Pobreza

Um triste exemplo de pobreza política

(José Soeiro, in Expresso Diário, 03/08/2019)

José Soeiro

(É por estas e por outras que o PS irá ficar a ver a maioria absoluta por um canudo… É falta de coerência política, de previsibilidade e de clareza no projecto político. Depois do grande embuste que foram as promessas do Passos para ganhar as eleições de 2011, os eleitores com dois dedos de testa aprenderam a “cheirar” o tacticismo charlatão a dez quilómetros de distância e punem-no. E ainda bem que o fazem.

Comentário da Estátua, 04/08/2019)


 

O caso passou quase despercebido no meio da maratona de votações do último plenário desta legislatura. Mas não foi menos indecoroso por isso. Em outubro de 2018, a Rede Europeia Anti-Pobreza apresentou no Parlamento um “Compromisso para uma Estratégia Nacional de Erradicação da Pobreza”, do qual fazia parte a ideia de que “nenhuma política sectorial deverá ser aprovada sem a prévia avaliação sobre os seus impactos na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão social”. Todos os partidos se manifestaram então sensíveis e abertos a acolher a proposta.

Em janeiro deste ano, foi apresentado um projeto de lei para criar esse mecanismo. O “regime jurídico de avaliação do impacto sobre a pobreza dos atos normativos”, proposto pelo Bloco, tinha sobretudo o mérito de dar centralidade ao tema, num país que tem ainda 1 milhão e 700 mil pessoas em situação de pobreza, obrigando a que se olhasse para o combate à pobreza não apenas como uma questão de “apoio aos pobres” ou de políticas sociais, mas sim como uma questão transversal a todas as escolhas políticas.

Quando a proposta do Bloco foi apresentada, o Presidente da República elogiou-a de imediato, manifestando-se “sensibilizado para ela” e o Governo, pela voz do Ministro Vieira da Silva, declarou que via “como interessante a proposta anunciada pela coordenadora do BE, ainda que seja necessário analisar a sua operacionalização”. A 22 de fevereiro, fez-se o debate e a votação no Parlamento. Nenhum partido votou contra. A proposta foi por isso aprovada e passou-se ao debate na especialidade.

Como é comum nestes casos, quando se aprova uma proposta, é porque se quer que ela dê origem a uma lei, feita com o contributo dos vários deputados na Comissão respetiva. Passou-se o mês de março, abril, maio e nada. Em junho, o presidente da Comissão parlamentar agendou o debate na especialidade, que foi adiado por três vezes, para que os partidos tivessem tempo de apresentar as suas propostas de alteração ao projeto. O prazo esgotou-se e, surpresa, nenhum partido propôs nenhuma alteração, nenhuma sugestão de aperfeiçoamento, nenhuma achega crítica. Nada.

No dia do debate na especialidade, PS, PSD e CDS anunciam que não têm nada a dizer e que dispensam a discussão na especialidade da proposta. Passa-se à votação. Ponto por ponto, juntam-se para chumbar, um a um, todos os artigos do projeto de lei que tinha sido aprovado na generalidade.

Chumbaram a avaliação prévia do impacto sobre a pobreza, chumbaram a existência de um relatório bianual sobre o progresso no combate à pobreza, chumbaram a possibilidade de o Parlamento solicitar a entidades externas a avaliação sucessiva de impacto sobre a pobreza de determinadas leis e até a possibilidade de o Parlamento receber anualmente uma delegação de pessoas em situação de pobreza para ouvir, na primeira pessoa, o que se está a passar no país, ideia relativamente à qual o Presidente da Assembleia tinha manifestado simpatia. Tudo chumbado sem debate público, sem propostas alternativas, sem contributos e com a tentativa de que esta mudança de posição passasse entre os pingos da chuva no turbilhão de matérias que foram votadas na última sessão.

O processo foi insólito e lamentável. Mas o que aconteceu nas 24 horas seguintes tornou tudo isto mais surreal se não mesmo relativamente obsceno. No dia seguinte aos deputados do PS terem chumbado a proposta que antes haviam viabilizado, o PS apresentou, no seu programa, a seguinte proposta (página 100): “Consolidar e desenvolver a experiência, já em curso, de avaliação do impacto das leis quanto ao combate à pobreza (poverty proofing), consagrando a obrigatoriedade de avaliação fundamentada das medidas de política e dos orçamentos na ótica dos impactos sobre a pobreza”.

Ou seja, o PS, que impediu que esta avaliação existisse por ter votado contra, propõe-se continuar no futuro o que não existe porque o PS se juntou à direita para chumbar.

Dá para acreditar?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pobreza na Argentina aumenta e ronda os 35%

Um relatório preliminar da Universidade Católica Argentina (UCA) estima que, dos 40,5 milhões de habitantes no país austral, 14 milhões sejam pobres e quase 3 milhões vivam em condições de indigência.

Quase três milhões de argentinos vivem em situação de indigência ou pobreza extremaCréditos / Motor Económico

Na campanha eleitoral de 2015, o actual presidente da Argentina, Mauricio Macri, chegou a estabelecer como meta a «Pobreza Zero» para o seu país. Quase quatro anos volvidos, o eleito pela coligação Cambiemos está não só muito longe dessa «promessa» como é cada vez mais responsabilizado, pelos seus concidadãos, pelo actual cenário de ruptura social.

Num relatório preliminar, cujos dados foram revelados este domingo – os dados oficiais só deverão ser conhecidos em Setembro, após das eleições primárias de 11 de Agosto e antes das gerais de 27 de Outubro –, o Observatório da Dívida Social da UCA regista um aumento da pobreza no país, estimando que 35% da população se encontre «em condições de vulnerabilidade».

Em declarações à imprensa argentina, Eduardo Donza, investigador do Observatório, disse existirem «várias razões» para este aumento. «Durante os primeiros meses do ano, o aumento dos preços dos alimentos foi maior que a média geral», afirmou, sublinhando que «ainda não há uma recuperação».

Nas ruas de Buenos Aires, vêem-se todos os dias centenas pessoas – por vezes, famílias inteiras – com colchões estendidos nos passeios, ao relento.

De acordo com o investigador, a subida da inflação associada à enorme desvalorização da moeda nacional teve impacto nos preços dos bens essenciais e levou ao aumento da pobreza. «Os preços sobem pelo elevador e os salários pela escada», disse, acrescentando que, «quando há desvalorizações [monetárias], que são muitas vezes bruscas, há subidas de preços muito grandes e um mercado de trabalho que está cada vez mais "precarizado"», lê-se no portal infobae.com.

Em Março, o Instituto Nacional de Estatística revelou que, no final de 2018, 32% da população argentina vivia em situação de pobreza e que mais de 2,7 milhões viviam em situação de indigência ou pobreza extrema.

A recessão económica e o peso altamente desvalorizado, o acordo celebrado entre o governo de Macri e o Fundo Monetário Internacional – com os habituais «pedidos» de redução na despesa pública e de aprofundamento das políticas de austeridade –, os aumentos de preços nos serviços básicos, as subidas constantes dos preços da alimentação, os despedimentos, os encerramentos de inúmeras empresas, o elevado desemprego estão entre os factores que contribuíram para que a Argentina atinja, este ano, o número recorde de pessoas em situação de pobreza.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-na-argentina-aumenta-e-ronda-os-35

Pobreza se combate com trabalho, não “com caridade” diz Carlos Slim

Em outras palavras, você não acaba com a pobreza dando peixes, mas ensinando a pescar.

O empresário mexicano, considerado o homem mais rico do México, disse que a melhor maneira de ajudar os pobres é a geração de empregos.

A única maneira de eliminar a pobreza é criando fontes de emprego, não “com políticas públicas de caridade ou assistência social”, disse o empresário mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do México.

No Fórum da democracia latino-americana, no Palácio Mineiro da Cidade do México, Slim disse que se ele pudesse acabar com a pobreza “dando 300, 400 ou 500 dólares para cada mexicano, eu adoraria, faria com prazer” porque ele está convencido de que “a pobreza não beneficia mais do que talvez alguns políticos demagogos”.

No entanto, ele argumentou que o melhor investimento social não é dar recursos às pessoas, mas dedicá-las à “nutrição, saúde, educação e emprego, emprego e mais emprego”.

“Eu tenho insistido muitas vezes que a única maneira de ver a população sair da pobreza não é com caridade, nem com políticas públicas de bem-estar social, mas com emprego”, disse ele.

Segundo Slim, nos últimos 50 ou 100 anos, “trilhões de dólares foram gastos para combater a pobreza, perdoar dívidas, criar programas de alimentação e saúde”, sem obter os resultados desejados.

O empresário, acionista majoritário da Telmex, maior empresa de telefonia do México e uma das maiores da América, disse que as empresas e seus proprietários têm a responsabilidade de pagar impostos e gerar produtividade, mas essas tarefas também correspondem à sociedade civil.

Organizações acadêmicas e civis apontam que as empresas de Slim controlam os mercados em que operam, impedindo que outras empresas entrem ou afetem os concorrentes.

Slim defendeu a existência de grandes empresas afirmando que “é perverso pensar que em países que não são muito ricos, deve haver empresas muito pobres e que as únicas empresas ricas nesses países, são estrangeiras”.

“Eu acho que é uma ideia errada ou uma atitude perversa ou uma política buscando outros fins”, disse ele.


Via Despierta Cultura

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/pobreza-se-combate-com-trabalho-nao-com-caridade-diz-carlos-slim/

Conselheira presidencial

Desde Novembro passado, os EUA cortaram 700 milhões de dólares de ajudas que se destinavam a combater a epidemia de Ébola na África Central e a apoiar a desminagem de países do sudeste da Ásia, nomeadamente os que foram vítimas das agressões norte-americanas das décadas de 60-70. O corte seguiu-se à publicação no Washigton Post de um artigo louvando a acção do governo de Trump contra o tráfico de seres humanos e condenando os países que, na óptica dos EUA, “não fazem o suficiente” para o combater.
O artigo era assinado por Ivanka Trump, filha do presidente e conselheira superior da Casa Branca.
No próprio dia da publicação do artigo, foi divulgado um memorando presidencial que determinou os cortes das ajudas.
Com este trabalho combinado, a família Trump despe de véus a “ajuda humanitária” dos EUA, facto que só clarifica a relação política do imperialismo norte-americano com o chamado Terceiro Mundo.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Papa diz à FAO que fome se combate com compaixão e vontade política

Na origem do drama da fome, o Papa apontou sobretudo a falta de compaixão, o desinteresse de muitos e uma escassa vontade social e política no momento de responder às obrigações internacionais. Francisco agradeceu “de coração” o trabalho de Graziano da Silva, que deixa a direção da FAO depois de dois mandatos.

O Papa Francisco recebeu no final da manhã desta quinta-feira (27/06) os cerca de 500 participantes da 41ª Sessão da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O tema em debate é “Migrações, agricultura e desenvolvimento rural”. A informação é do Vaticano News.

No início do seu discurso, o Pontífice manifestou o seu agradecimento e reconhecimento ao Diretor-Geral, José Graziano da Silva, que daqui poucas semanas concluirá o seu serviço à frente da FAO. “Obrigado de coração por seu trabalho.” O Papa felicitou o sucessor, também presente na audiência, o chinês Qu Dongyu.

Em mérito ao tema da Conferência, Francisco afirmou que o objetivo “Fome Zero” permanece ainda um grande desafio, mesmo reconhecendo que nas últimas décadas houve um grande avanço.

O Pontífice recordou que para combater a falta de alimento e acesso à agua potável, é preciso trabalhar sobre as causas que as provocam. E na origem deste drama, o Papa apontou sobretudo a falta de compaixão, o desinteresse de muitos e uma escassa vontade social e política no momento de responder às obrigações internacionais.

A falta de alimento e de água não é um assunto interno e exclusivo dos países mais pobres e frágeis, mas diz respeito a cada um de nós. Todos estamos chamados a escutar o grito desesperado de nossos irmãos. ”

Como um dos meios a nosso alcance, Francisco indicou a redução do desperdício de alimentos e de água; para isso, a educação e a sensibilização social é um investimento a curto e longo prazos.

O problema de um é o problema de todos

O Papa reiterou a conexão que existe entre a fragilidade ambiental, a insegurança alimentar e os movimentos migratórios.

“O aumento do número de refugiados no mundo durante os últimos anos nos demonstrou que o problema de um país é o problema de toda a família humana”, afirmou Francisco.

Para isso, é necessário promover um desenvolvimento agrícola nas regiões mais vulneráveis, fortalecendo a resiliência e a sustentabilidade do território.

O Pontífice reforçou a legitimidade da FAO como instituição para coordenar medidas incisivas, em parceria com outras organizações internacionais. “O esforço conjunto de todos fará tornar realidade as metas e os compromissos assumidos.”

O Papa concluiu reafirmando a disponibilidade da Santa Sé em cooperar com a FAO, apoiando o esforço internacional para a eliminação da fome no mundo e garantindo um futuro melhor para o nosso planeta e para a humanidade inteira.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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152 milhões de crianças trabalham, alerta UNICEF

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) denunciou, esta terça-feira, que 73 milhões de crianças laboram em condições perigosas ou de exploração.

Segundo a OIT e a UNICEF, 152 milhões de crianças são vítimas de trabalho infantilCréditos / witnessimage.com

Por ocasião do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, que hoje se assinala, o director da UNICEF na Alemanha, Christian Schneider, afirmou, em Colónia, que os governos e as empresas devem ser responsáveis por evitar o trabalho infantil.

De acordo com o organismo das Nações Unidas, o número de crianças vítimas de trabalho infantil diminuiu quase em 100 milhões entre 2000 e 2016, mas, nos últimos tempos, o ritmo desse processo abrandou, revela o portal excelsior.com.mx.

«Não basta condenar e proibir o trabalho infantil», disse Schneider, tendo sublinhado que, para proteger as crianças «de um modo eficaz, devem ser melhoradas as suas condições de vida». Neste sentido, afirmou ainda que «o acesso à educação é um instrumento importante».

Este tema fará parte dos debates a que assistem mais seis mil delegados de estruturas sindicais, governos e organizações patronais que participam na Conferência Internacional do Trabalho, a decorrer em Genebra (Suíça).

De acordo com Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Dia Mundial contra o Trabalho Infantil serão abordados os avanços alcançados nos últimos 100 anos, em que o organismo das Nações Unidas prestou apoio aos países para lutar contra este fenómeno, indica a Prensa Latina.

Num documento divulgado pela OIT, afirma-se que a maioria das crianças vítimas de trabalho infantil vive em África (72 milhões), enquanto 62 milhões residem na região Ásia-Pacífico.

Por seu lado, a Federação Internacional Terre des Hommes, organização não governamental de defesa dos direitos da infância, refere que mais de 70% das crianças que trabalham o fazem no sector agrícola; laboram também em minas, pedreiras e em serviços domésticos.

A UNICEF classifica como trabalho infantil qualquer actividade para a qual os menores de idade ainda são demasiado pequenos, que é realizada em condições perigosas ou de exploração para a criança.

Trabalho infantil é também aquele que impede a criança de aceder à educação e pode causar danos físicos ou psíquicos, pondo em causa a saúde, a segurança e a moral da criança.

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Aumenta a fome no Médio Oriente e Norte de África

As Nações Unidas revelaram que a fome continua a aumentar no Médio Oriente e Norte de África, sendo que dois terços dos afectados se encontram em países atingidos por conflitos.

Com a guerra de agressão ao Iémen, milhões de crianças sofrem de desnutriçãoCréditosTaha Almahbashi / UNICEF

Num estudo publicado esta semana, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla inglesa) destaca que a guerra continua a ser a principal causa da fome numa região onde 52 milhões de pessoas sofrem de subnutrição crónica.

O problema tem piorado «com o aumento e o agravamento dos conflitos», e das crises que se prolongam desde 2011 nalguns países árabes. «Entre 2015 e 2017, mais de dois terços das pessoas que passavam fome na região (34 milhões) viviam em países atingidos pela violência», afirma a FAO.

Iraque, Líbia, Síria, Sudão e Iémen são os países a que a agência das Nações Unidas se refere, sublinhando que a situação «põe em causa os esforços» para erradicar a má-nutrição nesta região do mundo, de acordo com os objectivos da Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável.

Aumento a partir de 2011

O fenómeno diminuiu de forma gradual na região entre 2004 e 2010, passando a crescer a partir de 2011, na sequência da chamada «Primavera Árabe», até atingir 11% da população, uma percentagem que sobe para 26% nos países atingidos pela guerra.

«Os conflitos provocaram alterações na produção alimentar e de gado nalguns países, o que afectou a disponibilidade de alimentos em toda a região», disse o representante da FAO no Médio Oriente, Abdessalam Ould Ahmed.

Além da guerra, o aumento da fome está também relacionado, segundo a FAO, com o rápido crescimento demográfico, a escassez de recursos naturais, as alterações climáticas e o desemprego crescente na região.

Melhorar a segurança alimentar

Em média, 21% dos menores de cinco anos têm atrasos de crescimento e 8,7% pesam menos do que deviam para a sua altura, dois indicadores de desnutrição crónica infantil que são piores nos países em guerra.

Para alterar este cenário e melhorar a segurança alimentar, Ould Ahmed defendeu uma produção agrícola e de gado que exija menos recursos de terras de cultivo e de água.

O documento da FAO destaca ainda a necessidade de promover o emprego rural, estimulando o crescimento nessas zonas. Outras recomendações são a redução das diferenças entre áreas urbanas e rurais, a melhoria da produtividade agrícola, das infra-estruturas e dos serviços rurais.

