Memória

Rita Rato é a nova directora do Museu do Aljube

A ex-deputada comunista Rita Rato foi escolhida para dirigir o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, em Lisboa, revelou a EGEAC.

Rita RatoCréditosAntónio Cotrim / Agência Lusa

Em comunicado, a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) recorda que, na sequência da reforma do director do Museu do Aljube, Luís Farinha, foi aberto, em Abril, um processo de recrutamento para selecionar nova direcção.

Este processo contou com diversas candidaturas e resultou na selecção de Rita Rato, «que se destacou pelo projecto apresentado e pelo desempenho nas entrevistas realizadas com o júri», indica a EGEAC.

Rita Rato iniciará funções como directora do Museu do Aljube Resistência e Liberdade no próximo dia 1 de Agosto.

Nascida em Estremoz, em 1983, Rita Rato Fonseca é licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa.

Foi deputada pelo PCP à Assembleia da República, entre 2009 e 2019, e fez parte, como coordenadora do Grupo Parlamentar, na Comissão de Educação, Ciência e Cultura (2011-2015). 

O Museu do Aljube, inaugurado em Abril de 2015, na antiga prisão da PIDE, é um dos equipamentos culturais do município de Lisboa, sob a alçada da EGEAC, e é dedicado à «memória do combate à ditadura e à resistência em prol da liberdade e da democracia».

Desde a instalação, o museu tem vindo a desenvolver projectos como a recolha de testemunhos de combatentes pela liberdade e de histórias de vida de muitos resistentes antifascistas, para consulta pública e para memória futura dos crimes cometidos pela ditadura.

«Nesta nova etapa, pretende-se dar continuidade e consolidar as linhas de trabalho já assentes, bem como desenvolver novas linhas de acção complementares e captar novos públicos», sublinha a EGEAC.

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/rita-rato-e-nova-directora-do-museu-do-aljube

Na morte de Custódia Chibante

custodia chibante

Maria Custódia Chibante, resistente antifascista do Couço e ex-presa política, morreu quinta-feira, dia 2 de Julho.

Natural do Couço, concelho de Coruche, era filha de uma camponesa e um pedreiro, não conseguindo cumprir o seu sonho de ser professora. Foi comerciante em Foros de Lagoíços, nos arredores do Couço e mais tarde foi viver para Évora.

Militante do Partido Comunista Português, iniciou na juventude a sua actividade política e foi presa pela Pide a 27 de Maio de 1962.
Segundo o dossier da PIDE, Custódia Chibante foi brutalmente torturada pela Pide Madalena, esteve 98 horas em interrogatório, foi esbofeteada e espancada com bastões durante duas semanas. Foi sujeita à tortura da estátua e à tortura do sono durante 75 horas. Foi internada no hospital de Caxias, incapaz de andar e de comer.

A URAP curva-se perante a vida desta mulher e endereça à família as suas sentidas condolências.

- Pode ver depoimentos de Custódia Chibante em: programa de Rádio " No Limite da Dor", da autoria da jornalista Ana Aranha https://bit.ly/2Z2apRB
e programa "24 de Abril", SIC. Grande Reportagem: https://bit.ly/3e6yIls

via: Página Inicial - União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2ZFUnfe

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazineweb.blogspot.com/2020/07/na-morte-de-custodia-chibante.html

MEMÓRIA TRÊS, DUM SEMPRE ACTUAL

 
 
 

Esta é uma série que recorda algumas intervenções de há 15 ou mais anos no ACTUAL, desaparecido semanário de Luanda que tinha como Director o meu companheiro Leopoldo Baio, comigo coautor no livro “Séculos de solidão – da longa noite colonial à democracia multipartidária”.

 

 
Naquela altura, Angola perfez 30 anos de independência e preenchiam-se 40 anos, desde a passagem do Che por África!

 

 
A saga de Argel ao Cabo da Boa Esperança já se tinha fechado, mesmo assim e até aos nossos dias, a colonização do Sahara mantém-se, como um anátema para a União Africana!

 

 
Em África isso significa que, enquanto houver resíduos da natureza do que acontece com a colonização do Sahara pelo Reino de Marrocos, de facto não haverá descolonização mental e a luta, por muito ténue que se possa fazer sentir, vai mesmo continuar, ou nã fosse a própria vida um fenómeno tão dialético! (MJ)

 
2005: 40 ANOS DA PASSAGEM DE CHE GUEVARA POR ÁFRICA; 30 ANOS DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

 

 
O ano de 1965 foi um ano de expectativas e de esperança em relação a África.
 
Consolidada a sua Revolução, Cuba começou a interessar-se pela sorte das Nações e dos Povos do “Terceiro Mundo”, em especial pelos Povos Africanos sujeitos ao colonialismo, ao neocolonialismo e votados ao Subdesenvolvimento crónico e secular, emprestando solidariedade Internacionalista, experiência e vontade para alterar o quadro que desde então se apresentava, em favor do Movimento de Libertação.

 

 
Ao longo desse ano e na sequência de 1964, Che Guevara realizou alguns périplos pelo Continente Africano antes de, em 24 de Abril de 1965, se decidir a integrar a 1ª coluna Internacionalista das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, que veio em socorro do Movimento de Libertação no Congo e colocar pela primeira vez pé em terras Congolesas.

 

 
Em princípios de 1965, ele realizou uma visita a Brazzaville, ainda na qualidade de Ministro da Indústria da República de Cuba, encontrando-se com dois dos principais líderes do MPLA, o Dr. Agostinho Neto e Lúcio Lara, além do então Secretário para as Relações Exteriores do MPLA, Luís Azevedo.

 

 
O reforço que trouxe Cuba à Luta de Libertação das antigas colónias Portuguesas, decidido bilateralmente com cada das Organizações e sem intervenção de terceiros veio, em relação ao MPLA, contribuir para consolidar a direcção do Movimento de Libertação em toda a África Austral.

 

 
Dadas as características do País, a conjuntura Internacional e Regional e o papel da presença Portuguesa em Angola, intimamente associado com os interesses de Potências como os Estados Unidos, a Grã Bretanha e os do então regime do “apartheid” na África do Sul, assim como com os interesses da aristocracia financeira mundial, essencialmente representada pelos “lobbies” da indústria mineira e “cartel” dos diamantes (“De Beers”, “Anglo American”, “Lonhro”, “Société Générale Belgique”, etc.), as ameaças em relação ao Movimento de Libertação em Angola passavam:

 

 
1) Pelos riscos próprios da confrontação militar e da luta clandestina (“operações encobertas”) contra o regime colonial Português e aliados na Região (entre eles os regimes de Ian Smith na então Rodésia e o do “apartheid” na África do Sul).

 

 
2) Pela obstrução deliberada, contínua e cada vez mais eficaz, que o regime de Mobutu foi organizando em relação ao MPLA e em benefício de componentes de seu interesse, correspondendo a orientações dos Serviços de Inteligência Norte Americanos que por seu turno incorporavam a acção de alguns sectores dos “lobbies” da indústria mineira (“cartel” dos diamantes), através dos sistemas históricos de Maurice Tempelsman, “seus” homens e articulações.

 

 
3) Pela posição ambígua que viria quase sempre a demonstrar Kenneth Kaunda, na altura em que se vieram a dilatar as linhas de acção do MPLA tendo a Zâmbia como retaguarda e o Leste de Angola como campo de batalha da sua guerrilha.

 

 
Ao trazer a sua ajuda Internacionalista pela via de Che Guevara, mais do que o incremento das acções militares o Movimento de Libertação ganhava:

 

 
1) Um inusitado fortalecimento político-ideológico que acabou por se fazer repercutir nos conceitos filosóficos e organizativos e reforçaram o seu esforço em Angola e em toda a Região Austral do Continente.

 

 
2) O fortalecimento dum “núcleo duro” fiel ao Dr. Agostinho Neto, que se viria a verificar tenaz e audacioso, capaz de enfrentar, conforme provas dadas, “todo o tipo de tempestades”.

 

 
3) A gestação duma lógica de Libertação que se poderá classificar como a “lógica de Brazzaville” que, para além de saber dirigir apesar das vicissitudes e contrariedades as condutas guerrilheiras, se manteve resistente a outras lógicas que surgiriam mais cedo, a “lógica de Kinshasa”, ou mais tarde, como a “lógica de Lusaka”, (pelo menos até se garantir a saída dos Sul Africanos do “apartheid” do Sudoeste Africano e a Namíbia se tornar Independente), bem como resistente a muitas “operações encobertas” que, com essas “lógicas” viriam a ser incrementadas, por vezes por dentro do próprio MPLA, com repercussões até aos dias de hoje.

 

 
No dia 2 de Janeiro de 2005, o encontro entre Che Guevara, o Presidente Agostinho Neto, Lúcio Lara e Luís Azevedo, perfaz 40 anos e, ao longo do ano, a passagem de Che Guevara por África poderá ser assinalada, completando a memória de algumas das fortes raízes do Movimento de Libertação. 

 

 
O “ACTUAL”, na sequência aliás do que tem vindo a produzir, tem a intenção de não deixar passar em claro a odisseia da Libertação do Continente Africano e lembrar muitos dos acontecimentos desde então, particularmente aqueles que garantiram durante tantos anos, a sobrevivência da “lógica de Brazzaville”, primeiro por que as novas gerações devem cada vez mais conhecer as raízes históricas que estiveram na base da Independência Nacional, de Independência de outros Países como a Namíbia e o Zimbabwe e da luta contra o regime do “apartheid”, depois por que, sustentando-se hoje Angola da “lógica de Lusaka” muito mais de que da “lógica de Brazzaville”, isso resultar numa grande falência, em muitos aspectos, da continuidade e perseverança do que foi cultivado antes pelo Movimento de Libertação, o que no nosso entender é possível corrigir, tendo em conta as possibilidades que se oferecem com a Reconciliação e a Reconstrução Nacional, pelo menos em sectores tão díspares como a Educação, a formação de quadros, a Saúde, a Agricultura, as formas e métodos de gestão da “res publica”, etc.
 
A ano de 2005 será o ano em que, para além de se completarem 40 anos da passagem de Che Guevara pelo Continente, perseguindo o seu “sonho Africano”, a República de Angola perfaz também 30 anos de Independência.

 

 
Por isso pensamos que essa passagem de Che Guevara produziu frutos muito para além do seu desaparecimento físico e apesar dele próprio não ter conseguido fortalecer a acção da sua 1ª coluna na tentativa de a integrar nos esforços do Movimento de Libertação no Congo e numa altura em que os Kivus já davam mostras de volatilidade, tal como aliás vai ainda ocorrendo hoje, acabando todos os Povos dos Grandes Lagos por se terem de sujeitar a todo o tipo de nefastas manipulações.

 

 
Se no Congo, em prol da Libertação desse País a passagem de Che Guevara foi infrutífera, o que foi feito a partir da “lógica de Brazzaville” com o apoio da sua 2ª coluna, muito contribuiu para o fim do colonialismo e do “apartheid” em África e só isso é mais que suficiente para honrar, em Angola, a memória do Che.

 

 
Martinho Júnior -- Luanda, 23 de Junho de 2020
 
Imagens recolhidas em Maio de 2005
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/memoria-tres-dum-sempre-actual.html

O recado da Praça Vermelha

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Por José Reinaldo Carvalho, doJornalistas pela Democracia - "É impossível imaginar o que teria acontecido no mundo se o Exército Vermelho não tivesse vindo em sua defesa". Pronunciadas em tom enfático perante 15 mil militares na manhã desta quarta-feira (24), em pleno verão moscovita, em uma Praça Vermelha engalanada, as palavras do presidente russo revestem-se de profundo significado.

O acontecimento é habitualmente comemorado a cada 9 de Maio, Dia da Vitória, mas neste ano foi adiada devido à pandemia de Covid-19.

Putin pediu que o povo russo relembre os ingentes sacrifícios das gerações passadas durante a Grande Guerra Patriótica (1941-1945) e tenha sempre presente que foram os povos soviéticos os que pagaram o maior preço da luta contra o nazifascismo, a maior ameaça à humanidade na primeira metade do século 20. Ao exaltar a façanha da União Soviética, o líder russo enfatizou a importância de "proteger e defender a verdade" sobre aquela guerra.

"Sempre vamos lembrar que o nazismo foi derrotado pelo povo soviético", disse Putin. "O povo soviético pôs fim ao Holocausto, salvou o mundo do fascismo".

O presidente observou que, depois de defender sua própria terra, os soldados soviéticos "continuaram a lutar".

"Eles libertaram os Estados europeus dos invasores, puseram fim à terrível tragédia do Holocausto, salvaram o povo da Alemanha".

Putin não deixou de frisar a importância da aliança antifascista e recolheu o ensinamento da história. "Apenas juntos podemos proteger o mundo de novas ameaças perigosas", asseverando que a Rússia está aberta ao diálogo e à cooperação com outros países.

 

O mandatário falou o óbvio, por isso mesmo poderá ter causado estranheza e assombro nas forças obscurantistas, reacionárias e recalcitrantes quando se trata de encarar as verdades históricas.

Mas as verdades históricas precisam ser sempre lembradas para que os acontecimentos trágicos jamais se repitam . E para que permaneça vivo na memória dos povos o espírito de resistência e luta que caracterizou a União Soviética e a façanha libertadora dos povos que constituíram aquele grande e poderoso país socialista.

Os povos da União Soviética pagaram o mais terrível preço em vidas humanas e prejuízos materiais, com a morte de 27 milhões dos seus cidadãos, incluindo 7,5 milhões de soldados.

 

As vitórias do Exército Vermelho nas históricas batalhas de Moscou (outubro de 1941 a janeiro de 1942), Stalingrado (agosto de 1942 a fevereiro de 1943), Kursk (entre a primavera e o verão de 1943) e Berlim, na primavera de 1945 permanecerão indelevelmente marcadas na memória da humanidade, como o tributo dos povos soviéticos para a causa da libertação.

A vitória sobre o nazifascismo foi fruto também da união dos povos e das forças democráticas no âmbito de cada país e da ação política e militar de uma ampla aliança internacional, de que fizeram parte a União Soviética, o Reino Unido e os Estados Unidos.

Mas há quem faça a leitura enviesada do discurso de Putin na comemoração do Dia da Vitória, atribuindo-lhe caráter eleitoreiro em face do referendo constitucional marcado para 1º de julho próximo. Pretende-se que Putin está jogando com o fervor patriótico que se mantém aceso quando ocorrem celebrações como esta. Seria uma cartada para manipular o sentimento popular, em um momento de evidentes dificuldades socioeconômicas no quadro da pandemia da Covid-19 que afetou imensamente a Rússia. Sobretudo, acusa-se Putin de arquitetar a sua unção como "ditador", ao postular o fim da limitação dos mandatos presidenciais.

Não há dúvidas de que a afirmação dos valores patrióticos podem exercer influência no eleitorado e favorecer as emendas constitucionais propostas por Putin. Mas não foi este o aspecto principal.

Essencialmente, o mandatário russo fez um apelo à unidade nacional para enfrentar os grandes desafios e ameaças com que o país se defronta. Decerto, a realização deste objetivo poderá ser mais factível na medida em que o apelo à unidade inclua medidas progressistas e gestos não apenas simbólicos para com os comunistas, força atuante no país.

Igualmente, a Rússia envia um sinal ao mundo, principalmente à superpotência americana, de que desempenha e pretende seguir desempenhando um papel de protagonista na cena internacional, no novo quadro geopolítico de multipolaridade que vai sendo configurado em meio a contradições e conflitos.

Os Estados Unidos já captaram a mensagem da Rússia e desde há algum tempo esboçam reação. O chefe da Casa Branca, Donald Trump, anunciou que os EUA provavelmente deslocarão para a Polônia, como sinal à Rússia, parte das tropas que serão retiradas da Alemanha. Encontram-se adiantados os acordos militares entre Washington e Varsóvia.

O conceito estratégico da Otan toma como uma de suas principais tarefas conter a "ameaça russa". O papel geopolítico da Rússia pode elevar-se bastante se tiver em conta a ameaça do imperialismo estadunidense, enfrentá-lo com firmeza estratégica e discernimento tático, fazendo as escolhas certas e distinguindo-se no concerto mundial como país partidário da paz, como foi a União Soviética.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/o-recado-da-praca-vermelha

Os resistentes comunistas proclamavam que “morriam pela sua Pátria francesa” e pela União Soviética

Por Oxana Bobrovitch – de uma entrevista a Annie Lacroix-Riz

Os historiadores recordam que, na primavera de 1945, os comunistas estavam simplesmente em vias de se tornar o primeiro partido na França. Ainda a guerra não tinha oficialmente terminado, as eleições municipais fizeram explodir a representação territorial do Partido Comunista Francês (PCF).

 

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As vitórias da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial tiveram um impacto não apenas na relação de forças internacional, mas também no equilíbrio político na França. Annie Lacroix-Riz, especialista em História contemporânea, fala sobre essas ligações ao microfone da Sputnik.

Os historiadores recordam que, na primavera de 1945, os comunistas estavam simplesmente em vias de se tornar o primeiro partido na França. Ainda a guerra não tinha oficialmente terminado, as eleições municipais fizeram explodir a representação territorial do Partido Comunista Francês (PCF). Podemos discernir várias razões para esse impulso, nos “subúrbios vermelhos” como nas terras mais rurais, favorecido pela implicação maciça dos comunistas na Resistência, após 22 de junho de 1941. O efeito emocional das vitórias da União Soviética na Segunda Guerra Mundial não é o fator menos importante desse sucesso, confirma à Sputnik Annie Lacroix-Riz, historiadora e professora de História contemporânea.

As vitórias e as derrotas da União Soviética foram de enorme importância para o movimento comunista e o movimento operário radical em França e em muitos outros sítios na Europa”, diz Annie Lacroix-Riz.

No entanto, isso não decorre de um “encantamento repentino” dos franceses pelos ideais comunistas, mas de uma “lenta impregnação”, devido ao trabalho de longo alcance realizado pelo Partido Comunista Francês. Segundo a historiadora, o PCF, como todos os partidos comunistas, bebe a sua origem histórica nas “análises radicais”, em particular na condenação que Lenin fez da Segunda Internacional e contra a “carnificina da Primeira Guerra Mundial”. Resultado: entre 1914 e 1970, a influência do marxismo e da URSS “foi muito forte” num “movimento operário francês muito dividido” entre as influências social-democratas, proudhonianas ou marxistas.

Está claro que a União Soviética desempenhou um papel considerável na transformação do movimento operário entre as duas guerras mundiais”, confirma Annie Lacroix-Riz.

Mas, insiste a historiadora, “os movimentos operários fortaleceram-se em França, não exclusivamente porque os soviéticos os ajudaram”, mas porque “a conjuntura foi muito dura” para eles. O Partido Comunista reforçou-se “consideravelmente” em França, em 1934-37, porque os seus quadros e militantes foram capazes de “animar uma agitação social para a qual eles contribuíram muito” com os seus 72 deputados comunistas dentro da Assembleia Nacional, de maio de 1936 a abril de 1938.

Despertar patriótico no Partido Comunista Francês

Longe de negar “os laços de extrema profundidade com a URSS”, a historiadora lembra, entre outras coisas, que a Terceira Internacional garantiu a formação de militantes “ligados ao desenvolvimento do movimento operário em conexão com Moscovo”, com cursos de formação “para todos os dirigentes comunistas”. Mas, igualmente importante, considera ela, que não se deve esquecer “o que esses laços trouxeram ao movimento dos militantes anticolonialistas”. Nesse período, o conceito de pátria internacionaliza-se, de certa forma.

«É com todo esse passado que podemos entender a extraordinária coragem dos comunistas na Resistência e a sua parte ativa – os Franco-atiradores e Partisans (FTP). Nenhum deles faz distinção entre o seu país e a URSS”, diz Annie Lacroix-Riz.

Segundo a historiadora, muitos militantes da época proclamavam que “morreriam pela sua Pátria francesa” e (!) pela União Soviética. Num país como a França, a partir 1940-41 e “especialmente 1943, com a instauração do Serviço de trabalho obrigatório (STO)” [1], quando a Resistência “se massificou”, desenvolve-se um “apego profundo” ao patriotismo.

Assim, “a União Soviética ajudou a forjar um movimento comunista apoiado em figuras militantes” e insuflou um novo alento.

Esse eco [da vitória da Segunda Guerra Mundial, NE] é muito mais geral do que aquele que ressoa apenas dentro do PCF”, sublinha Annie Lacroix-Riz.

A historiadora insiste no “calendário” da tomada de consciência do Ocidente na análise da situação na frente oriental.

Com a vitória de 1945, o prestígio da URSS reflete-se no PCF

  1. Lacroix-Riz cita uma carta do general Doyen a Pétain que, em meados de julho de 1941, dizia que “se esta Blitzkrieg [Guerra relâmpago] durar um pouco mais, a Alemanha está morta”. Para a historiadora, os dados foram lançados “pelo ataque à União Soviética e pela sua resistência feroz, observada pelos nossos chefes militares desde julho de 1941”.

Todo o mundo acredita que o ponto de viragem [na guerra, NE] é Stalingrado. Não, o ponto de viragem foi o colapso da Blitzkrieg nas três semanas que se seguiram ao ataque. Demonstro por documentos absolutamente irrefutáveis que o nosso Estado-maior compreendeu que essa incrível resistência soviética valeria uma derrota à Alemanha”, especifica Annie Lacroix-Riz.

A cientista lembra que, na época, a perceção da União Soviética como vencedora militar era partilhada “não apenas pelos comunistas, mas também pelos mais altos dirigentes do baile anticomunista”. A partir de Stalingrado, a pergunta se coloca cada vez mais não é já saber “se a Alemanha perderá a guerra”, mas “como organizar a paz ?”. Com documentos a apoiá-la, a historiadora recorda os relatórios policiais franceses, que mencionam a preocupação dos círculos privilegiados e da grande burguesia com a lentidão da progressão dos Aliados anglo-saxões, “o que se tornou um motivo de entusiasmo para os militantes comunistas”.

Com a vitória de 1945, o prestígio da URSS refletiu-se no PCF, que só por si já tinha várias razões para ter adquirido prestígio. A Resistência ativa confundiu-se com os grupos FTP [Franc-tireurs partisans], fossem eles franceses ou provenientes de populações oprimidas, militantes italianos ou judeus polacos”, diz Annie Lacroix-Riz.

Posteriormente, “as campanhas anticomunistas desenvolveram-se em França” e, a partir de 1946-1947, “o PCF perdeu muito espaço”. A historiadora, que mantém um vínculo intelectual com a Rússia e que se define como marxista, lembra que “como a classe operária ‘combativa’ ainda existia na França e a vitória era um fenómeno mobilizador a favor da URSS, o efeito dessa vitória durou até à década de 1960”, antes de a queda da União Soviética ter causado “a devastação na classe operária francesa e na da zona capitalista ocidental”.

O movimento comunista francês esteve ligado ao élan progressista, em coerência com a existência da combativa classe operária soviética. Tudo isso entrou em verdadeiro colapso nas últimas décadas”, concluiu Annie Lacroix-Riz amargamente.

[1] O Serviço de trabalho obrigatório (em francês, Service du travail obligatoire - STO) consistiu na requisição e transferência compulsória para a Alemanha nazi de centenas de milhares de trabalhadores franceses para ajudarem ao esforço de guerra alemão, nomeadamente em fábricas, na agricultura e nos caminhos de ferro.

Com a cumplicidade ativa do governo de Vichy (os trabalhadores franceses foram os únicos da Europa a ser requisitados por leis do seu próprio Estado, e não por uma ordem dos ocupantes alemães), a Alemanha nazi impõe o STO para compensar a falta de mão de obra, devido ao envio dos seus soldados para a frente de combate. – NT

Fonte: https://fr.sputniknews.com/75-victory-news/202005051043722795-les-resistants-communistes-proclamaient-quils-mourraient-pour-leur-patrie-francaise-et-pour-lunion/, publicado em 2020/05/05, acedido em 2020/05/12

Tradução do francês de TAM

 

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/os-resistentes-comunistas-proclamavam-97179

Avançam obras Forte Peniche

Autorizada verba de 3ME para Museu da Resistência e da Liberdade em Peniche
 
 
Fortaleza de Peniche foi uma das prisões políticas do Estado Novo. Foto: João Manuel Rosado
 
Os ministérios das Finanças e Cultura autorizaram a repartição por três anos da verba de três milhões de euros para o Museu da Resistência e da Liberdade, em Peniche, segundo portaria publicada hoje. A verba de três milhões de euros é repartida pelos anos de 2020 (1,2ME) e 2021 (1,8 ME), e financiada em 85% por fundos comunitários. 
 
Foi inaugurada, em abril de 2019, a exposição “Por Teu Livre Pensamento”, uma amostra do que vai ser o futuro museu.
A fortaleza, classificada como Monumento Nacional desde 1938, foi uma das prisões do Estado Novo de onde se conseguiu evadir, entre outros, o histórico secretário-geral do PCP Álvaro Cunhal, em 1960, protagonizando um dos episódios mais marcantes no combate ao fascismo.
 
19 de Junho de 2020
 

Via: as palavras são armas https://bit.ly/3dieODN

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/06/20/avancam-obras-forte-peniche/

Desconfinamentos

Este confinamento inspirou quem estimo e presoa referir em texto, ao seu estilo, qualquer coisa como isto:
«Agora que estão confinados os santos e as marchas populares  desconfinaram as sardinhas.
Proibidos os fogareiros a carvão, resta-lhes as latas de conserva  e as máscaras. Maldito vírus»
De pronto me ocorreu num outro confinamento, em tempo salazarento,  onde, algures na guerra colonial (Maquela do Zombo), me vi a mim a assar sardinhas... em molho de tomate... com arte!
Malditos vírus!
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

URAP participou em “Ato Público de Solidariedade com o povo dos EUA! Pela justiça e igualdade social”

Lisboa Martim Moniz s“O racismo não é uma opinião, é um crime, um atentado à democracia e à liberdade”, afirmou Francisco Canelas, da direcção da URAP, que representou a organização no “Ato Público de Solidariedade com o povo dos EUA! Pela justiça e igualdade social” promovido pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC).

“O combate ao racismo e à discriminação é imperioso, tanto nos Estados Unidos como em Portugal, e em todos os países do mundo”, disse, acrescentando que em Portugal, ao arrepio da Constituição, há muitos casos de violência e racismo por parte de forças policiais, tal como o caso do cidadão norte-americano George Floyd “como foram exemplo as recentes situações na Amadora, em eventos desportivos, a presença de criminosos racistas em programas de ampla audiência e aberta promoção de ideais racistas por parte dos mesmos”.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/37z9uuJ

Um 10 de Junho [com sabor a Abril...] - 2

 
A peça escultórica evocativa da libertação dos presos políticos da prisão de Caxias, que ocorreu dia 26 de Abril de 1974, da autoria do escultor Sérgio Vicente, com o número de presos que estiveram detidos no Forte entre 1936 e 1974, foi hoje inaugurada junto à Estação da CP de Caxias.
A cerimónia decorreu com a dignidade que se impunha e foram vários os oradores. Contudo destaco, pela emoção tida e provocada, o testemunho do ex-preso Pedro Soares, que podem seguir no vídeo (a 11min do fim)
 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Monumento evocativo da libertação dos presos políticos da cadeia do Forte de Caxias

fotoconstrucaomonumentocaxias

Uma peça escultórica evocativa da libertação dos presos políticos da prisão de Caxias, que ocorreu dia 26 de Abril de 1974, da autoria do escultor Sérgio Vicente, com o número de presos que estiveram detidos no Forte entre 1936 e 1974, vai ser inaugurada no dia 10 de Junho às 12:00, na Estrada de Gibalta, junto à Estação da CP de Caxias.

 

A inauguração da peça, escolhida por um júri entre diversas propostas apresentadas, esteve inicialmente prevista para 26 de Abril passado, mas só agora vai ser possível em resultado do atraso das obras devido à pandemia.

 

Junto ao monumento existe um passeio em barras, de pedra calcária, no qual está gravado o número de presos, ano a ano, que, de 1936 a 1974, passaram por aquela cadeia. Este número foi apurado pela URAP, após um trabalho realizado nos últimos anos na Torre do Tombo de consulta minuciosa aos registos nas fichas da PIDE que se encontram aí depositadas.

 

A URAP apela aos sócios e amigos – sobretudo aos ex-presos políticos que estiveram naquela cadeia do fascismo – para que compareçam à inauguração, que é igualmente uma homenagem aos resistentes antifascistas portugueses.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/3h12meU

Federico García Lorca – 122.º aniversário do seu nascimento

 
Foi fuzilado pelas costas, aos 38 anos, quando a violência fascista e homofóbica era a norma da Espanha franquista, beata e clerical.
 

A homenagem ao pintor, compositor, pianista, dramaturgo e poeta, é um libelo acusatório ao regime que assassinou a inteligência e regou a fé com o sangue da República.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/06/federico-garcia-lorca-122-aniversario.html

Aos que nos querem esquecidos

TRANCA E SALA DE CONVIVIO DO RC: BAIRRO DAS MINHOCAS
 
Anda por aí um neo-fascismo engravatado que tenta branquear a dôr, a miséria e a repressão sofrida pelo povo português durante décadas. Como se não tivesse existido a pobreza, a repressão e a guerra que marcaram gerações fazendo do medo um quotidiano e da sobre-exploração uma constante de vida.
Talvez queiram transmutar em verdadeiro o patético  discurso do 'pide' que via o Campo da Morte Lenta como um paradisíaco 'resort de luxo'
 
 
Ou talvez ambicionem tornar credível a hipócrita converseta  do maquiavélico'botas'.
 
Para esses corruptores da memória  fica um recado de jovens, mesmo em tempo de confinamento.
O Povo não esquece, e a luta continua...
 
 
E o Tarrafal não voltará:
 
 
 

As últimas palavras do último discurso de Martin Luther King

Martin Luther King.jpg

Discurso de Memphis, 3 de Março de 1968

As últimas palavras do último discurso deMartin Luther King:

(…)
Well, I don’t know what will happen now. We’ve got some difficult days ahead. But it doesn’t matter with me now. Because I’ve been to the mountaintop. And I don’t mind. Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I’m not concerned about that now. I just want to do God’s will. And He’s allowed me to go up to the mountain. And I’ve looked over. And I’ve seen the promised land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we, as a people will get to the promised land. And I’m happy, tonight. I’m not worried about anything. I’m not fearing any man. Mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord.

Bem, eu não sei o que acontecerá agora. Teremos alguns dias difíceis. Mas, para mim, isso não importa. Porque eu estive no cimo da montanha. E não me importo. Como todos, gostaria de ter uma vida longa. Por que não? Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero fazer a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha. E eu vi lá de cima. E vi a terra prometida. Talvez não vos acompanhe até lá. Mas, quero que saibam esta noite que nós, como povo, chegaremos à terra prometida. E estou feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo nenhum homem. Os meus olhos viram a glória da chegada do Senhor. 

 

James Earl Ray_1.jpg

James Earl Ray

Para ouvir na íntegra o discurso de Martin Luther King,de3 de Março de 1968, em Memphis clicar AQUI e para ler (em inglês) clicar AQUI.

 

Publicado neste blog:

 

Via: O CASTENDO https://bit.ly/2AxLtaL

28 de maio de 1926

Há 94 anos teve lugar o golpe de Estado de que viriam a apropriar-se as pessoas erradas para a mais longa ditadura europeia.

O integralismo lusitano, o nacional-sindicalismo e a Cruzada Nun’Álvares tinham feito o caminho para que o nacional-catolicismo se transformasse no fascismo paroquial de Salazar, um professor da Universidade de Coimbra, sem mundo e sem visão de futuro.

Salazar foi o protagonista da longa ditadura que adiou Portugal. Ficou “orgulhosamente só” a liderar o país onde o analfabetismo, a mortalidade infantil, a tuberculose e a fome foram a imagem do regime, para acabar na tragédia da guerra colonial.

Salazar saiu da aldeia do Vimioso para o seminário de Viseu e, daí, para a Universidade de Coimbra onde dirigiu a madraça do CADC que havia de fornecer-lhe os quadros para a repressão que o manteve no poder. Não recebeu a tonsura no seminário, mas fez do País uma sacristia.

Demonizou a política e proscreveu os partidos políticos disfarçado de não-político, e foi um dos responsáveis pela fundação do Partido Centro Católico (1921).

A censura, a Pide, a tortura, as prisões, o degredo e o medo, aquele medo que ainda hoje habita muitos portugueses, permitiram-lhe sobreviver ao apoio dado ao maior genocida ibérico, Francisco Franco, e à conhecida simpatia por Benito Mussolini, cuja foto exibia na sua secretária de trabalho, depois da derrota do nazi-fascismo em 1945.

O chefe incontestado do período mais negro do séc. XX anda há muito a ser branqueado por neofascistas que querem fazer esquecer a PIDE, essa bárbara e criminosa associação de malfeitores em cujos calabouços sofreram torturas, humilhações e a morte inúmeros democratas, na maior das impunidades, com a fria complacência do ditador e o silêncio cúmplice do cardeal Cerejeira.

Portugal foi um cárcere às ordens do biltre fascista, infestado de cúmplices e crápulas.

Quando esquecermos os massacres coloniais, a censura, as prisões sem culpa formada, a guerra colonial, os assassinatos, a Pide, os exílios, as torturas, os campos do Tarrafal e de São Nicolau, as masmorras de Peniche, Caxias e Aljube, os Tribunais Plenários, os bufos e rebufos e toda a violência fascista, não nos aperceberemos do regresso ao fascismo.

É por isso que todos os anos recordo o 28 de maio, o princípio do fim da democracia e o início da tenebrosa ditadura.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/28-de-maio-de-1926.html

Catarina Eufémia

Catarina, ceifeira, retirava o trigo do chão. Catarina, ceifada em seu trabalho, é semente, fecundou o chão.

 

 

Em Alentejo, a linda região no centro-sul de Portugal, as paisagens estendem um paraíso de olivais e vinhas, alongam-se em aldeias pitorescas, prados cheios de flores e florestas que respiram beleza.

Mas um fato histórico marca com sangue esse cenário. No dia 19 de maio de 1954 foi brutalmente assassinada a jovem camponesa Catarina Eufémia, de apenas 26 anos.

Naquela década, Portugal vivia sob a ditadura de António Salazar, que perdurou de 1932 a 1968, governando nos moldes do fascismo, apoiado pela doutrina social do catolicismo, exercendo o nacionalismo autoritário, orientado pelo corporativismo de Estado.

Catarina Eufémia era uma trabalhadora agrícola no Baixo Alentejo, assim denominada a região onde a capital é Beja. Ceifeira, como centenas de compatriotas, com três filhos pequenos, ajudava no sustento da casa na colheita de cereais, amendoais, ervas.

A luta por melhores condições de trabalho e salário digno vinha se intensificando desde a década de 40. Greves decorreram. As mulheres cada vez mais participativas nas reivindicações.

Naquele dia 19, uma manhã de quarta-feira, Catarina uniu-se a treze trabalhadoras para conversar com o feitor da propriedade, obter um aumento de apenas dois escudos em suas exaustivas jornadas. A Guarda Nacional Republicana foi acionada, junto com agentes da PIDE, a polícia política salazarista, para reprimir as grevistas. Um tenente de nome Garrajola interpelou o grupo de mulheres perguntando o que elas queriam.

– Quero apenas pão e trabalho – respondeu Catarina, de imediato e destemida.

O militar considerou a resposta insolente e deu-lhe uma bofetada, jogando-a no chão. Catarina levantou-se, e altiva, disse, desafiando-o:

– Já agora mate-me.

O tenente disparou três tiros espedaçando-lhe os ossos.

Há pelo menos três bons livros, “A Morte no Monte – Catarina Eufémia”, de José Miguel Tarquini, 1974, “Anatomia dos Mártires”, de João Tordo, 2013, e “O assassino de Catarina Eufémia”, de Pedro Prostes da Fonseca, 2015, que abordam de forma biográfica, romanceada e até investigativa, o que aconteceu naquele dia, o que antecedeu na vida de Catarina Eufémia e o que sucedeu na história, tornando-a símbolo da luta contra a exploração e a repressão, uma lenda da resistência antifascista pelo Partido Comunista Português, sem ter sido militante.

Conta-se que além de estar com um dos filhos no colo, de oito meses, que se machucou na queda no confronto com o tenente, Catarina estaria grávida. “Não foi uma, foram duas mortes!”, gritaram os trabalhadores diante o corpo no dia do enterro. O relato da autópsia, com os detalhes dos estragos que as balas à queima-roupa fizeram é chocante.

Poetas portugueses como Sophia de Mello Breyner, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel Duarte, José Carlos Ary dos Santos, e tantos outros, dedicaram belos e doloridos poemas em memória de Catarina Eufémia.

Um deles, “Cantar Alentejano”, de António Vicente Campinas, foi musicado por Zeca Afonso em 1971, uma bela canção réquiem gravada no disco “Cantigas de maio”.

“Acalma o furor campina
que o teu pranto não findou
quem viu morrer Catarina
não perdoa a quem matou”

Lembra um trecho do poema.

Na foto acima, de André Paxiuta, o olhar desconhecido de uma transeunte cruza o olhar de Catarina estampado na parede da memória em sua cidade, Baleizão. Os verdejantes ventos de Alentejo 66 anos depois sopram o pão de sua história. Catarina, ceifeira, retirava o trigo do chão. Catarina, ceifada em seu trabalho, é semente, fecundou o chão.

 

por Nirton Venâncio, Cineasta, roteirista, poeta e professor de literatura e cinema   |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/catarina-eufemia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=catarina-eufemia

Parabéns!

 
Hoje, celebram-se 98 anos de vida do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles.
 
Somos um país com muito poucas unanimidades. Ribeiro Telles faz parte das escassas figuras, em Portugal, que merece um generalizado respeito, pela sua obra profissional mas, essencialmente, por ter visto, antes de quase todos, a importância das questões ambientais para o nosso futuro coletivo e de ter tido a coragem e o desassombro de nos alertar para elas, num tempo em que fazê-lo era considerado uma bizarria, quase uma ideia ridícula e sem sentido.
 
Deixo aqui a minha homenagem a essa grande figura de cidadania que é Gonçalo Ribeiro Telles.
 

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

Maria Velho da Costa - Falecimento

 
 
Em 1972 foi publicada a obra “Novas Cartas Portuguesas” da autoria de três escritoras portuguesas, com sólida cultura, prestígio literário e forte participação cívica. Ficariam conhecidas internacionalmente pelas “Três Marias”.

Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa ousaram desafiar a primavera marcelista como percursoras da luta pela emancipação feminina, num país onde a mulher estava condenada à menoridade cívica, política e social.

É imperioso recordar que, então, estavam vedadas às mulheres a carreira diplomática, a magistratura, as forças armadas e policiais e, na prática, os lugares de poder. Nem a saída para o estrangeiro lhes era permitida sem autorização do marido.

A coragem cívica das três intelectuais, cuja luta continua um exemplo para os combates pela igualdade de sexos, deve ser exaltada agora, na morte de mais uma das autoras, e no futuro. Não há vitórias definitivas e a emancipação da mulher está longe de ser uma conquista irreversível, mesmo em países ditos civilizados.

A exaltação da condição feminina e a defesa da liberdade para as mulheres era mais do que a Igreja, as famílias e a sociedade podiam tolerar, mas a denúncia da repressão e da censura do regime fascista, que Marcelo, o Caetano, se esforçava por disfarçar, não era um direito, era uma afronta à moral e aos bons costumes definidos nas sacristias, no Movimento Nacional Feminino, na Legião e na Mocidade Portuguesa. A denúncia da guerra colonial, da discriminação, da falta de liberdade, da subordinação da mulher era uma heresia intolerável.

Não surpreenderam os insultos, a difamação e as calúnias da imprensa da ditadura. A coragem, inteligência e cultura eram valores intoleráveis em mulheres, e a dignidade a utopia de mulheres depreciativamente designadas ‘intelectuais’, quando o casamento era o principal papel que lhes era reservado, para adereço de maridos ricos, reprodução e escravatura da vontade masculina.

O Estado acusou as escritoras de terem escrito um livro “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”, e levou-as a julgamento como se a denúncia a guerra colonial, a discriminação, a falta de liberdade, a marginalização das minorias e a subordinação da mulher na sociedade não fosse a vergonha do Estado terrorista em que homens e mulheres vegetavam.

Em 25 de Abril de 1974 decorria ainda, num tribunal de Lisboa, o julgamento que já levava dois anos, mas não eram as autoras que ali eram julgadas e arriscavam a prisão, era a ditadura que se expunha ao ridículo e à censura internacional. A 7 de maio de 1974, dias após a Revolução do 25 de Abril, o juiz Lopes Cardoso leu a sentença:

“O livro ‘Novas Cartas Portuguesas’ não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”.

Quando se apagou mais uma estrela no firmamento das mulheres portuguesas que se bateram pela dignidade feminina, é obrigatório lembrar o seu inestimável contributo para a democracia.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/maria-velho-da-costa-falecimento.html

Na morte de Maria Velho da Costa

maria velho da costa

Maria Velho da Costa uma das escritoras maiores da literatura portuguesa, feminista, antifascistas morreu sábado, dia 23 de Maio, em Lisboa, aos 81 anos.

 

A sua obra – conto, teatro, mas sobretudo romance como “Maina Mendes” (1969), “Casas Pardas” (1977) e “Myra” (2008) – valeu-lhe vários prémios e condecorações, mas seria com “Novas Cartas Portuguesas” (1971), que escreveu em co-autoria com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, que iria enfrentar um processo judicial.

Interrogadas por um agente da Polícia Judiciária especializado em processos de prostituição e presentes no Tribunal da Boa Hora, o julgamento teria repercussões em Portugal e no estrangeiro.

O livro, que foi apreendido e proibido logo após a sua publicação, partia das cartas de amor escritas pela religiosa portuguesa Mariana Alcoforado e falava da condição da mulher durante o fascismo, da repressão e da censura do regime, enaltecendo a condição feminina e a liberdade de valores para as mulheres.

 

A URAP, que lamenta profundamente a morte de Maria Velho da Costa e endereça aos familiares e amigos as suas condolências, homenageia aqui a escritora transcrevendo o texto “Revolução e Mulheres”:

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2zh0cXy

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/24/na-morte-de-maria-velho-da-costa/

O Partido e os intelectuais nos anos 40 – O caso Bento de Jesus Caraça por Manuel Gusmão

 

O Partido e os intelectuais nos anos 40 – O caso Bento de Jesus Caraça
 
A reorganização do PCP e os seus III e IV Congressos (o I e o II ilegais), realizados respetivamente em 1943 e 1946, marcam a história de Portugal nos anos 40. No prefácio (de 1997) ao Informe Político do Comité Central ao IV Congresso do PCP, Álvaro Cunhal escreve: «A grande maioria dos quadros de direcção que se formaram nos anos da reorganização vinha da classe operária e revelava-se e forjava-se na intervenção directa e destacada em lutas de massas. 
 
«Citem-se alguns, limitando-nos a camaradas com tal actividade na altura do IV congresso, aos quais se juntaram, nos anos seguintes, muitos outros militantes de grande valor formados na mesma escola da organização clandestina e da luta de massas. Das construções navais: Alfredo Dinis (assassinado pela PVDE), Jaime Serra, Américo de Sousa. Da indústria corticeira: José Vitoriano, Américo Leal, José Carlos. Da indústria metalúrgica: António Dias Lourenço, Manuel Rodrigues da Silva. Da indústria vidreira: José Gregório, Afonso Gregório, Joaquim Gomes, que já nos anos 30, com 16 anos, dirigia a célebre luta dos aprendizes. Do proletariado agrícola alentejano: António Gervásio, Dinis Miranda. Da pequena indústria: Georgette Ferreira. A partir da organização clandestina: Octávio Pato, Sérgio Vilarigues, Manuel Guedes, Francisco Miguel, José Magro.
 
«Escola semelhante de formação comunista no trabalho da organização e na luta de massas foi a da juventude. A esta lista de dirigentes operários junte-se, pois, a referência […] ao elevado número de valiosos quadros forjados no MUD Juvenil». Os quais páginas antes Álvaro Cunhal mencionara: «Que se lembrem por ordem alfabética e a título de exemplos significativos: Alberto Vilaça, Ângelo Veloso, António Simões de Abreu, Areosa Feio, Aurélio Santos, Carlos Aboim Inglês, Carlos Brito, Carlos Costa, Carlos Pinhão, Dinis Miranda, Domingos Abrantes, Hernâni Silva, Ilídio Esteves, João Honrado, José Dias Coelho, José Gil Alves, Manuel Andrade, Margarida Tengarrinha, Maria das Dores (Lolita), Pedro Ramos de Almeida, Plácido de Sousa, Rogério Ribeiro.»
 
Um pouco mais à frente, Álvaro Cunhal acrescentará: «E faça-se ainda indispensável referência ao valor da luta revolucionária e ao valor científico e artístico dos intelectuais comunistas nos anos da reorganização. Lembrem-se os professores e cientistas Bento Caraça, Manuel Valadares, Zaluar Nunes, António Aniceto Monteiro, Óscar Lopes. Lembrem-se escritores do neo-realismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Alexandre Cabral. Músicos como Lopes-Graça. Pintores e escultores como Vasco da Conceição, Maria Barreiros, Augusto Gomes, Júlio Pomar, valiosos artistas e valiosos quadros, nesses anos. Soeiro Pereira Gomes é um caso à parte. Não foi o escritor que se tornou um militante clandestino e organizador de greves e outras lutas de massas, mas esse militante comunista que, revelando-se talentoso escritor, trouxe à literatura portuguesa aspectos vivos da sua experiência de revolucionário.»
 
Só a partir destas listas de quadros se pode concluir que a primeira metade da década de 40 exemplifica uma tendência que marca a história do PCP: é nos momentos em que cresce (se amplia, se aprofunda) e se renova a influência orgânica na classe operária que cresce também a influência entre os intelectuais. Esta tese pode formular-se também assim: não há qualquer incompatibilidade, antes há uma correlação efectiva, entre influência operária e influência intelectual.
 
Nos anos 40, a reorganização do PCP tem como efeitos:
 
A continuidade da acção do Partido, apoiando-se e orientando-se na e para a acção e luta de massas.
 
A continuidade da direcção do Partido e da imprensa partidária pela adopção de medidas de defesa do aparelho clandestino.
 
O reforço da influência operária e camponesa que se traduz nas grandes greves, manifestações e lutas nas regiões de Lisboa, Santarém e Setúbal ao longo da primeira metade dos anos 40.
 
Alargamento vigoroso da influência entre a intelectualidade, quer entre cientistas e professores universitários, quer entre escritores e artistas.
 
O lançamento do Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF) e depois do Movimento de Unidade Democrática (MUD) e do MUD Juvenil e a definição no VI Congresso do caminho para o derrubamento do fascismo.
 
O Partido que se vinha afirmando já como o partido do proletariado português, torna-se, com a reorganização, um grande partido nacional, sem perder a sua representatividade operária.
 
Os vários planos da acção dos intelectuais, neste período, podem ser sintetizados por uma expressão que Bento de Jesus Caraça usará: despertar a alma colectiva das massas.
 
Essa acção traduz-se num trabalho de criação e de animação militante de estruturas de democratização do acesso à cultura e de divulgação cultural: sociedades recreativas, bibliotecas, jornais, edições, escolas e universidades populares.
 
Os artistas, escritores, pintores e compositores que Álvaro Cunhal destaca, se têm traços em comum, que vêm da partilha de uma ideologia, características culturais e artísticos, apresentam também características que são, entretanto, testemunhas de uma forte individuação, sinais de personalidades efectivamente singulares.
 
Lembremo-nos da epígrafe de Gaibéus (1939) de Alves Redol: «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem.» Esta epígrafe foi mal compreendida, lida sobretudo como uma indesculpável menorização da arte literária. Entretanto, o seu autor publicara no ano anterior uma monografia intitulada Glória. Uma Aldeia do Ribatejo. Ensaio Etnográfico. Esta ambivalência entre o olhar do etnógrafo e a escrita literária manifesta, perante um leitor atento e sem preconceitos ideológicos, os traços de uma legítima e autêntica paixão pelo povo.
 
Se não se pode dizer que o neo-realismo nasceu de uma decisão do PCP, porque as coisas não se passam assim, nestas esferas da acção humana, pode-se dizer, porque é um facto inegável, que nasce do trabalho artístico e da visão do mundo de um forte núcleo de artistas que eram militantes comunistas.
 
Bento de Jesus Caraça (1901-1948)
Carlos Aboim Inglês apresentava assim Bento de Jesus Caraça, numa sessão de homenagem que lhe foi dedicada em 1978:
«Filho do povo trabalhador, ele foi um dos poucos que, saído “do fundo das massas”, como ele usava dizer, um dos que mais exemplarmente “se conservaram fiéis à sua própria classe e aos seus ideais de emancipação humana e não desertaram ingressando no campo contrário”
 
Caraça nutria um profundo desprezo, tanto mais profundo quanto era o de um homem profundamente humano e compreensivo, por aqueles que, saídos do povo, se não “conservaram fiéis à sua origem” e “se bandearam, por acção dos vários meios de que o aparelho dispõe, com os interesses dos que mandam”.»
 
Bento de Jesus Caraça foi Prof. Catedrático do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), desde 1929 até 1946. Em 1938, propôs com outros ao Conselho Escolar do ISCEF a fundação do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, de que foi Director até Outubro de 1946, altura em que foi demitido do ISCEF. Em 1940 fundou, com outros, a Gazeta de Matemática. Foi Presidente da UPP – Universidade Popular Portuguesa, extinta em 1944. Em 1941, fundou a Biblioteca Cosmos de que foi o único Director.
 
Dias Lourenço recorda em 2001, por ocasião do 1.º centenário do seu nascimento: «É para leccionar num destes cursos de aperfeiçoamento, do sindicato dos arsenalistas da Marinha, que Bento Gonçalves convida Bento de Jesus Caraça.»
 
«Nesta época, de grande repressão, os presos políticos iam directamente para Angra do Heroísmo. De Angra iam depois para o Tarrafal uns, outros ficavam lá, outros regressavam. Mas Angra era, em geral, o porto de chegada dos presos políticos que iam deportados. Ora bem, um dos presos políticos deportados foi o Manuel Rodrigues, que era comunista, e viria a ser o principal detentor do capital inicial da editora Cosmos. Foi ele mesmo que me contou esta história. Em Angra, Manuel Rodrigues encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: “Ó Bento, eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira… Tens alguma ideia da utilidade que possam vir a ter?” E o Bento Gonçalves respondeu: “Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão – cultural e revolucionária. E olha, a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele –  dizes que vais da minha parte – e pões-lhe esse problema.” Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção.»
 
Por sua vez Álvaro Cunhal refere: «O Avante! de Janeiro de 1944 noticiava a formação do Conselho Nacional, órgão supremo do MUNAF. O êxito deveu-se em grande parte à acção de Bento Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. […] O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio.»
 
Em 1931, numa conferência realizada na Universidade Popular de Setúbal, o tema da cultura surge a partir de dois elementos da habitação da terra pelo homem o conhecimento crescente do mundo em que vive, e que torna a sua vida mais segura, e o sentimento do belo, que lhe vem da contemplação da natureza e que, introduzido nas relações sociais, dá ao homem objectivos de ordem moral.
 
«O aperfeiçoamento constante dos meios de satisfação e desenvolvimento destas necessidades [de cooperação], ideias [de entreajuda] e sentimentos [como os do belo], constitui a cultura, que no dizer de Karl Marx “compreende o máximo desenvolvimento das capacidades intelectuais, artísticas e materiais encerradas no homem.”
 
«A cultura é assim simultaneamente um meio e um fim.»
Esta última frase mostra-nos que nesta altura dos anos 30, Bento de Jesus Caraça já tinha ultrapassado uma concepção instrumental da cultura. Repare-se que, para nós marxistas, a categoria de instrumento ou de instrumentalidade não deixa de ser importante porque meios e instrumentos são elementos do processo de trabalho, assim como de todo o processo de transformação. Mas de facto uma concepção ampla e profunda da cultura implica considerá-la também como um fim em si mesmo, livre jogo das forças humanas.
 
Daqui, Bento de Jesus Caraça, retirará a ideia de que se deve promover a cultura de todos e isso é possível porque ela não é inacessível às massas: o ser humano é indefinidamente aperfeiçoável e a cultura é exactamente a condição desse aperfeiçoamento progressivo e constante:
1.1.«Dar a cada homem a consciência integral da sua própria dignidade.»«A humilhação do homem perante o homem é imoral.»
 
1.2.«[…] tender ao desenvolvimento do espírito de solidariedade». Ao espírito de internacionalismo na «formação da pátria humana».
1.3.A escola deve ser pública, gratuita e os que a frequentam devem ser apoiados materialmente para que não sejam obrigados a abandoná-la por falta de meios.
 
1.4.Renovação constante do Ensino para combater a cristalização e a burocratização.
 
De 1933 data a famosa conferência «A cultura integral do indivíduo». Aí, a reflexão atribui-se uma enorme responsabilidade: «O que o mundo for amanhã, é o esforço de todos nós que o determinará.»
 
No presente está posta à nossa geração como grande tarefa a de «despertar a alma colectiva das massas».
 
 
«O que é o homem culto? É aquele que:
 
«1 – Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
 
«2 – Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
 
«3 – Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.»
 
Ser culto não é ser sábio, mas implica um certo grau de saber, aquele precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.
 
«A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa numa palavra, a conquista da liberdade.»
 
Bento de Jesus Caraça não perde o pé nestas altas esferas do pensamento reflexivo, e acrescenta:  
  
«Condição indispensável para que o homem possa trilhar a senda da cultura – que ele seja economicamente independente. Consequência – o problema económico é, de todos os problemas sociais, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar.»
 
Bento de Jesus Caraça combateu por uma concepção multifacetada da cultura, que não se restringisse à literatura e às outras artes, e incorporasse a cultura científica. Em relação ao ensino formal, nas Universidades propõe num artigo de O Diabo, intitulado «Humanismo e Humanidades»:
 
Haveria, então, um núcleo «comum a todas as formaturas universitárias. Esse núcleo compreenderia: I) um grupo de estudos históricos centrados na história da civilização, tomando atenção especial: à história da economia e do trabalho; à história da ciência, à história da filosofia, à história geral das artes e das religiões; II) um grupo de estudos científicos, compreendendo as bases e os conceitos fundamentais da matemática, da astronomia, da física, da química, da biologia e da economia política.
 
«Evidentemente, não se trataria, neste núcleo comum, de formar especialistas em nenhuma das rubricas apontadas, mas de habilitar, o que agora não sucede, todo o licenciado a saber situar-se no conjunto de ideias do seu tempo […].»
 
Foi graças ao trabalho desenvolvido nos anos 40 e nas décadas seguintes que foi possível escrever isto, no relatório do Comité Central ao VI Congresso do PCP, realizado em 1965, o Congresso que aprovou o Programa da Revolução Democrática e Nacional, sem o qual o 25 de Abril e o fluxo revolucionário de Abril seriam quase incompreensíveis. Foi graças a esse trabalho e ao que se lhe pôde acrescentar que o fluxo da revolução portuguesa foi um dos momentos que exibem aquela tendência de crescimento da influência do Partido na classe operária e entre os intelectuais.
 
«Portugal apresenta as características “originais” de ser um país dominado pelo imperialismo estrangeiro e ser um país colonialista; de ser um país atrasado, miserável e “subdesenvolvido” e um país onde as relações capitalistas de produção estão altamente desenvolvidas, inclusivamente nos campos; de ser um país com uma indústria débil e uma agricultura primitiva e onde entretanto o proletariado (industrial e rural no seu conjunto) tem um peso numérico relativo não inferior ao verificado em países industrializados e onde é muito elevado o grau de concentração do capital; um país onde existe há 39 anos uma ditadura fascista com um aparelho de Estado forte, sólido e bem organizado, que procura abafar pelo terror as mais ligeiras reclamações e protestos populares, e um país onde o movimento popular antifascista é tão amplo e profundo que aparece insistentemente à luz do dia em lutas económicas e políticas; um país onde é prosseguida uma política obscurantista, onde há quase 40 por cento de analfabetos, onde se persegue a arte e a cultura e um país onde, vencendo as barreiras fascistas, floresce um amplo movimento literário e artístico de conteúdo democrático.»
 
Notas
(1) In Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, I (1935-1947), Edições «Avante!», Lisboa, 2007, p. 400.
(2) Id., ibid., p. 383.
(3) Id., ibid., p. 400.
(4) Bento de Jesus Caraça, Conferências e Outros Escritos, s/edi., Lisboa, 1970, p. 7.
(5) Id., ibid., p. 109.
(6) In Avante!, 22 de Junho de 1995.
(7) Bento de Jesus Caraça, ob. cit., p. 6.
(8) Id., ibid., p. 8.
(9) Id., ibid., p. 8.
(10) Id., ibid., p. 8.
(11) Id., ibid., p. 9.
(12) Id., ibid., p. 33.
(13) Id., ibid., p. 53.
(14) Id., ibid., p. 51.
(15) Id., ibid., p. 51.
(16) Id., ibid., p. 51.
(17) Id., ibid., p. 282.
(18) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, III (1964-1966), Edições «Avante!», Lisboa,  2010, p. 325.

