Racismo

Portugal é um país racista?

O título desta coluna está a provocar um debate na sociedade portuguesa, no meu juízo é um pouco ligeiro em termos de Teoria Social. Para responder tal questão é fundamental delimitar de forma clara e objetiva o é que raça e racismo. Peço um pouco de paciência a você leitor mais apressado!

O conceito de raça é uma invenção do século XVI em que se formulam teoricamente que existe diferentes categorias de seres humanos, ou seja, há humanos de primeira e segunda nível; uns mais “civilizados” do que outros. Portanto, a noção da raça é uma criação humana e teórica da Modernidade, que coloca o homem europeu branco “como se fosse o universal”, ou seja, a referência a ser seguida no caminho do “progresso e da civilização”. O que na teoria social ficou conhecido, de forma crítica, como “darwismo social”.

O racismo com as determinações as quais conhecemos hoje nos permite sinalizar para algumas categorias. O racismo é relacional e histórico! O que isso quer dizer? Vamos apanhar um exemplo: um homem português branco é forçado pela crise estrutural do capitalismo a emigrar para Suécia. Mesmo tendo boas qualificações profissionais terá um trabalho mais precário e explorado do que a grande média da sociedade sueca e socialmente será visto como um não-branco ou latino. Ou seja, mudou de posição geográfica e com ela mudou também o seu status de privilégio. Esse mesmo homem numa ex-colónia portuguesa, mais facilmente ocuparia uma posição de distinção. Por isso que o processo de racialização de um sujeito ou um grupo social é relacional, isto é, depende da formação social no qual ele está inserido e é historicamente determinada. As componentes que perpassam as práticas racistas em geral são o poder e o conflito, que em larga medida é fomentado pela brutal desigualdade económica e social. O velho Marx já tinha percebido tal coisa quando analisou a relação entre os operários ingleses e irlandeses.

A ter em vista o que procuramos sinalizar, podemos afirmar que o racismo é estrutural (no sentido de que organiza a sociedade) e “naturalizado” na totalidade da vida social, ou seja, não é uma mera manifestação patológica de um indivíduo, como afirma o professor Silvio Almeida. Por outras palavras, o racismo que se manifesta no nosso dia a dia é a expressão do modo de relação social vigente, mais especificamente das sobredeterminações económicas, políticas e culturais. Em suma, todas as opressões (étnica, raciais, de género, orientação sexual, religiosa e etc.) são expressões da sociedade capitalista.

O grande intelectual negro Malcon X disse que “não há capitalismo sem racismo”. Não só pela herança do sistema comercial de escravos, desumano, que permitiu a acumulação por parte do que mais tarde ficou conhecida como burguesia(burgos). Mas principalmente porque o capitalismo necessita das mais diversas racializações para funcionar, pois, sem as desigualdades de classe, étnica/raciais, de género e afins, o sistema de capital não consegue valorizar-se, portanto, não consegue exercer a sua natureza (construída historicamente) de explorar e acumular.

Outro exemplo, de como o capitalismo imperialista recorreu ao racismo (somado ao nacionalismo) como forma de justificar e naturalizar a brutal exploração e em muitos casos o genocídio, foi no processo de dominação colonial que desembocou em duas grandes guerras mundiais. Isto é, o imperialismo/colonialismo construiu a sua base ideológica a partir do racismo, nacionalismo e superioridade eurocêntrica de civilização.

Nesse brevíssimo artigo pude sinalizar alguns elementos que permitem responder a perguntar central. A ter em conta que Portugal é um país que vive na lógica capitalista e sua herança colonial, posso afirmar sem qualquer medo: Portugal é um país racista como qualquer outro que vive sobre a égide do reino da desigualdade e da exploração. Quem tiver alguma dúvida, convido-lhes a ver para além dessa subjetividade neoliberal, o racismo que não é visível no qual a ideologia faz o seu papel de “naturalizar, justificar e legitimar” e com isso moldar as nossas subjectividades. Insisto, vamos a porta de uma universidade pública às 6:30 da manhã para ver quem entra para limpar as salas! Veremos numa só vez o racismo institucional e estrutural.

Como diz Angela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É precisa ser anti-racista.” Completo, para ser anti-racista é necessário ser anti-capitalista.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/portugal-e-um-pais-racista

Estudo revela que 62% dos portugueses manifestam alguma forma de racismo

 
 

Os inquiridos foram questionados se consideravam existirem grupos étnicos ou raciais, por natureza, mais inteligentes, mais trabalhadores e, também, culturas mais civilizadas do que outras. Há apenas 11% da população que rejeita todas as crenças racistas.

 

 
Um estudo revelou que 62% dos portugueses manifestam alguma forma de racismo e que apenas 11% da população discorda de todas as crenças racistas apresentadas no último inquérito do European Social Survey (ESS), noticiado este sábado pelo jornal Público.

 


O inquérito do ESS remonta a 2018 e 2019 e mede o racismo através de perguntas, tendo sido realizada uma amostra aleatória com 1055 portugueses, a partir dos 15 anos.

 


Os inquiridos foram questionados se consideravam existirem grupos étnicos ou raciais, por natureza, mais inteligentes, mais trabalhadores e, também, culturas mais civilizadas do que outras.

 


 
Segundo uma reportagem publicada na edição em papel do jornal Público deste domingo, dos inquiridos, 62% concordaram com pelo menos uma das crenças.

 

 
Já a concordância com todas aquelas perguntas do estudo é de 32%, o que, segundo o estudo, significa que um em cada três portugueses manifesta racismo.

 


Em sentido contrário, há apenas 11% da população que rejeita todas as crenças racistas. As conclusões do estudo permitem dizer que há três vezes mais portugueses a manifestar racismo do que a rejeitar estas crenças.

 


Os dados, fornecidos pela coordenadora nacional do ESS em Portugal, a socióloga Alice Ramos, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, revelam, ainda, que na pergunta sobre se há grupos étnicos ou raciais mais inteligentes, apenas 59% dos inquiridos discordaram.

 


Já sobre a crença racista de que há grupos étnicos ou raciais por natureza mais trabalhadores, a percentagem de quem discorda baixa praticamente para metade, para 33,1%, enquanto relativamente à crença de que há culturas mais civilizadas, essa percentagem é ainda mais baixa, de 12,6%.

 


A análise às conclusões reflete ainda diferenças de acordo com a faixa etária, revelando que quanto mais velhos são os inquiridos, maior é o número de manifestações racistas.

 


A reportagem destaca que 70% dos inquiridos entre os 15 e 35 anos discordam que existam grupos étnicos ou raciais mais inteligentes, enquanto a partir dos 70 anos, a percentagem de inquiridos a discordar é de 34%.

 


Já na análise às respostas de acordo com o grau de escolaridade e conforto quanto ao rendimento, o estudo indica também diferenças.

 

 
TSF | Lusa | Imagem: © Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/estudo-revela-que-62-dos-portugueses.html

Racismo em Portugal tem a subtileza do “português suave”

Isabel Alves - 25/06/2020

Um debate sobre o racismo “só pode ser positivo”, defende o presidente da APAV, que acha que o racismo em Portugal tem a subtileza do “português suave” e teme que o momento beneficie objetivos totalitários, populistas e pouco democráticos.

Foram milhares os que saíram às ruas, em Lisboa, Porto e Coimbra, no início do mês, em protesto contra o racismo, motivado sobretudo pela morte do afroamericano George Floyd nos EUA e pela onda de protestos que se lhe seguiu no país, mas “com um pé” na discussão que o país continua a evitar fazer, a da existência de racismo latente na sociedade portuguesa, que invariavelmente leva a uma divisão entre os que acham que ele existe e os que acham o contrário.

Portugal tem receio de debater o racismo? Para o presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), João Lázaro, “nós”, portugueses, “temos alguns tabus”.

“Nós temos alguns tabus. Temos uns tabus mais subtis. É os efeitos positivos e negativos do ‘português suave’. O nosso racismo muitas vezes é mais subtil. A nossa discriminação é mais subtil, a própria violência noutras áreas acaba por ser menos exuberante do que noutras latitudes, como sejam os nossos vizinhos de península”, afirmou.

Em entrevista à Lusa a propósito dos 30 anos da associação, que hoje se assinalam, o presidente da APAV entende que “só pode ser positivo haver um debate e uma reflexão alargada, um conhecimento, debate esse que nesta altura existem algumas dificuldades para ser feito sem ser manietado por objetivos mais totalitários e visões mais populistas da sociedade e da sua instrumentalização para objetivos que são muito pouco democráticos”.

Para João Lázaro, a manifestação de 06 de junho mostra que “vivemos num mundo em que está tudo polarizado e em que as reações são extremadas”, acrescentando que, do ponto de vista da APAV, o importante a valorizar é “o património de direitos humanos”, independente da origem e contexto de cada pessoa.

“Reflexão e debate sim, claramente, para a consagração dos direitos humanos ser de conquista em conquista, e não para ser apenas objeto instigante, para um retrocesso de direitos. Há direitos que não se discutem, exatamente porque são direitos humanos”, defendeu.

O estado polarizado da sociedade reflete-se no atual quadro político nacional, que passou a integrar no parlamento um partido, o Chega, com um discurso marcadamente hostil em relação a uma etnia específica: os ciganos.

“A nós preocupa-nos porque a discriminação é claramente uma forma de violência. Essa violência discriminatória anda paredes meias com crimes de ódio. Os decisores políticos devem claramente dar o exemplo da integração, da sociedade plural, de não discriminação que deveremos ser todos nós. A nossa história não nos ensina outra coisa que o desfecho não seja esse. Os crimes de ódio, de discriminação, têm vindo a subir e isso é claramente um fator que nos preocupa, quer em termos de prevenção, quer em termos de intervenção”, defendeu o presidente da APAV.

É do Chega a iniciativa da próxima manifestação em Lisboa, no sábado, que pretende juntar os que acham que não existe racismo em Portugal, na qual o líder do partido, André Ventura, espera reunir cerca de 1.500 pessoas.

Ventura demarcou-se entretanto do apelo lançado pelo líder da extrema-direita, Mário Machado, que pediu aos seus seguidores que se juntassem à manifestação.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/25/racismo-em-portugal-tem-a-subtileza-do-portugues-suave/

Racismo e luta de classes

 
 
O que se passa neste momento já não é o anti-racismo sentimental. É a revolta dos de baixo e dos que com eles são solidários, como sempre aconteceu, contra Trump e a sua política.

Isabel do Carmo* | Público | opinião
 
Não há raças, há racismo, tão evidente desde sempre nos EUA e presente em Portugal. E já que alguma direita fala em “cultura marxista”, vale então a pena analisá-lo à luz da luta de classes, embora a sua expressão social e cultural deva incluir esta análise, mas ir além dela. Tal como escreveu Pacheco Pereira neste jornal, os autores daquela expressão são uns “senhoritos” ignorantes, que nunca leram Marx, nem Engels, nem Gramsci. Falam do que não sabem. Diga-se de passagem que nós, colocados mais à esquerda, não andamos a fazer análises marxistas, mas apenas a situarmo-nos politicamente no que resta de uma social-democracia do após II Guerra Mundial, baseada na compensação da desigualdade através da gratuidade universal de alguns serviços públicos, sustentados pelos impostos pagos por quem os pode pagar.
 
Acabou de partir, mas já com cem anos, o escritor francês que escreveu a definição do racismo mais adoptada. Foi Albert Memmi, nascido na comunidade judaica pobre de Tunes. A língua materna foi o árabe, mas depois estudou numa escola rabínica e na Aliança Israelita Universal, prosseguiu em francês em Tunes, depois na Argélia e finalmente na Sorbonne. Foi sempre colono pobre e estudante pobre. Este cruzamento de origens, de culturas e de classes numa só pessoa pode ser simbólico da complexidade da questão. O seu livro Le racisme, editado pela Gallimard em 1982, está esgotado. Felizmente que uma larga bibliografia actual, ligada à investigação histórica e às polémicas e movimentos actuais, tem dado muita informação sobre o tema.

 
A primeira das razões do racismo está expressa na definição de Memmi de 1964 e que ainda consta na Encyclopaedia Universalis: “O racismo é a valorização, generalizada e definitiva, de diferenças reais ou imaginárias, para proveito do acusador e para detrimento da sua vítima, a fim de justificar os seus privilégios e a sua agressão.” Embora os teóricos considerem que o racismo só existe a partir do século XVIII, a verdade é que foi nessa data que foi teorizado, mas existe desde que povos foram colonizados e dominados por outros povos e, particularmente no que nos diz respeito, às grandes potências colonizadoras europeias e americanas desde que, a partir do século XV, a acumulação de capital se fez à custa do comércio triangular – captura de escravos na costa africana, deslocação de cerca de 12 milhões de africanos para a América, aplicação do trabalho escravo nesse continente ao sul e ao norte, viagem dos produtos para a Europa para serem comercializados.

É claro aqui quem eram os explorados e quem eram os exploradores. Questões de classe, pois. As grandes fortunas europeias fizeram-se dirigidas por escravocratas, que comandavam este triângulo. As portuguesas, as espanholas, as inglesas, as alemãs, as francesas, as holandesas e até as dinamarquesas. Os explorados eram os africanos de pele pigmentada. Os exploradores não eram os pobres marinheiros de pele clara, embarcados a fugir da miséria, da fome, da aridez da terra de tantas zonas de Portugal. Foram eles os que tiveram coragem para se fazer ao mar, foram eles que descobriram o que de facto estava por descobrir, os caminhos por mar para outras terras, onde viviam outras pessoas. Foram eles, como Fernão Magalhães e todos os que morreram pelo caminho, que ousaram encarar o desconhecido.

Os aproveitadores estavam em terra. Esses, os marinheiros, não são os “culpados”, tal como não são os “brancos” pobres que por aqui iam ficando na Europa, embora acabassem por beneficiar de migalhas. A linha de divisão passa entre explorados e exploradores, entre classes. A “culpa” não é dos portugueses em geral, mas de uma dúzia de genealogias hereditárias que tiveram sempre o poder e contaram uma história de fadas a sucessivas gerações, a história do Império. Mas acontece que os explorados, os africanos e afrodescendentes, vieram de zonas próximas do equador, tinham pele pigmentada para sobreviver, tal como os nórdicos da Europa tiveram que perder a pigmentação para obter vitamina D. Foi há pouco tempo, segundo alguns investigadores só há “brancos” há cerca de 10.000 anos. Mas a verdade é que os explorados tinham uma marca, a cor da pele e algumas feições. Essas diferenças serviram os teóricos do racismo do século XVIII. Mas a realidade já existia, provam-no as palavras iluminadas do Padre António Vieira, de Bartolomeu de las Casas e as crónicas de Zurrara, em plena época escravocrata. 

Já em 1684, François Bernier definira quatro “raças”, Lineu em 1758 manteve quatro, mas substituiu os lapões pelos americanos e, em 1775, Johann Blumenbach, naturalista alemão, cheio de boas intenções humanistas, coleccionador de crânios, achou que o mais belo era o de uma escrava caucasiana e partiu daí a invenção caucasiana, que ainda hoje é oficial e administrativa, apesar de todos os desmentidos dos estudos genéticos, da UNESCO declarar em 1950 que não há raças humanas e a multiplicidade de estudos do genoma desde 2000 mostrar que somos todos uma mistura de origens, felizmente. Se não, já uma parte da humanidade tinha sucumbido a doenças raras. No entanto, a marca ficou.

À escravatura seguiu-se o colonialismo, para Portugal com trabalho forçado até 1974. Nos EUA, mesmo após a abolição, a marca foi ficando como sinal de classes, a baixa. Não venham pensamentos primários dizer que há afrodescendentes que são ricos e ilustrados, e vide o casal Obama, e que há brancos pobres. Há. Mas quando se vai ver os estudos que aplicam grandes amostras e estatísticas válidas a maior percentagem de pobres são afrodescendentes, a maior percentagem sem cobertura médica são também eles e os chamados “latinos”. E a maior percentagem de vítimas da covid-19 são eles. E há diferenças nas universidades conforme o seu ranking e até conforme o objecto das teses. Felizmente, dos EUA vem o pior e o melhor, porque todos estes estudos têm origem nesse país. Curiosamente, os afrodescendentes têm alguma marca à vista, mas têm muito mais marca “branca”. É que os sucessivos escravocratas, exploradores, fazendeiros, não levavam consigo mulheres. Foi também de violação e submissão que se fez esta população.

Mas eis que levanta a cabeça, porque Floyd já não conseguiu levantar a dele (quanto ao nosso imigrante assassinado no aeroporto, estamos quietinhos, mas é paralelo). Juntam-se jovens “brancos” e a revolta alastra por 147 cidades dos EUA. Há polícias a pedir perdão de joelhos. Há tropa que não quer ser enviada para os Estados em revolta (é uma longa história o envio da tropa federal para os Estados nos tempos das grandes revoltas). O Capitólio é enfrentado pela multidão.

Houvesse agora nos EUA uma vanguarda e um programa alternativo que defendesse a liberdade, e aí sim, podiam tremer os “senhoritos”. A história é lenta, mas um dia há-de vir. E parece vir por aí.

O que se passa neste momento já não é o anti-racismo sentimental. É a revolta dos de baixo e dos que com eles são solidários, como sempre aconteceu, contra Trump e a sua política. Contra as leis racistas que este Presidente foi recuperar depois de Obama ter acabado com elas. Contra o sindicato dos polícias que fala nos comícios a apoiar o Presidente.

É a revolta contra o sistema? Recuperando Marx, o que ele profetizou foi que o socialismo a caminho do comunismo se viria a dar numa sociedade desenvolvida e industrializada, alfabetizada. Infelizmente, por acasos políticos, a revolução deu-se num país de muitos camponeses e poucos operários, sem instrução. E correu mal. Houvesse agora nos EUA uma vanguarda e um programa alternativo que defendesse a liberdade, e aí sim, podiam tremer os “senhoritos”. A história é lenta, mas um dia há-de vir. E parece vir por aí. Para nos animar, neste tempo em que se agravam as desigualdades.

*Médica; professora da Faculdade de Medicina de Lisboa; activista política
 

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Polícias europeias foram racistas durante confinamento – Amnistia Internacional

24/06/2020
 

As polícias europeias mostraram um “padrão perturbador de preconceito racial” nas tentativas de fazer cumprir as regras de confinamento no âmbito da covid-19, aplicando violência desproporcional a minorias étnicas e marginalizados, denuncia a Amnistia Internacional.

A atuação da polícia teve um impacto desproporcional em áreas mais pobres, que costumam ter maior proporção de moradores de grupos étnicos minoritários, acusa a organização num relatório denominado “Policiar a Pandemia” e que foi hoje divulgado.

Segundo a Amnistia Internacional, o documento, que abrange 12 países (Bélgica, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Espanha, França, Grécia, Hungria, Itália, Sérvia, Reino Unido e Roménia), expõe “um padrão perturbador de preconceito racial, que está ligado a preocupações com o racismo institucional dentro das forças de segurança e outras questões mais amplas levantadas nos recentes protestos do movimento ‘Black Lives Matter’”.

“A violência policial e as preocupações com o racismo institucional não são novas, mas a pandemia de covid-19 e a aplicação coerciva das regras de confinamento demonstram o quão prevalentes são”, afirmou o investigador da Amnistia Internacional para a Europa Ocidental, Marco Perolini.

“As triplas ameaças de discriminação, uso ilegal da força e impunidade policial devem ser enfrentadas com urgência na Europa”, defendeu.

Como exemplo, a organização humanitária aponta o caso de Seine-Saint-Denis, a zona mais pobre da França continental, onde a maioria dos habitantes é negra ou de origem norte-africana.

Nesta zona, “o número de multas por violação do confinamento foi três vezes superior ao resto do país, apesar de as autoridades locais afirmarem que o cumprimento das regras foi semelhante”, refere o relatório, acrescentando que Nice, um bairro francês predominantemente da classe trabalhadora e com minorias étnicas, “foi submetido a ordens de recolher mais longas face ao que acontecia no resto da cidade”.

Também a polícia de Londres registou um aumento de 22% nas operações de controlo, entre março e abril, sendo que, durante esse período, a proporção de negros revistados aumentou quase um terço.

De acordo com o relatório, o Laboratório de Provas da Amnistia Internacional observou 34 vídeos de toda a Europa que mostram a polícia a usar força desnecessária e ilegal.

Num dos vídeos recolhidos pela organização humanitária, depois de ter sido publicado ‘online’ em 29 de março, vê-se, segundo a Amnistia Internacional, dois polícias a mandarem parar um jovem descendente do norte da África, nas ruas de Bilbao, em Espanha.

Apesar de o jovem não apresentar nenhuma ameaça aparente, um polícia empurrou-o violentamente e bateu-lhe com um bastão, enquanto dois outros o mantinham encostado à parede com as mãos atrás das costas.

Nesse momento, a mãe do jovem apareceu e disse aos polícias que o seu filho sofria de problemas de saúde mental, mas os agentes bateram na mulher e derrubaram-na, mantendo-a no chão.

Alguns dos vizinhos que estavam a filmar a cena foram multados por “recolha não autorizada de imagens de agentes da autoridade”.

Mais para leste, a discriminação começou logo com decisões governamentais, quando foram impostas quarentenas obrigatórias a todos os acampamentos de ciganos da Bulgária e da Eslováquia, sublinhou a organização humanitária.

No caso da Eslováquia, o exército foi mobilizado para cumprir essa ordem, o que a Amnistia Internacional considera uma medida desproporcional.

Na Bulgária, as quarentenas obrigatórias levaram a que mais de 50 mil ciganos ficassem isolados do resto do país, tendo a situação chegado “à escassez de alimentos”.

Neste país, as autoridades da cidade de Burgas usaram mesmo drones com sensores térmicos para medir remotamente a temperatura dos residentes e monitorizar os seus movimentos.

No caso dos refugiados, requerentes de asilo e migrantes que vivem em campos e alojamentos partilhados, as pessoas também foram alvo, segundo a Amnistia Internacional, de quarentenas seletivas, como foi o caso em países como a Alemanha, o Chipre e a Sérvia, além de terem sido registados “desalojamentos forçados” em França e na Grécia.

Na Sérvia, as autoridades impuseram um regime especial que visava seletivamente centros de refugiados, migrantes e requerentes de asilo, colocando-os “sob uma quarentena obrigatória de 24 horas e mobilizando os militares para vigiar o toque de recolher”, denuncia a organização.

“O Estado tem de parar de impor quarentenas discriminatórias e expulsar à força ciganos, refugiados e migrantes de acampamentos. Em vez disso, devem salvaguardar o direito dessas pessoas a terem alojamento e cuidados de saúde”, defendeu a investigadora da Amnistia Internacional para a União Europeia, Barbora Černušáková.

Outra discriminação apontada pela Amnistia Internacional foi feita aos sem-abrigo.

Em Itália, a organização não-governamental Avvocato di Strada apurou pelo menos 17 casos em que pessoas sem-abrigo receberam multas por não conseguirem cumprir as medidas de isolamento e restrição de movimentos, situação que também terá acontecido em França, Espanha e no Reino Unido.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/24/policias-europeias-foram-racistas-durante-confinamento-amnistia-internacional/

O padre Antônio Vieira enfrenta a inquisição identitária

Uma marca da ideologia identitária colonizada é a seletividade de suas campanhas e denúncias – o silêncio quando o motor do protesto não nasce nos EUA.

 

 

O filósofo Hegel (1770-1831), em sua obra Filosofia da História, censurava nos historiadores de seu tempo a apreciação que faziam do imperador Alexandre, O Grande. Hegel, admirador de Alexandre, dizia: “Não seria justo para essa figura maior da história mundial se Alexandre fosse avaliado pelos princípios modernos, por exemplo, os da virtude ou da moralidade subjetiva, como fazem os mais recentes historiadores menos preparados”.

O filósofo alemão enaltecia em Alexandre o seu favorecimento às ciências e às artes, para ele tão importantes quanto as conquistas para tornar perene a figura do maior conquistador da antiguidade. A verdade, porém, é que além de fundar cidades e levar os feitos da civilização helênica para o Oriente, Alexandre também cometeu violências e crimes que se julgados à luz dos padrões identitários de hoje justificariam a remoção de seus bustos e de sua memória logo após suas conquistas, de tal forma que atualmente pouco restaria e pouco conheceríamos de sua presença na história.

Alexandre, ao ocupar a cidade de Tiro, localizada hoje às margens do Mediterrâneo no Líbano, mandou executar todos os seus habitantes jovens e adultos e ordenou a venda das crianças e mulheres como escravas. E assim o grande general procedeu em vários episódios de suas conquistas.

Após a revolução socialista de outubro na Rússia, militantes radicais tentaram destruir relíquias do Museu Hermitage na cidade de São Petersburgo, a pretexto de que seriam símbolos do Czarismo. Lênin, o chefe da Revolução, protegeu as antiguidades com o argumento de que seriam representações da cultura e dos artistas e artesãos russos. Provavelmente, pelo critério das seitas identitárias contemporâneas, as obras deveriam desaparecer para que com elas cessasse o passado mórbido do regime dos czares.

O que ocorre é que formas de produção que se sucedem, ao construir seus novos sistemas de poder, procuram apagar a memória imediatamente anterior, por vingança, narcisismo ou insegurança. O capitalismo contra o feudalismo, o socialismo contra o capitalismo, de tal sorte que não restaria passado comprometedor.

Mesmo a Revolução Francesa, o rebento político mais celebrado do Iluminismo, nasceu banhada em sangue e na esteira da destruição. Ocupa lugar destacado na crônica da sordidez a obra do chefe de polícia de Napoleão Bonaparte, o sinistro Joseph Fouché, na execução de inocentes, na destruição de igrejas e símbolos religiosos. Fouché bem caberia no figurino de patrono da horda identitária da atualidade.

O odioso assassínio de George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos desencadeou o justo protesto em todo o mundo, expondo as entranhas da sociedade racista e segregacionista construída à sombra da prosperidade material da América. O paradoxo é que a onda contra a intolerância racial nos Estados Unidos produziu uma outra onda de similar intolerância em relação à história, à memória e ao passado.

Nos próprios Estados Unidos, a estátua de Thomas Jefferson (1743-1826) foi sacudida de seu pedestal e atirada ao solo na cidade de Portland. Jefferson é considerado o principal redator da Declaração da Independência, o mais influente dos pais fundadores da Nação e foi o terceiro presidente dos Estados Unidos. Mas Jefferson era proprietário de escravos em uma sociedade escravocrata, o que à luz do identitarismo é o suficiente para bani-lo das praças do país que ele ajudou a libertar do colonialismo e a guiar para a ciência e a cultura.

Em Londres, o Poder Público foi obrigado a proteger uma estátua de Winston Churchill, líder, junto com Roosevelt e Stálin, da resistência ao nazismo e um dos responsáveis pela derrota de Hitler. Mas Churchill foi chefe de um império colonial decadente, o que ao juízo identitário é o suficiente para varrê-lo das praças de Londres, cidade que ele salvou da tirania nazista.

Na mesma Londres, identitários de “direita” já haviam vandalizado o busto do filósofo alemão Karl Marx, localizado em seu túmulo no cemitério Highgate. Em Londres, Marx viveu boa parte de sua vida e escreveu sua monumental obra filosófica e econômica. Mas foi em Lisboa que a seita identitária, pretensamente “progressista” revelou sua face mais reacionária e intolerante, ao vandalizar uma estátua do Padre Antônio Vieira, defensor dos índios, dos pobres, dos judeus, do Brasil e de Portugal – as duas pátrias que adotou por toda a vida.

Denominado pelo poeta Fernando Pessoa imperador da Língua Portuguesa, tido por muitos como homem mais culto de seu tempo, autor de sermões consagrados pela literatura portuguesa, pregador convidado pelo Papa para a convertida ao catolicismo rainha Cristina da Suécia, prisioneiro da Inquisição, acusado de ligações com o judaísmo, expulso do Maranhão por defender os índios contra a escravidão, Vieira teve sua estátua atacada por militantes identitários em Lisboa.

Segundo os agressores, Vieira justificou a escravidão africana, o que tornaria justa a remoção de sua memória da Lisboa na qual pregou sermões imortais, e do Portugal que ele defendeu contra os inimigos de Castela e de Holanda. Ao ensejo dos 400 anos do pregador, celebrados em 2008, a Universidade de Lisboa e a Santa Casa de Misericórdia de Portugal organizaram um consórcio para a publicação em 30 volumes das Obras Completas de sua autoria. Do empreendimento participaram dezenas de instituições portuguesas e brasileiras, entre elas as mais importantes universidades do País. Atentar, portanto, contra a memória de Vieira é afrontar também a memória do Brasil.

No Brasil, a estátua de outro pregador, o Santo José de Anchieta, foi alvo da fúria identitária no Espírito Santo. Anchieta celebrou a missa considerada o marco fundador da cidade de São Paulo em 1554. Destacou-se e é reconhecido por sua obra de evangelização e de proteção dos índios contra a escravidão. Ajudou a convencer o chefe indígena Arariboia a se aliar aos portugueses para expulsar os franceses do Rio de Janeiro. Seu nome batiza o Palácio do Governo e uma cidade no Espírito Santo e se chama Palácio Anchieta a sede da Câmara Municipal de São Paulo.

O identitarismo é uma corrente originária nos Estados Unidos e que colonizou com ideias e dinheiro parte importante do movimento progressista no Brasil e no mundo. Foi denunciado pelo professor norte-americano Mark Lilla, da Universidade Columbia, como cúmplice pela ascensão da direita na América, ao dividir o povo.

Uma marca da ideologia identitária colonizada é a seletividade de suas campanhas e denúncias. O silêncio quando o motor do protesto não nasce nos Estados Unidos. Não se protestou, por exemplo, contra o massacre de 800 mil integrantes da minoria Tutsi, pelos Hutus em Ruanda, na África, na década de 1990. Centenas de milhares de crianças iraquianas pereceram vítimas do bloqueio norte-americano logo após a primeira Guerra do Golfo (1990-1991), sem que o identitarismo erguesse sua voz indignada, reproduzindo apenas o que o centro de difusão determina e orienta.

O identitarismo precisa ser contido e derrotado no Brasil como uma corrente reacionária que divide o povo, fratura a luta em defesa do interesse nacional e dos objetivos coletivos que desafiam o futuro de retomada do desenvolvimento, redução das desigualdades e construção da democracia. A luta contra o racismo e em defesa dos direitos sagrados das minorias só avançará quando integrada a uma plataforma mobilizadora dos mais amplos interesses coletivos e da nacionalidade.

O identitarismo importa modelo de sociedade estranho à formação social brasileira, miscigenada na sua origem, na sua cultura, na sua religiosidade marcada pelo sincretismo das Iemanjá e dos São Jorge, dos terreiros das mães de santo e dos pais de santo, tão distinto da religiosidade absorvida diretamente de pastores brancos pela população negra dos Estados Unidos.


por Aldo Rebelo, Jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma   |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Publicado originalmente no Portal Bonifácio


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-padre-antonio-vieira-enfrenta-a-inquisicao-identitaria/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-padre-antonio-vieira-enfrenta-a-inquisicao-identitaria

Qual é a tua raça?

Arsénio Reis* - 22/06/2020

“Inquirido sobre a sua raça, respondeu:

– A minha raça sou eu, João Passarinheiro.

Convidado a explicar-se, acrescentou:

– Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é de uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.”

Mia Couto (extracto das declarações do Vendedor de Pássaros)

Ele é um dos meus escritores. Mia Couto tem vários dons, um deles o de dizer muito com poucas palavras. O sonho de qualquer jornalista, como eu. Os pássaros estão presentes em boa parte da sua obra e dou por mim a pensar que são sempre um símbolo de liberdade. A liberdade de pensarmos o mundo sem amarras físicas ou intelectuais.

A pergunta que faço no título deste Editorial, para mim, não é inédita. Não sei bem qual é a minha raça… Nasci em Angola, filho de pais com origens, na portuguesa Serra do Caramulo, mas que de tanto viverem África (primeiro São Tomé e Príncipe e depois Angola, no caso do meu pai) sempre nos marcaram com a vivência de cheiros, sabores e a mentalidade típica de um calor que fixou para sempre a existência, deles, a da minha irmã e a minha.

As “minhas terras” continuarão a ser o Caramulo e Angola. Um dia – não sei se vos saberia explicar porquê – gostava de perder os dentes em terras africanas. Afinal foi lá que me nasceu a primeira dentição e foi também lá que testei os primeiros sabores, os primeiros cheiros e o calor de que ainda hoje tanto gosto.

Eu não sei de que raça sou. Só sei que “cada homem é uma raça”. E disso gosto

Os meus pais eram aquilo a que vulgarmente chamamos “brancos”. A minha mãe com um tom de pele clarinho, o meu pai escuro, ali entre o mulato, o cigano, ou o indiano. Quando regressamos ao Caramulo voltaram a tratá-lo pela alcunha (na aldeia todos tem uma alcunha). “Alma Negra” era assim que era conhecido e não me lembro de isso alguma vez o ter incomodado. Viveu todos os anos que lhe restaram de vida, com todas as memorias que lhe restavam de África. Nem sempre foi feliz com isso, mas acho que foi o jeito que encontrou para se manter vivo.

Ele era de uma humanidade individual. Uma alma negra – a viver num país onde podia destoar, mas que o aceitou e que ele também acabou por aceitar – assumindo a importância de voltar a Portugal em nome dos valores em que acreditava, nomeadamente a paz e a liberdade. Lá como cá, sempre funcionário público e preocupado com o serviço ao público.

Eu fui vivendo de mala quase sempre feita. Da Serra do Caramulo para Águeda, de Águeda para Aveiro, de Aveiro para o Porto, do Porto para Lisboa. A raça dos homens da serra e dos homens destas várias cidades está longe de ser a mesma. Acho que devo a isso a pessoa que hoje sou.

Habitei, podia dizer vivi, em várias redacções, com jornalistas com mais ou menos raça, mas sempre consciente de que quanto maior a diversidade, melhor seria o produto final. Acho que pode/deve ser assim em todas as profissões. Quanto mais heterogéneos forem os contributos, melhor será o que fazemos. Convocar os mais e menos raçudos dá por norma resultados melhores…e essa raça nada tem a ver com a cor da pele. Eu não sei de que raça sou. Só sei que “cada homem é uma raça”. E disso gosto.

*Diretor-exceutivo do Plataforma

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/22/qual-e-a-tua-raca/

“Não há qualquer conspiração envolvida aqui”, diz ex-Pantera Negra sobre o Black Lives Matter, nos EUA

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Por Brian Mier, para o 247 - Glen Ford conseguiu seu primeiro emprego na mídia como jornalista em uma emissora de rádio de propriedade de James Brown em Augusta, na Geórgia, em 1970. Logo depois, se filiou ao Partido dos Panteras Negras. Por muitos anos, Ford era o proprietário e apresentador de programas de rádio e televisão sindicalizados nacionalmente. Em 2006, juntamente com Margaret Kimberley e o falecido Bruce Dixon, também ex-membro do Partido Pantera Negra, fundou o Black Agenda Report, que atualmente é uma das vozes mais importantes da esquerda anti-imperialista dos EUA. Conversei com ele em 19 de junho sobre os protestos que acontecem nos Estados Unidos e como eles se relacionam com a luta histórica do Partido dos Panteras Negras. Confira a íntegra da entrevista, em texto e em vídeo:

glen ford black lives matter eua racismo
Jornalista norte-americano Glen Ford

Brian: Então, primeiro, para resolver isso rapidamente, você está de alguma forma associado à Fundação Ford porque seu sobrenome é Ford? Porque existem muitos teóricos da conspiração no Brasil.

Glen: Bem, você pode ter a garantia de que, na verdade, meu nome legal, meu nome de nascimento não é Ford. É Rutherford. Ford é um nome que me foi dado no meu primeiro emprego remunerado na estação de rádio de James Brown. Eles decidiram encurtar meu nome polissilábico para apenas Ford, em vez de Rutherford.

Brian: Tudo bem. Agora, vamos entrar nisso. Há muitas descaracterizações espalhadas pelo Brasil sobre o Vidas Negras Importam (Black Lives Matter), sobre os protestos que estão acontecendo nas ruas e sobre o que são e quais são as demandas.

Eu trouxe você para o programa para que você pudesse esclarecer algumas dessas coisas, porque eu senti que estava nessa posição desconfortável de ser um homem branco, na casa dos 50 anos, tentando explicar o que está acontecendo em outro país, em um movimento que deveria ser protagonizado por negros. Então, minha pergunta é... No Brasil, em 2013, tivemos protestos maciços nas ruas e, inicialmente, a demanda era pelo direito gratuito ao transporte público. Dentro de três ou quatro dias, eles haviam sido completamente cooptados. E havia cerca de 20 demandas sendo gritadas nas ruas. Então, acho importante explicar quais são as demandas e por que elas ainda são coesas após duas semanas. Você poderia começar talvez falando sobre isso? O que as pessoas estão exigindo e por quê?

Glen: Bem, em qualquer cidade as demonstrações podem ser o local de muitas demandas diferentes. Mas todas essas manifestações - e o New York Times disse que houve duas mil manifestações em um período de duas semanas em todas essas demonstrações, os slogans do Vidas Negras Importam e os banners do Vidas Negras Importam dominaram. Mas o Vidas Negras Importam, como organização, possui apenas 14 grupos afiliados nos Estados Unidos, em 14 cidades, e três afiliados no Canadá. Mas houve manifestações em todos os estados da União e na maioria das cidades de qualquer tamanho e em muitas cidades das quais você nunca ouviu falar. Eles até aconteceram em cinco cidades de New Hampshire, que praticamente não tem população negra.

 

Claramente, essas não eram duas mil manifestações do Vidas Negras Importam, mas em praticamente todas elas o Vidas Negras Importam gerava slogans, demandas, cartazes etc., ou seja, era o tema dominante.

Brian: Ok, mas de certa forma, parece quase como Antifa no sentido em que as pessoas estão apenas se chamando Vidas Negras Importam e isso as torna de fato parte de Vidas Negras Importam. E não há realmente tanto controle do topo, por assim dizer.

Glen: Vidas Negras Importam é obviamente um bom slogan. Carrega bem, as pessoas gostam. E, embora houvesse muitos outros slogans, se havia algum slogan único gritado e impresso, era o Vidas Negras Importam. Mas havia muitos outros. Mas nós também, e o que há de diferente nessa onda de manifestações é o número de brancos envolvidos. Como eu disse, manifestações em todas as cidades importantes em New Hampshire, manifestações no Alasca, manifestações em lugares onde existem muito, muito poucos negros. A maioria dessas manifestações era predominantemente branca e os brancos, especialmente para não se sentirem estranhos - como você diz que às vezes está falando ou sendo colocado em uma posição em que parece estar falando por pessoas negras -, eles adotam o slogan dominante, os slogans mais aceitos politicamente. E esses são os slogans do Vidas Negras Importam. Portanto, Vidas Negras Importam não apenas ecoou pelo país, mas o slogan assumiu um tipo exagerado de ressonância em lugares que não poderiam ter um grupo afiliado de Vidas Negras Importam.

 

Não há conspiração qualquer envolvida aqui. É uma multidão agindo como uma multidão e especialmente muitas pessoas brancas que querem dizer a coisa politicamente correta. E em 2020, isso parece ser “Vidas Negras Importam”.

Brian: Os Estados Unidos têm uma longa história de antirracismo. Ao contrário do Brasil, por exemplo, houve um forte movimento nos Estados Unidos durante o século 18 em alguns setores do população, como os Quakers, contra a escravidão a ponto de mesmo que eu entenda que isso aconteceu em alguns lugares, oficialmente escravidão não era permitido no norte do país naquela época. Historicamente, a Ku Klux Klan e os supremacistas brancos inventaram insultos aos brancos que tentam mostrar solidariedade aos movimentos negros.

Che Guevara disse que “se você está tremendo de indignação por qualquer injustiça cometida em qualquer lugar do mundo, você é meu companheiro”. Mas há pessoas que parecem pensar que os brancos que marcham em solidariedade contra a violência racista da polícia ou algo assim têm algum tipo de problema psicológico. E o que eu vi surgindo recentemente - vi em um artigo que até foi impresso no Brasil que dizia que a razão principal pela qual as pessoas estão marchando é porque tem complexo de culpa branca. Ou seja, não é por solidariedade, é por um complexo de culpa. Qual é a sua opinião sobre isso?

Glen: Bem, eu gostaria que mais pessoas brancas nos Estados Unidos sentissem alguma culpa, se não solidariedade. Temos que lembrar que a maioria das pessoas brancas nos EUA, inclusive durante a última eleição, sempre votou no que nós, no Black Agenda Report, chamamos de partido dos homens brancos. Nos Estados Unidos, um dos dois partidos, metade do sistema de duopólio, é sempre reservada para o que chamamos de partido dos homens brancos. Esse é o partido cujo princípio organizador é abertamente a supremacia branca. Um dessas partidos políticos nos EUA é sempre assim. E a maioria dos brancos vota nesse partido [Republicano]. Não devemos ter um senso exagerado de quão avançado os Estados Unidos estão historicamente em relação ao Brasil. Os EUA tiveram que travar uma guerra civil na qual pelo menos 600 mil pessoas morreram para acabar com a escravidão nos estados escravocratas. A sistema de Jim Crow, de subjugação negra, foi restabelecido nos Estados Unidos menos de 20 anos após o fim da guerra civil e durou quase cem anos. Nos anos anteriores à guerra civil, antes que o Sul provocasse a guerra civil, a Suprema Corte dos EUA havia decidido que os estados do sul, os estados escravocratas, eram corretos e os negros não tinham direitos que nenhum homem branco deveria proteger, e que os brancos nos estados do norte eram obrigados a capturar e devolver escravos fugitivos. Portanto, não nos exageremos à força da opinião antirracista e anti-escravidão no norte ou no sul dos Estados Unidos.

Brian: Obrigado por me corrigir nisso. Eu estava apenas tentando entender algo. Eu não acho justo pessoas da esquerda estarem acusando pessoas que estão marchando contra a violência policial racista no momento, de fazê-lo por algum tipo de problema psicológico. Considerando que se eles estivessem marchando com os curdos, ou algo assim, isso seria ótimo, mas se você estiver marchando em solidariedade com os negros, é um sinal de que você tem algum tipo de problema psicológico. Eu acho que essa é uma questão em que talvez eu esteja colocando muito peso em algo que vi circulando e que eu pessoalmente não entendo por que há essa distinção entre, por exemplo, marchar em solidariedade às pessoas na Guatemala ou em algum outro lugar. E, “oh, é ótimo esse cara ser um verdadeiro esquerdista”. Mas se você está marchando em solidariedade com ativistas anti-violência policial que são negros, você deve ter algum tipo de complexo de culpa branca.

Glen: Bem, claramente, há claramente uma pessoa que pretende ser ou de alguma forma se projeta como alguém da esquerda nos Estados Unidos - ele ou ela é o único com problema psicológico e ele ou ela não é de esquerda de boa-fé de qualquer tipo, porque ele ou ela não reconhece a supremacia branca como uma questão de esquerda. Certamente isto é um problema para aqueles de nós que somos marxistas. Mas, você sabe, há muitos marxistas falsos em todo lugar. Eu sei que eles estão aqui nos EUA, e tenho certeza que devem ter muitos marxistas falsos no Brasil. Bem, Brasil e Estados Unidos são diferentes, pois o racismo é pelo menos reconhecido nos Estados Unidos como uma realidade. É reconhecido pelos racistas e reconhecido também pelos antirracistas. A esquerda da América Latina e da América do Sul sempre teve um problema em lidar com a questão da raça e, em um nível muito fundamental, tem um problema em falar a linguagem da justiça racial, além de dizer que todos são iguais.

É bastante frustrante para muitos de nós da esquerda no norte em termos de lidar com esquerdistas na América Latina. Quero dizer, observamos que muitas de suas principais organizações de esquerda, como o Partido dos Trabalhadores, não têm nada em termos de representação dos negros na sua liderança de acordo com sua porcentagem da população geral. Observamos que na Venezuela, onde o apoio popular ao Partido Socialista deriva principalmente de venezuelanos negros e pardos e indígenas, essas pessoas também não estão tão fortemente representadas na liderança do partido. Há um problema racial na esquerda na América Latina. Há um problema racial na esquerda nos Estados Unidos. Mas isso não tem nada a ver com diferentes graus de culpa. Complexo de culpa não é disso que se trata.

Brian: Gostaria de perguntar agora: porque você é um cavalheiro mais velho. Espero que você não se importe de eu dizer isso. Eu também não sou tão jovem, mas você é alguém que se lembra da época dos Panteras Negras, obviamente o cofundador do Black Agenda Report, Bruce Dixon, que faleceu ano passado, era na verdade um ex-membro dos Panteras Negras.