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«Uma Estética da Fome»

Leia a íntegra do manifesto Uma Estética da Fome, de Glauber Rocha

Uma Estética da Fome – o mais importante e influente manifesto do cinema brasileiro – veio a público em julho de 1965. O cineasta baiano Glauber Rocha, diretor de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), apresentou o documento durante o congresso Terceiro Mundo e Comunidade Mundial, na cidade italiana de Gênova. Na volta ao Brasil, publicou o manifesto no terceiro número da Revista Civilização Brasileira – ele sugeriu o título Eztetyka da Fome.

De imediato, por sistematizar o ideário e as diretrizes do Cinema Novo, o manifesto se tornou uma espécie de estatuto do movimento. Segundo Glauber, “somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência”.

Texto de Glauber, tido como “estatuto” do Cinema Novo, põe em destaque “uma cultura da fome”

Essa marca estaria presente nos filmes precursores do Cinema Novo – “de Aruanda Vidas Secas”. Conforme o manifesto, “uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo”.

Uma Estética da Fome

Por Glauber Rocha

Dispensando a introdução informativa que se tem transformado na característica geral das discussões sobre América Latina, prefiro situar as relações entre nossa cultura e a cultura civilizada em termos menos reduzidos do que aqueles que, também, caracterizam a análise do observador europeu. Assim, enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como um sintoma trágico, mas apenas como um dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino. Eis – fundamentalmente – a situação das artes no Brasil diante do mundo: até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais que vulgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da arte mas contaminam sobretudo a terreno geral do político. Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subdesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo; e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob as tardias heranças do mundo civilizado, heranças mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista. A América Latina (AL), inegavelmente, permanece colônia, e o que diferencia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais aprimorada do colonizador; e, além dos colonizadores de fato, as formas sutis daqueles que também sobre nós armam futuros botes. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores, sendo que uma libertação possível estará sempre em função de uma nova dependência. Este condicionamento econômico e político nos levou ao raquitismo filosófico e à impotência, que, às vezes inconsciente, às vezes não, geram no primeiro caso a esterilidade e no segundo a histeria.  A esterilidade: aquelas obras encontradas fartamente em nossas artes, onde o autor se castra em exercícios formais que, todavia, não atingem a plena possessão de suas formas. O sonho frustrado da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente. Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos; livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes (que, sobretudo em São Paulo, provocaram inclusive falências). O mundo oficial encarregado das artes gerou exposições carnavalescas em vários festivais e bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, vários coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de Letras e Artes, júris de pintura e marchas culturais pelo país afora. Monstruosidades universitárias: as famosas revistas literárias, os concursos, os títulos. A histeria: um capítulo mais complexo. A indignação social provoca discursos flamejantes. O primeiro sintoma é o anarquismo pornográfico que marca a poesia jovem até hoje (e a pintura). O segundo é uma redução política da arte que faz má política por excesso de sectarismo. O terceiro, e mais eficaz, é a procura de uma sistematização para a arte popular. Mas o engano de tudo isso é que nosso possível equilíbrio não resulta de um corpo orgânico, mas sim de um titânico e autodevastador esforço no sentido de superar a impotência: e, no resultado desta operação a fórceps, nós nos vemos frustrados, apenas nos limites inferiores do colonizador: e se ele nos compreende, então, não é pela lucidez de nosso diálogo, mas pelo humanitarismo que nossa informação lhe inspira. Mais uma vez o paternalismo é o método de compreensão para uma linguagem de lágrimas ou de mudo sofrimento. A fome latina, por isto, não é somente um sintoma alarmante: é o nervo de sua própria sociedade. Aí reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida. De Aruanda Vidas Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo raízes, personagens roubando para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo, hoje tão condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, pela Comissão de Seleção para Festivais do Itamarati, pela crítica a serviço dos interesses oficiais, pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria. Este miserabilismo do Cinema Novo opõe-se à tendência do digestivo, preconizada pelo crítico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em automóveis de luxo; filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, e de objetivos puramente industriais. Estes são os filmes que se opõem à fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida e frágil, ou se mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que está enraizada na própria incivilização. Como se, sobretudo, neste aparato de paisagens tropicais, pudesse ser disfarçada a indigência mental dos cineastas que fazem este tipo de filmes. O que fez do Cinema Novo um fenômeno de importância internacional foi justamente seu alto nível de compromisso com a verdade; foi seu próprio miserabilismo, que, antes escrito pela literatura de ’30, foi agora fotografado pelo cinema de ’60; e, se antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político. Os próprios estágios do miserabilismo em nosso cinema são internamente evolutivos. Assim, como observa Gustavo Dahl, vai desde o fenomenológico (Porto das Caixas), ao social (Vidas Secas), ao político (Deus e o Diabo), ao poético (Ganga Zumba), ao demagógico (Cinco Vezes Favela), ao experimental (Sol sobre a Lama), ao documental (Garrincha, Alegria do Povo), à comédia (Os Mendigos), experiências em vários sentidos, frustradas umas, realizadas outras, mas todas compondo, no final de três anos, um quadro histórico que, não por acaso, vai caracterizar o período Jânio-Jango: o período das grandes crises de consciência e de rebeldia, de agitação e revolução que culminou no golpe de abril. E foi a partir de abril que a tese do cinema digestivo ganhou peso no Brasil, ameaçando, sistematicamente, o Cinema Novo. Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entendeu. Para o europeu, é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro, é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto: e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem, mais agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede: o Cinema Novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se pela violência de suas imagens em vinte e dois festivais internacionais. Pelo Cinema Novo: o comportamento exato de um faminto é a violência, e a violência de um faminto não é primitivismo. Fabiano é primitivo? Antão é primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é primitiva? Do Cinema Novo: uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo; foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino. De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio, como também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador. O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação, mas um amor de ação e transformação. O Cinema Novo, por isto, não fez melodramas: as mulheres do Cinema Novo sempre foram seres em busca de uma saída possível para o amor dada a impossibilidade de amar com fome: a mulher protótipo, a de Porto das Caixas, mata o marido; a Dandara de Ganga Zumba foge da guerra para um amor romântico; Sinhá Vitoria sonha com novos tempos para os filhos: Rosa vai ao crime para salvar Manuel e amá-lo em outras circunstâncias; a moça do padre precisa romper a batina para ganhar um novo homem; a mulher de O Desafio rompe com o amante porque prefere ficar fiel ao mundo burguês; a mulher em São Paulo S.A. quer a segurança do amor pequeno-burguês e para isto tentará reduzir a vida do marido a um sistema medíocre. Explicação: Já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava explicar-se para existir: o Cinema Novo necessita processar-se para que se explique, à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome. O Cinema Novo não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente latino-americano: além do mais, porque o Cinema Novo é um fenômeno dos povos novos e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração. A integração econômica e industrial do Cinema Novo depende da liberdade da América Latina. Para esta liberdade, o Cinema Novo empenha-se, em nome de si próprio, de seus mais próximos e dispersos integrantes, dos mais burros aos mais talentosos, dos mais fracos aos mais fortes. É uma questão de moral que se refletirá nos filmes, no tempo de filmar um homem ou uma casa, no detalhe que observar, na moral que pregar: não é um filme mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público a consciência de sua própria miséria. Não temos por isto maiores pontos de contato com o cinema mundial, a não ser com suas origens técnicas e artísticas. O Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas consequentes de sua existência.

Glauber Rocha
Nova Iorque, Milão, Rio Janeiro – 1965


por André Cintra | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/uma-estetica-da-fome-glauber-rocha/

O Bairro da Jamaica não é aqui

«“Pense no Haiti, reze pelo Haiti/ O Haiti é aqui/
O Haiti não é aqui”
‘Haiti’, Caetano Veloso
 
“É correto dizer a um homem que ate as botas
sozinho, mas exigir a um homem sem botas que
as ate sozinho é uma brincadeira cruel”
Tradução livre de uma frase de Martin Luther King
Contou-me uma amiga escritora que, há uns tempos, de visita a uma dessas escolas dos subúrbios de Lisboa de turmas compostas, na sua maioria, por alunos negros, alguns deles portugueses, outros estrangeiros, pediram-lhes que levantassem a mão aqueles que se sentiam portugueses. Dois ou três, talvez por precipitação ou boa vontade, levantaram a mão. Os outros, quase todos, afirmaram em silêncio que nem este país, para onde os pais vieram trabalhar, em que muitos deles já nasceram, é deles nem eles são deste país. Os países deles chamam-se Cova da Moura, Vale da Amoreira, Bairro da Bela Vista, Quinta da Fonte da Prata, Quinta da Princesa ou, como todos aprendemos nos últimos dias, Bairro da Jamaica. Os mais ingénuos talvez julguem que estes bairros, por se situarem geograficamente em território português, fazem parte de Portugal, mas essa é uma ilusão que não resiste ao mais pequeno escrutínio. Basta olhar para as imagens do Bairro da Jamaica. Olhem para aquelas torres de tijolos despidos, para aquelas ruas lamacentas no inverno e empoeiradas no verão, para os buracos onde deveriam estar janelas e portas, para os tanques de pedra, os estendais improvisados, o lixo que se acumula à entrada e à volta dos prédios, e digam, com toda a honestidade, se isto se parece com um país da Europa Ocidental no século XXI ou se não se assemelha mais às imagens de devastação que nos chegam de países em guerra ou às ruínas de um pesadelo distópico?
E, no entanto, é ali que vivem cidadãos portugueses ou cidadãos estrangeiros que Portugal acolheu, é ali que vivem contribuintes ao lado de desocupados, criminosos ao lado de mulheres que, ainda de madrugada, passam hora e meia nos transportes para trabalhar nas limpezas a troco do salário mínimo, é ali que vivem miúdos que desistiram da escola ao lado de jovens universitários que trabalham em part-time no McDonald’s, que têm de aquecer água numa panela para tomarem banho e que aprendem desde muito cedo a omitir de onde vêm porque sabem que Bairro da Jamaica num currículo é pior do que cadastro. É ali, naquelas condições degradantes, em que só com um esforço sobre-humano, uma tenacidade feroz, se consegue pôr a cabeça de fora, lutando contra todas as formas de preconceito, contra os mecanismos de perpetuação da pobreza, lutando muitas vezes contra os hábitos e a cultura de família e amigos, é ali, dizia, que vivem seres humanos que depois censuramos por não serem suficientemente agradecidos, por não amarem este país que lhes deu tudo o que têm: uma miséria que nos devia envergonhar.
A sensação que eles têm não é diferente da de muitos portugueses que vivem no interior. Esses portugueses velhos, doentes, abandonados pelo Estado à sua sorte, que morrem nos incêndios e cuja vida depende em alguns casos das atividades lúdicas do médico que serve no helicóptero do INEM, também se sentem revoltados, queixam-se de ser cidadãos de segunda. Porém, com esses conseguimos ser empáticos. Não lhes dizemos: “Venham para as cidades.” Mesmo quando há sinais de incúria, percebemos que pessoas de poucos rendimentos não os queiram desperdiçar em exercícios para os quais também lhes faltam as forças. É que eles nos lembram os nossos avós. Nos lugares onde eles morrem íamos nós passar as férias de verão. Mas ninguém passa férias no Bairro da Jamaica. É aqui bem perto das nossas cidades e até podemos cruzar-nos com pessoas que vivem lá. Pode ser que algumas delas limpem os escritórios onde trabalhamos ou tomem conta dos nossos filhos. Acontece que os nossos avós não vieram de lá nem nunca viveram lá. Além disso, os nossos avós não eram pretos. Nós não somos pretos. Nós não somos pobres. Já fomos, mas graças ao nosso empenho, às nossas virtudes, deixámos de ser. Somos a prova viva que só é pobre quem quer. Só é preto quem quer. Só vive no Bairro da Jamaica quem quer.
Por isso, não nos indignamos com a miséria do Bairro da Jamaica, mas indignamo-nos com a violência dos habitantes do Bairro da Jamaica. Indignarmo-nos com a miséria do Bairro da Jamaica não significa desculpar criminosos ou bater palmas a quem atira pedras à polícia. Não significa tolerar um discurso de pessoas com responsabilidades políticas que, repetindo velhas cartilhas com novas roupagens e a pretexto da defesa dos desfavorecidos, fomenta o ódio, ergue barricadas e reforça a exclusão contra a qual supostamente se manifesta e faz dos homens e mulheres, brancos e negros, das forças de segurança a “besta negra”, a raiz de todos os males, o alvo a abater. A indignação com a miséria de todos os bairros da Jamaica que subsistem em Portugal ao fim de quatro décadas de democracia passa por entender que um Estado que, por desleixo ou incapacidade, não resolve aquele problema e reduz a sua presença a intervenções policiais cria as condições para que o diálogo entre estas duas realidades, entre os dois países, seja feito de pedradas e bastonadas, de acusações de racismo e de abusos das autoridades, “bosta da bófia” de um lado, “pretos de merda” de outro.
A falta de indignação deriva da falta de empatia: simplesmente, não nos conseguimos imaginar naquele lugar. Aquela gente não somos nós. Sentimos a agressão a um agente como uma agressão à comunidade (e é), mas justificamos a violência policial optando por não ver que é uma agressão da comunidade (que também é). Conseguimos pôr-nos na pele de um polícia mal pago e que é recebido à pedrada, compreendemos a pressão a que está sujeito e toleramos os excessos que, por vezes, dela resultam. Mas não somos capazes de imaginar que aquele homem e aquela mulher, aqueles pais, que vimos ser agredidos de uma forma que a legítima defesa não pode justificar, pudessem ser os nossos. Porque eles são pobres e nós não. Porque eles são pretos e nós não. Porque os filhos deles atiram pedras à polícia e os nossos não (mas eu não quero viver num país em que não ser espancado pela polícia é um privilégio reservado aos cidadãos honestos e cumpridores). Porque vivem num país paredes-meias com o nosso, mas aonde nunca fomos, que conhecemos mal e, orgulhosos da nossa ignorância e escudados nos preconceitos, iremos continuar a ignorar enquanto nos entretemos a discutir pormenores de bosta.»
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Leia original aqui

O Bem também tem muitos inimigos

(Dieter Dellinger, 26/01/2019)

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Foto: Costa no Jamaica na entrega de chaves e responde antecipadamente com esta foto à cabra da Cristas. 

No Bairro da Jamaica, 234 famílias foram realojadas em casas novas com todos os equipamentos sanitários e de cozinhas modernos. António Costa entregou as chaves a muitas famílias e a autarquia garante que dentro de menos de três anos toda a gente estará realojada com uma despesa global de 15 milhões de euros.

O bairro da Jamaica não é de barracas, mas sim de um vasto conjunto de prédios semi-construídos que habitantes vindos dos Palops ocuparam ilegalmente por não estarem devidamente protegidos com cercas.

O construtor tinha começado a obra com apoio bancário e faliu, tendo o banco que a informação não diz, mas parece que foi a CGD, salvo erro, perdido muitos milhões de euros por causa da ocupação, dado que vendeu por um preço irrisório os prédios ocupados e o terreno a outro construtor que não conseguiu apoio público para retirar as pessoas nem condições para melhorar os prédios, cujo destino vai ser a demolição, dado que completar a obra inicial é mais caro que fazer de novo.

Isto faz-me recordar quando eu – como membro da Junta de Freguesia – acompanhei o João Soares, então presidente da CML, e o presidente da Junta do Lumiar na entrega de chaves de casas novas.

Aquilo era um primeiro e grande lote de prédios de realojamento, mas não abrangeu todo o bairro, estando já as malhas para a construção de novos blocos preparadas com materiais e cercas.

Contudo, da parte de partidos da oposição ao PS foi dito que não seriam realojadas mais famílias e durante a entrega uma mulher do bairro avançou e pregou uma violenta estalada no João Soares que quase que caia no chão e perguntou porque não a realojaram.

João Soares não se mostrou muito irritado e disse:”minha senhora, todas as barracas vão sair daqui, aqui vai ser construída uma nova cidade, a Alta de Lisboa ou do Lumiar.

A polícia estava presente, mas não prendeu a mulher porque João Soares não quis e disse que não apresentava queixa.

É assim, as oposições não se lembram de certos problemas durante décadas, mas de repente quando começam a ser resolvidos ficam cheias de inveja e ciumes e fazem tudo para denegrir a imagem de quem está a fazer uma boa obra.

Hoje, a zona da Alta tem muito espaço, muitos blocos de realojamento têm vista para o Tejo e muito arvoredo à volta.

Estive lá há poucas semanas quando toda a Freguesia estava cheia de folhas de árvores e os serviços de limpeza não podiam limpar em dias tudo, até porque se limpava hoje e amanhã já estavam mais folhas. Os serviços foram equipados com vassouras pneumáticas e máquinas aspiradores, mas mesmo assim, só agora é que está tudo limpo e não estão a cair mais folhas.

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Foto: O condomínio Social da Torre na Alta de Lisboa, cujas casas ganharam o prémio mundial de arquitetura social de um ano que não me recordo.

Tudo está diferente numa das Freguesias mais solidárias do Mundo, onde tudo foi feito para as classes mais pobres, incluindo mantê-las a viver nos terrenos mais caros de Lisboa neste momento e terem associações de bairro com creches e locais para os ATL, escolas novas e escolas mais antigas em reparação.

Não fizemos como em Paris que atiraram os habitantes das barracas para muito longe da cidade. Ficou tudo no mesmo local, exceto numa quintarola que tinha sido ocupada e que o dono doou para efeitos sociais. Como o projeto de construção da avenida Carlos Paredes, não permitia a construção de casas sociais naquele local, os novos blocos passaram para uns duzentos metros mais para cima no local que a Carris libertou para o bairro social.

