Partido 'Livre'

Joacine desvincula-se do Livre. “Fez-se algum silêncio e isso é uma espécie de ouro”

 

Joacine Katar Moreira desvinculou-se oficialmente do Livre, depois de ter sido eleita pelo partido para a Assembleia da República e após de meses de tensão com a direção, passando agora a deputada não inscrita.

 

“Entreguei esta madrugada a minha carta e desvinculação ao Livre e a sensação, por enquanto, não é liberdade nenhuma. Mas de repente, fez-se algum silêncio e isso é uma espécie de ouro neste momento”, escreveu a deputada nas redes sociais esta terça-feira, segundo noticiou o Jornal Económico.

Apesar da tensão com a direção do Livre, afastou a possibilidade de deixar o Parlamento. “Que ninguém me diga que eu não estou onde devia estar. Eu nasci para estar ali [parlamento]. Eu vou continuar ali. Eu não me imagino em mais sítio nenhum hoje”, disse no domingo, durante uma manifestação antirracista e anti-violência policial, em Lisboa.

Como deputada não-inscrita, Joacine vai perder 60 mil euros anuais em subvenções, passando a auferir 57 mil euros por ano. Perde igualmente o direito de intervir no hemiciclo e de questionar diretamente o primeiro-ministro ou outros membros do Governo nos debates sobre o Estado da Nação e debates quinzenais.

A deputada passa ainda de cinco declarações políticas por ano de legislatura a apenas duas, mantendo, em termos de tempo no plenário, o um minuto que tem direito até agora.

A 31 de janeiro, o Livre anunciou a retirada da sua confiança política de Joacine. “Não era possível continuarmos a fingir que estava tudo bem”, disse Pedro Mendonça, membro do partido. “Tudo o que se passou no Congresso foi a gota de água. O país também assistiu a situações no congresso em que JKM [Joacine Katar Moreira] chamou mentirosos, entre outras declarações graves, a camaradas do partido”, acrescentou.

No mesmo dia, o assessor parlamentar de Joacine, Rafael Esteves Martins, anunciou a sua desvinculação do Livre.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/joacine-desvincula-livre-fez-silencio-ouro-306662

A JOICINE SAIU MELHOR DO QUE A ENCOMENDA

Quando a Joicine foi eleita e perante os primeiros debates fiquei logo com a ideia de que uns rapazinhos muito espertos tinham escolhido alguém a pensar nas suas características, a raça e a gaguez, para conseguirem mais votos. Muito ao de leve dei essa opinião, ao de leve porque nesses dias quem ousasse criticar o que quer que fosse na Joicine era logo acusado de racismo e mais meia dúzia de coisas, o LIVRE sentia-se na mó de cima.
 
 
Agora é a própria Joicine que acusa o LIVRE de a ter usado e no congresso desta agremiação partidária acusou mesmo este partido de a ter usado para obter proveitos financeiros. Até agora ainda não ouvi ninguém do LIVRE provar o contrário ou contestar a declaração da deputada de que o libelo acusatório que lhe foi apontado estava cheio de mentiras.
 
O último discurso da deputada foi ainda mais forte ao sugerir que além de não se poder dissociar o racismo do fascismo também não se pode dizer que na esquerda o problema não existe. Porque a ser verdade que houve um aproveitamento da raça e da gaguez, como se nas eleições se tivesse voltado ao tempo dos animais de circo, estamos perante algo de muito grave e o silêncio do LIVRE é preocupante.
 
Afinal há mesmo racismo em Portugal e do puro e duro. E se a forma como o LIVRE se portou e fez eleger uma deputada nada tem de elegante, as declarações recentes da Joicine tiveram a vantagem de se pôr fim a uma mentira, a de que em Portugal não há racismo, algo que vem na linha de outra mentira, a do colonialismo benevolente que tratava os africanos como iguais, ao ponto de em finais do século XX ainda tentarem passar a imagem de um país com províncias em África.
 
Compreende-se o ódio que por aí vai em relação à Joicine, quer à direita como à esquerda. EM pouco tempo ficámos a conhecer melhor os nossos fascistas e alguns dos nossos progressistas.
 

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

Portugal | Assembleia do Livre retira confiança a Joacine Katar Moreira

 
 
Mais de 80% dos membros votaram na retirada de confiança
 
O desfecho era "inevitável" e a nova Assembleia do partido ratificou a decisão tomada a 16 de janeiro. Joacine Katar Moreira perde a confiança política do Livre e pode passar a deputada não inscrita.
 
A primeira reunião da nova Assembleia do Livre terminou com a retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira. Numa reunião que demorou mais de nove horas, terminando já ao início da manhã desta sexta-feira, a Assembleia do partido (eleita no último Congresso há cerca de duas semanas) ratificou a decisão da Assembleia anterior, com mais de 80% dos membros a votar pela retirada de confiança à deputada. Está agendada ainda para a manhã desta sexta-feira uma conferência de imprensa do Grupo de Contacto na sede do partido.
 
Depois de alguma confusão sobre a convocatória da deputada para a reunião, sabe o Observador que Joacine Katar Moreira não esteve presente na reunião, bem como Ricardo Sá Fernandes membro do Conselho de Jurisdição do partido que marcou presença na SIC Notícias à mesma hora que decorria a Assembleia.
Na SIC, Ricardo Sá Fernandes retomou a ideia que seria “um erro retirar a confiança política a Joacine Katar Moreira”, afirmando que “seria do interesse do partido e de Joacine Katar Moreira que se estabelecessem as pontes necessárias” para que a relação entre a deputada única do partido e a direção continuasse.
 
É o ponto final nos problemas entre a deputada e o partido, que ficaram bem visíveis durante a intervenção da deputada única do partido no Congresso dois dias depois de ter sido conhecida a decisão da anterior Assembleia que tinha optado pela retirada de confiança política à deputada.
 
Uma vez que a decisão tinha sido tomada poucos dias antes do início do IX Congresso do partido, o órgão nacional pediu ao Congresso que ratificasse a decisão, mas os congressistas optaram por adiar esta decisão para os novos órgãos depois de terem sido levantadas algumas questões sobre a forma como o processo tinha sido conduzido, nomeadamente por Ricardo Sá Fernandes, um dos membros do Conselho de Jurisdição do partido.
 
Joacine Katar Moreira deverá agora continuar na Assembleia da República até ao final da legislatura, em 2023, passando à condição de deputada não inscrita, mas para isso terá que ser Joacine Katar Moreira a pedir ao presidente da Assembleia da República para passar a essa condição.
 
Caso passe à condição de não-inscrita, Joacine perderá o direito a questionar António Costa nos debates quinzenais e perde também uma das declarações políticas, passando a ter apenas duas.
 
No que diz respeito à capacidade de agendamento que Katar Moreira tem atualmente — pode fixar a ordem do dia numa reunião plenária por sessão legislativa —, Joacine perderá também este direito bem como o agendamento potestativo de um ponto da ordem do dia, sobre uma iniciativa legislativa ou debate político.
 
Rita Penela | Observador | Imagem: Filipe Amorim

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-assembleia-do-livre-retira.html

Depois do divórcio, Livre mantém subvenção e Joacine perde mais de metade

A subvenção ao Livre permanecerá intacta com a passagem da deputada eleita pelo partido a não inscrita, enquanto o montante atribuído a Joacine Katar Moreira para atividades parlamentares diminui de 117 mil euros para de 57 mil euros anuais.

 

As sequelas financeiras do divórcio do Livre com Joacine Katar Moreira são imediatas para a parlamentar.

“Qualquer eventual passagem de um deputado único ou de grupo parlamentar para a condição de deputado não inscrito não alterará, até ao final da legislatura vigente, o montante anual da subvenção pública concedida ao partido pelo qual o mesmo deputado tenha sido inicialmente eleito”, esclareceu a secretaria-geral da Assembleia da República à Lusa.

A subvenção pública para financiamento dos partidos políticos é calculada com base nos votos obtidos nas eleições e concedida pelo período de duração da legislatura.

Em resposta escrita a perguntas colocadas pela Lusa, a secretaria-geral da AR esclareceu que uma eventual passagem de um deputado único representante de partido a deputado não inscrito, “traduzirá, à luz dos valores atualmente aplicáveis” uma diminuição do valor anual de 117.845,80 euros para 57.044,44 euros.

De acordo com um quadro que detalha estes montantes, a secretaria-geral especifica que um deputado único dispõe de um “plafond anual” de 85.408,96 euros, uma “subvenção para assessoria” de 22.637,88 euros, e uma “subvenção para comunicações” de 9.798,96 euros, o que perfaz um total de 117.845,80 euros.

Os deputados não inscritos dispõem de um “plafond anual” de 30.503,20 euros, uma “subvenção para assessoria” de 22.637,88 euros, e uma “subvenção para comunicações” de 3.903,36 euros, o que totaliza 57.044,44 euros.

De acordo com o Regimento da Assembleia da República, “os deputados não inscritos em grupo parlamentar e que não sejam únicos representantes de um partido político devem comunicar esse facto ao presidente da Assembleia da República, exercendo o seu mandato como deputados não inscritos“.

A retirada de confiança política à deputada única do Livre foi aprovada com 83% de votos favoráveis, numa reunião da Assembleia do partido que terminou de madrugada, anunciou hoje o porta-voz, Pedro Mendonça.

A 44.ª Assembleia do Livre ratificou assim, com a totalidade dos votos dos 41 membros – 34 votos favoráveis e sete contra – a deliberação da reunião realizada antes do IX Congresso, que já tinha proposto a retirada de confiança política à deputada. Contudo, o congresso decidiu remeter para os novos órgãos uma decisão final.

Segundo Pedro Mendonça, “as divergências que levaram ao divórcio e rutura não são de todo pessoais, são políticas“, afirmando que Joacine Katar Moreira “não aceitou” que as decisões fossem tomadas coletivamente ou “o mínimo conselho dos seus camaradas”.

O porta-voz esclareceu que o Livre não irá pedir a Joacine Katar Moreira que renuncie ao mandato e que se a deputada o fizer será por sua vontade. No entanto, apesar da polémica com a direção do partido, Joacine já garantiu estar “completamente fora de questão” renunciar ao mandato e deixar a Assembleia da República.

ZAP // Lusa

 

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https://zap.aeiou.pt/livre-mantem-subvencao-joacine-perde-306193

Livre evitou “assassinato em público” mas não “o vexame”, admitiu Ricardo Sá Fernandes

TempodeAvancar / Facebook

Ricardo Sá Fernandes com Ana Drago e Rui Tavares, todos membros do Livre

Os congressistas do Livre evitaram “o assassinato em público” de Joacine Katar Moreira mas não “o vexame do partido”, referiu Ricardo Sá Fernandes num artigo de opinião escrito esta quarta-feira no Público, no qual considera que o partido “está numa encruzilhada”.

 

No artigo, citado pelo Observador, o membro da comissão de ética do Livregarantiu que foi ao congresso do partido para tentar “evitar o desastre”, reconhecendo que este não correu bem. “Infelizmente, as acusações à deputada foram renovadas e esta reagiu como o país viu”.

Com o adiamento da discussão sobre o problema, o advogado considera que “evitou-se o assassinato em público”. “Por uma escassa maioria (52 votos contra 50), deferiu-se a discussão do problema para os órgãos a eleger no Congresso. O vexame do partido não foi evitado, mas do mal ainda assim ficou o menos”, escreveu.

Ricardo Sá Fernandes defendeu que “em nenhum partido democrático do mundo se retira a confiança política à sua única deputada por divergências procedimentais e sem lhe dar a oportunidade de se defender” e que “não havia condições nem tempo para poder fazer num Congresso que não fora convocado para esse efeito”.

O advogado apontou que o patido está “numa encruzilhada” porque “ou é capaz de construir as pontes que até agora faltaram ou fica amputado de uma parte de si”.

“O partido deve ter a ambição de ser plural e de absorver várias maneiras de estar na política e na sociedade. Não tem de ter receio de fazer conviver personalidades dissonantes e até contraditórias. Essa é uma riqueza, não uma fraqueza. Com fidelidade aos princípios, é certo, mas sem esquecer que o bom senso e a tolerância são imprescindíveis quando se desce das alturas dos valores para o concreto das pessoas”, acrescentou.

