Jovens

Portugal | Os jovens não são inconscientes. São jovens

 
 
Inês Cardoso | TSF | opinião
 
Começámos o tempo de estranheza que vivemos a olhar para os mais velhos - e por vezes a policiar os seus passos e saídas à rua. Nos últimos dias o olhar virou-se para os jovens e temos ouvido sucessivos apelos para que respeitem as regras de isolamento social. Já no fim de semana, Marcelo Rebelo de Sousa pediu mais contenção, referindo-se a festas em que os jovens não pensam no risco que julgam não correr. 

Também a ministra da Saúde realçou o aumento de contágios entre os jovens adultos, admitindo ser necessário reforçar a comunicação com esta faixa. Vão sendo divulgadas operações policiais que dão conta de festas privadas e a Câmara de Cascais proibiu entretanto a venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustíveis do concelho, entre as 20 e as 8 horas da manhã, depois de se terem formado filas e até incidentes nalguns postos.
 
Os indicadores mostram ser necessário estar atento aos mais jovens, mas não faz sentido um discurso acusatório ou proibitivo. Estamos há quase três meses com medidas restritivas de contacto social. Os bares e discotecas estão encerrados desde 16 de março. O mesmo aconteceu com as escolas. Seria anormal se os mais novos quisessem pacificamente aceitar um isolamento que é contra a natureza de ser humano.

 
Não há nada mais importante do que viver com o outro. E queixamo-nos de uma geração que tende a viver isolada, por estar mais dependente do digital, mas nesta altura o digital tornou-se um modo tão intensivo de interligação que é natural a saturação e overdose. Percebe-se a necessidade de presença.
 
Apesar do natural receio que continuam a provocar imagens de pessoas nas praias ou esplanadas, os espaços ao ar livre apresentam risco mínimo em tempo de calor. Como explicam os infeciologistas, o arejamento e a intervenção do ultravioleta do sol, que neutraliza o material genético do vírus, são aliados na minimização do perigo. É preciso apostar em mecanismos regulados de socialização, dando espaço a algum contacto, ou irão continuar a multiplicar-se formas descontroladas de ela se fazer.
 
Além da saúde, há também que olhar para outros efeitos desta pandemia entre as camadas jovens. A investigadora Maria Manuel Mota usou uma frase que entra facilmente no ouvido e se tornou muito discutida, sobre o facto de este ser "um vírus relativamente bonzinho", na medida em que tem efeitos mínimos sobre os jovens e as crianças, ao contrário do que acontece com outras doenças.
 
É verdade que do ponto de vista sanitário estão a salvo, mas sentem efeitos avassaladores noutras vertentes. Desde logo na educação, com os efeitos imediatos do encerramento das escolas e a preparação desigual para os exames de 11º e 12º ano, e com as universidades a insistirem no discurso de redução das aulas presenciais no próximo ano.

E mais ainda no acesso ao emprego, no caso dos que já estão em idade ativa. Os dados do desemprego em abril mostram como se acentuou uma tendência que já não é nova. A taxa de desemprego dos jovens foi estimada em 20,2%, a que corresponde um aumento de 1,9 pontos percentuais relativamente à taxa de março, enquanto a taxa de desemprego dos adultos foi estimada em 5,3%, igual à do mês anterior.
 
A somar ao desemprego, há características do trabalho difíceis de sinalizar em estatísticas. Aprecariedade tornou-se uma doença crónica do emprego jovem, havendo ainda um grande desajustamento entre as habilitações e as funções desempenhadas. Já para não falar dos milhares forçados a emigrar durante o período de intervenção da troika. Para quem anda agora nos 30 e poucos anos, esta será a segunda crise desde que entraram em idade ativa. Não é coisa pouca.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/portugal-os-jovens-nao-sao.html

Imagem simbólica

MRS ciclista

 
"É uma imagem que não dá segurança lá fora. (...) Pede-se aos jovens que, verdadeiramente sem pensar nos riscos que acham que correm, se dispensem de ir longe demais, depressa demais, correndo todos os riscos".
As declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, obviamente, não tinham a ver com o facto de quase ter sido atropelado na ciclovia. Tinham a ver com o risco de contágio do Covid-19.

Marcelo critica o comportamentos do jovens, mas - ele que fala sem parar - deixou os números de infectados no norte do país sem uma única menção ou nota da presidência, quando era cada vez mais claro estarem ligados às condições sociais e laborais. E deixou os números de infectados subir na zona de Lisboa que, como se viu - similarmente ao norte - têm que ver com condições sociais e laborais.

Marcelo tem, aliás, uma forma esquiva de comentar sobre o patronato nacional. Quando há algum assunto polémico, ele - que fala sobre tudo sem parar - omite-se. Pelo contrário: quando pode, coloca-se do lado que acha poder prejudicar o lado sindical: fê-lo nos seus decretos de estado de emergência quando - não havia necessidade! - suspendeu o direito à greve, o direito sindical de participar na definição de legislação laboral, e pressionou ao máximo para que não houvesse celebração do 1º Maio.

Marcelo foi aquela pessoa que nunca se preocupou com o SNS e que sempre o quis prejudicar- o SNS que é a efectiva rede de cuidados dos mais pobres. Tardou a perceber os riscos colectivos da pandemia. Mas como bom hipocondríaco, aceita ser provavelmente a única pessoa saudável no país que faz testes de despiste do Covid-19 de 15 em 15 dias.

Marcelo que apelou, com a mesma veemência, ao confinamento em estado de emergência policiado e, depois, ao desconfinamento por receio à recessão, culpa agora os jovens.

Claro que não há uma ilação política a retirar daquelas imagens. Pode ser própria de alguém que se acha o centro do mundo ou que o resto do mundo deve desviar-se, mesmo que isso leve ao desastre.

Mas ele há imagens que se tornam simbólicas de toda uma presidência à direita.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

OIT: Covid-19 tem um impacto severo sobre os trabalhadores jovens

Mais de um em cada seis jovens ficaram desempregados desde o início da pandemia; os que mantiveram o emprego viram o horário reduzido em 23%, alertou a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O director-geral da OIT alerta que, se não forem tomadas medidas significativas e imediatas para melhorar a situação dos jovens, «o legado do vírus poderá estar connosco durante décadas»Créditos / DW

De acordo com a quarta edição do Observatório da OIT «Covid-19 e o mundo do trabalho», a expansão da epidemia tem um efeito devastador e desproporcionado nos trabalhadores jovens, porque muitos deixaram de trabalhar e aqueles que continuam empregados viram diminuído em quase um quarto o seu horário de trabalho.

O estudo, que monitoriza os efeitos da pandemia no mundo do trabalho, revela que «o aumento substancial e rápido do desemprego entre os jovens» verificado desde Fevereiro atinge mais as mulheres do que os homens.

«A pandemia está a causar um choque triplo entre os jovens. Não só está a destruir o seu emprego, como a interromper a educação e a formação, colocando grandes obstáculos no caminho de quem procura entrar no mercado de trabalho ou mudar de emprego», refere o relatório que hoje foi apresentado em Genebra, na Suíça.

Com 13,6% em 2019, a taxa de desemprego entre os jovens era já mais alta do que a de qualquer outro grupo, sublinha o documento, que afirma que cerca de 267 milhões de jovens não estão a trabalhar, a estudar ou a frequentar qualquer tipo de formação.

A quarta edição Observatório OIT centrado nos efeitos da Covid-19 no mundo do trabalho actualizou as estimativas relativas à perda de horas de trabalho devido à pandemia no primeiro e segundo trimestres de 2020, por comparação com o quarto trimestre de 2019.

A OIT estima que foram perdidas 4,8% das horas de trabalho durante o primeiro trimestre de 2020, que equivalem a cerca de 135 milhões de empregos a tempo completo (tomando como referência uma semana laboral de 48 horas).

O número estimado de postos de trabalho perdidos no segundo trimestre mantém-se, sem alterações, nos 305 milhões. Por regiões, as Américas, com mais de 13%, e a Europa e Ásia Central, com 12,9%, são as que apresentam as maiores perdas em termos de horas trabalhadas no segundo trimestre.

«A crise económica de Covid-19 atinge os jovens, especialmente as mulheres, mais duramente e mais rapidamente que qualquer outro grupo. Se não tomarmos medidas significativas e imediatas para melhorar a sua situação, o legado do vírus poderá estar connosco durante décadas», afirmou o director-geral da OIT, Guy Rider.

«Se o seu talento e a sua energia forem postos de lado por não lhes terem sido proporcionadas oportunidades ou competências, isso prejudicará todo o nosso futuro e tornará muito mais difícil reconstruir uma economia melhor, pós-Covid», alertou.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/oit-covid-19-tem-um-impacto-severo-sobre-os-trabalhadores-jovens

Situação vulnerável dos jovens trabalhadores

jovens cgtp

A Interjovem denuncia a situação vulnerável em que estão os jovens trabalhadores neste surto pandémico de Covid-19.

Através de contratos a termo, empresas de trabalho temporário, falsos recibos verdes, os jovens trabalhadores vivem e trabalham na incerteza de um vínculo precário de trabalho. Nesta situação de surto pandémico, é a precariedade que está por detrás de centenas de despedimentos de jovens trabalhadores.

Muitos destes jovens trabalhadores foram despedidos ao abrigo do período experimental de 180 dias, uma medida aprovada em outubro passado pelo governo minoritário PS, apoiada por PSD e CDS-PP e cozinhada por UGT e patrões. A Interjovem e a CGTP-IN denunciaram na altura que esta e as restantes alterações ao código do trabalho só aprofundariam e normalizariam a precariedade. A realidade veio cruelmente dar razão à rejeição destas normas gravosas, que colocam os jovens trabalhadores ainda mais expostos.

As medidas que o governo emprega agora de protecção ao emprego não protegem os trabalhadores com vínculos precários e em período experimental.

Numa altura em que os trabalhadores, nomeadamente os mais jovens, mais precisam de estabilidade e segurança, são os primeiros a serem mandados para casa, sem saberem se vão receber no final do mês.

A Interjovem exige:

● O fim da precariedade, que a um posto de trabalho permanente corresponda um vínculo de trabalho efectivo, e a revogação das normas gravosas da legislação laboral que a aprofundam e legitimam

● O fim dos despedimentos selvagens, independentemente do vínculo

● Garantia de 100% dos rendimentos a todos os trabalhadores

● Maior fiscalização contra os atropelos do patronato nesta crise pandémica

● Mais condições de saúde e segurança para os trabalhadores mais expostos

DIF/CGTP-IN

Lisboa, 13.04.2020

Via: CGTP-IN – CGTP-IN https://bit.ly/2XwfaT3

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/13/situacao-vulneravel-dos-jovens-trabalhadores/

Os jovens trabalhadores «não são descartáveis»

O AbrilAbril conversou com dois jovens sindicalistas envolvidos na mobilização da manifestação nacional da Interjovem para assinalar o Dia da Juventude, que teve de ser suspendida no passado dia 26 de Março.

CréditosMARIO CRUZ / LUSA

A manifestação nacional da Interjovem foi cancelada devido às medidas de contingência de combate à COVID-19, mas a estrutura de juventude da CGTP-IN não deixou de fazer o apelo à luta: «Não suspendemos a nossa luta [...] para exigir o fim da precariedade, o aumento geral dos salários, o fim dos horários desregulados, um vínculo efectivo para todos os que desempenham funções de carácter permanente, para uma juventude independente, emancipada e com futuro», pode ler-se na saudação divulgada na página oficial. 

Nas redes sociais, foram saíndo vários vídeos com testemunhos de jovens trabalhadores sobre os seus problemas e a necessidade de intervir e de dar uma resposta organizada. «Não somos descartáveis!», podia ler-se nos conteúdos partilhados.

Combater a precariedade para garantir o futuro

Tiago Martinho, sindicalizado no Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local (STAL/CGTP-IN) é motorista da recolha de resíduos urbanos. É um dos que não pode parar apesar da pandemia: «Há de haver sempre recolha de lixo», lembrou o jovem sindicalista, explicando que as condições de trabalho ainda estão a ser ajustadas à nova realidade. «Os motoristas estão a trabalhar dia sim, dia não. Os cantoneiros trabalham semana sim, semana não, mas estão a ficar muito desgastados», disse. 

«Este é o sector do município que tem os trabalhadores mais jovens», referiu, acrescentando que, nas semanas anteriores à declaração do Estado de Emergência, estava-se a trabalhar na mobilização para a manifestação nacional da juventude promovida pela Interjovem/CGTP-IN.

«As principal queixa dos jovens trabalhadores é a precariedade. Mas, depois de muita luta e pressão dos sindicatos da CGTP-IN, a maior parte dos trabalhadores do meu sector viram os vínculos precários regularizados», afirmou, explicando que eram quase 300 aqueles que, correspondendo a necessidades permanentes, não tinham até agora um vínculo de trabalho efectivo. «Eu próprio trabalhei dois anos a recibos verdes como motorista da recolha do lixo», disse.