Os herdeiros do proprietário conseguiram que juízes inimigos da Pátria e de Lisboa multassem a CML em mais de 80 milhões de euros quando ninguém ficou prejudicado. Houve recursos atrás de recursos, mas a judicatura contra Portugal e a sua Capital não se demoveu e, provavelmente, ninguém foi ver os novos bairros. Esse dinheiro daria para muita obra social, mas a magistratura não quer saber, o seu objetivo de vida é destruir o PS. Estão a fazer o trabalho que fizeram as Forças Armadas contra o Partido Republicano Democrático na I. República.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Uma ideia simples e subversiva

(José Soeiro, in Expresso, 21/01/2019)

soeiro

José Soeiro

De cada vez que se apresenta uma lei no Parlamento, há algumas pré-condições que têm de ser verificadas para que ela possa ser debatida. Viola algum artigo da Constituição? Se sim, vai para trás. A proposta implica despesa? Se sim, só poderá entrar em vigor com o Orçamento do ano seguinte e tem de dizê-lo explicitamente – é a chamada “norma travão”. Da mesma forma, quando um Orçamento do Estado é apresentado, os Governos indicam qual preveem que seja o crescimento da economia, a receita e a despesa fiscal, os indicadores de emprego ou qual a meta de défice que se propõem atingir. Esse prognóstico condiciona todo o debate público que se segue e a avaliação que se faz sobre a proposta. Favorece o crescimento ou não? Implica maior ou menor despesa? Aumenta ou diminui o défice? As próprias instituições internacionais pronunciam-se sobre algumas dessas metas, muitas vezes violando flagrantemente a soberania democrática dos países e o seu direito a tomarem as suas opções de política económica.

Há uns anos, a Rede Europeia Anti-Pobreza/EAPN Portugal lançou um desafio que, sendo uma ideia simples, tem a força subversiva do que é sensato e provocador ao mesmo tempo: e se, antes de se discutir qualquer lei, se avaliasse não apenas o seu impacto no Orçamento, mas também o seu impacto sobre a pobreza? Ou seja, quando se discute o aumento do número de alunos por turma ou o encerramento de um centro de saúde, quando se debate o valor do salário mínimo ou as regras do subsídio de desemprego, quando se apresenta uma nova lei das rendas ou uma política sobre os passes de transporte, quando se discute o valor das pensões ou as mudanças no abono de família, qual é o efeito previsível que essa proposta tem na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão social?

A proposta é sensata porque parte de um tema e remete para um objetivo que, supostamente, merece consenso nacional: o combate à pobreza. Em 2008, a Assembleia da República declarou solenemente, por unanimidade, que “a pobreza conduz à violação dos direitos humanos” e comprometeu-se a desenvolver políticas para erradicá-la. O que se seguiu é conhecido: depois de algum progresso até 2010, o período que se seguiu, particularmente até 2013/2014, foi o do maior agravamento da pobreza que Portugal conheceu nas últimas décadas.

É por isso que, além de uma inteligente provocação, a proposta é também subversiva: ela pretende obrigar a que todos os que têm responsabilidade assumam a consequência das suas propostas. De todas. Ou seja: que se assuma que o combate à pobreza não é apenas uma questão de “apoio aos pobres” nem tampouco de políticas sociais, mas sim uma questão de distribuição primária de rendimento, de políticas orçamentais, económicas, de políticas de emprego, de educação, de saúde ou de habitação. Por exemplo: há quem tenha achado que era importante liberalizar o mercado do arrendamento para “dinamizar a economia” – mas quantos novos pobres resultaram dessa medida? Houve quem decidisse congelar ou cortar as pensões em nome da “diminuição da despesa pública” – mas quantas pessoas foram atiradas para a pobreza à conta disso? Há quem entenda que a vantagem competitiva de Portugal para atrair investimento estrangeiro é comprimir os custos do trabalho (seja no salário, seja no trabalho suplementar ou em dias de férias) – mas além dos efeitos nas “exportações”, que relação é que isso tem com o facto de haver em Portugal 10% de trabalhadores na pobreza, mesmo com salário? Se no campo das declarações de princípios parecemos estar de acordo, por que razão a pobreza não acaba? A explicação não se encontra em comportamentos individuais. Encontra-se no modo como a sociedade e o sistema económico estão estruturados, nas desigualdades que promovem, nos mecanismos da sua reprodução – e nas escolhas que fazemos a todos os níveis.

Em Portugal, mais de 1 milhão e 700 mil pessoas continuam na pobreza. Uma parte significativa são crianças e jovens. Temos pois um imenso caminho a percorrer para erradicar o fenómeno. A sugestão da Rede Europeia (que o Bloco transformou num projeto de lei entregue na Assembleia, o que suscitou já reações do Governo e do Presidente da República) tem o enorme mérito de nos obrigar a pensar no assunto permanentemente, em cada medida que é proposta e a assumir as consequências do que defendemos.

Se a pobreza é uma violação dos direitos humanos, o que a tem agravado? E que escolhas concretas a combatem?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pobreza extrema aumenta na América Latina

Cerca de 62 milhões de latino-americanos (10,2% da população) viviam em pobreza extrema em 2017, revelou esta terça-feira a Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas, em Santiago do Chile.

De acordo com o Panorama Social da América Latina 2018, há 184 milhões de pessoas em situação de pobreza, 62 milhões das quais em pobreza extremaCréditos / viajejet.com

De acordo com o «Panorama Social da América Latina 2018», tornado público na capital chilena por Alicia Bárcena, directora-geral da Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL, um organismo das Nações Unidas), a percentagem de população em situação de pobreza extrema na região é a mais elevada desde 2008.

Já o indicador relativo à taxa geral de pobreza manteve-se estável no ano referido, no conjunto dos 18 países que são estudados no relatório, por comparação com 2016, depois dos aumentos registados em 2015 e 2016.

Em conferência de imprensa, Alicia Bárcena disse que, em 2017, 184 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza (30,2% da população da região), acrescentando que a expectativa da CEPAL é de que, em 2018, esse número seja reduzido em dois milhões. No entanto, o organismo regional da ONU estima que, nesse ano, o número de indivíduos a viver em pobreza extrema aumentou um milhão, passando para 63 milhões.

Analisando e comentando estes dados, Bárcena destacou «os avanços importantes alcançados na região entre a década passada e meados da actual», mas alertou para «os retrocessos registados a partir de 2015, sobretudo no que respeita à pobreza extrema».

40% dos trabalhadores auferem salários abaixo do salário mínimo

O documento revela que cerca 40% da população empregada da América Latina aufere salários inferiores ao salário mínimo estabelecido no seu país e que essa proporção é muito mais elevada entre as mulheres (48,7%) e os jovens dos 15 aos 24 anos (55,9%).

Outro dado referido pelo «Panorama Social» é que a incidência da pobreza é 20% superior nas áreas rurais, por comparação com as cidades, sendo que as crianças e os jovens, as mulheres e as populações indígenas são os mais atingidos.

Ao analisar os países que mais conseguiram reduzir a pobreza no período 2012-2017, o relatório conclui que no Chile, em El Salvador e na República Dominicana o aumento do rendimento do trabalho nos lares foi o que mais contribuiu para essa diminuição. Já na Costa Rica, no Panamá e no Uruguai os factores decisivos para a redução da pobreza foi o aumento da protecção social prestada às famílias com menores recursos.

Tendo em conta a situação analisada e os desafios que ela coloca, Alicia Bárcena defendeu que «os governos devem promover políticas públicas complementares de protecção social e de inclusão no mercado de trabalho», bem como de melhor redistribuição em termos de rendimentos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-extrema-aumenta-na-america-latina

Portugal tem 15% dos pensionistas em risco de pobreza. E na UE?

País estava em 2017 acima da média da União Europeia, cuja proporção era de 14%. Mulheres têm um maior risco
Um em cada sete pensionistas na União Europeia (14,2%) estavam em risco de pobreza em 2017, mais do que os 13,8% registados no ano anterior. Na verdade, desde 2013 que a proporção tem vindo a aumentar gradualmente, altura em que situava nos 12,6%.
Na maioria dos 27 Estados-membros com dados disponíveis a proporção estava entre os 10% e os 25% em 2017, mostra esta terça-feira o gabinete de estatísticas da União Europeia (Eurostat).
Portugal, especificamente, encontra-se acima da média europeia: 15,1% dos reformados estavam em risco de pobreza. A percentagem de pessoas com um rendimento disponível pelo menos 60% inferior ao rendimento disponível médio nacional (depois das transferências sociais) caiu ligeiramente de 2016 para 2017, após ter estado a aumentar desde 2014 (altura em que registava 12,9%).
Estónia (46%), Letónia (44%), Lituânia (37%) e Bulgária (32%) são os países onde os pensionistas têm um maior risco de cair numa situação de pobreza. Pelo contrário, França (7%), Dinamarca (9%), Hungria (9%) e Luxemburgo (9%) são os que têm uma proporção menor de pessoas nesta situação.
Entre 2010 e 2017, a proporção de mulheres reformadas em risco de pobreza foi superior à dos homens em dois ou três pontos percentuais. Uma diferença que se agrava em países como a Estónia, Lituânia, Bulgária e Letónia.
Já em Malta, Espanha, Itália e Dinamarca a situação é inversa, sendo o risco de pobreza superior nos homens do que nas mulheres.
Maria João Bourbon | Expresso | Foto: Tiago Miranda

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-tem-15-dos-pensionistas-em.html

SINAIS DE FOGO – O AVENTAL DA TIA ASSUNÇÃO – por Soares Novais

 

Depois de alguns dias nas bermas das estradas,Assunção  colocou o avental e distribuiu comida “a pessoas carenciadas de Lisboa.”  O avental era da Refood – uma organização que recolhe comida em restaurantes e supermercados que depois redistribui.

Assuncão ocupou-se da tarefa com desenvoltura. Com a mesma desenvoltura que, dias antes, exibiu nas bermas das estradas onde esteve a denunciar os buracos das ditas. A senhora, por baixo do seu nariz empinado de “tia”, é como o “tio” Marcelo. Isto é, é pau para toda a colher. Tanto exibe um ar de sexta-feira santa à saída de um velório de algum notável na Basílica da Estrela; como é toda sorrisos e salamaleques com “as pessoas carenciadas”.

Aliás, a voluntária Assunção, espertinha como é, fez questão de salientar que “visita instituições de apoio social o ano inteiro” e “que a visita em período de Natal serviu para elogiar o trabalho feito pelos 300 voluntários da Refood.”  (Não se fosse pensar que tal  apenas aconteceu por ser a época que é ou por as câmaras das televisões ali estarem a registar tão beatífico momento.)

Nada disso, cruzes canhoto. Assunção preocupa-se com os mais frágeis de nós. Todos os dias do ano. Tal qual Cecília Supico Pinto, do Movimento Nacional Feminino, “a Salazar de saias, popularmente conhecida por Cilinha”, se preocupava com os “rapazes” que combatiam na então África portuguesa…

Acresce: a “tia” sabe muito bem que a Refood foi criada em 2013. Ou seja, quando o seu governo PSD/CDS-PP sacrificava tudo e todos para agradar à  troika e impunha leis para lixar o mexilhão.Como a famosa “Lei Cristas”,que tem servido para despejar inquilinos pobres; ou oassassinodesinvestimento no Serviço Nacional de Saúde, na ferrovia e na rede viária. Mas isso agora não lhe interessa nada. Osburacos nas estradas são mesmo à medida do seu descarado dedinho…

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/12/30/sinais-de-fogo-o-avental-da-tia-assuncao-por-soares-novais/

“Que o Governo não ignore os desvalidos da fortuna!”

Entrevista com Mário Frota, jurista e presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (APDC)

Inquietudes em 2019

Jornal Tornado: Que acontecimentos destaca como mais relevantes em 2018, e que acontecimentos o deixaram mais preocupado?

Mário Frota: Os abalos de distintos graus que o edifício de PAZ e CONCÓRDIA que é a UNIÃO EUROPEIA sofreu ao longo do ano. Pelo que possam representar de ruína iminente!A rebelião em França dos “gilets jaunes” por mor dos impostos e de condições devida penalizantes que políticas insensatas potenciam ao exacerbamento! Estômagos vazios alimentam cérebros inquietos susceptíveis de explosões incontroláveis…

Estômagos vazios alimentam cérebros inquietos susceptíveis de explosões incontroláveis”
Mário Frota

Que mensagem dirige aos consumidores portugueses nesta época natalícia?

Neste Natal, ofereça segurança! Segurança nas rodovias. Segurança em meio urbano, em praças e jardins. Segurança nos espaços comerciais. Segurança no círculo familiar.

Segurança nos brinquedos. Segurança nas iguarias, em particular nas que se oferecem com brindes ocultos. Segurança, em suma, em todos os quadrantes e segmentos da vida, como fundamento de um período liberto de constrangimentos e, sobretudo, de uma natural alegria que não pode ser manchada pela dor, pelo luto, pela consternação.

Seja um actor de mudança! Proclame como vector fundamental o de uma insuperável segurança!

“Que (o Governo) actue adequada e consequentemente onde os equilíbrios faleçam e as agressões se perpetrem”

E qual a mensagem de fim-de-ano que gostaria de deixar no sapatinho do Governo e dos deputados portugueses?

Que o Governo adopte em 2019 uma política de consumidores. Que confira primazia aos cidadãos consumidores nos distintos segmentos de mercado. Que forme, informe e proteja os consumidores, como imperativo seu! Que actue adequada e consequentemente onde os equilíbrios faleçam e as agressões se perpetrem. Que não ignore a primeira infância, os portadores de deficiência, os seniores, os desvalidos da fortuna!

Menos leis, melhores leis, prevenção e repressão de práticas agressivas e artificiosas, justiça acessível e pronta!

E que os deputados, no interesse geral, se não demitam do crucial papel que lhes cabe: não estão ao serviço de interesses míseros e mesquinhos, mas dos da comunidade, dos das pessoas.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/mario-frota-que-o-governo-nao-ignore-os-desvalidos-da-fortuna/