ZAP //

 

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Sinto uma coisa pior do que vergonha. Sinto repulsa de Rui Tavares

Esta entrevista finalmente demonstra a total falta de carácter de alguém que não tem princípios, não tem ideologia, não conhece nada a não ser uma ambição desmesurada.

Rui Tavares é o exemplo acabado do homem branco bem nascido e privilegiado. Sempre rodeado dos seus amigos influentes, vivendo à custa da imagem publicamente criada sem que lhe seja conhecida densidade que construa essa imagem, na primeira hipótese que teve de se apropriar de dinheiros públicos para seguir a sua agenda pessoal assim o fez, sempre com a bênção dos seus amigos, essa elite bem pensante que escreve nos jornais e fala na televisão.

Rui Tavares agrada as pessoas do meu “estrato”: a burguesia licenciada, cultivada, que lê o público, que pensa a sociedade, que vive relativamente sem dificuldades. “Eu sei que tu não gostas dele”, repetem, e eu repito, não é uma questão de não gostar. Rui Tavares é perigoso, não é e nunca foi de esquerda. No Parlamento Europeu posicionou-se muitas vezes bem mais à direita do CDS.

É o epíteto do liberalismo.

Rui Tavares esteve calado até agora por um motivo muito simples: viu na mulher negra e gaga um lugar no parlamento e uma subvenção. Mais uma vez, o poder. Deixou que tudo avançasse sem nunca se envolver sabendo exactamente o que acontece aos voluntaristas, particularmente a quem nunca esteve no parlamento e não lhe conhece as regras e os meandros. Não é difícil de perceber que a campanha em Lisboa foi organizada e executada por um grupo de pessoas que muito provavelmente nunca tinha feito qualquer campanha e que não passava de um grupo de amigos ou de pessoas que acreditava numa candidata - de estrutura aquilo nada tinha (dica: quem inaugura um outdoor? Quem faz um vídeo de um hino com o nome de uma candidata e homens aos beijos? Quem na noite eleitoral deixa as paredes do palco cair? Continuo?)

A partir daí foi fácil. O inesperado aconteceu: a eleição.

Foi só tirar o tapete e deixar que a inexperiência - com a preciosa ajuda da maldade dos amigos jornalistas e comentadores de serviço empolassem todas as situações (muitas delas com explicações demasiado simples) -tomasse conta do assunto. Ninguém seria tão escrutinado. Era uma questão de tempo.

Agora, como bom patriarca, tem vergonha. Está incomodado. Enquanto seguramente em casa se regozija porque tudo correu exactamente como planeado (e este “em casa” não é inocente).

Amanhã será Fernanda Câncio horrorizada, depois virá um outro qualquer e ainda mais uma do expresso a comparar Joacine e Isabel dos Santos.

Enquanto isto, dinheiro público subvenciona Rui Tavares quer através do seu partido quer no canal público. Um indivíduo que defende guerras no médio oriente, que apoia a política belicista dos EUA. Um indivíduo que sobrevive de dar a sua opinião sobre o mundo e, como já se viu, de atraiçoar de forma abjecta tudo e todos em nome do poder.

Ele sente a vergonha dos outros. Eu sinto repulsa dele.

Lúcia Gomes

 

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/01/sinto-uma-coisa-pior-do-que-vergonha.html

Portugal | O Livre para lá de Joacine: quem são as (novas) caras do partido?

 
 
Há sangue novo no Livre, mas também figuras com experiência que se estão a afirmar a nível interno. Embora privilegiem a paridade são mais mulheres a candidatar-se à direção, enquanto os homens preferem concorrer à Assembleia. Mas todos partilham a mesma visão – ecológica, de esquerda e europeísta – e prometem novos projetos para o partido que se quer "emancipar" e "renascer" após a atual crise
 
JORGE PINTO: DO PS PARA O LIVRE
 
É um dos principais rostos do Livre e o único elemento que integrou os três Grupos de Contacto (direção) que o partido teve desde a fundação. Natural de Amarante, Jorge Pinto interessou-se desde cedo pela política – foi militante do PS entre os 18 e os 25 anos, mas percebeu depois que os socialistas não representavam os seus "ideais de esquerda progressista, ecológica e europeísta". Foi então em 2013 que contactou Rui Tavares e se manifestou disponível para integrar o Livre, próximo das eleições primárias após ter privado com o fundador em jantares.
 
"Defendemos políticas e soluções sempre com base na perspetiva ecológica e social. Gostamos de utopias concretas que acreditamos que podem deixar de ser utopias face à nossa visão para uma sociedade mais integrada e sustentada", afirma o engenheiro ambiental, de 32 anos.
 
Foi um dos autores do “Manifesto para um futuro europeu”, e coordenou o “Desafio à Diáspora”, outro manifesto escrito por vários apoiantes do Livre que residem no estrangeiro. A viver há mais de uma década em Bruxelas, Jorge Pinto trabalha como especialista ambiental numa agência europeia e procura a partir da capital belga estabelecer contactos com outros membros do partido e dinamizar os núcleos locais em Portugal. "Penso que o mais urgente é aumentar a nossa implantação territorial, através da criação e reativação de núcleos regionais, assim como a garantir formação política", defende.
 
A ideia embrionária de criar uma academia política – que contacte numa primeira fase especialistas para discutir assuntos prioritários para o partido e depois assumir uma posição pública – partiu dele e está a ser trabalhada com Teresa Leitão, outro membro do Livre que atua como intérprete no Parlamento Europeu. O objetivo é tentar introduzir os temas do Livre na agenda política.
 
 
PATRÍCIA GONÇALVES: NA PAPOILA CONTRA A TROIKA
 
Foi durante o período da troika que conheceu o Livre. Desiludida com o rumo do país durante o Governo de coligação PSD/CDS, Patrícia Gonçalves percebeu que devia dar o seu contributo e decidiu então juntar-se ao partido da papoila.
 
"Nunca tinha estado ligada a nenhum partido, mas identifiquei-me com as características do Livre, um partido que defende a ecologia e a igualdade", explica a investigadora do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas e professora convidada do Instituto Superior Técnico.
 
Desde 2014 integra o Grupo de Contacto depois de ter começado a coordenar o círculo temático Ciência e Sociedade. "Achei que era altura de dar o meu contributo e como não tinha experiência política decidi começar a minha incursão no Livre pela minha área. Até porque tinha experiência em investigação e preocupava-me, por exemplo, com questões como a precariedade dos bolseiros", sublinha.
 
Entre 2014 e 2016, foi responsável pela coordenação local do distrito de Setúbal e foi membro do Conselho da Candidatura Cidadã Livre/Tempo de Avançar, tendo participado na coordenação da área programática Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
 
Diz que não tem dúvida de que o Livre se distingue do PAN que se baseia numa "ecologia sem base científica", assim como dos Verdes que são muito "subjugados à esquerda conservadora" (PCP), mas defende que é preciso convergência à esquerda. "Não fechamos portas a aliança nenhuma".
 
FILIPE HONÓRIO: O JOVEM DA MODERAÇÃO RADICAL
 
É o elemento mais novo do Grupo de Contacto, sendo visto como uma das maiores promessas do partido. Protagonizou durante o primeiro dia do Congresso um dos discursos mais aplaudidos no auditório da Junta de Freguesia de Alvalade. "O Livre é um partido da esquerda portuguesa que vive na moderação, mas hoje é visto como um partido radical. Se ser radical é defender mais infraestruturas de habitação, o novo Pacto Verde, o fim da Europa fortaleza, então o Livre é radical", declarou no sábado perante uma plateia efusiva.
 
Filipe Honório defendeu também a colegialidade, considerando que é uma forma mais escrutinada de fazer política. "Não estamos dependentes de fatores externos, nem de lideranças partidárias. São os cidadãos a fazer política", insistiu. Por último admitiu que "os tempos não são fáceis para o Livre", mas saiu em defesa do trabalho da futura direção rumo a uma sociedade "sem medo, sem recusas".
 
Interessado desde cedo pela política, Filipe Honório participou em várias iniciativas que incluíram as jornadas europeias no Parlamento Europeu em Estrasburgo, tendo passado também pela Juventude Socialista. Em 2014 esteve presente no Congresso fundador do Livre e decidiu aderir ao partido que "associa o europeísmo, ao socialismo e à ecologia".
 
Licenciado em Gestão e mestre em Relações Internacionais, Filipe Honório trabalha atualmente como técnico de desenvolvimento local em Oliveira de Azeméis. Aliás, é precisamente esse um dos eixos-principais da sua intervenção no partido. "É essencial continuar a fazer o trabalho de mobilização a nível regional para captarmos mais apoiantes, mas contribuirmos também para a resolução dos problemas locais", conclui.
 
Admitindo que o Livre tem quase "sentenças de morte anuais" Filipe Honório desvaloriza as consequências da atual crise interna. "Nós não nos desmoralizamos enquanto o foco continuar a ser o bem-estar das pessoas e continuarmos a ter uma base eleitoral preocupada com a justiça social e ambiental. Será sempre essa a nossa tarefa do futuro."
 
PATRÍCIA ROBALO: A ARQUITETA REGIONALISTA
 
A sua intervenção também não passou despercebida no arranque do IX Congresso do Livre. A arquiteta que integra a Assembleia do partido elencou as razões que levaram o órgão máximo entre Congressos a propor a retirada de confiança à deputada única. E foi taxativa: "Joacine Katar Moreira manifestou reiteradamente não ter disponibilidade de se articular com os órgãos do partido. Da nossa parte tentamos várias vezes. Mas nossas expectativas não se resumem à entrega de poder a quem quer que seja", alertou.
 
Apesar da recente adesão ao Livre (apenas há um ano), Patrícia Robalo mostra-se alinhada com o órgão do qual faz parte e mesmo com a direção. Foi em 2018 que resolveu juntar-se ao Livre, depois de ter votado sempre nos últimos anos no partido fundado por Rui Tavares. E foi pouco depois convidada para o Círculo temático Esquerda e Estado social.
 
"Acompanhei desde o início a fundação, penso que o Livre é um partido que se encaixa na minha ótica de política de esquerda, progressista e ecologista e que faz a ponte com a Europa, o que é fundamental porque quase tudo o que acontece em Portugal é muito fruto da construção europeia ", sustenta.
 
Defensora da regionalização, Patrícia Robalo quer voltar a trazer este tema para a agenda política com vista ao combate às desigualdades sociais no país. E insiste que o Livre deve "continuar a lutar pela igualdade social e justiça ambiental". Sobre o futuro do partido, a arquiteta manifesta-se também positiva mesmo face ao cenário provável da perda da representação parlamentar. "Isto é um momento de emancipação do Livre e um processo de amadurecimento institucional. Mas temos obviamente clara a necessidade de repensarmos muitas coisas, ainda que a nossa estrutura seja cada vez mais sólida e profissional", garante a arquiteta.
 
ISABEL MENDES LOPES: O PARTIDO “RENASCERÁ”
 
Em dois dos últimos Congressos foi escolhida para fazer o discurso de encerramento –, um sinal claro de que é uma das principais apostas do Livre. "O Congresso votou pela continuidade da direção", congratulou-se Isabel Mendes Lopes no final da reunião magna no domingo. Embora reconheça que o processo de primárias abertas deve ser melhorado, a engenheira civil defende que o partido não deve recuar quanto ao processo de escolha dos seus candidatos.
 
Ligada ao partido desde a sua fundação, Isabel Mendes Lopes diz que desde o tempo da faculdade procurou responder a questões como o "aprofundamento da democracia" e a "construção de uma sociedade mais justa e digna". Chegou a estar envolvida no Congresso Democrático das Alternativas e em vários movimentos associativos até aderir ao Livre.
 
"Depois foi fácil escolher. Descobrir um partido que é universalista, libertário e claramente de esquerda sempre com a ecologia como preocupação de base", conta Isabel Mendes Lopes.
 
Licenciada em engenharia Civil, trabalha atualmente na área de transportes e planeamento e interessa-se pelas questões de ordenamento do território, a ecologia ou o papel da UE. Admitindo que os próximos dois anos vão ser difíceis, Isabel Mendes Lopes diz contudo acreditar que o Livre "renascerá" após a atual crise interna demonstrando a "resiliência" que caracteriza o partido.
 