Glen: E eu também.

Brian: OK. Eu não tinha certeza disso, mas eu só queria ter certeza. Então você é um ex-membro dos Panteras Negras. Agora, algumas pessoas estão comparando o que está acontecendo nas ruas dos EUA neste momento desfavoravelmente com o que aconteceu durante a época do movimento Panteras Negras, embora ambas pareçam ter derivado do racismo estrutural na polícia e da violência racista estrutural. Você poderia comparar os objetivos e as táticas usadas pelos Panteras Negras com o que está acontecendo agora nas ruas?

Glen: Não houve mudanças fundamentais nas relações de poder neste país nos últimos 50 anos, desde os dias do Partido Panteras Negras. Simplesmente agora há toda uma multidão de negros no Partido Democrata que administra o regime de encarceramento em massa imposto após as rebeliões negras - e isso inclui as atividades do Partido Panteras Negras - as rebeliões negras do final dos anos 60. A maneira como o regime respondeu às rebeliões negras foi impor esse regime de encarceramento em massa negra, que resultou na população carcerária explodindo de apenas 200.000 em 1970 para 2,3 milhões hoje. Essa é a escala da disseminação deste regime. E visava duas coisas. Número um: criminalizando a população negra como um todo, para que um estado policial virtual pudesse ser imposto seletivamente aos Estados Unidos negro. E também foi uma operação de contra-insurgência que teve como alvo ativistas, ativistas radicais como o Partido dos Panteras, mas também outros, para neutralizar em uma forma muito rápida.

Existem semelhanças entre o início do movimento que se tornou um grande movimento popular na década de 1960 e o que está acontecendo hoje. Muitas pessoas que estiveram nas ruas gritando slogans pediram o controle comunitário da polícia. O controle comunitário da polícia foi provavelmente a demanda mais importante do Partido dos Panteras Negras.

Sua prática nas ruas pelas quais se tornaram mundialmente famosos era de iniciar patrulhas comunitárias da polícia. Ou seja, os Panteras entravam em carros e seguiam os policiais enquanto os policiais passavam em suas patrulhas. E se notassem que a polícia abusava de qualquer cidadão negro, eles saíam dos carros, armados e com câmeras, e faziam anotações à distância sem interferir. Portanto, essas patrulhas foram baseadas em algumas patrulhas de alerta comunitária que haviam sido iniciadas em 1965 em Los Angeles, onde basicamente as pessoas do bairro faziam a mesma coisa, seguiam a polícia, vigiava a polícia. Portanto, uma das principais exigências do Partido Panteras Negras era que o controle sobre a polícia fosse dado à comunidade.

A comunidade contrataria e demitiria policiais e decidiria exatamente qual era a natureza do policiamento. Obviamente, não queríamos que a polícia que controlávamos se comportasse como um exército de ocupação, que é o modo como a polícia se comporta em todas as comunidades negras. Mas como é uma força policial controlada pela comunidade? Como isso funciona? O que está protegendo? Essas foram todas as questões que o Partido Pantera pelo menos levantou. Agora, o nível de repressão que o FBI desceu sobre o Partido, que o declarou a principal ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, impediu o Partido de explorar completamente as possibilidades de controle comunitário da polícia. O Partido estava muito mais preocupado em sobreviver até o dia seguinte sob esse ataque policial. Mas essas perguntas estão sendo ou estão começando a ser examinadas por grupos atualmente nos EUA, que estão nas ruas nas últimas semanas, que hoje pedem o controle comunitário da polícia. E é uma demanda de movimento total, com organizações em 22 cidades que se juntaram à coalizão, pressionando pelo controle comunitário da polícia. Em Chicago, onde o movimento é mais forte, da Câmara de 50 vereadores, 19 deles copatrocinaram uma PL para o controle comunitário da polícia. E esses mecanismos de controle da comunidade não têm nenhuma semelhança com os conselhos de revisão da polícia cidadã. No caso de Chicago, esses seriam conselhos da comunidade eleitos pelas comunidades locais. E esses membros eleitos contratariam e demitiriam policiais e escreveriam as diretrizes sobre o comportamento da polícia, não apenas as circunstâncias em que poderiam usar a força e medidas simples como essa, mas as diretrizes que basicamente definem o que é policiar. Então, em Chicago, eles já colocaram no papel e transformaram em legislação as ideias que foram desenvolvidas ou que estavam começando a ser articuladas pelo Partido dos Panteras Negras há 50 anos.

Brian: Portanto, nesse sentido, você não concordaria, por exemplo, com uma declaração em um artigo publicado recentemente no Brasil que diz que as pessoas nas ruas agora são ativistas de políticas identitárias que não têm nenhuma relação com o que os Panteras Negras estavam lutando?

Glen: Há todo tipo de pessoas nas ruas. O que é notável nas duas últimas semanas é a explosão do descontentamento popular geral com o regime e sua aparição militante nas ruas. Mas toda maldita tendência que poderia ser chamada de esquerda está nas ruas. E esse também foi o caso do movimento Occupy Wall Street de 2011. Os organizadores do Occupy Wall Street eram anarquistas - um grupo muito pequeno deles. Eles são os que acenam com as mãos assim e chamam ‘verificação de microfone, verificação de microfone’. E eles iniciaram os protestos, as ocupações, mas em pouco tempo foram superados em número por todas as tribos concebíveis da esquerda, incluindo, eventualmente, muitos negros que não eram politicamente alinhados com aquele tipo específico de anarquista que os iniciou. Então, se você fala sobre quem estava envolvido no Occupy Wall Street, era quase todo mundo. E se a mesma pergunta é levantada hoje sobre a recente onda de protestos, é ainda mais. Toda tipo de maldita pessoa que se possa imaginar. Você sabe, houve uma crise de legitimidade do regime de Trump. Este é um regime que lidera o mundo de longe na contagem de corpos de Covid-19, um regime que se mostra incapaz de proteger sua população de uma doença contagiosa. Um regime que não possui rede de saúde pública - não existe nos Estados Unidos. E essa realização foi um choque para a população. Mas antes que eles pudessem superar essa realização chocante, o mundo inteiro, certamente os EUA mergulharam no que está sendo descrito como uma Grande Depressão, outro choque. E então as pessoas foram trancadas em muitas localidades por semanas e semanas a fio. E então vemos a execução macabra e extrajudicial, o assassinato metódico, que se estende por cerca de oito minutos excruciantes de um homem negro por um policial. Vemos os dois rostos, e essa foi a gota d'água.

Há outro fator envolvido nisso - foi uma tempestade perfeita por muitas razões - e esse é o fenômeno de Bernie Sanders. Bernie Sanders, o suposto socialista que não é socialista, mas transformou o socialismo em uma palavra popularmente aceitável nos Estados Unidos pela primeira vez em, talvez, 70 anos. Bernie Sanders desistiu da corrida após a ativação, energizando dezenas de bilhões de pessoas na sua maioria jovens. E eles estavam muito, muito frustrados. Eles acabaram de experimentá-lo saindo e queriam fazer alguma coisa. E isso se tornou parte dos fatores nessa tempestade perfeita. E então tivemos quatro anos em que uma parte da classe dominante, que é centrada no Partido Democrata e controla a maioria da mídia popular, tem chamado o presidente em exercício de traidor do país, um fantoche de uma potência estrangeira, e tem afirmado que cem mil dólares em dinheiro russo gastos no Facebook quase derrubaram todo o sistema político dos EUA, fazendo o regime parecer bastante instável e, em muitos aspectos, ilegítimo. Portanto, esta é uma crise de legitimidade da estrutura política econômica capitalista, bem como uma crise de raça.

Brian: É interessante você mencionar tudo isso com a fobia dos democratas da Rússia, e da traição de Bernie Sanders. A questão dele “traindo” todo mundo me lembra um pouco do artigo de Jones Manoel que eu traduzi que vocês publicaram, que fala sobre esse fetiche que os marxistas ocidentais têm por perder e de acusar os outros de traição e coisas assim, sabe. E eu também identifico um tipo de individualismo raivoso dentro da esquerda estadunidense. É sempre sobre o indivíduo, nunca se trata de um movimento. Mas acho que gostaria de perguntar a você… não temos muito mais tempo. Sobre o Partido Democrata e a ideia da traição... Como o Partido Democrata está tentando cooptar o movimento que está acontecendo nas ruas agora, na sua opinião?

Glen: O papel do Partido Democrata é ser um cemitério para movimentos sociais. Mais uma vez, neste sistema de duopólio, você tem um partido cujo princípio organizador é a supremacia branca, seja falando em palavras códigos ou, como Trump, jogando carne vermelha nos racistas - é por isso que Trump é tão popular. E esse partido continua a ter a lealdade da maioria dos brancos no país. O Partido Democrata, portanto, é o lar de uma minoria de brancos. Praticamente toda a população negra e pelo menos dois terços da população de língua espanhola e toda a atividade política no país que não é supremacista branco vive no Partido Democrata. Portanto, todos os empresários que apoiam algum grau de igualdade racial, o que quer que isso signifique na cabeça de um empresário, são democratas. E os radicais que se chamam socialistas como Bernie Sanders e pessoas realmente à esquerda dele, todos estão aglomerados no Partido Democrata.

Mas é um partido corporativo. As multinacionais são as que pagam suas contas. Então, todas essas entidades de esquerda são capturadas pelo Partido Democrata. O Partido Democrata tem um grande trabalho a fazer para neutralizar todo mundo no país que não é abertamente racista dentro daquela única tenda para que eles não tomem atitudes que de alguma forma prejudiquem os negócios dos chefes corporativos.

Brian: Acho que a pergunta é: para onde você acha que esse movimento vai? Vemos que eles conseguiram desmantelar a polícia em Minneapolis, o que eu acho que é um... temos que ver o que realmente acontece, você sabe, mas isso é uma coisa historicamente interessante. O PT tentou aprovar emendas constitucionais três vezes, para eliminar também a Polícia Militar no Brasil. Portanto, é uma bandeira histórica do PT também desmilitarizar a polícia. Mas o que eu vi até agora - eu não sabia disso sobre Chicago e é minha cidade natal então eu deveria saber um pouco mais, eu acho. Não tenho muita fé na prefeita Lori Lightfoot. Ela mesma é policial.

Glen: Ela é policial. Ela estava no conselho policial. Era um membro amigável da polícia no conselho policial.

Brian: Ela protegeu policiais assassinos quando ela estava no conselho da polícia. Mas já vi algumas coisas acontecendo, como em Minneapolis, São Francisco, como Nova York, aprovando uma nova lei, tornando ilegal para eles ocultar relatórios de má conduta do público ou algo assim. Então, parece-me que algo está acontecendo lá. O que você acha que vai acontecer?

Glen: Olha, esses democratas no poder em Minneapolis e Nova York e em quase todas as grandes cidades, eles não vão dissolver a polícia. Eles podem alegar estar cortando o financiamento da polícia. O fato é que agora estamos em uma grande depressão. Se houver alguma semelhança com o grande colapso de 12 anos atrás, os gastos locais e estaduais no governo diminuirão drasticamente porque as receitas tributárias diminuem drasticamente em grandes depressões e em colapsos.

E isso será considerado um corte de financiamento da polícia. Isso são cortes que ocorreriam de qualquer maneira. Mas você não vai se livrar da polícia como ela é, contando com políticos democratas que sempre apoiaram e reforçaram as impunidades da polícia no passado. Esse é o trabalho de um movimento. É um trabalho para o controle comunitário da polícia. Somos nós, as pessoas nas comunidades, que buscam autodeterminação. Essa é a verdadeira democracia.

Somos nós que temos que decidir qual é a natureza do policiamento. Sabemos hoje que isso se aplica a todas as forças policiais dos Estados Unidos, que 90% de suas horas de trabalho, 90% de seus dias não têm nada a ver com prisões criminais. Tem a ver com estabelecer uma presença do tipo militar e assustar as pessoas, supostamente, para que façam a coisa certa, seja o que for. Tem a ver com disputas domésticas. Tem a ver com lidar com pessoas que têm problemas mentais porque também não temos sistema de saúde mental nos Estados Unidos.

Todas as instalações de saúde mental praticamente foram fechadas nas décadas de 1960 e 1970. E assim os loucos estão nas ruas e a polícia os mata em números recordes. Então, temos que definir o que é polícia. Isso faz parte do movimento de controle comunitário e o reembolso do movimento policial não será completo até exigir que os fundos que supostamente sejam desviados do departamento de polícia para os programas sociais também estejam sob o controle da comunidade, que os programas sociais que supostamente vão substituir a presença policial será também controlado pela comunidade.

Como qualquer assistente social justa nos EUA lhe dirá que o programa social do governo para o qual trabalham não é um aliado de seus clientes, nem um aliado das pessoas da comunidade que deveriam ser os beneficiários do serviço. E, em muitos aspectos, esses programas sociais são inimigos do povo. Portanto, eles também precisam ser levados ao controle da comunidade, antes que possamos falar sobre a substituição de novas instituições, novas forças para o trabalho ou as funções que a polícia atualmente e de maneira ruim, letal e assassina ocupam.

Brian: Ok. Obviamente, isso não tem sido uma prioridade dos democratas ou do Partido Democrata, nem mesmo dos chamados vereadores democratas progressistas, o que seja. No entanto, parece que alguma mudança está acontecendo. E nem toda a mudança é algo que o Partido Democrata normalmente apoiaria se não fosse por toda essa pressão. Se eles não tivessem queimado a delegacia em Minneapolis, se não houvesse todas essas pessoas nas ruas….

Então, quero perguntar o que você está vendo como positivo no resultado desses protestos. Eu não estou tentando dar crédito aos democratas com isso.

Glen: É positivo quando eles afirmam que concordam que a polícia deve ser dissolvida e que a estrutura atual não pode ser reformada, mas eles não farão as reformas. Então eles foram forçados pelo pessoal da rua a ecoar os slogans do Vidas Negras Importam. Isso não significa que eles sejam realmente convertidos em reformadores da polícia. Eles não são. Eles vão tentar fugir com o mínimo possível. Eles ainda respondem às pessoas que controlam o Partido Democrata. E essa é a oligarquia. De fato, um dos oligarcas, Bloomberg, entrou oficialmente na disputa pela presidência e foi apoiado por um número embaraçoso de prefeitos negros. Então, sabemos quem dirige o Partido Democrata e eles são as pessoas que querem que o policial guerreiro defenda seus bilhões, defenda seus interesses. E seus interesses estão por toda a sociedade. Eles possuem este maldito lugar. Então, o que temos que fazer, e isso não significa interromper essas manifestações, mas o que também deve fazer, e essa é a parte mais difícil, é começar o trabalho árduo, o trabalho sujo, o trabalho diário na comunidade, na construção de constituintes reais para o controle comunitário da polícia. O verdadeiro trabalho duro de descobrir como os serviços sociais que supostamente se beneficiarão da alienação de fundos da polícia, como eles realmente devem estar funcionando. Eles precisam de reforma também. E isso significa entrar em contato e trabalhar muito de perto com assistentes sociais negros e latino-americanos e progressistas brancos, que podem lhe dizer o que realmente há sobre as falhas da atual rede de distribuição de serviços sociais.

Tudo isso é trabalho duro. Este é o trabalho de uma vida. Mas esse trabalho agora é possível por causa da onda de manifestações, por causa das, em princípio, concessões que os governantes fizeram, ou melhor, os servidores políticos dos governantes. Essa é a abertura pela qual precisamos nos apressar e enfrentar uma série de projetos de reorganização social e de empoderamento das pessoas.

Brian: Isso pelo menos dá um pouco mais de esperança. Há todos os tipos de problemas acontecendo agora, eu sei, em todo o mundo. Mas é animador ver tantas pessoas indo às ruas e notei recentemente uma matéria que dizia que não parece ter havido um aumento significativo na transmissão do coronavírus como resultado desses manifestações. Parece que é um pouco mais seguro estar nas ruas do que as pessoas pensavam. E os protestos também estão aumentando aqui no Brasil e houve alguns protestos de solidariedade. Como você sabe, no ano passado, a polícia do Rio de Janeiro sozinha matou mais pessoas do que a polícia em todos os EUA. Portanto, o problema dos assassinatos policiais é realmente enorme aqui.

Glen: Vocês têm uma guerra racial de mão única no Brasil e espero que a esquerda brasileira reconheça essa realidade. Temos policiais assassinos nos EUA, mas vocês têm serial killers que trabalham todos os dias. Isso é nada menos que a guerra racial que está acontecendo.

Brian: É por isso que eu trouxe esse assunto sobre pessoas brancas que saíram às ruas nos Estados Unidos, porque o que acontece no Brasil - antes de tudo, há muitas favelas onde nem todo mundo está… elas não são tão segregadas como guetos americanos, mas normalmente quando há um assassinato racista da polícia em uma favela, os moradores protestam, saem para a rua, queimam pneus, bloqueiam a rua. E a mídia vem e inventa uma história sobre por que esse tumulto está acontecendo. Eles não dizem que é devido à violência policial. E você quase nunca vê brancos de classe média saindo para a rua e se unindo. Eles têm medo, porque sabem que a polícia não leva prisioneiros aqui - eles podem começar a atirar nas pessoas. Eu acho que muitas vezes eles têm medo, mas também têm medo nos EUA e as pessoas ainda estão indo para as ruas, então eu acho que seria ótimo ver mais pessoas saindo na rua contra a violência policial. Como eu disse antes, é uma batalha histórica do PT eliminar a Polícia Militar - a existência deles é uma remanescente da ditadura. E ninguém pode se livrar deles - eles precisam mudar a constituição para fazê-lo. Eles não respondem ao estado de direito no Brasil - eles têm seus próprios tribunais e nunca são punidos, e é por isso que também acho positivo que vários desses policiais supremacistas brancos assassinos agora estejam enfrentando acusações de homicídio nos Estados Unidos. E isso é algo que eu acho que deveria acontecer mais no Brasil, seria bom ver isso acontecer, mas por enquanto nunca acontece.

Glen: Você tem muito trabalho a fazer no Brasil. Em termos do que pode ser feito nesta parte do hemisfério, desejo que as pessoas prestem mais atenção às suas próprias obrigações de solidariedade recíproca nos EUA. Houve, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, manifestações de solidariedade com os negros nos Estados Unidos. Mas não houve muitos gestos de solidariedade dos negros nos Estados Unidos para as populações que são vitimadas diariamente pelos militares dos EUA em todo o mundo. Isso está realmente faltando. A solidariedade deve ser recíproca e, francamente, os ativistas dos EUA não estão fazendo sua parte.

Brian: Tudo bem, acho que vou deixar assim. Muito obrigado, tem sido muito interessante e acho que as pessoas vão gostar muito disso. E acho que vou continuar enviando para vocês trabalhos traduzidos por escritores brasileiros para que vocês possam publicar no Black Agenda Report. Se eu vir algo interessante, como aquela matéria de Jones Manoel, que achei legal.

Glen: Claro, esse é o tipo de coisa que precisamos executar no Black Agenda Report, a fim de enfatizar com mais força a obrigação dos negros estadunidenses de ter solidariedade com as pessoas no Brasil e na Palestina, e na África do Sul e em qualquer lugar do mundo onde o imperialismo dos EUA está exercendo sua influência maligna.

Inscreva-se na TV 247 e assista à entrevista com Glen Ford:

 

A “COMUNA DE SEATTLE” OU UMA REVOLUÇÃO COLORIDA NO CORAÇÃO DO IMPÉRIO

2020-06-19

Combater o racismo e a brutalidade policial dentro dos horizontes estreitos das questões rácicas e da desmilitarização da polícia carece das perspectivas estratégicas que permitiriam transformar a luta num verdadeiro abalo para a sociedade capitalista. Já no rescaldo dos acontecimentos que se sucederam ao assassínio de George Floyd, emerge a “Comuna de Seattle”, prova provada de que o Partido Democrata, através dos seus braços como o movimento Black Lives Matter”, e das suas artimanhas, como a das “revoluções coloridas”, transformou o descontentamento popular genuíno num ajuste de contas entre elites imperiais em vésperas de eleições.

Pepe Escobar, Strategic Culture/O Lado Oculto

O casamento do pós-Lockdown com os protestos contra a morte de George Floyd gerou um monstro que ainda está imune a qualquer tipo de debate civilizado nos Estados Unidos: a Comuna de Seattle.

O que vem a ser então a Zona Autónoma de Capital Hill + República Popular? 

Serão os comunalistas meros idiotas úteis? Tratar-se-á de um aperfeiçoamento da experiência Occupy Wall Street? Será, em termos logísticos, capaz de sobreviver e de ser replicado na cidade de Nova York, em Los Angeles e no Distrito de Colúmbia?

Um presidente Trump indignado descreveu a Comuna como um complot da autoria de "terroristas domésticos", numa cidade "administrada por democratas radicais de esquerda". E reclamou "LEI E ORDEM" (em caixa alta, segundo sua tweetologia particular).  

Réplicas da Síria são claramente discerníveis em Seattle. Neste cenário, a Comuna é uma remistura de Idlib lutando contra "postos avançados da contra-insurgência do regime" (em terminologia comunalista). 

Para a maioria das facções da direita norte-americana, os Antifa equivalem ao ISIS. George Floyd é visto não apenas como um "mártir comunista antifa", como me disse um agente da área de inteligência, mas também como um reles "criminoso e traficante de drogas". 

Então, quando é que as "forças do regime" irão atacar - neste caso sem a cobertura da força aérea russa? Afinal, como proclamou o secretário da Defesa Esper, cabe ao Pentágono "dominar o campo de batalha".

Mas há um problema. A Zona Autónoma de Capital Hill (CHAZ, em inglês) é apoiada pela cidade de Seattle – governada por um democrata, que, por sua vez, tem o apoio do governador do Estado de Washington, também um democrata.

Não há a mínima possibilidade de o Estado de Washington vir a usar a Guarda Nacional para esmagar a CHAZ. E Trump não pode assumir o controlo da Guarda Nacional do Estado de Washington sem a aprovação do governador, apesar de ter tweetado "Retome a sua cidade AGORA. Se não a retomar serei eu a fazê-lo. Isto não é uma brincadeira". 

É instrutivo observar que a "contra-insurgência" pode ser usada, por exemplo: no Afeganistão e nas áreas tribais; para ocupar o Iraque; para proteger a pilhagem de petróleo e gás no Leste da Síria. Mas não em casa. Mesmo que 58% dos norte-americanos, de facto, apoiem a utilização desse recurso: para muitos deles a Comuna talvez seja tão má, ou mesmo pior, que os saques.

E então há aqueles que se opõem firmemente ao uso da “contra-insurgência” nesta situação. Entre eles: o "Açougueiro de Fallujah", o general James “Mad Dog” Mattis; os praticantes das revoluções coloridas do National Endowment for Democracy, NED, (o “Fundo Nacional para a Democracia”), associado à CIA; a Nike; o JP Morgan; todo o establishment do Partido Democrata; e, virtualmente, todo o establishment do Exército dos Estados Unidos.

Bem-vindos ao movimento Ocupem Apenas os Outros.

Mas a pergunta permanece: por quanto tempo o "Idlib" de Seattle conseguirá desafiar o "regime"? Isto é quanto basta para dar muitas noites de insónia ao destacado praticante de bullying William Barr, o procurador-geral.

O Verdadeiro Poder Negro 

Trump e Barr já ameaçaram criminalizar os Antifa como uma "organização terrorista" – quando, simultaneamente, o movimento Black Lives Matter (BLM) apontava uma adaga amarela no asfalto da Rua 16 do Distrito de Colúmbia em direcção à Casa Branca.

Isto conduz-nos à legitimidade ampla e inquestionada de que desfruta o Black Lives Matter. Como é isso possível? Eis um ponto adequado para começar.

O Black Lives Matter, fundado em 2013 por um trio de mulheres negras, lésbicas e de classe média, todas elas muito articuladas contra o "heteropatriarcado", é um produto daquilo que Peter Dauvergne, da University of British Columbia, define como a "corporativização do activismo".

Ao longo dos anos, o Black Lives Matter evoluiu como uma marca comercial, como a Nike (uma apoiante incondicional). Os protestos generalizados contra o assassínio de George Floyd elevaram o movimento ao status de uma nova religião. No entanto, é possível afirmar que o Black Lives Matter tem zero de conteúdo verdadeiramente revolucionário. Não se trata aqui do "Say It Loud, I’m Black and I’m Proud" (Diz bem alto, tenho orgulho em ser negro), de James Brown. E não chega sequer perto do Black Power (Poder Negro) e do "Power to the People" (O Povo ao Poder) dos Black Panthers (Panteras Negras).

O padrão-ouro dos direitos civis, o Dr. Martin Luther King, em 1968, resumiu de forma concisa o cerne estrutural da questão:

"A revolução negra é muito mais do que a luta pelos direitos dos negros. Ela força a América a encarar as suas falhas interrelacionadas - racismo, pobreza, militarismo e materialismo. Ela expõe males profundamente enraizados na totalidade da estrutura da nossa sociedade. Ela revela falhas sistémicas, mais que superficiais, e sugere que uma reconstrução radical da própria sociedade é a verdadeira questão que temos pela frente". 

Os Black Panthers, intelectuais jovens e extremamente articulados, que misturavam Marx, Lenine, Mao, W.E.B. Du Bois, Malcolm X e Frantz "Os Condenados da Terra" Fanon, levaram o diagnóstico de Luther King a um nível muito mais avançado.  

Tal como resumiu Eldridge Cleaver, responsável de informação dos Black Panthers: "Acreditamos na necessidade de um movimento revolucionário unificado... fundamentado nos princípios revolucionários do socialismo científico". Esta frase sintetizava o pensamento de MLK, que propunha, fundamentalmente, a ultrapassagem das questões meramente raciais. 

Fred Hampton, vítima de um assassínio cometido pelo Estado em Dezembro de 1969, sublinhou sempre que a luta transcendia a raça: 

"Temos de encarar alguns factos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem ao que se chama a classe baixa; e quando falo das massas, falo das massas brancas, falo das massas negras, das massas pardas e das massas amarelas também. Temos de encarar o facto de algumas pessoas dizerem que é melhor combater o fogo com o fogo e nós acharmos que a melhor maneira de apagar o fogo é com água. Nós dizemos que não se luta contra o racismo com racismo. Vamos combater o racismo com solidariedade. Dizemos que não se luta contra o capitalismo com a ausência de capitalismo negro; luta-se contra o capitalismo com o socialismo". 

Portanto, não se trata apenas de raça. Não se trata apenas de classe. Trata-se, isso sim, de Poder para o Povo que luta por justiça social, política e económica num sistema intrinsecamente desigual. Essa abordagem expande a exaustiva análise de Gerald Horne em The Dawning of the Apocalypse (A Alvorada do Apocalipse), que disseca em profundidade o século XVI, incluindo-se aí o "mito da criação" dos Estados Unidos. 

Horne mostra que uma invasão sanguinária das Américas provocou uma forte resistência por parte dos africanos e das populações indígenas suas aliadas, enfraquecendo a Espanha imperial e, por fim, habilitando Londres a despachar colonos para a Virgínia, em 1607.

Compare-se essa profundidade de análise com o slogan "Black Lives Matter", tão manso e humilde, quase implorando misericórdia. O que nos traz novamente à memória a acutilância de Malcolm X: "Tínhamos a melhor organização que os homens negros já tiveram - e os niggers (os “pretos”) deitaram tudo a perder!" 

Para desvendar a questão do Black Lives Matter temos mais uma vez de seguir a pista do dinheiro.

O movimento Black Lives Matter recebeu, em 2016, a gigantesca dotação de 100 milhões de dólares da Fundação Ford e de outros baluartes do capitalismo “filantrópico”, como o JPMorgan Chase e a Fundação Kellogg.

A Fundação Ford está muito ligada ao Deep State (Estado profundo) dos Estados Unidos. O seu Conselho de Direcção está a abarrotar de CEO’s empresariais e chefões de Wall Street. Resumindo: o Black Lives Matter, como movimento, está hoje totalmente higienizado, em grande medida integrado na máquina do Partido Democrata, e é adorado pelos media convencionais, não representando portanto qualquer ameaça aos 0,001% dos mais ricos.

As chefias do Black Lives Matter, é claro, argumentam que desta vez "é diferente". Elaine Brown, a extraordinária ex-presidente dos Black Panthers, não faz a coisa por menos: O Black Lives Matter tem uma "mentalidade de sanzala".

Tentem atear fogo na noite

Set the Night on Fire  (Ateiem Fogo na Noite) é um livro extraordinariamente absorvente, co-escrito por Jon Wiener e pelo inestimável Mike Davis de City of Quartz e Planet of Slums.

Descrevendo com riqueza exaustiva de pormenores a Los Angeles da década de sessenta, o livro mergulha-nos nos motins de Watts, em 1965; no movimento anti-guerra unindo-se aos Black Panthers para formar um singularíssimo Partido Paz e Liberdade californiano; na evolução da unidade dos movimentos de base formando o ethos do Black Power; no clube Che-Lumumba do Partido Comunista dos Estados Unidos – que se converteria na base política da lendária Angela Davis; e na ofensiva massiva do FBI e do Departamento de Polícia de Los Angeles para destruir os Black Panthers.

Tom Wolfe, de maneira destacada e maldosamente, caracterizou os habitantes de Los Angeles apoiantes dos Black Panthers como "radical chic". Elaine Brown, mais uma vez, traz a versão correcta: "Estávamos a morrer e todos eles, dos mais sólidos aos mais frívolos, ajudavam-nos a sobreviver sempre durante mais um dia". 

Uma das partes mais angustiantes do livro conta em pormenor como o FBI perseguiu os simpatizantes dos Panthers, inclusivamente a sublime actriz Jean Seberg, estrela de Santa Joana, de Otto Preminger’s (1957) e À Bout de Souffle (Acossado, em português), de Godard (1960).

Jean Seberg contribuía anonimamente para os Panthers sob o pseudónimo de "Aretha" (sim, como Franklin). O COINTELPRO do FBI não teve dó nem piedade na perseguição a Seberg, convocando a ajuda da CIA, dos serviços de inteligência militar e do Serviço Secreto. Foi qualificada como "actriz branca com perversões sexuais" que teria tido casos com radicais negros. A sua carreira em Hollywood foi destruída. Então entrou em depressão profunda, teve um parto de um nado-morto (o bebé não era negro), emigrou e o corpo - em decomposição - foi encontrado no seu carro, em Paris, em 1979.

Num contraste nítido, ouvem-se agora na Academia de Hollywood rumores que identificam um mar de convertidos à religião do Black Lives Matter como, principalmente, produtos do casamento da "consciencialização" (wokeness) e da interseccionalidade - o conjunto de traços interligados que, desde o nascimento, privilegia os homens brancos heterossexuais, que hoje tentam expiar a sua culpa.

A geração Z (nascida entre a segunda metade dos anos noventa e 2010), que os campus universitários norte-americanos despejam em massa no mercado de trabalho, é prisioneira desse fenómeno: na verdade, é escrava da política identitária politicamente correta. E, mais uma vez, com zero potencial revolucionário.

Compare-se isso, novamente, com os imensos sacrifícios políticos dos Black Panthers. E também com os de Angela Davis que, já então um ícone pop, se tornou a mais famosa prisioneira política da história norte-americana. Aretha Franklin, ao oferecer-se para pagar a fiança de Davis, pronunciou uma frase que ficou famosa: "Fui encarcerada por perturbar a paz, e sei que temos de perturbar a paz quando não temos paz".

Elaine Brown: "Eu sei o que era o BPP (o Partido Black Panthers). Sei das vidas que perdemos, da luta que travámos, dos esforços que fizemos, dos ataques que sofremos da polícia e do governo - sei tudo isso. Mas não sei o que é o Black Lives Matter".

Se o Black Lives Matter é intrinsecamente racista, ou mesmo inerentemente violento, é uma questão aberta a debate. 

Pode discutir-se também se a genuflexão, agora um ritual praticado rotineiramente por políticos (ataviados com echarpes kente, do Gana), agentes da polícia e corporações, ameaça realmente as fundações do Império. 

Noam Chomsky já se aventurou a dizer que a onda de protestos, até agora, tem zero de articulação política - e precisa urgentemente de um direccionamento estratégico que vá muito além da óbvia revolta contra a brutalidade da polícia. 

Os protestos estão a arrefecer exactamente no momento em que a Comuna desponta. 

Dependendo da maneira como os acontecimentos irão evoluir, poderá representar um sério problema para a dupla Trump/Barr. O presidente simplesmente não pode permitir que uma revolução colorida se desenvolva activamente na área central de uma das maiores cidades dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo é impotente, como autoridade federal, para dissolver a Comuna. 

O que a Casa Branca pode fazer é convocar suas próprias unidades de contra-insurgência, na forma de milícias de supremacistas brancos armados até aos dentes, partir para a ofensiva e esmagar as já frágeis linhas de abastecimento das tropas da consciencialização + interseccionalidade. 

O movimento Occupy, afinal, dominou áreas de importância-chave em...

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As estátuas do nosso desconforto -- Boaventura

 
 
Se as derrubamos, não é porque nos incomodem, em si mesmas. Mas por estarem vivas as três formas de dominação – capitalista, patriarcal e colonial – que as colocaram em pedestais e nos trouxeram a um presente que precisamos superar

 


Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras

 

 
As estátuas parecem-se muito com o passado, e é por isso que sempre que são postas em causa nos viramos para os historiadores. A verdade é que as estátuas só são passado quando estão tranquilas nas praças, partilhando a recíproca indiferença entre nós e elas. Nesses momentos, que por vezes duram séculos, são mais intencionalmente visitadas por pombas do que por seres humanos. Quando, no entanto, se tornam objeto de contestação, as estátuas saltam do passado e passam a ser parte do nosso presente. Doutro modo, como poderíamos dialogar com elas e elas connosco? Claro que há estátuas que nunca são contestadas, quer porque pertencem a um passado demasiado remoto para saltar para o presente, quer porque pertencem ao presente eterno da arte. Estas estátuas só não estão a salvo de extremistas tresloucados, caso dos Budas de Bamiyan, do século V, destruídas pelos talibans do Afeganistão em 2001.

 


As estátuas que dão este salto e se oferecem ao diálogo são parte do nosso presente e são contestadas porque representam contas que não foram saldadas, destruições e injustiças que não foram reparadas. Quem as contesta não lhes pede contas a elas nem exige reparações delas. As contas têm de ser feitas e as reparações têm de ser dadas por quem herdou e detém o poder injusto que as estátuas representam. Sempre que o poder que as fez erigir foi justa ou injustamente derrotado, as estátuas foram retiradas prontamente, sem nenhuma comoção e até com aplauso. Se é tão forte o movimento atual de contestação às estátuas, iniciado pelo movimento #blacklivesmatter, isso deve-se à continuidade no presente do poder que no passado originou as destruições e as injustiças de que as estátuas são involuntárias testemunhas. E se o poder continua, continuam as destruições e as injustiças. A contestação é contra estas.

 


E que poder é esse? No contexto europeu e eurodescendente, esse poder é o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado, três formas de poder articuladas que dominam há quase seis séculos. A primeiro é do século XV e as duas outras existiram muito antes, mas foram reconfiguradas pelo capitalismo moderno e postas ao serviço deste. As três estão de tal maneira articuladas que nenhuma delas existe sem as outras. O que consideramos passado é assim uma ilusão de ótica, uma cegueira em relação ao presente.

 


 
O colonialismo é passado? Não. O que passou (e não totalmente, como mostram os casos do Saara Ocidental, da Papuásia Ocidental e da Palestina) foi uma forma específica de colonialismo, o colonialismo histórico, por ocupação territorial por potência estrangeira. Mas o colonialismo continuou até hoje sob outras formas, desde o neocolonialismo ao saque dos recursos naturais das ex-colónias e ao racismo. Se nada disto fosse parte do nosso presente, as estátuas estariam sossegadas e entregues às pombas. Para sermos mais concretos, se na grande Lisboa não houvesse bairros da Jamaica, se a cor de pele das populações mais expostas ao vírus não fosse a que é e fosse igual à dos que estão em teletrabalho, se não houvesse brutalidade policial racista nem grupos neonazis infiltrados nas suas organizações profissionais, as estátuas estariam em seu sossego pétreo ou metálico.

 


O patriarcado não está abacando, com todas as leis e políticas em defesa da igualdade de género? Não. Se os movimentos feministas tivessem pleno êxito, não estaria a aumentar o feminicídio. Nem a pandemia teria feito disparar em todos os países a violência contra as mulheres. O capitalismo não terminou? Não. Esta é talvez a mais perversa ilusão, propagada pelas mídias, pelos economistas e por muitos cientistas sociais. Para muitos, o capitalismo era uma ideologia; agora há mercados, colaboradores, empreendedores, economia de mercado, PIB, desenvolvimento. Em verdade, o capitalismo ampliou sua capacidade de produzir injustiça nos últimos 40 anos, bem refletida na erosão dos direitos dos trabalhadores, na estagnação dos salários (nos EUA, desde 1969). É neste caldo de poder injusto que aumentam o racismo, a negação de outras histórias, a violência contra as mulheres e a homofobia. É contra este poder que se dirige a contestação das estátuas. Esta contestação dá um relevo especial à luta antirracista e anticolonial, mas não esqueçamos que ela é tão importante quanto a luta antissexista e anticapitalista.

As estátuas não terão sossego enquanto estas formas de poder existirem, sobretudo com a virulência que têm hoje. E as estátuas só parecem alvos inocentes e desfocados porque domina hoje a política do ressentimento: como deixamos de conhecer as causas do descontentamento, investimos contra as suas consequências. É por isso que o operário norte-americano, branco, empobrecido pensa que o seu pior inimigo é o operário imigrante, latino, ainda mais empobrecido que ele. É por isso que a classe média europeia, temerosa de perder o que há pouco conquistou, pensa que os seus piores inimigos são os imigrantes e os refugiados. Enquanto este poder subsistir, se quem o detém tiver alguma consciência histórica e até estiver disponível para fazer concessões, deveria ter a prudência de recolher ordeiramente todas as estátuas e construir um museu para elas. Pediria então a artistas, escritores e cientistas do país e dos países que tão levianamente consideramos irmãos para construírem diálogos interculturais com as estátuas e fazer disso uma criativa pedagogia da libertação. Quando isso ocorrer, o passado irá saindo do presente pela porta principal.

 


E há boas condições para fazer isto porque os povos ofendidos, além de terem resistido a tanta humilhação, são criativos e até são capazes de reconhecer que o poder que os ofendeu também se quer resgatar. Conto duas histórias da minha experiência de investigação como sociólogo. Em 2002, fazia trabalho de pesquisa na ilha de Moçambique, no norte do país, quando me contaram a primeira história. Há uma estátua de Luís de Camões na ilha, colocada no tempo colonial. Com as mudanças turbulentas da independência em 1975, a estátua foi retirada e guardada nos armazéns da capitania. Entretanto, deixou de chover anos a fio na ilha. Os velhos sábios de lá reuniram-se, fizeram os seus rituais e chegaram à conclusão de que a falta de chuva talvez se devesse à retirada intempestiva da estátua. Pediram que a estátua fosse reposta e o Camões lá está, olhando para imensidão do Índico e trazendo a chuva que enche a cisterna. A estátua de Camões e a sua história foram assim reapropriadas pelos moçambicanos.

 


A segunda história ocorreu no dia 24 de Julho de 2014, quando os descendentes dos meninos indígenas que estão na estátua do padre António Vieira visitaram o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Eram nove líderes indígenas representantes dos povos guajajara, macuxi, munduruku, terena, taurepang, tukano, yanomami e maya, a maior delegação de sempre de indígenas brasileiros na Europa.  Vinham agradecer a minha intermediação junto do Supremo Tribunal Federal do Brasil na demarcação da terra indígena da Raposa Serra do Sol. Sem desprimor para a Universidade McGill do Canadá, que iniciou a lista, nem para as 18 universidades que se seguiram a conceder-me graus de doutor honoris causa, eu considero o cocar indígena e o bastão de mando que me foi concedido na cerimónia como uma das honras mais preciosas. Quem se enganou foi a estátua do padre Antônio Vieira, porque nos faz crer que aqueles meninos ficaram crianças até hoje. E há muito boa gente que continua a pensar o mesmo.

 


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“I Can’t Breath”: da impostura dos EUA ao terceiro renascimento negro

Ergimino Mucale | O País (mz) | opinião
 
Desde a conquista da independência do Reino Unido da Grã-Bretanha, os EUA baptizaram-se como uma nação respeitadora dos direitos inalienáveis da pessoa humana, como o defendem os documentos oficiais deste País. Por exemplo, a Declaração da Independência de 1776, afirma: «Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade». A Convenção de Filadélfia, a segunda constituição moderna em vigor mais antiga do Mundo, apresenta os EUA como uma nação de liberdade, justiça e bem-estar geral. Estes ideais, combinados com um grande poderio tecnológico, militar e de manipulação da informação, têm sido usados como pretextos para os Estados Unidos da América imporem-se globalmente como uma nação democrática exemplar e como uma autoridade moral.

Evidências históricas, entretanto, geram cepticismo. Para começar, os EUA nasceram da violência organizada e da lei do mais forte e foram regados com o sangue de inocentes, desde os povos nativos, os ameríndios, até os negros. Estes últimos, ainda que tenham chegado lá na era pré-colombiana, a sua presença massiva naquele país é devedora ao Comércio Triangular ou Tráfico Negreiro, que os tomou como capital vendível e comprável e principal motor das economias americana e europeia. Mesmo depois da conquista da independência, os EUA continuaram a praticar a escravatura. O próprio Thomas Jefferson, principal autor da Declaração da Independência, não respeitava as verdades que considerava autoevidentes: apresentava-se como anti-esclavagista e abolicionista em público enquanto em privado continuava a ser proprietário de escravos.

Os EUA são um país de dois pesos e duas medidas. A nível externo vendem-se como pais da democracia, isto é, defensores dos direitos fundamentais dos seres humanos, um pretexto para a expansão imperial: imposição antidemocrática da democracia, invasões terroristas em nome de antiterrorismo, criação de insegurança em nome de segurança, patrocínio de conflitos em certos países, chantagens económicas e financeiras, etc. Internamente, este país é terra onde jorra leite e mel para uma parcela dos seus cidadãos e vale de lágrimas e cemitério para outros. À antiga linha de cor, que separava negros e brancos, jutou-se a linha social, que divide pobres e ricos numa mesma sociedade.

A história afroamericana é marcada pela busca angustiante e incansável de emancipação, por esforços de transpor a barreira racial-social e aceder aos valores fundantes da nação norte-americana que só são assegurados para os norte-americanos brancos. Desde a guerra pela independência, passando pela guerra civil ou Guerra de Cessação (motivada pela escravatura dos negros) até às duas guerras mundiais, negros e brancos lutaram lado-a-lado em nome de valores e direitos inalienáveis que nunca foram garantidos aos afroamericanos. A Guerra de Cessação, ainda que tenha forçado uma emenda constitucional para pôr fim à escravatura, abriu espaço para perseguições, linchamentos, sequestros e outras formas de violência organizada e de motivação racial cujos protagonistas eram membros do Ku Klux Klan.

É assim que as pessoas negras nos EUA mobilizaram-se, no começo do século XX, gerando o primeiro Renascimento Negro. O objectivo central deste movimento era a integração social e política dos afroamericanos, que inclui a conquista dos direitos civis e da democracia cultural. Se os artistas foram os principais porta-vozes do movimento, o seu espírito foi melhor captado pelo filósofo Alain Locke, que lhe deu o nome e direcção, e a sua legitimação moral foi dada pelo sociólogo W. E. B. Du Bois, defensor do espírito de bravura e vingança como melhor forma de lidar com a violência. É o mesmo espírito adotado por alguns dos militantes do que posso chamar de segundo Renascimento Negro nos EUA, que vai dos anos 50 até aos finais dos anos 60, como Malcom X. Ao lado deste jovem destemido, apologista do Nacionalismo Negro nos Estados Unidos e fundador da Organização para a Unidade Afro-Americana, estava Martin Luther King Jr, proponente de uma revolução negra não-violenta em vista a construção do sonho de um mundo sem racismo. Duas personalidades diferentes e duas visões contrastantes, mas o mesmo ideal: garantir a emancipação política e sociocultural dos afroamericanos.