Via: O PARTIDO CENTENÁRIO https://bit.ly/3g9uxaO

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/21/o-partido-e-os-intelectuais-nos-anos-40-o-caso-bento-de-jesus-caraca-por-manuel-gusmao/

Auschwitz faz hoje 80 anos. Que nunca se esqueça

Os primeiros prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz, chegaram 80 anos atrás, em 20 de Maio de 1940. Os primeiros de milhões que seria condenados a trabalho e morte sem fim num dos mais notórios campos de concentração da Alemanha nazi.

O primeiro transporte, de acordo com a Enciclopédia do Holocausto , consistia em cerca de 30 internos alemães que a SS havia classificado como “criminosos profissionais”. Eles foram selecionados para o transporte do campo de concentração de Sachsenhausen, perto de Berlim.

Entre 1940 e 1945, as SS e a polícia, deportaram pelo menos 1,3 milhão de pessoas para os campos de Auschwitz. Destes, cerca de 1,1 milhão de pessoas foram mortas. Auschwitz foi libertado pelo exército soviético em 27 de Janeiro de 1945.

Sobreviventes e famílias de Auschwitz marcaram recentemente o 75º aniversário da libertação do campo. De acordo com um estudo divulgado no Memorial do Holocausto em 2018,cerca de dois terços dos millennials americanos não sabem o que é Auschwitz, de acordo com o The Washington Post. À medida que as memórias da Segunda Guerra Mundial continuam desaparecendo, os pesquisadores da Conferência sobre Reivindicações de Materiais Judaicos Contra a Alemanha descobriram que o conhecimento sobre os 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas também está a desaparer, principalmente entre adultos de 18 a 34 anos.

Vinte e dois por cento dos millennials disseram que não ouviram falar do Holocausto ou não têm certeza se ouviram falar sobre o Holocausto. O estudo contou com respostas de 1.350 adultos americanos em fevereiro, informou o Post. Segundo o estudo, 41% dos adultos americanos e 66% dos millennials foram incapazes de responder correctamente que Auschwitz era um campo de concentração ou um local onde os prisioneiros foram exterminados, informou o Post.

Novas informações sobre as vítimas e sobreviventes da perseguição nazista foram adicionadas ao que já é o banco de dados on-line mais abrangente do mundo.

O Arquivo Arolsen – Centro Internacional de Perseguição nazista, anteriormente conhecido como Serviço Internacional de Rastreamento, publicou 26 milhões de documentos no seu banco de dados, incluindo novas informações sobre trabalhadores forçados e judeus deportados, segundo Israel Hayom .

O banco de dados foi estabelecido pelos Aliados Ocidentais em 1944 e mudou seu nome para Arolsen Archives em 2019.

Todos os 26 milhões de documentos do Arquivo Arolsen já estão disponíveis online, incluindo novas informações sobre 21 milhões de pessoas deslocadas, perseguidas e assassinadas pelos nazis.

Os funcionários do arquivo disseram que a recente adição ao seu banco de dados on-line foi concluída com seu parceiro, Yad Vashem, o centro memorial do Holocausto de Israel em Jerusalém.

Isto significa que a maioria dos documentos do arquivo mais abrangente do mundo sobre perseguição nazi, agora está acessível online“, disse a organização em comunicado. “Eles são um conjunto único de evidências que documentam os crimes cometidos pelos nazis e têm um valor incomensurável para os parentes das vítimas da perseguição nazi“.

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/internacional/auschwitz-faz-hoje-80-anos-que-nunca-se-esqueca/

NESTE DIA – 19 de MAIO de 2020 – HÁ 125 MORREU EM COMBATE JOSÉ MARTÍ – HÁ 130 ANOS NASCEU HO CHI MINH – por EDGAR JORGE KOLLING

 

Selecção de Camilo Joseph

 

(1853 – 1895)

 

(1890 – 1969)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Companheiras e companheiros,

Hoje, 19 de maio de 2020, completam-se:

– 125 anos da caída em combate de José Martí, ocorrida em 1895. Poeta, escritor e revolucionário cubano; internacionalista, abraçou a América Latina como sua Pátria grande e denunciou as entranhas do imperialismo norte americano. 

– 130 anos do nascimento de Ho Chi Minh, ocorrido em 1890. Líder, estrategista e revolucionário vietnamita que participou ativamente junto com o povo na luta heroica que derrotou os invasores norte americanos.

Em suma, os dois povos: cubanos e vietnamitas derrotaram os Estados Unidos no século XX. Uma grande obra coletiva, que merece ser reverenciada por todos os lutadores e por todas as lutadoras do mundo.

Lembremos sempre de seus exemplos, dedicação à causa do povo, espírito de sacrifício, determinação de lutar toda a vida. Martí, por exemplo, viveu mais da metade de sua vida preso, deportado, exilado ou na clandestinidade; Ho Chi Minh esteve em outros países conhecendo a realidade, e lutou à frente de seu povo contra os Yankee’s até o fim de sua vida, em 1969. 

Que o legado desses lutadores sirvam de inspiração para enfrentarmos as adversidades de nosso tempo histórico e mantermos firmes a resistência ativa e o olhar no horizonte.

Segue em anexo:

José Martí

– Obras completas – Tomo I – escritos de 1862 a 1874 

– Pensamentos

– Carta a esposa e filhos

– Martí internacionalista

Ho Chi Minh

Pensamentos

Para conhecer mais sobre Ho Chi Minh e a Revolução socialista do povo vietnamita, sugiro : Vietnã, a guerrilha vista por dentro (Expressão Popular).

Vários desses textos já são de conhecimento de muitos de vocês. Mas uma das belezas do nosso Movimento é a capacidade de incorporar sempre novas pessoas, envolver as novas gerações como protagonistas de nossa organização, o que exige enraizar esses novos lutadores e lutadoras na grande memória de luta dos povos.

Viva José Martí!

Viva Ho Chi Minh!

abraços,

Edgar

 

Nota – Agradecemos aqui a enorme disponibilidade do Edgar Jorge Kolling e do Camilo Joseph. 
Como não temos possibilidade de reproduzir aqui o Tomo I das Obras Completas de Martí, procuraremos reencaminhá-lo para no-lo solicitar expressamente.
***

 

Pensamentos de José Martí

 

  1. Há pessoas que vivem contentes, ainda que vivam sem brio.  Há outros que padecem como em agonia quando vêem que há pessoas que vivem sem brio. No mundo é preciso ter certa quantidade de brio, como é preciso ter certa quantidade de luz. Quando há muitos seres humanos sem brio, há sempre outros que têm em si o brio de muitos homens. Estes são os que se rebelam com força terrível contra os que roubam a liberdade dos povos, o que é o mesmo que lhes roubar o brio. Nestes homens vão milhares de outros homens, vai um povo inteiro, vai a dignidade humana.

  2. Somente a opressão pode temer o pleno exercício da liberdade.

  3. Quando alguém sabe para que serve tudo o que dá na terra, e sabe o que os seres humanos já fizeram neste mundo, sente o desejo de fazer ainda mais do que já foi feito. Isto é a vida. Porque as pessoas que estão com os braços cruzados, sem pensar e sem trabalhar, vivendo do que outros trabalham, estas pessoas comem e bebem como as demais, mas na verdade elas não estão vivas.

  4. Qualquer pessoa é criminosa quando promove uma guerra evitável e também o é, quando não promove uma guerra inevitável.

  5. Posto que a viver vem o homem, a educação há de prepará-lo para viver. Na escola se deve aprender o manejo das forças com que na vida se há de lutar. Escola não se deveria dizer, mas sim oficina. E a caneta se deveria manejar nas escolas pela tarde, porém de manhã, a enxada.

  6. Toda pessoa tem o dever de cultivar sua inteligência, por respeito a si próprio e ao mundo.

  7. Que cada um aprenda a fazer algo de que necessitem os demais.

  8. A educação não é nada mais do que isso: a habilitação das pessoas para que obtenham com honradez os meios de vida indispensáveis no tempo em que existem, sem rebaixar por isso as aspirações mais delicadas, superiores e espirituais, que são a melhor parte do ser humano.

  9. Quem queira povo, deve habituar a todos os homens e as mulheres a criar.

  10. A pobreza passa, a desonra não.

  11. Para as crianças trabalhamos, porque são elas as que sabem querer, porque as crianças são a esperança do mundo. E queremos que nos queiram, e nos vejam como coisa de seu coração.

  12. Para as crianças não se deve dizer mais do que a verdade. E ninguém deve dizer-lhes o que não tenha certeza de que é como está dizendo, porque as crianças vivem acreditando no que lhe disse o livro ou professor, e trabalham e pensam como se isso fosse verdade. Se lhe dizem mentiras, sua vida se fará de modo equivocado. E não podem ser felizes se não sabem como as coisas são de verdade. Nem podem voltar a ser crianças para começar a aprender tudo de novo.

  13. E pensamos que não há melhor sistema de educação do que aquele que prepara a criança a aprender por si mesma.

  14. O educador é letra viva.

  15. A educação é como uma árvore. Semeia-se uma semente que se abre em muitos ramos.

  16. Sabias? É mais feliz o povo que melhor tem educado aos seus filhos.

  17. A natureza inteira treme diante da consciência de uma criança.

  18. A liberdade custa caro e é necessária. Ou nos resignamos a viver sem ela, ou nos decidimos a pagar seu preço.

  19. Fazer é a melhor maneira de dizer.

  20. As coisas boas devem ser feitas sem chamar todo mundo pra ver. É bom porque é. E porque lá dentro de nós se sente um gosto quando se faz um bem, ou quando se diz algo útil para os demais. Isso é melhor que ser príncipe: ser útil.

  21. As crianças deveriam lançar-se no choro quando passem um dia sem que aprendam algo novo ou sem que prestem algum serviço a alguém.

  22. Assim é a vida: não cabe nela todo bem que podemos fazer. As crianças deveriam juntar-se pelo menos uma vez por semana, para ver a quem poderiam fazer algum bem, todos juntos.

  23. Antes tudo se fazia com os punhos. Agora, a força está no saber, mais do que nos socos. Mas é bom aprender a defender-se, porque sempre há gente besta no mundo; porque a força dá saúde. E porque é preciso estar pronto para pelear quando um povo ladrão queira vir roubar nosso povo. Para isso é bom ser forte de corpo. Porém para o demais da vida, a força está em saber muito.

  24. Assim queremos que as crianças da América sejam: pessoas que digam o que pensam e o digam bem: pessoas eloqüentes e sinceras.

 

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Martí internacionalista

Publicado: 2013.01.08 – 16:53:55   /  web@renciclopedia.icrt.cu  /  Teresa González Reina
 

“Somos hombres, además de cubanos, y peleamos por el decoro y la felicidad de todos los hombres”. Estas palabras pronunciadas por José Martí en 1889, durante un acto efectuado en el Hardman Hall, de Nueva York, en ocasión de la efeméride del 10 de octubre, evidencia el pensamiento internacionalista de nuestro Héroe Nacional.

José Martí dejó a la Humanidad un extraordinario legado social y revolucionario prolongado en su creación artística.  El verso y la prosa tuvieron en su palabra intensa y útil un sitio donde la dignidad y el ejemplo, y su inagotable amor, se entregaron siempre con su desgarradora y tenaz confianza en el mejoramiento humano.

Cantó a la naturaleza, al paisaje, a la mujer, a la patria, a la amistad, a los más caros ideales antiimperialistas, antirracistas, latinoamericanistas, internacionalistas. Y fustigó la injusticia, y dio su vida por un mundo mejor, ese que él reclamaba con todos y para el bien de todos.

De Martí aprendemos siempre. Y a su obra debemos acercarnos con la avidez y el amor que él merece y nos inspira. Y entre sus múltiples facetas, se destaca su internacionalismo, asumido con sabiduría.

De él podemos decir que, sin ser comunista por afiliación, tuvo una actitud comunista ante la vida, lo que se demuestra en todas sus acciones, en su obra, en su proyección.

Su recio espíritu, su notable sentimiento, su pensamiento amplio y humanista, demuestran su estirpe cosmopolita, de hombre entero, cuya patria no se limita a la tierra donde vio la luz del sol que tanto amara, sino que se prolonga a toda la humanidad, a todo rincón donde hubiera una rosa o un niño, un ser humillado, una obra que hacer.

Paradigma de internacionalismo, en el espíritu y en la acción, Martí se define desde sus primeros años y en el semanario Patria Libre, publica el 23 de Enero de 1869, poco antes de cumplir los 16 años, el drama en versos “Abdala”, donde expresa:

“El amor, madre, a la patria
no es el amor ridículo a la tierra
ni a la hierba que pisan nuestras plantas
Es el odio invencible a quien la oprime,
es el rencor eterno a quien la ataca”

Martí conoció la lucha por la independencia de Cuba y se comprometió con ella desde que tuvo conciencia de esa causa justa y necesaria. Era apenas un adolescente cuando fue condenado a trabajos forzados en las canteras de San Lázaro. Desde allí, en el reverso de una fotografía, escribe a Doña Leonor:

”Mírame madre, y por tu amor no llores.
Si esclavo de mi edad y mis doctrinas
tu mártir corazón llené de espinas
piensa que nacen entre espinas, flores.”

Deportado a España, concibe allí “El presidio político en cuba”, texto donde denunció los atropellos que sufrían los ancianos y los niños, los negros, y los esclavos, cruelmente sentenciados a una vida mísera sin horizontes ni esperanzas, víctimas de crueles enfermedades y del más vil latrocinio, que él mismo padeció.

Viaja por América, conmocionada aún por la guerra emancipadora de Sucre, Bolívar, San Martín e Hidalgo, y a su paso deja estelas de su descollante personalidad, su idiosincrasia maravillosa nutre el espíritu de los latinoamericanos, que aprecian en él, al guía y dirigente de la nueva redención.

La palabra orientadora, vibrante, precisa, de José Martí se esparce por el ámbito internacional como un alerta para señalar el verdadero camino a seguir por la naciente generación en aras de una completa liberación, y señala, por ejemplo:  “La tierra entera debía convertirse en un abrazo.”

Para Martí, toda la humanidad debía ser una sola, en ideales y en hechos, y que estos debían basarse en la solidaridad, el amor, la comprensión y el respeto entre todos los pueblos. En sus múltiples viajes Martí dejó esclarecido: “De América soy hijo y a ella me debo”

Podemos destacar, por lo tanto, que él fue en su tiempo, lo que son hoy Che y Fidel, quienes representan para los pueblos del mundo: un paradigma, una ideología pura y altruista, intransigente con el enemigo pero fraternal y sincera con el hermano, dignos y heroicos.

Como  lo son también Gerardo, Ramón, René, Antonio y Fernando, los cinco héroes prisioneros del imperio y decía Martí: “Esos son héroes: los que pelean para hacer a los pueblos libres, o los que padecen en pobreza y desgracia por defender una gran verdad”.

En los distintos momentos del quehacer martiano, en los diversos campos en que se desarrolló, como la oratoria, las letras, la lucha, que dejó definido su internacionalismo: “En la mejilla ha de sentir todo hombre verdadero el golpe que recibe cualquier mejilla de hombre”.

En Guatemala, México, Estados Unidos, España, Santo Domingo doquiera que estuvo Martí, escribió artículos en periódicos, gacetas, y revistas, como en el diario venezolano “La Opinión Nacional”, “La Revista Universal”, de México, y “Patria”, de New York, fundado por él el 14 de Marzo de 1892.

En ellos recaba la necesidad de una unión sin máculas ni prejuicios raciales, sociales o intelectuales, la urgencia de que todas las naciones latinoamericanas se unieran de manera limpia y fuerte para enfrentar al imperialismo que como dijera en su ensayo “Nuestra América”:

“Sobre algunas naciones está durmiendo el pulpo”, ese monstruo que Martí conoció cabalmente porque vivió en él y le conoció las entrañas. “Ni uniones de América contra Europa, ni con Europa ni contra un pueblo de América. La unión con el mundo, y no con una parte de él, ni con una parte de él contra otra”

En los “Versos Sencillos” como en toda su obra, José Martí proclama su internacionalismo.

“Con los pobres de la tierra, quiero yo mi suerte echar”; “Yo vengo de todas partes y hacia todas partes voy”; “Estimo a quien de un revés echa por tierra a un tirano, lo estimo si es cubano, lo estimo, si aragonés”.

De Martí heredamos el ejemplo, su amor y consagración a la humanidad. De él aprendimos que : “El deber de un hombre está allí donde es mas útil”  y  que “Patria es Humanidad”

Por todo esto, José Martí, internacionalista, autor intelectual del Moncada, nuestro Héroe Nacional vive en cada hombre o mujer que de forma altruista marcha a otras tierras del mundo, como aquellos que junto al Che lo hicieron por la independencia latinoamericana o por el sufrido continente africano, en cada camarada que ofrece su sangre a otros hermanos, en cada trabajador de la salud, de la educación, de la cultura, de la ciencias o el deporte, en un gesto solidario, rubrican con su sabiduría y experiencia el ideal martiano tan puro y vigente en nuestro pueblo, esos que confirman que: “Día a día se hace la historia”, y como se afirma un pueblo que honra a sus héroes, José Martí es un hombre vestido en todo un pueblo, útil, compañero, internacionalista. Y es esa dignidad de estrella con que asumimos la obra revolucionaria.

***

Ho Chi Minh(19/05/1890-02/09/1969)

Revolucionário e dirigente do Vietnã

 

 

É preciso elevar o nível teórico dos quadros antigos e exercitar os quadros intelectuais no trabalho de massas.

As massas só dão afeto àqueles que são dignos deste por sua conduta e por suas virtudes. É preciso que nós mesmos demos o exemplo, se queremos conduzir o povo.

Os camaradas devem adquirir as quatro virtudes revolucionárias: trabalho, economia, integridade, retidão.

Para fazer a revolução, é necessário, antes de tudo, que cada pessoa corrija seu próprio caráter.

Não fazer:

– Jamais faltar à nossa palavra.

– Jamais atentar contra as crenças ou costumes populares.

– Não fazer nem dizer nada que possa fazer crer aos habitantes que os desprezamos.

 

A emulação patriótica tem um tríplice objetivo:

– Vencer a fome.

– Vencer a ignorância.

– Vencer o invasor.

 

Eis o meio: apoiar-se nas forças do povo, no moral do povo.

Para criar: a felicidade do povo.

 

Seis pontos do que fazer:

  • Ajudar efetivamente a população em seus trabalhos quotidianos (colheitas, coleta de lenha para aquecimento, transporte de água, consertos,…).

  • De acordo com as possibilidades, fazer compras para as pessoas que moram longe do mercado (facas, sal, fios, agulhas,…).

  • Nas horas de lazer, contar anedotas alegres, simples e úteis para a resistência, sem, no entanto, trair os segredos da defesa nacional.

  • Ensinar o alfabeto e as noções de higiene habituais.

  • Estudar os costumes regionais a fim de compreendê-los bem. Primeiro para ganhar a simpatia dos habitantes, depois para explicar-lhes, aos poucos, porque convém ser menos supersticioso.

  • Fazer sentir à população que somos sérios, trabalhadores, disciplinados.

 

O partido é como um dínamo, e as tarefas acima são comparáveis a lâmpadas. Se o dínamo é suficientemente possante, as lâmpadas se acendem!

***

Carta de JOSÉ MARTÍ  a sua esposa Carmen de Mantilla e a seus filhos

 

Baracoa, Cuba, 16 de abril de 1895.

Carmita querida e meus filhos:

Escrevo-lhes após ter chegado a uma praia de pedras e de espinhos. Éramos seis e estamos a salvo neste acampamento feito entre palmeiras e plátanos. No caminho recolhi para ti, Carmita, a primeira flor, e para Maria e Ernesto, pedras coloridas; as recolhi como se fosse vê-los logo, como se não me esperasse esta lona mas sim a casa, aconchegante e generosa, que sempre tenho diante de meus olhos.

É muito grande, Carmita, minha felicidade. Sem ilusões nem alegria egoísta, posso dizer-te que cheguei à minha natureza mais plena, e que a dignidade que vejo em meus companheiros e a honra de estarmos lutando pelos nossos direitos, me envolve como uma doce embriaguez. Somente a luz é comparável a minha felicidade. Porém a todo instante estou vendo teu rosto, piedoso e sereno, e aproximo meus lábios da face das crianças, quando amanhece, quando anoitece, quando me aparece no caminho uma flor, quando vejo a formosura destes rios e montes, quando bebo, fincado na terra, a água clara do arroio, quando fecho os olhos, contente de mais um dia em liberdade. Vocês me acompanham e me rodeiam; os sinto, calados e vigilantes, ao meu redor. A mim só vocês me faltam mas a vocês, o que faltará? De cada angustia, de cada ansiedade, de cada medo, como estão se salvando? Como repor a ajuda que não estou podendo lhes dar? Cuba já tem escrito seus nomes com meus olhos em muitas nuvens do céu e em muitas folhas de árvores.

Meu sentido de homem útil faz ainda maior o pesar de não estar com você Carmita, com vocês meus filhos. Recordarão vocês de mim com a mesma veemência e lealdade com que eu os recordo?

Ah, Carmita, se me visses por estes caminhos, contente e pensando em ti, com um carinho mais suave e forte do que nunca, querendo colher para ti, sem correio que possa mandá-las, estas flores de estrelas, molhadas e brancas, que crescem aqui nestes montes…

Vou bem carregado, minha querida, com meu rifle ao ombro, meu facão na cintura, um grande tubo com os mapas de Cuba, nas costas minha mochila, com remédios, roupa, uma rede, livros, e no peito, o teu retrato.

O papel está acabando e o correio não pode ir muito pesado. Escrevo com todo o sol sobre o papel. Vejam-me vivo e forte, e amando mais do que nunca aos companheiros de minha solidão e medicina de minhas amarguras. Daqui não temam. As dificuldades são grandes mas os que hão de vencê-las, também. Manoel, trabalha. Carmita, escreva para mamãe. Carmita e Maria, minhas filhas, se eduquem para a escola. Uma palmeira e uma estrela vi lá no alto, sobre o monte, ao chegar ontem aqui. Como não haveria de pensar em vocês meus filhos, e em você, querida, ao ver o límpido céu da noite cubana? Queiram bem ao seu

 

                                                                                                       Martí.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/19/neste-dia-19-de-maio-de-2020-ha-125-morreu-em-combate-jose-marti-ha-130-anos-nasceu-ho-chi-minh-por-edgar-jorge-kolling/

Catarina Eufémia – 19 de maio de 1954 – Efeméride_2

Há 66 anos o abrutalhado tenente da GNR, Carrajola, inscreveu o seu nome na memória dos portugueses ao assassinar a tiro uma ceifeira analfabeta, mãe de três filhos, durante uma greve de assalariados rurais, quando resistia à repressão fascista. Dele ficou a raiva e o nojo.

Hoje é dia de recordar, com raiva e nojo, o crime do assassino impune e a coragem da jovem Catarina Eufémia, símbolo da mulher corajosa cujo martírio perdura na memória dos que não esquecem a ditadura salazarista e os alegados brandos costumes.

Quando a hidra fascista renasce sob vários disfarces, recordar aquela mãe-coragem de 26 anos, é homenagear as mulheres que lutaram pela dignidade e combater o esquecimento.

Ser mulher, pobre, analfabeta e assalariada rural foi o ónus de milhares de portuguesas que sofreram a ditadura. Catarina morreu a combater com a intuição de que é preferível morrer lutando do que desistir e sobreviver na escravidão.

***

RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

(José Carlos Ary dos Santos)

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/catarina-eufemia-19-de-maio-de-1954.html

AS PANDEMIAS

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Em 1919 o vírus instalou-se oficialmente na Alemanha que contaminou a Itália em 1922 e esta por sua vez contagiou Portugal em 1933, a Espanha em 1939 é atingida barbaramente.
 
O vírus-nazi-fascista arrasou países, causou milhões e milhões de mortes e sofrimento indiscritível. O vírus aparentemente extinto em 1945, deixou no entanto profundas metástases na Península-Ibérica. 
 
Para que não se menospreze a perigosidade do fascista-vírus, é necessário ancorar na memória coletiva que esta peste, sofrida desde Maio de 1933 até abril de 1974, só na guerra colonial matou 8.832 homens e deixou feridos ou incapacitados cerca de 100 mil. Não contando as mortes e sofrimento dos povos africanos.
 
Durante o fascismo-salazarentos emigraram milhões de portugueses fugindo à fome pandémica gerada por essa ideologia macabra.
 
QUE ESTE FLAGELO NÃO MENORIZE A OUTRA TRAGÉDIA.
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Os 75 anos da vitória da civilização contra a barbárie nazista

Em 8 de maio, completaram-se 75 anos da rendição alemã, que marcou o fim da Segunda Grande Guerra. Foi a vitória da democracia e da civilização contra a barbárie da extrema direita.

 

 

Na madrugada de 8 de maio de 1945, em uma pequena escola de tijolos vermelhos, em Reims, no nordeste da França, os alto dignatários do que restava da arrogância nazista, o general Alfred Jodl (ex-chefe do Alto Comando da Wehrmacht, condenado a morte em 1946 por crimes contra a humanidade pelo Tribunal de Nuremgerg) e o almirante Hans Georg von Friedeburg (ex-comandante da marinha alemã) assinaram a rendição incondicional da Alemanha, ante os generais Ivan Susloparov (soviético), Walter Bedell Smith (estadunidense) e François Sevez (francês).

Foi o fim da agressão nazista no Ocidente, na Ásia e no Pacífico a guerra continuaria mais alguns meses, até a rendição do Japão em 2 de setembro de 1945. A Segunda Grande Guerra foi o maior e mais sangrento episódio da luta de classes e contra a democracia no século 20.

A guerra ocorreu num contexto de agravamento intenso da resistência das classes dominantes europeias contra o avanço da democracia, resistência radicalizada na Alemanha e outros países, como a Itália e mesmo setores da elite na França, Inglaterra, EUA e outros lugares.

O marco dessa resistência à democracia foi a Revolução Russa de 1917 e o início da construção do socialismo. Isso era inaceitável para as classes dominantes do Ocidente, que tudo fizeram para derrotar a república proletária, esforço reacionário acentuado desde que o governo bolchevique venceu a Guerra Civil, apoiada pelas potências ocidentais, em 1922.

Depois da ascensão do nazismo ao poder em 1933, os governantes da Inglaterra e da França fizeram vistas grossas às transgressões de Adolf Hitler às obrigações impostas pelo Tratado de Versalhes à Alemanha, e não se opuseram ao fortalecimento das forças armadas alemãs, nem reagiram à anexação de territórios como a Renânia em 1936. Os governos britânico e francês chegaram a assinar um vergonhoso tratado com Hitler – o Acordo de Munique, de 29 de setembro de 1938, que entregou a Tchecoeslováquia à sanha nazista. E que deu liberdade de ação aos nazistas na Europa para que recuperassem territórios perdidos na Primeira Grande Guerra. Dessa maneira, esperavam amansar Hitler e dirigir sua ação para destruir a União Soviética.

Adolf Hitler e a liderança nazista acreditavam que teriam uma vitória rápida contra os russos, que viam como “sub-humanos”, bárbaros, racialmente inferiores. Seu objetivo era a expansão sobre os territórios no leste da Europa, sobretudo as estepes férteis da Ucrânia, vistos como um “lebensraum” (espaço vital) para a expansão alemã.

A guerra como recurso para conquistar esse “espaço vital” fora registrada por Hitler, em 1925, no livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”), que se tornou o evangelho nazista. “Quando hoje falamos em novo território na Europa, devemos pensar principalmente na Rússia e nos seus Estados vassalos limítrofes”, escreveu o líder nazista. Para isso seria necessário abrir naquelas terras um vazio populacional com o assassinato de ao menos 30 milhões de pessoas.

Em 30 de março de 1941, numa reunião para planejar a invasão da URSS (que ocorreria em junho daquele ano) Hitler teria dito que aquela seria a “luta de duas visões de mundo”, uma “sentença aniquilatória contra o bolchevismo”, que é a “mesma coisa que criminalidade antissocial”, registrou o general Franz Haider, que participou daquela reunião. “Comunismo, tremendo perigo para o futuro”, teria dito Hitler. O führer acreditava que a invasão seria mais uma “blitzkrieg” – um ataque relâmpago, rápido. Em seus planos, a guerra contra a URSS terminaria antes do Natal de 1941 e do temível inverno russo. “Nós só temos que chutar a porta da frente e todo o edifício ruirá”, disse em outra ocasião, relata o historiador Rupert Matthews. A reação russa à invasão alemã deu-se num nível e com uma força e determinação que os nazistas não esperavam, nem as classes dominantes nas demais potências. A resistência popular contra a ocupação nazista começou a ser preparada logo no início da invasão. Em 27 de junho, cinco dias após a agressão alemã, o governo soviético começou a organizar a ação guerrilheira (que mobilizou na luta toda a população adulta, homens e mulheres) como força complementar à do exército regular. Ela foi, disse o historiador Henri Bernard, uma gigantesca operação militar em harmonia com os planos de luta e com “apoio total da população”. A enorme mobilização do povo justifica o nome que os russos dão àquele conflito: “grande guerra pátria”.

Aqueles que esperavam que a invasão da URSS repetisse o desempenho das “blitzkrieg” e fosse uma guerra rápida erraram feio. Aquele foi num ótimo exemplo da cegueira ideológica que impede uma visão clara da vida real: o conservadorismo de direita, o nazismo, a repulsa à liberdade e autonomia dos povos, foi o grande embaraço que impediu as lideranças burguesas de então de enxergarem a solidez do regime soviético e apostarem em sua destruição pelos nazistas.

Solidez que os nazistas provaram na prática ao invadir a URSS. Em janeiro de 1942, um diplomata inglês que servia em Moscou enviou a seu governo, em Londres, um telegrama onde dizia: “Essa ofensiva forçará os nazistas a um longo recuo. Uma nova ofensiva alemã está prevista para a primavera, podendo fazer alguns progressos limitados na Rússia, mas não logrará muito. Em seguida, os russos pretendem dar o golpe de misericórdia no outono ou no inverno. Não acredito que os russos parem nas fronteiras alemãs, mas que partam para uma derrota da Alemanha de forma conclusiva e definitiva” (citado por Rupert Matthews).

Assim, aquele diplomata inglês anteviu o que aconteceria nos anos seguintes. O ponto alto da contra-ofensiva soviética que derrotou o nazismo foi registrado visualmente na conhecida fotografia de um soldado russo hasteando a bandeira da foice e do martelo no teto do Reichstag, a sede do parlamento alemão, em Berlim, em 2 de maio de 1945 – cerca de três anos e três meses após a vitória soviética em Stalingrado, onde começou a virada da guerra contra os nazistas.

A entrada do Exército Vermelho em Berlim, no início de maio de 1945 foi o ponto final da sangrenta e criminosa aventura guerreira iniciada por Adolf Hitler e seus asseclas em 31 de setembro de 1939, acentuada desde a invasão da União Soviética, em 22 de junho de 1941.

Desde 1941 o governo soviético apelava pela abertura de uma segunda frente, no Ocidente, contra a agressão nazista. Mas enfrentaram a oposição da liderança ocidental. O primeiro ministro inglês, Winston Churchill, por exemplo, era contrário à abertura de uma segunda frente, sob o pretexto do poderio alemão. Os soviéticos, dirigidos por Joseph Stalin, apelavam por uma grande aliança mundial, de comunistas, socialistas, democratas e defensores do progresso social, na luta contra o nazismo, o governo de extrema-direita que ameaçava a civilização em seu conjunto.

As batalhas de Moscou (2/10/1941 – 07/01/1942), Stalingrado (23/08/1942 – 02/02/1943, considerada o início da derrota nazista na guerra), Kursk (04/07/1943 – 23/08/1943), e o heroísmo do povo russo contra o cerco nazista a Leningrado (08/09/1941 – 27/01/1944), deixaram claro para o mundo que as tropas nazistas não eram invencíveis apesar da crença em contrário que havia no Ocidente, sobretudo depois da queda e ocupação nazista da França em 1940, que se fixaram no norte do país, deixando o sul sob o regime pró-nazista dirigido pelo marechal Henri Philippe Pétain.

Os criminosos nazistas não eram indestrutíveis – esta foi a mensagem que os russos deram ao mundo desde Moscou, Stalingrado, Leningrado e Kursk.

Começou ali o rolo compressor vermelho que expulsou os nazistas e os empurrou ao território alemão. Não foi um passeio, mas um esforço de guerra que ninguém, na liderança nazista ou na ocidental acreditava que fosse possível. Os governos da Inglaterra e dos EUA acreditavam que o povo russo, ante a ocupação alemã – que, apostavam, veriam como “libertadora do comunismo” – se levantaria contra o governo soviético.

Na véspera da invasão da União Soviética, o serviço secreto britânico calculou que a URSS seria derrotada em oito ou dez semanas. Na mesma linha um funcionário do Departamento de Estado dos EUA foi mais “pessimista” e previu que a derrota soviética ocorreria entre um a três meses. (citados por Domenico Losurdo).

O historiador estadunidense John Bagguley dá a dimensão das razões da insistência soviética pela abertura da segunda frente. Ele é taxativo ao dizer que a ação ocidental (inglesa e estadunidense) não foi central na guerra para derrotar Hitler. Era contra os russos e os povos do leste da Europa que os nazistas dirigiam a parte mais significativa de sua ação guerreira, cuja medida é dada pela lembrança que o então primeiro ministro britânico, Winston Churchill registrou, ele próprio, em suas memórias: enquanto os aliados brincavam, no Ocidente europeu, com seis divisões alemãs, os russos enfrentavam 185 divisões da Wehrmacht – 30 vezes mais! Essa disparidade levou o historiador Bagguley a reconhecer que a Segunda Grande Guerra foi na verdade, “uma guerra soviético-germânica, com a ação inglesa e americana apenas na periferia”.

Poucos meses após a vitória em Stalingrado, as forças soviéticas chegaram aos países ocupados pelos nazistas no Leste da Europa, e, em abril de 1945, ao território da Alemanha, cuja capital, Berlim, foi tomada por eles.

O desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944 – o famoso Dia D, que significou a abertura da frente ocidental que os soviéticos pediam desde 1941 – só ocorreu depois do começo da ofensiva do Exército Vermelho no Leste Europeu, no início daquele ano e que avançou rapidamente rumo ao oeste.

A derrota alemã coroou a árdua e difícil caminhada iniciada desde vitória soviética em Stalingrado, dois anos antes.

O número de mortos se conta aos milhões: uma pesquisa no Google diz que foram entre 50 milhões e 70 milhões – dos quais mais de 27 milhões de russos (entre os quais mais de 13 milhões de civis) vítimas da ocupação nazista, 14 milhões de chineses mortos pelos invasores japoneses e 6 milhões de judeus assassinados na máquina de matar montada pelos nazistas.

A Segunda Grande Guerra foi o mais violento e letal episódio da luta de classes que marcou aquele que foi o período do início da luta pelo socialismo: o século XX.

O mundo mudou depois da assinatura da rendição incondicional alemã em 8 de maio de 1945. A democracia saiu fortalecida daquele conflito onde as forças do progresso social lutaram para derrotar a direita mais radical e preconceituosa. Há 75 anos venceram a democracia e a civilização, contra a barbárie. Hoje, três quartos de século após, as mesmas forças anti-democráticas, que defendem o ódio, o racismo e o preconceito voltam a ameaçar o mundo, inclusive o Brasil. Para se resguardar contra elas, e em defesa da democracia e dos direitos de todos, o conhecimento da história, daquilo que já aconteceu, é fundamental.

 
 
  • Bagguley, John. “A guerra mundial e a guerra fria”. in Horowitz: 1969
  • Bernard, Henri. “Historia de la resistencia europea”. Barcelona, Ediciones Orbis, 1986
  • Evans, Richard J. O Terceiro Reich em Guerra. São Paulo, Planeta, 2012
  • Hobsbawm, Eric. “Era dos extremos – O breve século XX” -1914-1991. São Paulo, Cia das Letras, 1995
  • Horowitz, David (org.). “Revolução e Repressão”. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1969
  • Losurdo, Domenico. Stalin – storia e critica di uma legenda nera. Roma, Carocci editore, 2008
  • Matthews, Rupert. Segunda Guerra Mundial: Stalingrado. A resistência heroica que destruiu o sonho de Hitler de dominar o mundo. São Paulo, M. Books do Brasil, 2013
  • Shirer, William. “Ascensão e queda do Terceiro Reich”. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1975
  • Volkogonov, Dimitri. “Stalin: triunfo e tragédia – 1939-1953”, (vol. 2). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004

Texto em português do Brasil



 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-75-anos-da-vitoria-da-civilizacao-contra-a-barbarie-nazista/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=os-75-anos-da-vitoria-da-civilizacao-contra-a-barbarie-nazista

8 de Maio: derrota total ou libertação da Alemanha?

 
 
O fim da Segunda Guerra foi seguido por uma batalha ideológica sobre culpa e responsabilidade históricas. Enquanto o lado ocidental foi aos poucos alinhando discurso, o Leste comunista sempre teve estratégia clara.
 
Em 8 de maio de 1945, as armas finalmente silenciaram na Europa. A Segunda Guerra Mundial, desencadeada pela Alemanha nazista em 1939, havia terminado no continente – na Ásia, continuaria até agosto. Com a capitulação incondicional da Wehrmacht, as forças armadas de Adolf Hitler, o derramamento de sangue, que custara milhões de vidas, se encerrava.

Para os países que formaram a coalizão internacional anti-Hitler – liderada por União Soviética, EUA, Reino Unido e França – o 8 de Maio é desde então, apesar de toda a carga negativa associada à guerra, também motivo de celebração. 

Ao mesmo tempo, o clima na Alemanha devastada pela guerra, dividida pelas potências vencedoras em quatro zonas de ocupação, era diferente. A derrota militar total foi acompanhada de um sentimento de culpa e vergonha. Ao invadir a Polónia, o Terceiro Reich desencadeou a guerra e se tornou culpado de crimes sem precedentes contra a Humanidade, sobretudo o extermínio sistemático de seis milhões de judeus.

Mas mesmo todo o horror causado pela guerra não foi suficiente para levar, nos anos seguintes a 1945, a enorme maioria dos alemães a pensar no 8 de Maio como um dia de libertação. Assim também foi nos países da Europa que, durante os seis anos de guerra, foram ocupados por soldados alemães. 

Finda a guerra, a situação era diferente: era a Alemanha, perdedora, que estava ocupada. E na guerra ideológica entre a União Soviética comunista e os aliados ocidentais democráticos, a divisão da Alemanha, mas também da Europa, se delineia.

 
"Nós sabíamos"

Em 8 de maio de 1949, exatamente quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, políticos de vários partidos se reuniram na pequena cidade de Bonn, no oeste alemão, para adotar a Lei Fundamental da República Federal da Alemanha, a Constituição a ser implementada nas zonas ocidentais.

Na ocasião, Theodor Heuss, que viria a ser o presidente da Alemanha Ocidental, refletiu sobre o fim da guerra: "Basicamente, 8 de maio de 1945 continua a ser o paradoxo mais trágico e questionável da história para cada um de nós. Por quê? Porque fomos, ao mesmo tempo, libertados e destruídos".
 
Em setembro de 1949, Heuss foi eleito o primeiro presidente alemão do pós-guerra. Três anos mais tarde, daria o exemplo, visitando o antigo campo de concentração de Bergen-Belsen.
"Os alemães nunca devem esquecer o que aconteceu com seu povo durante estes anos vergonhosos", disse, em referência ao Holocausto. "Nós sabíamos de coisas".
 

Um monumento ao Exército Vermelho

Enquanto políticos do alto escalão da Alemanha Ocidental se esforçavam para promover palavras e gestos sobre os crimes cometidos pelos alemães na guerra, a República Democrática Alemã (RDA), fundada em 7 de outubro de 1949, celebrava o culto estatal antifascista assumido pelo poder de ocupação soviético. 

Seu símbolo mais visível era o gigantesco memorial inaugurado no quarto aniversário do fim da guerra num cemitério de Berlim, lembrando a morte de mais de 5 mil combatentes do Exército Vermelho. No centro, um soldado segura uma criança no colo e pisa de coturno numa suástica nazista. 

Com o monumento, que chega a 30 metros de altura, as autoridades da RDA acabaram por moldar a linguagem visual da sua comemoração do fim da guerra. "O Libertador", como é chamada a figura gigante, representa a vitória da União Soviética, cujo sistema social, baseado na violência e na opressão, foi exportado pelo ditador Josef Stálin para o resto do leste europeu. 

Efeméride a serviço do Estado comunista

Nestas condições, a RDA se ergueu como um baluarte contra o fascismo e o imperialismo. Os inimigos estavam a oeste do Elba e do Atlântico: sobretudo a Alemanha Ocidental e os EUA. Na Alemanha Oriental, não havia espaço para uma abordagem autocrítica sobre a responsabilidade pelas atrocidades cometidas durante a era nazista. 

Walter Ulbricht tornou-se a figura determinante, que, em nome da União Soviética, impulsionou a unificação forçada dos comunistas (KPD) e social-democratas (SPD) para formar o Partido Socialista Unitário da Alemanha (SED).

Sob a sua liderança, o 8 de Maio como "Dia da Libertação" se tornou um ritual anual usado pela RDA para a propaganda estatal até o fim dos seus dias. A tônica sempre atendia aos desenvolvimentos ou objetivos políticos atuais. Ulbricht aproveitou, por exemplo, o décimo aniversário do fim da guerra para acertar contas com a adesão da Alemanha Ocidental à Otan. Num comício com 200 mil pessoas em Berlim Oriental, acusou o Ocidente de se opor à reunificação da Alemanha, enquanto a RDA, como "Estado pacífico e democrático", lutava por ela.

Início da reconciliação

Foram necessários mais cinco anos até que a elite política da Alemanha Ocidental mudasse decisivamente a sua opinião sobre o fim da guerra. Sob o chanceler federal Willy Brandt, o primeiro do Partido Social-Democrata, foram assinados em 1970 os Tratados de Moscou e de Varsóvia. A reconciliação com os antigos inimigos da União Soviética e da Polônia foi um marco na política de distensão. Um ano mais tarde, Brandt seria homenageado com o Nobel da Paz. 
Embora a palavra "libertação" esteja ausente no seu discurso de 8 de Maio, Brandt prestou uma homenagem ainda maior ao papel das mulheres, dos refugiados e dos deslocados internos na reconstrução da Alemanha. Elogiou especialmente "os compatriotas na RDA". Os alemães do leste, disse o chanceler, tiveram êxitos em maiores dificuldades e condições sociais "que não escolheram, êxitos de que se orgulham e que temos de reconhecer plenamente".

Guinada no discurso ocidental

Com Walter Scheel (FDP), ministro das Relações Exteriores de Willy Brandt e presidente a partir de 1974, o tom da Alemanha Ocidental sobre o significado do 8 de Maio mudou: "Fomos libertados de um jugo terrível, da guerra, do assassinato, da servidão e da barbárie", disse ele no 30º aniversário do fim da guerra na Europa. "Mas não esquecemos que esta libertação veio de fora, que nós, os alemães, não fomos capazes de nos livrarmos deste jugo". Ele afirmava também que a Alemanha não havia perdido a sua honra só em 1945, mas bem antes, em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder.

Outro presidente alemão, Richard von Weizsäcker, chegou em 1985 a uma visão surpreendentemente semelhante. O discurso do democrata-cristão 40 anos após a guerra é geralmente considerado o maior e mais importante sobre o assunto – ainda que ele não tenha sido de modo algum o primeiro a falar explicitamente sobre o "Dia da Libertação". O chanceler Helmut Kohl (CDU) fez isso duas vezes no mesmo ano. Primeiro, em fevereiro, no seu "Relatório sobre o Estado da Nação na Alemanha Dividida", e em 21 de abril, na presença do presidente dos EUA, Ronald Reagan, no 40º aniversário da liberação do campo de concentração Bergen-Belsen.

"Encarar a verdade"

O que há de especial no discurso de Von Weizsäcker é que ele não excluiu ninguém quando falou do 8 de Maio como o "Dia da Libertação": "Ele nos libertou do sistema desumano da tirania nacional-socialista". 
Na outra parte da Alemanha, o governante da RDA, Erich Honecker, continuava a marcar o que considerava ser a linha divisória entre o Oriente e o Ocidente. A libertação do fascismo hitleriano, afirmava, tinha dado ao povo alemão a oportunidade de construir as suas vidas numa base completamente nova. "E esta oportunidade foi utilizada por nós", disse.

Ambos os Estados alemães só chegaram a uma avaliação semelhante sobre o fim da guerra após a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. O único primeiro-ministro livremente eleito na RDA, Lothar de Maizière (CDU), governou durante alguns meses. No 45º aniversário do fim da guerra, em 1990, ele afirmou no Congresso Mundial Judaico em Berlim que o 8 de Maio lançou "longas sombras sobre a história do pós-guerra dos alemães" e mostrou também a sua "incapacidade de lamentar". 

Para ele, tratava-se de "saber viver honesta e vorazmente com esta história, de lembrá-la e ser lembrado por ela". As palavras de De Maizière soam quase como as de Weizsäcker no seu famoso discurso de 1985: "Neste 8 de Maio de hoje, olhemos nos olhos da verdade o melhor que pudermos."
Marcel Fürstenau (rpr) | Deutsche Welle
Imagem: Monumento em homenagem ao Exército Vermelho foi inaugurado em Berlim no quarto aniversário do fim da guerra

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/8-de-maio-derrota-total-ou-libertacao.html

75 anos da vitória sobre o nazi-fascismo. Obrigado!

75 anos
A 2 de Maio de 1945, culminando o imparável avanço do Exército Vermelho, a bandeira da União Soviética foi hasteada no Reichstag em Berlim e poucos dias depois a Alemanha nazi assinava a sua capitulação incondicional. O dia 9 de Maio de 1945, passou a ser conhecido como o «Dia da Vitória», porque simboliza a vitória sobre o nazi-fascismo e o seu sinistro projecto de exploração e opressão dos povos.
 
 

»A Guerra Sagrada«

"Levanta-te enorme país
Levanta-te para uma luta até à morte
Contra a sombria força fascista
Contra essas hordas malditas!

Que a nossa nobre ira
os arraste como uma onda
Isto é a guerra do povo
uma guerra sagrada!

Temos de derrotar o inimigo
e todas as suas ideias
os violadores e os saqueadores
e os torturadores também!

Que a nossa nobre ira
os arraste como uma onda
Isto é a guerra do povo
uma guerra sagrada!

As asas negras não ousarão
sobrevoar a nossa Pátria
e sobre os nossos vastos campos
o inimigo não ousará pisar!

Que a nossa nobre ira
os arraste como uma onda
Isto é a guerra do povo
uma guerra sagrada!

Aos vermes fascistas
vamos colocar uma bala na cabeça
A essa escoria da humanidade
vamos colocá-la num caixão forte!

Que a nossa nobre ira
os arraste como uma onda
Isto é a guerra do povo
uma guerra sagrada!"

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/05/75-anos-da-vitoria-sobre-o-nazi.html

Uma “palavra” a Franco

 
Nestes 75 anos da vitória aliada na 2ª Guerra Mundial, convirá recordar que se deve à obstinação do ditador espanhol Francisco Franco, que, na reunião de Hendaye, terá convencido Hitler a não avançar até Gibraltar, o facto da Península ter sido poupada às consequências diretas do conflito.
 
Como é óbvio, se os alemães tivessem entrado em Espanha, nenhuma diplomacia “pelo meio dos pingos da chuva”, também chamada cinicamente “neutralidade colaborante”, teria evitado o envolvimento português na guerra ao lado do Eixo.
 
Por essa razão, que é puramente geopolítica, não tem o menor sentido o argumento de que “Salazar poupou os portugueses da guerra”, que alguns saudosistas procuram avançar, em tom atenuante, quando alguém fala, com razão, das décadas de malfeitorias do homem de Santa Comba. O qual, diga-se, anos depois, pela sua cegueira histórica, iria envolver o país em três guerras coloniais, convém já agora recordar.
 

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

1º de Maio de 1962 – Assassinato de Estêvão Giro: testemunho presencial

25deabril 2020

Seleção de Francisco Tavares

Estevao Giro1º de Maio de 1962:Assassinato de Estêvão Giro: testemunho presencial

 

Houve muitos resistentes antifascistas, homens e mulheres comuns, que pagaram com a vida a sua resistência a um regime opressor e explorador dos trabalhadores e da população em geral, o regime fascista de Salazar. Muitos desses homens e mulheres são simples desconhecidos para a maioria de nós. Foi o caso do jovem Estêvão Giro, assassinado aos 25 anos no 1º de Maio de 1962.

Hoje publicamos o testemunho direto de Adalberto Ribeiro do assassinato de Estêvão Giro nesse dia 1º de Maio.

E mais abaixo publicamos o texto “Relato dos acontecimentos em biografia” da autoria de Helena Pato de “Fascismo nunca mais” e dos “Antifascistas da Resistência”.

Amanhã publicaremos o relato de Helena Pato sobre o 1º de Maio de 1962, “A-ssa-ssi-nos, a-ssa-ssi-nos!”.

A ambos agradecemos a sua disponibilidade para nova publicação destes textos.

FT

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Testemunho presencial do assassinato de Estêvão Giro no 1º de Maio de 1962

Adalberto Ribeiro

 Por Adalberto Ribeiro

Em 1 de Maio de 2020

Fonte: Comentário ao post do relato dos acontecimentos,ver aqui em Fascismo Nunca Mais

 

Naquele 1º de Maio de 1962 a polícia de choque, apanhada desprevenida pela enormidade da multidão de manifestantes antifascistas (nomeadamente operários vindos da margem sul e estudantes ainda embrenhados na greve que em Março eclodira em Lisboa na sequência da proibição do dia do estudante) perdeu completamente o controle da baixa de Lisboa, controle que só veio a recuperar lenta e dificilmente, já caíra a noite, e aos tiros na Av. da Liberdade.

A meio da tarde, um grupo de antifascistas formado “ad-hoc” no Largo da Igreja da Madalena, no qual me integrei, procurou opôr-se à ocupação daquele Largo pela dita polícia de choque, puxando sistematicamente o ‘troley’ aos elétricos que ali se encontravam parados a fim de manter o trânsito engarrafado, dificultando assim a margem de manobra da polícia de choque. Quando finalmente esta conseguiu tomar conta do Largo, formou um cordão barrando a Rua da Madalena no início da subida para o Largo do Caldas, enquanto nós, tendo já escapado para o largo do Caldas, na nossa juvenil determinação (e ingenuidade) procurámos afanosamente erguer uma barricada (!!!) com os caixotes do lixo e sinais de trânsito que conseguimos arrebanhar por ali. E ali ficámos à espera deles, gritando os habituais slogans antifascistas,com os também já clássicos paralelepípedos nas mãos como únicas munições.

O cordão policial foi-se atardando lá no fundo da rua, estudando, sem pressas, as nossas insípidas e descomandadas movimentações, até que, subitamente, irrompeu correndo rua acima na nossa direção, disparando ininterruptas rajadas de pistola-metralhadora.

Arremessadas algumas pedras o grupo dispersou e fugiu desordenadamente pelas várias ruas que confluem naquele largo, tendo eu, que por ali morar conhecia bem o local, metido pela de S. Mamede (ao Caldas) e voltado pela Rua das Pedras Negras, a meio da rua da Madalena, onde, baleado, caíra o camarada – como se ali tivesse chegado naquele momento vindo de casa. Com a ajuda de outra pessoa, fizemos parar um táxi levando o ferido novamente para o Largo do Caldas onde sabíamos que havia um posto médico nas traseiras da Associação dos Empregados do Comércio, também sita naquele Largo. Aí chegados, abeirámo-nos do portão fechado e através de uma larga janela gradeada falámos com dois indivíduos de bata branca (médicos? enfermeiros?) que nos espreitavam do lado de dentro, dizendo-lhes que trazíamos no táxi um homem gravemente ferido, ou mesmo já moribundo, com um buraco de bala bem visível na nuca, que recolheramos em plena rua da Madalena. Como não mostrassem tenção de abrir a porta e, entretanto, ali se juntara um punhado de moradores do bairro (S. Cristóvão) a quem entretanto tínhamos explicado o que tinha ocorrido, voltámos à fala com o pessoal do posto médico (certamente pessoal de saúde responsável pelo mesmo) e intimámo-los a abrir o portão e acolher o ferido como era seu dever, sob pena de, com a ajuda e concordância dos moradores do bairro, arrombarmos o mesmo. Apercebendo-se da firme disposição dos presentes, o portão não tardou então a ser aberto e o ferido, afinal já morto (como era evidente até para qualquer leigo), finalmente recebido.

Tinha 20 anos nesse memorável 1º de Maio de 1962, e só hoje, graças a vós [grupo do Facebook, Fascismo Nunca mais e Antifascistas da Resistência] soube quem era esse heróico camarada: o operário tipógrafo Estevão Giro.

 

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Relato dos acontecimentos em biografia

Helena Pato Por Helena Pato

Fonte: Fascismo Nunca Mais,ver aqui

 

Estevao Giro(1)

Estêvão José Dangues Giro foi um jovem tipógrafo de Alcochete baleado no dia 1º Maio de 1962, em Lisboa, na maior manifestação ocorrida durante o regime fascista. Não se deixando intimidar com a violência da polícia, nem mesmo com as rajadas de metralhadora, os manifestantes ripostaram com tudo o que podiam arrancar das ruas. Houve feridos do lado dos manifestantes, mas também nas forças repressivas. O jovem operário comunista Estêvão Giro foi assassinado por uma dessas rajadas de metralhadora.(2)

«Chegaram novos homens da polícia, enquanto o grupo dos “subversivos” se ampliava, envolvendo muitos operários que até então pareciam tranquilos. Estes eventos aceleraram sobretudo depois da chegada de numerosos passageiros provindos do Barreiro e Cacilhas, momento em que a polícia começou a tentar dispersar a multidão com o cassetete, enquanto alguns manifestantes começaram a insinuar-se nas ruas perpendiculares ao Terreiro do Paço em direcção ao centro, danificando eléctricos e carros, a fim de parar o trânsito. As agitações espalharam-se noutras zonas da cidade, até à catedral, enquanto a polícia começou a usar as armas de fogo, atingindo seis manifestantes dos quais um morreu. Nos dias seguintes, os acontecimentos repetiram-se com um esquema muito semelhante no Porto e ainda em Lisboa, onde foi morta mais uma mulher que se encontrava à janela da sua habitação, alegadamente atingida, segundo a imprensa oficial, por um tiro disparado por alguns agitadores instalados em cima dum telhado.» – Guya Accornero, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa.

«O Avante! da primeira quinzena de Maio de 1962 retrata os acontecimentos: «A partir das 5 horas da tarde, começaram a concentrar-se no Terreiro do Paço e na zona da Baixa muitos milhares de manifestantes que a polícia não conseguia fazer dispersar: operários com as suas lancheiras, estudantes, mulheres, empregados, intelectuais. De momento a momento, novas massas de trabalhadores e jovens chegavam ao centro da cidade para tomar parte na manifestação. Às 7 horas da tarde a Baixa estava ocupada por mais de 100 mil manifestantes que começaram a dar vivas à liberdade e a cantar em coro impressionante o Hino Nacional, deslocando-se com dísticos para o Terreiro do Paço.» A reacção não se fez esperar e as «companhias móveis da polícia, os esquadrões de cavalaria da GNR e as brigadas da PIDE» lançaram-se sobre o povo para o fazer dispersar, ao mesmo tempo que tentavam prender os manifestantes que mais se destacavam. Mas do outro lado encontraram uma «enérgica resistência do povo, conduzida por grupos de operários e estudantes. Travou-se uma luta violenta que se prolongou por várias horas; o centro da cidade, onde todo o trânsito fora cortado pela polícia, foi teatro de autênticas batalhas de rua que se tornaram mais duras sobretudo na Madalena, no Carmo, no Rossio e Martim Moniz. Com a selvajaria habitual, as companhias da polícia e os esquadrões da Guarda espancavam indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, lançavam granadas e jactos de água suja sobre a multidão que recuava para se reagrupar de novo, gritando a plenos pulmões “Morra Salazar! Abaixo o Fascismo! Assassinos!”». «Não se deixando intimidar com a violência da polícia e nem mesmo com as rajadas de metralhadora, os manifestantes ripostaram «com tudo o que podiam arrancar das ruas». «Os feridos não se contavam só do lado dos manifestantes, mas também das forças repressivas», assinala o Avante!, dando conta do prolongamento da manifestação pela noite dentro «com o maior vigor». Os confrontos com a polícia continuaram até perto da meia-noite. O jovem operário comunista Estêvão Giro foi assassinado por uma rajada de metralhadora». – in Jornal Avante, N.º 2006, de 10 de Maio de 2012.

 

(1) Fotografia de Estevão Giro da Fotobiografia de Álvaro Cunhal, pág 87.

(2) A Câmara Municipal de Alcochete confirmou-nos que, em Fevereiro de 1975, deliberou atribuir o topónimo “Estêvão Giro” a uma praceta da vila de Alcochete, mas não dispõe de qualquer registo biográfico, desconhecendo inclusive o ano de nascimento. – HP.

