Nicarágua

Maduro lança campanha para eleições legislativas na Venezuela

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela
© Sputnik / Carolina Cabral

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou o iniciou da campanha das eleições para a Assembléia Nacional.

"Inicio aqui esta campanha que deve nos levar, em 12 de outubro, ao dia das eleições parlamentares, para a maior vitória eleitoral que já conquistamos na Revolução Bolivariana. Hoje começa nossa campanha de organização, preparação e acumulação de forças", disse o presidente durante um ato no estado de Nueva Esparta, no norte do país.

De acordo com os períodos estabelecidos pela Constituição venezuelana, as próximas eleições parlamentares deveriam ser realizadas somente no final de 2020.

Em 20 de maio, no entanto, o chefe de Estado propôs adiantar as eleições parlamentares.

Em agosto, o Assembleia Nacional Constituinte, que desempenha o papel do legislativo no país, após a dissolução do parlamento por Maduro em 2016, criou uma comissão para deliberar sobre o adiantamento das eleições, mas ainda não divulgou os resultados. O órgão, todavia, conta com o apoio do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), que apoia o governo de Maduro e é responsável por definir a data de eventual pleito.

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Governo da Nicarágua e oposição discutem liberação de presos políticos

Presidente da Nicarágua Daniel Ortega
© AP Photo / Alfredo Zuniga

O governo e a oposição da Nicarágua começaram a negociar quinta-feira (21) como realizar a libertação de centenas de presos políticos detidos no último ano de instabilidade e protestos.

O governo do presidente Daniel Ortega anunciou na quarta-feira que libertaria os prisioneiros em 90 dias em troca do levantamento das sanções externas.

A liberdade dos prisioneiros é o primeiro de cinco itens que os negociadores planejam enfrentar depois de várias semanas de reuniões para estabelecer regras básicas para as negociações para a resolução das divisões políticas da Nicarágua.

O Comitê para a Libertação de Presos Políticos, que calcula a existência de cerca de 640 prisioneiros, disse em comunicado que os prisioneiros deveriam ser libertados em 15 dias e que as negociações não devem começar até que todos sejam soltos.

Os dois lados concordaram em pedir à Cruz Vermelha Internacional que monitore a libertação dos prisioneiros, mas nem o governo nem a Aliança Cívica da oposição colocaram números sobre quantos prisioneiros seriam libertados.


O representante da Organização dos Estados Americanos, Luis Rosadilla, e o embaixador do Vaticano na Nicarágua, Waldemar Sommertag, têm observado as conversações.

Na quinta-feira, Ortega disse a uma multidão que "nem todos pensamos da mesma forma, mas apesar de nossas diferenças ideológicas e políticas, devemos nos unir em torno de um objetivo sagrado, que é a paz".

Também na quinta-feira, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas adotou uma resolução imposta pela Argentina condenando os abusos dos direitos humanos na Nicarágua e pedindo o monitoramento do Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos também incluiu a Nicarágua pela primeira vez em um quarto de século entre os países que exigem monitoramento especial devido à deterioração da situação dos direitos humanos e contabilizou pelo menos 325 mortos e 2.000 feridos.

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Dias de Ortega estão 'contados' e a Nicarágua estará livre 'em breve', diz Bolton

John Bolton na OTAN.
© Sputnik / Alexey Vitvitsky

O principal assessor de política externa do presidente estadunidense Donald Trump, John Bolton, parece estar decidido a retomar seu longo impasse com o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, sugerindo que a mudança de regime apoiada por Washington pode estar próxima.

"O regime de Ortega condenou três líderes agrícolas a 550 anos de prisão por seus papéis em protestos em 2018, nos quais as forças policiais de Ortega teriam matado 300 ativistas. Como disse o presidente Trump na segunda-feira, os dias de Ortega estão contados e o povo nicaraguense em breve estará livre", escreveu Bolton no Twitter na quarta-feira.

Os líderes dos protestos anti-Ortega receberam penas de prisão nesta semana, depois de terem sido implicados na morte de quatro policiais e de um professor durante um tiroteio em julho passado.


A nação centro-americana foi abalada por distúrbios desde abril do ano passado, com manifestantes exigindo a renúncia do líder do partido sandinista Ortega, que é presidente desde 2007, e conquistou convincentemente outro mandato de cinco anos em 2016.

Os EUA apoiaram repetidas vezes a insurreição contra o governo de esquerda e, em novembro passado, Bolton fez uma palestra chamando pela "desintegração" do que ele chamou de "Troica da Tirania" - Venezuela, Nicarágua e Cuba -, dizendo que os Estados representavam um "berço sórdido do comunismo no hemisfério ocidental".

Na segunda-feira, Trump nomeou os mesmos três países, dizendo que seu "grande potencial" seria desbloqueado com o colapso do socialismo. Para agilizar o processo, o Congresso dos EUA impôs no ano passado medidas financeiras que dificultariam a obtenção de empréstimos internacionais para a Nicarágua, atingida economicamente, e punir as autoridades de Manágua.

A vingança

A história de Bolton com Ortega remonta aos anos 1980. Assim como agora, Ortega era o líder da Nicarágua, primeiro ao liderar a revolução em 1979 e quando foi eleito presidente em 1985.

A administração do ex-presidente republicano Ronald Reagan gastou recursos financeiros significativos apoiando os rebeldes de direita contrários ao governo durante a guerra civil, que durou quase toda a década.

Bolton, na época um especialista legal, ocupou vários cargos de alto escalão na Casa Branca de Reagan e foi mais do que uma testemunha de seus obscuros esquemas da CIA para contornar uma proibição do Congresso dirigida por democratas de ajudar os militantes da oposição.


O atual assessor de Trump teria desempenhado um papel crucial em prejudicar tanto o escopo de uma investigação Irã-Contra quanto um inquérito sobre militantes que administram drogas e armas, que foram habilitados por Washington.

Depois que ele voltou à proeminência sob o governo de George W. Bush, em mais um capítulo de uma carreira inafundável, Bolton não conseguiu desalojar o venezuelano Hugo Chávez, os sandinistas, ou Fidel Castro de Cuba (em determinado momento acusou Havana de desenvolver armas biológicas, sem evidências sólidas).

Mas como um homem que, com a permissão de Donald Trump, agora parece estar dirigindo a política externa dos EUA em dezenas de questões fundamentais, Bolton tem mais recursos do que nunca para resolver seus ressentimentos ideológicos ao longo da vida.

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Nicolás Maduro: “Que sejamos respeitados enquanto soberanos e independentes” (II)

Nesta segunda parte da entrevista, Nicolás Maduro fala sobre questões económicas e questões internacionais. No conjunto da entrevista, serão possivelmente de destacar dois traços da personalidade do Presidente venezuelano. Um, a frontalidade com que aborda diferentes matérias, algumas das quais bastante delicadas. Outro, a confiança que em todas as circunstâncias manifesta em relação ao seu povo.


 

Ignacio Ramonet - Vamos passar a abordar, em uma segunda parte, algumas questões económicas. Uma vez superado o cenário da violência política, a batalha económica e, em particular, a luta contra a inflação são apresentadas como as principais tarefas nacionais para 2019. Que balanço faz do “Plano de Recuperação Económica, Crescimento e Prosperidade”, lançado em 20 de Agosto passado E quais são as perspectivas para 2019?

Nicolás Maduro - Acredito que a principal conquista do Programa de Recuperação Económica, Crescimento e Prosperidade é que já temos as rédeas do que é um plano de crescimento e recuperação. Temos as rédeas para a protecção do emprego, a protecção dos rendimentos dos trabalhadores. Temos as rédeas para o crescimento organizado dos sectores fundamentais da economia.

E estamos em melhores condições para enfrentar a duríssima batalha contra as sanções internacionais que fizeram a Venezuela perder, pelo menos, uns vinte mil milhões de dólares só em 2018… São perdas colossais, multimilionárias. Perseguem-nos as contas bancárias. Impedem-nos de comprar qualquer produto no mundo: comida, medicamentos, insumos … É uma perseguição selvagem, um assédio criminoso o que é feito contra a Venezuela.

Sem mencionar o bloqueio financeiro … Que é mais do que o bloqueio … Porque um bloqueio, às vezes, quando te querem bloquear, colocam uma barreira aí, e já não se pode passar cá … Mas o que nos fazem é mais do que um bloqueio, é uma autêntica perseguição … Uma perseguição das contas bancárias, dos negócios que a Venezuela realiza no mundo, do comércio, das compras …

Por exemplo, Euroclear [um dos maiores sistemas de compensação e liquidação de valores financeiros do mundo, cuja sede está em Bruxelas.] sequestrou-os, em 2018, 1400 milhões de euros que já estavam comprometidos para comprar medicamentos, insumos e alimentos. E ninguém responde. Denunciamo-lo nas Nações Unidas, perante o Secretário-Geral da ONU. Denunciei-o para as diferentes organizações internacionais … E ninguém diz nada.

Então, temos uma luta para nos libertar, para nos tornarmos independentes de toda essa perseguição e bloqueio. E isso só é conseguido através da produção de riqueza.

Estou muito envolvido no aumento da produção de petróleo, na elevação da capacidade da Venezuela na sua petroquímica, na produção de ouro, de diamantes, de coltan … Na elevação da produção de ferro, aço, alumínio, etc..

Riquezas abundantes que a Venezuela possui e que, por muita perseguição internacional que os Estados Unidos decretem, são matérias-primas que possuem um mercado internacional sem qualquer tipo de restrição.

Devo acrescentar que os ataques contra nós são constantes, implacáveis e de todos os tipos. E não são apenas económicos. Por exemplo agora, com as festividades do final do ano, chegaram de fora cruzando a fronteira dezenas de comandos terroristas especializados em sabotagem eléctrica. Voam os transformadores voam, cortam cabos de alta tensão, dinamitam centrais eléctricas … Deixam bairros inteiros, por vezes cidades inteiras sem luz, sem energia para indústrias, os congeladores, os transportes, os hospitais … Colocam vidas em perigo … Amarguram as festas de milhares de famílias.

Outros comandos infiltram-se com orientação para causar cortes na distribuição de água. Destroem condutas, sabotam aquedutos, provocam cortes de água … Complicam a vida quotidiana de centenas de famílias. Outros terroristas sabotam os transportes públicos … Outros especializam-se em fazer desaparecer o papel-moeda que levam maciçamente para a Colômbia …

São actos criminosos que chamamos de “terroristas”. As nossas forças de segurança estão espalhadas por todo o país e estão a tornar-se cada dia mais eficazes … Já prenderam dezenas desses comandos mercenários. Mas continuam a chegar porque os recursos dos nossos inimigos são infinitos …

E devo dizer, com admiração, que o povo venezuelano enfrenta todas essas agressões com uma assombrosa consciência política. Muito determinado a resistir, com o apoio decidido de nossas forças de segurança, a ataques tão cobardes.

É por isso que digo que o povo da Venezuela está sendo vítima de uma feroz perseguição que comparei, atrevi-me, à perseguição de Hitler contra os judeus, com a autorização da comunidade judaica mundial. Perseguem-nos sem piedade. Cercam-nos. Assediam-nos a partir dos Estados Unidos com obsessão, com sadismo, e querem prejudica-nos economicamente para nos sufocar, nos estrangular, derrotar-nos.

