Médio Oriente

Como os Dois Grandes podem estabelecer a paz no Médio-Oriente Alargado, Thierry Meyssan


Este artigo dá sequência a : « Como Washington pensa triunfar », por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 23 de Junho 2020.

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Em Helsínquia (Finlândia), em 16 de Julho de 2018, os Presidentes Trump e Putin iniciaram negociações directas sobre a co-governança mundial. A imprensa ocidental desenvolveu imediatamente uma polémica sobre a implicação russa nas eleições norte-americanas de maneira a mascarar os avanços desta cimeira.

Durante todo o ano de 2011 e o primeiro semestre de 2012, os Estados Unidos e a Rússia discutiram em segredo os seus projectos para o Médio-Oriente Alargado. O Pentágono prosseguia a estratégia Rumsfeld/Cebrowski, quer dizer o plano de destruição de todas as estruturas estatais ( no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria…), mas o Presidente Barack Obama procurava um modo de se retirar militarmente da região de maneira a poder transferir as suas tropas para a zona do Oceano Pacífico, em torno da China («Pivot to Asia»). A Rússia, essa, esperava reencontrar a sua influência na região apoiando-se na população russófona de Israel e sobre a Síria.

Não conhecemos o conteúdo dessas discussões que foram difíceis. Uma polémica opôs as duas potências durante todo o mês de Junho, cada uma acusando a outra de estar do «lado errado da História» [1]. Seja como for, Washington e Moscovo convocaram juntos uma Conferência internacional, em Genebra, a propósito da Síria, mas sem qualquer Sírio, em 30 de Junho de 2012. Ambos, conscientes de que a guerra na Síria nada tinha de uma guerra civil, concluíram um Tratado de Paz entre eles tomando os seus respectivos aliados como testemunhas. Todos acreditaram que, apesar da desigualdade militar entre os dois protagonistas, uma nova Ialta, uma nova partilha do mundo, tinha tido lugar e que este Tratado era a sua primeira manifestação [2].

Ora, uma semana mais tarde, o Presidente francês, François Hollande, organizava em Paris uma reunião de « Amigos da Síria » para relançar o conflito [3]. Os aliados da OTAN, em presença e com a cumplicidade da Secretária de Estado, Hillary Clinton [4], faziam fracassar as negociações Obama-Putin. O mestre de cerimónias da Conferência de Genebra, e antigo Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, denunciava o jogo duplo de um dos protagonistas e demitia-se com estrondo do seu encargo de enviado especial das Nações Unidas para a Síria, em 2 de Agosto. Inquietos, uma parte dos Não-Alinhados [5], depois a China [6], propuseram voltar a colar os destroços sem conseguir retomar a iniciativa.

Seguiram-se 9 anos de guerra.

Em 2020, enquanto o Pentágono prossegue com firmeza a estratégia de Rumsfeld/Cebrowski, o Presidente Donald Trump negoceia em segredo não apenas com os seus homólogos Vladimir Putin, Bashar al-Assad, Benjamin Netanyahu e Benny Gantz, mas, provavelmente, com muitos outros.

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Em 20 de Fevereiro de 2019, o Presidente Putin revelava perante a Assembleia Federal Russa, as capacidades das suas novas armas. A Rússia tinha recuperado o seu estatuto de Grande Potência.

Contrariamente a uma ideia feita, as contradições da parte dos EUA não são novas pois existiam já há 9 anos, sob Barack Obama. Elas não são portanto devidas a Donald Trump, mas a uma crise profunda e antiga dos Estados Unidos que os Ocidentais se recusam a considerar. Ao contrário do seu predecessor, ele não busca mover os seus peões de uma região para outra no tabuleiro mundial, mas em trazer as suas tropas para casa. As exigências russas, essas, aumentaram consideravelmente. Moscovo investiu militarmente na Síria e aí mostrou o poderio da sua renascida indústria militar e do seu novo exército. A Rússia, antes em ruínas devido ao colapso da URSS e à pilhagem interna de Boris Ieltsin [7], tornou-se novamente uma Grande Potência, dando a si própria a capacidade não apenas de se defender, mas também de destruir o seu rival EUA, o que ela é o único estado no mundo a poder considerar. Falamos de governança mundial, trata-se, pois, de facto de relações de força.

Não sabemos agora mais do que em 2011 sobre o teor das negociações entre a Casa Branca e o Kremlin, mas podemos deduzir o que está em jogo a partir dos eventos atuais.

Ou a guerra que destrói um a um todos os Estados da região prossegue, ou os Dois Grandes dividem entre si a região em zonas distintas, ou a gerem em conjunto. É evidentemente possível misturar estas opções: aplicar uma destas três fórmulas em toda a região ou várias, dependendo dos países.

Qualquer acordo deve basear-se numa análise realista do Médio-Oriente Alargado e não em cabeçalhos (manchetes-br) dos jornais. Os média (mídia-br) não reportam as verdadeiras relações de força na região já que tratam os conflitos como se eles fossem distintos uns dos outros, o que não é de forma alguma o caso. Qualquer acordo aqui tem consequências para os outros, de tal maneira que a paz para uns pode significar um desastre para os outros.

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Em Junho de 2919, uma nova cimeira sobre a governança mundial realizava-se em Jerusalém, com reunião ao nível dos Conselheiros Nacionais de Segurança (aqui Nikolaï Patrouchev e John Bolton).

Contrariamente a uma ideia feita, nem os Palestinianos, nem os Curdos são hoje em dia o centro da situação. Eles perderam a sua causa legítima pretendendo construir Estados nacionais fora dos seus territórios históricos. Nem os Turcos, nem os Iranianos representam um perigo; eles continuam sempre prontos a negociar por baixo da mesa.

O problema que desde há quarenta anos tudo faz falhar é a vontade de certos Anglo-Saxões em continuar a colonização da região por meio de Israel e a resistência de certos árabes através do Hezbolla libanês. Ora, a facção colonial de Israel conduzida por Benjamin Netayanhu está agora em perda face à facção nacionalista liderada por Benny Gantz. Por outro lado, o Hezbolla já não pode contar mais com dois dos seus patrocinadores: a Síria, que está muito enfraquecida, e o Irão que acaba de pactuar com os Britânicos no Iémene, de se entender com os Estados Unidos no Iraque e de se aliar militarmente com os Irmãos Muçulmanos na Líbia.

Por consequência, qualquer solução duradoura passa ao mesmo tempo por :
- uma co-gestão de Israel pelos Estados Unidos e a Rússia, e por
- uma gestão do Líbano e da Síria pela Rússia, sob vigilância dos Estados Unidos.

Esta evolução terá lugar mais cedo ou mais tarde, apesar da oposição de uma parte dos Israelitas, Libaneses e Sírios, porque é a única que pode garantir a segurança de todos.

Desde logo, a parte russa reorganizou-se já neste sentido. O Embaixador russo para o Levante, Alexandre Zaspikine, dedica-se apenas ao Líbano, onde está colocado, enquanto o novo Embaixador russo em Damasco, Alexander Efimov, ganhou a possibilidade de reportar directamente ao Presidente Putin, sem passar pelo seu Ministério, onde o seu predecessor na Síria, Alexander Kinshchak, supervisionará a região.

Aquilo que se joga hoje em dia aqui falhou já muitas vezes desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mas a região evoluiu e as Grandes Potências também. Donald Trump é muito realista, enquanto Vladimir Putin tem um sentido agudo do Direito Internacional. Se os dois conseguirem aproximar os seus pontos de vista sobre o Grande Médio-Oriente, isso terá imediatamente consequências positivas no Extremo-Oriente.


Tradução
Alva

[1] «Del lado correcto de la Historia», por Sergéi Lavrov, Red Voltaire , 22 de junio de 2012.

[2] «Comunicado final del Grupo de Acción para Siria», Red Voltaire , 30 de junio de 2012.

[3] «Discours de François Hollande à la 3ème réunion du Groupe des amis du peuple syrien», par François Hollande, Réseau Voltaire, 6 juillet 2012.

[4] “Clinton at Friends of Syrian People Ministerial Meeting”, by Hillary Clinton, Voltaire Network, 6 July 2012.

[5] “Final Statement from Tehran Consultative Meeting on Syria”, Voltaire Network, 9 August 2012.

[6] “A solução chinesa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 7 de Novembro de 2012.

[7] Todas as grandes empresas da URSS eram públicas. O Presidente Boris Ieltsin reuniu amigos à volta de uma mesa e distribuiu as joias da indústria entre eles. Enquanto os amigos do Presidente se tornaram instantaneamente bilionários, a esperança de vida dos Russos caiu brutalmente 15 anos. Foi preciso uma década para o Presidente Vladimir Putin restaurar o nível de vida dos seus concidadãos e o estatuto do seu país.

Original em 'Rede Voltaire' na seguinte ligação:

https://www.voltairenet.org/article210408.html

Washington pronto a libertar seus reféns do Hezbolla

Os Estados Unidos poderão libertar, em Julho, 13 reféns do Hezbolla que detêm sob vários pretextos.

Por mais de um ano, os Estados Unidos adotaram um arsenal jurídico complexo que lhes permitiu obter a extradição e a detenção de pessoas que participam do financiamento, mais do que legal, do Hezbolla a partir de países terceiros [1].

O mais conhecido deles é o homem de negócios congolês Kassem Tajeddine (foto), preso em Marrocos, extraditado para os EUA, julgado por «financiamento do terrorismo» e condenado a cinco anos de prisão. A simples contradição entre a gravidade da acusação e a leveza da sentença é suficiente para atestar a natureza fantasiosa do procedimento. A família Tajeddine é uma das mais ricas da República Democrática do Congo. Possui participações na construção, no agroalimentar (Atlantic Trading Co., Biscuiterie Congo Futur), na indústria de madeiras (Trans-M), no plástico (Congo Futur Plastic) e no mercado de distribuição. Ela financia voluntariamente o Hezbolla, tal como numerosos xiitas de origem libanesa.

Desde há vários anos, o Hezbolla tenta sair de sua dependência do Irã (Irão-pt). Seu Secretário-Geral, Hassan Nasrallah, desenvolveu todo o tipo de empresas, particularmente em África e na América do Sul, apoiando-se sobre a diáspora libanesa para legalmente financiar a Resistência libanesa. Ele antecipava assim uma eventual ruptura com Teerã (Teerão-pt).

Contrariamente a uma opinião geralmente aceite, a campanha dos Estados Unidos contra a independência financeira do Hezbolla poderia ter por objetivo real submetê-lo ao Irã até tornar esse patrocínio insuportável. Nesse caso, a libertação destes 13 reféns, por razões processuais tão fantasiosas quanto as que os conduziram à prisão, poderia ser uma resposta ao apelo de Hassan Nasrallah (ao Governo libanês-ndT) de virar o Líbano em direção à Rússia.


Tradução
Alva

[1] “O Hezbolla desestabilizado”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 31 de Outubro de 2019.

Original em 'Rede Voltaire' na seguinte ligação:

https://www.voltairenet.org/article210377.html

Número de mortos por COVID-19 ultrapassa 10.000 no Irã enquanto contagem de infecções na Arábia Saudita supera 170.000

Irã supera 60 mil casos da Covid-19, mas confirma tendência de...

Cairo, 25 jun (Xinhua) - O número de mortos por COVID-19 no Irã ultrapassou o limite de 10.000 na quinta-feira. Enquanto isso, a contagem de casos confirmados de coronavírus na Arábia Saudita ultrapassou 170.000.

 

O número de mortos pelo vírus no Irã subiu para 10.130, depois que 134 mortes foram registradas durante a noite, disse Sima Sadat Lari, porta-voz do Ministério de Saúde e Educação Médica do Irã.

 

Nas últimas 24 horas, 2.595 novos casos foram registrados no Irã, elevando o total de casos confirmados de COVID-19 no país para 215.096. Até o momento, 175.103 pacientes se recuperaram e outros 2.899 permanecem em estado crítico.

 

A Arábia Saudita registrou 3.372 novos casos de coronavírus, elevando o total de infecções no reino para 170.639, enquanto o número de mortes subiu para 1.428, após a soma de mais 41 mortes.

 

As recuperações do vírus subiram para 117.882, com 5.085 novos casos recuperados, twittou o Ministério da Saúde da Arábia Saudita.

 

A Turquia registrou 1.458 novos casos de coronavírus e mais 21 mortes nas últimas 24 horas, elevando o número de infecções para 193.115 e o número de mortes para 5.046, disse o ministro da Saúde turco, Fahrettin Koca.

 

Enquanto isso, 1.472 pacientes se recuperaram, elevando o total de recuperações para 165.706. Atualmente, a Turquia está tratando 941 pacientes em unidades de terapia intensiva, com outros 369 intubados.

 

O Ministério do Interior da Turquia anunciou que as pessoas de 65 anos ou mais poderão viajar para fins turísticos se obtiverem permissão das autoridades.

 

A Turquia diminuiu gradualmente a ordem de ficar em casa para os idosos desde 1º de junho, quando o governo intensificou o processo de normalização após uma quarentena de dois meses para conter a disseminação do COVID-19.

 

O Iraque registrou 2.437 novos casos de coronavírus e mais 107 mortes, aumentando o número total de casos confirmados para 39.139 e o número de mortes para 1.437.

 

O Kuwait registrou 909 novos casos de COVID-19 e mais duas mortes, aumentando o número de infecções para 42.788 e o número de mortes para 339.

 

O Kuwait decidiu iniciar a segunda fase no dia 30 de junho para voltar à vida normal, disse Tareq Al-Mezrem, porta-voz do governo do Kuwait, em entrevista coletiva.

 

A segunda fase, que durará três semanas, faz parte de um plano de cinco fases para retornar gradualmente à vida normal após a pandemia de COVID-19 e reabrir completamente a economia em meados de setembro.

 

O número total de casos de COVID-19 no Egito subiu para 61.130, com 1.569 novos casos, enquanto o número de mortes subiu para 2.533, depois que 83 pacientes morreram devido ao vírus, disse o porta-voz do Ministério da Saúde do Egito, Khaled Megahed.

 

Ele acrescentou que 403 pacientes foram completamente curados e receberam alta dos hospitais, aumentando o total de recuperações no país para 16.338.

 

A EgyptAir, a principal companhia aérea do Egito, anunciou na quinta-feira que operará voos sem escala para mais de 29 destinos a partir de 1º de julho.

 

O Ministério da Saúde do Catar anunciou 1.060 novos casos de COVID-19, aumentando o total de casos confirmados no estado do Golfo para 91.838.

 

Enquanto isso, o número de mortos subiu para 106 depois que mais duas mortes foram registradas, enquanto o número de recuperações aumentou para 74.544 após 1.461 pacientes recuperados.

 

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) anunciaram 430 novos casos de COVID-19, elevando o total de casos confirmados no país para 46.563.

 

O Ministério da Saúde e Prevenção dos Emirados Árabes Unidos disse que mais 760 pacientes se recuperaram totalmente do vírus, elevando o número de recuperações para 35.165. Também confirmou mais uma morte, elevando o número de mortos no país para 308.

 

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou na quinta-feira que seu país cooperará com os Emirados Árabes Unidos para deter o surto de coronavírus na região.

 

A rara colaboração entre os dois países, que não têm vínculos oficiais, se concentrará na pesquisa e desenvolvimento.

 

O Marrocos anunciou 431 novas infecções por COVID-19, aumentando o número total de casos confirmados no país do norte da África para 11.338.

 

O número de pacientes recuperados aumentou para 8.500 com 32 novas recuperações, enquanto o número de mortos subiu para 217 quando uma nova fatalidade foi registrada.

 

Marrocos começou na quinta-feira relaxando as restrições à pandemia, permitindo que as pessoas viajem para dentro do país e reabram os cafés e restaurantes.

 

O número de infecções por COVID-19 no Líbano aumentou 18 casos para 1.662, enquanto o número de mortes permaneceu inalterado em 33.

 

O Ministério da Saúde da Tunísia registrou dois novos casos de COVID-19, elevando o total de infecções no país para 1.162, incluindo 50 mortes e 1.023 recuperações.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/27/c_139170328.htm

Síria, Iémen e Irão condenam «submissão» da Alemanha a Washington e Telavive

Representantes dos governos sírio, iemenita e iraniano condenaram a decisão das autoridades alemãs de incluir o movimento de resistência libanês Hezbollah na «lista negra de organizações terroristas».

Combatentes do Hezbollah colocam bandeiras do movimento de resistência e do Líbano em Yarud Arsal, em Agosto de 2017, depois da vitória sobre o DaeshCréditos / Middle East Eye

«A República Árabe da Síria condena da forma mais veemente a decisão de Berlim de incluir o Hezbollah na lista negra», disse um representante do Ministério sírio dos Negócios Estrangeiros à agência SANA esta quinta-feira.

As declarações foram feitas depois de, nesse dia, o ministro alemão do Interior, Horst Seehofer, ter proibido a actividade daquilo que designou como «organização terrorista xiita» Hezbollah no país europeu e ter ordenado várias operações policiais contra locais alegadamente ligados ao movimento de resistência.

A medida é uma «medalha de honra», uma vez que «efectivamente reconhece o papel destacado do Hezbollah» ao afrontar «os esquemas sionistas e ocidentais na região», disse ainda à SANA o representante da diplomacia síria, sublinhando que a decisão evidencia «a submissão da Alemanha ao "sionismo mundial"».

 

A «proibição» do Hezbollah era exigida por Israel e pelos Estados Unidos. Em Dezembro último, o Parlamento alemão aprovou uma moção em que instava o governo da chanceler Angela Merkel a banir quaisquer actividades do Hezbollah em território alemão.

Antes, o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, tinha afirmado numa viagem à Alemanha que esperava que o país seguisse as passadas do Reino Unido – havia ilegalizado o movimento de resistência libanês em Fevereiro.

«A Alemanha adere cegamente às maquinações destrutivas de EUA e Israel»

O governo iemenita e o movimento popular Huti Ansarullah também classificaram a medida de Berlim como um sinal da sua «submissão a Washington e Telavive», informa a PressTV.

 

O Ministério da Informação do Iémen referiu-se à decisão como «injusta» e «alinhada» com os objectivos dos EUA e Israel. Por seu lado, a comissão política do Ansarullah emitiu um comunicado em que acusa a «Alemanha de aceder à vontade de norte-americanos e israelitas ao normalizar o sionismo e opor-se às nações livres que procuram resistir à tirania e arrogância globais».

Há mais de cinco anos que o Ansarullah faz frente à guerra de agressão que a coligação liderada pelos sauditas lançou contra o povo iemenita – com forte apoio ocidental, incluindo o da Alemanha, cujas empresas de armamento lucraram milhares de milhões em vendas ao valioso parceiro saudita. O movimento popular reafirmou o apoio ao Hezbollah e instou os países árabes e muçulmanos a repudiarem a decisão de Berlim.

Irão condena decisão alemã de «absoluta imprudência»

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Abbas Mousavi, disse que, «ao que parece, os países europeus tomam posições sem ter em conta as realidades da região da Ásia Ocidental e apoiam-se na máquina propagandística do regime sionista e do confuso governo norte-americano».

A «decisão alemã não respeita o governo e o Líbano, pois o Hezbollah faz parte do executivo e do Parlamento» desse país, afirmou Mousavi, que acusou o governo da Alemanha de mostrar uma «total imprudência» ao ir contra «uma força-chave na luta contra o grupo terrorista Daesh», refere a Prensa Latina.

O Hezbollah integra o conjunto de forças aliadas que, na Síria, combateram o terrorismo alimentado ao longo da guerra de agressão imperialista pelos EUA, as potências ocidentais, as petro-ditaduras do Golfo, a Turquia e Israel.

Logo na quinta-feira, o ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Israel Katz, louvou efusivamente a decisão alemã, que classificou como «muito importante», insistindo na necessidade de os outros países da UE fazerem o mesmo.

O movimento de resistência libanês goza de grande prestígio – e popularidade – no mundo árabe e fora dele, entre outros aspectos, pelo papel decisivo que teve na luta contra o terrorismo na Síria e no Médio Oriente, e por ter expulsado o todo poderoso Exército israelita do Sul do Líbano, em 2006.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/siria-iemen-e-irao-condenam-submissao-da-alemanha-washington-e-telavive

Conta-nos o NY Times

O Pentágono ordenou à sua guarda pretoriana que planeasse uma escalada dos combates americanos no Iraque, emitindo, na semana passada, uma diretiva para preparar uma campanha destinada a destruir um grupo de milícias, supostamente apoiado pelo Irão que, dizem os americanos, ameaçou mais ataques contra as tropas ocupantes.

 

 

Mas o principal centurião dos Estados Unidos no Iraque alertou que essa campanha pode ser sangrenta e contraproducente e corre o risco de guerra aberta com o Irão.

Num memorando contundente e sem margem para graças, na semana passada, o comandante, general Robert P. White, escreveu que uma nova campanha militar exigiria que mais uns milhares de tropas americanas fossem enviadas para o Iraque e desviasse recursos do que tem sido, supostamente, a principal missão militar americana lá: treinar tropas iraquianas para combater o Estado Islâmico.

A diretiva do Pentágono e a resposta do general White – ambas comunicações militares internas classificadas – foram descritas por várias autoridades americanas que tiveram conhecimento direto de seu conteúdo. A troca de invetivas decorre no meio de uma luta fervorosa dentro do governo Trump qual a futura a política em relação ao Irão e o curso da guerra americana no Iraque, que começou há pouco mais de 17 anos atrás.

Algumas autoridades, incluindo o secretário de Estado Mike Pompeo e Robert C. O’Brien, assessor de segurança nacional, vêm pressionando por novas ações agressivas contra o Irão e as suas proxy/forças – e veem, pelo binóculo, uma oportunidade de tentar destruir grupos de milícias que não são as que apoia.

Aproveitando a aflição que o Covid 19 lançou no Irão, líderes militares, incluindo o secretário de Defesa Mark T. Esper e o general Mark A. Milley, presidente do Estado Maior Conjunto, têm receio de uma forte escalada militar, alertando que pode desestabilizar ainda mais o Oriente Médio no momento em que o presidente Trump disse que espera reduzir o número de tropas americanas na região. Ainda assim, autoridades americanas disseram que Esper autorizou o planeamento de uma nova campanha no Iraque – mesmo quando os militares estão a regressar a casa e diminuem a sua presença no combate ao terrorismo – para oferecer opções a Trump no caso previsível de grupos de milícias apoiados pelo Irão intensificarem os seus próprios ataques contra tropas americanas (teriam confidenciado dois altos funcionários da Casa Branca).

Durante uma reunião do Salão Oval em 19 de março, Trump não tomou uma decisão sobre a possibilidade de autorizar a nova campanha no Iraque, mas permitiu que o planeamento continuasse, segundo autoridades americanas.

Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional se recusou a comentar. Sean Robertson, porta-voz do Pentágono, disse num comunicado:

A Operação Inherent Resolve está no Iraque a “convite do governo iraquiano” (??) e continua focada na parceria com as forças de segurança iraquianas com o objetivo comum de derrotar permanentemente os remanescentes do ISIS. Não vamos discutir hipóteses ou deliberações internas.”

Eu não percebi quando e qual governo iraquiano convidou os americanos para lá assentarem arraiais. Teria sido em 19 de março de 2003?

O debate continuará, entre os Prós e os Contras, já que as principais autoridades do Pentágono e altos comandantes em todo o mundo também estão a expressar preocupações crescentes sobre os casos de coronavírus a expandir-se rapidamente nas fileiras militares, ameaçando potencialmente a capacidade das forças armadas de enviar tropas prontas para o combate.

Talvez para fazer o contraponto do bom senso. E ainda bem!

O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu esta terça-feira uma estratégia mundial concertada e coordenada para combater a propagação do novo coronavírus, alertando para as potenciais consequências trágicas desta pandemia que é, essencialmente, “uma crise humana”.

Mas muitos humanos ainda não perceberam a mensagem que nos está a chegar do futuro.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/diretiva-do-pentagono-conta-nos-o-ny-times/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=diretiva-do-pentagono-conta-nos-o-ny-times

A primeira guerra da OTAN-MO vira a ordem regional

Enquanto os Europeus e os Árabes estão absorvidos pelo coronavírus, os Anglo-Saxões mudam a ordem mundial. Sob o comando dos EUA, o Reino Unido tomou o controle da entrada do Mar Vermelho; os Emirados Árabes Unidos viraram-se contra a Arábia Saudita e infligiram-lhe uma humilhante derrota no Iémene do Sul, enquanto os Hutis faziam o mesmo no Iémene do Norte. Agora, o Iémene está cindido em dois Estados distintos e a integridade territorial da Arábia Saudita está ameaçada.

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O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Presidente de facto dos Emirados Árabes Unidos, o Príncipe Mohamed bin Zayed. Pela calada, os dois homens de negócios estão em vias de reordenar o Médio-Oriente Alargado.

O Presidente Donald Trump continua a sua política de retirada militar do «Médio-Oriente Alargado». Para isso, ele desloca progressivamente as suas tropas, assina acordos com forças contra as quais elas tinham sido destacadas (por exemplo com os Talibã) e negoceia a libertação dos seus prisioneiros. Simultaneamente, o Pentágono apela ao Reino Unido para tomar a cabeça das operações da nova Aliança Atlântica-Médioriental e supervisionar a continuação da «guerra sem fim» no «Médio-Oriente Alargado». A Síria é considerada como zona de influência russa, enquanto a estratégia Rumsfeld/Cebrowski prossegue, por outro lado, com a divisão do Iémene em dois Estados distintos e a preparação do desmembramento da Arábia Saudita.

Repatriamento dos agentes da CIA mantidos prisioneiros

A 18 e 19 de Março de 2020, um cidadão dos EUA, Michael White, detido no Irão (Irã-br), foi transferido da sua prisão para a embaixada da Suíça em Teerão; um outro cidadão dos EUA, Amer Fakhoury, detido no Líbano, foi exfiltrado por tropas norte-americanas; por fim, o Presidente Trump pediu publicamente a ajuda da Síria para localizar um terceiro cidadão dos EUA, Austin Tice.

Estas operações são supervisionadas pelo discreto Conselheiro de Segurança Nacional, Robert O’Brien, que dispõe de uma sólida experiência em matéria de libertação de prisioneiros.

- Michael White serviu 13 anos na Marinha dos EUA. Ele viajou para o Irão para se encontrar lá com a sua noiva. Foi preso, em 2018, e condenado a 13 anos de prisão por espionagem. Outros cidadãos americanos presos no Irão —entre os quais Morad Tahbaz, Robert Levinson, Siamak e Baquer Namazee— não parecem suscitar o mesmo interesse de Washington. Michael White foi entregue ao Embaixador suíço, Markus Leitner, por «razões de saúde». Ele não está, assim,livre.
- Amer Fakhoury é um célebre colaborador das tropas de ocupação israelitas no Líbano. Ele foi membro do Exército do Sul do Líbano, chefe da sinistra prisão de Kiam e torcionário. Durante a retirada israelita fugiu do Líbano, mas, em Setembro de 2019, regressou lá por motivo desconhecido. Foi imediatamente reconhecido e preso. Acabou libertado por motivo da prescrição dos seus crimes, o que é juridicamente falso, mas proibido de deixar o território. Então, precipitou-se para a mega-embaixada dos EUA em Awkar, onde ficou sob a protecção da Embaixatriz Dorothy Shea e de onde foi exfiltrado de helicóptero, pelas Forças Especiais dos EUA, para Chipre.
- Austin Tice é um capitão da Marinha que se tornou jornalista independente. Ele penetrou ilegalmente na Síria com a ajuda dos Serviços Secretos turcos antes de desaparecer, em 2012, em Daraya (subúrbio de Damasco). Eva Filipi, a Embaixatriz Checa que representa os interesses dos EUA na Síria, afirmara que ele estaria detido não por jiadistas, mas pelas autoridades sírias. O que Damasco sempre desmentiu.

Estes três cidadãos dos EUA são muito provavelmente colaboradores ou agentes da CIA.

- Estranhamente, os Emirados Árabes Unidos quebraram o embargo dos EUA e levaram medicamentos ao Irão.
- Cada facção libanesa acusa a outra de ter cedido às pressões dos EUA. O Hezbolla garante não ter traído a Resistência e não ter negociado secretamente com Washington, enquanto o Presidente do Tribunal militar (pró-Hezbolla) se demitiu.
- É a primeira vez desde há duas décadas que um Presidente norte-americano solicita, publicamente, a ajuda da República Árabe Síria.

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O Secretário da Defesa dos EUA, Mark Esper, recebe o seu homólogo britânico, Ben Wallace, no Pentágono. A «relação especial» entre os dois países é restabelecida. Os «Cinco Olhos» são reforçados. O Reino Unido toma o comando das operações da OTAN-MO.

Transferência do enquadramento militar para o Reino Unido

A 5 de Março, o Secretário da Defesa dos EUA , Mark Esper, recebeu no Pentágono o seu homólogo britânico Ben Wallace. Os dois homens partilharam o comando da nova OTAN-MO [1].

Ben Wallace em seguida pronunciou um discurso no Atlantic Council, no decurso do qual confirmou a solidez da aliança Reino Unido-EUA e a disponibilidade do Reino Unido. Ele apoiou igualmente a necessidade de julgar o «ditador Bashar al-Assad» (sic), mas a impossibilidade de o fazer tendo em conta o apoio do «urso russo». Por outras palavras, a Síria continua a ser um inimigo, mas não lhe tocaremos mais. A guerra será deslocada [2].

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O Secretário britânico da Defesa, Ben Wallace, e o seu homólogo turco, o General Hulusi Akar, inspeccionam os «postos de observação» turcos que servem de base de recuo aos jiadistas de Idleb

(Síria ocupada), em 12 de Março de 2020. Londres assegura a Ancara que o Pentágono não destruirá a Turquia, mas a Arábia Saudita.

A 12 e 13 de Março, Ben Wallace dirigiu-se para a Turquia e, depois, para a Síria ocupada pelos jiadistas. Ele inspeccionou os postos de observação do Exército turco em Idleb e fez chegar 89 milhões de libras em doações «humanitárias» às famílias dos jiadistas. Estes começaram então a atacar as tropas turcas que eram supostas de os proteger, matando vários soldados turcos.

O fim do Iémene e o início do da Arábia Saudita

Prosseguindo a sua política de retirada militar e de transferência dessa função para “proxys” (espécie de agentes mercenários-ndT), os Estados Unidos estão em vias de transformar a guerra no Iémene (Iêmen-br). Originalmente, o Pentágono previa dividir este país em dois, segundo a linha de partilha que existiu até 1990. Ele incentivara a Arábia Saudita e Israel a lançarem-se num assalto do país a fim de explorar os recursos petrolíferos da região adjacente ao «Crescente Vazio» [3]. A operação foi lançada com a Força Aérea israelita, mercenários colombianos sob bandeira saudita e tropas emiradenses. Ela foi coordenada por um Estado-Maior tripartido (Arábia/EUA/Israel) sediado na Somalilândia.

No entanto, o Pentágono, apoiando-se em rivalidades tribais, tratou de baralhar mais a situação até chegar não apenas a um país efectivamente dividido em dois, mas também a uma igualmente dividida coligação Saudo-Sudanesa/Emirados. Só lhe faltava então —sem envolver as suas próprias tropas— terminar a divisão do Iémene, em dois Estados distintos, para se lançar na divisão do antigo aliado saudita em cinco Estados distintos. O Pacto de Quincy obriga-o a proteger o Rei da Arábia Saudita, mas, não nem o seu país, nem o seu herdeiro [4].

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O soberano de facto do Abu Dhabi e Presidente de facto dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed, foi o mentor do Príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman. Progressivamente o aluno quis esmagar o seu professor. No fim, é o discreto MBZ quem deverá esmagar o enfatuado MBS.

Esta semana, o Pentágono despachou um navio de guerra para o largo de Adém. Ele colocou tropas britânicas na ilha de Socotorá para fazer dela uma base militar permanente com os Emirados Árabes Unidos e guarneceu-a com mísseis Patriot. Simultaneamente, os Hutis do Norte, apoiados pelo Irão, atacaram com sucesso duas bases militares sauditas e fizeram prisioneiros mais de 700 soldados sauditas, enquanto as tribos apoiadas pelos Emirados atacaram as tribos apoiadas pela Arábia Saudita em Adém. O Governo de Abdrabbo Mansour Hadi, a única autoridade oficialmente reconhecida pela ONU, mas sediada no exílio em Riade, perdeu o controle de Adém.

O Príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman, depois de ter torturado seu demasiado brilhante amigo de infância, depois de ter assassinado os seus rivais, depois de ter executado o líder xiita da sua oposição, depois de ter enfiado numa “Bastilha” e “esfolado” os seus irmãos e tios, depois de feito cortar aos bocados, em Istambul, um Irmão Muçulmano demasiado falador, já não tem mais ninguém para o apoiar.

Os Departamentos norte-americano, britânico e emiradense não emitem comunicação sobre esses combates. Apenas os Hutis o fazem. Na ausência de comunicação oficial, a imprensa internacional está cega e muda.

O Iémene do Sul é uma antiga colónia britânica e os Emirados Árabes Unidos haviam sido integrados no Império das Índias. O Reino Unido, sob o “guarda-sol” norte-americano, reconquista a sua influência no Golfo e no Mar Vermelho.

O confronto Arábia Saudita/Eixo da Resistência já não existe, por falta de combatentes. Agora, depois do Irão (1953-78), do Iraque (1979-90) e da Arábia Saudita (1991-2019), os Emirados Árabes Unidos (2020-), sob o guarda-chuva da OTAN-MO, tornaram-se os gendarmes da região.

Esta completa reviravolta da situação corresponde à nossa análise da crise. Após o seu fracasso na Síria, os Estados Unidos prosseguem o seu plano de 2001 e aprestam-se para desestabilizar a Arábia Saudita. O Presidente Trump validou esta etapa sob a condição exclusiva de que as tropas dos EUA não participem directamente, mas, sim através de representação dos Emirados.

O suicídio da União Europeia

Enquanto isso, a União Europeia reage de uma maneira inadaptada à epidemia de coronavírus. Em vez de lutar contra a doença (testes generalizados, tratamento de pessoas infectadas com cloroquina, cuidados de urgência aos doentes com respiração artificial e Interferão Alfa 2B recombinante), ela limita-se a evitar a enchente dos hospitais (quarentena domiciliar da população saudável) [5]. A sua economia paralisou e o Banco Central Europeu anuncia uma recessão de 5% se esta situação se prolongar duas semanas, mas que provavelmente serão seis.

Quando o pico da epidemia tiver passado, ela já não será uma grande potência económica e o mundo se organizará de uma nova maneira... sem ela.



[1] “NATO Go Home!”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Fevereiro de 2020.

[2] “Que alvo após a Síria ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Março de 2020.

[3] “Exclusivo : Os projectos secretos de Israel e da Arábia Saudita”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2015.

[4] “O Pacto de Quincy apenas protege o Rei da Arábia, não o seu herdeiro”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Outubro de 2018.

[5] “Covid-19 : propaganda e manipulação”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Março de 2020.



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GeopolíticaQue alvo após a Síria ?

Os acontecimentos que, desde 2001, se produziram no «Médio-Oriente Alargado» seguem uma lógica implacável. A questão actual é a de saber se é chegado o momento de uma nova guerra na Turquia ou na Arábia Saudita. A resposta depende nomeadamente do relançar de hostilidades na Líbia. É neste contexto que deve ser interpretado o Protocolo Adicional negociado pelos Presidentes Erdoğan e Putin para resolver a crise de Idleb.

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O mapa inicial da «remodelagem do Médio-Oriente Alargado», publicado pelo Coronel Ralph Peters.

19 anos de «guerra sem fim»

O Presidente George W. Bush decidiu transformar radicalmente as missões do Pentágono, conforme explicou, em 13 de Setembro de 2001, o Coronel Ralph Peters na revista do Exército, Parameters. O Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, nomeou o Almirante Arthur Cebrowski para a missão de treinar os futuros oficiais. Este passou três anos a dar a volta às universidades militares de modo que hoje todos os oficiais generais seguiram os seus cursos. O seu pensamento foi difundido para o grande público pelo seu ajudante, Thomas Barnett.

As zonas atingidas pela guerra dos EUA seriam entregues ao «caos». Este conceito deve ser entendido no sentido do filósofo inglês Thomas Hobbes, ou seja, como a ausência de estruturas políticas capazes de proteger os cidadãos da sua própria violência («O homem como lobo do homem»). E não no sentido bíblico de fazer tábua rasa antes da criação de uma ordem nova.

Esta tipo de guerra é uma adaptação das Forças Armadas dos EUA à era da globalização, a transição do capitalismo produtivo para o capitalismo financeiro. «A guerra é uma extorsão», dizia antes da Segunda Guerra Mundial o General mais condecorado dos Estados Unidos, Smedley Butler [1]. A partir de agora, amigos e, ou, inimigos não contarão nada, a guerra permitirá uma simples gestão dos recursos naturais.

Esta forma de guerra supõe inúmeros crimes contra a humanidade (nomeadamente limpezas étnicas) que as Forças Armadas dos EUA não podem cometer. O Secretário Donald Rumsfeld contratou, pois, exércitos privados (entre os quais a Blackwater) e desenvolveu organizações terroristas enquanto fingia combatê-las.

As Administrações Bush e Obama seguiram esta estratégia: destruir as estruturas estatais de regiões inteiras do mundo. A guerra dos EUA já não tem como objectivo vencer, mas durar (a «guerra sem fim»). O Presidente Donald Trump e o seu primeiro Conselheiro de Segurança Nacional, o General Michael Flynn, puseram em causa esta evolução sem conseguir alterá-la. Hoje em dia, os defensores da teoria Rumsfeld/Cebrowski prosseguem os seus objectivos não tanto através do Secretariado da Defesa mas mais através da OTAN.

Depois do Presidente Bush ter lançado a «guerra sem fim» no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003), uma forte contestação surgiu entre as elites políticas de Washington a propósito dos argumentos que haviam justificado a invasão do Iraque e da desordem que lá reinava. Foi o período da Comissão Baker-Hamilton (2006). A guerra jamais cessou, nem no Afeganistão, nem no Iraque, mas foi preciso esperar cinco anos para que o Presidente Obama abrisse novos teatros de operação: Líbia (2011), Síria (2012) e Iémene (2015).

Dois actores exteriores interferiram neste plano.
- Em 2010-11, o Reino Unido lançou a «Primavera Árabe», uma operação decalcada da «Revolta Árabe» de 1915, que permitiu a Lawrence da Arábia colocar os wahhabitas no Poder na península arábica. Desta vez, tratava-se de colocar os Irmãos Muçulmanos no Poder com a ajuda já não do Pentágono, mas do Departamento de Estado dos EUA e da OTAN.
- Em 2014, a Rússia interveio na Síria, cujo Estado não havia colapsado e que ela ajudou a resistir. Desde então, os Britânicos —que aí tentaram mudar o regime durante a «Primavera Árabe» (2011-início de 2012)—, depois os Norte-Americanos —que aí buscavam derrubar não o regime, mas destruir o Estado (meados de 2012 até à actualidade)— tiveram que se retirar. A Rússia, que persegue o sonho da Czarina Catarina, bate-se hoje em dia contra o caos, e pela estabilidade —quer dizer, pela defesa das estruturas estatais e o respeito das fronteiras—.

O Coronel Ralph Peters, que tinha revelado em 2001 a nova estratégia do Pentágono, publicou em 2006 o mapa dos alvos do Almirante Cebrowski. Ele mostrava que apenas Israel e a Jordânia seriam poupados. Todos os outros países do «Médio-Oriente Alargado» (quer dizer, de Marrocos ao Paquistão) seriam progressivamente privados de Estado e todos os grandes países (entre os quais a Arábia Saudita e a Turquia) desapareceriam.

Constatando que o seu melhor aliado, os Estados Unidos, previa cortar o seu território em dois, a fim de criar um «Curdistão livre», a Turquia tentou em vão aproximar-se da China, depois adoptou a teoria do professor Ahmet Davutoğlu: «Zero problemas com os seus vizinhos» Ela distanciou-se de Israel e começou a negociar a paz com Chipre, a Grécia, a Arménia, o Iraque etc. Apesar do diferendo territorial sobre Hatay, criou um mercado comum com a Síria. No entanto, em 2011, quando a Líbia estava já isolada, a França convenceu a Turquia que poderia escapar à partição se ela se juntasse às ambições da OTAN. O Presidente Recep Tayyip Erdoğan, um islamista político da Millî Görüş, aderiu à Confraria dos Irmãos Muçulmanos, da qual não fazia parte, na esperança de assim recuperar, em seu proveito, os frutos da «Primavera Árabe». A Turquia virou-se contra um dos seus principais clientes, a Líbia, e depois um de seus principais parceiros, a Síria.

Em 2013, o Pentágono adaptou a «guerra sem fim» às realidades encontradas no terreno. Robin Wright publicou dois mapas rectificativos no New York Times. O primeiro tinha a ver com a divisão da Líbia, o segundo com a criação de um «Curdistão» atingindo apenas a Síria e o Iraque e poupando a metade oriental da Turquia e do Irão. Ela anunciava também a criação de um «Sunnistão» a cavalo sobre o Iraque e a Síria, a divisão da Arábia Saudita em cinco e do Iémene (Iêmen-br) em dois. Esta última operação começou em 2015.

Muito satisfeito com esta rectificação, o Estado-Maior turco preparou-se para os acontecimentos. Concluiu acordos com o Catar (2017), o Kuwait (2018) e o Sudão (2017) para aí instalar bases militares e cercar o Reino saudita. O qual, em 2019, financiou uma campanha de imprensa internacional contra o «Sultão» e um Golpe de Estado no Sudão. Simultaneamente, a Turquia apoiou o novo projecto de «Curdistão» poupando o seu território e participou na criação do «Sunnistão» pelo Daesh (E.I.), sob o nome de «Califado». No entanto, as intervenções russa na Síria e iraniana no Iraque fizeram falhar este projecto.

Em 2017, o Presidente regional Massoud Barzani organizou um referendo de independência no Curdistão iraquiano. Imediatamente, o Iraque, a Síria, a Turquia e o Irão compreenderam que o Pentágono, voltando ao seu plano inicial, se aprestava a criar um «Curdistão livre» esquartejando os seus respectivos territórios. Assim, eles coligaram-se de modo a fazê-lo falhar. Em 2019, o PKK/PYG anunciou que preparava a independência do «Rojava» sírio. Sem esperar, o Iraque, a Síria, a Turquia e o Irão concertaram-se de novo. A Turquia invadiu o «Rojava», caçando o PKK/YPG, sem grande reacção dos Exércitos sírio e russo.

Em 2019, o Estado-Maior turco ficou com a convicção que o Pentágono, tendo renunciado provisoriamente em destruir a Síria, devido à presença russa, se aprestava agora a destruir o Estado turco. Para afastar o desastre, tentou reactivar a «guerra sem fim» na Líbia, depois ameaçar os membros da OTAN com as piores calamidades: a União Europeia de subversão migratória e os Estados Unidos de uma guerra com a Rússia. Para o conseguir, abriu a sua fronteira com a Grécia aos migrantes e atacou os Exércitos russo e sírio em Idleb, onde estes bombardeavam os jiadistas da Alcaida e do Daesh (E.I.), que aí estavam refugiados. É este o episódio que presenciamos hoje em dia.

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O mapa rectificativo do projecto de «remodelagem do Médio-Oriente Alargado», publicado por Robin Wright.

O Protocolo adicional de Moscovo

Em Fevereiro de 2020, o Exército turco causou baixas russas e sírias, enquanto o Presidente Erdoğan multiplicava os telefonemas ao seu homólogo russo, Putin, para fazer baixar com uma mão a tensão que provocava com a outra.

O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, comprometeu-se a conter os apetites do Pentágono se a Turquia ajudasse este ultimo a relançar a «guerra sem fim» na Líbia. Este país está dividido entre um milhar de tribos que se confrontam em volta de dois líderes principais, agentes, aliás. patenteados pela CIA, o Presidente do Conselho Presidencial, Fayez al-Sarraj, e o Comandante do Exército Nacional, Khalifa Haftar.

Na semana passada, o enviado especial do Secretário-Geral da ONU para a Líbia, o Professor Ghassan Salamé, foi convidado a demitir-se por «razões de saúde». Ele concordou, não sem deixar de expressar o seu mau humor durante uma conferência de imprensa. Foi formado um eixo para apoiar al-Sarraj, pela Confraria dos Irmãos Muçulmanos, em torno do Catar e da Turquia. Uma segunda coligação (coalizão-br) nasceu em volta de Haftar com o Egipto e os Emirados Árabes Unidos, mas também a Arábia Saudita e a Síria.

É o grande retorno desta última à cena internacional. A Síria está aureolada pelos seus nove anos de Resistência vitoriosa à Confraria e aos Estados Unidos. Duas embaixadas, líbia e síria, foram abertas com grande pompa, em 4 de Março, em Damasco e em Bengazi.

Além disso, a União Europeia, após ter solenemente condenado a «chantagem turca com refugiados», enviou a Presidente da Comissão observar o fluxo de refugiados na fronteira greco-turca e o Presidente do Conselho sondar o Presidente Erdoğan em Ancara. Este confirmou que um acordo era possível se a União se comprometesse a defender a «integridade territorial» da Turquia.

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Com um prazer sardónico, o Kremlin encenou a rendição da Turquia: a delegação turca está de pé, contrariamente ao que é habitual em que se providencia cadeiras aos hóspedes; nas suas costas, uma estátua da Imperatriz Catarina, a Grande, lembra que a Rússia estava já presente na Síria no século XVIII. Finalmente, os Presidentes Erdoğan e Putin estão sentados em frente a um pêndulo comemorativo da vitória russa sobre o Império Otomano.

Foi, pois, com esta base que o Presidente Vladimir Putin recebeu, no Kremlin, o Presidente Recep Tayyip Erdoğan, a 5 de Março. Uma primeira reunião, restrita, de três horas foi consagrada às relações com os Estados Unidos. A Rússia teria prometido proteger a Turquia de uma possível divisão com a condição que ela assinasse e aplicasse um Protocolo Adicional sobre a estabilização da situação na zona de distensão de Idleb [2]. Uma segunda reunião, igualmente de três horas mas aberta a ministros e assessores, foi dedicada à redacção deste texto. Ele prevê a criação de um corredor de segurança de 12 quilómetros de largura em torno da rodovia M4, vigiado conjuntamente pelas duas partes. Claramente: a Turquia recua para o Norte da auto-estrada que será reaberta e perde a cidade de Jisr-el-Shugur, bastião dos jiadistas. Acima de tudo, ela deverá finalmente aplicar o memorando de Sochi que prevê apoiar apenas a oposição armada síria, suposta de ser democrática e não islamista, e de combater os jiadistas. Ora, esta «oposição armada democrática» não passa de uma quimera imaginada pela propaganda britânica. De facto, a Turquia deverá ou matar, ela própria, os jiadistas, ou prosseguir e terminar a sua transferência de Idleb (Síria) para Djerba (Tunísia), depois para Trípoli (Líbia), tal como havia já começado a fazer em Janeiro.

Por outro lado, a 7 de Março, o Presidente Putin contactou o antigo Presidente Nazarbayev para estudar com ele a possibilidade de colocar, sob os auspícios da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO), «chapkas azuis» cazaques na Síria. Esta opção havia já sido considerada em 2012. Os soldados cazaques têm a vantagem de ser muçulmanos e não ortodoxos.

A opção de tratar agora a Arábia Saudita em vez da Turquia foi activada pelo Pentágono, julga-se saber em Riade, muito embora o Presidente Trump lhe imponha delirantes ordens de encomendas de armamento em troca da sua protecção. A divisão da Arábia Saudita tinha sido encarada pelo Pentágono desde 2002 [3].

Misseis foram disparados esta semana contra o palácio real em Riade. O Príncipe Mohamed bin Salman (dito «MBS», de 34 anos) mandou deter o seu tio, o Príncipe Ahmed (70 anos), e o seu antigo concorrente e antigo Príncipe herdeiro, o Príncipe Mohamed bin Nayef (60 anos), assim como diversos outros príncipes e generais. A província xiita de Qatif, onde várias cidades foram já arrasadas, foi isolada. As explicações oficiais sobre as querelas de sucessão e o coronavírus não são suficientes para explicar tudo [4].



[1] «Eu completei 33 anos e 4 meses de serviço activo e, durante esse período, passei a maior parte do meu tempo como braço armado do mundo dos negócios, de Wall Street e dos banqueiros. Em resumo, eu era um agente de extorsão, um gangster ao serviço do capitalismo. Ajudei a garantir segurança no México, sobretudo em especial a cidade de Tampico, em proveito de grupos petrolíferos americanos, em 1914. Ajudei a tornar o Haiti e Cuba um local frequentável para que os homens do National City Bank pudessem aí conseguir lucros. Ajudei à violação de uma meia dúzia de repúblicas da América Central em benefício de Wall Street. Ajudei a purificar a Nicarágua em proveito do banco americano Brown Brothers, de 1902 a 1912. Trouxe a luz na República Dominicana em proveito das empresas açúcareiras americanas, em 1916. Entreguei as Honduras às empresas fruticultoras americanas, em 1903. Na China, em 1927, ajudei a que a empresa Standard Oil fizesse os seus negócios em paz», in War Is a Racket (A Guerra é um Saque»-ndT), Smedley Butler, Feral House (1935)

[2] “Additional Protocol to the Memorandum on Stabilization of the Situation in the Idlib De-Escalation Area”, Voltaire Network, 5 March 2020.

[3] "Taking Saudi out of Arabia", Powerpoint de Laurent Murawiec pour une réunion du Défense Policy Board (July 10, 2002).

[4] “Two Saudi Royal Princes Held, Accused of Plotting a Coup”, Bradley Hope, Wall Street Journal; “Detaining Relatives, Saudi Prince Clamps Down”, David Kirkpatrick & Ben Hubbard, The New Yok Times, March 7, 2020.



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«NATO Go Home!»

Desde há duas décadas, as tropas norte-americanas impõem a sua lei no Médio-Oriente Alargado. Agora, países inteiros estão privados de Estado que os defenda. Populações inteiras foram vítimas da ditadura dos islamistas. Assassínios em massa foram cometidos. Também imperaram fomes. O Presidente Donald Trump impôs aos seus generais o repatriamento dos soldados, mas o Pentágono entende prosseguir a sua campanha com os soldados da OTAN.

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Chegada ao Conselho Atlântico do Comandante Supremo das Forças norte-americanas para a Europa, e Comandante Supremo da Aliança do Atlântico Norte, o General Tod D. Wolters (Bruxelas, 12 de Fevereiro de 2020).

O Presidente Trump consagrará o último ano do seu primeiro mandato a trazer os Boys (“Rapazes”- ndT) para casa. Todas as tropas norte-americanas estacionadas no Próximo-Oriente Alargado e em África deverão ser retiradas. No entanto esta retirada dos soldados não significará, de forma alguma, o fim da governança dos EUA nestas regiões do mundo. Muito pelo contrário.

A estratégia do Pentágono

Desde 2001 —e é uma das principais razões dos atentados do 11-de-Setembro—, os Estados Unidos adoptaram, em segredo, a estratégia enunciada por Donald Rumsfeld e pelo Almirante Arthur Cebrowski. Esta foi evocada na revista da Infantaria do Exército, pelo Coronel Ralf Peters, dois dias após os atentados [1] e confirmada, cinco anos mais tarde, pela publicação do mapa do Estado-Maior do novo Médio-Oriente [2]. Ela tinha sido mostrada em detalhe pelo assistente do Almirante Cebrowski, Thomas Barnett (Capitão-ndT), num livro para o grande público The Pentagon’s New Map (O novo mapa do Pentágono) [3] [4].

Tratava-se de adaptar as missões dos exércitos dos EUA a uma nova forma de capitalismo, dando o primado à Finança sobre a Economia. O mundo deve ser dividido em dois. De um lado, os Estados estáveis integrados na globalização (o que inclui a Rússia e a China); do outro, uma vasta zona de exploração de matérias-primas. Por isso é que convêm enfraquecer consideravelmente, idealmente arrasar, as estruturas estatais dos países dessa zona e impedir o seu ressurgimento por todos os meios. Este «caos construtor», segundo a expressão de Condoleeza Rice, não deve ser confundido com o conceito rabínico homónimo, mesmo que os partidários da teopolítica tudo tenham feito para isso. Não se trata de destruir uma ordem má para refazer uma ordem melhor, mas, sim de destruir todas as formas de organização humana para impedir qualquer forma de resistência e permitir às transnacionais explorar esta zona sem restrições políticas. Trata-se, portanto, de um projecto colonial no sentido anglo-saxónico do termo (não confundir com a colonização de povoamento).

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Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett, aquando de uma conferência no Pentágono em 2003, todas as estruturas estatais da zona rosada deviam ser destruídas.

Ao iniciar o lançamento desta estratégia, o Presidente George Bush Jr falou de «guerra sem fim». Com efeito, já não se tratava mais de ganhar guerras, e de vencer adversários, mas de as fazer durar o maior tempo possível, «um século» dissera ele. De facto, esta estratégia foi aplicada no «Médio-Oriente Alargado», quer dizer, numa zona indo do Paquistão até Marrocos e cobrindo todo o teatro de operações do CentCom e a parte Norte da do AfriCom. No passado, os GIs garantiam o acesso dos Estados Unidos ao petróleo do Golfo Pérsico (doutrina Carter). Hoje em dia, eles estão presentes numa zona quatro vezes mais vasta e ambicionam derrubar qualquer tipo de ordem, seja ela qual for. As estruturas estatais do Afeganistão desde 2001, do Iraque desde 2003, da Líbia desde 2011, da Síria desde 2012 e do Iémene desde 2015, já não são capazes de defender os seus cidadãos. Contrariamente ao discurso oficial, jamais se tratou de derrubar governos, mas muito mais de destruir Estados e de impedir a sua recuperação. A título de exemplo, a situação das populações no Afeganistão não melhorou com a queda dos Talibã, há 19 anos, antes piora inexoravelmente de dia para dia. O único exemplo contra poderia ser o da Síria que, de acordo com a sua tradição histórica, conservou o seu Estado apesar da guerra, absorveu os golpes e, muito embora arruinada hoje em dia, atravessou a tormenta.

Note-se de passagem que o Pentágono sempre considerou Israel como um Estado europeu e não como sendo médio-oriental. Portanto, ele não é envolvido neste vasto sobressalto.

Em 2001, o Coronel Ralf Peters entusiasmado assegurava que a limpeza étnica «funcionava!» (Sic), mas que as leis da guerra proibiam os EUA de a aplicar eles próprios. Daí a transformação da Alcaida e a criação do Daesh (E.I.) que fizeram por conta do Pentágono, o que ele desejava, mas não podia abertamente empreender.

Para bem captar a estratégia Rumsfeld/Cebrowski, convêm distingui-la da operação das «Primaveras Árabes», imaginada pelos Britânicos seguindo o modelo da «Grande Revolta Árabe». Nessa, tratava-se, então, de colocar a Confraria dos Irmãos Muçulmanos no Poder, tal como Lawrence da Arábia tinha colocado no Poder a dos Wahhabitas em 1915.

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Objectivo oficial, mesmo que não assumido publicamente, do Estado-Maior dos EUA: fazer rebentar as fronteiras do Médio-Oriente, destruir os Estados, tanto inimigos como amigos, aplicar a limpeza étnica.

Os Ocidentais, em geral, não têm qualquer visão do Médio-Oriente Alargado como uma região geográfica em si. Só conhecem alguns países e imaginam cada um deles isoladamente dos outros. Deste modo, convencem-se a si mesmos que os trágicos acontecimentos experimentados por esses povos têm todos razões específicas, aqui uma guerra civil, acolá o derrube de um sanguinário ditador. Para cada país, dispõem de uma história bem escrita quanto à razão do drama, mas nunca têm nenhuma para explicar por que é que a guerra dura para além disso e, sobretudo, não querem que alguém os questione quanto a tal assunto. Em cada oportunidade, denunciam «a incúria dos Americanos» que não conseguiriam terminar a guerra, esquecendo que eles reconstruiram a Alemanha e o Japão após a Segunda Guerra Mundial. Recusam constatar que, desde há duas décadas, os Estados Unidos aplicam um plano, enunciado com antecedência, ao preço de milhões de mortos. Jamais se sentem, portanto, como responsáveis por estes massacres.

Os Estados Unidos, esses, face aos seus cidadãos negam aplicar esta estratégia. Assim, o Inspector-Geral encarregado de investigar a situação no Afeganistão redigiu um relatório lamentando-se sobre as muitas ocasiões falhadas pelo Pentágono em conseguir a paz, quando, exactamente, este nunca a desejava.

A intervenção russa

De forma a pulverizar todos os Estados do Médio-Oriente Alargado o Pentágono montou uma absurda guerra civil regional, da mesma maneira como havia inventado a guerra entre o Iraque e o Irão (1980-88). Por fim, o Presidente Saddam Hussein e o Aiatola Khomeini perceberam que se matavam por nada e fizeram a paz contrariando os Ocidentais.

Desta vez, é a oposição entre sunitas e xiitas. De um lado, a Arábia Saudita e os seus aliados, do outro o Irão e os seus. Pouco importa que a Arábia Saudita wahhabita e o Irão khomeinista tenham combatido juntos, sob o comando da OTAN, durante a guerra na Bósnia-Herzegovina (1992-95), ou que inúmeras tropas do «Eixo da Resistência» não sejam xiitas (100% dos Palestinianos da Jiade Islâmica, 70% dos Libaneses, 90% dos Sírios, 35% dos Iraquianos e 5% dos Iranianos).

Ninguém sabe por que é que estes dois campos se confrontam, mas acabam levados a sangrarem-se mutuamente.

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Um terço das populações do Eixo xiita da Resistência não é xiita.

Seja como for, em 2014, o Pentágono aprestava-se a fazer reconhecer dois novos Estados de acordo com o seu mapa de objectivos: o «Curdistão livre» (fusão do Rojava Sírio e da província curda do Iraque, ao qual uma parte do Irão e todo o Leste da Turquia deveriam ser posteriormente adicionados) e o «Sunnistão» (composto da parte sunita do Iraque e do Leste da Síria). Ao destruir quatro Estados, o Pentágono pensava abrir a via a uma reacção em cadeia que devia, por ricochete, destruir toda a região.

A Rússia interveio então militarmente e fez respeitar as fronteiras da Segunda Guerra Mundial. Escusado será dizer que estas são arbitrárias, decorrentes dos acordos Sykes-Picot-Sazonov de 1915, e por vezes difíceis de aceitar, mas sendo ainda menos aceitável modificá-las pelo sangue.

A propaganda do Pentágono sempre fingiu ignorar aquilo que estava em jogo. Ao mesmo tempo, porque não assume publicamente a estratégia Rumsfeld/Cebrowski como porque iguala a adesão da Crimeia à Federação da Rússia a um golpe de força.

A “troca de pele” dos partidários da estratégia Rumsfeld/Cebrowski

Após dois anos de luta encarniçada contra o Presidente Trump, os oficiais generais do Pentágono, dos quais quase todos foram pessoalmente formados pelo Almirante Cebrowski, submeteram-se a ele mas sob certas condições.

Assim, eles aceitaram não
- criar qualquer Estado terrorista (o Sunnistão ou Califado) ;
- modificar as fronteiras pela força ;
- manter tropas dos EUA nos campos de batalha do Médio-Oriente Alargado e de África.
Em troca, ordenaram ao seu fiel Procurador Robert Mueller —que já tinham utilizado contra o Panamá (1987-89), a Líbia (1988-92) e durante os atentados do 11-de-Setembro (2001)— para enterrar o seu inquérito sobre o “Russiagate”.

Tudo se desenrolou então como uma pauta musical.

A 27 de Outubro de 2019, o Presidente Trump ordenou a execução do califa Abu Bakr al-Baghdadi, principal figura militar do campo sunita. Dois meses mais tarde, a 3 de Janeiro de 2020, ordenou a do General iraniano Qassem Soleimani, principal figura militar do Eixo da Resistência.

Tendo desta maneira demonstrado que os EUA continuava a ser o mestre do jogo ao eliminar as personalidades mais simbólicas dos dois campos, reivindicando-o e sem incorrer em resposta significativa, o Secretário de Estado, Mike Pompeo, revelou o dispositivo final, a 19 de Janeiro, no Cairo. Este prevê prosseguir a estratégia de Rumsfeld/Cebrowski já não mais com os exércitos dos EUA, mas com os da OTAN, incluindo Israel e os países árabes.

A 1 de Fevereiro, a Turquia oficializava a sua ruptura com a Rússia ao assassinar quatro oficiais do FSB em Idleb. Depois, o Presidente Erdogan dirigiu-se à Ucrânia para gritar em coro a divisa dos Banderistas (os legionários ucranianos do IIIº Reich contra os Soviéticos) junto com a Guarda Nacional Ucraniana e para receber o Chefe da Brigada Islamista Internacional (os Tártaros anti-russos), Mustafa Djemilev (dito «Mustafa Kırımoğlu»).

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O Conselho do Atlântico Norte aprova a ida de formadores da OTAN para o Médio-Oriente Alargado (Bruxelas, 13 de Fevereiro de 2020).

A 12 e 13 de Fevereiro, os Ministros da Defesa da Aliança Atlântica tomaram nota da retirada inevitável das forças dos EUA e da próxima dissolução da Coligação Internacional contra o Daesh (EI). Muito embora sublinhando que não destacariam tropas de combate, eles aceitaram enviar os seus soldados para treinar os dos exércitos árabes, quer dizer, supervisionar os combates no terreno.

Os formadores da OTAN serão prioritariamente colocados na Tunísia, no Egipto, na Jordânia e no Iraque. Assim: - A Líbia será cercada a partir do Oeste e do Leste. Os dois governos rivais, de Fayez al-Sarraj —apoiado pela Turquia, pelo Catar e com já 5. 000 jiadistas vindos da Síria, via Tunísia— e o do Marechal Khalifa —apoiado pelo Egipto e pelos Emirados— poderão ir-se matando entre si eternamente. A Alemanha, muito feliz por retomar o papel internacional, do qual estava privada desde a Segunda Guerra Mundial, fará de pregador agitado dissertando sobre a paz para abafar os gemidos dos agonizantes. - A Síria será cercada por todos os lados. Israel é já de facto um membro da Aliança Atlântica e bombardeia o que quer e quando quer. A Jordânia é já o «melhor parceiro mundial» da OTAN.

O rei Abdalla II veio a Bruxelas para conversações muito demoradas com o Secretário-geral da Aliança, Jens Stoltenberg, em 14 de Janeiro, e para participar numa reunião do Conselho Atlântico. Israel e a Jordânia dispõem já de um gabinete permanente na sede da Aliança. O Iraque receberá também instrutores da OTAN, muito embora o seu Parlamento tenha acabado de votar pela retirada das tropas estrangeiras. A Turquia é já membro da Aliança e controla o Norte do Líbano graças à Jamaa Islamiya. Juntos, eles poderão fazer aplicar a lei «César» dos EUA que interdita qualquer empresa, seja de onde for, de ajudar na reconstrução deste país.

Assim, a pilhagem do Médio-Oriente Alargado, iniciada em 2001, prosseguirá. As populações mártires desta região, cuja única falha é a de estarem divididas, continuarão a sofrer e a morrer em massa. Os Estados Unidos conservarão os seus soldados em casa, no quentinho, como anjinhos de coro, enquanto os Europeus irão carregar com os crimes dos Generais dos EUA.

Segundo o Presidente Trump, a Aliança poderia mudar de nome e tornar-se talvez a OTAN-MédiOriente (OTAN-MO/NATO-ME). A sua função Anti-Russa passaria para segundo plano em favor da sua estratégia de destruição da zona não-globalizada.

Coloca-se a questão de saber como a Rússia e a China reagirão a esta redistribuição de cartas. A China precisa, para se desenvolver, de ter acesso às matérias-primas do Médio-Oriente. Portanto, ela deverá opor-se a este controle ocidental muito embora a sua preparação militar seja ainda insuficiente. Pelo contrário, a Rússia e o seu imenso território são auto-suficientes. Moscovo (Moscou-br) não tem nenhuma razão prática para se bater. Os Russos podem até ficar aliviados com a nova orientação da OTAN. No entanto, é provável que, por motivos espirituais, eles não deixem cair a Síria e talvez apoiem mesmo outros povos do Médio-Oriente Alargado.



[1] “Stability, America’s Ennemy”, Ralph Peters, Parameters, Winter 2001-02, pp. 5-20. Reproduit in Beyond Terror : Strategy in a Changing World, Stackpole Books.

[2] “Blood borders - How a better Middle East would look”, Colonel Ralph Peters, Armed Forces Journal, June 2006.

[3] The Pentagon’s New Map, Thomas P.M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.

[4] The Pentagon’s New Map, Thomas P.M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Israel e o Catar contra o Irã

 

O Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enviou discretamente o diretor do Mossad, Yossi Cohen (foto), a Doha, no Catar, em 5 de Fevereiro de 2020, revelou, em 24 de Fevereiro, o antigo Ministro da Defesa israelense (israelita -pt) Avigdor Lieberman.

Ele viajou acompanhado do General Herzl Halevi, comandante da Frente Sul, e se encontrou com seu colega catariano, Mohammed Bin Ahmed Al-Misnad.

Juntos, eles discutiram a continuação de pagamento pelo Catar dos salários da Administração Palestina em Gaza.

Atualmente, Israel controla os Irmãos Muçulmanos em Gaza, ou seja, o Hamas, através do Catar, enquanto o Irã (Irão-pt) controla a Jiade Islâmica.

A tensão aumentou subitamente entre o Catar e o Irã, assim que se confirmou que os drones dos EUA que mataram o General Qassem Soleimani decolaram do Catar.

No mesmo dia, 24 de Fevereiro, a Força Aérea israelense bombardeou supostas instalações da Jiade Islâmica em Damasco (Síria), causando seis mortos.





Ver original na 'Rede Voltaire'



O movimento Islâmico desde os anos 80 até aos dias de hoje

A escalada de violência que os Acordos de Oslo não evitaram

 

 

Muitos cidadãos israelitas árabes apoiaram a Primeira Intifada ou Guerra das Pedras ( 1987-1983) e ajudaram os palestinianos na Cisjordânia e Gaza, fornecendo-lhes dinheiro, comida e roupas. A Primeira Intifada Palestiniana é um movimento palestiniano com protestos sucessivos e continuados, por vezes com violentos distúrbios de rua, e mostrava a revolta contra a ocupação israelita da Cisjordânia e de Gaza. Várias greves também foram realizadas por cidadãos árabes em solidariedade aos palestinianos nos territórios ocupados. Intifadasignifica revolta, agitação, rebelião. À Intifada os israelitas responderam com represálias pesadas e gerou-se um clima de ódio e violência que tornava muito difícil assegurar um futuro de paz para ambos os povos. A Irmandade Muçulmana em Gaza forma o movimento Hamas, que rapidamente se transforma em violência contra Israel.

Em Setembro de 1982 acontece o terrível massacre de palestinianos nos campos de Sabra e Shatila em Beirute, massacre feito pelos aliados de Israel no Líbano, os libaneses cristãos falangistas. Comissões governamentais israelitas consideram o ministro da Defesa Ariel Sharon responsável e recomendam sua remoção do cargo. Protestos em massa contra o massacre em Israel galvanizam o movimento anti-guerra.

Em Junho de 1985 Israel retira da maior parte do Líbano, mas continua a ocupar uma “zona de segurança” estreita ao longo da fronteira.

Outubro de 1991a conferência de Madrid patrocinada pelos EUA e pelos soviéticos reúne representantes de Israel, Líbano, Síria, Jordânia e Palestina pela primeira vez desde 1949. Inicia negociações para normalizar as relações. A participação relutante de Yitzhak Shamir, sob pressão dos EUA, faz cair o seu governo minoritário. Mas em 1992 o partido Trabalhista volta ao poder com o mesmo Yitzhak Rabin. Há promessas para interromper o programa de expansão de colonatos judaicos, e são abertas conversações secretas com a OLP.

Os Acordos de Oslo em 1993foram um período de otimismo para os cidadãos árabes. O acordo assinado em Oslo pelo mediador Bill Clinton e pelos Primeiro Ministro Israelita Yitzak Rabin e pelo representante da Autoridade Palestiniana Yasser Arafat previam, como pontos chave:

A retirada das forças armadas israelita da Cisjordania e da Faixa de Gaza.

Era reconhecido o direito dos palestinianos terem uma Autoridade Palestiniana como seu representante legal na administração dos territórios, durante cinco anos, de forma interina,até o estatuto definitivo ser acordado.

Problemas pendentes como o estatuto da cidade de Jerusalém, resoluções para proteção e defesa dos refugiados internos e na diáspora, a questão central do estatuto e futuro dos colonatos israelitas construídos nos territórios ocupados sobretudo depois da Guerra dos Seis Dias, questões de segurança de ambos os futuros estados e delimitação de fronteiras.

Estavam previstas três áreas:

  • Área A – controle total pela Autoridade Palestina.
  • Área B – controle civil pela Autoridade Palestina e controle militar pelo Exército de Israel.
  • Área C – controle total pelo Governo de Israel.

A Paz seria o objetivo final do plano que assentava nos Acordos de Oslo.

Durante essa administração de Yitzhak Rabin, os partidos árabes desempenharam um papel importante na formação de uma coligação governamental. A participação crescente de cidadãos árabes também foi vista no nível da sociedade civil. No entanto, a tensão continuou a existir com muitos árabes pedindo que Israel se tornasse um “estado de todos os seus cidadãos”, desafiando assim a identidade judaica do estado.

Yitzhak Rabin

Em Novembro de 1995 um extremista judeu mata Yitzhak Rabinem Tel Aviv. Shimon Peres assume o cargo de primeiro ministro.

Nas eleições de 1999 para o primeiro-ministro, 94% do eleitorado árabe votou em Ehud Barak. No entanto, Barak formou um amplo governo de centro esquerda-direita sem consultar os partidos árabes, dececionando a comunidade árabe.

A Segunda Intifada palestiniana, recomeçou em Setembro de 2000, depois da insultuosa e arrogante passeata de Ariel Sharon pela Esplanada das Mesquitas e no Monte do Templo, perto da Mesquita Al-Aqsa, (Jerusalém) zona religiosa e consagrada por muçulmanos e por judeus.

As tensões entre árabes e Israel um mês depois, outubro de 2000, quando 12 cidadãos árabes e um homem de Gaza foram mortos enquanto protestavam contra a resposta do governo à Segunda Intifada. Foi aí sobretudo que muitos árabes residentes em Israel se perguntassem para que lhes servia tal cidadania israelita , sem direitos correspondentes. Decidiram boicotar e ignorar as eleições israelitas de 2001 em protesto, o que teve o efeito perverso de ajudar o provocador Ariel Sharon a derrotar Ehud Barak.

De facto, como referido mais acima, nas eleições anteriores de 1999, mais de 90% da minoria árabe de Israel votou em Ehud Barak. A inscrição nos cadernos eleitorais de cidadãos beduínos de Israel caiu significativamente.

Em Maio de 1996 o Likud volta ao poder com Benjamin Netanyahu, que promete interromper quaisquer outras concessões aos palestinianos.

Em Maio de 1999 Maio a coligação liderada por trabalhistas eleita com a liderança de Ehud Barak, promete avançar com as negociações com os palestinianos e a Síria.

Avanços e recuos que para os Palestinianos e para os árabes israelitas nunca trouxeram grande proveito, mas sim grande frustração.

A Guerra do Líbano de 2006, um conflito militar que durou 34 dias no Líbano, Norte de Israel e Colinas de Golã. Os principais adversários em presença foram as forças paramilitares do Hezbollah e as Forças de Defesa de Israel.

Terminou com um cessar-fogo mediado pelas Nações Unidas, na manhã de 14 de agosto de 2006, embora o conflito só tenha terminado formalmente em 8 de setembro de 2006, quando Israel suspendeu o bloqueio naval ao Líbano. Devido ao apoio militar iraniano ao Hezbollah antes e durante a guerra, alguns consideram guerra por procuração entre Israel e o Irão.

Durante esse conflito as organizações árabes de defesa reclamaram que o governo israelita, que investia e se preocupava em proteger os cidadãos judeus dos ataques do Hezbollah, negligenciava os cidadãos árabes. Os abrigos antiaéreos em cidades e vilas árabes eram escassos ou nulos , e não havia informação de emergência em árabe. Muitos judeus israelitas viam a oposição árabe à política do governo e a sua simpatia pelos libaneses como um sinal de deslealdade, o que em nada ajudou ao clima entre os dois povos a viverem lado a lado em conflito e desconfiança permanente.

Em outubro de 2006, as tensões aumentaram quando o primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, convidou um partido político de direita, o Yisrael Beiteinu, para uma coligação de governo. O líder deste partido, Avigdor Lieberman, defendeu uma troca de território baseada na etnia, o Plano Lieberman, transferindo áreas árabes densamente povoadas para o controle da Autoridade Palestina e anexando os principais colonatos judeus na Cisjordânia, perto da linha verde como parte de uma proposta de paz. Os árabes que preferissem permanecer em Israel em vez de se tornarem cidadãos de um estado palestiniano poderiam mudar-se para Israel. Todos os cidadãos de Israel, judeus ou árabes, seriam obrigados a fazer um juramento de lealdade para manter a cidadania. Aqueles que recusarem poderiam permanecer em Israel como residentes permanentes.

Raleb Majadele

Em janeiro de 2007, o primeiro ministro árabe não druso da história de Israel, Raleb Majadele, foi nomeado ministro sem pasta (Salah Tarif, um druso, tinha sido ministro sem pasta em 2001). A nomeação foi criticada pela esquerda, que achou que era uma tentativa de encobrir a decisão do Partido Trabalhista de se unir com Yisrael Beiteinu no governo, e criticado pela direita, que via isso como uma ameaça a Israel como Estado judeu.

Raleb Majadele, agora com 66 anos, é um creditado político árabe israelita com uma conhecida carreira política. Foi o primeiro ministro muçulmano do país, nomeado Ministro sem Pasta em Janeiro de 2007. Membro do Knesset pelo Partido Trabalhista em três períodos entre 2004 e 2015.

Os últimos vinte anos não foram anos de esperança. E o Negócio do Século de Trump em nada vem ajudar a situação.

A radicalização muçulmana para onde foram lançados os Palestinianos que lutavam pela sua dignidade e pelo seu território foram consequência de sucessivas tentativas como como por ex as negociações diretas Setembro de 2010 retomadas entre Israel e a Autoridade Palestina, que falharam por causa dos colonatos israelitas ilegais. O mesmo acontece as tentativas de negociação em 2013.

Os governos de Bibi Netanyahu foram desastrosos, as posições da Europa em nada ajudaram, mas a esperança parece voltar a surgir com estas novas eleições de 2 de Março de 2020.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-movimento-islamico-desde-os-anos-80-ate-aos-dias-de-hoje/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-movimento-islamico-desde-os-anos-80-ate-aos-dias-de-hoje

“NATO Go Home!”

 
Thierry Meyssan*
 
 
Desde há duas décadas, as tropas norte-americanas impõem a sua lei no Médio-Oriente Alargado. Agora, países inteiros estão privados de Estado que os defenda. Populações inteiras foram vítimas da ditadura dos islamistas. Assassínios em massa foram cometidos. Também imperaram fomes. O Presidente Donald Trump impôs aos seus generais o repatriamento dos soldados, mas o Pentágono entende prosseguir a sua campanha com os soldados da OTAN.
 
Presidente Trump consagrará o último ano do seu primeiro mandato a trazer os Boys (“Rapazes”- ndT) para casa. Todas as tropas norte-americanas estacionadas no Próximo-Oriente Alargado e em África deverão ser retiradas. No entanto esta retirada dos soldados não significará, de forma alguma, o fim da governança dos EUA nestas regiões do mundo. Muito pelo contrário.
 
A estratégia do Pentágono
 
Desde 2001 —e é uma das principais razões dos atentados do 11-de-Setembro—, os Estados Unidos adoptaram, em segredo, a estratégia enunciada por Donald Rumsfeld e pelo Almirante Arthur Cebrowski. Esta foi evocada na revista da Infantaria do Exército, pelo Coronel Ralf Peters, dois dias após os atentados [1] e confirmada, cinco anos mais tarde, pela publicação do mapa do Estado-Maior do novo Médio-Oriente [2]. Ela tinha sido mostrada em detalhe pelo assistente do Almirante Cebrowski, Thomas Barnett (Capitão-ndT), num livro para o grande público The Pentagon’s New Map (O novo mapa do Pentágono) [3] [4].
 
Tratava-se de adaptar as missões dos exércitos dos EUA a uma nova forma de capitalismo, dando o primado à Finança sobre a Economia. O mundo deve ser dividido em dois. De um lado, os Estados estáveis integrados na globalização (o que inclui a Rússia e a China); do outro, uma vasta zona de exploração de matérias-primas. Por isso é que convêm enfraquecer consideravelmente, idealmente arrasar, as estruturas estatais dos países dessa zona e impedir o seu ressurgimento por todos os meios. Este «caos construtor», segundo a expressão de Condoleeza Rice, não deve ser confundido com o conceito rabínico homónimo, mesmo que os partidários da teopolítica tudo tenham feito para isso. Não se trata de destruir uma ordem má para refazer uma ordem melhor, mas, sim de destruir todas as formas de organização humana para impedir qualquer forma de resistência e permitir às transnacionais explorar esta zona sem restrições políticas. Trata-se, portanto, de um projecto colonial no sentido anglo-saxónico do termo (não confundir com a colonização de povoamento).
 
