Itália

Os Italianos favoráveis a uma saída da UE e a uma aliança com a China


Assim que a epidemia de Covid-19 atingiu a Itália, esta apelou à ajuda da União Europeia que não lhe respondeu. A Alemanha, essa, reagiu brutalmente proibindo a exportação de máscaras.

Após a ausência de resposta da UE à crise económica de 2008, à crise de migrantes de 2015 e à crise do coronavírus de 2020, a taxa de Italianos desfavoráveis à UE saltou para 67%.

Uma outra sondagem (pesquisa-br) mostrou que agora, após as reacções da Alemanha às últimas crises e à sua intervenção na Líbia (antiga colónia italiana), 45% dos Italianos consideram a Alemanha como um «inimigo».

Após a ajuda oferecida pela China à Itália durante a epidemia, 52% dos Italianos consideram a China como um «amigo».

Muito preocupado com uma possível Italyxit (saída da Itália da UE- ndT), o Ministro alemão dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Heiko Maas (na foto com seu homólogo Luigi Di Maio), decidiu dar destaque à solidariedade germano-italiana, nomeadamente na salvação de alguns pacientes italianos de Covid-19 por hospitais alemães.


Tradução
Alva

Original em 'Rede Voltaire' na seguinte ligação:

https://www.voltairenet.org/article210381.html

[Manlio Dinucci] NÃO HÁ SOBERANIA ECONÓMICA SE NÃO EXISTIR SOBERANIA POLÍTICA

                             
                      Conte e Profumo com o novo Falco Xplorer, o maior drone que a empresa Leonardo construiu
 
 
Actualmente, discute-se quanto e que financiamento a Itália receberá da União Europeia e sob que condições. Chegam mensagens tranquilizadoras de Bruxelas. Mas como tais financiamentos serão concedidos em grande parte, sob a forma de empréstimos, vários economistas alertam que existe o perigo de forte endividamento e de uma perda posterior de soberania económica. Assim sendo, a atenção política-mediática concentra-se nas relações entre a Itália e a União Europeia. 
 
Tema importante, que não pode ser separado das relações entre a Itália e os Estados Unidos, que ninguém discute no Parlamento e nos meios de comunicação mediática. Assim, continuam a ignorar-se as implicações do plano de “assistência” à Itália, lançado pelo Presidente Trump em 10 de Abril (il manifesto, 14 de Abril de 2020). 
 
No entanto, o Embaixador dos EUA em Itália, Lewis Eisenberg, define-o como “a maior ajuda financeira que os Estados Unidos já deram a um país da Europa Ocidental desde 1948, desde a época do Plano Marshall”. Em apoio às actividades de saúde anti-Covid, “dezenas de milhões de dólares já foram e irão para a Cruz Vermelha e algumas organizações não-governamentais” (não perfeitamente identificadas). Além disso, o plano prevê uma série de intervenções para “apoiar a recuperação da economia italiana”.
 
Para este fim, o Presidente Trump ordenou aos Secretários do Tesouro e do Comércio, ao Presidente do Banco de Exportação e Importação, ao Administrador da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, ao Director da Corporação Internacional de Financiamento ao Desenvolvimento dos Estados Unidos (agência governamental que financia projectos de desenvolvimento privado) para usarem os seus instrumentos para “as empresas italianas”. Não está dito que empresas são e quais serão financiadas por este plano, nem a que condições estão vinculados estes empréstimos.
 
O Embaixador Eisenberg fala, em geral, das óptimas relações entre os Estados Unidos e Itália, demonstradas por “importantes indicadores económicos e estratégicos”, incluindo “um dos maiores acordos militares com a empresa Fincantieri”, que ganhou um contrato em Maio passado de cerca de 6 biliões de dólares para a construção de dez fragatas multifuncionais da Marinha dos EUA. O grupo italiano, 70% controlado pelo Ministério da Economia e Finanças, possui três estaleiros nos EUA, onde também estão em construção quatro navios de guerra semelhantes para a Arábia Saudita.
 
Outro indicador económico e estratégico importante é a integração crescente da Leonardo, a maior indústria militar italiana, no complexo industrial militar dos EUA, sobretudo através da Lockheed Martin, a maior indústria militar dos EUA. A Leonardo, da qual o Ministério da Economia e Finanças é o principal accionista, fornece aos EUA produtos e serviços para as forças armadas e para as agências de serviços secretos e administra em Itália, as instalações fabris de Cameri, dos caças F-35 da Lockheed Martin.
 
São estes e outros interesses poderosos - especialmente os dos grandes grupos financeiros - que ligam a Itália aos Estados Unidos. Não só a política externa e militar da Itália, mas também a política económica, subordinada à estratégia dos Estados Unidos, baseada num confronto político, económico e militar cada vez mais agudo com a Rússia e com a China. O plano de Washington é claro: explorar a crise e as fracturas na União Europeia para fortalecer a influência dos EUA em Itália.
 
As consequências são evidentes. Embora, por exemplo, seja do nosso interesse nacional suspender as sanções a Moscovo, a fim de relançar as exportações italianas para a Rússia para restaurar o oxigénio, especialmente às pequenas e médias empresas, tal alternativa foi impossibilitada pela dependência das escolhas de Washington e de Bruxelas.
 
Ao mesmo tempo, estão em perigo os acordos da Itália com a China no âmbito da Nova Rota da Seda, que não são bem aceites por Washington. A falta de soberania política real impede estas e outras escolhas económicas de importância vital para sair da crise. Mas, no ‘talk show’ político, não se fala de toda esta conjuntura.
 
Manlio Dinucci
 
 
il manifesto, 9 de Maio de 2020
 
 
 
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Não há soberania económica sem soberania poliíica

Anunciada nova estratégia de diálogo entre Itália e os EUA | Euronews

Manlio Dinucci

Actualmente, discute-se quanto e que financiamento a Itália receberá da União Europeia e sob que condições. Chegam mensagens tranquilizadoras de Bruxelas. Mas como tais financiamentos serão concedidos em grande parte, sob a forma de empréstimos, vários economistas alertam que existe o perigo de forte endividamento e de uma perda posterior de soberania económica. Assim sendo, a atenção política-mediática concentra-se nas relações entre a Itália e a União Europeia.
Tema importante, que não pode ser separado das relações entre a Itália e os Estados Unidos, que ninguém discute no Parlamento e nos meios de comunicação mediática. Assim, continuam a ignorar-se as implicações do plano de “assistência” à Itália, lançado pelo Presidente Trump em 10 de Abril (il manifesto, 14 de abril de 2020).
No entanto, o Embaixador dos EUA em Itália, Lewis Eisenberg, define-o como “a maior ajuda financeira que os Estados Unidos já deram a um país da Europa Ocidental desde 1948, desde a época do Plano Marshall”. Em apoio às actividades de saúde anti-Covid, “dezenas de milhões de dólares já foram e irão para a Cruz Vermelha e algumas organizações não-governamentais” (não perfeitamente identificadas). Além disso, o plano prevê uma série de intervenções para “apoiar a recuperação da economia italiana”.
Para este fim, o Presidente Trump ordenou aos Secretários do Tesouro e do Comércio, ao Presidente do Banco de Exportação e Importação, ao Administrador da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, ao Director da Corporação Internacional de Financiamento ao Desenvolvimento dos Estados Unidos (agência governamental que financia projectos de desenvolvimento privado) para usarem os seus instrumentos para  “as empresas italianas”. Não está dito que empresas são e quais serão financiadas por este plano, nem a que condições estão vinculados estes empréstimos.
O Embaixador Eisenberg fala, em geral, das óptimas relações entre os Estados Unidos e Itália, demonstradas por “importantes indicadores económicos e estratégicos”, incluindo “um dos maiores acordos militares com a empresa Fincantieri”, que ganhou um contrato em Maio passado de cerca de 6 biliões de dólares para a construção de dez fragatas multifuncionais da Marinha dos EUA. O grupo italiano,  70% controlado pelo Ministério da Economia e Finanças, possui três estaleiros nos EUA, onde também estão em construção quatro navios de guerra semelhantes para a Arábia Saudita.
Outro indicador económico e estratégico importante é a integração crescente da Leonardo, a maior indústria militar italiana, no complexo industrial militar dos EUA, sobretudo através da Lockheed Martin, a maior indústria militar dos EUA. A Leonardo, da qual o Ministério da Economia e Finanças é o principal accionista, fornece aos EUA produtos e serviços para as forças armadas e para as agências de serviços secretos e administra em Itália, as instalações fabris de Cameri, dos caças F-35 da Lockheed Martin.
São estes e outros interesses poderosos – especialmente os dos grandes grupos financeiros – que ligam a Itália aos Estados Unidos. Não só a política externa e militar da Itália, mas também a política económica, subordinada à estratégia dos Estados Unidos, baseada num confronto político, económico e militar cada vez mais agudo com a Rússia e com a China. O plano de Washington é claro: explorar a crise e as fracturas na União Europeia para fortalecer a influência dos EUA em Itália.
As consequências são evidentes. Embora, por exemplo, seja do nosso interesse nacional suspender as sanções a Moscovo, a fim de relançar as exportações italianas para a Rússia para restaurar o oxigénio, especialmente às pequenas e médias empresas, tal alternativa foi impossibilitada pela dependência das escolhas de Washington e de Bruxelas.
Ao mesmo tempo, estão em perigo os acordos da Itália com a China no âmbito da Nova Rota da Seda, que não são bem aceites por Washington. A falta de soberania política real impede estas e outras escolhas económicas de importância vital para sair da crise. Mas, no ‘talk show’ político, não se fala de toda esta conjuntura.
 
 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/30rDcjJ

 

DEPUTADA ITALIANA: BILL GATES CRIMINOSO CONTRA A HUMANIDADE

Italia. La diputada Sara Cunial denunció en el Parlamento a Bill...
Sara Cunial, deputada por Roma no Parlamento Italiano em discurso abaixo transcrito (inglês) denuncia Bill Gates como um 'criminoso das vacinas' e insta o Presidente de Itália a entregá-lo ao Tribunal Criminal Internacional por crimes contra a humanidade. 
Oiça e veja o vídeo do discurso e leia a transcrição do mesmo abaixo.
 

Speech delivered to the Italian Parliament
May 2020
Hobbes said that absolute power does not come from an imposition from above but by the choice of individuals who feel more protected renouncing to their own freedom and granting it to a third party.
With this, you are going on anesthetizing the minds with corrupted Mass Media with Amuchina (a brand of disinfectant promoted by Mass Media) and NLP, with words like “regime”, “to allow” and “to permit”, to the point of allowing you to regulate our emotional ties and feelings and certify our affects.
So, in this way, Phase 2 is nothing else than the persecution/continuation of Phase 1 – you just changed the name, as you did with the European Stability Mechanism (ESM). We have understood people, for sure, don’t die for the virus alone. So people will be allowed to die and suffer, thanks to you and your laws, for misery and poverty. And, as in the “best” regimes, the blame will be dropped only on citizens. You take away our freedom and say that we looked for it. Divide et Impera (Divide and Rule).
It is our children who will lose more, who are ‘raped souls’, with the help of the so-called “guarantor of their rights” and of CISMAI (Italian Coordination of Services against Child Abuse). In this way, the right to school will be granted only with a bracelet to get them used to probation, to get them used to slavery – involuntary treatment and to virtual lager. All this in exchange for a push-scooter and a tablet. All to satisfy the appetites of a financial capitalism whose driving force is the conflict of interest, conflict well represented by the WHO, whose main financier is the well-known “philanthropist and savior of the world” Bill Gates.
We all know it, now. Bill Gates, already in 2018, predicted a pandemic, simulated in October 2019 at the “Event 201”, together with Davos (Switzerland). For decades, Gates has been working on Depopulation policy and dictatorial control plans on global politics, aiming to obtain the primacy on agriculture, technology and energy.
Gates said, I quote exactly from his speech:
“If we do a good job on vaccines, health and reproduction, we can reduce the world population by 10-15%. Only a genocide can save the world”.
With his vaccines, Gates managed to sterilize millions of women in Africa. Gates caused a polio epidemic that paralyzed 500,000 children in India and still today with DTP, Gates causes more deaths than the disease itself. And he does the same with GMOs designed by Monsanto and “generously donated” to needy populations. All this while he is already thinking about distributing the quantum tattoo for vaccination recognition and mRNA vaccines as tools for reprogramming our immune system. In addition, Gates also does business with several multinationals that own 5G facilities in the USA.
On this table there is the entire Deep State in Italian sauce: Sanofi, together with GlaxoSmithKline are friends of the Ranieri Guerra, Ricciardi, and of the well-known virologist that we pay 2000 Euro every 10 minutes for the presentations on Rai (Italian state TV. She’s probably talking about Burioni). Sanofi and GlaxoSmithKline sign agreements with medical societies to indoctrinate future doctors, making fun of their autonomy of judgment and their oath.
Hi-Tech multinationals, like the Roman Engineering which is friend of the noble Mantoan, or Bending Spoons, of Pisano, which are there for control and manage our personal health datas in agreement with the European Agenda ID2020 of electronic identification, which aims to use mass vaccination to obtain a digital platform of digital ID. This is a continuation of the transfer of data started by Renzi to IBM. Renzi, in 2016, gave a plus 30% to Gates Global Fund.
On the Deep State table there are the people of Aspen, like the Saxon Colao, who with his 4-pages reports, paid 800 Euros/hour, with no scientific review, dictates its politics as a Bilderberg general as he is, staying away from the battlefield. The list is long. Very long. In the list there is also Mediatronic, by Arcuri and many more.
The Italian contribution to the International Alliance Against Coronavirus will be of 140 million Euros, of which 120 million Euros will be given to GAVI Alliance, the non-profit by Gates Foundation. They are just a part of the 7.4 billion Euro fund by the EU to find a vaccine against Coronavirus – vaccines which will be used as I said before.
No money, of course for serotherapy, which has the collateral effect of being super cheap. No money for prevention, a real prevention, which includes our lifestyles, our food and our relationship with the environment.
The real goal of all of this is total control. Absolute domination of human beings, transformed into guinea pigs and slaves, violating sovereignty and free will. All this thanks to tricks/hoax disguised as political compromises. While you rip up the Nuremberg code with involuntary treatment, fines and deportation, facial recognition and intimidation, endorsed by dogmatic scientism – protected by our “Multi-President” of the Republic who is real cultural epidemic of this country.
We, with the people, will multiply the fires of resistance in a way that you won’t be able to repress all of us.
I ask you, President, to be the spokesperson and give an advice to our President Conte: Dear Mr. President Conte, next time you receive a phone call from the philanthropist Bill Gates forward it directly to the International Criminal Court for crimes against humanity. If you won’t do this, tell us how we should define you, the “friend lawyer” who takes orders from a criminal.
Thank you.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Em Itália, um oponente do confinamento colocado num hospital psiquiátrico

(Comentário:

Passo ante passo...discretamente...)

 
 
Na Sicília, em Ravanusa, Dario Musso, um homem de 33 anos, circulou de carro na sua cidade com um megafone para acordar os seus concidadãos ao grito de «A pandemia não é grave! Saiam, tirem as vossas máscaras! Abram as lojas!»

Todas as testemunhas afirmam que ele estava perfeitamente são de espírito, simplesmente revoltado.

Os carabineiros prenderam-no. Ele foi enviado para um hospital psiquiátrico, amarrado a uma cama durante 4 dias, alimentado em gota a gota através de um catéter e colocado sob sedação.

O hospital recusa fornecer informações.

O artigo 21 da Constituição Italiana dispõe: «Todo o cidadão tem o direito de manifestar livremente o seu pensamento através da palavra, por escrito e por qualquer outro meio de difusão». O artigo 32: «Ninguém pode ser forçado a um determinado tratamento de saúde, a não ser por uma disposição da Lei. A Lei não pode, em caso algum, violar os limites impostos pelo respeito da pessoa humana».

Voltairenet.org | Tradução Alva
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/em-italia-um-oponente-do-confinamento.html

Prefeito italiano agradece Chongqing pelo apoio contra epidemia

Chongqing, 8 mai (Xinhua) -- O prefeito da cidade italiana de Sassari, Gian Vittorio Campus, escreveu uma carta de reconhecimento ao governo do Distrito de Ba'nan, no Município de Chongqing, sudoeste da China, pelo apoio na luta contra a COVID-19.

Na carta, ele expressou gratidão e apreciação ao distrito por sua amizade e doações na luta contra a epidemia.

Sassari, localizada no norte da Sardenha, contabiliza "várias centenas de pessoas afetadas e algumas dezenas de mortes", escreveu o prefeito.

"Nesta condição, sua ação muito gentil de amizade e a doação de materiais para lutar contra a doença do novo coronavírus, as 1.000 roupas descartáveis de proteção médica e 5.280 máscaras KN95, (são) realmente bem-vindas e todos nós agradecemos calorosamente a vocês", exalta Vittorio Campus.

"Sua doação ajudará nossa população a passar por esses dias e a olhar para o futuro, melhores dias", continua o texto. "Os tempos atuais muito difíceis serão superados e ficaremos muito felizes em contribuir para fortalecer as relações entre o distrito de Ba'nan de Chongqing e Sassari."

O governo do distrito de Ba'nan doou máscaras KN95 e trajes de proteção para Sassari em abril para ajudar em sua luta contra a epidemia.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/08/c_139039935.htm

Itália vai legalizar 650 mil migrantes ilegais para trabalhar nos campos e na assistência aos idosos

 

O Governo italiano vai atribuir licenças de trabalho a cerca de 650 mil migrantes ilegais que se encontram no país e que têm sido fundamentais para dar assistência aos idosos e para garantir o fornecimento de bens alimentares.

Segundo avançou na quinta-feira o Expresso, atribuir essas licenças a africanos, indianos e paquistaneses, entre outros, foi a solução encontrada pelo Governo para fazer face à interrupção do habitual fluxo sazonal de cidadãos do leste da Europa para trabalhar nas colheitas. A ideia é a de atribuir licenças de trabalho de seis meses e renováveis.

Outros cerca de 100 mil migrantes dão normalmente assistência a pessoas em suas casas mas que, atualmente, por terem perdido os empregos durante o confinamento estrito imposto no país, se encontram ilegais.

O plano do Governo é contestado por políticos de extrema-direita e a associação dos agricultores italianos afirmou preferir o esquema adotado pelo Reino Unido e por outros países europeus, de organizar transporte aéreo para ir buscar os trabalhadores sazonais ao leste da Europa.

 
 

A ministra da Agricultura, Teresa Bellanova, foi a responsável por apresentar a proposta. A própria, aos 14 anos, deixou a escola para ir trabalhar no campo, tornando-se sindicalista ainda na adolescência. A mesma ameaçou demitir-se caso a proposta seja recusada.

“A comida nas nossas mesas vem desses campos. Agora temos de conceder esses direitos que têm sido negados a quem trabalha neles”, disse ao Times o ministro para o sul de Itália, Peppe Provenzano.

O movimento Cinco Estrelas, coligação governamental, defendeu que se deve dar aos desempregados italianos a oportunidade de ir trabalhar nas colheitas, mas o especialista em migrações Matteo Villa referiu ao Times: “Os italianos preferem continuar desempregados a ir apanhar laranjas”.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/italia-legalizar-migrantes-ilegais-trabalhar-campos-323332

Itália diz-se preparada para uma eventual segunda vaga “ainda maior do que a primeira”

 

O responsável da estratégia de combate à covid-19 em Itália declarou hoje que o país está preparado para uma segunda vaga de infeções, “ainda maior do que a primeira”, se a reabertura levar a um aumento de casos.

Domenico Arcuri disse à Câmara dos Deputados que as 20 regiões da Itália têm hoje o dobro dos ventiladores atualmente necessários e que as 5.200 camas em cuidados intensivos que a Itália tinha antes da pandemia duplicaram para cerca de 9.000.

A Itália, epicentro europeu da pandemia com mais de 27.000 mortos, entrou na pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, com menos camas disponíveis do que outros países desenvolvidos.

Arcuri disse aos legisladores que as camas em cuidados semi-intensivos aumentaram seis vezes, o mesmo aumento na capacidade em enfermarias de doenças infecciosas e pneumologia.

 

O relaxamento das medidas e o confinamento está a ser planeada em Itália para começar em 4 de maio.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 217 mil mortos e infetou mais de 3,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios. Perto de 860 mil doentes foram considerados curados.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/italia-preparada-segunda-vaga-pior-321882

Que erros levaram Lombardia à grave crise do coronavírus?

Atendente com máscara para se proteger do coronavírus organiza balcão de restaurante na Lombardia, no norte da Itália
© AP Photo / Matt Dunham

Em uma publicação da Associated Press se analisa como o fator demográfico, as deficiências no sistema de cuidados médicos, além de interesses políticos e comerciais, foram fatais para esta região italiana.

A Itália foi o primeiro país do Ocidente a impor medidas restritivas para frear a propagação do coronavírus. Além do mais, foi o primeiro país europeu que suspendeu todo o tráfego aéreo com a China em 31 de janeiro e inclusive conferiu a temperatura de passageiros com febre em aeroportos. Contudo, parece que estas medidas já foram tomadas muito tarde.

Hoje, o número total de mortes causadas pelo novo coronavírus na Itália é superior a 27 mil, o que coloca o país em segundo lugar depois dos EUA.

No entanto, chama a atenção o caso da Lombardia. Localizada no norte da Itália, esta região chegou a ser a mais afetada no país da Europa que mais sentiu os efeitos da COVID-19.

Ali, o vírus derrubou um sistema de saúde que durante muito tempo foi considerado um dos melhores da Europa. A cifra oficial de falecimentos na Lombardia é de mais de 13.000, a metade do total da Itália. Ainda assim este número pode ser maior, já que não foram contabilizados todos os idosos falecidos em centros geriátricos.

Segundo o artigo publicado pela Associated Press, foram uma série de fatores que contribuíram para a "tormenta perfeita" na Lombardia, onde o elemento demográfico e as deficiências de cuidados de saúde coincidiram com interesses políticos e comerciais.

Epidemiologistas afirmam que o vírus esteve circulando amplamente na região desde o começo de janeiro ou antes. Porém, o primeiro caso foi registrado na Itália em 21 fevereiro, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda insistia que o vírus era "controlável" e não tão infeccioso como a gripe.

'O fator determinante'

Um dos fatores chave da tragédia poderia ser a dependência do sistema sanitário do país do atendimento a domicílio. "Provavelmente, será o fator determinante pelo qual temos uma taxa de mortalidade tão alta na Itália", cita a publicação o pneumologista italiano Maurizio Marvisi.

A Itália se viu obrigada a recorrer a esta medida em parte devido a sua baixa capacidade em unidades de terapia intensiva (UTI). Depois de anos de cortes orçamentários, o país entrou em uma crise sanitária com baixa quantidade camas em UTI, muito abaixo do recomendado pela OCDE.

Além do mais, o país mostrou sua deficiência no atendimento médico familiar. Aos funcionários deste setor faltou informação sobre o vírus, equipamentos de proteção e, sobretudo, os testes para detectar o coronavírus. O pessoal médico não podia saber se estava contagiado, porque os testes estavam disponíveis somente para os que tinham sintomas graves, já que os laboratórios locais não davam conta da alta demanda. Como consequência deste fator, cerca de 20 mil médicos italianos se infectaram e 150 faleceram.

 

Especialistas médicos russos em hospital de Bergamo, na Itália

© Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia
Especialistas médicos russos em hospital de Bergamo, na Itália

Uma das causas que também facilitou a propagação do novo coronavírus na região foi a gestão da crise a nível regional, já que as autoridades de algumas províncias e localidades tardaram semanas a reagir impondo medidas de restrição, como foi o caso de Alzano na província de Bergamo.

Coração industrial do país

Outro fator que teve um papel relevante na rápida propagação do coronavírus paradoxalmente foi o que sempre se apresentou como uma vantagem da Lombardia. Com 10 milhões de habitantes, é a região mais densamente povoada e o coração industrial do país.