Não o conseguiram. Nem o vão conseguir. E acredito que com este Programa de Recuperação Económica, Crescimento e Prosperidade haverá em 2019 grandes surpresas muito positivas, no que diz respeito ao aumento da produção, e da criação de riqueza diversa para o país e para a população. Decididamente, a nossa economia vai descolar graças ao controlo da inflação e dos elementos que têm vindo a perturbar a vida dos venezuelanos nos últimos anos.

IR – Segundo as nossas informações, a produção de petróleo da Venezuela é de cerca de 1.200.000 barris por dia, ou seja, abaixo da produção óptima. Qual é a situação real da petrolífera estatal PDVSA?

NM - Empreendemos um processo - e meu governo empenhou-se nisso - de defesa dos preços internacionais do petróleo. Mesmo que uma das formas de agressão multiforme contra as economias da Rússia, Irão e Venezuela - para mencionar alguns dos grandes exportadores - seja através da manipulação de formas perigosas de produção, o chamado fracking do petróleo de xisto, e a especulação financeira em contratos futuros, para baixar artificialmente os preços.

Procuramos e defendemos um preço de equilíbrio que favoreça produtores e consumidores. E continuaremos a agir dessa forma no âmbito do acordo dos países produtores membros da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] e não membros da OPEP.

Sobre sua pergunta específica, confesso: é verdade, a Venezuela está a produzir menos petróleo do que deveria, e essa tem sido uma das minhas maiores preocupações. Lamentavelmente, enquistaram-se no seio da PDVSA [Petróleos de Venezuela Sociedad Anónima] verdadeiras máfias. A maldita corrupção que, como um cancro, minou a nossa força impediu-nos de aumentar a produção de petróleo. Enfrentamo-los com ímpeto, com determinação.

Colocamos à disposição da justiça e estão a ser processados vários gerentes corruptos e altos funcionários que traíram a nossa confiança, a sua palavra de honra e a sua lealdade para se tornarem meros ladrões.

Estou seguro de que 2019 será o ano de recuperação na produção de petróleo, com a ajuda da PDVSA honesta e de empresas privadas que, através da formação de joint ventures e de contratos de prestação de serviços, já estão produzindo e acelerando esse esforço.

IR - O que responde aos media internacionais que fazem campanha contra o seu governo falando de “carência crônica” de alimentos básicos, de “penúria” de medicamentos essenciais, e que denunciam uma “crise humanitária”?

NM - Ficou demonstrada, por parte de pesquisadores sérios da informação, a realidade da brutal e infame campanha psicológica e mediática dos centros imperialistas contra a Venezuela e contra os venezuelanos. Querem quebrar a nossa moral e a nossa decisão inabalável de sermos independentes e livres.

De todas as notícias publicadas sobre a Venezuela nos EUA e nos media europeus, 98% são notícias negativas. 98%!!! Uma barbaridade. Eles não dizem - como já indiquei - que seis milhões de lares venezuelanos recebem, a cada três semanas em suas casas, quase de graça, os alimentos essenciais para a família … Silenciam que estamos a garantir a alimentação para o povo, como foi reconhecido por organizações multilaterais como a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura]. Não mencionam que, nestas semanas de véspera de festas, o nosso governo distribuiu cerca de 14 milhões de brinquedos a crianças de famílias humildes … Silenciam que entregamos - você foi ontem, em parte, testemunha disso - dois milhões e meio de habitações sociais … Em que outro país foi isso feito? …

Escondem que estamos a enfrentar uma duríssima guerra económica e um bloqueio promovido pelo império norte-americano e por alguns países europeus. Omitem indicar que quase toda a população da Venezuela tem acesso a cuidados médicos, gratuitos e de qualidade. Não há um recanto da Venezuela aonde não cheguem os cuidados dos nossos médicos da missão Barrio Adentro. Não dizem - como já assinalei - que toda a população tem acesso a educação gratuita e de qualidade desde a pré-escola até a universidade e a pós-graduação. Efectivamente, neste ano de 2018, na Venezuela aumentaram as matrículas em todos os níveis da educação … Não lhe parece estranho, Ramonet, que tenhamos conseguido aumentar as matrículas escolares no decurso desse suposto contexto “catastrófico” que tentam espalhar?

A resposta a essas patranhas já foi sugerida em 2015 pelo general John Kelly, [actual chefe de gabinete do presidente Donald Trump; Ex-Secretário de Segurança Nacional. Em 2015 era comandante do Comando Sul dos EUA] quando disse que Washington “interviria” na Venezuela no caso de uma “crise humanitária”.

Nós não negamos os problemas que existem em nosso país. Pelo contrário, enfrentamo-los, discutimos com o nosso povo e estamos determinados a resolvê-los. Se os Estados Unidos querem ajudar-nos, podem começar por não serem hipócritas. Poderiam liberar os recursos que Euroclear roubou, 1 400 milhões de euros … Poderiam permitir-nos o acesso ao crédito do sistema financeiro internacional a que todos os Estados do mundo têm acesso … E repare que a Venezuela é boa pagadora … Nos primeiros cinco anos do meu governo pagámos mais de 70 milhares de milhões de dólares … Pois bem, apesar da nossa condição de bons pagadores, é recusado à Venezuela o acesso ao crédito internacional, é perseguida e fecham-lhe contas bancárias de forma ilegal, abusiva, ilegítima, injusta.

IR - Ao longo de 2018, alguns meios de comunicação internacionais transmitiram imagens de venezuelanos “fugindo” do seu país por causa do suposto “colapso económico” e da “crise humanitária”. Falou-se de “milhões de emigrantes”. E vários países vizinhos receptores - incentivados pelos EUA, União Europeia e Canadá - estão a pedir apoio internacional para as supostas “despesas com cuidados” para estes migrantes. Que reflexão lhe merecem estes fenómenos?

NM - Esses fenômenos, como observa, foram construídas em parte com base em “notícias falsas”, “verdades alternativos” e outras desinformações fabricada com a cumplicidade activa de vários conglomerados de meios de comunicação.

Sobre uma base mínima de realidade - que ninguém nega, Ramonet -, alguns hábeis guionistas elaboraram um conto antichavista para multidões. É uma gigantesca operação de “falso positivo” coordenado pelos campeões do mundo em “falso positivo”, ou seja, o governo da Colômbia, acompanhado por alguns países satélites do imperialismo dos EUA.

É uma história muito triste. Dá muita pena- Por um lado, estes ilusionistas vigarizaram um grupo de venezuelanos, cujo número - aproveito para o denunciar - nunca atingiu, nem remotamente, os números que os grandes media repetem mil vezes. Nós, insisto, não negamos que um grupo de venezuelanos saiu do país comprando essa oferta enganosa de “melhores condições de vida e de trabalho”. Foi um grupo atípico, para dizê-lo de alguma forma, porque aqueles que partiam levavam dinheiro: uns dez mil dólares; outros vinte mil dólares, ou inclusivamente quantias ainda maiores … e dirigiram-se a Peru, Colômbia, Equador, Chile … e aí depararam-se com a brutal realidade do capitalismo selvagem, da xenofobia, do ódio racial … A muitos roubaram-lhes o dinheiro, outros maltrataram-nos, vexaram-nos e submeteram-nos a trabalho escravo …

Em paralelo, os propagandistas elaboraram o registo mentiroso da “migração maciça” e da “crise humanitária”. Afirmando coisas francamente absurdas, mentiras flagrantes … Chegaram por exemplo de repetir que no Equador entrava um milhão de venezuelanos a cada mês … Eu fiz um pequeno exercício de aritmética, Ramonet: Sabe quantos autocarros são necessários diariamente para transportar esse número de pessoas para o Equador? Oitocentas viagens por dia! Consegue imaginar oitocentos autocarros entrando diariamente em Quito …? Onde estão as fotos que mostram esse milhão de pessoas? Todo mundo viu os milhares de migrantes caminhando para os Estados Unidos vindos de Honduras. Todos vimos que era uma coluna enorme … E, no entanto, era apenas algo como oito ou nove mil pessoas … Pode imaginar uma coluna de cem mil migrantes? Uma fila de oitocentos autocarros - diariamente! - desmoronando as ruas de Quito?

É incrível que gente pensante tenha podido acreditar em mentiras deste calibre … Mas é esse precisamente o objectivo dos “falsos positivos” e das “notícias falsas,” semear a mentira para que esta se imponha sobre o raciocínio e a verdade.

Além disso, o governo da Colômbia e seu presidente, Iván Duque, numa manobra de insólito descaramento, estão a tentar obter dinheiro da operação … É incrível! Não é? Dinheiro que certamente se vai perder, será roubado … Ainda há quem, no Congresso dos EUA, queira saber o que fez o Governo da Colômbia com os 72 milhares de milhões de dólares que Washington deu para a “luta contra as drogas” … O que fizeram com esses milhares de milhões? Eu posso dizer-lhe de ciência certa: roubaram-no.

A Colômbia continua sendo o primeiro país produtor de cocaína no mundo e as plantações ilícitas não fizeram mais do que aumentar. É incrível que o presidente Duque esteja a procurar defraudar a comunidade internacional e o sistema multilateral com as patranhas que ele próprio inventou. Poderia, por exemplo, começar a preocupar-se com os seus próprios cidadãos, os colombianos, que a pouco mais de cem dias desde a sua tomada de posse já o repudiam amplamente.

Poderia ocupar-se, por exemplo, com os colombianos que vivem na Venezuela … Sabia que aqui, no nosso país, recebemos cerca de seis milhões de irmãos e irmãs da Colômbia? Constituem 12% da população da Colômbia, mas vivem na Venezuela! E aqui lhes demos segurança, trabalho, alimentação, educação, cuidados médicos gratuitos e, acima de tudo, paz, garantimos o seu direito a uma vida digna. Nunca nos ocorreu pedir fosse a quem fosse um centavo para atender aos milhões de irmãos colombianos, peruanos, equatorianos, chilenos, brasileiros, espanhóis, portugueses, italianos, libaneses que vieram para este país. Aqui os recebemos de braços abertos.

Enfim, que toda essa patranha da “migração em massa” já caiu … Eles soltaram a máscara … E ocorreu algo mais insólito … Não me lembro de que tenha acontecido em outro lugar: em meados de 2018, começaram a produzir grandes concentrações dos nossos compatriotas á porta das nossas embaixadas e consulados no Peru, Equador, Brasil, Colômbia, etc. Compatriotas clamando por regressar à Venezuela. Fartos de racismo, de xenofobia, das vigarices, da precarização, da vida ruim, do trabalho escravo …

Foi quando imaginamos o plano “Vuelta a la Patria” … Já vai em mais de vinte mil venezuelanos que regressaram. E continuaremos a facilitar o retorno de todos aqueles que desejem fazê-lo. Aqui os esperamos para continuarmos juntos a construir a nossa pátria bonita.

IR - Vários governos latino-americanos, de esquerda e direita, foram recentemente acusados de estarem envolvidos em importantes esquemas de corrupção ligados em particular, ao “caso Odebrecht”. Qual seria, na sua opinião, o nível de corrupção na Venezuela? Que medidas tomou o seu governo para combater essa corrupção?

