de um novo momento na política: "Eu penso que sim, há transformações que contagiam. A luta que os movimentos fizeram na rua, os movimentos antirracistas, o movimento negro fez na rua, teve impacto nos partidos políticos", assinalou.
 
Para a próxima legislatura, a deputada bloquista vai levar consigo "propostas legislativas muito concretas que corrijam a desigualdade, que promovam a igualdade de direitos e combatam a exclusão social".
 
"Nós temos um conjunto de propostas bastante transversais, algumas na área laboral, outras na educação, na habitação, e são todas medidas que visam combater o racismo, a discriminação e promover os direitos dos negros, das negras, dos ciganos, das populações dos sujeitos racializados, mas também dos migrantes que vivem em Portugal e dos refugiados", referiu, dando como exemplos a "inclusão da pretensa étnico-racial nos censos" 2021, a "implementação de quotas para o acesso ao emprego público" ou a "criação de um contingente especial de acesso ao ensino superior para estudantes provenientes das comunidades racializadas".
 
Notando que é uma "herdeira de outros ativistas do movimento social", Beatriz Dias vinca que o seu objetivo é "contribuir para transformar a sociedade" e inspirar os mais jovens, criando igualmente "condições para que eles tenham vidas com menos discriminação, com mais direitos, com mais possibilidades".
 
Para Romualda Fernandes, do PS, este é um momento com "um sabor muito especial" por ser "o coroar de um luta" desenvolvida ao longo de duas décadas contra o racismo, discriminação e desigualdades.
 
Também a sua eleição tem "um sentido simbólico" pois permite o "aprofundamento da própria democracia" com uma "representatividade mais lata" da sociedade, e a deputada espera dar o exemplo aos mais novos de que "é possível chegar lá".
 
"Fico feliz por estar a colher o fruto de todo este trabalho, ao mesmo tempo homenageando aqueles que também deram corpo a este processo", sublinhou Romualda Fernandes, que nasceu na Guiné-Bissau.
 
Notando que "não foi preciso quotas" para terem sido eleitas três deputadas negras, a socialista assinalou que se vai bater para que "haja sensibilidade política, que haja vontade política para espelhar esta diversidade", e vai empenhar-se igualmente para que haja "um real conhecimento da situação do racismo" e um estudo aprofundado sobre os afrodescendentes.
 
"Eu acredito que estas eleições são portadoras de futuro", firmou.
 
Ainda assim, ressalvou que "o PS há muito que se empenha nesta tarefa, não está a iniciar-se" e que o combate ao racismo e à exclusão social, a integração de imigrantes ou a promoção de melhores condições de vida estão entre as áreas às quais vai dar maior atenção na próxima legislatura.
 
Entre as medidas que pretende levar à Assembleia da República, a parlamentar destaca aquelas "que permitiam uma afirmação social das minorias, o combate e prevenção de toda a segregação racial e a erradicação da discriminação em razão do sexo", e ainda a criação de "condições para uma imigração regular" para que os migrantes que escolhem Portugal possam "realizar os seus projetos de vida".
 
Esta não é a primeira vez que o parlamento português conta com deputados de origem africana. Pelo Palácio de São Bento já passou a socialista Celeste Correia (nascida em Cabo Verde) e mais recentemente o centrista Hélder Amaral, que não foi eleito nestas legislativas.
 
Também o socialista Fernando Ká, que foi presidente da Associação Guineense de Solidariedade Social - que fundou ao lado de Romualda Fernandes --, foi deputado e uma das caras do movimento antirracista.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: Lusa

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A fugir à polícia

 
Este não é um texto fácil de escrever. É que, ao fazê-lo, mesmo para descrever uma simples realidade, sou já obrigado a encontrar artes para conseguir fugir ao “policiamento” semântico.
 
Um dia, em Luanda, fui com um amigo negro (devia ter escrito “afrodescendente”?) , hoje figura de destaque na vida política local, a um cocktail num hotel. A certa altura, quis chamar a sua atenção para alguém que estava do outro lado da sala, que eu tinha ideia de já ter conhecido antes. Expliquei que era "aquele tipo baixo, de casaco escuro, encostado à janela". Havia duas pessoas nessas condições, pelo que foi necessário dar um outro pormenor: "É o que está a fumar". Foi então que o meu amigo reagiu: "O preto? Já podias ter dito que era o preto...". Assim era, mas eu estava a hesitar dizer-lhe isso a ele, também preto, ou negro. E não disse.
 
Mais recentemente, na minha terra, em Vila Real, cruzei-me na rua com um amigo do tempo de liceu. Vinha acompanhado de um homem negro, que eu não conhecia e que ele me apresentou. Na conversa que entabulámos, falou-se da criminalidade na cidade. Referi que não sentia a menor insegurança nas ruas, mesmo à noite. A pessoa que tinha acabado de me ser apresentada corroborou, em absoluto, a minha perceção. Virando-se para ele, o meu amigo retorquiu, risonho: “Ora, ora! A ti, com essa cor, à noite, ninguém te ataca, porque ninguém te vê!”. Rimos os três, sem constrangimento. Mas, por um segundo, perpassou-me um leve incómodo, por ser a cor daquele homem que estava na génese da piada. Devíamos tê-la evitado?
 
Vieram-me à memória estes episódios, ao ver a polémica, de natureza similar, que agora envolve o primeiro-ministro do Canadá, por terem sido divulgadas fotografias de uma festa carnavalesca de estudantes em que ele, há 18 anos, estava vestido de Aladino e tinha escurecido a pele para construir a personagem. Caíram o Carmo e as cataratas do Niagara, assistindo-se a Trudeau a pedir desculpas públicas por esse “pecaminoso” passado. E, pior ainda, viu-se o seu opositor político a exigir a sua cabeça, porque uma pessoa “assim” mostrava não ter qualidades para dirigir aquele país.
 
Reconheço que são hoje inaceitáveis práticas e atitudes discriminatórias que, no passado, eram toleradas e não objeto de censura ou rejeição. O mundo evoluiu e ainda bem. Mas se nessa evolução não for possível preservar um margem sensata de adaptação temporal, feita de compreensão, tolerância e bom senso, o novo mundo acabará por ser perigosamente “orwelliano”.
 

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

EUA | O fim da América Branca está garantido

 
 
A única questão é o destino dos remanescentes
 
Paul Craig Roberts*
 
A falta de resposta dos americanos brancos à demonização, à medida que declina como porcentagem da população, demonstra sua falta de preocupação com seu destino.
Parece que o Ocidente está morto em todos os sentidos. O estado de direito está morto em todo o Ocidente. Democracia é uma farsa. Existe regra oligárquica. Tudo é feito para grupos de interesse organizados.  Nada é feito para o povo. Putin acabou de declarar: "O papel de liderança do Ocidente está terminando".   Como ele está certo.    
 
A Brookings Institution não é uma organização supremacista branca racista.  "É um "think tank" neoliberal / neoconservador.   Um de seus membros, William H. Frey, escreveu um relatório: "Menos da metade das crianças americanas menores de 15 anos são brancas, mostra o censo", com base no relatório recentemente divulgado em 2018 do US Census Bureau de 2018.  As informações no artigo de Frey são fascinantes. Mostra uma população branca desaparecendo
 
O número de filhos brancos, ou seja, o grupo da próxima geração de pais, não está apenas  em declínio em relação às populações de não-brancos, mas também absolutamente.   Durante 2010-2018, o número de crianças brancas diminuiu 2,2 milhões.   No geral, a população branca da América diminuiu de 80% da população dos EUA em 1980 para 60% em 2018.
 
 
A classe média americana, que é em grande parte branca, tem o peso do imposto de renda, o que significa que os americanos brancos suportam o peso do custo dos sistemas de apoio social. A classe média branca também sofre com os impostos de propriedade dos sistemas de escolas públicas. Muitos membros da classe média pagam novamente na escola particular pela educação de seus filhos em ambientes mais seguros e ordenados.  O custo da educação universitária é exorbitante. Todos esses custos estão aumentando mais rapidamente do que os rendimentos da classe média, e isso limita a procriação de brancos.
 
O declínio das pessoas de ascendência europeia como percentagem da população dos EUA só pode acelerar à medida que a capacidade de gerar filhos da população branca evapora. A idade média dos americanos de descendência europeia é de 43,6 anos. A idade média dos hispânicos é de 29,5 anos e a idade média dos residentes multirraciais dos EUA é de 20,7 anos. Nos últimos sete anos, americanos de ascendência europeia sofreram um excesso de mortes ao nascer.
 
A influência política branca declinará mais rapidamente do que a percentagem branca da população, à medida que os políticos atendem à crescente maioria.  Alguém se pergunta se a minoria branca terá preferências minoritárias.
 
Frey conclui seu artigo:
 
"Essas tendências demográficas deixam claro que, à medida que as gerações mais jovens racialmente diversas se tornarem parte da força de trabalho, base tributária e base de consumidores, o país precisará equilibrar os interesses e necessidades distintos desses grupos em áreas como educação, serviços familiares e habitação acessível com os requisitos de saúde e apoio social de uma população idosa grande e com crescimento mais rápido que entrará em seus anos pós-aposentadoria.  De fato, o ponto de inflexão juvenil "branco minoritário" mostrado nas novas estatísticas do censo precisa ser devidamente observado.  Tem implicações importantes para o futuro da América."
 
Essa é a pergunta que Frey silenciosamente levanta:   "Na Identity Politics America, onde os brancos são demonizados como vitimizadores e todo mundo recebe simpatia como vítimas, onde o chefe mexicano-americano das escolas públicas da cidade de Nova York anunciou sua campanha para remover 'valores brancos tóxicos' do currículo escolar, onde o New York Times se comprometeu a 'reformular' os Estados Unidos como um estado racista de escravos brancos, a nova maioria composta por vítimas de brancos consentirá em abrir mão de recursos para fornecer Previdência Social e cuidados médicos às pessoas que foram educadas a acreditar em quem  os vitimou?
 
As chances de tal apoio são ainda mais negadas pelos números decrescentes da população branca votante e pelo declínio da economia norte-americana que está forçando a força de trabalho dos EUA a empregos de serviço doméstico com baixos salários, ameaçados pela robótica.  Será que uma população não europeia que luta para sobreviver aceita a tributação necessária para o Seguro Social e o Medicare para um grupo demonizado da população que eles foram ensinados a odiar?  A política de identidade não permite coesão social.
 
Décadas de influxos maciços ininterruptos de imigrantes do terceiro mundo destruíram o "caldeirão" e produziram em seu lugar uma torre de babel.   As populações multiculturais não têm um interesse comum. Eles são a antítese de uma nação. Em todo o mundo ocidental, as nações estão expirando.
 
Em 1973, John Raspail previu o destino dos povos europeus em seu romance O Acampamento dos Santos. Agora, os brancos estão vivendo seu romance.
 
 Será interessante ver se a crescente população hispânica desloca a população branca em declínio como o grupo contra o qual os negros farão reivindicações por reparações de escravidão.    Os hispânicos consistem em parte da ascendência espanhola e portuguesa, e os espanhóis e portugueses eram potências coloniais no Novo Mundo que escravizaram as pessoas.  Em um mundo de política de identidade, os hispânicos substituirão os brancos como vitimizador?
 
Também será interessante ver se o Lobby de Israel pode colocar o mesmo anel no nariz da crescente maioria hispânica / asiática do que no nariz da maioria branca em declínio.   Os hispânicos e asiáticos podem se sentir culpados pelo holocausto e pela perseguição dos judeus? Seus líderes, como líderes brancos, podem ser comprados no serviço de Israel? Ou as pessoas acostumadas ao privilégio de status de vítima terão confiança para rejeitar que devem obrigações a outras vítimas?
 
 
O Dr. Paul Craig Roberts foi Secretário Assistente do Tesouro para Política Econômica e editor associado do Wall Street Journal. Foi colunista da Business Week, do Scripps Howard News Service e do Creators Syndicate. Ele teve muitos compromissos na universidade. Suas colunas da internet atraíram seguidores no mundo inteiro. Os últimos livros de Roberts são O fracasso do capitalismo de Laissez Faire e a dissolução económica do Ocidente , Como a América foi perdida e a ameaça neoconservadora à ordem mundial. 
 
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As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente as opiniões da Information Clearing House.

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O apartheid não escrito na sociedade brasileira

 
 
Além de remeter à escravidão, episódio de tortura de jovem negro é representativo de padrão racista que se repete em supermercados e shoppings e da chegada incompleta do Brasil ao mundo moderno, afirmam especialistas.
 
O ano é 2019, e os brasileiros ainda veem alguns dos seus serem chicoteados e torturados. Muitos se perguntam por que ao assistir ao vídeo que mostra um jovem de 17 anos, negro, nu, com um pano amarrado à boca para abafar seus gritos, sofrendo açoites de um segurança de supermercado em São Paulo enquanto outro grava a cena.
 
A tortura, como o ato foi registado no boletim de ocorrência do 80º Distrito Policial da capital paulista, é crime no Brasil desde 1997, mas segue sendo praticada por agentes públicos em delegacias e presídios, segundo relatório da ONU. E também por seguranças de estabelecimentos privados, como supermercados e shopping centers, ao lado de lesão corporal e injúrias raciais, aponta uma pesquisa em andamento da Comissão Arns.
 
O jovem foi açoitado em junho, no supermercado Ricoy da Vila Joaniza, na zona sul de São Paulo, e o crime se tornou público na semana passada. Nos últimos dias, surgiram relatos de outros casos de tortura que teriam ocorridos em unidade da mesma rede – em um deles, fotos mostram um homem amarrado e com marcas de chicotadas.
 
A empresa, por meio de nota, disse ter ficado chocada com a "tortura gratuita e sem sentido" e que iria contribuir com as investigações e dar apoio à vítima. Os dois seguranças suspeitos de participar do crime estão em prisão temporária decretada pela Justiça.
 
O episódio do supermercado Ricoy não é fato isolado e manifesta aspectos estruturais da sociedade brasileira, como o racismo, a desigualdade de direitos e o uso da violência por agentes privados, segundo especialistas ouvidos pela DW Brasil.
 
 
Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos no governo FHC e membro da Comissão Arns, afirma à DW Brasil que a tortura, expediente de controle e repressão dos escravos, só foi amplamente percebida como um problema no país a partir da ditadura militar (1964-1985), quando começou a vitimar presos políticos brancos, em sua maioria das classes médias.
 
Mesmo assim, diz, os negros e pobres seguiram pertencendo à "classe dos torturáveis". "Esses fatos continuam a ocorrer, inclusive em supermercados e shopping centers, porque os suspeitos não são os clientes brancos, mas os negros e pobres", afirma.
 
"Se os brancos de classe média e elites fossem torturados, não haveria mais tortura no Brasil, porque a classe com poder, composta por brancos, não admitiria", acrescenta.
 
O registo da escravidão no inconsciente coletivo da sociedade também é apontado por Sérgio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), que lembra que os corpos dos escravos eram tratados como coisas e podiam ser manipulados e agredidos pelos seus proprietários.
 
"O Brasil mudou muito, mas há traços da herança escravista nesse episódio. A ideia de que alguns corpos podem ser utilizados como objetos dos outros ainda tem peso na sociedade", diz.
 
Ele vê no episódio um exemplo do acesso desigual dos brasileiros ao direito à vida e à integridade física e psíquica, em choque com fundamentos básicos das sociedades modernas.
 
"Em todos os países onde a democracia se consolidou também há desigualdades, mas há um sentido de vida comum a ser preservado, nunca a ponto de a vida de uns ter menos valor do que a de outros. Na nossa sociedade, vidas têm valores diferentes, não conseguimos ainda encontrar o que há de comum entre nós", diz.
 
A violência em espaços privados
 
O caso ocorrido no supermercado Ricoy é o mais recente de um longo histórico de crimes cometidos por funcionários de empresas de segurança privada, muitas de propriedade de ex-policiais, que estão sendo catalogados pela Comissão Arns. Segundo Pinheiro, o episódio é representativo de um padrão que se repete em supermercados e shoppings pelo país. 
"Nesses locais há um apartheid não escrito. Basta uma criança ou adolescente negro entrar que um segurança imediatamente vai atrás", diz.   
 
Quando um caso de violência ganha a mídia, a resposta dos estabelecimentos costuma seguir um padrão, diz Pinheiro, que inclui divulgar uma nota afirmando que a empresa não coaduna com a violência e que tomará providências.
 
"É uma conversa para boi dormir. No processo judicial, a empresa mãe nunca é responsabilizada, porque ela culpa a terceirizada, e são raros os casos em que os seguranças são condenados", diz.
 
Ele acredita ser pouco provável que os estabelecimentos desconheçam as práticas de seus seguranças. "O chicote [no caso do Ricoy] já estava pronto, e a empresa sabia que tinha uma sala aonde os seguranças levavam as pessoas. Eles não iriam fazer isso se não contassem com uma tolerância", afirma.
 
Para Adorno, o fato de seguranças particulares, em um estabelecimento privado, agirem como se fossem juízes em condições de decidir e executar uma sentença mostra como a fronteira entre o espaço público e o privado no Brasil é ultrapassada com facilidade, em meio a uma cultura política tolerante com essa flexibilidade.
 
"A capacidade de punir é uma atribuição pública, mas os agressores se apropriam disso, de uma forma não moderna, com uma punição que marca o corpo e a identidade do adolescente", diz.
 
Ele afirma que o Estado é responsável pelas violações causadas pela tortura, tanto quando ocorrem em prédios públicos, cometidas por seus agentes, quanto em estabelecimentos particulares, onde por omissão tolera que agentes privados pratiquem o ato.
 
"A ideia de que você precisa de vigilância privada para garantir a integridade de um negócio é aceitável, mas tem limites. Com as câmaras de segurança, há meios para chamar a polícia e efetuar o flagrante, tudo dentro da lei. Esse episódio mostra a nossa chegada incompleta ao mundo moderno", diz.
 
Segundo levantamento feito pela Globo News, 24 pessoas foram presas em São Paulo pelo crime de tortura de janeiro a julho de 2019. No mesmo período de 2018, foram 22, e de 2017, dez. Um número "ínfimo", segundo Pinheiro.
 
"Se São Paulo, que é um estado rico, com um Judiciário bem instalado, tem esses números baixos, imagine no resto do país. A imunidade da tortura ali campeia", considera.
 
A percepção dos brasileiros sobre a tortura
 
Apesar da permanência da tortura na realidade brasileira, o percentual dos cidadãos que apoia a prática no contexto da atividade policial é baixo e comparável ao de países europeus, segundo pesquisas disponíveis.
 
Um levantamento do Instituto Datafolha, realizado em outubro de 2018, apontou que 16% da população apoiava o uso da tortura pela polícia para obter informações de suspeitos. Conduzida a dez dias do segundo turno das eleições presidenciais, a pesquisa identificou que, entre os eleitores de Jair Bolsonaro (PSL), o percentual era de 20%, e entre os de Fernando Haddad (PT), de 14%.
 
O percentual é semelhante ao apurado em outro levantamento, feito pela Amnistia Internacional  entre dezembro de 2013 e abril de 2014, em 21 países de diversos continentes: 19% dos brasileiros responderam que a tortura é aceitável para obter informações que possam proteger a população. Trata-se do quinto menor percentual entre os países avaliados – no mesmo patamar que o da Alemanha, próximo ao da Espanha (17%) e abaixo do registado no Peru (40%), nos Estados Unidos (45%) e na Índia (74%).
 
A pesquisa da Amnistia Internacional também mostrou que, entre os países pesquisados, o brasileiro é o menos confiante de que não será torturado caso seja detido ou preso: 80% discordaram da afirmação de que, se estivessem sob custódia do Estado, no seriam torturados, seguido pelo México (64%) e Turquia (58%). Indagados se devem existir normas internacionais claras contra a tortura, 83% dos brasileiros disseram que sim, ficando na média de todos os países pesquisados.
 
Bruno Lupion | Deutsche Welle
 
 
 

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Facebook “alimenta” páginas pró-racismo

 
 
Há dois anos, uma página do Facebook de "orgulho branco" – seja lá o que isso for – ostenta um mapa-múndi com a porcentagem de pessoas brancas em cada país na linha do tempo. Nos comentários, os seguidores lamentam a "queda" no percentual da população branca no mundo. "Portugal está até bem", conforma-se um. "O número de brancos está diminuindo
Nada disso é considerado problemático pelo Facebook, que mantém o conteúdo no ar há dois anos. Depois da denúncia de um leitor, encontrei pelo menos cinco páginas do tipo na rede social, que somam cerca 30 mil de seguidores. Escondidas sob a denominação do orgulho – "branco", "eurodescendente" ou "caucasiano" –, elas proliferam conteúdo supremacista, racista e xenofóbico feito sob medida para ser tolerado pelo Facebook. Não divulgaremos os nomes, os links das páginas e nem prints para evitar que o conteúdo se espalhe ainda mais. A página mais antiga que encontrei existe desde 2013. Apesar de já ter tido alguns posts removidos pelo Facebook, continua funcionando normalmente. O objetivo dela é defender e exaltar a "raça branca", expondo o suposto "racismo reverso" das outras raças e criticando a miscigenação. Nas páginas, posts relativizando a escravidão são comuns. Também proliferam notícias sobre crimes cometidos somente por pessoas negras – não preciso nem comentar o teor dos comentários que esses posts despertam. Fingindo que não são brasileiros e, portanto, latinos, os criadores das páginas exaltam a Polônia de hoje e os feitos da Alemanha do passado – onde provavelmente seriam vítimas da supremacia xenofóbica que pregam – e as cidades de colonização europeia do sul do país.
 
Nem todos os brancos são motivo de orgulho: o presidente da França, Emmanuel Macron, é muito criticado pela abertura que seu país dá para imigrantes não brancos. A França tem a terceira maior população de refugiados da Europa, atrás apenas da Turquia e da Alemanha, segundo um relatório publicado em junho pela Agência da ONU para Refugiados. Os posts em geral são irônicos, sutis e evitam ataques diretos – uma maneira de seus donos se protegerem de eventuais derrubadas do Facebook. É nos comentários que a intolerância desenfreada acontece: chancelados pelos donos da página e por outros comentaristas, os racistas ficam à vontade para publicar o que quiserem. "Se esses imigrantes fossem pessoas boas o país deles seria um bom país", diz um comentário, no ar há dois meses. "Escondo até carteira e celular", diz outro, em uma foto com uma mulher negra segurando um cartaz. Em seus padrões de comunidade, o Facebook define "discurso de ódio" como um "ataque direto a pessoas" de acordo com sua raça, etnia, nacionalidade, filiação religiosa, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero e doença ou deficiência grave. A empresa diz que discursos degradantes (como comparar pessoas a vermes, excrementos ou criminosos) são proibidos – mas, pelo jeito, comentários xenofóbicos não são encarados desse jeito pela rede social. Perguntei ao Facebook por que essas páginas continuam no ar. Simples: a rede social não acha que elas violaram seus termos de uso – ou que, pelo menos, não há "evidência clara" de que essas páginas incitam o ódio. "Removemos conteúdos quando temos evidências claras disso, bem como Perfis ou Páginas que publiquem tais conteúdos repetidamente", defendeu-se a rede social. "Vale ressaltar que, neste trabalho de revisão de conteúdo, buscamos encontrar um equilíbrio entre manter as pessoas seguras e dar voz a elas.” De fato, a questão é simples: para o Facebook, não há racismo em comentários racistas. Em setembro de 2018, o Counter Extremism Project, projeto que monitora e propõe políticas para combater o extremismo online, identificou 40 páginas de lojas virtuais que vendiam roupas, músicas e acessórios com temática supremacista branca. Todas foram denunciadas – mas o Facebook só derrubou cinco delas. As que sobraram? Cresceram em audiência. "Claramente, o processo do Facebook de revisar e remover esse conteúdo – que viola seus termos de uso – é inadequado", avalia o projeto. Em março, a empresa anunciou mudanças na forma como lida com nacionalistas e separatistas brancos. O anúncio foi feito 12 dias depois de um desses supremacistas matar 50 pessoas em uma mesquita na Nova Zelândia, em um massacre transmitido ao vivo pela rede social. O Facebook disse que já bania expressões racistas. A diferença era que, a partir de então, o nacionalismo branco (que defende que brancos têm uma identidade que está ameaçada) e o separatismo branco (que defende que brancos sejam apartados das outras raças por conta de sua superioridade fantasiosa) passaram a ser considerados violações. Antes, o Facebook considerava que manifestações nacionalistas e separatistas eram legítimas. "Embora as pessoas ainda possam demonstrar orgulho por sua herança étnica, não toleraremos enaltecimentos ou apoio ao nacionalismo e separatismo branco", disse a rede social no anúncio das mudanças. As páginas supremacistas já sabem que operam no limite da tolerância no Facebook. Além das contas extras que mantêm caso as principais sejam derrubadas, elas evocam, nas suas descrições, o artigo 5º, inciso quatro, da Constituição – o que garante a liberdade de expressão. Na balança do Facebook, "dar voz" a essas páginas tem sido mais importante do que proteger as vítimas – por vezes fatais, como no caso da Nova Zelândia – desse discurso intolerante. Não custa lembrar que a mesma Constituição, alguns artigos antes, assegura a todas as pessoas a dignidade e repudia o racismo – mesmo que travestido de "orgulho".
Tatiana Dias, editora sénior | The Intercept_Brasil
 

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Olhos que condenam: série sobre racismo nos EUA é a mais vista da Netfflix

Racismo, hipocrisia, perseguição a jovens negros, Justiça parcial, mídia sensacionalista e mentirosa, fraude processual… Calma, não é sobre a Lava Jato, nem sobre o Brasil. Esses são os ingredientes de Olhos que Condenam (When they see us), da Netflix, dirigida por Ava Duvernay (A 13ª Emenda e Selma – Uma Luta pela Igualdade).

 

 

A série, desde maio no catálogo, é a mais assistida da Netflix e conta a história dos “cinco do Central Park”, como foram denominados os jovens condenados por estupro, num dos mais conhecidos episódios da (in)justiça de Nova York, nos Estados Unidos, em 1989. Nesse caso, a arte realmente imita a vida ou ao menos tenta se aproximar o mais possível dos fatos que aterrorizaram a vida desses meninos de 14 a 16 anos. Em comum, eram todos negros e davam um “rolezinho” no Central Park, o Ibirapuera de Nova York.

 

Muito parecido com os “rolezinhos” de jovens pobres da periferia, em shoppings na capital paulista em 2014. Apavorou as pessoas habituadas a convívio nessas galerias comerciais. Não faltou segurança, muitas vezes negro também, agredindo jovens. Policiais e mídia trataram de aumentar a dose de tensão e o passeio de jovens pobres nos shoppings de elite cessou.

Ava consegue transmitir o sofrimento dos cinco garotos presos, torturados para confessarem o brutal estupro sofrido na mesma noite, no mesmo parque, por Trish Meili, de 28 anos na época. A brutalidade foi tamanha que Trish ficou com sequelas e não conseguiu se lembrar do fato. Ao saber do estupro, a promotora Linda Fairstein, responsável pela divisão de crimes sexuais da polícia de Nova York, mobilizou a sua equipe para incriminar os jovens. Queria uma resposta rápida para os sucessivos estupros que ocorriam na metrópole naquele ano.

