Pobreza

(Multimídia) Xinjiang, na China, cria 195 mil empregos para famílias atingidas pela pobreza

 

 

Urumqi, 20 jun (Xinhua) -- A Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China, criou, de 2018 a abril deste ano, 195 mil empregos para famílias atingidas pela pobreza, disseram as autoridades locais na sexta-feira.

Um total de 135 mil empregos foi criado para residentes nas áreas profundamente empobrecidas de Kashgar e Hotan de 2017 a 2019, de acordo com o departamento de comunicação do governo regional.

Xinjiang adotou uma série de medidas para ajudar os moradores em situação de pobreza a encontrar empregos em suas cidades natais ou áreas próximas da região ou a iniciar negócios por conta própria nos últimos anos.

Também foram fornecidos ensino profissionalizante e serviços de orientação ao emprego para ajudar a melhorar as capacidades de trabalho dos residentes e a estabilidade no emprego. No final de 2019, havia 104 mercados de recursos humanos de nível municipal ou superior e 8.668 postos de trabalho e previdência social de nível rural. Eles prestaram serviços de emprego para mais de 20 milhões de residentes locais.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/20/c_139154121.htm

Não há bancos alimentares? As Leis dos Pobres e Charles Dickens há 150 anos. Por Katherine Connelly

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Katherine Connelly Por Katherine Connelly

Publicado por Counterfire em 09/06/2020 (‘Are there no food banks?’ The Poor Laws and Charles Dickens at 150,ver aqui)

 

Não há bancos alimentares

Estátua de Charles Dickens em Portsmouth. Fonte: Geograph.org – Basher Eyre

 

As observações críticas de Dickens sobre a desigualdade social iluminam a crueldade do nosso governo 150 anos após a sua morte, diz Katherine Connelly

 

“Não há prisões?” disse o Espírito, voltando-se contra ele pela última vez com as suas próprias palavras. “Não há casas de trabalho forçado para os pobres?” Na história de Charles Dickens de 1843 Um Cântico de Natal, o Fantasma do Natal Presente relembra a resposta sarcástica de Scrooge a um pedido de caridade para os “milhares [que] estão em falta de bens de necessidades básicas; centenas de milhares [que] estão em falta de conforto comum”. Quando se diz a Scrooge que ‘muitos preferem morrer’ a entrar para uma casas de trabalho forçado, ele responde que nesse caso ‘é melhor que o façam, e diminui-se assim o excesso de população’.

Agora, Scrooge vê-se confrontado com duas figuras – Ignorância e Desejo – que aparecem como crianças pobres. Ele está prestes a conhecer o Fantasma do Natal Ainda por Vir, que lhe ensinará que tipo de sociedade os valores de Scrooge, uma vez confirmados, vão criar.

Os aniversários proporcionam um momento para pensar, como Scrooge, sobre o impacto do passado no presente e sobre o que devemos mudar no presente para um futuro melhor.

O aniversário da morte de Dickens constitui uma oportunidade para refletir sobre o poder da sua escrita sobre a desigualdade social que lhe assegurou o profundo afeto que lhe dedicaram as pessoas comuns. Nas palavras de um biógrafo:

As pessoas comuns viram que ele estava do seu lado, e amaram-no por isso. Ele não lhes pediu para pensarem, mas mostrou-lhes o que queria que vissem e ouvissem. (1)

E podemos perguntar no que é que as suas detalhadas observações sobre a desigualdade social ainda hoje lançam luz sobre a Grã-Bretanha atual.

 

O capitalismo e as leis dos pobres

No seu estudo do capitalismo, Karl Marx observou que o enfraquecimento dos laços feudais tão necessários para criar um proletariado “livre”, sem nada para vender a não ser a sua capacidade de trabalho, criou uma classe indigente daqueles indivíduos que não conseguiam encontrar um mercado para o seu trabalho (2).

Em Inglaterra, esta situação foi exacerbada pela dissolução dos mosteiros, eliminando assim uma fonte de assistência para os muito pobres. O Estado respondeu a esta crise social através da aprovação de leis de má qualidade, que classificavam os indigentes – dividindo um pequeno número que era considerado merecedor de apoio por parte de um grupo muito maior que era considerado não merecedor de apoio. Este último grupo de gente e os meios a que eram obrigados a recorrer para sobreviver (como a mendicidade), foram criminalizados.

A mensagem era clara: a pobreza era culpa do indivíduo.

No século XIX, com o rápido desenvolvimento do capitalismo industrial e a migração em massa para as cidades de pessoas em busca de trabalho, a crise social tornou-se ainda mais extrema.

Houve uma rejeição generalizada da ideia de que a pobreza era culpa dos pobres. A experiência amarga revelou que a anarquia da economia capitalista causava miséria, que os trabalhadores (muitas vezes chamados de “mãos”) eram expulsos do trabalho quando uma nova maquinaria se tornava disponível; que os empregadores reduziam os salários ao mínimo necessário na sua corrida para maximizar os lucros e vencer os seus concorrentes. A desigualdade intrínseca da sociedade contemporânea foi representada pelo sistema político corrupto.

No início da década de 1830, registou-se uma agitação social significativa. Quando a reforma política foi bloqueada pelos políticos em 1831, houve revoltas nas cidades de toda a Inglaterra: Bristol foi incendiada e a sua prisão atacada, o Castelo de Nottingham foi incendiado. No ano seguinte, a crise política foi atenuada quando a Lei da Reforma foi aprovada por um parlamento assustado.

Os trabalhadores agrícolas, cujos meios de subsistência se perdiam devido à mecanização, empreenderam ações diretas, destruindo maquinaria e exigindo salários mais elevados, nos chamados “Swing Riots”. A elite dirigente estava determinada a que os próprios pobres não decidiriam a resposta a dar à crise social.

Em 1834, no mesmo ano em que os trabalhadores agrícolas de Dorset foram transportados para a Austrália por tentarem formar um sindicato, foi aprovada a Lei de Alteração à Lei dos Pobres.

 

Dickens e a Lei dos Pobres

Os defensores da nova lei dos pobres argumentaram que o antigo sistema tinha sido demasiado caro – e demasiado generoso.

A nova lei viu a expansão massiva de casas de trabalho forçado para pobres onde os indigentes seriam encarcerados. Partindo do princípio de que os pobres eram responsáveis pelo seu estado, os autores da nova lei determinaram que as condições do asilo seriam de tal modo terríveis que dissuadiriam qualquer pessoa que aí procurasse apoio.

Dickens exprimiu um sentimento generalizado sobre as casas de trabalho forçado quando teve o seu trabalhador caritativo reproduzido no livro Cântico de Natal a dizer que “muitos prefeririam morrer” a entrar para essas casas. As pessoas chamavam-lhes “Bastilles” – o que não só os comparava ao símbolo da tirania que foi derrubado no início da Revolução Francesa, mas também sugeria que queriam fazer o mesmo com as casas de trabalho forçado.

Aqueles que foram forçados a entrar para as casas de trabalho forçado foram punidos pela sua pobreza. Foram alimentados com rações escassas – a fonte de uma das cenas mais famosas de Oliver Twist, quando o órfão Oliver pede “mais” no asilo Beadle. Tal como os prisioneiros, os reclusos das casas de trabalho forçado usavam uniformes, eram instruídos a ficarem calados e eram postos a trabalhar – diz-se a Oliver que ele irá apanhar estopa.

Homens e mulheres foram separados e as famílias separadas. Para os legisladores, este refinamento cruel teve o benefício de impedir os pobres de terem filhos. Influenciados pelas ideias do economista político e clérigo Thomas Malthus, consideravam os indigentes como uma “população excedentária” (como Scrooge o expressou).

Dickens conhecia todos os argumentos apresentados para a nova Lei dos Pobres porque, em 1834, era um repórter parlamentar que registava febrilmente cada palavra dos debates.

Em Oliver Twist, que começou a ser publicado numa série a partir de 1837, Dickens satirizou amargamente os defensores da lei e as suas pretensões à filosofia e à economia política. Ele descreve a primeira vez que Oliver viu um pedaço de carne, que lhe tinha sido negado enquanto rapaz de uma casa de trabalho forçado por causa da “Filosofia” que estava por detrás da Lei dos Pobres, e a raiva percorre a página:

Desejo a um filósofo bem alimentado, cuja carne e bebida se transformem em fel no seu íntimo; cujo sangue é de gelo, cujo coração é de ferro, que possa ver Oliver Twist a agarrar-se às delicadas nervuras da carne que o cão tinha rejeitado. Quem me dera que ele pudesse ter testemunhado a horrível avidez com que Oliver rasgou os pedaços com toda a ferocidade criada pela fome. Só há uma coisa que eu gostaria mais; e que seria ver o Filósofo a fazer ele próprio o mesmo tipo de refeição, com o mesmo prazer.

 

Um Conto de Duas Ficções

Além de conhecer os argumentos hipócritas dos filósofos e dos políticos, Dickens sabia muito sobre as condições em que os pobres viviam e morriam. Ele visitava regularmente prisões, morgues e casas de trabalho. Mas também sabia por experiência direta como era a pobreza, a prisão e o trabalho infantil.

Quando Dickens era criança, a sua família estava presa na prisão de Marshalsea porque o seu pai era um devedor. O ambicioso jovem amante de livros que era Dickens foi obrigado a renunciar à sua educação e a trabalhar numa fábrica de produtos em cera.

Dickens manteve essa experiência pessoal em segredo para o resto da sua vida. Contou talvez apenas a uma pessoa, o seu amigo íntimo John Forster, que manteve a sua confiança até depois da morte de Dickens, quando ele contou a história na sua biografia.

Mas embora Dickens não tenha publicado um relato autobiográfico destas experiências, re-imaginou-as de forma vívida e dolorosa nos seus romances. A desumanidade das casas de trabalho forçado para pobres é vista através dos olhos dos seus jovens personagens – David Copperfield, que como Dickens, trabalha quando criança e visita a sua família (adotada) no asilo ou Amy Dorrit, nascida na prisão de Marshalsea porque, tal como Dickens, o seu pai é devedor. E, tal como os jovens de Dickens, David e Amy, enfrentam um futuro comprometido, sem culpa própria.

Através destas histórias, Dickens, o grande escritor de ficção do século XIX, conseguiu expor outra ficção: as histórias que os poderosos e os ricos contaram a si próprios sobre os pobres.

 

Ficção contemporânea

A sátira duríssima de Dickens e as observações detalhadas iluminam as semelhanças entre a “moral vitoriana” e as atitudes do nosso próprio governo nos dias de hoje.

Tal como os homens que conceberam a Lei de 1834, a partir de 2010 o governo Conservador-Liberal Democrata e os subsequentes governos Conservadores inventaram histórias.

Tal como os políticos de 1834, disseram que o que aconteceu antes era demasiado “generoso”, demasiado caro.

E depois, em 25 de Junho de 2012, o Primeiro-Ministro David Cameron fez um discurso no centro comercial Bluewater, justificando cortes naquilo a que chamou “benefícios”. Fê-lo contando histórias, comparando indivíduos que por acaso viviam nas proximidades, na verdade muito próximos: “na mesma rua”. Em primeiro lugar, foi-nos dito que alguém trabalhou arduamente, mas não conseguiu fazer as coisas que queria (como sair de casa dos pais, ou começar uma família). E depois, havia o contraste: “o casal que está na rua, que tem quatro filhos, não trabalha há vários anos”. Continuou e continuou, exemplo após exemplo.

Não eram pessoas reais, eram exemplos que poderiam ter acontecido (ou histórias que Cameron inventou), em que o narrador lhes deu personagens individuais: ele poderia tê-los chamado de os Merecedores e os Pobres Não Merecedores. E só havia uma conclusão deste discurso: os Menos Merecedores teriam de sofrer para que não tivessem qualquer incentivo para reclamar esses “benefícios”.

O terrível resultado desta abordagem é o Crédito Universal, que tem sido amplamente acusado de mergulhar os mais vulneráveis da nossa sociedade na pobreza e na miséria. Tal como os asilos do século XIX, a ideologia orientadora do Crédito Universal defende que a culpa é dos pobres por serem pobres.

Mas, recentemente, face à pandemia, foi exposta uma das maiores ficções dos Conservadores. Os trabalhadores essenciais não são os CEOs, os gestores de fundos de cobertura e os banqueiros, de quem foi continuamente dito que devemos evitar que “saiam do país”, mantendo os seus impostos baixos. Os trabalhadores essenciais são aqueles que fazem os cuidados de saúde, a limpeza e o transporte na nossa sociedade – muitas vezes com salários muito baixos, muitos deles obrigados a recorrer aos bancos alimentares e ao Crédito Universal para tentarem pagar as contas.

A justificação de uma década de austeridade, que infligiu um sofrimento incomensurável, baseava-se nas mentiras dos Conservadores que teriam sido familiares a Charles Dickens. É pouco provável que fiquem assombrados com o que fizeram, mas podemos assegurar que irão ficar aterrorizados com o que ainda está para vir, alterando o presente.

 

Notas

[1] Claire Tomalin, Charles Dickens: A Life (London: Penguin Books, 2012), p.68.

[2] Marx, Capital: A Critique of Political Economy, Vol.1, (London: Penguin Books, 1990), p.896.

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A autora: Katherine Connelly é escritora e historiadora. Liderou greves de estudantes do movimento britânico antiguerra em 2003, coordenou a campanha Emily Wilding Davison Memorial em 2013 e é um dos principais membros do blog Counterfire. Escreveu a aclamada biografia, “Sylvia Pankhurst: Suffragette, Socialist and Scourge of Empire” e recentemente editou e introduziu “A Suffragette in America: Reflections on Prisoners, Pickets and Political Change” (Reflexões sobre Prisioneiros, os Piquetes de Greve e a Mudança Política).

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/06/16/nao-ha-bancos-alimentares-as-leis-dos-pobres-e-charles-dickens-ha-150-anos-por-katherine-connelly/

“Uma revolução de sem-abrigo.” Manifestação histórica em Lisboa

 

As pessoas em situação de sem-abrigo manifestam-se, nesta segunda-feira, em frente à Assembleia da República num protesto inédito no nosso país. De tal forma que os organizadores da iniciativa falam de uma “revolução de sem-abrigo” que querem deixar de ser “invisíveis”.

 

“Somos todos invisíveis.” Este é o desabafo na TSFde António, um dos sem-abrigo que faz parte do grupo de pessoas que vivem na rua que organizou a manifestação desta segunda-feira. O protesto decorre ao longo do dia, em frente à Assembleia da República.

“A revolução que vai haver não é de cravos nem de rosas, é de sem-abrigo“, afiança o grupo organizador, conforme cita o jornal Sol.

“A promessa de Marcelo Rebelo de Sousa foi tirar os sem-abrigo da rua, dar-lhes dignidade e dar-lhes uma casa, mas cada vez há mais despejos, mais desemprego, mais pessoas na rua e menos respostas”, aponta o comunicado sobre o protesto que é referido pelo mesmo jornal.

Os sem-abrigo sentem-se “desprezados no dia-a-dia”, como lamenta António na TSF. “As instituições, a Câmara, o presidente e o governo não nos dão apoio”, desabafa.

Somos invisíveis, mas temos de sair da escuridão. Queremos ver a luz ao fundo do túnel”, diz ainda este sem-abrigo que vive na rua em Lisboa.

Ninguém dá trabalho a um sem-abrigo. Numa entrevista de trabalho, perguntam-nos onde mora? Respondemos: na rua. E aí já não há mais conversa. Acabou a entrevista”, queixa-se ainda António que chegou a ter vários empregos antes de ter acabado a viver na rua.

Os organizadores do protesto notam que os albergues que acolhem sem-abrigo “não têm condições, têm percevejos, porcaria, quartos pequenos com 18 pessoas” e “as pessoas roubam-se umas às outras”.

“Cada pessoa tem um número, ali o nome não existe. Quando se entra para ali, é como uma prisão: não és mais do que um número“, dizem.

“A Câmara Municipal de Lisboa e a Santa Casa da Misericórdia têm tanta casa fechada, queremos abri-las e organizá-las”, afirmam também.

O protesto foi convocado depois dos despejos no Largo de Santa Bárbara, na freguesia de Arroios, em Lisboa. Um edifício abandonado foi ocupado por um grupo de apoio a sem-abrigo, mas os proprietários ordenaram o despejo das pessoas.

A autarquia e a Santa Casa da Misericórdia acabaram por realojar as pessoas.

150 sem-abrigo em Lisboa com casa ou emprego desde início da pandemia

Quase 150 pessoas até agora em situação de sem-abrigo em Lisboa conseguiram desde o início da pandemia de covid-19 encontrar casa, um quarto ou um emprego, no âmbito de programas desenvolvidos pela Câmara Municipal.

Segundo uma nota do gabinete do vereador da Educação e Direitos Sociais, Manuel Grilo, do Bloco de Esquerda (que tem um acordo de governação da cidade com o PS), desde o início da pandemia já passaram pelos quatro centros de acolhimento de emergência para sem-abrigo criados pela autarquia mais de 500 pessoas.

Dessas, 47 foram encaminhadas para o programa “Housing First”, um projecto financiado pela Câmara de Lisboa em que as pessoas são integradas em habitações tendencialmente individuais e têm um acompanhamento por técnicos que as orientam a gerir uma casa tendo em vista a sua integração social.

A autarquia prevê que até ao final do ano um total de 380 pessoas estejam alojadas através deste programa.

Outras 51 pessoas, segundo a nota do gabinete de Manuel Grilo, foram encaminhadas para “outros tipos de resposta de alojamento, como quartos em apartamentos partilhados”.

Através da RedEmprega, 45 pessoas que passaram pelos centros de acolhimento conseguiram emprego “e podem hoje voltar a ser independentes”, lê-se ainda na nota.

A RedEmprega é um programa que a autarquia tem em parceria com a APEA – Associação Portuguesa de Emprego Apoiado e a Fundação Aga Khan Portugal e que tem como objetivo “reforçar a resposta de empregabilidade para pessoas vulneráveis na cidade”, apoiando a inclusão social e no mercado de trabalho.

“Uma parte considerável das pessoas que caíram na rua desde o início do ano fê-lo porque perdeu o emprego ou uma fonte de rendimentos estável, decorrente da crise económica que vivemos”, refere o comunicado.

Actualmente, a Câmara de Lisboa tem em funcionamento quatro centros de acolhimento de emergência para sem-abrigo, com capacidade para acolher 220 pessoas: no Pavilhão Municipal Casal Vistoso, na Casa do Largo, no Clube Nacional de Natação e na Pousada da Juventude do Parque das Nações.

 

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/revolucao-sem-abrigo-manifestacao-historica-lisboa-329990

Portugal | A pobreza dá menos saúde

 
 
Inês Cardoso | Jornal de Notícias | opinião

Muitos defensores de um confinamento rígido, prolongado se possível até que haja vacina para a covid-19, insistem no argumento de que a economia não pode sobrepor-se à saúde.

É uma forma de viciar qualquer análise, porque obviamente a vida está sempre acima de qualquer valor, mas as novas dinâmicas de propagação do vírus na região de Lisboa encarregam-se de demonstrar a absoluta interligação que existe entre aqueles dois vetores.

Ver para além dos números e analisar os contextos específicos em que ocorreram os diferentes surtos obriga a olhar de frente causas socioeconómicas que interferem na saúde e na expansão da doença. Num primeiro momento, nas regiões Norte e Centro, o contágio em lares foi avassalador e expôs, a par da dificuldade em prever e conter quando ainda sabíamos pouco sobre o vírus, a forma como estão amontoados muitos dos nossos idosos. A situação em Lisboa traz uma nova realidade, com focos em bairros sociais e em grupos de trabalhadores recrutados por empresas de trabalho temporário, que vivem em habitações partilhadas e degradadas e são frequentemente transportados sem cuidados sanitários.

A pobreza, a habitação deficiente, a falta de higiene em cafés e restaurantes, um conjunto de fatores a montante acaba por ter influência na forma como é potenciada a propagação. Se a isso somarmos o facto de também a exposição ao risco aumentar à medida que diminui a escolaridade e o rendimento, como mostram os dados sobre o acesso ao teletrabalho ou sobre a utilização de transportes públicos, obtemos uma mistura explosiva.

Olhar para realidades específicas obriga a ter também respostas adequadas, incluindo mais intervenção social. Novos casos não se resolvem necessariamente com mais confinamento, mas com medidas locais e muita insistência na proteção e distanciamento. A forma de lidar com o vírus é comportamental, mas isso não é (necessariamente) sinónimo de ficar em casa. Sobretudo quando a casa é tudo menos o espaço de segurança que associamos à noção de confinamento.

*Diretora-adjunta
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-pobreza-da-menos-saude.html

Brasil | Pandemia provoca violência e desesperança em comunidades carentes

Rede de Pesquisa Solidária divulga estudo com informações obtidas junto a lideranças de mais de 70 comunidades, bairros, territórios e localidades de alta vulnerabilidade social em seis regiões metropolitanas.

 

 

A covid-19 ampliou a fome nas comunidades vulneráveis de grandes regiões metropolitanas brasileiras. É o que revela a primeira onda de pesquisas do Painel de monitoramento com lideranças comunitárias sobre os impactos do avanço da pandemia da Covid-19, realizado pela Rede de Pesquisa Solidária. O estudo contou com o levantamento de informações junto a lideranças de mais de 70 comunidades, bairros, territórios e localidades de alta vulnerabilidade social em seis regiões metropolitanas do País. O Painel pretende registrar regularmente informações objetivas sobre os principais problemas enfrentados por essas populações com o avanço da pandemia.

A identificação e acompanhamento desses problemas permitem a antecipação de crises e gerenciamento de risco, tanto pelo poder público quanto pelas próprias comunidades. Entre os dias 5 e 10 de maio foram realizadas perguntas rápidas padronizadas, a partir de aplicativos de celular, a 99 lideranças comunitárias, com retorno de 72 delas. Trata-se de representantes de localidades de alta vulnerabilidade socioeconômica das seguintes regiões metropolitanas: Manaus, Recife, Distrito Federal, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

As lideranças e representantes comunitários são fontes estratégicas de informação, pois estão cotidianamente mobilizados no enfrentamento dos problemas mais graves que atingem suas localidades. Em diálogo constante com a população, recebem demandas, gerenciam conflitos e possuem olhar mais integrado dos territórios em que atuam. Cabe registrar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta a importância do engajamento comunitário para a efetiva comunicação dos riscos e do controle da epidemia em contextos locais, principalmente nas comunidades mais vulneráveis. Por seu conhecimento do território, por sua experiência e pela capilaridade de suas redes pessoais, as lideranças comunitárias exercem papel estratégico na disseminação de medidas de prevenção ao vírus e na construção de soluções alternativas aos danos sociais da pandemia.

O boletim apresenta os resultados do processamento de perguntas abertas feitas a essas lideranças. Neste primeiro levantamento, a metodologia utilizada não previu estímulo a temas ou problemas específicos porque o objetivo era exatamente possibilitar a captura de situações e eventos inesperados gerados pela crise atual. O estudo é descrito em uma nota técnica coordenada por Graziela Castello, Priscila Vieira e Monise Picanço, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e teve a participação de Gabriela Palhares, do Observatório da Inovação da USP, Jaciane Milanezi, do Cebrap, e Jonatas Mendonça dos Santos, Laura Simões e Rodrigo Brandão, da USP.

Fome

As respostas à primeira pergunta expressaram um quadro de desalento generalizado. Em 68% das comunidades a fome já é um dos principais problemas vividos. Trabalho e renda são problemas graves mencionados por mais de 60% dos entrevistados. Quase metade das lideranças apontou falta de renda e o desemprego como uns dos principais problemas intensificados pela pandemia. Até mesmo o auxílio emergencial proposto pelo governo federal para amenizar a falta de renda e emprego se tornou uma questão grave na vida das pessoas: mais de 30% dos entrevistados relataram que as dificuldades para acessar o benefício estão entre os problemas mais intensos vividos pelas populações residentes nessas comunidades. O gráfico a seguir consolida a primeira onda de respostas.

A fome e a falta de renda para aquisição de alimentos constituem as dificuldades mais recorrentes e críticas que a população desses territórios enfrenta nesse momento. Há percepção generalizada de que a fome causada pela privação de recursos atinge muitas famílias. O risco à segurança alimentar se intensifica à medida que a epidemia se prolonga e recursos emergenciais se mostram insuficientes. Apesar da multiplicação de iniciativas de distribuição de cestas de alimentos nas comunidades, provenientes de políticas assistenciais, da sociedade civil organizada e de filantropia, as associações locais e lideranças estão fortemente mobilizadas em busca de recursos e soluções comunitárias. Porém, esses esforços são insuficientes para suprir as necessidades crescentes, como se pode ver pelos relatos.

“Falta de recursos financeiros pra comprar comida. Muitos não conseguiram ter acesso ao Auxílio Emergencial. As pessoas nos procuram pra ter o que comer. Estão passando fome!”
(Liderança comunitária do Jardim Gramacho, Duque de Caxias – RJ)

Além da cobertura e regularidade das doações não atenderem à demanda, as lideranças anotaram também a falta de coordenação das ações e as dificuldades na priorização de beneficiários, com impacto na distribuição dos auxílios: nem sempre alguns bairros ou regiões das cidades frequentam o mapa das doações. Dentro das comunidades certos grupos tendem a ser regularmente contemplados enquanto outros não conseguem acessar os donativos e muitas famílias deixam de receber proporcionalmente suas contribuições. Nesse cenário de escassez e desorganização, filas e disputas por alimento começam a ocorrer.

Trabalho e renda

Desemprego, redução do salário e ausência de renda estão entre os efeitos da pandemia mais citados pelas lideranças a este Painel. Prevalece a percepção de que parcelas consideráveis de trabalhadores dessas localidades perderam seu emprego, enquanto outras sofreram redução de salário. Pequenos comerciantes e prestadores de serviços também enfrentam queda acentuada de rendimentos. Há menções recorrentes à situação crítica de profissionais autônomos e informais que foram temporariamente dispensados sem garantia de remuneração nem previsão de retomada de suas atividades. É o caso das faxineiras diaristas, das cuidadoras e dos profissionais de manutenção e construção civil, como pedreiros e marceneiros, pois as famílias e estabelecimentos para quem prestavam serviços não mantiveram o pagamento de suas diárias.

Diante do agravamento das necessidades e da insuficiência das respostas governamentais, as lideranças relataram crescimento das pressões pela retomada de atividades de geração de renda, o que muitas vezes implica o não cumprimento das recomendações de isolamento social e, por consequência, o aumento do risco de contágio.

“Desemprego é o problema. Vários moradores com os aluguéis atrasados, falta de gás de cozinha, contas de água e luz atrasadas. Faltam alimentos, produtos de higiene pessoal e de proteção individual como máscaras, álcool gel e outros. Mães com crianças pequenas precisando de leite e fraldas.”
(Liderança do Jardim da Conquista, Diadema – SP)

Quanto ao acesso ao auxílio emergencial, os líderes comunitários relatam dificuldades de cadastro, saque e recebimento do benefício. A população dessas áreas não tem acesso ou familiaridade com uso de aplicativos e não possui os documentos necessários para receber o benefício por outra via. Devido à pandemia, muitos não conseguem acessar locais públicos onde poderiam obter novas vias de seus documentos e tampouco conhecem as vias virtuais de fazê-lo. Há ainda relatos frequentes sobre a exposição da população mais vulnerável à aglomeração em filas nos bancos da Caixa Econômica Federal e em lotéricas, sem uso de máscara, para buscar informação sobre seu benefício.

O resultado é que todos aqueles sem documentos ficam sem auxílio.

Desinformação

Uma em cada seis lideranças deste Painel mencionaram a falta de informação e/ou a desinformação sobre a pandemia como problema grave presente nas comunidades. Se o mundo pré-covid-19 já trazia consequências danosas com o avanço das fake news, a falta de informações consistentes e a disseminação de notícias falsas tornam a gestão da crise mais dramática.

O tema aparece em pelos menos três dimensões: dificuldade de compreensão dos riscos de um perigo intangível representado pelo vírus, disseminação de notícias falsas que minimizam os impactos da epidemia e confusão gerada principalmente pelo desencontro entre as recomendações feitas pelos poderes públicos municipais, estaduais e federal, que amplificam as incertezas e a incompreensão da população. Esse desencontro traz consequências graves para a adesão às medidas de prevenção. Os líderes comunitários apontam para a necessidade de ações direcionadas de conscientização, com entrega de comunicados e orientações de maneira direta para essa população.

Reuniões em bares, festas e bingos, abertura de estabelecimentos comerciais sem fiscalização e trânsito de pessoas sem máscaras fazem parte do cotidiano dos líderes comunitários. No fundo, dizem os relatos, há muita descrença da população na gravidade e capacidade de contágio da doença e as dificuldades de acesso à informação correta e o desencontro de recomendações estão no cerne dessa questão. Além disso, condições de moradia não permitem a adoção de várias medidas de prevenção. Em um ambiente em que as relações de convivência são imprescindíveis para a sobrevivência, as medidas de isolamento social se tornam incongruentes com a necessidade do cotidiano.

A pandemia trouxe impactos psicológicos importantes para a população vulnerável das comunidades, tais como medo de morrer, esgotamento, preocupação, desespero. Pelo menos 15% dos líderes comunitários descrevem situações de pânico e ansiedade entre as famílias, além de uma percepção de casos de síndrome do pânico e surtos agravados nesse momento de pandemia. As pessoas com diabete, pressão alta e outros problemas de saúde que buscam atendimento e não conseguem ser atendidas, e nem sabem a quem recorrer, são tomadas pela angústia e desesperança na busca por melhorias em suas condições de vida. Os retratos mais sensíveis de impacto psicológico, porém, parecem que vão além da situação de isolamento e dizem respeito à própria perspectiva de subsistência.

“Em sua opinião quais problemas ou situações podem ocorrer, piorar ou se agravar nas próximas semanas?” Esta foi a segunda pergunta feita às lideranças entrevistadas na primeira onda do Painel, durante os dias 5 e 11 de maio, cujas respostas foram processadas e codificadas no gráfico a seguir.

Recomendações

De acordo com a nota técnica, as informações coletadas sugerem que é urgente a ampliação e coordenação dos esforços para distribuição de alimentos como solução emergencial e não substitutiva de outras iniciativas estruturadas de proteção social. É importante que o setor público estimule as atividades de suporte social e psicológico às famílias que vivem cada dia mais em situação de desesperança e desagregação, ressaltam as autoras. Diante da desvirtuação e desinformação que geram descrença e confusão sobre a natureza e o real perigo que representa a covid-19, é fundamental que os diferentes níveis de governo, do federal, passando pelos estados e municípios, procurem se coordenar de modo a ajudar as comunidades a responderem com mais confiança às medidas de proteção contra os males do vírus, conclui a nota.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Publicado no Jornal da USP


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/pandemia-provoca-violencia-e-desesperanca-em-comunidades-carentes/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=pandemia-provoca-violencia-e-desesperanca-em-comunidades-carentes

China vencerá a batalha contra a pobreza como programado apesar da epidemia

Estratégia chinesa de erradicação da pobreza oferece novas...

Beijing, 19 mai (Xinhua) -- A China é capaz de cumprir sua meta de eliminação da pobreza este ano apesar do impacto da epidemia da COVID-19, declarou na segunda-feira Liu Yongfu, diretor do Escritório do Grupo Dirigente de Alívio da Pobreza e Desenvolvimento do Conselho de Estado.

Embora a epidemia traga novos desafios, a batalha chinesa contra a pobreza fez progressos positivos com os esforços de todos, disse Liu.

Até o final de 30 de abril, cerca de 97% das principais empresas e fábricas de alívio da pobreza haviam retomado a produção, enquanto 82% dos projetos de alívio da pobreza haviam sido reiniciados, informou o funcionário.

Segundo Liu, a China fortaleceu o apoio político para ajudar os trabalhadores migrantes presos em casa devido à epidemia a conseguir emprego localmente, como parte de seus esforços para impedir que as pessoas voltassem à pobreza.

As tarefas de alívio da pobreza do país estão quase concluídas, pois o número de pessoas empobrecidas caiu para 5,51 milhões no final de 2019 dos 98,99 milhões no final de 2012, com o número de municípios atingidos pela pobreza caindo para 52 em 2020.

Liu observou que a China acelerará os esforços para tirar os 52 municípios e 1.113 aldeias da pobreza, concentrando-se em satisfazer as necessidades das populações pobres em termos de educação obrigatória, atendimento médico básico, moradia segura e água potável. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/19/c_139069045.htm

Pandemia pode jogar 215 milhões de latino-americanos na pobreza

Cepal propôe aos países da região uma renda básica universal de emergência.

 

 

A pandemia do novo coronavírus e suas repercussões econômicas ameaçam apagar 13 anos de mobilidade social na América Latina e deixar 214,7 milhões de pessoas na pobreza, além de 83,4 milhões na pobreza extrema. O alerta é da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que propôs aos países da região estabelecerem uma renda básica universal de emergência.

Segundo a projeção, o México será o país com maior crescimento de pobreza na região, já que a pandemia expôs os problemas estruturais do modelo de desenvolvimento, as carências do sistema de proteção social e de políticas de bem-estar social muito insuficientes, frágeis e vulneráveis, declarou Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal.

No México se dará também o maior aumento de pobreza extrema – pessoas que não conseguem atender pelo menos metade de suas necessidades básicas –, com elevação de 4,8%. Este será o segundo país no quesito pobreza – perdendo apenas para Argentina –, com crescimento de 5,9%.

Por videoconferência, Bárcena destacou que as ações imediatas dos governos para enfrentar os efeitos econômicos da pandemia permitirão que não se caia novamente em outra década perdida, quando as crises econômicas nos anos 80 fizeram com que a região levasse 25 anos para recuperar os níveis de pobreza anteriores, que tampouco eram bons.

A Cepal propôs uma renda básica universal (para toda a população em idade de trabalhar). Os recursos para executá-la envolveriam gastos para além das margens definidas por alguns países e convocou os governos da região a fornecerem uma renda básica universal de emergência que seja focada em 34,6% da região, que hoje é pobre.

Um modelo de transferência por seis meses equivaleria a 3,4% do PIB, somados aos programas de transferência de renda adicionais. É quase metade dos 6,3% do PIB que a região perde por evasão fiscal. Segundo a Cepal, os mercados de trabalho da região são precários: existe uma alta proporção de empregos informais (53,1% em 2016, segundo a Organização Internacional do Trabalho.

Em 2018, apenas 47,4% dos ocupados aportavam sistemas de aposentadoria e mais de 20% dos ocupados viviam na pobreza). Mulheres, jovens, indígenas, afrodescendentes e imigrantes estão majoritariamente entre os trabalhadores informais.

Em qualquer cenário, a pobreza e a extrema pobreza aumentariam em todos os países. No quadro mais crítico, os maiores aumentos se dariam no México, Nicarágua e Equador. Também neste caso, a pobreza em geral aumentaria sobretudo nas três maiores economias da região – Brasil, México e Argentina –, além do Equador. Esse considera apenas os impactos no mercado de trabalho e a perda associada de renda.

Em caso de redução das remessas de familiares que migraram, a situação de pobreza daqueles que as recebem em seus países de origem deve se acentuar. Essa redução é provável, dado o forte impacto da Covid-19 na região e em países extra-regionais receptores de migrantes latino-americanos e caribenhos, como EUA e Espanha.

Em 2019, 77% da população latino-americana (470 milhões de pessoas) pertencia às camadas de baixa renda ou média baixa, com renda per capita de até três vezes a linha de pobreza, e não contava com poupanças suficientes para enfrentar uma crise. Em 2017, apenas 31,8% das pessoas economicamente ativas pertencentes a esses grupos estavam vinculadas ou contribuíam com o sistema de aposentadoria.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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O paraíso neoliberal

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Human Rights Watch retrato a preto e branco2018 antes do COVID-19 image  Na cidade dos anjos as crianças dormem na rua
António Santos  23-4-2020
«As filas de carros para os bancos alimentares estendem-se ao longo de dezenas de quilómetros. Só aqui, no condado de Los Angeles, 1,3 milhões de pessoas perderam o trabalho no último mês». As «cenas distópicas» da Califórnia, garante Charles Xu, responsável da União dos Inquilinos de Pasadena, nos arredores de LA, «espelham a crise da classe trabalhadora no quadro nacional».
Em apenas um mês, a pandemia atirou para o desemprego mais de 20 milhões de estado-unidenses mas são muitos mais os que podem perder a casa. «31 por cento dos inquilinos dos EUA já não conseguem pagar a renda de Abril. Estes números vão crescer nos próximos meses», explica Charles. Não se trata de futurologia: há três anos que o número de pessoas sem casa crescia paulatinamente nos EUA mas o pior, garante, virá depois do estado de emergência, quando terminarem as moratórias aos despejos: «a maioria das moratórias só se aplica a inquilinos que consigam provar que perderam rendimentos por causa da pandemia. Obrigam-nos a pagar a totalidade das rendas em atraso num prazo de 6 a 12 meses. Isto vai colocar milhões de trabalhadores sob o jugo de uma dívida esmagadora no meio da pior recessão desde os anos 30. Vai gerar ondas de despejos».
A comparação com os anos 30 é certeira. Em «As Vinhas da Ira», Steinbeck já descreve essa Califórnia que agora regressa: «Os inquilinos (…) eram também expulsos. E novas ondas estavam a caminho, novas ondas de espoliados e de gente despejada das suas casas, de coração endurecido, vorazes e perigosos». 
Como nos anos 30, perder o trabalho pode querer dizer perder a vida. «Para a vasta maioria dos trabalhadores dos EUA, quando se fica desempregado fica-se sem seguro de saúde. Estima-se que, nas próximas semanas, 35 milhões de americanos percam o acesso a cuidados de saúde», explica Charles.
Mas nem tudo são más notícias. «Estamos a assistir a uma incrível escalada na luta dos enfermeiros, dos auxiliares de acção médica, dos trabalhadores à jorna, dos auxiliares dos lares, dos trabalhadores com vínculos precários como na Amazon e na Instacart, dos imigrantes e dos milhões encarcerados por este Estado policial», assegura Charles. Faz parte dessa escalada a União de Inquilinos de Pasadena, que tem promovido protestos, ocupações de casas abandonadas do Estado e greves de renda em torno de três reivindicações: o fim dos despejos; o cancelamento das rendas durante a pandemia e a ocupação dos quartos de hotel e casas do Estado durante a pandemia. «A crise veio tornar mais claro do que nunca que o nosso trabalho é a fonte de toda a riqueza, que devia ser, como na letra da canção Solidariedade para Sempre, “nossa para dominar e para possuir”», conclui.
Da saúde à habitação, a pandemia deixou a descoberto a natureza predatória do capitalismo. Em Los Angeles, o condado dos EUA onde mais sem-abrigo dormem fisicamente nas ruas, o número de pessoas sem tecto explodiu, em menos de um mês, de 58 mil para 80 mil. Na infame Skid Row de LA, uma pequena cidade de tendas insalubres, a maioria dos moradores são mulheres e crianças. Se Fidel se podia orgulhar de recordar ao mundo que dos 100 milhões de crianças que esta noite dormirão nas ruas, nenhuma é cubana, era só justo que Trump morresse fulminado de vergonha, se tal coisa tivesse ou se ela matasse, porque desse exército mundial de meninos e meninas, quase dois milhões são estado-unidenses.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Trabalhadores em lay-off já recorrem a ajuda alimentar

 

O número de pedidos de ajuda alimentar disparou nos últimos tempos. Muitos deles são feitos por migrantes, trabalhadores independentes e em lay-off.

 

Com a introdução do lay-off, muitos portugueses foram enviados para casa numa tentativa das empresas pouparem custos face à pandemia de covid-19. Sem uma parta ou a totalidade dos seus rendimentos, muitas famílias atravessam dificuldades económicas e, de acordo com o JN, os pedidos de ajuda à Cáritas e ao Banco Alimentar não param de aumentar.

O Banco Alimentar já apoia 11 mil novas famílias, muitas das quais são constituídas por migrantes, trabalhadores independentes e em lay-off.

“A grande maioria das 20 Cáritas Diocesanas duplicaram o número de atendimentos“, diz o seu presidente, Eugénio Fonseca, que acredita que a realidade seja pior “quando apurados os dados das paróquias”.

 
 

“Mesmo quem entra em lay-off, perdendo um terço do salário, não consegue fazer face às necessidades fundamentais”, denuncia o presidente da Cáritas.

O Banco Alimentar, que já apoiava 400 mil pessoas, apoia agora mais 50 mil. “São pessoas que, de um momento para o outro, ficaram sem qualquer rendimento: trabalhadores independentes, por conta própria, da economia informal”, explica a presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome.

Ao Jornal de Notícias, Isabel Jonet conta ainda que o aumento repentino no número de pessoas a carecer de apoio levou a que fosse necessário reforçar os stocks. O reforço tem sido feito “com dinheiro angariado em campanhas e com doações”.

Eugénio Fonseca, da Cáritas, pede ao Governo um “plano de contingência social”, o mais rapidamente possível. A associação alocou 100 mil euros das suas reservas para distribuir em vales de compras e 30 mil euros para outras necessidades. Este dinheiro ajudará cerca de 2 mil pessoas de 500 famílias.

ZAP //

 
 

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https://zap.aeiou.pt/trabalhadores-lay-off-ajuda-alimentar-321223

EUA: A pandemia do coronavírus gera uma emergência alimentar para milhões de norte-americanos

Diversos veículos formaram uma fila de quilômetros em direção ao Banco de Alimentos da Grande Cleveland (BAGC) nos Estados Unidos. O engarrafamento era tão grande que muitas pessoas deixaram seus carros e andaram todo o caminho para pegarem um pouco de comida.

“É incrível e inconsolável ao mesmo tempo” disse Karen Pozna, diretora de comunicações do BAGC, ao descrever a chegada de 4 mil pessoas em busca de alimentos no dia 24 de março. “Nós fazemos a distribuição de comida todo mês e nunca tínhamos visto algo assim.”

A distribuição do dia 24 de março estabeleceu um recorde: dois terços das pessoas que compareceram ao Banco de Alimentos naquele dia estavam indo lá pela primeira vez. “Nós estamos tentando ajudar qualquer um que precise de comida nesse momento” disse Pozna. “Tanta gente foi dispensada e não sabe para onde ir.”

Não há falta de alimentos nos Estados Unidos: armazéns e os entrepostos federais estão lotados. As prateleiras vazias dos mercados refletem apenas o pânico da população, mas toda noite os trabalhadores fazem a reposição dos produtos. Todavia, a pandemia e a consequente crise econômica criaram uma emergência alimentar, sobretudo para os milhões que sofrem com a insegurança alimentar todo dia. 