NM - Escute bem o que lhe vou dizer, Ramonet: não há, na história da Venezuela, um processo e um governo que tenham combatido a corrupção, no seu carácter estrutural, com maior rigor do que a Revolução Bolivariana e os governos de Hugo Chávez e meus. Não ignoro que uma das frentes de ataque dos nossos adversários contra nós consiste em acusar-nos de frouxidão relativamente à corrupção. Isso é absolutamente falso.

Eu denuncio a corrupção em praticamente todos os meus discursos. Ouviu-me, não mais tarde do que ontem … Sou o primeiro a reconhecer que há muita corrupção, que há muitos bandidos por aí na administração pública, roubando, defraudando e aproveitando-se do povo. Denunciei-o de novo com a maior severidade recentemente, no dia 20 de Dezembro passado, no Congresso Bolivariano dos Povos, onde propus a criação de um Plano de luta contra a corrupção e o burocratismo. O que nunca havia sido feito na Venezuela.

Mas não são apenas palavras ou discursos, Ramonet. Empreendemos, com os instrumentos da justiça e do Estado, uma autêntica cruzada contra a corrupção e contra a indolência. E conseguimos que o Procurador-geral [o procurador-geral do Estado ou da Nação] tenha processado e preso dezenas e dezenas de altos funcionários e altos representantes de empresas privadas que desonraram o seu juramento de lealdade, honestidade e que violaram as leis de República. Para citar apenas o sector de petróleo, por exemplo, mais de quarenta gerentes seniores da PDVSA e da Cito [Citgo Petroleum Corporation] estão presos por actos de corrupção contra a República. E mesmo um ex-presidente da PDVSA se encontra em fuga da justiça por actos muito sérios de corrupção.

De modo que duvido que exista um governo no mundo que enfrente a corrupção com maior energia e zelo do que estamos a fazer. De facto, para o ano de 2019, defini três linhas básicas de acção da revolução e do meu governo no seu novo começo. A saber. Em primeiro lugar, a preservação da paz da República, com estrita adesão à carta constitucional, e salvaguardando a tranquilidade face a ameaças internas ou externas. Em segundo lugar, a consolidação do Programa de Recuperação Económica para conseguir finalmente derrotar a criminosa inflação induzida no primeiro semestre de 2019, e fortalecer o aparelho produtivo do nosso país.

E em terceiro lugar, precisamente: uma luta incansável contra a indolência, a negligência, a preguiça e, acima de tudo, a corrupção. Pedi todo o apoio ao povo nesta cruzada. E conto com seu encorajamento e sua colaboração para me acompanhar. Esta é uma causa eminentemente popular, profundamente apoiada pela, profundamente apoiada pela população. As pessoas sabem que a corrupção é seu inimigo, um inimigo na sombra e um inimigo da revolução. Vamos erradicá-la. Consegui-lo-emos. Será testemunha disso. Vamos derrotar a indolência dos funcionários que não cumprem. E vamos aprofundar a batalha contra a corrupção. Venha de onde vier. Caia quem cair.

IR - Vamos agora abordar, finalmente, algumas questões internacionais. Nos últimos seis anos, em vários países da América Latina, assistimos ao ressurgimento da direita neoliberal. Na sua opinião, este auge das forças conservadoras - confirmado pela recente vitória de Jair Bolsonaro no Brasil - é uma tendência duradoura ou é apenas uma crise passageira?

NM - Bem, a América Latina é um território disputado e, com base na Doutrina Monroe, retomada pelo actual governo dos EUA, tem havido nos últimos anos uma ofensiva brutal contra os movimentos populares, contra as lideranças alternativas que, a partir da década de 1990, confrontaram e desmantelaram o neoliberalismo na América Latina. Lembre-se, por exemplo, o presidente Lula da Silva do Brasil, a ex-presidente Cristina Fernández da Argentina, entre outros líderes. Houve uma perseguição contra esses líderes que promoveu o surgimento de governos e líderes muito à direita, ao extremo da direita.

Houve, é verdade, um ciclo regressivo de conquistas sociais, dos progressos que haviam sido obtidos com lideranças progressistas de grande diversidade. Nós sentimos isso não apenas no impacto dessas políticas sobre os povos, mas também nos processos de privatização. No Brasil, por exemplo, depois de terem derrubado Dilma Rousseff, o petróleo foi privatizado, foram privatizados os serviços públicos, a electricidade, a água etc.. Privatizaram tudo, de um dia para o outro. E agora, com a chegada ao poder - hoje mesmo, 1 de Janeiro - do governo de extrema-direita neofascista de Jair Bolsonaro, bem, praticamente entregam em bandeja de prata o que o Brasil significa na América do Sul, América Latina, as multinacionais norte-americanas. É realmente um triste processo de regressão.

IR - Nessa mesma perspectiva, gostaria de lhe perguntar, após da recente chegada à presidência do México de Andrés Manuel López Obrador, observa-se que existe também que há a possibilidade de um retorno ao poder das forças populares na América Latina.

NM - De facto, na perspectiva do que estava a dizer-lhe, devo acrescentar que todo processo de regressão impulsiona e estimula - sem o querer - as forças internas que o combatem. De acordo com o princípio físico da acção versus reacção. Por conseguinte, constatamos que, ao lado dessa grande regressão actual, está a reforçar-se em vários países hoje governados por equipas neoliberais a capacidade de ação dos movimentos populares e sociais nos bairros, no campo e nas cidades. Movimentos urbanos dos sem-tecto, movimentos camponeses dos sem-terra, movimentos estudantis, de estudantes universitários, de feministas, de afrodescendentes, da diversidade sexual, etc.

Há um poderoso ressurgimento que, para mim, lembra o renascimento dos formidáveis movimentos populares que enfrentaram ALCA [Área de Livre Comércio das Américas] nos anos 90. Aqueles movimentos de resistência não tinham então grande perspectiva de alcançar o poder político. Mas surgiu na Venezuela a Revolução Bolivariana. E então, essa vitória do comandante Hugo Chávez convenceu os movimentos de resistência contra a ALCA de que era possível a conquista do poder político. Fora-o na Venezuela em 1998, e depois no referendo constituinte do ano de 1999.

Essas duas vitórias deram um incentivo especial às lutas sociais na América Latina. E abriram o caminho para mais tarde triunfarem eleitoralmente os governos populares de Lula no Brasil, de Nestor Kirchner na Argentina, de Fernando Lugo no Paraguai, da Frente Ampla no Uruguai, de Rafael Correa no Equador, de Evo Morales, na Bolívia, da Frente Sandinista e do comandante Daniel Ortega na Nicarágua, de Michelle Bachelet e da Coligação de partidos para a democracia no Chile, de Manuel Zelaya em Honduras, de Salvador Sanchez Ceren e da FMLN [Frente de Libertação Nacional Farabundo Marti] em El Salvador …

Todo esse, digamos, brilho das forças populares permitiu à América Latina e ao Caribe desempenharem, no início deste século XXI, um papel preponderante no cenário geopolítico da esquerda mundial. Hoje, paradoxalmente, a situação é semelhante. Houve alguns retrocessos devido, por vezes, a ataques inclementes e a golpes de Estado dos adversários do progresso e da justiça social. Mas as forças populares, em todo o nosso continente, estão novamente em ordem de batalha. E os novos êxitos eleitorais, democráticos, não vão demorar.

IR – Fez recentemente duas visitas importantes a dois parceiros fundamentais da Venezuela. Uma a Pequim em Setembro; e outra a Moscovo em Dezembro. Que conclusões retira dessas viagens à China e à Rússia, duas das principais superpotências mundiais e dois aliados firmes da Revolução Bolivariana?

NM - Bem, desde o início de nossa Revolução, Comandante Hugo Chávez fez um esforço especial na construção de relações de respeito e amizade com todos os povos do mundo e em moldar daquilo a que chamou “anéis aliança estratégica” para um planeta diferente daquele que os polos imperiais nos impunham. Então, com sua prodigiosa criatividade política, e em estreita cumplicidade com Fidel Castro, Chávez foi favorecendo a fundação da ALBA [Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América], da UNASUR [União das Nações Sul-Americanas], do Petrocaribe, da Telesur, da CELAC [Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe] … para concretizar um amplo esforço de integração latino-americana.

A relação de Caracas com a China e a Rússia, dois gigantes económicos e militares, também foi diretamente nutrida por Chávez e pelos líderes dessas potências até a situação actual.

Devo dizer que, com Pequim e Moscovo temos, mais do que uma parceria, uma relação de verdadeira fraternidade entre os nossos governos e os nossos povos. O mesmo se aplica a outros estados nos mundos árabe, muçulmano, iraniano, africano e do extremo oriente.

Eu fui chanceler de Chávez por mais de seis anos e sou testemunha directa dos seus esforços para construir um “mundo multipolar e pluricêntrico”. No momento presente, de agressão brutal do império norte-americano e seus satélites contra nós, vemos os frutos de relações que Chávez soube tecer e desenvolver.

Deixe-me lembrá-lo que, neste momento, a Venezuela preside o MNOAL [Movimento dos Países Não-Alinhados], que é o agrupamento de Estados mais importante do mundo depois das Nações Unidas. Por outro lado, quando esta entrevista for publicada, isto é, em 1º de Janeiro de 2019, estaremos assumindo a presidência da OPEP em Viena. Não é brincadeira. E nas minhas recentes visitas à Rússia e à China, que citou, levamos ao mais alto nível possível as nossas relações económicas, comerciais, políticas, militares e culturais com duas das principais superpotências do mundo.

Com a Turquia unem-nos também verdadeiros laços de amizade, entre o governo do presidente Erdogan e o meu, e mesmo – confesso-o - existe uma verdadeira amizade pessoal entre mim e o líder turco. Nunca antes a Venezuela tivera um intercâmbio económica e comercial tão importante, tão diversa e tão favorável com uma grande potência histórica como a Turquia.

Hoje a Venezuela não está sozinha. Pelo contrário, a cada dia nossos agressores estão mais isolados. Enquanto as nossas relações com o mundo inteiro são mais diversificadas e mais vigorosas.

IR - Esta entrevista será publicada em 1 de Janeiro de 2019, o dia em que se celebra o 60º aniversário do triunfo da Revolução Cubana. Que importância pensa que a revolução teve e tem na América Latina?

NM - A Revolução Cubana marcou profundamente a segunda metade do século XX. Significou e significa uma referência fundamental para todos os povos que lutam pela liberdade, a dignidade, a soberania, a justiça e o socialismo. Várias gerações de revolucionários – a minha sem dúvida - a juventude das décadas de 1960, 1970 e 1980 viu nas façanhas de Fidel, de Raul, de Camilo e do Che um farol que iluminou esperança no meio da longa noite neocolonial em que nosso continente americano foi afundado por mais de um século.

Esse pequeno país que se colocou perante o império mais brutal que a história da humanidade conheceu, resistiu e continua a resistir contra as agressões de seu vizinho do norte e seus lacaios. Um país que transformou em realidade os sonhos de redenção, de igualdade, de solidariedade, da construção heroica do socialismo. Que levou tantos jovens à luta nas ruas com a esperança recuperada.

Uma revolução que defendeu e encorajou a unidade latino-americana, esse grande sonho de Simón Bolívar e José Martí. Sonho de unidade - sem nunca esquecer Porto Rico, ou as Malvinas - que as oligarquias genuflexas do continente tanto temem. Um país que tem sido um exemplo de solidariedade internacional. Quantas vidas salvaram em todo o mundo os médicos cubanos?