Ainda que os dois renascimentos, juntamente com o Pan-africanismo e a Negritude, tenham corroborado para a reconfiguração da imagem global dos negros e para o melhoramento da condição negra no Mundo,  a emancipação continua a ser negada aos afroamericanos. A integração e a justiça social ainda são uma miragem. Os afroamericanos continuam a ser a maior população prisional, a ter altas taxas de desemprego, mendicidade e delinquência, propositadas para a manutenção do narcisimo branco e da rediculação dos negros. O recente assassinato macabro do afroamericano George Floyd por polícias, repetição de uma prática secular, desmascara a cobardia de um país que tem feito da violência, sobretudo do racsmo e da guerra, uma forma de fazer política. O grito de Flyod em Minneapolis, «Não posso respirar», é repetição do já feito pelo seu concidadão Eric Garner, há seis anos, em Nova Iorque.  É, no fundo, grito de todos os negros do Mundo – negro é mais uma categoria social, cultural e espiritual do que um fenótipo; grito das vítimas da necropolítica perpetrada pelo neoliberalismo, um sistema construido sob bases elitistas, racistas e imperialistas. O sangue de Floyd e o levantamento popular internacional que tem gerado, augura um terceiro Renascimento Negro. Está a despontar, herdeiro dos negros do passado, o novo negro do Século XXI!
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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SOS Racismo denuncia inacção da Comissão para a Igualdade Contra a Discriminação Racial

Segundo o SOS Racismo a Comissão para a Igualdade Contra a Discriminação Racial, enquanto instrumento principal do Estado no combate à discriminação racial, é um órgão deliberativo e executivo. Um órgão institucional com esta responsabilidade não pode ficar paralisado durante um ano.

 

 

Transcrevemos na integra o Comunicado de Imprensa do SOS Racismo:

 

Um ano de paralisação da Comissão para a Igualdade Contra a Discriminação Racial – CICDR

Em Portugal, 2019 e 2020 foram anos de intenso debate público sobre a questão racial. O país assistiu a vários casos, nomeadamente, ao Bairro Jamaica, à sentença do caso da Esquadra de Alfragide, à eleição de três deputadas negras à Assembleia da República, à morte do estudante cabo-verdiano Luís Giovani em Bragança, às agressões à Cláudia Simões na Amadora, aos insultos ao jogador de futebol Moussa Marega e à manifestação maciça do passado sábado, dia 06 de junho. Era suposto que a lei n.º 93/2017 viesse superar a inoperância dos últimos 20 anos de vigência do quadro jurídico de combate à discriminação racial. Esperava-se, entre outras coisas, o alargamento do leque das discriminações punidas, o aumento da capacidade de dissuasão por via da aplicação das coimas previstas e o reforço da prestação pública de contas por parte da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR). Mas a inoperância da CICDR é tal que, por exemplo, das 1399 queixas recebidas entre 2005 e 2018, apenas 24% (cerca de 340) conduziram à abertura de um processo de contraordenação e apenas 1,7% (25) das queixas iniciais resultaram numa condenação. Se a esta circunstância acrescermos os resultados do projeto de investigação COMBAT, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o cenário é ainda mais critico. Os resultados mostram que, entre 2006 e 2016, a maioria dos 106 processos de contraordenação decorrentes de queixas por discriminação nas áreas da educação, forças de segurança, habitação e vizinhança foi arquivada. Até 2019, a taxa de arquivamento para cada uma das áreas situa-se nos 80%, sendo 22% por motivos de prescrição. Sem contar que, nos últimos 10 anos, não houve nenhuma condenação das 75 queixas apresentadas contra agentes de autoridades. Ainda segundo esta investigação, apenas 5,8% destes casos resultaram numa condenação efetiva e a média do valor das coimas aplicadas é irrisória, situando-se nos 731 euros.

O novo governo procedeu a passagem da CICDR para a tutela da Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade, mantendo a presidência do órgão sob tutela do Alto-Comissariado para as Migrações (ACM), assim como as questões relacionadas com a comunidade cigana. Infelizmente, esta alteração não resolveu nenhum dos problemas da sua orgânica, das suas competências e do seu funcionamento. A prova disso é que faz hoje um ano que o órgão principal do Estado para o combate à discriminação racial não reúne.

A CICDR, enquanto instrumento principal do Estado no combate à discriminação racial é um órgão deliberativo e executivo. Um órgão institucional com esta responsabilidade não pode ficar paralisado durante um ano. Para além da incompetência, esta paralisação revela negligencia e falta de interesse político do Estado em assumir o combate contra o racismo com seriedade e como uma questão essencial no combate às desigualdades. Se o próprio Estado não cumpre com as suas obrigações e responsabilidades no combate contra o racismo, torna-se difícil criar as condições para construir uma sociedade consciente e mobilizada contra o racismo.

 

 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/sos-racismo-denuncia-inaccao-da-comissao-para-a-igualdade-contra-a-discriminacao-racial/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=sos-racismo-denuncia-inaccao-da-comissao-para-a-igualdade-contra-a-discriminacao-racial

Altos funcionários da ONU de ascendência africana pedem o fim do racismo

 


 

Nações Unidas, 15 jun (Xinhua) -- Mais de 20 funcionários de alto escalão da Organização das Nações Unidas (ONU) que são africanos ou de ascendência africana assinaram uma declaração pessoal e contundente, expressando sua indignação contra o racismo generalizado e sistêmico, divulgou o ONU News neste domingo.

Os signatários incluem chefes de alto nível de agências da ONU, como o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus; a diretora executiva do UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS), Winnie Byanyima; e a diretora executiva do Fundo de População da ONU, Natalia Kanem.

A declaração recordou a morte de George Floyd, um afro-americano que morreu após um policial de Minneapolis sufocá-lo com o joelho em seu pescoço por mais de oito minutos.

Citando o "trauma profundo e o sofrimento intergeracional" que resultou da injustiça racial, particularmente contra as pessoas de ascendência africana, a declaração ressaltou que é hora de ir além do que simplesmente condenar os atos de racismo, que é "um flagelo global que tem sido perpetuado ao longo dos séculos ", de acordo com a publicação do ONU News.

Os líderes pediram à ONU que "intensifique e aja decisivamente para ajudar a acabar com o racismo sistêmico contra as pessoas de ascendência africana e outros grupos minoritários", citando o artigo 1º da Carta das Nações Unidas, que estipula que a organização intergovernamental deve promover e incentivar o "respeito pelo direitos humanos e liberdades fundamentais de todos, sem distinção de raça, gênero, idioma ou religião ".

A declaração também pediu à entidade que "use sua influência para nos lembrar, mais uma vez, dos negócios inacabados de erradicar o racismo e exortar a comunidade das nações a remover a mancha do racismo sobre a humanidade".

Reconhecendo os esforços do chefe da ONU, António Guterres, de abordar o racismo sistêmico em todos os níveis, os autores da declaração observaram que a organização deve liderar pelo exemplo, com "uma avaliação honesta de como defendemos a Carta das Nações Unidas dentro de nossa instituição".

A expressão de solidariedade com as manifestações pacíficas está "bem de acordo com nossas responsabilidades e obrigações como funcionários públicos internacionais de se levantar e se manifestar contra opressão", disseram as autoridades, acrescentando que "compartilhamos as crenças fundamentais e os valores e princípios consagrados na Carta das Nações Unidas que não nos deixam ficar em silêncio".

Os funcionários se comprometem a aproveitar seus conhecimentos, liderança e mandatos para "abordar as causas de raiz e as mudanças estruturais que devem ser implementadas se quisermos acabar com o racismo", disseram.

Manifestantes participam de um protesto desencadeado pela morte de George Floyd na Ponte do Brooklyn, em Nova York, Estados Unidos, em 13 de junho de 2020. (Michael Nagle/Xinhua)

Manifestantes participam de um protesto em Londres, em 12 de junho de 2020. (Ray Tang/Xinhua)

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/16/c_139142939.htm

O significado do movimento Black Lives Matter

– Antes os EUA exportavam "revoluções coloridas", agora aplicam-na internamente
– O movimento BLM foi encampado pelo Partido Democrata & o Estado Profundo dos EUA
– O BLM tem financiamento da Fundação Ford & da Wall Street
– Este movimento tem posições recuadíssimas em relação às dos grandes líderes históricos afro-americanos, como Martin Luther King, Angela Davis e Malcolm X
– A chamada "Comuna de Seattle" não passa de manobra eleitoral do Partido Democrata para desgastar Trump

por Pepe Escobar [*]

Genuflexão.O casamento do pós-Lockdown (pós-confinamento) com os protestos contra a morte de George Floyd gerou uma besta-fera que ainda é imune a qualquer tipo de debate civilizado nos Estados Unidos: a Comuna de Seattle.

Então, o que vem a ser a Zona Autônoma de Capital Hill + República Popular?

Seriam os comunalistas meros idiotas úteis? Tratar-se-ia de um refinamento do experimento Occupy Wall Street? Seria ele, em termos logísticos, capaz de sobreviver e ser replicado na Cidade de Nova York, em Los Angeles e no Distrito de Colúmbia?

Um presidente Trump indignado descreveu a Comuna como um complô de autoria de "terroristas domésticos", em uma cidade "administrada por democratas radicais de esquerda". Ele conclamou por "LEI E ORDEM" (em caixa alta, segundo sua tweetologia particular).

Toques de Síria são claramente discerníveis em Seattle. Nesse cenário, a Comuna é uma remixagem de Idlib lutando contra "postos avançados de contra-insurgência do regime" (em terminologia comunalista).

Para a maioria das facções da Direita americana, os Antifa equivalem ao ISIS. George Floyd é visto não apenas como um "mártir comunista antifa", como me disse um agente da área de inteligência, mas também como um reles "criminoso e traficante de drogas".

Então, quando as "forças do regime" irão atacar – neste caso sem a cobertura da força aérea russa? Afinal, como proclamado pelo secretário Esper, cabe ao Pentágono "dominar o campo de batalha" .

Mas temos aqui um problema. A Zona Autônoma de Capital Hill (CHAZ, em inglês) é apoiada pela cidade de Seattle – governada por um democrata, que, por sua vez, tem o apoio do governador do estado de Washington, também um democrata.

Não há a mínima chance de o estado de Washington vir a usar a Guarda Nacional para esmagar a CHAZ. E Trump não pode assumir o controle da Guarda Nacional do estado de Washington sem a aprovação do governador, apesar de ele ter tuitado "Retome sua cidade AGORA. Se você não retomar, eu o farei. Isso não é um jogo".

É instrutivo observar que a "contra-insurgência" pode ser usada: no Afeganistão e nas áreas tribais; para ocupar o Iraque; para proteger a pilhagem de petróleo-gás no leste da Síria. Mas não em casa. Mesmo que 58% dos americanos de fato apóiem esse uso: para muitos deles, a Comuna talvez seja tão má, se não pior, que os saques.

E então há aqueles que se opõem firmemente a ela. Entre eles: o "Açougueiro de Fallujah" Cão Louco Mattis; os praticantes das revoluções coloridas do NED (o Fundo Nacional para a Democracia); a Nike; a JP Morgan; todo o establishment do Partido Democrata; e virtualmente todo o establishment do Exército dos Estados Unidos.

Bem-vindos ao movimento Ocupem Apenas os Outros.

Mas a pergunta permanece: por quanto tempo o "Idlib" conseguirá desafiar o "regime"? Isso é o que basta para dar ao notório "bully" , o Procurador Geral Barr, muitas noites de insônia.

O VERDADEIRO PODER NEGRO

Trump e Barr já ameaçaram criminalizar os Antifa como uma "organização terrorista" – ao mesmo tempo em que o Black Lives Matter apontava uma adaga amarela no asfalto da Rua 16 do Distrito de Colúmbia em direção à Casa Branca.

E isso nos leva à legitimidade ampla e inquestionada desfrutada pelo Black Lives Matter. Como isso é possível? Aqui é um bom lugar para começar.

O Black Lives Matter, fundado em 2013 por um trio de mulheres negras, lésbicas e de classe média, todas elas muito articuladas contra o "heteropatriarcado", é um produto daquilo que Peter Dauvergne, da University of British Columbia, define como a "corporativização do ativismo".

Ao longo dos anos, o Black Lives Matter evoluiu como uma marca comercial, como a Nike (uma apoiadora incondicional). Os protestos generalizados contra o assassinato de George Floyd elevaram o movimento ao status de uma nova religião. No entanto, é possível afirmar que o Black Lives Matter tenha zero de apelo verdadeiramente revolucionário. Não se trata aqui do "Say It Loud, I'm Black and I'm Proud", de James Brown. E não chega nem perto do Black Power e do "Power to the People" dos Black Panthers (Panteras Negras).

O padrão-ouro dos direitos civis, o Dr. Martin Luther King, em 1968, resumiu de forma concisa o cerne estrutural da questão:

"A revolução negra é muito mais que a luta pelos direitos dos negros. Ela força a América a encarar suas falhas interrelacionadas – racismo, pobreza, militarismo e materialismo. Ela expõe males profundamente enraizados na totalidade da estrutura de nossa sociedade. Ela revela falhas sistêmicas, mais que superficiais, e sugere que uma reconstrução radical da própria sociedade é a verdadeira questão a ser enfrentada".

Os Black Panthers , intelectuais jovens e extremamente articulados, que misturavam Marx, Lenin, Mao, W.E.B. Du Bois, Malcolm X e Frantz "Os Condenados da Terra" Fanon, levaram o diagnóstico de MLK a um nível muito mais avançado.

Tal como resumido por Eldridge Cleaver, ministro da Informação dos Panthers: "Acreditamos na necessidade de um movimento revolucionário unificado... informado pelos princípios revolucionários do socialismo científico". Essa frase sintetizava o pensamento de MLK, que propunha, fundamentalmente, o daltonismo racial.

Fred Hampton , alvo de um assassinato pelo Estado ocorrido em dezembro de 1969, sempre enfatizou que a luta transcendia a raça: "Temos que encarar alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem a isso que se chama de classe baixa, e quando falo das massas, falo das massas brancas, falo das massas negras, das massas pardas e das massas amarelas também. Temos que encarar o fato de que algumas pessoas dizem que é melhor combater o fogo com o fogo, mas nós dizemos que a melhor maneira de apagar o fogo é com água. Nós dizemos que não se luta contra o racismo com racismo. Vamos combater o racismo com solidariedade. Dizemos que não se luta contra o capitalismo com a ausência de capitalismo negro, luta-se contra o capitalismo com o socialismo".

Portanto, não se trata apenas de raça. Não se trata apenas de classe. Trata-se, isso sim, de Poder para o Povo que luta por justiça social, política e econômica em um sistema intrinsecamente desigual. Esse enfoque expande a exaustiva análise de Gerald Horne em The Dawning of the Apocalypse (A alvorada do apocalipse), que disseca em profundidade o século XVI, incluindo-se aí o "mito da criação" dos Estados Unidos.

Horne mostra que uma invasão sanguinária das Américas engendrou uma forte resistência por parte dos africanos e das populações indígenas aliadas a eles, enfraquecendo a Espanha imperial e, por fim, capacitando Londres a despachar colonos para a Virgínia, em 1607.

Compare-se essa profundidade de análise com o slogan "Black Lives Matter", tão manso e humilde, quase implorando por misericórdia. O que novamente nos faz lembrar da agudeza de Malcolm X : "Tínhamos a melhor organização que homens negros já tiveram – e os niggers (os negros) arruinaram tudo!"

Para desvendar o questão do Black Lives Matter temos que, mais uma vez, seguir o dinheiro.

O Black Lives Matter recebeu, em 2016, a gigantesca dotação de 100 milhões de dólares da Fundação Ford e de outros baluartes do capitalismo filantrópico, como a JPMorgan Chase e a Fundação Kellogg.

A Fundação Ford é muito ligada ao Deep State dos Estados Unidos. Seu conselho-diretor é abarrotado de CEOs empresariais e chefões da Wall Street. Resumindo: o Black Lives Matter, como organização, encontra-se hoje totalmente higienizado, em grande medida integrado à máquina do Partido Democrata e é adorado pela mídia convencional, não representando portanto qualquer ameaça aos 0,001%.

As lideranças do Black Lives Matter, é claro, argumentam que desta vez "é diferente" . Elaine Brown, a formidável ex-presidente dos Black Panthers, não faz por menos: O Black Lives Matter tem uma "mentalidade de senzala" .

TENTEM ATEAR FOGO NA NOITE

Set the Night on Fire (Ateiem fogo na noite) é um livro extraordinariamente absorvente, co-escrito por Jon Wiener e pelo inestimável Mike Davis de City of Quartz e Planet of Slums.

Descrevendo com riqueza exaustiva de detalhes a Los Angeles da década de 60, o livro nos faz mergulhar nos motins de Watts, em 1965; no movimento anti-guerra se unindo aos Black Panthers para formar um singularíssimo Partido Paz e Liberdade californiano; na evolução da unidade dos movimentos de base formando o ethos do Black Power; no clube Che-Lumumba do Partido Comunista – que se converteria na base política da lendária Angela Davis; e na ofensiva maciça do FBI e do Departamento de Polícia de Los Angeles para destruir os Black Panthers.

Tom Wolfe, notória e maldosamente, caracterizou os losangelinos apoiadores dos Black Panthers como "radical chic". Elaine Brown, mais uma vez, traz a versão correta: "Nós estávamos morrendo, e eles todos, dos mais sólidos aos mais frívolos, nos ajudavam a sobreviver por mais um dia".

Uma das partes mais angustiantes do livro conta em detalhes como o FBI perseguiu os simpatizantes dos Panthers, inclusive a sublime Jean Seberg, estrela de Santa Joana , de Otto Preminger's (1957) e À Bout de Souffle ( Acossado , em português), de Godard (1960).

Jean Seberg contribuía anonimamente com os Panthers sob o codinome de "Aretha" (sim, como em Franklin). O COINTELPRO do FBI não teve dó nem piedade na perseguição a Seberg, convocando a ajuda da CIA, dos serviços de inteligência militar e do Serviço Secreto. Ela foi tachada de "atriz branca com perversões sexuais" que teria tido casos com radicais negros. Sua carreira em Hollywood foi destruída. Ela entrou em depressão profunda, teve um parto natimorto (o bebê não era negro), emigrou, e seu corpo – em decomposição – foi encontrado em seu carro, em Paris, em 1979.

Em um nítido contraste, foram ouvidos na academia rumores que identificavam o mar de convertidos à religião do Black Lives Matter como, principalmente, produtos do casamento da "conscientização" (wokeness) e da interseccionalidade – o conjunto de traços interligados que, desde o nascimento, privilegia os homens brancos heterossexuais, que hoje tentam expiar sua culpa.

A geração Z, que os campus universitários de todo o país despejam em massa no mercado de trabalho, é prisioneira desse fenômeno: na verdade, ela é escrava da política identitária politicamente correta. E, mais uma vez, com zero potencial revolucionário.

Compare-se isso, mais uma vez, aos imensos sacrifícios políticos dos Black Panthers. E também a Angela Davis que, já então um ícone pop, tornou-se a mais famosa prisioneira política da história americana. Aretha Franklin, ao se oferecer para pagar a fiança de Davis, pronunciou uma frase que ficou famosa: "Fui encarcerada por perturbar a paz, e sei que você tem que perturbar a paz quando não há paz para você".

Elaine Brown: "Eu sei o que era o BPP (o Partido Black Panther). Sei das vidas que perdemos, da luta que travamos, dos esforços que envidamos, dos ataques que sofremos da polícia e do governo – sei de tudo isso. Mas não sei o que é o Black Lives Matter".

Se o Black Lives Matter é intrinsecamente racista, ou mesmo inerentemente violento, é uma questão aberta a debate.

Pode-se discutir também se a genuflexão, agora um ritual praticado rotineiramente por políticos (ataviados com echarpes kente, de Gana), policiais e corporações, realmente ameaça as fundações do Império.

Noam Chomsky já se aventurou a dizer que a onda de protestos, até agora, tem zero de articulação política – e precisa urgentemente de um direcionamento estratégico que vá muito além da óbvia revolta contra a brutalidade da polícia.

Os protestos estão arrefecendo exatamente no momento em que a Comuna desponta.

Dependendo da maneira como os acontecimentos irão evoluir, ela poderá representar um sério problema para a dupla Trump/Barr. O Presidente simplesmente não pode permitir que uma revolução colorida se desenvolva ativamente na área central de uma das maiores cidades dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, ele é impotente, como autoridade federal, para dissolver a Comuna.

O que a Casa Branca pode fazer é convocar suas próprias unidades de contra-insurgência, na forma de milícias de supremacistas brancos armados até os dentes, ir para a ofensiva e esmagar as já frágeis linhas de fornecimento da turma da conscientização + interseccionalidade.

O movimento Occupy, afinal, dominou áreas de importância-chave em mais de 60 cidades norte-americanas durante meses, para então se dissolver no éter.

Além disso, o Deep State, em seus jogos de guerra, já testou inúmeros cenários para lidar com situações de cerco muito mais complexas que a Comuna.

O que quer que venha a acontecer a seguir, um vetor de importância crucial não irá mudar. Um estado de insurreição permanente só beneficia a plutocracia dos 0,00001%, refastelada em seus confortáveis esconderijos, enquanto o populacho ateia fogo na noite.

15/Junho/2020
[*] Jornalista.

O original encontra-se em Strategic Culture
e a tradução de Patricia Zimbres em www.brasil247.com/...

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/eua/escobar_15jun20.html

Jerónimo de Sousa: “O povo português na sua esmagadora maioria não é racista”

 

Em entrevista à TSF, o secretário-geral do PCP procura não valorizar demasiado o tema: “Eu não digo que não exista aqui ou acolá preconceito e que manifestações de racismo não existam. Mas transformar isto na grande questão nacional, transformar isto com uma verdade imensa, nós discordamos.”

Há 16 anos como secretário-geral do Partido Comunista Português, continua sem abrir o jogo sobre a sua continuidade, apesar de reafirmar que se sente bem de saúde. Em entrevista à TSF, Jerónimo de Sousa admite viabilizar o Orçamento Suplementar na generalidade, mas não se compromete com a votação final. E aborda ainda a notícia da semana, de que o Novo Banco pode vir a exigir mais dinheiro ao Estado, ainda este ano, por causa da pandemia do novo coronavírus.

Leia mais em TSF

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/16/jeronimo-de-sousa-o-povo-portugues-na-sua-esmagadora-maioria-nao-e-racista/

'Não basta não ser racista, temos que ser antirracistas', afirma presidente alemão

Presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, durante evento em Munique
© AP Photo / Jens Meyer

O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier instruiu seus compatriotas a eliminar todo o fanatismo subconsciente, real ou imaginário, declarando que a nação deve dar as mãos contra o racismo.

Em comentários televisionados nesta terça-feira (16), Steinmeier adotou uma postura um tanto inflexível sobre como garantir a igualdade na Alemanha.

"Não, não basta não ser racista. Temos que ser antirracistas! O racismo exige tomar uma contraposição, contra-fala, ação, crítica e - talvez o mais difícil - autocrítica, autoexame", proclamou.

O presidente alemão passou a pontificar que "o antirracismo deve ser aprendido, praticado e vivido".

Cidades da Alemanha já viram grandes manifestações antirracismo inspiradas no movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre), que tiveram início nos EUA. Os comentários de Steinmeier parecem sugerir que ele deseja ver mais desses tipos de ações proativas e vocais contra o racismo.

Manifestantes se reúnem em Paris para protestar contra o racismo após a morte de George Floyd, homem negro morto pela polícia nos EUA.

© AP Photo / Thibault Camus
Manifestantes se reúnem em Paris para protestar contra o racismo após a morte de George Floyd, homem negro morto pela polícia nos EUA.

O presidente alemão está longe de ser o único líder mundial a mostrar apoio militante à campanha global destinada a erradicar o racismo em todas as suas formas.

No início de junho, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau se ajoelhou em solidariedade aos manifestantes do Black Lives Matter e até declarou que a discriminação no Canadá é "uma realidade vivida para muitos de nossos concidadãos".

Sentimentos semelhantes foram expressos por líderes europeus, além de governadores e prefeitos dos EUA em todo o país. Enquanto segue sendo um objetivo nobre, o "autoexame" em algumas partes do mundo já chegou a extremos, de filmes a estátuas, sendo alvo por suas conotações racistas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020061615717643-nao-basta-nao-ser-racista-temos-que-ser-antirracistas-afirma-presidente-alemao/

Polícia bloqueia marcha contra o racismo em Paris e protesto termina em violência

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DaRádio França Internacional - Milhares de pessoas saíram às ruas da França neste sábado (13) para protestar contra o racismo e as violências policiais. Em Paris, militantes se reuniram na Praça da República, centro da capital francesa, mas não puderam deixar o local para a realização de uma marcha devido a um bloqueio policial. Violências entre manifestantes e a polícia foram registradas no final do ato.

Paris, Lyon, Bordeaux: milhares de manifestantes participaram de mobilizações promovidas por organizações de direitos humanos e o movimento negro da França.

Na capital francesa, cerca de 15 mil pessoas se concentraram na Praça da República no início da tarde, após convocação do Comitê Adama Traoré, jovem morto pela polícia em 2016. Os participantes do ato pretendiam realizar uma marcha até a Praça da Opéra, um percurso de cerca de 2,5 quilômetros pelo centro de Paris. No entanto, a polícia cercou as ruas em torno do ponto de partida do cortejo, impedindo que os manifestantes pudessem circular pelas ruas em direção ao destino previsto.

Para Jean-Luc Mélenchon, líder do partido da esquerda radical França Insubmissa, a atitude da polícia foi "odiosa". "É uma maneira de incentivar um clima pesado na França", afirmou, apelando às autoridades que permitissem as pessoas se deslocar.

O Ministério do Interior indicou que a marcha não foi declarada e que, devido à pandemia de coronavírus, reuniões públicas de mais de dez pessoas estão proibidas. No entanto, Assa Traoré, líder do Comitê Adama Traoré e irmã do jovem morto pela polícia em 2016, afirmou que as autoridades foram informadas sobre o trajeto do cortejo.

Morte de Adama Traoré

 

A militante discursou na Praça da República, convidando o público a "denunciar a recusa da justiça" em apontar os culpados pela morte do irmão, além a "a violência social, racial e policial". A jovem também exigiu uma nova investigação sobre os policiais envolvidos no caso. Ninguém foi responsabilizado pela morte de Adama Traoré até hoje.

Na multidão, jovens utilizavam camisetas pretas com a mensagem: "Justiça". Manifestantes carregavam cartazes com frases como "Enquanto não tivermos justiça, vocês não terão paz" ou "Queremos ser a última geração a protestar contra o racismo".

No final da tarde, muitos manifestantes desistiram de marchar e deixaram a Praça da República pelos poucos acessos permitidos pelos policiais. Centenas se reuniram em torno de um palanque com carro de som organizado pelo Comitê Adama Traoré e continuaram o ato de forma pacífica.

 

Na insistência de alguns manifestantes em passar pelas ruas bloqueadas, a polícia os cercou e atirou bombas de gás lacrimogênio para dispersá-los. Alguns reagiram atirando garrafas e pedras e confrontos foram registrados nas últimas horas da manifestação.

No início da noite, quase cinco horas depois do início da mobilização, um grupo de black blocs vandalizou a vitrine de uma loja de telefonia nos arredores da Praça da República. No mesmo momento, o Comitê Adama Traoré pediu que os manifestantes pacíficos deixassem o local e finalizou o evento para que a manifestação não fosse associada às violências.

Outros atos pela França

Em Bordeaux, no oeste do país, cerca de 500 pessoas desfilaram em um clima tranquilo. Em Lyon, no centro, cerca de dois mil manifestantes exigiram "verdade e justiça", gritando o nome de "Mehdi, Bilal e Wissam", jovens mortos pela polícia na região.

Revoltados por serem acusados de racistas, policiais também protestaram em várias cidades francesas na sexta-feira (12). Frédéric Lagache, do sindicato de polícia Alliance, afirma que os membros das forças de segurança estão "magoados e tiveram sua honra ferida". Segundo ele, os policiais merecem ser recebidos pelo presidente francês, Emmanuel Macron.

O chefe de Estado realizará um pronunciamento no domingo (14) em cadeia nacional de rádio e televisão e deve se pronunciar sobre a questão. A revolta dos policiais se concentra principalmente na figura do ministro do Interior, Christophe Castaner, acusado de ter "abandonado" a categoria. Na semana passada, ele anunciou que a polêmica técnica chamada de "estrangulamento", para imobilização por asfixiamento de um indivíduo durante uma intervenção, não poderá mais ser utilizada, irritando ainda mais os policiais.

Ministério Público acusa 27 homens de crimes raciais e tentativa de homicídio

 

O Ministério Público (MP) concluiu uma investigação a um grupo de 27 homens, alegadamente ligados aos Hammerskins, por crimes raciais e tentativa de homicídio qualificado.

 

Segundo o jornal Público, o Ministério Público requereu o julgamento de 27 arguidos suspeitos da prática de crimes de discriminação racial, religiosa e sexual e também de tentativa de homicídio qualificado.

Os suspeitos estão ainda indiciados pela prática de ofensas à integridade física qualificada, incitamento à violência, dano com violência, detenção de arma proibida, roubo, tráfico de estupefacientes e tráfico de armas”, apurou o mesmo jornal.

De acordo com o MP, os arguidos “agiram com o propósito de pertencer a um grupo que exaltava a superioridade da raça branca“. Ao integrá-lo, os suspeitos “deveriam desenvolver ações violentas contra as minorias raciais, assim como contra todos aqueles que tivessem orientações sexuais e políticas diferentes das suas”.

A atividade do grupo terá começado em junho de 2015 e, segundo o matutino, duas pessoas foram gravemente feridas com facas e outros objetos cortantes. O MP referiu que as partes do corpo atingidas – abdómen e tórax – “eram aptas a determinar as suas mortes, o que apenas não se verificou por razões alheias às vontades dos agressores”.

De acordo com a TVI 24, os suspeitos estão, alegadamente, ligados aos Hammerskins, um grupo de extrema-direita e supremacia branca que tem como alvo negros, muçulmanos, homossexuais e comunistas.

Ao que o canal televisivo apurou, alguns dos acusados já são conhecidos da justiça, sendo que entre estes se encontram arguidos que estiveram envolvidos no homicídio do cabo-verdiano Alcindo Monteiro, em 1995.

Segundo o semanário Expresso, o caso estava a ser investigado há cerca de quatro anos e todos os arguidos, nos quais se inclui um guarda prisional, apesar de terem sido detidos pela PJ, foram libertados pelo juiz de instrução criminal.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/mp-acusa-27-homens-crimes-raciais-329828

Em Paris, polícia usa gás lacrimogêneo em protesto contra o racismo e violência policial (FOTOS)

Em Paris, policiais se agrupam em meio a protestos contra a violência policial e o racismo, em 13 de junho de 2020.
© REUTERS / Benoit Tessier

A polícia francesa usou gás lacrimogêneo para lidar com um protesto no centro de Paris. A manifestação protesta contra o racismo e a violência policial, informou um correspondente da Sputnik.

A manifestação começou por volta das 14h30 da tarde a hora local (9h30 no horário de Brasília) na Praça da República, região central de Paris. Os manifestantes deveriam marchar em direção ao Palácio Garnier, mas os policiais isolaram a área. Segundo publicou o jornal Le Monde, cerca de 15 mil pessoas participam da manifestação.

A uma certa altura da manifestação, um grupo de manifestantes vestindo roupas pretas começou a atirar garrafas de vidro, latas com tinta e outros objetos contra a polícia, que bloqueava a rua. Os manifestantes atearam fogo a uma pilha de lixo na rua e parte da praça foi envolvida em fumaça.

Em Paris, manifestantes protestam em 13 de junho de 2020 contra o racismo e a violência policial, em solidariedade aos protestos nos EUA contra o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis.

© REUTERS / Benoit Tessier
Em Paris, manifestantes protestam em 13 de junho de 2020 contra o racismo e a violência policial, em solidariedade aos protestos nos EUA contra o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis.

Depois que a polícia passou a usar gás lacrimogêneo a multidão se espalhou brevemente, mas assim que o gás se dispersou, os manifestantes voltaram. Alguns deles foram vistos tentando quebrar janelas de uma loja de operadora de celular nas proximidades.

Em Paris, um manifestante é detido pela polícia durante protesto contra a violência policial e o racismo, em 13 de junho de 2020.

© REUTERS / Benoit Tessier
Em Paris, um manifestante é detido pela polícia durante protesto contra a violência policial e o racismo, em 13 de junho de 2020.

Cidades francesas como Marselha e Lyon, que têm grandes populações negras, também têm manifestações semelhantes marcadas neste fim de semana. Diversas cidades europeias têm recebido manifestações semelhantes nas últimas duas semanas, incluindo capitais como Londres, Berlim e Madrid.

Uma onda de protestos contra o racismo se espalhou pelos Estados Unidos e diversos outros países após o assassinato de George Floyd. O homem negro foi morto sob custódia policial na cidade norte-americana de Minneapolis em 25 de maio.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020061315703723-em-paris-policia-usa-gas-lacrimogeneo-em-protesto-contra-o-racismo-e-violencia-policial-fotos/

Polícia acusado de matar George Floyd vai ganhar 1 milhão de dólares

Este artigo está disponível em: English

Derek Chauvin, ex-polícia acusado de matar George Floyd, mesmo que seja condenado, segundo informações da CNN americana, pode receber mais de 1 milhão de dólares durante os seus anos de reforma.

Desde o mês passado, Chauvin é alvo de fúria nacional após surgir imagens dele ajoelhado no pescoço de Floyd, que repetia: “não consigo respirar”.

Após o ocorrido, ele foi demitido e, em meio a protestos nacionais, acabou sendo acusado de assassinato em segundo grau. Três outros agentes envolvidos na abordagem a Floyd também foram demitidos e enfrentam acusações criminais.

Leia mais em Istoé

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/13/policia-acusado-de-matar-george-floyd-vai-ganhar-1-milhao-de-dolares/

Pepe Escobar: movimento Black Lives Matter não ameaça o sistema

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247 -O jornalista Pepe Escobar conversou com a TV 247 sobre o movimento antirracista “Black Lives Matter” e afirmou que a organização não é uma ameaça ao sistema estadunidense porque ele faz parte do sistema.

Pepe Escobar explicou que empresas capitalistas e sob posse das elites financiam o movimento “BLM” e que, portanto, não deixariam os atos se voltarem contra eles. Ele disse também que o partido Democrata norte-americano se apropriou da imagem do Black Lives Matter e atualmente faz uso político da “marca”.

“Se você fala em ‘Black Lives Matter’, você fala em Nancy Pelosi, você fala em liderança dos Democratas no Congresso. Que organização é capaz de fazer a prefeitura da capital federal, Washington, deixar que você coloque o slogan da sua organização estampado no asfalto em uma rua pública, em dois quarteirões, apontando para a Casa Branca? Isso colocou o Black Lives Matter como uma das grandes armas do sistema e umad as grandes armas de uma revolução colorida a longo prazo. O Objetivo principal dos Democratas é usar o Black Lives Matter para avançar a revolução que eles não conseguiram antes”, esclareceu.

 

“Esses detalhes financeiros é uma coisa que a garotada que está na rua com uma placa ‘Black Lives Matter’ não sabem, e eles não sabem que eles estão sendo instrumentalizados”, completou.

 

 

As pessoas mais preconceituosas racialmente são as que tendem a achar-se menos racistas

 

As pessoas mais preconceituosas racialmente são as que tendem a achar-se menos racistas, conclui uma equipa de investigadores.

 

O efeito Dunning-Kruger é um fenómeno que leva indivíduos que têm pouco conhecimento sobre um assunto a acreditarem saber mais do que outros melhor preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos.

Uma equipa de investigadores descobriu que o efeito Dunning-Kruger pode também aplicar-se a atitudes de preconceito. Os autores do estudo publicadoem agosto na revista científica Personality and Individual Differences descobriram que as pessoas mais preconceituosas em relação à raça são as que tendem a achar-se menos racistas em comparação com os outros.

“Em geral, estou interessado em saber como o preconceito funciona e por que às vezes é difícil fazer com que as pessoas se tornem menos preconceituosas. Este estudo abriu uma janela para entender por que algumas pessoas não sabem que são preconceituosas e por que essas pessoas podem ser particularmente difíceis de alcançar”, disse o autor do estudo, Keon West.

Foi pedido aos 307 participantes do estudo que avaliassem o quão igualitários acreditam que são em relação à raça e sexo em comparação com as outras pessoas. Os voluntários também fizeram testes de avaliação implícita para os investigadores medirem eventuais preconceitos.

De acordo com o PsyPost, os investigadores descobriram que aqueles que relataram sentir-se mais desfavoráveis em relação às pessoas negras também foram os que mais sobrestimaramo seu igualitarismo racial.

“Você não sabe o quanto é preconceituoso. As pessoas mais igualitárias num determinado grupo tendem a considerar-se acima da média”, disse West ao PsyPost.

“Mas, infelizmente, as pessoas menos igualitárias do grupo também pensam que estão acima da média. Por outras palavras, mesmo as pessoas mais preconceituosas tendem a pensar que são menos preconceituosas do que a média”, acrescentou.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/pessoas-preconceituosas-menos-racistas-329190

E agora racismo e xenofobia… mas a sério

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Enquanto algum radicalismo anti-racista de esquerda se entretém a denunciar o esclavagismo do Padre António Vieira e de outros portugueses de antanho, culpados do crime de não pensarem e agirem, no século XVII, como cidadãos esclarecidos do século XXI, a extrema-direita racista e xenófoba não perde tempo com baboseiras.

Os grupos ditos “identitários” vão conquistando espaço nas paredes em branco de escolas secundárias e outros edifícios públicos, procurando a partir daí conquistar, também, apoiantes para a sua causa. Os jovens são um público-alvo especialmente visado por estas acções que conjugam, na velha tradição do fascismo europeu, a intimidação e a propaganda.

Querem, aparentemente, um país só de gente branca, expulsando os “pretos”, mas também os “árabes” daqui para fora. “Para a terra deles”, presume-se. Embora, é claro, a terra deles seja a nossa terra, pois a grande maioria dos que integram as minorias étnicas existentes no país tenham nascido em Portugal e sejam cidadãos portugueses.

Fica uma selecção de fotos, a maioria delas do exterior de escolas secundárias de Lisboa, e todas elas muito recentes, que ontem recolhi numa breve volta pelo Twitter…

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No país sem racismo

Até se lhe embrulhava o estômago» » A Terceira Noite

No país onde racismo não existe profanam-se estátuas? 
Rui Rio arrumou definitivamente o assunto afirmando que não existe racismo em Portugal. Aliás, nem se percebe a razão que terá levado tanta gente, apesar da pandemia, a ousar sair para a rua. Se não há racismo, como o líder do maior partido da oposição afirma, o que estava toda aquela gente a fazer nas ruas?
A estátua do Padre Vieira foi profanada. A tal, erigida em 2017, e que mostra o Padre Vieira, enorme, com pequenos índios a seus pés. Caiu o Carmo e a Trindade precisamente no país onde não há racismo.
Não creio que a profanação de estátuas seja o caminho para o que quer que seja. Defendo que em democracia o diálogo é tudo. Prefiro a troca de ideias a estátuas profanadas. E ainda assim compreendo o que está subjacente a algumas atitudes rapidamente apelidadas de "vandalismo". 
O que sei é precisamente aquilo que Rui Rio não sabe, ou não quer saber: existe racismo em Portugal; não discutimos de forma aberta o nosso passado e quando o fazemos preferimos as cores mais bonitas para o ilustrar, deixando de lado temas que objectivamente poucos querem discutir; nada se fará de construtivo enquanto se negar esse passado e um presente onde o racismo indiscutivelmente deixa as suas indeléveis marcas.

Ver o original em 'Triunfo da Razão' na seguinte ligação:

http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2020/06/no-pais-sem-racismo.html

URAP participou em “Ato Público de Solidariedade com o povo dos EUA! Pela justiça e igualdade social”

Lisboa Martim Moniz s“O racismo não é uma opinião, é um crime, um atentado à democracia e à liberdade”, afirmou Francisco Canelas, da direcção da URAP, que representou a organização no “Ato Público de Solidariedade com o povo dos EUA! Pela justiça e igualdade social” promovido pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC).

“O combate ao racismo e à discriminação é imperioso, tanto nos Estados Unidos como em Portugal, e em todos os países do mundo”, disse, acrescentando que em Portugal, ao arrepio da Constituição, há muitos casos de violência e racismo por parte de forças policiais, tal como o caso do cidadão norte-americano George Floyd “como foram exemplo as recentes situações na Amadora, em eventos desportivos, a presença de criminosos racistas em programas de ampla audiência e aberta promoção de ideais racistas por parte dos mesmos”.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/37z9uuJ

Quem matou um ucraniano no aeroporto de Lisboa, Dr. Rio?

Expresso | Rui Rio vs André Silva. O duelo entre o...

Rui Rio tem aquele ar bonacheirão que gera uma certa empatia. Ele pega nas palavras e utiliza-as de coração nas mãos. Diz coisas que um político em geral não diz. Percebe-se que não preenche o chamado figurino made in PPD/PSD das últimas décadas, daí a intestina guerra que lhe movem.

O homem pragmático, conservador tem tendência a ter de si uma ideia de que o importante é gerir o status quosem ondas. É avesso a sobressaltos. Não é um homem inquieto, mesmo quando Montenegro e tutti quanti lhe fazem a vida negra.

Foi Secretário-Geral do PSD quando Marcelo era Presidente. Marcelo, o irrequieto e ambicioso, Rio o pacato, o burocrata a guardar a estrutura das tolices de Marcelo sempre pronta a mergulhar somewhere .

Rio na entrevista dada à TVI no dia 8 deste mês entre o politicamente correto e o seu conservadorismo/autoritarismo largou a embraiagem e seguiu em frente – indignado com as manifestações antirracistas, se fosse ele que mandasse proibia tais manifestações. George Floyd foi assassinado nos EUA, porquê manifestações em Portugal? Para a mente de Rio nada o justificava… é a sua alma.

Rio falou com o coração e daí o seu espírito conservador não poder alcançar os sentimentos de indignidade perante aquele horror. Isto de manifestações é mais da esquerda do que do conformismo que ainda abraça uma imensa percentagem dos portugueses. Racismo na mente de Rio já não existe porque viola a lei. Esqueceu-se que um ucraniano foi morto à pancada no aeroporto de Lisboa dentro do SEF por polícias.

Assumiu que proibiria as manifestações, se mandasse. Só faltou dizer que enviava a tropa de choque. Em Portugal as manifestações não precisam de autorização, esqueceu-se.

No domínio da economia ele também não passa da iniciativa privada. O risco, a alma do capitalismo, é tempo passado. O Estado é gastador se “desperdiçar” dinheiro em serviços públicos robustos. Mas já não o é se socorrer os privados, investir milhares de milhões e voltar entregar a quem não é capaz de gerir empresas e bancos. A superioridade da gestão privada em muitos casos assenta no princípio que o Estado é a ambulância para a salvação, custe o que custar. Banqueiros e certos empresários façam o que fizerem, quem paga é o mexilhão. A imoralidade roça a indignidade – os cortes passados das pensões em contraste com os mais de vinte mil milhões para o sistema financeiro.

Rio chegou a líder do PSD, um partido que se foi tornando cada vez mais direitista onde muito do conservadorismo da pequena e média burguesia, em certas circunstâncias, se sente cómoda.

Rio gostaria que a política fosse um universo no qual haveria um chefe que ditaria os comportamentos de todos, e tudo conforme a lei e as próprias Escrituras. O que mais o aflige são os sobressaltos. Ele não nasceu para eles.

O PSD já conheceu de tudo, desde Sá Carneiro destemperado, passando pelo Homem que nunca se enganava, pelo alcoviteiro Rebelo de Sousa, por um ex-maoista, sem esquecer o que atualmente na SIC garantiu que o BES era seguríssimo e que costumava jogar a sueca com Eurico de Melo, e que dá cartas sem contraditório naquela estação.

Rio tem aquela espécie de sorriso permanente naif. É um homem descansado que não entende que se façam manifestações contra o racismo em tempo de pandemia, como se nos EUA não houvesse pandemia. Uma manifestação é uma aflição. Rio há muito comprou a ladainha de que em Portugal não há racismo, mesmo com escândalos como o do homicídio de um ucraniano no aeroporto de Lisboa. Ele vê o que imagina, o mundo conforme à conformidade.

 

https://www.publico.pt/2020/06/12/opiniao/opiniao/matou-ucraniano-aeroporto-lisboa-dr-rio-1920252

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/06/12/quem-matou-um-ucraniano-no-aeroporto-de-lisboa-dr-rio/

Segregação dos ciganos: uma realidade europeia

«A segregação em contexto escolar de crianças ciganas continua em níveis elevados em alguns países da União Europeia (UE), mas Portugal apresenta valores significativamente mais baixos, de acordo com dados da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA), divulgados esta quinta-feira.