Ao iniciar o lançamento desta estratégia, o Presidente George Bush Jr falou de «guerra sem fim». Com efeito, já não se tratava mais de ganhar guerras, e de vencer adversários, mas de as fazer durar o maior tempo possível, «um século» dissera ele. De facto, esta estratégia foi aplicada no «Médio-Oriente Alargado», quer dizer, numa zona indo do Paquistão até Marrocos e cobrindo todo o teatro de operações do CentCom e a parte Norte da do AfriCom. No passado, os GIs garantiam o acesso dos Estados Unidos ao petróleo do Golfo Pérsico (doutrina Carter). Hoje em dia, eles estão presentes numa zona quatro vezes mais vasta e ambicionam derrubar qualquer tipo de ordem, seja ela qual for. As estruturas estatais do Afeganistão desde 2001, do Iraque desde 2003, da Líbia desde 2011, da Síria desde 2012 e do Iémene desde 2015, já não são capazes de defender os seus cidadãos. Contrariamente ao discurso oficial, jamais se tratou de derrubar governos, mas muito mais de destruir Estados e de impedir a sua recuperação. A título de exemplo, a situação das populações no Afeganistão não melhorou com a queda dos Talibã, há 19 anos, antes piora inexoravelmente de dia para dia. O único exemplo contra poderia ser o da Síria que, de acordo com a sua tradição histórica, conservou o seu Estado apesar da guerra, absorveu os golpes e, muito embora arruinada hoje em dia, atravessou a tormenta.
 
Note-se de passagem que o Pentágono sempre considerou Israel como um Estado europeu e não como sendo médio-oriental. Portanto, ele não é envolvido neste vasto sobressalto.
 
Em 2001, o Coronel Ralf Peters entusiasmado assegurava que a limpeza étnica «funcionava!» (Sic), mas que as leis da guerra proibiam os EUA de a aplicar eles próprios. Daí a transformação da Alcaida e a criação do Daesh (E.I.) que fizeram por conta do Pentágono, o que ele desejava, mas não podia abertamente empreender.
 
Para bem captar a estratégia Rumsfeld/Cebrowski, convêm distingui-la da operação das «Primaveras Árabes», imaginada pelos Britânicos seguindo o modelo da «Grande Revolta Árabe». Nessa, tratava-se, então, de colocar a Confraria dos Irmãos Muçulmanos no Poder, tal como Lawrence da Arábia tinha colocado no Poder a dos Wahhabitas em 1915.
 
Os Ocidentais, em geral, não têm qualquer visão do Médio-Oriente Alargado como uma região geográfica em si. Só conhecem alguns países e imaginam cada um deles isoladamente dos outros. Deste modo, convencem-se a si mesmos que os trágicos acontecimentos experimentados por esses povos têm todos razões específicas, aqui uma guerra civil, acolá o derrube de um sanguinário ditador. Para cada país, dispõem de uma história bem escrita quanto à razão do drama, mas nunca têm nenhuma para explicar por que é que a guerra dura para além disso e, sobretudo, não querem que alguém os questione quanto a tal assunto. Em cada oportunidade, denunciam «a incúria dos Americanos» que não conseguiriam terminar a guerra, esquecendo que eles reconstruiram a Alemanha e o Japão após a Segunda Guerra Mundial. Recusam constatar que, desde há duas décadas, os Estados Unidos aplicam um plano, enunciado com antecedência, ao preço de milhões de mortos. Jamais se sentem, portanto, como responsáveis por estes massacres.
 
Os Estados Unidos, esses, face aos seus cidadãos negam aplicar esta estratégia. Assim, o Inspector-Geral encarregado de investigar a situação no Afeganistão redigiu um relatório lamentando-se sobre as muitas ocasiões falhadas pelo Pentágono em conseguir a paz, quando, exactamente, este nunca a desejava.
 
 
 
A intervenção russa
 
De forma a pulverizar todos os Estados do Médio-Oriente Alargado o Pentágono montou uma absurda guerra civil regional, da mesma maneira como havia inventado a guerra entre o Iraque e o Irão (1980-88). Por fim, o Presidente Saddam Hussein e o Aiatola Khomeini perceberam que se matavam por nada e fizeram a paz contrariando os Ocidentais.
 
Desta vez, é a oposição entre sunitas e xiitas. De um lado, a Arábia Saudita e os seus aliados, do outro o Irão e os seus. Pouco importa que a Arábia Saudita wahhabita e o Irão khomeinista tenham combatido juntos, sob o comando da OTAN, durante a guerra na Bósnia-Herzegovina (1992-95), ou que inúmeras tropas do «Eixo da Resistência» não sejam xiitas (100% dos Palestinianos da Jiade Islâmica, 70% dos Libaneses, 90% dos Sírios, 35% dos Iraquianos e 5% dos Iranianos).
 
Ninguém sabe por que é que estes dois campos se confrontam, mas acabam levados a sangrarem-se mutuamente.
 
Seja como for, em 2014, o Pentágono aprestava-se a fazer reconhecer dois novos Estados de acordo com o seu mapa de objectivos: o «Curdistão livre» (fusão do Rojava Sírio e da província curda do Iraque, ao qual uma parte do Irão e todo o Leste da Turquia deveriam ser posteriormente adicionados) e o «Sunnistão» (composto da parte sunita do Iraque e do Leste da Síria). Ao destruir quatro Estados, o Pentágono pensava abrir a via a uma reacção em cadeia que devia, por ricochete, destruir toda a região.
 
A Rússia interveio então militarmente e fez respeitar as fronteiras da Segunda Guerra Mundial. Escusado será dizer que estas são arbitrárias, decorrentes dos acordos Sykes-Picot-Sazonov de 1915, e por vezes difíceis de aceitar, mas sendo ainda menos aceitável modificá-las pelo sangue.
 
A propaganda do Pentágono sempre fingiu ignorar aquilo que estava em jogo. Ao mesmo tempo, porque não assume publicamente a estratégia Rumsfeld/Cebrowski como porque iguala a adesão da Crimeia à Federação da Rússia a um golpe de força.
 
A “troca de pele” dos partidários da estratégia Rumsfeld/Cebrowski
 
Após dois anos de luta encarniçada contra o Presidente Trump, os oficiais generais do Pentágono, dos quais quase todos foram pessoalmente formados pelo Almirante Cebrowski, submeteram-se a ele mas sob certas condições.
 
Assim, eles aceitaram não
- criar qualquer Estado terrorista (o Sunnistão ou Califado) ;
- modificar as fronteiras pela força ;
- manter tropas dos EUA nos campos de batalha do Médio-Oriente Alargado e de África.
Em troca, ordenaram ao seu fiel Procurador Robert Mueller —que já tinham utilizado contra o Panamá (1987-89), a Líbia (1988-92) e durante os atentados do 11-de-Setembro (2001)— para enterrar o seu inquérito sobre o “Russiagate”.
 
Tudo se desenrolou então como uma pauta musical.
 
A 27 de Outubro de 2019, o Presidente Trump ordenou a execução do califa Abu Bakr al-Baghdadi, principal figura militar do campo sunita. Dois meses mais tarde, a 3 de Janeiro de 2020, ordenou a do General iraniano Qassem Soleimani, principal figura militar do Eixo da Resistência.
 
Tendo desta maneira demonstrado que os EUA continuava a ser o mestre do jogo ao eliminar as personalidades mais simbólicas dos dois campos, reivindicando-o e sem incorrer em resposta significativa, o Secretário de Estado, Mike Pompeo, revelou o dispositivo final, a 19 de Janeiro, no Cairo. Este prevê prosseguir a estratégia de Rumsfeld/Cebrowski já não mais com os exércitos dos EUA, mas com os da OTAN, incluindo Israel e os países árabes.
 
A 1 de Fevereiro, a Turquia oficializava a sua ruptura com a Rússia ao assassinar quatro oficiais do FSB em Idleb. Depois, o Presidente Erdogan dirigiu-se à Ucrânia para gritar em coro a divisa dos Banderistas (os legionários ucranianos do IIIº Reich contra os Soviéticos) junto com a Guarda Nacional Ucraniana e para receber o Chefe da Brigada Islamista Internacional (os Tártaros anti-russos), Mustafa Djemilev (dito «Mustafa Kırımoğlu»).
 
A 12 e 13 de Fevereiro, os Ministros da Defesa da Aliança Atlântica tomaram nota da retirada inevitável das forças dos EUA e da próxima dissolução da Coligação Internacional contra o Daesh (EI). Muito embora sublinhando que não destacariam tropas de combate, eles aceitaram enviar os seus soldados para treinar os dos exércitos árabes, quer dizer, supervisionar os combates no terreno.
 
Os formadores da OTAN serão prioritariamente colocados na Tunísia, no Egipto, na Jordânia e no Iraque. Assim: - A Líbia será cercada a partir do Oeste e do Leste. Os dois governos rivais, de Fayez al-Sarraj —apoiado pela Turquia, pelo Catar e com já 5. 000 jiadistas vindos da Síria, via Tunísia— e o do Marechal Khalifa —apoiado pelo Egipto e pelos Emirados— poderão ir-se matando entre si eternamente. A Alemanha, muito feliz por retomar o papel internacional, do qual estava privada desde a Segunda Guerra Mundial, fará de pregador agitado dissertando sobre a paz para abafar os gemidos dos agonizantes. - A Síria será cercada por todos os lados. Israel é já de facto um membro da Aliança Atlântica e bombardeia o que quer e quando quer. A Jordânia é já o «melhor parceiro mundial» da OTAN.
 
O rei Abdalla II veio a Bruxelas para conversações muito demoradas com o Secretário-geral da Aliança, Jens Stoltenberg, em 14 de Janeiro, e para participar numa reunião do Conselho Atlântico. Israel e a Jordânia dispõem já de um gabinete permanente na sede da Aliança. O Iraque receberá também instrutores da OTAN, muito embora o seu Parlamento tenha acabado de votar pela retirada das tropas estrangeiras. A Turquia é já membro da Aliança e controla o Norte do Líbano graças à Jamaa Islamiya. Juntos, eles poderão fazer aplicar a lei «César» dos EUA que interdita qualquer empresa, seja de onde for, de ajudar na reconstrução deste país.
 
Assim, a pilhagem do Médio-Oriente Alargado, iniciada em 2001, prosseguirá. As populações mártires desta região, cuja única falha é a de estarem divididas, continuarão a sofrer e a morrer em massa. Os Estados Unidos conservarão os seus soldados em casa, no quentinho, como anjinhos de coro, enquanto os Europeus irão carregar com os crimes dos Generais dos EUA.
 
Segundo o Presidente Trump, a Aliança poderia mudar de nome e tornar-se talvez a OTAN-MédiOriente (OTAN-MO/NATO-ME). A sua função Anti-Russa passaria para segundo plano em favor da sua estratégia de destruição da zona não-globalizada.
 
Coloca-se a questão de saber como a Rússia e a China reagirão a esta redistribuição de cartas. A China precisa, para se desenvolver, de ter acesso às matérias-primas do Médio-Oriente. Portanto, ela deverá opor-se a este controle ocidental muito embora a sua preparação militar seja ainda insuficiente. Pelo contrário, a Rússia e o seu imenso território são auto-suficientes. Moscovo (Moscou-br) não tem nenhuma razão prática para se bater. Os Russos podem até ficar aliviados com a nova orientação da OTAN. No entanto, é provável que, por motivos espirituais, eles não deixem cair a Síria e talvez apoiem mesmo outros povos do Médio-Oriente Alargado.
 
 
Imagens:1 - Chegada ao Conselho Atlântico do Comandante Supremo das Forças norte-americanas para a Europa, e Comandante Supremo da Aliança do Atlântico Norte, o General Tod D. Wolters (Bruxelas, 12 de Fevereiro de 2020); 2 - O Conselho do Atlântico Norte aprova a ida de formadores da OTAN para o Médio-Oriente Alargado (Bruxelas, 13 de Fevereiro de 2020).
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

ARTIGO DOCUMENTADO COM MAPAS QUE PODE VER NA PÁGINA DE Voltairenet.org
 
Notas:
[1] “Stability, America’s Ennemy”, Ralph Peters, Parameters, Winter 2001-02, pp. 5-20. Reproduit in Beyond Terror : Strategy in a Changing World, Stackpole Books.
[2] “Blood borders - How a better Middle East would look”, Colonel Ralph Peters, Armed Forces Journal, June 2006.
[3] The Pentagon’s New Map, Thomas P.M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.
[4] The Pentagon’s New Map, Thomas P.M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/nato-go-home.html

A NATO prepara a sua instalação no Médio Oriente alargado

 
 
Por fim, deve ser mesmo a NATO que irá dominar o mundo árabe após a retirada do CentCom (Comando Central dos EUA no Médio Oriente). A Alemanha poderia desempenhar um papel de liderança no seio da Aliança.
 
O Secretário Geral Jens Stoltenberg espera:
- 1. Instalar a Aliança na Tunísia e fazer durar, eternamente, a guerra na Líbia;
- 2. Instalar a Aliança no Iraque e na Jordânia e fazer durar, eternamente a guerra na Síria.
 
Em 1 de Fevereiro de 2020, a Turquia aproximou-se, subitamente, da NATO, da qual é membro e entrou em conflito com a Rússia, na Síria. Também retomou a transferência dos jihadistas da Síria, para a Líbia, através da Tunísia.
 
Em 12 de Fevereiro de 2020, os Ministros da Defesa da NATO decidiram, inicialmente, intensificar a sua “missão de assistência” no Iraque, embora o Parlamento iraquiano tenha exigido a retirada das tropas estrangeiras.
 
Jens Stoltenberg prepara este plano há mais de seis meses. Assim, ele concluiu acordos secretos com o rei Abdullah da Jordânia (foto) e com o Ministro tunisino dos Negócios Estrangeiros, que recebeu, durante bastante tempo, em Bruxelas.
 
Voltairenet.org | Tradução Maria Luísa de Vasconcellos

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/a-nato-prepara-sua-instalacao-no-medio.html

Irã e Turquia pedem posição "firme" dos muçulmanos contra plano de paz de Trump no Oriente Médio

Teerã, 2 fev (Xinhua) - Os ministros das Relações Exteriores do Irã e da Turquia pediram no domingo uma posição "firme" do mundo muçulmano contra o plano de paz dos EUA para o Oriente Médio, informou a agência de notícias oficial IRNA.

Em uma conversa por telefone, Mohammad Javad Zarif e seu colega turco, Mevlut Cavusoglu, expressaram sua oposição ao que eles chamavam de "venda da Palestina", segundo a IRNA.

O presidente dos EUA, Donald Trump, revelou na terça-feira o tão esperado aspecto político de seu plano de paz no Oriente Médio, uma proposta que já foi repetidamente recusada pelos palestinos.

O plano propõe uma solução de dois estados "realistas" e reconhece Jerusalém como a "capital indivisa" de Israel, segundo Trump.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou na terça-feira fortemente o plano de paz dos EUA.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-02/04/c_138755233.htm

As ambições alemãs no Médio-Oriente Alargado

 
 
Thierry Meyssan*
 
A Alemanha pretende, 75 anos após a Segunda Guerra Mundial, se tornar novamente uma potência no cenário internacional. Ela escolheu voltar ao Próximo-Oriente Alargado. Mas, para ela é difícil e perigoso elevar-se a esse nível sem nenhuma outra experiência além da histórica.
 
De acordo com o plano redigido por Volker Perthes em 2013, a Alemanha prepara-se para substituir os soldados dos EUA no Próximo-Oriente Alargado. Ela arde de impaciência depois de ter sido privada durante 75 anos do papel internacional a que se acha com direito. É para ela uma questão de honra nacional.
 
Pretende utilizar o seu exército para estabelecer a paz seja lá onde for, ela que teve que suportar o peso das guerras perdidas do nazismo.
 
A princípio, ela esperava entrar em Damasco vitoriosa ao lado dos bravos «democratas» de Idleb. Azar ! Não passam, afinal, de jiadistas! Depois, ela esperava substituir os GI.s no Norte da Síria quando o Presidente Donald Trump anunciou, pela segunda vez, a sua retirada. Infelizmente, cedendo ao Pentágono, ele deu meia volta. Ela absteve-se de intervir durante a operação turca contra o PKK/YPG, tendo em conta a sua grande população imigrante turca e curda. Imaginou, então, encobrir as suas acções por trás de um álibi humanitário, apresentando um projecto de Resolução ao Conselho de Segurança e suscitando os vetos indignados da Rússia e da China.
 
Por isso, enviou discretamente, em Outubro de 2019, peritos para apalpar o terreno junto do Presidente egípcio, Abdel al-Fattah al-Sissi, e do Emir do Catar, Xeque Tamim bin Hamad Al-Thani. Por fim, fixou-se na Líbia e organizou, a 19 de Janeiro de 2020, a conferência de Berlim.
 
Mas isso, uma vez mais, foi como um golpe de espada na água. Os dois principais rivais, Fayez el-Sarraj e Khalifa Haftar, nem se falaram. Ora, a Chancelerina Merkel recebeu, por esta altura, o apoio unânime da sua classe dirigente para «investir na paz». O comunicado final expõe esta visão imaginária de um cessar-fogo que ninguém deseja e de um exército alemão que o faria respeitar.
 
É que não é fácil compreender o Próximo-Oriente Alargado após 75 anos de ausência, não apenas aqui, mas também do cenário internacional.
 
Talvez a Alemanha encontre uma nova ocasião com o seu aliado militar de sempre, a Turquia. O que, no entanto, não é garantido de antemão : a União Europeia tem um atraso no pagamento de 2,6 mil milhões (bilhões-br) de euros quanto ao Pacto das Migrações, revelou o Ministro turco dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Mevlüt Çavuşoğlu. Berlim e Ancara não pararam de se confrontar desde a tentativa de Golpe de Estado de 2016 e do meio milhão de prisões que se lhe seguiram, entre as quais as de 59 cidadãos alemães que continuam em detenção. E confrontam-se de novo a propósito da exploração de gás no Mediterrâneo.
 
Mas também existem muitos laços históricos entre os dois países, para o melhor ou para o pior (Rudolf Höss participou no genocídio de não-muçulmanos perpetrado pelos Jovens Turcos, tendo-se tornado depois, alguns anos mais tarde, director do campo de extermínio de Auschwitz, antes de ser condenado à morte pelo Tribunal de Nuremberga). Laços humanos também uma vez que a maior comunidade turca expatriada vive na Alemanha desde a Guerra Fria. A República Federal acolheu também os líderes dos Irmãos Muçulmanos desde a tentativa de Golpe de Estado de Hama, em 1982, e dedicou-lhes um gabinete especial no Ministério dos Negócios Estrangeiros, no início da guerra contra a Síria.
 
Assim, a Chancelerina Angela Merkel viajou para Istambul para a inauguração de um novo campus da universidade germano-turca. Ela afirmou, de novo, a vontade do seu país em «ajudar» a região. Propôs, por exemplo, construir 10. 000 alojamentos para as pessoas que cheguem de Idleb. Mas, falava ela de civis ou de jiadistas?
 
Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva | Fonte Al-Watan (Síria)
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

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A política externa da Turquia

 
João Ramos - CEIRI
 
 
A política externa do governo de Recep Tayyip Erdogan tem sido objeto de atenção já a algum tempo. O renovado interesse no mandatário turco decorre de ele buscar se consolidar como uma força política ativa em distintas questões do Médio Oriente.
 
Aliando um discurso extremamente nacionalista com uma aproximação de outros Estados na área, o governo da Turquia tem tentado tornar o país mais presente nos desafios políticos e se consolidar como um interlocutor razoável para países na região.
 
A Turquia tem buscado uma alternativa de alinhamento que alia diálogo com países e forças no Médio Oriente, bem como a consolidação de sua relação com atores extra-regionais como a China, mas, sobretudo, a Rússia.
 
Recentemente, o país vem empreendendo projetos ambiciosos em seu envolvimento na região. O primeiro é a presença militar na Líbia, visando, segundo Ankara, contribuir para solucionar as tensões naquele território. O segundo é o empreendimento de um gasoduto para explorar gás natural no Mediterrâneo. Em meio a esse contexto, guiada pela Rússia, a Turquia tem empreendido esforços para estabelecer um diálogo diplomático com a Síria.
 
Frente ao cenário de instabilidade do Médio Oriente, agravado pela escalada de violência entre os Estados Unidos e Irão após o ataque que matou o general iraniano Qassem Soleimani, a Turquia tomou rápidas atitudes para marcar sua posição.
 
 
Até ao momento, tem tomado posições pragmáticas, que podem indicar tanto o desejo de se envolver com uma questão que a desobrigue de participar do conflito entre EUA e Irão, bem como o desejo de aproveitar o momento para obter ganhos políticos.
 
 
 
Em 2 de janeiro de 2020, o Parlamento turco aprovou o envio de tropas do país para a Líbia. Esta decisão, resultado do diálogo entre o governo em Ankara e a gestão do primeiro-ministro líbio Fayez Sarraj, abre um novo capítulo da crise política que se estende desde 2011 naquele país.
 
A tropas turcas irão apoiar o Governo do Acordo Nacional (GAN), que assumiu o país no processo que seguiu à queda de Muammar Gadaffi e é reconhecido pelas Organização das Nações Unidas. Atualmente, este é frequentemente ameaçado pela ação do Exército Nacional da Líbia, grupo comandado pelo marechal Khalifa Haftar e que contesta a autoridade do governo de Trípoli.
 
 
Através da ação militar na região, a Turquia pretende fortalecer o GAN e estabelecer um aliado no Mediterrâneo e norte da África. Em artigo publicado no dia 18 de janeiro, já frente a expectativa de um encontro a ser realizado no dia 19 de janeiro em Berlim, com o objetivo de discutir a situação da Líbia, Erdogan afirmou que o mundo “não fez o suficiente para defender atores que buscam o diálogo” na Líbia. O Presidente da Turquia também salienta que a União Europeia deve se posicionar como um “ator relevante” e alerta sobre o risco de uma escalada no terrorismo se a situação da Líbia não chegar a uma conclusão.
 
O governo turco também aprofundou o diálogo junto ao governo da Síria sobre questões estratégicas que vinculam os dois países. As relações entre ambos, ainda que nunca profundamente amistosas, haviam enfrentado um teste ainda mais profundo com a Operação Primavera da Paz.
 
Esta ação militar, empreendida pelo Exército turco no noroeste da Síria, visava criar uma “zona de contenção”, já demandada pelo país há muito tempo. Após a escalada do conflito, um acordo mediado pela Rússia permitiu estabelecer um cessar-fogo entre tropas locais e as forças da Turquia.
 
 
Os primeiros passos do diálogo não resolvem a tensão diplomática entre os dois países, marcadas por acusações mútuas, como a recente afirmação por parte do governo da Turquia de que o governo da Síria seria responsável pelas recentes agressões perpetradas por rebeldes em Idlib. Entretanto, a predisposição para dialogar com o governo sírio pode indicar que a Turquia possui outros planos, ou não deve tomar a ação na Síria como prioridade em um futuro próximo.
 
A Turquia ainda declarou que empreenderá a construção de campos de refugiado na zona de contenção estabelecida no nordeste da Síria. O presidente Erdogan afirmou que possui planos para restabelecer até um milhão de refugiados sírios na região. A Organização das Nações Unidas reconhece que existem 5,5 milhões de cidadãos sírios em condição de refúgio em janeiro de 2020, e 3,5 milhões destes se encontram na Turquia.
 
Os planos para exploração de gás natural, que envolvem um gasoduto contornando o Chipre, permitindo assim a exploração do recurso energético também no leste do mar Mediterrâneo, tem causado desentendimentos com países vizinhos.
 
 
Em resposta às posições sobre a operação de extração de gás na região, o porta-voz para a assuntos exteriores e política de segurança da União Europeia, Peter Stano, publicou que considera as “atividades ilegais de exploração da Turquia na Zona Económica Exclusiva do Chipre”, pois, segundo Stano, são necessárias “medidas para criar um ambiente que conduza ao diálogo em boa fé”, complementando que as atitudes da Turquia vão, “lamentavelmente, na direção contrária”.
 
Observa-se que o governo da Turquia busca usar para a região uma estratégia semelhante à aplicada no âmbito interno. Ao mesmo tempo em que consegue equilibrar interesses de distintos grupos para fortalecer a posição do governo, da mesma forma também apresenta forte discurso nacionalista com a defesa de uma política com visão ampla de Oriente Médio, com a qual pretende transitar entre distintos interesses para fortalecer e remodelar a presença na região.
 
Obtendo presença militar e económica também no Mediterrâneo, a Turquia busca dar passos para construir um novo modelo geopolítico para o Médio Oriente. Em meio à presente crise política da região, é notório que o país possui dificuldades em promover mudanças de posicionamento e ainda não é completamente clara a natureza de suas ações. Entretanto, é possível observar que a Turquia atua de forma incisiva e pragmática para defender seus interesses na área.
 
Fontes das Imagens:
Imagem 1 “O presidente Erdogan em encontro com o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin” (Fonte – Página Oficial da Presidência da Turquia no Twitter, @trpresdiency): https://twitter.com/trpresidency/status/1218913903633141761
Imagem 2 “O Chanceler turco, Mevlüt Çavuşoğlu, reunido com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo” (Fonte – Página Oficial de Mevlüt Çavuşoğlu no Twitter, @MevlutCavusoglu): https://twitter.com/MevlutCavusoglu/status/1218824951739736064

Após reunião de emergência, Liga Árabe rejeita 'plano de paz' de Donald Trump

Bandeira dos países da Liga Árabe
© REUTERS / Amr Abdallah Dalsh

A Liga Árabe rejeitou o plano de paz para o Oriente Médio proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A decisão foi tomada durante uma reunião neste sábado (1º) entre os ministros de relações exteriores dos países membros da organização. O encontro de emergência foi realizado no Cairo, Egito, poucos dias após o plano ser anunciado pelo presidente norte-americano e apoiado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

O comunicado da Liga Árabe afirma que o grupo não irá cooperar com os EUA na execução do plano e que Israel não deve implementar as medidas da iniciativa através da força.

A reunião foi um pedido do presidente palestino Mahmoud Abbas, que pediu à Liga Árabe que a organização se posicionasse contra o plano de Trump.

Apelidado de "Acordo do Século", o plano de paz foi apresentado na terça-feira (28), na Casa Branca como resultado de negociações entre os EUA e Israel. A Palestina não participou das negociações, rejeitando prontamente o plano após a divulgação.

Entre as propostas do plano de paz estão o reconhecimento de Jerusalém como capital israelense, além da anexação por parte de Israel de áreas na Faixa de Gaza e também do Vale do Jordão.

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020020115086700-apos-reuniao-de-emergencia-liga-arabe-rejeita-plano-de-paz-de-donald-trump/

Choque de titãs no coração da Terra

por Pepe Escobar [*]

Os loucos anos vinte começaram com o estrondo do assassínio do general iraniano Qasem Soleimani.

No entanto, um estrondo maior nos aguarda ao longo da década: os vários desdobramentos do Novo Grande Jogo na Eurásia mercê do afrontamento dos Estados Unidos contra a Rússia, a China e o Irão, os três principais pilares da integração na região.

Qualquer acto de mudança neste jogo em termos de geopolítica e geoeconomia terá de ser analisado em conexão com esse choque de grande envergadura.

O Estado Profundo (Deep State) norte-americano e os sectores determinantes da classe dominante dos Estados Unidos da América vivem absolutamente aterrorizados com o facto de a China estar a ultrapassar economicamente a "nação indispensável" e de a Rússia a ter superado militarmente . O Pentágono designa oficialmente os três pilares da Eurásia como "ameaças".

As técnicas de guerra híbrida – acompanhadas pela demonização sorrateira incessante – irão proliferar com o objectivo de conter a "ameaça" da China, a "agressão" russa e o "patrocínio do terrorismo" do Irão. O mito do "mercado livre" continuará a sentir-se de maneira asfixiante através da imposição de uma enxurrada de sanções ilegais, eufemisticamente apresentadas como novas "regras" comerciais.

No entanto, tais práticas dificilmente serão suficientes para inviabilizar a parceria estratégica sino-russa. Para desvendar o significado mais profundo dessa parceria é importante compreender que Pequim a define como o rumo para "uma nova era". Isso significa um planeamento estratégico a longo prazo – na perspectiva da data-chave de 2049, o centenário da Nova China.

O horizonte para os múltiplos projectos da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE), também conhecida como Nova Rota da Seda, é, de facto, a década de 2040, altura em que Pequim calcula ter tecido completamente um novo paradigma multipolar de nações/parceiros soberanos na Eurásia e além dela, todos associados por um labirinto interligado de cinturas e estradas.

Quanto ao projecto russo – a Grande Eurásia – reflecte de alguma maneira a Cintura e Estrada e estará integrado nesse processo. A Iniciativa Cintura e Estrada, a União Económica da Eurásia, a Organização de Cooperação de Xangai e o Banco de Investimento em Infraestruturas da Ásia convergem na mesma perspectiva.

Realpolitik

Esta "nova era" definida pela parte chinesa depende fortemente de uma estreita coordenação entre Pequim e Moscovo em cada sector. O projecto "Made in China 2025" engloba uma série de avanços técnico-científicos. Ao mesmo tempo, a Rússia afirma-se com recursos tecnológicos sem paralelo em armas e sistemas, em níveis que a China ainda não consegue atingir.

Na última cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada em Brasília, o presidente Xi Jinping disse a Vladimir Putin que "a actual situação internacional, com crescentes instabilidade e incerteza, instou a China e a Rússia a estabelecer uma coordenação estratégica mais estreita". A que Putin respondeu: "Na situação actual, os dois lados devem continuar a manter uma estreita comunicação estratégica".

A Rússia está a mostrar à China como o Ocidente respeita o poder da Realpolitik de qualquer forma; e Pequim está finalmente começando a usá-lo. O resultado é que, após cinco séculos de dominação ocidental – que, aliás, levaram ao declínio das antigas rotas da seda – o Heartland [1] está de volta com estrondo, afirmando a sua influência.

A minha observação pessoal, as viagens que realizei nos últimos dois anos na Ásia Ocidental e Central e as minhas conversas nos últimos dois meses com analistas em Nur-Sultan (Casaquistão), Moscovo e Itália permitiram-me mergulhar na complexidade do que algumas mentes afiadas definem como Double Helix (dupla hélice). Estamos cientes dos imensos desafios que há pela frente – ao mesmo tempo que é difícil acompanhar o impressionante ressurgimento do Heartland em tempo real.

Em termos de soft power, o papel de destaque da diplomacia russa tornar-se-á ainda mais importante – sustentado por um Ministério da Defesa liderado por Serguei Shoigu, um tuvano da Sibéria e um braço de inteligência capaz de dialogar construtivamente com todos: Índia/Paquistão, Coreia do Norte/Sul, Irão/Arábia Saudita, Afeganistão.

Esse processo amortece (complexas) questões geopolíticas de uma maneira que ainda ilude Pequim.

Paralelamente, praticamente toda a região Ásia/Pacífico tem agora em consideração a Rússia e a China como forças opostas à superioridade financeira e naval dos Estados Unidos.

Apostas no Sudoeste asiático

O assassínio direccionado do general Soleimani, por todas as suas consequências a longo prazo, é apenas um movimento no tabuleiro do Sudoeste da Ásia. Em última análise, o que está em jogo é um prémio macro-geoeconómico: uma ponte terrestre do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo Oriental.

No Verão passado uma reunião trilateral Irão-Iraque-Síria estabeleceu que "o objectivo das negociações é activar o corredor de carga e transportes" entre os três países "como parte de um plano mais vasto que é o da reactivação da Rota da Seda".

Não poderia haver um corredor de ligação mais estratégico, capaz de se interligar simultaneamente com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul; com a conexão Irão-Ásia Central-China até ao Pacífico; e com Latakia (Síria) em direcção ao Mediterrâneo e ao Atlântico.

O que está no horizonte é, de facto, uma sub-secção da Iniciativa Cintura e Estrada no Sudoeste da Ásia. O Irão é um nó central da ICE. A China está fortemente envolvida na reconstrução da Síria; e Pequim e Bagdade assinaram vários acordos e criaram um Fundo de Reconstrução Iraquiano-Chinês (receitas de 300 mil barris de petróleo por dia em troca de crédito chinês para as empresas chinesa que reconstroem as infraestruturas iraquianas).

Uma rápida olhadela aos mapas revela o "segredo" da atitude dos Estados Unidos de se recusarem a fazer as malas e a deixar o Iraque, conforme lhes foi exigido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro iraquianos: impedir o ressurgimento desse corredor através de todos os meios necessários. Especialmente quando sabemos que todas as estradas em construção pela China na Ásia Central – passei por muitas delas em Novembro e Dezembro – acabam ligando a China ao Irão.

O objectivo final: unir Xangai ao Mediterrâneo Oriental por terra, através do Heartland.

Por mais que o porto de Gwadar no Mar da Arábia (no Baluchistão paquistanês) seja um nó essencial do Corredor Económico China-Paquistão, e parte da multifacetada estratégia da China para "escapar ao Estreito de Malaca" (controlado pelos Estados Unidos), a Índia também cortejou o Irão para replicar Gwadar com o porto de Chabahar, no Golfo de Omã.

Enquanto a China pretende ligar o Mar da Arábia ao Xinjiang através do corredor económico, a Índia deseja conectar-se ao Afeganistão e à Ásia Central via Irão.

No entanto, os investimentos da Índia em Chabahar podem dar em nada, uma vez que Nova Deli ainda está a ponderar se deve tomar parte activa na estratégia "Indo-Pacífico" dos Estados Unidos; nesse caso, o Irão retirar-se-ia desse processo.

O exercício militar conjunto Rússia-China-Irão em finais de Dezembro, iniciado exactamente em Chabahar, foi um sinal inequívoco dado a Nova Deli. A Índia não pode simplesmente ignorar o Irão ou acaba por perder o seu principal nó de ligação, Chabahar.

Há um facto imutável: todas as partes interessadas têm necessidade de ligações com o Irão. Por razões óbvias, desde o Império Persa, trata-se de um centro privilegiado de todas as rotas comerciais da Ásia Central.

Mais importante ainda é o facto de, para a China, o Irão ser uma questão de segurança nacional. A China investe fortemente no sector energético do Irão. Todo o comércio bilateral é processado na moeda chinesa ou numa cesta de moedas que ignora o dólar norte-americano.

Enquanto isso, os neocons (neoconservadores) dos Estados Unidos sonham ainda com o objectivo de Cheney na década passada: mudança de regime no Irão que permita aos Estados Unidos dominarem o Mar Cáspio como trampolim para a Ásia Central, apenas a um passo de distância de Xinjiang e do incentivo aos procedimentos anti-chineses. Isto poderia ser encarado como uma Nova Rota da Seda ao contrário, para afundar o projecto da China.

A batalha das eras

Um novo livro, The Impact of the Belt and Road Iniciative (O Impacto da Iniciativa Cintura e Estrada) da China, de Jeremy Garlick, da Universidade de Economia de Praga, tem o mérito de admitir que o facto de a ICE "fazer sentido" é "extremamente difícil".

Trata-se de uma tentativa extremamente séria de teorizar sobre a imensa complexidade da Iniciativa Cintura e Estrada, especialmente considerando a abordagem flexível e sincrética da China para elaboração de políticas, bastante desconcertante para os ocidentais. Para atingir o seu objectivo, Garlick entra no paradigma da evolução social do professor Shiping Tang , mergulha na "hegemonia neo-gramsciana" e disseca o conceito de "mercantilismo ofensivo" – tudo como parte de um esforço no sentido do "ecletismo complexo".

O contraste com a vulgar narrativa de demonização da ICE terrestre que emana dos "analistas" norte-americanos é flagrante. O livro aborda em pormenor a natureza multifacetada do transregionalismo da ICE como um processo orgânico em evolução.

Os criadores de políticas imperiais não se preocupam em compreender como e porquê a ICE tem vindo a estabelecer um novo paradigma global. A recente cimeira da NATO em Londres proporcionou algumas dicas. A NATO adoptou acriticamente três prioridades dos Estados Unidos: política ainda mais agressiva em relação à Rússia; contenção da China (incluindo vigilância militar); e militarização do espaço – uma recuperação da doutrina do domínio do espectro total (Full Spectrum Dominance) de 2002.

Deste modo, a NATO será atraída para a estratégia "Indo-Pacífico", o que significa contenção da China. E como a NATO é o braço armado da União Europeia, isso implica que os Estados Unidos venham a interferir, a todos os níveis, na maneira como a Europa negoceia com a China.

O coronel na reserva do Exército dos Estados Unidos Lawrence Wilkerson, chefe de gabinete de Colin Powell de 2001 a 2005, vai directo ao ponto:

"Hoje a América existe para fazer a guerra De que outra maneira poderemos interpretar 19 anos seguidos de guerra e sem fim à vista? Faz parte de quem somos. Faz parte do que é o Império Americano. Vamos mentir, trapacear e roubar, como Pompeo está a fazer, como Trump está a fazer, como Esper está a fazer… e vários outros membros do meu partido político, os republicanos, estão a fazer. Vamos mentir, trapacear e roubar de maneira a fazer o que for preciso para manter esse complexo de guerra. Esta é a verdade de tudo isto. E essa é a agonia".

Moscovo, Pequim e Teerão têm plena consciência das apostas. Diplomatas e analistas estão a trabalhar na tendência do trio para desenvolver um esforço conjunto de modo a protegerem-se entre si de todas as formas de guerra híbrida – incluindo sanções – lançadas contra cada um deles.

Para os Estados Unidos, esta é realmente uma batalha existencial – contra todos os processos de integração da Eurásia, as Novas Rotas da Seda, a parceria estratégica Rússia-China, as armas hipersónicas russas com uma diplomacia flexível, as profundas oposição e revolta contra as políticas norte-americanas através de todo o Sul global, o quase inevitável colapso do dólar norte-americano. Mas é certo que o Império não se irá desvanecer silenciosamente durante a noite. Todos devemos estar preparados para a batalha das eras.

(1) Heartland, "coração da terra" é uma teoria geoestratégica exposta em 1904 pelo geógrafo britânico Halford John Mackinder assente na importância da Eurásia como "Grande Ilha" e cujo desenvolvimento, em termos de interligações terrestres, demonstraria que as grandes potências marítimas estavam confrontadas com os seus limites. Berlim-Moscovo seria o eixo do Heartland, substituído hoje por Moscovo-Pequim mas mantendo-se Rússia, Alemanha e China como "Estados-pivot". O Heartland deve ser entendido hoje, em termos de desenvolvimento, como "deslocado" para Leste, isto é, menos europeu e mais asiático.

[*] Jornalista, brasileiro, colaborador do Asia Times e de várias publicações internacionais

O original encontra-se em thesaker.is/battle-of-the-ages-to-stop-eurasian-integration/
e a tradução em www.oladooculto.com/noticias.php?id=627

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/asia/escobar_22jan20.html

Falemos então da região...

Ontem falei no sorriso de quem, depois de um encontro tido com o Presidente do Estado de Israel, afirmou ter havido “uma aproximação” de posições entre os dois sobre a situação regional. Porque não foi tornado público o que terá aproximado os dois presidentes sobre a situação da região, falemos então da região.

Desde logo, falemos da imagem acima que se refere aos Montes Golã.Os Montes Golã sírios foram ocupados na quase totalidade por Israel na sequência da Guerra dos Seis Dias, em 1967, e passaram a ser administrados pela entidade sionista em 1981 – o que significou a anexação territorial de facto. No entanto, essa anexação não foi reconhecida pela grande maioria dos países. Para quem quiser aprofundar consulte um texto, hoje mesmo dado a público.

Falemos depois da Cisjordânia e de um rol de notícias onde a ONU News não explica nada mas dá uma ideia pálida do que se lá passa. 
 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

O petróleo, o Médio Oriente e a guerra civil imperialista

José Goulão

Um Médio Oriente em pé de guerra é uma alternativa cultivada para afectar regimes e governos que não sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que não seja o dólar.


Estimado leitor, se lhe disserem que os Estados Unidos são auto-suficientes em hidrocarbonetos e não precisam do petróleo do Médio Oriente, não acredite.

A guerra sem fim montada pelo Pentágono através de toda a região e algumas extensões geográficas tem a ver com fontes de energia, o controlo das suas reservas, produção e distribuição. Portanto, o que tem acontecido nas últimas semanas, por exemplo a simultaneidade da desestabilização do Iraque e do Irão e a nova fase da guerra na Líbia tem, e muito, a ver com isso.

Outra coisa em que o leitor não deve acreditar é nas promessas do poder globalizante de que vai reduzir o consumo de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global e cumprir as metas da redução de emissões de dióxido de carbono. Nunca, como agora, esteve inventariada uma tão elevada quantidade de reservas de petróleo e gás natural. E serão para consumir enquanto existirem, até à última gota: o capitalismo alimenta-se delas. Quem as dominar controla o mundo – um conceito básico de qualquer geopolítica e geoestratégia bem actuais.

O que se passa no Médio Oriente tem, portanto, a ver também com hidrocarbonetos. Hoje como ontem.

A era do petróleo e do gás de xisto, caracterizada pela extracção através do método de fractura hidráulica (fracking) extremamente agressivo para o meio ambiente, alterou o ranking da produção de hidrocarbonetos e terá conduzido os Estados Unidos ao primeiro lugar entre os produtores. Segundo especialistas, porém, o período áureo dessa forma de exploração já terá sido ultrapassado na América do Norte, além de ser mais dispendiosa do que a efectuada a partir de reservas mais convencionais. Além disso, em termos norte-americanos, trata-se de mais um negócio com diferentes valências: o petróleo e o gás de xisto, mais caros, são para exportar – de preferência para os aliados europeus e de outras regiões – servindo para tentar combater produções rivais, sobretudo as russas, mesmo que através de manipulações grosseira das «leis do mercado»; e, por outro lado, os Estados Unidos importam hidrocarbonetos mais baratos de regiões onde mantêm domínio e controlo, entre elas o Médio Oriente.

Domínio e controlo não se exercem apenas sobre os produtores, mas também sobre as reservas identificadas, a investigação de possíveis novas reservas e os circuitos de distribuição. Por isso as guerras têm na mira também as rotas de gasodutos e oleodutos e nem sempre são travadas com armas. As chantagens político-económico-diplomáticas envolvendo, por exemplo, os gasodutos sem participação norte-americana como o Turk Stream (agora inaugurado), o Nord Stream 2 e o South Stream (ainda bloqueado) são exemplo dos longos braços estendidos sobre o planeta de quem se diz auto-suficiente em termos energéticos.

Domínio e controlo são ainda mais do que isto: exercem-se também tentando prejudicar e inibir a concorrência.
O que está a acontecer através da desestabilização alargada no Médio Oriente tem muito a ver com esta guerra multifacetada. E o assassínio do general iraniano Qasem Soleimani, em particular, também.

Soberanias intoleráveis

Todos ainda estamos lembrados de que, há algumas semanas, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada de parte das tropas ocupantes na Síria, mas deixando militares no terreno «a tomar conta do petróleo».

De falta de franqueza, nestas circunstâncias, ninguém pode acusar Donald Trump. A Síria tem vindo a ganhar a guerra que lhe foi movida internacionalmente, mas a restauração da soberania ainda tem limites impostos pelos poderes que governam em Washington: as zonas ricas em hidrocarbonetos, a propósito das quais, aliás, há notícia da existência de grandes reservas de gás natural – por sinal no «Rojava», o «Estado curdo» criado por Estados Unidos e Israel em parte do Norte da Síria.

Durante muito tempo quase não se ouviu falar do Iraque. Apesar de se tratar de um país em grande parte destruído pela invasão e a guerra, dividido entre bolsas de poderes exercidos por comunidades étnico-religiosas e ocupado militarmente, deixou praticamente de ser notícia. As condições de vida desumana a que estão sujeitas milhões de pessoas deixaram de chamar a atenção da comunicação social corporativa. O silêncio e a «estabilidade» prevaleciam, uma vez que em Bagdade estava em funções um governo subordinado às forças de ocupação.

A situação alterou-se. Não muito, mas o suficiente para incomodar Washington. O governo do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi, descontente com as imposições apresentadas pelos Estados Unidos para se envolverem na reconstrução das infra-estruturas do país arrasadas pela invasão e a guerra – receberem em troca metade das receitas de petróleo iraquianas – estabeleceu um acordo com outro parceiro: a China.

O céu caiu em cima da cabeça de Abdul Mahdi. Donald Trump exige-lhe que revogue o acordo e, segundo o teor de um discurso feito pelo chefe do governo no Parlamento, está por detrás das manifestações e episódios de violência que têm como objectivo a dissolução do executivo.
Acresce que Abdul Mahdi teve outro acto imperdoável para os ocupantes. Estava a servir de mediador numa aproximação feita pela Arábia Saudita em direcção ao Irão para reduzir o nível de tensão em todo o Médio Oriente. Um passo que poderia beneficiar a região, designadamente estabelecer pontes para acabar com a guerra que martiriza o Iémen.

O general Qasem Soleimani ia a Bagdade entregar a resposta do governo iraniano à iniciativa saudita, em 3 de Janeiro, quando foi assassinado por ordem do presidente dos Estados Unidos.

De uma assentada, os Estados Unidos crêem ter abortado uma iniciativa pacificadora que se desenvolvia, portanto, em sentido contrário à estratégia de guerra sem fim; e activaram um clima de desestabilização que abrange simultaneamente o Iraque e o Irão e se junta ao ambiente de guerra latente que permanece na Síria.

 

As «intromissões» da China

O que se passa no Iraque é um golpe contra o governo, dado pela potência ocupante de modo a poder contar novamente com um executivo absolutamente dócil, que revogue o acordo com a China e assegure a pretendida metade das receitas petrolíferas para o Tesouro de Washington.

Aliás, Trump já definiu muito bem as cartas do jogo depois da decisão do Parlamento de Bagdade ordenando a saída das tropas de ocupação: ou os militares norte-americanos permanecem ou os Estados Unidos bloqueiam a conta do Ministério iraquiano do Petróleo na Reserva Federal de Nova York, através da qual Bagdade movimenta quase todo o seu comércio petrolífero. Não há dúvidas, portanto, que é de petróleo que se trata.

É de mudança de governo – e de regime – a trama desenvolvida por Washington contra o Irão. As sanções que asfixiam o povo e a economia do país, a aposta cada vez menos velada nas divisões entre o presidente Rouhani e a chefia religiosa de Ali Khamenei e a instabilidade nas ruas, tudo sob um clima de ameaça militar permanente, têm como fim último o regresso de Teerão à esfera de Washington. Iraque e Irão são os dois maiores exportadores de petróleo mundiais a seguir à Arábia Saudita.

A administração Trump, como as anteriores, exige um governo de confiança no Iraque para poder continuar a usar o país como base da agressão ao Irão, além de preservar a hostilidade entre Riade e a Teerão. O assassínio do general Soleimani serviu estes objectivos.

Um Médio Oriente em pé de guerra é uma alternativa cultivada para afectar regimes e governos que não sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que não seja o dólar, como está a acontecer entre a China e o Irão, com a agravante de o fazerem contrariando as sanções impostas unilateralmente pelos Estados Unidos.

Neste momento, em relação ao Médio Oriente, pode constatar-se que a China tem em curso investimentos de um milhão de milhões de dólares no Irão, acaba de assinar um acordo de reconstrução com o Iraque e importa da Arábia Saudita a maior parte dos hidrocarbonetos que consome; e a Rússia é uma potência determinante na Síria.

Dizem-nos a história e a experiência que a diplomacia não é o forte dos Estados Unidos e que o método de negociações mutuamente vantajosas é absolutamente desconhecido em Washington. Não surpreende, pois, que a generalização da guerra seja a opção tomada pela administração Trump para proteger os interesses do império, no quadro da acarinhada teoria do «caos criativo».

O cenário dos últimos tempos nesta região, um concentrado dos interesses que comandam a globalização neoliberal, é o exemplo mais flagrante da agudização da guerra civil que se trava no sistema capitalista.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/o-petroleo-o-medio-oriente-e-guerra-civil-imperialista[1]

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References

  1. ^https://www.abrilabril.pt/internacional/o-petroleo-o-medio-oriente-e-guerra-civil-imperialista (www.abrilabril.pt)
  2. ^endereço (www.odiario.info)
  3. ^odiario.info (odiario.info)

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PEPE ESCOBAR: RAÍZES DA DEMONIZAÇÃO DO ISLÃO XIITA, PELOS NORTE-AMERICANOS

                               image
17/1/2020,
Pepe Escobar, Unz Review Tradução Amigos do Brasil
 
O assassinato premeditado pelos EUA, que se serviram de um drone como arma do crime, do major-general Qassem Soleimani, além de uma torrente de ramificações geopolíticas cruciais, mais uma vez empurra para o centro do palco uma verdade bastante inconveniente: a incapacidade congênita das chamadas elites norte-americanas para, pelo menos que fosse, tentar entender o xiismo – e a incansável demonização 24 horas por dia, 7 dias por semana, com o objetivo de degradar não apenas os xiitas mas também os governos liderados por xiitas.
Washington já fazia uma Guerra Longa antes mesmo de o conceito ser popularizado pelo Pentágono em 2001, imediatamente após do 11/9: uma Guerra Longa contra o Irã. Tudo começou mediante o golpe contra o governo democraticamente eleito de Mosaddegh em 1953, substituído pela ditadura do xá. Todo o processo vem sendo super turbinado há mais de 40 anos, desde quando a Revolução Islâmica esmagou aqueles bons velhos tempos da Guerra Fria, quando o xá reinava como o privilegiado “gendarme americano do Golfo (persa)”.
Mas é processo que vai muito além da geopolítica. Não há absolutamente nenhuma maneira de alguém conseguir compreender as complexidades e o apelo popular do xiismo, sem pesquisa acadêmica séria, complementada com visitas a locais sagrados selecionados no sudoeste da Ásia: Najaf, Karbala, Mashhad, Qom e o santuário Sayyida Zeinab perto de Damasco. Pessoalmente, tenho percorrido esse caminho do conhecimento desde o final dos anos 90 – e continuo estudante humilde.
Em espírito de abordagem inicial – para abrir um debate bem informado leste-oeste sobre uma questão cultural crucial, totalmente marginalizada no ocidente ou afogada por tsunamis de propaganda, pedi a colaboração de três excelentes pesquisadores, que ofereceram algumas primeiras impressões.
São eles: Prof. Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, especialista em Orientalismo; Arash Najaf-Zadeh, que escreve sob o pseudônimo de Blake Archer Williams e especialista em teologia xiita; e a extraordinária Princesa Vittoria Alliata, da Sicília, escritora e principal islamologista italiana, autora, dentre outros livros, do hipnotizante Harem – que detalha suas viagens por terras árabes.
Há duas semanas, fui hóspede da princesa Vittoria em Villa Valguarnera, na Sicília. Estávamos mergulhamos numa longa e envolvente discussão geopolítica – da qual um dos principais temas era EUA-Irã – poucas horas antes de um ataque de drone no aeroporto de Bagdá matar os dois principais xiitas na guerra real contra ISIS/Daech e al-Qaeda/al-Nusra: o major-general iraniano Qassem Soleimani e o iraquiano Abu Mahdi al-Muhandis, segundo no comando do grupo Hashd al-Shaabi.
Martírio x relativismo cultural
O professor Marandi oferece explicação sintética: “O ódio irracional dos EUA ao xiismo deriva do forte senso de resistência à injustiça, característico dos xiitas – a história de Karbala e do Imã Hussein e o muito que os xiitas enfatizam a proteção dos oprimidos, a defesa dos oprimidos e a resistência contra o opressor. São ideias que os EUA e as potências ocidentais hegemônicas simplesmente não podem tolerar. “
Blake Archer Williams enviou-me me resposta que foi publicada como artigo à parte. Essa passagem, em que o autor discorre sobre o poder do sagrado, sublinha claramente o abismo que separa a noção xiita de martírio, de um lado, e, de outro, o relativismo cultural ocidental:
“Nada mais glorioso para um muçulmano que alcançar o martírio enquanto luta no Caminho de Deus. O general Qāsem Soleymānī lutou por muitos anos com o objetivo de acordar o povo iraquiano, até o ponto em que eles passaram a desejar assumir com as próprias mãos o comando do destino do próprio país. A votação do parlamento iraquiano mostrou que ele alcançou seu objetivo. Seu corpo foi tirado de nós, mas seu espírito foi amplificado mil vezes, e seu martírio garantiu que fragmentos de sua luz abençoada sejam incorporados nos corações e mentes de todo homem, mulher e criança muçulmana, imunizando todos contra o câncer-zumbi dos relativistas culturais satânicos da Novus Ordo Seclorum [Nova Ordem dos Tempos]. “
[um ponto em discussão: Novus Ordo Seclorum, ou Saeculorum, significa “nova ordem dos tempos”, e deriva de famoso verso de Virgílio que, na Idade Média, era considerado pelos cristãos como profecia da vinda de Cristo. Sobre isso, Williams respondeu que “embora esse sentido etimológico da frase seja verdadeiro e ainda permaneça, a frase foi sequestrada por um George Bush O Jovem como representante da cabala globalista da Nova Ordem Mundial, e é nesse sentido que predomina hoje” [e aparece no verso da nota de 1 EUA-dólar. (NTs)]
Escravizados pelo wahabismo
A princesa Vittoria prefere organizar o debate em torno da atitude dos norte-americanos de não questionar o wahabismo: “Não acho que tudo isso tenha algo a ver com odiar o xiismo ou ignorá-lo. Afinal, o Aga Khan está super inserido na segurança dos EUA, uma espécie de Dalai Lama do mundo islâmico. Acredito que a influência satânica vem do wahabismo e da família saudita, que são muito mais hereges que os xiitas, para todos os sunitas do mundo, mas sempre foram o único contato com o Islã aceito pelos governantes dos EUA. Os sauditas financiaram a maior parte das guerras e dos assassinatos feitos primeiro pelos Irmãos Islâmicos, depois pelas outras formas de salafismo, todos eles inventados sobre base wahabista. “
Assim, diz a princesa Vittoria, “eu não tentaria tanto explicar o xiismo, mas, sim, mais, tentaria explicar o wahabismo e suas consequências devastadoras: daí nasceram todos os extremismos, bem como o revisionismo, o ateísmo, a destruição de santuários e de líderes sufistas por todo o mundo islâmico. E, claro, o wahabismo está muito próximo do sionismo. Existem até pesquisadores que exibem documentos que parecem provar que a Casa de Saud é uma tribo de Dunmeh de judeus convertidos expulsos de Medina pelo Profeta depois de tentarem matá-lo, apesar de terem assinado um tratado de paz. “
A princesa Vittoria também enfatiza o fato de que “a revolução iraniana e os grupos xiitas no Oriente Médio são hoje a única força bem-sucedida de resistência aos EUA, e isso faz com que sejam odiados mais do que outros. Mas, isso, só depois que todos os outros oponentes sunitas foram eliminados, mortos, aterrorizados (pense na Argélia, mas existem dezenas de outros exemplos) ou corrompidos. Essa, é claro, não é posição exclusivamente minha, mas é a posição da maioria dos islamólogos de hoje.”
O profano contra o sagrado
Conhecendo o imenso conhecimento de Williams sobre a teologia xiita e sua experiência em filosofia ocidental, incentivei-o a, literalmente, “pular na jugular” da questão. E ele não fugiu: “A questão de por que os políticos americanos são incapazes de entender o Islã xiita (ou o Islã em geral) é simples: o capitalismo neoliberal irrestrito gera oligarquia, e os oligarcas “selecionam” candidatos que representam seus interesses, já antes de serem “eleitos” pelas massas ignorantes. Exceções populares, como Trump, ocasionalmente escorregam para dentro do poder (ou não, como no caso de Ross Perot, que se retirou sob coação), mas mesmo Trump passou imediatamente a ser controlado pelos oligarcas com ameaças de impeachment, etc. Portanto, o papel do político eleito nas democracias parece incluir não se esforçar para compreender coisa alguma, mas, simplesmente cumprir a agenda das elites que são donos deles, que mandam neles.”
A resposta “pulo na jugular”, de Williams, é ensaio longo e complexo que gostaria de publicar na íntegra, mas só quando nosso debate aprofundar-se – acompanhado de possíveis refutações.
Para resumir, ele esboça e discute as duas principais tendências da filosofia ocidental: dogmáticos versus céticos; detalha como “a trindade sagrada do mundo antigo era de fato a segunda onda dos dogmáticos, tentando salvar as cidades gregas e o mundo grego de maneira mais geral, da decadência dos sofistas”; investiga a “terceira onda de ceticismo”, que começou com o Renascimento e atingiu o pico no século 17 com Montaigne e Descartes; e depois estabelece conexões “com o Islã xiita e com o fracasso do Ocidente em entendê-lo”.
E isso o leva ao “cerne da questão”: “Uma terceira opção e uma terceira corrente intelectual, além e acima dos dogmáticos e céticos, e essa é a tradição dos xiitas tradicionais (em oposição aos filósofos) estudiosos da religião.”
Agora compare tudo isso e o último empurrão dos céticos, “como o próprio Descartes admite, dado pelo daemon que veio a ele em sonhos, e que resultou na escrita de seu Discurso sobre o Método (1637) e Meditações sobre a Primeira Filosofia (1641). O Ocidente ainda sofre efeitos desse golpe, e parece ter decidido deixar de lado os andaimes de sustentação da razão e os sentidos (que Kant tentou em vão conciliar, tornando as coisas mil vezes piores, mais complicadas e desagregadas), para deixar-se afogar e afogar na modalidade autocongratulatória do irracionalismo conhecido como pós-modernismo, que deveria ser chamado de ultramodernismo ou hipermodernismo, pois não está menos enraizado na “virada subjetiva” cartesiana e na “revolução copernicana” kantiana, do que os pré-modernos e modernos”.
Para resumir uma justaposição bastante complexa, “o que tudo isso significa é que as duas civilizações têm duas visões totalmente diferentes sobre o que deva ser a ordem mundial. O Irã acredita que a ordem do mundo deve ser o que sempre foi e é na realidade, gostemos ou não, e mesmo que não creiamos na realidade (como alguns no Ocidente não costumam crer). E o ocidente secularizado acredita numa nova ordem mundana (em oposição à ordem de outro mundo, ou divina).
E, portanto, não é tanto um choque de civilizações, mas um choque de profano contra o sagrado, com elementos profanos nas duas civilizações que combatem as forças sagradas nas duas civilizações. É o choque da ordem sagrada da justiça versus a ordem profana da exploração do homem nas mãos de seu próximo; profanar a justiça de Deus para o benefício (a curto prazo ou mundano) dos que se rebelam contra a justiça de Deus. “
Dorian Gray revisitado
Williams fornece um exemplo concreto para ilustrar esses conceitos abstratos: “O problema é que, embora todos saibam que a exploração do 3º Mundo nos séculos 19 e 20 pelas potências ocidentais foi injusta e imoral, essa mesma exploração continua até hoje. A continuação dessa injustiça ultrajante é a base definitiva para as diferenças existentes entre o Irã e os Estados Unidos, que continuarão inevitavelmente enquanto os EUA insistirem em suas práticas de exploração e enquanto continuarem a proteger os governos de protetorados norte-americanos, os quais só sobrevivem contra a vontade avassaladora do povo que governam, por causa da presença deformante e viciante das forças americanas que os sustentam para que continuem a servir aos interesses dos EUA, não aos interesses dos respectivos governados. É uma guerra espiritual pelo estabelecimento de justiça e autonomia no 3º Mundo.
O Ocidente pode continuar a parecer bem aos seus próprios olhos, porque controla reality-show dito “realidade” (o discurso mundial), mas sua imagem real é bem clara para todos verem, embora o Ocidente continue a se ver como Dorian Gray, no único romance de Oscar Wilde: como uma pessoa jovem e bonita cujos pecados só apareciam num retrato. O ‘retrato’ reflete a realidade que o 3º Mundo vê todos os dias, enquanto o ocidental Dorian Gray continua a se ver como é retratado pelas CNNs e BBCs e New York Times do mundo.”
“O imperialismo ocidental na Ásia ocidental é geralmente simbolizado pela guerra de Napoleão Bonaparte contra os otomanos no Egito e na Síria (1798–1801). Desde o início do século 19, o Ocidente tem sugado a veia jugular do corpo muçulmano político, como um verdadeiro vampiro cuja sede de sangue muçulmano nunca é saciada e que se recusou a soltar a jugular muçulmana.
Desde 1979, o Irã, que sempre desempenhou o papel de líder intelectual do mundo islâmico, levantou-se para acabar com esse ultraje contra a lei e a vontade de Deus, e contra toda decência.
Portanto, trata-se de revisar uma visão falsa e distorcida da realidade, devolvendo-a ao que a realidade realmente é e deve ser: uma ordem justa. Mas essa revisão é dificultada tanto pelo fato de que os vampiros controlam o ‘making-of’ da realidade, quanto pela inaptidão dos intelectuais muçulmanos e por sua incapacidade de entender até os rudimentos da história do pensamento ocidental, seja em seu período antigo, medieval ou moderno. “
Há chance de que o ‘making-of’ da realidade seja desmascarado? É possível que sim: Possivelmente: “O que precisa acontecer é que a consciência mundial abandone o paradigma pelo qual as pessoas realmente creem que um maníaco como Pompeo e um palhaço como Trump representariam o modelo de normalidade; que troquem esse paradigma, por outro, pelo qual as pessoas creiam que Pompeo e Trump são gângsteres, reles bandidos, que fazem o que bem entendam, não importa o quanto sejam repugnantes e depravadas as coisas que eles façam, e o fazem com quase total e absoluta impunidade.
E esse é um processo de rejeitar o discurso do paradigma dominante e de se unir ao Eixo da Resistência, liderado pelo mártir general Qāsem Soleymānī.
Não menos importante, esse processo envolve rejeitar o absurdo segundo o qual a verdade seria relativa (e também, desculpe, Einstein, rejeitar o absurdo segundo o qual tempo e espaço seriam relativos); e abandonar a filosofia absurda e niilista do humanismo; e despertar para a realidade de que existe um Criador e que Ele está realmente no comando.
Claro que tudo isso é demais para a mentalidade moderna tão iluminada, que entende tudo de tuuuuuuuuuuuuuudo!”
Aí está. E isso é só o começo. Acréscimos e refutações são bem-vindas. Convocam-se todas as almas informadas: está aberto o debate.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Já passam de 100 as vítimas fatais de ataque com mísseis e drones no Iêmen

Soldado leal ao governo iemenita na província de Marib (arquivo)
© REUTERS / Stringer

Já são mais de 100 as mortes confirmadas após um ataque de grandes proporções atribuído aos houthis ocorrido no Iêmen no último sábado.

O bombardeio, envolvendo drones e mísseis, atingiu uma mesquita localizada em um campo militar na província central de Marib, a cerca de 170 quilômetros da capital do país, Sanaa. Segundo fontes ouvidas pela AFP, a ação teria sido realizada durante as orações noturnas no local. 

A informação sobre o número de vítimas foi publicada no Twitter oficial do Ministério das Relações Exteriores do Iêmen. Se confirmado esse balanço, esse será um dos ataques mais sangrentos desde o início do conflito civil que vem devastando o país desde 2014.

 

​Condenamos nos termos mais fortes o ataque terrorista de uma milícia houthi contra uma mesquita no campo da Quarta Brigada, uma proteção presidencial na província de Marib, que resultou na morte de mais de 100 pessoas e dezenas de membros feridos da brigada e de algumas outras unidades durante a oração.

Ainda de acordo com a Agence France-Presse, um porta-voz do exército disse que as vítimas incluiriam tanto militares quanto civis e que os houthis iriam sofrer uma retaliação cruel.

Mais cedo, o presidente iemenita, Abd Rabbuh Mansur Hadi, descreveu o ataque em Marib como uma "agressão flagrante" por parte dos houthis, que, segundo ele, não estariam prontos para um processo de pacificação. Hadi vive há anos em exílio, na Arábia Saudita, país que, a pedido dele, realiza ataques contra os houthis no Iêmen desde 2015, liderando uma coalizão formada por outros países árabes.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020011915025449-ja-passam-de-100-as-vitimas-fatais-de-ataque-com-misseis-e-drones-no-iemen/

[Manlio Dinucci] CHAMADA ÀS ARMAS, A NATO MOBILIZADA EM DUAS FRENTES

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NATOME: Assim, o Presidente Trump, que se orgulha do seu talento para criar siglas, já baptizou o destacamento da NATO no Médio Oriente, por ele solicitado por telefone, ao Secretário Geral da Aliança, Stoltenberg. Este concordou imediatamente, que a NATO deveria ter “um papel cada vez maior no Médio Oriente, particularmente, nas missões de treino”. Ele participou, em seguida, na reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, salientando que a União Europeia deve permanecer ao lado dos Estados Unidos e da NATO, porque “embora tenhamos feito progressos enormes, o Daesh pode regressar”.
 
Os Estados Unidos procuram, deste modo, envolver os aliados europeus na situação caótica provocada pelo assassínio, autorizado pelo próprio Trump, do General iraniano Soleimani, logo que desembarcou no aeroporto de Bagdad. Depois do Parlamento iraquiano ter deliberado a expulsão de mais de 5.000 soldados americanos presentes no país, juntamente com milhares de pessoal militar de empresas privadas, contratados pelo Pentágono, o Primeiro Ministro Abdul-Mahdi, pediu ao Departamento do Estado para enviar uma delegação a fim de estabelecer o procedimento da retirada. Os EUA - respondeu o Departamento – irão enviar uma delegação “não para discutir a retirada de tropas, mas o dispositivo adequado de forças no Médio Oriente”, acrescentando que em Washington se está a ajustar “o reforço do papel da NATO no Iraque, alinhado com o desejo do Presidente de que os Aliados partilhem o fardo de todos os esforços para a nossa defesa colectiva”.
 

O plano é claro: substituir, totalmente ou em parte, as tropas USA no Iraque pelas dos aliados europeus, que se encontrariam nas situações mais arriscadas, como demonstra o facto de que a própria NATO, depois do assassínio de Soleimani, suspendeu as missões de treino no Iraque. Além da frente meridional, a NATO está a ser mobilizada na frente oriental. Para “defender a Europa da ameaça russa”, está a preparar-se o exercício Defender Europe 20 que, em Abril e Maio, terá o maior destacamento de forças USA na Europa, dos últimos 25 anos. Chegarão dos Estados Unidos 20.000 soldados, incluindo vários milhares de militares da Guarda Nacional dos 12 estados USA, que se juntarão aos 9.000 já presentes na Europa, elevando o total para cerca de 30.000 militares. A eles juntar-se-ão 7.000 soldados de 13 países europeus da NATO, entre os quais a Itália e 2 parceiros, a Geórgia e a Finlândia. Além dos armamentos que virão do outro lado do Atlântico, as tropas americanas empregarão 13.000 tanques, canhões auto-propulsores, veículos blindados e outros meios militares dos “depósitos pré-posicionados” dos USA na Europa. Comboios militares com veículos blindados percorrerão 4.000 km por 12 artérias, operando em conjunto com aviões, helicópteros, drones e unidades navais. Páraquedistas USA da 173ª Brigada e italianos da Brigada Folgore serão lançados em conjunto, na Letónia.

O exercício Defender Europe 20 assume maior relevo, na estratégia USA/NATO, após o agravamento da crise no Médio Oriente. O Pentágono que, no ano passado enviou 14.000 soldados para o Médio Oriente, está a desviar na mesma região, algumas forças que se estavam a preparar para os exercícios de guerra na Europa: 4.000 paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada (incluindo algumas centenas de Vicenza) e 4.500 marinheiros e fuzileiros navais do navio de ataque anfíbio USS Bataan. Outras forças, antes ou depois do exercício na Europa, poderiam ser enviadas para o Médio Oriente. No entanto, o planeamento do Defender Europe 20, observa o Pentágono, permanece inalterado. Por outras palavras, 30.000 soldados dos EUA exercitar-se-ão a defender a Europa de uma agressão russa, um cenário que nunca poderia verificar-se porque no combate, usar-se-iam não tanques, mas mísseis nucleares. No entanto, é um cenário útil para semear tensões e alimentar a ideia do inimigo.

 

il manifesto, 9 de Janeiro 2020 image

 

http://www.natoexit.it/en/home-en/ -- ENGLISH

 

http://www.natoexit.it/ -- ITALIANO

 

 

 

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DECLARAÇÃO DE FLORENÇA Para uma frente internacional NATO EXIT,  em todos os países europeus da NATO DANSK DEUTSCH ENGLISH ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO NEDERLANDS PORTUGUÊS ROMÎNA SLOVENSKÝ SVENSKA TÜRKÇE РУССКИЙ

 

 

Manlio DinucciGeógrafo e geopolitólogo. Livros mais recentes: Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016, Guerra Nucleare. Il Giorno Prima 2017; Diario di guerra Asterios Editores 2018; Premio internazionale per l'analisi geostrategica assegnato il 7 giugno 2019 dal Club dei giornalisti del Messico, A.C.

 

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos  Email: luisavasconcellos2012@gmail.com Webpage: NO WAR NO NATO

 

 
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

O lugar do Iraque no Grande Jogo entre EUA e Irão

A sina do Iraque actual é ser, além de um país ocupado, terreno onde se trava uma guerra ainda não declarada entre países terceiros: EUA, Israel e Irão. Num Médio Oriente em que, além dos EUA e do seu aliado sionista, os alinhamentos das variantes sunita e xiita do Islão – entre outros factores - tornam ainda mais complexa a questão.

Se desde 2003 os EUA e a República Islâmica do Irão (RII) coabitaram no Iraque, partilhando o poder sem quase nenhum atrito, o que é que de repente provocou um confronto directo entre ambos no solo desse país ferido? A curiosa coexistência fez com que, por exemplo, exista um aparelho de inteligência que realiza actividades “anti-iranianas” e outro, o Ministério da Informação, que faz o contrário. Calculem quantos agentes duplos podem cruzar-se atravessar num mesmo edifício num país corrupto!

“A mim agrada-me a paz”, respondeu Donald Trump à pergunta sobre se iria haver um ataque militar contra o Irão por causa do ataque à embaixada dos EUA em Bagdad. Até agora, o presidente resistiu às pressões dos NeoCon, de Israel e do complexo militar-industrial, que recorreram a multiplas provocações para o empurrar para a guerra. Israel, depois de atacar até 200 vezes nos últimos dois anos as bases das forças pró-iranianas na Síria, começou em Julho passado a lançar mísseis sobre as milícias iraniano-iraquianas das Unidades de Mobilização Popular (UMP) em território iraquiano. O último em 29 de Dezembro, em que os Estados Unidos também participaram, matando 24 dos seus homens.

“Ontem à noite tomamos umas medidas para deter uma guerra” é a frase enigmática que Trump pronunciou logo depois de assassinar Gasem Soleimani, e dado que Teerão não tinha qualquer plano para enfrentar os Estados Unidos, ele estava a referir-se a impedir um ataque maciço de Israel sobre as sedes das UMP no Iraque, o que teria provocado uma grande guerra envolvendo o Irão e os EUA? Se é assim, é possível que o presidente dos Estados Unidos tenha oferecido a cabeça do chefe iraniano da rede anti-israelense de Quds (”Sagrada”, nome árabe de Jerusalém”), em troca de Tel Aviv renunciar a essa loucura? Após a Operação Babilónia de 1981, na qual Israel bombardeou um reactor nuclear no Iraque, é a primeira vez que volta a atacar este país, e com total impunidade, como de costume. Israel está com pressa de acabar com o Irão, não está seguro da reeleição de Trump, e os democratas prometeram resgatar o acordo nuclear com o Irão se recuperarem o poder em Novembro. John Kerry lembrou ao Congresso que foi Netanyahu quem aconselhou os EUA a invadir o Iraque, com argumentos falsos.

Trump precisa do dinheiro do lobby judaico para a sua campanha eleitoral. Em 2016, o magnata de casinos judeu Sheldon Adelson doou US $ 25 milhões com a condição de que enfrentasse o Irão, e se fosse com a bomba nuclear melhor ainda, dissera. “Manter as forças militares dos EUA no Médio Oriente já não é pelo petróleo; é para proteger Israel”, confessou Trump em Novembro de 2018, embora não tenha revelado as razões desse estranho relacionamento.
A televisão iraquiana informou que Soleimani caiu numa emboscada: tinha sido convocado para ir buscar uma suposta mensagem dos EUA depositada nos seus contactos em Bagdad. Segundo o general iraniano Ali Fadavi, Trump tinha enviado uma mensagem a Teerão pedindo “proporcionalidade na sua represália”, justamente aquilo que ele ia fazer, aplicando a Lei do Olho por Olho: matar um alto cargo dos EUA, não centenas deles numa guerra. Nesse sentido, o jornal Independent em persa afirma que o ataque do Irão às bases dos EUA no Iraque foi acordado e que o seu pessoal fora evacuado antes dos disparos.
Mesmo assim, esta guerra tem a sua “lógica” e este tipo de pactos não poderá impedi-la. A guerra econômica, política e psicológica contra o Irão entra na sua fase bélica, embora de momento de baixa intensidade.

O que procura o Irão no Iraque?

Centenas de anos antes do nascimento dos EUA, os actuais territórios do Iraque eram uma província do Império Persa, e Bagdad (”Jardim da Justiça” em persa) era um paraíso terrestre. O Irão perde-o para o Império Otomano numa guerra no século XVI, e os otomanos entregaram-no ao Império Britânico na Primeira Guerra Mundial. Será em 1979 e com a revolução iraniana que os EUA organizam uma série de golpes de Estado na região, garantindo os seus interesses: no Iraque, levam ao poder Saddam Hussein, chefe dos serviços de informações e assassino de milhares de comunistas e outros democratas iraquianos, enquanto outro presidente profundamente anticomunista, o aiatolah Khomeini, é transferido de França para o Irão, país com uma poderosa esquerda e uma ampla fronteira com a URSS. A recém-instalada teocracia de extrema-direita, depois de abortar a revolução democrática, enfrenta três inimigos: União Soviética, Iraque e Israel. Este último leva a sério a intenção de Khomeini de atravessar o Iraque com as suas tropas para chegar a Jerusalém e devolvê-la aos muçulmanos (não aos palestinos). Ao não vencer Saddam na guerra de 1980-1988, a RII abandona esse sonho e atribui à Força Quds a missão de proteger o regime islâmico de Israel com uma cintura de segurança - estendida desde o Afeganistão ao Iraque, passando pela Síria, Gaza e Líbano, enquanto converte ao pragmatismo e à realpolitik (com Israel e os EUA) os seus princípios de política externa. E aí está o chamado “dilema de segurança”: Não é justamente esse expansionismo do xiismo iraniano uma das razões das ameaças à segurança do Irão?
Em 1991, quando tanto Saddam Husein como a URSS desaparecem, a RII conseguiu expandir a sua influência em toda a região, incluindo o Iraque. O facto de Bush ter instalado uma teocracia xiita em Bagdad foi um presente de Allah para a RII e um pesadelo para Israel, Turquia e Arábia Saudita. Muitos dos seus novos responsáveis tinham estado exilados no Irão de Khomeini, embora, ao contrário de outras potências estrangeiras, a RII não só tenha trabalhado entre a elite iraquiana para obter favores, como também tenha criado meia dúzia de milícias que organizam dezenas de milhares de homens armados, e uma vasta rede social e religiosa diante perante a qual se apresenta como uma “alternativa benigna” ao domínio dos EUA.
O nível de influência do Irão no Iraque é tal que, em 30 de Outubro, o primeiro-ministro Abdul Mahdi - rosto da aristocracia castrense iraquiana - declarou que se ia demitir para antecipar as eleições parlamentares. Mudou de ideia dois dias depois, após um encontro com Soleimani em Bagdad: resistirá às pressões do “inimigo”, referindo-se a dezenas de milhares de manifestantes sem água, sem luz e sem trabalho.
O Iraque é o maior parceiro comercial do Irão, onde a RII neutraliza as sanções impostas por Trump, e é daí que ele acede à Síria, e dali ao Líbano e Palestina. Nenhuma medida fará com que a RII dissolva a Força Quds, apesar de enfrentar a pior crise política e económica da sua história. De momento, seguirá a mesma política que na Síria: não responder aos ataques de Israel e dos EUA, além do necessário para fazer face à sua base social. A prioridade dos aiatolás no Iraque é impedir um governo hostil.

O Iraque nos projectos dos EUA

A queda de Pahleví mostrou aos EUA que os fantoches não estão a salvo da sublevação popular. De modo que Henry Kissinger apresentou sua doutrina de Dual Containment Policy “a política de dupla contenção”: haveria que travar o desenvolvimento económico, social, político e militar do Iraque e do Irão, - as principais reservas do petróleo do planeta, localizadas na proximidade da URSS e da China-, condenando-os ao subdesenvolvimento para os poder submeter a longo prazo. Ok! Como conseguir isso?

Entre 1980 e 1988 impõem a ambos os países uma guerra devastadora, que mata um milhão de jovens, deixa milhões mutilados e destrói grande parte da infraestrutura dos seus países. Três anos depois, coincidindo com o fim da URSS, os EUA lideram o ataque de cerca de 40 países ao minúsculo Iraque numa grande guerra de patranha e anuncia a Nova Ordem Mundial, dirigida pelo capitalismo dos EUA. Em 2003, remata a missão com o objectivo de:

• Encontrar uma saída para a dívida externa dos EUA.

• Animar o negócio de armas que deixou de ganhar dinheiro com o desaparecimento do “inimigo vermelho”.