Eu celebro este 60º aniversário da Revolução Cubana. E agradeço à vida por tantas madrugadas que passei conversando com Fidel, ouvindo seu verbo cheio de sabedoria, reflexão, de busca da ideia que lhe permitisse agir. Sempre para fazer o bem. Agradeço a Hugo Chávez porque, juntamente com Fidel e Raúl, construíram um novo começo de dignidade para todo o nosso continente.

IR - No passado dia 4 de Dezembro cumpriram-se vinte anos da primeira vitória eleitoral do Comandante Hugo Chávez. E, para concluir, gostaria de lhe perguntar o seguinte: se hoje tivesse a oportunidade de conversar com Chávez sobre sua própria experiência de quase seis anos de governo, o que você diria?

NM - São tantas as vezes, no meio da batalha, na reflexão ao amanhecer, depois da árdua jornada, que me fiz essa pergunta: “O que teria feito Chávez? » «Como teria ele abordado este ou aquele problema?»… São tantas as conversas íntimas, tantas as memórias … Felizmente, e estou certo disto, Chávez estabeleceu connosco, com a sua equipa próxima, um trabalho pedagógico permanente, um processo de formação sobre as imensas dificuldades existentes na construção de um processo revolucionário: seus desafios, seus obstáculos, seus imprevistos … Os ataques, as ameaças, as traições … Isso educou-nos, formou-nos, forjou-nos..

Chávez previu muitos dos acontecimentos que vivemos actualmente. Colocou-nos em guarda. As últimas preocupações que nos transmitiu giravam em torno do que ele imaginou que seria a “guerra económica” - essa expressão é sua - que o inimigo empreenderia contra nós. Uma agressão de novo tipo, com múltiplas frentes, contra o nosso povo. Estava profundamente preocupado com que a produção de petróleo estivesse em declínio …

Assim, a imensa solidão que nos deixou por sua passagem para outro plano é de alguma forma compensada por tantos conselhos que nos deu. E que nunca esquecemos. Tantos exemplos de firmeza e lealdade aos ideais bolivarianos. Essa “bela revolução” com a qual ele sonhava, com democracia e liberdade, para que o analfabetismo desaparecesse, as artes e a cultura se multiplicassem, houvesse plena saúde, pleno emprego, paz, alegria, progresso, prosperidade e amor. Quando penso com quanta crueldade eles o atacaram por ter esse belo sonho … Como hoje me atacam, com ainda maior fúria, se possível, por querer o mesmo, querendo fazer o bem e semear a felicidade …

É por isso que quase diariamente convoco Chávez. Preciso disso, exijo-o, reclamo-o e, como nesse verso do poeta Miguel Hernández, digo: “Temos que falar sobre muitas coisas, companheiro da alma, companheiro”.

Ignacio Ramonet

(Entrevista realizada em Caracas, no Palácio de Miraflores, em 27 de Dezembro de 2018. As respostas foram relidas e emendadas pelo entrevistado.)

Fonte: http://www.cubadebate.cu/especiales/2019/01/05/nicolas-maduro-que-se-nos-respete-en-tanto-y-cuanto-somos-soberanos-e-independientes/#. XDCplJx4RhE[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

Leia original aqui

Nicarágua denuncia acção «ilegal» de Luis Almagro

Numa carta enviada aos seus homólogos da América Latina e das Caraíbas, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Nicarágua denunciou como «ilegal» a aplicação ao seu país da Carta Democrática da OEA.

A violência golpista na Nicarágua, entre meados de Abril e finais de Julho, provocou mais de 200 vítimas mortaisCréditos / noticiasvenezuela.org

Na missiva enviada esta terça-feira, Denis Moncada lembra que, no passado dia 28 de Dezembro, Luis Almagro, secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), convocou com carácter de urgência o Conselho Permanente do organismo regional, «com o fim ilegal e ilegítimo de promover a aplicação do artigo 20.º da Carta Democrática Interamericana à Nicaragua».

Na convocatória, Almagro argumentou que ocorreu «uma alteração da ordem constitucional» no país centro-americano. O procedimento é idêntico ao que Almagro utilizou de forma sucessiva, em 2016 e 2017, contra a Venezuela, para gáudio da oposição interne e externa ao governo bolivariano, e procurando isolar mais o país.

No texto, Moncada defende que a decisão de Almagro é «improcedente, ilegal, carece de fundamento jurídico, ao mesmo tempo que viola o documento que invoca e a própia Carta da OEA».

Instando os estados-membros da OEA a não apoiarem as acções do seu secretário-geral contra o país centro-americano, o diplomata nicaraguense afirmou que a Carta Democrática foi concebida como «um meio para reinstaurar governos democraticamente eleitos» e como «um mecanismo contra os golpes de Estado».

A este propósito, o documento sublinha que, «na Nicarágua, o governo legítimo democraticamente eleito é o governo de Reconciliação e Unidade Nacional, presidido por Daniel Ortega».

Durante as acções de desestabilização e violência ocorridas este ano na Nicarágua, a OEA tinha a obrigação de, nos termos da Carta Democrática, apoiar a ordem constitucional e democrática vigente no país, mas, denuncia o texto, «Luis Almagro optou por apoiar as forças terroristas, incentivando a ruptura constitucional».

Sublinhando que as acções do secretário-geral da OEA são contrárias à Carta da própia organização e ao direito internacional, o ministro dos Negócios Estrangeiros nicaraguense afirma ainda que Almagro não tem legitimidade, nas actuais circunstâncias, para convocar com carácter de urgência o Conselho Permanente.

Venezuela e Bolívia repudiam acções de Almagro

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Bolivariana da Venezuela já manifestou o seu apoio ao governo nicaraguense e denunciou a intenção de Luis Almagro de iniciar a «aplicação tendenciosa» da Carta Democrática Interamericana ao país centro-americano.

Para a diplomacia venezuelana, evidencia-se novamente «o servilismo do titular da OEA aos interesses da política externa norte-americana, bem como a obsessiva instrumentalização do organismo regional contra legítimos governos populares», lê-se na nota, citada pela Prensa Latina.

Também o presidente da Bolívia, Evo Morales, denunciou, na sua conta de Twitter, as «intenções ingerencistas do império e dos seus aliados contra o governo nicaraguense de Daniel Ortega», tendo acrescentado que «não se pode ir contra a autodeterminação dos povos».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/nicaragua-denuncia-accao-ilegal-de-luis-almagro

Evo Morales apoia Nicarágua na luta contra o 'imperialismo'

Presidente boliviano, Evo Morales
© REUTERS / Enzo De Luca/Courtesy of Bolivian Presidency

O presidente da Bolívia, Evo Morales, parabenizou seu o colega da Nicarágua, Daniel Ortega, no Twitter, pelo seu aniversário.

Evo Morales fez questão de deixar claro que o seu país apoia a luta "contra o imperialismo" e se posiciona contra as tentativas de desestabilizar o país centro-americano.


Morales disse a Ortega que ele não está sozinho e que as elites atentam contra a "Revolução Sandinista" da Nicarágua.

Ortega, que nasceu em 11 de novembro de 1945 em La Libertad, governa o país que, durante os últimos meses, lida com as conseqüências de um golpe fracassado, realizado em 18 de abril, e que deixou, segundo o governo, 195 mortos, centenas de feridos, e comprometeu as instituições públicas. A oposição, que segundo o governo de Ortega foi a autora do golpe, acusa o presidente de fomentar os protestos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2018111112650582-evo-morales-nicaragua-ortega-imperialismo/

Registadas 269 mortes durante a onda de violência golpista na Nicarágua

Num relatório divulgado esta quarta-feira, a Comissão da Verdade informa que a maioria das vítimas morreu na sequência de acções criminosas realizadas nos cortes de estradas.

A comissão mista, integrada por três elementos do governo e três da oposição, fez um apelo ao fim imediato da violência na NicaráguaCréditos / noticiasvenezuela.org

A Comissão da Verdade, Justiça e Paz foi nomeada pela Assembleia Nacional da Nicarágua a 6 de Maio último, tendo como propósito esclarecer os factos ocorridos durante a onda de violência golpista, iniciada a 18 de Abril. Na quarta-feira, apresentou ao parlamento um relatório com dados preliminares, no qual se precisa as circunstâncias em que as mortes se deram e quais os danos causados entre Abril e Julho.

O documento indica que 269 pessoas faleceram durante a violência registada no período referido, em acções que tiveram como objectivo derrubar o governo de Daniel Ortega. Dessas, pelo menos 150 perderam a vida nos cortes de estrada impostos no país e 27 por fogo cruzado, refere a TeleSur.

Esses bloqueios «tornaram-se cenários de morte em León, Jinotepe, Masaya […]. Neles violaram-se os direitos à livre circulação para o trabalho, a recreação, a cultura, a educação; foram sinónimo de morte, tortura, vexame e ódio», lê-se no documento, citado pela Prensa Latina.

O texto desmente ainda o alegado massacre de estudantes cometido no país por forças leais a Ortega. Na sua maioria, as vítimas eram «operários» e «trabalhadores por conta própria» (62 e 62, respectivamente), desempregados (46), agricultores (16), comerciantes (11), jovens que não estavam a estudar (9), sendo que apenas oito eram estudantes universitários e seis estudantes do ensino secundário.

«Os casos de tortura e assassinato (13) foram [perpetrados] com raiva e ódio», informou também a Comissão, esclarecendo que nenhum dos visados participava em protestos: eram «funcionários do Estado, de todos os níveis, ou pessoas ligadas politicamente à Frente Sandinista de Libertação Nacional [FSLN]».

Quanto a feridos, o relatório registou 2035 casos (na faixa etária dos 16 aos 25 anos), sendo que o último caso relacionado com a onda de violência ocorreu a 28 de Agosto, segundo se regista no documento.

A Comissão destaca a boa resposta do sistema de saúde pública, que funcionou sem quaisquer restrições durante a «crise» sociopolítica, uma vez que tanto o Ministério da Saúde como a Cruz Vermelha deram ordens expressas para acolher qualquer pessoa que se dirigisse aos seus centros de atendimento – circunstâncias que, revela a TeleSur, foram verificadas por centenas de pessoas.

«Durante este período, manteve-se uma guerra psicológica com a intenção de derrubar o governo constitucional eleito. A ausência de forças de segurança pública, por exigência da oposição, fez aumentar a delinquência», frisa o texto.

«A paz deve regressar paulatinamente e o Estado deve garantir a oportuna justiça reparadora para as vítimas do conflito», defende a Comissão, apelando à oposição para que promova um clima de justiça social e paz.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Socorro Gomes: Em apoio ao povo nicaraguense na defesa do diálogo soberano pela paz!

Reforçando a solidariedade ao povo e ao governo legitimamente eleito da Nicarágua na defesa da soberania nacional e da democracia, as forças da paz na América Latina e no mundo acompanham com preocupação o desenrolar da crise no país centro-americano. Deve ficar evidente que a ingerência estrangeira na Nicarágua tem agravado a situação e deve ser repudiada!

