Populismo

Abutres há muitos

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/05/2020)

Daniel Oliveira
 

A abjeta morte de Valentina revira-nos as tripas, como qualquer crime sobre uma criança, que antes de todos temos de proteger. Ainda mais quando o forte suspeito é o próprio pai. E é por ser especialmente revoltante e nos entregar a uma incontrolável náusea, que os mais sensatos respiram fundo antes de gritar. Porque este é, naturalmente, um momento em que a emoção se impõe à razão. Felizmente, as leis são abstratas. Não são feitas para nenhum criminoso com nome, para nenhuma vítima com rosto. E são assim porque a diferença entre a justiça e a vingança não é a ausência de sentimentos, é a vontade que a razão se imponha às emoções. Sabemos que é isso que nos salva do caos e da arbitrariedade de que todos, justos e pecadores, acabamos por ser vítimas.

Só uma sociedade plenamente convicta dos valores que lhe ofereceram previsibilidade, segurança e liberdade pode resistir à revolta e não ceder a sistemas penais que a História mostrou serem menos eficazes na luta contra o crime. E que têm sobre os nossos a enorme desvantagem de levar o Estado a assemelhar-se ao criminoso.

Se eu pedir prisão perpétua para o pai da Valentina poucos se vão opor. Se eu pedir a pena de morte dirão que é melhor, porque se poupa dinheiro. Se eu pedir a tortura acharão excelente, porque é um monstro. Se eu pedir o apedrejamento público, a forca, o desmembramento… Tudo será aceite e sem limite, porque nada parece ser suficiente perante a suspeita de um pai matar a sua própria filha, sobretudo nas condições que se descrevem. Cuidam que vingam alguma coisa, mas apenas cedem à ignomínia, acompanhando-a. Não foi a compaixão pelo criminoso que nos fez escolher outro caminho. Foi a compaixão por nós mesmos. A de não nos querermos assemelhar aos piores entre os piores de nós.

Podemos debater tudo, incluindo a pena de prisão perpétua (eu não debato a pena de morte, porque não reconheço a nenhum Estado ou pessoa o direito de assassinar). Mas temos de estar capazes de o fazer com base em argumentos, não apenas na fúria. Todos por vezes aproveitamos a emoção do outro para fazer passar um argumento. É irresistível. O adversário está mais frágil e o público mais disponível para nos ouvir. Mas a diferença entre as pessoas decentes e as outras é sempre a fronteira das coisas. O momento em que, sabendo que usamos o outro como instrumento, não o conseguimos fazer com o assassinato de uma criança para tentar mudar uma lei penal. Porque há momentos que são para emoção, não para a razão.

Poderão pensar que neste texto estou a falar do abutre residente, que se insurgia contra o populismo penal quando não precisava de votos e agora usa-o sem limites. Mas não é o único caso nem o mais grave. A juíza Clara Sottomayor, que em boa hora abandonou o Tribunal Constitucional, para onde tinha sido indicada pelo Bloco de Esquerda, e Dulce Rocha, uma das mais assombrosas desilusões que tive em toda a minha vida cívica, acompanharam este aproveitamento. Confundido guarda conjunta com o debate em curso sobre o regime de residência, quiserem transformar todos os pais homens em suspeitos potenciais da mais abjeta das monstruosidades. Apesar de não precisarmos de muito esforço para nos lembrarmos que o filicídio não tem género.

Só que o tema não tem qualquer relação com este caso. Partindo das notícias conhecidas, a menina estava a viver transitoriamente com o seu pai por causa da pandemia, e não por qualquer decisão de um tribunal: “Valentina vivia com a mãe no Bombarral, mas encontrava-se a passar um período mais longo do que habitual com o pai, por não ter escola, encerrada desde meados de março para evitar a propagação da covid-19. ‘A mãe tinha de trabalhar’, desabafa João Silvestre [tio-avô de Valentina]”. A utilização deste caso para discutir qualquer regime jurídico ou decisão judicial sobre a regulação de responsabilidades parentais ou residência habitual é, com base nos dados conhecidos, um aproveitamento descarado para uma agenda que, sendo legítima, não tem aqui cabimento.

Mais grave: a juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça Clara Sottomayor não hesitou em especular publicamente sobre o caso, imaginando o que podia ou não podia ter acontecido, o que teria sido ou não decidido por um juiz, que queixas teriam ou não existido, em direto e ao sabor do que as televisões iam dizendo. Como se fosse uma transeunte. Nada a distingue, no julgamento sumário feito nas redes sociais e na utilização do alarme geral para proveito de agendas legislativas, de André Ventura. Até é mais grave, porque Clara Sottomayor ataca tudo o que deve defender: presunção de inocência e direito a um julgamento baseado em factos, não em conjecturas. Para além, claro, do seu dever de reserva.

Por fim, a CMTV. Instalada em Atouguia da Baleia, Peniche, montou o circo macabro com que costuma garantir negócio. Não faltou nada. Das perguntas idiotas a familiares próximos e distantes às “postas de pescada” de vizinhos sedentos do seu minuto de fama, acrescentando zero de informação ao tema. Num desses momentos, foi o próprio jornalista, sentindo que as audiências podiam estar a fraquejar, que perguntou a um senhor se não achava que devia existir, naquele caso, “justiça popular”, acicatando o povo para o crime. No mesmo sentido, foram visitar a página da madrasta, também suspeita, relatando os insultos deixados pelos corajosos de teclado. O negócio da CMTV é este mesmo: usar os cadáveres para entreter o público.

São abutres todos os que tratam a morte de uma criança como uma oportunidade eleitoral ou comercial. Mas os suspeitos estão presos e a justiça não será feita pela CMTV, pelos linchadores das redes sociais, por alcoviteiros sedentos do seu bocadinho de fama, por políticos para quem a morte é um momento de campanha ou por magistradas que fazem julgamentos em comentários de Facebook. Será feita por juízes a sério, em tribunais legítimos e usando a lei que impede a arbitrariedade e o caos. Tudo o que nos faz ser diferentes dos assassinos de Valentina. Como sempre, a civilização contra a barbárie. A justiça contra criminosos e linchadores, que sempre se assemelharam.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

NEOLIBERALISMO E POPULISMO SE ESTRANHAM – por LUIZ CARLOS DE FREITAS

OBRIGADO A LUIZ CARLOS DE FREITAS, AVALIAÇÃO EDUCACIONAL-BLOG DE FREITAS E CAMILO JOSEPH

 

 

Neoliberalismo e populismo se estranham, por Luiz Carlos de Freitas

Avaliação Educacional – Blog do Freitas, 21 de Fevereiro de 2020

Selecção de Camilo Joseph

 

Os acontecimentos da semana envolvendo a área econômica (Guedes) e o presidente, começam a evidenciar, mais claramente, o que já era apontado desde o início deste governo em 2018: neoliberalismo e populismo, ingredientes básicos deste governo, têm contradições e constituem um foco de instabilidade, junto com a pauta dos costumes, apesar de ser esta última mais visível. A agenda dos costumes que divide liberais e conservadores tem como ser minimizada (em nome das reformas) mas o conflito no plano econômico não, pois ele atinge as próprias reformas.

É verdade que o neoliberalismo conversa com o populismo. Vê a democracia apenas como um adereço do capitalismo. Qualquer ameaça ao livre mercado serve como desculpa para sustar temporariamente a democracia liberal até que o mercado esteja novamente a salvo. Daí sua junção com os militares, considerados os guardiães do livre mercado, os quais devem cuidar de neutralizar os “inimigos internos” do neoliberalismo (se preferirem, do liberalismo econômico ou liberalismo radical). Este é o eixo central no qual o “mercado” deposita sua confiança.

O neoliberalismo e seus capangas, como se viu esta semana, desdenham do Congresso que, para eles, é uma instância suspeita, pois convive com grupos organizados da sociedade que interferem com a produção das leis, impondo regras insensatas que comprometem o futuro do livre mercado (ou seja, da “nação”).

E o populismo reacionário? O populismo tem mais a característica de um “movimento” de natureza híbrida que congrega conservadores, conservadores de agenda liberal na economia, intervencionistas e até grupos neonazistas. Nas palavras de Eatwell e Goodwin (2018):

“O populismo nacionalista é uma ideologia que prioriza a cultura e os interesses da nação, e que promete dar voz a um povo que sente que foi negligenciado, mesmo desprezado, por elites distantes e muitas vezes corruptas. Longe de ser antidemocrático, o populismo – como argumentam estudiosos como Margaret Canovan – é uma resposta às contradições da democracia liberal, que por um lado promete um governo ‘redentor’ pelo povo, mas que na prática se baseia cada vez mais em elites tecnocráticas concorrentes e “pragmáticas” cujos valores são fundamentalmente diferentes de muitos daqueles que governam (…). Enquanto a visão “pragmática” vê a democracia como um sistema elitista de instituições e regras para lidar pacificamente com os conflitos, a abordagem “redentora” vê a democracia como uma “salvação” por meio de formas mais diretas de política, identificando o povo como a única fonte legítima de autoridade.” (Posição 915/922.)

Daí o permanente conflito entre o populismo e as instituições da democracia liberal representativa. Este é um dos pontos de convergência entre neoliberalismo e populismo, ou seja, o descaso pela democracia liberal representativa que no neoliberalismo aparece com o conceito de F. Hayek de “ditadura de transição”, que era como ele caracterizava a ditadura militar brasileira e a chilena – uma fase que conduziria à verdadeira liberdade, fruto da instalação do livre mercado pela força.

O neoliberalismo não é necessariamente anti-democrático, desde que o Congresso defenda o livre mercado e o proteja de grupos que ele considera “corporativos”. Isso não significa, de fato, o fim do “corporativismo”, mas sim a criação de um “neo-corporativismo de Estado” de base empresarial.

Esta visão de uma “democracia relativa” também está refletida na expressão do general Heleno desta semana, ao dizer “foda-se” para o Congresso Nacional. Lembremo-nos que ele era o ajudante de ordens do General Silvio Frota, líder dos que eram contrários à abertura política conduzida pelo General Geisel. Ambos foram afastados de suas posições por Geisel.

Apesar destas convergências e da necessidade prática de uma união com propósitos eleitorais, neoliberalismo e populismo têm uma contradição insuperável e que aparece esta semana no que pode ser o início de um conflito entre Guedes e Bolsonaro, ambos representantes destas tendências.

Começa a ser difundida a ideia de que Guedes é apenas uma imposição eleitoral. De fato, o neoliberalismo (o mercado) foi obrigado a compor com Bolsonaro. Para o neoliberalismo, as reformas econômicas e administrativas do Estado são o ponto central e também a razão de tolerarem Bolsonaro, já que nenhuma outra liderança liberal à época das eleições tinha as características autoritárias necessárias para conduzir estas reformas, vencendo resistências consideradas corporativas instaladas no Congresso. A contradição a que nos referimos pode ser melhor esclarecida recorrendo-se a F. Bastiat (1849):

“Consequentemente um mau economista persegue um presente curto e bom, que se sucederá por um grande mal a vir, enquanto o verdadeiro economista persegue um grande bem a vir, — ao risco de um pequeno mal presente.” (Introdução, posição 23.)

Esta é a ilusão que as reformas neoliberais vendem há 40 anos sem resultados. Não obstante, esta visão se choca com a do populismo reacionário que promete ao povo (e em conexão direta com o povo) atender as suas demandas e, que para se manter no poder, depende de cumprir em tempo hábil suas promessas. Nos tempos em que Steve Bannon ainda assessorava Trump, esta era a regra de ouro que ele recomendava para garantir a reeleição daquele mandatário: cumprir promessas. Não foi por outra razão que Olavo de Carvalho – um anti-globalista como Bannon – criticou a indicação de Guedes. Mais recentemente, Bebianno, que participou do governo Bolsonaro, resume o drama dos neoliberais no poder:

“Bolsonaro “não acredita no liberalismo econômico, acho que nem compreende bem os conceitos e fundamentos envolvidos”. “A verdade é que ele encontrou no Paulo um bom cabo eleitoral, que o ajudou muito a encontrar a aceitação do mercado. Mas, no fundo, o Jair não tem nada de liberal”, afirmou.”

Mas a questão vai além da aceitação do neoliberalismo por Bolsonaro. Ocorre que a falta de resultados econômicos da política de Guedes não advirá de sua competência, mas do fato de que o neoliberalismo, onde foi aplicado, não gerou a tal prosperidade prometida para o “povo”, tendo atendido mais aos próprios financistas. A expectativa neoliberal era que se os ricos prosperassem, o crescimento iria “transbordar” dos cofres dos ricos para o dos pobres. Mas isso não ocorreu – o Chile é um exemplo. E terá dificuldade de ocorrer com o PIB de 2% que Bolsonaro esta cobrando de Guedes para este ano.

A classe média, principal apoiadora do populismo reacionário, continua com a renda comprimida, mesmo em países de longa tradição neoliberal. O neoliberalismo se transformou de solução em problema. Como afirma N. Fraser (2019):

… “as pessoas estão dizendo que não acreditam mais nas narrativas neoliberais reinantes. Eles não têm fé nos partidos políticos estabelecidos na centro-esquerda ou na centro-direita que as proclamaram [no caso americano]. Eles querem tentar algo completamente diferente. Esta é uma crise de hegemonia!” (Posição 398.)

Ou seja, no caso americano (e talvez também no caso da Inglaterra), o neoliberalismo fez presidentes cuja politica neoliberal levou ao populismo de Trump. No entanto, no caso brasileiro, neoliberalismo e populismo chegaram juntos ao poder e com sinais trocados: é o populismo que está na presidência.

Isso potencializa uma crise “ao vivo” entre estas visões. O risco é evidente: as reformas econômicas neoliberais ao não conseguirem “transbordar bem-estar” em direção à classe média, potencializarão e fortalecerão as teses de Bolsonaro, fazendo com que – na ausência de uma reação das forças democráticas – ele (e seu novo partido) se coloquem cada vez mais como alternativa radical ao existente.

Bolsonaro explorará cada vez mais isso separando-se, quando puder, de Guedes e de sua política, e procurará criar mecanismos de comunicação direta com a população por fora da representação do Congresso Nacional. A crise desta semana com Guedes pode ser o início da demarcação de responsabilidades: sobre Guedes, sugerirá nas redes que foi uma imposição eleitoral que não pode evitar. Portanto, a política em relação a ele será cada vez mais uma política de “contenção de danos”.

O liberalismo, expressão política do capitalismo (em suas versões centrista e neoliberal) falhou, expondo as contradições insuperáveis de um modelo de organização social que já tem mais de quatro séculos e abrindo caminho para o populismo reacionário. Talvez não tenhamos como abrir mão de um retorno ao liberalismo centrista (desenvolvimentista ou social-democrata) no plano imediato, como forma de recuperar minimamente a decência, mas isso não será suficiente se não começarmos a discutir uma alternativa ao próprio liberalismo (um novo padrão de humanidade), como forma de ocupar o espaço político que o populismo reacionário está construindo. Isso não se consegue sem uma grande frente política que mobilize a população.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/28/avaliacao-educacional-blog-do-freitas-neoliberalismo-e-populismo-se-estranham-por-luiz-carlos-de-freitas/

Portugal | Isenções tributárias a partidos ou armas de arremesso à democracia?

 
 
Dois partidos apresentaram propostas de alteração ao Orçamento do Estado que, a pretexto de visarem eliminar isenções tributárias em nome uma suposta igualdade, não fazem mais do que atacar a democracia.
 
Tanto a Iniciativa Liberal (IL) como o BE defendem que no Orçamento do Estado (OE) para 2020 venha a ser contemplada a eliminação da isenção do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) de que os partidos políticos, assim como outras entidades, beneficiam no caso de património imobiliário destinado à actividade partidária e política.
 
A IL vai mais longe e também propõe a eliminação da isenção do Imposto de Valor Acrescentado (IVA) na actividade político-partidária, que se aplica, entre outras matérias, em questões de propaganda e mensagem política.
 
Entre criar um soundbyte e procurar cavalgar em demagogia, este tipo de propostas escamoteia o facto de que os partidos políticos só beneficiam de isenção de IMI nas instalações de sua propriedade destinadas exclusivamente à actividade política, sendo que todo o seu restante património está sujeito à tributação geral. O mesmo princípio aplica-se na importância dada à difusão da mensagem política plural, que visa preservar os valores democráticos.
 
A opção política e constitucionalmente consagrada é a da defesa de que os partidos e a sua actividade política encerram valores e princípios que nutrem a dignidade na democracia, e que, consequentemente, merecem ter expressão no regime tributário.
 
Não se esqueça também que existem diversas outras entidades (cerca de duas dezenas!) cuja acção é classificada de interesse público e também beneficiam, por isso mesmo, de isenções tributárias e regimes próprios, no sentido da defesa dessa actividade.
 
O objectivo de trazer esta matéria à discussão não é novo. Recorde-se que em 2016 já o CDS-PP e o BE tinham avançado com propostas semelhantes que, estigmatizando os partidos e o seu papel na sociedade, atacam severamente a democracia.
 
AbrilAbril | editorial em 15.01.2020

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-isencoes-tributarias-partidos.html

Papa Francisco diz que populismo alimenta o antissemitismo

Papa Francisco no Vaticano.
© Sputnik / Vladimir Astapkovich

O Papa Francisco declarou nesta segunda-feira (20) que o populismo tem suas raízes na "indiferença egoísta'' e é terreno fértil para todos os tipos de ódio, incluindo o antissemitismo.

O pontífice fez suas declarações em uma reunião com uma delegação do Centro Simon Wiesenthal, um grupo de direitos humanos dedicado ao combate ao antissemitismo.

Francisco lembrou que em 2016, em peregrinação à Polônia, rezou no local do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.

O Papa condenou "o ressurgimento bárbaro do antissemitismo'' e o fato de o populismo oferecer terreno fértil "onde o ódio cresce rapidamente''.

O antissemitismo vem ressurgindo na Europa nos últimos tempos, simultaneamente com o renascimento dos movimentos populistas, afirma a agência de notícias Associated Press.

Francisco recomendou incentivar a integração e a compreensão mútua para combater o ódio.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020012015029032-papa-francisco-diz-que-populismo-alimenta-o-antissemitismo/

Seminário «Populismo, Democracia e Direitos Humanos»

Estes temas estiveram em debate no dia 7 de Dezembro. A Rede de Cidadania de Oeiras (RCO) realizou no passado sábado, na biblioteca de Oeiras, um colóquio sobre Populismo, Democracia e Direitos Humanos com as intervenções dos historiadores Professor Manuel Loff e Doutora Cecília Honório, contando também com o Dr. Luís Vidigal para uma visão a partir do movimento associativo e da cidadania.

 

Durante as quatro horas de debate plural e participado as muitas pessoas que encheram a sala colocaram perguntas e partilharam opiniões. Foram abordados múltiplos assuntos, com a apresentação de diversos pontos de vista, cujo eixo comum foi a preocupação pela salvaguarda da democracia.

A intervenção de Mário Simões Teles, dirigente da RCO e Capitão de Mar e Guerra, iniciou a sessão moderada pela Drª Aida Garcia.

 

Seminário «Populismo, Democracia e Direitos Humanos»

RCO / Oeiras, 7 de Dezembro de 2019

Nota de Apresentação

Em certo sentido podemos dizer que Alexandre «o Grande» foi o primeiro populista da História. Ao desfazer o nó com a espada desfez o cabo (a corda, para quem não usa terminologia náutica…). E terá sido tanto mais populista quanto ele próprio já se encontrava no poder. (Ressalve-se que, noutros assuntos, Alexandre terá sido, de facto, grande).

