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Presidente colocado em segurança no hotel Albatroz durante assalto de gang a loja com 5 feridos em Cascais

27 maio 2020
OPresidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, teve que ser colocado em segurança por agentes do Corpo de Segurança Pessoal da PSP, esta terça-feira, ao início da noite, no hotel Albatroz, em Cascais, por encontrar-se nas proximidades de incidentes marcados por um alegado assalto a um estabelecimento da rua Direita, do qual vieram a resultar cinco feridos, três dos quais agentes policiais, apurou Cascais24.
 
Os incidentes tiveram lugar por volta das oito horas da noite quando, em circunstâncias ainda por apurar, um gang, alegadamente formado por jovens africanos, terá procurado tomar de assalto um estabelecimento explorado por emigrantes indianos.
 
Em consequência dos confrontos, o lojista, indiano, 47 anos, teve que ser transportado pelos Bombeiros de Cascais à urgência do Hospital de Cascais.
 
Três agentes da PSP também ficaram feridos, embora apenas um deles tivesse necessidade de ser assistido mais tarde na mesma urgência hospitalar.
 
Segundo Cascais24 apurou, a PSP acabou por deter três suspeitos, um dos quais também teve necessidade de receber posteriormente tratamento hospitalar.
 
Ainda de acordo com o que Cascais24soube, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa que circularia na altura entre as praias da Conceição e da Rainha, foi conduzido de imediato pelos agentes do Corpo de Segurança Pessoal para o interior do vizinho hotel Albatroz.
 
 


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Portugal | As Forças Armadas não eram apartidárias?

SIC Notícias | Marcelo elogia Rui Rio e sublinha colaboração...
 
 
Averdade é que, do longo processo de governamentalização das Forças Armadas, promovido por PS e PSD, resulta um claro esbatimento da exigência constitucional de apartidarismo da instituição militar.
 
Inesperadamente, ou talvez não, assistimos à «lavagem de cara» do líder do PSD, num almoço realizado numa unidade militar, a Base Aérea/Aeródromo de Manobra N.º 1 de Ovar, com a participação do Presidente da República, do presidente da Câmara Municipal de Ovar (vice-presidente do PSD), do presidente do PSD e do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea. 

Foi neste quadro, com a Força Aérea como pano de fundo, que Marcelo Rebelo de Sousa fez um rasgado elogio a Rui Rio, promovendo-o inclusive a líder da oposição, esquecendo que o presidente dos social-democratas é, tão só, o líder do maior partido e que o PSD não representa toda a oposição.

É verdade que, do longo processo de governamentalização das Forças Armadas, promovido por PS e PSD, resulta um claro esbatimento da exigência constitucional de rigoroso apartidarismo da instituição militar, cada vez mais evidente no processo de nomeação das chefias militares e com reflexos na ascensão e na carreira de oficial general. Mas nada justifica este episódio inédito, pelo menos à porta aberta.

Entretanto, ficamos na expectativa de saber se se tratou de uma gafe ou se vamos ter novas surpresas e, quando menos se esperar, o Comandante Supremo das Forças Armadas vai levar Catarina Martins a almoçar à unidade da Marinha de Vale de Zebro ou sentar-se à mesa da messe de oficiais do regimento do Exército de Vendas Novas com Jerónimo de Sousa.

AbrilAbril | editorial
 

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Marcelo visita sede do Banco Alimentar (e insiste no lay-off)

 

 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa visitou, este sábado, a sede do Banco Alimentar Contra a Fome, que tem uma campanha de recolha de vales de alimentos a decorrer. Durante a visita, Marcelo insistiu no prolongamento do regime de lay-off.

 

“Há um ano, a campanha tinha começado há dois dias e isto estava cheio. Hoje está vazio. É preciso preencher o que está vazio”, disse, deixando o apelo aos portugueses para que enviem o seu donativo. “Este ano, a campanha é feita de outra maneira – por vales ou pela Internet -, não é como se fazia antigamente”, explicou Marcelo, citado pelo jornal Público.

O Presidente relembrou que há 400 mil pessoas a precisar de um contributo. “São famílias que não estavam ligadas a nenhuma instituição e que apareceram aqui à porta, algumas com pobreza envergonhada, uma expressão de que eu não gosto”, disse depois de deixar o seu contributo para a campanha – o equivalente a “cinco ou seis produtos”.

“Os portugueses que tenham a noção de que há 400 mil pessoas que precisam de um contributo”, afirmou ainda.

 
 

Durante a visita, Marcelo voltou a defender o prolongamento do regime de lay-off simplificado por “mais meses”, apontando que, se houver meios, “quanto mais tempo” a medida vigorar, “melhor”, para evitar despedimentos.

“Se se quer realmente dar tempo e permitir um fôlego maior para impedir que quem está em lay-off passe, em números significativos, para o desemprego, se o Governo consegue obter meios, e tem meios disponíveis para prolongar o lay-off por mais algum tempo, quanto mais tempo melhor, porque estas retomas são sempre muito difíceis”, disse o chefe de Estado aos jornalistas.

“Esta ideia de que fecha uma parte, pequena que seja, da economia, e reabre daí a três meses como se nada tivesse acontecido, isso é ficção, isso não existe”, advertiu. “Se houver disponibilidade para prolongar o lay-off por mais meses, isso é bom, nem que seja num modelo diferente”.

 

“É bom porque permite que esta retoma, que vai ser difícil, possa ser feita com mais tempo à frente”, defendeu o Presidente.

Questionado se já tem conhecimento do plano do Governo nesta matéria, Marcelo Rebelo de Sousa disse que não porque “ainda não foi aprovado”.

ZAP // Lusa

 

 
 
 

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https://zap.aeiou.pt/marcelo-visita-banco-alimentar-lay-off-326208

Portugal | Apoio de Costa a Marcelo gera críticas à esquerda

RECANDIDATA-SE?
António Costa deu como garantido que Marcelo Rebelo de Sousa vai ser reeleito presidente e as palavras não caíram bem a certos setores socialistas. Francisco Assis e Paulo Pedroso criticaram a atitude do primeiro-ministro; a "presidenciável" Ana Gomes já deu a entender, no Twitter, que reprova as declarações.

 
"Isto não é uma questão menor: decidir sobre o presidente da República não é o mesmo que decidir sobre um presidente da Junta, com todo o respeito", disse Francisco Assis, ao Expresso, esta sexta-feira. O socialista, um dos primeiros a lançar o nome de Ana Gomes na corrida às eleições presidenciais de janeiro, declarando-lhe o seu apoio, reiterou que o PS deve ter um candidato próprio.

Também Paulo Pedroso defende essa visão. Ao JN, o ex-socialista - que deixou o partido criticando a estratégia de António Costa para com os sindicatos - disse que "não é bom para o sistema democrático que se crie a ideia de que há um consenso de regime entre o Governo e o presidente da República", já que isso faz com que "qualquer candidato que apareça esteja a defrontar o sistema".

Pedroso lembrou que as diferenças ideológicas não acabaram por hoje haver uma pandemia e que é "saudável" para a democracia que existam várias sensibilidades em disputa nas urnas.

"Da escola pública ao SNS, o posicionamento histórico do professor Marcelo Rebelo de Sousa não é o dos setores mais progressistas da sociedade", considerou o antigo ministro da Segurança Social. Se o PS não apoiar um candidato "progressista e abrangente", estará a dizer que a esquerda deve "abdicar de fazer ouvir a sua voz".

 
"Isto não é um jogo e póquer"

Paulo Pedroso não nega que Marcelo parte com clara vantagem na corrida às presidenciais, mas diz que as eleições não devem ser reduzidas "a um jogo de póquer, em que quem tem as cartas mais fracas desiste do jogo". O ex-militante do PS vê Ana Gomes "como uma possibilidade" para representar a área do centro-esquerda nas urnas, "se ela assim o entender e se estiver disponível".

No dia em que António Costaempurrou Marcelo Rebelo de Sousa para uma recandidatura, o JN contactou Ana Gomes mas a ex-deputada europeia não quis comentar as palavras do primeiro-ministro. No entanto, mais tarde, no Twitter, partilhou uma publicação de Paulo Pedroso que classificou a atitude de Costa como "deslocada". Até agora, apesar de vários apoios, Ana Gomes tem dito sempre que não será candidata a Belém.

João Vasconcelos e Sousa | Jornal de Notícias

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Proposta para uma primeira pergunta

Agora que o senhor Presidente da República se manifesta interessado sobre o que pensam os dirigentes das empresas cotadas, sugere-se tanto ao senhor Presidente, como aos jornalistas que cobrem a sua atividade, que os questionem se consideram socialmente aceitável que as maiores empresas portuguesas que compõem o índice da Bolsa de Valores de Lisboa tenham decidido não contribuir para o Orçamento de Estado, através da tributação sobre o seu rendimento, como acontece com o comum dos mortais neste território à beira-mar plantado; porque preferiram fazer voar as sedes das suas empresas para um qualquer paraíso fiscal.

Algo que os tais comuns dos mortais nacionais não podem fazer.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

E entretanto no reino dos marretas...

Público, 9/4/2020
... o presidente da República, que não tem, segundo a Constituição, funções executivas, continua a não conseguir reter-se.

Em vez de exercer o seu papel constitucional, não perde uma ocasião de se pôr em bicos dos pés, como Marques Mendes.

Se António Costa vai a um hospital ver cidadãos infectados, Marcelo faz saber que não o deixam ir.

Se o Governo tinha o seu - criticável - plano de ataque à pandemia, Marcelo achou por bem decretar o estado de emergência que ninguém lhe pedira, provocando as organizações sindicais ao impedir o direito constitucional à greve.

Se o Governo ficara incomodado com o decreto, a segunda versão foi-o ainda mais, com Marcelo a voltar a provocar descaradamente as organizações sindicais, ao negar-lhes o direito constitucional de participar na elaboração dos política laborais.

Se o presidente do PSD estava sensível a medidas sobre a banca, Marcelo chamou de imediato os responsáveis do sector financeiro para, depois, dizer que a banca ia fazer o que fosse necessário, o que veio a condicionar a posição do PSD no Parlamento.

E como se já não bastasse, agora é esta infantil necessidade de falar com a comunicação social antes do primeiro-ministro, colocando-o na posição de um moço de recados do presidente (ver imagem). Se não fosse por mais coisas, dir-se-ia que Marcelo está a promover um esticar de cordas. Sabe-se lá para quê, mas sempre no mesmo - mau - sentido. 

 

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Marcelo, os banqueiros e o teatrinho de papéis trocados

Banqueiros, os monarcas da sociedade, coroados pelos governos?
 
O PR anunciou que ia chamar os banqueiros para os persuadir a ajudarem a recuperação da economia portuguesa, e os órgãos de comunicação multiplicaram-se a divulgar a sua intenção, como se os banqueiros aguardassem o pedido do PR para as boas ações 😊.

Na última segunda-feira Marcelo saiu da reunião, isto é, levantou-se da cadeira onde se sentou para o encontro apregoado, por videoconferência, com os presidentes dos cinco maiores bancos portugueses, CGD, BCP, Novo Banco, Santander e BPI.

Apesar de ser tão previsível, o PR anunciou com pompa e circunstância:

“Saio desta reunião com a sensação de que a banca portuguesa está a acompanhar de forma muito atenta a realidade do nosso país, o que se vive nas famílias e nas empresas”, como se pudesse fracassar em tão piedosa intenção. E não surpreendeu que tenha encontrado um espírito “de grande mobilização no sentido de ajudar a economia portuguesa”.

Do que disseram os banqueiros nada se sabe, nem é hábito o contraditório ao PR, só da encenação da peça em que o ponto saltou para o palco e debitou os papéis de todos.

Num país onde a Constituição não é lida, onde se confundem as funções presidenciais e as do Governo, passou a ser dado adquirido o entusiasmo dos bancos a favor da solidariedade social. Marques Mendes há de glorificar a intervenção ‘oportuna’ do PR.

Ora, contra o desejo piedoso do PR e a alegada promessa dos banqueiros, estes, ainda que quisessem, não a podem  cumprir, se acaso a fizeram.

Os bancos, ao contrário do que se diz, não têm capacidade de minimizar a devastação sofrida no tecido económico e empresarial. Eles próprios sofrem a anemia da economia e ninguém perdeu mais dinheiro do que os bancos, o sistema circulatório da economia. Se os bancos deviam ser privados, é outra conversa. De Gaulle nacionalizou alguns no pós-guerra e, mais tarde, admitiria que devia tê-los nacionalizado a todos.

Imaginem um pequeno acionista de um banco e vejam quanto valem as suas ações agora e antes desta catástrofe natural cujo fim é incerto. Pois, se um pequeno acionista perde o seu dinheiro, um grande perde-o na razão direta do número de ações de que é titular.

Sabe bem dizer mal de banqueiros falidos. Eram poupados quando o capital financeiro era responsável por todos os desmandos na economia, que lideravam, e censurados os Estados quando os salvaram em 2008, como se pudessem assistir ao efeito dominó da contaminação sistémica de todo o sistema.

O neoliberalismo já mostrou a perversidade e incapacidade, mas admito não existirem condições para que as alavancas da economia sejam um exclusivo do setor público.
Há quem fique indignado com estas afirmações, dizer que os bancos são perdedores e fracos, e é o que penso.

O teatrinho foi montado para mais um ato de propaganda antecipada para as eleições presidenciais, e é irrelevante nas tarefas que nos esperam, na resolução da situação de centenas de milhares de vítimas, patrões sem empresas e trabalhadores sem emprego.

Todos seremos chamados a pagar de forma dolorosa, sem precedentes, a reconversão da economia inimiga do ambiente, o início de um ciclo novo onde as desigualdades sociais obscenas não poderão persistir, onde o aquecimento global levanta novos desafios e as guerras ameaçam continuar.

Desta vez vamos mesmo receber menos, sobretudo os reformados, através de impostos, da inflação ou de cortes. É preciso ser demasiado ingénuo ou excessivamente crente para duvidar.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/04/marcelo-os-banqueiros-e-o-teatrinho-de.html

Portugal | É tão fácil Marcelo bater em Rio

 
 
Paulo Baldaia* | Jornal de Notícias | opinião
 
O que incomoda tanto em Rui Rio que está sempre a empurrar Marcelo para a oposição ao líder da oposição? Se Rio não faz é porque não faz, se faz é porque não devia fazer. E se o líder do PSD diz qualquer coisa que fique nos ouvidos dos portugueses, lá tem o presidente que aparecer a comentar.
 
A atração mais recente diz respeito à Banca. Rio disse no Parlamento que seria "uma vergonha e uma ingratidão" se os bancos tivessem lucros avultados este ano e no próximo, recordando que "a Banca deve muito, mesmo muito a todos os portugueses" e que se "impõe que agora ajude".
 
Em crise será difícil que tenham lucros, mas é sempre melhor avisar para não defenderem ao máximo os acionistas, preocupando-se ao mínimo com os contribuintes. Na sequência, o que se lembrou Marcelo de comentar? Que era "muito fácil bater nos bancos".
 
Os tais bancos que nos levaram milhares de milhões de euros e que, não tivesse chegado a Covid-19, já iam distribuir milhões aos acionistas, sem que houvesse levantamento de rancho. Ou seja, é mais fácil Marcelo bater em Rio do que quem quer que seja bater nos bancos.
 
A semana passada foi por causa do governo de salvação nacional. Depois de Rio ter dito que o assunto não se colocava nesta altura, lá acabou por dizer que esse governo haverá de aparecer mais à frente, deixando claro que até pode ser este que já existe.
 
Ou seja, a característica de ser de salvação nacional prende-se mais com a situação altamente critica que vivemos do que com a composição político-partidária desse governo. A Comunicação Social, viciada em polémicas, entendeu as palavras de Rio como estando a fazer-se a um lugar, e Marcelo, tão zeloso no comentário, também foi atrás do diz-que-diz.
 
Marcelo Rebelo de Sousa arrisca mesmo perder pau e bola. Sempre muito atencioso com o governo, tentando seduzir um eleitorado que anda insistentemente à procura de um candidato que não o obrigue a votar à direita, onde coloca Marcelo. E sempre muito disponível para deixar órfão uma parte do eleitorado de Direita que, sem eutanásia nem regionalização, pouco tem para se identificar com o presidente.
 
*Jornalista
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-e-tao-facil-marcelo-bater-em.html

Os banqueiros nossos amigos

Há uns trinta e muitos anos a televisão pública nacional achou que os portugueses tratavam barbaramente os animais domésticos e lançaram uma campanha que tinha por mote o slogan «os animais nossos amigos».

 

Recordei-me de tal iniciativa publicitária a propósito da que Marcelo empreendeu em proveito dos banqueiros. Como já se previa veio dar conta de, concluído o encontro virtual com os mais representativos do país, nada trazer de substantivo a anunciar quanto ao que as empresas e os clientes comuns passariam a beneficiar, mas considerando ter captado dos cinco interlocutores aquilo que os Beach Boys em tempos cantaram comogood vibrations.

 

Para nós, os filiados na escola dos cínicos, versão Diógenes, não escapa o verdadeiro alcance do gesto: se até Rui Rio se aprestava a apedrejar os banqueiros gananciosos se se atrevessem a acabar os seus exercícios anuais com lucro o que se poderia esperar dos partidos mais à esquerda? Melhor valia prevenir, terá pensado Marcelo que, fiado na popularidade das sondagens, intenta conter a indignação pública no momento em que essa propensão dos banqueiros para só pensarem nos lucros vier, uma vez mais, a confirmar-se.

 

Não é certo que seja particularmente bem sucedido: os portugueses já estão mais do que fartos do feitio dessa gente que, quais escorpiões, não conseguem iludir a sua natureza visceralmente predadora.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/os-banqueiros-nossos-amigos.html

Marcelo e a banca

Covid-19: Marcelo vai reunir com a banca e espera ver setor "a...

“Encontrei um estado de espírito de grande mobilização no sentido de ajudar a economia portuguesa”, “a banca está motivada, empenhada e muito atenta. É uma luta nacional” e isso “é bom para Portugal e para os portugueses.”MRS
A notícia dizia que Marcelo tinha convocado os cinco maiores bancos portugueses.
Não . Recebeu um nacional e 4 estrangeiros.
Voltou a repetir que os banqueiros pagaram o que lhe foi facilitado. Não, não pagaram Sr Presidente.
Se tinha dúvidas telefonava ao seu amigo Ricardo Espírito Santo e este podia falar do buraco que deixou ao erário público, ou ao seu amigo  Vitor Bento que foi administrador do Novo Banco e que já afirmou que o “Fundo de Resolução” é uma ficção. E essa ficção vai também ser paga pelo povo português.
Depois a Banca não só foi financiada pelo Orçamento de Estado como foi financiada e consolidada através do BCE , quer com a compra indirecta de dívida pública portuguesa quer através das  diversas medidas ditas não convencionais Ora tudo isto reflectiu se de forma directa e indirecta negativamente no Orçamento do país . A que há que acrescentar a vergonhosa resolução do BANIF e da consolidação da Caixa
Quanto à boa vontade da Banca viu-se desde logo em querer cobrar juros nas linhas de crédito garantidas pelo Estado e na continuação da cobrança de comissões e mais comissões… 
E veremos o que vai acontecer mais á frente .

Hoje já apareceu no “Negócios”um “porta voz” não identificado da Banca que afirmou candidamente que a Banca vai necessitar depois de ser consolidada. Serão necessárias mais palavras ?

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/39Nj6kL

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/06/marcelo-e-a-banca/

Banca foi além do que definiu o Governo. Marcelo diz-se motivado e tranquilo

(Comentário:

Exatamente a encenação que se previa. Rebelo de Sousa montou o drama necessário para defender a Banca e tranquilizar os banqueiros.

Uma previsível jogada de antecipação para branquear uma atuação cada vez mais vista como uma ação de 'banksters'. Em nome da República Rebelo de Sousa foi ouvi-los para poder vir dizer-nos que estejamos todos tranquilos, os banqueiros são gente muito empenhada no interesse comum e estão cheios de vontade de nos ajudar.

Felizes portugueses por quem tão boa Banca zela. Amen)

 

Depois de ter estado reunido por teleconferência com representantes da banca, Marcelo Rebelo de Sousa falou aos portugueses, a partir do Palácio de Belém, para dizer que saiu com um “estado de espírito motivado por ouvir o que cada um disse que estava e tenciona fazer”.

 

Na tarde desta segunda-feira, e depois de ter estado reunido com representantes da banca, o Presidente da República falou ao país para dizer que saiu deste encontro por teleconferência “com a sensação de que a banca portuguesa está a acompanhar de forma muito atenta a realidade do nosso país”.

Além de ter acolhido as iniciativas do Governo, a banca tomou as suas próprias medidas, “iniciativas próprias completando medidas aprovadas pelo Governo“, fez saber Marcelo Rebelo de Sousa.

“Retive algumas ideias que sei que o Governo já conhece. São ideias da banca que se completam com as do governo. A conversa foi muito útil porque foi muito concreta, teve sugestões concretas na vida dos portugueses”, seja a nível fiscal ou de financiamento das empresas, apontou.

Apesar de não entrar em detalhes em relação às medidas adotadas, Marcelo adiantou que amanhã, terça-feira, vai reunir-se com a Associação Portuguesa dos Bancos e com o Governador do Banco de Portugal (BdP).

Em relação à execução das medidas decididas pelo Governo, o Presidente disse que a banca “já começou os processos para colocar no terreno o financiamento previsto nessas medidas”, ainda que esse processo “demore tempo”. “Mesmo assim, em casos que foram expostos, ou já chegou ou vai chegar nos próximos dias e semanas, progressivamente, às empresas portuguesas”, sublinhou.

Questionado pelos jornalistas sobre se a banca tem capacidade para, depois de uma crise financeira que não tem muitos anos, responder às necessidades da economia, Marcelo diz que lhe foi dito que “a situação da banca pode merecer confiança dos portugueses”.

Munido dos exemplos do mês de março – quer pela forma como os portugueses recorreram a moratórias, quer a nível de poupança -, Marcelo disse que “há uma grande maturidade dos portugueses” em relação à forma como estão a gerir uma situação que é nova.

LM, ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/banca-alem-do-que-definiu-governo-317813

Os maus exemplos que nos fazem temer o que será o novo normal

Amanhã Marcelo Rebelo de Sousa vai convocar os banqueiros por videoconferência para os sensibilizar quanto à postura, que assumirão perante os portugueses nos próximos tempos. Obviamente, armando-se em príncipe de Falconeri que, no romance de Lampedusa aconselhava a que se mudasse alguma coisa para que tudo ficasse na mesma.

 

Prestimosos, mas sempre a segurarem a carteira, os referidos banqueiros não deixarão de permitir a Marcelo regozijar-se com as demonstrações de boa-vontade que depressa constataremos serem do tipouma mão vazia e outra cheia de nada.

 

Razão tem o meu amigo (e de muitos outros dignos desse nome) Arnaldo Serrão que classificou a iniciativa - e já agora a de Rui Rio na semana passada - comoarmarem-se ao pingarelho!
É que, nesta altura, até oFinancial Times faz editoriais a proclamar a importância de se devolver ao Estado o estatuto negado pelos cultores da sua redução à mais mínima expressão.
Não só os da atual Iniciativa Liberal, mas também todos quantos integraram o desgoverno de Passos Coelho em 2011, nessa altura a babarem-se de satisfação por encararem as circunstâncias com a expetativa de tudo privatizarem de quanto ainda permanecia na alçada do Estado. O resultado viu-se com os CTT, a ANA, a TAP e demais empresas vendidas a pataco.
Mas não só: temos de ir ainda mais atrás, aos tempos desditosos do cavaquismo quando, por preconceito ideológico ou a pretexto das imposições europeias, se deu cabo da capacidade produtiva nacional, na época capaz de corresponder rapidamente e com qualidade a muitos dos produtos hoje encomendados a outros mercados e sem nos chegarem com a celeridade necessária. Carvalho da Silva lembra-o na sua crónica semanal doJornal de Notíciasnum texto que deveria conhecer uma merecida e extensa divulgação.

 

São os que se reveem nesses desgovernantes de má memória que, agora, estranham ser António Costa a anunciar as medidas que o seu governo acabou de definir para a presente fase da crise. Como se coubesse a Marcelo essa prerrogativa, ele que nada mais faz do que andar num afã, visitando fábricas e plantações, debitando banalidades a velocidade meteórica, só para aparentar que dita alguma coisa de substantivo. É que, como afirmava um professor de Harvard, Bill Hanage,estamos a tentar construir o avião enquanto o pilotamos. Ora, nocockpitnão cabe Marcelo, nem sequer aqueles dois autarcas laranjas - Salvador Malheiro e Ribau Esteves - que proferiram enormidades só para que os seus munícipes julguem que a eles se deve o que de positivo está a acontecer-lhes. Mas, nessa corrida de saltos para ver quem consegue melhor destacar-se da sua pequenez, o supremo ridículo vai para o aldrabão que, não tendo outra habilidade para dar nas vistas, demite-se da liderança do seu deplorável partido, ciente de merecer assim alguma atenção nos telejornais.

 

Se Vítor Belanciano ansiava no «Público» para que advenha algo que entendamos como normal, que supere este desafiante momento - mesmo sendo um «novo normal» -, adivinha-se que com estes maus exemplos, ele não se afigurará afinal muito diferente do que foi.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/os-maus-exemplos-que-nos-fazem-temer-o.html

O (in)consciente de um reaccionário

Revista da Legião Portuguesa, Julho 1945
Marcelo Rebelo de Sousa, depois de ouvidas as diversas entidades, renovou o decreto doestado de emergência.Era mais do que previsível.

O que é sempre novidade é a formulação desse decreto. Neste caso, a parte relativa aos direitos dos trabalhadores(alínea c). Siga-se passo por passo:

Pode ser determinado pelas autoridades públicas competentes que quaisquer colaboradores...

Nem na legislação laboral, nem na Constituição se refere aos trabalhadores como colaboradores.Esse é o termo que deve designar os colaboracionistas ou, muito benignamente, os trabalhadores em regime independente. Por isso, parece ser um dois em um: um expediente ideológico de desejar, numa palavra, anular ingloriamente a luta de classes e transformar todos os vínculos contratuais em prestações de serviços à laia da Uber. Era escusado, mas sintomático. 

... de entidades públicas, privadas ou do setor social, independentemente do tipo de vínculo, se apresentem ao serviço e, se necessário, passem a desempenhar funções em local diverso, em entidade diversa e em condições e horários de trabalho diversos dos que correspondem ao vínculo existente, designadamente... 

e segue-se um longo rol de trabalhadores que podem ser envolvidos.
Sempre foi um desejo das entidades patronais prever a possibilidade de deslocar os trabalhadores, a seu bel-prazer, para onde achem mais produtivo ou mais condizente com o fim desejado; em horários para lá dos fixados por lutas seculares pelo horário de trabalho. Estamos em pandemia e todos os trabalhadores darão o máximo de si. Por isso, o que se decreta é a mobilização militar forçadaem benefício das entidades públicas, mas igualmente das privadas.É um precedente que se abre. 

Pode ser alargado e simplificado o regime de redução temporária do período normal de trabalho ou suspensão do contrato de trabalho por facto respeitante ao empregador.

Assim alarga-se os apoios públicos previstos no actual regime de lay-off simplificado (decreto-lei 10-G/2020), condicionado às consequência do Covid19. E isso pode ser feito sem mais demora porque - muito estranhamente! - o mesmo decreto retira um dos direitos constitucionais atribuídos às organizações sindicais (capítulo III - direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores) art 56º 2-a) "Participar na elaboração da legislação do trabalho";

Fica suspenso o direito das associações sindicais de participação na elaboração da legislação do trabalho, na medida em que o exercício de tal direito possa representar demora na entrada em vigor de medidas legislativas urgentes para os efeitos previstos neste Decreto.

Parece que há sempre uma justificação aparentemente legítima para cortar injustificadamente direitos. Alguém discutiu com os sindicatos o decreto-lei 10-G/2020 do lay-off simplificado? Era escusado, parece uma provocação ou a criação de um precedente grave. Mas revela histriónicamente a cabeça de quem acha que a participação sindical é... uma perda de tempo. Quando se criar um regime ditatorial, esta será uma das justificações: a urgência de criar mecanismos de apoio à produtividade.

Pior ainda: é repetido e reiterado neste decreto outro grande desejo ideológico de estabelecer por lei um travão ilusório à luta de classes. Num momento em que as entidades patronais estão a aproveitar a pandemia para violar a legislação laboral e despedir livremente - outro grande desejo do empresariado nacional desde que se começou a discutir legislação laboral, o decreto volta a querer conter a populaçae sempre com um argumento lógico:

Fica suspenso o exercício do direito à greve na medida em que possa comprometer o funcionamento de infraestruturas críticas, de unidades de prestação de cuidados de saúde e de serviços públicos essenciais, bem como em setores económicos vitais para a produção, abastecimento e fornecimento de bens e serviços essenciais à população

Aliás, o mais estranho de tudo neste decreto é que, em nenhuma parte, refira os empresários que têm pervertido a legislação laboral, despedido e alterando a relação contratual; e não considere esse oportunismo como um ataque à ordem pública, à eficácia do combate à pandemia ou à estabilidade social. Nem preveja castigos excepcionais que possam ser instaurados aos seus executantes. Parece considerar-se que, se isso acontece é porque se trata do mercado a funcionar e que, se isso acontece, é vantajoso ao país. 

O decreto é, pois, a imagem aproximada - em Estado democrático - daquilo que será um regime ditatorial empresarial. É desproporcionado, escusado, perigoso pela criação de precedentes sob o pretexto de ordem pública. E, no entanto, é tudo tão sintomático do que vai na velha cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa e da sua entourage.
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Nas traseiras da caserna

Quando se exorta um povo a partir para a guerra, é de desconfiar. Em geral, precisam da carne de todos para uma guerra já decidida à sua revelia. A guerra é a coisa mais horrível que existe. E no caminho, transfere-se o poder para uma unidade de comando. Evocar que a "democacia não foi suspensa" é já meio caminho para o fazer. Por alguma razão, nenhum país até agora o fez nestes moldes, e tudo foi a despropósito. Mas a guerra que Marcelo Rebelo de Sousa convocou não é uma guerra. Mas não deixa de ser uma tentativa de transferência do poder, para quem define quinzenalmente o Estado de Emergência - Marcelo Rebelo de Sousa. Mais grave - e mais patético - é quando a transferência de poder se faz por razões diferentes das evocadas. A declaração do Presidente refere cinco razões, mas a essencial evoca. a necessidade de  "medidas mais drásticas"que as adoptadas pelo Governo.
Primeira – Antecipação e reforço da solidariedade entre poderes públicos e deles com o Povo. Outros países, que começaram, mais cedo do que nós, a sofrer a pandemia, ensaiaram os passos graduais e só agora chegaram a decisões mais drásticas, que exigem maior adesão dos povos e maior solidariedade dos órgãos do poder. Nós, que começamos mais tarde, devemos aprender com os outros e poupar etapas, mesmo se parecendo que pecamos por excesso e não por defeito.
Mas nem Marcelo Rebelo de Sousa as definiu, nem a sua prática desde o início da crise mostram esse interesse por "decisões mais drásticas". Pelo contrário. As razões de Marcelo Rebelo de Sousa são fracas, mal definidas e inconsistentes face à prática quotidiana do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa só se mostrou publicamente interessado pela epidemia quando já morriam milhares em todo o mundo, mesmo às nossas portas. E mesmo assim teve dias. Esteve calado durante a quarentena - obrigatória pela sua prática leviana - e, durante esse período, foi insultado pela extrema-direita de ser medroso. Quando pôde, Marcelo Rebelol de Sousa vestiu a farda, calçou as botas e, carregando a bazuka, assinou o decreto de Estado de Emergência, acolhendo atrás de si todos aqueles que gostariam de reverter maioria de esquerda no Parlamento. A longa cronologia que segue não é exaustiva e, ainda assim, é demasiado longa. Ninguém a lerá. Foi feita apenas a partir das notícias do jornal Públicoe na página oficial da Presidência. Vai de Fevereiro até 8/3 (quando o PR esteve em  quarentena). Rebobine-se o filme e veja-se como o PR tratou displicente e ligeiramente o assunto que hoje é dramático. Faça-se contas aos dias de incumbação do vírus e julgue-se os comportamentos perigosos de Marcelo Rebelo de Sousa. Pior: forma como Marcelo Rebelo de Sousa preencheu os seus dias contrasta escandalosamente com a linguagem bélica agora usada. Se isto é uma guerra, Marcelo Rebelo de Sousa esteve - até ao último dos dias - nas traseiras da caserna a jogar cartas e a beber cerveja. E agora quer ser general.
 
 30/1/2020 
Já morreram 213 pessoas na China dos 9692 infectados. A Organização Mundial de Saúde (OMS) declara emergência de saúde pública internacional, quando, além da China e dos territórios chineses de Macau e Hong Kong, já havia 50 casos confirmados em 19 outros países —Tailândia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, Vietname, Nepal, Malásia, Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Itália, Austrália, Finlândia, Emirados Árabes Unidos, Camboja, Filipinas e Índia. Nesse dia, em Portugal, o país estava entretido com a vontade do deputado Ventura de exportar Joacine Moreira.
O que fez Marcelo? 
Marcelo RS foi questionado em Lamego - por ocasião do 170.º aniversário da Fábrica Viúva Lamego - chutou para canto. Falou do radicalismo e de “descrispar”. “O radicalismo fomenta o radicalismo, a agressividade fomenta a agressividade”, declarou o Presidente da República. “O Presidente da República tem de ser uma voz de bom senso, de pacificação, de desdramatização” e não deve “alimentar polémicas, alimentar radicalismos, alimentar agressividades - não é esse o seu papel”. Mal sabia ele o que viria a dizer quando promoveu o Estado de Emergência pela primeira vez desde 1976. E presidiu, no antigo Picadeiro Real do Museu Nacional dos Coches em Lisboa, à sessão de encerramento do Ano Nacional da Colaboração, no âmbito da V Conferência Internacional sobre Governação Integrada. Sabe o que é? Pois.
31/1/2020
Primeiro caso de infecção em Espanha. Um cidadão alemão que estava na ilha de Gomera (Canárias) era uma das cinco pessoas em observação, depois de terem estado em contacto, na Alemanha, com um doente infectado. Dezanove cidadãos espanhóis chegam de Wuhan, para ficar de quarentena durante 14 dias no Hospital Central de la Defensa Gómez Ulla. Nesse caso, houve ideia de colocar em quarentena quem chegasse do estrangeiro. Detectados dois primeiros casos no Reino Unido e os primeiros dois na Rússia, um casal de nacionalidade chinesa. O Governo italiano declara nesse dia o estado de emergência, quando identificou os dois primeiros casos em dois turistas chineses de visita a Roma.
O que fez Marcelo? 
 
Aperto de mão...
Marcelo RS não pensou em nada disso. Nesse dia, já ninguém se lembra, Marcelo presidiu ao Conselho de Estado, dedicado às “perspetivas estratégicas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa” e assinou com o presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, uma carta de intenções, para viabilizar ações de cooperação entre os serviços de apoio das Casas Civis dos Presidentes dos dois países. Coisas urgentes. Parecia que o PR não tinha que fazer.
1/2/2020
 
A OMS – face ao vírus já em 25 países - aconselha aplicar medidas para “limitar o risco de exportação ou importação da doença”. Mas a própria OMS contemporizava: isso deve ser feito “sem restrições desnecessárias ao tráfego internacional”. Um caso suspeito entra no Hospital de São João no Porto. Era um técnico italiano que tinha estado na China e que se sentira mal, quando estava numa fábrica de calçado em Felgueiras. Tudo parecia estar a acontecer. Mas fora um falso alarme. O Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar critica o atraso na divulgação das normas e a falta de material descartável e de desinfecção. A ministra da Saúde reúne-se com o INEM para avaliar a necessidade de reformular a informação e ver o material disponível. Parece haver tempo para tudo. O secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, adianta que a maioria dos meios já tem equipamento disponível, como batas e máscaras. Tudo sob controlo.
O que fez Marcelo? 
 
Nesse dia, sem agenda, Marcelo RS estava preocupado. Com quê? Com as datas das eleições legislativas. "Os partidos terão de pensar na hipótese de a legislatura terminar antes do Verão, de tal maneira que as eleições não sejam em Outubro, mas sejam antes, Maio ou Junho, porque isso dá para ter um Orçamento aprovado a tempo de entrar em vigor no dia 1 de Janeiro do ano seguinte”. Era um assunto essencial no momento.
2/2/2020
 
Vindos de Wuhan, vinte franceses foram repatriados e já apresentam sintomas de um possível contágio. A França já tinha seis casos confirmados de infecção.
O que fez Marcelo? 
 
Nesse dia, era domingo e Marcelo não tinha agenda. Tal como o Senhor, descansou.
3/2/2020 
 
A China regista 20.440 casos e 425 mortos. Ou seja, mais 3235 casos e mais 64 mortos do na véspera.
O que fez Marcelo? 
 
Distâncias, sr Presidente
Nesse dia estava um belíssimo tempo e Marcelo RS, enchendo-se do seu papel de Comandante Supremo das Forças Armadas visitou, em Oeiras, o Comando Conjunto para as Operações Militares (CCOM) do Estado-Maior-General das Forças Armadas Portuguesas. E por ocasião dos 85 anos da pintora, inaugurou, no Museu da Presidência da República, a exposição “Da Encomenda à Criação. Paula Rego no Palácio de Belém”. Nada como um bom dia artístico.
4/2/2020 
 
A China admite lacunas na resposta ao novo vírus. Os casinos de Macau são fechados por duas semanas. A Bélgica regista o primeiro caso de infecção: uma mulher que não apresenta sintomas. A OMS diz que o coronavírus ainda não é uma pandemia. A taxa de mortalidade é de 2,1%. Portugal regista dois novos casos suspeitos que são encaminhados para o Hospital Curry Cabral. Um deles é um homem de 40 anos, também residente na Grande Lisboa, que contactara cidadãos alemães que adoeceram e que fazem parte de uma empresa que fez formação com um cidadão chinês que, soube-se depois, estava infectado. A explicação é da directora-geral Graça Freitas, em conferência de imprensa. As cadeias internacionais de transmissão estão, pois, activas. Tudo vinha do exterior. Mas ninguém fala de quarentenas de quem chegava a Portugal.
O que fez Marcelo? 
 
Olhe os perdigotos
Marcelo RS não quis saber desse problema. Às 11h, no primeiro dia do programa “Artistas no Palácio de Belém”, com Fernanda Fragateiro, Marcelo assistiu, participou na conversa que a artista plástica, manteve conversas e beijou alunos de duas escolas do ensino secundário e beijou a artista. E na mesma varanda do Palácio de Belém juntou ainda jornalistas a quem se congratulou que Portugal não tivesse “até agora” casos de infecção. Estava confiante na capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Mas ninguém estava preservado. Lembrou-se dos seus netos que tinham chegado a Portugal vindos da China e que “só no fim desta semana é que verdadeiramente passam quinze dias sobre a permanência deles cá”. Quando questionado sobre se as autoridades portuguesas fazem tudo o que é possível, Marcelo responde: “Há uma conjugação de factores objectivos e subjectivos. Até agora, temos estado preservados de notícias menos boas nessa matéria, mas ninguém está preservado sempre, com a circulação que há no mundo, com a mobilidade que há no mundo.” Raio de resposta... Não se lembrou de falar sobre a vantagem de controlar as entradas no país. Disse que o vírus “afecta a actividade económica de uma economia muito poderosa e, portanto, afecta a actividade económica do mundo, ou pode afectar”. “Ou pode afectar”? Parecia que seria apenas um mal chinês... Voltaram a insistir se tudo estava bem em Portugal: “No fundo, estamos todos a aprender. Está Portugal a aprender, estão todos os países a aprender”. “Até agora, o que se tem passado em Portugal tem sido bom para todos nós, e vamos esperar que assim continue”. Ou seja: conversa de quem chuta para canto. Eram dias calmos, esses na varanda de Belém. Para quê pensar?
5/2/2020 
 
A China tem já 28 mil infectados e 563 mortos. Mas a OMS ainda não tem um nome para o vírus. Baptizam-no temporariamente de 2019-nCoV – não é um nome fácil - mas promete-se uma nova designação para breve. A OMS quer 600 milhões de euros para combater o vírus. Uma ninharia. “A minha maior preocupação é nos países que hoje não têm sistemas a funcionar para detectar pessoas contagiadas pelo vírus”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS. “É necessário apoio urgente para reforçar sistemas de saúde que detectem, diagnostiquem e protejam mais transmissão entre humanos e profissionais de saúde.” Em Frankfurt, a presidente do BCE, Christine Lagarde, adianta que o coronavírus introduz “uma nova dose de incerteza” para o crescimento económico. Uma chatice precisamente quando já tinha diminuído a intensidade da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Tudo tão suave. Mesmo assim, esta declaração marca uma mudança no tom optimista que o BCE utilizou em Janeiro sobre as perspectivas económicas da zona euro. Em Portugal, e por indicação da DGS, a Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) distribui folhetos nos voos da China para Portugal, com informação sobre o que fazer e para onde ligar, caso se pense ter sintomas. A directora-geral da Saúde voltou a frisar que não existem recomendações internacionais para fazer rastreios à chegada e que a medida não é eficaz. Mas, caso existam alterações nas recomendações, estarão preparados para as cumprir. [Lisboa passou a fazê-los a partir de 20/3]. As autoridades de Portugal parecem, pois, não pensar pela sua cabeça. O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) e 20 laboratórios constituem uma rede nacional. “Estamo-nos a preparar para a eventualidade de haver uma escalada”. Vinte casos suspeitos em Portugal revelam-se sem sintomas. Entretanto, a ministra da Agricultura, impregnada do ambiente da feira europeia para o sector horto-frutícola, acha que o coronavírus “até pode ter consequências bastante positivas [para as exportações portuguesas na China]. (...) A Ásia e a China têm um problema de saúde pública, a peste suína africana, e isso veio demonstrar o potencial para promover as exportações. Neste momento, temos nove empresas autorizadas a exportar carne de porco para a China.”
O que fez Marcelo? 
 