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O Conselho Mundial da Paz e outras forças populares têm denunciado a onda de golpes ou intentonas em toda a América Latina e Caribe promovidas em conluio entre as oligarquias nacionais e regionais e seus patrões, os Estados Unidos. O caso da Nicarágua, em que o povo e a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) têm um legado histórico de valente resistência contra as agressões dos EUA, é um deles.

Por isso, manifestamos nosso apoio ao povo nicaraguense e ao governo da Frente Sandinista, liderado por um presidente legitimamente eleito, Daniel Ortega, na resistência às intentonas de golpe e na demanda por diálogo para superar, soberanamente, a crise instaurada no país.

É tática conhecida a instrumentalização de justas demandas dos povos por direitos e pelo aprofundamento da democracia, ou em tempos de crise econômica nascidas no contexto de crise global ou artificialmente fomentadas, para causar a desestabilização. Uma guerra midiática tem estimulado o ambiente de virulência e antagonismo no país, contra o governo sandinista.

São criados violentos grupos paramilitares ou movimentos de histórico obscuro e, quando desvendados, de comprovada ligação com agências, deputados e institutos estadunidenses conhecidos por estimular forças desestabilizadoras para causar as “mudanças de regime”, como componentes dos golpes de estado ou das crises que provocam guinadas conservadoras e neoliberais em diversos países.

Além disso, a Frente Sandinista tem sido alvo de atos de terror articulados por setores da oligarquia local, patrocinada pelos Estados Unidos. Na disseminação do ódio, as forças reacionárias e seus grupos paramilitares atuam com brutalidade e já assassinaram mais de cem pessoas, a maioria delas identificadas com a Frente. Tais atos horrendos devem ser repudiados nos mais firmes termos!

Conforme denunciamos recentemente, o objetivo de tal ignomínia é precipitar a derrubada do governo Ortega para possibilitar a instalação de um governo fantoche do imperialismo estadunidense, contando com a demonização do sandinismo, movimento patriótico de papel vivo na resistência anti-imperialista, para fomentar o antagonismo e a violência no país.

Exigimos, por isso, o fim da ingerência estrangeira na crise da Nicarágua, para que um diálogo nacional democrático e soberano possa avançar. Já vimos os efeitos que uma crise prolongada e artificialmente sustentada pela intromissão imperialista e pelo antagonismo servil e virulento das forças reacionárias e das oligarquias pode ter em demasiadas situações, embora tais efeitos e suas vítimas sejam calculados como meros danos colaterais na conta geral para a promoção dos interesses das potências.

Pela soberania popular e nacional da Nicarágua e o fim da ingerência imperialista!
Em solidariedade ao povo nicaraguense e ao seu governo legitimamente eleito!

Socorro Gomes
Presidenta do Conselho Mundial da Paz

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

Nicarágua: face à “contra colorida” e seus disfarces, o nosso lugar é o anti-imperialismo consequente

A situação na Nicarágua exige uma firme solidariedade anti-imperialista. Solidariedade antes de mais com o povo que resiste à tentativa de golpe desencadeada pela reacção interna e pelo imperialismo. Já aqui publicámos textos que manifestam essa solidariedade, mas que exprimem também reservas à acção do governo de Ortega. Os seus autores são lutadores de sólidos princípios, que não podem por essa posição ser misturados com o outro lado da barricada.

A Red Roja ratifica o seu firme apoio ao governo nicaraguense face à violência criminosa desta nova “contra” que, com inigualável desvergonha, nos é apresentada como “progressista” por parte dos media.

Fazemo-lo, além disso, num contexto em que determinada esquerda ocidental, uma vez mais, decidiu alinhar com os cantos de sereia da manobra imperial. Como exemplo, chegam agora da Nicarágua vozes de indignação ante o posicionamento assumido no conhecido programa Fort Apache contra o governo e a favor dos “rebeldes”.

A gravidade deste posicionamento é ainda maior se consideramos que a estratégia destes “golpes brandos” promovidos pelos EUA, seus aliados oligárquicos locais, os meios de comunicação e inclusivamente pela equipa das “ONG” se repete já em numerosos países (Líbia, Síria, Ucrânia, Venezuela e agora Nicarágua). Em todos os casos, estes sectores da esquerda de que falamos tomaram posições que poderíamos qualificar de absurdas, se não fossem algo pior: traição e pura claudicação.

Contudo, o mais perigoso é que, como a Red Roja vem afirmando desde que estabeleceu o seu critério anti-imperialista (1), estes claudicantes partem de “grãos de verdade”… para acabar defendendo a pior das mentiras, a atitude mais reaccionária possível no plano da confrontação mundial em curso. A nossa organização não se cansará de repetir que o imperialismo dos países centrais é o principal limite para a liberdade dos povos e inclusivamente para um desenvolvimento mais profundo dos seus processos sociais, pelo que nenhuma crítica ou “exigência” pode entrar em contradição com a nossa tarefa principal. No que nos toca, a nossa responsabilidade é debilitar a retaguarda imperialista, aqui, no coração da besta.

*

O presidente Ortega ganhou as eleições acedendo a um terceiro mandato em 2016, com 72,4 por cento dos votos e uma altíssima participação de 66%. O seu governo pertence à Aliança Bolivariana das Américas e tem apoiado Cuba e Venezuela.

Um dado de crucial relevância geoestratégica é que Ortega estabeleceu acordos com a China para um importantíssimo projecto de canal interoceânico, tal como com a Rússia en matéria de segurança; razões pelas quais os Estados Unidos necessitam de derrubar o seu governo e instalar um mais dócil em seu lugar.

A patronal nicaraguense convocou os protestos depois de Ortega ter aumentado 3,5% as contribuições patronais para os fundos de pensões. As contribuições dos trabalhadores apenas foram aumentadas 0,75%! Além disso, o governo lançava esta proposta para desobedecer às recomendações do FMI, que exigia elevar drasticamente a idade da reforma. O governo sandinista sentia-se com força para rejeitar as reivindicações de austeridade do lobby empresarial e do FMI; podiam aprender com isso alguns governos tão gabados pela progressía espanhola, como os da Grécia e Portugal, máxime quando ninguém ignora que a Nicarágua não só não está na primeira divisão dos países desenvolvidos como tem sido histórica e secularmente vítima deles.

*

O imperialismo é inteligente e procura aplacar a rebeldia ante os seus desmandos. Desde há anos, o governo dos EUA compreendeu que os partidos da oposição nicaraguense estavam desacreditados e que faria melhor financiando sectores da “sociedade civil” e as ONG. As doações a este tipo de oposição superam desde 2014 os 5 milhões de dólares.

Entretanto, uma análise minimamente seria dos actores que secundam e hegemonizam politicamente os protestos na Nicarágua deixa as coisas bem claras a quem tenha a honestidade de as aceitar. Desde Piero Cohen, o homem mais rico da Nicarágua, que incitou os estudantes, até à Igreja Católica. Passando pela família Chamorro (de apelido tristemente célebre no país e representante da oligarquia terratenente tradicional) e pelos filhos da burguesia do chamado Movimento de Renovação do Sandinismo, cada vez mais próximo do Partido Republicano ianque.

Ou a líder feminista Azalea Solís, directamente financiada pelo governo dos EUA. Ou o líder camponês Medardo Mairena, também dependente do financiamento do Pentágono. Ou Félix Maradiaga, integrante do Fórum Económico Mundial e beneficiário da chamada Bolsa Gus Hart, instrumento norte-americano para financiar lacaios do calibre de Yoani Sánchez ou Henrique Capriles.
*
Os jornalistas de investigação norte-americanos Kevin Zeese e Nils McCune documentaram ampla e rigorosamente, na web Popular Resistance, qual foi o guião da violência na Nicarágua. Foi, na realidade inspirado pelas guarimbas venezuelanas de 2014 e 2017 contra o presidente Nicolás Maduro e contra a Revolução Bolivariana.

Os meios de comunicação ocidentais esforçam-se por apresentar a situação como “repressão desproporcionada” contra uma oposição “pacífica” e “democrática”. Outro insulto mais à sua profissão. Apesar de tanto vídeo vitimista publicado na Internet, a realidade é que foram organizados ataques armados contra edifícios governamentais, 60 dos quais foram queimados. Também foram atacadas escolas, hospitais e inclusivamente ambulâncias. Morreram 15 estudantes e 16 polícias. 200 sandinistas foram sequestrados e muitos deles foram atroz e publicamente torturados. ¡Os meios de comunicação não pararam de desinformar, vendendo tudo isto como repressão governamental! ¡Quando os sandinistas, os polícias ou os transeuntes são assassinados, fala-se falsamente de repressão estatal!

O roubo de automóveis, os incêndios e os assassínios para criar caos e pânico têm sido uma constante desde há meses. A Falsimedia não explicará a realidade da oposição: mercenários pagos, com um largo historial delinquente. Equipados com cocktails molotov. Com lançadores de granadas de morteiro, pistolas e espingardas. Narcotraficantes, em muitos casos.

Entretanto, quando veteranos da guerrilha sandinista lideram a autodefesa dos bairros e se criam barricadas contra os ataques da oposição, ¡os media ocidentais etiquetam-nos falsamente como forças paramilitares! Além disso, fala-se-nos como se todos os estudantes nicaraguenses estivessem contra o governo, quando a Unión Nacional de Estudiantes Nicaragüenses defendeu Ortega, o que a converteu em um dos mais ensanguentados alvos da violência opositora.

¿Acaso vamos esperar um par de décadas para que os media imperiais nos dêem autorização para denunciar a montagem imperialista? Seria un exercício inútil muito típico nas nossas “democracias retardadas”.

*

Nesta situação a Red Roja, ao lado dos governos de Venezuela e Bolívia, do Fórum de São Paulo reunidos nestes dias em Havana, e de forças anti-imperialistas de todo o mundo, manifesta a sua repulsa face a este “golpe brando” e o seu apoio ao governo nicaraguense. Todos estes actores merecem-nos muito mais respeito que determinadas “ONG, ecologistas e feministas”.

Acusar-nos-ão de seguidismo aqueles que praticam o seguidismo do império criminoso e das piores falacias de uma suposta “sociedade civil” com notas de dólar nos bolsos. Não importa. Sabemos que o nosso papel não é fazer “exigências” ao país agredido ou olhá-lo à lupa para destacar os seus defeitos. Evidentemente que saberemos salvaguardar as nossas necessárias críticas às linhas que os processos revolucionários e progressistas sigam da sua utilização criminosa por parte do ogre imperial; esse em que estamos imersos e com o qual nos negamos a ter a mínima cumplicidade. É que, no plano estrito da solidariedade anti-imperialista, o nosso papel (a nossa responsabilidade) é debilitar a ofensiva em curso e denunciar os objectivos evidentes que se escondem por detrás de tanta “revolução colorida”.

Os mesmos que, com a oposição venezuelana, ou com os assassínios de sindicalistas na Colômbia, ou com a perseguição judicial contra Rafael Correa no Equador, ou com as acusações de corrupção que na Argentina e Brasil atingem já inclusivamente a esquerda moderada. Porque os acontecimentos na Nicarágua devem se inseridos de contexto de uma vaga reaccionária que percorre a América Latina e que é promovida pelo imperialismo e seus meios de comunicação.