A cena vista em Cleveland está se repetindo por todo o país em razão do número recorde de empregos perdidos. Em Cleveland, Pittsburgh, Dayton e outras cidades e estados, a Guarda Nacional está ajudando a empacotar e distribuir comida. Em San Diego, o Sindicato dos Trabalhadores dos Condados de San Diego e Imperial está ajudando a distribuir comida. 

Muitas das pessoas que estão se valendo dos Bancos de Alimentos passarão a receber seguro-desemprego como resultado da aprovação, em 27 de março, doAto de Auxílio, Alívio e Segurança Econômica do Coronavírus (AASECV), totalizando um auxílio de 2.2 trilhões de dólares. Outras pessoas, incluindo milhões de trabalhadores imigrantes  sem documentos, não fazem jus ao seguro-desemprego e aos demais benefícios do AASECV e estão passando por uma crise aguda.

OAto Famílias Primeiro em Resposta ao Coronavírus foi aprovado em 18 de Março e concedeu 1 bilhão de dólares em recursos emergenciais para o Programa de Assistência à Suplementação Nutricional (PASN, antes chamado defood stamps), para os bancos de alimentos e para a alimentação a preço reduzido para os estudantes na escola. OAto de Auxílio, Alívio e Segurança Econômica do Coronavírus adicionou mais 15 bilhões ao PASN, mas não aumentou a quantidade de benefícios ou a elegibilidade a estes. Outros 200 milhões de dólares foram destinados às colônias dos Estados Unidos, incluindo Porto Rico, Ilhas Virgens, Samoa Americana e Guam, e outros 450 milhões de dólares para os bancos de alimentos.

Antes da pandemia do coronavírus, a administração Trump propôs um corte nos benefícios do Programa de Assistência à Suplementação Nutricional em 30% nos próximos dez anos, conforme constou no Orçamento Federal de 2021. Os cortes eliminariam benefícios para muitos adultos e pessoas com necessidades especiais, além de restringir a elegibilidade a programas de alimentação gratuita ou a baixo custo para crianças.

Esses cortes, que os defensores dos movimentos contra a fome reputaram como cruéis e desumanos, vieram na forma de regulamentos que a administração Trump adotou após os Democratas terem rejeitado as mesmas medidas na Câmara dos Deputados. As regras do governo federal já cortaram benefícios do Programa de Assistência à Suplementação Nutricional a qualquer um que não trabalhasse um mínimo de 20 horas por semana. Mas muitos estados desprezaram essas normas por outros caminhos.

Caso essas regulações de Trump tivessem sido adotadas, as restrições seriam capazes de negar o acesso aos benefícios a cerca de 700 mil pessoas. Citando o impacto da pandemia, um juiz federal impediu que a regulação de Trump passasse a valer em 13 de março, após o Secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Sonny Purdue, ter se negado a suspendê-la. 

Ao mesmo tempo, os bancos de alimentos estão ficando sobrecarregados com a demanda. O aumento no custo dos alimentos (em parte devido à especulação), o declínio nas doações e o decréscimo na quantidade de voluntários estão ameaçando levar os bancos de alimentos ao colapso bem quando eles são mais necessários.

Os bancos de alimentos de Nova Iorque estão ficando sem recursos e correndo risco de fechar. O presidente da Câmara dos Vereadores de Nova Iorque, Corey Johnson, pediu com urgência para que o governador do Estado, Andrew Cuomo, e o prefeito da cidade de Nova Iorque, Bill de Blasio, concedam 50 milhões de dólares em crédito emergenciais para as entidades sem fins lucrativos que estão realizando a distribuição de comida.

“Estou como se fosse uma pessoa que chega na emergência e espera que os médicos façam a coisa certa” disse David Greenfield, CEO do Conselho Metropolitano, ao New York Post. “Todos nós estamos nessa situação emergencial e precisamos de ajuda. Basta o governo decidir se quer nos ajudar ou nos deixar morer.”

Nova Orleans está passando por uma emergência alimentar. A cidade sofre com o coronavírus e também com o colapso do turismo após uma situação crítica que os políticos da área de saúde ligam às celebrações deMardi Gras. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos abriu seu estoque de comida aos bancos de alimentos locais após forte pressão, incluindo políticas de Democratas e Republicanos eleitos.

A insegurança alimentar já afeta 37 milhões de americanos, incluindo 11 milhões de crianças. Muitas dessas crianças estão em famílias nas quais ambos os pais trabalham recebendo baixos salários. Eles sofrem para colocar a comida na mesa e muitas vezes têm de decidir entre pagar o aluguel ou comer.

“Famílias de baixa renda certamente não podem estocar comida” disse Rachel Cahill, uma defensora do movimento anti-fome e especialista em políticas públicas alimentares de Ohio. “Mesmo se mantivermos os benefícios do Programa de Assistência à Suplementação Nutricional e nos certificarmos que as escolas estão distribuindo cafés da manhã e almoços de graça, isso ainda não fará com que essas famílias consigam estocar comida.”

O fechamento das escolas está dificultando a operação dos programas de alimentação escolar custeados pelo governo federal, que servem 30 milhões de crianças. O governo Trump informou aos estados que eles devem agir por conta própria para achar equipamento de proteção pessoal e entregar comida aos estudantes.

Mas a distribuição de alimentos só continua por conta do trabalho heroico de diretores, trabalhadores do setor de alimentação, bedéis, motoristas de ônibus e voluntários. “Hoje chorei duas vezes”, escreveu Heather Smith Yutzy, diretor de uma escola pública de Chicago no Facebook. “Eu vi diversos pais de estudantes vindo à escola em busca de comida para as suas famílias. Homens fortes, trabalhadores, ótimos pais pedindo alimento para seus filhos. Fico muito feliz que temos comida, mas essa situação é difícil. A pandemia está atingindo muito fortemente as famílias, até mesmos aqueles que eu não achava que eram vulneráveis.”

“Sinto o estresse dos bedéis e trabalhadores do setor de alimentação que estão servindo centenas de pratos de comida por dia e estão no front interagindo com pessoas que podem transmitir o vírus. Eles estão sendo muito cuidados, mas essa situação é muito estressante para os trabalhadores, que não querem colocar em risco as suas famílias, incluindo recém nascidos e idosos. Está sendo uma semana longa. Cuidem-se.” disse Yutzy.

A diretoria de ensino de Seattle está oferecendo comida em 22 pontos ao redor da cidade. Da mesma forma, o sistema de ensino público da cidade de Nova Iorque está fornecendo café da manhã e almoço para que os alunos que deles necessitarem. Em Chicago, refeições podem ser retiradas em qualquer escola, independentemente de o estudante lá estar inscrito ou  não.

A cidade da Filadélfia está oferecendo comida gratuita para qualquer morador que necessite. Os alimentos estão disponíveis em lugares determinados, além dos locais em que os estudantes podem retirar almoços. O time de basquetePhiladelphia 76ers doou recursos para que 20 mil caixas de comida pudessem alimentar cerca de 160 mil pessoas.

A pandemia e a crise econômica evidenciaram a massiva desigualdade de classe, raça e gênero na sociedade dos Estados Unidos, bem como a enorme quantidade de riqueza de alguns. Elas demonstraram também a incapacidade do capitalismo de suprir as necessidades básicas dos seres humanos. A realidade enfrentada por milhões, que sofrem diariamente com a fome, a falta de um teto e de saúde, incluindo imigrantes sem documentos, pode se tornar uma realidade para dezenas de milhões de pessoas num instante.

Mas essa crise também demonstra o poder da solidariedade das pessoas e a necessidade de governos que as coloquem em primeiro lugar, com políticos eleitos, funcionários públicos e vizinhos que fazem o impossível uns pelos outros.

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Portugal | Mais ativos no combate à pobreza

 
 
 
Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião
 
Os portugueses são demasiado condescendentes e até indiferentes face à pobreza, fator que condiciona o nosso desenvolvimento.
 
Quando se fala de pobreza em Portugal a nossa mente conduz-nos, de forma automática, para a observação das condições de vida dos idosos, segmento da população que merece toda a atenção, dado as suas potenciais vulnerabilidades e o isolamento em que uma parte deles se encontra. Mas, o maior número de pobres e de pessoas em risco de pobreza são crianças, são cidadãos ativos no desemprego e trabalhadores com salários muito baixos.
 
Na definição e aplicação de políticas públicas relativas à pobreza, o foco tem sido colocado na busca de soluções para a reparação das suas consequências, por forma a apaziguar as consciências, e muito pouco no combate efetivo às suas causas. Até atores políticos que rechaçam sem hesitações a pobreza têm, por vezes, uma intervenção enviesada, por exemplo, nas propostas que fazem em sede de Orçamento do Estado ou na definição de centralidades das suas agendas políticas. Este cenário, associado a questões culturais inculcadas na nossa sociedade e a características de muitos atores sociais coletivos que atuam na área da proteção social, gera bloqueios crónicos e torna normal admitir-se que possa haver imensas pessoas dependentes da benevolência alheia, sem direito a plena cidadania.
 
 
Incomodemo-nos com a pobreza de forma positiva, ou seja, para a combater. Tomemos consciência de que Portugal dispõe da riqueza suficiente para diminuir e eliminar este flagelo. Não será fácil fazê-lo. As velhas causas subsistem sem as necessárias respostas e o nosso empobrecimento como nação e como povo acentua-se em vários aspetos: somos um país em rápido envelhecimento; mantemos uma grande emigração de jovens; não se está a garantir condições dignas de vida e de inclusão a boa parte dos imigrantes; as desigualdades no plano territorial não param de se acentuar.
 
As crianças são pobres quando as suas famílias também o são. As causas dessa pobreza são a falta de trabalho, a existência de baixos salários, a precariedade, os elevados custos da habitação, a inexistência de serviços de creches com preços acessíveis, as dificuldades destas famílias em ultrapassar barreiras no acesso a serviços fundamentais.
 
Na próxima terça-feira, dia 3, será apresentado em Lisboa um relatório sobre a pobreza em Portugal, da responsabilidade da Cáritas Portuguesa e da Cáritas Europa, que contém cinco significativas recomendações. A ação destes importantes atores está vocacionada para práticas de solidariedade centrada na proteção aos atingidos pela pobreza, mas a sua experiência e observação pode permitir-lhes delinear estratégias que alertem mais para o combate às causas e ajudem à necessária mobilização social e política de que tanto precisamos.
 
Aproveite-se a oportunidade também para refletir sobre algumas experimentações de ideias inovadoras para o desenvolvimento da ação social que vêm sendo impulsionadas e financiadas pela União Europeia, lembrando três coisas: a ação social será precisa muito para além da duração desse financiamento; ela jamais pode ser um produto de mercado; as formas de financiamento público nacional poderão ter necessidade de ajustes por particularidades locais e por outras exigências de capacitação.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/portugal-mais-ativos-no-combate-pobreza.html

O nunca por demais denunciado sofrimento infantil

 
Pode-se escolher esta, mas não faltam outras imagens de crianças a quem são impostas provações, que nunca poderão compreender. Por exemplo as que padecem. por estes dias, as que acompanham os pais na fuga desordenada ditada pelos bombardeamentos do exército de Bashar el Assad ao último recanto de território, que lhe falta conquistar. Há imenso sofrimento infantil por esse mundo e os foto-repórteres vão testemunhando-o sem grande esperança de motivarem os gestos internacionais que os debelassem.

 

A miúda da foto ao lado trabalha numa mina de carvão na Índia onde, com os colegas - alguns deles com apenas quatro anos! -, carregam cestas ladeira acima até ao topo da colina onde acumulam a montanha de mineral, que os camiões virão buscar. O peso que transportam em cada trajeto é quase o do próprio corpo e nenhuma delas usufruirá dos direitos fundamentais, que lhes deveriam ser reconhecidos, a começar pela saúde e educação. E isso num país onde se albergam algumas das maiores fortunas do mundo e que ambiciona rivalizar com a China no assalto à condição de superpotência rival dos EUA.

 

A expressão da miúda vale por mil palavras, que utilizássemos para exprimir a nossa indignação com a abjeta injustiça de que é alvo!

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/02/o-nunca-por-demais-denunciado.html

Berlim conta quase 2 mil sem-abrigo

 
Capital alemã foi a primeira do país a realizar um censo sobre a população sem-abrigo a fim de reformular suas políticas públicas sobre o tema. Número é bem menor do que o estimado anteriormente pelas autoridades.
 
Berlim possui 1.976 sem-abrigo, segundo resultado do primeiro censo sobre esse tema realizado na Alemanha. O número divulgado nesta sexta-feira (07/02) é bem menor do que o estimado por autoridades, que variava entre 6 mil e 10 mil.
 
Batizado de "Noite da Solidariedade", o primeiro censo de sem-abrigo da capital alemã foi realizado no final de janeiro. Cerca de 2,6 mil voluntários participaram na iniciativa.
 
Divididos em grupos de três e cinco pessoas, eles percorreram mais de 600 áreas de Berlim com o objetivo de encontrar os sem-abrigo e aplicar um questionário sobre idade, nacionalidade e há quanto tempo vivem nas ruas.
 
"Agora sabemos muito mais sobre a idade dos sem-abrigo, seu género, de onde eles vêm e, pela primeira vez, há quanto tempo eles são sem-abrigo", afirmou a secretária de Integração, Trabalho e Cidadania, Elke Breitenbach.
 
 
Durante a "Noite da Solidariedade", 942 sem-abrigo foram localizados em abrigos, 807 nas ruas, 154 em estações de metro e de comboios, 42 num café que abriga os sem-abrigo durante as noites de inverno, 15 em hospitais e 12 sob custódia da polícia.
 
Cerca de um terço dos sem-abrigo encontrados em ruas de Berlim concordaram em responder ao questionário do censo. Entre os entrevistados, 55% tinham entre 30 e 49 anos, e 84% eram homens. A maioria deles, 47%, estava vivendo nas ruas há mais de três anos. Outros 23%, entre um e três anos.
 
O censo mostrou ainda que 49% dos sem-abrigo eram alemães; 39%, cidadãos de países da União Europeia; e 11%, estrangeiros de fora do bloco europeu.
 
Pouco dias antes da "Noite da Solidariedade", a iniciativa foi criticada. Uma associação de sem-abrigo considerou o censo degradante e ameaçador e duvidou sobre que uso teriam esses dados. É possível que muitos moradores de rua tenham fugido de participar no censo.
 
Segundo Berlim, as informações descobertas no levantamento servirão de base para a formulação de políticas públicas voltadas às necessidades de sem-abrigo. Atualmente, a prefeitura de Berlim investe 8,3 milhões de euros por ano em 27 projetos de ajuda aos sem-abrigo. Com as novas diretrizes, será possível abordar a questão buscando soluções direcionadas.
 
A capital alemã segue Nova York e Paris na tentativa de fazer um panorama mais preciso sobre sua população de rua. Segundo um estudo publicado em 2019 pelo Grupo Federal de Trabalho para Pessoas Sem Moradia (BAG), o número de sem-abrigo na Alemanha cresceu 4,8% em 2018, com pelo menos 678 mil pessoas sem acomodação permanente. Destas, 41 mil moravam nas ruas.
 
Entre os fatores que podem explicar esse crescimento estão a diminuição do número de moradias a preços acessíveis, cortes em programas de habitação social e a elevação dos níveis de pobreza.
 
Deutsche Welle | CN/dw/ots

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Um terço dos habitantes das Beiras e Serra da Estrela vive em “condições indignas”

hapal / Flickr

 

Cerca de um terço dos habitantes das Beiras e Serra da Estrela “vive em condições indignas” e em situação de “grave carência habitacional”, concluiu um estudo do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), hoje divulgado.

 

Segundo um comunicado do IPG enviado à agência Lusa, “o número de famílias que vivem situações de grave carência habitacional na região das Beiras e Serra da Estrela ultrapassa os 30%”, de acordo com estudos desenvolvidos por investigadores que participam em projetos promovidos na Unidade de Investigação do Desenvolvimento do Interior daquela instituição de ensino superior.

“São muitas as famílias que residem em habitações precárias na região das Beiras”, refere o IPG.

O IPG, em conjunto com as Câmaras Municipais da região de influência, está a fazer “um diagnóstico à forma como as pessoas vivem e a criar soluções habitacionais“.

 
 

O diagnóstico surge através de uma prestação de serviços que envolve professores e estudantes do IPG integrados no processo de ensino aprendizagem desenvolvido nos TESP (cursos técnicos superiores profissionais), licenciaturas e mestrados.

“O número de pessoas a viver em situações precárias é maior do que imaginávamos“, refere o presidente do IPG, Joaquim Brigas.

O projeto em curso identifica agregados familiares e os cidadãos que vivam em condições habitacionais consideradas indignas numa dada região e, deste modo, pretende encontrar alternativas para eliminar problemas como acessibilidade, habitabilidade, saneamento e conforto térmico.

“Com estas medidas, tornamos possível a habitação como um direito e garantimos melhores condições a quem não tem possibilidade de as ter”, afirma o responsável.

O IPG “ajuda a que sejam respondidas as necessidades básicas da população e a revitalizar os territórios de baixa densidade” na qual se encontra o Politécnico.

“Estamos a delinear estratégias na nossa área de influência através de uma visita porta a porta a famílias que vivem tanto em zonas rurais, como em zonas urbanas”, explica ainda Joaquim Brigas.

O documento pretende desenhar a Estratégia Local de Habitação (ELH) para um concelho em Portugal e possibilitará a elaboração de uma candidatura ao programa “1º Direito”, uma medida de apoio público à promoção de soluções habitacionais destinadas a cidadãos e agregados que vivem em condições de carência financeira, entre outros programas de apoio.

O “1º Direito” enquadra-se numa série de outros programas criados pela Estratégia Nacional para a Habitação, cujo objetivo principal foi o de facilitar o acesso das famílias portuguesas à habitação através da reabilitação urbana, arrendamento habitacional e requalificação dos alojamentos, lembra o IPG.

Os programas relacionados com a habitação, as mudanças sentidas e as metas para o futuro serão discutidos na conferência “Nova Geração de Políticas de Habitação”, a realizar na terça-feira, pelas 14:30, no auditório do IPG.

A sessão terá como oradora Ana Cruz, diretora de Gestão do Norte do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana.

// Lusa

 
 
 

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O sistema global a caminho do colapso financeiro e climático?

A crescente desigualdade, bem evidente na pauperização acelerada dos assalariados, e a sobrevivência do modelo económico que sustenta e que tem transformado a democracia ocidental numa espécie de catalisador duma forma moderna de escravidão económica não se pode prolongar nem servir para adiar as medidas necessárias à contenção do desgaste provocado pelo modelo de exploração desbragada dos recursos naturais.

 

 

De acordo com o Índice Multidimensional de Pobreza, publicado em meados de 2019 pela ONU, mais de um quarto da população mundial (2 mil milhões de pessoas) vive em situação de pobreza e, segundo dados do Institute of International Finance de meados do mesmo ano, o endividamento mundial subiu para 250,9 biliões de dólares (228 biliões de euros), valor que fixa um novo recorde de 320% do PIB mundial.

O que antes podia ser visto com um mar de dívidas no qual tentávamos flutuar tornou-se rapidamente num oceano de dívidas no qual arriscamos afundar-nos todos.

Esta enorme quantidade de dívida, uma imaginária riqueza de faz de conta, que o capitalismo global trata como o seu bezerro de ouro ameaça agora colapsar estruturalmente, o que não é apenas um problema para os 1% de mega ricos que ainda exercem uma influência determinante no aspecto político-económico e na própria vida colectiva. O colapso originado pela última crise reduziu milhões de trabalhadores e de antigos proprietários imobiliários a uma luta pela sobrevivência que não terminou para a maioria deles, hipocritamente associados a uma suposta recuperação económica (que apenas o foi para o factor capital) que o que conseguiu foi reduzir os salários de quem trabalha e aprofundar o processo de concentração da riqueza. Nada de profundamente diferente do que assistimos nos primórdios do capitalismo industrial, no século XIX, quando os camponeses foram empurrados dos campos para as fábricas para criarem riqueza para os seus proprietários, enriquecendo-os ao ponto de ultrapassarem a riqueza dos anteriores senhores feudais.

Agora, o capital global criou uma ínfima minoria pessoas super-ricas a ponto de apenas três bilionários norte-americanos terem tanta riqueza combinada quanto 150 milhões dos seus concidadãos, tantos são os que esperam obedientemente para ir às urnas e votar na continuação do sistema que nos dirige em direcção a mais um colapso financeiro, quase seguramente mais doloroso que o anterior. O recurso a fundos públicos para resgatar a riqueza privada salvou-a temporariamente mas não se pode permitir que tal se repita, especialmente quando se registam, um pouco por todo o lado, contestações e revoltas em consequência da degradação das condições de vida da generalidade das populações, que sentem a sua cada vez mais palpável miséria.

A aproximação de um novo potencial colapso desta economia de casino em que se transformou o capitalismo financeiro global parece cada vez mais real, mas os seus maiores malefícios ainda poderão ser evitados, mesmo que os principais defensores do sistema sintam que isso é inevitável e a sociedade, ou seja os trabalhadores assalariados, apenas terão que aprender a viver com mais austeridade e muito menos conforto. Preocupados em mudar o acessório para que no essencial tudo continue sem alterações , os poderes estabelecidos (económicos e políticos) têm contado com a colaboração dos meios de comunicação que regularmente noticiam os pequenos fait divers enquanto procuram minimizar as notícias das multidões de pessoas frustradas que da França à Nigéria ou do Líbano ao Chile se erguem, como raramente antes o fizeram, contra a autoridade e a regra que as reduziu a níveis de vida cada vez mais inferiores e degradantes.

E esse mesmo sistema está na raiz de um problema de maior alcance, reduzido ao chavão das alterações climáticas pelos mesmíssimos oportunistas que não hesitariam em usar um lança-chamas para apagar um incêndio, ou que pretendem fazer depender de um sistema de lucro privado as iniciativas para acabar com o potencial de destruição do planeta e dos seus habitantes originado pelo mesmo sistema de lucro privado. Enquanto desenvolvemos planos para limpar a trapalhada que criámos na natureza recorrendo ao mesmo sistema que lhe deu origem, muitos começam já a perceber o jogo de interesses que leva à contínua alteração das formas de combate à poluição que mais não é que uma via de alternar os titulares dos lucros assim gerados. Este é o modelo que originou lucros crescentes para uma minoria que assim ganhou poder para dominar e comercializar bens essenciais como o ar, a água, a terra, a saúde, o bem-estar, transformando tudo em mercadorias (bens transaccionáveis) que só podem ser compradas e vendidas num mercado para o qual teremos que ter os meios (riqueza) para participarmos e que aos excluídos apenas oferecerá uma alternativa: a de morrerem.

A crescente desigualdade, bem evidente na pauperização acelerada dos assalariados, e a sobrevivência do modelo económico que sustenta e que tem transformado a democracia ocidental numa espécie de catalisador duma forma moderna de escravidão económica não se pode prolongar nem servir para adiar as medidas necessárias à contenção do desgaste provocado pelo modelo de exploração desbragada dos recursos naturais. A este modelo de exploração desenfreada dos recursos globais em benefício de uma minoria terá que se contrapor (e sobrepor) outro, mais natural e racional, pensado colectivamente e globalmente, onde o lucro individual seja obrigatoriamente substituído pelo interesse geral.


 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-sistema-global-a-caminho-do-colapso-financeiro-e-climatico/

Quase 43% dos hondurenhos vivem em situação de pobreza

A maioria da população pobre reside nas regiões rurais do país centro-americano, que foi classificado como o mais pobre de todo o continente pela Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas.

Da população em situação de pobreza nas Honduras, 60,1% reside nas regiões ruraisCréditos / elheraldo.hn

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial (BM), em 2018 a pobreza atingia 42,7% dos lares nas Honduras.

Entretanto, as entidades referidas actualizaram a metodologia utilizada e, de acordo com as conclusões do processo concluído em Janeiro, determinaram que o limiar da pobreza se situa num rendimento mensal de 2697 lempiras (cerca de 109 dólares) para os habitantes das cidades e de 1424 lempiras (cerca de 59 dólares) para os residentes nas regiões rurais, indica a TeleSur.

Assim, os dados recentemente actualizados referem que cerca de 43% da população hondurenha vive abaixo do limiar da pobreza e tem dificuldades em aceder a bens e serviços essenciais como alimentos, educação, saúde, roupa ou transportes. Da população em situação de pobreza, 38,4% vive nas cidades e 60,1% no campo.

Recentemente, o LIBRE (Partido Liberdade e Refundação) criticou o orçamento do Estado para 2020, sublinhando que «o nível de crise entre a população está presente em todos os indicadores do modelo neoliberal e na dor dos migrantes».

Denunciou, além disso, que seis em cada dez hondurenhos estão desempregados ou subempregados e que quatro em cada dez vivem em situação de pobreza extrema.

Há alguns dias, uma sondagem de opinião a que a Prensa Latina faz referência (CID-Gallup) destacava o mau rumo do país, sobretudo a nível económico. A mesma fonte indica que 55% dos hondurenhos reprovavam a governação do presidente Juan Orlando Hernández.

A Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (Cepal) define as Honduras como o país mais pobre de todo o continente – uma realidade de que tentam escapar milhares de migrantes todos os anos, sobretudo com destino aos Estados Unidos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/quase-43-dos-hondurenhos-vivem-em-situacao-de-pobreza

O mundo deve reconhecer "progresso tremendo" da China na redução da pobreza, diz chefe do WFP

Resultado de imagem para David Beasley

Davos, Suíça, 21 jan (Xinhua) -- O mundo deve reconhecer o "progresso tremendo" da China em acabar com a pobreza e fome na última década, disse David Beasley, diretor executivo do Programa Alimentar Mundial (WFP) das Nações Unidas.

"O mundo já reconhece, ou deve reconhecer, que progresso tremendo que a China fez, com a pobreza caindo em mais de dois terços nos últimos cinco anos, e a fome reduzindo-se pela metade durante o período do ano 2000 a 2015", disse Beasley à Xinhua em uma entrevista recente no âmbito da 50ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos.

"Embora a China tenha apenas cerca de 9% da terra arável do mundo, alimenta cerca de 20% da população do mundo", acrescentou.

A China tirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas, representando mais de 70% da redução da pobreza no âmbito mundial.

Em 2020, a China deve entrar na fase mais dura de assegurar uma vitória total na batalha antipobreza, como ela está na etapa final de alcançar a primeira meta centenária de construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos.

A experiência da China no combate à pobreza e fome não só beneficia ela própria, mas também outros países no mundo.

"A China continuará a desempenhar um papel positivo ao passo que compartilha sua experiência e expertise com outros, como ela faz com o WFP e com o Escritório do WFP na China para ajudar a facilitar o compartilhamento de conhecimentos", disse Beasley.

A fim de solucionar os problemas como a fome, não é suficiente simplesmente alimentar a população, disse Beasley, acrescentando que o "mandato duplo" do WFP é "salvar vidas, mas também as mudar, por meio do desenvolvimento que pode tornar os países mais fortes".

"A meta é se concentrar mais no longo prazo, nas raízes, e como criamos uma transformação estratégica que permita a uma comunidade, região ou país terem sucesso por conta própria", disse.

"Nós temos que ajudar as comunidades e nações a criar mercados funcionais, formar os filhos deles, melhorar as perspectivas para os pequenos agricultores", disse Beasley, acrescentando que "essas todas são áreas em que a experiência chinesa pode ajudar a ensinar o mundo".

Ele elogiou a China como "um líder em cooperação Sul-Sul" em termos de sua expertise em segurança alimentar, nutrição e redução da pobreza.

A China trabalhou com o WFP em um workshop de treinamento em 2018 para partilhar sua experiência na gestão de reservas nacionais de grãos e sistema alimentício.

A China também enviou especialistas para lugares como África para oferecer treinamento técnico para funcionários agrícolas e pequenos agricultores, acrescentou.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/21/c_138724115.htm

O combate à pobreza no capitalismo

Em entrevista à TV 247 (https://www.brasil247.com/economia/eduardo-moreira-denuncia-plano-dos-ruralistas-para-destruir-o-brasil) intitulada Eduardo Moreira denuncia o plano para destruir o Brasil, o economista Eduardo Moreira discorre de maneira brilhante e didática sobre como o agronegócio associado ao latifúndio está executando um plano de destruição do Brasil, cujas consequências, se nada for feito para impedi-lo, serão o estrangulamento e o consequente desaparecimento do pequeno proprietário e da agricultura familiar e uma maior concentração de terras nas mãos do latifúndio.

A agricultura familiar e a pequena propriedade são responsáveis pela produção de alimentos no Brasil, daqueles alimentos que são colocados na mesa dos brasileiros e a agricultura familiar também é o maior empregador no campo. O desaparecimento de ambos significará a repetição no Brasil de uma contradição terrível e funesta, o aumento da produção de grãos e carne associada à fome, como ocorreu na Índia no final do século XIX: os grãos e a carne serão produzidos pelo agronegócio associado ao latifúndio e destinados à exportação em dólar. A carne cara ficará inacessível ao consumidor brasileiro e os grãos produzidos, majoritariamente soja, além de não fazerem parte da culinária nacional, irão alimentar a criação animal em outros países. A fome será causada pela falta de produção de alimentos para consumo interno.

Este plano já havia sido denunciado pelo economista em vídeo publicado em seu canal em 10 de janeiro de 2020 (https://www.youtube.com/watch?v=NYcgsSy9Tnk&feature=share&fbclid=IwAR0FZmYHIAXkfyOVRuEC3TLpJRRil_luxqmi17vV099Ss3g4PADYAzNFFSY) e tem como seus sustentáculos o fim dos programas de aquisição de alimentos produzidos pela agricultura familiar, a alta do dólar, taxa de juros baixa para o grande proprietário e alta para o pequeno agricultor, a liberação de agrotóxicos, a entrega do título de propriedade para o assentado pelas políticas de Reforma Agrária, o afrouxamento das leis ambientais e a permissão para que estrangeiros possam adquirir terras cultiváveis no Brasil. Este plano se inicia no governo Temer e se acelera no governo Bolsonaro. Não vou entrar aqui nos detalhes que estão muito bem expostos nos dois vídeos acima.

Estas ações visam aumentar a concentração da renda no campo, bem como a concentração da propriedade agrária. Hoje, 1% dos proprietários de terra no Brasil são donos de 50% das propriedades rurais brasileiras.

A proposta que o economista coloca para reverter este quadro de destruição do país é uma grande e ampla aliança de combate à pobreza. Neste ponto entraremos na questão fundamental deste artigo: é possível acabar com a pobreza no sistema capitalista? É possível acabar com a pobreza mantendo um modo de produção que tem como característica imanente a concentração de renda, a transferência de renda do mais pobre para o mais rico?

O capitalismo é um grande jogo de soma zero no qual o ganho do capitalista é resultado da perda do trabalhador. Se repararmos atentamente na distribuição da riqueza mundial veremos que os países onde a pobreza está sob controle estão, quase todos, no hemisfério norte. As exceções são a Austrália e a Nova Zelândia. Mesmo no hemisfério norte, alguns países que tinham esta questão resolvida, hoje em dia veem a pobreza ressurgir rápida e tragicamente como ocorre na França, nos EUA, na Inglaterra, por exemplo. Os países escandinavos ainda possuem uma situação privilegiada no que concerne ao controle da pobreza.

 

O combate à pobreza nos países desenvolvidos só é possível devido à transferência de renda dos países subdesenvolvidos para eles. Aqui estou utilizando estas duas categorias por estarem mais de acordo com a conjuntura porque a categoria país em desenvolvimento é uma armadilha do Consenso de Washington para suavizar a realidade das relações desiguais e marcadas pelo imperialismo entre os países. Esta transferência ocorre, prioritariamente, por meio do comércio internacional com os países subdesenvolvidos vendendo minerais, alimentos e produtos não manufaturados ou pouco manufaturados – que possuem menor valor agregado - para os países desenvolvidos e estes vendendo produtos com alta tecnologia – que possuem maior valor agregado - para os países subdesenvolvidos.

Para ficarmos só nos países escandinavos, segundo o site swedcham.com.br (https://www.swedcham.com.br/publico/pesquisa-opiniao/Panorama-das-Empresas-Suecas-no-Brasil-2012.pdf) 66 empresas suecas instaladas no Brasil faturaram cerca de 36 bilhões de dólares em 2012. Uma parte foi reinvestida aqui, mas a maior parte foi transferida para o país sede onde pagou impostos altos necessários para manter o estado de bem-estar social que implementa as políticas públicas que asseguram a grande qualidade de vida do povo sueco.

Segundo o site https://petronoticias.com.br/archives/12315, em 2012 encontrávamos 150 empresas norueguesas instaladas no Brasil com investimentos que ultrapassavam 30 bilhões e dólares e a maior parte desse dinheiro foi transferido para a Noruega onde sustentaram as políticas do estado de bem-estar social.

 

Em entrevista publicada no site da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/FIESP em 2013 (http://fiesp.com.br/noticias/entrevista-com-ministro-do-comercio-exterior-ra-finlandia/), o Ministro do Comércio Exterior da Finlândia afirmava que havia neste ano cerca de 40 empresas finlandesas com filias no Brasil que geravam um volume de negócios de mais de 2,7 bilhões de euros em 2008, cujo maior montante também foi transferido para a Finlândia.

Os dados não são muito recentes, mas servem para ilustrar o raciocínio. Há uma enorme transferência de renda do Brasil para esses três países e se levarmos em conta a quantidade de dinheiro transferido de outros países subdesenvolvidos para Suécia, Noruega e Finlândia entenderemos porque esta transferência de renda é fundamental para manter a alta qualidade de vida neles encontrada. Aqui não estamos tratando do volume de dinheiro transferido dos países subdesenvolvidos pelas empresas francesas, estadunidenses, inglesas, italianas, alemãs... para os países onde estão localizadas suas sedes. A sangria é enorme; o fluxo de capitais do sul para o norte chega a somas astronômicas, empobrecendo os países do sul e enriquecendo os do norte.

Como gostam de afirmar os liberais “não existe almoço de graça” no capitalismo, completo eu. É um jogo de soma zero no qual os países subdesenvolvidos perdem sempre; mesmo que estas empresas criem empregos e riqueza nos países onde instalam suas filiais, o que elas transferem para seus países de origem é muito mais do que o que deixam onde se instalam.

Este processo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos é imanente ao capitalismo e ocorre no comércio entre as nações, entre regiões (no Brasil, dos estados menos industrializados para os mais industrializados), entre cidades, do campo para a cidade.

O processo fundamental de transferência e concentração de renda se inicia na extração da mais-valia pelo capitalista, o trabalho não pago executado pelo trabalhador. A partir desta relação básica e fundamental, definidora do capitalismo, este processo se espalha para toda as relações de troca onde haja riqueza envolvida.

Programas de combate à pobreza resolvem o problema em um país, mas acirra o problema em outro. Os empresários dos países do Mercosul, por exemplo, reclamaram durante muito tempo que a relação do Brasil com eles se caracterizava como uma relação imperialista porque seus países sempre compravam mais do Brasil do que vendiam para ele, ou seja, eles reclamavam que havia uma transferência de renda para o Brasil partir das relações econômicas. No capitalismo, isto é natural porque a economia mais pujante tem condições de ditar as regras nas relações comerciais, como os preços das mercadorias, por exemplo. Esta renda transferida de Argentina, Uruguai e Paraguai para o Brasil contribuiu para, por exemplo, a implementação do Auxílio Gás, do Bolsa Escola, do Bolsa Família e outros importantes programas de combate à pobreza no Brasil.

Sob o capitalismo, estes programas resolvem ou amenizam a pobreza em um local e a intensificam em outros, transferem a riqueza de um local para outro. Só seria possível a erradicação completa da pobreza no mundo capitalista se as taxas de lucro dos capitalistas fossem drasticamente reduzidas e distribuídas pela população mundial. A pobreza poderia até ser erradicada num mundo ideal (mas o mundo ideal não existe), mas a exploração não acabaria porque se há lucro, há trabalho não pago e há concentração de renda, há exploração do trabalhador pelo capitalista.

Para erradicar a pobreza no Brasil é preciso taxar as grandes fortunas, reduzir o lucro do agronegócio e do setor financeiro por meio de uma maior carga tributária, por exemplo, e fazer com que o dinheiro arrecadado seja utilizado em políticas públicas: reforma agrária, programas, políticas e ações que protejam a agricultura familiar, o pequeno empresário, as comunidades tradicionais, que gerem empregos qualificados e salários que permitam ao trabalhador viver e não apenas sobreviver. Políticas públicas que protejam o trabalhador da exploração desenfreada, que implementem um sistema de saúde e educacional que assegurem serviços de qualidade, que resolvam o déficit habitacional, que permitam ao trabalhador viver com dignidade, assegurar transporte público eficiente e barato ou com a catraca livre. Este tipo de políticas públicas representaria um ganho real no salário do trabalhador, reduzindo suas despesas. Como o Brasil tem uma grande parte de sua população abaixo da linha da pobreza, em um primeiro momento estas políticas públicas gerariam um pequeno ganho salarial para a massa de trabalhadores que consumiria mais, o que levaria ao aumento da produção e, a partir de determinado momento, com o constante crescimento da renda do trabalhador, o mercado interno não conseguiria consumir uma quantidade suficiente de produtos necessários para sustentar seu crescimento. Seria necessário buscar mercado consumidor e matérias-primas no comércio internacional, ou seja, o mesmo ciclo pelo qual já passaram os países desenvolvidos. Mas isto seria no mundo ideal. Antes de chegarmos a este estágio precisaríamos convencer o agronegócio, os rentistas, as grandes fortunas a distribuírem seu capital e renda de maneira pacífica e generosa. O golpe de 2016 já deixou bem claro que a classe dominante brasileira não está muito disposta a contribuir com este objetivo. Além do mais, se conseguíssemos alcançar o estágio de disputar o mercado mundial de consumidores e matérias-primas com outros países isto criaria um dilema ético: estaríamos nós ex-subdesenvolvidos dispostos a atuar de maneira imperialista sobre outros povos do planeta? Na lógica capitalista do “farinha muita meu pirão sempre”, acho que esta questão não se colocaria porque não creio que alguém ficasse com dor de consciência ao passar de explorado a explorador. Não é uma questão de ética: é a lógica do capital. É assim que caminha a humanidade capitalista.

Ainda restaria a questão ecológica para resolver porque o crescimento econômico de acordo com os princípios em que ele se dá hoje significaria, necessariamente, exploração de mais recursos naturais. O mundo aguentaria mais um país desenvolvido com mais de 200 milhões de habitantes, consumindo segundo a lógica da criação destrutiva?

Voltando ao título deste artigo, é possível acabar com a pobreza em um país capitalista, mas sempre às custas de um outro. Não é possível acabar com a pobreza no mundo capitalista porque a concentração de renda é imanente ao capitalismo e alguém sempre tem que perder. A pobreza pode ser controlada e superada em alguns países, mas a exploração do trabalho não. Sem mais-valia, sem o trabalho não pago não há capital. Sem capital, não há capitalismo. Logo, o problema primordial a ser combatido é o capitalismo.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/o-combate-a-pobreza-no-capitalismo

China assombra o mundo e tira 850 milhões de pessoas da pobreza

A China está próxima de extinguir a pobreza. Os dados são espetaculares. E os chineses são mais rigorosos que o Banco Mundial na definição de 'linha da pobreza'. Isso, em um governo oficialmente "comunista".

E pensar que Lula realizou praticamente a mesma proeza em um país capitalista selvagem, infestado por uma elite predatória e apátrida, com forte corrupção empresarial e dono da imprensa mais desqualificada do mundo.

Essa imprensa brasileira celebra a China neste momento, até para fazer doer mais ainda sua indiferença com o combate à pobreza bem sucedido dos governos Lula e Dilma.

A China tirou 850 milhões de pessoas da pobreza desde 1978. É a maior economia do mundo no índice 'Big Mac' (Paridade do Poder de Compra): seu PIB de 2017 foi de 23.159 bilhões. A União Europeia vinha em segundo lugar, com 20.989 bilhões e os EUA só em terceiro, com 19.391 bilhões.

Hoje, a diferença deve ser muito mais elástica, porque a China cresce muito mais que seus principais concorrentes.

Sim, a China, um país comunista.

Talvez, tenha chegado a hora de atualizar as configurações sobre o sentido de "comunismo". Aquele comunismo do passado que produzia pobreza e escassez me parece extinto.

Esse é o dilema político deste momento: a China se tornou a maior potência econômica mundial, com seu comunismo 4.0 que, para desespero dos capitalistas, não deixa de ser comunismo.

Muitos economistas liberais se negam a aceitar que a China seja comunista, justamente porque não têm argumentos para admitir o sucesso econômico do país. Eles travam uma batalha semântica. Dizem que "aquilo" não é comunismo.

 

Ora, e quem define o que é comunismo, cara pálida?

Na verdade, o comunismo não ficou parado no tempo, como o capitalismo, essa máquina de produzir pobreza social.

Duvidam?

Os EUA têm 140 milhões de pessoas na pobreza, diz a ONG Poor People's Campaign. É importante dizer que a linha da pobreza estadunidense é diferente da linha da pobreza do Banco Mundial (lá são US$ 31/dia, no mundo, US$ 1,9).

Mas não deixa de ser um escândalo. O berço do capitalismo com 43% da população em condições de miséria é uma senhora pedra no meio do caminho do liberalismo.

E os EUA não têm SUS nem universidade pública.

O mundo vive essa tensão conceitual. Com a internet, houve uma onda de informações mentirosas que espalharam o pânico em leitores preguiçosos (que não sabem checar informações), mas também uma tsunami de informações diretas, sem o filtro editorial das agências internacionais pró-Ocidente, que também espalharam um pânico, só que o pânico de se deparar com a verdade pela primeira vez na vida.

Esse volume colossal de informações, sob o crivo de milhões de usuários de rede que sabem ler (que são a melhor checagem e significam a 'sobrevivência' da informação nas redes não instrumentalizadas), amenizou o isolamento de regimes supostamente "fechados".

Isso explica em parte o fenômeno chinês de crescimento, distribuição de renda e produção das tecnologias, estas últimas que, ao que tudo indica, irão dominar o mercado internacional nos próximos anos (a tecnologia 5G, por exemplo).

Eu diria: o capitalismo nunca esteve tão em xeque como no presente momento. E a opção a ele não é mais o comunismo obsoleto dos anos 50, mas o comunismo chinês de 2020, que produz uma soberania tecnicamente irretocável, uma diplomacia inteligente e protege seu povo e sua força de trabalho de maneira obsessiva.