Nesse dia, Marcelo presidiu ao Conselho Superior de Defesa Nacional. E promulgou o diploma que aplica ao pessoal dos corpos especiais do Sistema de Informações da República Portuguesa o regime de aposentação aplicável às Forças e Serviços de Segurança previstas na Lei de Segurança Interna.
6/2/2020
 
Morre o médico que alertou para o novo vírus. Li Wenliang, 34 anos, chegou a ser investigado pela polícia chinesa por “espalhar rumores”. Contraiu a doença ao estar em contacto com doentes infectados. No Porto de Hong Kong, cerca de 3600 pessoas foram mantidas a bordo de um paquete, depois de três passageiros estarem infectados. Em Portugal, arranjou-se duas ambulâncias dedicadas a casos suspeitos – uma em Coimbra e outra em Faro – para se juntar às outras duas, em Lisboa e Porto. Face às críticas sindicais sobre a falta de equipamento de protecção individual, o presidente do INEM disse que “está a ser preparado e, se for preciso, no momento certo, o INEM irá disponibilizar o reforço desse equipamento a esses parceiros”, porque “não há qualquer indicação para massicar esse tipo de equipamentos”. Um artigo assinado na revista científica da Ordem dos Médicos, alerta para a possibilidade de Portugal poder não estar preparado para conter o coronavírus. O cônsul geral de Portugal em Macau e Hong Kong anunciou que as sete pessoas com passaporte português retidas num cruzeiro em Hong Kong, estão bem de saúde.
O que fez Marcelo? 
Belém está ainda longe. Para Marcelo RS, não só nada era urgente como decidiu aceitar o convite do seu homólogo indiano para visitar a Índia entre os dias 13 e 16 de fevereiro. E nessa viagem não iria sozinho: convidou ainda o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, os Secretários de Estado da Internacionalização e da Defesa Nacional e mesmo deputados. E todos aceitaram.
 7/2/2020 
 
Já há 637 mortos no mundo e mais de 31 mil infectados. A OMS reforça - com pessoal e equipamento - o apoio a países com maiores contactos com a China. Para a OMS, Angola é um dos países africanos prioritários. Há cidadãos chineses em quarentena em Angola e Moçambique. A diretora-geral portuguesa da Saúde elogia as autoridades chinesas: “Têm sido exemplares no controlo do surto”. “Temos de estar gratos pelas medidas de contenção adoptadas pela China”. Por outras palavras, o país que adoptou medidas drásticas de contenção é elogiado pelo país que não o sabe ou não o quer fazer. E que foi adoptando as medidas à medida do que, tanto a OMS como a EU, foi definindo.
O que fez Marcelo? 
 
Cadeias de transmissão
Marcelo aproveitou a tarde para inaugurar o novo edifício da Escola Superior de Biotecnologia no Campus Foz do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa e presidiu à sessão solene comemorativa do Dia Nacional da Universidade Católica Portuguesa 2020 “A Universidade como protagonista do futuro”. E porque era urgente, promulgou o diploma fixando para 2020 os efetivos das Forças Armadas, em todas as situações.
8/2/2020 
 
Cinco britânicos são infectados numa estância de esqui francesa. O caso original foi um britânico que esteve em Singapura. França regista agora 11 casos confirmados do novo coronavírus. O vírus está na Europa. Um norte-americano é o primeiro estrangeiro a morrer na China. Nesse dia, registaram-se 86 mortes e 3399 novos casos. China elevou o balanço do surto para 722 mortos e mais de 34 mil infectados. A OMS envia missão à China nos dias 10 e 11.
O que fez Marcelo? 
 
 Marcelo está tranquilo. É sexta-feira e não dá conta de ter feita alguma coisa oficial no fim-de-semana. Mas a doença progride mesmo que Marcelo nada faça.
 9/2/2020
 
O vírus já está em mais de 20 países. E em muitos países da Europa. Alemanha, Finlândia, Suécia, Bélgica, França, Reino Unido e Itália. Espanha confirma um segundo caso de infecção. A imprensa começa a fazer comparações. Com 813 mortos registados, quase todos na China, a nova epidemia já provoca mais mortes do que toda a SARS (síndrome respiratória aguda grave), que, entre Novembro de 2002 e Julho de 2003, matou 774 pessoas em todo o mundo, embora a sua taxa de mortalidade (9,6%) seja ainda superior à do coronavírus (cerca de 2%). Surgem informações sobre o desaparecimento na China do advogado Chen Qiushi que tem divulgado informação sobre a actuação das autoridades chinesas em Wuhan. Estimativas britânicas prevêem que uma em cada 20 pessoas na província de Wuhan fique infectada. O mundo ocidental vive despreocupado.
O que fez Marcelo? 
Marcelo também vive despreocupado. Nesse dia, nada fez de oficial.
10/2/2020
 
Mais de 900 mortes e 40.500 infectados. No Reino Unido, o número de infectados em solo britânico sobe para oito e o vírus é tido como “ameaça grave contra a saúde pública”. Cientistas da Alemanha - da Universidade Humboldt de Berlim e do Instituto Robert Koc - usaram um modelo computacional para estudar o risco de importação de casos do novo coronavírus para cada país. Analisaram a rede de transportes aéreos de 4000 aeroportos e mais de 50.000 rotas aéreas, incluindo o encerramento de aeroportos devido à epidemia. Concluiu-se que a Tailândia (além da China) é o país que mais provavelmente será visado. Segue-se o Japão, a Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan, Estados Unidos, Vietname, Malásia, Singapura e o Camboja. O primeiro país europeu desta lista é a Alemanha, que está na 18.ª posição. No caso de Portugal, dizem eles, o risco é “muito baixo”. “Está na 61.ª posição com um relativo risco de importação de 0,01%, que é cerca de 20 vezes menor do que o risco da Alemanha.” [a 24/3, era 15º país no mundo com mais infectados]. Em Portugal, a Direcção-Geral da Saúde anuncia mais dois casos suspeitos – eram seis até então.
O que fez Marcelo? 
Nada.
11/2/2020
É oficial. No primeiro dia de uma reunião que junta peritos de todo o mundo em Genebra, na Suíça, a OMS altera a designação oficial do coronavírus e batiza-o de Covid-19. Uma vacina, só para daqui a ano e meio. Uma equipa coordenada pelo epidemiologista chinês Zhong Nanshan, que identificou o coronavírus responsável pelo surto de SARS, também com origem na China, considera o período de incubação entre 3,5 e 24 dias. Vinte cidadãos portugueses, vindos de Wuhan a 2/2 e que voluntariamente ficaram de quarentena de 14 dias, terão alta a 15/2 porque não apresentaram qualquer sintoma. Portugal continuava protegido.
O que fez Marcelo? 
 
 
Marcelo recebeu mais uma leva do programa “Artistas no Palácio de Belém”, com o artista Jorge Martins. Depois, recebeu, em audiência no Palácio de Belém, o novo diretor nacional da PSP, superintendente-chefe Manuel Augusto Magina da Silva; o presidente do Rotary International, Mark Maloney, e senhora Gay Maloney, que vieram a Belém com os governadores dos distritos 1960 e 1970 do Rotary Portugal, Mara Duarte e José Luís Carvalhido da Ponte e pelos três governadores dos distritos do Rotary Espanha. Uma audiência importante. Depois, recebeu em audiência no Palácio de Belém, uma delegação da Plataforma de Cidadania “Nossa Europa”, liderada por o ex-deputado Carlos Coelho. E ainda promulgou o diploma que define o regime jurídico para a atribuição do título de especialista nas carreiras farmacêuticas e especial farmacêutica. Um dia atarefado.
12/2/2020
 
São já 44 mil infectados e 1100 mortos. Os números da província chinesa de Hubei já descem. No paquete Diamond Princess, aportado no Japão, duplicam os casos de infecção. Já são 39 e os tripulantes pedem protecção. O cozinheiro acha que o contágio é inevitável. [A 21/3, seriam já 712!]. Outro navio, com 2 mil passageiros, consegue finalmente aportar no Cambodja, depois de ter sido recusado em cinco países (Japão, Taiwan, Filipinas, Guam, Tailândia). Ocupação dos hotéis em Macau cai 16% onde o Governo ordenou o fecho de espaços de diversão nocturna, espaços públicos, cinemas e teatros.
O que fez Marcelo? 
 De oficial, nada. Mas a imprensa coloca-o no centro da decisão sobre a eutanásia que perpassa pelo debate político em Portugal.
13/2/2020
 
Mais 15 mil infectados e 245 mortos. Bruxelas afirma estar a avaliar o impacto do surto na saúde pública e na actividade económica, para poder agir em conformidade. Mas muito lentamente. As autoridades europeias não excluem a possibilidade de recomendar a adopção de medidas adicionais àquelas que os Estados membros já puseram em marcha para responder à crise, mas para já afastam a hipótese de avançar para expedientes mais “gravosos” como quarentenas superiores a 14 dias ou o controlo de cidadãos nas fronteiras. É convocada de emergência pela presidência do Conselho uma reunião dos 27 ministros de Saúde da UE para acertar a coordenação europeia. Mas da reunião, sai uma mensagem de calma e ponderação, destinada a contrariar o alarmismo que voltou depois de a China rever em alta o número de novos casos de infecção. “O risco aqui é muito baixo”, desdramatizou o comissário europeu para a Gestão de Crises, Janez Lenarcic. “Mas o risco existe, e por isso estamos a preparar-nos para todos os cenários”, garantiu. O comissário referiu que a Comissão Europeia vai incentivar a adopção de “medidas proporcionais” na UE. Não se pondera o controlo das fronteiras, afirmou à saída a ministra da Saúde, Marta Temido, reflectindo o pensamento em Bruxelas. “O controlo de cidadãos nas fronteiras neste momento não está em cima da mesa, poderá noutra fase ser equacionada, mas neste momento não”, disse. “Todos os países que estiveram na reunião” reforçaram “a preocupação em adoptar medidas proporcionais e de acordo com aquilo que é a evidência científica e as recomendações da OMS e do European Centre for Disease Prevention and Control”. Em Portugal, distribui-se folhetos a bordo dos três voos semanais que continuam a vir da China. Equaciona-se a possibilidade de identificar os contactos dos passageiros vindos de áreas afectadas pelo surto, medida que poderá ser adoptada “nas próximas horas ou nos próximos dias”.
O que fez Marcelo?
Esse foi um dia intenso. Primeiro, sobre a eutanásia. Recebeu pedidos de audiência de líderes religiosos de várias confissões e do bastonário da Ordem dos Médicos. As audiências ficaram marcadas para depois da visita de três dias à Índia, que passará pelas cidades de Nova Deli, Mumbai e Goa. Nada mais urgente. Marcelo aterrou às 19h55 em Nova Deli.
14/2/2020
Mais 121 pessoas mortas na China. Zeng Yixin, vice-director da Comissão Nacional de Saúde informa que "até ao dia 11 de Fevereiro, havia 1716 casos confirmados de coronavírus entre pessoal médico". É a primeira vez que uma fonte oficial chinesa presta esse tipo de informação. A OMS pede informação. O vírus chega a África. Há 100 pessoas – angolanos, chineses, brasileiros, costa-marfinenes - em quarentena em Angola. O governo egípcio confirma o primeiro caso. Em Portugal, autarquias alertam, para a falta de sabão nas escolas, para a lavagem das mãos. Ainda não existem directrizes para as escolas quanto à prevenção de infecções. Resposta da DGS: Não se perspectiva que tal venha a acontecer, pelo menos para já. “Quando foi da gripe das aves, no princípio do século, colocámos em todas escolas dispositivos com desinfectante, mas o grau de alarme agora é bem menor”, afirma o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima. O director do jornal Público defende que as “medidas restritivas” pedidas pelo instinto da “pessoa média” face ao que se passa na China são uma ratoeira. “Estaríamos a cair na ratoeira do medo que, como sabemos, implica sempre o avanço do ódio ou do racismo ou ataques às liberdades públicas. Ao recusarem esta quinta-feira aplicar medidas de controlo de fronteiras ou soluções de vigilância extremas, quer a Comissão Europeia, quer o Ministério da Saúde de Portugal tiveram em mente esse balanço entre o que se perde e o que se ganha com medidas extremas de contenção à imagem e semelhança das que foram aplicadas na China. E, com toda a razão, concluíram que qualquer medida excepcional tomada no actual contexto estaria ferida de desproporcionalidade. Susana Peralta, economista, escreve nesse jornal contra as “odes à eficácia do regime chinês”. “Os autocratas não respondem perante o eleitorado e por isso são péssimos gestores de catástrofes”. Cita diversos artigos académicos para mostrar que “as catástrofes naturais como terramotos, ondas de calor, inundações ou aluimentos de terras causam menos vítimas em democracias. As democracias não evitam as catástrofes, mas limitam o seu potencial mortífero.” Fora o regime chinês que desempenhara “um papel fundamental” na propagação do vírus. “O sinal de alarme foi considerado um perigo para a ordem pública”. “Não nos vamos deixar enganar por mais esta manobra de propaganda. O maior culpado por esta catástrofe é Xi Jinping”.
O que fez Marcelo? 
Más práticas
Prosseguiu a visita de três à Índia. Cerimónia oficial de boas-vindas no Palácio Presidencial Rashtrapati Bhavan. Cerimónia oficial de homenagem no memorial de Mahatma Gandhi Rajghat. Encontro de trabalho, seguido de almoço oficial, com o primeiro-ministro, Narendra Modi, na Hyderabad House. Até hoiuve a inauguração no Museu Nacional de uma instalação de Joana Vasconcelos - Cha-Chai (O Bule). Audiência ao vice-presidente da República da Índia e presidente do senado indiano, Venkaiah Naidu, no Hotel The Imperial. Encontro com o presidente da República da Índia, Ram Nath Kovind, no palácio presidencial. Banquete de Estado em honra do presidente da República, oferecido pelo seu homólogo da Índiano Rashtrapati Bhavan. E parte, não para Lisboa, mas ainda para Mumbai. Uma canseira esta vida.
15/2/2020 
 
O número de mortos sobe para 1665 e estão infectadas 69 mil pessoas em todo o mundo. Dá-se a primeira morte na Europa. Um turista chinês morre em França.
O que fez Marcelo? 
 
Demasiado próximo
Foi a Munbai. Tomou o pequeno-almoço com empresários indianos no Hotel The Oberoi. Homenageou as vítimas do atentado terrorista de 26/11/2008 no Hotel onde ocorrera o atentado. Saiu do Taj Mahal Palace e percorreu alguns metros até ao Gateway of India. Como qualquer turista. E foi aí que falou com os jornalistas, a quem se manifestou “muito impressionado com a personalidade” do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e com o seu empenho no reforço das relações luso-indianas. Qual filho de governador que visitas a províncias ultramarinas, sobranceiro, disse: “Superou a expectativa porque o vejo ainda mais empenhado do que eu, muito empenhado que eu já entendia que ele estava antes de o conhecer pessoalmente”. Aí, Marcelo RS deixou-se posar e disse sob aquela porta em frente ao Índico: “Era então a fronteira entre Ocidente e Oriente”. Cruzou-se com Maria João Pires. “Esta mulher está em toda a parte, é como Deus”, o que faz suspeitar que, afinal, não tenha sido por coincidência. E foi para Goa. Nem uma palavra sobre os mortos. Mas apeteceu-lhe falar do tempo. “Não podemos ter uma visão nostálgica de nada em lugar nenhum. É assim que sinto a minha chegada a Goa, não nostálgica. Porque o passado é o passado, e o tempo não volta para trás. Mas o passado pode tornar-se futuro, se aproveitar o passado e o presente”. Nem mais, muito bem dito. O Oriente apela a estes raciocínios.
16/2/2020
 
O FMI ainda está optimista ou cego. Se a China conseguir conter a epidemia, “poderá haver uma pequena queda e uma recuperação muito rápida” da economia, diz a directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva. A previsão de 3,3% para o crescimento da economia mundial iria descer... 0,1 ou 0,2 pontos percentuais, devido à propagação do coronavírus. Num discurso divulgado este sábado, Xi Jinping revela ter dado instruções a 7/1/2020, duas semanas antes de se dirigir à população.
O que fez Marcelo? 
 
Continuou em viagem. Participou numa missa celebrada em português na Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Pangim, Goa, visitou a igreja de Santa Mónica, o túmulo de S. Francisco Xavier e o Museu de Arte Sacra e ofereceu uma receção à Comunidade Portuguesa. E voltou à pátria – como dizia a minha avó – de papinho cheio.
17/2/2020
 
Em Hong Kong e Singapura, vagas de consumidores enchem carrinhos de supermercado. Rumores de ruptura de stocks esvaziam as prateleiras das lojas. Os apelos à calma são ineficazes junto da população desconfiada. Pessoas lutam para roubar papel higiénico. Portugal continua sem casos confirmados, apesar dos dez casos suspeitos. O economista Ricardo Cabral espera que a China consiga conter o vírus nas suas fronteiras. Se assim for, é possível, “por paradoxal que pareça, que o vírus tenha um efeito positivo na actividade económica no resto do mundo”. Mas a revista Economist considera que quarentenas como as vividas em algumas regiões da China eram “impensáveis” fora deste país.
O que fez Marcelo? 
 
De Belém, faz uma declaração aos jornalistas sobre racismo, xenofobia e discriminação. E no âmbito do debate sobre a eutanásia, recebeu às 20h, em audiência no Palácio de Belém, representantes do Grupo de Trabalho Inter-Religioso | Religiões-Saúde, signatários da Declaração conjunta “Cuidar até ao fim com compaixão”. E, às 21h, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que apareceu acompanhado dos antigos bastonários Gentil Martins, Carlos Ribeiro, Germano de Sousa, José Manuel Silva e Pedro Nunes.
18/2/2020 
 
O governo russo proíbe a entrada de chineses no território para impedir a propagação. A justificação dada foi “a deterioração da situação epidemiológica na China e da continuada presença de cidadãos chineses em território russo”. Os russos são o primeiro país a fazê-lo, quando já se registam infectados em pelo menos 25 países. O director de hospital em Wuhan morre infectado. Os 11 milhões de habitantes de Wuhan vão ser testados de forma obrigatória, para despistar a doença e colocar sob quarentena todos os que a tiverem. De acordo com a OMS, apenas uma pessoa em cinco infectadas tem sintomas graves da doença.
O que fez Marcelo? 
 
Antes de começar a sua pesada agenda, preocupou-se com um assunto internacional. Não, não foi a propagação do vírus. Foi a Venezuela! Marcelo RS reage mal à suspensão dos voos de Lisboa para Caracas. “Inaceitável, incompreensível e inadmissível”. E mostra-se solidário com o Governo. A seguir, concentrou-se em mais um programa artístico. Às 11h fez uma intervenção após a qual, a artista Graça Morais fez a sua. Às 12h, o mesmo com Emília Nadal. Às 15h, voltou a estar preocupado com a eutanásia e recebeu a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP). Depois, às 17h recebeu, em audiência no Palácio de Belém, uma delegação da nova direção política do Partido Social Democrata (PPD/PSD), liderada por Rui Rio. E às 18h30 promoveu, no Palácio de Belém, um encontro com alunos e atletas das equipas federadas de futsal da Associação Academia do Johnson. Muito que fazer.
19/2/2020
 
Afinal, ao contrário das expectativas da ministra da Agricultura, a propagação do vírus afecta as exportações nacionais para a China. Os vinhos são os mais afectados. “Está a ter impacto económico nas PME portuguesas, sobretudo nas do sector agro-alimentar ligadas à exportação”, dizem os dirigentes.
O que fez Marcelo? 
Nada, que se saiba.
21/2/2020
 
A Itália confirma primeira morte. Dez cidades italianas estão em alerta máximo. Há 16 pessoas infectadas na Lombardia, Norte de Itália, e outras 250 pessoas em observação, A maioria são enfermeiros, médicos e outras pessoas que estiveram em contacto com pacientes. Uma experiência a reter. Confirma-se a primeira morte. Um homem de 77 anos referenciado com infecção em Pádua.
O que fez Marcelo? 
 
 Nada, que se saiba.
22/2/2020
 
Primeiro português infectado. Natural da Nazaré, 41 anos, trabalha há cinco anos a bordo do navio de cruzeiro Diamond Princess, agora atracado no Japão. Não apresenta sintomas. DGS e Governo ainda não têm confirmação do resultado. Morre mais uma pessoa no Irão, populações desconfiam que as autoridades estejam a minimizar a propagação. Países vizinhos cortam ligações aéreas com o Irão. Morrem duas pessoas em Itália e 59 infectados no Norte de Itália, nas regiões da Lombardia e Veneto e Piemonte.
O que fez Marcelo? 
 
É sábado, por amor de Deus. Há pouco que fazer. Foi à tarde inaugurar um pólo da Associação Cultural Ephemera, no Barreiro. Lá, recusa-se a comentar a polémica pública sobre... o sorteio de juízes. A Ásia é, pois, um continente distante. À noite, vai, com o presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, à noite da Gala de celebração do cinquentenário da Associação Cabo-verdiana, na Casa do Alentejo em Lisboa.
23/2/2020 
 
Itália é já o quarto país com mais casos infectados. O seu número já chega aos 132 e com três casos mortais. O governo aprova fortes medidas de contenção para dez localidades. A empresa ferroviária estatal austríaca suspendeu ligações com Itália, depois de detectados casos suspeitos num comboio na fronteira do Tirol. Encerram-se escolas, cancelam-se jogos de futebol e o Carnaval de Veneza. A Coreia do Sul declara alerta máximo: já tem 600 infectados. O surto teve origem numa cerimónia de uma seita religiosa em Daegu, e espalha-se rapidamente. Israel quer pôr 200 turistas sul-coreanos de quarentena. A China já tem 76.936 casos, dos quais 2442 mortais. O segundo país mais afectado é o Japão, com 769 casos (quatro dos quais mortais), incluindo pelo menos 364 no cruzeiro Diamond Princess. Segue-se a Coreia do Sul, com 556 casos, cinco dos quais mortais. Depois, da Itália, a lista prossegue com Singapura (89 casos), Hong Kong (69, dois mortais), Irão (43 casos, 8 mortais), Estados Unidos e Tailândia, ambos com 35 casos, Taiwan (26 casos, uma morte), Austrália (23), Malásia (22), Alemanha e Vietname (16 cada um), França (12, um mortal), Emirados Árabes Unidos (11), Macau (10). Abaixo dos 10 casos registados, surgem o Reino Unido e o Canadá com 9, Filipinas e Índia com 3, Rússia e Espanha com 2 e Líbano, Israel, Bélgica, Nepal, Sri Lanka, Suécia, Camboja, Finlândia e Egipto com um caso cada. O presidente da China avisar que o Covid19 é “a mais grave emergência de sáude desde 1949”. A UE espera mais casos na Europa, mas – sempre à espera - “não vê necessidade de pânico”. O FMI já considera que a propagação do novo vírus põe em risco a recuperação económica. E “está pronto para ajudar”, para “aliviar a dívida de membros mais pobres e vulneráveis”. Em Portugal, Fernando Maltez, director do serviço de doenças infecciosas do Hospital de Curry Cabral, é de opinião que a propagação em Itália se pode dever a “algum doente que, apesar de ter sintomas – ou mesmo não tendo sintomas, porque não estamos seguros que a doença não se transmita em fase assintomática –, não recorreu aos serviços de saúde, não procurou o médico e portanto poderá ter transmitido a outras pessoas e, assim sucessivamente, ter-se desenvolvido uma cadeia de casos secundários”. Antes de isto ter acontecido, já havia cadeias de transmissão secundárias que tinham sido identificadas na Alemanha, França, Reino Unido, Vietname, Japão. “O segredo está em identificar rapidamente todos os casos que são suspeitos, todas as pessoas que têm uma ligação com o país onde teve origem a epidemia, ou com doentes que têm a doença e manifestam sintomas, e isolá-los rapidamente de modo a que não transmitam a outras pessoas. Há sempre uma possibilidade de isso não acontecer porque o doente teve sintomas e não procurou o médico, ou porque o médico considerou que um caso apresentado não tinha critérios de suspeição”.
O que fez Marcelo? 
 
Era domingo e Marcelo pronunciou-se sobre o mundo? Não, pronunciou-se contra trazer para Portugal o português infectado. “Primeiro, é preciso ter a noção exacta da situação e tem de ser no Japão. Trazê-lo para Portugal podia ser uma temeridade para ele. Não vale a pena correr esse risco”.E sobre o risco para Portugal? Nada disse. O presidente da República visita a aldeia de Podence, em Macedo de Cavaleiros, para participar nas festas do Entrudo Chocalheiro 2020. Era importante brincar no meio da multidão: “Hoje somos todos solidários com Podence”, disse Marcelo. E não com os mortos no mundo por causa do vírus.
 24/2/2020
 
A Itália tem já 7 mortos e o número de infectados dispara para os 229. A Itália passou a ser o terceiro país do mundo em nível de contágios. O Governo italiano estabelece um cordão sanitário em torno de 11 cidades. A UE recusa o fecho concertado de fronteiras: só com dados científicos. Pico da epidemia na China já passou, afirma a OMS, mas alerta que o mundo tem de se preparar para uma eventual pandemia. Em Portugal, passageiros portugueses vindos de Milão que desembarcam em Lisboa estranham não terem sido submetidos a controlos de temperatura em Itália. Um doente proveniente de Milão deu entrada no Hospital de São João. Hospitais do SNS têm 2 mil camas de isolamento. Portugal reforça medidas de prevenção, com mais hospitais e laboratórios disponíveis para testar e receber casos suspeitos de infecção. Distribuem-se panfletos informativos nos voos vindos de Itália, mas – seguindo a UE - não se fecha a fronteira. A DGS recomenda “algum distanciamento social” a quem chega de Itália. Um manifesto assinado por empresas e associações europeias ligadas ao turismo, comércio e transportes apela que os viajantes chineses devem ser bem-recebidos. A associação de médicos de saúde pública alerta a DGS para que active um plano de contingência mais vasto. “Esta subida muito rápida de casos [em Itália] e a transmissão generalizada deixa-nos muito preocupados”, diz presidente da associação, Ricardo Mexia. “É necessário repensar o raciocínio efectuado até agora”.
O que fez Marcelo? 
Neste dia, nada.
25/2/2020
 
O responsável pela equipa da OMS enviada à China alerta de que o mundo “simplesmente não está pronto”para enfrentar o novo coronavírus. Bruce Aylward, médico canadiano especialista em emergência, fala numa conferência de imprensa em Genebra. Bruce saudou o trabalho desenvolvido por Pequim para conter a doença. “Devemos estar prontos para gerir isto [uma epidemia] a uma grande escala, e isso deve ser feito rapidamente”, “Não estamos prontos como deveríamos”, tanto do ponto de vista “psicológico” quanto “material”. A Itália continua a registar uma evolução exponencial dos infectados. Espanha tem 7 casos e há já 11 mortos em Itália. A Áustria, Suíça, e Croácia confirmam casos positivos. Nas Canárias, mil turistas estão em isolamento num hotel. Há registo de mortes no Irão, Coreia do Sul, Itália, Japão, Hong Kong, Filipinas, França e Taiwan. Enquanto isso acontece, a porta-voz da Comissão Europeia, Dana Spinant, diz o óbvio: futuras medidas de contenção devem basear-se em conselhos científicos e ser coordenadas a nível europeu. Ou seja, não se sabe quando. Sempre a protelar, sempre a adiar. “A Comissão Europeia vai procurar iniciar uma cooperação entre os Estados-membros para evitar políticas divergentes no que toca ao controlo de fronteiras”. Divergências em relação a quê? Que era “muito cedo” para dizer se medidas relacionadas com encerramento de fronteiras iam ser discutidas. “A ideia deste primeiro encontro é trocar informação sobre a situação actual e para discutir os eventuais futuros passos que sejam necessários tomar”. Em Portugal, passou a estar disponíveis mais cinco hospitais para receber casos suspeitos, para além dos três que já o estavam a fazer, e foram activados mais quatro laboratórios para os testar. O ex-presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, Jorge Torgal, preconiza que Portugal deve “continuar a fazer o que tem feito” e seguir as recomendações da OMS. “A situação continua a ser tranquila, sem lugar para alarmismos, apesar de o surto em Itália ser preocupante”.
O que fez Marcelo? 
 
Visitou, em Alfragide na Amadora, a Academia do Johnson, onde foi recebido pelo fundador da ONG, João Semedo, mais conhecido por Johnson. Ora, aí está. Isso sim!
27/2/2020
 
A vice-presidente iraniana está infectada. Masoumeh Ebtekar permanece em casa de quarentena. É a terceira figura política infectada. O vírus já provocou 2800 mortos em 47 países. Os Estados Unidos detectam o primeiro caso. A Arábia Saudita suspende entrada de peregrinos em Meca. Na Europa, há casos confirmados em vários países, com Itália a registar um aumento repentido do número de casos. Em Portugal, a Direcção-Geral da Saúde registou já 25 casos suspeitos e emitiu recomendações às empresas para que criem planos de contingência, com zonas de isolamento e regras específicas de higiene, evitando reuniões em sala e devendo estar preparadas para a possibilidade de parte (ou a totalidade) dos seus trabalhadores não irem trabalhar e para recorrer a formas alternativas de trabalho. António Costa – repetindo a mensagem europeia - garante que "a União Europeia (UE) está a monitorizar a situação e até agora não se verificam os pressupostos que justificam qualquer encerramento de fronteiras”, nem mesmo em relação a Itália. "Nos termos do tratado de Schengen, uma das situações é a contenção dos riscos de expansão de epidemias. Não se verifica essa situação. Se vier a ser necessário, garanto que não será segredo”. “No momento em que não temos nenhum caso, não se justifica, por exemplo, estar a encerrar escolas ou qualquer medida do género”. Disse ser essencial evitar alarmismos e seguir as orientações da DGS - “Lavar frequentemente as mãos, evitar mexer nos olhos, no nariz, na boca, termos agora uma distância social uns com os outros" - e aconselhou que, nas férias da Páscoa, devem evitar-se viagens para zonas onde já houve casos positivos. A DGS pede às pessoas que venham de áreas afectadas para não irem às urgências.
  
O que fez Marcelo? 
 
Mais apertos de mão e falta de distância
Enquanto preside, na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, à sessão de encerramento do ciclo de conferências “NATO aos 70, às 18h30: Passado e Futuro”, pondera afinal não ir onde foi há dias: ao estrangeiro. "Vamos ver a evolução dos acontecimentos para ver se é necessário mudar planos e cancelar uma ou outra deslocação ou compromisso e se é proporcional cancelar tudo ou se há que reajustar programas". É capaz de ser melhor pensar só em si, sim, senhor presidente. Mas quanto a mais orientações, sinceramente, isso não é para o PR: "Há este apelo geral [da DGS] aos portugueses - e eu correspondo civilizadamente e amigavelmente - aos cumprimentos. E, nesse sentido, esse apelo para que haja - não direi um distanciamento social, acho demais”, (...) - uma atenção à forma de, sobretudo, quando se trata de grandes massas, muitas pessoas em espaços fechados, agir com alguma atenção, todos somos sensíveis". [Marcelo RS foi alvo de gozo de Ricardo Araújo Pereira por andar aos beijinhos e abraços, enquanto toda a gente se impunha uma distância...]
28/2/2020 
 
A OMS eleva o risco de contágio e de impacto do novo coronavírus ao “muito alto a nível global”.Em conferência de imprensa, o director-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus informa que o surto afecta perto de 60 países e está a aumentar. Ghebreyesus disse que seria um “grande, grande erro”abandonar a estratégia de mitigação do novo coronavírus, e que cada país deve fazer “uma contenção agressiva”. Na Alemanha, 48 casos e 18 curas, sem mortes. Foi criado um orçamento especial: 23 milhões de euros para prevenção, comunicação e repatriamento de cidadãos. Medidas: pessoas que tenham estado em zonas de risco - China, Coreia do Sul, Irão e Itália - devem evitar contactos “desnecessários” com outras pessoas e devem “permanecer em casa sempre que possível”. Os passageiros da China, Hong Kong e Macau têm, ainda no avião, de preencher um documento com informação sobre onde vão ficar nos 30 dias seguintes e os locais exactos onde estiveram na China. A Alemanha vai “continuar a tentar isolar as pessoas, o máximo possível, tratá-las em clínicas e providenciar cuidados a possíveis pessoas de contacto”, disse o ministro da Saúde, Jens Spahn. Na cidade de Heinsberg (Renânia do Norte-Vestfália) fechou-se escolas por precaução. Em Espanha, o Governo recomenda vida normal para todas as pessoas, mesmo as regressadas de zonas de risco. Havia 34 casos positivos e dois tiveram alta. As recomendações são semelhantes às feitas em Portugal. Não há medidas de quarentena activas. O departamento de Saúde Pública espanhol mantém o "nível um”de contenção, de três níveis possíveis. E apenas pondera elevar este nível, caso se verifique “uma transmissão comunitária descontrolada”. Nesse caso, haverá “medidas de distanciamento social básicas como reduzir aglomerações de pessoas”. Mas é só um cenário hipotético. Deu no que deu. Em Itália, já há 888 infectados, 21 mortos e 50 pessoas recuperadas. Onze cidades com um total de 55 mil pessoas estão em quarentena. Escolas, universidades e cinemas foram fechados e vários eventos públicos cancelados. Para “evitar a suspensão” de empresas e centros de produção, o decreto de 21/2 permite a empresas e funcionários optar pelo “trabalho remoto”. Em França, medidas de precaução incluem cancelamento de eventos como o carnaval de Nice e uma feira comercial internacional em Paris. O Governo suspendeu as viagens escolares para onde o vírus circula: China continental, Hong Kong, Macau, Singapura, Coreia do Sul e as regiões italianas da Lombardia e de Véneto. Aconselha-se às pessoas regressadas de zonas de risco a usar uma máscara. Nos aeroportos Paris-Charles de Gaulle e Saint-Denis de la Réunion os passageiros vindos da China, Hong-Kong e Macau são recebidos por uma equipa da Protecção Civil. No Reino Unido, cerca de nove mil pessoas foram testadas, mas apenas 20 casos foram positivos. O Governo avisa para os perigos de reagir exageradamente em resposta a uma epidemia. Quem regresse das 11 cidades italianas, do Irão e de certas zonas da Coreia do Sul fica em quarentena, isolado em casa. É possível ordenar o isolamento de indivíduos se houver fundamentada razão para tal. Medidas como o encerramento de fronteiras estão por agora afastadas. Argumento usado: “Se virem o caso de Itália, eles pararam todos os voos vindos da China e são agora o país mais afectado da Europa”, declarou o secretário de Estado da Saúde, Matt Hancock. Monitoriza-se passageiros nos aeroportos (de quem vem da China), uma equipa especial está no aeroporto de Heathrow. Em Derbyshire, é fechada uma escola depois de confirmado um caso entre os encarregados de educação. Um centro médico foi igualmente fechado. Na Holanda, é identificado o primeiro caso: um homem que esteve na Lombardia. Uma reunião do Eurogrupo é marcada para 4/3 para “coordenar as respostas nacionais” de cada país da UE, na sequência dos “recentes desenvolvimentos” económicos e financeiros. Em Portugal, reduz-se a metade a ligação aérea com a China, para um voo semanal. Alerta-se que, pior do que o vírus, é o medo e que a seguir vem a ignorância. A única forma sã de lidar com o problema é assumir que o vírus chegou a Portugal e que temos de aprender a lidar com ele. Cancelamento dos voos EasyJet com Itália não afecta Portugal. Uma utente de um centro de saúde, suspeita de estar infectada, é mantida na casa de banho, mesmo existindo duas salas para receber casos suspeitos. A DGS, devido ao aumento repentino de casos na Europa, aperta medidas de segurança: um pedido de ponderação na realização de visitas de estudo ao estrangeiro (!). As crianças não devem faltar às aulas e os profissionais ao trabalho por causa do surto. Foram registados 7 novos casos suspeitos.
O que fez Marcelo?
 
Pouca coisa. Presidiu, às 17h, no salão nobre da Academia das Ciências de Lisboa, à sessão de apresentação do livro “A Nossa Época - Salvar a Esperança” de Adriano Moreira. Um best-seller. Marcelo flana e plana sobre o Inferno.
29/2/2020 
 
Em Portugal e até esta data, a DGS portuguesa realizou só 70 testes, dos quais 67 negativos. Algo ridícul para um país 10 milhões de habitantes. A directora da DGS, Graça Freitas em declarações ao PÚBLICO e numa entrevista ao Expresso refere que a DGS espera 10% da população infectada, o que significa entre 23 e 24 mil mortos. O primeiro-ministro apela ao povo para se preparar, embora sendo necessário evitar “o alarmismo desnecessário”.
 
O que fez Marcelo? 
Nada.  
1/3/2020
 
Dispara o número de infectados em Itália. A OMS alerta para uma “epidemia de histeria” e empenha-se no combate à desinformação, já designada por infodemic. Informações falsas ou pouco rigorosas espalham-se a um ritmo vertiginoso nas redes sociais. Em Portugal, a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) alerta para insuficiências em unidades de saúde, nomeadamente de equipamentos de protecção e de salas de isolamento e exigiu “medidas sérias” para proteger profissionais de saúde e utentes.
O que fez Marcelo? 
 Não fez nada, que se saiba.
2/3/2020
 
Risco de contágio na UE sobe para elevado, “o que significa que o vírus continua a alastrar”,justificou a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen. Mas a Comissão Europeia rejeita medidas mais drásticas, como controlos nas fronteiras, a interdição de viagens ou cancelar eventos. “Essas medidas não são eficazes na contenção do surto”. “Neste momento não há quaisquer pedidos [dos Estados membros] nem nenhuns planos da [Comissão Europeia] nesse sentido”, frisou Ursula von der Leyen, que garantiu que a evolução da situação está a ser acompanhada em tempo real por todas as agências especializadas da União Europeia e também pelas autoridades de saúde dos 27 países. Tudo parece um círculo vicioso: a UE não actua sem pedidos dos Estados-membros, os Estados-membros não actuam sem coordenação europeia. Até parece que a UE quer a propagação do surto. A OCDE está ligeiramente menos optimista: prevê que crescimento económico nos países da Organização seja de 2,4%, menos cinco décimas que há quatro meses. Esta não é uma crise que deve ser combatida apenas pelos bancos centrais, mas pelos governos, defende a OCDE. No seu cenário mais pessimista, de efeito “dominó” (“este não é o pior cenário possível”), o economista chefe Laurence Boone evita todas as questões sobre uma recessão a curto prazo, global ou por países. O economista Ricardo Cabral escreve no público: na China, apesar de um primeiro momento de desdramatização, “desde meados de Janeiro que a reacção das autoridades chinesas, duríssima, apontou novos caminhos que o mundo desenvolvido faria bem em seguir. O mundo e o nosso país, em particular, deveriam estar agradecidos à China pelas medidas draconianas adoptadas, um cordão sanitário de mais de 500 milhões de pessoas, redução dos movimentos das pessoas e redução brutal da actividade económica com todas as consequências e custos que daí advêm para os chineses e para a economia chinesa. O Governo chinês poderá vir a ser acusado de reagir em pânico e é certo que muita gente terá sofrido (e até perdido a vida) em consequência dessas medidas. Contudo, na dúvida, o Governo da China colocou a saúde das pessoas à frente de preocupações com a actividade económica. Graças a essas medidas sem precedentes (...) o vírus não se espalhou tão rapidamente dando tempo a governos de outros países para se prepararem e às pessoas para alterarem os seus comportamentos. Contudo, como se vê pelos exemplos do Japão, Coreia do Sul, Itália, Irão e Estados Unidos (EUA), outros países não souberam aproveitar a oportunidade e o tempo que lhes foi oferecido pela experiência chinesa”.Mas autoridades nacionais parecem não agir como se fosse caso para alarmismo ou uma ameaça de muito elevada perigosidade. Em Portugal, os voos vindos de Itália vão passar a ser alvo de uma maior rastreabilidade de passageiros, como já estava a ser feito com os três voos semanais vindos da China [três? Não era um?]. A recomendação geral para quem venha de áreas afectadas é a de fazer “vigilância activa e contactar a Linha SNS24”, afirmou a ministra da Saúde.
O que fez Marcelo? 
 