. Privar os palestinianos do único país árabe que os defendia; Saddam foi um déspota e um reaccionário, mas foi também firmemente anti-Israel. Com a sua execução, o país judeu ganhou acesso ao petróleo iraquiano através da região curda.

• Converter o Iraque, localizado no coração do Médio Oriente, numa colónia, instalando aí a maior embaixada do mundo, a partir da qual o sinistro John Negroponte (o promotor do Batalhão 3-16 em Honduras) e Robert Ford organizarão o “divide e governa” através dos esquadrões da morte xiitas e sunitas, para afundar o país num caos controlado que dura até hoje. Ford foi depois enviado para Damasco em Janeiro de 2011 como embaixador dos EUA: não foi nessa data que começaram a explodir os carros-bomba e a guerra dos contra na Síria? Os EUA têm 12 bases militares no Iraque. Mais tarde, os EUA-Israel desmantelarão outros estados árabes: Líbia e Síria.

No entanto, os EUA falharam em desnacionalizar os 112.000 milhões de barris de petróleo iraquiano. Mais ainda, a China é o principal comprador do seu petróleo bruto, e é desde 2014 também o maior investidor estrangeiro no país e o seu principal parceiro comercial. Washington não perdoará Mahdi, por converte o Iraque no primeiro país da região a assinar um pré-acordo com Beijing para se integrar no megaprojecto da Rota da Seda.

Os EUA podem perder o Iraque, como aconteceu com o Paquistão, um dos pilares do seu domínio na Ásia Central: violaram a sua soberania enviando os seus drones que mataram milhares de pessoas “à procura do espírito de Bin Laden” e humilharam os seus líderes: o assalto à suposta casa do terrorista saudita foi a cereja no topo do bolo, que provocou a queima de dezenas de comboios da NATO que transportavam comida e munições para os 300.000 soldados no Afeganistão. No final, o “País dos Imaculados” (é o que o Paquistão quer dizer em persa e urdu) fez uma viragem radical em direcção à China.

Os EUA não serão capazes de expulsar a RII do Iraque, a menos que 1) consigam colocar no poder um homem forte sunita anti-iraniano, que depois de provocar um banho de sangue assuma o poder absoluto em todo o Iraque, ou 2) enviem de novo milhares de “jihadistas” sunitas e, após uma longa guerra civil, dividam o país em mini-estados.

A grande guerra entre os EUA e o Irão só terá início quando Washington ou Tel Aviv cruzarem a Linha Vermelha de atacar o território iraniano. Até lá o campo de batalha permanecerá o solo de outras nações, sobretudo o Iraque.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6210/el-lugar-de-iraq-en-el-gran-juego-entre-eeuu-e-iran/[1]

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References

  1. ^https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6210/el-lugar-de-iraq-en-el-gran-juego-entre-eeuu-e-iran/ (blogs.publico.es)
  2. ^endereço (www.odiario.info)
  3. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Putin: 'Operações militares de larga escala no Oriente Médio seriam um desastre para o mundo'

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, discursa durante reunião especial do Conselho de Defesa da Rússia, em 24 de dezembro de 2019
© Sputnik / Yevgeny Biyatov

A Rússia espera que, através de esforços conjuntos, seja possível evitar eventos negativos no Oriente Médio. A declaração é do presidente da Rússia, Vladimir Putin, após reunião com a chanceler alemã, Angela Merkel.

"Nós esperamos que com nossos esforços conjuntos, nossos passos conjuntos - justamente pra isso que nos com a chanceler [Angela Merkel] em Moscou - possamos prevenir um desenvolvimento de eventos tão desfavorável", disse Putin a jornalistas.

O presidente russo disse que espera que a situação não escale para conflitos militares de larga escala no Oriente Médio, o que, de acordo com ele, seria um desastre para o mundo inteiro.

"O fato é que há uma guerra lá, nós já observamos o chamado conflito de baixa intensidade. Mas estas são operações militares, pessoas estão sendo mortas. Isso é um fato. Eu gostaria muito de evitar operação militares de larga escala. Se isso acontecer, seria um desastra não só para a região, Oriente Médio, mas para o mundo inteiro", declarou Putin.

Segundo o presidente, essas ações levarão a novos fluxos de refugiados, não apenas para a Europa, mas também para outras regiões.

"Será um desastre humanitário, um desastre inter-religioso, um desastre econômico, porque levará à destruição ou a enormes danos à economia global e à energia global", completou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2020011114997101-putin-operacoes-militares-de-larga-escala-no-oriente-medio-seriam-um-desastre-para-o-mundo/

EUA ameaçam guerra generalizada

Esta nova década inicia-se com ameaças abertas de barbárie por parte dos EUA. Mas, ao mesmo tempo, os sinais que vêm do Médio Oriente (e de outras partes do mundo) dão conta de uma ampla resistência de milhões de pessoas, fartas de tiranias e de más condições de vida. Resistência essa que não parece já episódica e de propósitos limitados, mas que sugere o germinar de novas ondas de lutas de massas de maior alcance. Não sendo, na maioria, expressamente anti-imperialistas e anticapitalistas, têm contudo como alvo objectivo a dominação das grandes potências (nomeadamente os EUA) e o descalabro a que o capitalismo conduziu o mundo. São por isso potencialmente revolucionárias.

O texto que publicamos aborda o recente conflito entre EUA e Irão, na sequência do assassinato do general Soleimani. Os dados que fornece permitem compreender melhor o quadro dos acontecimentos. E, ao chamar a atenção para as fraquezas dos EUA, alerta precisamente para o facto de poder estar a gerar-se uma mudança histórica na resistência dos povos do Médio Oriente que ponha em causa a dominação imperialista norte-americana.

Alvejando o Iraque e o Irão, os EUA ameaçam guerra generalizada

Enormes manifestações no Irão, no Iraque e em toda a região expressam o ódio anti-imperialista e sinalizam um novo dia, um renascimento dos movimentos de massas que expulsarão os EUA da região.

Um acto criminoso dos EUA desencadeou a tempestade.

Em 2 de Janeiro, o imperialismo dos EUA elevou a sua guerra agressiva contra o Irão para um novo nível. Um drone norte-americano realizou um ataque furtivo que assassinou o principal general iraniano Qassem Soleimani, chefe do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana – Quds.

Soleimani estava em visita oficial ao Iraque, numa missão como negociador pela paz na zona. Foi recebido por Abu Mahdi al-Muhandis, líder das Forças de Mobilização Popular do Iraque (FMP), que também foi assassinado no ataque. As FMP fazem parte oficialmente das forças de segurança iraquianas.

O Departamento de Defesa dos EUA admitiu ter realizado o ataque seguindo as ordens do presidente Donald Trump.

Nos dias após essa provocação de guerra, ocorreu o seguinte:

No Iraque, dezenas de milhares de pessoas uniram-se na marcha fúnebre dos dois líderes militares assassinados pelo Pentágono. O Parlamento iraquiano votou a expulsão dos 5.000 militares dos EUA que estão estacionados no Iraque logo que os parlamentares souberam do assassinato político cometido pelos EUA violando a soberania do Iraque.

O primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi disse ao parlamento que o governo dos EUA sabia que o general Soleimani estava em viagem no Iraque como emissário oficial de paz e que iria encontrar-se com ele para estabelecer negociações com a Arábia Saudita a fim de diminuir a tensão na região. O Iraque actuaria como mediador. Abdul-Mahdi disse que Trump também pediu ao Iraque para desempenhar um papel mediador com o Irão.

No Irão, os líderes do governo prometeram que vão responder militarmente aos EUA. Centenas de milhares, se não milhões, de pessoas marcharam pelas ruas em luto por Soleimani e pelo seu homólogo iraquiano. O grito dominante era “Morte à América!” – significando os Estados Unidos.

Dos EUA, Trump enviou um tweet ameaçando destruir 52 alvos iranianos, incluindo sítios culturais. Tal ataque seria um crime de guerra. Entretanto, Washington indicou aos cidadãos dos EUA que deixassem o Iraque.

Embora os acontecimentos tenham exposto algumas das fraquezas do imperialismo norte-americano no Iraque e na região, eles tornaram mais provável uma guerra agressiva por parte dos EUA.

EUA humilhados no Iraque

A mais recente escalada de Trump segue-se a uma experiência humilhante em Bagdade, no último dia de 2019. Um desfile fúnebre desarmado de milhares de pessoas passou sem oposição por postos de guarda, barreiras e postos de controle no complexo da embaixada dos EUA mais altamente seguro do mundo.

As forças de segurança do governo iraquiano não fizeram nada para impedir que membros da milícia e seus líderes entrassem na Zona Verde, onde a embaixada dos EUA está localizada.

Esta acção ousada ocorreu após um funeral em massa de membros de unidades da Milícia Popular mortos num atentado cometido pelos EUA. Isto expôs a vulnerabilidade dos ocupantes norte-americanos, e enviou uma mensagem clara: nenhuma base dos EUA no Iraque é segura.

As próprias forças iraquianas em que os EUA confiam, na embaixada mais fortemente fortificada do mundo, abriram as portas à multidão. Claramente, os EUA não têm aliados. Até as forças iraquianas que colaboraram com a ocupação alinharam agora contra os EUA.

Desde então, a escalada dos EUA incluiu a chegada bem divulgada de tropas americanas da 82.ª Divisão Aerotransportada no Kuwait, tropas frequentemente usadas para evacuar cidadãos americanos. Milhares de outras tropas estão a caminho, antecipando uma guerra mais ampla.

O papel do imperialismo dos EUA é destrutivo em todo o mundo. Em nenhum lugar ele foi mais destrutivo nas últimas décadas do que nos países da região do oeste da Ásia ao norte da África, designado como Oriente Médio.

No momento em que os EUA desencadeiam uma crise, é importante avaliar a sua posição, a sua força e as suas alianças, e avaliar o desenvolvimento da movimentação dos povos de toda a região pela soberania.

Zona Verde: uma coutada dos EUA

A Zona Verde é uma bolsa de segurança criada pelos EUA, uma colónia independente que ocupa 10 quilómetros quadrados do centro de Bagdad, cercada por muros de betão e por arame farpado, fortificada com sacos de areia, holofotes e postos de controle.

A embaixada dos EUA, na Zona Verde, ocupa mais de 40 hectares de propriedades imobiliárias de primeira linha. É do tamanho da Cidade do Vaticano. Seis vezes maior que a sede das Nações Unidas em Nova Iorque, é a maior embaixada do mundo.

O facto de as forças de segurança iraquianas mais altamente treinadas, supostamente confiáveis para proteger os interesses dos EUA, não terem feito nenhum esforço para travar os manifestantes quando eles marcharam para a Zona Verde, fortemente fortificada, é um desenvolvimento impressionante que envia uma mensagem sobre a segurança de todas as bases dos EUA no Iraque.

A ocupação da Zona Verde não foi um evento isolado ou excepcional. Pelo contrário, foi a terceira vez nos últimos meses de 2019 que o poder dos EUA foi desafiado com sucesso de maneiras inteiramente novas e criativas — e numa região que tem sido brutalmente dominada, ocupada e intencionalmente empobrecida pelas forças dos EUA durante décadas.

A escala destas humilhações pode ser mais bem apreciada quando comparada com as grandiosas promessas de cinco presidentes consecutivos dos EUA e cerca de 30 anos de sanções, bombardeios e ocupações fracassadas dos EUA que torturaram esta região de vasta riqueza.

Forças populares em movimento

O governo iraquiano está enfraquecido e dividido por meses de protestos populares que assolaram Bagdade e o sul do Iraque desde o início de Outubro.

A repressão das manifestações — que reclamam serviços básicos, oportunidades de emprego e o fim da corrupção — resultaram em pelo menos 470 mortos e mais de 20.000 feridos. Os protestos contínuos resultaram na exigência de uma revisão completa do sistema político corrupto e sectário estabelecido sob a ocupação dos EUA.

Nas últimas semanas, uma série de ataques com foguetes atingiu instalações militares no Iraque, onde o pessoal dos EUA está estacionado. A ocupação popular da Praça Tahrir, também conhecida como Praça da Libertação, estava em curso durante o ataque à embaixada dos EUA.

Estratégia dos EUA: manter a região dividida

O ódio popular explodiu depois de as as tropas norte-americanas terem bombardeado as Forças de Mobilização Popular, que são oficialmente parte das Forças de Segurança do Iraque. O ataque dos EUA em 29 de Dezembro matou 32 e feriu 55 pessoas que foram homenageadas como combatentes da linha da frente contra o grupo Estado Islâmico (EI).

Os EUA disseram que lançaram esta ofensiva em represália a um ataque de rockets ocorrido em 27 de Dezembro perto de Kirkuk, que matou um “contratado” dos EUA (na verdade, um mercenário). Mas o alvo escolhido pelos militares dos EUA para a represália situa-se a centenas de quilómetros do local onde o mercenário dos EUA morreu.

A área bombardeada foi a única passagem de fronteira controlada pelas forças iraquianas e sírias, não pelos EUA. Essa passagem tinha sido aberta com grande comemoração depois de estar nas mãos do EI durante cinco anos. Em Setembro passado, Israel bombardeou as forças sírias que tentavam abrir essa passagem de estradas crucial.

A abertura deste posto na fronteira Síria-Iraque significou que, pela primeira vez em 30 anos, o comércio, as viagens e as trocas entre Afeganistão, Irão, Iraque, Síria e Líbano puderam decorrer sem estar sob controlo dos EUA.

A estratégia dos EUA durante décadas concentrou-se na procura de manter toda esta região dividida, dependente e em guerra. Síria, Iraque e Irão eram postos uns contra os outros, pois a política dos EUA inflamava diferenças sectárias, étnicas e religiosas.

Todos esses países estão sujeitos a fortes sanções dos EUA, portanto, abrir a sua capacidade de negociar uns com os outros é um grande passo em frente para salvar vidas. Restabelecer novamente ligações nesta região destruída é um objectivo daqueles que se opõem aos esforços dos EUA para recolonizar a zona. Ao bombardear essa passagem de fronteira, os EUA confirmaram que a sua estratégia é dividir a região pela força.

Estratégia dos EUA contra Irão, Iraque, Síria e Afeganistão

Desde a revolução iraniana de 1979, os EUA tentam esmagar o Irão com sanções. Também apertou as sanções contra o Iraque em Agosto de 1990, seguidas, um ano depois, por uma campanha maciça de bombardeios, e mais sanções que levaram à morte de meio milhão de crianças iraquianas.

Em 2003, os EUA invadiram e ocuparam o Iraque, destruindo seu tecido social e cultural. Mais de um milhão de tropas norte-americanas passaram pelo Iraque — mas não conseguiram subjugar a resistência.

As sanções dos EUA contra a Síria começaram na mesma altura em que os EUA invadiram o Iraque em 2003. Tornaram-se muito mais severas em 2011, num esforço máximo para derrubar o governo sírio. Washington e os seus aliados armaram e forneceram dezenas de milhares de forças mercenárias estrangeiras e, em seguida, forneceram apoio indirecto aos terroristas do EI criados pela Arábia Saudita. O EI tornou-se o novo pretexto para os militares dos EUA bombardearem a Síria e enviarem tropas para o Iraque como “instrutores”.

No Afeganistão, 18 anos de ocupação pelos EUA trouxeram apenas ruínas e divisão sectária.

Quase todas as correntes políticas no Iraque, Síria e Afeganistão, mesmo aquelas que colaboraram com Washington, acabaram por odiar a duplicidade e a arrogância racista do domínio dos EUA.

A única resposta do Pentágono para a crescente resistência em todas as frentes é mais guerra e sanções ainda mais severas.

De acordo com o Washington Post de 4 de Janeiro, os EUA têm cerca de 6.000 soldados no Iraque, e uma brigada de 3.500 soldados aerotransportados está a caminho. Existem mais de 14.000 soldados dos EUA / NATO no Afeganistão. No sudoeste da Ásia, do Afeganistão ao Mediterrâneo, há um total de 70.000 forças dos EUA. Existem também dezenas de milhares de contratados e mercenários no Iraque e no Afeganistão.

O envio de milhares de tropas adicionais não mudará a incapacidade dos EUA de ocupar e controlar um país, mas aumentará tanto a destruição como a resistência.

Culpar o Irão pelos fracassos dos EUA

É política dos EUA culpar o Irão por todos os fracassos e todas as formas de resistência que se levantam na região. O Irão, embora severamente sancionado e cercado, é o único país que escapou à ocupação directa dos EUA e à destruição maciça.

A decisão do governo Trump de cancelar unilateralmente um acordo juridicamente vinculativo, assinado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e pela Alemanha, para pôr fim às sanções ao Irão, aumentou as tensões na região. Novas sanções dos EUA impostas ao Irão são um esforço para desestabilizar o país com hiperinflação e escassez de bens.

Irão, China e Rússia iniciam exercícios navais conjuntos

Mas o Irão enviou a sua própria mensagem quando as ameaças dos EUA aumentarm com a crise no Iraque. Foi uma mensagem de que o mundo inteiro tomou nota.

Um quinto do petróleo do mundo passa pelo Estreito de Ormuz, que se faz ligação ao Golfo de Omã. Em 27 de Dezembro, Irão, a China e a Rússia iniciaram quatro dias de exercícios navais conjuntos no Oceano Índico e no Golfo de Omã.

Este treino naval conjunto mostrou a determinação de oferecer alguma protecção a uma região que foi abertamente saqueada pelos piratas imperialistas modernos. Novos acordos comerciais e fundos para a reconstrução das economias alvo de sanções e devastadas pela guerra estão nos planos do Irão, da China e da Rússia. Já não estamos num mundo unipolar.

Armas americanas caras e de pouca utilidade

Em 14 de Setembro de 2019, os ataques à gigante de energia Aramco, na Arábia Saudita, na sua principal instalação de refinação de petróleo e de processamento de gás — em Abqaiq, perto do campo de petróleo de Khurais — reduziram temporariamente a metade a produção de petróleo da Arábia Saudita. Os rebeldes Houthis do Iémen reclamaram a responsabilidade pelo ataque. Mas Washington e a Arábia Saudita apontaram o dedo a Teerão — uma acusação que o Irão negou veementemente.

As compras sauditas de mais de 67 mil milhões de dólares em armas norte-americanas, incluindo os famosos mísseis Patriot, falharam em alertar ou impedir o ataque. A Arábia Saudita tem o terceiro maior gasto militar do mundo. A incapacidade de proteger as suas mais importantes instalações de petróleo disparou alarmes. Os mísseis Patriot dos EUA podem ser tigres de papel.

Armas de voo a baixa altitude e de baixo custo são uma nova ameaça para as defesas sauditas, projectadas para mísseis de alta altitude.

2020: uma nova década

A resistência inabalável e um ódio permanente ao imperialismo dos EUA são uma força material agora profundamente enraizada nos movimentos populares em toda a região. Estes movimentos estão a encontrar maneiras criativas e de baixa tecnologia de resistir ao todo-poderoso monólito americano. E também estão a desenvolver novas alianças que podem permitir a reconstrução dos seus países.

Sim, a máquina militar e o poder empresarial dos EUA continuam a ser ameaças maciças para muitos países e um enorme desperdício de recursos. O perigo de uma guerra em larga escala dos EUA contra o Irão e o Iraque — enquanto prosseguem as guerras na Síria, no Afeganistão e no Iémen — é real. E isso implica o risco de uma guerra global que coloca em perigo todos nós. Mas, ao mesmo tempo, os acontecimentos mostram que a dominação dos EUA enfrenta um desafio fundamental em 2020.

Todas as vozes e a maior unidade são necessárias para exigir a retirada dos EUA, o fim das guerras e o regresso a casa de todas as tropas dos EUA!

———

(*) Artigo publicado em Workers World, 7 Janeiro 2020. Tradução MV

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Chanceler chinês pede aprofundamento da parceria estratégica China-Árabe

Cairo, 8 jan (Xinhua) -- O conselheiro de Estado chinês e ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, pediu que a parceria estratégica China-Árabe fosse aprofundada e uma solução política para as questões regionais em destaque.

Wang fez os comentários na terça-feira em uma reunião com o secretário-geral da Liga Árabe (LA), Ahmed Aboul Gheit, em Cairo, no Egito.

Wang enfatizou que a China é um amigo de confiança da LA.

O presidente chinês, Xi Jinping, pediu pela construção de uma comunidade China-Árabe com um futuro compartilhado, o que indica a direção para o desenvolvimento das relações China-Árabe e conduzirá as duas civilizações a fazer mais contribuições para a construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, disse Wang.

A China e a LA devem aprofundar a parceria estratégica, fortalecer o apoio mútuo, salvaguardar a paz e a justiça mundial e buscar uma solução política para as questões regionais, disse o máximo diplomata chinês.

A China atribui grande importância ao papel da LA e aprecia o seu posicionamento justo e objetivo em relação às importantes questões internacionais e regionais, disse Wang, acrescentando que a China apoia os estados árabes em utilizar a LA como uma plataforma para lidar com os atuais desafios e dificuldades.

Wang observou que o Fórum de Cooperação China-Estados Árabes (CASCF, na sigla em inglês) vêm alcançando resultados frutíferos. Ele pediu que os dois lados aproveitem a 9ª conferência ministerial do CASCF, marcada para este ano, como uma oportunidade de ecoar uma mesma voz acerca dos últimos desenvolvimentos na situação internacional e regional e estejam totalmente preparados para tornar a conferência um sucesso.

A China aprecia o apoio da LA para as questões relacionadas a Xinjiang e dá boas-vindas para os representantes árabes visitarem Xinjiang e testemunharem os êxitos dos esforços antiterroristas e de desradicalização da China e comprovar a estabilidade, a prosperidade e a liberdade religiosa existentes em Xinjiang, disse ele.

Gheit disse que a LA atribui grande importância às relações com a China. Ele expressou a convicção de que todos os Estados membros da LA estão dispostos a fazer esforços conjuntos com a China para explorar novas maneiras de construir uma comunidade China-Árabe com um futuro compartilhado.

Tendo em vista os importantes resultados obtidos na 8ª conferência ministerial do CASCF, a LA está disposta a trabalhar com a China para tornar a 9ª conferência um sucesso, disse o chefe da LA.

A LA compreende completamente a posição da China nas questões relacionadas a Xinjiang e se opõe a qualquer interferência nos assuntos internos do país, disse ele.

Gheit disse que a LA aprecia a posição justa e as contribuições da China para a resolução das questões sensíveis no Oriente Médio e agradece o suporte inabalável da China à causa justa do povo árabe, especialmente dos palestinos, na luta por seus direitos legítimos.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/08/c_138688283.htm

Preparação de uma nova guerra

 
 
Thierry Meyssan*
 
A chegada de novas armas e de novos combatentes à Líbia anuncia uma nova guerra contra a população. Na realidade, a situação jamais acalmou desde o ataque da OTAN conforme a estratégia Rumsfelf/Cebrowski de guerra sem fim. Ao franquearem uma etapa suplementar, os protagonistas nada resolvem, mas ampliam o conflito.
 
Todos estão de acordo em reconhecer que a situação dramática actual da Líbia e do Sahel é a consequência da intervenção ilegal da OTAN em 2011. No entanto, raros são aqueles que estudaram este período e tentaram compreender como se chegou a isso. À falta de reflexão, dirigi-mo-nos, pois, para uma nova catástrofe.
 
Importa conservar no espírito vários factos que se obstinam em esquecer:
-- A Jamahiriya árabe líbia, criada por um golpe de Estado notavelmente pouco sangrento, não foi uma tomada de Poder por um ditador neurótico, mas uma obra de libertação nacional face ao imperialismo britânico. Foi também a expressão de uma vontade de modernização que se traduziu pela abolição da escravatura e uma tentativa de reconciliação entre as populações árabes e negras de África.
-- A sociedade líbia está organizada em tribos. Portanto, é impossível lá instalar a democracia. Muamar Kaddafi havia organizado a Jamahariya árabe líbia no modelo das comunidades de vida imaginadas pelos socialistas utópicos franceses do século XIX. O que significava criar uma vida democrática local, mas deixar de lado esse ideal a nível nacional. Além disso, a Jamahiriya morreu por não ter política de alianças e, portanto, não poder defender-se.
-- A Coligação (Coalizão-br) que atacou a Líbia foi liderada pelos Estados Unidos, que mascararam o seu verdadeiro objectivo aos seus aliados durante todo o conflito e os colocaram perante o facto consumado (leading from behind, ou seja, "dirigindo por trás"-ndT). Depois de terem clamado durante meses que, acima de tudo, estava fora de questão envolver a OTAN, foi esta a estrutura que comandou as operações. Washington jamais tentou proteger os civis, nem instalar um governo às suas ordens, mas, pelo contrário, instalar rivais e impedir a paz por todos os modos (doutrina Rumsfeld / Cebrowski).
-- Não houve, jamais, qualquer revolução popular contra a Jamahiriya, mas, sim intervenção da Alcaida no terreno, o despertar da divisão entre a Cirenaica e a Tripolitânia e a intervenção coordenada pela OTAN (os Aliados no ar, a tribo Misrata e as Forças especiais catarianas no solo).
 
Desde logo, a rivalidade entre o governo de Trípoli e o de Bengazi remete-nos para a divisão do país de antes de 1951 em dois estados distintos, a Tripolitânia e a Cirenaica, depois ao despertar dessa divisão durante a agressão da OTAN. Contrariamente à reacção que espontaneamente se tem, não se trata hoje em dia de apoiar um lado contra o outro para restabelecer a paz, mas, pelo contrário, de unir os dois campos contra os inimigos do país.
 
 
Actualmente, o governo de Trípoli é apoiado pela ONU, pela Turquia e pelo Catar, enquanto o de Bengazi é apoiado pelo Egipto, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, França e Rússia. Fieis à sua estratégia, os Estados Unidos são o único país a apoiar, ao mesmo tempo, os dois campos para que eles se matem indefinidamente.
 
O princípio de uma intervenção militar turca foi adoptado pela Grande Assembleia Nacional, em Ancara, a 2 de Janeiro de 2020. O que pode ser interpretado de três maneiras que se complementam:
-- A Turquia apoia a Confraria dos Irmãos Muçulmanos no Poder em Trípoli. O que explica o apoio do Catar (favorável à Confraria) ao mesmo governo e a oposição do Egipto, dos Emirados e da Arábia Saudita.
-- A Turquia desenvolve as suas ambições regionais, apoiando-se, para isso, nos descendentes dos antigos soldados otomanos de Misrata. É por isso que ela apoia o governo de Trípoli após a tomada da capital, em 2011, pela tribo Misrata.
- A Turquia utiliza os jiadistas que já não pode mais proteger em Idleb (Síria). É por isso que os transfere para a Tripolitânia e daí partirá ao assalto de Bengazi.
 
A intervenção turca é legal pelo Direito Internacional e baseia-se na solicitação do governo de Trípoli, legalizado pelo Acordo Skhirat (Marrocos), a 17 de Dezembro de 2015, e pela Resolução 2259, de 23 de Dezembro de 2015. Pelo contrário, todas as outras intervenções estrangeiras são ilegais. Isto, na precisa altura em que o Governo de Trípoli é composto pelos Irmãos Muçulmanos, Alcaida e Daesh (E I). Assiste-se, pois, a uma inversão de papéis, encontrando-se agora os progressistas no Leste do país e os fanáticos no Oeste.
 
De momento, apenas alguns soldados turcos estão já do lado do governo de Trípoli, mas há soldados egípcios, emiradenses, franceses e russos do lado de Bengazi. O anúncio do envio oficial de alguns soldados turcos suplementares não mudará grande coisa a este equilíbrio, mas já a transferência de jiadistas pode envolver centenas de milhar de combatentes. Isso pode virar o tabuleiro de xadrez.
 
Lembremos que, contrariamente à narrativa ocidental, foram os combatentes líbios da Alcaida, e não os desertores sírios, que criaram o chamado Exército sírio livre no início da guerra contra a Síria. A viagem de regresso destes combatentes é previsível.
 
Só as milícias sírias turcomanas e a Legião do Levante (Faylaq al-Sham) começaram a por-se a caminho, ou seja, cerca de 5. 000 combatentes. Se esta migração continuar via Tunísia, ela poderá durar vários anos até a total libertação da província de Idleb (ou Idlib-ndT). Isto seria uma excelente notícia para a Síria, mas uma catástrofe para a Líbia, em particular, e para o Sahel em geral.
 
Iríamos acabar na Líbia com a mesma situação da Síria: os jiadistas apoiados pela Turquia face às populações locais apoiadas pela Rússia; as duas potências evitando, cuidadosamente, enfrentarem-se directamente, tanto mais que a Turquia é membro da OTAN.
 
Ao instalar-se em Trípoli, a Turquia controla agora o segundo fluxo de migrantes para a União Europeia. Ela poderá, portanto, reforçar a chantagem que já exerce sobre Bruxelas com o seu próprio fluxo a partir da Turquia.
 
Na ausência de fronteiras físicas, os Exércitos jiadistas não deixarão de se espalhar pelo deserto, da Líbia para todo o conjunto do Sahel.
 
Eles tornarão os países do G5-Sahel (Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger e Chade) ainda mais dependentes das Forças anti-terroristas francesas e do Africom. Eles irão ameaçar a Argélia, mas não a Tunísia, já nas mãos dos Irmãos Muçulmanos e administrando o trânsito de jiadistas em Djerba.
 
As populações sunitas do Sahel serão então depuradas e os cristãos sahelianos serão expulsos como o foram os cristãos do Oriente.
 
Chegará um momento em que os Exércitos jiadistas atravessarão o Mediterrâneo; Estando as ilhas italianas (nomeadamente Lampedusa) e Malta a cerca de 500 milhas náuticas. A VIª Frota dos EUA intervirá imediatamente para os repelir, em virtude dos Tratados do Atlântico Norte e de Maastricht, mas o caos atingirá inevitavelmente a Europa Ocidental. Não restará, então, aos Europeus que derrubaram a Jamahiriya árabe da Líbia mais do que os olhos para chorar.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 
Imagem: O Presidente Fayez Al-Sarraj finalizando o plano de intervenção turco com o seu Sub-secretário de Defesa, o General de brigada Salah Al-Namrush.

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China diz que está muito preocupada com a situação no Oriente Médio

247 -Ao se pronunciar em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (6) sobre a atual crise no Oriente Médio, o porta-voz da Chancelaria chinesa, Geng Shuang, afirmou que a deterioração da situação na região é um cenário que ninguém deseja. ninguém deseja testemunhar.

Assegurar a paz e a estabilidade, segundo ele, é “vital para o mundo”, acrescentou o porta-voz da Diplomacia chinesa.

“A política de imposição pela via da força é impopular e insustentável”. Geng Shuang afirma que as recentes atividades militares dos EUA violam as normas básicas das relações internacionais e exacerbam as tensões e turbulência na situação regional. “A China sempre se opôs ao uso da força nas relações internacionais. Recorrer a meios militares e a pressão extrema são fúteis”, prosseguiu.

O porta-voz disse que a China apela a todas as partes para agirem em conformidade com os princípios da Carta da ONU e pelas normas básicas das relações internacionais. A soberania e integridade territorial de todos os países devem ser respeitadas, e a paz e estabilidade na região do Oriente Médio devem ser mantidas, informa o Diário do Povo.

Geng instou os EUA a não recorrer à força, pedindo contenção, de modo a evitar a escalada da situação, e o retorno ao diálogo e à consulta logo que possível.

“A China irá continuar mantendo uma posição objetiva e justa e desempenhar um papel construtivo na manutenção da paz e segurança na região do Oriente Médio”, concluiu.

O capitalismo em guerra sobre os escombros da Líbia

 
 
A realidade da situação da Líbia está para lá do que possam conceber as imaginações mais treinadas em tentar perceber os sentidos dos desenvolvimentos na arena internacional.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
A herança caótica deixada pela agressão da NATO contra a Líbia e que se aprofunda há quase nove anos está a degenerar numa situação aterradora de guerras cruzadas, motivadas por múltiplos interesses, capaz de fazer explodir alianças político-militares, afinidades religiosas e relações institucionais – com repercussões em todo o panorama internacional. O início, no dia de Natal, da transferência de terroristas da Al-Qaeda da Síria para território líbio, de modo a reforçar as forças do governo de Tripoli reconhecido pela ONU e a União Europeia, é apenas um dos muitos movimentos em curso na sombra dos holofotes mediáticos. E a Turquia acaba de aprovar o envio de tropas regulares para a Líbia.
 
A realidade da situação da Líbia está para lá do que possam conceber as imaginações mais treinadas em tentar perceber os sentidos dos desenvolvimentos na arena internacional. Habituada às notícias quase rotineiras relacionadas com os movimentos migratórios nas costas líbias e aos altos e baixos da guerra das tropas do governo de Benghazi contra as forças do executivo de Tripoli, a opinião pública mundial não faz a menor ideia do que está a acontecer. E do que pode vir a suceder de um momento para o outro.
 
A Líbia deixada pela guerra de destruição conduzida pela aliança entre a NATO e grupos terroristas islâmicos do universo Al-Qaeda/Isis tem actualmente três governos, além de um xadrez de zonas de influência controladas por milícias armadas correspondentes a facções tribais, tendências religiosas ou simples negócios de oportunidade, à cabeça dos quais estão o contrabando de petróleo e o tráfico de seres humanos.
 
 Haftar, à frente das tropas do chamado «Exército Nacional Líbio»; e um governo instalado no hotel Rixos, em Tripoli, formado pela Irmandade Muçulmana e do qual se diz que ninguém reconhece mas tem muitos apoios.
 
Nos últimos meses, a ofensiva das tropas do marechal Haftar chegou às imediações de Tripoli mas não conseguiu tomar a capital, apesar dos sangrentos bombardeamentos. Nos bastidores desta guerra diz-se que nenhum dos beligerantes está em condições de levar a melhor, esgotando-se num conflito sem solução à vista.
 
 
Uma guerra internacional
 
A guerra está num impasse, o caos e a ingovernabilidade agravam-se, mas não existe qualquer esforço de entendimento entre as facções líbias. Pelo contrário, cada centro de poder tem vindo a ser reforçado no quadro das perspectivas de continuação do conflito – porque não se trata de uma guerra civil, mas de uma guerra internacional.
 
No dia de Natal, como já se escreveu, começou a deslocação de grupos terroristas filiados na Al-Qaeda da província de Idlib, na Síria, para a Líbia. A movimentação é patrocinada pela Turquia, que deixou claro aos mercenários islâmicos que a única possibilidade de se salvarem da ofensiva final das tropas governamentais sírias é abandonarem as posições que ainda ocupam e, de certa forma, regressarem às origens. Recorda-se que grande parte dos terroristas que combateram na Síria contra o governo de Damasco foram transportados da Líbia, onde estiveram ao serviço da coligação com a NATO.
 
A operação iniciada no Natal foi montada pela Turquia com a colaboração da Tunísia: o presidente Erdogan acordou com o seu homólogo tunisino, Kais Saied – apoiado pela Irmandade Muçulmana – a utilização do porto e do aeroporto de Djerba para transporte dos grupos armados e material militar em direcção a Tripoli e Misrata, onde irão engrossar as fileiras do Governo de Unidade Nacional (GUN).
 
Em 15 de Dezembro, o presidente turco recebera em Istambul o chefe do GUN, al-Sarraj, a quem prometeu a entrega de drones e blindados ao exército às ordens do governo reconhecido pela ONU e a União Europeia; o legislativo turco acaba de aprovar o envio de forças militares regulares para a Líbia. Ao mesmo tempo, a Turquia acelerou o processo de produção de seis submarinos militares, encomendados à Alemanha.
 
Choques petrolíferos
 
A Turquia foi um dos países aos quais o governo de Tripoli pediu auxílio quando se iniciou a ofensiva das forças de Khalifa Haftar. Al-Sarraj dirigiu-se também à Argélia, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. Sabe-se, entretanto, que Washington está de bem com todos os governos da Líbia e vê com muito bons olhos a continuação do conflito.
 
Não existem dúvidas, porém, de que foi a Turquia quem mais rápida e concretamente respondeu aos apelos do governo instalado em Tripoli.
 
Há razões que explicam porquê.
 
Erdogan revelou que assinou um acordo de princípio com al-Sarraj para exploração conjunta de petróleo no Mediterrâneo, podendo para isso dispor de instalações portuárias líbias – que se juntam assim às que a Turquia já utiliza em Chipre, onde ocupa militarmente o norte do país.
 
Como a Turquia tomou conta, em termos de exploração petrolífera, das águas territoriais de Chipre que confinam com o sector ocupado, o acordo com o governo de Tripoli proporciona uma combinação de Zonas Económicas Exclusivas que atingem águas cipriotas e gregas. A actuação de Ancara parece violar a Convenção do Direito Marítimo (UNCLOS), que aliás a Turquia ainda não assinou.
 
Em 22 de Dezembro, exactamente uma semana depois do encontro entre Erdogan e al-Sarraj em Istambul, o ministro grego dos Negócios Estrangeiros, Nikos Dendios, foi directamente a Benghazi encontrar-se com o próprio Khalifa Haftar e outros representantes do governo local. Depois viajou para o Cairo e para Chipre.
 
Atenas exige ao governo de Tripoli que se retire do acordo de incidência petrolífera e militar com a Turquia, num quadro em que as relações greco-turcas estão no nível mais elevado de agressividade de há muito tempo a esta parte.
 
Sabe-se ainda que a Grécia pretende accionar a NATO e a União Europeia para que cancelem o reconhecimento do governo líbio de Tripoli. Em suma, a guerra internacional com epicentro na Líbia passa pelo meio da NATO e da União Europeia.
 
Acresce que esta dança política, diplomática e militar decorre em simultâneo com os movimentos norte-americanos para usar a Grécia como antídoto à degradação das relações com a Turquia e no âmbito de um novo quadro de segurança regional para bloquear a Rússia no Mar Negro.
 
Isto é, Washington usa um membro da NATO contra outro membro da NATO e dá um novo passo na estratégia de quebrar as relações entre Atenas e Moscovo originalmente assentes em afinidades religiosas que têm vindo a ser deterioradas por conspirações dentro da Igreja Ortodoxa iniciadas na Ucrânia.
 
Não é difícil confirmar o ecumenismo dos Estados Unidos em relação aos governos líbios. Se está ao lado do executivo de Tripoli, juntamente com a União Europeia, a ONU e a NATO, também aposta em Benghazi, como se percebe através da estratégia montada com a Grécia.
 
O xadrez dos gasodutos
 
São amplos os cenários de confrontação a partir da situação líbia. Mais amplos ainda porque os acordos entre Ancara e o governo de Tripoli vêm potenciar a crise aberta com a exploração ilegal de petróleo pela Turquia na Zona Económica Exclusiva de Chipre.
 
Em causa não estão apenas interesses cipriotas, mas também da Grécia e de Israel, parceiros na exploração de hidrocarbonetos no Mediterrâneo e respectiva distribuição através do eixo Griscy (de Grécia, Chipre e Israel) – ideia fortemente encorajada pelos Estados Unidos para criar vias que permitam à Europa ter mais alternativas às fontes russas de energia. Trata-se de uma opção contra a Rússia que atinge também a Turquia, porque põe em causa o gasoduto turco-russo Turkish Stream.
 
Deste modo, não é surpreendente que a Turquia tenha procurado patrocinar o governo líbio de Tripoli.
 
Surpreendente, em termos abstractos, deveria ser a declaração do marechal Khalifa Haftar segundo a qual o governo de Benghazi tem todo o interesse em fazer entendimentos com Israel.
 
Na realidade, aprofundando a leitura desta declaração à luz da guerra internacional em torno da Líbia iremos encontrar países como a Arábia Saudita e o Egipto – muito próximos de Israel – ao lado de Khalifa Haftar em termos financeiros, políticos e militares; não espanta que Israel se junte ao grupo por estas afinidades e pelas explicadas razões energéticas. Através das quais iremos encontrar Estados Unidos Israel, Grécia e Chipre em oposição a um governo reconhecido por ONU, União Europeia, NATO e… Estados Unidos.
 
Sinal dos tempos
 
As frentes em confronto nesta guerra da Líbia são um sinal dos tempos. Os tempos em que os conflitos de interesses inter-capitalistas começam a dissolver linhas que definem alianças político-militares, coligações de países, associações regionais, afinidades religiosas, políticas e sistémicas que têm formatado o mundo desde a queda do Muro de Berlim. Com a particularidade de entidades como a NATO e a União Europeia não estarem a salvo da turbulência.
 
Tomemos como exemplo o assustador caso líbio. Do lado do governo de Tripoli, cuja legitimidade representativa do país é reconhecida pela ONU e a União Europeia, estão a Turquia, a Tunísia, o Qatar e terroristas islâmicos do universo Al-Qaeda e Estado Islâmico defendendo interesses económicos que coincidem com os da Rússia.
 
Do lado de Khalifa Haftar e do seu governo de Benghazi estão os Estados Unidos, Israel, Egipto, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, países da União Europeia como Chipre e Grécia, além de forças de reacção rápida sudanesas, mercenários russos e grupos terroristas próprios de uma região, a Cirenaica, considerada das mais fortes no abastecimento do extremismo islâmico internacional. Saif Khaddafi, filho do dirigente líbio assassinado pela NATO, juntou-se igualmente a Haftar1.
 
São dados a ter em conta quando a nova tragédia da Líbia explodir, então já sob os holofotes mediáticos.
 
Na imagem: Forças aliadas do governo de Tripoli, apoiado pela ONU, em Sirte, Líbia, a 12 de Março de 2019.CréditosAyman Al-Sahili / Reuters
 
Nota
1.Ayesha Khaddafi, irmã de Saif, apelou aos líbios para repelirem a invasão turca, em declarações à Jamahiriya Satellite TV: «quando as botas dos soldados turcos profanarem a nossa terra, adubada pelo sangue dos nossos mártires, se não houver entre vós que alguém para repelir esta agressão, então deixem o campo de batalha às mulheres livres da Líbia, e eu estarei entre as primeiras». Ver Almarsad, 3 de Janeiro de 2020.
 

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EUA enviarão mais de 3.500 tropas para o Oriente Médio, diz mídia

Washington, 3 jan (Xinhua) -- Os Estados Unidos enviarão cerca de 3.500 tropas adicionais para o Oriente Médio já neste fim de semana, depois que um ataque lançado pelo país matou um importante comandante iraniano, informou a mídia local na sexta-feira, citando funcionários dos EUA.

As tropas adicionais da 82ª Divisão Aerotransportada serão enviadas ao Iraque, Kuait e outras partes da região, informou o NBC News, citando diversos funcionários norte-americanos de defesa e militares.

Algumas das tropas poderão partir já neste fim de semana para o Kuait, informou o The Wall Street Journal em uma reportagem na sexta-feira.

A mais recente medida pelo Pentágono veio horas depois que os EUA mataram o general de divisão iraniano, Qassem Soleimani, comandante das Forças Quds, subordinadas à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, e o comandante da milícia iraquiana, Abu Mahdi al-Muhandis, em um ataque aéreo próximo ao Aeroporto Internacional de Bagdá.

O supremo líder do Irã, Ayatollah Ali Khamenei, disse na sexta-feira que aqueles que assassinaram Soleimani devem receber uma resposta severa do Irã, informou a emissora estatal iraniana de TV.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/04/c_138678179.htm

Ocidente está artificialmente criando tensões no golfo Pérsico, afirma Sergei Lavrov

Ministro da Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, (centro) se reúne com seu colega iraniano, Javad Zarif, (à esquerda) e turco, Mevlut Cavusoglu (à direita), em 29 de Outubro de 2019
© Sputnik / Vitaly Velousov

Em maio, os Estados Unidos enviaram um deslocamento de embarcações de ataque para o Oriente Médio citando um "perigo" não especificado para os interesses americanos na região. Desde então, o golfo Pérsico assistiu inúmeros incidentes perigosos.

O governo russo está preocupado com as crescentes tensões vividas na região e identifica tentativas de aumentá-las, afirmou Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, nesta segunda-feira (30).

"Nós vemos como alguns dos nossos colegas ocidentais artificialmente tentam inflamar a situação. A Rússia e o Irã contrapõem a essas tentativas propostas sobre o estabelecimento de uma cooperação em regime de igualdade e mutuamente vantajosa nessa região", declarou Lavrov durante um encontro com seu homólogo iraniano, Mohammad Javad Zarif.

A declaração surge após o Pentágono afirmar no domingo (29) que forças dos EUA atacaram em território sírio e iraquiano o grupo Kata’ib Hezbollah, um grupo paramilitar xiita iraquiano que foi formado durante a Guerra do Iraque.

Tensões no golfo Pérsico se intensificam

Tensões diplomáticas entre Estados Unidos e Irã escalaram para tensões militares em maio, quando os Estados Unidos enviaram um grupo de ataque de porta-aviões ao Oriente Médio devido ao que Washington descreve como "perigo iraniano".

Marinheiros no convés do porta-aviões USS George H.W. Bush (CVN 77), no Golfo Pérsico
© AFP 2019 / MOHAMMED AL-SHAIKH
Marinheiros no convés do porta-aviões USS George H.W. Bush (CVN 77), no Golfo Pérsico

Desde então, o golfo Pérsico presenciou uma série de incidentes perigosos, como ataques de sabotagem de petroleiros, apreensão de embarcações e derrubada de drones, com Teerã e Washington se acusando mutuamente de responsabilidade e ameaçando com o surgimento de uma guerra.

Em um acontecimento à parte ocorrido durante o verão, os Estados Unidos anunciaram a formação de uma coalizão naval com o objetivo de proteger embarcações comerciais no golfo Pérsico, estreito de Ormuz e golfo de Omã. Teerã, por sua vez, insistiu para que as potências externas se mantenham longe do Golfo, propondo a criação de um esforço de segurança regional para garantir a navegação segura em águas locais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019123014951561-ocidente-esta-artificialmente-criando-tensoes-no-golfo-persico-afirma-sergei-lavrov/

Traição? Secretário de Trump revela que EUA abandonaram promessa feita aos curdos

Fighters from the SDF. (File)
© AP Photo / Syrian Democratic Forces

Os EUA nunca prometeram aos curdos sírios que os ajudariam a construir um Estado autônomo, insistiu o secretário de Defesa Mark Esper, apesar de anos de sugestões do contrário por conta do apoio dado por Washington a eles.

"Em nenhum momento, em nenhum momento dissemos aos curdos que os ajudaríamos a estabelecer um Estado curdo autônomo na Síria, nem lutaríamos contra um aliado de longa data como a Turquia em nome deles", disse Esper a repórteres nesta sexta-feira.

"Cumprimos nossas obrigações. E nossa obrigação, nosso acordo, nosso entendimento com os curdos era o seguinte: que trabalharíamos juntos na Síria para derrotar o Daesh", explicou.

As palavras do secretário dos EUA levantam a dúvida se a parceria entre curdos e norte-americanos teria chegado ao fim, sobretudo após o principal líder da organização terrorista, Abu Bakr al-Baghdadi, ter sido declarado morto recentemente.

Secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, testemunha perante o Congresso
© REUTERS / Mary F. Calvert
Secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, testemunha perante o Congresso

Pelo que disse Esper, cria-se agora um impasse em torno do que fora acordado pelo antecessor do presidente Donald Trump, Barack Obama. Naquela época, a Casa Branca concordou que as Forças Democráticas Sírias (FDS) de origem curda seriam recompensadas por fazer sua parte para derrubar o presidente sírio Bashar Assad com seu próprio Estado semi-soberano ao Curdistão iraquiano.

Apesar dos elogios feitos há muito tempo pela mídia norte-americana, esse "experimento social corajoso" está agora ameaçado pela recusa obstinada do governo Trump de continuar travando uma guerra que quase perdeu na Síria.

Traição e mudança de rumos

AS FDS forneceram um local anti-Assad ideal através do qual os EUA poderiam ocupar áreas ricas em recursos da Síria, uma ocupação que de outra forma seria considerada ilegal pelas leis internacionais. Mas quando os EUA começaram a sair do nordeste da Síria em setembro, deixando os curdos surpresos e à mercê das forças turcas que os veem como terroristas.

Assim, os curdos foram forçados a implorar pelo mesmo governo de Assad que haviam condenado como o diabo encarnado enquanto os EUA ainda os sustentava para proteção. Eles finalmente engoliram seu orgulho e estabeleceram um acordo com as forças sírias e russas ao longo da fronteira com a Turquia, mas este não era o acordo que eles pensavam ter feito com os EUA.

Os curdos tinham bons motivos para esperar um Estado em troca de fazer o "trabalho sujo" dos EUA por tantos anos. Desde que a então secretária de Estado Condoleezza Rice descreveu com entusiasmo as consequências da desestabilização da região por Washington como as "dores de parto de um novo Oriente Médio", em 2006, o plano de jogo foi divulgado.

"Precisamos ter certeza de que estamos avançando para o novo Oriente Médio, e não voltando para o antigo Oriente Médio", declarou ela.

O "Grande Curdistão" abrangeria regiões ricas em petróleo do Iraque, Síria, Turquia e Irã, formando um Estado hipotético em meio a um Oriente Médio completamente balcanizado que se encaixa perfeitamente com os objetivos de política externa dos EUA, Israel e da maioria dos países do golfo Pérsico.

Combatentes das Forças Democráticas da Síria (FDS) ao norte da cidade de Raqqa
© REUTERS / Rodi Said
Combatentes das Forças Democráticas da Síria (FDS) ao norte da cidade de Raqqa

Abandonar o projeto do "Grande Curdistão" lança as bases para a consolidação das relações entre os EUA e a Turquia que, por razões óbvias, não gosta de ter partes do território de seus vizinhos interrompidas e entregues a um grupo que considera terrorista e, de fato, abandonar o esforço para construir um "novo Oriente Médio" cria um final feliz para quase todos na região, exceto Israel e as monarquias do Golfo.

Até Trump estragar a diversão de todos com sua insistência em sair da Síria, havia muito apoio na comunidade de política externa dos EUA para transformar o país árabe em enclaves étnicos - sempre apresentado como último recurso.

Enquanto a chuva de vegetais podres que os curdos deram às tropas americanas em retirada sem dúvida fez pouco para agradar os EUA, a mente do governo Trump estava claramente decidida a abandonar o projeto do "Grande Curdistão" de seus antecessores por um tempo muito anterior ao anúncio da retirada.

Os EUA ainda apoiam as FDS verbalmente e ainda estão "ajudando" soldados americanos a manter o petróleo sírio fora das mãos de Damasco. Existe até a esperança de que, se eles se comportarem, obterão esse Estado autônomo. Mas Esper deixou claro que as expansivas (e vagas) promessas de administrações anteriores – nunca escritas sob a forma de contratos assinados - é coisa do passado.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019121314890301-traicao-secretario-de-trump-revela-que-eua-abandonaram-promessa-feita-aos-curdos/

«Primaveras Árabes», o regresso?

 
 
Em Israel não há governo, enquanto as manifestações se sucedem no Sudão, na Argélia, no Líbano, no Iraque, no Koweit e no Irão.
 
Em cada um destes países, o papel de organizações dos EUA, ou ligadas aos EUA, revela-se, tal como foi o caso aquando das «Primaveras Árabes», em 2010-11.
 
À época, inúmeros estudos sociológicos haviam posto em destaque as características dos países atingidos para explicar este fenómeno. Mas elas eram diferentes segundo os países. O terreno propício não era, pois, a causa.
 
Na realidade, segundo os documentos internos do Foreign Office («Ministério dos Negócios Estrangeiros inglês»-ndT), revelados por um alto funcionário britânico, Derek Pasquill, as «Primaveras Árabes» foram uma operação imaginada, em 2005, pelo MI6 no modelo da «Revolta Árabe» de Lawrence da Arábia. Salvo que já não se tratava de colocar os Wahhabitas e os Saud no Poder, mas, sim os Irmãos Muçulmanos. O Primeiro-ministro de Sua Majestade, Tony Blair, vendeu este projecto aos EUA, que o concretizou alguns anos mais tarde apoiando-se para isso nos alunos de Gene Sharp [1].
 
Ignora-se, de momento, se os Britânicos estão igualmente implicados nesta nova «Primavera Árabe», mas a Corrente Patriótica Livre do General-Presidente Michel Aoun prepara actualmente uma brochura sobre as conexões mascaradas dos EUA no Líbano, tal como o Egipto de Hosni Mubarak o tinha feito.
 
Voltaire.net.org | Tradução Alva
 
[1] «La Albert Einstein Institution: no violencia según la CIA » («O Instituto Albert Einstein: a não-violência versão da CIA» -ndT), por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 10 de febrero de 2005.

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O imperialismo e os povos do Médio Oriente

Jorge Cadima    25.Nov.19 

Três décadas após o início do ciclo de guerras com que o imperialismo quis ‘celebrar’ o fim da primeira experiência histórica de construção do socialismo, o Médio Oriente é testemunho eloquente da barbárie do capitalismo, do facto de este não hesitar na escolha dos mais criminosos meios para de novo dominar a região.

Os imperialismos norte-americano e europeus aproveitaram as vitórias contra-revolucionárias no Leste da Europa no final do século XX para lançar uma ofensiva recolonizadora global e, em particular, na região do planeta mais rica em recursos energéticos. Procuravam fazer voltar para trás a roda da História e voltar a controlar uma região que colonizaram, abertamente ou na prática, durante décadas.

Alvos foram os países que, mesmo que de forma contraditória e hesitante, haviam afirmado vias de desenvolvimento soberanas, não ditadas a partir de Washington, Londres ou Paris, como o Irão, Síria, Líbia, Iémene, Iraque, Afeganistão, entre outros. Processos soberanos que foram possíveis numa correlação de forças mundial onde a União Soviética socialista era um contrapeso real e um travão à agressividade do imperialismo.

A partir da primeira Guerra do Golfo contra o Iraque, desencadeada em 1991 quando a URSS se encontrava já em desagregação, assistimos a uma escalada de guerras cada vez mais abertamente predatórias. A mentira descarada e uma comunicação social cada vez mais propagandística foram parte integrante da máquina de guerra imperialista. Por vezes estas guerras evidenciaram contradições entre as potências imperialistas (uma característica permanente), como na invasão do Iraque em 2003. Mas na maioria dos casos prevaleceu a concertação entre as potências euro-americanas. Foi de mãos dadas que se lançaram contra os países que mais se destacaram na afirmação da sua soberania nacional, numa tentativa de desforra pelo desafio histórico das suas antigas colónias da região.

Recolonização e fundamentalismo

A presidência Obama prosseguiu a estratégia de agressão, sob velhas e novas formas. Aproveitando o surto de descontentamento popular que eclodiu em numerosos países da região em 2011 (a chamada Primavera árabe) no contexto das repercussões económicas da explosão de crise de 2007/8 o imperialismo, em particular através dos seus serviços de espionagem e operações clandestinas, procurou canalizar o descontentamento contra os governos dos países que mais se afirmaram ao longo da História como independentes, ou mesmo anti-imperialistas.
Na Líbia e Síria o imperialismo mobilizou todos os meios para derrubar os governos: a guerra aberta da NATO no caso da Líbia, a guerra por interpostos bandos terroristas armados, financiados e ao serviço do imperialismo, no caso da Síria. Em ambos os casos com a conivência, ou mesmo apoio aberto, de forças que se proclamam «de esquerda» ou «progressistas». O fundamentalismo islâmico, oficialmente culpado pelos ataques de 11 de Setembro e invocado como pretexto da invasão do Afeganistão pelos EUA em 2001, tornou-se aliado aberto do imperialismo.

Já havia sido assim nos anos 80, no combate ao governo popular e revolucionário do Afeganistão que durante alguns anos trouxera justiça social, direitos das mulheres e progresso áquele martirizado país. Outros pesos e medidas foram usados face às revoltas populares contra as piores ditaduras da região, enfeudadas ao imperialismo, como a Arábia Saudita ou o Bahrain (onde tem sede a V Esquadra Naval dos EUA).

Aí os protestos e a repressão subsequente foram escondidas na comunicação social e poupadas às operações de subversão. Também calada ou hostilizada foi a resistência do martirizado povo palestiniano, vítima desde há sete décadas do carrasco israelita, como ficou patente nos últimos dias com as dezenas de palestinianos mortos pelos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza.

A tentativa de recolonização do Médio Oriente saldou-se por uma imensa tragédia humana. Países inteiros destruídos, milhões de mortos e feridos, milhões de desalojados e refugiados. Nalguns países, o imperialismo restabeleceu um temporário controlo. Mas o saldo global é uma desilusão para o imperialismo, cujos planos têm sido gorados pela resistência popular à invasão do Iraque; pela resistência do povo e governo sírios, com a ajuda dos seus aliados iranianos, libaneses e russos; pela resistência do povo iemenita à ocupação do seu país pela Arábia Saudita, em conluio com os EUA, Reino Unido e França; pela permanente e heróica resistência do povo palestiniano.

Rearrumação de forças

É hoje evidente a perda de influência dos EUA e a crescente importância da Rússia e do Irão na região. Os aliados dos EUA foram derrotados nas últimas eleições no Iraque, que manifesta hoje uma maior independência face aos EUA. Os enormes custos económicos das guerras ajudaram a agravar ainda mais a desastrosa situação financeira dos EUA, a braços com uma dívida nacional na ordem dos 23 biliões de dólares («triliões» na terminologia dos EUA)1.

Num processo contraditório e incerto, um dos maiores aliados históricos dos EUA na região, e destacado país da NATO, a Turquia, parece afastar-se dos EUA e UE. O grande aliado do imperialismo na região, o Estado de Israel sionista, vive uma profunda crise política, que é também em parte consequência do fracasso das suas políticas de permanente agressão e belicismo, patente desde a derrota da invasão do Líbano em 2006.

Esta perda de influência das potências imperialistas está a fazer soar campaínhas de alarme nos círculos mais belicistas. São frequentes os artigos alegando que a «a Síria foi perdida» e os gritos de alarme sobre «a influência do Irão». Alguns culpam Trump. Mas para o imperialismo, todas as crises são motivo para reforçar a sua política de ingerência, agressão e guerra.

É neste contexto que se assiste a um novo recrudescimento de grandes manifestações de rua em países da região. A partir do início de Outubro multitudinárias manifestações de protesto enchem as ruas do Líbano e Iraque. Na base das manifestações estão reivindicações sem dúvida legítimas, sobre condições de vida, corrupção e o clientelismo de sistemas políticos baseados na divisão de cargos por entre comunidades étnicas ou religiosas, sistemas criados pelo imperialismo e que visam dividir os povos para melhor os subjugar. Assim se explica a dimensão dos protestos e os apoios iniciais de algumas forças progressistas.

Também nos últimos dias, no Irão acossado pelas sanções dos EUA, o aumento do preço da gasolina deu lugar a manifestações de protesto. Mas é uma evidência que, a par de legítimas reivindicações, há uma renovada tentativa do imperialismo para – tal como em 2011 – canalizar os protestos num sentido favorável aos seus desígnios. A cobertura mediática na comunicação social do grande capital tem sido intensa e compreensiva para os manifestantes – ao contrário do tratamento reservado à população de Gaza, vítima da bárbara repressão israelita.

Os protestos no Iraque têm-se saldado por um banho de sangue, com mais de 300 mortos, entre manifestantes e forças de segurança. No âmbito dos protestos, foi assaltado um consulado iraniano. Mas o Ministro da Defesa iraquiano acusa uma «terceira força» de estar a disparar sobre os manifestantes, insistindo que as granadas de gás lacrimogéneo responsáveis pela maioria das mortes não são do tipo usado pelo governo de Bagdade: «as granadas encontradas pelos médicos legistas nos cadáveres e na cabeça de manifestantes foram importados para o país sem o conhecimento das autoridades iraquianas» (Press TV, 15.11.19).

A denúncia é plausível. O uso de franco-atiradores é uma velha táctica de provocação, repetidamente usada pelo imperialismo e seus agentes. Foi documentada na Venezuela em 2002, nas manifestações que antecederam a tentativa de golpe de Estado contra Hugo Chavez. Foi usada nas manifestações de Kiev, em 2014, para servir de pretexto ao golpe de Estado na Ucrânia, como o então Ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia informou a Alta Representante da UE para a Política Externa e de Segurança, num telefonema gravado e divulgado na Internet em Março de 2014 (denúncia prontamente ignorada pela UE). Foi usado na Líbia e na Síria em 2011. Foi usado na Lituânia, em 1991, nas manifestações que levaram à proclamação da independência daquele país, dando início à desagregação da URSS. A lista é longa, e não acaba aqui.

Resistência é indispensável

As manifestações no Líbano tiveram início no dia seguinte à publicação pelo Washington Post (16.10.19) dum artigo de opinião do seu colunista David Ignatius de título: «A Síria está perdida. Vamos salvar o Líbano». Ignatius, apoiante de todas as guerras, incluindo a invasão do Iraque em 2003, torna claro ao que vem num artigo posterior, com o título: «O Hezbollah tem sido quase intocável. Mas agora o povo reage» (1.11.19). Existem vídeos com o Reitor da Universidade Americana de Beirute a incitar à participação nas manifestações (Al Manar, 30.10.19).

O órgão noticioso da ex-potência colonial informa que, «num desenvolvimento inconcebível há apenas alguns dias, manifestantes atacaram os escritórios de alguns deputados xiitas, incluindo Mohammad Radd, presidente do grupo parlamentar do Hezbollah» (France 24, 25.10.19).
Neste momento de agudização da crise sistémica do capitalismo, quando se avolumam os sinais dum novo pico de crise e as velhas potências imperialistas receiam o seu ocaso histórico, seria grave subestimar a natureza e ferocidade da fera imperialista. Todos os dias, e de todo o planeta, chegam novas provas da agressividade fascizante deste capitalismo agonizante. A resistência popular é mais indispensável que nunca. Mas é indispensável que não erre na escolha dos alvos e na identificação do inimigo principal de todos os povos: o imperialismo.

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References

  1. ^endereço (www.odiario.info)
  2. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Iraque, país mártir

Em 1963, os EUA ajudaram a continuar o longo pesadelo, que tem sido a vida no do Iraque, quando fomentaram  a queda do governo popular de Abdel Karim Kassem, que queria nacionalizar o petróleo iraquiano e criar programas de assistência social.

 

 

Lembra-lhes o que está agora a acontecer na Bolívia?

Naqueles anos 60 os EUA apoiaram então a ascensão de Saddam Hussein e apoiaram o seu regime ao longo dos anos, usando esse apoio como tática contra o Irão. Fizeram-no ignorando os horrores das perseguições políticas, tortura e execuções usadas pelo líder Sadam. Ignoraram a matança dos civis curdos na cidade de Halabja e os massacres de iraquianos xiitas, após a Guerra do Golfo.

Durante sessenta anos os EUA e a Grã-Bretanha desempenharam um papel central no fomento de desastres que destruíram a vida de gerações inteiras no Iraque e no Irão. Qualquer crítica ao papel que tem hoje o Irão não pode apagar as maléficas e erradas ações conjuntas de britânicos e americanos.

Crise atual

Hoje em dia vemos as notícias de sucessivas manifestações no Iraque contra o governo  presidido por Adel Abdul Mahdi, um dos protagonistas dos atuais acontecimentos

De acordo com notícias atuais emitidas pela Al-Jazeera mais de 300 pessoas foram mortas e milhares de outras ficaram feridas desde que os protestos contra o governo do Iraque eclodiram no início de outubro último provocados por uma raiva generalizada sobre a corrupção oficial, desemprego em massa e serviços públicos que nunca ultrapassaram a destruição que lhes foi infligida depois da invasão do Iraque pelos americanos. Manifestações em Bagdade e várias cidades no sul do Iraque, representam o maior desafio ao governo de um ano do referido primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi.

Muitos manifestantes  dizem que as autoridades do país falharam em melhorar a vida de seus cidadãos, apesar de um período de relativa calma que se seguiu à derrota do Estado Islâmico do Iraque e do grupo armado Levant (ISIL ou ISIS) há dois anos.

O Iraque tem  40 milhões de habitantes dos quais 60% vivem com menos de  6 dólares por dia, segundo dados do Banco Mundial.

A miséria vivida por um país  que tem a quinta maior reserva  de petróleo do mundo.

O acesso a cuidados de saúde, educação, água potável e eletricidade são restritos e  grande parte da infraestrutura do país ficou inutilizada.

Al-Sistani pede reforma eleitoral

Na sexta-feira, o principal líder xiita do Iraque, o grande aiatolá Ali al-Sistani, pediu aos políticos do país que acelerassem a reforma das leis eleitorais, dizendo que as mudanças eram a única maneira de resolver a agitação mortal que se desenrolou nas últimas semanas.”Afirmamos a importância de acelerar a aprovação da lei eleitoral e da comissão eleitoral, porque isso faria que o país estaria a dar passos para sair da crise”.

O presidente do Iraque, Barham Salih, prometeu realizar uma eleição parlamentar logo que uma nova lei seja aprovada, numa tentativa de acalmar os manifestantes, mas não definiu nenhum cronograma para a votação. Mohammed Jamjoom, da Al Jazeera, informou em Bagdade que uma sessão parlamentar deve ocorrer no próximo sábado, durante a qual a lei de reforma eleitoral terá uma segunda leitura, abrindo caminho para uma possível votação parlamentar da legislação na próxima semana.

Mas os manifestantes desconfiam de tudo o que o governo diz.

Por isso  continuarão a aparecer nas ruas todos os dias independentemente das ameaças que lhes são feitas. Querem ver as promessas cumpridas e não só anunciadas.

Em resumo: Protagonistas iraquianos desta crise atual

  • O 1º Ministro  Adel Abdul Mahdi, 
  • o líder xiita do Iraque, o grande aiatola Ali al-Sistani
  • O presidente do Iraque, Barham Salih
  • O povo que invade as ruas em protesto

 

Antecedentes

A História do Iraque desde os tempos da dominação Otomana

Império OtomanoDe 1638 até até à  Primeira Guerra Mundial, o território do Iraque fez parte do Império Turco-Otomano.

A história moderna do Iraque começa com a última fase da regência Otomana, durante o século XIX. Até à década de 1830, o sultão otomano, sediado na capital Istambul, governava uma área vastíssima, que ia de Viena a Bassorá.

O verdadeiro poder, no que diz respeito ao atual Iraque, estava entre os poderosos líderes das tribos e  governantes locais convertidos ao Islão e que tinham a confiança de Istambul. No norte do atual Iraque, os lideres curdos sentiam-se praticamente livres. Os nómadas nunca sentiram o jugo otomano. Havia hostilidades e conflitos entre nómadas, árabes, turcos e persas que viviam na região o que impediu durante longo tempo  uma eventual unificação política.

O último líder muçulmano, um dos tais convertidos ao Islão, Daúde (1816-1831), iniciou importantes programas de modernização, que incluíram a construção de canais, indústrias, treino de 20 mil soldados e inicio da imprensa. Mas em 1831 uma  cheia devastou Bagdade, possibilitando que o sultão otomano Mhamude II estabelecido em Istambul, restabelecesse a soberania sobre o atual Iraque. O governo otomano foi instável. Bagdade teve mais de dez governadores entre 1831 e 1869.

Em 1869, no entanto, os otomanos reconquistaram a autoridade quando Midate Paxá foi indicado governador de Bagdade.

Midhat imediatamente iniciou um processo de modernização do atual Iraque nos moldes ocidentais. Reorganizou o exército, criou códigos penais e comerciais, secularizou o sistema educacional e melhorou a administração provincial. Midate estimulou a sedentarização das tribos nómadas com a venda de terras aos chefes tribais, o que reduziu a influência dos grupos que continuavam errantes. Os árabes começaram a experimentar as consequências dos novos e mais eficientes métodos administrativos otomanos, principalmente no recebimento efetivo de impostos. O grande crescimento do Império Otomano fez surgir na ressentida população um forte espírito nacionalista árabe, encorajado também pelas ambiciosas potências europeias.

 

Presença do Reino Unido e da Alemanha

Na última parte do século XIX, o Reino Unido e a Alemanha tornaram-se rivais no desenvolvimento comercial nesta área da Mesopotâmia. Os britânicos foram os primeiros a cheirarem o  interesse pela região. Em 1861 estabeleceram uma companhia de barcos a vapor no porto de Bassorá. Os alemães de Bismarck queriam construir o Caminho de Ferro do Oriente, ligando Berlim a Bagdade. Queriam também construir um caminho de ferro ligando Bagdade a Bassorá no Golfo Pérsico. Enquanto isso o Império Britânico consolidava-se no Golfo Pérsico protegendo lideres árabes locais. Também foi ocupando as costas de Omã, do Katar, dos agora Emiratos Árabes Unidos. Londres estendeu a seguir a mão para o Koweit um Emirato dependente de Bassorá. Investidores britânicos conseguem uma concessão para, em 1901, explorar campos petrolíferos do Irão.

Em novembro de 1914, no  início da Primeira Guerra Mundial o Império Otomano junta-se à Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Império Austro-húngara), dando motivo a que o Reino Unido envie tropas para proteger os seus interesses petrolíferos na região da Mesopotâmia, ou seja, no futuro Iraque.

Os turcos otomanos e os britânicos assinaram um armistício em outubro de 1918, mas o exército britânico continuou a mover-se para o norte até capturar Mossul ganhando controle sobre quase toda a Mesopotâmia.

O Iraque torna-se um protetorado britânico.

No plebiscito de agosto de 1921, controlado pelo britânico Colonial Office, a população das margens do Tigre e do Eufrates elegeram com 96% dos votos, Faiçal como  Rei do Iraque.

O novo monarca precisava construir sua base de apoio no Iraque. Ele concluiu essa tarefa principalmente ganhando apoio dos militares nascidos no Iraque que serviram no exército Otomano e dos árabes sunitas, líderes religiosos e comerciais em Bagdade, Bassorá e Mossul. Para ganhar apoio dos xiitas, das tribos sunitas  o rei, com apoio dos britânicos, deu aos chefes tribais amplos poderes sobre suas tribos, incluindo poderes judiciais e de coleta de impostos nos seus domínios tribais. Os líderes urbanos árabes sunitas e alguns chefes curdos dominaram o governo e o exército, enquanto que os chefes árabes xiitas e, em menor extensão, chefes árabes sunitas dominaram o parlamento, decretando leis que os beneficiavam. As classes mais baixas não tinham participação nos negócios de Estado. Faziam parte dessa classe os camponeses pobres e, nas cidades, a grande camada de jovens educados no ocidente, que eram economicamente vulneráveis e dependiam do governo para arranjar emprego. Esse último grupo, conhecido porefendiy, tornou-se mais numeroso e inquieto. Tanto a elite governante como  os efendiy abraçaram a ideia do movimento pan-arabista, que sonhava juntar todas as regiões árabes em um único e poderoso Estado. O Pan-arabismo era visto como meio de unir a maioria da diversificada população através de uma identidade árabe comum. A elite defendia alcançar o pan-arabismo através da diplomacia, com o consentimento britânico, enquanto que os efendiy desenvolveram uma ideologia radical,revolucionária e anti britânica/anti colonial.

O rei Faiçal I requereu solenemente que o mandato britânico sobre o qual o Iraque  fosse transformado num tratado de aliança entre duas nações. Apesar da Grã-Bretanha não ter terminado o mandato, em junho de 1922 foi assinado um tratado de aliança entre o Iraque e a Grã-Bretanha.

 
 

Em outubro de 1932 o Iraque entrou na Liga das Nações como um Estado livre e soberano, depois de dez anos de pressões e conversações com os britânicos que nunca deixaram nenhuma colónia de mão beijada.

Desde a independência até aos dias de hoje o Iraque sempre foi fortemente pressionado a apoiar o Reino Unido e nunca chegou a conhecer uma paz ou políticas genuinamente suas.

Durante a II Guerra Mundial, em  1942 o país transformou-se num importante centro de suporte logístico para as forças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que operavam no Médio Oriente e de transbordo de armas para a União Soviética. Em 17 de janeiro de 1943 o Iraque declarou Guerra à Alemanha, sendo o primeiro país islâmico independente a fazê-lo. A Grã-Bretanha manteve a ocupação do Iraque até 1945.

Em 1953, foram feitas as primeiras eleições parlamentares por sufrágio direto. Restabeleceu-se o governo constitucional e Faiçal II cedeu formalmente o trono.

No dia 14 de julho de 1958 o exército Iraquiano fez um inesperado golpe de estado pan-arabista, liderado pelo general iraquiano Abdul Karim Kassem. O rei Faiçal,de 23 anos de idade, foi assassinado, juntamente com a sua família. O primeiro-ministro Nuri as-Said, que era tido como uma figura símbolo da ligação ao colonialismo do Reino Unido foi linchado nas ruas de Bagdade.

No seguimento do golpe de Estado de 1958 tiveram lugar algumas reformas sociais e democráticas. Foi aprovada uma nova constituição, foi permitida a formação de partidos e de sindicatos.

O petróleo foi nacionalizado, bem como outras indústrias, e foi lançada uma reforma agrária. Ao mesmo tempo era denunciado o pacto de Bagdade e estabelecidas relações próximas com a República Árabe Unida (15 de julho).

Abdul Kassem,  fez tentativas de ganhar a confiança do Ocidente mantendo a oferta de petróleo, mas sem qualquer sucesso.

Após o término do mandato britânico no Kuwait (junho de 1960), o Iraque reivindicou o território, declarando que a área fazia parte do Estado Iraquiano na época de sua formação. Convidadas pelo governante do Kuwait, forças britânicas entraram lá em julho. O Conselho de Segurança da ONU rejeitou um pedido iraquiano ordenando sua retirada.

OPERAÇÃO “LIBERDADE do IRAQUE” e presença americana

Foi lançada pelos Estados Unidos a 20 de março de 2003 no contexto e a pretexto da Guerra Global contra o Terrorismo. A invasão relâmpago durou uns escassos 21 dias e foi militarmente bem sucedida. Os americanos marcharam com apoio militar do Reino Unido, Austrália e Polónia.

O objetivo era derrubar o  regime baathista do ex amigo e tirano Saddam Hussein. O governo no poder foi destituído e o vice rei americano Paul Bremer foi entronizado.

E um novo descalabro atingiu a antiga Mesopotâmia. Como escrito no início deste artigo, quando vemos o que se passa nos dias de hoje com sucessivas manifestações no Iraque contra o governo  presidido por Adel Abdul Mahdi, um dos protagonistas dos atuais acontecimentos, vemos as consequências desastrosas da invasão e presença americana nos últimos 16 anos.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/iraque-pais-martir/

Jordânia alerta para 'consequências perigosas' da reorientação de EUA sobre assentamentos em Israel

Crianças palestinas brincam próximas ao assentamento israelense de Maale Adumim, na Cisjordânia ocupada, em julho de 2019
© REUTERS / Raneen Sawafta

Após mais uma mudança na política dos EUA sobre o conflito israelo-palestino, ministro das Relações Exteriores da Jordânia manifesta preocupação. EUA declaram que assentamentos israelenses na Cisjordânia "não são inconsistentes" com o direito internacional.

Nesta segunda-feira (18), o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi, alertou para as 'consequências perigosas' da mudança de posição dos EUA em relação ao processo de paz no Oriente Médio.

Muitos assentamentos israelenses foram construídos em territórios destinados ao Estado da Palestina, de acordo com a resolução da ONU 181 de 1947, que criou o Estado de Israel.

"Os assentamentos na Palestina ocupada são uma violação flagrante do direito internacional e das resoluções do Conselho de Segurança da ONU. São ações ilegais que destroem a solução de dois Estados. A Jordânia não negocia a sua posição, contrária aos assentamentos. Alertamos sobre as consequências perigosas da mudança de posição dos EUA para o processo de paz no Oriente Médio", declarou o ministro.

​Anteriormente, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, havia declarado que os Estados Unidos já não consideravam os assentamentos como uma violação do direito internacional:

"Após estudar com cuidado todos os lados desse debate jurídico, esta administração considera que a construção de assentamentos israelenses civis na Cisjordânia não é, per se, inconsistente com a lei internacional."

A declaração modifica a posição tradicional dos EUA. De acordo com a Resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU, do qual os EUA é membro permanente com direito a veto, os assentamentos israelenses não têm validade legal e "constituem flagrante violação do direito internacional".

Mudanças na política dos EUA

A declaração de Pompeo segue a tendência da administração Trump de rever a política norte-americana em relação ao conflito israelo-palestino.

Em 2017, Trump reconheceu Jerusalém como capital do Estado de Israel e, em 2018, os EUA transferiram sua capital oficialmente para a cidade disputada.

Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeu, discursa sobre a nova interpretação dos EUA em relação aos assentamentos israelenses, em Washington, em 18 de novembro de 2019
© REUTERS / Yara Nardi
Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeu, discursa sobre a nova interpretação dos EUA em relação aos assentamentos israelenses, em Washington, em 18 de novembro de 2019

Em 2018, os EUA cortaram as suas contribuições para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA, na sigla em inglês).

Em março deste ano, Trump reconheceu a anexação israelense das Colinas de Golã, território sírio ocupado desde 1981.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019111914792889-jordania-alerta-para-consequencias-perigosas-da-reorientacao-de-eua-sobre-assentamentos-em-israel-/

O Futuro do Levante

Não resistimos em publicar o editorial de Thierry Meyssan no al-Watan, o mais importante quotidiano da Síria. Aí, ele descreve o acordo Estados Unidos/Rússia para o Levante.

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29 de Outubro de 2019 - Desde há um século, o Reino Unido, depois os Estados Unidos têm sucessivamente cortejado todos os Estados e todos os grupos confessionais do Próximo Oriente. Eles atiçaram os conflitos confessionais de maneira a tornarem-se indispensáveis, segundo o velho princípio de «Dividir para reinar».