Os cinco meninos são levados a julgamentos e a única prova que a polícia conseguiu foi a confissão deles arrancada sob tortura. Nenhum dado batia. Não havia nada que comprovasse a presença deles no local do crime no exato momento da violência. Mesmo assim os olhos da hipocrisia, do preconceito e da mentira condenaram os cinco. A injustiça foi desfeita apenas anos depois quando o verdadeiro criminoso confessou mais esse estupro para a sua lista de crimes hediondos.

A maioria deles já estava em liberdade, após anos na prisão e tentavam refazer suas vidas. Apenas Korey Wise ainda estava preso, porque era o único que tinha 16 anos em 1989 e foi para a prisão de adultos. A própria Ava afirmou em entrevista que fez a série pensando em como ajudar a mudar essa triste realidade de olhos racistas que condenam negros sem pestanejar, sem provas e montagem de indícios para forjarem a condenação. Parece que conseguiu.

A estratégia da diretora em sensibilizar pelo impacto funciona. Ninguém consegue assistir a essa série sem se incomodar com a injustiça cometida. Dividido em quatro longos episódios, Olhos que Condenam leva a profundas reflexões sobre os fatos. O racismo, o lugar dos brancos e o lugar dos negros na sociedade, o porquê dessa distinção e o papel da Justiça e da polícia numa sociedade capitalista.

Muitas injustiças foram cometidas na história do Judiciário norte-americano. Algumas delas foram para o cinema e esse episódio dos cinco meninos para a televisão do mundo inteiro. Força que tem a Netflix nesse caso.


Série de Ava Duvernay conta a história dos “cinco do Central Park” condenados injustamente por estupro

O elenco da série contou com Jhanel Jerome, Caleil Harris, Asante Black, Ethan Herisse, Marquis Rodirguez, Felicity Huffman, Kyllie Bunburry, Vera Farmiga, NiecyNash, entere mujitos outros talentos. A atuação brilhante de todos entrará para a história.

O cinema dos Estados Unidos retrata muito bem os “erros” judiciais quase sempre cometidos contra negros e pobres. O filme Hurricane – O Furacão (1999), dirigido por Norman Jewison, por exemplo, conta a história real do boxeador Rubin “Hurricane” Carter condenado a prisão perpétua pelo assassinato de três pessoas num bar de Nova Jersey, em 1966, com base no depoimento dos policiais que o prenderam. Sua inocência foi provada 20 anos depois.

História muito parecida com a do jovem carioca Rafael Braga Vieira, condenado por porte ilegal de artefato incendiário por sua suposta participação nas manifestações de junho de 2013, no Rio de Janeiro. E, em prisão domiciliar, é preso e condenado, novamente com base no testemunho dos policiais que o prenderam sob a acusação de tráfico de drogas, associação ao tráfico e colaboração com o tráfico. Ele é negro e favelado.

A série joga luz sobre a função da polícia em investigar e se ater aos fatos, assim como a promotoria e os juízes. Também joga os holofotes para a discussão sobre a maioridade penal ao mostrar a degradação de um menino de 16 anos preso com adultos, ainda mais condenado por estupro. Fica perceptível a iniquidade de se baixar a maioridade penal como grupos reacionários ainda pretendem no Brasil, com o impacto da emoção de crimes hediondos – tudo com o objetivo de privatizar presídios e faturar com a desgraça dos mais pobres.

A série Olhos que Condenam nos leva a empatia com os meninos condenados nos Estados Unidos e nos remetem às inúmeras injustiças que ocorrem no Brasil, principalmente contra a juventude negra, pobre e da periferia. Ao final, há uma entrevista com a diretora, o elenco e os verdadeiros presos injustamente com Oprah Winfrey. Vale conferir.


por Marcos Aurélio Ruy, Jornalista  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


 

 

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https://www.jornaltornado.pt/olhos-que-condenam-serie-sobre-racismo-nos-eua-e-a-mais-vista-da-netfflix/

O Shakespeare dos zulus

(António Guerreiro, in Público, 26/07/2019)

António Guerreiro

 

E de repente, a imaginária literatura dos zulus – coisa tão inexistente como as narrativas míticas na cultura erudita da Europa iluminista – reaparece como um zombie, subtraído por João Miguel Tavares ao eterno descanso a que tinha direito, para servir de prova de que há culturas superiores e inferiores. “Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta”, disse ele, na sua primeira invocação do povo zulu, à qual se seguiu uma réplica: “De facto, a literatura zulu é inferior à literatura britânica”.

Esta invocação da literatura zulu tem um autor e uma história antiga que João Miguel Tavares omitiu, reduzindo um longo e sério debate a um apêndice anedótico com traços de caricatura grosseira. A história é esta: em 1988, numa entrevista ao The New York Timeso escritor americano Saul Bellowdisse ou terá dito (há algumas incertezas quanto à fidelidade da citação): “Who is the Tolstoy of the Zulus? The Proust of the Papuans? I’d be glad to read them”. A frase gerou uma enorme controvérsia, foi discutida ao mais alto nível do pensamento sobre o multiculturalismo e tornou-se, para o seu autor, uma vexata quaestio a que ele quis pôr termo, em Março de 1994, num artigo publicado no The New York Times. Aí, evocava a sua formação universitária em Antropologia, para depois tentar esclarecer o “mal-entendido que ocorreu durante a entrevista”. Segundo ele, as suas palavras, “sem dúvida pedantes”, na citação publicada, foram proferidas num contexto em que estava a fazer uma distinção entre sociedades pré-literárias (isto é, não baseadas numa cultura escrita) e sociedades literárias. E acrescentava: “As sociedades pré-literárias têm, sem dúvida, o seu próprio tipo de sabedoria, e os papuas têm provavelmente uma melhor compreensão dos seus mitos do que muitos americanos têm da sua própria cultura”.

A refutação mais importante da afirmação de Saul Bellow foi feita em 1994, pelo filósofo canadiano Charles Taylor, num livro sobre o multiculturalismo. Taylor mostrou como essa frase advém da lógica do “não reconhecimento” que inflige uma ofensa e causa uma forma de opressão. Segundo Taylor, o exemplo do “Tolstói dos zulus” é arrogante e inadequado porque avalia o mérito de uma outra cultura pelos nossos padrões de excelência e, por conseguinte, é incapaz daquilo a que Taylor chama “processo dialógico” e “respeito genuíno”.O pressuposto da famosa afirmação de Saul Bellow é o de que os zulus não mostraram ainda nenhuma contribuição cultural digna de ser reconhecida (não se vislumbra que deles tenha saído até ao momento um Tolstói) e que só sairão desta situação de menoridade quando produzirem monumentos culturais comparáveis ao nosso cânone. Então — fica dito com solenidade – nós cá estaremos para os reconhecer e ler com satisfação o Tolstói deles (na versão de Saul Bellow, mas corrigida pelo próprio) ou o Shakespeare deles (na versão incorrigida de João Miguel Tavares). Trata-se, como sublinhou Charles Taylor, de uma manifestação de “arrogância racial”e de imposição de um sistema de avaliação que pretende que todas as culturas são comensuráveis, como se todas falassem a mesma linguagem. João Miguel Tavares segue exactamente este raciocínio, mas para parecer indulgente com os zulus e afastar a ideia de que substituiu o pensamento pelo preconceito acrescenta que também a literatura portuguesa é inferior à inglesa. Esta operação é falaciosa porque a literatura portuguesa e a literatura inglesa podem ser incluídas no mesmo Atlas literário, podem até ser objecto de uma “literatura comparada”, mas a “literatura zulu” não é comparável, até porque não existe enquanto “literatura” (muito embora possam existir escritores zulus). 

Omitindo a longa história do “Tolstói dos zulus”, reeditando a anedota fazendo de conta que se pode ignorar o sério debate a que ela deu lugar em várias frentes, João Miguel Tavares não se limitou a apropriar-se ilegitimamente (e sem cumprir os protocolos da citação) de uma frase, ressuscitando o registo anedótico a que ela se prestou e do qual o próprio autor, Saul Bellow, a quis resgatar alguns anos depois. Muito pior do que isso: a sua omissão tem como pressuposto a ignorância dos leitores e a ambição de que tudo seja discutido numa esfera de ignorância.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Relacionado, ler (baixar aqui): pdf O Universalismo Europeu (1.76 MB) de Immanuel Wallerstein

Ó Miguel, toma e vai-te coçar

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(Obrigado Fernando Campos)
O Miguel perdeu o pé, o Miguel levado às cavalitas do PR sonha que sabe voar, abre o bestunto e lança-se em voos intelectualóides, esborrachando a sapiência na ignorância que dissimula e desonestidade que pretende esconder.
 António Guerreiro, um dos pouquíssimos cronistas que é obrigatório ler no Público ou onde quer que escreva, dá-lhe dois açoites, mas aos cretinos nem o puxão de orelhas ou virados para a parede, como nos velhos tristes tempos, resulta.  
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Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Somos pequenas sereias e grandes guerreiras

A invisibilidade no cinema e na sociedade é fruto do racismo estrutural e parece ser natural que nós, negras, ocupemos apenas os papéis de subalternidade e exploração”.

 

 

Nas diferentes formas de expressão artística a imagem negra é sempre associada ao primitivo, ao sofrimento, ao atrasado, ao serviçal, ao supersticioso, a ameaça e a escravidão. O povo negro, historicamente, esteve sujeito a sub-representação. Esta realidade é ainda mais cruel quando se trata de nós, mulheres negras, que estamos na base da pirâmide social.

No cinema não é diferente. Há alguns dias a Disney anunciou a notícia de escalar atriz afrodescendente para o filme ‘A Pequena Sereia’ e logo gerou polêmica. A escolhida para interpretar Ariel na adaptação foi a cantora americana Halle Bailey, de 19 anos. Branca e ruiva na primeira versão, a Ariel da Disney será negra na versão humana.

Não há novidade nas reações quando se tem o anúncio de uma mulher negra para fazer o papel de uma personagem que todo mundo imagina que seja branca, mesmo quando se tratam de seres místicos e não humanos, como é o caso da sereia. É como se determinados papéis, de princesas a rainhas, de postos de poder a posições de relevância, estivessem reservados aos brancos. De modo geral, negros ocupam posições subalternas, na vida real e na televisão.

Halle Bailey possui as características necessárias para desempenhar o papel, como afirmou o próprio diretor do filme que a escalou, mas a cor de sua pele foi o motivo da resistência, desprezo e críticas do público. Eles reivindicavam “fidelidade a primeira versão do filme”, mas o fato é que o racismo está tão enraizado que é de causar estranheza quando uma mulher negra é escalada para ser o protagonista. Além disso, notem como o talento da atriz e cantora é ignorado, pois a competência da mulher negra é questionada e com isso vem a necessidade de provar, incontáveis vezes, o nosso conhecimento, que somos boas profissionais, inteligentes e bonitas.

Segundo o estudo brasileiro “A Cara do Cinema Nacional” produzido pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, as negras apareceram em menos de dois a cada dez longas-metragens entre os anos de 2002 e 2012. No mesmo período nenhum dos filmes nacionais de maior bilheteria teve uma mulher negra na direção ou como roteirista. Atrizes negras e pardas são apenas 4,4% do elenco principal.

A invisibilidade no cinema e na sociedade é fruto do racismo estrutural e parece ser natural que nós, negras, ocupemos apenas os papeis de subalternidade e exploração. Escravidão, exposição a todo tipo de violência, subemprego, falta de acesso à educação e outros direitos básicos e o extermínio parece ser o caminho mais natural a ser seguido pelo povo negro no Brasil, no Caribe, na América Latina e no mundo.

A representatividade está muito longe de ser encarada como algo necessário e natural, mas precisamos romper com as amarras do racismo e do patriarcado. Cresci assistindo a Pequena Sereia e tantas outras personagens de pele branca e cabelos alisados. Tenho esperança na menina negra que terá a chance de ver a Pequena Sereia com a sua cor de pele e reinvidicar heroínas como Teresa de Benguela. O cinema ou a Disney são apenas o início. Queremos contar as nossas histórias.


por Nágila Maria Azevedo Rocha, Psicóloga e militante da União da Juventude Socialista   | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 

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Não se desiste de pensar Bonifácio: a ratoeira

O artigo racista de Maria de Fátima Bonifácio gerou uma saudável reacção anti-racista, incluindo um apelo legítimo à chamada mão direita do Estado democrático, em nome da defesa das liberdades democráticas, que naturalmente implicam limites e exclusões. Até aqui tudo muito bem. Os problemas começam na hipótese perversa: um dos efeitos do artigo, ou até mesmo um dos seus propósitos, foi o de favorecer a reacção a favor de políticas identitárias paupérrimas, feitas para favorecer a extrema-direita. Falo da racialização do Censos e de medidas favoráveis a quotas raciais. Se a racista Maria de Fátima Bonifácio é contra a racialização do Censos e contra as quotas, então a boa posição anti-racista é ser reactivamente a favor. Há quem tenda a pensar assim, ou seja, quem por vezes deixe que as suas posições sejam automaticamente definidas pelo inimigo. Basta atentar também nos chamados temas europeus: são a favor da UE e do Euro porque diz que as extremas-direitas são contra. A integração europeia e as extremas-direitas são literalmente duas faces da mesma moeda. Assim se esvaziam e destroem esquerdas por todo o lado, da Grécia ao Reino Unido. Espero que por cá as esquerdas, que têm no seu activo a ausência de extrema-direita, não caiam nesta ratoeira intelectual e política. E espero que aqueles que nela caíram consigam rapidamente escapar.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Há perguntas que não se fazem

Ao longo de todo o século XIX, as estatísticas raciais alimentam a obsessão racial dos Estados Unidos (…) As diversas investigações, designadamente as conduzidas pelo Instituto Nacional dos Estudos Demográficos [francês], sobre discriminações face à habitação, à polícia, à justiça, ao emprego ou à escola mostram, contudo, que é possível produzir medidas precisas sobre as discriminações mesmo sem institucionalizar categoria raciais. Uma institucionalização que, nos Estados Unidos, transformou o recenseamento numa catadupa de reivindicações identitárias e de concorrências entre comunidades. Uma fonte de debates sem fim para resultados medíocres.  Excertos do (in)formativo artigo – “Qual é a sua raça?” – de Benoit Bréville no Le Monde diplomatique – edição portuguesadeste mês. O chefe de redacção do jornal francês expõe as origens e as dinâmicas históricas racistas por detrás de uma pergunta manifestamente arbitrária e que, felizmente, não será feita no nosso Censos. A vontade de importar perversas opções norte-americanas é absolutamente espantosa. A brutalidade da persistente desigualdade nos EUA não parece demover quem assim procede. É a isto que se chama hegemonia. A morte da hegemonia dos EUA é manifestamente exagerada. Entretanto, Miguel Vale de Almeida, no Público de hoje, alinha com Francisco Bethencourt, referindo-se a uma “constituição colonial” que “ainda nos rege”. Miguel Vale de Almeida devia ter relido a nossa anti-colonial, anti-imperialista e anti-racista Constituição, a que realmente existe para lá das metáforas, antes de também fazer propostas de política paupérrimas. Lute-se antes pelo cabal cumprimento da nossa Constituição, no espírito da igualdade cidadã que é o seu. Realmente, há hábitos intelectuais e políticos que parecem feitos para importar problemas, como já aqui denunciado, incluindo contribuir, na lógica do efeito perverso, para a formação de uma potente extrema-direita. Maria de Fátima Bonifácio teria então triunfado.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

ODiario.info » Pensar Bonifácio: não há duas sem três

Uma recente prosa racista de Fátima Bonifácio tem suscitado polémica. Há quem contraponha às suas concepções reaccionárias a “democracia liberal.” Este texto faz uma excelente reflexão sobre a matéria: nenhuma forma de organização e de funcionamento da sociedade pode ser apresentada como intemporal e a-histórica. A história da “democracia liberal” é um exemplo flagrante, e o seu balanço não é famoso.


João Rodrigues    21.Jul.19 

 

A racista Maria de Fátima Bonifácio defendeu que os negros e os ciganos não teriam “descendido” da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Em anti-racista reacção, o historiador Rui Bebiano defendeu, por sua vez, o seguinte:

“Na realidade, o texto-chave da história contemporânea aprovado em Paris, pela Assembleia Nacional Constituinte, apenas cinco semanas após o episódio revolucionário decisivo que foi a Tomada da Bastilha, refere expressamente o caráter universal e igualitário desses direitos. Observados sob uma perspetiva ocidental, é certo, mas que sob a influência dos princípios iluministas e das ideias da Revolução Americana se pretendiam aplicáveis a todos os seres humanos.”

Creio que se pode estar a minimizar a distância histórica entre uma certa concepção potencialmente universalista e um conjunto de práticas político-institucionais, devidamente teorizadas, que bloquearam esse potencial. Negros, mulheres e plebe estavam na prática, e em muita da teoria, excluídos nesta fase, liberal e burguesa, da Grande Revolução Francesa, incluindo de uma Declaração que acabava por privilegiar os proprietários. A Declaração, por exemplo, não se aplicava inicialmente às colónias, em especial a São Domingos (futura República do Haiti), a lucrativa colónia açucareira assente numa força de trabalho esmagadoramente escrava e que assim permaneceu. Como defendeu Eric Hobsbawm, na sua magistral A Era das Revoluções, a revolução ignorou nesta fase a gente comum, quer do ponto de vista socioeconómico, quer do ponto de vista político.

Será só na fase republicana e jacobina da revolução, em 1794, que a escravatura é abolida nas colónias francesas, para voltar a ser reinstituída por Napoleão na fase de consolidação burguesa pós-revolucionária. Será só na fase jacobina que as questões social e democrática começam a ser constitucionalmente encaradas. Os chamados jacobinos negros, já agora, foram os actores da luta pela República do Haiti, o espectro a esconjurar por todos os meios e por toda a América de seguida.

E o que dizer da “Revolução Americana”? O capitalismo liberal norte-americano foi na sua prática institucional excludente, até porque foi escravocrata: o direito à felicidade não era de facto para todos. A divisão de trabalho na base do capitalismo norte-americano é impensável até muito tarde no século XIX sem esta forma de dominação, reforçada no sul até à década de sessenta e que também beneficiou o norte, como se tem cada vez mais sublinhado na nova história do capitalismo nos EUA: o algodão não engana, realmente.

Do ponto de vista político, lembremo-nos do compromisso dos três quintos na Convenção Constitucional, composta por homens brancos relativamente ricos, contando-se assim nesta proporção os escravos para efeitos de impostos e de peso eleitoral dos Estados. Lembremo-nos da necessária Guerra Civil e do grande Lincoln, por quem de resto Marx tinha uma enorme admiração. Lembremo-nos de como essa encarnação do chamado internacionalismo liberal que foi o Presidente Wilson, racista e segregacionista, recusou, em 1919, a proposta do Japão para inscrever a igualdade racial na nova ordem internacional emergente. E, já agora, lembremo-nos de como gente de esquerda anda ainda hoje a incensar figuras destas, em nome da adesão a um liberalismo demasiado a-histórico.

Se lembro estas coisas, é só para sublinhar como o liberalismo historicamente dominante é incompreensível se não atentarmos nas suas cláusulas institucionais de exclusão, anti-democráticas, racistas e patriarcais, até ao século XX e para lá dele. E estas cláusulas foram defendidas por algumas dos melhores pensadores liberais, de Tocqueville a Mill, particularmente no âmbito das questões colonial, social e democrática. Foram sobretudo as tradições republicana radicalmente democrática e socialista que lutaram para eliminar as tais cláusulas, em nome de um humanismo universalista genuíno, mas que foi tantas vezes recebido a ferro e fogo pelo liberalismo hegemónico no chamado longo século XIX e para lá dele.

É por estas e por outras razões históricas e por muitas outras razões ético-políticas que recuso colocar liberal a seguir a democracia. Um democrata tem de saber superar, friso a palavra superar, o liberalismo, até para não deixar de ter no horizonte a questão da superação do capitalismo, de que o primeiro é, em última instância, a ideologia.

Fonte: http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2019/07/pensar-bonifacio-nao-ha-duas-sem-tres.html
[1]

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References

  1. ^ http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2019/07/pensar-bonifacio-nao-ha-duas-sem-tres.html (ladroesdebicicletas.blogspot.com)
  2. ^ endereço (www.odiario.info)
  3. ^ odiario.info (odiario.info)

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Portugal | Bonifácios e afins

 
 
Ana Alexandra Gonçalves* | opinião

As Bonifácios e afins permitem trazer à luz do dia o racismo latente e disfarçado que corre nas veias de muitos. As bonifácios e afins, mesmo procurando sustentar as suas bacocas teses em pretensos factos históricos ou traços culturais, cai no ridículo e acaba a falar da vizinha de outra "raça" que é ainda mais racista do que os "brancos", trazendo desta forma a conversa para dentro de um táxi.

As Bonifácios e afins permitem também perceber que este é um problema que poucos querem abordar, até porque Portugal é supostamente um país diferente, mais tolerante, mais acolhedor. É bom pensamos assim. É bom porque nos enche o ego e nada precisamos de fazer para mudar porque não é preciso mudar o que está bem.

As Bonifácios e afins trouxeram à luz do dia o racismo que por aí grassa, mostrando um país que nunca foi verdadeiramente tolerante, mas que apenas faz um esforço hercúleo para se convencer colectivamente dessa tolerância.

Não chega expor ao rídiculo as bonifácios deste mundo, é preciso olhar para a questão e procurar soluções. Considerar que está tudo muito bem constituí um erro crasso e uma falácia sem qualquer sentido. Pensar que uma sociedade que ostraciza tem futuro é simplesmente risível.
 
Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-bonifacios-e-afins.html

Portugal | A mulher tem alma?

 
 
A doutora Bonifácio, o cabo Adolfo e o general Arriaga. Cristãos, arianos e derrotados. O racismo, o colonialismo e o nazismo e a questão da superioridade de um povo eleito. Querelas velhas como os tempos. Falamos de venenos velhos.
 
Carlos de Matos Gomes* | Jornal Tornado | opinião
 
A dúvida sobre quem pertence ou não pertence à cristandade é antiga e complexa, mete sexo e cor de pele e até intervenções rituais na cabeça do prepúcio.

Pelo que lemos recentemente de uma doutora da cristandade, a questão da pertença aos eleitos é ainda inconclusiva. Com razão. Nem o cabo Adolfo com as suas duas obras-primas, o Mein Kampf e o Holocausto, a resolveu apesar da II Guerra Mundial no século XX! No início do século XXI temos a reedição bonifaciana.

A referência mais antiga que conheço à questão da mulher na cristandade – e não sou historiador, nem escrevo no Público, nem sou mulher, é a do Concílio de Macon, na Gália, em 585. Num trecho da História dos Francos, S. Gregório de Tours descreve que os sábios cristãos discutiram se a mulher podia chamar-se homem e assim ter alma, ou se não, e não estava incluída na cristandade. Por poucos votos de diferença ganhou a tese de que a mulher tinha alma e podia integrar a cristandade, isto há 1.500 anos! Bonifácio, insigne mestre, nada melhor encontra no seu intelecto do que repetir a dúvida de Shakespeare: Ser ou não ser! Parece que Bonifácio não esteve no dito concílio para negar a cristandade às mulheres.

 
Sobre o “Penso, logo existo” é que, quanto às teses bonifacianas, devemos cogitar. Bonifácio existe. É a única certeza.  Quanto às teses são do mais requentado, do género: Obrigado meu Deus por me teres feito sair branco e crente num Deus que fez o mundo numa semana!

Aqui em Portugal, nos anos 50, um general de fraco êxito militar em campanha, mas de grande fama intelectual, desenvolveu variações à tese agora recuperada pela velha beguina Bonifácio, em lições de estratégia para altos comandos. Escreveu: à medida que descemos de Norte para Sul as raças degradam-se. Escurecem e afastam-se da humanidade. Um loiro nórdico é mais inteligente que um latino e este mais, muito mais do que um negro nas florestas equatoriais. Chamava-se Kaulza de Arriaga. Quanto ao texto de Bonifácio nada de novo, nem quanto ao cabo Adolfo, nem quanto ao general Arriaga. Boas companhias. Ambos, Adolfo e Arriaga derrotados. Bonifácio anda com gente de qualidade! Um orgulho da cristandade.

Quanto a escravos, uma categoria para a qual os africanos de várias partes do continente dito negro contribuíram com um grosso contingente, já São Paulo, um cristão certificadíssimo, escrevia nas várias cartas que enviou a futuros convertidos da bacia do Mediterrâneo:

Todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Porque todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo. Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea. Porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gal. III, 26, 28). Não há diferença de gentio e de judeu, de circuncisão e de prepúcio, de bárbaro e de seita, de servo e de livre; mas Cristo é tudo e em todos (Coloss. II, 11). Porque no mesmo espírito fomos batizados todos nós, para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus, ou gentios ou servos, ou livres e todos temos bebido em um mesmo Espírito (I Cor, XII, 13).”

Isto há 2000 anos! E ainda há dúvidas se os africanos, tais como as mulheres pertencem à cristandade. T’arrenego São Paulo! dirá Bonifácio.

Também a questão da pertença dos ciganos à cristandade que a todos nos une é antiga e está estudada, cigano é uma corruptela de egípcio, terra de onde surgiu Moisés das águas para anos mais tarde receber os Mandamentos do Deus da Bíblia, o Jeová que sem culpa formada tem uma multidão de testemunhas. Gente da nossa, branca, que fala inglês e come batatas fritas e exclama oh my God! em momentos inesperados, dirá a cristã Bonifácio.

Ter origens egípcias é um bom atestado de origem, julgo, contrariando a senhora que se assumiu como certificadora da pureza da raça e da civilização. Parece que a língua dos ciganos pertence ao grupo indo-ariana, tal como a nossa. Embora eles nos tratem por gadjós e nós a eles por lelos. Em desabono da cristandade cigana, ou romani, surgiu a lenda de terem sido eles, os ciganos, a fabricar os pregos com que Cristo foi pregado na cruz. Motivo mais do que suficiente para os excluir do nosso cristão convívio, dir-se-ia a quem lê a história pela rama, como Bonifácio. Acontece que convivemos sem qualquer reparo da doutora Bonifácio com os judeus, os que mataram Cristo, utilizando os legionários romanos como carrascos.

Enfim, sabendo um pouco de História – bastam umas meras curiosidades, daquelas que servem para perguntas de cultura geral nos concursos de televisão – a devota Bonifácio evitava exibições de preconceito, que é sempre um anexo da pesporrência.

Se doutores antigos, alguns canonizados, não concordarem com a actual doutora Bonifácio ela terá sempre à mão um motorista de táxi, um motociclista dos Hell Angels, uns neonazis de cabeça rapada, uns cristãos de barrete e lençol do Ku Klux Klan para lhe abonar a teoria!

O que me parece fora de razão é ir discutir com um delegado do Procurador da República, ou com um juiz de Direito estes assuntos de mulheres com ou sem alma, de ciganos que se dão mal com sapos e de africanos que do Magreb à cidade do Cabo têm entre si tantas ou mais diferenças que uma doutora Bonifácio de uma Madame Curie, por exemplo.

A cristandade agradece que o lixo seja tratado como tal. Não crucifiquem as ratas, nem queimem as baratas.

*Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-mulher-tem-alma.html

"ganda puta!"

 
 
 
Há uma dúzia de anos uma blogger da nossa praça contou que o filho de dois anos andava com a mania de chamar "ganda puta" às pessoas. Os pais tentaram tudo para lhe tirar o hábito, mas o miúdo insistia. Até que a mãe recorreu a métodos brutais. A maior parte dos comentários ao post onde isto era relatado foram de aprovação, variações de "quando for grande vai-te agradecer ter recebido essa boa educação".