Pareceu estar noutro mundo. Também era domingo. Às 11h, visitou, em Lisboa, o SISAB 2020 - 25.ª edição do Salão Internacional do setor alimentar e bebidas. Conviveu, comeu e bebeu. Às 16h, presidiu, no Palácio de Belém, à cerimónia oficial de partida da Peace Run 2020, tendo transportado a Tocha da Paz no início do percurso da Rota Europeia desta corrida de estafeta, que este ano se iniciou em Portugal e que terminará, dia 6/10 em Praga na República Checa. Onde estará o estafeta nesta altura? E além disso, promulgou o diploma que adota as medidas necessárias ao cumprimento da obrigação de manter o livro de reclamações eletrónico. Reclamações contra quem? E à noite foi inaugurar o programa de Ricardo Araújo Pereira na SIC. E a frase que lhe saiu nessa noite foi: “Quanto mais amplo for o leque melhor, se alguém pensa que tem condições de ser o melhor Presidente da República para Portugal deve lançar-se”. Pois claro! Um tema essencial.
3/3/2020
 
Oitenta mil infectados na China, quase 3 mil mortos. Sete cidadãos chineses que regressaram de Itália, na semana passada, estavam infectados, e despertam receios de um novo surto no país por importação de casos. A OMS declara que cerca de 3,4% dos casos confirmados morreram. Um valor muito acima da taxa de mortalidade da gripe sazonal (menos de 1%). Apesar disso, a OMS acredita que o novo vírus pode ser contido e alerta para a escassez global de equipamentos de protecção — entre os quais máscaras, luvas e óculos de protecção. O presidente da UEFA, o esloveno Aleksander Ceferin, diz que se mantém a perspectiva de o surto não afectar o Euro 2020, em Junho. Em Portugal, há 4 casos confirmados e 101 suspeitos de infecção. Os hospitais de Santo António e de São João, no Porto, “esgotaram a capacidade”, pelo que mais quatro hospitais na região norte foram activados. Roubam-se máscaras no serviço de Medicina do Hospital de Santa Luzia, em Elvas. É aberto um inquérito interno. É activada permanentemente a Comissão Nacional de Protecção Civil, com representantes de todos os ministérios, das regiões autónomas, dos municípios e das freguesias, dos bombeiros, das Forças Armadas e de segurança e outras Autoridades, incluindo a DGS. O ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita lembra que se está “numa fase de contenção” e que é “essencial a rápida actualização dos planos de contingência”, em função das orientações da DGS. António Costa garante que não faltará dinheiro para conter epidemia. “Esse será o último dos problemas”, disse para sossegar a Ordem dos Médicos que pede uma linha de financiamento específica para que os hospitais tenham autonomia para responder à doença. A ministra da Saúde considera ter base legal para activar o isolamento obrigatório dos suspeitos de Covid-19, apesar de reconhecer que o “quadro legal é difícil”, tendo conta a limitação prevista na Constituição. “Não fugirei às minhas responsabilidades no caso de ter de tomar medidas naquilo que a lei me confere”, disse. O Governo começa a definir regras para financiar quem tenha de dar assistência a familiares. Os trabalhadores do sector público e do privado vão beneficiar das mesmas regras: apoio por inteiro a quem dá assistência a doentes.
O que fez Marcelo? 
Foi um dia muito atarefado. Apesar dos cuidados a ter por causa do vírus. Marcelo começou o dia às 11h com o quinto encontro do programa “Artistas no Palácio de Belém” com o artista José Pedro Croft. Às 14h30, o programa continua com o sexto encontro com o artista Carlos Nogueira. E às 16h, presidiu, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, à entrega do Prémio BIAL Biomedicina 2019, tendo Marcelo agraciado o presidente da Fundação BIAL, Luís Portela, com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública. E ainda promulgou o diploma que estabelece as especificações técnicas para a marcação de armas de fogo e dos seus componentes essenciais, bem como para as armas de alarme, starter, gás e sinalização, transpondo as Diretivas de Execução (UE) 2019/68 e 2019/69. Um tema fascinante. E, ao mesmo tempo que o primeiro-ministro se desloca ao Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, para ver cidadãos infectados, fez ainda saber à comunicação social que, por vontade sua, “já lá estava”, próximo dos portugueses infectados – dando a entender que o Governo é que o impedira de fazer o que ainda não fizera. Costa responde-lhe que “o sr. Presidente da República nunca precisou da autorização do Governo para estar onde entenda que deva estar”. Marcelo estava, pois, a perder a iniciativa e, diga-se, a sensatez.
4/3/2020 
 
Itália encerra escolas e universidades até 15/3. Já há 107 mortos. Há mais de 90 mil casos confirmados em todo o mundo e morreram cerca de 3 mil pessoas — uma taxa de mortalidade que ronda os 3,4%. Na China, regista-se já uma queda de 2% na produção da China, após semanas de estagnação, fábricas fechadas, movimento de pessoas restringidos. Na Austrália, o papel higiénico esgota-se em minutos. O presidente do Eurogrupo Mário Centeno, depois de se reunir por teleconferência com os seus homólogos, garante que existe a disponibilidade para, caso seja necessário, fazer os esforços necessários para conter o efeito do vírus na economia, nomeadamente através da aplicação de políticas orçamentais mais expansionistas. Mas no caso português, diz, seria feito “sem comprometer de maneira nenhuma a sustentabilidade”das finanças públicas. Na calha está uma linha de crédito de 100 milhões para apoiar empresas. Quase à mesma hora, no parlamento, António Costa, assume rever as previsões de crescimento. O Governo “não deixará de reflectir o risco na projecção a apresentar”. “Estamos conscientes do impacto negativo que a epidemia em curso poderá também vir a ter no comportamento da economia mundial, em particular no sector do turismo”. Só turismo? Em Portugal, já há seis casos confirmados. O bastonário da Ordem dos Médicos diz que “mais vale exagerar e fazer as coisas por excesso que por defeito”. Governo admite fecho de bares, cantinas, refeitórios e outros espaços de utilização comum das escolas e de todas as outras entidades da administração pública. O ministro de Estado e da Economia, Pedro Siza Vieira, relativiza a detecção de mais um caso em Portugal. O homem de 44 anos tinha estado em Itália e é internado no Hospital de São João, no Porto. “Esta não é uma doença grave. É, no entanto, uma doença muito contagiosa”, diz, - segundo o jornal - sem dar margem para que a situação seja empolada. “Este caso é como os outros. É o caso de uma pessoa que veio infectada de fora”. “Aquilo que continuamos a tentar assegurar é que consigamos conter a velocidade de propagação da doença”. Conseguindo atingir essa meta, “menos gente ficará doente”, o que diz significar também “menos gente a sobrecarregar” os serviços de saúde, resultando disso um “menor impacto económico”. E esse parece ser o problema: despesa pública e menor impacto económico. O director do Público escreve: “Novo vírus é muito contagioso e relativamente pouco mortífero. (...) não caiamos numa escalada defensiva que nos paralise”.
O que fez Marcelo? 
Andou entretido. Às 18h, esteve presente, no Auditório do Camões, na sessão especial do Ciclo de conversas “Camões dá que falar”. E além disso, promulgou o diploma do Governo que estabelece a orgânica do Ponto Único de Contacto para a Cooperação Policial Internacional (PUC-CPI). Outro documento essencial nos dias de hoje.
5/3/2020
 
Confirmada a primeira morte no Reino Unido. Uma mulher, com cerca de 70 anos, que estava a receber acompanhamento hospital em Reading. Foi uma das 3346 pessoas, entre as já 97.510 infectadas em 85 países. A China soma 80.409 casos e 3012 mortes, a Coreia do Sul 6088 casos e 35 mortes, Itália com 3858 casos e 148 mortes, o Irão com 3513 novos casos e 107 mortes. A OMS adverte – mais uma vez - que os países não estão a levar a sério a ameaça do Covid19. “Preocupa-nos que alguns países não estejam a levar suficientemente a sério o problema ou que tenham decidido que não podem fazer nada”, diz o seu director-geral em conferência de imprensa. O novo vírus não se trata de um exercício. É precisar “dar tudo”. Os ministérios da Saúde devem fazer tudo para conter o vírus, disse. Foi declarado estado de emergência na Califórnia. O comissário Europeu da Economia, Paolo Gentiloni, adianta que os países da UE precisam de garantir a liquidez das empresas, especialmente as pequenas e médias. “As medidas de política económica têm que ser implementadas no momento adequado, nem demasiado cedo nem demasiado tarde". Por que não acudir já às pessoas em vez de esperar pelo impacto nas empresas? O responsável europeu lembra que as normas comunitárias permitem que os países se desviem dos seus objectivos do défice caso sejam obrigados a responder a eventos extraordinários. Em Portugal, há nove casos confirmados e 147 suspeitos. A directora-geral da Saúde, Graça Freitas afirma: “Estamos a ver a ponta do iceberg”. A TAP cancela cerca de mil voos. A decisão afecta sobretudo o mercado europeu - Itália, França e Espanha. Também há voos intercontinentais. Para o ministro da Economia, Siza Vieira, essas medidas fazem sentido: "É isso que é gerir uma empresa. É, nestas alturas, fazer planos de contingência e saber exactamente como gerir". Gestão, não contenção do vírus. A linha Saúde24 não atende um quarto das chamadas. Linha de apoio ao médico deixa clínicos sem resposta horas a fio. Mulher da região de Lisboa é o sexto caso confirmado da doença em Portugal. Portugal ainda não tem um plano de contingência nacional. O ministro da Economia Siza Vieira continua a ser optimista: “Temos artilharia para mitigar danos do coronavírus”. Até ao momento, Portugal não sofreu danos significativos no turismo. O ministro pede cabeça fria e cooperação para se controlar a crise no plano da saúde pública e os riscos económicos. Por esta ordem. Siza Vieira parece estar a pemnsar apenas na economia: "Agora, a preocupação essencial é quanto tempo é que isto vai durar, que impacto é que isto pode ter? Quanto mais duradoura for esta crise, maior será o impacto e quanto mais rápida for a propagação da doença, também maior será o impacto. O que significa que, para gerir o impacto, precisamos de um grande esforço na contenção da taxa de propagação.” Temos essa artilharia preparada e disponível para colocar à disposição das empresas.
O que fez Marcelo?
 
Foi a primeira vez que Marcelo teve um relance de preocupação com o vírus. Ao início da tarde, visitou – com a ministra da Saúde, a diretora-geral da Saúde, a presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central e pelo diretor do serviço de Infeciologia, o Hospital Curry Cabral. E conseguiu falar - por intercomunicador - com três doentes internados por Covid-19. Mas depois, às 17h30, presidiu à sessão de encerramento da Conferência “Portugal... e agora?”, no Museu da Eletricidade em Lisboa, promovida pelo Jornal Público. Qual foi o assunto que a imprensa lhe apanhou a dizer? Vírus? Não: “As pessoas não podem começar uma legislatura com um estado de espírito de fim de legislatura, quando as pessoas já estão cansadas, gastas, nervosas, tensas, encontram soluções caso a caso, em cima da hora, no último segundo, arranjam soluções de improviso ou de remendo”. “Ninguém de bom senso” pense que pode haver eleições antecipadas. Para Marcelo, Costa é o vírus. Marcelo lá fala sobre o assunto, mas quando é questionado sobre a mudança o novo conselho de administração dos serviços responsável pela Saúde24. Diz: "É uma equipa que porventura vai sendo reforçada no tempo, mas que eu percebo que se tente ao máximo evitar que haja grandes modificações e grandes alterações quando se está a travar uma batalha ou um conjunto de batalhas continuas desta envergadura. É importante, o mais possível, haver a coesão da equipa e não propriamente modificações da equipa num momento que é um momento que ainda não sabemos quando terminará". "Até agora” – sublionhe-se o até agora - “para os desafios que tivemos, houve uma capacidade de resposta bastante, suficiente e positiva".
6/3/2020
 
Já há mais de cem mil infectados em todo o mundo. O Irão regista 4747 infectados, mais mil que na véspera. E 124 mortes. As autoridades iranianas soltam prisioneiros e admitem usar a força para impedir viagens, depois do estado de negação das autoridades do Irão. Vice-presidente Pence revela que, ao contrário do prometido, a Casa Branca não vai conseguir disponibilizar um milhão de kits para testes do vírus. “Ainda temos um caminho a percorrer para garantirmos que os testes estejam disponíveis”, reconhece Pence. O Congresso dos Estados Unidos aprova um pacote de emergência. Há mais de 200 casos em 20 estados. A França tem já 613 casos e duas mortes. Macron considera que a epidemia é “inevitável”. Os comissários da Saúde e Gestão de Crises e vários ministros dos 27 lamentam o comportamento de alguns parceiros — Alemanha, França e República Checa — que decidem introduzir limitações à exportação de dispositivos médicos e equipamentos de protecção individual. Na reunião, a ministra portuguesa apontou para o risco de uma “disfunção no mercado”. Uma equipa de cientistas dos Estados Unidos, da Itália e China conclui que as restrições nas viagens têm impacto “modesto”na propagação – apesar de grandes restrições de viagens na China e para fora do país, um grande número de indivíduos já expostos viajou pelo mundo sem ser detectado - e que a detecção precoce de casos e lavar as mãos são mais eficazes. A OIT revê em baixa as estimativas para o turismo internacional. Prevê recuos entre 1% e 3% este ano e perdas entre os 27 mil e 45 mil milhões de euros (30 mil milhões de dólares). Em Portugal, o ministro da Administração Interna afirma que o país está "preparado" para o surto do vírus. Porquê? Todas as estruturas do Estado têm planos de contingência actualizados.
O que fez Marcelo? 
 
Pouca coisa, segundo a página oficial. Promulgou o diploma que classifica como zonas especiais de conservação os sítios de importância comunitária do território nacional.
7/3/2020 
 
O Banco Central Europeu testa plano de emergência. Exportações chinesas caem 15,9% nos dois primeiros meses do ano. A Itália regista mais 1247 novos nas últimas 24 horas. Já há 5883 infectados. Dezasseis milhões de italianos estão isolados. O surto já se espalhou por 29 regiões. Há 21 casos confirmados em Portugal. A Universidade do Minho suspende as aulas no campus de Braga, depois de um estudante ter sido diagnosticado com o coronavírus. É prometido que o Hospital de São João monte um hospital de campanha. O primeiro-ministro, António Costa, garante que Portugal está preparado para o surto. O Governo tem os planos de contingência para ir adoptando "as medidas à medida do estritamente necessário". Algumas escolas são fechadas. "Não foram adoptadas [medidas] para outros estabelecimentos porque não se justificou. Se se vier a justificar claro que teremos que adoptar", declarou aos jornalistas, no Porto. "Nós temos de ir acompanhando a par e passo. Até agora tem sido possível fazer o rastreamento da origem destas situações — há um foco grande que teve origem em Milão e que depois se tem disseminado — há novos focos de infecção e, portanto, conforme eles forem verificando e se forem desenvolvendo nós temos de adoptar as medidas para conter o seu desenvolvimento". Sobre o encerramento de fronteiras, António Costa diz que o Governo nunca tomará medidas isoladas dos outros países da UE. "Até agora nenhum país considerou necessário haver essas medidas de encerramento das fronteiras e esperemos que não venham a ser necessárias". A directora-geral da Saúde garante que existe “capacidade laboratorial” para realizar os testes necessários. “Se a pressão for muito grande haverá dificuldades”. “Haverá em todos os países”. “Mas vamos sair bem, o melhor possível avaliando o risco e estudando o que a ciência nos ensina. Vamos agir com tranquilidade social. Já basta ter uma epidemia, para ainda ter uma epidemia do medo”, afirma.
O que fez Marcelo? 
 
Reduziu "uma parte da agenda" a nível nacional por causa do surto. Visitou o Hospital de São João. Foi recebido pelo presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Universitário de São João e pelo diretor do serviço de Doenças Infeciosas, onde se inteirou do estado de saúde dos doentes internados com Covid-19, “com os quais falou do exterior através do vidro do quarto de isolamento”. Deu uma palavra de optimismo para os portugueses: os profissionais de saúde “têm respondido de uma forma espectacular: o pessoal médico, o pessoal de enfermagem, o pessoal auxiliar, o pessoal técnico"e que "todo ele tem respondido com trabalho brutal, com uma sobrecarga constante, mas com uma qualidade e capacidade de doação sem limite". Depois, às 16h, agraciou o Teatro Nacional São João (TNSJ), do Porto, com o título de Membro Honorário da Ordem do Mérito e, já que lá estava, assistiu ao espetáculo “Turismo Infinito”. Um bom e irrealista tema.
8/3/2020 
 
O Presidente da República suspende a sua agenda por duas semanas, depois de, a 3/3, ter estado no Palácio de Belém, em Lisboa, com uma turma de uma escola de Felgueiras – no âmbito do programa “Artistas no Palácio de Belém” - que foi encerrada devido ao internamento de um aluno. Durante esse período, foi criticado pela extrema-direita por ter fugido.  A 15/3/2020, dirige, a partir de sua casa em Cascais, uma mensagem aos portugueses sobre a atual situação epidemiológica do novo Coronavírus (Covid-19). A 17/3/2020, faz o segundo teste ao Covid-19, decorridos 15 dias sobre a sessão com alunos da escola de Idães, Felgueiras. O resultado do teste foi negativo. Pelo que Marcelo volta ao trabalho na tarde desse dia.
A 18/3/2020, presidiu, a partir do Palácio de Belém, à reunião por videoconferência do Conselho de Estado. E decretou o Estado de Emergência. Ao dirigir-se aos portugueses, como se estivesse a declarar guerra a algum país.
“Esta guerra, porque de uma verdadeira guerra se trata, dura há um mês”. Na verdade, como se viu, durava há mais. “E o que fizemos nestes últimos quinze dias?”
– Marcelo, como vimos, fez pouco.
 
“O Governo – que tem entre mãos uma tarefa hercúlea – adotou medidas, tentando equilibrar contenção no espaço público e nas fronteiras e não paragem da vida económica e social, medidas que todos, Presidente, Parlamento, partidos e parceiros sociais, apoiámos, conscientes de que só a unidade permite travar e depois vencer guerras.”
– Marcelo poucas vezes o disse.
“Sabia e sei que os Portugueses estão divididos. Há quem o reclame para anteontem. Há quem considere dispensável, prematuro ou perigoso.”
- Marcelo, ao cumprir a sua etérea agenda, nem parece ter reparado no que se passava. E as cinco razões invocadas para o Estado de Emergência são errôneas.
“Primeira – Antecipação e reforço da solidariedade entre poderes públicos e deles com o Povo. Outros países, que começaram, mais cedo do que nós, a sofrer a pandemia, ensaiaram os passos graduais e só agora chegaram a decisões mais drásticas, que exigem maior adesão dos povos e maior solidariedade dos órgãos do poder. Nós, que começámos mais tarde, devemos aprender com os outros e poupar etapas, mesmo se parecendo que pecamos por excesso e não por defeito.”
Marcelo quer “decisões mais drásticas”. Mas que medidas mais drásticas? Quer ir além do que a UE tem feito? Quer o quê? Ninguém sabe. E ninguém sabe porque, na verdade, Marcelo pouco tem ligado ao assunto. Nenhum alerta foi dado. Esteve mais preocupado com a potiquice doméstica e mal se apercebeu de tudo. E agora, a coberto do vírus, quer dar uma guinada política. 
“Segunda – Prevenção. Diz o povo: mais vale prevenir do que remediar. O que foi aprovado não impõe ao Governo decisões concretas, dá-lhe uma mais vasta base de Direito para as tomar. Assim, permite que possam ser tomadas, com rapidez e em patamares ajustados, todas as medidas que venham a ser necessárias no futuro. ”
O Governo e o Estado, na verdade, já possuíam plenos poderes, como um Executivo em funções, cumprindo as suas competências constitucionais à frente do Estado. 
 “Terceira – Certeza. Esta base de Direito dá um quadro geral de intervenção e garante que, mais tarde, acabada a crise, não venha a ser questionado o fundamento jurídico das medidas já tomadas e a tomar.”
Cheira mesmo a argumento tirado da manga de um jurista. Quem viria a questionar? As empresas? Será que Marcelo defende a sua requisição, nacionalização? 
Quarta – Contenção. Este é um estado de emergência confinado, que não atinge o essencial dos direitos fundamentais, porque obedece a um fim preciso de combate à crise da saúde pública e de criação de condições de normalidade na produção e distribuição de bens essenciais a esse combate.
Idem 
Quinta – Flexibilidade. O estado de emergência dura quinze dias, no fim dos quais pode ser renovado, com avaliação, no terreno, do estado da pandemia e sua previsível evolução.
Brincamos? Tudo parece, pois, que as razões para se decretar o Estado de Emergência foram outras. O tempo as dirá.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Estado de pânico institucionalizado

«Não, não é minimamente proporcional! Não, não é aceitável que o Presidente da República finja que se esqueceu de tudo quanto escreveu sobre Direito Constitucional democrático e, intimidado pelos Torquemadas todos que difundem o vírus do pânico e acusam de “cobardia” quem não está em pânico como eles, se coloque à frente do partido do alarmismo e banalize o recurso ao estado de emergência num momento em que não há qualquer indício social de desprezo pelas medidas sanitárias já impostas!
 
O Presidente faz mal em dar ouvidos aos alarmistas (autarcas, académicos do “eu bem vos avisei”, Chicões e influencersdo terror social no Facebook) que, depois de fecharem milhões em casa (ajudando a que quem é já portador do vírus contamine depressa os seus conviventes forçados 24/24 horas), se horrorizam com gente a correr ao ar livre ou sentada num parque público, e que, só por isso, quer polícias e soldados transformados em gestores improvisados de saúde pública, a deterem cidadãos pela rua. Era bem melhor que, por cima da sua idiossincrática visão da doença e da saúde (cada um tem direito à sua, mas o Presidente de uma República não tem o direito de a impor sem boa fundamentação científica e ponderação política), ele ouvisse mais a Direção-Geral da Saúde, gente que lhe explique o necessário equilíbrio entre medidas de contenção e esse mínimo de vida social e afetiva que permite produzir, distribuir, assegurar a vida daqueles a quem se recomenda ficar em casa.
 
Ou será que o Presidente também quer mandar para casa quem trabalha? Não se dá ele conta que o estado de emergência só vem aumentar o estado de alarme social que serviu de justificação para o encerramento de tudo quanto é público, fazendo com que aqueles que têm mantido o país a funcionar se perguntem porque não podem/deveriam eles fechar-se em casa também? Julga ele que o estado de emergência aumenta a segurança sanitária para quem tem, deve, continuar a trabalhar? Quando o número de casos continuar a subir (como sobe em Itália desde que se impuseram as medidas de restrição absoluta à mobilidade, ao mesmo ritmo que subia sem elas), não percebeu ele que o partido do pânico clamará que “isto não está a funcionar!” e vai pedir que se parem transportes públicos, se fechem fábricas, se imponha o recolher obrigatório, se limite a uma hora por dia a saída de casa? Cedeu-se ao pânico uma vez, ceder-se-á sempre...
 
Não, sr. primeiro-ministro, não diga que “sempre que o Presidente assim considerar, o Governo cá estará para executar essa ordem”! Diga-lhe não agora para não ter de lhe dizer sim cada 15 dias, quando, perante uma situação inevitavelmente pior que a atual, o Presidente continuar a insistir que há que renovar o estado de emergência, ou pedir um upgrade para o estado de sítio! Não, não deixe que o partido do pânico venha pedir a revisão da Constituição para permitir tornar permanentes exceções que só se deviam permitir por 15 dias! Não, peça à Assembleia da República que não deixe que o homem dos afetos se transforme em contagiador de pânico! Se ao fim de uma vítima mortal já aqui estamos, como estaremos ao fim de cem? Não nos deixe morrer da cura.»
 

Portugal ouviu declaração do PR Marcelo acerca do Estado de Emergência que declarou

 
 
Marcelo: "É uma decisão excecional para um tempo excecional"
 
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou, esta quarta-feira, que o estado de emergência é "uma decisão excecional para um tempo excecional".
 
O Estado de Emergência teve parecer positivo do Governo e foi aprovado pelo Parlamento.
 
"Acabei de decretar o estado de emergência. É uma decisão excecional, para um tempo excecional. Está a ser e vai ser mais intensa, vai durar mais tempo. Vai ser um teste ao nosso Serviço Nacional de Saúde. É um tratamento sem precedente. É um desafio enorme para a nossa maneira de viver e para a nossa saúde", disse o presidente.
 
"Apostamos na contenção para tentar evitar o contágio e ganhar tempo para encontrar uma resposta. O Serviço Nacional de Saúde continua a fazer um trabalho notável. Os portugueses disciplinaram-se e foram e têm sido exemplares", acrescentou Marcelo.
 
"Muitos esperam um milagre. Entendi ser do interesse nacional dar este passo. Agradeço ao primeiro-ministro e ao Governo por terem aderido. E à Assembleia da República por ter aprovado com prontidão".
 
"O que foi aprovado não impõe decisões concretas", explicou o Presidente da República. "O estado de emergência é um sinal político forte".
 
 
Tiago Rodrigues ! Jornal de Notícias
 
Imagem: Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República / Lusa | com inscrição PG

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/portugal-ouviu-declaracao-do-pr-marcelo.html

Marcelo à procura de relevância

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Depois do falhanço inexorável como líder, Marcelo Rebelo de Sousa fez um verdadeiro sprint atrás do prejuízo com um discurso cujo objectivo seria o anúncio de um Estado de Emergência, mas que redundou em algo mais: numa ridícula ideia de superioridade com a manifestação de uma ideia de que por termos "nascido muito antes de outros" somos mais resistentes.
 
Vale tudo para recuperar a relevância perdida e os velhos hábitos e decrépitas ideias ficam demasiado tempo connosco.
Nesta sua busca por relevância, entretanto perdida entre beijinhos, abraços e selfies proibidas, e por entre quarentenas precoces e sem fundamentação, o Presidente aposta tudo num estado de emergência que tem como objectivo primeiro (re)construir a imagem de líder.
De resto, tem sido o primeiro-ministro a mostrar o que é isso de se ser líder, desde a primeira hora, mas sobretudo durante a quarentena do Presidente.
Resta agora a Marcelo correr atrás do prejuízo porque na verdade a reeleição, só por si, talvez nem seja verdadeiramente importante, mas sim uma reeleição com números estrondosos a comprovar que Marcelo Rebelo de Sousa é de facto o Messias por quem tanto ansiamos..

Ver o original em 'Triunfo da Razão' na seguinte ligação:

http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2020/03/marcelo-procura-de-relevancia.html

Eu não andei enganado e aqueles que respeito também não

A propósito do lava-mãos do presidente da República nas toalhas e águas da “declaração de estado de emergência”. Vivemos tempos de aspergir responsabilidades. Mas não são os que trouxeram até aqui a minha geração. Curiosamente a mais vulnerável ao mal de que nos querem salvar. Eu prefiro a dignidade de ser como sempre fui.


 

 

Carlos de Matos Gomes

Fui comandante de tropas em combate e em insubordinação. Conheci alguns dos melhores comandantes que Portugal teve durante a segunda metade do século XX. Comandantes nas situações mais criticas. O escritor António Lobo Antunes titulou um dos seus romances exatamente: “O que farei quando tudo arde?” Retirado de um poema de Sá de Miranda.

Essa é a pergunta para a qual, têm de encontrar respostas os chefes, os comandantes, aqueles a quem as circunstâncias históricas colocaram no centro de uma ação decisiva para aqueles a quem calhou dirigirem. São essas respostas que definem o caráter desses homens. Eu e os meus camaradas – aos vinte anos – sabíamos e soubemos o que fazer quando tudo ardia. Arcámos com as nossas responsabilidades. Pagámos por sermos nelas implicados, como diria o Salgueiro Maia.

Eu e os melhores dos meus camaradas demos sempre uma resposta e assumimos as responsabilidade cada uma delas. Na guerra, no fim da guerra, na construção de um novo regime, nenhum de nós necessitou de um decreto, nem de uma reunião do Conselho de Estado, nem de um concerto de violino, nem de uma apólice de seguro, nem de uma oração, nem de uma palmada nas costas para fazermos o que fizemos. Nenhum de nós exigiu um estado de emergência para ir combater ao estrangeiro, para voar sobre território para lá das fronteiras e enfrentar misseis ou antiaéreas, para navegar em águas traiçoeiras, para falar com os “inimigos” (como fizeram os capitães do MFA quando se ligaram com a Frelimo para evitar a continuação das ações de guerra em Moçambique, por exemplo).

O Fernando Salgueiro Maia não necessitou de uma declaração de estado emergência para vir de Santarém a Lisboa, nem, já agora, o general Costa Gomes necessitou do estado de emergência para negociar uma aliança com Savimbi, nem Mário Soares necessitou do estado de emergência para assumir a responsabilidade da adesão de Portugal à CEE… Não foi necessário o estado de emergência para acabar com a incipiente reforma agrária, nem para privatizar a banca e mandar vir os banqueiros (os beneméritos a quem pagamos os fundos de capitalização e os prémios de gestão), nem para estabelecer as PPP, nem para privatizar a rede de produção e distribuição de energia, nem para a venda da rede de telecomunicações, por exemplo.

Quando um comandante de um navio recebe o comando, recebe-o para navegar em situações de tempestade. Para navegar em mar de azeite basta o grumete do leme. Um comandante de um navio, de uma aeronave, de uma unidade de combate recebe uma “carta patente” para decidir em situações de emergência. Por isso havia, antigamente, Tribunais Marciais. Um comandante, como um presidente da república não é um funcionário administrativo. Não é um “moina” que patrulha a rua em situações normais. É aquele que, por inerência de funções, assume responsabilidades, decide e se sujeita ao julgamento das suas decisões.

Eu não me arrependo de ter tomado decisões. Mas entristeço-me de ter alguém que, em meu nome, e por força da Constituição que me rege e para a qual dei um modestíssimo contributo, seja um tíbio!

A minha avó, que aos 18 anos atravessou a América no início do século XX, para ir ao encontro do seu marido e construírem um rancho no vale de São Joaquim, na Califórnia, designava estes tipos na sua língua em que misturava o inglês e o português como “trampas”, (era, além do mais, uma antecipadora), uns merdas. Um dos meus amigos, capitão de cavalaria, que morreu em combate na Guiné, quando nos encontrávamos em Santarém, na Escola de Cavalaria, colocou a questão ao seu primeiro-sargento, quando este lhe veio colocar mais um problema: “Ó Sousa, afinal você responde pelo esquadrão, ou pergunta pelo esquadrão?”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também hoje, mais uma vez perguntou pelo país em vez de responder ao país. Não passou de um esforçado primeiro-sargento que se coloca no seu papel de não decisor, de cumprir as suas tarefas para que os comandantes possam tomar decisões.

Eu e os meus amigos, aqueles que respeito e com os quais podia fazer uma grande lista, não necessitámos de declaração de estado de emergência para fazer o que entendíamos devíamos fazer e que fizemos.

Os fracos chefes fracas fazem as fortes gentes. Foi o caso. E este episódio de hoje entristece-me. Não me arrependo do que fiz. Nunca me escondi nem esconderia atrás de uma declaração de estado de emergência, nunca repartiria responsabilidades com um conselho. Nunca viria, por fim justificar a minha fraqueza com um discurso de “é para vosso bem”!

Não é.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/estado-de-emergencia-eu-nao-andei-enganado-e-aqueles-que-respeito-tambem-nao/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=estado-de-emergencia-eu-nao-andei-enganado-e-aqueles-que-respeito-tambem-nao

A emergência de medidas de estado

 

O Presidente da República, mais do que a generalidade de todos nós, está com um comportamento estranho. Evidentemente, os que têm o privilégio de estar em casa a receber 100% da remuneração sem estarem doentes, não estarão imunes a alguma desordem psicológica que a pandemia está a provocar se continuarem a consumir notícias, informação e desinformação. Já o Marcelo, parece estar em estado pandémico ele próprio, com necessidade de garantir a securitizaçãodo país para que sua excelência possa circular.

Neste momento de extraordinária complexidade, que nos exige muita análise, há prioridades. Uma delas não é a suspensão de direitos, liberdades e garantias. Não é a passagem a um estado policial.

Por um lado, a emergência sanitária, social e laboral exige medidas de curto e médio prazo que antecipem as consequências previsíveis: despedimentos, dificuldades dos micro, pequenos e médios empresários, possíveis insolvências pessoais, impossibilidade de pagamento das contas (água, luz, renda de casa). Assim, as medidas que desde logo, se impõem, do ponto de vista social (que não pode ser descurado além daquilo que é a assistência imediata do apoio alimentar e médico), são medidas de suspensão de despedimentos por motivos económicos, garantia de 100% dos rendimentos (de referência e não rendimento base), prestações sociais, moratórias no pagamento das facturas da electricidade (impondo medidas à EDP de não interrupção do fornecimento de serviços em caso de não pagamento, de não cobrança de juros, de perdão de dívida em caso comprovado de perda de rendimento, etc), reforço dos direitos laborais bloqueando qualquer alteração para pior dos contratos individuais de trabalho ou dos contratos de trabalho em funções públicas e garantindo a equivalência de contribuições aos trabalhadores independentes (e não o seu diferimento) pelo tempo em que não tenham rendimento.

Por outro lado, é tempo de imediatamente convocar os hospitais privados para que, de forma obrigatória e imediata disponibilizem o material que tenham disponível para o pessoal da saúde nos hospitais do SNS e também as suas instalações para tratamento, internamento e teste.

Entre outras medidas de encerramento de empresas privadas que manifestamente não tenham que estar a trabalhar, de garantia das condições a todos os trabalhadores que neste momento estão a garantir que o pais sobreviva (energia, comércio, transportes, higiene urbana, saúde, acção social... tantos...) etc etc etc.

Para que se tenha uma ideia clara:

 

Artigo 19.º

Suspensão do exercício de direitos

1. Os órgãos de soberania não podem, conjunta ou separadamente, suspender o exercício dos direitos, liberdades e garantias, salvo em caso de estado de sítio ou de estado de emergência, declarados na forma prevista na Constituição.
2. O estado de sítio ou o estado de emergência só podem ser declarados, no todo ou em parte do território nacional, nos casos de agressão efetiva ou iminente por forças estrangeiras, de grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública.
3. O estado de emergência é declarado quando os pressupostos referidos no número anterior se revistam de menor gravidade e apenas pode determinar a suspensão de alguns dos direitos, liberdades e garantias suscetíveis de serem suspensos.
4. A opção pelo estado de sítio ou pelo estado de emergência, bem como as respetivas declaração e execução, devem respeitar o princípio da proporcionalidade e limitar-se, nomeadamente quanto às suas extensão e duração e aos meios utilizados, ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade constitucional.
5. A declaração do estado de sítio ou do estado de emergência é adequadamente fundamentada e contém a especificação dos direitos, liberdades e garantias cujo exercício fica suspenso, não podendo o estado declarado ter duração superior a quinze dias, ou à duração fixada por lei quando em consequência de declaração de guerra, sem prejuízo de eventuais renovações, com salvaguarda dos mesmos limites.
6. A declaração do estado de sítio ou do estado de emergência em nenhum caso pode afetar os direitos à vida, à integridade pessoal, à identidade pessoal, à capacidade civil e à cidadania, a não retroatividade da lei criminal, o direito de defesa dos arguidos e a liberdade de consciência e de religião.
7. A declaração do estado de sítio ou do estado de emergência só pode alterar a normalidade constitucional nos termos previstos na Constituição e na lei, não podendo nomeadamente afetar a aplicação das regras constitucionais relativas à competência e ao funcionamento dos órgãos de soberania e de governo próprio das regiões autónomas ou os direitos e imunidades dos respetivos titulares.

Ora, a declaração deste estado significa a suspensão de direitos, liberdades e garantias. Que neste caso passarão necessariamente pela liberdade de circulação e outras (ninguém sabe o que se passa na cabeça do Marcelo), pela imposição pelas autoridades policiais e militares (porque assim tem que ser) de normas que hoje já têm o enquadramento legal para a sua imposição sem recurso a este mecanismo.

Por um lado, foi declarado o estado de alerta, nos termos da Lei de Bases da Protecção Civil, permitindo já que qualquer medida decretada que não seja cumprida possa ser, face a uma ordem dada por uma autoridade policial, em caso de desobediência, tal comportamento seja em primeiro lugar ordenado por essa autoridade e em segundo, punido criminalmente em caso de desobediência.

Também acaba de ser declarado o estado de calamidade no município de Ovar, medidas que podem ser decretadas, caso a caso, existindo formas de garantir que todos cumprem.

Este é um momento de garantir o reforço dos direitos, liberdades e garantias - no sentido de garantir a saúde pública, o direito a viver com dignidade e acesso aos bens, o direito à saúde e segurança dos trabalhadores que garantem que o país continue e que sejam prestados os cuidados médicos, de garantir a liberdade de informar e ser informado e a garantia de um futuro com direitos. Com solidariedade, com informação, com responsabilidade, com direitos. Para todos.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/03/a-emergencia-de-medidas-de-estado.html

Covid-19. Ventura é igual aos que preferem a praia ou andam nos copos no Bairro Alto

(Martim Silva, in Expresso Diário, 17/03/2020)

André Ventura e o Chega, na sua onda desenfreada de populismo irresponsável, decidiram afixar mais um outdoor político, desta vez destinado a criticar o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há duas semanas em isolamento voluntário na sua casa de Cascais.

“Marcelo em quarentena. Um verdadeiro Presidente não se esconde”, lê-se na mensagem difundida por aquele partido.

 

A forma como se comportou Marcelo nas últimas semanas dá azo a muitas críticas e por isso mesmo este tipo de mensagem pode passar com alguma facilidade, mesmo junto daqueles que não professam qualquer simpatia por André Ventura.

O problema é que a mensagem esconde algo de bem mais grave, que decorre da ‘normalização’ da sociedade pós-verdade das redes sociais, em que a informação correta sobre os assuntos vale bastante menos que seguir uma onda de indignação fácil que apela aos nossos instintos mais primários. E em que o insulto faz parte do dia a dia.

Perante uma pandemia de proporções ainda desconhecidas, acusar alguém de se esconder quando opta pelo isolamento voluntário é do mais mesquinho que já ouvi

No fundo, o que Ventura e o Chega fazem é mais ou menos o mesmo que aqueles que, atirando às urtigas as recomendações das autoridades e responsáveis de saúde, não se coibiram de rumar aos milhares às praias mal o sol fez subir um pouco a temperatura. Ou que continuam alegremente a assobiar para o lado e a enfrascar uns copos no Bairro Alto ou outros locais de diversão noturna, ignorando os perigos para si e sobretudo para os outros.

No fundo, o que fazem é ignorar o alarme que a pandemia do Covid-19 representa para cada um de nós e para a sociedade coletivamente. É ignorar o potencial de risco de um novo vírus do qual ignoramos muito (mas que já sabemos que é muito contagioso e bastante mais mortal que a gripe comum) e acreditar que tudo não passa de uma imensa cabala ou histeria coletiva criada para nos assustar a todos.

Voltemos ao Presidente.

Claro que Marcelo devia ter explicado melhor logo desde o primeiro dia a que se devia o seu isolamento (que foi aconselhado pela ministra da Saúde).

Claro que Marcelo nunca deveria ter ido à janela dar ‘entrevistas’ sem nexo.

Claro que Marcelo devia evitar falar aos portugueses num vídeo caseiro de má qualidade em que a mensagem mal passa.

Mas, ao isolar-se, Marcelo mostrou aos portugueses como o assunto era para levar a sério.

Mas Marcelo ao falar aos jornalistas também mostrou como se deve ter todos os cuidados mas sem cair em alarmismos e acreditando que a vida continua e que a normalidade deve ser mantida… dentro da anormalidade disto tudo.

Mas Marcelo, ao seguir os passos exigidos para convocar o Conselho de Estado e decretar o estado de emergência, também mostra como, mesmo numa situação delicadíssima, a burocracia é necessária e a melhor garantia que temos contra a tirania e a arbitrariedade de quem nos governe.

Marcelo pode ter cometido erros políticos. Mas mil vezes mil os erros políticos de Marcelo do que as mensagens incentivadoras de ódio primário destes populistas que nos entraram pela janela.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Com o risco de errar, claro

«Sr. primeiro-ministro, peça à Assembleia da República que não deixe que o homem dos afetos se transforme em contagiador de pânico! Se ao fim de uma vítima mortal já aqui estamos, como estaremos ao fim de cem? Não nos deixe morrer da cura .»

texto integral no blog
de Joana Lopesaqui
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

O falhanço de Marcelo

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Foi preciso uma situação particularmente grave para vislumbrarmos o verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa, muito para além da postura bacoca, e agora inviável, dos beijinhos e das "selfies". Perante uma crise sem precedentes, Marcelo mostrou não saber ser líder. 
Primeiro a quarentena, prematura e sem sentido, agora vendida como tendo como objectivo primeiro e talvez único o exemplo a dar a todos os portugueses; depois o enchimento dos dias com a vacuidade da rotina do Presidente; e, finalmente, com uma declaração, via internet, sem qualidade, como se estivesse encolhido num bunker, apenas para dar conta das suas intenções, quando este é um tempo de decisões e não de intenções.
Perante esta crise, o falhanço de Marcelo está apenas no princípio. Ninguém espera que o Presidente apresente soluções milagrosas ou que sugira/adopte para além das suas competências. Porém, espera-se que o Presidente mostre as suas capacidades de liderança, o que não aconteceu.
De facto, é fácil distribuir beijinhos e sorrir para câmaras de telemóvel, mas a presidência tem que ser muito mais do que isso, especialmente num período tão confuso e tão difícil quanto este que vivemos. A ver vamos quais os estragos deste falhanço para uma reeleição sempre dada como garantida.

Ver o original em 'Triunfo da Razão' na seguinte ligação:

http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2020/03/o-falhanco-de-marcelo.html

|ESTÁ TUDO GROSSO?|

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Quando o país mais precisava de um Presidente da República eis que Marcelo decide dar um exemplo, achou que se tinha cruzado com uma primo de uma sobrinha de um conhecido de um contaminado de Felgueira e impôs a si próprio uma quarentena, durante a qual lhe levam tudo a casa e quando sente saudades de dar ao badalo para o país o ouvir vai à varanda das traseiras onde, coincidência das coincidências, está uma jornalista à espreita.
 
 
O bom exemplo que Marcelo poderia ter dado desde há muito tempo era de higiene, pondo fim a essa treta populista do presidente dos afetos, que o leva a beijar tudo e todos, transformando a sua cara no maior jardim zoológico de bacilos vírus, fungos, bactérias e tudo o mais que se mede em microns.
 
Mas é para vir dizer que está vendo o que o governo faz, assegurar que vai pedir contas, visitar doentes ou fazer boletins clínicos como se tivesse tirado um curso de medicina e a especialidade em saúde pública enquanto esteve de quarentena, o melhor é voltar a dar o exemplo e voltar para quarentena, mas desta vez uma quarentena de quarenta dias, talvez o país regresse a alguma normalidade informativa.
 
E enquanto o presidente está de quarentena vamos assistindo ao espetáculo proporcionado pelas conferências de imprensa da ministra e da diretora-geral. Só é pena que lá não apareça sempre aquele senhor com cara de pau que finalmente percebi que era secretário de Estado da Saúde, bem como a colega Jamila, a senhora da JS que tanto poderia ter ido para adjunta e da Saúde como para a agricultura, porque quem não sabe de nada serve para tudo.
 
Ver a senhora diretora-geral dedicar a sua maior intervenção à defesa corporativa dos médicos do hospital de Santa Maria, cuja competência ou honorabilidade ninguém questionou foi deprimente. A verdade é que não há como explicar como é que duas pneumoniass com COVID-19 se “escaparam” quando basta espirrar e ter um primo italiano para ir logo fazer companhia ao Marcelo.
 
Por favor, metam ordem na casa, deixem-se de gestão da imagem e enfrentem o problema com seriedade e segurança, transmitindo confiança aos portugueses. Deixem-se de palhaçadas e façam um bom programa televisivo explicando a todos as medidas preventivas que devemos adotar.
 