Fique pois para outros a simpatia de uns media que, desde logo, na luta entre povos e impérios não estão de modo nenhum “no meio”. Fique para outros uma falsa neutralidade que apenas beneficia o bando mais poderoso: esse que financia e promove a partir de Washington ou Berlim uma sedição feita à sua medida. Nem por acção nem por omissão: nós não seremos cúmplices.

Notas:
1- http://www.redroja.net/index.php/comunicados/758-desinoculandonos-la-paralisis-antiimperialista

Leia original aqui

 

Milhares manifestaram-se em Caracas em apoio a Maduro

Um mar de gente solidaridou-se, esta segunda-feira, com o presidente Nicolás Maduro, que foi alvo de um atentado no passado dia 4. As autoridades venezuelanas dirigem fortes acusações à Colômbia.

Um mar de gente mobilizou-se esta segunda-feira em Caracas para expressar apoio a Nicolás Maduro, depois de este ter sido alvo de um atentado no sábado passadoCréditos / Alba Ciudad

Milhares de pessoas responderam afirmativamente à convocatória do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), marchando pelas ruas de Caracas, «em defesa do presidente Nicolás Maduro», até chegar ao Palácio de Miraflores (sede da Presidência).

No sábado passado, durante a sessão comemorativa dos 81 anos da fundação da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), dois drones de modelo DJI M600, carregados com explosivos C4, apareceram muito perto do estrado onde o chefe de Estado venezuelano discursava.

De acordo com uma nota do Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros, os elementos da segurança presidencial conseguiram bloquear o sinal de um dos aparelhos, «fazendo com que explodisse longe do alvo programado», e conseguiram desviar o outro, fazendo com que perdesse o controlo e explodisse ao embater num edifício localizado nas imediações do evento.

Presentes na manifestação solidária, tanto Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, como Jorge Arreaza, ministro dos Negócios Estrangeiros, ligaram o atentado ao imperialismo norte-americano.

«Derrotámos os golpes, as sabotagens, as guarimbas. Derrotámos o terrorismo nas ruas com democracia e eleições; derrotámos a oligarquia uma e outra vez, e continuaremos a derrotá-la enquanto o povo cerrar fileiras com a Revolução Bolivariana e o presidente Nicolás Maduro», declarou o chefe da diplomacia venezuelana, citado pela HispanTV.

Identificados os autores materiais do atentado

Numa conferência de imprensa dada em Caracas esta segunda-feira, o procurador-geral da República, Tarek William Saab, afirmou que as investigações preliminares conduzidas pelo Ministério Público, em colaboração com outros órgãos, permitiram identificar «os autores materiais e colaboradores imediatos» da tentativa de assassinato do presidente da Venezuela, que provocou sete feridos.

As investigações permitiram determinar o local onde os indivíduos estavam alojados antes de perpetrar o atentado e «as primeiras ligações internacionais dos envolvidos», disse Saab, acrescentando que, nos momentos a seguir à tentativa de assassinato de Maduro, foi possível identificar o local a partir do qual eram dirigidos os drones com explosivos, «tendo sido presas em flagrante delito duas pessoas» que comandavam um dos aparelhos, informa a AVN.

Tarek Saab sublinhou que o atentado contra a Nicolás Maduro, longe de constituir um caso isolado, faz parte das acções violentas levadas a cabo pela direita e os seus aliados internacionais desde que Hugo Chávez chegou à presidência do país, em 1999.

Extrema-direita apoiada pela Colômbia e Miami

Na nota dirigida à imprensa pelo Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros, sublinha-se a participação nos factos de «grupos da extrema-direita», com o apoio económico e político «de poderesos factores que operam a partir da Colômbia e com ramificações em Miami» (EUA).

O Ministério lembra que a Colômbia é uma base de operações de «máfias do narcotráfico» e «do contrabando» que agridem a Venezuela, e que o país andino «aloja grupos de foragidos à Justiça venezuelana, que são protegidos, financiados e legitimados pelo governo do senhor Santos».

O executivo de Caracas lembra ainda as declarações recentes de Santos – que hoje é substituído no cargo por Iván Duque – de acordo com as quais dizia «ver próxima a queda de Maduro»: «Estamos nas horas finais de Maduro», acusa a nota.

Ontem, o presidente Nicolás Maduro disse que o envolvimento da Colômbia no atentado é clara, que «existem provas suficientes» disso e que os terroristas que participaram na tentativa de assassinato contra si treinaram no departamento colombiano de Norte de Santander, com pessoal colombiano.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Nicarágua | A menina do bote

Atilio A. Boron[*]
A dolorosaconjuntura actual da Nicarágua tem precipitado uma verdadeira enxurrada de críticas. A direita imperial e seus epígonos na América Latina e no Caribe redobraram sua ofensiva com o único e exclusivo objectivo de criar um clima de opinião que permita derrubar, sem protestos internacionais, o governo de Daniel Ortega, eleito há menos de dois anos (em Novembro de 2016) com 72% dos votos. Isto era previsível; o que não o era foi que em tal arremetida participassem, com notável entusiasmo, alguns políticos e intelectuais progressistas e de esquerda que uniram suas vozes às dos insolentes do império. Um notável revolucionário chileno, Manuel Cabieses Donoso, que me honra com sua amizade, escreveu em sua crítica incendiária ao governo sandinista que "a reacção internacional, o 'sicário' geral da OEA, os media de desinformação, o empresariado e a Igreja Católica se apropriaram da crise social e política despoletada pelos erros do governo. Os reaccionários navegam na onda do protesto popular". A descrição de Cabieses Donoso é correcta; no entanto, dela se tiram conclusões equivocadas. É correcta porque o governo de Daniel Ortega cometeu o gravíssimo erro de selar acordos "tácticos" com inimigos históricos da FSLN e, mais recentemente, tratar de impor uma reforma do sistema de pensões sem qualquer consulta às bases sandinistas, ou actuar com despreocupação incompreensível ante a crise ecológica na Reserva Biológica Indio-Maíz [1] . É correcta também quando diz que a direita local e seus amos estrangeiros se apropriaram da crise social e política, um dado de transcendental importância que não pode ser relativizado ou subestimado. Mas sua conclusão é radicalmente incorrecta, tal como as de Boaventura de Sousa Santos, do saudoso e enorme poeta Ernesto Cardenal e de Carlos Mejía Godoy, em coro com toda uma pletora de lutadores sociais que em suas numerosas denúncias e escritos exigem – alguns abertamente, outros de modo mais subtil – a destituição do presidente nicaraguense, sem sequer esboçar uma reflexão ou arriscar uma conjectura acerca do que viria a seguir. Sendo conhecidos os banhos de sangue que assolaram Honduras após da destituição de "Mel" Zelaya; os que ocorreram no Paraguai logo após do derrubamento "a jacto" de Fernando Lugo em 2012, e antes, o que sucedeu no Chile em 1973 e na Guatemala em 1954; ou o que fizeram os golpistas venezuelanos depois do golpe de 11 de Abril no interregno de Carmona "O Breve" Estanga, ou o que se está a passar agora mesmo no Brasil e as centenas de milhares de assassinatos que a direita cometeu durante as décadas de "governo conjunto" FMI-PRI/PAN no México, ou o genocídio dos pobres praticado por Macri na Argentina; pode alguém em seu juízo perfeito supor que a destituição do governo de Daniel Ortega irá instaurar na Nicarágua uma democracia escandinava? Uma debilidade comum a todos os críticos é que em nenhum momento fazem alusão ao quadro geopolítico em que a crise se desenvolve. Como esquecer que o México e a América Central são regiões de importância estratégica capital para a doutrina de segurança nacional dos EUA? Toda a história do século XX está marcada por esta obsessiva preocupação de Washington com a submissão do rebelde povo nicaraguense. A qualquer preço. Quando para isto foi necessário instaurar a ditadura sangrenta de Anastasio Somoza, a Casa Branca, sem a mais mínima vacilação, tratou de fazê-lo. Criticado por alguns deputados do Partido Democrata no Congresso dos EUA pelo respaldo que concedia ao ditador, o presidente Franklin D. Roosevelt limitou-se a responder que "sim, ele é um filho da puta, mas é o NOSSO filho da puta". E nada mudou desde então. Quando, em 19 de Julho de 1979, a Frente Sandinista derrotou o regime somozista, o presidente Ronald Reagan não titubeou nem um minuto em organizar uma operação mafiosa de tráfico ilegal de drogas e armas de forma a poder financiar, para além do que já autorizava o Congresso dos Estados Unidos, os "contras" nicaraguenses. Tudo isto ficou conhecido pelo nome de "Operação Irão-Contras" [NR] . Podemos ser hoje tão ingénuos a ponto de ignorar estes antecedentes ou de pensar que estas políticas intervencionistas e criminosas são coisas do passado? Ademais, trata-se de um país que recentemente planeou a construção dum canal interoceânico, financiado por enigmáticos capitais chineses, que competiria com o Canal do Panamá, controlado de facto, senão de direito, pelos Estados Unidos. Isto não se trata de evidência anedótica, e sim do pano de fundo indispensável à calibração precisa do quadro geopolítico em que se desenvolvem os trágicos acontecimentos na Nicarágua. Tudo o que se expôs aqui não significa minimizar os graves erros do governo de Daniel Ortega e o enorme preço pago por um pragmatismo que, apesar de estabilizar a situação económica do país e melhorar as condições de vida da população, hipotecou a tradição revolucionária do sandinismo. Porém, um acordo com inimigos é sempre volátil e transitório; ante a menor mostra de debilidade do governo, e ante um erro grosseiro baseado no desprezo pela opinião da base sandinista, aqueles se lançaram com todo seu arsenal à rua, para derrubar Ortega. Transferiram para a Nicarágua boa parte dos mercenários que protagonizavam as "guarimbas" venezuelanas e estão a aplicar agora no país a mesma receita de violência e morte que se ensina nos manuais da CIA. Conclusão: a queda do sandinismo debilitaria o entorno geopolítico da já brutalmente agredida Venezuela, e aumentaria as probabilidades da generalização da violência em toda a região. Quando estava no Foro de São Paulo, que teve lugar em Havana, pude deleitar-me com a contemplação do mar do Caribe. E lá pude divisar, ao longe, um frágil barquinho. Conduzia-o um barqueiro robusto numa extremidade do barco, e na outra havia uma jovenzinha. O barqueiro parecia confuso, e esforçava-se para manter o rumo do barco em meio a ondas ameaçadoras. Acabei por pensar que essa imagem representava com eloquência o processo revolucionário, e não somente na Nicarágua, mas também na Bolívia, na Venezuela, onde quer que seja. A revolução é como aquela jovenzinha. E o barqueiro é o governo revolucionário. Este pode errar, porque não existe obra humana a salvo de erros, e cometer erros que o deixem à mercê das ondas e coloquem em perigo a vida da menina. Ainda por cima, não muito distante se via a sombra abominável de um navio de guerra dos Estados Unidos, carregado de armas letais, esquadrões da morte e soldados mercenários. Como salvar a jovenzinha? Deve-se lançar o barqueiro ao mar e deixar que o barco naufrague, e com ele a menina? Entregá-la à turba de criminosos que se acotovelam, sedentos de sangue, prontos a saquear o país, roubar seus recursos e violar e em seguida matar a jovenzinha? Não vejo como esta poderia ser a solução. Seria mais produtivo se alguns dos outros barcos que se encontram no mar se aproximassem do que está em perigo e obrigassem o infeliz barqueiro a corrigir seu rumo. Fazer afundar o barco que leva a criança da revolução ou entrega-la ao navio estadunidense dificilmente podem ser consideradas soluções revolucionárias.
18/Julho/2018
[1] O incêndio, ocorrido em Abril de 2018, consumiu cerca de 5.000 hectares de uma das maiores e mais bem preservadas reservas ecológicas do país. [NR] A Operação Irão-Contras foi uma enorme conspiração organizada pelo imperialismo para a venda de narcóticos em grande escala a fim de financiar a compra de armas para os contra-revolucionários na Nicarágua. Acerca da Nicarágua ver também:
Daniel Ortega traiu a Revolução sandinista , de Miguel Urbano Rodrigues, Nov/2016 O original encontra-se em www.pagina12.com.ar/129111-la-nina-en-el-bote . Tradução de LL. [*] Sociólogo, argentino. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver o original em 'Página Global':   http://paginaglobal.blogspot.com/2018/08/nicaragua-menina-do-bote.html