Portugal | Famílias pobres, futuro em risco

Permitir que continuem em situação de pobreza milhares de crianças portuguesas significa privá-las de alimentação, vestuário ou calçado e também discriminá-las no acesso à educação, saúde e habitação.
Anabela Laranjeira | Abril Abril | opinião
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão
Ary dos Santos
No Natal de 2018, quase vinte anos passados do início do novo milénio (o tal tempo futuro que se anunciava ) quantas são as famílias que ainda se reveem nas solidárias palavras de Ary dos Santos?
A pobreza, essa de que se alimenta a caridade própria da época, está, como sabemos, tal como a guerra e a violência, à mesa da maioria das famílias neste Natal.
De acordo com um relatório lançado este ano no Fórum Económico Mundial, em Davos, metade da população do planeta tem um rendimento diário entre 2 e 10 dólares (entre 1,6 euros e 8,1 euros). Houve um aumento histórico no número de multimilionários em todo o mundo, mais 2043 do que em 2017, sendo que 9 em cada 10 são homens.
O património destes multimilionários aumentou 13% ao ano em média desde 2010, seis vezes mais do que os aumentos dos salários pagos aos trabalhadores (2% ao ano). Só em 2017 a riqueza desse grupo aumentou 762 mil milhões de dólares (622,8 mil milhões de euros), uma verba suficiente para acabar mais de sete vezes com a pobreza extrema no mundo. Tudo isto nos duros anos da crise...
Na ponta de uma Europa onde se aprofunda a exploração de quem trabalha, as crianças portuguesas não escapam a estes números. Os anos de troika fizeram disparar os números da miséria em Portugal: 23% dos portugueses sobrevivem com rendimentos abaixo do limiar da pobreza.
Só em 2014, os indicadores começaram a melhorar. Nos últimos três anos, a ligeiríssima diminuição do desemprego e a reposição de rendimentos contribuíram para números mais animadores, mas Portugal continua a ser um país com elevados níveis de pobreza e precariedade, estando a pobreza intimamente ligada à degradação das condições laborais.
Integrado na União Europeia, com uma realidade bem distante de outras latitudes, e uma legislação que protege as crianças e os jovens em particular, o nosso país apresenta um enorme desfasamento entre o que está na Lei, os acordos assinados com várias entidades e a vida diária das crianças e adolescentes provenientes de famílias trabalhadoras.
Em Portugal, trabalhar diariamente, oito ou mesmo mais horas por dia, não é condição para conseguir afastar os filhos da pobreza. Apesar dos desempregados continuarem a ser o grupo mais vulnerável à pobreza, mais de 10% da população empregada está na mesma situação. São milhares as famílias trabalhadoras que, em Portugal, recorrem a organizações como a Cáritas ou o Banco Alimentar, que, por estes dias de Natal, não têm mãos a medir. Continua, numa larguíssima percentagem de Juntas de Freguesia do nosso país, a atribuição dos chamados «Cabazes de Natal» a famílias carenciadas, muitas delas com emprego.
O rendimento mensal médio por adulto ronda os 900 euros, cerca de metade da média da União Europeia, que é de 1500 euros, mas os salários baixos e o salário mínimo (menos de 600 euros líquidos) estão presentes em largos sectores de actividade. Os trabalhadores mais jovens, em idade fértil e/ou com filhos, viram o seu ganho médio reduzir-se em cerca de um terço (-31%).
De acordo com dados recentes, lançados a propósito do dia da Erradicação da Pobreza, Portugal conta-se entre os países com maior «taxa de pobreza infantil»: 29%, muito acima da média europeia de 20%. Essa percentagem triplica para crianças provenientes de famílias de etnia-cigana, famílias afro-descentes ou imigrantes, atingindo os 90%.
O risco de pobreza passa para os 33% se a família for monoparental, ainda que a mãe ou o pai trabalhem a tempo inteiro. E aumenta com o número de filhos, provando a insuficiência de apoios sociais como o abono de família ou outros. No caso de três ou mais filhos, a taxa de pobreza é mesmo superior a 40%. A propaganda feita em torno das famílias numerosas é das mais enganadoras que existe. Estas famílias são, hoje em dia, provenientes de estratos sociais mais favorecidos, mesmo nas áreas rurais do país.
A insuspeita Fundação Francisco Manuel dos Santos juntou dados do Instituto Nacional de Estatística e do Eurostat, e traçou um retrato da pobreza e da exclusão social no país. Em Portugal Desigual, apresenta-se o retrato bem real das famílias trabalhadoras com filhos menores.
Um dos indicadores de que fala é o da «privação material», dizendo-nos que «mais de um terço dos portugueses ainda não consegue suportar o pagamento de uma despesa de 450 euros sem recorrer a um empréstimo, 20% da população não tem capacidade para manter a casa suficientemente aquecida, 8% não consegue pagar a tempo a renda ou outras despesas correntes, e mais de 40% dos portugueses não consegue pagar uma semana de férias por ano».
Com este retrato é possível compreender o valor dado a medidas positivas tomadas recentemente, como o ligeiro aumento do abono de família, a gratuitidade dos manuais escolares ou a reposição de determinados rendimentos em alguns sectores de actividade. São medidas que, não mudando profundamente a situação, aliviam famílias sobrecarregadas de despesas básicas que consomem a totalidade (senão mais) dos seus parcos rendimentos.
A propósito destes dados, o economista e professor Carlos Farinha Rodrigues, um dos coordenadores científicos, diz-nos que durante a crise «tivemos um fortíssimo agravamento das crianças em situação de pobreza, este é o principal aspeto da pobreza em Portugal, porque é um aspeto que tem a ver com o presente, mas que tem repercussões no futuro. Em Portugal sempre existiu uma dificuldade enorme em ter medidas efetivas de combate às crianças em situação de pobreza por esta não ter apenas a ver com os jovens, mas também com as famílias. Como tal, são necessárias medidas destinadas às crianças no setor da saúde, da educação, com o acompanhamento de situações com problemas, mas também com os recursos das famílias onde estas crianças estão. A primeira linha de ação para reduzir a pobreza em Portugal é tratar de forma consistente e sustentada o problema das crianças em situação de pobreza».
Permitir que continuem em situação de pobreza milhares de crianças portuguesas, significa privá-las de uma alimentação, vestuário ou calçado adequado durante uma fase decisiva do seu crescimento, mas significa também discriminá-las no acesso à educação, à saúde e a uma habitação com condições de conforto.
Sabemos hoje que uma pessoa que vive a sua infância e adolescência em privação material tem menos oportunidades, desperdiçando grande parte da sua energia e capacidades na procura de soluções para uma sobrevivência precária. As marcas da pobreza na infância, para além do sofrimento que causam no presente, são, em muitos casos, uma herança para o futuro. Em Portugal, as marcas do trabalho infantil e das condições em que viveu a actual geração de avós, não nos deixa esquecer este facto, nem este fardo.
Uma vida diferente para as famílias com crianças depende de um olhar atento às causas da chamada «pobreza infantil» e a alteração das condições das famílias. Não existem crianças pobres ou ricas, uma vez que não é a estas que pertence o rendimento do trabalho ou do património. Existem pais e mães com mais ou menos oportunidades, mais ou menos acesso a condições de vida e de trabalho que lhes permitam dar uma vida digna aos seus dependentes. Existe um Estado que, de acordo com a sua Constituição (Artigo 70º – protecção especial para efectivação dos direitos da juventude) deve proteger os mais jovens, tornando possível uma vida sem pobreza no presente e uma vida futura com horizontes mais largos.
**A autora escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/portugal-familias-pobres-futuro-em-risco.html

"Um país rico não pode ter trabalhadores pobres"

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
A frase em epígrafe foi proferida por Pedro Sánchez que anunciou uma subida no salário mínimo de 22%, a maior desde 1977. O que esta frase significa é, no essencial, o reconhecimento que o desenvolvimento dos países não pode ser feito à custa da disseminação da pobreza; o que esta frase tem implícito é o risco que as sociedades correm se deixarem essa pobreza grassar. Sánchez percebeu isto; Macron ainda não, embora, por força das manifestações dos coletes amarelos, tenha vindo a anunciar o aumento do salário mínimo em cem euros.
A pobreza hoje não se fica naquelas franjas mais fragilizadas da população, hoje essa pobreza toca e ameaça atingir o que é considerado a classe média. Os salários baixos, estagnados e sem perspectivas de aumentar, o desemprego e a precariedade, aliados ao constante enfraquecimento do Estado Social, está a acordar essa classe média, com consequências que os franceses vão começando a compreender melhor. Quem aproveita ou até certo ponto promove esse despertar é outra questão que merece também ela profunda reflexão.
Macron não percebeu nem percebe, talvez consequência da sua formação precisamente na banca, que de facto "um país rico não pode ter trabalhadores pobres", não só essa pobreza representa a antítese do desenvolvimento como potencia revoltas. De resto, Macron pertence aos  que apesar de terem criado uma crise viram-se a salvo da mesma, enquanto o ónus dessa mesma crise passou para os Estados e para as suas populações. Pensar que as pessoas esquecem isso é pura ingenuidade.
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão
 
 

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Pobres, quase-pobres e marés negras

«Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e os sininhos de Natal têm chamado a atenção para a situação da pobreza em Portugal. Os pobres e quase-pobres que vivem no nosso país serão um terreno propício às marés negras que vemos algures? É interessante observar como alguns dos que lamentam a pobreza no nosso país nesta altura do ano são os mesmos que repudiam os impostos sobre as grandes fortunas, os altos rendimentos, e as transacções vultuosas, são os mesmos que têm a perspectiva rentista de pôr o dinheiro a salvo e a render seja onde for, são os mesmos que discutem o aumento do salário mínimo, euro a euro, que são “tão bons” que já pagam 630 euros a alguns a quem podiam pagar 580. São os que exigem “menos Estado”. Enfim, são os mesmos que apoiam os filhos para estarem com os sacos à porta dos supermercados, porque isto de dar aos pobres “empresta a Deus” e sempre é melhor ir pagando um seguro para a eternidade para além do seguro de Saúde.
Podia fazer-se um retrato sociológico deste grupo social e da sua representação parlamentar. Ora, a existência de pobreza está na desigualdade social, seja em Portugal, seja em Angola, seja na China. Sem dúvida que o socorro à pobreza vindo das paróquias, das juntas de freguesia, dos bancos alimentares ou do Programa Operacional de Apoio às pessoas mais carenciadas promovido pela Segurança Social têm aliviado a pobreza e têm ajudado à sobrevivência de muitos. Mas como tem dito repetidamente o presidente da Cáritas portuguesa, a solução do problema não está na solidariedade/caridade mas sim na alteração do sistema e na redistribuição de riqueza. Continua a fazer-nos falta a voz do professor Bruto da Costa, que não fez desta mesma posição apenas um sinal emocional de revolta, mas também uma análise científica, como actualmente é feita pelo Observatório das Desigualdades e pelo legado teórico de autores internacionais como o francês Piketty, que acaba de encabeçar uma proposta de combate ao “híper capitalismo”, para protecção dos mais pobres e moderação das grandes fortunas. Nada de revolucionário, mas apenas reformista.
Em relação à solidariedade/caridade, é bom lembrar que quem vai buscar o cabaz ou os sacos, a maior parte das vezes de alimentos não-perecíveis (onde é que está a dieta mediterrânica?), desce abaixo da linha da dignidade que tinha traçado para si próprio, “rebaixa-se”, não tem a segurança alimentar que lhe possa garantir que na próxima semana ou no próximo mês o saco estará lá. E traçada a linha da pobreza, que, embora construída por equações internacionais, tem dados nacionais e é portanto baixa, são muitos os trabalhadores pobres. Consideremos um casal de funcionários hospitalares, como os que eu conheço, actualmente designados como “assistentes operacionais” mas que são invisíveis, como disse um leitor do PÚBLICO, como doente agradecido. Se um casal de invisíveis hospitalares a ganharem 580 euros cada, que é o que eles ganham, tiver o “azar” de ter três filhos, fazem parte dos pobres e de facto não conseguimos imaginar como é que pagam renda ou crédito de casa, água, luz, telefone, deslocações (porque vivem nos subúrbios) e material escolar para os filhos. E se uma enfermeira-chefe, como as que eu conheço, for mãe monoparental de dois filhos menores, esta família também faz parte dos milhões de pobres do país. E de igual modo se pergunta como é possível o dia-a-dia e como responder aos filhos que querem ter o mesmo que as outras crianças que ficam uns degraus acima. Algumas das situações acima descritas resolvem-se com duplos horários, mas sete e sete faz 14 e há três anos oito e oito faziam 16.
Um pouco acima desta linha estatística que define a pobreza ficam os quase-pobres, de igual modo desesperados para pagar contas com filhos e pais encostando-se em dominó aos avós, por sua vez eles próprios a lutarem com a escassez e alguns deles com os despejos. Estes milhões de pessoas têm razão para estar revoltadas e têm percepção de injustiça. E a injustiça social é evidente: as grandes fortunas mantiveram-se intocáveis durante a crise. O desemprego baixou muito, mas a precariedade e os baixos salários mantêm-se. A ordem ultraliberal de subfinanciamento dos serviços públicos é a cultura de Bruxelas e atinge Portugal.
Apesar disso, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a escola pública funcionam como almofada de segurança. Para estes serviços existirem têm que ser financiados pelo Orçamento Geral do Estado e, portanto, pelos impostos. É o que resta do Estado Social, que não é o Estado Caritativo, mas o Estado da redistribuição. No após II Guerra Mundial, nos países europeus das democracias foi desenvolvido um novo paradigma em relação aos impostos. Deixaram de ser apenas para sustentar o aparelho da administração pública e da defesa e segurança, para serem também uma forma de redistribuição tornando a desigualdade de nascimento menos desigual. Foi uma conquista que veio dos mais pobres, dos trabalhadores e que não chegou à Península Ibérica senão no final dos anos 70 do século XX. No entanto, a explicação para este novo paradigma da utilização dos impostos raramente é explicada e é feita pouca pedagogia cidadã nesse sentido. Em Portugal, se uma pessoa tiver uma situação de doença aguda é socorrida independentemente da sua classe social. Se alguém partir uma perna não fica endividado para o resto da vida. Se alguém tiver uma doença crónica como diabetes, hipertensão arterial ou cancro tem medicamentos que ao doente custam pouco. Já o mesmo não se pode dizer para os cidadãos da Grécia ou dos Estados Unidos da América, para falar de dois exemplos “ocidentais”. Os mais velhos talvez ainda se lembrem de um tempo em que em Portugal não havia médicos nem para passar as certidões de óbitos e quando as mulheres pariam como Deus dava, em 1000 crianças morriam 93. Foi ontem.
Estas almofadas, e eventualmente a lembrança do passado, dão alguma segurança, mas não impedem que aqueles que estão na vida quotidiana da pobreza ou quase-pobreza se sintam em depressão, todos os dias a fazerem contas ao dinheiro como preocupação principal. E, generalizadamente, com a exaustão no trabalho que não lhes permite viver a vida. Têm toda a razão para estarem deprimidos ou revoltados.
Neste terreno, quem anda por aí e ouve comentários, daqueles em relação aos quais não é possível dar respostas racionais ou pedagógicas, percebe que, para além da depressão ou do conformismo, pode haver revolta. Lógica, mas desorganizada e descontextualizada, como sempre acontece. Com alvos próximos, porque os distantes e mais importantes não são perceptíveis. É fácil ouvir pessoas que dizem “e nós descontamos!”, sabendo que a percepção delas é que estão a pagar impostos e serviços de saúde, quando nós sabemos que só descontam para a segurança social e que não pagam impostos directos nem serviços de saúde. Já não é raro ouvir ou ler nas redes sociais que estão a pagar impostos para sustentar deputados e reformas milionárias dos mesmos, notícias falsas divulgadas por fontes organizadas e impunes. Na generalidade da voz pública sente-se que a corrupção está a aumentar, quando o que está a aumentar é a sua investigação e divulgação. E já é possível ouvir quem reclame a pena de morte para os corruptos. Um dia pode vir alguém que diga “Chega” e seja aceite como chefe. Um dia poderá ocorrer que nós, que discutimos isto e que pertencemos a uma elite, mesmo que na elite haja gente “à rasca”, sejamos englobados num todo que são “eles”, os que mandam, os que discutem na Assembleia da República, os que estão lá em cima e têm voz, enquanto uns milhões não têm voz de facto. Portugal vive um momento feliz, apesar das muitas greves, mas há mar e marés e há ir e voltar. Há marés amarelas auto-organizadas e há marés negras que pedem chefes.»
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Portugal | Pobre não é de Esquerda, nem de Direita, é pobre

Paulo Baldaia* | Jornal de Notícias | opinião

O populismo, que se alimenta de gente que leva décadas a ser esquecida, é que pode ser de Esquerda ou de Direita. Mas o perigo nunca é real por vir da Esquerda ou da Direita, é real porque os populismos crescem dividindo os mais frágeis, colocando uns contra os outros. Desempregados contra imigrantes ou brancos pobres contra pretos pobres são o conflito mais comum, num discurso que acaba sempre por apelar aos eleitores para se revoltarem contra os eleitos, todos corruptos.

Em Portugal não temos ainda terreno fértil para semear e colher rapidamente conflitos anti-imigração ou conflitos raciais, mas o potencial existe. O que garantidamente seria um êxito eleitoral era um partido anticorrupção, liderado, por exemplo, pelo juiz Carlos Alexandre. Sem outra agenda que não fosse o combate a esta chaga, que os portugueses acreditam ser generalizada na elite política e económica, um partido com Carlos Alexandre como cabeça de cartaz estaria em condições de ganhar as eleições. Se não já em 2019, na seguinte. Sem uma liderança forte, podem ambicionar, ainda assim, eleger vários deputados e formar um grupo parlamentar.

E sabem porque é que os pobres acabam sempre por dar a mão aos populistas de Direita, ou aos populistas de Esquerda? Porque os políticos "sérios" nunca se preocupam em resolver estruturalmente os problemas dos mais pobres. Os que são verdadeiramente pobres demoram décadas para ver uma pequena parte do seu exército entrar no elevador social, mas estão sempre a vê-lo avariar-se e a ter que voltar para baixo, quando há uma crise. Em Portugal, o salário dos gestores não desceu com a última crise e a Função Pública não perdeu emprego, perdeu salário que já recuperou, mas os milhões que vivem com menos de 800 euros por mês são sempre precários no acesso ao direito de ganhar a vida com trabalho. Se a política gosta de brincar com os mais frágeis, é da mais elementar justiça que os mais frágeis gostem de brincar com a política. Foi assim nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa... e haverá de ser assim em Portugal.

*Jornalista

 

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Ainda mais uma achega contra a caridadezinha

Na edição online do «Expresso» o economista Marco Capitão Ferreira acrescenta mais um argumento aos muitos já rastreados para que nos eximamos de dar qualquer apoio ao Banco Alimentar contra a Fome: “Sim, o Banco Alimentar gasta 300.000 euros ano em ordenados, para não falar noutras despesas que pouco têm a ver com o apoio a famílias necessitadas, e eu por mim tenho dificuldade em compreender isso.”
A exemplo do que Almada Negreiros escreveu na sua «Cena do Ódio» (esta é a“a pátria onde Camões morreu de fome/e onde todos enchem a barriga de Camões!”) a instituição de Jonet vale-se de haver tanta gente com fome para que muitos dos seus amigos e protegidos com eles lucrem. A começar pela própria líder acabada de ser premiada com um bem remunerado cargo na administração do Grupo José de Mello, que alegou encontrar nela as competências pretendidas para o seu negócio predador em função da continuada vigarice, que tem sido a sua carreira de «benemérita» nos últimos vinte e quatro anos.
Para quem andava há dias a queixar-se de nada ganhar com a atividade no Banco Alimentar, convenhamos que nova sinecura equivale a uma mentira com perna muitíssimo curta.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/ainda-mais-uma-achega-contra.html

Última hora: se combatermos a pobreza, a pobreza diminui

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 05/12/2018)

capitaoferreira

Num desenvolvimento que deve deixar de cara à banda boa parte da intelligentsia nacional o INE publicou, há dias, o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2018 sobre rendimentos do ano anterior.

Daqui resulta que 17,3% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2017, menos 1% que em 2016, menos 1,7% do que em 2016 e menos 2,2% do que em 2014, no pico da crise. São números que vão na direção certa, mas que não deixam de ser preocupantes.

A explicação mais óbvia vem do crescimento económico: o desemprego é um fator preponderante no risco de pobreza, e menos desempregados significam menos pessoas em risco de pobreza.

Mas não vem só daí, vem também de um outro fator, poucas vezes valorizado: este é o valor depois das transferências sociais.

Antes das transferências sociais esse valor é, para 2018, de 43,7%, menos uns impressionantes 4,1% do que em 2013, no pico da crise.