Uma das preferências das vias populistas de conquista do poder consiste em desfazer as formas da representação democrática que estão instituídas nas nossas sociedades. Com o argumento de que a representação está na posse exclusiva de uma elite, põe-se em causa a própria representação, mesmo quando se a utiliza e mesmo quando se pertence à elite. Formas dramáticas de populismo ocorreram em passados relativamente recentes, com nomes diversos, não se encare isso só de passagem. O mesmo será dizer que, em alguns casos, podemos estar hoje a chamar «populismo» a fenómenos que afinal já têm nome.

O que nos traz aqui é muito sério. Estamos a viver na encruzilhada das vias que permitem continuar em democracia e das vias que nos deixam a viver sem democracia. Como já ocorreu. Se nos limitarmos a reafirmar e a subscrever acriticamente o modo representativo da democracia estaremos a ser inócuos, ou irrelevantes, ou até ingénuos, visto que esse modo – tal como tem vindo a ser praticado – está eivado de condutas contranatura. Condutas que são brechas de entrada da bandeira dita populista. Se, em rumo inverso, enveredarmos por querer substituir o modo representativo pelo modo participativo, então arriscamo-nos a cair numa qualquer espécie de democracia directa e estaremos próximos de defender um populismo.

Estes são termos do desafio anti populista que temos pela frente: o de encontrar formas adequadas de combinar a democracia participativa com a democracia representativa, como o meio de tornar a democracia mais forte e a sociedade mais consciente e interveniente. Os dois modos de exercício da democracia são faces da mesma moeda e a sua articulação é tarefa que se insere no cumprimento da Constituição da República.

Se, entretanto, na forçosa crítica que há a fazer a este modo representativo do regime democrático – tal como tem vindo a ser praticado – não a contextualizarmos, então vamos ficar num beco. Contextualizar, neste caso, pode ser ter que reconhecer que uma condição necessária para a democracia funcionar razoavelmente bem consiste em proporcionar que as pessoas – todas as pessoas – tenham algum dinheiro nos bolsos e que ninguém seja atirado para as margens dos processos de decisão. Ou, alargando um pouco a perspectiva: admitir que na raiz do dito populismo estão as desigualdades que teimam em persistir e em crescer, bem como a reduzida mobilidade social que teima em reduzir-se ainda mais. A que se juntam as marginalizações culturais. Dramas que têm relações estreitas com a globalização selvagem e com o seu corolário de financeirização da economia, que não é novidade, novidade é a sua sobre alavancagem via internet. Que novas qualidades resultarão do acumular destas quantidades?

Com este colóquio a RCO pretende contribuir não só para desatar estes nós em termos do esclarecimento através de debate, mas também contribuir para a mobilização em torno da defesa do regime democrático e dos direitos humanos.

Tendo por farol que as doenças da democracia se curam com mais democracia, evidentemente.

Ao trabalho e bom trabalho!

 

 

Mário Simões Teles
 
 


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/seminario-populismo-democracia-e-direitos-humanos/

Sábado: Populismo, Democracia e Direitos Humanos

A Rede de Cidadania de Oeiras promove no Dia Internacional dos Direitos Humanos, sábado 10 de dezembro uma Conferência sobre Populismo que decorrerá no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, pelas 14,30h
São conferencistas Manuel Loff, Cecília Onório e Luís Vidigal
Um interessante debate a não perder.
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OS POPULISMOS E AS ESQUERDAS

 
image É a DEMISSÃO dos chamados partidos de esquerda da Europa, os Socialistas em França, os Social-Democratas na Alemanha ou os Trabalhistas no Reino Unido e dos seus congéneres nos restantes países europeus, de políticas social-democratas de valorização do estado-social e o seu alinhamento com a “modernidade” neoliberal, QUE GERA CONDIÇÕES E ALIMENTA os partidos populistas que estão surgindo na Europa, dadas as desigualdades e a austeridade continuadas e sem fim que com tais políticas empobrecem e massacram as populações. 
Existe uma uniformização política na Europa que não distingue os social-democratas dos democratas cristãos na Alemanha, ou os trabalhistas dos conservadores no Reino Unido, ou os populares dos socialistas em Espanha, ou e até ao governo de António Costa os social-democratas dos socialistas em Portugal. Todos usaram e usam o mesmo figurino político. E esta uniformização das políticas neoliberais, deixam as populações sem uma alternativa política capaz de inverter o curso das políticas das desigualdades e da austeridade.  Os povos europeus não avistam assim qualquer futuro aceitável para as suas vidas e para a vida dos seus filhos. Os líderes políticos que lhes prometiam um futuro radioso em que todos ganhavam se aceitassem tais políticas e a redução dos seus rendimentos de trabalho, prometem-lhes agora mais austeridade para sair da austeridade que eles próprios provocaram. Viram apenas aumentar o número e as fortunas dos muito ricos.
Os velhos e tradicionais partidos de esquerda ao abraçarem, tanto ou mais que os partidos da direita, as políticas neoliberais, deixaram as populações à sua sorte, sem partidos que defendessem os seus legítimos interesses e assim à mercê de todos os oportunismos populistas.
A União Europeia com o seu parlamento e os seus comissários não é mais do que a cúpula política deste modelo social do neoliberalismo. E, mesmo depois da crise de 2008 e da catástrofe económica, financeira e social que se lhe seguiu foi incapaz de alterar no que quer que fosse o modelo de “desenvolvimento” social que adoptou e tanto adora, o modelo neoliberal com as suas políticas de desigualdade e austeridade perpétuas. 

Ver o original em 'Classe Política ' (clique aqui)

Já só faltava o populismo para animar a malta

Populismo é o termo que as elites usam para as políticas de que não gostam, mas que a gente comum apoia.
Francis Fukuyama

 

 Para lá de Lenine, já só faltava outro espectro a assustar as elites liberais que dominam jornais como o Público: o do populismo, desta vez ambiental. Sim, precisamos mesmo de um populismo, de clivagens bem fundamentadas entre povos e elites do poder em todas as áreas fundamentais da vida. Nos anos setenta, Ernesto Laclau de resto dizia que o socialismo é o populismo na sua melhor e mais consequente forma política. E não sou eu que vou discordar, logo agora que precisamos também de um eco-socialismo enraizado nas massas populares

 

Entretanto, a técnica convencional de uma certa ciência política é sempre a mesma desde os primórdios da Guerra Fria: ai que os extremos se atraem, totalitarismo, populismo, blá, blá, blá. Esta técnica só sobreviveu e prosperou por razões de poder e não de validade.

 

A economia política dominante produz tão maus resultados para tantos que as elites só podem de novo recear a juventude do mundo. Agora, os que contestam o capitalismo fossilizado, retirando as implicações políticas radicais que se impõem da melhor ciência, equivalem-se aos negacionistas do clima, vejam lá o despautério. Estão de cabeça perdida.

 

Com excepções, as páginas de opinião dos jornais já só servem para medir o declínio do chamado extremo-centro. O consenso construído desde o final dos anos oitenta, de Washington a Bruxelas, está a dar de si também na economia política internacional. Afinal, a história pode não ter terminado. Pode, note-se.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A visita daquele senhor que ...

Voltou
o inesquecível figurão
Vindo de um nevoeiro qualquer, Marinho Pinto, o padrinho político do Pardal Henriques, este ontem no «Polígrafo» da SIC não apenas para publicitar e endeusar o seu protegido mas sobretudo para desembestar numa catilinária violentíssima contra os sindicatos «tradicionais» que disse representarem 90% dos sindicalizados mas que não faziam pévia pela defesa dos interesses dos trabalhadores. E eu. como tenho alguma memória, acho que ele tem razão porque não vejo nenhum sindicato da área de Lisboa a reclamar 4.800 euros de salário para os seus filiados.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Não há mal que lhes não venha

Um dos poemas de Camões que mais frequentemente encontra eco nos acontecimentos contemporâneos é aquele que começa comPerdigão perdeu a pena/ Não há mal que lhe não venha.Com assombrosa regularidade lá vão surgindo sucessivos Perdigões que aspiram aalto lugarmas acabam por perder a pena do voar e ganham a pena do tormento.

 

Embora dias atrás tenha prometido calar-me a propósito de Pardal Henriques a notícia da intenção do Ministério Público em mandar extinguir o sindicato dos motoristas de matérias perigosas conjuga-se com a investigação em curso em relação a algumas burlas em pretéritas negociatas e à ponderação da Ordem dos Advogados quanto a continuar a reconhecê-lo entre os seus face a grosseiras violações ao seu código deontológico.

 

É caso para considerar que Pardalnão tem no ar nem no vento/asas com que se sustenha.Manifestamente encontra-se como o célebre cortesão, objeto do malicioso poema de Camões:Não há mal que lhe não venha.

 

No meio dessa história tão infeliz para o sindicalismo nacional só surpreende a tenaz defesa que o Bloco de Esquerda continua a fazer do oportunista. Nem sequer a evidência de se ter dado como associado de um sindicato de motoristas sem nunca ter pegado no volante de um camião - critério mais do que legítimo para pôr em causa a sua criação! - consegue dissuadir as manas Mortáguas ou Catarina Martins do lamentável desempenho que persistem em cumprir em prol de quem nunca foi, nem alguma vez será de esquerda. O discurso de Pardal Henriques tem o cheiro a naftalina exalado das palavras de Marine Le Pen quando se mascara de porta-voz dos interesses operários. Será que, a exemplo de Melanchon, à frente de La France Insoumise, as dirigentes bloquistas parecem mais próximas de associarem-se aos discursos de extrema-direita do que aos socialistas contra quem apontam armas nas mais controversas situações?

 

Outro Perdigão, que se arrisca a perder as penas é Boris Johnson com a habilidade de convencer a rainha a suspender o Parlamento para que se travem as discussões parlamentares sobre as condições de implementação do Brexit. Iludido no sonhoamericano prometido por Donald Trump, procura traduzir os sonhos em realidade até por só contar com a maioria de um único deputado. O escândalo está a assumir tal dimensão, que a golpada pode conhecer um efeito de ricochete e despojar de penas as asas com que ambicionaria planar até 31 de outubro.

 

E concluamos com outro Perdigão, que quis voar mais alto fazendo cair o governo, que integrava, e vê-se agora remetido para a Oposição ao novo governo italiano, que só tem de ser inteligente o bastante para pôr Salvini a voar muito rasteirinho.

 

Estes três Perdigões estão a ver-se desasados, arriscando-se a morrerem depenados. Porque se de queixumes se socorrerem, mais lenha verão atiçar-se na fogueira, não havendo mal que lhes não venha.

Independentes, hipócritas e dissimulados

A herança salazarista deixou um rasto de animosidade contra a política e os políticos, de que se aproveitam os populistas e reacionários de vários matizes. Aliás, quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, já se sabe o que é e o que oculta.

 

Os independentes são uma casta desses híbridos disfarçados de equidistantes, cúmplices do oportunismo que procura minar a democracia e favorecer o regresso ao fascismo e a valores bolorentos que durante quatro décadas julgámos erradicados em Portugal.

 Os independentes atacam de mansinho, chamam regime autoritário à ditadura, heróis do ultramar às vítimas da guerra colonial e defesa da Pátria à ocupação de países africanos, omitindo a tragédia da opressão, perseguições, miséria, analfabetismo e emigração.

Quem sofreu a guerra colonial e conheceu a repressão salazarista, não pode deixar de se assustar com a repetição do quadro ideológico que levou Hitler, Mussolini, Tiso, Franco e Salazar ao poder e as consequências trágicas e devastadoras da última guerra mundial.

É aterrador assistir ao regozijo de extremistas de direita com novos partidos nebulosos e movimentos inorgânicos nascidos na opacidade de redes sociais e nas alfurjas fascistas que julgávamos neutralizadas.

A maioria silenciosa acorda ao toque de clarim de novos demagogos que recuperam as velhas ideologias e apelam a emoções tribais para novas e trágicas aventuras.

Na Polónia já se homenageiam os cúmplices do nazismo, e proíbem-se referências aos crimes antissemitas; na Hungria o fascismo católico chegou ao poder sufragado em eleições livres; a Alemanha, único país que criminalizou o negacionismo genocida, viu nascer e vê crescer um partido antissemita e neonazi; a França rende-se à extrema-direita; a Itália vibra com Salvini; o Reino Unido fragiliza a UE e desagrega-se sob a égide de um demagogo extremista; a Espanha assiste à radicalização da direita e à aceitação do partido fascista VOX.

Enfim, volvidos 74 anos, esqueceram-se dezenas de milhões de mortos e as origens da guerra que dilacerou o mundo.

Movimentos dissimulados nos objetivos, sindicatos que combatem os partidos políticos que serviam de referência e a quem devem a existência, demagogos e fascistas dão-se as mãos numa manobra orquestrada contra a democracia e o Estado de Direito.

Não desistirei de denunciar o que me parece ser uma conjura, onde Putin e Trump estão apostados a destruir a União Europeia e criar focos de tensão que a neutralizem na disputa geoestratégica onde EUA, China e Rússia são atores principais.

Voltarei ao assunto, nomeadamente à preparação em curso de uma central de sindicatos ‘independentes’, destinada a destruir as organizações sindicais com um aventureirismo de contornos anarquistas e política de terra queimada. Não é uma nova confederação que nasce é uma velha receita que usa os trabalhadores contra si próprios e as instituições democráticas.

A infiltração das polícias pela extrema-direita tem no Movimento Zero, com elementos da GNR e da PSP, o seu embrião. O cerco à democracia aperta-se.

 

Ponte Europa / Sorumbático

Um cometa a encaminhar-se para a obscuridade dos céus profundos

Provavelmente não voltarei a escrever sobre o pardalão durante muito tempo. Agora que se tornou candidato por um grupúsculo sem expressão eleitoral ganhará intermitente visibilidade conferida por uma campanha eleitoral onde fará figura de tino de rans, mas sem a malignidade conseguida nas semanas recentes.

 

A vida não lhe terá corrido tão de feição quanto desejaria já que, alimentando dúvidas durante uns dias, sobre o convite de marinho pinto, nenhum outro partido se chegou à frente para lhe propor a bênção parlamentar. Rui Rio viu nele um aliado com potencial, mas já tem tantos a ambicionarem uma cadeirinha em São Bento, que não lhe passaria dar contentamento ao putativo sequaz. Assunção Cristas não seria hipótese que pudesse considerar tão escondida se a adivinha numa qualquer praia. Quanto ao Bloco, que o transformou num momentâneo herói do proletariado, pode dizer-se que a confusão ideológica foi extrema, mas não ao ponto de acolher no seu seio quem prometia imitar o célebre legionário infiltrado na aldeia gaulesa para aí semear a zizania.

 

O pardalão ter-se-á profundamente enganado: se julga suficiente a recente notoriedade para acrescentar umas migalhas à miserável votação do partido, que encabeça, o banho de realidade é uma certeza. E gora-se-lhe a possibilidade de vir a invocar a imunidade parlamentar para os casos atualmente a serem objeto de investigação pelo ministério público e que poderão definitivamente coartar-lhe a capacidade para os alta voos a que almejou.

 

Sobram os camionistas de que foi breve líder. O que estará a passar-lhes pela cabeça nesta altura? Terão consciência de como terão sido usados e abusados como carne para canhão? Provavelmente sim a crer nas batatinhas pedidas pelo cantor pimba, que o substitui como porta-voz, para o reinício das conversações com a Antram. Que agora pode fazê-los pagar com língua de palmo as difamações e inverdades cometidas pelo trânsfuga nos meses em que foi acelerado cometa a percorrer os nossos céus estivais.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/um-cometa-encaminhar-se-para.html

A importância de abreviar este momento populista

Numa interessante entrevista ao canal ARTE a antiga ministra socialista Najat Vallaud-Belkacem dá exemplo muito interessante do tipo de pedagogia a implementar junto das pessoas temerosas dos fatores de desestabilização social (caso dos refugiados e da gentrificação dos seus espaços) que não compreendem, mas julgam vir-lhes a afetar o bem-estar, defendendo por isso a necessidade de um governo autoritário. No fundo aquelas que têm dado fôlego aos diversos movimentos populistas de extrema-direita por toda a Europa à exceção do nosso cantinho à beira-mar plantado. Portugal é, para nosso justificado orgulho, a exceção numa Europa assolada por uma vaga de movimentos e partidos políticos xenófobos.

 

Perante tais pessoas Najat Vallaud-Belkacem sugere que se faça uma pergunta muito básica: «Então quer dizer que defende a existência de um governo forte com cujas políticas não concorde e a impeça de contra ele se manifestar?»

 

Invariavelmente a resposta dos interlocutores é imediata na rejeição dessa possibilidade. Momento adequado para lhe endossar a segunda questão: «Então, quer dizer que, afinal, é pela Democracia?»

 

Este exercício pedagógico tem de ser assumido pelas pessoas de esquerda a quem Najat Vallaud-Belkacem apela a que não se deixem cair numa outra armadilha dos populistas: a falsa existência de um «povo», enquanto massa informe com quem se comunique como se não fosse constituído por uma diversidade de pessoas junto das quais a empatia implica igual diferença de conteúdos e vocabulários. Esse conceito de «povo» é uma caricatura primária, que denuncia a falta de substância dos seus promotores. A exemplo do mito de uma suposta contradição entre esse povo e a «elite», que eles dizem execrar - mas que anseiam por se lhe juntar ou substituir - e configura uma estratégia que se torna urgente derrotar.

 

O populismo sempre esteve associado a reações retrógradas a poderes injustos. Nasceu como doutrina nos intelectuais russos do século XIX que, antes da Revolução Russa, pretendiam arregimentar os camponeses para combaterem o czar. Nos EUA o People’s Party foi fundado em 1891 para representar os latifundiários e camponeses na luta contra as transformações económicas e sociais suscitadas pelo crescente capitalismo industrial. Recorriam a argumentos aparentemente válidos, mas pretendiam impor falsas soluções, que nada resolveriam, antes agravariam as condições de vida dos que supostamente diziam defender.

 

Hoje, seja com o rosto de Trump ou de Putin, de Salvini ou de Orban, o populismo veste-se de cores nacionalistas, replicando os movimentos fascistas dos anos 30, como forma de rejeição do que sentem como potencialmente transformador no futuro próximo: um projeto representado por uma União Europeia que, despojada das suas políticas ultraliberais, dê provimento às expetativas criadas historicamente pelos que se filiam na sucessão de Revoluções europeias desde 1789, e reiteram a necessidade de mais liberdade, mais igualdade e mais fraternidade entre os muitos povos, que a integram.

 

É falaciosa a inexistência de grandes diferenças entre as esquerdas e as direitas em nome de um pragmatismo focalizado nos egoísmos individuais em detrimento do bem coletivo. Pelo contrário, mais do que nunca, tem de existir uma estratificação muito clara entre quem continua a defender a exploração do homem pelo homem através da mão invisível dos mercados desregulados e quem vê no Estado o ator determinante na diluição das injustas oportunidades dadas aos indivíduos só por nascerem em sítios, em classes sociais diferentes. A exemplo do que está a verificar-se nos Estados Unidos em que Bernie Sanders ou Elizabeth Warren recorrem sem preconceitos ao Socialismo como guião dos respetivos programas, urge que a Europa se livre de vez dos fantasmas libertados pela queda do muro de Berlim e pela implosão da União Soviética, voltando a trazer para primeiro plano a alternativa socialista como modelo ideológico, económico e cultural para um futuro melhor.
 
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/a-importancia-de-abreviar-este-momento.html

Abaixo o caviar, viva o kebab

Há muitos anos que o jornalismo está a ser cozinhado em lume brando. Quando deixou de questionar o poder e passou a servir de apêndice dos grandes grupos económicos e financeiros, os principais jornais, rádios e televisões entraram numa espiral decadente que preferem atribuir às recentes transformações tecnológicas. Em momento algum lhes ocorre questionar se por acaso não terá algo a ver com a crise do sistema político e económico.