É praticamente a antítese dos EUA, que empesteiam o mundo com ódio e violência.

E pensar que Lula promoveu essa engrenagem virtuosa de produção de riqueza dentro dos parâmetros capitalistas.

Seguindo esse raciocínio, Lula seria a última esperança do capitalismo, pois ele construiu um governo capitalista que deu certo e que seguiu princípios humanistas de combate à pobreza e à desigualdade.

Tristes tempos em que nós, brasileiros, temos de lamentar a proscrição criminosa de uma das maiores experiências de governança pública da história - para erigir o mais abominável dos seres e maior destruidor de futuro que a humanidade já teve a infelicidade de testemunhar.

Talvez o PT seja a eterna vacina contra a procrastinação estrutural da sociedade brasileira: nos tempos de Lula e Dilma, o Brasil era o país do presente, incensado pelos principais analistas internacionais como uma espécie de ponto de equilíbrio econômico global.

Tinha superado a síndrome de "país do futuro".

Com Temer e Bolsonaro, o Brasil sequer volta a ser o país do futuro, do presente ou do passado. Não há tempo verbal que se permita conceder algum significado a "isso" que assistimos por aqui.

O Brasil mergulhou na solidão geopolítica e na devastação moral interna para ser o "país da humilhação".

Hoje, posso dizer com frieza de um cético: é uma humilhação ser brasileiro.

Lula e o PT, no entanto, são as nossas reservas de esperança. São entidades que convivem democraticamente com a complexidade brasileira, teimosos feito a Dona Lindu.

Eles reforçaram a democracia brasileira enquanto ela existiu. Perderam eleições, sofreram ataques covarde, mas tiveram a decência e a dignidade de travar um debate civilizado com toda a sociedade brasileira até chegarem ao governo e demonstrarem uma gigantesca capacidade técnica, conceitual e moral para conduzir o país, com resultados absolutamente impensáveis nos tempos sombrios de FHC, para lembrar o mais apagado dos antecessores.

Para eles, nada nunca estará perdido. São os inimigos reais do sistema (e os mais perigosos, pois usam o próprio sistema para vencê-lo).

Esta semente ninguém pode desplantar.

Portugal | Crise continua, impostos cresceram e preço das casas é vergonhoso

 
 
O presidente da Caritas Portugal avisou hoje que a crise no país ainda é uma realidade, criticou o crescimento dos impostos indiretos e classificou de vergonhoso os preços praticados na habitação a nível nacional.
 
"A crise não é passado", sublinhou Eugénio Fonseca, à margem de uma visita a Macau, no âmbito do reforço das relações com a Caritas local.
 
O responsável disse que "é vergonhoso o que está a acontecer com a habitação", lamentando os altos preços praticados no mercado imobiliário, "não só no Grande Porto e na Grande Lisboa", que "estão a atirar as pessoas para as periferias".
 
Eugénio Fonseca ressalvou que Portugal "está melhor do que em 2010 e em 2014", que o emprego cresceu, mas destacou que é preciso perceber qual a sua natureza, se é "estável ou precário".
 
Contudo, lamentou, os dados de novembro do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que "há gente que é pobre apesar de trabalhar, de ter um emprego".
 
Por outro lado, "há um crescimento dos impostos indiretos" com impacto no rendimento das famílias, dificultando a resposta dos agregados em situações imprevistas e de emergência, sustentou.
 
As declarações de Eugénio Fonseca foram feitas após um encontro no Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, acompanhado pelo responsável pela Caritas de Macau, Paul Pun.
 
A visita que termina na sexta-feira serve para reativar a colaboração com a congénere de Macau, com a qual a Caritas Portugal vai desenvolver projetos conjuntos em países como São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné-Bissau, no âmbito da qualificação de quadros qualificados.
 
"Vamos contar com o apoio da Caritas de Macau para projetos internos, nomeadamente no apoio a desempregados", indicou Eugénio Fonseca à Lusa no início de dezembro, referindo-se a iniciativas previstas para Portugal.
 
A Caritas de Macau está também disposta a financiar projetos para ensino do mandarim, seja para chegar a novos alunos ou para ajudar os que têm dificuldades, acrescentou.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: Global Imagens
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-crise-continua-impostos.html

Isabel Jonet, Marcelo e os pobrezinhos de Armindo Mendes de Carvalho e Mário Viegas

pobrezinhos
Os pobrezinhos
 

OS POBREZINHOS

 

Os pobrezinhos

tão engraçados

pedem esmolinha

com mil cuidados

 

Todos sujinhos

e tão magrinhos

a linda graça

dos pobrezinhos

 

De porta em porta

sempre rotinhos

tão delicados

os pobrezinhos

 

Não façam mal

aos pobrezinhos

dêem-lhes pão

e tostõezinhos

 

Os pobrezinhos

tão engraçados

pedem esmolinha

com mil cuidados

Armindo Mendes Carvalho

 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

A pobreza e os fundos

Ainda a pobreza. Apenas mais um discurso de 1993 quando o então líder socialista, António Guterres, na oposição ao governo PSD, lembrava que existiam dois milhões de portugueses que recebiam abaixo das suas necessidades de alimentação.
"É um problema incompreensível num país que recebe mil contos por minuto, 1,5 milhões de contos por dia a fundo perdido das comunidades europeias que inteiramente bem aplicados poderiam minorar a crise económica e resolver tantos e tantos problemas sociais", disse Guterres. A resposta do PSD esteve a cargo do responsável da bancada social-democrata, Duarte Lima, hoje com diversos processos na Justiça.
Na verdade, a abusiva aplicação dos fundos comunitários ficou por julgar em Portugal devido a uma desconexão entre o Código Penal e o Código do Processo Penal, relativo a prazos de prescrição. Na origem, esteve uma acção interposta por um jornalista que acusou o então primeiro-ministro Cavaco Silva do crime de difamação, cujo desfecho acabou no Supremo Tribunal de Justiça que consolidou jurisprudência, a favor de Cavaco Silva. E com essa decisão, fez prescrever os mega-processos judiciais, como o Fundo Social Europeu, Partex, UGT, Grupo Amorim, etc. Depois disso, Guterres não resolveu o problema dos pobres. E acabou por fugir de Portugal. O primeiro-ministro seguinte acabou por fugir de Portugal. Os outros não fugiram de Portugal, mas contribuíram para os portugueses fugissem de Portugal. Passados 27 anos, lá estão os mesmo dois milhões de portugueses - serão os mesmos? E Portugal deverá receber uma quantia semelhante de fundos comunitários, num país que é já mais rico. A pobreza não é um fenómeno isolado de tudo. P.S. - As minhas desculpas aos mais sensíveis, por insistir no tema nos últimos dias. A culpa é que há demasiados videos de arquivo sobre o tema, nos arquivos da RTP.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Eternos pobres, expedientes perpétuos

 
Foi em 1992. O então ministro do Emprego Silva Peneda assinou diante de todos os sem-abrigos de Lisboa que frequentavam a Sopa dos Pobres a criação - com a ajuda da Igreja - de um Banco Alimentar contra a Fome. Deu verbas avultadas (7,5 milhões de euros aos preços actuais) e prometeu que tudo iam fazer para acabar com aquela realidade. Veja-se o video de arquivo da RTP.  Enquanto aprovavam uma política macroeconómica de desprotecção completa da nossa economia, depois vinham invocar as vantagens da fénix renascida que das cinzas industriais viria voar sobre os campos e pobres desempregados do país. Lembrem-se que Cavaco Silva, primeiro-ministro dizia nesse ano que subir a taxa de desemprego de 4% para 6% era "um enorme sucesso" dado o arrefecimento internacional. A taxa subiria para 6,8% em 1994, 7,1% em 1995 e 7,2% em 1996. Passaram quase 28 anos. Agora, é o Presidente da República que faz os mesmos trajectos pelas instituições que servem este tipo de Caridade,põe um avental e ele próprio serve a Sopa dos Pobres tal como antes de si o faziam os contemporâneos do seu pai. Nessas viagens, Marcelo Rebelo de Sousa quer dizer "hoje, esta noite, sou eu que te sirvo". Na verdade, ele serve-os todas as noites com a mesma realidade, sem se importar muito com o que motivou que, passados 28 anos, tudo esteja na mesma. É que não basta servir jantares: é preciso pensar mais um pouco e atacar as causas desse fenómeno. Possivelmente, essa realidade tem a ver com a ausência de uma estratégia nacional para o país, porque a nossa estratégia foi entregá-la ao "pelotão da frente" da União Europeia e eles que nos servissem a Sopa dos Pobres, como têm feito. Os nossos salários reais estagnaram ao longo de mais de uma década. E depois queixam-se que os empresários sejam pouco eficientes e eficazes e competentes.     Quando a ministra Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho - repito, do Trabalho - decidir descer à rua para mais uma missão folclórica de consolação dos pobres, lembre-se que o Banco Alimentar contra a Fome foi criado há 28 anos. E que continua a existir, porque o seu negócio não é curar a Pobreza, mas viver dela.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Brasil | “A pobreza subiu, a desigualdade aumentou” – pesquisador sobre IDH

 
 
País ocupa a posição 79ª entre 189 nações avaliadas; Rafael Guerreiro Osório, do Ipea, explica que melhora nos indicadores só virá com investimentos em educação
 
Glauce Cavalcanti | Época
 
O Brasil não terá alteração em sua posição no ranking geral do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) pelos próximos anos, avalia Rafael Guerreiro Osório, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o IDH mede a qualidade de vida nos países para além do PIB, considerando indicadores de saúde, educação e renda.
 
No relatório divulgado nesta segunda-feira, o Brasil obteve pontuação de 0,761, quase estável na comparação com o 0,769 de 2017. Mas recuou uma posição na lista de 189 países avaliados, caindo para a 79ª.
 
Para o pesquisador, um avanço relevante do Brasil nos próximos relatórios dependeria de uma piora na avaliação das nações consideradas como nossos pares, como as da América do Sul ou do Brics, ou de uma “fórmula mágica” do governo brasileiro. Acompanhe a entrevista concedida por Osório a ÉPOCA.
 
 
O relatório atual traz novidades sobre o desempenho do Brasil no IDH?
 
Não há novidades na classificação do Brasil. Dada a situação do país nos últimos anos, não caberia esperar melhora. O peso da renda no IDH é muito grande, ainda que o índice tenha sido criado para enxergar além da renda. E o Brasil não tem ido bem nessa área, a pobreza subiu, a desigualdade aumentou. É até, de certa forma, surpreendente que o recuo na classificação geral não tenha sido maior.
 
A desigualdade e também a educação puxaram o desempenho para baixo.
 
Na educação, não estamos indo bem. E, neste ano, não vimos proposição de política educacional que prometa resultados extraordinários, se é que isso existe. Em expectativa de vida, não há como mudar muito de um ano para outro. Então, a esperança seria pela renda, mas nossa situação hoje vai nos manter lá perto do meio do ranking. O ideal seria conseguirmos avançar uma ou duas posições sempre.
 
Existem caminhos para avançar?
 
Caminhos existem, mas eles não são fáceis de trilhar. É preciso investir em educação. É clichê dizer isso, mas é a verdade. Não vai trazer mudanças de uma hora para a outra. É projeto de longo prazo. A educação impacta não apenas o nível de produção do mercado de trabalho. Pessoas educadas escolhem melhor. É um movimento lento, que depende do pacto federativo, exige um esforço concentrado e muito debate com base em evidências para avançar.
 
Os indicadores de educação do IDH mostram que o Brasil estagnou nessa área.
 
Temos melhorado. Ainda não dá para dizer se paramos. É área em que temos soluços. E estamos em uma crise. Há sempre medidas que podem ser tomadas. Em esperança de vida, por exemplo, podemos combater as mortes violentas que estão atingindo os mais jovens e principalmente os homens. Isso morde a pirâmide social e mexe com a estrutura etária da população. O IDH não vai capturar isso muito rápido. Mas haverá reflexo. É uma área em que podemos ter ganhos. De novo, depende de uma política de segurança pública orientada nesse sentido. Não existe milagre.
 
E do lado da renda?
 
Na renda, o comentário é de que há uma pequena recuperação. Temos de esperar os dados de 2019 para sabermos se a melhora da economia vai se traduzir em renda para as famílias. Se não acontecer nada de muito errado na condução da política econômica, a tendência é melhorar um pouco. Nós vamos nos manter onde estamos no ranking. Isso só mudaria de forma súbita se houvesse um cataclismo nos outros países pares do Brasil ou se descobrirmos uma “fórmula mágica”. Mas não desejamos que ninguém vá mal e também sabemos que milagres não existem.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/brasil-pobreza-subiu-desigualdade.html

Desenvolvimento da China contribui para a redução da pobreza mundial

247 -A China está na última fase em direção ao objetivo de erradicação da pobreza e de construção integral da sociedade moderadamente próspera.

Não foi fácil para a China atingir os êxitosna redução da pobreza. Isso se atribui à pesquisa e inovação constante do Partido Comunista da China e do governo do país, que persistem no desenvolvimento centrado no povo e tratam a redução da pobreza como uma meta principal do desenvolvimento socioeconómico, estabelecendo um calendário claro para esta tarefa, informa a Rádio China Internacional.

Esse feito também é atribuído à política de reforma e abertura e à vantagem do sistema chinês que permite concentrar forças em grandes empreendimentos.

A China forneceu ao mundo um modelo único de redução da pobreza. O enviado especial do secretário-geral da ONU para a cooperação Sul-Sul, Jorge Chediek, disse que a redução da pobreza de centenas de milhões de pessoas na China é uma façanha na história do desenvolvimento humano.

Hoje, no mundo, ainda há 700 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. A Agenda das Nações Unidas de Desenvolvimento Sustentável 2030 definiu a erradicação da pobreza como prioridade. As práticas chinesas, como a precisão no alívio da pobreza, são referência aos países em desenvolvimento e alcançaram o reconhecimento da comunidade internacional.

Por exemplo, a resolução sobre a erradicação da pobreza na zona rural das Nações Unidas aprovada na 73ª Assembleia Geral em 2018 incluiu a ideia da China de precisão no alívio da pobreza.

Um relatório publicado pelo Banco Mundial em novembro de 2019 disse que vale a pena que os países em desenvolvimento aprendam com as experiências avançadas das empresas de comércio eletrônico da China em crescimento econômico, inovação industrial, alívio da pobreza através do emprego, melhoria de bairros residenciais, entre outras áreas.

A China ainda oferece auxílios sem condições políticas aos países em desenvolvimento. Em 2019, o arroz de Guiné-Bissau, com orientação dos especialistas chineses, obteve boa colheita, cuja produção foi 386% a mais do que as espécies tradicionais de arroz. A China ajudou milhares de vilas de Gana, Ruanda, Quênia a acessar o sinal de televisão digital por satélite. Segundo o relatório do Banco Mundial, a iniciativa chinesa do Cinturão e Rota pode ajudar 7,6 milhões de pessoas a saírem da pobreza extrema e 32 milhões de pessoas saírem da pobreza moderada nos países envolvidos.

A China vai completar a construção da sociedade moderadamente próspera em 2020, de modo a concretizar a erradicação da pobreza. O milagre da China reforçará a confiança da comunidade internacional contra a pobreza e dará grande contribuição ao desenvolvimento sustentável global.

Caridade é vertical

Foto Expresso
De ora em quando, o presidente da República decide fazer aquelas incursões ao mundo real.

>Distribui alimentos aos sem-abrigo ou serve refeições aos pobres que vêm procurá-las em diversos locais especializados para esse fim, alguns através daquele esquema re-foodque pode ser traduzido por "organização de actuação micro-local, criada para re-aproveitar excedentes alimentares"...

E de cada vez que isso se passa, penso que é a versão actualizada daquele comportamento altaneiro e consistente com a hipocrisia de um regime -  como o regime fascista - que criava e reproduzia pobres em sistema, ao mesmo tempo organizava quermesses para afirmar - mais que tudo - a sua preocupação com a essa condição marginal. Na verdade, essas pessoas promoviam-se mais do que resolviam ou chamavam a atenção para o problema dos pobres, ao mesmo tempo que os enganavam, sorrindo-lhes. Perpetuavam, assim, a ideia de que sempre haverá ricos e pobres e de que podiam viver em comunhão.

E digo versão actualizada porque, se consultarem as estatísticas, verão que há várias décadas que Portugal democrático mantém - em reprodução sistémica - cerca de 2 milhões de pobres, muitos deles até tendo trabalho. Não se deixa que morram à fome, mas pouco se faz para combater as causas dessa pobreza. Prefere-se distribuir alimentos numa noite. Abraçá-los diante das câmeras. E ir-se embora, para voltar tempos mais tarde e repetir a mensagem. E assim tudo vai se reproduzindo.

Já passaram umas décadas, e tudo continua a ser revoltante.

 

Veja-se em 1968, a chegada e a recepção a Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, bem como Gertrudes Rodrigues Tomás e Maria Natália Tomás, esposa e filha de Américo Tomás, presidente da República, para a inauguração da "venda de caridade".

 

 

Ou a "venda de caridade" em 1972, no Palácio dos Congressos do Estorial, organizada pelo grupo de mulheres "The American Women of Lisbon", com objetos doados por americanos residentes em Portugal.

 

 

 

 

 

Ou aquele que verdadeiramente se chama "o bodo aos pobres", desta vez concedido no Porto, pelo Grupo Onomástico "Os Carlos" que o distribui "à população mais carenciada". Não parece ser o Banco Alimentar da senhora Jonet, embora há mais de 50 anos? 

 

 

Ou em 1960, a inauguração do XI Posto da Sopa dos Pobres, no refeitório da Patriarcado no Campo dos Mártires da Pátria. A inauguração contou com Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, cardeal Patriarca de Lisboa, Henrique Martins de Carvalho, o ministro da Saúde e Assistência, António Osório Vaz, Governador Civil de Lisboa, Aníbal David, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Augusto Silva Travassos, diretor-geral da Assistência presentes na inauguração. E o Cardeal Cerejeira até discursou.

Gostava de terminar com uma citação de Eduardo Galeano:

"Eu não acredito na caridade. Acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical. Vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro".

 

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

China alcança meta de alívio da pobreza em 2019

 

A aldeia Huawu, na vila de Yeping, cidade de Ruijin, Província de Jiangxi, leste da China, em 6 de maio de 2019. 

Beijing, 21 dez (Xinhua) -- A China atingiu a sua meta anual de redução da pobreza para 2019, segundo a conferência nacional de trabalho antipobreza.

Estima-se que mais de 10 milhões de pessoas foram tiradas da pobreza em 2019, enquanto 340 distritos deixaram de estar na categoria de distritos pobres, disseram fontes da reunião.

A população pobre registrada nas áreas de maior pobreza do país diminuiu de 1,72 milhão de pessoas em 2018 para cerca de 430 mil no final de 2019.

A reunião pediu maiores esforços para tirar da pobreza toda a população antes do fim de 2020.

O mecanismo de monitoramento será melhorado para evitar o retorno da pobreza, enquanto o alívio da pobreza através do consumo e empreendedorismo será estimulado, de acordo com a reunião.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/21/c_138648593.htm

Cascais apoia projecto para os Sem-Abrigo

 

A responsabilidade da construção de um território socialmente coeso passa claramente pela dimensão da inclusão sócio económica das pessoas mais desfavorecidas da nossa sociedade. E é dentro deste contexto de responsabilidade social que a Câmara Municipal de Cascais aprovou, na passada reunião de Câmara, o acordo de parceria com a Ser + Associação Portuguesa para a Prevenção e Desafio à SIDA para o desenvolvimento do projecto “Cascais Sai à Rua – porque é possível acabar com as situações dos sem-abrigo”.

Este projecto foi apresentado ao abrigo do Programa Operacional Regional de Lisboa que tem como objectivo promover a inclusão social e o combate à pobreza e à discriminação.

Uma das vertentes do programa visa a criação de uma equipa de rua multidisciplinar dedicada à intervenção em pessoas que se encontram na situação de sem-abrigo.

As sistematizações dos dados, sobre as pessoas em situação de Sem-Abrigo, são registados e analisados desde 2002.

O gráfico, em baixo, apresenta o número de Sem-Abrigos registados em Cascais entre 2010 e 2018.

 

Regista-se uma evolução ascendente entre os anos de 2010 a 2014, com um aumento de pessoas em situação de Sem-Abrigo no concelho, e uma inversão nessa tendência entre 2014 e 2016.

Em 2016 a tendência é de evolução ascendente que aumentou significativamente em 2018, onde foram assinaladas 58 pessoas em situação de risco em Cascais.

E as 58 pessoas assinaladas em situação de risco no concelho encontram-se distribuídas pelas freguesias conforme quadro abaixo.

 

Os dados verificados ao longo dos anos confirmam a predominância do sexo masculino (74%), nas pessoas em situação de risco, e a sua maior incidência nas freguesias do litoral, Carcavelos / Parede regista 22 pessoas de risco e Cascais / Estoril com 26.

A Câmara Municipal de Cascais tem preparados, em casos de vagas de frio, equipas da Segurança Social em articulação com a Coordenação do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo (NPISA) – Divisão de Promoção da Saúde da Câmara Municipal de Cascais para ajudar a encontrar soluções de abrigo.

Está prevista ainda, a articulação com as forças de segurança que se encontram no terreno (PSP, GNR), Polícia Municipal, corpos de Bombeiros e Serviço Municipal de Proteção Civil.

Uma fractura social exposta

«É impressionante. São décadas da vida deste país!», afirmou Marcelo Rebelo de Sousa à comunicação social numa visita que fez ao Banco Alimentar Contra a Fome, para «testemunhar solidariedade» na véspera de esta associação iniciar um fim-de-semana de recolha de alimentos que distribuirá por «meio milhão de beneficiários». O presidente da República estava impressionado com o facto de esta estrutura estar prestes a iniciar a sua 58.ª campanha, cobrindo já trinta anos de actividade. Mas onde ele vê motivo para nos congratularmos mais acertadamente veríamos um sintoma de um problema grave e persistente, que várias décadas de democracia têm sido incapazes de resolver.

Portugal continua a ser um país profundamente desigual, com níveis de pobreza e exclusão social insuportáveis e vergonhosos para qualquer sociedade decente. A situação dura, de facto, há várias décadas, apesar dos avanços introduzidos com a instauração da democracia e com a construção do Estado social. A manutenção dos mais frágeis em situação de vulnerabilidade, bem como o agravamento das condições dos que durante um curto intervalo beneficiaram do «elevador social», perpassam as várias experiências neoliberais que o país conhece desde os governos de Cavaco Silva, continuam ou agravam-se após a adesão ao euro, e aprofundam-se ainda mais na sequência da crise iniciada em 2008, em particular após a aplicação do programa de «ajustamento» da Troika. A legislatura que se seguiu, nuns casos travou a espiral de regressão social, noutros casos melhorou condições de vida; mas partindo de uma situação profundamente degradada e chegando a melhorias muito aquém do necessário, apresenta um balanço decepcionante.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa se refere em termos tão elogiosos a uma resposta tipicamente caritativa, chamando-lhe «uma rede social real» e defendendo que «o ideal era que quem mais tem, mais desse», não está apenas a impressionar-se com o que devia chocar – o objectivo das respostas de emergência social não deve ser eternizar-se, mas deixarem de ser necessárias. O presidente está também a contribuir para legitimar, e generalizar, a ideia de que estas redes de apoio social é que são reais, em vez de fazer um combate por políticas públicas que resolvam o problema de forma socialmente sustentável. Está a sugerir que é por via destas redes, com cada um a dar o que pode, que os problemas se resolvem, quando tudo mostra que a justiça social depende é de justiça fiscal e salarial, de prestações sociais e de serviços públicos robustos.

Já dias antes o presidente da República fizera declarações perante os empresários agrícolas e dirigentes da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) que, parecendo que queria defender o aumento do salário mínimo nacional já aprovado para 2020, serviam afinal para deslocar o centro das decisões futuras para a «concertação social» – algo que o próprio governo alimenta – e para reforçar o carácter excepcional que o aumento deverá ter, em face da incerteza económica interna e externa: «neste contexto, este era o único ano» em que se verificava «alguma relativa certeza» para avançar com a medida, afirmou [1].

Ao contrário do que repete o credo neoliberal, o aumento do salário mínimo nacional, ainda por cima num país como Portugal em que ele é escandalosamente baixo, é uma das medidas com impactos mais positivos em toda a sociedade, do emprego ao consumo, passando pelas despesas sociais. É certo que anos de «desvalorização interna», com os «danos colaterais demográficos e de padrão de especialização produtiva» que esta desvalorização gerou, criaram uma sociedade cheia de contradições que têm de ser enfrentadas para introduzir algum reequilíbrio social numa nova «política de rendimentos» (ver, na edição de Dezembro, o artigo de José Castro Caldas). Mas qualquer solução orientada para mais justiça social tem de começar por revalorizar os rendimentos do trabalho, focando-se em particular nos salários mais baixos.

Conter a «erosão salarial» que, com a «degradação dos sistemas públicos de educação, saúde e habitação», quase impossibilita a «reprodução social» (ver, na edição de Dezembro, o artigo de Ana Cordeiro Santos), é urgente para começar a desarmar a bomba neoliberal em cima da qual continuamos sentados. Mesmo quando se dá passos nesse sentido, os resultados sociais são demasiado invisíveis. Podem ter visibilidade estatística em algumas décimas de pontos percentuais, mas são insuficientes para pôr fim à tragédia em que continuam mergulhados centenas de milhares de cidadãos portugueses. E insuficientes também para romper o ciclo das tragédias sociais futuras que já se anunciam.

Também no final de Novembro, o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou os dados do «Inquérito às Condições de Vida e Rendimento» realizado em 2019 e relativo aos rendimentos do ano anterior [2]. Registam-se melhorias ligeiras em indicadores que retratam as situações de maior vulnerabilidade social, como a taxa de risco de pobreza, que em 2018 atinge 17,2% da população (17,3% em 2017). Isto significa que 17,2% da população continua a auferir rendimentos monetários líquidos anuais por adulto equivalente inferiores a 501 euros por mês. Quanto à taxa de pobreza ou exclusão social, em 2018 situou-se nos 21,6% (em 2019 deverá ser semelhante), o que corresponde a uma ligeira diminuição em relação aos 23,3% de 2017. O estudo revela ainda que a taxa de risco de pobreza diminuiu em particular, mas também muito ligeiramente, entre os menores de 18 anos (de 19,0% em 2017 para 18,5% em 2018) e na população idosa (de 17,7% para 17,3%).

Mas será que estas reduções, em grande medida fruto de políticas públicas dirigidas para estes segmentos, podem fazer esquecer a enormidade dos números que elas traduzem? Que continuamos a ter cerca de 2 milhões de habitantes a viver em condições inaceitáveis, apesar das transferências sociais, apesar das reposições de salários e pensões, apesar da diminuição do desemprego, apesar de tudo o mais que melhorou para muitos outros? As condições de vida de famílias formadas por um adulto e pelo menos uma criança dependente (ou dois adultos com três ou mais crianças dependentes), bem como as dos idosos carenciados, e com dificuldade de acesso a cuidados de saúde, continuam a motivar as maiores preocupações.

A isto juntam-se os indicadores que estão a piorar: a taxa de pobreza dos adultos em idade activa aumentou 0,2 pontos percentuais, situando-se em 2018 nos 16,9%; e a taxa de risco de pobreza da população empregada aumentou para os 10,8% (era de 9,7% em 2017), enquanto a dos desempregados aumentou para os 47,5% (45,7% em 2017). A menos que se reforcem políticas públicas de habitação e de transportes, a menos que se imponham salários qualificados, a menos que se invista seriamente na educação pública e no Serviço Nacional de Saúde, alguém tem dúvidas de que já estão hoje a ser fabricados os pobres e os excluídos dos próximos anos, das próximas décadas?

É fundamental criar um plano específico para erradicar a pobreza e a exclusão social, bem como para combater as desigualdades existentes, mas é igualmente urgente impedir que continuem a avolumar-se as condições – em particular no trabalho, na habitação e na saúde – que criam uma situação socialmente explosiva. Se não desarmarmos as políticas neoliberais austeritárias com políticas públicas e um Estado social robusto, os neoliberais autoritários aí estarão, já dentro do Parlamento, prontos a explodir o que restar de políticas públicas e de Estado social. A fractura social é uma fractura exposta. Senta-se à mesa das famílias, arrasta-se pelas ruas, desespera nos locais de trabalho, quebranta nos hospitais. E tem de ser reduzida, estancada, já no próximo Orçamento do Estado.


[1] «Marcelo sugere que o salário mínimo pode não subir depois de 2021», Público, 26 de Novembro de 2019.

[2] Publicado a 26 de Novembro de 2019, disponível em www.ine.pt.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Portugal | Pobreza aumenta entre os trabalhadores

 
 
O peso da pobreza em Portugal aumentou em 2018 nos trabalhadores empregados e nos desempregados e continua a ser elevado em todas as outras camadas da população. E os aumentos de miséria nas pensões em 2020
 
Eugénio Rosa | Jornal Tornado
 
Neste estudo analiso não só alguns aspetos importantes dos dados divulgados recentemente pelo INE referentes à pobreza em Portugal, que tinham sido omitidos pela generalidade dos órgãos de comunicação (o aumento significativo da pobreza na população empregada e desempregada).
 
Assim como, com base no aumento de preços (IPC) referente a Novembro de 2019 e nas normas do Decreto-Lei 53-B/2006 consolidado, calculo o previsível aumento de miséria das pensões quer da Segurança Social quer da CGA em 2020:
 
-- pensões até 877,97€ terão aumentos de 0,74%;
-- pensões de valor superior a 877,97€ até 2.633,9€ os aumentos serão apenas de 0,24%;
-- pensões de valor superior a 2.633,9€ os aumento serão de 0%, ficam congeladas).
 
Utilizando o valor da esperança de vida aos 65 anos referente a 2019, divulgado pelo INE, calculo o fator de sustentabilidade para 2020 concluindo que, entre 2019 e 2020, ele deverá aumentar de 14,67% para 15,2%.
 
Portanto, os trabalhadores que pedirem a reforma ou a aposentação antecipada em 2020, incluindo ao abrigo do regime após desemprego de longa duração, se aos 60 anos não tiverem pelo 40 anos de descontos, sofrerão um corte previsível na sua pensão de 15,2% devido à aplicação do fator de sustentabilidade. A este corte há que adicionar o corte de 0,5% por cada mês que falte ao trabalhador para atingir a idade de 66 anos e 5 meses.
 
Portanto, serão duplamente penalizados, se aos 60 anos não tiverem pelo menos 40 anos de descontos, uma situação injusta que o anterior ministro do Trabalho, Vieira da Silva, tinha prometido corrigir mas cuja palavra não cumpriu. É urgente acabar com esta dupla penalização, eliminando o fator de sustentabilidade para todos os trabalhadores.
 
Espero que o estudo possa ser útil aos trabalhadores portugueses já que a recuperação de rendimentos obtida na ultima legislatura foi claramente insuficiente como mais uma vez prova este estudo em que utilizo apenas dados oficiais.
 

Estudo

O peso da pobreza em Portugal aumentou em 2018 nos trabalhadores empregados e nos desempregados e continua a ser elevado em todas as outras camadas da população. E os aumentos de miséria nas pensões em 2020

 O INE publicou em 26 de Novembro deste ano, os resultados do “Inquérito às Condições de Vida e de Rendimento, realizado em 2019 sobre rendimentos do ano anterior” que inclui um quadro importante com dados que foram omitidos pela comunicação social que mostra a evolução do risco de pobreza nos diferentes estratos da população em Portugal (quadro 1).

Quadro 1 – Taxa de risco de pobreza após transferências sociais, segundo a condição perante o trabalho e sexo, Portugal, 2015-2018

Ano de referência2015201620172018
Empregado – em %10,910,89,710,8
Homens – em %11,311,210,411,0
Mulheres – em %10,510,49,010,6
Sem emprego – em %25,425,124,824,2
Homens – em %24,524,623,523,6
Mulheres – em %26,125,525,824,7
Desempregado – em %42,044,845,747,5
Homens – em %44,547,147,452,9
Mulheres – em %39,442,544,142,7
Reformado – em %16,015,115,715,2
Homens – em %15,614,514,314,7
Mulheres – em %16,315,616,915,6
Outros inativos – em %31,232,330,831,0
Homens – em %26,032,129,928,7
Mulheres – em %33,532,431,232,0
FONTE: INE, EU-SILC: Inquérito às Condições de Vida e Rendimento – 2016-2019

Contrariamente ao que se podia pensar, os dados publicados pelo INE revelam que, em 2018, não se verificou uma diminuição mesmo diminuta da pobreza em Portugal (de 17,3% para 17,2%) em todos os segmentos da população.

Pelo contrário, registou-se mesmo um aumento do peso da pobreza quer na população empregada (10,8% da população empregada em 2018, quando em 2017 era de 9,7%) consequência dos baixos salários pagos pelos patrões, quer no grupo de “desempregados” cuja taxa de risco de pobreza tem aumentado de uma forma permanente desde 2015 e também entre 2017  em 2018 (42% do total de desempregados em 2015, 47,5% em 2018).

O aumento da pobreza no grupo de desempregados é uma consequência da redução drástica do número de desempregados a receber subsídio de desemprego como mostra o gráfico 1 construído com dados divulgados pela Segurança Social e pelo INE.

Gráfico 1 – Desemprego Total e desempregados a receber subsidio de desemprego

FONTE: INE e Segurança Socal

Entre 2015 e Setembro de 2019, o numero de desempregados a receber subsidio de desemprego diminuiu de 285.780  para apenas 167.889 (- 41,2%).

Esta quebra drástica no número de desempregados a receber subsidio de desemprego determinou que a taxa de cobertura do subsidio de desemprego em Setembro de 2019 fosse apenas de 33,4%.

Isto significa que, em Setembro de 2019, por cada 100 desempregados apenas 33 recebiam subsidio de desemprego. Os restantes tinham de “desenrascar” ou recorrendo ao apoio de familiares ou amigos, a “biscates” ou então transformando-se nos “sem abrigo” que povoam as cidades.

Em 2018, 5,100.000 portugueses tinham um rendimento mensal ilíquido (antes de descontos e impostos) inferior a 716€, e 1.767.000 inferior a 430€/mês (14 meses)

De acordo com o INE, o limiar de pobreza era, em 2018, apenas 430€/mês (14 meses), e o número de habitantes em Portugal que tinham naquele ano um rendimento mensal inferior àquele valor correspondia a 17,3% da população total, ou seja, a 1.767.000 habitantes. Portanto, todos aqueles que tinham um rendimento mensal superior àquele valor (por ex. 431€/mês) já não eram considerados nas estatísticas oficiais como pobres.

Por outro lado, o limiar da pobreza corresponde a 60% da mediana, portanto rapidamente se conclui que metade dos habitantes de Portugal em 2018 – 5.138.309 – tinham um rendimento mensal bruto para viver inferior a 716€/mês. Depois de descontos e impostos fica muito pouco

Os aumentos de miséria nas pensões em 2020 previstos com base na lei em vigor

Segundo o Decreto-Lei 53-B/2006, as pensões da Segurança Social e também da CGA são atualizadas anualmente com base num índice que é calculado da seguinte forma:

  1. Se a média do crescimento real do PIB nos dois anos anteriores  for igual ou superior a 2% e inferior a 3%, a atualização das pensões de valor igual ou menor a 2IAS corresponde ao aumento do Índice de Preços no Consumidor acrescido de 20% da taxa de crescimento real do PIB, com o limite mínimo de 0,5 pontos percentuais acima do valor do IPC;
  2. Se a média do crescimento real do PIB for inferior a 2%, o aumento das pensões até 2 IAS corresponde ao aumento do IPC . Isto em relação às pensões até 2IAS que, em 2020, deverá corresponder ao valor de 877,97€, portanto em relação às pensões mais baixas (dá um aumento de 0,9% no caso do PIB em 2019 crescer 1,9%, e 0,4% se o crescimento real do PIB for em 2019 inferior a 1,9%).

O quadro seguinte dá uma informação clara dos previsíveis aumentos de miséria das pensões em 2020, supondo que o PIB cresce 1,9% em 2019 (a confirmar no fim do ano).

Quadro 2 – O aumento previsível das pensões da Segurança Social e da CGA em 2020

Valor Mensal das PensõesAumento % das pensões da Segurança Social e da CGA em 2020 se o PIB em 2019 crescer 1,9%Aumento das pensões da Segurança Social e da CGA em euros se o PIB em 2019 crescer 1,9%
Pensões de valor igual ou inferior a 877,97€0,74%Aumentos entre 1,56€ (pensões mínimas) e 6,50€
Pensões de valor superior a 877,97€ até 2.633,91€o,24%Aumentos entre 2,12€ e 6,32€
Pensões de valor superior a 2.633,91€0,0%0€

Na melhor das hipóteses (aumento do PIB de 1,9% em 2019), o aumento das pensões da Segurança Social e da CGA em 2020 variarão entre 0,24% e 0,74%, portanto inferior a 1%. São aumentos de miséria. Em euros, para as pensões mais baixas, variam entre 1,56€ (pensões mínimas) e 6,5€.

Em 2020, a idade de acesso normal à reforma ou aposentação continuará a ser 66 anos e 5 meses, mas o fator de sustentabilidade aumenta de 14,67% para 15,2%

Contrariamente ao que divulgaram alguns órgãos de informação (ex. SIC) a idade de acesso à reforma ou aposentação em 2020 é a mesma de 2019 (66 anos e 5 meses) por força da Portaria 50/2019, que no seu artº 1º dispõe que “A idade normal de acesso à pensão de velhice do regime geral de segurança social em 2020, ….., é 66 anos e 5 meses”.

Utilizando a esperança de vida aos 65 anos em 2019 divulgada pelo INE, o fator de sustentabilidade deverá aumentar, entre 2019 e 2020, de 14,67% para 15,2%. Portanto, todos os trabalhadores que peçam a reforma ou aposentação antecipada em 2020, e que aos 60 anos não tenham pelo menos 40 de descontos, sofrem duas penalizações:

  1. um 1º corte na pensão de 0,5% por cada mês que lhe falte para os 66 anos e 5 meses;
  2. E um 2º corte de 15,2% que resulta da aplicação do fator de sustentabilidade. Só não sofrem este 2º corte, os trabalhadores que aos 60 anos de idade tenham pelo menos 40 anos completos de descontos.

Este corte de 15,2% que resulta do fator de sustentabilidade, também se aplicará em 2020 às pensões pedidas ao abrigo do regime de reforma antecipada após desemprego de longa duração. No entanto, aqui o corte de 0,5% por mês em falta é calculado não em relação a 66 anos e 5 meses mas sim relativamente a 62 anos).

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/portugal-pobreza-aumenta-entre-os.html

O QUE NOS DIZEM OS NOVOS DADOS SOBRE A POBREZA MONETÁRIA PUBLICADOS PELO INE

 
A recente publicação pelo INE dos principais indicadores de desigualdade, pobreza e exclusão social obtidos a partir do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2019, e que incidiu sobre os rendimentos auferidos pelas famílias em 2018, permite uma leitura actualizada sobre a evolução das condições de vida da população e a identificação dos principais factores de vulnerabilidade social no nosso país. 
 
 
Um dos aspectos mais salientes dos dados agora divulgados prende-se com o significativo crescimento do rendimento mediano das famílias registado e o consequente aumento do limiar de pobreza. O rendimento mediano por adulto equivalente teve um incremento nominal de 7,2% (6,2% em termos reais) traduzindo uma efectiva melhoria do nível dos rendimentos familiares. Consequentemente, a linha de pobreza monetária que, em 2017 era de 468 euros mensais para um individuo isolado subiu 33 euros, fixando-se em 2018 nos 501 euros. Se, em alternativa, considerarmos uma família constituída por dois adultos e duas crianças o limiar de pobreza para essa família passou de 982/mês para 1052 euros.
 
 
Esta maior exigência da linha monetária de demarcação entre a população pobre e não pobre não pode deixar de se repercutir na quantificação da população pobre. Por exemplo, se considerarmos um indivíduo que em 2017 auferia mensalmente 480 euros/mês ele era considerado como não pobre. Se os seus rendimentos em 2018 se mantiverem inalterados, o acréscimo do limiar de pobreza faz com que ele passe estatisticamente a ser considerado como estando em situação de pobreza.
 
 
Neste contexto, o facto de em 2018 a taxa de pobreza se ter reduzido ligeiramente, passando de 17,3% em 2017 para 17,2% em 2018, não pode deixar de ser interpretado como um resultado positivo. Note-se que, se aplicássemos o limiar de pobreza de 2018 à distribuição dos rendimentos de 2017 a taxa de pobreza desse ano seria superior aos 20%.
 
 
O efeito conjunto da alteração dos rendimentos familiares e da subida do limiar de pobreza repercutiu-se, porém, de forma diferenciada nas condições de vida de diferentes grupos sociais, como é possível observar através da leitura dos vários indicadores disponibilizados pelo INE.
 
 
Entre os aspectos mais positivos destacam-se:
 
 
A redução, ainda que ligeira, da incidência da pobreza, que atingiu em 2017, 17,2% da população total, o valor mais baixo desta taxa desde que o INE a começou a publicar anualmente em 1995.

A intensidade da pobreza (que avalia quão pobres são os pobres) desceu de 24,5% para 22,4%;

A proporção de crianças e jovens em situação de pobreza diminuiu 0,4 pontos percentuais (p.p.), passando de 18,9% em 2017 para 18,5% em 2018;

A taxa de pobreza da população idosa reduziu-se de 17,7 para 17,3%; 
 
A taxa de privação material baixou de 16,6% para 15,1% enquanto que a taxa de privação material severa registou uma redução de 6,0% para 5,6%;
A proporção de famílias com forte exclusão do mercado de trabalho ou baixa intensidade laboral passou de 7,2% para 6,2%;
 
A desigualdade, medida pelo coeficiente de Gini, registou uma ligeira diminuição de 32,1% para 31,9%, alcançando o valor mais baixo de toda a série registada pelo INE.
 
Os resultados anteriores, ocorridos como referido num contexto de um forte incremento do limiar de pobreza, não podem deixar de ser globalmente considerados como positivos e confirmam a tendência dos últimos anos de redução da pobreza monetária, da privação material e das desigualdades económicas.
 
Mas os dados agora difundidos pelo INE reforçam igualmente a preocupação já anteriormente existente quanto a alguns dos grupos mais vulneráveis da sociedade portuguesa. 
 