Em nove países analisados, Portugal é o que apresenta números indicadores de segregação mais baixos em termos globais: apenas 17% das crianças ciganas que vivem em bairros de população cigana afirmam ter turmas maioritariamente da sua etnia, uma percentagem que baixa para os 10% para aquelas que vivem em localidades de população mista.

A envolvente, no entanto, não deve ser usada como desculpa para constituir turmas exclusivamente ciganas, defende a FRA, que sugere que as crianças podem ser transportadas para outras escolas onde tenham oportunidade de frequentar um ambiente mais diverso.

“Segregar crianças e jovens em escolas e outros ambientes educativos com base na sua etnicidade é uma séria violação dos direitos fundamentais. Impede os jovens oriundos de minorias, como os ciganos, de aceder à mesma educação que todos os outros, perpetuando a pobreza e a exclusão social”, lê-se no relatório anual da FRA, que analisa os progressos ao nível dos direitos fundamentais na União Europeia.

Sobre a segregação em ambiente escolar, o relatório da FRA refere que a separação das crianças ciganas é muitas vezes justificada com as suas “necessidades especiais” e mencionada como uma “inevitabilidade” da sua envolvente habitacional, e afirma que a segregação não acontece apenas com a formação de turmas exclusivamente de ciganos, ou a colocação em escolas maioritariamente frequentadas por crianças ciganas, mas também no encaminhamento para escolas específicas para alunos com necessidades especiais.

Portugal é citado ao nível das políticas educativas, com uma referência às bolsas de estudo para alunos ciganos no ensino secundário, ao abrigo do Programa Escolhas, de apoio à integração de crianças e jovens oriundas de contextos socioeconómicos desfavorecidos, visando a igualdade de oportunidades e a coesão social.

O relatório aponta ainda Portugal como um dos países onde a população cigana vive em piores condições de habitabilidade, segregada e sem acesso a serviços essenciais como água potável ou electricidade, acima dos 50% quando os bairros ou localidades onde vivem são total ou maioritariamente habitados por pessoas de etnia cigana.» (in Público)

Os problemas envolvendo a integração das comunidades ciganas são complexos. Envolvem um conjunto de poderosos factores económicos, sociais e, acima de tudo, culturais, que se reproduzem ao longo de sucessivas gerações, perpetuando a segregação e a pobreza.

O estudo da FRA faz uma análise muito completa e pertinente desta problemática, escorada em dados estatísticos referentes a um grupo de países europeus, Portugal incluído, onde as comunidades ciganas continuam a ter uma expressão significativa.

E há uma realidade que, sendo referida no texto, graficamente se torna ainda mais evidente: embora haja ainda muito a fazer, já conseguimos combater razoavelmente a segregação em meio escolar. A grande maioria das crianças desta etnia não andam em escolas ou em turmas “para ciganos”. Neste ponto, destacamo-nos positivamente dos outros países do estudo.A inclusão é uma realidade, e se nem sempre dá os resultados esperados é porque deveria ser acompanhada por outras medidas que não estão a ser tomadas. 

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Contudo, já não se pode dizer o mesmo das políticas de habitação: viver em bairros sociais onde a maior parte dos vizinhos são ciganos continua a ser uma situação muito comum em Portugal. Os erros cometidos nas décadas de 70 e 80, com políticas habitacionais que promoveram a criação de autênticos guetos para famílias carenciadas tardam em ser reparados. E aqui o destaque, na comparação internacional, faz-se pela negativa.

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Apesar das dificuldades, na integração das minorias étnicas a escola pública continua a liderar a mudança cultural e social urgente e absolutamente necessária. E que outros sectores do Estado e da sociedade insistem em desacompanhar.

 

O racismo vem no pacote do capitalismo

O assassínio de George Floyd coincide com uma tensão social acumulada, e não apenas nos Estados Unidos, devido à estratégia de confinamento e de descalabro económico associada à pandemia de COVID-19.

Um manifestante empunha uma bandeira nacional invertida, um sinal de grande aflição e pedido de ajuda, perto de um edifício em chamas, em Minneapolis, estado do Minnesota, EUA, durante os protestos pela morte de George FloydCréditosJulio Cortez / AP Photo

A explosão social em curso nos Estados Unidos na sequência da execução policial e extrajudicial de George Floyd não é nova num país que nasceu do massacre organizado e sistemáticos dos povos indígenas do seu território. É a revolta de oprimidos, explorados, discriminados e excluídos por um sistema que não sabe – nem pode – funcionar de outra maneira: com base na violência e na intimidação.

A circunstância de o martírio de Floyd ter acontecido praticamente em directo, tal a velocidade de divulgação que o vídeo do crime adquiriu nas redes sociais e na internet em geral, tornou este exemplo de uma arbitrariedade policial que está na génese das corporações de «segurança» dos Estados Unidos ainda mais dramático que outros do mesmo género distribuídos ao longo das décadas.

Acresce que o assassínio de George Floyd coincide com uma tensão social acumulada, e não apenas nos Estados Unidos, devido à estratégia de confinamento e de descalabro económico associada à pandemia de COVID-19 e cujos méritos e deméritos ainda terão um dia de ser avaliados com distanciamento histórico – se houver condições de liberdade e vontade para isso. A explosão social é uma consequência da agudização das circunstâncias, adquire talvez uma expressão quantitativa e de intensidade directamente proporcional à gravidade dos acontecimentos mas, previsivelmente, ir-se-á extinguindo não tanto como consequência da barbárie da repressão inerente ao regime mas pela própria falta de organização, da carência de objectivos concretos, das infiltrações policiais violentas e provocatórias e do assalto oportunista do aparelho do Partido Democrático ao controlo dos movimentos. O mesmo partido/regime que dias antes aprovara na Câmara dos Representantes, onde tem a maioria, uma lei autorizando o reforço dos poderes policiais.

Não sendo ainda certo, apesar da gravidade da situação, que assistamos à queda do fascista de turno à cabeça do império.

O racismo

Seguindo o guião habitual, que cataloga as coisas pela rama e as formata para fácil consumo das grandes audiências, a comunicação social dominante define genericamente os acontecimentos como manifestações contra o racismo. Como se o racismo fosse um fenómeno isolado, sem contexto, e a densidade desta revolta fosse explicada unicamente pelo facto de um polícia branco ter esmagado o pescoço de um cidadão negro – aliás no país onde, como está provado, o regime mandou matar Martin Luther King. Agora «somos todos Floyd», como já fomos outras vítimas e instituições agredidas, mas improvavelmente a generosidade e a solidariedade irão mais uma vez dar em nada para que tudo continue na mesma e a sociedade em que vivemos permaneça intrinsecamente racista, xenófoba, discriminatória.

Porque é de sua natureza; porque essa é a essência do capitalismo, sobretudo depois de catapultado para um neoliberalismo selvagem e em estado de crise.

Não há maneira de combater eficazmente o racismo sem atacar organizadamente o capitalismo; assim como não é possível lutar pela paz ou actuar eficientemente contra as alterações climáticas sem agir contra quem faz a guerra ou destrói o planeta: o capitalismo.

Racismo, violência policial, xenofobia, homofobia, discriminação cultural, colonialismo, terrorismo, guerra, destruição do meio ambiente são todos ramos da mesma árvore; são inerentes a um sistema que continua no caminho da globalização e no qual as emergências de nacionalismos e fascismos correspondem a necessidades cada vez mais prementes de assegurar a sobrevivência do próprio capitalismo.

Entranhado na sociedade

O racismo está entranhado na história dos Estados Unidos da América e na sociedade capitalista em geral. Por isso, as declarações de abolição ou as proclamações sobre a erradicação ficam muito aquém do combate efectivo a uma tal aberração.

Nos Estados Unidos a discriminação racial foi tecnicamente abolida na segunda metade do século passado, mas o racismo permanece como pilar essencial da sociedade. As comunidades afro-americana e latina são as principais vítimas das desigualdades e do desequilíbrio social necessário ao funcionamento do sistema de máximo lucro. Os mecanismos são completos e podem expressar-se até de maneira perversa em termos de cor da pele ou de origens. O presidente Barack Obama, um negro, não contribuiu para aliviar a sociedade norte-americana da sua carga racista e discriminatória. Organizou guerras de índole colonial e imperial por razões discriminatórias ditas civilizacionais para mascarar simplesmente o acto de saquear os mais fracos. Nos seus mandatos a violência policial continuou a assassinar negros como sempre fez em quaisquer administrações, democráticas ou republicanas.

E temos o caso do famoso senador fascista Marco Rubio, um latino de origem cubana que está sempre na linha da frente entre os carrascos dos povos da América Latina – que o digam os de Cuba e os da Venezuela. O racismo, a xenofobia, a discriminação vão muito além da cor da pele. Aliás o capitalismo não olha propriamente para a cor da pele dos explorados, desde que o sejam.

O assassínio bárbaro de George Floyd foi o principal detonador da tensão acumulada pelo inferno social criado por 38 milhões de novos desempregados nos Estados Unidos em apenas algumas semanas, pelo facto de a trágica gestão da pandemia ter atingido principalmente os mais vulneráveis e os mais necessitados, o que significa as comunidades minoritárias afro-americana e latina. O racismo abriu o caminho de uma revolta social que, no limite, desestabilizaria o próprio sistema se este, na sua versão bipartidária totalitária, não dispusesse de um impressionante manancial de recursos para lhe fazer frente. E passará pela cabeça de alguém, olhando as encenações promovidas pelo Partido Democrático em honra de George Floyd, que uma eventual administração de Joe Biden em 2021 iria combater o racismo e travar os assassínios por violência policial?

Versão europeia

Demonstrando as afinidades práticas, ainda que nem sempre concordantes no plano do discurso, com o comportamento do regime de Washington, as instituições europeias não tiveram ainda uma palavra sobre a execução de George Floyd. Não basta declarar-se contra a pena de morte: é preciso sê-lo.

Confirmando ainda que não existe qualquer sintonia entre os órgãos instalados em Bruxelas e as populações europeias têm-se multiplicado manifestações multifacetadas contra o racismo e de repúdio pelo assassínio de Floyd.

O facto a realçar neste quadro é que não seria necessário «importar» casos de racismo e de violência dos Estados Unidos para motivar protestos na Europa. Do lado de cá do Atlântico há razões de sobra para repudiar racismo, xenofobia, discriminação, colonialismo e perseguições contra minorias sem necessidade de ir buscar inspiração pontual além-fronteiras.

O tratamento institucional da União Europeia em relação aos imigrantes, refugiados e os mais desfavorecidos em geral deveria suscitar acção e revolta constantes. A Europa é um continente racista, colonialista, que usa e abusa, com discriminação e violência, do eurocentrismo cultural e civilizacional.

Os muros, barreiras e cercas contra refugiados e imigrantes, as vergonhosas discussões entre governos sobre quotas de admissão de pessoas fugindo de guerras, quantas delas provocadas por países e entidades europeias, não suscitam socialmente a revolta que deveriam merecer.

Passam em claro, como parte do velho normal, sucessivos casos de violência policial através da Europa contra bairros periféricos de grandes cidades, para onde são empurradas as comunidades marginalizadas pelo aparelho económico triturador – uma discriminação institucionalizada que nem sempre, mas também, se orienta pela cor da pele, a etnia, a nacionalidade da família de origem.

Há situações limite, porém, em que a inversão de valores é total. A participação de nações europeias e de instituições como a União Europeia e a NATO em guerras de agressão contra países em estados inferiores de desenvolvimento, contra povos vulneráveis, são exemplos maiores de violência discriminatória. No entanto, escassas são as manifestações populares massivas de repúdio e revolta. Pelo contrário, passa bem através da generalidade do tecido social a mensagem construída pelos poderes, incluindo a comunicação cúmplice, de que se trata de actos humanitários, legítimos e de elevado valor civilizacional.

Não se poupam, aliás, os elogios públicos ao envio de tropas europeias para antigas colónias de várias nações do continente com o objectivo de ir ensinar a esses povos, certamente ainda inferiores, que não devem guerrear-se entre si, sobretudo quanto perturbam o normal fluxo de riquezas naturais extorquidas a esses países e suas populações pelos governos que enviam os militares. Eis uma forma de racismo que não é racismo por ser suposto que nações e instituições civilizadas que renegam oficialmente o racismo não pratiquem o racismo.

Praticam, porém, o capitalismo na sua versão mais selvagem. Inevitavelmente, a discriminação, a xenofobia, o racismo estão incluídos no pacote de malfeitorias do sistema, por muito que os praticantes apregoem o contrário

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/o-racismo-vem-no-pacote-do-capitalismo

União Europeia continua a discriminar

A Diretiva para o Tratamento Igualitário é necessária para pôr fim às lacunas que ainda existem na proteção contra discriminação em áreas essenciais como educação e proteção social, defende a Agência Europeia param os Direitos Fundamentais (FRA).

No relatório de 2020, hoje divulgado, a FRA recorda que 2019 foi um ano de renovadas, mas falhadas, tentativas para desbloquear as negociações que levem à implementação da diretiva que foi apresentada pela primeira vez há 11 anos, referindo que “os Estados-membros não conseguiram chegar ao consenso político necessário para adotar este importante instrumento legal para lutar contra a discriminação”.

“O atual quadro legal europeu antidiscriminação protege contra a discriminação com base em crenças ou religião, idade, deficiência ou orientação sexual em matérias como o emprego. Não se aplica a outras áreas como educação, proteção social, saúde ou acesso a bens e serviços, como habitação. Se adotada, a Diretiva para o Tratamento Igualitário iria eliminar essa lacuna”, lê-se no relatório da FRA que avalia os progressos em termos de direitos fundamentais no espaço da União Europeia.

Em matéria de discriminação, Portugal é citado, recordando um estudo feito no país que demonstrou que os casais de homens homossexuais enfrentam “níveis significativos” de discriminação no acesso à habitação, enquanto o tratamento para casais de mulheres lésbicas é o mesmo que o dos casais heterossexuais.

Segregação escolar de crianças ciganas elevada

A segregação em contexto escolar de crianças ciganas continua em níveis elevados em alguns países da União Europeia, mas Portugal apresenta valores significativamente mais baixos, de acordo com dados da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA), hoje divulgados.

Analisando a percentagem de crianças ciganas entre os 6 anos e os 15 anos que frequentam escolas nas quais a maioria dos seus colegas são ciganos, há uma diferença que chega a ser três vezes superior quando as crianças vivem em bairros ou localidades onde a população é completa ou maioritariamente cigana, contra aqueles que vivem em bairros de população mista.

Por exemplo, na Hungria 73% das crianças que vivem em bairros maioritariamente de população cigana dizem que a sua turma reflete essa realidade, com a maioria dos colegas, senão a totalidade, a partilharem a mesma etnia. Já as que vivem em bairros de população mista apenas 22% dizem ter turmas maioritariamente ou completamente da sua etnia.

A Eslováquia e a Bulgária são outros dois países onde os números de segregação são elevados.

Em nove países analisados, Portugal é o que apresenta números indicadores de segregação mais baixos em termos globais: apenas 17% das crianças ciganas que vivem em bairros de população cigana afirmam ter turmas maioritariamente da sua etnia, uma percentagem que baixa para os 10% para aquelas que vivem em localidades de população mista.

A envolvente, no entanto, não deve ser usada como desculpa para constituir turmas exclusivamente ciganas, defende a FRA, que sugere que as crianças podem ser transportadas para outras escolas onde tenham oportunidade de frequentar um ambiente mais diverso.

“Segregar crianças e jovens em escolas e outros ambientes educativos com base na sua etnicidade é uma séria violação dos direitos fundamentais. Impede que jovens oriundos de minorias, como os ciganos, de aceder à mesma educação que todos os outros, perpetuando a pobreza e a exclusão social”, lê-se no relatório anual da FRA, que analisa os progressos ao nível dos direitos fundamentais na União Europeia.

Sobre a segregação em ambiente escolar, o relatório da FRA refere que a separação das crianças ciganas é muitas vezes justificada com as suas “necessidades especiais” e mencionada como uma “inevitabilidade” da sua envolvente habitacional, e afirma que a segregação não acontece apenas com a formação de turmas exclusivamente de ciganos, ou a colocação em escolas maioritariamente frequentadas por crianças ciganas, mas também no encaminhamento para escolas específicas para alunos com necessidades especiais.

Em relação às medidas que os Estados-membros estão a adotar para integrar a comunidade cigana, o relatório sintetiza com “planos e políticas robustos, mas fraca implementação e resultados limitados”, tendo por base o que foi feito em 2019 nos vários países.

Portugal é citado ao nível das políticas educativas, com uma referência às bolsas de estudo para alunos ciganos no ensino secundário, ao abrigo do Programa Escolhas, de apoio à integração de crianças e jovens oriundas de contextos socioeconómicos desfavorecidos, visando a igualdade de oportunidades e a coesão social.

O relatório aponta ainda Portugal como um dos países onde a população cigana vive em piores condições de habitabilidade, segregada e sem acesso a serviços essenciais como água potável ou eletricidade, acima dos 50% quando os bairros ou localidades onde vivem são total ou maioritariamente habitados por pessoas de etnia cigana.

O relatório refere ainda o impacto da segregação na educação no acesso ao emprego e a cuidados de saúde, tipos de segregação mais difíceis de seguir, segundo a FRA.

A agência defende ainda que é necessário recolher informação de forma desagregada, nomeadamente sobre grupos étnicos, para produzir políticas públicas direcionadas e não excluir determinados grupos, como os ciganos, dessas mesmas políticas, sublinhando que aquela que existe é recolhida pela própria FRA nos seus inquéritos.

“Os inquéritos da FRA são particularmente importantes dada a falta de dados oficiais desagregados. Isto coloca desafios ao acompanhamento a políticas e medidas dirigidas à população cigana, em particular sobre educação e habitação”, lê-se no relatório.

Portugal é sobre este tema específico o exemplo apresentado, recordando os “obstáculos nacionais” à inclusão de uma questão sobre origem étnica e racial no Census 2021, por receio de institucionalização de preconceitos e categorias étnicas ou raciais.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/11/uniao-europeia-continua-a-discriminar/

Sem justiça não há paz

Ao surto pandémico sobrepõe-se, nos EUA, uma longa história de racismo, de pobreza e desemprego desproporcional, de violência policial e taxas de encarceramento, de formas de exclusão social e cívica.

Manifestantes, entre os quais o reverendo Greg Drumwright (ao centro) celebram a notícia da acusação, pelo Ministério Público do Minnesota, dos quatro polícias implicados na morte de George Floyd, recebida durante um protesto em 3 de Junho de 2020, em Greensboro, Calorina do Norte, EUA:CréditosTom Baker / MPR News

Os últimos meses nos EUA, à semelhança do resto do mundo, têm sido marcados pela pandemia da Covid-19. Hoje, os EUA lideram o número de mortos por Covid-19 a nível mundial, com mais de 113 mil fatalidades, mais de um quarto do total mundial. A Administração Trump, apesar de avisos e evidências sobre a pandemia e a necessidade de medidas desde o início de Janeiro, tardou até meados de Março para recomendar a prática de distanciamento e confinamento. Um modelo indica que se os avisos tivessem sido acatados e medidas tomadas duas semanas mais cedo, cerca de 83% das mortes poderiam ter sido evitadas, demonstrando que embora a doença esteja a ter um efeito transversal no mundo, a realidade política de cada país tem um efeito significativo sobre o seu impacto. Trump tão pouco pôde evitar aquela que seria talvez a sua maior preocupação: não os efeitos na saúde, mas sim o impacto imediato na economia.

«Um modelo indica que se os avisos tivessem sido acatados e medidas tomadas duas semanas mais cedo, cerca de 83% das mortes poderiam ter sido evitadas1, demonstrando que embora a doença esteja a ter um efeito transversal no mundo, a realidade política de cada país tem um efeito significativo sobre o seu impacto»

O número oficial de desempregados disparou para o valor mais elevado do pós-guerra, mais de 40 milhões; e a taxa efectiva de desemprego deverá estar próxima dos 25%. Mais de 40% de PMEs estão à beira de fecharem. Apesar do pacote (lei CARES) de cerca de 3 biliões de dólares1 aprovado pelo Congresso, de apoio às empresas e trabalhadores, alastram-se as dificuldades das famílias mais pobres para pagarem a suas rendas e assegurarem comida. E enquanto os trabalhadores e pequenas empresas enfrentam dificuldades burocráticas em conseguirem apoio financeiro e subsídio de desemprego, as grandes empresas e multinacionais nadam em benefícios. As grandes empresas não só angariaram cerca de dois terços dos 350 mil milhões de dólares destinados às PME (apenas 5% das PME conseguiu apoios), como os 500 mil milhões que estavam previstos na lei CARES para as grandes empresas foi alavancado pela Reserva Federal, atingindo 4 biliões de dólares. Os bancos privados que geriram as candidaturas das empresas a apoios angariaram mais de 10 mil milhões de dólares só em comissões bancárias, já para não falar nos bancos – como o JPMorgan Chase e Citibank – que cobraram taxas de concierge para ajudarem os seus clientes mais ricos por todo o processo burocrático de candidatura. Enquanto os trabalhadores enfrentam falta de condições de salubridade – nas empresas de distribuição, nas cadeias de restaurantes, ou nas centrais de embalagem de carne – e organizam protestos exigindo melhores condições, as grandes empresas omitem casos de surto e contratam quem combata as tentativas de sindicalização.

O resultado acumulativo é uma vasta transferência de riqueza do Estado para as grandes empresas e grandes fortunas. Entre meados de Março e o início de Junho, quando a economia estagnou e a taxa de desemprego disparou, a bolsa recuperou tranquilamente e a riqueza acumulado dos bilionários aumentou 20%, mais de 500 mil milhões de dólares. Os trabalhadores da Amazon deixaram de receber os dois dólares por hora adicionais de subsídio de risco, depois de Jeff Bezos ter, neste período, aumentado a sua fortuna pessoal em 36 mil milhões de dólares.

«O resultado acumulativo é uma vasta transferência de riqueza do Estado para as grandes empresas e grandes fortunas. Entre meados de Março e o início de Junho, quando a economia estagnou e a taxa de desemprego disparou, a bolsa recuperou tranquilamente e a riqueza acumulado dos bilionários aumentou 20%, mais de 500 mil milhões de dólares»

Ao surto pandémico e à acrescida luta de classes nos EUA, sobrepõe-se uma longa história de racismo, de pobreza e desemprego desproporcional, de violência policial e taxas de encarceramento, de formas de exclusão social e cívica – incluindo no exercício do direito de voto, mesmo depois dos leis sobre direitos cívicos e eleitorais de 1964 e 1965. No contexto da pandemia, esse racismo expressa-se no maior risco dos negros em contraírem e falecerem devido à Covid-19. Expressou-se também no moderno linchamento de Ahmaud Arbery, de 25 anos, em Fevereiro, quando corria perto da sua casa, no Georgia. Arbery foi perseguido por dois homens, brancos, que o acostaram e alvejaram, enquanto um terceiro homem filmou o evento. Os três homens já se encontram detidos e acusados. Em Março, Breonna Taylor, uma enfermeira de Louisville, no Kentucky, foi baleada durante a noite, quando a polícia irrompeu pela sua casa como parte de um mandato de busca numa investigação de narcóticos. Não foram descobertas quaisquer drogas na casa. No final de Maio, outro vídeo demonstrou formas mais subtis de racismo, quando um observador de aves, Christian Cooper, negro, pediu a uma mulher branca para colocar uma trela no seu cão, de acordo com as regras do Central Park de Nova Iorque, onde se encontravam. A mulher, Amy Cooper, respondeu telefonando para a polícia, alegando que um «homem Afro-Americano estava a ameaçar a sua vida». Não só exagerou toda a situação, como fez uso propositado do reconhecido preconceito policial contra os negros para se retratar como vítima.

Estes três casos são recentes. Poderíamos referir os casos das mortes à mão da polícia em 2014 de Eric Garner em Nova Iorque (também ele captado em vídeo dizendo não conseguir respirar enquanto era estrangulado por trás por um polícia), de Laquan McDonald em Chicago, Tamir Rice em Cleveland; em 2015 de Walter Scott em Charleston, Freddie Gray em Baltimore, e Jamar Clark em Minneapolis; em 2016 de Alton Sterling em Baton Rouge, Philando Castile, em St. Paul; em 2018 de Stephon Clark em Sacramento e Botham Jean em Dallas. São apenas uma amostra do que antecedeu o caso de George Floyd, de Minneapolis, assassinado por Derek Chauvin, polícia que sufocou Floyd contra o chão com o seu joelho, durante quase nove minutos, enquanto outros polícias nada faziam além de se manterem como observadores à distância. Os vídeos que estes filmaram, porém, permitiram partilhar o caso com o mundo, promovendo uma vaga de protestos nos EUA (e no mundo) que duram há já duas semanas, porventura a maior e mais intensa vaga de protestos sociais nos EUA. Em centenas de cidades, nos 50 estados, centenas de milhares de pessoas têm exigido justiça e protestado contra o racismo e a violência policial, exigindo mudança.

«uma nação que gasta mais dinheiro em defesa que em programas sociais aproxima-se da morte espiritual»

MARTIN LUTHER KING

Em inúmeras instâncias, foram recebidos com novas vagas de violência policial e uso de tácticas militares, por parte não só da polícia, mas também da guarda nacional e até forças armadas. Apesar de alguns focos de pilhagem e destruição de propriedade por parte dos populares – muito empolado pela comunicação social conservadora – a vasta maioria dos protestos têm sido ordeiros, e com uma participação muito diversificada. Que a violência policial não é uma resposta ao vandalismo, tornou-se claro nos múltiplos casos onde ela foi exercida sobre os manifestantes pacíficos, enquanto as zonas de vandalismo permaneciam sem policiamento. O objectivo da violência policial é suprimir o protesto social e intimidar. Tem sido frequente vermos as forças de segurança empregar granadas de atordoamento, balas de borracha, gás de mostarda, gás lacrimogéneo e outras tácticas militares, além dos métodos menos «sofisticados» como as simples bastonadas contra manifestantes e, significativamente, contra jornalistas. O caso mais flagrante do uso destas tácticas, e que criou divisões mesmo entre Republicanos, teve lugar no dia 1 de Junho, quando uma mistura de forças policiais e militares dispersaram manifestantes pacíficos frente à Casa Branca para que Trump pudesse posar para fotografias, durante três minutos, erguendo uma bíblia frente à Igreja de São João.

A resposta policial aos protestos deu renovada visibilidade ao nível de militarização das forças policiais, que não se resume ao seu braço mais especializado, os SWAT (Armas e Tácticas Especiais). Em 1997, durante a presidência de Bill Clinton, foi aprovado o programa 1033 que permitiu a transferência de equipamento militar para as forças policiais estaduais e locais, programa que após o 11 de Setembro foi alargado, permitindo às forças policiais «prepararem-se contra o terrorismo». Ao abrigo deste programa, o Departamento de Defesa já distribuiu mais de 7,2 mil milhões de dólares de equipamento militar por mais de oito mil departamentos de polícia, incluindo uniformes de batalha e espingardas de assalto, mas também lança-granadas, aviões, baionetas e veículos resistentes a minas e explosivos (ou MRAP), idênticos aos empregues no Iraque e Afeganistão. Além do material, as forças especiais têm também recebido formação semelhante à oferecida pelos militares dos EUA às forças policiais nos países por si ocupados, instigando domesticamente uma mentalidade de contra-insurreição. (Este é aliás um exemplo muito claro da estreita relação entre a estratégia imperialista dos EUA pelo mundo, financiada pelo maior orçamento militar do mundo, e a estratégia repressiva doméstica.) O programa 1033 sofreu algumas restrições em 2015, durante a presidência de Obama, no rescaldo das críticas à resposta policial aos protestos pela morte de Mike Brown, no ano anterior, na cidade de Ferguson, no Missouri. Mas essas restrições foram revertidas pela Administração Trump, em 2017, reforçando de novo o processo de militarização. Isto apesar de vários estudos indicarem que a crescente militarização não contribui para proteger as forças policiais nem para diminuir as taxas de criminalidade.

«a indignação contra o assassinato de Floyd – tendo-se transformado numa luta contra o racismo e a violência policial, uma luta com profundas raízes históricas – tem de alargar-se ainda mais, para todo o sistema político que tem promovido o racismo e todas as formas de exploração e opressão, cujos responsáveis vão muito além de Trump e anteriores presidentes, democratas e republicanos»

Os protestos têm tido alguns efeitos positivos. Os quatro polícias envolvidos na morte de George Floyd foram presos e formalmente acusados. Nove membros do Conselho Municipal de Minneapolis prometeram desmantelar o departamento policial da cidade onde Floyd foi morto, uma maioria suficiente para superar o veto do Presidente da Câmara, dando alento à palavra de ordem que se alastra de redução dos orçamentos policiais, para investir mais em programas sociais («Defund the police»). Posições semelhantes estão a ser discutidas noutras cidades, como Nova Iorque, Baltimore, Washington DC e São Francisco. Trump porém nega a existência de problemas sistêmicos nas forças policiais, e insiste na defesa da «lei e ordem». O discurso e insensibilidade de Trump – que chegou a afirmar, num discurso sobre a economia, que George Floyd haveria de estar no céu dizendo que [os resultados económicos] são uma grande coisa, que é um bom dia para ele e para todos –, a inacção de Trump face à Covid-19 e a sua promoção de divisões entre a população, as suas constantes mentiras e manipulações, têm feito baixar a taxa de aprovação de Trump. Mas apesar das sondagens indicarem quedas de Trump em estados importantes que venceu em 2016, a sua derrota nas eleições de Novembro está longe de estar assegurada. Daí ser importante que os manifestantes e eleitores nos EUA compreendam que a indignação contra o assassinato de Floyd – tendo-se transformado numa luta contra o racismo e a violência policial, uma luta com profundas raízes históricas – tem de alargar-se ainda mais, para todo o sistema político que tem promovido o racismo e todas as formas de exploração e opressão, cujos responsáveis vão muito além de Trump e anteriores presidentes, democratas e republicanos, o mesmo sistema que oprime e promove a guerra pelo mundo, que promove o racismo e xenofobia no seu interior e que, para garantir o enriquecimento de uns poucos, explora os trabalhadores e espalha a pobreza.

Como avisou Martin Luther King, no seu discurso contra a guerra do Vietname em 1967, «uma nação que gasta mais dinheiro em defesa que em programas sociais aproxima-se da morte espiritual». Tal foi há mais de 50 anos. Há dias, o activista negro Cornel West declarou que a América é uma experiência social falhada. Disse: «A sua economia capitalista não pode oferece uma vida decente. O sistema criminal, o sistema legal não pode proteger os direitos e liberdades. A nossa cultura mercantilizada – onde tudo e todos estão à venda – não pode oferecer sentido e propósito.» E como se grita nas ruas, sem justiça não haverá paz.

  • 1. Seguimos a escala longa, típica em Portugal, onde um bilião corresponde a 1 seguido de 12 zeros, ou um milhão de milhão.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/sem-justica-nao-ha-paz

Diga-me, Dr. Rio, onde é que não vê o racismo?

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 09/06/2020)

Um deputado avisou, feliz, que ia proferir a mais racista de todas as frases da história do Parlamento, e lá perorou alguma coisa sobre distritos em que vivem ciganos. É uma forma de política que se repete enfadonhamente, a frase mais racista é sempre menos do que a seguinte frase mais racista e a pândega continua por aí fora. O homem já pediu uma lei especial para perseguir os seus ódios de estimação e assim continuará, é fácil e dá milhões.


Rui Rio, que se rebaixa a correr atrás do que lhe parece ser o prejuízo, vai mais longe, não há racismo em Portugal. Não sei se é só ingenuidade ou um episódio agudo de cheguismo que lhe passará depressa, desejo as melhoras. A pergunta talvez seja então se há contas desse racismo.

No “New York Times”, que é inocente a respeito destas nossas questões, foi sugerida uma resposta por Nicholas Kristof, mas para os Estados Unidos. O comentador cita dados estatísticos do seu país a respeito de diferenças regionais: um jovem negro do Alabama ou do Mississippi, ou de outros Estados do sul, tem menor esperança de vida que um jovem do Bangladesh.

O “Financial Times” desta terça-feira lembra que estes dois Estados recusaram o modesto sistema do Obamacare, que procurava garantir um seguro de saúde para toda a gente (a percentagem da população negra sem qualquer proteção de saúde é o dobro da branca).

Há mesmo regiões onde a vida é um abismo. Mas sabe-se mais. No conjunto do país uma mulher negra tem uma probabilidade duas vezes e meia maior de morrer no parto do que uma mulher branca. Na atual pandemia, a taxa de mortalidade das pessoas afrodescendentes é 2,6 vezes maior do que a do resto da população. No emprego, mais um problema: nem metade da população negra tem trabalho.

Em Minneapolis, onde foi assassinado George Floyd, o rendimento das famílias negras é metade do das brancas. E são as pessoas negras que asseguram alguns dos serviços essenciais: nos transportes, cuidados de crianças, saúde e correios, a população negra está em muito mais postos de trabalho do que o que equivale à sua percentagem no país (13%). Outros dados demonstram que tem havido alguma mudança. Assim, em 1970, 47% dos afrodescendentes nos EUA eram pobres, agora serão 27%, mas ainda assim trata-se do triplo da média da população branca. Há mesmo diferenças nas condições essenciais da vida e elas permitem perceber o contexto da tensão e do protesto.

Em Portugal, é simples, não sabemos. Conhecem-se incidentes, desigualdade na habitação, diferenças nas carreiras profissionais, insultos em estádios de futebol e a vida ainda mais difícil para tantas pessoas. Mas números não sabemos. Apesar da sugestão de várias associações, as autoridades estatísticas não aceitaram incluir o registo pelas próprias pessoas, querendo, da sua origem étnica, o que permitiria conhecer alguma da realidade das diferenças.

Não sabemos qual é o peso da desigualdade no trabalho, na habitação, no sucesso escolar, na saúde. Estamos de olhos fechados. É cómodo mas não permite conhecer a verdade dos factos. E facilita o brinde de Rio com Ventura.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

15 livros para aprender mais sobre racismo, supremacia branca e brutalidade policial

Angela Davis contra o racismo

Nos últimos 11 dias, o mundo percebeu que ainda há muito trabalho a ser feito em relação a temas históricos que nunca desapareceram. A morte de George Floyd, pelas mãos de um polícia, iniciou novamente conversas sobre o privilégio branco, a brutalidade policial e o racismo estrutural.

 

As imagens em que o joelho de Derek Chauvin está sob o pescoço de George Floyd espalharam-se rapidamente pelas redes sociais e trouxeram consigo um sentimento de revolta e a vontade de mudar. Por todo mundo, milhares de cidadãos juntaram-se para prestar apoio a todas as vítimas de racismo e brutalidade policial. Durante os próximos dias, Portugal vai também realizar manifestações pacíficas.

Nos Estados Unidos, os 50 Estados do país assistiram aos protestos onde nomes como Breonna Taylor, Ahmaud Arbery and Tony McDade estiveram presentes. Expressões como ‘Say Those Names’ e ‘No Justice, No Peace’ foram as palavras de ordem.

Mesmo com dezenas de petições criadas e assinadas, doações e vários protestos, há ainda muito para fazer. Tendo em conta que não existe nenhum manual sobre como travar o racismo, a melhor coisa a fazer é aprender sobre o tema. Ser um verdadeiro aliado consiste na aprendizagem e há vários livros que podem ajudar nisso.

Com ajuda da Black Lives Matter card page colocamos num só sítio alguns livros que te podem ajudar a aprender mais sobre o assunto e perceber a diferença que podes fazer, numa altura em que ninguém deve ficar calado.

Livro Me and White Supremacy, de Layla F. Saad Me and White Supremacy, de Layla F Saad

O livro que foi um bestseller de vendas surge depois do desafio #meandwhitesupremacy, em 2018. Formatada como um programa de 28 dias a seguir para a reflexão pessoal, a obra vai ajudar quem a lê a perceber como é que participa na supremacia branca e pode combater o racismo.

So You Want to Talk About Race, de Ijeoma Oluo

Ijeoma Oluo escreveu o livro perfeito para todos os que estão interessados em aprender sobre mais e a discutir assuntos como raça e racismo, mas não sabem como. Em So You Want to Talk About Race estão as ferramentas perfeitas para pessoas brancas e de cor conseguirem ter conversas sérias e honestas sobre os temas que ainda hoje nos assolam.

Livro How to Be an AntiRacist, de Ibram X. Kendi How to Be an Antiracist, de Ibram X. Kendi

Numa altura em que o medo cresce, Kendi leva-nos numa viagem para construirmos uma sociedade futura, onde o racismo continua a existir, mas todos lutam contra ele. O autor e historiador usa o poder das palavras e das memórias para nos falar sobre ética, história, direito e ciência como forma de explicar as questões de raça, justiça e igualdade.

Racismo em Português: o lado esquecido do colonialismo, de Joana Gorjão Henriques

Portugal não fica esquecido no meio de conversas sobre racismo, da mesma forma que não fica nenhum outro país. Com Racismo em Português, Joana Gorjão Henriques tenta explicar e entender como é que o colonialismo marcou as relações raciais.

Livro Your Silence Will Not Protect You, de Aufre Lorde Your Silence Will Not Protect You e Sister Outsider, de Audre Lorde

Ambos os livros são uma coleção de trabalhos, poemas e discursos da escritora sobre sexismo, racismo, homofobia e classes. A poeta negra, lésbica e ativista para os direitos civis tornou-se uma referência devido ao seu contributo para a literatura moderna. Dentro de Sister Outsider está incluído o ensaio The Master’s Tools Will never Dismantle The Master’s House.

They Can’t Kill Us All, de Wesley Lowery

O livro certo para o momento certo. Em They Can’t Kill Us All, o jornalista Wesly Lowery reporta a brutalidade policial e a morte de dezenas de pessoas negras na América.

Livro Why I'm No Longer Talking to White People About Race, de Reni Eddo-Lodge Why I’m No Longer Talking to White People About Race, de Reni Eddo-Lodge

Reni Eddo-Lodge é autora do livro que iniciou uma nova onda de conversas sobre racismo no Reino Unido. Em Why I’m No Longer Talking to White People About Race, Reni fala sobre o que é ser uma pessoa negra em solo britânico e do objetivo político do domínio dos brancos, sem esquecer assuntos e histórias apagadas sobre a comunidade negra e as relações entre raça e classe.

Memórias da Plantação: episódios de racismo quotidiano, de Grada Kilomba

São 280 páginas de memórias, onde Kilomba vai desmontar a normalidade do racismo, expondo toda a violência e o trauma de ser colocado como outro. A obra de 2008 tornou-se numa importante contribuição para o discurso académico internacional.

Livro White Fragility: Why It’s So Hard For White People To Talk About Racism, de Robin DiAngelo White Fragility: Why It’s So Hard For White People To Talk About Racism, de Robin DiAngelo

O livro de 2018 de Robin DiAngelo foi um bestseller do New York Times e veio para ajudar quem precisa de se libertar da fragilidade branca. Escrito por uma mulher branca para pessoas brancas, White Fragility explora as respostas dadas por pessoas brancas ao discutir assunto sobre raça e etnia. Ao longo do livro, capítulos como “White Women’s Tears” e “Racial Triggers for White People” vão ajudar quem lê a ver tudo de forma mais fácil.

Between the World and Me, de Ta-Nehisi Coates

Nesta carta ao seu filho, Ta-Nehisi Coates fala detalhadamente da sua experiência enquanto pessoa negra nos Estados Unidos e como isso está presente em tudo o que faz na sua vida. Num livro de emoções fortes, Coates argumenta que a supremacia branca nunca vai desaparecer, mas que pessoas negras vão ter sempre que experienciar.

Livro I Know Why The Caged Bird Sings, de Maya Angelou I Know Why The Caged Bird Sings, de Maya Angelou

Um livro sobre libertação e uma viagem às memórias de quem o escreveu. Maya Angelou convida-nos a entrar na sua infância e juventude e mostra-nos a violência e crueldade do racismo existentes no mundo. A autora vai ao longo de toda a obra retratar a comunidade negra dos Estados Unidos, durante o período de segregação que levou à emancipação.

When They Call You a Terrorist: a black lives matter memoir, de Asha Bandele e Patrisse Khan-Cullors

Não há muito para dizer sobre o aclamado Melhor Memoir de 2018 para a Time Magazine. Escrito pela co-fundadora do movimento Black Lives Matter, Patrisse Khan-Cullors, o livro conta, com a ajuda de Asha Bandele, como é ser uma mulher negra nos Estados Unidos. As duas autoras aproveitam ainda para fazer uma reflexão sobre o que se passa no mundo e chamar a atenção para a mudança que é necessária.

Livro If They Come in the Morning, de Angela Davis If They Come in the Morning, de Angela Davis

Conhecida pela sua dedicação à luta pelos direitos de pessoas negras e por ter protagonizado um dos julgamentos criminais mais polémicos da história americana, Angela Davis conta-nos um pouco sobre esse episódio marcante da sua vida e faz uma análise ao sistema prisional norte-americano, marcado pelo encarceramento em massa de pessoas negras.

O Ódio que Semeias, de Angie Thomas

Uma história comovente e emocionante que nos dá a conhecer o movimento Black Lives Matter. Em O Ódio que Semeias, Angie Thomas deixa-nos entrar no mundo de Starr, uma rapariga de 16 anos, que assiste à morte do seu melhor amigo, Khalil, depois de um polícia disparar contra ele.

Outros recomendações relevantes: White Trash, de Nancy Isenberg Surrender, White People!: our unconditional terms for peace, de D. L. Hughley e Doug Moe Dark Days, de James Baldwin The End of Policing, de Alex S. Vitale The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness, de Michelle Alexander Why Are All the Black Kids Sitting Together in the Cafeteria, de Beverly Daniel Tatum

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Pela justiça e a igualdade social – Solidariedade com o povo dos EUA

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O Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) expressa a sua solidariedade para com o povo dos EUA que, na sequência de mais um assassinato de um cidadão negro às mãos de forças policiais, tem realizado grandes manifestações nas ruas de várias cidades contra a discriminação, pela justiça e a igualdade social.

O CPPC condena a forte repressão de forças policiais e militarizadas contra os manifestantes, que no exercício dos seus legítimos direitos exigem o respeito e o cumprimento dos direitos de todos.

Os EUA são actualmente o país com maior número de infectados e de vítimas mortais da Covid-19, em resultado da desvalorização da situação e da não tomada de medidas preventivas adequadas por parte da Administração presidida por Donald Trump.

Via: Início – CPPC – Conselho Português para a Paz e Cooperação https://bit.ly/2ARTyHj

Polícia de Minneapolis, onde George Floyd foi morto, será desmantelada

Caso George Floyd: grupo de manifestantes protesta em frente à Casa Branca contra o racismo
© REUTERS / Joshua Roberts

A câmara legislativa da cidade de Minneapolis, no estado de Minnesota, aprovou neste domingo (7) o desmantelamento de seu departamento de polícia, que será reconstruído. 

George Floyd, que é negro, foi morto no dia 25 de maio quando estava sob custódia da polícia, ao ser asfixiado devido à pressão exercida durante quase nove minutos contra seu pescoço pelo joelho do policial branco Derek Chauvin. O agente foi acusado de homicídio e deverá se apresentar ante o tribunal nesta segunda-feira (9). 

O caso gerou uma onda de protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos e até em outras cidades do mundo. 

"Nos comprometemos a desmantelar a polícia como a conhecemos na cidade de Minneapolis e a reconstruir com nossa comunidade um novo modelo de segurança pública, que realmente mantenha nossa comunidade segura", disse a presidente da assembleia, Lisa Bender, em entrevista para a CNN, segundo publicado pela agência AFP. 

O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, disse que é contra a medida, embora defenda reformas para combater o racismo na polícia. 

Novo dia de protestos nos EUA

A votação na câmara local acontece após a pressão gerada por duas semanas de protestos nos EUA. Neste domingo (7), houve novas manifestações em dezenas de cidades. Os atos, ao contrário do que aconteceu no início do movimento, terminaram sem confrontos com a polícia. 

Em Nova York, que encerrou um toque de recolher decretado no início da onda de protestos, milhares foram às ruas para criticar a brutalidade da polícia. 

Na capital Washington, o senador republicano Mitt Romney, um dos poucos em seu partido a manifestar oposição ao presidente Donald Trump, juntou-se aos manifestantes nas proximidades da Casa Branca. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020060815673408-policia-de-minneapolis-onde-george-floyd-foi-morto-sera-desmantelada/

Em Madrid, protestos contrariam proibição e denunciam o racismo e a violência policial

Em Madrid, um homem levanta o punho em meio aos manifestantes contra o racismo e a violência policial, em 7 de junho de 2020, em solidariedade aos protestos contra o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.
© REUTERS / Juan Medina

Neste domingo (7), milhares de imigrantes africanos e seus descendentes se reuniram no centro de Madrid para protestar contra o racismo e exigir justiça, relata um correspondente da Sputnik na capital espanhola.