O Presidente Trump foi eleito, há três anos, com o projecto de acabar com o Império dos EUA e colocar as forças do seu país ao serviço dos seus concidadãos. Segundo a análise do seu efémero Conselheiro de Segurança, o General Michael Flynn, retirar as suas tropas do Próximo-Oriente Alargado, instalando aí, ao mesmo tempo, a paz, supõe que se ponha fim aos conflitos confessionais e, portanto, aos Estados sectários. De forma clara, é preciso deswahhabisar a Arábia Saudita, desjudeizar Israel, desxiizar o Irão e dessunizar Gaza, depois é necessário mudar as Constituições sectárias do Líbano e do Iraque.

É precisamente ao que assistimos hoje em dia.

O Príncipe Mohamad Bin Salman e o Rei Salman, ele próprio, muito embora tirando a sua legitimidade da Confraria wahhabita, não param de a fazer recuar no seu país.

Avigdor Lieberman, Presidente do Partido russófono Israel Beitenu, provocou a queda do governo de Benjamin Netanyahu e reclama, desde há um ano, um governo sem os partidos religiosos. Duas eleições mais tarde, poderá acontecer que o General Benny Gantz forme um governo laico de união nacional, incluindo Lieberman e Netanyahu, mas sem os partidos religiosos. Sem o que, será necessário proceder à terceira eleição legislativa.

O Irão prendeu os principais colaboradores do antigo Presidente laico Mahmoud Ahmadinejad. O país encontra-se sob a pressão financeira dos Estados Unidos e a militar de Israel. Em algum momento, ser-lhe-á preferível modificar, por si mesmo, o seu sistema de governo e regressar a uma política nacionalista.

Se uma metade dos Territórios palestinianos é laica, a outra metade é governada pelo Hamas. Mas o Estado da Palestina só existe porque o resto da Palestina é um Estado judaico. Se Benjamin Netanyahu aceitasse ser um simples ministro, ele seria rapidamente apanhado pela Justiça do seu país. A sua queda não seria a do Likud, antes a dos raros partidários do Grande Israel, estabelecido por conquista, do Nilo ao Eufrates.

No Líbano, apesar das manifestações (protestos-br) maciças, é impossível reformar a Constituição sectária que corrói o país desde há três quartos de século e uma guerra civil. Com efeito, uma Comissão Constituinte só pode ser formada respeitando os equilíbrios sectários e não poderá, portanto, aboli-los. Devendo eleger uma Assembleia Constituinte, os partidos sectários comprariam uma vez mais os eleitores para se manterem. A única solução é a criação de um governo militar laico que reforme, ele mesmo, a Constituição antes de se retirar para dar lugar aos civis eleitos.

No Iraque, a situação é a mesma embora menos caricatural. Como no Líbano, aí a contestação é agora feita pela maioria xiita. Apesar das aparentes contradições, Moqtada el-Sadr é primeiro um nacionalista antes de ser um xiita. Exactamente como no Líbano, sayyed Hassan Nasrallah é primeiro um nacionalista antes de ser um xiita. Aliás, ele sempre afirmou que o Hezbolla deixará de existir sob a forma actual assim que Israel deixe de ser um Estado judaico.

Este projecto da Casa Branca vai de encontro ao da Federação da Rússia que sempre protegeu os Cristãos, mas também sempre se opôs aos Estados confessionais.





Ver original na 'Rede Voltaire'



As insolúveis contradições do Daesh e do PKK/YPG

Só conhecemos o que se passa no Levante através da propaganda de guerra do país em que vivemos. Ignoramos os outros pontos de vista e, mais ainda, como os nossos exércitos se têm comportado. Para destrinçar o verdadeiro do falso, os historiadores terão que examinar os documentos disponíveis.

Ora, aquilo que nos diz a documentação militar ocidental contradiz as declarações dos políticos e a narrativa dos jornais. Apenas tomando em consideração a existência duma estratégia do Pentágono desde 2001 é que se poderá compreender o que se tem realmente passado, e porque é que, a este propósito, se chega hoje em dia a tais contradições.

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A remodelagem do Levante segundo o Estado-Maior do Pentágono para o Levante. Este mapa foi descrito pelo Coronel Ralph Peters num artigo, em 13 de Setembro de 2001, mas só foi publicado em 2006.

Não se compreende o que se passa no Norte da Síria porque se acredita, logo à partida, que uma luta aí opunha os malvados jiadistas do Daesh (E.I.) aos simpáticos Curdos do PKK/YPG. Ora, isto é absolutamente falso. Essa luta apenas acontecia quando se tratava de limitar os respectivos territórios ou por solidariedade étnica, jamais por razões ideológicas ou religiosas.

Além disso, não se quer ver o papel que jogou Donald Trump. Como a imprensa passa o seu tempo a insultar o Presidente eleito dos Estados Unidos, não se pode contar com ela para analisar e compreender a sua política no Médio-Oriente Alargado. Ora, há uma linha directriz clara: o fim da doutrina Rumsfeld/Cebrowski, herança do 11 de Setembro. Nisto, ele opõe-se aos seus generais —todos formatados nos mandatos Bush Jr e Obama em controlar o mundo— e à classe política da Europa ocidental.

Para compreender o que se passa, é preciso considerar os factos a montante e não a jusante. Regressemos ao plano elaborado pelo Pentágono no início da Administração Bush, em 2001, e revelado, dois dias após os atentados de 11 de Setembro, pelo Coronel Ralph Peters na Parameters [1], a revista do Exército de Terra dos EUA: a «remodelagem» do mundo, a começar pelo Médio-Oriente Alargado. Este plano foi confirmado, um mês mais tarde, pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, que nomeou o seu principal cérebro, o Almirante Arthur Cebrowski, director do Gabinete de Transformação da Força. Ele foi explicitado pelo assistente deste último, Thomas Barnett, em 2005, no The Pentagon’s New Map (O Novo Mapa do Pentágono -ndT) [2]. E, ilustrado pelo mesmo Ralph Peters logo que ele publicou, em 2006, no Armed Forces Journal (Jornal das Forças Armadas -ndT) o mapa do primeiro episódio: aquilo em que se devia tornar o Médio-Oriente Alargado [3]. Tendo em conta as dificuldades encontradas no terreno, ele foi objecto de uma emenda publicada por uma pesquisadora Pentágono, Robin Wright, no suplemento dominical do New York Times [4], em 2013.

Segundo estes documentos cinco Estados deviam ser desmembrados em quatorze entidades: a Síria e o Iraque, o Iémene, a Líbia e a Arábia Saudita.

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Mapa publicado por Robin Wright em 2013, quer dizer um ano antes da transformação do Daesh e antes da do PKK/YPG.

Em relação à Síria e ao Iraque, estes dois Estados deviam ser divididos em quatro. O mapa publicado em 2013 desenha os contornos de um «Sunnistão» e de um «Curdistão», ambos a cavalo sobre os dois Estados actuais. No ano seguinte, o primeiro foi criado pelo Daesh (EI), o segundo pelo YPG. No momento em que este mapa foi publicado, o Daesh não passava de uma minúscula organização terrorista anti-síria entre centenas de outras; enquanto o YPG era uma milícia pró-governamental, na qual os salários dos combatentes eram pagos pela República Árabe Síria. Nada no terreno permitia prever a criação do Califado e do Rojava desejada pelo Pentágono.

O quotidiano curdo turco Özgür Gündem [5] publicou o registo de decisão da reunião no decurso da qual a CIA preparou a maneira pela qual o Daesh (EI) invadiria o Iraque, a partir de Raqqa. Este documento indica que Masrour "Jomaa" Barzani, então Chefe da Inteligência no Governo regional do Curdistão, participou nesta reunião de planificação (planejamento-br), a 1 de Junho de 2014, em Amã (Jordânia). Ele tornou-se o Primeiro-ministro do Governo regional do Curdistão iraquiano em Julho passado.

Importa lembrar que, segundo o mapa de Robin Wright, o «Curdistão» dos EUA devia incluir o Nordeste da Síria (tal como o «Curdistão» francês de 1936) e a região curda do Iraque (o que os Franceses não haviam considerado).

O apoio do Governo regional do Curdistão iraquiano à invasão do Iraque pelo Daesh (EI) é incontestável: ele deixou os jiadistas massacrar os Curdos de religião Yazidi no Sinjar e reduzir as suas mulheres à escravidão. Os que foram salvos foram-no por Curdos turcos e sírios, vindos especialmente ao local, para lhes dar apoio salvador sob o olhar trocista dos peshmergas, os soldados Curdos iraquianos.

O Daesh cometeu inúmeras atrocidades, impondo o seu reino pelo terror. Ele realizou uma limpeza religiosa dos Curdos yazidis, Assírios cristãos, Árabes xiitas etc. Estes «rebeldes» beneficiaram da ajuda financeira e militar da CIA, do Pentágono e de, pelo menos, 17 Estados, tal como foi reportado, com documentos em suporte, pelos diários búlgaro Trud [6] e croata Jutarnji list [7]. Com um pessoal devidamente formado em Fort Benning (USA), o Daesh(EI) lançou impostos e abriu serviços públicos até se constituir em «Estado», muito embora ninguém o tenha reconhecido como tal.

Não sabemos como o PKK foi transformado, em 2005, de um partido político marxista-leninista pró-soviético para uma milícia ecologista libertária e pró-atlantista. E, ainda menos, como o YPG da Síria mudou de pele em 2014.

Ele passou para o comando operacional de oficiais turcos do PKK e da OTAN. Segundo o lado da fronteira turco-síria, o PKK-YPG é internacionalmente qualificado de maneira diferente. Se se estiver posicionado na Turquia, é «uma organização terrorista», mas se estiver na Síria, torna-se «um partido político de oposição à ditadura». Ora até 2014, ele não via ditadura na Síria. Batia-se pela defesa da República Árabe Síria e pela manutenção do Presidente Bashar al-Assad no Poder.

O YPG respeitou as leis da guerra e não cometeu atrocidades comparáveis às do Daesh (EI), mas não hesitou em limpar etnicamente o Nordeste da Síria para criar o «Rojava», o que constitui um crime contra a humanidade. Ele espoliou e expulsou centenas de milhar de Assírios e de Árabes. Acreditava bater-se pelo seu povo, mas estava apenas a realizar os sonhos do Pentágono. Para isso, beneficiou, publicamente, do armamento do Pentágono, tal como o semanário britânico dos mercados militares Jane’s [8] e o quotidiano italiano Il Manifesto [9] mostraram, e da França, tal como François Hollande o revelou. O Rojava acabou por não ter tempo de se fundir com a região curda do Iraque.

Após a queda do Califado, entre outros sob os golpes do PKK/YPG, este pediu a autorização do governo de Damasco para atravessar as linhas do Exército árabe sírio a fim de voar em socorro dos Curdos do Noroeste ameaçados pelo Exército turco. O que obteve. Mas assim que o PKK/YPG se movimentou, fez transitar oficiais do Daesh, em fuga, que foram presos pela República Árabe Síria.

Estes documentos e estes factos não nos dizem que protagonistas estão certos ou errados, isso é uma outra questão. No entanto, no terreno, é impossível ser ao mesmo tempo contra o Daesh(EI) e a favor do PKK/YPG sem cair em irreconciliáveis contradições .

Os actos de Donald Trump consistiram em destruir os pseudo-Estados fabricados pelo Pentágono : o Califado e o Rojava ; o que, no entanto, não significa nem o fim do Daesh (EI), nem o do PKK/YPG.


[1] “Stability, America’s Ennemy”, Ralph Peters, Parameters, Winter 2001-02, pp. 5-20. Également in Beyond Terror: Strategy in a Changing World, Stackpole Books.

[2] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.

[3] “Blood borders - How a better Middle East would look”, Colonel Ralph Peters, Armed Forces Journal, June 2006

[4] “Imagining a Remapped Middle East”, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, 28 septembre 2013.

[5] « Yer : Amman, Tarih : 1, Konu : Musul », Akif Serhat, Özgür Gündem, 6 temmuz 2014.

[6] “350 diplomatic flights carry weapons for terrorists”, Dilyana Gaytandzhieva, Trud, July 2, 2017.

[7] “TAJNA LETOVA JORDANSKIH AVIONA S PLESA Sirijski pobunjenici dobivaju oružje preko Zagreba!”, Krešimir Žabec, Jutarnji list, 23 veljača 2013. «TRANSFER HRVATSKOG ORUŽJA POBUNJENICIMA U SIRIJI Sve je dogovoreno prošlog ljeta u Washingtonu!», Krešimir Žabec, Jutarnji list, 26 veljača 2013. “VIDEO: JUTARNJI OTKRIVA U 4 mjeseca za Siriju sa zagrebačkog aerodroma Pleso otišlo 75 aviona sa 3000 tona oružja!”, Krešimir Žabec, Jutarnji list, 7 ožujak 2013. “PUT KROZ ASADOVU SIRIJU Nevjerojatna priča o državi sravnjenoj sa zemljom i njezinim uništenim ljudima: ’Živote su nam ukrali, snove ubili...’”, Antonija Handabaka, Jutarnji list, 9 ožujak 2013.

[8] “US arms shipment to Syrian rebels detailed”, Jeremy Binnie & Neil Gibson, Jane’s, April 7th, 2016.

[9] “Da Camp Darby armi Usa per la guerra in Siria e Yemen”, Manlio Dinucci, Il Manifesto, 18 aprile 2017.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Palestinos organizam simpósio sobre papel da China no Oriente Médio

Ramala, 10 nov (Xinhua) -- O Instituto Palestino de Pesquisa em Segurança Nacional (PINSR) organizou neste domingo um simpósio sobre o papel da China no Oriente Médio.

O simpósio, na cidade de Ramala, na Cisjordânia, na Palestina, destacou o crescente papel da China no Oriente Médio, à luz de sua política para a região e da Iniciativa do Cinturão e Rota, proposta pela China, disseram os organizadores.

Se dirigindo à audiência, Guo Wei, diretor do Escritório da República Popular da China no Estado da Palestina, disse que o presidente chinês, Xi Jinping, tem uma visão para a região e sua proposta de quatro pontos para ajudar a resolver a questão palestino-israelense foi recebida com grande entusiasmo pelos líderes da região.

A proposta foi apresentada pelo líder chinês em uma reunião com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, durante visita a Beijing em julho de 2017.

Na proposta, Xi reiterou o firme apoio da China para uma solução política da questão palestina com base na solução de dois estados e o estabelecimento de um estado palestino independente e totalmente soberano ao longo das fronteiras de 1967 com Jerusalém Oriental como sua capital.

O líder chinês também destacou a importância de melhorar a coordenação internacional para alcançar a paz entre Israel e a Palestina, ao mesmo tempo em que apela ao apoio de desenvolvimento econômico da Palestina no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota.

"Nosso objetivo é... criar harmonia no mundo, onde buscamos uma paz justa e duradoura na região como um todo e na Palestina, em particular", explicou ele.

Sobre as relações entre a Palestina e a China, Abbas Zaki, chefe do comissário-geral de Assuntos Árabes e Chineses do partido Fatah, disse que a relação histórica entre o partido Fatah e a China é inabalável, principalmente sob o desenvolvimento da Iniciativa do Cinturão e Rota.

"Confiamos que a China nunca colocará interesses sobre princípios", afirmou. "Acreditamos que a Iniciativa do Cinturão e Rota conectará o mundo ao desenvolvimento coletivo e duradouro e permitirá uma situação em que todos saiam ganhando e que a paz prevaleça".

O simpósio explorou os papéis políticos e econômicos da China na região, permitindo que o público, que era principalmente estudantes de língua chinesa e executivos da Autoridade Palestina que receberam vários treinamentos na China, entendesse a perspectiva chinesa em relação à região.

Islam Ayadi, professor-assistente de ciência política da Universidade Árabe Americana na Palestina e também pesquisador de assuntos chineses, disse que o papel que a China está desempenhando na região é crucial e estratégico a longo prazo.

A Iniciativa do Cinturão e Rota foi proposto pela China em 2013. E se refere ao Cinturão Econômico da Rota da Seda e à Rota Marítima da Seda do século XXI e visa a construção de redes de comércio e infraestrutura que conectam a Ásia à Europa, África e além.

O PINSR é considerado um jovem grupo de reflexão que conduz pesquisas de políticas e fornece conselhos aos tomadores de decisão palestinos.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-11/11/c_138546393.htm

O DESPERTAR DOS POVOS

 
 
Parece inegável que em pontos muito diferentes do globo há povos que despertam contra a ditadura económica globalizante do neoliberalismo e as suas trágicas consequências sociais.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
A paz podre do neoliberalismo globalizante e o conformismo social que lhe corresponde estão a ser sacudidosatravés do mundo. Nas urnas e nas ruas – as duas frentes são democraticamente legítimas e complementares – os povos dão sinais de que a sonolência hipnótica induzida pelo entertainment mediático em que se transformou tudo o que tem a ver com a vida das pessoas é uma arma que também se desgasta, desmascara e vai perdendo eficácia. Uma faúlha representada por um aumento de preços, um corte de subsídios sociais, o lançamento de mais um imposto tornaram-se agora susceptíveis de provocar grandes e vibrantes explosões sociais. A arbitrariedade e a impunidade do sistema dominante começam a encontrar barreiras humanas.
 
Multiplicam-se os focos de contestação popular em zonas diversificadas do mundo. Mas será um erro avaliá-los segundo uma bitola única, além de ser profundamente desaconselhável deixar-nos conduzir pelos conteúdos e sistematizações que brotam da comunicação social dominante. Esta recorre a métodos padronizados com alguns objectivos principais: diluir a importância e a legitimidade de acções cívicas através do empolamento dos fenómenos de violência e que, em última análise, funcionam em benefício do opressor; misturar razões e motivos para confundir e esconder, deste modo, a mensagem essencial enviada pelos comportamentos de massas; associar situações que são liminarmente antagónicas; ou então evitar ligar circunstâncias e consequências que, sendo diferentes, têm, obviamente, objectivos convergentes. Por exemplo, tratar as manifestações no Chile contra o neoliberalismo como irmãs gémeas dos desacatos na Bolívia a favor do neoliberalismo é tão perverso do ponto de vista informativo como esconder que os movimentos populares chilenos têm exactamente a mesma motivação que os resultados das eleições na Argentina dando guia de marcha a Macri, o homem do FMI.
 
A única maneira de compreender o que está a passar-se do ponto de vista global através das grandes movimentações populares em curso é partir da observação isolada de cada caso para chegar ao que têm em comum – como indicadores de uma tendência.
 
 
Do Chile à Catalunha
 
Embora em diferentes fases de maturação, é possível comparar, sem misturar alhos com bugalhos como capricha em fazer a informação mainstream, várias situações em diferentes continentes: Chile, Bolívia (e Venezuela), Líbano, Catalunha, Argentina, Equador, Hong Kong, Honduras, Iraque, Nicarágua.
 
O que está a passar-se no Chile tem características objectivas e simbólicas importantíssimas, das quais ressalta uma rejeição absoluta da ditadura económica neoliberal. O Chile é o país onde foi aplicada pela primeira vez, já lá vão 46 anos, a ortodoxia económica neoliberal, a cargo dos agentes da sua escola teórica em Chicago, sob cobertura da ditadura política fascista do general Augusto Pinochet.
 
A situação demonstrou que o neoliberalismo é, de facto, o fascismo económico; desenvolvimentos posteriores revelaram – como aliás constatou a senhora Thatcher, inspiradora do «novo» partido parlamentar Iniciativa Liberal – que pode ser compatível com formas muito controladas e manipuladas de democracia política, desde que sustentadas pela transformação da comunicação social dominante num aparelho feroz de propaganda. O que se mantém, em qualquer das situações, são os mecanismos de ditadura económica através da imposição da ortodoxia do «sistema de mercado».
 
No Chile não houve uma transição para a democracia com a saída de Pinochet, mas sim o prolongamento do pinochetismo travestido de democracia, regime em que se comprometeu – traindo inexoravelmente a memória do sacrificado Salvador Allende – o Partido Socialista do Chile, através da ex-presidente Michelle Bachelet.
 
É contra essa eternização da escravatura neoliberal que se levantam agora as massas chilenas, quanto a propaganda disfarçada de informação prefere destacar os comportamentos violentos para esconder, por exemplo, a gigantesca manifestação pacífica de um milhão e 200 mil pessoas em Santiago no passado dia 25, que só tem paralelo com as da Unidade Popular nos anos setenta do século passado. O aumento dos preços das viagens de metropolitano foi o detonador, a gota que pôs fim à paciência dos chilenos, que os ricos mais ricos de um dos países mais desiguais do mundo julgavam eterna.
 
Na Catalunha não é o neoliberalismo que está directamente em causa. Mas a incapacidade para se dar conta da existência de um movimento de milhões de pessoas pela autodeterminação catalã é comportamento próprio de um Estado centralista e avesso ao diálogo – como são as estruturas de poder neoliberais.
 
É evidente que a propósito da Catalunha, a região mais rica de Espanha, existem razões económicas escondidas em invocações «constitucionalistas» baratas e em «unidades nacionais» de índole feudal. Um Estado verdadeiramente democrático não teria dificuldades em dar a palavra aos catalães – e a outros povos de Espanha – para decidirem sobre o seu futuro. Mas o Estado que emana de Madrid o seu neofranquismo latente, agora como sustentáculo da ortodoxia neoliberal, não é capaz de viver com isso. No entanto, tal como no Chile, há novas realidades que tornam impossível que tudo continue como até aqui.
 
Por detrás do autoritarismo do Estado espanhol está a União Europeia, esse panteão neoliberal que se recusa a conhecer o que pretendem os catalães mas foi lépido em acolher entidades secessionistas como a Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia, Croácia, Eslovénia; e que inventou outras por sua conta, risco, fraudes e guerras, como o Kosovo e a Macedónia do Norte.
 
Do Equador a Hong Kong
 
Quem seguir os acontecimentos no Equador e em Hong Kong comodamente instalado em frente do televisor, ainda que vá manejando o telecomando para ir variando de espaços noticiosos, fica a saber que os energúmenos latino-americanos são incapazes de aceitar um corte de subsídios de combustível recomendado pelo FMI e que o corajoso povo asiático enfrenta destemidamente os sinistros ocupantes chineses.
 
São bons exemplos de como funciona a propaganda neoliberal.
 
No Equador, as populações levantam-se contra o ressurgimento neoliberal proporcionado pela traição de Lenin Moreno à política de uma década de avanços sociais e soberanos conduzida por Rafael Corrêa, de quem foi vice-presidente. Os equatorianos recusam-se, deste modo, a regressar a um passado de submissão ainda recente.
 
Em Hong Kong, os «ninjas» teleguiados de Washington e recorrendo a uma estratégia generalizada de intimidação actuam para que se mantenha o colonialismo ocidental, que fez do território um bastião do capitalismo na sua versão neoliberal mais ortodoxa.
 
Uma vez que o regresso do território à soberania chinesa é interpretado como uma tentativa para perturbar a ortodoxia colonialista reinante torna-se fácil entender o que está a acontecer, sobretudo enquadrando a situação na fase de ataque cerrado contra os avanços económicos e comerciais chineses conduzido pela administração Trump. Em Hong Kong, o activismo a soldo de Washington e Londres nada tem a ver com uma população que, quando chamada a pronunciar-se sobre a administração do território, vota em massa nas organizações sintonizadas com a soberania chinesa.
 
Nas urnas como nas ruas
 
Na Argentina e na Bolívia os cidadãos disseram nas urnas o mesmo que os chilenos, equatorianos, hondurenhos e libaneses expressam nas ruas: a rejeição do neoliberalismo.
A realidade é mais complexa, naturalmente, mas essa é a mensagem essencial.
 
Os argentinos não deixaram margem para dúvidas: aproveitaram a primeira oportunidade eleitoral que lhes surgiu e puseram fim ao terrorismo neoliberal implantado pela ditadura de Mauricio Macri, ao serviço do FMI, que em quatro anos arrasou a economia do país ampliando fenómenos como a pobreza, a submissão, a desigualdade, a delinquência.
 
A afinidade entre chilenos e argentinos é total; o mesmo acontece com os equatorianos e os hondurenhos. Estes enfrentam corajosamente um regime terrorista nascido de um golpe patrocinado por Barack Obama e Hillary Clinton e sustentado por sucessivas eleições fraudulentas as quais, não obstante, têm recebido a chancela de legitimidade democrática outorgada por delegações da União Europeia.
 
Na Bolívia, o triunfo de Evo Morales e a nova rejeição do neoliberalismo foram difíceis num ambiente de manipulação norte-americana – a embaixada em La Paz foi apanhada a comprar votos, principalmente em Santa Cruz, tal como já o fizera com deputados da Macedónia do Norte – que continua após as eleições.
 
O candidato oficial do neoliberalismo, o antigo presidente Carlos Mesa, deu o tiro de partida para a contestação levantando a acusação de «fraude» quando a contagem de votos estava no início. Dessa suposta fraude nenhuma prova apresentou, porque não houve. Mas as consequentes arruaças servem para a propaganda mediática disseminar o mote como uma verdade absoluta, sancionada por «organizações internacionais», as que se consideram portadoras dos mecanismos de avaliação de legitimidades.
 
Não é difícil perceber a intenção manipuladora da comunicação social dominante quando associa os protestos na Bolívia aos do Chile. No fundo é o mesmo estilo de propaganda que transforma em grandes manifestações populares pela democracia as arruaças terroristas do usurpador Juan Guaidó na Venezuela.
 
Desperta também o povo do Líbano. Nova sobrecarga de impostos num país avassalado por uma crise económica e afogado em corrupção e privilégios dos titulares e ex-titulares do poder foi a gota que fez transbordar a paciência. É um protesto massivo contra um sistema político que pode ser assimilado a outros como os do Chile, Equador e Honduras, mas que que combina a ortodoxia neoliberal com um confessionalismo herdado do domínio colonial – sempre presente. Por isso, as reivindicações populares vão além da convocação de novas eleições gerais; exigem uma lei eleitoral que deixe de estar subordinada a quotas de eleitos distribuídas pelas comunidades étnico-religiosas e estabeleça um sufrágio universal directo e proporcional. É aí que se fixa o nó do problema, porque nenhum dos protectores coloniais do Líbano, da França aos Estados Unidos, passando por Israel e Arábia Saudita, está disposto a aceitar uma transparência democrática que possa traduzir-se, por exemplo, numa vitória do Hezbollah, como chega a ser vaticinada ainda que a comunidade xiita não seja maioritária no país. As manifestações de massas fizeram já cair o presidente, mas a realização de eleições segundo a metodologia em vigor produzirá um pouco de mais do mesmo. E, para já, de uma maneira perversa, a Arábia Saudita marcou pontos, porque estava interessada na queda do actual chefe de Estado.
 
Os tumultos no Iraque têm motivações bastante mais ambíguas e enviesadas. Não é difícil arrastar as massas para as ruas numa situação de crise económica grave decorrente da invasão, ocupação e desmantelamento do país pelas tropas norte-americanas, a que se seguiram guerras ainda por resolver. Porém, a concretização das exigências do sector mais radical e contundente dos manifestantes, a demissão do primeiro-ministro, seria um favor às pretensões actuais dos Estados Unidos, que vêem no actual governo um adversário aos seus objectivos de isolamento e fragilização do Irão.
 
Povos em acção
 
Parece inegável que em pontos muito diferentes do globo há povos que despertam contra a ditadura económica globalizante do neoliberalismo e as suas trágicas consequências sociais. Independente de questões específicas de cada caso, começa a desenhar-se uma tendência popular para abandonar o conformismo e enfrentar Estados tornados autoritários para poderem impor as soluções económicas únicas, as toleradas pelo «mercado».
 
Essas acções populares não se confundem, a não ser no âmbito da estratégia manipuladora da própria propaganda neoliberal, com arruaças, tumultos e comportamentos terroristas como os que acontecem na Bolívia, na Venezuela, Hong Kong e Nicarágua, por exemplo, onde se colocam travões aos mecanismos predadores do «mercado».
 
O despertar dos povos, nas urnas ou nas ruas, vem pôr em causa os pilares em que assenta a democracia corrompida que serve de cobertura à ditadura do «mercado». Quer isto dizer que os povos não só querem ter voz como começam a exigir que esta seja ouvida e respeitada.
 
O que nos dizem estes levantamentos? Que ficar à espera de um neoliberalismo democrático é o mesmo que aceitar passivamente a canga da submissão perante a selvajaria capitalista. Realidade que é válida tanto no exterior como no interior da União Europeia.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/o-despertar-dos-povos.html

EUA e aliados estão por trás dos tumultos no Iraque e no Líbano, diz Khamenei

Aiatolá Ali Khamenei
© AP Photo / Office of the Iranian Supreme Leader

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, disse que os EUA e seus aliados do Oriente Médio são os culpados pela instabilidade no Iraque e no Líbano. A declaração ocorreu depois que o primeiro-ministro libanês Saad Hariri renunciou em resposta a protestos.

Khamenei declarou que os protestos em massa nos dois países, ambos com boas relações com Teerã, foram influenciados pelos EUA, Israel e "alguns países ocidentais". Ele afirmou que a agitação foi financiada por "países reacionários" na região, um termo usado pelas autoridades iranianas para descrever a Arábia Saudita e seus aliados árabes.

O líder iraniano pediu aos manifestantes que exigissem ação de seus respectivos governos apenas por meios legais, dizendo que a alternativa resultaria em caos.

"As pessoas têm demandas justificáveis, mas devem saber que suas demandas só podem ser atendidas dentro da estrutura e estrutura jurídica de seu país. Quando a estrutura legal é interrompida em um país, nenhuma ação pode ser executada", escreveu Khamenei no Twitter.

Falando a um grupo de cadetes do Exército iraniano durante sua cerimônia de formatura nesta quarta-feira, Khamenei afirmou que os inimigos de um país podem causar o maior dano possível ao interromper sua segurança.

Nos últimos tempos, o Iraque e o Líbano testemunharam ondas de indignação pública, com a raiva das pessoas focada em várias questões domésticas. Na terça-feira, Saad Hariri deixou o cargo de primeiro-ministro do Líbano, submetendo-se às demandas dos manifestantes, que acusaram seu governo de corrupção e de levar o Líbano a um colapso econômico.

O governo iraquiano declarou um toque de recolher na capital Bagdá a partir de segunda-feira, respondendo a uma onda de protestos violentos nos dias anteriores. Segundo informações, cerca de 60 pessoas foram mortas em meio à mais recente onda de descontentamento com o governo do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019103014711442-eua-e-aliados-estao-por-tras-dos-tumultos-no-iraque-e-no-libano-diz-khamenei/

A paz ou a luta contra o CO2 : é preciso escolher a prioridade

Duas políticas estão em destaque a nível mundial. A primeira visa defender o futuro da humanidade pondo fim à principal causa actual das guerras : o acesso às fontes de energia fosseis. A segunda entende defender o planeta limitando, para tal, a produção de CO2, principalmente a imputável à utilização de energias fosseis. Estas duas políticas contradizem-se. Importa, pois, escolher a nossa prioridade.

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Empreendedor extravagante, Donald Trump empenhou-se no «Make America Great Again !» desmantelando, para isso, o Império americano. Ele favoreceu a produção de energias fosseis nos EUA e retira as suas tropas do Médio-Oriente Alargado; uma política que não teria conseguido levar em frente sem retirar o seu país do Acordo de Paris.

Numa nota difundida pela Casa Branca, a 23 de Outubro de 2019, o gabinete do Presidente Donald Trump anuncia que os Estados Unidos já não têm necessidade de travar guerras para se aprovisionarem em petróleo [1].

Esqueçam a «Doutrina Carter» que respondia às revelações sobre os crimes da CIA, à derrota dos EUA no Vietname (Vietnã-br), ao escândalo de Watergate e à crise petrolífera mundial de 1974. Para restaurar a confiança dos seus concidadãos em si próprios, o Presidente Jimmy Carter proferiu, ponto por ponto, uma importante alocução televisionada [2] e o discurso sobre o estado da União de 1980 [3]. Ele declarou que o aprovisionamento energético da economia dos EUA impunha qualificar o acesso ao petróleo do Médio-Oriente como «questão de segurança nacional». O seu sucessor, o Presidente Ronald Reagan, criou o CentCom, quer dizer, o Comando militar dos EUA da região central, como se o Médio-Oriente se tornasse subitamente uma província do Império dos EUA.

Durante 21 anos, a política mundial foi organizada em torno dessa incrível pretensão de Washington. A zona coberta pelo CentCom mudou várias vezes. À partida, ela ia desde o Corno (Chifre-br) de África até ao Egipto, o Levante, salvo Israel, e por vezes a Jordânia e o Líbano, a Península Arábica e o Sudoeste Asiático. Todas as guerras de 1980 a 2001 foram prioritariamente conflitos sobre recursos energéticos (excepto as dos Balcãs, que constituíam o «laboratório» para o que se ia seguir).

A partir de 2001, o fornecimento de energia à economia dos EUA tornou-se secundário. Tendo o capitalismo evoluído, a prioridade foi dada ao fornecimento de energia e matérias-primas ao conjunto da economia globalizada (e em detrimento das regiões do mundo não-globalizadas). Tratava-se da «Doutrina Rumsfeld/Cebrowski». O exército dos EUA já não defendia os interesses da população dos EUA, mas, sim das multinacionais globalizadas.

Tendo os Estados Unidos jogado um papel de influenciador na crise mundial petrolífera de 1974, ela não os afectou. Mas, uma segunda crise não deixaria de os atingir. Por isso, Edward Luttwak, Lee Hamilton e Henry Kissinger inspiraram a Doutrina Carter. Acontece que eles desempenharam, os três, um papel preponderante na elaboração da Doutrina Rumsfeld/Cebrowski: é Luttwak que é o teórico dos conspiradores do 11-de-Setembro [4], Hamilton quem populariza o mito de atentados urdidos por terroristas islamistas [5] e Kissinger [6] quem confiou ao seu assistente, Paul Bremer, a pilhagem do Iraque por uma empresa privada, a Autoridade Provisória da Coligação.

Ao retirar as suas tropas da Síria, o Presidente Donald Trump não sofreu uma derrota militar, antes obteve uma vitória política. De acordo com a filosofia jacksoniana, e o seu programa eleitoral de 2016, ele colocou um fim às doutrinas Carter e Rumsfeld/Cebrowski.

Vários milhões de mortos após o discurso sobre o estado da União de 1980, a principal fonte de guerra no mundo acaba de desaparecer.

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Antes de entrar na política, Barack Obama redigiu os estatutos da Climate Exchange Plc. Tendo chegado em 9 anos à Casa Branca, ele prosseguiu as destruições de George Bush no Médio-Oriente Alargado e dirigiu a destruição da Líbia. É um fervoroso «defensor do clima» e foi um apoiante de Emmanuel Macron aquando da sua eleição em França.

Mas, tendo em conta a pressão exercida sobre ele pelos eleitos Democratas, este não é o aspecto da sua política que o comunicado da Casa Branca põe em evidência. Ele sublinha, sobretudo, o crescimento da produção de petróleo e de gás que, em alguns anos, fizeram dos Estados Unidos o primeiro produtor mundial destas duas fontes de energia fóssil.

Estes resultados são exactos, mas não serão duradouros. Com efeito, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a produção de petróleo e gás de xisto dos EUA começará a declinar a partir de 2023 ou 2024. Nos já explicáramos que a estratégia imaginada por Mike Pompeo visava tirar o máximo de vantagens antes deste declínio; que, em última análise, os Estados Unidos pretendiam conservar uma posição de liderança no mercado mundial da energia [7].

A Casa Branca prossegue colocando em destaque a saída do Acordo de Paris sobre o clima. Aqui, a defesa da humanidade contrapõe-se à «defesa do planeta». A cada um cabe escolher a sua prioridade. É uma questão filosófica de primeira importância sobre a qual convidamos os nossos leitores a reflectir.

Para alimentar esta reflexão lembremos que o clima não é estável, ele muda, aquece naturalmente e arrefece também naturalmente.
- A teoria astronómica dos paleoclimas é utilizada para explicar os três ciclos simultâneos de climas em tempos geológicos. Um dos maiores astrónomos modernos, o Sérvio Milutin Milanković, demonstrou durante a Primeira Guerra Mundial que três factores influenciam o clima através da posição da Terra face ao Sol: a excentricidade da órbita da Terra, a inclinação do eixo de rotação da Terra e a rotação em volta deste eixo; teoria que foi verificada pelo estudo das calotes glaciares.
- Em 1967, Emmanuel Le Roy Ladurie (professor no Colégio de France) publicou a sua célebre Histoire du climat depuis l’an mil («História do Clima desde o ano mil»-ndT).

Este não exclui a hipótese de uma responsabilidade humana nas variações climáticas actuais, no entanto, ela não deixará de ser desprezível.

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Emmanuel Macron tinha prometido, durante a sua campanha eleitoral, «tornar a Finança verde». Devendo favores ao super-bilionário dos EUA Kevin Kravitz, que financiou a sua campanha, prosseguiu a política dos seus predecessores contra a Síria e reclama hoje uma intervenção da OTAN. Simultaneamente, assumiu a liderança da «defesa do planeta» via Acordo de Paris.

O debate actual é falseado por dois elementos :
- Em primeiro lugar, confunde-se a «ciência» e o «consenso científico». A ciência é uma construção lógica e verificável. O consenso científico, é a tendência do momento entre os cientistas, mas não é mais do que a tendência do momento. O que é muito diferente. Assim, na Antiguidade, Aristarco de Samos propôs a hipótese da revolução da Terra em volta do Sol. No século XVI, Nicolau Copérnico demonstrou esta teoria, mas quando, no século XVII, Galileu a afirmou de novo, chocou com o consenso científico e foi condenado pela Igreja Católica.
- Em segundo lugar, a Climate Exchange Plc propôs um sistema visando fazer pagar os emissores de CO2. Tratar-se-ia, assim, de lutar contra o aquecimento climático, muito embora o CO2 seja um gás entre outros que podem afectar o clima. Bolsas financeiras climáticas foram abertas em Chicago, depois em Londres, Montreal, Tianjin e Sydney. Acontece que a Climate Exchange Plc foi fundada por um antigo director do banco Goldman Sachs e pelo antigo Vice-presidente dos EUA Albert Gore. Os seus estatutos foram redigidos por um jurista então desconhecido, o futuro Presidente dos EUA, Barack Obama [8]. Resumindo, o medo do aquecimento global permite a algumas pessoas poderosas, e apenas a elas, de se enriquecerem.

Em conclusão: os efeitos da retirada militar dos EUA do Médio-Oriente podem-se comprovar tanto na economia dos EUA como sobre a paz desta região. Os efeitos do CO2 sobre o clima são hipotéticos e de qualquer modo pouco significativos.


[1] “President Donald J. Trump Is Ending the War on American Energy and Delivering a New Era of Energy Dominance”, Voltaire Network, 23 October 2019.

[2] “Jimmy Carter televised speech on "crisis of confidence"”, by Jimmy Carter, Voltaire Network, 15 July 1979.

[3] “State of the Union Address 1980”, by Jimmy Carter, Voltaire Network, 23 January 1980.

[4] Edward Luttwak publicou Coup d’Etat : A Practical Handbook (Golpe de Estado: Um Guia Prático-ndT) Harvard University Press, 1968). Este livro, que aconselha a não tornar público um golpe de Estado a fim de não suscitar oposição, tornou-se a Bíblia dos conspiradores do 11-de-Setembro. Foi ele quem publicou, na Harper’s de Março 1975, “Seizing Arab Oil” (sob o pseudónimo de "Miles Ignotus").

[5] Lee Hamilton presidiu à Comissão Parlamentar que publicou, em 21 de Agosto de 1975, Oil fields as military objectives. A feasibiliy study. Mas foi também ele quem presidiu à comissão presidencial sobre os atentados do 11-de-Setembro e publicou o 9/11 Commission Report.

[6] Sobre o papel de Henry Kissinger na crise petrolífera de 1974, ver os trabalhos de William Engdahl. Depois de ter deixado as suas funções oficiais, o «caro Henry» criou a Kissinger associates, da qual Paul Bremer era o director executivo, antes de se tornar o da Autoridade Provisória da Coligação (no Iraque-ndT). Esta era uma empresa privada, ver: «Qui gouverne l’Irak ?», por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 13 mai 2004.

[7] “Geopolítica do petróleo na era Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Abril de 2019.

[8] « 1997-2010 : L’écologie financière », par Thierry Meyssan, Оdnako (Russie) , Réseau Voltaire, 26 avril 2010.



Ver original na 'Rede Voltaire'



A Alemanha busca envolver-se militarmente no Próximo-Oriente Alargado

 

Chegada da delegação alemã ao Cairo

A Conferência sobre Segurança de Munique organiza, nos dias 25 e 26 de Outubro, no Cairo e, nos dias 27 e 28 de Outubro, em Doha, dois seminários entre dirigentes árabes e alemães.

O Egipto está —com a Síria e a Arábia Saudita— empenhado contra os Irmãos Muçulmanos, enquanto o Catar —com a Turquia e o Irão— apoia esta sociedade secreta.

O Presidente egípcio, Abd al-Fattah al-Sissi, o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) Sameh Hassan Shoukry, e o Secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul-Gheit, participaram na reunião do Cairo com umas outras quarenta personalidades, entre as quais os Ministros dos Negócios Estrangeiros do Níger, do Uganda e do Djibuti.

O Emir do Catar, Xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammed bin Abdulrahman Al-Thani, devem participar na reunião de Doha com umas quarenta outras personalidades, entre as quais o Ministro de Negócios Estrangeiros do Irão, o Presidente do Curdistão iraquiano e o enviado especial da ONU para o Iémene, Martin Griffiths. A laureada de 2011 do Prémio Nobel da Paz, a Iemenita Tawakkol Karman, representará a Confraria dos Irmãos Muçulmanos.

O governo alemão será representado nas duas reuniões pelo Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Niels Annen, que foi pesquisador no Fundo Marshall Alemão, depois deputado socialista.

Esta iniciativa da Conferência sobre Segurança de Munique dá-se quando ela, desde há dois anos, não havia organizado eventos fora da Alemanha e quando a Chancelerina Angela Merkel deseja aplicar as recomendações do Fundo Marshall Alemão e da Stiftung Wissenschaft Polítik : implicar-se militarmente no Médio-Oriente Alargado ao lado dos Estados Unidos.





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Por que al-Baghdadi teria fugido para território inimigo? Analista comenta captura de terrorista

Possível local da operação norte-americana que teria assassinado Abu Bakr al-Baghdadi, no nordeste da Síria, no dia 28 de outubro de 2019
© AFP 2019 / Omar Haj Kadour

Neste domingo (27), o presidente Donald Trump anunciou a liquidação do líder do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e demais países) após uma operação em Idlib, no nordeste da Síria. Após testes de DNA terem comprovado a identidade do terrorista, algumas perguntas sobre a operação seguem sem resposta.

Em pronunciamento feito neste domingo (27), Donald Trump descreveu a operação norte-americana que teria eliminado Abu Bakr al-Baghdadi, líder da organização terrorista Daesh.

 

Ontem à noite, os EUA levaram o líder terrorista número um do mundo à justiça. O presidente Donald Trump fala sobre a morte de Abu Bakr al-Baghdadi, fundador e líder do ISIS [Daesh].

O serviço em inglês da Rádio Sputnik recebeu o analista de relações internacionais e segurança Mark Sleboda para conversar sobre o ocorrido e dissecar os detalhes da operação norte-americana.

O petróleo sírio

De acordo com o analista, o interesse dos EUA neste momento é garantir a posse do petróleo sírio:

"O interesse deles agora é se apossar do petróleo da Síria. O Ministério da Defesa da Rússia chegou mesmo a acusar os Estados Unidos de estarem envolvidos em contrabando de petróleo sírio", lembrou o analista.

De fato, o major-general russo Igor Konashenkov acusou os Estados Unidos de contrabandearem petróleo, com base em imagens de satélite, publicadas neste sábado (26).

Poço de petróleo nos arredores da cidade síria de Deir ez-Zor, na Síria
© Sputnik / Mikhail Voskresensky
Poço de petróleo nos arredores da cidade síria de Deir ez-Zor, na Síria

O major-general classificou a presença de tropas e a fortificação do terreno em torno dos poços de petróleo de al-Hakashah como "banditismo estatal internacional".

Uma empresa citada por Konashenkov é a norte-americana Sabcab (também conhecida como Sedcab). Apesar de ter sido criada com apoio da comunidade curda local, os seus lucros revertem para serviços de inteligência e empresas de segurança privadas ligados aos EUA.

Tanques M1 Abrams norte-americanos poderão ser enviados a campos de petróleona na Síria
© Sputnik / Sergey Melkonov
Tanques M1 Abrams norte-americanos poderão ser enviados a campos de petróleona na Síria

Sleboda explicou que os lucros provenientes do petróleo contrabandeado financiam "operações especiais e secretas" dos EUA na região.

Captura de Baghdadi em Idlib gera questionamentos

O analista notou que a captura em Idlib do líder do Daesh é passível de questionamentos. A cidade é um reduto da Al-Qaeda, um grupo bastante hostil ao Daesh.

"É estranho que Baghdadi tenha fugido para Idlib, um território controlado pelos seus inimigos", ponderou.

A cidade, localizada a cerca de 8 quilômetros da fronteira com a Turquia, também seria de difícil acesso ao terrorista líder do Daesh:

"Para chegar até lá [Idblib], Baghdadi teria que ter atravessado muitos territórios inimigos: territórios controlados pelos curdos, pelos americanos, por milícias apoiadas pelos turcos, pelo governo sírio e pela Rússia", descreveu o analista.

O analista também notou que os norte-americanos não realizaram a operação a partir da Turquia, seu aliado da OTAN, preferindo realizá-la a partir do Iraque. Isso, segundo Sleboda, seria uma demonstração de que os norte-americanos não confiam no líder turco, Recep Tayyip Erdogan.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019102914703473-por-que-al-baghdadi-fugiu-para-territorio-de-seus-inimigos-analista-comenta-captura-terrorista/

Iraque rejeita presença de tropas dos EUA que deixaram Síria

Comboio de militares dos Estados Unidos deixando a Síria.
© REUTERS / AZAD LASHKARI

O Iraque rejeitou nesta quarta-feira (23) a presença de longo prazo de tropas dos Estados Unidos que cruzaram sua fronteira ao deixar o território da Síria.

O anúncio é uma aparente resposta ao secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, que está visitando o Iraque e havia afirmado que os militares permaneceriam no país. 

Depois de se encontrar com Esper, o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi reiterou uma posição já expressada anteriormente: as tropas dos Estados Unidos têm permissão para estar no país, depois de deixar a Síria, apenas de maneira transitória e sua permanência no território iraquiano não será aceita sem permissão. 

Em comunicado obtido pela agência de notícias Reuters, Abdul Mahdi disse que o Iraque está "tomando todas as medidas legais internacionais" para garantir que as tropas estadunidenses deixem o país conforme solicitado. Ele não forneceu mais detalhes. 

Esper havia dito inicialmente à imprensa que as tropas que se retirassem da Síria iriam ao oeste do Iraque para combater o Daesh (organização proibida na Rússia) e "ajudar a defender o Iraque", mas ele aparentemente mudou de posição nesta semana ao dizer que os militares voltariam ao seu país de origem. 

Esper também se encontrou na quarta-feira com seu homólogo iraquiano Najah al-Shammari. Eles discutiram a cooperação militar e "consultaram os eventos militares pelos quais a região está passando", afirmou o ministério da Defesa iraquiano em comunicado.

As tropas dos EUA ocuparam o Iraque de 2003 a 2011 e são profundamente impopulares em grande parte do país. Abdul Mahdi enfrenta uma crise por conta de violentos protestos anticorrupção nas últimas semanas, deixando-o com pouco capital político para defender os laços com Washington.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019102314681139-iraque-rejeita-presenca-de-tropas-dos-eua-que-deixaram-a-siria/

Tudo o que vos escondem sobre a operação turca «Fonte de Paz» (3/3)A invasão turca do Rojava

Se a comunidade internacional receia publicamente a brutalidade da intervenção turca no Norte da Síria, oficiosamente congratula-se com esta intervenção, nada menos que a única solução para um retorno da paz a esta região. A guerra contra a Síria termina com mais um crime. Resta ainda determinar a sorte dos mercenários estrangeiros de Idlib, jiadistas enraivecidos pelo decurso de oito anos de uma guerra particularmente selvagem e cruel.

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A 15 de Outubro de 2016, o Presidente Erdoğan anuncia solenemente que o seu país concretizará o juramento nacional de Mustafa Kemal Atatürk. A Turquia, que ocupa já militarmente uma parte de Chipre e do Iraque, reivindica uma parte da Síria e da Grécia. O seu exército prepara-se.

 

Em 2011, a Turquia organizou, como lhe pediam, a migração de 3 milhões de Sírios a fim de enfraquecer o país. Em seguida, ela apoiou os Irmãos Muçulmanos e os grupos jiadistas, incluindo o Daesh (E.I.). De passagem, ela pilhou a maquinaria industrial de Alepo e instalou fábricas (usinas-br) de contrafacção no Emirado Islâmico.

Inebriada pelas suas vitórias na Líbia e na Síria, a Turquia tornou-se a Protectora da Confraria dos Irmãos Muçulmanos, aproximou-se do Irão e desafiou a Arábia Saudita. Ela implantou bases militares a toda a volta do Reino wahhabita, no Catar, no Kuwait e no Sudão, depois contratou gabinetes ocidentais de relações públicas ocidentais e destruiu a imagem do Príncipe Mohamed Bin Salman, nomeadamente com o escândalo Kashoggi. Progressivamente, considerou estender o seu poder e aspirou tornar-se o XIVº Império Mongol. Interpretando erradamente esta evolução como sendo obra própria de Recep Tayyip Erdoğan, a CIA tentou várias vezes assassiná-lo, indo até provocar o Golpe de Estado falhado de Julho de 2016. Seguiram-se três anos de incertezas que terminaram, em Julho de 2019, quando o Presidente Erdoğan decidiu privilegiar o nacionalismo em vez do islamismo. Hoje em dia, a Turquia, muito embora continue a ser membro da OTAN, transporta gás russo para a União Europeia e compra S-400s a Moscovo. Ela vela pelas suas minorias, incluindo a curda, e já não exige que se seja muçulmano sunita, mas unicamente leal à sua Pátria.

- Durante o verão, o Presidente Donald Trump anunciou a intenção de retirar as suas tropas de toda a Síria, a começar pelo Rojava (o que fora já formulado em 17 de Dezembro de 2018), sob a condição expressa de corte da linha de comunicação entre o Irão e Líbano (o que é novo). A Turquia subscreveu este compromisso em troca de uma ocupação militar da faixa fronteiriça síria, de onde a artilharia terrorista poderá bombardeá-la.
- A Rússia fez saber que não apoiava os criminosos, contra a humanidade, do YPG e aceitaria uma intervenção turca se a população cristã fosse autorizada a retornar à sua terra. Foi a isto que a Turquia se comprometeu.
- A Síria afirmou que não iria repelir no imediato uma invasão turca se pudesse libertar um território equivalente na província de Idlib. O que a Turquia aceitou.
- O Irão fez saber que, muito embora reprove uma intervenção turca, ele apenas intervêm em defesa dos xiitas e não está interessado na sorte do Rojava. O que a Turquia registou.

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O princípio do fim do Rojava foi decidido durante cimeiras Estados Unidos/Rússia que se desenrolaram em Telavive e em Genebra, em Junho e Agosto de 2019.

Várias cimeiras (cúpulas-br) internacionais foram organizadas para examinar as consequências destas posições e determinar pontos acessórios (por exemplo, o petróleo da faixa fronteiriça síria não será explorado pelo Exército turco, mas por uma sociedade norte-americana). As primeiras cimeiras reuniram os Conselheiros de Segurança norte-americano e russo. As segundas, os Chefes de Estado russo, turco e iraniano.

- Em 22 de Julho de 2019, a Turquia anuncia a suspensão do seu acordo migratório com a União Europeia.
- Em 3 de Agosto, o Presidente Erdoğan nomeia novos oficiais superiores, incluindo curdos, e ordena a preparação da invasão do Rojava.
- Ele ordena igualmente ao Exército turco para se retirar da frente do Exército árabe sírio na província de Idlib, de maneira que este possa libertar um território equivalente ao que vai ser invadido a Leste.
- Em 23 de Agosto, o Pentágono ordena o desmantelamento de fortificações do YPG, de maneira a que o Exército turco possa realizar uma ofensiva relâmpago.
- Em 31 de Agosto, em apoio ao Exército árabe sírio, o Pentágono bombardeia uma reunião dos dirigentes da Alcaida em Idlib, graças à Inteligência turca.
- Em 18 de Setembro, o Presidente Trump muda de Conselheiro de Segurança e nomeia Robert O’Brien. Este homem discreto conhece bem o Presidente Erdoğan, com quem resolveu as consequências do Golpe de Estado falhado de Julho de 2016.
- Em 1 de Outubro, o Presidente Erdoğan anuncia o iminente deslocamento de 2 milhões de refugiados sírios para o território do Rojava.
- Em 5 de Outubro, os Estados Unidos solicitam aos membros da Coligação Internacional para resgatar os seus cidadãos jiadistas prisioneiros no Rojava. O Reino Unido solicita a sua transferência para o Iraque, enquanto a França e a Alemanha recusam.
- Em 6 de Outubro, os Estados Unidos declaram não se considerar responsáveis pelos jiadistas prisioneiros no Rojava, que vai passar para a responsabilidade turca.
- Em 7 de Outubro, as Forças Especiais dos EUA iniciam a sua retirada do Rojava.
- Em 9 de Outubro, o Exército turco —nomeadamente comandado por oficiais curdos— e milicianos turcomanos, ostentando a recuperada bandeira do Exército sírio livre, invadem a faixa síria de 32 quilómetros no território sírio ocupado pelo YPG.

A operação «Fonte de Paz» é perfeitamente legal pelo Direito Internacional se ela se limitar à faixa fronteiriça de 32 quilómetros e se não der lugar a uma ocupação turca indefinida [11]. É por isso que o Exército turco recorreu às milícias turcomanas sírias para perseguir o YPG no resto do Rojava.

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Reunião de coordenação da operação «Fonte de Paz», no bunker de comando do Palácio Branco, em Ancara.

A imprensa internacional, que não acompanhou os acontecimentos no terreno e se contentou com as declarações oficiais contraditórias destes últimos meses, está atordoada. Todos os Estados, em uníssono, denunciam a operação turca, incluindo os Estados Unidos, a Rússia, Israel, o Irão e a Síria, embora todos a tenham negociado e aprovado. Aqueles que ameaçam a Turquia devem reflectir sobre a possível migração dos seus aguerridos cidadãos jiadistas a partir de Idlib.

O Conselho de Segurança reune-se de urgência a pedido do Presidente Macron e da Chancelerina Merkel. Para evitar mostrar que ninguém se opõe realmente à intervenção turca, nem mesmo a França, a sessão decorre à porta fechada e não é alvo de uma declaração do Presidente do Conselho.

É pouco provável que a Síria, exangue, possa recuperar no imediato esta faixa de território, quando o Iraque não conseguiu libertar Baachiqa (110 km de profundidade) e a União Europeia, ela própria, não conseguiu libertar o terço de Chipre ocupado desde 1974.

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A 11 de Outubro, Jens Stoltenberg vem trazer à Turquia a bênção da OTAN.

Apesar dos pedidos da França e da Alemanha, o Conselho do Atlântico não se reune. A 11 de Outubro, o Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, vem a Ancara assegurar-se que a operação funciona. Ele celebra a grandeza da Turquia, fechando assim o bico de Alemães e Franceses [12].

A 13 de Outubro, em plena derrocada, a direção do YPG é modificada. Seguindo os conselhos russos, os dirigentes curdos, que se mantinham em negociações com a República Árabe Síria desde sempre, acabam a jurar-lhe lealdade na base russa de Hmeimim[13]. No entanto, alguns membros da direcção do YPG contestam a renúncia ao Rojava.

A 14 de Outubro, o Presidente Donald Trump decreta sanções contra a Turquia. Elas são puramente simbólicas e permitem a Ancara prosseguir o seu ataque sem dar atenção aos críticos [14].

O Presidente Donald Trump conseguiu assim por fim à questão do Rojava. O Exército russo investiu para as bases dos EUA, abandonadas pelos GIs, mostrando o lugar que Moscovo ocupa agora na região em substituição de Washington. A Síria, ao mesmo tempo que denunciava a intervenção turca, liberta um quarto do seu território. A Turquia resolve a questão do terrorismo curdo e planeia resolver a dos refugiados sírios. A tentação para ela será grande de não parar por aí.





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A guerra silenciosa Irã-EUA se transforma em um levante no Iraque

Os últimos dias mostraram que a guerra em andamento entre Estados Unidos e Irã está afetando intensamente toda a região. Isso já é evidente no Iraque, onde mais de 105 pessoas foram mortas e milhares feridas no desenrolar de manifestações que envolveram a capital Bagdá e as cidades xiitas do sul, incluindo Amara, Nassíria, Baçorá, Najaf e Carbala. Manifestações semelhantes podem vir a ocorrer em Beirute e outras cidades libanesas por conta das similaridades nas condições econômicas dos dois países. A crítica situação econômica do Oriente Médio oferece um terreno fértil para revoltas que podem levar ao caos generalizado.

O Iraque tem uma condição especial devido à sua posição, desde a ocupação norte-americana no país em 2003, de aliado tanto do Irã, como dos EUA. O primeiro-ministro Adil Abdul-Mahdi até agora tem se armado com o artigo 8 da Constituição, buscando manter o Iraque como um ponto de equilíbrio entre todos os países vizinhos e aliados, assim como prevenir que a região da Mesopotâmia vire um campo de batalha para conflitos envolvendo o EUA e o Irã, ou a Arábia Saudita e o Irã.

A despeito dos esforços das autoridades bagdalis, a deterioração da econômica doméstica no Iraque tem levado o país a uma situação comparável àquela dos países do Oriente Médio que foram atingidos pela assim chamada “Primavera Árabe”.

Alimentadas por queixas reais, incluindo a falta de oportunidades de emprego e a ampla corrupção, revoltas domésticas foram manipuladas por manipuladores hostis provenientes do estrangeiro, cuja intenção é gerar mudanças de regime; esses esforços vêm ocorrendo na Síria desde 2011. Bagdá acredita que países estrangeiros e da região se aproveitaram das demandas justas da população para implementar sua própria agenda, com desastrosas consequências para os países em questão.

Fontes do gabinete do primeiro-ministro iraquiano afirmam que “as recentes manifestações já eram planejadas alguns meses atrás. Bagdá estava trabalhando para tentar amenizar a situação no país, particularmente porque as demandas da população são legítimas. O primeiro-ministro herdou o sistema corrupto que tem se desenvolvido desde 2003; centenas de bilhões de dólares foram desviados para os bolsos de políticos corruptos. Além disso, a guerra ao terror não apenas usou todos os recursos do país, como também forçou o Iraque a emprestar bilhões de dólares para a reconstrução das forças de segurança e outras necessidades básicas”.

Dizem também que “as últimas manifestações presumidamente seriam pacíficas e legítimas, porque o povo tem o direito de expressar seu descontentamento, preocupação e frustração. No entanto, o desenrolar dos eventos mostrou uma diferença objetiva: 8 membros das forças de segurança foram mortos (1241 feridos), juntamente com 96 civis (5000 feridos), e muitos prédios do governo e de partidos foram incendiados e completamente destruídos. Esse tipo de comportamento desviou as reais reivindicações da população para um caminho desastroso: a criação de caos no país. Quem se beneficia da desordem no Iraque?”

A agitação nas cidades iraquianas coincide com uma tentativa de assassinato contra o comandante iraniano Qassem Soleimani. Fontes acreditam que a “tentativa de assassinato contra o comandante Qassem Soleimani, da Brigada Iraniana CGRI-Quds, não é mera coincidência, mas está relacionada aos eventos no Iraque”.

“Soleimani estava no Iraque durante a seleção dos líderes-chave do país. Ele tem muita influência, como os americanos que possuem seu próprio pessoal. Se Soleimani é removido, aqueles que podem estar por trás da recente agitação podem pensar que isso criará confusão suficiente no Iraque e no Irã, dando espaço para um possível golpe de estado realizado por militares ou encorajado por forças estrangeiras, Arábia Saudita e Estados Unidos, nesse caso. Matar Soleimani, nas mentes dos atores estrangeiros, pode levar ao caos, levando à redução da influência iraniana no Iraque”, afirmam as fontes.

As recentes decisões de Abdul-Mahdi o deixaram extremamente impopular com os Estados Unidos. Ele responsabilizou Israel pela destruição de cinco entrepostos das forças de segurança iraquianas, as Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), e pelo assassinato de um comandante na fronteira Iraque-Síria. Ele abriu a travessia em Alcaim (Al-Qa’im) entre Iraque e Síria, para o desgosto da embaixada norte-americana em Bagdá, cujos oficiais expressaram seu descontentamento aos oficiais iraquianos. Ele expressou o interesse de comprar o famoso sistema de mísseis S-400, além de outros equipamentos militares da Rússia. Abdul-Mahdi fez um acordo com a China para a reconstrução de infraestrutura essencial em troca de petróleo, e concedeu um acordo na área de eletricidade no valor de US$284 bilhões a uma companhia alemã ao invés de uma americana. O primeiro-ministro iraquiano se recusou a cumprir as sanções dos EUA e continua comprando eletricidade do Irã e permitindo a troca comercial que está trazendo grandes quantidades de capital estrangeiro e impulsionando a economia iraniana. E por último, Abdul-Mahdi rejeitou o “Acordo do Século”, sobre o conflito Israel-Palestina, proposto pelos Estados Unidos: ele está tentando servir de mediador entre o Irã e a Arábia Saudita, desse modo, mostrando sua intenção de se manter distante das políticas e objetivos dos EUA para o Oriente Médio.

Autoridades norte-americanas expressaram para diversos oficiais iraquianos sua completa insatisfação com a política de Abdul-Mahdi. Os americanos consideram que seu fracasso em conquistar o Iraque como um país de vanguarda contra o Irã é uma vitória para Teerã. Contudo, não é isso que o primeiro-ministro iraquiano está visando. Ele está genuinamente tentando manter-se distante da guerra EUA-Irã, mas é confrontado com dificuldades cada vez maiores.

Abdul-Mahdi assumiu o governo do Iraque com a economia em um nível catastrófico. Ele está fazendo um grande esforço em seu primeiro ano de governo, ainda que o Iraque seja considerado o país com a quarta maior reserva de petróleo do mundo. Um quarto dos mais de 40 milhões de habitantes do país vive na linha da pobreza.

AMarjaiya,  a mais alta instância religiosa xiita no Iraque, em Najaf, interveio para acalmar a situação, mostrando sua capacidade de controlar a multidão. Seu representante em Carbala, Saíde Ahmad al-Safi, enfatiza a importância de lutar contra a corrupção e criar um comitê independente para colocar o país de volta nos trilhos. Al-Safi afirmou que era necessário iniciar sérias reformas e pediu ao Parlamento, em particular “à maior coalizão”, que assumisse tal responsabilidade.

O maior grupo pertence ao Saíde Moqtada al-Sadr, com 53 deputados. Moqtada declarou – contrário ao que a Marjaiya esperava – a suspensão de seu grupo do parlamento ao invés de assumir as responsabilidades. Moqtada está pedindo eleições antecipadas, uma eleição onde não é esperado que ele reúna mais de 12 ou 15 deputados. Al-Sadr, que visitou a Arábia Saudita e o Irã sem qualquer objetivo estratégico, está tentando “montar no cavalo” das queixas da população para que assim possa obter vantagem das justas reivindicações dos manifestantes. Moqtada e os outros grupos xiitas que governam o país hoje, em aliança com as minorias curdas e sunitas, são os que devem responder às demandas do povo, e não se esconder atrás dos que estão na rua pedindo pelo fim da corrupção, por mais oportunidades de emprego, e por melhoria de suas qualidades de vida.

O primeiro-ministro Abdul-Mahdi não tem uma varinha mágica; o povo não pode esperar por muito tempo. Apesar de suas demandas serem justificadas, o povo “não está sozinho nas ruas. A maiorias dashashtags nas mídias sociais eram sauditas: indicando que a visita de Abdul-Mahdi à Arábia Saudita e sua mediação entre Riad e Teerã não o deixaram imune aos esforços de mudança de regime apoiados pela Arábia Saudita”, afirmou uma fonte. De fato, os vizinhos do Iraque deram fortes indicações ao primeiro-ministro de que a relação do Iraque com o Irã é mais saudável e estável das relações com países vizinhos. Teerã não conspirou contra ele, mesmo que fosse o único país cuja bandeira era queimada por manifestantes e insultada nas ruas de Bagdá durante os últimos dias de agitação.

A crítica situação econômica está deixando o Oriente Médio vulnerável à agitação. A maioria dos países está sofrendo devido às sanções que os EUA impuseram ao Irã e às monstruosas despesas financeiras com armas dos EUA. O presidente norte-americano, Donald Trump, está tentando fortemente esvaziar os bolsos dos líderes árabes e manter o Irã como o principal espantalho para drenar as finanças do Golfo. A guerra saudita no Iêmen também é outro fator que desestabiliza o Oriente Médio, deixando bastante espaço para tensão e confronto.

O Iraque parece orientado para a instabilidade como um dos aspectos da guerra multidimensional dos Estados Unidos com o Irã; os EUA estão demandando apoio e solidariedade dos países árabes e do Golfo para que apoiem seus planos. O Iraque não está em conformidade com todas as demandas americanas. O Parlamento e os partidos políticos iraquianos representam a maioria da população; a mudança de regime, portanto, é improvável, mas os países vizinhos e os EUA continuarão a explorar as reivindicações domésticas. Não está claro se Abdul-Mahdi conseguirá manter o Iraque estável. O queestá claro é que as tensões EUA-Irã não estão poupando nenhum país no Oriente Médio.

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Tudo o que vos escondem sobre a operação turca «Fonte de Paz» (2/3)O Curdistão, imaginado pelo colonialismo francês

Contrariamente a uma ideia feita, o Rojava não é um Estado para o povo curdo, mas uma fantasia francesa de entre-as-duas guerras. Tratava-se de criar um Estado de retaguarda com Curdos, equivalente ao Grande Israel que foi montado com Judeus. Este objectivo colonial foi reactivado pelos Presidentes Sarkozy, Hollande e Macron até à limpeza étnica da região destinada a abrigá-lo.

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Uma delegação curda é recebida no Eliseu pelo Presidente François Hollande e seu Ministro da Defesa à época, Jean-Yves Le Drian, na presença de Bernard-Henri Lévy, mandante dos desastres tunisino, egípcio e líbio.
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O Alto-Comissário francês no Levante, o General Henri Gouraud, com a ajuda dos Turcos, recruta 900 homens do clã curdo dos Millis para reprimir a rebelião nacionalista árabe em Alepo e Raqqa. Estes mercenários combaterão, como gendarmes franceses, sob aquilo que se tornará a bandeira do actual Exército árabe sírio livre (Telegrama de 5 de Janeiro de 1921).
Fonte : Arquivos do Exército Terrestre de França.

O povo curdo jamais teve qualquer ilusão de unificação, à excepção do projecto do Príncipe Rewanduz. No século XIX, ele inspirou-se na concepção alemã de Nação e, portanto, entendia como prioritário unificar a língua. Ainda hoje, existem várias línguas, induzindo uma separação muito pronunciada entre os clãs kurmanjis, soranis, zazakis, e guranis.

Segundo documentos até aqui inexplorados, e sobre os quais o intelectual libanês Hassan Hamadé redigiu agora um livro espantoso, o Presidente do Conselho de ministros francês, Léon Blum, negociou, em 1936, com o chefe da Agência judaica, Chaim Wiezmann, e os Britânicos, a criação de um Grande Estado de Israel, da Palestina ao Eufrates, incluindo pois o Líbano e a Síria até aí sob mandato francês. Este projecto caiu devido à furiosa oposição do Alto-Comissário francês no Levante, o Conde Damien de Martel. A França —e provavelmente o Reino Unido— pensavam, na altura, criar um Estado curdo a Leste do Eufrates.

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A 4 de Fevereiro de 1994, o Presidente Mitterrand recebe uma delegação curda de membros do PKK turco.

A questão Curda voltou a tornar-se uma prioridade com o Presidente François Mitterrand. Em plena Guerra Fria, a sua esposa, Danielle, tornou-se a «mãe dos Curdos [do clã Barzani]». A 14 e 15 de Outubro de 1989, ela organizou um colóquio em Paris : «Les Kurdes : l’identité culturelle, le respect des droits de l’homme»(«Os Curdos: a identidade cultural, o respeito pelos Direitos do Homem»-ndT). Ela jogou um papel na falsa atribuição da morte de Curdos da aldeia de Halabja, durante a guerra Iraque-Irão, à crueldade do Presidente Saddam Hussein, quando os relatórios do US Army atestam que, pelo contrário, o vento movimentou o gás iraniano durante uma terrível batalha [1]. Em 1992, ela participou na criação de um governo curdo fantoche na zona iraquiana ocupada pelos Anglo-Saxões.

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A 31 de Outubro de 2014, François Hollande despede-se de Recep Tayyip Erdoğan no pórtico de entrada do Eliseu. Um outro convidado acaba de sair discretamente pela porta das traseiras, o Curdo pró-Turco Salih Muslim.

Durante a presidência de Nicolas Sarkozy, em 2011, Alain Juppé concluiu um Protocolo secreto com a Turquia para a criação de um pseudo-Curdistão. A Síria não reage. Depois, a 31 de Outubro de 2014, o Presidente François Hollande recebeu oficialmente, no Palácio do Eliseu, o Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdoğan, oficiosamente com o co-presidente do YPG, Salih Muslim, para por em marcha o desmembramento da Síria. Os combatentes curdos cessaram de se reconhecer como Sírios e iniciaram a luta pela sua própria pátria. A Síria deixou imediatamente de pagar os seus salários.

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Na sequência da batalha de Kobane, François Hollande muda de campo e marca o seu apoio aos Curdos, recebendo no Eliseu, a 8 de Fevereiro de 2015, uma delegação pró-EUA do YPG.

No entanto, alguns meses mais tarde, o Presidente Barack Obama chama a França à ordem. Não compete a Paris negociar um pseudo-Curdistão devido aos seus velhos sonhos coloniais, mas apenas ao Pentágono, segundo o plano étnico Rumsfeld / Cebrowski. François Hollande curva-se e recebe uma delegação curda pró-EUA de combatentes de Ain al-Arab («Kobane» em língua curda). A Turquia, essa, recusa submeter-se a Washington. É o início de uma longa divergência entre os membros da Aliança Atlântica. Considerando que a reviravolta francesa viola o acordo de 31 de Outubro de 2014, os Serviços Secretos turcos organizam com o Daesh (E. I.) os atentados de 13 de Novembro de 2015 contra a França e de 22 de Março de 2016 contra a Bélgica, a qual, por sua vez, acabara de se alinhar com Washington [2]. O Presidente Erdoğan anunciara, sem equívocos, os atentados contra a Bélgica e a sua imprensa irá reivindicá-los. Por fim, Salih Muslim organiza a conscrição obrigatória dos jovens curdos e monta a sua ditadura, enquanto Ancara emite um mandato de prisão contra ele.

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Decreto de curdização forçada do Norte da Síria. Este documento, tornado público pelas vítimas cristãs Assírias, atesta a limpeza étnica perpetrada pelas FDS, com enquadramento militar dos EUA.

Em Outubro de 2015, o Pentágono cria as Forças Democráticas da Síria (SDF-FDS), uma unidade de mercenários curdos turcos e sírios, incluindo alguns árabes e cristãos, de maneira a realizar uma limpeza étnica sem ter que assumir a responsabilidade pública por isso. As FDS expulsam famílias árabes e cristãs assírias. Combatentes vindos do Iraque e da Turquia instalam-se nas suas casas e tomam posse das suas terras. O Arcebispo católico siríaco de Hassaké-Nisibi, Mons. Jacques Behnan Hindo, testemunhará várias vezes que os líderes curdos evocaram, perante ele, um plano de erradicação dos cristãos do «Rojava». As Forças Especiais francesas assistem a este crime contra a humanidade sem pestanejar. A 17 de Março de 2016, a autonomia do «Rojava» (pseudo-Curdistão na Síria) é declarada [3]. Temendo a união entre o PKK turco e o clã Barzani iraquiano, que abriria a via à criação de um Grande Curdistão, o governo iraquiano envia armas ao PKK a fim de derrubar os Barzanis. Segue-se uma série de assassínios de dirigentes curdos por clãs inimigos.

No fim de 2016, a retirada parcial do Exército russo seguida da libertação de Alepo pelo Exército árabe sírio marcam a reviravolta definitiva da guerra. Coincidem, em Janeiro de 2017, com a chegada à Casa Branca do Presidente Donald Trump, cujo programa eleitoral prevê o fim da estratégia Rumsfeld/Cebrowski, ou seja, o fim do apoio maciço aos jiadistas e a retirada da OTAN e das tropas dos EUA da Síria. A França facilita a ida para o Rojava de jovens combatentes anarquistas convencidos de defender a causa curda quando se batem pela Aliança Atlântica [4]. De regresso a França, eles irão mostrar-se tão incontroláveis como os jovens franceses jiadistas. Assim, segundo a DGSI (Secreta do Interior), foi um destes combatentes quem tentou abater um helicóptero da gendarmaria durante a evacuação do aeroporto de Notre-Dame-des-Landes [5].

Em Junho de 2017, o Presidente Trump autoriza uma operação conjunta do Exército árabe sírio (comandado pelo Presidente Bashar al-Assad) e as FDS (quer dizer os mercenários curdos pró-EUA) para libertar Raqqa, a capital do Daesh [6]. A guerra está acabada, mas nem a França, nem a Alemanha assim o entendem .

Progressivamente, o controle do YPG escapa aos Estados Unidos que dele se desinteressa. A organização terrorista torna-se então uma marioneta francesa, tal como os Irmãos Muçulmanos são uma marioneta britânica.

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Este mapa foi publicado pela Anadolu Agency em Janeiro de 2019. Ela mostra 9 bases militares francesas, das quais 8 foram montadas pelo Presidente Emmanuel Macron.

A Turquia faz, então, publicar pela sua agência oficial, Anadolu Agency, o mapa das bases militares francesas no Rojava, cujo número foi aumentado sob a presidência de Emmanuel Macron para nove. Até aí, só se conhecia a da fábrica de cimento do Grupo Lafarge. Ancara pretende sublinhar que, contrariamente às suas declarações oficiais e ao contrário dos Estados Unidos, a França continua a favor da partição da Síria.

Em Fevereiro de 2018, o embaixador da Federação da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, revela que os curdos sírios acabam de amnistiar (anistiar-br) 120 chefes do Daesh (E.I.) e os incorporaram no YPG.

Desde Setembro de 2018, o Presidente Trump prepara a retirada das tropas dos EUA de toda a Síria [7]. O abandono do «Rojava» é condicionado ao corte da estrada iraniana que poderia atravessar este território para chegar ao Líbano. Ao que, em Agosto, se comprometerá o Presidente Erdoğan. Os GIs supervisionam então a destruição das estruturas defensivas dos Curdos. Um acordo é validado, em 16 de Setembro, pela Rússia, pela Turquia e pelo Irão. Desde logo o fim deste pseudo-Curdistão mostra estar iminente. Não compreendendo absolutamente nada do que se passa, a França fica estupefacta quando as tropas turcas invadem, brutalmente, este pseudo-Estado autónomo e donde foge a população que ilegalmente o ocupa.

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Enfatuado, e totalmente desconectado da realidade, Jean-Yves le Drian garante no estúdio da France 2 que a França prossegue, sem correr riscos, os seus objectivos na Síria.

Convidado do jornal televisivo da France2, em 10 de Setembro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Drian, tenta tranquilizar os Franceses sobre as consequências deste fiasco. Ele garante que a França controla a situação: os jiadistas detidos no Rojava não serão libertados, quando já não funciona nenhuma instituição no local, mas que acabarão julgados neste território. Continua afirmando que o Presidente Erdoğan ameaça a França sem razão. Finalmente, recusa responder a uma pergunta sobre a missão do Exército francês no local, em plena derrocada.

Se se ignora a sorte que espera os jiadistas prisioneiros assim como a das populações civis que se apoderaram desta terra, está-se sem notícias quanto à sorte dos soldados das nove bases militares francesas. Eles estão apanhados entre dois fogos, entre o Exército turco que o Presidente Hollande traiu e os YPGs que o Presidente Macron abandonou e que prestaram, de novo, juramento à República Árabe Síria.


[1] “A War Crime Or an Act of War?”, Stephen C. Pelletiere, The New York Times, January 31, 2003.

[2] Segundo os peritos anti-terroristas, estes atentados não foram efectuados de acordo com um modo operacional comparável ao usado aquando dos outros atentados reivindicados pelo Daesh(E.I.), antes mostraram a assinatura de uma organização militar sofisticada, de um acto de guerra perpetrado por um Estado. “O móbil dos atentados de Paris e de Bruxelas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Março de 2016.

[3] « Déclaration du Rojava pour une Syrie fédérale », Réseau Voltaire, 17 mars 2016.

[4] “As Brigadas anarquistas da OTAN”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Setembro de 2017.

[5] « Ces revenants du Rojava qui inquiètent les services de renseignement », Matthieu Suc et Jacques Massey, Médiapart, 2 septembre 2019.