 
Apesar da ligeira redução verificada na proporção de crianças e jovens em situação de pobreza as famílias com crianças continuam particularmente vulneráveis à incidência da pobreza tendo mesmo a sua taxa de pobreza registado um incremento de 18,1 para 18,3%. As famílias monoparentais, em particular, registaram um forte agravamento da sua exposição à pobreza monetária tendo a sua taxa de pobreza subido de 28,2% para 33.9%. A exposição à pobreza de milhares de crianças e jovens no nosso país permanece como o principal factor de preocupação na identificação das famílias económica e socialmente mais vulneráveis.

Igualmente no que concerne à situação da pobreza da população desempregada se registou um significativo agravamento. Apesar da redução da população em situação de desemprego ter diminuído de 8,9% em 2017 para7,0% em 2018, e certamente ter-se reduzido o número de desempregados em situação de pobreza, a taxa de incidência da pobreza nos desempregados aumentou 1,8 p.p., fixando-se em 47,5%, um dos valores mais elevados e mais preocupantes no conjunto da população.

Por último, a proporção da população empregue em situação de pobreza aumentou de 9,7% para 10,8%. Ainda que uma parte deste acréscimo possa ser explicada pelo incremento do limiar de pobreza, não deixa de constituir um factor de preocupação acrescida a existência de uma percentagem tão expressiva de indivíduos que apesar de terem um emprego não conseguem evitar a situação de pobreza. Os baixos níveis salariais de uma parte significativa da população empregue, a persistência de condições de precariedade no mercado laboral e as desigualdades salariais que nele ocorrem são certamente factores explicativos da existência destes trabalhadores pobres.
 
Que balanço global podemos fazer destes números? É indiscutível que eles confirmam a tendência registado nos últimos anos conducentes a uma melhoria relevante da condição social do país e que conduziu a uma redução dos principais indicadores de pobreza, de privação material e de desigualdade. Tal deve-se em grande medida à recuperação económica do país, ao crescimento económico e à queda do desemprego. Mas deve-se igualmente a uma preocupação acrescida das políticas públicas com as questões sociais, com a preocupação de priorizar o crescimento dos rendimentos das famílias de menores rendimentos e ao reforço das políticas sociais expressas, por exemplo, no aumento do salário mínimo ou das prestações sociais direccionadas à população de menores rendimentos.
 
Mas estes novos indicadores evidenciam igualmente grupos sociais extremamente vulneráveis, que somente de forma mitigada têm beneficiado do crescimento económico e da melhoria das condições de vida do conjunto da população. A sua fragilidade económica exige que as políticas públicas tenham uma atenção acrescida para a sua situação e que sejam capazes de delinear e implementar medidas que sejam simultaneamente eficazes e eficientes na diminuição dos seus níveis de pobreza e que promovam a sua efectiva inclusão social.
 
Por último, a análise destes indicadores não nos pode fazer esquecer que Portugal continua a ser um dos países com maior pobreza e com maiores níveis de desigualdade na Europa. Que, no nosso país, permanecem em situação de pobreza mais de 1,7 milhões de cidadãos, e que uma parte significativa destes são crianças e jovens. Se alguma lição podemos tirar dos números agora conhecidos é o de que as políticas publicas e a sociedade no seu conjunto ainda têm um longo caminho a percorrer para construirmos uma sociedade mais coesa, socialmente mais justa, com menos pobreza e menos desigualdade.
 

Ver o original em A areia dos Dias

Pobreza aumenta entre os trabalhadores

O peso da pobreza em Portugal aumentou em 2018 nos trabalhadores empregados e nos desempregados e continua a ser elevado em todas as outras camadas da população. E os aumentos de miséria nas pensões em 2020

 

 

Neste estudo analiso não só alguns aspetos importantes dos dados divulgados recentemente pelo INE referentes à pobreza em Portugal, que tinham sido omitidos pela generalidade dos órgãos de comunicação (o aumento significativo da pobreza na população empregada e desempregada) assim como, com base no aumento de preços (IPC) referente a Novembro de 2019 e nas normas do Decreto-Lei 53-B/2006 consolidado, calculo o previsível aumento de miséria das pensões quer da Segurança Social quer da CGA em 2020 (pensões até 877,97€ terão aumentos de 0,74%; pensões de valor superior a 877,97€ até 2.633,9€ os aumentos serão apenas de 0,24%; pensões de valor superior a 2.633,9€ os aumento serão de 0%, ficam congeladas). Utilizando o valor da esperança de vida aos 65 anos referente a 2019, divulgado pelo INE, calculo o fator de sustentabilidade para 2020 concluindo que, entre 2019 e 2020, ele deverá aumentar de 14,67% para 15,2%.

Portanto, os trabalhadores que pedirem a reforma ou a aposentação antecipada em 2020, incluindo ao abrigo do regime após desemprego de longa duração, se aos 60 anos não tiverem pelo 40 anos de descontos, sofrerão um corte previsível na sua pensão de 15,2% devido à aplicação do fator de sustentabilidade. A este corte há que adicionar o corte de 0,5% por cada mês que falte ao trabalhador para atingir a idade de 66 anos e 5 meses. Portanto, serão duplamente penalizados, se aos 60 anos não tiverem pelo menos 40 anos de descontos, uma situação injusta que o anterior ministro do Trabalho, Vieira da Silva, tinha prometido corrigir mas cuja palavra não cumpriu. É urgente acabar com esta dupla penalização, eliminando o fator de sustentabilidade para todos os trabalhadores.

Espero que o estudo possa ser útil aos trabalhadores portugueses já que a recuperação de rendimentos obtida na ultima legislatura foi claramente insuficiente como mais uma vez prova este estudo em que utilizo apenas dados oficiais.

 

 
 
 
 

Estudo

O peso da pobreza em Portugal aumentou em 2018 nos trabalhadores empregados e nos desempregados e continua a ser elevado em todas as outras camadas da população. E os aumentos de miséria nas pensões em 2020

 O INE publicou em 26 de Novembro deste ano, os resultados do “Inquérito às Condições de Vida e de Rendimento, realizado em 2019 sobre rendimentos do ano anterior” que inclui um quadro importante com dados que foram omitidos pela comunicação social que mostra a evolução do risco de pobreza nos diferentes estratos da população em Portugal (quadro 1).

Quadro 1 – Taxa de risco de pobreza após transferências sociais, segundo a condição perante o trabalho e sexo, Portugal, 2015-2018

Ano de referência2015201620172018
Empregado – em %10,910,89,710,8
Homens – em %11,311,210,411,0
Mulheres – em %10,510,49,010,6
Sem emprego – em %25,425,124,824,2
Homens – em %24,524,623,523,6
Mulheres – em %26,125,525,824,7
Desempregado – em %42,044,845,747,5
Homens – em %44,547,147,452,9
Mulheres – em %39,442,544,142,7
Reformado – em %16,015,115,715,2
Homens – em %15,614,514,314,7
Mulheres – em %16,315,616,915,6
Outros inativos – em %31,232,330,831,0
Homens – em %26,032,129,928,7
Mulheres – em %33,532,431,232,0
FONTE: INE, EU-SILC: Inquérito às Condições de Vida e Rendimento – 2016-2019

Contrariamente ao que se podia pensar, os dados publicados pelo INE revelam que, em 2018, não se verificou uma diminuição mesmo diminuta da pobreza em Portugal (de 17,3% para 17,2%) em todos os segmentos da população; pelo contrário, registou-se mesmo um aumento do peso da pobreza quer na população empregada (10,8% da população empregada em 2018, quando em 2017 era de 9,7%) consequência dos baixos salários pagos pelos patrões, quer no grupo de “desempregados” cuja taxa de risco de pobreza tem aumentado de uma forma permanente desde 2015 e também entre 2017  em 2018 (42% do total de desempregados em 2015, 47,5% em 2018).

O aumento da pobreza no grupo de desempregados é uma consequência da redução drástica do número de desempregados a receber subsídio de desemprego como mostra o gráfico 1 construído com dados divulgados pela Segurança Social e pelo INE.

 

Gráfico 1 – Desemprego Total e desempregados a receber subsidio de desemprego

FONTE: INE e Segurança Socal

Entre 2015 e Setembro de 2019, o numero de desempregados a receber subsidio de desemprego diminuiu de 285.780  para apenas 167.889 (- 41,2%). Esta quebra drástica no número de desempregados a receber subsidio de desemprego determinou que a taxa de cobertura do subsidio de desemprego em Setembro de 2019 fosse apenas de 33,4%. Isto significa que, em Setembro de 2019, por cada 100 desempregados apenas 33 recebiam subsidio de desemprego. Os restantes tinham de “desenrascar” ou recorrendo ao apoio de familiares ou amigos, a “biscates” ou então transformando-se nos “sem abrigo” que povoam as cidades.

 

Em 2018, 5,100.000 portugueses tinham um rendimento mensal ilíquido (antes de descontos e impostos) inferior a 716€, e 1.767.000 inferior a 430€/mês (14 meses)

De acordo com o INE, o limiar de pobreza era, em 2018, apenas 430€/mês (14 meses), e o número de habitantes em Portugal que tinham naquele ano um rendimento mensal inferior àquele valor correspondia a 17,3% da população total, ou seja, a 1.767.000 habitantes. Portanto, todos aqueles que tinham um rendimento mensal superior àquele valor (por ex. 431€/mês) já não eram considerados nas estatísticas oficiais como pobres.

Por outro lado, o limiar da pobreza corresponde a 60% da mediana, portanto rapidamente se conclui que metade dos habitantes de Portugal em 2018 – 5.138.309 – tinham um rendimento mensal bruto para viver inferior a 716€/mês. Depois de descontos e impostos fica muito pouco

 

Os aumentos de miséria nas pensões em 2020 previstos com base na lei em vigor

Segundo o Decreto-Lei 53-B/2006, as pensões da Segurança Social e também da CGA são atualizadas anualmente com base num índice que é calculado da seguinte forma: (a) Se a média do crescimento real do PIB nos dois anos anteriores  for igual ou superior a 2% e inferior a 3%, a atualização das pensões de valor igual ou menor a 2IAS corresponde ao aumento do Índice de Preços no Consumidor acrescido de 20% da taxa de crescimento real do PIB, com o limite mínimo de 0,5 pontos percentuais acima do valor do IPC; (b) Se a média do crescimento real do PIB for inferior a 2%, o aumento das pensões até 2 IAS corresponde ao aumento do IPC . Isto em relação às pensões até 2IAS que, em 2020, deverá corresponder ao valor de 877,97€, portanto em relação às pensões mais baixas (dá um aumento de 0,9% no caso do PIB em 2019 crescer 1,9%, e 0,4% se o crescimento real do PIB for em 2019 inferior a 1,9%). O quadro seguinte dá uma informação clara dos previsíveis aumentos de miséria das pensões em 2020, supondo que o PIB cresce 1,9% em 2019 (a confirmar no fim do ano).

Quadro 2 – O aumento previsível das pensões da Segurança Social e da CGA em 2020

Valor Mensal das PensõesAumento % das pensões da Segurança Social e da CGA em 2020 se o PIB em 2019 crescer 1,9%Aumento das pensões da Segurança Social e da CGA em euros se o PIB em 2019 crescer 1,9%
Pensões de valor igual ou inferior a 877,97€0,74%Aumentos entre 1,56€ (pensões mínimas) e 6,50€
Pensões de valor superior a 877,97€ até 2.633,91€o,24%Aumentos entre 2,12€ e 6,32€
Pensões de valor superior a 2.633,91€0,0%0€

 

Na melhor das hipóteses (aumento do PIB de 1,9% em 2019),o aumento das pensões da Segurança Social e da CGA em 2020 variarão entre 0,24% e 0,74%, portanto inferior a 1%. São aumentos de miséria. Em euros, para as pensões mais baixas, variam entre 1,56€ (pensões mínimas) e 6,5€.

 

Em 2020, a idade de acesso normal à reforma ou aposentação continuará a ser 66 anos e 5 meses, mas o fator de sustentabilidade aumenta de 14,67% para 15,2%

Contrariamente ao que divulgaram alguns órgãos de informação (ex. SIC) a idade de acesso à reforma ou aposentação em 2020 é a mesma de 2019 (66 anos e 5 meses) por força da Portaria 50/2019, que no seu artº 1º dispõe que “A idade normal de acesso à pensão de velhice do regime geral de segurança social em 2020, ….., é 66 anos e 5 meses”. Utilizando a esperança de vida aos 65 anos em 2019 divulgada pelo INE, o fator de sustentabilidade deverá aumentar, entre 2019 e 2020, de 14,67% para 15,2%. Portanto, todos os trabalhadores que peçam a reformao ou aposentação antecipada em 2020, e que aos 60 anos não tenham pelo menos 40 de descontos, sofrem duas penalizações: (1) um 1º corte na pensão de 0,5% por cada mês que lhe falte para os 66 anos e 5 meses; (2) E um 2º corte de 15,2% que resulta da aplicação do fator de sustentabilidade. Só não sofrem este 2º corte, os trabalhadores que aos 60 anos de idade tenham pelo menos 40 anos completos de descontos. Este corte de 15,2% que resulta do fator de sustentabilidade, também se aplicará em 2020 às pensões pedidas ao abrigo do regime de reforma antecipada após desemprego de longa duração. No entanto, aqui o corte de 0,5% por mês em falta é calculado não em relação a 66 anos e 5 meses mas sim relativamente a 62 anos).



 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/pobreza-aumenta-entre-os-trabalhadores/

Maria da Anunciação

Um dia os meus colegas e eu ouvimos batidas fortes na porta da cozinha. A minha mãe não estava em casa. A hora dos vendedores era a da manhã. Estas pancadas que pareciam aflitas assim ouvidas a meio da tarde.


 

 

Tínhamos 20 anos.

Estudávamos juntos, diariamente, dois colegas e eu. Estávamos no 3º ano de Medicina. Morava junto ao Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, que tinha frequentado. Os meus dois colegas, rapazes, tinham feito todo o secundário no Colégio Militar. Ambos tinham escolhido a minha casa e a minha companhia para trabalharmos juntos, e o nosso estudo começava em outubro e terminava depois de todos os exames acabados.

Era o apartamento dos meus pais, cujas traseiras, incluindo a janela do meu quarto davam para o pátio da brincadeira. Ali jogávamos hóquei em patins, à apanhada, ou simplesmente conversávamos com os adolescentes da nossa idade, também vizinhos, sentados no muro baixo, as pernas alegremente penduradas.

Como em muitos outros prédios naquela zona e naquela época, era pela entrada de serviço, acessível desde a rua até essas traseiras por um longo corredor abobadado, que entrava o padeiro a encher o saco do pão pendurado na porta da cozinha, vendedores e vendedeiras que cantavam famosos pregões lisboetas, alguns ciganos com mercadorias dispares. A porteira tinha casa nesse andar térreo do pátio e vigiava os movimentos do prédio, portas e janelas a abrir e a fechar, roupa a estender nos varais, movimentos quotidianos. No nosso prédio, os vizinhos, pais dos nossos amigos, eram engenheiros, médicos, comerciantes abastados, oficiais do exercito de patente elevada.

As mães eram donas de casa e tinham empregada ou mulher a dias a tempo inteiro. De vez em quando uma convidava as outras para um chá, mas ignoro porquê, estes vizinhos nunca se convidavam para jantar. Os filhos, esses sim, subiam e desciam no elevador e entravam em casa uns dos outros onde eram educadamente recebidos e depois seguiam para o quarto dos/as amigas a ouvir música no gira discos, ou a escolher mais um livros nas prateleiras sempre bem recheadas.

Um dia os meus colegas e eu ouvimos batidas fortes na porta da cozinha. A minha mãe não estava em casa. A hora dos vendedores era a da manhã. Estas pancadas que pareciam aflitas assim ouvidas a meio da tarde.

Fomos os três à cozinha e aberta a porta vimos uma criança, uma menina, a cabeça com um cabelo sujo e mal entrançado. A roupa no fio, olhava para o chão, para os pés descalços. Teria uns 8 anos.

Perguntei-lhe se queria comer. Ela acenou que sim. Aqueci sopa no fogão e enchi-lhe um prato. Ficamos a vê-la comer num desespero de fome que nos comoveu. Acabado o prato, perguntei se queria mais. Acenou novamente que sim. Os meus colegas fizeram-me sinal de que comer tanto de uma vez só lhe podia fazer mal. Arranjei um pão com chouriço, prontamente devorado.
Depois conseguiu dizer-nos o nome: Maria da Anunciação.

Vivia num dos bairros da lata perto da zona do aeroporto. Pedia esmola durante o dia inteiro. Andava a pé. Não ia à escola.

Desde esse dia até acabarmos a Faculdade de Medicina ela visitou-nos com regularidade. Comia as sopas que a minha mãe ou a empregada preparava para nós todos, e eu tinha o cuidado de ter sempre reservado atum, chouriço, ovos cozidos, para lhe encher a barriga escanzelada. A Maria da Anunciação começou a crescer. Crescia rapidamente. Os meus colegas e eu avaliávamos espantados o resultado de tanta sopa e tanta sanduíche bem preparada. A minha mãe acedeu a deixar que eu escolhesse roupa que pudesse aquecer a rapariguinha.

Quase no fim da faculdade a Anunciação deixou de aparecer durante uns meses. Mas nós não sabíamos de facto onde ela morava. No bairro da lata as ruas não tinham nome, nem numero na porta. Não podíamos ir procurá-la.

Época dos exames. Voltaram a bater à porta da cozinha. Fiquei com esperança de que ela tivesse voltado.

Aberta a porta, vimos a Anunciação pregada na soleira, braços caídos, envergonhada. Ao lado dela uma mulher forte de idade indeterminada, cavada de rugas como campo lavrado. Saltava à vista a enorme barriga da Anunciação grávida. A mãe vinha pedir ajuda. Ela chorava. Mas nem eu nem os meus amigos estávamos preparados para enfrentar aquela realidade. Não sabíamos o que fazer, desconhecíamos a quem recorrer, não sabíamos sequer que instituições dariam apoio a estes casos. Ainda perguntei:

_ E o pai, sabes quem é o pai, Maria da Anunciação?

Encolher de ombros cansado.

_Um qualquer dos que se serviu de mim.

Os meus colegas ainda tentaram indicar, porque conheciam, a Misericórdia de Lisboa.

A mãe da Anunciação abanou a cabeça.

– Eles não querem saber destes casos.

Sentia-me perdida num conflito de sentimentos. Era preocupação, era culpa, era ingenuidade. As minhas mãos estavam vazias e crispadas.

A Maria da Anunciação, magra, pálida, estafada, deu a mão à mãe e puxou-a.

_ Eu bem te disse que a menina não ia saber fazer nada.

Ficamos a vê-las afastarem-se pelo corredor que levava à rua. Desatei num choro desabalado. Os meus colegas puxaram-me para dentro, para o quarto onde os livros nos esperavam.

O tempo passou mas nunca te esqueci, Anunciação.

Espero que a vida não te tenha maltratado demasiado.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/maria-da-anunciacao/

Portugal | Emprego e pobreza

 
 
Manuel Carvalho Da Silva| Jornal de Notícias | opinião
 
Segundo os dados recentemente divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2018, cerca de 17% das pessoas auferiam rendimentos líquidos inferiores a 501 euros por mês. Isto significa, na fria linguagem da estatística, que estavam "em risco" de pobreza.
 
A percentagem e o número absoluto de portugueses nessa situação de "risco" - depois da contabilização das transferências de apoios sociais para essa população - havia aumentado bastante nos anos negros do "ajustamento" e regredido consideravelmente a partir de 2015, no conjunto da população. Constata-se, contudo, que tal regressão não se verificou entre os empregados onde, pelo contrário, até aumentou entre 2017 e 2018. Esse aumento ainda foi mais grave entre os desempregados.
 
O agravamento da pobreza no conjunto dos desempregados, pode dever-se ao facto de o aumento significativo de emprego neste período ter absorvido muitos desempregados, tendencialmente os mais qualificados e ativos, continuando no desemprego os que dispõem de menos recursos de todo o tipo. Se assim é, deve-se definir políticas específicas para não deixar cada vez mais desprotegidas estas pessoas.
 
A sociedade portuguesa não pode condescender face à persistência da pobreza entre quem trabalha. À tese de que é preciso fazer crescer o bolo da riqueza produzida antes de este ser repartido, há que contrapor a exigência de a riqueza ser melhor repartida exatamente quando é criada, desde logo através da melhoria dos salários e da qualidade do emprego. É que o bolo até cresceu, mas a percentagem dos lucros que vai para o investimento produtivo é cada vez menor; e a fatia do bolo que cabe ao trabalho manteve-se na dimensão a que tinha sido reduzida pelas políticas de desvalorização salarial do "ajustamento", feito pela troika e pelo Governo PSD/CDS.
 
 
O agravamento da pobreza no grupo dos empregados não é nenhum mistério: o emprego cresceu, mas em média os salários associados a esse novo emprego são muito baixos e o emprego muito precário, o que os desvaloriza ainda mais. E a situação seria mais grave se o salário mínimo não tivesse sido atualizado. É por tudo isto que a discussão sobre política de rendimentos - e dentro desta a da política salarial - é muito importante. A este propósito relevo a atualidade de um "Barómetro" sobre "Negociação salarial: o que está em jogo?" da autoria de José Castro Caldas 1 .
 
O Governo avançou com referenciais de crescimento médio dos salários para os próximos quatro anos, apontando o valor de 2,7% para 2020, quando a dinâmica do mercado no último ano impôs um crescimento de cerca de 3%, ou seja, aponta uma atualização abaixo da que está a acontecer no terreno. Entre os empresários temos - conforme os dias, os setores e as plateias - uns a defenderem a necessidade de melhores salários e de negociação de carreiras profissionais e outros a insistirem nas políticas da desvalorização salarial, lado do qual se colocam, em regra, os dirigentes das confederações patronais.
 
Confirma-se que, até agora, o que está em marcha na Concertação Social não é a busca de um acordo para a valorização salarial de que o país precisa, mas sim o estabelecimento de um teto travão às dinâmicas de crescimento dos salários e também à contratação coletiva.
 
*Investigador e professor universitário
 
1- Barómetro #20 do Observatório sobre Crises e Alternativas: Castro Caldas, J. (2019), Negociação salarial: o que está em jogo. Disponível em: https://www.ces.uc.pt/observatorios/crisalt/

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/emprego-e-pobreza.html

Os sem-abrigo não têm rosto

Terão um perfil de vida comum?

 

 

A FEANTSA, a Federação Européia de Organizações Nacionais que trabalha com os sem-abrigo, é a única grande rede europeia que se concentra exclusivamente no grupo vulnerável de pessoas sem residência a nível europeu e recebe apoio financeiro da Comissão Europeia para a implementação de suas atividades.

Definição

A pessoa em situação de sem-abrigo é aquela que, independentemente da sua nacionalidade, idade, sexo, condição sócio económica e condição de saúde física e mental, se encontra sem teto, a viver no espaço público, alojada em abrigo de emergência ou com paradeiro em local precário, ou sem casa, encontrando-se em alojamento temporário destinado para o efeito.

Alguns exemplos de cidades onde vivem elites ricas

  • AmesterdãoSegundo esta organização, de 500 a 1000 pessoas são os sem-abrigo de Amesterdão para um total de habitantes é 800.000. Isso é muito? É difícil dizer porque os países têm maneiras diferentes de contar seus sem-abrigo. Além disso, eles não estão registados.
  • Antuérpia Com 510.000 habitantes a cidade conta 500 sem-abrigo.
  • ParisEntre 200 e 350 pessoas para dormem todas as noites nos corredores do metro de Paris, de acordo com um estudo da RATP e do Observatório Social de Samu, em Paris, publicado segunda-feira 18 de novembro. Destes, 20% estão empregados. Uma luta diária e medos.Um número variável de acordo com as estações do ano. Mais de 2.500 foram identificados ao longo de 2018. Desses, 20% têm um emprego. Esse número edificante une o CDI ao setor terciário, contratos precários, empregos não declarados e pequenas missões. Odile Macchi, a socióloga por trás desse primeiro grande estudo sobre o metro e os sem-abrigo – em 53 entrevistas e muitas discussões informais com esses trabalhadores invisíveis e pobres, “em aumento significativo”.
  • Lisboa361 pessoas sem-abrigo nas ruas de Lisboa.
  • LondresO número de pessoas que dormem mal em Londres está atualmente em um nível recorde. 8.855 pessoas foram vistas dormindo na rua em 2018/19.
  • RomaEm 2014 eram 50.724 pessoa.

Perfil

Ser sem-abrigo é uma situação que pode acontecer a jovens, pessoas de meia idade, idosos. Pode acontecer a trabalhadores ou a desempregados. Pessoas que perderam os frágeis laços familiares por morte de um ou de ambos os pais, por divórcio, por guerrilhas familiares causadas pelo consumo excessivo de álcool, drogas, dependência do jogo. Muitos dos sem-abrigo vêm de famílias desestruturadas e não conhecem nem nunca sentiram afeto, bons tratos, carinho. Têm os sentimentos embotados e não confiam nos outros. Palavras como solidariedade, amizade, confraternização carecem de sentido porque nunca fizeram a experiência da relação entre essas palavras e uma vivência significativa.

A escolaridade que fizeram foi aos tropeções e teve mais expulsões e suspensões do que prémios. Cadernos e livros rasgados, sacolas vazias de sentido, desinteresse e encolher de ombros do pessoal que trabalha nas escolas, nas Juntas de Freguesia, dos vizinhos, de todos nós.

A vida sentimental e afetiva foi muitas vezes começada com intenção maldosa e manipuladora de um adulto próximo e familiar, de um suposto protector, padre, p+rofessor, treinador desportivo. baseada na promessa de jogos, guloseimas, roupas, mergulhos na piscina de uma qualquer casa rica. E o futuro emocional e afetivo ficou definitivamente comprometido.

Gravidezes incompreensíveis que fizeram misteriosamente crescer a barriga de meninas que nunca tiveram bonecas.

Casamentos não desejados orquestrados pelas circunstâncias, pautados pelas pancadas e estaladões corrosivos.

Divórcios consumptivos num acumular petrificante de dívidas para sustento de filhos, que nenhum laço liga qualquer um dos progenitores, divórcios em casamentos em que o amor e a amizade nunca tiveram lugar.

Mais recentemente, com a situação excecional no Médio Oriente e na África temos ainda a procurar um lugar sem teto, nos meandros e subterrâneos das grandes e pequenas cidades, os sem-abrigo que acreditaram que a Europa era o el doradoe chegam aqui cheios de amargura e desilusão quando não morreram no Mar mediterrâneo.

Instituições de abrigo, técnicos desinformados e insensíveis, burocracias, institutos de emprego em que ninguém sabe a que balcão se dirigir. Policias, tribunais, Comissões de Proteção de Menores deficitárias em interesse, sobrecarregadas de papeis, de ordens e contra ordens, onde o rasto de crianças desaparecidas se perdem.

Estes são apenas alguns dos muros que nos separam a nós todos, os que temos um teto, um futuro, sonhos, que nos abrigam. Um muro intransponível.

Do lado bom do muro, pessoas simpáticas, cheias de boa vontade, estão cheias de ideias sobre como lidar com os sem-abrigo. Também sempre prontas a atirar a primeira pedra às Madalenas que não se arrependem em devido tempo, ou àqueles que estando na rua , mentem para se defenderem de um mundo de onde estão excluídos e que não entendem.

Mas, milhares de pessoa boas e simpáticas, que contribuem com o que podem para reforçar esta sociedade de bancos alimentares, não conhecem a realidade escondida do outro lado do muro da vergonha.

Ilustração: Uma mão cheia de nada, outra cheia de coisa nenhuma, de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-sem-abrigo-nao-tem-rosto/

Marcelo e a pobreza: o abismo entre as palavras e os atos!

Marcelo Rebelo de Sousa voltou ontem a demonstrar quem motiva o interesse em continuar como presidente da República para além do atual mandato. Ao sugerir que aceitou o aumento proposto pelo governo para o salário mínimo em 2020, mas poderá não o fazer em 2021 por ser altura de defender os empresários, dá um sinal claro quanto aos objetivos do segundo mandato se acaso conseguir para ele ser eleito.

 

O discurso em que anunciou esse incómodo com a prioridade dada aos que menos ganham aconteceu coincidentemente no dia em que o Instituto Nacional de Estatística publicou o relatório alusivo às condições de vida e rendimento relativo a 2018, que deveria ser bem mais risonho do que o é numa altura em que a economia cresceu e as taxas de desemprego desceram para níveis da ordem dos 7%. E, no entanto, apesar de tudo quanto a anterior maioria governamental aprovou em prol dos mais desfavorecidos a taxa de pobreza do conjunto da população só diminuiu 0,1%. E, pior ainda, agravou-se para os empregados, os desempregados e as famílias monoparentais demonstrando que os nossos salários continuam indecorosamente baixos.

 

Perante dados quantitativos, que se revelam tão elucidativos, soa pior a perspetiva de Marcelo ao considerar já muito ter sido feito em prol dos mais pobres, sendo altura de privilegiar os empresários e os investidores.

 

Em Belém pode-se argumentar que o rendimento nacional mediano cresceu 7,2% em termos nominais e 6,2% em termos reais ou que o coeficiente de Gini (indicador da desigualdade de rendimentos) baixou de 32,1% para 31,9%, mas quem poderá argumentar contra o facto de ser falaciosa a definição de pobreza, quando dela exclui quem possui rendimentos acima de 501 euros mensais? Será que alguém consegue viver dignamente com tão irrisória quantia?

 

A pobreza continua a ser uma realidade indisfarçável em parte significativa da população portuguesa, sobretudo naqueles desempregados que, entre os 297 mil atualmente registados no IEFP, dificilmente encontrarão quem os empregue dadas as competências e capacidades de que estão carenciados. E torna-se ridícula a contínua pressão de Marcelo para que o governo acabe com os sem-abrigo quando, por outro lado, quer restringir a solução inerente à valorização significativa dos salários e outras prestações sociais. Será que ele passou a acreditar nos méritos de uma qualquer varinha mágica? Sabemos que não! Marcelo continua apostado em sabotar na medida das suas competências, e amiúde extravasando-as, as estratégias do governo.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/11/marcelo-e-pobreza-o-abismo-entre-as.html

A coragem do Papa Francisco

O mundo gira à espera de melhores dias e nem sempre na melhor direção. A vida humana e a própria Terra correm riscos nunca vividos.

As alterações climáticas atingem proporções que poderão ser devastadoras. A corrida às armas, nomeadamente às nucleares, envolvendo o Cosmos, para além de ser um sorvedouro de recursos constitui uma ignomínia face à pobreza existente.

Trump assinou uma diretiva que prevê a criação de um exército ligado ao Cosmos para assegurar o domínio militar dos E.U.A., implicando cortes na defesa do ambiente, na cooperação internacional e na luta contra a pobreza.

Em 2018 os E.U.A. gastaram em despesas militares quinhentos e oitenta e um mil  milhões de dólares, 36% dos gastos mundiais, sendo que este país, a China, a Arábia Saudita, a França, a India e o Paquistão gastam 60 % de todas as despesas militares globais, segundo os dados do SIPRI( Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo).

O Papa Francisco antes de partir para a Tailândia e o Japão falou de pobres e pobreza; condenando o descarte das pessoas em nome do lucro.

Independentemente do enquadramento que o Chefe do Estado do Vaticano deu nota, a verdade é que o seu discurso visou a humanização das nossas sociedades, apelando à denúncia da ganância, do individualismo e das tremendas desigualdades sociais.

No Japão, o Papa encarnando a mais profunda aspiração dos humanos – viver em paz, considerou imoral e um crime atentatório da dignidade dos seres humanos o uso da energia atómica para fins bélicos.

Esta coragem cívica é um enorme alento a todos os pacifistas e vale como estímulo , nomeadamente aos católicos pela abolição das armas nucleares.

Quantos Chefes de Estado dos principais países de maioria católica assumem com esta singeleza este propósito?

Quantos Chefes de Estado dos países da NATO que se dizem católicos estão dispostos a concretizar este objetivo?

Que diz sobre esta matéria o nosso prolixo Presidente que comenta tudo a toda a hora? O silêncio pesa quando o dever é falar.

Não há armas nucleares boas, sejam elas estadunidenses, britânicas, russas, chinesas, israelitas, paquistanesas, indianas, francesas ou norte-coreanas. São imorais. Ameaçam-nos e ameaçam a Terra. E são um “argumento” ad terrorem na vida internacional.

Podemos ficar descansados com o tipo de homens que dirigem os Estados possuidores de armas nucleares? Têm primado pelo equilíbrio e pelo bom senso? Podemos confiar no seu poder? Que cada uma e cada um responda no silêncio da sua consciência.

A corrida às armas nucleares ofende a mais simples moralidade. Cerca de metade do mundo vive na pobreza e estes gastos de milhares de milhões constituem um insulto a essa pobreza.

Todas as mulheres e todos os homens de boa fé, seja qual for a crença religiosa, a nacionalidade,  a ideologia, devem dar as mãos pela abolição das armas nucleares.

Este apelo do Papa vai de encontro ao que a imensíssima maioria da população mundial pensa. Que todos meditem e ajam em conformidade. Antes que seja tarde.

https://www.publico.pt/2019/11/28/opiniao/opiniao/coragem-papa-francisco-1895334

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/11/28/a-coragem-do-papa-francisco/

Após 30 anos de direitos da criança, pouco progresso é alcançado para crianças mais pobres do mundo, segundo relatório da UNICEF

 

Nações Unidas, 18 nov (Xinhua) - Embora tenham sido alcançados ganhos históricos globais para as crianças do mundo desde que a Convenção sobre os Direitos da Criança (CRC) foi adotada há 30 anos, muitas das crianças mais pobres ainda sentem a impacto, de acordo com um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) divulgado na segunda-feira.

 

Parte das comemorações do 30º aniversário da CDC, o relatório A Convenção sobre os Direitos da Criança na Encruzilhada analisou as realizações inegáveis ​​das últimas três décadas, prova de que, onde há vontade e determinação política, há melhora na vida das crianças.

 

"Houve ganhos impressionantes para as crianças nas últimas três décadas, à medida que mais e mais pessoas vivem vidas mais longas, melhores e mais saudáveis. No entanto, as chances continuam se acumulando contra os mais pobres e vulneráveis", disse Henrietta Fore, diretora-executiva do UNICEF.

 

"Além dos desafios persistentes de saúde, nutrição e educação, as crianças de hoje precisam enfrentar novas ameaças, como mudança climática, abuso on-line e cyberbullying", disse ela, acrescentando que somente com inovação, novas tecnologias, vontade política e recursos aumentados ajudamos a traduzir a visão da convenção em realidade para todas as crianças de todos os lugares.

 

Citando o progresso dos direitos da criança nas últimas três décadas, o relatório observou que a taxa global de mortalidade de menores de cinco anos caiu cerca de 60 por cento, e a proporção de crianças em idade escolar que não frequentam a escola diminuiu de 18 para 8 por cento.

 

No entanto, o relatório observou que, nos países de baixa e média renda, as crianças das famílias mais pobres têm duas vezes mais chances de morrer de causas evitáveis ​​antes do quinto aniversário do que as crianças das famílias mais ricas.

 

Dados recentes disponíveis mostraram que apenas metade das crianças das famílias mais pobres da África Subsaariana são vacinadas contra o sarampo, em comparação com 85 por cento das crianças das famílias mais ricas. Apesar do declínio nas taxas de casamento infantil em todo o mundo, as meninas mais pobres de alguns países correm mais riscos hoje do que em 1989.

 

O relatório também alertou para novas ameaças que afetam crianças em todo o mundo, incluindo pobreza, discriminação e marginalização, crise climática e uma desaceleração nas taxas de cobertura de imunização, exigindo ações urgentes e uma recomposição dos regimentos infantis.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-11/20/c_138568932.htm

Portugal | Crianças de Rua. “Hoje são menos mas o perigo é muito maior”

 
 
Estão mais vulneráveis ao crime organizado, às redes de tráfico de pessoas, à prostituição. As crianças que se encontram nas ruas já não o fazem exclusivamente por motivos financeiros. Fogem para dizer basta e, de certa forma, “vão à procura de um sonho” mas a realidade que encontram é muito diferente, explica ao Expresso o Instituto de Apoio à Criança, que em 2018 acompanhou 52 casos no distrito de Lisboa
 
Era fácil reconhecê-las, “não só pelos locais onde estavam na cidade, mas também pelo seu aspeto”. As roupas estavam rotas, notavam-se os escassos cuidados de higiene. Hoje não é assim, embora crianças e jovens continuem a estar nas ruas. “Existem algumas situações de exclusão extremas, quase como encruzilhadas sociais”, diz ao Expresso Matilde Sirgado, coordenadora do Projeto Rua, que funciona como observatório social e é desenvolvido pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC). “É uma realidade que persiste em países da União Europeia, não é um problema de terceiro mundo.” Estão mais escondidos e quase todos fugiram de casa ou da instituição, como “não têm sítio onde ficar, acabam por se abrigar no sítio onde os sem-abrigo costumam ficar”.
 
“Hoje há menos crianças e jovens sem-abrigo, mas o perigo é muito maior. Estão mais vulneráveis ao crime organizado, ao tráfico de pessoas, à angariação de jovens, à prostituição”, diz Matilde Sirgado. “Há uma maior prevalência na faixa etária entre os 13 e 18 anos, mas o grande pico de idades é entre os 14 e 16 anos.”
 
Em 1989, o Projeto Rua acompanhou 162 crianças e jovens e nos anos seguintes o número oscilou, nunca passando para lá das centenas de casos: 610 em 1994, 300 em 1995. Com o novo século, dispararam para 758 e, em 2009, chegaram aos 1385. Foi em 2010 que o número cresceu como nunca antes: foram acompanhadas 1836 crianças e jovens. Há cinco anos, as estatísticas voltavam a valores próximos do século passado (471) e, em 2018, o IAC acompanhou ainda 52 processos (16 novos casos e 36 que transitam de anos anteriores).
 
 
Abrigam-se em locais mais protegidos, procuram esconder-se das autoridades e recorrem a balneários públicos e aos serviços das instituições e associações de intervenção, refere o relatório do IAC. Não ficam longos períodos de tempo na rua e rapidamente são detectados.
 
“Estamos a falar de jovens que têm as mesmas necessidades de todos os outros jovens destas idades. Muitas vezes vêm de contextos familiares carentes, muitos fogem de casa com o obvjetivo de dizerem basta. Vão à procura de um sonho, de uma realidade diferente e encontram um contexto muito diferente e muito mais complicado do que tinham imaginado”, explica Matilde Sirgado. “Os que fogem das instituições, diz-nos a experiência, não tem que ver com os lugares ou com os funcionários. Tem mais que ver com as medidas e as políticas sociais em vigor.”
 
Olhando para os 52 casos acompanhados em 2018, a maioria dos jovens é do sexo feminino (38) e tem 17 anos, embora o IAC note que esteja a crescer o número de fugas em idades mais jovens. “Hoje em dia, os fatores de risco de desestruturação psíquica são mais fortes. A fuga é, assim, um apelo desesperado, uma expressão possível de um grito de socorro perante tempestades emocionais que sucessivamente os abalaram”, pode ler-se no relatório. Todos têm nacionalidade portuguesa.
 
ADOLESCÊNCIA: A IDADE DE RUPTURA
 
Por criança de rua entende-se “todo o menor que entrou em rutura com a rede familiar ou comunitária, por abandono ou por escolha própria, de forma mais ou menos radical, passando, assim, a viver sob a sua própria responsabilidade”. Por vezes, descreve o IAC, sobrevive “através de atos mais ou menos ilícitos, pernoitando em locais destinados a sem-abrigo e com condutas antissociais progressivamente mais graves”, sendo considerada uma criança em “situação de marginalidade”.
 
A motivação dos jovens também mudou ao longo dos anos, hoje já não se foge ou se dorme na rua exclusivamente por razões económicas, aponta Matilde Sirgado. “Antes era sobretudo um problema de natureza económica. As crianças que estavam na rua mendigavam, eram forçadas a prostituírem-se. Atualmente é também por falta de acompanhamento, do contexto social, da rapidez com que a sociedade vive, da nossa sociedade toda ligada, das redes sociais. Saem da malha e alguns deles vêm das classes mais protegidas”, diz. “Por trás de uma fuga há uma série de problemas que ao mesmo tempo facilitam a fácil entrada no mundo do crime”, alerta ainda.
 
Entre os casos do ano passado (52), a maioria esteve em determinado momento da vida exposto a “modelos de comportamento desviante” (29). Pelo menos 16 não frequentavam a escola, oito consumiam droga e quatro estavam em situação de sem-abrigo. Há ainda registo de casos esporádicos como roubo (3), mendicidade (3), consumo de álcool (2), prostituição (2) e tráfico de estupefacientes (2).
 
“Cada vez mais cedo iniciam a experimentação de substâncias psicoativas, procurando um aumento de bem-estar e também enquanto desejo de provocação, de desafio e aceitação no plano social, no limite ao ilícito. É devido à desestruturação da sua vida, à falta de competências sociais, à reduzida capacidade de autocontrolo emocional e à falta de hábitos de planificação, que estes adolescentes e jovens procuram soluções imediatas, que na maioria dos casos não se apresentam como respostas saudáveis”, acrescenta o relatório.
 
O Projecto Rua do IAC tem como objetivo principal a intervenção no distrito de Lisboa em situações de emergência face a crianças, adolescentes e jovens desaparecidos e/ou explorados sexualmente com especial incidência sobre os que se encontram em fuga (casa ou instituição). É a equipa que vai até aos jovens, que os procura e tenta tirá-los da rua, com o objetivo de os ajudar a terminar com a fuga e a reintegrarem-se.
 
Marta Gonçalves | Expresso | Imagem: Getty Images

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/portugal-criancas-de-rua-hoje-sao-menos.html

O que nasceu na rua

Por mera ignorância, não sei como as mulheres, no tempo do nomadismo, pariam.

Sei que há mais de sessenta anos as mulheres de Amorim que trabalhavam na lavoura pariam e muitas vezes “perdiam” os filhos.

A razão de ciência decorre do facto de o meu vizinho, o Rafael, que era o sapateiro da aldeia, ter na oficina muitas caixas que traziam as formas para guiá-lo na arquitetura do sapato.

Acontecia que as mulheres estavam a trabalhar e, às vezes, davam conta que o que elas traziam no ventre tinha de sair.

Se havia tempo de chegar a casa, chegavam. Se não havia, não. As que chegavam a casa poderiam ter tempo de chamar a Tia Alice, e se ela estivesse em condições de se montar na carroça ou na bicicleta de quem a ia chamar, vinha.

Quando não podia vir a mulher ficava desamparada, como a mãe de Jesus deitada nas palhas, e seria o que Deus quisesse.