Deixemos por um instante a constatação – arrepiante – que sem mecanismos de proteção social praticamente metade da população estaria em risco de pobreza (e é mesmo de pobreza que se fala aqui, a taxa de risco de pobreza correspondia, em 2017, à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos inferiores a 468 euros por mês) e olhemos para o papel das políticas sociais na correção deste risco.

Parece que, oh espanto, repor pensões e prestações sociais reduz a pobreza e cortar pensões e prestações sociais aumenta a pobreza. Estou chocado, juro.

Sem Estado Social teríamos muito mais pobres, muito menos capacidade de distribuir rendimentos, criar riqueza e empregos, e tão pouco poderíamos esperar viver na relativa paz social que nos habituámos a ter por garantida.

Sem Estado Social teríamos não quase 2 milhões de portugueses em risco de pobreza, mas quase 5 milhões de portugueses em risco de pobreza permanente.

Quer ajudar a reduzir a pobreza? Pague os seus impostos. Contribua para o contrato social com a sua parte. Bate qualquer outro método.

Incluindo a caridadezinha de que tantos vivem. Sim, o Banco Alimentar gasta 300.000 euros ano em ordenados, para não falar noutras despesas que pouco têm a ver com o apoio a famílias necessitadas, e eu por mim tenho dificuldade em compreender isso.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A pobreza não é uma fatalidade

Mariana Mortágua | Jornal de Notícias | opinião

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de risco de pobreza após transferências sociais caiu de 19,5% em 2013 para 17,3% em 2017.

É o valor mais baixo registado em quase 15 anos, mas continua alto demais. Se forem considerados os rendimentos antes de qualquer transferência social, a redução foi de 4,7 pontos percentuais (p.p.), e se a estes rendimentos forem acrescidas apenas as transferências relativas a pensões, então a queda foi de 4p.p.

A primeira nota é que a austeridade, ao contrário do que afirmam PSD e CDS, não foi "socialmente justa". O desemprego, os cortes nos apoios sociais e rendimentos, atiraram para a pobreza milhares de pessoas, agravando todos os indicadores de desigualdades, exclusão e privação.

Mas a reflexão que mais importa é sobre o presente e o futuro.

Segundo o INE, excluindo já as pensões, quase 23% da população está em risco de pobreza. Em 2017, as prestações sociais - o abono de família, o rendimento social de inserção, a prestação social para a inclusão ou o complemento solidário para idosos - reduziram esta percentagem em 5,3 p.p. São por isso instrumentos essenciais no combate à pobreza. A aposta que fizemos, ao longo desta legislatura, no seu reforço depois dos cortes da Direita foi acertada.

Mas a pobreza não é um fenómeno que se combata apenas com prestações sociais. Em 2014, a taxa de risco de pobreza entre a população trabalhadora era 10,9%. Ou seja, mais de um em cada dez trabalhadores não ganhava o suficiente para não ser pobre. Em 2017 esta taxa reduziu-se para 9,7%, e o aumento do salário mínimo nacional em muito deve ter contribuído para isso.

Os resultados são positivos, e devemos aprender com eles. Mas se o aumento das prestações sociais e do salário mínimo foram essenciais para retirar o país da situação de emergência social, a erradicação da pobreza e o combate estrutural às desigualdades não podem ficar pela política de mínimos.

A qualidade e universalidade dos serviços públicos, que são uma forma indireta de rendimento, e a legislação laboral, que protege o salário e o emprego, são dois elementos centrais dessa estratégia. Em ambos, a atuação do Governo, limitado pelas suas próprias escolhas ideológicas e orçamentais, deixa muito a desejar. Não tinha que ser assim, sobretudo porque há no Parlamento uma maioria que permitiria fazer diferente. Mas ainda há tempo para mudar algumas coisas. Esta ainda pode ser a legislatura em que limpamos a troika do código laboral e protegemos o SNS com uma nova lei de bases. Se tal não acontecer, a responsabilidade será exclusivamente do Partido Socialista.

*Deputada do BE

OS DOIS BANCOS

O pão que sobra à riqueza,
Distribuído pela razão,
Matava a fome à pobreza
E ainda sobrava pão.
António Aleixo
O Presidente da República pede para o “Banco Alimentar”, quatro mil voluntários seguem-lhe o exemplo; dá quem quer, muito bem. Ajudar os pobrezinhos, coitadinhos, os hipermercados coitados e mais o IVA que cativa verbas para pagar ao FMI. Tá certo!
Mas para alimentar o voraz “NOVOBANCO”, esse estorvo, de poucas bocas e muita gula, que suga milhões, - o “Novo Banco quer mais 792 milhões do Fundo de Resolução” – Presidente e Governosvêm-nos diretamente ao bolso para alimentar esta besta. Pois bem! De ora avante (Avante camarada) quando a banca estiver em apuros, apelaremos o voluntariado, (meninas e meninos bem nutridos sempre dispostos a auxiliar os carenciados) para pedir à saída dos cemitérios, lojas da Zara e de azar, casinos, ourivesarias onde se vendem relógios impulsionados a centenas de milhares de euros, estendendo a mão e recebendo o óbolo de mãos perfumadas e, quiçá, manchadas de sangue.
E deste modo, o mundo capitalista, encontraria o necessário equilíbrio: os ricos, com o seu suor e lágrimas, sem nos vir ao bolso, cotizavam-se entre si, e os pobres com o valor do seu trabalho, repartiriam justamente o que a todos pertence.
Se necessitarem de mais alguma dica é só dizer.
Ao vosso inteiro dispor, em: “as palavras são armas”.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

Jonet, a descarada mentirosa

Desconheço se a ação deste fim-de-semana em benefício do Banco Alimentar, e sobretudo dos hipermercados, que viram multiplicar-se os lucros à conta desta ação de «caridadezinha», foi ou não bem sucedida. Nos últimos anos, quando dei alguma atenção aos volumes reivindicados por Isabel Jonet, detetava-se uma quebra sistemática como resultados da sua militância em prol das direitas e da inesquecívelboutade sobre o direito dos pobres a comerem ou não bifes.
Confesso que, se nos primeiros anos, ainda fui levado na onda dos que acrescentavam uns quantos produtos alimentares aos carrinhos postos à minha frente pelos escuteiros, nos anos mais recentes escusei-me a esse tipo de «generosidade». Retomara a atitude assumida antes do 25 de abril, quando foi moda a canção sobre brincar à caridadezinha, assassina satiriza àquelas senhoras que, segundo o poema de Gedeão,nunca mais (oh! nunca mais!), e compensavam as íntimas carências cuidando de pobrezinhos.
Não sei se Jonet ésenhora de não sei quem, mas de uma qualificação não escapa: é uma descarada mentirosa. Agora para promover o negócio deu uma entrevista em que incentivava às dadivas por alegar existirem muito mais famílias em estado de carência do que anteriormente. (Ai as saudades que tem do governo anterior!).
Se olharmos para os gráficos ao lado comprova-se que, se lhe caíssem os dentes por cada mentira, lá a teríamos na via sacra da colocação de implantes. É que o INE acaba de publicar evidências em como a taxa de privação severa baixou 4% em outros tantos anos e os indicadores da própria instituição jonetiana aponta para menos cinquenta mil pessoas por ela «apoiadas» no mesmo período.
Que Marcelo tenha aproveitado para aparecer nas televisões a dar-se ares de beatífico apoio a este logro só confirma tudo quanto dele já registámos. Há peditórios para os quais dar o que quer que seja equivale a fazer figura de lorpa...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/jonet-descarada-mentirosa.html

Tem a certeza, Dra. Isabel Jonet?

Na entrevista de hoje ao DN, Isabel Jonet lança o alerta: «há outra vez mais gente endividada, com salário penhorado, sem subsídio de desemprego». Isto porque, segundo a presidente do Banco Alimentar, «a recuperação económica que houve não chegou às famílias mais pobres», apesar de «algumas melhorias em abonos». «Aquilo que eu noto», acrescenta, «é que nos últimos meses sentimos como que algum agravamento da situação das famílias mais carenciadas». Curiosamente, o INE divulgou hoje os resultados do Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida, que dá conta da redução do risco de pobreza de 19,0 para 17,3% entre 2015 e 2017, com uma diminuição igualmente significativa no universo das formas mais extremas de pobreza: a população em situação de privação material severa passa de 9,6 para 6,9%, numa quebra que ronda as -283 mil pessoas (estimando-se que este indicador atinja os 6,0% em 2018).
A presidente do Banco Alimentar poderia de resto olhar para as estatísticas da instituição que dirige e que convergem com os indicadores oficiais. Entre 2015 e 2017 o número de beneficiários do BACF diminuiu em cerca de 66 mil (-15,2%), passando o peso relativo do número de pessoas assistidas na população total de 4,2 para 3,6%.
Com uma entrevista concedida na véspera de mais uma campanha de recolha de alimentos, é de admitir que Isabel Jonet tenha considerado a necessidade de «forçar a nota» (mesmo que à custa da deturpação da realidade), para melhorar o fund raising (ou food raising, melhor dizendo). O que, convenhamos, não deixa de alimentar a suspeição de que os «objetivos» empresariais do BACF se sobrepõem, uma vez mais, à alegada «causa» a que a instituição se dedica.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Papa Francisco: a injustiça é a raiz perversa da pobreza

Ao presidir a celebração eucarística neste domingo (18), o papa Francisco falou sobre a pobreza que atinge milhões de pessoas no mundo. O líder católico identifica na injustiça a raiz principal da pobreza da qual são vítimas, segundo ele, crianças, jovens, idosos, refugiados e populações atingidas por guerra e pela exclusão. O papa afirmou ainda que os cristãos não devem ficar de braços cruzados diante das injustiças. “Não somos chamados a fazer o bem só a quem nos ama”, enfatizou Francisco.

Na celebração deste domingo, que marcou o Dia Mundial dos Pobres, o papa fez uma homilia com forte teor social e uma crítica enfática à concentração de riqueza. Entre os milhares de católicos de todo o mundo que costumam participar das celebrações de domingo no Vaticano, estavam seis mil pobres, a quem o papo dedicou atenção especial.

“O grito dos pobres: é o grito estrangulado de bebês que não podem vir à luz, de crianças que passam fome, de adolescentes acostumados ao estrondo das bombas ao invés da algazarra alegre das brincadeiras. É o grito de idosos descartados e deixados sozinhos. É o grito de quem se encontra a enfrentar as tempestades da vida sem uma presença amiga. É o grito daqueles que têm de fugir, deixando a casa e a terra sem a certeza dum refúgio. É o grito de populações inteiras, privadas inclusive dos enormes recursos naturais de que dispõem. É o grito dos inúmeros Lázaros que choram, enquanto poucos epulões se banqueteiam com aquilo que, por justiça, é para todos”, afirmou o sumo pontífice. Para Francisco “a injustiça é a raiz perversa da pobreza. O grito dos pobres torna-se mais forte a cada dia, e a cada dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos, que são sempre menos e sempre mais ricos.”

Segundo Francisco, “diante da dignidade humana espezinhada, muitas vezes fica-se de braços cruzados ou então de braços abertos, impotentes diante da força obscura do mal. Mas o cristão não pode ficar de braços cruzados, indiferente, nem de braços abertos, fatalista”. O papa concluiu a homilia afirmando: 

Não somos chamados a fazer o bem só a quem nos ama. Retribuir é normal, mas Jesus pede para ir mais longe dar a quem não tem para restituir, isto significa, amar gratuitamente”.

Ao final da celebração, o papa Francisco almoçou milhares de pessoas carentes que participaram da celebração do Dia Mundial dos Pobres. A data foi instituída por Francisco com a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, publicada em 21 de novembro de 2016, na conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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Quantos pobres para fazer um rico?