[6] “Secret Russian-Kurdish-Syrian military cooperation is happening in Syria’s eastern desert”, Robert Fisk, The Independent, July 24, 2017.

[7] “Trump eyeing Arab ‘boots on the ground’ to counter Iran in Syria”, Travis J. Tritten, Washington Examiner, September 29, 2018.



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Tudo o que vos escondem sobre a operação turca «Fonte de Paz» (1/3)A genealogia da questão curda

A unânime comunidade internacional multiplica as condenações sobre a ofensiva militar no Rojava e assiste, impotente, à fuga de dezenas de milhar de Curdos perseguidos pelo exército turco. Entretanto ninguém intervêm, considerando que um massacre é provavelmente a única saída possível para restabelecer a paz, tendo em conta a irresolúvel situação criada pela França e os crimes contra a humanidade cometidos pelos combatentes e os civis curdos.

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Dezenas de milhar de civis curdos fogem diante do exército turco, abandonando a terra que haviam conquistado e da qual esperavam fazer pátria.

Todas as guerras implicam um processo de simplificação: só há dois lados num campo de batalha e todos devem escolher o seu. No Médio-Oriente, onde existe uma quantidade incrível de comunidades e de ideologias, este processo é particularmente terrível uma vez que nenhuma das particularidades destes grupos encontra já espaço de expressão e todos devem aliar-se a outros que detestam.

Quando uma guerra termina, todos tentam apagar os crimes que cometeram, voluntariamente ou não, e por vezes fazer desaparecer os aliados incómodos que desejam esquecer. Muitos tentam reconstruir o passado para se atribuírem a si mesmos o papel de bons. É exactamente a isto que assistimos hoje com a operação turca «Fonte de Paz» na fronteira com a Síria e as reações inacreditáveis que ela suscita.

Para compreender o que se passa, não basta saber que toda a gente mente. É preciso também descobrir o que cada um esconde e aceitá-lo, mesmo quando se constata que aqueles que admirávamos até agora são, na realidade, os malandros.

Genealogia do Problema

Se acreditarmos na comunicação europeia, poderemos pensar que os malvados Turcos vão exterminar os bonzinhos Curdos, que os sábios Europeus tentam salvar apesar dos covardolas Norte-Americanos. Ora, nenhum destes quatro poderes joga o papel que se lhes atribuí.

Primeiro, convêm recolocar o evento actual no contexto da «Guerra contra a Síria», da qual ele não passa de uma batalha, e no contexto do da «Remodelagem do Médio-Oriente Alargado», do qual o conflito na Síria não passa de uma etapa. Por ocasião dos atentados do 11 de Setembro de 2001, o Secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, e o seu novo director de «Transformação da Força», o Almirante Arthur Cebrowski, adaptaram a estratégia do Pentágono ao capitalismo financeiro. Eles decidiram dividir o mundo em duas zonas: aquela que seria a da globalização económica e a outra que seria vista como uma simples reserva de matérias-primas. Os exércitos dos EUA seriam encarregados de suprimir as estruturas de estado nesta segunda região do mundo a fim de que ninguém pudesse resistir a esta nova divisão do trabalho [1]. Eles começaram pelo «Médio-Oriente Alargado».

Estava previsto destruir a República Árabe Síria em 2003 (Syrian Accountability Act- Lei da Responsabilização Síria), após o Afeganistão e o Iraque, mas diversos imponderáveis adiaram esta operação para 2011. O plano de ataque foi reorganizado tendo em vista a experiência colonial britânica nesta região. Londres aconselhou a não destruir completamente os Estados, a reinstalar um Estado mínimo no Iraque e a conservar governos fantoches capazes de administrar a vida quotidiana dos povos. Decalcado da «Grande revolta árabe» de Lawrence da Arábia, que eles organizaram em 1915, trataram de organizar uma «Primavera Árabe» que colocasse no Poder a Confraria dos Irmãos Muçulmanos e não mais a dos Wahhabitas [2]. Começaram por derrubar os regimes pró-ocidentais da Tunísia e do Egipto, depois atacaram a Líbia e a Síria.

Num primeiro tempo, a Turquia, membro da OTAN, recusou participar na guerra contra a Líbia, que era o seu primeiro cliente, e contra a Síria, com a qual havia criado um mercado comum. O Ministro francês dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Alain Juppé, teve a ideia de matar dois coelhos de uma pancada só. Ele propôs ao seu homólogo turco, Ahmet Davutoğlu, resolver em conjunto a questão curda em troca da entrada da Turquia na guerra contra a Líbia e a Síria. Os dois homens assinaram um Protocolo secreto que previa a criação de um Curdistão, não nos territórios curdos da Turquia, mas nos territórios aramaicos e árabes da Síria [3]. A Turquia, que mantêm excelentes relações com o Governo regional do Curdistão iraquiano, desejava a criação de um segundo Curdistão, pensando pôr, assim, um fim ao independentismo curdo no seu próprio solo. A França, que havia recrutado tribos curdas em 1911 para reprimir os nacionalistas árabes, pretendia criar finalmente na região um Curdistão-de traseiras, tal como os Britânicos tinham conseguido criar uma colónia judaica na Palestina. Franceses e Turcos conseguiram o apoio dos Israelitas (israelenses-br), os quais controlavam já o Curdistão iraquiano através do clã de Barzani, oficialmente membro da Mossad.

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Em castanho claro : o Curdistão desenhado pela Comissão King-Crane, validada pelo Presidente dos EUA Woodrow Wilson e adoptado, em 1920, pela Conferência de Sèvres.

Os Curdos são um povo nómada (este é o significado exacto da palavra «curdo») que se movia pelo vale do Eufrates, no Iraque, na Síria e na Turquia actuais. Organizado de uma maneira não tribal, mas por clãs, e reputado pela sua coragem, deu origem a inúmeras dinastias que reinaram no mundo árabe (entre as quais a de Saladino, o Magnífico) e persa, e forneceu mercenários a diversos exércitos. No início do século XX, alguns deles foram recrutados pelos Otomanos para massacrar as populações não-muçulmanas da Turquia, particularmente os Arménios. Nesta ocasião, eles sedentarizaram-se na Anatólia, enquanto outros permaneceram nómadas. No fim da Primeira Guerra Mundial, o Presidente norte-americano, Woodrow Wilson, para aplicar o parágrafo 12 dos seus 14 pontos (objectivos de guerra), criou um Curdistão sobre os escombros do Império Otomano. A fim de demarcar o território, ele enviou a Comissão King-Crane ao local, enquanto os Curdos prosseguiam o massacre dos Arménios. Os peritos determinaram uma zona na Anatólia e alertaram Wilson contra as consequências devastadoras de um aumento ou deslocamento desse território. Mas o Império Otomano acabou derrubado internamente por Mustafa Kemal, o qual proclamou a República e recusou a perda territorial imposta pelo projecto Wilsoniano. Finalmente, o Curdistão acabou por não ver a luz do dia.

Durante um século, os Curdos turcos tentaram realizar a sua secessão da Turquia. Nos anos 80, os marxistas-leninistas do PKK lançaram uma verdadeira guerra civil contra Ancara, muito severamente reprimida. Muitos refugiaram-se no Norte da Síria sob a proteção do Presidente Hafez al-Assad. Quando o seu líder, Abdullah Öcallan, foi preso pelos Israelitas e entregue aos Turcos, eles abandonaram a luta armada. No fim da Guerra Fria, o PKK, não já sendo financiado pela União Soviética, foi infiltrado pela CIA e sofreu uma mutação. Abandonou a doutrina marxista e tornou-se anarquista, renunciou à luta contra o imperialismo e colocou-se ao serviço da OTAN. A Aliança Atlântica recorreu, de forma ampla, às suas operações terroristas para conter a impulsividade do seu membro turco.

Além disso, em 1991, a comunidade internacional lançou uma guerra contra o Iraque, que acabara de invadir o Koweit. No fim desta guerra, os Ocidentais incentivaram as oposições xiita e curda a revoltar-se contra o regime sunita do Presidente Saddam Hussein. Os Estados Unidos e o Reino Unido deixaram massacrar 200.000 pessoas, mas ocuparam assim uma zona do país que interditaram ao Exército iraquiano. Expulsaram os habitantes e reagruparam os Curdos iraquianos. Foi esta zona que foi reintegrada no Iraque após a guerra de 2003 e se tornou, em torno do clã Barzani, o Curdistão iraquiano.

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O mapa do Estado-Maior do Plano Rumsfeld/Cebrowski de «Remodelagem do Médio-Oriente Alargado».
Fonte : “Blood borders - How a better Middle East would look”(«Fronteiras de Sangue - Como pareceria um Médio-Oriente melhor»-ndT), Colonel Ralph Peters, Armed Forces Journal, June 2006.

No início da guerra contra a Síria, o Presidente Bashar al-Assad concedeu a nacionalidade síria aos refugiados políticos curdos e aos seus filhos. Eles colocaram-se imediatamente ao serviço de Damasco para defender o Norte do país face aos jiadistas estrangeiros. Mas a OTAN acordou o PKK turco e enviou-o para mobilizar os Curdos da Síria e do Iraque a fim de criar um enorme Grande Curdistão, tal como previsto, desde 2001, pelo Pentágono, e registado pelo mapa de Estado-Maior divulgado pelo Coronel. Ralph Peters em 2005.

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O mapa da «Remodelagem do Médio-Oriente Alargado», modificado após o falhanço da primeira guerra contra a Síria.
Fonte : “Imagining a Remapped Middle East”(«Imaginando um Médio-Oriente Redesenhado»- ndT), Robin Wright, The New York Times Sunday Review, September 28, 2013.

Esse projecto (visando dividir a região sobre bases étnicas) de modo nenhum correspondia ao do Presidente Wilson em 1919 (que visava reconhecer o direito do povo curdo), nem ao dos Franceses (visando recompensar mercenários). Era vasto demais para eles e eles não podiam sequer pensar controlá-lo. Mas ao contrário, encantava os Israelitas que nele viam um meio de conter a Síria pela retaguarda. No entanto, mostrou ser impossível de concretizar. O USIP, um instituto dos «Cinco Olhos» ligado ao Pentágono, propôs modificá-lo. O Grande Curdistão seria reduzido em favor de uma extensão do Sunnistão iraquiano [4], o qual seria confiado a uma organização jiadista: o futuro Daesh (EI),

Os Curdos do YPG, ramo sírio do PKK, tentaram criar um novo Estado, o Rojava, com a ajuda das forças dos EUA. O Pentágono utilizou-os para confinar os jiadistas à zona que lhes havia sido designada. Jamais existiu luta teológica ou ideológica entre o YPG e o Daesh, apenas a rivalidade por um território a partilhar sobre os escombros do Iraque e da Síria. E, além disso, logo que o Emirado do Daesh(EI) se afundou, o YPG ajudou os jiadistas a juntar-se às forças da Alcaida em Idlib, para tal atravessando o seu «Curdistão».

Os Curdos iraquianos do clã Barzani participaram, esses, directamente na conquista do Iraque pelo Daesh(EI). Segundo o PKK, o filho do Presidente e Chefe da Inteligência do Governo regional curdo do Iraque, Masrour "Jomaa" Barzani, assistiu, em 1 de Junho de 2014, à reunião secreta da CIA em Amã que planeou esta operação [5]. Os Barzani não travaram qualquer batalha contra o Daesh. Contentaram-se em fazê-los respeitar o seu território e em enviá-los a confrontar os sunitas. Pior, deixaram o Daesh, aquando da batalha de Sinjar, reduzir à escravatura Curdos não-muçulmanos, os Yazidis,. Os que foram salvos, foram-no por combatentes do PKK turco e do YPG sírio despachados para o local.

Em 27 de Novembro de 2017, os Barzani organizaram —apenas com o apoio de Israel— um referendo de autodeterminação no Curdistão iraquiano que perderam apesar das evidentes truncagens. O mundo árabe descobriu com estupefacção, na noite do escrutínio, uma maré de bandeiras israelitas em Erbil. Segundo a revista Israel-Kurd, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, comprometera-se a transferir 200. 000 Curdos israelitas, em caso de vitória do referendo, a fim de proteger o novo Estado.

Para gozar do direito à autodeterminação, um povo deve primeiro estar unido, o que jamais foi o caso dos Curdos. Em seguida, deve habitar num território onde seja maioritário, o que apenas era o caso da Anatólia desde o genocídio dos Arménios, depois também o do Norte do Iraque, desde a limpeza étnica da zona de exclusão aérea no após-«Tempestade no Deserto» e, finalmente, no Nordeste da Síria desde a expulsão dos Assírios cristãos e dos Árabes. Reconhecer-lhes este direito hoje em dia é validar crimes contra a humanidade.

(Continua …)

 
[1] Esta estratégia foi evocada pela primeira vez pelo Coronel Ralph Peters em "Stability, America’s Ennemy", Parameteers 31-4 (revista da Infantaria do Exército dos EUA), Inverno de 2001. Depois mais claramente exposta ao grande publico pelo assistente do Almirante Cebrowski, Thomas P. M. Barnett, em The Pentagon’s New Map, Putnam Publishing Group, 2004. Por fim, o Coronel Peters publicou o mapa que o Estado-Maior dos EUA havia estabelecido, em “Blood borders - How a better Middle East would look”, Colonel Ralph Peters, Armed Forces Journal, June 2006.

[2] Um grande número de documentos disponíveis desde 2005 atestam a preparação desta operação pelo MI6. Nomeadamente os "e-mails" do Foreign Office revelados pelo denunciante Derek Pasquill. Ler : Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump, «Sob os nossos Olhos. Do 11-de-Setembro a Donald Trump»-ndT), Thierry Meyssan, Demi-Lune (2017).

[3] A existência deste Protocolo secreto foi revelado à época pela imprensa argelina. Diplomatas sírios descreveram-mo em detalhe. Infelizmente, os arquivos de que se dispunha em Damasco foram precipitadamente transferidos durante um ataque jiadista. Não está, pois, disponível de momento, mas será tornado público assim que esses arquivos forem triados.

[4] “Imagining a Remapped Middle East”, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, September 28, 2013.

[5] «Yer: Amman, Tarih: 1, Konu: Musul», Akif Serhat, Özgür Gündem, 6 juillet 2014



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Trump ordena retirada de tropas na Síria

por M.K. Bhadrakumar

O presidente dos EUA, Donald Trump, não é conhecido por praticar judo. No entanto, pode ter aprendido algumas técnicas de judo com o seu colega russo Vladimir Putin, que é faixa negra. Mas o que Trump acabou de fazer ao presidente da Turquia, Recep Erdogan, é claramente do conceito da física do judo.

Aproveitar o ímpeto do oponente é uma técnica inteligente do judo. Se ele o atacar e você apenas permanecer ali, ele irá derrubá-lo. Mas a velocidade que ele está a ganhar pode ser simplesmente usada contra ele, puxando-o, o que fará com que ele se desconcerte. Você pode poupar muito tempo e energia se puder tirar proveito do ímpeto do seu oponente.

Erdogan tem ameaçado ruidosamente invadir a Síria e dizimar os curdos sírios alinhados com os militares dos EUA que estão abrigados nas regiões do norte que fazem fronteira com a Turquia. No ano passado, aproximadamente, os EUA tentaram por sua vez pacificar Erdogan, apaziguá-lo, persuadi-lo e por vezes até a ameaçá-lo para não lançar uma incursão no norte da Síria, a leste do Eufrates, onde ainda existem bolsões residuais do ISIS e onde milhares de combatentes do ISIS estão internados em campos sob a vigilância da milícia curda, seu inimigo implacável.

No sábado, Erdogan perdeu a calma e apresentou um cronograma. Ameaçou que se os EUA não atendessem às suas exigências para limpar o "corredor terrorista" ao longo da fronteira da Turquia com a Síria, nem cumprissem o acordo para estabelecer uma "zona segura" no norte da Síria, tomará o assunto nas suas mãos e lançará uma invasão unilateral a leste do Eufrates "tão logo como hoje ou amanhã".

Nas palavras de Erdogan: "Concluímos nossos preparativos e o plano de acção, as instruções necessárias foram dadas. Talvez seja hoje ou amanhã o momento de abrir caminho aos esforços de paz os quais estão estabelecidos e o processo para isso foi iniciado. Vamos executar uma operação terrestre e aérea".

Trump falou imediatamente com Erdogan e, no final do domingo, o secretário de imprensa da Casa Branca emitiu uma declaração , tomando nota da determinação da Turquia de avançar "com sua operação planeada há muito no norte da Síria".

A declaração deixou claro que os EUA "não apoiarão ou se envolverão na operação (turca)" e que o contingente militar dos EUA no norte da Síria "não permanecerá mais na área imediata (da incursão turca)". Acrescentou que "A Turquia agora será responsável por todos os combatentes do ISIS na área capturados nos últimos dois anos após a derrota do "Califado" territorial pelos Estados Unidos".

Até que ponto Trump e Erdogan chegaram a um entendimento ainda não está claro. O mostrador turco afirmou que Erdogan visitará Trump em Novembro.

De qualquer forma, Trump não quer que as tropas dos EUA sejam apanhadas num fogo cruzado entre os turcos e os curdos na Síria. Numa série de tweets, ele voltou ao refrão de que os EUA não tinham motivos para permanecer militarmente envolvidos na Síria. Trump tuitou:

"Supunha-se que os Estados Unidos ficassem na Síria por 30 dias, isso foi há muitos anos atrás. Ficámos e nos aprofundámos cada vez mais na batalha, sem objectivo à vista. Quando cheguei a Washington, o ISIS actuava desenfreadamente na área. Derrotámos rapidamente 100% do califado do ISIS, incluindo a captura de milhares dos seus combatentes, vindos principalmente da Europa. Mas a Europa não os queria de volta, eles disseram-nos para mantê-los nos EUA! Eu disse: "NÃO, nós lhes fizemos um grande favor e agora querem que nós os mantenhamos nas prisões dos EUA a um custo tremendo. Eles são vosso para serem julgados". "Eles mais uma vez disseram "NÃO", pensando como de costume que os EUA são sempre os "otários", na NATO, no Comércio, em tudo".

"Os curdos combateram connosco, mas receberam enormes quantias de dinheiro e equipamentos para isso. Eles têm combatido a Turquia há décadas. Adiei esse combate durante quase três anos, mas já é tempo de sairmos destas ridículas Guerras Infindáveis, muitas delas tribais, e trazer nossos soldados para casa. COMBATEREMOS ONDE ISSO FOR PRECISO PARA NOSSO BENEFÍCIO E SÓ COMBATEREMOS PARA VENCER. A Turquia, Europa, Síria, Irão, Iraque, Rússia e curdos terão agora de resolver a situação, e o que é que querem fazer com os combatentes do ISIS capturados na sua "vizinhança". Todos eles odeiam o ISIS, são inimigos há anos. Estamos a 7000 milhas [11265 km] de distância e esmagaremos o ISIS outra vez se chegarem perto de nós!"

Entretanto, a RT citou fontes curdas no sentido de que a retirada militar dos EUA de partes do leste da Síria já está em curso. Assim, nasce uma beleza terrível – Trump finalmente está a conseguir a retirada de tropas da Síria.

Este espantoso desenvolvimento obriga todos os protagonistas a correrem como uma galinha sem cabeça. A primeira reacção do Kremlin revela um sentimento de desconforto de que o caprichoso presidente turco possa agora se tornar uma dor de cabeça para a Rússia. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, recusou-se a ser arrastado a uma discussão sobre a inesperada decisão de Trump – "não cabe a nós decidir o que é este sinal". Ele repetiu suavemente a posição da Rússia de que "todas as tropas estrangeiras presentes ilegalmente na Síria devem abandonar o país".

A situação da Rússia é compreensível. Enquanto Erdogan estava em quezílias com os EUA, Moscovo poderia recuar e ter um prazer indirecto e aproveitar-se disso. Mas agora Trump jogou a toalha, sinalizando que está farto das birras de Erdogan.

Em princípio, a Rússia deveria saudar a retirada dos EUA. Mas se a Turquia se mover para o norte da Síria, isto abrirá uma caixa de Pandora – certamente Damasco se oporá; o Irão já advertiu a Turquia contra uma invasão e ofereceu-se como medianeiro com os curdos; a milícia curda resistirá às forças armadas turcas; Damasco pode aproveitar a oportunidade para lançar uma ofensiva a fim de retirar o controle de Idlib, no Noroeste da Síria, das mãos de grupos islâmicos radicais (os quais são apoiados pela Turquia).

A Rússia pode encontrar-se na posição pouco invejável de ser o broker em todas essas frentes. Sem dúvida, uma invasão turca da Síria neste momento complicará infinitamente os movimentos delicados de Moscovo no tabuleiro de xadrez diplomático na busca de um entendimento na Síria.

Ser árbitro e protagonista ao mesmo tempo é uma situação impossível, mesmo para a diplomacia russa. Obviamente, não se pode excluir que os militares turcos fiquem afundados num atoleiro no Norte da Síria.

Trump também enfrentará um bocado de críticas de vários lados. Os curdos têm um lobby na Beltway e haverá críticas de que Trump está a lançar os aliados curdos para debaixo de um autocarro e isso desgastará a credibilidade dos EUA como um aliado confiável no Médio Oriente.

Uma secção poderosa dentro do Pentágono e do sistema de inteligência dos EUA encara a Síria através do prisma da Guerra Fria e acredita que uma presença militar americana aberta na Síria é um imperativo estratégico, dadas as bases militares russas naquele país. Este ponto de vista terá ressonância entre a elite política, os think tanks e os media críticos de Trump.

Pelo contrário, Trump pode apostar na óptica de sua decisão – que está a finalizar o envolvimento dos EUA numa guerra no Médio Oriente que não diz respeito directamente aos interesses americanos. A opinião pública interna é a favor disso.

Em termos gerais, a retirada dos EUA da Síria tem implicações profundas para a região. Israel ficará ainda mais dependente da benevolência russa. A Rússia advertiu Israel contra desestabilizar a situação síria. Se os turcos forem recalcitrantes, o eixo russo-turco-iraniano na Síria deparar-se-á com uma morte súbita.

Peskov disse que Putin ainda não teve qualquer contacto com Erdogan. A decisão de Trump deixa Erdogan absolutamente livre para ordenar às tropas que invadam a Síria. Mas ele também estará a mover-se dentro do vácuo criado pela retirada dos EUA em territórios hostis. É improvável que a NATO fique ao lado da Turquia nesta aventura arriscada.

 

A zona segura proposta pela Turquia no Nordeste da S

De facto, a Turquia está em esplêndido isolamento. Ela não pode deixar de ser tomada pela angústia – sentindo-se como que presa num infinito pesadelo de Sísifo. A Turquia junta-se à Arábia Saudita como mais um anjo caído na Beltway .

No fundamental, estes desenvolvimentos significam que o recuo dos EUA no Médio Oriente está a acelerar-se. Trump deixou bem claro que não tem intenção de entrar em guerra com o Irão para proteger a Arábia Saudita. Agora, sua decisão sobre a Síria provocará inquietação na mente saudita de que ele possa adoptar uma abordagem semelhante à guerra no Iémen em algum momento muito em breve.

O grande quadro é que os estados regionais estão a ser pressionados a resolver suas diferenças e disputas através das suas próprias iniciativas. O que na verdade é uma coisa boa a acontecer. Há sinais de que os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita estão a procurar um modus vivendi com o Irão.

Certamente, durante sua visita à Arábia Saudita no fim de semana, Putin irá insistir no conceito russo de uma arquitectura de segurança colectiva na região do Golfo Pérsico. Em comentários recentes, Putin sugeriu que a Rússia e os EUA, juntamente com alguns outros países tais como a Índia, poderiam ser "observadores" num mecanismo de segurança colectiva inclusivo entre os Estados do Golfo Pérsico.

07/Outubro/2019
Ver também:

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/moriente/bhadrakumar_07out19.html

Síria e Iraque abrem posto fronteiriço pela primeira vez desde 2013

Vista da fronteira entre o Iraque e a Síria entre as cidades de Al Qa'im e Abu Kamal, depois de reaberta em 30 de Setembro de 2019
© REUTERS / Thaier Al-Sudani

Os governos da Síria e do Iraque realizaram a cerimônia de reabertura do posto de fronteira entre as cidades de Abu Kamal, na Síria, e Al Qa’im, no Iraque, reportou o correspondente da Sputnik.

O posto esteve fechado por anos e será reaberto após a derrota do grupo Daesh (organização terrorista proibida na Rússia). A cerimônia foi realizada ao meio-dia local e contou com a presença de representantes oficiais de ambos os países.

Além desse posto de fronteira, outros dois (entre as cidades iraquianas de Al Waleed e Rabia e as cidades sírias de Al-Tanf e Al-Yaarubiyah) foram fechados entre 2013 e 2014, após terem sido ocupados por terroristas do grupo Daesh (organização terrorista proibida na Rússia).

Na segunda metade de 2017, o exército sírio, em parceria com forças aliadas, libertou a cidade de Deir ez-Zor e as povoações a leste, ao longo do rio Eufrates até a cidade de Abu Kamal, na fronteira com o Iraque.

Soldados sírios durante abertura da fronteira entre Síria e Iraque, na cidade de Al Qa'im, em 30 de Setembro de 2019
© REUTERS . Thaier Al-Sudani
Soldados sírios durante abertura da fronteira entre Síria e Iraque, na cidade de Al Qa'im, em 30 de Setembro de 2019

No ano passado, o Exército sírio colocou um fim à presença terrorista na zona desértica no sudeste da província de Deir ez-Zor e a leste de Homs, tendo assim concluído a tarefa de liberar as rodovias estatais que ligam a Síria ao Iraque.

Em novembro de 2018, o ministro dos Transportes da Síria, Ali Hammoud, disse que Damasco não via mais ameaças à segurança fronteiriça e declarou estar pronta para abrir os postos de controle na fronteira com o Iraque. Na ocasião, Hammoud afirmou que a Síria contava com o Iraque para colocar em operação a logística necessária do seu lado da fronteira.

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Rússia: EUA elevaram tensões no Oriente Médio ao extremo

Manifestantes iranianos queimam representações da bandeira dos EUA durante um protesto em frente à ex-embaixada dos Estados Unidos em resposta à decisão do presidente Donald Trump de desistir do acordo nuclear e renovar as sanções a Teerã.
© AP Photo / Vahid Salemi

EUA falharam em dialogar com Irã e elevaram as tensões na região até o limite, declarou nesta quarta-feira a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.

A alta funcionária da chancelaria russa apontou as contradições do governo Trump em sua atuação no Oriente Médio e, particularmente, nas relações com o Irã.

"Nova York. Sede da ONU. Segundo dia. A reunião ministerial sobre o bendito Plano de Ação Conjunto Global sobre o programa nuclear iraniano. Menos os EUA, que se retiraram do acordo com o seu atual presidente. Há uns dois anos, Trump chamou o plano de um mau negócio. Washington não ofereceu um 'bom', no entanto. Por outro lado, os diplomatas americanos conseguiram elevar as tensões na região ao limite extremo. E agora, Rússia, UE, Alemanha, França, China e Grã-Bretanha decidem como vai ser e o que é possível fazer", escreveu Zakharova em sua conta no Facebook.

Os ministros das Relações Exteriores dos países citados pela representante da chancelaria russa se abstiveram de comentários na véspera da reunião na ONU.

O Plano de Ação Conjunto Global sobre o programa nuclear iraniano foi celebrado em 14 de julho de 2015 entre a República Islâmica do Irã, o sexteto (Alemanha, China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia) e a União Europeia. O documento contemplava a suspensão das sanções contra Irã em troca das restrições ao programa nuclear iraniano.

Em maio de 2018, no entanto, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a retirada unilateral dos EUA do acordo e a restauração das sanções contra Teerã.

Um ano depois, Irã anunciou a sua gradual retirada do JCPOA, em resposta às medidas de Washington. O país islâmico, todavia, segue negociando uma solução com os países europeus, a Rússia e a China.

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Irã pede cooperação regional e saída de forças estrangeiras

Teerã, 22 set (Xinhua) -- Autoridades seniores iranianas pediram neste domingo a convergência de estados regionais e a saída de forças estrangeiras das águas regionais.

O presidente, Hassan Rouhani, disse que as forças estrangeiras na região causam problemas e insegurança para os países da região e põem em risco a segurança marítima e energética.

Rouhani fez as declarações na capital, Teerã, na cerimônia para marcar a semana da defesa em comemoração aos sacrifícios iranianos durante os oito anos de guerra Iraque-Irã nos anos 80.

Ele disse que a segurança do Golfo, do Estreito de Ormuz e do Mar de Omã deve ser assegurada pela cooperação dos estados do litoral.

O Irã estende a mão da amizade e da irmandade a todos os seus vizinhos, porque os "inimigos" do Islã e da região estão tentando tirar vantagem das brechas entre os estados regionais, disse ele de acordo com a TV estatal.

O Irã não permitiria nenhuma violação de suas fronteiras nem violaria a fronteira de outros países, acrescentou ele.

Em sua próxima visita a Nova York para participar da 74ª sessão da Assembleia Geral da ONU, ele oferecerá a Iniciativa de Paz Hormuz, destinada a proteger a hidrovia e estabelecer paz e cooperação regional, disse Rouhani.

No domingo, as forças armadas iranianas organizaram desfiles militares em todo o país para marcar o início da semana de defesa e exibiram as avançadas habilidades militares do Irã.

O exército do Irã, o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC), as forças policiais, os guardas de fronteira e as forças da milícia voluntária Basij participaram do desfile.

Em Teerã, foram exibidos inúmeros mísseis avançados caseiros do Irã, incluindo mísseis balísticos com alcance de 1.300 a 2.000km.

Além disso, as recentes realizações das forças armadas iranianas na indústria de mísseis, equipamentos para as forças terrestres, navais e de defesa aérea e equipamentos de comunicação foram exibidos no evento militar.

Na região do Golfo, embarcações de superfície e sub-superfície, bem como aerobarcos pertencentes ao exército iraniano e ao IRGC participaram do desfile com os caças, incluindo o primeiro jato de combate doméstico Kowsar do Irã, sobrevoando-os, segundo a Press TV.

Participando do desfile no sul do Irã no domingo, o presidente do Parlamento do Irã, Ali Larijani, descreveu o plano dos EUA de criar uma chamada coalizão de segurança no Golfo como uma nova conspiração para "saquear" a região.

Os próprios países da região são capazes de estabelecer segurança na região, disse ele à agência de notícias Tasnim.

"Consideramos o surgimento de coalizões como o início de um novo jogo para tornar a região insegura", disse Larijani.

A república islâmica não permitirá que a região do Golfo seja usada como uma ferramenta para criar insegurança, acrescentou ele.

Larijani saudou as capacidades das forças armadas iranianas, dizendo que elas estabeleceram poderosamente a segurança no país e na região.

As explosões que abalaram a Arábia Saudita

 
 
As maiores instalações de petróleo do mundo estão em chamas e os EUA têm as mãos amarradas. Como os rebeldes do Iêmen, massacrados há anos, vingaram-se e sacudiram o xadrez político de uma das regiões mais explosivas do planeta
 
Pepe Escobar | Tradução: Antonio Martins | Imagem: Sebastião Salgado
 
Somos os Houthis e estamos entrando em cena. Com o ataque espetacular às duas maiores refinarias de petróleo sauditas, em Abqaiq, os houthis do Iêmen sacudiram o xadrez político no Sudeste da Ásia e foram tão longe que introduziram uma dimensão totalmente nova: a possibilidade de tirar do poder a Casa de Saud, [dinastia monárquica saudita].
 
Contra-ataque é uma merda. Os houthis – xiitas zaidistas do norte do Iêmen e os wahhabistas sauditas estão há muito na garganta uns dos outros. O livro Tribes and Politics in Yemen, de Marieke Brandt, é essencial para compreender a complexidade estonteante das tribos Houthis. Além disso, ele situa o conflito no sul da Península Árabe além de uma mera guerra por procuração entre o Irã e a Arábia Saudita.
 
Ainda assim, é sempre importante considerar que os xiitas árabes da Província Oriental [da Arábia Saudita], que trabalham nas instalações de petróleo deste país são aliados naturais dos houthis em combate contra Riad.
 
A surpreendente capacidade houthi – de enxames de drones a ataques com mísseis balísticos – ampliou-se de modo notável no último ano. Não foi por acidente que a União de Emirados Árabes percebeu para que lado sopravam os ventos geopolíticos e geoeconômicos: Abu Dhab retirou-se da guerra absurda do príncipe saudita Mohammad bin Salman contra o Iêmen e está engajada agora no que descreve como uma estratégia de paz.
 
Mesmo antes de Abqaiq, ou houthis já haviam tramado alguns ataques contra instalações petrolíferas sauditas, além de ataques aos aeroportos de Dubai e Abu Dhabi. No início de julho, o Centro de Comando de Operações do Iêmen exibiu fartamente, em Sana’a [a capital do país] seu amplo acervo de drones e mísseis, balísticos e alados.
 
A situação chegou a um ponto em que há, no Golfo Pérsico, conversa constante sobre um cenário espetacular: os houthis investindo numa louca corrida através do deserto para capturar Meca e medina, em conjunção com uma revolta maciça dos xiitas no cinturão de óleo do Oriente. Não é mais algo impossível. Coisas estranhas aconteceram no Oriente Médio. Basta lembrar que os sauditas não são capazes sequer de vencer uma rixa de bar – e por isso, dependem tanto de mercenários.
 
 
O Orientalismo ataca outra vez
 
O refrão das agências norte-americanas, segundo o qual os houthis são incapazes de tais ataques sofisticados trai os piores traços de orientalismo e do complexo e carga de superioridade do homem branco. As únicas partes de mísseis exibidas pelos sauditas até agora vêm de um míssil de cruzeiro yemeni Quds1. Segundo o general-brigadeiro Yahya Saree, porta-voz das Forças Armadas Yemenis, sediadas em Sana’a, “o sistema Quds provou sua grande capacidade de atingir seus alvos e despistar os sistemas de interceptação inimigos”.
 
As forças armadas houthis assumiram a responsabilidade por Abqaiq: “Esta operação é uma das maiores executadas por nossas forças no interior da Arábia Saudita e seguiu-se a uma operação acurada de inteligência, monitoramento avançado e cooperação de homens livres e honrados no interior do reino [saudita]”.
 
Repare no conceito chave: “cooperação” no interior da Arábia Saudita – que poderia incluir todo o espectro de iemenitas na Província Oriental xiita.
 
Ainda mais relevante é o fato de que montanhas de equipamento norte-americano instaladas no interior e exterior da Arábia Saudita – satélites, o sistema de vigilância AWACS, mísseis Patriot, drones, navios de guerra, jatos – não viram nada, ou pelo menos não o fizeram a tempo. O avistamento, por um caçador de pássaros no Kuwait, de três drones supostamente dirigidos à Arábia Saudita é apresentado como “prova”. Sinal da imagem embaraçosa de que um enxame de drones – de onde quer que tenha vindo – voando sem obstáculos, por horas, sobre o território saudita…
 
Funcionários norte-americanos admitem abertamente que agora tudo o que importa está ao alcance dos 1500 km de alcance do novo drone UAV-X dos houthis: campos de petróleo da Arábia Saudita, um usina nuclear ainda em construção nos Emirados e o mega-aeroporto de Dubai.
 
Minhas conversações com fontes em Teerã, nos dois últimos anos, deixaram-me seguro de que os novos drones e mísseis houthis são, em essência, cópias de designs iranianos, montados no próprio Iêmen com apoio crucial de engenheiros do Hezbollah.
 
As agências norte-americanas insistem que 17 drones e mísseis de cruzeiro foram lançados de modo combinado, a partir do sul do Irã. Mas radares Patriot teriam captado suas trajetórias e os derrubado. Até agora, nenhum registro de sua trajetória foi revelado. Especialistas em temas militares em geral concordam que o radar dos mísseis Patriot é bom, mas sua taxa de êxito é controversa, para dizer o mínimo. O importante, mais uma vez, é que os houthis foram capazes de construir mísseis ofensivos. E sua acurácia em Abqaiq é excepcional.
 
No momento, parece que o vencedor da guerra da Arábia Saudita, apoiada pelos EUA e Reino Unido, contra a população civil iemenita – este conflito que começou em março de 2015 e gerou uma crise humanitária considerada pela ONU como de bíblicas proporções – não é o príncipe coroado, conhecido pelas iniciais MBS.
 
Ouçam o general
 
As torres de estabilização de petróleo cru em Abqaiq – muitas delas – foram alvos específicos, junto com tanques de armazenamento de gás natural. Fontes do Golfo Pérsico contam que a reparação e ou reconstrução pode levar meses. Até Riyad admitiu o mesmo.
Culpar cegamente o Irã, sem provas, não ajuda. Teerã conta com grandes grupos de pensamento estratégico. Eles não precisam nem querem explodir o Sudeste Asiático, algo que poderiam fazer. Os generais da Guarda Revolucionária do Irã disseram muitas vezes, de forma aberta, que estão prontos para a guerra.
 
O professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, que tem relações muito próximas com o ministério das Relações Exteriores, é claríssimo: “[O ataque] Não partiu do Irã. Se tivesse partido, seria muito embaraçoso para os norte-americanos, porque mostraria que são incapazes de detectar um grande número de drones e mísseis iranianos. Não faz sentido.”
 
Marandi acrescenta: “As defesas aéreas sauditas não estão equipadas para defender o país do Iêmen, mas do Irã. Os iemenitas estão se tornando cada vez melhores. Desenvolvem tecnologia de drones e mísseis há quatro anos e meio. Foi um alvo muito fácil.
 
Um alvo fácil e desprotegido. Os sistemas US PAC-2 e PAC-3, instalados na Arábia Saudita, estão todos orientados para o leste, na direção do Irã. Nem Washington, nem Riyad sabe com segurança de onde vieram os mísseis ou enxames de drones.
 
Os leitores deveriam prestar muita atenção à entrevista arrasadora com o general Amir Ali Hajizadeh, comandante da Força Aérea dos Guardas Revolucionários Islâmicos, do Irã. Feita em farsi (com legendas em inglês), ela foi concedida ao intelectual iraniano Nader Talebzadeh, que está sob sanções norte-americanas. Inclui questões sugeridas por mim e pelos analistas norte-americanos Phil Giraldi e Michal Maloof, em quem confio.
 
Ao explicar a autossuficiência do Irã em defesa, Hijazadeh parece um ator muito racional. A linha básica: “Nossa interpretação é que nem os políticos norte-americanos, nem nossos governantes querem uma guerra. Se um incidente como o ocorrido com o drone [refere-se, aqui ao RQ-4N, derrubado pelo Irã em junho] ocorrer, ou se sobrevier um mal entendido, e se isso conduzir a uma guerra em larga escala, é outro assunto. Nesse caso, estaremos sempre preparados.”
 
Ao responder a uma de minhas perguntas, sobre que mensagem os Gurdas Revolucionários querem deixar, especialmente aos Estados Unidos, Hajizadeh não economiza palavras: “Além das bases norte-americanas em várias regiões, como o Afeganistão, o Iraque, o Kuwait, os Emirados e o Qatar, são nossos alvos todos os navios, até uma distância de 2 mil km. Nós os monitoramos constantemente. Eles pensam que se se afastarem 400 km, estarão fora de nosso alcance. Onde quer que estejam, basta uma fagulha. Nós atingimos seus navios, suas bases aéreas, suas tropas.
 
Compre seu S-400 ou mais
 
No front energético Teerã tem jogado com muito precisão, mesmo pressionada. Vende carregamentos de petróleo, desligando os transponders de seus petroleiros quando eles deixam seus portos e transferindo o petróleo em mar, de petroleiro para petroleiro, à noite, pagando um pouco para recarimbar a carga como se tivesse origem outros produtores. Confirmei isso há semanas com os traders do Golfo Pérsico em quem confio – e todos o confirmam. O Irã pode continuar nesta toada para sempre.
 
O governo Trump, é claro, sabe. Mas o fato é que olha de lado. Para dizer em poucas palavras: foi pego numa armadilha por sua loucura total, ao se retirar do acordo nuclear internacional com o Irã. Busca uma saída para salvar a face. A chanceler alemã Angela Merkel advertiu-o com todas as palavras: Washington precisa voltar ao acordo que renegou, antes que seja tarde demais.
 
E aqui chegamos ao ponto de arrepiar os cabelos.
 
O ataque a Abqaiq mostra que toda a produção de petróleo do Oriente Médio, de mais de 18 milhões de barris por dia – incluindo o Kuwait, o Qatar, os Emirados Árabes e a Arábia Saudita – pode ser facilmente atingida. A defesa adequada contra drones e mísseis é zero. Aqui entra a Rússia.
 
Eis o que ocorreu na entrevista coletiva após o encontro de cúpula de Ancara sobre a Síria, que reuniu esta semana os presidentes Putin, da Rússia, Rouhani, do Irã e Erdogan, da Turquia.
 
Pergunta: A Rússia abastecerá a Arábia Saudita com qualquer apoio para restaurar sua infraestrutura?
 
Putin:  Sobre este tema, está escrito também no Corão que todo tipo de violência é ilegítimo, exceto para proteger o próprio povo. Se for para proteger a Arábia Saudita e seu povo, estamos prontos a oferecer a assistência necessária. Os líderes políticos da Arábia Saudita precisam tomar uma decisão sábia, como tomaram o Irã ao comprar o sistema de defesa contra mísseis [russo] S-300, e o presidente Recep Tayyip Erdogan, quando comprou o último sistema S-400. Eles ofereceriam proteção confiável para todos os equipamentos de infraestrutura sauditas.
 
Hassan Rouhani: Então, eles precisam comprar o S-300 ou o S-400?
 
Putin: Cabe a eles decidir (risos).
 
Em The Transformation of War, Martin van Creveld previu que todo o complexo industrial, militar e de segurança desabaria, quando ficasse claro que a maior parte de suas armas é inútil contra oponentes assimétricos de quarta geração. Não há dúvidas de que todo o Sul Global está observando – e de que captou a mensagem.
 
Guerra híbrida, reloaded
 
E agora entramos em uma dimensão inteiramente nova da guerra híbrida assimétrica.
 
Na hipótese horrível de que Washington decidisse atacar o Irã, animada pelos suspeitos neocons de sempre, o Pentágono jamais poderia esperar atingir todos os drones do Irã e ou do Iêmen. Os EUA poderiam esperar, certamente, uma guerra até o fim. E nesse caso nenhum navio cruzaria o Estreito de Ormuz. Todos sabemos as consequências.
 
O que nos remete à Grande Surpresa. A verdadeira razão por que não haveria navios atravessando o Estreito de Ormuz é que não haveria petróleo para bombear no Golfo Pérsico. Os campos petrolíferos, tendo sido bombardeados, estariam em chamas.
 
E então voltamos à linha básica real, traçada não apenas por Moscou e Pequim mas também por Paris e Berlim. Donald Trump apostou por muito tempo – e perdeu. É preciso encontrar uma saída que lhe salve a face. Se o Partido da Guerra permitir.
 
Na foto: Operários contêm explosão em campos de petróleo no Kuwait, após a guerra de 1991. Agora, os EUA gostariam de agir contra o Irã – mas perderam tanto as condições morais quanto o poder bélico
 
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Donald Trump, trará ele a paz?

 
 
Thierry Meyssan*
 
Depois de dois anos e meio no Poder, o Presidente Donald Trump está a ponto de impor os seus pontos de vista ao Pentágono. Ele que pôs fim ao projecto de «Sunistão», do Daesh, entende acabar com a doutrina Rumsfeld/Cebrowski de destruição das estruturas estatais do Médio Oriente Alargado. Se o conseguir, a paz regressará à região assim como à Bacia das Caraíbas. No entanto, os povos que tiverem sobrevivido ao imperialismo militar terão ainda de lutar pela sua soberania económica.
 
Desde há dois anos e meio, os Estados Unidos empregam paralelamente duas estratégias contraditórias e incompatíveis [1]. 
-- De um lado, a destruição das estruturas estatais de grandes regiões —o Médio Oriente Alargado desde 2001, depois a Bacia das Caraíbas desde 2018—, apoiada pelo Departamento da Defesa (doutrina Rumsfeld/Cebrowski) [2]; 
-- Do outro, o controle do mercado mundial de energia (doutrina Trump/Pompeo), apoiado pela Casa Branca, a CIA e o Departamento de Estado [3].
 
Parece que o Presidente Donald Trump está a ponto de impor as suas ideias à sua Administração, ainda dominada pelos funcionários e militares das eras Bush Jr e Obama, e deste modo anunciar as consequências a 19 de Setembro, aquando da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas: a paz no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Iémene, na Venezuela e na Nicarágua.
 
 
Anunciada durante a sua campanha eleitoral em 2016, teremos a passagem de uma lógica beligerante de conquista para uma outra, pacífica, de hegemonia económica, que não está ainda formalmente decidida.
 
Mesmo depois de uma vez assumida, uma tal reviravolta não se dará num dia. E ela será acompanhada por um preço a pagar.
 
Em relação ao principal conflito actual, a Síria, os princípios de um acordo foram negociados entre os Estados Unidos, o Irão, a Rússia e a Turquia. 
-- Não se tocará nas fronteiras do país e não se criará nenhum novo Estado (nem «Sunistão» do Daesh (E.I.) [4], nem «Curdistão» do PKK). Mas o país será neutralizado : as bases militares legais da Rússia na costa mediterrânica serão equilibradas por postos norte-americanos permanentes —de momento ilegais— no Nordeste do país.
-- Nenhum "pipeline" atravessará o país, seja catariano ou iraniano. A Rússia explorará os hidrocarbonetos, mas os Estados Unidos deverão ser-lhe associados [5]. 
-- A reconciliação síria será autorizada em Genebra, durante a elaboração de uma nova Constituição por um Comité representativo das diversas forças em conflito.
-- As empresas dos EUA deverão participar, directa ou indirectamente, na reconstrução da Síria.
 
O processo preparatório deste acordo está apenas no seu início. Desde há dois meses, o Exército Árabe Sírio foi autorizado a reconquistar a província de Idlib ocupada pela Alcaida [6] e os Estados Unidos ajudam-no ao bombardear aí o QG da organização terrorista [7]. Depois, os Estados Unidos começaram a desmantelar as fortificações do pseudo-Curdistão (o «Rojava») [8], ao mesmo tempo desenvolvendo as das sua bases militares ilegais, nomeadamente em Hasaka. De momento, o componente económico do plano não arrancou. Os Estados Unidos cercam a Síria desde o Outono de 2017 e sancionaram as empresas estrangeiras —à excepção das emiradenses— que ousaram participar na 61ª Feira Internacional de Damasco (28 de Agosto-6 de Setembro de 2019) [9]. A reconstrução do país permanece bloqueada.
 
Simultaneamente, na Bacia das Caraíbas, iniciaram-se discretamente negociações em Junho de 2019 entre os Estados Unidos e a Venezuela [10]. Enquanto Washington repete ainda que a reeleição de Nicolás Maduro, em Maio de 2018, é nula e sem efeito, já está fora de questão entre os diplomatas denegrir o chavismo ou «julgar o ditador», mas, sim, abrir uma porta de saída ao «Presidente constitucional» [11]. Os Estados Unidos estão prontos para abandonar o seu projecto de destruição das estruturas estatais se forem associados à exploração e ao comércio do petróleo.
 
Será fácil para pseudo-intelectuais explicar que os Estados Unidos realizaram todas estas manobras de desestabilização e de guerra unicamente por causa do petróleo. Mas esta teoria não dá conta daquilo que se passou durante dezoito anos. O Pentágono atribuira-se a missão de destruir as estruturas estatais destas regiões. Conseguiu-o no Afeganistão, na Líbia e no Iémene, parcialmente no Iraque, e nada na Síria. Somente agora é que a questão do petróleo volta ao topo das prioridades.
 
A estratégia Trump/Pompeo é uma nova calamidade para as regiões petrolíferas, mas ela é infinitamente menos destrutiva do que a de Rumsfeld/Cebrowski, a qual tem devastado o Médio Oriente Alargado desde há duas décadas com as suas dezenas de milhar de torturas e as suas centenas de milhar de mortes.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] “A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Março de 2019.
[2] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.
[3] “Mike Pompeo Address at CERAWeek”, by Mike Pompeo, Voltaire Network, 12 March 2019. “Geopolítica do petróleo na era Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Abril de 2019.
[4] “Imagining a Remapped Middle East”, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, September 28, 2013. “A Coligação dividida sobre os seus objectivos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2014.
[5] “Os Estados Unidos e Israel vão pilhar o petróleo da Síria ocupada”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 21 de Julho de 2019.
[6] “Libertação parcial da província de Idlib”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Agosto de 2019.
[7] “Os EUA bombardeiam a Alcaida em Idlib”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Setembro de 2019.
[8] “Curdos destroem as suas fortificações no «Rojava»”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Agosto de 2019.
[9] “Parâmetros e Princípios da Assistência das Nações Unidas na Síria”, Jeffrey D. Feltman, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Rede Voltaire, 15 de Outubro de 2017. “A Rússia denuncia a diarquia na ONU e nos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 28 de Agosto de 2018. «Comentario ruso sobre los intentos de Estados Unidos de sabotear la Feria Internacional de Damasco», Red Voltaire , 27 de agosto de 2019.
[10] “Contatos secretos EUA-Venezuela”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Agosto de 2019.
[11] “U.S. Offers Amnesty to Venezuelan Leader, if He Leaves Power”, Lara Jakes & Anatoly Kurmanaev, The New York Times, August 28, 2019.
 
 

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Hostilidades na fronteira Israel-Líbano podem evoluir para guerra?

Forças de paz da ONU mantêm suas bandeiras em pé ao lado das bandeiras do Hezbollah e do Líbano nos locais onde escavadores israelenses estão trabalhando.
© AP Photo / Hussein Malla

Especialistas explicaram se seria possível a primeira escalada de hostilidades na fronteira entre Israel e Líbano, desde a retirada das forças israelenses do território libanês, resultar em uma grande guerra.

Em entrevista à Sputnik Árabe, o chefe do Centro de Informação Libanês, Salem Zahran, disse que "o Hezbollah tem demonstrado sua capacidade de conduzir operações militares, mesmo depois de várias medidas de segurança do Exército israelense".

"Israel está perdido. Seu exército não pode localizar o povo do Hezbollah que conduziu a operação", acrescentou o cientista político libanês.

Na opinião do especialista em política regional libanesa, Rafaat al Badawi, o Hezbollah mostrou a Israel que pode conduzir operações militares por causa de sua experiência e habilidades.

Olho por olho, dente por dente

"Há aqui uma mensagem pessoal para Netanyahu de que é necessário aderir às normas internacionais de combate, que estas últimas foram violadas repetidamente", explicou Rafaat.

"Israel não precisa de guerra. Esta é uma questão de simples ataque e de proteção do seu território, nada mais. Olho por olho, dente por dente, uma nova equação da política regional. Onde quer que o ataque seja feito, seja em terra, mar ou ar, haverá uma resposta simétrica", acrescentou o especialista libanês. 

Jogo semidiplomático

Para o ex-chefe da agência de inteligência israelense Nativ, Yakov Kedmi, uma escalada da situação e um desencadeamento de hostilidades em grande escala entre o Hezbollah e as Forças Armadas israelenses são pouco prováveis.

"O que está acontecendo hoje é um jogo semidiplomático normal, uma 'troca de cortesias'. Todos tentam provar ao seu povo que ninguém atacará impunemente o seu território. Além disso, temos eleições parlamentares em breve. O incidente na fronteira é o primeiro desde a Guerra do Líbano. Claro que tudo é possível no Oriente Médio. Mas nenhuma das partes está interessada em desencadear uma guerra 'fervente'. É pouco provável que essa 'troca de cortesias' dure mais de três dias", comentou Kedmi.

'Situação está se tornando explosiva'

O chefe do Departamento de Estudo de Israel e Comunidades Judaicas, Dmitry Mariasis, tem opinião contrária.

Mariasis destaca o grande poder do Hezbollah, que acumulou um "grande potencial de mísseis e experiência suficiente em operações de combate”, que conduziu e conduz na Síria.

"Como sabemos, os líderes israelenses afirmaram que qualquer reforço do Irã e dos grupos pró-iranianos, aos quais pertence o Hezbollah, constitui uma ameaça para a segurança do Estado de Israel. E esta é a linha vermelha que Israel não deixará ninguém atravessar. Aparentemente, ambos os lados já estão prontos para lutar. A situação está se tornando explosiva", ressalta.

Além disso, existem várias situações que podem ser interpretadas como uma razão para iniciar hostilidades em grande escala, como os ataques de mísseis do Líbano contra Israel, diz o especialista.

Soldados israelenses bloqueando estrada na fronteira com o Líbano na cidade de Metula, norte de Israel, 4 de dezembro de 2018
© AP Photo / Ariel Schalit
Soldados israelenses bloqueando estrada na fronteira com o Líbano na cidade de Metula, norte de Israel, 4 de dezembro de 2018

"Penso que vários atores externos, como os EUA, a Rússia e o Conselho de Segurança da ONU, terão de intervir de alguma forma e a nível político para influenciar a situação", conclui Mariasis.

Escalada de tensões

No dia 1º de setembro, o movimento libanês do Hezbollah disparou diversos mísseis antitanque contra instalações no norte de Israel, destruindo veículos blindados israelenses na área fronteiriça.

Em resposta, a artilharia israelense disparou durante quase duas horas mais de 40 mísseis contra assentamentos que ficam no sul do Líbano.

Beirute tem se oposto durante meses às operações israelenses contra Hezbollah em seu espaço aéreo, insistindo que elas violam a soberania do país e a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, que tem como finalidade resolver o conflito Israel-Líbano de 2006.

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ONU pede 'contenção máxima" a Israel e Líbano após troca de ataques

UN secretary general Antonio Guterres
© AP Photo / Khalil Senosi

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu "contenção máxima" a Israel e Líbano depois que o exército israelense e o grupo Hezbollah trocaram uma série de ataques na fronteira libanesa.

"[Guterres] pede máxima contenção", disse o porta-voz do secretário-geral, Stephane Dujarric.

Ele acrescentou que Guterres também pediu aos dois países que interrompessem os atos que violam a resolução 1701 e impedem o retorno do cessar-fogo.

No dia 1º de agosto, o movimento Hezbollah destruiu um veículo blindado israelense na área de fronteira; Israel, em retaliação atacou com mais de 40 mísseis as cidades de Marun al Ras, Aitarun e Yarun, localizadas no sul do Líbano.

A resolução 1701 foi aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU em 11 de agosto de 2006 e encerrou o conflito militar entre Israel e o Hezbollah, que durou pouco mais de um mês.

O documento insta Israel e Líbano a "apoiar um cessar-fogo permanente e uma solução duradoura".

Além disso, pede que respeite plenamente a Linha Azul, a fronteira reconhecida pela ONU entre os dois países.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019090214468797-onu-pede-contencao-maxima-a-israel-e-libano-apos-troca-de-ataques/

Os últimos ataques de Israel foram demasiado longe

por Andre Vltchek [*]

Após os recentes ataques israelenses contra o Líbano, a Síria e o Iraque, o Oriente Médio foi envolvido numa guerra não declarada.

Quase todo a gente no Líbano parece concordar. "Desta vez, Israel foi longe demais. Em apenas dois dias, bombardeou três países", disse-me um funcionário local da ONU com sede em Beirute.

No mesmo dia, meu barbeiro local dizia como via as coisas, com voz cheia de sarcasmo e determinação:

"O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu enfrenta eleições difíceis em casa, enquanto sua esposa está a ser julgada por fraude. Um bocado de excitação durante o noticiário da noite só pode ajudar suas probabilidades de recuperar a atenção de seu eleitorado. Mas nós aqui já tivemos o quanto baste; estamos prontos para combater pelos nossos países. "

Mas "combater pelos seus países" pode demonstrar-se letal, pois Netanyahu ameaçou atacar o Líbano como um todo se o Hezbollah decidir retaliar.

Meu barbeiro não é apenas barbeiro. Ele é um engenheiro sírio, exilado no Líbano. Toda a região está dispersa, descarrilada e entrelaçada, após ataques da NATO e de Israel, ocupações e campanhas de desestabilização.

Em 25 de Agosto, Hassan Nasrallah, o chefe do Hezbollah, falou sem rodeios durante seu discurso televisionado no Líbano:

"O ataque suicida da madrugada é o primeiro ato de agressão desde 14 de Agosto de 2006. A condenação do Estado libanês do que aconteceu e o encaminhamento do assunto ao Conselho de Segurança é bom, mas estes paços não impedem o andamento de acções a serem empreendidas. Desde 2000, temos permitido drones israelenses por muitas razões, mas ninguém se mexeu. Os drones israelenses que agora entram no Líbano já não estão mais a colectar informação, mas sim [a executar] assassinatos. A partir de agora, enfrentaremos os drones israelenses quando entrarem nos céus do Líbano e trabalharemos para deitá-los abaixo. Digo aos israelenses que Netanyahu está a arriscar o seu sangue".

O presidente do Líbano, Michel Aoun, foi ainda mais longe, classificando o ataque de drones contra o seu país como uma " declaração de guerra".

Enquanto isso, um bloco poderoso no Parlamento do Iraque – a Coligação Fatah – insiste em que os EUA são " totalmente responsáveis " pelos ataques israelenses, "os quais consideramos uma declaração de guerra contra o Iraque e o seu povo ". A Coligação Fatah quer todas as tropas dos EUA fora do Iraque, o mais rápido possível.

Não há dúvida de que Netanyahu, com suas recentes incursões e bombardeios de drones de combate, lançou toda a região numa grande e inesperada turbulência.

Há décadas que Israel ataca regularmente a Síria e bombardeia a Palestina. Mas o Líbano é uma história totalmente diferente: só seu espaço aéreo vinha sendo violado habitualmente pelos jactos israelenses a voarem rumo a alvos sírios. Bombardear o Iraque também é claramente uma escalada da estratégia belicosa de Israel. Uma escalada bizarra, considerando que o Iraque ainda é de facto um estado ocupado pelo aliado mais próximo de Israel – os Estados Unidos.

Tudo o que é xiíta – menos o próprio Irão (por enquanto) – subitamente se tornou um 'alvo legítimo' para Israel. Durante muitos anos, o islão xiita foi sinónimo de resistência ideológica ao imperialismo ocidental no Médio Oriente: o próprio Irão, várias facções no Iraque, o Hezbollah, entre outras.

O Líbano está profundamente dividido

O Líbano é um dos países mais 'estratégicos' do Médio Oriente e o mais dividido. Ele baseia-se num sistema "confessional". Seu governo é sempre pelo menos "instável", mas muitas vezes totalmente disfuncional. Em comparação com a do seu homólogo israelense, a sua força aérea consiste em aviões de brinquedo, como os Cessnas convertidos.

Os mais recentes carros Maserati e Ferrari passam por algumas das mais miseráveis favelas do Médio Oriente. Restaurantes e cafés elegantes muitas vezes estão a poucos metros de mendigos. Existem centenas de milhares de refugiados neste pequeno país, de toda a região: palestinos, a viverem em campos perigosos e superlotados, com muito pouca esperança; Iraquianos em fuga da guerra e da ocupação da NATO; e vítimas da guerra síria.

O governo libanês e as elites estão a lucrar com a crise dos refugiados, supostamente embolsando dinheiro da "ajuda externa". Quase nada resta para os serviços sociais, ou mesmo para a defesa, muito menos para os pobres e a classe média baixa.

O Hezbollah, ao contrário, está a providenciar serviços sociais, incluindo alimentos, assistência médica e educação a todas as pessoas residentes no território libanês, independentemente de raça ou religião. Além disso, está a combater invasões israelenses, tomando nas suas fileiras todos os cidadãos libaneses que quiserem ingressar. Também combate terroristas na Síria. Está intimamente ligado ao Irão. Tudo isso, é claro, enfurece os Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita. O Hezbollah está firmemente na "lista terrorista" do Ocidente e dos seus associados.

Israel está a usar a luta contra o Hezbollah e contra posições de aliados iranianos para justificar o bombardeamento de vários países da região. Continua "a descobrir novas tramas" e executa "ataques antecipativos" com o pleno apoio do governo estado-unidense.

Durante a escalada mais recente, consta que Israel teria efectuado três ataques com drones no Vale do Beqaa, no Líbano, a uma base pertencente ao grupo laico, marxista-leninista e pró-sírio, a Frente Popular para a Libertação da Palestina, qual é, como era de esperar, aliado do Hezbollah.

Linha Azul

Há poucos dias consegui dirigir-me à fronteira entre o Líbano e Israel e depois fui para o leste, seguindo a chamada Linha Azul, a qual é patrulhada pela Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), em dezenas de quilómetros.

Os israelenses já ergueram um muro em quase todo o caminho desde o Mar Mediterrâneo até as Alturas de Golan – a fronteira libanesa.

Mais de um ano atrás, o governo do Líbano afirmou que "construir o muro equivaleria a um acto de guerra". Israel não se importou. Construiu uma enorme estrutura de concreto bem em frente ao Exército libanês, ao Hezbollah e à UNIFIL.

"Em muitas ocasiões, os israelenses realmente cruzaram a fronteira, pelo menos alguns metros ou centímetros, enquanto erigiam o muro", contaram-me vários agricultores locais na aldeia de Markaba. E nada aconteceu.

Na cidade de Kfarchouba, conhecida como fortaleza do Hezbollah, ao lado de uma parede sinistra decorada com desenhos infantis, pessoas disseram-me que estão "prontas para um conflito; prontas para morrer... se necessário".

Kfarshouba é onde os israelenses "descobriram túneis do Hezbollah", os quais foram uma justificativa oficial para a construção das muralhas.

"Asneira", disseram-me os locais. "Os túneis estavam lá há décadas, e os israelenses sempre souberam deles. Eles estiveram totalmente barricados durante muitos anos e não representavam perigo para Israel".

Bem em frente à horrenda nova muralha israelense, três bandeiras balouçam ao vento – as da Palestina, do Líbano e do Hezbollah. Ao lado delas, três veículos blindados da UNIFIL estão estacionados. Soldados indonésios descansam, tirando selfies.

"Vão actuar se Israel cruzar a linha?", pergunto-lhes.

Eles sorriem para mim. Nenhuma resposta coerente é dada.

As Alturas de Golan, ocupadas por Israel, ficam a apenas 10 km deste ponto. E várias aldeias e cidades israelenses estão logo atrás da muralha.

Com o poder de fogo que o Hezbollah tem, elas podiam ser arrasadas em apenas um minuto.

Embora o Hezbollah aparentemente esteja em "alerta máximo", até agora, a conversa sobre "retaliação" é apenas conversa.

"Inércia é como morte lenta no Líbano"

A fim de bombardear alvos dentro do Iraque, jactos israelenses tiveram de sobrevoar ou o território de seu antigo aliado, a Turquia, ou a Arábia Saudita. Conforme informado pela Al-Jazeera:

"Israel e os sauditas não têm relações diplomáticas formais, mas acredita-se terem estabelecido uma aliança nos bastidores na base da sua hostilidade compartilhada para com o Irão".

Israel estará a tentar provocar vários países árabes do Médio Oriente para mais uma guerra?

Ou será apenas mais uma "humilhação"? Será que Beirute, Damasco e Bagdad vão apenas contar pancadas e permanecer ociosos? Irão citar repetidamente as resoluções da ONU, enquanto Israel bombardeia continuamente suas cidades e campos, com total impunidade e com a aprovação do Ocidente?

É uma decisão muito difícil a tomar. Se o Líbano ou o Hezbollah decidirem retaliar ou simplesmente proteger seu país, milhares morrerão. Talvez de imediato.

Se não retaliarem, novas muralhas serão erguidas e as campanhas de bombardeio "discretas" dos israelenses continuarão, muito provavelmente, durante os muitos anos vindouros. Em consequência, toda a região continuará a estar paralisada.

Meu colega local foi mais expressivo: "Esta inércia é como uma morte lenta para todo o Líbano".

28/Agosto/2019
[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo, andrevltchek.weebly.com

O original encontra-se em www.unz.com/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/moriente/libano_28ago19.html

Três fundamentalismos modelam o Médio Oriente

 
 
Não basta a um Estado ter uma bandeira flutuando em Nova Iorque em frente ao palácio de vidro das Nações Unidas. É preciso haver terra livre onde o povo que nela habite seja senhor de todas as capacidades.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
Três fundamentalismos político-religiosos continuam a modelar um novo Médio Oriente, perante a complacência do mundo, a inércia da ONU e a cumplicidade activa da União Europeia. A partir do eixo Washington-Telavive-Riade, os fundamentalismos cristão anglo-saxónico, sionista e islâmico tratam de eliminar os obstáculos à sua afirmação plena na região, seja na Síria, no Iraque, na Palestina. Percebendo-se assim por que o Irão está debaixo de fogo.
 
Em plena campanha eleitoral, o primeiro-ministro de Israel dispara em todas as direcções: investidas aéreas contra a Síria e o Iraque, chegando a atingir objectivos a mil quilómetros de distância, incursões de drones no Líbano, bombardeamentos contra Gaza.
 
Entretanto, os Emirados Árabes Unidos compram equipamentos de espionagem a um homem de negócios israelita e colonos sionistas são vistos em Jerusalém, junto ao Muro das Lamentações, agitando com emoção bandeiras da Arábia Saudita. A convergência regional entre os fundamentalismos sionista e islâmico instaura uma nova relação de forças no Médio Oriente em que as principais vítimas são os palestinianos e os seus direitos nacionais.
 
 
As operações de guerra de Israel contra vários países árabes, tendo sempre como pano de fundo a pressão latente contra o Irão, não suscitam quaisquer reacções significativas da Liga Árabe e da Organização da Conferência Islâmica. Deduz-se, sem dificuldade, que as elites árabes endinheiradas, a começar pelas petromonarquia, já escolheram o seu campo e situam-se ao lado de Israel contra os palestinianos e os países árabes que se opõem à arbitrariedade israelita – sustentada pelos Estados Unidos e com a conivência da União Europeia.
 
Ainda assim, não deixa de ser surpreendente que «jornalistas» ao serviço das ditaduras monárquicas do Golfo, sobretudo da Arábia Saudita, sejam recebidos com grandes demonstrações de amizade e hospitalidade por sectores governamentais israelitas; e que um deles, um blogueiro oficial de Riade, tenha escrito que os lugares santos islâmicos de Jerusalém, entre eles a Mesquita Al-Aqsa, ficariam muito bem sob a administração de Israel.
 
Que não haja dúvidas quanto ao teor oficial de uma declaração deste tipo, sabendo-se o que pode acontecer a jornalistas e blogueiros não oficiais nestes tempos em que pontifica o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, aliás amigo dilecto de Benjamin Netanyahu, o chefe de governo de Israel.
 
Islamismo sob pressão fundamentalista
 
As nações islâmicas seguem na mesma direcção da inércia cúmplice perante a virulência de Israel contra países árabes. Podem encontrar-se múltiplas razões para este conformismo, entre elas o cuidado em não incomodar os Estados Unidos, sobretudo por razões que para esses governos não valerão a pena, designadamente uma causa que muitos dizem «em extinção» como a palestiniana.
 
Não esqueçamos ainda que muitos governos de nações islâmicas vivem sob pressão dos radicalismos religiosos internos, tendo estes, como está abundantemente provado, ligações com estruturas de poder norte-americanas, israelitas e da NATO. Para quem ainda seja céptico quanto à realidade destas cumplicidades recomenda-se o aprofundamento do conhecimento de circunstâncias que envolveram a mudança de regime na Líbia e a tentativa de alcançar o mesmo objectivo ainda em curso na Síria.
 
Sobre estas alterações de relações de forças no Médio Oriente, as Nações Unidas e o seu secretário-geral nada dizem e muito menos fazem. Dirá o Eng. Guterres, como já se tem ouvido, que nada do que está em curso na região incumpre o cenário estabelecido pela ONU, ao longo de décadas, para que se respeitem os direitos de todas as populações da região.
 
Quando um dia os factos que se vão consumando, seja a anexação dos territórios palestinianos que Israel continua a realizar, seja um qualquer «acordo do século» que instaure uma nova ordem pretensamente negociada à revelia do direito internacional, talvez o secretário-geral da ONU – este ou outro – continue a dizer que nada se alterou formalmente. E assim se fará história.
 
Cilindrar os palestinianos
 
O facto mais importante a notar nesta situação – e dele decorrem todos os outros – continua a ser a questão palestiniana.
 
Os direitos inalienáveis do povo palestiniano, sobretudo a um Estado nacional viável com capacidade para desempenhar todas as atribuições inerentes, desapareceram dos discursos dos políticos mundiais e das perorações dos media mainstream.
 
Mesmo os que invocam, burocraticamente, o conceito de dois Estados sabem que pelo caminho actual das coisas não há qualquer maneira de lá chegar. Todos os dias a colonização israelita engole mais um pedaço da Cisjordânia, território indispensável para que nele seja instaurado um segundo Estado na Palestina, o Estado Palestiniano.
 
Não basta a um Estado ter uma bandeira flutuando em Nova Iorque em frente ao palácio de vidro das Nações Unidas. É preciso haver terra livre onde o povo que nela habite seja senhor de todas as capacidades para decidir sobre os seus direitos e interesses. Essa terra, porém, é todos os dias mais exígua, murada e cercada, minada por colonatos onde pontificam arruaceiros sionistas cada vez mais irmanados com os émulos fundamentalistas islâmicos.
 
Não existem já condições para criar um Estado viável; e, por isso, surgem os «acordos do século», idealizados por três fundamentalismos – o cristão norte-americano, o sionista e o islâmico das petromonarquias – para encontrarem a solução possível e milagrosa que estabeleça uma situação compatível com as novas condições existentes e onde não cabe qualquer entidade que seja «palestiniana».
 
O mundo assiste, impávido, ao extermínio de um povo, porque é isso que está a acontecer aos palestinianos. Dir-se-á, como faz o Eng. Guterres, que nada disto está consumado. Sejamos realistas: existe uma relação de forças no Médio Oriente e no mundo capaz de reverter a colonização israelita, de proporcionar a união da Cisjordânia à Faixa de Gaza num Estado livre e viável?
 
A ficção da «unidade árabe»
 
Os factos caminham violentamente em sentido contrário. Os fundamentalismos sionista e islâmico, partes inalienáveis do «mundo civilizado», unem-se sob o patrocínio do fundamentalismo cristão evangélico anglo-saxónico para impedir que se cumpra o direito internacional, também no Médio Oriente.
 
As tentativas de destruição da Síria e do Iraque são estratégias paralelas ao extermínio da causa palestiniana e ao enterro definitivo da grande ficção que sempre foi a chamada «unidade árabe». Convergem no objectivo de eliminar os obstáculos à afirmação de Israel como potência plenamente inserida no Médio Oriente, gerindo a região de braço dado com as ditaduras terroristas do Golfo comandadas pela Arábia Saudita.
 
Há desafinações, é certo, na componente árabe. Os Emirados Árabes Unidos desentenderam-se agora com a Arábia Saudita devido ao choque de interesses no Iémen; e o Qatar e Riade continuam de costas voltadas.
 
Significativamente, estas desavenças envolvem os tipos de relações que cada um cultiva com o Irão: ruptura no caso saudita, alguns interesses partilhados nos casos do Qatar e dos Emirados.
 
Não surpreende, por consequência, que o grande eixo fundamentalista Washington-Telavive-Riade tenha colocado o Irão sob mira. É um dos grandes obstáculos a abater para que a sua estratégia vingue plenamente. Sendo importante notar que o comportamento da União Europeia traduz, em última análise, um alinhamento cúmplice com os objectivos do eixo.

 

Imagem: 

Um manifestante palestiniano passa por uma bomba de gás lacrimogéneo disparada por forças israelitas durante um protesto. 22 de Agosto de 2019, Cisjordânia, Palestina. // Abbas Momani 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/tres-fundamentalismos-modelam-o-medio.html

Os êxitos da diplomacia russa no Médio Oriente

 
 
Thierry Meyssan*
 
As mudanças políticas que transformam o Médio Oriente desde há dois meses são a resultante não do esmagamento dos protagonistas, mas da evolução dos pontos de vista iraniano, turco e emiradense. Lá onde o poderio militar norte-americano falhou, a subtileza diplomática triunfou. Recusando pronunciar-se sobre os crimes de uns e de outros, Moscovo consegue lentamente pacificar a região.
 
Nos últimos cinco anos, a Rússia multiplicou as iniciativas para restabelecer o Direito Internacional no Médio Oriente. Ela apoiou-se em especial no Irão e na Turquia, dos quais não partilha, no entanto, a maneira de pensar. Os primeiros resultados deste paciente exercício diplomático redesenham as linhas de partilha no meio de vários conflitos.
 
Novas relações de força e um novo equilíbrio instalam-se discretamente no vale do Nilo, no Levante e na península Arábica. Pelo contrário, a situação bloqueia-se no Golfo Pérsico. Esta enorme e coordenada mudança toca diferentes conflitos aparentemente sem relação entre eles. É o fruto da paciente e discreta diplomacia russa [1] e, em certos dossiês, da relativa boa vontade dos EUA.
 
Ao contrário dos Estados Unidos, a Rússia não procura impor a sua visão do mundo. Ela parte, pelo contrário, da cultura dos seus interlocutores que, com o seu contacto, por pequenos passos modifica.
 
 
Recuo dos jiadistas e dos mercenários curdos na Síria
 
Tudo começou a 3 de Julho : um dos cinco fundadores do PKK, Cemil Bayik, publicava uma coluna de opinião no Washington Post apelando à Turquia para encetar negociações levantando o isolamento do seu prisioneiro mais célebre : Abdullah Öcalan [2]. De repente, as visitas à prisão do líder dos Curdos autonomistas da Turquia, proibidas desde há quatro anos, foram novamente autorizadas. Esta abertura era um segredo de polichinelo. O rumor fora espalhado pelo Partido Republicano do Povo que a considerava como uma traição. Esperando por uma clarificação, os seus votantes abstiveram-se aquando da eleição municipal, a 23 de Junho, infligindo uma severa derrota eleitoral ao candidato do Presidente Erdogan.
 
Simultaneamente, os combates recomeçavam na zona ocupada pela Alcaida no Norte da Síria, na província de Idlib. Este Emirado islâmico não tem administração central, mas uma miríade de cantões adstritos a grupos combatentes diversos. A população é alimentada por «ONGs» europeias afiliadas aos Serviços Secretos desses países e a presença do Exército turco dissuade os jiadistas de tentar conquistar o resto da Síria. Sendo esta situação pouco verificável, a imprensa da Otanesca apresenta o Emirado Islâmico de Idlib como o pacifico refúgio de «opositores moderados à ditadura de Assad». De súbito, Damasco, propulsionada por apoio aéreo russo, começou a reconquistar o território e o Exército turco a retirar-se silenciosamente. Os combates tem sido extremamente sangrentos, em primeiríssimo lugar para a República. No entanto, após várias semanas, o avanço é notável, de tal modo que, se nada o travar, a província poderá estar libertada em Outubro.
 
A 15 de Julho, por ocasião do terceiro aniversário da tentativa de assassinato de que foi alvo, e do golpe de Estado improvisado que se seguiu, o Presidente Erdoğan anunciou a redefinição da identidade turca, já não mais com uma base religiosa, mas, sim, nacional [3]. Ele revelou também que o seu exército ia varrer as forças do PKK na Síria e transferir uma parte dos refugiados sírios para uma zona fronteiriça com 30 a40 quilómetros de profundidade. Esta zona corresponde, um pouco mais ou menos, àquela na qual o Presidente Hafez el-Assad havia autorizado, em 1999, as forças turcas a reprimir eventuais disparos de artilharia curda. Depois de ter anunciado que o Pentágono não podia abandonar os seus aliados curdos, emissários norte-americanos vieram a Ancara fazer o contrário e aprovar o plano turco. Parece que, como sempre afirmamos, os chefes do «Rojava», esse pseudo-Estado autónomo curdo em terra síria, são quase todos de nacionalidade turca. Portanto, eles ocupam a região que limparam etnicamente. As suas tropas, de nacionalidade síria, enviaram, entretanto, emissários a Damasco para pedir a protecção do Presidente Bashar al-Assad. Lembremos que os Curdos são uma população nómada sedentarizada no início do século XX. De acordo com a Comissão King-Crane e a Conferência Internacional de Sèvres (1920), a existência de um Curdistão só é legítima no actual território turco [4].
 
É pouco provável que a França e a Alemanha deixem a Síria reconquistar a totalidade do Emirado islâmico de Idlib e abandonem a sua fantasia de Curdistão, seja onde for (na Turquia, no Irão, no Iraque ou na Síria, mas não na Alemanha onde, no entanto, eles constituem um milhão). Mas, poderão ser forçados a isso.
 
Da mesma forma, apesar das discussões actuais, é pouco provável que se a Síria se descentralizar, ela conceda a mínima autonomia à região que foi ocupada pelos Curdos turcos.
 
Após vários anos de bloqueio, a libertação do Norte da Síria repousa unicamente na mudança de paradigma turco, fruto dos erros norte-americanos. e da Inteligência russa.
 
Partição de facto do Iémene
 
No Iémene, a Arábia Saudita e Israel apoiam o President Abdrabbo Mansour Hadi com vistas a explorar as reservas petrolíferas que estão situadas a cavalo sobre a fronteira [5]. Este teve de fazer face ao levantamento dos zaiditas, uma escola do xiismo. Com o decorrer do tempo, os Sauditas receberam a ajuda dos Emiradenses, e a Resistência zaidita a do Irão. Esta guerra, alimentada pelos Ocidentais, está a provocar o pior episódio de fome do século XXI.
 