"Na verdade o Livre está muito vivo. Há muitas pessoas que se continuam a juntar a nós e que defendem os nossos ideais. Quando ultrapassarmos esta crise não tenho dúvidas de que saíremos reforçados nas próximas eleições", afirma a engenheira, sublinhando que o partido perdeu votos nas últimas legislativas face às europeias.
 
Liliana Coelho | Expresso | Imagens (no original) | Ana Baião

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Portugal/Livre | O espelho invertido de Joacine

 
 
Inês Cardoso | Jornal de Notícias | opinião
 
Joacine Katar Moreira e a novela cheia de gritos em que se converteu o Livre poderiam ser apenas um caso de impreparação política. Ou efeito de lutas de egos e de uma personalidade inflamada e com tiques de arrogância a fazer lembrar ditos de Cavaco Silva que ficaram célebres - este fim de semana ouvimos Joacine afirmar que nada fez de errado "ainda", mas que por ser humana "se calhar" um dia há de errar.
 
A questão é que cada deputado ocupa um cargo público. Representa os portugueses e assume responsabilidades perante eles. Nessa medida, as declarações de Joacine merecem reflexão pela visão limitada que denotam do cargo. E pela noção tão insistentemente personalizada da representação parlamentar que acaba por assumir uma dimensão quase messiânica.
 
A deputada não tem dúvidas de que o lugar que ocupa é seu, não do partido. De tal forma que considera ilegítima a possibilidade de renunciar, porque a sua voz é insubstituível. "Elegeram uma mulher que gagueja. (...) Elegeram uma mulher negra." Na sequência desta frase, vem mais uma tirada sobre a subvenção, que apesar do baixo nível é irrelevante para a tese de Joacine. Foi eleita por ser uma mulher negra que gagueja. A sua figura é em si mesma todo um programa.
 
Apesar dos sinais de abertura para fazer cedências, ficou claro que só um milagre, como referiu um dos dirigentes do Livre, permitirá manter a confiança política em Joacine. No cenário de permanecer como deputada independente, ficará com total liberdade para decidir a sua agenda e acentuar um discurso agressivo que, no limite, explora as desigualdades e feridas sociais como espelho invertido de André Ventura. A escolha é de Joacine, que tem o mandato nas mãos. Mas, se passar a deputada não inscrita, praticamente perde voz no Parlamento. E, nessa medida, fica ainda mais difícil um caminho que, apesar de curto, foi já até agora carregado de pedras.
 
*Diretora-adjunta

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Portugal / Livre | A esperança de Joacine esvai-se em 27 votos

 
 
Não há como dizê-lo de outra forma: os membros do Livre estão tão fartos de Joacine Katar-Moreira que querem mesmo retirar-lhe a confiança política. Preferem perder tempo de antena, subvenção, a representação parlamentar a ter de continuar a confiar numa representante que dizem que já não os representa. 
 
Apostam fichas que conseguem ser de novo uma fénix renascida das cinzas, desde que o inferno que tem sido a relação com a deputada termine. Foi por isso que, por larga maioria, o congresso reconduziu grande parte dos dirigentes e que a nova Assembleia, que vai decidir o futuro da relação entre o Livre e Joacine, foi ou reconduzida ou garantida a maioria. Joacine chuta para a frente e pede “cedências de parte a parte” para evitar o inevitável. Já esgotou as oportunidades, responde-lhe a nova direção. “Só um milagre” num partido de ateus poderia levá-los a mudar de ideias.
 
Houve uma palavra dita várias vezes que foi um sinal político claro sobre o que decidiram os congressistas do que será o mandato dos órgãos do partido nos próximos dois anos: “continuidade”. A “continuidade” neste contexto significa que os novos órgãos vão terminar o trabalho dos que cessaram funções e levar a bom porto o divórcio com a deputada.
 
 
Num dia em que debateram as moções específicas que vão enquadrar a acção nas políticas do partido nos próximos dois anos, os congressistas ouviram vários dirigentes referir que o resultado das eleições internas tinha ditado “continuidade das pessoas, ideias, formas de trabalhar, dando um claro voto de confiança e legitimidade aos novos órgãos”. A frase é de Isabel Mendes Lopes, que foi a porta-voz da nova direção (são 15 membros). A lista, que deixou de fora Joacine, que também não apresentou uma lista alternativa, foi eleita por larga margem, com 95 votos a favor em 110. Uma “votação expressiva” que leva os membros a dizerem que vão fazer tudo “ para que se resolva rapidamente este impasse em que o partido se encontra” para voltarem à origem e afirmarem o partido como o grande partido da esquerda verde em Portugal (os principais discursos programáticos foram sobre ecologia e na necessidade de voltar às questões ambientais como prioridade).
 
Para resolver esse impasse, os congressistas elegeram uma Assembleia de 43 membros. Destes, 27 ou foram reconduzidos (17) ou transitam da anterior direção (4) ou Conselho de Jurisdição que foram apoiantes da posição da Assembleia (2) ou são votos contados como certos (pelo menos 4, mas no Livre faz-se contas a mais três). Contas de membros da direção do Livre.
 
No órgão que vai resolver o imbróglio, Joacine poderá, no máximo, almejar a 20 votos, que são novos membros dos órgãos do partido. Mesmo que conseguisse que todos estes membros votassem contra a resolução que propõe o corte de relações, ficaria em minoria. E não é certo que os 20 elementos sejam sequer favoráveis à versão da deputada. No congresso, poucos a aplaudiram ou sequer falaram com ela.
 
Perante esta aritmética política “só um milagre” poderia reverter um resultado que mais do que certo, é desejado. Os membros do partido estão fartos, não o escondem, só Joacine insiste numa solução diferente. “É teatro”, acreditam. Vários lembraram, em forma de indirecta, que o partido até teve mais votos nas eleições europeias do que nas legislativas. Um recado à deputada que disse que tinha sido eleita sozinha (frase que desmentiu no congresso ter alguma vez dito). Disse-o em duas entrevistas.
 
Perante as impossibilidades aritméticas e políticas, Joacine saiu do congresso onde pairou por cima de todas as cabeças com um discurso de tentativa de cedência, quando está tudo partido. Em respostas aos jornalistas disse que o partido tem de retomar as conversas “regularmente” e “imensamente” para que cheguem ao ponto de evitar o desfecho de corte de relações. Joacine falou em “cedências de parte a parte”, sem no entanto responder sobre o que está disposta a ceder. A estratégia de Joacine, de fuga para a frente, parece desvendar o passo seguinte: o debate na praça pública sobre de quem é a culpa.
 
Joacine falou várias vezes da "verdade" sobre o que ditou o corte de relações. Queixa-se de não ter sido ouvida, mas, tal como o Expresso revelou no fim de semana, enviou um email a cortar relações com o Grupo de Contacto (a direção), depois de uma discussão, ainda antes do polémico voto sobre a Palestina, que deitou tudo por terra. A culpa do fim da relação é a história do ovo e da galinha, contada de forma diferente por 55 pessoas (15 da direção e 40 da Assembleia) e por Joacine. Certo é que por razões processuais, o Livre remeteu para a Assembleia a decisão final de abdicar do ovo de ouro.
 
Nota: Artigo corrigido quanto à composição dos 27 votos que membros da direção dão como certos.
 
Liliana Valente | Expresso – 19.01.20 | Imagem: Ana Baião
 

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A esperança que se desvaneceu

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O Partido Livre e a candidata Joacine Katar Moreira pareciam estar a dar um contributo positivo para o pluralismo da democracia portuguesa. Pareciam. Ora, a realidade veio mostrar um lado profundamente obscuro daqueles que representam amiúde quem nunca se sentiu verdadeiramente representado.
Joacine, depois de muita gritaria que objectivamente não dignifica quem quer que seja, ficou de fora da direcção do partido e o mal-estar continua a ser estar à vista de todos.
Há indiscutivelmente uma componente messiânica na postura da única candidata eleita pelo Livre. Pelo caminho percebe-se que o cargo de deputado e a importância de representar sobretudo os tais que nunca se sentiram verdadeiramente representados é pouco importante para a deputada. Pelo caminho percebe-se que quer a deputada, quer até certo ponto o próprio partido, não compreendem o mal que causam à própria democracia. Afinal de contas, a eleição de Joacine representa esperança para quem habitualmente não a tem e o enriquecimento de uma democracia que se quer plural.
Em suma, Livre e Joacine Katar Moreira conseguiram, e paradoxalmente depois de conseguirem um mandato, fazer pior à democracia do que alguma vez se esperaria.

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http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2020/01/a-esperanca-que-se-desvaneceu.html

Portugal | Assembleia do Livre quer retirar confiança política a Joacine

 
 
"Desrespeito e deslealdade"
 
Convenção do partido vai votar, no próximo fim de semana, uma moção que pode definir o futuro de Joacine Katar Moreira como membro do Livre.
 
Assembleia do Livre, que reuniu na quarta-feira, emitiu um comunicado em que propõe que se retire confiança política a Joacine Katar Moreira na convenção do próximo fim de semana, onde se vai votar uma moção que pode definir o futuro da deputada como membro do partido. Contactado pela TSF, o Livre não comenta.
 
"Considerando que a eleição para a Assembleia da República de uma representante do Livre é uma responsabilidade que transcende a deputada eleita e porque não se vislumbra, da parte da deputada Joacine Katar Moreira, qualquer vontade em entender a gravidade da sua postura, nem intenção de a alterar, a Assembleia do Livre delibera retirar a confiança política à deputada, pelo que deixa de reconhecer o exercício do seu mandato como sendo exercido em representação do Livre", pode ler-se no comunicado de 12 páginas divulgado na quinta-feira.
 
Na mesma nota, a Assembleia do Livre sublinha que toma esta decisão com "profundo pesar" e diz ter consciência das consequências que a mesma pode ter para a capacidade do partido de marcar a atual legislatura.
 
"Não podemos manter a confiança política em quem, por opção própria, reiteradamente prescindiu de nos representar. A assembleia manifesta-se consternada pelos factos que conduziram a esta decisão e que tanto têm custado aos portugueses e portuguesas, sobretudo a eleitores, membros e apoiantes do Livre", explicou assembleia do partido.
 
Cátia Carmo | TSF | Imagem: Joacine Katar Moreira / © António Cotrim/Lusa
 
Leia em TSF:

 

 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-assembleia-do-livre-quer.html

Moção quer fim da confiança política em Joacine. Partido pode perder representação parlamentar

Mário Cruz / Lusa

Esta segunda-feira, alguns membros do Livre apresentaram uma moção para que, caso Joacine Katar Moreira não renuncie às suas funções, lhe seja retirada a confiança política.

 

Na lista de 18 moções que serão discutidas e votadas no Congresso do partido, agendado para os dias 18 e 19 de janeiro, há uma moção que pede que a deputada Joacine Katar Moreira “renuncie às suas funções” e, caso não aconteçam que lhe seja “retirada a confiança política”.

Segundo o Observador, a moção Recuperar o Livre, resgatar a política ​é subscrita por cinco apoiantes do Livre, o número mínimo exigido no regulamento do partido para que as moções sejam votadas no congresso.

“Heis-nos chegados a um ponto em que as causas defendidas pelo LIVRE parecem não conseguir sobrepor-se ao ruído constante provocado pelos faits divers mais estapafúrdios; em que o coletivo parece soçobrar numa desmedida exposição mediática do indivíduo; em que o partido se arrisca a ver a sua própria sobrevivência posta em causa. Assim sendo, no caso de a deputada não se dispuser a renunciar às suas funções, o LIVRE não tem outra alternativa a não ser retirar-lhe a confiança política“, lê-se.

Os signatários apontam “as peripécias, atribulações e polémicas internas em que se viu envolvido” desde outubro, que, de acordo com a moção, conduziram “à degradação da imagem pública e da credibilidade do partido”.

“Por outro lado, a falta de articulação entre os órgãos do partido e o gabinete parlamentar, agravada pelas constantes declarações à comunicação social, afetaram, de modo insanável, as relações institucionais entre os órgãos do Livre e a deputada eleita”, consideram.