Há dias comparei os valentes que "ousam assumir" um discurso politicamente incorrecto a uma criança de três anos que grita "cocó" no meio de uma sala cheia de visitas[1]. Mas ao ler o artigo mais recente do João Miguel Tavares[2] dei-me conta de que a imagem peca por defeito. Corrijo agora: o que esses valentões dizem não é "cocó", é: "ganda puta!"
E parece que não tiveram pais que os educassem, em criança.

Por algum motivo que gostava de entender, mas argumentando que estão a respeitar a liberdade de expressão, os jornais publicam a provocação. Dão palco a estes discursos que não fazem o menor esforço para esconder os tiques de supremacia branca, e até os exibem em letras grandes e gordas:

Ganda puta!

Desculpem que pergunte: em nome de quê publicam os jornais um "ganda puta!" (por exemplo: "Sim, há culturas que são superiores a outras[3]") em letras gordas?

A posição de que as ideias se debatem com ideias, e que a vantagem da publicação de textos infelizes é dar ensejo à publicação de textos felizes para contrapor, parece-me um bocadinho ingénua. Qual é o poder e o valor do contraditório nestes tempos de fake news, quando já é do conhecimento de todos que as pessoas ouvem apenas aquilo que querem ouvir e acreditam apenas naquilo em que querem acreditar, quando a terra ser redonda ou plana, a chegada do Homem à lua ou a importância das vacinas são meras questões de opinião? Hoje em dia, o que acontece no espaço público não é um debate esclarecedor, mas uma enorme chinfrineira. Para muitos, o debate esgota-se de forma satisfatória no momento em que lêem o "ganda puta!" da sua convicção escrito em letras grandes e gordas nas páginas do Público. Tudo o resto que se possa dizer sobre o assunto será ignorado: mera canzoada a ladrar.
São estas as novas regras do jogo, e não as podemos ignorar.
Fazer o quê, então? Não sei. Mas o facto de não ter solução para este problema não inviabiliza a crítica e não nos pode impedir de reconhecer que chegamos a uma situação de impasse.

Para tornar tudo ainda mais complexo, a gravidade desta questão não se esgota na improficuidade do debate. Se as ideias apresentadas e debatidas se limitassem a discutir o sexo dos anjos, menos mal. Mas muitas vezes esses "ganda puta!" atirados para o espaço público de debate ferem impiedosamente a dignidade humana. O infantiloide que se julga muito valente por não respeitar "a ditadura do politicamente correcto", e grita insultos para o meio da sala, está realmente a cometer tortura psicológica contra as pessoas de alguns grupos marginalizados. Dizer-se neste caso que "quem não deve não teme" será sinal de ignorância e falta de empatia. É exigir demasiada nonchalance a pessoas que ao longo de toda a sua vida são humilhadas por atitudes - muitas vezes inconscientes e involuntárias - de ódio étnico e racial. Estou a pensar, por exemplo, no que me contou há dias um empresário alemão: em miúdo, fartou-se de apanhar tareias na escola e na rua, sem saber o que é que os outros miúdos tinham contra ele. Até que um dia percebeu: o seu cabelo castanho dava-lhe um ar de turco. Isso mesmo: perseguiam-no e batiam-lhe apenas por acharem que ele era turco. Ele - filho, neto e bisneto de alemães - tinha como escapar a esta dinâmica de violência. Mas os outros, os filhos de turcos, não. 
E estou a pensar neste filme, que mostra bem o que é crescer num ambiente hostil:

O meu filho está há meses a trabalhar com grande entusiasmo e generosidade na organização do festival in*Vision. Um dos objectivos do festival é trazer para o centro da sociedade pessoas que se sentem marginalizadas. Fazê-las acreditar que são cidadãs de pleno direito, e que esta Polis também é delas - nem mais nem menos que dos outros.

De cada vez que um jornal publica um destes "ganda puta!" de supremacia branca em letras gordas, destrói o trabalho dos organizadores do in*Vision e de tantas iniciativas do género, e obriga-os a recomeçar, uma e outra vez. Pergunto-me se o João Miguel Tavares, a Fátima Bonifácio e outros comentadores do género se sentem contentes e orgulhosos do importante papel que escolheram ter na sabotagem dos esforços para criar uma sociedade igualitária. 

E fico à espera dos próximos capítulos no Púlico: será que teremos em breve mais um artigo da Bárbara Reis[4] a criticar os "snowflake" por afinarem logo mal lhes chamam "ganda puta!"? Será que na próxima semana João Miguel Tavares nos vai explicar porque é que os tipos que vivem nos guetos da "cultura inferior" não se devem revoltar contra os da "cultura superior" que os tratam com a rudeza de um miúdo de dois anos que quer provocar a autoridade dos adultos?

Ver o original em Dois Dedos de Conversa - clicar aqui

Pensar Bonifácio: não há duas sem três

A racista Maria de Fátima Bonifácio defendeu que os negros e os ciganos não teriam “descendido” da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Em anti-racista reacção, o historiador Rui Bebiano defendeu, por sua vez, o seguinte: “Na realidade, o texto-chave da história contemporânea aprovado em Paris, pela Assembleia Nacional Constituinte, apenas cinco semanas após o episódio revolucionário decisivo que foi a Tomada da Bastilha, refere expressamente o caráter universal e igualitário desses direitos. Observados sob uma perspetiva ocidental, é certo, mas que sob a influência dos princípios iluministas e das ideias da Revolução Americana se pretendiam aplicáveis a todos os seres humanos.” Creio que se pode estar a minimizar a distância histórica entre uma certa concepção potencialmente universalista e um conjunto de práticas político-institucionais, devidamente teorizadas, que bloquearam esse potencial. Negros, mulheres e plebe estavam na prática, e em muita da teoria, excluídos nesta fase, liberal e burguesa, da Grande Revolução Francesa, incluindo de uma Declaração que acabava por privilegiar os proprietários. A Declaração, por exemplo, não se aplicava inicialmente às colónias, em especial a São Domingos (futura República do Haiti), a lucrativa colónia açucareira assente numa força de trabalho esmagadoramente escrava e que assim permaneceu. Como defendeu Eric Hobsbawm, na sua magistral A Era das Revoluções, a revolução ignorou nesta fase a gente comum, quer do ponto de vista socioeconómico, quer do ponto de vista político.  Será só na fase republicana e jacobina da revolução, em 1794, que a escravatura é abolida nas colónias francesas, para voltar a ser reinstituída por Napoleão na fase de consolidação burguesa pós-revolucionária. Será só na fase jacobina que as questões social e democrática começam a ser constitucionalmente encaradas. Os chamados jacobinos negros, já agora, foram os actores da luta pela República do Haiti, o espectro a esconjurar por todos os meios e por toda a América de seguida. E o que dizer da “Revolução Americana”? O capitalismo liberal norte-americano foi na sua prática institucional excludente, até porque foi escravocrata: o direito à felicidade não era de facto para todos. A divisão de trabalho na base do capitalismo norte-americano é impensável até muito tarde no século XIX sem esta forma de dominação, reforçada no sul até à década de sessenta e que também beneficiou o norte, como se tem cada vez mais sublinhado na nova história do capitalismo nos EUA: o algodão não engana, realmente. Do ponto de vista político, lembremo-nos do compromisso dos três quintos na Convenção Constitucional, composta por homens brancos relativamente ricos, contando-se assim nesta proporção os escravos para efeitos de impostos e de peso eleitoral dos Estados. Lembremo-nos da necessária Guerra Civil e do grande Lincoln, por quem de resto Marx tinha uma enorme admiração. Lembremo-nos de como essa encarnação do chamado internacionalismo liberal que foi o Presidente Wilson, racista e segregacionista, recusou, em 1919, a proposta do Japão para inscrever a igualdade racial na nova ordem internacional emergente. E, já agora, lembremo-nos de como gente de esquerda anda ainda hoje a incensar figuras destas, em nome da adesão a um liberalismo demasiado a-histórico. Se lembro estas coisas, é só para sublinhar como o liberalismo historicamente dominante é incompreensível se não atentarmos nas suas cláusulas institucionais de exclusão, anti-democráticas, racistas e patriarcais, até ao século XX e para lá dele. E estas cláusulas foram defendidas por algumas dos melhores pensadores liberais, de Tocqueville a Mill, particularmente no âmbito das questões colonial, social e democrática. Foram sobretudo as tradições republicana radicalmente democrática e socialista que lutaram para eliminar as tais cláusulas, em nome de um humanismo universalista genuíno, mas que foi tantas vezes recebido a ferro e fogo pelo liberalismo hegemónico no chamado longo século XIX e para lá dele. É por estas e por outras razões históricas e por muitas outras razões ético-políticas que recuso colocar liberal a seguir a democracia. Um democrata tem de saber superar, friso a palavra superar, o liberalismo, até para não deixar de ter no horizonte a questão da superação do capitalismo, de que o primeiro é, em última instância, a ideologia.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A linha divisória entre a decência e a indignidade

A Lei de Newton sobre a equivalência entre as ações e as reações faz sentido na Física, mas também revela singular correspondência nos fenómenos políticos. Por isso podemos evocar muitos exemplos de revoluções, que se radicalizaram até à dimensão cruel dos regimes por elas derrubados, e vice-versa, reações exageradas para contrapor aquilo que os seus promotores consideraram como ruturas inaceitáveis com os seus valores e interesses.

 

Trump serviria de contraponto ao facto de o antecessor ter beliscado os interesses do setor da saúde com o Obamacare e, sobretudo, pela azia dos seus eleitores por terem suportado um não caucasiano na Casa Branca durante oito anos. Bolsonaro corresponderia à reversão das políticas de Lula em prol dos mais desfavorecidos. E, porque puxaram as respetivas sociedades para extremismos tão excessivos, não me admiraria que viessem a ser sucedidos nos próximos atos eleitorais por Bernie Sanders ou Elizabeth Warren no primeiro caso e pelo regressado Lula no segundo (trocando as grades da prisão com o cada vez mais desmascarado Moro).

 

Vem isto a propósito do tristemente célebre artigo racista de Fátima Bonifácio, que começou por merecer pronta rejeição por quem o considerou justamente execrável, mas agora vai sendo recuperado por alguns paladinos da direita, que lamentam intimamente uma sacudidela tão para a esquerda de valores, que gostariam ver normalizados e até avalizados pela comunidade académica, e se aprestam a querer convencer-nos de que o argumentário da criatura não seria assim tão detestável. Em poucos dias João Miguel Tavares (o dileto amigo de Marcelo), Henrique Monteiro e José Adelino Maltez vieram à liça defender o indefensável.

 

Registemos tais adesões cientes de existir uma linha de fronteira entre a decência e a indignidade e ela estabelece-se entre quem verbera ou quem apoia a autora do texto. E Tavares, Monteiro e Maltez colocaram-se no lado dos que, sem surpresa, se confirmaram no campo da desonra.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/a-linha-divisoria-entre-decencia-e.html

Colonialismo e crueldade

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 14/07/2019)

Clara Ferreira Alves

De 1922 a 1927, George Orwell serviu o império britânico no norte da Birmânia, como oficial da polícia. Dele é a frase: “O passado pertence aos que controlam o presente.”

 

Eric Blair, nascido em 1903, vinha da baixa classe média, ou de uma classe média sem dinheiro, mas entrou em Eton, a mais elitista das escola, a escola dos príncipes. Foi vítima de bullying, e sobreviveu às sevícias e humilhações, mas não tentou frequentar Oxford ou Cambridge. Os cinco anos de snobismo e complexo de casta chegaram. Aos 19 anos, estava na Birmânia. Logo se apercebeu da situação colonial, uma exploração cruel dos nativos pela supremacia branca. Dessa experiência birmanesa resultou um livro, um romance, “Dias da Birmânia”, e dois ensaios de génio, “Shooting an Elephant” (Matar um Elefante) e “A Hanging” (Um Enforcamento). São textos que retratam, com a empatia e compaixão que caracterizavam a escrita seca e precisa de Orwell, a tragédia da exploração capitalista colonial e do racismo. O romance, “Dias da Birmânia”, está escrito num estilo soberbo, enfeitado, que Orwell depois renegou (era o primeiro romance e tinha os vícios habituais) e descreve exemplarmente os tipos coloniais. Não é tanto a crueldade mas a suprema indiferença pelos nativos, os asiáticos, a sua invisibilidade, a prestação esclavagista vista de cima para baixo como um direito do funcionário, do comerciante ou do proprietário colonial. Os nativos, escreveu Orwell, eram para os colonialistas, nativos. Interessantes mas, finalmente, inferiores.

O império estava no estertor, em breve a Índia escaparia das algemas e com ela o Paquistão, e, claro, a Birmânia. A tragédia dos rohingya não é compreensível sem conhecer estes capítulos do colonialismo britânico, que sempre se reclamou, em relação ao português, mais avançado e mais culto, menos brutal e troglodita. Basta ler os guias da Índia para ver como os portugueses são acusados, na sua missão cristianizadora, de terem destruído os belos templos das cavernas da ilha de Elephanta, a que demos o nome, em frente a Bombaim, transformando-os em campos de tiro. As estátuas das divindades hindus estão desfiguradas pelas balas dos portugueses, numa selvajaria profana contra os profanos. Sagrado era o que os cristãos diziam que era sagrado. Quem não fosse cristão, ou se convertia ou era destruído. Este foi o modelo da cristandade portuguesa durante séculos. O padrão e a cruz. Deixámos, por esse mundo fora, um império construtor de fortalezas e igrejas, e legiões de cristãos de pele diferente da nossa. Cristãos católicos da Ásia a África, fomos os responsáveis primeiros.

O colonialismo português, com a sua dose maciça de coragem, aventura, crueldade e exploração, de esclavagismo e ignorância, de indiferença e desconsideração, nem sequer achava os nativos interessante. Achava-os fungíveis e sub-humanos. Carne para criadagem, cozinha, cama.

Este colonialismo, com as tropelias e guerras da fase do estertor, nunca produziu um escritor que, como Orwell, tivesse a empatia e a lucidez de o descrever. Nem sequer um Kipling. Ou um Forster. Não produziu nada de extraordinário depois das epopeias, tragédias e relatos do século XVI e XVII. Certamente, nada de extraordinário nos séculos XIX e XX. Exceto o poema de Jorge de Sena, ‘Camões na Ilha de Moçambique’, “pequena aldeia citadina de brancos, negros, indianos e cristãos, e muçulmanos, brâmanes e ateus”.

O colonialismo foi depois amalgamado numa teoria de lusotropicalismo recheado de imbecilidades como as que ouvi dizer a alguns diplomatas e académicos de antanho. Os ingleses fizeram a guerra e nós fizemos amor, make love not war, e assim mestiçámos. Uma orgia de violação, uso e abuso das mulheres nativas e das escravas mascarada de humanismo sexualizado. A nossa sociedade colonial descambou no modelo ainda em vigor na sociedade brasileira, onde os negros são vistos como servos naturais dos brancos.

Luanda era descrita como a grande cidade branca de África, a mais evoluída, a mais arquitetada, a mais pensada, e como um símbolo da glória do império português. A Cidade do Cabo também era gloriosa, mas não tínhamos apartheid, éramos mais “humanos” porque mais mestiçados. Na verdade, a mestiçagem dava jeito e o apartheid, compondo a rigorosa separação das raças e condenando a mestiçagem como um crime, impossibilitava o abuso sexual das mulheres e dos homens que serviam o capitalismo colonial.

O salazarismo, nunca tendo Salazar arredado a manta e o fogareiro e posto um pé nas terras dos selvagens onde mandou combater os ‘turras’ dos movimentos de libertação, sacrificando os mancebos portugueses a uma guerra que não entendiam e da qual nada sabiam, tinha a convicção de que aquilo era nosso por direito próprio e que a posse da terra tinha dentro dela o direito a dispor de uma raça inferior. A Índia nunca lhe interessou tanto, por remota e exótica, ou os longínquos Timor e Macau, como África, Angola e Moçambique. Menos, Cabo Verde, e talvez tenha sido uma sorte para os cabo-verdianos. E a Guiné, onde a guerra seria mais fácil de ganhar.

O colonialismo português teve os seus capítulos de glória nas conquistas e caravelas mas atravessou o século XX, o século das descolonizações, de olhos vendados. Nas escolas, a História de Portugal era uma lenda e uma narrativa mentirosa, arranjada para manter o regime como o defensor dos valores da cristandade em terras de bárbaros. Construíamos a escola e a igreja ao lado e deixávamos o esgoto a céu aberto e o casebre. Já Eusébio era velho, visitei o bairro onde ele nasceu no Maputo, Mafalala. Era isto. O amigo moçambicano que lá me levou não odiava os portugueses. Pelo contrário, tinha vindo educar-se a Portugal e gostava muito de Lisboa. Ele e a mulher são cultos, ela estudou literatura, ele escreveu livros, e assim são os amigos deles. Sempre pasmei da ausência de ressentimento tanto nos intelectuais como na gente simples de um país que condenámos à miséria e à corrupção. Isto deve-se à tal empatia, à humanidade, à educação e à consideração de que somos todos parte de uma raça, a humana.

Não nos odeiam. Nós, temos por cá uma gente que odeia pretos, e ciganos, como temos gente que odeia mulheres, e homossexuais, e doentes com sida, e muçulmanos, e judeus, e por aí fora. Quando se começa a odiar nunca mais se para. É esta gente que tem de ser educada. É esta gente que tem de ler uns livros e sair do canto provinciano e mesquinho das suas cabeças. De ler George Orwell e o que escreveu contra os totalitarismos e autoritarismos de que o colonialismo faz parte. Temos de deixar de controlar o passado.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pensar Bonifácio (II)

«O europeu, pá, é um gajo que não é igual a nós. Tenho muita pena, mas não é. Eu não sou racista, mas você veja a quantidade de criminosos que são brancos. A mim basta-me ler uma notícia de jornal e eu vejo imediatamente. Quando se começou a falar daquele Pedro Dias, que andou um mês fugido em Arouca, eu disse logo a malta amiga: “Quanto é que apostam que é um branco?” E era. Não falha. Manuel Palito, Leonor Cipriano, Maria das Dores, a mulher do triatleta: tudo brancos. Não têm os mesmos valores que nós. Aquilo está-lhes no sangue, pá. Nas notícias nunca dizem que são brancos, porque a comunicação social protege-os, mas quem estiver com atenção topa. Isto é muito simples, basta olhar para o estado em que as coisas estão. Banqueiros: brancos; autarcas: brancos; dirigentes desportivos: brancos. Porque é que este país não sai da cepa torta? São quase 900 anos de brancos a mandar. Não há hipótese. Eles descendem de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. São herdeiros da Inquisição e dos pogroms, e o catano. Você repare nos gajos do Ku Klux Klan. Todos eles cristãos, não falha um. O que é que aquela malta, que veste os capuzes brancos para ir chacinar negros – cujo sangue, estampado nos lençóis, é depois orgulhosamente exibido perante a comunidade -, tem a ver connosco? Nada.
E os brancos são racistas entre eles, atenção. Ingleses odeiam alemães, alemães odeiam franceses, e franceses odeiam toda a gente. Eu tenho um cunhado que está em França e, há pouco tempo, uma empregada branca do prédio indignou-se: “Senhor, eu não sou espanhola, sou portuguesa.” Passou-se com ele. A portuguesa desprezava as espanholas porque viviam mais para o lado, na mesma península… Vá lá um gajo entendê-los.
Oiça, eu ando na estrada e vejo muita coisa. É muito raro eu ter chatices no trânsito com gente que não seja branca. Andam aí todos, nos seus Mercedes, e tal, e eu digo logo: “Deves tê-lo comprado a trabalhar, deves.” Foi algum desfalque, com certeza. É certinho. E não me venham dizer que não é a raça. Você veja: em Portugal quantos índios comanches é que fizeram desfalques? Zero. O índio é um gajo que quer estar sossegado, a fumar o seu cachimbo, e não se mete a administrar instituições financeiras. Quando me falam em crimes de colarinho-branco eu digo sempre: mais vale dizerem “crimes de colarinho do branco.” Porque eles fazem o que fazem com colarinhos de qualquer cor, amigo.» Ricardo Araújo Pereira, Mário Bonifácio, motorista de táxi

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

«HAT TRICK»

Apercebi-me que, para o explicar, teria que escrever aqui uma espécie de crónica a dizer mal das crónicas dos outros, o que seria ridículo. Para não ser assim, a minha sugestão para que as vão ler ao Público, uma fiada de opiniões fazendo eco das lutas geracionais e do ensimesmamento do meio em que compartilham tópicos (o artigo racista de Fátima Bonifácio) e alvos (os outros cronistas).

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/07/hat-trick.html

Nada é preto ou branco

Comentário a este artigo:

O Miguel Sousa Tavares também devia ler este livro para perceber que o "senso comum" não basta para opinar (pode dar para ganhar mais mas...):

pdf O Universalismo Europeu (1.76 MB)

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(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/07/2019)

Miguel Sousa Tavares

 

Adoramos as oportunidades para nos indignarmos em nome das boas causas. É de borla e fornece-nos uma excelente ocasião para nos exibirmos do lado justo, civilizado, politicamente correcto. Essencial é que haja alguém do lado contrário, alguém que desempenhe o papel do inimigo a exterminar com a nossa barragem de fogo enraivecido e bem intencionado, sem o que nada faria sentido. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio pôs-se a jeito para a função, enfiando militantemente a carapuça de racista convicta — o que proporcionou a um exército de sempre atentos cidadãos-exemplares o pretexto para repudiarem, enojados, as ideias da professora Fátima Bonifácio.

A primeira coisa que me ocorre dizer é que é fácil e inodoro ser-se anti-racista no Facebook ou no Twitter, proclamá-lo entre amigos ou escrevê-lo em abaixo-assinados. Já conheci várias pessoas que o fazem sem esforço algum, mas que depois só com indisfarçável esforço se comportam na prática, no dia-a-dia e nos contactos humanos como não-racistas. E isso vale para brancos como vale também para negros ou asiáticos ou ciganos: sim, Fátima Bonifácio tem razão quando escreve que também há racistas não brancos — entre si ou para com os brancos — embora não haja comparação, nem física nem intelectual, com o racismo branco para com os outros. O texto dela é, aliás, eloquentemente exemplificativo disto: é um tratado intelectual de justificação do racismo branco e, o que é ainda pior, em nome dos “valores da Cristandade” e da ”civilização cristã”. Esses mesmos valores e essa mesma civilização que invocámos há quinhentos anos para justificar a escravatura. É absolutamente impensável que alguém se possa lembrar de recuperar tal justificação para se desculpar daquilo que não passa de um defeito de carácter.

O racismo é um defeito de carácter e não há forma de o desculpar ou de o tolerar numa sociedade democrática e num Estado de direito. A lei não pode mudar o carácter das pessoas, mas pode e deve estabelecer as linhas vermelhas daquilo que é e não é tolerável na vida em sociedade. E esta é uma linha vermelha.

Tudo o resto das questões levantadas pelo texto de Fátima Bonifácio, ou a propósito dele, já não é tão a preto e branco. A começar pela questão das quotas a favor das minorias étnicas no acesso às universidades, o ponto de partida do texto dela. A questão das quotas — a favor de sexos, de etnias, de religiões — suscita-me muitas dúvidas sobre a sua justiça e ainda mais sobre os seus resultados práticos. Quanto à justiça, porque na sua base está sempre alguém que ascende, não por mérito, mas por decisão política e sobrepondo-se a alguém de mérito superior; quanto aos resultados práticos, porque nada me garante, por exemplo, que uma mulher seja melhor na política que um homem — não é por ser mulher que Merkel se revelou dos melhores, ou dos menos maus, governantes europeus entre a desgraçada geração actual de governantes homens, assim como não é por ser mulher que Theresa May se revelou um desastre como primeira-ministra britânica. Porém a tese de Fátima Bonifácio assenta num contorcionismo extraordinário: ela é a favor das quotas para mulheres que provaram bem; mas não para negros ou ciganos, porque, não fazendo parte da Cristandade, serão seres inferiores. Isto, vindo de uma historiadora é arrepiante. E não é preciso ir aos exemplos extremos da História para medirmos o alcance da perigosidade de qualquer tese assente na superioridade de uma raça, uma etnia, uma religião ou uma civilização sobre as outras: todos os extermínios de povos assentaram nisso.

Contudo, não é menos verdade que nem todos os povos coincidem no grau de desenvolvimento ou naquilo a que chamamos civilização. E nem todos, aliás legitimamente, estão interessados em evoluir para aquilo a que chamamos padrões civilizados. O maior problema de África é o incivismo, a ganância, a corrupção dos seus dirigentes: não por serem negros, mas por ausência de padrões de organização democrática das sociedades. Os ciganos, não vale a pena seremos hipócritas, têm regras de conduta entre si que nós não toleramos nem no Código Civil nem no Código Penal, recusam-se a tratar as mulheres como seres iguais em direitos aos homens, recusam integrar-se no que são os padrões de vida comum em sociedade, mas não abdicam de reivindicar todos e cada um dos direitos e benefícios que o Estado lhes dá. Não podendo ser integrados à força, são um problema, jurídico e social. Nada disto pode ser negado, como fazem os indignados prontos a assinar. Mas também não pode ser generalizado, sob pena de se entrar no campo da discriminação étnica e da defesa assumida do racismo, como faz Fátima Bonifácio.

Estas foram as questões essenciais levantadas pelo seu texto. A mim, em nada me incomodaram elas e ele. Pelo contrário, quanto mais opostas às minhas são as ideias de alguém melhor é a oportunidade para eu testar as minhas e os respectivos fundamentos. Vejo a publicação do texto de Fátima Bonifácio no “Público” como um exercício banal do confronto de ideias num jornal aberto de um país democrático. Uma colaboradora externa publica um texto que toda a gente sabe que não reflecte a linha editorial do jornal e, se calhar até, ofende o seu Estatuto Editorial, mas, qual seria a alternativa — censurá-la? A avaliar pela avalanche de reacções havidas, inclusive do próprio director a declarar-se arrependido da publicação, parece que sim, parece que era isso que tantas consciências ofendidas defendiam. Confesso que isso me choca tanto ou mais que o próprio texto da autora. Queiram ou não — até como se viu pelas reacções contrárias — as ideias de Fátima Bonifácio encontram eco naquilo que muitos outros portugueses pensam, se calhar sem o dizerem abertamente. E, como eu vejo as coisas, em democracia essa gente também tem direito a ter voz e é até melhor que a tenha assim, publicamente, do que andar a votar à socapa no Salazar como o maior português de sempre. Assim, podem expor as suas ideias e serem confrontados e contraditados, de outro modo seriam apenas silenciados, como Salazar fazia com os que dele discordavam.