«Se deixarmos de ter medo, ainda mais direitos iremos garantir»

A instabilidade dos contratos a termo traz muitas preocupações e limitações. Tiago Martinho explica que, nesta situação, os jovens têm a seu cargo muitas despesas, desde as contribuições para a segurança social aos seguros de trabalho, sem garantias que permitam arrendar uma casa ou pedir um empréstimo. «Não é possível ter uma perspectiva de futuro, e assim vive grande parte dos trabalhadores mais jovens», lembrou.

«Eu digo sempre: vejam que mesmo com o medo de alguns, as coisas são possíveis. Se deixássemos todos de ter medo, ainda mais direitos iríamos garantir»

Tiago Martinho, motorista de resíduos urbanos

Para além disso, o jovem sindicalista lembra que estes são os que estão mais sujeitos a pressões das chefias. «É uma situação complicada, porque temos de explicar que é através da luta que podem conquistar mais direitos, mas são justamente estes trabalhadores com maior precariedade nas relações laborais que estão em piores condições para fazer greve ou participar noutra acção de luta», afirmou. «Eu digo sempre: vejam que mesmo com o medo de alguns, as coisas são possíveis», disse, referindo-se à regularização dos vínculos no seu sector. «Se deixássemos todos de ter medo, ainda mais direitos iríamos garantir», concluiu, dando o exemplo de se considerar a recolha de resíduos uma profissão de desgaste rápido, reivindicação que continua por cumprir.

Quanto à situação de pandemia e às limitações dela decorrentes para a consciencialização e o contacto entre os trabalhadores, o sindicalista disse que «o activismo não está parado», mas que se tem feito muito através das redes sociais.

«Os sindicatos têm de apostar numa mensagem mais direccionada para a juventude. É preciso chegar aos jovens também através dos meios onde estes se movem, do facebook e do instagram, porque eles [os jovens] são o futuro dos sindicatos e do País», afirmou.

Salários baixos não chegam para o elevado custo de vida

Luana Canobbio, operária numa fábrica de semicondutores em Almada, contou ao AbrilAbril que veio ao sindicalismo porque na sua família sempre estiveram envolvidos politicamente. «Decidi sindicalizar-me quando soube que havia um sindicato na empresa [SIESI/CGTP-IN - Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas] e passei a participar ainda mais quando nos disseram, em Maio de 2019, que a empresa ia ser deslocalizada para as Filipinas», disse a jovem sindicalista, acrescentando que ficou muito «revoltada» pela forma como estes trabalhadores estavam a ser desvalorizados por se encontrar mão-de-obra mais barata no estrangeiro.

Para os jovens trabalhadores, Luana Canobbio considera que o problema mais sentido é a precariedade dos contratos. «Nesta empresa estamos todos efectivos mas apenas porque a fábrica vai fechar no final de 2021, logo, vamos ser todos despedidos. Caso contrário continuaríamos com contratos a termo», referiu, explicando que a empresa ainda recorre a empresas de trabalho temporário para contratar, ao mês, trabalhadores que dêem resposta a períodos de maior produção.

Por outro lado, considera que os baixos salários são outro problema. «Recebemos uma miséria para aquilo que trabalhamos: um salário base de 649 euros», afirmou, lembrando que para o custo de vida, nomeadamente as rendas de casa, o salário não chega.

«Nesta empresa estamos todos efectivos mas apenas porque a fábrica vai fechar no final de 2021, logo, vamos ser todos despedidos. Caso contrário continuaríamos com contratos a termo»

Luana Cannobio, operária numa fábrica de semicondutores

Na mobilização para a manifestação, a maioria das queixas dos jovens trabalhadores prendia-se justamente com a precariedade. «A maior parte, com contratos a prazo ou falsos recibos verdes, sabem que hoje estão a trabalhar e amanhã podem já não estar», referiu.

Assim, lembra, é muito difícil planear o futuro e começar uma vida independente.

Redes sociais sim, mas mais contacto directo

Essa instabilidade também dificulta a organização dos mais jovens. Apesar de considerar que é importante utilizar todos os meios, nomeadamente as redes sociais, sublinha que «faz muita falta» o contacto directo. «Nas redes sociais é preciso chamar a atenção, criar conteúdos mais atractivos, mas depois é preciso o contacto directo para aprofundar as questões e discutir», disse, «há muitos títulos e muita informação contraditória e tudo isso é muito instantâneo, a consciencialização garante-se quando se contacta os jovens nos seus locais de trabalho».

A empresa Componentes Semicondutores de Portugal, que foi comprada pela multinacional Little Fuse, continua a laborar, uma vez que produz componentes para desfibriladores e ventiladores. Nesta situação excepcional, os trabalhadores viram ser-lhes retirada uma pausa e já fizeram queixa ao sindicato. De resto, têm visto respeitadas as condições e higiene e segurança. A jovem lembra, porém, que nesta situação se vê também a destruição da capacidade produtiva do País: vão deslocalizar a fábrica e deixaremos de ter quem fabrique estes produtos, para além de ficarem mais de 150 trabalhadores no desemprego.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/os-jovens-trabalhadores-nao-sao-descartaveis

A Interjovem saúda os jovens trabalhadores neste seu dia de luta

interjovem26Dia 26 de março foi o dia que escolhemos para a nossa grande manifestação de jovens trabalhadores, por mais estabilidade e melhores salário, por uma juventude com futuro! Com um grande sentido de responsabilidade, suspendemos a manifestação nacional mas não suspendemos a nossa luta.

A nossa luta para exigir o fim da precariedade, o aumento geral dos salários, o fim dos horários desregulados, um vínculo efectivo para todos os que desempenham funções de carácter permanente, para uma juventude independente, emancipada e com futuro.

Vivemos uma situação que coloca a nú não só a necessidade premente de um real investimento e valorização do SNS e dos seus profissionais, como a vulnerabilidade em que os trabalhadores, nomeadamente os jovens trabalhadores, trabalham e vivem. Multiplicam-se os casos de trabalhadores cujos vínculos precários não foram renovados, de trabalhadores forçados a tirar férias, de trabalhadores cujos baixos salários sofreram um golpe e não chegam para o aumento das despesas. A precariedade deixa-nos mais expostos e vulneráveis numa altura em que precisamos de estabilidade.

Os jovens trabalhadores mostraram neste dia 26 que estão cá para denunciar todos os ataques e abusos que o patronato nos submeta e que estão dispostos a lutar pelos seus direitos. Não tendo realizado a manifestação nacional, os jovens não deixaram de estar presentes. Os jovens colocaram hoje nas ruas pancartas, faixas e pinturas para assinalar a sua luta. Ao longo do dia, os jovens trabalhadores denunciaram ainda pelas redes sociais, através de vídeos com depoimentos, as situações concretas nos seus locais de trabalho, as situações de precariedade, baixos salários e horários desregulados, mas também exemplos de resistência e vitória, através da luta organizada nos seus sindicatos de classe.

Independentemente das circunstâncias, a luta continua. E só a luta organizada permitir-nos-á conquistar mais estabilidade, melhores salário, para uma juventude com futuro!

Viva a luta dos jovens trabalhadores!

Viva a Interjovem!

Viva a CGTP-IN

Ver original aqui

Cortejo de bêbedos

CORTEJO-DA-QUEIMA-DAS-FITAS-CJM.png«Estudantes da universidade, do politécnico e dos institutos de ensino superior privado de Coimbra assinaram um abaixo-assinado em que contestam o novo regulamento dos carros no Cortejo da Queima das Fitas.

Recorde-se que, há algumas semanas, foi apresentado o regulamento que prevê a diminuição do número de bebidas alcoólicas transportadas nos carros dos cursos.

O abaixo-assinado foi subscrito por mais de 1.600 estudantes de 66 cursos.» (in 'Diário das Beiras)

Perdida toda e qualquer noção do que possa ser o mítico espírito académico, esgotadas a irreverência e a criatividade que se exprimiam nos carros do cortejo, incapazes de se divertir apenas com a companhia uns dos outros, sem o recurso a drogas estimulantes, a actual geração estudantil de Coimbra mobiliza-se em defesa da épica bebedeira e do imundo chavascal a que a Queima das Fitas se vem reduzindo, ano após ano.

Há décadas que a cerveja destronou o vinho enquanto fornecedora dos carros da Queima. Mas nos últimos anos nem estômago vão tendo para beber as litrosas, preferindo despejar, uns sobre os outros, peganhentos banhos de cerveja.

Neste caso, nem sei o que mais me desgosta: se a imaturidade e a irresponsabilidade dos autoproclamados “doutores”, incapazes decontrolar o álcool que consomem; se a reacção dos estudantes, que encontram nesta limitação de consumo um pretexto para se unirem em defesa do direito aos banhos de cerveja, do cortejo de bêbedos e dos comas alcoólicos.

Note-se que, desde a restauração da Queima das Fitas nos anos pós-revolucionários, a relação entre os estudantes das várias instituições de ensino superior não tem sido fácil, com os universitários a recusar a plena integração dos colegas do politécnico e das escolas privadas na festa da academia. E estes a serem reiteradamente discriminados, obrigados a desfilar no fim do cortejo, contidos a uma distância higiénica dos “doutores da faculdade”. Há, afinal, algo que os une: a incondicional defesa do bar aberto nos carros da Queima.

Doentes digitais

criancas-telemoveis

Mais do que nativos digitais, não estaremos acima de tudo a formar uma geração de seres humanos emocionalmente frágeis, criados na dependência da internet e das interacções nas redes sociais?

Jovens que substituem a presença física pelo contacto online, viciados no jogo – mais os rapazes – e nas redes virtuais – sobretudo as raparigas -, que não dormem o suficiente, não desenvolvem competências sociais e se mostram cada vez mais vulneráveis às doenças mentais: eis um retrato da adolescência que não é mera invenção de pensadores retrógrados do século XX: é já a realidade dos nossos dias, descrita por um número crescente de estudos científicos.

Bullying e auto-mutilação, depressões, comportamentos suicidas e outros distúrbios mentais são cada vez mais frequentes entre os adolescentes. Quando, numa província do Canadá, a prevalência de doenças mentais entre os jovens chega a atingir os 39%, estamos perante uma calamidade em termos de saúde pública. Talvez não tão virulenta como o coronavírus, mas certamente com um impacto social muito mais profundo e prolongado.

Em dia de internet segura, e em vez das banalidades do costume, vale a pena pensar nisto.

O uso intensivo de telemóveis e de redes sociais está associado a um aumento dos problemas mentais, comportamentos de automutilação e suicídio entre os jovens, segundo um estudo canadiano que mostra que o fenómeno afeta mais as raparigas.

Uma equipa de investigadores de um hospital infantil em Toronto publicou esta segunda-feira na revista Canadian Medical Association Journal (CMAJ) um estudo que reafirma os efeitos nocivos do uso das redes sociais entre os jovens.

As doenças mentais, os comportamentos auto-lesivos e as tentativas de suicídio aumentaram nos últimos anos entre a população adolescente.

Existe uma relação entre estes fenómenos e o uso excessivo das redes sociais e “os efeitos parecem ser maiores entre as raparigas”, refere o estudo que está disponível na página na internet da CMAJ.

"Jovens precisam lutar pela igualdade e pela justiça", diz Mujica

 

Da Rede Brasil Atual – Na noite deste sábado o Festival dos 40 anos do PT promoveu uma mesa de diálogo entre os ex-presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o do Uruguai, Jose Pepe Mujica. Entre os temas abordados estiveram o atual modo de vida, as transformações do mundo do trabalho e a necessidade de se participar da vida política para a promoção de um mundo mais justo e menos desigual.

Mujica fez uma reflexão sobre a predominância do trabalho no dia a dia das pessoas. “A vida se vai e a pergunta é: basta gastar sua vida pagando contas, e contas, e contas? E você vai ter tempo para os afetos, para o amor, para seus filhos e amigos ou vai ser escravo do mercado? Essa é a pergunta que você tem que fazer”, provocou. “A vida não é só trabalhar, é preciso viver.”

O ex-presidente do Uruguai também criticou o consumismo. “Confunde-se felicidade com comprar, mas assim você não vai ser feliz, vai ser escravo das contas”, ponderou. “O mundo melhorará se o jovem se comprometer, se for capaz de gastar tempo da sua vida lutando pela justiça e pela igualdade em nossas vidas.”

Em sua intervenção, Lula criticou a flexibilização das leis trabalhistas e o uso de termos como o “empreendedorismo individual” para justificar a exploração do trabalhador. “Agora dizem para você que não vai ter mais emprego, que você vai trabalhar em casa, vai fazer o que aparecer e vai ser chamado de microempreendedor”, disse.

Para o ex-presidente, é necessária a ação estatal para assegurar a dignidade ao trabalhador. “Eu quero saber se é apenas o mercado que vai reger nossas condições de vida ou se o Estado vai agir para proteger os brasileiros que precisam de proteção do Estado”, contestou. “As pessoas trabalham sem parar, na hora do almoço, quando vão ao banheiro, quando voltam pra casa, uma infinidade de horas sem saber que estão trabalhando, e não ganham nada com isso A vida melhorou? A vida não melhorou.”