Além disso, os signatários apontam pouco trabalho parlamentar e dizem que “a situação é não apenas preocupante como confrangedora”, uma vez que foram apresentadas “apenas duas iniciativas”. Uma das falhas apontadas pelo grupo é a entrega – já fora do prazo – do projeto de lei de alteração à lei da nacionalidade,

No Congresso do próximo fim de semana, serão eleitos os novos órgãos nacionais do partido e para os quais não há qualquer candidatura de Joacine Katar Moreira que poderá, assim, ficar desvinculada do partido – caso a moção seja aprovada.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/mocao-fim-confianca-politica-joacine-302147

Portugal | A GAGUÊS DA JOACINE, E DO LIVRE

 
 
Refere a Biografia de Joacine Katar Tavares Moreira, a nova deputada do Livre, que ela nasceu em Bissau; que com oito anos veio para Portugal; como tantos emigrantes, vindos das Ex-Colónias Portuguesas, nossos irmãos de língua e destino comum; e por cá se integrou; fazendo parte por direito e cidadania do nosso colectivo.
 
Octavio Serrano* | opinião
Na minha curiosidade pela actividade parlamentar dos novos partidos, vi o vídeo da sua primeira intervenção; sofredora de uma gaguez congénita, a Joacine limitou-se a questionar o primeiro-ministro sobre algumas questões muito directas, relacionadas com a emigração africana em Portugal; mesmo assim deu para notar, o desfasamento existente entre a sua capacidade intelectual e a sua incapacidade de a transmitir no seu discurso; sem dúvida foi confrangedora a sua intervenção; para ela, determinada que estaria em discursar o mais fluentemente possível; e para quem a ouviu; pois um discurso entre-cortado por uma gaguez profunda, provoca dó e consternação; um silêncio sepulcral instalou-se na Assembleia de Republica, enquanto a Joacine se esforçava; esperemos que o contributo da Joacine consiga ultrapassar o ónus da sua fala; pois acredito no que ela afirma: o seu pensamento não é gago; Joacine afirmo; tem a minha solidariedade pessoal; mas não politica!
O meu desacordo, não será por o Livre pretender ser representante político de sectores culturalmente diversos e minoritários; que muitas vezes chocam com o nosso tradicionalismo, de ser português; veja-se o caso do assessor da Joacine; gosta de usar saias; será problema dele! As senhoras, não usam também calças? Se o Rafael Martins, quer andar vestido de freira, é uma opção pessoal dele; mas espero, que o Rafael continue a usar sempre as suas saias; senão um dia destes, alguém com toda a razão, alvitrará que o moço só usou as saias para que fosse noticia!
 
 
Um dos meus óbices políticos em relação ao Livre, reside no facto de eu pensar, que um partido seja ele qual for, deve possuir um projecto global para o país; não poderá limitar a sua actividade, à defesa corporativa de minorias; se todos assim fizessem, teríamos em pouco tempo uma Assembleia da Republica de partidos sectoriais; em que cada um, defenderia o interesse do sector profissional, social, étnico ou zonal , de quem lhe fosse querido; inevitavelmente, alguns partidos se sobreporiam aos outros; desprezando o interesse geral; por isso Joacine, não posso aceitar politicamente, que venha questionar o governo, acerca do facto de os imigrantes auferirem baixos salários; é que há muita gente neste país, tão desfavorecida ou mais, que necessita de quem por eles clame; e tome-se nota! Nenhum dos países de expressão portuguesa aceitaria que um deputado branco fosse para o seu parlamento defender os interesses de uma minoria branca emigrante nesse país; seria de imediato acusado de neocolonialista! Senão de pior!
O outro grande óbice, é o do europeísmo do Livre; bem gravado na matriz do partido, pelo seu fundador e presidente Rui Tavares; antigo deputado do Parlamento Europeu; de cujas mordomias auferiu; e que sem duvida o seu coração conquistou; a declaração de princípios do Livre defende o Europeísmo, como algo de bom; refere-se à expansão da soberania; que soberania será esta, que minimiza a dos povos, em favor da centralização do poder de decisão, nos “não eleitos” burocratas de Bruxelas? Refere-se a uma democracia transnacional; como se o parlamento europeu fosse um verdadeiro representante dos povos europeus, e não uma projecção holográfica de poderes estabelecidos! Fala em desenvolvimento do direito internacional, como se este nascesse de um acordo livre entre povos soberanos, e não nos fosse imposto pelos países mais fortes da Comunidade; fala em direitos humanos, como se fosse possível esquecer a atitude dos poderes centrais europeus, em relação ao sofrimento dos povos e países a quem foram impostas as imposições da Troika; e por fim, esquece-se de referir o necessário nacionalismo, que os povos europeus têm todo o direito de assumir, na sua relação de partilha de relações pan-europeias, entre si!
Por fim um voto! Espero que a Joacine vença a sua gaguês, para que se possa dizer: “Quem fala assim não é gago!”.
 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/portugal-gagues-da-joacine-e-do-livre.html

À memória de Aristides Sousa Mendes

Qualquer marciano chegado a Portugal em Outubro seria levado a concluir que as eleições tinham sido ganhas por Joacine Katar Moreira e não por António Costa tal a obsessão pública com a nova deputada de um partido que elegeu deputados pela primeira vez.

 

 

  1. Popularidade e irritação

A obsessão chegou a tal ponto que, ao que leio na imprensa, a senhora achou por bem pedir protecção da GNR do assédio permanente dos jornalistas, gesto que, provavelmente, ela vai ter a oportunidade de se arrepender quando a corporação encontrar a melhor oportunidade para se vingar.

Na verdade, por sua culpa ou culpa alheia – do partido que dela se utilizou ou da forma como as suas posições foram publicitadas – ela foi associada a todo o género de disparates, desde pinturas de Domingos Rebelo retratando o encontro luso-indiano como pano de fundo para um discurso cheio de clichés sobre escravatura em África, passando pela justiça climática, até a aparecer como a primeira deputada africana que terá posto os pés em São Bento.

Eu, que fui contemporâneo da cabo-verdiana socialista Celeste Correia no parlamento perguntei-me se o ‘Livre’ ou a sua imprensa terão inventado um ‘colorómetro’ para a africanidade (se lhes mandar uma fotografia minha de criança no fim da época de praia, passo o teste com certeza). E quanto à identidade guineense, será que o antigo deputado Fernando Ká é de alguma forma menos guineense do que Joacine Katar Moreira?

Celeste Correia

 

Fernando Ká

 

  1. O desafio falhado ao racismo antissemita do “Livre’

Uma das inúmeras razões que colocaram os holofotes sobre ela foi a sua recusa em endossar um texto proposto pelo PCP de pseudossolidariedade com Gaza mas de verdadeiro abjecto antissemitismo aprovado pelo Parlamento português.

O partido que despudoradamente usa o nome de ‘Livre’ e que era suposto apoiá-la montou rapidamente uma campanha de imprensa para acusar a senhora de crimes anti Palestinianos e de não obedecer às suas directivas, mostrando a quem pudesse ter dúvidas que de ‘Livre’ esse partido nada tem, limitando-se antes a dar um toque ‘queque’ a processos típicos do centralismo democrático leninista.

Em resposta, a senhora reagiu como reagiram as vítimas dos processos estalinistas de Moscovo, redigindo um texto com juras de arrependimento, patéticas declarações de fervor pela causa mas acompanhado, em apartes na imprensa, por desabafos de irritação com o processo inquisitorial a que foi sujeita.

Tudo matéria excelente para tricas, maledicências, mundanidades, pressões sem fim sobre uma senhora que não me parecendo nenhuma águia e reflectindo a opinião que qualquer cidadão imerso no caldo de cultura ideológico das elites portuguesas tende a ter, me parece marcar pontos numa matéria que penso ser importante; a de assumir dificuldades na fala partilhadas em silêncio por muitos, e ser, para além disso, um ser humano que, como todos nós, tem defeitos e qualidades.

  1. Aristides Sousa Mendes

Aristides Sousa Mendes foi um português que honra muito o nosso país e o esquecimento ou secundarização é uma mancha que é essencial ultrapassar.

O projecto de resolução que a deputada Joacine Moreira apresentou sobre a personalidade é um belo texto, equilibrado e extremamente oportuno.

Se foi ela, o partido ou outrem a tomar a iniciativa, não o sei dizer. É verdade que o antissemitismo mais sofisticado e burguês – típico de formações tipo Livre – usa os exemplos do passado para tentar falsificar a realidade e apresentar o presente como nada tem a ver com ele.

O holocausto passa assim a ser verbo-de-encher (um jornal publicava dia 28 de Novembro na sua capa um livro que faria do ‘clima’ o equivalente a 25 holocaustos) vulgarizado, descontextualizado e distorcido, inclusivamente para acusar Israel.

Posto isto, a verdade é que foi ela que assinou o documento e que o documento merece ser apoiado sem reservas, e que isso me parece mais importante do que as discussões sobre a moda ou tudo o resto que tem rodeado o seu nome.

E por isso deixo aqui o meu testemunho de reconhecimento pelo gesto da senhora deputada de preencher uma falta que era essencial preencher: honrar a memória de Aristides Sousa Mendes da forma apropriada.


 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-memoria-de-aristides-sousa-mendes/

Portugal | Quando a esquerda se perde

 
 
Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
 
A esquerda perde-se, fractura-se, desconjuntura-se. É quase um aforismo. A direita com maior facilidade encontra terreno comum e com uma facilidade ainda maior aperta a mão a quem tiver de apertar para levar a sua avante.
 
Vem isto a propósito dos desentendimentos - chamemos-lhe assim - entre a candidata eleita pelo Livre, Joacine Katar Moreira e o próprio Livre. Depois de um voto contra as orientações do partido e subsequente chamada de atenção; depois de entrevistas facultadas pela agora candidata com lavagem de roupa suja; depois da escolha do silêncio por parte do partido, mas não por parte da candidata, sobra as fragilidades de uma esquerda que tão facilmente se perde.
 
A comunicação social, que ataca e explora ferozmente todas as fragilidades da esquerda, sobretudo da esquerda mais à esquerda, não deixa cair o assunto e a deputada eleita pelo Livre faz questão de usar essa comunicação social para deitar cá para fora o que sente. Sem filtros. Quando a esquerda se perde. Novamente. Vezes e vezes sem conta.
 
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/portugal-quando-esquerda-se-perde.html

O meu nome é desconforto

(Rosa Pedroso Lima, in Expresso Diário, 29/11/2019)

 

És uma fraude. És preta. Não serves para nada, mesmo morta.” A mensagem surge no telemóvel de Joacine Katar Moreira com um aviso sonoro e a deputada do Livre mostra-a. É uma, mas há mais. Muitas mais, com ameaças mais ou menos veladas, outras de puro racismo, de ódio e de desprezo. Desde que foi eleita para o Parlamento que se habituou a lidar com estas “ondas de ódio”, que lhe invadem também as redes sociais e para as quais, confessa, “não estava preparada”. Mas não mostra medo nem sinais de desistir. “Aguento tudo”, diz ao Expresso.

A vida foi-lhe sempre difícil e agora que aceitou começar a desfiá-la a pedido de muitos jornalistas, torna-se óbvio que há muito se preparou para pisar terrenos minados. “Até o meu pai me diz: ‘Quem ouve as tuas entrevistas, acha que tiveste uma vida horrível.’ E eu digo: mas era horrível, pai. Era mesmo.”

Nasceu há 37 anos, em Bissau, de uns pais tão jovens que a chegada da bebé os apanhou de surpresa e lhes provocou um susto tamanho que ainda Joacine não tinha três anos e já cada um tinha decidido ir à sua vida. A avó paterna, enfermeira pediátrica e mulher de armas, sempre acumulou as tarefas de mãe com as de avó. Acolheu o filho, a nora e a neta na sua casa de matriarca e, na hora da separação do casal, implorou a todos os santos para que lhe deixassem a miúda e seguissem com a vida deles.

E eles seguiram. A mãe voltou a casar e teve mais quatro filhos. Vive agora na margem sul do Tejo, aguentando as contas da casa com o salário de ajudante de cozinha. “Nunca parei de ver a minha mãe a trabalhar”, diz, admirando a “força física” e a resistência de tocar a vida para a frente que a mãe sempre demonstrou. O pai e as quatro madrastas com quem, sucessivamente, foi casando deram mais sete irmãos a Joacine. Há dois anos, o pai seguiu para Londres atrás da última mulher, é varredor de ruas e entrou agora na universidade numa licenciatura em Gestão. Joacine, ao todo, soma agora 11 irmãos, sete raparigas e quatro rapazes, com quem se dá “lindamente” e faz questão de acompanhar nos seus progressos de vida. Os mais velhos têm 32 anos, a mais nova oito.