João Rodrigues
Num país com tantos pobres, com tantos trabalhadores pobres, num país com desigualdades “chocantes”, seguindo o Comissão Nacional Justiça e Paz, é preciso insistir na questão garrettiana: quantos pobres para fazer um rico? Num tempo ainda de desigualdades pornográficas, de grande impotência democrática, em que até parece que tudo se compra e tudo se vende, incluindo direitos de residência, é preciso criticar a economia política dominante, até para que se identifiquem as políticas dominantes do capitalismo realmente existente; um sistema plutocrático onde no topo da pirâmide social não há vergonha, até porque não há receio político. Num contexto destes, não pode haver complacências por parte dos que querem construir uma alternativa a este estado de coisas. Foi também por causa de preocupações destas que escrevi para o Le Monde diplomatique - edição portuguesa de Setembro o artigo que agora deixo por aqui: Porno-riquismo Numa reportagem do Expresso sobre o crescimento do luxo em Portugal, Miguel Guedes de Sousa, director do grupo Amorim Luxury (CEO, acrónimo em inglês, a língua dominante dos negócios sem fronteiras), afirmou que «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados»[1]. Guedes de Sousa é casado com Paula Amorim, o principal rosto da maior fortuna nacional, deixada por Américo Amorim e hoje avaliada em 4502 milhões de euros[2]. Daí o nome do grupo, detido e presidido por Paula Amorim, e que inclui, entre outros, «um espaço de indulgência único» na Avenida da Liberdade chamado JNcQuoi (a língua francesa ainda dá cartas no campo da distinção), englobando um restaurante e uma loja de luxo; esta última é parte de uma cadeia[3]. A mesma reportagem do Expresso informa-nos que os clientes mais indulgentes têm a honra de ter o seu nome gravado no balcão do bar. Entre os 48 nomes aí gravados no primeiro ano de funcionamento, encontram-se o do milionário francês do imobiliário Claude Berda, de que voltarão a ouvir falar neste artigo, o do político e advogado de privatizações para estrangeiros, José Luís Arnaut, ou o do gestor de rendas eléctricas também para estrangeiros, António Mexia: «Nomes que num fim de tarde passado entre queijos e vinhos Barca Velha e Château Margaux gastam facilmente dez mil euros e outro tanto (ou mais) numa manhã de compras, na loja Fashion Clinic no piso de baixo, entre roupas e calçado Gucci, Valentino e Dolce&Gabbana».  Por sua vez, no novo suplemento mensal do minguado Diário de Notícias chamado DN Ócio«uma revista que aborda informação relativa ao mercado premium e de luxo – das questões práticas às aspiracionais», segundo o seu estatuto editorial – pode ler-se a enésima reportagem sobre a Avenida da Liberdade, sobre os seus «guardiões do luxo»[4]. Nela, Filipa Ferreira, «head concierge» (o inglês cruza-se convenientemente com o francês) do Tivoli Avenida da Liberdade, afirma que «o cliente pede e nós dizemos sempre que sim (…) vamos ter de concretizar o pedido seja como for». De forma certamente não intencional, a DN Ócio homenageia um livro clássico da economia política, que será em breve editado entre nós: A Teoria da Classe Ociosa. Publicado em 1899, numa era de desigualdades igualmente cavadas, Thorstein Veblen cunhou aí a noção de consumo conspícuo, sendo um dos seus críticos mais lúcidos. Para lá do ócio, a classe dominante dos grandes proprietários assentava a sua reputação de base pecuniária no consumo ostentatório, especializando-se de resto em actividades económicas predatórias de natureza predominantemente financeira. Ao mesmo tempo, os seus hábitos infectavam o resto da pirâmide social, gerando uma emulação consumista assente também no desperdício e na criação de obstáculos a uma comunidade inclusiva e com hábitos funcionais[5]. Ao serviço do porno-riquismo  Avançando mais de um século e para este lado do Atlântico, cruzamos as declarações de Guedes de Carvalho e de Filipa Ferreira, oriundas dos dois lados da mesma avenida e da mesma divisão social, e encontramos uma realidade, com amplos reflexos mediáticos, em ascensão neste país e que precisa de um termo novo: porno-riquismo. O porno-riquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo multi-escalar com desigualdades pornográficas, onde o dinheiro assim concentrado é sempre quem mais ordena, incluindo na dimensão pessoal, que é sempre política. O centro da cidade de Lisboa, ou do Porto, é cada vez mais visto como uma área para os ricos concretizarem todos os seus desejos, do prédio classificado ao hotel, passando pela loja, pelo restaurante e por uma miríade de serviços pessoais associados. Tudo de luxo. O porno-riquismo não se circunscreve ao centro das nossas duas principais cidades, já que também transborda para certos enclaves nas suas periferias e mesmo, usando os termos da reportagem do Expresso acima referida, para a «autenticidade» da «província», ou seja, e só para dar um exemplo, para uma «aldeia recuperada», entre Condeixa e Pombal, onde os clientes «são recebidos num heliporto privado, assinalado com um H em tamanho gigante, com o mesmo tipo de letra da marca francesa Hermès». O que devem fazer muitos dos restantes 99% perante os hábitos dos 1%, e isto na mais heróica das hipóteses numéricas? Para os que são crescentemente compelidos pela especulação imobiliária a viver fora, mas a trabalhar dentro, das grandes cidades, servindo os ricos, a revista Visão, numa representativa reportagem, dedicada às «casas em Portugal que valem mais milhões», tem uma sugestão prática, mas de duvidosa moralidade, como em tudo nesta área: «Como sonhar ainda vai sendo actividade privada isenta de impostos, nada nos impede de apreciar uma moradia como aquela que está à venda na Quinta da Marinha por 28 milhões de euros, comercializada pela Sotheby’s»[6]. Nas sociedades capitalistas, certa comunicação social contribui para que os standards pecuniários pornográficos fixados pelos mais ricos, de resto muito pouco taxados, invadam até os sonhos. Nada que fosse estranho na era anterior de porno-riquismo sobre a qual Veblen escreveu. No entanto, vale a pena descer do mundo onírico para o da realidade material concreta, convocando o conhecimento, explicitamente ao serviço de porno-riquismo, em linha com o que é apanágio, ainda que por vezes disfarçado, de toda a sabedoria económica convencional. Segundo Helena Amaral Neto, coordenadora de cursos executivos na área do luxo no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), que vão da gestão de marcas de luxo ao turismo e ao imobiliário de luxo: «O segmento [do luxo] não tinha qualquer expressão antes de 2012. Tudo o que está a acontecer hoje vem do movimento do imobiliário, que depois gerou turismo»[7]. E tudo, segundo esta também consultora de luxo, já vale quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB). No ano dois da Troika, o projecto de transformar Portugal numa espécie de Flórida da Europa ganhou literalmente terreno, assente no nexo entre imobiliário, turismo e finança internacional, com uma componente crescente de luxo, um padrão de especialização que tende a gerar baixos salários e enormes desigualdades socioeconómicas[8]. O conhecimento ao serviço do porno-riquismo requer sempre um Estado que o institucionalize. Não é certamente por acaso que Helena Amaral Neto atribui a máxima importância a duas medidas de política fiscal: o estatuto de residente não habitual, criado ainda no governo de José Sócrates, em 2009, e a autorização de residência para actividade de investimento, vulgo Vistos Gold, criada em 2012; e isto para não falar da possibilidade do que apoda de «global shoppers» (os chamados «consumidores globais») de fora da União Europeia e que podem pedir o reembolso do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) para compras superiores a 75 euros; luxos fiscais para um consumismo conspícuo que não gosta de fronteiras. A União Europeia já havia sido o principal agente na promoção da liberalização dos movimentos de capital em parte do continente. O esvaziamento da soberania democrática a que repetidamente aí se procedeu, privando os Estados nacionais de instrumentos decentes de política económica, favorece uma corrida para o fundo em matéria fiscal, com o capital agora livre para arbitrar: o poder dos mais ricos aumentou e a carga fiscal que sobre eles recai diminuiu, à medida que os Estados competem para os seduzir. Concretizando o «modelo Flórida» deste lado do Atlântico, Portugal transformou-se num «eldorado para os reformados» ricos, oriundos do centro europeu, em busca de sol, serviços pessoais relativamente baratos e, sobretudo, de borlas fiscais à boleia de duplas isenções de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS)[9]. Por sua vez, os estrangeiros em idade activa, que invistam e trabalhem por cá em actividades de «elevado valor acrescentado», podem esperar pagar uma «taxa especial de 20% de IRS» durante uma década[10]. Para lá das seduções fiscais, no âmbito do estatuto do residente não habitual, Portugal transformou-se também num dos muitos países europeus – regiões seria mais correcto do ponto de vista da soberania económica – que vende direitos, neste caso de residência, ao abrigo dos Vistos Gold. Tudo se compra e tudo se vende. O porno-riquismo é sinónimo de corrupção geral. Querem tudo  Revisitemos a declaração de Miguel Guedes de Sousa, director da Amorim Luxury: «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados». A questão da habitação sempre foi um terreno da luta de classes no capitalismo, sendo hoje uma das áreas em que o porno-riquismo mais investe. Entretanto, a sua esposa, uma encarnação do capitalismo de herdeiros cada vez mais saliente, já tinha sido saudada no seu empreendedorismo independente na área do luxo por uma imprensa habituada a idolatrar os ricos, no preciso momento em que sucedia ao pai no conselho de administração da Galp: o luxo é «um negócio que lhe deu independência financeira e o saber quanto a custa ganhar» desde os anos noventa[11]. Paula Amorim certamente aprendeu a aceder ao luxo do lado da procura antes de se lançar do lado da oferta e não foi certamente prejudicada nestes seus hábitos pelos laços familiares, em particular no que diz respeito ao acesso a capital nas suas várias encarnações. Como isto está tudo pornograficamente ligado pela integração europeia, o nome da globalização capitalista mais intensa nesta parte do continente, note-se que a participação da família Amorim na Galp é assegurada através da Amorim Energia. Detendo cerca de 33% da Galp, a Amorim Energia está sediada na Holanda para receber dividendos, com o mínimo de impostos. Ou seja, os pornograficamente mais ricos estão sempre a beneficiar fiscalmente. Na Amorim Energia participa também a angolana Esperanza Holding, detida parcialmente por essa agora periclitante encarnação angolana do porno-riquismo multi-escalar que é Isabel dos Santos, a que um dia declarou: «Tive sentido para os negócios desde muito nova. Vendia ovos quando tinha seis anos»[12]. Naturalmente, o apelido Amorim cruza as rendas, pouco tributadas, dos combustíveis com a cortiça, o rentismo fundiário ou a especulação imobiliária. E daí as declarações do CEO da Amorim Luxury. Uma parte da Herdade da Comporta, correspondente ao fundo de investimento imobiliário nas mãos da falida Rioforte do antigo Grupo Espírito Santo, está na mira de Paula Amorim, em consórcio com o francês Claude Berda, um dos 48 que tem o nome inscrito no bar do restaurante da Avenida da Liberdade com sotaque francês. Este consórcio tem concorrência apertada. Quando o leitor estiver a ler este jornal, poderá já saber quem são os donos daquilo tudo. Sejam eles quem forem, Amorim e Berda, citados no Expresso, afirmam que «a Comporta tem todos os ingredientes para se tornar um destino turístico de excelência no mundo a par de Capri, Sardenha, Punta del Este ou Saint Barths»[13]. Os seus planos de construção incluem, ainda segundo o Expresso, cinco hotéis de luxo, muitos apartamentos e moradias de luxo, o tão inevitável quanto insustentável campo de golfe e até uma igreja, desenhada por Frank Gehry, já que a história da agulha e do camelo parece ser o único espectro que, por agora, paira sob um porno-riquismo sem grandes razões para ter medo nesta vida. Age como se a história tivesse acabado. Lembrando que o problema não é este ou aquele apelido, mas sim o sistema que lhes confere todo o poder, ficámos, entretanto, a saber, por uma reportagem da Visão, que, nos hectares a perder de vista onde os Espírito Santo diziam brincar aos pobrezinhos, foram feitas ao longo dos anos mais de uma centena de obras ilegais, que transformaram cabanas em moradias de luxo, numa zona supostamente protegida por razões ambientais, à boleia de múltiplos indícios de corrupção, tendo sido já constituídos vários arguidos, incluindo antigos responsáveis autárquicos e responsáveis da herdade. Pouco importa, já que mesmo por aí, «há casas a passar de mão por €350 o metro quadrado [falta, pelo menos, um zero, €3500, arrisco eu] (os lotes mais pequenos estão a ser vendidos por mais de um milhão) e a serem alugados por €700 por noite via Airbnb»[14]. A mesma Visão que em Abril recomendava o sonho do porno-riquismo aos que não são ricos deu conta do pesadelo em Julho: na era do porno-riquismo, do desperdício sistemático, dos bens posicionais que implicam exclusão sistémica, tudo se vende e tudo se compra. Mas sendo isto reconhecidamente verdade, a jornalista que assina a reportagem não resiste a convidar o leitor a sonhar com o luxo, embora num tom mais melancólico: «Se ficou com vontade de ser, por um dia, Espírito Santo nos seus tempos áureos, e andar pela Comporta com roupas chiques e chinelo no pé, saiba que algumas dessas casas já têm lotação esgotada até ao fim do ano».  Terminemos onde começamos, no centro da capital desta Flórida da Europa: «Sei que os meus consumidores são raros, diversos e complexos; estão bem conectados e têm poder», revelou Paula Amorim na conferência internacional Condé Nast Luxury[15]. Organizada pela editora internacional da revista Vogue, Suzy Menkes, dedicada à «linguagem do luxo», foi uma das várias do género realizadas recentemente em Lisboa. Numa intervenção onde a introspecção esteve certamente presente, Amorim afirmou ainda: «O que podemos oferecer àqueles que têm tudo? Àqueles que exigem o inesperado? Eles não querem produtos, querem experiências únicas, sentir algo que seja um reflexo dos seus valores. Quanto mais virtuais as nossas vidas se tornam, mais apetite temos por autenticidade, serviços humanos, um respeito pela privacidade, pelo anonimato, pela personalização, por produtos feitos à medida, por conteúdo e por relações». Querem tudo, comem mesmo tudo e deixam cada vez menos: porno-riquismo é um nome feito à medida, por conteúdo e por relações, tal como o capitalismo realmente existente. [1] Expresso, 14 de Julho de 2018.
[2] Forbes, Julho/Agosto de 2018.
[3] www.jncquoi.com/pt/restaurante.
[4] DN Ócio, 28 de Julho de 2018.
[5] Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class, The Modern Library, Nova Iorque, 2001.
[6] Visão, 26 de Abril de 2018.
[7] Diário de Notícias, 14 de Maio de 2018.
[8] Ainda antes de ascender ao cargo de economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, entre 2008 e 2015, Olivier Blanchard já havia explicitamente defendido o «modelo Flórida» para Portugal, acompanhado da redução dos salários, num influente artigo que resultou de um estudo encomendado pelo Ministério das Finanças: «Adjustment within the Euro: the difficult case of Portugal», Portuguese Economic Journal, Abril de 2007, pp. 1-21.
[9] Negócios, 2 de Maio de 2017. [10]www.portaldascomunidades.mne.pt/images/GADG/IRS__Regime_Fiscal_Residente_N%C3%A3o_Habitual.pdf.
[11] Negócios, 26 de Maio de 2017.
[12] Negócios, 20 de Março de 2013.
[13] Expresso, 21 de Julho de 2018.
[14] Visão, 26 de Julho de 2018.
[15] www.vogue.pt/cnilux-dia-1-uma-vis-o-disruptiva-do-luxo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Um milhão de portugueses pobres mas que trabalham como mouros. Só?

Existe mais de um milhão de portugueses pobres com trabalho, segundo o apuramento da Rede Europeia Anti-Pobreza, foi ontem divulgado no assinalar do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza. Não sabemos como os autores chegam a estes números mas é facto que ao olharmos nos locais de trabalho, pelas ruas, pelos aglomerados de zonas pobres com casarios e barracas que se estendem pelas zonas degradadas de Lisboa e Porto, olhando para como sobrevivem os que por ali habitam, pudemos pôr as mãos no fogo em que por todo o Portugal existem muitos mais trabalhadores pobres que 1.1 milhão, fruto dos salários de miséria que recebem, quando recebem e não lhes pregam o “calote”. Oportunistas caloteiros vimos aos magotes, por exemplo, em empreiteiros e subempreiteiros na construção civil e noutras artes profissionais. Apesar disso colamos a seguir o texto retirado do Esquerda.net, onde pelo menos alguma realidade consta, embora que decerto não correta nos números e na quantidade de trabalhadores que trabalham para continuarem sempre pobres, contagiando sem quererem os filhos e restantes famílias. Isso, enquanto os que roubam os trabalhadores vivem nababamente e asseguram a continuidade da vivência à fartazana aos filhos e restantes famílias.(CT | PG)
Em Portugal há 1,1 milhões de pobres com trabalho
Especialistas reconhecem o impacto da recuperação de rendimentos e aumento das pensões na melhoria de vida dos muito pobres nos últimos dois anos, mas lembram que não é suficiente. Hoje celebra-se o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza.
A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal) alerta para a existência de mais de 1,1 milhões de pessoas em Portugal que têm trabalho, mas são pobres. Os dados foram dados pelo presidente da EAPN Portugal em entrevista à agência Lusa, por ocasião do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza.

Jardim Moreira salienta que a existência de um emprego não é suficiente nestes casos, sendo necessária uma maior aposta na educação e na melhoria das qualificações. 

“Em Portugal, temos 10,8% de trabalhadores que são pobres, achámos que era necessário chamar a atenção para esta realidade, de que não basta ter um emprego para sair da pobreza”, apontou à Lusa o padre Jardim Moreira.

O responsável sublinhou que “não basta ter um qualquer dinheiro para ter uma vida adequada à dignidade humana, é preciso ter um rendimento adequado, que possibilite satisfazer as necessidades familiares”.

Uma das dificuldades que destacou para a dificuldade em aceder a empregos com melhores remunerações é a ausência de qualificações necessárias. Como tal, defendeu que as políticas que melhorem as condições de trabalho incluam também uma política de formação em educação. 

Reconhecendo as melhorias “no nível de vida dos muito pobres” nos últimos dois anos, seja pelo aumento dos rendimentos disponíveis, seja pelo aumento do valor das reformas, o responsável considera que ainda não chega.

“Mas a verdade é que ainda continuamos com 18,3% de pobres de rendimentos e chegam aos 23,3% os excluídos”, destacou, considerando que “apesar da melhoria, de modo global, os números não são ainda satisfatórios”.

Esta é também a opinião de Carlos Farinha Rodrigues, investigador  e professor universitário, também entrevistado pela agência Lusa no âmbito deste dia. 

Segundo Farinha Rodrigues, apesar das melhorias económicas observadas nos últimos anos, o país ainda não conseguiu regressar aos valores registados antes da crise de 2008, altura em que a taxa de pobreza se situava nos 17,9%, 0,4 pontos percentuais abaixo dos 18,3% registados em 2016, e que significam mais de 1,8 milhões de pessoas em situação de pobreza. Houve “um agravamento muito grande” dos principais indicadores de pobreza durante a crise económica, explica. 

“Os últimos resultados conhecidos referem-se a 2016 e esses resultados foram simultaneamente promissores e com fatores de preocupação”, apontou, explicando que foram promissores porque uma “forte repressão na taxa de pobreza das crianças e jovens”, “alguma redução” na taxa de privação material severa e uma redução ligeira na taxa global de pobreza.

O investigador defende uma estratégia nacional mais abrangente no combate à pobreza, uma que tenha em conta não apenas políticas sociais, mas também políticas económicas em geral, bem como as áreas da saúde e educação. “É esta visão de conjunto que eu continuo a achar que falta no nosso país”, concluiu.

Esquerda.net | Foto de Paulete Matos

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/um-milhao-de-portugueses-pobres-mas-que.html

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

pobreza erradicarA consolidação das medidas adoptadas nos últimos dois anos, traduzem alguns avanços nas políticas sociais, só possíveis na nova fase da vida política nacional com a alteração da correlação de forças na Assembleia da República, em que os deputados do PSD e CDS ficaram em minoria e em resultado da luta que os trabalhadores têm desenvolvido.

Apesar das ligeiras melhorias verificadas, Portugal continua a registar níveis de pobreza persistentemente elevados, sendo de sublinhar o número de trabalhadores pobres, que coloca a pobreza laboral entre os mais graves problemas da sociedade portuguesa.

Segundo os dados mais recentes do INE, em 2017, 23,3% dos portugueses (cerca de 2,4 milhões) estava em risco de pobreza ou exclusão social.

Em 2016, a taxa de pobreza situou-se nos 18,3%, abrangendo cerca de 1,9 milhões de pessoas. São consideradas pobres as pessoas que auferem menos de 60% de um rendimento mediano por adulto equivalente (o que implica ter em conta a dimensão e a composição da família). Este rendimento foi de 756 euros mensais em 2016 pelo que são consideradas pobres as pessoas com menos de 454 euros (limiar de pobreza).

O nível de pobreza seria catastrófico (45,2% em 2015) sem o efeito das pensões e das transferências sociais (abono de família, prestações de desemprego, RSI, entre outras). O risco de pobreza sem as transferências sociais diminuiu em 2016, mas a tendência tem sido de agravamento. Por si só, os rendimentos primários, ou de mercado, como os salários, os lucros ou as rendas, deixariam na pobreza perto de metade da população em 2013-2014.

Sem as funções sociais do Estado a pobreza seria generalizada. O risco de pobreza reduz-se devido sobretudo às pensões, nas quais são determinantes as pensões atribuídas pelo sistema público de segurança social.

A pobreza é mais elevada para as famílias com crianças dependentes. Nestas, são mais afectadas as famílias monoparentais (com aumento: 31,6% em 2015 e 33,1% em 2016) e as mais numerosas (com diminuição: 42,7% em 2015 e 41,4% em 2016).

A privação material (um indicador que mede as dificuldades das pessoas de satisfazerem necessidades, económicas e de bens duráveis) também diminuiu em 2016 e em 2017 (passou de 21,6% em 2015 para 18% em 2017). Mas há ainda, cerca 7% dos portugueses (mais de 700 mil pessoas) com privação material severa.

Apesar da atenuação nos indicadores de pobreza e privação material para a população em geral, a pobreza laboral é persistente e continua excessivamente elevada – manteve-se praticamente inalterada (passou de 10,9% em 2015 para 10,8% em 2016). Não há grandes oscilações em todo o período de 2004 a 2016, com valores quase sempre próximos dos 11%. Por outro lado, a pobreza dos desempregados aumentou: passou de 42% para 44,8%. Desde 2012 que o risco de pobreza dos desempregados ultrapassa os 40%.

Para a CGTP-IN, os números da pobreza entre os trabalhadores e os desempregados fazem prova da fragilidade e ineficácia das políticas laborais e salariais vigentes e remetem para a necessidade urgente de alterar as normas gravosas da legislação laboral, de aumentar os salários em geral e o salário mínimo nacional para os 650 € em Janeiro de 2019, a par da melhoria dos níveis de protecção social, em particular dos desempregados.

O aumento do emprego, a redução do desemprego, a reposição de rendimentos, direitos e melhorias nas políticas sociais, designadamente na segurança social, são sem dúvida factores que contribuíram para alguma melhoria nos indicadores de pobreza, privação material e desigualdades, mas é por demais evidente que não são suficientes para resolver o problema de fundo que reside na pobreza e das desigualdades entre a população activa e em particular dos trabalhadores que trabalham e empobrecem.