Lula refletiu que as transformações e facilidades que aparentemente tornam mais tranquila a vida das pessoas implicam em piores condições de vida e trabalho para muitos, acarretando em insegurança para a classe trabalhadora de forma geral. “Hoje um companheiro com um diploma universitário não tem a segurança que eu tinha com diploma de torneiro mecânico”, avaliou. “Estão transformando nós, seres humanos, em algoritmos.”

 

A importância da política

O ex-presidente brasileiro também destacou a necessidade de as pessoas participarem da vida política do país, em especial a juventude. “Ou assumimos a responsabilidade de fazer e discutir política ou seremos levados de roldão como aconteceu nas últimas eleições. Não existe saída fora da política”, afirmou. “Tem que se pensar como organizamos o movimento sindical outra vez, como organizar as lutas.”

Ele deu um exemplo concreto das consequências da omissão em relação à política. “Se a sociedade não tiver força este ano para aprovar o Fundeb no Congresso Nacional e se ele acabar, será um prejuízo inestimável para a sociedade brasileira. Vão só xingar o Bolsonaro e o ministro da Educação ou vamos pra rua exigir que eles possam mudar?”, questionou.

Mujica também ressaltou a importância da política. “Os seres humanos são gregários, não podemos viver em solidão, vivemos em grupos sociais. Tinha razão Aristóteles quando dizia que o homem é um animal político”, explicou. “A política é uma necessidade humana e não uma profissão, um trabalho. Não é um trabalho para ganhar dinheiro. A política é uma paixão, um compromisso e o político tem que aprender a viver como vive a maioria do seu povo e não como vive a minoria privilegiada.”

 

Em sua fala, Lula ainda falou a respeito do papel dos partidos oposicionistas e provocou o atual presidente. “O PT tem que lamentar do Bolsonaro ter sido eleito presidente pelo povo brasileiro. mas, ao mesmo tempo, para quem quer fazer oposição no país, não tem nada melhor que ter o Bolsonaro na presidência para fazer oposição de verdade.”

Uma proposta reaccionária?

estudo-e-telemovel

José Pacheco Pereira fez um exercício intelectual perspicaz e, no mínimo, surpreendente. Numa sociedade que endeusa os jovens, que em torno deles alimenta mitos como o dos “nativos digitais” ou da “geração mais bem preparada” e que consome cada vez mais recursos a fazer com que os jovens se sintam sempre bem, o cronista do Público rema contra a corrente do pensamento politicamente correcto.

Apesar de ser, entre os políticos e intelectuais da sua geração, um dos pioneiros no uso da internet e dos computadores, JPP nunca se deixou seduzir pela retórica do homem novo formado – ou formatado – pelas novas tecnologias. Muito menos pelo falso encantamento em torno da eterna juventude que tarda em passar de moda. E apresenta a sua proposta ousada: num país de escassos recursos, em vez de apaparicarmos tanto os jovens, talvez seja preferível investir directamente nos adultos e, ainda mais, nas crianças.

Por exemplo: será muito melhor investimento garantir que todas as crianças de famílias com baixos rendimentos têm acesso gratuito e garantido a creches e infantários, como propõe o PCP, do que gastar dinheiro a obrigar rapazolas de 16 ou 17 anos a andar na escola contra a sua vontade. Quem conhece a realidade das escolas dificilmente deixará de concordar…

 

Há várias coisas que os jovens não fazem, a não ser as excepções, e uma é ler livros e por isso o estereótipo da “geração mais bem preparada” é um daqueles mitos que gostamos de alimentar, mas que soçobra ao mais pequeno concurso televisivo de perguntas “culturais”, ou inquérito de rua sobre se conhecem Cesário Verde, ou sobre o que estão a ler. Vão-me dizer que não precisam de saber essas coisas, mas que têm outras “competências”. Uma treta que não passa de saber usar um telemóvel, ou colocar posts e imagens no Facebook (uma actividade onde “habitam” muitos adultos) e no Instagram, e manejar meia dúzia de devices pouco elaborados que só espantam os mais velhos, porque eles não o sabem fazer. O Fortnite, onde passam as noites, isso sabem. Já sei que também me vão dizer que milhares de jovens pelo país fora participam em grupos de teatro, são “artistas” plásticos, são músicos de talento, e há toda uma indústria subsidiada pelo Estado e pelas autarquias, que sem gente “nova” não existiria. Sim, é parcialmente verdade, mas experimentem usar um qualquer critério de qualidade (mesmo neste período de intangibilidade da cultura, eles existem…) para lhes medir o mérito. Como não se trata de terapias ocupacionais, mas de actividades que se reivindicam de criativas, é preciso medir o valor e os resultados.

Por isso, muitas das iniciativas educacionais e culturais e os recursos que mobilizam são muito mais eficazes se dirigidos às crianças e aos adultos, tratando-se o “meio” de outra forma, sob pena de se fazerem enormes esforços sem qualquer resultado útil, ou, dito de outra forma mais crua, vale mais investir e muito nas crianças e nos adultos, e aí concentrar os recursos escassos, para obter resultados sociais que depois atingirão os “meios”. Se, por exemplo, se trata de aumentar a escolaridade obrigatória, como dizia Marçal Grilo, mais vale fazê-lo para trás do que para a frente. E aqui é que entra a proposta do PCP para o Orçamento deste ano, de garantir “a gratuitidade de frequência de creche a todas as crianças cujo agregado familiar pertença ao primeiro escalão de rendimentos da comparticipação familiar até à entrada no ensino pré-escolar”.

Esta é uma proposta que vai no sentido certo em conjunção com um muito maior esforço no pré-escolar, porque ataca numa idade muito favorável a divisão entre pobres e ricos, nos seus efeitos perversos que se reproduzem em toda a vida escolar, favorece uma socialização equilibrada das crianças, permite que desde cedo muitas competências e “vontades” possam ser moldadas para a leitura, para as línguas, para a nossa muito maltratada língua, para chegar ao saber pela curiosidade. Não é milagrosa, mas muda muito. Quando as crianças de hoje forem os novos jovens daqui a uns anos, serão diferentes.

Um artigo reaccionário a favor de uma proposta que não é reaccionária do PCP

(Pacheco Pereira, in Público, 25/01/2020)

Pacheco Pereira

1. Este é um artigo reaccionário, simplista, mas que do ponto de vista do autor é verdadeiro, ou seja, o que se descreve existe como realidade e como problema, senão não o escrevia. Simplista, porque seria preciso muito mais texto do que permite o jornal para passar da impressão à crítica, mas se o faço mesmo assim é porque penso que pode ser útil.

 

2. Por várias razões, os adolescentes, os jovens, estão na moda, e as crianças e os adultos, já para não falar nos velhos, não estão. A primeira coisa que convém lembrar para se perceber o “estão na moda” é que nem sempre foi assim. No passado, esse “país estrangeiro”, a importância simbólica das diferentes idades e das experiências a elas associadas, assim como o seu valor social percebido, foi muitas vezes bastante distinto. É por isso que digo, sem dúvida simplificando, que a moda traduz a forma como no espelho da sociedade se mede a importância de cada idade, e por razões culturais, económicas e sociais esta importância muda com os tempos. E hoje é grande.

3. Uma das razões por que os jovens estão na moda tem que ver com a valorização simbólica da força, da beleza, da vida com todo o tempo à frente, e os efeitos dessa moda são particularmente visíveis na comunicação, nas indústrias da moda, do sexo e do entretenimento, no desporto e nos jogos, e em todos os casos há muito dinheiro em cima, como se vê na publicidade e no mercado. Daqui seguem-se uma série de estereótipos que, se forem analisados, não dão os resultados que todos pensam dar e se revelam ideias feitas. Por exemplo, todos os hackers nos filmes são nerds, jovens disfuncionais socialmente a “trabalhar” numa cave escondida algures, e nenhum alfarrabista nos filmes é jovem, mas um velho de barbas brancas metido no meio de estantes de livros antigos que acumula os livros com as artes da espionagem. Do mesmo modo, a caterva de personagens angustiadas nas séries televisivas são todas de meia-idade. Estes estereótipos são repetidos por páginas culturais e jornais de referência sempre a descobrir jovens talentos que não duram um ano, escritos por jornalistas de meia-idade que pensam que têm 18 anos.

4. Há várias coisas que os jovens não fazem, a não ser as excepções, e uma é ler livros e por isso o estereótipo da “geração mais bem preparada” é um daqueles mitos que gostamos de alimentar, mas que soçobra ao mais pequeno concurso televisivo de perguntas “culturais”, ou inquérito de rua sobre se conhecem Cesário Verde, ou sobre o que estão a ler. Vão-me dizer que não precisam de saber essas coisas, mas que têm outras “competências”. Uma treta que não passa de saber usar um telemóvel, ou colocar posts e imagens no Facebook (uma actividade onde “habitam” muitos adultos) e no Instagram, e manejar meia dúzia de devices pouco elaborados que só espantam os mais velhos, porque eles não o sabem fazerFortnite, onde passam as noites, isso sabem. Já sei que também me vão dizer que milhares de jovens pelo país fora participam em grupos de teatro, são “artistas” plásticos, são músicos de talento, e há toda uma indústria subsidiada pelo Estado e pelas autarquias, que sem gente “nova” não existiria. Sim, é parcialmente verdade, mas experimentem usar um qualquer critério de qualidade (mesmo neste período de intangibilidade da cultura, eles existem…) para lhes medir o mérito. Como não se trata de terapias ocupacionais, mas de actividades que se reivindicam de criativas, é preciso medir o valor e os resultados.

5. Por isso, muitas das iniciativas educacionais e culturais e os recursos que mobilizam são muito mais eficazes se dirigidos às crianças e aos adultos, tratando-se o “meio” de outra forma, sob pena de se fazerem enormes esforços sem qualquer resultado útil, ou, dito de outra forma mais crua, vale mais investir e muito nas crianças e nos adultos, e aí concentrar os recursos escassos, para obter resultados sociais que depois atingirão os “meios”. Se, por exemplo, se trata de aumentar a escolaridade obrigatória, como dizia Marçal Grilo, mais vale fazê-lo para trás do que para a frente. E aqui é que entra a proposta do PCP para o Orçamento deste ano, de garantir “a gratuitidade de frequência de creche a todas as crianças cujo agregado familiar pertença ao primeiro escalão de rendimentos da comparticipação familiar até à entrada no ensino pré-escolar”.

6. Esta é uma proposta que vai no sentido certo em conjunção com um muito maior esforço no pré-escolar, porque ataca numa idade muito favorável a divisão entre pobres e ricos, nos seus efeitos perversos que se reproduzem em toda a vida escolar, favorece uma socialização equilibrada das crianças, permite que desde cedo muitas competências e “vontades” possam ser moldadas para a leitura, para as línguas, para a nossa muito maltratada língua, para chegar ao saber pela curiosidade. Não é milagrosa, mas muda muito. Quando as crianças de hoje forem os novos jovens daqui a uns anos, serão diferentes.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Amesterdão prepara-se para comprar dívidas dos seus jovens

 

A partir de fevereiro, acapital dos Países Baixos vai comprar dívidas dos seus jovens para ajudá-los a recomeçar e a construir um futuro.

 

Numa nota publicada esta semana na página oficial do Governo local de Amesterdão, a autarquia explica que a iniciativa tem como objetivo ajudar os jovens adultos que pretendam começar a trabalhar ou a estudar.

“É possível que tenham dívidas. E as dívidas causam muito stresse. E, para os jovens, as dívidas determinam, geralmente, o seu futuro”, pode ler-se no comunicado, que dá conta que 34% dos jovens que vivem na capital entre os 18 e os 34 anos têm dívidas.

“A maioria destes jovens começou em desvantagem e, devido à má sorte ou à ignorância, viu-se numa situação da qual não pode escapar sem ajuda. E é por isso isso que vamos ajudá-los para possam começar de novo”.

 
 

A iniciativa, que deverá arrancar já no próximo mês de fevereiro, destina-se a jovens com vários tipos de dívidas: desde simples faturas telefónicas a dívidas de milhares de euros. Para que as suas dívidas sejam assumidas pela cidade, os jovens devem comprometer-se a encontrar um novo emprego ou a retomar os estudos.

Enquanto isso, um banco municipal negociará as dívidas com os credores para que as possa comprar. Estes, por sua vez, receberão desde logo um pagamento de 750 euros por cada caso que aceitem – trata-se de um incentivo para que concordem transferir a dívida.

Os jovens pagarão depois a dívida residual ao banco de acordo com as suas capacidades financeiras. O jornal britânico The Guardian, Amesterdão pode mesmo liquidar algumas das dívidas se os jovens participarem com aproveitamento em programas educacionais.

Na prática, a dívida passa da esfera privada dos credores para o banco do Estado. Depois, os estudantes pagarão o que falta da dívida diretamente à cidade.