No entanto, contrariando a ordenação dos dois campos, a 1 de Agosto, os guarda-costas emiradenses assinaram um acordo de cooperação transfronteiriço com a polícia das fronteiras iraniana [6]. No mesmo dia, o chefe da milícia iemenita financiada pelos Emiradenses (dito «Conselho de transição do Sul» ou «Cintura de Segurança» ou ainda «separatistas»), Abu Al-Yamana Al-Yafei, foi assassinado pelos Irmãos Muçulmanos do Partido Islah financiado pela Arábia Saudita [7].
 
Como salta à vista, a aliança entre os dois príncipes herdeiros da Arábia e dos Emirados, Mohammed bin Salman («MBS») e Mohammed ben Zayed Al Nahyane («MBZ»), deu para o torto.
 
A 11 de Agosto, a milícia apoiada pelos Emirados tomou de assalto o palácio presidencial e diversos ministérios em Áden, apesar do apoio da Arábia ao Presidente Hadi; o qual está refugiado já há longa data em Riade. No dia seguinte, «MBS» e «MBZ» encontraram-se em Meca, na presença do Rei Salman. Rejeitaram o Golpe de Estado e apelaram às suas respectivas tropas para manter a calma. A 17 de Agosto, os pró-Emirados evacuavam, em boa ordem, a sede do governo.
 
Durante a semana em que os «separatistas» tomaram Áden, os Emirados controlaram de facto as duas margens do altamente estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Ora, agora que Riade preservou a sua honra, será preciso dar uma contrapartida ao Abu Dhabi.
 
Neste campo de batalha, a mudança é imputável unicamente aos Emiradenses, os quais, depois de terem pago um pesado tributo, tiram a real lição desta guerra impossível. Prudentes, primeiro aproximaram-se dos Iranianos antes de enviar este tiro de aviso ao seu poderoso aliado e vizinho saudita.
 
Cadeiras de dança no Sudão
 
No Sudão, depois de o Presidente Omar al-Bashir (Irmão muçulmano dissidente) ter sido derrubado pelas manifestações da Aliança para a liberdade e a mudança (ALC), e de a alta de preço do pão ter sido anulada, um Conselho militar de transição foi colocado no Poder. Na prática, esta revolta social e alguns biliões de petrodólares permitiram, nas costas dos manifestantes, fazer passar o país de uma tutela catari para uma outra saudita [8].
 
A 3 de Junho, uma nova manifestação do ALC foi dispersa de forma sangrenta pelo Conselho Militar de Transição deixando 127 mortos. Face à condenação internacional, o Conselho Militar encetou negociações com os civis e concluiu um acordo, em 4 de Agosto, que foi assinado a 17. Durante um período de 39 meses, o país será governado por um Conselho Supremo de 6 civis e 5 militares, cujo acordo não especifica as identidades. Eles serão controlados por uma Assembleia de 300 membros nomeados, não eleitos, abrangendo 67% dos representantes da ALC. Não há evidentemente nada de democrático nisto e nenhuma das partes se queixa a propósito.
 
O economista Abdallah Hamdok, antigo responsável da Comissão Económica das Nações Unidas para a África, será o Primeiro-ministro. Ele terá de obter o levantamento das sanções de que o Sudão é alvo e reintegrar o país na União Africana. Ele fará julgar o antigo Presidente Omar al-Bashir no país a fim de lhe garantir que não é extraditado para Haia, para o Tribunal Penal Internacional.
 
O verdadeiro poder será detido pelo «general» Mohammed Hamdan Daglo (dito «Hemetti»), o qual não é general, nem sequer soldado, mas chefe da milícia contratada por «MBS» para subjugar a Resistência iemenita. Durante este jogo de cadeiras de dança, a Turquia —que possui uma base militar na ilha sudanesa de Suakin para cercar a Arábia Saudita— nada disse.
 
De facto, a Turquia aceita perder em Idlib e no Sudão para ganhar contra os mercenários curdos pró-EUA. Apenas este último jogo é vital para ela. Terão sido necessários muitos debates para que se desse conta que não podia ganhar em todos os tabuleiros ao mesmo tempo e para que ela hierarquizasse as suas prioridades.
 
Os Estados Unidos contra o petróleo iraniano
 
Londres e Washington prosseguem a sua competição, encetada há setenta anos, para controlar o petróleo iraniano. Tal como na época de Mohammad Mossadegh, a Coroa britânica pensa decidir sozinha acerca do que acha que lhe caberá no Irão [9]. Enquanto isso Washington não quer que as suas guerras contra o Afeganistão e o Iraque tragam proveitos a Teerão (consequência da doutrina Rumsfeld/Cebrowski) e entende fixar o preço mundial da energia (doutrina Pompeo) [10].
 
Estas duas estratégias confluíram durante a tomada do petroleiro iraniano Grace 1 nas águas da colónia britânica de Gibraltar. O Irão, por sua vez, arrestou dois petroleiros britânicos no Estreito de Ormuz pretendendo —insulto supremo— que o principal transportava «petróleo de contrabando», quer dizer petróleo iraniano subsidiado comprado por Londres no mercado negro [11]. Assim que o novo Primeiro-ministro, Boris Johnson, percebeu que o seu país tinha ido longe demais, teve a «surpresa» de ver a justiça «independente» da sua colónia libertar o Grace 1. De imediato Washington emitiu um mandado para o apreender de novo.
 
Desde o início deste caso, os Europeus pagam os custos da política norte-americana e protestam, sem grandes consequências [12]. Só os Russos defendem, não o seu aliado iraniano, antes o Direito Internacional, tal como o têm feito a propósito da Síria [13], o que lhes permite manter uma linha política sempre coerente.
 
Neste dossiê, o Irão dá provas de uma grande tenacidade. Apesar da viragem clerical na eleição do Xeque Hassan Rohani, em 2013, o país reorienta-se para a política nacional do laico Mahmoud Ahmadinejad [14]. A sua instrumentalização das comunidades xiitas na Arábia Saudita, no Barém, no Iraque, no Líbano, na Síria, no Iémene poderá acabar por se tornar um simples apoio. Aqui ainda, foi graças às longas conversações de Astana que aquilo que é evidente para uns se acabou tornando também para os outros.
 
Conclusão
 
Com o tempo, os objectivos de cada protagonista se hierarquizam e as suas posições definem-se.
 
De acordo com a sua tradição, a diplomacia russa não busca, ao contrário dos Estados Unidos, redesenhar as fronteiras e as alianças. Ela tenta deslindar os objectivos contraditórios dos seus parceiros. Assim, ela ajudou o velho Império Otomano e o antigo Império Persa a afastarem-se da sua definição religiosa (os Irmãos Muçulmanos para o primeiro, o Xiismo para o segundo) e a regressar a uma definição nacional pós-imperial. Esta evolução é muitíssimo visível na Turquia, mas supõe uma mudança de chefias no Irão para ser realizada. Moscovo não busca «mudar os regimes», mas, apenas certos aspectos das mentalidades.
 
 
* Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] Ver os parágrafos 3, 4, 5 e 10 da « Déclaration conjointe de la Russie, de l’Iran et de la Turquie relative à la Syrie », Réseau Voltaire, 2 août 2019, e compará-los com as declarações das reuniões precedentes.
[2] “Now is the moment for peace between Kurds and the Turkish state. Let’s not waste it”, by Cemil Bayik, Washington Post (United States) , Voltaire Network, 3 July 2019.
[3] “A Turquia não se alinhará nem com a OTAN, nem com a OTSC”, “A Turquia renuncia pela segunda vez ao Califado”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 6 & 13 de Agosto de 2019.
[4] “Os projectos de Curdistão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Setembro de 2016.
[5] “Exclusivo : Os projectos secretos de Israel e da Arábia Saudita”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2015.
[7] “Missile fired by Yemen rebels kills dozens of soldiers in port city of Aden”, Kareem Fahim & Ali Al-Mujahed, The Washington Post, August 1, 2019.
[8] “O derrube de Omar al-Bashir”, Thierry Meyssan; “O Sudão passou para o controle saudita”, “A Força de reacção rápida no Poder no Sudão”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 6, 23, 30 de Abril de 2019.
[9] “Face ao Irão, Londres defende as suas sobras do Império”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 26 de Julho de 2019.
[10] “A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Março de 2019. “Advancing the U.S. Maximum Pressure Campaign On Iran” (Note: The graph was distributed with the text !), Voltaire Network, 22 April 2019.
[11] “Reino Unido / Irão: «Grace 1» e «British Heritage»”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Julho de 2019.
[14] Como laico, nós pensamos que o muito místico Presidente Ahmadinejad queria separar as instituições religiosas e políticas e por fim à função platoniana do Guia da Revolução.

Os êxitos da diplomacia russa no Médio Oriente

As mudanças políticas que transformam o Médio Oriente desde há dois meses são a resultante não do esmagamento dos protagonistas, mas da evolução dos pontos de vista iraniano, turco e emiradense. Lá onde o poderio militar norte-americano falhou, a subtileza diplomática triunfou. Recusando pronunciar-se sobre os crimes de uns e de outros, Moscovo consegue lentamente pacificar a região.

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Nos últimos cinco anos, a Rússia multiplicou as iniciativas para restabelecer o Direito Internacional no Médio Oriente. Ela apoiou-se em especial no Irão e na Turquia, dos quais não partilha, no entanto, a maneira de pensar. Os primeiros resultados deste paciente exercício diplomático redesenham as linhas de partilha no meio de vários conflitos.

Novas relações de força e um novo equilíbrio instalam-se discretamente no vale do Nilo, no Levante e na península Arábica. Pelo contrário, a situação bloqueia-se no Golfo Pérsico. Esta enorme e coordenada mudança toca diferentes conflitos aparentemente sem relação entre eles. É o fruto da paciente e discreta diplomacia russa [1] e, em certos dossiês, da relativa boa vontade dos EUA.

Ao contrário dos Estados Unidos, a Rússia não procura impor a sua visão do mundo. Ela parte, pelo contrário, da cultura dos seus interlocutores que, com o seu contacto, por pequenos passos modifica.

Recuo dos jiadistas e dos mercenários curdos na Síria

Tudo começou a 3 de Julho : um dos cinco fundadores do PKK, Cemil Bayik, publicava uma coluna de opinião no Washington Post apelando à Turquia para encetar negociações levantando o isolamento do seu prisioneiro mais célebre : Abdullah Öcalan [2]. De repente, as visitas à prisão do líder dos Curdos autonomistas da Turquia, proibidas desde há quatro anos, foram novamente autorizadas. Esta abertura era um segredo de polichinelo. O rumor fora espalhado pelo Partido Republicano do Povo que a considerava como uma traição. Esperando por uma clarificação, os seus votantes abstiveram-se aquando da eleição municipal, a 23 de Junho, infligindo uma severa derrota eleitoral ao candidato do Presidente Erdogan.

Simultaneamente, os combates recomeçavam na zona ocupada pela Alcaida no Norte da Síria, na província de Idlib. Este Emirado islâmico não tem administração central, mas uma miríade de cantões adstritos a grupos combatentes diversos. A população é alimentada por «ONGs» europeias afiliadas aos Serviços Secretos desses países e a presença do Exército turco dissuade os jiadistas de tentar conquistar o resto da Síria. Sendo esta situação pouco verificável, a imprensa da Otanesca apresenta o Emirado Islâmico de Idlib como o pacifico refúgio de «opositores moderados à ditadura de Assad». De súbito, Damasco, propulsionada por apoio aéreo russo, começou a reconquistar o território e o Exército turco a retirar-se silenciosamente. Os combates tem sido extremamente sangrentos, em primeiríssimo lugar para a República. No entanto, após várias semanas, o avanço é notável, de tal modo que, se nada o travar, a província poderá estar libertada em Outubro.

A 15 de Julho, por ocasião do terceiro aniversário da tentativa de assassinato de que foi alvo, e do golpe de Estado improvisado que se seguiu, o Presidente Erdoğan anunciou a redefinição da identidade turca, já não mais com uma base religiosa, mas, sim, nacional [3]. Ele revelou também que o seu exército ia varrer as forças do PKK na Síria e transferir uma parte dos refugiados sírios para uma zona fronteiriça com 30 a 40 quilómetros de profundidade. Esta zona corresponde, um pouco mais ou menos, àquela na qual o Presidente Hafez el-Assad havia autorizado, em 1999, as forças turcas a reprimir eventuais disparos de artilharia curda. Depois de ter anunciado que o Pentágono não podia abandonar os seus aliados curdos, emissários norte-americanos vieram a Ancara fazer o contrário e aprovar o plano turco. Parece que, como sempre afirmamos, os chefes do «Rojava», esse pseudo-Estado autónomo curdo em terra síria, são quase todos de nacionalidade turca. Portanto, eles ocupam a região que limparam etnicamente. As suas tropas, de nacionalidade síria, enviaram, entretanto, emissários a Damasco para pedir a protecção do Presidente Bashar al-Assad. Lembremos que os Curdos são uma população nómada sedentarizada no início do século XX. De acordo com a Comissão King-Crane e a Conferência Internacional de Sèvres (1920), a existência de um Curdistão só é legítima no actual território turco [4].

É pouco provável que a França e a Alemanha deixem a Síria reconquistar a totalidade do Emirado islâmico de Idlib e abandonem a sua fantasia de Curdistão, seja onde for (na Turquia, no Irão, no Iraque ou na Síria, mas não na Alemanha onde, no entanto, eles constituem um milhão). Mas, poderão ser forçados a isso.

Da mesma forma, apesar das discussões actuais, é pouco provável que se a Síria se descentralizar, ela conceda a mínima autonomia à região que foi ocupada pelos Curdos turcos.

Após vários anos de bloqueio, a libertação do Norte da Síria repousa unicamente na mudança de paradigma turco, fruto dos erros norte-americanos. e da Inteligência russa.

Partição de facto do Iémene

No Iémene, a Arábia Saudita e Israel apoiam o President Abdrabbo Mansour Hadi com vistas a explorar as reservas petrolíferas que estão situadas a cavalo sobre a fronteira [5]. Este teve de fazer face ao levantamento dos zaiditas, uma escola do xiismo. Com o decorrer do tempo, os Sauditas receberam a ajuda dos Emiradenses, e a Resistência zaidita a do Irão. Esta guerra, alimentada pelos Ocidentais, está a provocar o pior episódio de fome do século XXI.

No entanto, contrariando a ordenação dos dois campos, a 1 de Agosto, os guarda-costas emiradenses assinaram um acordo de cooperação transfronteiriço com a polícia das fronteiras iraniana [6]. No mesmo dia, o chefe da milícia iemenita financiada pelos Emiradenses (dito «Conselho de transição do Sul» ou «Cintura de Segurança» ou ainda «separatistas»), Abu Al-Yamana Al-Yafei, foi assassinado pelos Irmãos Muçulmanos do Partido Islah financiado pela Arábia Saudita [7].

Como salta à vista, a aliança entre os dois príncipes herdeiros da Arábia e dos Emirados, Mohammed bin Salman («MBS») e Mohammed ben Zayed Al Nahyane («MBZ»), deu para o torto.

A 11 de Agosto, a milícia apoiada pelos Emirados tomou de assalto o palácio presidencial e diversos ministérios em Áden, apesar do apoio da Arábia ao Presidente Hadi; o qual está refugiado já há longa data em Riade. No dia seguinte, «MBS» e «MBZ» encontraram-se em Meca, na presença do Rei Salman. Rejeitaram o Golpe de Estado e apelaram às suas respectivas tropas para manter a calma. A 17 de Agosto, os pró-Emirados evacuavam, em boa ordem, a sede do governo.

Durante a semana em que os «separatistas» tomaram Áden, os Emirados controlaram de facto as duas margens do altamente estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Ora, agora que Riade preservou a sua honra, será preciso dar uma contrapartida ao Abu Dhabi.

Neste campo de batalha, a mudança é imputável unicamente aos Emiradenses, os quais, depois de terem pago um pesado tributo, tiram a real lição desta guerra impossível. Prudentes, primeiro aproximaram-se dos Iranianos antes de enviar este tiro de aviso ao seu poderoso aliado e vizinho saudita.

Cadeiras de dança no Sudão

No Sudão, depois de o Presidente Omar al-Bashir (Irmão muçulmano dissidente) ter sido derrubado pelas manifestações da Aliança para a liberdade e a mudança (ALC), e de a alta de preço do pão ter sido anulada, um Conselho militar de transição foi colocado no Poder. Na prática, esta revolta social e alguns biliões de petrodólares permitiram, nas costas dos manifestantes, fazer passar o país de uma tutela catari para uma outra saudita [8].

A 3 de Junho, uma nova manifestação do ALC foi dispersa de forma sangrenta pelo Conselho Militar de Transição deixando 127 mortos. Face à condenação internacional, o Conselho Militar encetou negociações com os civis e concluiu um acordo, em 4 de Agosto, que foi assinado a 17. Durante um período de 39 meses, o país será governado por um Conselho Supremo de 6 civis e 5 militares, cujo acordo não especifica as identidades. Eles serão controlados por uma Assembleia de 300 membros nomeados, não eleitos, abrangendo 67% dos representantes da ALC. Não há evidentemente nada de democrático nisto e nenhuma das partes se queixa a propósito.

O economista Abdallah Hamdok, antigo responsável da Comissão Económica das Nações Unidas para a África, será o Primeiro-ministro. Ele terá de obter o levantamento das sanções de que o Sudão é alvo e reintegrar o país na União Africana. Ele fará julgar o antigo Presidente Omar al-Bashir no país a fim de lhe garantir que não é extraditado para Haia, para o Tribunal Penal Internacional.

O verdadeiro poder será detido pelo «general» Mohammed Hamdan Daglo (dito «Hemetti»), o qual não é general, nem sequer soldado, mas chefe da milícia contratada por «MBS» para subjugar a Resistência iemenita. Durante este jogo de cadeiras de dança, a Turquia —que possui uma base militar na ilha sudanesa de Suakin para cercar a Arábia Saudita— nada disse.

De facto, a Turquia aceita perder em Idlib e no Sudão para ganhar contra os mercenários curdos pró-EUA. Apenas este último jogo é vital para ela. Terão sido necessários muitos debates para que se desse conta que não podia ganhar em todos os tabuleiros ao mesmo tempo e para que ela hierarquizasse as suas prioridades.

Os Estados Unidos contra o petróleo iraniano

Londres e Washington prosseguem a sua competição, encetada há setenta anos, para controlar o petróleo iraniano. Tal como na época de Mohammad Mossadegh, a Coroa britânica pensa decidir sozinha acerca do que acha que lhe caberá no Irão [9]. Enquanto isso Washington não quer que as suas guerras contra o Afeganistão e o Iraque tragam proveitos a Teerão (consequência da doutrina Rumsfeld/Cebrowski) e entende fixar o preço mundial da energia (doutrina Pompeo) [10].

Estas duas estratégias confluíram durante a tomada do petroleiro iraniano Grace 1 nas águas da colónia britânica de Gibraltar. O Irão, por sua vez, arrestou dois petroleiros britânicos no Estreito de Ormuz pretendendo —insulto supremo— que o principal transportava «petróleo de contrabando», quer dizer petróleo iraniano subsidiado comprado por Londres no mercado negro [11]. Assim que o novo Primeiro-ministro, Boris Johnson, percebeu que o seu país tinha ido longe demais, teve a «surpresa» de ver a justiça «independente» da sua colónia libertar o Grace 1. De imediato Washington emitiu um mandado para o apreender de novo.

Desde o início deste caso, os Europeus pagam os custos da política norte-americana e protestam, sem grandes consequências [12]. Só os Russos defendem, não o seu aliado iraniano, antes o Direito Internacional, tal como o têm feito a propósito da Síria [13], o que lhes permite manter uma linha política sempre coerente.

Neste dossiê, o Irão dá provas de uma grande tenacidade. Apesar da viragem clerical na eleição do Xeque Hassan Rohani, em 2013, o país reorienta-se para a política nacional do laico Mahmoud Ahmadinejad [14]. A sua instrumentalização das comunidades xiitas na Arábia Saudita, no Barém, no Iraque, no Líbano, na Síria, no Iémene poderá acabar por se tornar um simples apoio. Aqui ainda, foi graças às longas conversações de Astana que aquilo que é evidente para uns se acabou tornando também para os outros.

Conclusão

Com o tempo, os objectivos de cada protagonista se hierarquizam e as suas posições definem-se.

De acordo com a sua tradição, a diplomacia russa não busca, ao contrário dos Estados Unidos, redesenhar as fronteiras e as alianças. Ela tenta deslindar os objectivos contraditórios dos seus parceiros. Assim, ela ajudou o velho Império Otomano e o antigo Império Persa a afastarem-se da sua definição religiosa (os Irmãos Muçulmanos para o primeiro, o Xiismo para o segundo) e a regressar a uma definição nacional pós-imperial. Esta evolução é muitíssimo visível na Turquia, mas supõe uma mudança de chefias no Irão para ser realizada. Moscovo não busca «mudar os regimes», mas, apenas certos aspectos das mentalidades.


[1] Ver os parágrafos 3, 4, 5 e 10 da « Déclaration conjointe de la Russie, de l’Iran et de la Turquie relative à la Syrie », Réseau Voltaire, 2 août 2019, e compará-los com as declarações das reuniões precedentes.

[2] “Now is the moment for peace between Kurds and the Turkish state. Let’s not waste it”, by Cemil Bayik, Washington Post (United States) , Voltaire Network, 3 July 2019.

[3] “A Turquia não se alinhará nem com a OTAN, nem com a OTSC”, “A Turquia renuncia pela segunda vez ao Califado”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 6 & 13 de Agosto de 2019.

[4] “Os projectos de Curdistão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Setembro de 2016.

[5] “Exclusivo : Os projectos secretos de Israel e da Arábia Saudita”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2015.

[6] "إيران والإمارات توقعان اتفاقا للتعاون الحدودي", RT, 01/08/19.

[7] “Missile fired by Yemen rebels kills dozens of soldiers in port city of Aden”, Kareem Fahim & Ali Al-Mujahed, The Washington Post, August 1, 2019.

[8] “O derrube de Omar al-Bashir”, Thierry Meyssan; “O Sudão passou para o controle saudita”, “A Força de reacção rápida no Poder no Sudão”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 6, 23, 30 de Abril de 2019.

[9] “Face ao Irão, Londres defende as suas sobras do Império”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 26 de Julho de 2019.

[10] “A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Março de 2019. “Advancing the U.S. Maximum Pressure Campaign On Iran” (Note: The graph was distributed with the text !), Voltaire Network, 22 April 2019.

[11] “Reino Unido / Irão: «Grace 1» e «British Heritage»”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Julho de 2019.

[12] « Déclaration conjointe des chefs d’État et de gouvernement de France, d’Allemagne et du Royaume-Uni à propos de l’Iran », Réseau Voltaire, 14 juillet 2019.

[13] “Russian comment on the seizure of the Panama-flagged tanker by Gibraltar authorities ”, Voltaire Network, 5 July 2019.

[14] Como laico, nós pensamos que o muito místico Presidente Ahmadinejad queria separar as instituições religiosas e políticas e por fim à função platoniana do Guia da Revolução.



Ver original na 'Rede Voltaire'



'Será engolido pela ira': responsável iraniano adverte Israel de participar em plano dos EUA

Efetivos da Marinha de Israel durante treinamentos, foto de arquivo
© AP Photo / Ariel Schalit

O presidente do Parlamento iraniano, Hossein Amir Abdollahian, advertiu Israel sobre sua participação de uma coalizão naval que está sendo organizada pelos EUA.

Em seu Twitter, Amir Abdollahian afirmou que os israelenses sofrerão consequências se participarem da missão dos EUA e ainda aconselhou os Estados Unidos e seus aliados a abandonarem a ideia de sua campanha militar no Golfo Pérsico, argumentando que não trará paz e segurança à região, como afirmam.

"Se Israel entrar no estreito de Ormuz , será engolido pela ira da região e sua fumaça se levantará de Tel Aviv", disse ele.

"O Irã tem um papel vital na segurança do estreito de Ormuz. Qualquer coalizão militar liderada pelos EUA no estreito é uma repetição da ocupação do Iraque e do Afeganistão e uma escalada de insegurança na região", adicionou.

'Coalizão militar' no golfo Pérsico

As declarações do presidente do Parlamento vêm na esteira das advertências feitas pelo Ministério das Relações Exteriores do Irã em 9 de agosto. O porta-voz do ministério declarou nessa ocasião que o país consideraria a presença de qualquer coalizão militar externa no golfo Pérsico como uma "clara ameaça" e agiria em conformidade.

"No âmbito da política de dissuasão e defesa do país, a República Islâmica do Irã se reserva o direito de enfrentar esta ameaça e defender seu território", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Abbas Mousavi.

Os EUA anunciaram planos para organizar uma coalizão militar naval com vista a garantir a segurança da navegação através do estreito de Ormuz, importante via de exportação de petróleo, após os recentes ataques a seis petroleiros no Golfo. Os EUA atribuíram os ataques ao Irã, apesar de Teerã o ter negado.

Washington apelou a vários países para que se juntassem à coalizão, mas poucos concordaram, tendo a Alemanha e o Japão declinado a proposta.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019081014371165-sera-engolido-pela-ira-responsavel-iraniano-adverte-israel-de-participar-em-plano-dos-eua/

Israel pretende inflamar conflito ou até guerra entre países do golfo Pérsico, diz especialista

Destróier iraniano Jamaran no Golfo Pérsico (foto de arquivo)
© AFP 2019 / EBRAHIM NOUROZI

Irã advertiu Israel e os EUA quanto à formação de uma coalizão naval no golfo Pérsico liderada por Washington.

Na passada quinta-feira, o ministro da Defesa iraniano, Amir Hatami, disse que esta decisão teria "consequências desastrosas" para a região.

Hatami realizou conversas telefônicas com os seus homólogos do Kuwait, Omã e Qatar, instando-os a resistir às tentativas dos EUA de aumentar a presença norte-americana no golfo Pérsico.

Washington está tentando formar uma coalizão conhecida como Operação Sentinel, em meio às crescentes tensões, a fim de escoltar os petroleiros e proteger a navegação no estreito de Ormuz.

Seyed Hadi Borhani, professor na Universidade de Teerã e especialista em países do Oriente Médio, expressou sua opinião sobre a participação de Israel nesta coalizão.

"Israel não tem qualquer interesse no setor energético, ou em qualquer outro setor na região, ele [Israel] não tem nada aqui que possa proteger. No entanto, Israel persegue outros interesses. Penso que ele está buscando inflamar um conflito, ou até mesmo uma guerra, entre os países do Golfo tais como o Irã e a Arábia Saudita, disse Borhani.

Falando sobre a possível reação das autoridades iranianas às ações do Israel, o especialista salientou que Teerã encara isso como uma ameaça séria.

"Para o Irã, Israel é o inimigo principal e, se ele se aproximar da fronteira iraniana ou ameaçar os interesses de Teerã, as ações das autoridades iranianas serão rápidas e consequentes, o que resultará em uma pressão significativa sobre Israel. No fim, as autoridades iranianas irão determinar o rumo político em relação a Israel e farão tudo o que estiver ao seu alcance para impedi-lo de entrar na região", ressaltou o professor iraniano.

Esta semana, o ministro israelense das Relações Exteriores disse que seu país estava prestando assistência à ccoalizão naval liderada pelos EUA que está se formando no Oriente Médio , prestando vários tipos de apoio ao nível de informações.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019081014369662-israel-busca-inflamar-conflito-ou-ate-guerra-entre-paises-do-golfo-persico-diz-especialista/

“Sob os nossos olhos” (7/25)O Daesh realiza o sonho dos Irmãos Muçulmanos : o Califado

Concluímos a publicação da parte do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os nossos olhos), consagrada aos Irmãos Muçulmanos. Neste episódio, a Irmandade realiza com o Daesh (E.I.) o seu sonho de restabelecer o Califado. Este primeiro Estado terrorista consegue funcionar durante dois anos com a ajuda ocidental.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Daesh torna-se conhecido pelos seus actos de tortura e degolamentos em público.

14— O Daesh e o Califado

Inicialmente, os membros da Frente Al-Nusra(Alcaida na Síria) são Sírios que tinham ido combater no Iraque após a queda de Bagdade, em 2003. Eles voltam à Síria para participar na operação planificada contra a República, a qual será, em definitivo, adiada para o mês de Julho de 2012. Durante dois anos —até 2005—, eles beneficiaram da ajuda da Síria que os deixou circular livremente pensando que combatiam o invasor norte-americano. No entanto, ficou claro logo que que o General David Petraeus chegou ao Iraque que a sua real função seria a de combater os xiitas Iraquianos, para grande deleite dos ocupantes. Em Abril de 2013, o Emirado Islâmico no Iraque, do qual eles são oriundos, é reactivado sob o nome de Emirado Islâmico no Iraque e no Levante (ÉIIL). Os membros da Frente Al-Nusra, que se apropriaram de grandes porções da Síria, recusam então reintegrar a sua casa-mãe.

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John McCain na Síria ocupada. No primeiro plano, à direita, reconhece-se o director da Syrian Emergency Task Force. Na moldura da porta, ao centro, o porta-voz da Tempestade do Norte (Alcaida), Mohammad Nour. As famílias de reféns libaneses apresentarão queixa contra o «Senador» por cumplicidade em sequestro. Este garantirá que não conhecia Nour. Ele ter-se-ia infiltrado nesta tomada de foto oficial difundida pelo seu secretariado parlamentar.

Em Maio de 2013, uma associação sionista americana, a Syrian Emergency Task Force, organiza a viagem do Senador McCain à Síria ocupada. Lá, ele encontra diversos criminosos entre os quais Mohammad Nour, porta-voz da katiba (brigada) Tempestade do Norte (Alcaida), que tinha raptado e sequestrava 11 peregrinos xiitas libaneses em Azaz. Uma fotografia difundida pelo seu serviço de imprensa mostra-o numa grande conversa com os líderes do Exército Sírio Livre, entre os quais alguns também carregam o estandarte da Frente Al-Nusra. Surge a dúvida sobre a identidade de um deles. Eu escreverei em seguida que se trata do futuro Califa do Daesh (E.I.), o que o secretariado do Senador desmentirá formalmente [1]. Tendo o mesmo homem servido de tradutor aos jornalistas, a dúvida é permitida. O secretariado afirmará que a minha hipótese é absurda, já que o Daesh ameaçara de morte o Senador várias vezes . Pouco depois, John McCain afirma na televisão, sem receio de se contradizer, conhecer pessoalmente os dirigentes do Daesh e estar «em contacto permanente com eles». Embora o Senador não tenha nenhuma ilusão sobre os Islamistas, ele afirma ter tirado lições do Vietname e apoiá-los contra o «regime de Bashar» por necessidade estratégica. Ora, ele tinha, no entanto, antes do início dos acontecimentos na Síria, organizado o seu aprovisionamento em armas a partir do Líbano e escolhido a vila de Ersal como futura base de retaguarda das operações. Durante esta deslocação à Síria jiadista, ele avalia as condições de funcionamento futuro do Daesh.

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John McCain e o Estado-Maior do Exército sírio livre. No primeiro plano, à esquerda, o homem que jogará mais tarde o papel de «Califa Ibrahim» do Daesh (E.I.), com quem o Senador está em via de trocar impressões. Precisamente a seguir, o Brigadeiro-General Salim Idriss (com óculos). O «Califa» é um actor que jamais teve quaisquer funções de responsabilidade. Segundo John McCain, não se tratava do califa, mais de uma pessoa parecida. No entanto o Senador confessará em seguida estar «em contacto permanente» com o Daesh.

Em Dezembro de 2013, a Polícia e a Justiça turcas estabelecem que o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan recebe em segredo, desde há vários anos, Yasin Al-Qadi, o banqueiro da Alcaida. Fotografias provam que ele veio várias vezes, de avião particular, e foi recebido após as câmeras de vigilância do aeroporto terem sido desligadas. Anteriormente, Al-Qadi era (e é provavelmente ainda) amigo pessoal do Vice-presidente norte-americano Dick Cheney. Ele só foi removido da lista de pessoas procuradas pela ONU a 5 de Outubro de 2012 e pelo Departamento do Tesouro dos EUA a 26 de Novembro de 2014, mas vinha desde há muito mais tempo a encontrar-se com Erdoğan. Ele reconheceu ter sido responsável pelo financiamento da Legião Árabe de Bin Laden, na Bósnia-Herzegovina (1991-95), e ter financiado o presidente Alija Izetbegović. Segundo o FBI, teria igualmente jogado um papel central no financiamento dos atentados contra as embaixadas dos Estados Unidos na Tanzânia e no Quénia (1998). Sempre segundo o FBI, teria sido proprietário da empresa de informática Ptech (agora Go Agile), suposta de jogar um papel no terrorismo internacional.

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As câmaras de vigilância do aeroporto de Istambul surpreenderam Bilal Erdogan recebendo o tesoureiro da Alcaida, Yasin el-Kadi.

Pouco tempo depois, a polícia turca revista a sede do IHH e aí interpela Halis B., suspeito de ser o líder da Alcaida na Turquia e İbrahim. Ş., comandante-adjunto da organização para o Próximo-Oriente. Erdoğan acaba por conseguir despedir os polícias e manda libertar os suspeitos.

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No canal público saudita Al-Arabiya, um oficial do Daesh declara que a organização é dirigida pelo Príncipe Abdul Rahman Al-Faiçal

Em Janeiro de 2014, os Estados Unidos iniciam um vasto programa de desenvolvimento de uma organização jiadista, cujo nome não é comunicado. Três campos de treino são instalados na Turquia, em Şanlıurfa, Osmaniye e Karaman [2]. Chegam armas às carradas para o EIIL despertando a cobiça da Al-Nusra. Durante vários meses os dois grupos entregam-se a uma guerra sem quartel. A França e a Turquia que não compreenderam logo o que se prepara, enviam ao princípio munições para Al-Nusra (Alcaida) afim de que ela se apodere do espólio do EIIL. A Arábia Saudita reivindica o seu controlo sobre o EIIL, e indica que ele é agora dirigido pelo Príncipe Abdul Rahman al-Faiçal (irmão do Embaixador saudita nos Estados Unidos e do Ministro saudita dos Negócios Estrangeiros).

As coisas clarificam-se progressivamente: a Casa Branca convoca os Chefes dos Serviços Secretos da Arábia Saudita, da Jordânia, do Catar e da Turquia, em 18 de Fevereiro. A Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, anuncia-lhes que o Príncipe Bandar não recupera a sua saúde e que será substituído pelo Príncipe Mohammed bin Nayef na supervisão dos jiadistas. Mas, Nayef não tem autoridade natural sobre esta gente, o que aguça os apetites dos Turcos. Ela comunica-lhes o novo organigrama do Exército Sírio Livre e informa-os que Washington lhes vai confiar uma vasta operação secreta para remodelar as fronteiras. No início de Maio, Abdelhakim Belhaj (antigo quadro da Alcaida, governador militar de Trípoli na Líbia e fundador do Exército Sírio Livre) dirige-se a Paris para informar o governo francês dos planos EU-jiadistas e pôr fim à guerra que a França faz ao EIIL. Ele é, nomeadamente, recebido no Quai d’Orsay. De 27 de Maio a 1 de Junho, vários chefes jiadistas são convidados para consultas em Amã (Jordânia).

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Extracto do processo verbal da reunião presidida pela CIA em Amã, redigida pelos Serviços de Inteligência turcos (documento difundido pelo quotidiano curdo «Özgür Gündem», de 6 de Julho de 2014).

De acordo com a acta desta reunião, os combatentes sunitas serão agrupados sob a bandeira do EIIL. Eles irão receber armas ucranianas, às toneladas, e meios de transporte. Eles irão assumir o controle de uma vasta zona a cavalo sobre a Síria e o Iraque, principalmente no deserto, e aí proclamarão um Estado independente. A sua missão é, ao mesmo tempo, a de cortar a estrada Beirute-Damasco-Bagdade-Teerão e a de apagar as fronteiras franco-britânicas da Síria e do Iraque. O antigo Vice-presidente iraquiano Ezzat Ibrahim al-Duri, que é o Grão-mestre da Ordem dos Nachqbandis no seu país, anuncia que providencia 80.000 antigos soldados do exército de Saddam. A CIA confirma que 120.000 combatentes das tribos sunitas de Al-Anbar se juntarão ao EIIL à sua chegada, e lhe darão o armamento pesado que o Pentágono irá encaminhar para o terreno, oficialmente para o exército iraquiano. Masrour «Jomaa» Barzani, Chefe dos Serviços Secretos do Governo Regional curdo do Iraque, obtém luz verde para poder anexar os territórios contestados de Kirkuk assim que o EIIL anexar Al-Anbar. Não se compreende o significado da presença do Mulá Krekar, o qual cumpre uma pena de prisão na Noruega e que veio num avião especial da OTAN. Com efeito, desde há vários anos ele desempenha um papel importante na preparação ideológica dos islamistas para a proclamação do Califado. Mas este assunto não será abordado durante a reunião.

Na mesma altura, na Academia militar de West Point, o Presidente Barack Obama anuncia a retoma da «guerra ao terrorismo» e a afectação de um orçamento anual de 5 mil milhões de dólares. A Casa-Branca anunciará ulteriormente que este programa prevê, entre outras, a formação de 5. 400 rebeldes moderados por ano.

Em Junho, o Emirado Islâmico lança um ataque primeiro no Iraque, depois na Síria, e proclama um califado. Até então, o Daesh(EI) –-é assim que é chamado agora segundo o seu acrónimo árabe--- era suposto não ter mais que algumas centenas de combatentes, mas miraculosamente, de repente, ele dispõe de várias centenas de milhares de mercenários. As portas do Iraque são-lhe abertas pelos antigos oficiais de Saddam Hussein, que se vingam assim do Governo de Bagdade, e por oficias xiitas que emigram então para os Estados Unidos. O Daesh(E.I.) apropria-se de armas do exército iraquiano, que o Pentágono acaba de fornecer, e das reservas do Banco Central em Mossul. Simultaneamente, e de forma coordenada, o Governo Regional do Curdistão anexa Kirkuk e anuncia a realização de um referendo de autodeterminação. De maneira a evitar que jiadistas de grupos concorrentes ao Emirado Islâmico recuem para a Turquia, Ancara fecha a sua fronteira com a Síria.

Desde a a sua instalação, o Daesh coloca administradores civis formados em Fort Bragg (EUA), e dos quais alguns fizeram parte até há pouco da Administração americana do Iraque. Do dia para a noite, o Daesh dispõe da administração de um Estado na acepção do State building do exército norte-americano. É, evidentemente, uma transformação completa para aquilo que não passava, ainda há algumas semanas atrás, de um grupúsculo terrorista.

Quase tudo foi previsto antecipadamente. Assim, logo que o Daesh captura os aeroportos militares iraquianos, ele dispõe instantaneamente de pilotos de avião e de helicópteros aptos para combate. Não podem ser pilotos do antigo exército iraquiano, já que a capacidade operacional é considerada como perdida ao fim de 6 meses de interrupção de vôo. Mas, os planeadores esqueceram-se das equipes técnicas necessárias, de maneira que uma parte deste equipamento não poderá ser utilizado.

O Daesh dispõe de um serviço de comunicação, que parece sobretudo formado por especialistas do MI6, ao mesmo tempo encarregue, tanto de editar os seus jornais, como de encenar a violência de Alá. É uma outra mudança para os jiadistas. Até aqui, eles utilizavam a violência para aterrorizar as populações. Agora, eles vão amplificá-la afim de as chocar e de as hipnotizar. Notavelmente filmados e com estética apurada, os seus vídeos vão impressionar os espíritos e recrutar os amantes de snuff movies.

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John McCain e Abdelhakim Belhaj. No momento em que esta foto é tomada a Interpol procura Belhaj como o emir do Daesh no Magrebe.

O retumbante sucesso do Daesh (EI) leva os islamistas do mundo inteiro a virar-se para ele. Se a Alcaida era a sua referência na época de Osama bin Laden e dos seus sósias, o califa «Ibrahim» é o seu novo ídolo. Um a um, a maioria dos grupos jiadistas no mundo juram fidelidade ao Daesh. A 23 de Fevereiro de 2015, o Procurador-Geral do Egipto Hichem Baraket, dirige uma nota à Interpol afirmando que Abdelhakim Belhadj, Governador militar de Trípoli, é o chefe do Daesh para o conjunto do Magrebe.

O Daesh explora o petróleo iraquiano e sírio [3]. O crude é transportado quer por oleoduto, controlado pelo Governo Regional curdo do Iraque, ou por camiões-cisterna das empresas Serii e Sam Otomotiv através dos postos fronteiriços de Karkamış, Akcakale, Cilvegozu e Oncupınar. Uma parte do crude é refinada para consumo turco pela Turkish Petroleum Refineries co. (Tupraş) em Batman. É embarcado em Ceyhan, Mersin e Dortyol em navios da Palmali Shipping & Agency JSC, a companhia do bilionário turco-azeri Mubariz Gurbanoğlu. A maior parte do crude é transportada para Israel onde recebe falsos certificados de origem e, depois, é expedida para a Europa (entre outros para França, para Fos-sur-Mer, onde é refinado). O resto é enviado directamente para a Ucrânia. Este dispositivo é perfeitamente conhecido dos profissionais e evocado durante o Congresso Mundial de companhias petrolíferas (15-19 de Junho em Moscovo). Oradores asseguram que a Aramco (EUA/Arábia Saudita) organiza a distribuição do petróleo do Daesh na Europa, enquanto a Exxon-Mobil (a companhia dos Rockefeller que reina sobre o Catar) escoa o da Al-Nusra [4]. Alguns meses mais tarde, a representante da União Europeia no Iraque, a Embaixatriz Jana Hybaskova, confirmará, durante uma audição perante o Parlamento Europeu, que Estados-membros da União financiam o Daesh ao escoar o seu petróleo.

Num primeiro tempo, o Conselho de Segurança da ONU não chega a denunciar este tráfico, no máximo o seu Presidente lembra a proibição de comerciar com organizações terroristas. É preciso esperar por Fevereiro de 2015 para que seja votada a Resolução 2199. Mubariz Gurbanoğlu aposenta-se então e vende vários dos seus navios (os Mecid Aslanov, Begim Aslanova, Poet Qabil, Armada Breeze e o Shovket Alekperova) à BMZ Group Denizcilik ve İnşaat A.Ş., a companhia de navegação de Bilal Erdogan, filho do Presidente Recep Tayyip Erdoğan,que prossegue o tráfico. Só em Novembro de 2015, aquando da Cimeira do G20, em Antalya, é que Vladimir Putin acusa a Turquia de violar a Resolução da ONU e de comercializar o petróleo do Daesh (EI). Face às negativas do Presidente Erdoğan, o Chefe de operações do Exército russo, o General Sergueï Rudskoy, torna públicas, durante uma conferência de imprensa, as imagens de satélite dos 8.500 camiões-cisterna cruzando a fronteira turca. De imediato a aviação de combate russa destrói os camiões presentes na Síria, mas o essencial do tráfico continua via Curdistão iraquiano, sob a responsabilidade do Presidente Massoud Barzani. Em seguida obras são empreendidas para aumentar o terminal petroleiro «Yumurtalık» (ligado ao oleoduto turco-iraquiano Kirkuk-Ceyhan), cuja capacidade de armazenamento subiu para 1,7 milhões de toneladas.

Os camiões-cisterna pertencem todos a uma empresa que tinha obtido, sem qualquer concurso, o monopólio do transporte de petróleo em território turco, a Powertans. Ela é controlada pela muito secreta Grand Fortune Ventures, sediada em Singapura, depois transferida para as Ilhas Caimão. Por trás desta montagem esconde-se a Calık Holding, a companhia de Berat Albayrak, o genro do Presidente Erdoğan e seu Ministro da Energia [5].

O petróleo que transitou pelo pipeline curdo é identicamente comercializado. No entanto, quando o Governo Iraquiano denuncia quer a cumplicidade dos Barzani com o Daesh, como o roubo de bens públicos iraquianos, ao qual eles procedem em conjunto, Ancara simula surpresa. Erdoğan bloqueia então os ganhos dos Curdos iraquianos numa conta bancária turca, esperando que Irbil e Bagdade clarifiquem as suas posições. É claro, estando este dinheiro supostamente bloqueado, os proveitos gerados pelo seu investimento não são declarados no orçamento turco, antes são pagos ao AKP.

Em Setembro de 2014, o califa purga os quadros da sua organização. Os oficiais magrebinos em geral, e os tunisinos em particular, são acusados de desobediência, condenados à morte e executados. São substituídos por Tchechenos da Geórgia e Uigures chineses.

O oficial da Inteligência militar georgiana, Tarkhan Batirashvili, torna-se o braço direito do califa, sob o nome de «Abu Omar al-Chichani». Inocentemente, o Ministro Georgiano da Defesa e antigo chefe do «governo abecásio no exílio» (sic), Irakli Alasania, anuncia, na mesma altura, aprestar-se para abrigar campos de treino para jiadistas sírios no seu país.

Reagindo às atrocidades cometidas em grande escala e à execução de dois jornalistas norte-americanos, o Presidente Obama anuncia, a 13 de Setembro, a criação de uma Coligação anti-Daesh. Aquando da batalha de Kobane (Síria), os aviões da Força aérea dos EU fazem durar a brincadeira bombardeando em certos dias o Daesh e lançando-lhe de pára-quedas armas e munições noutros.

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Segundo a imprensa norte-americana, o Francês David Drugeon, oficial dos Serviços Secretos militares franceses, era o perito bombista do Daesh que formou Mohammed Merah e os irmãos Kouachi. O Ministério da Defesa francês desmente tê-lo empregado enquanto a imprensa dos EUA mantêm a sua asserção. Oportunamente, ele foi dado como desaparecido depois de um bombardeamento aliado.

A Coligação declara realizar uma operação contra um certo grupo Khorasan da Alcaida na Síria. Embora não haja nenhuma evidência da existência deste grupo, a imprensa americana diz que é dirigido por um perito em explosivos dos Serviços Secretos franceses em missão, David Drugeon, o que o Ministério francês da Defesa desmente. Subsequentemente, a imprensa norte-americana afirma que Drugeon formou, por conta dos Serviços Secretos franceses, Mohammed Mera (responsável pelos atentados de Toulouse e Montauban, em 2012) e os irmãos Kouachi (responsáveis pelo atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, em 2015).

Para aumentar os seus recursos, o Daesh cria impostos nos territórios que administra, impõe resgates de prisioneiros e trafica antiguidades. Esta última actividade é supervisionada por Abu Sayyaf al-Iraqi. As peças roubadas são encaminhadas para Gaziantep (Turquia). Elas são, ou expedidas directamente para colecionadores que as encomendaram através das empresas Şenocak Nakliyat, Devran Nakliyat, Karahan Nakliyat e Egemen Nakliyat, ou vendidas no mercado de Bakırcılar Carşısi [6].

Por outro lado, a máfia turca, dirigida pelo Primeiro-ministro Binali Yıldırım, instala fábricas de contrafacção no território do Emirado Islâmico e com elas inunda o mundo Ocidental.

Finalmente, quando o Presidente afegão Hamid Karzai deixa o Poder, ele retira o transporte do ópio e da heroína afegã aos Kosovares e passa-o para o Califado. Desde há muitos anos que a família do Presidente afegão —nomeadamente o seu irmão Ahmed Wali Karzai, até ao seu assassinato— reina sobre o principal cartel de ópio. Sob a proteção das Forças Armadas norte-americanas o Afeganistão produz 380 toneladas de heroína por ano, no total das 430 do mercado mundial. Este comércio teria trazido ao clã Karzai a soma de US $ 3 mil milhões de dólares em 2013. O Daesh (E.I.) é encarregado de transportar as drogas para a Europa através das suas filiais africanas e asiáticas.

15— A liquidação do Daesh

A 21 de Maio de 2017, o Presidente Donald Trump anuncia em Riade que os Estados Unidos renunciam a criar um «Sunnistão» (o Califado do Daesh), a cavalo sobre o Iraque e a Síria, e cessarão de apoiar o terrorismo internacional. Ele insta todos os Estados muçulmanos a fazer o mesmo. Este discurso foi cuidadosamente preparado com o Pentágono e o Príncipe Mohamed Bin Salman, mas não com Londres. Como boa obediente, a Arábia Saudita começa a desmantelar o gigantesco dispositivo de apoio aos Irmãos Muçulmanos que ela colocou em marcha nos últimos sessenta anos, o Reino Unido, o Catar, a Turquia e a Malásia recusam a mudança dos EUA.

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Tal como no Afeganistão o MI6 renomeara a «Frente unida islâmica para a salvação do Afeganistão» em «Aliança do Norte», afim de obter o apoio da opinião pública ocidental para estes «resistentes face aos Talibã», assim o MI6 renomeou no Mianmar o «Movimento para a Fé» em «Exército de libertação dos Rohingyas do Arakan». Nos dois casos, é preciso fazer desaparecer qualquer menção aos Irmãos Muçulmanos.

Em Agosto 2017, Londres lança O Exército de salvação dos Rohingyas do Arakan contra o governo birmanês. Durante um mês, a opinião pública internacional é inundada com informações truncadas atribuindo o êxodo dos Royinghas muçulmanos do Myanmar para Bengala à violência do Exército budista birmanês. Trata-se de lançar a segunda fase da guerra das civilizações : depois do ataque dos muçulmanos contra os cristãos, agora o dos budistas contra os muçulmanos. No entanto, a operação é interrompida assim que a Arábia Saudita cessa o seu apoio ao Exército de salvação dos Rohingyas, cuja sede era em Meca [7].

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Três dias antes dos atentados no Sri Lanka, o Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita envia um telegrama secreto à sua embaixada em Colombo. Insta-a a confinar, tanto quanto possível, todo o seu pessoal durante três dias e de o interditar, em absoluto, de frequentar os locais que serão destruídos pelos atentados (fonte : Alahed News).

No fim, os Estados Unidos, o Irão e o Iraque liquidam o Daesh (E.I.) no Iraque, enquanto que a Síria e a Rússia o caçam na Síria.

A terminar, uma grande operação é organizada pelo Daesh(EI) no Sri Lanka por ocasião da festa cristã da Páscoa, a 21 de Abril de 2019, matando 258 pessoas e ferindo 496.

A restauração do califado, imaginada em 1928 por Hassan el-Banna, havia sido tentada pelo Presidente Anuar al-Sadate para seu proveito pessoal, o que lhe custou a vida. Ela foi finalmente realizada pelo Daesh(EI), mas saldou-se por um fiasco. A resistência das populações árabes foi muito forte e a oposição do Presidente Trump não permitiu prosseguir a experiência. Não é possível de momento saber se o Emirado Islâmico tinha mandato do Guia para se proclamar em Califado ou se ele se aproveitou do seu apoio ocidental para o fazer. Seja como for, os jiadistas não vão desistir.

(Continua …)


[1] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.

[2] “Israeli general says al Qaeda’s Syria fighters set up in Turkey”, Dan Williams, Reuters, January 29, 2014.

[3] Documento ONU S / 2016/94. «Información sobre el comercio ilegal de hidrocarburos por el Estado Islámico en el Iraq y el Levante (EIIL)», Red Voltaire , 29 de enero de 2016.

[4] “Jihadismo e indústria petrolífera”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 23 de Junho de 2014.

[5] “Hacked Emails Link Turkish Minister to Illicit Oil”, Ahmed Yayla, World Policy, October 17, 2016.

[6] Documento ONU S/2016/298. «Informe de la inteligencia de Rusia sobre el tráfico de antigüedades de Daesh», Red Voltaire , 8 de marzo de 2016.

[7] “O islão político contra a China”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Outubro de 2017.



Ver original na 'Rede Voltaire'



“Sob os nossos olhos” (6/25)Primeiros reveses dos Irmãos Muçulmanos

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os Nossos Olhos). A sorte dos acontecimentos dá uma volta neste episódio. O Presidente Americano-Egípcio Mohamed Morsi é derrubado no seguimento de manifestações monstras, enquanto que a tomada de Damas falha.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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Apesar dos 40. 000 homens envolvidos, os Irmãos Muçulmanos não conseguem tomar a capital síria. Longe de apoiar os «libertadores», a população resiste e a operação é um fiasco.

11— A «Primavera Árabe» na Síria

Desde 4 de Fevereiro, dia da abertura da reunião do Cairo, a coordenação da «Primavera Árabe» na Síria é assegurada pela conta de Facebook Syrian Revolution 2011. O enunciado é suficiente para compreender que a operação deveria derrubar rapidamente a República Árabe Síria, tal como foi o caso com outras «revoluções coloridas» uma vez que o objectivo não é mudar as mentalidades, mas unicamente as equipas dirigentes e algumas leis do país. No próprio dia da sua criação, a conta Syrian Revolution 2011 lança um apelo para manifestações em Damasco, que é difundida pela Al-Jazeera, enquanto o Facebook lhe cola dezenas de milhares de «Followers»(«Seguidores»-ndt). Pura magia de informática. Esta conta jogará um papel central durante os próximos cinco anos. Ela irá dedicar cada uma das sextas-feiras, dia de oração dos muçulmanos, a um objectivo dos Irmãos.

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O deputado harirista Okab Sakr

A 22 de Fevereiro, John McCain está no Líbano. Ele encontra-se com diversos dirigentes da Coligação pró-saudita do 14-Março, entre os quais o deputado Okab Sakr, a quem ele confia o encaminhar das armas para os Islamistas que atacam na Síria [1]. Depois, deixa Beirute e vai inspeccionar a fronteira Síria. Ele escolhe a aldeia de Ersal como futura base de operações.

Apesar dos apelos da misteriosa conta Syrian Revolution 2011, é preciso esperar até ao meio de Março para que as movimentações arranquem na Síria. Os Irmãos agrupam em Daraa, uma cidade do Sul reputada como muito Baathista, antigos jiadistas do Afeganistão e do Iraque. Eles desviam uma manifestação de funcionários que exigia um aumento dos seus salários e iniciam um saque ao Palácio da Justiça. No mesmo dia, enquadrados por agentes da Mossad, atacam um centro dos Serviços Secretos, situado fora da cidade, e exclusivamente utilizado para vigiar a actividade israelita no Golã ocupado.

Dando conta do acontecimento, a Al-Jazeera garante que os habitantes de Daraa protestam após a polícia ter torturado crianças que tinham tatuado slogans hostis ao Presidente Assad. A confusão reina enquanto os vândalos continuam a destruição do centro da cidade. Durante as semanas seguintes três grupos de Islamitas circulam no país atacando alvos secundários, mal defendidos. A impressão de agitação generaliza-se por todo o país, embora os distúrbios só atinjam três locais distintos ao mesmo tempo. Em algumas semanas, contam-se mais de 100 mortos, principalmente polícias e militares.

O Presidente Assad reage ao contrário do que se espera dele : longe de impor um Patriot Act local, ele revoga o estado de emergência que continuava em vigor —a Síria continua em estado de guerra contra Israel que ocupa o planalto do Golã— e dissolve o Tribunal de Segurança do Estado. Faz votar uma lei garantindo e regulando o direito de manifestação, denuncia um complô conduzido a partir do estrangeiro e apela ao Povo para apoiar as Instituições. Reúne os Chefes de Estado-Maior e interdita que os soldados façam uso das suas armas se existir risco de colateralmente matar civis.

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O Guia dos Irmãos Muçulmanos sírios, Ali Sadreddine al-Bayanouni (refugiado em Londres), faz aliança com o antigo Vice-presidente sírio Abdel Halim Khaddam (refugiado em Paris). Este último havia fugido do seu país quando se descobriu a maneira como ele cobria, junto com o Chefe dos Serviços de Inteligência Ghazi Kanaan, a pilhagem do Líbano pelo saudita Rafic Hariri.

Tomando o Presidente à letra, os Irmãos atacam um comboio militar em Banias (a cidade do antigo Vice-presidente Abdul Halim Khaddam) durante várias horas, à vista da população. Com medo de ferir os espectadores, os soldados obedecendo ao seu Presidente não fazem uso das suas armas. Uma dezena dentre eles são mortos. O Sargento que comanda o destacamento perde as duas pernas ao abafar com o seu corpo uma granada para que esta não mate os seus homens. A operação é organizada a partir de Paris pela Frente de Salvação de Khaddam e pelos Irmãos Muçulmanos. A 6 de Junho, são 120 polícias que são mortos numa situação idêntica em Jisr al-Shughur.

Manifestações hostis à República Árabe Síria acontecem em várias cidades. Contrariamente à ideia que repercutem os média ocidentais, jamais os manifestantes exigem Democracia. Os slogans mais gritados são: «O Povo quer a queda do regime», «Os cristãos para Beirute, os alauítas para o caixão», «Queremos um presidente que tema a Deus», «Abaixo o Irão e o Hezbolla». Vários outros slogans evocam a «liberdade», mas não no sentido ocidental. Os manifestantes exigem é a liberdade de aplicar a Charia.

Naquela altura, as pessoas só consideram como fonte credível de informação a Al-Jazeera e a Al-Arabiya que apoiaram as mudanças de regime na Tunísia e no Egipto. Elas são pois persuadidas que na Síria, também, o Presidente vai abdicar e os Irmãos Muçulmanos vão chegar ao Poder. A grande maioria dos Sírios assiste ao que pensa ser uma «revolução» e prepara-se para uma viragem islamista. É muito difícil quantificar o número de Sírios que se manifestam contra a República ou que apoiam os Irmãos Muçulmanos. Quando muito pode-se constatar que centenas de pequenas manifestações ocorrem no país e que a mais importante reuniu cerca de 100.000 pessoas em Hama. Os seus organizadores são recebidos pelo Presidente Assad em Damasco. Quando ele lhes pergunta quais são as suas reivindicações, eles respondem-lhe «interdição de acesso dos alauítas a Hama». Estupefacto, o Presidente —ele próprio um alauíta— põe fim à reunião.

A 4 de Julho em Paris, os Irmãos e o governo Israelita organizam, na sombra, uma reunião pública para mobilizar a classe dirigente francesa. Respondendo ao apelo do «filósofo» Bernard-Henry e dos antigos e futuros Ministros dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, e Laurent Fabius, deputados de direita, do centro, de esquerda e ecologistas dão o seu apoio ao que lhes é apresentado como uma luta pela democracia. Ninguém assinala a presença na sala dos verdadeiros organizadores: Alex Goldfarb (conselheiro do ministro israelita da Defesa) e Melhem Droubi (responsável mundial das Relações externas da Irmandade, vindo especialmente da Arábia Saudita).

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Burhan Ghalioun deixa a Síria aos 24 anos e prossegue uma carreira de universitário em Paris. Paralelamente, com a ajuda da NED, ele cria a Organização árabe dos direitos do homem, em 1983, na Tunísia. Quando o Argelino Abassa Madani (da Frente Islâmica de Salvação) parte para o exílio no Catar, este laico ajuda-o a escrever os seus discursos. Em Junho de 2011, ele participa na Conferência para a Salvação Nacional dos Irmãos Muçulmanos e, sob proposta dos Estados Unidos, é eleito no mês seguinte para a presidência do Conselho Nacional Sírio (CNS). Desde logo, fica a receber um salário do Departamento de Estado por «representar o Povo Sírio».

Em Agosto, um Conselho Nacional Sírio é constituído em Istambul, copiando o modelo do Conselho Nacional de Transição Líbio. Ele reúne personalidades a viver desde há anos fora da Síria, uns poucos tendo acabado de sair do país, e Irmãos Muçulmanos. A estranha ideia de que este grupo procura estabelecer uma «democracia» parece ser validada pela presença de personalidades da extrema-esquerda, como o professor Burhan Ghalioun, o qual é catapultado a presidente. Ora, eis que ele há anos trabalha com a NED e os Irmãos Muçulmanos. Muito embora seja laico, escreveu, entre outros, os discursos de Abassi Madani (o presidente da Frente Islâmica da Salvação Argelina) desde que ele se exilou no Catar. É igualmente o caso de George Sabra e Michel Kilo, que trabalham, esses, com os Irmãos desde há mais de trinta anos e que seguiram os trotskistas norte-americanos para a NED, em 1982. Sob a liderança do Líbio Mahmoud Jibril, Sabra trabalhou, nomeadamente, no programa infantil Rua Sésamo, produzido pela francesa Lagardère Media e pela catariana Al-Jazeera, com Cheryl Benard, esposa do Embaixador dos EUA na ONU, e depois no Iraque, Zalmay Khalilzad. Ou, ainda Haytham Manna, o gestor de investimentos dos Irmãos sudaneses.

O Catar compra à OLP a Presidência rotativa da Liga Árabe por US $ 400 milhões de dólares. Violando os estatutos, consegue então fazer suspender a República Árabe Síria, portanto um dos membros fundadores da organização. Em seguida, propõe uma missão de observação no terreno presidida pelo Sudão (sempre governado pelos Irmãos). Este designa o antigo chefe dos Serviços Secretos e antigo embaixador no Catar, o General Mohammed Ahmed Mustafa al-Dabi, para chefiar a missão. Cada Estado-membro envia observadores, de maneira a representar todas as tendências. A República Árabe Síria concorda em receber a Liga e deixa a Missão instalar-se em todo o seu território. É a primeira e única vez que um órgão pluralista vai ao terreno, se encontra com todos os actores, e visita todo o país. É, na realidade, a única fonte externa digna de fé durante todo o conflito.

A nomeação do general Al-Dabi é saudada unanimemente por todas as partes. O homem negociou a separação do Sudão e do Sudão do Sul e é proposto por numerosos Estados árabes para o Prémio Nobel da Paz. No entanto, resulta da leitura dos relatórios preliminares que o Sudanês não pretende escrever o relatório do costume, mas, antes conduzir uma autêntica observação pluralista. Bruscamente, os média internacionais mudam de tom e acusam-no de ter sido um genocida no Darfur. Todos aqueles que tinham aprovado a sua designação exigem, agora, a sua demissão. O General atira-se ao ar.

Finalmente, um relatório intercalar é publicado atestando que não há revolução na Síria. A Missão confirma que os conflitos foram consideravelmente exagerados, que o Exército se retirou das cidades, que não há repressão, que as vítimas são principalmente soldados e policias, que mais de 5. 000 presos, dos quais ela transmitiu os nomes às autoridades, foram libertados, e que os média estrangeiros que o solicitaram puderam cobrir os acontecimentos. O Catar fica enraivecido e atira 2 mil milhões de dólares ao Sudão para que chame o General Al-Dabi de volta. E, opõe-se a que a Liga lhe designe um sucessor. Privada de chefe, a Missão é dissolvida no início de 2012.

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O jovem Abou Saleh torna-se correspondente permanente da France 24 e da Al-Jazeera no Emirado islâmico de Baba Amr (em Homs). Ele encena o bombardeamento imaginário do bairro durante dois meses pelas «forças do regime», participa na condenação à morte de 150 habitantes do bairro, dirige-se como se estivesse moribundo aos seus espectadores (foto), depois subitamente voltando à vida mete fogo a um "pipe-line", etc. Foge para Paris assim que o Emirado caí e irá reaparecer ulteriormente em Idlib.

Furiosos por ver a República Árabe Síria escapar incólume, os Irmãos decidem criar um Emirado Islâmico. Após várias tentativas, será num bairro novo de Homs, Baba Amr, onde foram previamente escavados e preparados túneis para assegurar o aprovisionamento em caso de cerco, que 3. 000 combatentes se concentram, entre os quais 2. 000 taqfiristas sírios. Estes, são os membros de um sub-grupo da Confraria, «Excommunicação e imigração», criado sob Sadate.

Eles montam um «Tribunal Revolucionário», julgam e condenam à morte mais de 150 habitantes locais que são degolados em público. Os habitantes fogem, à excepção de umas 40 famílias. Os taqfiristas erguem barricadas em todos os acessos ao bairro que as Forças Especiais francesas fortificam com material pesado. A campanha terrorista do primeiro ano evolui para uma guerra de posições, de acordo com o plano estabelecido, em 2004, na obra La Gestion de la barbarie. Agora, os Islamistas recebem da OTAN um armamento mais sofisticado que os Sírios, cujo exército está sob embargo desde 2005.

Uma manhã, o Exército Árabe Sírio entra em Baba Amr, cujas defesas foram desactivadas. Os Franceses, os jornalistas e alguns líderes fugiram e reaparecem alguns dias mais tarde no Líbano. Os taqfiristas rendem-se. A guerra que arrancava parece chegar ao seu fim, tal como no Líbano em 2007, aquando da vitória do Exército libanês sobre a Fatah al-Islam. Mas, os islamistas ainda não desistiram.

Uma nova operação está em preparação a partir da Jordânia, sob comando da OTAN. Ela prevê o ataque a Damasco no contexto de uma gigantesca operação psicológica. Mas é anulada à última hora. Os Islamistas, que foram abandonados pela França em Baba Amr, acabam de ser desconvocados pelos Estados Unidos. Estes últimos discutem uma possível partilha do Médio-Oriente com a Rússia. Uma promessa de paz é assinada em Genebra, a 30 de Junho de 2012.

12— O fim da «Primavera Árabe» no Egipto

No Egipto, a nova assembleia é dominada pelos Irmãos. Ela considera que a nova Constituição —que foi redigida para permitir a sua eleição—, não faz mais que retomar um texto antigo, com ligeiras emendas, muito embora tenha sido aprovada a 77% em referendo. Ela designa, pois, uma Assembleia Constituinte de 100 membros, dos quais desta vez 60 são Irmãos.

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Assim que o Presidente Mubarak é forçado por Washington a demitir-se, o Xeque Youssef Al-Qaradâwî regressa do Catar ao seu país em avião privado. Administrador do Centro de Oxford para os estudos islâmicos, presidido pelo Príncipe Charles, e Conselheiro espiritual na Al-Jazeera, anima uma emissão semanal sobre a Charia. Na praça Tahrir, ele aparece para rejeitar a democracia e defender a execução dos homossexuais.

Os Irmãos sublinham que os jovens democratas poderiam pôr em causa o Poder do exército. A sua campanha para a eleição presidencial é a ocasião de apelar à regeneração do país pelo Corão. Yussef al-Qaradâwî prega que é mais importante lutar contra os homossexuais e recuperar a Fé que combater contra Israel pelo reconhecimento dos direitos do Povo palestino [2]. Enquanto a abstenção dos sunitas é maciça, a Irmandade impede a realização das eleições nas cidades e aldeias cristãs, de modo que 600.000 eleitores não podem votar.

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A Comissão eleitoral presidencial «confirma Mohamed Morsi como presidente do Egipto, de maneira a prevenir um destino sangrento para o país se [ela proclamasse] a eleição do General Ahmed Shafiq».

Entretanto, os resultados das urnas dão o General Ahmed Chafik, antigo Primeiro-ministro de Mubarak, vencedor com uma ligeira vantagem de 30. 000 votos. A Irmandade ameaça então os membros da Comissão Eleitoral e as suas famílias, até que esta se decide, após 13 dias, a proclamar a vitória do Irmão Mohamed Morsi [3]. Fechando os olhos, a «comunidade internacional» congratula-se com o carácter «democrático» da eleição.

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Conferência de imprensa na sede dos Irmãos Muçulmanos com o Guia mundial da Irmandade e o Presidente Mohamed Morsi.

Mohamed Morsi é um engenheiro da NASA. Ele tem cidadania norte-americana e dispõe da autorização Segredo-de-Defesa do Pentágono. Desde a sua chegada ao Poder, começa a reabilitar e a favorecer o seu clã, e a reforçar os laços com Israel. Recebe no Palácio presidencial os assassinos do Presidente Sadate para o aniversário da sua execução. Nomeia Adel Mohammed al-Khayat, um dos chefes do Gamaa Al-Islamiya, (o grupo responsável do massacre de Luxor, em 1997), governador desse distrito. Persegue os democratas que se haviam manifestado contra certos aspectos da política de Hosni Mubarak (mas não pela sua demissão). Apoia uma vasta campanha de pogroms dos Irmãos Muçulmanos contra os Cristãos, e encobre os seus abusos: linchamentos, saque dos arcebispados, incêndios das igrejas. Simultaneamente, privatiza as grandes empresas e anuncia a possível venda do canal de Suez ao Catar, o qual apadrinha então a Irmandade. A partir do palácio presidencial, ele liga por telefone pelo menos quatro vezes a Ayman al-Zawahiri, o Chefe mundial da Alcaida. Em resumo, reúne a unanimidade contra si. Todos os partidos políticos, incluídos os salafistas (excepto, claro, a Irmandade) se manifestam contra ele. São 33 milhões a tomar conta das ruas e a apelar ao Exército para devolver o país ao Povo. Insensível ao grito da rua, o Presidente Morsi ordena ao Exército para se preparar para atacar a República Árabe Síria, afim de ir ajudar os Irmãos Muçulmanos sírios. Esta será a gota de água.

A 3 de Julho de 2013, à hora de fecho dos escritórios em Washington para o fim de semana do Dia Nacional, o Exército dá um Golpe de Estado. Mohamed Morsi é preso, enquanto as ruas se transformam em campo de batalha entre os Irmãos e suas famílias, de um lado, e as forças da Ordem do outro.

13— A Guerra contra a Síria

«Em política, as promessas apenas comprometem aqueles que nelas acreditam», diz-se. Um mês após a Conferência de Genebra e a assinatura da paz, e alguns dias após a Conferência dos «Amigos da Síria» em Paris, é novamente lançada a guerra. Não se tratará de uma acção da OTAN assistida pelos seus ajudantes jiadistas, mas, sim, unicamente de um ataque jiadista, apoiado pela OTAN. O seu nome de código : «Vulcão de Damasco e Terremoto na Síria»

Sumariamente treinados na Jordânia, 40.000 homens cruzam a fronteira e dirigem-se para a capital síria, enquanto um atentado mata os participantes de uma reunião do Conselho Nacional de Segurança. O Exército e os Serviços secretos são decapitados. Ainda hoje em dia, é difícil dizer se um kamikaze colocou uma bomba no lustre da sala ou se um drone atirou um míssil ao edifício. O Exército e os Serviços Secretos continuam decapitados.

Os jiadistas são mercenários que foram recrutados entre os pobres do mundo muçulmano. Muitos não falam árabe e tiveram um treino militar de apenas uma semana. Alguns acreditam que vêm combater contra os israelitas. Sofrem baixas consideráveis e retiram.

A longa guerra que se segue opõe um Exército Árabe Sírio que tenta proteger a sua população, e para isso deve recuar para as grandes cidades, a jiadistas que buscam tornar a vida impossível em vastos espaços. Estes combatentes são substituíveis até ao infinito. Todos os meses, chegam novos recrutas que substituem os mortos ou os desertores. Num primeiro tempo, todos os malandros do mundo muçulmano vêm tentar a sua sorte por algumas centenas de dólares ao mês. Escritórios de recrutamento são abertos publicamente em países como a Tunísia ou o Afeganistão, enquanto agem com mais discrição em outros países, como em Marrocos ou no Paquistão. No entanto, as perdas de combatentes são extremamente altas. Em Julho de 2013, de acordo com a Interpol, operações de evasão muito sofisticadas são montadas em nove Países para fazer escapar chefes islamistas e transferi-los para a Síria. Por exemplo:

- a 23 de Julho, 500 à 1. 000 presos evadem-se das prisões de Taj e de Abu Graïb (Iraque).
- a 27 de Julho , 1. 117 presos evadem-se da prisão de Kouafia (zona de Bengazi, Líbia) no seguimento de um motim interno combinado com um ataque externo.
- na noite de 29 para 30 de Julho, 243 Talibã evadem-se da prisão de Dera Ismaïl Khan (zonas tribais paquistanesas).

O Exército Árabe Sírio queima a maioria dos corpos de combatentes, mas conserva aqueles que consegue identificar. Eles são devolvidos às suas famílias. Vários Estados organizam discretamente canais de repatriamento, como por exemplo a Argélia com a Fundação Abdelkader. No entanto, o Exército Árabe Sírio guarda até hoje mais de 30.000 cadáveres identificados, mas não reclamados.

Os Estados ocidentais que, no início, tinham enviado Forças Especiais para o terreno, recrutando-as entre os seus soldados com dupla nacionalidade, geralmente muçulmanos originários do Magrebe, organizam os seus próprios canais de recrutamento de jiadistas. Assim, em França uma rede é estabelecida entre as prisões e as mesquitas salafistas. Esses poucos milhares de indivíduos juntam-se às dezenas de milhares vindos do «Médio-Oriente Alargado». Embora se ignore quantas pessoas irão participar nesta guerra, estima-se que o total de jiadistas combatendo, ao mesmo tempo, na Síria e no Iraque, locais e estrangeiros, desde 2011, ultrapassa os 350. 000. É um número superior ao de qualquer Exército regular da União Europeia e duas vezes maior que o Exército Árabe Sírio no fim da guerra.

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Nas ondas da televisão saudita al-Safa, o Xeque sírio Adnan Al-Arour apela ao massacre dos Alauítas. Ele irá tornar-se a referência religiosa do Exército sírio livre.

A unidade ideológica dos jiadistas é assegurada pelo «chefe espiritual do Exército Sírio Livre», o Xeque Adnan al-Aroor. Este personagem colorido atinge um público vasto, a cada semana, durante o seu programa de TV. Ele inflama paixões apelando ao derrube do tirano e defende uma visão patriarcal autoritária da sociedade. Progressivamente, deriva para apelos sectários ao massacre de Cristãos e de Alauítas. Oficial subalterno no Exército Árabe Sírio, foi preso depois de ter violado jovens recrutas. Fugiu então para a Arábia Saudita, onde se tornou xeque ao serviço de Alá.

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Reunião no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, a 13 de Junho de 2013, na Casa Branca. Reconhece-se Gayle Smith (segundo à direita) e o Irmão Rashad Hussain (quarto à esquerda). O Conselheiro de Segurança Nacional, Tom Donilon, participava igualmente na reunião, mas não aparece na foto. Sobretudo, vemos o representante dos Irmãos Muçulmanos e adjunto de Youssef al-Qaradâwî, o Xeque Abdallah Bin Bayyah (segundo à esquerda com o turbante).

Os jiadistas recebem em geral um armamento básico e dispõem de uma quantidade ilimitada de munições. Estão organizados em katibas, pequenas unidades de algumas centenas de homens cujos chefes recebem armamento ultra-sofisticado, nomeadamente maletas de comunicação permitindo-lhes receber, em directo, imagens de satélite dos movimentos do Exército Árabe Sírio. É, portanto, um combate assimétrico com o Exército Árabe Sírio que está realmente muito melhor treinado, mas cujas armas são todas anteriores a 2005 e que não dispõe de informações por satélite.

Contrariamente ao Exército Árabe Sírio, em que todas as unidades são coordenadas e colocadas sob a autoridade do Presidente Bachar Al-Assad, as katibas jiadistas não param de se atacar entre elas, como em todos os campos de batalha onde rivalizam «senhores de guerra». Todos, no entanto, recebem os seus reforços, armas, munições e informações, a partir de um Estado-maior único ao qual eles estão pois obrigados a obedecer. No entanto, os Estados Unidos têm a maior dificuldade em fazer funcionar este sistema porque inúmeros actores entendem executar operações às escondidas dos outros aliados, por exemplo os Franceses à revelia dos Britânicos, ou ainda os Catarianos em detrimento dos Sauditas.

Assim que um território é evacuado pelo Exército Árabe Sírio, os jiadistas que o ocupam “enterram-se” nele. Aí, eles constroem túneis e bunkers. Os Sauditas haviam enviado o bilionário Osama Bin Laden para o Afeganistão porque era um especialista em obras públicas. Ele supervisionara a construção de túneis nas montanhas –-ou mais exactamente o alargamento de rios subterrâneos---. Desta vez, os engenheiros da engenharia civil da OTAN vêm supervisionar a construção de linhas de defesa gigantescas.

(Continua…)


[1] « Un député libanais dirige le trafic d’armes vers la Syrie », Réseau Voltaire, 5 décembre 2012.

[2] Global Mufti: The Phenomenon of Yusuf Al-Qaradawi, Bettina Graf & Jakob Skovgaard-Petersen, Hurst (1999); Hamas and Ideology. Sheikh Yūsuf al-Qaraḍāwī on the Jews, Zionism and Israel, Shaul Bartal and Nesya Rubinstein-Shemer, Routledge (2018).

[3] “A Comissão Eleitoral das presidenciais Egípcias cede à chantagem da Irmandade Muçulmana”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2016.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Os Irmãos Muçulmanos membros do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca

 
 
Thierry Meyssan*
 
Nós prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os Nossos Olhos). Neste episódio, ele regressa ao primeiro semestre de 2011 no decurso do qual, apoiados pelos Estados Unidos e o Reino Unido, os Irmãos Muçulmanos se aproximaram ou acederam ao Poder na Tunísia, no Egipto e na Líbia.
 
Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.  Ver o Índice dos assuntos.
 
7— O início das «Primaveras Árabes» na Tunísia
 
A 12 de Agosto de 2010, o Presidente Barack Obama assina a directiva presidencial de Segurança n° 11 (PSD-11). Ele informa todas as suas embaixadas no Médio-Oriente Alargado para se prepararem para «mudanças de regime» [1]. Ele nomeia Irmãos Muçulmanos para o Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos a fim de coordenarem a acção secreta no terreno. Washington vai colocar em acção o plano britânico da «Primavera Árabe». Para a Irmandade, chegou o momento de glória.
 