Às vezes a família da mãe tinha de ir pedir ao Rafael uma caixa e metia-o lá dentro, frio e já quase roxo. Então dava-o ao homem e este ia ao cemitério e fazia uma cova pequena e metia lá a caixa.

Não havia sinos a tocarem, nem de alegria, nem de tristeza. O morto, dizia-se não tinha alma por não ter sido batizado. E tudo voltava à mais quieta normalidade.

Os homens e as mulheres continuavam a fazer filhos. Muitos filhos porque viriam a ser o sustento da casa e da velhice de quem os gerara. Entre muitos algum haveria de ter a sopa para os velhos.

As mulheres que assim pariam faziam o que aprendiam a fazer. Só sabiam que tinham de trabalhar e ter filhos. E a vida era trabalho e filhos e algum divertimento quando chegava o Natal e a Festa de Santo António.

As mulheres, mesmo quando tinham os filhos nos campos ou onde calhasse, não estavam sozinhas. O homem e os filhos aguardavam em casa ou num quarto à espera.

Eu lembro-me desses dias porque achava que a minha mãe e o meu pai já tinham muitos filhos e eu não queria mais irmãos. Era o que eu sentia quando via a Tia Alice chegar. Saíam do quarto contentes e eu ficava triste.

As mulheres que tinham os filhos no meio dos campos não escondiam os filhos que tinham. Elas tinham sempre gente com elas para as ajudar. Ou se não estavam ali, estavam em casa ou em toda a aldeia.

A rapariga/mulher que deu à luz numa rua de Lisboa não tinha casa, nem tinha aldeia; apenas uma rua onde havia contentores.

Só que entre aquela pobreza e esta pobreza já vão muitos anos, mais de sessenta. Nenhuma delas é boa, a pobreza é muito má em qualquer circunstância. Mas há uma diferença entre uma e outra – esta solidão extrema numa cidade cheia de gente, centenas de milhares, é um grito terrível. Faz as lágrimas agitarem-se no fundo do lençol onde estão.

Durante uns dias a sociedade agita as consciências e os apelos à bondade sucedem-se. Depois volta tudo ao normal.

E em 2020 as ruas continuarão a ser o abrigo de quem não o tem. Os turistas dos cruzeiros atirarão o seu lixo para os contentores para onde a mãe pôs o seu filho recém-nascido.

https://www.publico.pt/2019/11/09/sociedade/cronica/nasceu-rua-1893166

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/11/10/o-que-nasceu-na-rua/

Pobreza extrema aumentou no Brasil, atingindo 13,5 milhões de pessoas

Quando o governo brasileiro anuncia menos Estado e mais cortes na despesa pública, um estudo revela que, em 2018, a pobreza extrema no Brasil atingiu o nível mais elevado desde 2012.

13,5 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, 52,5 milhões no limiar da pobreza e elevada desigualadade no mercado de trabalho são alguns dos dados agora revelados pelo IBGECréditos / pleno.news

De acordo com os dados ontem divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país sul-americano tinha, em 2018, 13,5 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, o que representa 6,5% da população do país e constitui um nível recorde desde 2012.

O instituto adoptou o critério do Banco Mundial, segundo o qual as pessoas em situação de extrema pobreza têm rendimentos inferiores a 1,9 dólares por dia (1,7 euros). O estudo realizado pelo IBGE apresenta outros elementos negativos, como sejam a desigualdade no mercado de trabalho e a chamada geração «nem-nem» – nem estuda, nem trabalha –, realça a Rede Brasil Atual.

Outro dado que reassalta da pesquisa é que «a miséria atinge principalmente estados do Norte e Nordeste do Brasil, em especial a população preta e parda [negra e mulata], sem instrução ou com formação fundamental incompleta», afirma o El País Brasil.

Além disso, o Brasil conta com 52,5 milhões de pessoas a viver no limiar da pobreza, com menos de 420 reais [92,8 euros] per capita por mês. O índice de pobreza caiu de 26,5%, em 2017, para 25,3% da população, em 2018; no entanto, fica longe do melhor resultado da série, alcançado em 2014, quando a pobreza atingia 22,8% da população brasileira.

«Em 2012, foi registado o maior nível da série para a pobreza, 26,5%, seguido de queda de quatro pontos percentuais em 2014. A partir de 2015, com a crise económica e política e a redução do mercado de trabalho, os percentuais de pobreza passaram a subir com pequena queda em 2018, que não chega a ser uma mudança de tendência», disse o analista do IBGE, Pedro Rocha de Moraes, à Rede Brasil Atual.

Numa altura que se o governo brasileiro leva a efeito cortes na despesa pública, o director do estudo, André Simões, sublinha a necessidade de políticas públicas centradas na camada mais vulnerável da população. «É fundamental que as pessoas tenham acesso aos programas sociais e que tenham condições de se inserir no mercado de trabalho para terem acesso a um rendimento que as tire da situação de extrema pobreza», afirma o IBGE.

Uma das grandes críticas feitas ao governo de Jair Bolsonaro e à política económica neoliberal que adoptou é a falta de investimento nos programas sociais. Em Julho deste ano, o presidente brasileiro foi criticado por não ter reconhecido que o país apresentava um quadro preocupante de crescimento da pobreza, no qual se incluía uma população aproximada de cinco milhões que passava fome um dia inteiro. Bolsonaro respondeu, entre outras coisas, que «falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira, é um discurso populista» e que «o que faz tirar o homem da miséria é o conhecimento».

Brancos ganham 74% a mais que negros

Numa outra parte da pesquisa, o IBGE mostra que a população negra e mulata correspondia a dois terços (66%) dos chamados subocupados por insuficiência de horas. As mulheres, que são 43,7% dos ocupados, correspondem a 54,6% dos subocupados.

Relativamente à taxa de desemprego registado, foi de 14,1% para a população negra e mulata e de 9,5% entre a branca, que, em média, ganhava 73,9% a mais. A mesma fonte revela que o nível de informalidade laboral entre negros e mulatos (47,3%) é superior à dos brancos (34,6%).

Ainda de acordo com o estudo do IBGE, 2,4 milhões de jovens na faixa etária entre os 15 e os 29 anos não estudavam nem trabalhavam em 2018 – a chamada geração «nem-nem» –, o que corresponde a 23% das pessoas dessa faixa estária no Brasil.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-extrema-aumentou-no-brasil-atingindo-135-milhoes-de-pessoas

Los Angeles continua a ser a capital dos sem-abrigo nos EUA

Na cidade californiana, com um dos mercados imobiliários mais caros do país e com dezenas de milhares a viver nas ruas, foram poucos os sem-abrigo que conseguiram aceder a um tecto nos últimos 3 anos.

Apesar de medidas aprovadas com vista à criação de centros de acolhimento, Los Angeles tem milhares de sem-abrigo e os proprietários de imobiliário oferecem resistência à sua construçãoCréditos / LA Times

Kimberly Decoursey, uma mulher de 37 anos que cresceu em lares de acolhimento e viveu vários anos nas ruas, passa agora as noites num centro de acolhimento temporário em Los Angeles, chamado Hollywood Studio Club.

Os dias, passa-os ainda na rua, na rampa de saída de uma auto-estrada, junto do seu noivo (sem-abrigo) e na companhia daqueles que considera «família» – os que partilharam com ela as dificuldades das ruas de Los Angeles e que ela gostaria que tivessem o que tem agora: cama, comida na mesa e duche.

«Muitos deles dariam um braço para estar ali», disse Decoursey à Reuters sobre os seus companheiros, que vivem em tendas sujas no bairro de Hollywood. No entanto, das cerca de 36 mil pessoas sem-abrigo que se estima haver em Los Angeles, poucas foram as que conseguiram um tecto nos últimos três anos, depois de a população ter aprovado uma proposta, em Novembro de 2016, para construir habitações para pessoas que vivem nas ruas e em situação de pobreza, no âmbito da qual foi reunida uma verba de 1200 milhões de dólares.

capitalandmain.com

Segundo a Reuters, um dos maiores obstáculos à construção de habitações permanentes com serviços sociais incluídos reside no facto de Los Angeles deter um dos mercados imobiliários mais caros dos Estados Unidos. Além disso, grupos de proprietários de habitações têm-se oposto à construção de centros de acolhimento nos seus bairros.

Numa região metropolitana em que os preços dos bens imobiliários são muito elevados (o valor médio de uma casa na Grande Los Angeles ronda actualmente os 650 mil dólares), o plano de construção de centros para sem-abrigo gerou uma forte reacção negativa da parte de alguns residentes, preocupados com a possibilidade de diminuição do valor dos seus imóveis. No bairro rico de Venice, junto à praia, onde o preço médio de uma casa se aproxima dos 2 milhões de dólares, alguns residentes foram para tribunal para se opor à construção de um centro de acolhimento.

Problema a aumentar

As autoridades prevêem que o primeiro projecto financiado pela medida aprovada na consulta de há três anos, com vista à criação de centros permanentes com serviços sociais, abra no final deste ano. É que o problema está a crescer. Em Janeiro de 2019, o número de sem-abrigo aumentou 16% por comparação com o ano anterior, de acordo com os dados divulgados pela Los Angeles Homeless Services Authority (LAHSA).

Grupos de pessoas sem-abrigo montaram tendas em passeios e em locais abandonados de quase todos os bairros da segunda maior cidade do país, desde o rico Bel-Air até ao operário San Pedro.

Numa visita à Califórnia em Setembro, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que as pessoas que vivem nas ruas arruinaram o «prestígio» de Los Angeles e San Francisco, tendo sugerido a possibilidade de uma intervenção federal. Nesse mesmo mês, o governo da cidade e do Condado de Los Angeles (democrata) solicitaram ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos que lhes atribuíssem de volta as competências para poderem «varrer» os acampamentos de sem-abrigo.

População com muitos problemas e necessidades

Um relatório publicado este mês pelo Laboratório de Políticas da Califórnia em Los Angeles, que recolheu dados sobre 64 mil pessoas sem-abrigo adultas solteiras em todo o país, revelou que metade delas informou que sofria, conjuntamente, de algum tipo de doença física, mental e de abuso de substâncias.

Ainda de acordo com a Reuters, que se baseia nos dados do Departamento de Saúde Pública do Condado de Los Angeles, nesta área geográfica a taxa de mortalidade aumentou nos últimos cinco anos entre os sem-abrigo, tendo sido registados mais de mil falecidos em 2018 por causas como doenças cardíacas e sobredoses de drogas.

Yahoo News

Se é um facto que os centros de acolhimento tradicionalmente proibiram o consumo de drogas e álcool, o requisito da sobriedade começou a ser eliminado no acesso aos centros de acolhimento, no âmbito de um modelo designado como «Casa primeiro», que já havia sido utilizado no Canadá e noutras partes dos EUA.

Mesmo antes da aprovação da medida a favor da construção dos centros, há três anos, Los Angeles já tinha construído alguns centros de acolhimento permanentes, com serviços de apoio. De acordo com as autoridades, enchem-se depressa e geram longas listas de espera. Os serviços para ajudar pessoas sem casa (clínicas médicas e gabinetes para assistentes sociais e outros funcionários) devem custar sete mil dólares por unidade em cada ano, ficando os custos a cargo do Condado de Los Angeles.

Tornar os centros mais acolhedores

A resistência à integração num centro de acolhimento é partilhada por uma parte da população de sem-abrigo, afirmou Benjamin Henwood, professor associado de Trabalho Social na Universidade do Sul da Califórnia.

«Se a escolha é ir para um abrigo, podem muito bem dizer-nos "Não, obrigado", porque um abrigo pode ser um local onde são roubados, assaltados ou acordados a determinadas horas ou obrigados a deitar-se a certas horas», disse à Reuters. «Se lhes for oferecido um espaço realmente privado, a maioria das pessoas aceita a oferta», acrescentou.

Outra questão prende-se com os animais de estimação, já que um em cada sete sem-abrigo em Los Angeles tem um animal e pode mostrar relutância em separar-se dele, revelou Henwood. Trata-se de um apoio emocional importante e a organização People Assisting the Homeless tem estado a trabalhar no sentido de tornar os centros em que trabalha mais acolhedores, permitindo a presença de animais de estimação.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/los-angeles-continua-ser-capital-dos-sem-abrigo-nos-eua

Beneficiários do rendimento social diminuem nos últimos anos

O número de pessoas a receber esta prestação social tem vindo a descer progressivamente, sinalizando a importância da política de reposição de rendimentos, mas também a necessidade de a mesma ser aprofundada.

Créditos

Os dados, que resultam da execução orçamental da Segurança Social referente a Agosto de 2019, confirmam a tendência de diminuição das despesas com esta prestação social, noticia o Correio da Manhã.

Em comparação com o período homólogo, houve, até Agosto deste ano, uma diminuição de 5,7 milhões de euros com os valores pagos com o designado Rendimento Social de Inserção (RSI). Tal descida corresponde ao facto de haver hoje menos 10 mil beneficiários desta prestação social face ao mesmo período de 2018.

A tendência, que se tem mantido, é a de uma descida no número de beneficiários, como reflexo das políticas que travaram o agravamento da exploração e do empobrecimento, as chamadas medidas de austeridade da Troika, e que vieram a permitir a reposição de direitos e rendimentos e o crescimento do emprego.

Recorde-se que em Março de 2010 se registavam mais de 404 mil pessoas a beneficiar desta prestação social, num momento em que se dava um brutal aumento do desemprego, em particular entre os jovens, e também cortes salariais e de pensões. Nos anos que se seguiram, com as políticas de delapidação de direitos e rendimentos, o número de pessoas a carecer deste apoio ultrapassava as 300 mil.

Hoje são menos de 210 mil pessoas a beneficiar do RSI, o que leva a concluir que persistem todavia carências ao nível do combate à pobreza, à precariedade e aos baixos salários.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/beneficiarios-do-rendimento-social-diminuem-nos-ultimos-anos

Xi enfatiza esforços para ganhar batalha contra pobreza

China tem como meta tirar 43 milhões da pobreza até 2020
 

Beijing, 17 out (Xinhua) -- Xi Jinping, secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCC), sublinhou a importância de se fazer esforços contínuos para vencer a batalha contra a pobreza.

A China deve seguir sua meta de alívio da pobreza, fazer esforços constantes e garantir resultados de alta qualidade nesta batalha, destacou Xi, também presidente chinês e presidente da Comissão Militar Central, ao dar instruções nesta quinta-feira durante o sexto Dia Nacional do Alívio da Pobreza, que cai em 17 de outubro todos os anos.

Elogiando o progresso feito na redução da pobreza sob a liderança do PCC, Xi apontou que a batalha do país contra a miséria chegou a uma fase crucial para se assegurar uma vitória decisiva e completa.

Todas as regiões e departamentos devem seguir as metas de alívio e fazer esforços contínuos para lidar com a pobreza extrema, melhorar os elos fracos na educação compulsória, atendimento médico básico, habitação e segurança de água potável para a população empobrecida, e garantir que todos os carentes rurais possam ser tirados da pobreza e possam entrar em uma sociedade moderadamente próspera no próximo ano, observou Xi.

Segundo ele, medidas efetivas devem ser tomadas para se avançar com base nos resultados existentes da redução da pobreza e para assegurar que a batalhar seja ganha de um modo de alta qualidade.

As instruções de Xi foram transmitidas em uma reunião realizada na manhã desta quinta-feira em Beijing para exaltar o trabalho de alívio da pobreza, que ainda homenageou indivíduos e instituições por seus esforços neste tema.

As instruções do primeiro-ministro Li Keqiang também foram transmitidas na reunião. Li, membro do Comitê Permanente do Birô Político do Comitê Central do PCC, pediu esforços no desenvolvimento industrial e assistência ao emprego para o alívio da pobreza, assim como apoio de seguimento para os programas de realocação para prevenir que as pessoas voltem à pobreza.

O país encorajará esforços de todos os lados para atingir a meta de tirar mais de 10 milhões de pessoas da pobreza este ano, apontou Li.

Hu Chunhua, membro do Birô Político do Comitê Central do PCC e chefe do Grupo Dirigente do Conselho de Estado para Alívio da Pobreza e Desenvolvimento, esteve presente na reunião.

O país deve desempenhar plenamente o papel exemplar dos modelos e fazer esforços persistentes para implementar as medidas de alívio da pobreza, disse Hu.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-10/17/c_138479811.htm

COLAGEM

Duas notícias, aparentemente contraditórias, num matutino de hoje.
 
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(Isabel II a caminho do polémico discurso)
Dois nobelizados crêem que a pobreza se combate caso a caso, pessoa a pessoa.
Ao ver esta cena deprimente, aplaudo a ideia e dou-lhes toda a razão. Se, caso a caso, pessoa a pessoa, eliminarmos os fautores da miséria, até porque são poucos, mata-se também a pobreza de espírito de quem enaltece e publicita os escroques que fomentam a pobreza.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Brasil | Gasto com alimentação pesa três vezes mais no orçamento dos pobres

Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) na sexta-feira (4) compilou dados que permitem constatar a crescente desigualdade social no Brasil por diversos ângulos. Para se alimentar, por exemplo, os brasileiros pertencentes à camada de renda mais pobre comprometem, proporcionalmente, três vezes mais do total do seu orçamento mensal do que a população mais rica, formada por famílias de renda superior a R$ 23,8 mil.

 

 

De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, para as famílias que ganham até dois salários mínimos (R$ 1.996), a comida representa 22% do total de despesas do mês. Nos núcleos familiares que vivem com mais de R$ 23.850 mensais, o item alimentação representa 7,6% das despesas. Ou seja, o peso da comida é três vezes maior para os pobres comparando com os ricos.

O auxiliar de serviços gerais Francisco José da Silva Santos, de 39 anos, está desempregado há três anos e vive de pequenas atividades temporárias e bicos informais. Nem todos os meses consegue juntar uma renda que supere o salário mínimo. Enquanto não consegue uma renda estável, ele vive em um abrigo, na região Oeste da capital, e procura emprego diariamente.

Para Francisco, a despesa no supermercado é um peso no orçamento e nas chances de um futuro melhor. “A pessoa vai comprar alguma coisa e chega lá [no supermercado] e já aumentou o preço. E daí tem que tirar mais e cada vez vai gastando mais. Nesse sentido, o dinheiro vai perdendo o valor”, conta Santos.

Segundo o pesquisador André Martins, do IBGE, um dos responsáveis pelo estudo dos orçamentos, uma eventual demissão ou diminuição de renda de um trabalhador mais pobre acaba reduzindo seu gasto com a alimentação. “Ele tem que se ajustar e onde dá para cortar, um pouco, é na comida. Ele não pode tirar do transporte, por exemplo, porque vai precisar sair para procurar emprego”, disse.

O técnico Ilmar Ferreira, do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), avalia que a situação política do país não caminha para um cenário melhor. “As perspectivas não são exatamente positivas, nessa direção, já se mexeu na política do salário mínimo, na política da Previdência Social, na questão salarial, a precarização dos empregos, de forma que isso tende a se agravar, essa extrema desigualdade”, opina.

O levantamento mensal feito pelo próprio Dieese sobre o custo de vida da classe trabalhadora no Brasil apontou que, em setembro, o valor ideal do salário mínimo para sustentar uma família de quatro pessoas, dois adultos e duas crianças, era de R$ 3.980,82. A pesquisa do IBGE, por outro lado, mostra que esse rendimento está longe da realidade de pelo menos 12,8 milhões de famílias brasileiras, que vivem com um orçamento mensal entre R$ 1.908 e R$ 2.862

Ainda segundo o IBGE 21,8 milhões de famílias têm rendimento entre R$ 2.862 e R$ 5.724; 9,6 milhões de famílias têm rendimento entre R$ 5.724 e R$ 9.540; 4,4 milhões de famílias têm rendimento entre R$ 9.540 e R$ 14 mil; 2,7 milhões de famílias têm rendimento de R$ 14 mil até R$ 23 mil; e 1,8 milhão de famílias têm um rendimento superior a R$ 23 mil.

Em outras palavras, cerca de 20% de toda a renda recebida mensalmente no país fica com 2,7% das famílias, cuja renda supera os 25 salários mínimos. Já na camada mais pobre da população, aposentadorias e políticas públicas, como o Bolsa Família, representam 25% da renda.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/gasto-com-alimentacao-pesa-tres-vezes-mais-no-orcamento-dos-pobres/

Encontre o modo, aja com ousadia: Xi conversa com aldeãos sobre alívio da pobreza

Zhengzhou, 18 set (Xinhua) -- "Agora que você encontrou o modo, você pode agir ousadamente", disse Xi Jinping, secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China, sobre o alívio da pobreza durante sua inspeção à Província de Henan, no centro do país.

Xi fez as declarações na terça-feira ao conversar com os aldeãos em uma plantação de camélia de sementes oleaginosas no distrito de Guangshan.

Os aldeãos observaram que se livraram da pobreza e se sentiram como se celebrassem a Festa da Primavera todos os dias.

Xi disse que o plantio de camélia de sementes oleaginosas é verde, ambientalmente amigável e ecologicamente correto, uma boa maneira de impulsionar o desenvolvimento econômico e aumentar a renda dos agricultores.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-09/18/c_138401487.htm

258 milhões de crianças no mundo não vão à escola

Um sexto das crianças e adolescentes de entre 6 e 17 anos em todo o mundo não frequentam a escola, segundo dados de 2018 publicados pela ONU. O progresso foi «mínimo ou zero» na última década.

Crianças refugiadas brincam nos destroços de um carro no campo Khan Younis, Faixa de Gaza, PalestinaCréditosMohammed Saber / Agência Lusa

O progresso na escolaridade foi «mínimo ou zero» na última década, segundo um comunicado da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) difundido pela Agência Lusa.

São 258 milhões as crianças em idade escolar, entre os 6 e os 17 anos, que não se encontram a frequentar uma escola – um sexto da população mundial naquele intervalo etário. A UNESCO estima que possam vir a haver «12 milhões de crianças» que «nunca verão o interior de uma sala de aula».

Está posto em causa, segundo a organização, um dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que a comunidade internacional acordou concretizar até 2030: uma educação inclusiva e de qualidade disponível para todos.

A diferença entre países ricos e pobres é evidente, escreve a Lusa: enquanto nos primeiros apenas 2% das crianças em idade escolar primária (entre 6 e 11 anos) não estão na escola, essa percentagem sobe para 19% nos segundos.

A situação é mais grave nos níveis superiores de educação: 8% dos jovens de 15 e 17 anos não frequentam a escola nos países desenvolvidos, enquanto nos países em desenvolvimento essa percentagem é de uns estarrecedores 61%.

A Lusa cita a directora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, como tendo realçado dois grupos em que se distingue uma discriminação ainda mais acentuada: as crianças do género feminino e as que, do mesmo género, vivem na região subsariana de África.

As meninas «continuam a ser vítimas dos maiores obstáculos», segundo Azoulay. Dos 12 milhões de crianças que se prevê jamais virem a frequentar uma escola, 75% (nove milhões) são do género feminino. Desses nove milhões, quatro (mais de 44%) vivem na África Subsariana.

Estas estatísticas foram divulgadas uma semana antes da realização da Assembleia-Geral das Nações Unidas, que deve analisar os progressos nos ODS e abordar o financiamento necessário para colocá-los em prática.

Com Agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/258-milhoes-de-criancas-no-mundo-nao-vao-escola

Portugal | É «moderno» aceitar a pobreza?

 
 
A ideologia dominante vai encontrando formas de perpetuar a exploração através do discurso. E é sobretudo aos jovens que tenta vender como «modernas» as «velhas» condições de precariedade a que muitos estão sujeitos.
 
A precariedade laboral tem consequências directas sobre aqueles que a sofrem. Nos últimos anos, pudemos ver como os meios de comunicação dominante normalizaram e tentaram classificar como «modernas» ou «ecológicas» – e até «anti-sistema» e «anti-consumismo» – as condições em que os trabalhadores com vínculos precários vivem.
 
O que se pretende é justificar, com uma suposta «modernidade», os retrocessos a que temos assistido, o generalizar da precariedade e os baixos salários. De acordo com essa «lógica», não seria este modelo económico nem os grandes grupos que o dominam os responsáveis pelas precárias condições de trabalho dos jovens. Estas novas gerações não teriam as mesmas necessidades, seriam «flexíveis», «aventureiras», «ambientalistas» e não fariam questão de adquirir casa própria ou um carro. Não seria este mundo do trabalho o obstáculo à emancipação dos jovens e a que estes construíssem a sua própria vida, mas seriam eles a não estar para aí virados.
 
O AbrilAbril aborda brevemente algumas das «tendências» apresentadas em diversos órgãos de comunicação para normalizar a pobreza e a precariedade.
 
 
1) «Truques» para aquecer a casa no Inverno sem ligar o aquecedor
 
Quem nunca encontrou artigos que desvendam os «truques» para poupar? Na revista Sábado encontramos um desses textos, que sugere a utilização de mais cobertores («Manta, a nossa melhor amiga») ou até ter uma bicicleta estática em casa e «praticar desporto» para se aquecer.
 
Fugindo à questão essencial de identificar como inaceitável que uma pessoa seja obrigada a passar frio no Inverno por não ter dinheiro para ligar o aquecedor, tenta-se assim desvalorizar a pobreza energética que, em tantos casos, está na origem de doenças respiratórias e cardiovasculares.
 
Portugal tem uma das electricidades mais caras da União Europeia e o aquecimento doméstico está muito dependente da electricidade. Assim, 70% das famílias em situação de pobreza não conseguem manter níveis de conforto razoáveis durante o Inverno. Já para não falar do custo das soluções de aquecimento mais ecológicas, como os painéis solares.
 
2) O «freeganismo»: a moda de comer do lixo
 
Encontrámos também vários artigos sobre uma nova «dieta»: o «freeganismo». Mais uma vez, apelar à consciência «ecológica» dos jovens que não suportam o desperdício é o ponto de partida. Como lidar com o facto de as grandes cadeias de supermercados deitarem fora toneladas de comida quando há milhões de pessoas a passar fome no mundo? Deve a juventude reflectir sobre o modelo económico que é responsável por essas contradições? Não. A solução é passar a ir buscar comida aos caixotes do lixo.
 
Num artigo publicado na Vice Australia, e traduzido para português, podemos encontrar um resumo da narrativa que apresentam os defensores deste movimento: «[...] podes desperdiçar a tua vida a trabalhar para teres dinheiro para comprares coisas de que não precisas e, assim, ajudares a destruir o meio ambiente. Ou então, podes viver uma vida satisfatória a revirares lixo ocasionalmente para conseguires comida e outras coisas de que precisas para viveres contente... e a causares menos impacto na Terra.»
 
Mais uma vez, a pobreza é romantizada. Comer do lixo não é o limite da marginalização a que são levadas muitas pessoas; é, sim, uma prática «ecológica» e «anti-consumista».
 
A responsabilidade pelo «impacto causado à Terra» é, nesta visão, estritamente individual. Visão partilhada pelos que pensam que a solução passa por comprar produtos biológicos ou «consumir local», quando na verdade os preços praticados afastam todos os que têm baixos rendimentos. Estes últimos devem ser responsabilizados pela sua «pegada ecológica», mas escapam ilesas as grandes indústrias que mais poluem.
 
3) «Partilhar» salário e trabalho
 
Têm vindo a público várias situações de partilha de perfis em plataformas como a Uber, a Ubereats, a Glovo, entre outras. Estes trabalhadores, sem quaisquer direitos ou vínculo às empresas para as quais trabalham, vivem em situações de extrema precariedade.
 
A «partilha» do trabalho é feita através da utilização da mesma conta, ou seja, um trabalhador tem a sua situação regularizada com a empresa mas «subcontrata» outros para fazer mais horas com o mesmo perfil. O salário é partilhado, contudo, por ter mais horas de trabalho, a conta sobe nas avaliações.
 
Muitos destes trabalhadores têm horários que vão desde as 9h da manhã à madrugada do dia seguinte, sem um período mínimo de descanso diário legal. Além disso, não têm protecção contra acidentes de trabalho, de assistência na doença, subsídio de férias e subsídio de Natal.
 
Mas a narrativa é outra: a «uberização» da economia é um fenómeno que permite que trabalhadores que não queiram ou não possam trabalhar a tempo inteiro consigam «fazer umas horas» e manter a «flexibilidade» com outras ocupações.
 
4) O «nesting»: não sair de casa durante o fim-de-semana
 
Outra tendência muito «moderna» é o chamado «nesting» (aninhamento), que consiste basicamente em não sair de casa durante todo o fim-de-semana. Não ter salário suficiente para fazer actividades fora de casa e gozar do tempo de lazer é vendido como uma prática de combate à ansiedade.
 
Num artigo do Observador o título e o lead são esclarecedores: «‘Nesting’: não às infinitas actividades, sim ao tempo de qualidade em casa. Cancelar os compromissos de fim-de-semana, não ter horários e estar sem fazer nada, ou muito pouco, em casa, é o que o 'nesting' defende. Reunimos oito dicas para tornar o seu 'ninho' mais confortável.»
 
A estratégia não podia ser mais clara: não tens dinheiro, aceitas o facto de seres obrigado a ficar em casa como um hábito positivo, ficas mais isolado e tenderás a concordar com o individualismo vigente.
 
5) O «co-living»: um salário não chega para alugar uma casa
 
Outra consequência da precarização é a dificuldade em alcançar a independência. Ter acesso à habitação, individualmente ou com família, torna-se cada vez mais difícil devido aos elevados preços do mercado e à especulação imobiliária. Foi por isso que o conceito de «co-living» foi inventado e que, parecendo muito moderno, é simplesmente o resultado de não se poder arrendar um apartamento.
 
Num artigo do Diário de Notícias intitulado «Co-living: quando partilhar uma casa com estranhos passa a fazer todo o sentido», diz uma consultora imobiliária que «o nosso país tem um grande potencial para promover esta tendência», uma vez que se trata de «um mercado muito citadino e cosmopolita, direccionado para quem procura um segundo tecto depois da universidade, profissionais deslocados ou independentes e empreendedores, até aos 40 anos aproximadamente».
 
Também a página do Montepio aponta para esta «nova tendência»: «O entusiasmo à volta do co-living, um dos conceitos habitacionais em crescimento nas grandes cidades mundiais, é partilhado por milhares de jovens, trabalhadores expatriados, investigadores ou apenas profissionais em início de carreira e que procuram um espaço onde possam viver sem custos elevados e obrigações contratuais. A maioria destas empresas disponibiliza quartos com várias camas ou beliches, cozinhas equipadas e internet de alta velocidade, garantem um espaço mobilado e bem decorado, onde o design élevado ao pormenor.»

De novo, isto também não tem nada. Várias famílias a partilhar a mesma casa ou trabalhadores deslocados a viver em residenciais faz parte do passado e só pode ser considerado um retrocesso.
 
6) Modelos da Gucci com mochilas da Glovo às costas
 
Em Março deste ano, a revista espanhola Glamour lançou uma campanha de moda em que modelos usaram roupas da Prada e da Gucci (marcas de luxo) com as mochilas da Glovo às costas.
A polémica foi grande, num país onde têm ocorrido vários conflitos relativos à exploração vivida pelos trabalhadores desta empresa, e muitos foram os que se revoltaram, nomeadamente nas redes sociais, contra esta tentativa de legitimação da precariedade.
 
Apesar da responsabilidade da campanha ser da revista, a Glovo decidiu dar a conhecer a sua opinião sobre o caso: «As mochilas da Glovo tornaram-se parte do dia-a-dia das nossas cidades. A Glovo não é apenas uma marca, mas uma nova forma de consumo já utilizada por mais de 2,5 milhões de utilizadores.»
 
Ou seja, uma mochila da Glovo já faz parte do nosso quotidiano, não há que o questionar. É uma boa metáfora para a perpetuação deste modelo económico – o capitalismo é naturalizado, está presente e é aceite, como aceitamos uma árvore que sempre esteve ali.
 
7) A moda da marmita: a tendência dos tempos da austeridade
 
Foi com a chegada da troika a Portugal e das medidas de austeridade, tomadas primeiro pelo governo do PS de Sócrates e depois pelo governo de coligação do PSD e do CDS-PP, que se generalizou a «moda da marmita». Daí a necessidade de transformar um evidente sinal de dificuldades económicas em «tendência».
 
Um em cada cinco portugueses ficou em risco de pobreza. Desses, e segundo o Instituto Nacional de Estatística, quando o programa da troika terminou, em 2015, 25,7% viviam em situação de privação material e 10,6% em privação material severa.
 
Em 2012, o Público divulgava este conteúdo: «A moda da marmita veio para ficar, com ou sem glamour. Levar uma marmita já é tendência. Seja para a faculdade ou para o trabalho, com mais ou menos glamour, são muitos os que optam por levar comida feita em casa. Vantagens não faltam.»
 
«Novos modos de consumo» ou pobreza encapotada?
 
A idealização e normalização da pobreza e da precariedade são armas muito perigosas, pela subtileza com que se apresentam. O que se pretende aqui é de um profundo alcance. Os grandes grupos económicos e os meios de comunicação social dominantes procuram passar a mensagem de que os trabalhadores de hoje, maioritariamente os jovens, querem a forma de vida que o sistema lhes está a impor. A precariedade não seria um flagelo mas uma nova forma de estar na vida, uma «opção», que, de forma individual, resolveria todas as «doenças» da nossa sociedade, do consumismo desenfreado aos perigos ambientais.
 
Mas ter que comer do lixo não é uma «dieta» e não poder sair de casa durante o fim-de-semana não é uma opção para «reduzir o consumismo». São problemas reais que os trabalhadores sofrem diariamente e uma consequência do sistema capitalista.
 
O mal não está, evidentemente, em repensar os nossos hábitos de consumo, em questioná-los e até em alterá-los para contribuir para a sustentabilidade do mundo em que vivemos. O mal está em considerar que poderemos alterar o caminho destrutivo que seguimos com «novos modos de consumo» sem pôr em causa o capitalismo.
 
AbrilAbril

 
Leia mais em AA
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-e-moderno-aceitar-pobreza.html

Um triste exemplo de pobreza política

(José Soeiro, in Expresso Diário, 03/08/2019)

José Soeiro

(É por estas e por outras que o PS irá ficar a ver a maioria absoluta por um canudo… É falta de coerência política, de previsibilidade e de clareza no projecto político. Depois do grande embuste que foram as promessas do Passos para ganhar as eleições de 2011, os eleitores com dois dedos de testa aprenderam a “cheirar” o tacticismo charlatão a dez quilómetros de distância e punem-no. E ainda bem que o fazem.

Comentário da Estátua, 04/08/2019)


 

O caso passou quase despercebido no meio da maratona de votações do último plenário desta legislatura. Mas não foi menos indecoroso por isso. Em outubro de 2018, a Rede Europeia Anti-Pobreza apresentou no Parlamento um “Compromisso para uma Estratégia Nacional de Erradicação da Pobreza”, do qual fazia parte a ideia de que “nenhuma política sectorial deverá ser aprovada sem a prévia avaliação sobre os seus impactos na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão social”. Todos os partidos se manifestaram então sensíveis e abertos a acolher a proposta.

Em janeiro deste ano, foi apresentado um projeto de lei para criar esse mecanismo. O “regime jurídico de avaliação do impacto sobre a pobreza dos atos normativos”, proposto pelo Bloco, tinha sobretudo o mérito de dar centralidade ao tema, num país que tem ainda 1 milhão e 700 mil pessoas em situação de pobreza, obrigando a que se olhasse para o combate à pobreza não apenas como uma questão de “apoio aos pobres” ou de políticas sociais, mas sim como uma questão transversal a todas as escolhas políticas.

Quando a proposta do Bloco foi apresentada, o Presidente da República elogiou-a de imediato, manifestando-se “sensibilizado para ela” e o Governo, pela voz do Ministro Vieira da Silva, declarou que via “como interessante a proposta anunciada pela coordenadora do BE, ainda que seja necessário analisar a sua operacionalização”. A 22 de fevereiro, fez-se o debate e a votação no Parlamento. Nenhum partido votou contra. A proposta foi por isso aprovada e passou-se ao debate na especialidade.

Como é comum nestes casos, quando se aprova uma proposta, é porque se quer que ela dê origem a uma lei, feita com o contributo dos vários deputados na Comissão respetiva. Passou-se o mês de março, abril, maio e nada. Em junho, o presidente da Comissão parlamentar agendou o debate na especialidade, que foi adiado por três vezes, para que os partidos tivessem tempo de apresentar as suas propostas de alteração ao projeto. O prazo esgotou-se e, surpresa, nenhum partido propôs nenhuma alteração, nenhuma sugestão de aperfeiçoamento, nenhuma achega crítica. Nada.

No dia do debate na especialidade, PS, PSD e CDS anunciam que não têm nada a dizer e que dispensam a discussão na especialidade da proposta. Passa-se à votação. Ponto por ponto, juntam-se para chumbar, um a um, todos os artigos do projeto de lei que tinha sido aprovado na generalidade.

Chumbaram a avaliação prévia do impacto sobre a pobreza, chumbaram a existência de um relatório bianual sobre o progresso no combate à pobreza, chumbaram a possibilidade de o Parlamento solicitar a entidades externas a avaliação sucessiva de impacto sobre a pobreza de determinadas leis e até a possibilidade de o Parlamento receber anualmente uma delegação de pessoas em situação de pobreza para ouvir, na primeira pessoa, o que se está a passar no país, ideia relativamente à qual o Presidente da Assembleia tinha manifestado simpatia. Tudo chumbado sem debate público, sem propostas alternativas, sem contributos e com a tentativa de que esta mudança de posição passasse entre os pingos da chuva no turbilhão de matérias que foram votadas na última sessão.

O processo foi insólito e lamentável. Mas o que aconteceu nas 24 horas seguintes tornou tudo isto mais surreal se não mesmo relativamente obsceno. No dia seguinte aos deputados do PS terem chumbado a proposta que antes haviam viabilizado, o PS apresentou, no seu programa, a seguinte proposta (página 100): “Consolidar e desenvolver a experiência, já em curso, de avaliação do impacto das leis quanto ao combate à pobreza (poverty proofing), consagrando a obrigatoriedade de avaliação fundamentada das medidas de política e dos orçamentos na ótica dos impactos sobre a pobreza”.

Ou seja, o PS, que impediu que esta avaliação existisse por ter votado contra, propõe-se continuar no futuro o que não existe porque o PS se juntou à direita para chumbar.

Dá para acreditar?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pobreza na Argentina aumenta e ronda os 35%

Um relatório preliminar da Universidade Católica Argentina (UCA) estima que, dos 40,5 milhões de habitantes no país austral, 14 milhões sejam pobres e quase 3 milhões vivam em condições de indigência.

Quase três milhões de argentinos vivem em situação de indigência ou pobreza extremaCréditos / Motor Económico

Na campanha eleitoral de 2015, o actual presidente da Argentina, Mauricio Macri, chegou a estabelecer como meta a «Pobreza Zero» para o seu país. Quase quatro anos volvidos, o eleito pela coligação Cambiemos está não só muito longe dessa «promessa» como é cada vez mais responsabilizado, pelos seus concidadãos, pelo actual cenário de ruptura social.

Num relatório preliminar, cujos dados foram revelados este domingo – os dados oficiais só deverão ser conhecidos em Setembro, após das eleições primárias de 11 de Agosto e antes das gerais de 27 de Outubro –, o Observatório da Dívida Social da UCA regista um aumento da pobreza no país, estimando que 35% da população se encontre «em condições de vulnerabilidade».

Em declarações à imprensa argentina, Eduardo Donza, investigador do Observatório, disse existirem «várias razões» para este aumento. «Durante os primeiros meses do ano, o aumento dos preços dos alimentos foi maior que a média geral», afirmou, sublinhando que «ainda não há uma recuperação».

Nas ruas de Buenos Aires, vêem-se todos os dias centenas pessoas – por vezes, famílias inteiras – com colchões estendidos nos passeios, ao relento.

De acordo com o investigador, a subida da inflação associada à enorme desvalorização da moeda nacional teve impacto nos preços dos bens essenciais e levou ao aumento da pobreza. «Os preços sobem pelo elevador e os salários pela escada», disse, acrescentando que, «quando há desvalorizações [monetárias], que são muitas vezes bruscas, há subidas de preços muito grandes e um mercado de trabalho que está cada vez mais "precarizado"», lê-se no portal infobae.com.

Em Março, o Instituto Nacional de Estatística revelou que, no final de 2018, 32% da população argentina vivia em situação de pobreza e que mais de 2,7 milhões viviam em situação de indigência ou pobreza extrema.

A recessão económica e o peso altamente desvalorizado, o acordo celebrado entre o governo de Macri e o Fundo Monetário Internacional – com os habituais «pedidos» de redução na despesa pública e de aprofundamento das políticas de austeridade –, os aumentos de preços nos serviços básicos, as subidas constantes dos preços da alimentação, os despedimentos, os encerramentos de inúmeras empresas, o elevado desemprego estão entre os factores que contribuíram para que a Argentina atinja, este ano, o número recorde de pessoas em situação de pobreza.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-na-argentina-aumenta-e-ronda-os-35

Pobreza se combate com trabalho, não “com caridade” diz Carlos Slim

Em outras palavras, você não acaba com a pobreza dando peixes, mas ensinando a pescar.

O empresário mexicano, considerado o homem mais rico do México, disse que a melhor maneira de ajudar os pobres é a geração de empregos.

A única maneira de eliminar a pobreza é criando fontes de emprego, não “com políticas públicas de caridade ou assistência social”, disse o empresário mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do México.

No Fórum da democracia latino-americana, no Palácio Mineiro da Cidade do México, Slim disse que se ele pudesse acabar com a pobreza “dando 300, 400 ou 500 dólares para cada mexicano, eu adoraria, faria com prazer” porque ele está convencido de que “a pobreza não beneficia mais do que talvez alguns políticos demagogos”.

No entanto, ele argumentou que o melhor investimento social não é dar recursos às pessoas, mas dedicá-las à “nutrição, saúde, educação e emprego, emprego e mais emprego”.

“Eu tenho insistido muitas vezes que a única maneira de ver a população sair da pobreza não é com caridade, nem com políticas públicas de bem-estar social, mas com emprego”, disse ele.

Segundo Slim, nos últimos 50 ou 100 anos, “trilhões de dólares foram gastos para combater a pobreza, perdoar dívidas, criar programas de alimentação e saúde”, sem obter os resultados desejados.

O empresário, acionista majoritário da Telmex, maior empresa de telefonia do México e uma das maiores da América, disse que as empresas e seus proprietários têm a responsabilidade de pagar impostos e gerar produtividade, mas essas tarefas também correspondem à sociedade civil.