Os sindicatos e prefeitos de algumas das cidades mais afetadas da Lombardia agora dizem que o principal grupo de pressão industrial do país, Confindustria, se esforçou enormemente para impedir bloqueios e interrupções na produção, já que o custo econômico seria muito grande em uma região responsável por 21% do PIB da Itália.

Até mesmo após o governo italiano fechar a Lombardia, se permitiu que algumas fábricas permanecessem abertas, o que provocou greves.

Os trabalhadores estavam preocupados que se sacrificaria sua saúde para manter o funcionamento do setor industrial do país. Contudo, quando a Itália começar uma reabertura gradual, a Lombardia será provavelmente a última região a se abrir por completo.

Hoje, o governo italiano investiga possíveis falhas na gestão da pandemia pelas autoridades locais de saúde e os governos regionais, que poderiam ter agravado a situação.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020042815512039-que-erros-levaram-lombardia-a-grave-crise-do-coronavirus/

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXIII – A ITÁLIA VAI PRECISAR DE UM RESGATE PREVENTIVO – UMA “PROTEÇÃO FINANCEIRA” – ENQUANTO O CORONAVÍRUS O EMPURRA PARA A BEIRA DO ABISMO. por ASHOKA MODI

 

 

Italy will need a precautionary bailout — a ‘financial firewall’ — as coronavirus pushes it to the brink, por Ashoka Modi

Marketwatch, 10 de Março de 2020

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

 

A crise da Itália pode em breve tornar-se incontrolável, provocando uma potencial  desordem nos mercados financeiros mundiais

Veneza estava quase vazia na segunda-feira  no meio das restrições de viagem na região do Veneto

 

A Itália precisa de um pacote de resgate preventivo de 500 a 700 mil milhões de euros   para ajudar a garantir aos mercados financeiros que o governo e os bancos italianos podem  cumprir as suas obrigações de pagamento da dívida à medida que a crise económica e financeira do país se torna mais temível.

Assim como os custos humanos do coronavírus estão a crescer de forma alarmante, a crise da Itália pode em breve tornar-se incontrolável, provocando uma potencial  desordem nos mercados financeiros mundiais

A solução deste grave problema  não pode ser deixado apenas a cargo das nações da zona euro. Não só o Fundo Monetário Internacional, mas até os EUA precisarão de se envolverem na solução do problema, talvez, com uma linha de crédito, caso as necessidades de resgate aumentem e em escalada.

O tempo é curto. A Alemanha e a França, as duas maiores economias da zona do euro com 19 membros, estão prestes a experimentar uma rápida disseminação do vírus, e seus sistemas económico e financeiro já estão sob uma situação de aguda  dificuldade. Se pressionados a suportar inteiramente os riscos italianos, podem enfrentar desagradáveis descidas   na sua notação de crédito.

A Itália, a terceira maior economia do bloco, tem sido há muito tempo a linha de fratura da zona do euro. E, como escreveu o físico Per Bak, quando uma linha de fratura se rompe, outras rachas  enfraquecem, causando uma cascata de terramotos.

Praticamente todas as forças económicas internacionais e internas  estão contra o país.

A economia italiana praticamente não cresceu desde que entrou para a zona euro em 1999. O rendimento per capita, ajustado pela paridade de poder de compra, permaneceu fixo no valor de 35.000 dólares. A economia tem permanecido em recessão quase perpétua na última década e já se estava a contrair em paralelo  com a evolução do  comércio mundial antes do ataque do coronavírus. O peso da dívida do governo aumentou para uns espantosos 2,3 milhões de milhões  de euros, o que equivale a 134% do PIB do país.

No final do ano passado, a queda do comércio mundial tinha levado  a Europa para uma quase recessão.

O coronavírus irá quase certamente fazer com que a economia italiana se contraia em cerca de 3% no primeiro semestre de 2020, embora os danos possam ser muito maiores do que isso.

Como a economia chinesa desacelera ainda mais – e muito provavelmente ela própria se contrai – nos próximos meses, a falta de fornecimento chinês de peças e ingredientes críticos causará danos contínuos à produção e ao comércio mundial. Esse efeito negativo está  a espalhar-se  para a Alemanha, que, mesmo com as suas dificuldades atuais, continua  a ser  a economia mais forte da Europa e um mercado importante para os fabricantes italianos.

Na Itália, o vírus forçou não apenas o isolamento  das regiões mais dinâmicas do  país – a Lombardia e o seu centro de moda e finanças em Milão, bem como grandes partes das regiões do Veneto e Emilia-Romagna – mas agora o país inteiro a partir de terça-feira, 10 de março. À medida que as pessoas ficam em casa e a procura por serviços diminui, os economicamente vulneráveis – especialmente os jovens italianos com empregos temporários precários – perderão rendimentos  e a procura diminuirá ainda mais. E com uma das populações mais idosas  do mundo (cerca de 23% das pessoas estão acima dos 65 anos), a doença e a mortalidade induzidas pelo coronavírus – e as dificuldades  económicas e financeiras  que lhes estão associadas- podem persistir por mais tempo do que em qualquer outro lugar.

De facto, mesmo que o número de novos casos comece a diminuir, a perturbação da atividade económica continuará. Os mercados bolsistas tomaram nota. Entre as principais economias do mundo, o índice I945 0.468% da bolsa italiana, caiu a um  ritmo mais acentuado.

Comparativamente e até 9 de março

Sinais de alerta  também estão a ser sentidos nos mercados da dívida. Embora os rendimentos dos títulos do governo estejam a diminuir em grande parte do mundo económico avançado, os rendimentos dos títulos do governo italiano TMBMKIT-10Y, 1,648% estão a subir. É verdade que estes rendimentos nominais ainda são baixos. Mas a taxa real, ou ajustada pela inflação, é quase 1%, o que é muito alto para uma economia que não estava a crescer  e agora está prestes a entrar em contração.  A taxa de juro  real elevada e persistente da Itália fez com que o rácio da dívida do governo em relação ao PIB esteja a subir.

E agora, as taxas nominais crescentes estão a ameaçar levar a  Itália para um ciclo de efeitos de repercussão  negativos. A contração económica forçará o rácio da dívida em relação ao PIB a subir, o que poderá causar um novo aumento das taxas de juro nominais. Com a procura tão fraca, a inflação provavelmente cairá, empurrando a taxa de juro real para cima e criando uma quebra no crescimento – e aumentando as  preocupações sobre a capacidade do governo para comprimir as suas obrigações em termos de serviço da  dívida.

Entretanto, um crescimento mais lento causará mais dificuldades  nos bancos frágeis da Itália, que juntos detêm ativos financeiros de cerca de 5 milhões de milhões  de euros. Embora muitos bancos tenham vendido grandes parcelas dos empréstimos que os mutuários não pagavam a tempo, os mercados financeiros têm uma visão sombria do sistema bancário italiano. Os rácios de valor de mercado em relação ao  de registo contabilístico (market to book ratios) mesmo dos bancos mais fortes, Intesa Sanpaolo (ISP, -2.962%), e UniCredit UCG, -6.252%,  estavam bem abaixo de 1 antes do início da desaceleração induzida pelo vírus, e caíram drasticamente desde então. Essencialmente, os mercados estão a dizer  que uma grande parcela dos ativos nos livros dos bancos pode eventualmente não valer nada

A piorar  a situação, o euro EURUSD, -0.178% tem-se  fortalecido com a Reserva Federal Americana a baixar a  política de   taxa de juros política, e o Banco Central Europeu, tendo ficado sem munições há muito tempo, só pode fazer mudanças cosméticas sem valor real. À medida que a Reserva Federal flexibiliza ainda mais, o euro vai-se tornando  mais forte, tornando a recuperação italiana ainda mais difícil. A perene questão permanece se os europeus, que há muito tempo são viciados em austeridade orçamental, podem agora concordar com um estímulo orçamental  grande e coordenado. Mesmo que o façam, esse estímulo pouco fará para colocar dinheiro nos bolsos dos italianos, que, de qualquer forma, permanecerão incapazes de aumentar seus gastos em condições de isolamento.

Assim, a Itália está no limiar de uma crise financeira e não pode esperar qualquer ajuda das políticas monetárias ou orçamentais convencionais. A tarefa política, portanto, é construir uma proteção  financeira que possa acalmar os temores dos mercados financeiros enquanto a Itália atravessa os próximos seis meses.

A experiência do FMI mostra que os resgates financeiros são mais eficazes se forem feitos quando um país está vulnerável, mas ainda não em uma crise total. Um golpe a  tempo, como diz o ditado, poupa nove.

A proteção financeira italiana  deve começar com um pacote de resgate financeiro preventivo de pelo menos 500 mil milhões de euros, que forneceria fundos para injetar capital nos bancos conforme necessário e garantir a continuidade do financiamento do governo se os mercados optarem por deixar de renovar  a dívida.

As nações europeias não podem fazer isto sozinhas. Não estamos em 2010-2011 quando os líderes europeus, liderados pela chanceler alemã Angela Merkel, se reuniram para resgatar a Grécia, Irlanda e Portugal. Mesmo combinados, esses países eram pequenos em relação à Itália.

Além disso, a Alemanha é uma potência económica muito diminuída e a liderança política da Alemanha está em desordem. A economia alemã estava em estado quase-recessivo antes da propagação do vírus e agora enfrenta um grave défice de procura da China, o seu mercado mais importante. E à medida que o vírus se espalhar dentro da Alemanha, a procura interna também diminuirá. O governo alemão precisará de reter o seu poder de fogo caso os dois maiores bancos do país, Deutsche Bank DBK, 0.851%   e Commerzbank CBK, CBK, -0.979%, com índices chocantemente baixos de valor de mercado em relação ao registo contabilístico, de cerca de um quinto, venham a precisar de  apoio financeiro.

A economia francesa também está em apuros, e o seu afetado  presidente Emmanuel Macron é ao mesmo tempo volátil e divisor de águas em assuntos europeus.

Isso deixa a possibilidade da impressora mágica sob a  autoridade do BCE, o chamado programa de Transacções Monetárias Directo (OMT), estar a ser  ativado para a compra de obrigações. Mas a magia também pode ser uma ilusão. Para desencadear as OMT, a Itália necessitará de um primeiro acordo sobre as condições e a dimensão de um resgate do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).). A razão para fazer um resgate de precaução agora, em vez de esperar que o problema ganha uma muito maior dimensão, é simples. Sob o calor de uma crise contínua e com os limites dos seus recursos, o MEE  e as autoridades italianas terão dificuldades em  conseguir um pacote de resgate aceitável para ambos. Os atrasos irão alimentar o pânico do mercado, tornando a negociação mais difícil.

Nessa fase, mesmo que o MEE e os italianos acordem num programa, o Conselho do BCE terá de autorizar as OMT. Os membros alemães e outros membros “do Norte ” da zona euro  preocupar-se-ão com que, se o BCE imprimir dinheiro para comprar maiores quantidades de títulos italianos, o governo italiano poderá eventualmente entrar em incumprimento depois na liquidação destes títulos.  Tal incumprimento exigiria que os líderes alemães e outros líderes do norte da zona euro apelassem aos contribuintes irritados para preencher o buraco assim criado no capital do BCE.

Para colocar isto em perspectiva, os líderes europeus estão a disputar cêntimos ao decidir sobre o próximo orçamento da União Europeia. Isto é assim   e  numa altura em que as nações europeias mais fortes são fracas, seria um erro esperar que elas resgatassem atempadamente uma Itália financeiramente falhada. E se a linha de falha financeira italiana se romper, o incumprimento  da Itália desenvolver-se-á em cascata através do sistema financeiro global, causando danos que serão difíceis de conter.

Podemos correr o risco de não agir agora. Ou, tal como os italianos se esforçam para lidar com o enorme desafio médico e humano que enfrentam, a comunidade global pode-se  também unir para evitar uma espiral de crise financeira global centrada na Itália.

 

Fonte,Ashoka Mody, no sítio MarketWatch, 10 de Março de 2020, Italy will need a precautionary bailout — a ‘financial firewall’ — as coronavirus pushes it to the brink.Texto disponível em:

https://www.marketwatch.com/story/italy-will-need-a-precautionary-bailout-a-financial-firewall-as-coronavirus-pushes-it-to-the-brink-2020-03-10

 

Publicado em 10 de Março de 2020 at 7:47 a.m. ET

 

Ashoka Mody is the Charles and Marie Robertson Visiting Professor in International Economic Policy at Princeton University and previously was a deputy director of the International Monetary Fund’s European Department. He is the author of “EuroTragedy: A Drama in Nine Acts,” recently updated with a new afterforward.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/27/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxxiii-a-italia-vai-precisar-de-um-resgate-preventivo-uma-protecao-financeira/

A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 30. “MEE o Coronabond”: caos italiano aterra no parlamento europeu. Por Roberto Ciccarelli

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 30. “MEE o Coronabond”: caos italiano aterra no parlamento europeu.

Roberto Ciccarelli 

Por Roberto Ciccarelli

Publicado por Il Manifesto em 17/04/2020 (ver aqui)

 

Reações em cadeia. Pd e Movimento 5 Estrelas estão divididos sobre uma alternativa que não está no debate da UE. Os membros do M5S dividiu-se e absteve-se relativamente ao “Fundo de Recuperação” (Recovery Fund) apoiado pelo Governo. Aprova a resolução sobre a retoma, solicita um aumento dos fundos do MEE. A Direita está confusa: Liga e Fdi contra os fundos do “Fundo de Resgate de Estados”, em ordem dispersa sobre as novas obrigações. Na quinta-feira, 23 de Abril, os Chefes de Estado e de Governo irão também manifestar a sua opinião sobre o pacote do Eurogrupo.

Texto 30. MEE o Coronabond caos italiano aterra no parlamento europeu 1

 

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O Parlamento Europeu votou ontem, com 395 votos a favor, uma resolução que aceita a proposta da Comissão Europeia do “fundo para a retoma” garantido pelo orçamento da UE e o pacote de três pilares votado em 7 de Abril pelos Ministros da Economia do Eurogrupo: 200 mil milhões de euros do Banco Europeu de Investimento (BEI), 100 do plano “Sure” para apoiar os fundos de apoio aos trabalhadores. Apelaram a um reforço do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE, Fundo de Resgate de Estados) aliviado das condições apenas para as despesas de saúde diretas e indiretas: já não os 240 mil milhões previstos, mas a totalidade dos 410 mil milhões de ativos. A assembleia votou com 689 votos a favor da total flexibilidade na utilização dos fundos estruturais europeus para suportar os custos da emergência induzida pelo coronavírus e da modificação do fundo para os mais desfavorecidos, a fim de financiar o fornecimento de equipamento de proteção aos trabalhadores e voluntários.

A VOTAÇÃO SOBRE A RESOLUÇÃO, mas especialmente sobre as alterações, foi uma oportunidade para encenar um curto-circuito devastador. Toda a política italiana está encantada perante os totens opostos do MEE e dos Eurobonds e congelada no “Não ao MEE, sim aos Eurobonds” de Conte. O primeiro, recorde-se, foi votado pelo Eurogrupo, portanto também pelo Governo italiano, e será apresentado na reunião do Conselho Europeu de Chefes de Estado e de Governo na quinta-feira, 23 de abril. As euro-obrigações nunca estiveram em causa, até porque foram rejeitadas pela Chanceler Merkel em 9 de abril. Ora, em sede de alterações, Pd Italia Viva e Cinque Stelle votaram de forma oposta sobre o MEE, os dois primeiros a favor e o segundo contra, juntamente com a Lega e a Fratelli d’Italia. O Movimento 5S  também se absteve na resolução parlamentar porque inclui o MEE, prevê um aumento das contribuições nacionais para o orçamento da UE necessárias para financiar o “fundo de retoma”. Os Grillini dividiram-se, mas não falam de uma divisão interna sobre uma resolução de Ppe, S&D, Renew Europe e Verdes. Três deputados votaram contra, enquanto 10 se abstiveram, um deputado não participou na votação. Ideias confusas à direita: a Liga votou contra as Eurobonds, o Fdi di Meloni foi a favor. Ambos votaram contra o MEE, mas os primeiros são também contra o fundo de retoma, mas o Fdi votou com o Forza Italia. A esquerda da Gue/Ngl apresentou um documento orgânico que prevê a intervenção do BCE, obrigações partilhadas para a luta contra o vírus e para o novo acordo verde, um imposto de 25% sobre  as multinacionais. Todos votaram contra, exceto as Cinco Estrelas.

ESTE CAOS torna ilegível em Itália o verdadeiro conteúdo do debate político na Europa, centrado nos três pilares MEE+BEI+Sure lançado pelo Eurogrupo e pelo Fundo de Retoma. Por conseguinte, é provável que os governos votem sobre o pacote. Também o italiano. Mas as modalidades do acordo sobre o fundo baseado na emissão de obrigações ainda estão por definir. Não se trata de uma “mutualização das dívidas existentes”, evocada de forma confusa no debate italiano sobre o “Eurobond-Coronabond”. A Alemanha e os seus satélites nórdicos puseram um termo definitivo a esta hipótese. Em vez disso, fala-se de um empréstimo garantido pelo orçamento da UE e de “uma mutualização relativamente à futura dívida que será produzida no plano de reconstrução” após a crise, afirmou o Presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli. Na prática, a proposta francesa, aceite pela Alemanha, e transmitida pela própria Comissão da UE.

SERÁ ESTE “FUNDO de Retoma ” a solução para a crise? Não necessariamente. Arrisca-se a ser um recomeço do azarado plano Juncker. Além disso, para atingir um total de 1,5 milhões de milhões de euros (pelo menos 200 mil milhões de euros iriam para Itália), o orçamento da UE deveria crescer pelo menos dez vezes mais do que o atual. Não é sequer de excluir que os Estados sejam obrigados a fazer um esforço de co-financiamento. Neste momento, tal é improvável, embora a Comissão da UE o exclua. O caminho é longo e sinuoso, como é tradição na Europa intergovernamental. Complicações que poderiam reduzir o anúncio da Ursula Von Der Leyen sobre o “Plano Marshall”.

RESPEITO À LINHA oficial do Governo italiano – “Não ao MEE, Sim aos  Eurobonds” – o resultado da votação de ontem é um fracasso. Como era de esperar, nenhuma destas condições responde ao debate real, e à diplomacia económica real em curso, sobre o “fundo de retoma”. Este pressuposto, entre outras coisas, também tem sido apoiado pelo Primeiro-Ministro Conte desde o final de Março, depois de ter apoiado a linha pró-MEE “aligeirada” numa entrevista ao Financial Times, em 19 de Março. Opção abandonada pela hostilidade do Movimento 5S ao MEE . Uma linha incerta que relega o Governo para uma situação política gregária e enfraquecida, antes do Conselho Europeu da próxima quinta-feira. O “fundo de retoma” terá de ter luz verde para reequilibrar o parecer favorável mesmo para os 35 mil milhões do “MEE” que o governo afirma não querer utilizar de qualquer forma. Uma tese que o protege, por agora, do “Não” das Cinco Estrelas e da agressividade da direita, mas que pode excluir a utilização do escudo Draghi: as transacções monetárias definitivas (Omt) lançadas em 2012, e nunca utilizadas, o que permitiria  a aquisição ilimitada de títulos pelo BCE, por um a três anos, nos mercados secundários. As OMT podem ser necessárias para um país que vai em direção a uma dívida pública em 170-180% do PIB para manter o spread baixo, evitar que os custos possam explodir e impedir um incumprimento. Trata-se de uma rede de segurança muito forte contra a possibilidade de uma crise dramática, embora apresente muitas incógnitas relacionadas com a gestão da dívida e a condicionalidade que poderiam ser impostas aos países já esgotados. No entanto, esta arquitetura complicada, esgotante e instável parece inadequada para lidar com a nova crise, que necessitaria de um processo constituinte europeu e de uma mudança de missão do BCE transformado num emprestador de último recurso. Esta é uma perspetiva politicamente inalcançável nos dias de hoje.

 

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O autor: Roberto Ciccarelli é filósofo, blogger e jornalista, escreve para o Il Mannifesto. Ele publicou, entre outros, Il Quinto Stato (com Giuseppe Allegri), La furia dei cervelli (com Giuseppe Allegri, 2011), 2035. Fuga do precariato (2011), e Immanenza. Filosofia, direito e política da vida do século XIX ao século XX (2009). Ele está entre os editores do blog La furia dei bravelli. O seu último livro é Forza lavoro. Il lato oscuro della della rivoluzione digitale (Derive Approdi, 2018).

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/22/a-europa-impotente-face-a-perspetiva-de-uma-tragedia-global-texto-30-mee-o-coronabond-caos-italiano-aterra-no-parlamento-europeu-por-roberto-ciccarelli/

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXVII – TEME-SE QUE A ITÁLIA PRECISE DE UM RESGATE GLOBAL GIGANTESCO PARA CONTER UM CONTÁGIO FINANCEIRO MAIS AMPLO, por AMBROSE EVANS-PRITCHARD

 

 

Fears mount that Italy will require a jumbo global bail-out to stem broader financial contagion, por Ambrose Evans-Pritchard

The Telegraph, em 10 de março de 2020 (aqui)

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Veneza está completamente vazia depois de o governo ter suspendido todas as actividades económicas normais para lutar contra o coronavírus

 

A Itália precisa de um resgate preventivo de até 700 mil milhões de dólares dos EUA e das grandes potências para enfrentar o perigo de uma crise global, advertiu um veterano de resgates do Fundo Monetário Internacional.

Ashoka Mody, ex-diretor adjunto do FMI na Europa, disse que a queda económica devida ao coronavírus está a empurrar  a Itália para a beira do “círculo vicioso de feedback negativo”, aumentando o risco de uma reação em cadeia financeira através do sistema internacional.

Uma proteção  totalmente credível exigiria um financiamento de 500 a 700 mil milhões de euros, uma ordem de grandeza de magnitude superior a qualquer pacote anterior na história. “Os europeus não o podem fazer eles próprios. Eles estão desesperadamente divididos e financeiramente muito mais fracos do que há dez anos atrás.  O instinto deles será o de dar murros”, disse ele.

O professor Mody disse que a economia italiana é  suficientemente grande para desencadear uma crise mundial mais ampla, se mal gerida neste momento crítico. O governo italiano está a ser  forçado a tomar medidas cada vez mais dramáticas à medida que o número de mortos sobe para 631, com consequências desastrosas para as pequenas empresas, empresas que já estão em grandes dificuldades para permanecer à tona após uma recaída económica no ano passado.

Na terça-feira Roma suspendeu toda a actividade económica normal na Lombardia e no Veneto, ficando apenas abertas farmácias, lojas de alimentos e serviços de sobrevivência.

“O tempo é curto. A Alemanha e a França estão prestes a experimentar uma rápida propagação do vírus, e os seus sistemas económico e financeiro já estão sob grande tensão”, disse o Prof Mody, que esteve à fernte da equipa que organizou o resgate conjunto da Troika UE-IMF para a Irlanda durante a crise da zona euro.

 

O mecanismo de resgate europeu (MEE) é lento e burocrático e requer o consentimento político do Bundestag alemão sob condições difíceis. A ameaça é tão grande que seria necessário o poder de fogo do Tesouro dos EUA para convencer os mercados, assim como o financiamento do FMI. A Grã-Bretanha pode ter de participar. “Eles precisam de começar agora”, disse ele.

Poderia ser uma linha de crédito em vez de um financiamento real. No entanto, a administração Trump está preocupada com a crise Covid-19 em casa e é altamente improvável que venha em auxílio da Europa até que os assuntos já estejam extremamente sérios.

A dívida soberana da Itália é a terceira maior do mundo em termos absolutos, com mais de 2 milhões de milhões de euros, e está estreitamente interligada com o sistema bancário. As ações dos bancos italianos diminuíram pela metade  do seu valor desde meados de fevereiro, quase garantindo uma crise de crédito e elevando novamente o espectro de uma  catastrófica  crise da  dívida soberana, semelhante aos eventos de 2011.