A arvore genealógica da deputada tem ramos de várias raças, credos e feitios. Entre altos funcionários da elite cabo-verdiana da era colonial portuguesa, mulheres de fibra guineense e um muçulmano de origem libanesa, a família foi-se formando com muitos casos de amor, mas também com traições. Muitos sucessos e falhanços rotundos, que são narrados ao pormenor como um património histórico que não se quer perder. Dos pais, Joacine fala com admiração, imensa ternura, mas também com um toque de paternalismo, como se os papéis da sua história tivessem sido criados ao contrário, dando-lhe a ela a tarefa de os encaminhar na vida.

“São duas pessoas extraordinárias, mas não tenho a pedalada deles.” Sempre os tratou pelo nome — Elsa e Quinzezinho — e não hesita em “dar-lhes na cabeça” quando acha que saem dos trilhos. Sobretudo ao pai, que sendo “dos homens mais inteligentes que alguma vez encontrei” optou por não lidar com a vida como se estivesse sempre num ringue de boxe. “Nunca mostrou ambição especial, não quer que o incomodem, porque o objetivo dele não é enriquecer.” Mas, a filha mais velha é diferente, não é de desistir. “Chateei-o imenso, andei a martelar e há um ano ele, finalmente, inscreveu-se na faculdade”, diz orgulhosa das boas notas do pai, da facilidade com que aprende e do muito que tem pela frente.

Joaquim cumpre o currículo, mas também não falta aos recreios. “Não há semana que não vá a uma discoteca”, diz Joacine com um sorriso aberto. Nesse ponto,tal pai tal mãe, que não desiste de organizar almoços, onde junta meio mundo, sabendo-se a que horas começam, mas não nunca a hora de acabarem. “Nunca consegui acompanhá-los, são muito divertidos e animados. Eu tenho alma de velhota”, diz Joacine, que desiste a meio da tarde das almoçaradas da família, deixando a mãe espantada pelo abandono da festa quando “isto vai começar a animar”. “A verdade, é que me sinto velha. Não tenho pedalada para tanta energia.”

ALMA DE VELHA

Esta “alma de velha” é, em Joacine, quase uma marca de nascença. Ainda andava na escola e já se derretia a ouvir os cantos chorosos de Chavela Vargas, quando os amigos lhe propunham hip-hop, estranhando a tendência para aquelas coisas melosas que a amiga revelava. Gostava de ler, de estar sozinha, de escrever poemas que enchiam os cadernos e cadernos que ainda guarda, mas não mostra.

“Estava sempre a fazer perguntas”, diz Ana Varela, sua colega do colégio interno para onde entrou com oito anos. Ana era mais velha e recorda-se da miúda “calma, muito observadora, que gostava de estudar e de estar na dela” e que, por vezes, tentava aproximar-se do grupo das crescidas para participar nas conversas. “Dizíamos-lhe que ela era muito política, porque quando nos juntávamos para falar de rapazes ou de mexericos de miúdas ela vinha com perguntas difíceis e a querer falar de coisas sérias.” As outras estranhavam as manias e enxotavam, delicadamente, a miúda para os lados da biblioteca.

“É minha filha”, diz Maria Leonor Barbosa. Em Bissau, de onde nunca sequer pensou sair, a avó segue atentamente à distância os passos de Joacine, essa “criança muito bonita, muito inteligente e sempre pronta a aprender”que criou sem problemas, a par com os seus cinco filhos, noras, genros, netos e todos os que viessem para a sua grande casa de Bissau. Para a avó, que pontua cada frase com um riso ou mesmo uma gargalhada, a miúda sempre mostrou tendência para ir longe e o seu papel foi ‘apenas’ o de a deixar ir.

“Era muito fácil de lidar, obediente e muito curiosa”, e Leonor viu nela a promessa de um futuro cheio de coisas boas, que a terra africana nunca lhe poderia dar. Até hoje, é a ela que Joacine trata por mãe. “Uma mulher incrível”, diz Joacine. Com o avô Joaquim Tavares Moreira, ex-locutor de rádio e “um homem muito culto e sempre muito informado”, habituou-se a ouvir longas discussões e conversas intermináveis que ocupavam serões inteiros. “Na Guiné só se fala de política”, e não havendo propriamente um envolvimento direto nos assuntos da nação, o tema moldou a cabeça da miúda que, ainda não tinha idade para entrar na escola e já pedia para aprender. Leonor, mais uma vez, aceitou, e aos cinco anos Joacine passou a receber aulas em casa, aprendendo a ler e a escrever num instante. “Gostava muito e era mesmo uma criança muito inteligente”, diz a avó.

Aos oito anos, envia-a sozinha de avião para a Casa Mãe do Gradil, uma instituição de acolhimento de crianças, governado pelas freiras da congregação espanhola das Dominicanas da Anunciata. O pai já tinha vindo para Portugal e vivia em Alverca, mas a Maria Leonor nem lhe passou pela cabeça entregar a menina ao filho. “A minha avó não quis que eu ficasse com os meus pais. Na ótica dela, não queria ver nenhuma madrasta ou padrasto a interferir, nem na minha alegria nem no meu percurso.”

A ideia de que o futuro risonho passava pelo estudo tornou-se um farol guia. “Dei-lhe tudo para aproveitar o caminho certo”, diz Maria Leonor. E Joacine veio, sem medo, para Portugal. “Vim alegremente. Encarei o colégio como uma oportunidade única e adorei o espaço, os quartos monumentais e, claro, a biblioteca”, recorda. “Se era a minha avó que me estava a mandar, não podia haver problema.” A capacidade de Leonor em convencer a neta era tamanha que chegava mesmo para superar a dor do corte do cordão umbilical. Leonor preparou cuidadosamente a neta para todas as adversidades que, à distância de um continente, era impossível aplainar.

Desde logo, com a gaguez. A miúda sempre foi assim. “Os meus pais dizem que comecei a gaguejar na altura da separação deles”, diz Joacine. Mas a avó nega. “Sempre, mas sempre, foi assim. Desde que começou a falar” que se entupia nas frases, se atrapalhava nas consoantes e todo o seu corpo tolhia no esforço de voltar a articular os sons. A família habituou-se, e Joacine também. “Falar assim nunca a impediu de nada. Na escola sempre foi ótima aluna e não teve vergonha nenhuma”, lembra a avó.

Joacine também se recorda da conversa que teve com a avó antes da partida para a Casa do Gradil. “Era uma mulher muito inteligente e avisou-me de que iria para um espaço desconhecido, com pessoas desconhecidas, mas que não ia para ficar em Portugal. Ia só para estudar e depois regressava para contribuir para o desenvolvimento da Guiné.” A passagem pelo desconhecido tinha obstáculos à vista. “Avisou-me de que a minha maneira de falar era a minha e que eu me devia orgulhar por ser uma menina inteligente. Isso era o mais importante.”

RECUSAR A TERAPIA

“Não deixes de falar assim”, disse a avó, na despedida. E Joacine não deixou, tornando a gaguez uma parte de si, que os outros — todos os desconhecidos que lhe surgiram, surgem e vão surgir na vida — têm de aceitar. Tiago Lila, dos Fado Bicha, foi um deles. Da primeira vez que a viu, a agora deputada “gaguejou dramaticamente” e aquilo provocou-lhe “um desconforto e uma estranheza enormes”. Foi há cerca de dois anos, numa das “conversas às escuras” organizadas para promover a causa das mulheres africanas através da poesia e do debate que o cantor dos Fado Bicha contactou ao vivo com Joacine. “A primeira reação é de rejeição”, assume. Mas deu por ele a ir para casa a pensar naquilo, ao mesmo tempo que “ia ficando sensibilizado com a coragem e com a dignidade que ela punha naquela característica particular”. Ela é assim: “Não pede desculpa, não pede licença, não avisa”, diz Tiago, que passou da estranheza à admiração incondicional. Ao ponto de ter aceitado o convite para compor a letra do hino da campanha e de lhe emprestar a voz e a atitude para um dos vídeos mais vistos das últimas legislativas, com mais de 36 mil visualizações registadas, num partido onde nunca antes isso tinha sido sequer imaginado.

No vídeo, Tiago aparece maquilhado, shorts curtos e salto alto, cantando “quero sem precedente, Joacine presente”. Enquanto todos dançam e um casal de homens se beija na boca, a letra fala que o “poder é da sista”, que pretende dar “um pontapé no estaminé” e ser “a vanguarda na nova casa grande”. “Transgredir a linha fixa” é um dos motes de um hino onde, Tiago declama em espanholês: “Ay insolente, impertinente Joacine! La sociedad va tener que aguentar-te, maricon.”

As críticas à candidata têm direitos de autor. “Era o que as freiras lhe diziam, quando estava no colégio”, diz Tiago Lila que para compor a letra, pediu a Joacine para lhe contar a sua vida, numa longa conversa à mesa de um café. A candidata a deputada aceitou e ele pegou “num caderninho como o seu e tomei notas”, depois, foi só juntar as peças e compor o hino com os pedaços da biografia.

Os Fado Bicha falam na cor da pele, na originalidade do nome (“Juricema? Jupilene? Que raio de nome”), mas nunca na gaguez. Talvez porque o que seria um problema, Joacine fez questão de tornar uma característica pessoal. Henrique Raposo, colunista do Expresso, lembra-se da sua colega do curso de História, do ISCTE, cheia de “fibra e muito ativa na discussão política e cívica”. “Era, obviamente, gaga”, diz ao Expresso, “e a graça dela era mesmo não se encolher por isso”. Nos antípodas políticos da deputada do Livre, Henrique Raposo não hesitou em defendê-la num artigo de opinião, quando as redes sociais explodiram com vídeos de intervenções escorreitas de Joacine, atirando com caçadeiras de canos serrados sobre a alegada mentira da deputada que dizia que era gaga só para captar votos.

“Não é fácil, claro. Mas fica mais difícil para todos, quando você não resolve o seu ‘problema’ e é preconceituoso”, respondeu Joacine no Twitter depois de centenas de mensagens acusatórias. “Esta é a minha forma de falar e o mais importante é que não gaguejo quando penso”, responde. Só tentou a terapia já adulta, com o curso de História acabado e quando, pela primeira vez, não conseguiu superar um teste. Tinha sido chamada a coordenar uma exposição internacional sobre os arquipélagos dos Bijagós que, vinda de Paris, se instalava em Lisboa. Mas quando chegou o momento de divulgar o evento, ficou nos bastidores. “A minha gaguez impediu que defendesse o meu trabalho, porque não tinha eficácia na comunicação.” Viu outras tomarem o seu lugar no palco e, aí sim, temeu continuar para o resto da vida a ser travada no acesso a um emprego que desejava e para o qual trabalhou a vida inteira.

Passou, de facto, muitos anos a acumular pequenos trabalhos, desde a apanha de tomate, à limpeza de quartos de hotel, até à promoção de produtos nos supermercados. Foi assim desde os 16 anos e sem nunca perder rendimento escolar ou falhar na universidade. “Muito empenhada e briosa”, tentava “ser perfeita em todos os trabalhos”, referia a professora de História do 6º ano. Na altura, ninguém referia a gaguez da miúda que fechou o básico com recordes de cinco na caderneta e chegou ao secundário com médias tão altas que teve direito, no final do 11º ano, a uma bolsa de 120 contos (€600), assinada pelo então ministro da Educação, Guilherme d’Oliveira Martins, “no âmbito das medidas de combate à exclusão social e de promoção da igualdade de oportunidades”, diz o despacho oficial.

Joacine mostrou sempre apetência para a História, onde várias vezes teve 19 nos testes, em que aproveitava para ir desfiando a sua veia poética e política. Na prova global do 11º ano (que guarda ainda como recordação) termina uma resposta sobre o Humanismo Renascentista imaginando “sociedades perfeitas onde as leis são em pequeno número e a vida surge colorida”. Outras vezes, não deixava de lado a sua opinião. No 8º ano, falava do Concílio de Trento e dos “senhores da Igreja que tomaram decisões que ainda hoje tendem a envergonhar a Igreja”. O professor achou a resposta “muito incompleta” e travou o esticanço da aluna. “Isto é a tua opinião, e numa resposta de História devemos ser mais objetivos”, escreveu a vermelho o docente.