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, a CGTP-IN reafirma a sua convicção de que a alteração do modelo de baixos salários e vínculos precários que tem dominado no nosso país e a valorização do trabalho e dos trabalhadores são condições essenciais para combater a persistência da pobreza e das desigualdades em Portugal.

Lisboa, 17.10.2018

DIF/CGTP-IN

Ver original aqui

Uma em cada quatro crianças menores de 18 anos está em risco de pobreza e exclusão social no conjunto da União Europeia»

A propósito do relatório da imagem, por exemplo, este trabalho:

União Europeia: Uma em quatro crianças em risco de pobreza e exclusão

Pelo menos 25 milhões de crianças na União Europeia vivem em agregados com baixos rendimentos, sem condições e onde a fome é frequente, revela um relatório da Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) hoje divulgado.
O relatório “Combating child poverty: an issue of fundamental rights”, divulgado a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que hoje se assinala, conclui que uma em cada quatro crianças menores de 18 anos está em risco de pobreza e exclusão social no conjunto da União Europeia.
O documento, que tem como referência o ano de 2016, aponta que a média dos 28 países não reflete, no entanto, “importantes disparidades nacionais”.
Em Estados membros como a Roménia (49,2%) e a Bulgária (45,6%) quase metade das crianças estavam em risco de pobreza e exclusão social.
Mais de 30% das crianças corriam risco de pobreza e exclusão social em países como a Grécia (37,5%), Hungria (33,6%), Itália (33,2%), Espanha (32,9%) e Lituânia (32,4 %).
As percentagens mais baixas registaram-se na Dinamarca (13,8%), Finlândia (14,7%) e Eslovénia (14,9%).
Portugal contava-se entre os países com entre 20 e 29% de crianças em risco de pobreza e exclusão social.
O risco afeta as crianças europeias de uma maneira global, mas é pior em alguns grupos, nomeadamente entre as comunidades ciganas e os migrantes.
 

De acordo com o estudo, 90% das crianças ciganas em nove Estados-membros são pobres.

A média de crianças em risco de pobreza e exclusão social na Europa registou uma variação mínima nos últimos 10 anos, quando comparada com o período antes da crise económica e do lançamento da Estratégia Europa 2020, que tem a redução da pobreza como um dos objetivos principais.

Em 2008, a média de crianças em risco na Europa a 27 era de 26,5%. Durante a crise económica, essa percentagem aumentou para 28,1% em 2012. Em 2016, a média é de 26,4%, uma taxa semelhante à de há 10 anos, segundo as mais recentes estatísticas europeias citadas no estudo.

Esta taxa é também superior aos 23,5% de risco na população em geral.

Em termos absolutos, há na União Europeia quase 25 milhões de crianças em risco de pobreza e exclusão social, risco que afeta rapazes e raparigas de igual forma.

Educação e cuidados de saúde inadequados ameaçam os direitos fundamentais das crianças, impedindo-as de aproveitarem oportunidades e de romperem o ciclo de pobreza, concluiu a FRA.

“A pobreza infantil não tem lugar na Europa, uma das regiões mais ricas do mundo”, sustentou Michael O’Flaherty, diretor da FRA.

“Temos os meios para ajudar a acabar com as condições deploráveis vividas por muitas das crianças europeias. Precisamos que a UE e os estados-membros honrem os seus compromissos de defesa dos direitos das crianças para lhes dar um melhor futuro”, acrescentou.

O relatório sublinha que combater a pobreza infantil “é também uma questão de direitos fundamentais” e sugere a implementação de um conjunto de medidas para abordar o problema.

Reforçar a legislação e políticas de proteção infantil, priorizar a proteção de crianças vulneráveis, estabelecer um regime europeu que garanta a cada criança casa, alimentação, saúde e educação, ligar o financiamento aos Estados-Membros aos resultados do combate à pobreza, desigualdades e exclusão social das crianças e adoção de políticas de conciliação entre o trabalho e a família são algumas das medidas propostas.

A Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (na sigla em inglês, FRA), é um organismo independente, financiada pelo orçamento da UE, e tem como missão proporcionar às instituições e estados-membros da UE informação, assistência e competências no domínio dos direitos fundamentais.

 
 

Ver original em 'Em cada Rosto Igualdade' na seguinte ligação:

http://emcadarostoigualdade.blogspot.com/2018/10/uma-em-cada-quatro-criancas-menores-de.html

Dia Mundial da Alimentação: fome no Brasil pode retomar os patamares do século passado?

Pessoas comem em restaurante popular patrocinado pelo governo do Brasil no âmbito do Programa Fome Zero, São Paulo, 22 de julho de 2011
© AP Photo / Andre Penner

Desde 1981, o Dia Mundial da Alimentação é comemorado em 16 de outubro. A data é marcada pela fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). A Sputnik Brasil aproveita a ocasião para discutir o cenário brasileiro e mostrar quem é mais afetado pela falta de alimentos.

O Brasil deixou o Mapa da Fome em 2014. O levantamento da FAO indica quais países têm 5% ou mais de sua população consumindo menos calorias do que o indicado. Com a crise econômica e política, contudo, o Brasil corre o risco de voltar ao Mapa da Fome.

A situação indica uma falta de "vontade política", segundo Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome — uma parceria entre a ONU e o governo brasileiro.

"O Brasil conseguiu atingir números impressionantes no combate à desnutrição desde o início do século, mas agora a fome pode retomar os patamares do século passado. Isso acontece por falta de investimento em certas políticas, que acabam sendo descontinuadas ou por conta da crise econômica recebem menos atenção."

Para Balaban, o combate à fome precisa precisa ser uma política de Estado, e não flutuar de acordo os dirigentes da ocasião. Ele ressalta que o Programa Fome Zero, criado em 2003 pelo então presidente Lula, tornou-se um modelo para agências internacionais que lutam contra a falta de alimentos.


Exército na Rocinha
© Foto : Tânia Rêgo/Agência Brasil/ Fotos Públicas

Além do Bolsa Família, o Programa Fome Zero também prevê a construção de cisternas em regiões afetadas pela seca, concessão de crédito, entre outras medidas.

"Hoje a estratégia Fome Zero que o Brasil desenvolveu serviu de paradigma que a própria ONU está incentivando em vários países do mundo. Hoje entre 40 a 50 países têm uma estratégia chamada 'Fome Zero'"

Cenário internacional

A fome não atinge todos de maneira igual. Segundo a ONU, 821 milhões de pessoas no mundo todo sofrem com ela. 60% destas vítimas da fome, contudo, são mulheres. A situação tem um efeito perverso na saúde de crianças: 45% da mortalidade infantil está relacionada à desnutrição.

"Os mais afetados são os que vivem em áreas de conflito, principalmente conflito armado — e as mulheres são as maiores vítimas. Os jovens acabam indo para as milícias e participam dos conflitos. Enquanto isso, as mulheres e crianças ficam desassistidas nessas regiões", afirma Balaban.


O especialista ressalta que regiões de conflitos não costumam produzir e alimentos e acabam precisando trazê-los de outro lugar. "Frutas, verduras e legumes acabam estragando porque precisam vir de locais mais longes. Esses alimentos nutritivos acabam não chegando. Chegam apenas os alimentos que possam durar mais e que nem sempre são os mais nutritivos."

Um dos exemplos do impacto de conflitos na alimentação é o Iêmen. Em guerra civil, o país do Oriente Médio têm 1,8 milhão de crianças com desnutrição grave. O Iêmen 17,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. Os dados são da FAO.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2018101612420836-vontade-politica-brasil-mapa-fome-alimentacao/

Fome no mundo aumenta devido à especulação financeira

A fome no mundo aumentou pelo terceiro ano consecutivo. Em 2017, 821 milhões de pessoas não ingeriram a quantidade de calorias mínimas indicadas para atividades diárias. As informações foram apresentadas pelo relatório “A segurança alimentar e a nutrição no mundo”, da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado no início do mês.

Entre os fatores responsáveis pelo aprofundamento dessa mazela social, estão crises econômicas, conflitos armados e eventos climáticos como intensos períodos de secas, que impedem colheitas de produtos que estão na base da cadeia alimentar.

O Atlas do Agronegócio 2018, organizado pelas fundações alemãs Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, apresenta ainda outro elemento: a especulação financeira nas bolsas de valores aumenta o preço das commodities agrícolas, mercadorias produzidas em larga escala, como por exemplo, o trigo, milho, cacau, café e açúcar, entre outros.

As negociações das commodities são feitas por meio dos chamados contratos futuros, transações padronizadas entre produtores e fundos de investimentos para controlar os riscos que envolvem a produção. No caso das commodities agrícolas, não se pode prever se o preço será alto devido à escassez de produtos ou se será baixo devido à abundância, fatores determinados por elementos externos como o clima.

Dessa forma, tanto o produtor quanto o comprador acordam um preço para a produção em uma determinada data futura e assim eliminam os riscos de uma possível oscilação na produção.

Como funciona a especulação?

Após o fechamento dos contratos futuros, também conhecidos como derivativos, se inicia o processo de especulação financeira por parte do comprador. Este adquire o ativo com a intenção de revendê-lo nas Bolsas de Valores, ou seja, realizar uma venda futura com lucro ainda maior, sob condições de incerteza.

Toda essa crise de aumento dos preços está muito ligada à amplificação das negociações especulativas desses contratos. Quando se fecha uma coisa em um determinado momento, é um preço. Quando acontece [na etapa final da produção], é outro. Nesse meio tempo, há a especulação para comprar e vender por mais ou por menos. No caso, quem está querendo vender, evidentemente, quer vender na alta”.
Marcus Oliveira, economista e ativista ambiental

“Muita gente que atua nesse mercado não está interessado no produto. Não quer o café, por exemplo. Quer saber quanto será a safra e o volume para poder comprar isso e valorizar o papel que está comprando. Não é o café em si, complementa o especialista.

Ao passo que os especuladores continuam a fazer apostas intensas, as commodities agrícolas se valorizam e o preço mundial dos alimentos é inflado. Por exemplo: se o preço da commodity milho aumenta, os preços da pipoca ou da pamonha, também passarão por uma elevação.

Na opinião de Oliveira, a especulação sobre as commodities agrícolas afeta diretamente o combate à fome. “O alimento é mais sério porque há um impacto no preço do alimento. Isso interfere na chegada do alimento ao prato de quem necessita”, ressalta.

Ninguém deveria passar fome porque não faltam alimentos, se tem um excesso. Mas porque, então, uma em cada oito pessoas passam fome? Porque se tem um processo de distribuição errada, em primeiro lugar, uma disfuncionalidade, e em segundo porque o aumento dos preços também interfere e impede a pessoa mais simples de ter acesso ao consumo.” 

Exemplo real

Em 2010, o fundo de investimentos inglês Armajaro Trading, comprou uma quantidade maciça de cacau e provocou um aumento recorde dos preços. Foram 240 mil toneladas, quantidade equivalente a 7% da produção mundial de cacau e 15% dos estoques globais. Matéria-prima suficiente para 5,3 bilhões de barras de chocolate.

Com forte poder de influência no mercado do cacau, a Armajaro pôde vender o produto a um preço maior. A partir do primeiro contrato de futuro sobre o preço, outros traders (negociadores) passaram a especular sobre o derivativo, o “papel criado”. A partir dessa primeira negociação, novos contratos foram gerados. Neste caso, os preços das sementes subiram ao maior valor desde 1977 na Europa, impactando também o preço dos chocolates no mercado.

Marcus Oliveira comenta ainda que nessa dinâmica de especulação das commodities agrícolas, o pequeno agricultor é muito prejudicado, já que o lucro é exclusivo dos especuladores. “O produtor é refém do mercado. Quem faz a gestão do mercado, determina preços. Quem está produzindo, com muita dificuldade, acaba refém disso, dos grandes conglomerados e dos lobbies”, reforça o economista.

Flexibilização gera concentração

O Atlas do Agronegócio 2018 destaca que regras que anteriormente restringiam as especulações financeiras excessivas sobre os produtos agrícolas foram flexibilizadas desde o início da década de 1990, pela Comissão de Negociação de Mercadorias de Futuro dos Estados Unidos. Como resultado desse processo, as potências financeiras passaram a moldar crescentemente o sistema alimentar global.

A crise financeira global de 2008 incentivou o crescimento do investimento em matérias primas agrícolas. Entre 2006 e início de 2011, de acordo com o Atlas, o total de ativos dos especuladores financeiros nos mercados de commodities agrícolas quase dobrou de US$ 65 bilhões para US$ 126 bilhões.

O estudo traz ainda outro dado: no mercado de futuro de trigo dos Estados Unidos, por exemplo, os especuladores financeiros representavam 12% do comércio em meados da década de 1990, mas, em 2011, a participação era de 61%. Estima-se que, atualmente, a participação esteja em torno de 70%.

Os fundos de investimentos controlam bilhões de dólares de ativos agrícolas. Apenas o DB Agriculture Fund, lançado pelo Deutsche Bank, administra mais de US$ 700 milhões em ativos que incluem milho, soja, trigo, café e açúcar.

A BlackRock, uma das maiores empresas de investimento do mundo, que possui ações da Bayer-Monsanto e da Syngenta, empresas transnacionais que dominam as vendas de agrotóxicos e pesticidas no mundo, assim como a comercialização de sementes, estabeleceu em 2007 um Fundo de Índice de Agricultura que investe em ativos como futuros de commodities e terras agrícolas. O fundo vale mais de US$230 milhões.

Outras corporações, como a Cargill, Bunge e ADM, também possuem lucros bilionários.

Políticas de combate à fome

Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, também critica a especulação financeira sobre a alimentação mundial.

Quando se utiliza [a alimentação] como mercadoria, para especular, para ter um maior lucro, não se preocupa em utilizar esses alimentos para o consumo dos mais necessitados, que são os que tem menos força nesse processo, não possuem dinheiro para comprar”.
Balaban

Ele acrescenta que o crescimento de pessoas em situação de insegurança alimentar nutricional no mundo é extremamente alarmante e afasta o mundo da meta de acabar com a fome até 2030.

Além da seca e das alterações climáticas que influenciam na produção alimentar, a ONU cita os conflitos armados como decisivos no aumento exponencial da fome.

Só o Programa Mundial de Alimentos tem cinco casos máximos que chamamos de L3, nível três, em que temos que entregar e fazer com que cheguem os alimentos nas regiões. O Iêmen é muito preocupante, a Síria, o Iraque, o Sudão do Sul, o Afeganistão. São regiões onde os conflitos persistem e nesse cenário, as pessoas não têm capacidade de produzir e fica muito mais difícil o acesso dessas populações aos alimentos”.
Coordenador do PMA

Balaban também comenta o caso brasileiro.

“O Brasil chegou a menos de 3 milhões de pessoas [com fome] e agora já está em 5 milhões em pessoas com insegurança alimentar. O aumento acontece devido a crise econômica que o país vem enfrentando, e a diminuição, principalmente, de alguns investimentos necessários para os pequenos agricultores familiares, os mais atingidos, e principalmente de políticas sociais.” 
Balaban

Desperdício e distribuição

Outra questão trabalhada pela FAO, braço da ONU para a alimentação e a agricultura, e pelo PMA, é tornar evidente que não falta produção de comida no mundo para todos os seus habitantes, mas o grande desperdício de comida, além dos fatores citados, dificulta sua distribuição.

O especialista é enfático ao opinar que, caso fosse prioridade dos países, o problema da fome seria resolvido mas a falta de interesse político impede que isso aconteça.

“Será que somos incapazes de acabar com a fome no mundo ou há uma falta de interesse político em atingir essa meta?”, questiona Balaban.

O mundo gasta anualmente 1 trilhão e 500 bilhões de dólares com gastos militares. Os recursos que vão para políticas sociais, para acabar com a fome, não chegam a 2% disso.”
Balaban
Por Lu Sudré  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Brasil de Fato)/ Tornado

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Fome no mundo regista terceiro aumento anual consecutivo

Cerca de 821 milhões de pessoas no mundo passam fome, revelou hoje a ONU, traduzindo um aumento para níveis de há dez anos que se sente mais na América do Sul e na maior parte de África.

O número é apontado pela agência das Nações Unidas para a alimentação e agricultura (FAO, na sigla em inglês) no relatório sobre o estado da segurança alimentar e nutrição de 2018, divulgado hoje, em que se confirma a tendência para o aumento da fome no mundo pelo terceiro ano consecutivo, passando de 804 milhões em 2016 para 821 milhões em 2017.

"A variabilidade do clima, que afeta os padrões da chuva e as estações, bem como extremos climáticos como secas e inundações estão entre as principais causas do aumento da fome, além dos conflitos e abrandamentos económicos", considera a FAO.

Em números totais, uma em cada nove pessoas passa fome, com 515 milhões na Ásia, 256,5 milhões em África e 39 milhões na América Latina e Caraíbas.

Apesar de a erradicação da fome ser um dos objetivos para o desenvolvimento a atingir até 2030, "os sinais alarmantes do aumento da insegurança alimentar e diversas formas de má alimentação", desde a obesidade nos adultos aos atrasos de crescimento nas crianças.

Cerca de 672 milhões de adultos, ou 13% do total, são obesos e 38,3 milhões de crianças com menos de cinco anos também.

A obesidade é mais sentida na América do Norte, mas também está a aumentar na África e na Ásia, onde coexiste com a subnutrição.