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

As habituais contradições de Marcelo

Não faltam exemplos dos passos em falso dados por Marcelo Rebelo de Sousa, quando raciocina de menos e exibe o esplendor da incontida tendência para agir em função da falível intuição. Na semana transata percebeu-se o agastamento com António Costa por este decidir antecipar-se-lhe na visita aos doentes ao Hospital de São João no Porto, roubando-lhe um protagonismo, que até o faz roer-se todo quando o vê partilhado com mais alguém. Mas percebia-se a intenção do primeiro-ministro: numa altura em que a generalidade da imprensa lançava um tal alarido em torno do novo vírus, que poderia dar ensejo a uma imprevisível histeria coletiva, era fundamental transmitir a imagem de serenidade por parte de quem estava a agir competentemente de acordo com a evolução dos acontecimentos.

 

Nos dias seguintes Marcelo excedeu-se em alfinetadas ao governo, ironizando com as recomendações de distanciamento social, que António Costa propunha como elementar medida preventiva. Abraços eselfiesnão faltaram, nomeadamente na visita a Felgueiras, que não tardaria a ser identificada como cidade particularmente vulnerável a contaminação com o vírus.

 

Se o caso estava a merecer de Marcelo uma atitude de desafio aos conselhos emitidos pelo Governo e pela Direção Geral de Saúde, o que se seguiu passou a ser hilariante: tomando consciência de que pudera ter sido afetado pelo covid-19, decidiu entrar imediatamente em quarentena. E, agora que se confirma negativo o teste prontamente feito para aferir se também engrossaria a estatística dos infetados, ninguém o tira das cautelas e dos caldos de galinha nas próximas semanas. Para susto já bastou o deste fim-de-semana e não há como evitar os afetos, que os prosélitos lhe queiram transmitir tão só ponha um pé na rua.

 

Um pequeno caso confirma a inconstância de Marcelo: enquanto Costa nada alterou das regras como cumprimenta quem contacta no exercício do cargo - até o homólogo sueco ficou de mão estendida no ar quando o quis cumprimentar - o auto-enclausurado inquilino de Belém faz o que é costume: vai de exagero em exagero, ora primando pela displicência irresponsável, ora aparentando indisfarçada cobardia.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/as-habituais-contradicoes-de-marcelo.html

Presidente em quarentena preventiva na residência particular em Cascais

Atual

As próximas duas semanas são passadas em casa, no centro histórico de Cascais (Foto Cascais24)
Por Redação
08 março 2020
OPresidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vai passar as próximas duas semanas em isolamento profilático, na sua residência particular, no centro histórico de Cascais.
O isolamento de Marcelo Rebelo de Sousa surge, por precaução, depois de ter estado em contato com uma turma da Escola E.B 2,3 de Idães, em Felgueiras, um dos estabelecimentos de ensino do Norte que foi encerrado devido ao covid19.
Esta turma esteve em Belém no âmbito da iniciativa "Artistas no Palácio".
Marcelo Revelo de Sousa que, entretanto, suspendeu toda a agenda oficial, quer dar o exemplo, seguindo o aconselhamento das autoridades de saúde.
Segundo uma nota da Presidência da República, o Presidente da República, apesar de não apresentar qualquer sintoma virótico, decidiu cancelar toda a sua atividade pública, que compreendia várias presenças com número elevado de portugueses, assim como a própria ida a Belém, durante as próximas duas semanas. O mesmo fará com deslocações previstas ao estrangeiro.
Ainda de acordo com a mesma nota, o Presidente da República “será monitorizado durante esse período em casa”, em Cascais
“No momento em que todos os portugueses demonstram elevada maturidade cívica perante o surto virótico, entende o Presidente da República que deve dar exemplo reforçado de prevenção, sem embargo de continuar a trabalhar na sua residência particular”, conclui a mesma nota da Presidência da República.
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_596.html

Mulheres e mais idosos são quem mais apoia Marcelo

Uma nova sondagem revelou que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, continua a merecer a aprovação da maioria dos portugueses, registando um maior apoio entre as mulheres e as pessoas mais idosas. 

 

De acordo com a pesquisa de opinião da Aximage para o Jornal Económico, cujos resultados foram esta segunda-feira divulgados, o Chefe de Estado português, tem um nível de aprovação de 64,1% entre os portugueses. Apenas 11% dos inquiridos nesta sondagem consideraram que Marcelo Rebelo de Sousa tem uma prestação negativa.

O apoio entre as mulheres é maior: apenas 5,8% das inquiridas nesta sondagem disseram não estar convencidas com a sua atuação, contra 68% que fazem uma boa avaliação. Os homens são são mais contestatários, havendo 59,5% a favor e 17% contra.

Marcelo é também bem avaliado entre os mais velhos, isto é, entre as pessoas entrevistadas com 65 anos ou mais: 72,1% dizem que Marcelo está a desempenhar bem o cargo, havendo 11,1% o avaliam de forma negativa.

 
 

A sondagem, levada a cabo entre 14 a 18 de fevereiro, contou com 839 entrevistas.

Marcelo Rebelo de Sousa ainda não anunciou se vai ou não recandidatar-se à Presidência da República. Para já, André Ventura é o único candidato oficial.

As eleições para Belém ocorrem em janeiro de 2021.

ZAP //

 

 

 

 
 
 

Em visita do presidente de Portugal a Nova Deli, Índia manifesta interesse em aderir à CPLP

Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro ministro indiano Narenda Modi, reunidos em Nova Deli, no dia 14 de fevereiro de 2020
© REUTERS / Adnan Abidi

Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, se encontra em visita de Estado de quatro dias à Índia. Após reunir-se com o seu homólogo indiano e com o primeiro-ministro Narenda Modi em Nova Deli, Rebelo de Sousa segue para Goa neste sábado (15).

Portugal e Índia assinaram 14 acordos e memorandos de entendimento em áreas chave, como direito do mar, propriedade intelectual e pesquisa aeroespacial e científica, durante os encontros realizados entre o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e as mais altas autoridades indianas, em Nova Deli, nesta sexta-feira (15).

O presidente da Índia, Ram Nath Kovind, recebeu o seu homólogo português no palácio de Rashtrapati Bhavan. Kovind lembrou os laços que unem as duas nações, que possuem 500 anos de história compartilhada.

"Os dois países estão intimamente ligados através de Goa e Mumbai, da nossa cultura, idioma e parentesco", afirmou Kovind.

O presidente indiano também agradeceu a Portugal por estender seu apoio à comemoração do 150º aniversário de nascimento de Mahatma Gandhi.

Kovind manifestou o interesse da Índia em unir-se como país observador à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Criada em 1996, a organização une todos os países de língua portuguesa do mundo, inclusive o Brasil.

"A Índia espera se tornar um observador associado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para que possamos ampliar nossas parcerias de desenvolvimento na África e em outros lugares", acrescentou.

A Índia possui territórios nos quais a língua portuguesa é utilizada, como a região de Goa.

Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, é recebido pelo seu homólogo indiano, Ram Nath Kovind, no palácio Rashtrapati Bhavan, em Nova Deli, no dia 14 de fevereiro de 2020
© REUTERS / Adnan Abidi
Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, é recebido pelo seu homólogo indiano, Ram Nath Kovind, no palácio Rashtrapati Bhavan, em Nova Deli, no dia 14 de fevereiro de 2020

Konvind disse que a agenda bilateral se expandiu significativamente. Hoje, os países cooperam em áreas como ciência e tecnologia, defesa, educação, inovação e startups, água e meio ambiente, entre outras, acrescentou.

Para o presidente indiano, os países devem aprofundar as relações no âmbito do combate ao terrorismo internacional. "Deveríamos aprofundar ainda mais nossa cooperação para derrotar e destruir essa ameaça global", declarou Kovind.

Em outubro de 2005, Portugal extraditou dois acusados de terrorismo, Abu Salem e Monica Bedi, para Nova Deli.

Outras áreas de cooperação citadas pelos mandatários são o desenvolvimento portuário, migração e mobilidade, startups, direitos de propriedade intelectual, área aeroespacial, nano-biotecnologia, coprodução audiovisual, ioga, treinamento diplomático, pesquisa científica e políticas públicas.

Kovind também citou as mudanças climáticas como um desafio global premente e convidou Portugal a se unir à Aliança Solar Internacional em um futuro próximo. A Aliança, encabeçada pela Índia, tem como objetivo reunir esforços para desenvolver a energia solar.

"Nossa parceria global acrescentou profundidade ao nosso empenho comum e ao nosso desejo comum de criar uma ordem mundial multipolar", declarou Kovind.

Encontro com o primeiro-ministro Modi

Nesta sexta-feira (15), o presidente português reuniu-se com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Durante as conversações foram assinados sete pactos para cooperação em áreas de investimento, transporte, portos, cultura e direitos de propriedade industrial e intelectual.

© REUTERS / Adnan Abidi
Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, inspeciona a guarda de honra durante sua recepção no palácio presidencial indiano, o Rashtrapati Bhavan, em 14 de fevereiro de 2020

Em 2017, Modi visitou Portugal, ocasião na qual foram assinados 11 acordos cobrindo um amplo espectro de temas, como espaço, prevenção de dupla tributação, nanotecnologia, biotecnologia e ensino superior. A última visita de um presidente português à Índia havia sido realizada em 2007.

Rebelo de Sousa visita Goa

Após o encontro com as mais altas autoridades indianas, Marcelo viajará para Maharashtra e Goa neste sábado (15). Goa é um território lusófono localizado no sudoeste do subcontinente indiano.

Em Goa, Rebelo de Sousa deve assinar um memorando de entendimento com autoridades locais sobre gestão de águas e esgotos, além de reunir-se com o governador de Goa, Satya Pal Malik, reportou o jornal indiano Firstpost.

A visita do presidente deve durar quatro dias e será encerrada neste domingo (16).

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/mundo/2020021515222848-em-visita-do-presidente-de-portugal-a-nova-deli-india-manifesta-interesse-em-aderir-a-cplp/

Eutanásia: Marcelo só se pronuncia no fim do processo (mas não fecha a porta a referendo)

 

No segundo dia de viagem à Índia, o Presidente da República falou sobre o grande tema do momento para dizer que vai guardar-se até ao fim do “processo global” onde estão “vários processos”, referendo incluído.

 

O Presidente da República afirmou esta sexta-feira que receberá quem lhe pedir audiências sobre a eutanásia, mas que reserva a sua palavra “por escrito ou oralmente” para o fim do processo.

Marcelo Rebelo de Sousa, que durante o seu mandato sempre se escusou a tomar posição sobre esta matéria, não quis, durante a sua visita de Estado à Índia, pronunciar-se sobre a possibilidade de um referendo ou sobre questões de constitucionalidade relacionadas com este tema.

Questionado pelos jornalistas junto à Porta da Índia, em Mumbai, o chefe de Estado prometeu que fará “uma avaliação não hipotética, mas efetiva, na altura em que tiver de ter”, acrescentando: “Até lá as pessoas esperarão e naturalmente desempenharão os seus vários papéis. Cada um tem um papel a desempenhar”.

No seu caso, defendeu que, como Presidente da República, “a palavra deve ser dada, por escrito ou oralmente, conforme o caso, sendo caso disso, no fim do processo, e não no começo ou no meio”, e que “deve ser respeitada esta reserva”.

Há vários processos no mesmo processo global e, portanto, eu não vou falar em nenhum dos aspetos, nenhuma das facetas, nenhuma das vertentes do mesmo processo global”, disse quando questionado diretamente sobre a hipótese de um referendo.

Interrogado sobre o que o levou a divulgar uma nota no portal da Presidência da República na Internet a informar que iria conceder audiências sobre este tema logo que regresse da Índia, Marcelo Rebelo de Sousa rejeitou que isso seja lido como um sinal de preocupação.

“Não. É sinal de que, estando aqui e não querendo estar a falar de temas internos quando estou fora do território nacional, eu não queria deixar de explicar que, quando voltasse ao território nacional e quando pudesse, não deixaria de fazer o que fim sempre em circunstâncias similares, que é receber quem me pede para ser recebido”, respondeu.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/eutanasia-marcelo-pronuncia-fim-308840

Portugal | Marcelo vai condecorar Rui Pinto

 
 
Paulo Baldaia* | Jornal de Notícias | opinião
 
Para começo de conversa, convém dizer que não faço a mínima ideia se vai ou não vai, mas sei que devia. Depois de ter condecorado dezenas de desportistas pelas vitórias conseguidas aquém e além-mar, o presidente da República engrandecia-se a si próprio e ao povo que representa se desse um murro na mesa e dissesse que o rei vai nu.
 
Esta justiça que temos envergonha a democracia que somos. Não sei se devia avançar com uma Ordem de Mérito (destina-se a galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da coletividade) ou com uma Ordem da Liberdade (destina-se a distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade), mas é urgente que o mais alto magistrado da Nação reponha a ordem justa das coisas.
 
A prisão preventiva de Rui Pinto não deve inibir o presidente de fazer justiça. Embora pareça, este denunciante não está julgado e condenado e, por isso, pode receber um galardão presidencial. E, se vier a ser condenado pela alegada tentativa de extorsão, é certo que já terá cumprido mais do que a sua pena, tornando-se duplamente merecedor da distinção: porque é justo o agradecimento e porque é injusta esta prisão preventiva. Assim como assim, Ronaldo, que foi investigado, julgado e condenado porque noutros países levam a sério as denúncias de Rui Pinto, manteve a comenda. Pode escrever no seu diário, professor Marcelo Rebelo de Sousa, este denunciante que está por trás do Luanda Leaks é o mesmo do Football Leaks e é o mesmo que vazou muita informação perdida na caixa de correio da PLMJ e que o "Expresso" está proibido de divulgar porque, alegam os tribunais portugueses, há limites que "não podem ser encarados como uma censura, que supõe sempre uma arbitrariedade por parte do censor, mas que estabelecem as balizas da convivência democrática".
 
Grande democracia esta, senhor presidente, que pressupões que há Leaks de primeira e Leaks de segunda. Envergonhe-se, por isso, senhor professor de Direito Constitucional, porque, como disse Catarina Martins no Porto Canal, este caso do Rui Pinto escancara a evidência de que "o futebol vive um regime de exceção no Estado de direito" e isso "é um problema" sério. À justiça o que é da justiça e à política o que é da política. Está mais do que na hora da política pôr ordem na justiça.
 
*Jornalista
 
Imagem: Instagram

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-marcelo-vai-condecorar-rui.html

Marcelo diz estar a “carregar baterias” quando questionado sobre recandidatura

Nuno Veiga / Lusa

 

Marcelo Rebelo de Sousa disse esta terça-feira estar a “carregar baterias” em Moçambique quando questionado sobre uma eventual recandidatura à Presidência da República portuguesa, deixando a resposta em aberto.

 

“Estou a carregar baterias em Moçambique, pode ser que isso ajude em termos também de Portugal”, respondeu, à saída de um encontro com o chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, no palácio da presidência em Maputo.

Marcelo Rebelo de Sousa encontra-se em Moçambique desde segunda-feira para uma visita de cinco dias centrada na tomada de posse de Nyusi para um segundo mandato, cerimónia agendada para quarta-feira. “Quem está para tomar posse é o Presidente moçambicano. Vamos deixar cada coisa para seu momento“, concluiu Marcelo.

Em outubro, Marcelo revelou que a sua recandidatura à Presidência da República dependia dos resultados de um exame médico. Nesse mês, Marcelo fez um cateterismo cardíaco que, segundo o comunicado da equipa médica, confirmou “a existência de obstruções coronárias importantes que foram tratadas no mesmo procedimento, com sucesso e sem complicações”.

 
 

Após sair do hospital, o Presidente da República considerou que o estado da sua saúde “é um fator positivo na ponderação” sobre uma recandidatura, mas remeteu essa decisão para outubro de 2020.

Marcelo Rebelo de Sousa cumpre o primeiro mandato como Presidente da República. Em 2016, Marcelo venceu as eleições presidenciais com 52% dos votos, tornando-se no 20.º Presidente da República portuguesa, o 5.º desde o 25 de abril de 1974. As próximas eleições presidenciais realizam-se em 2021.

ZAP // Lusa

 

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https://zap.aeiou.pt/marcelo-carregar-baterias-recandidatura-302268

O execrável populismo de Marcelo

Bem gostaria de me livrar de Marcelo como quase constante alvo das minhas críticas, mas como evitá-lo se ele me dá sobejas razões para que tal continue a acontecer? Agora foi na cerimónia de início do ano judicial, quando fez uma declaração do mais soez populismo: “Alguns espíritos chocaram-se com o ser possível a magistrados terem estatuto remuneratório superior ao de primeiro-ministro e mais próximo do estatuto do Presidente da República. Não consegui compreender o racional - como se diz agora - de tais perplexidades”

 

Um Presidente com sentido de Estado porfiaria em combater os populismos, que fazem dos políticos os bombos de uma festa em que o objetivo é apenas substituírem-se a eles, mantendo ou mesmo aumentando então as respetivas mordomias, tão-só estejam em condições de imporem pela força a agenda em prol dos suspeitos do costume, ou seja, desses patrões que lhes financiam lautamente os cartazes e demais instrumentos de manipulação coletiva sem que os tais magistrados os investiguem rigorosamente conforme deveria ser o seu imperativo. Será por terem eles quem afinal lhes garantem uma posição injustificada de privilégio em relação aos políticos relativamente aos quais sempre ganharam menos ou aos militares que se lhes equiparavam? Se as coisas não são assim, pelo menos parecem...

 

Para que não fiquem dúvidas sou dos que defendem que as remunerações atribuídas a partir do Orçamento Geral do Estado devem ter no topo da hierarquia o Presidente da República, seguido do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-ministro. Só depois faz sentido que venham os juízes, os militares, os professores, os médicos e outras carreiras, que merecem equiparar-se em importância. Porque qual a razão para um juiz do Supremo ou do Tribunal Constitucional ganhar mais do que um general, um professor catedrático ou um médico especialista? Pegando na expressão de Marcelo qual é o racional de não ser assim a partir de agora?

 

Ouvir Marcelo dizer que o aumento dos políticos fica para depois pode ser do agrado das manchetes dos pasquins da Cofina mas em nada contribui para que o governo da nação ou a Assembleia da República sejam constituídos pelos cidadãos mais qualificados porque, perante as condições remuneratórias oferecidas para o exercício de funções oficiais, sempre preferirão a comodidade de optar pelo setor privado, onde ademais se poupam ao fácil achincalhamento que os meios de comunicação e as redes sociais, infestadas por biltres direitistas, se esforçam por disseminar. Como é exemplo lapidar esse Tavares, dileto amigo de Marcelo, que se serve da última página do jornal da Sonae para desconsiderar quem a dormir sabe mais da política ou da gestão do que ele com os olhos todos abertos, ainda por cima convencido de ter alguma razão nas atoardas que derrama no papel...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/01/o-execravel-populismo-de-marcelo.html

Marcelo: “Aliados são aliados mesmo preferindo agir sozinhos”

(Comentário:

A arte de falar, falar, falar até encontrar de alguma coisa útil que poderia dizer)

José Sena Goulão / Lusa

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, defendeu nesta segunda-feira um reforço da aliança transatlântica e afirmou que “aliados são aliados, mesmo se por vezes volúveis ou preferindo agir sozinhos e sem pré-aviso em áreas partilhadas”.

 

Marcelo falava perante chefes de missão, embaixadores e cônsules-gerais de Portugal acreditados junto de países e organizações internacionais, num momento de escalada de tensão entre o Irão e os Estados Unidos (EUA), após a morte do general iraniano Qassem Soleimani num ataque norte-americano em Bagdade, na sexta-feira.

“Sabemos que aliados são aliados, mesmo se por vezes volúveis ou preferindo agir sozinhos e sem pré-aviso em áreas partilhadas”, afirmou o Presidente, numa cerimónia em que recebeu cumprimentos de ano novo dos diplomatas portugueses, no antigo Museu Nacional dos Coches, em Lisboa.

Distinguindo aliados de países parceiros e de Estados considerados irmãos, Marcelo observou que uns e outros não mudam de categoria por artifício. Mais à frente voltou a falar nestas três categorias, referindo-se ao atual contexto geopolítico, sem nunca mencionar nenhuma situação em concreto.

“A realidade é hoje, num breve apontamento sobre a hora que vivemos, sentirmos que cada vez mais difícil é explicarmos aos nossos irmãos, aos nossos aliados ou aos nossos parceiros que não há gesto singular, brilhante ou justo que pareça ser, ou insubstituível que seja para a afirmação conjuntural dentro de portas, se não for sustentado no horizonte a prazo, que valha mais do que anos e anos a preencher lacunas, a estabelecer partilhas, a recriar estruturas indispensáveis, a consolidar alianças, a tentar pacificar sociedades e regimes”, disse.

O chefe de Estado descreveu Portugal como um país com um longo passado que sorri frequentemente “com condescendência” perante os ensinamentos de quem nasceu séculos depois, “como perante um filho ou um neto que nos vem explicar que é uma ilha que pode viver e mandar sozinha” no mundo.

“Ninguém vive bem longe da realidade. E a realidade é hoje crescentemente multipolar, ainda que com traços de monopolarismo remanescente ou esbatido, e novo bipolarismo ainda muitíssimo incipiente. A realidade é hoje antigas potências globais passarem a fortes potências regionais, novas potências globais emergirem e potências regionais consolidadas constituírem fatores de perturbação e complexificação os mais imprevistos”, acrescentou.

Entre as metas da política externa portuguesa, Marcelo destacou o contributo para “reforçar a aliança transatlântica, apesar do ano eleitoral em curso, para ultrapassar também aqui compassos de espera e indefinições” num espaço que definiu como “obviamente vital” para Portugal.

O Presidente salientou também a ação climática e a preparação da presidência portuguesa da União Europeia em 2021, considerando a este propósito que “África não fica nem pode ficar mero campo de disputa de protagonismos europeus de ocasião”.

No quadro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), disse que há que “garantir, dentro dos possíveis, um novo ciclo ou, no mínimo, um novo espírito”.

“Metas, ao fim e ao cabo, como as que decorrem da vivência constante do multilateralismo possível, na linha da determinada saga do secretário-geral [das Nações Unidas] António Guterres e que não negam nem minimizam avanços bilaterais nucleares. Metas que exigem economia mais forte e coesa e, por isso, temo-lo demonstrado nos últimos anos, mais apoiada na internacionalização da nossa economia, e projeção universal”, concluiu.

Lusa //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/marcelo-aliados-preferindo-agir-sozinhos-301082

Abertura do Ano Judicial – Marcelo esqueceu-se de que era o PR

Marcelo é desconcertante, capaz do melhor e do pior, de tocar às campainhas das portas para comprometer um amigo, de inventar uma ementa com Vichyssoise para ludibriar um jornalista, de se baixar a oscular o anel de um bispo ou enternecer um sem-abrigo com a afetividade, deliciar jornalistas como comentador de todas as questões e manter quatro anos sucessivos de frenética atividade a promover a recandidatura a Belém.

Mistura a sua invulgar cultura, inteligência e argúcia com o populismo e o narcisismo.

Marcou a abertura do ano judicial com a leveza do constitucionalista que se esquece da hierarquia do Estado e se embrenha na defesa de uma grelha salarial, sobre quem pode e deve beneficiar de altos salários e de quem não pode nem deve ser equiparado.

Defendeu que os magistrados merecem ter um teto salarial superior ao do PM, enquanto os políticos terão de esperar, como se não houvesse hierarquia do Estado e a questão das remunerações fosse assunto seu. Esqueceu o PR que o PM precede os presidentes do TC e STJ, e que o presidente da AR é a segunda figura do Estado?

Por que razão entende justos os aumentos que colocaram os magistrados judiciais numa posição que humilha os titulares dos órgãos de soberania eleitos, bem como os militares   e outros altos funcionários, que sempre lhes estiveram equiparados e, em relação aos titulares de órgãos de soberania eleitos, entende que “é indesejável o reajustamento” das remunerações em tempos como os atuais, “largamente incertos e de impossibilidade de elevação de estatuto generalizado de titulares de cargos ditos políticos”?

Quem, como eu, entende que nenhum agente do Estado deve ganhar mais do que o PR e defende que há uma hierarquia cuja subversão cria o caos e a injustiça, não pode deixar de repudiar as palavras injustas e humilhantes para as funções de topo do Estado.

O PR tem funções nobres, mas o Professor Sousa entrou numa deriva demagógica que compromete as funções e, na modesta opinião do eleitor que sou, não merece reincidir no cargo, apesar de saber que, tal como Trump, pode fazer qualquer tropelia que não perde eleitores.

No discurso da abertura solene do Ano Judicial, Marcelo  pareceu menos o PR e mais o promotor de Cavaco a líder do PSD na Figueira da Foz ou a arquiteto da sua campanha presidencial na vivenda que lhe era familiar, de Ricardo Salgado, na companhia pouco recomendável do anfitrião, do cúmplice da invasão do Iraque e do ora feliz proprietário da vivenda Gaivota Azul, todos acompanhados das respetivas companheiras mais ou menos legítimas.

Marcelo começou bem o primeiro mandato presidencial, mas teme-se que não lhe permita a matriz genética acabar com dignidade 10 anos de PR.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/01/abertura-do-ano-judicial-marcelo.html

Portugal | A paz, segundo Marcelo

 
 
Miguel Guedes | Jornal de Notícias | opinião
 
Espanta-me a facilidade com que algumas pessoas ainda se espantam. E esta perplexidade cresce com o espanto que tantos mostram pela vacuidade dos discursos oficiais de Ano Novo.
 
Parece mesmo um milagre a entrar pelo natal da porta dos fundos mas não duvidem: a plácida expectativa de alguns relativamente às alocuções políticas de fim de ano é a prova científica e material de que ainda há seres humanos crentes. Esqueçam as igrejas. É nos sofás adventistas dos últimos dias que gente adulta espera pela reaparição da boa nova no discurso de fim de ano de Marcelo Rebelo de Sousa, simulando serem capazes de nele lerem o horóscopo político para 2020. É inquietante e mágico em simultâneo. Mas tomem boa nota: se é incompreensível em 2019, será absolutamente inaceitável repetir o espanto em 2020. Já seria santa ingenuidade.
 
Se consideraram assinalável o grau de ternura da mensagem do presidente da República, imaginem o que aí vem na mensagem de 2020, um mês antes das eleições presidenciais marcadas para Janeiro de 2021. Toda uma peça delico-doce cravejada com um "mix" de ansiedade pelo futuro, um bem próprio na antecâmara de um acto eleitoral, enquanto brinda com António Costa, resgatando-lhe o apoio em troca da ajuda em navegar com o equilíbrio institucional dispensado pelo primeiro-ministro após legislativas. Episódios de contrariedade. Fruto dos anos de equilíbrio artificial da geringonça e do calendário eleitoral 20/21 que lhe atira os votos do PS para o regaço qual rosas em voo milagre, Marcelo terá mesmo que esperar mais dois anos para soltar o animal político em Belém. O presidente da República pode admirar a unanimidade do povo mas não se revê na unanimidade política. Após tantos anos de banho forçado em águas tépidas, como serão as mensagens festivas no segundo mandato presencial de Marcelo entregue à liberdade da sua natureza? Esperemos, então, pela boa nova ou pelo homem novo.
 
Sendo assim, gozemos a paz. E a saúde, claro está, essa nova urgência nacional redescoberta. Brindemos à estabilidade. E não deixemos a natureza das coisas assumir o seu lugar, porque ainda não é tempo da montanha ir a Maomé. A profecia de paz para 2020 está viva e recomenda-se. Mas saibamos acolher a ideia de que tudo é relativo e de que há mais desejos em 12 passas do que verdades no minuto final. Leio notícias de que as crianças em São Tomé e Príncipe bebem mais álcool do que leite e nem por isso São Tomé é um paraíso para vegans. Estejamos todos cientes de que o caminho tem pedras e de que até o Papa Francisco acabou o ano de 2019 a bater na mão de uma crente. A natureza é diabólica.
 
*Músico e jurista
 
O autor escreve segundo a antiga ortografia

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-paz-segundo-marcelo.html

Acabadas as festas, retomamos a velocidade de cruzeiro

Depois de ter começado com o Muito Devagar e passando depois pelo Devagar, pelo Meia Força e culminando no Toda a Força, eis que este ano 2020 vai acelerando para a sua velocidade de cruzeiro. Por agora não se podem prever os humores da meteorologia nem o sentido das correntes, que facilitem ou dificultem o trajeto para a direção pretendida, mas aqui vamos nós, umas vezes considerando ser esta Terra uma autêntica nave dos loucos, outras temendo-a ver naufragar devido a algum icebergue termonuclear, a maior parte dos dias vestindo a farpela de Pangloss ao concluir ser este o melhor dos mundospor agora possível.

 

Não houve muito que nos fizesse sair de um certo ramerrão nesta passagem de uma para outra década. Marcelo andou a banhar-se lembrando inevitavelmente a prosápia de Mao que, com a mesma idade e sentindo o poder a escapulir-se-lhe debaixo dos pés, decidiu atravessar a nado o maior rio chinês, conseguindo com a bravata arregimentar um bando criminoso de fanáticos. Não foram necessários muitos anos para ver no que dão estas bizarrias, porque o saldo da Revolução Cultural aí ficou como exemplo lapidar do que podem dar os banhos de periclitantes líderes ansiosos de desmentirem a iminente senilidade. Ainda assim, nos discursos que se seguiram, mormente naquele que os telejornais tanto enfatizaram como o do Ano Novo, essa intencional refutação não teve correspondência na banalidade das palavras. Ouvi-o uma, duas, não sei quantas mais vezes, porque sucessivos noticiários repetiram-no à exaustão, e não houve ponta por onde se lhe pegasse.

 

Lamente-se nesse sentido o reflexo pavloviano, que levou quase todos os partidos a virem a terreiro comentar o que tão vazio chorrilho de palavras injustificaria. Por uma vez - mas por óbvia exceção - só Rui Rio se portou como a circunstância impunha: referiu ter-se-tratado de um discurso próprio da quadra em que fora proferido. E mais não disse porque nada mais haveria a acrescentar.

 

A caminho da sua certa reeleição Marcelo - que só tem para gerir o orçamento da sua Casa Civil em Belém, limitando-se a atirar uns bitaites sobre matérias em que nada manda (e se as tivesse de si dependentes seria para se comportar como no caso Tancos em que, apesar de Comandante Chefe das Forças Armadas, logo tirou o cavalinho da chuva!) - poderia ser visto como uma espécie de melhoral, que não faria bem nem mal, se não comportasse um principio ativo, que justifica o seu legítimo afastamento do mercado. Esperemos que as formigas no carreiro encontrem outro caminho capaz de lhes causar menos perigos nas suas voltas da vida.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/01/acabadas-as-festas-retomamos-velocidade.html

A comenda de Jâsus

(José Preto, 31/12/2019)

Fazendo Jâsus comendador da Ordem com o nome da avenida que ele atravessava todas as manhãs, sugerindo que tem papel análogo ao do Infante, Marcello II, o afectuoso, gera a interessante situação de dar honras a quem não conseguirá sequer pronunciá-las. E antevejo mesmo que não fará bem nenhum a tais honras, nem à personagem, afirmar-se “cãomendador “ou coisa que o valha.

 

Em geral falando, a figura do alarve coberto de títulos no seu analfabetismo, é bem a imagem simbólica de um regime de professores de direito que só escrevem anedotas sobre o Estado de Direito, em quase todos os casos, incluído o do afectuoso. (Por não fazerem ideia do que isso seja, ou não quererem que os outros façam). Símbolo do lugar onde, a meio da carreira partidária, se compram uns graus por equivalência numa qualquer privada. Jâsus e sua cruz teutónica de vermelho sob invocação de um Infante de Avis é apenas mais um acto de confirmação do valor das dignidades do Estado e no Estado.

Além disso, o afectuoso presidente – coisa talvez mais importante – consuma outra intrusão sua no processo do “assalto a Alcochete”, intrusão de monta, claro, fazendo com que uma das testemunhas mais confusas (diria até sem fusas) apareça aos olhos do tribunal como vaca sagrada dos relvados, de cruz teutónica ao pescoço (outra coisa complicada para a personagem dizer).

Estas coisas que o presidente afectuoso semeia, de resto como todos os da sua laia política (á esquerda ou à direita, tanto dá, que eles são todos iguais Ventura incluido), saldam-se num desalento difícil de vencer para quem tem a tarefa quotidiana de defender a igualdade das partes diante de tribunais independentes. Os compromissos internacionais do Estado em matéria de Direito Internacional dos Direitos do Homem foram remetidos para o rol das ficções. como bem se vê.

É nesta perspectiva que temos de colocar-nos. Todas as idas a juízo são combates (de maior ou menor intensidade, embora) contra o regime deste permanente abuso que tudo enquadra (e avilta).

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcelo e o PR

(Carlos Esperança, 29/12/2019)

Há entre Marcelo e o PR a difícil convivência onde é difícil distinguir o comentador e o PR, o zelador do regular funcionamento das instituições e o ‘agitprop’ que as perturba, o garante da laicidade da CRP e o crente, em voo picado, a oscular anelões episcopais.

Marcelo não falha com a selfie a um colecionador de retratos, com o ósculo a um rosto sofredor, uma venera a um peito inchado, uma declaração a jornalistas que o seguem, o afago a um sem-abrigo ou o auxílio à profissional da caridade que exibe as esmolas que distribui.

Marcelo vai a missas de sufrágio, a fogos e inundações, a banhos a praias, fluviais ou de mar, a funerais e tomadas de posse, a imposição de veneras, e faz declarações a todos os jornais, diários ou de parece, canais de rádio e televisão. Diz o que as pessoas querem e gostam, tem respostas para tudo e, se não agradam, tem outras.

O narcisismo de Marcelo colide com a função, o desejo de consideração choca com a compostura e a avidez de poder com a intromissão nas funções do Executivo e pressão ilegítima na vida partidária.

O PR não pode pressionar a viabilização do Orçamento de Estado nem indicar partidos que o devam fazer, “as forças que estiveram na base do apoio ao anterior governo”, e não deve, a cada desastre, censurar o Governo. Apenas lhe cabe dissolver a AR, ouvido o Conselho de Estado, sem recados próprios ou por Conselheiro alheio, se entender que o regular funcionamento das instituições está em risco.

Quando há duas catástrofes guarda uma em agenda, o que não é grave. Grave é ir dizer às populações do Baixo Mondego, ‘isto não é só a natureza, em Lisboa fizeram asneiras’, quando o ministro do Ambiente, alertou – e bem –, para riscos de construção em locais inundáveis, quando 200 milhões de pessoas terão de ser evacuadas neste século, em todo o mundo, pela subida das águas do mar.

La Palice também diria que as cheias no Baixo Mondego são “um problema nacional” que exige soluções …, sem precisão de procurar as soluções que exige a’ “os senhores de Lisboa” que estão “sentados à secretária”, para acrescentar em piedosa emoção que “Só vendo é que se tem a noção daquilo que pela televisão já impressiona”.

Há dias disse que 18 mil milhões de euros para o Estado apoiar o sistema financeiro na última década “não foi uma boa solução”, mas evitou o “colapso da economia nacional”. Afinal, foi má solução ou seria pior o colapso da economia?

Segundo o FROB, do resgate da banca espanhola são já considerados perdidos 45.640 milhões para o Estado do total de fundos injetados, 58.685 milhões de euros, 4,86% do PIB. Se não foi boa solução, seria melhor o colapso da economia espanhola?

O PR tem de afastar-se de Marcelo para acabar com dignidade o mandato. Compreende-se o pungente lamento de quem votou nele.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Caridade é vertical

Foto Expresso
De ora em quando, o presidente da República decide fazer aquelas incursões ao mundo real.

>Distribui alimentos aos sem-abrigo ou serve refeições aos pobres que vêm procurá-las em diversos locais especializados para esse fim, alguns através daquele esquema re-foodque pode ser traduzido por "organização de actuação micro-local, criada para re-aproveitar excedentes alimentares"...

E de cada vez que isso se passa, penso que é a versão actualizada daquele comportamento altaneiro e consistente com a hipocrisia de um regime -  como o regime fascista - que criava e reproduzia pobres em sistema, ao mesmo tempo organizava quermesses para afirmar - mais que tudo - a sua preocupação com a essa condição marginal. Na verdade, essas pessoas promoviam-se mais do que resolviam ou chamavam a atenção para o problema dos pobres, ao mesmo tempo que os enganavam, sorrindo-lhes. Perpetuavam, assim, a ideia de que sempre haverá ricos e pobres e de que podiam viver em comunhão.

E digo versão actualizada porque, se consultarem as estatísticas, verão que há várias décadas que Portugal democrático mantém - em reprodução sistémica - cerca de 2 milhões de pobres, muitos deles até tendo trabalho. Não se deixa que morram à fome, mas pouco se faz para combater as causas dessa pobreza. Prefere-se distribuir alimentos numa noite. Abraçá-los diante das câmeras. E ir-se embora, para voltar tempos mais tarde e repetir a mensagem. E assim tudo vai se reproduzindo.

Já passaram umas décadas, e tudo continua a ser revoltante.

 

Veja-se em 1968, a chegada e a recepção a Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, bem como Gertrudes Rodrigues Tomás e Maria Natália Tomás, esposa e filha de Américo Tomás, presidente da República, para a inauguração da "venda de caridade".

 

 

Ou a "venda de caridade" em 1972, no Palácio dos Congressos do Estorial, organizada pelo grupo de mulheres "The American Women of Lisbon", com objetos doados por americanos residentes em Portugal.

 

 

 

 

 

Ou aquele que verdadeiramente se chama "o bodo aos pobres", desta vez concedido no Porto, pelo Grupo Onomástico "Os Carlos" que o distribui "à população mais carenciada". Não parece ser o Banco Alimentar da senhora Jonet, embora há mais de 50 anos? 

 

 

Ou em 1960, a inauguração do XI Posto da Sopa dos Pobres, no refeitório da Patriarcado no Campo dos Mártires da Pátria. A inauguração contou com Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, cardeal Patriarca de Lisboa, Henrique Martins de Carvalho, o ministro da Saúde e Assistência, António Osório Vaz, Governador Civil de Lisboa, Aníbal David, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Augusto Silva Travassos, diretor-geral da Assistência presentes na inauguração. E o Cardeal Cerejeira até discursou.

Gostava de terminar com uma citação de Eduardo Galeano:

"Eu não acredito na caridade. Acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical. Vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro".

 

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Greta Thunberg ou as omissões de Marcelo

Questionado pelos jornalistas sobre o facto de hoje se ter sabido que Greta Thunberg foi eleita a “personalidade do ano” de 2019 pela revista Time, o chefe de Estado afirmou que a jovem ativista “representa não só o sentir das novas gerações em relação a um problema que é um problema essencial da vida de todo o mundo, como representa uma chamada de atenção para outras gerações mais velhas e que muitas vezes são menos atentas àquilo que preocupa os que vão viver mais tempo para além de nós”.

Um erro táctico de que provavelmente Marcelo Rebelo de Sousa se terá já arrependido.

Temendo “aproveitamentos políticos”, o campeão português das selfies rejeitou a possibilidade de se encontrar e, naturalmente, fotografar com a jovem activista ambiental. Inusitadamente, o presidente que tira fotos ao lado de toda a genterecusou ficar na fotografia com a “pessoa do ano”…

“Serviço comunitário”. Marcelo defende a criação de uma disciplina nas escolas que promova o voluntariado

(Comentário:

Em tempos (22/5/2006) António Nóvoa fez uma interessante referência às inúmeras áreas que os deputados da A.R. defendiam dever ser introduzidas nos currículos escolares, Entre outras, queriam que na Escola  fossem introduzidas 'disciplinas' orientadas para a educação ambiental, a proteção das florestas, a proteção civil e segurança, a preservação do património cultural, a educação para a saúde, a prevenção do tabagismo e da toxicodependências, os hábitos de consumo, a educação alimentar, a educação sexual, a educação rodoviária, a prevenção da violência na família e de outros abusos, a educação para cidadânia, a prevenção da delinquência juvenil,o desenvolvimento físico e moral, as novas tecnologias, a empregabilidade, etc etc etc.

Não referiu, então, este desejo de Marcelo: a "introdução, nos currículos, de um tempo devidamente valorizado" para 'ensinar' o voluntariado.

Qual voluntariado ? O da participação desinteressada em organizações sociais e políticas? O da caridade? O do sub-emprego disfarçado? Ou da exploração de mão de obra gratuita? Sobre o assunto vale a pena recordar um artigo publicado por no blogue 'Ladrões de Bicicletas' reproduzino no final desta notícia)

Miguel A. Lopes / Lusa

 

O Presidente da República defendeu esta quinta-feira que as escolas devem introduzir nos currículos uma disciplina de “responsabilidade social” ou “serviço comunitário” para valorizar o voluntariado, algo que também deve acontecer nas empresas e instituições.

 

“O voluntariado está a crescer, mas é pouco. É preciso que cresça muito mais. Por isso deixo aqui um apelo: às escolas, às empresas e às instituições mais variadas, mesmo as sem vertente de apoio social, para que abram mais espaço na sua vida normal ao voluntariado”, observou o chefe de Estado no Porto, na sessão encerramento da cerimónia dos 40 anos do Voluntariado do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa Contra o Cancro, no Dia Internacional do Voluntariado.

Em relação às escolas, Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu mesmo a introdução, “nos currículos, de um tempo devidamente valorizado para essa forma de responsabilidade social”, como acontece noutros países, em que “faz parte da educação uma componente de serviço comunitário”.

“Nas empresas, tem de haver tempo que vale como tempo de serviço que é dedicado a causas sociais, entre elas o voluntariado”, defendeu. Para Marcelo Rebelo de Sousa, também nas empresas “tem de haver mais” voluntariado, pois a atividade não pode partir “apenas de um conjunto de instituições isoladas”.

 
 

O PR reconheceu que “tem de ser processo lento, porque as instituições não têm recursos ilimitados”. A intenção, frisou, é “institucionalizar e tornar como normal este tipo de procedimento”, para “incentivar o voluntariado”.

“Todo o apelo para que o voluntariado se multiplique é pouco, tal é a necessidade”, frisou. “Quanto mais se multiplicam e alongam as patologias, mais surgem as necessidades de cuidados continuados, quanto mais envelhece uma sociedade, mais temos um leque de necessidades que se alarga.”

O PR notou ainda que “quanto mais as associações sofrem de faltas de meios e recursos, mas a tarefa do voluntariado é necessária”. “Não substitui os recursos que não existem, mas mitiga efeitos psicológicos, faz o acompanhamento em situações que entretanto se agravaram”, defendeu.