Sejamos claros. Durante décadas, venderam-nos falsas verdades e agora que outros seguem o mesmo caminho apontam-lhes o dedo e defendem o monopólio da mentira. Foi a imprensa que serviu de comissária política na cruzada neoliberal pela precarização do trabalho e pela privatização dos serviços públicos. Agora espantam-se que as redes sociais se assumam como fonte prioritária de conhecimento para muitos. É certo que é um mar agitado de mentiras por onde sopram os perigosos ventos da extrema-direita mas é justamente por não haver uma imprensa livre de interesses privados que o discurso destravado do fascismo volta a estar em cima da mesa.

Há umas semanas, a filósofa belga Chantal Mouffe afirmava, em entrevista ao Público, que “a melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Como qualquer pós-marxista, tem um perigoso gosto por transfigurar conceitos que o próprio Pacheco Pereira fez questão em desfazer. Não há populismo de esquerda. Mas, ainda assim, Chantal Mouffe tocou no sensível nervo do campo das armas do nosso tempo para combater o fascismo. Na verdade, de todos os tempos. Só a radicalização do discurso em defesa da ruptura com o capitalismo pode fazer com que os trabalhadores voltem a confiar na esquerda.

Não são poucos os países onde a esquerda descafeinada abandonou princípios e abraçou a política do possível. Sobretudo, deixou de ter a questão de classe como eixo central do seu discurso. Hoje, a extrema-direita é praça-forte em muitos lugares porque adoptou um discurso forte, apesar de pejado de mentiras, construindo uma imagem que aparece aos olhos dos trabalhadores e das populações como alternativa anti-sistema. Foi precisamente a comunicação social que promoveu a anti-política, o individualismo e a ideia de que são todos iguais para que se apoiem sempre os mesmos escondendo que há alternativas.

Há esgotos mais limpos que os corredores por onde as portas giratórias do poder conduzem o dinheiro. São muitos os jornalistas que apenas cumprem ordens e que como qualquer polícia se limitam a brandir o cassetete quando lhes mandam. Mas tanto a caneta como o bastão fazem as mesmas vítimas.

Na Alemanha, a população ficou ganha para o conceito de expropriação quando percebeu que era a única forma de ter direito a ter uma habitação digna. No País Basco, centenas de jovens ocuparam um bairro operário abandonado que estava destinado a servir de terreno para futuros apartamentos para ricos. Na Andaluzia, vários trabalhadores do campo entram em herdades improdutivas e põem-nas a produzir para proveito de todos. Acabou o tempo das palavras mansas e das soluções edulcorantes. Mas também da prática ruminante inconclusiva. Combater o fascismo é defender a justiça social por todos os meios possíveis.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/07/abaixo-o-caviar-viva-o-kebab.html

A decadência ética dos políticos populares e populistas

Há quem duvide do aquecimento global e do seu efeito demolidor no Planeta, do esgotamento dos recursos, da insustentabilidade da explosão demográfica, da incompatibilidade dos hábitos com o futuro da vida na Terra, até faltarem a água, o ar, o ozono, os alimentos e o bem-estar à generalidade das pessoas dos países ricos.

Talvez seja mais acessível verificar a demência coletiva que tem conduzido ao poder, de forma cada vez mais nefasta, os políticos mais histriónicos e menos recomendáveis, num crescendo de desvario e irresponsabilidade coletiva.

Depois de uma pausa benigna, no dobrar do século e do milénio, é o terror que nos espera.

 
 

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/07/a-decadencia-etica-dos-politicos.html

A era dos eleitores cínicos

 
 
Em meio à crise civilizacional, risco de descer mais um degrau. Abandonadas pela democracia, maiorias seguem exemplo dos políticos: renunciam ao futuro e votam segundo interesses cada vez mais mesquinhos e oportunistas
 
Slawomir Sierakowski | Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Yue Minjun, Arca de Noé, (2006)
 
Muitos dos que votaram em Donald Trump para presidente dos EUA sabiam que ele é um mentiroso contumaz, assim como a base do Partido Conservador no Reino Unido sabe que Boris Johnson (1), primeiro-ministro, subiu trapaceando e mentindo. Na Polónia, não é segredo que o partido do governo, Lei e Justiça (PiS), está inchando as instituições de governo com seus lacaios, deformando a mídia pública, recompensando comparsas e minando a independência dos tribunais. No entanto, o PiS goleou os partidos de oposição da Polónia nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio.
 
O fato de polacos, britânicos e norte-americanos abrirem as portas para governos moralmente falidos é sintomático daquilo que o filósofo alemão Peter Sloterdijk descreveu como “razão cínica” no início dos anos 1980. Sloterdijk argumentava que, na ausência de narrativas de progresso amplamente compartilhadas, as elites ocidentais absorveram as lições do Iluminismo mas as colocaram a serviço de interesses pessoais estreitos, ao invés do bem comum. Problemas sociais tais como a pobreza e a desigualdade já não podiam mais ser atribuídos somente à ignorância humana. Contudo as pessoas esclarecidas não tinham determinação para resolvê-las. Como diz Slavoj Zizek, hoje a operação da ideologia já não é “eles não sabem, mas estão fazendo”, e sim “eles sabem, mas estão fazendo assim mesmo”.
 
 
 Na visão de Sloterdijk, esse cinismo começou na elite. Agora todos nós nos comportamos como egoístas esclarecidos. Embora saibamos lutar contra as desigualdades, elas estão aumentando. O autoritarismo (seja russo ou chinês) lida melhor com a pobreza do que a democracia. As sociedades ricas são pouco sensíveis a guerras ou crises de refugiados.
 
Grandes ideias que prometem significativas mudanças sociais, sejam elas da democracia social ou da democracia cristã, estão encontrando ressonância somente entre as gerações mais velhas. Eleitores indiferentes ao fato de que populistas como Trump ou o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban mudam suas declarações de um dia para o outro não são admiradores cegos do poder. São apenas defensores de seus próprios interesses particulares. Se reduzir emissões de gás de esfeito estufa significa fechar minas de carvão e usinas termoelétricas a carvão, aqueles que têm interesse no setor de carvão não apoiarão as políticas climáticas. Da mesma forma, aqueles que vivem nas áreas mais ricas não se importam muito com a demissão dos mineradores de carvão.
 
Na Europa, a emergente divisão entre Verdes e populistas parece refletir um novo eixo pós-ideológico. Nos dois lados da linha divisória, os eleitores comportam-se agora como velhos políticos, destacando determinados assuntos enquanto evitam outros cuidadosamente. Eles internalizaram a linha partidária (muitas vezes uma colcha de retalhos de antigas políticas de esquerda e direita), que repetem em grupos de discussão, nas mídias sociais e em torno da mesa de jantar. Os partidos políticos já não representam os eleitores; ao contrário, os eleitores representam os partidos, às vezes até antes de emergirem, como demonstraram os protestos dos coletes amarelos na França.
 
A presidência de Trump, o desastre do Brexit do Reino Unido e a ascensão do PiS e de Orban sugerem uma generalizada perda de fé no progresso. A visão de progresso da Europa Oriental foi por muito tempo sinónimo de transição do comunismo ao capitalismo. Mas três décadas de aperto dos cintos à espera de um amanhã melhor cobraram uma pesada taxa de confiança das pessoas na democracia liberal. O populismo apela aos eleitores com sua promessa de uma espécie de revolução de Copérnico, revertendo o aperto dos cintos, bem como as suposições predominantes no passado.
 
Pouco depois da vitória do PiS nas eleições para o Parlamento Europeu, nas quais ele obteve 45,5% dos votos, o serviço de notícias OKO.press perguntou aos poloneses, “O atual governo do PiS persegue os próprios interesses partidários mais do que os governos anteriores do PO-PSL (Partido Popular Polaco-Plataforma Cívica)?”
 
No total, 68% dos entrevistados responderam que sim e apenas 24% disseram que o PiS tem menos interesses do que seus predecessores. Mesmo entre os eleitores do PiS, 38% reconheceram que o aparato estatal está mais aparelhado do que sob o PO e o PSL. Quando perguntados se o governo atual do PiS faz mais para o ganho financeiro pessoal de seus funcionários do que o governo anterior do PO-PSL, 58% consideram o PO e o PSL mais honestos.
 
Contudo, em pesquisas qualitativas com eleitores polacos ouve-se consistentemente coisas do tipo “Sei que o PiS não é particularmente honesto, mas eles cuidam das pessoas; roubam e enrolam, mas ao menos repartem”. Em outras palavras, esses eleitores apoiam o PiS a despeito de seus óbvios defeitos, porque não acreditam que podem dar-se ao luxo de votar contra o partido que, à sua maneira, tem canalizado dinheiro e outros benefícios sociais em sua direção.
 
A teoria das perspectivas, modelo de economia comportamental introduzido pelos ganhadores do Prémio Nobel Daniel Kahneman e Amos Tversky, prevê que as pessoas se tornarão menos avessas ao risco se lhes forem apresentadas apenas possibilidades negativas. Nosso cálculo depende não apenas do que podemos ganhar ou perder em termos absolutos, mas de nossas expectativas e situação atual. Quando alguém que está esperando um pagamento alto recebe menos do que imaginava, fica decepcionado, ao invés de sentir-se satisfeito por ter pelo menos ganho alguma coisa.
 
Essa heurística mostra como os eleitores podem tornar-se ligados a políticos tipo Trump ou o líder do PiS Jaroslaw Kacynski. Eleitores polacos, britânicos e norte-americanos fizeram escolhas políticas que sabem ser arriscadas porque sentem que não têm nada a perder e, afinal, suas opções são entre “ruim” e “pior”. A defesa de ideais elevados como a democracia, a ordem constitucional e a liberdade de imprensa parece um luxo exorbitante. Eles não estão dispostos a sacrificar benefícios materiais por princípios abstratos.
 
Quem pode culpá-los? As corporações multinacionais ocidentais que fazem negócios na Rússia, China e outros países vêm há anos sacrificando o liberalismo em nome do lucro. Como Sloterdijk observou quase 40 anos atrás, a razão cínica escorre para baixo. Se isso ao menos fosse verdade sobre a riqueza, a história poderia ter sido bem diferente.
 
*Slawomir Sierakowski, fundador do movimento Krytyka Polityczna, é diretor do Instituto de Estudos Avançados em Varsóvia e membro da Academia Robert Bosch em Berlim.
 
(1) Texto publicado em Outras Palavras a 22/7 e atualizado por Página Global em 23/7 no referente à recente eleição do britânico Boris Johnson primeiro-ministro.
 
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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/a-era-dos-eleitores-cinicos.html

Corrupção não é invenção do populismo

Donald Trump é claramente o epígono do populismo contemporâneo e tem na Europa alguns paralelos mais próximos como Marine Le Pen ou Nigel Farage, mas creio ser forçado estender o critério a virtualmente todos os líderes conservadores que se afirmam como mais radicais do que os seus predecessores e mais ainda apresentar o populismo como necessariamente de ‘direita’.

Não existe definição, compreensão etimológica ou académica consensuais para o que queremos designar com o populismo. Sendo certo que os termos populismo e demagogia são etimologicamente equivalentes – um latino e outro grego – é na história de ambas as civilizações clássicas que podemos apreender diferenças e que podemos encontrar pistas para distinções.

  1. Populismo

A melhor definição que conheço do fenómeno do populismo é a feita historicamente por Francis Fukuyama, e tem como melhor exemplo a presidência americana de Andrew Jackson (1829-1837) feita simultaneamente de clientelismo (que não é especificamente populista) e da permanente resistência à tecnocracia e exigência de participação popular na decisão pública ou, em alternativa, de popularização do processo de decisão.

Donald Trump é claramente o epígono do populismo contemporâneo e tem na Europa alguns paralelos mais próximos como Marine Le Pen ou Nigel Farage, mas creio ser forçado estender o critério a virtualmente todos os líderes conservadores que se afirmam como mais radicais do que os seus predecessores e mais ainda apresentar o populismo como necessariamente de ‘direita’.

Salazar, por exemplo, que se impôs no espectro político português com um programa conservador que mais tarde se iria assumir mesmo como essencialmente antidemocrático e antiliberal é a antítese do populismo. Ascendeu ao poder como o tecnocrata das finanças e sempre se distanciou de qualquer forma de populismo.

Da mesma forma, creio que os líderes conservadores húngaro e polaco, Orban ou Kaczyński, podem ser considerados populistas apenas na medida em que (tal como Macron) desfizeram aspectos importantes dos anteriores consensos políticos tecnocráticos mas não são populistas no sentido jacksoniano do termo.

Dizer – como o diz Pacheco Pereira a 6 de Julho – que o populismo é de direita é confundir a natureza do populismo e não entender a contradição essencial entre um e outro: a direita social preza as diferenças de classe, de casta ou de competência e não se pode por isso rever no populismo.

O contraexemplo da tese de Pacheco Pereira encontra-se bem perto de Donald Trump, com o presidente mexicano, protótipo do populismo dito de esquerda (ou seja que se ergueu a partir de um discurso político considerado como de esquerda).

Creio que o essencial do populismo contemporâneo é o de uma revolta contra as elites e das formas elitistas de exercer o poder. O populismo americano ergueu-se contra a sofisticação dos discursos; o afastamento dos actores políticos do povo em tudo, incluindo na sua forma de se exprimir; a noção de que o poder tinha escapado para organizações e burocracias tecnocráticas nacionais e internacionais e satisfez-se com um discurso simples, cujos erros de sintaxe, de ortografia ou de história funcionaram como garantia de autenticidade.

Não creio que o populismo possa ser um programa político, mas creio que pode ser uma forma de as elites repensarem a sua relação com o povo, não só na linguagem mas também no exercício do poder.

  1. A percepção da corrupção

Para Pacheco Pereira (op. cit.) ‘O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada.’ Mas na verdade, como ele afirma mais à frente: ‘Várias eleições em Portugal mostram que a aparente indignação contra a corrupção, é muito pouco genuína, e tem componentes políticas que implicam a duplicidade’. Donde o populismo não é contra a corrupção, é hipócrita, ficando por se perceber se Pacheco Pereira considera afinal a hipocrisia e não o ódio à corrupção como o aspecto central do populismo.

Pacheco Pereira confunde aqui totalmente o fenómeno: o populismo quer mostrar a ubiquidade da corrupção e portanto justificar também a sua contemporização com ela, não quer de forma alguma tratar da corrupção como a sua questão central.

Pacheco Pereira acaba por reconhecer que ‘Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite’ e que portanto a corrupção (como aliás qualquer outro aspecto menos simpático dessas elites) existem apenas como armas de arremesso contra essas elites: a fuga ao imposto de um futebolista é perfeitamente normal, mas criminosa se vier dessas elites.

Por outras palavras a essência do populismo nada tem a ver com a corrupção, mas sim com a desconfiança pelas elites. Esse ódio pelas elites pode materializar-se em muitas outras coisas que não necessariamente na corrupção.

O populismo tão pouco pode ser confundido com qualquer tipo de caudilhismo, embora frequentemente os candidatos a caudilho utilizem o populismo para ascender ao poder e, a partir daí, se afirmarem como tiranos. Posto isto, confundir os dois fenómenos, chamar fascista a todo o movimento populista e, reciprocamente, pensar que todo o fascismo começa necessariamente como populismo, é um erro crasso.

  1. As elites e a corrupção

Creio que Portugal tem um problema grave com o seu sistema político-financeiro e não sei se a resolução desse problema passará ou não por movimentos populistas sendo que estou mais inclinado para pensar que não.

O clientelismo, o nepotismo, o conflito de interesses e a corrupção em várias formas e géneros estão no centro do problema que defrontamos. Apresentá-los como um mero epifenómeno que serve para a campanha dos políticos populistas (na verdade fascistas disfarçados) é um tremendo equívoco em que navega Pacheco Pereira e boa parte da intelectualidade portuguesa.

Creio bem pelo contrário, que a elite intelectual portuguesa deveria distanciar-se das benesses do sistema político-financeiro e ser capaz de entender que necessitamos de combater a corrupção e que isso pode ser feito reforçando o carácter democrático das nossas instituições e o seu sistema de equilíbrios e controlos.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/corrupcao-nao-e-invencao-do-populismo/

Maneiras de reconhecer um populista português moderno

(José Pacheco Pereira, in Público, 06/07/2019)

Pacheco Pereira

 

  1. Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. Ou melhor, a sua acção comunica mais facilmente com partidos, organizações, homens de direita. Na Europa, nos dias de hoje, os movimentos e governantes populistas, seja no Brexit, seja na Alemanha, Polónia, Hungria, Itália e França, estão todos à direita do espectro político. Podem ficar muito incomodados com esta afirmação, mas é assim. Não foi sempre assim, nem será sempre assim, mas hoje é assim.
  2. O paralelo entre o populismo de direita e um inventado “populismo de esquerda” é uma das características do populismo moderno, que precisa de companhia para mostrar que vai mais longe do que a direita. É vulgar ver em artigos de opinião essa comparação, mas é descuidada e falsa. As posições do PCP, do BE podem ser demagógicas, insustentáveis, irrealistas, mas não são populistas. Querer acabar com a propriedade privada, querer aumentos de salários, querer mais regalias para os sindicatos, atacar patrões e grandes empresas, defender causas “fracturantes”, são posições político-ideológicas muito distintas do populismo. No entanto, se tomadas em abstracto, estas podem emigrar para o discurso de direita. Alguns dos grandes populistas americanos como o Padre Coughlin e Huey Long na Luisiana fizeram alguns dos mais radicais discursos anticapitalistas.
  3. A demagogia é uma componente importante do discurso populista, mas demagogia e populismo não são a mesma coisa. A demagogia está presente em todo o espectro político da direita à esquerda e, por si só, não caracteriza o discurso populista. Este caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos).
  4. Em Portugal, o populismo entrou pela primeira vez numa campanha eleitoral nas últimas eleições europeias. Os cartazes do Chega/Basta,  que se encontram ainda colocados, são os primeiros a chegar ao espaço público com palavras de ordem claramente populistas. Foi só começo.
  5. O terreno português do populismo é dominantemente o das redes sociais e do tipo de interacção que elas propiciam. Mas já passou daí para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. O populismo ainda não passou nem para o voto, nem para a rua, embora seja uma questão de tempo.
  6. O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso.
  7. No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam.
  8. O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar.
  9. Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão.
  10. O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”.
  11. Os populistas votam mais facilmente em determinado tipo de corruptos conhecidos ou até condenados, cuja política lhes parece próxima, do que “neles”. Várias eleições em Portugal mostram que a aparente indignação contra a corrupção, é muito pouco genuína, e tem componentes políticas que implicam a duplicidade.
  12. Os populistas estão sempre zangados, vivem num estado de excitação patológica, porque eles são sérios e o resto do mundo é desonesto, ladrão e corrupto. Quanto mais afastados do poder –​ por exemplo, quando a conjuntura política favorece os “corruptos”, no seu entender –​, maior é a zanga. Existe uma forte sensação de impotência na zanga.
  13. Quando os populistas, os políticos de que eles gostam, os partidos de que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo.
  14. Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve. É uma lista absurda, mas é a dos “privilegiados”. Embora na elite se incluam os banqueiros caídos em desgraça, quase nunca são referidos os principais grupos económicos, as famílias ricas e poderosas, os escritórios de advogados, os consultores financeiros, os dirigentes desportivos e os jogadores de futebol. No quadro de valores de um populista, fugir ao fisco por parte de um político, merece prisão perpétua, mas é uma mera infracção num jogador de futebol.
  15. Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias. Há um micro-Bolsonaro dentro deles, mesmo quando juram não quererem nada com ele.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Populismo: o problema do receptor

Quem partilha falsas publicações de supostos privilégios de ciganos a viver em Portugal, não o faz por estar convencido de que isso seja verdade. Fá-lo porque é racista, tenha disso consciência ou não. Quem partilha publicações sobre alegadas agressões a polícias e empolamentos de violência contra as autoridades, não o faz porque tenha conhecimento de causa. Fá-lo porque é apologista do militarismo e autoritarismo tão em voga nos regimes fascistas. E outro grande problema é este: temos dado demasiada borla à alegada "ingenuidade". Não é.