Organizações acadêmicas e civis apontam que as empresas de Slim controlam os mercados em que operam, impedindo que outras empresas entrem ou afetem os concorrentes.

Slim defendeu a existência de grandes empresas afirmando que “é perverso pensar que em países que não são muito ricos, deve haver empresas muito pobres e que as únicas empresas ricas nesses países, são estrangeiras”.

“Eu acho que é uma ideia errada ou uma atitude perversa ou uma política buscando outros fins”, disse ele.


Via Despierta Cultura

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/pobreza-se-combate-com-trabalho-nao-com-caridade-diz-carlos-slim/

Conselheira presidencial

Desde Novembro passado, os EUA cortaram 700 milhões de dólares de ajudas que se destinavam a combater a epidemia de Ébola na África Central e a apoiar a desminagem de países do sudeste da Ásia, nomeadamente os que foram vítimas das agressões norte-americanas das décadas de 60-70. O corte seguiu-se à publicação no Washigton Post de um artigo louvando a acção do governo de Trump contra o tráfico de seres humanos e condenando os países que, na óptica dos EUA, “não fazem o suficiente” para o combater.
O artigo era assinado por Ivanka Trump, filha do presidente e conselheira superior da Casa Branca.
No próprio dia da publicação do artigo, foi divulgado um memorando presidencial que determinou os cortes das ajudas.
Com este trabalho combinado, a família Trump despe de véus a “ajuda humanitária” dos EUA, facto que só clarifica a relação política do imperialismo norte-americano com o chamado Terceiro Mundo.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Papa diz à FAO que fome se combate com compaixão e vontade política

Na origem do drama da fome, o Papa apontou sobretudo a falta de compaixão, o desinteresse de muitos e uma escassa vontade social e política no momento de responder às obrigações internacionais. Francisco agradeceu “de coração” o trabalho de Graziano da Silva, que deixa a direção da FAO depois de dois mandatos.

O Papa Francisco recebeu no final da manhã desta quinta-feira (27/06) os cerca de 500 participantes da 41ª Sessão da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O tema em debate é “Migrações, agricultura e desenvolvimento rural”. A informação é do Vaticano News.

No início do seu discurso, o Pontífice manifestou o seu agradecimento e reconhecimento ao Diretor-Geral, José Graziano da Silva, que daqui poucas semanas concluirá o seu serviço à frente da FAO. “Obrigado de coração por seu trabalho.” O Papa felicitou o sucessor, também presente na audiência, o chinês Qu Dongyu.

Em mérito ao tema da Conferência, Francisco afirmou que o objetivo “Fome Zero” permanece ainda um grande desafio, mesmo reconhecendo que nas últimas décadas houve um grande avanço.

O Pontífice recordou que para combater a falta de alimento e acesso à agua potável, é preciso trabalhar sobre as causas que as provocam. E na origem deste drama, o Papa apontou sobretudo a falta de compaixão, o desinteresse de muitos e uma escassa vontade social e política no momento de responder às obrigações internacionais.

A falta de alimento e de água não é um assunto interno e exclusivo dos países mais pobres e frágeis, mas diz respeito a cada um de nós. Todos estamos chamados a escutar o grito desesperado de nossos irmãos. ”

Como um dos meios a nosso alcance, Francisco indicou a redução do desperdício de alimentos e de água; para isso, a educação e a sensibilização social é um investimento a curto e longo prazos.

O problema de um é o problema de todos

O Papa reiterou a conexão que existe entre a fragilidade ambiental, a insegurança alimentar e os movimentos migratórios.

“O aumento do número de refugiados no mundo durante os últimos anos nos demonstrou que o problema de um país é o problema de toda a família humana”, afirmou Francisco.

Para isso, é necessário promover um desenvolvimento agrícola nas regiões mais vulneráveis, fortalecendo a resiliência e a sustentabilidade do território.

O Pontífice reforçou a legitimidade da FAO como instituição para coordenar medidas incisivas, em parceria com outras organizações internacionais. “O esforço conjunto de todos fará tornar realidade as metas e os compromissos assumidos.”

O Papa concluiu reafirmando a disponibilidade da Santa Sé em cooperar com a FAO, apoiando o esforço internacional para a eliminação da fome no mundo e garantindo um futuro melhor para o nosso planeta e para a humanidade inteira.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/papa-diz-a-fao-que-fome-se-combate-com-compaixao-e-vontade-politica/

152 milhões de crianças trabalham, alerta UNICEF

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) denunciou, esta terça-feira, que 73 milhões de crianças laboram em condições perigosas ou de exploração.

Segundo a OIT e a UNICEF, 152 milhões de crianças são vítimas de trabalho infantilCréditos / witnessimage.com

Por ocasião do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, que hoje se assinala, o director da UNICEF na Alemanha, Christian Schneider, afirmou, em Colónia, que os governos e as empresas devem ser responsáveis por evitar o trabalho infantil.

De acordo com o organismo das Nações Unidas, o número de crianças vítimas de trabalho infantil diminuiu quase em 100 milhões entre 2000 e 2016, mas, nos últimos tempos, o ritmo desse processo abrandou, revela o portal excelsior.com.mx.

«Não basta condenar e proibir o trabalho infantil», disse Schneider, tendo sublinhado que, para proteger as crianças «de um modo eficaz, devem ser melhoradas as suas condições de vida». Neste sentido, afirmou ainda que «o acesso à educação é um instrumento importante».

Este tema fará parte dos debates a que assistem mais seis mil delegados de estruturas sindicais, governos e organizações patronais que participam na Conferência Internacional do Trabalho, a decorrer em Genebra (Suíça).

De acordo com Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Dia Mundial contra o Trabalho Infantil serão abordados os avanços alcançados nos últimos 100 anos, em que o organismo das Nações Unidas prestou apoio aos países para lutar contra este fenómeno, indica a Prensa Latina.

Num documento divulgado pela OIT, afirma-se que a maioria das crianças vítimas de trabalho infantil vive em África (72 milhões), enquanto 62 milhões residem na região Ásia-Pacífico.

Por seu lado, a Federação Internacional Terre des Hommes, organização não governamental de defesa dos direitos da infância, refere que mais de 70% das crianças que trabalham o fazem no sector agrícola; laboram também em minas, pedreiras e em serviços domésticos.

A UNICEF classifica como trabalho infantil qualquer actividade para a qual os menores de idade ainda são demasiado pequenos, que é realizada em condições perigosas ou de exploração para a criança.

Trabalho infantil é também aquele que impede a criança de aceder à educação e pode causar danos físicos ou psíquicos, pondo em causa a saúde, a segurança e a moral da criança.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/152-milhoes-de-criancas-trabalham-alerta-unicef

Aumenta a fome no Médio Oriente e Norte de África

As Nações Unidas revelaram que a fome continua a aumentar no Médio Oriente e Norte de África, sendo que dois terços dos afectados se encontram em países atingidos por conflitos.

Com a guerra de agressão ao Iémen, milhões de crianças sofrem de desnutriçãoCréditosTaha Almahbashi / UNICEF

Num estudo publicado esta semana, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla inglesa) destaca que a guerra continua a ser a principal causa da fome numa região onde 52 milhões de pessoas sofrem de subnutrição crónica.

O problema tem piorado «com o aumento e o agravamento dos conflitos», e das crises que se prolongam desde 2011 nalguns países árabes. «Entre 2015 e 2017, mais de dois terços das pessoas que passavam fome na região (34 milhões) viviam em países atingidos pela violência», afirma a FAO.

Iraque, Líbia, Síria, Sudão e Iémen são os países a que a agência das Nações Unidas se refere, sublinhando que a situação «põe em causa os esforços» para erradicar a má-nutrição nesta região do mundo, de acordo com os objectivos da Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável.

Aumento a partir de 2011

O fenómeno diminuiu de forma gradual na região entre 2004 e 2010, passando a crescer a partir de 2011, na sequência da chamada «Primavera Árabe», até atingir 11% da população, uma percentagem que sobe para 26% nos países atingidos pela guerra.

«Os conflitos provocaram alterações na produção alimentar e de gado nalguns países, o que afectou a disponibilidade de alimentos em toda a região», disse o representante da FAO no Médio Oriente, Abdessalam Ould Ahmed.

Além da guerra, o aumento da fome está também relacionado, segundo a FAO, com o rápido crescimento demográfico, a escassez de recursos naturais, as alterações climáticas e o desemprego crescente na região.

Melhorar a segurança alimentar

Em média, 21% dos menores de cinco anos têm atrasos de crescimento e 8,7% pesam menos do que deviam para a sua altura, dois indicadores de desnutrição crónica infantil que são piores nos países em guerra.

Para alterar este cenário e melhorar a segurança alimentar, Ould Ahmed defendeu uma produção agrícola e de gado que exija menos recursos de terras de cultivo e de água.

O documento da FAO destaca ainda a necessidade de promover o emprego rural, estimulando o crescimento nessas zonas. Outras recomendações são a redução das diferenças entre áreas urbanas e rurais, a melhoria da produtividade agrícola, das infra-estruturas e dos serviços rurais.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/aumenta-fome-no-medio-oriente-e-norte-de-africa

«Uma Estética da Fome»

Leia a íntegra do manifesto Uma Estética da Fome, de Glauber Rocha

Uma Estética da Fome – o mais importante e influente manifesto do cinema brasileiro – veio a público em julho de 1965. O cineasta baiano Glauber Rocha, diretor de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), apresentou o documento durante o congresso Terceiro Mundo e Comunidade Mundial, na cidade italiana de Gênova. Na volta ao Brasil, publicou o manifesto no terceiro número da Revista Civilização Brasileira – ele sugeriu o título Eztetyka da Fome.

De imediato, por sistematizar o ideário e as diretrizes do Cinema Novo, o manifesto se tornou uma espécie de estatuto do movimento. Segundo Glauber, “somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência”.

Texto de Glauber, tido como “estatuto” do Cinema Novo, põe em destaque “uma cultura da fome”

Essa marca estaria presente nos filmes precursores do Cinema Novo – “de Aruanda Vidas Secas”. Conforme o manifesto, “uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo”.

Uma Estética da Fome

Por Glauber Rocha

Dispensando a introdução informativa que se tem transformado na característica geral das discussões sobre América Latina, prefiro situar as relações entre nossa cultura e a cultura civilizada em termos menos reduzidos do que aqueles que, também, caracterizam a análise do observador europeu. Assim, enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como um sintoma trágico, mas apenas como um dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino. Eis – fundamentalmente – a situação das artes no Brasil diante do mundo: até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais que vulgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da arte mas contaminam sobretudo a terreno geral do político. Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subdesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo; e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob as tardias heranças do mundo civilizado, heranças mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista. A América Latina (AL), inegavelmente, permanece colônia, e o que diferencia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais aprimorada do colonizador; e, além dos colonizadores de fato, as formas sutis daqueles que também sobre nós armam futuros botes. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores, sendo que uma libertação possível estará sempre em função de uma nova dependência. Este condicionamento econômico e político nos levou ao raquitismo filosófico e à impotência, que, às vezes inconsciente, às vezes não, geram no primeiro caso a esterilidade e no segundo a histeria.  A esterilidade: aquelas obras encontradas fartamente em nossas artes, onde o autor se castra em exercícios formais que, todavia, não atingem a plena possessão de suas formas. O sonho frustrado da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente. Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos; livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes (que, sobretudo em São Paulo, provocaram inclusive falências). O mundo oficial encarregado das artes gerou exposições carnavalescas em vários festivais e bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, vários coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de Letras e Artes, júris de pintura e marchas culturais pelo país afora. Monstruosidades universitárias: as famosas revistas literárias, os concursos, os títulos. A histeria: um capítulo mais complexo. A indignação social provoca discursos flamejantes. O primeiro sintoma é o anarquismo pornográfico que marca a poesia jovem até hoje (e a pintura). O segundo é uma redução política da arte que faz má política por excesso de sectarismo. O terceiro, e mais eficaz, é a procura de uma sistematização para a arte popular. Mas o engano de tudo isso é que nosso possível equilíbrio não resulta de um corpo orgânico, mas sim de um titânico e autodevastador esforço no sentido de superar a impotência: e, no resultado desta operação a fórceps, nós nos vemos frustrados, apenas nos limites inferiores do colonizador: e se ele nos compreende, então, não é pela lucidez de nosso diálogo, mas pelo humanitarismo que nossa informação lhe inspira. Mais uma vez o paternalismo é o método de compreensão para uma linguagem de lágrimas ou de mudo sofrimento. A fome latina, por isto, não é somente um sintoma alarmante: é o nervo de sua própria sociedade. Aí reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida. De Aruanda Vidas Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo raízes, personagens roubando para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo, hoje tão condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, pela Comissão de Seleção para Festivais do Itamarati, pela crítica a serviço dos interesses oficiais, pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria. Este miserabilismo do Cinema Novo opõe-se à tendência do digestivo, preconizada pelo crítico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em automóveis de luxo; filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, e de objetivos puramente industriais. Estes são os filmes que se opõem à fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida e frágil, ou se mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que está enraizada na própria incivilização. Como se, sobretudo, neste aparato de paisagens tropicais, pudesse ser disfarçada a indigência mental dos cineastas que fazem este tipo de filmes. O que fez do Cinema Novo um fenômeno de importância internacional foi justamente seu alto nível de compromisso com a verdade; foi seu próprio miserabilismo, que, antes escrito pela literatura de ’30, foi agora fotografado pelo cinema de ’60; e, se antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político. Os próprios estágios do miserabilismo em nosso cinema são internamente evolutivos. Assim, como observa Gustavo Dahl, vai desde o fenomenológico (Porto das Caixas), ao social (Vidas Secas), ao político (Deus e o Diabo), ao poético (Ganga Zumba), ao demagógico (Cinco Vezes Favela), ao experimental (Sol sobre a Lama), ao documental (Garrincha, Alegria do Povo), à comédia (Os Mendigos), experiências em vários sentidos, frustradas umas, realizadas outras, mas todas compondo, no final de três anos, um quadro histórico que, não por acaso, vai caracterizar o período Jânio-Jango: o período das grandes crises de consciência e de rebeldia, de agitação e revolução que culminou no golpe de abril. E foi a partir de abril que a tese do cinema digestivo ganhou peso no Brasil, ameaçando, sistematicamente, o Cinema Novo. Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entendeu. Para o europeu, é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro, é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto: e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem, mais agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede: o Cinema Novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se pela violência de suas imagens em vinte e dois festivais internacionais. Pelo Cinema Novo: o comportamento exato de um faminto é a violência, e a violência de um faminto não é primitivismo. Fabiano é primitivo? Antão é primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é primitiva? Do Cinema Novo: uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo; foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino. De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio, como também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador. O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação, mas um amor de ação e transformação. O Cinema Novo, por isto, não fez melodramas: as mulheres do Cinema Novo sempre foram seres em busca de uma saída possível para o amor dada a impossibilidade de amar com fome: a mulher protótipo, a de Porto das Caixas, mata o marido; a Dandara de Ganga Zumba foge da guerra para um amor romântico; Sinhá Vitoria sonha com novos tempos para os filhos: Rosa vai ao crime para salvar Manuel e amá-lo em outras circunstâncias; a moça do padre precisa romper a batina para ganhar um novo homem; a mulher de O Desafio rompe com o amante porque prefere ficar fiel ao mundo burguês; a mulher em São Paulo S.A. quer a segurança do amor pequeno-burguês e para isto tentará reduzir a vida do marido a um sistema medíocre. Explicação: Já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava explicar-se para existir: o Cinema Novo necessita processar-se para que se explique, à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome. O Cinema Novo não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente latino-americano: além do mais, porque o Cinema Novo é um fenômeno dos povos novos e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração. A integração econômica e industrial do Cinema Novo depende da liberdade da América Latina. Para esta liberdade, o Cinema Novo empenha-se, em nome de si próprio, de seus mais próximos e dispersos integrantes, dos mais burros aos mais talentosos, dos mais fracos aos mais fortes. É uma questão de moral que se refletirá nos filmes, no tempo de filmar um homem ou uma casa, no detalhe que observar, na moral que pregar: não é um filme mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público a consciência de sua própria miséria. Não temos por isto maiores pontos de contato com o cinema mundial, a não ser com suas origens técnicas e artísticas. O Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas consequentes de sua existência.

Glauber Rocha
Nova Iorque, Milão, Rio Janeiro – 1965


por André Cintra | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/uma-estetica-da-fome-glauber-rocha/

O Bairro da Jamaica não é aqui

«“Pense no Haiti, reze pelo Haiti/ O Haiti é aqui/
O Haiti não é aqui”
‘Haiti’, Caetano Veloso
 
“É correto dizer a um homem que ate as botas
sozinho, mas exigir a um homem sem botas que
as ate sozinho é uma brincadeira cruel”
Tradução livre de uma frase de Martin Luther King
Contou-me uma amiga escritora que, há uns tempos, de visita a uma dessas escolas dos subúrbios de Lisboa de turmas compostas, na sua maioria, por alunos negros, alguns deles portugueses, outros estrangeiros, pediram-lhes que levantassem a mão aqueles que se sentiam portugueses. Dois ou três, talvez por precipitação ou boa vontade, levantaram a mão. Os outros, quase todos, afirmaram em silêncio que nem este país, para onde os pais vieram trabalhar, em que muitos deles já nasceram, é deles nem eles são deste país. Os países deles chamam-se Cova da Moura, Vale da Amoreira, Bairro da Bela Vista, Quinta da Fonte da Prata, Quinta da Princesa ou, como todos aprendemos nos últimos dias, Bairro da Jamaica. Os mais ingénuos talvez julguem que estes bairros, por se situarem geograficamente em território português, fazem parte de Portugal, mas essa é uma ilusão que não resiste ao mais pequeno escrutínio. Basta olhar para as imagens do Bairro da Jamaica. Olhem para aquelas torres de tijolos despidos, para aquelas ruas lamacentas no inverno e empoeiradas no verão, para os buracos onde deveriam estar janelas e portas, para os tanques de pedra, os estendais improvisados, o lixo que se acumula à entrada e à volta dos prédios, e digam, com toda a honestidade, se isto se parece com um país da Europa Ocidental no século XXI ou se não se assemelha mais às imagens de devastação que nos chegam de países em guerra ou às ruínas de um pesadelo distópico?
E, no entanto, é ali que vivem cidadãos portugueses ou cidadãos estrangeiros que Portugal acolheu, é ali que vivem contribuintes ao lado de desocupados, criminosos ao lado de mulheres que, ainda de madrugada, passam hora e meia nos transportes para trabalhar nas limpezas a troco do salário mínimo, é ali que vivem miúdos que desistiram da escola ao lado de jovens universitários que trabalham em part-time no McDonald’s, que têm de aquecer água numa panela para tomarem banho e que aprendem desde muito cedo a omitir de onde vêm porque sabem que Bairro da Jamaica num currículo é pior do que cadastro. É ali, naquelas condições degradantes, em que só com um esforço sobre-humano, uma tenacidade feroz, se consegue pôr a cabeça de fora, lutando contra todas as formas de preconceito, contra os mecanismos de perpetuação da pobreza, lutando muitas vezes contra os hábitos e a cultura de família e amigos, é ali, dizia, que vivem seres humanos que depois censuramos por não serem suficientemente agradecidos, por não amarem este país que lhes deu tudo o que têm: uma miséria que nos devia envergonhar.
A sensação que eles têm não é diferente da de muitos portugueses que vivem no interior. Esses portugueses velhos, doentes, abandonados pelo Estado à sua sorte, que morrem nos incêndios e cuja vida depende em alguns casos das atividades lúdicas do médico que serve no helicóptero do INEM, também se sentem revoltados, queixam-se de ser cidadãos de segunda. Porém, com esses conseguimos ser empáticos. Não lhes dizemos: “Venham para as cidades.” Mesmo quando há sinais de incúria, percebemos que pessoas de poucos rendimentos não os queiram desperdiçar em exercícios para os quais também lhes faltam as forças. É que eles nos lembram os nossos avós. Nos lugares onde eles morrem íamos nós passar as férias de verão. Mas ninguém passa férias no Bairro da Jamaica. É aqui bem perto das nossas cidades e até podemos cruzar-nos com pessoas que vivem lá. Pode ser que algumas delas limpem os escritórios onde trabalhamos ou tomem conta dos nossos filhos. Acontece que os nossos avós não vieram de lá nem nunca viveram lá. Além disso, os nossos avós não eram pretos. Nós não somos pretos. Nós não somos pobres. Já fomos, mas graças ao nosso empenho, às nossas virtudes, deixámos de ser. Somos a prova viva que só é pobre quem quer. Só é preto quem quer. Só vive no Bairro da Jamaica quem quer.
Por isso, não nos indignamos com a miséria do Bairro da Jamaica, mas indignamo-nos com a violência dos habitantes do Bairro da Jamaica. Indignarmo-nos com a miséria do Bairro da Jamaica não significa desculpar criminosos ou bater palmas a quem atira pedras à polícia. Não significa tolerar um discurso de pessoas com responsabilidades políticas que, repetindo velhas cartilhas com novas roupagens e a pretexto da defesa dos desfavorecidos, fomenta o ódio, ergue barricadas e reforça a exclusão contra a qual supostamente se manifesta e faz dos homens e mulheres, brancos e negros, das forças de segurança a “besta negra”, a raiz de todos os males, o alvo a abater. A indignação com a miséria de todos os bairros da Jamaica que subsistem em Portugal ao fim de quatro décadas de democracia passa por entender que um Estado que, por desleixo ou incapacidade, não resolve aquele problema e reduz a sua presença a intervenções policiais cria as condições para que o diálogo entre estas duas realidades, entre os dois países, seja feito de pedradas e bastonadas, de acusações de racismo e de abusos das autoridades, “bosta da bófia” de um lado, “pretos de merda” de outro.
A falta de indignação deriva da falta de empatia: simplesmente, não nos conseguimos imaginar naquele lugar. Aquela gente não somos nós. Sentimos a agressão a um agente como uma agressão à comunidade (e é), mas justificamos a violência policial optando por não ver que é uma agressão da comunidade (que também é). Conseguimos pôr-nos na pele de um polícia mal pago e que é recebido à pedrada, compreendemos a pressão a que está sujeito e toleramos os excessos que, por vezes, dela resultam. Mas não somos capazes de imaginar que aquele homem e aquela mulher, aqueles pais, que vimos ser agredidos de uma forma que a legítima defesa não pode justificar, pudessem ser os nossos. Porque eles são pobres e nós não. Porque eles são pretos e nós não. Porque os filhos deles atiram pedras à polícia e os nossos não (mas eu não quero viver num país em que não ser espancado pela polícia é um privilégio reservado aos cidadãos honestos e cumpridores). Porque vivem num país paredes-meias com o nosso, mas aonde nunca fomos, que conhecemos mal e, orgulhosos da nossa ignorância e escudados nos preconceitos, iremos continuar a ignorar enquanto nos entretemos a discutir pormenores de bosta.»
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Leia original aqui

O Bem também tem muitos inimigos

(Dieter Dellinger, 26/01/2019)

jamaica

Foto: Costa no Jamaica na entrega de chaves e responde antecipadamente com esta foto à cabra da Cristas. 

No Bairro da Jamaica, 234 famílias foram realojadas em casas novas com todos os equipamentos sanitários e de cozinhas modernos. António Costa entregou as chaves a muitas famílias e a autarquia garante que dentro de menos de três anos toda a gente estará realojada com uma despesa global de 15 milhões de euros.

O bairro da Jamaica não é de barracas, mas sim de um vasto conjunto de prédios semi-construídos que habitantes vindos dos Palops ocuparam ilegalmente por não estarem devidamente protegidos com cercas.

O construtor tinha começado a obra com apoio bancário e faliu, tendo o banco que a informação não diz, mas parece que foi a CGD, salvo erro, perdido muitos milhões de euros por causa da ocupação, dado que vendeu por um preço irrisório os prédios ocupados e o terreno a outro construtor que não conseguiu apoio público para retirar as pessoas nem condições para melhorar os prédios, cujo destino vai ser a demolição, dado que completar a obra inicial é mais caro que fazer de novo.

Isto faz-me recordar quando eu – como membro da Junta de Freguesia – acompanhei o João Soares, então presidente da CML, e o presidente da Junta do Lumiar na entrega de chaves de casas novas.

Aquilo era um primeiro e grande lote de prédios de realojamento, mas não abrangeu todo o bairro, estando já as malhas para a construção de novos blocos preparadas com materiais e cercas.

Contudo, da parte de partidos da oposição ao PS foi dito que não seriam realojadas mais famílias e durante a entrega uma mulher do bairro avançou e pregou uma violenta estalada no João Soares que quase que caia no chão e perguntou porque não a realojaram.

João Soares não se mostrou muito irritado e disse:”minha senhora, todas as barracas vão sair daqui, aqui vai ser construída uma nova cidade, a Alta de Lisboa ou do Lumiar.

A polícia estava presente, mas não prendeu a mulher porque João Soares não quis e disse que não apresentava queixa.

É assim, as oposições não se lembram de certos problemas durante décadas, mas de repente quando começam a ser resolvidos ficam cheias de inveja e ciumes e fazem tudo para denegrir a imagem de quem está a fazer uma boa obra.

Hoje, a zona da Alta tem muito espaço, muitos blocos de realojamento têm vista para o Tejo e muito arvoredo à volta.

Estive lá há poucas semanas quando toda a Freguesia estava cheia de folhas de árvores e os serviços de limpeza não podiam limpar em dias tudo, até porque se limpava hoje e amanhã já estavam mais folhas. Os serviços foram equipados com vassouras pneumáticas e máquinas aspiradores, mas mesmo assim, só agora é que está tudo limpo e não estão a cair mais folhas.

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Foto: O condomínio Social da Torre na Alta de Lisboa, cujas casas ganharam o prémio mundial de arquitetura social de um ano que não me recordo.

Tudo está diferente numa das Freguesias mais solidárias do Mundo, onde tudo foi feito para as classes mais pobres, incluindo mantê-las a viver nos terrenos mais caros de Lisboa neste momento e terem associações de bairro com creches e locais para os ATL, escolas novas e escolas mais antigas em reparação.

Não fizemos como em Paris que atiraram os habitantes das barracas para muito longe da cidade. Ficou tudo no mesmo local, exceto numa quintarola que tinha sido ocupada e que o dono doou para efeitos sociais. Como o projeto de construção da avenida Carlos Paredes, não permitia a construção de casas sociais naquele local, os novos blocos passaram para uns duzentos metros mais para cima no local que a Carris libertou para o bairro social.

Os herdeiros do proprietário conseguiram que juízes inimigos da Pátria e de Lisboa multassem a CML em mais de 80 milhões de euros quando ninguém ficou prejudicado. Houve recursos atrás de recursos, mas a judicatura contra Portugal e a sua Capital não se demoveu e, provavelmente, ninguém foi ver os novos bairros. Esse dinheiro daria para muita obra social, mas a magistratura não quer saber, o seu objetivo de vida é destruir o PS. Estão a fazer o trabalho que fizeram as Forças Armadas contra o Partido Republicano Democrático na I. República.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Uma ideia simples e subversiva

(José Soeiro, in Expresso, 21/01/2019)

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José Soeiro

De cada vez que se apresenta uma lei no Parlamento, há algumas pré-condições que têm de ser verificadas para que ela possa ser debatida. Viola algum artigo da Constituição? Se sim, vai para trás. A proposta implica despesa? Se sim, só poderá entrar em vigor com o Orçamento do ano seguinte e tem de dizê-lo explicitamente – é a chamada “norma travão”. Da mesma forma, quando um Orçamento do Estado é apresentado, os Governos indicam qual preveem que seja o crescimento da economia, a receita e a despesa fiscal, os indicadores de emprego ou qual a meta de défice que se propõem atingir. Esse prognóstico condiciona todo o debate público que se segue e a avaliação que se faz sobre a proposta. Favorece o crescimento ou não? Implica maior ou menor despesa? Aumenta ou diminui o défice? As próprias instituições internacionais pronunciam-se sobre algumas dessas metas, muitas vezes violando flagrantemente a soberania democrática dos países e o seu direito a tomarem as suas opções de política económica.

Há uns anos, a Rede Europeia Anti-Pobreza/EAPN Portugal lançou um desafio que, sendo uma ideia simples, tem a força subversiva do que é sensato e provocador ao mesmo tempo: e se, antes de se discutir qualquer lei, se avaliasse não apenas o seu impacto no Orçamento, mas também o seu impacto sobre a pobreza? Ou seja, quando se discute o aumento do número de alunos por turma ou o encerramento de um centro de saúde, quando se debate o valor do salário mínimo ou as regras do subsídio de desemprego, quando se apresenta uma nova lei das rendas ou uma política sobre os passes de transporte, quando se discute o valor das pensões ou as mudanças no abono de família, qual é o efeito previsível que essa proposta tem na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão social?

A proposta é sensata porque parte de um tema e remete para um objetivo que, supostamente, merece consenso nacional: o combate à pobreza. Em 2008, a Assembleia da República declarou solenemente, por unanimidade, que “a pobreza conduz à violação dos direitos humanos” e comprometeu-se a desenvolver políticas para erradicá-la. O que se seguiu é conhecido: depois de algum progresso até 2010, o período que se seguiu, particularmente até 2013/2014, foi o do maior agravamento da pobreza que Portugal conheceu nas últimas décadas.

É por isso que, além de uma inteligente provocação, a proposta é também subversiva: ela pretende obrigar a que todos os que têm responsabilidade assumam a consequência das suas propostas. De todas. Ou seja: que se assuma que o combate à pobreza não é apenas uma questão de “apoio aos pobres” nem tampouco de políticas sociais, mas sim uma questão de distribuição primária de rendimento, de políticas orçamentais, económicas, de políticas de emprego, de educação, de saúde ou de habitação. Por exemplo: há quem tenha achado que era importante liberalizar o mercado do arrendamento para “dinamizar a economia” – mas quantos novos pobres resultaram dessa medida? Houve quem decidisse congelar ou cortar as pensões em nome da “diminuição da despesa pública” – mas quantas pessoas foram atiradas para a pobreza à conta disso? Há quem entenda que a vantagem competitiva de Portugal para atrair investimento estrangeiro é comprimir os custos do trabalho (seja no salário, seja no trabalho suplementar ou em dias de férias) – mas além dos efeitos nas “exportações”, que relação é que isso tem com o facto de haver em Portugal 10% de trabalhadores na pobreza, mesmo com salário? Se no campo das declarações de princípios parecemos estar de acordo, por que razão a pobreza não acaba? A explicação não se encontra em comportamentos individuais. Encontra-se no modo como a sociedade e o sistema económico estão estruturados, nas desigualdades que promovem, nos mecanismos da sua reprodução – e nas escolhas que fazemos a todos os níveis.

Em Portugal, mais de 1 milhão e 700 mil pessoas continuam na pobreza. Uma parte significativa são crianças e jovens. Temos pois um imenso caminho a percorrer para erradicar o fenómeno. A sugestão da Rede Europeia (que o Bloco transformou num projeto de lei entregue na Assembleia, o que suscitou já reações do Governo e do Presidente da República) tem o enorme mérito de nos obrigar a pensar no assunto permanentemente, em cada medida que é proposta e a assumir as consequências do que defendemos.

Se a pobreza é uma violação dos direitos humanos, o que a tem agravado? E que escolhas concretas a combatem?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pobreza extrema aumenta na América Latina

Cerca de 62 milhões de latino-americanos (10,2% da população) viviam em pobreza extrema em 2017, revelou esta terça-feira a Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas, em Santiago do Chile.

De acordo com o Panorama Social da América Latina 2018, há 184 milhões de pessoas em situação de pobreza, 62 milhões das quais em pobreza extremaCréditos / viajejet.com

De acordo com o «Panorama Social da América Latina 2018», tornado público na capital chilena por Alicia Bárcena, directora-geral da Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL, um organismo das Nações Unidas), a percentagem de população em situação de pobreza extrema na região é a mais elevada desde 2008.

Já o indicador relativo à taxa geral de pobreza manteve-se estável no ano referido, no conjunto dos 18 países que são estudados no relatório, por comparação com 2016, depois dos aumentos registados em 2015 e 2016.

Em conferência de imprensa, Alicia Bárcena disse que, em 2017, 184 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza (30,2% da população da região), acrescentando que a expectativa da CEPAL é de que, em 2018, esse número seja reduzido em dois milhões. No entanto, o organismo regional da ONU estima que, nesse ano, o número de indivíduos a viver em pobreza extrema aumentou um milhão, passando para 63 milhões.

Analisando e comentando estes dados, Bárcena destacou «os avanços importantes alcançados na região entre a década passada e meados da actual», mas alertou para «os retrocessos registados a partir de 2015, sobretudo no que respeita à pobreza extrema».

40% dos trabalhadores auferem salários abaixo do salário mínimo

O documento revela que cerca 40% da população empregada da América Latina aufere salários inferiores ao salário mínimo estabelecido no seu país e que essa proporção é muito mais elevada entre as mulheres (48,7%) e os jovens dos 15 aos 24 anos (55,9%).

Outro dado referido pelo «Panorama Social» é que a incidência da pobreza é 20% superior nas áreas rurais, por comparação com as cidades, sendo que as crianças e os jovens, as mulheres e as populações indígenas são os mais atingidos.

Ao analisar os países que mais conseguiram reduzir a pobreza no período 2012-2017, o relatório conclui que no Chile, em El Salvador e na República Dominicana o aumento do rendimento do trabalho nos lares foi o que mais contribuiu para essa diminuição. Já na Costa Rica, no Panamá e no Uruguai os factores decisivos para a redução da pobreza foi o aumento da protecção social prestada às famílias com menores recursos.

Tendo em conta a situação analisada e os desafios que ela coloca, Alicia Bárcena defendeu que «os governos devem promover políticas públicas complementares de protecção social e de inclusão no mercado de trabalho», bem como de melhor redistribuição em termos de rendimentos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-extrema-aumenta-na-america-latina

Portugal tem 15% dos pensionistas em risco de pobreza. E na UE?

País estava em 2017 acima da média da União Europeia, cuja proporção era de 14%. Mulheres têm um maior risco
Um em cada sete pensionistas na União Europeia (14,2%) estavam em risco de pobreza em 2017, mais do que os 13,8% registados no ano anterior. Na verdade, desde 2013 que a proporção tem vindo a aumentar gradualmente, altura em que situava nos 12,6%.
Na maioria dos 27 Estados-membros com dados disponíveis a proporção estava entre os 10% e os 25% em 2017, mostra esta terça-feira o gabinete de estatísticas da União Europeia (Eurostat).
Portugal, especificamente, encontra-se acima da média europeia: 15,1% dos reformados estavam em risco de pobreza. A percentagem de pessoas com um rendimento disponível pelo menos 60% inferior ao rendimento disponível médio nacional (depois das transferências sociais) caiu ligeiramente de 2016 para 2017, após ter estado a aumentar desde 2014 (altura em que registava 12,9%).
Estónia (46%), Letónia (44%), Lituânia (37%) e Bulgária (32%) são os países onde os pensionistas têm um maior risco de cair numa situação de pobreza. Pelo contrário, França (7%), Dinamarca (9%), Hungria (9%) e Luxemburgo (9%) são os que têm uma proporção menor de pessoas nesta situação.
Entre 2010 e 2017, a proporção de mulheres reformadas em risco de pobreza foi superior à dos homens em dois ou três pontos percentuais. Uma diferença que se agrava em países como a Estónia, Lituânia, Bulgária e Letónia.
Já em Malta, Espanha, Itália e Dinamarca a situação é inversa, sendo o risco de pobreza superior nos homens do que nas mulheres.
Maria João Bourbon | Expresso | Foto: Tiago Miranda

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-tem-15-dos-pensionistas-em.html

SINAIS DE FOGO – O AVENTAL DA TIA ASSUNÇÃO – por Soares Novais

 

Depois de alguns dias nas bermas das estradas,Assunção  colocou o avental e distribuiu comida “a pessoas carenciadas de Lisboa.”  O avental era da Refood – uma organização que recolhe comida em restaurantes e supermercados que depois redistribui.

Assuncão ocupou-se da tarefa com desenvoltura. Com a mesma desenvoltura que, dias antes, exibiu nas bermas das estradas onde esteve a denunciar os buracos das ditas. A senhora, por baixo do seu nariz empinado de “tia”, é como o “tio” Marcelo. Isto é, é pau para toda a colher. Tanto exibe um ar de sexta-feira santa à saída de um velório de algum notável na Basílica da Estrela; como é toda sorrisos e salamaleques com “as pessoas carenciadas”.

Aliás, a voluntária Assunção, espertinha como é, fez questão de salientar que “visita instituições de apoio social o ano inteiro” e “que a visita em período de Natal serviu para elogiar o trabalho feito pelos 300 voluntários da Refood.”  (Não se fosse pensar que tal  apenas aconteceu por ser a época que é ou por as câmaras das televisões ali estarem a registar tão beatífico momento.)

Nada disso, cruzes canhoto. Assunção preocupa-se com os mais frágeis de nós. Todos os dias do ano. Tal qual Cecília Supico Pinto, do Movimento Nacional Feminino, “a Salazar de saias, popularmente conhecida por Cilinha”, se preocupava com os “rapazes” que combatiam na então África portuguesa…

Acresce: a “tia” sabe muito bem que a Refood foi criada em 2013. Ou seja, quando o seu governo PSD/CDS-PP sacrificava tudo e todos para agradar à  troika e impunha leis para lixar o mexilhão.Como a famosa “Lei Cristas”,que tem servido para despejar inquilinos pobres; ou oassassinodesinvestimento no Serviço Nacional de Saúde, na ferrovia e na rede viária. Mas isso agora não lhe interessa nada. Osburacos nas estradas são mesmo à medida do seu descarado dedinho…

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/12/30/sinais-de-fogo-o-avental-da-tia-assuncao-por-soares-novais/

“Que o Governo não ignore os desvalidos da fortuna!”

Entrevista com Mário Frota, jurista e presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (APDC)

Inquietudes em 2019

Jornal Tornado: Que acontecimentos destaca como mais relevantes em 2018, e que acontecimentos o deixaram mais preocupado?

Mário Frota: Os abalos de distintos graus que o edifício de PAZ e CONCÓRDIA que é a UNIÃO EUROPEIA sofreu ao longo do ano. Pelo que possam representar de ruína iminente!A rebelião em França dos “gilets jaunes” por mor dos impostos e de condições devida penalizantes que políticas insensatas potenciam ao exacerbamento! Estômagos vazios alimentam cérebros inquietos susceptíveis de explosões incontroláveis…

Estômagos vazios alimentam cérebros inquietos susceptíveis de explosões incontroláveis”
Mário Frota

Que mensagem dirige aos consumidores portugueses nesta época natalícia?

Neste Natal, ofereça segurança! Segurança nas rodovias. Segurança em meio urbano, em praças e jardins. Segurança nos espaços comerciais. Segurança no círculo familiar.

Segurança nos brinquedos. Segurança nas iguarias, em particular nas que se oferecem com brindes ocultos. Segurança, em suma, em todos os quadrantes e segmentos da vida, como fundamento de um período liberto de constrangimentos e, sobretudo, de uma natural alegria que não pode ser manchada pela dor, pelo luto, pela consternação.

Seja um actor de mudança! Proclame como vector fundamental o de uma insuperável segurança!

“Que (o Governo) actue adequada e consequentemente onde os equilíbrios faleçam e as agressões se perpetrem”

E qual a mensagem de fim-de-ano que gostaria de deixar no sapatinho do Governo e dos deputados portugueses?

Que o Governo adopte em 2019 uma política de consumidores. Que confira primazia aos cidadãos consumidores nos distintos segmentos de mercado. Que forme, informe e proteja os consumidores, como imperativo seu! Que actue adequada e consequentemente onde os equilíbrios faleçam e as agressões se perpetrem. Que não ignore a primeira infância, os portadores de deficiência, os seniores, os desvalidos da fortuna!

Menos leis, melhores leis, prevenção e repressão de práticas agressivas e artificiosas, justiça acessível e pronta!