Na verdade, ver gente a pedir um processo-crime a Fátima Bonifácio (por delito de opinião!), ver outros a pedir o seu silenciamento e afastamento do jornal, ver uma lista de “notáveis” a pedir a sua cabeça (entre os quais, pelo menos dois que julgo recordar terem pedido também o fuzilamento dos implicados no 11 de Março de 1975), traz-me à memória tiques salazarentos de persistente duração. Lendo o texto de Fátima Bonifácio e as desbragadas reacções a ele da esquerda-pronta-a-saltar, só me ocorre uma pergunta: quantos anos serão precisos para apagar de vez os vícios de 48 anos de ditadura?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pensar Bonifácio

O racismo de Maria de Fátima Bonifácio está profundamente articulado com a sua visão de classe, como bem sublinhou o historiador Manuel Loff no Público: “Ódio de classe, ódio de raça. É num mundo assim que vive Bonifácio”. 
Qual é o objectivo deste mundo, hoje, e quais as suas bases intelectuais e políticas? Na esteira de Loff, formulo duas hipóteses, uma política e outra intelectual. A hipótese política. Bonifácio está convencida, a partir da sua leitura da experiência internacional, que a mobilização do racismo é eficaz na luta contra as esquerdas, consolidando a variante reaccionária do neoliberalismo, depois do colapso da sua variante cultural pretensamente progressista. Só lhe falta encontrar um Trump ou um Bolsonaro luso. Ela e outros andam à procura. A hipótese intelectual. Bonifácio é uma apologista da história política das elites liberais do século XIX, reconhecidamente anti-democráticas, permanentemente assoladas pelo espectro da plebe urbana democrática e das revoltas anti-coloniais. Ora bem, para lá de classistas, estas elites eram imperialistas e logo racistas. Mergulhando  neste, e simpatizando com este, universo, Bonifácio transporta deliberadamente para o século XXI hipóteses hegemónicas do liberalismo do século XIX. Ódio de classe e ódio de raça estavam imbricados, como bem se sublinha na história crítica do liberalismo. Sim, é preciso pensar Bonifácio; até para combater a corrente política que encarna.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Defender o crime não é opinião

Como qualquer democrata que o tenha lido, senti-me ofendido com o artigo racista, xenófobo e discriminatório, intitulado «Podemos? Não, não podemos», que Maria de Fátima Bonifácio assinou a 6 de julho no diário Público. Pelo seu significado político, no sentido amplo do termo, tendente a exacerbar ódios e incompreensões num tempo já de si tenso e conturbado no que respeita à aceitação da diferença étnica e cultural, mas também por se escudar numa credibilidade académica que lhe dá alguma autoridade e, por isso, o torna particularmente perigoso.

Porém, a verdade é que nem será preciso um grande esforço para constatar que até esta credibilidade é colocada em causa pelo artigo em questão: a referência à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão «decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789», considerando-os excludentes em relação a grupos humanos, nomeadamente a «africanos» e a «ciganos», é um erro histórico clamoroso. Na realidade, o texto-chave da história contemporânea aprovado em Paris, pela Assembleia Nacional Constituinte, apenas cinco semanas após o episódio revolucionário decisivo que foi a Tomada da Bastilha, refere expressamente o caráter universal e igualitário desses direitos. Observados sob uma perspetiva ocidental, é certo, mas que sob a influência dos princípios iluministas e das ideias da Revolução Americana se pretendiam aplicáveis a todos os seres humanos.

Referências expressas a uma suposta superioridade cultural ocidental e branca, bem como ao caráter «inassimilável» de certos grupos étnicos por comparação com outros, ideias de igual modo presentes no artigo de Fátima Bonifácio, onde são apresentadas com um sentido absoluto, são também inaceitáveis no domínio de um conhecimento histórico e antropológico aberto e atualizado. A sua posição académica – questionável também, aliás, em vários outros dos seus rancorosos artigos de opinião, cujo móbil sempre retrógrado inquina a lucidez e perverte a lógica argumentativa, ainda que esta se apresente envolvida numa pesada ganga professoral – acaba até por reforçar a estratégia antidemocrática na qual se inclui e que procura divulgar junto dos leitores.

A polémica que logo irrompeu abrangeu, inevitavelmente, a ressurgência do debate sobre se determinadas opiniões devem ou não ser combatidas ou mesmo silenciadas numa sociedade democrática. Um conjunto de figuras públicas apresentou mesmo uma queixa-crime contra a professora e cronista, enquanto a opinião mais conservadora ou de direita condena aquilo que vê como uma tentativa censória, vendo em Fátima Bonifácio uma vítima do «politicamente correto». A situação criada conduz-nos a um problema recorrente para o qual vale a pena olhar com atenção.

A livre expressão de opiniões divergentes é a alma da democracia. Ao invés, calar é sinal de medo e o silenciamento uma forma de opressão, componente primária de todas as ditaduras. A censura é um dos seus elementos decisivos, de onde a importância de combatê-la, garantindo as constituições democráticas a pluralidade que esta rejeita. Todavia, existe um espaço de defesa do Estado de direito e das sociedades pluralistas no qual a absoluta liberdade pode e deve conter exceções: quando em seu nome se visa destruir a própria democracia, ou quando incentiva ao crime, como aconteceu no caso em apreço. Se ninguém duvidará que não é «liberdade de expressão» justificar o roubo ou o assassinato, também o não é propagar o racismo, a xenofobia, a desigualdade e o ódio social, como o fez a autora do artigo em questão. Por isso, o que escreveu não pode ser visto como legítima opinião e encarado com um encolher de ombros.

Fotografia de Alphan Yilmazmaden
Publicado no Diário As Beiras de 13/7/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/07/13/defender-o-crime-nao-e-opiniao/

Qual é sua cidadania mesmo?

Qual é sua cidadania mesmo?

EUA não vão parar de conter os cidadãos norte-americanos e distingui-los dos estrangeiros que não têm direito de votar nas eleições.

Segundo o presidente dos EUA, Donald Trump, as autoridades precisam saber a quantidade de cidadãos e estrangeiros que moram nos EUA. "Não vamos desistir da questão da cidadania", disse Trump em comunicado à imprensa, notando que "isso é extremamente necessário para construir uma política razoável".

Na semana passada, a Suprema Corte dos EUA bloqueou a proposta, insistida pelo presidente Trump, de adicionar ao formulário demográfico a questão "cidadania". Segundo especialistas, o adicionamento da questão "cidadania" pode provocar a situação em que muitas pessoas não serão computadas porque terão medo de reconhecer a ausência da cidadania dos EUA.

Depois de tanto querer incluir a questão "cidadania" no censo, Trump acabou desistindo da ideia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2019071214195906-qual-e-sua-cidadania-mesmo/

A mulher tem alma?

A doutora Bonifácio, o cabo Adolfo e o general Arriaga. Cristãos, arianos e derrotados. O racismo, o colonialismo e o nazismo e a questão da superioridade de um povo eleito. Querelas velhas como os tempos. Falamos de venenos velhos.

 

A dúvida sobre quem pertence ou não pertence à cristandade é antiga e complexa, mete sexo e cor de pele e até intervenções rituais na cabeça do prepúcio.

Pelo que lemos recentemente de uma doutora da cristandade, a questão da pertença aos eleitos é ainda inconclusiva. Com razão. Nem o cabo Adolfo com as suas duas obras-primas, o Mein Kampf e o Holocausto, a resolveu apesar da II Guerra Mundial no século XX! No início do século XXI temos a reedição bonifaciana.

A referência mais antiga que conheço à questão da mulher na cristandade – e não sou historiador, nem escrevo no Público, nem sou mulher, é a do Concílio de Macon, na Gália, em 585. Num trecho da História dos Francos, S. Gregório de Tours descreve que os sábios cristãos discutiram se a mulher podia chamar-se homem e assim ter alma, ou se não, e não estava incluída na cristandade. Por poucos votos de diferença ganhou a tese de que a mulher tinha alma e podia integrar a cristandade, isto há 1.500 anos! Bonifácio, insigne mestre, nada melhor encontra no seu intelecto do que repetir a dúvida de Shakespeare: Ser ou não ser! Parece que Bonifácio não esteve no dito concílio para negar a cristandade às mulheres.

Sobre o “Penso, logo existo” é que, quanto às teses bonifacianas, devemos cogitar. Bonifácio existe. É a única certeza.  Quanto às teses são do mais requentado, do género: Obrigado meu Deus por me teres feito sair branco e crente num Deus que fez o mundo numa semana!

Aqui em Portugal, nos anos 50, um general de fraco êxito militar em campanha, mas de grande fama intelectual, desenvolveu variações à tese agora recuperada pela velha beguina Bonifácio, em lições de estratégia para altos comandos. Escreveu: à medida que descemos de Norte para Sul as raças degradam-se. Escurecem e afastam-se da humanidade. Um loiro nórdico é mais inteligente que um latino e este mais, muito mais do que um negro nas florestas equatoriais. Chamava-se Kaulza de Arriaga. Quanto ao texto de Bonifácio nada de novo, nem quanto ao cabo Adolfo, nem quanto ao general Arriaga. Boas companhias. Ambos, Adolfo e Arriaga derrotados. Bonifácio anda com gente de qualidade! Um orgulho da cristandade.

Quanto a escravos, uma categoria para a qual os africanos de várias partes do continente dito negro contribuíram com um grosso contingente, já São Paulo, um cristão certificadíssimo, escrevia nas várias cartas que enviou a futuros convertidos da bacia do Mediterrâneo:

Todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Porque todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo. Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea. Porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gal. III, 26, 28). Não há diferença de gentio e de judeu, de circuncisão e de prepúcio, de bárbaro e de seita, de servo e de livre; mas Cristo é tudo e em todos (Coloss. II, 11). Porque no mesmo espírito fomos batizados todos nós, para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus, ou gentios ou servos, ou livres e todos temos bebido em um mesmo Espírito (I Cor, XII, 13).”

 

Isto há 2000 anos! E ainda há dúvidas se os africanos, tais como as mulheres pertencem à cristandade. T’arrenego São Paulo! dirá Bonifácio.

Também a questão da pertença dos ciganos à cristandade que a todos nos une é antiga e está estudada, cigano é uma corruptela de egípcio, terra de onde surgiu Moisés das águas para anos mais tarde receber os Mandamentos do Deus da Bíblia, o Jeová que sem culpa formada tem uma multidão de testemunhas. Gente da nossa, branca, que fala inglês e come batatas fritas e exclama oh my God! em momentos inesperados, dirá a cristã Bonifácio.

Ter origens egípcias é um bom atestado de origem, julgo, contrariando a senhora que se assumiu como certificadora da pureza da raça e da civilização. Parece que a língua dos ciganos pertence ao grupo indo-ariana, tal como a nossa. Embora eles nos tratem por gadjós e nós a eles por lelos. Em desabono da cristandade cigana, ou romani, surgiu a lenda de terem sido eles, os ciganos, a fabricar os pregos com que Cristo foi pregado na cruz. Motivo mais do que suficiente para os excluir do nosso cristão convívio, dir-se-ia a quem lê a história pela rama, como Bonifácio. Acontece que convivemos sem qualquer reparo da doutora Bonifácio com os judeus, os que mataram Cristo, utilizando os legionários romanos como carrascos.

Enfim, sabendo um pouco de História – bastam umas meras curiosidades, daquelas que servem para perguntas de cultura geral nos concursos de televisão – a devota Bonifácio evitava exibições de preconceito, que é sempre um anexo da pesporrência.

Se doutores antigos, alguns canonizados, não concordarem com a actual doutora Bonifácio ela terá sempre à mão um motorista de táxi, um motociclista dos Hell Angels, uns neonazis de cabeça rapada, uns cristãos de barrete e lençol do Ku Klux Klan para lhe abonar a teoria!

O que me parece fora de razão é ir discutir com um delegado do Procurador da República, ou com um juiz de Direito estes assuntos de mulheres com ou sem alma, de ciganos que se dão mal com sapos e de africanos que do Magreb à cidade do Cabo têm entre si tantas ou mais diferenças que uma doutora Bonifácio de uma Madame Curie, por exemplo,

A cristandade agradece que o lixo seja tratado como tal. Não crucifiquem as ratas, nem queimem as baratas.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/doutora-bonifacio-a-mulher-tem-alma/

Portugal | Racismo: entre o crime e a liberdade de expressão

Portugal está entre os países mais racistas da Europa
Pedro Carlos Bacelar de Vasconcelos* | Jornal de Notícias | opinião

É surpreendente que um órgão de Comunicação Social, seja ele qual for, se preste a ser veículo de mensagens xenófobas e racistas.

O jornal "Público" fê-lo quando consentiu servir de veículo à expressãoflagrante dos mais primitivos sentimentos de xenofobia e ódio racial confessados pela sua colaboradora prof. Fátima Bonifácio, em artigo de opinião publicado no último fim de semana. Tal como a TVI quando entrevistou Mário Machado. Não é razoável, no primeiro caso, que, tendo admitido publicar tal artigo de opinião, a Direção não o fizesse acompanhar, à margem, de uma explícita declaração de repúdio, incluindo o anúncio de que a colaboração da autora cessava a partir dessa data, por manifesta incompatibilidade com a linha editorial de que o jornal tanto se orgulha e que ainda sustenta o prestígio que alcançou junto dos seus leitores. No segundo caso, menos razoável ainda é invocar um alegado interesse jornalístico.

A própria liberdade de expressão, como todos os direitos, é limitada por outros valores e princípios constitucionais que, em situações muito graves, podem conduzir à sua qualificação como crime, conforme prevê o Código Penal em vigor: - "quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crime de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade; (...) b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, (...) é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos". (Art.ª 240, nº2, alínea b) do Código Penal). E a Lei de Imprensa determina que o "diretor, o diretor-adjunto, o subdiretor ou quem concretamente os substitua, (...) que não se oponha, através da ação adequada, à comissão de crime através da imprensa, podendo fazê-lo, é punido com as penas cominadas nos correspondentes tipos legais, reduzidas de um terço nos seus limites". (Art.º 31, n.º 3).

Diz George Orwell, num ensaio datado de 1945 que infelizmente preserva inteira atualidade, reeditado pela Penguin UK, em 2018 (Notes on Nationalism - Antisemitism in Britain): "O problema é que alguma coisa, alguma vitamina psicológica, falhou na civilização moderna e, em consequência disso, todos nós estamos mais ou menos sujeitos a esta loucura de acreditar que nações ou raças inteiras são misteriosamente bondosas ou misteriosamente más". Esta crença demencial foi exposta tragicamente pelos horrores da guerra e dos campos de concentração e extermínio. A confissão dos preconceitos racistas e xenófobos da prof.a Fátima Bonifácio, oferecida num registo pretensamente ingénuo e paroquial, é hoje indesculpável.

*Deputado e professor de Direito Constitucional

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-racismo-entre-o-crime-e.html

História? Não! Antes pequenas estórias do nosso quotidiano!

«Podemos? Não, não podemos.» foi o nome da crónica com que Fátima Bonifácio pretendeu dar uma caução académica ao discurso xenófobo e racista, que vemos exposto sem eufemismos pelo Basta ou pelo PNR. Confiante em que a levavam a sério apenas pelo facto de Ricardo Costa e os diretores de informação dos demais canais televisivos lhe darem tempo de antena nalguns debates, a autora do texto viu caírem-lhe em cima milhares de indignados opositores, que a forçaram ao silêncio quando dela quiseram obter algum comentário sobre tal reação pública.

 

O próprio diretor do «Público», que acedera a inserir tão nefandas opiniões nas colunas do seu jornal, teve de dar a mão à palmatória reconhecendo que a liberdade de expressão tem limites manifestamente ultrapassados pelo discurso de ódio da sua putativa colaboradora.

 

Nos próximos tempos poderemos ver-nos poupados a que ela ou Rui Ramos, que se filia na mesma linha ideológica, venham prosseguir o esforço pela banalização do mal inerente às suas conhecidas posições extremistas. É que, nas últimas décadas, as faculdades dedicadas aos saberes humanísticos viram-se atulhadas de gente decidida a ocupar-se da História já não tanto na perspetiva dos vencedores - porque a Revolução do 25 de abril os derrotou! - mas nela buscando uma persistente desforra. Conciliando essa promoção de ultradireitistas, a quem por exemplo o «Expresso» confiou a responsabilidade por alguns livros de História seccionados em várias semanas, com a repetida emissão pela RTP (agora no canal Memória) dos repulsivos programas de José Hermano Saraiva, quem tem estado por trás desse esforço procura dar aos portugueses uma leitura pervertida de quem foram, quem são e, sobretudo, serão, manipulando-lhes a identidade coletiva de forma a desviá-los das tentações esquerdistas de há quarenta e cinco anos e que se vêm mantendo, eleição após eleição, através da quase contínua constatação de votarem em mais de 50% pelos partidos dessa área.

 

Enquanto as esquerdas se dividiram, permitindo o facilitado acesso das direitas ao poder, esses setores andaram mais descansados. O problema foi o do acordo histórico de há quase quatro anos, que possibilitou a pacificada governação desta legislatura quase terminada. Daí o recurso a todos os argumentos populistas, que julgam recetíveis pelas camadas mais correiodamanhãzadas camadas do eleitorado. Até ver o tiro de Fátima Bonifácio saiu-lhe pela culatra e deve-a ter deixado merecidamente combalida.

 

A ela ou a Rui Ramos, como sucedeu com José Hermano Saraiva torna-se absurda a sua designação como «historiadores». Não é a História com h grande o que eles praticam ou praticaram. Na realidade eles são meras personagens de episódicas estórias da nossa vida coletiva.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/historia-nao-antes-pequenas-estorias-do.html

A propósito do artigo de Fátima Bonifácio no jornal Público

Reproduzimos o comunicado completo do SOS Racismo

 

No passado dia 6 de Julho, a historiadora Fátima Bonifácio, escreve uma crónica no jornal Público, com o pretenso propósito de problematizar e questionar a validade de uma medida de quotas para o acesso ao Ensino Superior, anunciada pelo Secretário Nacional do Partido Socialista, Rui Pena Pires.

O SOS Racismo começa por esclarecer que reconhece a relevância e legitimidade de discutir de forma plural as medidas em causa, incluindo as opiniões de quem se opõe ou tem dúvidas acerca da sua eficácia. Não obstante, a pluralização deste debate não pode servir para dar voz a preconceitos e discursos ostensivamente racistas e difamatórias. O que se percebe da crónica em questão, é que a análise do tema das quotas para minorias étnico-raciais no acesso ao ensino superior é acessória. A autora poderia ter optado por uma análise das oportunidades e limitações que revelam os exemplos internacionais com décadas de experiência na implementação destas medidas, ou por qualquer outra linha de análise factual e fundamentada.  Pelo contrário, o que emerge como a verdadeira tese do artigo é a pretensa inferioridade de “ciganos” e “africanos” e a defesa de uma distância inequívoca que, segundo afirma a autora, separa civilizacionalmente “estes” daqueles que entende que, tal como ela, partilham de “crenças”, “códigos de honra” e “valores” moralmente superiores. Entre os últimos inclui as mulheres, a quem reconhece o direito à igualdade e paridade mas, deduz-se, exclui as mulheres ciganas ou negras.

Entre as considerações que tece encontram-se afirmações graves, pelas generalizações abusivas e estigmatizantes, de teor explícita e inequivocamente ofensivo, entre as quais:

  1. a afirmação de que “ciganos” e “africanos” não pertencem a uma qualquer “entidade civilizacional” que a autora denomina de “cristandade” e não “descendem” da “Declaração Universal do Direitos do Homem”;
  2. as acusações de que os ciganos são “inassimiláveis” e manifestam “comportamentos disfuncionais” e incompatíveis com as “regras básicas de civismo”;
  3. a acusação de que os ciganos forçam as suas adolescentes ao abandono escolar e ao casamento;
  4. a acusação de que os “africanos e afrodescendentes” são “abertamente racistas” e que se “detestam” entre si e aos ciganos.
  5. De ambas as comunidades é dito, em tom perentório, que se autoexcluem.

Tais afirmações são, no mínimo, infundadas, insultuosas, ofensivas e lesivas da honra e dignidade de milhões de pessoas, porque sustentadas em generalizações abusivas e em preconceitos abertamente racistas e xenófobos. Revelam uma ignorância em relação ao tema e ao seu complexo enquadramento social e uma incapacidade, difícil de tomar como intelectual e portanto como ingénua, de o entender quer na sua atualidade quer no seu enquadramento histórico – o que é difícil de justificar face ao facto da cronista ser historiadora. Revelam, pois, uma intenção inequívoca em ofender e em traçar uma clara barreira entre um “nós”, brancos e civilizados, e um “eles”, africanos e ciganos, inassimiláveis.

São várias as afirmações que denotam a intenção explícita de ofender, nomeadamente quando a autora se refere às “feiras e supermercados baratos”, aos “guetos que metem medo”, às “batalhas campais”, como exemplos daquelas que considera serem as realidades quotidianas das comunidades em questão. É ainda dito que “deputados coloridos” fariam do “Parlamento ainda mais ignorante e incompetente” e que as quotas para o acesso ao ensino superior serviriam para dar lugar a “incapazes e preguiçosos, [que] aspiram a um diploma universitário”. É difícil ignorar que as expressões e argumentos se subscrevem e veiculam um discurso de ódio.

Em vez de tratar o tema – das quotas e da representação – com o rigor que o conhecimento exigiria, a autora opta por um tom acusatório que imputa abusivamente comportamentos desviantes a pessoas e grupos racializados, responsabilizando-os pelas circunstâncias de desigualdade e discriminação a que são sujeitos, em vez de as enquadrar social e historicamente e de reconhecer a imperativa necessidade e o dever moral que, como sociedade, temos de as ultrapassar. Fica evidente que o seu olhar sobre as comunidades em questão e sobre o que significa uma sociedade igualitária e diversa está contaminado por um pensamento anacrónico e científica e culturalmente ultrapassado.

Outro dos riscos em que o texto incorre é o de advogar a tese de que o racismo não existe ou que não tem expressão em Portugal, tratando-se de uma “matéria (…) fugidia e evanescente”. Ao SOS Racismo preocupa que pessoas que participam – quer pela exposição pública quer pela atividade profissional – na produção de conhecimento, na formação de impressões e na memória e narrativa colectiva, assinem em órgãos de comunicação social, de ampla divulgação e aos quais é reconhecida credibilidade, discursos que denunciam formas persistentes de racismo e que revelam até resquícios de uma tese genética sobre as diferenças e origens culturais e étnico-raciais.

A narrativa veiculada por Fátima Bonifácio, sendo obviamente falaciosa, encontra como se sabe eco nos discursos sociais quotidianos, sendo recorrente nas caixas de comentários dos jornais, nas redes sociais e até em relatórios de forças policiais, sendo também protagonizados por figuras de destaque mediático[1]. Tem, por isso, que ser motivo de preocupação. Tanto mais numa altura em que estão em curso discussões sobre documentos oficiais[2][3] e matérias legislativas que se debruçam sobre estes fenómenos e podem ser decisivas para os superar. O debate público em torno destas questões, essenciais à cidadania plena de todas e de todos, não pode ficar manchado por retóricas que o inquinam e contaminam.

A liberdade de expressão não deve resultar numa plataforma para difusão da ignorância e da agressão por via do discurso de ódio e intolerância, escondido no dever de garantir o contraditório e a pluralização do debate. O risco da amplificação de um ideário para a inferioridade das “outras raças”, etnias ou “nacionalidades”, além daquelas que supostamente unem os brancos, europeus, nacionais (…), é sério e real. A este respeito os alertas têm sido vários e não podem ser descurados[4]. Diz-nos a história e devia a historiadora saber, que o discurso da supremacia cultural e civilizacional tem aberto o caminho para a legitimação, seja em forma de manutenção ou até inaugural ou de recuperação, de formas múltiplas e muito perigosas de exclusão, segregação, exploração e perseguição – veja-se o caso do Brasil, Itália, Hungria, para citar apenas alguns. Algo que, desde logo, é defendido na crónica quando a autora conclui que “nós” “nada” temos “a ver com este mundo?” e que “o deles” nada tem também “a ver com o nosso”, servindo esta tese, tecida ao longo do artigo, para defender a exclusão destas comunidades da devida e já muito tardia participação e representação no espaço público, político e social.

A posição de privilégio que algumas figuras ocupam no espaço público e mediático exige a todo/as, e em particular a quem tem o poder de o prevenir, que se cuide de evitar que os órgãos de comunicação sirvam como caixas de ressonância e intelectualização de discursos e teses que são, esses sim, graves retrocessos civilizacionais, no ainda tímido caminho que como sociedade começamos a fazer na direção de uma participação e representatividade social que espelhe efetiva diversidade e seja realmente igualitária; propósitos que não podem ser vendidos, como tenta o texto de Fátima Bonifácio, como uma “farsa”.

O que Fátima Bonifácio faz é um artigo a enaltecer a supremacia branca e a defender claramente que os não brancos – “africanos” e “ciganos” – não podem fazer parte da vida pública e social. Posição que fundamenta, a título sentencial, imputando aos “africanos” e aos “ciganos” condutas e práticas cívicas e morais que os auto-marginalizam – e.g., “casamentos forçados”, “batalhas campais” – como se estas constituíssem características essenciais da sua vivência e intrínsecas à sua origem ou pertença. Neste processo, a imagem que deixa é a de que “ciganos” e “africanos” são intrinsecamente selvagens, inferiores, incapazes e indomáveis, ou, nas suas palavras “inassimiláveis”, com uma predisposição quase natural para o crime e para a marginalidade. O que escreve é profundamente injurioso, difamatório e falacioso.

A alínea b) do n.º 2 do artigo 240º do Código Penal, define o crime de discriminação racial da seguinte forma: “Quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação […] b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;”. Pelo exposto, o SOS Racismo irá apresentar a competente queixa ao Ministério Público, porque considera que este comportamento não pode passar incólume. Ofender, injuriar e difamar alguém não pode ser justificado como mera opinião; a liberdade de Fátima Bonifácio se expressar e dizer o que pensa não foi limitada – do que se sabe, escreveu exatamente o que quis. Mas não se pode esperar ou pedir aos/às “africanos”/as e “ciganos”/as atingido/as pelas suas palavras, que vejam diminuídos os seus direitos fundamentais, em especial, o direito à honra, à dignidade, à imagem e à integridade moral. Direitos inalienáveis e que a Constituição da República lhes reconhece e que toda e qualquer Declaração de Direitos Humanos defende. Direitos que não podem ser suspensos ou aplicados discricionariamente, porque Fátima Bonifácio considera, a título de ostensivo preconceito, que estes não se lhes aplicam por “descendência”. Quem é que o Estado deve defender – aquele/a que agride, porque é a sua “opinião” que conta, ou aquele/a que é agredido/a, porque é a sua dignidade, honra e imagem que é posta em causa? A questão que se coloca é para que serve, afinal, o crime de discriminação racial?

O SOS Racismo não aceita escusar-se à responsabilidade de denunciar e exigir o cumprimento legal da defesa dos direitos do/as que são vítimas do racismo. O racismo é crime, não é uma opinião. E o texto de Fátima Bonifácio é um manifesto racista!

Pela Direção do SOS Racismo
Joana Cabral
Joana Santos 
Mamadou Ba
Nuno André Silva
Teresa Martins

Lisboa, 9 de julho de 2019

 

[1] Cfr. Comunicado de imprensa a propósito das declarações de Rui Santos

[2] Cfr. COMISSÃO DE ASSUNTOS CONSTITUCIONAIS, DIREITOS, LIBERDADES E GARANTIAS
Subcomissão para a Igualdade e Não Discriminação

[3] Francisca Van Dunem (Julho, 2019) – A maior expressão de preconceito racial consiste na negação deste preconceito – cfr “A maior expressão de preconceito racial consiste na negação deste preconceito”

[4] 4 Helena Araújo (Julho, 2019). Cfr. “algumas perguntas ao jornal Público


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-proposito-do-artigo-de-fatima-bonifacio-no-jornal-publico/

Fátima Bonifácio e o soufflé

08-07-2019 por Hugo Van Der Dingin "Sábado"
Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima.