Fico sempre de sobrolho franzido quando leio ou oiço dizer que Portugal “ainda não cedeu a populismos”. Mesmo quando sabemos que temos um presidente da República cuja carreira político-partidária oscilou entre o mau e o medíocre, mas que, fruto da sua habilidade comunicacional, gozou de palanque privilegiado nas televisões para exercer todo o seu populismo demagogo e simplista, naturalmente oportunista, zigue-zagueante, contraditório e hipócrita.

Os tempos são exigentes e difíceis para quem se opõe a este “estado de coisas”. Os meios e as ferramentas do populismo são hoje muito mais eficazes e céleres. Mas isso não implica necessariamente que haja “novidade” na substância, muito menos no objectivo. A forma muda mas o rumo é o mesmo. Pior que um país seduzido por fascistas, é um país que quer mesmo – com todo o voluntarismo – ser seduzido e engolido por eles. Façamos-lhes frente.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/07/populismo-o-problema-do-receptor.html

As pessoas deviam saber

Forograma de um dos filmes "Guerra das Estrelas"
Ontem assisti à reunião do grupo de trabalho da comissão parlamentar do Trabalho. Desde 1986 que, como jornalista, assisto a debates parlamentares e, no entanto, aquele fez-me particular impressão. Parecia um recreio de uma escola secundária de meninos mal educados, a mando de pais ausentes da sala. Sobre a mesa estava alterações ao Código do Trabalho, propostas pelo Governo, na sequência de um acordo de concentração social sobre combate à precariedade laboral. O acordo foi assinado há cerca de um ano, sem o voto da CGTP, e - ao contrário do que poderia parecer - quem tem feito finca-pé para que a lei do Parlamento corresponda textualmente ao acordo têm sido as confederações patronais, com a CIP à cabeça. E a reunião daquele grupo de trabalho foi exemplar disso.
Primeiro, as votações decorreram a mata-cavalos.Quem presidia à reunião era a deputada social-democrata Clara Marques Mendes, mas era o deputado do CDS António Carlos Monteiro quem imprimia o ritmo e queria tudo despachado quanto antes. Não havia debate. Os cidadãos-votantes poderão esperar que, sendo um grupo de trabalho, as reuniões servissem para aclarar pontos dos vista, discutir argumentos, num ambiente de informalidade e abertura. Nada disso. Tudo estava já decidido. Eram raros os momentos que interrompiam as votações. Caso um deputado - do Bloco ou do PCP - levantava o braço para se pronunciar sobre um dado ponto, todos os restantes - presidente da mesa, pessoal de apoio, deputados da direita, deputados do PS conversavam para o lado, sonoramente. O deputado mal se ouvia, cumpria o seu dever e calava-se. E mal se calava, todos se calavam também. E as votações prosseguiam, aceleradas.   Os deputados da direita estavam esfuziantes, felicíssimos. O deputado do PS - Tiago Barbosa Ribeiro (TBR), um socialista que costuma intervir sobre assuntos laborais num tom à esquerda - estava na ingrata função que lhe fora dada - propositadamente? - de se abster nas propostas do BE e PCP, que para os votos do PSD e CDS as inviabilizassem, sob a gozação da direita, como se fossem apenas palavras, e não medidas que poderiam ter efeito na vida de pessoas. E sempre a favor de um dos lados. Uma proposta do PCP, visando impedir o despedimento de um trabalhador caso este tivesse feito antes uma queixa por assédio, foi gozada pelo deputado Monteiro do CDS. A deputada comunista Rita Rato tentou discutir o conteúdo da proposta e recebeu mais gargalhadas como resposta. "Como é que conseguem dormir?" Dizia ela. E o deputado Monteiro: "Oh Ritinha..." E riam-se. TBR estava de cara fechada, as suas intervenções eram lacónicas. Foi o que aconteceu numa das propostas em que o PS recuou e deixou cair aquilo que era uma penalização às que empresas que ignorassem a obrigação legal de dar formação aos seus trabalhadores. Se havia alguma proposta que fugia ao aprovado em concertação social, o CDS e o PSD adoptavam o tom paternalista, pomposo, repleto de argumentário jurídico mal-enjorcado, apenas para camuflar a opção política de acatar o que as confederações patronais tinham manifestado em audições parlamentares: o diploma tinha de respeitar ipsis verbis o aprovado na concentração social. Fez impressão esta subalternizarão da função de deputado. A chungaria ainda que vestida de blasera condizer com a pose, os óculos e popa. A pobreza de mundo de quem representa o povo. Oscar Wilde tinha uma frase engraçada: "O casamento é a principal causa do divórcio". Neste caso, a principal causa do tão mal tratado termo populismo ou do temido avanço da extrema-direita parece cada vez mais estar no uso da democracia por quem merecia apenas estar na 3ª linha de qualquer coisa que não um parlamento. Esperemos pelas legislativas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

“Nós” (o povo) e “eles” (os políticos)

(José Pacheco Pereira, in Público, 13/04/2019)

“Nós” (o povo) e “eles” (os políticos)

As discussões sobre a existência de populismo em Portugal resultam quase sempre na resposta de que este não existe. Os partidos populistas, como o Chega, nunca foram às urnas e não há movimentos populistas capazes de chegar à “rua” com mais do que dezenas de pessoas, como foi o caso recente da tentativa de fazer uns “coletes amarelos” portugueses, mesmo contando com um núcleo duro que incluía os lesados do BES e o PNR. Mas a resposta é errada: o populismo em Portugal está a crescer e, mesmo que ainda não tenha “rua”, domina as “redes sociais”, que são, para muita gente, a única informação que consomem e o único sítio onde “debatem”. Domina também cada vez mais a discussão pública, impregna o discurso político do Presidente da República e dos partidos parlamentares, e está cada vez mais estabelecido na comunicação social, a começar pelas televisões e a acabar na imprensa, mesmo na intitulada de referência.

O populismo define os temas, marca o tempo dos temas muito para além da habitual febre de “novidade” comunicacional, condiciona o seu tratamento e apresenta as suas soluções de que cada vez mais políticos e jornalistas têm dificuldade em se afastar, até porque muitas vezes concordam com elas. A tendência adversarial do jornalismo junta-se a muita cobardia política, de gente acossada e que sabe que não tem moral para falar alto contra a maré populista. O resultado é um debate público inquinado, dominado pelo pathos, quase sem logos, até porque há pouco ethos circulante.

A génese do populismo dos dias de hoje, em democracia, está nesta dicotomia: o povo é intrinsecamente bom, altruísta, honesto, trabalhador, desprovido de más intenções, verdadeiro, deseja o bem para todos, e os “políticos” são o exacto oposto, maus, egoístas, desonestos, preguiçosos, mal-intencionados, mentirosos e desprovidos do sentido de solidariedade, só de interesse próprio. Esta dicotomia não é verdadeira, e acima de tudo é antidemocrática.

Vem, no caso português, de uma longa tradição de demonização da política, dos partidos e da democracia, que encontrou na nossa história sempre mais duros críticos da democracia do que da ditadura, numa tradição intelectual que vem da Grécia antiga. São discípulos de Platão e dos críticos gregos da democracia ateniense, e que, como muitos intelectuais no século XIX e XX, salvo raras excepções, a maioria das quais americanas e europeias de Leste, namoraram sempre mais ideias e regimes como fascismo e o comunismo, do que a “porca” da democracia, demasiado vulgar para lhes dar o papel de “conselheiros” que eles sempre pretenderam. Em Portugal, isso sempre fragilizou a tradição liberal e democrática, na monarquia e na República, e páginas de Ramalho e caricaturas de Bordalo foram usadas pela propaganda do Estado Novo. À ideia da “porca da política”, a que se contrapunha a obsessão do “consenso” e da “unidade orgânica de todos os portugueses”, para além dos partidos e do voto, foi dada consistência propagandística pela Censura durante 48 anos, e ela está mais metida dentro das nossas cabeças do que se imagina.

O que há de novo sobre esta péssima tradição é que a conversação democrática é duramente atingida pela crise das mediações, em particular do debate a partir de factos e não de boatos, maledicências e falsidades, muitos deles colocados deliberadamente por profissionais da desinformação, beneficiando da crise da comunicação social e do ascenso de uma nova ignorância agressiva que serve o populismo como o pão para a fome de comer. Não estamos perante um renascer do fascismo, como alguns dizem, mas de um fenómeno novo que acompanha outras transformações sociais num conjunto complexo, impulsionado por interesses, por manipuladores da democracia, como alguns serviços secretos, pela ganância de algumas empresas tecnológicas e pela apatia e mesmo medo colectivo em lhe fazer frente.Basta esta diferença gigantesca – não são “todos”, não são todos iguais e só a democracia permite corrigir – para se falar em “democratês” e não em “demagogês”

Substituir a democracia pela demagogia é mais fácil do que travar este processo. Políticos em democracia, fragilizados pela corrupção, pela ignorância, pela partidocracia e pela cobardia de ceder às ondas na moda são os últimos a servir de barreira. E o resultado é que as pressões populistas dão origem a soluções erradas, ou porque punitivas, ou porque ilegais, ou porque ineficazes, ou porque perversas, gerando novos problemas, piores dos que os que se desejam combater.

Já estou a ouvir o sussurro e os berros – e então “os políticos” não têm culpa (uma palavra fundamental do discurso populista) de nada? Têm, têm todas as culpas que os populistas lhes apontam, só que não são “todos”, nem são “os políticos”, como se fossem uma classe à parte. E só no contexto da democracia, dos partidos, das escolhas, do voto, isto se pode melhorar.

Só que estas afirmações não servem apenas para adornar e “moderar” o discurso – devem ser tomadas a sério e na sua substância, ou seja, devem ser um elemento fundamental e estrutural da narrativa sobre a política em democracia. Basta esta diferença gigantesca – não são “todos”, não são todos iguais e só a democracia permite corrigir – para se falar em “democratês” e não em “demagogês”.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

No «Público»

A ler e a guardar
« (...) Já estou a ouvir o sussurro
e os berros – e então “os políticos”
não têm culpa (uma palavra
fundamental do discurso populista)
de nada? Têm, têm todas as culpas
que os populistas lhes apontam,
que não são “todos”, nem são
“os políticos”, como se fossem
uma classe à parte. E só no
contexto da democracia, dos
partidos, das escolhas, do voto,
isto se pode melhorar.(...)»

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Da (in) competência dos intelectuais

(Viriato Soromenho Marques, in Diário_de_Notícias, 02/02/2019)

soromenho

Muito recentemente foi publicado um manifesto intitulado “Lutar pela Europa”, assinado por 30 pensadores europeus. Parece um caso típico da lamentável “falácia das competências”: o merecido prestígio dos signatários (na literatura e nas humanidades) é emprestado de modo indevido para assuntos em que não apresentam qualquer credencial relevante (política europeia). O primeiro autor é o controverso Bernard-Henri Lévy, mas também lá não falta, em nossa representação, o escritor António Lobo Antunes. À partida, a causa da iniciativa é nobre – a preocupação com o provável ascenso dos extremistas e populistas nas eleições de maio para o Parlamento Europeu. Todavia, o manifesto desaponta por ser um absoluto e pomposo deserto de ideias. As teses do manifesto são simples: a) a “grande ideia” de Europa está em perigo; b) a Europa está ameaçada pela barbárie das correntes identitárias, que querem travar a integração europeia; c) o combate decisivo é entre os “patriotas europeus”, erguendo o “facho” europeu (péssima metáfora!), e os “nacionalistas”. O manifesto esquece a pergunta básica: como é que chegámos a isto? Com um simplismo devastador, o manifesto trata o populismo como se fosse uma espécie de espontaneidade do mal, e não um sintoma da profunda doença em que a Europa agoniza.

A resposta à pergunta que o manifesto se recusa a fazer – porque os seus signatários não parecem disponíveis para se colocar nas sandálias dos europeus que contam o dinheiro para chegar ao fim do mês – é esta: os caminhos que a UE seguiu na última década têm piorado as condições materiais e morais da vida dos europeus que vivem apenas do seu trabalho. Como o manifesto refere a analogia da atualidade com os anos 30, talvez valha a pena recordar como os alemães se deixaram iludir pelo populismo hitleriano. Nas eleições de 1928, o partido de Hitler quase desapareceu, com apenas 2,6% dos votos. Os 4 anos anteriores tinham sido de recuperação económica. Contudo, a Alemanha foi o país que mais sofreu com o crash bolsista norte-americano de 1929. O chanceler Brüning (conhecido como o “chanceler da fome”) conduziu uma política de austeridade brutal, apenas possível pela suspensão parcial da democracia, sob os poderes presidenciais de Hindenburg: aumento dos impostos; redução dos salários; quebra do crédito bancário; diminuição das despesas sociais… O desemprego passou de 650 mil, em 1928, para 6,1 milhões, no início de 1933. As eleições de 1930, 1932 (duas) e 1933 mostram uma forte ascensão dos nazis e dos comunistas. Alimentado pelo desespero, em janeiro de 1933, o partido nazi atinge 43,9% de votos e 288 deputados (numa câmara com 647).

O populismo não é causa, mas sim consequência de políticas que esquecem os mais frágeis. Se a união monetária do euro continuar a servir para exportar carros para a China, à custa de “reformas estruturais” que liquidam os direitos sociais e promovem a injustiça entre gerações, então não haverá retórica idealista que resgate a Europa do beco sem saída, para onde a conduzem aqueles que a dizem defender.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A falta de gravitas de um inveterado populista

Durante a campanha presidencial, que levaria Marcelo Rebelo de Sousa a ocupar o cargo de mais alto magistrado da nação, uma das previsões que fazia era a da sua evidente falta de gravitas correspondendo esta a uma conduta enobrecedora da função e não a da sua descaracterização como se fosse mais uma a acumular-se-lhe no currículo enquanto professor universitário, jornalista ou comentador televisivo. O presidente não deve ser um sujeito comum, que se faz passar por bonacheirão para manter elevados níveis de popularidade, porque, em situações de crise, mais não conseguirá fazer do que carpir lágrimas abraçado aos desgraçados, ou lançar culpas para ombros alheios, traço de personalidade que lhe é, aliás, bem costumeiro. Pior ainda não deve parecer estar com o governo em tudo quanto este efetivamente faz de positivo pelo país e pelos cidadãos - como se nisso tivesse tido qualquer intervenção! - e se apresse a criticá-lo viperinamente em todas as ocasiões difíceis em que a herança de negligências passadas vem recair sobre quem sobre elas pouca responsabilidade tem.
O candidato que apoiei - António Sampaio da Nóvoa - tinha essa capacidade de inspirar confiança na forma como analisava a realidade para além da grelha de trivialidades e da fértil intriga, que Marcelo sempre personificou, e como visionava o futuro do país muito para além do que lhe ditavam as aparências do presente.
Infelizmente o país ficou a perder com a escolha que fez e daí se explique, afinal, que tenhamos como presidente quem considera Jair Bolsonaro como um «irmão» ou quem diz interromper uma reunião importante para telefonar a uma apresentadora televisiva ao sabê-la estreante no canal para onde se mudou a troco de avultado prémio.
Falso crítico do populismo, Marcelo é-o diariamente, desde que se levanta até que se deita, e por isso não vê óbice em tomar essas atitudes e muitas outras, que se vêm acumulando em lamentável sucessão nestes quase três anos de mandato.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/a-falta-de-gravitas-de-um-inveterado.html

Senhor Presidente, não havia necessidade

(Anselmo Crespo, TSF.PT, 07/01/2019)

marcelo cristina

Não havia necessidade mas ele está em todas – Imagem in BLOG 77 Colinas

Tenho o maior respeito por Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo professor, pelo político, pelo comunicador, e, mais recentemente, pelo Presidente da República. Tenho elogiado várias vezes o papel importante que ele tem tido desde que chegou ao Palácio de Belém. Durante a tragédia dos incêndios em 2017, no caso do assalto a Tancos e na forma como tem exercido a sua magistratura de influência junto do Governo, da Assembleia da República e do País.

Nunca me juntei aos que o criticam pelo estilo mais popular – ou popularucho, conforme os casos. Pelo contrário. Acho que ele percebeu cedo que o país precisava de um Presidente diferente no conteúdo, mas, sobretudo, na forma. E ninguém melhor que Marcelo para interpretar e saber equilibrar-se nesse limbo da política, que tanto pode atirar para níveis de popularidade avassaladores como pode fazer cair no ridículo e no descrédito.

A popularidade tem sido, de resto, a principal arma política de Marcelo Rebelo de Sousa. Deu-lhe, até hoje, o crédito de que precisava para poder “demitir” uma ministra em direto na televisão. Para forçar o Governo a fazer o que não queria. Para evitar males maiores na manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Isto só para citar alguns exemplos.

Admito que a omnipresença do Presidente primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas a verdade é que esta estratégia do Presidente da República tem produzido resultados positivos, para o país e, claro, também para ele. Aristóteles dizia que a função principal da política era atender aos interesses dos cidadãos e Marcelo – ainda que nem sempre isento de erros – tem-no feito.

Mas há um lado de superstar – que as suas participações televisivas terão exponenciado – que confesso que me faz alguma confusão. Não porque Marcelo Rebelo de Sousa não tenha todo o direito de o cultivar. Mas porque ao Presidente da República cabe também um papel institucional, que se perde de cada vez que o banaliza.

O telefonema para o programa de Cristina Ferreira, esta semana, está longe de ser uma coisa inédita. Em fevereiro de 2017, Marcelo já tinha pegado no telefone para dar os parabéns ao diretor da Rádio Comercial, em direto. Fátima Lopes agradeceu-lhe, também em direto, o telefonema que recebeu depois do divórcio. A diferença, desta vez, é o contexto e só por isso decidi escrever este texto. A chamada para Cristina Ferreira surge depois de o programa concorrente – apresentado por Manuel Luís Goucha – ter levado a estúdio um criminoso fascista chamado Mário Machado, provocando com isso uma polémica daquelas boas, que dão audiência. Falem bem ou falem mal, mas falem. E, sobretudo, vejam.

Ao tomar a iniciativa de ligar para Cristina Ferreira para lhe desejar boa sorte para o novo programa, o Presidente da República não só entrou nesta guerra de audiências, como permitiu que daqui se extraíssem conclusões – porventura erróneas – de que o mais alto magistrado da nação estaria, indiretamente, a tomar posição sobre o convite que a TVI fez a Mário Machado.

Marcelo veio, entretanto, explicar que quis compensar a apresentadora da SIC por não lhe ter dado uma entrevista, como havia feito com Manuel Luís Goucha há umas semanas. Mas a explicação é, em si mesma, a prova de que não devia ter feito aquela chamada. É, em primeiro lugar, a demonstração de que muita gente não compreende como é que um Presidente da República se presta a este papel. Em segundo lugar, porque o país e o Presidente têm assuntos muito mais importantes com se preocupar do que perder tempo com explicações sobre telefonemas para programas de entretenimento.

E, por fim, porque Marcelo Rebelo de Sousa pode e deve fazer as chamadas que quiser, dar os parabéns, desejar boa sorte, feliz Natal ou fazer votos de bom ano a quem quiser que ninguém tem nada a ver com isso. Mas sempre que opta por não o fazer em privado, mas em direto, é o Presidente da República que o está a fazer. Por muita popularidade que isso lhe granjeie, não havia necessidade.

Confesso que não consigo evitar algum sentimento de vergonha, que não alheia, ou não fosse Marcelo o Presidente de todos os portugueses.