Após agraciar voluntários que trabalham há 40, 30, 25 ou cinco anos na delegação do Norte da Liga Portuguesa Contra o Cancro, o PR sustentou que “ninguém é uma ilha”. “Não há ilhas, o que dá sentido à nossa vida é servir os outros”, disse.

O chefe de Estado observou que, embora esteja a crescer em Portugal, o voluntariado representa “menos de 8%”, ficando abaixo de “metade da média da União Europeia [UE]”. Portugal está, por isso, em 26.º lugar no que diz respeito a voluntariado na EU”, tendo atrás de si apenas “a Roménia e a Bulgária”.

“São muitos, são 695 mil [voluntários], mas são poucos para as necessidades da população portuguesa”, frisou Marcelo Rebelo de Sousa. Referindo os voluntários informais, “que até há pouco tempo nem tinham estatuto legal”, o PR disse esperar que “tenham rapidamente o estatuto regulamentado”.

“Depois, há um voluntariado formal que é essencial para o tecido social. Foi essencial nos períodos de crise. E é essencial no dia-a-dia, contribuindo para o reforço dos laços solidários no nosso país. São eles que contribuem todos os dias, semanas e meses para reforçar o entrosamento dos laços sociais na nossa comunidade, o acompanhamento dos que mais sofrem, que mais necessitam, que mais dependem”, assinalou. Para Marcelo, isto é “tarefa para a qual não há gratidão que se possa exprimir”.

Menos sem-abrigo no Porto

Marcelo afirmou que, no Porto, o número de sem-abrigo diminuiu, mas há mais gente a viver em alojamento temporário, insistindo que a resolução do problema é um desafio nacional.

“O facto de haver 140 pessoas [a viver] na rua e um número bastante superior em alojamento temporário quer dizer que ainda temos 500 pessoas, ou mais, que constituem um problema a resolver numa fase em que não vivemos propriamente em crise económica. Por isso, é um desafio nacional”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

O chefe de Estado falava após ter participado na distribuição de refeições a sem-abrigo junto ao mercado do Bom Sucesso e ao lado da Estação de São Bento, no Porto.

“Aqui no Porto, aquilo que vimos rapidamente na rua bate certo com o que vimos nos números do levantamento da Câmara do Porto e do que foi falado na reunião. Há menos gente na rua. Há uma diminuição, num ano, de cerca de 180 para perto de 140. Mas há mais gente em alojamento temporário”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

Insistindo que “há um aumento no número absoluto, no número total, mas há uma diminuição na rua”, valeu-se da informação recolhida nos pontos de distribuição de alimentação que hoje contactou para testemunhar que “há menos gente presente do que havia há um ano e, sobretudo, há dois anos”.

“Diria que aqui no Porto, à primeira vista, há casos de mais gente a ter casa, embora ainda com problemas devido ao custo da habitação, do arrendamento e há casos talvez menos complicados de resolver do que em Lisboa”, afirmou o Presidente da República.

E prosseguiu: “olhando para os casos, é porventura mais fácil vê-los em termos de recomeço de trabalho, de reinício de atividade e, portanto, de arrancar um novo ciclo da vida”.

Questionado sobre se os números positivos do Porto, que citou, poderiam constituir um exemplo para Lisboa, o chefe de Estado disse serem “situações diferentes”, dando como exemplo o haver “mais estrangeiros” na capital para além de “problemas mais complicados de mobilidade”, que embora existindo também a Norte “lá é maior”.

Como habitualmente muito solicitado para conversas públicas e particulares e selfies, já na Avenida dos Aliados, Marcelo Rebelo de Sousa foi surpreendido por um ex-sem-abrigo que lhe ofereceu um presépio como presente por “um acordo feito há dois anos e que correu muito bem”, numa outra visita aos sem-abrigo do Porto, contou o Presidente da República.

ZAP // Lusa


Voluntariado laboral, uma das melhores práticas pós-modernas de exploração laboral

 
O Sainsbury's é um conhecido supermercado inglês. Lá, como cá, recorre-se com frequência a prácticas predatórias de gestão que só podem fazer inchar de orgulho o maior avaro esclavagista.

Introduzem-se manuais de normas instrutoras (as célebres guidelines que retiram discernimento e iniciativa fundamentais em qualquer posto de trabalho), achatam-se as hierarquias e estabelecem-se regimes intensos de estágios profissionais não remunerados para reduzir os custos com o trabalho, para não haver haver a responsabilidade ética de gerir carreiras e valorizar a experiência e a antiguidade, enquanto se multiplica o fosso remuneratório entre os de baixo e a adminsitração. Atribuem-se nomes pomposos e longos para revalorizar socialmente funções que são depauperadas económico-financeiramente. Introduzem-se "contratos zero" em que apenas se é remunerado se se trabalhar. Porém, tem que se ter total disponibilidade para o momento em que se for chamado. Esta disponibilidade permanente não tem enquadramento legal, portanto não é remunerada.

Outra das prácticas predatórias preferidas, lá e cá, são os regimes de voluntariado - veja-se os pedidos da APEL para a feira do livro, os chorudos Websummit e Rock in Rio, ou mesmo a empresa de iogurtes em Castelo Branco que pagava com iogurtes, etc..

O voluntariado humanitário tem o mérito do altruismo. Porém, com a banalização das IPSS e das ONG, instituições sem fins lucrativos, tradicionalmente parcas de fundos e frequentemente imbuídas de caracter humanitário, foi um tirinho até essa coisa hedionda que é o voluntariado laboral.

Refira-se que precursor deste estado de coisas foi também a cedência feita pelo estado, o guardião da força de trabalho, à pressão para uma crescente desvalorização da importância de relações laborais estáveis, permitindo sem contravenção uma gritante precarização das relações laborais. A naturalização do problema da precarização laboral é tão grande que se vê com frequência as suas vítimas, os jovens millénials, a acusarem quem não aceita tamanha injustica de serem preguiçosos, "não querem trabalhar" costuma ser o epíteto.

Voltando ao Sainsbury's, este, usando as suas melhores competências e a mais apelativa e inclusiva rectórica, tentou resolver o seu problema: a renovação da sua cantina em Camdem a título gratuíto, como se de uma associação humanitária se tratasse. Um eloquente grupo de artistas, cansado da naturalização destas prácticas predatórias, respondeu à letra divulgando um anúncio em que solicita à melhor boa vontade dos supermercados, entre eles o Sainsbury, para gratuitamente lhes encher a despensa.

Resta saber se quem de direito - estado e empresas - se enxerga sobre a ilegitimidade desta, e outras, práticas de gestão. É que, quem faz voluntariado, não deixa de ser alimentado, vestido, transportado, protegido da intempérie, etc., apesar das empresas tratarem o assunto como se os seus voluntários vivessem do ar. A despesa com alimentação, habitação, transporte, vestuário, cultura e educação sai do bolso de alguém, pelo que estes métodos representam um subsídio ilegítimo a qualquer empresa que sistemáticamente a eles recorra.

Se o voluntariado humanitário se pode em algumas circunstâncias justificar, a sua banalização representa uma forma de exploração desonesta.

Poderá a criatividade pôr a ganância e a desonestidade no devido lugar? E quebrar o estado de negação em que vivem os próprios explorados, felizes por, "pelo menos terem trabalho"?

Postado por quinta-feira, 24 de maio de 2018
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/marcelo-sem-abrigo-porto-voluntariado-ensinado-escolas-295614

Um homem sem aproveitamento

Felizmente que ainda há pessoas com uma alma gigante no que se refere ao empenho em agir sem pinta de aproveitamento político. Gente que não se comporta como os cucos.

Aquilo que dizem ou fazem resulta de uma cristalina alma lisa em toda a sua extensão. Sem gretas.

A alma de uma pessoa sente-se. Olha-se para os olhos da pessoa e vê-se, outras vezes para a linguagem corporal e sente-se. Outras ainda para a vida que o semblante carrega.

Em Portugal há uma grande quantidade de compatriotas que vivem no limiar da pobreza. A boa alma da Jonet quer ajudar os pobres a receberem o que os outros lhe reservam das suas disponibilidades e faz peditórios. É quase sempre por volta do natal.

Por ocasião desta quadra as almas são muito boazinhas. E a caridade fica sempre bem. O nosso Presidente, alma grande, não se esquece de ir embalar produtos angariados no banco alimentar(sempre os bancos) e lá aparece ele a dar a sua opinião (naquelas horas em que todos estão a olhar para os écrans) reclamando que cada um dê de acordo com as suas riquezas. Apesar do seu catolicismo não deu ainda a devida atenção ao ensinamento contido no Evangelho segundo São Lucas 21,1-4

Ele, entretanto,  já foi avisando que este ano só dá duas prendas e cada uma não pode passar os dez euros e vá lá vá lá…pode vir uma crise, nunca se sabe.

Discutiu-se na Concertação Social o aumento salário mínimo que pouco mais dá que para mais um cafézinho diário e durante uns tempos a discussão instalou-se. Os patrões coitadinhos não aguentam essa imposição, como se as medidas de um governo não sejam para se impor. É claro que a opinião do nosso Presidente foi fundamental – o aumento é positivo , mas cuidado que pode aqui e acolá criar problemas…

Há uma grande manifestação de polícias e já se sabe que o Presidente desinteressadamente foi às televisões( ou elas vão ter com ele)  a declarar que era preciso ter em conta a situação dos polícias. Fê-lo desinteressadamente até porque nem é polícia. A ninguém passaria pela cabeça ter em atenção a situação dos polícias…

O Ministro das Finanças andava a ver como e quando convinha anunciar a grande bronca – mais dois mil milhões para o banco boníssimo dado à Lone Star, talvez por ser bom. Ora podia lá o nosso Presidente deixar de aparecer a dar a notícia.

A ninguém passará pela cabeça imaginar que se pode tirar aproveitamento político por  se instalar nos écrans televisivos a dar opiniões. Pensar-se-á apenas na capacidade telegénica do personagem portador de uma alma com tantas virtudes.

Chegou a Lisboa a ativista sueca que se destacou na luta contra as alterações climáticas e Marcelo não podia deixar de esclarecer que ele não queria qualquer espécie de aproveitamento político da sua parte e, portanto, não recebeu a jovem. Desaproveitou. Pois. Pouco antes da chegada levantou-se um coro de vozes da direita contra a importância desmedida dada a Greta. Ele nem deu conta dessa corrente…absorvido a pensar se recebia ou se desaproveitava.

Há naquela alma gretas que se não veem, talvez derivadas de uma vida cheia de tantos desaproveitamentos. Aliás, é assim que é conhecido, e será assim que ficará para a História, um homem sem aproveitamento devido aos desaproveitamentos.

https://www.publico.pt/2019/12/05/politica/opiniao/homem-aproveitamento-1896337

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/12/05/um-homem-sem-aproveitamento/

Todas as opções em aberto. Marcelo pode não ter o apoio do CDS nas próximas eleições

António Cotrim / Lusa

A presidente do CDS-PP, Assunção Cristas (E), com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (D)

Marcelo Rebelo de Sousa pode não ter o apoio do CDS nas próximas eleições. Os três principais candidatos à liderança deixam a porta aberta para o partido entrar na corrida às presidenciais de 2021 com um candidato próprio. 

 

Abel Matos Santos, porta-voz da tendência interna (igualmente crítica da direção) Tendência Esperança em Movimento, não tem receio de assumir que está desiludido com o mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa.

Em declarações ao Diário de Notícias, o candidato à liderança do CDS referiu que, “em relação ao candidato presidencial, é uma candidatura unipessoal, portanto o CDS tanto pode ter um candidato próprio como apoiar um candidato em que o partido se reveja”.

Para Matos Santos, “não podem, existir tabus nesta matéria”, que “tem muito a ver com a figura que possa surgir, como candidato do CDS ou que o CDS apoie”.

 
 

“Infelizmente, o professor Marcelo Rebelo de Sousa se em alguns momentos e nalgumas matérias tem tomado posições consentâneas com a visão de sociedade que defendo e que entendo que o CDS deve defender, numa vasta área tem estado muito distante daquilo que entendo que deveria ter sido o seu posicionamento”, justifica.

No último congresso do CDS, Filipe Lobo D’Ávila, também candidato à liderança do partido, tinha aberto a porta ao apoio do CDS a uma eventual recandidatura de Marcelo. Agora, lembra que não foi tomada nenhuma decisão formal sobre a apoio a qualquer candidato à Presidência da República em 2021.

“As eleições presidenciais dependem de candidaturas individuais, pelo que o CDS deve manter todas as opções em aberto“, disse ao matutino.

João Almeida é o mais evasivo nesta questão: “Não havendo candidaturas apresentadas, o que posso garantir é que a decisão será debatida e tomada em conselho nacional.”

A prioridade do CDS é eleger um novo presidente. Ainda assim, o candidato vencedor no congresso poderá querer marcar a diferença na opção sobre as eleições presidenciais e, assim, apontar para um candidato próprio.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/nenhum-candidato-cds-apoio-marcelo-294660

Marcelo: descentralizar sim, regionalização não

O Chefe de Estado defende que se adie a regionalização, em nome da transferência de competências que o Governo do PS quer levar a cabo, e que pode comprometer a universalidade das funções sociais do Estado.

CréditosANTÓNIO PEDRO SANTOS / Agência Lusa

Na sessão de abertura do XXIV congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), ontem, em Vila Real, o Presidente da República alertou que pensar na regionalização para avançar em 2022 sem concretizar a descentralização em curso é «colocar o carro à frente dos bois».

O Chefe de Estado assume, uma vez mais, a sua posição de sempre contra a regionalização, renovando argumentos – basta recordar que, em 1998, enquanto líder do PSD, muito batalhou para a derrota do projecto de regionalização no referendo realizado.

Por outro lado, Marcelo Rebelo de Sousa clarifica a sua opção pela descentralização levada a cabo pelo Governo do PS, com todos os perigos que a mesma encerra para a garantia da universalidade dos serviços públicos e para uma igualdade de oportunidades no seu acesso.

O Presidente da República conhece que a transferência de competências sem uma revisão da actual Lei das Finanças Locais, que assegure a transferência indispensável de recursos financeiros, humanos e técnicos compromete a resposta a dar às populações.

Do mesmo modo, o atrasar da concretização da regionalização, consagrada constitucionalmente, tem contribuído para que as regiões portuguesas estejam mais dependentes de políticas públicas centrais protagonizadas por PS, PSD e CDS-PP, que têm contribuído para o crescimento das assimetrias.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/marcelo-descentralizar-sim-regionalizacao-nao

Marcelo diz que avançar já com regionalização é “colocar carro à frente dos bois”

O Presidente da Repúlica, Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente da República avisou hoje que começar já a pensar na regionalização para avançar em 2022 é “colocar o carro à frente dos bois” e pode ser “um erro irreversível”, até para quem defende o processo.

 

“Colocar o carro à frente dos bois, ou querer dar o passo mais largo do que a perna, pode ser um erro irreversível. Pode querer dizer chegar ao fim do caminho sem garantia da sua viabilização [da regionalização] pelo incumprimento de fases precedentes”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão de abertura do XXIV congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), que se realiza hoje e no sábado em Vila Real.

O chefe de Estado lembrou que, na campanha das legislativas, não surgiram “propostas firmes de revisão da Constituição” que suportem a realização de um referendo, que não foram apresentadas “posições” concretas sobre a regionalização e alertou para a necessidade de aprofundar a descentralização, que “avançou na lei, mas falta chegar às pessoas”.

“Não posso ter sido mais claro. Num tema que requer razão e ponderação, Portugal precisa de combater a pobreza e as desigualdades, nomeadamente territoriais. Mas precisa de o fazer com principio, meio e fim”, alertou.

 
 

Para Marcelo, tal significa por “no terreno, em plenitude, a descentralização, que avançou na lei, mas tem de chegar à vida das pessoas”.

Implica ainda, acrescentou, que se mostre que o processo está a dar “os passos certos, fazendo permanentemente a sua monotorização e, no final, um balanço isento do processo vivido”.

“Aprofundemos a descentralização. Encontremos os meios adequados para agir, senão é meia descentralização. Definamos a seguir – mas só a seguir – os passos a dar para o futuro. Assim podemos ter a certeza de chegar a um bom porto com a vontade popular, e não à margem e contra a vontade popular”, defendeu.

O Presidente da República notou que a descentralização de competências do Estado para as autarquias começou “no fim da anterior legislatura” e apenas “na lei e na sua regulamentação, não nos factos”.

De acordo com Marcelo, “está por concretizar uma parte do alcance desejado para a descentralização”.

“Avançar em 2021 para deixar tudo pronto para 2022, após as eleições autárquicas, pode ser uma tese sedutora – define metas, quer atalhar etapas e encurtar caminho. Mas deixem-me que vos alerte para alguns aspetos”, observou.

Marcelo recordou depois que “as [eleições] legislativas deste ano não incluíram posições concretas sobre o passo específico da Regionalização” e que “vivemos tempos de desaceleração da economia que podem chegar a nós de forma mais intensa”.

“Um referendo realizado a correr seria um presente dado a coligações amplas de adversários da ideia [da regionalização] com os não menos numerosos adversários do método, comprometendo até os que os mais apressados querem assegurar”, disse.

Para o chefe de Estado, “não basta que autarcas de forma massiva considerem que a meta almejada e o tempo abreviado são, por si só, justificados”.

// Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/marcelo-regionalizacao-carro-frente-bois-294428

Marcelo e a pobreza: o abismo entre as palavras e os atos!

Marcelo Rebelo de Sousa voltou ontem a demonstrar quem motiva o interesse em continuar como presidente da República para além do atual mandato. Ao sugerir que aceitou o aumento proposto pelo governo para o salário mínimo em 2020, mas poderá não o fazer em 2021 por ser altura de defender os empresários, dá um sinal claro quanto aos objetivos do segundo mandato se acaso conseguir para ele ser eleito.

 

O discurso em que anunciou esse incómodo com a prioridade dada aos que menos ganham aconteceu coincidentemente no dia em que o Instituto Nacional de Estatística publicou o relatório alusivo às condições de vida e rendimento relativo a 2018, que deveria ser bem mais risonho do que o é numa altura em que a economia cresceu e as taxas de desemprego desceram para níveis da ordem dos 7%. E, no entanto, apesar de tudo quanto a anterior maioria governamental aprovou em prol dos mais desfavorecidos a taxa de pobreza do conjunto da população só diminuiu 0,1%. E, pior ainda, agravou-se para os empregados, os desempregados e as famílias monoparentais demonstrando que os nossos salários continuam indecorosamente baixos.

 

Perante dados quantitativos, que se revelam tão elucidativos, soa pior a perspetiva de Marcelo ao considerar já muito ter sido feito em prol dos mais pobres, sendo altura de privilegiar os empresários e os investidores.

 

Em Belém pode-se argumentar que o rendimento nacional mediano cresceu 7,2% em termos nominais e 6,2% em termos reais ou que o coeficiente de Gini (indicador da desigualdade de rendimentos) baixou de 32,1% para 31,9%, mas quem poderá argumentar contra o facto de ser falaciosa a definição de pobreza, quando dela exclui quem possui rendimentos acima de 501 euros mensais? Será que alguém consegue viver dignamente com tão irrisória quantia?

 

A pobreza continua a ser uma realidade indisfarçável em parte significativa da população portuguesa, sobretudo naqueles desempregados que, entre os 297 mil atualmente registados no IEFP, dificilmente encontrarão quem os empregue dadas as competências e capacidades de que estão carenciados. E torna-se ridícula a contínua pressão de Marcelo para que o governo acabe com os sem-abrigo quando, por outro lado, quer restringir a solução inerente à valorização significativa dos salários e outras prestações sociais. Será que ele passou a acreditar nos méritos de uma qualquer varinha mágica? Sabemos que não! Marcelo continua apostado em sabotar na medida das suas competências, e amiúde extravasando-as, as estratégias do governo.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/11/marcelo-e-pobreza-o-abismo-entre-as.html

Marcelo e a reescrita da História

(Carlos Esperança, 26/11/2019)

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, por força do voto popular, mais presidente do que republicano, está ansioso por voltar ao lugar de onde partiu, ao seio da direita portuguesa, sejam quais forem os caminhos a percorrer ou a Vichyssoise a servir à mesa dos sem-abrigo da política e dos esquecidos da História.

 

A propósito do 25 de novembro, Marcelo procurou aliciar Ramalho Eanes, o PR que o antecedeu no cargo disputado ao seu presumível preferido, gen. Soares Carneiro, para evocar a data que o próprio Eanes considerou dividir os portugueses, e que é uma velha tentativa do CDS, ora em pré-defunção, para a confiscar em seu proveito.

A tentativa de diminuir o 25 de Abril é uma velha aspiração da direita mais reacionária, como se Vasco Lourenço, Otelo e Vítor Alves não tivessem assumido a liderança de um movimento que se comprometeu a Descolonizar, Democratizar e Desenvolver o País.

Ignoram que Salgueiro Maia esteve no Carmo; que Gertrudes da Silva foi de Viseu e se lhe juntarem os camaradas de Aveiro e da Figueira da Foz, que neutralizaram a Pide em Peniche, e marcharam sobre Lisboa; que Delgado Fonseca foi de Lamego para o Porto; que José Fontão e os seus 4 capitães prenderam Silvino Silvério Marques e Pedro Serrano, no Governo Militar de Lisboa, e realizaram as tarefas distribuídas; que Teófilo Bento tomou a RTP e a colocou ao serviço do MFA; que Costa Martins tomou sozinho o aeroporto de Lisboa e encerrou o espaço aéreo nacional; que Monteiro Valente fechou a fronteira de Vilar Formoso; que Garcia dos Santos foi o responsável das Transmissões no 25 De Abril e em igual dia de novembro; que houve o Conselho da Revolução; que o Grupo dos 9 que esteve no 25 de Abril e no 25 de novembro, tendo no terreno Ramalho Eanes com Jaime Neves, sob o comando de Costa Gomes por intermédio do Governo Militar de Lisboa.

Perdoem-me os heroicos capitães de Abril que ora omito, e os 5 mil militares que foram os pais da democracia que nos legaram, como prometeram, e a que os deputados, saídos das eleições, se cencarregaram de lhe estabelecer os contornos.

Marcelo quer regressar ao sítio de onde partiu, ao ambiente do regime que lhe moldou a origem, à elite conservadora que não tolerou o ruído da Revolução e o medo que sentiu.

Entre o 28 de maio familiar e o 25 de Abril exógeno, quer ressuscitar o 25 de novembro, sem ouvir os militares que ainda estão vivos e o protagonizaram.

Depois de designar como irmão a Jair Bolsonaro e de outorgar o mais elevado grau da Ordem da Liberdade a Cavaco Silva, quer agora subverter a História e confiscar para os seus a data que os autores consideram um detalhe no papel heroico que assumiram no 25 de Abril.

Viva o 25 de Abril! Sempre!

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Um ridículo que não conhece travão!

Ridícula é a posição em que fica Marcelo Rebelo de Sousa depois da pressa com que quis homenagear o efémero herói, que teria resgatado o bebé de um contentor de Santa Apolónia.

 

Existe em Marcelo um tal afã em posar para a fotografia, ele próprio criando oportunidades sempre que as sente escassearem - e ainda acabara de ter uns supostos encontros com desportistas no Palácio de Belém! - que acaba por ser vítima dos fraudulentos oportunismos de quem neles vê a oportunidade de viver o seu quarto de hora de glória.

 

Não precisávamos de mais provas da inconsistência de quem ocupa o cargo mais elevado no organigrama do Estado e nunca lhe conferiu agravitas, que lhe deveria estar associado.

 

Vale o facto de se ter tratado de situação de somenos importância, mas a mesma leviandade com que reagiu às «informações» de um tabloide poderá levá-lo a situações mais comprometedoras, suscetíveis de causarem danos consideráveis à dignidade da sua função.

 

Os que continuam seduzidos pelo estilo de Marcelo, e até o querem ver reeleito, não têm a consciência do que verdadeiramente o move e encontrará plena demonstração acaso essa hipótese se concretize.

 

Dias atrás Alfredo Barroso alertava para os testes que ele anda a fazer, ora intrometendo-se no que só cabe ao poder judicial, ao sugerir atenuantes no ato da mãe que abandonara a criança, ora querendo influenciar a Assembleia da República para que dê aos solitários deputados da IL, do Chega e do Livre os direitos que a sua representatividade não justifica. Não faltarão exemplos - que aliás se multiplicaram na anterior legislatura! - quanto às tentativas de imiscuir-se no que só ao Governo dirá respeito. É que não se contentando com o papel de «corta-fitas», inerente ao facto de representar uma ideologia minoritária entre os portugueses - que não lhe deram mais do que 35% nas eleições de 6 de outubro - ele bem pode entreter-se com as muitas viagens ao estrangeiro, em que tem sido pródigo (apesar dos tabloides nada dizerem a tal respeito!) até que haja quem, mais consonante com esse sentimento maioritário, o substitua com outra elevação.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/11/um-ridiculo-que-nao-conhece-travao.html

Senhor Presidente, o que é bom para Espanha é bom para Portugal?

Marcelo foi a Itália em visita de Estado, e com Sergio Mattarella (Presidente da República italiana) a seu lado, em relação a Espanha, declarou o que deveria deixar a nação em sobressalto, a começar pelos media – o que é bom para Espanha é bom para Portugal.

Já em 21 de maio de 2018 tinha declarado, em Salamanca, junto do Rei Filipe IV, qual Dom Quixote armado da lança do tempo, que saudava a Espanha una e eterna, em plena crise da Catalunha. Pode um chefe de Estado fazer declarações e manifestar votos acerca dos seus desejos em relação ao país vizinho quando este se encontra em crise?

Marcelo, Presidente da República, em qualquer circunstância e, mais ainda, estando em visita de Estado em Itália, tem o estrito dever de agir como o cidadão português mais responsável face aos portugueses, e também diante da Itália e do mundo.

Bem sabe que há nas relações entre o Estado espanhol e o Estado português questões da maior importância que não estão resolvidas, nomeadamente o corte da água do rio Tejo para Portugal ao sabor dos interesses das empresas hidroelétricas espanholas.

Na verdade, causa gravíssimos danos a Portugal e aos portugueses o que Espanha está a fazer no que ao caudal do Tejo se refere.

Está ainda longe de ser pacífica a forma como a Espanha afronta a soberania de Portugal sobre as Ilhas Selvagens, cuja importância é enorme em termos de águas territoriais e de área económica exclusiva.

Espanha faz parte, tal como Portugal da União Europeia e da NATO, mas tal não pode significar que por esse facto o que é bom para a Espanha seja bom para Portugal, sobretudo quando, a todas as luzes, nos casos supra referidos, o que é bom para Espanha é muito mau para Portugal.

Não se trata de desenterrar o ódio a Castela, mas antes o de ponderar e agir de acordo com os interesses dos portugueses plasmados na Convenção de Albufeira e interpretada de modo a que Portugal não seja tratado como parceiro fraco, incapaz de se rebelar contra a prepotência espanhola.

Marcelo habituou-nos em Portugal a estar sempre na crista da onda, melhor, enredado na espuma dos dias, no que ele chama  Presidência de proximidade. O que ele não pode deixar de ter em conta é o equilíbrio de um regime semi- presidencialista configurado na Constituição. Se ele entende que ser Presidente é saltar de episódio em episódio é lá com ele, mas no que concerne às relações externas o caso fia mais fino.

Talvez o nosso Presidente da República viva em permanente insegurança acerca do que é capaz de fazer para ter a maior votação presidencial de sempre e, para tanto, enverede por um populismo soigné.

O impulso para o excesso de pronúncia não pode, porém, passar à frente dos interesses da República portuguesa, pois como toda a gente sabe o que é bom para Espanha pode não ser para Portugal, designadamente em relação ao caudal do Tejo e às Ilhas Selvagens. Como bem sabe Marcelo. Esta declaração, em Itália, em cima das queixas das populações ribeirinhas do Tejo sem água são desadequadas, em linguagem branda, diplomática.

As relações com Espanha são demasiado importantes para se poderem encarar como um estado de alma, uma boutade para Mattarella ver. Pode achar-se bonito, mas não é bom para uma nação tão antiga, como é a nossa.

https://www.publico.pt/2019/11/14/politica/opiniao/senhor-presidente-bom-espanha-bom-portugal-1893769

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/11/15/senhor-presidente-o-que-e-bom-para-espanha-e-bom-para-portugal/

Influencers e o flautista de Hamelin

Marcelo Rebelo de Sousa recebeu em Belém os influencers. Os influencers eram, no tempo em que um vendedor de banha de cobra era um vendedor de banha de cobra, vendedores, caixeiros-viajantes.

 

 

Homens e mulheres que faziam pela vida e muitas vezes tentavam impingir o supérfluo para sermos como os outros e pensarmos como os outros. Levavam as novidades aos isolados, aos analfabetos, aos que não tinham rádio e depois televisão.

Alguns alcançaram fama mundial. Um influencer do tipo chico-esperto ganhou fama ao convencer meio mundo a, num determinado dia, a determinada hora, saltar de uma cadeira para com o peso de meia humanidade alterar a inclinação do eixo de Terra! Outro dos mais conhecidos influencers foi um membro do Partido Comunista Chinês que impôs (em vez de influenciar) que durante duas horas todos os chineses agitassem leques e batessem em panelas para não deixar os pássaros poisarem, morrerem de exaustão e não comerem os cereais.

Em Portugal o fenómeno dos influencersé antigo. A Santa Inquisição foi um ninho de influencers, que convenciam o seu nicho de mercado de cristãos velhos de que os judeus e cristãos-novos eram a origem de todo o mal e que o que estava na moda eram as fogueiras. Mais recentemente, Cecília Supico Pinto, a Cilinha do Movimento Nacional Feminino, foi um exemplo antecipado de influencer ao potenciar a moda entre os jovens de que ir para a guerra em África era cool.

Os influencers mais influentes, digamos assim, ainda são os que nos convencem que vamos para o Paraíso depois de mortos. Desde que obedeçamos como os outros e pertençamos ao rebanho certo. Mas são influencers de outras eras. Pré-históricos. Vivemos no mundo virtual e do mercado. O Paraíso existe, é digital e está disponível através de bitcoins.

A definição atual de influencer digital é a de alguém que “trabalha a produção de conteúdo para um nicho segmentado, que reconhece sua autoridade no assunto e considera a sua opinião uma referência para suas atitudes e decisões de compra” (sic). O digital influencer “é alguém que consegue influenciar outras pessoas, seja para comprar determinado produto, assumir alguma postura ou refletir sobre assuntos específicos”.

Influencer de sucesso é o Marques Mendes, um caso de estudo, e Marcelo devia tê-lo apresentado como exemplo de postura: embora não influencie nada do que acontece, embora as suas previsões saiam sempre frustradas ele tem uma grande audiência e pagam-lhe para não influenciar. Ele e o Ricardo Araújo Pereira gozam do estatuto de influencers cómicos. Mereciam ter sido convidados. Tal como o Ferreira, o influencer da economia da SIC, ou o Fernandes do Observador, entre tantos.  Influencer a sério e com consequências foi Cavaco Silva, quando influenciou milhares de pessoas a acreditar na solidez do BES dias antes de estoirar! Um influencer de estoiro, devia ter ido a Belém! Dava um ar sério ao meeting.

Mas, ao que parece, para já, Marcelo limitou-se a convidar uns influencers tipo IPad, saídos das Bimbis eletrónicas que determinam onde imprimir tatuagens, se na bimba da esquerda ou na da direita, que piercing usar na orelha, no umbigo ou no nariz. Como parecer sexy com uma barriga XXL, como pintar as unhas de roxo na quaresma sem ser pirosa, ou como lamber um gelado enquanto se manda um sms. Malta bué de fixe.

Marcelo é uma pessoa culta, não escolheu esta tribo de influencersde pechisbeque por acaso. Escolheu-os porque eles têm uma gaita que é escutada num segmento de futilidade que lhe interessa. Marcelo conhece o conto do Flautista de Hamelin, escrito pelos Irmãos Grimm e que narra o acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, infestada de ratos. Um homem chega à cidade, anuncia-se como “caçador de ratos” e garante ter a solução para o problema. Prometeram-lhe um bom pagamento em troca dos ratos – uma moeda pela cabeça de cada um. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta, hipnotizou os ratos e afogou-os no Rio Weser.

Apesar do sucesso, o povo da cidade recusou-se a pagar afirmando que ele não havia apresentado as cabeças. O homem deixou a cidade, mas retornou semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente a flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, onde foram enfeitiçados e trancados numa caverna. Na cidade, só ficaram opulentos habitantes e um imenso manto de silêncio e tristeza. Na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.

Em Belém, após a passagem dos influencers de Marcelo, acontece o mesmo que na cidade de Hamelin: Resta a futilidade. Não é nada seguro que os influencerstenham levado os ratos e, menos ainda, que os inocentes tenham ganho consciência do engodo da flauta mágica.

Não é caso de escândalo que os ditos influencers sejam chamados a tocar flauta em Belém. O único risco é os pobres influencers convencerem-se que não serviram apenas o grande influenciador. É certo que entretanto aumentaram os cachets pelas futilidades agora certificadas pelo senhor Presidente. Nada mal.

Para a próxima devem ser convidados astrólogos e cartomantes. Que também merecem uma mãozinha.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/influencers-e-o-flautista-de-hamelin/

Breve Tratado de Marcelologia (3ª e última parte)

No fim-de-semana, quando as Urgências do Serviço de Pediatria no Hospital Garcia da Orta estiveram fechadas, os jornalistas precipitaram-se para Marcelo Rebelo de Sousa na primeira oportunidade tida para o contactarem, questionando-o sobre o assunto. Alguns deles já salivavam perante a hipótese de o verem a lançar combustível para uma fogueira já atiçada.

 

Azar deles: o entrevistado não lhes fez a vontade mostrando ter passado para uma nova fase no relacionamento com o futuro governo. Não porque o íntimo lho dite como legítimo de acordo com a vontade do eleitorado, mas porque precisa de ganhar tempo para prosseguir no objetivo denunciado pelos seus atos quando julgou possível pôr o governo em xeque, nomeadamente durante os incêndios de 2017. Por agora, ao ver António Costa reforçado politicamente com um grupo parlamentar, que lhe dará maior maleabilidade na governação dos próximos anos, Marcelo aguarda pela recomposição das direitas de forma a poder com elas contar, quando considerar oportuno um golpe passível de ser bem sucedido.

 

Nos próximos meses é quase certo que Marcelo optará pelolow profil, não se atrevendo a enviar para o «Expresso» recados que possam ser lidos em São Bento como desestabilizadores. Veremos enfatizada a sua suposta doença coronária para levar algumasmarcelettes a Fátima acenderem umas velas em intenção da sua boa saúde, aproveitará para se fazer encontrado com quem quiser mais abraços eselfies e prosseguirá na distribuição de discursos prolixos, mas vazios de conteúdo.

 

As tentativas recentes para desempenhar algum papel na recomposição do seu campo político têm-se revelado pífias: dispensou Paulo de Almeida Sande para ajudar Santana Lopes a dar fôlego à Aliança e o fracasso foi rotundo. Agora tem Pedro Duarte a secundar Luís Montenegro como candidato à sucessão de Rio e desconfio que, apesar da campanha intensa da RTP e da SIC (os outros canais confesso que nem porzapping os olho!), o resultado é capaz de também não ser o que melhor lhe convirá. Daí que Marcelo tenha de aguardar pelo que possa acontecer no próximo ano e meio para aferir se lhe convirá ou não uma recandidatura. E se circunstâncias externas vierem condicionar o sucesso da governação terá, então, uma luzinha a acenar-lhe com a possibilidade de cumprir o desígnio a que se propôs, quando se julgou o único capaz de sabotar a maioria parlamentar, afinal sólida o suficiente para aguentar toda a legislatura. Frustrada essa hipótese ficará como Vladimir e Estragão à espera de um Godot, que tardará em fazer-se aparecido.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/breve-tratado-de-marcelologia-3-e.html

Breve Tratado de Marcelologia - 2ª parte

Na primeira parte deste Breve Tratado vimos como no laboratório dedicado à identificação dos fenómenos políticos nacionais, e à busca de tratamento para as doenças suscitadas pelos sucessivos vírus das direitas, a Marcelologia assume relevância maior, sobretudo quando tenderão a passar por Belém as iniciativas para virar do avesso a tendência eleitoral de há uma semana atrás.

 

Na hipótese de hoje debruçamo-nos sobre o delicado momento em que António Costa telefonou a Marcelo para se demarcar totalmente da tentativa de quem, no Ministério Público, quis associá-lo ao caso Tancos e viu-se desfeiteado com a escusa a ser atendido. Se o gesto teve profundo significado político, porque demonstrativo do que costuma ir na alma do nosso objeto de estudo em tudo quanto diz respeito ao governo - mesmo que as palavras soem quase sempre hipocritamente corretas! - pior ainda revelaram quando assoprou o incidente para o «Expresso», que lhe deu o devido enfoque com objetivos propagandísticos antissocialistas em vésperas da ida às urnas.

 

A tese que tal caso suscita é óbvia: naquele instante Marcelo alimentou a injustificada esperança de que a acusação do caso Tancos produzisse tais danos na votação do PS, que veria resolvida de vez a questão hamletiana relacionada com a reeleição (“recandidatar-me ou não recandidatar-me, eis a questão!). Desconhecendo se o governo teria ou não estamina bastante para os quatro anos seguintes, e pressentindo a possibilidade de aguentar o segundo mandato na condição de general de um exército sem soldados bastantes para avançar para a batalha - a crise das direitas ameaça ser prolongada, ele próprio o intuiu em entrevista no ano transato! -, Marcelo aproveitou a entrevista à SIC para preparar saída airosa sob a forma de se fazer coitadinho em relação a um problema de saúde de lana caprina. Qualquer médico di-lo resolúvel através de pequena cirurgia idêntica à aplicada anualmente a milhares de pacientes do Serviço Nacional de Saúde. A assumida hipocondria ainda lhe garantia uma outra satisfação depois do prolongado ocaso suscitado pela campanha eleitoral: devolver-lhe protagonismo porque, quase tanto como abraços eselfies, os portugueses pelam-se por mostrar compaixão pelos doentinhos. É olhar para os nossos poetas do início do século passado - António Nobre ou Teixeira de Pascoaes - para ver glosado o tema com a maior das comoções!

 

Temos assim o nosso objeto de estudo a entrar no período eleitoral com a inquietação, justificada por algumas sondagens, em como se tornaria num mero corta-fitas de António Costa durante os quatro anos seguintes e melhor lhe valeria o oportuno alibi para garantir o lugar na História enquanto presidente, que nada terá feito de substantivo, mas ficaria na memória como extremamente simpático. O episódio Tancos surgiu-lhe como o último alento do moribundo, que o ilude quanto a milagrosa remissão do mal.

 

Que não foi assim ditaram-no os resultados eleitorais e os encontros de António Costa com os diversos partidos das esquerdas (mais o PAN, que neles não se insere!). É por isso que a terceira parte deste Breve Tratado irá dedicar-se à evidente mudança de discurso que Marcelo ensaiou nestes últimos dias em relação ao próximo governo...

Breve Tratado de Marcelologia - 1ª parte

Há ciências que só duram o breve período de existência do seu objeto de estudo. Não é o caso dos dinossauros, que morreram há sessenta mil anos e continuam a dar de comer a muitos investigadores apostados em multiplicarem hipóteses, logo traduzidas em teses, aprovadas ou abandonadas em função das subsequentes demonstrações.

 

Mas se Marcelo virará dinossauro tão só saia de Belém, adivinha-se que de pouco interesse dele reste para os atuais marcelólogos - entre os quais me incluo! - logo destinados a irreversível desemprego. Vide o sucedido com outro animal da mesma estirpe - Cavaco de seu nome! - já tão sujeito a desinteresse científico, que nenhum cavacólogo voltou a debruçar-se sobre a sua inexistência, quando saiu recentemente das catacumbas para debitar uns inconsequentes propósitos sobre essa outra iminente irrelevância chamada PSD.

 

Mas, porque ainda continua em funções - por mais ano e meio acrescidos de mais cinco se for essa a vontade dos eleitores! - continuamos a encontrar matéria nas suas declarações e comportamentos, que justificam o mesmo processo de lhe formular intenções sub-reptícias com efeitos determinantes na maior ou menor tranquilidade do governo em vias de ser empossado.

 

A entrevista deste fim-de-semana ao programa dos choradinhos da SIC pressupôs um objetivo claro, que importa interpretar. Se há característica a associar-se a esse nosso objeto de estudo é nada nele provir de espontânea atitude. Há sempre uma intenção, que tem subjacente a aproximação possível aos seus declarados (pre)conceitos religiosos e ideológicos.

 

Existe uma primeira razão para que Marcelo se viesse expor neste momento preciso: sempre cioso de estar na luz da ribalta os momentos eleitorais devem-lhe ser particularmente dolorosos por lhe exigirem um recato, que lhe trava essa ânsia de protagonismo. Ainda julgou possível ter algum destaque com a deslocação ao Vaticano para celebrar a condição cardinalícia do Tolentino mas, falecendo nesse momento preciso, Freitas do Amaral fez-lhe uma derradeira desfeita: é que todos os noticiários encheram-se de elogios ao defunto não lhe dando espaço para merecer igual notoriedade, nem mesmo ficando tempo exagerado no velório. Porque outra característica do referido objeto de estudo é o de transformar contrariedades em oportunidades, ele aproveitou a obrigatória meditação para congeminar as estratégias de futuro para lidar com um primeiro-ministro que, no mínimo, desaprecia.

 

Mas essa será já reflexão a inserir na segunda parte deste Breve Tratado de Marcelologia.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/breve-tratado-de-marcelologia-1-parte.html

Quando o PR se deixa trair por Marcelo

 
Enquanto se aguardam mais alguns escândalos e o eventual anúncio da constituição de arguidos úteis, na reta final da champanha eleitoral, iniciada antes de empossado o atual Governo, é oportuno relembrar a viagem que o PR fez à boleia do camionista Fernando Frazão e o silêncio que caiu sobre a greve dos camionistas de matérias perigosas.