Nestas regiões, a comida nutritiva é mais cara, um dos fatores que contribui para a obesidade.

Por contraste, mais de 200 milhões de crianças (29,7%) têm peso ou altura a menos para a idade. Ambas são áreas em que a falta de progresso é clara, afirma a FAO.

Além disso, é "vergonhoso" que um terço das mulheres em idade reprodutiva esteja anémica, o que se reflete nelas próprias e nas crianças.

Há "sinais alarmantes do aumento da insegurança alimentar e de níveis elevados de diferentes formas de problemas alimentares" que são "um claro aviso de que há muito trabalho a fazer para ninguém ficar para trás", defendem numa posição conjunta os responsáveis da ONU para a alimentação, agricultura, crianças e saúde.

Portugal está em linha com os países europeus, mantendo uma taxa inferior a 2,5 por cento da população com sinais de subnutrição desde 2004/2006. A obesidade, no entanto, aumentou entre os adultos, de 21% em 2012 para 23,2% em 2016.

O impacto das alterações climáticas na produção de alimentos essenciais como o trigo, arroz e milho nas regiões tropicais e temperadas aumentará se as temperaturas continuarem a subir, alerta a FAO.

O apelo da FAO é para que aumentem os esforços para garantir o acesso a alimentos nutritivos, prestando especial atenção às partes da população mais vulneráveis: bebés, crianças com menos de cinco anos, em idade escolar, raparigas adolescentes e mulheres.

Expresso das Ilhas | Rádio Morabeza

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/09/fome-no-mundo-regista-terceiro-aumento.html

FAO alerta para riscos de aumento da fome

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alerta que sem financiamento adequado, milhões de pessoas no mundo poderão ser empurradas à fome e à insegurança alimentar.

Sem financiamento adequado, males como as secas, as inundações, as temporadas de carestia ou os conflitos, poderão empurrar milhões de pessoas à fome e à insegurança alimentar agudas, alertou a FAO nesta quinta-feira (2).

Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) referiu-se à situação no Afeganistão, Sudão e Síria, afetados pela seca; à de Bangladesh, golpeado por uma temporada de chuvas severas; à escalada da violência na República Centro-Africana; à próxima temporada de furacões no Haiti e à temporada de carestia no Iraque, Myanmar e no Sahel.

Sem apoio urgente aos meios de vida baseados na agricultura, existe um risco real de que a situação se deteriore ainda mais nestas regiões afetadas na segunda metade de 2018, com um aumento da fome e das necessidades humanitárias, assinalou.

Para estas crises que sofrem uma grave carência de recursos financeiros, a FAO calcula que são necessários urgentemente 120 milhões de dólares para dar assistência a 3,6 milhões de pessoas durante o que resta deste ano.

As necessidades humanitárias continuam sendo notáveis no Sudão, impulsionadas por uma combinação de altos preços alimentares, a próxima temporada de carestia, o deslocamento da população, a deterioração dos meios de subsistência, a pobreza subjacente e impacto de riscos naturais como a seca, exemplificou.

Temos que agir agora para oferecer intervenções urgentes de segurança alimentar e meios de subsistência para salvar vidas, salvaguardar os meios de subsistência e reforçar sua resiliência diante de crises futuras, expressou Dominique Burgeon, diretor da Divisão de Emergências e Reabilitação da FAO.

De acordo com o relatório divulgado por esse organismo, sua resposta de emergência nos países afetados incluirá sementes de cultivos e hortaliças, utensílios agrícolas e rações, reabilitação de infraestruturas hídricas e pontos de água.

A isso se unem campanhas de vacinação do gado e tratamentos zoo-sanitários, gestão melhorada de solos e águas, transferências de efetivo e iniciativas de dinheiro em numerário por trabalho.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 (com Prensa Latina)/ Tornado

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“Extrema pobreza voltou aos níveis de 12 anos atrás”, diz especialista

Ao deixar em 2014 a relação de países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, o Brasil atingiu um feito inédito: saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, após três anos do feito, um relatório de 20 entidades da sociedade civil, publicado em julho do ano passado, alertava sobre os riscos de o país retornar ao mapa indesejado.

O economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid Brasil, fez parte da equipe que elaborou o relatório. Nesta entrevista à Pública, o também especialista em segurança alimentar conta que no final deste mês um novo documento atualizado da sociedade civil será lançado. E alerta: “A nossa nova advertência já leva a quase uma certeza”. Essa quase certeza, ele diz, é de que o Brasil voltará ao Mapa da Fome. “Toda a experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos.”

Em relação à pobreza e extrema pobreza, por exemplo, levantamento da ActionAid Brasil indica que nos últimos três anos — 2015-2017 — o país voltou ao patamar de 12 anos atrás no número de pessoas em situação de extrema pobreza. Ou seja, mais de 10 milhões de brasileiros estão nessa condição (veja o gráfico abaixo). “Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação ruim, que deve aparecer com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF — do final de 2018.”

A seguir, Menezes explica a combinação de fatores que levou a essa situação que ele caracteriza como “estado de desproteção social”.

A insegurança alimentar voltou a rondar o país?

No ano passado, nós fizemos uma advertência à ONU de que, se o Brasil prosseguisse no rumo mais recente que tinha tomado de certo abandono das políticas de proteção social, correria o risco de retornar ao Mapa da Fome do qual saiu em 2014. Publicamos esse relatório em julho de 2017, e um novo relatório de acompanhamento desses objetivos do desenvolvimento sustentável vai sair ao final deste mês. O que nós assinalamos naquela primeira advertência vem sendo confirmada agora.

Como se chegou a essa constatação?

A cada cinco anos é feita uma pesquisa pelo IBGE sobre a situação de segurança e insegurança alimentar do brasileiro. Essa pesquisa era feita junto à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio — Pnad — e passou agora a ser feita pela POF, que é a pesquisa do orçamento familiar. A última pesquisa foi realizada em 2013 e divulgada em 2014. Como é quinquenal, ainda está sendo realizada, mas o pessoal está no campo e a divulgação desses resultados deve sair no final de 2018 ou início de 2019. O que ocorre é que existem algumas situações em relação ao estado da segurança alimentar, desde os que estão em segurança alimentar — de ter acesso aos alimentos de uma forma regular e suficiente — até níveis de insegurança alimentar. E tem a insegurança alimentar grave, expressão que se usa para caracterizar a fome, em que uma determinada família não teve disponibilidade de alimentos num determinado período. Essa insegurança alimentar grave em 2013, por exemplo, quando foi feita a última pesquisa, estava num nível bastante baixo, e é por isso também que em 2014 a ONU colocou o Brasil fora do mapa do fome.

Os dados agora apontam um retrocesso?

Quantas pessoas passam fome? Para dizer alguma coisa próxima, vai ter que esperar um pouco, mas toda experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos. Mas a nossa advertência já leva a quase uma certeza. Primeiro, é preciso considerar que uma situação de extrema pobreza tem uma correlação muito grande com a situação de fome. Ou seja, pessoas que estão numa situação mais extrema de pobreza estão fortemente vulneráveis e sujeitas à fome, geralmente passando fome. Por isso, é importante trabalhar a questão da fome junto com a questão da pobreza, e nós temos assistido a um empobrecimento muito acelerado da população, e sobre isso nós temos os dados. Em três anos, 2015, 2016, 2017, a gente, infelizmente, voltou a 12 anos atrás em termos do número de pessoas em situação de extrema pobreza. Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação bastante ruim, que deve aparecer no final do ano com os dados da POF. A extrema pobreza está crescendo mais aceleradamente do que a pobreza, que voltou a oito anos atrás.

O que você está dizendo é que a tendência já aponta, mesmo que ainda não confirmada, que o Brasil voltará ao Mapa da Fome?

Acredito que, infelizmente, sim. Nós não temos ainda os dados dessa pesquisa que comentei. Eu posso falar, sim, sobre os próprios dados da Pnad Contínua [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua], que revelam esse empobrecimento acelerado da população com aumento muito grande, e que varia de região para região, de estado para estado. O Rio de Janeiro, por exemplo, vive uma situação em que a pobreza extrema, muito ligada à questão do próprio desemprego, cresceu muito, triplicou em um ano [de 143 mil para 480 mil em um ano].

Quais são as outras regiões?

O Nordeste brasileiro e a região Norte têm um grau de pobreza maior do que o Sudeste e o Sul, mas o nordeste teve um movimento muito positivo até 2014 no sentido de recuperação, mas agora a gente volta a assistir a uma situação de agravamento, porque já era mais vulnerável originalmente.

E quais são os fatores desse crescimento da extrema pobreza?

São vários fatores. Avalio que, em primeiro lugar, a título de enfrentamento do que se chamava desequilíbrio fiscal, se fez uma política que, de um lado, gerou uma paralisia grande da economia, gerando com isso desemprego, e não resolveu o problema do déficit fiscal. A receita, consequentemente, se reduziu e o país entrou num círculo vicioso de paralisia e, ao mesmo tempo, crescimento do desemprego e da pobreza, sem capacidade própria de gerar uma recuperação. Esse é um fator. Não querendo ser o dono da verdade, mas é a prática de uma política econômica completamente equivocada nos três últimos anos. Não se pode esquecer de que 2015 já se experimentou uma política bastante recessiva como opção para o enfrentamento das dificuldades que apareceram. A paralisia na construção civil, por exemplo, atinge as camadas pobres da população, deixando um grande número de pessoas desempregadas ou subempregadas; as próprias empresas que trabalhavam em torno do sistema Petrobras e tantas outras que foram paralisando agravam esse quadro. Ou seja, o desemprego não pode ser desprezado nesse aspecto.

A tomada de decisão de fazer o ajuste fiscal e congelar os gastos públicos por 20 anos deve ser considerada com efeito imediato?

Não tenha dúvida. A emenda constitucional foi aprovada no final de 2016. Se você pega o orçamento de 2016 — e estou falando dos programas sociais —, já se vê um fortíssimo contingenciamento durante aquele ano. Então se viveu já em 2016 uma experimentação do corte de recursos. A proposta de orçamento para 2017 traz um enorme corte e para 2018 ainda mais. É o que nós hoje estamos chamando de estado de desproteção social, porque faltam recursos de todos os lados. No aspecto da pobreza extrema, a gente está sentindo que em relação ao programa Bolsa Família, estão sendo feito cortes grandes de contingentes de famílias que, na verdade, ao contrário do que o governo alega, não são famílias que simplesmente não prestaram conta adequadamente, mas são aquelas mais vulneráveis que em geral têm mais dificuldades de prestar essas contas. Muitas famílias dentro do Bolsa Família foram cortadas e tinham, ou como única renda ou uma parte importante de sua renda, vinda do programa, e isso tem uma importância na questão alimentar por outras pesquisas que já fizemos. A gente sabe que os recebedores do Bolsa Família, na sua maior parte, gastam em alimentação, pelo peso que o alimento tem nos seus próprios orçamentos.

Essa questão do Bolsa Família é um levantamento ou uma percepção?

Não é um levantamento. Foram cortadas 1 milhão e 500 mil famílias, pode-se ver pelos próprios dados do governo. Inclusive, para 2018 o governo já coloca um orçamento menor para o Bolsa Família. O que está ocorrendo, o que a gente supõe, não temos comprovação ainda, é que grande parte dessas famílias cortadas são as mais pobres. E uma outra causa é a questão dos preços, não só dos alimentos, mas outra questão que pesa, o gás. O gás impacta muito sobre as famílias mais pobres. Com um aumento dos combustíveis de uma maneira geral, estamos começando a escutar as primeiras manifestações do quanto isso está pesando. Fora o fato de que o aumento dos combustíveis gera um aumento dos gêneros alimentícios.

O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do mundo e pessoas passam fome. Como compreender essa situação?

O Brasil tem indubitavelmente uma capacidade de produção de alimentos relevante. Esse não é o nosso problema, o da produção, mas o que ocorre é que existe uma profunda desigualdade, inclusive, no campo.

Foto: Jardim Silvio Sampaio, Campo Limpo, zona sul de São Paulo (José Cícero da Silva / Agência Pública)
Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Agência Pública) / Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

A rede dos pobrezinhos

A foto não deixa dúvidas quanto às preocupações dos personagens, e as declarações são semelhantes às programadas para qualquer androide.
É a virtude virtual, a direita ao natural.

«Rio aberto a colaborar com o Governo no combate à pobreza»
“Líder do PSD reuniu-se com a direcção da Rede Europeia Antipobreza e admitiu incluir o tema da pobreza no programa eleitoral do partido.”
E porque a OCDE admitiu que só dentro de cinco gerações os pobres atingirão a classe média, o PSD continuará a pescar pobrezinhos na Rede Europeia Antipobreza do Padre Jardim Moreira.
Graças a Deus.
OS POBREZINHOS
leitura de Mário Viegas


"OS POBREZINHOS»

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados
Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos
De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos
Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e uns tostõezinhos
Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados


Armindo Mendes de Carvalho 

Leia original aqui

Que alívio!...

«A pobreza é como um castigo
para um crime que não cometeste.»
Eli Khamarov

A OCDE fez o favor de nos dar a boa-nova:

“São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza.”

Que alívio… Pensava que numa sociedade injusta, os pobres seriam sempre pobres, mas não. Dentro de 125 anos, os pobres atingem o el dorado, a classe média. O trolha, ouviu a notícia, entrou na primeira tasca, pediu um branquinho e bebeu à saúde da OCDE, do BCE e da Goldman Sachs. Os pobres são muito reconhecidos.

“Famílias pobres demoram 125 anos para atingirem a classe média.”

O editorial de um dos jornais de “referência” aplaudia com entusiasmo o caráter civilizacional da notícia, aconselhando os pobres a não se impacientarem, porque Roma e Pavia não se fizeram num dia, que necessitamos de mais ricos, ainda mais ricos para poderem sustentar ainda mais pobres.

Aqui para nós, estes estudos fedem a sadismo.

Leia original em

Família pobre precisa de cinco gerações até alcançar salário médio

Uma família portuguesa de fracos recursos socioeconómicos pode demorar 125 anos até que os seus descendentes consigam alcançar um salário médio, revela um relatório da OCDE sobre mobilidade social.

O relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado hoje, aponta que, em Portugal, a condição económica transmite-se «fortemente» de geração em geração.

«Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio», lê-se na avaliação.

Em Portugal, 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter baixos rendimentos. No extremo oposto, 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados têm elas próprias rendimentos elevados em adulto. Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais operários acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE.

Entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos, 67% acabam por nunca sair da base da pirâmide. «No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos», diz a OCDE.

Com Agência Lusa

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

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  • Voltaram as Festas do Mar e vale a pena ir ver alguns dos espetáculos.
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    Na televisão vemos um dos organizadores do evento dizer que as Festas são muito boas para a "vila" (vila é o que a aritocratoburguesia local gosta de chamar a esta terra por estultas razões que estão devidamente caracterizadas) e que não têm nenhuns custos para os munícipes.

    Duvidamos mas ele argumenta que o dinheiro vem das verbas do jogo (Casino) e dos patrocinadores. Claro que as verbas do jogo são verbas dos munícipes (não são um 'dinheiro de bolso' para festejos e mais o que alguns queiram) mas, mesmo assim, duvidamos. Seria bom que oposição camarária tentasse (sabemos que é muito difícil conhecer as contas da Câmara) deslindar quanto é que os cascalenses pagam efetivamente por estas Festas.


    Ao ouvir o dito organizador percebia-se que a conversa era de jotinha de carreira (não obrigatoriamente do Carreiras, entenda-se) e fomos ver.

    Bastou googlar para nos aparecer à cabeça que o Dr. Bernardo Barros é um distinto Administrador Executivo da Empresa Municipal "CASCAIS DINÂMICA" (as empresas municipais, em geral, servem para fazer o que a Câmara deixa de fazer porque é mais fácil meter os boys e girls nestas empresas, pagas pelos munícipes, do que na própria Câmara) com um currículo com muitas derivações do seu enlace camarário (do "Americas Cup World Series - Cascais" à "NOVA SBE – Intensive Management Program " passando pelo "Sailors for the Sea Portugal – Presidente" e pela "Escola Superior de Hotelaria do Estoril (ESHTE) – Membro do Conselho Geral").

    Mas o que conta verdadeiramente é que, depois de uns anitos como escuteiro já em 2006 era " Conselheiro Distrital de Lisboa da JSD" e em 2010 passou a "Conselheiro Nacional da JSD"o que, entretanto, lhe permitiu ingressar como " Secretário Político do Vereador na Câmara Municipal de Cascais" até com "representação do Vereador em atos oficiais, visitas diplomáticas e conferências".

    A partir daí foi só subir. Em 2011 já estava na " Comissão Política Distrital de Lisboa do PSD" e logo (2012) passava para "Adjunto do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais" e, simultaneamente, para "Vice-Presidente da Associação de Turismo de Cascais (Associação de direito privado)", seguindo-se, em 2015, o atual lugar de "Administrador Executivo na Cascais Dinâmica" onde organiza as Festas do Mar.

    Nada nos move contra este distintíssimo quadro da esfera camarária cascalense. Provavelmente é uma excelente pessoa e um funcionário exemplar.

    Apenas se lamenta constatar que o poder político/administrativo é cada vez mais feito destas carreiras partidarizadas e clientelares.

    Certamente que há gente competente nos Partidos do velho "Arco da Governação" (os outros ficam de fora obviamente). Mas só há quadros competentes com o cartão destes Partidos ? Não há muita gente competente que não esteja em Partido nenhum ou que opte por outros dos muitos Partidos existentes ?

    É que isto, aqui por Cascais, tresanda.
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