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Macron, o “populista chique”

O Júpiter que “acreditou ser ‘o Eleito’ dos franceses e o salvador do mundo contra o populismo” (na síntese de um antigo dirigente socialista que foi colaborador de Macron, Libération, 8.12.2018) bateu os recordes de Sarkozy e de Hollande e tornou-se rapidamente no mais impopular dos presidentes franceses dos últimos 60 anos. Era bom tirarmos lições do rápido processo de degradação política em que caiu o mais monárquico dos presidentes da V República desde De Gaulle, que deixou embevecidos os liberais do nosso burgo (e de vários outros) com aquilo a que já se chamou um “populismo chique”, de jovem rico e promissor que, depois de apaparicado pelo poder económico e político, se apresenta como o líder desempoeirado que se oferece ao povo como seu representante direto, sem intermediários (partidos, movimentos). Inventando a plataforma En Marche com as iniciais do seu nome (EM), Emmanuel Macron concebeu o seu partido como uma verdadeira empresa, muito semelhante à Forza Italia de Berlusconi dos anos 90, aberta a fãs da sua personagem, mais do que a partidários de um programa.
Balão cheio de pouco mais que pouca coisa, Macron é um daqueles casos de governante amado fora e detestado dentro do seu país. Convencido de que “a política é mística” e desvalorizando os programas eleitorais (Journal du Dimanche, 17.2.2017), Macron pavoneia-se como europeísta cosmopolita contra os populismos (e é ver a sua política com os refugiados), ambientalista moderno contra os negacionistas do aquecimento global (e é ver o que da falta de sinceridade disse o seu demissionário ministro do Ambiente), de salvador da democracia liberal (e é ver o que da sua lei antiterrorista diz a ONU e a Amnistia Internacional). Em quatro dias de manifestações dos coletes amarelos, mandou prender 4,5 mil manifestantes e deixou 4 mil outros sob custódia policial, incluídos um grande número de estudantes. Se fosse na Venezuela, isto seria o comportamento de uma ditadura...
No ano e meio de governo, a contestação não pára de crescer: depois da mobilização sindical de 2017, a ocupação de universidades no inverno e primavera passadas, desde há um mês que o caráter massivo, plural e incontrolável dos coletes amarelos descalçou completamente o discurso reformista de Macron. E ele não é caso único: ao contrário do que sucedeu durante a segunda metade do século passado, o discurso público de quem governa é hoje descaradamente próximo das suas crenças ideológicas mais íntimas, aquelas que antes, de uma forma ou doutra, se procurava disfarçar. O mesmo Macron que se lamentava à BBC, em 2015, que a França não tivesse feito as mesmas reformas que Thatcher tinha imposto aos britânicos nos anos 80, queixava-se que “os assalariados franceses ganham demais”; pelo contrário, o que era preciso é que “os jovens franceses tenham vontade de ser milionários” (Les Echos, 7.1.2015). Como ele teve.
Da mesma forma que o epicentro ideológico do governo do capitalismo global passou do “reformismo do medo” (Josep Fontana) – fazer concessões significativas às classes populares para impedir que elas quisessem derrubar o sistema -, situado algures entre uma social-democracia moderada e um reformismo que se dizia de inspiração religiosa, para um liberalismo económico desenfreado, reacionário em todas as relações sociais, também o lugar de enunciação dos governantes do século XXI tem vindo a transferir-se de uma classe média de que todos fingiam fazer parte até há 20 anos para o perfil do rico empreendedor que, quanto mais rico, mais sabedor de como fazer rico o país! O ricaço que “desce à arena” para solucionar os problemas que “os políticos” deixam por resolver foi não só Berlusconi, em Itália, ou Piñera, no Chile, ou Trump, nos EUA. Esse é o perfil de Macron, cuja identidade de classe transpira por todos os poros em cada aparição pública, quando se cruza com reformados e lhes pede que deixem de se queixar, ou quando dizia, ainda era ministro, que, “muito frequentemente, a vida de empresário é bem mais dura que a de assalariado” (BFM, 20.1.2016). Quando pretendeu, há dias, apaziguar o movimento dos coletes amarelos, percebeu que o melhor mesmo era aumentar o salário mínimo e propor às empresas que, voluntariamente e sem qualquer obrigação legal, pagassem um “prémio” no final do ano aos seus trabalhadores, livre de impostos. É absolutamente revelador que só as grandes empresas (Altice incluída) se tenham apressado a prometer fazê-lo; pelo seu lado, Macron retribuiu o favor rejeitando a pressão popular para restabelecer o imposto sobre as grandes fortunas que ele próprio revogou mal chegou ao poder.
Era, portanto, com gente desta que ia ser salva a democracia do ataque neofascista?»
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Leia original aqui

O povo, esse empecilho

 

(António Guerreiro, in Público, 06/12/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

No seu uso actual e mais corrente, “populismo” é uma palavra-maná. Dizem os dicionários e enciclopédias que “maná” é um termo com origem na Polinésia. Passou a ser usado no vocabulário da Antropologia a partir do momento em que o grande antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) a colocou no centro das suas elaborações teóricas sobre a magia e o xamanismo.

Na introdução a um livro de Mauss, Claude Lévi-Strauss, baseado na linguística, chamou “significante-flutuante” ao maná. O que é um significante-flutuante? É uma palavra desprovida de qualquer significação determinada, um significante que não encontrou um significado para formar um signo. E isto acontece porque em qualquer linguagem há sempre significantes a mais, isto é, um excesso na ordem dos significantes em relação à ordem dos significados, o que é, aliás, a condição necessária para que exista poesia, literatura. Na teoria política, tem havido nos últimos anos esse esforço de dar à palavra o rigor de um conceito, mas na linguagem do jornalismo e do discurso dos políticos continua a ser um maná.

Se Lincoln voltasse hoje à terra e proclamasse outra vez “the government of the people, by the people, for the people” seria considerado um perigoso populista. Algo profundamente negativo e perigoso existe hoje, de facto, que assombra a política e cujo nome próprio pode ser “populismo”. Mas esse nome tem um alcance tão alargado por usos indevidos que criou este paradoxo: há muitas vezes uma boa dose de demagogia na nomeação e a denúncia do populismo.

Há dias, neste jornal, São José Almeida, num trabalho sobre a fraca penetração do populismo nos partidos portugueses, citava uma investigadora do ICS, Susana Salgado, que dava este exemplo como sintoma de um populismo emergente: “Catarina Martins, na última Convenção [do Bloco] fez um grande uso técnico de se colocar do lado do povo: só nós damos resposta aos vossos anseios”. Presumo que Susana Salgado fará um trabalho sério e rigoroso sobre o populismo, no âmbito da sua investigação, mas estas declarações são demasiado simplificadoras (para responder aos “anseios” do discurso corrente sobre o populismo?): não é normal que um político se coloque do lado do povo e o invoque? Mais ainda: haverá democracia – ou mesmo política – sem esta invocação?

É verdade que existem muitos “povos”, e o de Catarina Martins não é o mesmo de Assunção Cristas, assim como o “povo soberano” da democracia não é o mesmo que o “povo trabalhador” dos partidos comunistas. No uso imoderado que hoje se faz da palavra “populismo”, revela-se uma figura que é o seu contrário ou a sua sombra, uma formação eminentemente ideológica que merece o nome de demofobia, isto é, a alergia a toda a política que faz apelo a uma figura do “povo”, por mais desfigurada que ela esteja, por mais que tenha desaparecido o medo de um “povo revolucionário”.

Na pior das hipóteses, como aconteceu agora em França, há um povo da revolta, mas a revolta não é o mesmo que revolução: a revolução implica um cálculo estratégico de longa duração e uma experiência do tempo da história que estão completamente ausentes da revolta, em que a experiência do tempo é a do quotidiano. A revolta não visa nenhuma transformação do tempo histórico, não quer instituir um novo calendário. Há uma deriva demofóbica que desafia todos os princípio da democracia e a aniquila a partir do seu interior.

A demofobia aparece à luz do dia quando as medidas dos governos, visando satisfazer reivindicações do “povo”, são imediatamente classificadas como “populistas”.

O que se tornou “natural” e altamente “responsável” é governar para exercer um castigo. Ao populismo, opõe-se uma ideia de rigor, disciplina e verdade que são profundamente ideológicos: trata-se do rigor e da verdade de uma “governamentalidade” que se apresenta como tendo uma justificação “científica”, subtraindo-se  a toda a justificação ideológica. É de demofobia que se trata, efectivamente, em muitos discursos que vêem em todo o lado emergências populistas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Populismo? O que é?

Propaganda falsa assente no ódio, no individualismo e na frustração pessoal, uso indiscriminado da violência (lojas saqueadas e carros incendiados), ataques com grupos de choque, assassinatos selectivos, e muito dinheiro oferecido por magnates para essa gente “revoltada porque tem fome”.

É curioso que estes sinais visíveis correspondam totalmente às práticas dos grupos de Hitler e Mussolini para chegarem ao poder.

Porque é que não dizem que estes movimentos são fascistas?

Porque é que inventaram o populismo? Para se confundir com justas lutas POPULARES, é evidente.

E os democratas Europeus têm culpa? Claro que têm, e muita.

Porque adoptaram a política de austeridade que gerou mais desemprego e insegurança e a criação da moeda comum falhou quando não esteve ao serviço de programas de desenvolvimento e financiamento.

O € nasceu para competir e vencer o dólar e o que se vê é o dólar continuar poderoso. É verdade que os USA lutam contra as veleidades dos que querem abandoná-lo. Saddam Hussein e Gaddafi foram assassinados por causa disso.

Teria sido interessante que os políticos Europeus e internacionais explicassem esses factos em vez de deixar espalhar-se essa fábula belicista de quererem defender a democracia!

E a esquerda, tem culpa? Claro que tem, e muita.

Os fascistas agitam bandeiras simples: o medo, que foi sempre a grande arma da religião, a raça, para dividir os outros, a nação, para defender o grande capital, a Pátria para espalhar a mentira de a nossa bandeira ser igual para todos.

E como é que estes malabarismos de feira e de boçalidade conseguem triunfar no meio das massas?

Porque os progressistas não olham para essas acções como sendo o inimigo principal. Em vez disso, passam a vida a combater-se em vez de se entenderem para determinar planos de acção comuns. Em vez de cooperação, a hostilização.

Chegamos a uma situação extrema.

O fascismo luta para destruir a democracia em nome da democracia!

E nós deixamos?

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/populismo-o-que-e/

O populismo e a exploração da tragédia, das injustiças e da dor até ao tutano

.(Eldad Manuel Neto, 22/11/2018)

populismo1

Portugal vive num ambiente democrático e de liberdades num Estado de Direito de assinalável tranquilidade. As instituições funcionam regularmente e invade o País uma onda de optimismo e segurança a que não é alheia a solução governativa encontrada há três anos, assente numa maioria parlamentar de esquerda com a indispensável contribuição do PCP, do PEV e do Bloco de Esquerda.

Os índices económicos cresceram, o desemprego baixou consideravelmente, foram repostos direitos outrora pilhados, os pensionistas recuperaram os esbulhos de que foram vítimas, os rendimentos sociais de inserção alargados e, bem assim, os abonos de família repostos.

A direita não tolera e convive mal com estes avanços. E tudo serve para condenar,  tripudiar, mentir e explorar todas as dificuldades ainda existentes. Colocam-se na defesa do SNS, que sempre detestaram, colocam-se ao lado das justas reivindicações profissionais de sectores que sempre abandonaram (enfermeiros, professores, funcionários públicos), e aprontam-se a uma miserável tentativa de criar dificuldades à aprovação do OE nas votações na especialidade, condenando o seu equilíbrio, sustentação e execução. Tudo orquestrado, no firme propósito de lançar a confusão, alimentar a insegurança e, como cereja no topo do bolo, criar dificuldades à Geringonça e afastá-la do cenário da sua renovação em nova legislatura.

Na defesa dos interesses que esta direita prossegue,  não olha a meios para concretizar os seus desideratos. As tragédias são aproveitadas e exploradas até ao tutano, as mortes e as vítimas são a cruel carniça dos objectivos políticos destes abutres e o desfile dos justiceiros de “ocasion” é repugnante. Exigem demissões, culpam o Primeiro-Ministro e os Ministros das tutelas e vomitam as suas catilinárias contra o Governo, contra a Geringonça e a Esquerda. Tudo serve para afastar a Esquerda do poder.

A esquizofrenia reaccionária é tal que Cristas já se vê, pasme-se, Primeira-ministra! Rio é internamente boicotado e atraiçoado pelos Relvas e amigos da tribo.

Os meios de comunicação social jorram explorações jornalísticas massacrantes com o objectivo de bem servir a causa desta direita impaciente! Dos incêndios, a Tancos, até à tragédia das pedreiras fazem-se julgamentos na praça pública, condena-se sem inquérito, investigação ou provas, e arregimentam-se comentadores que engrossam o coro dos justiceiros que exigem a degola.

A par disto, não hesitam nas sistemáticas explorações do segredo de justiça, publicando depoimentos por ele protegidos, sem pudor, em inaceitável desafio à Lei e à presunção de inocência. Até alguns advogados, que não têm o verdadeiro ADN da profissão, comentam os processos em que são mandatários outros colegas, violando grosseiramente o respectivo Estatuto.

É assim que se estruma o terreno dos Trumps, dos Bolsonaros, dos Orbans, dos Farage ,das Le Pens e das versões populistas sedentas de socavar a democracia, as liberdades e a Justiça Social. Estes populistas nasceram e proliferam também com a inaceitável capitulação dos partidos socialistas e da social democracia, que em muitos países ocorreu, perante os mais liberais interesses capitalistas. Hoje não têm expressão nem enraizamento popular. Traíram os seu eleitores e abriram caminho à desilusão e às injustiças.

Eis o fértil terreno das ditaduras e do neo-liberalismo dominado pelas grandes corporações financeiras, da indústria da guerra e do racismo, da xenofobia e da miséria social.

A Esquerda e os democratas não podem baixar os braços na vigilância destes fenómenos. Hoje, dar-lhes firme combate é uma exigência que a todos se coloca. Não se trata de abdicar das respectivas diferenças programáticas, outrossim de, sem sectarismos e em unidade, barrar o caminho ao retrocesso social e às ditaduras. Num combate que defende a Justiça, a Paz e os Direitos Humanos e se fortalece no exemplo que dá à Europa e ao Mundo na demonstração de que a esquerda é o caminho desses valores.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O populismo entre nós

«O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.
Não faltam em Portugal sinais de propensão ao populismo de base territorial às mais variadas escalas. É o norte contra o sul. É o interior contra o litoral. São os arquipélagos contra o continente. É o Porto contra Lisboa. São as cidades médias contra as metrópoles de Lisboa e Porto. É Guimarães contra Braga, Viseu contra Coimbra e várias outras cidades médias contra outras urbes de dimensão semelhante. São os subúrbios contra o centro das cidades. São as zonas rurais contra as zonas urbanas nos municípios do interior. São, enfim, grande parte dos municípios contra os outros, ou os bairros e as freguesias contra os vizinhos do lado.
Os porta-vozes do populismo territorial não vêm geralmente de fora do sistema político-partidário existente, ainda que procurem distinguir-se dele. Alberto João Jardim, o caso mais destacado, foi durante décadas eleito como cabeça-de-lista, líder regional e dirigente nacional de um dos maiores partidos portugueses. Os inúmeros presidentes de câmara, presidentes de juntas de freguesia, presidentes de regiões autónomas ou comissões de desenvolvimento regional e deputados que produziram discursos mais ou menos populistas baseados na defesa dos interesses ou da identidade dos "seus" territórios - Daniel Campelo, conhecido como o "deputado limiano", foi outro caso marcante - vieram quase sempre do seio dos principais partidos e, em geral, neles se mantiveram. De fora do sistema político nenhum exemplo se aproxima de Pinto da Costa, que porém nunca concretizou a ameaça velada de se envolver directamente na vida política.
Como escrevi acima, existem bons motivos para o surgimento de vozes que reivindicam mais e melhor para os diferentes territórios. Em qualquer país os responsáveis políticos tendem a dar mais atenção às cidades onde se localizam os centros de poder do que às regiões mais distantes. Qualquer que seja a zona do mundo ou a escala geográfica, o poder nunca está homogeneamente distribuído pelo território e quem está mais longe dos centros de decisão quase tem menos influência na distribuição de recursos. A representação dos interesses e das aspirações de base territorial é por isso necessária à construção de uma democracia inclusiva, tal como o são as representações dos interesses de classe, de grupo profissional, de etnia, de género, etc. Ainda é mais assim em Portugal, um dos países com maior nível de centralização de poderes entre as economias mais avançadas.
Se existem bons motivos para as reivindicações de base territorial, não faltam casos em que a suposta defesa das populações locais ou regionais é usada como instrumento por quem prossegue interesses essencialmente particulares. Muitas vezes os representantes do populismo territorial, falando em nome de todos os conterrâneos e evocando uma identidade colectiva distintiva, acusam os poderes centrais de se apoderarem dos recursos que são de todos, quando eles próprios concentram recursos que estão muito mal distribuídos nas suas regiões. Muitas vezes, a reivindicação da descentralização de poderes tem menos que ver com o reforço da coesão social e da democracia inclusiva - que em muitos casos poderia sair prejudicada caso as reivindicações fossem satisfeitas - do que com a pretensão de grupos locais de verem o seu poder aumentado para benefício próprio.
Não julguemos que este risco é menor em Portugal por ser uma nação antiga e relativamente homogénea. Oitocentos anos de história implicam que o país teve muito tempo para se organizar como mercado unificado. Quando há forte integração económica há especialização produtiva entre regiões. Quando as regiões produzem bens e serviços distintos, as suas economias evoluem a ritmos diferentes. Diferentes ritmos de crescimento económico e de criação de emprego entre regiões criam parte das condições sobre as quais o populismo territorial assenta.
Os argumentos do populismo territorial chegam a ser caricatos: se a economia da "nossa" terra está a crescer relativamente pouco é porque as outras não têm solidariedade; se está a crescer acima da média é porque os outros "nos" estão a puxar para trás. De uma forma ou de outra, os "outros" são sempre acusados de extrair recursos que são "nossos". Os argumentos podem ser risíveis e a lógica subjacente é frequentemente perversa, mas hoje sabemos que isso não impede o sucesso deste tipo de populismo.
Num momento em que se discute - e ainda bem - a descentralização de competências para as autarquias e se volta a falar de regionalização em Portugal, é conveniente não minimizar os riscos associados ao populismo de base territorial. Os maiores perigos para a preservação de uma sociedade decente vêm frequentemente de onde não estamos a ver.»
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Porque é que a democracia está a vacilar?