A Nicarágua dói

Os acontecimentos na Nicarágua têm suscitado posições contraditórias entre personalidades firmemente solidárias com o sandinismo. Ainda que a informação que chega seja, como seria de esperar, controversa, os protestos populares, ao contrário do que se tem passado na Venezuela, incluem reivindicações justas. A repressão desencadeada pelo governo tem assumido uma violência desproporcionada. O facto de Washington ter gente sua no terreno - ao lado da reacção nicaraguense, com destaque para a Igreja católica - e estar à espreita da oportunidade para instalar um governo mais servil não pode justificar esta actuação. A violência contra o povo facilita objectivamente a acção do imperialismo.

Escrever sobre a Nicarágua é tão doloroso e triste com indispensável. As recordações da revolução sandinista estão ainda muito presentes na geração que conheceu essa gesta. O silêncio seria uma afronta aos que participaram nessa memorável insurreição contra Somoza.

Os factos dos últimos meses oferecem poucas dúvidas. Uma sucessão de protestos sociais foi brutalmente reprimida. Há 350 mortos, só de um lado, devido à acção de forças militares ou paramilitares. Em todos os casos foram disparados tiros contra os manifestantes desarmados, que responderam ou escaparam conforme puderam à caçada.

As informações de numerosas fontes coincidem nessa descrição. Registou-se uma escalada crescente de disparos impunes, que que começara com alguns mortos e subiu para 60 em fins de Abril. Essa tragédia não foi interrompida pelo começo das conversações. Pelo contrário, o diálogo foi coroado com mais 225 crimes.

Não há qualquer justificação para esta selvajaria. As entidades oficiais (e as vozes de apoio que recebem) não mostram qualquer prova da «acção terrorista» que que apontam às vítimas. Também não há baixas significativas no campo governamental e não existem quaisquer registos do uso de armas de fogo pelos opositores.

Estes acontecimentos não foram só denunciados pelos que estão próximos dos que tombaram. Uma infinidade de testemunhos e uma larga variedade de jornalistas corroboraram esses acontecimentos. Mas o mais importante são as autorizadas vozes de ex-comandantes e dirigentes do sandinismo, que verificaram o que aconteceu no próprio lugar dos factos. As suas denúncias têm uma altíssima credibilidade e coincidem com a visão de velhos participantes estrangeiros da revolução. Estas opiniões importam pelo seu grande conhecimento dos atores em luta.

A sangueira descarregada pelo governo de Ortega assemelha-se à reacção de qualquer presidente de direita, Foi a típica violência do Estado contra os descontentes. Perante esse comportamento atroz, um movimento saído de reivindicações básicas assumiu o carácter democrático de resistência à repressão. A questão original contra a reforma da segurança social perdeu importância, perante o cenário dantesco de centenas de mortos provocados pelo tiroteio dos gendarmes.

Levantar a voz perante este crime, exigir o fim imediato da repressão e o julgamento dos culpados é a questão primeira perante o sucedido.

INVOLUÇÃO SEM RETORNO

Os protestos contra o aumento das quotizações para a segurança social encontraram um enorme eco junto da população. Essa adesão indicou o mal-estar existente em amplos sectores da população. Há cansaço com as políticas oficiais divorciadas do passado revolucionário do governo.

O orteguismo não preservou a mais leve parecença com a sua origem sandinista. Estabeleceu alianças estratégicas com o empresariado, adoptou as medidas exigidas pelo FMI e garantiu as ligações com a Igreja, depois de proibir o aborto. Consolidou a privilegiada burocracia dos negócios que se enamorou da apropriação dos bens públicos.

Sob a sua condução, Daniel Ortega rege um sistema clientelar assente em maquinarias eleitorais. A persistência da velha simbologia sandinista oculta esta mudança substancial, que reproduz a involução sofrida por outros processos progressistas.

Muito antes de se converter numa simples rede de mafiosos, O PRI mexicano tinha enterrado o seu legado de transformações agrárias e tradições nacionalistas. O mesmo aconteceu com o MNR da Bolívia, que actuou durante vários anos como um partido reaccionário contraposto à sua origem. Os exemplos de regressão política – que Ortega recria – estendem-se a outros partidos latino-americanos, que se despiram completamente das suas antigas ambições socialistas e anti-imperialistas.

Mas a repressão incorpora uma viragem mais irreversível. Converte uma formação aburguesada numa organização antagónica com a esquerda. Quando os aparelhos policiais assassinam impunemente, rompe-se o último ponto de contacto com um horizonte progressista. Esta regressão sem retorno deu-se nos últimos meses na Nicarágua.

As diferenças substanciais com a Venezuela não radicam apenas na permanência de um processo bolivariano, que se confronta com a direita e defende a soberania num quadro de inédita adversidade. Na interminável sucessão de guarimbas, o chavismo batalhou contra tentativas golpistas, incursões paramilitares e provocações por parte de grupos adestrados pela CIA. Cometeram muitas injustiças e fustigaram vários lutadores populares, mas a sua luta central foi contra a desestabilização promovida e financiada pelo imperialismo.

O que ocorreu na Nicarágua foi muito diferente. Os protestos não foram teledirigidos a partir de Washington. Surgiram de baixo, contra reformas aconselhadas pelo FMI e, posteriormente, articularam-se de forma espontânea na defesa de direitos vulnerados. Também as principais figuras dos conservadores - que concertaram incontáveis pactos com o governo – propiciaram a revolta. As manifestações reuniram um heterogéneo conglomerado de descontentes que actuam sob a orientação da Igreja e dos estudantes. As diferentes vertentes eclesiásticas não seguem um libreto rígido e uniforme, e os estudantes estão agrupados em várias correntes internas com líderes de direita e de esquerda.

Este movimento com baixo nível de politização inicial começou a adoptar posturas mais claras perante o acosso repressivo. O seu posicionamento consolidou-se perante o fracasso das mesas de diálogo que o governo disse aceitar, mas na prática boicotou.

UM OLHAR INTEGRAL

De todas as opiniões difundidas nas últimas semanas, a posição adoptada por um reconhecido dirigente revolucionário chileno reúne méritos ausentes noutras posturas.

Esta posição ressalta a legitimidade dos protestos, denuncia a traição de Ortega e questiona o silêncio cúmplice de muitas correntes progressistas perante a repressão. Mas alerta também contra a utilização pela direita dos protestos e sublinha que os Estados Unidos aproveitarão o conflito para socavar o governo. Além disso, constata que persiste o apoio de uma parte da população à política oficial e apela a que se encontre uma solução pacífica, para que a burguesia local e o seu mandante imperial não venham a ser os beneficiários da eventual hecatombe das forças no poder.

Esta visão sintetiza muito bem o repúdio moral das mortandades com o reconhecimento da complexa situação criada no país. Ainda que Ortega pactue sem qualquer escrúpulo com todos os expoentes da reacção, os Estados Unidos procuram o seu afastamento. Não toleram a autonomia que a Nicarágua preservou na sua política externa. O país não só faz parte da ALBA como mantém laços estreitos com o governo venezuelano. Pretende, além disso, construir um canal interoceânico com financiamento chinês na região mais quente do «pátio traseiro» da primeira potência.

Como ficou demonstrado durante o golpe contra Zelaya nas Honduras (e mais recentemente na Guatemala), os Estados Unidos tratam os pequenos países centro-americanos como colónias de segunda ordem. Não aceitam a menor indisciplina dessas nações. Por isso já puseram em marcha todos os mecanismos para cooptar os dirigentes dos protestos, a fim de os alinhar com a futura colocação de um títere do império no lugar de Ortega. Os encontros de vários líderes estudantis em Washington com congressistas da ultradireita anticastrista (e as reuniões do mesmo tipo em S. Salvador) constituem os episódios mais visíveis da nova operativa ensaiada por Trump.

Desconhecer os preparativos dessa agressão seria de uma inadmissível ingenuidade. O próprio Ortega que atropela brutalmente o povo é visto pelo Departamento de Estado como um adversário a sepultar. Este tipo de contradições tem sido muito frequente na história e devem ser seriamente avaliadas na esquerda, no momento de tomar uma posição. É vital não nos somarmos às campanhas da OEA e à gritaria de Vargas Llosa que entretece o Comando Sul.

PERIGOS E DEFINIÇÕES

Constatar que o sandinismo conserva a adesão de uma considerável parte da população é compatível com os resultados das últimas eleições. Mas Cabieses não parte apenas deste dado para apelar a uma solução pacífica. As negociações permitiriam evitar a transformação da revolta actual num confronto maior, com terrível sequela de vítimas e nefastas consequências no plano geopolítico e nacional.

O que aconteceu em dois países do Médio Oriente oferece antecedentes para temer essas consequências. Tanto na Líbia como na Síria predominavam governos de índole progressista que se alteraram até ao ponto de recorrer à repressão contra os seus defensores e o povo. Kadhafi prendeu palestinos e Assad descarregou sobre o povo fuzilamentos indiscriminados. Ambos os casos terminaram em tragédias maiores. O estado líbio praticamente desapareceu, dando lugar a ambiciosas disputas entre clãs rivais. A Síria teve um desenlace mais dramático.

Assistiu primeiro ao assumir do protesto pelos jihadistas e depois sofreu o pior desastre humanitário das últimas décadas.

As realidades históricas e o cenário político do Médio Oriente e da América Central são muito diferentes. Mas o imperialismo actua com os mesmos propósitos de dominação em ambas as regiões. Destrói sociedades e arrasa países sem contemplações. Se na Venezuela tivessem ganho a partida, o país seria um cemitério semelhante ao Iraque, com o petróleo nas mãos das grandes companhias estado-unidenses.

Por tudo isto convém não esquecer, em momento algum, quem é o inimigo principal. Uma solução pacífica na Nicarágua é o melhor caminho para evitar o perigoso aproveitamento do conflito. O mecanismo dessa saída esteve muito presente no pedido de diálogo para negociar eventuais eleições antecipadas.
Esta reclamação é diferente da identificação do governo com uma ditadura e exigir a sua queda. Aparentemente, nas últimas semanas a tensão cedeu, não que as negociações tenham avançado mas pela consolidação da repressão. Ortega conseguiu respirar graças ao chicote. Mas a sua conduta criou um abismo inultrapassável com a juventude rebelde. O seu divórcio com a esquerda é definitivo. A tradição revolucionária sandinista voltará a ressurgir, mas no caminho contrário ao do orteguismo

(*) Claudio Katz é economista, investigador, Professor na Universidade de Buenos Aires e membro do EDI (Economistas de Izquierda).