Marcelo, no entusiasmo narcisista, embarcou no camião de um motorista culto e pouco subtil. O Sr. Frazão, desvanecido com tão prestigiante companhia, enviou-lhe uma carta que o prevenia da operação subversiva contra o regime democrático, através da greve preparatória da insurreição popular para a eventual tomada do poder.

A carta, cujo conteúdo não foi desmentido, descrevia o cronograma das operações que o sindicato, cujo presidente era um ex-patrão e o vice-presidente um recém advogado sem carta de pesados, procurava desencadear com a penúria de combustíveis. O camionista relatou bem as consequências para a agricultura e indústria, a falta de bens de primeira necessidade nos supermercados e que “as centrais termoelétricas reduzirão a potência energética e dar-se-á uma crise energética instalando-se o caos”.

Aliás, a gentileza do bem informado motorista levou-o a alertar o PR para o que poderia acontecer em Portugal, lembrando o exemplo do Chile ou do Brasil, face ao cronograma referido: “26 dias foi quanto durou a greve no Chile, o Governo caiu. Mas, olhando para nós, uma greve dessas dimensões nesta altura seria o desastre nacional”.

O PR, procedendo como devia, remeteu a carta para o PM, que a enviou ao SIS e PGR, enquanto tomou medidas necessárias à defesa do regime e da normalidade democrática. A um leigo pareceu a preparação de um golpe de Estado fracassado, a Marcelo e à PGR, que logo o secundou, uma mera opinião epistolar sem consequências penais.

De mau gosto, mas isso é matéria de civilidade, é a acusação do S. Frazão ao PR, de o ter traído, ou de trocar a postura de analista político por uma frase de baixo nível: “Perdi a confiança. Nunca pensei que ele [PR] reencaminhasse a carta para o Costa, muito menos que viesse a ser investigado pela secreta”, enquanto o PR, abespinhado com as declarações do camionista, se insurgiu contra o facto de o SOL não ter destacado na primeira página que “informou na ocasião o motorista, através da sua assessora de imprensa, Maria João Ruela, que enviara a mensagem ao primeiro-ministro, para seu conhecimento”, acrescentando Marcelo «E, nessa altura, ele não se opôs».

E se se opusesse, o que faria o PR?

A conversa entre Marcelo e o obscuro camionista denigre o PR e o diálogo epistolar, telefónico e através da assessora Maria João Ruela não foi edificante. Aliás, o facto não desmentido pelo PR, de que Marcelo ‘chegou a afirmar ao interlocutor que lhe podiam ter perguntado como deviam conduzir a luta, mas que, como não o fizeram, ele resolveu não interferir’, é alheio à conduta esperada de um PR com enorme experiência política.

O PR deve precaver-se contra as tentações populistas de Marcelo.

 

Ponte Europa / Sorumático

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/09/quando-o-pr-se-deixa-trair-por-marcelo.html

Mais uma «habilidade» de Marcelo!

A minha primeira reação quando ouvi Marcelo alertar para os gastos dos partidos na campanha eleitoral foi a de surpresa. Então, ele vem-nos lembrar, uma vez mais, a forma trapaceira como chegou a Belém? É que não esquecemos como andou a trabalhar para isso aos domingos à noite na SIC e na TVI, até recebendo lauta remuneração por meia-hora de banalidades destinadas a criar o seu perfil mediático depois rentabilizado na habilidosa campanha, que depois transformou num passeio...

 

É claro que acreditar numa imprudência de Marcelo não faz qualquer sentido. Ele é demasiado esperto para que o incomodem os que têm dele a leitura da sua verdadeira personalidade. A esses - como no meu caso! - ele nunca convencerá. Será sempre o homem sem qualidades, que impediu quem as tinha de cumprir a missão, que desempenharia com outro brilho e valor. Seria muito interessante que as televisões voltassem a emitir o único debate a dois entre Sampaio da Nóvoa e Marcelo para aferir do que aqui estou a falar. A diferença de argumentos e de cultura entre os dois foi tão evidente, que Marcelo saiu praticamente achincalhado.

 

Mas que podia fazer Sampaio da Nóvoa para contrariar uma estratégia matreira, que Marcelo começara a construir muitos anos antes? Nem que fossem investidos muitos milhares de euros na campanha seria fácil contrariar essa fraude. E esses euros não abundavam: houve muito empenho em voluntários, que estavam cientes do que estava em jogo (e, sobretudo, estará se, para mal dos nossos pecados, Marcelo conseguir um segundo mandato!), mas as capacidades financeiras da campanha de Nóvoa era reduzida, ademais muito controlada pelo Tribunal de Contas, que chegou a deslocar-se à sede da Amora para conferir cada cêntimo gasto até então não fosse o ardil de Marcelo resultar num fracasso.

 

Marcelo confia que a maioria dos portugueses esqueceu esse pecado original do seu sucesso e intervém para dar o ensejo aos jornais, às rádios e às televisões para, logo a seguir ao seu «alerta» lembrarem os gastos do Partido Socialista com a campanha, procurando apequená-lo junto dos eleitores mais facilmente manipulados pelo seu tique populista.

 

A Marcelo dava jeito que os partidos de esquerda gastassem menos dinheiro nas respetivas campanhas permitindo que as televisões - meio de desinformação ainda muito relevante na opção de voto da maioria dos eleitores - selecionassem o que quisessem. Como estão totalmente enfeudadas à oposição ao governo, imagina-se o que isso significaria: a constatação de uma campanha frouxa, que diminuiria a distância agora percetível entre os 60% da esquerda e os 25% da direita. A chatice é que esse dinheiro da campanha cria eventos de rua, que as direções de informação estão obrigadas a relatar sob pena de ainda mais se desmascarem como parciais. Fica assim explicada a afirmação de Marcelo: dar a possibilidade desses responsáveis pela comunicação social de mostrarem o que não querem, mas sempre a lembrarem o quanto isso significa em falacioso despesismo.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/mais-uma-habilidade-de-marcelo.html

CGTP-IN solicita fiscalização sucessiva das alterações ao Código do Trabalho

A CGTP-IN manifesta a sua mais veemente oposição à decisão do Presidente da República de promulgar o diploma que altera o Código do Trabalho.

O Presidente da República prestou um mau serviço ao país e tornou-se cúmplice da política de baixos salários e trabalho precário, ao promulgar as alterações à legislação do trabalho que, no entender da CGTP-IN, colidem com principios e normas da Constituição da República Portuguesa, como é o caso da segurança no emprego e do direito de contratação colectiva, e restringem de forma desproporcionada, injustificada e excessiva, comandos constitucionais, nomeadamente no que se refere ao direito de conciliação entre a vida profissional e a vida pessoal e familiar.

Ao contrário do que o Presidente da República e o Governo afirmam, esta legislação não promove o equilíbrio das relações de trabalho, nem combate a precariedade.

Ao invés, dá mais força ao patronato para aumentar a exploração, com o banco de 150 horas anuais de trabalho gratuito; a manutenção da norma da caducidade da contratação colectiva, para pôr em causa a actualização anual dos salários e o principio do tratamento mais favorável; ao mesmo tempo que legitima e generaliza a precariedade, com os contratos de muito curta duração, a possibilidade de as empresas continuarem a contratar trabalhadores com vínculo precário para ocuparem postos de trabalho permanentes, mediante o pagamento de um pequeno acréscimo para a Segurança Social e o alargamento do período experimental para 180 dias dos jovens à procura do primeiro emprego e dos desempregados de longa duração que, para além de pôr em causa o principio constitucional da igualdade e da não discriminação, colide com o Acórdão do Tribunal Constitucional de 2008, que considerou inconstitucional uma proposta que previa um período experimental de 180 dias para trabalhadores indiferenciados, equiparando-os para esse efeito aos trabalhadores especializados.

Uma situação que o Presidente da República, enquanto professor de direito, não desconhece mas que secundarizou, face à obsessão pela manutenção do bloco central de interesses políticos e económicos que, tal como no passado, nomeadamente com o memorando da troika, recorreu às confederações patronais e à UGT que, com o apoio do PS, PSD e CDS, subscreveram um acordo na CPCS que põe em causa os direitos dos trabalhadores, promove as desigualdades e conflitua com a Constituição da República Portuguesa.

Acresce que não se entende a relação feita entre a promulgação de uma lei que precariza mais as relações de trabalho e não repõe o direito de contratação colectiva e a conjuntura económica internacional. Neste sentido, é caso para perguntar se é com mais precariedade, ou com convenções colectivas que caducam, que se previne a desaceleração económica internacional que, como o Presidente da República tem a obrigação de saber, tem causas que nada têm a ver com isso. Se o Presidente da República acha que deve ponderar os argumentos económicos, então deveria preocupar-se mais em romper com o modelo de baixos salários e trabalho precário e assegurar o cumprimento das normas constitucionais da segurança no emprego, de uma mais justa distribuição da riqueza e do respeito pelos direitos fundamentais dos trabalhadores, enquanto protagonistas do desenvolvimento económico e social do país.

Neste sentido, a CGTP-IN reafirma a sua contestação a esta lei, apela aos trabalhadores para que se unam no combate a uma legislação marcada pelo retrocesso social, e vai solicitar reuniões ao PCP, BE e PEV para solicitarem a fiscalização sucessiva deste diploma ao Tribunal Constitucional.

Ver original aqui

Portugal | Marcelo promulga alterações à lei laboral

 
O presidente da República justifica com uma eventual crise económica internacional com efeitos em Portugal.
 
O Presidente da República deu "luz verde" às alterações ao Código do Trabalho votadas em julho na Assembleia da República. A abstenção do PSD e do CDS-PP viabilizaram a revisão da legislação laboral que impõe novas regras na contratação a termo e alarga o período experimental, por exemplo.
 
Marcelo Rebelo de Sousa justifica a promulgação com a "amplitude do acordo tripartido de concertação social", "o esforço de equilíbrio entre posições", mas também os sinais que se esboçam de desaceleração económica internacional e a sua virtual repercussão no emprego em Portugal - nomeadamente no primeiro emprego e no dos desempregados de longa duração", lê-se na nota publicada no site da Presidência da República.
 
O que muda?
 
O diploma aprovado a 19 de julho teve origem numa proposta do governo apresentada depois de um acordo com os parceiros sociais, exceto a CGTP que contestou as alterações. Eis os principais pontos:
 
Período experimental duplica
 
Para os desempregados de longa duração e jovens à procura do primeiro emprego, o período experimental é alargado de 90 para 180 dias.
 
 
Contratos muito curtos alargados a todos os setores
 
Os contratos de muito curta duração são alargados de 15 para 35 dias e a utilização é generalizada a todos os setores, quando até agora estavam limitados à agricultura e turismo. Será possível às empresas alegarem um acréscimo excecional de atividade ou alterações de ciclo por motivos imputáveis ao mercado.
 
Reduzida a duração máxima dos contratos a termo
 
A duração máxima dos contratos a termo certo é reduzida de três para dois anos e a dos contratos a termo incerto é reduzida dos atuais seis anos para um máximo de quatro anos.
 
Renovações limitadas
 
A nova regra impõe que a duração total das renovações não pode exceder a duração do período inicial do contrato, ou seja, a soma das renovações não pode resultar num prazo mais longo do que o previsto no contrato inicial.
 
Além disso, a contratação a prazo para postos de trabalho permanentes fica limitada aos desempregados de muito longa duração (sem trabalho há mais de 24 meses), sendo eliminada a possibilidade de os jovens à procura do primeiro emprego e dos desempregados de longa duração (há mais de 12 meses) também poderem ser abrangidos.
 
Taxa de rotatividade em 2021
 
Com a revisão é criada uma contribuição adicional para as empresas que recorram sistematicamente a contratos a termo. A taxa será aplicada aos patrões que ultrapassem a média anual de contratos de cada setor.
 
O valor da taxa é calculado sobre a massa salarial dos trabalhadores com contratos a termo, sendo progressiva até 2%. Produz efeitos a 1 de janeiro do próximo ano e será paga, pela primeira vez, a partir de 2021.
 
Dinheiro Vivo | Jornal de Notícias
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-marcelo-promulga-alteracoes.html

Marcelo, sem afecto pelos trabalhadores, promulga normas que agravam a precariedade

PCP, Os Verdes e BE respondem, anunciando que irão requerer a fiscalização pelo Tribunal Constitucional de normas gravosas como a do alargamento do período experimental. A CGTP-IN apoia a iniciativa.

Aspecto da manifestação da CGTP-IN em Lisboa, a 10 de Julho de 2019, que reuniu milhares de trabalhadores pedindo a revogação da legislação anti-laboral, o aumento de salários e a valorização dos trabalhadores, para um Portugal desenvolvido e soberano.Créditos

O Presidente da República (PR) não hesitou, esta segunda-feira, na promulgação das alterações à legislação laboral que fragilizam a segurança no emprego dos trabalhadores.

Em causa estão diversas normas aprovadas no passado mês de Julho na Assembleia da República, as quais foram sendo contestadas pela CGTP-IN através de inúmeras acções de luta e de denúncia realizadas desde a celebração do acordo da UGT com os patrões e o Governo em 2018.

Refutando a argumentação constante do comunicado da Presidência da República, o PCP veio informar em conferência de imprensa que, após contacto com Os Verdes e o BE, estes partidos informaram que acompanham a iniciativa de requerer a fiscalização das normas pelo Tribunal Constitucional «nas próximas semanas».

 

Um dos argumentos referidos pelos comunistas é o facto de, em 2008, o Tribunal Constitucional ter declarado inconstitucional uma proposta que visava alargar o período experimental, por contrariar o princípio constitucional do direito à segurança no emprego.

Para o PCP «é no reforço dos direitos dos trabalhadores que está a chave para o desenvolvimento económico» e, com estas normas, abrem-se «novas portas» para legitimar a precariedade, que afectarão sobretudo os trabalhadores mais jovens. É um «caminho negativo» que conferirá ao patronato mais «armas para fragilizar trabalhadores e usá-las como elemento de pressão sobre salários e condições de trabalho».

Jorge Costa, do BE, veio afirmar que «quer o PS, quer os partidos da direita vieram agravar a situação da precariedade».

Também a CGTP-IN se pronunciou sobre a matéria, acusando o PR de fazer um «mau serviço ao País e aos trabalhadores». Recorde-se que a confederação sindical havia já reunido, a seu pedido, com o Chefe de Estado, solicitando-lhe que não promulgasse uma lei que considera ser de retrocesso social.

Em conferência de imprensa, Arménio Carlos, secretário-geral da Intersindical, veio afirmar que, «enquanto professor de direito, [o PR] não desconhece» as inconstitucionalidades patentes das normas que foram por si promulgadas.

A central sindical reafirmou «a sua contestação mais veemente» a esta legislação e apelou aos trabalhadores que «se unam para lutar contra uma lei de retrocesso social». Arménio Carlos informou que vai ainda solicitar reuniões ao PCP, BE e Os Verdes para contribuir para a «estrutura argumentativa» do requerimento a enviar ao Tribunal Constitucional.

Pela parte do Governo, persiste a tentativa de iludir a verdadeira natureza das medidas em causa, tendo o primeiro-ministro afirmado, em reacção à promulgação pelo PR, estar «muito satisfeito», porque entende que estas são, desde 1976, as primeiras medidas aprovadas de combate à precariedade. A CGTP-IN, em resposta, acusou o Governo do PS de ter nas mãos uma lei que é um embuste e que agrava os direitos dos trabalhadores.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/marcelo-sem-afecto-pelos-trabalhadores-promulga-normas-que-agravam-precariedade

O PS a apoiar Marcelo? Como uma evidência pode trazer problemas

(Martim Silva, in Expresso Diário, 05/08/2019)

Martim Silva

 

Mais ou menos discretamente, tem feito o seu caminho a tese de apoio do PS ao actual Presidente da República nas Presidenciais de 2021 É certo que Marcelo já disse que só daqui a um ano anuncia se concorre a mais cinco anos em Belém, mas os sinais que tem dado vão todos no mesmo sentido, mantendo-se a tradição do chefe de Estado em funções se apresentar para um segundo mandato – foi assim com Eanes, com Soares, com Sampaio e com Cavaco.

Há umas semanas, foi o influente Vieira da Silva, ministro do Trabalho e da Solidariedade, a fazê-lo em entrevista ao Expresso, afirmando que os socialistas não têm um candidato para enfrentar Marcelo. “Não tenho visto sinais nesse sentido. Não vejo ninguém com peso político no PS e na sociedade portuguesa que se esteja a colocar nessa trajetória”.

Na última edição do Expresso, sábado passado, Ferro Rodrigues (ele próprio um dos nomes presidenciáveis do PS) dava um passo em frente: “Se fosse amanhã não tenho dúvidas nenhumas, o natural é o PS não apresentar candidato”.

Os sinais de abertura a um apoio socialista a Marcelo multiplicam-se e já vieram de diversos quadrantes do partido.

Os níveis de popularidade e aceitação de Marcelo Rebelo de Sousa tornam-no, nesta altura, num candidato virtualmente imbatível. Nesse sentido, ir contra ele seria sempre enfrentar uma derrota certa

Como Fernando Medina (tido com um dos potenciais sucessores de Costa na liderança do partido): “para mim, é claro que o Presidente da República, em todas as questões fundamentais, tem tido uma atuação muito positiva para o país”

Outros nomes de peso já abriram a porta. Jorge Coelho afirmou há meses que se eleição presidencial “fosse agora” ele teria o seu apoio. Na mesma senda, Francisco Assis e João Soares mostraram abertura a um apoio ao atual chefe do Estado.

Os níveis de popularidade e aceitação de Marcelo Rebelo de Sousa tornam-no, nesta altura, num candidato virtualmente imbatível. Nesse sentido, ir contra ele seria sempre enfrentar uma derrota certa. É sempre melhor estar do lado do vencedor…

Além disso, provavelmente o melhor nome dos socialistas para uma eleição presidencial é António Costa. E uma candidatura deste só faria sentido a partir de 2026, depois de deixar a chefia do governo e do Partido Socialista. Outros nomes apontados como potenciais candidatos, como Carlos César, estão hoje longe de poderem apresentar-se com alternativas fortes.

Se os ganhos são evidentes, será que ainda assim poderá uma qualquer forma de apoio do PS a Marcelo significar um perigo para os socialistas?

Entendo que sim, no caso, nesta altura bastante plausível, do PS não conseguir maioria absoluta nas legislativas de Outubro.

Nesse cenário, uma governação será sempre mais periclitante. Sem maioria absoluta, o PS estará sempre mais vulnerável ao apoio de outras bancadas parlamentares para governar. E, ao mesmo tempo, fica também mais vulnerável a crises externas que, por exemplo, afetem o andamento da economia.

Da mesma forma que Marcelo ‘levou o Governo ao colo’ nos últimos anos, é crível que passe a ter outro preferido se o vento soprar de outro quadrante

Num próximo ciclo, sem maioria para governar, desgastado por anos no poder, e com um PSD refrescado com uma nova liderança, o “afeto” de Marcelo pode mudar de direção. Para mais já sem o incentivo que teve até agora de procurar agradar a todos para conseguir a reeleição.

Da mesma forma que Marcelo ‘levou o Governo ao colo’ nos últimos anos, é crível que passe a ter outro preferido se o vento soprar de outro quadrante.

Provavelmente, não resta a Costa grande alternativa senão apoiar Marcelo. Mas isso não garante por si só uma coabitação pacífica e harmoniosa entre Presidente e Governo para os próximos anos.

Cavaco decidiu apoiar Soares em 91 e nunca teve este problema porque meses depois conseguia a segunda maioria absoluta para o PSD nas legislativas.

Por outro lado, a não ida a jogo com uma candidatura própria, forte, abre o campo por exemplo a uma presença de candidatos presidenciais mais à esquerda, o que acabaria por desgastar os socialistas, dando fôlego à oposição.

O apoio a uma recandidatura presidencial de Marcelo não é hoje para o PS um problema como o que existiu em 80 quando se tratou de apoiar Eanes, nem de perto nem de longe.

Mas daí a achar-se que o tema presidenciais não é suscetível de causar engulhos aos socialistas vai um mar de distância.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcelo, consensos e maiorias

(José Gabriel, 12/07/2019)

O manobrador

Já se desenhava há muito, mas o recente discurso do Presidente da República na Fundação Gulbenkian avança por terrenos que, contenhamo-nos na adjectivação, são, no mínimo, duvidosos. O que se questiona, assuma-o o orador ou não, é a própria concepção de democracia. 

 

A democracia pode ser concebida em várias configurações, mas estas têm em comum alguns traços fundamentais. Todos os cidadãos têm o direito de participar em plano de igualdade, de modo directo ou por representantes, na produção de leis, na governação. Idealmente, o sufrágio universal que lhe está na base deve ser tão extenso quanto possível. A autonomia política dos cidadãos implica condições culturais, sociais, económicas e exerce-se em liberdade e igualdade e sob o domínio da Lei. A deliberação em democracia assenta no apuramento das maiorias determinadas – que podem ser, de vários modos, qualificadas -, e no escrupuloso respeito pelas minorias.

Se o que se diz atrás é aceitável, todos os devaneios mais ou menos obscuros de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os méritos e vantagens dos consensos – termo a que nunca se faz corresponder um conceito claramente definido – sobre as maiorias – chamadas, pelo orador, conjunturais – perdem todo o sentido.

Parece ao senso comum que a noção de consenso é bondosa, pelo atávico receio da clareza da oposição de convicções, opiniões, propostas políticas. No “consenso” tudo parece diluir-se num caldo morno de indefinição, num lago de águas turvas onde se pesca com facilidade. E note-se: os campeões de consenso nunca ou raramente dão conteúdo objectivo e concreto a tais fantasmas propositivos.

Não que o consenso não possa ser uma ocorrência simpática no dia a dia, em matérias onde não nos vale a pena o confronto por ser estéril o motivo. Mas em política, opor os alegados méritos do consenso aos alegados deméritos das maiorias é um gesto fundamentalmente anti-democrático. No caso de Marcelo nem há o esforço de uma formulação muito sofisticada. Consensos são as maiorias de que ele gosta; maiorias conjunturais – como se todas, em princípio, não o fossem – são as que o desgostam. Toda a retórica da necessidade de leis estruturantes é uma treta, a não ser numa formulação tão básica e abstracta que, por ausência de matéria, mereça a concordância de todos pela via do não-ser que, como ensina o mestre, não nos leva a lado nenhum.

Marcelo sabe que qualquer maioria, mesmo que qualificada, pode ser, tarde ou cedo, contrariada por uma outra. E pode tal nunca acontecer. É isto a democracia representativa. Mas criar “consensos”, reais ou imaginários, que sejam obstáculos à livre expressão dos representantes dos cidadãos, é uma manobra pouco clara – para dizer o mínimo. No limite, esses tais consensos teriam, para ser efectivos, de se traduzir em maiorias. 

Dir-me-ão que há leis consensuais, como a Constituição da República. Não é verdade. Só a determinação de haver uma Constituição foi um momento de consenso. Logo que ela se começou a escrever, emergiram a naturais diferenças e o resultado esteve longe de ser consensual e unânime. A aprovação fez-se por significativa maioria, não por um qualquer difuso consenso. E as suas revisões por maiorias se fizeram.

Sei o que quem teve paciência para me ler até aqui pode estar a pensar: que sou ingénuo, que os consensos de Marcelo não são mais que um apelo à formação de um bloco central que, além de lhe fazer as vontades, o viesse a reeleger. Talvez tenham razão, mas isso torna tudo mais grave e nebuloso.

Vem aí a votação da Lei de Bases da Saúde. Marcelo, a quem nunca incomodou o facto de a lei vigente ter sido aprovada pela direita e ter sido – lamentavelmente – duradoura, parece agora abespinhado por a nova lei poder vir a ser aprovada pela esquerda – que, aliás, foi quem criou o SNS – a ponto de ameaçar um veto político.

Já vimos que as razões do presidente são fracas e vãs. Mas não desinteressadas. A Lei, penso eu, será votada e aprovada por significativa maioria. E Marcelo, se tiver o atrevimento de a vetar terá, desejo eu, a derrota que merece. E se, mais tarde, outra maioria alterar de novo a lei – para melhor, espero -, olhem, é a vida….

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Lá está ele a pisar o risco

Não havia necessidade

Temo bem que esta afirmação, só aparentemente inócua, seja lida pelo senso comum como um apelo a uma coisa que não desejo mas que não quero dizer qual é.


À parte isso, só quero dizer três coisas que o Presidente parece não saber:
1. Já houve governos «estáveis» que criaram a maior instabilidade social, económica e política, tendo mesmo havido um há quatro anos que transformou a vida dos portugueses num inferno.

2. No quadro constitucional vigente, não vejo como um PR pode fugir à solução dos «acordos pontuais» se for esse o resultado, desejável ou não, das votações eleitorais e das negociações entre partidos.


3. O Presidente da República não é e não deve ser uma espécie de pai da pátria.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Pergunta a Marcelo

Em vésperas de S.João, Marcelo Rebelo de Sousa - na verdade sem muito para dizer - elogiou as contas orçamentais do primeiro trimestre. Entre dois croquetes, foi alinhando palavras, meio envenenadas:
Foi "uma política muito rigorosa do ponto de vista orçamental, uma grande contenção do ponto de vista orçamental e a preocupação, não apenas de cumprir a meta dos 0%, mas, porventura, até de ir mais longe"[leia-se: foi "além da troica", como o PS acusara em 2011 o PSD e o CDS]. Que isso "significa, portanto, que, durante meio ano, a execução orçamental foi feita sem necessidade de decreto de execução orçamental, o que revela uma subtileza e uma inteligência de gestão financeira grandes que se traduzem nos números"[leia-se: "Assim também eu, para isso não se aprovavam novos orçamentos e vivíamos de duodécimos]. "O Governo preferiu prevenir a remediar, preferiu prevenir de uma forma muito intensa[leia-se: "austeritária"], com uma contenção muito intensa para poder ter sucesso, aconteça o que acontecer, lá fora, na Europa ou no mundo." [leia-se: "o ministro está a trabalhar para si, lá para o Eurogrupo, para os mercados", outra acusação ao Governo PSD/CDS de 2011]. "Segurou-se para não correr riscos", e, por isso, "há um preço: atirou para um bocadinho mais tarde, porventura, o abrir os cordões à bolsa".[leia-se: está a fazer um eleitoralismo invertido: poupa em vez de gastar em tempo de campanha e, depois de ganhar as eleições, gasta mais...!]. Mas "vamos ver os custos que isso teve, num ou noutro caso, em termos de funcionamento de serviços públicos ou despesas sociais"[leia-se: poupa-se, mas entretanto o Estado rebenta e o Governo não faz nada, argumento que a direita embandeira, embora sem dizer como o faria sem criticar o Tratado]. 
Ou seja, Marcelo ficou perdido no mesmo pântano do PSD e CDS. O presidente que já se assumiu como podendo ser no futuro o mais eficaz contrapelo da direita, viu-se esvaziado de discurso quando o PS aplica a sua receita orçamental "de uma forma muita intensa", indo mesmo além das regras e das lógicas subjacentes ao Tratado Orçamental, que foram criadas para conduzir ao desinvestimento público e, com ele, à degradação dos serviços públicos e da importância do Estado na sociedade e na economia. Mas no meio desta confusão na direita, ninguém pergunta a Marcelo: "Acha que seria preferível menos superávitee mais défice, mas com melhores serviços públicos?" Talvez os jornalistas não a façam porque já se antecipam a sua fuga clássica, quando está nervoso e sem pensamento: "O Presidente não é um comentador...", o que faz as maravilhas dos humoristas quando apanhado em contradição.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | As preocupações de Marcelo

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República/comentador político, incapaz de conter as suas opiniões, considerou pertinente manifestar os seus temores sobre uma crise na direita.

Mais: o comentador político e Presidente da República considerou ser muito provável a direita portuguesa entrar em crise nos próximos anos.

A direita, essa, é que não apreciou particularmente os comentários e as profecias do Presidente até porque "crise interna" é frase que nunca cai bem.

As preocupações de Marcelo são legítimas. De facto, a democracia precisa de partidos fortes, à direita e à esquerda. No entanto, os comentários que vão para além da manifestação dessa preocupação e que remetem para os tempos em que o Presidente tinha a seu cargo a missa dominical num canal de televisão é que serão excessivos. Mas excessos é com ele. Invariavelmente inocentes. Dizem.

*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/portugal-as-preocupacoes-de-marcelo.html

Silêncios interesseiros

Filme: "Este país não é para velhos", Cohen
Se há uma coisa boa que teve a anunciada "crise" governamental foi ter gerado o silêncio de Marcelo. Marcelo diz que esteve mais de uma semana calado porque "tudo o que dissesse limitava a liberdade". A sua liberdade de decisão quanto ao eventual diploma sobre o tempo de serviço dos professores. Na verdade, Marcelo esteve fortemente envolvido no tema da "crise" quando - fruto do seu destempero e hiper-actividade inconstitucional, que o faz sentir-se invulnerável - pressionou o governo a negociar mais com os sindicatos. E quando a "crise" rebentou, atingiu-o em cheio no peito. Por isso, Marcelo quis ficar quieto, fingindo-se morto, antes que tudo lhe caísse em cima, como caiu em cima de Rui Rio e de Assunção Cristas. Cristas falou e perdeu. Rui Rio tentou o silêncio, mas não conseguiu. Marcelo hibernou e a coisa passou. Agora, com o tema do SIRESP e sobre a possibilidade de nacionalização ou de aquisição por parte do Estado de posição majoritária no seu capital, Marcelo mantém-se igualmente calado. E diz que não fala por ser... um processo em curso e sensível. Na verdade, trata-se de um tema que lhe é caro - os incêndios - e sobre o qual Marcelo interveio tanto e tão repetidamente... Mas há bem pouco tempo, Marcelo fartou-se de intervir - e mal! - sobre a Lei de Bases da Saúde e, esse também, era "um processo em curso e sensível". Noutro tema - sobre a contratação pública de familiares - até interveio raiando a inconstitucionalidade, quando quis propor leis ao governo sobre o seu gabinete! Qual é o critério?  Eis a resposta dada por Marcelo Rebelo de Sousa:
“Quem intervém muitas vezes, não intervém por uma mania, por um estilo, por uma obsessão. Intervém por uma necessidade, e quando entende que a necessidade impõe estar calado uma semana, duas semanas, três semanas, tão depressa está calado como fala todos os dias”,explicou o chefe de Estado. E num ano marcado por três eleições Marcelo Rebelo de Sousa avisa: “Os portugueses têm de se habituar”porque o silêncio “pode repetir-se”.
Pois claro que pode! Agora só falta esclarecer qual foi a "necessidade" de intervir tantas vezes sobre a Lei de Bases da Saúde e a "necessidade"de nada dizer sobre SIRESP ou sobre os múltiplos casos laborais que lhe batem à porta e aos quais Marcelo se esquiva a dizer uma palavra. E qual a "necessidade"de, ao mesmo tempo, lhe ser tão fácil telefonar às apresentadoras Cristina Ferreira e Fátima Lopes, se não será mais esta faceta populista de um Presidente que condena os populismos... Resta a esperança de que Marcelo tenha retirado a ilação "necessária": a sua intervenção não deve entroncar na estratégia política de certas formações e interesses. E muito menos ter um papel inconstitucional de intervir no sentido de alterar os "processos em curso" de elaboração das leis. Nem que seja porque há momentos em que o podem matar politicamente.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A minha «fake new»

PR vai ser nomeado
assessor jurídico do Governo
 
Por mim, já comecei a escrever um rascunho de proposta de lei que impeça um órgão de soberania de contratar outro órgão de soberania.
O parágrafo anterior é obviamente uma mentira porque eu tomo Xanax.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

DAS PALAVRAS AOS ACTOS


1- Na Europa que continua a ser constante prova de ambiguidade, de cinismo e de hipocrisia, na Europa partícipe de ingerência e manipulação nos continentes a sul, na Europa que não reconhece sequer sua velada participação nas práticas de conspiração que tanto caos, terrorismo e desagregação têm disseminado nos Balcãs, no Cáucaso, no Médio Oriente Alargado e em África, particularmente  desde o início da década de noventa do século XX, na Europa cuja visão é a visão exclusivista de suas oligarquias económicas e financeiras, o multilateralismo é uma opção de dois pesos e duas medidas, sem coerência a não ser a identificada com os interesses que “democraticamente” se assumem sobre a cabeça dos povos!
O poder do mercado neoliberal usa os conceitos e as palavras nessa visão antropocêntrica que corresponde aos interesses exclusivistas das escalonadas oligarquias e das elites afins e, quando se estabelecem “parcerias” a sul, esbatem-se as prementes necessidades sejam elas quais forem, mas em particular as da solidariedade e justiça social reitoras do ambiente de paz social com que toda a humanidade se deveria reger, pondo em causa os equilíbrios em direcção aos quais é premente um constante impulso, a fim de melhor distribuir a riqueza e a fim de se alcançar maior felicidade e bem-estar para todos os povos da Terra.
O deus-mercado é uma barbaridade nesse sentido, mas os poderosos escolhem e medem bem as palavras e conceitos de sua própria conveniência para o mascarar, sabendo que os media de que são donos são-lhes de feição “global”, pelo que aqueles que possuem consciência crítica e estão mobilizados numa lógica com sentido de vida, devem-se obrigar sempre em contínuas radiografias sobre o estado dos relacionamentos internacionais em época de globalização, a medir a distância (e a coerência) entre o que está sobre a mesa: os conceitos, as palavras e os actos.
2- Vem esta introdução a propósito da longa entrevista que o presidente português deu ao Jornal de Angola, segundo a publicação de 6 de Março e sob o título “Relações seguem uma linha contínua que não vai parar para o futuro”, em particular no que diz respeito à interpretação e prática de multilateralismo e num momento em que se podem comparar as posições do estado português em relação aos países a sul, mais concretamente no que diz respeito a Angola e à Venezuela, com pano de fundo no Brasil e na CPLP.
O presidente português diz que há “convergência nos domínios do multilateralismo, valorização do direito internacional, dos direitos humanos, do papel das organizações internacionais, da importância das migrações, papel dos oceanos, da atenção às alterações climáticas”…
Os conceitos e as palavras que exprimiu, devem ser confrontadas com as práticas dum país que é fundador e activo participante da NATO, organização militar e de inteligência supranacional e desde a sua fundação sob comando do Pentágono, que agora se distende entre o Afeganistão e a Colômbia com todo o sul à mercê!
De facto Portugal tem obrigações perante a União Europeia da qual faz parte a partir do que passou a ser estimulado pelas suas oligarquia e elite nacional desde o 25 de Novembro de 1975 e tem obrigações perante a NATO transatlântica, no quadro da qual assume, além do mais, o asseguramento do seu próprio espaço marítimo e insular.
Essas obrigações estão por dentro das “filtragens” que faz nos seus relacionamentos a sul e por causa delas, expõe a graus de geometria variável em termos de ambiguidade, de cinismo e de hipocrisia, em especial quando elas obrigam a adoptar dois pesos e duas medidas conforme se demonstra comparativamente face à Venezuela e a Angola, por razões que se devem inventariar.
Quer na Venezuela, quer em Angola, há migrações portuguesas e luso-descendentes a ter em conta e, quando há radicalização dos processos políticos em resultado duma globalização tão inquinada como a posta em prática pelo poder que os Estados Unidos exercem particularmente sobre a NATO e seu sistema tentacular de vassalagens com correias de transmissão, as posições do regime da oligarquia portuguesa tendem a corresponder não levando em consideração os cuidados de respeito e solidariedade que deveriam garantir um relacionamento mais saudável com suas próprias comunidades migrantes e luso-descendentes, por tabela com os estados onde eles se situam, por via duma não ingerência garante de busca de consensos, de diálogo, de paz e de aprofundamento da democracia.
Isso acontece apesar de a nível internacional haver exemplos de não ingerência e rejeição de qualquer tipo de manipulação, como acontece com o México…
Ao invés disso, em consonância com os procedimentos históricos e antropológicos que se arrastam desde o passado, o regime oligárquico de Lisboa assume de facto e de forma contínua a defesa das oligarquias, a sua, aquelas que são parte integrante das opções que respondem à hegemonia unipolar contra os interesses e aspirações legítimas do povo bolivariano e em Angola a favor dum projecto de oligarquia que entendem estar em construção, conforme aos seus preceitos de “inteligência económica” que começam no “carácter modelar” dos tentáculos bancários que trouxeram para a latitude de Luanda sobretudo após Bicesse e 2002… que são parte da raiz dos problemas de corrupção que os angolanos estoicamente enfrentam, ainda que a maior parte deles não o reconheçam!...
3- O regime oligárquico de Lisboa começou por alinhar no reconhecimento do deputado Juan Guaidó como “presidente interino” da Venezuela no seguimento de sua auto proclamação instigada pela administração do presidente estado-unidense Donald Trump, alinhou em seguida no ultimato da União Europeia à Venezuela Bolivariana, que a obrigava a eleições segundo seu próprio “timing” e compulsivo critério, depois perante o espectro duma guerra de consequências tanto ou mais devastadoras da que ainda continua no Médio Oriente Alargado, recua em intimidade com o grupo de Lima mas sem baixar a pressão que caracteriza a estafa de sua ingerência em termos de inteligência, para a não-aceitação ambígua duma agressão militar… tudo isso em nome da democracia e pelos vistos do “multilateralismo” que vigora nas suas interesseiras cabeças, ao nível do que “promove” a Organização Não Governamental CANVAS, onde pelos vistos também aprendeu!...
Ao mesmo tempo, com a candura liberal que lhe é sob o ponto de vista sociopolítico “geneticamente” peculiar, a figura presidencial desse regime vem a Angola em pleno carnaval, dando previamente uma entrevista prévia ao Jornal de Angola cujo sentido geral e institucional é, com toda a ambiguidade dum aparentemente escrupuloso exercício, no sentido oposto, até nas apreciações emocionais que faz, não podendo contudo esconder os dois pesos e as duas medidas que na prática assume entre as palavras e os actos, ainda que face a dois países que em comum contam com uma expressiva comunidade portuguesa migrante e expressiva quantidade de luso-descendentes.
4- Perante esse tipo de evidências, entendo eu que em época de tão inquinada globalização neoliberal, ao assumir-se a advocacia dos povos do sul e tendo em conta o longo percurso do movimento de libertação nos dois lados do Atlântico Sul, essa ambiguidade cosmopolita deve ser colocado sob a mira de nossos olhos, por que pela sua natureza não deixa de ser a continuidade dum plasmado processo de há vários séculos a esta parte, desde quando sob o cândido rótulo da dilatação da fé e do império, afinal de facto se enveredava, em nome da “ocidental civilização” e em África, por uma cultura escravocrata e colonial, cujas consequências em muitas regiões, em especial onde a situação insular além do mais implica isolamento físico e geográfico, se fazem ainda sentir penosamente em múltiplos e traumáticos rescaldos até aos nossos dias.
É evidente que o “deus do mercado neoliberal” se preocupa, evocando a malabarística perfídia do “Fim da história”conforme Francis Fukuyama, não só em apagar todas pistas que puder, mas também na lavagem cerebral das multidões contemporâneas, em função dos interesses e conveniências da aristocracia financeira mundial e de suas agenciadas oligarquias e elites.
A legítima afirmação histórica e antropológica a que nos obriga o sul, não pode deixar passar em branco a lástima em relação àqueles que, investidos de poder representativo, em nome da democracia, não podem resistir à erosão, quando há dois pesos e duas medidas, ou seja tanta disparidade e incongruência entre suas próprias palavras e os seus actos!
Martinho Júnior - Luanda, 7 de Março de 2019
Imagem: presidente algum deveria ser malabarista…

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/das-palavras-aos-actos.html

Mas que intimidade!

(Por Estátua de Sal, 22/02/2019)

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O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, cumprimenta bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco

Diz a última sondagem conhecida que a popularidade de Marcelo está em queda. Não é de estranhar. Marcelo está perder o sentido da pouca equidistância que ainda tinha, e para ele, a campanha eleitoral também já começou, substituindo-se à oposição. Cada vez vai descaindo, numa rampa inclinada imparável para o lado direito do espectro político de onde, na realidade, nunca saiu.

Se a oposição é frouxa e não tem discurso credível nem projecto alternativo viável – a não ser as birras infantis da Dra. Assunção -, Marcelo passou a não se coibir de mostrar a face – indo para além das selfies politicamente inodoras -, e passando a ocupar o lugar de líder da oposição.

Assim, todos os temas que no momento são dor de cabeça para o Governo, acabam por ter na sombra o conforto mais ou menos mediático do presidente. Contudo, no que toca ao dossier da Lei de Bases da Saúde – que a ser votada com o apoio da esquerda parlamentar irá causar um rombo de milhões nos interesses privados que se movimentam na área da saúde -, a actuação de Marcelo tem sido descaradamente parcial, ficando claro que os seus amigos não são os pobres que ele beija como Judas beijou Cristo, mas sim os grupos económicos que fazem da saúde um negócio milionário.

Mas o despudor de Marcelo atingiu ontem o zénite quando em público deliberadamente fez questão de dar toda a cobertura à conduta da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros e à sua greve ilegítima e assassina (ver aqui ). Uma vergonha a adicionar ao telefonema que dirigiu ao enfermeiro que decidiu entrar em greve de fome, tentando assim manifestar a sua oposição à requisição civil decretada – e bem -,  pelo governo.

A foto acima devia fazer corar o Presidente da República. Tanto mimo, tanta meiguice, tanto langor no olhar e no sorriso de Ana Rita Cavaco, em público e em frente às câmaras, levam-me a inquirir até que ponto poderá levar o seu desvelo carinhoso se for recebida por Marcelo, a sós em audiência privada.

Marcelo diz que não fala da greve dos enfermeiros antes que o Tribunal se pronuncie sobre a contestação que os dois sindicatos responsáveis pela greve às cirurgias apresentaram. De facto, nem é preciso falar. Uma imagem vale mais que mil palavras. Depois desta imagem não é preciso dizer mais nada, tudo está dito. Marcelo está ao lado de Ana Rita Cavaco no ataque ao SNS, e estará também ao lado dos privados no ataque ao SNS no caso da contenda com a ADSE.

Como Marcelo tanto preza a sua popularidade – que devido a estas atitudes só pode cair ainda mais já que os portugueses estão (segundo sondagens) largamente ao lado do governo na sua disputa com os enfermeiros -, só estando em jogo uma parada alta é que ele terá decidido colar-se sem rebuço a estas manobras contra o SNS.