Os manifestantes se reuniram em frente à embaixada dos EUA em uma demonstração de solidariedade aos protestos contra o assassinato do norte-americano George Floyd, um homem negro que morreu sob custódia policial em 25 de maio deste ano.

A manifestação em Madrid marchou da embaixada norte-americana em direção à praça mais popular de Madrid, a Puerta del Sol. No auge do protesto, dezenas de milhares lotaram a praça, apesar das autoridades da cidade proibirem reuniões de mais de 200 pessoas para limitar a propagação do novo coronavírus. Além de imigrantes e descendentes, houve a presença espanhóis e expatriados dos EUA também se juntaram ao protesto.

Em Madrid, um homem levanta uma placa em meio aos protestos contra o racismo e a violência policial, em 7 de junho de 2020, em solidariedade aos protestos contra o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

© REUTERS / Juan Medina
Em Madrid, um homem levanta uma placa em meio aos protestos contra o racismo e a violência policial, em 7 de junho de 2020, em solidariedade aos protestos contra o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

Os manifestantes gritavam "sem justiça, sem paz", "vidas negras importam" e "ninguém está acima da lei" em espanhol e inglês. Entre as faixas havia mensagens como "o racismo também é uma pandemia", "nem mais nem menos do que direitos iguais" e "Donald Trump [presidente dos EUA] é um criminoso".Além de Madrid, as manifestações foram convocadas para as cidades de Barcelona, Bilbao, Zaragoza, Granollers, Lleida, Málaga e outras cidades espanholas.

Em Madrid, manifestantes protestam contra o racismo, em 7 de junho de 2020, em solidariedade aos protestos contra o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos.

© REUTERS / Juan Medina
Em Madrid, manifestantes protestam contra o racismo, em 7 de junho de 2020, em solidariedade aos protestos contra o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos.

A manifestação foi organizada pela Comunidade Africana e de Descendentes africanos na Espanha, uma organização sem fins lucrativos criada recentemente, que afirmou em um comunicado que o racismo contra os negros era um fenômeno global que não se limitava aos EUA. A organização acusou a polícia espanhola de traçar um perfil racial em sua atuação, apontando a estimativa de que os negros tenham 42 vezes mais chances de serem detidos e revistados do que outras etnias.

Em Paris, manifestantes antirracistas se ajoelham em frente a uma barricada em chamas durante protesto lembrando o assassinato de Adama Traore, em 2 de junho de 2020.

© AP Photo / Michel Euler
Em Paris, manifestantes antirracistas se ajoelham em frente a uma barricada em chamas durante protesto lembrando o assassinato de Adama Traore, em 2 de junho de 2020.

Enquanto nos EUA as manifestações contra o racismo e violência policial, deflagradas após o assassinato de George Floyd, continuam crescendo, diversas capitais europeias têm registrado manifestações contra o racismo. Além de Madrid, Lisboa, Paris, Berlim e Londres também tiveram manifestações semelhantes ao longo da semana.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020060715671826-em-madrid-protestos-contrariam-proibicao-e-denunciam-o-racismo-e-a-violencia-policial/

Protestos deste sábado contra racismo nos EUA são os maiores até agora

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Agência Brasil -O sábado (6) nos Estados Unidos foi marcado por mais protestos contra o racismo. Manifestantes têm tomado as ruas de várias cidades americanas desde a morte de George Floyd, um americano negro morto em Minneapolis por um policial branco que se ajoelhou sobre o pescoço dele enquanto o mantinha imobilizado no chão, há 12 dias.

Dezenas de milhares de pessoas ocuparam ruas próximas à Casa Branca, em Washington, em um dos maiores protestos desde o assassinato.

Em San Francisco, manifestantes desfilaram pela Ponte Golden Gate para protestar contra a morte de Floyd e apoiar o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Muitos protestos têm sido reprimidos de forma abusiva por policiais. Vídeos de ações violentas contra manifestantes mostrados na tevê e na internet têm gerado pedidos de reformas da corporação.

No mundo

As manifestações antirracistas que surgiram nos Estados Unidos após a morte George Floyd espalharam-se mundo afora.

Na Austrália, a mídia local relatou que milhares de pessoas tomaram as ruas ou organizaram atos contra o racismo em diversas cidades do país neste sábado (6).

A polícia em Adelaide, cidade no sul australiano, permitiu que manifestações ocorressem, apesar das restrições vigentes contra grandes concentrações para prevenir o alastramento do novo coronavírus. De acordo com a polícia, a população local tem o direito de protestar a respeito de assuntos importantes.

O movimento antirracista também ganhou força na Ásia. Em Seul, a capital da Coreia do Sul, um protesto reuniu dezenas de pessoas com máscaras e roupas pretas. Manifestantes seguraram cartazes com mensagens antirracistas e pediram para a população se unir para lidar com o problema.

No Japão, a capital Tóquio foi palco também de protesto contra o racismo no sábado. A organização do ato pediu para os participantes usarem máscaras e tomarem outras medidas de precaução contra o novo coronavírus durante a manifestação.

Ligações

Tenho-me lembrado de Domenico Losurdo, falecido em 2018, em particular das suas penetrantes ligações históricas, feitas em livros como Guerra e Revolução. Como nenhum livro seu está traduzido no nosso país, deixo excertos representativos, retirados de um artigo publicado no Brasil, onde a sua obra está em grande parte traduzida:
 
‘Quando começou o momento da virada na história dos afro-americanos? Em dezembro de 1952 o ministro estadunidense da justiça enviava à Corte Suprema, que era chamada a discutir a questão da integração na escola pública, uma carta eloquente: “A discriminação racial leva água à propaganda comunista e suscita dúvidas também entre as nações amigas sobre a intensidade da nossa devoção à fé democrática”. Até por razões de política externa era necessário estabelecer a inconstitucionalidade da segregação e da discriminação antinegra. Washington - observa o historiador estadunidense (Vann Woodward) que reconstrói tal evento - corria o perigo de distanciar-se das “raças de cor” não só no Oriente e no Terceiro Mundo, mas no coração mesmo dos Estados Unidos: também aqui a propaganda comunista obtinha um considerável sucesso na sua tentativa de ganhar os negros para a “causa revolucionária”, fazendo abalar sua “fé nas instituições americanas”. Em outras palavras, não seria possível conter a subversão comunista sem pôr fim ao regime da white supremacy.
(...)
Se, de um lado, incitava as suas vítimas a porem suas esperanças no movimento comunista e na União Soviética, de outro, o regime da white supremacy vigente nos Estados Unidos e no mundo suscitava a admiração do movimento nazista. Em 1930, Alfred Rosenberg, que depois se tornaria o teórico mais ou menos oficial do Terceiro Reich, celebrava os Estados Unidos, com o olhar voltado principalmente ao Sul, como um “esplêndido país do futuro” que havia tido o mérito de formular a feliz “nova ideia de um Estado racial”, ideia que se tratava agora de pôr em prática “com força juvenil”, sem que se ficasse a meio caminho. A república norte-americana havia corajosamente chamado a atenção para a “questão negra” e de fato a havia colocado “no vértice de todas as questões decisivas”. Assim, uma vez cancelado para os negros, o absurdo princípio da igualdade racial deveria ser liquidado por completo: se deveria tirar “as necessárias consequências também para os amarelos e os judeus”.’

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Prefeita de Washington D.C. pede que Trump retire pessoal de aplicação da lei federal e tropas lidando com protestos

DC Mayor Muriel Bowser now a mom | WTOP

Washington, 6 jun (Xinhua) -- A prefeita de Washington D.C., Muriel Bowser, pediu na sexta-feira que o presidente Donald Trump "retire toda a aplicação da lei federal extraordinária e presença militar" da capital do país depois que o presidente enviou forças para tratar dos protestos relacionados ao morte de George Floyd.

Bowser, uma democrata de ascendência afro-americana, escreveu em uma carta que ela encerrou o estado de emergência no distrito relacionado aos protestos contra a morte de Floyd, um homem negro morto na semana passada sob a custódia da polícia branca em Minneapolis.

A prefeita observou que os protestos na capital foram "pacíficos" e que o Departamento de Polícia Metropolitana, pela segunda noite consecutiva, "não fez uma única prisão" na noite de quinta-feira.

"Continuo preocupada que o pessoal federal não identificado que patrulha as ruas de Washington, D.C. represente riscos tanto à segurança quanto à segurança nacional", disse Bowser a Trump na carta, acrescentando que o pessoal e o equipamento da polícia federal "estão inflamando demonstrações e aumentando as queixas daqueles que, em geral, estão protestando pacificamente por mudanças e por reformas nos sistemas racistas e quebrados que estão matando negros norte-americanos".

Trump, cuja ameaça de mobilizar forças militares ativas para reprimir os protestos deixou duras e amplas condenações de autoridades atuais e ex-autoridades, disse na sexta-feira que seu plano de combater o racismo no país é proporcionar uma economia forte para a comunidade afro-americana.

Enquanto divulgava o inesperado declínio do desemprego em maio, o presidente disse no Jardim das Rosas da Casa Branca que uma economia forte é "a melhor coisa que pode acontecer para as relações raciais", assim como para as minorias, incluindo afro-americanos. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/06/c_139119192.htm

Marcha contra o racismo, Lisboa

Fotografias da Marcha contra o racismo, realizada em Lisboa, dia 6 de Junho

 

 

Manifestação «Black lives matter», em Lisboa, contra o racismo e a violência policial.

O bárbaro assassinato de George Floyd pela policia de Minneapolis deu força a uma imensa insatisfação que é sentida por muitos, e em muitos lugares do mundo.

As fotografias são da Professora Universitária, Paula Godinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

Manifestação em Lisboa contra o racismo

Manifestação Basta de Racismo, Fascismo e Violência Policial / Resgatar o Futuro, Não o Lucro.

Sábado, dia 6 de Junho, na Alameda/Lisboa

 

 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/marcha-contra-o-racismo-lisboa/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=marcha-contra-o-racismo-lisboa

Portugal | Ciganofobia socialista

 
 
Paulo Baldaia | TSF | opinião
 
Quando um autarca socialista se refere aos habitantes de um prédio dividindo-os entre "famílias normais como nós" e "famílias de etnia cigana", não podemos aceitar reações envergonhadas do PS e do seu líder. A frase de António Costa, em resposta a André Ventura, aliás, é um bom soundbite - "não passo a concordar consigo, quando discordo dos meus autarcas" -, mas exige consequências.

Se o autarca da Azambuja fala como se fosse militante do Chega, o PS só por cobardia política não lhe exige que se retrate ou, não se retratando, não lhe retira a confiança política. O autarca Luís de Sousa queria "uma vigilância ativa" sobre os ciganos que vivem naquele prédio para "eles ficarem isolados dentro de suas casas", sobretudo as crianças que "andam constantemente na rua".

Num momento em que cresce o discurso contra os ciganos, é inaceitável esta ambiguidade do Partido Socialista que, por um lado, considera que este tipo de comportamento não está no seu ADN mas, por outro lado, acha que chega afirmar a sua discordância, mesmo tratando-se de um eleito nas suas listas.

Ventura ri-se e adivinha a possibilidade do autarca ser candidatos pelo Chega. Em ano de autárquicas, a ideia que fica é que é disso mesmo que os socialistas têm medo, de perder uma autarquia.

Um partido com a história do PS não pode ficar nas meias tintas. O assunto é demasiado sério, pela forma como aquele político se referiu a uma comunidade, considerando-a anormal, e pela sugestão de lhes decretar uma espécie de prisão domiciliária. O PS pode ficar a assobiar para o ar, que o tempo encarrega-se de fazer com que a maioria das pessoas se esqueça, mas com esse comportamento a ciganofobia passa a fazer parte do seu ADN.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/portugal-ciganofobia-socialista.html

Solidariedade com o povo dos EUA em Lisboa e no Porto

Na sequência de «mais um assassinato de um cidadão negro às mãos de forças policiais», o CPPC apela à expressão da solidariedade com a luta do povo dos EUA pela justiça e a igualdade social.

O CPPC promove actos públicos em solidariedade com o povo dos EUACréditos / CPPC

Sob o lema «Pela Justiça e a Igualdade Social! Solidariedade com o Povo dos EUA!», o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) promove a realização, na próxima terça-feira, 9 de Junho, de actos públicos no Porto (17h30 – Largo em frente à Casa da Música) e em Lisboa (18h – Praça do Martim Moniz).

Numa nota divulgada a propósito do anúncio destas iniciativas, o CPPC afirma a sua solidariedade com o povo dos EUA, que «tem realizado grandes manifestações nas ruas de várias cidades contra a discriminação, pela justiça e a igualdade social», e condena a «forte repressão» exercida por «forças policiais e militarizadas» sobre os manifestantes, que «no exercício dos seus legítimos direitos exigem o respeito e o cumprimento dos direitos de todos».

«Os EUA são actualmente o país com maior número de infectados e de vítimas mortais de Covid-19, em resultado da desvalorização da situação e da não tomada de medidas preventivas adequadas por parte da administração presidida por Donald Trump», lembra o organismo solidário português, acrescentando que tal atitude motivou «uma grave situação de saúde pública» e conduziu «ao agravamento dos impactos sociais e económicos do surto».

Entre outros aspectos, o texto destaca os «mais de 40 milhões de desempregados em poucas semanas» e a incapacidade das «debilitadas estruturas públicas de saúde e de segurança social» para responder à situação criada – que destapou «uma sociedade profundamente injusta», em que «os mais desfavorecidos são os que mais estão expostos à doença, à pobreza, à violência».

«É neste o contexto social que irromperam as grandes manifestações exigindo justiça e igualdade social em vários pontos dos EUA – manifestações que Trump procura reduzir aos actos de vandalismo entretanto protagonizados por grupos provocadores, incluindo de extrema-direita», lê-se na nota.

O CPPC, que apela à expressão da solidariedade com «a luta do povo dos EUA pela justiça e a igualdade social, a efectiva liberdade e democracia», lembra ainda que os EUA, sob a administração Trump, «continuam a promover a desestabilização e a agressão contra outros países e povos», recorrendo «de forma desumana à fragilidade provocada pela pandemia para impor o bloqueio económico e brandir com a ameaça da intervenção militar».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/solidariedade-com-o-povo-dos-eua-em-lisboa-e-no-porto

Trump criticado após dizer que queda no desemprego é um “ótimo dia” para George Floyd

 

O Presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, disse esta sexta-feira que a queda inesperada do desemprego marca “um ótimo dia” para George Floyd, o afro-americano cuja morte às mãos da polícia desencadeou protestos em todo o país.

 

As polémicas declarações de Trump ocorreram durante uma longa presença perante a imprensa, na qual reagia com entusiasmo à queda inesperada do índice de desemprego para 13,3% em maio, em comparação com os 14,7% de abril, segundo indicou esta sexta-feira o Departamento do Trabalho.

“O que aconteceu ao nosso país é a melhor coisa que poderia acontecer para as relações raciais, para os afro-americanos. Espero que o George esteja a olhar para nós lá de cima e a dizer que isto é algo ótimo para o país. É um ótimo dia para ele, um ótimo dia para todos”, afirmou Trump.

Trump usou um tom de celebração, apesar dos dados de desemprego entre afro-americanos registados em maio serem piores do que em abril, de acordo com o relatório, tendo passado para 16,8%, a maior taxa desde 1984, enquanto a dos latinos caiu um pouco, mas continua alta, com 17,6%.

O Presidente norte-americano disse ainda que o seu plano para lidar com o racismo sistémico no país é “ter a economia mais forte do mundo”, depois de ser acusado por não responder às denúncias dos manifestantes que passam pelo racismo, brutalidade policial e desigualdades sociais.

Ainda esta sexta-feira, voltou a insistir que “ninguém fez mais pela comunidade negra” do que ele, mas evitou qualquer expressão de solidariedade para com os manifestantes, agora já pacíficos, que inundaram as ruas do país e pediu novamente uma mão pesada perante os protestos.

“Não sejam orgulhosos, chamem a Guarda Nacional, dominem as ruas. Não podem deixar que isso aconteça em Nova Iorque, com pessoas a saquear as lojas. No Minnesota acabaram com o problema numa noite e Minneapolis estava sitiada”, continuou.

O presidente norte-americano recusou responder aos jornalistas que o questionaram sobre o significado das suas palavras, realça o Diário de Notícias.

https://twitter.com/DNCWarRoom/status/1268927179976515585?ref_src=twsrc%5Etfw

 

Desde a morte de George Floyd, a 25 de maio, e aos protestos que se seguiram, inicialmente marcados por pilhagens e distúrbios em muitas cidades americanas, Donald Trump favoreceu uma resposta marcial.

Essa postura rendeu-lhe críticas sem precedentes de ex-líderes do exército, incluindo o ex-secretário de Estado da Defesa, Jim Mattis, tal como o atual chefe do Pentágono, Mark Esper, que também se distanciou da ideia de enviar o exército.

Também a organização liberal CAP Action afirmou que o comentário de Trump foi “desprezível”.

Na quinta-feira, Trump partilhou no Twitter uma carta que dizia que os manifestantes no centro de Washington, na passada segunda-feira, “eram terroristas” e voltou a reduzir os protestos pacíficos a episódios isolados de pilhagens ou distúrbios, que foram registados em poucas ocasiões.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/trump-criticado-apos-dizer-queda-no-desemprego-um-otimo-dia-george-floyd-328698

8 documentários sobre o problema do racismo nos EUA

Documentários

A morte de George Floyd, um homem afro-americano de 46 anos, às mãos de um polícia, gerou inúmeras manifestações por todo o país, e pelo mundo. Por isso, o Espalha-Factossugere-te uma lista de documentários que ajudam a aprender mais sobre o problema do racismo e das desigualdades sociais, principalmente nos Estados Unidos, para além de ajudarem algumas pessoas a terem uma maior noção dos privilégios de que usufruem.

Com o movimento Black Lives Matter cada vez mais forte, as questões raciais tornaram-se, novamente, um dos assuntos mais debatidos online, e é importante que estejamos todos informados sobre este assunto.

Dark Girls (2011)

Dark Girls é um documentário dos cineastas americanos Bill Duke e D. Channsin Berry que documenta um assunto ainda considerado tabu por muitos negros americanos: o colorismo na comunidade afro-americana. Duke e Berry concentram-se, especialmente, nas lutas ​​que as mulheres mais escuras enfrentam.

Black Girls

 

The House I Live In (2012)

À superfície, The House I Live In é um documentário sobre a guerra levada a cabo pelo governo federal dos Estados Unidos contra as drogas. No entanto, ele retrata algo muito mais profundo do que uma simples guerra às drogas, revelando os efeitos desta nas classes mais baixas da sociedade dos Estados Unidos, expondo as fundações mais frágeis nas quais a construção da sociedade americana atual se baseia.

The house i live in

 

Let The Fire Burn (2013)

Este é um documentário que narra os acontecimentos que deram origem ao confronto sangrento que opôs o grupo de libertação negra MOVE e o departamento da polícia de Filadélfia em 1985. Mais um documentário a demonstrar que a situação atual americana tem raízes históricas profundas, vindas de um passado marcadamente racista.

Let The Fire Burn

 

What Happened, Miss Simone? (2015)

O documentário lançado pela Netflix vem mostrar o percurso de vida da famosa cantora americana, Nina Simone. Simone, para além de cantora, tornou-se uma importante defensora dos direitos civis, iniciando numa luta incessante pela igualdade. Um documentário urgente nos tempos em que vivemos, e que podes assistir na plataforma de streaming.

Miss Simone

 

White People (2015)

White People é um documentário americano dirigido, produzido, e protagonizado pelo vencedor do Prémio Pulitzer, Jose Antonio Vargas, e explora os privilégios das pessoas brancas nos Estados Unidos. Neste documentário, os adolescentes conseguem expressar abertamente os seus pensamentos sobre raça, mesmo quando não são politicamente corretos. Está disponível no canal de YouTube da MTV.

White People

 

Os Panteras Negras (2015)

A década de 1960 foi bastante turbulenta para a América, com cidades em chamas, a guerra do Vietname a decorrer, a segregação racial ainda bem presente, e as disputas cada vez mais acesas pela igualdade e direitos civis. Surgiu então uma revolução cultural, em que os Panteras Negras se colocaram na linha da frente. Este documentário explora em detalhe o Partido dos Panteras Negras, o seu significado para a cultura americana, o impacto político que teve nos direitos da comunidade negra, e as lições que nos deixou para o futuro. Podem ver no YouTube.

Panteras Negras

 

I Am Not Your Negro (2016)

I Am Not Your Negro não é um documentário leve. Tendo por base um manuscrito do escritor e ativista James Baldwin, o documentário conta as histórias de três dos mais importantes ativistas pelos direitos humanos nos Estados Unidos: Malcom X, Martin Luther King Jr.e Medgar Evers. Conta com narração de Samuel L. Jackson, e foi nomeado para o Óscar de Melhor Documentário, tendo arrecadado o BAFTAna mesma categoria. Está disponível na FILMIN.

I Am Not Your Negro

 

13th (2016)

Depois de Selma, e antes de When They See Us, Ava DuVernay escreveu, realizou, e produziu o documentário  A 13.ª Emenda. Com imagens de arquivo e testemunhos de ativistas, políticos, historiadores/as, e ex-presidiários/as, DuVernay explora o sistema presidiário e judicial norte-americano e a forma como a 13.ª Emenda se tornou numa alternativa para manter a existência de trabalho escravo. Está disponível na Netflix.

13th - documentário

Sugestões de Ana Silva, Diogo Silva, Miguel Rocha,Pedro Terrantez e Rui Pedro Félix

 

 

O post 8 documentários sobre o problema do racismo nos EUA aparece primeiro no Espalha-Factos.

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John Boyega participa em protesto ‘Black Lives Matter’: “Não sei se terei carreira depois disto”

John Boyega em manifestação pelo movimento Black Lives Matter

John Boyega, ator que participou na mais recente trilogia Star Wars, discursou no Hyde Park em Londres nos protestos do movimento Black Lives Matter. Frente a uma multidão, Boyega mostrou apoio à família de George Floyd, homem que morreu em Minneapolis, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos.

“Eu preciso que entendam o quão doloroso é ser lembrado todos os dias de que a sua raça não significa nada” é uma das frases emotivas que John Boyega exclamou nos protestos desta quarta-feira, dia 3 de junho, em Londres. O ator, que interpretou Finn na nova trilogia de Star Wars, admite inclusivamente receio de que a sua carreira possa terminar devido à sua participação pública nestes protestos.

Visivelmente emocionado, Boyega proferiu que “as vidas negras sempre importaram”. O britânico salientou ainda que a comunidade negra sempre foi importante. “Sempre tivemos significado. Sempre tivemos sucesso, apesar de tudo. E agora é a altura. Eu não vou esperar”, vociferou, sem deixar de mostrar o seu apoio a manifestações de teor pacífico.

“Não sei se vou ter uma carreira depois disto, mas que se f*da”, chega mesmo a admitir.

No entanto, a produtora Lucasfilm já fez um comunicado para expressar apoio ao ator britânico, referindo que John Boyega “é um herói”.

Para além disso, Mark Hamill, que contracenou com John Boyega em Star Wars, apoiou-o publicamente no Twitter. Os realizadores Jordan Peele, Rian Johnson e Edgar Wright seguiram o exemplo e elogiaram as atitudes do ator britânico.

É de relembrar que George Floyd foi assassinado em Minneapolis, nos EUA. Devido ao acontecimento, tem havido manifestações contra o racismo e a violência policial um pouco por todo o mundo.

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Dois mortos a tiros e 60 presos em protestos em Chicago

Dois mortos em Chicago, pilhagens e detenções continuam em várias...

Chicago, 2 jun (Xinhua) -- Duas pessoas foram mortas a tiros e pelo menos 60 foram detidas, enquanto protestos e saques prosseguiram nos bairros e subúrbios de Chicago na segunda-feira em resposta ao assassinato de George Floyd pela polícia.

Protestos e saques se espalharam para o norte, oeste e sul de Chicago quando o prefeito da cidade Lori Lightfoot bloqueou no domingo o Distrito Comercial Central e Loop. As principais áreas do centro de Chicago foram saqueadas e severamente atingidas por manifestantes no sábado à noite.

O governador de Illinois, J.B. Pritzker, anunciou na segunda-feira que estava enviando mais 250 militares da Guarda Nacional de Illinois e 300 membros da Polícia Estadual para ajudar no reforço do departamento da polícia suburbana e do interior do estado, ao declarar zona de calamidade pública em sete municípios de Illinois.

Pritzker já havia ativado 375 membros da guarda para Chicago no fim de semana a pedido de Lightfoot.

O toque de recolher que Lightfoot impôs a Chicago no sábado, das 21h às 06h, permaneceu em vigor, com todos os serviços de ônibus e trem suspensos durante a noite. Metra também suspendeu seu serviço na segunda-feira.

Segunda-feira foi o terceiro dia consecutivo em que os protestos foram estragados por saques nos bairros e subúrbios da cidade de Chicago.

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu em 25 de maio após o policial Derek Chauvin, de Minneapolis, ter sido flagrado em um vídeo, asfixiando Floyd por oito minutos. Protestos eclodiram em Minneapolis, Minnesota, no dia seguinte, e rapidamente se espalharam pelos Estados Unidos.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/03/c_139110491.htm

Protesto contra morte de negro na França acaba em confrontos e 18 presos

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247 -Milhares de pessoas se manifestaram nesta terça-feira em Paris pelo assassinato há quatro anos de um jovem negro. A direita condenou a manifestação, proibida na véspera pela polícia. "Inadmissível", declarou o senador Bruno Retailleau a uma TV, lembrando que os agrupamentos de mais de dez pessoas estão proibidos por causa da crise sanitária.

A manifestação foi convocada pelo comitê de apoio à família de Traoré. O ato tinha sido proibido pela polícia, devido ao estado de emergência decretado por causa da epidemia de coronavírus, mas acabou transcorrendo de forma pacífica praticamente até o final, quando cenas de vandalismo foram vistas nas redondezas.

Quando os manifestantes começavam a se dispersar, aconteceram os primeiros confrontos com a polícia, que respondeu aos projéteis com tiros de flashball e bombas de gás lacrimogênio. Os participantes do protesto se dispersaram pelas ruas vizinhas e no bulevar periférico que cerca a capital francesa, onde centenas deles bloquearam parcialmente a passagem dos veículos. Nas ruas foram erguidas barricadas e algumas bicicletas foram incendiadas.

Morte de Traoré lembra caso George Floyd

Traoré tinha 24 anos quando morreu. A investigação judicial concluiu que ele sofria de uma doença cardíaca pré-existente, que teria causado sua morte, mas um relatório de peritos independentes contratados pela família concluiu que ele morreu devido ao peso dos três policiais que o mantiveram de bruços, pressionando o corpo do jovem, durante a operação de detenção.

As circunstâncias similares da morte de George Floyd, nos Estados Unidos, reacende o debate sobre o racismo e a brutalidade da polícia francesa. A irmã da Adama, Assa Traoré, diz que o jovem também morreu asfixiado por policiais e no dia de seu aniversário.

Informações da RFI

As últimas palavras do último discurso de Martin Luther King

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Discurso de Memphis, 3 de Março de 1968

As últimas palavras do último discurso deMartin Luther King:

(…)
Well, I don’t know what will happen now. We’ve got some difficult days ahead. But it doesn’t matter with me now. Because I’ve been to the mountaintop. And I don’t mind. Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I’m not concerned about that now. I just want to do God’s will. And He’s allowed me to go up to the mountain. And I’ve looked over. And I’ve seen the promised land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we, as a people will get to the promised land. And I’m happy, tonight. I’m not worried about anything. I’m not fearing any man. Mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord.

Bem, eu não sei o que acontecerá agora. Teremos alguns dias difíceis. Mas, para mim, isso não importa. Porque eu estive no cimo da montanha. E não me importo. Como todos, gostaria de ter uma vida longa. Por que não? Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero fazer a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha. E eu vi lá de cima. E vi a terra prometida. Talvez não vos acompanhe até lá. Mas, quero que saibam esta noite que nós, como povo, chegaremos à terra prometida. E estou feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo nenhum homem. Os meus olhos viram a glória da chegada do Senhor. 

 

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James Earl Ray

Para ouvir na íntegra o discurso de Martin Luther King,de3 de Março de 1968, em Memphis clicar AQUI e para ler (em inglês) clicar AQUI.

 

Publicado neste blog:

 

Via: O CASTENDO https://bit.ly/2AxLtaL

Mais de 100 escritores africanos solidários com protestos anti-racistas

Ondjaki, Grada Kilomba e Pepetela contam-se entre os muitos escritores que condenaram «actos de violência contra pessoas negras» nos EUA, apoiando os protestos naquele país «e em todo o mundo».

Um homem passa por um mural de Freddie Gray perto do local onde Gray foi espancado pela polícia em 2015. Donald Trump foi acusado de racismo depois de chamar à cidade uma "caixa de lixo repugnante, infestada de ratos e roedores". Baltimore, EUA.Créditos

Numa carta aberta, divulgada esta terça-feira, 106 escritores africanos condenam os assassinatos de vários cidadãos negros nos EUA, entre os quais George Floyd, um afro-americano de 46 anos, que morreu em 25 de Maio, em Minneapolis (no estado do Minnesota), depois de um polícia branco lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos, apesar de Floyd dizer que não conseguia respirar.

Além de George Floyd, os escritores nomeiam mais de 70 cidadãos negros que morreram nos EUA, em «actos de violência» devido à cor da pele, e cujas mortes foram noticiadas. «E tantos outros nomes, conhecidos e desconhecidos, que representam seres humanos semelhantes a nós. Nosso sangue», acrescentam. 

Desde a divulgação das imagens de George Floyd nas redes sociais, deitado no chão com um polícia branco a pressionar-lhe o pescoço com o joelho, têm-se sucedido os protestos contra a violência policial e o racismo em dezenas de cidades norte-americanas.

Na carta aberta, os escritores africanos apoiam os protestos nos Estados Unidos e em todo o mundo. «O nosso povo exige justiça por todo e qualquer assassinato racial, seja pela polícia ou por civis. Estamos cientes de que estes não são protestos tranquilos. Não era o que esperávamos e nem o que deveria ser esperado nos Estados Unidos da América. Os assassinatos não foram praticados silenciosamente. A brutalidade policial e os assassinatos sancionados pelo Estado foram realizados – por parte daqueles que os cometeram – em 'voz alta' e sem medo das consequências», escrevem os signatários.

Os escritores africanos reconhecem «a condenação da União Africana do terrorismo contínuo do governo dos Estados Unidos da América contra todas as pessoas afro-americanas», salientando acreditarem que aquela organização internacional «pode e deve fazer melhor».

A morte de George Floyd ocorreu durante a sua detenção por suspeita de ter usado uma nota falsa de 20 dólares (18 euros) numa loja.

Os subscritores da carta aberta divulgada ontem exigem «que as instituições jurídicas americanas investiguem – independentemente – todas as mortes por polícias e qualquer queixa contra a violência policial» e que «qualquer acusação seja suspensa sem pagamento até que um julgamento justo liberte estas pessoas das acusações de que são alvo».

«Pedimos, assim, aos Estados Unidos da América que sejam corajosos o suficiente para aderir à sua própria declaração de direitos, para que possa ser uma terra de liberdade para todas as pessoas americanas, independentemente da sua cor, credo, classe, orientação sexual», lê-se na carta.

Os escritores afirmam que «Black Lives Matter» («Vidas Negras Importam») e lembram que não escrevem apenas, também erguem «os punhos em solidariedade com todas as pessoas que recusam o seu silenciamento».

«Aos nossos irmãos e irmãs nos Estados Unidos, estamos do vosso lado», garantem os signatários, pedindo «a todos os seres humanos decentes» que se juntem a eles.

 

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/mais-de-100-escritores-africanos-solidarios-com-protestos-anti-racistas

George Floyd | EUA vivem "crise moral, além de socioeconómica"

 
 
O ator luso-americano Dinarte de Freitas, que viu os protestos sobre a morte de George Floyd chegarem ao seu bairro, em Los Angeles, disse que a situação espelha a crise e a discussão necessária nos Estados Unidos.

"Eu temo por este país", disse à Lusa o ator. "Neste momento, a América sofre uma crise moral, além de socioeconómica. Tudo isto a acontecer no meio de uma pandemia, a seis meses de uma eleição. O mundo está em convulsão", acrescentou.
 
Dinarte de Freitas, conhecido pelo personagem Pedro da série "The Gifted" e que entrou na 3.ª temporada de "Stranger Things", disse esperar que a situação acalme e os protestos ajudem à mudança. "Pelo menos que se continue esta conversa mas de uma forma pacífica, e que estes grupos extremistas que andam a incentivar à violência e ao vandalismo possam ser identificados e exista uma ação para os deter".

Depois de um fim de semana de grande agitação, em que o ator se viu envolvido num confronto entre manifestantes e a polícia, que disparou balas de borracha e gás lacrimogéneo para dispersar a população, os ânimos não acalmaram.

"Há ambulâncias e helicópteros cá fora", descreveu. "Os protestos voltam a ser aqui perto de casa. Vi muitas pessoas a taparem as fachadas dos negócios e restaurantes", afirmou.

 
Los Angeles decretou recolhimento obrigatório nos últimos dias, com a Guarda Nacional a patrulhar as ruas perante protestos que terminaram em vandalismo e pilhagens. O ruído de helicópteros da polícia a sobrevoarem a cidade tem sido constante e foram detidas mais de duas mil pessoas.

"Os protestos começaram de forma pacífica, inclusivamente vi grupos étnicos com trajes dos países a dançar, vi pessoas que estavam calmamente a passar", disse Dinarte de Freitas. "Há a ideia que existem grupos extremistas dentro dos protestos que estão a tentar criar o caos e de certa forma afastar o foco da conversa que as pessoas querem ter", sublinhou.

Neste bairro conhecido como Miracle Mile, perto de Beverly Hills, o supermercado Trader Joe's foi invadido e houve uma tentativa de o incendiar, o Whole Foods foi pilhado, as lojas de departamento Nordstrom no espaço The Grove foram saqueadas, um carro da polícia ardeu e uma loja de "vaping" foi vandalizada, entre outros incidentes.

"Muitas das lojas ainda não tinham tido a oportunidade de reabrir ao público" depois do confinamento causado pela covid-19, disse o ator. "Muitos são negócios pequenos. Nas fachadas puseram cartazes a dizer esta loja pertence a um imigrante ou a alguém de uma minoria, de forma a evitar que vandalizem a propriedade".

Com as dificuldades do confinamento e os prejuízos causados pelo vandalismo, há o receio de que muitos destes pequenos comerciantes "depois não consigam voltar ao trabalho".

Ainda assim, o ator referiu que quando saiu de casa após uma noite de confrontos viu "muitos jovens de várias etnias a limparem as fachadas e os estragos, muitos com vassouras e pás, entre negros, latinos e brancos a ajudar", descreveu. "Isso foi especial de ver", concluiu.

No meio das manifestações, Dinarte de Freitas assistiu a um sentimento de "muita frustração" por parte dos jovens afro-americanos, netos de pessoas que viveram o tempo da segregação, "uma tristeza profunda quase que geracional".

"Consegue-se perceber a raiva nestes jovens", disse, acrescentando: "Não acredito que seja uma raiva contra o branco em si, é uma raiva contra a forma como são tratados, a falta de oportunidades, o económico e social".

O cenário que se vive em vários pontos do condado de LA, que atingiu desde a baixa até Santa Mónica, Beverly Hills e Long Beach, é semelhante ao que se verifica em diversos estados e levou o Presidente, Donald Trump, a fazer uma comunicação ao país.

O chefe de Estado, falando em Washington, D.C., apelou aos governadores dos estados afetados que controlem a violência e disse que se não o fizerem irá convocar o exército para repôr a normalidade.

O ator considerou também é preciso ter bom senso quando o polícia dá uma ordem: "No meio das pessoas boas também existe o chamado oportunista, que são estes grupos extremistas que podem ter uma arma, algo que possa magoar o polícia, e temos uma situação de caos completo".

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu em 25 de maio, em Minneapolis (Minnesota), depois de um polícia branco lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos numa operação de detenção, apesar de Floyd dizer que não conseguia respirar.

Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: Reuters
 
Leia em Notícias ao Minuto:

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/george-floyd-eua-vivem-crise-moral-alem.html

EUA | Pelo menos 5.600 pessoas detidas desde início dos protestos por Floyd

 
 
Pelo menos 5.600 pessoas foram detidas nos Estados Unidos desde o início dos protestos contra a morte do afro-americano George Floyd às mãos da polícia, segundo a agência de notícias Associated Press.

As detenções tiveram lugar sobretudo em cidades em que as manifestações se tornaram mais violentas e num momento em que a polícia e os governadores são instados pelo Presidente, Donald Trump, a endurecer as ações para reprimir os protestos.
 
Em Minneapolis, onde Floyd morreu, foram efetuadas 155 detenções, 800 em Nova Iorque e mais de 900 em Los Angeles.

A indignação foi sentida um pouco por todo o país. De Nova Iorque a Los Angeles, de Filadélfia a Seattle, centenas de milhares de norte-americanos têm-se manifestado contra a brutalidade policial, o racismo e a desigualdade social.

As manifestações terminaram muitas vezes em confrontos com a polícias, em pilhagens e tumultos, levando várias cidades a mobilizar a Guarda Nacional e a impor o recolher obrigatório.

George Floyd foi assassinado às mãos da polícia norte-americana, devido à pressão feita no seu pescoço, e o afro-americano estava sob o efeito de drogas, concluiu o médico legista responsável pela autópsia.

O afro-americano de 46 anos teve uma "parada cardíaca e pulmonar" por causa da forma como foi imobilizado pela polícia, indicou em comunicado, esta segunda-feira, o médico legista do condado de Hennepin.

No relatório, listou "outros parâmetros importantes: arteriosclerose e pressão alta; envenenamento por fentanil [um opiáceo]; uso recente de anfetaminas".

George Floyd, suspeito pela polícia de falsificar uma nota falsificada de 20 dólares (18 euros), morreu quando foi detido em Minneapolis, no norte dos Estados Unidos, há uma semana.

De acordo com imagens que já percorreram o mundo, um agente manteve-o imobilizado no chão, ajoelhado sobre o seu pescoço por quase nove minutos.

O polícia, Derek Chauvin, 44, foi demitido, detido e acusado de homicídio. Os três outros agentes presentes no momento dos eventos também foram despedidos, mas não foram até ao momento sujeitos a qualquer acusação.

Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Reuters /  Eric Miller
 
 
Leia mais em Notícias ao Minuto:

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/eua-pelo-menos-5600-pessoas-detidas.html

O homem que não conseguia respirar e morreu

Esposa do policial acusado de matar George Floyd nos EUA pede divórcio

Um homem manietou outro homem. Tem-no a seus pés. O homem que detém todo o poder sobre o outro homem derrubado e estendido no chão sabe quem é o homem que tem ao seu dispor.

O homem que segura o manietado e indefeso jazendo no asfalto decide acrescentar toda a sua autoridade e força sobre o homem que nada faz no asfalto – carrega no pescoço do indefeso todo o peso do seu corpo com o seu joelho.

Como se o debaixo fosse uma presa, pois de um negro se trata e para o de cima um negro é alguém a quem se pode colocar um joelho no pescoço, como se fosse uma presa de caça.

Quem está com o joelho no pescoço do homem sente que ele começa a não poder respirar. E o debaixo que tem o joelho no pescoço diz ao de cima que não pode respirar.

O de cima já sabia que ele tendo o joelho com todo o peso do seu corpo em cima do pescoço do outro, ele não poderia respirar.

Quando o debaixo confirma que ele não pode respirar, o de cima atingiu muito provavelmente o resultado pretendido, pois todos os homens do mundo sabem que se colocarem um joelho no pescoço de outro homem carregando com o seu peso, o debaixo não respirará.

Neste caso o debaixo diz ao de cima aquilo que é evidente – Não consigo respirar. O de cima vê ratificado o que já sabia, que o está sob a pressão do seu joelho não pode respirar.

O de baixo implora ao de cima para tirar o joelho porque não consegue respirar e o de cima bem o ouve. Porém, o de cima tem farda e é branco e também sabe que um homem que não pode respirar não respira e se não respira pode morrer. É o que todos sabem, brancos e negros.

Só que o branco fardado tem debaixo do seu joelho o pescoço de um preto que ele conhece e o que ele possa dizer pouco importa porque ele é o dono do outro, tanto assim é que o tem como um animal de caça e sabe que é razoável que não possa respirar. Ele já sabia que ele não poderia respirar, tanto que lhe confirma já quase desmaiado que não respira.

O homem fardado não está só. O que está só é o que tem o joelho no seu pescoço e já não consegue respirar.

Passado algum tempo o homem não respira. O de cima era um polícia. O debaixo um negro. Quando o polícia carregou o seu joelho e o seu corpo sobre o pescoço de George Floyde sabia que ele não respiraria.

O que ele não sabia é que o seu joelho não sufocou apenas George Floyde, mas toda a Humanidade. Todos os homens decentes do mundo se sentiram sufocados como se tivessem no pescoço o peso do joelho daquele polícia de Mineápolis.

E a América, a grande América levantou-se para não se deixar sufocar. Será que voltará a ser grande e mais nenhum polícia poderá assassinar negros da América?

 

https://www.publico.pt/2020/06/03/mundo/opiniao/homem-nao-conseguia-respirar-morreu-1919094

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/06/03/o-homem-que-nao-conseguia-respirar-e-morreu/

Silêncio, conivência e desculpabilização

«O problema está centrado numa sistemática brutalidade policial em relação aos afro-americanos. E isso é um espelho de um racismo estrutural na sociedade americana, que não é de agora, não vem com o Trump e não se limita à polícia, que é a face visível de uma brutalidade constante sempre sobre os mesmos, matando.
(...) A administração Obama, que foi bombeira em muitas situações, nomeadamente na crise económica e no desemprego, quis fazer uma grande reforma do sistema policial, em 2015. Tentou que a polícia fosse um parceiro da comunidade, e não um castigador permanente da comunidade, tal qual nós vemos em variadíssimas cenas de violência gratuita, sem acusação, sem nada... Essa lei foi contudo anulada em 2017 pela atual administração, que reverteu todos os passos que estavam a ser dados para que houvesse mais monitorização do comportamento individual das polícias nos Estados Unidos; para que houvesse responsabilização sobre os seus crimes; mais atenção para o diálogo entre polícias e comunidade; para que material militar não lhes chegasse com a flexibilidade com que estava a acontecer. Tudo isso foi revertido. E portanto a polícia ficou num livre arbítrio que não é sancionado pela administração. Nomeadamente num conjunto ideológico que permite, por exemplo, que líderes sindicais da polícia de Minneapolis vão a comícios e sejam oradores de comícios do Presidente Trump. Ora, isto é uma subversão total da separação de poderes e de uma ética profissional.
Além disso nós temos, em paralelo, um aumento dos crimes raciais praticados por grupos supremacistas brancos, neonazis - não lhes vamos chamar outra coisa - nos últimos três anos: 35%. Estão no topo da criminalidade interna, nos relatórios do FBI. Não é o Estado Islâmico, não são crimes de ódio por razões étnicas... É ódio branco contra outras comunidades, nomeadamente latinos, judeus e afro-americanos. A polícia - e aqui um parênteses: nem toda a polícia, nós temos vários exemplos de bom comportamento policial e de tentativa de repor o bom nome de muitas comunidades policiais que zelam pela segurança - não tem sabido distanciar-se.
(...) O presidente, face a vários casos de grupos de supremacia branca e violência policial foi absolutamente silencioso ao longo destes três anos, quatro anos já. Foi conivente, foi desculpabilizador. E portanto é um legitimador destas práticas. Isto é tanto mais grave quanto nós estamos num momento limite, não só de inversão do ciclo económico nos Estados Unidos como de uma tensão social que ao mínimo fósforo rebenta. É isso que está a acontecer. O presidente não é um gestor de crises, é um pirómano. Se Obama foi um bombeiro, este presidente é um pirómano. (...) E é por isso que ele faz os subterfúgios que faz: junta a China à Organização Mundial de Saúde, para encontrar um inimigo externo para a gestão caótica da pandemia, e agora a Antifa, sem que haja qualquer enquadramento jurídico para o terrorismo interno e quando nunca teve nenhuma ação no sentido de, por exemplo, colocar o Ku Klux Klan como atividade terrorista interna ou outros grupos estaduais de supremacia branca
».