A ideia de uma vida melhor poder ser alcançada através do estudo foi sempre o seu mantra. “Estudar, estudar, estudar. Era o meu foco. Tinha a certeza de que não tinha resistência física para aguentar uma vida tão dura como aquela que a minha mãe sempre teve.” Fez o curso de História sempre a trabalhar, e seguiu para mestrado. Mas a Academia foi um balde de água fria. “A universidade anulou completamente o meu ânimo. Foi horrível e milhares de vezes pensei em desistir”, diz. O ambiente fechado, burocrático, autoritário estava longe da Escola de Atenas com que sonhava nos tempos do colégio. E, no final, a saída para o mundo profissional, mesmo com um canudo na mão tornava-se mais difícil com a evidente dificuldade de comunicação. Só aí aceitou entrar em terapia da fala. “Desisti ao fim de mês e meio”, confessa. “Os exercícios à frente do espelho, as repetições de sons e a correção dos movimentos de boca”, em vez de ajudarem, causaram-lhe “mais ansiedade” e, sobretudo, retiravam “espontaneidade e alegria” “Rejeitei completamente a terapia. Precisava de entender a minha gaguez, mais do que de a resolver.” E nunca mais lá pôs os pés.

“UM MONSTRO”

“Negra, gaga e pobre.” Joacine Katar Moreira apresentou-se assim, sem “enganar ninguém”, no último comício de campanha eleitoral do Livre para as legislativas de outubro. Nessa noite, poucos acreditavam ainda que alcançaria um lugar em São Bento, e a candidata pôs logo as coisas em pratos limpos. “Não fui escolhida por uma direção partidária, mas por militantes e simpatizantes que acham que esta é a época de desconfortar. Ora, eu sou esse desconforto”, avisou.

Os dados estavam lançados. Joacine prometia uma “mudança”, assumia que “não ia ser fácil” e tornava claro que estava pronta para o combate. “Nós estamos à frente. No século XXI precisamos de um Parlamento para o século XXII e, no Livre, somos políticos do século XXII.” O partido que, até então tinha girado em torno do pacato Rui Tavares e das suas ideias de uma Europa para todos, estranhou a novidade. Mas gostou.

Rafael Esteves Martins estava entre os que olharam com espanto para o discurso da candidata. Doutorando em Londres, pela clássica universidade de Oxford, ainda estava longe de pensar que poderia vir a ser assessor, chefe de gabinete e braço-direito da primeira deputada do Livre e apresentado ao país como o ‘homem que vestiu saias’ no dia da tomada de posse. Naquela noite, três semanas antes da entrada no Parlamento, Joacine “falou durante mais de meia hora, sem teleponto, sem texto e com um discurso de grande rigor”, conta ao Expresso. O impacto em Rafael foi total.“Foi amor político à primeira vista”, garante.

Ele, que tinha sido fundador do Livre e se habituara a participar na vida do partido à distância e online, achou que tinha chegado a hora de mudar. Tinha participado na campanha, colado cartazes e seguido aquela mulher cheia “de garra”. Na primeira oportunidade que tem para falar com Joacine diz-lhe a sangue frio: “Tens noção de que és um monstro?” A candidata estremece perante tão estranha forma de elogiar o seu carisma, a capacidade de comunicação e, sobretudo, a coragem. “Etimologicamente, um monstro é uma coisa que se mostra, mas que não tem referente”, explica Rafael Martins. E Joacine, para ele, “concentra em si uma série de questões por resolver na sociedade portuguesa”. Dar-lhes corpo, voz e presença é “um momento histórico” a que decidiu não querer faltar.

O convite para integrar o gabinete da deputada surgiu em cima da hora e com surpresa total. Já eleita deputada, Joacine convidou Rafael Martins para almoçar. Precisamente no dia em que se reuniu com António Costa, nas primeiras negociações alguma vez tidas na sede do Livre com um primeiro-ministro, prestes a tomar posse. “Foi um bocado surreal porque estávamos à mesa no restaurante e as televisões só passavam imagens dela à saída do encontro”, relata Rafael. Joacine gaguejou muito, mas acabou em sintonia com o futuro Governo nas intenções de prosseguir o “diálogo que consideramos absolutamente necessário à esquerda”.

“Aceitei logo” e ainda a sobremesa não tinha chegado já se mudavam as agendas do professor de Oxford. A tese de doutoramento em Literatura Portuguesa do século XVIII será entregue em abril de 2021, mas será feita entre reuniões políticas, agendamentos parlamentares e tudo o que São Bento lhe vier a trazer. E há sempre muito. Logo no dia seguinte, a deputada estreou-se no “Programa da Cristina”. A seguir foi o Goucha e a TVI, entre perfis, entrevistas e muita polémica nas redes sociais. Ora porque a deputada gaguejava, ora porque o assessor usou saias, ora porque disparava a torto e a direito, a histeria passou a dominar nos comentários online sobre Joacine Katar Moreira.

NO MEIO “DOS BRANCOS TODOS”

Com Daniel Oliveira, o caso azedou mesmo para os lados da esquerda. Bastaram as duas primeiras intervenções de Joacine no Parlamento para o colunista e ex-bloquista vislumbrar uma “conversão súbita do Livre à agenda identitária”. “Onde está o partido de Rui Tavares?”, questionava, concluindo que o partido se radicalizava a olhos vistos e correndo “desembestado e sem direção política por um campo de minas”.

Joacine não aguentou. “Andei a suportar as ondas do Daniel Oliveira, de que a minha candidatura era um tiro no pé, que não servia para nada, etc., etc. Ainda não tinha aberto a boca e já estava a apanhar com críticas”, diz. Desta vez não fica calada e responde, também no Twitter: “Daniel, a sua postura, embora mais polida e mascarada de bom senso, não tem sido muito diferente da de muitos associados à direita e sua extrema na procura de descredibilização constante do Livre e da minha escolha.”

Daniel Oliveira reage com um misto de paternalismo: “Nem comento comparar-me com a extrema-direita. Prefiro acreditar que isto foi fruto do imediatismo das redes.” E Joacine não se fica. “Não foi imediatismo das redes. Nem amadorismo. Inaptidão ou deriva de qualquer coisa. Bom feriado”, responde.

Por vezes, das redes sociais para o mundo real vai um passo de anão. E das críticas anónimas ou de frequentadores habituais de Facebook ou Twitter, as acusações passaram a surgir do interior do próprio partido, com vozes a começarem a levantar-se contra a conduta da deputada. No Parlamento, Joacine forma um núcleo duro com Rafael Martins e Ana Lobato, escolhidos por ela, entre militantes e apoiantes do Livre mas, acima de tudo, da sua confiança pessoal. E começam a surgir os primeiros melindres internos. O partido é novo, não tem aparelho, nem quadros, nem experiência. É como um sapato ainda sem terreno pisado: cria bolhas e mal-estar nos primeiros tempos de utilização.

A deputada faz parte do ‘grupo de contacto’ do Livre, essa direção colegial de 15 elementos, eleitos em primárias diretas por militantes e simpatizantes. Rui Tavares saiu no último congresso das tarefas partidárias executivas e falhou a candidatura a eurodeputado nas últimas europeias. O caminho ficou aberto para uma nova liderança oficial. E Joacine, porque estava no lugar certo e com os holofotes todos ligados sobre si, tornou-se a sucessora natural.

A subida no partido foi meteórica. Ela, que se filiou apenas há três anos, foi convidada no início deste ano a apresentar uma candidatura às diretas do partido que iriam definir os candidatos às eleições que se avizinhavam. Rui Tavares “falou comigo e não tive como dizer que não”. Ela que tinha sempre defendido a necessidade de as comunidades africanas se chegarem à frente e avançar na participação política e cívica, não tinha agora margem de recuo. “A verdade é que sempre considerei a política partidária uma arena perigosíssima. Preferia mil vezes mais ser analista política”, confessa. “Nem sei como vim aqui parar.”

A verdade é que a sorte trocou-lhe as voltas. Quando saíram os resultados das primárias do Livre, Joacine surge em primeiro lugar na corrida às legislativas. “Não estava à espera”, garante, “mas só me restou arregaçar as mangas, interiorizar isto e seguir em frente”. Com um orçamento de 10 mil euros e um microaparelho partidário a suportar a campanha, inventou quanto pôde e rodeou-se de amigos.

A família “achou natural” o que estava a acontecer-lhe. E quando foi eleita e ganhou um lugar de quatro anos no Parlamento só Maria Leonor “ficou muito apreensiva”. Quando a filha/neta lhe ligou a contar que tinha sido eleita, foi dia de festa na Guiné-Bissau. Mas a avó temeu o pior. “Tu aí, sozinha, no meio daqueles brancos todos”, disse a Joacine, avisando-a do perigo. “Eles não se traem uns aos outros.” E, na verdade, ainda não tinha visto nada. Um mês e meio depois de chegar ao Parlamento, o Livre choca de frente com a sua dirigente e primeira deputada eleita. A abstenção de Joacine num voto de condenação dos ataques israelitas sobre a Palestina apresentado pelo PCP leva o partido a explodir em acusações de “contrassenso”, de “falha no trilho” sempre seguido pelo Livre e de quebra de comunicação e de lealdade. Rui Tavares confessa-se “perplexo” e Joacine responde com um “fui eleita sozinha, a direção do Livre nunca me apoiou”, ficando de pé no lugar que conquistou a pulso. Afinal, foi toda a vida assim.


 

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | Membro fundador anuncia saída do Livre por "postura" onde não se revê

 
 
Miguel Dias, candidato do Livre pelo círculo de Setúbal nas últimas legislativas, vai desvincular-se do partido.
 
Numa altura em que se assistem a divergências internas no Livre, Miguel Dias, membro fundador do partido, anunciou, na terça-feira, que vai cortar o 'cordão umbilical' que o liga ao partido. O candidato do Livre pelo círculo de Setúbal nas últimas legislativas, justifica a saída por uma "questão de forma e de postura política" com a qual não se revê. Por sua vez, um porta-voz do partido, em declarações à TSF, recusa-se a confirmar se a saída está relacionada com a polémica.
 
Miguel Dias anunciou a saída do partido nas redes sociais, onde explicou que esta "não foi uma decisão fácil nem leviana. É emocionalmente complexa a decisão de abandonar o LIVRE, partido" que ajudou "a fundar" e ao qual esteve vinculado durante seis anos. "As razões para a minha saída foram explicadas internamente", vincou.
 
Esclareceu ainda Miguel Dias que os motivos que estão na base da sua saída "não estão relacionados com conteúdo", porque os seus "valores ideológicos e as ideias políticas continuam a condizer em larga medida com o defendido com o partido". A saída é motivada, isso sim, por "questão de forma e de postura política" na qual não se revê.
 
 
A TSF falou com Pedro Nunes Rodrigues, porta-voz da direção do Livre, que lamentou a saída do candidato de Setúbal. "Ficamos com alguma pena que o Miguel decida desvincular-se do Livre, mas é uma decisão pessoal", afirmou. "O grupo de contacto [direção] pode apenas agradecer ao Miguel toda a dedicação que deu nos últimos seis anos ao Livre. Foi uma das pessoas mais importantes na dinamização do núcleo do Livre em Setúbal", acrescentou.
 
Pedro Nunes Rodrigues recusou-se a afirmar que a saída de Miguel Dias está ligada à mais recente polémica que tem abalado a estrutura do Livre. "É natural que as pessoas se desvinculem do partido, é a vida política de um partido. Não podemos exigir que qualquer membro permaneça no partido para sempre. Não vamos continuar a alimentar polémicas, portanto, não vamos comentar qualquer caso que seja considerado uma polémica". 
 
Recorde-se que o conflito interno no partido surgiu da alegada “falta de comunicação” entre Joacine Katar Moreira e a direção do Livre, que terá começado quando a deputada se absteve no momento de condenar Israel pela nova agressão a Gaza.
 
Perante a situação, o Livre veio a público, através de comunicado, manifestar “a sua preocupação com o sentido de voto da deputada Joacine Katar-Moreira, em contrassenso com o programa eleitoral do Livre e com o historial de posicionamento do partido nestas matérias”.
 
Ora, Joacine não se deixou ficar e reagiu às declarações do partido: “Assumo total responsabilidade pelo voto e devo dizer que, apesar de a abstenção não constituir um voto a favor ou um voto contra, ela não representou aquilo que tem sido desde sempre a minha posição pública sobre esta temática. Votei contra a direção de mim mesma”.
 