Biografia da autoria de Helena Pato

Fontes:

– «Efervescência Estudantil Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974)». Guya Accornero, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Sociologia Histórica. 2009.

http://www.avante.pt/pt/2006/emfoco/119958/

– Contacto com Câmara Municipal de Alcochete

 

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Notícia publicada no Diário de Lisboa de 2 de Maio de 1962

 

Assassinato Estevão Giro 1

Assassinato Estevão Giro 2

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/09/1o-de-maio-de-1962-assassinato-de-estevao-giro-testemunho-presencial/

8 de maio de 1945 – A capitulação alemã - 75.º aniversário

No dia de hoje, há 75 anos, a Alemanha nazi rendeu-se perante os aliados ocidentais e, no dia seguinte, ao exército soviético, tendo a guerra acabado mais tarde, com a rendição do Japão.

Hoje, esquecida a data e o pesadelo que custou a vida de milhões de pessoas, vítimas do nacionalismo, do racismo e da xenofobia, renascem os demónios totalitários que deram origem à maior tragédia do século XX. É a história a repetir-se num misto de farsa e de tragédia.

Evocar o dia 8 de maio é condenar a violência de Estado, denunciar o antissemitismo e homenagear as vítimas, todas as vítimas, de diversas origens, que ao longo dos séculos foram perseguidas por preconceitos religiosos, étnicos e culturais.

Não esqueçamos que a economia, à solta, cria as monstruosidades políticas de que necessita. Terá de ser a política a comandar a economia e não esta a determinar aquela.

As imagens de horror que aqui ficam são um grito de revolta contra a maldade de que os homens são capazes e a denúncia da vileza a que os Estados totalitários os conduzem.

Se não formos sempre vigilantes, acabaremos vigiados para sempre.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/8-de-maio-de-1945-capitulacao-alema-75.html

Marx, o grande lutador pela liberdade

Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818. 202 anos depois, sem pensamento continua vivo e ilumina a luta anticapitalista e pela libertação da humanidade.

 

 

No dia 5 de maio de 1818 nasceu, em Tréveris, na Prússia (Alemanha), o terceiro dos nove filhos do casal Henriette Pressburg e Heinrich Marx, uma família recém convertida ao luteranismo para escapar das restrições que existiam contra aqueles de ascendência judaica.

O menino recebeu o nome de Karl Heinrich Marx – que viria a ser, depois de adulto, o militante, dirigente e pensador que mudaria e faria avançar os rumos da luta social do proletariado, da luta política e revolucionária pelo avanço da humanidade, tudo isso orientado pelo pensamento materialista e dialético fundado por ele.

Seus interesses como pensador podem ser resumidos no verso do poeta latino Terêncio, que citou em resposta a um questionário apresentado por uma de suas filhas adolescentes: “Nada do que é humano me é estranho”.

Definiu dessa maneira o amplo leque de temas que seriam estudados por ele ao longo da vida – filosofia, política economia, sociedade, história, artes, literatura, poesia – a extensa lista dos assuntos humanos.

Tudo isso enfeixado na preocupação central de compreender a vida humana, a ação prática e suas consequências – praxis definida em essência como o trabalho – na luta contra todas as formas de opressão, para libertar os homens e as mulheres de toda opressão, na evolução para a libertação da humanidade – como apresentou sobretudo em sua obra principal, “O Capital”.

Luta na qual, sob o capitalismo, o proletariado tem papel central por representar, como a classe oprimida pela burguesia, nas relações de trabalho e na sociedade, a força capaz de romper com a situação atual de opressão e liberar toda a humanidade, tornando possível a todos os seres humanos alcançarem a plenitude de suas potencialidades.

No pensamento de Marx, o esforço coletivo, social, levará ao fim do império da necessidade, abrindo à humanidade o reino da liberdade.

Nessas condições, Karl Marx – que teria completado 202 anos em 5 de maio – se tornou o grande e genial teórico da revolução proletária e socialista que marca a história da humanidade desde meados do século 19 – o grande pensador da revolução, desde os levantes populares na Europa em 1848 (ano da publicação de uma de suas grandes obras políticas, o “Manifesto do Partido Comunista”), a Comuna de Paris (1871), até as históricas revoluções do século 20 (inicialmente a Revolução Russa de 1917).

Seu pensamento continua vivo e atuante, orientando a resistência anticapitalista, revolucionária e socialista nestas décadas iniciais do século 21.

Seu grande amigo e colaborador – cofundador do materialismo moderno – Friedrich Engels, definiu-o, no discurso que pronunciou ante sua tumba, em 17 de março de 1883, dizendo que Marx foi, “antes de tudo, um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições estatais por esta suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era seu elemento.”

Engels acertou nessa definição – Marx nunca deixou de seu um lutador pela libertação do proletariado e da humanidade das amarras da opressão.


Texto em português do Brasil



 

 

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/marx-o-grande-lutador-pela-liberdade/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=marx-o-grande-lutador-pela-liberdade

A bandeira vermelha em tempos de Coronavírus

Ángeles Maestro –Red Roja

Os processos revolucionários que, por diferentes razões, se desviaram dos seus objetivos iniciais, não morreram. Sobrevivem na memória e no coração dos seus povos e de todos os oprimidos no mundo. E o mais importante de tudo não são as derrotas, mas as tentativas temporariamente falhadas no inevitável caminho para derrotar a barbárie capitalista e iluminar a verdadeira História da humanidade.

 

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A entrada do Exército Vermelho em Berlim, fixada na poderosa imagem do soldado pendurando a Bandeira Vermelha no Reichstag, marcou não só o fim da Segunda Guerra Mundial, mas também a ilustração de quais foram as forças decisivas capazes de derrotar o monstro nazi, engendrado pelo próprio capitalismo em crise.

A devastadora experiência da invasão alemã, juntamente com a memória viva da Revolução de Outubro e da subsequente vitória contra toda a reação internacional permitiram ao povo soviético entender qual é exatamente o dilema formulado por Rosa Luxemburgo, “Socialismo ou Barbárie” e em que medida a defesa da vida e a luta pelo socialismo são uma e a mesma coisa. Assim se construiu a mais heroica saga de todos os tempos.

Há outra imagem intimamente ligada à anterior, menos conhecida e até ocultada, mas que tem as mesmas raízes. No campo de extermínio de Mauthausen, em junho de 1941, ou seja, alguns dias após o ataque nazi à URSS, quando para aqueles que ali estavam presos parecia não haver aspirações futuras, criou-se a organização clandestina dos comunistas espanhóis nesse campo. À noite, nus, aproveitando o facto de os terem juntado no pátio para uma desinfeção, no lugar programado para aniquilar toda a esperança, tomam-se as primeiras decisões para criar a estrutura que, quatro anos depois, permitiria a libertação do campo pelos próprios prisioneiros.

Foi essa vontade inquebrantável de lutar e ter esperança, juntamente com a assunção da responsabilidade de cada um na tarefa coletiva de preparar o necessário parto de uma nova sociedade, que coloque como objetivo central o desenvolvimento de todas as capacidades de todos os seres humanos, que tornaram possível a vitória da URSS e tantas gestas ocultadas, como a de Mauthausen.

Hoje, quando nos depauperados  hospitais os doentes se amontoam devido à falta de recursos que foram engolidos pelo capital privado e quando há milhões de pessoas que perderam o seu emprego, enquanto se delapida a vitalidade, a inteligência e a criatividade daqueles que não têm recursos para as desenvolver, nestes difíceis momentos, a bandeira vermelha no Reichstag é a mais contundente afirmação de esperança no futuro. Porque a infeção é causada pelo coronavírus, mas a epidemia é o capitalismo.

Os processos revolucionários que, por diferentes razões, se desviaram dos seus objetivos iniciais, não morreram. Sobrevivem na memória e no coração dos seus povos e de todos os oprimidos no mundo. E o mais importante de tudo não são as derrotas, mas as tentativas temporariamente falhadas no inevitável caminho para derrotar a barbárie capitalista e iluminar a verdadeira História da humanidade.

maio de 2020

Fonte: enviado por mail

Tradução do castelhano de MFO

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-bandeira-vermelha-em-tempos-de-93795

Post dedicado ao André Ventura

O dia mais odiado
pelos fascistas antigos e novos
 
 
 
Há 75 anos, na sequência imediata da tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, o marechal Keitel assina a rendição incondicional da Alemanha nazi face a uma delegação soviética dirigida pelo Marechal Zhukov. Entre muitas outras coisas, terminava de vez o Reich que queria durar mil anos e "confinou" e exterminou milhões de judeus, comunistas, social-democratas, ciganos e resistentes.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

A Lâmpada Marinha de Pablo Neruda

 

A Lâmpada Marinha

Porto cor de céu
I
Quando desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as janelas
salpicadas do ouro verde dos limões,
do azul ultramarino dos navios,
quando desembarcas,
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas
escura,
ronda,
a polícia negra,
os carcereiros de luto
de Salazar, perfeitos
filhos de sacristia a calabouço,
despachando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio
pululando
como esquadrões de sombra
sobre janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia,
sob outonais cornucópias,
a polícia,
procurando portugueses,
escarvando o solo,
destinando os homens à sombra. A cítara esquecida
II
Ó Portugal formoso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na prateada margem do oceano,
na espuma da Europa,
com a cítara de ouro
que te deixou Camões,
cantando com doçura,
esparzindo nas bocas do Atlântico
teu tempestuoso odor de vinharia,
de flores cidreiras e marinhas,
tua luminosa lua entrecortada
de nuvens e tormentas. Os presídios
III
Mas,
português da rua, entre nós,
ninguém
nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu,
o valente,
Militão?
E sua mulher sabes tu
que enlouqueceu sob torturas?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas
rosadas de Lisboa,
mas
sabes,
sabes onde morreu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes
que ninguém volta jamais
da Ilha
da Ilha do Sal,
que Tarrafal se chama
o campo da morte? Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim to sabes,
em silêncio
a palavra anda com lentidão mas percorre
não só Portugal senão a Terra. Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos
uma lápide
espessa como túmulo ou como túnica,
de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste trino,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra. O mar e os jasmins
IV
Da tua pequena mão outrora
saíram criaturas
disseminadas
no assombro da geografia.
Assim, a ti volveu Camões
para deixar-te o ramo de jasmins
sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu qual vinho
de transparentes uvas
em tua raça,
Guerra Junqueiro
entre as ondas
deixou cair o trovão
de liberdade bravia
transportando o Oceano a seu cantar,
e outros multiplicaram
teu esplendor de rosais e racimos
como se de teu estreito território
saíssem grandes mãos
derramando sementes
pela terra toda. Não obstante,
o tempo te soterrou,
o pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu sobre teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura. A lâmpada marinha
V
Portugal,
volta ao mar, a teus navios
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de Ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
Aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
tu, descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isso?
Como podes negar-te
ao ciclo da luz tu que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e amplo Pai
do horizonte, como
podes fechar a porta
aos novos racimos,
ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, procura
na correnteza
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha que cobrem
tua fragrante copa de verdura
e então
a nós outros, filhos dos teus filhos,
aqueles para quem descobriste a areia
até então escura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volve
a ser caminho.
A esta idade agrega
tua luz, volta a ser lâmpada
aprenderás de novo a ser estrela.


* Poema de Pablo Neruda inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal,


No 70º aniversário do Julgamento de Álvaro Cunhal (Maio de 1950) para memória de que a Liberdade é um bem precioso que importa defender sempre.

alvaro cunhal comicio

[Intervenção de Álvaro Cunhal realizada perante o tribunal fascista em 2 de Maio de 1950] (*)

No princípio do julgamento, o juiz presidente pergunta a identidade aos réus. Depois, dirigindo-se a Álvaro Cunhal, diz:

Juiz - Sabe de que é acusado? Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?

AC - Sim. Quero começar por referir neste tribunal que, desde a minha prisão em 25 de Março de 1949, há, portanto, mais de um ano, me encontro ilegalmente submetido a um regime de rigoroso isolamento.

Juiz - Sabe certamente que há peças no processo relativas a isto.

AC - Perfeitamente. Não há qualquer exagero em dizer que esse regime é uma nova forma de tortura. Uns resistem a ela, outros, como esse grande patriota que foi Militão Ribeiro, perdem nela a vida, conforme tomei conhecimento já depois de me encontrar neste tribunal. Da primeira vez que fui preso, como me negasse a prestar declarações, algemaram-me, meteram-me no meio de uma roda de agentes e espancaram-me a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas com uns cabos apropriados. Depois de me terem assim espancado longo tempo, deixaram-me cair, imobilizaram-me no solo, descalçaram-me sapatos e meias e deram-me violentas pancadas nas plantas dos pés. Quando cansados, levantaram-me, obrigando-me a marchar sobre os pés feridos e inchados, ao mesmo tempo que voltavam a espancar-me pelo primitivo processo. Isto repetiu-se numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdi os sentidos, estando 5 dias sem praticamente dar acordo de mim.

Desta vez não fui sujeito aos mesmos processos. Mas estou em condições de comparar, avaliar e aqui dizer que um ano de isolamento não é menos duro que os referidos maus tratos. Não há, pois, qualquer exagero ao dizer que o referido regime de isolamento é uma nova forma de tortura. Há, entretanto, que sublinhar que, no meu caso, se não trata dos célebres «safanões a tempo» para arrancar confissões (de que há anos falava o Sr. Presidente do Conselho), mas, antes, de medidas tomadas pela polícia pelo despeito de não ter podido obter tais confissões.

De facto, na PIDE foram-me feitas variadas perguntas relacionadas (umas directamente, outras indirectamente) com a minha actividade política. A todas elas me recusei a responder com o fundamento - que mantenho - de que um membro do Partido Comunista Português, força política de vanguarda na luta pela Democracia, a Independência Nacional e uma Paz Duradoura, não tem quaisquer declarações a fazer à polícia política, instrumento de repressão violenta exercida contra os trabalhadores e contra os portugueses democratas, patriotas e partidários da Paz. Com grande alegria verifiquei que os meus queridos camaradas, comigo presos e companheiros neste processo, o saudoso Militão e Sofia, tomaram igual atitude.

 

Nota:

(*) Existem várias versões desta primeira intervenção em tribunal. Publica-se a mais completa. Das últimas declarações em 9 de Maio de 1950 apenas chegou até nós um pequeno resumo, com alguns excertos textuais. Entre estes registe-se a conhecida declaração de Álvaro Cunhal de que «no que me diz respeito, também alguma coisa fica provado: que como membro do PCP, como filho adoptivo do proletariado, cumpri os meus deveres para com o meu partido e o meu povo. É isto que interessa fique provado, porque é só ante o meu partido e o meu povo que respondo pelos meus actos».

alvaro cunhal luta

Muitas iniciativas online para comemorar os 75 anos da vitória sobre o nazifascismo

A 4.ª Festa da Vitória e da Paz, e o desfile do «Regimento Imortal» não se realizam, dado o contexto de emergência sanitária. Mas «a importância da data» e o seu «significado actual» serão assinalados.

Imagem da 3.ª Festa da Vitória e da Paz, em Lisboa, em Maio de 2019Créditos / Associação Iúri Gagárin

«Não é possível realizar as iniciativas de rua com que a Associação Iúri Gagárin e a Associação Chance+, em colaboração com outras entidades, iriam celebrar o 75.º aniversário da Vitória da URSS e países aliados contra o nazi-fascismo», revela a Associação Iúri Gagárin no seu portal.

Assim, estes organismos decidiram alargar até 2021 o conjunto iniciativas – como exposições, colóquios, sessões – que já tinham começado e iriam decorrer até ao final deste ano, bem como promover iniciativas na Internet, «desde já e em torno do dia 9 de Maio». Para além disso, assim que for possível, pretendem analisar as possibilidades de reprogramação.

Iniciativas na Internet

Foto do álbum «O "Regimento Imortal" na Minha Janela» / Associação Iúri Gagárin

As iniciativas on-line dedicadas aos 75 anos da Vitória têm por base as páginas já existentes da Associação Iúri Gagárin e do «Regimento Imortal de Lisboa», explica o texto, acrescentando que «algumas das ideias são concretizadas por via da criação de novas páginas associadas a estas».

«Regimento Imortal de Lisboa online»

Foi aberto um álbum na página do Facebook do «Regimento Imortal de Lisboa», onde estão publicadas quase duas centenas de fotografias de combatentes da Grande Guerra Patriótica (familiares de pessoas que vivem em Portugal).

O «Regimento Imortal» na Minha Janela

Esta iniciativa conta com a participação de pessoas residentes em vários países. Quem deseja participar afixa, na janela de sua casa, fotografia(s) de familiares que combateram as tropas nazis e, depois, envia uma fotografia tirada junto à imagem afixada na janela, explica a Associação.

Maratona musical «Ecos da finda guerra»

Com esta maratona, as associações Chance+ e Iúri Gagárin pretendem «avivar a memória de um imenso património de canções», de que gostam, nas quais têm orgulho e que «se tornaram símbolos de coragem, firmeza, amor à pátria».

 
Imagem do canal de YouTube da Maratona Musical / Associação Iúri Gagárin

As condições de participação são detalhadas no portal da Iúri Gagárin, onde se afirma que os melhores vídeos serão integrados no vídeo-concerto comemorativo do Dia da Vitória, que está a ser organizado para dia 9 de Maio. Os primeiros trabalhos já estão publicados num canal do YouTube e no Facebook.

Concurso de declamação de poesia «Musa em capote de soldado»

Quem desejar participar deve: registar em vídeo, com boa qualidade e duração até cinco minutos, a declamação de um poema (ou excerto) relacionado com a Grande Guerra Patriótica (do tempo da Guerra ou contemporâneo), revela a Associação. Os vencedores receberão diplomas e presentes simbólicos.

Portugueses a cantar «Katiucha»
As associações Chance+ e Iúri Gagárin propõem este desafio sublinhando que «Katiucha», de Matvey Blanter, é talvez «a canção russa mais conhecida em todo o mundo», sendo, nalguns países, «um verdadeiro símbolo da Rússia e da URSS».

Para participar, é necessário gravar «Katiucha» (na íntegra, ou em excerto), em qualquer língua, e carregar o vídeo na página da maratona musical.

Vídeo-concerto «Vitória e Paz» e desfile online do «Regimento Imortal»

Os organizadores destas iniciativas anunciam que em breve darão a conhecer o link para a programação que estãos a preparar para o dia 9 de Maio, incluindo um desfile online do «Regimento Imortal» e o vídeo-concerto «Vitória e Paz».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/muitas-iniciativas-online-para-comemorar-os-75-anos-da-vitoria-sobre-o-nazifascismo

«Que se sentem os fascistas no banco dos réus» nos 70 anos do julgamento de Álvaro Cunhal

ANTES DE 25 ABRIL 74 NUNCA ESTIVE CONFINADO, SÓ PRESO

Por Domingos Lopes.

 

Antes de 25 de abril de 1974 nunca estive confinado, antes preso no forte de Caxias. E a razão da prisão: exercer os direitos cívicos mínimos – expressão, reunião, associação. Era dirigente da Associação Académica de Coimbra. Para me prenderem apontaram-me uma arma e levaram-me. Na prisão tiraram-me o cinto, os cordões dos sapatos, a esferográfica e os papeis que tinha. Cortaram-me o cabelo. Encerraram-me numa cela que mesmo durante a noite tinha uma luz acesa. De tantas em tantas horas abriam o postigo e olhavam para dentro da cela. Quando chegou o pijama tinham tirado o cinto.

O recreio de uma hora só dava para ver o céu e o caminho da cela ao terraço bloqueado de muros de muros altos era cuidadosamente preparado para não ver nenhum outro preso. Vinham a meio da noite e levaram-me de Caxias para a Rua António Maria Cardoso para por meio da tortura do sono fazer com que eu confessasse que pertencia ao Partido Comunista, o que significava no mínimo dois anos de cadeia. Ali estive “confinado” a pé sem me poder sentar sequer três ou quatro dias e noites, já não me recordo.

As cartas que escrevia eram entregues abertas e as que recebia abertas estavam com o carimbo da DGS, a PIDE com outro nome. Os maços de cigarros vinham abertas e a comida inspecionada e cortada para ver se lá havia algo.

Da minha cela via um pouco de mar e a estrada que ia para Caxias e Cascais. E a mudança de turno dos GNRs. Ouvia o ruído da vida através das grades. Raramente via passar pessoas ao pé do forte. Havia uma ou duas crianças que às vezes surgiam numa das curvas da estrada e pensava como seria Portugal quando tivessem a minha idade de então – 21 anos. Uma vez deu me vontade de assobiar para alguém, mas o castigo esperado impediu-me de o fazer. No recreio, às vezes, via gaivotas, pardais e um ou outro avião.

Com tantos companheiros presos só ouvia as carrinhas partirem e chegarem. Para saber quantos eram os dias de torturas tomava nota do dia da partida do preso e depois esperava para o ver chegar se fosse de dia.

Quando me deixaram chegar livros, estudava e lia. Aprendi a comunicar por pancadas na parede, mas os guardas também conheciam o abecedário.

No recreio atirava miolo de pão com um papel dentro com o meu nome à espera que o vizinho fizesse o mesmo.

Não entrava nenhum jornal, nem rádio. Não havia notícias no reino do terror. Quem ali chegasse devia saber que não era dono de si próprio e teria de vomitar o que a PIDE queria. A única notícia seria a confissão, se houvesse.

Havia um silêncio feito de terror que oprimia a alma até quando se dormia com a tal luz acesa vinte quatro horas. Silêncio e no lado da minha cela livre o vento no seu lúgubre assobio, indiferente à sorte dos que não podiam ir fazer compras, nem passear o cão… Apenas com quatro ou cinco metros entre a porta e as grades, sem nunca poder sair, a não ser “acompanhado” pelos Guardas.

Tudo isto sob o manto da infamante justificação de que era o resultado de atentarmos contra a segurança do Estado, isto é, de não nos resignarmos e deixar cair os braços para o fascismo pudesse dominar o país na tal segurança. Num dos registos da PIDE era acusado de incentivar a população a recensear-se para poder votar.

Diante de uma pandemia tão poderosa como a do coronavírus os cientistas de vários ramos dentro dos seus saberes aconselharam os governantes a determinar mediadas de confinamento para proteçãoda população. E foi o que se fez através do estado de emergência.

O confinamento permite a cada um defender-se e defender a comunidade num elevado exercício de cidadania e solidariedade. O sacrifício que impõe não visa os que não concordam com o governo. Visa a defesa da comunidade. É um confinamento relativo, pois há espaço para ir fazer exercício físico e compras e até passear o animal de estimação. É seguramente aborrecido. Mas entre esta medida de elevado grau de civismo e o terror a diferença é monumental.

Não há qualquer semelhança entre o terror e a consciência de uma medida que visa a proteção de toda a comunidade.

 

https://www.esquerda.net/…/antes-de-25-abril-74-nunca…/67571

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/05/02/antes-de-25-abril-74-nunca-estive-confinado-so-preso/

LEMBRANÇA DO 1.º DE MAIO NO TORTOSENDO

Tortosendo - PCP: 1º de Maio no Tortosendo
Não sei porquê, ou talvez saiba porque esta memória está guardada no coração,  lembro-me sempre do Tortosendo, quando passa  o 1.º de Maio. O Tortosendo -- chamavam-lhe Via Vermelha! -- fazia parte da geografia da repressão. Já aqui escrevi sobre esses fragmentos de pequena história, mas retomo o texto como exigência de memória.. Porque os operários faziam greves e festejavam o Primeiro de Maio, crimes sem perdão para os algozes do fascismo no poder,  havia prisões e o medo tomava conta do horizonte, como paisagem sinistra.
Mas a palavra resistência também fazia parte da substância dos dias. 
Os operários lutavam com as armas que tinham na mão: o pensamento, as palavras proibidas, Avante, a consciência da exigência histórica da liberdade. Lutavam, porventura, como se sobrepusessem à circunstância de cada um o poema de Egito Gonçalves (Notícias do Bloqueio, que deu nome ao meu Blogue), em que a esperança se reproduzia na cidade bombardeada.
Então, nestas lembranças, regresso sempre ao universo de nomes de cidadãos e resistentes desse Tortosendo que levantava bandeiras, que agora me parece longínquo e quase sepultado no tempo. Por isso, é bom retirar do icebergue do esquecimento nomes e rostos que foram parte inteira da minha aprendizagem cívica e política, de quem guardo enorme saudade. Antes de todos, o Américo Oliveira, que muito jovem liderou uma greve e depois foi meu camarada no "Jornal do Fundão", a quem aponho os nomes do Júlio Machado,  do Alfredo Craveiro, do Apolinário (tão massacrado nos interrogatórios da PIDE), do Alfredo Costa, do Manuel Quinteiro, e do Frazão (estes dois também sofreram as masmorras da polícia política),do Carrola. E, noutro plano, uma figura excepcional de democrata, com um sentido de solidariedade que ainda hoje me espanta, que liderava, como o Américo, o apoio às famílias dos presos políticos. Falo do senhor José Ribeiro. Fazia tudo isso com um sorriso de tolerância nos lábios. No retrato que fiz dele, escrevi: "Era um homem calmo, que repartia simpatia. Gostava de livros e de jornais (além de industrial de panificação e possuía uma livraria, que era um ponto de encontro) teve papel crucial no Unidos, foco cultural operário, quando tentaram encerrá-lo."
Lembro-me sempre do 1.º de Maio no Tortosendo. Ás vezes, havia metralhadoras intimidatórias, apontando as fábricas, outras vezes, aconteciam prisões na véspera. o Que era espantoso é que a data nunca deixava de ser festejada. Terminada a faina nas fábricas, saídos os turnos, os operários e as famílias desciam ao Zêzere, à Ponte Pedrinha, e aí estendiam o farnel das merendas. Em cada rosto igualdade.
Combatentes da sombra, uns, combatentes do dia, outros. Todos sonhando uma sociedade mais justa e uma pátria de liberdade, como futuro colectivo.  Era o crime de ter esperança.

Sexta-Feira, 1 de Maio

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Deriva de Esquerda

 
Paulo Portas | NewsMuseumHá quase 10 anos publiquei aqui um conjunto de posts sobre a deriva de direita que tem ocorrido nas últimas décadas no mundo ocidental, magistralmente descrita por Freitas do Amaral:
 
«quer o socialismo democrático quer a democracia cristão viraram tanto à direita (nos últimos 30 anos) que se converteram em aliados das classes superiores, quando a sua doutrina lhes apontava o caminho da aliança com as classes médias e com o povo mais pobre. O resultado global é triste, mas fácil de detectar: enquanto a social-democracia nórdica continua a favorecer os mais desfavorecidos, a generalidade dos governos socialistas e democratas-cristãos protegem sobretudo os mais ricos e poderosos, castigando sistematicamente a sua principal base de apoio - as classes médias.
Voltámos ao capitalismo no seu pior: Leão XII e Bernstein foram esquecidos pelos seus seguidores; quem influencia os políticos de hoje é Adam Smith, na sua versão neoliberal que o desfigura, é Gizot, apesar de não ser bem conhecido, e é Friedrich Hayek, quase sempre mal interpretado. Por isso as desigualdades aumentam, a corrupção alastra e o poder económico deixou de estar subordinado ao poder político. Platão e Aristóteles já explicavam muito bem porque é que as democracias degeneravam em oligarquias, e estas em plutocracias. Mas quem os lê hoje em dia? E quem reflecte sobre os sábios avisos que nos legaram?»
 
Os posts foram quase proféticos, terminando com um "se a deriva continua, o fascismo vem a caminho..." que antecipou a existência e chegada do CHEGA ao Parlamento, mas também a ascensão política de Trump, Bolsonaro, etc.
 
No entanto, em paralelo com esta "deriva de direita" no campo económico, deu-se também uma "deriva de esquerda" a que as pessoas de direita, principalmente as mais conservadoras, não param de se referir, e com alguma razão.
 
Tal como, no campo económico, muito do discurso de Sá Carneiro - considerado um líder de direita - seria hoje considerado "demasiado extremista" na boca das lideranças do BE ou PCP (pelo menos pelos comentadores dos principais órgãos de comunicação social), também posições que eram consideradas "moderadas" ou até "progressistas" são hoje consideradas "extremistas" e "inaceitáveis" por serem vistas como excessivamente conservadoras.
 
O campo onde esta mudança foi mais evidente foi o das relações entre pessoas do mesmo sexo. Quando o BE surgiu como partido, a reivindicação do casamento entre pessoas do mesmo sexo era ousada, e até extremista. A posição de que o casamento seria aceitável, mas a adopção nem tanto era considerada uma posição entre o progressista e o moderado. Hoje, rejeitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou - aceitando-o - rejeitar a adopção de crianças por parte de casais do mesmo sexo é uma posição que é vista (e bem) como revelando homofobia, é considerada extremista e "inaceitável". 
Esta foi uma extraordinária vitória, e é muitíssimo importante que a esquerda aprenda as lições desta vitória, como das sucessivas derrotas que foi sofrendo. 
 
Mas esta não foi a única vitória da esquerda nas últimas décadas. Existiram significativas mudanças na representação do género e da etnia no cinema e na cultura popular. O enorme hiato entre homens e mulheres no que diz respeito à formação académica foi-se fechando ao ponto de já se ter verificado uma ligeira inversão, e o pensamento dominante tornou-se bem menos tolerante para com a violência doméstica. E por aí fora... Numa série de questões culturais, ditas "de valores", a esquerda foi conseguindo conquistar um conjunto de vitórias. 
 
Não é por acaso que a esquerda tenha conseguido obter as suas vitórias precisamente nas questões que não obstavam (ou até poderiam ajudar a promover) os lucros das principais empresas. Há medida que a esquerda ia somando derrotas no campo económico e somando vitórias naquilo a que se foi chamando o "campo cultural", seria de esperar que as vitórias no campo económico se fossem tornando mais fáceis (porque o status quo estaria mais afastado do "centro" anterior), e que as vitórias no campo cultural se fossem tornando mais difíceis (também porque o status quo estaria mais afastado do "centro" anterior). E, no entanto, a esquerda não parou de somar vitórias no campo cultural, e derrotas no campo económico. 
 
Sem supor que tenha havido qualquer espécie de intenção deliberada neste processo, vale a pena observar que - do ponto de vista funcional - esta actuação por parte da esquerda é precisamente aquilo que os mais ricos e poderosos melhor poderiam desejar. 
Isto não significa, de todo, que tenha sido um erro a aposta nessas lutas. Cada uma das vitórias da esquerda nestas últimas décadas foi um passo em frente para a Humanidade, essencial para nos dar esperança em relação ao futuro. 
 
Mas neste momento em que a extrema-direita está em ascensão, não podemos deixar de fazer um bom diagnóstico daquilo que aconteceu nas últimas décadas: uma tremenda deriva de direita no que concerne às esmagadora maioria das questões que são decididas no Parlamento, e mesmo assim um discurso que não é considerado absurdo (pelo menos ao ponto de não ser influente) de acordo com o qual "esta é a sociedade que a esquerda construiu". 
É porque, desonestidades e exageros à parte, em paralelo com a deriva de direita, houve também uma deriva de esquerda. 
Às vezes esquecemo-nos disso, e naqueles posts de há 10 eu certamente me esqueci disso. 
 

Ver original em 'Esquerda Republicana' na seguinte ligação:

http://esquerda-republicana.blogspot.com/2020/05/deriva-de-esquerda.html

Eu fui um Capitão de Abril, testemunho de Miguel Sobrino. Por Suso Iglesias

25deabril 2020

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Eu fui um Capitão de Abril

Em 1974 Miguel Sobrino era estudante de sociologia em Madrid, mas levado pela vontade de lutar, viajou até Portugal e transformou-se em testemunha da Revolução dos Cravos. Quarenta anos depois, conta como se transformou em jornalista e quase em agente secreto.

 

Por Luzes-Público/ Suso IglesiasSuso Iglesias

publico es es  em 28/04/2020 (ver aqui)

Publicado originalmente em Luzes em 25/04/2020 (aqui)

 

 

Eu fui um Capitão de Abril 1

Página principal do Diário de Lisboa de 25 de abril de 1974

 

A Miguel Sobrino aconteceu-lhe o mesmo que a Portugal: não soube, não pôde, não quis ficar em casa. Assim que a Rádio Renascença começou a emitir Grândola, Vila Morena, os apelos do Movimento das Forças Armadas foram inúteis. “Fique em casa, tranquilo”, repetia o locutor da RTP vezes sem conta, lendo durante horas uma lista interminável de comunicados.

“Fiquem em casa”, diziam os altifalantes dos veículos militares nas ruas de Lisboa. Mas as pessoas só ouviam o José Afonso cantar que “o povo é que mais ordena”. E como se num Hamelin de libertação, todos saíram para as ruas, ignorando os slogans e as advertências, para as tomar, torná-las suas e para celebrar a vitória. Esse apelo, esse uivo de democracia que foi o 25 de Abril de 1974, chegou também ao galego Miguel Sobrino, então estudante de Sociologia em Madrid. Assim, movido pelo mesmo impulso de todo o Portugal, apanhou o primeiro comboio para Lisboa. E acabou por se tornar uma testemunha excepcional da Revolução dos Cravos.

Assistiu à rendição da PIDE, a temível polícia secreta do Estado Novo. Patrulhou com os tanques através do centro de Lisboa. Foi testemunha da libertação dos presos da prisão de Caxias. Participou na assembleia que, na primeira noite revolucionária, mudou o nome da Ponte António Salazar para 25 de Abril. Assistiu à chegada do exílio de Mário Soares. E ao encontro entre Cunhal e Spínola. E conviveu com o próprio José Afonso durante os primeiros dias revolucionários. Ele também apareceu nas páginas do Paris Match. E agora, quando se cumprem 40 anos, recorda os dias vermelhos da explosão dos cravos.

“Na faculdade estávamos muito sensibilizados para a questão portuguesa graças ao movimento das canções. No 25 de Abril, de manhã e como éramos muito loucos, dissemos: ‘Vamos para lá'”, recorda Sobrino, que mais tarde se tornou professor de comunicação na Universidade Complutense, onde estudou política. “Ao longo do dia, alguns dos nossos colegas perderam o interesse. O comboio partiu à noite e eu entrei sozinho. Lembro-me de me despedir da minha namorada pensando que eu não ia voltar. Eu queria juntar-me à revolução. E morrer lá se fosse preciso”, diz ele, rindo da febre da juventude.

 

Eu fui um Capitão de Abril 2

Miguel Sobrino, atualmente

 

O primeiro medo surgiu na fronteira. A travessia para Portugal, na madrugada de 26 de Abril de 1974, foi altamente suspeita. “Chegámos à fronteira. O comboio estava a ficar vazio. Na fronteira estava o controlo salazarista. Mas não houve qualquer problema. Mostrámos os passaportes e entrámos. De manhã chegámos a Lisboa”, recorda Sobrino. O rapaz, carregado de força, apresentou-se lá ao seu contacto. Era o cantor-compositor José Jorge Letria (hoje presidente da Sociedade de Autores de Portugal), irmão do famoso jornalista Joaquim Letria. “Chegavas lá com aquele romantismo, pedindo uma missão, pensando: “Quero morrer aqui”. Então disseram-me: se queres fazer alguma coisa, vai à PIDE e faz o que puderes”.

A PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, era a força do terror na ditadura salazarista. Era a polícia política que sequestrava e torturava os opositores. E que mantinha um controlo total da sociedade, através dos bufos, os informadores civis inseridos em cada bairro e em cada trabalho, prontos a denunciar qualquer dissidência. Por isso, não foi surpreendente que, fiéis ao regime e temendo a reacção popular, tenham sido os últimos a render-se. Entrincheirados na sua sede na Rua Antonio Maria Cardoso, tinham disparado contra a multidão durante a noite, matando quatro manifestantes. Os únicos quatro mortos da Revolução dos Cravos. Assim, na manhã seguinte, no meio de uma enorme tensão, Miguel Sobrino chegou ao epicentro da revolta.

“Nas ruas já se viam os militares com os cravos nas suas armas. E o que se podia ver era uma atmosfera de alegria. Aqueles soldados vendo como o povo os apoiava”, diz Sobrino. “Mas naquela noite houve tiroteio, houve mortos e feridos; e os da PIDE estavam lá dentro, ganhando tempo para queimar o máximo possível. Quando cheguei, as fogueiras ardiam. Sobrino pensou em fazer-se passar por jornalista: “Atravessei o cordão militar como se fosse da imprensa, com o meu cartão da faculdade de Sociologia. Como dizia “Ciencias PP y Sociología”, dizia que PP era “Imprensa”. Na casa de banho, dentro do edifício, com os pides ali, estávamos quatro tolos: eu, uma equipa da televisão sueca e mais três outros. E nós tínhamos os fuzileiros a apontarem para nós.

“Ao longo do dia houve mais tiros. Algumas explosões apanharam-me numa cabina telefónica e temi pela minha vida. Eu disse: “Minha mãe, que faço eu aqui?”, recorda. “Quando se renderam, chegavam pides detidos, alguns deles com a cabeça a sangrar, porque havia pessoas que não havia como impedi-las…”.

Depois de assistir à rendição da PIDE, Miguel Sobrino vai viver outro momento histórico. “Quando o comboio partiu com os agentes presos, subimos a um camião artilhado. E chegámos à prisão de Caxias, onde as pessoas estavam à porta, a pedir a libertação dos presos. E quando a noite chegou, eles começaram a sair”. Ele ainda se lembra da emoção do momento: “As portas abriram, e um tipo abraçou-me e começou a chorar e gritar: ‘Estou aqui metido há 19 anos!’ Todos estavam a chorar. Foi uma festa”. Mas a catarse ainda estava para vir.

“Metemo-nos num carro quando já não havia prisioneiros na cadeia… E voltámos ao centro. E eu senti algo indescritível. A Praça do Rossio, muita gente a dançar, a cantar… Era um estado de catarse e de enorme felicidade. Foi uma festa até às duas da manhã. De vez em quando, aparecia uma coluna de soldados com bandeiras vermelhas, cravos nas suas armas e pessoas a atirar-lhes flores. É incrível como um povo se sente quando acontece algo assim “, recorda Sobrino. Havia uma pressa em mudar tudo. Para exercer a liberdade. E para viver a democracia. Assim, ali mesmo, no Rossio, votaram para mudar um símbolo da ditadura: “Era meia-noite, e no centro da praça fizemos uma assembleia para mudar o nome da ponte… Já não se podia chamar Oliveira Salazar. Era necessário alterar essa situação. Enquanto as pessoas se banhavam na fonte, nós votámos. Não esperámos nem um minuto. Alguns saíram com um camião e com um pincel riscaram ‘Oliveira Salazar’ para colocar ’25 de Abril'”.

Para Miguel Sobrino, aquela noite foi a mais emocionante da Revolução: “O Rossio era milhares e milhares de pessoas a sentirem a liberdade”. No dia seguinte, o agora professor tornou-se jornalista e quase um agente secreto. Porque começou a visitar a sede da PIDE, em busca de informações confidenciais. “Como tinha o meu falso cartão de imprensa metia-me em todo o lado. Fiz várias visitas à PIDE. E saía sempre carregado de papéis. Havia restos de fogueiras, mas ainda se podiam encontrar papéis com “Top Secret” escritos por todo o lado.”

Sobrino levava tudo aos revolucionários: “Tirei material confidencial bastante duro. Mas eu não sabia o que transportava. Somente via ‘Secret’, ‘Top Secret’… Quando lhes dei os documentos, ficaram espantados: “Mas sabes o que trouxeste?”, perguntaram eles. Eram as listas de todos os bufos de Portugal”. Ali estavam os nomes dos colaboradores da polícia política, dos informadores que mandavam os seus vizinhos para o inferno.

 

Eu fui um Capitão de Abril 3

Página principal do jornal diário “República de 25 de abril de 1974

Como Sobrino estava em todo o lado, sempre a entrar sorrateiramente em momentos chave, foi uma grande ajuda para a imprensa destacada em Lisboa. “Passava-lhes informação, a jornalistas de Espanha, do Le Monde, dos grandes meios de comunicação social… Porque eu estava ali, vivendo aquilo e era uma fonte em primeira mão”, diz ele. Mas a informação que foi publicada em Espanha, ainda sob a ditadura de Franco, foi altamente manipulada. O jornal ABC tinha o título: “Golpe de Estado em Portugal”. E deixava claras as suas simpatias por Marcelo Caetano e o falecido Salazar: “A mudança de regime em Portugal foi consumada. Um longo período chegou ao fim após não poucos sucessos e êxitos económicos e sociais”. A TVE, num papel ainda mais penoso, chegou ao ponto de denunciar um surto de cólera em Portugal, alertando os galegos para não atravessarem a fronteira por razões sanitárias.

“Lembro-me do noticiário televisivo espanhol e do jornal de vómitos do Diego Carcedo. O papel que ele desempenhou na contra-revolução foi lamentável”, critica. “Depois disseram que havia uma epidemia de cólera em Portugal. Na Galiza, as pessoas foram vacinadas contra a cólera. Eles não queriam que se soubesse o que lá estava a acontecer. Não fosse que em Espanha eles quisessem o mesmo. Foi embaraçoso ouvir falar disso na Televisão Espanhola e na Rádio Nacional. Era o ano 74. Ainda governava o velho. E tinham as pessoas enganadas sobre o que se passava em Portugal.”

Sobrino ainda tinha muito que viver: “Quando tudo acalmou, decidi ir ver o José Afonso a Setúbal para lhe dar um abraço. Passei toda a tarde e toda a noite com ele. No dia seguinte foi quando o avião chegou com Cunhal e o músico José Mário Branco, que estavam no exílio. E concordámos em ir lá juntos. Estivemos até a distribuir folhetos nas ruas de Setúbal, até que o aconselharam a não se expor tanto, porque havia ameaças de morte contra ele”, recorda.

 

Eu fui um Capitão de Abril 4

No topo da imagem, Soares e Álvaro Cunhal, líder do PCP, no comício de 1 de Maio de 1974. No centro, em primeiro plano, Miguel Sobrino.

“De manhã, fomos ao encontro de Cunhal. E de lá para ver Spinola. Eu ia com o Cunhal. Chegámos à Cova da Moura e ficámos na antecâmara, enquanto eles decidiam sobre o futuro da revolução. De lá fomos para a sede de um movimento democrático… E com quem é que eu me encontro? Galvão! E eu fui apresentado a ele. Era incrível, porque ia encontrando todos os protagonistas, um após o outro”, recorda o então entusiástico jovem revolucionário.

Sobrino esteve também na chegada de Mário Soares. Ele próprio aparece numa foto na revista Paris Match com o líder do Partido Socialista ou noutra que abre caminho para Soares e Cunhal: “Eles apanharam-me nessa e noutras fotos das agências internacionais, porque eu estava lá; eu tive a sorte de viver a Revolução dos Cravos na linha de frente, como uma pessoa inconsciente”, brinca ele.

 

Eu fui um Capitão de Abril 5

O líder socialista Mário Soares é aclamado pela multidão em Abril de 1974, aquando do seu regresso do exílio em Paris. Do outro lado do carro, Miguel Sobrino (com barba).

O 1º de Maio foi a grande explosão de liberdade no país: “Foi o primeiro acto oficial após anos de ditadura e foi um dia emocionante”. Sobrino ficou sem dinheiro dias depois e não tinha bilhete de ida e volta. Foi à Embaixada de Espanha em Lisboa e pediu para ser repatriado: “Eu estava lá a dissimular: ‘Estava de passagem por aqui como turista e encontrei isto’. Um dos funcionários teve pena de mim e emprestou-me o dinheiro para comprar um bilhete de regresso”. O homem que mais tarde se tornou professor na Universidade Complutense, agora reformado, lembra-se que foi recebido de volta a Madrid quase como um herói. Todos queriam saber o seu relato dos acontecimentos. “Para nós foi um caminho a seguir. Havia que ver como era Portugal antes do dia 25 de Abril. Qualquer jovem tinha de passar cinco anos de serviço militar. E estar ao serviço das multinacionais matando negros em África”.

Hoje, quando olha para trás, lamenta que a Revolução dos Cravos tenha evoluído para o conservadorismo: “As pessoas esperavam muito, mas aquela revolução foi redireccionada”. Mas reconhece que foi “uma ruptura, não uma transição como a que houve em Espanha, onde, no final, estão os mesmos”. E Sobrino ri, emociona-se e disfruta quando se lembra desses dias revolucionários há quarenta anos atrás. Os dias em que o rapaz da Revolução dos Cravos foi testemunha em primeira mão de um momento que mudou a história. Desses acontecimentos únicos em que parece impossível ficar em casa.

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/29/eu-fui-um-capitao-de-abril-testemunho-de-miguel-sobrino-por-suso-iglesias/

Minha última vontade – Joe Hill (Sindicalista assassinado em 1915)

(Sindicalista assassinado em 1915)

 

Minha última vontade 

Joe Hill

Minha vontade é fácil de decidir:
não deixo nada para repartir.
Meus parentes não precisam de se queixar ou lamentar.
“O musgo não adere a um seixo em movimento”.
 

Meu corpo? Ah! Se pudesse escolher
o reduziria a cinzas,
e deixaria soprar as felizes brisas
para que as levasse onde germinam as flores.
 

Quiçá as flores que murcham
voltassem à vida e brotassem de novo.
 

Este é meu último desejo:
Boa sorte a todos.

 

 
 

My Last Will

My Will is easy to decide,
For there is nothing To divide
My kin don’t need to fuss and moan—
“Moss does not cling to a rolling stone[“]
My body?—Oh!—If I could choose
I would want to ashes it reduce,
And let The merry breezes blow
My dust to where some flowers grow

Perhaps some fading flower then
Would come to life and bloom again

This is my Last and Final Will.—
Good Luck to All of you,

 

Via: voar fora da asa https://bit.ly/3bOMskz

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/29/minha-ultima-vontade-joe-hill-sindicalista-assassinado-em-1915/

Candidatura do Campo de Concentração do Tarrafal a Património da Humanidad

 
O terror fascista, não pode nem deve ser esquecido, manter as novas gerações informadas para que mais facilmente se defendam, é tarefa meritória e indispensável.

 

 

 

 
Os governos de Portugal e de Cabo Verde acertaram os detalhes da cooperação técnica portuguesa à candidatura do antigo Campo de Concentração do Tarrafal a Património da Humanidade, que avança em 2021.
 
De realçar os despachos de António Oliveira Salazar, datado de 1935, em que determinou a construção do campo, e do então ministro das Colónias, Adriano Moreira, de 1961, a ordenar a reabertura do campo.

Via: as palavras são armas https://bit.ly/2yR5sAA

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/27/candidatura-do-campo-de-concentracao-do-tarrafal-a-patrimonio-da-humanidad/

O outro confinamento

Opinião
Confinamento social, confinamento político: realidades a não confundir
 
No próximo dia 25 de Abril vou quebrar o confinamento social em que me encontro desde 18 de Março para estar presente na Assembleia da República por uma questão de dever, por respeito pela memória de tantas vidas sacrificadas, mas também porque é preciso dizer aos saudosistas do passado que não passarão.
 
Público 25 de Abril de 2020
 
 
O “confinamento social” repentina e inesperadamente passou a marcar o modo do viver quotidiano de grande número de portugueses e consequentemente motivo de notícias, de debates, de diversas análises. O “confinamento social”, ainda que a palavra social definidora da natureza do confinamento seja não poucas vezes suprimida, ocupa tal dimensão que parece ter-se tornado o grande problema do país e o maior dos dramas dos cidadãos.
Não se subestimam as perturbações que a situação provoca a vários níveis na vida, em particular nos idosos há muito confinados pela vida difícil e as políticas de estigmatização da própria velhice. De qualquer modo, convirá não esquecer que não há confinamento em geral, que os seus efeitos são diferenciados conforme a origem social que determina a qualidade das habitações e até a sua ausência, os equipamentos de lazer e de acesso à informação, isto é, a sua ligação à vida e ao mundo.
Para os que nasceram depois do 25 de Abril, para quem a liberdade é tão natural como respirar, a situação de confinamento social é uma grilheta dolorosa, mas qualquer semelhança com o confinamento e isolamento a que foram sujeitos dezenas de milhares de antifascistas presos é um absurdo, quer no plano do quotidiano quer no plano humano, desde logo porque os objectivos policiais eram abalar as convicções dos presos, a sua destruição.
Uso as palavras confinamento e isolamento porque, embora inseparáveis, as suas consequências eram diversas. As prisões eram espaços confinados mas eram-no muito mais o espaço, por vezes minúsculo, em que viviam os presos, além da quase ausência de equipamentos, da privação de acesso à informação e da permanente devassa da vida pessoal e até afectiva.
Dos cerca de onze anos passados nas cadeias do Aljube, Caxias e Peniche, nove desses anos passei-os em Peniche em regime celular de isolamento de mais de vinte horas diárias, num espaço de dois por três metros com uma janelas de vidros foscos, onde obviamente não havia televisão nem telemóvel e não poucas vezes se era privado de livros e jornais, e em que as refeições, momento de encontro dos presos do mesmo piso, decorriam em rigoroso silêncio, e o viver do dia-a-dia, segundo as normas, era a sua sujeição a vigilância constante. A isto, os carcereiros chamavam de regime normal que se se seguia ao período de interrogatórios e isolamento total, forma de tortura complementar das torturas físicas, uma forma de tortura, para muitos presos, a mais brutal e destruidora forma de tortura pelos efeitos no estado psíquico.
Cada preso teve a sua experiência própria e enfrentou essa realidade de modo diferenciado. Os períodos de isolamento total, no meu caso, resumem-se a cinco meses nos “curros” do Aljube, um mês numa cela de Caxias e outro mês numa cela de Peniche, e dez dias no segredo de Caxias. Nenhuma das experiências foi igual. Falar dos meses nos “curros” do Aljube é falar de se estar num buraco de cerca de um metro por dois, sem mobilidade, na obscuridade, sem meios de escrita ou de leitura, sem relógio, sem visitas ou conhecimento do que passa no exterior e de perda da própria noção do escoar do tempo. Não era pouco perturbante o estar-se à espera de se ir para os interrogatórios ou regressar num estado lastimoso para sarar feridas em condições de isolamento.
Quando refiro as três experiências diferentes é porque não havia isolamento em geral. É que estar isolado sem escrita, sem livros, sem visitas, em celas com luz, sobretudo quando se passava pelo segredo de Caxias, as celas transformavam-se quase num paraíso. O segredo era um buraco subterrâneo, sem qualquer réstia de luz, com um minúsculo respirador, sem cama, onde não chegavam sons e as movimentações se faziam às apalpadelas. A sensação era de que se tinha sido enterrado vivo. E no entanto, porque era proibido cantar, era preciso desafiar a prepotência dos carcereiros cantando.
No peso do isolamento não era indiferente a idade e a vida familiar, sobretudo quando se era preso com a companheira e nada se sabia do que se está a passar com o outro. No meu caso, a minha companheira só soube que também estava preso dois meses e meio depois. Vencer o isolamento exigia uma grande mobilização de energias, recriar mentalmente a vida exterior, pensar que lá fora a luta continuava e era preciso mostrar que a firmeza das convicções era superior à violência policial.
O isolamento, as torturas não eram só sofrimento. Eram uma luta para vencer a polícia, uma afirmação de dignidade, de confiança nos ideais. A derrota da polícia igualmente uma fonte de alegria e de bem-estar espiritual.
O 25 de Abril pôs fim a estes tempos negros. No próximo dia 25 de Abril vou quebrar o confinamento social em que me encontro desde 18 de Março para estar presente na Assembleia da República por uma questão de dever, por respeito pela memória de tantas vidas sacrificadas, mas também porque é preciso dizer aos saudosistas do passado que não passarão.

Via: O PARTIDO CENTENÁRIO https://bit.ly/354AO2q

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/26/o-outro-confinamento/

Há 44 anos atentado criminoso de Lisboa

Há 44 anos uma violenta explosão na Embaixada de Cuba em Lisboa causou a morte de dois funcionários cubanos, a Adriana Corcho e o Efren Monteagudo.

 

Tudo indica que o objectivo dos terroristas era fazer coincidir o atentado com a chegada dos filhos dos funcionários que normalmente chegavam às instalações diplomáticas pouco depois das 16 horas, com o objetivo de também sacrificar as crianças.

 

Este foi mais um dos mais de 500 atentados contra bens e instalações cubanas no interior e exterior do país .O povo cubano e todos aqueles que são solidários com a revolução cubana e com os seus valores humanistas honram a memória dos seus mártires e assinalam esta data recordando Adriana e Efren!

Cuba vencerá!

Via: Home https://bit.ly/359BCmW

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/25/ha-44-anos-atentado-criminoso-de-lisboa/

PJ apreende documentos da PIDE que estavam à venda na internet

 

A Polícia Judiciária (PJ) apreendeu em Vila Nova de Gaia um “importante acervo documental” que fará parte do espólio da extinta PIDE/DGS, a polícia política do Estado Novo, revelou à agência Lusa fonte policial.

 

Em comunicado divulgado esta quinta-feira, a PJ explica que se trata de “documentos relevantes e de um conjunto superior a 700 negativos de clichés fotográficos, aparentemente de fichas biográficas de indivíduos identificados por aquela antiga polícia, classificados pelo nome e respetiva alcunha”.

Para além dos negativos, “integrando resenha datiloscópica [identificação por impressões digitais], constitui ainda o lote um dossiê/inquérito de recolha de informação datilografado e um livro manuscrito de registos de nomes”, acrescenta a polícia.

A apreensão foi efetuada na sequência de uma alerta feito à PJ pelos serviços da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), após o material ter sido colocado à venda na Internet. Os documentos, apreendidos a um particular, irão ser agora objeto de perícias forenses para confirmação da sua autenticidade.

 
 

Na operação, a Policia Judiciária envolveu meios das suas diretorias do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo, com a colaboração de própria DGLAB.

A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) foi a polícia política do Estado Novo entre 1945 e 1969, antecedendo a Direção-Geral de Segurança (DGS), que funcionou até à revolução de 25 de abril de 1974.

De acordo com a Lei 4/91 de 17 de janeiro, o arquivo da extinta PIDE/DGS foi integrado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, pelo que todos os núcleos documentais que integrem tal arquivo e se encontrem dispersos devem ser remetidos ao Arquivo Nacional.

ZAP // Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/pj-apreende-documentos-da-pide-estavam-venda-na-internet-320900

LÉNINE E AS ARTES (assinalando os 150 anos do nascimento de Lénine)

 

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes.

 

Tribuna para Lénine, El Lissitsky, 1920

 
 

Em 1905, durante a primeira revolução, ele (Lénine) teve de passar uma noite em casa de D. Lechtchenko, onde havia, entre outras, uma colecção das publicações de Knachfuss consagradas aos maiores pintores do mundo inteiro. Na manhã do dia seguinte, Vladimir Ilitch disse-me: «Que fascinante domínio o da história de arte. Quanto trabalho para um marxista. Não preguei olho durante a noite, percorrendo os livros um após outro. E lamentei não ter tempo – e não terei provavelmente nunca – para me ocupar das questões artísticas»
A. Lunatcharski, Lenine tel quel fut, Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès,  Moscovo, 1959 II volume, p. 422-426.

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes, muito pelo contrário, pelo que teve sempre um grande e directo envolvimento nas questões artísticas e literárias ligadas aos problemas políticos e filosóficos, antes da Revolução Bolchevique e no agitadíssimo período que se viveu depois da tomada do poder pelos sovietes, sempre intransigente em relação aos princípios e sempre politicamente flexível. Há um conceito que é nuclear em todo o pensamento e na acção de Lénine em relação à cultura: «a cultura revolucionária tem que ser o desenvolvimento lógico do acervo dos conhecimentos conquistados pela humanidade submetida ao jugo da exploração capitalista, de uma sociedade de latifundiários e burocratas. Esses são os caminhos e os atalhos que nos irão orientar e conduzir até alcançarmos uma cultura revolucionária»1 o que será mais explícito quando afirma «no capitalismo a cultura é de uma minoria. É com essa cultura que temos que construir o socialismo. Não dispomos de outro material. Queremos construir o socialismo imediatamente, na base do material que o capitalismo nos legou, ontem, hoje, agora mesmo e não com homens criados em estufas, se é que alguma vez podemos ter dado crédito a essas fábulas (…) se não somos capazes de construir a sociedade comunista com esses materiais, seremos uns charlatães».2. É a expressão do pensamento de um revolucionário marxista, conhecedor profundo do pensamento marxista, em consonância com a crítica sem complacências que Marx e Engels fazem do capitalismo sem deixarem de reconhecer, como Engels escreve no prefácio à edição italiana do Manifesto do Partido Comunista, que «o Manifesto presta inteira justiça ao papel revolucionário que o capitalismo representou em relação ao passado». É um tema de uma enorme dimensão e ainda actual que, obviamente, só poderá ser enunciado numa nota tão breve quanto esta.

Antes da Revolução de Outubro

Antes da Revolução, de 1893 a 1917, enquanto debatia as inúmeras questões políticas e filosóficas que se colocavam aos revolucionários marxistas, contra os erros ideológicos de todas as forças políticas que anulavam a intervenção e a acção revolucionária, Lénine refere frequentemente as questões literárias e artísticas, mais as primeiras que as segundas, intimamente ligadas aos problemas políticos revelando um considerável conhecimento sobre esse universo.