Bernardo Pires de Lima (Telejornal da RTP1, a partir dos 24 min e 35 seg).

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Historiador americano afirma que protestos nos EUA são maiores que em 1968

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247 - O historiador americano James Green afirmou que o momento histórico dos EUA é único e marca uma ascensão dos jovens e das comunidades afrodescendentes. Ele disse:

“Isso é muito maior [do que ocorreu em 1968]. Está nas ruas, em todos os lugares. É uma unidade de uma nova geração de jovens que foram criados contra essa ideia de racismo. Eles estão nas ruas revoltados contra esse vídeo, que foi chocante.”

Em entrevista ao site Tutaméia, ele lembrou que “o que é notável nas manifestações é que não são somente negros, não são somente afro-americanos. É uma congregação de todos os tipos de pessoa que você pode imaginar. Muitos jovens, brancos, latinos, asiáticos nas manifestações, que são por isso muito diversas, muito democráticas”.

O historiador ainda destacou que “não quero fazer paralelos, porque cada país, cada situação tem sua dinâmica. Mas acho que a situação no Brasil está na beira de explodir também. Acho que esses processos nos Estados Unidos já estão dando ideias para as pessoas, de como agir nessa situação. Como em 1968, quando as informações sobre protestos e agitações circularam pela mídia do mundo todo, as pessoas tinham referências internacionais, enquanto as manifestações no Brasil tinham muito a ver com a situação nacional. Isso pode acontecer.”

 

FIFA pede “bom senso” sobre castigos a jogadores que homenageiem George Floyd

O jogador do Dortmund, Jadon Sancho.

A FIFA pediu na segunda-feira “bom senso” na aplicação de possíveis castigos a jogadores que homenageiem durante os encontros o norte-americano George Floyd, que morreu em 25 de maio, após uma ação policial.

 

Em comunicado, a FIFA pede às federações nacionais para mostrar alguma flexibilidade em relação a possíveis castigos a jogadores, como foi assumido pela federação alemã, após vários jogadores terem homenageado Floyd na última jornada da liga alemã.”

“A FIFA compreende totalmente o sentimento profundo e as preocupações mostradas por vários jogadores devido às trágicas circunstâncias do caso de George Floyd”, lê-se num comunicado da FIFA.

O organismo que tutela o futebol mundial lembra que a aplicação das leis (que preveem castigos para jogadores que mostrem mensagens políticas durante os jogos) é da responsabilidade dos organizadores das competições, mas pede que se use “bom senso e se tenha em consideração o contexto que envolvem estes eventos”.

O futebol tem sido muito criticado por fazer pouco para erradicar o racismo, mas a FIFA garante que se tem “expressado repetidamente (…) contra o racismo e a discriminação de qualquer espécie”.

“Recentemente (a FIFA) reforçou as suas próprias regras disciplinares para tentar ajudar a erradicar esses comportamentos“, adianta o comunicado.

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu em 25 de maio, em Minneapolis (Minnesota), depois de um polícia branco lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos numa operação de detenção, apesar de Floyd dizer que não conseguia respirar.

Desde a divulgação das imagens nas redes sociais, têm-se sucedido os protestos contra a violência policial e o racismo em dezenas de cidades norte-americanas, algumas das quais foram palco de atos de pilhagem.

Pelo menos quatro mil pessoas foram detidas e o recolher obrigatório foi imposto em várias cidades, incluindo Washington e Nova Iorque, mas diversos comentários do Presidente norte-americano, Donald Trump, contra os manifestantes têm intensificado os protestos.

Os quatro polícias envolvidos no incidente foram despedidos, e o agente Derek Chauvin, que colocou o joelho no pescoço de Floyd, foi detido, acusado de assassínio em terceiro grau e de homicídio involuntário. A morte de Floyd ocorreu durante a sua detenção por suspeita de ter usado uma nota falsa de 20 dólares (18 euros) numa loja.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/fifa-bom-senso-castigos-george-floyd-327830

As ruas dos EUA queimam contra o racismo

Protestos massivos que tomam as cidades americanas escancaram seu racismo secular e o desespero de uma democracia cheia de falhas.

 

 

Em plena pandemia do coronavírus os Estados Unidos têm tido protestos massivos que se espalham por todo o país, depois que mais um negro foi morto a sangue frio pela polícia, agora na cidade de Minneapolis, em Minnesota. George Floyd, mesmo desarmado, teve seu pescoço pressionado conta o chão por um policial branco, enquanto suplicava por sua vida. “Por favor, eu não consigo respirar”, disse várias vezes antes de morrer.

O despreocupado semblante do policial escancarou o estado de espírito de um país que foi construído ao longo de toda sua história em cima da ideia da supremacia e do privilégio branco. Que tem pesadelos com a latinização de seu território por imigrantes de países vizinhos. Um país que teve um regime declarado de segregação racial e que desde o fim da escravidão encarcerou massivamente negros, para que esses continuassem sendo uma peça na linha de produção da economia americana.

Como numa releitura dos protestos e do caos que tomou Los Angeles em 1992, depois que policiais brancos espancaram o negro Rodney King e foram absolvidos, levando a segunda maior cidade americana a quase uma guerra civil, vemos o ódio acumulado pelo racismo secular da terra da liberdade explodir por várias cidades. O que levou o presidente Donald Trump a convocar a Polícia Militar dos EUA, o que seria o equivalente a nossa Polícia do Exército, para conter os atos.

Neste domingo, Trump declarou que grupos antifascistas são terroristas. Claro, não é de se estranhar essa atitude, afinal, os grupos antifascistas têm dado não só suporte aos protestos dos afro-americanos, como têm, muitas vezes, se colocado na linha de frente do confronto, fazendo uma barreira humana para proteger seus irmãos. Ao fazer isso, Trump desumaniza as pessoas que estão nas ruas, porque o terrorismo está enraizado no imaginário popular americano como a maior ameaça que possa existir aos EUA. Então do outro lado deixam de existir pessoas dotadas de sentimentos. Dotadas de humanidade. E muito menos dotada de razão. Existiria só uma turba enraivecida e que precisaria ser detida… ou eliminada.

Mas o pior é que ao fazer isso, Trump também ganha liberdade para enquadrar como antifascistas, logo terroristas, os grupos de negros que vão às ruas protestar, negando um direito constitucional dos EUA, mais uma vez, aos afro-americanos. Só que, por outro lado, quando ele declara que grupos antifascistas são terroristas, ele automaticamente se declara fascista, declara que os EUA tem um governo fascista e, por tanto, agirá para defender o caráter fascista dessas instituições. Então a “maior democracia” do mundo não seria uma democracia de fato?

Ao longo de sua história, os EUA estiveram envolvidos em eventos que contestam fortemente essa autodeclaração. Como quando nos anos de 1960 desenvolveu seu Programa de Contrainteligência (Contelinpro) perseguiu nas sombras o movimento pelos direitos civis dos negros – atribuindo-lhes o caráter de terroristas e comunistas -, prendeu e executou extrajudicialmente membros dos Panteras Negras e de movimentos indígenas, tentou influenciar o suicídio de Martin Luther King ao espiona-lo e ao expor um caso amoroso que ele tinha fora do casamento. Era um duplo assassinato. O assassinato da sua moral e a imposição do seu suicídio. Mas ele se manteve firme.

O que acontece hoje nas ruas americanas não é espanto. É a falha de em modelo de integração racial que nunca existiu nos EUA, um país que é diverso etnicamente, mas que continua tentando manter os privilégios de uma população branca que vai diminuindo ao longo das décadas. Um ponto interessante é que o poder do homem branco como maioria, no imaginário americano é tão grande, que membros de grupos que antes não eram considerados brancos, como os italianos, pelos descendentes anglo-saxões, germânicos e escandinavos, passaram a ser considerados brancos lá atrás. E hoje, muitos latinos já são considerados brancos, também.

O que acontece hoje é o desespero de um modelo de país que está fadado ao fracasso. Um dia será extinto, assim como o conceito de superioridade racial dois séculos atrás. Mas até lá, as ruas precisam pegar fogo!


por Rodrigo Barradas, Jornalista e autor de Em Chamas, livro de poesias (2015)   | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/as-ruas-dos-eua-queimam-contra-o-racismo/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=as-ruas-dos-eua-queimam-contra-o-racismo

Encenação

Polícia dispersa manifestantes com gás lacrimogéneo em frente à...
 
Tudo o que estamos a ver em redor da Casa Branca, tudo o que está a acontecer nos Estados Unidos da América, não é nos Estados Unidos da América, são imagens dos protestos em Hong Kong, não obstantes «Os media locais informarem que, face aos protestos perto da Casa Branca, os Serviços de Segurança tivessem albergado Donald Trump num abrigo subterrâneo», semelhante ao bunker onde Hitler se teria suicidado, digo eu.
Noticiam também que as manifestações em Washington DC levaram a que apagassem todas as luzes na Casa Branca, o que acontece pela primeira vez na história dos Estados Unidos da América.
Fake news apresentadas com imagens de Hong Kong?
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Crónica sobre o costume: o outro

 
 
Ferreira Fernandes | Diário de Notícias | opinião

Leitor, olá! Escolheu bem por me ler, sou um doutorado no assunto momentoso que aqui nos junta. Perdoe-me a imodéstia, não sou um sábio, é certo, falham-me livros, mas sou experimentadíssimo sobre o que abre os telejornais na América. O outro.

O assunto momentoso: na Georgia, estado do sul dos Estados Unidos, um homem corre no lusco-fusco, num daqueles bairros dos subúrbios que Hollywood nos ensinou a conhecer, sem muros nos quintais e com portas de vidrinhos e uma lingueta de trinco que salta com um simples piparote - toda a segurança que basta e acautela a classe média baixa americana. Branca. De americanos brancos, repito, porque nesta história é essencial essa brancura que contrasta com a pele negra do homem que corre. Um vídeo filma-o e também a um carro de habitantes do bairro que o persegue.

Outro ângulo da mesma situação: um homem está no chão, detido pela polícia de Minneapolis, no estado do Minnesota, no norte dos Estados Unidos. Três agentes fardados estão sobre o homem, encostando-o à roda traseira do carro policial, um deles com um joelho sobre o pescoço do detido. Há ainda outro polícia, de pé, que afasta a gente que se acerca e, sobretudo, aos seus vídeos. Mas estes filmam o homem, durante longos minutos, com a face negra empurrada contra o asfalto. O sujeitado que se queixa: "Não consigo respirar..."

 
Ambas as cenas entraram no nosso confinamento e acabaram de forma similar. O primeiro dos negros foi morto a tiro, o segundo estrangulado. Eu podia agora epilogar sobre diferenças: o primeiro foi morto por brutalidade deliberada e o outro por bruta imprevidência. Podia assinalar uma ironia: o jogging aos brancos dá saúde, mas correr num negro é fatal. Podia convidar-vos à minúcia cruel: olhem o joelho do polícia como se mexe, metódico, sobre um pescoço... Ou promover o conhecimento barato: aquele golpe de arte marcial é um chokehold ou um seat belt?

Mas fico-me pelo essencial: aprendam a ver o ato racista. Este agora não acontece mais, mas esse crime, que existiu sempre, passou a conhecer o seu mais temível adversário. Aleluia! Foi inventado o seu antídoto mais poderoso: o vídeo nas mãos de cidadãos é uma arma que o expõe. Mostra o racismo a matar, em imagem e som. Claro, não é cura universal, haverá até gente a aproveitar a exposição para gozar melhor. E ainda mais gente, sempre demasiada, que encontrará desculpas para não ver o que vê. Mas, agora, se gente decente souber merecer a experiência...

 
Eu tinha 12 anos, andava no liceu e estudava numa noite quente, como eram quase todas na minha cidade colonial, Luanda. O ano era 1961, e o meu bairro, São Paulo, branco e mestiço, vizinho ao musseque Sambizanga, andava há semanas envenenado pela mais torta das inteligências, o medo. E eu tinha 12 anos, estava na minha cidade e estudava e, contas todas feitas, era feliz como nunca mais fui.
 

Nessa altura, dez da noite já era tarde, quando ouvi o som rasca das matilhas. Perguntem à raposa o que dizem os cães, os homens sei eu: "Agarra! Agarra!" Eu estava na varanda do rés-do-chão, abri a janela e na rua vi, lá está, um negro a correr. Ele ainda estava sozinho quando o vi. Sei descrevê-lo, estou a vê-lo. Tinha uns calções de caqui e uma camisa baça de mangas curtas, era pequeno e redondo, homem, não rapaz, carapinha quase rapada, e teve a má ideia de se meter sob um camião estacionado do outro lado do passeio. Nunca olhou para mim, também sei.

Corri para porta, mas o meu pai que já estava na cama, no andar superior, tinha descido a correr e estava agarrado à chave. Saltei pela janela e enquanto atravessava o jardim da minha casa já a chusma cercava o camião. Sons de multidão e som de alguém batido. Eu gritava não sei o quê onde a palavra "não" era o que eu queria dizer. No pequeno portão do jardim um homem deu-me um murro e o meu pai agarrou-me e arrastou-me para casa. Deixei-me ir, chorava e ouvi quando a rua se calou.

Toda a minha vida tentei ser como nessa noite quente. Por exemplo, em 1999, na ponte sobre o rio Ibar, no Kosovo, vi uma velha sérvia a ser expulsa de sua casa, porque ela tinha nascido do lado errado da sua cidade de Mitrovica. Ela tremia com as mãos, sentou-se num canteiro. Passou a tremer com os joelhos e agarrou-se aos joelhos - pôs-se a bater com os dentes. Eu vi. Porque, como comecei por dizer, ando há muito a tirar o curso da vida.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/cronica-sobre-o-costume-o-outro.html

Mais de quatro mil detidos nos EUA após morte de George Floyd

 
 
Pelo menos 4.100 pessoas foram detidas nos protestos nos Estados Unidos que se seguiram à morte do afro-americano George Floyd na segunda-feira, de acordo com uma contagem realizada pela agência de notícias Associated Press.

As detenções foram feitas durante as pilhagens e no decorrer de bloqueios nas estradas, bem como pelo incumprimento do recolher obrigatório imposto em várias cidades norte-americanas.

Os números da prisão incluem os das manifestações em Nova Nova Iorque e Filadélfia na costa leste, Chicago e Dallas no centro-oeste e sudoeste, bem como em Los Angeles na costa oeste.

A filha do autarca de Nova Iorque, Bill de Blasio, está entre os detidos de sábado à noite na parte baixa de Manhattan, quando participava numa manifestação.

 
Segundo a polícia, Chiara de Blasio participou numa "manifestação ilegal" e a detenção ocorreu uma hora antes de o seu pai dizer aos manifestantes que era "hora de irem para casa" para se evitarem confrontos.

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu na noite de segunda-feira em Minneapolis, após uma intervenção policial violenta, cujas imagens foram divulgadas através da internet.

Floyd foi detido por suspeita de ter tentado pagar com uma nota falsa de 20 dólares num supermercado. Num vídeo filmado por transeuntes e divulgado nas redes sociais, é possível ver um dos agentes pressionar o pescoço da Floyd com o joelho durante vários minutos.

Desde então, várias cidades norte-americanas, incluindo Washington e Nova Iorque, têm sido palco de manifestações, com os protestos a resultarem frequentemente em confrontos com a polícia.

Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Lusa
 
Leia em Notícias ao Minuto: 
 

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‘Não há paz sem justiça’, diz filho de Luther King sobre protestos contra a morte de George Floyd

Siga o Brasil 247 no Google NewsAssine a Newsletter 247

 

 

247 -O filho do ativista negro Martin Luther King Jr., Martin Luther King III, fez uma série de tuítes defendendo os manifestantes nos Estados Unidos contra a violência policial com a população negra.

As manifestações ocorrem há sete dias, após o policial Derek Chauvin assassinar George Floyd, homem negro de 46 anos, ajoelhando-se em seu pescoço por mais de sete minutos.

Luther King III disse, citando seu pai, que “a revolta é a linguagem dos não ouvidos”. Ele também afirmou que “não pode haver paz sem justiça” e pediu “justiça para George Floyd”, dizendo que ele “foi assassinado”.

https://twitter.com/OfficialMLK3/status/1266040838628560898?ref_src=twsrc%5Etfw

 

https://twitter.com/OfficialMLK3/status/1267555305770168320?ref_src=twsrc%5Etfw

 

https://twitter.com/OfficialMLK3/status/1266858809437323267?ref_src=twsrc%5Etfw

 

 
https://twitter.com/OfficialMLK3/status/1267474913104924677?ref_src=twsrc%5Etfw

Autópsia independente comprova que George Floyd morreu de asfixia

Manifestantes carregam um cartaz em Minneapolis pedindo justiça para George Floyd
© REUTERS / Carlos Barria

Uma autópsia independente da morte de George Floyd descobriu, a pedido da família, que ele morreu de asfixia devido à pressão constante no pescoço e nas costas.

A família de Floyd divulgou os resultados da autópsia neta segunda-feira (1º).

"Os examinadores médicos de renome mundial, Dr. Michael Baden e Allecia Wilson, descobriram que a forma da morte de Floyd foi um homicídio causado por asfixia devido à compressão do pescoço e das costas que levou à falta de fluxo sanguíneo no cérebro", afirma o comunicado da família.
https://twitter.com/AttorneyCrump/status/1267540974244442112?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1267540974244442112&ref_url=https%3A%2F%2Fbr.sputniknews.com%2Famericas%2F2020060115649562-autopsia-independente-mostra-que-george-floyd-morreu-de-asfixia%2F

De forma detalhada, o comunicado explica que a pressão constante no lado direito da artéria carótida de Floyd impediu o fluxo sanguíneo para o cérebro e que o peso sobre suas costas impediu que ele conseguisse respirar. Os médicos legistas acreditam, com base em todas as evidências disponíveis, que Floyd morreu no local.

Em entrevista coletiva, o advogado principal da família, Benjamin Crump, disse que outros dois policiais de Minneapolis pressionaram os joelhos nas costas de Floyd. A equipe jurídica da família enfatizou que os outros três policiais envolvidos na prisão são também criminalmente responsáveis.

Manifestante enfrenta policiais em Raleigh, nos EUA, durante ato em resposta à morte do cidadão George Floyd

© REUTERS / Jonathan Drake
Manifestante enfrenta policiais em Raleigh, nos EUA, durante ato em resposta à morte do cidadão George Floyd

Na sexta-feira (29), o ex-policial de Minneapolis Derek Chauvin foi preso e acusado de assassinato em terceiro grau, o equivalente ao que se considera um homicídio culposo no Brasil, sem intenção de matar.

A autópsia independente contradiz o relatório da autópsia do condado de Hennepin, que constatou doenças cardíacas, hipertensão e possíveis intoxicantes que contribuíram para a morte de Floyd. Baden disse que Floyd não tinha problemas de saúde subjacentes e estava em boa saúde

O assassinato de Floyd deflagrou manifestações em massa nos Estados Unidos contra a brutalidade policial e o racismo a partir de 25 de maio. Os protestos se avançaram para tumultos com registros de violência, incêndio e saques. Diversos estados dos EUA declararam toque de recolher e o presidente Donald Trump ameaça usar força militar contra os protestos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020060115649562-autopsia-independente-mostra-que-george-floyd-morreu-de-asfixia/

América em chamas

Ahmaud Arbery, Breonna Taylor, Walter Scott, Tamir Rice, Philando Castile, Samuel Dubose, Terrence Crutcher, Trayvon Martin, Eric Garner, Oscar Grant, George Floyd. São negros, americanos, executados, abatidos como animais. As suas mortes percorreram o mundo. Assistimos aos olhos de uma pessoa, com quatro três homens em cima dele, a fazer força com os joelhos no tronco e nas pernas e a sufocá-lo com o joelho depois de o espancarem brutalmente dentro e fora do carro da polícia. Uma mulher que dormia e foi perfurada por dezenas de balas porque a polícia procurava um suspeito já detido e ainda acusou o seu companheiro por ter disparado contra um polícia que foi baleado por outro polícia. Ser negro nos EUA significa que não se pode falar quando a polícia chega. As mãos ficam no volante. Ninguém se pode mexer. A primeira coisa se te mandam atirar ao chão é atirares-te ao chão e ficares calado porque estão doze polícias com uma arma no ar e a qualquer gesto matam-te. Não te prendem. Matam-te.
Nos protestos que vão enchendo todo o país uma miúda diz que não se senta, que já perdeu três irmãos e que não se vai esconder atrás da sua cor porque ela é a razão pela qual a matam, então que a matem.
Outra mulher negra diz que aprendeu a violência com os brancos.
Uma mulher baixa um joelho diante de um pelotão de bastões em riste.
Carros da polícia avançam sobre manifestantes.
São disparadas balas de borracha directamente às cabeças dos manifestantes pacíficos.
Dois polícias passam e um atira violentamente uma mulher parada ao chão.
Um polícia a cavalo passa sobre uma manifestante.
Tanques enchem as ruas de Minneapolis e disparam sobre as pessoas nas janelas e portas de suas casas.
Às 21:13 vários polícias partem as janelas de um carro e agridem com bastões e tasers um casal de negros que regressava a casa por violação de recolhimento obrigatório, imposto nesse dia, a partir das 21h00.
O presidente ordena que o exército entre a matar.
Nos comentários, uma testemunha da execução de Floyd diz que o polícia o queria matar, estava satisfeito.
8 minutos e 43 segundos, sendo que cerca de três minutos Floyd já estaria morto e o joelho continuava a fazer pressão sobre o seu pescoço enquanto o carrasco tinha as mãos nos bolsos.
Em LA a polícia faz barreira para que a manifestação se desvie para Fairfax e não passe para Beverly Hills. Usa bastões, balas de borracha, interfere com as comunicações.
Em Nova Iorque atiram gás pimenta para cara de crianças.
Jornalistas da CNN são presos porque são negros.
Está tudo documentado.
This is America.
Sempre foi. A América onde ser negro é motivo para morrer.
Kuku, Lbc, Timor, Celso, Cláudia, Rui, Miguel, Paulo, Jakilson e tantos outros cujo nome não sei.
São negros, se a polícia diz pára, têm que parar. Mas se param são culpados e podem ser agredidos. Se fogem são culpados e serão seguramente agredidos e detidos.
O Kuku foi executado aos 14 anos com um tiro na cabeça e o carrasco absolvido. Uma esquadra inteira agrediu e torturou jovens negros e não há penas efetivas e ainda não se conhecem expulsões da PSP. Ainda são agentes. Um cidadão ucraniano foi torturado e morto por autoridades e a diretora nacional do SEF ainda está em funções. O agressor de Cláudia Simões ainda está em funções. A 20 de maio passou um ano sobre o primeiro acórdão que condenou agentes da PSP por agressões e deixou cair o racismo porque preto filho da puta, pretoguês, quero a vossa raça extinta são coisas que o nosso país, as nossas instituições acham que podem ser ouvidas e ditas. E ninguém assinalou este ano. E apesar de tudo foi o único processo a esta escala que avançou, com vítimas que resistiram, com uma decisão condenatória. Mas afinal ainda foi pouco. (será mesmo que foi?)
Durante os cinco anos que durou o processo até ao julgamento, resistiram sozinhos e aguentaram.
No último ano, aqueles dois dias por semana em Sintra, a viagem tinha uma banda sonora todas as manhãs. Repetia uma música chamada Doomed to live, da banda sonora da série Gomorra, realizada a partir do livro de Roberto Saviano, sobre a mafia napolitana. Por vezes na viagem cruzava-me com a carrinha da PSP que transportava os agressores, e não raras vezes a viagem era feita em lágrimas como se numa mistura de sentimento de impotência (quem derrota a polícia?), de incompreensão sem saber se valeria a pena que quem passou por tudo aquilo estivesse novamente a arriscar as suas vidas (sim, porque estiveram sempre em risco, não tenham ilusões) e se estariam para sempre condenados a viver assim. E no dia em que os agressores foram condenados, percebi que não e que há muito a fazer. E aqui, em Portugal, ainda não é tarde. É preciso organização, porque combatividade, resistência e luta há. Mas há demasiadas vítimas. E não podemos deixar que avance mais. Ser negro não pode ser motivo para ser agredido, detido ou executado. E nós temos que estar na linha da frente.

The great only appear great because we are on our knees. Let us rise.Big Jim Larkin

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/05/america-em-chamas.html

Policiais de Nova Jersey se juntam a manifestantes em repúdio à morte de George Floyd

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247 - A polícia do condado de Camden, em New Jersey, compartilhou neste sábado (30) uma foto do delegado Joseph Wysocki, que protestou ao lado de moradores contra a morte do rapaz negro George Floyd, imobilizado e asfixiado por um policial branco em Mineápolis, no estado de Minnesota.

“Delegado Wysocki hoje em marcha, junto aos moradores que servimos para lembrar e homenagear George Floyd. #StrongerTogether #CamdenStrong”, diz a publicação.

O governador do estado, Phil Murphy, elogiou o ato. "Ontem em Nova Jersey, os manifestantes marcharam lado a lado com oficiais da lei, em uma manifestação pacífica contra o racismo estrutural e a violência policial. Nós podemos – precisamos – marchar juntos em direção à justiça", disse.

https://twitter.com/GovMurphy/status/1267113252888199174?ref_src=twsrc%5Etfw

Onde está a liberdade de imprensa nos EUA?

 
 
Em Minneapolis, uma equipe da CNN foi presa ao noticiar sobre os protestos populares. Uma prática autoritária inaceitável, sobretudo num país que tanto ostenta sua preocupação com a liberdade, opina Carla Bleiker.
 
É pouco antes das 5h desta sexta-feira (29/05). Omar Jimenez e sua equipe noticiam para o canal de TV CNN sobre os protestos contra a violência policial em Minneapolis. Atrásdos repórteres, veem-se agentes da State Patrol, portando equipamento de proteção, capacetes e cassetetes; fumaça negra paira no ar. Durante a noite houvera distúrbios em que os cidadãos manifestaram sua cólera e luto por George Floyd, mais um afro-americano morto por um policial branco.

Portanto o clima é tenso quando Jimenez, cuja mãe também é afro-americana, filma num cruzamento da cidade no centro-norte dos Estados Unidos. Contudo ele certamente não contara ser preso diante das câmeras. Seus colegas no estúdio também se mostram chocados.
 
O que os espectadores veem é um jornalista perguntando respeitosamente onde sua equipe poderia se postar para não atrapalhar os policiais, ao que estes respondem colocando-lhe algemas. Não há reação quando ele repetidamente indaga a razão da detenção. Jimenez porta sua credencial de jornalista, que claramente o identifica como membro da imprensa, e ele e seus colegas explicam insistentemente que só estão fazendo seu trabalho. A prisão ao vivo evoca cenas de um regime autoritário.

No entanto o repórter foi preso num país que em seu hino nacional se gaba de ser "land of the free". O presidente dessa nação tão preocupada com a liberdade, Donald Trump, não esconde que considera a maioria dos jornalistas, e em especial a CNN, inimigos de Estado. Com suas tiradas contra a imprensa, ele acirra os ânimos no país e cuida para que o livre noticiário se torne cada vez mais difícil. Isso é inaceitável.

Num país que, para fora, tanto valor dá aos direitos individuais e à livre opinião, repórteres têm que poder trabalhar livremente. Em protestos e operações policiais, a situação é tensa e pode virar de um momento para o outro. No entanto isso não é desculpa para se prenderem jornalistas que de repente se encontram do lado errado de uma tropa policial.

Desde que existem jornalistas, tem havido diferenças de opinião entre imprensa e polícia. Afinal de contas, o trabalho dos repórteres é levar a público imagens e histórias, mesmo que os agentes da lei nem sempre façam boa figura. Mas se os EUA querem ser reconhecidos como um brilhante exemplo de liberdade de imprensa sob um governo democrático, a polícia não pode levar algemados os profissionais que estejam em seu caminho.
 
Carla Bleiker | Deutsche Welle | opinião
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/onde-esta-liberdade-de-imprensa-nos-eua.html

PARA PODERMOS RESPIRAR

 
 
José Soeiro | Expresso | opinião
 
“Não consigo respirar”. O grito, como é sabido, não é de nenhuma vítima da Covid-19, mas sim de George Floyd, o cidadão negro, afro-americano, de 46 anos, que foi executado barbaramente por um polícia em Minneapolis. 

A frase foi repetida dezenas de vezes, em estado de aflição, enquanto o polícia continuava a esmagar com o joelho imperturbável a garganta de Floyd. Ao contrário do que escreveu alguma imprensa, o polícia não se “ajoelhou no seu pescoço”. Asfixiou-o deliberadamente. Floyd não morreu por isso em nenhum “incidente”. Perante os apelos dos transeuntes para que o deixassem respirar e a passividade criminosa dos restantes agentes policiais, que recusaram prestar qualquer assistência a uma pessoa que estava a ser assassinada, George foi linchado por quem tem, supostamente, a missão de proteger os cidadãos.

“Não consigo respirar”. Foi também este o grito, repetido desesperadamente mais de uma dezena de vezes, por Eric Garner, cidadão negro que tinha 43 anos quando foi estrangulado ate à morte, durante mais de 15 segundos, em julho de 2014, por um agente da polícia de Nova Iorque, também ele um homem branco. O caso, seis anos antes numa outra cidade, e que terminou sem qualquer condenação do homicida, tem todas as afinidades possíveis com o de Minneapolis. E mostra como nada parece ter mudado para todos aqueles que não podem sentir-se seguros se a polícia estiver por perto.

Enquanto tantos se mobilizam, um pouco por todo o mundo, para combater um vírus que nos impede de respirar, para que haja ventiladores capazes de salvar vidas, há outras vidas e outros corpos que são tratados como se não tivessem direito a viver. Como se o poder pudesse dispor deles e eliminá-los.

A asfixia dos negros não vem, como se sabe, de agora. Estes episódios estão longe de ser acontecimentos isolados. Muito menos são tristes coincidências. São, de facto, a expressão da política do racismo estrutural, que é brutal nos Estados Unidos, mas não só. Estas histórias, que nos revoltam por dentro, existem porque foram conhecidas, porque alguém filmou e nós as testemunhámos. Imaginem agora quando não há ninguém a registar o que acontece, quando é no silêncio e na impunidade absoluta que estes assassinatos acontecem. Quantos não existem, todos os dias? Quanta violência racista é perpetrada sem que nunca ninguém seja condenado por isso? Sabemos bem, em Portugal também. É preciso lembrar Alfragide, por exemplo?

É por isso que me declaro solidário com quem manifesta a sua indignação e a sua repulsa, que são também minhas, contra esse racismo larvar que atira migrantes e negros e pobres para as periferias das cidades e dos empregos mal pagos, para as vias desvalorizadas do ensino e para os transportes cheios e expostos à doença, para as prisões e para os bairros com poucas condições. Para a violência estrutural às mãos das instituições.

Em Minneapolis, esta revolta é já um potente grito coletivo e multirracial que ocupou as ruas, com gente de várias comunidades e pertenças, com igrejas solidárias a abrirem as suas portas para abrigar os manifestantes durante os ataques de gás lacrimogéneo da polícia, com comerciantes a anunciar o seu repúdio pelo que aconteceu, com gestos importantes como o de Joan Gabriel, presidente da Universidade de Minnesota, que anunciou, numa carta pública, o corte de todos os contratos com o Departamento de Polícia de Minneapolis e o cancelamento de qualquer pareceria para a segurança de concertos, palestras ou outros eventos daquela instituição.

Está visto, é certo, que vai ser preciso muito mais luta para que as coisas mudem. Hoje mesmo, Omar Jimenez, um repórter negro da CNN que tem coberto as manifestações naquela cidade, foi detido pela polícia em pleno direto televisivo. As imagens deixam qualquer um perplexo – a mim, pelo menos, deixaram-me boquiaberto. Depois de tudo o que se tem passado, Jimenez é levado pela polícia sem que se perceba porquê: “Por que estou preso?”, pergunta em direto. A polícia divulgou mais tarde a sua explicação: o repórter e a equipa haviam sido detidos por não se terem afastado quando receberam essa ordem. A câmara televisiva, caída no chão, continuou a transmitir as imagens em direto.

Os olhos do mundo estão em Minneapolis, porque Minneapolis é em muitos lugares do mundo. George Floyd é hoje o símbolo das vítimas deste vírus insuportável que torna as nossas sociedades irrespiráveis. O racismo mata, de muitas maneiras. E será só pela nossa luta sem tréguas e sem hesitações que poderá ser erradicado.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/para-podermos-respirar.html

Caso George Floyd. Pentágono ordena ao Exército para estar pronto a agir

 
 
O Pentágono tomou a rara decisão de ordenar ao Exército que colocasse unidades da polícia militar dos EUA em alerta, prontas para agir em Minneapolis, onde o homicídio do afro-americano George Floyd pela polícia provocou protestos generalizados.

Os soldados de Fort Bragg, na Carolina do Norte, e Fort Drum, em Nova Iorque, receberam ordens para estarem prontos para serem enviados dentro de quatro horas, se chamados, disseram à agência de notícias Associated Press três fontes com conhecimento direto dos pedidos e que pediram para não serem identificadas.
 
Os soldados em Fort Carson, no Colorado, e Fort Riley, no Kansas, devem estar prontos dentro de 24 horas.

As ordens de preparação foram enviadas verbalmente na sexta-feira, depois do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pedir ao secretário de Defesa Mark Esper opções militares para ajudar a conter a agitação em Minneapolis, após os saques e incêndios registados em algumas partes da cidade.

Trump fez o pedido por telefone a partir da Sala Oval na noite de quinta-feira.

Milhares de pessoas concentraram-se, ao início da noite de sexta-feira, em várias cidades norte-americanas em protesto pela morte do afro-americano George Floyd, às mãos da polícia, na passada segunda-feira.

No centro de Atlanta, no sudeste do país, perto da sede da cadeia de televisão CNN, grupos de manifestantes destruíram lojas e a polícia lançou granadas de gás lacrimogéneo, de acordo com imagens difundidas pelas televisões.

Alguns manifestantes atiraram pedras contra o edifício da CNN e vários veículos da polícia em estacionamentos foram atingidos por pedras e outros objetos contundentes. Pelo menos um foi incendiado.


Na área metropolitana de Minneapolis e de Saint Paul, cidades separadas pelo rio Mississippi, centenas de manifestantes cortaram uma ponte, onde se concentraram em protesto contra o recolher obrigatório imposto a partir do anoitecer na sexta-feira e durante todo o fim de semana.

Nos últimos três dias, estas manifestações de protestos resultaram em pilhagens, incêndios de veículos policiais e confrontos com agentes.

Na origem dos protestos está a morte do afro-americano George Floyd, de 46 anos, às mãos da polícia, depois de ter sido detido sob suspeita de ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares (18 euros) num supermercado de Minneapolis.

Nos vídeos feitos por transeuntes e difundidos 'online', um dos quatro agentes, que participaram na detenção, tem um joelho sobre o pescoço de Floyd, durante minutos.

Os quatro foram já despedidos da força policial e o agente Derek Chauvin foi acusado de assassínio e homicídio involuntário. A mulher já anunciou o divórcio após os acontecimentos.

Em comunicado, a família de Floyd saudou a detenção do agente, apesar "de tardia" e insuficiente: "queremos uma acusação de homicídio voluntário premeditado e queremos que os restantes agentes sejam detidos".

As autoridades de Minneapolis e do estado do Minnesota fizeram já vários apelos à calma, mas o governador do estado, o democrata Tim Walz, ativou na quinta-feira a Guarda Nacional norte-americana para garantir a segurança de estabelecimentos comerciais e de edifícios na área metropolitana.

Também em Washington, um protesto pacífico resultou em confrontos entre manifestantes e a polícia e agentes dos Serviços Secretos, na sequência da detenção de pelo menos duas pessoas. Os manifestantes também atiraram garrafas de plástico contra as forças de segurança.

A imprensa norte-americana registou incidentes durante protestos em Brooklyn (Nova Iorque), em Charlotte (Carolina do Sul) em Houston (Texas), entre outras cidades.

Notícias ao Minuto | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/caso-george-floyd-pentagono-ordena-ao.html

Protestos pela morte de afro-americano em várias cidades dos EUA

 
 
Milhares de pessoas concentraram-se, ao início da noite de sexta-feira, em várias cidades norte-americanas em protesto pela morte do afro-americano George Floyd, às mãos da polícia, na passada segunda-feira.

No centro de Atlanta, no sudeste do país, perto da sede da cadeia de televisão CNN, grupos de manifestantes destruíram lojas e a polícia lançou granadas de gás lacrimogéneo, de acordo com imagens difundidas pelas televisões.
 
Alguns manifestantes atiraram pedras contra o edifício da CNN e vários veículos da polícia em estacionamentos foram atingidos por pedras e outros objetos contundentes. Pelo menos um foi incendiado.

Na área metropolitana de Minneapolis e de Saint Paul, cidades separadas pelo rio Mississippi, centenas de manifestantes cortaram uma ponte, onde se concentraram em protesto contra o recolher obrigatório imposto a partir do anoitecer na sexta-feira e durante todo o fim de semana.

Nos últimos três dias, estas manifestações de protestos resultaram em pilhagens, incêndios de veículos policiais e confrontos com agentes.

Na origem dos protestos está a morte do afro-americano George Floyd, de 46 anos, às mãos da polícia, depois de ter sido detido sob suspeita de ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares (18 euros) num supermercado de Minneapolis.

Nos vídeos feitos por transeuntes e difundidos 'online', um dos quatro agentes, que participaram na detenção, tem um joelho sobre o pescoço de Floyd, durante minutos.

Os quatro foram já despedidos da força policial e o agente Derek Chauvin foi acusado de assassínio e homicídio involuntário.


Em comunicado, a família de Floyd saudou a detenção do agente, apesar "de tardia" e insuficiente: "queremos uma acusação de homicídio voluntário premeditado e queremos que os restantes agentes sejam detidos".

As autoridades de Minneapolis e do estado do Minnesota fizeram já vários apelos à calma, mas o governador do estado, o democrata Tim Walz, ativou na quinta-feira a Guarda Nacional norte-americana para garantir a segurança de estabelecimentos comerciais e de edifícios na área metropolitana.

Também em Washington, um protesto pacífico resultou em confrontos entre manifestantes e a polícia e agentes dos Serviços Secretos, na sequência da detenção de pelo menos duas pessoas. Os manifestantes também atiraram garrafas de plástico contra as forças de segurança.

A imprensa norte-americana registou incidentes durante protestos em Brooklyn (Nova Iorque), em Charlotte (Carolina do Sul) em Houston (Texas), entre outras cidades.

Notícias ao Minuto | Lusa
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/protestos-pela-morte-de-afro-americano.html

EUA | George Floyd foi executado em 9 minutos e depois nós

 
 
Isabel Moreira | Expresso | opinião
 
O ator Will Smith escreveu nas redes sociais isto: “racism is not getting worse, it's getting filmed”.

George Floyd, um homem negro de 46 anos, culpado de nada, resistindo a nada, foi algemado por dois polícias, imobilizado no chão e executado durante 9 longos minutos através de sufocação. Um dos polícias pisou-lhe o pescoço com o joelho em modo supremacia branca, indiferente às palavras que ouvimos em vídeo feito por cidadãos que assistem à morte em direto, às palavras de George, as que ficariam a ecoar no protesto: “por favor, não consigo respirar! Dói-me o estômago! Dói-me o pescoço! Dói-me tudo! Eles vão-me matar!”. George sabe que está rodeado de gente, é por isso que diz “eles”, pede ajuda, avisa, sabe do seu destino se nada for feito, sabe da história da sua comunidade, sabe que desta vez calhou-lhe. Morre. Executado. E escrevemos que era culpado de nada e que resistiu a nada, porque sabemos que há quem tente explorar possíveis atenuantes dos executores, quando na verdade não devíamos mencionar nada.

Depois o ator Will Smith escreveu aquilo e ficamos a pensar, nós que não somos negros, no peso dessas palavras. Ficamos a pensar em quem sabe o que é crescer num país cuja história repousa, toda ela, no racismo. Ficamos a pensar na impaciência furiosa de James Badwin, que é a mesma de todas as vítimas de racismo, lá e cá, cansado da expressão “leva tempo”, porque Baldwin não aceitava que tivesse de se reconciliar com o que quer que seja. Sabia da história do racismo, da luta antirracista, do tempo dos seus antepassados e do tempo da sua vida e perguntava, furioso: quanto mais tempo querem para o vosso progresso? É uma pergunta duríssima e nós merecemos levar com ela.

- Precisamos de mais quanto tempo para o nosso próprio progresso?

Não podemos ficar horrorizados com uma execução porque ela é filmada e fecharmos os olhos ao racismo estrutural que, com dimensões diferentes, persiste nos EUA e aqui, porque para George Floyd ser executado é preciso ser percorrido um longo caminho de racismo vitorioso, o tal caminho que começa nos degraus que temos de combater à primeira amostra de cimento.

Estamos em tempos de afirmação da igualdade. Estamos em tempos de combate. Os políticos prontos a explorarem o ódio aos negros, aos ciganos, aos imigrantes, às pessoas LGBTI estão aí e sabemos quem eles são. Escolham a vossa trincheira.

Orbán, na Hungria, representa o horror para todos e todas que prezam a democracia, a liberdade e os direitos humanos. É um ditador racista, homofóbico e xenófobo. Não perderia, claro, um minuto da sua vida com George Floyd.

Para o líder do CDS, o Partido que representava a direita democrática em Portugal, é “prematuro” avaliar Orbán. De resto, Francisco Rodrigues dos Santos, capaz de se juntar ao Chega, está preocupado com o “marxismo cultural”, aquele slogan nazi para derrubar a igualdade.

- Precisamos de mais quanto tempo para o nosso próprio progresso?
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/eua-george-floyd-foi-executado-em-9.html

EUA | Polícia que asfixiou George Floyd foi detido e está acusado de homicídio

 
 
Polícia colocou o joelho em cima do pescoço de George Floyd e pressionou-o até o asfixiar

Foi detido o polícia que asfixiou George Floyd, anunciou esta sexta-feira o Departamento de Segurança Pública do Minnesota numa breve conferência de imprensa. Pouco depois,a procuradoria de Hennepin confirmou a detenção e anunciou que lhe é imputado o crime de homicídio.

“Nunca fizemos uma acusação com este espaço temporal e apenas podemos acusar alguém quando existem provas admissíveis suficientes para avançar sem uma dúvida razoável. A acusação foi feita o mais rapidamente que nos foi possível”, disse aos jornalistas Mike Freeman, procurador de Hennepin, citado pela CNN. “É de longe a acusação mais rápida contra um polícia que alguma vez fizemos.” Derek Chauvin está acusado dos crimes de homicídio em terceiro grau e homicídio involuntário.

Poucos minutos antes do 12h (18h em Portugal continental) desta sexta-feira, Derek Chauvin foi levado por agentes do departamento criminal daquele estado norte-americano, depois de ter sido identificado como o polícia que surge nas imagens com o joelho apoiado no pescoço de George Floyd enquanto este grita “não consigo respirar”.

As notícias da detenção surgem num momento em que as ruas da cidade de Minneapolis - onde Floyd foi detido e asfixiado, acabando por morrer pouco depois - se enchem de protestantes que pedem Justiça por George Floyd.

Já esta sexta-feira, o Governador do Minnesota apelou à calma dos manifestantes para que a “justiça possa ser reposta”. Na noite desta quinta-feira, além de confrontos entre polícia e manifestantes - e que resultou até na detenção de uma equipa de reportagem da CNN -, o caos instalou-se na cidade de Minneapolis, com lojas e carros incendiados, vidros partidos, portas arrombadas. Uma esquadra da polícia foi incendiada. O caos levou a que Donald Trump enviasse a Guarda Nacional dos EUA para o local.

George Floyd morreu esta semana depois de Derek Chauvin lhe ter pressionado o pescoço com o joelho durante vários minutos. “Não consigo respirar” foram das últimas palavras que Floyd disse. Repetidamente. Quer Chauvin como os restantes agentes que estavam no local naquele momento foram despedidos, embora permaneçam com uma licença administrativa remunerada.

Expresso

Imagem: Um mural de homenagem a George Floyd, perto do local onde este morreu enquanto era detido pela polícia// STEPHEN MATUREN/ GETTY IMAGES

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Série da Netflix revela falhas nas investigações sobre quem matou Malcolm X, em 1965

Quais as semelhanças entre as investigações dos assassinatos do importante ativista pela igualdade racial nos Estados Unidos, Malcolm X, em 1965, e da então vereadora do PSol, Marielle Franco, em 2018?