O FMI pode desempenhar um papel de coordenação, mas falta-lhe o dinheiro para apoiar os europeus pelos seus próprios  meios. Utilizou uma parte chocantemente grande dos seus recursos durante os salvamentos conjuntos da Troika na Grécia, Portugal e Irlanda. Este desafio seria muito maior.

O poder de fogo da instituição diminuiu para 1pc das  responsabilidades externas globais contra  4pc nos anos 80. “O FMI não está em posição de funcionar como um emprestador internacional de último recurso. A rede global de segurança financeira é muito pequena”, disse um relatório recente do G20 de Robert Triffin.

O professor Mody disse que a crise do Covid-19 causará uma contração económica de pelo menos 3pc na Itália durante o primeiro semestre deste ano, mas os danos podem ser muito maiores. Ele advertiu que o país está a deslizar  para uma armadilha deflacionista  que está a levar ao aumento das taxas de juros reais e criando fortes perturbações com a dinâmica da dívida.

Os mercados ainda estão a contar  com o Banco Central Europeu para vir em seu socorro, mas eles podem estar decepcionados. O BCE ficou sem munições e só pode “fazer mudanças cosméticas sem valor real”.

O Citigroup espera que o banco central anuncie mais 10 mil milhões de euros em compras de obrigações quando o conselho do BCE se reunir na quinta-feira. O risco é que tal gesto simbólico face a um choque exógeno maciço seja visto como impotência e cause uma maior erosão da confiança.

 

Fonte: Ambrose Evans-Pritchard, The Telegraph, Fears mount that Italy will require a jumbo global bail-out to stem broader financial contagion e disponível em: https://www.telegraph.co.uk/business/2020/03/10/fears-mount-italy-will-require-jumbo-global-bail-out-stem-broader/

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O autor: Ambrose Evans-Pritchard [1957 – ] é editor de assuntos internacionais do The Telegraph.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/18/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxvii-teme-se-que-a-italia-precise-de-um-resgate-global-gigantesco-para-conter-um-contagio-finan/

A Lombardia, fazendo ziguezagues, enfrenta o governo italiano ante a impossibilidade de mitigar os efeitos do coronavírus. Por Manuel Tori

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Manuel Tori 

Por Manuel Tori, correspondente em Itália

publico es es, em Roma, 17 de abril de 2020 (ver aqui)

 

Prolongar ou levantar o confinamento? O que é melhor para a economia da região mais produtiva de Itália para lidar com o coronavírus? Matteo Salvini, líder da Liga soberanista a que pertence também o Presidente da Lombardia, Attilio Fontana, quer usar a região norte como trunfo político contra o primeiro-ministro Conte para desgastar a sua presidência.

75 A Lombardia fazendo ziguezagues 1

Imagem de uma bandeira italiana projetada em Milão. REUTERS

 

Abrir ou fechar? O que é melhor para a economia da região mais produtiva de Itália para lidar com o coronavírus? Este é o grande dilema da região da Lombardia, o motor económico do país transalpino, que nos últimos dias tem vindo a fazer ziguezagues, apostando demasiadas vezes em soluções opostas. Até há poucos dias, o seu presidente, Attilio Fontana, estava firmemente convencido de que tinha de ser implementado um encerramento total, ainda mais duro do que o atual. Hoje, porém, ele gostaria de ver um regresso à normalidade no dia 4 de Maio, em que “todos usem máscaras” de forma obrigatória. Mas a verdade é que a região de Milão representa agora um terço das pessoas atualmente infetadas – 33 000 – e mais de metade das que morreram – 11 000 – por covid-19 em Itália.

A Lombardia enfrenta o Governo italiano para atenuar, de alguma forma, os duros efeitos do coronavírus na região. Parece não haver solução sanitária a curto prazo, o que se traduz, para a Lombardia, em vaivéns que acabam por se revelar um desafio para o primeiro-ministro transalpino, Giuseppe Conte.

A isto devemos acrescentar um pormenor importante, como o facto de o chefe do Executivo italiano liderar uma coligação governamental de centro-esquerda, enquanto o Presidente lombardo, Attilio Fontana, pertence à Liga do soberanista Matteo Salvini, que com 28% nas sondagens é o líder do primeiro partido em Itália, mas na oposição. Salvini quer, portanto, utilizar Fontana e a região da Lombardia como trunfo contra o Primeiro-Ministro Conte para desgastar a sua presidência. Mas são as constantes mudanças de posição que estão a desgastar ainda mais a Lombardia na sua luta no âmbito da difícil crise sanitária contra o coronavírus no país em forma de bota. A primeira página do conhecido jornal italiano La Repubblica desta quinta-feira foi eloquente ao falar sobre “o ziguezague lombardo”.

A Lombardia pede ao Governo italiano que regresse à normalidade aplicando “os quatro D”: a obrigação de respeitar o metro de distância interpessoal, a obrigação de usar máscaras, a obrigação de teletrabalho para os setores que o possam fazer e testes de diagnóstico em massa para verificar a positividade da população em relação ao covid-19. Estas quatro linhas principais orientarão o Presidente lombardo, Fontana, ao negociar com o Governo Transalpino como e se será possível regressar, de forma escalonada, a uma normalidade económica no motor industrial do país com forma de bota. Em todo o caso, o Conselho de Ministros, presidido pelo Primeiro-Ministro Giuseppe Conte, terá a última palavra.

“A região da Lombardia teve a coragem e o orgulho de dizer que no dia 4 de maio haverá um retorno gradual ao trabalho”, assegura o líder da Liga soberanista, Matteo Salvini, tentando iludir a posição radicalmente oposta da Lombardia até alguns dias atrás. Do Governo italiano, alguns recordam que “Fontana sempre defendeu uma linha rigorosa e fortemente restritiva”. Hoje, porém, de forma surpreendente, decidiu reabrir”, assegura Stefano Buffagni, vice-ministro do Desenvolvimento Económico. Para o Executivo Transalpino, a mudança na posição da Lombardia é, em partes iguais, uma “surpresa” e um “erro”.

“A suspeita do Governo é que por detrás da estratégia de Fontana está o comando de Matteo Salvini, interessado em instrumentalizar boas notícias da Lombardia”, explica o conhecido diário italiano Corriere della Sera, numa reconstrução política. Como afirma o centenário jornal transalpino, “o Executivo acredita que Salvini e Fontana estão a erguer uma cortina de fumo para esconder os problemas” relacionados com a difícil situação sanitária ligada ao covid-19 no território da Lombardia.

Parece que associação patronal e sindicatos coincindem em que a saúde pública deve ser uma prioridade: “Penso que no dia 4 de Maio a questão não estará resolvida”, explica Stefano Scaglia, presidente do CEOE italiano na cidade lombarda de Bérgamo, uma das mais afetadas em Itália pelo coronavírus. Embora Scaglia esclareça nas páginas do Corriere que “é verdade que todos os dias contam para a sobrevivência ou encerramento de uma empresa”, o representante patronal admite que “a saúde pública continua a ser o bem primário”. O dia 4 de Maio é, por enquanto, o último dia de aplicação do atual confinamento nacional decretado pelo Primeiro-Ministro Conte. Tendo em conta o ritmo diário constante de novos positivos, é muito provável, porém, que a atual quarentena generalizada tenha de ser prolongada até se observar não só um achatamento, mas também uma queda na curva das infeções por coronavírus em Itália.

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/18/a-lombardia-fazendo-ziguezagues-enfrenta-o-governo-italiano-ante-a-impossibilidade-de-mitigar-os-efeitos-do-coronavirus-por-manuel-tori/

[Manlio Dinucci] TRUMP ORDENA A «ASSISTÊNCIA» À ITÁLIA

RETIRADO DE:
                  
 
O Primeiro Ministro Conte anunciou aos italianos, em directo na televisão, em 10 de Abril, que a Itália não assinou nenhum compromisso com o MES (1), o fundo europeu “salva-Estados”, e que o seu Governo discutirá apenas "um MES não condicionado”, ou seja, que não imponha condições que sejam prejudiciais aos interesses nacionais e à soberania do país. Posição correcta.
No entanto, o Primeiro Ministro não anunciou aos italianos que, em 10 de Abril, o Presidente Trump emitiu, a pedido do governo Conte, um “Memorando sobre a Prestação de Assistência ao Covid-19 à República Italiana” (2) que contém, de facto, fortes restrições para o nosso país.
Trump anuncia que “o Governo da Itália solicitou a assistência dos Estados Unidos”. Assim, com base na autoridade que lhe foi conferida pela Constituição e pelas leis, “ordena o seguinte” para ajudar “um dos nossos aliados mais antigos e mais próximos”.
As ordens, emitidas aos Secretários dos Departamentos e às Agências dos Estados Unidos, estabelecem dois tipos de intervenção:
Ø A primeira, de natureza médica, para ajudar a Itália a combater o Covid-19, “demonstrando ao mesmo tempo a liderança dos Estados Unidos diante das campanhas de desinformação da China e da Rússia”. Ao Secretário da Defesa, o Presidente ordena que disponibilize, para assistência, “os mais de 30.000 militares e funcionários dos EUA, em Itália” com as suas “estruturas”.
Ø A segunda e mais consistente intervenção consiste em “apoiar a recuperação da economia italiana”, que corre o risco de acabar “numa profunda recessão”. O Presidente Trump ordena aos Secretários do Tesouro e do Comércio, ao Presidente do Banco de Exportação e Importação, ao Administrador da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, ao Director da Corporação Internacional Americana de Finanças para o Desenvolvimento (agência governamental que financia projectos de desenvolvimento privados) para usarem as suas ferramentas, a fim de “apoiar as empresas italianas”.
Ainda não se sabe quais ferramentas serão usadas pelos Estados Unidos para “apoiar a recuperação da economia italiana”, nem quais serão as condições concedidas para a “ajuda”. Mas o plano de Washington é claro:
Ø explorar a crise e as fracturas na União Europeia para reforçar a influência USA em Itália, enfraquecendo, ao mesmo tempo, as relações da Itália com a China e com a Rússia.
Confirma-o, a autoridade com que foi lançado o plano de “Assistência à República Italiana”:
Ø uma série de ordens presidenciais dadas não apenas aos Secretários dos Departamentos acima mencionados, mas ao Secretário de Estado (3) e ao Assistente do Presidente para Assuntos de Segurança Nacional. (4
Um dos objetivos do plano certamente enquadra-se no que o New York Times define como “uma corrida armamentista global para obter uma vacina contra o coronavírus, que está a desenvolver-se entre os Estados Unidos, China e Europa”. (5) Os primeiros que forem capazes de produzir a vacina - escreve o NYT – “podem ter a oportunidade não só de favorecer a sua população, mas de ter vantagem ao enfrentar as repercussões económicas e geoestratégicas da crise”.
A companhia farmacêutica americana Johnson & Johnson (6) anunciou, em 30 de Março, que havia seleccionado uma possível vacina contra o Covid-19, na qual trabalha desde Janeiro, em conjunto com o Departamento da Saúde, com um investimento conjunto de mais de um bilião de dólares. A empresa anuncia que, após os ensaios clínicos programados para Setembro, a produção de vacinas poderá começar nos primeiros meses de 2021 em “tempos substancialmente mais acelerados do que o normal”, atingindo rapidamente a capacidade de produção de mais de um bilião de doses.
O plano de “assistência” à Itália, ordenado pelo Presidente Trump, também poderá incluir o fornecimento da vacina que, provavelmente, será usada (talvez tornando-a obrigatória) sem se preocupar com os tempos de teste e produção “substancialmente mais acelerados do que o normal”, nem o custo económico e político dessa generosa “assistência”.
 
Manlio Dinucci
il manifesto, 14 de Abril de 2020
 
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Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXIII – CORONAVIRUS, A ITÁLIA SUBEQUIPADA FACE À CRISE SANITÁRIA, por ANNE LE NIR

 

 

Coronavirus, l’Italie sous-équipée face à la crise sanitaire, por Anne Le Nir

La Croix, 9 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A rápida disseminação do Covid-19 no norte do país saturou os hospitais da região. Nas unidades que recebem pacientes infetados, os médicos já estão a ser  chamados a dar prioridade àqueles que têm maior probabilidade de recuperação.

Um posto de controle médico na entrada do hospital em Brescia, Lombardia, no dia 3 de março. Aqui é onde os pacientes são “classificados”, aqueles potencialmente infetados com coronavírus e outros / Flavio Lo Scalzo/Reuters

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Um documento publicado neste fim de semana pela Sociedade Italiana de Anestesia, Analgesia, Reanimação e Terapia Intensiva (Siaarti) reflete a situação catastrófica em que estão mergulhados os hospitais das regiões norte do país, que são os mais afetados pelo vírus Covid-19,e em que  o vírus  está a progredir  a um ritmo exponencial.

Embora o sistema de saúde pública da Lombardia, Emilia-Romagna e Piemonte seja considerado o mais eficiente da Itália, as unidades de terapia intensiva estão agora a ficarem saturadas.

Seleção dramática em unidades de cuidados intensivos

Neste documento intitulado “Recomendações éticas clínicas para a admissão de pacientes em unidades de terapia intensiva e para a sua suspensão em condições excecionais de desequilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis”, afirma-se que a pressão sobre os hospitais é tal que, se a epidemia não abrandar, será necessário estabelecer critérios de seleção em todo o país.

“No Norte, onde mais de 500 pacientes estão em terapia intensiva, os nossos colegas que trabalham quase 24 horas por dia são obrigados a avaliar, no dia-a-dia, quais os casos com probabilidade de sobreviver e quais os que têm menos probabilidade de sobreviver. Isto aplica-se igualmente às pessoas com patologias que requerem cuidados intensivos e àquelas com uma forma grave de coronavírus”, explica Flavia Petrini, presidente da Siaarti.

Dado o aumento horário do fluxo de pacientes, o número limitado de leitos de terapia intensiva (menos de 6.000 em instalações públicas) e o facto de muitos médicos e enfermeiros estarem eles próprios infetados com o vírus e em quarentena, devemos dar prioridade aos jovens e àqueles que têm mais probabilidades de sobreviver”, acrescentou ela.»

Uma corrida contra o tempo

Um médico do hospital em Cremona, Lombardia, confirma o terrível dilema sob condição de anonimato. “Nos últimos dias tivemos que escolher quem intubar, entre um paciente de 40 e um paciente de 60 anos que estão ambos em risco de morrer”. É atroz e nós choramos, mas não temos equipamento de ventilação artificial suficiente.»

No domingo, pouco depois da assinatura do decreto de colocação em quarentena da Lombardia e de 14 províncias, localizadas entre Emilia-Romagna, Veneto e Marche, com 16 milhões de pessoas confinadas até 3 de abril, o chefe de governo Giuseppe Conte assegurou que “tudo será feito para suprir as deficiências”. Um decreto anterior, datado de 6 de Março, prevê o recrutamento de 20.000 médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, incluindo reformados e profissionais que trabalham no sector privado.

O novo decreto, que entrou em vigor a 8 de Março, diz que a Itália vai produzir rapidamente centenas de aparelhos para unidades de terapia intensiva e aumentar o número de camas de terapia intensiva em 50%.

Medidas insuficientes

“Isto é essencial, mas há prazos técnicos a cumprir”, diz a Dra. Flavia Petrini. “Não se podem colocar camas de terapia intensiva em qualquer lugar. O uso de blocos operatórios pode ser considerado como uma solução tampão, mas isso atrasará os procedimentos programados para outros pacientes. Além disso, teremos dificuldade em recrutar anestesistas. Já empregamos médicos que ainda não completaram os seus cursos de especialização.»

A situação é ainda mais alarmante porque, apesar do apelo à auto-responsabilidade feito pelo Presidente da República, Sergio Mattarella, e reiterado por Giuseppe Conte, o chefe da Defesa Civil, Angelo Borrelli, e as epidemiologias presentes na televisão, nem todos os italianos respeitam as regras do comportamento quotidiano que é exigido.

Pouco antes da assinatura do novo decreto que estipula que os cidadãos residentes nas zonas vermelhas devem “evitar qualquer movimento dentro ou fora do seu município, exceto em situações de emergência ou exigências profissionais que não podem ser adiadas”, centenas de milaneses do Mezzogiorno invadiram comboios  noturnos em direção ao sul de Roma até à ponta da Itália.

Sul de Itália ainda mais subequipado que Norte de Itália

Em Roma e na Lazio, há atualmente cerca de uma centena de pessoas contaminadas pela Covid-19, das quais cerca de dez se encontram em estado grave. Enquanto a situação ainda está sob controle, as ruas da Cidade Eterna ficaram  semidesertos no domingo. A Cidade do Vaticano não foi poupada, um caso foi detetado num dispensário.

Desde então, foram tomadas amplas medidas de precaução. Tanto que o Papa Francisco recitará a oração do Angelus da sua biblioteca particular, em fluxo contínuo, até novo aviso. No domingo de manhã, apenas uma centena de peregrinos se reuniram na Praça de São Pedro, onde tinham sido instalados ecrãs gigantes. No final do Angelus, no entanto, o Papa apareceu, de surpresa, para saudar e abençoar os fiéis.

Mas o que preocupa as autoridades são as sete regiões do Sul desfavorecido. Da Campânia até à Calábria, passando por  Puglia e Sicília. Nessas regiões, com uma população de 21 milhões de habitantes, o sistema de saúde está cronicamente desfavorecido face ao Norte, saturado. As estruturas hospitalares estão em estado de degradação, carecendo de médicos, enfermeiros, macas e camas. A Calábria, por exemplo, tem 1,5 cama  por 1.000 habitantes.

“Estas regiões ainda não estão muito afetadas pelo vírus, portanto as pessoas não estão conscientes do perigo real”, diz o professor Walter Ricciardi, assessor do ministro da Saúde Roberto Speranza. Devemos esperar que a epidemia se espalhe por toda a Itália: “Não podemos isolar  tudo militarmente como fizemos em Wuhan, a Itália é um país democrático”. Mas se o vírus se mover para sul muito rapidamente, a situação será incontrolável. »

 

Para ler no original clique em:

https://www.la-croix.com/Monde/Europe/Coronavirus-lItalie-sous-equipee-face-crise-sanitaire-2020-03-08-1201082772

Coronavirus, l’Italie sous-équipée face à la crise sanitaire

 

La Croix

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/14/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxiii-coronavirus-a-italia-subequipada-face-a-crise-sanitaria-por-anne-le-nir/

Bérgamo, o massacre que as entidades patronais não quiseram evitar. Por Alba Sidera

73 Bérgamo o massacre que as entidades patronais não quiseram evitar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

Bérgamo, o massacre que as entidades patronais não quiseram evitar

Alba Sidera Por Alba Sidera

Publicado por logo ctxt em 10/04/2020 (ver aqui)

 

A zona de Itália mais devastada pelo Covid-19 é um grande centro industrial. Nunca foi declarada uma zona vermelha devido à pressão dos empresários. O custo em vidas humanas foi catastrófico

Caravana de camiões militares em Bérgamo

Há imagens que marcam uma época, que ficam gravadas no imaginário colectivo de um país. Uma que os italianos não poderão esquecer nos próximos anos é aquela que os residentes de Bérgamo fotografaram das suas janelas na noite de 18 de Março. Setenta camiões militares atravessaram a cidade no meio de um silêncio sepulcral, um após o outro, numa marcha lenta como sinal de respeito: transportavam cadáveres. Levavam-nos para outras cidades fora da Lombardia porque o cemitério, a morgue, a igreja convertida em morgue de emergência e o crematório a funcionar 24 horas por dia já não aguentavam mais. A imagem captou a magnitude da tragédia em curso na região de Itália mais afectada pelo coronavírus. No dia seguinte, o país foi despertado pela notícia de que era o primeiro no mundo em mortes oficiais de Covid-19, na sua maioria na Lombardia. Mas por que razão a situação é tão dramática precisamente em Bérgamo? O que aconteceu nessa zona para que, em Março de 2020, se tenham registado mais 400% de mortes do que no mesmo mês do ano anterior?

 

“A Lombardia é a região italiana que mais representa o modelo de mercantilização da saúde e foi vítima de um sistema corrupto a grande escala”

Em 23 de Fevereiro, registaram-se dois casos positivos de coronavírus na província de Bergamo. Numa semana, atingiram 220; quase todos em Val Seriana. No Codogno, uma cidade da Lombardia onde foi detetado o primeiro caso oficial de coronavírus em 21 de Fevereiro, 50 casos diagnosticados foram suficientes para encerrar a cidade e declará-la zona vermelha. Por que razão não se fez o mesmo em Val Seriana? Porque neste vale do rio Serio concentra-se um dos centros industriais mais importantes de Itália, e os industriais pressionaram todas as instituições para que não fechassem as suas fábricas e não perdessem dinheiro. E assim, por incrível que pareça, a zona com mais mortes de coronavírus por habitante em Itália – e na Europa – nunca foi declarada zona vermelha, apesar do espanto dos presidentes de câmara que a reclamavam, e dos cidadãos, que agora exigem responsabilidades. Os médicos de família de Val Seriana são os primeiros a pronunciar-se claramente: se tivesse sido declarada zona vermelha, como aconselhavam todos os especialistas, centenas de pessoas teriam sido salvas, dizem eles, impotentes.

A história é ainda mais sombria: aqueles que têm interesse em manter as fábricas abertas são, em alguns casos, os mesmos que têm interesse nas clínicas privadas. A Lombardia é a região italiana que mais representa o modelo de comercialização dos cuidados de saúde e tem sido vítima de um sistema corrupto em grande escala liderado pelo ex-governador durante 18 anos (de 1995 a 2013), Roberto Formigoni, um dos principais membros da Comunhão e Libertação (CyL). Ele era do partido de Berlusconi, que o definiu como “governador vitalício da Lombardia”, mas sempre teve o apoio da Liga, que governa a região desde que Formigoni partiu, acusado – e depois condenado – de corrupção no sector da saúde. O seu sucessor, Roberto Maroni, iniciou em 2017 uma reforma da saúde que reduziu ainda mais os investimentos em saúde pública e praticamente aboliu a figura do médico de família, substituindo-o pelo “gestor”. “É verdade que, nos próximos cinco anos, 45 mil médicos de família vão desaparecer, mas quem é que ainda vai ao médico de família?”, disse inconformado o político da Liga, Giancarlo Giorgetti, então Secretário de Estado Adjunto no Governo Conte-Salvini, em Agosto do ano passado.

A epidemia na região de Bergamo, a chamada Bergamasca, começou oficialmente na tarde de domingo 23 de Fevereiro, embora os médicos de família – na linha da frente da denúncia da situação – tenham dito que, desde o final de Dezembro, vinham a atender muitos casos de pneumonia anormal em pessoas com apenas 40 anos de idade. Em 23 de Fevereiro, os resultados dos exames do coronavírus de dois pacientes internados no hospital Pesenti Fenaroli em Alzano Lombardo, uma cidade de 13.670 habitantes a poucos quilómetros de Bergamo, foram positivos. Como ambos tinham estado em contacto com outros pacientes e com médicos e enfermeiros, a direcção do hospital decidiu fechar as portas. Mas, sem qualquer explicação, reabriram-nas algumas horas depois, sem desinfetar as instalações ou isolar os doentes com Covid-19. Além disso, o pessoal médico passou uma semana a trabalhar sem proteção; um bom número de enfermeiros do hospital foi infetado e espalhou o vírus entre a população. O contágio multiplicou-se por todo o vale. O hospital acabou por ser o primeiro grande foco de infeção: pacientes que foram admitidos por um simples problema na anca acabaram por morrer de infeção por coronavírus.

Os presidentes de câmara dos dois municípios mais atingidos de Val Seriana, Nembro e Alzano Lombardo, esperaram todos os dias, às sete horas, pela ordem de encerramento da cidade, que era o que tinham acordado fazer. Tudo estava pronto: as portarias tinham sido redigidas, o exército tinha sido mobilizado, o chefe da polícia tinha-os informado sobre os turnos a efetuar nas guardas e as tendas tinham sido montadas. Mas a ordem nunca chegou, e ninguém lhes conseguiu explicar porquê. Em contrapartida, houve chamadas contínuas dos empresários e proprietários de fábricas da zona, que estavam muito preocupados em evitar o encerramento das suas atividades a todo o custo. Não se estavam a esconder.