E que os deputados, no interesse geral, se não demitam do crucial papel que lhes cabe: não estão ao serviço de interesses míseros e mesquinhos, mas dos da comunidade, dos das pessoas.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/mario-frota-que-o-governo-nao-ignore-os-desvalidos-da-fortuna/

Portugal | Famílias pobres, futuro em risco

Permitir que continuem em situação de pobreza milhares de crianças portuguesas significa privá-las de alimentação, vestuário ou calçado e também discriminá-las no acesso à educação, saúde e habitação.
Anabela Laranjeira | Abril Abril | opinião
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão
Ary dos Santos
No Natal de 2018, quase vinte anos passados do início do novo milénio (o tal tempo futuro que se anunciava ) quantas são as famílias que ainda se reveem nas solidárias palavras de Ary dos Santos?
A pobreza, essa de que se alimenta a caridade própria da época, está, como sabemos, tal como a guerra e a violência, à mesa da maioria das famílias neste Natal.
De acordo com um relatório lançado este ano no Fórum Económico Mundial, em Davos, metade da população do planeta tem um rendimento diário entre 2 e 10 dólares (entre 1,6 euros e 8,1 euros). Houve um aumento histórico no número de multimilionários em todo o mundo, mais 2043 do que em 2017, sendo que 9 em cada 10 são homens.
O património destes multimilionários aumentou 13% ao ano em média desde 2010, seis vezes mais do que os aumentos dos salários pagos aos trabalhadores (2% ao ano). Só em 2017 a riqueza desse grupo aumentou 762 mil milhões de dólares (622,8 mil milhões de euros), uma verba suficiente para acabar mais de sete vezes com a pobreza extrema no mundo. Tudo isto nos duros anos da crise...
Na ponta de uma Europa onde se aprofunda a exploração de quem trabalha, as crianças portuguesas não escapam a estes números. Os anos de troika fizeram disparar os números da miséria em Portugal: 23% dos portugueses sobrevivem com rendimentos abaixo do limiar da pobreza.
Só em 2014, os indicadores começaram a melhorar. Nos últimos três anos, a ligeiríssima diminuição do desemprego e a reposição de rendimentos contribuíram para números mais animadores, mas Portugal continua a ser um país com elevados níveis de pobreza e precariedade, estando a pobreza intimamente ligada à degradação das condições laborais.
Integrado na União Europeia, com uma realidade bem distante de outras latitudes, e uma legislação que protege as crianças e os jovens em particular, o nosso país apresenta um enorme desfasamento entre o que está na Lei, os acordos assinados com várias entidades e a vida diária das crianças e adolescentes provenientes de famílias trabalhadoras.
Em Portugal, trabalhar diariamente, oito ou mesmo mais horas por dia, não é condição para conseguir afastar os filhos da pobreza. Apesar dos desempregados continuarem a ser o grupo mais vulnerável à pobreza, mais de 10% da população empregada está na mesma situação. São milhares as famílias trabalhadoras que, em Portugal, recorrem a organizações como a Cáritas ou o Banco Alimentar, que, por estes dias de Natal, não têm mãos a medir. Continua, numa larguíssima percentagem de Juntas de Freguesia do nosso país, a atribuição dos chamados «Cabazes de Natal» a famílias carenciadas, muitas delas com emprego.
O rendimento mensal médio por adulto ronda os 900 euros, cerca de metade da média da União Europeia, que é de 1500 euros, mas os salários baixos e o salário mínimo (menos de 600 euros líquidos) estão presentes em largos sectores de actividade. Os trabalhadores mais jovens, em idade fértil e/ou com filhos, viram o seu ganho médio reduzir-se em cerca de um terço (-31%).
De acordo com dados recentes, lançados a propósito do dia da Erradicação da Pobreza, Portugal conta-se entre os países com maior «taxa de pobreza infantil»: 29%, muito acima da média europeia de 20%. Essa percentagem triplica para crianças provenientes de famílias de etnia-cigana, famílias afro-descentes ou imigrantes, atingindo os 90%.
O risco de pobreza passa para os 33% se a família for monoparental, ainda que a mãe ou o pai trabalhem a tempo inteiro. E aumenta com o número de filhos, provando a insuficiência de apoios sociais como o abono de família ou outros. No caso de três ou mais filhos, a taxa de pobreza é mesmo superior a 40%. A propaganda feita em torno das famílias numerosas é das mais enganadoras que existe. Estas famílias são, hoje em dia, provenientes de estratos sociais mais favorecidos, mesmo nas áreas rurais do país.
A insuspeita Fundação Francisco Manuel dos Santos juntou dados do Instituto Nacional de Estatística e do Eurostat, e traçou um retrato da pobreza e da exclusão social no país. Em Portugal Desigual, apresenta-se o retrato bem real das famílias trabalhadoras com filhos menores.
Um dos indicadores de que fala é o da «privação material», dizendo-nos que «mais de um terço dos portugueses ainda não consegue suportar o pagamento de uma despesa de 450 euros sem recorrer a um empréstimo, 20% da população não tem capacidade para manter a casa suficientemente aquecida, 8% não consegue pagar a tempo a renda ou outras despesas correntes, e mais de 40% dos portugueses não consegue pagar uma semana de férias por ano».
Com este retrato é possível compreender o valor dado a medidas positivas tomadas recentemente, como o ligeiro aumento do abono de família, a gratuitidade dos manuais escolares ou a reposição de determinados rendimentos em alguns sectores de actividade. São medidas que, não mudando profundamente a situação, aliviam famílias sobrecarregadas de despesas básicas que consomem a totalidade (senão mais) dos seus parcos rendimentos.
A propósito destes dados, o economista e professor Carlos Farinha Rodrigues, um dos coordenadores científicos, diz-nos que durante a crise «tivemos um fortíssimo agravamento das crianças em situação de pobreza, este é o principal aspeto da pobreza em Portugal, porque é um aspeto que tem a ver com o presente, mas que tem repercussões no futuro. Em Portugal sempre existiu uma dificuldade enorme em ter medidas efetivas de combate às crianças em situação de pobreza por esta não ter apenas a ver com os jovens, mas também com as famílias. Como tal, são necessárias medidas destinadas às crianças no setor da saúde, da educação, com o acompanhamento de situações com problemas, mas também com os recursos das famílias onde estas crianças estão. A primeira linha de ação para reduzir a pobreza em Portugal é tratar de forma consistente e sustentada o problema das crianças em situação de pobreza».
Permitir que continuem em situação de pobreza milhares de crianças portuguesas, significa privá-las de uma alimentação, vestuário ou calçado adequado durante uma fase decisiva do seu crescimento, mas significa também discriminá-las no acesso à educação, à saúde e a uma habitação com condições de conforto.
Sabemos hoje que uma pessoa que vive a sua infância e adolescência em privação material tem menos oportunidades, desperdiçando grande parte da sua energia e capacidades na procura de soluções para uma sobrevivência precária. As marcas da pobreza na infância, para além do sofrimento que causam no presente, são, em muitos casos, uma herança para o futuro. Em Portugal, as marcas do trabalho infantil e das condições em que viveu a actual geração de avós, não nos deixa esquecer este facto, nem este fardo.
Uma vida diferente para as famílias com crianças depende de um olhar atento às causas da chamada «pobreza infantil» e a alteração das condições das famílias. Não existem crianças pobres ou ricas, uma vez que não é a estas que pertence o rendimento do trabalho ou do património. Existem pais e mães com mais ou menos oportunidades, mais ou menos acesso a condições de vida e de trabalho que lhes permitam dar uma vida digna aos seus dependentes. Existe um Estado que, de acordo com a sua Constituição (Artigo 70º – protecção especial para efectivação dos direitos da juventude) deve proteger os mais jovens, tornando possível uma vida sem pobreza no presente e uma vida futura com horizontes mais largos.
**A autora escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/portugal-familias-pobres-futuro-em-risco.html

"Um país rico não pode ter trabalhadores pobres"

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
A frase em epígrafe foi proferida por Pedro Sánchez que anunciou uma subida no salário mínimo de 22%, a maior desde 1977. O que esta frase significa é, no essencial, o reconhecimento que o desenvolvimento dos países não pode ser feito à custa da disseminação da pobreza; o que esta frase tem implícito é o risco que as sociedades correm se deixarem essa pobreza grassar. Sánchez percebeu isto; Macron ainda não, embora, por força das manifestações dos coletes amarelos, tenha vindo a anunciar o aumento do salário mínimo em cem euros.
A pobreza hoje não se fica naquelas franjas mais fragilizadas da população, hoje essa pobreza toca e ameaça atingir o que é considerado a classe média. Os salários baixos, estagnados e sem perspectivas de aumentar, o desemprego e a precariedade, aliados ao constante enfraquecimento do Estado Social, está a acordar essa classe média, com consequências que os franceses vão começando a compreender melhor. Quem aproveita ou até certo ponto promove esse despertar é outra questão que merece também ela profunda reflexão.
Macron não percebeu nem percebe, talvez consequência da sua formação precisamente na banca, que de facto "um país rico não pode ter trabalhadores pobres", não só essa pobreza representa a antítese do desenvolvimento como potencia revoltas. De resto, Macron pertence aos  que apesar de terem criado uma crise viram-se a salvo da mesma, enquanto o ónus dessa mesma crise passou para os Estados e para as suas populações. Pensar que as pessoas esquecem isso é pura ingenuidade.
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão
 
 

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http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/um-pais-rico-nao-pode-ter-trabalhadores.html

Pobres, quase-pobres e marés negras

«Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e os sininhos de Natal têm chamado a atenção para a situação da pobreza em Portugal. Os pobres e quase-pobres que vivem no nosso país serão um terreno propício às marés negras que vemos algures? É interessante observar como alguns dos que lamentam a pobreza no nosso país nesta altura do ano são os mesmos que repudiam os impostos sobre as grandes fortunas, os altos rendimentos, e as transacções vultuosas, são os mesmos que têm a perspectiva rentista de pôr o dinheiro a salvo e a render seja onde for, são os mesmos que discutem o aumento do salário mínimo, euro a euro, que são “tão bons” que já pagam 630 euros a alguns a quem podiam pagar 580. São os que exigem “menos Estado”. Enfim, são os mesmos que apoiam os filhos para estarem com os sacos à porta dos supermercados, porque isto de dar aos pobres “empresta a Deus” e sempre é melhor ir pagando um seguro para a eternidade para além do seguro de Saúde.
Podia fazer-se um retrato sociológico deste grupo social e da sua representação parlamentar. Ora, a existência de pobreza está na desigualdade social, seja em Portugal, seja em Angola, seja na China. Sem dúvida que o socorro à pobreza vindo das paróquias, das juntas de freguesia, dos bancos alimentares ou do Programa Operacional de Apoio às pessoas mais carenciadas promovido pela Segurança Social têm aliviado a pobreza e têm ajudado à sobrevivência de muitos. Mas como tem dito repetidamente o presidente da Cáritas portuguesa, a solução do problema não está na solidariedade/caridade mas sim na alteração do sistema e na redistribuição de riqueza. Continua a fazer-nos falta a voz do professor Bruto da Costa, que não fez desta mesma posição apenas um sinal emocional de revolta, mas também uma análise científica, como actualmente é feita pelo Observatório das Desigualdades e pelo legado teórico de autores internacionais como o francês Piketty, que acaba de encabeçar uma proposta de combate ao “híper capitalismo”, para protecção dos mais pobres e moderação das grandes fortunas. Nada de revolucionário, mas apenas reformista.
Em relação à solidariedade/caridade, é bom lembrar que quem vai buscar o cabaz ou os sacos, a maior parte das vezes de alimentos não-perecíveis (onde é que está a dieta mediterrânica?), desce abaixo da linha da dignidade que tinha traçado para si próprio, “rebaixa-se”, não tem a segurança alimentar que lhe possa garantir que na próxima semana ou no próximo mês o saco estará lá. E traçada a linha da pobreza, que, embora construída por equações internacionais, tem dados nacionais e é portanto baixa, são muitos os trabalhadores pobres. Consideremos um casal de funcionários hospitalares, como os que eu conheço, actualmente designados como “assistentes operacionais” mas que são invisíveis, como disse um leitor do PÚBLICO, como doente agradecido. Se um casal de invisíveis hospitalares a ganharem 580 euros cada, que é o que eles ganham, tiver o “azar” de ter três filhos, fazem parte dos pobres e de facto não conseguimos imaginar como é que pagam renda ou crédito de casa, água, luz, telefone, deslocações (porque vivem nos subúrbios) e material escolar para os filhos. E se uma enfermeira-chefe, como as que eu conheço, for mãe monoparental de dois filhos menores, esta família também faz parte dos milhões de pobres do país. E de igual modo se pergunta como é possível o dia-a-dia e como responder aos filhos que querem ter o mesmo que as outras crianças que ficam uns degraus acima. Algumas das situações acima descritas resolvem-se com duplos horários, mas sete e sete faz 14 e há três anos oito e oito faziam 16.
Um pouco acima desta linha estatística que define a pobreza ficam os quase-pobres, de igual modo desesperados para pagar contas com filhos e pais encostando-se em dominó aos avós, por sua vez eles próprios a lutarem com a escassez e alguns deles com os despejos. Estes milhões de pessoas têm razão para estar revoltadas e têm percepção de injustiça. E a injustiça social é evidente: as grandes fortunas mantiveram-se intocáveis durante a crise. O desemprego baixou muito, mas a precariedade e os baixos salários mantêm-se. A ordem ultraliberal de subfinanciamento dos serviços públicos é a cultura de Bruxelas e atinge Portugal.
Apesar disso, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a escola pública funcionam como almofada de segurança. Para estes serviços existirem têm que ser financiados pelo Orçamento Geral do Estado e, portanto, pelos impostos. É o que resta do Estado Social, que não é o Estado Caritativo, mas o Estado da redistribuição. No após II Guerra Mundial, nos países europeus das democracias foi desenvolvido um novo paradigma em relação aos impostos. Deixaram de ser apenas para sustentar o aparelho da administração pública e da defesa e segurança, para serem também uma forma de redistribuição tornando a desigualdade de nascimento menos desigual. Foi uma conquista que veio dos mais pobres, dos trabalhadores e que não chegou à Península Ibérica senão no final dos anos 70 do século XX. No entanto, a explicação para este novo paradigma da utilização dos impostos raramente é explicada e é feita pouca pedagogia cidadã nesse sentido. Em Portugal, se uma pessoa tiver uma situação de doença aguda é socorrida independentemente da sua classe social. Se alguém partir uma perna não fica endividado para o resto da vida. Se alguém tiver uma doença crónica como diabetes, hipertensão arterial ou cancro tem medicamentos que ao doente custam pouco. Já o mesmo não se pode dizer para os cidadãos da Grécia ou dos Estados Unidos da América, para falar de dois exemplos “ocidentais”. Os mais velhos talvez ainda se lembrem de um tempo em que em Portugal não havia médicos nem para passar as certidões de óbitos e quando as mulheres pariam como Deus dava, em 1000 crianças morriam 93. Foi ontem.
Estas almofadas, e eventualmente a lembrança do passado, dão alguma segurança, mas não impedem que aqueles que estão na vida quotidiana da pobreza ou quase-pobreza se sintam em depressão, todos os dias a fazerem contas ao dinheiro como preocupação principal. E, generalizadamente, com a exaustão no trabalho que não lhes permite viver a vida. Têm toda a razão para estarem deprimidos ou revoltados.
Neste terreno, quem anda por aí e ouve comentários, daqueles em relação aos quais não é possível dar respostas racionais ou pedagógicas, percebe que, para além da depressão ou do conformismo, pode haver revolta. Lógica, mas desorganizada e descontextualizada, como sempre acontece. Com alvos próximos, porque os distantes e mais importantes não são perceptíveis. É fácil ouvir pessoas que dizem “e nós descontamos!”, sabendo que a percepção delas é que estão a pagar impostos e serviços de saúde, quando nós sabemos que só descontam para a segurança social e que não pagam impostos directos nem serviços de saúde. Já não é raro ouvir ou ler nas redes sociais que estão a pagar impostos para sustentar deputados e reformas milionárias dos mesmos, notícias falsas divulgadas por fontes organizadas e impunes. Na generalidade da voz pública sente-se que a corrupção está a aumentar, quando o que está a aumentar é a sua investigação e divulgação. E já é possível ouvir quem reclame a pena de morte para os corruptos. Um dia pode vir alguém que diga “Chega” e seja aceite como chefe. Um dia poderá ocorrer que nós, que discutimos isto e que pertencemos a uma elite, mesmo que na elite haja gente “à rasca”, sejamos englobados num todo que são “eles”, os que mandam, os que discutem na Assembleia da República, os que estão lá em cima e têm voz, enquanto uns milhões não têm voz de facto. Portugal vive um momento feliz, apesar das muitas greves, mas há mar e marés e há ir e voltar. Há marés amarelas auto-organizadas e há marés negras que pedem chefes.»
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Leia original aqui

Portugal | Pobre não é de Esquerda, nem de Direita, é pobre

Paulo Baldaia* | Jornal de Notícias | opinião

O populismo, que se alimenta de gente que leva décadas a ser esquecida, é que pode ser de Esquerda ou de Direita. Mas o perigo nunca é real por vir da Esquerda ou da Direita, é real porque os populismos crescem dividindo os mais frágeis, colocando uns contra os outros. Desempregados contra imigrantes ou brancos pobres contra pretos pobres são o conflito mais comum, num discurso que acaba sempre por apelar aos eleitores para se revoltarem contra os eleitos, todos corruptos.

Em Portugal não temos ainda terreno fértil para semear e colher rapidamente conflitos anti-imigração ou conflitos raciais, mas o potencial existe. O que garantidamente seria um êxito eleitoral era um partido anticorrupção, liderado, por exemplo, pelo juiz Carlos Alexandre. Sem outra agenda que não fosse o combate a esta chaga, que os portugueses acreditam ser generalizada na elite política e económica, um partido com Carlos Alexandre como cabeça de cartaz estaria em condições de ganhar as eleições. Se não já em 2019, na seguinte. Sem uma liderança forte, podem ambicionar, ainda assim, eleger vários deputados e formar um grupo parlamentar.

E sabem porque é que os pobres acabam sempre por dar a mão aos populistas de Direita, ou aos populistas de Esquerda? Porque os políticos "sérios" nunca se preocupam em resolver estruturalmente os problemas dos mais pobres. Os que são verdadeiramente pobres demoram décadas para ver uma pequena parte do seu exército entrar no elevador social, mas estão sempre a vê-lo avariar-se e a ter que voltar para baixo, quando há uma crise. Em Portugal, o salário dos gestores não desceu com a última crise e a Função Pública não perdeu emprego, perdeu salário que já recuperou, mas os milhões que vivem com menos de 800 euros por mês são sempre precários no acesso ao direito de ganhar a vida com trabalho. Se a política gosta de brincar com os mais frágeis, é da mais elementar justiça que os mais frágeis gostem de brincar com a política. Foi assim nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa... e haverá de ser assim em Portugal.

*Jornalista

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/portugal-pobre-nao-e-de-esquerda-nem-de.html

Ainda mais uma achega contra a caridadezinha

Na edição online do «Expresso» o economista Marco Capitão Ferreira acrescenta mais um argumento aos muitos já rastreados para que nos eximamos de dar qualquer apoio ao Banco Alimentar contra a Fome: “Sim, o Banco Alimentar gasta 300.000 euros ano em ordenados, para não falar noutras despesas que pouco têm a ver com o apoio a famílias necessitadas, e eu por mim tenho dificuldade em compreender isso.”
A exemplo do que Almada Negreiros escreveu na sua «Cena do Ódio» (esta é a“a pátria onde Camões morreu de fome/e onde todos enchem a barriga de Camões!”) a instituição de Jonet vale-se de haver tanta gente com fome para que muitos dos seus amigos e protegidos com eles lucrem. A começar pela própria líder acabada de ser premiada com um bem remunerado cargo na administração do Grupo José de Mello, que alegou encontrar nela as competências pretendidas para o seu negócio predador em função da continuada vigarice, que tem sido a sua carreira de «benemérita» nos últimos vinte e quatro anos.
Para quem andava há dias a queixar-se de nada ganhar com a atividade no Banco Alimentar, convenhamos que nova sinecura equivale a uma mentira com perna muitíssimo curta.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/ainda-mais-uma-achega-contra.html

Última hora: se combatermos a pobreza, a pobreza diminui

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 05/12/2018)

capitaoferreira

Num desenvolvimento que deve deixar de cara à banda boa parte da intelligentsia nacional o INE publicou, há dias, o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2018 sobre rendimentos do ano anterior.

Daqui resulta que 17,3% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2017, menos 1% que em 2016, menos 1,7% do que em 2016 e menos 2,2% do que em 2014, no pico da crise. São números que vão na direção certa, mas que não deixam de ser preocupantes.

A explicação mais óbvia vem do crescimento económico: o desemprego é um fator preponderante no risco de pobreza, e menos desempregados significam menos pessoas em risco de pobreza.

Mas não vem só daí, vem também de um outro fator, poucas vezes valorizado: este é o valor depois das transferências sociais.

Antes das transferências sociais esse valor é, para 2018, de 43,7%, menos uns impressionantes 4,1% do que em 2013, no pico da crise.

Deixemos por um instante a constatação – arrepiante – que sem mecanismos de proteção social praticamente metade da população estaria em risco de pobreza (e é mesmo de pobreza que se fala aqui, a taxa de risco de pobreza correspondia, em 2017, à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos inferiores a 468 euros por mês) e olhemos para o papel das políticas sociais na correção deste risco.

Parece que, oh espanto, repor pensões e prestações sociais reduz a pobreza e cortar pensões e prestações sociais aumenta a pobreza. Estou chocado, juro.

Sem Estado Social teríamos muito mais pobres, muito menos capacidade de distribuir rendimentos, criar riqueza e empregos, e tão pouco poderíamos esperar viver na relativa paz social que nos habituámos a ter por garantida.

Sem Estado Social teríamos não quase 2 milhões de portugueses em risco de pobreza, mas quase 5 milhões de portugueses em risco de pobreza permanente.

Quer ajudar a reduzir a pobreza? Pague os seus impostos. Contribua para o contrato social com a sua parte. Bate qualquer outro método.

Incluindo a caridadezinha de que tantos vivem. Sim, o Banco Alimentar gasta 300.000 euros ano em ordenados, para não falar noutras despesas que pouco têm a ver com o apoio a famílias necessitadas, e eu por mim tenho dificuldade em compreender isso.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A pobreza não é uma fatalidade

Mariana Mortágua | Jornal de Notícias | opinião

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de risco de pobreza após transferências sociais caiu de 19,5% em 2013 para 17,3% em 2017.

É o valor mais baixo registado em quase 15 anos, mas continua alto demais. Se forem considerados os rendimentos antes de qualquer transferência social, a redução foi de 4,7 pontos percentuais (p.p.), e se a estes rendimentos forem acrescidas apenas as transferências relativas a pensões, então a queda foi de 4p.p.

A primeira nota é que a austeridade, ao contrário do que afirmam PSD e CDS, não foi "socialmente justa". O desemprego, os cortes nos apoios sociais e rendimentos, atiraram para a pobreza milhares de pessoas, agravando todos os indicadores de desigualdades, exclusão e privação.

Mas a reflexão que mais importa é sobre o presente e o futuro.

Segundo o INE, excluindo já as pensões, quase 23% da população está em risco de pobreza. Em 2017, as prestações sociais - o abono de família, o rendimento social de inserção, a prestação social para a inclusão ou o complemento solidário para idosos - reduziram esta percentagem em 5,3 p.p. São por isso instrumentos essenciais no combate à pobreza. A aposta que fizemos, ao longo desta legislatura, no seu reforço depois dos cortes da Direita foi acertada.

Mas a pobreza não é um fenómeno que se combata apenas com prestações sociais. Em 2014, a taxa de risco de pobreza entre a população trabalhadora era 10,9%. Ou seja, mais de um em cada dez trabalhadores não ganhava o suficiente para não ser pobre. Em 2017 esta taxa reduziu-se para 9,7%, e o aumento do salário mínimo nacional em muito deve ter contribuído para isso.

Os resultados são positivos, e devemos aprender com eles. Mas se o aumento das prestações sociais e do salário mínimo foram essenciais para retirar o país da situação de emergência social, a erradicação da pobreza e o combate estrutural às desigualdades não podem ficar pela política de mínimos.

A qualidade e universalidade dos serviços públicos, que são uma forma indireta de rendimento, e a legislação laboral, que protege o salário e o emprego, são dois elementos centrais dessa estratégia. Em ambos, a atuação do Governo, limitado pelas suas próprias escolhas ideológicas e orçamentais, deixa muito a desejar. Não tinha que ser assim, sobretudo porque há no Parlamento uma maioria que permitiria fazer diferente. Mas ainda há tempo para mudar algumas coisas. Esta ainda pode ser a legislatura em que limpamos a troika do código laboral e protegemos o SNS com uma nova lei de bases. Se tal não acontecer, a responsabilidade será exclusivamente do Partido Socialista.

*Deputada do BE

OS DOIS BANCOS

O pão que sobra à riqueza,
Distribuído pela razão,
Matava a fome à pobreza
E ainda sobrava pão.
António Aleixo
O Presidente da República pede para o “Banco Alimentar”, quatro mil voluntários seguem-lhe o exemplo; dá quem quer, muito bem. Ajudar os pobrezinhos, coitadinhos, os hipermercados coitados e mais o IVA que cativa verbas para pagar ao FMI. Tá certo!
Mas para alimentar o voraz “NOVOBANCO”, esse estorvo, de poucas bocas e muita gula, que suga milhões, - o “Novo Banco quer mais 792 milhões do Fundo de Resolução” – Presidente e Governosvêm-nos diretamente ao bolso para alimentar esta besta. Pois bem! De ora avante (Avante camarada) quando a banca estiver em apuros, apelaremos o voluntariado, (meninas e meninos bem nutridos sempre dispostos a auxiliar os carenciados) para pedir à saída dos cemitérios, lojas da Zara e de azar, casinos, ourivesarias onde se vendem relógios impulsionados a centenas de milhares de euros, estendendo a mão e recebendo o óbolo de mãos perfumadas e, quiçá, manchadas de sangue.
E deste modo, o mundo capitalista, encontraria o necessário equilíbrio: os ricos, com o seu suor e lágrimas, sem nos vir ao bolso, cotizavam-se entre si, e os pobres com o valor do seu trabalho, repartiriam justamente o que a todos pertence.
Se necessitarem de mais alguma dica é só dizer.
Ao vosso inteiro dispor, em: “as palavras são armas”.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

Jonet, a descarada mentirosa

Desconheço se a ação deste fim-de-semana em benefício do Banco Alimentar, e sobretudo dos hipermercados, que viram multiplicar-se os lucros à conta desta ação de «caridadezinha», foi ou não bem sucedida. Nos últimos anos, quando dei alguma atenção aos volumes reivindicados por Isabel Jonet, detetava-se uma quebra sistemática como resultados da sua militância em prol das direitas e da inesquecívelboutade sobre o direito dos pobres a comerem ou não bifes.
Confesso que, se nos primeiros anos, ainda fui levado na onda dos que acrescentavam uns quantos produtos alimentares aos carrinhos postos à minha frente pelos escuteiros, nos anos mais recentes escusei-me a esse tipo de «generosidade». Retomara a atitude assumida antes do 25 de abril, quando foi moda a canção sobre brincar à caridadezinha, assassina satiriza àquelas senhoras que, segundo o poema de Gedeão,nunca mais (oh! nunca mais!), e compensavam as íntimas carências cuidando de pobrezinhos.
Não sei se Jonet ésenhora de não sei quem, mas de uma qualificação não escapa: é uma descarada mentirosa. Agora para promover o negócio deu uma entrevista em que incentivava às dadivas por alegar existirem muito mais famílias em estado de carência do que anteriormente. (Ai as saudades que tem do governo anterior!).
Se olharmos para os gráficos ao lado comprova-se que, se lhe caíssem os dentes por cada mentira, lá a teríamos na via sacra da colocação de implantes. É que o INE acaba de publicar evidências em como a taxa de privação severa baixou 4% em outros tantos anos e os indicadores da própria instituição jonetiana aponta para menos cinquenta mil pessoas por ela «apoiadas» no mesmo período.
Que Marcelo tenha aproveitado para aparecer nas televisões a dar-se ares de beatífico apoio a este logro só confirma tudo quanto dele já registámos. Há peditórios para os quais dar o que quer que seja equivale a fazer figura de lorpa...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/jonet-descarada-mentirosa.html

Tem a certeza, Dra. Isabel Jonet?

Na entrevista de hoje ao DN, Isabel Jonet lança o alerta: «há outra vez mais gente endividada, com salário penhorado, sem subsídio de desemprego». Isto porque, segundo a presidente do Banco Alimentar, «a recuperação económica que houve não chegou às famílias mais pobres», apesar de «algumas melhorias em abonos». «Aquilo que eu noto», acrescenta, «é que nos últimos meses sentimos como que algum agravamento da situação das famílias mais carenciadas». Curiosamente, o INE divulgou hoje os resultados do Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida, que dá conta da redução do risco de pobreza de 19,0 para 17,3% entre 2015 e 2017, com uma diminuição igualmente significativa no universo das formas mais extremas de pobreza: a população em situação de privação material severa passa de 9,6 para 6,9%, numa quebra que ronda as -283 mil pessoas (estimando-se que este indicador atinja os 6,0% em 2018).
A presidente do Banco Alimentar poderia de resto olhar para as estatísticas da instituição que dirige e que convergem com os indicadores oficiais. Entre 2015 e 2017 o número de beneficiários do BACF diminuiu em cerca de 66 mil (-15,2%), passando o peso relativo do número de pessoas assistidas na população total de 4,2 para 3,6%.
Com uma entrevista concedida na véspera de mais uma campanha de recolha de alimentos, é de admitir que Isabel Jonet tenha considerado a necessidade de «forçar a nota» (mesmo que à custa da deturpação da realidade), para melhorar o fund raising (ou food raising, melhor dizendo). O que, convenhamos, não deixa de alimentar a suspeição de que os «objetivos» empresariais do BACF se sobrepõem, uma vez mais, à alegada «causa» a que a instituição se dedica.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Papa Francisco: a injustiça é a raiz perversa da pobreza

Ao presidir a celebração eucarística neste domingo (18), o papa Francisco falou sobre a pobreza que atinge milhões de pessoas no mundo. O líder católico identifica na injustiça a raiz principal da pobreza da qual são vítimas, segundo ele, crianças, jovens, idosos, refugiados e populações atingidas por guerra e pela exclusão. O papa afirmou ainda que os cristãos não devem ficar de braços cruzados diante das injustiças. “Não somos chamados a fazer o bem só a quem nos ama”, enfatizou Francisco.

Na celebração deste domingo, que marcou o Dia Mundial dos Pobres, o papa fez uma homilia com forte teor social e uma crítica enfática à concentração de riqueza. Entre os milhares de católicos de todo o mundo que costumam participar das celebrações de domingo no Vaticano, estavam seis mil pobres, a quem o papo dedicou atenção especial.

“O grito dos pobres: é o grito estrangulado de bebês que não podem vir à luz, de crianças que passam fome, de adolescentes acostumados ao estrondo das bombas ao invés da algazarra alegre das brincadeiras. É o grito de idosos descartados e deixados sozinhos. É o grito de quem se encontra a enfrentar as tempestades da vida sem uma presença amiga. É o grito daqueles que têm de fugir, deixando a casa e a terra sem a certeza dum refúgio. É o grito de populações inteiras, privadas inclusive dos enormes recursos naturais de que dispõem. É o grito dos inúmeros Lázaros que choram, enquanto poucos epulões se banqueteiam com aquilo que, por justiça, é para todos”, afirmou o sumo pontífice. Para Francisco “a injustiça é a raiz perversa da pobreza. O grito dos pobres torna-se mais forte a cada dia, e a cada dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos, que são sempre menos e sempre mais ricos.”

Segundo Francisco, “diante da dignidade humana espezinhada, muitas vezes fica-se de braços cruzados ou então de braços abertos, impotentes diante da força obscura do mal. Mas o cristão não pode ficar de braços cruzados, indiferente, nem de braços abertos, fatalista”. O papa concluiu a homilia afirmando: 

Não somos chamados a fazer o bem só a quem nos ama. Retribuir é normal, mas Jesus pede para ir mais longe dar a quem não tem para restituir, isto significa, amar gratuitamente”.

Ao final da celebração, o papa Francisco almoçou milhares de pessoas carentes que participaram da celebração do Dia Mundial dos Pobres. A data foi instituída por Francisco com a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, publicada em 21 de novembro de 2016, na conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/papa-francisco-a-injustica-e-a-raiz-perversa-da-pobreza/

Quantos pobres para fazer um rico?

João Rodrigues
Num país com tantos pobres, com tantos trabalhadores pobres, num país com desigualdades “chocantes”, seguindo o Comissão Nacional Justiça e Paz, é preciso insistir na questão garrettiana: quantos pobres para fazer um rico? Num tempo ainda de desigualdades pornográficas, de grande impotência democrática, em que até parece que tudo se compra e tudo se vende, incluindo direitos de residência, é preciso criticar a economia política dominante, até para que se identifiquem as políticas dominantes do capitalismo realmente existente; um sistema plutocrático onde no topo da pirâmide social não há vergonha, até porque não há receio político. Num contexto destes, não pode haver complacências por parte dos que querem construir uma alternativa a este estado de coisas. Foi também por causa de preocupações destas que escrevi para o Le Monde diplomatique - edição portuguesa de Setembro o artigo que agora deixo por aqui: Porno-riquismo Numa reportagem do Expresso sobre o crescimento do luxo em Portugal, Miguel Guedes de Sousa, director do grupo Amorim Luxury (CEO, acrónimo em inglês, a língua dominante dos negócios sem fronteiras), afirmou que «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados»[1]. Guedes de Sousa é casado com Paula Amorim, o principal rosto da maior fortuna nacional, deixada por Américo Amorim e hoje avaliada em 4502 milhões de euros[2]. Daí o nome do grupo, detido e presidido por Paula Amorim, e que inclui, entre outros, «um espaço de indulgência único» na Avenida da Liberdade chamado JNcQuoi (a língua francesa ainda dá cartas no campo da distinção), englobando um restaurante e uma loja de luxo; esta última é parte de uma cadeia[3]. A mesma reportagem do Expresso informa-nos que os clientes mais indulgentes têm a honra de ter o seu nome gravado no balcão do bar. Entre os 48 nomes aí gravados no primeiro ano de funcionamento, encontram-se o do milionário francês do imobiliário Claude Berda, de que voltarão a ouvir falar neste artigo, o do político e advogado de privatizações para estrangeiros, José Luís Arnaut, ou o do gestor de rendas eléctricas também para estrangeiros, António Mexia: «Nomes que num fim de tarde passado entre queijos e vinhos Barca Velha e Château Margaux gastam facilmente dez mil euros e outro tanto (ou mais) numa manhã de compras, na loja Fashion Clinic no piso de baixo, entre roupas e calçado Gucci, Valentino e Dolce&Gabbana».  Por sua vez, no novo suplemento mensal do minguado Diário de Notícias chamado DN Ócio«uma revista que aborda informação relativa ao mercado premium e de luxo – das questões práticas às aspiracionais», segundo o seu estatuto editorial – pode ler-se a enésima reportagem sobre a Avenida da Liberdade, sobre os seus «guardiões do luxo»[4]. Nela, Filipa Ferreira, «head concierge» (o inglês cruza-se convenientemente com o francês) do Tivoli Avenida da Liberdade, afirma que «o cliente pede e nós dizemos sempre que sim (…) vamos ter de concretizar o pedido seja como for». De forma certamente não intencional, a DN Ócio homenageia um livro clássico da economia política, que será em breve editado entre nós: A Teoria da Classe Ociosa. Publicado em 1899, numa era de desigualdades igualmente cavadas, Thorstein Veblen cunhou aí a noção de consumo conspícuo, sendo um dos seus críticos mais lúcidos. Para lá do ócio, a classe dominante dos grandes proprietários assentava a sua reputação de base pecuniária no consumo ostentatório, especializando-se de resto em actividades económicas predatórias de natureza predominantemente financeira. Ao mesmo tempo, os seus hábitos infectavam o resto da pirâmide social, gerando uma emulação consumista assente também no desperdício e na criação de obstáculos a uma comunidade inclusiva e com hábitos funcionais[5]. Ao serviço do porno-riquismo  Avançando mais de um século e para este lado do Atlântico, cruzamos as declarações de Guedes de Carvalho e de Filipa Ferreira, oriundas dos dois lados da mesma avenida e da mesma divisão social, e encontramos uma realidade, com amplos reflexos mediáticos, em ascensão neste país e que precisa de um termo novo: porno-riquismo. O porno-riquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo multi-escalar com desigualdades pornográficas, onde o dinheiro assim concentrado é sempre quem mais ordena, incluindo na dimensão pessoal, que é sempre política. O centro da cidade de Lisboa, ou do Porto, é cada vez mais visto como uma área para os ricos concretizarem todos os seus desejos, do prédio classificado ao hotel, passando pela loja, pelo restaurante e por uma miríade de serviços pessoais associados. Tudo de luxo. O porno-riquismo não se circunscreve ao centro das nossas duas principais cidades, já que também transborda para certos enclaves nas suas periferias e mesmo, usando os termos da reportagem do Expresso acima referida, para a «autenticidade» da «província», ou seja, e só para dar um exemplo, para uma «aldeia recuperada», entre Condeixa e Pombal, onde os clientes «são recebidos num heliporto privado, assinalado com um H em tamanho gigante, com o mesmo tipo de letra da marca francesa Hermès». O que devem fazer muitos dos restantes 99% perante os hábitos dos 1%, e isto na mais heróica das hipóteses numéricas? Para os que são crescentemente compelidos pela especulação imobiliária a viver fora, mas a trabalhar dentro, das grandes cidades, servindo os ricos, a revista Visão, numa representativa reportagem, dedicada às «casas em Portugal que valem mais milhões», tem uma sugestão prática, mas de duvidosa moralidade, como em tudo nesta área: «Como sonhar ainda vai sendo actividade privada isenta de impostos, nada nos impede de apreciar uma moradia como aquela que está à venda na Quinta da Marinha por 28 milhões de euros, comercializada pela Sotheby’s»[6]. Nas sociedades capitalistas, certa comunicação social contribui para que os standards pecuniários pornográficos fixados pelos mais ricos, de resto muito pouco taxados, invadam até os sonhos. Nada que fosse estranho na era anterior de porno-riquismo sobre a qual Veblen escreveu. No entanto, vale a pena descer do mundo onírico para o da realidade material concreta, convocando o conhecimento, explicitamente ao serviço de porno-riquismo, em linha com o que é apanágio, ainda que por vezes disfarçado, de toda a sabedoria económica convencional. Segundo Helena Amaral Neto, coordenadora de cursos executivos na área do luxo no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), que vão da gestão de marcas de luxo ao turismo e ao imobiliário de luxo: «O segmento [do luxo] não tinha qualquer expressão antes de 2012. Tudo o que está a acontecer hoje vem do movimento do imobiliário, que depois gerou turismo»[7]. E tudo, segundo esta também consultora de luxo, já vale quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB). No ano dois da Troika, o projecto de transformar Portugal numa espécie de Flórida da Europa ganhou literalmente terreno, assente no nexo entre imobiliário, turismo e finança internacional, com uma componente crescente de luxo, um padrão de especialização que tende a gerar baixos salários e enormes desigualdades socioeconómicas[8]. O conhecimento ao serviço do porno-riquismo requer sempre um Estado que o institucionalize. Não é certamente por acaso que Helena Amaral Neto atribui a máxima importância a duas medidas de política fiscal: o estatuto de residente não habitual, criado ainda no governo de José Sócrates, em 2009, e a autorização de residência para actividade de investimento, vulgo Vistos Gold, criada em 2012; e isto para não falar da possibilidade do que apoda de «global shoppers» (os chamados «consumidores globais») de fora da União Europeia e que podem pedir o reembolso do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) para compras superiores a 75 euros; luxos fiscais para um consumismo conspícuo que não gosta de fronteiras. A União Europeia já havia sido o principal agente na promoção da liberalização dos movimentos de capital em parte do continente. O esvaziamento da soberania democrática a que repetidamente aí se procedeu, privando os Estados nacionais de instrumentos decentes de política económica, favorece uma corrida para o fundo em matéria fiscal, com o capital agora livre para arbitrar: o poder dos mais ricos aumentou e a carga fiscal que sobre eles recai diminuiu, à medida que os Estados competem para os seduzir. Concretizando o «modelo Flórida» deste lado do Atlântico, Portugal transformou-se num «eldorado para os reformados» ricos, oriundos do centro europeu, em busca de sol, serviços pessoais relativamente baratos e, sobretudo, de borlas fiscais à boleia de duplas isenções de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS)[9]. Por sua vez, os estrangeiros em idade activa, que invistam e trabalhem por cá em actividades de «elevado valor acrescentado», podem esperar pagar uma «taxa especial de 20% de IRS» durante uma década[10]. Para lá das seduções fiscais, no âmbito do estatuto do residente não habitual, Portugal transformou-se também num dos muitos países europeus – regiões seria mais correcto do ponto de vista da soberania económica – que vende direitos, neste caso de residência, ao abrigo dos Vistos Gold. Tudo se compra e tudo se vende. O porno-riquismo é sinónimo de corrupção geral. Querem tudo  Revisitemos a declaração de Miguel Guedes de Sousa, director da Amorim Luxury: «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados». A questão da habitação sempre foi um terreno da luta de classes no capitalismo, sendo hoje uma das áreas em que o porno-riquismo mais investe. Entretanto, a sua esposa, uma encarnação do capitalismo de herdeiros cada vez mais saliente, já tinha sido saudada no seu empreendedorismo independente na área do luxo por uma imprensa habituada a idolatrar os ricos, no preciso momento em que sucedia ao pai no conselho de administração da Galp: o luxo é «um negócio que lhe deu independência financeira e o saber quanto a custa ganhar» desde os anos noventa[11]. Paula Amorim certamente aprendeu a aceder ao luxo do lado da procura antes de se lançar do lado da oferta e não foi certamente prejudicada nestes seus hábitos pelos laços familiares, em particular no que diz respeito ao acesso a capital nas suas várias encarnações. Como isto está tudo pornograficamente ligado pela integração europeia, o nome da globalização capitalista mais intensa nesta parte do continente, note-se que a participação da família Amorim na Galp é assegurada através da Amorim Energia. Detendo cerca de 33% da Galp, a Amorim Energia está sediada na Holanda para receber dividendos, com o mínimo de impostos. Ou seja, os pornograficamente mais ricos estão sempre a beneficiar fiscalmente. Na Amorim Energia participa também a angolana Esperanza Holding, detida parcialmente por essa agora periclitante encarnação angolana do porno-riquismo multi-escalar que é Isabel dos Santos, a que um dia declarou: «Tive sentido para os negócios desde muito nova. Vendia ovos quando tinha seis anos»[12]. Naturalmente, o apelido Amorim cruza as rendas, pouco tributadas, dos combustíveis com a cortiça, o rentismo fundiário ou a especulação imobiliária. E daí as declarações do CEO da Amorim Luxury. Uma parte da Herdade da Comporta, correspondente ao fundo de investimento imobiliário nas mãos da falida Rioforte do antigo Grupo Espírito Santo, está na mira de Paula Amorim, em consórcio com o francês Claude Berda, um dos 48 que tem o nome inscrito no bar do restaurante da Avenida da Liberdade com sotaque francês. Este consórcio tem concorrência apertada. Quando o leitor estiver a ler este jornal, poderá já saber quem são os donos daquilo tudo. Sejam eles quem forem, Amorim e Berda, citados no Expresso, afirmam que «a Comporta tem todos os ingredientes para se tornar um destino turístico de excelência no mundo a par de Capri, Sardenha, Punta del Este ou Saint Barths»[13]. Os seus planos de construção incluem, ainda segundo o Expresso, cinco hotéis de luxo, muitos apartamentos e moradias de luxo, o tão inevitável quanto insustentável campo de golfe e até uma igreja, desenhada por Frank Gehry, já que a história da agulha e do camelo parece ser o único espectro que, por agora, paira sob um porno-riquismo sem grandes razões para ter medo nesta vida. Age como se a história tivesse acabado. Lembrando que o problema não é este ou aquele apelido, mas sim o sistema que lhes confere todo o poder, ficámos, entretanto, a saber, por uma reportagem da Visão, que, nos hectares a perder de vista onde os Espírito Santo diziam brincar aos pobrezinhos, foram feitas ao longo dos anos mais de uma centena de obras ilegais, que transformaram cabanas em moradias de luxo, numa zona supostamente protegida por razões ambientais, à boleia de múltiplos indícios de corrupção, tendo sido já constituídos vários arguidos, incluindo antigos responsáveis autárquicos e responsáveis da herdade. Pouco importa, já que mesmo por aí, «há casas a passar de mão por €350 o metro quadrado [falta, pelo menos, um zero, €3500, arrisco eu] (os lotes mais pequenos estão a ser vendidos por mais de um milhão) e a serem alugados por €700 por noite via Airbnb»[14]. A mesma Visão que em Abril recomendava o sonho do porno-riquismo aos que não são ricos deu conta do pesadelo em Julho: na era do porno-riquismo, do desperdício sistemático, dos bens posicionais que implicam exclusão sistémica, tudo se vende e tudo se compra. Mas sendo isto reconhecidamente verdade, a jornalista que assina a reportagem não resiste a convidar o leitor a sonhar com o luxo, embora num tom mais melancólico: «Se ficou com vontade de ser, por um dia, Espírito Santo nos seus tempos áureos, e andar pela Comporta com roupas chiques e chinelo no pé, saiba que algumas dessas casas já têm lotação esgotada até ao fim do ano».  Terminemos onde começamos, no centro da capital desta Flórida da Europa: «Sei que os meus consumidores são raros, diversos e complexos; estão bem conectados e têm poder», revelou Paula Amorim na conferência internacional Condé Nast Luxury[15]. Organizada pela editora internacional da revista Vogue, Suzy Menkes, dedicada à «linguagem do luxo», foi uma das várias do género realizadas recentemente em Lisboa. Numa intervenção onde a introspecção esteve certamente presente, Amorim afirmou ainda: «O que podemos oferecer àqueles que têm tudo? Àqueles que exigem o inesperado? Eles não querem produtos, querem experiências únicas, sentir algo que seja um reflexo dos seus valores. Quanto mais virtuais as nossas vidas se tornam, mais apetite temos por autenticidade, serviços humanos, um respeito pela privacidade, pelo anonimato, pela personalização, por produtos feitos à medida, por conteúdo e por relações». Querem tudo, comem mesmo tudo e deixam cada vez menos: porno-riquismo é um nome feito à medida, por conteúdo e por relações, tal como o capitalismo realmente existente. [1] Expresso, 14 de Julho de 2018.
[2] Forbes, Julho/Agosto de 2018.
[3] www.jncquoi.com/pt/restaurante.
[4] DN Ócio, 28 de Julho de 2018.
[5] Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class, The Modern Library, Nova Iorque, 2001.
[6] Visão, 26 de Abril de 2018.
[7] Diário de Notícias, 14 de Maio de 2018.
[8] Ainda antes de ascender ao cargo de economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, entre 2008 e 2015, Olivier Blanchard já havia explicitamente defendido o «modelo Flórida» para Portugal, acompanhado da redução dos salários, num influente artigo que resultou de um estudo encomendado pelo Ministério das Finanças: «Adjustment within the Euro: the difficult case of Portugal», Portuguese Economic Journal, Abril de 2007, pp. 1-21.
[9] Negócios, 2 de Maio de 2017. [10]www.portaldascomunidades.mne.pt/images/GADG/IRS__Regime_Fiscal_Residente_N%C3%A3o_Habitual.pdf.
[11] Negócios, 26 de Maio de 2017.
[12] Negócios, 20 de Março de 2013.
[13] Expresso, 21 de Julho de 2018.
[14] Visão, 26 de Julho de 2018.
[15] www.vogue.pt/cnilux-dia-1-uma-vis-o-disruptiva-do-luxo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Um milhão de portugueses pobres mas que trabalham como mouros. Só?