“Amesterdão acredita que todo o jovem merece uma oportunidade para ter um bom futuro (…) As dívidas não devem atrapalhar o trabalho e a educação. Infelizmente, essa situação acontece nos dias de hoje. O objetivo deste projeto passa por ajudar mais jovens a pagar as suas dívidas e, ao mesmo tempo, oferecer-lhes a oportunidade de construir o seu futuro”, lê-se na mesma nota de imprensa.

A dívida média dos estudantes dos Países Baixos aumentos de 12.400 euros em 2015 para 13.700 euros em 2019. O número de estudantes com dívidas também aumentou nos últimos anos, passado de 388.000 euros para 1,4 milhões.

ZAP //

 
 
 

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Estudo da OCDE mostra futuro das profissões no mundo

Medicina, direito, engenharia, pedagogia e licenciaturas estão entre as carreiras mais procuradas por estudantes de 15 anos em 41 países. No Brasil, quase dois a cada três estudantes pretendem seguir as dez profissões mais citadas no questionário do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2018 por aqueles que fizeram as provas.

 

 

Os resultados estão no estudo “Empregos dos sonhos? As aspirações de carreira dos adolescentes e o futuro do trabalho”, divulgado ontem (22) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A publicação analisa, entre outras, as respostas à pergunta: “Qual profissão você espera ter aos 30 anos de idade?”, feita aos participantes do Pisa. O levantamento analisa ainda os resultados dos países que participaram da edição do exame em 2000 e em 2018.

“As aspirações profissionais dos jovens são importantes”, diz o estudo. “As aspirações de carreira dos adolescentes são um bom preditor dos empregos que os alunos podem ocupar quando adultos”, observa. A intenção é mostrar também como essas aspirações mudaram ao longo do tempo.

Ranking por gênero

Os rankings das profissões mais desejadas variam de acordo com o gênero dos estudantes. Entre as mulheres, tanto em 2000 quanto em 2018, medicina, direito, pedagogia e licenciaturas, enfermagem, psicologia, administração e veterinária estão entre as top 10.

Em 2000, profissões como jornalista, secretária e cabeleireira completavam o ranking. Em 2018, elas saíram e deram lugar às ocupações de designers, arquitetas e policiais.

Entre os homens, as profissões mais procuradas em 2018 foram engenheiro, administrador, médico, advogado, profissional de educação física, arquiteto, mecânico automobilístico, policial e profissional de tecnologia da informação e comunicação. As profissões são as mesmas desejadas em 2000, apenas mudaram de lugar no ranking. Engenharia, que ocupava a terceira posição entre os meninos, passou a ser a mais buscada.

“De maneira esmagadora, são mais frequentes os meninos que esperam trabalhar em ciência e engenharia do que as meninas, mesmo quando meninos e meninas têm o mesmo desempenho no teste científico do Pisa, mas esse nem sempre é o caso. Além disso, em muitos países, o nível de interesse das meninas por essas profissões é maior do que o dos meninos”, diz o estudo.

No Brasil, 63% dos estudantes de 15 anos querem seguir essas carreiras. O índice só é superado pela Indonésia, com 68%. França e República Tcheca têm o menor percentual, 36%.

Futuro das profissões

O estudo analisou também os riscos de as profissões escolhidas pelos estudantes não existirem mais no futuro devido ao uso de robôs e de inteligência artificial para substituir trabalhadores.

De acordo com o texto, a maioria das carreiras mais populares entre os jovens, como profissionais de saúde e sociais, culturais e legais, tende a ter baixo risco de automação.

No entanto, fora do ranking das profissões top 10, “muitos jovens selecionam empregos com risco muito maior de automação. Ao todo, 39% dos empregos citados pelos participantes do Pisa correm o risco de ser automatizados dentro de 10 a 15 anos”.

O estudo mostra que o risco de automação varia entre países. Na Austrália, Irlanda e no Reino Unido, cerca de 35% dos empregos citados pelos estudantes correm o risco de automação. Na Alemanha, Grécia, Japão, Lituânia e Eslováquia, mais de 45% desses empregos estão em risco.

Pisa 2018

O Pisa é aplicado a cada três anos e avalia estudantes de 15 anos quanto aos conhecimentos em leitura, matemática e ciências. Em 2018, o Pisa foi aplicado em 79 países e regiões a 600 mil estudantes. No Brasil, cerca de 10,7 mil estudantes de 638 escolas fizeram as provas.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil (Agência Brasil) / Tornado

 
 
 
 
 
 

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Mais de metade dos jovens escolhe os mesmos empregos

Mais de metade dos adolescentes portugueses querem ter os mesmos empregos e, a nível internacional, muitos jovens escolhem carreiras que exigem qualificações académicas, mas para as quais não pretendem estudar.

 

O maior inquérito que avalia o desempenho escolar a nível mundial, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), da OCDE, divulgou hoje um estudo sobre “Empregos de Sonho: As aspirações de carreira e o futuro do trabalho entre os adolescentes”, tendo por base as respostas de meio milhão de jovens, entre os quais os portugueses.

O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico compara dados de 2018 com informações recolhidas no virar do século e revela que a concentração nas mesmas profissões tem vindo a aumentar.

Em 18 anos, mais raparigas e rapazes escolheram as mesmas opções. No final, a lista resume-se a apenas 10 áreas para a maioria das raparigas (53%) e para 47% dos rapazes, segundo dados médios dos 41 países que participaram nos inquéritos de 2000 e 2018.

Em Portugal, as taxas são ainda mais elevadas: 58% dos rapazes optam pelas mesmas áreas, assim como 54% das raparigas.

Tendo em conta as respostas dadas nos 41 países, as raparigas querem seguir uma profissão na área da saúde (15,6%), ensino ou gestão de empresas, enquanto que os rapazes se focam mais nas áreas das ciências e engenharia: No top aparecem os empregos associados a engenharias (7,7%), seguindo-se gestão de empresas e a área da saúde.

O relatório alerta para os perigos desta concentração de empregos poder significar falta de conhecimento do mercado de trabalho e falta de orientação profissional.

Os jovens carenciados, assim como os que têm piores resultados nos testes do PISA, são apontados como os mais suscetíveis de escolher entre menos opções profissionais.

Outro dos resultados do inquérito é o facto de o emprego que os jovens sonham ter quando chegarem à vida adulta não ser compatível com as habilitações académicas dos adolescentes.

O relatório revela que um em cada cinco jovens escolhe uma profissão que não se adequa com os anos de escola que pretendem ter, um problema que volta a ser mais dramático entre os estudantes de meios socioeconómico desfavorecidos.

Ter um emprego acessível, bem pago e com futuro “parece estar a cativar a imaginação de cada vez menos jovens“. A agravar este cenário, o relatório revela ainda que cada vez mais procuram trabalhos em risco de desaparecer, uma característica mais visível entre os rapazes e os jovens de meios socioeconómico desfavorecidos.

Jovens que imaginam empregos de sonho ficam mais motivados para estudar

O relatório recorda ainda outros estudos que revelaram que os jovens que conseguiram combinar um emprego a part-time com os estudos a tempo inteiro acabaram por te melhores resultados quando chegaram à vida adulta e entraram no mundo do trabalho.

O papel das escolas e dos Governos também são fundamentais nesta equação no momento de direcionar os jovens e prepará-los para o mercado de trabalho. Os estudantes que têm experiências de trabalho durante a adolescência assim como orientação profissional acabam por ter mais sucesso profissional porque mais dificilmente descobrem ter escolhido a profissão errada.

Em Portugal, são raros os jovens que não têm acesso a essa orientação profissional, que ocorre de forma sistemática nas escolas. É nas escolas com uma população estudantil composta maioritariamente por jovens de meios socioeconómico desfavorecidos que a taxa de participação nestes processos desce. Ali, só 85% das escolas oferece este serviço de apoio aos adolescentes, contra as quase 100% das escolas situadas em meios favorecidos.

No entanto, os resultados nacionais estão muito acima da média da OCDE, que se situa no intervalo entre os 60% e os 70% para as escolas desfavorecidas e favorecidas, respetivamente.

Um pouco por todo o mundo, os jovens que terminam os estudos têm mais formação do que os seus pais ou avós. No entanto, apesar de terem mais formação académica acabam por ter mais dificuldades no mercado de trabalho.

A existência de cada vez mais desempregados com formação superior e as dificuldades que os empregadores dizem ter em encontrar pessoas com a formação necessária revela que “mais educação nem sempre significa automaticamente melhores empregos e melhores vidas. Para muitos jovens, o sucesso académico provou ter um significado insignificante para garantir uma transição suave para um bom emprego”.

Com o mundo em rápida mudança, existem fortes razões para acreditar que a escola precisa de ter um olhar novo sobre como preparar os jovens para o mundo do trabalho.

O último PISA realizou-se em 2018 tendo contado com a participação de meio milhão de alunos de 15 anos de 79 países participantes. Para o estudo suplementar sobre as carreiras participaram alunos de 32 países, incluindo Portugal.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/metade-jovens-escolhe-mesmos-empregos-304038

Estrangeiros vulneráveis: número de universitários vítimas de violência sexual choca Lisboa

Mulher carrega bandeira de Portugal em Lisboa
© AP Photo / Armando Franca

Mais de 34% dos estudantes universitários de Lisboa e das cidades da região metropolitana já foram vítimas, pelo menos uma vez, de algum tipo de violência sexual física. O número faz parte de um estudo apresentado nesta terça-feira (10), na capital portuguesa.

O estudo foi realizado pela Federação Acadêmica de Lisboa (FAL), através de questionários, com estudantes de cursos de licenciatura, mestrado e doutorado entre os 17 e os 30 anos. Entre os casos de violência física, 22% responderam que alguém já "acariciou, beijou ou se esfregou nas partes íntimas e genitais contra a minha vontade" e 14% foram coagidos a praticar atos sexuais.

"Sentíamos que havia problemas e muita incidência de abusos, então resolvemos averiguar para ver qual era mesmo a realidade. Entrei no ensino superior em 2014 e já naquela altura havia colegas a falar sobre esses problemas. Infelizmente pouco ou nada foi feito", diz à Sputnik Brasil a presidente da entidade, Sofia Escaria.

O estudo também mostra que 61% dos estudantes foram vítimas de assédio sexual pelo menos uma vez e 65% já ouviram comentários provocativos de natureza sexual. De acordo com Sofia Escaria, autoridades nacionais e municipais "ficaram muito alarmadas".

A Câmara Municipal de Lisboa, órgão equivalente às prefeituras brasileiras, solicitou os dados para "começar a lançar internamente e definir uma campanha de divulgação para a cidade toda sobre este tema e sobre o estudo. Vamos ter reuniões para definir medidas concretas a princípio na semana que vem", diz a presidente da FAL. A nível nacional, representantes da entidade participam de uma reunião nesta quinta-feira (12) com o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, João Teixeira Sobrinho.

Estrangeiros vulneráveis

Portugal se mostra cada vez mais aberto à internacionalização acadêmica. Dados recentes do governo somam 50 mil alunos estrangeiros no ensino superior nacional atualmente. Só a Universidade de Lisboa, a maior do país, recebe todos os anos cerca de 6.900 estudantes internacionais, vindos de mais de 100 países. Neste cenário, o estudo da FAL levanta questionamentos.

O relatório mostra que 46% das vítimas são estudantes deslocados da sua área de residência. Não existe nenhuma distinção entre nacionalidades, mas as entidades estão atentas à vulnerabilidade de grupos estrangeiros. "Não é claro neste estudo, mas também é percepção nossa que essas situações acontecem muito com a comunidade imigrante na academia. Se pensarmos que muitos estudantes se encontram isolados de referência familiar, de comunidade, mesmo dentro da faculdade, isto aumenta o grau de vulnerabilidade dos mesmos e das mesmas. Temos que pensar nisto", diz à Sputnik Brasil Daniel Cotrim, assessor técnico da direção da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que prestou assistência à FAL para realização do estudo. 

De acordo com o técnico, as autoridades agora devem atuar para conscientizar e eliminar riscos. O estudo mostra que a maioria dos alunos se sente insegura em áreas próximas dos campi acadêmicos, como estacionamentos, e nos trajetos entre casa e faculdade. Entre as recomendações feitas no documento, estão ações simples.

"Os responsáveis pelos campi acadêmicos de Lisboa devem ter em atenção que o espaço público é perigoso. A primeira, e acho que é muito concretizável, é colocar postes de iluminação, alterar o próprio espaço físico em volta das universidades", explica Daniel Cotrim. "Por outro lado, também criar planos de contingência dentro das próprias universidades, para saberem lidar com as questões e saberem fazer as pontes com as associações de apoio às vítimas que estão nas comunidades. Esse caminho não tem sido feito. No âmbito das recomendações, estas são as mais concretizáveis."