Sem qualquer vergonha, em 28 de Fevereiro, em plena emergência do Coronavírus – em 5 dias tinham sido atingidas as 110 infeções oficiais na zona, já fora de controlo – a associação patronal industrial italiana, Confindustria, iniciou uma campanha em rede com a designação #YesWeWork. “Temos de baixar o tom, fazer compreender ao público que a situação está a tornar-se normal, que as pessoas podem voltar a viver como antes”, disse o presidente da Confindustria Lombardia, Marco Bonometti, nos meios de comunicação social.

No mesmo dia, a Confindustria Bergamo lançou a sua própria campanha dirigida aos investidores estrangeiros para os convencer de que nada estava a acontecer ali e que não iriam fechar as portas. O slogan era inequívoco: “Bergamo non si ferma / Bergamo is running”.

A mensagem do vídeo promocional para os parceiros internacionais era um disparate: “Foram diagnosticados casos de Coronavírus em Itália, tal como em muitos outros países”, minimizaram. E eles mentiam: “O risco de infeção é baixo”. Culpavam os meios de comunicação social por alarmismos injustificados e, ao mostrarem trabalhadores a trabalharem nas suas fábricas, vangloriavam-se de que todas as fábricas permaneceriam “abertas e em pleno rendimento, como de costume”.

Apenas cinco dias mais tarde, eclodiu o enorme surto de contágio e morte e tornou-se o maior em Itália e na Europa. Mas nem assim eles retiraram a campanha, nem consideraram encerrar as fábricas. A Confindustria Bergamo agrupa 1.200 empresas que empregam mais de 80.000 trabalhadores. Todos eles foram expostos ao vírus, forçados a ir trabalhar, em grande parte sem medidas adequadas – apinhados, sem distância de segurança ou material de proteção -, colocando-se a si próprios e a todo o seu ambiente em risco.

 

“O hospital Pesenti Fenaroli revelou-se o primeiro grande foco de infeção em Alzano Lombardo: pacientes que ingressavam devido a um simples problema de anca acabaram por morrer de Coronavírus”

O presidente da Câmara de Bergamo, Giorgio Gori, do Partido Democrata, também se juntou ao clamor para não fechar a cidade e no dia 1 de Março convidou as pessoas a encherem as lojas do centro com o slogan “Bergamo não pára”. Mais tarde, perante a evidência da catástrofe, lamentou-a e admitiu que tinha tomado medidas demasiado brandas para não entravar a atividade económica das poderosas empresas da região.

Em 8 de Março, os contágios oficiais na Bergamasca tinham passado de 220 para 997 numa semana. Durante a tarde, foi divulgado que o Governo queria isolar a Lombardia. Após horas de caos em que muitos deixaram Milão numa debandada, Giuseppe Conte apareceu, já ao amanhecer, numa confusa conferência de imprensa através do Facebook para anunciar o decreto. Não era o que os presidentes de câmara das povoações do Val Seriana esperavam: não era zona vermelha, mas laranja. Por outras palavras, restringiam-se as entradas e saídas dos municípios, mas todos podiam continuar a trabalhar.

Após dois dias, o confinamento foi alargado a toda a Itália por igual. E nada mudou na área da Bergamasca, onde os contágios cresciam e cresciam ao mesmo ritmo imparável das suas fábricas a funcionar a toda a velocidade. “Quando todos na região, especialmente em Nembro e Alzano Lombardo, tomaram como certo que a zona vermelha ia ser declarada, algumas empresas importantes da região fizeram pressão para a atrasar o mais possível”, diz Andrea Agazzi, secretário-geral do sindicato FIOM Bergamo, no programa Report, da RAI. E acrescenta: “A Confindustria jogou as suas cartas e o governo escolheu de que lado ia estar”.

Os contágios e as mortes aumentaram imparavelmente, especialmente nas zonas industriais da Lombardia entre Bérgamo e Brescia. Exactamente um mês após o primeiro caso oficial de coronavírus em Itália, no sábado, 21 de Março, foi atingido o triste recorde de quase 800 mortes por dia. Os governadores da Lombardia e do Piemonte – outro grande centro industrial – declararam que a situação era insustentável e que era necessário parar a atividade produtiva. Conte, que até então tinha sido contra a medida, apareceu à noite esmagado para dizer que sim, agora sim, “todas as atividades económicas produtivas não essenciais” seriam encerradas.

 

“As fábricas da Bergamasca continuaram praticamente todas abertas até 23 de março, quando os contágios oficiais na zona já eram quase de 6.500”

A Confindustria foi imediatamente ativada e iniciou uma ofensiva de pressão sobre o governo. “Nem todas as atividades não essenciais podem ser encerradas”, afirmaram numa carta ao primeiro-ministro, especificando as suas exigências. Os industriais conseguiram que o decreto demorasse 24 horas a ser aprovado e que Conte aceitasse as suas condições. Com efeito, o Governo tinha escolhido de que lado estava, e não era dos trabalhadores.

Os sindicatos, em bloco, puseram-se em pé de guerra e ameaçaram com uma greve geral se o verdadeiro encerramento das atividades produtivas não essenciais não fosse levado a cabo. A Confindustria tinha conseguido acrescentar muitas atividades não essenciais, como as da indústria do armamento e das munições, à lista de atividades que poderiam continuar a funcionar. Além disso, incluíam uma espécie de cláusula que permitia, na prática, que qualquer empresa que declarasse ser “funcional” para que uma atividade económica essencial permanecesse em aberto. Isto significa que num só dia, em Brescia, a outra província da Lombardia atingida pelo coronavírus, mais de 600 empresas que não constavam da lista das empresas essenciais iniciaram os procedimentos para continuar a funcionar.

“Não compreendo porque é que os sindicatos iriam querer fazer greve. O decreto já é muito restritivo: que mais havia que fazer?”, disse o presidente da Confindustria, Vincenzo Boccia, não muito empático. E acrescentou: “Já vamos perder 100 mil milhões de euros por mês; não parar a economia é do interesse de todo o país”. Annamaria Furlan, secretária-geral do sindicato da CISL, tentou explicar: “Sou sindicalista há 40 anos e nunca pedi o encerramento de nenhuma fábrica, mas agora está em risco a vida das pessoas”.

Os trabalhadores da fábrica iniciaram protestos e greves enquanto os sindicatos negociavam com o governo, que finalmente caiu em si. Algumas atividades foram retiradas da lista das mais de oitenta consideradas essenciais, tais como a indústria de armamento ou as centrais telefónicas que vendem ofertas não solicitadas por telefone, e as indústrias petroquímicas foram objecto de restrições. Foi igualmente acordado que a autocertificação de uma empresa não era suficiente para ser considerada funcional para uma empresa essencial e o compromisso de proteger o direito à saúde dos trabalhadores que permanecem nas fábricas. No entanto, foram deixados pontos ambíguos no decreto e existe uma zona cinzenta que permite que muitas fábricas permaneçam abertas. Do mesmo modo, muitos trabalhadores continuam a trabalhar sem a distância de segurança adequada ou sem equipamento adequado.

As fábricas da Bergamasca continuaram praticamente todas abertas até 23 de Março, quando o contágio oficial na zona foi de quase 6.500. Uma semana depois, em 30 de Março, apesar do decreto que encerra “todas as atividades de produção não essenciais”, havia 1 800 fábricas abertas e 8 670 casos oficialmente infectados na zona.

 

“Nenhuma autoridade esteve à altura das circunstâncias, exceto os presidentes de câmara das povoações pequeñas, os únicos que reconheceram –e denunciaram– as pressões dos industriais”

Ponhamos nome às fábricas que não quiseram fechar. Uma das empresas da região é a Tenaris, líder mundial no fabrico de tubos e serviços para a exploração e produção de petróleo e gás, com um volume de negócios de 7,3 mil milhões de dólares e sede legal no Luxemburgo. Emprega 1.700 trabalhadores na sua fábrica em Bergamasca e pertence à família Rocca, sendo o seu proprietário Gianfelice Rocca, o oitavo homem mais rico de Itália. Na província de Bergamo, como em toda a Lombardia, os cuidados de saúde privados são muito fortes. Em Bergamasca, em particular, metade dos serviços de saúde são privados. As duas clínicas privadas mais importantes da região, com um volume de negócios anual superior a 15 milhões de euros cada, pertencem ao grupo San Donato – cujo presidente é o antigo vice-primeiro-ministro italiano Angelino Alfano, o antigo delfim de Berlusconi – e ao grupo Humanitas. O presidente da Humanitas é Gianfelice Rocca, também proprietário da Tenaris, a indústria que não quis mandar os seus trabalhadores para casa. O sistema privado de saúde de Bergamo só foi ativado pela emergência do Coronavirus a 8 de Março, quando, por decreto, todos os serviços não urgentes tiveram de ser adiados. Só então começaram a dar lugar aos doentes do Covid-19.

A Brembo é outra grande empresa com fábricas na Bergamasca. Pertence à poderosa família Bombassei, também envolvida na política: Alberto, o filho do fundador, foi deputado pela Scelta Civica, o partido de Mario Monti. Tem 3.000 trabalhadores nas suas fábricas na zona de Bergamo, onde produzem travões para automóveis. O seu volume de negócios é de 2,6 mil milhões de euros. Eles não quiseram fechar.

A Val Seriana foi largamente industrializada por empresas suíças há mais de 100 anos, pelo que a presença de fábricas ligadas à Suíça continua a ser importante. Outra grande empresa que tem mais de 6.000 trabalhadores em Itália, mais de 850 na Bergamasca, é a ABB, de capital suíço e sueco. Líder em robótica, tem um volume de negócios de 2 mil milhões de euros. Em 30 de Março continuava aberta com total normalidade.

Persico, uma empresa italiana que produz componentes automóveis, com 400 trabalhadores e 159 milhões de facturação, está sediada em Nembro, o município com o maior número de mortos do Covid-19 por habitante em Itália. Pierino Persico, o proprietário, foi um dos que mais se opôs à declaração da zona vermelha.

Em Nembro, 14 pessoas morreram em março de 2019. No mesmo mês deste ano registaram-se 123 (um aumento de 750%). Em Alzano Lombardo, em março de 2019, morreram 9 pessoas; neste mês de Março, 101. Na cidade de Bergamo (120.000 habitantes), 553 morreram em março, enquanto que em março de 2019 tinham morrido 125.

Os dados das pessoas infetadas não são fiáveis porque não são testados, e da protecção civil italiana – que oferece as contas – avisa-se que os números devem ser multiplicados por, pelo menos, dez.

Segundo um estudo publicado pelo Giornale di Brescia, nesta província lombarda o número de pessoas infectadas seria 20 vezes superior ao número oficial, 15% da população. E o mesmo se aplica aos mortos. De acordo com este estudo, seriam o dobro dos oficiais, ou seja, 3 000 só na província de Brescia. A falta de testes – sobre os vivos e os mortos – torna impossível uma contagem fiável. O que sabemos é que a Itália é o país do mundo com o maior número de mortos do Covid-19, cerca de 18 000, e a maioria provém do norte industrial.

Agora, perante milhares de cadáveres e uma população que começa a transformar a sua dor em fúria, todos se livram da culpa. O governador da Lombardia, Attilio Fontana da Lega, culpa o governo central e assegura que ele não foi mais rigoroso porque eles não o deixaram. Na verdade, se tivesse querido, poderia ter sido, tal como os governadores da Emilia Romagna, do Lácio e da Campânia, que decretaram zonas vermelhas nas suas regiões. A verdade é que nenhuma autoridade esteve à altura da tarefa, excepto os presidentes de câmara das pequenas cidades, que são os únicos que reconheceram – e denunciaram publicamente – a pressão dos industriais, que os sitiavam com apelos para tentar impedir ou adiar o encerramento das fábricas.

De uma Bergamo ferida e ainda em estado de choque, os cidadãos começam a organizar-se para pedir que os factos sejam esclarecidos e que alguém assuma pelo menos a responsabilidade de ter permitido que os interesses económicos prevalecessem sobre a saúde – ou seja, a vida – dos trabalhadores de Bergamasca. Muitos deles, aliás, são precários.

 

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A autora: Alba Sidera (Girona, 1979) é uma jornalista catalã. Correspondente do jornal El Punt-Avui em Roma desde 2012, é especialista no mundo político italiano. Ela recebeu uma menção honrosa da revista Pensamiento al margen em 2019 pelo seu artigo informativo: “A armadilha da postideologia protege os medíocres” e, em fevereiro de 2020, ela publicou o seu primeiro livro, Fascismo Persistente, no qual explica a sobrevivência da ideologia fascista, a exaltação da figura de Mussolini e a ascensão do político populista Matteo Salvini na península italiana.

 

 

 

 

 

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Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/14/bergamo-o-massacre-que-as-entidades-patronais-nao-quiseram-evitar-por-alba-sidera/

Bérgamo ou a mortandade que o patronato não quis evitar

A região de Itália mais atingida pela Covid-19 é um grande pólo industrial. O patronato – com interesses no sector da saúde privada – fez pressão para manter as fábricas a funcionar, e o custo humano foi catastrófico.

Viaturas militares italianas atravessam a cidade de Bérgamo carregados com caixões, que levam para fora da cidadeCréditos / Ruptly

«Há imagens que marcam uma época, que ficam gravadas no imaginário colectivo de um país. Aquela que os italianos não serão capazes de esquecer por muitos anos é a que os moradores de Bérgamo fotografaram das suas janelas na noite de 18 de Março. Setenta camiões militares atravessaram a cidade num silêncio sepulcral, um atrás do outro, em marcha lenta como sinal de respeito: transportavam cadáveres. Levavam-nos para outras cidades, fora da Lombardia, porque o cemitério, a funerária, a igreja transformada em funerária de emergência e o crematório a funcionar 24 horas por dia já não eram suficientes. A imagem plasmava a magnitude da tragédia em curso na região de Itália mais afectada pelo coronavírus.»

É assim que começa o artigo publicado há três dias pela jornalista ítalo-catalã Alba Sidera, no portal ctxt.es, sobre a grande mortandade causada pelo novo coronavírus na província de Bérgamo e na região italiana da Lombardia, à qual pertence, sobre responsabilidades do patronato – que muito fez para manter as actividades a funcionar em pleno – e do governo italiano – que escolheu um lado, e não foi o dos trabalhadores –, sobre a «mercantilização» do sector da saúde e sobre «a dor que se transforma em raiva» e exige saber a verdade. Isto, num tempo em que, consumada a «tragédia», todos sacodem a água do capote.

A epidemia na região de Bérgamo, a chamada Bergamasca, teve início oficial no dia 23 de Fevereiro. No entanto, os médicos de família – que estavam na mira do governo lombardo e do governo central italiano, no âmbito de políticas de desinvestimento na saúde pública – afirmam que, desde o final de Dezembro, tinham atendido «muitíssimos casos de pneumonias anómalas».

«Os presidentes dos municípios mais atingidos pelo coronavírus em Val Serianano aguardavam por ordens para poderem decretar o encerramento destas localidades, que nunca chegaram.»

 

Dos dois casos oficialmente registados a 23 de Fevereiro na província de Bérgamo passou-se, numa semana, para 220, quase todos em Val Seriana. Apesar disso, os municípios deste vale – nem mesmo os mais atingidos, como Nembro e Alzano Lombardo, não foram declarados «zona vermelha». Já em Codogno, localidade lombarda onde a 21 de Fevereiro foi detectado o primeiro caso oficial de coronavírus, bastaram 50 casos diagnosticados para fechar a cidade e decretá-la «zona vermelha» [com o grau máximo de restricções].

A jornalista pergunta então por que motivo «não se fez o mesmo em Val Seriana» e encontra resposta no facto de, neste vale do rio Serio, entre os Alpes e Bérgamo, estar localizado um dos pólos industriais mais importantes de Itália, e de a associação patronal da indústria ter pressionado todas as instituições para evitar fechar as suas fábricas e perder dinheiro.

Os presidentes dos municípios mais atingidos pelo coronavírus no vale – Nembro e Alzano Lombardo – aguardavam por ordens para poderem decretar o encerramento destas localidades, que nunca chegaram. Em vez disso, receberam chamadas contínuas da parte dos empresários e dos donos das fábricas da região, muito preocupados com um eventual fechamento dos municípios e querendo evitar a todo o custo a paragem das suas actividades.

Cofindustria lança campanha ou o negócio antes da vida

Já em situação de plena emergência – em cinco dias o número oficial de infectados subiu para 110 na região –, a Confindustria, associação patronal da indústria italiana, iniciou uma campanha nas redes com a etiqueta #YesWeWork. À imprensa, o presidente da Confindustria Lombardia, Marco Bonometti, disse que era preciso «baixar o tom, fazer com que a opinião pública entenda que a situação está a normalizar-se, que as pessoas podem voltar a viver como antes».

No mesmo dia, a Confindustria Bergamo lançou a sua própria campanha, destinada aos investidores estrangeiros, para os convencer de que ali não se estava a passar nada e de que «nem a brincar» iriam fechar as portas. O slogan era inequívoco: «Bergamo non si ferma / Bergamo is running» [Bérgamo não pára].

«Já em situação de plena emergência – em cinco dias o número oficial de infectados subiu para 110 na região –, a Confindustria, associação patronal da indústria italiana, iniciou uma campanha nas redes com a etiqueta #YesWeWork.»

 

Apenas cinco dias volvidos, eclodiu o enorme surto de infecções e mortes, que acabou por ser o mais importante em Itália e na Europa. Mas nem assim a campanha foi retirada ou se avançou com a hipótese de fechar as fábricas, para proteger os trabalhadores. A Confindustria Bergamo reúne cerca de 1200 empresas, onde trabalham mais de 80 mil trabalhadores: expostos ao vírus, obrigados a ir trabalhar, muitos sem medidas adequadas – em fábricas superlotadas, sem distância de segurança ou material de protecção –, pondo-se a si mesmo e a todo o seu meio em risco.

Também o presidente da Câmara de Bérgamo, Giorgio Gori, do Partido Democrático, se juntou aos pedidos para «não fechar a cidade». No dia 1 de Março, convidou as pessoas a encher as lojas do centro, ainda com o slogan «Bergamo non si ferma» [Bérgamo não pára]. Mais tarde, confrontado com a evidência da catástrofe, reconheceu que tinha tomado medidas demasiado brandas, para não causar danos à actividade económica das potentes empresas da região.

Governo decreta quarentenas a conta-gotas e toma partido

No dia 8 de Março o número oficial de infecções na Bergamasca tinha passado de 220 para 997 (numa semana). À tarde, falava-se que o governo de Giuseppe Conte ia isolar a Lombardia e a medida acabou por ser anunciada, já de madrugada, mas não foi nada daquilo por que ansiavam as terras de Val Seriana: nada de «zona vermelha», apenas «laranja»; ou seja, as entradas e saídas dos municípios eram sujeitas a restricções, mas toda a gente podia continuar a ir trabalhar.

Dois dias depois, o confinamento alargou-se a todo o país, mas nada mudou na região da Bergamasca, onde as infecções aumentavam e as suas fábricas continuavam a laborar a um ritmo imparável. Andrea Agazzi, secretário-geral da Federação dos Empregados Operários Metalúrgicos de Bérgamo (FIOM Bérgamo), disse na RAI que «a Cofindustria jogou todas as suas cartadas e o governo escolheu de que lado ia estar».

«A Confindustria [...] conseguiu não só atrasar a publicação do decreto, como acrescentar várias actividades à lista das consideradas "essenciais". Até a indústria de armamento e munições e os call centers passaram a ser "essenciais".»

 

Sem parar, continuou a aumentar o número de infecções e de mortes, sobretudo nas zonas industriais da Lombardia localizadas entre Bérgamo e Brescia. Um mês após o primeiro caso oficial de coronavírus em Itália, a 21 de Março, chegou-se a 800 mortos por dia. Os governadores das regiões da Lombardia e do Piemonte – outra zona fortemente industrializada – afirmaram então que a situação era insustentável e que era preciso parar a actividade produtiva.

Conte tinha-se oposto à medida até então mas, nessa noite, disse que «sim», que se iam encerrar «todas as actividades económicas produtivas não essenciais». A Confindustria pôs-se de imediato em acção, pressionando o governo. E conseguiu não só atrasar a publicação do decreto, como acrescentar várias actividades à lista das consideradas «essenciais». Até a indústria de armamento e munições e os call centers passaram a ser «essenciais». Também conseguiu ver aprovada uma cláusula que permitia que qualquer empresa pudesse continuar aberta desde que declarasse que era «funcional» para uma determinada actividade económica.

«Até 23 de Março, quando o número de casos de infecção pelo novo coronavírus era de 6500 na região, as fábricas da Bergamasca estiveram praticamente todas abertas.»

 

Os sindicatos, unidos, ameaçaram fazer greve geral. Houve protestos e paralisações nas fábricas. Negociações com o governo permitiram que fossem retiradas da lista algumas das mais de 80 «actividades essenciais» aprovadas como resultado da pressão da Cofindustria. A luta dos trabalhadores também levou a que deixasse de ser suficiente o «auto-certificado» de uma empresa para passar a ser considerada essencial.

Ainda assim, a legislação do governo é suficientemente ambígua para permitir a muitas fábricas continuar abertas. Até 23 de Março, quando o número de casos de infecção pelo novo coronavírus era de 6500 na região, as fábricas da Bergamasca estiveram praticamente todas abertas. Uma semana depois, mesmo com a lesgislação aprovada no sentido de encerrar «todas as actividades produtivas não essenciais», havia 1800 fábricas abertas e 8670 infectados (números oficiais) na região.

Da dor surge a raiva e a organização para exigir esclarecimentos

Na província de Bérgamo, tal como no resto da região da Lombardia, a saúde privada tem muita força e factura milhões de euros por ano. Na Bergamasca, concretamente, metade dos cuidados de saúde passa pelo sector privado, sendo que as duas clínicas mais importantes na região – com uma facturação anual de 15 milhões de euros cada – pertencem ao grupo San Donato – cujo presidente é o ex-vice-primeiro-ministro italiano Angelino Alfano, um antigo delfim de Berlusconi – e ao grupo Humanitas, que é presidido por Gianfelice Rocca, também dono da empresa Tenaris, líder mundial no fabrico de tubos e serviços para a exploração e produção de petróleo e gás, com sede legal no Luxemburgo e que teimou em não fechar portas na Bergamasca, para proteger os seus 1700 trabalhadores.

«Na Bergamasca, concretamente, metade dos cuidados de saúde passa pelo sector privado»

 

Só a 8 de Março, pela força de lei, a saúde privada na Bergamasca se pôs ao serviço dos cidadãos nesta crise de Covid-19. Então, foi obrigada a arranjar espaço para os pacientes infectados com o novo coronavírus.

«Agora, face aos milhares de cadáveres e a uma população que começa a transformar a sua dor em raiva, todos sacodem a água do capote», como o governador da Lombardia, Attilio Fontana, da Liga Norte, que culpa o governo central.

«A verdade é que nenhuma autoridade esteve à altura, excepto os autarcas das pequenas localidades, que foram os únicos que reconheceram – e denunciaram publicamente – as pressões dos industriais, que os assediavam com chamadas para tentar de todas as formas evitar ou adiar o fechamento das fábricas», refere a peça.

Numa cidade e região ainda em choque, as pessoas começam a organizar-se para exigir o esclarecimento dos factos e que «alguém assuma, pelo menos, a responsabilidade de ter permitido que os interesses económicos se antepusessem à saúde – isto é, à vida – dos trabalhadores da Bergamasca». Muitos dos quais «são precários».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/bergamo-ou-mortandade-que-o-patronato-nao-quis-evitar

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XX – A ITÁLIA EM SITUAÇÃO SANITÁRIA LIMITE, entrevista a CHRISTIAN SALAROLI, por MARCO IMARISIO

 

 

 

Coronavirus, il medico di Bergamo: «Negli ospedali siamo come in guerra. A tutti dico: state a casa», por Marco Imarisio

Corriere della Sera, 9 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Christian Salaroli, anestesista/reanimador  em Bergamo: “Nós decidimos de acordo com a idade e as condições de saúde. Alguns de nós [médicos], quer sejamos chefes de departamento ou recém-chegados, saímos esmagados… Fiquem em casa. Fica em casa. Vejo demasiadas pessoas na rua.