Cara Maria de Fátima,

Permita-me que a trate assim, que estou sem pachorra para ir ao Google procurar o seu grau académico, que, li não sei onde, é de licenciada para cima. Pois que já deve adivinhar o que me traz aqui: o seu artigo de opinião «Podemos? Não, não podemos», publicado no jornal Público, que li, eu e o resto do país. E resolvi então escrever-lhe uma carta aberta, para juntar às muitas outras que lhe têm escrito por estes dias a propósito do mesmo tema. Olhe, sempre é mais uma para pôr em cima da lareira ou do piano no Natal, que, com esse feitio não deve receber muitos postais de Boas Festas. Digo eu.

Por ignorância minha ou por não frequentarmos os mesmo círculos (nunca a vi, por exemplo, num after, ou, pelo menos, não tenho ideia disso), confesso que nunca tinha ouvido falar da Maria de Fátima. Mas soube agora, a propósito do frisson que causou o seu artigo, que ando a perder bastante, pois garantem-me que a Maria de Fátima é uma respeitadíssima e publicadíssima académica. Faz muito bem, que o saber não ocupa lugar. E, como diz o povo, um burro carregado de livros é um doutor. O povo é mesmo torto, credo.

Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!

Mas quero acreditar que a pessoa cuja crónica saiu no Público foi a Maria-de-Fátima-Calhandreira. É que a Maria-de-Fátima-Académica não faria generalizações como «os ciganos», «os africanos», e muito menos usaria como amostragem académica uma conversa que teve no elevador com a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.

Dirijo-me, portanto, à Maria-de-Fátima-Calhandreira, com um intuito pedagógico. Não vou comentar a sua posição em relação ao sistema de quotas que tanto a incomoda. Discuti-la-ia com gosto com a Maria-de-Fátima-Académica, se ela assim quisesse. Mas, como já vimos, não é dela a prosa do artigo.

Abeiro-me assim da janela de onde a Maria-de-Fátima-Calhandreira, de óculos na ponta do nariz, casaco de malha coçado, e naperon de crochet crescendo numas agulhas, tece as suas considerações para quem a quiser ouvir.

Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima. Mas, Maria de Fátima, os africanos? A Maria de Fátima escreveu mesmo «os africanos»?

O que me parece faltar à Maria-de-Fátima-Calhandreira, como sói acontecer às calhandreiras, é mundo. É viajar, é ler, é ir ao cinema, que são três boas soluções para a falta de mundo. Uma mais cara, outra média e outra barata, para não haver desculpas.

África, Maria de Fátima, é um continente. Que vai do deserto à selva, da savana às montanhas. Tem o norte e tem o sul, tem o interior e o litoral, tem a costa atlântica e a costa oriental. E cada uma destas partes tem tanto a ver com as outras como têm a ver o olho do rabo com a Feira de Montemor, como também diz o povo.

África tem 30 milhões de quilómetros quadrados, 20% do total da área terreste. Tem 54 países. Tem cerca de 2000 línguas, com 140 delas faladas por vários milhões de pessoas. E, por falar em milhões de pessoas, sabia, Maria de Fátima, que «os africanos» são (números de 2018) 1.287.920.518 de pessoas? Vou dizer por extenso, pois creio ter lido que a Maria de Fátima é de Letras: mil duzentos e oitenta e sete milhões novecentas e vinte mil quinhentas e dezoito pessoas. Ou seja, há mais 1.287.920.517 de africanos, para além da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que a Maria de Fátima usou para resumir «os africanos». Já agora, estima-se que haja em África 380 milhões de cristãos, ao contrário do que a Maria de Fátima parece pensar, quando escreve que os africanos não «fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade». É bom de ver que a Maria de Fátima nunca leu, nem sequer nas revistas das Selecções do Reader’s Digest, na privacidade da sua casa de banho, que algumas das comunidades cristãs mais antigas do mundo (dos séculos I e II) são em África.

Mesmo dando de barato que a Maria de Fátima se referia à África que fala português, ficamos com cinco países, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que ficam geograficamente em regiões tão distintas culturalmente como o noroeste, o sul, o oriente ou o meio do mar. E são cerca de 52.000.000 de pessoas. Cinquenta e dois milhões de pessoas.

Penso que foi a ignorância destes números que fez com que generalizasse que todos os africanos (e afrodescendentes) se «autoexcluem, possivelmente de modo menos agressivo [que os ciganos], da comunidade nacional»,  que «odeiam ciganos», que «constituem etnias irreconciliáveis», que «são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios», que «detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou "nacionalidades" rivais». E é aqui que usa o seu vasto conhecimento dos africanos, através do exemplo da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que, conta a Maria de Fátima, lhe disse: «Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana». Desta história que a Maria de Fátima parece usar como exemplo académico, fica uma dúvida: a Maria de Fátima chamou preta à mulher-a-dias da sua vizinha de cima? É que, pun not intended, fica pouco claro.

Mais à frente no seu texto, e a propósito da criação de um observatório do racismo e da discriminação, escreve a Maria de Fátima: «Mas como é que se observa o racismo e a discriminação a partir dos gabinetes almofadados onde se sentariam os observadores? A única maneira de observar uma matéria tão fugidia e evanescente é frequentar feiras e supermercados baratos, é entrar nos bairros em que nem a polícia se atreve a pôr os pés». Isto escrito pela mulher que, umas linhas antes, usa o exemplo da mulher-a-dias da vizinha de cima para concluir que todos os africanos são racistas. Ai, Maria de Fátima, Maria de Fátima...

África e os africanos têm bastantes problemas, sabemos todos, e um deles, que não é de somenos, são os brancos como a Maria de Fátima que, por ignorância, mas também por maldade, usam o seu estatuto «académico» para despejar o seu ódio racista. Um discurso racista disfarçado por vezes de humanitário, trazendo para a conversa temas de facto sérios e graves como a excisão feminina, oferecendo, como contributo, a exclusão.

É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta.

A propósito do por vezes complicado choque de culturas, lembrei-me de uma história de Kofi Annan — pedindo-lhe desde já, Maria de Fátima, desculpa por usar o exemplo de um africano cuja craveira intelectual faz de si, Maria de Fátima, por comparação, uma analfabeta, cuja imensa pinta e classe fazem de si, Maria de Fátima, por comparação, uma frequentadora de supermercados baratos, e cujo prestígio internacional faz de si, Maria de Fátima, por comparação, tenho de dizer-lhe, a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.

Kofi Annan casou, como sua segunda mulher, com uma condessa sueca. Vinda de um país, nas palavras da própria, onde «quando combinamos um jantar para as oito da noite, chegamos às sete e meia e ficamos a dar voltas de carro pelo bairro até chegar a hora marcada de bater à porta». Para o primeiro jantar que deu aos seus novos parentes africanos, fez a condessa um soufflé. Ora os seus novos parentes não chegaram às oito, nem chegaram às nove, chegaram às dez da noite. Já há muito que tinha ido o soufflé (que, penso que sabe, é um prato que tem de ser servido assim que sai do forno) para o caraças. A condessa ficou pior que estragada, claro. Depois de os parentes se irem embora, Annan, sempre um diplomata, lá acalmou a condessa. E acabaram por concordar que, no futuro, os parentes chegariam atrasados só uma hora e não duas, e que a condessa não voltaria a fazer soufflé.

São duas maneiras de encarar o «outro»: tratá-lo genericamente como um bárbaro selvagem, ou abdicar, de vez em quando, de um soufflé.

E esta escolha dirá sempre mais sobre «nós» do que sobre o «outro».

Portugal | Racismo, Fátima Bonifácio e o 'Público'

Ferreira Fernandes | Diário de Notícias | opinião
Vai por aí grande polémica sobre um texto da historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicada no jornal Público, no sábado. O texto começou por ser sobre quotas para minorias étnicas, mas o essencial dele é ser racista. Parte da discussão fez-se à volta das quotas ou sobre se um texto racista pode ser publicado no Público (hesito, como o diretor do jornal, Manuel Carvalho, quando deu resposta à polémica, no domingo, mas já lá vamos)... Antes de mais, quero precisar o que é substancial: e isso é o texto de Fátima Bonifácio. Ele é racista.

Então, falemos do texto da historiadora. Do tronco, osso, substância: o racismo do texto de Fátima Bonifácio. Quando a palavra má é tão clara, acumular argumentos contra ela só dilui a conclusão: o texto é racista. Mas porque se pode julgar que se exagera a partir de um só exemplo - aquele que ilustra como pensa tão mal a historiadora -, dou outro exemplo, que o precede.

Para criticar possíveis quotas para minorias étnicas, Fátima Bonifácio admite que as quotas positivas para as mulheres portuguesas lhes abriu o espaço público. Mas, adianta, as quotas foram positivas para as mulheres porque elas "partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional milenária que dá pelo nome de Cristandade". Assim, o que foi bom para as mulheres não o seria para as minorias étnicas: "Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos", decreta Fátima Bonifácio.

Confesso, não convivo com ciganos, aliás, nem com ucranianos, por isto ou aquilo, acasos. Mas, porque tenho uma história pessoal mais próxima com africanos, posso perguntar: Fátima Bonifácio, quantas centenas de africanos quer que lhe apresente, alguns familiares, muitos de amizade funda e íntima, vizinhos e colegas que partilham as tais mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais que você invoca?

E já que generaliza, para um povo etno-continental (negros, enfim), esses valores - como diz, tão opostos aos seus -, aconselho-a uma ida, de segunda a domingo, a uma pequena vila a duas horas de Luanda, Angola, África. Numa curva do rio Quanza, em Muxima, vá à igreja (que não é milenária, mas vai a bom caminho da metade) e fale com algumas das dezenas de pessoas que lá estarão, como cada dia estão outras. Não fale só de cristandade (em que sobre mistérios religiosos encontraria melhores interlocutores do que eu, ateu), mas também sobre valores morais comuns: o papel igual da mulher, o amor pela família, o culto pela educação dos filhos, o respeito pelo outro... Mas, admito, também encontrará quem não pense assim.

Já agora, se não abanar o seu passaporte luso, nem sublinhar a sua pronúncia (que, suponho, não abre tanto as vogais como aquela gente), repare que tantos, naturalmente, a vão tomar como compatriota deles. Outros, provavelmente, não. O que eu quero dizer, com ambos os universos opostos, é que parte desse conjunto desmente a sua abusada afirmação: "Ora isto não se aplica a africanos..." Ora, digo eu, essa generalização que fez não é gratuita e sem consequências. Ela pretende, com uma falsidade, retirar um benefício a parte da nossa sociedade (os africanos), quando, como a Fátima Bonifácio admite, já se mostrou eficaz e boa para outra (as mulheres).

Enganar-se-iam, no entanto, alguns dos fiéis da igreja na Muxima, aqueles que veriam Maria de Fátima Bonifácio como igual e com iguais valores morais. Pelo menos um valor dela não é para todos igual. Não generalizo, não digo tudo o que ela pensa. Mas digo que é racismo, quando ela escreve, o que passo a citar: "Os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou 'nacionalidades' rivais. Há pouco tempo, uma empregada negra do meu prédio indignou-se: 'Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana.' Passou-se comigo. A cabo-verdiana desprezava as angolanas porque eram africanas, não atlânticas, e muito mais pretas..." Fim da citação racista. E sendo isso racista, boa parte dos que a ouvirem, em Muxima, não são.

Tenho a mesma idade, a mesma nacionalidade e ao que vejo um percurso de vida completamente diferente do de Maria de Fátima Bonifácio. Eu estaria a renegar tantos, tantos amigos de infância e de adolescência e pela vida fora - o Gabriel Nionje Seda, o Joaquim Pinto de Andrade, o Zezinho Victor de Carvalho, o Garcia Neto, o Zé e o João Van Dúnem... - se não me indignasse com as palavras da historiadora. Nomeio aqueles, todos negros e já desaparecidos, e poderia fazê-lo com dezenas de outros, que tantas vezes vi proclamarem o seu não racismo a negros que pensavam o mesmo, em inverso de Fátima Bonifácio, contra brancos. E na sociedade portuguesa e africanas que conheço, hoje, aqueles meus irmãos já desaparecidos poderiam desiludir-se com muito que veriam. Mas uma coisa é certa, não com os muitos mais e melhores africanos que acreditam na igualdade racial.

Calhou a Fátima Bonifácio conhecer uma cabo-verdiana no patamar do seu prédio. Ouviu dela: "Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana." Concluiu a historiadora: "A cabo-verdiana desprezava as angolanas porque eram africanas, não atlânticas, e muito mais pretas..." Que leva, da frase da cabo-verdiana, a historiadora a concluir o racismo que lhe atribui? O salto de Fátima Bonifácio é, provavelmente, só falta de mundo - a cabo-verdiana não seria mesmo preta e seguramente seria atlântica (e ela e eu não estamos a referir-nos ao oceano mas à mistura cultural). Deste único testemunho factual, mal interpretado, Maria de Fátima Bonifácio fez um texto racista. Bate certo, o essencial do racismo é a ignorância.

O racismo do texto é, pois, o essencial que a polémica deveria ter tratado - raramente uma intelectual portuguesa foi tão boquirrota nessa matéria. Depois, a discussão derramou-se por outras ramagens. Maria de Fátima Bonifácio, antes de se espalhar no essencial, foi contra, como já disse, as quotas positivas para as minorias étnicas - Marta Mucznik, assessora do PSD na Câmara de Lisboa, deu-lhe uma boa resposta, no Observador. Mas o que mais aqueceu nas caixas de comentários e nas redes sociais foi o ataque ao jornal Público, sobretudo depois do texto do diretor Manuel Carvalho, publicado no domingo "A propósito do texto de Maria de Fátima Bonifácio".

Sou contra a interdição de se publicar uma opinião e, logo, até de proibir uma opinião racista. Até as ideias ignorantes têm direito a ser publicadas. A interdição é como uma pena de morte, um ato definitivo que impede que se ouça, num dado momento, uma aparentemente opinião estapafúrdia ("a Terra é que anda à volta do Sol") e, mais tarde, vai-se a ver que não é tão estapafúrdia assim. Daí ser erro a interdição geral, como lei da sociedade, de uma opinião, qualquer que seja.

Outra coisa é um jornal poder escolher as opiniões que publica. Pelo que interpreto do editorial de Manuel Carvalho, o texto foi publicado no seu jornal porque o carácter racista do texto foi desvalorizado, porque a autora era "uma intelectual consagrada" e o tema supunha-se que fosse sobre quotas positivas das minoras étnicas. Hoje, eu não publicaria o texto de Fátima Bonifácio, porque ele era ignorante; amanhã, esperando que não evoluamos para lá, porque pode vir a ser perigoso - mas, sem a polémica, vejo facilmente o DN a ter feito o mesmo que o Público, no sábado.

Assunto mais importante a ter em conta são as baterias que se viraram contra o Público. Sobre essa injustiça, cabe ao cidadão agradecido que sou lembrar que nos 30 anos para que vai aquele jornal ele fez mais por uma certa modernidade de Portugal - incluindo nela exatamente a luta contra o racismo - do que qualquer instituição portuguesa: universidades, políticas governamentais e qualquer outro jornal.

Foi com explicadores públicos da generosidade como Adelino Gomes, estagiários como José Eduardo Agualusa a contar-nos Lisboa negra, estrangeiros tão nossos como o "não preto, atlântico e cabo-verdiano" Germano Almeida a contar-nos o outro, que se formaram gerações que se podem permitir ter alguns assanhados a cuspir, do Twitter e do Facebook, nesse grande jornal. Pois sim, mas lembrem-se que sem o Público vocês seriam hoje uns saloios.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/poretugal-racismo-fatima-bonifacio-e-o.html

Fátima Bonifácio, o “Público” e os valores morais dos brancos

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/07/2019)

Daniel Oliveira

 

Fátima Bonifácio escreveu, no “Público”, um artigo que teve como ponto de partida a ideia de se criarem quotas para minorias étnicas semelhantes às que já existem para as mulheres. As quotas para mulheres conseguiram, apesar de todas as críticas, romper com o bloqueio que existia à sua representação política e visibilidade públicas. O resultado desta medida desmentiu a ideia de que pode existir uma progressão social meritocrática que ignora relações de poder pré-existentes. As quotas, por natureza transitórias, não são uma forma de ignorar o mérito, são uma forma de derrubar as barreiras do preconceito que se sobrepõem ao mérito.

No seu artigo, Fátima Bonifácio não nega nada disto. Pelo contrário, reconhece os bons resultados conseguidos pelas mulheres. Para depois dizer que isso não seria extensível às etnias. Porque não tenho uma opinião fechada sobre as quotas para minorias étnicas – assim como não tinha sobre as quotas para mulheres até recolher bons argumentos em sua defesa –, estava disponível para ler quem explicasse a diferença entre as duas. Por exemplo: umas e outras identidades serem mais ou menos difusas. Ou o peso destas minorias em comparação com metade da população, que é feminina. Havia muito por onde pegar para abrir um debate difícil. Aquilo com que me deparei é de tal forma abjeto que usá-lo como ponto de partida para qualquer debate corresponderia a um desprestígio intelectual para quem o fizesse. Não cumpre os mínimos. Sobre o artigo de Fátima Bonifácio, que poderia ser sobre um tema interessante e complexo, não há outro tema que não seja a própria existência do artigo.

As generalizações racistas com que somos brindados são precedidas por um postulado geral, escrito, sejamos justos, com uma clareza desconcertante: “As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.”

Não vou perder tempo com os exemplos que Fátima Bonifácio utiliza, depois desta exuberante afirmação que atira grupos étnicos inteiros para o mesmo saco cultural, para explicar as diferenças entre negros e ciganos, por um lado, e “nós”, por outro. Têm mesmo de ler o texto. O grau de ignorância atrevida é de tal forma avassalador que seria tão difícil manter um diálogo com a senhora como com qualquer troglodita do PNR. Desde unificar os afrodescendentes com religiões e culturas totalmente diferentes num mesmo caldo cultural a parecer ignorar que os ciganos portugueses são maioritariamente cristãos (dantes maioritariamente católicos, agora seduzidos por igrejas evangélicas), ou nada saber sobre a relação do drama da mutilação genital feminina com o Islão ou sobre tradições ciganas, passando por uma sucessão impressionante erros factuais, imprecisões graves, generalizações absurdas e afirmações levianas, o artigo está ao nível da mais primária das conversas de café. É natural que assim seja, quando a colunista baseia alguns dos seus conhecimentos em relação às minorias étnicas na clássica conversa com a empregada doméstica.

Mas há momentos de deliciosa ironia. Depois de dedicar um parágrafo generalizador e racista aos ciganos, passa para os afrodescendentes e aponta-lhes o seu primeiro defeito coletivo: “Odeiam ciganos”. Aliás, “os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou ‘nacionalidades’ rivais”. Para quem possa estar distraído, Fátima Bonifácio é branca. Parece que acontece, excecionalmente, haver brancos que são “abertamente racistas”. Mas não é como nos africanos. Esses são mesmo todos.

Não fosse publicado num jornal, o texto corresponderia às alarvidades que podemos ler nas caixas de comentários aos artigos. A mesma ignorância atrevida, a mesma generalização racista, a mesma imbecilidade doutorada. Na realidade, se lermos as regras que o “Público” aplica (“são intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença”), percebemos que o jornal é mais criterioso na publicação de comentários aos artigos do que na publicação dos próprios artigos.

Como é natural, tendo em conta a natureza abertamente racista do artigo, houve muitas reações. Como seria de esperar, milhares de vítimas do politicamente correto rapidamente se atiraram para o chão. As regras deste tempo são estas: os alarves são livres de escreverem o que querem, de insultarem quem querem, de espalharem o ódio e o preconceito como querem. E quem se atreva a mostrar a sua indignação é um totalitário. E assim, o agressor vira vítima em poucos minutos.

O texto de Fátima Bonifácio não é semelhante a coisas ditas ou escritas por André Ventura. Nunca aquele oportunista se atreveu a dizer ou escrever metade do que lemos no “Público”. O texto de Fátima Bonifácio traça de forma explícita uma linha cultural divisória entre “nós”, os brancos, e “eles”, os outros. Como ela diz, africanos e ciganos não “fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade” e não “descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789”, não tendo “os mesmos valores morais” dos brancos.

Nada do que escreveu Fátima Bonifácio sobre negros e ciganos se distingue do que escreveria um nazi sobre judeus nos anos 30. Nada. É que eles não começaram por defender o Holocausto. Apenas explicaram que entre “nós” e os judeus havia uma fronteira intransponível de valores morais. Sendo os nossos obviamente superiores. O resto veio por arrasto.

Antes que nasça uma nova associação de lesados do politicamente correto, quero deixar claro que não pretendo que Fátima Bonifácio se cale. Só não quero ajudar a financiar a sua palavra, comprando jornais onde ela escreva. Mas defendo o seu direito a escrever e dizer todo o lixo que tenha na cabeça.

Sei que a banalização do racismo tem o perigo de o tornar aceitável, mas prefiro que se perceba de uma vez por todas que o problema de Trump e Bolsonaro não é serem boçais. Que o problema dos seus eleitores não é passarem muito tempo no Facebook. Que eles representam uma rutura civilizacional em que participam sectores intelectuais com peso político.

Acredito na liberdade de cada um escrever e de ler tudo o que quiser. E acredito na existência de jornais que dependem dos leitores. Não sou assinante do “Observador”. Também não sou do “Diabo”. Porque acho que devem ser os que se reveem naqueles projeto políticos e editoriais a financiá-los. Sou assinante do “Público” porque espero que, num clima de pluralismo, cumpra os valores que constam dos princípios editoriais que publicita desde a sua fundação. Defender a liberdade de todos se expressarem não implica eu ajudar a pagar propaganda xenófoba. Um jornal que eu leia é plural, dentro dos tais valores que Fátima Bonifácio julga serem seus mas não de Nelson Mandela. Quem se coloca de fora desses valores deve ter a liberdade de escrever, insultar e no fim ainda se atirar para o chão porque há quem não goste. E eu tenho a liberdade de não lhes pagar por isso.

Se “The New York Times”, “The Guardian” ou “Le Monde” publicassem um texto deste calibre, a revolta ganharia dimensões que o tremendamente tímido e inconsequente editorial de Manuel Carvalho não chegaria seguramente para serenar. A credibilidade demora muito a construir mas destrói-se num dia. Se não houver consequências disto, por pressão dos leitores, é péssimo sinal para o “Público”. É sinal que está morto. E eu não quero isso.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

ah, e tal, mas a Fátima Bonifácio limitou-se a descrever como é que os ciganos são...

2 Dedos de Conversa

Algumas informações para quem elogia a coragem da Fátima Bonifácio de dizer as coisas como elas são no que respeita aos povos ciganos:

1. A realidade actual dos povos ciganos na Europa é o resultado de mais de meio milénio de perseguições e marginalização. Para terem uma ideia: já por decreto de 1526 foi proibida a entrada de ciganos em Portugal e ordenada a expulsão dos que viviam no país. A proibição manteve-se ao longo dos séculos. Como a Espanha também proibia a entrada de ciganos, estes não tinham como cumprir a lei, e foram ficando em Portugal em situação de absoluta ilegalidade. Os ciganos que fossem apanhados eram punidos com açoites, perda de todos os seus bens, vários anos de galés (no princípio do séc. XVIII as galés eram reservadas aos homens; as mulheres ciganas eram deportadas para o Brasil, onde havia grande escassez de mulheres brancas para os colonizadores que não quisessem ou não pudessem casar com uma índia ou uma escrava negra), e em alguns casos até a pena de morte.
Outro facto muito importante para compreender as raízes históricas da "incapacidade de se integrar" do povo cigano: os portugueses que andassem com eles também estavam sujeitos às mesmas penas (açoites, expropriação, galés).
Sabendo isto, como é que nos podemos admirar que os ciganos vivam segundo as suas próprias leis, e tenham dificuldade em integrar-se? Mais ainda: como é que nos ocorre culpá-los de uma situação que foi criada pela perseguição institucional e social que durante séculos a sociedade portuguesa moveu contra eles? Que acções e que tempo são necessários para reduzir a desconfiança e sarar as feridas gangrenadas ao longo de tantos séculos?

2. O anticiganismo dos europeus é um facto, existe desde a Idade Média, e ainda hoje é aceite sem qualquer problema. Na nossa sociedade há um enorme à-vontade para generalizar e para falar das pessoas ciganas como se tivessem um problema genético de preguiça e de propensão para o crime e a ilegalidade, e poucos se dão conta da carga racista do discurso que fazem. Este nosso anticiganismo é um hábito que nos impede de ver as pessoas para além das categorias em que as arrumámos, e nos impede de encontrar soluções para os problemas que provocam tanto sofrimento e desconforto quer a essas minorias quer à sociedade em que vivem. Insistir numa retórica anticiganista é participar na construção dos entraves à resolução dos problemas, e simultaneamente atribuir cinicamente aos ciganos a responsabilidade por uma situação que resulta em grande parte das nossas escolhas, das nossas acções, do nosso discurso de rejeição ou, no mínimo, da nossa indiferença.

3. O que é realmente grave no texto de Fátima Bonifácio:
- Ignora o contributo da sociedade portuguesa para a criação do contexto em que essa minoria vive, bem como a questão da responsabilidade histórica.
- Parece decalcado da "retórica assertiva" dos nazis: "nómadas sem lei", "incapazes de integração", "resistentes ao trabalho", "com costumes diferentes dos nossos" - numa palavra: "associais". Como se Fátima Bonifácio não conhecesse a História do século XX, nada soubesse sobre os ciganos enviados para as câmaras de gás com um triângulo negro cosido no casaco (o símbolo dado aos "associais"),  e não tivesse tirado dela nenhum ensinamento.
- Evita a todo o custo estudar e tentar ver para além das aparências.
- Reforça o anticiganismo e o preconceito, preparando o terreno para que a sociedade civil aceite com indiferença e até alívio eventuais acções de violência (inclusivamente institucional) contra os ciganos. Caso hoje apareça por aí um político que queira dar uma "solução final" ao "problema cigano", textos como este da Fátima Bonifácio adequam-se maravilhosamente à sustentação "factual" de acções de perseguição racista.

4. Os ciganos alemães que conseguiram sobreviver à perseguição nazi e ficaram neste país parecem estar bem integrados. Vivo na Alemanha há 30 anos, e não me lembro de ter visto notícias ou ouvido comentários privados sobre alguma espécie de ameaça que os Roma e Sinti possam representar para esta sociedade. Ou seja: em cerca de 50 anos foi possível passar da retórica nazi, que levou ao genocídio, para a coexistência pacífica.
Deixo esta última informação como sinal de esperança para os portugueses: se houver vontade política e tomada de consciência por parte da população civil, é possível corrigir em meia dúzia de décadas os terríveis resultados de meio milénio de anticiganismo institucional.
Mas se preferirem aplaudir a assertividade da Fátima Bonifácio, e teimar numa perspectiva mal informada e maniqueísta da situação, então aí...