Sim, a parada é alta. É a saúde de milhares de portugueses, sobretudo dos mais desvalidos e carenciados. Mas para Marcelo, e para os seus amigos da direita, não é a saúde de milhares de cidadãos que conta, mas sim os milhares de euros que temem que deixem de entrar nas suas contas bancárias.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

(Conquanto não se torne num hábito) hoje até digo bem de Marcelo

Dois recuos, e uma posição digna de elogio, é o que se pode aferir da prestação de Marcelo Rebelo de Sousa no regresso aos écrãs da antiga equipa de comentadores da «Quadratura do Círculo».
Dos dois recuos, um é positivo, o outro é-o menos. O primeiro teve a ver com o que fará, quando lhe chegar o pedido de promulgação da Lei de Bases da Saúde, aprovada no Parlamento. Se anteriormente, afirmara-se disposto a vetá-la se não tivesse o ámen do seu Partido, agora, perante a forte probabilidade de uma derrota no confronto direto com António Costa e com a esquerda parlamentar, deu o dito pelo não dito, condicionando a decisão ao que for o seu conteúdo.
Não nos iludamos quanto à possibilidade de ter havido na sua consciência uma mudança de posição: ele mantem-se ideologicamente igual a quem foi no passado, quando votou contra a existência do Serviço Nacional de Saúde. Mas, tendo pesado os prós e os contras, concluiu ser preferível o seguimento da regra “se não podes combatê-los, junta-te a eles”.
O recuo menos positivo teve a ver com o implícito arrependimento de ter visitado o Bairro Jamaica sem ter dado prévio colinho aos polícias. Sobretudo, quando aquele arauto da honra da corporação (e conhecido por ter sido o organizador de mediático organizador de ação de apoio a Passos Coelho, na fase de pré-campanha das eleições legislativas de 2011!) veio proclamar-se indignado num tom desrespeitoso para com o criticado. Se o gesto de Marcelo fora importante para combater a cultura de racismo, que ganhara dimensões inaceitáveis nas gentes das direitas e nalguns polícias, mormente nos infiltrados pelos neofascistas, para aí polarizarem os conflitos acomodáveis nas suas intenções, esse passo atrás só pode qualificar-se de lamentável. O benefício imediato do gesto vê-se agora prejudicado pelo gáudio do contestatário por lhe ter sido dada imerecido crédito.
Redimiu-se, porém, com a posição firme contra a greve dos enfermeiros, que considerou intolerável. Se a generalidade da população portuguesa está contra uma campanha política, que põe em causa a saúde dos que mais carecem ser assistidos, a opinião de Marcelo poderá ter inclinado para essa posição maioritária os que ainda duvidavam da legitimidade do governo para ter decretado a requisição civil. Mesmo que se tenha visto depois, no «Eixo do Mal», um dos opinadores de serviço recorrer a uma ínvia argumentação para tentar justificar o injustificável, convenhamos que, para o bem e par ao mal, os que possam ser influenciados por Marcelo são bem mais do que quem porfia em dar crédito a Pedro Marques Lopes.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/02/conquanto-nao-se-torne-num-habito-hoje.html

1979: Quando Marcelo se marimbava para o SNS

Deu brado, a declaração de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) de que vetaria uma Lei de Bases da Saúde, mesmo sem a ler, se fosse apenas votada à esquerda. Esta estapafúrdia declaração vinda de um professor universitário apenas espantará quem acha que MRS é uma pessoa preocupada com a substância dos problemas. Mas para ele, a saúde dos portugueses é um pormenor; o que é essencial é saber quem ganha no jogo esquerda-direita (a direita, na sua opinião, deve ganhar). Aliás, numa recente entrevista à agência Lusa, MRS separou os "mundos" existentes no actual debate sobre a Lei de Bases a partir de uma igualmente simplista e redutora. Disse ele:
Há “duas maneiras de ver o problema” no SNS: com “flexibilidade na forma como é gerido” ou de “maneira mais fixista”.  
Pode parecer chocante, mas esta visão curta dos problemas não é de agora, nem é novidade em MRS. Há cerca de 40 anos, em 1979, quando o SNS foi aprovado no Parlamento como forma de dar mais saúde aos portugueses, MRS era director-adjunto do principal jornal nacional (Expresso). E, mais uma vez, o assunto passou-lhe ao lado. Folheie-se o jornal dessa altura. A página 2 do semanário era sempre sua, para estender a sua "Análise Política". Na página 3, aparecia sempre a "Figura da Semana", escolhida geralmente por MRS. Ao longo de 1979, MRS não gastou uma linha - uma que fosse! - sobre o SNS ou a saúde dos portugueses. O próprio corpo do jornal nunca abordou o assunto, à excepção da crónica parlamentar, que não era da sua autoria. E muitas das vezes o SNS foi completamente secundarizado face a outros assuntos. E se não foi sobre a saúde, sobre o que escreveu MRS nesse primeiro semestre preparatório da votação no Parlamento do SNS? Escreveu sobre a descolonização, o PCP, o PSD, o Governo de Mota Pinto, a crise política, os candidatos presidenciais, a descolonização (outra vez!), o regresso de António Champalimaud, a Europa, o PS, o Brasil, novamente o Brasil (Marcelo deve ter ido ao Brasil e refere-se à chamada revolução de 1964 sem nunca mencionar o golpe militar), o congresso do PS (omitindo António Arnaut, que protanizou - segundo o repórter do próprio jornal - a segunda intervenção mais ovacionada!), os três anos da Constituição, a crise da direita (dividida e com MRS a forçar uma concertação de esforços), a crise da direita nas confederações patronais e na UGT ("a CAP atravessa crise visível e parece paralisada, dividida; a UGT ressente-se da divisão no PSD, atrofia-se à nascença; a CIP permanece em debate constante das suas diversas correntes"), a amnistia aos militares do 11 de Março e do 25 de Novembro, o discurso de Ramalho Eanes no 25 de Abril, as jogadas de Sá Carneiro, a crise entre Sá Carneiro e Eanes, a "frente eleitoral" (escolhendo Freitas do Amaral para figura da semana).
Na semana de Junho em que os deputados votaram o SNS, Marcelo escreveu sobre... o 13 de Maio em Fátima. "A Igreja Católica é uma força social indesmentível, (...) resta saber se tem consciência da situação actual do repto que se encontra lançado". Não lembra ao diabo. Em Julho, com a criação da Aliança Democrática (entre PSD/CDS/PPM), MRS parece feliz: "Este acordo pode ajudar a clarificar as opções eleitorais dos portugueses (...) nada mais frustrante para o eleitorado do que concluir que o seu voto não escolhe o Governo. (...) Se o bloco não se desunir, a maioria governamental pós-eleitoral será provavelmente diferente da actual". Mas a questão da Saúde em Portugal era então assim tão irrelevante? Visivelmente para MRS, sim. Mas para os portugueses, era crucial. Era mesmo um caso de vida ou de morte. Em cada dia. Veja-se como.
MRS podia, como fez António Arnaut ou o deputado da UDP Acácio Barreiros no debate sobre o SNS (17/5/1979) - que se aconselha  ler na íntegra! - alinhar os sinais do descalabro: Taxa de mortalidade infantil, 35 por 1000 nados-vivos; Partos sem assistência -15%; Taxa de mortalidade por doenças infecto-contagiosas, parasitárias e entéricas - 22 por 100000; Casas sem esgoto - 40 %; População com abastecimento de água através de poços - 32%; População sem recolha de lixos urbanos - 61 %; Médicos de clínica geral - 92,5 % no litoral do País, contra 7,5 % no interior; Médicos especialistas - 93,7 % na região litoral (81 % só em Lisboa, Porto e Coimbra), contra 6,3 % no interior; Enfermeiros - 83,8 % no litoral e 16,2 % no resto do País; Consumo de medicamentos (1976) - 80% para o litoral e 20 % para o interior. MRS podia ter se ofendido e cruzado armas com António Arnaut quando, nessa sessão do Parlamento, citou o panorama desgraçado do povo português e a indiferença dos privilegiados:
É esta pungente realidade que os inimigos do SNS fingem ignorar, por cobardia moral e indiferença política. Todo os dias os jornais se fazem eco de casos dramáticos, verdadeiramente intoleráveis numa sociedade civilizada e inadmissíveis para qualquer pessoa minimamente sensível ao sofrimento alheio.
MRS que lia jornais por dever de ofício, podia - tal como hoje - pensar antes na vida dos outros. Ser "minimamente sensível ao sofrimento alheio". Podia ter se lembrado do que vira, dias antes, ao ouvir Arnaut citar notícias atrás de notícias: 
Pessoas que morrem par falta de recursos ou de assistência médica, outras que aguardam meses por um exame ou uma cama no hospital. Há casos insólitos de o aviso para a consulta ou internamento chegar depois do falecimento do doente! Ainda recentemente a imprensa relatou um caso de uma mulher de Fornos de Algodres - o próprio presidente da Câmara mo confirmou - que teve o filho debaixo de uma árvore, porque o hospital, ali ao lado, estava fechado! Tenho aqui à mão recortes de jornais, recolhidos ao acaso, que referem situações verdadeiramente «exemplares» e talvez «eventualmente chocantes» para alguns dos Srs. Deputados:
Septuagenária morre à porta do hospital - recusaram-lhe assistência (Comércio do Porto, de 11 de Março de 1978); Entrar no Banco do S. José é passar a «Porta do Inferno» (A Capital, de 7 de Junho de 1978); De três hospitais para a Mitra, por mais incrível que pareça. Estranha e insólita odisseia de uma sexagenária, que fraturou um braço, relatada pelo Diário de Noticias, que do Hospital de Setúbal passou para o Sanatório de Outão, daqui para S. José, depois os familiares perderam-lhe o rasto e, com o auxílio da Polícia Judiciária, vieram a encontrá-la na Mitra! É esta a «radiografia do nosso desespero» para usar a feliz expressão do Diário Popular, que serviu de título a uma recente reportagem sobre o Hospital de S. José. Vamos deixar que tudo continue na mesma? Vamos permitir que subsista o fosso em cujos águas turvas chafurdam os tubarões, entre os privilegiados da sorte e os deserdados da fortuna, entre os pobres e os ricos, entre a cidade e o campo?
MRS podia ter se sentido ferido pelo insulto - de quem vive "em águas turvas" onde "chafurdam os tubarões" - e ter dado a mão ao projecto «A Social-Democracia em Portugal», dos social-democratas independentes como Sérvulo Correia, em que se sublinhava que 
"Atingiu-se esta situação porque, além das referidas carências sócio-políticas gerais, o regime anterior não foi capaz de estruturar um serviço eficiente e universal de cuidados de saúde, voltado sobretudo para uma medicina preventiva, e porque no sector da medicina curativa criou condições, favoráveis ao desenvolvimento de uma actividade profissional individualista, fundamentalmente ao serviço das camadas privilegiadas da população, em detrimento de uma medicina institucional organizada"  MRS podia ter sentido o apelo do jornalista para o real em bruto traçado por Sérvulo Correia quando afirmou no Parlamento: 
"No meu círculo"de Castelo Branco, "a mortalidade infantil foi, em 1975. de 41 por mil (...) a mortalidade materna foi, em 1975, de 0,70 por mil (...) os partos sem assistência foram, em 1975, de 16,5 %" (...) Como explicaria eu essa inacreditável estratégia aos cinco filhos de uma senhora recentemente falecida, esvaindo-se em sangue por acidente pós-parto, enquanto transportada, sem o tratamento recomendável, do Hospital de Alpedrinha para o do Fundão e daqui para o da Covilhã? (...) Como a explicaria eu aos meus eleitores de Oleiros, mais habituados a não ter do que a ter médico no seu município? Como explicaria aos meus eleitores da Sertã(...) privados de um centro de análises clínicas no seu hospital? Como a explicaria aos meus eleitores da Covilhã(...) obrigados a fazer bichas de madrugada no centro de saúde e cujo velho hospital não responde às necessidades? Como a explicaria aos meus eleitores de Idanha-a-Nova (...), em cujo hospital as camas não tinham ainda há bem pouco tempo colchões decentes? Como a explicaria aos meus eleitores de Penamacor cuja maternidade não funciona por falta de parteira? Como a explicaria a todos os meus eleitores do distrito de Castelo Branco cujo moderno hospital distrital espera há tanto tempo os especialistas de que necessita para dar pleno rendimento às suas instalações e equipamento?
Nada! Absolutamente nada! Nas suas crónicas, nas páginas do seu jornal, não há nada sobre essa realidade. Tudo lhe passou ao largo, nada move as suas ideias senão a macro-estrutura da política, os jogos palacianos, talvez porque, possivelmente, não era essa a sua realidade. Tal como hoje. A atitude do MRS era, aliás, geminada à do PSD. O debate sobre a criação progressiva do SNS começara há um ano com o II Governo Constitucional (PS, apoiado pelo CDS), envolvendo todas as classes na saúde e na sociedade. António Arnaut era o ministro dos Assuntos Sociais e afirmou taxativamente no Parlamento que o projecto fora torpedado pelo CDS, ao provocar a queda do Governo e afundando com ele o projecto do SNS que estava agendado para ser votado a 12/7/1978. O PS recolocou o SNS no debate parlamentar, de 19/12/1978. 
"Descrevi então,"afirmou Arnaut, "o panorama angustiante do sector, apontei factos e números, indiquei os vários modelos-tipo de serviços de saúde, rejeitando tanto o colectivista como o liberal e convencionado. Esclareci que a saúde é um conceito amplo, verdadeiramente revolucionário, ligado à concretização dos demais direitos sociais, por isso que, para além da ausência da doença, visa a obtenção de uma situação de «bem-estar» físico e social. (...) A direita parlamentar - e os seus órgãos de propaganda - procuraram apenas lançar a confusão, deturpar os factos, iludir a realidade. A vocação da direita é denegrir e não construir, conservar ou recuperar e não inovar (...) A direita tem medo da verdade porque sempre viveu da mentira. (...) A direita é o passado, com o seu rol infamante de tropelias, de exploração e opóbrio. A direita é o simulacro das caixas, o submundo dos grandes hospitais, a chaga das Mitras, a fraude da medicina comercializada, o formulário das multinacionais..."(Aplausos do PS, do PCP, da UDP e dos Deputados independentes Brás Pinto, Lopes Cardoso, Vital Rodrigues e Aires Rodrigues)
Em Junho de 1979, havia vários projectos no Parlamento. O projecto do PS (assinado à cabeça por António Arnault e que o PCP, social-democratas independentes e UDP apoiavam); o projecto do CDS - apenas sobre carreiras médicas e administrativas... -  que seguia de perto as ideias da Ordem dos Médicos, presidida por António Gentil Martins, defendendo - tal como hoje - um «sistema de saúde» assente fundamentalmente na contratação entre o Estado e a medicina privada. O PSD estava contra o SNS e chegou a ter inicialmente um projecto alternativo (com financiamento público e complementado com um seguro de saúde), mas não o levou avante. O governo Mota Pinto - que esperava ganhar as eleições em 1980 - achava que, fosse qual fosse o projecto votado no Parlamento, seria capaz de o modificar na fase de regulamentação... 
Esta temática aparece no meio - no meio! - de um artigo a 3 colunas na página 3, local habitual da crónica parlamentar (Expresso, 10/5/1979), da autoria do Pedro d'Anunciação. O PSD dava piruetas entre projectos inconciliáveis: "Embora não subscrevamos nenhum daqueles projectos, quanto a nós qualquer um deles apresenta ideias muito válidas e estamos convencidos que, na sua análise conjunta, poderá resultar um diploma realista",disse o ministro dos Assuntos Sociais Pereira Magro (Expresso, 10/2/1979). Que ideias válidas eram essas? Nada se dizia, nem importava. Pouco importavam igualmente as clivagens que o SNS suscitava.
No início de Março de 1979, realizou-se o 3º Congresso do PS, no Pavilhão dos Desportos em Lisboa. Foi um congresso de combate contra o governo Mota Pinto. Arnaut foi - segundo o repórter do Expresso- "a principal bandeira de identidade da esquerda do partido", em que o SNS aparecia como referência socialista. "SNS" foi a sigla gritada entusiasticamente pelos delegados ao congresso e militantes presentes. Por diversas vezes.
"António Arnaut, num típico discurso de comício lançou o repto emocional a um partido recuperando ainda mais os traumatismos de uma experiência governativa marcadamente conservadora"(Expresso, 10/3/1979).
Curioso frisar que nessa altura - como agora - a questão essencial era a obrigatoriedade da exclusividade dos profissionais do SNS. O jornalista estabelece uma ligação do bastonário da Ordem dos Médicos ao PSD, o que leva Gentil Martins a escrever ao director, a desmenti-lo:..."o projecto do SNS que defendo só por feliz coincidência poderia ser semelhante a algum dos projectos apresentados na AR e dos quais me alheio"(carta publicada a 9/6/1979).   Ao contrário de MRS, que manifestava o seu vazio de ideias, os social-democratas independentes tinham uma visão crítica do assunto. Defendiam "a criação de um sistema integrado - o Serviço Nacional de Saúde - que permita e fomente a socialização dos cuidados médicos em Portugal, garantindo o acesso igualitário de todos à medicina preventiva, curativa e de reabilitação". Mas apontavam "gradualmente para a existência paralela e em plano de igual dignidade das duas soluções" -pública e privada - "com cobertura apenas parcial dos gastos em caso de recurso à medicina privada". "A dedicação exclusiva do médico constituiria regime excepcional, proibindo-se, no entanto, as sobreposições de tempos de serviço e o atendimento dos mesmos doentes pelos mesmos médicos no sector estadual e no sector privado e restringindo-se ao máximo as acumulações de serviço no âmbito do sector estadual". Mas nesse capítulo, parte do PS estava - como agora - com a direita: 
"Sectores importantes do PS reagiram com desagrado à falta de maleabilidade de António Arnaut, o qual teria impedido que o referido projecto fosse aprovado com o voto favorável dos social-democratas independentes"(Expresso, 16/6/1979). Na semana em que o SNS foi aprovado no Parlamento, esta referência aparece a meio da crónica parlamentar. O jornalista escreve: "Diploma extremamente polémico e contestado pela Ordem dos Médicos, o SNS só será exequível dentro de cinco a dez anos".
O tal debate sobre os projectos, realizado a 17/5/1979 foi dos mais esclarecedores. O PSD já defendia então a "liberdade de escolha do médico", "a melhor articulação possível entre o sector estatal e o sector privado", convictos de que a "presença clara e inequívoca de que a estatização generalizada não é a medida adequada à necessária rendibilidade dos serviços e profissionais de saúde". Era defendido como "imperativo de extrema urgência, a existência ou manutenção de um numerus clausus, dado que o débito anual de técnicos terá de obedecer às reais necessidades e capacidade de absorção do País". Era a forma de manter um mercado médico protegido, independentemente das necessidades do país. Um dos oradores do PSD chegou a enfatizar m defesa do "mercado": "Considera o Partido Socialista viável a colectivização da medicina num país que aponta para uma economia de mercado? (...)não entende o Partido Socialista que dos termos do artigo 23.º do seu projecto, resulta a introdução de uma forma de contrôle que aponta claramente para formas populistas, ineficazes e demagógicas? (...)entende ou não o Partido Socialista que o contrôle estatal resulta rigidamente do estipulado nos artigos 31.º, 32.º e seguintes? (...)considera o Partido Socialista que existe qualquer viabilidade, eficaz e social, para o sector privado em convergência com o sector estatal, como preconiza o artigo 52.º do seu projecto? Não será antes a sua progressiva liquidação, ao contrário do que tem sido afirmado?" Uma ideia que foi contestada sibilinamente por António Arnaut no seu discurso final de debate que enumerou os diversos pontos da proposta da criação do SNS (participação dos utentes, articulação com o sector privado, estatuto do pessoal):
"Os que tanto falam na liberdade de escolha do médico escamoteiam a realidade actual, pois tal direito está drasticamente limitado por razões económicas e geográficas, só existindo para os ricos ou para aqueles que vivem em grandes centros. (...) Traduz-se, afinal, em termos práticos, na liberdade de o médico escolher ou seleccionar os seus doentes e não de o doente poder consultar o médico da sua preferência. (...) O Partido Socialista quer a liberdade para todos, a saúde .para todos! Esse é o verdadeiro sentido da socialização da Medicina que os mal intencionados querem confundir com estatização. (...)
..."Sem tal carreira - que existe para todos os funcionários públicos - não poderia assegurar-se a cobertura médica e hospitalar de todo o País. Esta é uma das razões por que são inadmissíveis os modelos da «medicina convencionada» ou do «Seguro-Saúde» que manteriam os médicos nos seus consultórios das áreas urbanas, sobretudo dos grandes centros, em prejuízo da mancha negra do resto do País. No futuro, todos os profissionais que desejem ingressar no Serviço Nacional de Saúde, terão de sujeitar-se ao regime de carreira.
 
Pelo PS, o deputado Gomes Carneiro foi contundente:
"Agora o que não compreendemos é como é que o PSD vem defender o sector privado, se existir um serviço público de saúde capaz, real, competentemente apetrechado e com capacidade técnica suficiente para satisfazer as necessidades das populações no domínio da saúde. Será que o PSD pretende que seja o Estado a pagar a medicina privada?" 
Quarenta anos depois está à vista que sim, que o projecto sempre foi esse. E quanto ao SNS, foi acabando por ser subfinanciado, desarticulado, sangrado e capturado pelos diversos serviços privados, em que os responsáveis pelo Estado "preferem" deixar a apodrecer máquinas e serviços, para serem "forçados" a recorrer aos servidos privados que os vendem, fixando o preço que querem, pago pelo Orçamento de Estado e sempre com a pressão de que as dívidas do sector da Saúde se acumulam, sem serem pagas. A ideia era clara, tal como Arnaut a colocou: 
O SNS não impede a existência paralela ou mesmo concorrencial de actividades privadas no sector da saúde. O que se pretende é garantir à população o acesso pronto e eficiente aos serviços de saúde do Estado. Trata-se, afinal, de o Estado cumprir a «obrigação social» a que está adstrito. Por isso, o campo de actuação da medicina liberal dependerá da maior ou menor eficiência e aceitação dos serviços públicos. De qualquer modo, o seu papel será relevante. (...) Admitimos, pois, como resulta do n.º 2 do artigo 15.º, o recurso dos utentes a entidades ligadas contratualmente ao SNS no caso de impossibilidade de resposta da rede oficial, e até, excepcionalmente, um reembolso directo. Fora dos casos previstos naquela norma, admitimos realisticamente o recurso a entidades privadas que tenham contrato com o SNS, mas o reembolso não poderá representar, neste caso, acréscimo de despesas para o Estado. Assim se concilia o interesse dos utentes, salvaguardando, quanto possível, a sua liberdade de escolha, com os princípios da universalidade e generalidade do SNS. Como disse atrás, a socialização não é a estatização e o que nos preocupa são os interesses dos utentes, únicos destinatários do Serviço Nacional de Saúde. É à luz destes interesses - e não de quaisquer outros - que nos devemos nortear.
Já após a aprovação do SNS, a direita mobilizou-se para que o debate na especialidade esbatesse as fronteiras entre a prática pública e a privada. Mas a questão era sempre minimalisticamente tratada pelo Expresso e sempre de forma depreciativa para o SNS: 

A divisão era entre "os que colocam fronteiras mais vincadas entre a medicina privada e as estruturas estatizadas do SNS"(Expresso, 16/6/1979).
Apenas em Junho, já após a sua aprovação pela Assembleia da República, é que o Expressoaflora a questão, no meio de um artigo e apenas por causa da possível criação de uma plataforma política dos socialistas.
"O SNS e alterações recentemente introduzidas na Lei de Bases da Reforma Agrária têm sido os principais obstáculos à definição de uma plataforma política - e consequentemente a um projecto de Governo entre o PS e os social-democratas independentes" (1ª página, 16/6/1979)
Em Agosto de 1979, a Ordem dos Médicos organiza uma greve ilegal dos médicos, em defesa do fim da exclusividade. Segundo o jornal Expresso, a 23/5/1979, o governo Mota Pinto aprovara o Estatudo do Médico. O governo dera o projecto a ler ao bastonário da Ordem dos Médicos que sugerira modificações, nomeadamente "a possibilidade de os médicos poderem acumular empregos qu pretenderem, horários de trabalho individuais, de modo a facilitar acumulações, incluir todo o tempo de serviço, seja em que regime de trabalho for, para a contagem para a aposentação". Estas alterações modificaram o documento original e as páginas não apareceram rubricadas pelo ministro Pereira Magro, que "não concordara com as alterações". Mota Pinto recebe Gentil Martins, dois dias antes de abandonar o Governo, e Gentil Martins insiste em mais umas modificações. Na véspera de sair, novo encontro, desta vez com o chefe de gabinete, dando conta de que apenas duas das reivindicações não tinham sido acolhidas: indexação salarial automática e classificação numa letra abaixo do pretendido. De resto, ficavam com um estatuto que mais nenhuma classe tinha, levando os serviços do MAS a considerar como impossívis de aplicar (ler mais no artigo que vem acima na foto). O diploma vai assim para Ramalho Eanes assinar. E criou problemas. Os médicos hostilizam formas de luta.  E em Setembro,  MRS escolhe Gentil Martins para a figura da semana, tecendo elogios políticos ao presidente da Ordem dos Médicos, pelas cedências do governo ao Estatuto do Médico - contra "o sindicato considerado conotado com o PCP e que há muito contesta a implantação da Aliança Democrática no seio da ordem dos Médicos" (Expresso, 1/9/1979). Mas nunca, nunca mesmo, se menciona o fundo da questão. Não é isso que interessa a MRS. Nunca foi. A sua vida era outra.  E hoje?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | A outra face da Presidência

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
O presidente da República (PR), que surpreendeu grande parte dos portugueses pela forma descomplexada com que acomodou a solução governativa que havia horrorizado o seu predecessor, pelo estilo pouco convencional com que tem exercido o cargo e, ainda, pela desenvoltura com que se pronuncia diariamente sobre assuntos que são da competência de outros órgãos de soberania, volta a surpreender com pronunciamentos e decisões que parecem revelar uma outra face da Presidência, até agora pouco exposta.
Neste texto vou referir-me apenas a posições assumidas pelo PR a respeito da proposta de Lei de Bases da Saúde, e à decisão de nomear o comentador João Miguel Tavares para a presidência da Comissão das Comemorações do próximo 10 de Junho.
Começo pela Lei de Bases. Pode o presidente estabelecer que partidos devem votar favoravelmente uma lei? Está atribuído às escolhas do PR o dom de garantir a uma lei a credibilidade a adequação e a perenidade necessárias? Não. Compete à Assembleia da República (AR) propor (ou acolher propostas do Governo), discutir e aprovar as leis de acordo com o que a Constituição consagra. E não há forças políticas ou deputados de primeira e de segunda.
Pode o PR anunciar o veto a uma lei, antes de estar discutida? Não. Porque ao fazê-lo exerce pressão ilegítima sobre a AR e oferece o poder de veto a forças que ele posiciona para o poderem usar. O anúncio que o presidente fez configura-se como perigosa birra política ou chantagem. É comum ouvi-lo responder (e bem) a jornalistas que lhe perguntam o que vai fazer com a lei A ou B: "não sei, porque ainda não me chegou e só depois é que a analisarei e me pronunciarei". Por que razão neste caso se nega tão frontalmente?
A matéria é muito importante para os portugueses. O PR deve dar-lhe atenção e tem o direito de exercer a sua magistratura de influência junto do Governo, dos partidos e de outros atores. Mas nos parâmetros constitucionais. Se esta sua chantagem vingasse, iniciar-se-ia um caminho de revisões da Constituição à la carte, a partir das agendas e desejos de presidentes. Por isso deve ser rechaçada sem hesitações e a AR tem meios para o fazer.
A Lei de Bases em vigor foi aprovada em 1990 apenas pelo PSD e pelo CDS. Ela, no geral, permitiu garantir saúde aos portugueses mas, ao longo destes 28 anos, perdeu estabilidade e tornou-se instrumento crescente do depauperamento e sangria do SNS, a favor dos chorudos negócios privados com a saúde.
As posições do PR surgem num contexto que não pode ser ignorado: i) há fortes pressões e chantagens sobre o SNS - algumas camufladas por problemas que o Governo já devia ter resolvido - visando dar campo e força ao setor privado; ii) o CDS afirma esse objetivo e o PSD quer "incentivar o privado"; iii) o presidente, talvez por inspiração divina surgida no Panamá, já introduziu o chipe da (possível) segunda legislatura; iv) a Direita e o centrão de interesses clamam contra a possibilidade (direito e dever) de a atual maioria política, agora ou no futuro, encetar reformas estruturais.
Passemos ao 10 de Junho. Estranhou a muitos a nomeação de João Miguel Tavares (JMT) para presidir àquela Comissão. A estranheza começa a ter substância. JMT fez leituras sobre condecorados do passado e descobriu (artigo, "Público" 31/01) que o mais condecorado de todos se chama Marcelino da Mata e é negro. Daí deduz, com alguns acrescentos patéticos de outrem, que toma como seus, por exemplo, que Portugal não é um país racista. JMT ignora verdades que o incomodam, ao mesmo tempo que amplia e manipula factos e mentiras para sustentar os seus propósitos. Transforma a personagem Marcelino da Mata quase em exemplo.
Cumpri 40 meses de serviço militar obrigatório, 26 dos quais na guerra colonial. Ouvi contar façanhas desse sujeito e de outros do mesmo calibre: alguns dos seus atos configuram-se como crimes de guerra. De JMT pode esperar-se esta surpresa entusiástica por aquela figura ter recebido tantas condecorações entre 1966 e 1973, jamais que estranhe o facto de o militar mais condecorado hoje não ser nenhum dos muitos, honrados e generosos, Capitães de Abril.
Esta nomeação não lembrava ao Diabo e coincide com expressões da outra face da Presidência.
* Investigador e professor universitário

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-outra-face-da-presidencia.html

O percurso estonteante de Marcelo até ao céu

«Um homem é sempre um homem, seja na sua mais simples cidadania ou no exercício da mais alta magistratura. Tem sempre atrás dele um percurso que marca a sua personalidade. A coerência é uma qualidade que distingue aquele que apresenta uma marca indelével daqueloutro que se apresenta aos concidadãos girando em função dos interesses circunstanciais.
Trump, por exemplo, adverte que as suas declarações não são para ser levadas à letra, o seu significado é diferente daquilo que semanticamente se encontra na declaração.
Quando um homem diz, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, que se recandidatará ao cargo que exerce por ser aquele que está em melhores condições para receber o Papa, entra no caminho, tantas vezes condenado nos Evangelhos, da mais pura hipocrisia.
Na verdade, como se pode saber que homem estará em melhores condições para receber o Papa?
O Papa é chefe de Estado e é, segundo o catolicismo, o representante de Deus na Terra.
Vindo como chefe de Estado, o que importa é o que as relações entre os dois Estados saiam reforçadas. Ninguém acreditará que o Presidente da República portuguesa não receba da melhor maneira o chefe de Estado do Vaticano.
Se fosse possível imaginar o Papa em Portugal apenas como mais um católico, quem poderia dizer, sem soberba, quem seria o melhor para receber Francisco? Aquele que mais pudesse oferecer ou quem desse o que tinha, como a viúva referida nos Evangelhos que depositou na caixa das esmolas as duas moedas menos valiosas, mas que eram as únicas que tinha?
Em 2022 realizar-se-ão em Portugal as Jornadas Mundiais da Juventude Católica com a presença do Papa, que serão seguramente enquadradas nas excelentes relações existentes entre Portugal e o Vaticano. Serão um enorme evento, mas não deixarão de ser para o Estado português um acontecimento de caráter religioso. No entanto, a presença de tantas centenas de milhares de jovens e do próprio Papa terá um elevadíssimo significado e, como tal, será devidamente encarado.
A afirmação de Marcelo quanto à sua recandidatura, no momento do anúncio do país escolhido para acolher as Jornadas de 2022, constitui uma argumentação rasteira que exigiria, face à importância do evento, uma outra elevação de espírito.
É algo, em termos de honestidade intelectual, que raia a pouca vergonha, pois o que Marcelo está a querer dar a entender é que ele é o único capaz de receber o Papa... Marcelo confunde o seu beatismo católico com o cargo de PR, o que é muito grave. Habituou os portugueses, ao longo da sua vida política, aos mais estonteantes ziguezagues, ao sim e ao não sobre a mesma realidade, chegando, o ano passado, a fazer depender a sua recandidatura do modo como o Governo resolveria as falhas do Estado... O que lhe chega ao toutiço, às vezes, sai cá para fora.
O facto de Marcelo ser católico não lhe dá nem lhe retira qualquer vantagem quando reunir enquanto chefe de Estado com outro chefe de Estado, neste caso o do Vaticano, e o PR de Portugal deverá pautar a sua conduta nos exatos termos de artigo 41.º da CRP, designadamente o n.º 4: ”(...) As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização”...
Para receber como deve ser recebido o Papa, não é preciso que venha ao de cima a confissão religiosa do chefe de Estado português, basta atentar no modo como Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva os receberam.
Proclamar ser candidato a PR pelas razões expostas é algo muito feio, que convoca o que de mais primário pode haver em quem professa a religião católica e disso quer tirar vantagem.
Só a perda da noção da realidade material do mundo em que vive, substituindo-o por outro mundo virtual, onde o que se passa na cabeça de Marcelo é apenas realidade populista, capaz de o lançar num mergulho no Tejo ou numa viagem de camião, explica o destempero beático de sua Excelência o Sr. Presidente da República.
Um homem capaz das mais variadas artimanhas para continuar a ser o que sempre foi é a marca indelével de Marcelo.»
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Venham beatos e geeks, mas deixem a religião fora da política

Sou ateu, laico, republicano e socialista. Mas nada me move contra a Igreja Católica. Nem contra as outras, desde que tenham mais de 500 anos para lhes conhecermos bem as manhas. Os meus amigos até se divertem com o que acham ser a minha lenta caminhada para Roma. Sou de uma família ateia, parte de ascendência judia, e isso dá-me o desprendimento de quem nada tem para resolver com o seu passado.
Como anda o mundo até tenho uma certa simpatia pela existência de comunidades de fé que não permitam que as pessoas com menor formação moral se entreguem ao individualismo sem norte. E como o que vejo crescer, como alternativa, são igrejas de autoajuda, lideradas por semianalfabetos que fazem da fé um mero negócio – pelo menos de forma mais desbragada do que as igrejas tradicionais –, prefiro a velha Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Segura e previsível. Ainda mais agora que tem um Papa admirável. Não fosse acreditarem em Deus e terem uma certa tendência para se meterem na vida das pessoas, até me convertia. Ou seja, quando deixarem de ser uma igreja e católicos contem comigo.
Deve ser por esta minha atual bonomia com a ICAR que não me choca nada que Marcelo tenha ido ao Panamá para ficar com os louros das Jornadas Mundiais da Juventude de 2022. Se a fé nas startups traz miúdos imberbes para gastarem dinheiro em Lisboa, contribuindo para a economia nacional, não vejo porque uma fé mais antiga não possa dar o seu contributo. Um milhão de jovens beatos não é pior do que milhares de jovens geeks. Religião por religião, sempre prefiro as do livro às do tablet.
A única coisa que realmente me incomoda é Marcelo Rebelo de Sousa ter decidido associar a sua recandidatura a um momento religioso, através de um intimista “saio daqui com uma grande vontade de, se Deus me der saúde e se eu achar que sou a melhor hipótese para Portugal, me recandidatar”. Uma coisa é ir em peregrinação ao Panamá para sacar mais um evento para a nação – é a nossa especialidade. Outra, um pouco diferente, é associar uma decisão política a um ato de fé e uma recandidatura a um momento religioso.
Agora que todo o país se converteu ao politicamente correto, propondo extradições e despedimentos por causa do uso do vernáculo, não quero parecer excessivamente picuinhas. Mas, parecendo que não, anda por cá uma malta que não é católica. E diz que somos cidadãos. Quando Marcelo disse que ia ser o Presidente de todos os portugueses pensávamos estar incluídos. Não estou propriamente zangado. Mas se desse para separar a política da religião, os não católicos, que ainda são uma boa parte da população, agradeciam.
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Marcelo, fé, política e foguetes

«Em 17 de Outubro de 2017 Marcelo disse que a resolução dos problemas que levaram aos trágicos incêndios desse ano seria "um teste decisivo ao cumprimento do mandato". Na prática, o Presidente colocou na capacidade do Governo de resolver todas as falhas do Estado que conduziram à tragédia o alfa e o ómega da sua recandidatura a Belém.
Depois de ter subido a pressão sobre o Governo a este nível estratosférico, Marcelo vem agora anunciar, na prática, que voltará a apresentar-se a eleições. Só que agora há uma diminuição brusca das condições: para o Presidente da República se recandidatar, a condição, como para qualquer coisa da vida, é "ter saúde" e a outra é "saber que não há ninguém em melhores condições para receber o Papa". Entramos num nível quando "ser a melhor pessoa em condições para receber o Papa" se torna um activo eleitoral.
É extraordinária a falta de memória que o Presidente agora mostra da "anterior condição", exposta numa comunicação ao país em Outubro de 2017 e repetida numa entrevista ao PÚBLICO em 8 de Maio de 2018. Há menos de um ano, "se tudo corresse mal outra vez", Marcelo não se recandidataria a Belém. Depois de pôr a repetição do seu mandato dependente da resolução do problema dos fogos, o Presidente agora embarca numa euforia de uma festa católica para anunciar os portugueses que receber o Papa, isso sim, torna-se decisivo.
Está Marcelo agora a ser populista ou já estava quando pôs a condição de não se repetirem os fogos de 2017? Está certamente a ser contraditório ou, pelo menos, esquecido. E nem católicos nem laicos se revêem na instrumentalização de um acontecimento religioso para fazer a pré-abertura da corrida Belém 2021.
Paulo Portas costumava justificar o amplo uso que fazia de uma certa retórica nas margens do panfleto anti-imigração com o argumento de que não podia haver nenhum partido à direita do CDS. De certa forma, ao ir buscar esses temas - como o combate ao antigo rendimento mínimo garantido - tentaria afastar o fantasma do nascimento de um partido de extrema-direita.
Marcelo, que tanto tem zurzido o crescimento dos populismos, parece pensar o mesmo. Uma espécie de "fiquem sossegados, portugueses. O populismo sou eu e ninguém me vai bater neste campo. Eu encolho o espaço disponível". Deve ser mais ou menos isto.»
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Artigo 34º da Concordata: Marcelo reeleito em 2021 para receber o papa

«O Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou este sábado que sai da Cidade do Panamá, onde permanece até domingo para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), com “uma grande vontade” de se recandidatar.


 

“Saio daqui — e amanhã [domingo] admito que mais — com uma grande vontade de, se Deus me der saúde e se eu achar que sou a melhor hipótese para Portugal, com uma grande vontade de me recandidatar”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Questionado sobre o que o faz ter dúvidas, o Presidente português adiantou: “Tenho de ter saúde e tenho de ver se não há ninguém em melhores condições para receber o papa”.

O Presidente português disse ter conversado “várias vezes” com o papa na missa que Francisco presidiu na Cidade do Panamá e à qual Marcelo Rebelo de Sousa participou, concretizando-se o terceiro momento em que os dois chefes de Estado estiveram.

"À entrada reconheceu-me logo e recordámos quando estivemos juntos, nomeadamente em Fátima”, afirmou aos jornalistas o chefe de Estado após a celebração, na basílica catedral Santa Maria la Antigua, no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude que decorrem até domingo na capital do Panamá.

Já no final, o papa Francisco contou-lhe uma história “muito curiosa”, relatou Marcelo Rebelo de Sousa. "À saída disse que tinha tido uma troca de correspondência com o arcebispo Tolentino [Mendonça] sobre dois artigos relativos a Santo António e, a certa altura, nessa troca de correspondência, dizia-se ‘Santo António de Pádua’ e ele acrescentou, ‘de Lisboa, não é de Pádua, de Lisboa’”.

Esse foi o terceiro momento em que o chefe de Estado português esteve com o papa Francisco.

Em 17 de março de 2016, oito dias após ter tomado posse, o Presidente da República viajou para Roma, naquela que foi a sua primeira deslocação oficial ao estrangeiro.

Então, Marcelo Rebelo de Sousa, assumidamente católico praticante, justificou a escolha do Vaticano: “Trata-se do reconhecimento perante a entidade que foi a primeira a reconhecer Portugal como Estado independente”.»

Fonte

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

O PR e o Panamá

(Carlos Esperança, 26/01/2019)

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Quando li que o PR estava no Panamá, pensei que o dom da ubiquidade, atributo de um frade português que a mitologia católica colocou em Pádua e em Lisboa, à mesma hora, no mesmo dia, se repetia agora com Marcelo.

Dado que fujo dos telejornais, para preservar alguma sanidade mental, resolvi consultar o sítio da PR onde, de facto, estava anunciada a deslocação do PR ao Panamá para as XXXIV Jornadas Mundiais da Juventude.

A deslocação a festivais da juventude, de onde o julgava arredado pela idade, levou-me a indagar o que iria fazer ali o PR e a surpresa tornou-se azedume e a deslocação motivo de censura. Não foi procurar os papéis do Panamá que, noutros países, levaram pessoas à prisão, foi participar numa Via Sacra com os jovens, numa missa e assistir à bênção das obras de restauro de um edifício pio.

Se foi a expensas próprias, em merecidas férias, só me cabe respeitar a devota intenção, mas se foi em viagem de Estado fico com a vaga sensação de que desprezou o País laico que representa, num atentado à ética republicana e à neutralidade do Estado em questões religiosas.

Portugal elegeu um PR, não colocou em Belém, apesar do nome do palácio, uma figura do presépio, o sacristão que voa para as missas em vários continentes, um devoto, ruído pela fé, com um tropismo especial para beijar o anel do seu homólogo do Vaticano.

O encontro com jovens peregrinos portugueses não legitima a despesa e abre um grave precedente para encontros com jovens amantes do remo, do berlinde, da Música Pop, da vela, do andebol, do Rock ou da bisca lambida, sem necessidade de se ajoelhar na missa que o Papa Francisco vai dizer no exercício da sua profissão.