O caso vai seguir para Conselho de Jurisdição, mas Joacine Katar Moreira viu-se mais uma vez envolvida (noutra) polémica. A deputada falhou o prazo estabelecido pelo Parlamento para a entrada de projeto de lei da nacionalidade do Livre, uma das bandeiras do partido.
 
Já depois disso, a única deputada eleita do Livre, pretendendo evitar as questões de jornalistas no Parlamento, pediu para ser acompanhada por um oficial da guarda do Palácio de São Bento. O pedido não foi visto com 'bons olhos' pela Assembleia, sendo que Ferro Rodrigues pediu inclusive que fossem apuradas as circunstâncias do episódio.
 
Ao Notícias ao Minuto, o secretário-geral da Assembleia da República, Albino Azevedo Soares, afirmou que "não estava em causa a segurança física". O pedido da equipa de Joacine não se justificou, vincou o responsável.  
 
Filipa Matias Pereira | Notícias ao Minuto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/portugal-membro-fundador-anuncia-saida.html

Razões da minha saída do LIVRE

Desvinculei-me do LIVRE no dia das eleições legislativas.
As razões político-ideológicas são evidentes: não me revejo na viragem de rumo do partido no último ano. Em parte ficam ditas no Público de hoje (páginas 8 e 9, em declarações feitas na sexta-feira antes do final da tarde). Ajudei a fundar o partido em 2013-2014, na sequência da maior crise económica e política da democracia. Tinha mais de quarenta anos, nunca pertencera a partidos, não estava satisfeito com a divisão entre os dois lados da esquerda que impossibilitava um governo de esquerda e, mais geralmente, os partidos que vêm dos anos 70 pareciam-me entrincheirados em clivagens ultrapassadas. Vinha da militância republicana e laicista (onde aliás continuo). Sonhei na altura um partido no espaço da esquerda democrática, que preenchesse nichos político-sociológicos de que os outros partidos se desinteressam e que inovasse nas práticas democráticas. Foram anos de trabalho, alegrias e decepções, e portanto não foi uma decisão fácil.
 
Há também razões internas, de que dei conta aos que ficaram no LIVRE. Continuo na luta, como independente.
Ricardo Alves
 

Ver original em 'Esquerda Republicana' na seguinte ligação:

http://esquerda-republicana.blogspot.com/2019/11/razoes-da-minha-saida-do-livre.html

Algumas notas sobre o Livre

 
 

Começo por me colocar totalmente de fora do ambiente de recriminação, ressentimento e preconceito que tem envolvido esta nova fase da vida do Livre e o problema com a prestação política da Joacine Katar Moreira. Não é atitude que me interesse, até pelo tom de desproporcionada violência, alguma dela muito personalizada, que o tem envolvido. Quero também, antes de ir ao problema que pretendo tratar, deixar dois lembretes que julgo necessários.

O primeiro liga-se ao momento em que, no início desta infeliz situação, tomei a defesa pública da JKM. Fiz aquilo que pensei dever fazer, que foi defendê-la publicamente da vaga de preconceito centrado no problema com a fala, no facto de ser mulher e na cor da pele. Voltaria a fazê-lo nessa mesma direção, se tal fosse necessário. Mas tinha-me apercebido já de alguns problemas com uma parte das suas escolhas e prioridades, voltadas para a sobrevalorização sectária de certas causas em detrimento de outras, subvalorizadas ou mesmo ausentes do seu discurso, apesar de não menos importantes no programa do Livre.

O segundo lembrete tem a ver com a minha relação com o próprio Livre, que posso circunscrever a dois momentos. Logo no início, fui das pessoas que, quando o partido foi legalizado, apôs a sua assinatura entre aqueles milhares das necessárias à sua formalização. Fi-lo apenas porque me pareceu, e continua a parecer, ele poder preencher um espaço não inteiramente ocupado no espectro plural da esquerda. O segundo momento, sem dúvida mais importante, foi quando, nas eleições legislativas de 2015, fui candidato independente no projeto político de cidadania ativa que em boa parte envolveu o Livre, tendo embora outras correntes presentes, entre as quais me contava.

Nessa altura tive um contacto mais direto com pessoas do partido, e com formas de organização que este levou para o projeto. Um e outro dos aspetos criaram-me logo algumas dúvidas, que relevei no momento em nome do projeto coletivo. Por um lado, encontrei no partido uma percentagem enorme de pessoas despolitizadas, ou politizadas há pouco tempo. Se isso teve a vantagem de trazer gente nova, muita dela bastante jovem, para a política ativa, por outro lado produziu uma manta de retalhos algo pantanosa e difícil de gerir. Além disso, discordei desde o início da ausência de uma direção política efetiva e da escolha dos deputados com base em eleições internas abertas, que poderiam incluir, como votantes e como eleitos, pessoas que nem sequer estavam inscritas no projeto.

Dou dois exemplos de resultados possíveis. Repito este dado: estávamos em 2015. Primeiro: no círculo do Porto foi eleito como primeiro candidato um cidadão que manipulou votos, tendo sido necessário recorrer a mecanismos jurisdicionais internos para o impedir de concorrer (e justamente, pois nem um programa de vínculo ao projeto coletivo exibia). O segundo exemplo passou-se comigo próprio: fiquei em segundo lugar nas eleições internas no círculo de Coimbra, transitando para terceiro na lista de candidatos para assegurar a alternância de género, apesar de nem de longe ser dos mais ativos no processo. Creio que só terei sido eleito para o lugar por ser dos cidadãos mais conhecidos entre o leque dos possíveis. Não, de modo algum, por ter sido dos que se envolveu mais intensamente naquele momento político.

Chegado aqui, o que poderia ter a escrever já o fez há quase dois dias, no Expresso, o Daniel Oliveira, pelo que me limito a apoiar a sua discordância com os processos de organização do Livre que, como acabamos de verificar, permitem a candidatura de pessoas que podem ter, mais que a agenda do partido, uma agenda pessoal ou de grupo. Nestas condições, acontecer aquilo que está a acontecer será sempre inevitável. O Livre, onde tenho amigos e reconheço, insisto, um papel próprio a desempenhar na nossa democracia, tem de escolher se quer permanecer neste sobressalto constante ou se pretende apresentar-se aos cidadãos com um programa próprio, que comprometa o partido e não dependa da personalidade mais estável ou mais instável dos candidatos e das candidatas que apresenta a escrutínio público.

 
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/11/27/algumas-notas-sobre-o-livre/

Quando a esquerda se perde

A esquerda perde-se, fractura-se, desconjuntura-se. É quase um aforismo. A direita com maior facilidade encontra terreno comum e com uma facilidade ainda maior aperta a mão a quem tiver de apertar para levar a sua avante.
Vem isto a propósito dos desentendimentos - chamemos-lhe assim - entre a candidata eleita pelo Livre, Joacine Katar Moreira e o próprio Livre. Depois de um voto contra as orientações do partido e subsequente chamada de atenção; depois de entrevistas facultadas pela agora candidata com lavagem de roupa suja; depois da escolha do silêncio por parte do partido, mas não por parte da candidata, sobra as fragilidades de uma esquerda que tão facilmente se perde.
A comunicação social, que ataca e explora ferozmente todas as fragilidades da esquerda, sobretudo da esquerda mais à esquerda, não deixa cair o assunto e a deputada eleita pelo Livre faz questão de usar essa comunicação social para deitar cá para fora o que sente. Sem filtros. Quando a esquerda se perde. Novamente. Vezes e vezes sem conta.

Ver o original em 'Triunfo da Razão' na seguinte ligação:

http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2019/11/quando-esquerda-se-perde.html

Portugal | Joacine e o amor à sobrevivência

 
 
Pedro Ivo Carvalho* | Jornal de Notícias | opinião
 
O que leva a deputada única de um partido que nunca esteve representado no Parlamento a entrar em guerra com esse partido apenas um mês após a estreia?
 
E o que leva esse partido a repreender publicamente a deputada, por esta não ter respeitado a linha programática, abstendo-se numa votação estéril (mais uma) que visava condenar uma "nova agressão israelita a Gaza"? (a propósito: começa a ser confrangedora esta sucessão de votos de louvor, repúdio e outros estados de alma no Parlamento).
 
Bem, mas respondendo às perguntas: soberba, vaidade e inadaptação. Joacine quis ser o Livre, mas o Livre descobriu agora que talvez não seja boa ideia fazer a vontade a Joacine. Algo que, durante este tempo todo, um e outro foram suportando, mas que, uma vez estalado o verniz da realidade, se percebe que não passa de uma interesseira convergência de vontades. É indiscutível que Joacine alcandorou o partido a níveis históricos. E é evidente que o partido aproveitou a boleia na nuvem da fama para subir mais alto. Ambos lucraram.
 
 
Ainda assim, não ficou bem à deputada acusar o Livre de a ter deixado sozinha, e muito menos não a dignificou acusar quem a apoiou de nada ter alcançado, dado que, segundo reclama, foi ela quem ganhou as eleições. Só ela. Pelo meio, Joacine ainda encontrou forças para culpar os dirigentes do Livre, onde presumimos se inclua Rui Tavares (que nunca conseguiu sentar-se no Parlamento), de, na noite eleitoral, terem estado mais preocupados com a conquista da subvenção estatal do que com a conquista do deputado. Um gancho de esquerda.
 
Pese embora a convulsão, o partido mantém a confiança em Joacine, provando que o Livre tem amor a mais pelo salário mínimo e amor a menos por si próprio. No fundo, entre a assunção de uma posição mais dura (e mais digna) que retirasse a confiança à deputada mas fizesse perigar a legislatura; e uma posição híbrida que não disfarça a paz podre mas não mata o sonho da afirmação política, o Livre optou pelo pragmatismo. Pela sobrevivência.
 
Joacine tinha (tem?) a seu favor o perfume da novidade, da excentricidade e da ousadia. O que fica desta refrega é uma disputa de egos no partido que até foi precursor da geringonça das esquerdas. Que construiu uma imagem de diferenciação por via do distanciamento face a um status político viciado e calculista, o qual, de uma forma perversa, agora encarnou. Qualquer que seja o partido onde medrem, os políticos que se embriagam com a porção mágica da glória estão sempre com sede.
 
*Diretor-adjunto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/portugal-joacine-e-o-amor-sobrevivencia.html

Política identitária é política de direita

Os partidos recém entrados na AR são em regra unipessoais. No caso do Livre, o discurso político centra-se na identidade da sua deputada. A teoria da política identitária que o Livre subscreve fecha cada opressão numa cofragem identitária e portanto abstracta, sem vasos comunicantes, representações por procuração ou solidariedades. Será por isso que, ao mesmo tempo que Joacine é alvo de ódio racista por parte de alguns, o Livre é visto com simpatia pela parte mais esclarecida da classe dominante.

Escrever é arranjar problemas. Antecipando os nomes que algumas pessoas me vão chamar (sectário, racista, homem hétero cis branco, etc. mas sejam imaginativos) quero começar com uma nota prévia: estou solidário com Joacine Katar Moreira, vítima de uma infame campanha de ódio racista; repudio os grunhos dos imbecis que a acusam de fingir a gaguez; não ponho em causa a total legitimidade do seu mandato como deputada e fico genuinamente feliz por ver mais mulheres negras no parlamento. O meu problema não é com a Joacine, nem com a sua gaguez nem, muito menos, com a cor da sua pele ou a sua nacionalidade. O meu problema é com o Livre e é estritamente político.
A vida política de Rui Tavares resumia-se, até há um mês, a uma aborrecida sucessão de falhanços oportunistas: do anarquismo life style a deputado europeu do BE quando estava na moda ser do BE; do híper-europeísmo muito a piscar o olho ao PS ao comentário político de académico antisséptico. Mas, como aqueles empresários que antes de chegar ao sucesso tiveram de levar seis empresas à falência, Rui Tavares foi capaz de olhar para o estrangeiro e perceber que, em 2019, o investimento demagogicamente mais rentável não é o anarquismo, nem a União Europeia, nem a esquerda nem a direita, nem qualquer ideologia. Nos anos vinte deste século, deduziu Tavares, as oportunidades gravitarão em torno de dois novos polos políticos: o «populismo» e o «identitarismo».
A aposta do barão trepador rendeu finalmente dividendos políticos. A deputada do Livre monopolizou com estrépito mediático todo o debate político em torno de «causas fracturantes» como a sua aflitiva gaguez, a saia do seu assessor, Rafael Esteves Martins, ou uma bandeira guineense a ondear num comício. Pode-se dizer que a culpa é dos esqueletos que tínhamos no armário, mas a reencarnação identitária do Livre não foge aos encargos da agenda identitária: transforma a saia no pretexto para uma entrevista no programa do Goucha; transforma a gaguez real numa performance mediática que dispensa ajudas e desperta ódios e paixões e transforma a sua representação num fim em si mesmo, pelo que dispensa ideologias e propostas políticas. A política de Joacine é a identidade de Joacine.
Em entrevista ao Expresso, a Joacine Katar Moreira era ainda mais clara: «Represento as mulheres negras, os homens negros, as mulheres em situações de empobrecimento, os homens em situações de empobrecimento, os investigadores com uma vida instável». Ou seja, Joacine está convencida de que tem um mandato para representar não só as pessoas que votaram nela, mas, por condão da sua identidade, todos aqueles que são como ela: negros, gagos, investigadores, etc. Independentemente do que proponha e vote no parlamento ser indiferente ou mesmo contrário aos interesses destas pessoas.