Ver o original em "Dois Dedos de Conversa" (Clicar aqui)

2 Dedos de Conversa: algumas perguntas ao jornal Público

Por falta de tempo, não escrevo um post com frases do Hitler, do Goebbels, dos teóricos racistas do regime nazi e da Fátima Bonifácio (no seu texto de opinião "Podemos? Não, não podemos", publicado no Público^), e a sugestão para os leitores tentarem adivinhar quais são as frases dos líderes nazis, e quais são as da Fátima Bonifácio.
Seria um exercício extremamente difícil, porque não há diferenças.
O ódio étnico e racial que Fátima Bonifácio revela abertamente no seu texto de opinião é o mesmo ódio que vivia em muitos cidadãos das sociedades alemã e europeias, o ódio que alimentou a máquina nazi e que lhe permitiu levar a cabo o Porajmos: o genocídio dos ciganos.

Em caso de dúvidas, a visibilidade maior que tem sido dada à Shoah no âmbito dos crimes nazis oferece-nos um instrumento simples para aferir o teor de ódio étnico e racial de um texto: basta trocar o grupo alvo do ataque por "judeus", e avaliar o resultado. No caso do texto "Podemos? Não, não podemos" de Fátima Bonifácio[2], ficaria assim:

A comparação com a igualdade ou paridade de género é inteiramente falaciosa. As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a judeus. Os judeus  possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios. Os judeus (e já se sabe isto desde o Mein Kampf) são inassimiláveis: organizados em famílias e parceiros de negócio, conservam os mesmos hábitos de vida e os mesmos valores de quando viviam na terra deles. E mais: eles mesmos recusam terminantemente a integração. Além disso, os judeus são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de grupos rivais. O que temos nós a ver com este mundo? Nada. O que tem o deles a ver com o nosso? Nada.

Seria imaginável que algum órgão de comunicação social que se leve a sério publicasse um texto de opinião nestes termos? Não, de modo algum.

A publicação daquele texto de opinião de Fátima Bonifácio  suscita as seguintes perguntas, que dirijo aos responsáveis do jornal Público:

1. Se publicou o "Podemos? Não, não podemos" da Fátima Bonifácio[3], que motivos apresentaria para não publicar um texto com as mesmas frases, mas sendo sobre judeus em vez de ser sobre ciganos e negros? Onde traça a linha vermelha, e segundo que critérios?
Será por respeito às vítimas da Shoah? Argumento estranho, porque os ciganos foram igualmente vítimas das mesmas políticas nazis de genocídio, e os negros foram durante séculos vítimas de um racismo que justificou o negócio da escravatura (e vice-versa).   

2. Como foi possível não se terem apercebido do ódio étnico e racial (para além da ignorância e do preconceito) subjacente ao texto que publicaram no jornal? Repito a pergunta, porque ainda não consegui recuperar da perplexidade: como foi possível?
Exijo agora do jornal Público um exercício de transparência paralelo ao que a revista Spiegel fez quando se descobriu que um dos seus jornalistas inventava as reportagens que entregava para publicar.

3. Apesar da tomada de posição de Manuel Carvalho[4] - e, pior ainda, por causa dos termos em que esta foi feita - os mal-entendidos sobre o alcance e significado da liberdade de expressão em Portugal ganharam renovada força. Para muitos, Fátima Bonifácio é a mártir mais recente do "maldito politicamente correcto que nos oprime e não deixa dizer as coisas como elas são". Um jornal não pode publicar textos de ódio étnico e racial. Pura e simplesmente: não pode. Ao publicar, e ao tentar emendar depois dizendo que cometeu um erro de análise, coloca o discurso de ódio étnico e racial no âmbito da opinião. "Começou por nos parecer que não tinha mal"...
De que modo vai o jornal Público  assumir a sua responsabilidade por, com o exemplo que deu, ter contribuído para baixar ainda mais o nível do debate sobre liberdade de expressão e a fronteira da decência do discurso no espaço público?

4. A publicação deste texto não vai ter consequências no jornal Público? Estamos perante uma das crises mais graves da sua existência? Ou não se levam a sério e portanto partem do princípio que o texto do Manuel Carvalho vai resolver o problema?

Ver o original em "Dois Dedos de Conversa" (Clicar aqui)

Ninguém corre! Ninguém corre!*


NINGUÉM CORRE! Esta foi a expressão que aprendi ser dita por qualquer negro de um bairro periférico quando aparece a polícia. Serão já as décadas em que participo em manifestações e jamais me lembro de ter ouvido semelhante expressão. Aliás, ordem: ali, ninguém pode correr. Seja no Pendão, seja no Alto da Cova da Moura, seja no 6 de Maio, seja na Avenida da Liberdade. A negritude dita-lhes a regra: se corres, vão achar que fizeste alguma coisa. Vão apanhar-te, vão levar-te para a esquadra. E a verdade é que, dependendo da esquadra a que fores parar, não saberás exactamente como regressarás a casa.

A diferença é que agora, quando estou ali, são eles que têm que ficar parados. Eu não. Nunca fiquei. O meu privilégio branco dá-me esse luxo. Mas é mais uma regra de sobrevivência à tentativa de criminalização do protesto. Desde cedo, o exercício da minha profissão aproximou-me das múltiplas incompreensões face a atitudes que, a meu ver e, francamente, de acordo com a letra da lei, não fazem corresponder a actuação policial em determinadas situações – protestos, greves, manifestações, paralisações, acções conjuntas com outros órgãos de polícia criminal para verificação “aleatória” de títulos de residência – com os parâmetros e requisitos legais para determinadas actuações.

Há uns anos, li a justificação da necessidade de uma intervenção «mais musculada», numa resposta escrita do Governo de então a um requerimento que solicitava explicações sobre a detenção de estudantes num protesto pelo meio de agressões, face ao seu comportamento que foi, de acordo com as forças policiais, considerado hostil.

Mas durante anos não foi considerado hostil que as mesmas forças tivessem ordens superiores (directas do Ministério da Administração Interna), para bater à porta de estudantes de 16 anos nas vésperas de manifestações alegando que as mesmas precisam de autorização quando a lei é clara: a Constituição, no seu artigo 45º determina que os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização e quetodos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.
Apesar disso, o Decreto-Lei n.º 406/74, de 29 de Agosto , apenas determina a necessidade de aviso prévio. Porquê? Tal decreto, anterior à CRP, fá-lo num quadro político em que o direito de manifestação era proibido e, com a revolução da liberdade, o único intuito era garantir a segurança dos próprios manifestantes através do corte de estradas, se necessário, ou desvio de trânsito. O mesmíssimo propósito que ainda hoje serve mas, consoante a vontade de quem governa, tem vindo a servir para cercear e tentar restringir este direito. Sem qualquer sucesso, diga-se. Multiplicam-se, felizmente, os arquivamentos dos processos que acusam os manifestantes de «desobediência civil» caso não exista o não necessário «pedido de autorização» e as decisões de tribunais superiores que esclarecem, a todo o tempo, tal desnecessidade e a prevalência da Constituição. E já estava na altura de ser declarada a inconstitucionalidade destas normas na medida em que, efectivamente, têm impedido o livre direito de reunião e manifestação.

Mas desde o mandato de Rui Pereira, as polícias estão obrigadas a insistir, a identificar, a escrever cada palavra de ordem escrita ou falada[1]. Ninguém escapa. Falhou a lei Edviges à portuguesa e a tentativa de cadastrar qualquer actividade associativa desde os 13, mas não falha o controlo, a repressão, a intimidação.

Intimidação que vai ao ponto, por exemplo, de manter pessoas sem contacto com ninguém até ao limite das seis horas legalmente admitidas, garantindo que dentro de quatro paredes jovens possam ser despidos e ameaçados, sem testemunhas, como aconteceu em 2007, a propósito de uma pintura mural na escola António Arroio, num processo judicial que devassou a vida de 4 jovens e das suas famílias e terminou em arquivamento em 2012, com apenas um processo disciplinar a um agente em toda uma esquadra.

Intimidação que levou ao desaparecimento durante horas de uma activista que perguntava porque apenas paravam cidadãos não brancos na estação do Rossio, em Lisboa, à sua deslocação de esquadra em esquadra, sem que fosse permitida a sua identificação pelas pessoas que estavam consigo, a fim de que o seu nome constasse nos registos da Polícia Judiciária e a avisassem que a partir daquele dia, estaria nos ficheiros (sem qualquer processo, sem qualquer condenação). A queixa contra os polícias seguiu e ela, que perdeu um sapato e esteve desaparecida horas, foi insultada por ter pedido a identificação dos polícias, tinha o corpo coberto de nódoas negras, perdeu. Nem um inquérito disciplinar foi aberto, e o coletivo de juízes entendeu que foi usada a «força estritamente necessária» por 4 agentes, fardados e armados, contra uma jovem de 50 quilos.[2]

Intimidação que levou ao desaparecimento de mais de uma dezena de jovens numa greve geral, quando apanhavam o barco para regressar a casa, e foram impedidos de contactar os seus advogados, enfiados aos 6 em celas onde só cabiam 2, mais uma vez sujeitos a processo crime – arquivado – mas mais uma vez, nem um processo disciplinar ou de averiguações.

Os exemplos multiplicam-se, mas há um que seguramente ficará registado. Bruno, Flávio, Celso, Miguel, Paulo e Rui. 6 jovens detidos ilegalmente e brutalmente espancados numa esquadra, já conhecida pelos seus poucos brandos costumes (aliás, uma agressão dois meses depois do fatídico 5 de fevereiro de 2015 valeu a condenação em 3 anos de pena suspensa a um agente da mesmíssima esquadra), levou à acusação de 17 agentes pela prática de 1 crime de omissão de auxílio, 3 crimes de denúncia caluniosa, 3 crimes de falsidade de testemunho, 5 crimes de falsificação de documento agravado, 17 crimes de tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos, 28 crimes de injúria agravada, 45 crimes de ofensa à integridade física qualificada e 96 crimes de sequestro agravado, após dois anos de investigação liderada quer por procuradores coordenadores da Comarca de Sintra e Amadora quer pela Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo da Polícia Judiciária. Independentemente do desfecho de tal processo, que se espera coincidente com uma justiça de classe, que sempre puniu os mais pobres e, neste caso, não pode esquecer-se que as vítimas são negras, de bairros periféricos, onde sempre abunda a tal «intervenção musculada», não pode esquecer-se nem os relatos do que ali se passou, nem as suas palavras:

Somos pontapeados e somos - pisavam-nos. Eles pisavam-nos. Eles pisavam e insultavam. Pisavam mesmo, faziam questão de pisar e.... E depois eles gostavam daquilo, eles adoravam, eles ficavam muito felizes...
(…) eles faziam questão de pisar e depois, para eles, eles estavam a gostar daquilo. Estavam a gostar daquilo.
(…) e depois era só pontapés e insultos e aquilo nunca mais... E parecia um inferno e ficou, o nosso sangue ficou no chão...
(…) Depois é que nos levantam, depois de limparem, nos levantam, limpam o sangue e nos colocam naquele banco, mas e nós não podemos levantar a cabeça. E sempre que nós tentávamos levantar a cabeça, diziam — "Baixa a cabeça!", "Baixa a cabeça, carai, vá lá!"
— E sempre naqueles termos.
Nem tão pouco o tratamento a que foram sujeitas, quer as testemunhas oriundas do bairro, algumas delas hoje também vítimas de queixas-crime por «difamação agravada» apresentadas por outros agentes da PSP, que saíram sempre lavadas em lágrimas do tribunal, vexadas e humilhadas pela defesa dos arguidos, sem o tribunal pusesse travão (o que fez com os agentes que testemunharam) e que seguramente, para estas, 15 de fevereiro de 2015 também não acabou por aqui, apesar da esperança que lhes trouxe a Acusação.

Ainda assim, a justiça tem dado sinais de que terá sempre a mão branda com estas questões, sinais a que não escapam as declarações de Margarida Blasco, que insiste em afirmar que não existe violência (o valor registado de queixas por violência e/ou abuso de autoridade no universo global das participações na Inspeção Geral da Administração Interna representa 34,6% das situações apresentadas[3][4]) e do próprio Ministério da tutela.

Afirma o Relatório Anual de Segurança Interna de 2017 que no contexto dos extremismos políticos, a extrema-direita portuguesa continuou a aproximar-se das principais tendências europeias, na luta pela “reconquista” da Europa pelos europeus. (…) No extremo oposto, anarquistas e autónomos nacionais mantiveram a tendência dos últimos anos, investindo sobretudo em atividades de propaganda e de doutrinação ideológica (publicação de jornais, organização de palestras, debates, projeções de filmes, apresentações de livros), por um lado, e no estabelecimento de contactos internacionais, por outro, de forma a aproximar o movimento português da teoria e praxis insurrecionais. No campo da ação direta, para além da participação de alguns militantes portugueses nos protestos violentos contra o G-20 na Alemanha, destacou-se apenas a ocupação de imóveis devolutos no Porto e em Lisboa, enquanto forma de protesto contra o capitalismo (através da constituição de espaços libertados, não sujeitos à designada lógica capitalista). Aos fatores de risco emergentes das zonas urbanas sensíveis estão associadas dinâmicas de delinquência e de criminalidade por parte dos grupos violentos residentes e comportamentos de resistência contra a autoridade do Estado, principalmente forças de segurança. Continuaram a observar-se tentativas de mobilização por parte de grupos de cariz radical, com o intuito de instrumentalizarem as populações residentes para uma ação em favor dos seus desígnios.[5](sublinhado nosso)

Revelando um absoluto desconhecimento dos processos de contestação social, de manifestações absolutamente pacíficas enquadradas na lógica de alguma militância anticapitalista, de grupos informais que agiram na consciencialização das populações (e não instrumentalização!!!!) para os seus direitos e a necessidade da sua defesa, incluindo no quadro da legalidade e do direito constitucional de resistência (que aparentemente todas as autoridades desconhecem), o RASI optou por deliberadamente ignorar o facto de 17 agentes policiais estarem acusados, entre outros, de tortura motivada por ódio racial e agressão à integridade física qualificada, revelando uma deriva perigosa e autoritária de monitorização do protesto e da auto-organização, que veio a intensificar-se e a agravar-se de forma absolutamente inaceitável no RASI de 2018.

Vejamos: Relativamente aos movimentos do espectro oposto[neofascistas], anarquistas e autónomos, também se manteve a tendência antecedente, observando-se sobretudo atividades de propaganda e de doutrinação ideológica, frequentemente com a participação de militantes ou coletivos estrangeiros, alguns dos quais associados aos meios mais radicais e violentos do anarquismo insurrecional. A ação direta ficou praticamente limitada à realização de manifestações em prol da causa curda nos primeiros meses do ano e a ações de protesto anticapitalista relacionadas com o direito à habitação. Alguns setores anarquistas e autónomos, contudo, dedicaram-se com maior intensidade à militância antifascista, juntando-se a coletivos não extremistas na referenciação e denúncia online de militantes e organizações da extrema-direita portuguesa, ou protagonizando alguns atos de vandalismo em locais simbólicos para os seus adversários. No corrente ano, a tensão entre extremistas de direita e os grupos antifascistas agravou-se significativamente, por responsabilidade de ambas as partes, gerando um clima potenciador da violência ideologicamente motivada[6]. (sublinhado nosso)

Ou seja, para o MAI, a resistência antifascista gera violência. Daí que não seja de estranhar que a ordem, apesar de tudo, não se afaste do up against the wall dos anos 60, nos conflitos raciais nos Estados Unidos, ou do envio do Corpo de Intervenção para que aja sobre os trabalhadores de cada vez que há uma greve, defendendo o patronato, sendo certo que os únicos direitos consagrados na Constituição, que fez o seu aniversário a 2 de Abril, são os direitos de manifestação, reunião, greve, resistência. E não o direito de um qualquer patrão obrigar a que a sua empresa funcione ou que uma autoridade pública identifique uma qualquer pessoa que passe na rua.

Quanto a esta última, foram claras as declarações de agentes da PSP, por identificarem um branco no Bairro 6 de Maio na Amadora, por não se enquadrar no perfil racial. «É o que nos ensinam».

Dizia James Baldwin, nem tudo o que é enfrentado pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado. E está mais do que na altura de olhar de frente: há um problema de violência policial. É um problema de classe. É um problema racial. E enquanto não for enfrentado, seguramente, tudo mudará para que tudo fique na mesma. E continuaremos a ouvir NINGUÉM CORRE.

[2] O Código de Processo Penal é claro nas normas que permitem a identificação - Artigo 250.º - Identificação de suspeito e pedido de informações

 

 1 - Os órgãos de polícia criminal podem proceder à identificação de qualquer pessoa encontrada em lugar público, aberto ao público ou sujeito a vigilância policial, sempre que sobre ela recaiam fundadas suspeitas da prática de crimes, da pendência de processo de extradição ou de expulsão, de que tenha penetrado ou permaneça irregularmente no território nacional ou de haver contra si mandado de detenção.

 

 2 - Antes de procederem à identificação, os órgãos de polícia criminal devem provar a sua qualidade, comunicar ao suspeito as circunstâncias que fundamentam a obrigação de identificação e indicar os meios por que este se pode identificar.

 

3 - O suspeito pode identificar-se mediante a apresentação de um dos seguintes documentos:

 

a) Bilhete de identidade ou passaporte, no caso de ser cidadão português;

 

b) Título de residência, bilhete de identidade, passaporte ou documento que substitua o passaporte, no caso de ser cidadão estrangeiro.

 

4 - Na impossibilidade de apresentação de um dos documentos referidos no número anterior, o suspeito pode identificar-se mediante a apresentação de documento original, ou cópia autenticada, que contenha o seu nome completo, a sua assinatura e a sua fotografia.

 

5 - Se não for portador de nenhum documento de identificação, o suspeito pode identificar-se por um dos seguintes meios:

 

a) Comunicação com uma pessoa que apresente os seus documentos de identificação;

 

b) Deslocação, acompanhado pelos órgãos de polícia criminal, ao lugar onde se encontram os seus documentos de identificação;

 

c) Reconhecimento da sua identidade por uma pessoa identificada nos termos do n.º 3 ou do n.º 4 que garanta a veracidade dos dados pessoais indicados pelo identificando.

 

6 - Na impossibilidade de identificação nos termos dos n.ºs 3, 4 e 5, os órgãos de polícia criminal podem conduzir o suspeito ao posto policial mais próximo e compeli-lo a permanecer ali pelo tempo estritamente indispensável à identificação, em caso algum superior a seis horas, realizando, em caso de necessidade, provas dactiloscópicas, fotográficas ou de natureza análoga e convidando o identificando a indicar residência onde possa ser encontrado e receber comunicações.

 

 7 - Os actos de identificação levados a cabo nos termos do número anterior são sempre reduzidos a auto e as provas de identificação dele constantes são destruídas na presença do identificando, a seu pedido, se a suspeita não se confirmar.

 

 8 - Os órgãos de polícia criminal podem pedir ao suspeito, bem como a quaisquer pessoas susceptíveis de fornecerem informações úteis, e deles receber, sem prejuízo, quanto ao suspeito, do disposto no artigo 59.º, informações relativas a um crime e, nomeadamente, à descoberta e à conservação de meios de prova que poderiam perder-se antes da intervenção da autoridade judiciária.

 

9 - Será sempre facultada ao identificando a possibilidade de contactar com pessoa da sua confiança.

 

[3]No total das queixas, comparando 2016 e 2017, destaque, ainda, que "nalguns casos se assinalem diferenças mais significativas como, v.g. no abuso de autoridade e nas práticas discriminatórias". De acordo com o relatório, as 70 queixas apresentadas por abuso de autoridade representam 9,1% do total de 2016, contra 8,2% em 2016, traduzindo-se num aumento de 0,9%. Destas, 37 foram apresentadas contra a PSP e 30 contra a GNR. As práticas discriminatórias registaram sete denúncias (cinco na PSP), mas para a IGAI esse número merece reflexão, uma vez que traduz um aumento de 0,6 pontos percentuais, com o peso deste tipo de queixas a ascender de 0,3% em 2016 para 0,9% em 2017.(inhttps://www.jn.pt/justica/interior/inspecao-revela-numeros-preocupantes-de-queixas-contra-policias-por-agressao-9879783.html).

 

[5] Páginas 71 e 72 do Relatório Anual de Segurança Interna 2017

 

[6] Página 81 do Relatório Anual de Segurança Interna de 2018

 


*Texto originalmente publicado na Revista Manifesto - Temas sociais e políticos, n.º 3, 2ª série, primavera e verão 2019 - à venda em www.manifesto.com.pt.
**Imagens ICY and SOT

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/06/ninguem-corre-ninguem-corre.html

HÁ PESSOAS BOAS RACISTAS?

Gostaria de responder que não até porque silogisticamente seria uma contradição – na medida em que ser-se boa pessoa implicaria não ter preconceitos raciais – mas de facto há sim, e, de ambos os lados da barricada.

Brandão de Pinho | Folha 8 | opinião

O que não há, garanto, é pessoas boas e inteligentes e honestas que sejam racistas. Mas nem todas as pessoas são inteligentes (até acho que somos uma minoria), e há mais pessoas más do que boas e quanto à honestidade… bem nunca saberemos, pois as pessoas só a poderiam revelar se expostas às circunstâncias apropriadas, pelo que há mais pessoas desonestas do que aquilo que possamos ajuizar.

O tema da guerra colonial ou de libertação conforme o ponto de vista, ainda é nas gerações nascidas antes da década de setenta ou nos cidadãos mais informados, um tema polémico, uma ferida aberta, enfim um desastre pior que Alcácer-Quibir e que todos os erros que sucessivos governantes lusos (reis em sua maioria) realizaram.

Ou de forma não propositada apenas por falta de qualificações ou excesso de romantismo patriótico e demasiada leitura de clássicos da cavalaria (como D. Sebastião); ou por incompetência e ignorâncias puras quase a roçar a demência senil e a menoridade intelectual (como D. Henrique I), ou por excesso de “magnanimidade” e mais zelo nos engates e “affaires” do que nas questões do reino (como D. João V), ou por outros defeitos de outros reis dos quais há quem aponte (eu não) D. José I por ter posto o despótico Marquês a mandar nos Tugas ou o meu homónimo D. Fernando I, último rei da I dinastia, por basicamente tudo o que fez ter sido errado, mesmo o facto de não ter filhos ou ter casado com uma espanhola.

Mas há dois governantes em plena república que ainda foram piores. Salazar, no século passado, é óbvio pela forma como manteve o país na ignorância e o transformou numa plutocracia (governo do país pelas famílias ricas e poderosas) e porque não compreendeu que o Império tinha acabado, arrastando portugueses e africanos para um carnificina que ainda hoje condiciona o desenvolvimento de Portugal, Angola, Moçambique e Guiné-Portuguesa.

Desenvolvimento inexistente mesmo que portugueses celebrem hoje o seu dia com pompa e circunstância e tenham ganho a Liga das Nações da Europa (com representantes de Cabo Verde, Guiné, Angola, Brasil, dos arquipélagos e da diáspora – eis o verdadeiro Portugal), dia que outrora chamavam Dia da Raça Portuguesa (conceito eivado de imperiosidades ridículas, imprecisões biológicas e históricas gritantes, para não falar do racismo subjacente) mas Portugal, bem lá no seu fundo, ainda é aquele Portugal Imperialista que explorou durante séculos os angolanos e que – orgulhosamente só – não deixa de ser o país mais atrasado da Europa dentre os países mais desenvolvidos do velho continente.

Desenvolvimento inexistente igualmente em Angola e Moçambique que devido à teimosia de Salazar que transformou estas duas nações em dois autênticos fantoches de EUA e URSS e que a seguir a uma guerra de libertação tiveram uma guerra civil, mais uma vez como parte de uma grande experiência para aferir quem mandava mais nesses tempos de guerra fria, se os capitalistas se os socialistas… tudo – na sua origem – por culpa da teimosia de Salazar e Marcelo.

Já do desenvolvimento da Guiné – rodeada de países francófonos libertados do jugo gaulês muito antes do 25 de Abril e com os quais, atempadamente, começaram a ter intrincadas relações – pode dizer-se que não existe. Nem muito, nem pouco. É um não país. É uma Somália ou uma Líbia. Um narco-estado. Culpados?: os portugueses.

Mas o pior de todos eles, o mais miserável e corrompido dos governantes, já neste século e milénio, – com tentáculos no Brasil, Angola, Venezuela e em qualquer coisa vagamente similar a um estado que tivesse ladrões e corruptos preferencialmente de esquerda – foi Sócrates (o filósofo que escrevia livros sem saber sequer do que falavam e depois os mandava comprar aos magotes para liderar os “ranking’s” de não-ficção). Esse mesmo Sócrates que esteve, juntamente com Ricardo Salgado e o seu lacaio Álvaro Sobrinho, o pessoal da PT, e dos bancos, e dos meios de comunicação social, e o das empresas de construção e tudo o que desabou após a queda do BES, envolvido em todas as grandes trafulhices que quase comprometiam Portugal como nação soberana. Suponho que pouco tempo lhe sobrasse para tratar do governo da nação com tantos esquemas e segredos que ocupariam, certamente, muito tempo e mil cuidados.

Mas esse pouquíssimo tempo sobejante, que deveria dedicar à pátria, esse infame, aplicava-o doutra maneira como se pode ouvir nas escutas que “vazaram”, aplicava-o de tal maneira e com tanta frequência em casos com mulheres, amantes, namoradas, meretrizes, rameiras, senhoras jornalistas amancebadas e chupistas e familiares (alguns foragidos cá em Angola) e também em decoração de interiores, que verdadeiramente não teria um minuto para fazer a única coisa para a qual democraticamente o povo português o elegeu: governar Portugal.

Sócrates foi o pior dos piores, desde Afonso Henriques até António Costa e Ticelito. Mérito lhe seja reconhecido pelo menos por isso.

Portugal, hoje, dia 10 de Junho de 2019, celebra o seu dia mas também o dia das suas comunidades na diáspora, o dia de Camões e sobretudo o dia da Língua Portuguesa.

Língua Portuguesa essa que é reconhecidamente – por todos os linguistas que conheço – melhor tratada em Angola do que na própria nação mau-grado todo o esforço do MPLA em tentar manter os angolanos ignorantes para melhor os dominar, da mesma forma que repetia incessantemente pelos seus meios que a UNITA tinha matado, comido criancinhas, atacado aldeias inocentes, e, feito todo o tipo de maldades para fazer uma lavagem cerebral os jovens de então, adultos de hoje, de tal forma que como num reflexo de Pavlov, o nome de Savimbi os faz pensar em coisas más tal como a campainha fazia o cão salivar.

Mas dediquemo-nos ao tema do título deste híbrido de ensaio, artigo de opinião e crónica que já tenho poucas linhas e se começo a divagar não o faço pouco e nada devagar. Adiante.

Eu posso falar de racismo porque já fui vítima dele. Apesar do meu irmão ser loiro, de olhos azuis e branco, já eu tenho um perfil mais mediterrâneo e apanhando sol e com o cabelo meio encrespado, rapado e de barba farta como costumo andar, posso passar por uma espécie de não europeu e foi o que aconteceu uma vez numas férias na Turquia numa instância frequentada sobretudo por iranianos, russos e escandinavos.

Dessa forma quando eu não andava acompanhado pela minha ebúrnea companheira de então, o que era sempre para ser honesto (a paciência afinal tem finitude), muitos russos catalogavam-me logo como iraniano, e ouvia-os a sussurrar quando eu passava, ou as mulheres a apertar mais os filhos para me cederem passagem, ou quando eu aparecia num bar as pessoas instintivamente pegavam nos seus pertences, ou a ficarem espantadas por me verem ler um livro ou a escrever, ou então como achavam estranho eu ser tão gentil para os empregados, ou como ficavam assustadas quando entabulava uma qualquer conversa em inglês para matar o tédio.