Os grandes debates políticos travavam-se entre os marxistas e os populistas, e os seguidores pós-Revolução destes, os socialistas-revolucionários. Os populistas tinham uma presença importante na literatura russa. Nos seus primeiros escritos Lénine polemiza violentamente contra a sua visão da sociedade russa, uma polémica que se irá prolongar durante vários anos. O que critica nos populistas, realçando como uma expressão estética revela uma ideologia política, é a negação que fazem de ser possível uma revolução na Rússia, contra a convicção de Lénine, que haveria de a tornar real, de que era possível uma revolução e que seria o proletariado a efectuar essa transformação. Lénine, no entanto, reconhece que os populistas fazem descrições exactas da realidade russa, cita-as com frequência, enquanto denuncia que na maior parte dessas obras, que expõem a evolução brutal da vida social, as novas formas de miséria ligadas ao aparecimento do capitalismo, se dissimula uma ideologia que prolonga a desgraça que denunciam e julgam combater.

Essas polémicas literárias em que Lénine se envolveu vão adquirir maior expressão com a criação da imprensa revolucionária, IskraVperiod, que considera nucleares para lutar contra os adversários ideológicos do marxismo, para a formação de um partido revolucionário, onde se permitisse a discussão dos diversos pontos de vista: « é impossível conduzir a luta política se todo o partido não puder pronunciar-se sobre todas as questões políticas e guiar as diversas manifestações de luta. Só se poderão organizar as forças revolucionárias, discipliná-las e desenvolver a técnica da acção revolucionária se todas estas questões forem discutidas num órgão central, se forem elaboradas colectivamente certas formas e regras de organização de trabalho, se a responsabilidade de cada membro do Partido perante todo o Partido for estabelecida por intermédio de um órgão central para debater as questões de teoria e de prática (…) devem dar amplo lugar aos problemas teóricos, isto é, tanto à teoria social-democrata em geral como à sua aplicação à realidade russa. A urgência da discussão pública destes problemas, actualmente, não é objecto de dúvida e dispensa comentários, depois do que acaba de ser dito (…) Devemos proceder de maneira a que cada social-democrata e cada operário consciente tenha uma opinião determinada sobre todos os problemas essenciais: é impossível, sem isto, organizar em grande escala uma propaganda e uma agitação metódicas»3. A história da Iskra é inseparável da luta de Lénine para criar um partido revolucionário, onde se retoma o combate às teorias populistas, onde se avolumam as divergências fundamentais entre Lénine, Plekhanov, Trotsky e Martov quanto à organização de um partido revolucionário, que seriam mais evidentes com a publicação de Que Fazer? (Editorial Avante!, 1984). O avolumar de divergências que culminariam na cisão, em 1903, do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR) em Mencheviques e Bolcheviques e que também está na origem do Vperiod como órgão dos Bolcheviques, opondo-se ao Iskra que passou a reflectir as ideias mencheviques e, mais tarde todas as polémicas suscitadas pela plataforma organizada em torno do Vperiod, animada por Bogdanov, quando depois de terem sido reconhecidos pelo plenário do partido, em 1910, como «grupo de edição do partido», tendo recebido do Comité Central os fundos para o seu funcionamento, se recusaram a aplicar as directivas do mesmo Comité, juntando-se aos mencheviques e trotskistas para lutar contra as decisões nele tomadas. Um conflito que se arrastou durante anos, até à sua desagregação em 1913 e à sua oficial dissolução em Fevereiro de 1917, quase sempre em perpétua dissidência com o Partido Bolchevique, com uma ideologia flutuante sem unidade teórica mas, no plano cultural reivindicando-se de uma «filosofia e cultura proletária» que terá expressão depois da Revolução de Outubro.

Gorki e Tolstoi

Os debates sobre o trabalho literário e o papel dos escritores é largamente debatido tanto na Iskra como no Vperiod e se Lénine faz severas críticas aos intelectuais, seus desvios e erros, é porque reconhece a importância que têm na luta contra o czarismo. A sua correspondência com Gorki, que não era membro do Partido, é bem reveladora do interesse de Lénine pelo papel dos intelectuais na luta revolucionária. É também neste período na Novaia Jizn, em 13 de Dezembro de 1905, que Lénine escreve um célebre texto que dará origem a imensos debates e equívocos, pelo que merece atenção mais particular A Organização do Partido e a Literatura de Partido (ibidem, tomo. X, p. 37) que deve ser fundamente analisado até pela especulação que Estaline e Jdanov fizeram desse texto, ignorando propositadamente todos os esclarecimentos feitos por Lénine.

São muitas as polémicas literárias antes da Revolução de Outubro em que Lénine participou. Particularmente interessantes são os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, compará-los com os escritos por Plekhanov e Trotsky. Quando Tolstoi fez 80 anos e na celebração da sua morte dois anos depois, coincidiram a direita mais reaccionária, esta com a suprema hipocrisia de continuar a proibir os textos em que o escritor condenava a sua prática política, e os mencheviques que elogiaram Tolstoi «anarquista conservador», para evidenciarem a sua teoria reaccionária da não resistência ao mal pela violência, a fusão mística com a natureza, o culto do trabalho manual. O que é de sublinhar é que Lénine, assinalando todas essas contradições de Tolstoi, manifesta a sua profunda admiração pelo escritor que considera um dos maiores escritores vivos, «um observador e um crítico profundo do regime burguês, apesar da ingenuidade reaccionária da sua teoria». Anota que «se não simpatiza com os nossos objectivos revolucionários, sabemos que é porque a história lhe recusou toda a compreensão dos seus caminhos. Não o condenaremos por isso. Admiraremos sempre nele o génio que viverá tanto tempo quanto a própria arte, e também a coragem moral indomável que não lhe permite ficar no seio da sua Igreja hipócrita, da sua Sociedade e do seu Estado, o que o condenou a ficar isolado entre os seus inúmeros admiradores». Os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, são o trabalho teórico mais extenso desenvolvido por um dos fundadores do marxismo-leninismo sobre um escritor. São uma visão crítica da obra de Tolstoi e a apreciação da importância histórica da sua obra, da importância política da sua obra e o que ela significava para a história do movimento social russo. O agudo olhar crítico de Lénine sobre Tolstoi, condenando «o ataque sem cambiantes de certos elementos de esquerda, os quais confundindo Tolstoi e o tolstoísmo, recusam em bloco a obra e a sua ideologia» está claramente a apontar para Plekhanov e Trostsky, entre outros socialistas, que passam por cima de todas as contradições de Tolstoi para, sem negar a sua valia literária, verem nele apenas um reaccionário, um representante da aristocracia, um inimigo do movimento operário. São textos que revelam a atitude revolucionária de um revolucionário marxista intransigente nos princípios e acutilante e flexível nas apreciações políticas e estéticas, de uma sageza crítica rara, o que é particularmente importante para se entender a sua relação com as artes e as letras depois da Revolução de Outubro.

«Batam os brancos com a cunha vermelha» (1919), litografia de El Lissitzky no Museu de Belas Artes, em Boston, EUA. Por “brancos” eram designados os exércitos contra-revolucionários durante a Guerra Civil Russa. Lazar Markovich Lissitzky (1890-1941), arquitecto e artista plástico, foi uma das mais importantes figuras do construtivismo russo Créditos
 

A Cultura, a Educação, as Artes e a Revolução

As fotografias da revolução russa, não só a de 1917, mas também a de 1905, mostram uma curiosa literarização da rua. As cidades e mesmo as aldeias, estão consteladas de fórmulas, como símbolos. A classe que se apodera do poder inscreve em grandes pinceladas as suas opiniões e as suas palavras de ordem nos edifícios de que se apoderam.
Berthold Brecht, Les Arts et la Revolution, L’Arche, 1997

A Revolução modificou as ruas porque mudou as relações entre os homens. Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais, a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes nem paralelos. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachadas de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura na Rússia Soviética em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. A literalização das ruas inscreve-se nessa metamorfose radical da vida quotidiana depois de Outubro. O estoirar das velhas estruturas coexiste com uma explosão da criatividade entre artistas, operários, soldados escrevendo música, poemas, peças de teatro, cinema, num enorme esforço de trabalho de agitação e propaganda para motivar as imensas massas iletradas, para as fazer aderir aos ideais revolucionários. Lado a lado trabalham os maiores artistas soviéticos, Meyerhold, Eisenstein, Maiakovski, Malevitch, Rodzchenko, Tatline, Dziga Vertov, El Lissitsky, que melhor compreendiam os objectivos da Revolução, mas também os que dela tinham imagens parcelares, algumas distorcidas como é o caso de Essenine, Chagall, de algum modo Pasternak, até por vezes místicas como em Blok, ao lado de operários, soldados, simples cidadãos, muitos deles iletrados.

Lénine, assoberbado com o trabalho imenso de transformação económica, social e política da Rússia, enfrentando uma situação de grande penúria, a contra-revolução e os revisionismos que minavam a Revolução, tem um papel central na área da cultura e das artes. Refira-se, quando da formação do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, a integração de um Comissariado do Povo para a Instrução Pública, para o qual indicou Anatoli Lunatcharski. A tarefa não era de somenos: organizar uma educação nova, socialista numa Rússia maioritariamente analfabeta, representar o poder soviético junto dos artistas e intelectuais, um caldeirão efervescente, em que muitos dos empenhados na Revolução se digladiavam violentamente entre si, por opções estético-artísticas inconciliáveis, e muitos outros opunham-se vigorosamente à Revolução. Uma tarefa de vulto dispondo de meios materiais escassos num tempo em que tudo era escasso e tinha que ser muitíssimo bem equacionado.

Lunatcharki definia-se como «um intelectual entre os bolcheviques e um bolchevique entre os intelectuais». As suas polémicas com Lénine são dos tempos de exílio na Suíça. Com formação filosófica, era um homem de imensa cultura, um orador apaixonado e apaixonante. A sua divergência de fundo com Lénine enraizava nas concepções empiriocriticistas que tinha estudado com Averenius e que perfilhava, ainda que com algumas reservas, mas muitíssimo distanciado da violenta e arrasadora crítica feita por Lénine em Materialismo e Empiriocriticismo (Editorial Avante!, 1978), que nunca lhe poupou críticas reconhecendo-lhe todas as suas qualidades, empenhamento na Revolução e dedicação ao Partido apesar das suas indecisões e oscilações. Esse é um dos traços da personalidade de Lénine. Recorde-se, a talhe de foice, que apesar de todas as discordâncias com Rosa Luxemburgo, foi ele que incentivou e apoiou a edição em russo de Reforma ou Revolução (Editorial Estampa, 1972).

Vladimir Tatlin e um assistente junto à maqueta do «Monumento à III Internacional», em Petrogrado (hoje São Petersburgo), então capital da Rússia Soviética, em Novembro de 1920. Vladimir Tatlin (1885-1953) é um dos fundadores e nomes maiores do construtivismo. O «Monumento à III Internacional», concebido por Tatlin em 1919-1920, que nunca chegou a ser construído na dimensão originalmente prevista (400 metros de altura) é um dos ícones da arte construtivista Créditos

O Comissariado do Povo para a Instrução Pública (Narkompros) defrontava-se com inúmeras dificuldades, de que as menores não eram a desorganização entre departamentos, iniciativas mal estruturadas, o recrutamento de recursos humanos com competências culturais e de ensino mas poucas ou nenhumas em matérias de administração, a recusa activa de muitos membros da anterior intelligentsia em colaborarem com os bolcheviques, as estruturas arcaicas que herdara e os militantes mais competentes dos Partido estarem absorvidos pelas tarefas de reconstrução de um país a enfrentar dificuldades desmesuradas. Reinava uma certa anarquia contra a qual N. Krupskaia, ardente defensora do Narkompros, era porta-voz, por diversos departamentos do Comissariado escaparem à sua autoridade. A outra questão central era a do orçamento. Os representantes do orçamento do Conselho de Comissários do Povo criticavam o Narkompros por pedirem o impossível. O apoio de Lénine ao Narkompros e a Lunatcharski, olhado com desconfiança por muitos membros do Partido que ironizavam o seu esteticismo, foi fulcral. O seu orçamento, se relativamente baixo em termos absolutos, era até exorbitante em comparação com outros Comissariados. Foi objecto de várias reorganizações até à ultima, que instituiu o Narkompros como Comissariado do Povo para a Educação e as Belas-Artes. Os primeiros decretos incidiram na reorganização da educação em todo o extenso território da Rússia, defrontando-se com o gigantesco problema de encontrar professores para o realizar. Apesar disso as primeiras realizações, com o apoio directo de Lénine, foram notáveis, como os projectos de jardins infantis, as escolas comunais, maternas e artísticas, os métodos de ensino pedagogicamente revolucionários, um universo rico de experiências, impossíveis de descrever aqui mas em que se deve referir o trabalho, avançadíssimo para a época de Makarenko pelas suas teorias pedagógicas com uma ideia central: «exigir o mais possível do homem e respeitá-lo o mais possível» (Les Problèmes de la Éducation Scolaire Soviétique, Editions du Progrès, Moscovo, 1962).

O programa de ensino afrontava outra questão muito particular que era as dos idiomas locais, das diversas nações que coexistiam no território da Rússia, que muitos queriam normalizar pela imposição de uma língua unificada. Uma questão que imbricava noutra mais vasta, a de uma cultura nacional. A participação de Lénine é decisiva. É contra a ideia de uma cultura nacional unificada que classifica de reaccionária. Sublinhava que «a Rússia é um país misto no aspecto nacional» e que «uma cultura nacional exerce-se em detrimento do povo, favorecendo o nacionalismo burguês» (…) «não se trata de construir uma cultura nacional mas uma cultura internacional para a qual cada cultura nacional contribui apenas com uma parte, a saber, unicamente o conteúdo democrático consequente e socialista de cada uma das culturas nacionais (…) nós somos contra a cultura nacional enquanto palavra de ordem do nacionalismo burguês. Somos pela cultura internacional do proletariado socialista e democrata até ao fim». (ibidem, tomo XIX) Serão as palavras de ordem do Partido Bolchevique: a igualdade em direitos culturais, o direito à identidade de todas as nações no seio do Estado, a recusa da imposição de uma «autonomia nacional cultural» que conduziria a progressivamente anular as culturas regionais pelo seu não reconhecimento enquanto parte activa da cultura de toda a Rússia. Registe-se que, em linha com esta posição de Lénine, no trabalho de alfabetização de toda a Rússia, as línguas das diversas nacionalidades foram protegidas, o seu uso incentivado. Algumas delas, que eram orais, não tinham expressão escrita e só começaram a tê-la pelo trabalho dos linguistas soviéticos. Pela mesma ordem de razões, Lénine opor-se-á à imposição de uma «cultura proletária», mesmo a reconhecer a existência de uma «cultura proletária», como os partidários do Proletkult pretendiam, como mais adiante se referirá.

Outras das grandes questões a resolver pelo Narkompros era a dos monumentos e da riqueza artística da Rússia. Os combates de rua e a guerra civil eram uma ameaça. Os bolcheviques tomaram medidas eficazes para os salvaguardar, empenhando os responsáveis do Partido, os militares e os operários. A palavra de ordem de Lénine era «o povo dos trabalhadores é agora senhor absoluto do país. Além das riquezas naturais, herdou enormes riquezas culturais, edifícios de grande beleza, museus, bibliotecas, colecções particulares. Tudo isso é agora propriedade do povo». A propaganda contra a Revolução de Outubro apresentava os revolucionários como uma horda de bárbaros e de iconoclastas saqueando a velha cultura secular. Há um episódio relatado por John Reed, em Dez Dias que Abalaram o Mundo (Editorial Avante!, 1997) bem expressivo em relação a essa propaganda contra-revolucionária. «A 15 de Novembro, na sessão do Conselho de Comissários do Povo, Lunatcharski rebentou bruscamente em lágrimas, precipitou-se para fora da sala, gritando: É mais forte que eu! Não posso suportar esta destruição monstruosa da beleza e da tradição. No mesmo dia, a sua carta de demissão aparecia em todos os jornais: “Acabo por saber por testemunhas oculares o que se passou em Moscovo. Estão a destruir a igreja de Basílio, o Bem-Aventurado e a catedral Uspenski. Bombardeiam o Kremlin, onde se encontram os tesouros artísticos de Petrogrado e Moscovo, há milhares de vitimas. A luta atinge o último grau de selvajaria. Até onde irá isto? Que pode acontecer mais? Não posso suportar isto. A medida está cheia e sou impotente para deter estes horrores. É-me impossível trabalhar, perseguido por pensamentos que me enlouquecem». Era tudo mentira, as noticias falsas, as fake news, ontem como hoje e no futuro serão sempre uma arma, uma poderosa arma dos reaccionários. Lunatcharski retirará o seu pedido demissão.

Sublinhe-se que poucos foram os antigos monumentos destruídos, mesmo os que eram símbolos do poder czarista, desde que apresentassem valor artístico. No assalto ao Palácio de Inverno os guardas vermelhos foram os primeiros a dar o exemplo, impedindo actos de pilhagem e recuperando os que os fiéis ao czar queriam roubar. Logo a seguir à tomada do Palácio de Inverno foi publicado um decreto a proteger o edifício e os tesouros artísticos aí albergados.

O Narkompros com o apoio do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, e de várias comissões ad hoc, nomeadas por esse Conselho, inicia o trabalho de inventariar todas as obras de arte, de nacionalizar castelos, galerias, bibliotecas e colecções particulares, de proibir a exportação de objectos antigos e de obras de arte, foi mesmo decidido restaurar alguns palácios e castelos, como o palácio Stroganoff ou o castelo Pavlovsk, o Kremlin que estava devastado antes da Revolução, iniciar escavações arqueológicas. Em Novembro de 1917, por iniciativa de Lénine e do Comissariado do Povo da Instrução Pública, foi criado um colégio para se ocupar dos assuntos dos museus, deram-se cursos de formação para os trabalhadores dos museus. A Narkompros, enfrentando uma penúria generalizada, contradições e polémicas fez, nos anos da Revolução, um trabalho notabilíssimo dirigida por Lunatcharski, a quem Lénine, nunca o poupando a críticas, também nunca deixou de activamente apoiar.

Colectivo artístico acaba a decoração de uma carruagem de um comboio de agitprop
 

As Vanguardas Artísticas e a Revolução

Alguns aspectos da relação das artes com a Revolução de Outubro já foram referidos. É, como todos os outros aqui mencionados e muito debatidos ao longo dos anos, um tema extenso que tem que ser necessariamente resumido num texto deste género. Uma primeira nota, que merece uma longa reflexão e um longo debate, é o referente às vanguardas artísticas, o que foram e a decadência e o descrédito de tal conceito na actualidade, a sua validade e a sua relação com as vanguardas históricas revolucionárias e políticas. Não é um acaso que na Rússia da Revolução de Outubro se assista à explosão das vanguardas artísticas com toda a sua radicalização, o que colocou problemas e questões novas ao poder político e deu lugar a grandes polémicas, entre as vanguardas artísticas entre si e com o poder dos sovietes. Uma única certeza – com tudo o que as certezas têm e que devem ser sempre questionadas com hipóteses provisórias que as fazem equacionar sempre enquanto certezas relativas do ponto de vista do materialismo dialéctico – estavam empenhadas por inteiro, ainda que muitas vezes não compreendendo a sua evolução, com a Revolução.

As vanguardas artísticas, futuristas, cubo-futuristas, suprematistas, expressionistas, construtivistas, imagistas, etc. reivindicavam uma arte radicalmente nova e mesmo a destruição das obras de arte anteriores consideradas inquinadas pelo gosto e pelas ideias da burguesia. Cite-se a título de exemplo a drástica proposta de Avraámov – um pioneiro da música concreta que pintava filmes virgens para reproduzir os sons assim obtidos e que escreveu uma sinfonia com sirenes e ruídos de rua – que exigia que o Narkompros destruísse todos os pianos para acabar de vez com a música tonal. Noutra trincheira o Proletkult, que queria assumir-se como representante de uma nova cultura proletária, combatia vigorosamente as vanguardas artísticas que não se faziam rogadas em o combater e combater-se entre si. Um ambiente efervescente que no entanto não impedia que todos se concentrassem, cada um a seu modo, a glorificar e propagandear a Revolução, fosse com os lendários comboios de propaganda, fosse com as depuradas linhas e formas de El Lissitsky, com poucas cores, negro, cinzento, vermelho, as legendas inscritas nas figuras geométricas de que o exemplo mais icónico é «Com a Cunha Vermelha derrota os Brancos», fosse com as celebradas «Rosta» de Maiakovski, que com ferocidade caricatural teatralizava os acontecimentos de forma facilmente perceptível. fosse mesmo com o «Quadrado Negro sobre fundo Branco» de Malevitch que decorou as ruas de Vitebsk e que, surpreendentemente, foi base usada extensivamente em toda a Rússia para muitos cartazes anunciando eventos culturais e políticos por muitos autores, a maioria anónimos. Tudo isto se sucedia enquanto os criadores artísticos se digladiavam, chegando muitas vezes a via de facto. Refiram-se as sucessivas humilhações a que Malevitch submeteu Chagall, quando viviam e tinham as suas academias em Vitebsk, que culminou numa carta que aquele dirigiu a Estaline, já no poder, denunciando Chagall como contra-revolucionário, isto depois de ele e os seus discípulos terem invadido e praticamente destruído a academia de Chagall, que se vê obrigado a emigrar. Presume-se a perplexidade de Estaline e Jdanov ao olharem para os quadros suprematistas do revolucionário Malevitch.

É esse ambiente que faz perceber porque é o teatro, onde concorrem diversas géneros de arte, salta para as ruas e a praças, celebrando a Revolução e os seus sucessos, que no 1º de Maio, em Petrogrado os operários tenham construído e exibido no desfile o monumento construtivista de Tatlin à III Internacional, enquanto o de Moscovo era antecedido por uma gigantesca marioneta simbolizando o capitalismo. Tudo isto enquanto o Narkompros desenvolve um projecto muito caro a Lénine, monumentos que celebrassem os revolucionários e personalidades públicas, escritores, poetas, filósofos e sábios, pintores, compositores, artistas, patrimónios da humanidade na luta por outra vida. Uma longa lista em que figuravam, entre muitos outros, Espártaco, Marx, Engels, Bakunine, Marat, Robespierre, Tolstoi, Dostoievski, Gogol, Mendeleev, Rublev, Mussorgski, Chopin, Scriabine. Era um projecto de propaganda monumental-heróica. Foram postos a concurso e o seu resultado decepcionou Lénine, como refere Lunatcharski, no livro já citado: «ora em Moscovo Vladimir Ilitch justamente teve a possibilidade de vê-los, os monumentos eram bastante maus (…) um dia disse-me enfadado, que a “propaganda monumental” dera em nada. Respondi-lhe, referindo-me à experiência de Petrogrado e ao testemunho de Zinoviev. Abanou a cabeça em ar de dúvida e replicou: “isso quer dizer que todos os talentos se reuniram em Petrogrado e que todos os falhados estão em Moscovo?”». Esta primeira vaga de monumentos, dedicados à propaganda, foi tão violentamente criticada pelo Prolekult como pelas vanguardas.

O entusiasmo acendido pela Revolução de Outubro transformou as vidas e teve fortes repercussões na poesia que invade os comícios políticos, as fábricas, as ruas, os cafés. Escreve-se nas paredes ao lado das palavras de ordem. Poetas como Maiakovski, Essenine, Pasternak deram-se a conhecer nesse fervilhar quotidiano, mesmo o simbolista Blok adquire um novo fôlego, surgem os poetas proletários sob a bandeira do Prolekult. Cometem as maiores extravagâncias e o poder soviético mostra para com eles uma rara indulgência, muito pela intervenção de Lénine que dava mais importância ao seu contributo para a Revolução do que as seus excessos públicos, ao seu contributo para os ideais da Revolução do que para as suas propostas estéticas. Benjamin Goriely relata muitos desses sucessos como o dos poetas imagistas que querem imediatamente a celebridade universal, consagrada na própria cidade.

Da esquerda para a direita: Shostakovitch, Mayakovski, Meyerhold e Rodchenko
 

«Substituem nomes ilustres das placas pelos seus próprios nomes (…) A rua Petrokva passou a ter o nome do imagista Marienhoff. O beco dos Camaristas, onde está o teatro Stanislavski, fui mudado para rua Essenine, O Beco da Gazeta passaria a chamar-se Kussikoff. (…) Os cocheiros foram os primeiros a aperceberem-se da coisa. Foi o próprio Essenine que lhes chamou a atenção. Chamou um trem, disse ao cocheiro:
– Leve-me à rua Essenine
– Como disse, perguntou o cocheiro.
– Rua Essenine.
– Essenine, não conheço
– Como? Não conheces os grandes homens da Revolução?
– Mas claro que conheço, responde o cocheiro a tremer, como foi que disse camarada? A rua Essenine, conheço-a mas pode-me dizer o antigo nome da rua.
– Beco dos Camaristas.
– Pois claro que conheço. Como podia eu não conhecer o grande revolucionário Essenine?

Essas brincadeiras valeram aos imagistas uma severa repreensão, mesmo uma ameaça de prisão por Kamenev, então presidente do Comité Central do Soviete, que a relatará a Lénine. Este riu-se a bandeiras despregadas, de modo algum pensou em punir os imagistas: melhor ainda, os seus poemas foram editados.4

Lénine compreendia que o processo em curso implicava as mais amplas massas na criatividade revolucionária e na construção de uma nova cultura num contexto em que iriam surgir projectos extraordinários e reivindicações radicais. Em conversa com Clara Zetkin, referiu-se a esse processo: «O despertar de novas forças, o trabalho com o objectivo de criar na Rússia Soviética uma arte e uma cultura novas, é uma coisa boa, muito boa. O ritmo tempestuoso do seu desenvolvimento é compreensível, mesmo útil. Devemos dar futuro ao que foi, durante séculos, descuidado, nós assim o queremos. A efervescência caótica, as novas consignas febris das aventuras artísticas, consignas que hoje cantam “hossanas” em relação a determinadas correntes da arte e amanhã as “crucificam”, são coisas inevitáveis. A revolução liberta todas as forças ontem amarradas, impulsionam-nas das profundidades para a superfície da vida» (Écrits sur l’Art et la Littérature. Éditions du Progrès, 1969).

No entanto, não estava desatento a esses movimentos que se tinham juntado à Revolução. Os de vanguarda intensificando a sua acção a favor de uma nova arte, criando células literárias e artísticas entre os operários, e o Prolekult criando estúdios, também entre os operários, para impor a «cultura proletária», enfrentando-se não só por palavras mas muitas vezes a murro. Entre todos os que alcançam maior notoriedade estão o futurista Maiakovski e o poeta proletário Demian Bedny. Um é o grande poeta da Revolução como hoje é reconhecido, o outro é um poeta medíocre que se limita à agitação e propaganda sem grande estro poético, hoje quase esquecido. O julgamento que na altura sofreram por parte de Trotsky (La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972) e Lénine, apesar de ambos preferirem Bedny a Maiakovski, é bastante diferenciado. Lénine fá-lo em alguns telegramas a Lunatcharski: «não será uma vergonha votar a favor da publicação do poema 150 000 de Maiakovski em 5000 exemplares? Tolice, extravagância e pretensão, tudo isto. Na minha opinião, só um em cada dez desses escritos vale a pena ser publicado, e não mais do que em 1500 exemplares, para as bibliotecas e para os maníacos»

Em benefício de Lénine, refira-se a imensa escassez de papel que deveria ser direccionado prioritariamente para as escolas e para os jornais. Natália Kruspskaia confirma a admiração crítica de Lénine por Bedny. Gorki, conta nas suas recordações o paralelo que Lénine traçava entre os dois poetas. Sublinhava o alcance da propaganda na obra de Demian Bedny, embora dizendo «é um pouco grosseiro. Vai atrás do leitor, em vez de marchar à frente dele». Em relação a Maiakovski «grita, inventa não sei que palavras estapafúrdias. Não é assim, acho eu, não é assim, e é pouco compreensível. Tudo disperso, tudo difícil de ler. Dizem que é dotado? Até muito dotado? Hum, veremos».

Trotsky, brutal em relação a Maiakovski, que considera «um vadio anarquizante, sem qualquer valor poético», tem um imenso entusiasmo por Demian Bedny: «é curioso verificar que aqueles que fabricam as fórmulas abstractas da poesia proletária passam habitualmente ao lado de um poeta que, mais que ninguém, tem o direito ao poeta da Rússia revolucionária» (…) «tem a capacidade de fazer da poesia um mecanismo de transmissão incomparável das ideias bolcheviques» (…) «Demian Bedny não criou, nem criará uma escola: ele mesmo foi criado por uma escola que se chama P.C.R., para as necessidades de uma grande época que não terá igual» (Ibidem, obra citada). Uma formulação no mínimo inquietante por excluir a arte de encontrar aquilo que quer fazer com os seus materiais e instrumentos, para a entregar pura e simplesmente nas mãos da política e dar à política o comando, o que acabava por sancionar a «cultura proletária». Uma concepção diametralmente oposta à de Lénine, que sempre lutou contra as tentativas do Prolekult impor uma «cultura proletária» autonomizando-se do Narkompros. No primeiro Congresso sobre a Educação, em 6 de Maio de 1919, Lénine criticou o Proletkult e os intelectuais burgueses que desdobravam a sua fantasia no domínio da filosofia e da cultura ditas proletárias, «como se a cultura proletária surgisse de uma fonte desconhecida, brotasse do cérebro de alguns que se dizem especialistas na matéria, um total absurdo». A fracção comunista nesse Congresso, liderada por Lénine, votou a submissão do Prolekult ao Narkompros por 166 votos a favor, contra 36, e 26 abstenções. No discurso final, um discurso não previsto, Lénine atacou ainda mais violentamente os teóricos da «cultura proletária» considerando-a um desvario.

Sempre inflexível em relação aos princípios, Lénine foi também sempre um revolucionário flexível nas políticas que os não violassem, o que aplicou coerentemente em relação às artes, nunca aceitando que a política a colonizasse.
Bibliografia Resumida

Brecht, Berthold, Les Arts et la Révolution, L’Arche, 1997
Ehrenburg, Ilya, Un Écrivain dans la Révolution, Éditions Gallimard, 1962
Goriely,Benjamin, Les Poètes dans la R’evolution Russe, Éditions Gallimard, 1934
Gorki, Máximo, Lénine, Modo de Ler, 2009
Lénine, Oeuvres Complètes, em 45 volumes, Éditions du Progrès, 1958-1976
Lénine, Écrits sur l’Art et la Littérature, Éditions du Progrès, 1969
Lénine, Obras Escolhidas, em 3 volumes, Editorial Avante!, 1978
Lénine, Que Fazer?, Editorial Avante!, 1984
Lénine, Materialismo e Empiriocriticismo, Editorial Avante!,1979
Lunatcharski, Anatoli; Gorki, Maxim e outros, Lénine tel quel fut. Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès, 1959
Palmier, Jean Michel, Lénine, A Arte e a Revolução. Ensaio sobre Estética Marxista, Moraes Editores, 1976
Prévost, Claude, Literatura, Política, Ideologia, Moraes Editores, 1976
Reed, John, Dez Dias que Abalaram o Mundo, Editorial Avante!, 1997
Trotsky, Leon, La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972

 

Ver o original em 'Praça do Bocage ' (clique aqui)

A guerra no Pacífico, a agressão à China e a capitulação do Japão

 
 
Apesar das avassaladoras vitórias iniciais, a capacidade de guerra do Japão era muito inferior à capacidade dos EUA. E a economia norte-americana poderia financiar a guerra por muito mais tempo.
 
António Abreu* | opinião
 
O ataque a Pearl Harbour
 
Às 7h55 da manhã do domingo de 7 de Dezembro de 1941 (hora de Hawai), 3670 bombardeiros e aviões de combate japoneses atacaram os navios de guerra norte-americanos fundeados em Pearl Harbour (Porto das Pérolas) e as respectivas bases, deixando 2330 americanos mortos ou moribundos.
 
Pouco antes de atacar os Estados Unidos, o Japão já havia garantido o controle sobre a Indochina Francesa numa invasão rápida, que contou com pouca resistência das tropas coloniais da França. Quando o ataque a Pearl Harbour aconteceu, o governo japonês apresentou-o à sua população e aos seus aliados do Eixo como uma grande conquista. Entretanto, alguns membros do exército japonês sabiam que as conquistas obtidas em Pearl Harbour eram mínimas.
 
No dia seguinte, a 8 de Dezembro, os EUA e o Reino Unido declararam guerra ao Japão. A 11, os EUA declaram guerra à Alemanha e Itália, as quais responderam com igual declaração. A Bulgária, Eslováquia e Croácia procederam da mesma maneira em relação aos EUA e Reino Unido. A Roménia, que estava em guerra com o Reino Unido, declarou-a também aos EUA.
 
A 11 de Dezembro ampliou-se o anterior pacto militar entre as potências do Eixo, em que a Inglaterra, Itália e Japão se comprometiam em ir juntas até ao fim das hostilidades, em assinarem armistício só com o acordo entre as três, e continuarem depois juntas na construção de uma nova ordem mundial.
 
 
A invasão da China e os crimes dos japoneses
 
Na China, em 1911, tinha sido proclamada a República da China, depois do derrube pelo movimento nacionalista do imperador da dinastia Quing. A também chamada Revolução de Xinhai foi dirigida por Sun Yat-sen, fundador do Kuomintang e primeiro presidente das Províncias Unidas da China, em que os comunistas participaram.
 
Durante a Segunda Guerra Mundial registou-se uma segunda guerra com o Japão quando este voltou a invadir o país, que nacionalistas e comunistas derrotaram. Depois da guerra uma deriva de submissão ao imperialismo ocidental do governo levaria à revolução comunista de 1949.
 
Em 1931, o Japão ocupa a Manchúria e no ano seguinte institui o Manchukuo como Estado fantoche, governado pelo Imperador Puyi, que abdicara em 1912. A actuação de Chiang Kai-shek, que não oferecera resistência ao invasor, faz crescer a vontade contrária, dos comunistas, que continuavam a ser militarmente combatidos pelo generalíssimo.
 
Enquanto isso, Mao Tse-tung promovia a distribuição de terras aos camponeses e animava a resistência contra o Japão, atraindo as simpatias dos chineses.
 
Em 1936, Chiang Kai-shek foi aprisionado em Xian, capital de Shaanxi, pelas tropas do General Zhang Xueliang, no conhecido Incidente de Xi’an. Negociações até hoje mal conhecidas estabelecem o acordo entre nacionalistas e comunistas, que se unem na luta contra o Japão, a esta época já senhor absoluto de quase todo o norte do país.
 
Os comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung, e os nacionalistas, liderados por Chiang Kai-shek, assinam um acordo em 22 de Setembro de 1937, pelo qual os comunistas abandonam seu projecto de um governo revolucionário, renunciando a insurgir-se contra o governo de Chiang Kai-shek que, pelo seu lado, comprometeu-se a suspender as operações anticomunistas. Desta maneira forma-se a Segunda Frente Unida.
 
Apesar da aliança, as forças chinesas não são fortes o suficiente para lutar contra o Exército Imperial Japonês e sofrem uma série de desastres no início do conflito.
 
O massacre de Nanquim foi um dos actos mais bárbaros dos militares japoneses. 57 mil soldados e civis foram executados. Milhares de mulheres chinesas foram então violentadas e mortas a tiros ou a golpes de baionetas em caso de resistência.
 
O furor homicida da soldadesca adquirira uma dinâmica própria e o roteiro de roubos, saques, torturas, raptos e estupros seguidos de assassinatos teve continuidade ainda por seis semanas, estendendo-se de 13 de Dezembro de 1937 até os finais Fevereiro de 1938. Os japoneses, como se fossem uma matilha de lobos famintos e desordeiros, percorriam as ruelas e praças da cidade em bandos de seis a doze soldados, disparando ou trespassando a quem quisessem ou desejassem.
 
Em Julho de 1937, sem declaração de guerra, o Japão inicia as hostilidades. Em menos de noventa dias os japoneses ocuparam a parte oriental do país, sem que o governo nacionalista pudesse impedi-los. Pequim e Tientsin caem em poder dos nipónicos.
 
A invasão japonesa na China resultou na segunda guerra sino-japonesa (1937-1945), na qual o Japão cometeu inúmeras atrocidades contra a população civil chinesa. As atrocidades do exército japonês foram desde os estupros em massa cometidos contra mulheres chinesas ao uso de bombas biológicas em partes da China e contra pacientes de hospitais, mortos à baioneta nas suas camas.
 
Depois da queda de Hong Kong, no Natal de 1941, cenas similares ocorreram em Java e Sumatra, as maiores ilhas das Índias Orientais Holandesas. O exército japonês manteve nas suas novas conquistas a tradição de selvajaria, estabelecida na China, em que se destacou o já referido massacre de Nanquim.
 
Os comunistas estimulavam acções de guerrilha, especialmente no norte da China. Mao Tse-tung queria poupar as suas tropas, tanto quanto possível, e continuou a consolidar as suas forças, para se preparar para uma eventual nova guerra contra as tropas de Chiang Kai-shek, após a derrota japonesa.
 
A China contou com o apoio americano na guerra após os Estados Unidos serem atacados pelos japoneses em Pearl Harbour, em 1941. Os norte-americanos forneceram armas e suprimentos aos exércitos chineses, principalmente aos nacionalistas liderados por Chiang Kai-shek. A segunda guerra sino-japonesa só acabaria em 1945, quando o Japão se rendeu aos Aliados.
 
Antes do início da Segunda Guerra Mundial, o Japão, durante a década de 1930, defendia a sua expansão territorial, a partir da força dos seus exércitos, para que fosse desenvolvido um projecto de colonização em todo o Extremo Oriente.
 
Esse projecto tornou-se evidente com o nacionalismo imperialista japonês, que se desenvolveu a partir da reformulação do ensino durante a Restauração Meiji (1868). O imperialismo japonês manifestou-se antes da Segunda Guerra Mundial, na primeira guerra sino-japonesa (1894-1895) em que o Japão conquistou a península da Coreia, que então pertencia à China. Esse ímpeto imperialista prosseguiu com a conquista da Manchúria e Port Arthur após a guerra russo-japonesa (1904-1905).
 
A partir de 1933, o Japão invadiu a China com a intenção de anexar a Manchúria oficialmente ao Império do Japão.
 
Os japoneses acabaram por ser expulsos pela conjugação da acção dos nacionalistas conservadores do Kuomintang, então dirigido por Chiang Kai-Shek, com os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung.
 
A guerra no Pacífico
 
Depois de Pearl Harbour, atacado em 8 de Dezembro, de 1941, três outras ilhas foram bombardeadas nesse dia, Guam, Wake e Midway, enquanto, nessa mesma manhã, do outro lado do Mar da China, a Segunda Esquadra japonesa escoltava um comboio de navios de transporte de tropas da Indochina para a península da Malásia. Ao mesmo tempo, Singapura era bombardeada pelos japoneses.
 
No litoral da China, as tropas japonesas capturaram as guarnições americanas de Xangai e Tientsin.
 
As conquistas japonesas eram impressionantes. No dia 9 de Dezembro, o Japão ocupa Banguecoque e procederam a mais dois desembarques na Malásia, nas cidades costeiras de Singora e Patani. No meio do Pacífico, desembarcaram em Tarawa e Makin, nas Ilhas Gilbertas.
 
Ao fim de 3 dias de guerra, os japoneses tinham-se assenhoreado do sul do Mar da China e do Oceano Pacífico.
 
A 11 de Dezembro a Alemanha declarou guerra aos EUA. A 18 de Dezembro, a coberto de um intenso fogo de barragem, as tropas japonesas desembarcaram na ilha de Hong-Kong e no dia 20, desembarcaram na ilha de Mindanau, no arquipélago das Filipinas.
 
No início do conflito, o Japão conseguiu expandir o seu império de maneira avassaladora, derrotando sucessivamente tropas britânicas, americanas e holandesas instaladas no Sudeste Asiático. Conquistaram a Malásia, Birmânia, Singapura e Hong Kong aos britânicos, as Índias Orientais Holandesas aos holandeses, e as Filipinas aos americanos.
 
A expansão japonesa previa o confronto contra os Estados Unidos para os expulsar definitivamente da Ásia (os EUA possuíam bases e soldados instalados nas Filipinas). Isso garantiria ao Japão caminho livre para dominar o sudeste asiático e, assim, ter acesso aos recursos naturais dessas regiões.
 
Mas no ano seguinte, a 7 de agosto de 1942, os americanos lançaram a operação «Watchtower», a primeira contra-ofensiva aliada no Pacífico. A operação começou com o desembarque de 16 mil homens na ilha de Guadalcanal, das Ilhas Salomão. Fuzileiros norte-americanos travaram combates em terra em outras quatro ilhas mais pequenas.
 
Estalinegrado e Guadalcanal mostraram aos aliados que o Eixo podia ser batido nos campos de batalha.
 
Apesar das vitórias iniciais, a capacidade de guerra do Japão era muito inferior à capacidade americana. A economia norte-americana era muito superior à do Japão, e poderia financiar a guerra por muito mais tempo. Isso tornou-se claro a partir do segundo semestre, quando os Estados Unidos passaram a reconquistar todos os territórios ocupados pelo Japão entre 1940 e 1942.
 
Há historiadores que consideram a batalha naval de Midway o grande marco da viragem americana. Nessa batalha, a marinha americana afundou quatro porta-aviões japoneses e impôs outras pesadas perdas materiais à Marinha Imperial Japonesa. Nesse momento, o Japão perdeu boa parte da sua capacidade de guerra pelo mar e, diferentemente dos Estados Unidos após Pearl Harbour, não conseguiu recuperar-se.
 
O avanço americano, entretanto, aconteceu de maneira lenta. Cada reduto ocupado pelos japoneses era defendido de maneira obstinada, o que impunha pesadas perdas de soldados aos Estados Unidos. Apesar disso, novas vitórias aconteceram progressivamente nas batalhas de Guadalcanal, Tarawa, reconquista das Filipinas, Iwo Jiwa e Okinawa.
 
No Sudeste Asiático e no Pacífico os japoneses continuavam a dominar uma área enorme, das fronteiras da Índia às ilhas do Alasca: uma área de quase 4 milhões de quilómetros quadrados, com população de cerca de cerca de 150 milhões de pessoas, sem contar com os territórios anteriormente anexados.
 
Em 22 de Janeiro de 1943, porém, as tropas americanas e australianas desbarataram as últimas bolsas de resistência japonesas a oeste e a sul de Sanananda (Nova Guiné).
 
Exactamente na altura em que isto ocorria, os alemães eram pela primeira vez desalojados de uma das suas principais conquistas em terra firme no Norte de África. As forças alemãs e italianas do Norte de África foram afastadas de Tripoli e obrigadas a recuar para a Tunísia pela acção militar dirigida por Montgomery.
 
De 14 a 23 de Janeiro de 1943 realizou-se no norte de África a Conferência de Casablanca entre representantes dos EUA, com F. D. Roosevelt, e do Reino Unido, com Winston Churchill. Nela se decidiu o desembarque na Sicília, tendo-se considerado imprescindível que a União Soviética se incorporasse na luta contra o Japão, uma vez terminada a guerra na Europa. A Conferência concedeu plena responsabilidade política e militar ao Reino Unido nos Balcãs e Médio Oriente e aos Estados Unidos no Norte de África e no Extremo Oriente.
 
Em 28 de Março de 1943, o 8.º Exército inglês, que se encontrava perto da fronteira líbio-tunisina, renovou a ofensiva. Ao mesmo tempo, as tropas de Eisenhower empreenderam o ataque à parte ocidental de Tunes.
 
Em 12 de Maio, os soldados e oficiais alemães e italianos depuseram as armas, e com isso terminaram as operações do Norte de África.
 
Na Conferência de Teerão, realizada de 28 de Novembro a 1 de Dezembro de 1943, com a participação de Roosevelt, Churchill e Stalin, foi discutida a questão do timing das operações militares contra a Alemanha e a possibilidade de se negociar um acordo de paz. Foi também acordada nesta conferência a garantia da independência do Irão e o envio de ajudas económicas no período pós-guerra.
 
A partir do desembarque das tropas norte-americanas nas Filipinas, em Outubro de 1944, travaram-se as mais importantes batalhas navais da guerra. Os EUA acabaram por as vencer em Abril de 1945.
 
Aproveitando o momento favorável, o governo inglês apressou-se a desencadear, juntamente com o norte-americano, operações nas ilhas da Indonésia. Os ataques da aviação norte-americana tornaram-se sistemáticos desde Outubro de 1944 e atingiram grande envergadura na Primavera de 1945.
 
A última operação efectuada no teatro do Pacífico por forças dos Estados Unidos foi o desembarque de tropas norte-americanas em Okinawa em 25 de Março de 1945.
 
A derrota da Alemanha e a sua capitulação, foram um duro golpe para os nipónicos que viram condenados ao fracasso os seus planos anexionistas.
 
O governo japonês pensava que poderia manter a guerra durante muito tempo, chegando a tentar um novo conluio anti-soviético com os seus aliados.
 
O Japão possuía umas forças armadas descomunais. Os efectivos totais das suas tropas ultrapassava os cinco milhões de homens. Com o objectivo de defender as suas empresas dos ataques aéreos, os industriais nipónicos transferiram numerosas fábricas do Japão para a Manchúria, por eles ocupada desde 1932, e organizaram também a sua produção bélica, neste caso na Coreia, também ocupada.
 
As bombas atómicas
 
Em 1945, com o fim da guerra na Europa e com o Japão cercado pelas forças americanas, os Aliados reuniram-se em Ialta para debater o mapa da Europa no pós-guerra e os termos da rendição japonesa.
 
Diziam os representantes dos EUA que a invasão territorial do Japão resultaria em grandes perdas de vidas, mesmo maiores do que as que se tinham verificado na invasão da Normandia, no Dia D.
 
O Japão estava a ser castigado pelos bombardeamentos americanos sobre as grandes cidades, e estava com a economia falida. Apesar disso, recusou render-se. Os kamikazes lançavam-se sobre objectivos militares dos EUA.
 
2525 pilotos kamikaze morreram nesses ataques, causando a morte de cerca de 7 000 soldados aliados e deixando mais de 4 mil feridos. O número de navios afundados é controverso. A propaganda japonesa da época divulgou que os ataques teriam conseguido afundar 81 navios e danificar outros 195.
 
Apesar de, em desespero, os japoneses terem recorrido aos kamikazes, a deflagração de duas bombas atómicas contra seres humanos constituíram um grave crime contra a Humanidade.
 
Os EUA não queriam ir acabar a guerra no terreno, como defenderam em Ialta, para poupar a vida aos seus militares. Optaram, unilateralmente, por lançar as bombas atómicas sobre Hiroshima, provocando cerca de 247 mil mortos, e sobre Nagasaki, três dias depois, provocando cerca de 200 mil mortos e feridos, na sua grande parte civis. Pouparam em vidas militares, optaram por matar os civis.
 
Claro que essa horrível decisão dos EUA precipitou a rendição japonesa, mas a decisão americana de lançar bombas atómicas sobre civis foi considerada um crime de guerra e a anterior «confidência» de Truman, a Staline, de que os EUA dispunham «de uma nova arma com uma invulgar força destrutiva», serviu também para tentar assustar a URSS e conter a progressão das forças de esquerda nos territórios libertados no Ocidente e no Leste europeus. Antes disto, Churchill, conhecido pelas suas atitudes racistas, consideraria a possibilidade de utilizar gás venenoso em civis alemães, depois dos bombardeamentos a Londres pelo Terceiro Reich, contrariando as regras internacionais da guerra nessa altura.
 
Após o fim da guerra, o comando-geral do Japão foi entregue ao general americano Douglas MacArthur, e o território japonês foi ocupado pelos Estados Unidos até 1952.
 
Os Aliados também organizaram o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, no qual juristas de diferentes nações aliadas julgaram os crimes de guerra cometidos por decisão das lideranças japonesas.
 
Conferência de Ialta e a possibilidade de uma nova ordem de paz no pós-Guerra na Europa
Como referimos, quando a vitória na Segunda Guerra Mundial já parecia certa, os Aliados reuniram-se de 4 a 11 de Fevereiro de 1945 em Ialta, na Crimeia. Churchill, Roosevelt e Stalin decidiram sobre fronteiras e esboçaram uma nova ordem de paz no pós-Guerra.
 
Foi aprovada uma declaração sobre a Europa libertada e discutiram-se várias questões, cuja solução não poderia ignorar que os soviéticos estavam às margens do rio Oder, no Leste alemão, e os americanos, na fronteira oeste da Alemanha.
 
Praticamente ocupada, a Alemanha já não estava em condições de resistir por muitas semanas. A Itália rendera-se, mas o Japão ainda resistia.
 
A Conferência de Ialta, nas margens do Mar Negro, foi uma das três grandes conferências que determinaram o futuro da Europa e do mundo no pós-Guerra (além da de Teerão, em 1943, e da de Potsdam, em meados de 1945).
 
Apesar da influência da URSS na viragem da guerra, a Guerra Fria já começara e a questão da Polónia viria a ser motivo de acesa discussão na conferência. Depois da libertação pelos soviéticos, na Polónia já tinha sido constituído um governo que Roosevelt e Churchill queriam ignorar para impor um processo eleitoral. Acabaram por decidir que fossem incluídos no governo já formado alguns membros apontados por ambos.
 
Em relação à Organização das Nações Unidas, que viria a ser criada, decidiu-se a composição de um Conselho de Segurança com direito de veto. Quanto à Alemanha, as potências aliadas resolveram exigir a «capitulação incondicional» e o país ficou dividido em zonas de ocupação. A conferência decidiu sobre reparações e a desmontagem das instalações industriais do país. E foi consagrada a deslocação da fronteira soviética para ocidente, ficando a fronteira oriental da Alemanha ao longo dos rios Oder e Neisse.
 
A nova linha divisória viria a delimitar o que mais tarde foi designado em 1946 como Cortina de Ferro por Churchill que justificou, com essa linguagem, a divisão do mundo, transformando as relações futuras que deveriam ser pacíficas em quase 50 anos de Guerra Fria.
 
«De Sczecin, no Mar Báltico, até Trieste, no Mar Adriático, transcorre uma cortina de ferro pelo continente. Por trás desta linha estão todas as capitais da Europa Central e do Leste Europeu. Todas as cidades e suas populações estão sob influência soviética. Os acertos feitos em Ialta foram vantajosos demais para os soviéticos».
 
Entretanto ainda se realizaria a Conferência de Potsdam, de 17 de Julho a 2 de Agosto de 1945, em que participaram o norte americano Harry S. Truman, que sucedera a T.D. Roosevelt por morte deste, José Stalin e o britânico Clement Attlee, que derrotara Churchill em eleições. A conferência esteve virada para o período do pós-guerra, decidindo:
 
1. as indemnizações a pagar pela Alemanha às potências vencedoras;
2. a reversão das anexações realizadas pela Alemanha desde antes da guerra;
3. os objectivos comuns imediatos das potências ocupantes da Alemanha (desmilitarização, desnazificação, democratização e descartelização);
4. a divisão da Alemanha e da Áustria em zonas de ocupação, como anteriormente decidido na Conferência de Ialta, e idêntica divisão de Berlim e Viena em quatro zonas (americana, britânica, francesa e soviética). Posteriormente, em 1961, a zona aliada (americana, britânica, francesa) em Berlim seria isolada do resto da Alemanha Oriental, na sequência de incidentes contra a parte sob a administração da URSS, pelo Muro de Berlim, que completou a fronteira interna alemã;
5. o julgamento dos criminosos de guerra nazis em Nuremberg;
6. o estabelecimento da fronteira da Alemanha com a Polónia nos rios Oder e Neisse lLinha Oder-Neisse);
 
7. os termos da futura rendição do Japão.
 
A capitulação do Japão
 
A 9 de Agosto de 1945 o governo soviético, cumprindo os seus deveres de aliado, assumido na conferência de Ialta, na Crimeia, de Fevereiro de 1945, declarou guerra ao Japão e iniciou contra este uma operação em todas as frentes.
 
O exército soviético desembarcou nas ilhas Curilhas, entrou nas cidades de Harbin, Kirin, Chang-chung, Mukden, no Porto Artur e em Daire.
 
Na Manchúria as tropas japonesas entregaram-se e em duas semanas mais seriam libertados a Manchúria no seu todo, o norte da Coreia, o sul da ilha de Sacalina e as ilhas Curilhas.
 
Num mês, as forças armadas soviéticas aniquilaram o Exército de Kuangtung, a base das forças armadas do Japão.
 
Em 28 de Agosto começou o desembarque das tropas americanas no Japão.
 
Em 2 de Setembro de 1945, às 10h30, a bordo do navio de guerra norte-americano Missouri, fundeado na barra de Tóquio, foi assinada a acta de capitulação incondicional do Japão.
 
Este facto assinalava o fim da Segunda Guerra Mundial.
 
Ao leitor:
Este é o quarto de uma série de seis artigos que, entre Março e Maio de 2020, o autor consagra à celebração do 75.º aniversário da Vitória, sob a designação comum de «Lembrar o fim da Segunda Guerra Mundial sem reescrever a História». Foram anteriormente publicados A ascensão do nazismo aos ombros do capitalAs agressões nazis, da ocupação da Renânia à batalha de Moscovo e Da supremacia soviética ao fim da guerra na Europa.
 
 
Na imagem:Um navio de guerra norte-americano afunda-se após ter sido atingido por bombas japonesas, durante o ataque à base naval de Pearl Harbor, no Hawai, EUA, a 7 de Dezembro de 1941, que marcou a entrada dos dois países na Segunda Guerra Mundial. CréditosEnciclopédia Britânica / National Archives
 
Leia em AbrilAbril:
Os promotores desta contestação não se insurgem contra os moldes em que se realizará a cerimónia de celebração do 25 de Abril, mas sim contra a revolução e as conquistas que ela permitiu.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/a-guerra-no-pacifico-agressao-china-e.html

Senhor Covid-19 se pensa que paramos, tire daí o sentido! (5)

escola01
 
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Hoje,  "A Desenhando Sonhos" fez publicar o 5º conto, inserido no projecto "CONTEMOS CONTOS UNS AOS OUTROS", progredindo no objectivo de dar aos seus associados, reformados, pensionistas e idosos condições para acederem a obras de autores que nos dão testemunho de uma realidade do País que fomos, porque somos a memória que temos...
Dada a proximidade das celebrações do 25 de Abril é um conto que retrata como era a escola em tempos de ditadura.
- o conto é da autoria da Alice Vieira
- a voz é da actriz Teresa Neves, convidada pelo nosso amigo André Levy.
Fica aqui um bocadinho, pois o seu destino é ser ouvido:
«... E lá vinha outro mês, e lá voltava eu a escrever para o Ministério, a mandar ofícios, a fazer pedidos a toda a gente – e do Ministé­rio apenas o silêncio.
 
Foram anos terríveis. Eu já não sabia como inventar maneiras de ensinar os miúdos. Já viu como é que se ensina Geografia de Portugal sem um mapa? Ensinar-lhes as serras, os rios, as linhas de caminho-de-ferro – sem lhes mos­trar no mapa onde ficavam?
 
Coitadinhos, eles sabiam tudo de cor, mas não faziam a mínima ideia onde é que tudo aquilo era! E o meu ordenado, claro, tão pequeno que nem dava para pagar o material do meu bolso. Ainda paguei muitos paus de giz, e um apagador para o qua­dro, e alguns cadernos para aqueles que não tinham mesmo possibilidades nenhumas, mas não podia ir muito além disso. Tinha dois filhos para criar, e fiquei viúva muito cedo, como o Paulo lhe deve ter dito. A vida era muito difí­cil também para mim.
 
Mas nunca desisti. Todos os meses lá ia a carta para o Ministério. Isto durante anos! Só em selos devo ter gasto uma pequena for­tuna!
 
Até que um dia...»
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

URAP Porto exibe sessões de cinema no âmbito do projecto “Do Heroísmo à Firmeza”

as ondas de abrilDuas sessões de cinema, no âmbito do projecto “Do Heroísmo à Firmeza”, decorreram por vídeo/conferência, dias 11 e 18 de Abril, organizadas pelo núcleo da URAP do Porto, com a exibição de “As Ondas de Abril” e “Poeticamente Exausto, Verticalmente Só”.

“As Ondas de Abril”, um filme de Lionel Baier, de 2013, relata a viagem de dois jornalistas da Rádio Suíça enviados a Portugal, no início de Abril de 1974, para fazerem uma reportagem sobre a ajuda suíça ao nosso país. À equipa junta-se um técnico de som, com a sua carrinha VW “pão de forma”, e um jovem português contratado para servir de intérprete.