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019121114879379-estrangeiros-vulneraveis-numero-de-universitarios-vitimas-de-violencia-sexual-choca-lisboa/

«Uma chacina»

Ninguém podia invejar a sorte de Nathalie Dompnier, presidente da Universidade Lumière Lyon II, quando teve de comentar a imolação pelo fogo, a 8 de Novembro último, de um dos seus estudantes. Com o seu gesto, Anas K., de 22 anos, pretendeu protestar contra a miséria e o impasse da sua condição social. Tinha de trabalhar e estudar ao mesmo tempo; reprovara nos exames; acabava de lhe ser retirada a bolsa que recebia. Decidiu-se então, segundo as palavras do tunisino Abdel Razzaq Zorgui, que também se imolou, em Dezembro de 2018, a «fazer uma revolução sozinho».

Os jovens entre os 18 e os 24 anos constituem o grupo cuja taxa de pobreza mais aumentou. Ora, recorda Nathalie Dompnier, a precariedade «não permite estudar em condições de serenidade». Cinco meses antes da tentativa de suicídio de Lyon, um aviso oficial advertia que o trabalho assalariado dos estudantes, quando ultrapassa um certo período, «o que acontece muitas vezes entre os que não dispõem de bolsas suficientes ou de ajudas familiares, fá-los correr um risco acrescido de insucesso nos estudos» [1].

Muitos destes estudantes, além disso, têm fome, dormem na rua, não cuidam de si próprios. Com os meios ínfimos de que a sua universidade dispõe, Nathalie Dompnier declara que «não poderá fazer tudo» por eles. Avança com «uma unidade psicológica», «um número verde», «uma mercearia solidária» (Le Monde, 16 de Novembro de 2019). Quanto à ministra do Ensino Superior e da Investigação, Frédérique Vidal, vale-se de ter «aumentado o montante das bolsas» (na realidade, em 1,3%, ou seja, o nível oficial da inflação). Vai, contudo, «repensar tudo isto»; mas, «evidentemente, isso leva tempo». Por agora, promete que, neste Inverno, vão deixar de expulsar os estudantes pobres das residências universitárias…

O que se passa com a universidade passa-se com os hospitais, a agricultura, os bombeiros, a escola, o estado das pontes. Em França, do mesmo modo que noutras paragens. Passados trinta e cinco anos de privatizações, de recuo da gratuitidade, de diminuição das prestações sociais, de controlos miudinhos em todas as áreas – obrigada, Internet –, chegámos a uma sociedade sob pressão, atordoada, no osso, que está a esgotar as suas últimas reservas. Uma sociedade com sectores inteiros que estão a sucumbir. A intervalos regulares, esta sociedade mostra o seu esgotamento, exprime a sua cólera [2]. Pé ante pé, ela resiste à violência que os partidos de governo teimam em infligir-lhe, apesar de todas as alternâncias políticas. No programa das mais recentes «reformas», ou das próximas, constam a redução dos apoios à habitação, um novo aumento da idade de aposentação, a liberalização do trabalho à noite, a restrição dos apoios do Estado na saúde, o endurecimento das condições para o subsídio de desemprego – «uma chacina», segundo reconhece um responsável sindical, Laurent Berger, apesar de beneficiar dos favores da presidência da República.

Um jovem que sacrifica a vida como se faz nos regimes autoritários, manifestantes que perdem um olho, uma mão, durante uma carga policial, panfletários de direita que anunciam a guerra civil… Nas próximas semanas vão acontecer em França vários movimentos de greve. Se eles fracassarem, em que situação estaremos no próximo ano?


[1] Marie-Hélène Boidin Dubrule e Stéphane Junique, «Éradiquer la grande pauvreté à l'horizon 2030», Conseil économique, social et environnemental, Paris, 26 de Junho de 2019.

[2] Ler Bernard Cassen, «Quand la société dit “non”» (bem como o dossiê em que se insere), Le Monde diplomatique, Janeiro de 1996.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

O exemplo de Greta Thunberg

Prefiro adolescentes que se interessam e por causas políticas e ambientais do que adolescentes sentados/as muito aborrecidos nos bancos da escola, a matarem o tédio como bolinhas de papel atiradas aos professores.

Prefiro jovens que aderem a uma causa política do que jovens que passeiam pelos shoppings meneando ancas e mamas que ainda não têm.Prefiro ativistas empenhados do que gunas das claques desportivas. Prefiro raparigas como a Greta do que betinhas com unhas de gel, que falam alto e riem desbragadamente em locais públicos.

Alunos pouco mais velhos do que Greta passam o primeiro ano da universidade em praxes maldosas, maliciosas e ridículas.

Aqui em Portugal todo um tsunami passa pela escolas, pela falta de pessoal, a falta de professores motivados, o envelhecimento do quadro dos que teriam por função ensinar.

Será a escola muito motivadora?

Depois da escola segue-se a cruz da procura de emprego. Procurar emprego é uma tarefa fastidiosa, onde a maioria vai ganhar o salário mínimo nacional e subsistir à custa de ajudas dos pais. Arranjar um emprego é um alivio, que vai permitir consumir bens a que antes não tinham acesso. Foi para isso que serviu a tal escola?

Os jovens que vêm de famílias ricas vestem roupas de marca, sapatos de marca, e têm raça. Os filhos da maioria pobre ou remediada, exige, por vezes com violência, dos pais umas sapatilhas ou uns jeans de moda. Mas continuam com o estigma de não terem marca nenhuma. São assim a modos que rafeirosos.

Sim, uma campanha de raiva, de ódio, de maledicência persegue Greta Thunberg. Um campanha sobretudo feita por elementos do sexo masculino que parecem incapazes de admitir o valor da liberdade que a adolescente sueca conquistou ao fazer os seus primeiros protestos sozinha.

As mais variadas mentiras e fake news são dedicadas à menina de 16 anos.

Mas eu preferia ter uma filha como a Greta que apesar de ter um Sindrome de Asperger, em vez de estar chumbada em medicamentos viaja pelo mundo defendendo a sua causa e alertando para os perigos do esgotar de recursos e para as consequências para o ambiente.

Faço notar o seguinte: pessoas que são pais e mães de adolescentes, quando se riem jocosamente de Greta, quando acompanham a sua luta tentando sempre diminui-la, quando exprimem estas opiniões na mesa familiar, espero que os respetivos filhos nem os ouçam e continuem a brincar com o telemóvel. Espero que os filhos destes críticos cínicos os considerem ridículos e decidam, eles mesmos serem independentes dos botas de elástico e se manifestem contra a capacidade de Greta pela defesa da causa do ambiente.

Tenho receio de que se os filhos dos adultos escutarem reverentemente o que dizem os pais que odeiam Greta não acabem por pensar que, sim, é melhor ir ao shopping, ao concerto pimba, ou fumar um charro com os amigos.

As primeiras viagens que fiz sozinha foram exatamente para a Dinamarca e Suécia. Naquela altura fiquei surpreendida porque as crianças estavam muito tempo fora das escolas, iam apanhar cogumelos para a floresta, sabiam construir abrigos para se poderem abrigar durante uma eventual tempestade de neve. Os adolescentes viajavam com a escola, e inserido no programa escolar, para destinos onde eu nunca tinha ido, por exemplo Londres e Amesterdam. Tinham toda a informação sobre doenças sexualmente transmissíveis e tinham informação sobre como se defenderem de abusadores sexuais. Os rapazes e as raparigas conviviam muito e de forma intensamente livre. Eram estimulados a explorarem interesses fora do currículo escolar. Tinham tendas de campismo e usavam-nas ao fim de semana com os amigos.

Era uma cultura de liberdade onde se esperava que crianças e adolescentes fizessem perguntas e os adultos tentavam a descobrir respostas.

Foi nesta cultura que Greta nasceu. E também os pais dela.

Lá em cima no norte da Europa isso é assim.

Cá em baixo, no sul, a cultura judaico cristã com a respetiva reverência pelos mais velhos, reverência muitas vezes abúlica, são os próprios pais que atacam a menina que soube emancipar-se. Os pais que sabem tudo.

 

Ilustração: Escola dos patos Donald, de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-exemplo-de-greta-thunberg/

Bisnetos de Outubro e filhos de Abril

 

A revolução pode ser uma maratona mas também pode ser uma prova de velocidade. Se lutarmos por ela com a certeza de que vai ser uma prova de fundo, ficará arrumada numa gaveta chamada utopia. Se acharmos que lá chegamos com o velocímetro no máximo, podemos não ter forças para cruzar uma meta que não sabemos onde está. Como cantou Taiguara, o mais perseguido dos cantores brasileiros, "quem só espera não alcança e quem não sabe esperar erra feito criança".

Pouco mais de um ano antes da revolução de Outubro, Lénine acreditava que não veria qualquer revolução em vida. A tristeza de quem acha tudo previsível é não organizar o imprevisível. Não avançar porque se tem medo de falhar é não perceber que em colectivo errar nunca é perder. Por isso é que às vezes custa tanto sorrir como disparar. Quando sobra tristeza e bolsos vazios, não é fácil esboçar mais do que luto num rosto caído. Mas quando confiamos no sentido dos nossos passos, não é assim tão difícil que a curva dos nossos lábios se abra para o lado certo da barricada. Até os músculos da fronte são pardos na mais escura das noites e custa menos sorrir como disparar.

Portanto, se vos disserem que a história acabou sorriam, se vos disserem que o capitalismo venceu sorriam e se vos disserem que as revoluções são coisas do passado sorriam. Sorriam como sorriram os escravos depois da morte de Espartaco. Sorriam como sorriram as mulheres e homens depois do fuzilamento de milhares de operários quando caiu a Comuna de Paris. Sorriam como sorriu o povo russo depois do massacre de São Petersburgo. Sorriam como sorriram os combatentes cubanos depois da derrota em Moncada. Porque só assim a semente do futuro voltará a brotar para que colectivamente possamos tomar o céu de assalto. Uma e outra vez.

E se somos bisnetos de Outubro e filhos de Abril, cabe-nos pavimentar o presente para conquistar o porvir.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/11/bisnetos-de-outubro-e-filhos-de-abril.html

Persiste falta de alojamento estudantil acessível

Com o início do ano lectivo, a questão do alojamento para estudantes, em particular dos deslocados, volta a ganhar centralidade pelas dificuldades vividas por aqueles que procuram um quarto para estudar.

Créditos / ulisboa.pt

O acesso a um alojamento condigno, integrante do direito à Educação, tem vindo a degradar-se, com particular incidência no Ensino Superior, seja nas condições de acesso, seja nas características de habitabilidade, situação que afecta milhares de estudantes por todo o País.

A causa fundamental deste grave problema reside no desinvestimento, ao longo de décadas, no Ensino Superior e nos seus serviços de acção social. Assim, os custos com as propinas, taxas e materiais, a falta de alojamento, as dificuldades no acesso a bolsas e o seu insuficiente valor e respectivos atrasos, são um conjunto de factores que ameaçam a participação e acesso dos estudantes à formação a que têm direito.

São inúmeros os casos de estudantes que, por estas razões, ou abandonam os estudos ou têm de articular a frequência do ensino com um trabalho. Diversas associações e movimentos de estudantes têm sucessivamente alertado para esta situação com acções de luta e denúncias constantes.

No caso concreto do alojamento, a enorme carência de camas em residências estudantis – com a deficiente oferta pública – a par da especulação imobiliária em crescendo nos últimos anos levam a uma realidade dificílima para quem quer encontrar quarto para estudar. A «lei dos despejos» de Assunção Cristas deu aqui um contributo para o aumento do valor das rendas, particularmente nas grandes cidades, as quais atingem níveis impraticáveis para muitos estudantes – há quartos a rondar os 500 euros mensais.

No caso particular de Lisboa e Porto, muitos estudantes têm de encontrar uma opção em concelhos periféricos e perder tempo e dinheiro em transportes públicos.

Assim, se por um lado há número insuficiente de camas nas residências públicas estudantis, no mercado privado de arrendamento praticam-se hoje preços inacessíveis a famílias trabalhadoras. A carência de oferta pública tem dado azo ao negócio, bastante lucrativo, em particular em Lisboa e no Porto, da construção de residências privadas com preços elevadíssimos.

Problema que não é novo e resposta que tarda

Já em Maio do ano passado se divulgava, em relatório produzido pelo Ministério da tutela, que as camas em residências do Ensino Superior só chegavam para 12% dos estudantes deslocados. O mesmo documento indicava que 42% dos estudantes do Ensino Superior estão deslocados das suas zonas de residência.

Os dados apontavam para um problema ainda maior no caso de estudantes deslocados no Interior Centro do País, no Alentejo Central e na região Oeste.

No final do ano de 2017, o PCP chegou a apresentar, no quadro da discussão do Orçamento do Estado, uma proposta para o reforço em mil camas em residências universitárias. A medida não passou com o chumbo do PS.

No final de Março de 2018 foi aprovado (com votos a favor de PS, BE, PCP, PEV, PAN e a abstenção de PSD e CDS-PP) um projecto de lei, também de iniciativa dos comunistas, que determina a requalificação e construção de residências universitárias.

O projecto visava responder à realidade «assustadora» da falta de camas disponíveis em residências universitárias, dando o exemplo de que em Lisboa existe uma cama para dez mil estudantes.