É natural que do encontro com o PR do Panamá, Juan Carlos Varela, resultem grandes vantagens para Portugal, mas podia aproveitar quando ele não estivesse ocupado com a receção ao chefe de Estado do Vaticano.

Marcelo, nesta fé que o devora, fere a laicidade e reduz-se a presidente dos portugueses amigos da hóstia e da missa. Parece o enviado da Conferência Episcopal Portuguesa.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Incontinência ou vampirismo?

MRS Televisao

As funções do Presidente da República estão bem definidas nos artigos 120º a 140º da Constituição da República. O que vale dizer que não podem ser inventadas, segundo o gosto de cada íncola do Palácio de Belém.
No quadro político-constitucional o Presidente da República não tem poderes executivos.
Nomeia o Primeiro-Ministro. Pode demitir o governo, dissolver a Assembleia da República e presidir ao Conselho de Ministros, sob proposta do Primeiro-Ministro.
Por isso, o Presidente da República deve deixar o governo governar e só intervir caso considere uma situação verdadeiramente anómala, tanto mais quanto o governo responde perante a Assembleia da República, de onde lhe vem a legitimidade democrática. Tal não significa que não se pronuncie sobre a vida política.
Quando o PR se afirma no exercício do seu mandato opinando sobre as matérias que estão em discussão na ordem do dia, ultrapassando os próprios titulares governamentais, cria distorções no equilíbrio dos vários poderes.
A tendência de aparecer, sobretudo na televisão, todos os dias, muitas vezes para dar conta da sua preocupação com assuntos que não há ninguém de bom senso que não esteja preocupado, cheira a vampirismo político.
Marcelo não pode desconhecer que a vida dos camionistas é dura. A ninguém passará pela cabeça que a vida profissional de um mineiro não é dura. E o mesmo se dirá dos homens que trabalham no fundo das pedreiras. A vida de um padeiro ou de um homem da limpeza das ruas ou das fossas não é pera doce, ou a de um piloto de aviões, pelo grau de responsabilidade.
O Presidente só conhecerá a verdadeira natureza de cada profissão mais dura se passar a fazer uma viagem com um camionista, se descer à mina durante um dia de trabalho, se “pilotar” um avião com um comandante, se passar um dia com um varredor das ruas ou com um limpador de fossas? E só saberá se os coletes amarelos mobilizam muita gente passando na manifestação, sendo notícia? E passando no estabelecimento prisional de Lisboa na altura de protestos quando há notícias em direto?
Quando Marcelo apanha boleia com um camionista alegadamente para chamar a atenção para a dureza da profissão ter-se-á apercebido de quantas profissões estarão em lista de espera? E se se apercebeu vai passar dias, meses e anos (até às próximas eleições) a fazer de conta que é enfermeiro, padeiro, mineiro, trolha, piloto, limpa chaminés, pintor de carros?
O titular do cargo de Presidente da República alertou na sua mensagem natalícia para o perigo do que designou populismo ou posturas eleitoralistas dos partidos, não havendo ninguém que não concorde com a ideia que numa campanha eleitoral a tendência é para facilitar as promessas, sendo certo e seguro que há alguns a prometer que batem todos os recordes …
Marcelo não está a prometer preocupações a mais, bem tendo consciência plena que cabe ao governo tratar do desgaste de cada profissão? Que pretende Marcelo? Levar a cabo um levantamento socioprofissional de cada profissão? Um levantamento sociológico? Ou ser notícia?
É intrigante esta atafona de Marcelo por aparecer diariamente a manifestar as suas preocupações. Não seria mais indicado que nas reuniões com António Costa exercesse com grano salis a sua magistratura de influência? Corre o risco de se banalizar a tal ponto que ninguém se importará com mais um mergulho ou mais uma preocupação ou mais um acompanhamento em direto de qualquer desgraça.
Entre uma rainha, como a da Inglaterra, que quase não fala e um Presidente que não se cala, a virtude está apenas na ida às urnas para eleger o Presidente; talvez, por isso, esta loquacidade marcelina.

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/01/26/incontinencia-ou-vampirismo/

10 de Junho

Quando se soube ontem que o presidente da República tinha designado João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, foram mutos os que brincaram com a dita designação. Passadas umas horas, penso que é bom deixar de rir.
Podemos não dar importância à celebração em causa, mas Marcelo Rebelo de Sousa parece dar-lhe. E se queria sublinhar a importância da comunicação social (porque não?), não se entende os motivos da sua escolha. Não estão aqui em causa opções de esquerda ou de direita, já que há muitos e bons jornalistas em ambas, mas que João Miguel Tavares não é um deles parece ser de consenso largamente generalizado.
Marcelo é culto e inteligente e os motivos para esta escolha restarão insondáveis. Mas eu, que nunca alinhei na teoria segundo a qual o facto de ele ser popular nos defende da entrada do populismo em Portugal, vejo nesta designação «popularucha» uma espécie de provocação e ofensa, sobretudo para os bons profissionais dos órgãos de comunicação social, que tanto precisam de apoio.
Marcelo é perigoso. E há anos que penso, e que escrevo, que só engana menos do que o algodão aqueles que querem ser enganados.
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Leia original aqui

A nomeação

(José Gabriel, 23/01/2019)

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(Portugal, e Camões mereciam melhor sorte, não sendo entregues a um charlatão, a um caluniador direitola sem qualquer currículo digno de louvor. Mas, para Marcelo, este é o tipo de escriba que o país precisa e deve ser destacado.

Mais uma vergonhosa mancha no percurso do “selfie made man”. Já não chegava o beija-mão ao Bolsonaro, agora acrescenta uma vénia a este sacripanta. A Estátua aposta que, não tarda muito,  Marcelo ainda vai tirar uma selfie com o André Ventura, senão mesmo com o Mário Machado.

Comentário da Estátua, 24/01/2019)


Então Marcelo Rebelo de Sousa nomeou João Miguel Tavares para presidir às comemorações do 10 de Junho (Ver notícia aqui).

Acidentalmente, ao tentar confirmar esta notícia – na qual não queria acreditar – topei com o sorridente agraciado ao lado de Rui Ramos, historiador (à sua muito particular maneira). Pensei que, com o popular Emplastro ao lado estaria completa uma boa equipa. Depois, com algum embaraço, admito, achei que estava a ser injusto para este último o qual, para lá das suas obsessivas aparições televisivas, nunca fez mal a ninguém. Marcelo, com esta nomeação, leva a cabo o seu propósito de não deixar vazios espaços que o populismo possa preencher. Ele, – e os seus amigos -, tratam disso. Preenchem que se fartam.

O Dia de Camões tem sido presidido por ilustres figuras. Nem sempre consensuais, mas todas com inquestionáveis habilitações – designadamente académicas. Todos nos lembramos de Jorge de Sena, João Caraça, Sobrinho Simões, Onésimo Almeida e outros.

Finalmente – e, quiçá, pela primeira vez – as comemorações serão presididas por alguém que poderá não fazer ideia de quem são e o que fazem ou fizeram estes seus antecessores.

É o triunfo do comentadorismo rasca, do lixo televisivo e jornalístico! Parece que a intenção de Marcelo é trazer para a ordem do dia os problemas da comunicação social. A escolha de João Miguel Tavares evidencia o que o presidente dela espera.

Aguardamos agora, com natural ansiedade, dados sobre quem se encarregará da animação cultural. Quim Barreiros, Tony Carreira ou o Avô Cantigas? E, espero, nas artes plásticas não serão esquecidos os trabalhos em cerâmica produzidos nas Caldas da Rainha. É preciso manter o nível!

Adenda (com o perdão do nosso Luís Vaz…):

Busque Marcelo novas artes, novo engenho,
para lixar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

10 de Junho? Vai ser assim

Marcelo a exceder todas as nossas possíveis expectativas. E fica aqui um recorte da página da Presidência para não se pensar que é Imprensa Falsa ou notícia do Inimigo Público.
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Leia original aqui

Marcelo surfista na crista do canhão da TVI bateu Macnamara

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Na mensagem de Ano Novo Marcelo convocou os portugueses a participarem nas eleições que se vão realizar este ano, destacando o seu significado mais profundo em termos de escolhas para o futuro.
De facto, em 2019 realizar-se-ão três atos eleitorais. Seria adequado, dado que as próximas são já em maio, que os partidos políticos, os media e os portugueses estivessem minimamente interessados nos programas e ou propostas dos que serão candidatos. Ainda mais incentivados pelo vibrante apelo do PR.
Os portugueses, no início deste ano, já tinham sido sacudidos da sua letargia decorrente das festas natalícias por uma tempestade de ideias que jorraram da entrevista da TVI a Mário Machado, especialista em mecenato, e da esperada e desesperada estreia na SIC do programa da Cristina Ferreira, após as suas férias de sumptuoso luxo nas Maldivas.
A nossa Lady Di escolheu para a glamorosa estreia o inebriante Luís Filipe Vieira que se apresentou bem-disposto a jogar à bisca com a senhora.
E para que ninguém tivesse dúvidas acerca da importância daquele conclave a dois, juntou-se via telefone Marcelo que intervalou no meio de uma reunião para desejar as maiores felicidades à fugitiva da TVI.
Em boa verdade qualquer reunião (salvo se outros forem os regulamentos) é passível de um intervalo.
Aceita-se assim que Marcelo intervale. Como não fuma, dado o seu frenesim, aceita-se também, em ano com três eleições, que ele, na esteira da sua mensagem de Ano Novo, entre nas discussões relevantes, não tivesse deixado sozinhos os dois grandes pensadores da manhã da SIC.
O programa foi marcado por uma revelação totalmente inesperada – a promessa de Luís Filipe Vieira de ter um novo treinador que poderia ser Mourinho que só o soube pela imprensa. Explicou a mágoa pelos lenços brancos e, qual adivinho, augurou que os benfiquistas ainda se vão arrepender de ele (Vieira) ter mandado o Vitória para as areias quentes da Arábia Saudita. E deixou implícita a sua recusa em tornar definitiva a escolha provisória.
No outro canal Luís Goucha bem se tinha esfarrapado para passar a perna à Cristina ,tendo levado para o seu “programa” Mário Machado, conhecida personalidade do mundo da bondade, repleto de condecorações conferidas nas prisões por onde passou dada as opiniões controversas de sua autoria.
O ano tinha terminado (lembram-se?) com Marcelo a alertar para os perigos das disputas eleitoralistas e populistas, e começou o novo com o apelo ao debate sereno e cívico para defender o regime democrático.
Ora aqui estamos nós entre a SIC, TVI, RTP e CMTV ungidos por grandes debates acerca das condições em que os portugueses vivem, a importância do Parlamento europeu, as consequências do Brexit, o futuro da geringonça e as escolhas da Madeira.
O que vale o anúncio de três ou quatro novas estações de metro em comparação com a nova cláusula de rescisão de Eder Militão? Ainda se António Costa seguisse o conselho de Assunção Cristas e mandasse abrir vinte novas estações de metro…Resta-nos a saga da luta mortal entre Montenegro(nome de espadachim) e Rio, o conciliador.
Razão tinha Marcelo na sua mensagem…“Debatam tudo, com liberdade… Podemos e devemos ter a ambição de dar mais credibilidade, mais transparência, mais verdade às nossas instituições políticas. Para que a confiança tenha razões acrescidas para se afirmar… “Et voilá, os grandes debates em curso, animados pelo mais alto magistrado da nação, mostram que a SIC, a TVI, a RTP e a CMTV, estão atentas. E daí esperar que continuem a levar grandes figuras aos seus écrans, muito futebol, a vida sexual e luxuosa dos famosos e seus escândalos, a explicação dos crimes, e muitos beijinhos de felicidades. Sem televisão os portugueses não saberiam escolher. Sem Marcelo que seria do surf? Bem hajam no país de tantos basbaques.

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Ciúmes

(Por Estátua de Sal, 10/01/2018)

ciumes na presidencia

Imagem in Blog 77 Colinas

Se pensavam que as afirmações mais polémicas e  virais dos últimos dias terão sido proferidas pelo Trump, pelo Bolsonaro ou por outro qualquer lunático no poder, desenganem-se. Vieram de um escritor francês que ousou dizer-se incapaz de gostar das  mulheres de cinquenta anos, preferindo as mais novas (ver entrevista aqui).

Não sendo tal opinião inédita ao longo da História, nem sequer inédita ao nível da literatura, não percebi muito bem qual a razão para tanta polémica. Afinal, eu até tinha um amigo – psiquiatra de profissão, já falecido -, que dizia, meio jocoso, meio cínico, que depois dos dezasseis anos as mulheres são todas velhas, e tentava fundamentar a blague,para espanto dos auditores, com uma lista de dados fisiológicos que debitava do alto da sua autoridade médica. Para já não falar da atracção que muitos sentem pelas muito jovenstendência retratada por Vladmir Nabokov no polémico romance, Lolita, envolto durante muitos anos numa névoa de escândalo e por isso censurado.

Mas que relação haverá entre o desassombrado escritor e o Professor Marcelo, além do facto de Marcelo ter também, nos últimos dias, sido o centro de uma polémica aguda, depois de ter entrado em directo, via telefone, no novo programa de Cristina Ferreira na SIC?

É que, Marcelo trocou a Tia Judite já cinquentona  – mas com quem mantinha uma evidente cumplicidade, criada ao longo de anos de convívio dominical no seu espaço de comentário na TVI -, pela Cristina Ferreira, agora na SIC, muito mais viçosa e apelativa.

A Tia Judite deve estar mesmo despeitada, ciúme à flor da pele, e o despeito e o ciúme são coisa grave nos humanos, e nas mulheres, talvez ainda, coisa mais séria.

Escusam, pois, de tentar encontrar fundamentos políticos, enredos maquiavélicos, amizades reatadas com o Dr. Balsemão, ou outras quaisquer outras motivações arrevesadas para explicar o telefonema de Marcelo para a Cristina.

A explicação é mais prosaica. Contrariamente ao Macron – que se baba pelas cinquentonas -, o Marcelo é da escola do Yann Moix, o tal escritor francês e são as mais novas que o desinquietam.

Isto é, a Judite já está entradota, demasiado pintalgada, a tentar esconder que está a perder o viço, enquanto a Cristina está esplendorosa e criativa propondo-se aumentar com denodo a sua conta bancária e de passagem a do Dr. Balsemão.  É a vida.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A falta de gravitas de um inveterado populista

Durante a campanha presidencial, que levaria Marcelo Rebelo de Sousa a ocupar o cargo de mais alto magistrado da nação, uma das previsões que fazia era a da sua evidente falta de gravitas correspondendo esta a uma conduta enobrecedora da função e não a da sua descaracterização como se fosse mais uma a acumular-se-lhe no currículo enquanto professor universitário, jornalista ou comentador televisivo. O presidente não deve ser um sujeito comum, que se faz passar por bonacheirão para manter elevados níveis de popularidade, porque, em situações de crise, mais não conseguirá fazer do que carpir lágrimas abraçado aos desgraçados, ou lançar culpas para ombros alheios, traço de personalidade que lhe é, aliás, bem costumeiro. Pior ainda não deve parecer estar com o governo em tudo quanto este efetivamente faz de positivo pelo país e pelos cidadãos - como se nisso tivesse tido qualquer intervenção! - e se apresse a criticá-lo viperinamente em todas as ocasiões difíceis em que a herança de negligências passadas vem recair sobre quem sobre elas pouca responsabilidade tem.
O candidato que apoiei - António Sampaio da Nóvoa - tinha essa capacidade de inspirar confiança na forma como analisava a realidade para além da grelha de trivialidades e da fértil intriga, que Marcelo sempre personificou, e como visionava o futuro do país muito para além do que lhe ditavam as aparências do presente.
Infelizmente o país ficou a perder com a escolha que fez e daí se explique, afinal, que tenhamos como presidente quem considera Jair Bolsonaro como um «irmão» ou quem diz interromper uma reunião importante para telefonar a uma apresentadora televisiva ao sabê-la estreante no canal para onde se mudou a troco de avultado prémio.
Falso crítico do populismo, Marcelo é-o diariamente, desde que se levanta até que se deita, e por isso não vê óbice em tomar essas atitudes e muitas outras, que se vêm acumulando em lamentável sucessão nestes quase três anos de mandato.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/a-falta-de-gravitas-de-um-inveterado.html

Senhor Presidente, não havia necessidade

(Anselmo Crespo, TSF.PT, 07/01/2019)

marcelo cristina

Não havia necessidade mas ele está em todas – Imagem in BLOG 77 Colinas

Tenho o maior respeito por Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo professor, pelo político, pelo comunicador, e, mais recentemente, pelo Presidente da República. Tenho elogiado várias vezes o papel importante que ele tem tido desde que chegou ao Palácio de Belém. Durante a tragédia dos incêndios em 2017, no caso do assalto a Tancos e na forma como tem exercido a sua magistratura de influência junto do Governo, da Assembleia da República e do País.

Nunca me juntei aos que o criticam pelo estilo mais popular – ou popularucho, conforme os casos. Pelo contrário. Acho que ele percebeu cedo que o país precisava de um Presidente diferente no conteúdo, mas, sobretudo, na forma. E ninguém melhor que Marcelo para interpretar e saber equilibrar-se nesse limbo da política, que tanto pode atirar para níveis de popularidade avassaladores como pode fazer cair no ridículo e no descrédito.

A popularidade tem sido, de resto, a principal arma política de Marcelo Rebelo de Sousa. Deu-lhe, até hoje, o crédito de que precisava para poder “demitir” uma ministra em direto na televisão. Para forçar o Governo a fazer o que não queria. Para evitar males maiores na manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Isto só para citar alguns exemplos.

Admito que a omnipresença do Presidente primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas a verdade é que esta estratégia do Presidente da República tem produzido resultados positivos, para o país e, claro, também para ele. Aristóteles dizia que a função principal da política era atender aos interesses dos cidadãos e Marcelo – ainda que nem sempre isento de erros – tem-no feito.

Mas há um lado de superstar – que as suas participações televisivas terão exponenciado – que confesso que me faz alguma confusão. Não porque Marcelo Rebelo de Sousa não tenha todo o direito de o cultivar. Mas porque ao Presidente da República cabe também um papel institucional, que se perde de cada vez que o banaliza.

O telefonema para o programa de Cristina Ferreira, esta semana, está longe de ser uma coisa inédita. Em fevereiro de 2017, Marcelo já tinha pegado no telefone para dar os parabéns ao diretor da Rádio Comercial, em direto. Fátima Lopes agradeceu-lhe, também em direto, o telefonema que recebeu depois do divórcio. A diferença, desta vez, é o contexto e só por isso decidi escrever este texto. A chamada para Cristina Ferreira surge depois de o programa concorrente – apresentado por Manuel Luís Goucha – ter levado a estúdio um criminoso fascista chamado Mário Machado, provocando com isso uma polémica daquelas boas, que dão audiência. Falem bem ou falem mal, mas falem. E, sobretudo, vejam.

Ao tomar a iniciativa de ligar para Cristina Ferreira para lhe desejar boa sorte para o novo programa, o Presidente da República não só entrou nesta guerra de audiências, como permitiu que daqui se extraíssem conclusões – porventura erróneas – de que o mais alto magistrado da nação estaria, indiretamente, a tomar posição sobre o convite que a TVI fez a Mário Machado.

Marcelo veio, entretanto, explicar que quis compensar a apresentadora da SIC por não lhe ter dado uma entrevista, como havia feito com Manuel Luís Goucha há umas semanas. Mas a explicação é, em si mesma, a prova de que não devia ter feito aquela chamada. É, em primeiro lugar, a demonstração de que muita gente não compreende como é que um Presidente da República se presta a este papel. Em segundo lugar, porque o país e o Presidente têm assuntos muito mais importantes com se preocupar do que perder tempo com explicações sobre telefonemas para programas de entretenimento.

E, por fim, porque Marcelo Rebelo de Sousa pode e deve fazer as chamadas que quiser, dar os parabéns, desejar boa sorte, feliz Natal ou fazer votos de bom ano a quem quiser que ninguém tem nada a ver com isso. Mas sempre que opta por não o fazer em privado, mas em direto, é o Presidente da República que o está a fazer. Por muita popularidade que isso lhe granjeie, não havia necessidade.

Confesso que não consigo evitar algum sentimento de vergonha, que não alheia, ou não fosse Marcelo o Presidente de todos os portugueses.


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Bolsonaro, seu irmão? Ele mesmo?

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A ideia de Marcelo ir à tomada de posse de Bolsonaro podia ser boa, mas foi péssima. Bastou passar dois ou três dias para ver que, apesar da “irmandade”, a ida foi um espalhanço monumental, uma daqueles falhanços que não é do Estado, mas sim exclusivamente do detentor do mais alto cargo político em Portugal.
Marcelo está habituado a lidar com o que se pode chamar uma agenda de superficialidades: aparecer preocupado com as situações alarmantes; rejubilante com as vitórias desportivas; ternurento com os infelizes; insinuante com os desafios eleitorais; superdesportivo a dar mergulhos em praias marítimas e fluviais; e sempre, sempre pronto para dar afeto, um primor, o special one…
A vontade de transformar vinte minutos (o tempo que o capitão Presidente lhe concedeu) numa vitória diplomática é um absurdo gritante. Houve um quinto tema – a visita de Bolsonaro a Portugal (que duvido que se concretize).
Ora vinte minutos, onde tratou de cinco temas- a comunidade portuguesa no Brasil, a comunidade brasileira em Portugal, as relações entre Portugal e Brasil a CPLP e a visita a Portugal de Bolsonaro, a dividir por cinco temas dá quatro minutos, o que significará que cada Presidente deverá ter falado entre dois minutos por tema, caso algum deles não se tenha remetido ao silêncio …
Ora esta reunião …”formal e substancialmente boa entre irmãos”… não pode deixar de ser vista, em termos meramente político-diplomáticos como um espalhanço monumental e daí a necessidade de Marcelo substituir factos por uma conclusão.
O que disseram (se é que disseram) é segredo, mas em todo o caso o mais importante foi a tentativa frustrada de Marcelo arengar que não podia ser melhor, chegando ao cúmulo de se lembrar que as reuniões entre irmãos são rápidas… talvez pairasse já na sua inteligência política o falhanço da ida assistir à indecorosa tomada de posse do Brasil por parte de Bolsonaro e seus capangas e que tresandava às alfurjas do fascismo.
Se dúvidas houvesse dissiparam-se, pois ainda Marcelo mal tinha aterrado em Lisboa e Bolsonaro dava o tiro de partida para a caça às bruxas no aparelho do Estado, os simpatizantes de partidos de esquerda vão ser despedidos … assim, por serem de esquerda. Os apoiantes da ditadura podem ficar, não são políticos. Os filhos vestem azul e as filhas rosa.
Salazar na sua odienta perseguição aos comunistas instituiu uma famigerada fórmula para assegurar a tal educação limpa, sem ideologia, que consistia na última pergunta aos candidatos a professores: Qual a razão do erro do comunismo? A resposta: o comunismo está errado devido ao egocentrismo da criança…
Ora como se vê esta é a educação limpa, sem vestígios de ideologia, que vigorou em Portugal nos tempos de Salazar e que Bolsonaro quer ressuscitar.
Ainda não se tinha recomposto da viagem e, no Brasil, Bolsonaro atacava os tribunais de Trabalho porque o cavernícola entende que para o trabalhador não há direitos laborais.
Quem se mete aos sorrisos com candidatos a ditadores fica mal visto. E se lhe chama irmão…
Como pôde Marcelo, Presidente de uma República laica, democrática, considerar irmão Bolsonaro que coloca Deus, no plano institucional, acima da Constituição, e tem no seu governo éne evangélicos, como um verdadeiro jiadista evangélico? E que acha que cada brasileiro deve ter duas armas? E que não houve ditadura no Brasil, nem tortura… Que falhanço, meu irmão.

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/01/08/bolsonaro-seu-irmao-ele-mesmo/

Quem é mais famoso: A Cristina ou o Marcelo?

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Todo o mundo sabe o quanto Marcelo se sente atraído pelos famosos, talvez porque tenha aceite o desfio introspectivo de se considerar o mais famosos de todos os famosos.
Tem parecenças com a Cristina Ferreira nos pinchos que dão; nos guinchos ganha ela.Nos pinchos ganha ele, apesar da idade.Ele está em todo olado a toda hora. Omnipresente.Cristina é mais de ir para paraísos de luxo e que ela entende deverem ser mostrado na suas contas. No fundo ela pensa que se não os mostrar ela não esteve lá. Só esteve porque os exibiu…É um modo de ser.
Uma famosa para o ser tem de exibir e exibir.
Pensemos em grande e interroguemo-nos: Que seria dos portugueses se a famosa da Malveira não mostrasse o luxuoso quarto onde dormiu nas Malvinas? Uma pasmaceira.
Marcelo não pode competir a esse nível. Já teve uns tiques com o Tio Ricardo Salgado a caminho das terras de Vera Cruz. Agora o mundo da presidência requer outra arte. Tem de ganhar nos afetos, nas preocupações e nas surpresas.
Quem havia de imaginar que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, ligaria de cima da sua “potestas” para dizer:- Olá Cristina, sabe quem fala? É o Marcelo, o Presidente, não me esqueci de si, e para que o Goucha não pense que o mar é só água, aqui estou eu a ligar para a SIC. Para mim SIC e TVI sempre. Aliás já avisei o país que lhe liguei, esteja descansadinha. Eu bem vejo a sua emoção; dê um abraço ao Filipe Vieira e já agora transmita-lhe se faz favor que um dia destes apareço na Catedral para lhe dar um abraço e ao barbas.Beijinhos, olhe diga-lhe que é melhor ao pé da Estátua do King.
Marcelo é quem é e não se imagina noutro lugar que não seja na primeira fila à frente, o mais famoso.Congemina a cada instante o instante que se segue; não falha.Ninguém o segura. Nada o detém. Nem o lado escuro da Lua. Já se ofereceu ao Presidente chinês para tripular a próxima nave.

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/01/07/quem-e-mais-famoso-a-cristina-ou-o-marcelo/

Deus deve estar zangado

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/01/2019)

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1 Custa-me muito, como cidadão do país de que Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente, olhar para a fotografia em que ele está em “fraternal confraternização” com o novo Presidente brasileiro, o Messias Bolsonaro. Sim, eu sei… já lá vou, adiante e em baixo. Mas não era preciso exagerar, não era preciso que o nosso Presidente viesse com a lengalenga do “tom fraternal” e do “encontro de irmãos”. Bolsonaro não é meu irmão, o Brasil é que é.

E se bem que ele represente legitimamente o Brasil, visto que foi eleito para tal, não é nesse Brasil que eu encontro o país irmão que me habituei a amar. Assim como o Brasil não reconheceria como país irmão um Portugal presidido por um Mário Machado. Este Presidente brasileiro é o homem que se tornou conhecido porque ao votar o impeachment da sua antecessora, Dilma Rousseff (por uma suposta irregularidade na execução orçamental, transformada pela oposição em crime constitucional), o fez em homenagem ao coronel da polícia política que na ditadura militar a havia torturado. Uma coisa é representar um país, outra coisa é merecer representá-lo. Não foi por acaso que, tirando o fascista húngaro Viktor Orbán, Marcelo foi o único chefe de Estado ou de Governo europeu presente em Brasília, na posse do Presidente do 7º país do mundo.

Não passou assim tanto tempo para que os portugueses não reconheçam um fascista quando o ouvem falar e quando observam os sinais e os rituais de que se rodeia. Honra lhe seja feita, Bolsonaro não disfarçou coisa alguma: no seu discurso de posse disse exactamente ao que vinha, as suas ameaças foram claras, o seu instinto de ódio e perseguição, em nome de Deus e da “cultura judaico-cristã”, foi tão óbvio que não há disfarce possível. Antes assim: mais tarde, num futuro que só por sorte não será tenebroso, ninguém poderá dizer que foi ao engano. Não é por ser evangélico, por repetir à exaustão o mantra de “Deus acima de todos”, que o fascismo se torna cristão. Pinochet, Franco, Salazar eram todos devotos católicos e também eles gostavam de invocar o nome de Deus em vão — que, como se sabe, é pecado que brada aos céus. Não é por esgrimir a fé contra as “ideologias” — isto é, contra as ideias, contra a liberdade de pensamento — que o programa político de Bolsonaro deixa de ter a sua própria e sinistra ideologia. E é por isso que o ministro da Educação, indicado directamente pelos evangélicos, tem como tarefa limpar “o lixo ideológico” das escolas e servir às criancinhas a fé evangélica — esse embuste religioso inventado à medida de um país com largas camadas da população semianalfabeta. Se isto não é todo um programa político e ideológico, em tudo semelhante ao das madraças islâmicas, é só porque há quem o não queira ver.

2 Quando, na manhã seguinte à posse do Presidente brasileiro, Marcelo se sentou com ele, já Bolsonaro dera andamento, na própria noite da posse, a um dos mais controversos projectos do seu Governo: começar aos poucos a roubar as terras indígenas na Amazónia para as entregar aos fazendeiros de gado e cereais. É parte da política dos três B, que é a essência do seu programa e a raiz da composição do seu Governo. O B da bíblia já acima falei; o B da bala virá já de seguida com a legalização da posse de armas, um grande negócio para os respectivos fabricantes e vendedores; e o B do boi é o projecto de ocupação da Amazónia, liderado pela ministra da Agricultura, saída da bancada dos “ruralistas”. Neste campo, a primeira medida foi a extinção na práctica da FUNAI, a Fundação Nacional do Índio, um organismo governamental que geria há 50 anos todas as terras que a Constituição brasileira reserva para ocupação exclusiva dos povos indígenas e todos os assuntos relativos a eles, passando a integrar as terras e as competências na alçada do Ministério da Agricultura; ou seja, entregando-os na boca do lobo. A justificação do Presidente é que a FUNAI e as ONG presentes no terreno não faziam mais do que roubar. Pois agora, que é de temer que os índios e o próprio ar que respiramos venham a ser roubados a sério, sinto o dever de testemunhar que foi graças à FUNAI que, 30 anos atrás, pude passar uma semana com uma equipa de filmagem da RTP entre uma tribo dos Caiapós, inclusive disponibilizando-nos uma avioneta, que nos depositou e foi buscar no meio da selva. E o tipo da FUNAI que lá estava a roubá-los era um jovem advogado de boas famílias do Rio de Janeiro, que ali vivia, longe de tudo o que era o seu mundo de origem e em condições terríveis, porque se tinha apaixonado pela causa dos índios da Amazónia. Suponho que doravante seja muito difícil, senão impossível, a qualquer jornalista estrangeiro viver a experiência incrível que eu vivi. E isso, temo também, é apenas parte de muitas outras coisas que se podem perder daqui para a frente e sem as quais o Brasil pode ser um país elogiado por Trump, por Orbán ou por Netanyahu. Mas não será o mesmo Brasil.

3Pois, foi o povo que escolheu. E o povo é soberano — para o bem e para o mal, para meu gosto ou para meu desgosto. Porque a democracia é o único sistema político em que o cavalo de Tróia pode concorrer nas urnas e, eventualmente, destruí-la por dentro e com as suas armas. Mas, por favor, não me venham dizer que de um lado estão os intelectuais, os artistas e a imprensa e do outro lado está o povo. E, então, onde é que isso é motivo para celebrar? Onde é que isso deu bons resultados?

4 É discutível se Marcelo deveria ou não ter ido a Brasília. Consigo perceber e aceitar relutantemente os argumentos a favor da viagem. Relutantemente, mas enfim. O problema está no enfim: porque Marcelo, sem nunca o fazer ostensivamente, conduz uma agenda de visitas externas e convites internos que, mesmo se em concertação ou tacitamente aceite pelo Governo, é demasiado “à Marcelo”, demasiado frenética e às vezes talvez pouco ponderada. Não descansou enquanto não pendurou no cinto os ten big — do Papa a Trump, da Rainha de Inglaterra ao Presidente de França, muitas vezes dando a sensação de que, mais do que esperar por um convite, se fazia convidado. Mas, não contente com isso, ele vai e logo convida, pondo toda a gente — os portugueses, pelo menos — perante o facto consumado. Por isso, quando o vi avançar para Brasília, temi que mais uma vez ele não se contivesse sem convidar Bolsonaro para nos visitar oficialmente. Dito e feito: não resistiu. E, ao fazê-lo, é bem possível que o seu voluntarismo nos tenha arranjado um sarilho diplomático. De facto, há fundadas razões para prever que Bolsonaro seja mal recebido em Portugal, ao nível da rua e ao nível das instituições. Ao nível da rua porque, como disse, passou ainda pouco tempo para que uma parte substancial dos portugueses aceite tranquilamente ver um fascista desfilar com honras de Estado pelas ruas do país. Ao nível institucional porque basta pensar no que poderá suceder na Assembleia da República: se se achar mais prudente não o levar à Assembleia, será um insulto para ele; se for e sair maltratado, insulto será; se for ele a cancelar, vem a dar no mesmo, é o reconhecimento de que não é bem-vindo. Seja qual for o desfecho, não me parece que, como dizem os brasileiros, Bolsonaro seja homem de levar desaforo para casa. E o que acontecerá então às “fraternas” relações luso-brasileiras? Será que Marcelo pensou nisso ou achou que a sua popularidade tudo consegue ultrapassar?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Quando se manda no EStado e se atiram as culpas para costas alheias

Uma das notícias de hoje foi a da morte de seis passageiros de um comboio dinamarquês atingidos por objeto desprendido de outro com que se cruzara na travessia de uma ponte.
Não se viu aparecer o rei em pontas de pés a sugerir a culpa do Estado como forma de, cobardemente, imputar manhosamente a culpa ao primeiro-ministro.
Sorte teve António Costa em que o caso não tenha ocorrido em Portugal, porque logo teria Marcelo, em tom condoído, a sacudir a água do capote - ele que é o Chefe do referido Estado - a endossar-lhe rival a responsabilidade pelo sucedido, esperando ver-se logo acompanhado pelo coro de Cristas e de Rio, que se lhe colam o mais possível por nada mais terem que replicar.
E ainda há quem não acredite na preocupação doselfieman em atacar o governo sempre que para tal encontra ocasião! Raramente com alguma razão, quase sempre manipulando a verdade para que a pareça ter.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/quando-se-manda-no-estado-e-se-atiram.html

Por quanto tempo perdurarão os efeitos das papas e bolos?

Através da sua habitual mediadora de mensagens no «Expresso» (Ângela Silva), Marcelo Rebelo de Sousa lamentou-se de não vir a ter tanto sossego quanto esperaria de um ano eleitoral como o de 2019, quando a assertividade do governo para com as exigências corporativas tenderia a ser maior. Como sempre Marcelo quer aparentar dizer uma coisa, mas significar realmente outra. Hábil no exercício de manipulação das mentes alheias, ele está a confirmar o que as esquerdas podem dele esperar: um intervencionismo político constante para dificultar tanto quanto possível a maioria absoluta do PS e, ainda de acréscimo dificultar uma maioria de esquerda. O que ele quis dizer foi precisamente isso: um presidente da República costuma adotar um justificadolow profilnos anos eleitorais, mas avisa, desde já, não estar disposto a fazê-lo.
E, de facto, como poderia Marcelo deixar de ser Marcelo se não vê óbice em acusar os partidos por estarem demasiado precocemente em campanha eleitoral, apesar de, desde o primeiro dia em que tomou posse ele nunca ter feito outra coisa?
De hoje, há também a referir o artigo de Rui Tavares no «Público» em que o historiador dá-nos a conhecer uma Lei, dita de Sayre, segundo a qual“em qualquer debate a intensidade dos sentimentos é inversamente proporcional à relevância dos valores em causa”.Por isso mesmo, se nos dermos ao trabalho de folhearmos jornais com dois ou três meses de atraso, constataremos facilmente quão irrelevantes se tornaram questões nessa altura tidas como de grande impacto emocional no imaginário coletivo dos seus leitores. Com Marcelo acontece muito isso: nada de importante resulta da sua multiplicação deselfiese de abraços, nada o país ou os seus cidadãos ganham com essa permanente gestão de imagem de um presidente, que se quer fazer passar por simpático ou inteligente, e esconde na sua mente a perfídia com que ajusta as suas estratégias de acordo com a fria análise dos seus objetivos. Que são evidentes, quando ele lamenta que o orçamento não tivesse contemplado reduções de impostos para os patrões ou ameaçado vetar a Lei de Bases da Saúde se não vier a contemporizar com os lautos negócios dos interesses privados. Mas tudo aponta para que, multiplicando-se em intervenções sibilinas, Marcelo continue a enganar os tolos com substitutos das papas e bolos.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/por-quanto-tempo-perdurarao-os-efeitos.html

Um populismo, que serve para defender os interesses dos do costume

Um antigo colega de liceu costuma ficar muito irritado quando aqui vou elencando as razões para considerar que Marcelo Rebelo de Sousa é um péssimo presidente, e que os portugueses nada lhe têm a agradecer pelas evidentes melhorias na sua qualidade de vida nos últimos três anos - apenas mérito do governo e dos partidos da maioria parlamentar! - masapesar do que o inquilino de Belém vem fazendo para o impedir.
- Lá estás tu com a tua obsessão com o Marcelo! - costuma dizer-me.
O que tenho contra Marcelo não é apenas ter privado o país de ter como seu superior representante uma personalidade com as características cívicas e intelectuais de António Sampaio da Nóvoa. Se a Primeira República teve em Manuel Teixeira Gomes um exemplo de como o país maltrata os seus melhores expoentes, a que agora vivemos desperdiçou a oportunidade de contar com o atual embaixador na UNESCO.
Razões maiores me tem dado Marcelo nos últimos dias para execrar-lhe os atos e confirmar o que aqui tenho reiterado: não só dele não saiu qualquer proposta que contribuísse para melhorar a governação e ter efeito concreto na vida de quem quer que seja - pela função não tinha que o fazer, mas não tem de agir como se isso lhe estivesse nas competências! - como também vem demonstrando a razão de se ter candidatado e ganho a Presidência da República: não está no cargo para fazer o que quer que seja, mas paranão deixar que o decidido pelo governo possa colidir com os interesses de quem o tem como sua marioneta.
Quando avisa o governo que não promulgará a nova Lei de Bases da Saúde se ela beliscar os lucros dos grupos económicos, que dela fazem indecoroso negócio, atua inequivocamente em prol dos grupos Mello, Luz, Lusíadas ou Trofa. E o escândalo até é maior, porque nem esperou pela discussão do novo diploma na Assembleia da República para definir, extemporaneamente, qual a linha vermelha a não querer ver ultrapassada.
O mesmo se passou agora com a questão da composição do Conselho Superior da Magistratura. A autonomia dos juízes até seria um valor inquestionável se não tivessem ocorrido dois factos, que a tornam problemática: não só essa classe profissional prescindiu objetivamente de ser respeitada como órgão de soberania ao reivindicar direitos sindicais, como deixou de se assumir como, em tantas sentenças, fiel da balança entre os argumentos da defesa e os da acusação, colando-se acriticamente a esta última. Para os cidadãos portugueses a judicialização da política é um perigo tão grave quanto o da financeirização da sua economia. E, no entanto, quando Rui Rio e Jorge Lacão tentaram devolver alguma transparência ao órgão superior de gestão e disciplina dos juízes, logo Marcelo botou faladura para manter as coisas tal qual estão, e que tão bem têm servido os interesses de políticos de direita muito justamente suspeitos em casos de corrupção.
Para cumprir esse papel de defesa dos interesses dos que anseiam por melhor explorarem os portugueses e limitar-lhes os direitos fundamentais, Marcelo usa e abusa do comportamento populista, distribuindo beijos, abraços eselfies.
É nesse sentido que se compreende o encontro de ontem com os camionistas de uma associação fascistoide, que teriam dado sinais de colaborarem com a arruaça prevista para amanhã.
Ao «Expresso» um tal Fernando Frazão, que parece dirigir esse gangue, reconhece ter tentado há pouco tempo impedir a entrada em Lisboa pelo lado de Alverca, contando para tal com a promessa de quatro mil colegas e, afinal, só dezasseis compareceram ao chamamento. Provavelmente os que ontem se juntaram a Marcelo numa comezaina, que serviu os propósitos de quem deles se fez convidado. Ocorre, pois, perguntar: porque terá Marcelo querido dar-lhes tal publicidade? A leitura é óbvia: adivinhando o fracasso da programada assuada, Marcelo aproveitou para dar a impressão de ser ele quem tem o poder para travar os protestos contra o governo.
Os incautos, como aquele antigo condiscípulo de que falei no início, pensarão: lá esteve o Marcelo a dar uma mãozinha ao António Costa para que as coisas não se agravem contra ele. Quando, na realidade, repetindo a conduta maquiavélica que lhe é própria, Marcelo quererá aparentar apoio a um governo, cuja ação tudo faz por sabotar.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/um-populismo-que-serve-para-defender-os.html

Marcelo convidou Cavaco para um funeral nos EUA

(Carlos Esperança, 05/12/2018)

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“O antigo Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, representa amanhã [quarta-feira] Portugal em Washington, nas cerimónias fúnebres do antigo Presidente Estados Unidos da América, George H. W. Bush, a convite do Presidente da República e com o acordo do governo”, referiu ontem uma nota no site da PR portuguesa.

Todos sabemos que, sem concordância do Governo, que tem a exclusiva competência da política externa, não era possível o convite. Aliás, não vai representar Portugal, mas o Governo, e ninguém, melhor do que a múmia para fazer de gato-pingado num funeral.

Penso que é mais um ato de humor de Marcelo para compensar o constrangimento de se ter deixado babar, em público, na presença do presidente chinês.

O azougado PR que, no dia em que o substituiu, lhe atribuiu o mais alto grau da Ordem da Liberdade, um ato de humor que só tem paralelo na Universidade de Goa, quando o elevou a ‘Doctor Honoris Causa’… em Literatura, acertou no convidado.

O doutorado levou tão a sério o doutoramento em Literatura que não mais parou de publicar ‘Roteiros’ e ensaios políticos sobre as quintas-feiras e outros dias.

É de crer que Cavaco esteja hoje nos EUA e decerto não fará mau lugar junto do morto. Depois regressa ao sarcófago onde redige memórias que ninguém pode comprovar, e a que alguém há de corrigir a ortografia e a sintaxe.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

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