Tudo lhes corre mal e quase dão a reportagem como perdida, quando são apanhados pela Revolução dos Cravos. No sítio certo e à hora certa, têm a oportunidade única de captar em directo e ao vivo o espírito da revolução.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2RRnw3S

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/20/urap-porto-exibe-sessoes-de-cinema-no-ambito-do-projecto-do-heroismo-a-firmeza/

A URAP e o 25 de Abril na Escola João de Barros de Corroios, em vídeoconferência

JPS1 sO membro do Conselho Directivo da URAP e ex-preso político José Pedro Soares participou, por vídeo/conferência, numa sessão sobre o 25 de Abril de 1974 para 60 alunos e professores da Escola João de Barros, em Corroios, concelho do Seixal.

Na sessão, que ocorreu dia 17 de Abril, o orador falou do envolvimento dos jovens estudantes e trabalhadores na luta pela liberdade, pelos seus direitos específicos, pelo fim das guerras coloniais e pelo derrubamento do fascismo, e ainda com mais entusiasmo e determinação na imensa mobilização popular pelo triunfo Revolução dos Cravos.
Foram abordados outros acontecimentos históricos, na caminhada na luta emancipadora dos povos, e algumas questões da actualidade.

Os estudantes procederam a diversas perguntas e sugestões, convidando o orador para uma outra conversa, mas já presencial e na escola, em data a marcar, sobre a Constituição da República Portuguesa, e também uma deslocação colectiva ao Museu Nacional da Resistência e Liberdade, na Fortaleza de Peniche.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/3eCJul1

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/20/a-urap-e-o-25-de-abril-na-escola-joao-de-barros-de-corroios-em-videoconferencia/

João Duarte Freitas – médico

Acaba de falecer um dos meus maiores e mais generosos amigos, um dermatologista de invulgar competência e cidadão de conduta exemplar.

Ainda jovem, cooperou no Comércio do Funchal, na Universidade combateu a ditadura, e foi a vingança fascista que lhe interrompeu o curso e o enviou como alferes para a pior zona de Moçambique, Cabo Delgado, durante a guerra colonial.

Homem de grande coragem e dignidade nunca referia a cruz de guerra que foi obrigado a aceitar, numa guerra contra a qual se manifestou antes, durante e depois, pela palavra escrita e oral, com riscos que precocemente assumiu e represálias que sofreu.

Participou nos movimentos cívicos contra a ditadura, colaborou nos mais relevantes movimentos culturais da Universidade de Coimbra, como estudante, e foram a cultura, a intervenção cívica, a participação associativa e o exercício da medicina que pautaram a sua vida intensa e breve.

Foi presidente do Ateneu e de numerosas associações, mas a sua biografia não cabe na homenagem que dolorosamente lhe presto, deixando comovidos pêsames à jornalista do Público, Andreia Freitas, sua filha mais velha, à viúva, Sofia, e aos filhos de ambos, Gaspar e Simão, juntando as minhas às suas lágrimas.

Até sempre, João. Quando reabrir o Bossa Nova há de amargar-nos o café onde nunca mais poderemos contar com a tua presença. Até sempre.

Deixo o último texto que publicou aqui no blogue Ponte Europa,
onde assinava com o pseudónimo de «e-pá».

 

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/11/bolivia-o-golpismo-em-cascata-na.html

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/04/joao-duarte-freitas-medico.html

Em tempos de confinamento, um livro que nos ajuda

“Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
“É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.”
image
Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
Daniela Castro
 
(Edições Afrontamento, Porto)
 
 
 
Há 44 anos, um atentado bombista matou dois jovens transmontanos na flor da vida: Maximino de Sousa e Maria de Lurdes Correia. Foram vítimas do ódio político. O Padre Max, assim conhecido na comunidade, era tido como um Padre com ideias comunistas, e a Maria de Lurdes era uma jovem estudante, alegre e espontânea, a quem dera boleia.
Tratou-se de um crime político, planeado e executado por um comando da rede terrorista da extrema-direita, com apoios locais, que aconteceu numa fase já declinante do processo revolucionário, justamente em 2 de Abril de 1976, dia em que o Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes, promulgou a Constituição, no momento seguinte à sua votação final.
 
O golpe de 25 de Novembro acabou com a fase mais criadora da Revolução. O Governo e a Assembleia Constituinte continuaram em funções, mas havia forças que pensavam poder ainda reverter o curso da História. O período entre Novembro de 75 e Abril de 76 foi dos mais violentos e mortíferos, tendo sido cometidos 97 atentados bombistas. Lembro o assassínio a tiro, na própria noite de 25 de Novembro, do operário vidreiro e sindicalista António Almeida e Silva, numa rua do Porto, a morte de Rosinda Teixeira, em Santo Tirso, de duas pessoas da Embaixada de Cuba, de um cidadão junto do CT Vitória, do PCP, em Lisboa, vítimas de explosões, sem esquecer, noutro quadro, a morte, por disparos da GNR, de quatro pessoas, numa pequena multidão que se manifestava pacificamente, no final do ano, junto à cadeia de Custóias, onde estavam detidos militares de esquerda, acusados de envolvimento no 25 de Novembro. Foi nessa época que ocorreu o atentado bombista na Câmara Municipal de Vila Real, que por pouco não atingiu o Presidente da Comissão Administrativa, Rogério Fernandes, conhecido militante do PCP e amigo do Padre Max. Foi na mesma altura que uma bomba destruiu o carro do médico de Chaves Maximino Cunha. O crime infame que vitimou o Padre Max e a estudante Maria de Lurdes não foi um caso isolado. 
 
Um dos méritos do livro de Daniela Costa é o de mostrar o outro lado da História, para além dos números, dos factos e da sua interpretação. São as pessoas, os seus sonhos, as vivências, as emoções, os desejos, os conflitos, o sofrimento, o enfrentamento de interesses, o entorno social, o caldeio de lutas, a miséria moral e a grandeza humana, os acasos e as causas, o encanto e o desencanto, a sordidez dos actos e a beleza da vida, a inquietação, a magia, o mistério, o egotismo e a generosidade e o amor em dádiva, tudo isto, e muito mais do que isto, flui na leitura de um texto que transcende o tempo e o lugar.
 
Outro mérito advém do modelo narrativo. A voz da autora desdobra-se em outras vozes, todas elas com densidade própria, coloração, respiração, e uma autenticidade que nos transporta às fragas do Marão e às lonjuras, ao cheiro da terra, e aos socalcos do Douro, lá onde a mão humana esculpiu a paisagem. Uma escrita com rara mestria que permitiria mesmo uma expressão cénica pois, uma a uma, em diferentes registos, como que se apresentam num proscénio.
Logo de início uma primeira figura, antecedendo as demais, assim fala: “Os meus dedos grossos de trabalho e velhice arranham-me as maçãs do rosto de cada vez que enxugo estas lágrimas que não me deixam”. E com isto se anuncia o dramatismo da acção.
 
Em outras falas se cruzam palavras como sonho, fuga, liberdade, que lembram aquele verso de Torga “ grandes serras paradas à espera de movimento”. E com isto se define a essência de uma contradição: a fixidez, a imobilidade do que está, e a mudança a que se aspira.
Outra figura diz detestar um quadro torto e uma sala desarrumada. E com isto revela a fonte do desajustamento que o incomoda: não é a desordem das coisas mas sim a desordem das pessoas que não aceitam a perpetuação das desigualdades.
 
As figuras sucedem-se cada uma com o seu testemunho. Sempre ausentes e sempre presentes lá estão o Padre Max e a Maria de Lurdes através das palavras de quem os conheceu, e amou ou odiou.
 
Lá vem aquela suposta avó, mulher do campo digna, honesta, carinhosa, a quem os filhos emigrantes permitiram uma vida melhor na cidade, e que tanto estimava o seu hóspede Padre Maximino.
 
Lá vêm os colegas da Lurdes e alunos do Padre Max, a quem este apoiava com aulas gratuitas para poderem prosseguir os estudos.
 
Lá vêm os sacerdotes amigos de Max, um mais compreensivo, outro mais distante.
 
Lá vem o prelado com suas blandícias, espelhando as contradições da Igreja.
 
E o cacique de direita e suas más companhias.
 
E o grande proprietário do Douro a quem um dia as trabalhadoras reclamaram o justo pagamento.
 
E uma colega que juntava a altura da sua condição social à baixeza dos seus sentimentos.
 
E o filho família, de raiva exposta e verbo radical, um tanto aventureiro.
 
E o activista sindical da UDP que lutava na empresa por melhores salários.
 
E gente da rede terrorista e dos interesses de classe que serviam.
 
E o advogado, corajoso e persistente, que não deixou cair o caso na obscuridade.
 
E personagens luminosas, por ideais e afectos, e outras sombrias, pela trama de ódios e violências.
 
Uma a uma chegam ao proscénio e falam, os discursos não se cruzam mas vão construindo um quadro. Os percursos pessoais, as relações humanas, onde não falta um enredo amoroso e, em fundo, o eco de lutas sociais, pela devolução dos baldios aos povos, pela justa paga do trabalho nas vindimas e na apanha da azeitona, ou em torno da Gestão da Casa do Douro.
 
Foi a época das grandes manifestações, como a que foi organizada pela Igreja, com pretexto no caso da Rádio Renascença, mas que, talvez por diligências do PCP, designadamente junto do Bispo, e um Apelo dirigido aos cristãos de Vila Real, não causou violências, como, entre outras cidades, aconteceu em Braga, onde o Centro de Trabalho foi destruído.
 
Ou a manifestação em Lamego contra os militares do MFA da Comissão de Gestão da Casa do Douro. “Nem Cunhal nem Pardal” era o grito de guerra de uma multidão arrebanhada pelos caciques e que chegou à Assembleia Constituinte pela voz de um deputado da região.
 
Cenas da luta de classes em Trás-os-Montes, dir-se-á. O livro de Daniela Costa é isto, mas é muito mais do que isto, porque tem o dom da boa literatura: desde início a leitura nos prende e logo nos transporta e nos situa num outro mundo, e nos coloca dentro de uma história, como se tivéssemos também conhecido e convivido com o Padre Max, um jovem bom, generoso, um cristão convicto, um homem de fé.
 
Falámos das vítimas, falemos agora da rede terrorista a que já nos referimos, responsável por 566 actos violentos, entre Maio de 75 e Abril de 77, entre os quais 310 atentados bombistas e 194 incêndios e assaltos, tendo como alvo forças de esquerda e o movimento sindical.
 
Quem a constituía? O ELP, o MDLP, a rede Maria da Fonte e outras organizações congéneres, que tinham como base logística a Espanha franquista, onde actuavam com nomes de fachada como a empresa Tecnomotor ou a Fundação Nossa Senhora de Fátima. Uma das melhores fontes para conhecer este mundo sórdido é o livro de Maria José Tíscar “A contra-revolução no 25 de Abril” (edições Colibri).
 
Quem a dirigia? Inicialmente antigos dirigentes da PIDE como Barbieri Cardoso e Cunha Passo, ou o inspector Meneses Aguiar ou o legionário Rebordão Esteves Pinto, a que se juntou depois a corte spinolista que fugiu para Espanha, após o golpe falhado de 11 de Março.
 
Quem eram os efectivos? Antigos agentes da PIDE e legionários, alguns colonos inconformados, mercenários, fascistas convictos, gente a mando dos caciques, um certo lumpen de fácil recrutamento.
 
Quem os financiava? Banqueiros e grandes empresários que nunca aceitaram o 25 de Abril e muito menos o rumo socialista que tomou e veio a ser consagrado na Constituição, além de conhecidas agências de países da NATO.
 
Os crimes foram punidos? As primeiras prisões são do verão de 76, efectuadas pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária, mas poucos foram os autores morais e materiais presos e menos os condenados. Em geral beneficiaram de uma teia de cumplicidades que lhes permitiu encontrar boas soluções de vida, e alguns vieram até a ser distinguidos pelo poder político emergente.
 
Houve mesmo quem publicasse livros em que se gaba dos seus feitos. Foi o caso de um tal Manuel Gaspar, de quem o jornalista Ricardo Saavedra escreveu as memórias (O Puto, edições Quetzal). Depois de ter participado no golpe racista de 7 de Setembro de 74 em Moçambique, donde era natural, e na marcha até Luanda com as forças sul-africanas que tentavam impedir a independência de Angola em 11 de Novembro, sob a direcção do MPLA, desembarcou em Portugal, onde logo entrou ao serviço da rede terrorista. É um dos participantes confessos no assassínio do Padre Max e da Maria de Lurdes que, nas pgs, 337 a 340, descreve com detalhe. É um relato impregnado de cinismo onde defende, como é habitual nestes casos, que a intenção não era matar mas apenas assustar. Começa, com certo gáudio, a descrever a cena em que “à hora certa”…”lá vinha Maria de Lurdes, toda fresca e radiante nos seus dezoito ou dezanove anos”, para terminar explicando as mortes: “Só que o destino do casal, infelizmente, estava traçado, e contra o destino não há planos que resistam”. Por curiosidade se acrescenta que o indivíduo esteve preso em Alcoentre, por outras acusações, donde fugiu passado pouco tempo.
 
No mesmo livro se transcreve um artigo do jornal fascista A Rua, de 8 de Junho de 77, onde se fazia a afirmação de que a Maria de Lurdes estava “grávida de 3 meses”, que ficou provado, mais tarde, ser uma abjecta calúnia.
 
O fascismo não é coisa do passado, está de regresso e em força. Há uma direita tradicional, que se move no campo democrático, que tem da violência fascista uma visão instrumental pelo que possa ser útil para os seus interesses de classe. Tende a contemporizar ou condescender porque teme, acima de tudo, o ascenso revolucionário que a crise do capitalismo possa gerar nas classes trabalhadoras. A grande burguesia, a alta finança, têm com as organizações fascistas laços de cumplicidade e mesmo vínculos orgânicos, muito resguardados. Como aconteceu nos anos 20 e 30 com os resultados conhecidos. Como aconteceu em Portugal nos anos da Revolução. Como hoje vai acontecendo na Europa ou no continente americano.
 
O livro de Daniela Costa, para além do valor literário que tem, é um contributo mais para conhecer a revolução e a contra-revolução no Portugal de Abril.
 
É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.
 
 
Jorge Sarabando
Abril de 2020
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

UM DIA TRISTE | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

«Assobiando à vontade», Mário Dionísio - O Professor tira dúvidas
 
Está um dia triste, fechado de frio e de chuva, sem nesga de sol, as árvores balançam ao vento, a primavera segue dentro de momentos. As cidades e as terras, agora sem gente nas ruas, sem o bulício dos cafés, sem a chilreada das crianças, parecem sombras espectrais. A noite começa a descer lentamente, molhada de vento gelado e de chuva, e, por detrás dos vidros, nas janelas das casas, alguém espreita:
-- Que tristeza, não se vê vivalma!

A cidade encolhe os seus dramas, não há como a noite para disfarçar as lágrimas. Neste tempo de mortes anunciadas, em que o medo já se ocupa de tudo, vêm à superfície clamores antigos e actuais de injustiças e dramas. Todos sabemos que o mundo está, como sempre esteve, cheio deles, tantas vezes praticados à sombra de leis iníquas das ordens estabelecidas.

Talvez agora, em que o perigo toca a todos, haja maior sensibilidade para o sofrimento humano. Talvez. A memória, todavia, vem sempre ao nosso encontro, com o auxílio da literatura, que a reelabora, para nos dar conta dessa inquietação intemporal, em páginas de fulgor universal.

Lembrei-me, por isso, daquelas magníficas páginas de Victor Hugo, em “Os Miseráveis” (1862), em que o grande escritor francês conta a história de Jean Valjean, condenado a cinco anos de prisão por ter roubado um pão, para matar a fome à irmã e aos sobrinhos. Era um adolescente e os outros ainda crianças. Sofreu dezanove anos de reclusão, cinco pelo roubo do pão e outros catorze por tentativas de fuga. A história real, transposta para a literatura, é um momento admirável de criação.

O romance, como os leitores sabem, é um denso painel sobre a condição humana. Mais perto de nós, há também o conto de Mário Dionísio publicado em “O Dia Cinzento” (1944), A Lata de Conserva, fantástico registo de um garoto descalço (“o rapaz das cautelas”) que rouba a lata de conservas na mercearia de bairro, em Lisboa, e é perseguido até ser preso pela polícia.

As boas almas, que não sofrem inquietações de consciência, com estes casos, poderão dizer que isso são coisas antigas sem reprodução no calendário da actualidade. Penso que não.

Não há tanto tempo como isso, lembro-me bem, um sem-abrigo foi a tribunal por ter roubado, num supermercado, uma embalagem de chocolates, no valor de 14,34 €, que nem chegou a mastigar, por ter sido interceptado por um funcionário.

Apesar disso, o Ministério Público decidiu avançar com a acusação. A lei é a lei. Sei que a polícia produziu uma informação dizendo que, dado o estilo de vida errante do sem-abrigo, era difícil notificá-lo. Não me lembro como acabou a história, mas decerto o juiz não o terá mandado para cadeia, talvez pelo alarido que o caso causou nos jornais e nas televisões.

Arrumo o livro de Mário Dionísio na estante e volto à lembrança do sem-abrigo. Os mesmos corpos de delito, a mesma questão essencial: uma palavra chamada fome. Um gelo de desumanidade continua a cercar os dias, como na história de “Os Miseráveis”.

As cidades encolhem os seus dramas e a noite disfarça as lágrimas. O cronista olha para dentro das coisas e murmura:

-- Está um dia triste!

Domingo, 12 de Abril

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Museu pede «memórias de Abril» para partilhar no dia 25

O Museu do Aljube, fisicamente encerrado devido à pandemia em curso, apela aos que viveram o 25 de Abril para partilharem, noFacebook da instituição, memórias e histórias vividas do Dia da Liberdade.

O Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa, lançou um apelo ao público para que registasse vídeos ou textos com memórias do 25 de Abril e os partilhasse com a instituição, por e-mail ou mensagem de Facebook.

O museu encontra-se fisicamente encerrado devido às medidas de emergência decretadas para responder à pandemia do novo coronavírus, as quais incluem também o confinamento de pessoas, tanto funcionários da casa como o público.

No apelo lançado por intermédio desta rede social lembra-se que o museu está habitualmente «de portas abertas no dia 25 de Abril» e explica-se que, «confinados às nossas casas, abrimos as portas do Museu aqui, no Facebook», para que «se juntem a nós, nesse dia, através de memórias, histórias que nos queiram contar, momentos que queiram partilhar. Queremos ouvir as vossas Memórias de Abril».

Os depoimentos podem ser registados em vídeo, pelo telemóvel (não mais de dois minutos, recomenda o museu), ou serem escritos e enviados por mensagem privada no Facebook, ou por correio electrónico para o endereço memoriasdeabril@museudoaljube.pt.

Importante é que as histórias cheguem até dia 15 de Abril, para que algumas dessas memórias possam ser partilhadas no dia 25 de Abril, juntamente com outras, já existentes em arquivo. Porque sem memória não há futuro, lembra o Museu do Aljube.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/museu-pede-memorias-de-abril-para-partilhar-no-dia-25

A história se repete: meias verdades, pandemias e vidas perdidas

 

Jennifer Delgado / Rincón de la Psicología

Dizem que a história é cíclica. Até que aprendamos com nossos erros, teremos que enfrentar os mesmos problemas, tropeçar na mesma pedra, repetidamente. Porque cada problema, embora possa ser uma fonte de angústia ou até abalar o mundo, também é uma oportunidade de corrigir nossos erros e crescer.

Nestes tempos, há uma história que volta do passado, assumindo uma relevância especial. É muito mais do que a história de uma pandemia, é a história da verdade – ou melhor, a ocultação da verdade e suas conseqüências. É a história de meias verdades, de indolência, de fechar os olhos, de querer cobrir o sol com um dedo. É a história que confirma que ” a pior verdade custa apenas um grande desagrado, mas a melhor mentira custa muitos pequenos aborrecimentos e, no final, um grande aborrecimento “, como escreveu Jacinto Benavente.

O passado volta

Tudo começou em 4 de março de 1918, quando Albert Gitchel, cozinheiro em Camp Fuston, no Kansas, começou a sentir tosse, febre e dor de cabeça. Esse foi um dos primeiros casos da chamada gripe espanhola. Em apenas três semanas, 1.100 soldados já haviam sido hospitalizados e milhares foram infectados.

No entanto, como os Estados Unidos foram totalmente mobilizados para a Primeira Guerra Mundial, as autoridades não quiseram entrar em pânico, mas seguir em frente com os planos de guerra. O que começou confinado aos campos do Exército, onde 25% dos soldados adoeceram, se espalhou rapidamente para a população civil.

Um médico de um campo do Exército dos EUA escreveu: ” Esses homens começam com o que parece ser um surto comum de gripe, mas quando são trazidos para o hospital desenvolvem o tipo mais cruel de pneumonia que já vi … Em poucos horas vem a morte … é horrível. Pode-se suportar ver um, dois ou vinte homens morrerem, mas não ver esses pobres demônios caírem como moscas … Temos uma média de mais de cem mortes por dia … Perdemos um número escandaloso de enfermeiras e médicos . ”

No entanto, a terrível experiência que os médicos viviam no campo não encontrou eco na sociedade. Nos demais países em guerra, a imprensa também jogou política, abstendo-se de relatar a propagação da infecção.
Nos Estados Unidos, foi aprovada uma lei que punia com 20 anos de prisão por ” pronunciar, imprimir, escrever ou publicar qualquer linguagem injusta, profana, escandalosa ou abusiva sobre o governo dos Estados Unidos “. Isso significava que uma pessoa poderia ir para a cadeia por criticar o governo, mesmo que o que ele dissesse fosse verdade, como apontaram pesquisadores do Instituto de Medicina de Washington .

A Philidelphia foi um exemplo de tudo o que poderia ser feito de errado e o terrível custo das mentiras – ou meias-verdades. Apesar da gripe já ter começado a se espalhar pela cidade em meados de setembro, Wilmer Krusen, então diretor de saúde pública da Filadélfia, garantiu que nada estava errado. Ele declarou que ” restringiria esta doença aos seus limites atuais” e que “temos certeza de que teremos sucesso “. Quando as primeiras mortes ocorreram, ele as minimizou, dizendo que era uma ” gripe simples ” ou ” gripe à moda antiga “, de modo algum era a gripe espanhola. Outra autoridade de saúde da cidade declarou: ” A partir de agora, a doença diminuirá, segundo conta o Smithsonian.

Como “nada estava acontecendo”, o desfile do Liberty Loan em 28 de setembro foi realizado normalmente. Esse desfile arrecadaria milhões de dólares em títulos de guerra. No entanto, três dias depois, a fautura chegaria da longa e lotada procissão em que participaram pelo menos 200.000 pessoas: os 31 hospitais da Filadélfia estavam lotados e no final da semana, 2.600 pessoas haviam morrido.

Outras cidades seguiram esse modus operandi. Enquanto em Chicago a taxa de mortalidade em um hospital chegou a quase 40%, as pessoas continuavam a se aglomerar no transporte público e os profissionais de saúde foram infectados porque não podiam tomar medidas de precaução, o comissário de saúde pública da cidade proclamou: “ preocupação mata mais pessoas que a epidemia “. Esse foi o sentimento e a reação política geral.

Felizmente, nem todas as autoridades reagiram da mesma maneira. San Luis, por exemplo, manteve a população informada antes mesmo dos primeiros casos na cidade e, logo que detectaram o primeiro surto, adotaram medidas de isolamento. Na Filadélfia, as mortes semanais totalizavam 748 por 100.000, enquanto em St. Louis eram 358 por 100.000, menos da metade, conforme relatado pela National Geographic.

O problema foi agravado ainda mais porque “várias autoridades locais de saúde se recusaram a divulgar o número de pessoas afetadas e as mortes. Consequentemente, era muito difícil avaliar o impacto da doença naquele momento ”, segundo pesquisadores da Universidade de Gênova. Isso tornou impossível fazer estimativas precisas no nível epidemiológico e, é claro, tomar medidas mais eficazes para conter o contágio e reduzir o número de mortes.

Crônica de um desastre não anunciado

O principal objetivo dessa bobagem era evitar que a população se alarmasse, pois eles já estavam sofrendo as privações causadas pela Primeira Guerra Mundial, além de manter o moral elevado para poder continuar lutando.

Talvez, no fundo, aqueles governantes que tiveram que tomar decisões para dezenas de milhares de outras pessoas pensassem que “não seria tão ruim”. Eles fecharam os olhos para os dados e ficaram surdos com as alegações dos médicos com a ilusão secreta de que tudo iria acontecer. Mas tudo não aconteceu. Porque fechar os olhos para a realidade não fará com que essa realidade desapareça. E mais cedo ou mais tarde as consequências nos atingirão com toda a sua dureza.

“A combinação de controle rígido e desrespeito à verdade teve consequências perigosas”, como os historiadores indicaram. Ignorar o risco ou colocar outros interesses diante da saúde geral fez com que as decisões fossem tomadas tarde e mal. As mentiras, invenções e minimizações do que estava acontecendo por muitos funcionários públicos que usaram a mídia para desinformar acabaram destruindo a credibilidade das fontes de autoridade.

O resultado foi que houve uma desconexão terrível e falta de confiança. As pessoas sentiam que não tinham ninguém a quem recorrer e ninguém em quem confiar. Mais tarde, quando as medidas de contenção entraram em vigor, muitos cidadãos comuns recusaram-se a prestar atenção aos especialistas, que agora estavam sem toda a credibilidade porque se tornara impossível distinguir entre verdade e mentira.

Obviamente, não informar bem a população serviu apenas para adiar o alarme, que foi gerado de qualquer maneira quando as notícias dos doentes e as mortes começaram a se espalhar de boca em boca. Quando as mortes não eram uma figura distante em um jornal, mas era a própria morte batendo na porta da casa ou na porta vizinha. Essa má gestão, adicionada a uma infraestrutura inadequada de saúde pública e ao conhecimento científico limitado da época, acabou causando mais de 500 milhões de infecções em todo o mundo e reivindicando a vida de mais de 50 milhões de pessoas.

A verdade, se não for inteira, torna-se aliada dos falsos

Serenidade e confiança são os dois blocos que nos impedem de cruzar a linha tênue que existe entre uma dura verdade e o pânico da propagação do medo. Quando se tenta esconder a verdade sob um véu fictício e adocicado, a serenidade e a confiança se transformam em caos e descrença. E isso nunca é bom. Nem pessoal nem socialmente.

É verdade que nem todos nós temos as mesmas ferramentas psicológicas para lidar com uma verdade difícil, mas todos devemos ter a oportunidade de nos reajustar a tempo de enfrentar essa realidade da melhor maneira possível. Precisamos passar do estado de choque inicial para um estado de ajuste o mais rápido possível. Mas, se não soubermos o que estamos enfrentando, passaremos de um choque para outro, sem jamais conseguir atingir esse nível de ajuste que nos fornece o equilíbrio necessário para enfrentar a tempestade.

Não há dúvida de que, para resistir a uma epidemia, precisamos de uma injeção de otimismo contínuo. Precisamos saber que, embora as coisas estejam dando errado, em algum momento elas melhorarão. A esperança é o que nos mantém lutando. No entanto, essa esperança não pode se basear em falsas ilusões ou mentiras brancas, porque mais cedo ou mais tarde se transformará em raiva e frustração.

Também precisamos de sinais concretos sobre o que vai acontecer – ou o que poderia acontecer. Precisamos nos preparar psicologicamente. Afastar essa possibilidade – com a desculpa indesculpável de que eles estão nos protegendo psicologicamente – é um absurdo.

Em momentos de incerteza, quando não há um caminho claro, transparência e confiança se tornam nossas bússolas. Tirá-los pode implicar condenação, literal e metaforicamente. Porque, como disse Lope de Vega, “ninguém pode se afastar da verdade sem se machucar”. E talvez essa seja uma lição que alguns tenham esquecido.

Fonte: Rincón de la Psicología

 

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/a-historia-se-repete-meias-verdades-pandemias-e-vidas-perdidas/

As contas fazem-se agora

Miguel Guedes - Músico e Jurista

Miguel Guedes

É liberal mas, meses depois de uma bela campanha de outdoors, o Estado assumiu-se na sua natureza indispensável e o Mundo encarregou-se de desabar sobre o fim das ideologias.

É empreendedor mas o "espírito de equipa" da padaria que coze salários mínimos não permite que se aguente um mês de remunerações dos seus precários. É pseudocientista mas esta coisa das vacinas para a Covid-19 afinal dava muito jeito que avançasse rápido. É negacionista climático mas isto de ter a natureza a ensinar-nos tanto sobre o respeito que deixamos de ter pelo Mundo em forma de vírus dá um calor tremendo e um calafrio dos diabos. É racista ou xenófobo mas ver brancos, pretos e amarelos a lutar pela mesma dita sobrevivência enquanto seres humanos é uma lição só comparável a ver europeus e americanos a disseminarem conscientemente a infecção a uma velocidade bem superior à dos asiáticos. Estes tempos não são fáceis para ninguém, muito menos para estes.

Há quem queira, com engodos de enguia, confundir ajuste de contas com as contas que devemos fazer. Um previsível movimento a apoderar-se do espaço mediático que pretende convencer-nos que não é o momento para dividir opiniões ou para ter uma visão crítica sobre políticas. Uma espécie de "igreja do fim dos dias" que exige que as contas se façam no fim, quando tudo isto passar, quando a epidemia se for, quando todos estivermos bem e nos recomendarmos uns aos outros. Uma corrente de opinião que, em nome do humanismo de pacotilha, pretende silenciar o debate entre o sector público e o sector privado, à boleia da pandemia. Porque é conveniente. Um conjunto de opiniões que pretende passar um pano de esquecimento rápido sobre as opções tomadas pela selva financeira em detrimento da preservação dos sectores estratégicos da economia nas mãos do Estado. Um conjunto de pessoas que mais depressa defende que se possam pagar "impostos portugueses" em paraísos fiscais no estrangeiro do que se reforce o SNS. Gente que despreza a causa pública mas não se cansa de reivindicar ao Estado mais apoios para as suas empresas em momentos de crise. Há um cíclico séquito de gente que vocifera por liberalismo económico para desatar a correr para os cueiros do Estado quando as coisas dão para o torto.

As contas fazem-se agora. É nos momentos de crise que percebemos como tantas das nossas prioridades estão invertidas, como tantas das nossas (não) opções se arrastam para a irreversibilidade pela aceleração dos tempos. Este é um momento de emergência, exigência e urgência. É aqui, não depois de sairmos de um pesadelo, que devemos deitar contas à vida por muitas decisões políticas passadas que quase desmantelaram o SNS, sem dó nem piedade. Os responsáveis estão aí, não migraram fígados para seguros de saúde. O clima altera-se quando estamos remetidos ao confinamento. Deixamos de ter estações, faça chuva ou faça sol. Que se ilumine Rousseau. Ninguém irá apagar da nossa memória o que poderia ter sido se tivéssemos deixado os maus selvagens ir mais longe.

AS LIÇÕES ECONÓMICAS DA “GRIPE ESPANHOLA”, UM SÉCULO ANTES DO CORONAVÍRUS, por ROMARIC GODIN

 

Les leçons économiques de la «grippe espagnole», un siècle avant le coronavirus, por Romaric Godin

Mediapart, 6 de Março de 2020 Mediapart

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

O pânico tem dominado os círculos empresariais na perspectiva de uma pandemia de coronavírus. Em 1918 e 1919, a “gripe espanhola” causou quase 18 milhões de mortes, mas o seu impacto económico não é bem conhecido. O que podemos aprender com isso para os dias de hoje?

 

Em 11 de outubro de 1918, em Filadélfia, as morgues  municipais transbordaram. Na véspera, 759 pessoas tinham morrido devido à gripe espanhola, que tinha atingido a cidade e os Estados Unidos de forma mais ampla durante mais de um mês. Corpos amontoados nos corredores e valas comuns improvisadas foram usados para enterrar as infelizes vítimas.

Estas imagens medievais, reminiscentes da “grande praga” de 1348-1349, destacam a fraqueza da organização humana face aos  vírus mais graves.

Numa altura em que há receios de uma nova pandemia, a do Covid-19, e em que se está a prestar muita atenção à questão dos efeitos económicos, pode ser útil olhar para este precedente.

À primeira vista, no entanto, o caso parece problemático. Ao ler os grandes títulos  dos jornais de agora,  o principal problema causado por uma pandemia de Covid-19 seria o seu impacto no crescimento. O Ministro da Economia e Finanças Bruno Le Maire reconheceu que o crescimento seria contraído para lá de  0,1 ponto do PIB, ou seja  menos do  que ele havia mencionado anteriormente (e que não correspondia a muito).

Os modelos económicos funcionam para produzir estimativas. Mas eles  transformam-se num vazio  simplesmente  porque é impossível incorporar uma doença com efeitos diretos e psicológicos incertos e que, além disso, é capaz de evoluir. Especialmente porque a única referência moderna a uma pandemia é a gripe espanhola de 1918-1919 e a literatura científica é em grande parte omissa sobre o assunto.

Um tapume impede a entrada no porto militar de Filadélfia em Outubro de 1918 © DR

Há muito poucos estudos económicos sobre as consequências desta pandemia. As que existem são geralmente bastante locais. Mas, globalmente, reina a indiferença. Basta abrir um livro sobre a história económica da época para ver que a gripe espanhola é tratada, na melhor das hipóteses, como um epifenómeno que é citado por uma questão de não parecer mal. Na pior das hipóteses, é ignorado.

Adam Tooze’s The Flood, 1916-1931: A New World Order, traduzida em 2015 em Les Belles-Lettres, é uma referência extremamente precisa sobre a era pós Primeira Guerra Mundial, sobre a recomposição económica do momento e sobre a construção da nova ordem mundial que ela trouxe. O autor insiste na desorganização económica que se seguiu à guerra e sobre o facto dos  seus efeitos serem duradouros. Mas ele não faz nenhuma menção à gripe espanhola.

No meio do pânico atual, esta indiferença espanta-nos.  A gripe espanhola, que surgiu na China na primavera de 1918 e se espalhou pelo mundo em três vagas, foi, no entanto, extremamente mortal, especialmente no outono de 1918 e, em menor grau, na primavera de 1919. Chama-se “espanhola” porque, na dureza e no silêncio da guerra, a Espanha era então um paraíso de liberdade e transparência, pelo que os primeiros casos oficiais foram detetados no Reino Ibérico e o nome da doença permaneceu-lhe  ligado.

As estimativas diferem quanto ao número total de mortes. A mais baixa e mais recente, publicada em 2018, considera que a gripe espanhola teria matado 17,8 milhões de pessoas de uma população mundial então estimada em 1,8 mil milhões. Isto já seria perto de 1% da população mundial. Mas estudos realizados em 2002 forneceram estimativas que vão de 50 a 100 milhões de mortes.

Em qualquer caso, os cálculos da esperança de vida mostram uma verdadeira anomalia  em 1919, especialmente em países neutros ou devastados pela guerra. A pandemia seria, portanto, na melhor das hipóteses, quase tão mortal em dois anos como a Guerra Mundial e os seus 20 milhões de mortos em quatro anos. E mesmo assim, isto seria apenas um detalhe anedótico da história económica?

O paradoxo é apenas aparente. Na realidade, a economia mundial quando a pandemia atingiu o seu pico de violência, no outono de 1918, já estava em completa desorganização.

O armistício foi assinado em 11 de novembro, mas no início de outubro, o desastre dos impérios centrais era uma certeza. A economia de guerra alemã já não tinha saídas. Os seus aliados otomanos e depois austro-húngaros separaram-se. As tropas da Tripla Aliança  invadem os Balcãs e o Médio Oriente, criando novas jurisdições que cortam imediatamente os laços comerciais e económicos com o antigo centro austríaco, húngaro ou turco.

Ao mesmo tempo, a Rússia, um dos principais “países emergentes” do período pré-guerra, que também tinha sido privado dos seus territórios mais ricos desde o Tratado de Brest-Litovsk, em Março de 1918, afundava-se na guerra civil entre “Vermelhos” e “Brancos”.

Por fim, tudo isto acontecia numa economia que foi largamente enfraquecida por uma longa guerra, que reorganizou a produção e o consumo, e que deve agora ser colocada na perspectiva da paz. Este movimento tem sido acompanhado por uma exacerbação bastante geral da luta de classes, que  dá origem a lutas particularmente vivas.

Em resumo, a situação já é muito complexa quando a pandemia chega. E isto é o que coloca um problema para a avaliação dos seus efeitos económicos diretos. Segundo os números disponíveis do Projeto Maddison, que retoma a ambição do economista Angus Maddison de recalcular os PIBs passados, o PIB per capita na Europa Ocidental caiu em 1918 em 3,38% e em 1919 em 5,86%, antes de se recuperar em 1920 em 4,01%. Em dois anos, o PIB per capita entrou em colapso em 7,78%.

Quanto desta contração pode ser atribuída à gripe espanhola, e não ao desajustamento da economia de guerra à paz, aos movimentos sociais ou à desorganização comercial? Nenhum estudo foi capaz de estimar isso com precisão.

Mortalidades comparadas de diversos episódios epidémicos © Max Roser/ Our world in data

O trabalho é dificultado pela falta de dados e pelo facto de que tudo isso se baseia   em informação dispersa e por vezes questionável. O trabalho de “isolar” o efeito pandémico é muito complexo. No entanto, o “choque da procura ” e o “choque da oferta” que tememos hoje não estiveram ausentes durante a gripe espanhola.

Ao contrário do que se sabe sobre a Covid-19, a gripe espanhola eliminou a maioria dos indivíduos no auge da vida com um sistema imunológico forte. Por conseguinte, afetou directamente a força de trabalho disponível e os indivíduos como consumidores, bloqueando tanto a oferta de serviços como a produção e consumo desses bens.

Em países no centro do conflito, como a  França, Bélgica, Itália ou Alemanha, a destruição e as mortes da guerra já tinham causado um duplo choque na economia. Podem, portanto, ter passado despercebidos ou ter sido considerados “normais”, mas isso não aconteceu em países que não foram direta e massivamente afetados pelo conflito, como os Estados Unidos.

Em  Filadélfia, 150.000 pessoas de uma população de 2 milhões foram afetadas, ou 7,5% da população, e 0,75% dessa população morreu. O efeito sobre a economia foi brutal. Alguns episódios fazem lembrar o pânico do nosso tempo.

Num  artigo de novembro de 2007 intitulado “Os efeitos económicos da pandemia de gripe de 1918“, Thomas Garrett, vice-presidente da Reserva Federal de St. Louis, cita alguns jornais do Midwest  dos EUA de outubro de 1918. Comerciantes em Little Rock, Arkansas, relataram em 19 de outubro uma queda de 70% nas vendas. Diz-se que o prejuízo diário era de $10.000 na altura, ou $200.000 em 2006 .

Em Memphis, Tennessee, metade dos operadores telefónicos estão ausentes do trabalho em 5 de outubro, e mais de um quarto dos funcionários dos transportes públicos. Em 18 de outubro, há relatos de uma queda de 50% na produção das minas de carvão do Tennessee e a possibilidade do seu fecho. Mas o trabalho de Thomas Garrett não vai muito mais longe do que isto.

De resto, os números de crescimento do projeto Maddison não identificam uma recessão ligada à gripe espanhola num país como os Estados Unidos. O PIB per capita do que o Projeto Maddison chama de “excrecências ocidentais “, que são principalmente os domínios  britânicos (Austrália, Canadá e Nova Zelândia) e os Estados Unidos (e portanto principalmente estes últimos), mostra um crescimento de 6,1% em 1918. Isto faz sentido, uma vez que as indústrias estavam então a operar em plena capacidade para garantir a vitória dos Aliados.

Mas em 1919, o PIB per capita diminuiu apenas 0,1%. Foi em 1920 e 1921 que a crise chegou, com uma queda de 2,15% e 4,3% do PIB per capita da área. A crise de 1920-1921 nos Estados Unidos é conhecida e muitas vezes interpretada como o resultado da reorganização da economia e finanças dos EUA após a guerra.

No entanto, ao olhar para os números de 1918 e 1919, é difícil ver um efeito direto, mensurável e indiscutível da pandemia, apesar de os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália terem sido muito afetados pela doença. Em qualquer caso, esta informação sugere que o efeito da gripe espanhola não poderia ter implicado diretamente uma recessão.

Que comparações podem ser feitas?

Os únicos efeitos medidos são por vezes contraditórios, porque estão limitados a uma única região. Num estudo de 2013, três investigadores, Martin Karlsson, Therese Nilsson e Stefan Pichler, tentaram identificar as consequências da gripe espanhola no “comportamento económico” da Suécia.

A Suécia é interessante porque foi neutra durante a Primeira Guerra Mundial. A sua força de trabalho não foi afetada pelo conflito e algumas regiões registaram taxas de mortalidade relacionadas com a pandemia muito mais elevadas do que outras, permitindo que alguns dos efeitos fossem “isolados”.

A conclusão é certa sobre dois elementos: o rendimento do capital foi fortemente afetado e, com ele, os rendimentos dos mais ricos, que, segundo os seus cálculos, caíram 5% durante a pandemia e 6% depois.

O pânico da bolsa nos últimos dias parece confirmar que o coronavírus pode ter o mesmo efeito. Alguns nos Estados Unidos, como Dean Baker, do CEPR, não hesitam em regozijar-se  com isto. Contudo, não devemos esquecer de lamentar as desigualdades no sistema de saúde dos EUA.

Pois, ao mesmo tempo, na Suécia, mais uma vez segundo o estudo citado, a pobreza explodiu a partir de 1920, em grande parte como resultado da epidemia. Os pesquisadores estimam que cada morte causada pela gripe espanhola levou a quatro novas entradas nos “hospícios de pobres”, que existiam na Suécia na época para cuidar daqueles que não se podiam sustentar.

Isto pode ser explicado pelo facto das famílias das vítimas terem ficado sem recursos, mas também por um empobrecimento ligado a um efeito de rendimento. Em suma, os dois extremos da distribuição da riqueza teriam sido afetados.

A evolução da taxa de mortalidade em várias  cidades ocidentais em  1918-1919. © DR

Esta é, já agora, a grande questão que foi deixada sem resposta. Ao matar parte da força de trabalho disponível, a gripe não fez com que os salários subissem de forma sustentável? Esta foi a conclusão de dois investigadores, Elizabeth Brainerd e Mark Siegler, num estudo de 2006 que comparou a evolução salarial em diferentes estados dos Estados Unidos para mostrar que os estados mais afetados pela pandemia sofreram aumentos salariais mais elevados do que os dos estados que foram mais poupados.

Por outras palavras, o choque de 1918 pode ter destruído temporariamente empregos, mas a subsequente dificuldade em encontrar trabalhadores pode ter levado a aumentos salariais e, consequentemente, a um efeito positivo na economia. Isso não impediu a violenta correção do crescimento americano em 1920-1921, seguida pelo crescimento impulsionado pela dívida e pelos mercados financeiros até 1929.

Esta conclusão é, aliás, posta em causa pelo estudo sueco, que não identifica qualquer impacto sobre os rendimentos do trabalho. Segundo os investigadores, a gripe espanhola levou a uma reorganização do trabalho no país e a um aumento da taxa de emprego das mulheres e dos menores, o que permitiu reduzir os salários em determinados sectores e compensar assim o efeito positivo sobre as remunerações.

Assim, em geral, como diz Thomas Garrett, “a maioria das indicações  sugere que os efeitos económicos da gripe de 1918 foram de curto prazo”, com um efeito muito negativo sobre os serviços e entretenimento. Os efeitos a longo prazo, principalmente relacionados com o declínio da mão-de-obra disponível, são muito  incertos.

Então, devemos estar tranquilos? Uma vez que uma pandemia como a gripe espanhola foi relativamente benigna para a economia em 1918-1919, poderia a epidemia Covid-19, que não se espera  que venha   a ser mais devastadora, não ser mais anedótica?

É uma possibilidade. Certamente sabemos que a peste negra de 1348-1349 e a peste de 1720 podem ter tido efeitos económicos muito negativos e duradouros. Mas a organização da economia feudal, na qual essas crises ocorreram, foi muito diferente da da economia capitalista. A mobilidade da força de trabalho e a diversificação da economia eram muito diferentes.

E também temos exemplos de epidemias devastadoras que não devastaram a economia, como a epidemia de cólera de 1831-1832, que levou em França o primeiro-ministro Casimir Perier com 18.000 parisienses em seis meses, o  que não impediu que a terrível crise de 1827 – uma das primeiras do capitalismo – se  repetisse nos anos seguintes.

Obviamente, deve ser salientado que qualquer comparação é arriscada. Não conhecemos a verdadeira taxa de mortalidade da Covid-19 e qual a dimensão da população que será realmente afetada. Mas para argumentar quanto a um efeito a curto prazo na economia, também podemos lembrar que a Covid-19 é uma doença muito diferente da gripe espanhola. Por enquanto, a sua taxa de mortalidade parece ser particularmente alta entre as pessoas mais velhas e, portanto, apenas parcialmente na população em idade de trabalho.

O impacto na capacidade de produzir bens e serviços pode, portanto, ser muito diferente, mas o vírus pode sofrer mutações e tornar-se mais perigoso.

O nível de saúde e higiene também é hoje melhor do que em 1918, especialmente porque em alguns países a guerra já tinha conduzido a situações de tensão no sector da saúde. No entanto, é preciso lembrar que a austeridade na saúde é uma constante nos países ocidentais e que o coronavírus está a afetar  a França no meio de  uma crise hospitalar, resultado do subinvestimento e da contínua austeridade dos últimos dez anos. E este fator não deve ser sobrestimado.

A confirmar o que diz Romaric Godin alguns gráficos publicados em 2019 pelas autoridades francesas:

 

 

O desfile a favor dos  «empréstimos em defesa da liberdade» em Filadélfia, no dia 28 de setembro de 1918, que acelera a  pandemia na cidade . © DR

Enfim,  embora os meios de comunicação estejam mais desenvolvidos hoje do que em 1918, não nos devemos esquecer que a doença se espalhou pelo mundo apesar de tudo, afetando inclusive as ilhas do Pacífico e o Alasca. A verdadeira diferença, como aponta Pierre-Cyrille Hautcoeur num texto publicado no Le Monde, é a lei do silêncio que acompanhou a doença e apanhou a população de surpresa.

Em Filadélfia, por exemplo, em 28 de setembro de 1918, foi realizado uma manifestação a favor dos empréstimos  pró-guerra, quando já haviam sido relatados casos na cidade. Reuniram-se várias centenas de milhares de pessoas para este desfile, o que acelerou a propagação da doença.

Na Suécia, também foram tomadas poucas precauções. Em Östersunds, no condado de Jämtland, o mais afetado pela pandemia, “a propagação catastrófica da gripe foi em grande parte possível pela perplexidade das autoridades e as suas reações frequentemente desajeitadas”, disse o historiador Hans Jacobsson ao Guardian

Por enquanto, em 2020, as autoridades dos países ocidentais parecem estar a seguir um caminho muito diferente, com mais transparência e medidas preventivas. Isto não impede atrasos, erros e falta de preparação, como vimos com a escassez de máscaras em França, o que pode ter consequências muito graves.

No entanto, há indícios de que a economia global poderá enfrentar um cenário mais difícil. Em 1918-1919, a gripe espanhola pôde ser, no caos que a rodeia, um detalhe anedótico. Numa economia em plena reestruturação, sujeita a uma intensa luta social e a uma redistribuição dos canais de comércio, a cessação de certas atividades durante algumas semanas teve pouco impacto a longo prazo.

Por  outras palavras, a economia daquela época, por mais horrível que fosse, tinha desafios mais sérios para enfrentar do que a pandemia. Havia também bolsas de crescimento maiores: o desenvolvimento da segunda revolução industrial (motor de combustão e eletricidade) não estava totalmente concluído e a sociedade de consumo ainda não tinha sido construída.

Mas a situação não é a mesma hoje. Primeiro que tudo, a estrutura da economia é diferente. As cadeias de valor industriais são muito mais internacionais e, por razões de rentabilidade, operam numa base just-in-time. Alguns sectores, como o turismo, assumiram uma importância considerável e serão atingidos de forma dura e provavelmente permanente.

Além disso, a economia é mais orientada para os serviços do que, como em 1918-1919, a indústria e a agricultura. Este sector de serviços foi o mais afectado em 1918, como salientou Thomas Garrett. Ao contrário de 1918, o sector financeiro tem hoje um papel predominante no crescimento.

O duplo choque da oferta e da procura causado pelo coronavírus pode arruinar a narrativa em que se baseia o crescimento dos mercados financeiros relativamente a uma   futura aceleração do seu crescimento. Porque a economia  global de hoje tem poucas perspectivas de crescimento, a sua produtividade está a abrandar inexoravelmente. O crescimento é baseado apenas em bolhas tecnológicas e financeiras que se estão a  tornar cada  mais frágeis, dia após dia.

Um grão de areia pode arruinar este castelo de cartas. A única resposta das autoridades hoje é a mesma de 2008 e 2012: o uso da política monetária para evitar que as bolhas rebentem. Tornou-se em grande parte ineficaz.

E este é de facto o paradoxo da época: ao contrário de 1918, não existe hoje um caos económico completo, existe uma lenta e inexorável desaceleração. Isto torna a economia muito mais sensível a choques externos, como os de uma pandemia, o que também é devido, através dos mercados financeiros, aos receios que os acompanham.

O que a história nos ensina, portanto, é que devemos antes de tudo preocupar-nos com o acesso aos cuidados com os mais frágeis e, daí,  com as desigualdades. Isto implica, sem dúvida, mais do que apenas buracos de irrigação monetária e um Ministro da Economia “ao lado dos dirigentes   empresariais”?

 

Romaric Godin, Mediapart, Les leçons économiques de la «grippe espagnole», un siècle avant le coronavírus. Texto disponível em:

https://www.mediapart.fr/journal/economie/060320/les-lecons-economiques-de-la-grippe-espagnole-un-siecle-avant-le-coronavirus

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/27/a-crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xi-as-licoes-economicas-da-gripe-espanhola-um-seculo-antes-do-coronavirus-por-romaric-go/

Meninos que não foram crianças – Filhos de clandestinos

27 de Março de 2020

Capa do Livro

Hoje sabemos, pela memória e pela história que fomos conhecendo sobre o regime fascista, que centenas decrianças, muitas ainda bébés, foram brutalmente separadas da família, ou então obrigados a suportar as inclemências das prisões onde, por períodos por vezeslongos, acompanharam o encarceramento das suas mães.

Uns nasceram em casas clandestinas, onde lhes foi impossível levar uma vida normal, como ir à escola ou brincar com os outros meninos. Para eles, a aprendizagem fez-se pelo labor e pelo combate de seus pais, como aconteceu com Mariana Rafael, uma das vozes deste livro de testemunhos. Outros cresceram escondendo o seu verdadeiro nome,como conta António Vilarigues, para que não constituíssem fonte de informação da polícia.

Nem todos conseguiram superar estas enormes dificuldades e desvantagens decorrentes de uma vida «anormal» –alguns, como Herculana Velez, outra das vozes testemunhais deste livro, sente que lhe foi necessário criar «um mundo próprio», de isolamento, que ainda hoje a faz «viver num corpo com duas mentes».

Para todos eles – os meninos que não foram crianças, filhos de clandestinos -, ficaram os vincos de um período amargo das suas vidas, marcado por dificuldades sem conta, mas também pela coleção dos silêncios cúmplices que era preciso manter quando lá por casa passava um daqueles homens e mulheres que tanto admiravam, pela coragem e pela abnegação,ou pela inteligência e pelo trato. Quase sempre entrevistos pela nesga da porta que dava para a sala onde ocorria a reunião clandestina. Tempos duros, mas também heroicos e inspiradores da vida que tantos destes meninos escolheram para o seu futuro.

O pequeno livro que apresentamos resultou desta partilha de memórias de meninos e de meninas que não foram crianças, numa atividade que aqui ocorreu sob a inspiração dos contos escritos sobre este tema por Maria Luísa Costa Dias, ela própria uma mulher da clandestinidade.

Luís Farinha

Museu do Aljube Resistência e Liberdade, janeiro de 2020

Para mais informações em como adquirir: info@museudoaljube.pt

Ver original em 'Museu do Aljube' na seguinte ligação:

https://www.museudoaljube.pt/2020/03/27/meninos-que-nao-foram-criancas-filhos-de-clandestinos/

Série na Netflix desvenda assassinato do líder negro Malcolm X

Quem Matou Malcolm X? reabre caso que muitos queriam esquecer e denuncia racismo da investigação.

 

 

Quem Matou Malcolm X? tem, ao menos, duas virtudes. A primeira é reabrir um caso de assassinato traumático ocorrido em 1965. A segunda, revelar às muitas pessoas que o desconhecem quem foi esse líder negro, suas origens, sua evolução e sua liderança.

Quem comanda a investigação é Abdur-Rahman Muhammad, ativista, seguidor e, sobretudo, admirador incondicional do líder. Sabemos que seu trabalho – que resultou no documentário dirigido por Phil Bartelsen e Rachel Dretzin – repercutiu o suficiente para que ao menos fosse anunciada a reabertura do caso.

Bem, a morte de Malcolm X não é o único mistério dos anos 1960 nos Estados Unidos – há desde John e Robert Kennedy a Martin Luther King a assombrar o imaginário americano dessa década. Mas o caso Malcolm X foi especial porque ele foi um personagem especial.

Jovem marginal, foi encontrado na prisão por Elijah Muhammad, líder dos muçulmanos negros. Malcolm não só se converte como se torna uma espécie de filho adotivo de Elijah, além de seu braço direito, graças à inteligência formidável e a uma rara capacidade de retórica.

Logo, porém, seu dom para a liderança motiva boatos de que ele poderia passar a perna em Elijah no movimento, o que ele sempre negou. Para a versão dramatizada do caso, vale a pena ver o Malcolm X (de Spike Lee, com um formidável Denzel Washington).

Mas o ambiente envenenado, mais a marcação da polícia sobre o movimento, além de divergências entre os líderes, acabam por arruinar as relações entre os dois. Para resumir, tudo isso culmina no atentado que matou Malcolm X.

Bem, o fato é que Abdur-Rahman nunca se conformou com o resultado das investigações levadas pela polícia de Nova York. Na ocasião, um dos três atiradores responsáveis pelo crime foi baleado e preso no ato. Os dois outros fugiram. A polícia e a promotoria arranjaram para que dois inocentes servissem como bodes expiatórios. Mesmo após o primeiro atirador, preso em flagrante, inocentá-los, nada foi feito.

É atrás dessas pistas que vai Abdur-Rahman. É claro, há aí o interesse de um caso policial. Mas não como os outros. Abdur-Rahman acumula pilhas de evidências de como as autoridades brancas queriam só dar uma resolução formal ao caso. A bem da verdade, a morte de Malcolm não lhes incomodou – enquanto, vivo, ele era um perigo.

Abdur-Rahman é obstinado. Aos poucos, sua investigação começa a aproximá-lo de possíveis assassinos que haviam fugido na época. Qual a ligação deles com o movimento de Elijah (sobretudo a igreja de Newark, ferozmente ortodoxa)? Qual o papel dos policiais (brancos) nessa trama?

Não se trata de uma investigação banal, e sim de remexer um caso que muita gente gostaria de ver esquecido para sempre. O valor dela (particular todo o tempo) é tão óbvio quanto o seu interesse.

Diga-se, por outro lado, que o relato da série poderia ser um tanto reduzido sem qualquer prejuízo para a compreensão dos fatos. É como se houvesse o compromisso de entregar seis episódios à Netflix, quando quatro ou cinco poderiam ser tão esclarecedores e um pouco menos dispersivos.

O que não torna sua visão menos relevante para a compreensão de um personagem e de um fato capitais para a compreensão da América e mesmo do mundo contemporâneo.


por Inácio Araujo, Crítico de cinema  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/serie-na-netflix-desvenda-assassinato-do-lider-negro-malcolm-x/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=serie-na-netflix-desvenda-assassinato-do-lider-negro-malcolm-x

A ascensão do nazismo aos ombros do capital

 
 
A ascensão de Hitler foi lenta, mas consolidou-se ao longo dos anos à custa de grandes apoios financeiros, provenientes de industriais que apreciavam a forma como se opunha aos sindicatos e aos marxistas.
 
António Abreu | AbrilAbril| opinião
 
Esta revisitação dos factos essenciais pretende, por um lado, contribuir para impedir que os que querem reescrever a História fiquem sozinhos eliminando a nossa memória colectiva e, por outro, contribuir para o entendimento das causas da Segunda Guerra Mundial, de como ela se desenrolou, quem foram os principais protagonistas da contenção da agressão e do volte-face até à derrota dos nazi-fascistas, da Alemanha e de outros países europeus, e dos militaristas japoneses.
 
Por isso começamos por sustentar que os crimes nazis não foram apenas actos de tresloucados. Eles foram essencialmente uma expressão do extremo a que podem ir os interesses de classes dominantes, o fanatismo político que alimentaram, que tiveram várias expressões como o anticomunismo ou a falta de respeito dos direitos das minorias, fossem elas étnicas, religiosas ou nacionais.
 
Os nazis chegaram ao poder na década de 1930, numa situação de crise económica e social que o grande capital alemão usou contra o movimento sindical, os comunistas e os judeus.
 
No plano externo elegeu a URSS como o grande inimigo a abater e grande território a conquistar para expansão do mercado alemão.
 