Mas o auge, foi num jogo de futebol onde se escolhiam 5 elementos para cada equipa apesar de sermos 12 e necessariamente um de cada equipa ficar de fora como suplente… de repente instala-se uma preocupação nos restantes dez “companheiros” todos eles russos ou ex-soviéticos, ou finlandeses ou noruegueses e talvez um inglês ou dois (afinal eles são uma praga que está em todo lado desde que haja sol e cerveja) porque as carteiras e os telefones iriam ficar pousados num sítio, à sombra, onde provavelmente ficariam os jogadores suplentes, que iriam rodando estando assim à mão de serem roubados, por alguém porventura com mais melanina na cara do que qualquer um deles. Obviamente recusei-me a jogar e pedagogicamente insultei-os em todas as línguas que sabia e que pudessem compreender não deixando de dar uma entediante palestra sobre biologia, genética, moral, filosofia e história.

O que me levou a esta tema foi o facto de um meu fornecedor de serviços muito competente, ter respondido na semana passada -à minha pergunta sobre se iria trabalhar hoje – que não trabalhava no Dia da Raça (por acaso ele foi ex-combatente na Guiné-Bissau, na área vagamente médica onde tratavam tão bem os feridos portugueses como os -ao tempo – inimigos guineenses, como ele não se cansava de me dizer amiúde) e a partir daí – e eu que o tinha como bom, inteligente e honesto – me ter dito toda uma sorte de impropérios sobre africanos e negros em geral, que visivelmente me incomodavam, mas que ao invés de o deter, lhe espicaçou mais a verborreia estridente e que culminou com o seu aforismo: “ A mim não me incomoda ver um branco a andar com uma preta e até acho bem (usou aqui linguagem vernacular que prefiro não reproduzir) mas quando vejo um preto a –digamos – andar com uma branca, fico doente, não concebo, não me entra na cabeça…”

Estive a pensar nessa frase até ao dia em que escolhi o tema para o meu artigo de opinião e até discuti com alguns doentes, retornados sobretudo, que fui atendendo, o que eles achavam dos nativos e todos me disseram que eram seus iguais e semelhantes, mas claro que no contexto em que estava não poderia aprofundar a questão: “O que achava se a sua filha branca como a neve namorasse com um preto como o azeviche…?”

Porque a questão do racismo, meus caros, resume-se a duas coisas.

A primeira é não falar dela, eliminar a palavra, parar de a usar para desculpar ou especular qualquer coisa ou o que quer que seja.

A segunda tem a ver com o que é que um pai faria se a sua filha escolhesse para companheiro um ser humano de uma cor diferente, de uma outra etnia, de uma cultura distinta.

A haver dia da raça portuguesa, seria um dia de todas as raças do mundo, porque os portugueses primeiro, são fruto de todos os fugitivos da Europa, Médio-Oriente e Norte de África que chegando a Portugal não tinham mais para onde fugir, e estou a citar o grande historiador José Hermano Saraiva, segundo porque – não num sentido literal (as pessoas usam esta palavra bem como o adverbio “literalmente” pensando que significa exactamente o contrário do que quer dizer) mas num sentido estrito – os portugueses estiveram em todo o mundo e miscigenaram-se com todos os povos.

Mas lá está, eram marinheiros e aventureiros: homens; que cortejavam as mulheres de todas as raças e de qualquer latitude e mais que houvessem. Gostaria de saber se em circunstâncias contrárias, se as senhoras portuguesas os acompanhassem nas suas demandas marítimas, os tugas seriam assim tão liberalmente multi-culturais ou multi-étnicos ao ponto de se ufanarem de serem os criadores de mulatos e mestiços por essas duas vias?

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Candidata afrodescendente à UE quer que imigrantes "deixem de ser invisíveis"

Anabela Rodrigues integra a candidatura do Bloco de Esquerda às eleições europeias de maio. A portuguesa de descendência cabo-verdiana critica a Europa por não prestar mais atenção à imigração e ao racismo.
É natural de Lisboa, tem 42 anos e é filha de pais cabo-verdianos. Anabela Rodrigues, conhecida por Belinha no seio do movimento associativo, assume-se como uma a(r)tivista. A mediadora social e cultural está na quarta posição, em lugar não elegível, na lista do Bloco de Esquerda (BE), encabeçada por Marisa Matias, às eleições europeias que têm lugar entre 23 e 26 de maio. 

A dirigente da SOLIM - Solidariedade Imigrante, associação para a defesa dos direitos dos imigrantes, aceitou o desafio porque defende que tem de ser dada voz aos próprios, para que deixem de ser invisíveis.

"Acho que esta oportunidade, esta janela também abre para os próprios falarem daquilo que sentem e daquilo que escutam", diz em entrevista à DW África. "Principalmente as mulheres, que trabalham das 6 às 9, antes do escritório abrir ou no final do dia. E essa sua invisivilidade acaba por nunca ser falada, mas na realidade elas estão lá todos os dias."
Insiste que a sua bandeira estará sempre centrada na questão transversal da imigração e do racismo. "Quando chegam as eleições europeias, é muito interessante como a imigração é quase sempre um tema muito marcante e muito forte", lembra Anabela Rodrigues. Mas depois, em termos de políticas de imigração, "não quer ter uma política comum, a não ser como Europa fortaleza ", sublinha.

É isso que a candidata considera importante, porque há uma preocupação constante com os partidos de extrema direita que estão a crescer. "Mas ao mesmo tempo também não há dentro dos discursos quais são as razões, porque crescem? Dentro do nosso partido quem é que são os candidatos que poderiam combater isto?"

"Europa tem feito muito pouco"

Anabela Rodrigues foi uma das dinamizadoras da campanha pela alteração da lei da nacionalidade em Portugal. A afrodescendente já foi candidata às europeias pelo Movimento Esperança Portugal (MEP), uma alternativa diferente que abraçou por, na altura, não estar vinculada a nenhum partido.

Lembra que, depois da Década dos Afrodescendentes declarada pelas Nações Unidas (2015-2015), a Europa tem responsabilidade para com os seus objetivos. "A Europa tem feito muito pouco. Os partidos que sentem esta responsabilidade e que sentem que realmente os seus valores devem cumprir esta igualdade de oportunidade.
"Parece-me que resolveram ir por aí e colocar também nas eleições europeias o espelho do que é esta questão dos afrodescendentes. Mas eu espero que lance realmente o debate. No entanto, a curiosidade tem sido ainda muito pouca. Vamos ver ao longo do tempo."

"Há que refletir sobre estas questões", sublinha, tocando noutra ferida como é o racismo. "Raramente o país quer debater este tema. E Portugal tem essa responsabilidade", adverte Anabela Rodrigues."Estamos a falar de um país que tem como período áureo um período em que provocou uma escravatura durante muitos séculos. E teve colónias até 1974. Muitas destas colónias estão aqui presentes. Não é possível falar em Cabo Verde ou de Angola ou da Guiné-Bissau como se fosse falar de arroz, batata e feijão", critica.

Recorre ao exemplo alemão, lembrando que quando se entra em Berlim, "a questão da presença do Holocausto é visível. Não se apaga a História. Ela também serve para nos ensinar."

Objetivo: tornar-se visível

Anabela Rodrigues está numa posição não elegível. Apesar disso, acredita numa possibilidade. Mas o seu principal objetivo é tornar-se visível. "Como se costuma dizer, até ao número cinco as pessoas ainda se lembram e depois do número cinco ninguém se lembra. O número quatro é de alguma maneira possível. As projeções, às vezes, falham ou não. O mais importante é a luta e manter esta presença", diz.

Na década de 90, a luso-caboverdiana Helena Lopes da Silva, pelo PSR, e o General D, pela Política XXI, foram os primeiros candidatos às europeias em lugares de destaque em Portugal. Em 2009, o MEP pôs Anabela Rodrigues em sexto lugar.

O Bloco de Esquerda escolheu outra afrodescendente, Beatriz Gomes Dias, para o oitavo lugar nas legislativas e no décimo sétimo lugar para as europeias. Em 2011, Beatriz Gomes Dias ocupou o oitavo lugar nas legislativas pelo Bloco. Em 2014, outra vez para as europeias, o BE colocou o luso-angolano Jorge Silv, no décimo sétimo lugar e no sétimo lugar para as legislativas de 2015.

Segundo Mamadou Ba, da SOS Racismo, a presença de Joacine Moreira (Livre) e de Anabela Rodrigues (BE) pode ser o início de um novo ciclo para uma maior visibilidade e afirmação na política dos afrodescendentes.
João Carlos (Lisboa) | Deutsche Welle

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Portugal | Racismo

Nada menos do que a erradicação absoluta de qualquer tipo de discriminação com base na cor da pele nos deve ou pode satisfazer

Pedro Norton | Visão | opinião
Como qualquer sociedade, Portugal tem as suas mitologias. Uma das mais famosas será a do povo de brandos costumes que a História das guerras liberais, da República, do reviralho, da Guerra Colonial estão longe de autorizar. Mas o mito salazarento é confortável, e a História uma maçada. Publique-se, pois, o mito.

O racismo, ou a sua quase inexistência na sociedade portuguesa, é outro dos nossos grandes lugares mitológicos. Que esteja por comprovar o nosso caráter plástico, acolhedor, aberto e tolerante é um empecilho menor. A fantasia lusotropical é tão simpática como a ilusão dos brandos costumes, e eis quanto tem bastado para fazer do racismo um quase-interdito na nossa sociedade.


Ora os interditos nunca são saudáveis – nem psicológica nem socialmente. Tolhem o raciocínio, impedem a reflexão, reprimem a consciência. Os episódios recentes no bairro da Jamaica são, portanto – ou deveriam ser –, um excelente pretexto para se fazer uma reflexão profunda, sem tabus nem ideias feitas, sobre a mitologia racial em Portugal.

Mas aqui chegados, convém olhar para o caráter mais conjuntural dos episódios recentes para enquadrar, de forma intelectualmente séria, os termos desse debate urgente. É que não basta gritar racismo para congelar a razão. Não basta gritar racismo para dispensar os cuidados mínimos que estamos dispostos a garantir, quando alegamos a existência de qualquer outro tipo de delito ou de crime. Não basta gritar racismo para que se justifique uma acusação sem provas, um julgamento precipitado ou uma condenação sumária. Não basta gritar racismo para outorgar um estatuto de superioridade moral ao acusador, o qual o dispensa da maçada de argumentar, fundamentar, expor factos e argumentos no quadro de um debate livre e racional.

Se invoco os particularismos deste debate recente (sim, é às atitudes irresponsáveis do Bloco e de Mamadou Ba que me refiro) é porque me parece fundamental que tenhamos claro qual é o resultado que queremos obter com um debate amplo, sério, profundo, sem interditos, de qualquer tipo, sobre o racismo em Portugal. E esse desiderato, na minha cabeça, está claro. Quero viver numa sociedade em que a cor da pele desapareça por completo das nossas opções políticas, sociais, económicas – sejam essas opções coletivas ou individuais; sejam elas opções conscientes ou (atenção) inconscientes; expressas ou tácitas; conjunturais ou estruturais.

Mas esse desaparecimento quer dizer isso mesmo: desaparecimento. Não quer dizer a manutenção de um conflito, de uma dialética, de uma oposição em que simplesmente se invertem os termos do debate numa perpetuação absurda do mesmo conflito que se quer eliminar. Nada menos do que a erradicação absoluta de qualquer tipo de discriminação com base na cor da pele nos deve ou pode satisfazer. Nada menos, mas também nada mais. E isso, lamento, não é compatível com guerras identitárias que são a negação paradoxal do mal que se quer combater. Vai sendo tempo de deixar cair as bafientas categorias mentais de génese marxista e de basear a guerra contra o racismo larvar da sociedade portuguesa num humanismo radical que é a nossa verdadeira casa comum.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-racismo.html

Política de identidades”, uma regressão civilizacional

 
bairro jamaica
Artigo de Guilherme Valente que saiu no Público de 17/2:  Uma das responsabilidades definidoras do Estado liberal é a preocupação com as minorias, a sua integração, valorização e representatividade. O caso recente do bairro Jamaica anuncia o que virá se entregarmos esse espaço de imperativa intervenção política, social, cívica e humana a movimentos racistas e à sua instrumentalização por forças políticas iliberais. Inventando racismos, racializando o que nada tem a ver com a côr de pele, esse activismo dito anti-racista, de negros e de brancos, semeia a animosidade da população branca menos informada contra a minoria negra pobre, não hesitando em sacrificar aos seus desígnios inconfessáveis a gente fragilizada fugida de lugares de horror que procura paz, esperança e futuro no nosso país. Fechanda nos guetos, impedem a valorização e integração a que aspira. O objectivo é promover o conflito entre brancos e negros. Que crescerá exponencialmente se o Governo não assumir a intervenção justa e os partidos políticos e a sociedade não se mobilizarem para esse objectivo e ideal humano exaltante. A propósito da agitação do bairro Jamaica, aproveitamento da cívica intervenção da Polícia, convocada por uma senhora residente no bairro, como ela própria declarou, JMT lembra numa crónica notável (Público, 25/1/19), o grande Martin Luther King, quando disse “eu tenho o sonho de que as minhas quatro crianças irão um dia viver numa nação onde não serão julgadas pela cor da pele, mas pela qualidade do seu carácter”. O racismo contra o qual ele lutava não é o mesmo “racismo” contra o qual luta o expatriado Mamadou Ba. Luther King colocava o problema ao nível dos indivíduos – a cor não deveria ser critério na relação entre pessoas. Mamadou Ba coloca a questão ao nível dos grupos: a cor da pele, que antes se desejava abolir como critério, precisa agora de regressar, porque é ela que diferencia os grupos para MB desejavelmente em conflito. O que também começa a chegar a Portugal é emergência de um novo paradigma de acção política, a substituição das causas sociais pela chamada “política de identidades”. Novidade que especialmente a esquerda totalitária trotskista tem cavalgado, alimenta e tenta comandar. “Política de identidades” para a qual também a esquerda liberal tem começado a deslizar. Foi esse deslizamento que determinou a derrota de Hilary Clinton nos Estados Unidos e está a levar o PS francês à insignificância. Na sondagem mais recente do IFOP relativamente às próximas eleições europeias, o PSF surgia com 6% das intenções de voto. A substimação das causas sociais, o esquecimento das necessidades e expectativas da população que, negra ou branca, hetero ou trans ou homossexual, etc., etc., quer ser PESSOA, o imperativo de uma mais justa distribuição da riqueza, de uma generalizada igualdade de oportunidades, o abandono, preparado pela devastação na escola de novo em força, do universalismo e do humanismo, enfim, estão na origem da actual fragilidade da democracia, criando terreno para a ameaça iliberal em curso. Fruto das ideologias irracionalistas constituintes da chamada pós-modernidade, as “políticas de identidade”, traduzidas frequentemente em manifestações que ao senso comum parecem delirantes e caricaturais, resulta no entanto de uma dificuldade inerente ao próprio projecto liberal, para a qual os grandes pensadores liberais não deixaram resposta: um grande desafio que se coloca ao desenvolvimento das sociedades liberais e ao aprofundamento do liberalismo. Trata-se, segundo Fukuyama* “de uma escolha que o Estado liberal tem de fazer, se o tipo de liberalismo pluralista que é responsável por proteger é um liberalismo dos indivíduos ou se é dos grupos, e se for este último que tipo de restrições dos direitos individuais pelos grupos está disposto a aceitar.” A maior parte das sociedades liberais percebe e tem agido em conformidade com a evidência que o reconhecimento do grupo pode minar o princípio liberal básico da tolerância e dos direitos dos indivíduos. É por isso que “o liberalismo não pode ser completamente equitativo em relação às diferentes culturas, já que ele próprio reflecte certos valores culturais e tem portanto de rejeitar grupos culturais alternativos que são eles próprios profundamente não liberais”. Exemplo, o radicalismo islâmico. De entre as inúmeras caricaturas do fenómeno em expansão, refiro a título de exemplo duas: Em Setembro de 2018 foi publicado em França um livro de feministas negras que proclamava como inimigas o Estado francês, o racismo de estado e…o feminismo branco! O seu combate anunciado era "contra a negrofobia, o imperialismo, o heteropatriacado [branco e negro?] e o capitalismo”. Em Junho de 2018, em Montréal, Robert Lepage, famoso encenador canadiano, viu-se no centro de uma polémica violenta por causa da peça Slav em que o recurso aos cânticos de escravos negros não foi acompanhado por uma distribuição racial em conformidade - o intérprete principal e alguns dos músicos eram... brancos. Um dos slogans da manifestação à porta do teatro: “Os cânticos dos escravos não foram escritos para que deles aproveitassem os brancos.” A direcção do Festival de Jazz decidiu em Julho suspender a representação. Também entre nós, a encenação de peças de Gil Vicente, por exemplo, terá de recorrer em breve a actores que na realidade se confundam com os personagens. Os judeus da Farsa de Inês Pereira terão de ser interpretados por verdadeiros judeus (e como se prova isso, talvez desenterrando Mengel ou Himmler!). Nesse universo extremo atomisado de identidades que se anuncia deixa de haver lugar para o diálogo, a criação e as artes. Nessas sociedades pulverizadas (inviáveis) o negro, o branco, o gay, a lésbica, o hetero, etc., passam a ser importantes por serem tal, e não importantes enquanto... pessoas. Pessoas, como deve sentir-se toda a gente e o universalismo e o humanismo consagram. Estaremos, estamos já hoje, portanto, perante inumeráveis “racismos”. Seria, será a multiplicação de apartheids, o regresso de um hiper tribalismo, um mundo hobbesiano mad max de todos contra todos. * Fukuyama, O Fim da História, posfácio à edição de 2019, Lisboa, Gradiva. Tentarei tratar este aspecto num próximo artigo.
Guilherme Valente

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Portugal | Parlamento prepara relatório sobre racismo a apresentar em julho

A Assembleia da República está a preparar um relatório sobre racismo, xenofobia e discriminação étnico-racial que vai ser apresentado até ao final desta legislatura, no âmbito da subcomissão para a Igualdade e não discriminação, para conhecer e combater o fenómeno.
Em declarações à agência Lusa, a deputada socialista Catarina Marcelino, responsável pela elaboração do relatório, explicou que o objetivo é compreender de que forma o racismo se expressa e é percecionado na sociedade, e ver o que é que a Assembleia da República pode recomendar para o combater.
Catarina Marcelino explicou que a elaboração deste relatório nada tem a ver com episódios recentes, como o do Bairro da Jamaica, no Seixal, tendo sido decidido logo após a agressão de Nicol Quinayas, uma jovem colombiana, em junho do ano passado, por um segurança dos transportes do Porto.
A deputada socialista adiantou que a elaboração do relatório inclui diversas iniciativas, entre audições e visitas no terreno, a primeira das quais já no dia 08 de março, a representantes das comunidades afrodescendente e brasileira, e que terminará com a elaboração de um relatório, a apresentar em julho.
Catarina Marcelino explicou que, como o tema é bastante abrangente, optou por analisar os dados da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) para perceber quais os grupos que apresentavam mais queixas.
"As pessoas negras, por questão de cor de pele, as pessoas ciganas, por questão étnica, e as pessoas brasileiras, por questão de nacionalidade, mas também com ligação à cor da pele, eram os grupos que tinham mais apresentado mais queixas", apontou.
A partir daqui foram organizadas várias iniciativas, sempre divididas em dois grupos: pessoas afrodescendentes e brasileiras e pessoas ciganas porque os motivos que levam a atitudes racistas contra estas pessoas não é igual.
Num primeiro momento, vão ser ouvidas as comunidades vítimas de racismo, em audições públicas, sendo que a primeira está marcada para dia 08 de fevereiro, com cinco organizações representativas da comunidade afrodescendente e da comunidade brasileira em Portugal que vão falar sobre habitação, educação, saúde, segurança e justiça, trabalho e políticas públicas.
Posteriormente, a 19 de março, e sobre os mesmos temas, haverá uma audição pública com organizações representativas das comunidades ciganas.
"Depois faremos duas audições, uma sobre afrodescendentes e brasileiros e outra sobre comunidades ciganas, com especialistas e académicos em que vamos ouvir as pessoas que têm estudado estes fenómenos", revelou a deputada socialista.
No calendário estão também previstas audições com altos dirigentes da administração pública de todas as áreas que estão em análise, e, por fim, com o Governo.
Questionada sobre se as autoridades policiais também seriam ouvidas, Catarina Marcelino explicou que a opção foi a de ouvir a Inspeção-geral da Administração Interna (IGAI), no âmbito dos dirigentes da administração pública.
"No fim, no início de julho, temos um seminário em que apresentaremos o relatório, que será com base em tudo o que ouvimos e a intenção é que o relatório também tenha recomendações", adiantou.
De acordo com Catarina Marcelino, também estão planeadas visitas no terreno, a primeira das quais em Bragança, por ser o concelho onde, segundo dados do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), existem mais concentração de pessoas ciganas a viver em barracas ou acampamentos.
A deputada socialista sublinhou que o objetivo é "garantir que o relatório vai ser muito neutro na avaliação que vai fazer para produzir alguma coisa que seja credível" e não possa ser usado "em jogos que não interessam".
Lusa | em Notícias ao Minuto | Foto: © Reuters

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Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista

Num mundo em mudança, as mudanças nem sempre são bem aceites. A igualdade como ideal tem 230 anos contados a partir da Revolução Francesa, mas, como prática, é ainda e apenas, uma ideia. Num Portugal que não é monocromático, a pedagogia da cor é uma Escola com muito insucesso. Vem isto a propósito da agitação em torno de episódios de discriminação recentes. Recentes, mas velhos de décadas, num país em que preto é cor de viuvez, de perda, de luto e de luta. Falar de discriminação, de racismo, de xenofobia, de misoginia, de sexismo ou de homofobia é trazer à tona uma sociedade plena de imperfeições. Uma sociedade que permanece radicalmente inculta e afastada dos ensinamentos científicos do nosso tempo. Uma sociedade que resiste à mudança. Uma sociedade que tem ainda um sentimento de perda de um império que nunca, verdadeiramente nunca, existiu. Uma sociedade que nunca compreendeu o século XX enquanto tempo de emancipação e de liberdade para os povos não Europeus. Uma sociedade que bate no peito, mas não assume a sua quota parte de culpa nessa ode à desgraça que permitiu a escravatura e o tráfico negreiro. Uma sociedade que luta há 500 anos para não integrar os ciganos que, resilientes, se mantêm por aqui. Uma sociedade que manteve ardentes atos de fé nas principais praças das nossas cidades e campos de desterro em vários continentes. Uma sociedade que nega o seu racismo endógeno, mas segrega, separa e exclui a diferença, os diferentes.
Volto à Jamaica, também eu sem câmaras fotográficas e sem jornalistas. A Jamaica é toda uma metáfora de colonialismo e neocolonialismo. Plena de contradições e de sucessivos exercícios de poder (ou de inércia) acaba no que é hoje. Aqui a Jamaica é toda uma metáfora porque urbanização do Vale de Chícharos no Seixal não tem o mesmo impacto do que ser Jamaica. Paredes de tijolo cru, fios elétricos expostos ao vento e parabólicas apontadas ao mundo. Grafitis e retratos de heróis nas paredes. Cheiros de outras gastronomias, sons de outros continentes, palavras de outras línguas. E ausências, muitas ausências. De um Estado que há muitos anos falhou na integração destes imigrantes e dos seus filhos; de uma política de habitação inclusiva; de uma política efetiva de combate à exclusão social; de um elevador social que impeça a reprodução das desigualdades. Faltam políticas de integração social que sejam municipais, metropolitanas e nacionais. A Jamaicaé uma metáfora de um país que tem no outro extremo as Quintas (a do Lago; a da Marinha, as do Douro). Uma metáfora de um país de desigualdade social profunda e da incapacidade de olhar este desafio de frente.
A inevitabilidade de olharmos as migrações como uma realidade que veio para ficar obriga-nos a repensar a comunidade social que somos. O racismo nativista virulento que vem surgindo em segmentos da população em países à nossa volta é o mesmo que ainda transparece de algumas das relações entre seres humanos aqui. Não há um racismo bom e um racismo mau. Há apenas estupidez nas ações que assumem a cor da pele como fator de discriminação naturalizada. O racismo é uma naturalização das desigualdades e uma garantia de que não desaparecerão. Em vez de racismo podíamos falar de xenofobia, de discriminação social ou de bullying estrutural, o país seria o mesmo, as dimensões de exclusão seriam alternativas. Terminar de vez com o racismo ou a xenofobia é trabalho para toda uma sociedade. É preciso criar uma estrutura nacional que reúna todo o muito que já sabemos sobre o tema e o devolva sob a forma de um programa nacional de combate ao racismo e à xenofobia. Mudar estruturas (como a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial transformando-a num regulador social e conferindo-lhe peso político e visibilidade social), criar conteúdos formativos para as autoridades e magistraturas, alterar a legislação de forma a cumprir e fazer cumprir o artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, descolonizar os materiais formativos com que se socializam as crianças e jovens nas Escolas. A sociedade portuguesa, toda ela nas suas múltiplas componentes, necessita de um upgrade civilizacional que permita ultrapassar os 230 anos que temos de atraso na integração social da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Também da Jamaica, numa inspirada “Redemption song” veio o mote “Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our minds”
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A sua amiga negra