«Jair Bolsonaro, vencedor das presidenciais do Brasil, é um hiper-nacionalista da extrema-direita, apaixonado por armas e um fraco adepto da comunicação social. O facto de ele não estar desenquadrado no meio dos líderes globais de hoje - incluindo os líderes de algumas das maiores democracias do mundo - deve preocupar-nos a todos. E isso leva-nos à seguinte questão: porque é que a democracia está a vacilar?
Estamos num ponto de viragem histórico. O rápido progresso tecnológico, particularmente o surgimento da tecnologia digital e da inteligência artificial, está a transformar a forma como as nossas economias e sociedades funcionam. Ainda que essas tecnologias tenham trazido benefícios importantes, também levantaram sérios desafios - e deixaram muitos segmentos da população a sentir-se vulneráveis, ansiosos e zangados.
Uma consequência do recente progresso tecnológico tem sido um declínio na proporção relativa dos salários no PIB. Como um número relativamente pequeno de pessoas reivindicou uma fatia crescente do bolo, na forma de rendas e lucros, a crescente desigualdade de riqueza e rendimentos alimentou a frustração generalizada com os arranjos económicos e políticos existentes.
Já lá vai o tempo em que se podia contar com um emprego fixo nas fábricas para pagar as contas indefinidamente. Com as máquinas a assumirem uma parte importante dos empregos na produção industrial, as empresas estão a procurar cada vez mais trabalhadores com elevada qualificação em áreas que vão da ciência às artes. Essa mudança na procura de competências está a alimentar a frustração. Imagine que, depois uma vida inteira de musculação, lhe dizem que as regras mudaram e que a medalha de ouro não será atribuída ao wrestling, mas sim ao xadrez. Isso será enfurecedor e injusto. O problema é que ninguém faz isso deliberadamente; mudanças deste tipo são o resultado da evolução natural da tecnologia. A natureza é muitas vezes injusta. O ónus de corrigir a injustiça está do nosso lado.
Estes desenvolvimentos contribuíram para as crescentes disparidades ao nível da educação e das oportunidades. Há muito que um contexto de maior riqueza aumenta as oportunidades de uma pessoa receber uma educação superior e, assim, conseguir empregos com salários mais altos. À medida que o valor das habilidades mecânicas no mercado de trabalho diminui e a desigualdade de rendimentos aumenta, essa diferença deverá tornar-se cada vez mais pronunciada. A menos que transformemos os sistemas de educação para garantir um acesso mais equitativo à formação de qualidade, a desigualdade tornar-se-á cada vez mais enraizada.
O crescente sentimento de injustiça que acompanha estes desenvolvimentos penalizou a "legitimidade democrática", como Paulo Tucker discute no seu livro Unelected Power. Na nossa economia globalizada profundamente interconectada, as políticas de um país - como barreiras comerciais, taxas de juro ou expansão monetária - podem ter efeitos colaterais de longo alcance. Os mexicanos, por exemplo, não precisam de se preocupar apenas com quem elegem para presidente; também precisam de se preocupar com quem chega ao poder nos Estados Unidos - um resultado sobre o qual não têm voz. Neste sentido, a globalização leva naturalmente à erosão da democracia.
Neste contexto, a actual transformação da política não deveria ser surpreendente. A frustração de grandes segmentos da população criou um terreno fértil para o tribalismo, que políticos como Trump e Bolsonaro exploraram avidamente.
A ciência económica dominante baseia-se na suposição de que os seres humanos são motivados por preferências dadas exogenamente - o que os economistas chamam de "funções de utilidade". Embora os pesos relativos possam diferir, todos os indivíduos querem mais e melhores alimentos, roupas, abrigo, férias e outras experiências.
O que essa interpretação negligencia são os "alvos criados" que surgem à medida que nos movemos pela vida. Não nascemos com um impulso essencial para chutar uma bola para dentro de uma baliza. Mas assim que começamos a jogar futebol, ficamos obcecados com isso. Não o fazemos para obter mais comida ou roupas ou casas. Torna-se uma fonte de alegria em si. É um alvo criado.
Tornar-se um fã de desporto é semelhante. Ninguém é essencialmente um adepto do Real Madrid ou do New England Patriots. Mas, através da família, da geografia ou da experiência, pode-se ficar profundamente ligado a uma determinada equipa desportiva, a ponto de isso se tornar uma espécie de identidade tribal. Um fã é capaz de apoiar os jogadores não pela forma como jogam, mas por causa da equipa que representam.
É esta dinâmica que está a alimentar o tribalismo na política nos dias de hoje. Muitos dos que apoiam Trump ou Bolsonaro não o fazem por causa do que Trump ou Bolsonaro farão, mas sim por causa da sua identidade tribal. Eles criaram alvos relacionados com a pertença à "Equipa Trump" ou à "Equipa Bolsonaro". Isso prejudica a democracia ao dar aos líderes políticos uma licença que eles não tinham antes. Eles podem fazer o que querem sem serem constrangidos pela vontade do povo.
Como é que podemos corrigir esses problemas, proteger os vulneráveis e restaurar a legitimidade democrática? A resposta não é clara. O que é evidente é que continuar na mesma não resolverá os problemas.
A Revolução Industrial - outro importante ponto de inflexão para a humanidade - trouxe enormes mudanças regulatórias e legais, desde as várias Leis das Fábricas no Reino Unido até à implementação do imposto sobre o rendimento em 1842. Também trouxe o nascimento da economia moderna, com grandes avanços por parte de pessoas como Adam Smith, Augustin Cournot e John Stuart Mill.
Mas estamos numa viragem histórica que impõe que repensemos o tema da economia política. O dinossauro não tinha capacidade de auto-análise e caminhou em direcção à extinção há 65 milhões de anos. Nós também corremos o risco de um colapso civilizacional. Mas, felizmente, somos a primeira espécie com capacidade de auto-análise. É aí que reside a esperança de, apesar de todo o tumulto e conflito que vemos à nossa volta, acabarmos por evitar o "risco dos dinossauros" e nos afastarmos da beira do abismo.»
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O Populismo Não Cai do Céu

A equipa Intelnomics tem seguido a emergência e desenvolvimento do chamado “populismo”, com grande atenção, desde há vários anos (desde muito antes de o termo ter sido cunhado e do seu fulgurante aparecimento na imprensa mainstream com a vitória da estratégia de Steve Bannon). Desde os primeiros sinais fracos deste fortíssimo fenómeno que ele entrou no nosso radar.

Não partilhamos, portanto, dos vulgares fenómenos, tanto à esquerda como à direita, de surpresa e indignação “moral” face à vaga populista. Antes, consideramos que importa perceber, ter “a inteligência das coisas” e, claro, antecipar.

Aliás, bastava ter sabido ler alguns factos, como o de serem empréstimos dos bancos da Rússia de Putine que, há coisa de 10 anos, financiaram as campanhas eleitorais de Marine Le Pen, para perceber que a coisa era séria e vinha aí  grossa tempestade.

Bastava ter sabido ler as gravíssimas insuficiências políticas e morais das elites reinantes na União Europeia e nos USA, no pós colapso financeiro de 2008, para antecipar a sua substituição, em eleições, por quem soubesse ir ao encontro da revolta de eleitorados desiludidos e indignados.

Bastava ter sabido ler o alargamento do fosso na distribuição da riqueza criada e o insustentável desenvolvimento das desigualdades salariais, com a imparável perda de poder de compra da classe média e dos assalariados (que eles tentaram compensar com recurso ao crédito gerando dívidas colossais…).

Bastava ter sabido ler isso e muitas outras coisas para perceber que nada ia continuar como dantes… Mas, tanto à esquerda como à direita, as elites reinantes (e cúmplices dos financistas que montaram a tragédia de 2008…) tinham outras prioridades. Portanto… Preparem-se para mais, muito mais.

O nosso amigo e velho colaborador da equipa Intelnomics Christian Harbulot, talvez cansado de ouvir certas “rangaines”, disse-o de forma clara e abrupta:

Le populisme n’est pas une démarche hors sol

Christian Harbulot | Directeur chez E.G.E.

Le populisme n’est pas une démarche hors sol. Il est souvent le révélateur d’erreurs stratégiques commises par des gouvernements sur des themes vitaux pour les pays concernés. Il est aussi le révélateur de contradictions dangereuses dans la manière dont évoluent les relations internationales. Il suffit de relire l’histoire contemporaine.”

Muito difícil será dizê-lo melhor e mais claro. Bravo, Christian.

Exclusivo Tornado / IntelNomics

A propósito de Orçamentos e outros pensamentos

A reacção da Comissão Europeia de rejeição à proposta de orçamento apresentado pelo governo italiano e das notícias e comentários que de pronto fizeram lembrar que aquele governo e a sua economia precisam de financiamento e que “os mercados” se encarregarão de recolocar o país no caminho certo.

Estimativas há que apontam para necessidades da ordem dos 250 mil milhões de euros em 2019. Já devia ter sido trazido à primeira linha do debate o modelo de funcionamento do Euro, que impôs às economias da Zona Euro a mais estrita dependência do sistema financeiro e a sua substituição por outro onde o BCE assuma o papel de principal emissor de moeda e financiador de primeira instância dos Estados da Zona Euro, até aos 60% do PIB previstos no Pacto de Estabilidade e Crescimento em vigor na União Europeia.

Itália contra Europa?

A opção do governo italiano não estará em sintonia com a forma de actuação que se espera de um membro de uma união monetária, mas também os persistentes excedentes em conta corrente da Alemanha são uma violação das regras da UE e a França há muitos anos que vem violando as metas orçamentais da UE. A responsabilidade pelas disfuncionalidades da Zona Euro tem múltiplas origens que vão além da moeda única ou agora da Itália.

Claro que no plano político nem mesmo os eurocratas de Bruxelas negarão a Itália, ou a outro membro da União Europeia, o direito a definir as suas políticas orçamentais. Mas no plano prático sempre vão lembrando a necessidade de conformação com as famigeradas regras orçamentais, que no seu desenho nunca previram outra realidade que uma platónica bonança, de rara existência. Do outro lado, não será difícil antecipar que um governo de clara matiz populista dificilmente terá outra estratégia para apresentar que não a das suas convicções (o que quer que seja que isso vale, especialmente quando os bancos nacionais detêm grande parte da dívida do seu país, como é o caso em Itália, o que os lança no caminho da catástrofe se os seus governos adoptarem uma política orçamental oposta às tais regras e o Banco Central Europeu não facilitar o seu financiamento) e a da inflamação da opinião pública italiana (e europeia) contra a nomenklatura europeia.

A Comissão Europeia até pode ter razão na sua apreciação, mas revelou pouca ou nenhuma sensatez ao abrir um confronto com aquela que é a quarta maior economia europeia (terceira com saída da Grã-Bretanha) e que já vai dando alguns sinais de inconformidade (ameaça de controlo de capitais e criação de uma moeda paralela) que só poderão deteriorar ainda mais o conceito de uma união monetária cada vez mais frágil e aos quais a UE, face ao peso da economia italiana, não deverá poder reagir como o fez com a Grécia ou Portugal.

Parece portanto montado um cenário quase perfeito para a eclosão de mais uma crise numa martirizada Europa ainda pouco ou nada refeita da crise das dívidas públicas. Se durante esta a separação se fez entre os preguiçosos e laxistas países do sul e os virtuosos e ricos países do norte, corre-se agora o risco da fronteira perder contornos tão precisos e começar a dividir os nacionalismos travestidos de populistas dos neoliberais e doutras correntes de pensamento e com isso desagregar o pouco que cada vez mais resta das democracias europeias.

Paradigma do populista

Vejam-se os resultados da eleição de Donald Trump – o paradigma do multimilionário populista que se propõem combater os excessos das elites económicas – do Brexit – conduzido para linhas de argumentação de carácter meramente dualista (nós ou eles) distantes da verdadeira questão que era o funcionamento do espaço europeu – das eleições italianas, que ditaram a irrelevância das forças políticas tradicionais e levaram à formação dum governo de contrários (a nacionalista Liga e o populista 5 Estrelas) e a mais recente eleição para Presidente do Brasil duma antiga figura da ditadura militar reconvertido em deputado federal comprometido com os bastidores parlamentares mas agora apresentado como campeão da luta contra a corrupção e a violência, para se compreender a verdadeira dimensão da banalização do discurso político através da redução à sua forma mais primitiva e à mera instilação do medo.

Como sintetizou Yuval Noah Harari no seu último livro (21 lições para o século 21), se em:

1938, os seres humanos podiam escolher entre três narrativas globais; em 1968, só tinham duas; em 2018, nada resta por onde escolher. Não admira que as elites liberais, que dominaram grande parte do mundo em décadas recentes, tenham entrado numa fase de choque e desorientação. Termos a nossa história à qual nos agarrar é a situação mais tranquilizadora de todas. Nesse cenário, tudo é claro. Ficar-se subitamente sem narrativa nenhuma é assustador. Já nada faz sentido. Um pouco à imagem da elite soviética na década de 1980, os liberais não compreendem como é que a História se desviou da sua rota pré-estabelecida, e falta-lhes um prisma alternativo através do qual interpretar a realidade. A desorientação leva-os a pensar em termos apocalípticos, como se o facto de a História não ter redundado no final feliz que tinham imaginado só pudesse significar que ela caminha no sentido do armagedão. Incapaz de interpretar a realidade, a mente aferra-se a cenários catastróficos. Como alguém que imagina que uma dor de cabeça é sintoma de um tumor cerebral fulminante, muitos liberais temem que o Brexit e a ascensão de Donald Trump prenunciem o fim da civilização humana»

Porque na realidade são incapazes de formular outro futuro que não seja decalcado do passado que conhecem.

Portugal | Populismo bancário

Rafael Barbosa | Jornal de Notícias | opinião

Vai por aí uma justa preocupação com o populismo. No princípio, era a preocupação com o populismo de extrema-esquerda que vinha da Grécia. Nos dias mais recentes, é a preocupação com o populismo de extrema-direita que vem do Brasil.

Independentemente das opiniõessobre qual é o tipo de populismo que faz mais estragos, é certo que não tem fronteiras. Nem ideológicas, nem geográficas. Talvez porque uma das principais características do populismo, ou melhor, dos populistas, segundo os entendidos da ciência política, seja o facto de proporem soluções simples para problemas complexos. Coisas do género: a dívida é demasiado grande, não se paga (populismo à grega); há muito crime, atira-se a matar (populismo à brasileira).

Aqui chegados, aproximamo-nos do cerne da questão. Portugal dificilmente será ameaçado por esta praga. Ao contrário, por aqui promovem-se soluções complexas para problemas simples. Veja-se o caso da falência de bancos e o seu impacto nas contas públicas. No Orçamento do Estado para 2019 agora aprovado, lá estão mais 885,8 milhões de euros à conta de sociedades veículo de dois bancos falidos (BPN e Banif). E mais 400 milhões de euros à conta da operação de troca de um banco falido (BES) por um banco quase falido (Novo Banco). Não querendo tornar a explicação sobre a solução demasiado complexa, convém lembrar que o BPN, só até 2016 (diz o Tribunal de Contas), sugou 3,7 mil milhões de euros aos contribuintes.

Quanto à troca do BES pelo Novo Banco, começou por custar 3,9 mil milhões ao erário público. Já depois da venda à Lone Star, deu-se mais uma injeção de 792 milhões dos portugueses. E para o caso de continuar a correr mal, estão assegurados mais 3,9 mil milhões à conta de um tal de mecanismo de capital contingente. Pago pelos do costume. Às vezes apetece ser populista, não apetece? Coisas do género: o banco faliu, que paguem os gestores e os acionistas; houve gestão danosa, que ponham os banqueiros na cadeia.

*Chefe de redação do JN

Leia em Página Global

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/portugal-populismo-bancario.html

E depois admiramo-nos do jagunço ganhar?

Ao olharmos para os telejornais destes dias é inevitável constatarmos que temos escassos motivos para nos admirarmos com a quase certa vitória do jagunço brasileiro. Observada de fora essa campanha eleitoral parece concitar o que de mais negativo existe na política, causando estupefação como consegue arrastar em seu apoio uma tão generalizada rendição de quem deveria estar na primeira linha do combate para a derrotar. De dentro, e sobretudo perante toda a manipulação operada a partir das redes sociais, das igrejas evangélicas ou do empório da Globo torna-se entendível que gente deplorável (como a que Hillary Clinton desqualificara nas eleições norte-americanas) assuma decisões, que só terá razão para vir a dela arrepender-se. Ou não, porque a inteligência da generalidade das pessoas relativamente aos seus atributos de cidadania responsável vem-se revelando muito limitada para não dizer que anda situada nos parâmetros da pura idiotice.
Nos referidos telejornais vemos duas situações, que revelam essa permanência do erro de apreciação coletivo sem que haja o conveniente despertar sobre o seu logro. A primeira tem a ver com os elogios de Marcelo aquando da condecoração atribuída à antiga procuradora-geral da República. Nada nas suas palavras corresponde à verdade, porque a dita cuja nem combateu eficazmente a corrupção, nem primou pela coragem. De facto, e recorrendo a conhecida anedota, ela estendeu um longo pavio de dinamite para tão chocha explosão. Ou questionada de outra forma: quantos casos de corrupção abertos no seu mandato de seis anos se saldaram por efetiva condenação dos investigados? Quantos casos, curiosamente quase todos associados a políticos de direita, foram arquivados, apesar dos indícios mais do que consistentes quando à substância das correspondentes suspeitas? Como foi possível que o país aceitasse contínuas violações ao segredo de justiça e ao desrespeito dos suspeitos quanto à presunção da sua inocência?
Se o país político agisse em conformidade com uma análise objetiva do comportamento da condecorada, ao seu mérito nem deveria caber uma medalha de latão. Pelo contrário deveria estar a ser investigada quanto ao servir-se do cargo para cumprir a agenda política dos que continuam a nela apostar como improvável heroína.
A outra situação tem a ver com o mais recente livro de Cavaco Silva. Pobres árvores que foram abatidas para que o personagem nelas afixasse toda a sua verborreia despeitada. Se as televisões têm tido mérito na divulgação de algumas partes do vómito só lhes devemos reconhecer a possibilidade de vermos mais do que confirmadas todas as péssimas opiniões, que ele nos merece. No entanto, ainda há quem acredite que ele era economista de mérito - coisa que nunca foi! - ou político exemplar—o que ainda menos conseguiu ser. Pelo contrário ele é exemplo lapidar—para utilizarmos o conhecido título do romance de Robert Musi - de homem sem qualidades e com quase todos os defeitos. Cavaco mostrou-se vil para com quem odiou, desde José Saramago a António Costa, oportunista ao surgir no Congresso da Figueira da Foz para liderar o PPD, quando Mário Soares acabava de garantir um fluxo prodigioso de dinheiro europeu para desenvolver o país (quão fácil foi parecer grande político às custas de tal «milagre»), ganancioso como o demonstrou com o negócio da Casa da Coelha ou com as ações do BPN «compradas» e vendidas no tempo certo, e com comportamento de pequeno chefe mafioso capaz de reunir em seu torno uma corte de oportunistas, todos eles vindos de estratos economicamente remediados (a pequena-burguesia que costuma servir de base social aos movimentos fascistas!), e todos eles hoje integráveis no restrito lote dos noventa mil milionários lusos.
Que Joana Marques Vidal e Aníbal Cavaco Silva continuem a ser admirados por tantos mentecaptos só nos ajuda a compreender como é possível que, no Brasil, o palácio do Planalto venha a ser ocupado por um assumido troglodita.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/10/e-depois-admiramo-nos-do-jagunco-ganhar.html

O jeito que o populismo dá aos O’Leary deste mundo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Em abril, a companhia aérea Ryanair foi chamada à Comissão Parlamentar de Economia, Inovação e Obras Públicas para dar explicações sobre os problemas laborais, que passam por graves acusações de assédio de trabalhadores em greve e pela alegada recusa em cumprir a lei portuguesa. O pedido foi apresentado pelo Bloco de Esquerda e aprovado por unanimidade. Na altura, a companhia recusou-se a comparecer.

Não sendo uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que tem poderes equiparados a judiciais, ninguém pode ser obrigado a ir a uma comissão parlamentar. Mas pode dizer-se que é natural que uma empresa que opera num país, seja portuguesa ou estrangeira, se sinta no dever de aceitar um convite do órgão que representa, por via do voto, todos os portugueses. Se não for por respeito pela democracia, que seja por cortesia diplomática. E é justo considerar uma recusa desta natureza um ato de hostilidade para com o Estado e o país. Mas, diga-se em abono da verdade, esta recusa não é uma estreia. E teve precedentes em atores nacionais. Não considero que os primeiros responsáveis por este desprezo pelas instituições que nos representam sejam os eleitos. Os primeiros responsáveis e as primeiras vítimas somos nós. Somos nós que elegemos aqueles que depois desprezamos. Mas já lá vou.