A vitória democrática de 8 de Maio de 1945 custou perdas humanas e materiais terríveis, mas o nazi-fascismo e o militarismo foram derrotados.
 
Durante as quatro décadas seguintes ao final do conflito, a humanidade viveu um equilíbrio precário, baseado na corrida aos armamentos, mas foi nesses anos que, simultaneamente: progrediram as bases técnicas e cientificas do desenvolvimento; os direitos dos trabalhadores e uma maior efectividade no exercício dos direitos humanos; se contiveram disputas nacionais; se ensaiaram soluções de respeito pelos direitos das minorias; e foi praticamente eliminado o colonialismo, com a consequente proclamação de independência de muitos novos países.
 
 
Depois da derrota do campo socialista a «nova ordem» internacional, hoje, é bem mais perigosa. Ao desenvolvimento das posições da extrema direita, somam-se fundamentalismos diversos resultantes de longos processos colonialistas e de humilhação nacional, as grandes potencias intervêm militarmente como entendem, os trabalhadores perdem direitos fundamentais, o controlo mediático dos comportamentos atinge níveis preocupantes, a violência é banalizada, a insegurança cresce nas cidades, as políticas antissociais e a corrupção nas camadas dirigentes afastam muitos cidadãos da vida política, desenvolvem-se fenómenos de indiferença.
 
Por isso, nos 75 anos depois da Vitória, importa continuar a dar força ao sentido de dignidade do Homem, lutando contra a exploração, por melhores condições de vida, de educação e saúde, pela cultura, pelos sentimentos humanistas, pela participação dos cidadãos para que a democracia não regrida e, pelo contrário, se amplie e aprofunde.
As origens do conflito
 
Nos finais do século XIX o mundo estava divido. A política colonial então levada a cabo completou a tomada das terras não ocupadas no nosso planeta. No futuro só seriam possíveis transferências de um «dono» para outro.
 
A primeira guerra de repartição começou em 1914 e chegou ao fim com os tratados de paz de 1918 e 1919.
 
Opuseram-se a Tríplice Entente (Reino Unido, França, Sérvia e Império Russo) e os Impérios Centrais, (Alemanha e Áustria-Hungria). No final da guerra, a Tríplice Entente sai vitoriosa, e as potências centrais foram derrotadas e tiveram de pagar por todos os prejuízos da guerra, na chamada «Paz dos Vencedores». Na Conferência de Paz de Paris foi assinado o Tratado de Versalhes, que obrigou as nações derrotadas, principalmente a recém-formada República de Weimar, alemã, a arcar com pesadas indemnizações, o que contribuiu para provocar uma séria crise económica e política interna.
 
A área de rivalidade principal e mais aguda situava-se no Sudeste da Europa e no Próximo Oriente, incluindo o Mediterrâneo Oriental, criando problemas e ambições internacionais que envolveram todas as potências europeias.
 
Por outro lado, existiam as aspirações das nacionalidades oprimidas da região balcânica, que desejavam independência nacional e criação de novos Estados.
 
As duas maiores potências não europeias, os Estados Unidos e Japão, também foram arrastadas na voragem da guerra, que só chegou ao fim com o colapso da resistência austro-húngara e alemã.
 
A Rússia soviética decretou a paz, depois do envolvimento do Império Russo com a parte dos contendores que viriam a ser vitoriosos. Significativo foi o primeiro decreto soviético ter sido o Decreto da Paz. Os seus soldados, tendo passado longo sofrimento, regressariam às suas famílias, às suas terras.
 
O tratado de paz de Versalhes foi dominado pela Inglaterra e pela França. A sua criação residiu na vontade dos países vencedores da Primeira Guerra Mundial refazerem o mapa da Europa, obterem novos mercados e novas fontes de matérias primas, novas possessões e colónias e pretenderem, também, alargar as suas esferas de influência.
 
Importantes áreas produtoras de matérias primas, a leste e oeste da Alemanha, foram dadas a uma Polónia restabelecida, à França e à Bélgica. A Alemanha renunciou a todas as suas colónias, que seriam administradas por potências indicadas pela Sociedade das Nações.
 
As forças armadas alemãs ficaram reduzidas a um exército profissional de 100 mil homens.
 
A Alemanha comprometeu-se a reparar os danos entregando aos aliados, entre outras coisas, quase toda a sua frota comercial e perdendo a sua armada.
 
O Império Austro-Húngaro foi reduzido a um anel de novos Estados, estabelecidos no Sudeste e Leste da Europa, para isolar a União Soviética e agir como contrapeso de um possível ressurgimento alemão.
 
A Alemanha perdeu a Alsácia-Lorena, Poznam, a Prússia Ocidental e Memel. O Schleswig, a Prússia Polaca e a Alta Silésia veriam a sua sorte decidida por via plebiscitária.
 
O Sarre ficou sobre administração da Sociedade das Nações durante 15 anos e as suas minas de carvão tornaram-se propriedade francesa.
 
Os EUA e o Reino Unido garantiram assistência à França em caso de agressão.
 
Em 1919 e 1920 vários tratados complementares do Tratado de Versalhes foram assinados, concretizando a supremacia aliada sobre a Áustria, a Hungria, a Bulgária e a Turquia, através do desmembramento dos impérios turco e austro-húngaro.
 
Do ponto de vista da estrutura política mundial, os resultados da Primeira Grande Guerra de partilha podem ser resumidos da seguinte forma: 1) o poderio germânico foi temporariamente esmagado e o seu império colonial tomado pelas nações vitoriosas, principalmente Inglaterra e França; 2) a Áustria-Hungria foi eliminada do cenário político 3) Os Estados Unidos surgiram como a nação do mundo mais forte economicamente; 4) a Itália e o Japão, embora do lado dos vencedores, viram as suas ambições imperiais frustradas; 5) a Rússia deu inicio à sua tentativa de construir a primeira sociedade socialista do mundo.
 
A formação da Sociedade das Nações era uma das propostas do documento dos «14 pontos», apresentado pelo presidente dos EUA, Woodrow Wilson, em Janeiro de 1918. Previa nomeadamente o direito dos povos à autodeterminação, a renúncia à diplomacia secreta e à guerra para resolver os problemas entre Estados, a limitação dos armamentos, a liberdade dos mares e da economia mundial, limitações às reivindicações coloniais e a criação de novas fronteiras na Europa, que se revelaram dificilmente conciliáveis com o carácter de rapina dos acordos resultantes da Primeira Grande Guerra Mundial.
 
No período em que a Sociedade das Nações efectivamente funcionou (de 1920 a 1938), apesar de coleccionar alguns êxitos – nomeadamente o Pacto Briand-Kellog de Agosto de 1928 no qual 15 nações, entre elas a Alemanha, renunciaram à guerra como forma de solução para os conflitos internacionais –, acabou por falhar rotundamente a sua acção pela paz e pelo desarmamento, assistindo impotente às agressões japonesa na Manchúria (1931) e italiana na Abissínia (1935), à intervenção fascista em Espanha e às acções nazis preparatórias da Segunda Guerra Mundial. A Sociedade das Nações seria dissolvida em 1947, depois da sua acção ter sido confiada à Organização das Nações Unidas (ONU) no ano anterior.
 
Em 1921 e 1922, os Acordos de Washington completaram a partilha do mundo estabelecendo a divisão da zona do Pacífico, através de convenções como:
 
1. a convenção naval: fixação da importância naval das cinco potências, EUA, Reino Unido, Japão, França e Itália;
 
2. a convenção das quatro potências: EUA, Reino Unido, França e Japão, que estabeleceram a repartição do Pacífico;
 
3. a convenção das nove potências: garantida independência da China.
 
4. O tratado de Chang-Tong, pelo qual o Japão devolveu à China os territórios por si ocupados e retirou as suas tropas da Sibéria.
 
A disposição básica da segunda guerra de repartição já era perceptível nos resultados da primeira. As nações que tinham ficado de fora da primeira partilha (casos da Alemanha, da Itália e do Japão) começaram a preparar-se para uma segunda.
 
A campanha começou realmente com a invasão da Manchúria pelo Japão, em 1931, e continuou com a absorção da Etiópia pela Itália (1935), com a guerra civil espanhola (1936), a continuação da invasão da China pelo Japão (1937) e, finalmente, a série de agressões alemãs directas no continente europeu, iniciada com a ocupação da Áustria em 1938.
 
A ascensão dos nazis
 
Ninguém diria a 1 de Abril de 1920, data em que foi formado o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães1, que este minúsculo partido viria a governar a Alemanha e que o seu líder, Adolfo Hitler, viria a tornar-se o ditador mais sangrento da história contemporânea.
 
O Partido Nazi, como ficou conhecido, foi no início apenas mais um partido cujos objectivos consistiam na recusa do Tratado de Versalhes e na vingança pela humilhação sofrida pela Alemanha após a derrota na primeira Guerra Mundial. O seu discurso ideológico era uma miscelânea de nacionalismo exacerbado e de anti-comunismo visceral. Outra característica que o Partido Nazi evidenciou foi a militarização de grande parte da sua organização, que se agrupava nas chamadas secções de Assalto (SA), grupos de arruaceiros que, além de garantirem a segurança dos comícios nazis, intervinham violentamente contra os comícios de outros partidos, nomeadamente do partido comunista.
 
O símbolo adoptado pelo novo partido foi a cruz suástica, que viria a transformar-se no sinal da opressão e terror nazis.
 
A ascensão de Hitler foi lenta, mas consolidou-se ao longo dos anos, à custa de grandes apoios financeiros à sua causa.
 
Em Novembro de 1923, Hitler, cujo partido crescera entretanto, ensaiou um golpe na Baviera que ficou conhecido como o «Putsch da Cervejaria». Embora tendo falhado o golpe que o levou à prisão, foi libertado ao fim de nove meses, acto que confirmou as simpatias e conivências que já existiam, a alto nível no estado, com o futuro ditador.
 
Na prisão, Hitler escreveu parte daquele que viria a ser o livro-base do pensamento nazi: Mein Kampf (A Minha Luta).
 
Nesse livro Hitler explanou as teses que viriam a transformar-se na filosofia de acção do Estado nazi. Todas essas teses seriam postas em prática com impressionante rigor durante o período em que os nazis dominaram grande parte da Europa.
 
Ao aproximar-se o final da década de 20, o dinheiro começou a afluir ao Partido nazi, proveniente de alguns industriais bávaros e renanos que apreciavam a forma contundente como Hitler se opunha aos sindicatos e aos marxistas. Contudo, apesar desses apoios, os nazis sofreram um revés eleitoral em 1928.
 
Com a grande depressão económica, a produção alemã caiu 50% entre 1929 e 1932. As falências das empresas sucederam-se aos milhares e os desempregados atingiram os seis milhões nos finais de 1930. A miséria e a fome grassavam na Alemanha.
 
Nas eleições de 1930 Hitler conseguiu um resultado completamente inesperado, que transformou os nazis em segunda força política na Alemanha.
 
Os apoios à causa nazi aumentaram.
 
Nas eleições presidenciais de 1932, à segunda volta, o marechal Hindenburgo, símbolo vivo da moribunda república de Weimar, venceu Hitler que duplicara a sua votação em dois anos.
 
A 31 de Julho de 1932, os cidadãos da Alemanha foram chamados às urnas para a eleição dos membros do parlamento alemão, o Reichstag. Tratavam-se de eleições antecipadas, convocadas pelo presidente Hindenburgo para resolver a crise política então existente, que resultava de um impasse no parlamento que impedia a formação de uma maioria e, por consequência, de um governo estável. O governo em funções caiu, precisamente, por não ter apoio parlamentar. A composição do Reichtag reflectia o crescimento das duas grandes forças antagónicas nos extremos do espectro político, o partido nazi e o partido comunista. O principal resultado destas eleições foi a vitória expressiva do Partido Nazi, que duplicou a sua base de apoio, passando de 18 para 37% dos votos e de 107 para 230 deputados, em relação às eleições anteriores de 1930. Era agora o maior partido na Alemanha, mas não dispunha de maioria absoluta.
 
Neste período, além dos apoios de capitalistas alemães, Hitler passou a beneficiar do apoio de várias multinacionais. Quando Hitler subiu ao poder, «os industriais não falavam uma língua só», diz Jonathan Wiesen. Mas a maioria estava feliz de apoiar nazistas em vez de comunistas, e de dar suporte a um movimento político que prometia limitar, senão esmagar, o crescente poder dos trabalhadores organizados.
 
A pequena e média burguesia tinham-se passado em massa para os nazis.
 
Goering, o mais próximo colaborador de Hitler, foi eleito presidente do Reichstag. Hitler exigia a chefia do governo e criava um ambiente de terror e de pró-guerra civil com as suas Secções de Assalto.
 
Hindenburgo negava todo o poder a Hitler e aconselhava-o a formar um governo de coligação, que ele recusou. Perante o impasse foram convocadas novas eleições em Novembro, que redundaram num recuo dos nazis. Os comunistas continuaram a subir e os sociais-democratas a baixar, mas estes recusaram qualquer entendimento com os comunistas para deterem os nazis.
 
Em 30 de Janeiro de 1933, Hindenburgo acabou por nomear Hitler como Chanceler, iniciando-se assim o período mais negro da história da Alemanha.
 
Os nazis incendiaram o Reichstag para disso acusarem os comunistas e justificarem a feroz repressão que se seguiu.
 
A nível mundial davam-se os primeiros indícios da repartição do mundo.
 
O Japão foi a primeira potência a lançar-se no caminho de revisão do sistema de Versalhes – Washington. Em 1936 Japão e Alemanha firmaram o Pacto Anti-Komintern, a que a Itália fascista aderiu um ano mais tarde. Em 1937 os japoneses lançaram-se abertamente na tentativa de dominar completamente a China.
 
A conquista da Etiópia pela Itália, em 3 de Outubro de 1935, foi consequência directa da política de conivência com o agressor por parte do Reino Unido, da França e dos EUA.
 
Assim, em 7 de Janeiro de 1935, era assinado em Roma, entre o primeiro ministro francês Pierre Laval e Mussolini, o acordo franco-italiano de partilha de esferas de influência em África, que deixava aos fascistas italiano mãos livres para a invasão da Etiópia.
 
Em 31 de Agosto, a Câmara dos Representantes e o Senado norte-americanos aprovaram a célebre «política de neutralidade» que, proibindo o fornecimento de armas a países beligerantes, de facto privou a Etiópia de se defender, enquanto a Itália continuava a fornecer-se no mercado norte-americano.
 
Embora a URSS tivesse apelado para medidas especiais que impedissem a agressão, tal foi recusado pela França, Reino Unido e outros Membros da Sociedade das Nações.
 
A «política de apaziguamento» da França e do Reino Unido, em relação à Alemanha nazi, consistiu numa série de cedências e falta de resposta militar às escaladas de sucessivas agressões e provocações expansionistas do nazismo alemão, nos anos imediatamente anteriores ao desencadear da Segunda Guerra Mundial (1936-1939).
 
O apoio aos nazis de grandes empresas e multinacionais
 
Algumas das mais importantes empresas, alemãs e multinacionais, que apoiaram os nazis:
 
IG Farben - A empresa gigante envolveu-se fortemente com os nazis e inventou o Zyklon-B, o gás usado nos campos da morte. A IG Farben constituiu-se num grupo que incluía a BASF, a Bayer e a Hoescht.
 
BASF - Aproveitamento dos prisioneiros dos campos de concentração como mão-de-obra escrava nas suas fábricas de tintas.
 
Bayer - A multinacional farmacêutica beneficiou voluntariamente do nazismo e dos campos de concentração para testar os seus medicamentos. No início dos anos 30, doou 400 mil marcos a Adolf Hitler e ao Partido Nazi.
 
IBM - Com o apoio da IBM e das suas filiais, os nazis exploraram a tecnologia de cartões perfurados para gerir a sua máquina de guerra e para identificar, localizar e destruir todos os que se lhe opunham, incluindo na «gestão» automatizada para acelerar as seis fases dos 12 anos de Holocausto, e a rapidez e eficácia da blitzkrieg.
 
Krupp - No Tribunal de Nuremberg, 12 pessoas foram condenadas, inclusive Alfred Krupp. Em 1999, a empresa fundiu-se com a outra grande siderúrgica alemã, formando a ThyssenKrupp. Nos anos 2010, a Siemens começou a pagar indenizações às famílias de seus operários escravizados.
 
General Electric - Em colaboração com a Krupp, alemã, a americana General Electric, de forma intencionada e artificial, subiu o preço do carbeto de tungstênio, um material de vital importância para os metais das máquinas necessárias para a guerra. Ainda que só lhe tenha sido aplicada, depois da guerra, uma multa de 36 mil dólares no total, a General Electric ganhou cerca de 1,5 milhões de dólares com essa fraude só em 1936, dificultando o esforço para ganhar a guerra e aumentando o custo para derrotar os nazis.
 
Coca-Cola - Do gosto dos alemães nas décadas anteriores ao conflito, a Coca-Cola da Alemanha, durante a guerra, não conseguia importar os ingredientes necessários para a produzir. E então decidiram fabricar um novo refrigerante com o que tinham à mão. Assim nasceu a Fanta.
 
Nestlé – Fornecimento de chocolates para os militares alemães, com milhares de escravos nas suas linhas de produção
 
Dr. Oetkmer - Participou no fundo de compensação por trabalho forçado, uma organização de empresas alemãs que assumiu a responsabilidade por trabalhos forçados durante a Segunda Guerra Mundial, e roubou muitas peças de arte valiosas.
 
Ford - Henry Ford era bem conhecido pela sua luta antissemita e anticomunista. A fábrica alemã da Ford produziu um terço dos camiões militares utilizados pelo exército alemão durante a guerra, realizando muito do trabalho com prisioneiros. O que resulta ainda mais surpreendente é que a Ford forçou o trabalho de mão-de-obra em 1940, quando o braço americano da companhia ainda tinha pleno controlo das instalações na Alemanha.
 
BMW – Usou 30 mil trabalhadores, prisioneiros de guerra, trabalhadores escravos e presos dos campos de concentração, na produção dos motores para a Luftwaffe. A BMW, centrada unicamente nos aviões e motocicletas durante a guerra, trabalhava apenas como fornecedora da maquinaria de guerra dos nazis.
 
Volkswagen - Com a guerra, a produção de carros civis deixou de ser uma prioridade da Volkswagen e dedicou-se ao fabrico de armamentos também. Em 1940, chegaram 300 polacas, as primeiras trabalhadoras forçadas do local. E a Volkswagen passou a basear grande parte de sua mão-de-obra no trabalho forçado, entre prisioneiros de guerra, civis estrangeiros e prisioneiros dos campos de concentração. Em 1944, 11 334 das 17 365 pessoas que trabalhavam na fábrica eram trabalhadores forçados de diferentes nacionalidades.
 
Daimler-Benz - Desde 1937, a Daimler-Benz AG produziu cada vez mais peças de armamento, como o camião LG 3000 e motores de aeronaves, como o DB 600 e DB 601. Para criar capacidade adicional para a produção de motores de aviões, além da fábrica de Marienfelde, foi construída a fábrica de Genshagen em localização florestal bem escondida a sul de Berlim, em 1936. Trabalhadores da Europa Oriental e prisioneiros de guerra foram internados em acampamentos. Os detidos dos campos de concentração foram forçados pelas SS a condições desumanas. Foram «emprestados» a empresas em troca de dinheiro. Em 1944, cerca de metade dos quase 64 mil trabalhadores da Daimler Benz eram trabalhadores forçados civis, prisioneiros de guerra ou detidos em campos de concentração.
 
Estúdios de Hollywood - Para continuar a fazer negócios na Alemanha após a ascensão de Hitler ao poder, os estúdios de Hollywood concordaram em não fazer filmes que atacassem os nazis ou que condenassem a perseguição aos judeus na Alemanha. Foram figuras deste negócio Joseph Goebbels e o patrão da Metro Goldween Mayer (MGM).
 
Hugo Boss -Desenhou os intimidantes uniformes das SS assim como as camisas castanhas das SA e das juventudes hitlerianas.
 
Chase Bank - A contribuição do Chase Bank (agora J.P. Morgan Chase) com os nazis não é muito surpreendente, já que um dos seus acionistas mais importantes, J. D. Rockefeller, financiou directamente as experiências eugénicas antes da guerra. Entre 1936 e 1941, o Chase e outros bancos estadunidenses ajudaram os alemães com a recolha de recursos que chegaram a atingir mais de 20 milhões de dólares.
 
Deutsch Bank - começou por demitir os seus funcionários judeus, passando depois para a «arianização» da empresa (363 processos), ou seja, a passagem do controlo accionista para quem não fosse judeu, segundo a própria empresa. Essa expulsão da população judaica dos negócios do país chegou ao seu auge em 1938, quando, após uma série de leis e decretos, os judeus foram proibidos de participar em qualquer actividade económica. Em 1938, o governo nazi começou a monitorizar e congelar bens de judeus sistematicamente, afectando clientes do Deutsche Bank e de outros bancos. Até ao final da guerra, quase todos os bens e depósitos de clientes judeus tinham sido transferidos para o Reich, de acordo com o banco. O Deutsche Bank também se envolveu no comércio de ouro entre 1942 e 1944. Neste período, o banco comprou 4 446 quilos de ouro do banco central alemão e vendeu-o em Istambul, capital da Turquia, país que ficou «neutral» durante a guerra, mas onde o Deutsche Bank tinha uma filial…
 
Aliam - Fundada na Alemanha em 1890, não foi surpreendente que fosse a maior seguradora alemã quando os nazis chegaram ao poder. Como tal, em seguida se envolveu no regime nazista. O seu conselheiro delegado, Kurt Schmidt, também era o Ministro da Economia de Hitler, e a companhia assegurou as instalações e pessoal de Auschwitz. O director-geral assegurou o pagamento ao Estado nazi, em vez de aos beneficiários judeus afectados pela «Noite de Cristal». Além disto, a empresa trabalhou estreitamente com o governo nazi para localizar as apólices de seguro dos judeus alemães enviados para os campos de morte e, durante a guerra, assegurou a transferência para o regime nazi das propriedades de que foram privados esses mesmos judeus.
 
Kodak -Usou mão-de-obra escrava na filial alemã da empresa durante a guerra. As filiais da Kodak nos países europeus «neutrais» fizeram grandes negócios com os nazis, proporcionado mercado para seus produtos, mas também permitindo a valiosa divisa estrangeira. A filial portuguesa inclusive enviou seus benefícios para Haia, que estava ocupada pelos nazistas naquele momento. Esta empresa não produzia apenas as câmaras. Diversificaram o negócio e produziram gatilhos, detonadores e outros artigos militares para os alemães.
 
Novartis - As empresas químicas suíças Ciba e Sandoz fundiram-se para constituir a Novartis, mais conhecida pelo seu famoso remédio, Ritalin. Em 1933, a filial berlinense da Ciba despediu todo o conselho de administração e o substituiu por um grupo de pessoas arianas mais «aceitáveis». Entretanto, a Sandoz estava ocupada a fazer o mesmo com o seu presidente. As empresas produziram tintas, remédios e produtos químicos para os nazis durante a guerra.
 

Nota:

1. Uma abreviatura da sua designação em alemão: Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/a-ascensao-do-nazismo-aos-ombros-do.html

Evocação da luta dos operários conserveiros

A luta dos operários conserveiros e os acontecimentos de Março de 1911 vão ser evocados num acto público a realizar na próxima sexta-feira.

Créditos / Can the Can

A União dos Sindicatos de Setúbal (CGTP-IN) e a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) vão promover a realização, em Setúbal (Largo da Fonte Nova), de um acto público para evocar a luta dos operários conserveiros. É na próxima sexta-feira, dia 13, às 17h.

Trata-se, segundo os promotores, de «relembrar a história da resistência» e de «recordar os acontecimentos de 13 de Março de 1911, que ficaram conhecidos como os «Fuzilamentos de Setúbal», e toda a luta desenvolvida «por aumento de salários e pelo combate à exploração».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/evocacao-da-luta-dos-operarios-conserveiros

Medidas temporárias para reduzir riscos de exposição e contágio Covid-19

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10 de Março de 2020

Na sequência do Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novo Coronavírus (Covid-19), e das orientações da Direção-geral da Saúde para diminuir a evolução epidemiológica, a Câmara Municipal de Lisboa tomou algumas medidas preventivas, nomeadamente o encerramento de Museus.

Neste sentido, dia 11 de março, e até data a definir, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade estará encerrado e suspensas as suas atividades.

https://egeac.pt/medidas-temporarias-para-reduzir-riscos-de-exposicao-e-contagio-covid-19/

 

Ver original em 'Museu do Aljube' na seguinte ligação:

https://www.museudoaljube.pt/2020/03/10/medidas-temporarias-para-reduzir-riscos-de-exposicao-e-contagio-covid-19/

A INVENÇÃO DO AMOR – Daniel Filipe

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A INVENÇÃO DO AMOR
 
La nuit n’est jamais complète
il y a toujours puis que je le dis
Puisque je l’affirme
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre éclairée
 
 
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas
dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos
de rádio e
detergentes
na vi trine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
 
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana
 
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
 
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
 
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção urgente do amor se processe em cadeia
 
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
 
Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa
passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
 
Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
Razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
 
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
 
Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo
 
Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa
 
Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de utilizar as medidas mais
drásticas
 
Por decisão governamental estão suspensas as liberdades
individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da
correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se
ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de
lágrimas
E quando foi interrogado no Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Águas simples correndo A brisa nas montanhas
 
Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro de execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
 
Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
Nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos isso sim nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o
esconjuro
e podereis voltar assobiando alegremente para junto dos filhos da mulher
 
Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o
pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos
Para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz aí de armas na mão
sabeis o que tendes afazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha frequentado a vossa escola
comido à vossa mesa e crescido a
vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-los na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai as palavras o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável
 
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
 
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever
 
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais
 
É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE
 
não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabandos de drogas aluguer de
automóveis
não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo de amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los
 
 
Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertaram as suas
no silêncio presago da cidade inimiga
 
Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
Impor a violência a tirania o ódio
 
Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência
 
COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA
 
Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto
patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminho de
ferro
 
É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um
crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública
 
Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
 
Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e um família à espera numa aldeia do
Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as
desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
diplomático
e depois o homem e a mulher que a polícia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem pois bem o pequeno sacrifício de um marinheiro anónimo
Que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado
 
SEGUE-SE UM PROGRAMA DA MÚSICA DE DANÇA
 
Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do
casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamosnos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço
 
Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trate de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.
 
Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu
 
Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram os sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de
chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade
 
Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas
 
não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
 
 
 
(Mas um grito de esperança inconsequente vem

 

do fundo da noite envolver a cidade

 

au bout du chagrin une fenêtre ouverte

 

une fenêtre éclairée)

 

Daniel Filipe
(1925-1964)
 
 
(Para os mais jovens: Daniel Filipe foi várias vezes preso pela PIDE. A opressão a Liberdade e a Esperança circulam neste poema)

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/10/a-invencao-do-amor-daniel-filipe/

Memorial para recordar os que passaram e morreram no Tarrafal

O governo cabo-verdiano quer construir no ex-campo de concentração do Tarrafal um memorial aos que estiveram ali encarcerados durante o fascismo e apurar se ainda há restos mortais por trasladar.

CréditosFernando de Pina / Lusa

Em declarações à Lusa, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, recordou que as vítimas mortais do espaço, que ficou conhecido como «campo de morte lenta», foram enterradas ao longo dos anos no cemitério municipal do Tarrafal, localidade no Norte da ilha de Santiago.

«Estamos a confirmar se ainda temos algum corpo por transladar», explicou o governante, a propósito das transformações que Cabo Verde quer dar ao antigo campo de concentração, no âmbito da candidatura a Património da Humanidade, a apresentar à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Março de 2021.

 

«A ideia final é construir um memorial a todos quantos aí perderam a vida ou por lá passaram», acrescentou Abraão Vicente, embora sem adiantar mais pormenores sobre este processo, no âmbito da candidatura cabo-verdiana.

Situado na localidade de Chão Bom, o antigo campo de concentração do Tarrafal foi construído em 1936 e recebeu os primeiros 152 presos políticos portugueses em 29 de Outubro do mesmo ano, tendo funcionado até 1954.

Em 1962, foi reaberto com o nome de «Campo de Trabalho de Chão Bom», destinado a encarcerar os anticolonialistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Ao longo dos anos, o Tarrafal recebeu nas suas celas comunitárias mais de 500 pessoas, entre 340 antifascistas portugueses e 230 anticolonialistas africanos, dos quais 106 angolanos, 100 guineenses e 20 cabo-verdianos.

Alguns registos históricos apontam para 37 mortos naquela colónia penal, construída pelos próprios presos. Dos 340 portugueses encarcerados no Tarrafal, 34 acabaram por morrer, sucumbindo às doenças e condições de vida extrema no local.

O autor do livro O campo de concentração do Tarrafal (1936-1954): A origem e o quotidiano, José Soares Tavares, explica que no caso dos presos portugueses, as trasladações foram feitas após o fecho do campo, em 1 de Maio de 1974, por vontade das famílias e por «acordo entre os estados».

Ainda assim, refere que as sepulturas dos portugueses permanecem no cemitério do Tarrafal. Entre estes contam-se os casos de Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, e de Mário Castelhano, então líder da central anarco-sindicalista CGT.

Desde 2000 que o antigo campo de concentração deu origem ao Museu da Resistência, o mais visitado do país, com mais de nove mil visitas anuais.

 

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/memorial-para-recordar-os-que-passaram-e-morreram-no-tarrafal

URAP realiza romagem anual ao Mausoléu dos Tarrafalistas

IMG 6260Resultado“(…) estamos a cumprir uma tradição mas é necessário acrescentar que se trata de uma boa tradição porque é uma tradição que é filha de um dever de memória, de um dever de consciência, de um dever de gratidão por todos aqueles que, assassinados no Tarrafal ou lá tendo sofrido o que hoje custa a imaginar, inscreveram a letras de sangue e sacrifício na nossa história colectiva os valores perenes da coerência, da coragem e da firmeza de convicções democráticas”, afirmou Victor Dias junto ao Mausoléu dos Tarrafalistas, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

O membro do Conselho Nacional da URAP e ex-preso político falava, dia 29 de Fevereiro, na homenagem anual que a organização convoca em memória dos presos políticos que estiveram longos anos e que morreram no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, e ali se encontram sepultados.

A cerimónia foi presidida por Francisco Canelas, do Conselho Directivo da URAP, e entre as dezenas de participantes encontravam-se delegações da Juventude Comunista Portuguesa e das Associações de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses http://bit.ly/2PJgUDH

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/03/urap-realiza-romagem-anual-ao-mausoleu-dos-tarrafalistas/

A gênese do golpe

João Belchior Marques Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964 que implantou o sanguinário regime de 1964

 

 

O golpe que tirou João Goulart da Presidência da Republica em 1964 começou em 1954. A direita não aceitou seu estilo decidido à frente do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e a crise explodiu quando ele propôs o reajuste de cem por cento no salário mínimo. Aquele gaúcho de São Borja (RS), nascido em 1º. de março de 1919, que desde criança recebeu o apelido de Jango, muito usual em seu estado natal, Rio Grande do Sul, serviu de alvo para os que se opunham ao então presidente da República, Getúlio Vargas, seu conterrâneo de cidade.

A proximidade com o presidente — primeiro como deputado estadual e federal e secretário do Interior e Justiça, depois como presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e ministro do seu governo — fez dele um personagem intragável para os setores que conspiravam contra o processo político que reconduziu Vargas à Presidência da República nas eleições de 1950. Goulart virou alvo antes do episódio do salário mínimo, quando os jornalões tomaram conhecimento de que sua atuação refletia o pensamento político do presidente.

A campanha de difamação começou tentando opor Goulart a Vargas. Segundo os jornais de oposição, enquanto o presidente pretendia respeitar a Constituição de 1946 e entregar o cargo a seu sucessor livremente eleito em 1955, o ministro do Trabalho não escondia que desejava levar o “peleguismo” (dirigentes sindicais) ao poder e proclamar uma “república sindicalista”.

Sindicato da mentira

Goulart tomou posse como presidente do PTB em maio de 1952, tendo Vargas como presidente de honra do partido. Em mensagem enviada à convenção petebista, o presidente da República disse que aquela eleição unia os trabalhistas em torno da bandeira e do ideal que simbolizavam as lutas da Revolução de 1930. “Durante vinte anos, as leis sociais de proteção ao trabalho, elaboradas no meu governo, lançaram os alicerces do seu programa de renovação econômica e política. Daqui por diante, cabe ao nosso partido assegurar a continuidade das nossas conquistas no tempo e consolidar os benefícios que devem sobreviver à transitoriedade das influências pessoais”, comentou.

No dia seguinte, Vargas recebeu, no Palácio do Catete, Goulart e uma delegação que foi agradecer-lhe pela mensagem. Assim que o presidente do PTB deixou o local, os jornalões começaram a atacá-lo, uma campanha que se estendeu por longo tempo, movida pelo que o jornal Última Hora, getulista, chamou de “sindicato da mentira”.

A bancada petebista no Congresso Nacional publicou uma moção de solidariedade a Goulart, afirmando que o partido nada mais fazia do que seguir a trajetória traçada desde a sua fundação, “qual seja a de apoio à política social e humana do nosso chefe, presidente Getúlio Vargas, a quem fomos buscar no seu retiro em Itu para concorrer às eleições de 1950, como candidato do partido e do povo brasileiro”. “Outra não tem sido a atuação do nosso companheiro João Goulart à frente do PTB, mantendo em toda a sua plenitude os postulados da vitoriosa campanha eleitoral que assegurou a volta do nosso chefe Getúlio Vargas à presidência da República”, disse o documento.

Em março de 1953, Goulart foi reconduzido à presidência do PTB, decisão que fez recrudescer a campanha do “sindicato da mentira”. A Comissão Executiva do partido, em reunião realizada em 23 de abril de 1953, apresentou ao presidente da sigla “integral e irrestrito apoio” e repudiou “a indigna e infame campanha desencadeada contra ele”, visando não “só a sua pessoa” como a “agremiação”. A bancada petebista no Congresso também se manifestou, encaminhando ao presidente Vargas um telegrama comunicando “irrestrito apoio” a Goulart e “seu vivo repúdio à indigna campanha desencadeada contra ele”.

Apoio às greves

Em entrevista à revista Flan, lançada por Samuel Wainer — o dono do Última Hora —, em maio de 1953, Goulart disse que o PTB era “inegavelmente um partido de esquerda, no exato sentido político do termo”. “Assim surgimos naquele informe movimento popular ‘queremista’ da primeira hora, continuamos assim na célebre campanha da ‘Constituinte com Getúlio’, atravessamos, ainda assim, a fase oposicionista até 1950 e assim continuamos hoje”, afirmou.

Segundo ele, a atuação dos representantes petebistas seguia perfeitamente o programa partidário. “Falam em peronada (alusão a um fantasioso ingresso no país do peronismo, denominação dada genericamente ao Movimento Nacional Justicialista criado e liderado a partir do pensamento de Juan Domingo Perón, já famoso pela sua popularidade como presidente da Argentina), em golpismo, em agitação. Nada mais ridículo e inconsistente do que isso. Os que atacam o PTB usando desses refrões não querem enxergar a grande realidade: somos um partido que defende pacificamente as reivindicações dos trabalhadores”, contestou.

Goulart disse ainda que os líderes petebistas deveriam estar onde se encontravam as reivindicações dos trabalhadores. “Não somos uma expressão política conservadora, mas um partido de renovação. Não tememos as greves, quando elas, justas, são inevitáveis. Ao contrário: defendemo-las. Ao invés de asfixiá-las”, enfatizou. “O mal está nisso: querem que o PTB se distancie das massas e tenha o seu programa como um documento bonito para não ser cumprido. Um rótulo trabalhista num conteúdo reacionário. Não: somos hoje uma força que conquistou o seu lugar na vida política nacional porque defende os seus princípios e não se distancia das massas, que são a sua substância eleitoral”, sintetizou.

A entrevista teve enorme repercussão e foi transcrita nos anais da Câmara dos Vereadores da cidade do Rio de Janeiro. Suas palavras foram comentadas e interpretadas de acordo com as conveniências de cada força política. A direita se valeu das afirmações para propagar a ideia de que Goulart era incitador de greves e defensor de um golpe para implantar a “república sindicalista”. Na verdade, a campanha do “sindicato da mentira” estava apenas começando: em junho de 1953, aos 34 anos de idade, Goulart assumiu o Ministério do Trabalho dizendo que pretendia realizar um programa “sob a inspiração das diretrizes que desde 1930 vem norteando a ação do plecaro presidente Getúlio Vargas”.


por Osvaldo Bertolino, Jornalista e historiador  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-genese-do-golpe-militar-de-1964/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-genese-do-golpe-militar-de-1964

Uma História de Guerra dos EUA: Dresden, Alemanha

 
 
Pilhas de cadáveres em frente a edifícios destruídos em Dresden, após os ataques aéreos, em 13 e 14 de Fevereiro de 1945
 
 
Os ocidentais sabem que os americanos bombardearam a cidade de Dresden, na Alemanha, no final da Segunda Guerra Mundial, mas a maior parte da verdade foi suprimida logo que aconteceu. Dresden era o centro cultural da Alemanha Oriental, uma cidade cheia de museus e edifícios históricos e os historiadores concordavam, por unanimidade, que Dresden não tinha valor militar. A pouca indústria que tinha, produzia só cigarros e porcelana.
 
Nem Churchill nem Roosevelt estavam interessados em terminar a guerra ou em atacar instalações militares que ainda existiam a 100 km à volta de Dresden. Naquela época, o exército russo estava a avançar, e há alguma verdade na versão de que os americanos queriam mostrar aos russos o impressionante poder de uma força militar verdadeiramente avançada, para impedir que a Rússia alimentasse ambições em relação à Europa. Parece que o Primeiro Ministro britânico, Winston Churchill, e o Presidente dos EUA, Roosevelt, queriam o que chamavam um “trunfo”, um “trovão de aniquilação anglo-americano” devastador, para “impressionar” Estaline. Mas poderia ter sido efectuado de muitas outras maneiras e lugares. Dresden não foi seleccionada por este motivo. Havia outras duas grandes motivações que serão visíveis a seguir.
 
 
 
O bombardeio de Dresden é um dos muitos acontecimentos históricos que foram fortemente alterados pelos vencedores, com alegações sobre o número de vítimas dos chamados historiadores, variando entre 25.000 ou 30.000, quando a contagem provável era de, pelo menos, 30 vezes esse número. A maioria das versões remodeladas desse holocausto tendem, praticamente, a ignorar, ou a subestimar deliberadamente, o vasto fluxo de refugiados que vinha a fluir para Dresden há semanas; as estimativas mais precisas que eu vi, variam entre 500.000 e este número tem de ser acrescentado à população local. Churchill e Roosevelt estavam plenamente conscientes dessa horda imensa e indefesa e, na sua procura pelo “trovão do trunfo”, foram citados como estando activamente à procura de “sugestões sobre como incinerar 600.000 refugiados”. A Internet está muito saneada sobre este assunto.
 
Um ponto importante que os historiadores escolheram ignorar foi que os americanos e os britânicos bombardearam não só Dresden, mas centenas de pequenas cidades ao redor de Dresden, muitas das quais ficaram tão destruídas que nunca foram reconstruídas. O motivo era o genocídio, uma pequena parte da intenção geral em destruir totalmente a Alemanha. Com a destruição total dessas cidades pequenas, a população estava a ser conduzida - pastoreada como animais – para as cidades maiores como Dresden, onde podia ser abatida através de um único ataque maciço. Os bombardeamentos iniciais cercaram áreas como Dresden, expulsando as pessoas das suas cidades menores, para centros maiores, onde podiam encontrar comida, abrigo e talvez assistência médica. Muitas vezes, os Aliados bombardeavam estradas e caminhos de ferro em volta dessas cidades circunvizinhas, para impedir uma fuga dos refugiados nessas direcções, conduzindo-os implacavelmente aos matadouros. O plano era exterminar o maior número possível de alemães. Na data do bombardeio, a cidade estava cheia de centenas de milhares de refugiados que fugiam de outras áreas que estavam a ser atacadas.
 
Outro assunto que os historiadores se recusam a enfrentar é que Dresden foi seleccionada não especificamente para extermínio, mas devido ao seu valor cultural, para colocar uma estaca no coração da herança cultural alemã e deixar uma ferida que nunca se poderia curar, devido à destruição permanente de partes insubstituíveis da alma alemã, para abrir uma ferida na psique alemã que nunca se curaria.
 
Em ondas sucessivas de bombardeios com bombas incendiárias, os americanos transformaram a cidade inteira numa enorme tempestade de fogo, matando talvez um milhão de civis. Com o elevado número de refugiados, os verdadeiros totais nunca serão conhecidos, mas foi um acontecimento único e um dos piores massacres de todos os tempos. Como, mais tarde, o escritor Kurt Vonnegut escreveu: 
 
 “Vocês queimaram tudo, transformaram a cidade numa única coluna de chamas. Morreram lá mais pessoas na tempestade de fogo, naquela grande chama, do que morreram em Hiroshima e Nagasaki juntas”.
 
Naquela noite de 1945, foi “uma orgia de genocídio e barbárie contra uma cidade alemã indefesa, um dos maiores centros culturais do norte da Europa”. Mais de 700.000 bombas de fósforo foram lançadas sobre 1.2 milhões de pessoas. Uma bomba para cada 2 pessoas. A temperatura no centro da cidade atingiu 1800 ° C, derretendo as superfícies das ruas e incinerando, instantaneamente, mais de 500.000 mulheres, crianças e idosos.
 
Bombardeiros aliados enormes atacaram Dresden repetidamente e, após completar a sua terceira onda, os EUA enviaram caças P-51 Mustang que atingiram tudo que se movia. Eles voaram ao longo do rio Elba, onde as margens estavam carregadas de refugiados que ainda chegavam e mataram quase todos eles. Atacaram colunas de ambulâncias e veículos de resgate que tentavam evacuar os sobreviventes, atacaram hospitais e metralharam os pacientes indefesos. Metralharam todos os animais do Jardim Zoológico de Dresden. Realmente, Dresden foi uma orgia de morte e destruição, mas era mais. Foi a celebração do mal. Não fazia parte de uma guerra; estavam a matar pelo prazer de matar e pela exultação que esse prazer lhes causava. Após a guerra, Churchill foi condecorado pelo seu êxito, enquanto os americanos comemoravam a sua supremacia na pacificação civil, e ainda outros, celebravam outro capítulo da destruição da Alemanha.
 
*Larry Romanoff  é colaborador frequente do site Global Resarch.
 
A fonte original deste artigo é Global Resarch.
 
Extraído por PG de No War No NATO
 
Com vídeo:

JOÃO FRANCISCO DOS SANTOS|| PRESO EM 1937, 1940, 1949, 1952, 1954

* JOÃO FRANCISCO DOS SANTOS *
[16/06/1898 - ?]
 
Militar, ferido em combate na 1.ª Guerra, João Francisco dos Santos combateu durante mais de duas décadas a Ditadura do Estado Novo: esteve, entre 1933 e 1936, com residência fixada em Peniche e foi preso em 1937, 1940, 1949, 1952 e 1954.
 
[João Francisco dos Santos || ANTT || RGP/8749 || PT-TT-PIDE-E-010-44-8749]
 
Filho de Bárbara da Conceição e de Sebastião dos Santos, João Francisco dos Santos nasceu em 16 de Junho de 1898, em Tavira - Santa Catarina.
Integrou o Corpo Expedicionário Português enquanto 2.° Sargento da 3.ª Bateria do 1.° Grupo do Corpo de Artilharia Pesada, sendo chefe da peça N.° 457. Embarcou em Lisboa em 21 de Agosto de 1917 e regressou à mesma cidade um ano depois, em 25 de Agosto de 1918.
Em 24 de Agosto de 1917, desembarcou em Brest e, em 26, seguiu viagem para o Havre, onde chegou a 28. Viajou para Inglaterra em 12 de Setembro e aí permaneceu até ao início do mês de Março do ano seguinte, regressando, então, a França.  
Em 30 de Maio de 1918 foi ferido em combate, tendo sido atingido por estilhaços de bombas de Aeroplanos e evacuado para o Hospital Inglês N.° 54. Depois de ter alta, foram-lhe concedidos 90 dias de licença para convalescer, tendo embarcado para Portugal num navio inglês em 22 de Agosto [AHM, PT/AHM/DIV/1/35A/2/42/38916].
Embora se desconheça exactamente a sua intervenção nos primeiros movimentos contra as Ditaduras Militar e Nacional, João Francisco dos Santos apresentou-se, em 26 de Novembro de 1933, no Comando Militar de Peniche «por lhe ter sido fixada residência obrigatória naquela localidade» [ANTT, Cadastro Político 5017].
As suas posições contra o regime saído do 28 de Maio de 1926 deviam ter tido impacto já que, apesar de sucessivos pedidos para ser transferido para Lisboa, foi-lhe sempre recusada tal pretensão pela Secção Política e Social da PVDE, «por inconveniente», continuando com residência fixa em Peniche até, pelo menos, Agosto de 1936.
Assim, em 1 de Julho de 1935, foi considerado inconveniente a mudança para a capital e, em 13 de Julho, também lhe foi negada a possibilidade de gozar 30 dias de licença em Faro, «podendo no entanto ser-lhe permitido gozar a licença em São Brás de Alportel».
Em 27 de Novembro do mesmo ano, a Secção Política e Social da PVDE continuou a informar o Ministério da Guerra, por intermédio do Ministério do Interior, de que havia inconveniente que João Francisco dos Santos passasse a residir em Lisboa, referindo a informação confidencial da Administração do Concelho de Peniche, datada de 22 do mesmo mês: «Revolucionário algarvio. É inválido de guerra, mas bem disposto de saúde; só deve estar com residência fixa, mas é-lhe favorável e não há inconveniente, em São Brás de Alportel».
No final desse ano, em 21 de Dezembro, foi comunicado à SPS que o Ministro da Guerra autorizou a sua deslocação e permanência em Lisboa até ao dia 6 de Janeiro de 1936, ficando a residir na Rua Carlos da Maia, 16, rés-do-chão esquerdo. Três dias depois desta última data, nova diligência do Ministério da Guerra sobre a possibilidade de João Francisco dos Santos poder residir em Lisboa, onde tinha a sua família, e nova recusa da Secção Política e Social da PVDE.
Em Março de 1936, solicitou autorização para se demorar por mais vinte dias na capital, «alegando que tem sua esposa muito doente», tendo a resposta da SPS da PVDE, datada de 17 de Março, sido «que é altamente inconveniente a presença do epigrafado em Lisboa ou fora do local onde tem residência fixada, sob qualquer pretexto». Em Julho de 1936, João Francisco dos Santos, através do Ministério da Guerra, solicitou a mudança de Peniche para Lisboa ou, então, autorização de «90 dias de licença na mesma cidade», mas a resposta foi a habitual: «o epigrafado é perigoso em Lisboa».
Em 10 de Agosto de 1936, foi autorizado, pelo Ministro da Guerra, «a ir buscar sua esposa, por motivo de doença, a Loulé».
O percurso político oposicionista deste Alferes inválido de guerra e, depois, referenciado como comerciante, continuou, entre 1937 e 1954, com diversas prisões [ANTT, Registo Geral de Presos 8749].
 
[João Francisco dos Santos || 26/12/1938 || ANTT || RGP/8749 || PT-TT-PIDE-E-010-44-8749]
 
Em 13 de Outubro de 1937, João Francisco dos Santos foi entregue à SPS da PVDE e levado para uma esquadra incomunicável. Manteve-se nas mãos daquela polícia até 18 de Janeiro de 1938, quando foi transferido para a Casa de Reclusão do Governo Militar de Lisboa [Processo 1563/937]. Julgado no Tribunal Militar Especial em 22 de Outubro de 1938, foi condenado a 5 anos de desterro e demitido de Oficial do Exército. Levado para Caxias - Reduto Norte, em 24 de Dezembro de 1938, foi novamente julgado pelo TME em 4 de Março de 1939, tendo-lhe sido mantida a pena aplicada.
 
[João Francisco dos Santos || 03/01/1948 || ANTT || RGP/8749 || PT-TT-PIDE-E-010-44-8749]
 
Libertado em 3 de Junho de 1940, por ter sido amnistiado, João Francisco dos Santos voltou a ser preso em 2 de Janeiro de 1948, levado para o Aljube e, no dia 24, para Caxias. No dia 29 de Janeiro foi posto à disposição do Governo Militar de Lisboa e julgado, em 29 de Julho, pelo Tribunal Militar Territorial, tendo sido condenado a seis meses e meio de prisão, pena já expiada com a prisão preventiva [Processo 1002/47]. No entanto, como interpôs e o Tribunal, reunido em 7 de Dezembro, manteve a pena, só seria libertado em 16 de Dezembro, por ordem do Governo Militar de Lisboa.
Novamente detido em 21 de Outubro de 1949 e levado para Caxias, foi libertado uma semana depois, no dia 28 [Processo 864/49]. 
 
[João Francisco dos Santos || 15/01/1952 || ANTT || RGP/8749 || PT-TT-PIDE-E-010-44-8749]
 
Voltou a ser preso em 7 de Janeiro de 1952 e levado para o Aljube, saindo em liberdade em 13 de Março, mediante termo de identidade e residência [Processo 42/952]. Integrava, então, a Organização Cívica Nacional, criada, em 1951, a partir da candidatura presidencial de Quintão Meireles. Foi preso pelas 11 horas e 30 minutos na sua sede, na Rua da Assunção, 42 - 4.° andar, juntamente com o brigadeiro António de Jesus Maia, o coronel Luís Gonzaga Tadeu, o comandante José Moreira de Campos, o major Daniel Alexandre Sarsfield Rodrigues, o capitão Henrique Galvão, o capitão Joaquim Pereira Monteiro de Macedo, o chefe da Polícia de Segurança Pública José António Fernandes, António Júlio Feio Borges, Darnaul Gomes Névoa Tadeu, José David e António Álvaro Pires Guerreiro [Francisco Teixeira da Mota, Henrique Galvão  - um herói português].
 
[João Francisco dos Santos || 20/12/1954 || ANTT || RGP/8749 || PT-TT-PIDE-E-010-44-8749]
 
Em 15 de Dezembro de 1954 foi, pela última vez, detido e levado para o Aljube. Transferido, em 20 de Dezembro, para Caxias, regressou ao Aljube em 29 e, em 22 de Fevereiro de 1955, foi posto à ordem do Governo Militar de Lisboa [Processo 146/954]. Manteve-se preso em Caxias entre 22 de Fevereiro e 19 de Julho de 1955, quando foi libertado por ordem do Governo Militar de Lisboa.
Durante, pelo menos, vinte e dois anos, João Francisco dos Santos esteve com residência fixa, preso ou vigiado. Pode ter falecido em 17 de Junho de 1969, já que esta data, anotada a lápis, consta do seu Cadastro Político.
Fontes:
AHM, João Francisco dos Santos - Soldado - Corpo de Artilharia Pesada [AHM, PT/AHM/DIV/1/35A/2/42/38916].
ANTT, Cadastro Político 5017 [João Francisco dos Santos / PT-TT-PIDE-E-001-CX10_m0594, m0594a, m0594b, m0594c].
ANTT, Registo Geral de Presos 8749 [João Francisco dos Santos / PT-TT-PIDE-E-010-44-8749].
Francisco Teixeira da Mota, Henrique Galvão - um herói português, Oficina do Livro, 2011.
[João Esteves]

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2020/02/2306-joao-francisco-dos-santos-i-preso.html

Façam-me um favor

Tirem-me
dessa "unanimidade"

No dia em que é noticiado que, a propósito de Adriano Moreira ( o ministro que reabriu o Tarrafal), o Presidente da República falou de «unanimidade no respeito», talvez haja três leitores interessados nas palavras que hoje mesmo disse junto ao Mausoléu aos Mortos no Tarrafal, no Cemitério do Alto de S. João.

 

Tarrafal - memória e exempo

Intervenção de Vítor Dias
no acto público promovido pela URAP
junto ao Mausoléu aos Mortos do Tarrafal
29.2.2020

Aqui estamos, mais uma vez e como todos os anos por iniciativa da URAP, para prestar a nossa sentida homenagem aos combatentes da liberdade que morreram no Tarrafal sem nunca esquecer também todos aqueles homens nossos irmãos que estiveram longos anos aprisionados naquele inferno e a ele conseguiram sobreviver para voltarem à luta de cara levantada.

É imperioso começar por dizer que aqui estamos a cumprir uma tradição  mas é necessário acrescentar que se trata de uma boa tradição porque é uma tradição que é filha de um dever de memória, de um dever de consciência, de um dever de gratidão por todos aqueles que, assassinados no Tarrafal ou lá tendo sofrido o que hoje custa a imaginar, inscreveram a letras de sangue e sacrifício na nossa história colectiva os valores perenes  da coerência, da coragem e da firmeza de convicções democráticas.

 

E cremos ser adequado sublinhar nesta ocasião o profundo significado de há dis ter sido anunciado em Cabo Verde  o projecto de transformação do Tarrafal num verdadeiro museu da Resistência.

Sobretudo a pensar nas novas gerações, justifica-se lembrar sempre que se não bastassem os assassinatos de antifascistas cometidos em Portugal pelas diversas forças repressivas do fascismo, se não bastassem as bárbaras torturas infligidas a  centenas e centenas de homens e mulheres cujo único crime era o de lutarem por tudo aquilo que hoje é quase tão natural como o ar que respiramos, se não bastassem os milhares de anos passados pelos democratas nas cadeias políticas do regime,então aí estaria o campo de concentração do Tarrafal – que foi concebido, criado e dirigido para ser um campo de extermínio físico e humilhação – para mostrar que, ao contrário do que alguns de vez em quando proclamam, a ditadura fascista não foi nem branda nem suave mas antes, à sua escala, cruel, hedionda, desumana e bárbara.

Num momento de recolhimento, importa recordar que o Tarrafal, onde a partir do inicio da década 60 também sofreram os combatentes de países colonizados cuja memória também honramos, significou para mais de uma centena de antifascistas portugueses não um qualquer degredo relativamente confortável mas uma imensa distância em paragens inóspitas de familiares e amigos, a péssima alimentação, as mortíferas doenças tropicais e a flagrante e absoluta falta de assistência médica (ficou para a história amarga desse tempo a declaração de que o médico só estava lá para passar certidões de óbito), os brutais castigos como o da “frigideira”, a terrível incerteza da data de libertação e uma indescritível vivência da monótona mas angustiante passagem dos dias, das semanas, dos meses e dos anos.

Os 32 assassinados no Tarrafal não puderam conhecer o vendaval  poderoso,    alegre, feliz e entusiasmante da conquista da liberdade em 25 de Abril de 1974 mas, no nosso imaginário e no nosso coração,eles figuram ao lado dos vivos como vencedores nesse longo, áspero e sacrificado combate contra a ditadura fascista.

E bem podemos dizer que,  nestes tempos carregados de  perigos de avanço de ideias reaccionárias, racistas, xenófobas e populistas que, em muitos casos, são afinal as roupagens actuais e circunstanciais de um fascismo antigo e de fascistas que só os impactos poderosos da revolução de Abril obrigaram durante tanto tempo ao disfarce e à discrição,  importa ainda mais honraro legado histórico  de todos os resistentes que sofreram no Tarrafal.

 E esse legado chama-se nenhuma tolerância com reaccionários e neo-fascistas, chama-se sólidos compromissos de vida com  os ideais da liberdade, da democracia, da paz e do progresso social, chama-se visão humanista da sociedade, do país e do mundo, chama-se capacidade de olhar as batalhas do presente com confiança e de mirar o futuro com uma esperança ancorada na luta e acção transformadora dos homens.

Até outro ano, mártires da nossa liberdade, podeis estar certos de que o vosso exemplo viverá sempre nos nossos gritos de revolta, nas nossas atitudes de insubmissão, no nosso caminho de construção e de conquista, na nossa resposta às interpelações do presente e aos desafios do futuro.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Dia 7 de março, no ISEG: evocação de Manuela Silva

O ISEG promove, no próximo dia 7 de março, uma sessão evocativa de Manuela Silva, a «notabilíssima economista política e moral», a «economista cidadã de planos ousados e rigorosos», que encarnou sempre «a opção pelos mais pobres», como oportunamente sublinhou aqui o João Rodrigues, no passado mês de outubro.

Realçando dimensões essenciais do seu exemplo de cidadania e do seu percurso de académica comprometida com o mundo, a homenagem a Manuela Silva integra três sessões temáticas (economia e desenvolvimento, ensino da Economia e compromisso social da Igreja) e uma mesa redonda (clicar na imagem para ampliar).

Participam nesta sessão evocativa, entre outros, Américo Ramos dos Santos, Ana Cardoso, António Espinho Romão, Carlos Farinha Rodrigues, Graça Leão Fernandes, Guilherme de Oliveira Martins, Isabel Roque de Oliveira, Isabel Rufino, João Cravinho, José António Pereirinha, José Leitão, José Reis, Luísa Ribeiro Ferreira, Manuel Brandão Alves, Marcelo Rebelo de Sousa, Margarida Chagas Lopes, Miguel Caetano, Rosário Carneiro, Sara Falcão Casaca e Viriato Soromenho Marques.