Assim, pretendia-se que fosse dada resposta pública efectiva aferindo-se as necessidades de cada instituição, determinando-se a requalificação e construção de residências universitárias em número adequado.

Na lei ficou assente que o Governo «até Agosto de 2018, elabora um plano de requalificação e construção de residências universitárias, tendo por base as necessidades dos estudantes das instituições do Ensino Superior público e respeitando a sua distribuição por todo o território nacional». E que «a partir do ano de 2019, o Governo inicia a aplicação do plano previsto».

Determinava-se ainda que «o Governo, em cooperação com as instituições do Ensino Superior público, realiza no prazo de 3 meses após a publicação da presente lei um levantamento do estado e necessidades de requalificação das residências universitárias nas instituições do Ensino Superior público», com financiamento do Orçamento do Estado.

Ora, o Governo do PS – pese embora o seu partido tenha aprovado a lei no parlamento – tardou em entregar tanto o plano de requalificação e construção, como o levantamento do estado e necessidades de requalificação e tarda em cumprir a lei com o financiamento adequado para os efeitos aprovados.

Veja-se que Outubro de 2018, mesmo dentro do próprio PS, surgiram críticas ao plano apresentado pelo Governo para o alojamento dos estudantes, que definia como objectivo a criação de duas mil novas camas nos três anos seguintes.

O que dizem os Partidos nos seus programas eleitorais

Em plena pré-campanha eleitoral, o AbrilAbril aferiu os programas dos partidos com representação parlamentar sobre esta matéria.

O PSD, pese embora a sua abstenção no projecto acima referido propõe «reforçar a cobertura nacional de residências estudantis e reforçar os apoios sociais aos alunos deslocados. Através da reabilitação de edifícios públicos degradados (contribuindo assim, também, para a reabilitação urbana e revitalização dos centros da cidade) e da construção de novas residências recorrendo ao co-financiamento dos fundos regionais e da contratualização com a sociedade civil», admitindo assim o financiamento ao sector privado para dar resposta a uma obrigação estatal.

Ao programa eleitoral do PS contrapõe-se que, enquanto partido no Governo, ainda não executou a lei que resolveria muitos dos problemas de alojamento subsistentes. Assim o partido propõe «lançar, todos os anos, novas fases do plano de intervenção para a requalificação e a construção de residências de estudantes, com o objectivo de reforçar o alojamento disponível para estudantes do Ensino Superior, a custos acessíveis, em 12 mil camas até ao final da legislatura, atingindo um total de 27 mil camas».

Para o CDS-PP, a questão é, mais uma vez, a de beneficiar os privados, propondo que os proprietários que arrendam quartos a estudantes tenham uma «despenalização no IMT». Os centristas defendem que seja concretizada a «reabilitação e requalificação do património adequado, quer seja das instituições quer seja das autarquias quer pertença ao Estado central através de linhas de financiamento bonificadas» e ainda que possa ser feita «contratualização de vagas com os sectores privado e social, como resposta de curto-prazo».

No quadro da CDU, o PCP, à semelhança do que tem sido a sua intervenção institucional nesta área, propõe como medida de fundo o reforço da «acção social escolar directa, através do aumento do valor das bolsas de estudo e do número de estudantes elegíveis, e da acção social indirecta com a transferência do financiamento público adequado às universidades e politécnicos para assegurar serviços de alimentação, alojamento, transportes e apoio médico de qualidade e garantir apoios adequados a estudantes com necessidades educativas especiais». Não obstante, os comunistas colocam no leque das medidas políticas urgentes a questão de garantir o acesso ao Ensino Superior através da eliminação das propinas, do reforço e alargamento da acção social escolar e de um conjunto de medidas para garantir o acesso a residência pública aos estudantes deslocados.

Para o BE deve haver «alargamento da rede de residências universitárias». E o PAN entende que têm de se «aumentar o número de vagas nas residências de estudantes, seja através de novos blocos residenciais, seja através de acordos com o poder local».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/persiste-falta-de-alojamento-estudantil-acessivel

Maioria dos jovens portugueses dependem financeiramente da família

Estudo de imobiliária para conhecer as tendências de consumo dos potenciais clientes, dá um retrato dos problemas que afligem os jovens e, em particular, os jovens trabalhadores.

Lisboa é a cidade onde os preços da habitação são mais elevadosCréditos / Pixabay

O estudo «II Observatório do Mercado da Habitação em Portugal», realizado pela operadora imobiliária Century 21 com o objectivo de perceber os futuros clientes da imobiliária, revela que a maioria dos jovens portugueses dependem financeiramente da família e que mesmo aqueles que trabalham precisam de ajuda familiar para pagar a habitação em que vivem.

Segundo declarações de Ricardo Sousa, CEO da empresa, citadas pelo Dinheiro Vivo, o estudo «desmistifica uma ideia preconcebida sobre esta geração, de que é acomodada ao conforto da casa dos pais», e indica que é «a falta de recursos económicos» que condiciona as suas decisões em matéria de habitação.

Se 40% dos jovens portugueses entre os 18 e os 34 anos vivem debaixo do tecto dos pais – a idade média da emancipação em Portugal está próxima dos 30 anos, segundo o CEO da Century 21 – «é esmagador o número de jovens que não estão satisfeitos com a sua situação actual. Há uma percentagem muito relevante de jovens que querem sair de casa para ter a sua independência», afirma Ricardo Sousa.

Precariedade e baixos salários afligem a maioria dos jovens

A razão para que «os jovens não se emancipem mais cedo» é de outra ordem: o estudo evidencia que «é a precariedade do trabalho e as limitações nos rendimentos» que condicionam as suas decisões.

Cerca de 63% dos inquiridos na análise «conta com menos de 1000 euros mensais e 17% têm ganhos inferiores 500 euros. Apenas cerca de 12% indicam rendimentos entre 1000 e 1500 euros, por mês». O resultado é que 56% dos inquiridos dependem financeiramente da família para sobreviver.

Mesmo entre aqueles que são considerados emancipados, 37% «depende financeiramente da família ou parceiro», refere por sua vez a Agência Lusa, que também cita o referido estudo. «Apenas 36,4% dos jovens consegue assumir a totalidade dos gastos com a habitação onde vive» e «em 21% dos casos os custos da casa são integralmente suportados pelos pais», refere a agência.

A empresa realizou 800 inquéritos entre 18 e 25 de Junho, tendo por alvo jovens dos 18 aos 34 anos, com 50,3% a serem respondidos por mulheres e 49,7% por homens.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/maioria-dos-jovens-portugueses-dependem-financeiramente-da-familia

Encontro Nacional de Jovens Trabalhadores

encontro interjovemA CGTP-IN realizou no dia 26 de Junho, no Hotel Roma, em Lisboa, um Encontro Nacional de dirigentes, delegados e activistas sindicais, sob o lema “Organizar os Jovens Trabalhadores, Reforçar a Interjovem e os Sindicatos, Avançar na Luta”.

Amanifestação da juventude trabalhadora de 28 de Março e as comemorações do 1º' de Maio, organizadas pela CGTP-IN em todo o País, dando expressão à luta diária nas empresas e locais de trabalho, ilustraram bem como a vida dos jovens trabalhadores que é marcada pela precariedade, os baixos salários, os horários desregulados e discriminações múltiplas, que põem em causa direitos e garantias com consagração constitucional. Uma realidade que não deixa de se reflectir na vida e na organização das estruturas sindicais, em particular das suas estruturas juvenis.Desde a última Conferência da Interjovem/CGTP-IN, por motivos diversos - onde se inclui a emigração - vários membros da sua Direcção Nacional saíram dos respectivos sectores profissionais, fragilizando-se assim, a ligação a esses sectores e regiões de origem, por via da estrutura central da Interjovem.

Comprovou-se o papel de rejuvenescimento da estrutura que tem a intervenção junto dos jovens trabalhadores e o trabalho da Interjovem e, hoje, há sete membros da Direcção que, não o sendo à data da última Conferência, são actualmente dirigentes sindicais aos mais variados níveis das estruturas sindicais. Este facto mostra as potencialidades que o trabalho específico junto da juventude tem, mas mostra ainda que temos a necessidade de envolver novos quadros.

Desenvolver mais actividade e criar e dinamizar mais e melhor as comissões de jovens, garantindo a sua articulação, envolvimento e acompanhamento por parte das direcções das organizações sindicais de onde emanam.

No final do Encontro os jovens trabalhadores sairam à rua e foram em desfile até ao Ministério do Trabalho entregar a Resolução aprovada no Encontro.

RESOLUÇÂO

Os jovens trabalhadores continuam a ser os mais afectados pelo desemprego, os baixos salários e a precariedade. Apesar da melhoria na criação de emprego, a qualidade do mesmo caiu, a maioria dos postos de trabalho criados são precários, o recurso a empresas de trabalho temporário cresceu, a instabilidade é maior, os salários não fazem face à perda de poder de compra (dos 10% de poder de compra perdido no período do governo PSD/CDS-PP, apenas se recuperou pouco mais de 2%).

Acresce que o actual governo do PS propôs alterações ao Código do Trabalho que não só não revogam normas anti-laborais - como a da caducidade da contratação colectiva e o fim do tratamento mais favorável -, como quer fazer passar, na Assembleia da República, uma proposta de lei que agrava e legitima a precariedade e desregula ainda mais as relações de trabalho.

É contra tudo isso que aqui estamos, em protesto. E porque não abdicamos de agir e lutar por um presente e um futuro melhores, exigimos:

Emprego seguro, estável e com direitos;

A erradicação da precariedade, fazendo corresponder a cada posto de trabalho permanente um vínculo de trabalho efectivo;

O aumento geral dos salários, a fixação em 850€ do salário mínimo nacional e o fim das discriminações salariais;

A semana de 35 horas de trabalho normal para todos os trabalhadores, sem perda de salário, contra a desregulação dos horários;

Melhores condições de trabalho, contra os intensos ritmos de trabalho, as pressões, a repressão e a exaustão física e psicológica;

Uma política de habitação que, nomeadamente, combata a desregulação do mercado de arrendamento e ponha termo à precarização do direito à habitação e à especulação imobiliária;

Mais e melhores serviços públicos, contra as privatizações e a carência de estruturas públicas de apoio à família;

O fim da caducidade dos contratos colectivos de trabalho e a revogação de outras normas gravosas das leis do trabalho da responsabilidade do PS, do PSD e do CDS, a reposição do tratamento mais favorável e pelo direito de negociação e de contratação colectiva;

Afirmamos ainda a nossa disponibilidade para participar, no próximo dia 10 de Julho, a partir da Praça da Figueira, pelas 14h30, na manifestação convocada pela CGTP-IN contra a proposta de lei do Governo do PS de alteração do Código do Trabalho e pela revogação das normas anti-laborais, o aumento dos salários, a valorização dos trabalhadores.

A LUTA CONTINUA!

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«Fiquei com a certeza de que não estou sozinha nesta luta»

Em dia de Encontro Nacional, a Interjovem (CGTP-IN) encheu um salão no Hotel Roma, em Lisboa, para discutir os problemas laborais da juventude, como a precariedade e os baixos salários. Dois deles falaram ao AbrilAbril.

Adriana Almeida do SEP (esquerda) e Filipe Machado do SITE Norte (direita)Créditos / AbrilAbril

Do Encontro Nacional de Jovens Trabalhadores, que decorreu ontem à porta fechada no Hotel Roma, em Lisboa, reunindo aproximadamente duas centenas de jovens, só a intervenção de encerramento, proferida pelo secretário-geral da CGTP-IN, foi aberta aos jornalistas.

Ao apresentar as conclusões do encontro, Arménio Carlos sublinhou que a necessidade do aumento geral dos salários e do fim da precariedade foram questões centrais nas largas dezenas de intervenções dos jovens trabalhadores, que discutiram os seus problemas laborais e formas de como avançar na luta para ultrapassá-los.

«A precariedade e os horários desregulados são um flagelo que vos afecta de forma avassaladora, como bem explicaram, tanto agora como no futuro. E quem beneficia com isso? O que ganha a sociedade em ter jovens nesta situação?», questionou.

Para Arménio Carlos, a resposta está bem clara: «São as empresas e os patrões», os mesmos que, de acordo com o secretário-geral da CGTP-IN, respondem aos pedidos de aumentos salariais com intransigência ou insistem em «aumentos salariais de 15 a 20 cêntimos ao dia ou de 5 cêntimos no subsídio de refeição».

No final do encontro nacional, dois jovens, Adriana Almeida, activista do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP/CGTP-IN) e Filipe Machado, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Actividades do Ambiente do Norte (SITE Norte/CGTP-IN), aceitaram falar ao AbrilAbril sobre os problemas laborais da juventude e o encontro.

Adriana contou que começou a trabalhar há dois anos. «Quando me sindicalizei, não foi por estar a precisar de ajuda, por viver naquele momento algum conflito laboral em concreto, mas porque desde que terminei o curso achei que a sindicalização era muito importante, independentemente do sector em que trabalhemos, para nos proteger e sermos mais fortes para avançar na nossa profissão».