“Na sala de emergência, foi aberta uma grande ala de vinte camas , que só é utilizada para eventos de massa. Chamamos-lhe Pemaf, um acrónimo de Plano de Emergência para o Maximo de Afluxo. É aí que se faz a triagem, ou melhor, a escolha [de continuar o tratamento]”.

Não é uma conversa fácil, esta com Christian Salaroli, 48 anos, casado, com dois filhos, diretor médico, anestesista e reanimador no hospital do Papa João XXIII em Bérgamo, um dos mais procurados nas últimas semanas, a apenas sete quilómetros do centro de contágio de Alzano Lombardo, um dos mais misteriosos e persistentes desta epidemia. Não é por causa do assunto que ele aborda,  não é por causa da emoção que nos envolve, que temos o dever de  dissecar o que se está a passar,  mesmo que isso diga muito sobre o que está a acontecer  onde há verdadeiros combates.

“Nós decidimos com base na idade e no estado de saúde. Como em todas as situações de guerra. Não sou eu que o digo, mas os livros com que estudámos.

Então é verdade?

É claro que é verdade. Somente mulheres e homens com pneumonia Covid-19, que sofrem de insuficiência respiratória, são permitidos nestas camas. O resto vai para casa.

O que acontece a seguir?

Colocamo-los em ventilação não invasiva, que se chama Niv. Esse é o primeiro passo.

E os outros passos?

Eu vou chegar ao mais importante. De manhã cedo, com os assistentes das Urgências, chega o reanimador . A sua opinião é muito importante.

Porque é que isto é tão importante?

Além da idade e do estado geral, o terceiro elemento é a capacidade do paciente de se recuperar de um procedimento de reanimação.

Do que é que estamos a falar?

A pneumonia induzida por Covid-19 é uma pneumonia intersticial, uma forma muito agressiva de pneumonia que afeta a oxigenação do sangue. Os pacientes mais afetados ficam hipóxicos, o que significa que não têm oxigênio suficiente nos seus corpos.

Quando é que é escolher [para continuar os cuidados de saúde ]?

Imediatamente a seguir. Temos de o fazer. Dentro de alguns dias, no máximo. A ventilação não-invasiva é apenas uma fase de transição. Infelizmente, há uma desproporção entre recursos hospitalares, camas de terapia intensiva e pessoas gravemente doentes, por isso nem todos estão entubados.

Logo a seguir. Temos de o fazer. Daqui a uns dias, no máximo. A ventilação não-invasiva é apenas uma fase de transição. Como infelizmente há uma desproporção entre recursos hospitalares, camas de cuidados intensivos e pessoas gravemente doentes, nem todos estão entubados.

O que acontece depois?

Torna-se necessário fazê-los respirar mecanicamente. Aqueles sobre os quais se opta por continuar estão todos entubados e colocados de bruços, pois esta manobra pode ajudar a ventilar as zonas inferiores do pulmão.

Há alguma regra escrita?

Neste momento, apesar do que eu li, não, não há. É costume, ainda que eu perceba que é uma palavra pesada, desagradável,  avaliar muito cuidadosamente pacientes com patologias cardiorespiratórias graves e pessoas com problemas coronários graves, pois não toleram bem a hipoxia aguda e têm poucas chances de sobreviver à fase crítica.

Mais alguma coisa?

Se uma pessoa com idade entre 80 e 95 anos sofre de insuficiência respiratória grave, é pouco provável que continue a receber cuidados. Aqueles com falha de mais de três órgãos vitais terão uma taxa de mortalidade de 100% – “Ele partiu, agora”.

Deixa-o partir ?

Essa também é uma frase terrível. Mas infelizmente, sim, é verdade. Não estamos em condições de tentar os chamados milagres. Esta é a realidade.

Não é sempre assim?

Não. É claro que, mesmo em circunstâncias normais, avaliamos caso a caso, nas enfermarias, tentamos ver se o paciente pode recuperar de uma operação. Agora aplicamos esta discrição em grande escala.

As pessoas que deixamos partir, estes morrem  de Covid-19 ou de doenças  pré-existentes?

Dizer que não estamos a morrer de coronavírus é uma mentira que me deixa amargo. Também é desrespeitoso para com as pessoas que nos estão a deixar. Morrem de Covid-19 porque na sua forma crítica, a pneumonia intersticial afeta problemas respiratórios pré-existentes, e a pessoa doente já não a pode tolerar. A morte é causada pelo vírus, não por outra coisa.

Como é que vocês médicos lidam com esta situação?

Algumas pessoas sentem-se esmagadas. Isso acontece tanto com o chefe de departamento quanto com o recém-chegado, que se vê de manhã cedo a ter que decidir o destino de um ser humano. Em grande escala, repito.

Não  o incomoda ser o árbitro da vida e da morte de um ser humano?

 

Neste momento, estou a dormir à noite. Porque sei que a escolha se baseia na suposição de que alguém, quase sempre mais jovem, tem mais probabilidade de sobreviver do que o outro. Isso é pelo menos uma consolação.

Que pensa das últimas medidas do governo?

Talvez sejam um pouco genéricos. A ideia de fechar o vírus em certas áreas é boa, mas chega com pelo menos uma semana de atraso. Mas o que realmente importa é outra coisa.

Que é o quê?

Fiquem em casa . Fiquem  em casa. Eu nunca me canso de dizer isso. Eu vejo muita gente na rua. A melhor resposta a este vírus é ficar dentro de casa. Não fazem  ideia do que se está a passar aqui. Fiquem  em casa.

Há falta de pessoal?

Todos nós fazemos tudo. Nós anestesistas trabalhamos em turnos de apoio na nossa sala de cirurgia, que trata de Bergamo, Brescia e Sondrio. Há outros paramédicos na sala, hoje  é a mim que me cabe decidir.

Na grande sala?

É isso mesmo. Muitos dos meus colegas estão a sofrer com esta situação. Não é só a carga de trabalho, é a carga  emocional, que é devastadora. Já vi enfermeiras com trinta anos de experiência chorarem, pessoas com colapsos nervosos e tremores repentinos. Ninguém de fora imagina  o que acontece nos hospitais, é por isso que aceitei falar consigo.

O direito aos cuidados  ainda existe?

Atualmente, ela está ameaçada pelo fato de o sistema não conseguir lidar com o ordinário e o extraordinário ao mesmo tempo. Os tratamentos  normais podem, portanto, ser seriamente atrasado.

Pode dar-me um exemplo?

Normalmente, uma chamada para um ataque cardíaco é processada em minutos. Agora, pode acontecer que se tenha de esperar  uma hora ou mais.

Consegue encontrar uma explicação para tudo isto?

Eu não estou à procura dela. Estou a pensar que isto é como uma cirurgia de guerra. Só estamos a tentar salvar as vidas daqueles que conseguem sobreviver. Isso é o que está a acontecer.

 

Fonte: Christian Salaroli, Corriere della Sera, 09-03-2020

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/11/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xx-a-italia-em-situacao-sanitaria-limite-entrevista-a-christian-salaroli-por-marco-imarisio/

Putin nem pensou em estabelecer condições para ajudar Itália, diz premiê italiano

Médicos militares russos embarcam no avião militar de transporte Il-76 com destino à Itália
© Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia

O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, falou sobre a situação da pandemia da COVID-19 em seu país, criticando a insinuação de que a Rússia teria dado condições para ajudar a Itália.

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, considerou que a ideia de que a Itália recebeu condições para a ajuda humanitária uma ofensa grave em uma entrevista à BBC.

"A própria suspeita me ofende tão profundamente. É uma ofensa para o governo italiano pensar que a ajuda que recebemos da Rússia, da China ou de outros países pode influenciar a posição geopolítica da Itália."

"Para mim, e também para Vladimir Putin, com quem tive uma longa ligação telefônica que nem sequer pensou em utilizar esta situação para exercer pressão, é uma ofensa grave", afirmou Conte.

Falando da reação da UE à emergência da COVID-19, o chefe do Executivo italiano afirmou que "é um teste duro para a União: se não aproveitarmos a oportunidade para revitalizar o projeto europeu, o risco de fracasso será elevado".

Quanto à oportunidade das medidas para conter a propagação do vírus, Conte explicou que a Itália tem "um sistema completamente diferente do da China. Para nós, a limitação das liberdades constitucionais foi uma decisão crítica. Se eu tivesse proposto fazê-lo desde o início, quando surgiram os primeiros surtos, as pessoas me teriam tomado por um louco".

"Se tivesse voltado ao passado, teria feito a mesma coisa", disse o premiê.

Desde o início da pandemia, foram comunicados 139.422 casos de infecção pela COVID-19 na Itália, incluindo 17.669 mortes e 26 491 recuperações, segundo a Universidade Johns Hopkins norte-americana.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020040915435012-putin-nem-pensou-em-estabelecer-condicoes-para-ajudar-italia-diz-premie-italiano/

A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 15. Três medidas essenciais para salvar a Itália e a Europa: monetização dos défices públicos, euro-obrigações e dinheiro de helicóptero. Por Enrico Grazzini

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Três medidas essenciais para salvar a Itália e a Europa: monetização dos défices públicos, euro-obrigações e dinheiro de helicóptero.

Enrico Grazzini 

Por Enrico Grazzini

Publicado por MicroMega em 23 Março 2020 (ver aqui)

 

Em apenas dez dias, com a propagação viral do Covid-19, as economias mundiais estão todas a tornar-se economias de guerra. Tal como numa economia de guerra, o Estado deve utilizar instrumentos excecionais e não convencionais para a vencer. E deve utilizá-los iemadiatamente. Não pode desperdiçar um só minuto. A dramática emergência sanitária, económica e financeira desencadeada pela propagação global do coronavírus exige medidas extraordinárias e imediatamente eficazes.

Com esta crise muito grave quebraram-se os tabus de propostas que durante décadas foram consideradas escandalosas e que apenas uma minoria dos economistas mais radicais ousou propor: a monetização da dívida pública – ou seja, a cobertura dos défices públicos pelos bancos centrais, ou seja, permitir que os Estados gastem tudo o que é necessário, ou mesmo mais – e o dinheiro dos helicópteros. Com o dinheiro de helicóptero, os bancos centrais ou os Estados distribuem dinheiro gratuito diretamente para os bolsos dos cidadãos e das empresas, como fazem em Hong Kong e como o Presidente americano Donald Trump tenciona fazer já no próximo mês. Com a monetização das dívidas públicas e do dinheiro de helicóptero, na prática, é oferecido dinheiro gratuito aos Estados e aos cidadãos e empresas, respetivamente.

Na Europa, talvez outro enorme tabu possa cair, pelo menos em parte, a criação de euro-obrigações, de obrigações europeias comuns para financiar de forma unificada a crise vertical que corre o risco de devastar as economias do velho continente.

Na verdade, a crise económica vai ser muito grave, como foi em tempo de guerra. O Governo italiano deverá renovar este ano cerca de 400 mil milhões de títulos de dívida, mas as receitas fiscais poderão diminuir – só para dar uma ideia da dimensão em causa – em cerca de 80 mil milhões, ou seja, cerca de 10% do total, e o PIB poderá diminuir 5-10% ou mais (cerca de 85-175 mil milhões ou mais). Tudo dependerá naturalmente da duração e da profundidade da crise do Covid-19. A dívida e o défice públicos irão disparar de qualquer forma. A dívida em relação ao PIB poderá aumentar bem mais de 140% em relação aos atuais 135%.

Sem a intervenção financeira do Banco Central Europeu, a Itália ficaria quase certamente isolada do financiamento do mercado e teria de recorrer apenas ao financiamento interno, talvez com uma nova lira. De facto, não é fácil para os investidores nacionais e internacionais – grandes bancos, fundos de investimento, fundos de pensões, fundos especulativos, etc. – financiar a crescente dívida pública de um país em recessão, especialmente numa fase de colapso dos mercados bolsistas e de crise financeira global como a atual. Felizmente, a garantia de reembolso é atualmente concedida pelo BCE. Se o BCE não garantisse a dívida pública, o euro entraria em colapso. Trata-se, de facto, de uma monetização da dívida.

O Governo italiano depara-se com duas formas de encontrar os recursos necessários para enfrentar a crise, mas não são formas alternativas: pelo contrário, podem e devem ser complementares e sinérgicas. A primeira é a estrada europeia; é a dos Eurobonds – ou Covid-Bonds, na versão mais leve e mais urgente – emitidos pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), também conhecido como Fundo de Resgate de Estados, um organismo intergovernamental situado no paraíso fiscal do Luxemburgo e liderado pelo alemão Klaus Regling, ou emitido pelo Banco Europeu de Investimento, BEI, ou emitido por outro organismo supranacional. As obrigações europeias seriam garantidas e cobertas pelos recursos monetários potencialmente infinitos à disposição do Banco Central Europeu.

A moeda fiduciária não custa nada aos contribuintes europeus

De facto, é necessário sublinhar desde o início que a moeda fiduciária nunca é um recurso escasso e que, por conseguinte, a questão da nova moeda não implica em si mesma que alguém seja privado de uma parte dos seus bens. A moeda é uma moeda fiduciária desde há 50 anos, ou seja, desde 1971, quando o Presidente Nixon decidiu abandonar o padrão ouro – que é um bem disponível em quantidade limitada. Desde então, a moeda já não é garantida pelo valor de um bem físico, mas única e exclusivamente pela autoridade dos bancos centrais e dos Estados de onde emanam. Assim, a moeda fiduciária  pode ser “criada do nada” pelos bancos centrais em quantidades potencialmente ilimitadas e a custo zero. O BCE pode “imprimir dinheiro” da forma mais conveniente para reiniciar a economia dos países em recessão sem penalizar ninguém.

O exemplo concreto mais convincente é o da Flexibilização Quantitativa: nos últimos anos, o BCE imprimiu e continua a emitir dinheiro para bancos e grandes empresas, comprando-lhes obrigações do Estado e obrigações privadas, por mais de 3 000 mil milhões, mas nenhum contribuinte europeu pagou por isso.

Obviamente, uma emissão monetária massiva por parte do BCE poderia provocar a desvalorização do euro (coisa que pode ser boa ou má, dependendo das circunstâncias) e aumentar os preços internos na zona euro: mas aumentar a inflação é exatamente o que o BCE tem tentado fazer há anos sem êxito.

Um pouco de inflação face à gravíssima recessão anunciada seria como uma dádiva de Deus e não faria mal a ninguém, incluindo a Alemanha. Graças à monetização dos défices, nenhum contribuinte alemão pagaria pela crise a favor do cidadão italiano ou grego. A moeda pode simplesmente ser criada sem custos para ninguém – obviamente se for criada com os critérios certos.

É, pois, absolutamente falso e pretensioso que, com as euro-obrigações, os contribuintes mais ricos da Alemanha ou dos Países Baixos perdessem algo ou transferissem as suas poupanças  para países mais pobres. Na verdade, o BCE, como todos os bancos centrais, pode emitir dinheiro a partir do zero sem penalizar qualquer cidadão europeu.

A partilha das dívidas e a sua monetização poderia, portanto, ter custo zero e todos ganhariam com o reforço da moeda europeia. A escolha sobre se e quando financiar ou não Eurobonds ou Covidbonds, é única e exclusivamente política. Os obstáculos até agora estão relacionados com os mais de vinte anos de miopia nacionalista e estratégica das elites políticas e económicas alemãs, as políticas mercantilistas orientadas para a exportação (tais como: “foda-se o meu vizinho”) e a incapacidade hegemónica das classes dirigentes alemãs.

Lei do dinheiro do helicóptero e dos certificados de compensação fiscal 5 estrelas

Dissemos que, para fazer face à crise, o primeiro caminho que o Governo italiano pode tomar é o caminho europeu. O  segundo é uma via nacional, a do dinheiro dos helicópteros, que significa entregar imediatamente dinheiro real – notas, cheques ou dinheiro digital – às empresas e às famílias. Em tempos de recessão de dois dígitos, dar a todos um rendimento de cidadania (talvez em proporção inversa ao rendimento) torna-se um dever moral e civil. Ajudar as empresas com dinheiro real quando lhes falta liquidez é uma obrigação económica, porque se as empresas falham, toda a economia cai. O problema, como sabemos, é que o nosso país tem já uma dívida  demasiado elevada, que ascende a cerca de 2500 mil milhões, 135% do PIB, e que está destinada a ter de aumentar. O estado das finanças italianas é tal que o Governo dificilmente pode pagar a distribuição gratuita de dinheiro aos cidadãos e às empresas.

No entanto, o governo Conte poderia encontrar uma solução alternativa. O caminho que o governo poderia seguir é o que foi prefigurado de uma forma relativamente ainda embrionária pelo projeto de lei apresentado pelo Movimento 5 Estrelas em 20 de Novembro de 2019 e atualmente em análise no Senado, denominado “Instituição de certificados de compensação fiscal desmaterializada”.

Este projeto prevê a emissão pelo governo de Certificados de Crédito Fiscal, ou Certificados de Compensação Fiscal, CCF, ou títulos negociáveis que funcionariam como uma “quase moeda”, ou como uma moeda complementar do euro. Os certificados previstos na lei seriam emitidos pelo governo segundo as regras da zona do euro e poderiam ser distribuídos gratuitamente aos cidadãos e às empresas como “moeda complementar”. A intenção é restituir liquidez e oxigénio a uma economia, como a italiana, que sofre principalmente de falta de dinheiro e de procura agregada, e não certamente de falta de capacidade de produção.

É desejável que o governo siga os dois caminhos, o nacional e o europeu, de uma forma complementar. Ambas as estradas são estreitas e repletas de riscos. No entanto, o Governo italiano deve agir imediatamente, verificando as possibilidades de ambos os lados a fim de encontrar o financiamento substancial necessário para sustentar uma crise que poderá destruir o nosso país e desmembrar a União Europeia de uma vez por todas.

Nada será como antes: as instituições democráticas e as instituições europeias enfrentam um teste decisivo. Ou provam que estão a funcionar bem face a esta crise, ou tudo estará terminado. O risco é que, no final da crise sanitária, cheguem os “homens fortes” prontos a exercer todos os seus poderes para corrigir as coisas. Mas aí vamos aprofundar os problemas e as possíveis soluções.

Será possível emitir Eurobonds ou Covid-bonds?

Existem basicamente três caminhos que os governos estão a seguir para ultrapassar a crise – na Europa, bem como nos EUA e no mundo: monetização da dívida pública; dinheiro de helicóptero; emissão massiva de obrigações do Estado para angariar dinheiro de aforradores e investidores institucionais e, assim, apoiar o enorme aumento da despesa pública.

Na Europa, seria uma questão de emitir euro-obrigações, como propuseram há anos sem resultado, embora sob formas diferentes, Romano Prodi e o economista Alberto Quadrio Curzio e Giulio Tremonti e Jean Claude Juncker (antigo Presidente chefe da Comissão Europeia). As euro-obrigações seriam hoje indispensáveis para financiar, em primeiro lugar, as enormes despesas necessárias para fazer face à emergência sanitária e, em seguida, para relançar a economia europeia de uma forma unificada no final da epidemia. As euro-obrigações são também indispensáveis como contrapeso às obrigações do Tesouro dos EUA e constituiriam a âncora definitiva para consolidar o euro como moeda internacional. Os investidores de todo o mundo investiriam em euro-obrigações a fim de investir com segurança no euro.

Recordo que, em princípio, só podem ser lançadas emissões massivas  de euro-obrigações se estas estiverem cobertas por a) fundos mútuos substanciais, ou seja, por um fundo europeu constituído pelas receitas fiscais europeias, ou seja, pelos impostos pagos pelos cidadãos europeus – mas, como sabemos, não existe atualmente qualquer imposto europeu -; b) ou pelos Estados europeus e respetivos bancos.

Até agora, porém, as euro-obrigações foram rejeitadas escandalosamente e sem recurso pelo Governo de Berlim, que se recusou a garanti-las para “não fazer perder dinheiro aos cidadãos alemães”. Mas, como vimos, esta motivação é, em grande medida, ilusória.

Mario Monti escreveu recentemente no Corriere della Sera que talvez desta vez, face à crise sanitária mundial, ainda que apenas parcialmente, a Sra. Merkel pudesse ceder às exigências da nova aliança a favor das obrigações apresentada pelos governos francês, italiano e espanhol.

Talvez hoje seja possível que as obrigações comuns europeias – talvez mesmo apenas sob a forma de obrigações Covid para fazer face à emergência sanitária – sejam aceites pela primeira vez pela Alemanha, que sempre se opôs ferozmente à partilha de riscos entre países europeus e à possível transferência de fundos de países ricos para países mais frágeis (Transfer Union).

Mas a crise atual afeta todos, embora assimetricamente, e abre, portanto, novas possibilidades de cooperação, certamente a explorar e a verificar, mas sem ilusões excessivas: os países mais ricos podem querer enfrentar a crise apoiando-se apenas nas suas próprias forças. O confronto com os governos da Alemanha, da Holanda e da Áustria será duro e o resultado está longe de ser óbvio. Até agora, as nações do Norte da Europa sempre se comportaram de forma competitiva e não cooperativa.

A Itália não pode ser sujeita a condições penalizantes pelo Fundo de Resgate de Estados.

O governo Conte já apresentou duas propostas aos governos da União Europeia e da zona euro: a intervenção imediata do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE), que poderia ter 400 mil milhões de euros (mas ainda mais se emitisse obrigações cobertas pelo BCE); e a emissão de obrigações Covid para cobrir imediatamente os custos da crise sanitária europeia – o economista Pier Giorgio Gawronski, num artigo do jornal Sole 24 Ore, quantificou as despesas de saúde necessárias (equipamento, médicos, enfermeiros, etc.) só para a Itália até 12 mil milhões .

O problema, porém, é que o MEE intergovernamental com liderança alemã tem aplicado até agora condições extremamente punitivas para os Estados que têm dívidas elevadas e exigem (como fez a Grécia) “fundos de salvamento”: corte nas despesas públicas, aumento dos impostos e grandes excedentes orçamentais para pagar dívidas passadas. O MEE exige igualmente um controlo direto sobre a aplicação dos seus diktats. Obviamente, as regras punitivas do MEE são inaplicáveis no caso da crise do coronavírus de que nenhum país é “culpado”, e a Itália nunca será supervisionada por instituições dirigidas por governos estrangeiros.

Não é por acaso que o Primeiro-Ministro Conte pediu um fundo comum multilateral não só para Itália, mas para todos os Estados afetados pela emergência sanitária e económica, e disponível sem condições que não sejam as de uma gestão adequada do dinheiro. O pedido é inteiramente legítimo, mas irá certamente encontrar fortes obstáculos, especialmente por parte do Governo de Berlim. A batalha está aberta. É óbvio, porém, que o Governo italiano nunca poderá aceitar condições penalizadoras para a “ajuda” do  MEE (que a Itália, entre outras coisas, financiou com 14 mil milhões de euros). Pode também pedir ajuda diretamente ao Fundo Monetário Internacional.

A questão das euro-obrigações, ou mesmo das Covidbonds , seria um enorme ponto de viragem geopolítica. Mas este ponto de viragem só é possível se o BCE garantir as obrigações europeias. Pode dizer-se de outra forma: o BCE deveria monetizar  as dívidas europeias, ou seja, imprimir dinheiro para cobrir não só ou o défice dos Estados nacionais, como tem feito nos últimos anos e como vai continuar a fazer, mas também para comprar eventuais futuras obrigações europeias. Desta forma, os investidores financeiros estariam seguros de que o euro não pode falhar, porque, obviamente, a disponibilidade de dinheiro por parte do BCE é ilimitada e o BCE poderá sempre pagar as dívidas da zona euro. Os investidores teriam garantias para os seus créditos e cobrariam assim juros sustentáveis sobre a dívida pública.