O encontro tem lugar no Auditório CGD, no ISEG (Rua do Quelhas, nº6, em Lisboa), com início às 10h00.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

[2305.] VER/REVER A ESCRITA DE MULHERES (1926 - 1974) || 5-6 DE MARÇO DE 2020

* COLÓQUIO INTERNACIONAL "VER/REVER A ESCRITA DE MULHERES (1926-1974)" *
 
5 e 06 de Março de 2020 | Auditório Almada Negreiros no Campus de Campolide da Universidade Nova
O colóquio internacional Ver/Rever a Escrita de Mulheres (1926-1974) no âmbito do projecto Escritoras Portuguesas nos tempos da Ditadura Militar e do Estado Novo, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, decorrerá nos dias 5 e 6 de Março de 2020, no Colégio Almada Negreiros (Campus de Campolide).
Este encontro pretende aprofundar as questões da produção literária das mulheres no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal. Pretende-se discutir o contexto sócio-político, assim como as condições e as razões de escrita de muitas mulheres, as estratégias de publicação, nomeadamente a escrita de textos de natureza muito diversa, a receptividade mais ou menos duradoira das obras de autoria feminina, os fundamentos e os actores da crítica literária, o cânone e a marginalização.
A entrada é livre mediante inscrição, até dia 26 de Fevereiro, para o email: escritorasportuguesas.1926.1974@gmail.com.
 
Colóquio Internacional “Ver/Rever a Escrita de Mulheres em Portugal (1926-1974)”
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (NOVA FCSH)
Colégio Almada Negreiros - Campus de Campolide
 
5 de Março – Sala CAN 224
 
9:00 - 9:15 – Recepção e inscrições
9:15 - 9:45 – Sessão de abertura
Directora do IELT
Directora do CRILUS, Universidade Paris Nanterre
Directoras do CICS NOVA e das Faces de Eva
 
9:45 - 11:15As pioneirasModeração:Teresa Sousa de Almeida
Graça Dos Santos (CRILUS, Universidade Paris Nanterre) – A mulher heroína do quotidiano em Um filho mais e outras histórias (1945) de Manuela Porto
Sara Marina Barbosa (Centro de Estudos Comparatistas, FLUL) – Irene Lisboa, a “desafiadora de todas as ordens estabelecidas”
María Comino Fernández de Cañete (Universidade de Extremadura) – Irene Lisboa: relação entre a consciência do mundo e do seu próprio íntimo
Patrícia Anzini (Research Center for Communication and Culture, CECC,UCP)
e Evelyn Caroline de Mello (Universidade Federal de São Carlos, Brasil) – Can Luso-Brazilian Women Speak? Ana de Castro Osório’s Lesson on LusoBrazilian Feminism across the Atlantic
 
11:15 - 11:45 – Coffee break
 
11:45 - 13:00A literatura infantilModeração:José Manuel da Costa Esteves
 
Renata Flaiban Zanete (Instituto de Letra e Ciências Humanas, Centro de Estudos Humanísticos, UM) – Maria Lamas e Alice Vieira em diálogo
Maria Gabriela de Sousa Silva (CIES, ISCTE, IUL) – Maria Lamas - Um ousado olhar em prol da cultura e da dignidade da mulher no Estado Novo
Sara Reis da Silva (Instituto de Educação, Centro de Investigação em Estudos da Criança, UM) – Maria Lúcia Namorado e a Literatura Portuguesa para a Infância: sobre um magistério assinalável
 
13:00 - 14:30 – Almoço
 
14:30 - 16:15A resistência ao Estado Novo | Moderação:Graça Dos Santos
Alda Maria Lentina (Dalarna University, Suécia) – O Portugal do Estado Novo: um mundo sem feministas?
Joana Filipa Passos (Centro de Estudos Humanísticos, CEHUM, UM) – Memória, Cabo Verde e a Ditadura: a escrita inter/dita de Orlanda Amarílis
Agnès Levécot (Centre de Recherche sur les Pays Lusophones, CREPAL) – Fernanda Botelho, Xerazade dos anos 60
Armanda Manguito-Bouzi (Universidade Côte d'Azur) – L’oeuvre de Maria Archer face à la censure Salazariste (1938-1955)
João EstevesIlse Lieblich Losa: a escritora cidadã
 
16:15 - 16:45 – Coffee break
 
16:45 - 18:30Resistências: a literatura colonial e produção escrita no Estado Novo | Moderação: Gonçalo Cordeiro
Everton V. Machado (Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos de Cultura e Comunicação) – “Vimala Devi não é o meu nome. É Teresa. Teresa!”: a autora goesa e Portugal
Luís Carvalho (Centro de Estudos Africanos, UP) e Pamela Peres Cabreira (Instituto de História Contemporânea, UNL) – Feminismo e luta anticolonial: Sofia Pomba Guerra na Imprensa Moçambicana (1930-1950)
Ana G. RamalheteEscrever para resistir - As mulheres escritoras, a Literatura Infantil e a oposição ao Estado Novo
Franklin Nelson (Universidade de Oxford) – Singing in the Feminine: The Cantigas d’Amigo and Colonial War Poetry
Elizabeth Olegario Bezerra da Silva (CHAM, UNL) – Condições de produção literária em regimes autoritários
 
6 de Março – Sala CAN 219
 
9:15 - 10:45Representações do corpo | Moderação: Isabel de Jesus
Zuzana Ráckociavá (Universidade de Masaryk em Brno, República Checa, Faculdade de Letras, Departamento de Línguas e Literaturas Românicas) – corpo e o erotismo na obra inicial de Luiza Neto Jorge
Raquel PedroRepresentações literárias femininas do aborto em Portugal durante o Estado Novo: quais eram e que repressões sofriam?
Antonio Augusto Nery (UFPR/CAPES/PRINT/CIDH/CLEPUL) – “Onde está o Menino Jesus?”, pergunta Natália Correia
Vivian Leme Furlan (Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, FCLAr, Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários/ FAPESP) – Rever A Madona, de Natália Correia: a liberdade sexual feminina não censurada
 
10:45 - 11:15 – Coffee break
 
11:15 - 12:30 - As mulheres e a leiModeração:Ana Rosa Mota
Helena Pereira de Melo (Faculdade de Direito, UNL) – As mulheres e o Direito no Estado Novo
Míriam Afonso Brigas (Faculdade de Direito, UL) – O pensamento de Elina Guimarães acerca da situação jurídica das mulheres no século XX
Maria Helena Pinto da CunhaRevolução, meu amor, de Maria Antónia Palla – uma aposta contra o silêncio
 
12:30 - 14:30 – Almoço
 
14:30 - 16:15Escritoras silenciadasModeração:Zília Osório de Castro
Teresa Sousa de Almeida (IELT, UNL) – O discurso autobiográfico na obra de Natália Nunes
Isabel Henriques de Jesus (CICS, Faces de Eva, UNL) - Maria Eulália de Macedo – um olhar perscrutador da realidade envolvente
Gonçalo Cordeiro (CRILUS, Universidade Paris Nanterre) – Sob o signo de Babel: itinerários da errância mítica e do devir literário em Terra de Nod de Judith Navarro 
Eleonor CastilhoA escritora Maria Cecília Correia (1919-1993) e a sua obra 
José Manuel da Costa Esteves (CRILUS, Universidade Paris Nanterre) – Anúncio de casamento de Patrícia Joyce: o anúncio de uma obra
 
16:15 - 16:45 – Coffee break
 
16:45 - 17:30 – Apresentação do projecto Escritoras portuguesas no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo, subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
 
Comissão Científica: Alda Lentina, Ana Paiva Morais, Anna Klobucka, Catharina Edfeldt, Fernando Curopos, Fernando Rosas, Gonçalo Plácido Cordeiro, Graça dos Santos, Helena Pereira de Melo, Isabel Henriques de Jesus, João Esteves, José Manuel da Costa Esteves, Luís Vicente Baptista, Maria Araújo da Silva, Teresa Araújo, Teresa Sousa de Almeida, Zília Osório de Castro.
 
Comissão Executiva: Inês Vicente, Ana Rosa Mota, Graça dos Santos, Isabel Henriques de Jesus, José Manuel da Costa Esteves, Teresa Sousa de Almeida, Marina Bertrand.

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2020/02/2305-verrever-escrita-de-mulheres-1926.html

MARIA ALDA NOGUEIRA || MARIA ALICE SAMARA

* MARIA ALDA NOGUEIRA. DA RESISTÊNCIA À LIBERDADE *
 
MARIA ALICE SAMARA || ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA || 2019
 
 
 
 
 
 
 
 
 
[Maria Alice Samara || Maria Alda Nogueira. Da Resistência à Liberdade || Assembleia da República || 2019]

Espanha – O Golpe 23-F de 1981

 
 
Há 39 anos um tresloucado fascista entrou no Parlamento espanhol a cumprir planos de generais franquistas que educaram o rei Juan Carlos na Falange. O tosco militar entrou de tricórnio, quando os deputados votavam Calvo-Sotelo para presidente do Governo de Espanha, tendo em vista substituir a monarquia constitucional pelo absolutismo real.
 

Era o regresso à ditadura sob os auspícios da monarquia não sufragada, posta à sorrelfa na Constituição, com as sondagens a indicarem a preferência popular pela República, ao arrepio da vontade expressa pelo sádico genocida Francisco Franco.

Para a História ficou a coragem do general Gutiérrez Mellado que se ergueu e dirigiu ao ten. coronel Tejero, repreendeu os assaltantes e ordenou a deposição das armas, tendo o golpista, já reincidente, reafirmado a ordem, com um disparo seguido por rajadas das carabinas dos 200 assaltantes. Resistiu Gutiérrez Mellado, o ainda presidente Adolfo Suárez e o deputado comunista Santiago Carrillo, que permaneceu sentado. Obedeceram os outros deputados.

O fracasso da tentativa de regresso à ditadura promovida pelo ten. general Jaime Milans del Bosch e pelo general Alfonso Armada, homem de confiança do rei, fracassou ali, perante a coragem dos três políticos referidos.

Depois foi montada a coreografia. O rei, fardado de capitão-general, surgiu a condenar o golpe e a passar por democrata e o general Armada a pedir a Tejero que se rendesse. O general franquista Alfonso Armada, percetor do rei, 9.º Marquês de Santa Cruz de Rivadulla, envolvido na tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 (23-F) foi demitido, condenado a 30 anos de prisão, e perdoado pelo Governo em 1988, por alegadas razões de saúde. Viveu ainda mais 25 anos!

A memória da Guerra Civil, a conivência entre a Igreja católica e o franquismo, o medo e a urgência da transição pacífica fizeram democrata o rei. Já é tempo de julgar os crimes de Franco e de revelar a verdade sobre a atuação de Juan Carlos antes de se dedicar a vários tipos de caça, dos negócios aos elefantes e outras espécies cinegéticas em que a rainha não era a única da sua ementa.

É tempo de se saber a verdade. 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/02/espanha-o-golpe-23-f-de-1981.html

OS QUE MORRERAM NO TARRAFAL. 31 ROSTOS - 32 NOMES

* OS QUE MORRERAM NO TARRAFAL *
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografias (de cima para baixo, da esquerda para a direita):
Abílio Augusto Belchior [Motorista, 1897-1937]
Albino António de Oliveira de Carvalho [Comerciante, 1884-1941]
Albino Coelho Júnior [Motorista, 1897-1940]
Alfredo Caldeira [Pintor decorador, 1908-1938]
Francisco do Nascimento Esteves [Torneiro de metais, 1914-1938]
António de Jesus Branco [Descarregador, 1906-1942]
António Guedes de Oliveira e Silva [Motorista, 1901-1941]
António Guerra [Empregado de comércio, 1913-1948]
Arnaldo Simões Januário [Barbeiro, 1897-1938]
Augusto da Costa [Operário vidreiro, 1901-1937]
Bento António Gonçalves [Torneiro mecânico no Arsenal do Alfeite,1902-1942]
Cândido Alves Borja [Marinheiro, 1910-1937]
Casimiro Júlio Ferreira [Funileiro, 1909-1941]
Damásio Martins Pereira [Servente, 1905-1942]
Edmundo Gonçalves [Ex-2.º Sargento, 1900-1944]
Ernesto José Ribeiro [Servente de pedreiro, 1911-1941]
Fernando Alcobia [Vendedor de jornais, 1914-1939]
Francisco José Pereira [Marinheiro, 1909-1937)]
Francisco Nascimento Gomes [Condutor, 1909-1943]
Henrique Vale Domingues Fernandes [Marinheiro, 1913-1942]
Jacinto de Melo Faria Vilaça [Marinheiro, 1914-1941]
Jaime da Fonseca e Sousa [Impressor da Casa da Moeda, 1902-1940]
João Lopes Dinis [Canteiro, 1904-1941]
Joaquim Marreiros [Marinheiro, 1910-1948]
Joaquim Montes [Corticeiro, 1912-1943]
José Manuel Alves dos Reis [Marceneiro, 1894-1943]
Manuel Augusto da Costa [Servente de pedreiro, 1887-1945]
Mário dos Santos Castelhano [Empregado de escritório, 1896-1940]
Paulo José Dias [Fogueiro marítimo, 1904-1943]
Pedro de Matos Filipe [Estivador, 1905-1937]
Rafael Tobias Pinto da Silva [Relojoeiro, 1911-1937]
Sem Fotografia:
 
Francisco Domingues Quintas [Industrial, 1889-1937]
18 de Fevereiro de 1978
 
TRASLADAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS DOS PRESOS POLÍTICOS QUE MORRERAM NO TARRAFAL
 

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2020/02/2297-os-que-morreram-no-tarrafal.html

A grande mulher Rosa Luxemburgo de luta e coragem, por um mundo para os trabalhadores

 
 

É por necessitarmos de exemplos que vou falar sobre Rosa Luxemburgo. É por necessitarmos aprender a fazer leitura de quadro político é que vamos falar de Rosa Luxemburgo. É por carecermos de memórias de figuras que fizeram história com sua coragem de viver e de morrer que precisamos falar sobre Rosa Luxemburgo.

Que exemplos nos dão e que faltas nos fazem as grandes personalidades, intelectuais, que se destacam na história lutando pelas causas dos trabalhadores! Rosa Luxemburgo é uma aguerrida contestadora, revolucionária, que tem a coragem de devotar a vida a uma causa.

Nascida na Polônia, mas com toda sua atividade política na Alemanha, Rosa morre em 1919. O motivo de sua execução é a defesa da revolução e a contrariedade ao reformismo puro e simples e à produção de guerras - que correspondiam exclusivamente aos anseios da burguesia.

Na percepção de Rosa a revolução seria formalmente burguesa, mas levada a cabo pela burguesia democrática e pelo proletariado, mais especificamente os trabalhadores da industrialização, contra o czarismo e a favor das liberdades democráticas.

O reformismo proposto pelo Partido Social Democrata entrava em choque com aquilo que Rosa Luxemburgo defendia, porque para ela as reformas só fariam sentido no interior de uma perspectiva mais ampla de luta por uma transformação estrutural do capitalismo. Tudo porque o capitalismo tende à selvageria e sua conclusão é de que ou se chega ao socialismo ou se caminha para a barbárie.

Considerada uma mulher da luta trabalhista, era uma das principais personalidades da política crítica e revolucionária do século XX. Rosa Luxemburgo teve um papel fundamental no Partido Social Democrata, tinha uma produção consistente e intensa, dentre artigos e ensaios, era estudiosa do Marxismo, de temas da política e da economia.

 

Rosa inspira e encoraja o cotidiano de lutas proletárias contra o capitalismo, deixando marcas que transcendem o seu tempo. Posicionava-se contra a guerra, entendia que fazer uma guerra não atendia às necessidades dos trabalhadores, pelo contrário, os levava à morte, obrigados a impunhar armas por uma luta que não era deles.

Nos discursos, Rosa deixava clara sua posição favorável à revolução socialista, à produção de uma nova ordem que garantisse as condições de vida, somente possíveis em uma sociedade socialista. Ela contrariava a visão reformista do capitalismo que impunha a acomodação dos trabalhadores às condições impostas pelo mercado.

Por conta de seus posicionamentos políticos é presa mais de uma vez e passa quatro anos no cárcere. Nunca perdendo contato com a luta revolucionária, continua escrevendo, lendo, informada sobre os acontecimentos e incentivando seus companheiros à luta.

 

Filiada ao Partido Social Democrata, posicionava-se contra o nacionalismo que produzia guerra de interesses comerciais e políticos, contra as condições de vida dos trabalhadores. Posicionamentos que motivam a prisão de Rosa pelo próprio Partido Social Democrata, por representar a linha minoritária revolucionária do partido. O mesmo Partido Social Democrata que lhe retira a vida.

A Social Democracia ascende na derrocada da Alemanha na primeira guerra mundial, resultado de um cenário político de total descrédito das forças tradicionais e de um país fragilizado nas suas perspectivas econômicas. O que Rosa não desejava era que ao invés de aliar-se ao proletariado, o partido se aliasse à burguesia, em sua maioria, e passasse a reprimir os revolucionários, utilizando-se de exércitos para isso, os mesmos que depois vão servir ao Kaiser no nazismo.

Rosa Luxemburgo é defensora do Socialismo Democrático e dentre suas questões, naquilo que fazia a crítica, considera um problema sério a burocratização do Partido Social Democrata, a tal ponto que seus burocratas se tornaram dirigentes do partido, relegando a último plano a produção de ideias, fazendo o caminho contrário ao proposto por Rosa, da valorização das teorias nas questões práticas da luta revolucionária.

É nesse sentido que precisamos retomar e retomar, relembrar e discutir, valorizar esses revolucionários práticos e teóricos. O Brasil vive um período de total ausência de apoio teórico para a luta, que permita a elaboração das ideias que orientam a prática, mas também permitindo o debate para a reflexão da prática.

Rosa Luxemburgo traz um caráter teórico e heróico para sua luta, possível de ser percebido no que diz respeito à própria morte, um fato previsível dentro do cenário que se construía, mas Rosa não se via longe dos espaços de luta, não se via saíndo de Berlim para salvar a própria vida.

Por todos esses fatores, a real política revolucionária é essa práticada por Rosa Luxemburgo, assinando embaixo dos textos de Marx, nas reflexões sobre as contradições do capitalismo que o levam a constantes colapsos e crises. Encontramos na guerreira a adversária da conciliação de classes, com argumentos racionais, com o poder da palavra, expondo em estudos e discursos os princípios porque considerava o capitalismo como o colapso da humanidade.

Para Rosa, o socialismo era o uso comum da propriedade que se tornou propriedade privada. A eliminação do capitalismo, em termos de sobrevivência, era tão preemente quanto foi a eliminação da escravidão. Por isso, a revolução deveria ser internacional e o partido que desenvolvesse esse projeto precisaria ser internacional.

Sabendo que poderia ser morta pela Social Democracia por colocar em cheque o reformismo aplicado pelos dirigentes de seu partido, não retrocedeu e não se retirou da luta.

Hoje não temos o debate público, as redes sociais e o não debate tomaram conta da realidade. Isso impede em grande medida o desenvolvimento dos intelectuais orgânicos, aqueles que surgem de dentro dos movimentos, mas que carecem do contato, do encontro, da troca de ideias, para fazer florescer as suas capacidades reflexivas.

Continuamos na terrível incerteza de um amanhã.

50 anos da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos

No dia 15 de Fevereiro realiza-se, no auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa, um espectáculo que assinala o 50.º aniversário da organização que, durante o fascismo, apoiou os presos políticos.

Créditos / Almanaque Republicano

A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP) era constituída por dezenas de democratas e antifascistas e teve como missão a denúncia dos crimes da ditadura e o prestar de auxílio a todos os aqueles que, por motivações políticas, eram encarcerados nas prisões fascistas.

É para assinalar a importância deste trabalho que se realiza, no próximo sábado, um evento comemorativo. A comissão promotora, em comunicado enviado à impressa, recorda os membros da CNSPP e a sua actividade em defesa dos presos políticos, «aquelas mulheres e aqueles homens que, ao longo de quase meio século, pagaram com a sua própria liberdade a insubmissão da ditadura fascista a que a Revolução de Abril pôs cobro, e que são os nossos verdadeiros heróis».

Na nota, recorda-se que, a 20 de Janeiro de 1970, foi lançado ao País o primeiro comunicado da CNSPP e que, três semanas antes, a 31 de Dezembro de 1969, um grupo de cidadãos entregou na Presidência do Conselho de Ministros um documento em que anunciavam a constituição da CNSPP e a sua missão de responsabilizar o governo e alertar a opinião pública para a gravidade da permanente violação de liberdades e direitos fundamentais por parte da polícia política «toda-poderosa», assim como para uma legislação penal perversa sob arbítrio de um tribunal especial, o plenário criminal.

«Na passagem dos 50 anos da CNSPP, num tempo que continua a exigir toda a nossa atenção para a defesa da liberdade e da democracia, impõe-se-nos assinalar essa singular aventura de resistência à ditadura», lê-se no comunicado.

É também lembrado o facto de que a actividade cívica, humanitária e política da CNSPP foi reconhecida pela Assembleia da República, com a atribuição do Prémio Direitos Humanos de 2010 a dois dos seus membros, Frei Bento Domingues e Levy Baptista.

O programa do espectáculo inclui a participação do Coro Juvenil da Universidade de Lisboa, sob a direcção da maestrina Erica Mandillo, e dos bailarinos Maribel Márquez e Nary Santos, e as actuações de Música com Paredes de Vidro (Alexandre Weffort na flauta, Carlos Canhoto nos saxofones, Fausto Neves no piano, Hugo Brito e Manuel Rocha no violino), Maria Anadon, Filipa Pais, Samuel, Carla Correia, Lucinda Loureiro, Luísa Ortigoso e Marina Albuquerque.

Levy Baptista e Eulália Miranda farão intervenções políticas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/50-anos-da-comissao-nacional-de-socorro-aos-presos-politicos

Malaca Casteleiro

Malaca Casteleiro foi um distinto linguista e professor universitário, com uma notável carreira académica, reconhecida pelos seus pares. 
 
Indicado pela Academia das Ciências de Portugal, foi o responsável, a par do académico brasileiro Evanildo Bechara, pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa atualmente em vigor.
 
Malaca Casteleiro morreu há dias. Sabemos que o Acordo Ortográfico tem os seus detratores, pelo que se entende que, na hora da morte daquele professor universitário, estes não tenham querido saudar a sua personalidade, muito embora tivessem a obrigação de entender que o trabalho e a obra de uma vida não se resumem à intervenção numa negociação específica. 
 
Mas foi absolutamente miserável a campanha de ironias e expressões insultuosas que surgiu pelas redes sociais, na sequência do desaparecimento de Malaca Casteleiro, provando, se necessário fosse, que a baixeza reles está no ADN de alguma gentalha que por aí anda pelas caixas de comentários.
 

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

Vidas Prisionáveis – «34»

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O espírito do 34 encheu esta tarde o auditório do Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Afonso Dias, Xico Braga, Joaquim Alberto e Carlos Cruz estiveram à conversa com Ana Aranha, a recordar como eram aqueles tempos em que as sextas-feiras eram passadas a cantar e em festa no número 34 do Bairro do CASI, em Vila Franca de Xira. Uma casa de chave na porta, sempre aberta para quem quisesse entrar. E foram muitos os que lá entraram. Gente que se opunha ao regime, jovens vindos de vários sectores.

O auditório esteve cheio. De reflexão, de perguntas e também de festa, como testemunha o vídeo que aqui partilhamos.

Xico Braga, por exemplo, recorda os seis meses que viveu no 34 como "os mais importantes" da sua vida. "O 34 trouxe-me um grande 31 a mim", começa por confessar Carlos Cruz. Era ele quem pagava a renda da casa, ele que era o coadjutor de Vasco Moniz, padre nascido em Goa e o criador do CASI, e era nessa casa que mantinha um quarto, onde ia dormir de vez em quando, "para manter a aparência".

Uma casa comunitária, um espaço de liberdade e de convívio. O "34 que nos traz aqui é o Joaquim Alberto", diz Xico Braga. Foi ele, Joaquim Alberto, que em França, em vez de seguir os estudos como planeado, optou por dar a mão a tantos e tantos que chegavam diariamente, idos de Portugal. Foi em França que começou este espírito de "chave na porta, aberta para quem quisesse entrar". "O trabalho que ele faz em França, de apoio aos emigrantes, é qualquer coisa de fabuloso. [É] esse espírito que traz para Vila Franca. Ele é que é o pai, é à volta do Joaquim Alberto que nasce isto e que se abre aquela porta para que isto aconteça", frisa Xico Braga. Foi um "desejo de liberdade que uniu as pessoas e que as fazia juntar no 34. A que vocês iriam também, estou convencido.

Portanto vocês é que têm essa responsabilidade, agora", disse Afonso Dias, dirigindo-se aos mais novos que estavam na plateia, alunos da Escola Secundária Anselmo Andrade, em Almada, e do Agrupamento de Escolas de Mem Martins. "Não há Liberdade, nem há Democracia. Há homens e mulheres livres e há democratas", frisou Joaquim Alberto. Aquilo que é importante, remata Carlos Cruz, é que as pessoas pensem, "aquilo que não se podia fazer na altura: pensar, reflectir, agir.

Pensem, reflictam e intervenham activamente na vida". O auditório esteve cheio. De reflexão, de perguntas e também de festa, como testemunha o vídeo que aqui partilhamos.#aljube #vidasprisionáveis #semmemórianãoháfuturo

Publiée par Museu do Aljube Resistência e Liberdade sur Mercredi 12 février 2020

Ver original em 'Museu do Aljube' na seguinte ligação:

https://www.museudoaljube.pt/2020/02/12/vidas-prisionaveis-34/

DUMA “VITÓRIA” COLONIAL-FASCISTA QUE NUNCA HOUVE... – I

 
OPORTUNA REINTERPRETAÇÃO SUSCITADA POR ESTE 4 DE FEVEREIRO DE 2020
 
Para a formulação do pensamento dialético e estratégico de Agostinho Neto, houve uma questão sempre presente na visão do líder influindo nos factores da vanguarda: a afirmação consequente e constante do Não Alinhamento Activo do MPLA no âmbito da luta armada de libertação contra o colonialismo, o “apartheid” e muitas das suas sequelas, que obrigou a imensos sacrifícios, desde logo entre 10 de Agosto de 1962 (data em que o camarada Agostinho Neto assumiu a Presidência do MPLA) e o 25 de Abril de 1975.
 
Essa percepção tem ficado deliberadamente fora dos conceitos da NATO (e de quem a ela se conecta), ainda activos e presentes hoje, conceitos que são básicos na caracterização da Guerra Fria usados por muitos “analistas” contemporâneos de história, de sociologia, de antropologia cultural, de psicologia, de política, de caracterização militar, de caracterização dos múltiplos processos das inteligências…
 
A quem vale a persistência de reduzir aquela época à bifurcação da Guerra Fria, quando a liberdade ia muito para além dessa estreita bifurcação?
 
01- O pensamento dialético e estratégico do Presidente Agostinho Neto teve uma formulação progressiva, cada vez mais enriquecida de experiências (adaptando-se à valorização dos sucessivos momentos tácticos que se foram sucedendo), até por que obrigatoriamente havia que enfrentar plataformas distintas de conjunturas e cenários, dentro e fora do território angolano, quase todas (essas plataformas) em regime de clandestinidade, ou semiclandestinidade.
 
O MPLA nas motivações da luta armada de libertação nacional, foi nesse sentido uma relevante preciosidade, mesmo a nível da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, CONCP, o que contrastava desde logo e por isso, em relação aos processos etno-nacionalistas, que transversalmente sempre tiveram que ver com uma multiplicidade de fenómenos que era premente sempre interpretar, por causa de suas implicações com a vida e a sobrevivência!
 
 
A ruptura era:
 
. Com conjunturas e cenários típicos do colonialismo português…
 
. Com o neocolonialismo enquanto resíduo da Conferência de Berlim (manifestamente em função dos regimes que se foram sucedendo em Kinshasa e sua nefasta influência, não só em relação ao MPLA, mas também à FNLA, moldada ao jeito da tipologia de seus interesses)…
 
. Mais tarde com o próprio “apartheid” e a esbatida contrarrevolução portuguesa (mesmo já sem o Exercício Alcora em vigor, os contactos e comunicações entre Lisboa e Pretória foram sendo mantidos “discretamente” pelos sucessivos governos portugueses do “arco de governação”)…
 
. E até com o imperialismo (tendo em atenção substancialmente os interesses das transnacionais europeias e estado-unidenses, mineiras, do petróleo e de outras afins, ou em apêndice, inclusive transnacionais ligadas à nascente burguesia industrial portuguesa, ao nível de Champalimaud e Grupo Mello)…
 
A definição do pensamento dialético e estratégico de Agostinho Neto, sendo a antítese, em ruptura em relação à tese colonial e internacional fascista, ao afirmar-se na trilha do Não Alinhamento Activo, fora dos pressupostos da Guerra Fria, abriu-se à lógica com sentido de vida, inestimável para quem teria obrigatoriamente de fazer a leitura de identidade patriótica e popular, tão implicada na mobilização do esforço humano da própria guerrilha e tão implicada na sobrevivência da própria organização e seus militantes!
 
Levou também a que os aspectos da luta armada de libertação nacional não se limitassem à vitória sobre o colonialismo português (nos termos do Programa Mínimo), mas tivessem continuidade (por exemplo por via da resistência popular generalizada consumada via Organização de Defesa Popular, ODP) até ao colapso do “apartheid” em 1991 e ao Acordo de Bicesse, de 31 de Maio de 1991, quase doze anos depois da morte de Agostinho Neto!...
 
2- Pode-se em síntese considerar algumas das linhas que identificam o pensamento dialético e estratégico daquele que viria a ser o primeiro Presidente de Angola, respeitador da história desde os caboucos patrióticos, respeitador do momento tático decisivo que foi o 4 de Fevereiro de 1961:
 
. Generalização da luta armada;
 
. Primazia do interior em relação ao exterior;
 
. Unidade na luta de todas as organizações patrióticas envolvidas na luta armada de libertação nacional no sentido dum amplo movimento;
 
. Utilização das leituras sobre os factores físico-geográfico-hidrográfico-ambientais, a fim de melhor adequar as acções da guerrilha, “do campo, para cerco às cidades”;
 
. Utilização de processos de antropologia cultural artesanais e outros, para adaptação da guerrilha ao terreno (tendo em conta o papel do campesinato na guerrilha);
 
. Íntima relação dos processos de guerrilha com a mobilização popular, incluindo nas questões tão vitais quanto a produção e a logística alimentar comuns;
 
. Educação e preparação da guerrilha (Centros de Instrução Revolucionária), captando e mobilizando em uníssono a vontade de todos;
 
. Educação e saúde para todos (escolas e postos de saúde nas linhas de penetração), muito importantes para a actuação duma guerrilha de baixa intensidade;
 
. Integração de processos de luta sindical tendo em conta os milhares de refugiados compulsivos fora das fronteiras do país;
 
. A ideologia como arma (orientação marxista-leninista), associada aos processos de produção e gestão de dados (com influência directa no ciclo informação-análise-tomada de decisões);
 
. Inventário, definição e contínuo balanço das teses referentes ao inimigo e dos seus amplos campos de acção e manobra externa e interna, a fim de saber aplicar a ruptura enquanto antítese;
 
. Alastramento da guerrilha de baixa intensidade e num processo de antítese, sucessivamente, à 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª RPM;
 
. Primazia da luta clandestina nas cidades, sem recurso a sabotagens com uso de explosivos, ou a emboscadas, ciladas e outras formas de luta urbana, a fim de proteger da repressão uma inestimável base humana de mobilização e sustentação, obrigada a viver (sobreviver) em regime prolongado de clandestinidade ou semiclandestinidade.
 
A guerrilha urbana do MPLA, só se iria manifestar entre o 25 de Abril de 1974 e o 11 de Novembro de 1975, durante o período de descolonização e mesmo assim numa geometria discreta, muito variável e flexível…
 
Até mesmo quem tem compendiado a história do MPLA e do Presidente Agostinho Neto referente a esse período, parece ter ainda hoje muita dificuldade em reconhecer e dar a conhecer os meandros da época em termos de luta nas cidades (com implicações em termos de luta de classes), muito em particular na capital…
 
Os “historiadores” de serviço têm deliberadamente excluido sempre a narração do que foi feito, como foi feito, que métodos foram empregues, com que meios, objectivos e fins, quem foi mobilizado para tal e teve participação activa, como os meios humanos foram mobilizados e onde foram instalados, que razões levaram à prossecução da luta nesses termos, como evoluíram os organismos e estruturas implicadas, tendo em conta que a fase final da descolonização foi um processo transitório, mas muito sensível e decisivo para a independência…
 
Assim, poucos conseguem abordar o papel, a tipologia de missões e operações, a amplitude, assim com os objectivos do Grupo de Operações Especiais (GOE) da Segurança do Estado Maior das FAPLA, então instalado clandestinamente na Camuxiba à ilharga do Morro da Luz, à Samba, tal como do Comando Operacional de Luanda (COL), então instalado na Vila Alice!
 
As leituras correntes em rescaldo do GOE são tão “híbridas”, são tão levianas, ligeiras e alienatórias, que domina a versão romanceada da existência dum muito informal “grupo do Geitoieira”, tido como um grupo de “meio-lumpens suburbanos”, quando os nexos eram tão fortes, quanto disciplinados, quanto ao fim e ao cabo, transitórios, sob o comando do próprio Estado-Maior das FAPLA que também estava em rápida evolução!...
 
3- A fidelidade canina do pensamento dialético e estratégico de Agostinho Neto ao Não Alinhamento Activo (inspirando-se entre outros em Broz Tito e na Jugoslávia, por razões de semelhança das características do mosaico humano do espaço físico-geográfico jugoslavo e angolano), obrigou:
 
. A dar primazia ao político, tendo em conta que após a IIª Guerra Mundial o processo político global abriu espaço à emancipação juvenil dos povos, visando a sua autodeterminação e independência;
 
. A poupar energias de forma a poder aplicá-las em escalada, à medida que novos estados independentes iam surgindo na África Austral, conforme os casos da Tanzânia, (independente a 26 de Abril de 1964) e da Zâmbia, (a 24 de Outubro de 1964);
 
. A dimensionar progressivamente os esforços da luta de libertação em África, contra o colonialismo e o “apartheid”, de Argel ao Cabo, reforçando por via da chegada das colunas 1 e 2 do Che (1965), o que possibilitou avançar-se a linha da frente informal do paralelo entre Dar es Salam e Brazzaville, para o paralelo da Zâmbia;
 
. A integrar nos processos interconectados de luta armada no seguimento da independência da Zâmbia, para além do quadro da CONCP, organizações como a ZANU e ZAPU (Zimbabwe), SWAPO (Sudoeste Africano, Namíbia) e ANC (África do Sul);
 
. A tirar partido de tudo isso em benefício do Não Alinhamento Activo, de molde a procurar superar insuficiências gritantes do fornecimento de material e equipamento militar por parte da URSS…
 
 A cultura de impedimento aos parâmetros típicos da Guerra Fria por parte do MPLA e à manutenção vital dos parâmetros do Não Alinhamento Activo, levou a que a URSS e demais países socialistas componentes do Pacto de Varsóvia, não fornecessem material e equipamento aéreo e antiaéreo às organizações progressistas em luta armada de libertação nacional no espaço da África Austral, o que possibilitou, ao contrário do que aconteceu com o reforço do PAIGC na Guiné Bissau (que levaria à Proclamação da Independência em Madina do Boé, a 24 de Setembro de 1973), o domínio do espaço aéreo e das capacidades de movimento, taticamente rápido e tirando partido do efeito surpresa, assim como da capacidade de desflorestação por parte dos componentes do Exercício Alcora, entre os inícios de 1966 e o 25 de Abril de 1974.
 
CONTINUA
 
Martinho Júnior -- Luanda, 9 de Fevereiro de 2020
 
Livros cujas capas e conteúdos animam esta presente intervenção:
. O pensamento estratégico de Agostinho Neto, da autoria de Iko Carreira;
. Agostinho Neto, uma vida sem tréguas, 1922 a 1979, de Acácio Barradas;
. Angola, 1966 a 1974, Vitória Militar no Leste, de António Pires Nunes;
. Alcora, o acordo secreto do colonialismo, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes;
. A PIDE no xadrez africano, Angola, Zaire, Guiné e Moçambique, conversas com o Inspector Fragoso Allas, de Maria José Tíscar.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/duma-vitoria-colonial-fascista-que.html

A Declaração Balfour

Pablo Jofre Leal *

A Declaração Balfour  é um documento que revela a cumplicidade entre a política imperial britânica e os corpos dirigentes do sionismo, que, pelo seu poderio financeiro e a sua privilegiada posição nos círculos de poder, na França, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, iniciaram um intenso lóbi destinado a obter a aprovação do Império Britânico – nesse momento, uma das principais potências económicas e militares do mundo – para intensificar o processo de colonização de terras palestinas. 

 

 

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No dia 2 de novembro de 2017 comemorar-se-ão 100 anos desde o fatídico acordo entre o sionismo e o império britânico para dar rédea solta aos objetivos de colonização da Palestina. Um ano depois, a situação palestina agudizou o crime, a ocupação, o colonialismo e o apartheid contra o povo palestino.

Uma colonização que seria levada a cabo por colonos judeus europeus, incentivados pela liderança sionista e sob o mito religioso do retorno a uma terra prometida por uma divindade, que também exibia títulos de domínio e de exclusividade e preferência dos povos eleitos.

Balfour: Peça do projeto de domínio do Médio Oriente

Esse acordo que menciono chama-se “Declaração Balfour” e refere-se, especificamente, a uma carta enviada pelo Secretário das Relações Exteriores británico,  Arthur James Balfour,  ao Barão Lionel Walter Rothschild, líder da comunidade judaica da Grã-Bretanha e Irlanda, no 2 de novembro de 1917, para que o seu conteúdo fosse conhecido e discutido no seio da Federação Sionista. 

Uma Declaração que surge como parte de um projeto do domínio do Médio Oriente, que começa com o Acordo Sykes-Picot, entre a Grã-Bretanha e a França, que quebra as promessas feitas ao mundo árabe de permitir a formação de Estados Independentes, já que o objetivo era precisamente o de contar com o apoio desses povos para combater o Império otomano, a fim de se apoderar, de seguida, dos territórios sob o seu domínio. Assim, a continuação lógica de Sykes-Picot foi a Declaração Balfour, que também teria Mark Sykes como arquiteto dessa conduta, lesiva para milhões de seres humanos que viviam no Médio Oriente.

Uma Declaração com consequências até aos dias de hoje, dando um apoio político por parte da Grã - Bretanha e de outros governos ocidentais a um sionismo emergente, o que levou à criação do mandato britânico na Palestina após o derrubamento do Império Otomano, o que facilitaria a chegada de colonos judeus à Palestina e, assim, assentar as bases para a construção artificial da entidade sionista, em 1948, sustentáculo do atual conflito que abala esta zona do mundo. 

O Sykes que refiro é o mesmo que organizou uma reunião em Londres, em fevereiro de 1917, a que assistiram, entre otros, os multimilionários e influentes membros da Federação Sionista com sede na Grã-Bretanha, Walter Rothschild, Herbert Samuel – que apelou a um protetorado inglês sobre a Palestina – e Chaim Weizmann – de origem bielorrussa e que seria o primeiro presidente da entidade sionista, em 1948. O início, portanto, de uma migração de judeus, especialmente europeus, para uma região onde viviam muito poucos judeus, essencialmente religiosos, mas não sionistas como aqueles que chegavam de além do Mediterrâneo.

Declaração Balfour  é um documento que revela a cumplicidade entre a política imperial britânica e os corpos dirigentes do sionismo, que, pelo seu poderio financeiro e a sua privilegiada posição nos círculos de poder, na França, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, iniciaram um intenso lóbi destinado a obter a aprovação do Império Britânico – nesse momento, uma das principais potências económicas e militares do mundo – para intensificar o processo de colonização de terras palestinas. Um fomento da transferência de judeus, principalmente asquenazes, que se mudam para uma terra da qual não tinham qualquer referência nem raízes, mas da qual começam a interessar-se pelas promessas de possuir terras e bens fornecidos pelos multimilionários sionistas europeus, que financiavam essa operação colonial. Juntamente com o objetivo de hegemonia regional do governo britânico, que começa a almejar a hegemonia sobre essas terras, nessa altura sob o domínio de um império otomano em claro declínio. E para isso, que melhor do que contar com a mão de obra e o trabalho sujo de colonos dispostos a tudo por um ideal construído à conta de mitos?

Declaração Balfour, apesar da tentativa sionista de a apresentar como a base jurídica do seu suposto direito a uma terra que não lhes pertence, era uma carta de forte conteúdo político e propagandístico, que, na essência, menosprezava os direitos de milhões de habitantes que, naquele tempo, viviam na Palestina. Era uma carta que prometia algo que os ingleses não possuíam, a que não tinham direito com base em qualquer lei internacional. Portanto, não podiam entregar a outros o que não era deles. Numa carta, reveladora de uma mentalidade imperialista, assinalava-se: “Estimado lorde Rothschild. Tenho o prazer de lhe dirigir, em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações dos judeus sionistas, que foi submetida ao Gabinete e aprovada por ele. O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e envidará os seus melhores esforços para facilitar a realização desse objetivo, deixando bem entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judias existentes na Palestina, nem os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país. Ficar-lhe-ei grato se puder dar conhecimento desta declaração à Federação Sionista. Atenciosamente, Arthur James Balfour”.

A realidade mostrou que esses desejos eram uma mera hipocrisia e um apoio decidido ao Movimento Sionista para iniciar um processo de colonização de terras na Palestina. Tanto assim é que o próprio Balfour, que falava no respeitar e não prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judias existentes na Palestina, em 19 de janeiro de 1919 sustentou, noutra carta ao governo británico:  “Na Palestina nem sequer nos propomos passar pela formalidade de consultar os desejos dos atuais habitantes do país... As quatro grandes potências estão comprometidas com o sionismo, e o sionismo, bom ou mau, certo ou errado, está ancorado em antiquíssimas tradições, em necessidades atuais e em esperanças futuras de muito maior importância do que os desejos ou preocupações dos 700000 árabes que agora habitam esta antiga terra”.

Para bom entendedor, meia palavra basta, e estas mostravam claramente a complicidade criminosa entre um Império que começava o seu ocaso, mas capaz de causar prejuízos a milhões de pessoas, que ignoravam, nesse momento, os planos que se teciam nos bastidores e encontros entre o imperialismo inglês e um sionismo, que, – através de seu apoio financeiro a um império em guerra e sedento de recursos, para ultrapassar a campanha da Primeira Guerra Mundial – comprou uma aliança que lhe serviria como credencial política para intensificar a sua “aliyá” [1] e passar de ter 85.000 judeus num território onde viviam 600.000 palestinos, em 1915, a ter 600.000 colonos em 1947, perante 1,5 milhão de palestinos. Isto através de um constante processo de colonização protegido pelo império britânico, até ao último dia do seu mandato sobre a Palestina – apesar de certas divergências com grupos extremistas judeus que queriam acelerar o processo de ocupação do território palestino.

É indiscutível, por mais que a hasbara (propaganda sionista) o apresente como um documento jurídico, que a  Grã-Bretanha não tinha autoridade política, legal ou moral para fazer promessas de entregar ou compartilhar objetivos coloniais de uma ideologia que não conhecia a Palestina a não ser nos mapas, como o demonstra o facto de as discussões para encontrar “um lar nacional judeu” terem dividido as opções entre a Patagónia sul-americana, o Uganda e o leste mediterrânico. Questão que obrigou os ideólogos do sionismo a procurar as razões, linhas centrais e eixos discursivos, que lhes permitiram sustentar com alguma solidez que a Palestina era o destino final.

A Grã-Bretanha, num absurdo histórico, numa decisão abusiva e criminosa, prometeu entregar a terceiros – judeus europeus, cujo vínculo com a região era inexistente – um território que não era sua propriedade. Isso implicou avalizar um plano de colonização, que, na sua essência, levava o sinal do racismo, pois implicava povoar com estrangeiros uma terra habitada, expulsando a população residente nativa e criando as bases do atual sistema de apartheid que governa a Palestina histórica para os palestinos que lá residem e, brutalmente, para os que residem nos territórios palestinos ocupados e bloqueados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

A   Declaração Balfour foi o sinal para o sionismo aumentar a sua ambição e apetite territorial e concretizar ali os seus planos de instalação, para aqueles que se tornaram crentes alienados de um mito que praticou o controle e a pilhagem do território palestino. Ideologia que começa também a tecer a falsificação histórica que fez pensar ao mundo que eles – civilizadores ocidentais com direitos de propriedade concedidos por uma divindade – o que faziam no seu discurso de convencimento não era colonizar, invadindo terras, segregar e usurpar, mas que, simplesmente, estavam a ocupar uma terra estéril, sem população, ainda que nela habitassem 700.000 palestinos, com terras, plantações e com famílias que tinham as suas raízes nos primórdios da história. Um mito em todos os sentidos da palavra, que, até hoje, ensinam como dogma de fé, apoiando-se em escavações arqueológicas para demonstrar o seu mito religioso, em processos de esmagamento cultural do povo palestino. Tudo isso teve o seu processo catalizador com a Declaração Balfour.

Do requerimento de Palacios Rubio ao requerimento sionista.

É precisamente por esse aval perverso –, a Declaração Balfour –, concedido pelo império britânico ao sionismo, que aparece com força a exigência de que a Grã-Bretanha peça perdão por essa ação política e pelos danos por ela causados. Uma declaração usada como eixo das reivindicações legais e políticas sionistas, que exibia esta declaração como aqueles conquistadores espanhóis que mostravam o denominado Requerimento de Palacios Rubio aos indígenas, que nada sabiam sobre esses estrangeiros que vinham de além-mar para sustentar que essas novas terras pertenciam, por direito divino, à monarquia espanhola.

Neste caso, o requerimento sionista exibia as ideias imperiais, de generosidade com o alheio, contidas numa carta usurpadora dos direitos de outros. Dos desejos e objetivos estratégicos das autoridades de um império que tinha como propósito dominar um território e usar estes europeus dotados de uma ideologia racista, que nada tinha a ver com os judeus que habitavam a Palestina num número que não excedia vinte mil pessoas, num universo de 550 mil palestinos, antes da primeira Aliyá sionista no final do século XIX, como colonizadores e linha avançada da civilização ocidental. 

A Declaração Balfour é responsável, portanto, por avalizar o estabelecimento das bases políticas, militares, económicas, demográficas e culturais do que seria o nascimento da entidade sionista, em 1948.

Perante essa responsabilidade histórica, a Grã-Bretanha não só deve pedir perdão pelos danos causados, mas também executar políticas que permitam reparar esses danos; e uma delas é, claramente, reconhecer o Estado Palestino e exigir o fim da ocupação sionista dos territórios palestinos. Está a Grã-Bretanha disposta a fazê-lo? Não!!! Nesta altura é uma pergunta retórica, uma simples quimera, pois os vínculos políticos, militares e financeiros entre o sionismo internacional e Londres são profundos. A Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a França têm nas suas sociedades grupos de poder e lobistas do sionismo que tornam difícil separar os interesses colonialistas de Israel dos interesses dessas potências. É uma associação criada para praticar a delinquência, uma associação ilícita que, no Conselho de Segurança, protege a entidade mais criminosa do planeta. Isso, no âmbito das ações do Clube Bildenberg, convertido na reunião dos poderes políticos, económicos e mediáticos mais poderosos do mundo e, sob a égide sionista, convertido em fiel escudeiro e avalista dos crimes do sionismo.

Há ocasiões em que Londres aparenta ter pareceres equilibrados, como os de certas condenações a Israel no plano internacional: Resoluções da ONU, Decisões da UNESCO ou outras; mas isto não significa que se esqueça o seu compromisso com os governos israelitas. É a sociedade britânica que deve exigir aos seus governos que cessem o apoio à política colonialista, racista e criminosa de Israel; há uma responsabilidade histórica que a Grã-Bretanha não pode negar por mais amnésia que apresente. Como também é responsável a sociedade palestina pelo apelo a combater o ocupante e, para isso, o apoio do Eixo da Resistência é fundamental para mudar a atual correlação de forças. Só a combinação de todas as formas de luta dará a autodeterminação ao povo palestino –, nada se pode esperar daqueles poderes que têm sustentado o sionismo.

A aliança britânico-sionista – e, com ela, o papel desempenhado por Washington e os seus aliados regionais – teve um impacto catastrófico na vida de milhões de pessoas, não só na Palestina , mas também em todo o Levante mediterrânico. A Grã-Bretanha deve uma reparação ao povo palestino nos mais amplos aspectos, pois não é apenas culpado quem dispara à queima-roupa sobre homens e mulheres desarmados, quem usurpa territórios, destrói aldeias, arrasa casas, constrói muros. Também é responsável aquele que, com o seu silêncio, permite estes crimes; e a Grã-Bretanha, com o seu obsequioso silêncio, é responsável pela declaração Balfour e pelos sofrimentos de um povo submetido à selvageria colonial do sionismo.

[1]Aliyá ou Aliyah (translit. do hebraico עלייה: ascensão) é o termo que designa a imigração judaica para a Terra de Israel (em hebraico, Eretz Israel) – que, até 1948, correspondia ao território do Mandato Britânico da Palestina – e, a partir de 1948, para o Estado de Israel

https://www.google.com/search?q=aliy%C3%A1&rlz=1C1CHFX_enPT592PT592&oq=aliy%C3%A1&aqs=chrome..69i57j0l7.4946j1j8&sourceid=chrome&ie=UTF-8. NT

* Pablo Jofre Leal – Jornalista e escritor chileno. Analista internacional, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Complutense de Madrid. Especialista, principalmente, em temas da América Latina, Médio Oriente e Magrebe. É colaborador de várias cadeias de notícias internacionais: Hispantv, Russia Today, Telesur, www.islamoriente.com, Adital-Brasil, Resumo Latino-americano, Portal the Dawn news www.thedawn-news.org, Rádio e Diário Eletrónico da Universidade do Chile , El Ciudadano www.elciudadno.cl. Fundador do sítio web www.politicaycultura.cl. e www.analisisglocal.cl. Atualmente, está a concluir o seu livro sobre a luta do povo saharaui e o seu processo de autodeterminação e outro sobre a luta do povo palestino.

Fonte: https://www.telesurtv.net/bloggers/la-declaracion-balfour-pablo-jofre-20181106-0003.html, publicado em 2018/11/06, acedido em 2020/01/28

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-declaracao-balfour-87258

GERVÁSIO DA COSTA | A MORTE AOS 34 ANOS OU A RESISTÊNCIA OPERÁRIA EM FAFE

* GERVÁSIO DA COSTA *
[02/03/1917 - 17/05/1951]
 
Operário, Gervásio da Costa integrou, em 1936, o primeiro grupo de presos políticos de Fafe. Militante do Partido Comunista, tal como muitos outros operários da Companhia de Fiação de Tecidos de Fafe, mais conhecida pela "Fábrica do Ferro", terá integrado o MUD Juvenil e sido preso em Dezembro de 1948. Na sequência das torturas sofridas e das condições prisionais, tuberculizou, sendo libertado para vir a falecer num sanatório, em Maio de 1951. Aos 34 anos!
 
[Gervásio da Costa || 14/12/1948 || ANTT || RGP/18681 || PT-TT-PIDE-E-010-94-18681]
 
Filho de Júlia Fernandes e de José da Costa, Gervásio da Costa nasceu em 2 de Março de 1917, em Fafe. 
Quando tinha 19 anos, integrou, em 17 de Outubro de 1936, o grupo de 36 oposicionistas de Fafe presos pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, juntamente com Egídio Gonçalves, Joaquim Pereira Castro e Joaquim Lemos de Oliveira. Este último haveria de morrer assassinado na Subdirectoria da Pide no Porto, em 14 de Fevereiro de 1957.
 
[Gervásio da Costa quando jovem || in Artur Ferreira Coimbra, Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Junta de Freguesia de Fafe, 2003]
 
Enquanto operário tecelão na Companhia de Fiação de Tecidos de Fafe, mais conhecida pela "Fábrica do Ferro", terá participado na luta e manifestação pelo pão, ocorridas em Fevereiro de 1946. 
Nesse mesmo ano, envolveu-se no MUD Juvenil e manteve colaboração na Biblioteca clandestina então criada e onde se podiam ler ou requisitar livros de autores, portugueses e estrangeiros, que ajudavam a despertar a consciência social ou política: Aquilino Ribeiro, Eça de Queirós, Emile Zola, Ferreira de Castro, Karl Marx, Soeiro Pereira Gomes e Victor Hugo, por exemplo. Esta biblioteca tinha a particularidade de funcionar em várias casas, para não ser facilmente detectada, concentrando-se o serviço na de Ricardo Ferreira da Silva, também ele vítima das torturas da PIDE [Artur Ferreira Coimbra, Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Junta de Freguesia de Fafe, 2003].
 
[in Artur Ferreira Coimbra, Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Junta de Freguesia de Fafe, 2003]
 
Em 1947, Gervásio da Costa integrava, com Carlos Costa e o barbeiro Joaquim Oliveira de Lemos, o Comité Local de Fafe do Partido Comunista.
Em 13 de Fevereiro de 1948, foi preso em Fafe, «por actividades subversivas», e levado para a Subdirectoria do Porto da PIDE, onde foi barbaramente torturado. Devido às condições em que se encontrava, foi encaminhado para Hospital de Santo António em 21 de Março de 1949 e teve alta em 26, regressando à sede da PIDE no Porto.
 
[Gervásio da Costa || 14/12/1948 || ANTT || RGP/18681 || PT-TT-PIDE-E-010-94-18681]
 
Saiu em liberdade condicional em 6 de Abril de 1949, para falecer «num sanatório em Lisboa, sem nenhumas condições, devido à tortura infligida nas prisões da PIDE» [Artur Ferreira Coimbra]. Segundo Carlos Costa, «morreu de pancada e de tuberculose, tendo tido uma hemorragia frente àquele» [Artur Ferreira Coimbra].
Casado, tinha apenas 34 anos!

[Amanhã || Junho de 1951]
 
O Boletim da Comissão Distrital de Lisboa do MUD Juvenil, Amanhã, destacou no seu número de Junho de 1951 a morte de Gervásio da Costa em consequência do que sofreu na prisão.
Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos 18681 [Gervásio da Costa / PT-TT-PIDE-E-010-94-18681].
Artur Ferreira Coimbra, Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Junta de Freguesia de Fafe, 2003.
[João Esteves]

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2020/02/2291-gervasio-da-costa-i-morte-aos-34.html

Morreu o Kirk Douglas

Morreu o Kirk Douglas, camarada, companheiro e amigo de milhões espalhados pelo Mundo. Ele dava-nos a sua qualidade e convicção de Actor aliada a uma postura cívica.

 

Recordo que para o seu Spartacus (protagonista e produtor), impôs ao Kubrick o guionista Dalton Trumbo – um dos 10 de Hollywood perseguidos pelo McCarthismo que escrevia com pseudónimos… ironicamente, mesmo clandestino, ganhou um Oscar que não pôde levantar….

E também recordo a violência com que, já com 90 anos, atacou a tentativa de reabilitação de Elia Kazan que tinha traído miseravelmente os colegas. Porquê essa violência? não tinha sido uma traição sob tortura de sono ou espancamento… foi uma traição requintada… Kazan publicou um anuncio em que confessava o seu arrependimento e publicava vários nomes de anti-fascistas… Coisa de Artista…

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/morreu-o-kirk-douglas/

O operário que matou um presidente dos EUA e recebeu a pena de morte

Antes de ser eletrocutado, Czolgosz declarou: “Eu matei o presidente porque ele era um inimigo do povo bom – do povo trabalhador”.

 

 

O Serviço Secreto dos Estados Unidos foi fundado no ano de 1865. Sua missão principal era combater o crime de falsificação, em uma época em que – estima-se – 1/3 do dinheiro em circulação no país era falso. Em 1901, no entanto, a missão da instituição seria radicalmente alterada.

Na presidência, William McKinley, do Partido Republicano, havia acabado de garantir seu segundo mandato, nas eleições de 1900. McKinley era um continuador do expansionismo norte-americano, tendo levado o país a intervir em Cuba em 1898. A Guerra Hispano-Americana durou dez semanas e garantiu aos Estados Unidos o domínio sobre a ilha considerada como “fronteira natural” do país desde o começo do século 19.

Foi também sob seu governo que os Estados Unidos tomaram Porto Rico, Filipinas, Guam e as Ilhas Virgens do controle espanhol, além de anexarem o Havaí e a Samoa Americana. O país também havia feito parte de uma aliança de oito nações que combateu a Revolta dos Boxers na China. De acordo com Moniz Bandeira, foi em 1898 que “os Estados Unidos, sob a presidência de William McKinley (1897-1901), assumiram a condição de país imperialista”.

McKinley havia sido eleito na esteira do “Pânico de 1893”, um período de forte depressão econômica nos Estados Unidos que durou até 1897. Para enfrentá-lo, adotou uma estratégia protecionista, levantando barreiras tarifárias para proteger a economia norte-americana.