Eu sou negra. Devido a artigos que já publiquei aqui no PÚBLICO sobre racismo, tenho amigos e amigas brancas bem chegados que me dizem que uma negra a escrever sobre o racismo é menos levada a sério que uma pessoa branca. Até fazem a comparação com um homem que escreve a favor do feminismo. Um homem branco que escreve com uma perspectiva anti-racista ou feminista é mais ouvido, não é? Legitima a causa. Pode até ser admirado. É lindo. E o impacto é diferente. Sofre menos retaliações, quando sofre. Nas últimas semanas, a seguir aos acontecimentos no bairro da Jamaica, tenho lido uma série de artigos sobre o racismo. Embora os primeiros artigos escritos por pessoas negras comecem a aparecer a conta-gotas, a discussão foi feita maioritariamente por homens brancos. Será que os meus amigos e amigas brancas têm razão? De qualquer forma, neste artigo posso posicionar-me como a amiga negra dos leitores, sobretudo se o leitor não tiver uma amiga ou amigo negro para fazer o que sabiamente sugeriu Rui Tavares. Embora não seja das minhas experiências pessoais com as diferentes formas de racismo que quero falar neste texto.
Com o objetivo de gerar reflexão positiva entre pessoas brancas, vou seguir o raciocínio dos meus amigos e, num ato de exercício intertextual, vestir-me-ei com a “voz branca” e empática da académica Robin Diangelo. Ela é uma mulher branca, norte-americana e escreve, estuda e fala sobre o racismo e anti-racismo para pessoas brancas. Publicou em 2018 o livro White Fragility: why it is so hard for white people to talk about racism(livro ainda não traduzido para português), já considerado um “New York Times Bestseller”. Vou deixar aqui algumas das ideias centrais do seu livro, que considero elucidativas e necessárias para a discussão e meditação sobre o racismo no espaço público português actual.
1. O racismo vai muito além do indivíduo. O racismo é um sistema de opressão, assim como o sexismo. Só para citar um dado histórico, os homens brancos deram o direito ao voto às mulheres sufragistas nos EUA em 1920, mas somente às mulheres brancas. Mulheres negras nos EUA só tiveram este direito concedido depois de 44 anos, em 1964. O racismo sistémico começa com uma ideologia, e refere-se às ideias dominantes que circulam na nossa sociedade. Desde o nosso nascimento, somos condicionados a aceitar estas ideias e a não questioná-las, diz Diangelo (p.21).
2. Para entendermos bem o que é o racismo, precisamos primeiro de diferenciá-lo do mero preconceito e discriminação. Preconceito refere-se a um pré-julgamento de uma pessoa com base no grupo social ou racial à qual ela pertence. Discriminação consiste em pensamentos e emoções, incluindo estereótipos, atitudes e generalizações que são fundamentadas em pouca ou nenhuma experiência e que são projetadas em todas as pessoas de tal grupo. Neste sentido, pessoas negras podem discriminar pessoas brancas, mas elas não têm o poder social ou institucional que transforma o preconceito e discriminação delas em racismo. O impacto do preconceito delas em relação às pessoas brancas é temporário e contextual. Pessoas brancas detêm o poder institucional para imbuir o preconceito racial em leis, políticas públicas e educacionais, práticas e normas societárias, de uma forma que uma pessoa negra não tem. Logo, uma pessoa negra pode exercer preconceito e discriminação, mas não pode ser racista, defende Diangelo (p.19, p.22).
3. Cidadãos brancos podem ser contra o racismo, mas beneficiam-se à mesma de um sistema que privilegia os brancos como grupo. Estas vantagens são conhecidas como o “privilégio branco”, um conceito sociológico que se refere aos benefícios dados como adquiridos por pessoas brancas e que não pode ser usufruído da mesma forma por outros grupos raciais. Isto não quer dizer que não existam pessoas brancas desfavorecidas ou pobres que sofram preconceito. Existem, claro. No entanto, elas não enfrentam as barreiras criadas pelo racismo sistémico, que é devastador (p.24). A supremacia branca (esta não se restringe a grupos radicais) está na base da sociedade e instituições, e é especialmente relevante em países com uma história colonial.
4. Ao desdobrar-se sobre os três pontos acima, Robin Diangelo argumenta ao longo do seu livro que todas as pessoas brancas reproduzem padrões racistas. Todas as pessoas têm preconceitos, especialmente raciais, numa sociedade profundamente dividida por raça. Uma pessoa branca pode ter amigos ou namorados negros, e ainda assim praticar o racismo, digo eu. Ser ou não racista nada tem a ver com a dicotomia: boa ou má pessoa. O racismo não é um evento causado por atitudes individuais. É uma estrutura. De facto, há estudos científicos de psicologia, feitos em Portugal com crianças brancas e negras portuguesas e citados em White Fragility (p.84, 85) que constatam que as crianças brancas podem demonstrar atitudes de hostilidade racial já aos seis anos de idade. As crianças podem ser racistas não por serem más, mas sim por interiorizarem certas normas sociais profundamente enraizadas na nossa sociedade. A contínua negação do racismo é por isso cómoda e perversa. Se sou branca e me posiciono como não racista, que me resta fazer? “O racismo não é problema meu e nada tenho a fazer.” Esta visão, cúmplice de atrocidades como ódio racial, limita o pensamento crítico sobre o racismo e impede uma pessoa branca de usar o seu privilégio para desafiar as desigualdades raciais, inclusive entre as crianças.
5. Por fim, face a tensões raciais ou questões sobre o racismo, as pessoas brancas passam por um processo que Robin Diangelo conceptualiza como “fragilidade branca” (tradução literal), que tem a ver com uma série de reações defensivas. Isto inclui emoções como ira, medo, culpa e comportamentos como ignorar o assunto por completo. A fragilidade branca é um mecanismo para restabelecer o conforto e a hierarquia racial, e rejeitar mudanças. Mas atenção. Esta fragilidade branca não é uma fraqueza. Pelo contrário, nasce sim de uma superioridade. A fragilidade branca em Portugal nas últimas semanas tem sido exacerbada. O melhor exemplo é uma expressão com a palavra “bosta” ganhar mais peso que a situação lamentável que a gerou.
Para terminar, cito diretamente Robin Diangelo: “A nossa socialização racializada faz com que tenhamos comportamentos racistas, independentemente das nossas intenções ou autoimagem. Devemos continuar a perguntar-nos como o nosso racismo se manifesta, e não se.” Reflitam.
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Hélder Amaral: um privilegiado durante toda a vida, Telmo Correia?

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 03/02/2019)

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Cristas, animada pelo valor eleitoral que atribui à política securitária, depois de ouvir António Costa ao longo do debate quinzenal condenar toda e qualquer violação da lei, perguntou se Costa condenava mesmo, mesmo, os atos de vandalismo que ilustrava em fotos. A pergunta é obviamente ofensiva, o seu objetivo é evidente, insere-se na cedência ocasional do CDS ao populismo e Costa, irado, respondeu isto: “Está a olhar para mim… Deve ser pela cor da minha pele que me pergunta se condeno ou não condeno”.

Não creio que Cristas faça a pergunta por causa da cor da pele de Costa. Creio que a faz porque quando lhe dá jeito. Cede, como já referi, ao populismo que ameaça o Regime. Cede à dicotomia fácil “pela polícia/contra a polícia”.

Não creio, por outro lado, que Costa tenha sido falso ou ávido de vitimização no desabafo. E é aqui que não pode, quem não sabe o que é a manifestação diária do racismo, pior se associado à pobreza, mas presente em todas as classes socais, acenar com o privilégio de classe.

Telmo Correia acusa Costa de ter sido um privilegiado durante toda a vida. Presume-se que na mundividência de Telmo a discriminação com base na cor da pele não existe fora de uma favela urbana.

Telmo Correia afirma que Costa ofendeu todos os portugueses, talvez esquecendo que a sua ignorância ativa tenha ofendido muitos portugueses que sabem o que nem eu nem Telmo sabemos: sabem o que é ouvir “preto” ou “preta” na rua; sabem o que é ser tratado com desdém em estabelecimentos públicos e privados; sabem o que é ouvir “monhé” ou “volta para a tua terra” ou “com os nossos impostos e tal”.

Talvez Telmo Correia finja mesmo que não saiba que o Primeiro-Ministro é alvo de comentários racistas (nunca os ouviu?) na rua, no recanto de um táxi ou numa manifestação.

Se Telmo tem dúvidas acerca da discriminação racial de gente privilegiada, releia a entrevista que o seu colega de bancada, Hélder Amaral, deu, em 2015, à jornalista Fernanda Câncio, no DN, na qual afirma isto: “O meu filho está num colégio privado e, às vezes, chega a casa a contar que lhe chamaram «preto». Até já fui à escola por causa disso. É o único negro lá. A minha filha agora está na escola pública e deixou de sentir isso, porque há lá mais negros”.

Ou pensará Telmo que Hélder Amaral foi um privilegiado toda a vida?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | 45 anos de negação

"A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF
"O meu filho está num colégio privado e, às vezes, chega a casa a contar que lhe chamaram «preto». Até já fui à escola por causa disso. É o único negro lá. A minha filha agora está na escola pública e deixou de sentir isso, porque há lá mais negros." Estas frases não são de um dirigente do SOS Racismo. Não são de Mamadou Ba, homem que, nas últimas semanas, tanta gente decidiu odiar. Não são sequer de uma pessoa de esquerda. São de um deputado do CDS, o único deputado negro no parlamento português, Hélder Amaral, numa entrevista que lhe fiz para o Diário de Notícias, em 2015.
Amaral nasceu em Angola, há 51 anos, e veio para Portugal com 6 anos, para uma aldeia do Norte, onde a sua família era a única negra. Não me falou do que foi crescer assim. Mas falou do que é para os seus filhos, quatro décadas depois: "O que mais me choca é eles sofrerem com isso."
Hélder Amaral não vive no bairro da Jamaica. Nem num bairro social. Não é pobre. Anda de fato e gravata, frequenta aquilo a que se dá o nome de «corredores do poder». Mas isso não o impede de ver os seus filhos sofrer por serem negros. Como não o impediu de sofrer quando o viram a acompanhar Paulo Portas e o trataram, conta, como se fosse o segurança ou o motorista.
Talvez como forma de defesa, de negação ou por a questão da discriminação racial não ser um tema para o seu partido, Amaral nunca a abordou na sua actividade política. Daí que, quando decidi ligar-lhe para lhe pedir uma entrevista, não soubesse bem como dizer-lhe qual o tema: ser o único deputado negro.
Fiquei surpreendida quando me agradeceu-me dar-lhe oportunidade de falar do assunto. Porque, disse, "acho que é preciso chamar a atenção."
Chamar a atenção, explicou, para o facto de o Parlamento "representar ou dever representar toda a variedade da sociedade portuguesa" - e, no entanto, não ter mais negros. Chamar a atenção para "o tratamento diferenciado", e não no bom sentido, de que se sente alvo. Para os momentos de desânimo em que diz a si mesmo: "Vou para casa, já foi uma sorte chegar aqui."
Chamar a atenção para a invisibilidade, para a ausência de representação dos negros portugueses, para o sentimento de não serem portugueses: "Tem tudo a ver", diz, "com a invisibilidade". "Há um longo caminho a fazer em termos de integração. Basta olhar para a TV. Aparecem de vez em quando uns negros nas novelas... Mas pivôs negros, há algum? Os miúdos negros não se sentem representados."
Ao ouvir esta semana a entrevista que Mamadou Ba deu a Daniel Oliveira, no podcast 'Perguntar Não Ofende', dei-me conta de como tanto do que ali diz coincide com o que o deputado centrista Hélder Amaral me disse em 2015.
Ambos denunciam a existência de um racismo estrutural no país. Ambos dizem que Portugal é racista e é preciso falar disso. Se dizem de Mamadou que é radical, terão de o dizer também de Amaral. Se acusam Mamadou de se vitimizar, terão de acusar o deputado do CDS do mesmo.
Ou talvez se possa olhar para estes dois homens, um do Bloco e outro do CDS, e concluir que é possível que saibam mais sobre discriminação racial do que quem faz parte da maioria branca. Que é altura de esta democracia com quase 45 anos deixar de fingir que não vê cores.
*a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Descriminação e racismo em contexto académico

Juventude na CPLP e Afrodescendência e Sistema Educativodebatidos na Assembleia da República e na NOVA FCSH: é Portugal um país que descrimina ou integra os jovens afrodescendentes e africanos?

Tendo participado no passado dia 30 de janeiro em dois eventos “Ano da CPLP para a Juventude” na assembleia da república,enquanto membro da associação “Integrar Diligente” e na 1ª sessão do Ciclo de Debates Narrativas Afro-Europeias – “Afrodescendência e Sistema Educativo” na Nova-FCSH, não podiam ser mais díspares as apreciações sobre os mesmos em termos de representatividade discursiva e protagonistas, não obstante o elo comum de ligação ao abordarem a Juventude na CPLP,Afrodescendência e Educação.

“Ano da CPLP para a Juventude” na assembleia da república

De facto, se no 1º e como seria expectável, imperou o discurso formal, pré-formatado e do politicamente correto, numa audiência praticamente sem representatividade jovem, quer dos países da CPLP, quer de afrodescendentes já que os que participaram, confinados às galerias, apenas puderam ouvir, seráde destacar as intervenções de Carlos Monteiro, Secretário de Estado para a Juventude de Cabo Verde que alertou para a urgência de se tomarem medidas concretas paraa Juventude no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pelo tanto que ainda há para fazer e de Luís Monteiro, deputado do Grupo Parlamentardo BE, que frisou a efetiva necessidade de incluir os jovens e as suas problemáticas na discussão, nomeadamente no que diz respeito à descriminação,ao racismo e à desigualdade, quer quotidianos, quer estruturais, discussão essa que deverá tornar-se, assim, mais acessível e participativa.

Relativamente às intervenções da audiência, Quitéria Andrade, da associação Conexão Lusófona questionou a mesa sobre a problemática do acesso ao emprego e descriminação que sofrem pessoas de cor e do sexo feminino, fenómeno demonstrado, ainda segundo a mesma, na própria mesa e audiência praticamente sem representatividade, quer étnica, quer de género, quer etária e de Rui Bauhofer, presidente da Associação de Estudantes Moçambicanos de Lisboa que levantou uma questão relativa à sustentabilidade que existirá na CPLP quando tanto se fala nas metas dos ODS. Já M.L.S interpelou os oradores presentes relativamente a questões que procurou esclarecer, designadamente, a problemática da corrupção que assumidamente continua a subsistir nos muitos países da CPLP e que urge combater ou a óbvia necessidade de se reconhecer os cidadãos afrodescendentes como efetivamente portugueses e de os dotar dos direitos e privilégios que legitimamente reclamam.

Luzia Moniz, da organização Padema – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana – questionou os oradores sobre a legitimidade do “Programa Erasmus para a CPLP” ter sido denominado de “Programa Pessoa” quando vários trechos deste autor, lidos pela própria, evidenciam a defesa da escravatura e do colonialismo”. “ Por último, mas não menos importante, a intervenção de um jovem afrodescendente “poeta, educador de jovens dos 8 aos 80” que se questionou sobre o porquê de ser praticamente o único a ter a possibilidade de, mais do que ouvir, ter voz.

“Afrodescendência e Sistema Educativo” na Nova-FCSH

Relativamente ao debate da NOVA FCSH, marcadamente distinto, foi possível observar uma audiência repleta de jovens estudantes, quer oriundos dos PALOP, quer afrodescendentes num debate informal, esclarecedor e necessário, relativamente às problemáticas da existência dum racismo e desigualdades estruturais e sistémicos ao nível do próprio Sistema de Ensino logo no Ensino Básico que prossegue nos ciclos seguintes, com a inclusão de muitos dos jovens afrodescendentes nas chamadas “turmas especiais ”e que depois são encaminhados para os cursos técnico-profissionais do que resulta que são muito poucos, para não dizer, quase inexistentes, os que depois progridem para o Ensino Superior, como nos foi dito pelas oradoras Cristina Roldão, investigadora e docente no ISCTE, Beatriz Dias, ativista da Associação de Afrodescendentes e deputada municipal do Bloco de Esquerda em Lisboa e Sónia Magalhães, Diretora do PRSD – Provedores de Respostas Sociais Para o Desenvolvimento. Face à constatação óbvia destes fenómenos, foi realçada a necessidade de recolha de dados étnico-raciais, não só para ilustrar estas realidades através de dados estatísticos, como para contribuir com essa informação para alterar esta conjuntura.

Relativamente aos jovens presentes, entre dirigentes associativos, alguns professores e estudantes, tanto do secundário como universitários, claramente identificando-se com as temáticas abordadas, acabaram por partilhar os seus testemunhos pessoais. Foi o caso ilustrativo duma professora do Ensino Básico que diariamente se confronta com manifestações flagrantes de racismo quando recebe testemunhos de alunos a quem dizem “o teu cabelo é feio”, “és feia” ou meninas que lhe perguntam “se estão a ser educada para ser empregadas domésticas”. Outros testemunhos, nomeadamente, de dirigentes associativos das várias comunidades dos PALOP salientaram as dificuldades que os próprios enfrentaram e as manifestações de racismo com que se defrontam em questões aparentemente tão básicas como o constatou Luís Vitorino, Presidente da Associação de Estudantes Angolanos de Lisboa no dicionário de Língua Portuguesa relativamente às definições de “preto” e “branco” com esta última a ser alusiva a ser-se português; o Presidente da Associação de Estudantes da Guiné no Porto que não vendo qualquer afrodescendente na sua faculdade, se indagou se a sua presença seria derivada a estar a ser “objeto de algum estudo” e também outros testemunhos de estudantes dos PALOP a frequentarem universidades de Lisboa que partilharam algumas das dificuldades com que se deparam, nomeadamente ao nível da integração.

Já Smith Lima Mendes, estudante afrodescendente e membro do Núcleo de Estudantes Africanos e Lusófonos da AE NOVA FCSH destacou, de forma positiva, a boa integração na escola que frequentou em Paço de Arcos e do próprio concelho de Oeiras onde jovens de várias classes e etnias conviviam de forma igual, e do seu percurso onde, apesar de inicialmente ter enveredado pelo ensino profissional, resolveu arriscar e ir mais além, ingressando no Ensino Superior, tendo já concluído a sua licenciatura na NOVA FCSH. A intervenção duma jovem afrodescendente do Bairro da Jamaica poderá ser visto como um claro exemplo de resiliência e determinação pois não obstante as facilmente imagináveis dificuldades por que passou desde ser considerada “aluna problemática”, ter sido mais uma a ser colocada numa “turma especial” e encaminhada para o ensino profissional, não desistiu do seu objetivo de ser psicóloga, conseguiu fazer Erasmus e pretende ingressar no Ensino Superior.

Sinho Baessa Pina, também ele afrodescendente, realçou a necessidade de se continuarem a fazer debates como este e de os jovens afrodescendentes participarem naquilo que constitui, efetivamente, o seu direito de cidadania ativa de participação e integração na sociedade portuguesa.

E tal como foi concluído tanto pelas oradoras, como pela audiência, é, indubitavelmente, através da Educação que poderemos, em conjunto, trabalhar para mudar mentalidades, estereótipos e estigmas e, assim, contribuir para uma mudança a uma maior escala do racismo institucional e estrutural.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/descriminacao-e-racismo-em-contexto-academico/

Para além de racistas

Ricardo Paes Mamede
Há tempos vi um vídeo que não vou esquecer tão cedo. É de noite. Vários tipos negros, com camisolas de capuz e ténis, olham à volta agitados. De repente começam a correr, todos na mesma direcção. A câmara mostra então um homem branco já velho, sentado num automóvel, girando a chave da ignição sem sucesso. O homem olha pela janela assustado. Os negros aproximam-se, rodeiam o carro, começam a empurrá-lo. A expressão do condutor é agora de pânico. O plano alarga-se. Percebemos que o carro está parado numa passagem de nível e um comboio vem na sua direcção. Em esforço, os jovens conseguem tirar o carro da linha. O idoso está em choque e os jovens acalmam-no. O condutor sorri-lhes, agradecido.
Não esqueço também O Gosto dos Outros, filme de Agnès Jaoui. O protagonista, um empresário de província, vive para os negócios. Por acidente, a sua vida cruza-se com a de uma atriz de teatro. Nada têm a ver um com o outro. O empresário não esconde o seu desprezo pela cultura erudita. Entre os amigos da actriz, o aspecto do homem, o modo como fala, a roupa que veste, a ignorância que revela sobre arte e outros temas, são motivo de chacota. À medida que as relações se aprofundam, os sinais de pertença de classe esbatem-se, dando lugar a uma comunicação sincera entre pessoas. Entre aqueles que se dispõem a ir além do que parece.
O filme de Jaoui nada tem a ver com racismo, mas tem tudo a ver com preconceito. Como o vídeo que descrevi mais acima. A força destes filmes não está apenas na denúncia da discriminação em geral. São marcantes porque nos confrontam com os nossos próprios preconceitos. Com os meus. Com os de quem está a ler este texto.
À partida, um grupo de jovens negros vestidos à rapper a correr agitados no meio da noite é um bando de vândalos. Um homem engravatado que dá erros de gramática e calinadas sobre arte com pronúncia rural é um pacóvio irremediável. Os nossos preconceitos não ficam por aqui. Estendem-se às tias de Cascais, a quem usa meia brancas, aos políticos e famosos, às mulheres de saias curtas, a quem mastiga de boca aberta, aos feios e gordos, aos belos e ricos, aos homens efeminados, aos ciganos e chineses. Sobre todos temos opiniões formadas. Mesmo sem os conhecer.
O preconceito é uma característica humana e de outros animais. Classificamos tudo em categorias estanques. Construímos expectativas com base em percepções. Generalizamos a partir de experiências únicas. Muitas vezes isto é útil, dá-nos pistas para a acção quando reina a incerteza. Mas o conhecimento indutivo é falível. Se só vimos cisnes brancos, assumimos que todos os cisnes são brancos. Na verdade não são. Só não tivemos ainda a oportunidade de ver cisnes negros. Mais conhecimento, se o quisermos, leva-nos a corrigir os erros da generalização.
Somos mais ou menos racistas, classistas, sexistas e homofóbicos por instinto. Deixamos de o ser quando a experiência nos mostra que os seres humanos são todos diferentes e todos iguais. Que perdemos mais do que ganhamos quando nos deixamos iludir por preconceitos.
Não nascemos apenas com o poder da discriminação. Também viemos preparados para a questionar. Usemos este dom.»
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Leia original aqui

Quem não se sente não é filho de boa gente!

Excelente o texto de Marisa Morais, hoje inserido no «Público», em que a autora declarou ter ficado deliciada com a resposta de António Costa a Assunção Cristas na Assembleia da República. Porque, embora o CDS continue a pretender usar o despique em seu favor - e esse inenarrável Telmo Correia assim o fez para as televisões no dia de ontem! - a verdade é esta: quem não se sente, não é filho de boa gente. Ora se há apontamento interessante na biografia do primeiro-ministro é o de ter tido por pais um escritor e uma jornalista dos mais meritórios entre os que combateram o salazarismo-marcelismo. Já dos pais de Assunção Cristas pouco mais se sabe do que o terem sido retornados de Angola, sem imitarem muitos dos que de lá vieram e se integraram no pensamento democrático e anticolonialista, que a Revolução de Abril consagrara.
O fulcro da questão é, porém, outro, aquele que Marisa Morais aborda: António Costa respondia a uma pergunta indecente, claramente provocatória, da interlocutora, porque alguma vez se vira um primeiro-ministro ser interrogado no parlamento quanto a apoiar ou desapoiar atos de vandalismo, quando eles ocorreram? Porque haveria António Costa de ser o primeiro? Que tem ele de diferente em relação aos predecessores? A resposta quanto à cor da pele surgiu como perfeitamente natural perante quem nasceu e cresceu num ambiente colonialista, em que a supremacia dos brancos sobre os «indígenas» - como o Estado Novo crismou as populações efetivamente naturais no seu suposto império! - era o discurso e a prática oficial.
O comportamento mal-educado da criatura só pode ter esse recôndito preconceito na mente: por muito que procure iludir o racismo, que procura ocultar nas meninges, ele surge inevitável, quando depara à sua frente com um primeiro-ministro que a irrita por ser muito inteligente, irrepreensivelmente competente e, ainda por cima, com um tom de pele que não tem o seu imaculado tom.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/quem-nao-se-sente-nao-e-filho-de-boa.html

STOP Criminalização do corpo negro e dos bairros periféricos

De um conjunto de activistas e dirigentes associativos anti-racistas recebemos o comunicado que abaixo transcrevemos na integra.

Inúmeras peças jornalísticas criaram a ficção de que está em curso uma onda de vandalismo, precipitando-se a imputar implícita ou explicitamente às populações negras e pobres dos bairros periféricos a culpa pelo espancamento que agentes da polícia infligiram a moradores desarmados no Bairro de Vale de Chicharos, também conhecido como Bairro da Jamaica; a culpa pelas balas de borracha disparadas contra centenas de jovens, na maioria negros que, num puro acto de exercício da sua cidadania, se manifestaram na Avenida da Liberdade. Estes não são casos isolados, foi assim com as falsas notícias sobre o pretenso “arrastão” na praia de Carcavelos (2005), o suposto meet de “marginais” no Vasco da Gama (2014) e a falsa “invasão” da esquadra de Alfragide (2015).

Os episódios de fogo posto e de vandalização, que ocorreram nas últimas noites, em vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, visam descredibilizar e abafar as nossas reivindicações, silenciar as denúncias de violência policial e sobretudo desviar o foco deste debate premente da sociedade portuguesa, que é a violência policial exercida sistematicamente contra as comunidades racializadas. Aliás, no que diz respeito aos incidentes no Bairro da Bela Vista, Carlos Rabaçal, Vereador da Câmara Municipal de Setúbal, disse recentemente ter-se apurado que se trataram de reações de “miudismo de gente branca”.

As formas de luta dos colectivos e comunidades afrodescendentes têm-se caracterizado por estratégias positivas e construtivas, que vão desde o contributo enquanto trabalhadores, como formas de organização colectiva que enriquecem a nossa democracia e Portugal.

Os meios de comunicação social mainstream têm uma enorme responsabilidade na difusão de preconceitos e estereótipos concernentes aos negros e negras de Portugal. Ao invés de contextualizarem os acontecimentos e desconstruírem o imaginário racista da sociedade portuguesa, os nossos media insistem em lucrar com a nossa desumanização arrastando-nos vezes sem conta para a ficção estereotipada do “jovem negro criminoso”. Depois de notícias como as que saíram, nos últimos dias, para a praça pública impunemente, é pesado o manto de violência racista – da mais inorgânica à extrema-direita organizada – que se abateu sobre nós e sobre todos aqueles que tenham a coragem de apontar publicamente o racismo na sociedade portuguesa. Não há desmentido, retratamento ou contraditório posterior que verdadeiramente repare os danos causados, mas exigimo-lo ainda assim, aos meios de comunicação social responsáveis, à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a outras autoridades competentes.

Nós, colectivos afrodescendentes, pessoas negras e activistas anti-racistas, repudiamos enérgica e veementemente que, mais uma vez, vários média portugueses tenham optado por construir conteúdos que, implícita ou explicitamente, criminalizam os corpos negros e os bairros periféricos, sem se preocupar com o princípio da presunção da inocência, o princípio do contraditório e a busca da verdade.

Lista de signatários

Adalgiza Cardoso, Adalgiza Gomes, Afrolis, Ana Fernandes, Angella Graça, Andredina Cardoso, Apolo de Carvalho, Ariana Furtado, Alessandra Brito, Beatriz Gomes Dias, CAIP, Cátia Andrade (MC Gata), Carla Pereira, Carlos Pereira, Cristina Roldão, Dara Fonseca Ramos, Denise Viana, Dilia Fraguito Samarth, Diogenes Parzianello, Djass- Associação de Afrodescendentes, Eduina Borges, Erica Luz, Evalina Dias, Flávio Almada, Gisele Fernandes , Hugo Curado, Ianick Insaly, Inocência Mata, Ivan Jeli, Ivanilson Tavares, Jakilson Pereira, Joacine Katar Moreira, João Mendes, Jorge Fonseca de Almeida, José Pina, José Semedo, José Semedo Fernandes, Kleizy Barreto, Lígia Kellerman, Lolo Arziki, Lúcia Furtado, Luzia Gomes, Luzia Moniz, Maira Zenum, Maria José Freire, Maria Gomes, Mamadou Ba, Mamadu Sané, Mamadu Balde, Manuel Abreu, Manuel Da Graça, Marlene Nobre, Mário Carvalho, Mário Évora, Marta Rivera Bargues, Myriam Taylor, Muxima, Mussa Djaló, Mussa Saido, Nêga Filmes, Neusa Trovoada, Paulo Taylor, Pedro António Almeida, Pedro Filipe, Pedro Schacht, Raquel Lima, Samanta Semedo, Sandro Brito, Seidi Djaló, Silvino Mendes,Sofia Peysonneau Nunes, Sonia Abreu, Shirley Van-Dunem, Simone Frangella, Solange Salvaterra Pinto, Suzana Djiba, Vitor Sanches.

A que se associa João de Sousa, Director do Jornal Tornado


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