Este mês, o presidente executivo da Ryanair, Michael O’Leary, explicou a recusa, deixando tudo mais claro: “Vamos ao Parlamento português falar para quem? Para os deputados? O que é que eles fazem? (…) Nós estamos aqui a criar novas rotas, mais empregos, a incrementar o turismo em Portugal. (…) Nós somos pessoas de negócios, não somos políticos. Deixem os políticos falar, nós continuaremos no nosso negócio.” A ideia é simples: nós somos pessoas de trabalho, que criam rotas e fazem negócios, não temos tempo para estar a falar com políticos, que, ao contrário de nós, não fazem ponta de um chavelho.

O senhor O’Leary gosta da mama do Estado mas embirra com os políticos que lhe dão de mamar. Mas somos nós que engolimos doses cavalares de populismo oferecidas por aqueles que adoravam não ter a maçada de ter de contar com o nosso voto e os limites que ele pode impor. O senhor Michael O’Leary desrespeita o mesmo Parlamento que nós desrespeitamos. E o nosso desrespeito dá-lhe imenso jeito

Um dado importante: as rotas que eles criam não são criadas apenas por eles. O Estado português, como a generalidade dos Estados, financia a criação dessas rotas através de incentivos. No caso de Portugal, as low cost foram as que mais receberam. E entre elas, a campeã foi, ao que julgo saber, a Ryanair. Quando se trata de receber dinheiro do Estado para criar rotas e fazer negócios, o senhor O’Leary, conhecido pelo seu estilo ordinário, pelo serviço de baixíssima qualidade que presta a quem pode pagar pouco e pela forma degradante como trata os seus trabalhadores, não se importa de lidar com políticos. Quando se trata de saber se respeita a lei do Estado que o financia rapidamente se torna altivo e arrogante. Gosta da mama do Estado mas embirra com os políticos que lhe dão de mamar.

A culpa é nossa. Somos nós que desprezamos, acima de todos os poderes, o único que é ocupado por pessoas que elegemos. Somos nós que engolimos doses cavalares de populismo oferecidas por aqueles que adoravam não ter a maçada de ter de contar com o nosso voto e os limites que ele pode impor. Somos nós que estamos a destruir o poder que conquistámos e a devolver ao dinheiro o poder absoluto. O senhor Michael O’Leary desrespeita o mesmo Parlamento que nós desrespeitamos. E o nosso desrespeito dá-lhe imenso jeito. Permite-lhe receber uma mesada sem ter de responder a perguntas. Quando desrespeitamos o Parlamento desrespeitamos o nosso voto e quando desrespeitamos o nosso voto desrespeitamo-nos a nós mesmos. Os O’Leary deste mundo agradecem. Sabem que para fazerem tudo o que querem basta-lhes alimentar o populismo com que nos enfraquecemos enquanto comunidade. Continuemos, então. Enquanto eles tratam dos seus negócios.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sintomas de fascismo ordinário entre nós

Nos últimos dias, e refletindo o que já constatámos na Inglaterra do Brexit, nos EUA da eleição de Trump e, agora, com a previsível eleição do jagunço brasileiro, tem-se abordado mais frequentemente o fenómeno dasfake news entre nós. Descobriu-se que um empresário têxtil de Santo Tirso alimenta uma fonte de mentiras através de um servidor sedeado no Canadá e tivemos um embofiado «sindicato» (os seus dirigentes e associados deveriam ser condenados por associarem um belo conceito social ao seu indigno comportamento!) a publicar fotografias de meliantes apanhados numa operação, que os devolveu aonde pertencem (atrás de grades!), mas completaram a ignomínia com o acrescento de imagens de idosos violentamente agredidos noutras paragens, mas que quiseram imputá-los às vítimas daquele gang.
O debate verificado nas redes sociais entre quem muito justamente repudiou essa difusão de imagens e os que as defenderam, revelou bem o quão perigosos andam estes tempos com gente aparentemente normal a mostrar-se permeável às estratégias do fascismo mais ordinário (em todos os sentidos da palavra, incluindo o francês!).
É certo que estamos habituados às falsidades nos jornais e canal televisivo do grupo Cofina, Mais ainda ouvimos diariamente a líder do CDS a mentir com todos os dentes, que tem na boca, e a pedir mais alguns emprestados. Mas esses são embustes com um mínimo de sofisticação, que podem enganar quem quer ser ludibriado, mas não escapam ao escrutínio de cidadãos um pouco mais esclarecidos. Por isso mesmo o principal jornal da Cofina só se salvou da bancarrota, porque o governo de Passos Coelho o livrou de enormíssimas dívidas fiscais, já que se o negócio se rentabilizasse à conta dos leitores há muito deveria ter fechado as portas. Do mesmo modo, e apesar da sua quotidiana gritaria, Cristas não consegue subir a dois dígitos nas sondagens, sendo crível que entrará na próxima legislatura com um grupo parlamentar minguado em relação ao que tem nesta altura.
A maior preocupação tem a ver com a existência de pessoas funcionalmente analfabetas, que vivem as frustrações de não acederem aos bens de consumo com que as bombardeiam nas publicidades televisivas ou quando vão percorrer os centros comerciais ao fim-de-semana, mais para ver do que para comprar, porque os porta-moedas andam delas escasseados. Como se constatou em Inglaterra, nos Estados Unidos ou agora no Brasil, são eles os mais permeáveis ao chorrilho de trapaças e calúnias veiculados pelas redes sociais. Precisados que andam de bodes expiatórios estão dispostos a aceitar aqueles que mais frequentemente lhes apontam como os culpados pela sua deplorável condição.
Ora, basta fazermos uma campanha eleitoral nas ruas das nossas cidades e aldeias para encontrarmos esse tipo de eleitores. Falando com eles perguntamo-nos o que ganham com as suas certezas preconceituosas, mas nem nos querem ouvir. Quem os envenenou com patranhas já nos leva grande avanço. Daí a importância de, constantemente, exercermos um combate sem tréguas a quem anseia por impor novos modelos de ditaduras fascistas a coberto de modernas formas de manipulação.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/10/sintomas-de-fascismo-ordinario-entre-nos.html

Portugal | Passos Coelho: uma oportunidade perdida

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião

Numa altura em que se exige que os democratas se insurjam contra as diferentes ameaças autoritárias, torna-se ainda mais evidente a importância de algumas palavras e de alguns gestos como a manutenção do apoio de Pedro Passos Coelho à candidatura à Câmara de Loures de André Ventura. Recorde-se que o inefável candidato pelo PSD à edilidade apostava num discurso racista contra um grupo étnico. Consequentemente, e nessa altura, tornou-se claro que Ventura era um populista em potência, para não dizer mais e ainda assim Pedro Passos Coelho manteve o seu apoio, pese embora o CDS, por exemplo, o tenha retirado.

Ora, uma das formas dos democratas combaterem a ameaça autoritária, venha ela sob a forma de um populismo aparentemente inócuo ou sob a forma de fascismo mais difícil de disfarçar, é precisamente retirar toda e qualquer forma de apoio. De resto, Mussolini e Hitler contaram com o apoio de políticos ou partidos seus contemporâneos, com os resultados conhecidos.

Por conseguinte, importa lembrar quem se posicionou do lado certo da História e quem, por mero calculismo político, se colocou ao lado de quem promove as divisões como forma de fazer política e de quem agora se apresenta com um novo partido com medidas como a castração química, o regresso às penas de prisão perpétua, à proibição constitucional da eutanásia ou à proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E como se sabe estas medidas constituem apenas a entrada, faltando o prato principal.

*Ana Alexandra Gonçalves  | Triunfo da Razão
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/portugal-passos-coelho-uma-oportunidade.html

Ventura, filho de Passos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Se eu escrever que André Ventura é um perigo toda a gente sorrirá. Afinal de contas, o homem é um fenómeno do Correio da Manhã TV. Um comentador da bola. Um político de 12ª linha. Um tipo sem tropas, sem poder, sem influência. Um homem que apenas procura protagonismo, que ninguém leva a sério.

Proponho que vão procurar o que se escrevia sobre Jair Bolsonaro há três ou quatro anos. Era tudo isso e um pouco menos, porque nem sequer tinha passado por um partido de poder. Era um maluco, com um historial nada abonatório até como militar. Uma irrelevância parlamentar que só preocupava na medida em que contribuía, com muitos outros, para o abandalhamento parlamentar. Teve apenas a sorte de estar lá quando tudo lhe facilitou a vida. É o que André Ventura está a fazer: a posicionar-se para ficar à espera. Com uma pequena diferença: ele pode apresentar-se como um dissidente do PSD e tem muitíssimo mais tempo de antena, através do palco com as maiores plateias – o comentário desportivo – e mais notoriedade do que Bolsonaro tinha no gigantesco Brasil.

Em Portugal isto é impossível, dirão. Sim, Portugal não é como Brasil, assim como o Brasil não é como os EUA e os EUA não são como Itália e a Itália não é como a Hungria e a Hungria não é como as Filipinas. Mas o ar do tempo é o mesmo, as redes sociais têm o mesmo peso no debate público e o descrédito da política não é menor do que no resto da Europa. Bastaria acontecerem duas coisas para tudo descambar: o início de uma nova crise económica, com origem na Europa, e José Sócrates ser absolvido por falta de provas ou a acusação estar mal preparada.

O caldo está pronto e a única coisa que falta, em Portugal, é um protagonista. Como se vê pelo Brasil e pelos EUA, não é preciso ninguém especialmente brilhante. Na realidade, André Ventura é intelectualmente mais preparado do que Jair Bolsonaro e Donald Trump. Professor universitário, o que casa melhor com o fascínio dos portugueses pela autoridade académica (os brasileiros preferem militares e os norte-americanos empresários), André Ventura tem, sobre qualquer outro, a vantagem de ter sido caucionado por um primeiro-ministro e um dos principais partidos portugueses.

Não estou a dizer que André Ventura será o Bolsonaro português. Tal como aconteceu com o próprio Bolsonaro ou com Trump, ele depende de uma tempestade perfeita. De uma imprevisível confluência de fatores. O que estou a dizer é que a parte mais difícil já aconteceu. Um dos problemas do discurso de extrema-direita em Portugal é a nossa memória. Qualquer saudosismo está, pelo menos como discurso inicial, condenado a ficar amarrado a uma pequena franja da população. Ainda mais quando a história da extrema-direita portuguesa sempre esteve ligada à criminalidade comum. Para que um discurso de extrema-direita se afirmasse precisaria de vir de um espaço mais amplo e democraticamente legitimado. Só não vindo de um lugar suspeito pode, depois de fazer um discurso racista, homofóbico e contra direitos cívicos fundamentais, fazer-se de vítima da ditadura do politicamente correto.

Pedro Passos Coelho deu esse salvo-conduto a André Ventura. Não o deu por engano. Foi expressamente em sua defesa depois dele ter dito coisas que levaram o CDS a desvincular-se da sua candidatura à Câmara Municipal de Loures. Não foi um deslize, foi uma opção política. Uma opção facilmente compreensível se começarmos a ler com mais atenção os textos de opinião e as campanhas do “Observador”, e se começarmos a seguir a carreira política de pessoas como Miguel Morgado, um radical com pouco em comum com a história do PSD mas que foi o ideólogo de Passos.

Ventura foi parido por Passos, num processo de crescente radicalização do PSD que só foi interrompido pela mudança de ciclo político. Agora, tem um carimbo de validade. Só tem de esperar para ver se é bafejado pela sorte.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Niall Ferguson – Como reconhecer (e evitar) um populista

Niall Ferguson é um dos mais renomados historiadores da Grã-Bretanha. Com pós-doutorado em História, foi considerado pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo. Especialista em economia, mercado financeiro e história econômica, lecionou em instituições como a Universidade de Harvard e a London School of Economics.

Qual a diferença entre um populista brasileiro e um europeu? E entre um populista de esquerda e um de direita? Niall Ferguson espanta o espectador ao dissecar diversas características fundamentais do populismo.

O historiador também aponta casos do passado e do presente e indica leituras importantes para compreender (e evitar) esta forma de governo.

Assista ao vídeo (legendado) ou leia a transcrição logo abaixo:

O populismo é oferecido em dois sabores diferentes. Existe o de direita e o de esquerda. Portanto, chocolate e framboesa — essa é a escolha. Eles diferem em termos políticos, mas são semelhantes no que tange às técnicas e à retórica demagoga que utilizam.

A boa notícia é que o populismo quase sempre acaba consumindo a si mesmo, porque suas políticas simplesmente não entregam o que prometem. O populista diz: “Somente eu, que tenho o braço forte, posso resolver seus problemas”. E eles nunca resolvem. Na verdade eles sempre tornam os problemas um pouco piores. O populista diz “esses neoliberais são corruptos”, mas então se revelam muito mais corruptos. Então o padrão é familiar: os populistas conseguem lançar mão desse discurso, ganham uma eleição e tentam mudar a Constituição, pois caso contrário eles perderiam. Na pior das hipóteses você acaba igual à Venezuela. Na melhor das hipóteses, faz como a Argentina e se livra deles.

Portanto, acho que sabemos a partir da experiência sul-americana que o populismo pode dar muito errado, mas que tem cura. O mais importante é não deixar que eles alterem a Constituição.

Não acho que a ameaça que muitos acadêmicos estadunidenses veem em Donald Trump seja remotamente tão grave quanto eles dizem. Não acho que ele vá se tornar um tirano. É possível que ele não se reeleja. Caso os democratas recuperem a maioria no Senado no próximo ano é quase certo que ele sofrerá um impeachment.

Não vejo nenhum indício de um plano sistemático para sabotar a Constituição. Ao meu ver, ela está funcionando para conter um demagogo exatamente como os Pais Fundadores pretendiam. O incrível é que os Pais Fundadores esperavam que alguém como Trump se tornasse presidente. Eles tinham certeza. Alexander Hamilton escreveu sobre isso, quase prevendo o futuro. Eles sabiam que o seu sistema geraria alguns demagogos, alguns charlatões que chegariam a ser presidentes, e por isso desenvolveram o sistema prevendo essa eventualidade.

Se você está mesmo preocupado, existe uma boa maneira para testar essa hipótese. Pode ser que alguns de vocês tenham amigos ou parentes nos EUA. Talvez eles sejam professores de Yale e estejam surtando. Há dois livros excelentes: um de Sinclair Lewis, chamado “It Can1t Happen Here”, e outro de Philip Roth chamado “Complô contra a América”. Duas maravilhosas obras de ficção que imaginam, um fascismo estadunidense. Então leia esses livros e faça o teste: “Os tempos de hoje são como esses livros?” . Até agora, certamente não.

Via Fronteira do Pensamento

Canal do Fronteira do Pensamento no Youtube

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/niall-ferguson-como-reconhecer-e-evitar-um-populista/

O populismo jornalístico

«São demasiado optimistas as manifestações públicas de regozijo por Portugal permanecer até agora impermeável ao populismo. Há um ambiente populista na nossa sociedade, alimentado e amplificado pelos actuais dispositivos desenvolvidos pelos media televisivos, radiofónicos e, cada vez mais, também pela imprensa escrita (um populismo onde os políticos se sentem investidos na condição de jornalistas e os jornalistas assumem a condição de políticos).
Há um clima deletério que os media atiçam sempre que há uma ocasião favorável, recorrendo à teatralização e à dramatização que solicitam os afectos e criam clivagens irracionais, pessoalizações passionais, dilatações demagógicas. O último pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substituição da Procuradora Geral de República, Joana Marques Vidal. Como pudemos verificar, o resultado do processo, como é próprio do populismo, acaba por ser a despolitização — a despolitização generalizada da matéria política. Quem tomar atenção aos pequenos e grande sinais, com olhar de analista, descobre facilmente que a escrita jornalística, mesmo nos jornais que gostam de se reclamar como “de referência” (algo hoje tão inexistente como o unicórnio), se inclina cada vez mais — num gesto que se vai naturalizando e tornando-se mimético — perante este ambiente, induzindo uma audiência e afastando progressivamente o público mais exigente.
Experimentemos olhar para três títulos de artigos recentes: “Oh Joana, pensar que estivemos tão perto” (Pedro Candeias, Expresso), “Aprende, Joana: em Portugal quem manda é o PS” (João Miguel Tavares, PÚBLICO), “Joana e Lucília” (editorial do PÚBLICO, por Ana Sá Lopes,). Quem é esta Joana, nomeada com a mesma familiaridade (pelo menos nos dois primeiros artigos, o de Ana Sá Lopes é, quanto a este aspecto, de mais baixa intensidade) com que se nomeia a colega de turma? É a PGR. De repente, passa-se da função-PGR para a pessoa que a exerce, na sua identidade civil. Ou seja, passa-se da entidade pública para a pessoa privada. O jornalista expõe a pessoa enquanto tal, na sua nudez, como se tivesse a prerrogativa da objectivação e do tu cá, tu lá, criando uma proximidade artificial e arrogante que, na sua lógica extrema, vai dar ao “oh palhaço!” da invectiva popular. Se verificarmos com atenção, este tipo de títulos está hoje disseminado na nossa imprensa, mesmo quando depois nem correspondem ao tom mais sóbrio dos artigos.
Mas não são apenas os títulos “sexy” que caracterizam este regime populista da escrita jornalística. Para fazer subir a temperatura populista, esta escrita jornalística recorre ao artifício da teatralidade, da tirada lúdica ou humorística: o jornalista ocupa o lugar da “vox doxa”, faz falar uma improvável “sociedade civil”. Tudo isto é servido por uma linguagem simples, por um vocabulário e uma sintaxe que são a forma necessária e consubstancial dos conteúdos simples, das ideias elementares.
O editorialismo difuso e primário deste “building journalism”, que é um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornalística. E é fácil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo retórico e teatral das redes.
Não se trata, aqui, de demonizar as redes. Mas a escrita jornalística (compreendo, com esta designação, também as secções de opinião) deveria ser outra coisa diferente. Não deveria, sobretudo, contribuir para as ondas de gritaria, tagarelice e teatralização enfática que emergem constantemente no espaço público. Essa escrita está destinada a falar apenas para o público que ela cria. É suicidária.»
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Leia original aqui