Filipe, por seu lado, tem uma proximidade ao mundo sindical por influência do pai, que «foi delegado sindical no [sector] têxtil», e concordou com Adriana sobre a necessidade de união entre os trabalhadores. Operário de metalurgia, concretamente na cutelaria, brincou que no ramo «há uma piada que os jovens têm mais de 45 anos, mas rapidamente realçou que «não é bem assim» e que estar sindicalizado «permitiu também representar os outros colegas jovens e os seus problemas».

Precariedade, obstáculo à vida

Na sua actividade de contacto com outros jovens trabalhadores, tanto Filipe como Adriana revelam que o problema mais gritante é a precariedade. «Há um abuso total por parte do patronato sobre os jovens», afirmou Filipe, que considerou que tal resulta da desinformação e do estigma incutido pela empresas contra os sindicatos.

Já Adriana dá o exemplo da sua situação, contratada no Hospital Santa Maria com um contrato individual de trabalho (CIT). «Somos contratados com menos direitos do que os contratados directamente pela função pública. Temos os mesmos deveres, mas não temos os mesmos direitos», acrescentou. 

A jovem activista deu como exemplo as horas semanais, que recentemente ainda eram de 35 horas para uns e 40 horas para outros. Adriana considera que o fim desta desigualdade «foi também uma luta do SEP e, apesar de não ter estado envolvida nessa luta, torna-se claro que temos que rejeitar, todos juntos, a desigualdade, para podermos melhorar a nossa vida».

Ambos consideram que é fundamental envolver os jovens trabalhadores e organizá-los nos sindicatos. «Existe alguma confusão em relação ao propósito dos sindicatos, e essa confusão leva a um certo desinteresse», admite Adriana. 

Por sua vez, Filipe responsabiliza as condições de trabalho pelas dificuldades de participação dos mais jovens: «é complicado organizar a vida e participar no que quer que seja fora do trabalho, com turnos ao fim-de-semana, turnos nocturnos ou rotativos. Normalmente são os jovens que fazem esses turnos e é complicado conciliar com as coisas que se gosta de fazer no tempo livre, com a família, e com o activismo sindical».

Nesse sentido, contrariam a ideia de que a «flexibilização dos horários» ou o «fim das carreiras para a vida» seja algo positivo ou desejado pela juventude de hoje. «É verdade que antigamente era mesmo trabalho para a vida inteira mas as pessoas não mudam de emprego só porque sim, mudam para ter condições melhores, e ter uma carreira e estabilidade na vida é muito importante para nós», reiterou Adriana.

«Lutar vale a pena»

Segundo os jovens sindicalistas, os direitos que hoje vigoram são fruto da luta, mas apontam que ainda há um caminho a percorrer para garantir melhores condições aos jovens trabalhadores, e não têm dúvidas que esse caminho passa por sindicalizarem mais jovens e organizarem acções nos seus locais de trabalho.

Filipe fala de casos que conhece bem. «Em Braga, conhecemos vitórias no caso da BOSCH e da Tesco, por exemplo. Os trabalhadores fizeram muitas greves e conseguiram passar dos contratos precários a vínculos efectivos. No caso da BOSCH a pressão foi tanta que a empresa adoptou uma política interna de a cada ano passar uma percentagem dos contratados a efectivos.» 

Também no caso dos enfermeiros a realidade é muito clara, diz-nos a Adriana. «Se foram solucionadas algumas disparidades em relação aos CIT, isso deveu-se a muita luta dos enfermeiros e do SEP. E em relação à carreira que agora foi apresentada, que não se adequa de todo à nossa situação, e por isso não vamos ficar de braços cruzados, vamos ter que nos organizar para a combater».

Um encontro de jovens que sabem que «não estão sozinhos»

«Para mim este encontro foi mesmo muito positivo» conclui o Filipe, sobretudo para «quem é novo no movimento sindical, serve para estar em contacto com outros activistas e dirigentes e perceber que não estamos sozinhos, a voz de qualquer trabalhador é para ser ouvida e as ideias têm que ser debatidas para avançarmos na luta».

Adriana concorda, acrescentando que serve também para «reflectir sobre a importância dos sindicatos». «Fiquei com a certeza de que não estou sozinha nesta luta, aliás, que os enfermeiros não estão sozinhos, que muitos dos problemas que nós temos também existem noutros sectores». 

O esforço para envolver outros jovens é decisivo para o futuro de todos os que trabalham, concluíram os sindicalistas, para quem «a partilha de formas de luta vai garantir melhores resultados no futuro».

Número de jovens que não trabalha nem estuda recua para mínimo histórico

300k

A taxa de jovens entre os 15 e os 34 anos que não estão empregados, em educação ou em formação recuou para os 9,9% em 2018, o valor mais baixo desde 1998 – ano em que a série histórica começou. 

Segundo os dados revelados hoje pelo INE, em 2018 o número de jovens “nem-nem” reduziu-se 33,1 mil face a 2017, uma diminuição de 1,3 pontos percentuais que levou a taxa para um mínimo histórico.

O boletim do INE mostra também que a taxa de desemprego jovem está em mínimos de 2009, com uma queda de 3,6 pontos percentuais face ao valor anual de 2017. Já os dados mensais dão indicações ainda mais positivas e sinalizam uma continuação da melhoria do mercado de trabalho para os jovens: em dezembro de 2018 a taxa de desemprego jovem baixou para os 17,6%, uma queda de 1,7 pontos percentuais apenas num mês. Este é o valor mais baixo desde março de 2003, ou seja, dos últimos 15 anos.

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Os degradantes espetáculos da barbárie dos futuros «doutores»

Denunciadas por algumas das suas vítimas, as práticas cometidas por quem liderou as praxes na Escola de Educação de Coimbra só podem causar a mais viva indignação. Obrigar caloiras e caloiras a despirem-se até à nudez, agredirem-nos, impedirem-nos de interromper a humilhação a que estavam a ser sujeitos, mesmo com os custos inerentes a assumirem-se contra tais práticas, só confirma a urgência de serem proibidas essas práticas, que uns quantos trogloditas, vestidos com a sua farda carnavalesca, querem impor a colegas da mesma escola a pretexto de lhes «facilitarem» a integração.
Pelos vistos o crime perpetrado na Praia do Meco não bastou para que a sociedade agisse com determinação contra potenciais violadores e assediadores. As praxes são expressões debullying, que não são toleráveis. O respeito da pessoa humana tem de ser transversal a todas as idades e a todas as classes sociais, sob pena de mergulharmos na barbárie.
Tardam as leis e os correspondentes controles para que as escolas, desde a pré-primária até aoscampusuniversitários sejam, exclusivamente espaços de partilha de conhecimento entre quem sabe e quem deseja saber. Ponto final.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/11/os-degradantes-espetaculos-da-barbarie.html

Os pinguins das praxes

(Pacheco Pereira, in Sábado, 07/10/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Se há coisa que me enfurece, e poucas coisas cabem nessa categoria, é a praxe. É ver dezenas e centenas de estudantes capitaneados por uns grupos vestidos entre o padre e o pinguim, armados de colheres de pau, a pastorear um rebanho de caloiros felizes da vida a serem humilhados na praça pública.

Se querem melhor exemplo de que não há teorias teleológicas da história, em que existe uma seta do tempo que vai de trás para a frente, do passado atrasado para o futuro progressista, a praxe é um deles.

Ainda há pouco tempo, as universidades de Lisboa e do Porto tinham os seus estudantes limpos da farda de pinguim, que era uma coisa que havia em Coimbra e não abonava muito à ideia de que a sua universidade era moderna, em vez de provinciana e retrógrada. Agora como uma praga de gafanhotos, ou melhor pinguins, estende-se por todo o lado. Sim, de facto, a história não anda para a frente.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Eu sei que há gente que gosta de lamber o chão e praticar umas coisas entre o escatológico e o puramente imbecil, mas já há uns anos sugeri que o fizessem no recato de um campo fechado, fora dos olhares das pessoas que gostam de ter o olhar limpo da fauna dos pinguins, mesmo reconhecendo que esta classificação é injusta para os pinguins lá no seu lugar gelado.

A praxe, já o sabemos, é perigosa. Já morreu gente. E deveria ser ainda mais perigosa para as carreiras futuras de quem se presta a estas iniquidades. Se tivesse uma empresa que recrutasse jovens universitários, nem que fosse para servir à mesa, ou responder a telefonemas, perguntava sempre:
“Foi praxado/a?
Fui, fui e gostei muito.
Então vá procurar emprego noutro sítio que aqui empregam-se pessoas que tem respeito por si próprias.”


Fernando Fernandes e a morta Livraria Leitura

A morte de Fernando Fernandes era esperada, como se não pudesse sobreviver muito à também já morta Livraria Leitura. Conheci-o bem, nos muitos anos em que frequentei a Leitura, ou seja toda a minha vida adulta, que era sem dúvida nos seus períodos áureos a melhor livraria do Porto. Era um tempo em que se lia mais ou se se quiser de forma diferente do que se lê hoje. Ele, como todos os bons livreiros, não só sabia o que tinha, como conhecia os seus frequentadores e indicava-lhes as novidades que lhes poderiam interessar.

Era também um período em que se liam livros na Universidade e o Fernando tinha o hábito de comprar sempre em duplicado os livros que os professores encomendavam para eles, constituindo assim um acervo na livraria pouco comum. E por muito que as encomendas na Amazon possam ter muita eficácia, há uma coisa que livreiros e donos de livrarias devem meter na cabeça como um prego: não é a mesma coisa ver uma banca com livros e passear o olhar e a carteira ou o cartão de crédito sobre eles e “folhear” uma lista de “se comprou este deve gostar de ter este” em linha.
O Fernando Fernandes doou o seu corpo ao Instituto de Anatomia Patológica, para ser lido pelos estudantes como um livro muito especial. Estes homens, desta época, tinham demasiada têmpera para os costumes ligeiros de hoje.


Uma entrevista a Aznavour

Isto parece uma necrologia, agora com a morte de Charles Aznavour, que conheci pessoalmente. No tempo em que os animais falavam, fiz uma série de entrevistas para o jornal do meu Liceu Alexandre Herculano, algumas com o meu amigo Santos Carvalho, e uma delas foi com Aznavour, numa ida que este fez ao Porto nos anos 60. Devem imaginar o grau de intimidação e de atrevimento que significava uns estudantes do Liceu irem fazer perguntas a um cantor que estava então no apogeu da sua fama.

Mas Aznavour recebeu-nos no Hotel Infante Sagres, o mais luxuoso do Porto, com cadeiras de veludo e cortinados pesados, entre lustres e pratas, e esteve ali quase uma hora literalmente a aturar-nos. Nem quero reler a entrevista publicada, mas deve ter sido um chorrilho de perguntas banais, a que ele respondia com aquela voz magnífica. Nunca me esqueci que ele nos disse o seu verdadeiro nome armeno Shahnour Varinag Aznavourian, e nunca mais referi o seu nome sem me lembrar de que era Aznavourian, e que isso remetia para uma longa história, como todas as longas histórias demasiado trágica.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Universitários hoje! Outros jovens, outros tempos, outras escolas... II

«Se fores obediente e lamberes o chão, podes vir a mandar, quando for a tua vez, e, nessa altura, podes escolher um chão ainda mais sujo, do alto da tua colher de pau. És humilhado, mas depois vingas-te.
Pacheco Pereira, in "A abjecção das praxes"
«Ao fim e ao cabo, a praxe não é um corpo estranho alojado no complexo sistema que forma as nossas elites.»
Rogério Pereira (eu), in "Dicas do Bruno"
«Bateram-se pel' «o dia inicial inteiro e limpo»? Passaram as passas do Algarve por tempos renovados, livres e em progresso? Tiveram-nos, sem dúvida, pelo menos em parte. Ganharam. Mas a «revanche» do miserável Portugalório analfabeto, submisso e mendigo, aí está a instalar-se de ano para ano. A praxe estudantil»
Mário de Carvalho, na sua página

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A segunda pele: o telemóvel

(António Guerreiro, in Público, 21/09/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

O Liceu San Benedetto, da cidade italiana de Piacenza decidiu fazer uma experiência radical: banir os telemóveis do início ao fim de cada dia de aulas, incluindo os intervalos. À entrada da primeira aula de cada dia, os alunos são obrigados a introduzir os seus telemóveis numa bolsa que os bloqueia completamente. Nenhuma utilização clandestina é possível porque nenhum aluno detém o código de abertura da bolsa.

Entrevistados por uma televisão italiana, alguns alunos mais condescendentes falam da experiência como um castigo benévolo que lhes é infligido e que consiste, diz um deles, “em fazê-los sentir fora do mundo”. Mas outros há que parecem ecoar as palavras de Kurtz, em O Coração das Trevas: “The horror, the horror”. É o caso de uma rapariga que diz que é “uma das piores torturas”, uma coisa “terrificante” que não deseja a ninguém. 