A emissão de obrigações europeias e a sua monetização pelo BCE constitui uma condição prévia como uma âncora firme da moeda europeia comum a um título de valor sempre garantido e, por conseguinte, protegido de incertezas. A obrigação europeia constituiria um “porto seguro” para os investidores e poderia então rivalizar com as obrigações do Tesouro americano: tornaria, assim, o euro verdadeiramente competitivo como moeda de reserva internacional. O BCE tem, portanto, um papel central a desempenhar.

O BCE decidiu finalmente a monetização da dívida nacional.

Pressionada pelos mercados e pelos governos francês e italiano, à última hora, na noite de 18 de Março, Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, teve de fazer uma pirueta de 180 graus e retomar as palavras muito criticadas, proferidas apenas alguns dias antes de “o BCE não está interessado em reduzir os spreads (ajudar Estados com dívidas elevadas, como a Itália)”. Na precipitação face à perspetiva concreta da queda do euro, o BCE lançou finalmente o Programa de Aquisição de Emergência Pandémica (PEPP) por um valor de 750 mil milhões de euros. O Banco Central Europeu gastará um total de 1.120 mil milhões até ao final do ano para poupar o euro através da aquisição de obrigações do Estado nacionais no mercado secundário (ou seja, não diretamente dos Estados emissores, mas dos bancos) e de outros títulos privados.

O BCE concentrará o seu poder de fogo principalmente nos Estados mais endividados, como a Itália. Isto significa que – mesmo que de forma não declarada – irá monetizar as dívidas nacionais. Dos cerca de 1.120 mil milhões de euros disponibilizados pelo BCE, cerca de 14%, ou seja 155 mil milhões, seriam entregues à Itália. Não se sabe se isso será suficiente para salvar o nosso país de ataques especulativos e da falência.

Com efeito, o BCE está a tornar-se – apesar de o Tratado de Maastricht proibir qualquer tipo de financiamento às administrações públicas – o “mutuante de último recurso” para os Estados que têm de enfrentar a gravíssima crise económica atual. Afinal, se Lagarde tivesse observado à letra a proibição de Maastricht, então o euro teria caído no espaço de uma semana. Para se tornar oficialmente o “emprestador de último recurso” dos Estados, o BCE teria de comprar os títulos de dívida pública diretamente aos Estados (mercado primário) e não, como faz agora, aos bancos (mercado secundário).

Porque é que o BCE teve de lançar o PEPP tão apressadamente? O capital estava a fugir, em grande parte para títulos denominados em dólares americanos e, em menor medida, para obrigações do Estado alemão. O dólar é o verdadeiro vencedor desta crise, pelo menos até agora. É também por isso que seria indispensável para a União Europeia emitir euro-obrigações. Mas quanto custaria emitir euro-obrigações e partilhar os riscos na zona euro? Vimos que, com moeda fiduciária e políticas prudentes e racionais por parte do banco central, isso não custaria praticamente nada.

O dinheiro do helicóptero na Itália só pode ser feito com Créditos Fiscais

Mesmo o dinheiro do helicóptero já não é tabu. Em Hong Kong, todos os residentes tinham 1270 dólares cada um para fazer face aos custos da crise sanitária (e provavelmente também para acalmar as multidões que exigem a democracia da China). O Presidente dos EUA Trump planeia dar 1.000 dólares às famílias americanas em Abril e mais 1.000 dólares em Maio.

O problema é que na zona euro só os governos nacionais podem criar dinheiro de helicóptero: de facto, é praticamente impossível, pelo menos no presente e num futuro próximo, que o BCE imprima dinheiro e o distribua – digitalmente ou não – aos cidadãos e às empresas. Tecnicamente, isso seria possível, mas a oposição política é demasiado forte. Além disso, a zona euro não tem um orçamento comum para pagar diretamente aos cidadãos e às empresas – como Trump quer fazer, retirando centenas de milhares de milhões de dólares do orçamento público americano e dos mercados.

Cabe, portanto, sobretudo a cada governo nacional encontrar os fundos necessários para enfrentar imediatamente a crise. Obviamente, os governos da zona euro não podem imprimir dinheiro porque só o BCE tem o monopólio da única moeda pública legal, as notas de banco. Os governos só podem imprimir “quase-moeda”, ou seja, obrigações do Estado muito líquidas que são imediatamente convertíveis em euros. No entanto, estes títulos devem ser garantidos pelas suas receitas fiscais. Por conseguinte, só os governos dos países mais prósperos e sem grande dívida pública têm actualmente orçamentos tão florescentes que podem facilmente emitir títulos de dívida para encontrar imediatamente o dinheiro de que os cidadãos e as empresas necessitam. A Itália, pelo contrário, tal como outros países mediterrânicos, não dispõe de “espaço orçamental ” suficiente.

Felizmente, porém, existe uma forma de fazer dinheiro de helicóptero sem aumentar o défice, ou pelo menos sem incorrer em défices excessivos. E as premissas para uma intervenção imediata do Governo italiano já existem.

Em Itália, em novembro de 2019, quase todo o grupo do Movimento 5 Estrelas do Senado apresentou um projeto de lei para lançar a chamada “moeda fiscal”. O projeto de lei prevê a emissão de obrigações transacionáveis e negociáveis emitidas pelo Estado, que os seus detentores  poderão utilizar para obter o reembolso de impostos dois anos após a sua emissão. Estes títulos, distribuídos às famílias, empresas e organismos públicos, poderiam, no entanto, aumentar imediatamente o poder de compra das famílias, especialmente das mais pobres, tornar as empresas mais competitivas através da redução da carga fiscal e financiar o investimento público e as despesas com a saúde.

“Os Certificados de Crédito Fiscal – salientam os eleitos do Movimento 5 Estrelas  – seriam capazes de criar a liquidez de que o sistema económico tem sido privado em anos de políticas de austeridade”. É uma medida que “permitiria ao governo recuperar o controlo total da sua política orçamental sem infringir as regras da zona euro”.

A lei estabelece isso mesmo: “Com base em hipóteses conservadoras, calculou-se que o crescimento do PIB durante o período de dois anos geraria receitas fiscais adicionais suficientes para compensar os reembolsos de impostos. As projeções mostram que estes picos seriam de cerca de 100 mil milhões de euros”.

O projeto de lei tem tanto de positivo quanto tem de imperfeito e incompleto. Não se trata certamente de subestimar o potencial da proposta. Em vez disso, trata-se de aprofundar e melhorar o projeto sem preconceitos e exclusões a priori por qualquer força política.

Os Títulos de Crédito Fiscal têm uma longa e bem sucedida história. Os primeiros títulos desta natureza foram emitidos no final da República de Weimar pelo Governo ultra-conservador alemão de von Papen, a favor de empresas nacionais, para estimular os investimentos e sair da gravíssima recessão causada pelo colapso financeiro de 1929 e pela brutal recessão económica imposta  pelo anterior Chanceler Bruning. Imediatamente depois, nos anos de 1930, Hitler tomou o poder e também graças a estes títulos – e outras formas de moeda complementares ao marco (os Mefo-bonds), ele conseguiu, infelizmente e lamentavelmente, não só revitalizar a economia e relançar as atividades industriais e o emprego, mas também e sobretudo rearmar-se em apenas uma década.

Na Grécia, Yanis Faroufakis propôs a sua própria moeda fiscal complementar – mas também alternativa – ao euro. A ideia da moeda fiscal foi inicialmente lançada em Itália por Marco Cattaneo, em colaboração com Giovanni Zibordi, com a publicação do livro “Soluzione per l’euro”. 200 mil milhões para relançar a economia italiana”, no qual talvez o montante a pôr em marcha tenha sido exagerado. A proposta foi retrabalhada e divulgada através do livro eletrónico da MicromegaPara uma moeda fiscal gratuita. Como sair da austeridade sem quebrar o euro“, editado por Biagio Bossone, Marco Cattaneo, Enrico Grazzini e Stefano Sylos Labini, com a contribuição fundamental de Luciano Gallino.

A versão apresentada no projeto de lei em apreço no Senado baseia-se substancialmente nos textos acima referidos e representa um ponto de partida muito válido e positivo, embora deva provavelmente ser melhorada e atualizada em alguns pontos substanciais, a fim de se tornar concretamente exequível.

Uma versão melhorada e atualizada: os Títulos de Desconto Fiscal

Em primeiro lugar, deve ficar claro que a condição necessária para o êxito destas novas obrigações do Estado é que sejam aceites pelo BCE e pelo sistema bancário, e não apenas pedaços de papel ou cordões de bits, ou seja, moedas fiduciárias entendidas como alternativas ao euro e, por conseguinte, de pouca utilidade, aceitabilidade e valor zero. Para serem universalmente aceites, estes títulos devem ser convertíveis com o euro no mercado financeiro praticamente ao par ou a uma taxa de desconto mínima.

Ninguém – nem particulares nem retalhistas – aceitaria de bom grado moedas complementares que os bancos não aceitam e que não são imediatamente convertíveis em euros, ou seja, com curso legal “pleno”. Os mercados financeiros rejeitariam imediatamente uma moeda que não fosse aprovada pelo BCE e pelo sistema bancário.

Além disso, parece improvável, para não dizer impossível, que após dois anos os CCF se paguem a si próprios, ou seja, que não cause um buraco fiscal significativo na sua maturidade. Se a emissão dos Certificados de Crédito Fiscal provocasse um grande défice orçamental público ao fim de dois anos, retirariam imediatamente a Itália da zona euro, provocando uma grave crise. Mais vale deixarmos a zona euro, como propõem os economistas da Liga, Claudio Borghi e Alberto Bagnai. Uma versão mais eficaz e segura deverá, por conseguinte, proporcionar prazos de vencimento mais longos para este tipo de títulos, para que o “efeito de crescimento” estimulado e acumulado ao longo do tempo possa assegurar a necessária cobertura orçamental.

Finalmente, uma notação que pode parecer técnica e nominalista mas não é: mesmo a dicção inicial dos Certificados de Crédito Fiscal deve ser abandonada porque ou é enganadora ou está errada. Deve ser substituída pelo termo “Certificados de Desconto de Imposto ou similares”. De facto, deve ficar claro que estes títulos não constituem qualquer direito a créditos fiscais em euros para os titulares e, por conseguinte, não prefiguram qualquer dívida em euros por parte do Estado.

Também o termo “moeda fiscal” anteriormente adotado (também pelo abaixo assinado) parece hoje inadequado. Na verdade, o Estado italiano não emitiria qualquer tipo de moeda, mas apenas obrigações do Estado, tal como os BOT e os BTP. E é óbvio que, embora o monopólio do dinheiro pertença ao BCE, as obrigações do Estado podem legitimamente ser emitidas por um Estado.

Em suma, precisamos de uma versão melhorada e atualizada em comparação com a prevista no projeto de lei do Senado e com a ilustrada no livro eletrónico sobre dinheiro fiscal em que eu próprio participei.

As Obrigações de Desconto Fiscal que proponho atualmente gozariam de algumas características distintivas: em primeiro lugar, as Obrigações de Desconto Fiscal não provocariam qualquer aumento do défice fiscal – ou, em qualquer caso, mesmo no pior dos casos, nenhum défice fiscal significativo – nem na emissão nem na maturidade. À cadência dos TDF, isto é, ao quarto ano da sua emissão, é de esperar que o crescimento do PIB – devido ao multiplicador de rendimento e à inflação causada pelo forte aumento da procura – seja tal que as receitas fiscais cubram o valor nominal de emissão dos TDF  criados três anos antes.

Além disso, uma vez que aquando da emissão nada seria pedido aos mercados, os investidores financeiros não correriam qualquer risco adicional. Por conseguinte, não é de esperar um aumento dos spreads. As obrigações com desconto de impostos, em particular, teriam a grande vantagem de serem classificadas como investment grade e, portanto, aceites pelo BCE, pelo sistema bancário e pelos mercados, sendo negociadas quase ao mesmo nível que o euro.

Por conseguinte, é necessário melhorar e atualizar o projeto depositado no Senado, a fim de o tornar viável. Neste sentido, propus uma versão atualizada e mais completa que os interessados podem encontrar no website da Micromega ou no website da revista socialista europeia “Social Europe“.

A União Europeia encontra-se numa encruzilhada: ou integração ou desintegração

Em conclusão, será necessário compreender se, no final, todos os países da zona euro terão de se defender somente com a muleta do BCE, ou se a crise conduzirá a Europa a uma via de cooperação eficaz. O que está em jogo não é apenas a economia italiana, mas o lugar que a Europa terá a nível mundial. A crise não nos dirá apenas se o governo. Conte, vai ou não, durar, mas também se a União Europeia se vai desintegrar ou reforçar.

A emergência sanitária afeta todos os países europeus e, por conseguinte, poderá conduzir a uma maior cooperação. Mas não tenham ilusões: a UE é uma união de Estados e economias concorrentes, e a crise atingirá assimetricamente mais alguns países e menos outros. Além disso, os Estados mais prósperos – os do Norte da Europa – possuem um rico arsenal pronto a combater a crise, enquanto outros – os países mediterrânicos – carecem das munições necessárias. Alguns Estados estão já a preparar-se para vencer a competição pós-crise.

A Alemanha preparou um plano de mais de 500 mil milhões de garantias, financiamento directo e possíveis nacionalizações para fazer face às consequências do coronavírus e ganhar futuras batalhas competitivas. Pode também prevalecer graças ao facto de o capital estar a fugir para os países mais ricos e mais fiáveis, como a própria Alemanha, ao mesmo tempo que foge dos países com mais riscos. É, pois, evidente que a crise pode conduzir a formas de união sem precedentes ou, pelo contrário, a formas de concorrência e dependência acrescidas.

O novo facto é que talvez a Itália, a França e a Espanha estejam a começar a assumir uma frente unida contra as políticas nacionalistas tradicionais do Governo alemão. Talvez os jogos na Europa possam reabrir-se, mas o desafio é difícil e os resultados são incertos. Entretanto, o Governo italiano também pode agir imediatamente com dinheiro de helicóptero.

Para conduzir com êxito as suas políticas e não ser dominado pela crise, o governo Conte terá de ser muito corajoso e adotar instrumentos não convencionais, originais e inovadores.

_______________________________

O autor: Enrico Grazzini [1953 – ], licenciado em Ciências Políticas, e com uma pós-graduação em comunicação de massas, é jornalista económico e ensaísta. Trabalhou como consultor estratégico empresarial em empresas multinacionais e nacionais líderes. Editou e foi co-autor do livro electrónico publicado pela MicroMega em 2015: “Para uma moeda fiscal gratuita. Como sair da austeridade sem quebrar o euro“, com prefácio de Luciano Gallino. Escreveu “Manifesto pela Democracia Económica“, Castelvecchi Editore, 2014; “Il bene di tutti. L’economia della condivisione per uscire dalla crisi“, Editori Riuniti, 2011; “L’economia della conoscenza oltre il capitalismo“, Codice Edizione, 2008. Colaborador de Correire della Sera, MicroMega, Il Mondo, Social Europe, Economia e Politica, Sbilanciamoci.info, Prima Comunicazione.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/05/a-europa-impotente-face-a-perspetiva-de-uma-tragedia-global-texto-15-tres-medidas-essenciais-para-salvar-a-italia-e-a-europa-monetizacao-dos-defices-publicos-euro-obrigacoes-e-dinheiro-de-helicop/

A CHINA ESTENDE A ROTA DA SEDA PARA A SAÚDE

 
 
No âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, a China vem fornecendo a boa parte do mundo, inclusive à Europa assolada pelo vírus, materiais médicos e sanitários
 
Pepe Escobar*, para o Asia Times
 
Quando, em meados de março, o Presidente Xi Jinping conversou por telefone com o Primeiro-Ministro da Itália Giuseppe Conti, antes da chegada de um voo da China Eastern de Xangai a Milão carregado de ajuda médica, o principal tópico foi a promessa chinesa de desenvolver uma Rota da Seda da Saúde (Jiankang Sichou Zhilu).
 
Essa proposta, na verdade, já estava embutida na estratégia da Iniciativa Cinturão e Rota desde pelo menos 2017, no contexto de uma maior conectividade sanitária pan-eurasiana. A pandemia só fez acelerar o cronograma. A Rota da Seda da Saúde correrá paralela aos múltiplos corredores terrestres e à Rota da Seda Marítima.  
   
Em uma demonstração explícita de poder brando, a China, até agora, ofereceu ajuda médica e equipamentos hospitalares relativos ao Covid-19 a nada menos  que 89 países, lista essa que continua a crescer.
 
Incluídos aí estão países africanos (em especial a África do Sul, a Namíbia e o Quênia, sendo que a Alibaba de fato anunciou que enviará ajuda a todas as nações africanas); América Latina (Brasil, Argentina, Venezuela, Peru); o arco que vai do Leste ao Sudoeste Asiático e a Europa. 
 
Entre os principais recipientes europeus estão Itália, Espanha, Bélgica, Holanda, Sérvia e Polônia. Mas a Itália, principalmente, é um caso muito especial. A maior parte da ajuda consiste de doações. Outra parte é de transações comerciais - como as milhões de máscaras vendidas à França (e aos Estados Unidos).
 
 
Há menos de um ano, a Itália se tornou o primeiro país do G-7 a assinar um memorando de entendimento por meio do qual o país se juntou formalmente à Cinturão e Rota - para o forte desagrado de Washington e da galáxia atlanticista, em Bruxelas e mais além.
 
No início deste ano, na Sicília, discutiu esse tema complexo em grande detalhe com Enrico Fardella, Professor de História da Universidade de Pequim e especialista em relações sino-mediterrâneas.
 
A Itália vem recebendo apoio em uma infinidade de frentes - não apenas no mais alto escalão político mas também por intermédio da Cruz Vermelha Chinesa, de associações sino-italianas, de empresas chinesas de tec/logística e de doações da Alibaba, da Huawei, da ZTE e da LeNovo. Três equipes médicas chinesas encontram-se neste momento na Itália. 
 
Tudo isso se encaixa  no quadro mais amplo da Cinturão e Rota, incluindo investimentos em Gênova e Trieste, dois portos de importância chave e futuros nós da Cinturão e Rota.
 
Essa ofensiva do poder brando chinês foi cuidadosamente calibrada para contrabalançar a atual paralisação das cadeias globais de abastecimento. A China está agora trabalhando em turnos ampliados para abastecer diversas partes do mundo com medicamentos e equipamentos de serviços de saúde - sempre tendo em mente a Cinturão e Rota, como se dobrando a aposta na Globalização 2.0.
 
Isso significa a interconectividade dos países com necessidades prementes de desenvolvimento e infraestrutura, e também de bons sistemas e práticas de saúde. 
 
E, além disso, prepara o terreno para - quando o Covid-19 estiver mais ou menos contido e a economia tiver se recuperado plenamente - uma reinicialização da Cinturão e Rota: uma inexorável tendência histórica, embasada em um novo modelo econômico que Pequim vê como mais equitativo e voltado para os interesses do Sul Global. 
 
"Mentira chinesa" 
 
Uma Rota da Seda da Saúde já está em funcionamento, o que fica evidente quando a China, a Rússia - e Cuba, com seu sistema de saúde de primeira linha - enviam equipes de médicos e virologistas, além de aviões carregados de equipamentos médicos para a Itália, e a China envia medicamentos, kits de testes e suprimentos para o Irã submetido a sanções ilegais. 
 
A China entendeu imediatamente o que estava em jogo quando viu o Covid-19 assolar muitos dos pontos-chave dos Made in Italy de fama mundial. Com sua oferta de processos de fabricação especializados e mais baratos, a China, a princípio, atraiu grandes marcas da indústria da moda italiana, que terceirizaram sua produção para a China, principalmente para Wuhan.   
 
A conectividade - que já existe há décadas - funciona em mão-dupla. Os investidores chineses começaram a chegar ao norte da Itália em inícios da década de 1990. Eles compraram uma série de fábricas, renovaram-nas e criaram suas próprias marcas Made in Italy, trazendo dezenas de milhares de costureiras chinesas para trabalhar nessas indústrias.
 
Há um grande número de voos diretos de Wuhan para a Lombardia - para atender aos pelo menos 300.000 chineses que se mudaram para a Itália em caráter permanente, para trabalhar nas fábricas de propriedade chinesa que produzem mercadorias Made in Italy. 
Não é de admirar, portanto, que o Dr. Giuseppe Remuzzi, diretor do Instituto de Farmacologia Mario Negri, em Milão, tenha se tornado um superstar na China. Em uma entrevista que viralizou, Remuzzi fala de suas descobertas explosivas em conversas com clínicos gerais da Lombardia. 
 
Isso é o que diz o Dr. Remuzzi (4:19):  "Sabe o que aconteceu? Alguns médicos de família, que são os mais antenados ao que se passa no território, pelo menos os mais capazes e atentos, me disseram recentemente que estavam vendo casos graves de pneumonia que nunca haviam visto antes".
 
Esses casos de pneumonia não tinham nada a ver com a pneumonia típica das gripes, eram pneumonias intersticiais, [só diagnosticáveis] com tomografias computadorizadas, e isso foi verificado em outubro, novembro e dezembro. Então, esse vírus já vinha circulando há muito tempo".  
 
Isso, de fato, ocorreu paralelamente, ou até mesmo precedeu os primeiros casos de coronavírus em Wuhan, ocorridos em meados de novembro. Já ficou cientificamente estabelecido que as cepas de vírus encontradas em Wuhan e na Lombardia são diferentes. Qual delas veio primeiro, e de onde, são questões que continuam sendo objeto de debates inflamados.
 
Como não poderia deixar de acontecer, a Rota da Seda da Saúde foi repudiada pela gangue atlanticista como sendo uma manobra visando a explorar a pandemia com o objetivo de "desestabilizar" e enfraquecer a Europa. Foi essa a narrativa promovida pela EUvsDisinfo, uma ONG cuja equipe ganha a vida detonando a Rússia e a China, e o faz com o maior prazer.
 
Portanto, para a burocracia de Bruxelas, a Rota da Seda da Saúde não tem como objetivo salvar vidas, e sim "desestabilizar" a União Europeia e melhorar a imagem de Xi Jinping em meio ao povo chinês, depois de a China ter mentido repetidamente quanto à extensão e a gravidade do coronavírus. Essa, por acaso, é exatamente a mesma narrativa do governo Trump, da mídia empresarial norte-americana e dos serviços de inteligência dos Estados Unidos.    
 
Isso tem alguma importância? Não para os 89 países que vêm recebendo a tão necessária ajuda na forma de pessoal e equipamentos médicos. Os cães da demonização ladram e a caravana da Rota da Seda da Saúde passa.
 
Pepe Escobar, para o Asia Times | em Brasil 247 | Tradução de Patricia Zimbres, para o 247
 
*Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
 
**Brasil 247 lança concurso de contos sobre a quarentena do coronavírus. Participe do concurso

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/a-china-estende-rota-da-seda-para-saude.html

UE pede desculpas à Itália e promete 100 bi de euros para combater pandemia

Coronavírus na Itália
© REUTERS / Remo Casilli

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pediu desculpas pela resposta descuidada que o bloco deu à Itália em relação à pandemia.

"A Europa está hoje se mobilizando ao lado da Itália. Infelizmente, nem sempre foi assim", disse von der Leyen em uma carta publicada pelo jornal italiano La Repubblica.

"É preciso reconhecer que, nos primeiros tempos da crise, perante a necessidade de uma resposta europeia comum, muitos pensaram apenas nos seus próprios […] problemas."

Contudo, depois de se desculpar pela omissão, a chefe da Comissão Europeia elogiou a "ajuda" prestada à Itália pelos membros do bloco.