Não importemos problemas

A esquerda portuguesa já tem problemas suficientes para enfrentar e não precisa de importar os problemas dos outros, até porque estamos em reconhecido processo de renacionalização da política, o que não quer dizer que não devamos estar atentos e solidários internacionalmente. É preciso efectuar análises concretas das variadas situações nacionais concretas. Estou a pensar na ascensão da extrema-direita. Porque é que não temos tal problema por cá? Em primeiro lugar, por razões fundamentalmente geoeconómicas, não temos tido afluxos significativos de refugiados políticos ou de imigrantes económicos. Num contexto de crise e numa sociedade desigual e causticada pela austeridade, tal já teria criado condições objectivas que poderiam ser exploradas politicamente. No nosso caso, muitos com palco até se podem dar ao luxo de falar como se a ausência de fronteiras, ou seja, de comunidade e de responsabilidade democráticas, fosse alguma norma que se possa e deva prosseguir na área das migrações, como noutras. Em segundo lugar, somos tradicionalmente um país de emigração, o que pode ajudar a alimentar em muitos por cá um sentimento de reciprocidade, que facilitaria o cultivo de uma certa simpatia para com os imigrantes. Em terceiro lugar, existe a memória do fascismo e uma cultura anti-fascista, com reflexos constitucionais e ideológicos, ainda actuante. Em quarto lugar, a esquerda não abandona as classes populares e a questão da independência nacional, em nome de miragens pós-classistas e pós-nacionais. Temos a felicidade de ter uma esquerda resolutamente patriótica, por muito que isso incomode alguns sectores intelectuais. Felizmente, algumas tendências académicas dominantes no pensamento dito crítico têm reduzido impacto político-partidário. Predominantemente, o nacionalismo actual por cá é anti-colonial e anti-fascista, cívico e constitucional. Nunca esqueçamos que nacionalismos há muitos, dos indispensáveis aos dispensáveis. Este é um campo que não se abandona nunca. Em quinto lugar, o nosso sistema político, filho de uma revolução democrática, apesar de algumas entorses à representação proporcional, tem-se revelado plástico e resiliente. O seu grande problema é mesmo, por um lado, a reduzida participação das classes populares, como se vê, por exemplo, quando se olha para os representantes e suas origens sociais predominantes, e, por outro lado, a pós-democracia com escala europeia. Não podemos ser complacentes. Devemos estar descansados? Nunca. Mas também não devemos estar sobressaltados. Afinal de contas, o PNR e quejandos são casos de polícia e não de política. Tendo em conta o passado fascista, a direita portuguesa tornou-se relativamente civilizada, pelo menos na retórica, embora haja aqui e ali tentações populistas ditas triádicas, mas que não se inscrevem politicamente. As esquerdas portuguesas devem conduzir campanhas eleitorais para as chamadas eleições europeias sem cair na armadilha, bem denunciada por Serge Halimi e Pierre Rimbert no último Le Monde diplomatique, do enquadramento do debate entre o campo neoliberal e o do populismo das direitas, literalmente duas faces da mesma moeda europeia, sem cair em europeísmos vagos e descontextualizados, sem cair nessas farsas da eleição para presidente da Comissão Europeia e dos chamados partidos europeus, estes últimos de resto em decomposição, da esquerda à direita. As eleições europeias são contra o eixo Bruxelas-Frankfurt e contra os aliados internos das suas políticas. Em nome da soberania nacional, social e democrática de um rectângulo que deve ser de todos os que aqui vivem e que partilham instituições e vivências que se querem bem mais inclusivas. Adenda. Francisco Assis presenteou-nos ontem com mais um artigo verborreico, confirmando que confunde o empilhamento de adjectivos com argumentos. Ataca os comunistas portugueses pelo seu voto a propósito da Hungria. Assis não se dá ao trabalho de apresentar os argumentos concretos aduzidos e, muito menos, de os refutar. Enfim, para efeitos de debate, deixo aqui a posição dos comunistas, com a qual de resto estou basicamente de acordo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

PSL ou as “araras do regime”

Alfredo Barroso  | Jornal i | opinião

No antro mediático das “araras do regime”, expressão utilizada por ele próprio, Pedro Santana Lopes deixou de ser o genius loci desde que Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República e decidiu beijocar, lambuzar, abraçar, sufocar diariamente milhões de portugueses até mais não poder. Outra das mais conhecidas “araras do regime”, igualmente candidato a genius loci, é o frenético Luís Marques Mendes, também ex-presidente do PPD-PSD, além de ex-ministro de Cavaco, com espaço reservado há muito num canal de TV - como todas as “araras velhas” do PPD-PSD que se prezam -, mas que ainda não percebeu que não é por muito esbracejar que melhor convence os telespectadores com as suas balelas e patranhas semanais, ou que mais expande a sua inteligência como aquele velho chupa-chupa a que, quando eu era miúdo, chamávamos “estica-larica”.

Estes três exemplares do PPD-PSD, considerados velhas “araras” mediáticas do regime, não gostaria de tratá-los como aves de bicos muito curvos e fortes que os ajudam a trepar na política. Ainda menos como plantas ornamentais cultivadas em Portugal. Ou como patetas ou pessoas ingénuas. Nada disso! Prefiro tratá-los (sobretudo Pedro Santana Lopes nesta nova etapa da sua vida mediática) como demagogos “telepopulistas”, produtos do “videopoder” ou da “videopolítica”, que se comportam como actores “telegénicos” (Marques Mendes nem por isso, porque esbraceja muito, é um caso deplorável de overacting!), todos eles ocupando com regularidade os ecrãs de televisão em horas de grande audiência e optando pelo “espectáculo televisivo” em detrimento das mediações tradicionais (deliberações, debates parlamentares, confrontação pública de ideias e programas, etc.).

Os média têm-se substituído aos partidos políticos quer como mecanismos de selecção da classe política, quer como instrumentos de mobilização da opinião e de definição da agenda política. Tudo isto afecta claramente o funcionamento e a orientação da democracia, transformando-a cada vez mais numa “democracia de opinião” ou, pior ainda, numa “democracia demagógica”. Tanto nos EUA como em várias democracias europeias, temos assistido à emergência daquilo a que muitos sociólogos e politólogos chamam neopopulismo mediático e plebiscitário. Como sucedeu, por exemplo, em Itália, e salienta o politólogo Mario Caciagli, o caminho tem sido linear: “Da democracia referendária passou-se à democracia plebiscitária e, desta, à democracia demagógica.” Portugal ainda é excepção. Ainda…

Os demagogos “telegénicos” e “telepopulistas” dizem que falam directamente ao “povo” (regra geral, reduzido ao público de telespectadores); pretendem situar-se fora do sistema de partidos (onde quase sempre não foram politicamente felizes); optam por um discurso antipartidos e costumam “denunciar” as elites no poder (Santana Lopes diz, por exemplo, que “há vários que se julgam donos disto tudo” e que, com ele, “vão deixar de o ser”!); e anunciam, finalmente, programas políticos reduzidos a fórmulas vagas e a promessas impossíveis de cumprir, o que não impede, infelizmente, que alguns tenham sido eleitos presidentes ou primeiros-ministros. O populismo, com toda a sua retórica demagógica, coloca em causa a própria existência da mediação política centrada nas instituições representativas. O populismo pode ser, de facto, a corrupção ideológica da democracia.

Foi, contudo, por esta via que Santana Lopes decidiu enveredar, porventura em busca duma “arca” da “Aliança” capaz de conter - sabe-se lá - as partituras dos até agora inexistentes “concertos para violino de Chopin” e, sobretudo, do segredo do supremo poder que nunca logrou alcançar enquanto militante e dirigente do PPD-PSD. Para tanto, PSL resolveu fazer “tábua rasa” do seu passado - péssimo primeiro-ministro, mau secretário de Estado da Cultura, desastrado presidente do Sporting e autarca esbanjador quer na Figueira da Foz quer em Lisboa -, optando, evidentemente, por um discurso de “denúncia” duma classe política a que sempre pertenceu (e que tantas vezes contribuiu para desacreditar). Tudo isto para gáudio do universo mediático doméstico sedento de “espectáculo” e hoje dominado pela plutocracia e por jornalistas profissionais que já nem escondem o desejo do regresso da direita ao poder e vão mesmo ao ponto de enumerar “as razões para a esquerda voltar à oposição”. É verdade, podem crer!

É claro que Pedro Santana Lopes, nesta sua nova etapa como dirigente político populista e demagogo, precisa em absoluto de manter o palco mediático que as TV e os jornais nunca se recusaram a oferecer-lhe até agora. Todavia, quaisquer que sejam as razões que hoje nos levem a criticar José Sócrates, será bom não esquecer que este, in illo tempore, fez Santana Lopes num oito, obtendo para o PS a primeira maioria absoluta. Mas é bem provável que António Costa nem precise de fazer outro tanto se apanhar pela frente o chefe da “Aliança» - isto não ignorando as sucessivas derrotas que PSL sofreu dentro do PPD-PSD, por exemplo face ao seu “amigo” Durão Barroso e ao seu “inimigo” Rui Rio. Como diria o cego, a ver vamos se Pedro Santana Lopes terá algum êxito como demagogo populista. É, aliás, uma vocação que entronca a preceito nas suas primordiais convicções ideológicas de juventude, quando era um activista de extrema-direita…
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*ARARA - 1. ORNITOLOGIA Ave da família dos Psitacídeos, de bico muito curvo e forte que a auxilia quando trepa; 2. BOTÂNICA Planta ornamental da família das Amarantáceas, cultivada em Portugal; 
3. FIGURATIVO Pateta, pessoa ingénua, mentira, peta, patranha, galga, logro, mentirola, balela.
Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/09/psl-ou-as-araras-do-regime.html

Tempos perigosos

Paulo Tavares | Diário de Notícias | opinião
Atravessei neste verão boa parte do sul dos Estados Unidos. No rádio do carro fui escutando (a espaços porque a família não tem culpa dos meus vícios) aquela que tinha sido a minha companhia quase constante durante uma outra viagem, de trabalho, há cerca de dois anos e meio, durante as primárias na Carolina do Sul - os talk shows da alt-right.
Estes espaços de catequização da direita radical, nacionalista e defensora da supremacia branca são eficazes a fornecer argumentos a boa parte da base que elegeu Donald J. Trump e, aos meus ouvidos, estranha e repulsivamente sedutores.
Como? Aquelas horas a fio de conversa, de factos duvidosos e teorias da conspiração debitadas num tom entre a indignação e o pânico pelo iminente fim do mundo deixam-nos espreitar para o outro lado. Abrem uma janela. E não se trata de vertigem pelo abismo, eu não podia estar mais longe, mas não deixa de ser interessante ver o mundo - sobretudo os EUA - através daquelas lentes. Ver o mundo ao contrário.
E como tanto mudou desde fevereiro de 2016... Para lá das teorias da conspiração, que são basicamente as mesmas ou variantes das que então ouvi, há agora uma coragem que não existia. Qualquer dos hosts, dos animadores desses talk shows, não hesita em dizer ao que vem - defender o que dizem ser a ordem natural e histórica das coisas na América, proteger a união da invasão de imigrantes, etc. É o negócio do medo, da insegurança, do ódio ao diferente. Agora, quase dois anos depois da eleição de Trump, tudo é muito mais assumido, muito mais claro. Como Obama lembrou nesta sexta-feira no discurso que marcou a entrada do ex-presidente na campanha para as eleições de novembro, na Universidade de Illinois, "a história já nos mostrou o poder do medo".
Espreitar para dentro de uma bolha que não a nossa é útil. Ver, por exemplo, a diferença de tratamento noticioso entre o assassínio de Mollie Tibbetts, uma jovem de 20 anos que terá sido morta em Brooklyn, Iowa, por um imigrante mexicano ilegal em julho e o ataque a um bar de gaming em Jacksonville, Florida, onde um jovem branco, David Katz, de 24 anos, com um longo historial de perturbações mentais, matou dois jogadores, feriu outros dez e depois suicidou-se, é revelador. Os apelos do pai de Mollie Tibbetts, para que a morte da filha não fosse politizada ou usada como argumento contra a entrada de imigrantes nos EUA, foram ignorados e o caso alimentou dias de discurso de ódio contra imigrantes ilegais, sobretudo os vindos de south of the border, do México e de outras paragens na América Central. Sobre o tiroteio de Jacksonville, executado por um jovem doente mental que comprou legalmente duas armas (calibres 9 mm e .45) e centenas de munições, nem uma palavra de debate ou indignação. A notícia passou pelas horas certas, pelos noticiários, brevemente, mas nunca a ouvi discutida nos fóruns e nos talk shows de Sean Hannity e companhia.
Este ódio é essencialmente gratuito e tem muito pouco de racional. Não houve cidade ou terriola por onde passasse - e corri a costa leste entre Nova Iorque e o extremo sul dos EUA - onde boa parte dos restaurantes, lojas ou estações de serviço não tivessem um cartaz ou um papel bem visível a pedir trabalhadores. Já no ano passado, em reportagem no vale de São Joaquim na Califórnia, tinha escutado de agricultores e empresários portugueses e lusodescendentes um lamento: "Precisamos de imigrantes para trabalhar, se parar o fluxo, se fecharem as fronteiras, ficamos sem mão-de-obra."
Voltando a ligar o rádio, concluo que escutar a bolha do outro lado, com o debate político aceso numa altura em que a América caminha para eleições intercalares que podem virar o Congresso em novembro, reforçou uma convicção. Um eventual processo de impeachment, de destituição de Donald Trump - que só poderá acontecer com outra maioria no Congresso - não pode acabar bem. O atual presidente não vai cair sem dar luta, sem tentar convencer as suas bases de que está a ser alvo de um golpe e há demasiadas armas nas mãos de gente muito ressentida, com mau perder e, sobretudo, muito mal informada.
Já não será grande notícia dizer que a América está cada vez mais dividida. Mas, nas últimas milhas da viagem, a caminho do aeroporto de Miami, conduzindo rumo ao norte na US1 Dixie Highway alguns dias depois de o senador John McCain ter morrido, tive exemplos dessa divisão a desfilar à beira da estrada. Bastou contar as bandeiras. Umas a meia haste e outras no topo dos postes. Não arrisco um resultado exato, mas diria que deu empate. Mesmo depois da ordem tardia da administração para que todos os edifícios públicos colocassem a bandeira a meia haste, emitida dias antes, ainda muitos resistiam à homenagem oficial. Em relvados, postes ou varandas particulares era ainda mais visível a resistência a essa despedida. Quando a morte de uma figura como McCain não consegue ser consensual, temos a prova do algodão de que algo de profundamente errado se passa na maior democracia do mundo. Não é que precisássemos do teste, mas a crueza das imagens, das bandeiras, foi mais poderosa do que as notícias dos últimos dois anos.
E para quem ache que nada disto tem que ver com o que por aqui se passa, é importante que não nos julguemos imunizados. Há uns tempos, lembrei aqui um estudo que revela sinais de que a Portugal só falta mesmo quem comece a trabalhar a matéria-prima. O campo está livre para um qualquer populista.
Depois há a qualidade do nosso debate político. Deixo aqui dois exemplos dos últimos dias: os argumentos absolutamente divisivos e descolados da realidade orçamental com que foi analisada e criticada a proposta de baixar os preços dos passes sociais em Lisboa e, num outro campeonato, as falsas premissas com que se noticiou que o Estado tinha "ficado" com metade dos apoios do Fundo Solidário Europeu enviados para Portugal na sequência dos incêndios do ano passado em Pedrógão.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/09/tempos-perigosos.html

"Cavaleiros do Asfalto": Milhares de Harley Davidson vão invadir ...

(Comentário:
É de esperar que a generalidade dos cascalenses fiquem felizes por verem o seu território transformado numapermanentefeira de eventos, eventosinhos e eventosões. A todos nos agrada ver como a Câmara gasta Milhões de Euros dos impostos que pagamos para gáudio de uns quantos entusiastas de competições de vela muito up-to-date, de carros xpto, de motos yzv, de músicas disto-e-daquilo, de festas muito-socialite,  etc etc 

Esperemos que tenham convidado 'Los bandidos' e 'Hells Angels' para dar mais charme ao aontecimento.

Importante é entreter a malta e,  todos os dias, encher o litoral concelhio com muita gente  (de preferência turistas) Os patrões da hotelaria e afins agradecem muito e até prometem que irão (talvez...) fazer mais alguns contratos a prazo com salário mínimo para lauto benefício dos cascalenses.

Claro que, entretanto, ficam por resolver os problemas estruturais do concelho: estradas e parques de estacionamento que faltam, acessibilidade concelhia e regional que está um desastre, parques urbanos e zonas verdes que são uma raridade, água que precisa de atenção, promoção da cultura e do desporto efetivamente acessível a todos os cascalenses, etc etc etc

E como "não há festa nem festança a que não vá Dona Constança" lá estará, ufano, o chefe disto tudo. E continua o 'circo'.)


A vila de Cascais vai voltar a receber um dos maiores encontros da Harley Davidson já em 2019, estando já garantida a realização da 28ª concentração europeia anual de proprietários (H.O.G.) de motos daquela carismática marca para o período de 13 a 16 de junho. O porto de Cascais será um dos pontos de destaque desta concentração anual que irá agrupar milhares de proprietários e de exemplares da Harley Davidson (faltando pouco menos de um ano, a expectativa é de que ronde os 50 mil participantes), a exemplo do que já sucedeu em 2012, acabando os encantos e a hospitalidade […]

Para saber mais clique aqui: www.motor24.pt

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As lágrimas amargas de Olajumoke Ajayi

(A DOR DA GENTE NÃO SAI NO JORNAL) - Chico Buarque)
«Começo a escrever quando está o dia a nascer no Mediterrâneo. O meu relógio marca uma hora menos do que registará, caso o tenha, o de Olajumake Adeniran Ajayi, a mulher de 30 anos que, acompanhada do marido e dois filhos está agora a bordo de um dos barcos que nos próximos dias transportará para Valência, em Espanha, 629 refugiados e migrantes. Uma centena destes homens, mulheres, adolescentes e crianças estão no “Aquarius”, a embarcação que os salvou na madrugada de sábado e manhã de domingo. Os restantes seguem em duas embarcações italianas. Começaram por ser rejeitados pela extrema-direita italiana no poder, depois por Malta e de novo por Itália.
Enredada nas suas contradições e na incapacidade de assumir uma política séria e consistente, de modo a dar resposta a estas vagas migratórias, a EU foi salva no último momento da exposição crua da tragédia da sua própria insignificância. Respirou de alívio com a decisão corajosa, arrojada, solidária, e de uma grande dignidade do novo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ao evitar o que poderia ser uma catástrofehumanitária.
A congratulação pela lição dada por Sánchez não pode esconder, como escreve o El Mundo, que “as consequências desta decisão são imprevisíveis e seria negligente ignorá-lo. O seu impacto sobre as rotas, as expectativas dos emigrantes, os interesses das máfias e a reação nos países vizinhos é impossível de calcular”.
No Expresso Diário, Ricardo Costa escreve que “A cegueira de Bruxelas deu a maior borla de sempre aos movimentos xenófobos europeus, sobretudo aos que enfrentam rotas migratórias”.
Espanha não pode ficar sozinha no seu altruísmo. Tudo será inútil, caso a EU continue prisioneira dos seus fantasmas e não defina uma estratégia e um acordo a médio e longo prazo entre os países. A pressão migratória vai continuar e aumentar nos próximos anos e décadas, e essa é a “maldição dos ricos”, como escreve no El País o economista Branko Milanovic. África é o continente com a maior expectativa de crescimento demográfico, por isso, não adianta construir muros, como pretende a Hungria, a Eslováquia ou a Itália. Ou fechar os olhos á realidade, como disse Marcelo Rebelo de Sousa em Boston.
Para já ainda há países a aceitarem acolher refugiados e migrantes por questões humanitárias.Mas a tendência é para a introdução de um sistema de pagamento por cabeça. Não é já o que a EU está a fazer com as milionárias transferências de dinheiro para a Turquia? Se agora são um negócio controlado por máfias, os refugiados podem transformar-se num negócio à escala dos países, e com pouca diferença dos sistemas de escravatura. Quais são os limites morais do mercado? Quanto custa um refugiado?
Num mundo em que tudo se liberaliza, em particular o movimento de capitais, é revelador perceber que o único tabu, aquilo que continua a defrontar uma total resistência, é a livre circulação de pessoas.
Assim, e como não é sério passar dias inteiros das semanas todas a debater os delírios do presidente de um clube de futebol e pensar que daí não advêm consequências para a definição da sociedadeque somos; como não é possível ficar indiferente ao drama de milhões de pessoas a viverem na pobreza extrema, mas sentem ter à distância de um braço de mar a hipótese de uma vida nova; como a odisseia dos refugiados e migrantes raramente consegue mais que os 15 minutos de fama enunciados por um pintor pop; como a dor da gente nunca vem no jornal, de uma forma consistente e continuada; e quando os holofotes mediáticos estão centrados no campeonato do mundo de egos de dois presidentes perdidos nos seus próprios labirintos, o Curto de hoje só podia ter como tema principal a dor da gente. A dor que conta.»
Valdemar Cruz
Expresso curto, 13.06.2018
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Leia original aqui

Acham isto normal?

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Bicha, que "fila" é paneleirice brasileira, na Feira do Livro ao Parque Eduardo VII em Lisboa, para tirar selfie com Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República portuguesa. O título do post é uma pergunta retórica.

[Imagens fanadas no Twitter]

Ver original em "DER TERRORIST" (aqui)

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