 

 

As investigações do historiador Abdur-Rahman Muhammad, que resultaram na série “Quem Matou Malcolm X?”, dirigida por Phil Bartelsen e Rachel Dretzin e produzida pela Netflix, mostram que tem tudo a ver. Guardadas as devidas proporções o assassinato de líder norte-americano ficou envolto em péssimas condutas de investigação e falhas nas garantias de segurança que a polícia nova-iorquina deveria garantir. Muito parecido com o assassinato de Marielle há dois anos, no dia 14 de março, no Rio de Janeiro.

Como se isso já não bastasse, os investigadores norte-americanos ignoraram fortes indícios para se chegar aos assassinos. Com a prisão de um deles imediatamente e de outros dois acusados e, posteriormente com fartas provas, comprovadamente inocentes. Mesmo com a confissão de um dos suspeitos da não participação desses dois acusados, eles foram condenados e passaram 20 anos na prisão.

Dividida em seis episódios de 43 minutos cada, a série apresenta todo o caminho da profunda investigação feita pelo historiador, chegando ao que tudo indica o principal assassino. Malcolm X morreu no dia 21 de fevereiro de 1965, no teatro que fazia discurso no Harlem, em Nova York.

Trailer da série

 

Eram anos conturbados nos Estados Unidos porque os conflitos raciais ganhavam contornos inéditos, com o surgimento de importantíssimas lideranças pelos direitos civis dos negros. Mas como revela o assassinato há poucos dias do negro George Floyd por um policial branco em Minneapolis, Estados Unidos, de maneira torpe, mostra que tanto lá como no Brasil a chaga do racismo ainda permeia a sociedade e marginaliza grande parte da população.

Manifestações tomam as ruas de Minneapolis após o crime racista

Nos anos 1960, o movimento negro dos Estados Unidos exigia os direitos civis e importantes lideranças despontaram com caminhos diferentes. Malcolm X defendia o confronto, enquanto Martin Luther King, importantíssimo na luta antirracista, defendia o pacifismo. Os Panteras Negras surgem em 1966 com bandeiras mais avançadas pela igualdade e construção do socialismo.

Os dois grandes líderes se reconciliam após Malcolm X retornar de uma viagem à África e repensar suas táticas de enfrentamento ao racismo. Não tiveram tempo de levar isso adiante porque foram assassinados. Malcolm em 21 de ferreiro de 1965, pouco antes de completar 40 anos e King, em 4 de abril de 1968, aos 39 anos. O racismo não perdoa.

A série mostra os caminhos percorridos pelo historiador, intermediadas de cenas reais de discursos de Malcolm X e de sua biografia. Muito jovem foi preso envolvido com o tráfico de drogas, exploração da prostituição, entre outros crimes, saiu da prisão direto para a Nação do Islã, grupo fundamentalista, fundado em Detroit, Estados Unidos, em 1930, então comandado por Elijah Muhamm.

Quando saberemos quem mandou matar e quem matou Marielle?

Sem apresentar teorias conspiratórias da história o documentário confirma a pouca vontade do FBI e da polícia nova-iorquina em esclarecer os fatos. Assim como não se tem notícias detalhadas das investigações do crime contra a então vereadora no Rio de Janeiro, não há ninguém condenado e muito mesmo têm-se notícias de quem mandou matar Marielle, embora haja fortes indícios.


Texto em português do Brasil


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/serie-da-netflix-revela-falhas-nas-investigacoes-sobre-quem-matou-malcolm-x-em-1965/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=serie-da-netflix-revela-falhas-nas-investigacoes-sobre-quem-matou-malcolm-x-em-1965

Os adoradores do cao

De Muhammad Ali a LeBron James: relembre protestos marcantes de...

 
 
Ajoelhados perante a “democracia” estadunidense, persignando-se frente ao dólar-cruz, os humanistas de máscara no bestunto olham-se nesse espelho onde escorre sangue e acham-se bonitos. No reflexo desse caco repugnante encontramos o Ministro dos Negócios Estrangeiros do PS Augusto Santos Silva.
 
Com mais de 800 bases militares e milhares de soldados e mercenários em todos os continentes, este país rapace nem o seu próprio povo respeita:
«Já vai em mais de 100 mil as mortes causadas pelo Covid-19, 40 milhões de desempregados, 20 por cento das crianças passam fome, milhões de desalojados e sem assistência médica, crimes racistas e o exército nas ruas para controlar revoltas.»
 
“NÃO SE PODE RESPIRAR “
 
E no momento crucial em que todos os países se unem para proteger os seus povos, o gigante de pés de barro, arrogante e velhaco afasta-se da OMS.
 

Via: as palavras são armas https://bit.ly/2ZSrdv2

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/30/os-adoradores-do-cao/

Chefe de direitos da ONU pede que EUA impeçam assassinatos de afro-americanos pela polícia


Uma mulher negra é detida, algemada e presa por um policial branco: ela estava entre os manifestantes que nprotestavam do lado de fora do quarte-general da polícia de Baton Rouge, capital da Louisiana
Foto:
JONATHAN BACHMAN
/
REUTERS

Genebra, 29 mai (Xinhua) -- As autoridades americanas devem tomar "medidas sérias" para impedir os assassinatos de afro-americanos desarmados pela polícia, disse Michelle Bachelet, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, condenando o assassinato de um afro-americano que estava sob custódia policial em Minneapolis.

George Floyd morreu na noite de segunda-feira, logo depois que um policial branco o imobilizou com o joelho em seu pescoço, mesmo com o afro-americano de 40 anos ter repetidamente implorado: "Não consigo respirar" e "por favor, não consigo respirar".

Este é o mais recente de "uma longa série de assassinatos de afro-americanos desarmados por policiais norte-americanos e membros da população", revelou Bachelet em um comunicado.

"Os procedimentos devem mudar, os sistemas de prevenção devem ser implementados e, acima de tudo, os policiais que recorrerem ao uso excessivo da força devem ser acusados e condenados pelos crimes cometidos", para garantir que a justiça seja feita quando esses casos ocorrerem, disse ela.

Apreciando a decisão do governo de priorizar uma investigação sobre o incidente, Bachelet expressou a preocupação de que inquéritos semelhantes no passado tinham resultado em justificativas questionáveis para os assassinatos.

"O papel que a discriminação racial arraigada e difundida desempenha em tais mortes também deve ser plenamente examinado, devidamente reconhecido e tratado", afirmou.

Ao demonstrar empatia com a raiva provocada pelo assassinato de Floyd, a alta comissária pediu que as pessoas em Minneapolis e em outros lugares protestem pacificamente.

"Peço aos manifestantes que expressem pacificamente suas demandas por justiça, e peço que a polícia tome o máximo cuidado para não inflamar ainda mais a atual situação com qualquer uso adicional de força excessiva", solicitou ela.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/29/c_139098619.htm

EUA | George Floyd. Manifestantes incendeiam esquadra em protesto contra morte

 
 
Manifestantes indignados com a morte de George Floyd, um afro-americano que morreu sob custódia policial, invadiram uma esquadra da polícia em Minneapolis e incendiaram o local, disseram as forças de segurança.

Um porta-voz da polícia daquela cidade do estado de Minnesota confirmou que a terceira esquadra, situada perto do local onde Floyd morreu, foi evacuada "no interesse da segurança do pessoal". O incidente deu-se pouco depois das 22:00 de quinta-feira (05:00 de hoje em Lisboa).
 
Num vídeo divulgado online, um grupo de pessoas entra no edifício, fazendo disparar os alarmes de incêndio e os aspersores usados no combate às chamas.

A cidade do estado do Minnesota registou ainda três dezenas de incêndios noutros locais e o saque de várias lojas, a maioria perto do local onde Floyd morreu. Num centro comercial em frente à terceira esquadra, as montras de quase todas as lojas foram estilhaçadas, com manifestantes a atirarem manequins de uma loja saqueada para dentro de um automóvel em chamas, em cenas de violência que se multiplicaram noutras partes da cidade.

 
Dezenas de empresas em Minneapolis entaiparam as montras na quinta-feira, num esforço para evitar pilhagens, com a cadeia de lojas Target a anunciar o encerramento temporário de duas dúzias de estabelecimentos na zona. As autoridades da localidade encerraram a maioria dos transportes no domingo passado, por razões de segurança.

Os protestos contra a morte de George Floyd, que entraram no terceiro dia consecutivo, alastraram-se também a St. Paul, capital do estado do Minnesota, com a polícia a tentar impedir o saque de lojas e os bombeiros a serem chamados para combater incêndios.

Na quinta-feira à noite, em St. Paul, nuvens de fumo pairavam no ar, enquanto a polícia, armada com bastões e máscaras de gás, vigiava os manifestantes na maior rua comercial da cidade. As forças de segurança tentaram impedir manifestantes de saquear um armazém Target, havendo registo de muitas montras partidas.

Os protestos espalharam-se também a outras zonas do país. Em Nova Iorque, apesar da epidemia da covid-19, manifestantes organizaram concentrações públicas na quinta-feira, em alguns casos com confrontos policiais. Em Denver, manifestantes bloquearam o trânsito no centro da cidade.

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu na noite de segunda-feira em Minneapolis, após uma intervenção policial violenta, cujas imagens se tornaram virais. Floyd foi detido por suspeita de ter tentado pagar com uma nota falsa de 20 dólares num supermercado. Num vídeo filmado por transeuntes e divulgado nas redes sociais, é possível ver um dos agentes pressionar o pescoço da Floyd com o joelho durante vários minutos.

A polícia alegou que o homem resistiu à prisão, mas novas imagens, captadas pelas câmaras do restaurante em frente ao qual ocorreu a detenção, mostraram Floyd a ser conduzido para a viatura policial, de mãos algemadas nas costas e sem oferecer resistência.

Os quatro polícias envolvidos foram despedidos e as autoridades locais e federais estão a investigar o incidente, mas ainda não houve acusações.

Na quinta-feira, a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michele Bachelet, condenou o caso, apelando às autoridades para adotarem "medidas sérias" para pôr termo a estas mortes de afro-americanos.

"Esta foi a última de uma longa série de mortes de afro-americanos não armados cometidas por polícias norte-americanos e autojusticeiros (...). As autoridades norte-americanas devem tomar medidas sérias para pôr termo a estas mortes e assegurar que seja feita justiça quando ocorrem", indicou Michele Bachelet em comunicado.

Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Lusa

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/eua-george-floyd-manifestantes.html

Detido o agente que matou George Floyd. Tinha 18 queixas contra si

 

O agente norte-americano responsável pela morte de George Floyd foi, esta sexta-feira, detido. A polícia de Minneapolis revelou que o agente tinha 18 queixas anteriores contra si.

 

O agente da polícia de Minneapolis, Derek Chauvin, responsável pela morte de George Floyd, foi detido esta sexta-feira. A informação foi avançada por John Harrington, comissário público norte-americano, quatro dias depois do acontecimento.

A morte de Floyd, de 40 anos, está a causar uma onda de indignação, depois da divulgação de vídeos que mostram um agente da polícia ajoelhado em cima do seu pescoço e no qual se ouve o afro-americano a dizer “não consigo respirar” e “não me matem”. Após tentar falar com o polícia, o homem fica imobilizado e parece deixar de se mexer, tendo sido depois colocado numa maca e levado para uma ambulância.

A polícia de Minneapolis revelou que o agente em causa tinha 18 queixas anteriores, sem que fossem revelados os detalhes destas acusações. O agente foi despedido esta semana juntamente com três colegas que estavam presentes na detenção.

Segundo a Associated Press, Chauvin fez trabalhos esporádicos como segurança de um bar noturno até ao final do ano passado.

Além disso, o Notícias ao Minuto escreve que, em 2006, o norte-americano esteve presente num grupo de seis polícias que abriram fogo sobre um suspeito de esfaqueamento depois de uma perseguição, quando o suspeito, alegadamente, lhes apontou uma arma. O tribunal decidiu que o uso de força foi justificado, com base nos depoimentos dos agentes envolvidos.

Também em 2008, Chauvin foi chamado a responder a uma denúncia de violência doméstica, entrando na residência sem se anunciar. O suspeito fechou-se na casa de banho, Chauvin arrombou a porta e agrediu-o. O homem tentou defender-se, mas o polícia disparou duas balas contra o estômago do suspeito.

Nos últimos dias, milhares de pessoas têm saído às ruas para protestar contra a morte de George Floyd. Na quarta-feira, as televisões locais relataram a existência de incêndios em várias empresas, sem que os bombeiros tenham podido acudir, pela violência que tomara conta das ruas. Foram ainda reportados vários saqueamentos a negócios da região.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/detido-agente-matou-george-floyd-327363

Repórter negro da CNN é preso ao vivo, ao cobrir protestos em Minneapolis (Vídeo)

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247 –O repórter negro Omar Jimenez estava cobrindo uma transmissão ao vivo no local onde aconteceram os protestos de Minneapolis, cidade grande no Minnesota, quando foi detido pela polícia dos Estados Unidos, mesmo após se identificar claramente com os oficiais. A informação é da CNN.

Os integrantes da equipe de reportagem de Jimenez, incluindo um produtor e um operador de câmera, também foram algemados.

A câmera da CNN também foi presa, mas continuou gravando enquanto Omar Jimenez e sua equipe estavam sendo algemados. A polícia aparentemente não percebeu que a câmera ainda estava ligada no momento da ação.

 

Confira o vídeo:

https://twitter.com/EddieZipperer/status/1266313801407873026?ref_src=twsrc%5Etfw

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/mundo/reporter-negro-da-cnn-e-preso-ao-vivo-ao-cobrir-protestos-em-minneapolis-video

 

https://twitter.com/CNN/status/1266368979003564032/photo/1

Portugal | Trivela contra vozes de burros, cabazada de Quaresma

 
 
Ferreira Fernandes | Diário de Notícias | opinião

 

 
Eu não vou falar da coelha anã "Acácia, a coelha anã do deputado do Chega", fotografada em pose e em gesto fofo com o referido político. Não vou porque também tive um sagui com o qual dormia, agarradinho ao meu pescoço. É certo que eu ainda não tinha idade para ser elegível, tinha oito anos, mas defendo que todos temos direito às nossas idiossincrasias peludas e não devemos ser julgados por elas.

 


Venturinha001Outra coisa é o caráter que um eleito revela em público. Se for muito peçonhento há que estar atento. Vota-se, espero, pelas propostas políticas de um candidato, mas alguns traços da personalidade ajudam ou desajudam - e, às vezes chegam a ser determinantes. Ao André Ventura, chegam-me as suas ideias políticas, que me repugnam. Acresce, porém, que o homem, pessoa, vai consoante o seu papel político.

Sorte a do bem público, porque assim, juntar a pessoa mais as ideias, tudo mau, então, aumentam as probabilidades do político ser rechaçado - dirá um ingénuo. Errado. Primeiro, porque aquelas inomináveis criaturas serem o Donald e o Jair, não as impediu de serem eleitas com os execráveis programas deles. Segundo, porque o narcisismo patológico, de um, e o ser calhau, de outro, tiveram um efeito de corrupção sobre as sociedades respetivas. E a maré pútrida já se espalhou mundo fora.

 


É assim que os malefícios que são de prever vindos do político André Ventura, mesmo antes de se transformarem em leis, salvo seja, já o seu comportamento público faz razias sociais. Deixar-se enxovalhar num programa televisivo da CMTV, engolir os insultos, de "vigarista!" a "palhaço!", não desminto a justeza, preocupa-me é o exemplo, é de um, como dizer... pusilânime. Repetir semanas a fio esses tristes diálogos com o mesmo indivíduo que o amarrota e humilha é de um... de um... não há volta a dar, um pusilânime.

 


E que é um pusilânime? É uma coisa em forma de descer as escadarias da Assembleia da República, numa manif de polícias, os olhinhos circundantes, medrosos, "onde m"estou a meter, valha-me Deus...", apesar do seu grupinho lhe ter garantido o afeto, "e, credo!, se eles me confundem com um político a sério..." Um pusilânime nota-se pelos olhinhos e transpira pusilanimidade pelos poros.

 


Também há pusilânimes lá fora. O mais famoso foi um adepto de futebol, desses raquíticos e língua de víbora, com um truque: ele insultava os atletas famosos porque estes tinham tudo a perder se respondiam... Ter na mão um poderoso, ah o prazer cobarde da chantagem!

 

 
A amiba, num dia de 1995, apanhou o Cantona a caminho do balneário. Cantona, soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada, e o nosso pusilânime, a metro e meio, tungas: insultou. O Cantona levou nove meses de suspensão, e os adeptos do truque sentiram um choque (um deles, literalmente): se calhar é melhor não... Foi remédio santo.

 


Onde é que eu estava? Ah, no André Ventura, esse que tem um truque: diz o que lhe vem à cabeça, tem parangonas, mobiliza os excitados e recolhe os votos dos cobardes. Esta semana, ele disse ser necessário "um plano de confinamento específico para a comunidade cigana." E aqui faço um salto epistemológico, do indivíduo André, o pusilânime, para o político Ventura, o sem princípios. O que disse o líder do Chega, o deputado Ventura, foi indecente.

 


Antes desta bojarda de Ventura, o futebolista Quaresma, no início da quarentena, publicou um vídeo, no Facebook, em casa com a família. Ele, a mulher e o casalinho de filhos jogavam cartas, riam e fingiam discutir. Olhem um cidadão, pelo texto que escreveu: "Desta vez quem resolve o jogo é a quarentena não é o Quaresma! Cumpram as regras que vos são pedidas pelas autoridades. Metam a bandeira portuguesa na janela de casa para apoiar os nossos campeões que estão a trabalhar nos hospitais. Em breve teremos uma vacina, mas até lá a melhor vacina é ser solidário uns com os outros. Obrigado Portugal." 15 de março.

 


Um mês e picos depois, o cidadão Ricardo Quaresma soube que um deputado português propôs que ele, a mulher e os dois filhos podiam não estar na casa que ele comprou com o seu trabalho e talento e que tantas alegrias deram a Portugal. O tal deputado propunha que se discutisse como pôr as famílias ciganas - o que quer dizer, a de Quaresma também - num "confinamento específico" para ciganos.

 


Eu estou a transmitir um facto, as minhas palavras são substantivas. Cito André Ventura por palavras da boca dele. Vão lê-las. Sobre isso, para mim, ponto final. Se o leitor, o meu patrão, o polícia da rua, o meu dentista, um parente chegado e a quem devo muito, o cardeal patriarca, Costa ou Marcelo, se alguém quiser ponderar a questão do confinamento específico de ciganos, já não aviso segundo ponto final. Mando à merda.

 


Já discuto gostosamente sobre o que Quaresma fez por nós. Se o leitor não teve a dita de ver ao vivo, recorra a vídeos. Os cruzamentos de trivela de Quaresma são dos maiores momentos do futebol mundial. Um misto de ciência, pela curva traçada, um sentido dramático pelo espanto de colegas, adversários e público, e uma beleza pegada. Como o outro, Garrincha, também magnífico e demasiado povo, Quaresma teve como destino ser a alegria do povo.

 


Dito isto, Ricardo Quaresma é soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada, um senhor como Cantona, e ainda maior talento. A Quaresma podia ter-lhe dado na veneta lembrar-se do ocorrido numa tarde de futebol em 1995. Mas não, e um artista da Net, a bela página Insónias em Carvão, criou esta semana um Quaresma, príncipe do séc. XIX, farda de gala e condecorações. Apanhou-o bem: apesar da indecência do pusilânime desbocado, Quaresma não sujou as botas nas trombas dele.

 


Ricardo Quaresma voltou ao twitter e publicou: "Olhos abertos, amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros..." Que frase política, de quem podia aproveitar-se para soprar no fogo, e não o fez. Sem ter andado em seminário, nem universidade inglesa, que respeito pela comunidade, a estreita e a Pátria. Que sentido de Estado!

 


Que sabedoria de quem, sabendo que há problemas, quer resolver e não inquinar. Quanto mais fácil seria, para uma vedeta que tem a sua vida e a dos seus materialmente resolvida, poder juntar a isso a vã glória de cavalgar uma qualquer rebeldia. Os meus, disse Quaresma aos seus e a nós, somos nós todos. Que lição do que é ser português!

 


Até a mim enganaste, Ricardo Quaresma, com o teu entrar em campo sempre de sobrecenho carregado, o último gole de água bocejado e cuspido, um agarrar impudico nas partes baixas, as tatuagens expostas... Sabia-te artista mas misturado com um bruto. Mas o que tu és é isso tudo e também um homem comovedor. Chapeau. Respect. Dá cá um abraço.

 


E ontem, ainda no Facebook, publicas a recordação do teu tio-avô, também futebolista, Artur Quaresma, do Belenenses. Num Portugal-Espanha, 1938, ele e dois colegas da seleção e do clube (José Simões e Mariano Amaro), não fizeram a saudação fascista. Portugal-Espanha, resultado: um hat-trick, ganhámos nós todos a memória de uma coragem. Não era um gesto sem risco: depois daquilo, Cândido dos Reis, treinador dos três no clube e na seleção, foi parar ao campo de concentração do Tarrafal.

 


Ricardo Quaresma à escrita: "Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história." Talvez cientificamente a frase não valha uma passagem por universidade inglesa, mas há mestrados que são desmentidos à primeira oportunidade. Já a tua frase tem a vantagem de ser dita com o penhor de uma vida assim cumprida. Quaresma, não chegarás a deputado mas chega para eu me sentir honrado em atravessar a rua para te dizer, "Obrigado, senhor."

 


Sobre tudo isto, André Ventura, que em programas sobre futebol na CMTV ganhou a notoriedade que lhe permitiu ser eleito deputado, disse ao Correio da Manhã: "É lamentável que um jogador da seleção nacional se envolva em política." Quer dizer, além de confinamento específico por ser cigano, avisa-se Quaresma com a mordaça por ser jogador da seleção.

 


E para remate final, André Ventura ainda disse: "Espero que as autoridades do futebol não deixem que isto se torne o novo normal." É a posição em que o político Ventura melhor joga. Mandar os outros dar porrada porque com o André ele não conta, é um fraco.

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Martin Luther King Jr. e a luta pela igualdade social

 
 
Tom Mackaman e Niles Niemuth | WSWS

Na segunda-feira, os Estados Unidos comemoraram o Dia de Martin Luther King Jr., um feriado que marca o nascimento do líder dos direitos civis.

 

 
Desde a sua criação nos anos 1980, o feriado teve como objetivo transformar King em um ícone inofensivo da conciliação social, ofuscando ao mesmo tempo suas críticas radicais ao capitalismo e ao militarismo estadunidenses. Mas hoje, em 2020, isso foi somado a um novo impulso. A concepção de King de um movimento democrático de massa pelos direitos civis baseado na ação unificada de todas as seções oprimidas da população está sendo substituída por uma narrativa essencialmente racialista que apresenta toda a história dos EUA em termos de uma luta entre brancos e negros. Essa narrativa racial exige a marginalização do papel histórico de King.

 


Isso se mostra claramente no Projeto 1619 do New York Times, que faz uma “reformulação” da história das relações raciais estadunidense sem mencionar King. Isso não é um descuido por parte de um projeto que se declara nada menos do que um novo currículo para a educação básica. O centro da política de King - a luta pela igualdade - é contrária aos objetivos do liberalismo contemporâneo, que é baseado em uma luta por privilégios dentro da classe média alta.

 


King, um pastor e teólogo batista, tornou-se o mais proeminente líder e voz da massiva luta dos direitos civis pela igualdade racial que surgiu no período após a Segunda Guerra Mundial - desde o boicote dos ônibus de Montgomery contra a segregação Jim Crow no estado do Alabama em 1955 até 1968, quando King foi assassinado em Memphis, no estado do Tennessee, enquanto estava apoiando os lixeiros em greve.

 


King nasceu na cidade de Atlanta, Georgia em 1929, durante um período que os acadêmicos chamaram de o “pior momento” das relações raciais nos EUA. No Sul durante as leis Jim Crow, a partir dos anos 1890, um conjunto de leis retirou o direito ao voto da ampla maioria dos negros. Todos os espaços públicos foram segregados pela lei ou pelo costume - escolas e faculdades; ônibus, trens, bondes; bebedouros e banheiros; restaurantes e cinemas. O casamento inter-racial era ilegal e mesmo interações casuais entre brancos e negros, por exemplo em calçadas, aconteceriam dentro de uma etiqueta criada para humilhar e depreciar os negros.

 


O Partido Democrata governou o Sul durante as leis Jim Crow sem ser desafiado. Por trás dele havia a ameaça constante da violência racista sancionada pelo governo. Estima-se que multidões e gangues de assassinos lincharam mais de 4 mil negros no Sul dos anos 1870 até os anos 1940.

 

 
Contudo, o racismo não era um fim em si próprio. Conforme C. Vann Woodward estabeleceu há muito tempo em A estranha carreira de Jim Crow (1955), ele foi imposto como uma resposta direta ao movimento Populista de fazendeiros pobres, que, nos anos 1880, havia levantado o espectro da união inter-racial entre os oprimidos. O fato de que o livro de Woodward era tido como “a bíblia histórica” do movimento dos direitos civis refletia a concordância desse movimento com sua decisiva conclusão, que, como King disse, “a segregação racial como um estilo de vida não surgiu como um resultado natural do ódio entre as raças” - a posição promovida pelo Projeto 1619 - mas “foi na verdade um estratagema político empregado pelos interesses dos Bourbon no Sul para manter as massas sulistas divididas e o trabalho sulista o mais barato na região”.

 


O movimento Populista entrou em colapso algumas décadas antes do nascimento de King. A sua incapacidade de superar a oligarquia sulista foi resultado da sua composição social de fazendeiros rurais isolados, uma seção indiferenciada e em rápido declínio da população. Ainda assim, suas conquistas foram extraordinárias. Abalando o sistema de dois partidos até as suas bases, o desafio do Populismo ao capitalismo impulsionou em última instância o surgimento do socialismo estadunidense.

 



A “grande migração” e o crescimento da classe trabalhadora

 


Apesar de King buscar inspiração no Populismo, o que ofereceu a base para o movimento dos direitos civis foi, em última instância, uma transformação muito mais profunda, a partir do poderoso desenvolvimento do capitalismo estadunidense: o desenvolvimento da classe trabalhadora.

 


Em 1900, depois da derrota do movimento Populista, 90% dos afro-americanos viviam no Sul, a maioria isolada em regiões rurais. Nos anos 1920, mais de 1,5 milhão de negros deixaram o Sul e foram para cidades do Norte em busca de trabalho assalariado. Muitos outros se mudaram para as cidades do Sul - incluindo Atlanta, onde King nasceu, assim como as cidades industriais do estado do Alabama, Birmingham e Montgomery, que deram origem ao movimento dos direitos civis moderno. Até 1960, apenas 15% dos afro-americanos permaneciam nas fazendas, uma transformação social dramática que os historiadores chamam hoje de Grande Migração.

 

 
Nas cidades, os migrantes negros enfrentaram novas formas de racismo e, como nas cidades de East St. Louis em 1917 e de Chicago em 1919, ocasionais ataques de grande violência, tipicamente organizados por seus oponentes históricos no Partido Democrata. Mesmo assim, é inegável que esse vasto movimento - do interior para a cidade, da fazenda para a fábrica, e do Sul para o Norte e o Oeste - foi um acontecimento intensamente libertador. Seu impacto na cultura estadunidense foi revigorante.

A chegada às cidades dessas pessoas brutalmente oprimidas, apenas meio século após a escravidão, originou o crescimento cultural e intelectual associado ao “Harlem Renaissance” (Renascimento do Harlem), as primeiras organizações políticas de massa e sindicatos afro-americanos, assim como as grandes formas de música popular, incluindo ragtime, rhythm e blues, jazz, e rock and roll.

 


A Grande Migração tornou os trabalhadores afro-americanos uma decisiva seção da classe trabalhadora. Porém, a fusão dessa classe, atravessando divisões raciais e nacionais, não era uma tarefa fácil em condições nas quais os empresários capitalistas sabiam que poderiam colocar os trabalhadores – brancos, negros, imigrantes – uns contra os outros em uma competição por salários. A Federação Estadunidense do Trabalho (AFL), que está entre as organizações trabalhistas mais provinciais e reacionárias no mundo, incentivou essas divisões. A maioria dos seus sindicatos impôs exclusões raciais contra os negros e incitou a hostilidade aos imigrantes. Socialistas reformistas que se alinharam à AFL, como Victor Berger, da cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, também excluíram negros de sua concepção de classe trabalhadora.

 


Nessas condições - o surgimento de uma poderosa classe trabalhadora industrial, porém limitada por formas de organização obsoletas -, a Revolução Russa de 1917 teve um enorme impacto. Entre os intelectuais negros inspirados pelos bolcheviques estavam Claude McKay, Jean Toomer, Langston Hughes, Paul Robeson, e A. Philip Randolph, que foi cocriador da revista socialista The Messenger em 1917 e, depois, liderou o maior sindicato predominantemente negro, a Irmandade dos Carregadores de Bagagem (Brotherhood of Sleeping Car Porters).

 


Esses intelectuais imediatamente compararam a situação deles com a dos judeus sob a aparentemente eterna dinastia Romanov. “Para os negros estadunidenses, o fato indiscutível e de destaque da Revolução Russa”, explicou McKay em 1921, “é que um punhado de judeus, proporcionalmente muito menores do que o número de negros na população dos EUA, adquiriu, através da Revolução, todos os direitos políticos e sociais negados a eles sob o regime do Czar”.

 

 
No Norte, os socialistas assumiram a dianteira na luta pelos grandes sindicatos industriais no setor automotivo, frigorífero, da borracha e siderúrgico, insistindo que os negros fossem aceitos em pé de igualdade com todos os outros. Mesmo no extremo Sul, os socialistas lutaram sob a bandeira da Revolução Russa nos anos 1920 e 1930, ganhando o apoio de trabalhadores militantes, negros e brancos, em lugares como o estado do Alabama, onde a defesa dos Garotos de Scottsboro, nove jovens afro-americanos falsamente acusados de estupro, ganhou o apoio dos trabalhadores no mundo inteiro. É difícil exagerar ao falar sobre o heroísmo desses trabalhadores, que resistiram à ira da polícia sulista, assim como à Ku Klux Klan.

 


Os stalinistas do Partido Comunista, junto à burocracia supostamente esquerdista do Congresso das Organizações Industriais (CIO), traíram esses trabalhadores em nome da sua aliança com o Partido Democrata, cuja ala sulista permanecia nas mãos da oligarquia supremacista branca. Mesmo assim, o socialismo permaneceu causa de grande irritação para os políticos pró-Jim Crow, que viam em toda agitação de trabalhadores sulistas o trabalho de “provocadores externos” e “comunistas”. Além disso, apesar dos maiores esforços dos reacionários difamadores da esquerda, o socialismo continuou a influenciar uma camada de intelectuais e líderes sulistas.

 


A importância de King

 


King não era um marxista ou revolucionário. Porém, suas simpatias socialistas, e aquelas de sua esposa, Coretta Scott King, eram conhecidas. Ele defendeu uma reestruturação econômica significativa da sociedade estadunidense, embora não chamasse pela derrubada do sistema capitalista. Apesar de adaptar cautelosamente a sua política às pressões do clima anticomunista nos Estados Unidos dos anos 1950, King falava uma linguagem completamente incompatível com a narrativa racial dos atuais nacionalistas pequeno-burgueses privilegiados de direita.

 


O comunismo “deve nos desafiar primeiro a nos preocuparmos mais com a justiça social”, disse King em um sermão proferido pela primeira vez em 1953. “Por mais que muito esteja errado com o comunismo, nós precisamos admitir que ele surgiu como um protesto contra as dificuldades daqueles que não são privilegiados. O Manifesto Comunista, que foi publicado em 1847 por Marx e Engels enfatiza em todas as suas partes como a classe média explorou a classe baixa. O comunismo enfatiza uma sociedade sem classes. O comunismo busca transcender as superficialidades de raça e cor, e você pode aderir ao partido comunista qualquer que seja a cor de sua pele ou a qualidade do sangue nas suas veias”.

 


King articulou eloquentemente os sentimentos democráticos dos estadunidenses de todas as raças e etnias, que estavam lutando para derrubar as barreiras artificiais levantadas pela classe dominante em um esforço consciente para dividir a classe trabalhadora.

 


Em um sermão de 1965, King explicou que as “majestosas palavras” da Declaração de Independência escrita por Thomas Jefferson, que “todos os homens são criados iguais”, eram a base do movimento dos direitos civis. Ele não via aquele documento, que dava expressão aos princípios do Iluminismo, que motivaram a Revolução Americana, como uma narrativa cínica ou uma mentira - como a representante do Projeto 1619, Nikole Hannah-Jones, vê a Declaração -, mas como uma promessa ainda não cumprida, “elevada a proporções cósmicas” e que o movimento dos direitos civis estava lutando para tornar uma realidade.

 


Ele e muitos outros que fizeram parte do movimento de massa nos anos 1950 e 1960 entendiam muito bem que nenhum progresso duradouro poderia ser alcançado sem a união da classe trabalhadora e reconheciam que, sob o capitalismo, os trabalhadores estavam sendo oprimidos independentemente da cor de sua pele.

 


Escrevendo em 1958, King disse que dois verões de trabalho em uma fábrica quando era adolescente haviam exposto ele à “injustiça econômica em primeira mão, e percebi que o branco pobre era explorado tanto quanto o negro. Através dessas experiências iniciais eu cresci profundamente consciente das variedades de injustiça na nossa sociedade”.

 


Independentemente do assassinato de King ter sido ou não apenas o trabalho do criminoso James Earl Ray, é um fato documentado que, desde o início dos anos 1960, o FBI sob J. Edgar Hoover tinha como objetivo destruir o líder dos direitos civis através de uma campanha de truques sujos, vazamentos na mídia, intensa vigilância e até mesmo incentivando King a se matar. “Mesmo assim, de algum modo”, escreveu o historiador William Chafe, “King saiu desses eventos como um líder mais forte, mais resoluto, mais corajoso”.

 

King respondeu ao ataque do FBI em 1967 lançando sua Campanha dos Pobres inter-racial, uma iniciativa buscando justiça econômica para todos os estadunidenses empobrecidos. Ele também se tornou um dos mais abertos críticos da chacina dos EUA no Vietnã, denunciando de forma marcante o governo dos EUA como o “maior criador da violência hoje” em seu discurso na Igreja Riverside em 1967.

 


King havia se convencido, disse ele ao seu gabinete no mesmo ano, “que não podemos resolver nossos problemas agora até que haja uma radical redistribuição de poder econômico e político”. Era o momento, ele disse, “de levantar certas questões básicas sobre a toda a sociedade... Nós estamos engajados em uma luta de classes... lidando com o problema do abismo entre aqueles que têm e aqueles que não têm”.

 


O reconhecimento de King da necessidade da luta inter-racial e das contribuições dos brancos para o movimento dos direitos civis sustentou a crítica de King ao separatismo racial apoiado pelo movimento Black Power, que ele chamou corretamente, em 1967, de “um grito de decepção... nascido das feridas do desespero”.

 


King e o Projeto 1619

 


A guinada de King para a esquerda alarmou líderes dos direitos civis conservadores. Para eles, King respondeu - em palavras que ecoam com a mesma força contra os “especialistas raciais” generosamente financiados de hoje -: “O que vocês estão dizendo pode lhes dar uma bolsa em uma fundação, mas não vai levá-los ao Reino da Verdade”.

 


A lógica dessas posições, de fato do trabalho de toda a sua vida, colocou King em uma rota de colisão com o Partido Democrata - o mesmo partido que governou o Sul durante as leis Jim Crow e os aparatos políticos das grandes cidades no Norte, e que havia levado os Estados Unidos ao Vietnã. Mesmo se as suas limitações políticas o fizeram adiar esse acerto de contas até o fim, o trabalho de sua vida teve um real impacto nas vidas de milhões.

 


Hoje, os princípios universais e iluministas, pelos quais King lutou e defendeu, estão sendo ferozmente atacados. É impressionante que, no Projeto 1619, a iniciativa do Times de escrever a “verdadeira” história dos EUA como tendo origem na escravidão e no racismo, a contribuição de King para a luta pela igualdade seja totalmente ignorada. Isso não representa uma interpretação diferente dos fatos ou um mero descuido, mas uma verdadeira falsificação histórica.

 


O Times procura impor uma nova “narrativa” sobre a história dos EUA, segundo a qual o racismo contra o negro é apresentado como uma característica imutável do “DNA estadunidense”. Isso, defende Hannah-Jones, surgiu do “pecado original” da escravidão, que não foi em si causada pela exploração do trabalho, mas pelo racismo branco contra os negros.

 

 
Promovido pelo Centro Pulitzer para Cobertura de Crises, que é amplamente financiado por corporações e bilionários, o Projeto 1619 propõe-se como um novo currículo para a educação pública. Escolas em péssimas condições e crianças famintas da cidade de Chicago até Buffalo estão recebendo planos de aula que defendem que a Revolução Americana e a Guerra Civil foram conspirações para perpetuar o racismo branco, e que todo o tipo de problemas sociais contemporâneos - falta de acesso à saúde, obesidade, congestionamentos no tráfego, etc. - são resultados diretos da escravidão.

 


Seguindo outros importantes historiadores entrevistados pelo WSWS, o professor Clayborn Carson da Universidade de Stanford, diretor do Instituto de Pesquisa e Educação Martin Luther King, Jr., criticou o Projeto 1619 do ponto de vista do seu tratamento da história, sua falta de compromisso com a Revolução Americana, e o obscuro e rápido processo de sua elaboração. Ele foi além, entretanto, fazendo poderosas observações sobre King e o movimento dos direitos civis que ele passou a liderar - dois assuntos quase inteiramente ausentes no Projeto 1619.

 


Carson apontou que os ideais da Revolução Americana e o Iluminismo tiveram um papel decisivo no movimento dos direitos civis e no papel do próprio King como um líder político. Carson explicou: “Uma maneira de abordar a criação deste país é entender a ousadia de algumas centenas de homens brancos da elite se reunindo e declarando um país - e declarando-o um país baseados na noção dos direitos humanos”.

 


“Obviamente, eles estavam sendo hipócritas, mas também foi audacioso. E é disso que se tratam direitos”, apontou Carson. “É a história de pessoas dizendo, ‘Eu declaro que tenho o direito de determinar o meu destino, e nós temos coletivamente o direito de determinar o nosso destino’. Essa é a história de todos os movimentos, todos os movimentos de liberdade na história do mundo. Em algum momento você tem que chegar naquele ponto em que você precisa dizer isso, publicamente, e lutar por isso.”

 


São esses princípios e perspectiva que estão sendo rejeitados explicitamente pelo New York Times conforme as camadas de classe média organizam diversas formas de política identitária para competir por uma maior proporção das massivas quantidades de riqueza que têm sido depositadas nos cofres dos 1% mais ricos. Nessa luta por privilégios e riqueza, os princípios políticos que King defendeu não têm lugar e, portanto, ele também precisa ser removido da narrativa histórica.

 

 
Nas imagens: 1 - Martin Luther King, Jr. durante discurso em marcha de 1963 até Washington; 2 - 

 

Martin Luther King, Jr. e Coretta Scott King lideram marcha de 1965 de Selma até Montgomery pelo direito ao voto
 
 
 
Publicado originalmente em 23 de janeiro de 2020

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/martin-luther-king-jr-e-luta-pela.html

André Ventura e «a cobardia de querer calar quem lhe faz frente»

«André Ventura fez uma proposta inqualificável, de decidir o confinamento de pessoas, tendo em conta a sua origem étnica. Teve a resposta que devia por um campeão português, Ricardo Quaresma, e veio logo sugerir que os futebolistas deveriam ter direitos limitados à opinião. Ficámos portanto a saber que o Chega não só tem opiniões repugnantes, como André Ventura tem a cobardia de querer calar quem lhe faz frente. Senhor deputado André Ventura, eu lutarei pelo seu direito a ter opiniões sobre o futebol. Embora também vá lutar para acabar com a pouca vergonha de receber vários salários, além do de deputado. E no que disser respeito ao Bloco, fique certo que as suas ideias racistas hão-de ir parar ao caixote do lixo, de onde nunca deviam ter saído».

Catarina Martins

«Nós discordamos do pressuposto: nós não temos nenhum problema com a comunidade cigana em Portugal. Nós temos problemas, em Portugal, com pessoas que cumprem, ou não cumprem, as normas sanitárias. É muito simples, a lei é para cumprir e deve ser aplicada a todos por igual. (...) O senhor deputado é que tem um problema, é que já foi de trivela. (...) É que o senhor deputado resolveu criar um caso com uma parte importante dos portugueses, que é a comunidade cigana. Como se eles fossem estrangeiros. E não sabendo que, há séculos, que eles são tão portugueses como qualquer um de nós. E aquilo que teve foi uma resposta à altura de um grande campeão nacional e de um grande jogador da nossa seleção. E que de facto é ter muito mau perder quando, depois de levar um baile do Quaresma, a única resposta que teve para dar foi dizer que, sendo jogador da seleção nacional, só tinha a obrigação de estar calado. Não, o direito à palavra e o direito à opinião é uma liberdade de todos, sua, do Quaresma, minha, ou de quem quer que seja.»

António Costa

Via Uma Página Numa Rede Social, as respostas da Coordenadora do Bloco de Esquerda e do Primeiro-Ministro ao deputado do Chega, André Ventura, no debate quinzenal desta quinta-feira. Como bem se assinala nesta Página, não tendo soluções para os verdadeiros problemas do país, os partidos populistas «distraem a sua base eleitoral com temas como o dos ciganos», como se esta comunidade «fosse responsável por algum dos grandes problemas do país» e quando «não são os ciganos que todos os anos fogem com milhares de milhões de euros para offshores, não são os ciganos que arruinaram bancos e, com eles, as poupanças de muitas famílias e as contas do país, e não foram os ciganos que venderam empresas públicas estratégias e lucrativas a fundos de investimento, que agora enriquecem à custa do trabalho do povo português». Por isso, sempre que ouvirem «André Ventura repetir que vem combater "o sistema", recordem que ele trabalha, em regime de acumulação de funções, numa empresa de engenharia fiscal que ajuda pessoas ricas a desviarem fortunas para offshores. Enquanto Ventura acena com os ciganos numa mão, para distrair os incautos, a outra mão está a ajudar algumas das pessoas mais poderosas do país a fugir aos impostos».

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Quaresma no lugar certo – o da Política

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 07/05/2020)

FUTEBOL – Ricardo Quaresma. Jogo de qualificacao para o Campeonato do Mundo 2018, Portugal – Ilhas Faroe, realizado Estadio no Bessa, no Porto. Quinta, 31 de Agosto de 2017. (EPOCA 2017/2018) (Vitor Garcez)
 

Os racistas podem ser os monstros que a memória do século XX não apaga e podem ser figurinhas medíocres, sem convicção, oportunistas do momento. Mas o racismo é sempre assunto sério, é sempre coisa da polis, porque os racistas, os grandes monstros ou os pequenotes anedóticos, comungam no objetivo do apagamento do outro. Discriminar em função da etnia é sempre apagar, é tirar do mapa e esse objetivo é conseguido pelo verbo, pela ação, com pequenos e com grandes gestos.

Pretender que se crie um plano de confinamento específico para a comunidade cigana, devidamente estereotipada e falsamente acusada de comportamentos alucinantes em tempos de pandemia, remete-nos para a máquina jurídico-administrativa que o nazismo montou para que, numa política de pequenos passos, os judeus fossem despojados da sua humanidade com adesão consequente dos alemães “puros” ao novo normal, ao afastamento (apagamento) dos judeus da cidade. Criou-se, também pelo Direito, uma consciência coletiva de obediência ao normativo.

Pretender que haja regras de confinamento para a todos e outras à parte para as pessoas ciganas faz-nos pensar nos tempos que um parlamento aprovou leis para proteger o sangue de um povo idealizado.

Felizmente, a esmagadora maioria das portuguesas e dos portugueses sabe que somos comunidade junta e que o recurso à ciganofobia em tempos de menor atenção mediática é coisa de racista aflito. Mas o racismo é sempre assunto sério e é sempre assunto político. Todas e todos nós temos lugar aí mesmo, na cidadania livre.

Ricardo Quaresma deu um pontapé no racismo de Ventura. Ventura, nervoso, pediu para calarem o jogador, dizendo que não lhe cabe falar de política.

Ricardo Quaresma, na verdade, erguendo-se como pessoa cigana, foi a pessoa livre e responsável que recusou o nosso apagamento e que falando no lugar certo engrandeceu a política.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

EUA: Para nacionalistas brancos, Covid-19 veio na hora exata

Relatos de violência e assédio contra asiáticos vêm de todos os lados: sites de extrema-direita e redes sociais estão repletas de mensagens e teorias conspiratórias e racistas, especialmente contra chineses.