Resposta europeia

O pedido de desculpas deixou os políticos italianos impressionados, pois forçaram a União Europeia não apenas a reconhecer, mas a provar que é realmente uma união. Embora, aparentemente, Roma não tenha notado a "ajuda" de que von der Leyen se gabava.

"Acredito que todos acabarão percebendo, mesmo nesses países, que uma resposta europeia compartilhada, ordenada, forte e rápida é a única solução […] Uma resposta lenta seria uma resposta inútil", ponderou o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, à TV espanhola La Sexta.Bandeiras da União Europeia em frente à sede da Comissão Europeia em Bruxelas (foto de arquivo)

© Sputnik / Aleksei Vitvitsky
Bandeiras da União Europeia em frente à sede da Comissão Europeia em Bruxelas (foto de arquivo)

Uma declaração parecida veio do político oposicionista italiano Matteo Salvini: "A presidente da Comissão von der Leyen pediu desculpas hoje à Itália e aos italianos. Ela poderia ter pensado nisso antes."

Posteriormente, von der Leyen tentou aparentemente acrescentar algo mais substancial ao pedido de desculpas, lançando a ideia de um novo pacote financeiro para subsidiar os salários das empresas que lutam contra as consequências do coronavírus.

O esquema, denominado SURE, proporcionaria um total de 100 bilhões de euros (571 bilhões de reais) em empréstimos aos Estados-Membros da UE para evitar demissões em massa.

A Comissão Europeia aceitaria empréstimos nos mercados financeiros internacionais e depois emprestaria fundos aos membros do bloco, em especial aos que já têm economias deterioradas. Para ser efetivamente implementado, o plano tem que ser aprovado por todos os Estados-membros da UE.

De acordo com os últimos dados da Universidade Johns Hopkins, o número de pessoas infectadas por coronavírus na Itália ultrapassou 115 mil, com quase 14 mil mortes.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020040315411264-ue-pede-desculpas-a-italia-e-promete-100-bi-de-euros-para-combater-pandemia/

Ci salviamo da soli

 bandeiraUE arder

Aparentemente, é o que muitos italianos andam a dizer depois de queimarem a bandeira da UE, ao som do hino do seu país: salvamo-nos sozinhos, em português.

 
Diz que é uma tendência nas redes sociais, de resto alinhada com uma sondagem eurocéptica recente. Esta sondagem foi realizada antes da reunião do conselho europeu, onde as fracturas geradas pela zona euro foram, uma vez mais, expostas de forma bem sórdida. Mesmo alguns dos mais entusiastas federalistas já chegaram, tarde e a más horas, à conclusão que se impunha, embora mantenham um resíduo de arrogância. Tem a palavra Yanis Varoufakis, em declarações ao Daily Telegraph: “Não creio que a UE seja capaz de fazer outra coisa que não seja fazer-nos mal. Opus-me ao Brexit, mas agora cheguei à conclusão que os britânicos fizeram o que estava certo pelas razões erradas.” O povo inglês estava certo e por isso logo lhe agradecemos. Razões houve muitas, como sempre. Infelizmente, foi a direita que compreendeu e dirigiu o sentimento popular. A esquerda decidiu ir caçar segundos referendos. Em Itália, onde o europeísmo também contribuiu para reduzir a esquerda a uma ruína romana, serão as direitas a dirigir com maior probabilidade. É que a política nacional tem horror ao vazio. E, reconheçamos, uma parte da chamada esquerda é hoje um vazio despovoado.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A ITÁLIA NA ENCRUZILHADA – IX – DO CORAÇÃO AO CONTÁGIO – por ANNA ROSA SCRITTORI

 

 

 

                                                                              O vírus enfurece

                                                                              Falta-nos o pão

                                                                              Sobre a ponte flutua

                                                                              Bandeira branca

 

Os versos do poeta Aleardo Aleardi descrevem, com ênfase romântica, a situação de Veneza em Julho de 1849, quando a renascida República Véneta, guiada pelo último doge Daniele Manin, teve que ceder ao ataque do exército austríaco, até pela explosão de uma terrível epidemia de cólera.

Em Veneza e em toda a Itália parece-nos hoje viver as fases terríveis de muitos eventos extraordinários que, no passado, mudaram o curso da História: a tremenda pestilência de 1347-48, citada no “Decamerone” de Boccaccio, a de 1630 (descrita por Manzoni nos “Promessi Sposi”, obra traduzida em Portugal com o título “Os Noivos”) e, mais recentemente, a febre “espanhola”, que causou um grande número de vítimas durante a primeira guerra mundial.

Então os contágios eram o resultado de contactos e comércio com mundos estranhos por hábitos e estilos de vida ou pela promiscuidade da guerra; agora a infecção é o fruto da civilização e do mercado global que, em pouco tempo, conseguiu criar uma rede ilimitada de relações comerciais e de lucros que transformam até o ambiente natural. No âmbito de tal mecanismo inseriu-se um agente estranho, produto de uma mutação genética que dos animais se transferiu para o Homem. Desde o último Outono o coronavírus está a viajar em todo o mundo, primeiro na China e na Coreia, depois através do Irão em toda a Europa, nas Américas e agora também em África. Trata-se de um agente patogénico particularmente insidioso porque é desconhecido; infecta o aparelho respiratório provocando, nos casos mais graves, fortes pneumonias para as quais, neste momento, não existe nem tratamento específico e muito menos vacinas.

“A China está próxima”

Os primeiros sinais da presença do vírus em Itália, em meados de Fevereiro em dois pequenos centros da Lombardia e do Véneto, foram inicialmente subestimados como formas graves de doenças da época; só num segundo momento, quando as graves patologias pulmonares dos primeiros doentes foram diagnosticadas como efeito do coronavírus, desconhecido e muito perigoso, se adoptaram as medidas indispensáveis para conter a difusão: isolamento dos pacientes, inquérito sobre os seus contactos e quarentena das pessoas, encerramento ou desinfecção dos sectores ou dos hospitais infectados.

Diferentemente do que aconteceu na China, que em Wuhan, depois dos conhecidos atrasos na comunicação, tinha imposto medidas severas para conter a difusão do vírus, como a paragem de todas as actividades e a obrigação de os cidadãos se submeterem a controle apertado, a Itália, país democrático, adoptou intervenções progressivas: encerramento limitado às zonas de contágio, desenvolvimento da investigação sobre a natureza do vírus e possíveis fármacos, potenciamento da rede hospitalar, envolvimento da população na acção de contenção. Mas, como se sabe, o vírus não respeita os confins e, de facto, em pouquíssimo tempo, a curva da infecção daqueles pequenos centros em quarentena espalhou-se para as grandes cidades da Lombardia, nas proximidades de Milão, Bérgamo, Bréscia e,em seguida, também nas regiões limítrofes; compreende-se então que o contágio acontece não só a partir dos doentes mas também, e sobretudo, através dos portadores sãos, os chamados assintomáticos. No início de Março, a Itália do Norte torna-se o centro de uma verdadeira emergência sanitária: milhares de contágios todos os dias, centenas de mortes dos mais débeis, enquanto o sistema sanitário, um dos melhores do mundo, arriscava o colapso. O imperativo absoluto consistia em conter o contágio antes que chegasse às regiões do Sul, cujo sistema hospitalar é muitas vezes precário. A discussão entre os especialistas vertia também sobre o modelo adoptado contra a expansão viral na Coreia, em que sofisticados sistemas informáticos, usados para detectar, através do telemóvel, os possíveis portadores sãos do vírus, tinha permitido conter sobretudo a percentagem de mortos. À espera de testar as possibilidades futuras de semelhante controle sobre a curva do contágio, o governo italiano decidiu a suspensão total: escolas fechadas, as universidades, os museus, os teatros, proibidas as deslocações não indispensáveis, suspensas todas as actividades, excepto as essenciais, cidades desertas muitas vezes controladas pela polícia, cidadãos convidados a ficar em casa. Nas grandes cidades do Norte (Milão, Bérgamo, Piacenza) os únicos movimentos são agora os das ambulâncias que transportam os doentes para os hospitais ou os mortos para os cemitérios. Em Veneza, vive-se uma atmosfera surreal, sem turistas mas também sem o contacto quotidiano entre os venezianos, as conversas que fazem parte do tecido social da cidade.

Somos todos europeus?

A emergência sanitária destes meses cruza-se obviamente com uma profunda crise económica e social que mudará o futuro da Itália; a suspensão de todas as actividades provocou ingentes perdas para as empresas e para os trabalhadores, mas acentuou também as diferenças sociais entre os cidadãos. Se, por exemplo, a escola se faz via on line é evidente que os alunos que não possuem um computador estão em desvantagem…

Numa tal situação, o governo italiano decidiu aumentar o seu já pesado débito destinando, por várias etapas, ingentes quantias de dinheiro para potenciar os hospitais, apoiar as empresas, indemnizar os trabalhadores e as famílias em maior dificuldade. Além disso, de acordo com os outros países do Sul, pediu à Comissão Europeia que promova uma política sanitária comunitária e que ajude a crise financeira dos vários países empenhados na emergência vírus com a emissão de eurobonds, títulos de crédito descontados do fundo comum europeu de desenvolvimento, e não dos balanços de cada país. Por agora, por resistência dos países do Norte da Europa, o Conselho dos Chefes de Estado adiou a decisão mas, neste caso, arrisca-se a fazer saltar o projecto antigo de uma Europa unida e solidária. Mas nós, italianos, estamos convencidos que venceremos a crise.

(Veneza, 25 de Março de 2020).

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/29/a-italia-na-encruzilhada-ix-do-coracao-ao-contagio-por-anna-rosa-scrittori/

Médicos russos desinfectam 2º hospital na Lombardia para ajudar no combate à COVID-19

© Sputnik / The Ministry of Defence of the Russian Federation

Segundo o último balanço divulgado, 9.143 pessoas morreram na Itália por conta da pandemia de COVID-19 no país.

Uma equipe médica de epidemiologistas e virologistas do Ministério da Defesa da Rússia desinfectou o segundo hospital na Lombardia, Itália, informou a pasta em um comunicado.

"A equipe desinfectou um total de 1.500 metros quadrados de espaços interiores na 'Casa Riposo', voltada para idosos, na cidade de Nemuro", diz o comunicado.

Equipamentos militares russos também foram usados para higienizar as calçadas do local com reagentes. Médicos militares também inspecionaram duas outras instalações na Lombardia que podem receber o processo de desinfecção.

Até 25 de março, a Rússia enviou oito equipes médicas e mais de cem virologistas e epidemiologistas militares para auxiliar a Itália no combate à COVID-19.

A Rússia também enviou quinze aeronaves à Itália com equipamentos militares.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2020032815384155-medicos-russos-desinfectam-2-hospital-na-lombardia-para-ajudar-no-combate-a-covid-19/

Governador da Lombardia agradece à Rússia pela ajuda e chama discordantes de 'chacais'

Comboio de equipamentos especiais com especialistas militares do Ministério da Defesa russo antes da partida da base aérea italiana de Pratica di Mare para a cidade de Bérgamo para ajudar a combater a propagação da infecção pelo coronavírus
© Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia

O governador da Lombardia, a província mais afetada pelo coronavírus na Itália, agradece aos "amigos russos" e critica duramente aqueles que se opuseram à ajuda prestada pela Rússia à sua região.

Perante a controvérsia em torno da ajuda médica e sanitária enviada pela Rússia à Itália, que segundo alguns colocaria esta última em uma posição de dependência de Moscou, Attilio Fontana, o governador da região italiana mais atingida pela epidemia de COVID-19, expressou sua gratidão aos "amigos russos", em declarações à Sputnik Itália.

"É uma pergunta política à qual respondo rapidamente. Como disse o famoso poeta Dante: 'Não vamos falar deles, mas olhar e passar'. É uma controvérsia política para a qual não ligo", afirmou Fontana.

"Digo obrigado aos nossos amigos russos que nos enviaram médicos, obrigado por nos enviarem outros homens que podem ajudar com a desinfecção. Se há alguém que se oponha a isso, não passa de um chacal", disse o governador da Lombardia.

Por seu turno, Fabrizio Sala, vice-governador da Lombardia, agradeceu "ao governo russo por esta assistência. É um apoio importante e concreto para lutar contra este inimigo invisível que só pode ser derrotado se todos permanecermos unidos", disse ele ao portal Askanews.

Ajuda russa

O grupo de especialistas russos enviado para socorrer a cidade de Bérgamo, a mais afetada, é composto por 104 pessoas, entre médicos, enfermeiros e técnicos sanitários. A equipe irá trabalhar no hospital de campanha a ser montado na Feira de Bérgamo.

O comboio de veículos, formado por 22 caminhões e vários ônibus com virologistas e médicos militares russos, chegou na noite de 26 de março a Bérgamo.

Vale igualmente recordar que entre 22 e 25 de março, 15 aviões russos transportaram para a Itália cerca de uma centena de virologistas e oito equipes de médicos experientes no controlo de infecções, bem como uma grande quantidade de equipamento médico.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020032715380182-governador-da-lombardia-agradece-a-russia-pela-ajuda-e-chama-discordantes-de-chacais/

China envia terceiro grupo de especialistas médicos para Itália


 

Fuzhou, 25 mar (Xinhua) -- Uma equipe de 14 especialistas médicos da Província de Fujian, no leste da China, partiu em um voo fretado para a Itália na manhã desta quarta-feira para ajudar na luta do país europeu contra o surto da COVID-19.

A equipe é formada por especialistas de diversos hospitais da China e pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) de Fujian, além de um epidemiologista do CDC nacional e um pneumologista da Província de Anhui.

Os especialistas dominam as áreas de terapia intensiva, sistema respiratório, doenças infecciosas, controle de infecções hospitalares, medicina tradicional chinesa e enfermagem.

Suas missões incluem o compartilhamento de experiências na prevenção e controle da COVID-19 com hospitais e especialistas locais e o aconselhamento sobre o tratamento.

Eles também fornecerão conhecimentos sobre a prevenção e o controle de doenças para as comunidades e os estudantes chineses na Itália e disponibilizarão para eles suprimentos de proteção e medicamentos tradicionais chineses.

A equipe trabalhará principalmente na região da Toscana.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/25/c_138915615.htm

Rússia envia médicos militares à cidade italiana de Bergamo para ajudar a combater o coronavírus

 

247 -Um comboio com equipes especiais e especialistas militares russos partiu da base da Força Aérea Italiana em Pratica di Mare, localizada a 30 quilômetros a sudoeste de Roma, em direção à cidade de Bergamo para ajudar na luta contra a propagação da infecção por coronavírus, anunciou nesta quarta-feira (25) o Ministério da Defesa da Rússia.

Na terça-feira, o Ministério da Defesa da Rússia já tinha anunciado que o Exército russo foi à Itália para combater o coronavírus e atuar na cidade de Bergamo, uma das mais afetadas pela doença, informa Russia Today.

 

Coronavírus: Exército russo envia 10° avião de carga com ajuda à Itália

Automóvel com suprimentos destinados à Itália se prepara para transferir carga para a aeronave militar Il-76
© Sputnik / Ministério da Defesa da Rússia

Após enviar nove aviões de transporte militares, o Ministério da Defesa da Rússia enviou um décimo Il-76 com médicos militares russos e equipamentos para combater o coronavírus na Itália.

O Ministério da Defesa russo decidiu aumentar o número de aviões que transportam ajuda para lutar contra o coronavírus na Itália. Um décimo avião Il-76 decolou nesta segunda-feira (23) do Aeroporto Chkalovsky, transportando a bordo equipamentos e médicos.

A Defesa russa anunciou que continuará a transferir especialistas militares e equipamentos especiais à base militar italiana de Pratica di Mare, a 30 km ao sudoeste de Roma.

"O décimo avião Il-76 da aviação de transporte militar da Força Aeroespacial russa decolou do aeródromo Chkalovsky [na região de Moscou] com destino à Itália com tropas e material russo a bordo", declarou o ministro da Defesa.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020032315365622-coronavirus-exercito-russo-envia-10-aviao-de-carga-com-ajuda-a-italia/

Aviões russos com especialistas e equipamentos contra o coronavírus pousam na Itália

Aviões russos são carregados com equipamentos antes da ida para a Itália
© REUTERS / Ministério da Defesa da Rússia / Alexey Ereshko

A segunda aeronave militar russa com especialistas e equipamentos necessários na luta contra o novo coronavírus chegou à Itália, informou o Ministério da Defesa da Rússia neste domingo.

"O segundo avião de transporte militar Il-76 das Forças Aeroespaciais da Rússia, com um grupo de especialistas e equipamentos militares russos para diagnóstico e desinfecção, chegou à Base Aérea de Pratica di Mare, na Itália", afirmou o ministério.

Na noite deste domingo, a Embaixada da Rússia em Roma anunciou que o primeiro avião russo com especialistas e equipamentos havia pousado na base aérea de Pratica di Mare. Mais tarde também no domingo, o Ministério da Defesa da Rússia confirmou esta informação.

Segundo o ministério, especialistas russos começarão a prestar ajuda à Itália na luta contra a COVID-19 depois de coordenar as regiões específicas que precisam da assistência.

Especialistas russos embarcam para atuar no combate à COVID-19 na Itália

© REUTERS / Ministério da Defesa da Rússia / Alexey Ereshko
Especialistas russos embarcam para atuar no combate à COVID-19 na Itália

No sábado, o presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte discutiram a pandemia da COVID-19 durante conversas telefônicas. Putin confirmou a disposição da Rússia de prestar assistência imediata à Itália na luta contra a COVID-19.

O ministro da Defesa italiano Lorenzo Guerini agradeceu a seu colega russo, Sergei Shoigu, pela ajuda que a Rússia forneceu à Itália na luta contra o novo coronavírus.

O Ministério da Defesa da Rússia destacou no sábado que a Rússia enviaria virologistas, médicos, equipamentos médicos e veículos para desinfecção de aerossóis à Itália para ajudá-lo na luta contra o novo coronavírus.

Segundo a contagem da Universidade Johns Hopkins, atualmente existem mais de 59.000 casos de coronavírus registrados na Itália e mais de 5.400 mortes confirmadas por COVID-19 naquele país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020032215361829-avioes-russos-com-especialistas-e-equipamentos-contra-o-coronavirus-pousam-na-italia/

SEGUNDO APELO DE ECONOMISTAS ITALIANOS (ver nota ao fim)

 

 

“Mes, nulla è cambiato: l’Italia non firmi”. Nuovo appello al governo di 37 economisti

MicroMega, 11 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A 16 de Março, ou seja, dentro de alguns dias, o Eurogrupo reunir-se-á para a aprovação final do MEE, o chamado “Fundo de Resgate dos Estados membros”. A decisão deve ser tomada por unanimidade, pelo que, se a Itália se opuser, isso provocaria pelo menos um adiamento e novas negociações. Será que alguma coisa mudou desde que lançámos um apelo para que a Itália não aprove esta reforma? Uma reforma, vale a pena repetir, que não só não beneficia o nosso país, mas que, pelo contrário, pode aumentar os riscos de uma crise financeira que nos atinge, pelas razões descritas no apelo.

Lamentamos ver que nada tenha mudado. O texto da reforma permaneceu o mesmo (com no máximo algumas mudanças que não afetarão a estrutura geral, limitadas ao funcionamento das cláusulas Cacs sobre o voto dos credores em caso de reestruturação da dívida). Além disso, a Itália tinha pedido que fosse adotada uma lógica de “pacote”, ou seja, que a reforma do MEE fosse definida em conjunto com a reforma sobre a conclusão da União Bancária e o “instrumento orçamental para a convergência e competitividade”, na prática um fundo para promover o investimento. A carta do Presidente do Eurogrupo Mario Centeno – enviada a todos os governos – esclarece que o pedido não foi sequer levado em consideração: a aprovação da reforma do MEE – tal como está redigido o texto – está prevista imediatamente, as outras duas reformas são adiadas para os próximos anos.

Não só isso. No que diz respeito à garantia conjunta sobre os depósitos, a carta – que resume as conclusões de uma reunião anterior de dirigentes europeus – diz que será tomada uma decisão sobre a sua introdução em 2024, mas “a decisão dependerá de terem sido feitos progressos suficientes para reduzir o risco”. E o ponto de vista que continua a prevalecer sobre o que se entende por isso é o mais recente que foi apresentado pelo Ministro das Finanças alemão Olaf Scholz, sobre o tratamento das obrigações públicas detidas pelos bancos, o que seria exemplar para o nosso país. Em relação ao “Instrumento de Balanço”, existe um mandato para o estudar, sem sequer mencionar a sua maturidade ou dimensão. O recente choque sobre o orçamento europeu, no qual os países do Norte se opuseram firmemente a qualquer aumento, mesmo no círculo zero, é uma premissa desencorajadora para a criação de um instrumento verdadeiramente eficaz.

A manutenção de boas relações com os outros países da União Europeia não pode significar que aceitemos reformas que nos colocam em sérias dificuldades. Isto, aliás, não só seria prejudicial ao nosso país, mas a todos, porque é construído de acordo com a mesma lógica que provou ser profundamente errada. O facto de que essas reformas requerem aprovação unânime significa que devemos procurar alcançar um compromisso que satisfaça, ou pelo menos não prejudique, todas as partes. Isso nem sempre foi o caso no passado, e mais de um exemplo poderia ser dado de reformas e regulamentos que têm prejudicado a Itália – e continuam a prejudicá-la – em comparação com outros parceiros. Há também numerosos exemplos de países membros que rejeitaram acordos que não partilhavam, por exemplo, sobre regulação da imigração e mudanças climáticas, problemas de não menos importância do que as questões financeiras.

Por fim, há uma crise sanitária em curso, cuja evolução é difícil de prever, mas que pode levar à necessidade de mudanças profundas na estrutura europeia. Sob estas condições básicas, considerações de prudência sugerem que não devemos introduzir restrições que possam revelar-se inadequadas.

Com base nestas considerações, reiteramos o nosso apelo ao governo, e em particular ao Ministro da Economia, Roberto Gualtieri: o acordo sobre o MEE não deve ser assinado e ao veto deve ser dado o significado de uma rejeição da lógica que prevaleceu até agora na Europa e que provou ser uma perdedora do ponto de vista da eficácia. A Itália deveria apresentar-se na reunião do Eurogrupo propondo políticas alternativas para ajudar a ultrapassar a emergência atual e repor a União sobre uma trajetória de crescimento e inclusão.

 

Nicola Acocella (univ. Roma La Sapienza) 

Roberto Artoni (univ. Bocconi)

Paolo Borioni (univ. Roma La Sapienza)
Sergio Bruno (univ. Roma La Sapienza)
Sergio Cesaratto (univ. Siena)

Roberto Ciccone (univ. Roma 3)
Carlo Clericetti (giornalista)
Massimo D’Antoni (univ. Siena)
Antonio Di Majo (univ. Roma 3)
Giovanni Dosi (Scuola Superiore Sant’Anna)
Sebastiano Fadda (univ. Roma 3)
Maurizio Franzini (univ. Roma La Sapienza)
Andrea Fumagalli (univ. Pavia)
Mauro Gallegati (univ. Politecnica delle Marche)
PierGiorgio Gawronsky (economista)
Claudio Gnesutta (univ. Roma La Sapienza)
Riccardo Leoni (univ. Bergamo)

Sergio Levrero (univ. Roma 3)
Stefano Lucarelli (univ Bergamo)
Ugo Marani (univ. Napoli l’Orientale)
Massimiliano Mazzanti (univ. Ferrara)
Domenico Mario Nuti (univ. Roma La Sapienza)
Guido Ortona (univ. Piemonte orientale)
Ruggero Paladini (univ. Roma La Sapienza)
Gabriele Pastrello (univ. Trieste)
Anna Pettini (univ. Firenze)
Paolo Pini (univ. Ferrara)
Cesare Pozzi (Luiss Guido Carli e univ. di Foggia)
Riccardo Realfonzo (univ. Sannio)
Roberto Romano (economista)
Guido Rey (Scuola superiore Sant’Anna)
Roberto Schiattarella (univ. Camerino)
Annamaria Simonazzi (univ. Roma La Sapienza)
Alessandro Somma (univ. Roma La Sapienza)
Antonella Stirati (univ. Roma 3)
Mario Tiberi (univ. Roma La Sapienza)
Leonello Tronti (univ. Roma 3)
Andrea Ventura (univ. Firenze)
Gennaro Zezza (univ. Cassino

 

Para ler o original clique em:

http://temi.repubblica.it/micromega-online/mes-nulla-e-cambiato-l-italia-non-firmi-nuovo-appello-al-governo-di-37-economisti/

 

Nota – peço desculpa aos autores, aos leitores e ao Júlio Marques Mota (last but not least) pelo lapso que cometi. Troquei a ordem de publicação dos apelos dos economistas italianos, relativos à grave situação em que se encontra o seu país, debatendo-se ainda por cima com as “engrenagens” da UE.  Mas a  situação em que vivemos, com o coronavírus, e as crises políticas e económicas não chegam para justificar a minha distracção. Peço que aceitem o meu pedido de desculpas.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/22/a-crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-vi-micromega-segundo-apelo-de-economistas-italianos-ver-nota-ao-fim/

Médicos cubanos em Itália para combater o coronavírus

O governo de Cuba enviou 53 médicos e enfermeiros para a Lombardia, uma das regiões italianas mais afectadas pelo surto de Covid-19, para ajudar a combater a epidemia.