Existe mais de um milhão de portugueses pobres com trabalho, segundo o apuramento da Rede Europeia Anti-Pobreza, foi ontem divulgado no assinalar do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza. Não sabemos como os autores chegam a estes números mas é facto que ao olharmos nos locais de trabalho, pelas ruas, pelos aglomerados de zonas pobres com casarios e barracas que se estendem pelas zonas degradadas de Lisboa e Porto, olhando para como sobrevivem os que por ali habitam, pudemos pôr as mãos no fogo em que por todo o Portugal existem muitos mais trabalhadores pobres que 1.1 milhão, fruto dos salários de miséria que recebem, quando recebem e não lhes pregam o “calote”. Oportunistas caloteiros vimos aos magotes, por exemplo, em empreiteiros e subempreiteiros na construção civil e noutras artes profissionais. Apesar disso colamos a seguir o texto retirado do Esquerda.net, onde pelo menos alguma realidade consta, embora que decerto não correta nos números e na quantidade de trabalhadores que trabalham para continuarem sempre pobres, contagiando sem quererem os filhos e restantes famílias. Isso, enquanto os que roubam os trabalhadores vivem nababamente e asseguram a continuidade da vivência à fartazana aos filhos e restantes famílias.(CT | PG)
Em Portugal há 1,1 milhões de pobres com trabalho
Especialistas reconhecem o impacto da recuperação de rendimentos e aumento das pensões na melhoria de vida dos muito pobres nos últimos dois anos, mas lembram que não é suficiente. Hoje celebra-se o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza.
A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal) alerta para a existência de mais de 1,1 milhões de pessoas em Portugal que têm trabalho, mas são pobres. Os dados foram dados pelo presidente da EAPN Portugal em entrevista à agência Lusa, por ocasião do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza.

Jardim Moreira salienta que a existência de um emprego não é suficiente nestes casos, sendo necessária uma maior aposta na educação e na melhoria das qualificações. 

“Em Portugal, temos 10,8% de trabalhadores que são pobres, achámos que era necessário chamar a atenção para esta realidade, de que não basta ter um emprego para sair da pobreza”, apontou à Lusa o padre Jardim Moreira.

O responsável sublinhou que “não basta ter um qualquer dinheiro para ter uma vida adequada à dignidade humana, é preciso ter um rendimento adequado, que possibilite satisfazer as necessidades familiares”.

Uma das dificuldades que destacou para a dificuldade em aceder a empregos com melhores remunerações é a ausência de qualificações necessárias. Como tal, defendeu que as políticas que melhorem as condições de trabalho incluam também uma política de formação em educação. 

Reconhecendo as melhorias “no nível de vida dos muito pobres” nos últimos dois anos, seja pelo aumento dos rendimentos disponíveis, seja pelo aumento do valor das reformas, o responsável considera que ainda não chega.

“Mas a verdade é que ainda continuamos com 18,3% de pobres de rendimentos e chegam aos 23,3% os excluídos”, destacou, considerando que “apesar da melhoria, de modo global, os números não são ainda satisfatórios”.

Esta é também a opinião de Carlos Farinha Rodrigues, investigador  e professor universitário, também entrevistado pela agência Lusa no âmbito deste dia. 

Segundo Farinha Rodrigues, apesar das melhorias económicas observadas nos últimos anos, o país ainda não conseguiu regressar aos valores registados antes da crise de 2008, altura em que a taxa de pobreza se situava nos 17,9%, 0,4 pontos percentuais abaixo dos 18,3% registados em 2016, e que significam mais de 1,8 milhões de pessoas em situação de pobreza. Houve “um agravamento muito grande” dos principais indicadores de pobreza durante a crise económica, explica. 

“Os últimos resultados conhecidos referem-se a 2016 e esses resultados foram simultaneamente promissores e com fatores de preocupação”, apontou, explicando que foram promissores porque uma “forte repressão na taxa de pobreza das crianças e jovens”, “alguma redução” na taxa de privação material severa e uma redução ligeira na taxa global de pobreza.

O investigador defende uma estratégia nacional mais abrangente no combate à pobreza, uma que tenha em conta não apenas políticas sociais, mas também políticas económicas em geral, bem como as áreas da saúde e educação. “É esta visão de conjunto que eu continuo a achar que falta no nosso país”, concluiu.

Esquerda.net | Foto de Paulete Matos

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/um-milhao-de-portugueses-pobres-mas-que.html

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

pobreza erradicarA consolidação das medidas adoptadas nos últimos dois anos, traduzem alguns avanços nas políticas sociais, só possíveis na nova fase da vida política nacional com a alteração da correlação de forças na Assembleia da República, em que os deputados do PSD e CDS ficaram em minoria e em resultado da luta que os trabalhadores têm desenvolvido.

Apesar das ligeiras melhorias verificadas, Portugal continua a registar níveis de pobreza persistentemente elevados, sendo de sublinhar o número de trabalhadores pobres, que coloca a pobreza laboral entre os mais graves problemas da sociedade portuguesa.

Segundo os dados mais recentes do INE, em 2017, 23,3% dos portugueses (cerca de 2,4 milhões) estava em risco de pobreza ou exclusão social.

Em 2016, a taxa de pobreza situou-se nos 18,3%, abrangendo cerca de 1,9 milhões de pessoas. São consideradas pobres as pessoas que auferem menos de 60% de um rendimento mediano por adulto equivalente (o que implica ter em conta a dimensão e a composição da família). Este rendimento foi de 756 euros mensais em 2016 pelo que são consideradas pobres as pessoas com menos de 454 euros (limiar de pobreza).

O nível de pobreza seria catastrófico (45,2% em 2015) sem o efeito das pensões e das transferências sociais (abono de família, prestações de desemprego, RSI, entre outras). O risco de pobreza sem as transferências sociais diminuiu em 2016, mas a tendência tem sido de agravamento. Por si só, os rendimentos primários, ou de mercado, como os salários, os lucros ou as rendas, deixariam na pobreza perto de metade da população em 2013-2014.

Sem as funções sociais do Estado a pobreza seria generalizada. O risco de pobreza reduz-se devido sobretudo às pensões, nas quais são determinantes as pensões atribuídas pelo sistema público de segurança social.

A pobreza é mais elevada para as famílias com crianças dependentes. Nestas, são mais afectadas as famílias monoparentais (com aumento: 31,6% em 2015 e 33,1% em 2016) e as mais numerosas (com diminuição: 42,7% em 2015 e 41,4% em 2016).

A privação material (um indicador que mede as dificuldades das pessoas de satisfazerem necessidades, económicas e de bens duráveis) também diminuiu em 2016 e em 2017 (passou de 21,6% em 2015 para 18% em 2017). Mas há ainda, cerca 7% dos portugueses (mais de 700 mil pessoas) com privação material severa.

Apesar da atenuação nos indicadores de pobreza e privação material para a população em geral, a pobreza laboral é persistente e continua excessivamente elevada – manteve-se praticamente inalterada (passou de 10,9% em 2015 para 10,8% em 2016). Não há grandes oscilações em todo o período de 2004 a 2016, com valores quase sempre próximos dos 11%. Por outro lado, a pobreza dos desempregados aumentou: passou de 42% para 44,8%. Desde 2012 que o risco de pobreza dos desempregados ultrapassa os 40%.

Para a CGTP-IN, os números da pobreza entre os trabalhadores e os desempregados fazem prova da fragilidade e ineficácia das políticas laborais e salariais vigentes e remetem para a necessidade urgente de alterar as normas gravosas da legislação laboral, de aumentar os salários em geral e o salário mínimo nacional para os 650 € em Janeiro de 2019, a par da melhoria dos níveis de protecção social, em particular dos desempregados.

O aumento do emprego, a redução do desemprego, a reposição de rendimentos, direitos e melhorias nas políticas sociais, designadamente na segurança social, são sem dúvida factores que contribuíram para alguma melhoria nos indicadores de pobreza, privação material e desigualdades, mas é por demais evidente que não são suficientes para resolver o problema de fundo que reside na pobreza e das desigualdades entre a população activa e em particular dos trabalhadores que trabalham e empobrecem.

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, a CGTP-IN reafirma a sua convicção de que a alteração do modelo de baixos salários e vínculos precários que tem dominado no nosso país e a valorização do trabalho e dos trabalhadores são condições essenciais para combater a persistência da pobreza e das desigualdades em Portugal.

Lisboa, 17.10.2018

DIF/CGTP-IN

Ver original aqui

Uma em cada quatro crianças menores de 18 anos está em risco de pobreza e exclusão social no conjunto da União Europeia»

A propósito do relatório da imagem, por exemplo, este trabalho:

União Europeia: Uma em quatro crianças em risco de pobreza e exclusão

Pelo menos 25 milhões de crianças na União Europeia vivem em agregados com baixos rendimentos, sem condições e onde a fome é frequente, revela um relatório da Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) hoje divulgado.
O relatório “Combating child poverty: an issue of fundamental rights”, divulgado a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que hoje se assinala, conclui que uma em cada quatro crianças menores de 18 anos está em risco de pobreza e exclusão social no conjunto da União Europeia.
O documento, que tem como referência o ano de 2016, aponta que a média dos 28 países não reflete, no entanto, “importantes disparidades nacionais”.
Em Estados membros como a Roménia (49,2%) e a Bulgária (45,6%) quase metade das crianças estavam em risco de pobreza e exclusão social.
Mais de 30% das crianças corriam risco de pobreza e exclusão social em países como a Grécia (37,5%), Hungria (33,6%), Itália (33,2%), Espanha (32,9%) e Lituânia (32,4 %).
As percentagens mais baixas registaram-se na Dinamarca (13,8%), Finlândia (14,7%) e Eslovénia (14,9%).
Portugal contava-se entre os países com entre 20 e 29% de crianças em risco de pobreza e exclusão social.
O risco afeta as crianças europeias de uma maneira global, mas é pior em alguns grupos, nomeadamente entre as comunidades ciganas e os migrantes.
 

De acordo com o estudo, 90% das crianças ciganas em nove Estados-membros são pobres.

A média de crianças em risco de pobreza e exclusão social na Europa registou uma variação mínima nos últimos 10 anos, quando comparada com o período antes da crise económica e do lançamento da Estratégia Europa 2020, que tem a redução da pobreza como um dos objetivos principais.

Em 2008, a média de crianças em risco na Europa a 27 era de 26,5%. Durante a crise económica, essa percentagem aumentou para 28,1% em 2012. Em 2016, a média é de 26,4%, uma taxa semelhante à de há 10 anos, segundo as mais recentes estatísticas europeias citadas no estudo.

Esta taxa é também superior aos 23,5% de risco na população em geral.

Em termos absolutos, há na União Europeia quase 25 milhões de crianças em risco de pobreza e exclusão social, risco que afeta rapazes e raparigas de igual forma.

Educação e cuidados de saúde inadequados ameaçam os direitos fundamentais das crianças, impedindo-as de aproveitarem oportunidades e de romperem o ciclo de pobreza, concluiu a FRA.

“A pobreza infantil não tem lugar na Europa, uma das regiões mais ricas do mundo”, sustentou Michael O’Flaherty, diretor da FRA.

“Temos os meios para ajudar a acabar com as condições deploráveis vividas por muitas das crianças europeias. Precisamos que a UE e os estados-membros honrem os seus compromissos de defesa dos direitos das crianças para lhes dar um melhor futuro”, acrescentou.

O relatório sublinha que combater a pobreza infantil “é também uma questão de direitos fundamentais” e sugere a implementação de um conjunto de medidas para abordar o problema.

Reforçar a legislação e políticas de proteção infantil, priorizar a proteção de crianças vulneráveis, estabelecer um regime europeu que garanta a cada criança casa, alimentação, saúde e educação, ligar o financiamento aos Estados-Membros aos resultados do combate à pobreza, desigualdades e exclusão social das crianças e adoção de políticas de conciliação entre o trabalho e a família são algumas das medidas propostas.

A Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (na sigla em inglês, FRA), é um organismo independente, financiada pelo orçamento da UE, e tem como missão proporcionar às instituições e estados-membros da UE informação, assistência e competências no domínio dos direitos fundamentais.

 
 

Ver original em 'Em cada Rosto Igualdade' na seguinte ligação:

http://emcadarostoigualdade.blogspot.com/2018/10/uma-em-cada-quatro-criancas-menores-de.html

Dia Mundial da Alimentação: fome no Brasil pode retomar os patamares do século passado?

Pessoas comem em restaurante popular patrocinado pelo governo do Brasil no âmbito do Programa Fome Zero, São Paulo, 22 de julho de 2011
© AP Photo / Andre Penner

Desde 1981, o Dia Mundial da Alimentação é comemorado em 16 de outubro. A data é marcada pela fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). A Sputnik Brasil aproveita a ocasião para discutir o cenário brasileiro e mostrar quem é mais afetado pela falta de alimentos.

O Brasil deixou o Mapa da Fome em 2014. O levantamento da FAO indica quais países têm 5% ou mais de sua população consumindo menos calorias do que o indicado. Com a crise econômica e política, contudo, o Brasil corre o risco de voltar ao Mapa da Fome.

A situação indica uma falta de "vontade política", segundo Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome — uma parceria entre a ONU e o governo brasileiro.

"O Brasil conseguiu atingir números impressionantes no combate à desnutrição desde o início do século, mas agora a fome pode retomar os patamares do século passado. Isso acontece por falta de investimento em certas políticas, que acabam sendo descontinuadas ou por conta da crise econômica recebem menos atenção."

Para Balaban, o combate à fome precisa precisa ser uma política de Estado, e não flutuar de acordo os dirigentes da ocasião. Ele ressalta que o Programa Fome Zero, criado em 2003 pelo então presidente Lula, tornou-se um modelo para agências internacionais que lutam contra a falta de alimentos.


Exército na Rocinha
© Foto : Tânia Rêgo/Agência Brasil/ Fotos Públicas

Além do Bolsa Família, o Programa Fome Zero também prevê a construção de cisternas em regiões afetadas pela seca, concessão de crédito, entre outras medidas.

"Hoje a estratégia Fome Zero que o Brasil desenvolveu serviu de paradigma que a própria ONU está incentivando em vários países do mundo. Hoje entre 40 a 50 países têm uma estratégia chamada 'Fome Zero'"

Cenário internacional

A fome não atinge todos de maneira igual. Segundo a ONU, 821 milhões de pessoas no mundo todo sofrem com ela. 60% destas vítimas da fome, contudo, são mulheres. A situação tem um efeito perverso na saúde de crianças: 45% da mortalidade infantil está relacionada à desnutrição.

"Os mais afetados são os que vivem em áreas de conflito, principalmente conflito armado — e as mulheres são as maiores vítimas. Os jovens acabam indo para as milícias e participam dos conflitos. Enquanto isso, as mulheres e crianças ficam desassistidas nessas regiões", afirma Balaban.


O especialista ressalta que regiões de conflitos não costumam produzir e alimentos e acabam precisando trazê-los de outro lugar. "Frutas, verduras e legumes acabam estragando porque precisam vir de locais mais longes. Esses alimentos nutritivos acabam não chegando. Chegam apenas os alimentos que possam durar mais e que nem sempre são os mais nutritivos."

Um dos exemplos do impacto de conflitos na alimentação é o Iêmen. Em guerra civil, o país do Oriente Médio têm 1,8 milhão de crianças com desnutrição grave. O Iêmen 17,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. Os dados são da FAO.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2018101612420836-vontade-politica-brasil-mapa-fome-alimentacao/

Fome no mundo aumenta devido à especulação financeira

A fome no mundo aumentou pelo terceiro ano consecutivo. Em 2017, 821 milhões de pessoas não ingeriram a quantidade de calorias mínimas indicadas para atividades diárias. As informações foram apresentadas pelo relatório “A segurança alimentar e a nutrição no mundo”, da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado no início do mês.

Entre os fatores responsáveis pelo aprofundamento dessa mazela social, estão crises econômicas, conflitos armados e eventos climáticos como intensos períodos de secas, que impedem colheitas de produtos que estão na base da cadeia alimentar.

O Atlas do Agronegócio 2018, organizado pelas fundações alemãs Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, apresenta ainda outro elemento: a especulação financeira nas bolsas de valores aumenta o preço das commodities agrícolas, mercadorias produzidas em larga escala, como por exemplo, o trigo, milho, cacau, café e açúcar, entre outros.

As negociações das commodities são feitas por meio dos chamados contratos futuros, transações padronizadas entre produtores e fundos de investimentos para controlar os riscos que envolvem a produção. No caso das commodities agrícolas, não se pode prever se o preço será alto devido à escassez de produtos ou se será baixo devido à abundância, fatores determinados por elementos externos como o clima.

Dessa forma, tanto o produtor quanto o comprador acordam um preço para a produção em uma determinada data futura e assim eliminam os riscos de uma possível oscilação na produção.

Como funciona a especulação?

Após o fechamento dos contratos futuros, também conhecidos como derivativos, se inicia o processo de especulação financeira por parte do comprador. Este adquire o ativo com a intenção de revendê-lo nas Bolsas de Valores, ou seja, realizar uma venda futura com lucro ainda maior, sob condições de incerteza.

Toda essa crise de aumento dos preços está muito ligada à amplificação das negociações especulativas desses contratos. Quando se fecha uma coisa em um determinado momento, é um preço. Quando acontece [na etapa final da produção], é outro. Nesse meio tempo, há a especulação para comprar e vender por mais ou por menos. No caso, quem está querendo vender, evidentemente, quer vender na alta”.
Marcus Oliveira, economista e ativista ambiental

“Muita gente que atua nesse mercado não está interessado no produto. Não quer o café, por exemplo. Quer saber quanto será a safra e o volume para poder comprar isso e valorizar o papel que está comprando. Não é o café em si, complementa o especialista.

Ao passo que os especuladores continuam a fazer apostas intensas, as commodities agrícolas se valorizam e o preço mundial dos alimentos é inflado. Por exemplo: se o preço da commodity milho aumenta, os preços da pipoca ou da pamonha, também passarão por uma elevação.

Na opinião de Oliveira, a especulação sobre as commodities agrícolas afeta diretamente o combate à fome. “O alimento é mais sério porque há um impacto no preço do alimento. Isso interfere na chegada do alimento ao prato de quem necessita”, ressalta.

Ninguém deveria passar fome porque não faltam alimentos, se tem um excesso. Mas porque, então, uma em cada oito pessoas passam fome? Porque se tem um processo de distribuição errada, em primeiro lugar, uma disfuncionalidade, e em segundo porque o aumento dos preços também interfere e impede a pessoa mais simples de ter acesso ao consumo.” 

Exemplo real

Em 2010, o fundo de investimentos inglês Armajaro Trading, comprou uma quantidade maciça de cacau e provocou um aumento recorde dos preços. Foram 240 mil toneladas, quantidade equivalente a 7% da produção mundial de cacau e 15% dos estoques globais. Matéria-prima suficiente para 5,3 bilhões de barras de chocolate.

Com forte poder de influência no mercado do cacau, a Armajaro pôde vender o produto a um preço maior. A partir do primeiro contrato de futuro sobre o preço, outros traders (negociadores) passaram a especular sobre o derivativo, o “papel criado”. A partir dessa primeira negociação, novos contratos foram gerados. Neste caso, os preços das sementes subiram ao maior valor desde 1977 na Europa, impactando também o preço dos chocolates no mercado.

Marcus Oliveira comenta ainda que nessa dinâmica de especulação das commodities agrícolas, o pequeno agricultor é muito prejudicado, já que o lucro é exclusivo dos especuladores. “O produtor é refém do mercado. Quem faz a gestão do mercado, determina preços. Quem está produzindo, com muita dificuldade, acaba refém disso, dos grandes conglomerados e dos lobbies”, reforça o economista.

Flexibilização gera concentração

O Atlas do Agronegócio 2018 destaca que regras que anteriormente restringiam as especulações financeiras excessivas sobre os produtos agrícolas foram flexibilizadas desde o início da década de 1990, pela Comissão de Negociação de Mercadorias de Futuro dos Estados Unidos. Como resultado desse processo, as potências financeiras passaram a moldar crescentemente o sistema alimentar global.

A crise financeira global de 2008 incentivou o crescimento do investimento em matérias primas agrícolas. Entre 2006 e início de 2011, de acordo com o Atlas, o total de ativos dos especuladores financeiros nos mercados de commodities agrícolas quase dobrou de US$ 65 bilhões para US$ 126 bilhões.

O estudo traz ainda outro dado: no mercado de futuro de trigo dos Estados Unidos, por exemplo, os especuladores financeiros representavam 12% do comércio em meados da década de 1990, mas, em 2011, a participação era de 61%. Estima-se que, atualmente, a participação esteja em torno de 70%.

Os fundos de investimentos controlam bilhões de dólares de ativos agrícolas. Apenas o DB Agriculture Fund, lançado pelo Deutsche Bank, administra mais de US$ 700 milhões em ativos que incluem milho, soja, trigo, café e açúcar.

A BlackRock, uma das maiores empresas de investimento do mundo, que possui ações da Bayer-Monsanto e da Syngenta, empresas transnacionais que dominam as vendas de agrotóxicos e pesticidas no mundo, assim como a comercialização de sementes, estabeleceu em 2007 um Fundo de Índice de Agricultura que investe em ativos como futuros de commodities e terras agrícolas. O fundo vale mais de US$230 milhões.

Outras corporações, como a Cargill, Bunge e ADM, também possuem lucros bilionários.

Políticas de combate à fome

Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, também critica a especulação financeira sobre a alimentação mundial.

Quando se utiliza [a alimentação] como mercadoria, para especular, para ter um maior lucro, não se preocupa em utilizar esses alimentos para o consumo dos mais necessitados, que são os que tem menos força nesse processo, não possuem dinheiro para comprar”.
Balaban

Ele acrescenta que o crescimento de pessoas em situação de insegurança alimentar nutricional no mundo é extremamente alarmante e afasta o mundo da meta de acabar com a fome até 2030.

Além da seca e das alterações climáticas que influenciam na produção alimentar, a ONU cita os conflitos armados como decisivos no aumento exponencial da fome.

Só o Programa Mundial de Alimentos tem cinco casos máximos que chamamos de L3, nível três, em que temos que entregar e fazer com que cheguem os alimentos nas regiões. O Iêmen é muito preocupante, a Síria, o Iraque, o Sudão do Sul, o Afeganistão. São regiões onde os conflitos persistem e nesse cenário, as pessoas não têm capacidade de produzir e fica muito mais difícil o acesso dessas populações aos alimentos”.
Coordenador do PMA

Balaban também comenta o caso brasileiro.

“O Brasil chegou a menos de 3 milhões de pessoas [com fome] e agora já está em 5 milhões em pessoas com insegurança alimentar. O aumento acontece devido a crise econômica que o país vem enfrentando, e a diminuição, principalmente, de alguns investimentos necessários para os pequenos agricultores familiares, os mais atingidos, e principalmente de políticas sociais.” 
Balaban

Desperdício e distribuição

Outra questão trabalhada pela FAO, braço da ONU para a alimentação e a agricultura, e pelo PMA, é tornar evidente que não falta produção de comida no mundo para todos os seus habitantes, mas o grande desperdício de comida, além dos fatores citados, dificulta sua distribuição.

O especialista é enfático ao opinar que, caso fosse prioridade dos países, o problema da fome seria resolvido mas a falta de interesse político impede que isso aconteça.

“Será que somos incapazes de acabar com a fome no mundo ou há uma falta de interesse político em atingir essa meta?”, questiona Balaban.

O mundo gasta anualmente 1 trilhão e 500 bilhões de dólares com gastos militares. Os recursos que vão para políticas sociais, para acabar com a fome, não chegam a 2% disso.”
Balaban
Por Lu Sudré  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Brasil de Fato)/ Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

Fome no mundo regista terceiro aumento anual consecutivo

Cerca de 821 milhões de pessoas no mundo passam fome, revelou hoje a ONU, traduzindo um aumento para níveis de há dez anos que se sente mais na América do Sul e na maior parte de África.

O número é apontado pela agência das Nações Unidas para a alimentação e agricultura (FAO, na sigla em inglês) no relatório sobre o estado da segurança alimentar e nutrição de 2018, divulgado hoje, em que se confirma a tendência para o aumento da fome no mundo pelo terceiro ano consecutivo, passando de 804 milhões em 2016 para 821 milhões em 2017.

"A variabilidade do clima, que afeta os padrões da chuva e as estações, bem como extremos climáticos como secas e inundações estão entre as principais causas do aumento da fome, além dos conflitos e abrandamentos económicos", considera a FAO.

Em números totais, uma em cada nove pessoas passa fome, com 515 milhões na Ásia, 256,5 milhões em África e 39 milhões na América Latina e Caraíbas.

Apesar de a erradicação da fome ser um dos objetivos para o desenvolvimento a atingir até 2030, "os sinais alarmantes do aumento da insegurança alimentar e diversas formas de má alimentação", desde a obesidade nos adultos aos atrasos de crescimento nas crianças.

Cerca de 672 milhões de adultos, ou 13% do total, são obesos e 38,3 milhões de crianças com menos de cinco anos também.

A obesidade é mais sentida na América do Norte, mas também está a aumentar na África e na Ásia, onde coexiste com a subnutrição.

Nestas regiões, a comida nutritiva é mais cara, um dos fatores que contribui para a obesidade.

Por contraste, mais de 200 milhões de crianças (29,7%) têm peso ou altura a menos para a idade. Ambas são áreas em que a falta de progresso é clara, afirma a FAO.

Além disso, é "vergonhoso" que um terço das mulheres em idade reprodutiva esteja anémica, o que se reflete nelas próprias e nas crianças.

Há "sinais alarmantes do aumento da insegurança alimentar e de níveis elevados de diferentes formas de problemas alimentares" que são "um claro aviso de que há muito trabalho a fazer para ninguém ficar para trás", defendem numa posição conjunta os responsáveis da ONU para a alimentação, agricultura, crianças e saúde.

Portugal está em linha com os países europeus, mantendo uma taxa inferior a 2,5 por cento da população com sinais de subnutrição desde 2004/2006. A obesidade, no entanto, aumentou entre os adultos, de 21% em 2012 para 23,2% em 2016.

O impacto das alterações climáticas na produção de alimentos essenciais como o trigo, arroz e milho nas regiões tropicais e temperadas aumentará se as temperaturas continuarem a subir, alerta a FAO.

O apelo da FAO é para que aumentem os esforços para garantir o acesso a alimentos nutritivos, prestando especial atenção às partes da população mais vulneráveis: bebés, crianças com menos de cinco anos, em idade escolar, raparigas adolescentes e mulheres.

Expresso das Ilhas | Rádio Morabeza

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/09/fome-no-mundo-regista-terceiro-aumento.html

FAO alerta para riscos de aumento da fome

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alerta que sem financiamento adequado, milhões de pessoas no mundo poderão ser empurradas à fome e à insegurança alimentar.

Sem financiamento adequado, males como as secas, as inundações, as temporadas de carestia ou os conflitos, poderão empurrar milhões de pessoas à fome e à insegurança alimentar agudas, alertou a FAO nesta quinta-feira (2).

Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) referiu-se à situação no Afeganistão, Sudão e Síria, afetados pela seca; à de Bangladesh, golpeado por uma temporada de chuvas severas; à escalada da violência na República Centro-Africana; à próxima temporada de furacões no Haiti e à temporada de carestia no Iraque, Myanmar e no Sahel.

Sem apoio urgente aos meios de vida baseados na agricultura, existe um risco real de que a situação se deteriore ainda mais nestas regiões afetadas na segunda metade de 2018, com um aumento da fome e das necessidades humanitárias, assinalou.

Para estas crises que sofrem uma grave carência de recursos financeiros, a FAO calcula que são necessários urgentemente 120 milhões de dólares para dar assistência a 3,6 milhões de pessoas durante o que resta deste ano.

As necessidades humanitárias continuam sendo notáveis no Sudão, impulsionadas por uma combinação de altos preços alimentares, a próxima temporada de carestia, o deslocamento da população, a deterioração dos meios de subsistência, a pobreza subjacente e impacto de riscos naturais como a seca, exemplificou.

Temos que agir agora para oferecer intervenções urgentes de segurança alimentar e meios de subsistência para salvar vidas, salvaguardar os meios de subsistência e reforçar sua resiliência diante de crises futuras, expressou Dominique Burgeon, diretor da Divisão de Emergências e Reabilitação da FAO.

De acordo com o relatório divulgado por esse organismo, sua resposta de emergência nos países afetados incluirá sementes de cultivos e hortaliças, utensílios agrícolas e rações, reabilitação de infraestruturas hídricas e pontos de água.

A isso se unem campanhas de vacinação do gado e tratamentos zoo-sanitários, gestão melhorada de solos e águas, transferências de efetivo e iniciativas de dinheiro em numerário por trabalho.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 (com Prensa Latina)/ Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

“Extrema pobreza voltou aos níveis de 12 anos atrás”, diz especialista

Ao deixar em 2014 a relação de países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, o Brasil atingiu um feito inédito: saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, após três anos do feito, um relatório de 20 entidades da sociedade civil, publicado em julho do ano passado, alertava sobre os riscos de o país retornar ao mapa indesejado.

O economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid Brasil, fez parte da equipe que elaborou o relatório. Nesta entrevista à Pública, o também especialista em segurança alimentar conta que no final deste mês um novo documento atualizado da sociedade civil será lançado. E alerta: “A nossa nova advertência já leva a quase uma certeza”. Essa quase certeza, ele diz, é de que o Brasil voltará ao Mapa da Fome. “Toda a experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos.”

Em relação à pobreza e extrema pobreza, por exemplo, levantamento da ActionAid Brasil indica que nos últimos três anos — 2015-2017 — o país voltou ao patamar de 12 anos atrás no número de pessoas em situação de extrema pobreza. Ou seja, mais de 10 milhões de brasileiros estão nessa condição (veja o gráfico abaixo). “Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação ruim, que deve aparecer com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF — do final de 2018.”

A seguir, Menezes explica a combinação de fatores que levou a essa situação que ele caracteriza como “estado de desproteção social”.

A insegurança alimentar voltou a rondar o país?

No ano passado, nós fizemos uma advertência à ONU de que, se o Brasil prosseguisse no rumo mais recente que tinha tomado de certo abandono das políticas de proteção social, correria o risco de retornar ao Mapa da Fome do qual saiu em 2014. Publicamos esse relatório em julho de 2017, e um novo relatório de acompanhamento desses objetivos do desenvolvimento sustentável vai sair ao final deste mês. O que nós assinalamos naquela primeira advertência vem sendo confirmada agora.

Como se chegou a essa constatação?

A cada cinco anos é feita uma pesquisa pelo IBGE sobre a situação de segurança e insegurança alimentar do brasileiro. Essa pesquisa era feita junto à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio — Pnad — e passou agora a ser feita pela POF, que é a pesquisa do orçamento familiar. A última pesquisa foi realizada em 2013 e divulgada em 2014. Como é quinquenal, ainda está sendo realizada, mas o pessoal está no campo e a divulgação desses resultados deve sair no final de 2018 ou início de 2019. O que ocorre é que existem algumas situações em relação ao estado da segurança alimentar, desde os que estão em segurança alimentar — de ter acesso aos alimentos de uma forma regular e suficiente — até níveis de insegurança alimentar. E tem a insegurança alimentar grave, expressão que se usa para caracterizar a fome, em que uma determinada família não teve disponibilidade de alimentos num determinado período. Essa insegurança alimentar grave em 2013, por exemplo, quando foi feita a última pesquisa, estava num nível bastante baixo, e é por isso também que em 2014 a ONU colocou o Brasil fora do mapa do fome.

Os dados agora apontam um retrocesso?

Quantas pessoas passam fome? Para dizer alguma coisa próxima, vai ter que esperar um pouco, mas toda experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos. Mas a nossa advertência já leva a quase uma certeza. Primeiro, é preciso considerar que uma situação de extrema pobreza tem uma correlação muito grande com a situação de fome. Ou seja, pessoas que estão numa situação mais extrema de pobreza estão fortemente vulneráveis e sujeitas à fome, geralmente passando fome. Por isso, é importante trabalhar a questão da fome junto com a questão da pobreza, e nós temos assistido a um empobrecimento muito acelerado da população, e sobre isso nós temos os dados. Em três anos, 2015, 2016, 2017, a gente, infelizmente, voltou a 12 anos atrás em termos do número de pessoas em situação de extrema pobreza. Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação bastante ruim, que deve aparecer no final do ano com os dados da POF. A extrema pobreza está crescendo mais aceleradamente do que a pobreza, que voltou a oito anos atrás.

O que você está dizendo é que a tendência já aponta, mesmo que ainda não confirmada, que o Brasil voltará ao Mapa da Fome?

Acredito que, infelizmente, sim. Nós não temos ainda os dados dessa pesquisa que comentei. Eu posso falar, sim, sobre os próprios dados da Pnad Contínua [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua], que revelam esse empobrecimento acelerado da população com aumento muito grande, e que varia de região para região, de estado para estado. O Rio de Janeiro, por exemplo, vive uma situação em que a pobreza extrema, muito ligada à questão do próprio desemprego, cresceu muito, triplicou em um ano [de 143 mil para 480 mil em um ano].

Quais são as outras regiões?

O Nordeste brasileiro e a região Norte têm um grau de pobreza maior do que o Sudeste e o Sul, mas o nordeste teve um movimento muito positivo até 2014 no sentido de recuperação, mas agora a gente volta a assistir a uma situação de agravamento, porque já era mais vulnerável originalmente.

E quais são os fatores desse crescimento da extrema pobreza?

São vários fatores. Avalio que, em primeiro lugar, a título de enfrentamento do que se chamava desequilíbrio fiscal, se fez uma política que, de um lado, gerou uma paralisia grande da economia, gerando com isso desemprego, e não resolveu o problema do déficit fiscal. A receita, consequentemente, se reduziu e o país entrou num círculo vicioso de paralisia e, ao mesmo tempo, crescimento do desemprego e da pobreza, sem capacidade própria de gerar uma recuperação. Esse é um fator. Não querendo ser o dono da verdade, mas é a prática de uma política econômica completamente equivocada nos três últimos anos. Não se pode esquecer de que 2015 já se experimentou uma política bastante recessiva como opção para o enfrentamento das dificuldades que apareceram. A paralisia na construção civil, por exemplo, atinge as camadas pobres da população, deixando um grande número de pessoas desempregadas ou subempregadas; as próprias empresas que trabalhavam em torno do sistema Petrobras e tantas outras que foram paralisando agravam esse quadro. Ou seja, o desemprego não pode ser desprezado nesse aspecto.

A tomada de decisão de fazer o ajuste fiscal e congelar os gastos públicos por 20 anos deve ser considerada com efeito imediato?

Não tenha dúvida. A emenda constitucional foi aprovada no final de 2016. Se você pega o orçamento de 2016 — e estou falando dos programas sociais —, já se vê um fortíssimo contingenciamento durante aquele ano. Então se viveu já em 2016 uma experimentação do corte de recursos. A proposta de orçamento para 2017 traz um enorme corte e para 2018 ainda mais. É o que nós hoje estamos chamando de estado de desproteção social, porque faltam recursos de todos os lados. No aspecto da pobreza extrema, a gente está sentindo que em relação ao programa Bolsa Família, estão sendo feito cortes grandes de contingentes de famílias que, na verdade, ao contrário do que o governo alega, não são famílias que simplesmente não prestaram conta adequadamente, mas são aquelas mais vulneráveis que em geral têm mais dificuldades de prestar essas contas. Muitas famílias dentro do Bolsa Família foram cortadas e tinham, ou como única renda ou uma parte importante de sua renda, vinda do programa, e isso tem uma importância na questão alimentar por outras pesquisas que já fizemos. A gente sabe que os recebedores do Bolsa Família, na sua maior parte, gastam em alimentação, pelo peso que o alimento tem nos seus próprios orçamentos.

Essa questão do Bolsa Família é um levantamento ou uma percepção?

Não é um levantamento. Foram cortadas 1 milhão e 500 mil famílias, pode-se ver pelos próprios dados do governo. Inclusive, para 2018 o governo já coloca um orçamento menor para o Bolsa Família. O que está ocorrendo, o que a gente supõe, não temos comprovação ainda, é que grande parte dessas famílias cortadas são as mais pobres. E uma outra causa é a questão dos preços, não só dos alimentos, mas outra questão que pesa, o gás. O gás impacta muito sobre as famílias mais pobres. Com um aumento dos combustíveis de uma maneira geral, estamos começando a escutar as primeiras manifestações do quanto isso está pesando. Fora o fato de que o aumento dos combustíveis gera um aumento dos gêneros alimentícios.

O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do mundo e pessoas passam fome. Como compreender essa situação?

O Brasil tem indubitavelmente uma capacidade de produção de alimentos relevante. Esse não é o nosso problema, o da produção, mas o que ocorre é que existe uma profunda desigualdade, inclusive, no campo.

Foto: Jardim Silvio Sampaio, Campo Limpo, zona sul de São Paulo (José Cícero da Silva / Agência Pública)
Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Agência Pública) / Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

A rede dos pobrezinhos

A foto não deixa dúvidas quanto às preocupações dos personagens, e as declarações são semelhantes às programadas para qualquer androide.
É a virtude virtual, a direita ao natural.

«Rio aberto a colaborar com o Governo no combate à pobreza»
“Líder do PSD reuniu-se com a direcção da Rede Europeia Antipobreza e admitiu incluir o tema da pobreza no programa eleitoral do partido.”
E porque a OCDE admitiu que só dentro de cinco gerações os pobres atingirão a classe média, o PSD continuará a pescar pobrezinhos na Rede Europeia Antipobreza do Padre Jardim Moreira.
Graças a Deus.
OS POBREZINHOS
leitura de Mário Viegas


"OS POBREZINHOS»

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados
Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos
De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos
Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e uns tostõezinhos
Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados


Armindo Mendes de Carvalho 

Leia original aqui

Que alívio!...

«A pobreza é como um castigo
para um crime que não cometeste.»
Eli Khamarov

A OCDE fez o favor de nos dar a boa-nova:

“São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza.”

Que alívio… Pensava que numa sociedade injusta, os pobres seriam sempre pobres, mas não. Dentro de 125 anos, os pobres atingem o el dorado, a classe média. O trolha, ouviu a notícia, entrou na primeira tasca, pediu um branquinho e bebeu à saúde da OCDE, do BCE e da Goldman Sachs. Os pobres são muito reconhecidos.

“Famílias pobres demoram 125 anos para atingirem a classe média.”

O editorial de um dos jornais de “referência” aplaudia com entusiasmo o caráter civilizacional da notícia, aconselhando os pobres a não se impacientarem, porque Roma e Pavia não se fizeram num dia, que necessitamos de mais ricos, ainda mais ricos para poderem sustentar ainda mais pobres.

Aqui para nós, estes estudos fedem a sadismo.

Leia original em

Família pobre precisa de cinco gerações até alcançar salário médio

Uma família portuguesa de fracos recursos socioeconómicos pode demorar 125 anos até que os seus descendentes consigam alcançar um salário médio, revela um relatório da OCDE sobre mobilidade social.

O relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado hoje, aponta que, em Portugal, a condição económica transmite-se «fortemente» de geração em geração.

«Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio», lê-se na avaliação.

Em Portugal, 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter baixos rendimentos. No extremo oposto, 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados têm elas próprias rendimentos elevados em adulto. Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais operários acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE.

Entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos, 67% acabam por nunca sair da base da pirâmide. «No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos», diz a OCDE.

Com Agência Lusa

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

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