 

 

por Scot Nakagawa – The Nation (EUA) | Tradução de Fernando Damasceno

A pandemia de Covid-19 colocou em evidência as debilidades do neoliberalismo, tornando-o repentinamente uma caricatura grotesca. Quem cantava de galo, tomou um grande baque – alto o bastante para evidenciar não somente a desigualdade social nos Estados Unidos, mas também a racial. Enquanto isso, os “haters”, personificados nos Nacionalistas brancos, estão bem atentos ao que se passa. E eles não estão sozinhos. A ala apocalíptica da direita religiosa também aproveita para, a seu modo, decretar o fim dos tempos.

Relatos de violência e assédio contra asiáticos vêm de todos os lados: sites de extrema-direita e redes sociais estão repletas de mensagens e teorias conspiratórias e racistas, especialmente contra chineses. Ressurge o mito do “perigo amarelo” – e com ele o poder do Orientalismo para fazer dos asiáticos alvos fáceis por seus gostos, interesses e cultura. A insistência do presidente Trump em chamar o Covid-19 de “chinês”, embora seja um aceno para sua base eleitoral, acaba se tornando um importante fator aqui, legitimando teorias racistas e conspiratórias da extrema-direita. Essa legitimidade é amplificada quando o governo federal pouco faz diante do aumento de crimes de ódio contra essas comunidades.

Essa é uma aposta alta. Esse nacionalismo branco não é apenas um movimento marginal, guiado por figuras exóticas e foras-da-lei. Eles são bem organizados politicamente e jogaram um papel importante para a eleição do atual presidente norte-americano.

Como resultado, a extrema-direita está mais bem posicionada para exercer influência do que a extrema-esquerda. Somados, os teocráticos cristãos e os nacionalistas brancos são suportados pelas oligarquias conservadoras; eles têm faculdades, escolas de Direito, mídia e, sobretudo, um exército paramilitar muito bem armado. E, desde a vitória de Trump, passaram a fazer parte da coalizão Republicana, influenciando até mesmo parte dos funcionários da Casa Branca.

Para esses grupos, a atual pandemia chegou em um bom momento, pois quando se trata de ocupar espaços, nacionalistas brancos são especialistas. No vácuo do Atentado de Oklahoma, há 25 anos, eles souberam como agir nas sombras. Na ocasião, fizeram excelente uso de tecnologia para criar sofisticados sites que recrutaram, radicalizaram e orientaram politicamente. Quando o sistema político e econômico pareceu frágil, eles souberam usar esses fatores para galvanizar movimentos radicais, chegando até mesmo a incitar revoluções e uma guerra civil.

O assédio e a violência que temos visto contra asiáticos pode ser somente um pequeno terremoto anterior ao tsunami. Quando estamos todos em quarentena, eles estão em plena atividade, arquitetando danos reais à sociedade. Nacionalistas brancos, identificando os chineses citados por Trump como um sinônimo de “globalistas” (uma espécie de atualização para “judeus”), poderiam tranquilamente surgir prontos para ação.

Eu temo que esta pandemia possa se tornar o Incêndio do Reichstag do nosso tempo (nota do tradutor: referência ao acontecimento de 1933 que é tido como crucial para o estabelecimento do nazismo na Alemanha). Pode ser um tipo de evento aterrorizante que sirva como bode expiatório para o domínio de autocratas. Temos visto vários autoritários em ação pelo mundo usando a pandemia para ampliar seus poderes. Aqui nos EUA, Trump falou em nacionalizar indústrias e espera poder usar as medidas contra a Covid-19 para se apresentar como um tipo de “ditador benigno”. Se a direita nacionalista branca surgir ao passo em que a pandemia se esvair, gerando ondas de violência, o autoritarismo se verá livre para crescer.

Ativistas identitários de esquerda nos EUA têm uma certa dose de cinismo em relação à aplicação da lei e a governar. Mas a luta contra o movimento nacionalista branco deveria ser vista como uma luta PELO Estado, e não CONTRA o Estado. Deveríamos fazer da luta contra esses grupos uma bandeira pela responsabilidade e controle policial – não uma espécie de vale-tudo. Se falharmos nisso, temo que o autoritarismo se tornará cada vez maior.


por Scot Nakagawa – The Nation (EUA) | Texto em português do Brasil | Tradução e edição de Fernando Damasceno

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eua-para-nacionalistas-brancos-covid-19-veio-na-hora-exata/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=eua-para-nacionalistas-brancos-covid-19-veio-na-hora-exata

Europa lembra vítimas de atentados racistas

 
 
Apesar de eventos para lembrar o Dia Europeu em Homenagem às Vítimas do Terrorismo em todo o continente, muitos dos atingidos e seus familiares se sentem deixados sozinhos em sua dor.
 
Por toda a Europa, diversos eventos marcam nesta quarta-feira (11/03) o Dia Europeu de Homenagem às Vítimas de Terrorismo. Na França, onde nos últimos cinco anos mais de 250 morreram em ataques terroristas, o presidente Emmanuel Macron esteve à frente das celebrações que reuniram 900 vítimas e seus familiares em Paris.
 
Em Zwickau, no estado da Saxónia, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, reuniu-se já na terça-feira com prefeitos de todo o país para falar sobre ódio e violência.
 
Muitas vítimas de ataques terroristas lutam por toda a vida com as consequências das atrocidades sofridas. Elas costumam se sentir decepcionadas com a postura da sociedade, um sentimento que mesmo um dia memorial pouco poderá mudar.
 
Como no caso de Đ Anh Lân, morto por três coqueteis molotov na noite de 22 de agosto de 1980. Ele tinha 18 anos quando fugiu do Vietname para a Alemanha, onde vivia num centro de refugiados em Hamburgo. Terroristas de extrema direita jogaram os dispositivos incendiários pela janela. Đ Anh Lân morreu de queimaduras dias depois, assim como seu vizinho, Nguyn Ngc Châu. "Fora estrangeiros!", escreveram os assassinos na fachada do abrigo de migrantes.
 
Nas estatísticas, esse dia marcou os primeiros assassinatos de cunho racista na República Federal da Alemanha. Passados 40 anos, a mãe, Đ Mui, luta até hoje com sua dor e para que seja construído um memorial em Hamburgo, oficial e aberto ao público, um local que dê visibilidade à dor. "Ninguém se importa", disse Đ Mui em entrevista ao jornal Die Zeit.
 
 
Assassinatos racistas
 
A Alemanha tem dificuldade de lidar com a cultura moderna de lembrança das vítimas do terrorismo. É claro que há uma memória viva, como agora após os assassinatos na cidade de Hanau, no estado de Hessen. Em 19 de fevereiro de 2020, um homem de 43 anos matou nove pessoas a tiro. As vítimas ou suas famílias eram imigrantes, o motivo: racismo. A cerimónia fúnebre contou com a presença do presidente Frank-Walter Steinmeier e da chanceler federal Angela Merkel.
 
Foi uma celebração digna. Mas as famílias das vítimas temem, em breve, serem novamente deixadas sozinhas com sua dor – e, acima de tudo, com seus medos. "Agora estamos recebendo cada vez mais relatos de alguns parentes que estão com medo de levar seus filhos à escola", relata Robert Erkan, do Centro de Assistência a Vítimas em Hanau.
 
Para os familiares das vítimas, o terror de direita não é um caso isolado: é uma realidade amarga, porque, apesar de todos os alertas e declarações da política, nunca deixou de existir.
 
Memoriais vandalizados
 
Obviamente também existem inúmeros locais importantes para lembrar as vítimas do terrorismo na Alemanha, especialmente na capital Berlim: o Memorial do Holocausto ou o centro de documentação Topografia do Terror estão entre os pontos mais visitados do país, com milhões de visitantes. Mas eles lembram as vítimas do nacional-socialismo, ou seja, de uma época anterior à fundação da República Federal da Alemanha.
 
Para novos memoriais, a situação não é fácil. Algumas vezes, sua construção é rejeitada, como no caso de Đ Anh Lân, outras, eles são vandalizados. Em muitas cidades, há memoriais em homenagem às vítimas da série de assassinatos de cunho racista praticados pelo grupo autodenominado Clandestinidade Nacional Socialista (NSU). Eles foram danificados, roubados ou escritos e com suásticas. Na cidade de Kassel, os pais do Halit Yozgat, morto pela NSU, desejam há anos que a rua em que ele nasceu ganhe o nome Halitstrasse, o que a prefeitura da cidade rejeita.
 
Para os parentes, é difícil de aceitar. Eles não estão exigindo dinheiro do Estado, nenhuma indemnização, mas resgate crítico e locais memoriais que devolvam ao falecido um pouco de dignidade. Muitas vezes, trata-se de uma dura luta: na cidade de Zwickau, na região da antiga Alemanha Oriental, um pequeno carvalho lembrava as vítimas. A árvore foi serrada. Como em outros casos, os autores provavelmente eram extremistas de direita.
 
O presidente Steinmeier foi a Zwickau conversar com os prefeitos do país na véspera do Dia Europeu de Homenagem às Vítimas de Terrorismo. Porque cada vez mais políticos locais estão sendo vítimas de ataques e insultos, o que foi confirmado por metade dos prefeitos, que afirmaram ter sido abordados várias vezes.
 
O presidente alemão lhes falou de coragem. No entanto dirigiu-se principalmente ao centro mais amplo da sociedade: "Ninguém deve mais dizer: isso não me interessa. E ninguém pode ficar calado. O chamado centro silencioso da sociedade ficou quieto por muito tempo, mas também sabemos: ela existe, sim existe essa maioria em nosso país que quer viver pacificamente e condena explicitamente a violência. Mas é justo essa maioria que precisa falar alto agora."
 
O recado do presidente alemão para essa parcela maior da sociedade é: "Não nos calemos. Devemos nos unir contra o ódio."
 
Hans Pfeifer (ca) | Deutsche Welle

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/europa-lembra-vitimas-de-atentados.html

COMBAT – Um projeto de estudo sistemático das políticas públicas de combate ao racismo

© Museu do Aljube Resistência e Liberdade

Seminário no Museu do Aljube

Ponto de chegada (e ponto de partida) de um estudo que se debruçou sobre áreas de observação pública que os números e os processos de estudo sistemático comprovaram constituir formas de opressão racista: na habitação, no emprego, nas políticas de segurança… não há forma de os tratar todos, porque o racismo é fruto de uma atitude e de uma cultura, mas também fruto de políticas públicas insuficientes e preconceituosas e, portanto, institucional.

Quando este grupo de investigadoras do CES mergulhou nos dados existentes, nos textos jurídicos ou nas normas de segurança, deu-se conta de termos e expressões que denunciam, de forma subtil, as práticas comuns e a linguagem grosseira que todos ouvimos, todos os dias. Por exemplo, medidas de segurança sustentadas sobre o preconceito de «territórios e populações suspeitas», ou sobre a banalização da injúria como qualquer coisa de tão natural que não merece sequer ser considerada como matéria de crime.

Do público alguém lembrava que estaria ainda muito longe a situação de se considerar o racismo como um crime público. Do CES chegou este estudo corajoso de denúncia e de exigência de reflexão coletiva.

Ver original em 'Museu do Aljube' na seguinte ligação:

https://www.museudoaljube.pt/2020/02/28/combat-um-projeto-de-estudo-sistematico-das-politicas-publicas-de-combate-ao-racismo/

FRATERNIZAR – O que nos revela o ‘Caso Marega’ -RACISMO OU A NEGAÇÃO DO DESPORTO COMO ARTE?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 
 

 

Aconteceu no passado fim de semana, em Guimarães, no Estádio D. Afonso Henriques. Num jogo da Primeira Liga entre o VSC de Guimarães, de Júlio Mendes, treinado por Ivo Vieira, e o FCP, de Pinto da Costa, mais que vitalício no cargo, treinado por Sérgio Conceição. Depois de tantos escândalos já divulgados e muitos outros, ainda por divulgar pelo Futebol Leaks, inevitáveis todos neste tipo de Futebol dos milhões, qual é, a meu ver, a pior revelação que o ‘Caso Marega’ nos faz – um caso de Racismo, ou a negação pura e simples do Desporto, como actividade saudável ao ar livre e com todos os ingredientes para desfrutarmos uns com os outros, sem necessidade de recorrermos a qualquer tipo de policiamento nos respectivos locais?

Podem acusar-me de sonhador e utópico. Mas, então, deixemos de falar de Desporto, sempre que nos referimos ao futebol de milhões, implantado hoje tanto no Ocidente como no Oriente. Fazê-lo, é agredir o desporto como tal e os seus praticantes. O ‘caso Marega’ é uma acha mais, na fogueira que alimenta jornais desportivos – só em Portugal, pequeno país à beira-mar plantado, há três diários, sete dias por semana!!! E há as tvs privadas e as das SADs, entenda-se, Sociedades Anónimas Desportivas em que se transformaram os clubes. E há comentadores televisivos a granel que enchem horas, noites e dias de cada semana, durante todo o ano, a esmiuçar tudo ao pormenor e sempre com grandes audiências. E há jogadores e treinadores que se compram e se vendem por somas astronómicas e obscenas, onde o Senhor Dinheiro dita as regras e corrompe tudo e todos, sem quaisquer escrúpulos e possibilidades de controlo. Graças à cobertura de Federações nacionais e internacionais, onde a UEFA que a tudo preside, põe e dispõe na mais completa amoralidade. Porque a única coisa que conta é o Lucro, sem que os Estados e respectivos Governos tenham mão nesta máquina devoradora e trituradora do Humano, que converte nascidos de mulher em famosas marcas, como é o caso da marca CR7, nascido de uma mulher da Região Autónoma da Madeira.

Não há como conter esta trituração do Humano. Seja a dos craques que se compram e se vendem, numa sofisticada forma de prostituição, seja a dos frequentadores de todos aqueles-estados catedrais, como, na idade média, frequentavam as catedrais dos bispos e os templos paroquiais das aldeias. O resultado é o mesmo, num e noutro caso. As mudanças são pouco mais do que cosméticas, mais maléficas estas hoje, do que aquelas do passado. O ‘racismo’ então também era de outro tipo. Não tinha que ver com a cor da pele, embora, ‘descobridores’ e ‘conquistadores’ da era de Quinhentos, chegassem a perguntar se aqueles aborígenes residentes nus ou seminus, com os quais se deparavam, ao saírem das caravelas, e facilmente subjugavam mediante a Cruz e a Espada, ‘tinham alma’. Por então, ainda se não havia inventado a palavra ‘racismo’, mas já se praticava, sob outras designações, como a escravatura, à beira das quais o ‘caso Marega’ nem sequer o chega a ser. De modo que todo o alarido que em seu redor se criou e se vai alimentar por muitos dias serve sobretudo para esconder um dos piores crimes contra a Humanidade e contra o Desporto, como prática saudável ao ar livre , que é a existência cientificamente organizada do Futebol dos milhões.

Alerta, pois! Porque o Senhor Dinheiro tem o perverso condão de envelhecer-matar não só o corpo dos nascidos de mulher, mas também e sobretudo a sua ‘alma’, o Eu-sou único e irrepetível que cada uma cada, cada um de nós é. E que o ‘caso Marega’ ajuda a esconder, quando mais parece revelar. Ou acabamos já com o Futebol dos milhões e suas SADs e regressamos aos clubes de Futebol com equipas formadas exclusivamente por profissionais de cada um dos países, entre os quais se busca o desporto como Arte e fonte de amizade e da entre-ajuda, ou acabamos todos comidos por ele e seus abutres.

 

www.jornalfraternizar.pt

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/23/fraternizar-o-que-nos-revela-o-caso-marega-racismo-ou-a-negacao-do-desporto-como-arte-por-mario-de-oliveira/

Portugal | Um racista militante pode ser inteligente?

 
 
Pedro Tadeu | TSF | opinião
 
Um racista militante é, simplesmente, um estúpido ignorante.
 
Infelizmente há muitas pessoas racistas, cultas, e há outras pessoas racistas menos cultivadas.
 
Os racistas cultos acham o racismo razoável, dentro de alguns limites que defendem ser racionais: não querem fazer mal a ninguém mas preferem não conviver com pessoas de outras raças, querem mandá-las para a "terra delas", mesmo quando essas pessoas nasceram na mesma pátria que eles.
 
Os racistas menos cultos nem percebem como são racistas, dizem que até têm amigos de outras raças, mas acham que essas pessoas são diferentes delas e apontam-lhes alguns defeitos através de generalizações patetas: ou porque são mais preguiçosas, ou porque são lentas, ou porque falam alto nos transportes públicos, ou porque andam a roubar, ou porque não trabalham ou porque lhes ficam com os empregos ou por outra coisa qualquer que os incomoda.
 
Mas, seja por vergonha, seja por receio da pressão do resto da sociedade, seja por terem medo de serem condenados por um crime, normalmente os racistas portugueses, sejam os mais cultos, sejam os menos cultivados, evitam, com vergonha, praticar o seu racismo.
 
Um racista militante joga em outro campeonato.
 
Um racista militante é estúpido e não quer saber das consequências do seu racismo. Por isso, grita-o com toda a força, com todo o ar que esteja guardado nos seus pulmões.
 
Um racista militante não pensa, não ouve, não lê, não elabora sobre o seu racismo - apenas quer vomitar a sua ira a outras raças.
 
Um racista militante é um borjeço, um animal que não controla o impulso de querer bater, mutilar e mesmo matar as pessoas de outras raças.
 
Um racista militante é como um boi de uma manada que investe furiosa, descontrolada, contra todos os obstáculos que tentam impedir a sua correria pelo ódio.
 
No futebol, o racista militante encontrou a manada que precisa para fazer essa correria e exprimir, brutalmente, o quanto detesta os outros.
 
O futebol, berço e escola no nosso país da corrupção de colarinho branco; treino de bebedeiras, pancadaria, facadas e até de homicídios em grupo; universidade de insultos e impropérios; escola oficial da má criação, grande educador generalizado para o sectarismo e clubismo - é também centro de formação de fascistoides e de racistas.
 
É no futebol que os racistas cultos e os racistas menos cultos acabam por perder a vergonha de exprimir publicamente o seu racismo, contagiados pelo ambiente, pela linguagem, pela permissão de tudo o que a sociedade, lá fora, condena. Juntam-se assim à manada do ódio e começam, nas suas vidas pessoais e profissionais, a ser agentes de uma campanha de normalização das ideias do racismo.
 
Mesmo assim ainda têm má consciência e culpam as outras raças pela sua violência e alegam sentirem-se provocados pelo chamado "politicamente correcto", por "agora não se poder dizer nada".
 
É assim que vemos o líder do Chega, a propósito do caso Marega, o jogador do Futebol Clube do Porto que saiu do campo em protesto contra os insultos racistas do público, a comentar dessa forma as reações de apoio ao jogador e a dizer que agora "tudo é racismo".
 
André Ventura é um bom exemplo de como alguém encontrou na estupidez uma forma de se valorizar na sociedade: ele tentou notabilizar-se na sociedade do "politicamente correto", com crónicas e comentários inteligentes, através do que sabia sobre lei e direito, mas quando passou a opinar sobre futebol rapidamente encontrou o êxito pessoal e uma tropa de apoio na manada dos ridiculamente estúpidos, onde se encontram os racistas militantes. Ele acha que os pode manipular. É uma pena...
 
O futebol tem de deixar de ser uma escola dos piores hábitos da sociedade e tem de ser limpo. Esta deveria ser uma tarefa prioritária dos dirigentes dos clubes e dos governos.
 
Isto não só salvará o futebol de si próprio como, principalmente, tornará novamente eficaz aquilo que durante muitos anos conteve a expressão pública do racismo latente dentro de muitos de nós e que a educação não conseguiu eliminar: a vergonha de ser racista.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Portugal | Não ao racismo: mais que palavras, são precisos actos

 
 
Os insultos racistas ocorridos este domingo têm merecido condenação pública transversal. Mas para derrotar este flagelo, que não se cinge ao desporto, é preciso ir às causas e agir de forma consequente.
 
AbrilAbril | editorial
 
O País acordou na segunda-feira a condenar, de forma generalizada, o sucedido na disputa de futebol realizada ontem entre o Vitória Sport Clube e o Futebol Clube do Porto, onde muitos adeptos vimaranenses proferiram, de forma sistemática, insultos racistas contra Marega, que acabou por abandonar o campo.
 
A questão ficou naturalmente mediatizada por ter sucedido no palco onde ocorreu – um jogo da primeira liga de futebol – e já está a ser objecto de comentários e análises das mais diversas esferas da sociedade, em particular no mundo do desporto.
 
Condenação é a palavra mais ouvida. E procuram-se culpados, em concreto. Mas, se do ponto de vista dos princípios, (quase) todos apontam estar do mesmo lado, é na acção concreta e posicionamento político que as responsabilidades também devem ser assacadas.
 
 
O racismo não é um problema exclusivo do terreno desportivo, e muito menos ocorre apenas no futebol. Recentemente têm sido trazidos a público diversos casos que demonstram haver ainda muito caminho a fazer no combate a quaisquer expressões de racismo na nossa sociedade.
 
A discriminação racial é, a par da xenofobia, uma das mais velhas armas daqueles que se querem manter no poder através da exploração. Assiste-se à manipulação e promoção, por parte de diversas forças, de sentimentos e emoções que alimentam discriminações, medos, ódio e divisões sociais.
 
A questão central da igualdade e da unidade em torno daquilo que nos une torna-se premente na sociedade actual, quando são aqueles que alimentam o sistema que beneficia das divisões e ódios entre aqueles que mais ganhariam se estivessem lado a lado na luta por melhores condições de vida.
 
A luta pela igualdade e contra todo o tipo de discrimações é, pois, actual. E merece firme combate contra as políticas de portas fechadas praticadas pela União Europeia, os ataques a direitos sociais e laborais que promovem as desigualdades, os entraves administrativos e materiais aos serviços e forças de segurança que deviam estar na primeira linha deste combate, ou a tolerância zero para com os que nutrem elementos de divisão com carácter racista ou xenófobo.
 
Será pois na prática que se diferenciarão aqueles que apenas se insurgem por palavras daqueles que estão do lado da efectiva mudança, por via de acções práticas, exigindo respostas e mais meios para este combate.
 
Imagem: António Petinga / Lusa

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Este país não pode ser racista

Augusto Santos Silva tem sido aqui frequentemente criticado. Esta semana, quero elogiá-lo pela posição que assumiu, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, a propósito do caso Marega. Santos Silva criticou o atentado à dignidade humana, como não podia deixar de ser, mas sublinhou, de forma complementar, como “as manifestações de racismo prejudicam a imagem internacional de Portugal”.

Lembro que o anti-racismo foi inscrito no sistema internacional graças sobretudo à libertação nacional dos povos colonizados, à emergência de países cuja maioria da população foi durante séculos vítima do racismo, filho ideológico do imperialismo colonial. Houve e há um nacionalismo com efeitos anti-racistas. Qualquer política externa de um antigo país colonial tem de ter um dos maiores progressos históricos de sempre em consideração. Qualquer boa política externa começa, aliás, por uma decente política interna. Todas as formas de racismo são contrárias aos interesses nacionais, qualquer forma de racismo é anti-patriótica, até por isto:

“Portugal é um país justamente reconhecido e justamente respeitado. Não por não ter racismo, porque, infelizmente, esse mal existe por muito lado, mas por o racismo não ter uma expressão social significativa, não ter expressão política (...) nem ocupar o espaço público.”

Mais do que ser verdade, e eu creio de facto que dela não anda muito afastada, esta hipótese de Santos Silva exprime uma certa ideia de comunidade que quer que isto seja verdade: Portugal não é um país racista, não pode e não deve ser.

No fundo, creio que são contraproducentes, para um popular combate anti-racista, dois hábitos políticos prevalecentes entre certos sectores e que consistem em dizer que os portugueses são racistas ou maioritariamente racistas, e que o nacionalismo, assim no singular, conduz ao racismo. O racismo combate-se onde existe em concreto e é preciso fazer também esse combate, mas não só, claro, em nome dos valores e interesses de todos os que fazem este país. Ou seja, em nome de uma primeira pessoa do plural inclusiva.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Por que de racismo se fala

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Crónica lida na ‘Rádio Baia’
 
Por que de racismo se fala
 
A ciência revelou-nos o óbvio: Os Humanos não são divisíveis por raças. Há no entanto uns menos humanos que outros: os racistas.
Agosto. Lisboa é uma cidade sonolenta, aconchegada na modorra que o calor transporta. As ruas estreitas são canais de frescura, veias onde circulam os que lhe mantêm a tonicidade indispensável ao ritmo estival. Hora de almoço. Restaurantes e tascos de portas amordaçadas. No interior as cadeiras em exercícios de equilíbrio fazem o pino sobre as mesas, cenários de abandono cumprindo o calendário.
Aproveito as sombras somíticas que o sol do meio-dia nos permite. A cidade repousa, respira tranquilidade. O movimento é escasso. Sem pressas e muita curiosidade reparo na toponímia: “Conde Barão”. Sorrio. Conde e Barão... Que exagero! “Poço dos Negros”... Para quando a “Fonte dos Negros”? Pensei, matreiro, satisfeito pela ideia prenhe de malícia.
O olfato guia-me, não sei bem para onde; misturado com o podre das sarjetas chega um odor a peixe grelhado, sigo o filão, o cheiro encorpa, a curiosidade e a imaginação fundem-se em apetite, a mensagem vai-se tornando clara, começo a aperceber-me do tipo de pescado que me espera, mais uma ruela, ainda outra... E um recanto de cenário tipicamente alfacinha surge sem surpresa. No braseiro, à entrada da tasca, carapaus e sardinhas mostram-se fumegantes oferecendo-se a quem passa.
Cortadas a meio pelo sol que faz fronteira com a sombra que o afasta, quatro pequenas mesas alinhadas com o assador confundem-se com a parede. O lugar é tranquilo, a frescura do peixe faz alarde. Aproveito a meia sombra de uma das mesas. Sento-me.
A higiénica e proletária toalha e guardanapo de papel não demoram, o simpático galheteiro não se faz esperar. E neste vai e vem do empregado, pronuncio: Carapaus.
Sóbrio e preciso, o breve monólogo ajustava-se à simplicidade do estabelecimento, além do mais não me apetecia falar, predisposto que estava a usufruir da oportunidade que a cidade me oferecia neste singular dia de Agosto. Numa das restantes mesas três operários comiam mansamente. Junto deles uma mulher falava, falava, falava. Mansamente os homens continuavam a comer esboçando um sorriso de vez em quando.
Não longe de mim, os carapaus rechinavam na grelha deixando cair gotas de gordura como que dizendo: vais gostar!
Entretanto a mulher continuava a pregar. Entretido que estava com o meu peixe e de apetite em crescendo, desejoso de um repasto calmo, só dava pelo som agudo da sua voz que me começava a enfadar.
Falava dos pretos. Olhei-a, tinha os olhos em mim, e quando se apercebeu que nela reparei subiu o tom de voz, ganindo: pretos. E sorrio-me. Os operários enlevados chupavam as cabeças dos peixes que sublinhavam com um gole de tinto. Gente que sabe misturar sabores.
O sol teimava em não me libertar a mesa, os carapaus faziam-me negaças e não se despachavam, e a mulher, porque os três homens não lhe davam troco, virava para mim o discurso racista: os pretos, os pretos, os pretos. Os meus olhos azuis num rosto branco, agora certamente lívido, tomaram-na por alvo.
“Também sou racista!”, Disse. A mulher devolveu-me de imediato um jubiloso sorriso de reconhecimento. E não lhe dando tempo de maior euforia, continuei firme, seco: “Não posso com os brancos!”.
Toda a expressão de alegria transfigurou-se numa metamorfose súbita, dando lugar a um semblante amorfo onde o espanto e a perplexidade se confundiam. Fixava-me e não entendia, havia algo que a ultrapassava, não estava ouvindo bem ou não enxergava de feição.
E para que não lhe restassem dúvidas, repeti de modo compassado e agressivo: “Não posso com os brancos, ouviu bem!? E sabe porquê? Porque são os únicos que me têm lixado a vida.”
A catarse resultou, acalmei. Os carapaus impecavelmente grelhados apresentaram-se-me alinhados, enfeitados com um raminho de salsa. Era carapau do branco, branquinho como eu. Não gosto do carapau negrão, prefiro o chicharro. 
Já bem-humorado ia degustando deliciado esta refeição tão nossa, e repetia para comigo: Só os brancos me têm lixado, é certo, porque todos os outros não têm tido essa oportunidade.
Quando dei uma espreitadela para o lado, os homens já bebiam o café e a mulher eclipsara-se.
O vírus do racismo, mantém-se latente em todas as mentes, intervém se nos apanha desprevenidos, e prolifera rapidamente se lho permitimos, atingindo por vezes graus preocupantes.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

O BOM POVO PORTUGUÊS

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Das muitas entrevistas a cidadãos de Guimarães que se cruzaram com os jornalistas que os questionaram sobre os acontecimentos ocorridos no estádio da sua cidade a maioria não considerou como sendo racistas os adeptos do seu clube que sugeriram que um ser humano que já tinha sido um deles fosse colocado ao nível de gorilas. Pior ainda, consideraram que a reação podia ser considerada como legitimada só porque o atleta se lembrou de festejar o golo que marcou junto dos adeptos sofredores, a quem deveriam ser dado mimos porque a sua equipa viu uma bola entrar na sua baliza.
 
 
Entre todos os cidadãos comuns de Guimarães que não hesitaram em dizer o que sentiam perante as televisões poucos se manifestaram contra o racismo e apenas uma senhora associou o sucedido com a infiltração da extrema-direita nas claques de futebol. Toda a gente sabe que a extrema-direita encontrou nas claques um pasto ideal para crescer, mas a generalidade dos presidentes dos clubes fazem de conta que não percebem. Como durante muito tempo não perceberam os comandos da PSP ou mesmo os dirigentes sindicais, que parecem confortáveis vendo cada vez mais sindicatos a trilharem pelo mesmo caminho.
 
E como é que personalidades como Sousa Tavares tratam políticos oportunistas que para subirem na vida são o que for necessário e surfando na onda da extrema-direita optaram por ser racistas? Dando-lhes credibilidade cedendo-lhes palco em programa de prime time como se tivessem na sua frente uma grande personalidade mundial. Do alto da sua vaidade sentiram-se grandes democratas do Porto “desfazendo” um benfiquista racista, desta forma minimizaram a questão do racismo a mais um incidente Benfica-Porto ou norte-sul.
 
É óbvio que o Chega do oportunista vai crescer nas eleições mas isso não sucede porque de um dia para o outro passámos a ser racistas, a deixar de gostar de ciganos ou mesmo a ser imbecis. No bom povo português há de tudo e à medida que a imbecilidade, a xenofobia, o racismo e outras coisas vão perdendo a vergonha o Chega vai crescendo. Afinal, temos tanta extrema-direita como o resto da Europa.
 
Vivemos num país onde dizemos que não somos racismo mas empaturramos a caixa do WhatsApp dos amigos com piadas racistas, defendemos a doutrina social da igreja e somos democratas exemplares mas há noite cultivamos a imagem do Salazar e dizemos que o Tarrafal não passou de um pequeno beliscão. Somos todos amigos dos africanos mas provavelmente ainda guardamos as fotos de cabeças de africanos espetadas em paus ou mesmo alguma orelha guardada numa caixinha, recordações das primeira campanha em Angola.
 
 

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

Moussa Marega, deixa-me dizer-te uma coisa

(Adriano Miranda, in Público, 17/02/2020)

 

A rua do meu bairro era bastante larga para a época. Não era asfaltada. Era de terra batida. E ao fim do dia, depois das aulas, os amigos juntavam-se em redor da bola de futebol. A rua era o nosso campo de futebol. Jogávamos com os nossos ídolos na cabeça. Não existiam camisolas dos clubes com os craques gravados por cima do número. O Eusébio, o Coluna, o Yazalde, o Damas, o Dinis, o Torres, o Simões estavam todos dentro da nossa cabeça. Guardados em sonhos na esperança de um dia sermos como eles. No meio do pó, braços e pernas dançavam ao som das melhores fintas, na proeza da melhor defesa. Estava o filho do bancário e o filho do sapateiro. O branco. O negro. O cigano. Estávamos todos unidos. A bola era o ponto da nossa união.

Como se poderia adivinhar pelo jeito que eu tinha a rematar, o sonho foi-se desvanecendo. Não aprendi a dar mais que três toques seguidos nem a fazer a finta genial. O Damas, o meu herói, fez-me sportinguista. Serei sempre. Mas os miúdos da minha rua ensinaram-me o valor das palavras amizade e solidariedade. O mais importante. Foi o que ficou das “futeboladas” ao final do dia.

Todos os domingos vou ao futebol. Ver o Filipe. Tem 15 anos. Joga desde os seis anos. É mil vezes melhor que o pai. Gosto de ver a sua combatividade. As suas fintas. Ouvir o nome dele na bancada com palavras de incentivo. Gosto. Mas do que gosto mais é quando o Filipe aleija algum adversário e fica junto dele até saber que a dor é passageira. Pede-lhe desculpa. Afaga-lhe sempre a cabeça. Ou quando aconchega algum adversário ou companheiro de equipa que chora com a derrota ou com o falhanço de um penálti. O Filipe já não joga numa qualquer estrada empoeirada. Joga em relva sintética, com chuteiras de marca. Mas o Filipe sabe o valor das palavras que o pai aprendeu: amizade e solidariedade. Ele também já as aprendeu. E isso vale mais do que qualquer golo.

Todos os fins-de-semana os campos de futebol dos clubes mais recônditos enchem-se de pais, treinadores, jogadores e dirigentes assanhados. Violência verbal, violência física. Tudo vale num estado quase hipnótico, esquecendo que na relva falsa estão crianças e jovens a praticar desporto. Tudo vale no chamado “futebol de formação”. Compra de resultados, aliciamento de árbitros, sorteios viciados, fugas fiscais, branqueamento de capitais, apadrinhamentos, ofensas verbais, ofensas corporais e ofensas racistas. Tudo vale e tudo assobia para o lado. Todos os maus exemplos do futebol sénior são implementados no “futebol de formação”. E quem pode acabar com isto de uma vez por todas? O Moussa Marega já lançou a semente.

Na sala, onde damos descanso aos músculos e enaltecemos a preguiça, o pivô deu-nos a notícia. Na televisão com alta definição, vimos, incrédulos, a arena selvagem própria dos tempos de Nero. Marega não me fez chorar pelo golo que marcou. Se fosse do Sporting, talvez chorasse. Chorei ao ritmo da sua indignação, da sua humilhação. Chorei ao vê-lo apontar a sua pele tingida com um cartão amarelo. Note-se que Marega foi o único castigado. Ofendido e castigado. Sinal de que caminhamos a passos largos para uma sociedade sem valores, Marega não teve a amizade e a solidariedade de ninguém. Nem daqueles que têm a mesma cor na camisola. Nem daqueles que têm a mesma cor de pele. A humilhação também era para eles. E o melhor golo da partida era vê-los abraçados a Marega a abandonarem a arena de Nero. E nas bancadas, os homens e as mulheres de bem, aplaudirem de pé os bravos.

Sabemos que o futebol é uma indústria de ódios e fanatismos. Irracional. Terreno lamacento para a extrema-direita se alimentar de recrutamentos e multidões. No jogo entre a Lazio e o Tottenham, numa tarja enorme, podia ler-se: “Auschwitz a vossa pátria, o forno a vossa casa.” São tantos os exemplos. De gente que não é gente. Eles começam a andar por aí. Até nós deixarmos.

Moussa Marega, deixa-me dizer-te uma coisa. Desde domingo que fazes parte dos meus ídolos. Os ídolos que marcavam golos do outro mundo, os que ensopavam a camisola de suor, e agora tu, um ser humano excepcional. O Filipe, o aspirante a jogador, viu-te sair com a indignação no rosto. Aprendeu muito contigo. Aprendeu que somos todos filhos do mesmo chão. Obrigado, Marega. A promessa fica feita. O Filipe, se marcar algum golo, vai tirar a camisola de jogo e vai mostrar outra com o teu nome – MAREGA. Levará um cartão amarelo, até podia levar um vermelho. Que se lixe. Existem valores que falam mais alto. E a luta pela dignidade não conhece castigos.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | O RACISMO ESTÁ PROFUNDAMENTE ENRAIZADO EM NÓS

António Jorge* | opinião
Não basta criticar e criminalizar quando o racismo se assume como besta e ataca. É preciso ir profundamente ao fundo do problema, que subsiste, enquanto não se fizer a pedagogia da humanidade pela verdade sincera de combate ao racismo e ao pré-conceito racial. As diferenças étnicas, tem uma explicação cientifica, são consequência em primeiro lugar da geografia e da relação de cada Continente ou lugar em que cada um de nós nasceu ou é originário, e das razões das adaptações genéticas humanas ao meio ambiente de onde é natural.
Se eu for originário do norte do Hemisfério, tenho um nariz mais estreito para melhor resistir ao frio... se for originário do hemisfério sul, tenho um nariz mais aberto, para respirar melhor na relação com o calor dos trópicos.
O ser-se de etnia, branca, morena, castanha ou negra... vem das mesmas razões. O resto é uma história secular da submissão de uns pelos outros... os do sul pelos do norte... e que também se relaciona com a geografia... os povos do Hemisfério norte, tiveram de ser mais operativos para se adaptarem e transformarem o meio ambiente em que nasceram, adaptando-o para nele viverem e conseguirem resistir ao frio dos invernos.
É isso que explica até... porque desde há alguns séculos se processou a mudança dos principais centros do saber da humanidade que surgiram na bacia do mediterrâneo, a sul e a norte, tivessem sido substituídas pelas sociedades europeias que antes eram conhecidas e habitadas pelos povos designados, como bárbaros no centro e norte da Europa. Como é sabido... a história que nos é contada é feita em função dos vencedores, e o racismo também é consequência disso.
Fomos habituados pela escravatura e o colonialismo a desvalorizar e discriminar os africanos, confundindo a submissão pela força, com a ausência de igualdade do género humano. O poder político tem algumas culpas pela manutenção da força do racismo entre nós - Portugal e os portugueses tem uma experiência da África e dos africanos de mais de meio milhar de anos... apesar disso, o problema continua por resolver, porque onde o racismo desde logo deve ser combatido, é no berço... na escola, pela educação e o seu enquadramento histórico e compreensão nos manuais escolares. O racismo não se combate só pela criminalização... dos que ousam assumir-se como racistas, é preciso persistência e pedagogia e sobretudo - CORTAR O MAL PELA RAÍZ! *António Jorge - editor e livreiro em Angola

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-o-racismo-esta-profundamente.html

Portugal | Marega reage novamente a insultos: "Senti-me realmente uma m****"

 
 
Depois da publicação, ainda a quente após o jogo, o avançado maliano voltou a falar sobre os insultos racistas em Guimarães.
 
Moussa Marega voltou, esta segunda-feira, a falar sobre os insultos racistas no Estádio D. Afonso Henriques, durante o Vitória SC - FC Porto. Em entrevista a uma rádio francesa, o atacante dos dragões desabafou e disse que ficou realmente "desiludido" com todos os comentários de que foi alvo.
 
"Ontem [domingo], senti-me realmente uma m****. Foi, verdadeiramente, uma grande humilhação, tocou-me verdadeiramente", disse Marega, em declarações ao programa ‘Team Duga’, da RMC Sport.
 
"Se pudesse falar com o presidente da República? Seria um honra e podia dizer-lhe o que senti ao ser insultado daquela forma. Não gostei mesmo nada de sentir aquele ódio, fiquei muito desiludido",  acrescentou ainda.
 
Recorde-se que Marega já tinha reagido aos insultos de que foi alvo em Guimarães, num texto publicado alguns minutos após o apito final do encontro.
 
Notícias ao Minuto | Imagem: © Getty Images
 
Leia em Notícias ao Minuto: 
 
 
Leia em Página Global:

CGTP-IN condena racismo no futebol

mmaregaA CGTP-IN considera intoleráveis e inaceitáveis os actos de racismo cometidos ontem no Estádio D. Afonso Henriques em Guimarães contra o jogador Moussa Marega.

Para a CGTP-IN, qualquer forma de racismo, xenofobia e discriminação, seja no desporto, no trabalho, na escola ou em qualquer outro local ou circunstância, é sempre inadmissível e incompatível com os princípios e valores da dignidade humana e da igualdade, que defendemos e que estão também inscritos e consagrados na nossa Constituição.

A verdade é que os episódios de racismo se têm repetido nos estádios nacionais e nem todos têm sido punidos como é devido.

Em nosso entender, quer as instâncias desportivas, quer o próprio Governo têm-se vindo a demitir das suas responsabilidades nesta matéria e não têm agido em conformidade com a gravidade destes factos que estão a ocorrer cada vez com maior frequência.

Consideramos, por isso, que nem as instâncias desportivas nem sobretudo o Governo podem continuar a alhear-se dos comportamentos racistas e ou xenófobos ocorridos nos estádios de futebol, os quais devem ser severamente punidos e os seus perpetradores definitivamente banidos destes eventos.

DIF/CGTP-IN

Lisboa, 17.02.2020

Ver original aqui

|RACISTAS, COBARDES E IDIOTAS|

 
Quando Eusébio marcava golos ninguém era racista, ninguém lhe disse para que fosse para Moçambique, nem sequer que o enterrassem na terra dele, nem um se lembrou de contar anedotas, imitar gorilas ou dizer as barbaridades se vão ouvindo. Mais recentemente todos os racistas deste país sentiram o ego nacionalista em alta quando o Éder ou o Ederzinho despachou a França e apagou a luz da Torre Eiffel, não lhes passou pela cabeça sugerir que fosse para a Guiné.
 
Mas no anonimato do magote de uma claque ou de uma multidão eis que o pior deles veio ao de cima, agora a frustração era descarregada na pele de um jogador. Mas como a claque parecem ser os modelos de virtudes dos presidentes dos clubes o presidente do Vitória logo descobriu que a culpa não seria do racismo, seria uma resposta quase legítima às provocações do jogador. E para o André Ventura a culpa era da Joicine.
 
Não, em Portugal não há racismo, o que há são muitos cobardes que gostam de se sentir superiores porque com luz natural a sua pele fica branca, como se um qualquer idiota deixasse de o ser só porque a sua pele fica mais branca que a dos outros quando é iluminada. Não lhes basta ser racistas, são também cobardes e idiotas.
 

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

Portugal | Governo diz que racismo é intolerável e que responsáveis vão ser punidos

 
 
O secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, assegurou o empenho das autoridades para a identificação e punição dos responsáveis por estes atos.
 
O secretário de Estado da Juventude e Desporto considerou o incidente com o futebolista maliano do FC Porto Marega intolerável é inaceitável, assegurando que as autoridades estão a identificar os responsáveis, a fim de serem punidos.
 
"O que aconteceu esta noite no jogo entre Vitória Sport Clube e FC Porto é absolutamente intolerável é inaceitável. Os insultos dirigidos ao jogador Marega envergonham todos quantos pugnam por uma sociedade inclusiva. Os valores do desporto nada têm que ver com estas atitudes racistas, xenófobas e ignóbeis", começou por dizer João Paulo Rebelo, em declarações à agência Lusa.
 
O avançado pediu para ser substituído, ao minuto 71 do jogo da 21.ª jornada da I Liga, por alegados cânticos racistas dos adeptos da formação vimaranense, numa altura em que os 'dragões' venciam por 2-1, resultado com que terminaria o encontro.
 
 
João Paulo Rebelo assegurou o empenho das autoridades para a identificação e punição dos responsáveis por estes atos.
 
"A Autoridade para Prevenção e o Combate à Violência no Desporto está desde já a trabalhar em articulação com as autoridades policiais e desportivas no sentido de identificar e punir exemplarmente os responsáveis deste triste episódio que enche de vergonha todos quantos lutam por uma sociedade mais tolerante. Todos os agentes desportivos e, em particular, os seus dirigentes além do repúdio têm de atuar de forma a que isto não se repita", frisou o governante.
 
A terminar, o secretário de Estado elogiou o avançado dos 'dragões', que, depois de pedir a substituição, apontou para as bancadas do recinto vimaranense, com os polegares para baixo, numa situação que originou uma interrupção de cerca de cinco minutos.
 
"Por fim, uma palavra ao injuriado Marega, excelente profissional, a quem quero reconhecer uma atitude de grande dignidade e que ajuda a que todos quantos amam o desporto se juntem no combate à intolerância, ao racismo e violência no desporto", rematou João Paulo Rebelo.
 
TSF | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-governo-diz-que-racismo-e.html

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