Rostos africanos em lugares palacianos

Os afro-americanos têm, há muito tempo uma expressão muito feliz: «black faces in high places», qualquer coisa como «rostos negros em lugares importantes». Nunca, nos EUA, houve tantos políticos negros a ocupar cargos públicos. Apesar do recorde histórico, estes políticos negros são politicamente indistinguíveis dos políticos brancos. No Congresso dos EUA contam-se, entre democratas e republicanos, 43 eleitos afro-americanos, o maior número de sempre e que tem vindo a subir de eleição para eleição. O problema é que esta tendência não correspondeu a qualquer alteração qualitativa no combate ao racismo.
Olhemos para o exemplo de Baltimore, onde homens e mulheres negras controlam praticamente todo o aparelho político da cidade, incluindo o executivo da autarquia, a presidência, a assembleia municipal, a polícia, o sistema escolar e os transportes públicos. Apesar de tantos rostos negros em posições importantes, a violência racista continua a ser o dia-a-dia de milhares de negros, que também continuam a ser mais pobres, a ter menos acesso à educação e a viver em bairros mais degradados.
Quando, em Filadélfia, dois polícias prenderam um homem negro por estar a beber um café no Starbucks, o chefe da polícia, também negro, defendeu a acção dos racistas. E quando, num restaurante de Warsaw, na Carolina do Norte, uma criança negra foi espancada e quase sufocada até à morte por um polícia, o presidente da câmara, também negro, defendeu a brutalidade policial.
Os EUA tiveram um presidente negro, um marco histórico de inegável valor simbólico que, para além do simbolismo, não beliscou o racismo institucional, sistémico e estrutural.
Então, afinal, por que razão os criminosos de guerra Colin Powell e Condoleezza Rice não se preocupavam com o racismo? Por que razão a neoliberal Margaret Thatcher não se preocupava com os direitos das mulheres? Por que razão o fascista Milo Yiannopoulos, homossexual assumido, não se preocupa com direitos LGBT?

Dividir para reinar

A teoria da política identitária que o Livre subscreve fecha cada opressão numa cofragem identitária, e, portanto, abstracta, sem vasos comunicantes, representações por procuração ou solidariedades. Para os identitários, por exemplo, a luta «de todas mulheres» exclui «todos os homens» porque «todos os homens» têm interesse em continuar a oprimir as mulheres. Por esta lógica, os homens nunca estarão do lado das mulheres porque quererão sempre que elas continuem a desempenhar mais trabalho doméstico, por exemplo. Da mesma forma, «todos os negros» estariam condenados a lutar sozinhos contra o racismo porque «todos os brancos» beneficiam dessa opressão e só um homossexual poderia representar a causa LGBT porque «todos os heterossexuais» tiram partido dessa discriminação. Para os identitários, a raiz do problema não é a infraestrutura capitalista, mas a infraestrutura dos homens brancos heterossexuais, pelo que a solução do problema passa necessariamente pelo reforço da representação das mulheres, dos negros, dos gays ou das pessoas com deficiência nos concelhos de administração dos bancos, nos exércitos imperialistas e nos partidos de direita.
O resultado é a atomização absoluta das identidades e das causas: cada um de nós teria de escolher se vota no partido do anti-racismo ou no partido dos reformados; se adere ao partido dos gays, das mulheres ou ao partido dos trabalhadores; se luta pelos animais ou pelo serviço nacional de saúde. Consequentemente, cada um de nós estaria impedido, por «lugar de fala», a pronunciar-se acerca de todas as outras lutas, atiçando uns oprimidos de um tipo contra oprimidos de outro tipo, numa competição em que só ganham os poderosos. Nos EUA, por exemplo, tornaram-se comuns discussões caricatas sobre «quem é mais privilegiado»: uma mulher branca ou um homem negro? Uma mulher muçulmana e negra ou uma mulher branca com deficiência e pobre?
Se é verdade que, historicamente, todas as libertações foram obra da luta dos oprimidos, essa opressão só pode ser definida rigorosamente a partir dos interesses dos oprimidos e não a partir de identidades abstractas. Ao contrário do que dizem os identitários, a exploração dos imigrantes só serve para baixar os salários de todos os trabalhadores; a discriminação salarial das mulheres exerce uma pressão descendente sobre o salário dos homens e o racismo e a homofobia são usados para dividir pessoas que comungam dos mesmos interesses. Estes interesses atravessam as identidades ao longo da História: a luta das mulheres ao longo dos últimos duzentos anos fez-se com a solidariedade de muitos homens; a luta dos negros contra o colonialismo fez-se com a ajuda de soviéticos brancos. A universalidade da luta de classes ecoa em todas as lutas: transsexuais, homossexuais, ciganos, negros, brancos, mulheres, pessoas com deficiência, imigrantes.

Paz às elites, guerra à ralé

É esse o apelo e a utilidade do comunismo enquanto poderosa união de todos os explorados contra todas as opressões. É por isso também que uma trabalhadora das limpezas negra tem mais em comum com uma colega branca do que com Joacine Katar Moreira, que acha que quem escreve a história são as «elites empáticas e inteligentes». Não o povo, não os oprimidos, não os explorados, mas as «elites», que o dicionário define como a «minoria social que se considera prestigiosa e que por isso detém algum poder e influência». As «elites» de Joacine, quer sejam brancas ou negras, não têm interesse material no derrube das estruturas racistas; da mesma forma que as mulheres que exploram outras mulheres não têm interesse material na igualdade salarial.
Caras negras em lugares importantes podem servir apenas para desviar a discussão sobre o racismo estrutural, institucional e histórico, para uma questão de símbolos e elites. O sistema capitalista é capaz de absorver mulheres, gays e negros para as tais «elites» por que suspira Joacine sem que nada de essencial se altere. Na verdade, para os opressores pode até ser politicamente conveniente ter oprimidos a representá-los.
Essa é a realidade da identidade de Joacine: ela representa as elites e assume-o. Foi nos bairros dos ricos (Lapa, Campo de Ourique, Paço de Arcos, Cascais) que Joacine somou mais votos, não foi nos bairros dos negros pobres; e foram também os académicos, os intelectuais, os professores, as elites, que em sua defesa fizeram um abaixo-assinado em que não entram pés-rapados.
Da mesma forma, Rafael Esteves Martins, o assessor de Joacine e do Goucha, hoje diz que os conceitos de esquerda e direita estão ultrapassados. O que não está ultrapassado é o conceito de «negro» e de «branco», suponho. Conciliar explorados com exploradores, dividindo os explorados; eis a velha consigna do capitalismo, da direita e da reacção. E é por isso que todos os dias são 25 de Novembro na «agenda identitária» do Livre.

António Santos    15.Nov.19 

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/politica-identitaria-e-politica-de-direita[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^https://www.abrilabril.pt/internacional/politica-identitaria-e-politica-de-direita (www.abrilabril.pt)
  2. ^endereço (www.odiario.info)
  3. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O LIVRE E A SUA DEPUTADA

Resultado de imagem para A DEPUTADA DO LIVRE E RUI TAVARES
OS LIMITES DO POLITICAMENTE CORRECTO
 
Vivemos um tempo de profunda hipocrisia.
Um tempo em que o que todos vemos é exactamernte o contrário do que nos pretendem mostrar.
Um tempo em que o esbatimento das diferenças imposto pelo “politicamente correcto”, leva nos casos extremos às maiores crueldades, sempre justificadas, mesmo quando não são reconhecidas, apesar da sua evidência,por o comportamento que as dita se julgar alicerçado numa superioridade moral, social e política, e se considerar completamente indiferente às suas consequências tanto para aqueles cujas diferenças pretendem esbater como para a sociedade em geral destinatária involuntária desses comportamentos.  
Vem isto a propósito de Joacine Katar Moreira, eleita pelo círculo de Lisboa, pelo Livre, como deputada à Assembleia da República nas últimas eleições legislativas.
Se há uma actividade onde a palavra vale ouro, essa actividade é a política, tal como hoje se faz. Dada a indiscutível predominância dos meios de comunicação na política, os políticos esforçam-se por tornar a sua voz sedutora, desde a tonalidade, à colocação, passando pelo timbre e por uma dicção muito cuidada, de modo a torná-la mais agradável, cativante, cientes de que a forma como se exprimem é tão, ou mais importante, do que o conteúdo do que se exprime. E se há na política um lugar onde isso é mais importante do que qualquer outro, um lugar onde os grandes dotes oratórios valem ouro, esse lugar é o Parlamento.
Ora, o Livre e o Rui Tavares, como todos os sacerdotes do “politicamente correcto” – a suprema hipocrisia da política – querem-nos convencer que aquelas faculdades não têm nenhuma importância. E de facto nada haveria a dizer se um partido abdica de fazer passar persuasivamente a sua mensagem por ter escolhido uma pessoa com outras qualidades para ele tão ou mais importantes do que aquelas.
Acontece, porém, que não é isso que se passa com Joacine Katar Moreira. Nem jamais aqui se faria qualquer crítica por o Livre ao tê-la escolhido haver prescindido do modo mais comum de fazer passar a sua mensagem. Pôr as coisas nesses termos, seria, no caso concreto, juntar o utilitarismo à hipocrisia. O que se passa é algo muito diferente. A deputada do Livre é portadora de uma enorme deficiência da fala que praticamente a impede de se exprimir, tanto mais quanto mais desesperadamente porfia fazê-lo.
É penoso, extremamente penoso, ver alguém cuja missão é transmitir uma mensagem, permanentemente incapacitado de o fazer por força de uma deficiência que parece insuperável por maior que seja a vontade e o esforço, já não dizemos para a superar, mas para a atenuar.
A exibição pública permanente daquela enorme deficiência não constitui da parte dos que a encarregam de falar em público, nem dos que a escutam, um acto de humanidade que passa meritoriamente sobre a diferença como se ela não existisse. Bem pelo contrário,  parece-me de profunda desumanidade aquela permanente exibição de um inglório esforço físico e psíquico para tentar superar o insuperável, como acontece com todos os comportamentos que vulgarizam o sacrifício humano, auto ou hetero- infligido, qualquer que ele seja.
O que pretende o Livre quando expõe assim impiedosa e permanentemente uma pessoa cuja deficiência inspira a mais nobre compaixão? Não seria possível atribuir outras tarefas partidárias igualmente nobres a Joacine que a poupassem a este sacrifício permanente e para quem a escuta com a melhor boa vontade? Parece-me um comportamento cruel imposto pelo politicamente correcto numa conjugação de factores aparentemente ideais para sublinhar a tal pretensa superioridade acima referida.
Por mais que o Livre nos queira convencer da justeza do seu comportamento e por mais que eu me esforce por o tentar compreender, não posso deixar de me lembrar, por mais que me queira esquecer, dos que, nos meus tempos de criança, exibiam nas feiras e romarias populares os aleijões e as mais terríveis deficiências de seres humanos num cortejo de desgraças e de miséria onde à compaixão se aliava uma profunda repulsa de quem se tornava espectador involuntário daquele penoso espectáculo.   

Ver o original em Politeia (clique aqui)

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