A 17 de Dezembro de 2010, um comerciante ambulante, «Mohamed» (Tarek) Bouazizi, imolou-se pelo fogo na Tunísia após a polícia ter apreendido a sua carroça. A Irmandade apropria-se do caso e faz circular boatos segundo os quais o jovem era um universitário no desemprego e que tinha sido esbofeteado por uma mulher-polícia. Imediatamente, os homens da National Endowment for Democracy (a NED, a falsa ONG dos serviços secretos dos cinco Estados anglo-saxónicos) pagam à família do falecido para que ela não revele a tramóia e semeiam a rebelião no país. Enquanto se sucedem as manifestações contra o desemprego e os abusos policiais, Washington pede ao Presidente Zine El-Abidine Ben Ali para deixar o país, ao mesmo tempo que o MI6 organiza a partir de Londres o retorno triunfal do Guia dos Irmãos, Rached Ghannouchi.
 
É a «Revolução de Jasmim» [2]. O esquema desta mudança de regime é copiado tanto do da partida do Xá do Irão, seguida do regresso do imã Khomeiny, como do das revoluções coloridas.
 
Rached Ghannouchi havia formado um ramo local dos Irmãos Muçulmanos e tentado um golpe de Estado em 1987. Detido e encarcerado várias vezes, ele exila-se no Sudão, onde beneficia do apoio de Hassan al-Turabi, depois na Turquia onde se aproxima de Recep Tayyip Erdoğan (então dirigente da Millî Görüş). Em 1993, obtêm asilo político no Londristão onde fica a residir com as suas duas mulheres e filhos menores.
 
Os Anglo-Saxónicos ajudam-no a melhorar a imagem do seu Partido, o Movimento de tendência islâmica renomeado Movimento da Renascença(«Ennahda»). Para acalmar os receios da população em relação à Irmandade, a NED chama os seus peões da extrema-esquerda. Moncef Marzouki, o Presidente da Comissão Árabe dos Direitos Humanos faz de caução moral.
 
Ele garante que os Irmãos mudaram muito e que se tornaram democratas. É eleito Presidente da Tunísia. Ghannouchi ganha as eleições legislativas e consegue formar um governo que vai de Dezembro de 2011 aAgosto de 2013. Nele introduziu outros peões da NED, como Ahmed Najib Chebbi, ex-maoísta, depois trotskista reconvertido por Washington. Seguindo o exemplo de Hassan al-Banna, Ghannouchi forma então paralelamente ao partido uma milícia, a Liga de Protecção da Revolução, que procede aos assassinatos políticos, entre os quais o do líder da oposição Chokri Belaïd.
 
No entanto, apesar de um incontestável apoio de uma parte da população tunisina aquando do seu regresso, cedo o Ennahda é colocado em minoria. Antes de deixar o Poder, Rached Ghannouchi faz votar leis fiscais visando arruinar, a prazo, a burguesia laica. Desta forma, ele espera transformar a sociologia do seu país e voltar rapidamente para a frente do palco político.
 
Em Maio de 2016, o Xº Congresso do Ennahda é encenado pela Innovative Communications & Strategies, uma empresa criada pelo MI6. Os comunicadores asseguram que o Partido se tornou «civilista» e separa as actividades políticas e religiosas. Mas esta evolução não tem qualquer ligação com o laicismo, simplesmente pede-se aos responsáveis para dividir as tarefas e não exercer, ao mesmo tempo, como eleito e como imã.
 
 
8— A «Primavera Árabe» no Egipto
 
A 25 de Janeiro de 2011, quer dizer uma semana após a fuga do Presidente Ben Ali, a festa nacional egípcia transforma-se em manifestação contra o Poder. Os protestos são enquadrados pelo dispositivo tradicional dos EUA de revoluções coloridas: Os Sérvios treinados por Gene Sharp (teórico da OTAN, especializado em mudanças de regime suaves, sem recurso à guerra [3]) e os homens da NED. Os seus livros e brochuras traduzidos em árabe, e incluindo instruções para as manifestações, são amplamente distribuídas desde o primeiro dia. A maior parte destes espiões serão ulteriormente presos, julgados, condenados e depois expulsos. Os manifestantes são sobretudo mobilizados pelos Irmãos Muçulmanos, os quais dispõem de um apoio de 15 a 20% no país, e pelo Kifaya(Basta!), um grupo criado por Gene Sharp. É a «Revolução do Lótus» [4]. Os protestos ocorrem principalmente no Cairo, na Praça Tahrir, e também em sete outras grandes cidades. No entanto, está-se muito longe da vaga revolucionária que sacudiu a Tunísia.
 
Desde o princípio, os Irmãos utilizam armas. Na Praça Tahrir, eles recolhem os seus feridos para uma mesquita totalmente equipada para lhes fornecer os primeiros socorros. Os canais de TV das petro-ditaduras catariana, Al-Jazeera, e saudita, Al-Arabiya, apelam ao derrube do regime e difundem em directo informações vitais. Os Estados Unidos trazem de volta o antigo Director da Agência de energia atómica, o prémio Nobel da Paz Mohamed El-Baradei, presidente da Associação Nacional para a mudança. El-Baradei foi homenageado por ter acalmado os ardores de Hans Blix, o qual denunciara, em nome da ONU, as mentiras da Administração Bush visando justificar a guerra contra o Iraque. Ele preside há mais de um ano a uma coligação criada no modelo da Declaração de Damasco: um texto razoável, signatários de todos os quadrantes, mais os Irmãos Muçulmanos cujo programa é, na realidade, totalmente oposto ao da plataforma.
 
Em última análise, a Irmandade é a primeira organização egípcia a apelar para o derrube do regime. As televisões de todos os Estados-membros da OTAN ou do Conselho de Cooperação do Golfo predizem a fuga do Presidente Hosni Mubarak. Enquanto o enviado especial do Presidente Obama, o embaixador Frank Wisner (o padrasto de Nicolas Sarkozy), simula primeiro apoiar Mubarak e depois alinha atrás da multidão e o pressiona a retirar-se. Finalmente, após duas semanas de tumultos e de uma manifestação reunindo 1 milhão de pessoas, Mubarak recebe ordem de Washigton para ceder e demite-se.
 
No entanto, os Estados Unidos entendem mudar a Constituição antes de colocar os Irmãos no Poder. O Poder permanece pois temporariamente nas mãos do exército. O Marechal Mohammed Hussein Tantawi preside o Comité Militar que administra os assuntos correntes. Ele nomeia uma Comissão constituinte de 7 membros, entre os quais 2 Irmãos Muçulmanos. É, aliás, um deles, o juiz Tareq Al-Bishri, quem preside aos trabalhos.
 
No entretanto, a Irmandade mantém manifestações todas as sexta-feiras à saída das mesquitas e dedica-se a linchamentos de cristãos coptas sem qualquer intervenção da polícia.
 
9— Nada de revolução colorida no Barém e no Iémene
 
Não tendo a cultura iemenita nenhuma relação com a da África do Norte, a não ser o uso comum da mesma língua, uma contestação significativa sacode desde há vários meses o Barém e o Iémene. A concomitância com os eventos da Tunísia e do Egipto arrisca baralhar os dados. O Barém hospeda a Vª Frota dos E.U.A e controla o tráfego marítimo no Golfo Pérsico, enquanto o Iémene controla com o Djibuti a entrada e saída do mar Vermelho e do Canal de Suez.
 
A dinastia reinante teme que a revolta popular derrube a monarquia e acusa, por reflexo, o Irão de a organizar. Com efeito, em 1981, um Aiatola(xiita) iraquiano tentou exportar a revolução do imã Khomeini e derrubar o regime fantoche colocado no Poder pelos Britânicos aquando da independência, em 1971.
 
O Secretário da Defesa, Robert Gates, dirige-se ao local e autoriza a Arábia Saudita a abafar estas genuínas revoluções à nascença. A repressão é dirigida pelo Príncipe Nayef. Ele pertence ao clã dos Sudeiris, tal como o Príncipe Bandar, embora Nayef seja seu primogénito e Bandar não passe do filho de uma escrava. A repartição de papéis entre os dois homens é clara: o tio mantém a Ordem reprimindo os movimentos populares, enquanto o sobrinho desestabiliza Estados através do terrorismo. O importante é distinguir muito bem os países nos quais eles operam [5].
 
 
10— A Primavera Árabe na Líbia
 
Se Washington previu o derrube das administrações aliadas de Ben Ali e de Mubarak sem recurso à guerra, a coisa vai ser diferente relativamente à Líbia e à Síria, governadas pelos revolucionários Kadhafi e Assad.
 
No início de Fevereiro, quando Mubarak ainda é Presidente do Egipto, a CIA organiza no Cairo o lançamento da continuação das operações. Uma reunião junta diversos actores, incluindo a NED (representada pelos senadores republicano John McCain e democrata Joe Liberman), a França (representada por Bernard-Henri Lévy) e os Irmãos Muçulmanos. A delegação líbia é dirigida pelo Irmão Mahmoud Jibril (o que formou os dirigentes do Golfo e reorganizou a Al-Jazeera). Ele entra na sala como número 2 do governo da Jamahiriya, mas sai como... chefe da oposição à «ditadura». Ele não voltará ao seu luxuoso gabinete de Trípoli, antes regressará a Bengazi, na Cirenaica. A delegação síria inclui Anas al-Abdeh (fundador do Observatório Sírio dos Direitos do Homem) e o seu irmão Malik al-Abdeh (director da Barada TV, uma televisão anti-síria financiada pela CIAe pelo Departamento de Estado). Washington dá instruções para o desencadear das guerras civis, tanto na Líbia como na Síria.
 
A 15 de Fevereiro, Fathi Terbil, advogado das famílias das vítimas do massacre na prisão de Abu Salim, em 1996, percorre a cidade de Bengazi garantindo que a prisão local está em chamas e apelando para a libertação dos presos. Ele é detido por pouco tempo e libertado no mesmo dia. No dia seguinte, a 16 de Fevereiro, sempre em Bengazi, desordeiros atacam três esquadras da Polícia, as instalações da Segurança Interna e as do Procurador. Defendendo o arsenal da Segurança Interna, a polícia mata 6 atacantes. Neste entretanto, em Al-Bayda, entre Bengazi e a fronteira egípcia, outros desordeiros atacam igualmente esquadras da Polícia e os serviços da Segurança Interna. Tomam o quartel Hussein Al-Jwaifi e a Base Aérea militar de Al- Abrag. Apoderam-se de uma grande quantidade de armas, dão uma tareia aos guardas e enforcam um soldado. Outros incidentes, menos espectaculares, ocorrem de forma coordenada em sete outras cidades [6].
 
Estes atacantes reivindicam-se do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL-Alcaida) [7]. São todos membros, ou antigos membros, dos Irmãos Muçulmanos. Dois dos seus chefes foram submetidos a uma lavagem de cérebro, em Guantánamo, segundo as técnicas dos Professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. No fim dos anos 90, o GICLtentou por quatro vezes assassinar Mouamar Kadhafi a pedido do MI6, e estabelecer uma guerrilha nas montanhas de Fezzan. Foi então tenazmente combatido pelo General Abdel Fattah Younés, que o forçou a abandonar o país. Ele figura desde os atentados de 2001 na lista das organizações terroristas estabelecida pelo Comité 1267 da ONU, mas dispõe de um escritório em Londres, sob a proteção do MI6.
 
O novo chefe do GICL, Abdelhakim Belhaj, que se batera no Afeganistão, ao lado de Osama Bin Laden, e no Iraque, havia sido detido na Malásia em 2004, depois transferido para uma prisão secreta da CIA na Tailândia, onde foi submetido ao soro da verdade e a tortura. No seguimento de um acordo entre os Estados Unidos e a Líbia foi reenviado para a Líbia, onde foi de novo torturado, mas, desta vez, por agentes britânicos na prisão de Abu Salim. Em 2007, o GICL e a Alcaida fundem-se. Entretanto, no quadro de negociações com os Estados Unidos, durante o período de 2008-10, Saif al-Islam Kaddafi tinha negociado uma trégua entre a Jamahiriya e o GICL (AlCaida). Este havia publicado um longo documento, Os Estudos Correctivos, no qual admite ter cometido um erro ao apelar para a jiade contra outros muçulmanos num país muçulmano. Em três vagas sucessivas, todos os membros da Alcaida foram amnistiados e libertados sob a exclusiva condição de renunciarem por escrito à violência. Em 1. 800 jiadistas, apenas uma centena recusa este acordo e prefere ficar na prisão. Após a sua libertação, Abdel Hakim Belhadj deixou a Líbia e instalou-se no Catar. Todos acabaram por conseguir regressar à Líbia sem despertar atenções,
 
A 17 de Fevereiro, os Irmãos organizam uma manifestação em Bengazi em memória dos 13 mortos ocorridos durante a manifestação contra o Consulado da Itália, em 2006. Segundo os organizadores, fora Muammar Kaddafi quem teria à época montado o caso das «caricaturas de Maomé» com a ajuda da Liga do Norte italiana. A manifestação degenera. Registam-se 14 mortos, entre os manifestantes e os polícias.
 
É o inicio da «revolução». Na realidade, os manifestantes não buscam derrubar a Jamahiriya, mas proclamar a independência da Cirenaica. Assim, em Bengazi, distribuem-se dezenas de milhar de bandeiras do rei Idris (1889-1983). A Líbia moderna agrupa três províncias do Império Otomano, que formam um país único apenas a partir de 1951. A Cirenaica foi governada de 1946 a1969 pela monarquia dos Senussi –-uma família wahhabita apoiada pelos Sauditas--- que acabou por estender o seu poder sobre toda a Líbia.
 
Muammar Kadhafi promete «fazer correr rios de sangue» para salvar a sua população dos Islamistas. Em Genebra, uma associação criada pela NED, a Liga Líbia dos Direitos do Homem, retira estas declarações do seu contexto e apresenta-as à imprensa ocidental como sendo ameaças contra o Povo Líbio. Ela garante que ele está a bombardear Tripoli. Na realidade, a Liga é uma espécie de concha vazia reunindo os futuros ministros do país após a invasão da OTAN.
 
A 21 de Fevereiro, o Xeque Youssef al-Qaradawi lança na Al-Jazeera uma fátua ordenando aos militares líbios que salvem o seu povo assassinando Muammar Kaddafi.
 
O Conselho de Segurança, baseando-se nos trabalhos do Conselho dos Direitos do Homem em Genebra —o qual ouviu a Liga e o Embaixador líbio— e a pedido do Conselho de Cooperação do Golfo, autoriza a utilização da força afim de proteger a população do ditador.
 
Quando o Pentágono lhe ordena para se coordenar com o GICL (Alcaida), o sangue do comandante do AfriCom, o General Carter Ham, ferve. Como podemos cooperar na Líbia com os indivíduos que combatemos no Iraque, e que mataram GI.s? Ele é imediatamente demitido das suas funções em favor do comandante da EuCom e da OTAN, o Almirante James Stavridis.
 
Intermezzo: A 1 de Maio de 2011, Barack Obama anuncia que, em Abbottabad (Paquistão), o comando 6 dos Navy Seals (tropa de fuzileiros- ndT) eliminou Osama bin Laden, do qual se estava sem novas credíveis desde há quase 10 anos. Este anúncio permite fechar o dossier Alcaida e renovar a imagem dos jiadistas para os refazer como aliados dos EUA, tal como nos bons velhos tempos das guerras do Afeganistão, Bósnia-Herzegovina, da Chechénia e do Kosovo. O corpo de «Bin Laden» é submerso em alto mar [9].
 
Durante seis meses, a linha da frente na Líbia permanece inalterada. O GICL controla Bengazi e proclama um Emirado islâmico em Derna, a cidade de onde a maioria dos seus membros são originários. Para aterrorizar os Líbios, rapta gente ao acaso. Mais tarde encontra-se os seus corpos desmembrados, os seus membros espalhados nas ruas. Sendo os jiadistas à partida pessoas normais, fazem-lhes tomar uma mistura de drogas naturais e sintéticas que lhes faz perder toda a razão. Podem pois, então, cometer atrocidades sem ter consciência das mesmas. Tendo a CIA subitamente necessidade de grandes quantidades de Captagon —um derivado de anfetaminas— solicita o Primeiro-ministro búlgaro, o chefe mafioso Boïko Borissov - o qual presidirá o Conselho Europeu em 2018. 
 
Este é um antigo guarda costas que se juntou à Security Insurance Company, uma das duas grandes organizações mafiosas dos Balcãs. Esta companhia dispõe de laboratórios clandestinos que produzem esta droga para os desportistas alemães. Borissov vai fornecer pastilhas milagrosas às toneladas, para tomar fumando juntamente haxixe [10].
 
O General Abdel Fattah Younes deserta e junta-se aos «revolucionários». É pelo menos o que se diz no Ocidente. Na realidade, ele permanece ao serviço da Jamahiriya tornando-se o chefe das forças da Cirenaica independente. Os Islamistas, que se lembram da sua ação contra eles uma década antes, não tardam a descobrir que ele está ainda em contacto com Saif al-Islam Kadhafi. Estendem-lhe uma armadilha, matam-no, queimam-no e devoram uma parte de seu corpo.
 
O Emir Hamad do Catar espera acabar com a Jamahiriya e instalar o novo Poder como já tinha feito com o “Presidente” inconstitucional do Líbano. Enquanto a OTAN se limita a atacar por via aérea, o Catar instala um aeroporto de campanha no deserto e desembarca homens e material. Mas as populações de Fezzan e da Tripolitânia permanecem fiéis à Jamahiriya e ao seu Guia.
 
Enquanto a OTAN lança um dilúvio de fogo sobre Tripoli, em Agosto, o Catar reuniu Forças especiais e desembarcou blindados na Tunísia. Estes milhares de homens não são evidentemente Cataris, mas mercenários –-principalmente Colombianos--- treinados pela Academi (ex-Blackwater/Xe) nos Emirados Árabes Unidos. Eles juntam-se à Alcaida (tornada aceitável, embora ainda considerada como terrorista pela ONU) em Trípoli, vestidos e encapuçados de negro, afim de que só se possa ver os seus olhos.
 
Apenas dois grupos de Líbios participam na tomada de Tripoli, os combatentes de Misrata, os quais obedecem à Turquia, e o GICL. A brigada de Tripoli (Alcaida) é comandada pelo Irlandês-Líbio Mahdi al-Harati e enquadrada por oficiais regulares do Exército francês.
 
Antes mesmo de Muammar Kaddafi ser linchado, um governo provisório é formado por Washington. Nele encontramos todos os heróis desta história : sob a presidência de Mustafa Abdel Jalil (o que encobriu as torturas às enfermeiras búlgaras e ao médico palestiniano), Mahmoud Jibril (que treinou os emires do Golfo, reorganizou a Al-Jazeera, e participou na reunião do Cairo em Fevereiro), Fathi Terbil (o que lançou a «revolução» em Bengazi). O chefe do GICL, e antigo número 3 mundial da Alcaida, Abdel Hakim Belhadj (implicado nos atentados da estação de Atocha, em Madrid), é nomeado «governador militar de Tripoli».
 
(Continua…)
 
Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva
 
* Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
 
Imagens:
1 - Ben Ali (Tunísia), Kadhadi (Líbia) e Mubarak (Egipto) eram, em 2011, três chefes de Estado às ordens de Washington (Kadhafi desde a sua reviravolta de 2003, os dois outros desde sempre). Apesar dos serviços prestados, eles foram varridos em proveito dos Irmãos Muçulmanos; 2 - Sob proposta da OTAN, Abdelhakim Belhaj (no centro), o chefe do GICL (ramo líbio da Alcaida) torna-se governador militar de Tripoli. Mahdi al-Harati (à esquerda), que o Presidente Erdogan tinha vindo felicitar aquando do episódio da Flotilha da Liberdade em Gaza, é o seu adjunto.
 
 
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Este livro está disponível em FrancêsEspanholRussoInglês e Italiano em versão em papel. Possui versão já traduzida em Língua Portuguesa (NdT).
 


LER TAMBÉM:

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/os-irmaos-muculmanos-membros-do.html

“Sob os nossos olhos” (5/25)Os Irmãos Muçulmanos como membros do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca

Nós prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os Nossos Olhos). Neste episódio, ele regressa ao primeiro semestre de 2011 no decurso do qual, apoiados pelos Estados Unidos e o Reino Unido, os Irmãos Muçulmanos se aproximaram ou acederam ao Poder na Tunísia, no Egipto e na Líbia.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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Ben Ali (Tunísia), Kadhadi (Líbia) e Mubarak (Egipto) eram, em 2011, três chefes de Estado às ordens de Washington (Kadhafi desde a sua reviravolta de 2003, os dois outros desde sempre). Apesar dos serviços prestados, eles foram varridos em proveito dos Irmãos Muçulmanos.

7— O início das «Primaveras Árabes» na Tunísia

A 12 de Agosto de 2010, o Presidente Barack Obama assina a directiva presidencial de Segurança n° 11 (PSD-11). Ele informa todas as suas embaixadas no Médio-Oriente Alargado para se prepararem para «mudanças de regime» [1]. Ele nomeia Irmãos Muçulmanos para o Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos a fim de coordenarem a acção secreta no terreno. Washington vai colocar em acção o plano britânico da «Primavera Árabe». Para a Irmandade, chegou o momento de glória.

A 17 de Dezembro de 2010, um comerciante ambulante, «Mohamed» (Tarek) Bouazizi, imolou-se pelo fogo na Tunísia após a polícia ter apreendido a sua carroça. A Irmandade apropria-se do caso e faz circular boatos segundo os quais o jovem era um universitário no desemprego e que tinha sido esbofeteado por uma mulher-polícia. Imediatamente, os homens da National Endowment for Democracy (a NED, a falsa ONG dos serviços secretos dos cinco Estados anglo-saxónicos) pagam à família do falecido para que ela não revele a tramóia e semeiam a rebelião no país. Enquanto se sucedem as manifestações contra o desemprego e os abusos policiais, Washington pede ao Presidente Zine El-Abidine Ben Ali para deixar o país, ao mesmo tempo que o MI6 organiza a partir de Londres o retorno triunfal do Guia dos Irmãos, Rached Ghannouchi.

É a «Revolução de Jasmim» [2]. O esquema desta mudança de regime é copiado tanto do da partida do Xá do Irão, seguida do regresso do imã Khomeiny, como do das revoluções coloridas.

Rached Ghannouchi havia formado um ramo local dos Irmãos Muçulmanos e tentado um golpe de Estado em 1987. Detido e encarcerado várias vezes, ele exila-se no Sudão, onde beneficia do apoio de Hassan al-Turabi, depois na Turquia onde se aproxima de Recep Tayyip Erdoğan (então dirigente da Millî Görüş). Em 1993, obtêm asilo político no Londristão onde fica a residir com as suas duas mulheres e filhos menores.

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Duas personalidades apresentam-se como «anti-americanas» : Moncef Marzouki (extrema-esquerda trabalhando para a NED — EUA) e Rached Ghannouchi (Irmão Muçulmano trabalhando para a Westminster Foundation — RU)
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A «Liga de protecção da revolução» (LPR) é o equivalente tunisino do «Aparelho secreto» egípcio. O seu chefe, Ihmed Deghij, recebe de Rached Ghannouchi as instruções quanto às personalidades a eliminar.

Os Anglo-Saxónicos ajudam-no a melhorar a imagem do seu Partido, o Movimento de tendência islâmica renomeado Movimento da Renascença («Ennahda»). Para acalmar os receios da população em relação à Irmandade, a NED chama os seus peões da extrema-esquerda. Moncef Marzouki, o Presidente da Comissão Árabe dos Direitos Humanos faz de caução moral.

Ele garante que os Irmãos mudaram muito e que se tornaram democratas. É eleito Presidente da Tunísia. Ghannouchi ganha as eleições legislativas e consegue formar um governo que vai de Dezembro de 2011 a Agosto de 2013. Nele introduziu outros peões da NED, como Ahmed Najib Chebbi, ex-maoísta, depois trotskista reconvertido por Washington. Seguindo o exemplo de Hassan al-Banna, Ghannouchi forma então paralelamente ao partido uma milícia, a Liga de Protecção da Revolução, que procede aos assassinatos políticos, entre os quais o do líder da oposição Chokri Belaïd.

No entanto, apesar de um incontestável apoio de uma parte da população tunisina aquando do seu regresso, cedo o Ennahda é colocado em minoria. Antes de deixar o Poder, Rached Ghannouchi faz votar leis fiscais visando arruinar, a prazo, a burguesia laica. Desta forma, ele espera transformar a sociologia do seu país e voltar rapidamente para a frente do palco político.

Em Maio de 2016, o Xº Congresso do Ennahda é encenado pela Innovative Communications & Strategies, uma empresa criada pelo MI6. Os comunicadores asseguram que o Partido se tornou «civilista» e separa as actividades políticas e religiosas. Mas esta evolução não tem qualquer ligação com o laicismo, simplesmente pede-se aos responsáveis para dividir as tarefas e não exercer, ao mesmo tempo, como eleito e como imã.

8— A «Primavera Árabe» no Egipto

A 25 de Janeiro de 2011, quer dizer uma semana após a fuga do Presidente Ben Ali, a festa nacional egípcia transforma-se em manifestação contra o Poder. Os protestos são enquadrados pelo dispositivo tradicional dos EUA de revoluções coloridas: Os Sérvios treinados por Gene Sharp (teórico da OTAN, especializado em mudanças de regime suaves, sem recurso à guerra [3]) e os homens da NED. Os seus livros e brochuras traduzidos em árabe, e incluindo instruções para as manifestações, são amplamente distribuídas desde o primeiro dia. A maior parte destes espiões serão ulteriormente presos, julgados, condenados e depois expulsos. Os manifestantes são sobretudo mobilizados pelos Irmãos Muçulmanos, os quais dispõem de um apoio de 15 a 20% no país, e pelo Kifaya (Basta!), um grupo criado por Gene Sharp. É a «Revolução do Lótus» [4]. Os protestos ocorrem principalmente no Cairo, na Praça Tahrir, e também em sete outras grandes cidades. No entanto, está-se muito longe da vaga revolucionária que sacudiu a Tunísia.

Desde o princípio, os Irmãos utilizam armas. Na Praça Tahrir, eles recolhem os seus feridos para uma mesquita totalmente equipada para lhes fornecer os primeiros socorros. Os canais de TV das petro-ditaduras catariana, Al-Jazeera, e saudita, Al-Arabiya, apelam ao derrube do regime e difundem em directo informações vitais. Os Estados Unidos trazem de volta o antigo Director da Agência de energia atómica, o prémio Nobel da Paz Mohamed El-Baradei, presidente da Associação Nacional para a mudança. El-Baradei foi homenageado por ter acalmado os ardores de Hans Blix, o qual denunciara, em nome da ONU, as mentiras da Administração Bush visando justificar a guerra contra o Iraque. Ele preside há mais de um ano a uma coligação criada no modelo da Declaração de Damasco: um texto razoável, signatários de todos os quadrantes, mais os Irmãos Muçulmanos cujo programa é, na realidade, totalmente oposto ao da plataforma.

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Para o porta-voz dos Irmãos Muçulmanos no Egipto, Essam Elarian, pouco importam os Acordos de Camp David, a urgência está em criminalizar a homossexualidade.

Em última análise, a Irmandade é a primeira organização egípcia a apelar para o derrube do regime. As televisões de todos os Estados-membros da OTAN ou do Conselho de Cooperação do Golfo predizem a fuga do Presidente Hosni Mubarak. Enquanto o enviado especial do Presidente Obama, o embaixador Frank Wisner (o padrasto de Nicolas Sarkozy), simula primeiro apoiar Mubarak e depois alinha atrás da multidão e o pressiona a retirar-se. Finalmente, após duas semanas de tumultos e de uma manifestação reunindo 1 milhão de pessoas, Mubarak recebe ordem de Washigton para ceder e demite-se.

No entanto, os Estados Unidos entendem mudar a Constituição antes de colocar os Irmãos no Poder. O Poder permanece pois temporariamente nas mãos do exército. O Marechal Mohammed Hussein Tantawi preside o Comité Militar que administra os assuntos correntes. Ele nomeia uma Comissão constituinte de 7 membros, entre os quais 2 Irmãos Muçulmanos. É, aliás, um deles, o juiz Tareq Al-Bishri, quem preside aos trabalhos.

No entretanto, a Irmandade mantém manifestações todas as sexta-feiras à saída das mesquitas e dedica-se a linchamentos de cristãos coptas sem qualquer intervenção da polícia.

9— Nada de revolução colorida no Barém e no Iémene

Não tendo a cultura iemenita nenhuma relação com a da África do Norte, a não ser o uso comum da mesma língua, uma contestação significativa sacode desde há vários meses o Barém e o Iémene. A concomitância com os eventos da Tunísia e do Egipto arrisca baralhar os dados. O Barém hospeda a Vª Frota dos E.U.A e controla o tráfego marítimo no Golfo Pérsico, enquanto o Iémene controla com o Djibuti a entrada e saída do mar Vermelho e do Canal de Suez.

A dinastia reinante teme que a revolta popular derrube a monarquia e acusa, por reflexo, o Irão de a organizar. Com efeito, em 1981, um Aiatola(xiita) iraquiano tentou exportar a revolução do imã Khomeini e derrubar o regime fantoche colocado no Poder pelos Britânicos aquando da independência, em 1971.

O Secretário da Defesa, Robert Gates, dirige-se ao local e autoriza a Arábia Saudita a abafar estas genuínas revoluções à nascença. A repressão é dirigida pelo Príncipe Nayef. Ele pertence ao clã dos Sudeiris, tal como o Príncipe Bandar, embora Nayef seja seu primogénito e Bandar não passe do filho de uma escrava. A repartição de papéis entre os dois homens é clara: o tio mantém a Ordem reprimindo os movimentos populares, enquanto o sobrinho desestabiliza Estados através do terrorismo. O importante é distinguir muito bem os países nos quais eles operam [5].

10— A Primavera Árabe na Líbia

Se Washington previu o derrube das administrações aliadas de Ben Ali e de Mubarak sem recurso à guerra, a coisa vai ser diferente relativamente à Líbia e à Síria, governadas pelos revolucionários Kadhafi e Assad.

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Depois de ter ensinado a linguagem democrática aos petro-ditadores, ter reorganizado a Al-Jazeera e instalado as sociedades dos EUA na Líbia, o Irmão Mahmoud Jibril torna-se o cabeça da «revolução» contra o regime que ainda na véspera servia.

No início de Fevereiro, quando Mubarak ainda é Presidente do Egipto, a CIA organiza no Cairo o lançamento da continuação das operações. Uma reunião junta diversos actores, incluindo a NED (representada pelos senadores republicano John McCain e democrata Joe Liberman), a França (representada por Bernard-Henri Lévy) e os Irmãos Muçulmanos. A delegação líbia é dirigida pelo Irmão Mahmoud Jibril (o que formou os dirigentes do Golfo e reorganizou a Al-Jazeera). Ele entra na sala como número 2 do governo da Jamahiriya, mas sai como... chefe da oposição à «ditadura». Ele não voltará ao seu luxuoso gabinete de Trípoli, antes regressará a Bengazi, na Cirenaica. A delegação síria inclui Anas al-Abdeh (fundador do Observatório Sírio dos Direitos do Homem) e o seu irmão Malik al-Abdeh (director da Barada TV, uma televisão anti-síria financiada pela CIAe pelo Departamento de Estado). Washington dá instruções para o desencadear das guerras civis, tanto na Líbia como na Síria.

A 15 de Fevereiro, Fathi Terbil, advogado das famílias das vítimas do massacre na prisão de Abu Salim, em 1996, percorre a cidade de Bengazi garantindo que a prisão local está em chamas e apelando para a libertação dos presos. Ele é detido por pouco tempo e libertado no mesmo dia. No dia seguinte, a 16 de Fevereiro, sempre em Bengazi, desordeiros atacam três esquadras da Polícia, as instalações da Segurança Interna e as do Procurador. Defendendo o arsenal da Segurança Interna, a polícia mata 6 atacantes. Neste entretanto, em Al-Bayda, entre Bengazi e a fronteira egípcia, outros desordeiros atacam igualmente esquadras da Polícia e os serviços da Segurança Interna. Tomam o quartel Hussein Al-Jwaifi e a Base Aérea militar de Al- Abrag. Apoderam-se de uma grande quantidade de armas, dão uma tareia aos guardas e enforcam um soldado. Outros incidentes, menos espectaculares, ocorrem de forma coordenada em sete outras cidades [6].

Estes atacantes reivindicam-se do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL-Alcaida) [7]. São todos membros, ou antigos membros, dos Irmãos Muçulmanos. Dois dos seus chefes foram submetidos a uma lavagem de cérebro, em Guantánamo, segundo as técnicas dos Professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. No fim dos anos 90, o GICL tentou por quatro vezes assassinar Mouamar Kadhafi a pedido do MI6, e estabelecer uma guerrilha nas montanhas de Fezzan. Foi então tenazmente combatido pelo General Abdel Fattah Younés, que o forçou a abandonar o país. Ele figura desde os atentados de 2001 na lista das organizações terroristas estabelecida pelo Comité 1267 da ONU, mas dispõe de um escritório em Londres, sob a proteção do MI6.

O novo chefe do GICL, Abdelhakim Belhaj, que se batera no Afeganistão, ao lado de Osama Bin Laden, e no Iraque, havia sido detido na Malásia em 2004, depois transferido para uma prisão secreta da CIA na Tailândia, onde foi submetido ao soro da verdade e a tortura. No seguimento de um acordo entre os Estados Unidos e a Líbia foi reenviado para a Líbia, onde foi de novo torturado, mas, desta vez, por agentes britânicos na prisão de Abu Salim. Em 2007, o GICL e a Alcaida fundem-se. Entretanto, no quadro de negociações com os Estados Unidos, durante o período de 2008-10, Saif al-Islam Kaddafi tinha negociado uma trégua entre a Jamahiriya e o GICL (AlCaida). Este havia publicado um longo documento, Os Estudos Correctivos, no qual admite ter cometido um erro ao apelar para a jiade contra outros muçulmanos num país muçulmano. Em três vagas sucessivas, todos os membros da Alcaida foram amnistiados e libertados sob a exclusiva condição de renunciarem por escrito à violência. Em 1. 800 jiadistas, apenas uma centena recusa este acordo e prefere ficar na prisão. Após a sua libertação, Abdel Hakim Belhadj deixou a Líbia e instalou-se no Catar. Todos acabaram por conseguir regressar à Líbia sem despertar atenções,

A 17 de Fevereiro, os Irmãos organizam uma manifestação em Bengazi em memória dos 13 mortos ocorridos durante a manifestação contra o Consulado da Itália, em 2006. Segundo os organizadores, fora Muammar Kaddafi quem teria à época montado o caso das «caricaturas de Maomé» com a ajuda da Liga do Norte italiana. A manifestação degenera. Registam-se 14 mortos, entre os manifestantes e os polícias.

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Os Irmãos Muçulmanos distribuem a nova bandeira que querem para a Líbia : é a do antigo rei Idris e da colonização britânica.

É o inicio da «revolução». Na realidade, os manifestantes não buscam derrubar a Jamahiriya, mas proclamar a independência da Cirenaica. Assim, em Bengazi, distribuem-se dezenas de milhar de bandeiras do rei Idris (1889-1983). A Líbia moderna agrupa três províncias do Império Otomano, que formam um país único apenas a partir de 1951. A Cirenaica foi governada de 1946 a 1969 pela monarquia dos Senussi –-uma família wahhabita apoiada pelos Sauditas--- que acabou por estender o seu poder sobre toda a Líbia.

Muammar Kadhafi promete «fazer correr rios de sangue» para salvar a sua população dos Islamistas. Em Genebra, uma associação criada pela NED, a Liga Líbia dos Direitos do Homem, retira estas declarações do seu contexto e apresenta-as à imprensa ocidental como sendo ameaças contra o Povo Líbio. Ela garante que ele está a bombardear Tripoli. Na realidade, a Liga é uma espécie de concha vazia reunindo os futuros ministros do país após a invasão da OTAN.

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Mahmud Jibril reorganizou a Al-Jazeera, em 2005, para fazer dela o canal dos Irmãos Muçulmanos. Foi ela que manteve o mito de um Bin Laden sempre vivo. O seu conselheiro espiritual, o Xeque Youssef Al-Qaradâwî, mantêm aí uma emissão semanal no decurso da qual apela para o assassínio de Muamar Kadhafi.

A 21 de Fevereiro, o Xeque Youssef al-Qaradawi lança na Al-Jazeera uma fátua ordenando aos militares líbios que salvem o seu povo assassinando Muammar Kaddafi.

O Conselho de Segurança, baseando-se nos trabalhos do Conselho dos Direitos do Homem em Genebra —o qual ouviu a Liga e o Embaixador líbio— e a pedido do Conselho de Cooperação do Golfo, autoriza a utilização da força afim de proteger a população do ditador.

Quando o Pentágono lhe ordena para se coordenar com o GICL (Alcaida), o sangue do comandante do AfriCom, o General Carter Ham, ferve. Como podemos cooperar na Líbia com os indivíduos que combatemos no Iraque, e que mataram GI.s? Ele é imediatamente demitido das suas funções em favor do comandante da EuCom e da OTAN, o Almirante James Stavridis.

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Dos 38 soldados dos Navys Seals (aqui em treino) que participaram no pretenso assassinato de Osama Bin Laden no Paquistão, 30 foram morrendo no decurso de diversos acidentes nas semanas a seguir a esta operação.

Intermezzo : A 1 de Maio de 2011, Barack Obama anuncia que, em Abbottabad (Paquistão), o comando 6 dos Navy Seals (tropa de fuzileiros- ndT) eliminou Osama bin Laden, do qual se estava sem novas credíveis desde há quase 10 anos. Este anúncio permite fechar o dossier Alcaida e renovar a imagem dos jiadistas para os refazer como aliados dos EUA, tal como nos bons velhos tempos das guerras do Afeganistão, Bósnia-Herzegovina, da Chechénia e do Kosovo. O corpo de «Bin Laden» é submerso em alto mar [9].

Durante seis meses, a linha da frente na Líbia permanece inalterada. O GICL controla Bengazi e proclama um Emirado islâmico em Derna, a cidade de onde a maioria dos seus membros são originários. Para aterrorizar os Líbios, rapta gente ao acaso. Mais tarde encontra-se os seus corpos desmembrados, os seus membros espalhados nas ruas. Sendo os jiadistas à partida pessoas normais, fazem-lhes tomar uma mistura de drogas naturais e sintéticas que lhes faz perder toda a razão. Podem pois, então, cometer atrocidades sem ter consciência das mesmas. Tendo a CIA subitamente necessidade de grandes quantidades de Captagon —um derivado de anfetaminas— solicita o Primeiro-ministro búlgaro, o chefe mafioso Boïko Borissov ---o qual presidirá o Conselho Europeu em 2018--- . Este é um antigo guarda costas que se juntou à Security Insurance Company, uma das duas grandes organizações mafiosas dos Balcãs. Esta companhia dispõe de laboratórios clandestinos que produzem esta droga para os desportistas alemães. Borissov vai fornecer pastilhas milagrosas às toneladas, para tomar fumando juntamente haxixe [10].

O General Abdel Fattah Younes deserta e junta-se aos «revolucionários». É pelo menos o que se diz no Ocidente. Na realidade, ele permanece ao serviço da Jamahiriya tornando-se o chefe das forças da Cirenaica independente. Os Islamistas, que se lembram da sua ação contra eles uma década antes, não tardam a descobrir que ele está ainda em contacto com Saif al-Islam Kadhafi. Estendem-lhe uma armadilha, matam-no, queimam-no e devoram uma parte de seu corpo.

O Emir Hamad do Catar espera acabar com a Jamahiriya e instalar o novo Poder como já tinha feito com o “Presidente” inconstitucional do Líbano. Enquanto a OTAN se limita a atacar por via aérea, o Catar instala um aeroporto de campanha no deserto e desembarca homens e material. Mas as populações de Fezzan e da Tripolitânia permanecem fiéis à Jamahiriya e ao seu Guia.

Enquanto a OTAN lança um dilúvio de fogo sobre Tripoli, em Agosto, o Catar reuniu Forças especiais e desembarcou blindados na Tunísia. Estes milhares de homens não são evidentemente Cataris, mas mercenários –-principalmente Colombianos--- treinados pela Academi (ex-Blackwater/Xe) nos Emirados Árabes Unidos. Eles juntam-se à Alcaida (tornada aceitável, embora ainda considerada como terrorista pela ONU) em Trípoli, vestidos e encapuçados de negro, afim de que só se possa ver os seus olhos.

Apenas dois grupos de Líbios participam na tomada de Tripoli, os combatentes de Misrata, os quais obedecem à Turquia, e o GICL. A brigada de Tripoli (Alcaida) é comandada pelo Irlandês-Líbio Mahdi al-Harati e enquadrada por oficiais regulares do Exército francês.

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Sob proposta da OTAN, Abdelhakim Belhaj (no centro), o chefe do GICL (ramo líbio da Alcaida) torna-se governador militar de Tripoli. Mahdi al-Harati (à esquerda), que o Presidente Erdogan tinha vindo felicitar aquando do episódio da Flotilha da Liberdade em Gaza, é o seu adjunto.

Antes mesmo de Muammar Kaddafi ser linchado, um governo provisório é formado por Washington. Nele encontramos todos os heróis desta história : sob a presidência de Mustafa Abdel Jalil (o que encobriu as torturas às enfermeiras búlgaras e ao médico palestiniano), Mahmoud Jibril (que treinou os emires do Golfo, reorganizou a Al-Jazeera, e participou na reunião do Cairo em Fevereiro), Fathi Terbil (o que lançou a «revolução» em Bengazi). O chefe do GICL, e antigo número 3 mundial da Alcaida, Abdel Hakim Belhadj (implicado nos atentados da estação de Atocha, em Madrid), é nomeado «governador militar de Tripoli».

(Continua…)


[1] “Obama’s low-key strategy for the Middle East”, David Ignatius, Washington Post, March 6, 2011. “Identifiying the enemy: radical islamist terror”, Statement by Peter Hoekstra, House Committe on Homeland Security, United States House of Representatives, September 22, 2016.

[2] “Washington face à cólera do povo tunisino”, Thierry Meyssan, Tradução Resistir.info, Rede Voltaire, 27 de Janeiro de 2011.

[3] « L’Albert Einstein Institution : la non-violence version CIA », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 4 juin 2007.

[4] The International Dimensions of Democratization in Egypt: The Limits of Externally-Induced Change, Gamal M. Selim, Springer (2015).

[5] « La Contre-révolution au Proche-Orient », par Thierry Meyssan, Komsomolskaïa Pravda (Russie), Réseau Voltaire, 11 mai 2011.

[6] Rapport de la Mission d’enquête sur la crise actuelle en Libye, FFC (2011).

[7] “Once NATO enemies in Iraq and Afghanistan, now NATO allies in Libya”, by Webster G. Tarpley, Voltaire Network, 24 May 2011.

[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.

[9] “Reflexões sobre o anúncio oficial da morte de Osama Bin Laden”, Thierry Meyssan, Tradução David Lopes, Rede Voltaire, 4 de Junho de 2011.

[10] “Como a Bulgária forneceu drogas e armas à Al-Qaida e ao Daesh”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 4 de Janeiro de 2016.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Os Irmãos Muçulmanos como auxiliares do Pentágono

Thierry Meyssan*

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sobos Nossos Olhos). Neste episódio, ele descreve como a organização terrorista dos Irmãos Muçulmanos foi integrada no Pentágono. Ela foi ligada às redes anti-Soviéticas constituídas com antigos nazis durante a Guerra Fria.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos. Ver oÍndice dos assuntos.

5— Os islamistas nas mãos do Pentágono

No início dos anos 90, o Pentágono decide incorporar os islamistas —que até aí estavam unicamente na dependência da CIA— às suas operações. É a Operação Gládio B, em referência aos Serviços Secretos da OTAN na Europa (Gládio A [1]).

Durante uma década, todos os chefes islamistas —aí incluídos Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri— se deslocam a bordo de aviões da US Air Force (Força Aérea americana). O Reino Unido, a Turquia e o Azerbaijão participam na operação [2]. Por conseguinte, os islamistas —que até aí eram combatentes da sombra— são agora «publicamente» integrados nas Forças da Otan.

A Arábia Saudita que é ao mesmo tempo um Estado e propriedade privada dos Saud— torna-se oficialmente a instituição responsável pela gestão do islamismo mundial. O Rei proclama uma Lei Fundamental, em 1992, segundo a qual «O Estado protege a fé islâmica e aplica a Charia. Impõe o Bem e combate o Mal. Cumpre os deveres do Islão (...) A defesa do islamismo, da sociedade e da pátria muçulmana é o dever de todo o súbdito do Rei».

Em 1993, Carlos, o Príncipe de Gales, coloca o Oxford Center for Islamic Studies sob o seu patrocínio, enquanto o Chefe dos Serviços Secretos sauditas, o Príncipe Turki, toma a direcção do mesmo.

Londres torna-se abertamente o centro nevrálgico da Gládio B, a tal ponto que se fala de «Londonistan» («Londristão»-ndT) [3]. Sob a égide da Liga Islâmica Mundial, os Irmãos Muçulmanos árabes e a Jamaat-i-Islami paquistanesa criam uma quantidade de associações culturais e religiosas ligadas à mesquita de Finsbury Park. Este dispositivo irá permitir recrutar inúmeros kamikazes, desde aqueles que irão atacar a escola russa de Beslan até Richard Reid, o «Shoe bomber». O Londristão inclui, em especial, inúmeros média, editoras, jornais (al-Hayat e Asharq al-Awsat —ambos dirigidos por filhos do actual Rei Salman da Arábia—) e televisões (o grupo MBC do Príncipe Walid bin Talal emite uma vintena de canais), que não são destinados à diáspora muçulmana no Reino Unido, mas, sim com emissões dirigidas ao mundo árabe; tendo o acordo entre os Islamistas e a Arábia Saudita sido estendido ao Reino Unido –-total liberdade de acção, mas interdição de ingerência na política interna. Este conglomerado emprega vários milhares de pessoas e movimenta gigantescas quantias de dinheiro. Ele irá permanecer aberto até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando se tornará impossível aos Britânicos continuar a justificar a sua existência.

Abu Mussab, «O Sírio» —um sobrevivente do golpe de Estado abortado de Hama, tornado agente de ligação entre Bin Laden e o Grupo Islâmico Armado (GIA) argelino— teoriza a «jiade descentralizada». No seu Appel à la résistance islamique mondiale, ele coloca em termos islâmicos a já bem conhecida doutrina da «estratégia da tensão». Trata-se de provocar as autoridades para suscitar uma terrível repressão que levará o povo a revoltar-se contra elas. Esta teoria fora já utilizada pelas redes Gládio da CIA /OTAN ao manipular a extrema-esquerda europeia nos anos 70-80 (Grupo Baader-Meinhof, Brigadas Vermelhas, Action Directe). É claro que estava fora de questão que esta estratégia vencesse e a CIA/OTAN sabiam que não havia nenhuma chance de êxito —ela jamais fora bem sucedida, fosse onde fosse—, pretendia sim utilizar a reacção repressiva do Estado para colocar os seus homens no Poder. «O Sírio» designa a Europa —e, claramente, nunca os Estados Unidos— como o próximo campo de batalha dos islamistas. Em 1995, ele foge de França após os atentados desse ano. Dois anos mais tarde, cria em Madrid e no Londristão o Islamic Conflict Studies Bureau, dentro do modelo da Aginter Press, que a CIA tinha criado em Lisboa durante os anos 60-70. As duas estruturas superam-se na organização de atentados de falsa-bandeira (desde o atribuído à extrema-esquerda na Piazza Fontana, em 1969, até aos atribuídos aos muçulmanos em Londres, em 2005).
Simultaneamente, os Irmãos elaboram um vasto programa de formação de líderes árabes pró-EU. O Líbio Mahmoud Jibril El-Warfally, professor na Universidade de Pittsburg, ensina-os a falar de forma «politicamente correcta». Assim, ele forma emires e generais da Arábia Saudita, do Barém, do Egipto, dos Emirados, da Jordânia, do Kuwait, de Marrocos e da Tunísia (mas também de Singapura). Misturando princípios de Relações Públicas e estudo dos relatórios do Banco Mundial, os piores ditadores são agora capazes de falar, sem se rir, dos seus ideais democráticos bem como do seu profundo respeito pelos Direitos do Homem.

A guerra contra a Argélia transborda para a França. Jacques Chirac e o seu Ministro do Interior, Charles Pasqua, interrompem o apoio de Paris aos Irmãos Muçulmanos e tratam mesmo de interditar os livros de Yussef al-Qaradawi (o pregador da Irmandade). Para eles trata-se de manter a presença francesa no Magrebe que os Britânicos querem riscar do mapa. O Grupo Islâmico Armado (GIA) toma como reféns os passageiros do vôo da Air France Argel-Paris (1994), faz explodir bombas no RER, e em diversos pontos da capital (1995), e planeia um gigantesco atentado —que será impedido— aquando do Campeonato do Mundo de futebol (1998), incluindo a queda de um avião sobre uma central eléctrica nuclear. Em todos os episódios, os suspeitos, que conseguem escapar, encontram asilo no Londristão.
A guerra da Bósnia-Herzegovina começa em 1992 [4]. A ordens de Washington, os Serviços Secretos paquistaneses (ISI), sempre apoiados financeiramente pela Arábia Saudita, enviam 90.000 homens para participar nela contra os Sérvios (apoiados por Moscovo). Osama Bin Laden recebe um passaporte diplomático bósnio e torna-se conselheiro militar do Presidente Alija Izetbegović (de quem o Norte-americano Richard Perle é conselheiro diplomático e o Francês Bernard-Henri Lévy, conselheiro de imprensa). Ele monta a Legião Árabe com antigos combatentes do Afeganistão e arranja financiamento da Liga Islâmica Mundial. Por reflexo comunitário, ou em competição com a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irão vai também em socorro dos muçulmanos da Bósnia. Em perfeita combinação com o Pentágono, ela envia várias centenas de Guardas da Revolução e uma unidade do Hezbolla libanês. Acima de tudo, fornece o essencial das armas utilizadas pelo Exército bósnio.

Os Serviços Secretos russos, que infiltraram o campo de Bin Laden, constatam que toda a burocracia da Legião Árabe é redigida em inglês e que a Legião recebe as suas ordens directamente da OTAN. Após a guerra, um Tribunal Internacional especial é criado. Este processou inúmeros combatentes por crimes de guerra, mas nenhum membro da Legião Árabe.
Após três anos de calma, a guerra entre muçulmanos e ortodoxos reacende-se na ex-Jugoslávia, no Kosovo desta vez. O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) é formado a partir de grupos mafiosos treinados em combate pelas Forças Especiais Alemãs (KSK) na base turca de Incirlik. Os Albaneses e os Jugoslavos muçulmanos têm uma cultura Naqchbandie. Hakan Fidan, o futuro chefe dos Serviços Secretos turcos, é o oficial de ligação entre a OTAN e a Turquia. Os veteranos da Legião Árabe integram o UÇK, do qual uma brigada é comandada por um dos irmãos de Ayman al-Zawahiri. Este destrói sistematicamente as igrejas e os mosteiros ortodoxos, e caça os cristãos.
Em 1995, revivendo a tradição dos assassinatos políticos, Osama Bin Laden tenta eliminar o Presidente egípcio, Hosni Mubarak. Ele volta a tentar no ano seguinte com o Guia líbio, Muammar Kaddafi. Este segundo atentado é financiado, pela soma de £ 100.000 libras, pelos Serviços Secretos britânicos que querem punir o apoio líbio à resistência irlandesa [5]. Azaradamente a operação falha. Vários oficiais líbios fogem para o Reino Unido. Entre eles, Ramadan Abidi, cujo filho será encarregado anos mais tarde, sempre pelos serviços britânicos, de realizar um atentado em Manchester. A Líbia transmite provas à Interpol e emite o primeiro mandato de prisão internacional contra o próprio Osama Bin Laden, o qual continua a manter um escritório de relações públicas no Londristão.

Em 1998, a Comissão Árabe dos Direitos Humanos é fundada em Paris. Ela é financiada pela NED. O seu presidente é o Tunisino Moncef Marzouki, e o seu porta-voz o Sírio Haytham Manna. O seu objectivo é defender os Irmãos Muçulmanos que foram presos nos diferentes países árabes, por causa das suas actividades terroristas. Marzouki é um médico de esquerda que trabalha com eles há longo tempo. Manna é um escritor que gere os investimentos de Hassan al-Turabi e dos Irmãos sudaneses na Europa. Quando Manna se retira, a sua companheira mantêm-se como directora da associação. Ele é substituído pelo Argelino Rachid Mesli, que é advogado e é, nomeadamente, o de Abassi Madani e dos Irmãos argelinos.
Em 1999 (ou seja, após a guerra do Kosovo e a tomada do Poder pelos islamistas em Grozny), Zbigniew Brzeziński funda com uma coorte de neo-conservadores o American Committee for Peace in Chechnya (Comité americano para a paz na Tchechénia). Se a primeira guerra na Tchechénia fora um assunto interno russo, no qual alguns islamistas se tinham imiscuído, a segunda visa a criação do Emirado Islâmico da Ichquéria. Brzeziński, que preparava esta operação há vários anos, tenta reproduzir a experiência afegã.

Os jiadistas tchechenos, como Chamil Bassaïev, não foram treinados no Sudão por Bin Laden, mas, sim no Afeganistão pelos Talibã. Durante toda a guerra, beneficiam do apoio «humanitário» da Millî Görüş turca de Necmettin Erbakan e Recep Tayyip Erdoğan e da «IHH - Direitos do homem e Liberdades». Esta Associação turca foi criada na Alemanha sob o nome de Internationale Humanitäre Hilfe (IHH). Em seguida, estes jiadistas organizarão várias grandes operações : nomeadamente contra o Teatro de Moscovo (2002, 170 mortos, 700 feridos), contra uma escola de Beslan (2004, 385 mortos, 783 feridos) e contra a cidade de Naltchik (2005, 128 mortos e 115 feridos). Após o massacre de Beslan e a morte do líder jiadista Chamil Bassaïev, a Milli Görüş e a IHH organizam, na mesquita de Fatih de Istambul, enormes exéquias sem o corpo mas com dezenas de milhares de militantes.
Durante este período, três atentados importantes são atribuídos à Alcaida. No entanto, por muito importantes que estas operações sejam, elas representam um falhanço para os islamistas, os quais, por um lado, são integrados no seio da OTAN e se veem simultaneamente despromovidos para o nível de terroristas anti-americanos. 

-- Em 1996, um camião armadilhado faz explodir uma torre de oito andares em Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 soldados dos EUA. Primeiro atribuído à Alcaida, a responsabilidade do atentado é transferida para cima do Irão, depois finalmente para ninguém. 

-- Em 1998, duas bombas explodem diante das embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salam (Tanzânia), matando 298 africanos —mas nenhum Norte-americano— e ferindo mais de 4.500 pessoas. Estes atentados são reivindicados por um misterioso Exército Islâmico de Libertação dos Lugares Santos. Segundo as autoridades dos EU, eles teriam sido cometidos por membros da Jiade Islâmicaegípcia em retorsão pela extradição de quatro dos seus membros. Ora, as mesmas autoridades acusam Osama Bin Laden de ser o comanditário e o FBI emite —por fim— um mandado de prisão internacional contra ele.

-- Em 2000, uma embarcação suicida explode contra o costado do destróier USS Cole fundeado em Áden (Iémene). O atentado é reivindicado pela Alcaida na Península Arábica (AQPA), mas um tribunal norte-americano tornará responsável o Sudão.

Estes atentados ocorrem enquanto a colaboração entre Washington e os Islamistas continua. Assim, Osama bin Laden, conservou o seu escritório no Londristão até 1999. Situado no bairro de Wembley, o Advice and Reformation Committee (ARC) visa, ao mesmo tempo, difundir as declarações de Bin Laden e cobrir as actividades logísticas da Alcaida, inclusive em matéria de recrutamento, de pagamentos e de aquisição de materiais. Entre os seus colaboradores em Londres encontra-se o saudita Khaled al-Fawwaz e os egípcios Adel Abdel Bary e Ibrahim Eidarous, três homens que são alvo de mandados de detenção internacionais, mas que, no entanto, receberam asilo político no Reino Unido. É na mais perfeita legalidade, em Londres, que o escritório de Bin Laden publicará, em Fevereiro de 1998, o seu célebre Apelo à Jiade contra os Judeus e os Cruzados. Gravemente doente dos rins, Bin Laden é hospitalizado, em Agosto de 2001, no hospital Americano do Dubai. Um chefe de Estado do Golfo confirmou-me tê-lo ido visitar ao seu quarto, onde a sua segurança era garantida pela CIA.

6— A fusão das duas « Gládio » e a preparação do Daesh

Dentro da mesma lógica, a Administração Bush torna os Islamistas responsáveis pelos brutais atentados que ocorrem a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. A versão oficial impõe-se embora ela comporte numerosas incoerências. O Secretário da Justiça assegura que os aviões foram sequestrados por islamistas, muito embora segundo as companhias de aviação nenhum dos suspeitos tenha estado a bordo. O Departamento da Defesa publicará um vídeo no qual Bin Laden reivindica os atentados, quando o próprio os tinha rejeitado publicamente e os peritos em reconhecimento facial e vocal afirmam que o homem do vídeo não é Bin Laden.

Seja como for, estes acontecimentos servem de pretexto a Washington e a Londres para lançar a «Guerra sem fim» e atacar os seus antigos aliados, os Talibã no Afeganistão, e o Iraque de Saddam Hussein.
Muito embora ele já sofresse de insuficiência renal crónica, Osama Bin Laden apenas sucumbe à sua doença a 15 de Dezembro de 2001 como resultado de um síndrome de Marfan. Um representante do MI6 assiste às suas exéquias no Afeganistão. Posteriormente, vários sósias, mais ou menos parecidos, irão manter o seu simulacro vivo, dos quais um será assassinado por Omar Sheikh, em 2005, segundo a Primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhuto.

Em Agosto de 2002, o MI6 organiza uma conferência da Irmandade Muçulmana sobre o tema «a Síria para todos». Aí, os oradores desenvolvem a ideia que a Síria estaria a ser oprimida pela seita dos Alauítas e que apenas os Irmãos Muçulmanos garantiriam uma genuína igualdade.

Após Sayyed Qutb e Abu Mussab, «o Sírio», os Islamistas dotam-se de um novo estratega, Abu Bakr Naji. Em 2004, este personagem, que parece nunca ter existido, publica um livro na Internet, A Gestão da Barbárie, uma teoria do caos [6]. Embora alguns autores tenham acreditado reconhecer o estilo de um autor egípcio, parece que a obra foi escrita em inglês, depois enriquecida com citações corânicas supérfluas e traduzido para árabe. A «Barbárie» no título do livro, não designa o recurso ao terror, mas, sim o retorno ao estado da natureza antes da civilização ter criado o Estado. Trata-se de fazer regressar a Humanidade ao ponto onde «o homem é um lobo do homem». A estratégia do caos desenrola-se em três fases: 

-- Primeira, desmoralizar e esgotar o Estado atacando nos seus flancos menos bem protegidos. Escolhem-se portanto alvos secundários, muitas vezes sem interesse, mas fáceis de destruir e separados. Tratar-se-á de dar a impressão de um levantamento generalizado, de uma revolução.

-- Em segundo lugar, assim que o Estado se tiver retirado dos subúrbios e dos campos, conquistar certas zonas e administrá-las. Impor a Charia para marcar a passagem a uma nova forma de Estado. Durante este período, serão estabelecidas alianças com todos aqueles que se opõem ao Poder, e que não se deixará de armar. Irá conduzir-se então uma guerra de posições.

-- Em terceiro lugar, proclamar o Estado Islâmico.

Este tratado transpira ciência militar contemporânea. Ele dá uma enorme importância às operações psicológicas, nomeadamente à utilização da violência mediática. Na prática, esta estratégia nada tem a ver com uma revolução, mas com a conquista de um país por potências exteriores, já que ela pressupõe um investimento maciço. Como sempre na literatura subversiva, o mais interessante reside naquilo que não é dito ou apenas é mencionado de passagem: 

-- a preparação das populações para que elas acolham os jiadistas supõe a construção prévia de uma rede de mesquitas e de obras sociais, tal como foi feito na Argélia antes da guerra «civil». 

-- para serem postas em marcha, as primeiras operações militares necessitam de armas que é preciso importar de antemão. Sobretudo, em seguida, os jiadistas não terão nenhum meio para obter armas e ainda menos munições. Portanto, eles terão que ser apoiados a partir do exterior. 

-- A administração das zonas conquistadas supõe que se disponha de quadros formados previamente, como os dos exércitos regulares encarregados de «reconstruir Estados». 

-- Finalmente a guerra de posições supõe a construção de vastíssimas infra-estruturas que necessitarão de uma grande quantidade de materiais, de engenheiros e de arquitectos.

De facto, o reclamar a autoria desta obra atesta que os islamistas entendem continuar a jogar um papel militar por conta de potências exteriores, só que desta vez em grandíssima escala.

Em 2006, os Britânicos pedem ao Emir Ahmad do Catar para colocar o seu canal de televisão pan-árabe, Al-Jazeera, ao serviço dos Irmãos Muçulmanos [7]. O Líbio Mahmoud Jibril, que treinou a família real a falar em linguagem democrática, é encarregue de introduzir, passo a passo, os seus Irmãos no canal e de criar canais em línguas estrangeiras (inglês e, a seguir, bósnio e turco), assim como um canal para as crianças. O pregador Yusuf al-Qaradawi torna-se «conselheiro religioso» da Al-Jazeera. É claro, o canal irá transmitir e validar as gravações de áudio ou os vídeos dos «Osama Bin Laden».

No mesmo período, as tropas dos EUA no Iraque tem que fazer face a uma revolta que se generaliza. Depois de terem sido derrotados pela rapidez e pela brutalidade da invasão (técnica do «choque e pavor»), os Iraquianos organizam a sua resistência. O Embaixador norte-americano em Bagdade, depois Director da Inteligência Nacional, John Negroponte, propõe-se vencê-los pela divisão e virando a sua raiva contra si próprios, quer dizer transformar a Resistência à ocupação em guerra civil. Perito em operações secretas, ele participou, nomeadamente, na Operação Fénix no Vietname, montando depois a guerra civil civil em El Salvador e a operação Irão-Contras na Nicarágua, e levou ao colapso a rebelião no Chiapas mexicano. Negroponte chama um dos homens em que se apoiou em El Salvador, o Coronel James Steele. Confia-lhe a tarefa de criar milícias iraquianas de xiitas contra os sunitas e sunitas contra os xiitas. Quanto à milícia sunita, Steele recorre aos Islamistas. A partir da Alcaida no Iraque, ele arma uma coligação tribal, o Emirado islâmico no Iraque (futuro Daesh) sob cobertura da polícia especial («Brigada dos Lobos»). Para aterrorizar as vítimas e as suas famílias, ele treina o Emirado na tortura, segundo os métodos da Escola das Américas (School of América) e da Political Warfare Cadres Academy de Taiwan, onde ensinou. Em poucos meses, um novo horror abate-se sobre os Iraquianos e divide-os segundo a sua confissão religiosa. Em seguida, assim que o General David Petraeus assumir o comando das tropas norte-americanas no país, irá designar o Coronel James H. Coffman para trabalhar com Steele e lhe fornecer relatórios sobre a operação, enquanto Brett H. McGurk dará conta directamente ao Presidente. Os principais chefes do Emirado Islâmico são recrutados no campo de concentração de Bucca, mas são objecto de preparação na prisão de Abu Ghraib, segundo os métodos de «lavagem ao cérebro» dos professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. Tudo é supervisionado desde Washington pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, de quem Steele depende directamente.

Em 2007, Washington informa a Irmandade que vai derrubar os regimes laicos do Médio-Oriente Alargado, incluindo os dos Estados aliados, e que ela se deve preparar para exercer o Poder. A CIA organiza alianças entre os Irmãos e partidos, ou personalidades laicas, de todos os Estados da região. Simultaneamente, ela liga os dois ramos da «Gládio» tecendo laços entre os grupos nazis ocidentais e os grupos islamistas orientais.

Estas iniciativas de aliança são às vezes inconclusivas, como, por exemplo, aquando da «Conferência Nacional da Oposição Líbia», em Londres, onde os Irmãos não conseguem federar à sua volta senão o Grupo Islâmico Combatente na Líbia (Alcaida na Líbia) e a Irmandade wahhabita Senussi. A plataforma programática prevê restabelecer a monarquia e fazer do Islão a religião do Estado. Mais convincente é a constituição da Frente da Salvação Nacional, em Berlim, que oficializa a união dos Irmãos com o antigo Vice-presidente baathista sírio Abdel Halim Khaddam.
A 8 de Maio de 2007, em Ternopol (oeste da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criam uma Frente anti-imperialista para lutar contra a Rússia. Organizações da Lituânia, da Polónia, da Ucrânia e da Rússia participam nela, entre as quais os separatistas Islamistas da Crimeia, da Adigueia, do Daguestão, da Inguchia, da Cabardino-Balcária, da Carachai-Cerquéssia, da Ossétia, da Chechénia. Não podendo viajar para lá devido as sanções internacionais impostas contra ele, Dokou Umarov —que aboliu a República da Chechénia e proclamou o Emirado Islâmico da Ichquéria—, fez ler a sua proclamação. A Frente é presidida pelo nazi Dmytro Yarosh, o qual se tornará durante o golpe de Estado de Kiev, em Fevereiro de 2014, Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia.

No Líbano, em Maio-Junho de 2007, o Exército nacional empreende o cerco do campo palestino de Nahr el-Bared depois de membros da Fatah al-Islam se terem lá entrincheirado. Os combates duram 32 dias e custam a vida a 76 soldados, dos quais uma trintena são decapitados.
Em 2010, a Irmandade organiza a Flotilha da Liberdadeatravés da IHH. Oficialmente trata-se de desafiar o embargo israelita e de levar assistência humanitária aos habitantes de Gaza [9]. Na realidade, o principal barco desta frota muda de bandeira durante a travessia e prossegue sob pavilhão turco. Numerosos espiões misturam-se com os militantes não-violentos participando na expedição, entre os quais um agente irlandês da CIA, Mahdi al-Harati. Caindo na armadilha que lhe estende os Estados Unidos, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordena o assalto aos barcos, em águas internacionais, provocando 10 mortos e 54 feridos. O mundo inteiro condena esse acto de pirataria sob o olhar sarcástico da Casa Branca. Israel, que fornecia armas aos jiadistas no Afeganistão e apoiou a criação do Hamas contra a OLP de Yasser Arafat, virara-se contra os Islamistas em 2008 e bombardeou-os, assim como à população de Gaza. Netanyahu paga assim, desta maneira, a operação «Chumbo Endurecido» que levou a cabo, junto com a Arábia Saudita, contra a opinião da Casa Branca. No fim, os passageiros da Flotilha são libertados por Israel. A imprensa turca mostra então o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan visitando Mahdi al-Harati num hospital. (Continua …)

Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

 

 

Notas:

[1] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Foreword by Dr. John Prados, Frank Cass/Routledge (2005).
[2] Classified Woman: The Sibel Edmonds Story : A Memoir, Sibel Edmonds (2012).
[3] Londonistan, Melanie Phillips, Encounter Books (2006).
[4] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, NP Verlag (2005); Intelligence and the war in Bosnia 1992-1995: The role of the intelligence and security services, Nederlands Instituut voor Oologsdocumentatie (2010). Al-Qaida’s Jihad in Europe: The Afghan-Bosnian Network, Evan Kohlmann, Berg (2011).
[6] The Management of Savagery: The Most Critical Stage Through Which the Umma Will Pass, Abu Bakr Naji, Harvard University (2006).
[7] «Wadah Khanfar, Al-Jazeera y el triunfo de la propaganda televisiva », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2011.
[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako(Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.
[9] «Flotilla de la Libertad: el detalle que Netanyahu no conocía», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 11 de junio de 2010.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/os-irmaos-muculmanos-como-auxiliares-do.html

“Sob os nossos olhos” (4/25)Os Irmãos Muçulmanos como auxiliares do Pentágono

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sobos Nossos Olhos). Neste episódio, ele descreve como a organização terrorista dos Irmãos Muçulmanos foi integrada no Pentágono. Ela foi ligada às redes anti-Soviéticas constituídas com antigos nazis durante a Guerra Fria.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Saudita Ousama Bin Laden e o seu médico pessoal, o Egípcio Ayman al-Zawahiri, publicam em 1998 «A Frente islâmica mundial contra os judeus e os cruzados». Este texto foi difundido pelo seu escritório no Londonistan ("Londristão"-ndT), o Advice and Reformation Committee. Al-Zawahiri organizou o assassínio do Presidente Sadate, depois trabalhou para os Serviços Secretos sudaneses de Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir. Ele dirige agora a Alcaida.

5— Os islamistas nas mãos do Pentágono

No início dos anos 90, o Pentágono decide incorporar os islamistas —que até aí estavam unicamente na dependência da CIA— às suas operações. É a Operação Gládio B, em referência aos Serviços Secretos da OTAN na Europa (Gládio A [1]).

Durante uma década, todos os chefes islamistas —aí incluídos Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri— se deslocam a bordo de aviões da US Air Force (Força Aérea americana). O Reino Unido, a Turquia e o Azerbaijão participam na operação [2]. Por conseguinte, os islamistas —que até aí eram combatentes da sombra— são agora «publicamente» integrados nas Forças da Otan.

A Arábia Saudita que é ao mesmo tempo um Estado e propriedade privada dos Saud— torna-se oficialmente a instituição responsável pela gestão do islamismo mundial. O Rei proclama uma Lei Fundamental, em 1992, segundo a qual «O Estado protege a fé islâmica e aplica a Charia. Impõe o Bem e combate o Mal. Cumpre os deveres do Islão (...) A defesa do islamismo, da sociedade e da pátria muçulmana é o dever de todo o súbdito do Rei».

Em 1993, Carlos, o Príncipe de Gales, coloca o Oxford Center for Islamic Studies sob o seu patrocínio, enquanto o Chefe dos Serviços Secretos sauditas, o Príncipe Turki, toma a direcção do mesmo.

Londres torna-se abertamente o centro nevrálgico da Gládio B, a tal ponto que se fala de «Londonistan» («Londristão»-ndT) [3]. Sob a égide da Liga Islâmica Mundial, os Irmãos Muçulmanos árabes e a Jamaat-i-Islami paquistanesa criam uma quantidade de associações culturais e religiosas ligadas à mesquita de Finsbury Park. Este dispositivo irá permitir recrutar inúmeros kamikazes, desde aqueles que irão atacar a escola russa de Beslan até Richard Reid, o «Shoe bomber». O Londristão inclui, em especial, inúmeros média, editoras, jornais (al-Hayat e Asharq al-Awsat —ambos dirigidos por filhos do actual Rei Salman da Arábia—) e televisões (o grupo MBC do Príncipe Walid bin Talal emite uma vintena de canais), que não são destinados à diáspora muçulmana no Reino Unido, mas, sim com emissões dirigidas ao mundo árabe; tendo o acordo entre os Islamistas e a Arábia Saudita sido estendido ao Reino Unido –-total liberdade de acção, mas interdição de ingerência na política interna. Este conglomerado emprega vários milhares de pessoas e movimenta gigantescas quantias de dinheiro. Ele irá permanecer aberto até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando se tornará impossível aos Britânicos continuar a justificar a sua existência.

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Abu Mussab « o Sírio » (aqui com Osama Bin Laden) teorizou em termos islâmicos a «estratégia da tensão». Ele criou uma agência em Madrid e outra em Londres, às claras, para supervisionar os atentados na Europa.

Abu Mussab, «O Sírio» —um sobrevivente do golpe de Estado abortado de Hama, tornado agente de ligação entre Bin Laden e o Grupo Islâmico Armado (GIA) argelino— teoriza a «jiade descentralizada». No seu Appel à la résistance islamique mondiale, ele coloca em termos islâmicos a já bem conhecida doutrina da «estratégia da tensão». Trata-se de provocar as autoridades para suscitar uma terrível repressão que levará o povo a revoltar-se contra elas. Esta teoria fora já utilizada pelas redes Gládio da CIA /OTAN ao manipular a extrema-esquerda europeia nos anos 70-80 (Grupo Baader-Meinhof, Brigadas Vermelhas, Action Directe). É claro que estava fora de questão que esta estratégia vencesse e a CIA/OTAN sabiam que não havia nenhuma chance de êxito —ela jamais fora bem sucedida, fosse onde fosse—, pretendia sim utilizar a reacção repressiva do Estado para colocar os seus homens no Poder. «O Sírio» designa a Europa —e, claramente, nunca os Estados Unidos— como o próximo campo de batalha dos islamistas. Em 1995, ele foge de França após os atentados desse ano. Dois anos mais tarde, cria em Madrid e no Londristão o Islamic Conflict Studies Bureau, dentro do modelo da Aginter Press, que a CIA tinha criado em Lisboa durante os anos 60-70. As duas estruturas superam-se na organização de atentados de falsa-bandeira (desde o atribuído à extrema-esquerda na Piazza Fontana, em 1969, até aos atribuídos aos muçulmanos em Londres, em 2005).

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O assessor de comunicação dos Irmãos Muçulmanos, Mahmoud Jibril el-Warfally, treina os ditadores muçulmanos para falarem a linguagem democrática. Ele reorganizou a Al-Jazeera, depois tornou-se responsável da implantação das empresas dos EUA durante o regime Kadhafi na Líbia, e por fim dirige o derrube do próprio Kadhafi.

Simultaneamente, os Irmãos elaboram um vasto programa de formação de líderes árabes pró-EU. O Líbio Mahmoud Jibril El-Warfally, professor na Universidade de Pittsburg, ensina-os a falar de forma «politicamente correcta». Assim, ele forma emires e generais da Arábia Saudita, do Barém, do Egipto, dos Emirados, da Jordânia, do Kuwait, de Marrocos e da Tunísia (mas também de Singapura). Misturando princípios de Relações Públicas e estudo dos relatórios do Banco Mundial, os piores ditadores são agora capazes de falar, sem se rir, dos seus ideais democráticos bem como do seu profundo respeito pelos Direitos do Homem.

A guerra contra a Argélia transborda para a França. Jacques Chirac e o seu Ministro do Interior, Charles Pasqua, interrompem o apoio de Paris aos Irmãos Muçulmanos e tratam mesmo de interditar os livros de Yussef al-Qaradawi (o pregador da Irmandade). Para eles trata-se de manter a presença francesa no Magrebe que os Britânicos querem riscar do mapa. O Grupo Islâmico Armado (GIA) toma como reféns os passageiros do vôo da Air France Argel-Paris (1994), faz explodir bombas no RER, e em diversos pontos da capital (1995), e planeia um gigantesco atentado —que será impedido— aquando do Campeonato do Mundo de futebol (1998), incluindo a queda de um avião sobre uma central eléctrica nuclear. Em todos os episódios, os suspeitos, que conseguem escapar, encontram asilo no Londristão.

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Desfile da « Legião Árabe » de Osama Bin Laden para o Presidente Alija Izetbegovic na Bósnia-Herzegovina.

A guerra da Bósnia-Herzegovina começa em 1992 [4]. A ordens de Washington, os Serviços Secretos paquistaneses (ISI), sempre apoiados financeiramente pela Arábia Saudita, enviam 90.000 homens para participar nela contra os Sérvios (apoiados por Moscovo). Osama Bin Laden recebe um passaporte diplomático bósnio e torna-se conselheiro militar do Presidente Alija Izetbegović (de quem o Norte-americano Richard Perle é conselheiro diplomático e o Francês Bernard-Henri Lévy, conselheiro de imprensa). Ele monta a Legião Árabe com antigos combatentes do Afeganistão e arranja financiamento da Liga Islâmica Mundial. Por reflexo comunitário, ou em competição com a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irão vai também em socorro dos muçulmanos da Bósnia. Em perfeita combinação com o Pentágono, ela envia várias centenas de Guardas da Revolução e uma unidade do Hezbolla libanês. Acima de tudo, fornece o essencial das armas utilizadas pelo Exército bósnio.

Os Serviços Secretos russos, que infiltraram o campo de Bin Laden, constatam que toda a burocracia da Legião Árabe é redigida em inglês e que a Legião recebe as suas ordens directamente da OTAN. Após a guerra, um Tribunal Internacional especial é criado. Este processou inúmeros combatentes por crimes de guerra, mas nenhum membro da Legião Árabe.

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O Egípcio Muhammad al-Zawahiri participou junto com o seu irmão, Ayman (actual chefe da Alcaida), no assassínio do Presidente Sadate. Também participou ao lado da OTAN nas guerras da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo. Ele comandou também uma unidade do UÇK (Exército de Libertação do Kosovo).

Após três anos de calma, a guerra entre muçulmanos e ortodoxos reacende-se na ex-Jugoslávia, no Kosovo desta vez. O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) é formado a partir de grupos mafiosos treinados em combate pelas Forças Especiais Alemãs (KSK) na base turca de Incirlik. Os Albaneses e os Jugoslavos muçulmanos têm uma cultura Naqchbandie. Hakan Fidan, o futuro chefe dos Serviços Secretos turcos, é o oficial de ligação entre a OTAN e a Turquia. Os veteranos da Legião Árabe integram o UÇK, do qual uma brigada é comandada por um dos irmãos de Ayman al-Zawahiri. Este destrói sistematicamente as igrejas e os mosteiros ortodoxos, e caça os cristãos.