Tradução: João Paulo Gascão

Leia original aqui

Boaventura: o que aprender com a Nicarágua

Ruína do governo Ortega convida a relembrar Revolução Sandinista e os déficits atuais da esquerda. Levante popular poderia repetir-se no Brasil ou Argentina?
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
Pertenço à geração dos que nos anos de 1980 vibraram com a Revolução Sandinista e a apoiaram ativamente. O impulso progressista reanimado pela revolução cubana de 1959 tinha sido estancado em grande medida pela intervenção imperialista dos EUA. A imposição da ditadura militar no Brasil em 1964 e na Argentina em 1976, a morte de Che Guevara em 1967, na Bolívia e o golpe de Augusto Pinochet contra Salvador Allende em 1973 foram os sinais mais salientes de que o sub-continente sul-americano estava condenado a ser o quintal dos EUA, submetido à dominação das grandes empresas multinacionais e das elites nacionais com elas coniventes. Estava, em suma, impedido de pensar-se como conjunto de sociedades inclusivas centradas nos interesses das grandes maiorias empobrecidas. A revolução sandinista [em 1979] significava a emergência de uma contra-corrente auspiciosa. O seu significado resultava não só das transformações concretas que protagonizava (participação popular sem precedentes, reforma agrária, campanha de alfabetização que mereceu prêmio da Unesco, revolução cultural, criação de serviço público de saúde, etc.), mas também do fato de tudo isto ser realizado em condições difíceis devido ao cerco extremamente agressivo dos EUA de Ronald Reagan, que envolveu o embargo econômico e o infame financiamento dos “contras” e o fomento da guerra civil. Igualmente significativo foi o facto de o governo sandinista ter mantido o regime democrático, o que em 1990 ditou o fim da revolução com a vitória do bloco opositor de que, aliás, fazia parte o partido comunista da Nicarágua.
Nos anos seguintes, a Frente Sandinista, sempre liderada por Daniel Ortega, perdeu três eleições, até que, em 2006, reconquistou o poder mantendo-o até hoje. Entretanto, a Nicarágua, como de resto toda a América Central, esteve fora do radar da opinião pública internacional e da própria esquerda latino-americana. Até que, em abril passado, os protestos sociais e a violenta repressão de que foram alvo chamou a atenção do mundo. Contam-se já muitas dezenas de mortes causadas pelas forças policiais e por milícias ligadas ao partido do governo. Os protestos, protagonizados inicialmente por estudantes universitários, visavam a displicência do governo perante a catástrofe ecológica na Reserva Biológica Indio-Maiz causada pelo incêndio e pelo desmatamento e invasão ilegais. Seguiram-se logo depois os protestos contra a “reforma” do sistema de segurança social que impunha cortes drásticos nas pensões e onerações adicionais impostas a trabalhadores e patrões. Aos estudantes juntaram-se sindicatos e demais organizações da sociedade civil. Perante os protestos, o governo retirou a proposta, mas o país estava já incendiado pela indignação contra a violência e a repressão e pela repulsa causada por muitas outras facetas sombrias da governação sandinista, que entretanto começaram a ser mais conhecidas e mais abertamente criticadas. A Igreja Católica, que desde 2003 se “reconciliara” com o sandinismo, voltou a tomar as suas distâncias e aceitou mediar o conflito social e político sob condições.
O mesmo distanciamento ocorreu com a burguesia empresarial nicaraguense a quem Ortega oferecera volumosos negócios e condições privilegiadas de atuação em troca de lealdade política. O futuro é incerto e não está excluído que este país, tão massacrado pela violência, volte a sofrer um banho de sangue. A oposição ao orteguismo cobre todo o espectro político e, tal como tem acontecido noutros países (Venezuela e Brasil), só mostra unidade para derrubar o regime mas não para criar uma alternativa democrática. Tudo leva a crer que não haverá solução pacífica sem a renúncia do casal presidencial Ortega-Murillo e a convocação de eleições antecipadas livres e transparentes.
Os democratas, em geral, e as forças políticas de esquerda, em especial, têm razões para estar perplexos. Mas têm sobretudo o dever de reexaminar as opções recentes de governos considerados de esquerda em muitos países do continente e questionar o seu silêncio perante tanto atropelo de ideais políticos durante tanto tempo. Por esta razão, este texto não deixa de ser, em parte, uma auto-crítica. Que lições se podem colher do que se passa na Nicarágua? Ponderar as duras lições que a seguir enumero será a melhor forma de nos solidarizarmos com o povo nicaraguense e de lhe manifestarmos respeito pela sua dignidade.
Primeira lição: espontaneidade e organização
Durante muito tempo os protestos sociais e a repressão violenta ocorreram nas zonas rurais sem que a opinião pública nacional e internacional se manifestasse. Quando os protestos irromperam em Manágua a surpresa foi geral. O movimento era espontâneo e recorria às redes sociais que o governo promovera antes com o acesso gratuito à internet no país. Os jovens universitários, netos da revolução sandinista, que até há pouco pareciam alienados e politicamente apáticos, mobilizaram-se para reclamar justiça e democracia. A aliança entre o campo e a cidade, até então impensável, surgiu quase naturalmente e a revolução cívica saiu à rua em marchas pacíficas e barricadas que chegaram a atingir 70% das estradas do país. Como é que as tensões sociais se acumulam sem que sejam notadas e a sua explosão repentina colha a todos de surpresa? Decerto não pelas mesmas razões por que os vulcões não avisam. Pode esperar-se que as forças conservadoras nacionais e internacionais não se aproveitem dos erros cometidos pelos governos de esquerda? Qual será o ponto de explosão das tensões sociais noutros países do continente causadas por governos de direita — por exemplo, no Brasil e na Argentina?
Segunda lição: os limites do pragmatismo político e das alianças com a direita
A Frente Sandinista perdeu três eleições depois de ter sido derrotada em 1990. Uma facção da Frente liderada por Ortega entendeu que a única maneira de poder voltar ao poder era fazer alianças com os seus adversários, mesmo com os que mais visceralmente tinham hostilizado o sandinismo, a Igreja Católica e os grandes empresários. No que respeita à Igreja Católica, a aproximação começou no início da década de 2000. O Cardeal Obando y Bravo foi durante boa parte do período revolucionário um opositor agressivo do governo sandinista e aliado ativo dos contras, apelidando Ortega de “víbora moribunda” durante toda a década de 1990. No entanto, Ortega não teve pejo em dele se aproximar a ponto de lhe pedir em 2005 que oficiasse o casamento com a sua companheira de muitos anos, Rosário Murillo, atual vice-presidente do país.
Entre muitas outras concessões à Igreja, uma das primeiras leis do novo governo sandinista, ainda em 2006, foi aprovar a lei da proibição total do aborto, mesmo em caso de violação ou de perigo de vida para mulher. Isto, num país com alta incidência de violência contra mulheres e crianças. A aproximação às elites econômicas deu-se pela submissão do programa sandinista ao neoliberalismo, com a desregulação da economia, a assinatura de tratados de livre comércio e a criação de parcerias público-privadas que garantiam polpudos negócios ao setor privado capitalista à custa do erário público. Incluiu também um acordo com o ex-presidente conservador e grande proprietário, Arnoldo Aleman, que foi considerado um dos dez chefes de Estado mais corruptos do mundo.
Estas alianças garantiram uma certa paz social. Deve-se salientar que em 2006 o país estava à beira da falência e que as políticas adotadas por Ortega permitiram o crescimento econômico. Tratou-se, no entanto, do crescimento típico da receita neoliberal: grande concentração da riqueza, total dependência dos preços internacionais dos produtos de exportação (nomeadamente café e carne), autoritarismo crescente perante o conflito social causado pela extensão da fronteira agrícola e pelos megaprojetos (por exemplo, o grande canal interoceânico, com financiamento chinês), aumento desordenado da corrupção, a começar pela elite política no governo. A crise social só foi minorada devido à generosa ajuda da Venezuela (doações e investimentos) que chegou a ser uma parcela importante do orçamento do Estado e permitiu algumas políticas sociais compensatórias.
A situação iria fatalmente explodir quando os preços internacionais baixassem, houvesse mudança de política econômica no principal destino das exportações (EUA), ou secasse o apoio da Venezuela. Foi tudo isso que sucedeu nos últimos dois anos. Entretanto, acabada a orgia dos favores, as elites econômicas tomaram distância e Ortega ficou cada vez mais isolado. Pode um governo continuar a designar-se de esquerda (e até revolucionário) apesar de seguir todo o ideário do capitalismo neoliberal com as condições que este impõe e as consequências que gera? Até que ponto as alianças tácticas com o “inimigo” se transformam na segunda natureza de quem as protagoniza? Por que as alianças com as diferentes forças de esquerda parecem sempre mais difíceis do que as alianças entre a esquerda hegemônica e as forças de direita?
Terceira lição: autoritarismo político, corrupção e desdemocratização
As políticas adotadas por Daniel Ortega e a sua facção criaram cisões importantes no seio da Frente Sandinista e oposição em outras forças políticas e nas organizações da sociedade civil que tinham encontrado no sandinismo dos anos de 1980 a sua matriz ideológica e social e a sua vontade de resistência. As organizações de mulheres tiveram um protagonismo especial. É sabido que o neoliberalismo, ao agravar as desigualdades sociais e ao gerar privilégios injustos, só se pode manter pela via autoritária e repressiva. Foi isso o que fez Ortega. Por todos os meios, incluindo cooptação, supressão da oposição interna e externa, monopolização das mídias, alterações constitucionais que garantiram a reeleição indefinida, instrumentalização do sistema judicial e criação de forças repressivas paramilitares. As eleições de 2016 foram o retrato de tudo isto e a vitória do slogan “uma Nicarágua cristã, socialista e solidária” mal disfarçava as profundas fraturas na sociedade.
De um modo quase patético, mas talvez previsível, o autoritarismo político foi acompanhado pela crescente apropriação patrimonialista do Estado. A família Ortega acumulou riqueza e mostrou apetite para se perpetuar no poder. A tentação autoritária e a corrupção são um desvio ou são constitutivas dos governos de matriz econômica neoliberal? Que interesses imperiais explicam a ambiguidade da OEA (Organização dos Estados Americanos) face ao orteguismo, em contraste com a sua radical oposição ao chavismo? Porque é que boa parte da esquerda latino-americana e mundial manteve (e continua a manter) o mesmo silêncio cúmplice? Por quanto tempo a memória de conquistas revolucionárias turva a capacidade de denunciar as perversidades que se lhes seguem, a ponto de a denúncia chegar quase sempre demasiado tarde?
Imagem: Mural sandinista na cidade de León retrata a repressão de um levante por soldados da ditadura Somoza. Em bizarra repetição, o atual presidente, Daniel Ortega, também recorre a soldados e paramilitares contra protestos
*Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa - todos da Universidade de Coimbra. Sua trajetória recente é marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do Fórum Social Mundial e pela participação na coordenação de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos.

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