Devemos salientar: estamos em Itália, o paraíso do telefonino. Mas hoje, para onde quer que orientemos o radar, só uma pequena minoria consegue não se sentir fortemente afectada pela privação do telemóvel. Já não é um aparelho que se tem ou não se tem: é um “instrumento absoluto” que, na sua ausência, nos faz sentir em estado de privação.

Quem, nos anos 90 do século passado, experimentou viajar de comboio de Munique para o Norte da Itália, ficava pasmado com um contraste gritante: após a paragem na primeira estação italiana, em Bolzano, acabava-se a tranquilidade e instaurava-se o casino italiano. Na altura, grande parte dos alemães ou ainda não tinha telemóvel ou achava que tal objecto não era para ser usado despudoradamente, diante dos outros passageiros da carruagem.

Hoje, quer se entre em Itália pelos Alpes suíços, quer se entre pelos Alpes austríacos, as fronteiras já são muito menos marcadas. E certamente que do outro lado há pedagogos e directores de escolas a olhar muito interessados para a experiência italiana.

Logo após o aparecimento do telefonino, Umberto Eco escreveu uma das suas crónicas a desvalorizá-lo, a mostrar que a comunicação instantânea permitida pelo telemóvel servia motivos fúteis e nenhuma questão de vida ou de morte estava aí em jogo. Alguns anos depois, reviu e corrigiu essa crónica e formulava deste modo a questão: “Podemos ainda viver sem telemóvel”? Podemos, claro, mas entretanto muita coisa mudou na nossa vida e sentimos que se abre um abismo aos nossos pés quando colocamos a hipótese de voltar à era antes do telemóvel.

Quando reescreveu essa crónica, já outro italiano, um filósofo bem conhecido, Maurizio Ferraris, tinha escrito o seu tratado de Ontologia del telefonino. Assim reza o subtítulo de um livro de 2011, que se chama Dove sei? (onde estás?) e é ilustrado com a foto de um judeu a pôr um telemóvel colado ao muro das lamentações.

Para Ferraris (que entretanto se tornou um dos filósofos mais polémicos em Itália por causa de um “manifesto do novo realismo”), o telemóvel é um objecto filosoficamente interessante, ao ponto de suscitar uma ontologia, na medida em que a pergunta pertinente para o telefone fixo, “Quem é?” passou a ser, para o telemóvel, “onde estás?”.

Do outro lado, sabemos sempre quem é, a não ser que o telemóvel tenha sido roubado, porque o aparelho é quase como uma impressão digital. O que não sabemos é onde está: pode estar em qualquer parte do mundo, inclusivamente a poucos metros de nós, tão acessível por via vocal como pelas ondas que dão instantaneamente a volta ao mundo para regressarem quase ao ponto de partida.

Outra transformação radical: não podemos ignorar que alguém nos telefonou, deixou de ser possível dizer que não sabíamos de nada. Agora, se não respondemos, temos de arcar com a responsabilidade do nosso silêncio.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

As escolas da democracia, que nem sempre o são

Repressão política nas escolas. Não nos ocorre que aconteça, sobretudo a jovens que dão os primeiros passos de participação democrática, mas é uma realidade relatada ao AbrilAbril por vários estudantes durante a pausa lectiva de Verão.

«Os jovens não querem saber» é uma asserção comum que já quase todos devemos ter ouvido (ou dito) por aqui ou ali, tanto relativamente à política como sobre os problemas sociais que os rodeiam. Todavia, independentemente de verdadeira ou não, sendo a escola um dos pilares da educação dos jovens, as denúncias de coacção e represálias dentro destas, que têm surgido um pouco por todo o País, são um claro motivo de preocupação.

Uma realidade que se evidencia com maior gravidade no caso concreto do ensino básico e secundário, com especificidades que os levam a deixar de lado neste trabalho o ensino superior.

Em Portugal, o 25 de Abril consagrou na Constituição da República um Estado de Direito, que contempla direitos, liberdades e garantias fundamentais como a liberdade de expressão (art.º 37), de reunião (art.º 45) e de associação (art.º 46).

Porém, por todo o País, em escolas básicas (EB) e escolas secundárias (ES), esses direitos, por nós assumidos como adquiridos, foram postos em causa sistematicamente ao longo dos últimos anos, num claro abuso de autoridade e de repressão sobre os mais novos, que tem passado pelos pingos da chuva nos meios de comunicação.

O AbrilAbril foi ao encontro desta realidade, confrontando estudantes com relatos de situações de abuso de autoridade e de repressão sobre os mais novos que, num clima de medo conjugado com o facto de serem muitas vezes vistos como inexperientes, os leva a sentirem-se marginalizados e a sua voz abafada.

​​Eleições livres, excepto dentro da escola

Os estudantes, conforme previsto na lei do associativismo juvenil, têm direito a ser representados pela sua associação de estudantes, estando previstas as formas de constituição e reconhecimento das mesmas, embora esse processo se revele caro, burocrático e moroso.

No entanto, para os estudantes, os principais problemas estão no atropelo ao funcionamento e ao exercício dos seus direitos de participação, com ingerência e desrespeito das escolas pelo cumprimento da lei, tal como a obrigatoriedade de serem consultados pelos órgãos de gestão das escolas em diversas matérias da vida interna, o direito de consultarem os seus associados em Reuniões Gerais de Alunos (RGA) ou o de realizarem os seus processos eleitorais de forma autónoma.

Num levantamento de casos e denúncias apresentado ao Conselho Consultivo da Juventude (CCJ) - órgão de consulta e de acompanhamento do Governo para a área, que reúne uma multitude de associações representantivas dos jovens - são muitos os casos de escolas onde as direcções interferem ilegalmente no processo eleitoral, apesar de tal só caber à Comissão Eleitoral.

Referindo alguns exemplos comuns, na ES Artur Gonçalves, em Torres Novas, a direcção​​​ determinou o processo eleitoral, a composição dos membros das listas e o conteúdo do programa dos alunos. Na ES Cunha Rivara, em Arraiolos, ocorreu o mesmo, além de que colocou «sucessivos entraves à actividade da associação de estudantes», enquanto na ​​ES Padrão da Légua, em Matosinhos, houve estudantes «impedidos pela direcção de constarem das listas por terem mudado de curso».

Mais grave é, por exemplo, o caso da ES Sebastião da Gama, em Setúbal, com «dois anos consecutivos de ingerência da direcção no processo eleitoral dos estudantes, não reconhecendo a lei do associativismo, no que toca à convocatória de RGA com 10% de assinaturas dos estudantes, não tendo este ano cedido sala para a sua realização», obrigando a que a mesma fosse realizada na rua. Recusaram também a comissão eleitoral eleita e procuraram «impedir, por todas as vias, os prazos definidos para eleições, incluindo através de ameaças a estudantes».

Directores proíbem estudantes de reunir

A repressão afecta também o direito de reunião dos estudantes, que, em diversas ocasiões, tentaram realizar assembleias dentro da escola mas, em reacção, encontram forte resistência de vários directores, seja proibindo a sua realização, seja recusando a cedência de uma sala para o efeito.

Nos depoimentos prestados por vários estudantes, percebe-se que os actos de proibição e intimidação, em grande parte promovidos pela figura do director, variam de escola para escola. No actual modelo de gestão escolar, a maioria dos poderes está ​​​​​​concentrada no director, o que, conjugado com o estatuto do aluno, abre caminho para abusos de autoridade. Das inúmeras denúncias, alguns exemplos:

- na ES Alves Redol, em Vila Franca de Xira, foi impedida a realização de uma RGA dentro da escola. Quando a mesma se deslocou para fora do recinto, o director, que mais tarde viria a ser destituído, chamou a polícia para impedir a sua realização;

- na ES Martins Sarmento, em Guimarães, a direcção impediu a realização de uma RGA e procurou intimidar os estudantes chamando-os à direcção e ameaçando-os;

- na ES Rainha D. Leonor, em Lisboa, a realização da RGA foi proibida, mesmo reunindo o número de assinaturas necessárias para a realização.

Estudantes castigados por denunciarem falta de condições

Por outro lado, em Novembro de 2017, o caso de uma aluna de Braga, a quem foi levantado um processo disciplinar por ter divulgado um vídeo a mostrar as más condições do refeitório da escola, trouxe para fora dos muros aquilo que é a prática de várias direcções pelo País.

Uma resposta já familiar para muitos estudantes, que explicam que o recurso aos regulamentos, entre os quais o Estatuto do Aluno, são frequentemente usados discricionariamente pelos directores como instrumentos de controlo e punição sobre os alunos, naquilo a que até chamam «Código Penal para estudantes».

Distribuições e manifestações de alunos reprimidas

Outro caso congénere sucedeu-se na ES Aurélia de Sousa, no Porto, no contexto de uma concentração de alunos à porta da escola, em protesto contra os exames nacionais, com cerca de 300 alunos. Em reacção, a direcção da escola coagiu os estudantes a deixarem o protesto e impediu outros de saírem para se lhes juntarem, alegando que «as leis [...] fora da escola não contam dentro da escola».

Em Leira, na ES Pinhal do Rei, vários elementos da direcção, professores e funcionários tentaram impedir os estudantes de distribuir documentos à porta da escola e de falar sobre os seus problemas, chegando mesmo a chamar a polícia.

Na ES José Gomes Ferreira, em Lisboa, a direcção retirou as faixas que os estudantes tinham colocado nas grades da escola e arrancou os cartazes que apelavam à manifestação dos estudantes, em Março.

Polícia cúmplice na repressão

Conforme já mencionado, em diversos ocasiões, a PSP foi chamada às escolas como instrumento de coacção sobre os estudantes, a pedido dos directores.

Aconteceu na ES do Restelo, onde uma manifestação de 500 estudantes à porta da escola teve o seu fim com a chegada de agentes da PSP, que desmobilizaram o protesto aos empurrões, coagindo alunos com exigência de identificação, apesar de não haver qualquer crime, e de entrega do contacto dos pais.

Em Novembro de 2017, na ES Senhora da Hora, estudantes estiveram concentrados à porta da escola em protesto por melhores condições. Direcção da escola chamou PSP, que procurou identificar todos os alunos e desmobilizá-los.

Na ES de Matias Aires, no Cacém, depois de a associação de estudantes ter pedido à direcção uma sala para uma RGA para discutir acções reivindicativas, que aquela negou, os alunos marcaram uma concentração à porta da escola no dia 22 de Março. No dia do protesto, os estudantes viram-se confrontados com uma carrinha de intervenção da PSP, num total de 14 agentes, tendo a direcção apelado a que os estudantes ou fossem para as aulas ou fossem para casa.

Já numa manifestação marcada para 21 de Março, no Agrupamento de Escolas de São João da Talha, em Lisboa, cerca de 50 estudantes assistiram à chegada da polícia momentos antes da concentração, com o objectivo de os desmobilizar e os obrigar a entrar na escola, alegando tratar-se de uma manifestação ilegal. Vários estudantes acabaram encostado às grades da escola.

Os exemplos aqui relatados por vários estudantes, relativos ao ano lectivo transacto, mostram uma realidade que urge alterar, nomeadamente através do empenho de professores, pais e alunos, e à qual o Ministério da Educação não pode ficar alheio.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Os jovens NEET, o «ajustamento estrutural» e o mercado de trabalho

Os jovens NEET (que não estudam nem se encontram empregados ou em formação) são frequentemente associados à ideia de desmotivação e falta de «objetivos de vida». O que os dados indiciam, porém - e de forma notória no caso português - é que os NEET («jovens nem-nem»), têm uma relação muito mais estreita com as dinâmicas do mercado de trabalho (e em menor grau com o insucesso e abandono escolar), que com uma espécie de «nihilismo geracional». De facto, a percentagem de jovens com idades entre os 15 e os 24 que não trabalha nem estuda tende a acompanhar a evolução do emprego e do desemprego: aumenta quando este aumenta (como sucedeu entre 2008 e 2013, tanto à escala europeia como nacional) e diminui quando quando o mercado de trabalho recupera (como se verificou após 2013, na sequência do travão à «austeridade expansionista»).
A diferença essencial, entre Portugal e a União Europeia, é portanto de ritmo: em períodos de crise, os jovens em idade de frequência escolar ou académica, mas que não estudam nem trabalham, aumenta de forma mais significativa em Portugal que na UE. Do mesmo modo que, quando o emprego recupera, é em Portugal que a percentagem de jovens NEET cai de modo mais expressivo, sugerindo uma maior interdependência - no caso português - entre o fenómeno NEET e o desemprego. Aliás, um dos dados mais esclarecedores quanto ao nível de interdependência com o emprego diz respeito à percentagem de jovens NEET que não pretende ingressar no mercado de trabalho. Se até 2008 tínhamos valores muito próximos da UE (a oscilar entre 3 e 4%), desde então decresce o peso relativo desses NEET (1,8% em Portugal contra 3,6% na UE, em 2017). Ao contrário da União Europeia, a inatividade não é de facto, em Portugal, uma das principais caraterísticas dos jovens NEET. O que, por seu turno, revela também - a par da maior vinculação às dinâmicas do mercado de trabalho - a menor valorização da escola e da frequência de percursos escolares e académicos.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

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