Em 1995, revivendo a tradição dos assassinatos políticos, Osama Bin Laden tenta eliminar o Presidente egípcio, Hosni Mubarak. Ele volta a tentar no ano seguinte com o Guia líbio, Muammar Kaddafi. Este segundo atentado é financiado, pela soma de £ 100.000 libras, pelos Serviços Secretos britânicos que querem punir o apoio líbio à resistência irlandesa [5]. Azaradamente a operação falha. Vários oficiais líbios fogem para o Reino Unido. Entre eles, Ramadan Abidi, cujo filho será encarregado anos mais tarde, sempre pelos serviços britânicos, de realizar um atentado em Manchester. A Líbia transmite provas à Interpol e emite o primeiro mandato de prisão internacional contra o próprio Osama Bin Laden, o qual continua a manter um escritório de relações públicas no Londristão.

Em 1998, a Comissão Árabe dos Direitos Humanos é fundada em Paris. Ela é financiada pela NED. O seu presidente é o Tunisino Moncef Marzouki, e o seu porta-voz o Sírio Haytham Manna. O seu objectivo é defender os Irmãos Muçulmanos que foram presos nos diferentes países árabes, por causa das suas actividades terroristas. Marzouki é um médico de esquerda que trabalha com eles há longo tempo. Manna é um escritor que gere os investimentos de Hassan al-Turabi e dos Irmãos sudaneses na Europa. Quando Manna se retira, a sua companheira mantêm-se como directora da associação. Ele é substituído pelo Argelino Rachid Mesli, que é advogado e é, nomeadamente, o de Abassi Madani e dos Irmãos argelinos.

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Filho espiritual do islamista turco Necmettin Erbakan (ao centro), Recep Tayyip Erdogan (à direita) dirigiu o seu grupo de acção secreta, a Millî Görüs. Ele organizou o encaminhamento de armas para a Tchechénia e abrigou, em Istambul, os principais emires anti-Russos

Em 1999 (ou seja, após a guerra do Kosovo e a tomada do Poder pelos islamistas em Grozny), Zbigniew Brzeziński funda com uma coorte de neo-conservadores o American Committee for Peace in Chechnya (Comité americano para a paz na Tchechénia). Se a primeira guerra na Tchechénia fora um assunto interno russo, no qual alguns islamistas se tinham imiscuído, a segunda visa a criação do Emirado Islâmico da Ichquéria. Brzeziński, que preparava esta operação há vários anos, tenta reproduzir a experiência afegã.

Os jiadistas tchechenos, como Chamil Bassaïev, não foram treinados no Sudão por Bin Laden, mas, sim no Afeganistão pelos Talibã. Durante toda a guerra, beneficiam do apoio «humanitário» da Millî Görüş turca de Necmettin Erbakan e Recep Tayyip Erdoğan e da «IHH - Direitos do homem e Liberdades». Esta Associação turca foi criada na Alemanha sob o nome de Internationale Humanitäre Hilfe (IHH). Em seguida, estes jiadistas organizarão várias grandes operações : nomeadamente contra o Teatro de Moscovo (2002, 170 mortos, 700 feridos), contra uma escola de Beslan (2004, 385 mortos, 783 feridos) e contra a cidade de Naltchik (2005, 128 mortos e 115 feridos). Após o massacre de Beslan e a morte do líder jiadista Chamil Bassaïev, a Milli Görüş e a IHH organizam, na mesquita de Fatih de Istambul, enormes exéquias sem o corpo mas com dezenas de milhares de militantes.

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Apresentado como um atentado «anti-americano», a destruição da embaixada dos Estados Unidos em Dar es-Salaam (Tanzânia), em 7 de Agosto de 1998, fez 85 feridos e 11 mortos… mas nenhuma vítima norte-americana.

Durante este período, três atentados importantes são atribuídos à Alcaida. No entanto, por muito importantes que estas operações sejam, elas representam um falhanço para os islamistas, os quais, por um lado, são integrados no seio da OTAN e se veem simultaneamente despromovidos para o nível de terroristas anti-americanos.
- Em 1996, um camião armadilhado faz explodir uma torre de oito andares em Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 soldados dos EUA. Primeiro atribuído à Alcaida, a responsabilidade do atentado é transferida para cima do Irão, depois finalmente para ninguém.
- Em 1998, duas bombas explodem diante das embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salam (Tanzânia), matando 298 africanos —mas nenhum Norte-americano— e ferindo mais de 4.500 pessoas. Estes atentados são reivindicados por um misterioso Exército Islâmico de Libertação dos Lugares Santos. Segundo as autoridades dos EU, eles teriam sido cometidos por membros da Jiade Islâmica egípcia em retorsão pela extradição de quatro dos seus membros. Ora, as mesmas autoridades acusam Osama Bin Laden de ser o comanditário e o FBI emite —por fim— um mandado de prisão internacional contra ele.
- Em 2000, uma embarcação suicida explode contra o costado do destróier USS Cole fundeado em Áden (Iémene). O atentado é reivindicado pela Alcaida na Península Arábica (AQPA), mas um tribunal norte-americano tornará responsável o Sudão.

Estes atentados ocorrem enquanto a colaboração entre Washington e os Islamistas continua. Assim, Osama bin Laden, conservou o seu escritório no Londristão até 1999. Situado no bairro de Wembley, o Advice and Reformation Committee (ARC) visa, ao mesmo tempo, difundir as declarações de Bin Laden e cobrir as actividades logísticas da Alcaida, inclusive em matéria de recrutamento, de pagamentos e de aquisição de materiais. Entre os seus colaboradores em Londres encontra-se o saudita Khaled al-Fawwaz e os egípcios Adel Abdel Bary e Ibrahim Eidarous, três homens que são alvo de mandados de detenção internacionais, mas que, no entanto, receberam asilo político no Reino Unido. É na mais perfeita legalidade, em Londres, que o escritório de Bin Laden publicará, em Fevereiro de 1998, o seu célebre Apelo à Jiade contra os Judeus e os Cruzados. Gravemente doente dos rins, Bin Laden é hospitalizado, em Agosto de 2001, no hospital Americano do Dubai. Um chefe de Estado do Golfo confirmou-me tê-lo ido visitar ao seu quarto, onde a sua segurança era garantida pela CIA.

6— A fusão das duas « Gládio » e a preparação do Daesh

Dentro da mesma lógica, a Administração Bush torna os Islamistas responsáveis pelos brutais atentados que ocorrem a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. A versão oficial impõe-se embora ela comporte numerosas incoerências. O Secretário da Justiça assegura que os aviões foram sequestrados por islamistas, muito embora segundo as companhias de aviação nenhum dos suspeitos tenha estado a bordo. O Departamento da Defesa publicará um vídeo no qual Bin Laden reivindica os atentados, quando o próprio os tinha rejeitado publicamente e os peritos em reconhecimento facial e vocal afirmam que o homem do vídeo não é Bin Laden.

Seja como for, estes acontecimentos servem de pretexto a Washington e a Londres para lançar a «Guerra sem fim» e atacar os seus antigos aliados, os Talibã no Afeganistão, e o Iraque de Saddam Hussein.

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Em 11 de Setembro de 2001, Osama Bin Laden não estava em estado de dirigir a menor operação terrorista. Ele estava, à beira da morte, sob diálise no hospital militar de Rawalpindi (Paquistão).

Muito embora ele já sofresse de insuficiência renal crónica, Osama Bin Laden apenas sucumbe à sua doença a 15 de Dezembro de 2001 como resultado de um síndrome de Marfan. Um representante do MI6 assiste às suas exéquias no Afeganistão. Posteriormente, vários sósias, mais ou menos parecidos, irão manter o seu simulacro vivo, dos quais um será assassinado por Omar Sheikh, em 2005, segundo a Primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhuto.

Em Agosto de 2002, o MI6 organiza uma conferência da Irmandade Muçulmana sobre o tema «a Síria para todos». Aí, os oradores desenvolvem a ideia que a Síria estaria a ser oprimida pela seita dos Alauítas e que apenas os Irmãos Muçulmanos garantiriam uma genuína igualdade.

Após Sayyed Qutb e Abu Mussab, «o Sírio», os Islamistas dotam-se de um novo estratega, Abu Bakr Naji. Em 2004, este personagem, que parece nunca ter existido, publica um livro na Internet, A Gestão da Barbárie, uma teoria do caos [6]. Embora alguns autores tenham acreditado reconhecer o estilo de um autor egípcio, parece que a obra foi escrita em inglês, depois enriquecida com citações corânicas supérfluas e traduzido para árabe. A «Barbárie» no título do livro, não designa o recurso ao terror, mas, sim o retorno ao estado da natureza antes da civilização ter criado o Estado. Trata-se de fazer regressar a Humanidade ao ponto onde «o homem é um lobo do homem». A estratégia do caos desenrola-se em três fases:
- Primeira, desmoralizar e esgotar o Estado atacando nos seus flancos menos bem protegidos. Escolhem-se portanto alvos secundários, muitas vezes sem interesse, mas fáceis de destruir e separados. Tratar-se-á de dar a impressão de um levantamento generalizado, de uma revolução.
- Em segundo lugar, assim que o Estado se tiver retirado dos subúrbios e dos campos, conquistar certas zonas e administrá-las. Impor a Charia para marcar a passagem a uma nova forma de Estado. Durante este período, serão estabelecidas alianças com todos aqueles que se opõem ao Poder, e que não se deixará de armar. Irá conduzir-se então uma guerra de posições.
- Em terceiro lugar, proclamar o Estado Islâmico.

Este tratado transpira ciência militar contemporânea. Ele dá uma enorme importância às operações psicológicas, nomeadamente à utilização da violência mediática. Na prática, esta estratégia nada tem a ver com uma revolução, mas com a conquista de um país por potências exteriores, já que ela pressupõe um investimento maciço. Como sempre na literatura subversiva, o mais interessante reside naquilo que não é dito ou apenas é mencionado de passagem:
- a preparação das populações para que elas acolham os jiadistas supõe a construção prévia de uma rede de mesquitas e de obras sociais, tal como foi feito na Argélia antes da guerra «civil».
- para serem postas em marcha, as primeiras operações militares necessitam de armas que é preciso importar de antemão. Sobretudo, em seguida, os jiadistas não terão nenhum meio para obter armas e ainda menos munições. Portanto, eles terão que ser apoiados a partir do exterior.
- A administração das zonas conquistadas supõe que se disponha de quadros formados previamente, como os dos exércitos regulares encarregados de «reconstruir Estados».
- Finalmente a guerra de posições supõe a construção de vastíssimas infra-estruturas que necessitarão de uma grande quantidade de materiais, de engenheiros e de arquitectos.

De facto, o reclamar a autoria desta obra atesta que os islamistas entendem continuar a jogar um papel militar por conta de potências exteriores, só que desta vez em grandíssima escala.

Em 2006, os Britânicos pedem ao Emir Ahmad do Catar para colocar o seu canal de televisão pan-árabe, Al-Jazeera, ao serviço dos Irmãos Muçulmanos [7]. O Líbio Mahmoud Jibril, que treinou a família real a falar em linguagem democrática, é encarregue de introduzir, passo a passo, os seus Irmãos no canal e de criar canais em línguas estrangeiras (inglês e, a seguir, bósnio e turco), assim como um canal para as crianças. O pregador Yusuf al-Qaradawi torna-se «conselheiro religioso» da Al-Jazeera. É claro, o canal irá transmitir e validar as gravações de áudio ou os vídeos dos «Osama Bin Laden».

No mesmo período, as tropas dos EUA no Iraque tem que fazer face a uma revolta que se generaliza. Depois de terem sido derrotados pela rapidez e pela brutalidade da invasão (técnica do «choque e pavor»), os Iraquianos organizam a sua resistência. O Embaixador norte-americano em Bagdade, depois Director da Inteligência Nacional, John Negroponte, propõe-se vencê-los pela divisão e virando a sua raiva contra si próprios, quer dizer transformar a Resistência à ocupação em guerra civil. Perito em operações secretas, ele participou, nomeadamente, na Operação Fénix no Vietname, montando depois a guerra civil civil em El Salvador e a operação Irão-Contras na Nicarágua, e levou ao colapso a rebelião no Chiapas mexicano. Negroponte chama um dos homens em que se apoiou em El Salvador, o Coronel James Steele. Confia-lhe a tarefa de criar milícias iraquianas de xiitas contra os sunitas e sunitas contra os xiitas. Quanto à milícia sunita, Steele recorre aos Islamistas. A partir da Alcaida no Iraque, ele arma uma coligação tribal, o Emirado islâmico no Iraque (futuro Daesh) sob cobertura da polícia especial («Brigada dos Lobos»). Para aterrorizar as vítimas e as suas famílias, ele treina o Emirado na tortura, segundo os métodos da Escola das Américas (School of América) e da Political Warfare Cadres Academy de Taiwan, onde ensinou. Em poucos meses, um novo horror abate-se sobre os Iraquianos e divide-os segundo a sua confissão religiosa. Em seguida, assim que o General David Petraeus assumir o comando das tropas norte-americanas no país, irá designar o Coronel James H. Coffman para trabalhar com Steele e lhe fornecer relatórios sobre a operação, enquanto Brett H. McGurk dará conta directamente ao Presidente. Os principais chefes do Emirado Islâmico são recrutados no campo de concentração de Bucca, mas são objecto de preparação na prisão de Abu Ghraib, segundo os métodos de «lavagem ao cérebro» dos professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. Tudo é supervisionado desde Washington pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, de quem Steele depende directamente.

Em 2007, Washington informa a Irmandade que vai derrubar os regimes laicos do Médio-Oriente Alargado, incluindo os dos Estados aliados, e que ela se deve preparar para exercer o Poder. A CIA organiza alianças entre os Irmãos e partidos, ou personalidades laicas, de todos os Estados da região. Simultaneamente, ela liga os dois ramos da «Gládio» tecendo laços entre os grupos nazis ocidentais e os grupos islamistas orientais.

Estas iniciativas de aliança são às vezes inconclusivas, como, por exemplo, aquando da «Conferência Nacional da Oposição Líbia», em Londres, onde os Irmãos não conseguem federar à sua volta senão o Grupo Islâmico Combatente na Líbia (Alcaida na Líbia) e a Irmandade wahhabita Senussi. A plataforma programática prevê restabelecer a monarquia e fazer do Islão a religião do Estado. Mais convincente é a constituição da Frente da Salvação Nacional, em Berlim, que oficializa a união dos Irmãos com o antigo Vice-presidente baathista sírio Abdel Halim Khaddam.

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Dmytro Iarosh durante o Congresso da Frente anti-imperialista de Ternopol (2007). Ele vai realizar a junção entre os nazis da Gládio A e os islamistas da Gládio B, depois irá tornar-se Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia após a «revolução colorida» do EuroMaidan (2014).

A 8 de Maio de 2007, em Ternopol (oeste da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criam uma Frente anti-imperialista para lutar contra a Rússia. Organizações da Lituânia, da Polónia, da Ucrânia e da Rússia participam nela, entre as quais os separatistas Islamistas da Crimeia, da Adigueia, do Daguestão, da Inguchia, da Cabardino-Balcária, da Carachai-Cerquéssia, da Ossétia, da Chechénia. Não podendo viajar para lá devido as sanções internacionais impostas contra ele, Dokou Umarov —que aboliu a República da Chechénia e proclamou o Emirado Islâmico da Ichquéria—, fez ler a sua proclamação. A Frente é presidida pelo nazi Dmytro Yarosh, o qual se tornará durante o golpe de Estado de Kiev, em Fevereiro de 2014, Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia.

No Líbano, em Maio-Junho de 2007, o Exército nacional empreende o cerco do campo palestino de Nahr el-Bared depois de membros da Fatah al-Islam se terem lá entrincheirado. Os combates duram 32 dias e custam a vida a 76 soldados, dos quais uma trintena são decapitados.

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O Turco-Irlandês El Mehdi El Hamid El Hamdi dito «Mahdi Al-Harati», agente da CIA presente na Flotilha da Liberdade, abraçado pelo Presidente Erdogan que veio visitá-lo ao hospital. Em seguida, ele irá tornar-se o número 2 do Exército sírio livre.

Em 2010, a Irmandade organiza a Flotilha da Liberdade através da IHH. Oficialmente trata-se de desafiar o embargo israelita e de levar assistência humanitária aos habitantes de Gaza [9]. Na realidade, o principal barco desta frota muda de bandeira durante a travessia e prossegue sob pavilhão turco. Numerosos espiões misturam-se com os militantes não-violentos participando na expedição, entre os quais um agente irlandês da CIA, Mahdi al-Harati. Caindo na armadilha que lhe estende os Estados Unidos, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordena o assalto aos barcos, em águas internacionais, provocando 10 mortos e 54 feridos. O mundo inteiro condena esse acto de pirataria sob o olhar sarcástico da Casa Branca. Israel, que fornecia armas aos jiadistas no Afeganistão e apoiou a criação do Hamas contra a OLP de Yasser Arafat, virara-se contra os Islamistas em 2008 e bombardeou-os, assim como à população de Gaza. Netanyahu paga assim, desta maneira, a operação «Chumbo Endurecido» que levou a cabo, junto com a Arábia Saudita, contra a opinião da Casa Branca. No fim, os passageiros da Flotilha são libertados por Israel. A imprensa turca mostra então o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan visitando Mahdi al-Harati num hospital.

(Continua …)


[1] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Foreword by Dr. John Prados, Frank Cass/Routledge (2005).

[2] Classified Woman: The Sibel Edmonds Story : A Memoir, Sibel Edmonds (2012).

[3] Londonistan, Melanie Phillips, Encounter Books (2006).

[4] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, NP Verlag (2005); Intelligence and the war in Bosnia 1992-1995: The role of the intelligence and security services, Nederlands Instituut voor Oologsdocumentatie (2010). Al-Qaida’s Jihad in Europe: The Afghan-Bosnian Network, Evan Kohlmann, Berg (2011).

[5] «David Shayler: «Dejé los servicios secretos británicos cuando el MI6 decidió financiar a los socios de Osama ben Laden»», Red Voltaire , 23 de noviembre de 2005.

[6] The Management of Savagery: The Most Critical Stage Through Which the Umma Will Pass, Abu Bakr Naji, Harvard University (2006).

[7] «Wadah Khanfar, Al-Jazeera y el triunfo de la propaganda televisiva », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2011.

[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.

[9] «Flotilla de la Libertad: el detalle que Netanyahu no conocía», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 11 de junio de 2010.



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Recuo da religião muçulmana no mundo árabe

 

O Barómetro Árabe publicou, em 24 de Junho de 2019, uma sondagem (pesquisa-br) junto de 25.000 árabes, repartidos por 12 países [1]. É a quarta vez, desde 2006, que ele procede a este estudo de opinião.

O mais impressionante é o declínio da filiação religiosa. Desde as «Primaveras Árabes», o número de pessoas que se declaram «não religiosas» passou de 8 para 13%. Ele atinge mesmo 18% nos menores de 30 anos.

Esta evolução marca o falhanço dos Imãs face aos Irmãos Muçulmanos e ao jiadismo: ao declarar que iam explicar o «verdadeiro Islão» para conter o «Islão político», fizeram fugir uma parte da juventude.

Se os Imãs continuarem a recusar discutir o que eles apreenderam da sua religião, esta não cessará de recuar. Com efeito, agem exactamente como aqueles que querem contradizer: pretendem saber tudo e não toleram que se levante a mínima observação.

Como é que se chegou aqui ? Lembremos que Maomé foi educado por judeu-cristãos, que ele sempre protegeu, que bebia álcool e que ele jamais pediu a uma mulher que se cobrisse com véu.


[1] “The Arab world in seven charts : Are Arabs turning their backs on religion ?” («O mundo Árabe em sete tabelas : Estão os Árabes a virar as costas à religião ?»- ndT), BBC News, June 24, 2019.



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as oito razões para um pouco religioso ódio “sunita-xiita”

Uma interessante resenha histórica da fractura sunita-xiita no islão, do seu peso na evolução da situação no Médio Oriente, e sobretudo do seu papel de bloqueio de uma perspectiva de resolução dos confrontos entre Estados cuja visão da realidade é distorcida por “um olhar metafísico”.


 

“Bombardear o Irão” tem sido desde há anos uma exigência do Reino da Arábia Saudita (RAS) aos EUA. Para o conseguir, contribuiu para a campanha eleitoral de Donald Trump, investiu largos milhões de dólares na economia militar dos EUA e até adaptou aos interesses de Washington o fornecimento de petróleo da OPEP ao mercado mundial. Achará que o presidente dos EUA tem um “preço” ou é homem de mão seu?

Mas, por que é que o principal país islâmico-sunita do mundo, a Indonésia, mantém boas relações com a República Islâmica xiita do Irão enquanto o RAS sonha com transformá-lo num monte de cinzas?

1. Passam quatorze séculos sobre a invasão dos árabes procedentes das actuais terras da Arábia Saudita a um império persa exausto e decadente. Nem as bolas de cristal do seu rei dos reis o avisaram do devastador ataque que destruiria o único espaço em torno do Irão que este não conquistara (por ser deserto), nem do Ouro Negro que se escondia debaixo das suas areias. Durante os dois séculos de domínio árabe sobre o Irão, ocorreram numerosos movimentos populares e políticos para expulsar os ocupantes do poder. Embora o tenham conseguido, e um Irão cristão, mitríaco, budista e zoroástrico tenha sido islamizado, ele recusou a arabizar-se, mantendo a sua língua, a sua cultura e as suas tradições milenares, os derrotados atreveram-se a iranizar o islão: criaram o xiismo, marcada por alguns elementos da mitologia persa, como os 12 apóstolos de Ormuz e a vinda de um Salvador quando o mundo chegar ao fim. Assim, em 1501, o xiismo sai da clandestinidade para se converter na religião oficial do Estado, derrubando o sunismo (”tradicionalismo”). Será por decreto-lei das mãos do guerreiro azerbaijão Ismael I (1487-1524), fundador da dinastia Safávidas «Os Suflos».

O objectivo de Ismael I, filho da princesa Marta (neta da grega Teodora), ao fundir duas identidades, - a “iraniedade” e o “xiismo” - foi levantar uma rígida fronteira com o principal inimigo do Irão: os “turcos-sunitas “do Império Otomano (os árabes encontravam-se sob domínio turco). Ser iraniano-xiita era e é uma identidade única, que não se encontra em outro Estado. O desejo de derrotar os otomanos foi tal que o monarca Shah Abbas I Safavidas (1571 - 1629) procurou aliança na Europa cristã: enviou uma delegação à corte de Filipe III, para negociar um possível pacto. A viagem teve uma curiosa anedota: um dos membros da comitiva, Uruch Beg, apelidado de “Don Juan da Pérsia” foi assassinado em Valladolid, por razões desconhecidas.

Eis outro dado acerca de até que ponto a religião é um instrumento de poder, e os povos não escolhem o seu credo: em 1736, Nader Shah (1688 -1747), o rei do Irão suspendeu o xiismo como religião oficial do Estado, e declarou-o além disso uma escola mais do sunismo; pretendia pacificar as relações com o vizinho otomano, embora tivesse que recuar, devido à resistência do alto clero xiita, que não estava disposto a sacrificar o seu estatuto e os seus interesses mesmo por uma causa suprema.

A batalha entre essas duas identidades incompatíveis teve sua máxima manifestação durante o reinado de Reza Pahlavi (1925-1941). O seu golpe de Estado coincide com o início da formação da RAS. A ditadura Pan-Iranista Pahlavi é modernizadora, semi-laica e anti-árabe,e no centro das suas reformas capitalistas está uma visceral luta contra a casta clerical, considerada na milenar literatura persa de símbolo de corrupção moral, hipocrisia e prepotência. Os castigos cruéis deste rei aos opositores - sobretudo os comunistas e intelectuais progressistas – atingiram também os clérigos islâmicos: são submetidos a “khal-e lebas” ( “despojados da sotaina”) e ser-lhes-á cortada em público a barba e o bigode (símbolos de masculinidade). Aquele rei desmantelou os tribunais religiosos, reformou o Lei de Família, abriu universidades, promoveu o cinema, teatro, música, embora a joia da sua coroa tenha sido proibir em 1935 o véu como passo decisivo da transição social da Idade Média ao século XX, permitindo que as mulheres entrassem no mercado de trabalho nos centros académicos, artísticos e científicos. Mudar o nome de Pérsia para o de Irão, “a Terra dos Arianos”, na Sociedade das Nações foi a culminação de seu desejo de recuperar a “grandeza” do Irão pré-islâmico.

Na RAS, o processo político é o inverso: nasce como resultado da aliança entre a tribo Al Saud e a escola fundamentalista wahhabi. Não haverá um “estado” com as suas instituições, mas uma empresa privada pertencente a uma família de recorte feudal, cuja ambição não irá além de aumentar o peso do ouro das suas propriedades.

Nesta época, as relações entre os dois países são tensas. Os ataques aos peregrinos iranianos em Meca pelos sauditas (que consideram o xiismo uma heresia) e até mesmo a decapitação de um deles, farão com que Teerão encerre a embaixada da Arábia em Teerão e proíba os crentes iranianos de viajar para a cidade santa.

O protagonismo dos EUA na região, após a Segunda Guerra Mundial, forçará Mohammad Reza Pahlavi e o rei Faisal a aproximarem-se: estarão unidos pela luta anticomunista e criarão instituições islâmicas globais, como a Organização do Congresso Mundial Islâmico, a Liga Mundial dos Muçulmanos e da Organização da Conferência Islâmica. O número de mesquitas no Irão dispara na década de 1970 como uma barreira para conter o aumento da simpatia dos jovens em relação aos postulados da esquerda.

Richard Nixon converterá o Irão e o RAS em “Twin Pillars” (Duplo Pilar) dos interesses dos EUA na região mais rica em petróleo do mundo. O Xá estará encarregado de fazer de “Gendarme do Golfo Pérsico”: assim recupera para o Irão as três ilhas da Grande Tomb, Pequeno Tomb e Abu Musa, que tinham sido ocupadas pela Grã-Bretanha no século XIX e cedeu aos Emiratos Árabes em 1968, e a pedido dos britânicos enviará em 1973 o exército iraniano para Omã, para esmagar a guerrilha marxistas de Dhofar, que sonhava com um segundo país árabe socialista (o primeiro foi o Iémen do Sul). A amizade dos sultões de Omã com o Irão perdura até hoje.
Impacto múltiplo sobre Riade da queda do Xá

2. A queda do “Último Imperador” do Irão em 1979, e especialmente o fim da monarquia milenar mais poderosa da região, provocará pânico em Riyadh, que teme o seu efeito borboleta. Na região, as repúblicas iam ganhando terreno às monarquias caducas: antes do Irão, Afeganistão (1973), Líbia (1969), Iémen (1962), Iraque (1958) e Egipto (1952) derrubaram os seus reis.

3. Que o sistema político do Irão, ao contrário de outras repúblicas semisseculares do “mundo islâmico”, se proclamasse “islâmico” colocava um novo desafio a Riade: pela primeira vez terá um competidor. O aiatola Khomeini não era nenhum “republicano”. A sua proposta inicial era estabelecer um okumat-e eslami “Estado Islâmico”, um califado religioso semelhante ao governo de Maomé. Foi a pressão de milhões de iranianos que exigiam uma república, para poder eleger e mudar o chefe de Estado, que forçou o aiatola a colocar o adjectivo de “república” uma criatura sem precedentes na história: um califado dirigido por um clérigo todo poderoso e não eleito que gerirá Welayat-e Faghih, a “tutela do jurista islâmico”, com capacidade legal para suspender o parlamento e o presidente “eleito” (que deve ser do sexo masculino, xiita, e fiel ao Tutor) e num sistema com base na Sharia xiita, em que os habitantes do país terão direitos diferentes em resultado do seu sexo, nacionalidade, religião e fidelidade ao “Tutor” que, por razões desconhecidas, é apelidado “Líder espiritual” pela imprensa ocidental.

4. Que Khomeini apresentasse o novo estado como uma república “islâmica”; mas não “xiita” e acusasse os sauditas de “adulterar o Islão”, de serem “peões de Israel e dos EUA”, “infiéis” ou “corruptos e criminosos”, arrebatou o monopólio que os Saud reivindicavam sobre os “muçulmanos Sunitas “do mundo, que são cerca de 80% da comunidade.

5. Uma comparação rápida entre o RAS e a RI transmitia a ideia de que o Islão iraniano permite a arte, eleições, ou certas liberdades para as mulheres, sem ter em conta a história do próprio país (que teve até ministras antes da RI), apresentando a teocracia saudita como um sistema menos desenvolvido do que o xiita. Sendo o Irão um país mais avançado do que o RAS, os seus fundamentalistas também o são.

6. A carga “social” da revolução iraniana, recolhida por Khomeini que inicialmente, e sob a grande influência da esquerda iraniana, prometeu justiça aos “deserdados,” introduzindo o factor “luta de classes” na comunidade religiosa, que costuma dar prioridade à fé do crente em função da sua conta bancária. Pelo caminho, descobrir-se-á que o aiatola se referia à “igualdade dos muçulmanos perante Deus”, insistindo em que “a propriedade é sagrada no Islão”; e para dissipar dúvidas, em resposta aos trabalhadores que pediam uma vida decente, sentenciou: “preocupar-se com o estômago (ou seja, com a economia) é coisa de animais”. No final, não houve teologia xiita da libertação, confirmando o princípio de que a justiça social só é possível em um sistema socialista de produção e distribuição justa dos recursos, e apenas sob a direcção das forças de esquerda.

7. O aumento da influência da RI na região colocará em xeque os sauditas, que além disso têm fiéis ao xiismo no seu próprio país, e que ainda por cima habitam a região mais petrolífera do país.

8. A intenção da RI de desenvolver um programa nuclear. Em 2002, o Conselho de Segurança da ONU impõe duras sanções contra o Irão.

A partir da RI, as batalhas na região, que tinham matriz nacional (árabe-israelita, iraniano-árabe etc.), passarão pela primeira por linhas religiosas xiitas-sunitas, dividindo ainda mais os trabalhadores da região face aos seus inimigos. A Palestina foi a primeira vítima dessa nova situação. A Organização para a Libertação da Palestina perderá sua força: além de lutar contra a ocupação israelita tem de se proteger dos ataques de grupos religiosos patrocinados pela RI e pelo RAS.

A resposta de Riadh ao desafio da RI

• Financiar a guerra de Saddam Hussein contra o Irão entre 1980-1988.

• Fundar o Conselho de Cooperação do Golfo em 1981 como sistema de segurança “anti-xiita” e promover com os EUA uma “NATO sunita”.

• Consolidar seu controlo sobre o preço do petróleo e a OPEP.

• Impedir, juntamente com a Turquia e Israel, que no Iraque os iranianos pudessem aproveitar o “erro” de Bush de implementar um governo xiita depois de derrubar o sunita Saddam Hussein. É a primeira vez que o Irão obtém uma influência de envergadura num país árabe.

• Enviar milhares de “jihadistas” para a Síria, para derrubar Bashar al-Assad, o único aliado da RI na região.

• Planear em 2009 o desenvolvimento de um programa nuclear, enquanto “ajuda” o Paquistão a manter a sua bomba atómica.

• Pedir aos governos de Bush e Obama que bombardeiem o Irão.

• Patrocinar a campanha eleitoral de Trump em troca de que este rompa o acordo nuclear dos EUA assinado em 2015, apesar de beneficiar a Arábia (e Israel), já que o levantamento das sanções económicas ao Irão foi o último golpe nas esperanças dos sauditas numa ação bélica de Washington contra o Irão. O acordo permitia que Teerã normalizasse seu relacionamento com o mundo, aumentasse os seus mercados e também a sua área de influência em detrimento dos seus concorrentes regionais, justamente quando a Arábia sofria um déficit orçamentário de 87.000 milhões de dólares e tomava em consideração vender a ARAMCO, a sua empresa estatal. de petróleo e gás.
Segundo o FMI, o país árabe pode ficar sem activos financeiros em poucos anos. Para Riyadh, que se converteu no primeiro comprador de armas no mundo, era urgente fazer desaparecer o Irão enquanto potência. E para isso começou a pagar milhões de euros à imprensa e ao “Google” para apagar o adjectivo “Pérsico” ao golfo com esse nome desde antes do aparecimento da Arábia, quando a Grécia antiga o chamava de “Limen Persikos”. Daí “a Guerra do Golfo”, de um golfo sem nome e localização geográfica.

E estas não são as únicas ameaças de que Riad se dá conta:

• Os extremistas sunitas acusam-no de ser pouco islâmico permitir que nas terras sagradas do Islão, por exemplo, piscinas mistas na base militar dos EUA.

• Os sectores liberais “sunitas” – como o jornalista Jamal Khashoggi, as mulheres feministas e jovens seculares, como blogger Raif Badawi ou o poeta palestiniano Ashraf Fayadh, acusados de apostasia.

• E os próprios EUA, que ameaçaram eliminá-la em duas semanas.

Passa um século sobre o Tratado Sykes-Picote, que repartiu o Médio Oriente entre as superpotências da época, França e Grã-Bretanha. Os EUA procuram agora uma nova arquitectura geopolítica que garanta os seus interesses de longo prazo nesta estratégica região do mundo, e a Arábia Saudita não é mais do que uma ferramenta nas suas mãos para executar esse projeto.

Este conflito entre as duas teocracias ocorre no Estreito de Ormuz, e no solo de países terceiros como Iraque, Síria, Líbano e Afeganistão: trata-se de um jogo de soma zero, e não apenas devido à incompatibilidade dos seus interesses, mas também pelo seu olhar metafísico que distorce a realidade que os rodeia.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5847/arabia-saudi-lran-los-ocho-motivos-de-un-odio-sunnita-chiita-poco-religioso/[1]

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“Sob os nossos olhos” (3/25)Os Irmão Muçulmanos como força de apoio do MI6 e da CIA

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos Olhos». Neste episódio, ele descreve a maneira como o Presidente Jimmy Carter e o seu Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, usaram as capacidades terroristas dos Irmãos Muçulmanos contra os Soviéticos.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, imaginou utilizar os Irmãos Muçulmanos para operações terroristas contra o governo comunista afegão; o que provocou a intervenção da URSS.

3— A Irmandade ao serviço da estratégia Carter/Brzeziński

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Sir James Macqueen Craig, especialista sobre o Médio-Oriente, convenceu o Reino Unido a utilizar os Irmãos Muçulmanos para operações secretas fora do Egipto. Foi também ele quem concebeu o plano das «Primaveras Árabes» no modelo da operação realizada em 1915 por Lawrence da Arábia.

Em 1972-73, um responsável do Foreign Office —e provavelmente do MI6—, James Craig, e o embaixador britânico no Egipto, Sir Richard Beaumont, começam um intenso lóbing para que o seu país e os Estados Unidos se apoiem nos Irmãos Muçulmanos não apenas no Egipto, mas em todo o mundo muçulmano contra os Marxistas e os Nacionalistas. Sir Craig será em breve nomeado embaixador de sua Majestade na Síria, depois na Arábia, e terá ouvidos atentos na CIA. Muito mais tarde, ele será o ideólogo das «Primaveras Árabes».

Em 1977, nos Estados Unidos, Jimmy Carter é eleito Presidente. Ele designa Zbigniew Brzeziński como Conselheiro de Segurança Nacional. Este último decide utilizar o islamismo contra os Soviéticos. Dá luz verde aos Sauditas para aumentar os seus financiamentos à Liga Islâmica Mundial, organiza mudanças de regime no Paquistão, no Irão e na Síria, desestabiliza o Afeganistão e faz do acesso norte-americano ao petróleo do Médio Oriente um objectivo de segurança nacional. Finalmente, ele confia meios militares à Irmandade.

Esta estratégia é claramente explicada por Bernard Lewis aquando da reunião do Grupo de Bilderberg [1] que a OTAN organiza em Abril de 1979 na Áustria. O islamólogo anglo-israelo-americano assegura aí que os Irmãos Muçulmanos podem não só jogar um grande papel face aos Soviéticos, e provocar distúrbios internos na Ásia Central, mas, também balcanizar o Próximo-Oriente no interesse de Israel.

Contrariamente a uma ideia feita, os Irmãos não se limitaram apenas a seguir o plano Brzeziński, eles visaram mais longe e obtiveram a assistência de Riade e de Washington para formar outros ramos da Irmandade noutros países; ramos que irão dinamizar mais tarde o seu projecto. O rei da Arábia concede uma média de 5 mil milhões de dólares anuais à Liga Islâmica Mundial que estende as suas actividades a 120 países e financia guerras. A título indicativo, US $ 5 mil milhões de dólares era o equivalente ao orçamento militar da Coreia do Norte. A Liga obtém o Estatuto consultivo junto do Conselho Económico e Social da ONU e um estatuto de Observador junto da Unicef.

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O General Muhammad Zia-ul-Haq, primeiro Chefe de Estado membro dos Irmãos Muçulmanos fora do Egipto, permite aos combatentes da Irmandade dispor de uma base de retaguarda contra os comunistas afegãos.

No Paquistão, o General Muhammad Zia-ul-Haq, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, formado em Forte Bragg nos Estados Unidos, derruba o Presidente Zulfikar Alî Bhutto e fá-lo enforcar. Membro da Jamaat-e-Islami, quer dizer da versão local da Irmandade Muçulmana, ele islamiza a sociedade. A Charia é progressivamente estabelecida –-incluindo a pena de morte por blasfémia--- e uma vasta rede de escolas islâmicas é instalada. É a primeira vez que a Irmandade está no Poder fora do Egipto.

No Irão, Brzeziński convence o Xá a sair e organiza o retorno do Imã Rouhollah Khomeini, o qual se define como um «islamista xiita». Na sua juventude, Khomeini tinha-se encontrado com Hasan el-Banna, no Cairo, em 1945, para o convencer a não alimentar o conflito sunitas/xiitas. Em seguida, ele traduziu dois livros de Sayyid Qutb. Os Irmãos e o Revolucionário iraniano concordam quanto a assuntos de sociedade, mas nada sobre as questões políticas. Brzeziński percebe o seu erro de cálculo no próprio dia da chegada do Aiatola a Teerão, porque este vai orar aos túmulos dos mártires do regime do Xá e apela ao exército para se revoltar contra o imperialismo. Brzeziński comete um segundo erro ao enviar a Força Delta socorrer os espiões norte-americanos que são feitos reféns na sua Embaixada em Teerão. Apesar de ter conseguido esconder aos olhos dos Ocidentais que os seus diplomatas eram falsos, ele mete os seus militares a ridículo com a falhada operação «Garra de Águia», e instala no Pentágono a ideia segundo a qual será preciso melhorar os meios para vencer os muçulmanos.

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O bilionário saudita Oussama Ben Laden, herói do Ocidente contra os Soviéticos.

No Afeganistão, Brzeziński põe de pé a «Operação Ciclone». Entre 17 a 35.000 Irmãos Muçulmanos, vindos de 40 países, irão bater-se contra a URSS que tinha vindo defender, a seu pedido, a República Democrática do Afeganistão do terrorismo dos Irmãos [2] –-jamais houve qualquer «invasão soviética» como alega a propaganda dos EUA---. Eles nunca ultrapassarão os 15. 000 à vez. Estes homens veem em reforço de uma Coligação de combatentes conservadores e de Irmãos Muçulmanos locais, entre os quais o pashtun Gulbuddin Hekmatyar e o tajique Ahmed Shah Massoud. Recebem o seu armamento essencialmente de Israel [3] –-oficialmente seu inimigo jurado, mas agora seu parceiro---. O conjunto destas forças é comandado a partir do Paquistão pelo General Muhammad Zia-ul-Haq, e financiado pelos Estados Unidos e Arábia Saudita. É a primeira vez que a Irmandade é usada pelos Anglo-Saxões para travar uma guerra.

Entre os combatentes presentes encontram-se os futuros responsáveis das guerras no Cáucaso, da Jamiat Islamyiah Indonésia, do grupo Abbou Sayaf nas Filipinas e, é claro, da Alcaida e do Daesh (EI). Nos Estados Unidos a operação anti-soviética é apoiada pelos Republicanos e um pequeno grupo de extrema-esquerda, os trotskistas do Social Democrats USA.

A estratégia Carter-Brzeziński representa uma mudança de escala [4]. A Arábia Saudita, que até aqui fora a financiadora dos grupos islamistas, vê-se encarregada de gerir os fundos da guerra contra os Soviéticos. O Director-geral da Inteligência saudita, o Príncipe Turki (filho do rei à época, Faisal), torna-se uma personalidade incontornável de todas as cimeiras ocidentais de Inteligência.

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O Palestino Abdallah Azzam e o Saudita Oussama Ben Laden foram treinados em Riade por Mohammad Qutb, o irmão de Sayyid Qutb. Eles dirigiram sucessivamente os combatentes dos Irmãos Muçulmanos no Afeganistão.

Sendo os problemas entre Árabes e Afegãos recorrentes, o Príncipe Turki envia primeiro o Palestino Abdullah Azzam, o «imã da Jiade», restaurar a ordem entre os Irmãos e administrar o escritório local da Liga Islâmica Mundial, depois o bilionário Ossama Bin Laden. Azzam e Bin Laden foram formados na Arábia Saudita pelo irmão de Sayyid Qutb.

Ainda durante o mandato de Carter, os Irmãos Muçulmanos empreendem uma longa campanha de terror na Síria, incluindo o assassínio de cadetes não-sunitas na Academia Militar de Alepo pela «Vanguarda Combatente». Dispõem de campos de treino na Jordânia, onde os Britânicos lhes dispensam uma formação militar. Durante estes anos de chumbo, a CIA consegue selar uma aliança entre os Irmãos Muçulmanos e o grupúsculo de ex-Comunistas de Ryad al-Turk. Este e os seus amigos, Georges Sabra e Michel Kilo, tinham rompido com Moscovo durante a guerra civil libanesa para apoiar o campo ocidental. Filiam-se no grupo trotskista norte-americano, Social Democrats USA. Os três homens redigem um manifesto no qual afirmam que os Irmãos Muçulmanos formam o novo proletariado, e que a Síria só poderá ser salva por uma intervenção militar norte-americana. Por fim, os Irmãos tentam um golpe de Estado em 1982, com o apoio do Baath iraquiano (o qual colaborava então com Washington contra o Irão) e da Arábia Saudita. Os combates que se seguiram em Hama fazem 2.000 mortos segundo o Pentágono, cerca de 40.000 segundo a Irmandade e a CIA. Posteriormente, centenas de prisioneiros são assassinados em Palmira pelo irmão do Presidente Hafez Al-Assad, Rifaat, que será demitido e forçado ao exílio em Paris quando ele tenta, por sua vez, um golpe de Estado contra o seu próprio irmão. Os trotskistas são presos, e a maioria dos Irmãos foge, quer para a Alemanha (onde reside já o antigo Guia sírio Issam al-Attar), quer para França (como Abu Mussab, o Sírio), onde o Chanceler Helmut Kohl e o Presidente François Mitterrand lhes dão asilo. Dois anos mais tarde, um escândalo rebenta no seio da Oposição, agora no exílio, no momento da partilha: 3 milhões de dólares desapareceram de um total de $ 10 milhões dados pela Liga Islâmica Mundial.

4— Para a constituição de uma Internacional da Jiade

Durante os anos 80, a Liga Islâmica Mundial recebe instruções de Washington para transformar a sociedade argelina. Durante um decénio, Riade oferece a construção de mesquitas nas aldeias. São-lhe acrescentadas sempre uma escola e um dispensário. As autoridades argelinas regozijam-se tanto mais com esta ajuda quanto elas já não conseguem garantir o acesso de todos à Saúde e à Educação. Progressivamente, as classes trabalhadoras argelinas distanciam-se de um Estado que não lhes vale de grande coisa e aproximam-se de tão generosas mesquitas.

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O Preidente Bush Sr, antigo director da CIA, toma-se de amizades pelo Embaixador saudita, o Príncipe Bandar ben Sultan ben Abdelaziz Al Saoud, que se tornará mais tarde seu homólogo, enquanto chefe dos Serviços de Inteligência do seu país. Ele considera-o como seu filho adoptivo, de onde lhe surge a alcunha de Bandar Bush.

Quando o Príncipe Fahd se torna rei da Arábia Saudita, em 1982, coloca o Príncipe Bandar (filho do Ministro da Defesa) como embaixador em Washington, cargo que ocupará durante todo o seu reinado. A sua função é dupla: por um lado, ele gere as relações saudo-americanas, por outro serve como uma interface entre o Director da Inteligência Turki e a CIA. Torna-se amigo do Vice-presidente e antigo chefe da CIA, George H. W. Bush, que o considera como seu «filho adoptivo»; depois com o Secretário da Defesa, Dick Cheney, e o futuro director da CIA, George Tenet. Ele insere-se na vida social das elites e integra tanto a seita cristã dos chefes de Estado-Maior do Pentágono, The Family, como o ultra-conservador Bohemian Club de San Francisco.

Bandar comanda os jiadistas a partir da Liga Islâmica Mundial. Ele negoceia com Londres, junto da British Aerospace, a compra de armamento para o seu Reino em troca de petróleo. Os contratos de «pato», (em árabe Al Yamamah), custarão entre 40 e 83 mil milhões de libras esterlinas a Riade, dos quais uma parte significativa será devolvida pelos Britânicos ao Príncipe.

Em 1983, o Presidente Ronald Reagan confia a Carl Gershman, o antigo líder dos Social Democrats USA, a direção da nova National Endowment for Democracy (NED) [5]. É uma agência dependente do acordo da «Cinco Olhos», camuflada em ONG. Ela é a fachada legal dos Serviços secretos australianos, britânicos, canadianos, norte-americanos e neo-zelandeses. Gershman já trabalhara com os seus camaradas trotskistas e os seus amigos dos Irmãos Muçulmanos no Líbano, na Síria e no Afeganistão. Ele põe a funcionar uma vasta rede de associações e de fundações que a CIA e o MI6 usam para apoiar a Irmandade, onde quer que seja possível. Ele reclama-se da «doutrina Kirkpatrick» : todas as alianças são correctas desde que sirvam o interesse dos Estados Unidos.

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Neste contexto, a CIA e o MI6 que haviam criado no mais aceso da Guerra Fria a Liga anti-comunista mundial (WACL), vão utilizá-la para encaminhar para o Afeganistão os fundos necessários à Jiade. Osama Bin Laden adere a esta organização que conta com vários chefes de Estado [6].

Em 1985, o Reino Unido, fiel à sua tradição de qualidade académica, dota-se de um Instituto encarregue de estudar as sociedades muçulmanas e a maneira pela qual os Irmãos as podem influenciar, o Oxford Center for Islamic Studies.

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Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir impõem os Irmãos Muçulmanos no Sudão. No contexto particularmente sectário a atrasado do seu país, eles vão entrar em choque com a Irmandade antes de se destruírem mutuamente.

Em 1989, os Irmãos têm êxito num segundo Golpe de Estado, desta vez no Sudão em benefício do Coronel Omar al-Bashir. Ele não perde tempo a colocar o Guia local, Hassan al-Turabi, na presidência da Assembleia Nacional. Este último, numa conferência dada em Londres, anuncia que o seu país se vai tornar na base de retaguarda dos grupos islamistas do mundo inteiro.

Ainda em 1989, a Frente Islâmica da Salvação (FIS) surge na Argélia, em torno de Abassi Madani, enquanto o partido no Poder se afunda em diversos escândalos. A FIS é apoiada nas mesquitas «oferecidas» pelos Sauditas, e por conseguinte pelos Argelinos que as frequentam desde há uma década. Devido à rejeição aos dirigentes no Poder, e não por adesão à sua ideologia, ela ganha as eleições locais. Verificando o falhanço dos políticos e a impossibilidade ontológica de negociar com os islamistas, o exército dá um Golpe de Estado e anula as eleições. O país afunda-se numa longa e mortífera guerra civil da qual pouco se virá a saber. A guerrilha islamita fará mais de 150.000 vítimas. Os islamitas não hesitam em aplicar, ao mesmo tempo, punições a nível individual e colectivo, por exemplo, como quando massacram os habitantes de Ben Talha –-culpados de ter votado apesar da fátua a proibir--- e arrasam a aldeia. Como é evidente, a Argélia serve como laboratório para novas operações. Espalha-se o boato que é o exército e não os islamistas quem massacra os aldeões. Na realidade, vários altos responsáveis dos Serviços Secretos, que foram treinados nos Estados Unidos, juntam-se aos islamistas e semeiam a confusão.

Em 1991, Osama bin Laden, que voltou à Arábia Saudita como um herói da luta anti-comunista no fim da guerra do Afeganistão, oficialmente desentende-se com o Rei quando os «sururistas» se rebelam contra a monarquia. Esta insurreição, o «Despertar Islâmico», dura quatro anos e termina com a prisão dos principais líderes. Ela mostra à monarquia –-que supunha ter uma autoridade inquestionável--- que ao misturar religião e política, os Irmãos tinham criado as condições para uma revolta através das mesquitas.

É neste contexto que Osama bin Laden afirma ter proposto a ajuda de alguns milhares de veteranos combatentes do Afeganistão contra o Iraque de Saddam Husseini, mas, ó escândalo, o Rei preferira o milhão de soldados dos Estados Unidos e seus aliados. Ele parte «portanto» para o exílio, no Sudão, na realidade com a missão de retomar o controlo dos islamistas que escaparam à autoridade dos Irmãos e se tinham levantado contra a monarquia. Junto com Hassan al-Turabi, ele profere palestras populares pan-árabes e pan-islâmicas onde alicia os representantes dos movimentos islamistas e nacionalistas de cinquenta países. Trata-se de criar, ao nível dos partidos, o equivalente ao que a Arábia Saudita tinha feito com a Organização da Conferência Islâmica que reúne, essa, Estados. Os participantes ignoram que as reuniões são pagas pelos Sauditas e que os hotéis onde se realizam são monitorizados pela CIA. De Yasser Arafat ao Hezbolla libanês, todos participam nelas.

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O FBI consegue levar à condenação do BCCI, um gigantesco banco muçulmano que se tornara, com o decorrer do tempo, o banco utilizado pela CIA para as suas operações secretas, nomeadamente o financiamento da guerra no Afeganistão –-mas, também, o narcotráfico na América Latina [7]---. Quando a falência do banco é declarada, os seus pequenos clientes não são reembolsados, mas Osama bin Laden consegue recuperar $ 1,4 mil milhões de dólares para prosseguir o envolvimento dos Irmãos Muçulmanos ao serviço de Washington. A CIA movimenta então as suas actividades através do Faysal Islamic Bank e da sua filial Al-Baraka.

(Continua…)

 

[1] “O que Você ignora sobre o Grupo de Bilderberg”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Komsomolskaïa Pravda (Rússia) , Rede Voltaire, 23 de Setembro de 2012.

[2] « Brzezinski : "Oui, la CIA est entrée en Afghanistan avant les Russes …" », par Zbigniew Brzeziński, Nouvel Observateur (France) , Réseau Voltaire, 15 janvier 1998.

[3] Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of How the Wildest Man in Congress and a Rogue CIA Agent Changed the History of Our Times, George Crile, Grove Press (2003).

[4] Les dollars de la terreur, Les États-Unis et les islamistes, Richard Labévière, Éditions Bernard Grasset (1999). English version: Dollars for Terror: The United States and Islam, Algora (2000).

[5] “A NED, vitrina legal da CIA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 16 de Agosto de 2016.

[6] Inside the League: The Shocking Expose of How Terrorists, Nazis, and Latin American Death Squads Have Infiltrated the World Anti-Communist League, Scott & Jon Lee Anderson, Dodd Mead & Company éd. (1986). « La Ligue anti-communiste mondiale, une internationale du crime », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 12 mai 2004.

[7] The BCCI Affair, John Kerry & Hank Brown, US Senate (1992); Crimes of a President: New Revelations on the Conspiracy and Cover Up in the Bush and Reagan Administration, Joel Bainerman, SP Books (1992); From BCCI to ISI: The Saga of Entrapment Continues, Abid Ullah Jan, Pragmatic Publishing (2006).



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“Sob os nossos olhos” (1/25)De 11-de-Setembro a Donald Trump

Iniciamos a publicação por episódios do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos Olhos». Trata-se de contar por escrito de forma ambiciosa a História dos dezoito últimos anos a partir da experiência do autor ao serviço de vários povos. Este livro não tem equivalente, e não pode ter, na medida em que nenhum outro homem participou nestes acontecimentos sucessivos na América Latina, em África e no Médio-Oriente ao lado dos governos postos em causa pelos Ocidentais.

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«Todos os Estados se devem abster de organizar, de ajudar, de fomentar, de financiar, de encorajar ou de tolerar actividades armadas subversivas ou terroristas destinadas a mudar pela violência o regime de um outro Estado, assim como de intervir nas lutas intestinas de um outro Estado» _ Resolução 2625, adoptada a 24 de Outubro de 1970 pela Assembleia Geral das Nações Unidas

Preâmbulo

Nenhum conhecimento é definitivo. A História, como qualquer outra ciência, é uma constante interrogação sobre o que se acreditava ser certo e o que, considerando novos elementos, se modifica, ou seja, é até mesmo desmentido.

Eu rejeito a escolha que nos é proposta entre o «limite da razão» e o «pensamento único» por um lado, e as emoções e a «post-verdade» por outro. Situo-me num outro plano : eu busco distinguir os factos das aparências, a verdade da propaganda. Acima de tudo, enquanto alguns homens tentarem explorar outros não creio que as relações internacionais possam ser totalmente democráticas e portanto transparentes. Por conseguinte, para lá da astúcia, por natureza é impossível interpretar com certeza os acontecimentos internacionais quando eles se dão. A verdade apenas pode vir à luz do dia com o tempo. Eu aceito a ideia de me poder enganar no imediato, mas jamais renuncio a questionar as minhas impressões e a refazê-las. Este exercício é tanto mais difícil quando o mundo experimenta guerras que nos obrigam a tomar posição sem demoras.

Pela minha parte, eu alinho no partido dos inocentes, os quais veem desconhecidos penetrar nas suas cidades e aí impor a sua lei, inocentes que ouvem as televisões internacionais repetir o mantra segundo o qual os seus dirigentes são tiranos e que devem ceder a posição aos Ocidentais, inocentes que se revoltam e são então esmagados pelas bombas da OTAN. Eu reivindico ser, ao mesmo tempo, um analista tentando analisar com objectividade e um homem que trás socorro, dentro dos seus meios, àqueles que sofrem.

Ao escrever este livro, pretendo ir ao fundo da documentação e dos testemunhos directos actuais. No entanto, ao contrário dos autores que me precederam, eu não procuro demonstrar a boa fé da política do meu país, mas antes compreender o encadear dos acontecimentos, a propósito dos quais acontece ter eu sido tanto um espectador como um interventor.

Alguns objectarão que, contrariamente a minha profissão de fé, eu busco, na realidade, justificar a minha acção e que, consciente ou inconscientemente, dou mostras de parcialidade. Espero que eles venham a participar no estabelecimento da verdade e me indiquem ou publiquem os documentos que eu ignoro.

Acontece, de facto, que o meu papel nestes acontecimentos me permitiu apreender, e verificar, numerosíssimos elementos desconhecidos do grande público, e bastantes vezes de muitos outros actores. Adquiri este conhecimento de maneira empírica. Só progressivamente é que eu compreendi a lógica dos acontecimentos.

Para permitir ao leitor seguir o meu percurso intelectual, eu não escrevi uma História Geral da Primavera Árabe, mas, sim três histórias parciais dos últimos dezoito anos, a partir de três pontos de vista diferentes : o dos Irmãos Muçulmanos, o dos sucessivos governos Franceses, e o das autoridades Norte-americanas. Para esta edição, inverti a ordem destas partes em relação às edições precedentes onde havia colocado a acção da França em primeiro lugar. Com efeito, trata-se aqui de abranger um público internacional.

Em busca do Poder, os Irmãos Muçulmanos colocaram-se ao serviço do Reino Unido e dos Estados Unidos, enquanto ponderavam sobre como atrair a França para a sua luta de domínio sobre os Povos. Perseguindo os seus próprios objectivos, os dirigentes franceses não procuraram compreender a lógica dos Irmãos Muçulmanos, nem a do seu suserano norte-americano, mas unicamente acertar nas vantagens da colonização e encher os bolsos. Apenas Washington e Londres tinham toda a informação sobre o que se passava e aquilo que preparavam.

O resultado assemelha-se pois ao das matrioskas russas: só com o desenrolar do tempo se percebe a organização dos acontecimentos que pareciam, à primeira vista, espontâneos, tais como as premissas e as conclusões de determinadas decisões.

O meu testemunho é de tal modo diferente do que os leitores terão lido ou ouvido sobre o mesmo assunto que alguns ficarão assustados com o que escrevo. Outros, pelo contrário, irão interrogar-se sobre esta gigantesca manipulação e do modo como lhe pôr um fim.

É provável que este livro, que expõe centenas de factos, inclua alguns erros que eu irei corrigindo no futuro. É possível que uma ou outra das correlações que eu saliento sejam apenas fruto do acaso, mas, seguramente, não a sua totalidade.

Inúmeras pequenas rectificações foram sendo incluídas em função de sucessivas revelações ulteriores sobre este período.

Que não restem dúvidas, os partidários do imperialismo não deixarão de me acusar de «conspiracionismo», de acordo com a sua expressão fetiche. É uma acusação gratuita que usam desde há 15 anos. Têm abusado dela desde que eu comecei a contestar a versão oficial dos atentados do 11-de-Setembro de 2001. Eles persistem na sua negação (ou mentira ?) e, claro, desmascaram-se quando apoiam publicamente a Alcaida na Líbia e na Síria ao mesmo tempo que a acusam de massacre nos Estados Unidos, na França, na Bélgica, etc.

O consenso de jornalistas e de políticos não tem mais valor do que o dos teólogos e dos astrónomos face às descobertas de Galileu. Jamais qualquer consenso permitiu estabelecer a verdade. Apenas a Razão aplicada às provas nos permite a sua aproximação.

Em última análise, uma vez os erros menores corrigidos, é a este somatório de factos que cada qual, sendo honesto, deverá responder propondo para tal uma explicação lógica e coerente.

(a continuar …)





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Um perigoso circo ali, ao lado, no Médio Oriente

O perigo maior é que os estados decadentes, tendem a não aceitar essa decadência e provocam desastres, não optando preferencialmente pelo hara-kiri.
 
Índice
 
Apresentação dos palhaços
Um debicar errante, caótico
Golfo Pérsico - muitos agressores para um alvo
Onde estão as ameaças?
========== ##### ==========
 
Apresentação dos palhaços
Há mais de 2000 anos formou-se o primeiro triunvirato em Roma, com Júlio César, Pompeu (o Grande) e um tal Crasso que tinha como fixação conquistar o império parto acabando por morrer nessa guerra. Roma nunca conseguiu essa conquista, sendo o culto imperador Adriano a estabelecer a paz, muito mais tarde, depois de ter feito uma análise custo-benefício dessa contínua guerra. 
No decadente império americano de hoje também domina um triunvirato[1], de pechisbeque, com um outro Pompeu (grande e gordo), um Bolton que cumpre bem o papel de Crasso, pela insensatez que o fez estar na prateleira muitos anos e, deixando o pior para o fim, Trump está a anos-luz de ser um Júlio César. O perigo é que os estados decadentes, tendem a não aceitar essa decadência e provocam desastres, não optando preferencialmente pelo hara-kiri.
Um debicar errante, caótico
Nos altos e baixos da já crónica crise política no Golfo Pérsico, há vários campos em confronto, com menos ou mais moderação política, com vários níveis de integração e de contributos para essa crise. O Médio Oriente está agora na montra, depois das sanções à China e de uma tentativa de venda em saldo de um tal Guaidó, numa ação em que auma ameaça qualquer se seguirá uma qualquer ameaça. Um percevejo, saltita sedento de sangue.
Os EUA constituem, apesar da sua distância geográfica e cultural face aos povos do Médio Oriente, a única presença[2] massiva, a peça mais relevante no xadrez político e, sobretudo militar, global, numa atuação frenética iniciada em 1990. 
Isso resulta em termos históricos da tara salvítica dos EUA quando se entenderam livres e acima das barafundas europeias do seculo XVIII que, no entanto, não compreendia qualquer respeito pelos nativos americanos, chacinados ou, pelos negros, escravizados. Daí resulta parcialmente o facto de os EUA de hoje continuarem a assumir um alegado direito de intervir nos problemas que existem ou vão surgindo na região do Golfo, como no Mar da China, preparando-se mesmo para colocar uma base militar num santuário da vida selvagem chamado Ilhas Galápagos, para prevenir que as iguanas possam prejudicar os interesses dos EUA e do “mundo livre”
Na sequência da II Guerra Mundial beneficiaram, numa fase inicial, do fim dos impérios coloniais europeus, do recuo estratégico das principais potências europeias, da implantação do modelo neoliberal, do desmembramento do Bloco de Leste, das tecnologias que desenvolveram a globalização dos mercados, mormente financeiros, bem como da tradicional subalternidade do “quintal” latino-americano, que hoje se vem reconstituindo. Como revezes, refira-se a derrota no Vietnam, como no resto da Indochina, a humilhação iraniana em 1979, o surgimento em força da China, como potência desafiante, a maior autonomia dos países asiáticos, o caos provocado pelas intervenções militares no Médio Oriente ou no Mediterrâneo, para além do retorno da Rússia, como potência também desafiante, para mais numa estreita relação estratégica com a China; e que para azar do messianismo dos EUA, veio coincidir com o descalabro do sistema financeiro, em 2008, baseado em pirâmides de Ponzi. 
Como símbolos adequados dessa decadência podem considerar-se G W Bush ou Trump - cujas riquezas materiais contrastam com a impreparação intelectual, como se tem visto recentemente, na sucessão de ameaças e sorrisos de Trump, face à Coreia do Norte, à China, à UE, à Venezuela, ao México... às iguanas, como se disse atrás… Essa procura de retoma de hegemonia, é frequentemente desastrada, cada vez mais difícil e, crescentemente contestada, baseando-se em certos vetores:
·       O controlo político da produção e distribuição de hidrocarbonetos no Médio Oriente e na Venezuela, cujas transações, maioritariamente em dólares, constituem uma forma de manutenção de uma elevada dívida externa por parte dos EUA e dar viabilidade à exportação de petróleo de xisto made in USA;
·       O Médio Oriente, mormente as monarquias árabes são, com os países da NATO, os grandes compradores da produção da indústria de armamento dos EUA; uma “boa” guerra ou uma mera ameaça de guerra, incentiva os sultões a encomendar armas[3];
·       A tentativa de afetar ou condicionar o abastecimento de hidrocarbonetos à China, à Índia e todo o Extremo Oriente ou, boicotar a importação de petróleo venezuelano, congelando capitais desse país ou boicotando o seu abastecimento de bens essenciais à sua população;
·       A impotência face à integração energética euroasiática, bem como face ao canal de integração comercial com o mesmo âmbito geográfico (e incluindo a África), conhecido como Rota da Seda. A queda dos regimes latino-americanos de “esquerda” surge como uma forma dos EUA compensarem dificuldades em outras geografias e, restabelecerem a sua ordem no “quintal”.
Golfo Pérsico - muitos agressores para um alvo
 
Voltando aoMédio Oriente, os EUA ostentam as suas dificuldades de afirmação estratégica, depois dos desaires do Afeganistão, do Iraque, da Síria, do impasse iemenita e de assistirem à Turquia – o segundo mais populoso membro da NATO – comprar armas à rival Rússia. Neste contexto e, açulados pela sua fortaleza sionista, em estado de pânico, os EUA intentam atacar o país mais populoso da região, o Irão – uma das três mais antigas e consolidadas entidades políticas do planeta, em conjunto com o Egipto e a China.
No cenário do Médio Oriente podem considerar-se vários conjuntos… mesmo quando têm um só elemento:
1.    A entidade sionista surge, neste contexto, como a fortaleza norte-americana, com uma iniciativa estratégica mediatizada e inserida na dos EUA, dos quais depende a sua existência política, financeira e militar. Tem, porém, uma influência suficiente (via Jared Kushner[4]) para levar a administração Trump a actos insanos – Jerusalém como capital sionista e anexação do território sírio dos Golan – com a aceitação tácita dos sultões árabes. 
Note-se que na Palestina ocupada pela entidade sionista vigora um regime racista em que os eventuais judeus (?) mantêm a ferro e fogo uma raça “inferior”, os palestinianos, numa prática semelhante ao apartheid sul-africano ou da Alemanha nazi.
Sublinhe-se ainda que a entidade sionista possui umas 200 bombas atómicas - inicialmente construídas com apoio francês - fora do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.Este último, foi assinado pelo Irão há uns cinquenta anos, não tendo o país armas nucleares; e, mesmo a sua utilização para produção de energia é submetida ao controlo da Agência Internacional da Energia, após validação de potências nucleares como a Rússia, a Grã-Bretanha, a China, a França ou a Alemanha, após a retirada dos EUA desse acordo, por iniciativa de Trump, para justificar a sua actual deriva guerreira no Golfo.
2 – As monarquias árabes, lideradas pela Arábia Saudita do mediático Mohammed bin Salman (MbS), tendo falhado no uso do ISIS para mudar o regime na Síria e com pouca influência no Iraque, jogam em dois planos. Um, no Yémen para anular o poder das tribos do norte - os huti - zaiditas, próximos do xiismo; e, sobretudo, controlarem a margem oriental do estreito de Bab el-Mandeb[5], estratégica passagem de 20 km de largura que liga o Índico ao Mar Vermelho, ao norte do qual está o canal do Suez… com a Europa “à vista”. O outro objetivo de MbS é procurar abater o Irão, seu grande rival na região, para o qual terá de contar, forçosamente, com os EUA. Finalmente, refira-se que não há total unidade entre o conjunto de reis, emires e sultões, pois o monarca do Qatar é ostracizado pelos colegas, uma vez que tem uma velha ligação ao Irão e, para mais tendo a Turquia como aliado, sente-se ao abrigo de intervenções musculadas do MbS e seus confrades.
                   Salvador Dali – El Jinete de la Muerte
3 – O Irão é um “problema” que os EUA tentam resolver desde a queda do xá, em 1979, quando o país deixou de ser um vassalo americano. O apoio dos EUA ao repressivo regime monárquico conduziu à ocupação da embaixada americana, por estudantes que fizeram reféns os seus funcionários, num processo que só terminou em 1981. A desastrada tentativa militar de resgate (poucos anos após a derrota no Vietnam) acentuou nos EUA um sentimento de humilhação que promoveu a vitória de Reagan nas presidenciais daquele mesmo ano. A chegada de Reagan constituiu um pilar essencial para o reforço do neoliberalismo, já em aplicação na Grã-Bretanha pela baronesa Thatcher; Reagan foi um género de anjo anunciador dos trastes que se lhe seguiram, George W Bush e Trump.
Imagem pintada no muro da antiga embaixada dos EUA em Teerão
     
      Os EUA, encomendaram a Saddam Hussein uma guerra contra o Irão em que aquele se apoderaria do petrolífero Kuzistan como recompensa, caso conseguisse derrubar o regime iraniano. Essa guerra provocou um milhão de mortos, consolidou o regime mas fragilizou o Iraque, levando  Saddam a invadir o rico Kuwait para fazer face às dívidas contraídas com a guerra; e, fez isso, sem curar de obter o aval da suserania americana, sem contar que os EUA são o tutor das monarquias petrolíferas do Golfo, sucessor dos britânicos que as inventaram, depois da descoberta de petróleo sob as areias do deserto. 
      Seguiram-se duas intervenções ocidentais no Iraque, comandadas pelos EUA e de onde resultou a queda e posterior execução de Saddam, novos sofrimentos para o povo iraquiano e a transição de antigos militares para o Daesh/ISIS, cuja missão seria a criação de um califado (!) juntando territórios curdos, sírios e iraquianos. Para os EUA o importante nessa conjuntura era a venda de armas (pagas por qataris e sauditas) para a queda de Assad, o que, a acontecer, fragilizaria, na sequência, o Líbano, dando ao regime sionista uma fronteira tranquila a norte e causando alegria às monarquias sunitas por verem alauitas sírios e xiitas libaneses em desgraça e com o Irão em maior isolamento.
      Como se observa, há hoje um eixo xiita (e afins) que vai do Irão ao Mediterrâneo, onde os EUA e os seus cadetes europeus perderam posições, incluindo nessas perdas, as boas graças da Turquia, parceiro na NATO.
Ainda no que respeita ao Irão, este país tem o estatuto de observador junto da OCX – Organização de Cooperação de Xangai e relações próximas com os seus membros, mormente Rússia e China (nos hotéis de Teerão é visível a forte presença de quadros chineses) mas também com a Índia e o Paquistão. Ao que se sabe, o recuo de Trump (pressionado por Pompeo e Bolton) 15 minutos antes de um ataque ao Irão - na sequência do abate do drone americano (20/6) - não se ficou a dever a um impulso humanitário de Trump, perante a perspetiva do mesmo resultarem 150 mortos; a causa estará numa comunicação russa de que estariam ao lado do Irão face a qualquer agressão.
4 – A Turquia, país da NATO com uma posição estratégica ímpar, com influência na Europa, nos mares Negro, Egeu e Mediterrâneo, no Próximo Oriente e na Ásia Central tem-se distanciado dos EUA e mesmo ameaçado as monarquias árabes em caso de intervenção no Qatar. Por outro lado, a Turquia, a despeito da sua posição de sempre, contra as autonomias curdas, vem atuando no norte da Síria com a mediação da Rússia que tem na Turquia – país da NATO – um comprador de armamento; e tem uma relação amistosa com o Irão, ao contrário dos países árabes que estiveram incluídos no Império Otomano durante quatro séculos.
5 - Os EUA constituem o único caso, entre os presentes na área do Golfo que desempenha um papel global e que, a despeito das suas próprias e crescentes fraquezas, em termos comparativos com outras potências, se arroga ao direito de ameaçar, intervir, emitir recados e opiniões, inclusivamente nas questões internas de outros países, como se viu recentemente na Grã-Bretanha onde Trump anunciou, sem qualquer detalhe, um plano gigantesco de apoio ao país, uma vez concretizado o Brexit… como brinde de desempenho.
Para um retrato simplificado da decadência dos EUA, vejam-se as dinâmicas recentes:
2017
2000
2017
2000
Grandes Exportadores (% do total mundial)
Grandes Importadores (% do total mundial)
Alemanha, Espanha, França, Holanda e Itália
19,0
21.9
24.3
29.6
China
15,0
 5.7
9.5
 3.0
EUA
 7.7
12,0
13.0
19.0
Deficit/Excedente externo
China
EUA
    Milhões $
896500
391400
- 863900
- 434000
                             ver:Comércio internacional – quem ganha e quem perde
A isso soma-se a regular emissão de sanções e ameaças contra o Canadá, o México, a UE, a China, a Venezuela, a Coreia do Norte, o Irão, para além do já crónico caso de Cuba e de outros de que… já ninguém se lembra; para além da procura de semear bases militares um pouco por todo o lado, sendo o último dos casos, o das ilhas Galápagos - um santuário de vida selvagem - e que terá já obtido o acordo do mordomo-mor do quintal equatoriano, um tal Lenin Moreno. 
Salvador Dali – O Grande Masturbador
Onde estão as ameaças?
 
Vamos proceder à apresentação de alguns indicadores sobre os países que protagonizam a crise do Golfo para que se possa aquilatar a diferença de forças em presença. Uns, serão indicadores económicos e outros de conteúdo eminentemente militar; e inserimos dados sobre Portugal para efeitos de comparação.
Indicadores económicos
Irão
 
Emiratos
Oman
Kuwait
A. Saudita
Israel
Qatar
Bahrein
EUA
 
Portugal
População (milhões )
83.0
 
9.7
3.5
2.9
33.1
8.4
2.4
1.4
329.3
 
10,4
                                                                    PIB per capita ($ )                                  2017 Banco Mundial
 5470
 
39441
20224
41423
20747
42056
69554
25309
59172
 
21087
Dívida externa (% PIB)
1,8
 
62,1
65,4
39,3
29,9
25,1
100,5
147,2
91,9
 
204,7
Divida externa per capita ($)
96
 
24495
13220
16290
6196
10555
69917
37250
54388
 
43173
Dívida externa/Reservas de ouro e divisas
0,1
 
2,5
2,9
1,4
0,4
0,8
11,2
22,2
145,3
 
17,2
Gasto militar per capita ($)
76
 
1482,0
1918,6
1793,1
2114,8
2333,3
804,2
521,4
2174,3
 
365,4
                                                        Fonte:https://www.globalfirepower.com/countries-listing.asp
Em termos demográficos, o Irão supera largamente a população dos seus antagonistas da outra margem do Golfo, incluindo a da entidade sionista, onde se incluem vários milhões de “árabes israelitas” ou falachas etíopes, cidadãos de segunda categoria, segregados, porque os sionistas são eminentes racistas e temem os efeitos das ligações daqueles com os seus concidadãos que vivem fora das fronteiras guardadas pelos sionistas. Nas monarquias do Golfo encontram-se milhões de imigrantes, vindos de África ou da Ásia (com relevo para as Filipinas) remetidos aos seus espaços e com a negação de reagrupamento familiar. Nas crispações que se revelam regularmente nesta região, os EUA são o grande desequilibrador, tendo em conta o seu poder militar e económico. Não incluímos no quadro acima dados sobre a Jordânia porque é apenas uma monarquia débil, mais uma criação britânica do final da I Guerra, com forte população palestiniana e dependente do financiamento exterior, vindo das petromonarquias vizinhas.
O PIB per capita do Irão é sensivelmente mais baixo do que o dos restantes antagonistas que, em regra, têm um indicador superior ao europeu Portugal, como também acontece com os EUA. Os níveis de desigualdades são enormes dentro de cada país. No entanto, quem conhecer o Irão saberá que Teerão tem 12 milhões de pessoas, que recebe diariamente 4 milhões de trabalhadores que vivem fora, tem um trânsito intenso, um elevado grau de autossuficiência e as pessoas apresentam-se com um aspeto digno, não se observando os magotes de pedintes que se conhecem em outras paragens do mundo islâmico. Porém, o regime, decidiu construir um espaço luxuoso, faraónico, para conter o corpo do… fundador Khomeini.
Ao contrário do Irão que é uma das três mais antigas entidades políticas do planeta – a par com a China e o Egipto - entre as monarquias árabes, abundam entidades de criação recente, antigas possessões e protetorados britânicos que a descoberta de petróleo elevou, para muito além de chefes tribais, de comerciantes, de criadores de cavalos e camelos e que os diversos impérios que se sucederam no Médio Oriente nunca cobiçaram. A família Saud por exemplo, teve de esperar até aos anos 30 para, com a ajuda ocidental, constituir um reino, abandonando então a tradicional prática de assalto a caravanas. O Qatar foi um território persa durante séculos, o Bahrein vivia da apanha de ostras e o Oman é o único caso com presença na História porque constituiu uma potência marítima no Índico ocidental, durante alguns séculos, criando, por exemplo, Zanzibar.
Tendo em conta que Portugal está no pódio europeu da dívida, todos os indicadores de capitação de capitação apresentam-se como desprezíveis, excepto no Bahrein que já não tem reservas petrolíferas. É notória a irrelevância da dívida externa iraniana no contexto do PIB, o que tem consequências na capitação, apresentando-se como verdadeiros campeões nesse indicador, o Qatar e os EUA.
A comparação das reservas em ouro e divisas com a dívida externa evidencia grandes desigualdades. A dívida externa dos EUA corresponde a 145.3 vezes o valor das reservas monetárias do país o que, associado ao seu gigantesco deficit comercial, só é admissível por razões de ordem política, ancoradas na sua supremacia militar disseminada pelo planeta evitando, com toda a artificialidade, que se considere o dólar como algo sem qualquer préstimo. Entre os restantes países considerados, todos com indicadores substancialmente mais baixos do que os EUA, sobressaem o Bahrein e Portugal - pelas piores razões em termos de solvabilidade - e o Irão bem como a Arábia Saudita, por razões diametralmente opostas.
Finalmente e antes de se abordarem os indicadores de cariz militar, são visíveis os enormes gastos dos países do Golfo, sendo comparativamente mais modestos nos casos do Bahrein e do Qatar; os quais se mostram claramente superiores aos (já exagerados) gastos militares portugueses. Os gastos militares por habitante são particularmente elevados nos EUA e na Arábia Saudita, superados apenas pela fortaleza sionista; e, em contrapartida, são comparativamente muito mais baixos no Irão. Levanta-se a questão dosgastos militares portugueses que, tendo em conta o enquadramento geográfico, se mostram muito elevados, como aliás referimos, anos atrás e somente justificados pela pertença àNATO, como escoadouro de armamento made in USA, como determinante do envio de tropas para locais onde Portugal não tem qualquer interesse estratégico ou comercial e ainda, porque “é preciso” manter um número demasiado elevado de generais sentados”. Neste contexto leviano de gastos militares, a compreensão da realidade no Golfo será mais nítida se se souber que o orçamento militar da Arábia Saudita é 23 vezes superior ao português.
Indicadores militares
Irão
 
Emiratos
Oman
Kuwait
A. Saudita
Israel
Qatar
Bahrein
EUA
 
Portugal
Militares no ativo por 1000 habitantes
6
 
6,6
12,1
5,3
6,9
20,2
5,0
5,9
3,9
 
2,9
Força aérea (nº)
509
 
541
175
85
848
595
100
107
13398
 
87
Tanques de combate (nº)
1634
 
510
117
567
1062
2760
95
180
6287
 
186
Veículos armados (nº)
2345
 
5936