Mas a classe operária não estava satisfeita. Na tarde do dia 6 de setembro desse ano, o presidente subiu as escadas do “Temple of Music” (Templo da Música), na cidade de Buffalo, onde desde maio ocorria a Exposição Pan-Americana. O secretário pessoal do presidente, George Cortelyou, estava preocupado. Um ano antes, o Rei Umberto I, da Itália, havia sido assassinado pelo anarquista Gaetano Bresci. Cortelyou, com medo de que algo do tipo ocorresse, havia tentado por duas vezes cancelar o discurso público do presidente, que insistiu em fazê-lo. Cortelyou estava certo.

Por volta das 16h07, o operário anarquista Leon Czolgosz se aproximou do presidente, com um revólver escondido debaixo de um lenço branco, e atirou duas vezes contra seu abdômen.

O operário esquecido

Leon Czolgosz, o operário anarquista condenado à morte depois de assassinar o presidente William McKinley

 

Czolgosz nasceu no estado de Michigan em 1873. Filho de pai polonês e mãe alemã, teve de trabalhar desde cedo. Trabalhou por alguns anos em uma fábrica de arame em Cleveland e, em 1893, participou das greves em sua fábrica, após os salários serem reduzidos. Demitido e tendo seu nome posto numa lista negra, Czolgosz posteriormente conseguiu trabalho usando o nome “Fred Nieman” (do alemão “Niemand”; “ninguém”).

De família católica, o operário fez parte do grupo de ajuda mútua Knights of the Golden Eagle. Tornou-se cada vez mais interessado pelo anarquismo, tendo encontrado a famosa teórica anarquista Emma Goldman em 12 de julho de 1901 (após ser perseguida, Goldman escreveria um artigo em homenagem a Czolgosz). Mas as atitudes de Leon fizeram com que os editores do jornal Free Society suspeitassem do operário. No dia 1 de setembro daquele ano, um aviso no jornal aconselhava cuidado com o “espião”.

 

A morte e a morte

Após seu encontro com Czolgosz, o presidente McKinley foi imediatamente levado ao hospital. Seu estado de saúde estava estabilizado – até que, sete dias após o atentado, sua saúde deteriorou. No dia 14, McKinley morreu. Czolgosz foi a julgamento no dia seguinte, confessando o crime e sendo sentenciado à morte. No dia 29 de outubro, foi eletrocutado. Suas últimas palavras foram: “Eu matei o presidente porque ele era um inimigo do povo bom – do povo trabalhador”.

O corpo do operário foi coberto de ácido sulfúrico. O do presidente viajou o país a trem, com centenas de soldados marchando em sua homenagem. Sobre a cadeira presidencial sentou-se Theodore Roosevelt. Na elétrica, o próximo “ninguém”.


Texto original em português do Brasil

Fonte: Revista Opera

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/czolgosz-o-operario-que-matou-um-presidente-dos-eua-e-recebeu-a-pena-de-morte/

Leon Czolgosz: O operário que matou um presidente norte-americano

O Serviço Secreto dos Estados Unidos foi fundado no ano de 1865. Sua missão principal era combater o crime de falsificação, em uma época em que se estima que 1/3 do dinheiro em circulação no país era falso. Em 1901, no entanto, a missão da instituição seria radicalmente alterada.

Na presidência, William McKinley, do Partido Republicano, havia acabado de garantir seu segundo mandato, nas eleições de 1900. McKinley era um continuador do expansionismo norte-americano, tendo levado o país a intervir em Cuba em 1898. A Guerra Hispano-Americana durou dez semanas, e garantiu aos Estados Unidos o domínio sobre a ilha considerada como “fronteira natural” do país desde o começo do século 19. Foi também sob seu governo que os Estados Unidos tomaram Porto Rico, Filipinas, Guam e as Ilhas Virgens do controle espanhol, além de anexarem o Havaí e a Samoa Americana. O país também havia feito parte de uma aliança de oito nações que combateu a Revolta dos Boxers na China. De acordo com Moniz Bandeira, foi em 1898 que “os Estados Unidos, sob a presidência de William McKinley (1897-1901), assumiram a condição de país imperialista.”

McKinley havia sido eleito na esteira do “Pânico de 1893”, um período de forte depressão econômica nos Estados Unidos que durou até 1897. Para enfrentá-lo, adotou uma estratégia protecionista, levantando barreiras tarifárias para proteger a economia norte-americana.

McKinley subindo as escadarias do Temple of Music pouco antes de ser morto.

Mas a classe operária não estava satisfeita. Na tarde do dia 6 de setembro desse ano, o presidente subiu as escadas do “Temple of Music” (Templo da Música), na cidade de Buffalo, onde desde maio ocorria a Exposição Pan-Americana. O secretário pessoal do presidente, George Cortelyou, estava preocupado. Um ano antes, o Rei Umberto I da Itália havia sido assassinado pelo anarquista Gaetano Bresci. Cortelyou, com medo de que algo do tipo ocorresse, havia tentado por duas vezes cancelar o discurso público do presidente, que insistiu em fazê-lo. Cortelyou estava certo.

Leon Czolgosz, o operário esquecido

Por volta das 16:07, o operário anarquista Leon Czolgosz se aproximou do presidente, com um revólver escondido debaixo de um lenço branco, e atirou duas vezes contra seu abdômen.

Czolgosz nasceu no estado de Michigan em 1873. Filho de pai polonês e mãe alemã, teve de trabalhar desde cedo. Trabalhou por alguns anos em uma fábrica de arame em Cleveland e, em 1893, participou das greves em sua fábrica, após os salários serem reduzidos. Demitido e tendo seu nome posto numa lista negra, Czolgosz posteriormente conseguiu trabalho usando o nome “Fred Nieman” (do alemão “Niemand”; “ninguém”).

De família católica, o operário fez parte do grupo de ajuda mútua Knights of the Golden Eagle. Se tornou cada vez mais interessado pelo anarquismo, tendo encontrado a famosa teórica anarquista Emma Goldman em 12 de julho de 1901 (após ser perseguida, Goldman escreveria um artigo em homenagem a Czolgosz). Mas as atitudes de Leon fizeram com que os editores do jornal Free Society suspeitassem do operário. No dia 1 de setembro daquele ano, um aviso no jornal aconselhava cuidado com o “espião”.

A morte e a morte

Após seu encontro com Czolgosz, o presidente McKinley foi imediatamente levado ao hospital. Seu estado de saúde estava estabilizado, até que sete dias após o atentado sua saúde deteriorou. No dia 14, McKinley morreu. Czolgosz foi a julgamento no dia seguinte, confessando o crime, e sendo sentenciado à morte. No dia 29 de outubro, foi eletrocutado. Suas últimas palavras foram: “Eu matei o presidente porque ele era um inimigo do povo bom – do povo trabalhador.”

Ilustração sobre foto de Leon Czolgosz preso. (Frank Leslie’s weekly, 1901)

O corpo do operário foi coberto de ácido sulfúrico. O do presidente viajou o país a trem, com centenas de soldados marchando em sua homenagem. Sobre a cadeira presidencial sentou-se Theodore Roosevelt. Na elétrica, o próximo “ninguém”.

 

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Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

URAP organiza viagem da resistência à Andaluzia

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A URAP promove mais uma viagem da resistência.  Este ano o destino é a Andaluzia e visa assinalar os 81 anos da Guerra Civil de Espanha.
A viagem terá lugar entre os dias 18 e 22 de Março de 2020.

 

Com partida a partir de Lisboa, o programa inclui visitas a Badajoz (onde haverá um encontro com a Associaçāo de Republicanos), Córdova, Fuente Vaqueros (com visita guiada à Casa Museu Frederico GarciaLorca), Granada, Serra Nevada, Málaga (com visita ao Museu Pablo Picasso na sua terra natal), Sevilha e Villa Nueva del Fresno (local onde foi encontrado o corpo do General Humberto Delgado)

 

Para mais informaçőes e inscriçőes contactar: Adelaide Sacramento (930679585) e Cėsar Roussado (912699609)

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses http://bit.ly/2UrbEb0

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/02/04/urap-organiza-viagem-da-resistencia-a-andaluzia/

A doce e indobrável Maria Prestes

Maria do Carmo Ribeiro Prestes é assim – uma revolucionária doce, ampla, sem preconceitos mas com a firmeza e convicção adquiridas em mais de oito décadas de luta  pela democracia e o socialismo.

 

 

Quando a camarada Ana Prestes (que é neta de Luiz Carlos Prestes) decidiu se filiar ao PCdoB, no início dos anos 2000, conversou com sua avó. Afinal, o PCdoB era o outro Partido Comunista no Brasil, e concorria com aquele que gravitou desde 1961 em torno de seu avô, e Ana Prestes queria saber a opinião de sua “abuela”, viúva do “Cavaleiro da Esperança”.  O partido é de luta, está ao lado do povo, quis saber D. Maria. Então vá, disse, encorajando a neta.

Maria do Carmo Ribeiro Prestes é assim – uma revolucionária doce, ampla, sem preconceitos mas com a firmeza e convicção adquiridas em mais de oito décadas de luta  pela democracia e o socialismo.

Pernanbucana de Pesqueira, nem tinha completado os dez anos de idade e já acompanhava o pai em atividades do partido, distribuindo panfletos em porta de fábrica, lutando pela liberdade de presos políticos e outras atividades, sobretudo aquela que, na época, era central – a luta contra o nazismo e o fascismo.

Depois que o Partido foi posto na ilegalidade, em 1947, mudou para São Paulo, em companhia dos pais, João Rodrigues Sobral, o “Camarada Lima”, e Mariana Ribas Pontes, ambos militantes do Partido Comunista do Brasil, cuja sigla à época era PCB. Continuou a ajudá-los nas atividades de reorganização do Partido, sendo uma militante de grande confiança da direção partidária que, naquela ocasião recebeu a tarefa de ser a caseira de um dirigente que estava na clandestinidade – responsável, entre outras coisas, por sua segurança.

O dirigente era Luiz Carlos Prestes, e Maria fala com bom humor da surpresa que teve ao conhecê-lo. Imaginava um homem alto e forte, mas – conta – era pequeno, magrinho. “Fiquei decepcionada”, diz, rindo. Mas logo se apaixonaram e, em 1952 se casaram. “Foi ao lado dele que vivi 40 anos, inicialmente na clandestinidade, em São Paulo, depois em várias cidades do país e até no exterior”, como em Moscou, conta.

Luiz Carlos Prestes e sua companheira Maria (à esquerda com criança no colo) junto com filhas e filhos

É mãe de sete dos oito filhos de Luiz Carlos Prestes. A mãe da mais velha, Anita Leocádi, é outra mulher lendária, Olga Benário Prestes.

Teve uma vida difícil e feliz, como relata em “Meu Companheiro – 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes”. Foi uma vida marcada por perseguições, clandestinidade e exílio – mas nunca perdeu nem o bom humor nem a confiança no socialismo e na luta do povo.

 

Essa doce e bem humorada revolucionária completa 90 anos de idade neste domingo 2 de fevereiro. Maria Prestes continuará o exemplo de lutadora firme e indobrável  para gerações de brasileiros. Longa vida, Maria Prestes!


Texto em português do Brasil


 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-doce-e-indobravel-maria-prestes/

Denunciantes

[Os denunciantes parecem estar na moda, e até há quem pretenda recompensar a delação. Eu, que abomino uma coisa e outra, facto a que não será alheio o ter conhecido bufos e bufaria na luta política antes do 25 de Abril, protesto à minha maneira, com a minha linguagem, que é a da ficção.]

 

 

Manhã de segunda-feira, a arrumar a mala para a escola.

Mãe, a minha bata?

Ainda está molhada, sempre a chover, não enxugou, não a levas.

A professora bate-me!

Bate-te lá agora! Quando entrares, vais-lhe logo dizer que eu não ta mandei porque ainda está ensopada, com este tempo não enxugou.

Bom, que remédio! Pelo caminho, encontro colega, mais velho.

E ele: Tenho de voltar a casa, esqueci-me da bata!

Sempre fui fala-barato. Do género que fala sem pensar: Ora, não precisas, quando a professora te perguntar por ela dás uma desculpa qualquer!

Mas ele voltou atrás. Afinal, estava a meia dúzia de passos de casa.

Entramos. José Cipriano, a tua bata?

Minha senhora…, e repeti a desculpa encomendada pela minha mãe.

A professora, compreensiva, ia passar a outro menino quando o meu vizinho se levanta e fala acusador:

Minha senhora, eu voltei a casa para buscar a minha bata, e ele disse-me que não valia a pena, para dar uma desculpa qualquer à senhora professora quando me perguntasse por ela!

O olhar da jovem professora endureceu, o rosto crispou-se. Levantou-se, furiosa, já com a régua em riste: O quê? Vem já aqui!

A tremer, lavado em lágrimas, tentava inutilmente convencê-la de que tinha dito a verdade. A pesada régua bate impiedosa, dor lancinante, dor sofrida também por antecipação enquanto a próxima reguada não martiriza a minha mãozinha enfezada, que por entre gritos e contorções procura, em vão, fugir ao castigo!

Agora a outra mão, para se não ficar a rir desta!

Quem ria era o feliz denunciante, pelo meu sofrimento, pela sua colaboração no exercício da justiça sobre o sabichão preferido da professora.

Então como agora, a justiça era cega, e exercida com imparcialidade — sobre os pobres.

Os meninos abastados, “ricos”, como o meu delator, nunca apanhavam mesmo se  burros que nem portas!


 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/denunciantes/

A pagela n.º 71

Por -
 pagela 71 pg 1 e 4
 

Em 22 de junho de 1956 os bispos portugueses, reunidos em Fátima, 39 anos depois do maior embuste encenado em Portugal contra a República, já a acomodarem os segredos contra o comunismo, e ainda longe, após a implosão da URSS, de os afinarem contra o ateísmo, publicaram a pagela n.º 56.

Aquela cáfila paramentada, com recalcamentos sexuais e uma misoginia fertilizada nas ‘manhãs submersas’ de que falava Vergílio Ferreira, depois de despachado o breviário, reuniram-se para refletir e mandar divulgar pelos padres das paróquias a sã doutrina da Igreja católica e os bons costumes que a moral de empedernidos celibatários exigia.

Tal como haviam feito os homólogos espanhóis, os bispos publicaram códigos morais, sobretudo para mulheres, no que respeitava à cobertura do corpo, essa fonte de pecado que Eva deixara em herança, a todas as mulheres, depois de comer a maçã.

Em 1953 já este escriba fora fustigado com 4 sacramentos e acabaria por dispensar os serviços pios desse exército de funcionários de Deus que exigiam à mulher o pudor que, sob a mitra, tais cabeças dariam à estampa quatro anos depois.

A pagela n.º 71, de 22 de agosto de 1957, que me foi oferecida, é a relíquia pia que sinto obrigação de divulgar.

Já imaginaram a leitura, em todas as igrejas, por um exército de tonsurados, a exibirem os paramentos, enquanto ameaçavam as mulheres com as penas do Inferno cuja pintura das cores e imaginação dos horrores lhes cabia?

 O cardeal Cerejeira, defensor da guerra colonial que designou por «defesa da civilização cristã e ocidental», há de ter presidido ao conclave que o recalcamento da líbido levou a tão pudicos e cristãos ensinamentos.

 O bando de devassos, que só pensava em sexo, foi o sustentáculo da ditadura que moldou a Igreja para perpetuar o regime e o sofrimento inútil da mulher.

 

Maldita misoginia clerical!

 Pagela nº 71 pg 2 e 3

 

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/02/a-pagela-n-71.html

01 de fevereiro de 1908

Há 112 anos foi assassinado a tiro e com uma estocada pelas costas pela polícia em Lisboa, Manuel dos Reis da Silva Buíça, carbonário da choça Segredo, enterrado a 11/2 no Cemitério do Alto de S. João.

Honrado republicano, aqui fica a homenagem e a referência ao enterro civil.

Sem ele, sem a sua coragem, teriam sido deportados muitos portugueses e outros teriam morrido. Executou uma sentença que hoje nos repugna, mas que exigiu alto sentido patriótico e exemplar espírito republicano.

Manuel Buíça e Alfredo Costa imolaram-se no altar da Pátria para nos legarem a República.

 

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/02/01-01-1908.html

Patrice Lumumba: Assassinado por defender a liberdade do Congo

Em novembro de 2001, o parlamento da Bélgica reconheceu a responsabilidade do seu Estado pelo assassinato [1] de Lumumba e os EUA também confessaram a sua implicação nos factos.

 

 

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O herói nacional da República Democrática do Congo foi cobardemente assassinado por desenvolver uma

luta política e ideológica contra o jugo colonial e o imperialismo norte-americano. Foto: diario-octubre.com

 

Há 59 anos, as terras da África recolheram o sangue do líder congolês Patrício Lumumba, um dos mais fervorosos combatentes contra a colonização do Congo e primeiro chefe de governo do seu país depois de conquistar a independência da Bélgica.

O seu assassinato teve tudo a ver com o seu confronto com os poderes ocidentais que, durante anos, se apoderaram dos recursos naturais do Congo e mergulharam a sua população na pobreza extrema e na desigualdade.

Nenhuma brutalidade, abuso ou tortura me vergaram porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inabalável e uma profunda confiança no futuro do meu país, a viver subjugado e espezinhando princípios sagrados”, escreveu Lumumba à esposa e aos filhos dias antes da sua morte.

Em 1958, o herói africano fundou o Movimento Nacional Congolês, defensor da criação de um Estado independente e laico, cujas estruturas políticas unitárias ajudaram a intensificar o sentimento nacional, o que o tornou Primeiro Ministro nas primeiras eleições livres, em 1960.

No entanto, a saída dos belgas do território causou mais instabilidade no território, pois se gerou um conflito político com pronunciamentos militares, ataques à população branca e distúrbios generalizados.

Além disso, a região de mineração do Katanga declarou-se independente sob a liderança de Tschombé, uma situação lucrativa para a sua antiga metrópole que tinha interesses na empresa mineira que também explorava as jazidas, pelo que igualmente empregou efetivos militares.

A liberdade traída

Embora Lumumba tenha reivindicado perante a Organização das Nações Unidas (ONU) os direitos de soberania e inviolabilidade do seu território e exigido a expulsão imediata das tropas belgas, a sua voz não foi ouvida, pelo que, para salvar a situação, procurou aliados na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

No contexto da Guerra Fria, essa ação envolveu um confronto direto com os Estados Unidos (EUA), que ativaram os seus efetivos da Agência Central de Inteligência (CIA) para eliminá-lo do panorama africano.

Ao mesmo tempo, deve-se notar que, nas condições da independência do Congo, a Bélgica deixou um país endividado e retirou todas os seus efetivos nos setores da saúde, da educação e da administração, entre outros, sem dar tempo à sua substituição. Esse abandono conspirou contra Lumumba e ele foi traído.

Primeiro, um golpe de Estado, em setembro de 1960, derrubou-o com todo o seu gabinete e, uma segunda facada nas costas do militar Joseph-Désiré Mobutu, que seguia as instruções das agências de inteligência americanas e belgas, causou a sua prisão e sequestro.

Embora existam versões diferentes do seu assassinato, que levou à instauração de uma ditadura de mais de três décadas, a verdade é que o agora Herói Nacional da República Democrática do Congo foi cobardemente assassinado por impulsionar uma luta política e ideológica contra os jugos coloniais e o imperialismo americano.

Em novembro de 2001, o parlamento da Bélgica reconheceu a responsabilidade do seu Estado pelo assassinato de Lumumba e os EUA também confessaram a sua implicação nos factos.

 

Notas

[1] Patrício Lumumba foi assassinado em 17 de janeiro de 1961. – NT

Fonte: https://www.telesurtv.net/news/asesinato-patricio-lumumba-congo-20200116-0032.html?utm_source=planisys&utm_medium=NewsletterEspa%C3%B1ol&utm_campaign=NewsletterEspa%C3%B1ol&utm_content=13, publicado e acedido em 2020/01/17

Tradução do castelhano de TAM

 

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/patrice-lumumba-assassinado-por-86488

No centenário do nascimento de José Moreira*

Manter viva a memória da repressão fascista em Portugal implica necessariamente evocar as figuras de resistentes que a enfrentaram e dela foram vítimas. O comunista José Moreira, responsável por tipografias clandestinas onde era impresso o “Avante!”, foi preso e torturado até à morte. Poderia talvez dizer-se: “morreu como um herói”, mas isso não seria suficiente. Um herói, sim, mas vivo na luta dos que não esquecem o seu exemplo.


 

Em Janeiro de 1950, uma brigada da PIDE assaltava uma casa clandestina do PCP, em Vila do Paço, no concelho de Torres Novas e prendia o funcionário do Partido que a ocupava. O assalto decorria de uma denúncia, pelo que a polícia sabia, não apenas que se tratava de uma casa clandestina, mas também que nela vivia o responsável principal pelas tipografias do Partido: José Moreira.
Era a grande oportunidade que se oferecia à PIDE – pelo menos esta assim o julgava… – para, finalmente, cumprir o sonho, que perseguia desde há vários anos, de desmantelar a rede de tipografias clandestinas do PCP.
Tanto mais que, nos últimos cinco anos, ou seja, desde que José Moreira assumira aquela responsabilidade, nenhuma tipografia fora localizada e assaltada pela polícia fascista.
E o Avante! passara a sair regularmente, fazendo chegar aos trabalhadores e ao povo as orientações, análises e objectivos do Partido, desempenhando o seu papel de agitador, propagandista e organizador colectivo.
Criado em 1931, na sequência da Conferência de Abril de 1929, o Avante! sofrera pesados golpes nos seus primeiros dez anos de vida. Por efeito quer da forte repressão fascista quer da insuficiente preparação do Partido para fazer frente a essa ofensiva, a publicação do Avante! fora interrompida por cinco vezes nessa década. Ainda assim, o órgão central do Partido foi publicado regularmente durante todos os meses do ano de 1935 e saiu semanalmente entre 1936 e 1938, chegando a atingir tiragens de 10 mil exemplares – proeza notável, conhecida que era a força da ofensiva fascista nessa sombria década de 30.
Era o tempo em que Salazar, no quadro de grandes avanços do nazi-fascismo na Europa, levava por diante o processo de fascização do Estado, tomando como modelos, primeiro a Itália de Mussolini e, depois, a Alemanha de Hitler. Assim, à criação, em 1930, do partido único fascista, a União Nacional, à imposição de uma censura férrea (e à imposição aos funcionários públicos da aceitação dos princípios da ditadura fascista, da rejeição dos ideais comunistas e de dever de denunciar todos os que professassem doutrinas subversivas), segue-se a proclamação da Constituição fascista; a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional (copiado da Carta del Lavoro, de Mussolini), que ilegaliza os sindicatos livres e impõe os sindicatos fascistas; a criação da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, mais tarde PIDE, mais tarde DGS); a criação do Secretariado da Propaganda Nacional; a criação do Tribunal Militar Especial; a criação do Conselho Corporativo e a definição do regime jurídico dos Organismos de Coordenação Económica; a criação da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) e da Mocidade Portuguesa – inspiradas em organizações congéneres criadas por Mussolini e Hitler; a criação do Campo de Concentração do Tarrafal (também seguindo modelos da Itália fascista e da Alemanha nazi); a criação da Legião Portuguesa…
Estava, assim, criada a poderosa máquina de exploração, opressão, repressão e propaganda do fascismo, uma máquina que, em matéria persecutória e repressiva, tinha o PCP como alvo principal e prioritário; uma máquina que vibrou fortes e profundos golpes no Partido, o qual, no final dessa década, vivia momentos particularmente difíceis.
É com o processo da histórica reorganização de 1940/41 e da construção dos igualmente históricos III e IV congressos, respectivamente em 1943 e 1946 – processo levado a cabo por um notável conjunto de quadros, dos quais emerge como figura mais destacada o camarada Álvaro Cunhal – que o Partido cria as condições necessárias para enfrentar o aparelho repressivo fascista, ao mesmo tempo que se afirma como um grande partido nacional, marxista-leninista, vanguarda revolucionária da classe operária e das massas, força determinante da resistência e da unidade antifascistas.
Entre as medidas tomadas estão as que se relacionam com a criação de condições para a saída regular da imprensa partidária, objectivo que viria a ser plenamente alcançado: de Agosto de 1941 até ao 25 de Abril de 1974, o Avante! foi publicado sem interrupções, sempre composto e impresso no interior do País, afirmando-se como o jornal que, à escala internacional, durante mais tempo resistiu com êxito à clandestinidade.
Morrer pelo Partido
À altura da prisão de José Moreira, incomodava os esbirros da PIDE o facto de o órgão central do PCP ter sido publicado, sem interrupções, desde a reorganização de 40/41 e de, entre 1945 e 1949 não terem conseguido localizar e assaltar uma única tipografia.
Julgavam, assim, que com a prisão de José Moreira iriam vibrar um golpe fatal na rede de tipografias clandestinas do Partido. Bastaria para isso que o preso falasse, que lhes fornecesse as moradas, que conhecia, das várias tipografias existentes.
Tal não aconteceu: submetido aos interrogatórios pidescos – interrogatórios ininterruptos, intensivos e brutais, já que a PIDE queria obter de imediato as moradas das tipografias de modo a evitar que o Partido tivesse tempo de as mudar – José Moreira recusou-se a falar, a trair os seus camaradas e o seu Partido. Entre morrer ou trair, optou por morrer. A PIDE não lhe arrancou uma única morada, uma única informação. E torturou-o até à morte – que ocorreu no dia 23 de Janeiro de 1950.
Com o intuito de esconder o crime, a polícia fascista procedeu à usual encenação do «suicídio», atirando o corpo do militante comunista de uma janela do 3.º andar da António Maria Cardoso. Tinha 37 anos de idade e era funcionário do Partido há cerca de cinco anos. Pouco tempo antes da sua prisão e do seu assassinato, escrevera: «Uma tipografia clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver».
E em Agosto desse ano, pode ler-se no órgão central do PCP: «A melhor homenagem que lhe podemos prestar é levar o Avante!, o seu Avante!, a todos os recantos do país.»
Recorde-se que, cerca de um ano antes, o fascismo rejubilara com a prisão, nos primeiros meses de 1949, de mais de uma dezena de dirigentes e quadros do Partido, entre eles Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira. E que, por essa altura, o governo fascista de Salazar era admitido como membro fundador da NATO, com o apoio do governo dos EUA, que constituía o principal suporte do regime fascista português a nível internacional – suporte que se manteve até ao dia 24 de Abril de 1974.
Registe-se, ainda, que dias antes do assassinato de José Moreira, em 2 de Janeiro, morrera Militão Ribeiro, na Penitenciária de Lisboa, vítima de um crime cruel e perverso.

Coragem sem limites

José Moreira nasceu há cem anos, em Vieira de Leiria. Quase criança, foi trabalhar para a Marinha Grande, como operário vidreiro. É ali, no contacto directo com a exploração em duras condições de trabalho, que vai formando a sua consciência de classe. É ali, num ambiente de forte tradição revolucionária e de luta do operariado local, que adquire a consciência política que cedo o levará a aderir ao PCP.
Em 1945, logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial, passa à clandestinidade e, enquanto funcionário do Partido, é-lhe confiada a dura, difícil e importantíssima tarefa de responsável pelo aparelho de imprensa – tarefa que exigia uma dedicação extrema, um alto sentido de responsabilidade e de disciplina, uma grande capacidade criativa e, acima de tudo, uma coragem sem limites. Tudo características que José Moreira possuía e às quais aliava um elevado espírito de sacrifício, uma entrega total ao Partido e à luta, uma rígida observância dos cuidados conspirativos – bem como uma impressionante sensibilidade humana, visível no seu trato fraterno e solidário com os que o rodeavam e no estímulo e no apoio que dava aos quadros que, em total isolamento, trabalhavam nas tipografias.
Para se perceber a importância e a complexidade da tarefa de José Moreira, basta ter em conta, por exemplo, as dificuldades para fazer chegar o Avante! às mãos dos militantes comunistas e das massas trabalhadoras e populares. As dificuldades começavam com a aquisição do papel bíblia utilizado na generalidade das publicações do Partido, já que a PIDE obrigava as papelarias a registar o nome de todos os compradores desse tipo de papel e as quantidades adquiridas. Superada, com imaginação, essa dificuldade, tratava-se, depois, de distribuir o papel e as tintas pelas várias tipografias, operação perigosa e arriscada a exigir cuidados extremos. A seguir, era necessário ir buscar os textos elaborados pela Direcção do Partido e entregá-los, para impressão, nas tipografias – o que implicava uma série de encontros e contactos. Depois de impressos, havia que distribuir os documentos – o Avante!, entre eles, com lugar de destaque – pelas organizações partidárias, que os fariam chegar aos trabalhadores e ao povo. Tudo isto colocava enormes exigências: os cuidados a ter nos múltiplos encontros e deslocações que se impunham e o enorme esforço a que tal tarefa obrigava, sabendo-se que, por razões de segurança, os encontros e as entregas do Avante! e dos outros materiais impressos, eram feitos em locais «neutros», isto é, distantes quer das tipografias quer das zonas a que se destinavam. Para cumprir todas estas tarefas, José Moreira deslocava-se de bicicleta, chegando a percorrer 2500 quilómetros por mês, muitas vezes transportando pesadas, pesadíssimas cargas.
Assim lutavam os comunistas pela liberdade de informação: exercendo-a – para isso, afrontando as perseguições e a repressão fascistas, dando as suas vidas se necessário fosse.
E muitas vezes isso foi necessário ao longo do quase meio século de luta heróica – das perseguições, das prisões, das torturas a que eram submetidos pelo regime fascista.

Falsificadores da história

Estado Novo foi a designação adoptada por Salazar para mascarar o regime fascista que, durante quase meio século, explorou, oprimiu e reprimiu o povo português.
O ditador garantia que não havia presos políticos em Portugal – havia, dizia ele, uns quantos delinquentes sociais – e jurava que a PIDE não torturava nem matava, que isso eram invenções dos comunistas para denegrir o regime. Mais tarde, o seu sucessor, Marcelo Caetano, afinaria pelo mesmo diapasão: os comunistas chamam torturas a simples interrogatórios de duas ou três horas…
Hoje, os historiadores do sistema garantem que em Portugal não existiu fascismo – quando referem o regime fascista chamam-lhe «Estado Novo» ou «antigo regime» – asseguram que Salazar não era fascista, ou que era, até, um grande democrata e juram a pés juntos que a PIDE prendeu pouco e matou pouco…
Naturalmente, também no que respeita ao PCP a historiografia dominante faz o seu caminho de mentiras, deturpações, calúnias, silenciamentos, procurando apagar o papel singular desempenhado pelos comunistas na resistência ao fascismo, na luta pela liberdade e a democracia, e os seus esforços constantes visando a construção da unidade antifascista e o derrubamento do regime.
Assim, não surpreende que, em milhares de páginas dedicadas por esses falsificadores da história ao «Estado Novo» e ao PCP, o nome de José Moreira seja, em regra, ignorado.
As estórias que escrevem render-lhes-ão, certamente, volumosos proventos.
Mas a história não os absolverá.

 

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

A democracia abraça o passado?

Encerrado em Abril de 1974 o ciclo do Estado Novo a democracia que lhe sucedeu foi sendo construída com o possível distanciamento em relação ao passado, embora em muitas áreas se verificasse uma efectiva continuidade.

 

Encerrado em Abril de 1974 o ciclo do Estado Novo a democracia que lhe sucedeu foi sendo construída com o possível distanciamento em relação ao passado, embora em muitas áreas se verificasse uma efectiva continuidade, tais como – já o referi aqui no Jornal Tornado, a da Reforma Administrativa em que o discurso inicial foi o de que se iria dar continuidade às ideias que vinham a fazer o seu caminho – ultrapassando a alegada falta de vontade política de Marcelo Caetano. A ideia de que pudesse haver várias alternativas em termos de Reforma Administrativa não entrou no espírito dos reformadores. Até hoje… Quanto à Educação, Veiga Simão quis continuar como Ministro, e quase o conseguiu.

Desde aí, e particularmente nos anos mais recentes, vêm-se registando, no plano académico, no plano político, ou no plano corporativo-profissional, iniciativas que marcam um desejo de integrar o passado com o presente, embora não necessariamente de o reabilitar. A própria eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, que de alguma forma estabelece pontes entre o Estado Novo e a Democracia, e a forma como tem gerido a sua presidência, propicia esse tipo de tentativas, bem sucedidas ou pelo menos inócuas umas, mas que por vezes assentam em equívocos, ou os propiciam.

A importância do Serviço Nacional de Saúde e os problemas que enfrenta não deixaram de despertar, antes pelo contrário, o interesse pela situação no Estado Novo, onde o Ministério da Saúde e Assistência só havia de surgir em 1958 autonomizando-se do …Ministério do Interior. Constitui leitura assaz instrutiva o livro de Andreia da Silva Almeida O Sistema de Saúde do Estado Novo de Salazar – O Nascimento do Ministério da Saúde e Assistência (Prémio António Arnaut),que relaciona a criação do Ministério com a necessidade de reacção do regime à impopularidade que a campanha eleitoral de Humberto Delgado revelara, explica a razão da não escolha de um médico para titular da nova pasta, e se refere aos mandatos de Henrique Martins de Carvalho, Pedro Soares Martinez, e Francisco Neto de Carvalho (1921-2017), todos juristas, com o primeiro e o terceiro a terem passado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Francisco Neto de Carvalho é aliás um caso curioso, é já um alto quadro :do Ministério das Corporações e da Previdência Social (Director-Geral do Trabalho e das Corporações e Secretário – Geral do Ministério) e quando, na última remodelação de Salazar, regressa ao Ministério e é nomeado Director do Instituto de Estudos Sociais, cujas instalações coloca à disposição do Instituto Português de Ciências Administrativas (I.P.C.A.) impulsionado por Marcelo Caetano, para a realização de reuniões até que esta associação científica de direito privado encontre uma sede, vindo mais tarde a ser Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas[i].

Não sou visitante habitual das instalações do Ministério do Trabalho na Praça de Londres, ao entrar uma vez lá o ano passado não pude deixar de sorrir, ao ver assinalados os “100 anos do Ministério do Trabalho”. Sim, a República criou um Ministério do Trabalho em 1919 tal como noutros países os respectivos estados ensaiaram no pós I Guerra Mundial políticas com vista a aliviar a situação das suas populações e a enfrentar a agitação social, passo que em Portugal o episódio sidonista e o seu flirt com os sindicatos já mostrara ser inadiável. No entanto a tentativa de lançar um sistema de seguros sociais não teve grande sucesso. O titular, Rocha Saraiva, viria a partir de 1928, como professor de ciência política da Faculdade de Direito de Lisboa, a integrar a Secção Portuguesa dos Congressos Internacionais de Ciências Administrativos e visitaria em 1934 a sua sede em Bruxelas mas não teve mais responsabilidades neste domínio.

O corporativismo instaurado em 1933 nada tem a ver com esta experiência, e é justo dizer-se que, quaisquer que tenham sido as suas veleidades sociais, acabou sobretudo por ser uma forma de controlo policial dos sindicatos consentidos. No entanto no Ministério e nos organismos dele dependentes registam-se a partir de 1958 e sobretudo a partir de 1964, desenvolvimentos interessantes, como a multiplicação de núcleos de organização e métodos, que continuaria até depois do 25 de Abril[ii], a criação do Instituto de Estudos Sociais na esfera da Junta de Acção Social e a criação de tecnoestruturas nas suas áreas, sobretudo nas de Previdência e Assistência. Em todo o caso nunca vi Ferro Rodrigues ou Vieira da Silva (que certamente não esqueceram o Director do Instituto Superior de Economia, que andaria de pistola pelas instalações) a homenagear o seu antecessor Gonçalves de Proença.

Um ano antes, 2018 assistiria ao centenário de Franco Nogueira, marcado pela oferta do seu espólio ao Arquivo Histórico-Diplomático, e pelo falecimento de Vera Franco Nogueira um mês antes da data. Marcelo Rebelo de Sousa publicaria a este propósito um artigo de homenagem à falecida embaixatriz[iii].A história da actuação do Ministério dos Negócios Estrangeiros nessa época vai-se fazendo, o papel de Franco Nogueira como Ministro e como deputado já tem sido objecto de vários trabalhos académicos, e no plano político valoriza-se a mobilização em torno de uma política ultramarina que se veio a reconhecer não ser sustentável. Quanto ao seu Salazarnão deixa de merecer algumas críticas, aliás vem de alguém que terá pensado suceder ao então Presidente do Conselho de Ministros.

Em finais de 2019 ocorreu a homenagem ao Ministro da Justiça Antunes Varela, que terá nascido na Relação de Coimbra e contou a participação do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e da actual Ministra, a qual mereceu críticas de antigos estudantes e até antigos assistentes da Universidade de Coimbra dos anos 1960.

Repare-se que não estou em condições de evocar o ambiente da altura, uma vez que teria 13 anos quando foi publicado o Código Civil, contudo lembro-me de terem aparecido nos jornais declarações do Governo explicando que tinham sido seguidas em alguns pontos orientações diferentes das que resultavam dos trabalhos preparatórios e nos anos seguintes ter lido algumas notas críticas quanto às soluções consagradas em matéria de divórcio. Lembro-me é claro, de terem sido construídos muitos Palácios da Justiça, ponto que a actual Ministra, sempre apertada de verbas, valorizou naturalmente no discurso proferido na recente homenagem. Mais tarde alguém me falou do Ministro, explicando que reagia mal quando se lhe olhava para os sapatos (explicaram-me porquê) e finalmente ainda outro alguém me referiu que Antunes Varela, responsável pela Polícia Judiciária, teria reagido mal ao escândalo dos ballets roseem que estariam envolvidos alguns ministros seus colegas. Mas isto são indicações dispersas e socorro-me aqui portanto do que fui lendo, e em particular do que José Manuel Correia Pinto publicou no seu blogue Politeia[iv]e fica transcrito aqui.

Na minha leitura de observador impreparado, a actuação de Antunes Varela alimentou  posições conservadoras e reacionárias no contexto das soluções do Direito da Família:

 

 À época, questões importantes (hoje muitas delas já esbatidas em quase todas as latitudes) eram, entre outras, a confessionalidade ou a inconfessionalidade do conúbio, a admissibilidade do divórcio, a posição da mulher face ao marido, o estatuto dos filhos (nascidos no casamento ou fora dele), questões – algumas delas – que tinham tido um assinalável recuo na legislação do Estado Novo, principalmente depois da entrada em vigor da Concordata entre o Estado português e a Santa Sé (1940).”

 

José Manuel Correia Pinto chama a atenção para que o Ministro, simulando intervir no debate jurídico, se permitiu-se recomendar o silêncio a um Professor de Direito que publicara um Manual que perfilhava concepções mais abertas:

 

Eu sempre entendi, por várias razões cujo desenvolvimento se não coaduna com a índole da Revista, que nas prelecções feitas perante o público receptivo e impreparado dos alunos o professor deve concentrar especialmente a sua atenção sobre os problemas da interpretação da lei e da integração das lacunas do sistema, e sobre as tarefas de elaboração científica dos materiais fornecidos pela legislação, abstendo-se quanto possível de intervir em questões de outra ordem, incluindo as que entram abertamente no domínio da política legislativa. Estasinteressam de modo particular aos políticos, à administração, às assembleias legislativas ou às comissões revisoras, nas quais os professores têm sempre um papel destacado a desempenhar – mas fora do público escolar, longe do ambiente específico da actividade docente.

 
 

Sobre Antunes Varela diz também Correia Pinto:

 

Durante o longo período em que exerceu funções no Ministério da Justiça muitos crimes foram cometidos pelas forças repressivas da ditadura, nomeadamente as polícias, com destaque para a Pide. Muitos combatentes antifascistas foram assassinados e um número infindável de lutadores pela Liberdade foi preso e torturado. Foi durante a permanência de Varela no Ministério da Justiça que o General Humberto Delgado e a sua secretária foram assassinados pela Pide, em Espanha, em condições sobejamente conhecidas.Varela não somente fechou os olhos a todos estes crimes como indirectamente neles participou,”

 
 

Também têm sido mencionadas as retaliações exercidas em plenas sessões dos Tribunais Plenários sobre os próprios advogados ou o tratamento dos presos políticos nas cadeias, que dependiam do Ministério.

É certo que a lei que, pós 25 de Abril, mandou julgar os Ministros do Interior, não fez o mesmo em relação aos Ministros da Justiça. Não deixa no entanto de ser curioso notar que no livro de Andreia da Silva Almeida citado se revela que no Arquivo António de Oliveira Salazar da Torre do Tombo existem documentos mostrando que o nome de Antunes Varela chegou a ser ponderado para Ministro do Interior. E não nos esqueçamos de, tal como aventado em relação a Franco Nogueira, ter sido o nome dele falado para suceder a Salazar.

O que levou a efectuar esta homenagem a Antunes Varela e o Governo de António Costa a participar nela? Regresso ao artigo de Marcelo Rebelo de Sousa sobre Vera Franco Nogueira:

 

Com seu marido, Alberto Franco Nogueira – então colaborador dileto de Paulo Cunha – pertencia a um grupo de amigos de meus pais. Que incluía, entre outros, Maria Amélia e Paulo Cunha, Isabel e Inocêncio Galvão Telles, Mura e Francisco Leite Pinto, Arlette e Luís Leite Pinto, Ália e Henrique Veiga de Macedo, e, mais tarde, Maria das Dores e António Pinto Barbosa e Maria Helena e João Antunes Varela.”

 
 

Será esta a explicação? Ou será demasiado simples?

Aqui chegado, começo a cogitar qual será a próxima homenagem de abraço ao passado? Bom, recordo-me de um Capitão que foi Subsecretário de Estado da Guerra, meteu na ordem uma grande parte da oficialidade republicana conservadora que tinha feito o 28 de Maio e foi participando no Estado Novo, geriu o reapetrechamento do Exército, chegou a Ministro da Defesa sempre em sintonia com o Chefe[v]

Não me admiraria que um dia destes o Ministério da Defesa Nacional anunciasse uma homenagem ao antigo Ministro, General Santos Costa.

 

 
 

[i] Não sendo fundador do I.P.C.A., Neto de Carvalho foi no entanto um dos seus primeiros sócios efectivos. Num mundo académico de estudos sectorializados foi-me inicialmente difícil identificar as várias referências a ”Neto de Carvalho” com um mesmo protagonista.

[ii] Ver também o meu As Secções Nacionais Portuguesas… e para os anos mais recuados também A Organização Científica do Trabalho em Portugal após a II Guerra Mundial, 1945-1974, de Ana Carina Azevedo.

[iii] “Vera Franco Nogueira”, Público de 18-8-2018.

[iv] Politeia, 26 de Dezembro de 2019 – “A homenagem a Antunes Varela pela Relação de Coimbra – Os discursos da Ministra da Justiça e do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça” e 15 de Janeiro de 2020 -“Antunes Varela, Ministro da Justiça de Salazar – Varela e a Autonomia do Ensino Universitário.”

[v] Que acompanhou ao funeral no Vimieiro.

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-democracia-abraca-o-passado/

Evocação de Manuela Silva: Um desafio para o futuro

Evocação de Manuela Silva: Um desafio para o futuro

O Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e o Grupo Economia e Sociedade (GES) promovem no 7 de Março, sábado, entre as 9h30 e as 18h45, no ISEG, uma sessão evocativa da Professora Manuela Silva (1932-2019).

Manuela Silva foi Professora catedrática convidada do ISEG, tendo recebido em 2013 Doutoramento honoris causa pela Universidade Técnica de Lisboa. Foi coordenadora do GES, desde o início da respectiva actividade. Personalidade de referência, a nível nacional e internacional, desempenhou vários cargos e publicou diversos estudos reveladores da sua profunda preocupação com uma economia solidária e sustentável, a justiça social e a luta contra as desigualdades, a pobreza e a exclusão social. Foi uma activa militante católica, tendo-se batido por uma participação acrescida das mulheres na vida da Igreja e pelo maior envolvimento dos cristãos na Doutrina Social da Igreja. Durante a sessão evocativa vão ser ouvidos testemunhos de personalidades que com ela conviveram, trabalharam e aprenderam, nas áreas que mereceram uma atenção esclarecida por parte de Manuela Silva e onde ela deixou desafios que têm a ver com o nosso futuro.  O Programa provisório da Evocação é o seguinte:                                                

Evocação de Manuela Silva

Um desafio para o futuro

7 de Março de 2020, no ISEG, Auditório CGD

 

ABERTURA Reitor, Presidente do ISEG, Carlos F. Rodrigues 9,30-10,00

 

SESSÕES

Igreja e Cidadania Joaquim Franco  10,00-11,15   

                                                                                                                       

Igreja e Cidadania Equidade, Género – Sara Casaca 15

Igreja e Cidadania CNJP – Rosário Carneiro 15

Igreja e Cidadania CRC – José Leitão 15

Igreja e Cidadania Fundação Betânia e Casa Comum – Luísa Ribeiro Ferreira 15

 

Coffee Brake 11,15-11,45

 

Economia e desenvolvimento Américo Mendes 11,45 -13,00

 

Economia e desenvolvimento Economia Social – José António Pereirinha 15

Economia e desenvolvimento Economia Social (CESIS) – Ana Cardoso 15

Economia e desenvolvimento Ministério da Saúde - Isabel Roque de Oliveira 15

Economia e desenvolvimento Desenvolvimento Comunitário – Isabel Rufino 15

Economia e desenvolvimento Pobreza, Repartição dos Rendimentos e Equidade – Carlos F.Rodrigues 15

 

ALMOÇO LIVRE  13,00-14,30

 

Economia e desenvolvimento Américo Mendes (cont.)  14,30 -15,45

 

Economia e desenvolvimento Salários e Emprego – Graça Leão Fernandes 15

Economia e desenvolvimento Planeamento - Miguel Caetano 15

Economia e desenvolvimento Serviço Social – Isabel Guerra 15

Economia e desenvolvimento GES – Manuel Brandão Alves 15 

 

Ensino e Educação M.Emília B.Santos 15,45-17,15 

                                                                                                                                                            

Ensino e Educação Educação – M. Chagas Lopes 15

Ensino e Educação Renovação do Ensino da Economia –José Reis 15

Ensino e Educação A relevância da experiência académica de Manuela Silva – A.Ramos dos Santos15

Ensino e Educação Gestão Universitária – António Espinho Romão - Uma universitária preocupada 15

 

MESA REDONDA João Ferreira do Amaral 17,45 -18,30

 

Igreja e cidadania Guilherme de Oliveira Martins 15

Economia e desenvolvimento João Cravinho 15

Ensino e Educação Viriato Soromenho Marques 15

 

ENCERRAMENTO Presidente da República (a confirmar) 18,30-18,45

 

 

 

Entrada livre                                                                                    

 

 

Ver o original em A areia dos Dias

Há 75 anos o Exército Vermelho libertou Auschwitz*

Assinala-se na próxima segunda-feira, 27 de Janeiro, 75 anos sobre a libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz. Do muito que já se disse sobre o assunto, e do que seguramente se dirá nos próximos dias nos meios de comunicação social dominados pelo grande capital, não sobressai devidamente a identidade do libertador: a União Soviética e o seu Exército Vermelho.

Só quem andar distraído poderá achar estranho semelhante desvalorização ou mesmo ocultação, tal a dimensão e descaramento das operações de reescrita da História que marcam o nosso tempo. Elas são parte integrante da ofensiva ideológica que acompanha – e enquadra – o brutal e multifacetado ataque do imperialismo contra os direitos dos trabalhadores e dos povos.
A História, é sabido, constitui para as forças revolucionárias e progressistas de todas as épocas uma útil fonte de inspiração e um imprescindível instrumento de compreensão e transformação do mundo, com base nas leis do desenvolvimento social. Inversamente, o desconhecimento ou incompreensão da História facilita a penetração entre as massas de concepções e práticas contrárias aos seus próprios interesses. A ascensão, um pouco por todo o mundo, de forças de extrema-direita e de carácter fascizante (quando não mesmo neonazi) é disto exemplo maior, mas está longe de ser o único.
A própria crítica dos partidos e da política, a desvalorização dos sindicatos e da luta organizada, a secundarização e a negação da luta de classes em prejuízo de várias causas identitárias, devidamente separadas e descontextualizadas, o ataque às liberdades e à democracia inserem-se, em grande medida, na premeditada promoção de uma insuficiente (e deficiente) apreensão das lições do passado.
É precisamente por estar plenamente consciente da importância da História que o imperialismo dedica especial atenção ao que dela pretende que se registe e à forma como o faz, recorrendo aos extraordinários meios que tem hoje à sua disposição – dos livros de História aos documentários, dos currículos escolares às mega-produções de Hollywood.
A visão promovida pelo imperialismo sobre a Segunda Guerra Mundial é, a este propósito, paradigmática: o papel determinante da União Soviética e dos comunistas na derrota do nazi-fascismo é apagado, ao mesmo tempo que se sobrevaloriza o contributo de outros; a natureza de classe do fascismo é omitida, assim como a cumplicidade de que o nazismo alemão beneficiou por parte das potências capitalistas como a Grã-Bretanha, França ou Estados Unidos; sobre as impressionantes – e, para a maioria da população mundial, inéditas – conquistas alcançadas no pós-guerra cai hoje um denso manto de obscuridade.
Poderia o capitalismo monopolista, com suas ramificações, permitir que se soubesse que o fascismo é a sua própria ditadura terrorista? Ou que a guerra não resultou da «loucura» de um qualquer Hitler de serviço, mas da própria natureza do capitalismo na sua fase imperialista? Ou que foram os comunistas e o movimento operário e popular os principais obreiros da vitória sobre o nazi-fascismo?
Poderia permitir que os trabalhadores e os povos tivessem confiança na sua própria luta, capacidade de resistência e força transformadora?

Para lá de Hollywood

Por mais cinematográfica que possa ser, a versão repetida até ao absurdo que apresenta o Dia D como a chave da vitória sobre o nazi-fascismo e os aliados ocidentais como os seus principais protagonistas não tem qualquer fundamento. Quando as forças anglo-americanas desembarcam na Normandia, no início de Junho de 1944 (abrindo finalmente a segunda frente, há muito prometida), já as hordas hitlerianas batiam em retirada, somando derrotas atrás de derrotas às mãos do Exército Vermelho e das forças de resistência popular.
Aliás, depois de ocuparem quase toda a Europa sem grande dificuldade, foi na União Soviética que os exércitos nazi-fascistas se depararam pela primeira vez com uma oposição digna nesse nome: só no primeiro mês de invasão, mais de 110 mil soldados alemães tombaram e as unidades de tanques e motorizadas reduziram-se quase a metade. Era o fim da guerra-relâmpago (Blitzkrieg). Daqui por diante o avanço continuaria por alguns meses, mas foi penoso e lento…
A primeira derrota na guerra sofreram-na os nazi-fascistas às portas de Moscovo: quando a batalha pela capital terminou, em Abril de 1942, tinham perdido na União Soviética um milhão e meio de homens, cinco vezes mais do que na invasão e ocupação de 11 países europeus. No final da guerra o balanço não era menos revelador: os nazi-fascistas perderam nos combates contra a União Soviética 80 por cento dos seus homens e na Frente Oriental foram capturadas, derrotadas ou esmagadas 607 das suas divisões, mais do triplo do que sucedeu nas frentes do Norte de África, da Itália e da Europa Ocidental, todas juntas.
Foi igualmente na União Soviética que se travaram as batalhas decisivas, que inverteram o rumo da guerra. A permanente resistência em todas e a cada uma das cidades, vilas e aldeias ocupadas; a heróica defesa de Leninegrado (sitiada durante 900 dias e nunca tomada) e a ruptura definitiva do cerco, em Janeiro de 1944; a vitória soviética em Stalinegrado, em Fevereiro de 1943, onde os nazis perderam cerca de um quarto do total forças imensas que concentraram na agressão à URSS, na sequência de encarniçados combates rua a rua e casa a casa – foram momentos decisivos para o desfecho da guerra. A partir da derrota na imensa batalha de Kursk, em Agosto de 1943, o comando nazi perdeu a iniciativa da guerra e nunca mais foi capaz de a retomar, até à sua derrota final, em Berlim, em Maio de 1945.
Entre as batalhas travadas em território soviético e a vitória definitiva, na capital do Reich, o Exército Vermelho e as forças de resistência patrióticas de várias nacionalidades libertaram a um ritmo avassalador 113 milhões de pessoas de 11 países europeus ocupados pelos nazi-fascistas. Foi precisamente neste processo que a 1.ª e a 4.ª divisões da frente ucraniana, comandadas respectivamente pelos generais Koniev e Petrov, chegaram às imediações do campo de concentração de Auschwitz, em Janeiro de 1945.

Teses insustentáveis

Ao pretender reescrever a História, o imperialismo não procura apenas apagar o papel decisivo da União Soviética na derrota do nazi-fascismo e o alto preço que por tal pagou – mais de 20 milhões de mortos. Numa recente resolução do Parlamento Europeu (aprovada com os votos dos deputados portugueses do CDS, PSD, PS e PAN), equipara-se mesmo o nazi-fascismo ao comunismo, ocultando-se que um e outro são opostos nos princípios e nas práticas e que o primeiro foi derrotado em 1945 graças ao contributo determinante dos comunistas.
A resolução tem objectivos mais amplos do que a falsificação da História, mas é dela que parte para construir uma narrativa que aponta à criminalização de todos os que denunciam a natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora do capitalismo, particularmente os que protagonizam o projecto e a luta pela sua superação revolucionária. Para lá do muito que oculta, escamoteia que o pacto de não-agressão assinado em Agosto de 1939 entre a União Soviética e a Alemanha nazi teve como propósito fundamental ganhar tempo face à certa agressão nazi-fascista contra a URSS.
Nada diz, porém, sobre as inúmeras propostas feitas pelos soviéticos desde 1933 (ano em que Hitler chegou ao poder na Alemanha) para a criação de um sistema de segurança colectivo na Europa, destinado a prevenir a ameaça de agressão nazi-fascista, nunca concretizado devido à recusa de britânicos e franceses. Da mesma forma que cala a cumplicidade de Grã-Bretanha e França na ascensão do nazi-fascismo e na sua expansão para Leste: pese embora a oposição e propostas soviéticas em sentido contrário, estes dois estados consentiram a militarização alemã (1936), a intervenção de Hitler e Mussolini contra a República espanhola (1937-39) ou o desmembramento e ocupação da Checoslováquia.
Só quando era já evidente que as autoridades britânicas e francesas não só recusavam qualquer coligação antifascista como procuravam empurrar as hordas hitlerianas para Leste é que a União Soviética se decidiu, em Agosto de 1939, a subscrever o tratado de não-agressão com a Alemanha. Com ele, ganhou quase dois anos para se preparar melhor, no plano militar, para a invasão que inevitavelmente ocorreria. Quanto à suposta «partilha» da Polónia entre soviéticos e alemães, ela simplesmente não existiu, já que os territórios ocupados pela URSS foram os que o imperialismo lhe tinha subtraído com o Tratado de Brest-Litovsk: a Ucrânia Ocidental e parte da Bielorrússia.
O extermínio, a escravatura e quem se escondeu por detrás do nazismo
A libertação pelo Exército Vermelho do complexo de campos de concentração de Auschwitz (como, antes, os de Treblinka ou de Maidanek) revelou ao mundo a tenebrosa máquina de morte do nazi-fascismo. Só nos campos de extermínio terão sido assassinadas 11 milhões de pessoas: judeus, ciganos, eslavos, deficientes, comunistas, sindicalistas e outros democratas e resistentes anti-fascistas. Morreram nas câmaras de gás e no pelotão de fuzilamento; na tarimba, famintos, doentes e exaustos, ou na marquesa de um qualquer «médico» que neles fez experiências tenebrosas.
Na obra A Rússia na Guerra (publicada em Portugal pela Europa-América), o jornalista britânico Alexander Werth relata as suas impressões ao entrar no campo de Maidanek, pouco depois de este ter sido localizado e libertado pelo Exército Vermelho: as câmaras de gás e os fornos crematórios, os montes de cinzas humanas acumuladas. «Incrível», assume, lembrando que o primeiro relatório que enviou para a BBC sobre esta tenebrosa realidade não foi publicado, pois a direcção considerava que o seu conteúdo era «propaganda russa». Só mais tarde, depois de terem sido descobertos pelas forças anglo-americanas os campos de concentração de Buchenwald, Dachau e Belsen «é que se convenceu que Maidanek e Auschwitz eram autênticos».
No funcionamento dos campos de extermínio como de toda a sua máquina de opressão e guerra, o nazi-fascismo contou com o empenhado apoio de alguns dos mais importantes grupos económicos e financeiros de então (e, alguns, de hoje), que o equiparam e beneficiaram do trabalho escravo dos prisioneiros: Thyssen, Krupp, Bayer, Volkswagen, IBM e Hugo Boss são apenas alguns deles. O fascismo, em todas as suas expressões, é a ditadura terrorista dos monopólios – e este é aspecto essencial que a actual ofensiva ideológica do capitalismo pretende esconder.

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

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