Créditos / elpais.cr

Em resposta ao alerta deixado na quinta-feira pelo director do Departamento de Medicina do Hospital Papa Giovanni XXIII, Stefano Fagiuoli, de que precisavam «desesperadamente» de médicos e enfermeiros, mas também de aparelhos de ventilação e equipamentos de protecção individual, uma equipa de profissionais de saúde cubanos chegou este sábado ao Norte de Itália.

https://twitter.com/CubaMINREX/status/1241123601656336384?ref_src=twsrc%5Etfw

A Prensa Latinainforma que esta equipa é altamente especializada no combate de epidemias, como o ébola, e vai trabalhar juntamente com médicos chineses no novo hospital de campanha da cidade de Bérgamo.

De acordo com o Ministério de Saúde Pública de Cuba, a ilha está a prestar apoio médico a 37 países afectados pela Covid-19. Esta semana chegaram equipas de profissionais cubanos à Venezuela, Nicarágua, Suriname e Espanha (Granada). 

Apesar do radical bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos EUA, há cerca de 60 países que beneficiam da solidariedade das brigadas de saúde cubanas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/medicos-cubanos-em-italia-para-combater-o-coronavirus

A CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – V – MICROMEGA – SEGUNDO APELO DE ECONOMISTAS ITALIANOS

 

 

 

 

 

“Mes, nulla è cambiato: l’Italia non firmi”. Nuovo appello al governo di 37 economisti

MicroMega, 11 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A 16 de Março, ou seja, dentro de alguns dias, o Eurogrupo reunir-se-á para a aprovação final do MEE, o chamado “Fundo de Resgate dos Estados membros”. A decisão deve ser tomada por unanimidade, pelo que, se a Itália se opuser, isso provocaria pelo menos um adiamento e novas negociações. Será que alguma coisa mudou desde que lançámos um apelo para que a Itália não aprove esta reforma? Uma reforma, vale a pena repetir, que não só não beneficia o nosso país, mas que, pelo contrário, pode aumentar os riscos de uma crise financeira que nos atinge, pelas razões descritas no apelo.

Lamentamos ver que nada tenha mudado. O texto da reforma permaneceu o mesmo (com no máximo algumas mudanças que não afetarão a estrutura geral, limitadas ao funcionamento das cláusulas Cacs sobre o voto dos credores em caso de reestruturação da dívida). Além disso, a Itália tinha pedido que fosse adotada uma lógica de “pacote”, ou seja, que a reforma do MEE fosse definida em conjunto com a reforma sobre a conclusão da União Bancária e o “instrumento orçamental para a convergência e competitividade”, na prática um fundo para promover o investimento. A carta do Presidente do Eurogrupo Mario Centeno – enviada a todos os governos – esclarece que o pedido não foi sequer levado em consideração: a aprovação da reforma do MEE – tal como está redigido o texto – está prevista imediatamente, as outras duas reformas são adiadas para os próximos anos.

Não só isso. No que diz respeito à garantia conjunta sobre os depósitos, a carta – que resume as conclusões de uma reunião anterior de dirigentes europeus – diz que será tomada uma decisão sobre a sua introdução em 2024, mas “a decisão dependerá de terem sido feitos progressos suficientes para reduzir o risco”. E o ponto de vista que continua a prevalecer sobre o que se entende por isso é o mais recente que foi apresentado pelo Ministro das Finanças alemão Olaf Scholz, sobre o tratamento das obrigações públicas detidas pelos bancos, o que seria exemplar para o nosso país. Em relação ao “Instrumento de Balanço”, existe um mandato para o estudar, sem sequer mencionar a sua maturidade ou dimensão. O recente choque sobre o orçamento europeu, no qual os países do Norte se opuseram firmemente a qualquer aumento, mesmo no círculo zero, é uma premissa desencorajadora para a criação de um instrumento verdadeiramente eficaz.

A manutenção de boas relações com os outros países da União Europeia não pode significar que aceitemos reformas que nos colocam em sérias dificuldades. Isto, aliás, não só seria prejudicial ao nosso país, mas a todos, porque é construído de acordo com a mesma lógica que provou ser profundamente errada. O facto de que essas reformas requerem aprovação unânime significa que devemos procurar alcançar um compromisso que satisfaça, ou pelo menos não prejudique, todas as partes. Isso nem sempre foi o caso no passado, e mais de um exemplo poderia ser dado de reformas e regulamentos que têm prejudicado a Itália – e continuam a prejudicá-la – em comparação com outros parceiros. Há também numerosos exemplos de países membros que rejeitaram acordos que não partilhavam, por exemplo, sobre regulação da imigração e mudanças climáticas, problemas de não menos importância do que as questões financeiras.

Por fim, há uma crise sanitária em curso, cuja evolução é difícil de prever, mas que pode levar à necessidade de mudanças profundas na estrutura europeia. Sob estas condições básicas, considerações de prudência sugerem que não devemos introduzir restrições que possam revelar-se inadequadas.

Com base nestas considerações, reiteramos o nosso apelo ao governo, e em particular ao Ministro da Economia, Roberto Gualtieri: o acordo sobre o MEE não deve ser assinado e ao veto deve ser dado o significado de uma rejeição da lógica que prevaleceu até agora na Europa e que provou ser uma perdedora do ponto de vista da eficácia. A Itália deveria apresentar-se na reunião do Eurogrupo propondo políticas alternativas para ajudar a ultrapassar a emergência atual e repor a União sobre uma trajetória de crescimento e inclusão.

 

Nicola Acocella (univ. Roma La Sapienza) 

Roberto Artoni (univ. Bocconi)

Paolo Borioni (univ. Roma La Sapienza)
Sergio Bruno (univ. Roma La Sapienza)
Sergio Cesaratto (univ. Siena)

Roberto Ciccone (univ. Roma 3)
Carlo Clericetti (giornalista)
Massimo D’Antoni (univ. Siena)
Antonio Di Majo (univ. Roma 3)
Giovanni Dosi (Scuola Superiore Sant’Anna)
Sebastiano Fadda (univ. Roma 3)
Maurizio Franzini (univ. Roma La Sapienza)
Andrea Fumagalli (univ. Pavia)
Mauro Gallegati (univ. Politecnica delle Marche)
PierGiorgio Gawronsky (economista)
Claudio Gnesutta (univ. Roma La Sapienza)
Riccardo Leoni (univ. Bergamo)

Sergio Levrero (univ. Roma 3)
Stefano Lucarelli (univ Bergamo)
Ugo Marani (univ. Napoli l’Orientale)
Massimiliano Mazzanti (univ. Ferrara)
Domenico Mario Nuti (univ. Roma La Sapienza)
Guido Ortona (univ. Piemonte orientale)
Ruggero Paladini (univ. Roma La Sapienza)
Gabriele Pastrello (univ. Trieste)
Anna Pettini (univ. Firenze)
Paolo Pini (univ. Ferrara)
Cesare Pozzi (Luiss Guido Carli e univ. di Foggia)
Riccardo Realfonzo (univ. Sannio)
Roberto Romano (economista)
Guido Rey (Scuola superiore Sant’Anna)
Roberto Schiattarella (univ. Camerino)
Annamaria Simonazzi (univ. Roma La Sapienza)
Alessandro Somma (univ. Roma La Sapienza)
Antonella Stirati (univ. Roma 3)
Mario Tiberi (univ. Roma La Sapienza)
Leonello Tronti (univ. Roma 3)
Andrea Ventura (univ. Firenze)
Gennaro Zezza (univ. Cassino

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/20/a-crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-v-segundo-apelo-de-economistas-italianos/

Coronavírus: balanço revela característica compartilhada por 99% dos mortos na Itália

Coronavírus na Itália
© REUTERS / Remo Casilli

As autoridades italianas publicaram o balanço oficial sobre as mortes devido à COVID-19 que já se aproximam de 3.500 pessoas na Itália.

Depois que o número de mortes na Itália pelo novo coronavírus ultrapassou 2.500, registrando na semana passada um aumento de 150%, as autoridades italianas divulgaram o balanço oficial sobre as vítimas.

O documento elaborado pelo Instituto Superior de Saúde da Itália coletou dados de 2.003 casos mortais do novo coronavírus até dia 17 de março. De acordo com o balanço, 99% dos falecidos apresentavam problemas de saúde prévios.

Nomeadamente, 48,5% antes de serem infectados pelo coronavírus tinham três ou mais doenças, 25,6 tinham duas, 25,1% sofriam de uma e apenas 0,8 % não tinha nenhuma patologia anterior.

Além disso, mais de 75% tinham hipertensão arterial alta, cerca de 35% eram diabéticos e 33% tinham cardiopatia isquêmica.

O documento mostra que a idade média dos falecidos é de 79,5 anos, e que as vítimas com menos de 40 anos de idade eram homens com graves problemas de saúde.

O balanço realizado pelo Instituto Superior de Saúde analisou 335 casos, que representam 18% de todas as mortes pelo novo coronavírus.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020032015353695-coronavirus-balanco-revela-caracteristica-compartilhada-por-99-dos-mortos-na-italia/

Grazie...

Zhou Enlai, um dirigente comunista chinês, terá sido um dia questionado sobre o impacto da Revolução Francesa de 1789, ao que ele terá respondido que ainda era muito cedo para saber. Se non è vero, è ben trovato. Em Itália saiu uma sondagem: 67% dos italianos considera desvantajosa a pertença à UE, sendo que 88% considera que a UE não tem ajudado a Itália nesta crise. Em mais esta crise. Estamos a falar de um país que está basicamente estagnado há duas décadas, desde que decidiu aderir à distopia económica e monetária do euro. E isto nota-se, das infra-estruturas aos serviços públicos. Há outros na mesma situação e com uma dívida externa maior, em percentagem do PIB.
 
Entretanto, parece que a China está apostada a ajudar, cooperando na área da saúde. Os Estados soberanos são mesmo mais ágeis.
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

'Uma geração morreu': província italiana não consegue enterrar todas as vítimas da COVID-19

Médico utilizando proteção trata de paciente com COVID-19 em hospital na província de Cremona, na Itália, 19 de março de 2020
© REUTERS / Flavio Lo Scalzo

Caixões se acumulam e cadáveres são isolados em casa na província de Bergamo, cujas empresas funerárias não conseguem a atender à alta na demanda.

Caixões aguardando o enterro estão sendo colocados em fila nas igrejas e cadáveres dos que faleceram em casa estão sendo mantidos isolados em quartos, em função da dificuldade do serviço funerário da cidade de Bergamo de atender à alta na demanda.

A província é a mais afetada pela pandemia de coronavírus, que já matou 2.978 pessoas na Itália, todas cremadas ou enterradas sem cerimônias fúnebres. Os que faleceram no hospital estavam sozinhos até o último momento.

A província de Bergamo, com 1,2 milhões de habitantes, localizada na Lombardia, já contabilizou 1.640 mortes e 3.993 casos de coronavírus, de acordo com os dados desta quinta-feira (19).

Funcionários de agência funerária em cemitério da província de Bergamo, na Itália, 16 de março de 2020

© REUTERS / Flavio Lo Scalzo
Funcionários de agência funerária em cemitério da província de Bergamo, na Itália, 16 de março de 2020

Desde o dia 1º de março, a principal empresa funerária da província, chamada CFB, informou já ter realizado quase 600 enterros, reportou o The Guardian.

"Em um mês normal, nós teríamos realizado cerca de 120 enterros", disse o diretor da funerária, Antonio Ricciardi. "Uma geração inteira morreu em pouco mais de duas semanas. Nunca vimos nada parecido, e a vontade que dá é de chorar."

A escassez de caixões também afeta a província. Para além disso, muitos funcionários das funerárias também estão doentes.

"Nós também estamos com dificuldade porque muitos dos nossos funcionários estão doentes, então não temos tantas pessoas para transportar e preparar os cadáveres", contou Ricciardi.

Existem cerca de 80 empresas funerárias em Bergamo, cada uma recebendo dezenas de ligações por hora.

Contato com cadáveres

Os hospitais italianos estão adotando medidas mais rigorosas para o manuseio de cadáveres de pacientes infectados pela COVID-19.

"As famílias não podem ver aqueles que faleceram ou providenciar um funeral apropriado, e isso é uma questão grave do ponto de vista psicológico", disse Ricciardi.

Para aqueles que falecem em casa, o processo pode ser bastante burocrático, uma vez que são necessárias as visitas de dois médicos para realizar a liberação do corpo.

"Então é necessário esperar que os médicos venham e, em tempos como esse, muitos deles também estão doentes", acrescentou Ricciardi.

Stella, professora da província, contou ao The Guardian que "ontem, um senhor de 88 anos morreu. Ele teve febre por alguns dias. Não havia como chamar a ambulância, porque a linha estava sempre ocupada", contou.

"Ele morreu sozinho no seu quarto. A ambulância chegou uma hora depois, mas claro que já não havia o que fazer. Como não havia caixões disponíveis em Bergamo, tivemos que deixá-lo na cama, e isolar o quarto para que seus parentes não entrassem", contou Stella.

Os parentes não são autorizados a ver os pacientes infectados no hospital, ou a ter contato com as pessoas falecidas.

"Não podemos nem dizer adeus. Essa é a pior parte", disse Alessandro, que perdeu um tio de 74 anos na Lombardia.

Até esta quinta-feira (19) de manhã, a Itália confirmou 35.713 casos de coronavírus e 2.978 mortes. O país é o segundo mais afetado do mundo pela pandemia de COVID-19.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020031915347109-uma-geracao-morreu-provincia-italiana-nao-consegue-enterrar-suas-vitimas-COVID-19/

Coronavírus | Negociações para levar médicos de Cuba, Venezuela e China à Lombardia

 
 
Para lidar com a emergência do coronavírus, solicitou-se ajuda de Cuba, que possui uma grande e gloriosa tradição de médicos em missão no exterior para ajudar os necessitados, e também da China e Venezuela.
“Também recrutaremos profissionais de saúde do exterior, solicitando apenas que sejam registados no país de origem. Teremos funcionários da Venezuela, da China, de Cuba, eles são médicos a quem obviamente daremos um lugar para morar, mas precisamos dos conhecimentos de todos", disse o conselheiro de bem-estar da região da Lombardia, Giulio Gallera.
 
As notícias dadas na conferência de imprensa pelo conselheiro para a saúde da região da Lombardia, Giulio Gaallera, são incríveis.
Na conferência de imprensa, o conselheiro disse que a região está contratando médicos e enfermeiros italianos e estrangeiros para enfrentar a crise de saúde que ocorre na região. Entre os países mencionados, há a China e, surpreendentemente, Cuba e Venezuela. O país sul-americano já teria enviado uma lista com os nomes dos médicos dispostos a ajudar o nosso no tratamento dos infectados. As negociações estão começando com Cuba.
 Resultado de imagem para Giulio Gaallera Lega
As notícias são incríveis duas vezes: a primeira é a certificação do fracasso da excelência em saúde da Lombardo, a segunda tem um valor político importante ou o reconhecimento de que a saúde cubana é de alto padrão.
 
Do ponto de vista político, você sorri ao ver a junta da Liga pedindo ajuda aos dois países que sempre foram considerados ditaduras sangrentas violando os direitos humanos mais básicos. Na Venezuela, se bem me lembro, a Liga reconheceu Juan Guaidò como presidente legítimo do país, surge a pergunta: porque pediram ajuda a Nicolas Maduro e não a Juan Guaidò? Evidentemente, mesmo na casa dos Lega, eles sabem muito bem que o ridículo Guaidò conta tanto quanto os dois corações quando o trunfo é uma espada, mas por óbvias razões políticas e ideológicas eles tiveram que se pronunciar a favor do fantoche americano.
Não devemos esquecer que pedir ajuda da China, Cuba e Venezuela significa admitir que a saúde funciona melhor nos países socialistas do que nos capitalistas.
 
 
O pedido a Cuba e à Venezuela para enviar seus médicos à Lombardia é a confirmação de que a saúde cubana, dado que os venezuelanos foram treinados nas escolas de medicina da ilha, é de nível internacional. Objetivamente, não era necessário pronunciar uma Liga do Norte para saber que os médicos cubanos estão bem preparados, pois estão presentes em pelo menos sessenta países todos os anos em que realizam missões de saúde em apoio aos médicos locais. A maioria das missões de saúde realizadas por médicos cubanos ocorre em países do terceiro mundo ou naqueles em que os governos esquecem seus cidadãos como os países árabes, que possuem grandes capitais, mas não treinam pessoal médico. Seria a primeira vez que uma missão na Europa ajudaria em situações de emergência. 
 
O sistema de saúde Lombardo também é do terceiro mundo?
 
Talvez não seja, talvez tenha servido apenas para encher os bolsos daqueles que tiveram a sorte de ter sua estrutura de saúde credenciada entre os da região da Lombardia. Os inúmeros escândalos que envolveram a saúde da Lombardia ao longo dos anos são uma prova disso. No final, depois que o dinheiro dos cidadãos foi usado para tentar garantir cuidados de saúde de qualidade na primeira emergência real, todo o sistema deu errado. Os cofres da região da Lombardia acabam pagando muito dinheiro para pagar mais funcionários: porque quando Cuba envia seus médicos aos países do primeiro mundo, certamente não os envia de graça.
 
Finalmente, se médicos cubanos e venezuelanos chegarem à Itália, o que Trump dirá? O presidente dos EUA há muito tempo iniciou uma cruzada contra os médicos cubanos presentes nos países sul-americanos, acusando-os de difundir a ideologia comunista e marxista. Ele chegou ao ponto de inventar a notícia de que os profissionais de saúde cubanos não dariam tratamento a quem não se declarava comunista. Se isso fosse verdade na Lombardia, os médicos estariam desempregados. Além da ironia, acho que alguns funcionários da Embaixada dos Estados Unidos ergueram as antenas pensando que a Liga se tornou repentinamente comunista.
Espero que as negociações em andamento entre a região e os dois países cheguem a bom resultado, mas, acima de tudo, quando tudo terminar, espero que as políticas para Cuba e Venezuela mudem e que tudo não seja resolvido com um grande obrigado.
 
Andrea Puccio | Faro di Roma
 
Leia em CubaDebate

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/coronavirus-negociacoes-para-levar.html

Itália | “Não estávamos à espera de algo tão repentino e devastador”

 
 
Além de nos descrever a situação em Itália, o cientista italiano Francesco Galassi diz que, em breve, toda a Europa vai enfrentar problemas semelhantes ao seu país.
 
ENTREVISTA
 
Normalmente, o cientista e médico italiano Francesco Galassi investiga as doenças que afectaram os humanos no passado. Mas, nos últimos tempos, tem-se dedicado ao presente: tanto a combater as fake news sobre a covid-19 como a dar informação correcta sobre o que está a acontecer em Itália. “Fornecer informações correctas ao público é um dever moral de todos os médicos e académicos”, considera. O professor da Universidade de Flinders, na Austrália, descreve-nos a situação em Itália, alerta-nos para os riscos em Portugal e leva-nos numa viagem pelas pandemias ao longo da história. Neste momento, também ele tem trabalhado sobretudo em casa, na Sicília, onde dirige o Centro de Investigação FAPAB, que se dedica à paleopatologia, bioarqueologia e antropologia forense. 
 
Como está a situação em Itália, actualmente? 
A situação ainda é muito grave. Já contamos com mais de 24 mil casos e mais de 2100 mortes. Estamos sobretudo preocupados com os espaços reduzidos nos hospitais e com a rápida disseminação da doença. O Norte industrialmente produtivo está de rastos e o resto do país está a seguir essa tendência. 
 
O sistema de saúde italiano estava preparado para esta pandemia?
O sistema de saúde italiano é um dos melhores do mundo. Contudo, não estávamos à espera de algo tão repentino e devastador como a situação trazida pelo novo vírus. O principal problema está relacionado com o facto de muitas pessoas terem sido internadas nas unidades de cuidados intensivos e de os hospitais ficarem sem camas. E está a acontecer precisamente numa altura de maior afluência por causa da gripe sazonal e de doenças como o AVC. Isto é um choque para o sistema e para todo o país. Reduzi-lo a um “problema italiano”, como aconteceu com outras doenças ao longo da história, é errado. Em breve, toda a Europa enfrentará problemas semelhantes. 
 
É verdade que os médicos italianos têm de escolher pôr ventiladores entre doentes mais jovens e mais velhos?
Infelizmente, é verdade. Decisões difíceis devem ser tomadas devido ao aumento dos casos de insuficiência respiratória, o que causará um desequilíbrio entre as necessidades dos doentes e os recursos hospitalares disponíveis. A Sociedade Italiana de Anestesia, Analgesia, Reanimação e Cuidados Intensivos publicou orientações específicas sobre como se deve enfrentar este cenário. Os tratamentos nos cuidados intensivos têm de ser garantidos para doentes com mais probabilidade de sucesso terapêutico. Portanto, a “maior esperança de vida” deve ser favorecida. Isto seria impensável há umas semanas. 
 
 
O sistema de saúde italiano está a entrar em colapso?
Estamos a esforçar-nos ao máximo para aguentar, mas esse é um risco que temos em conta. Depende muito de como podemos parar a transmissão do vírus. As próximas duas semanas serão fundamentais. Os profissionais de saúde estão a dar tudo o que têm. Estão exaustos, mas não desistem. São “soldados” que estão a lutar contra um inimigo praticamente invisível para salvar vidas. 
 
A quarentena em Itália foi decretada demasiado tarde?
É sempre melhor mais tarde do que nunca, mas devíamos ter actuado mais cedo. Nestas alturas, não há apenas decisões científicas ou médicas, a política tem sempre um grande papel em tudo isto. Estou satisfeito por a classe política ter concordado com estas medidas. Não podemos passar o tempo a queixar-nos sobre o que deveria ter sido feito antes; agora, temos de enfrentar a situação e actuar o mais rápido possível. 
 
Como está a ser a quarentena em Itália?
É possível sair de casa com motivos devidamente justificados, como para ir trabalhar (quando o teletrabalho não é possível), para cuidados de saúde e outras questões de sobrevivência (por exemplo, ir ao supermercado ou à farmácia). Deve-se mostrar às autoridades uma certificação que demonstra a verdadeira razão para a pessoa se estar a deslocar àquele local. Por agora, estamos de quarentena até 3 de Abril.
 
Esta quarentena será suficiente?
É uma quarentena drástica e trará resultados decisivos. Se as pessoas não perceberem que devem mesmo resguardar-se, medidas mais graves serão implementadas. A saúde pública é uma prioridade, a qualquer custo. 
 
Há pessoas que ainda não perceberam que devem ficar em casa?
Muitas já perceberam e muitas não se estão a comportar da melhor forma. A polícia está a sancionar essas más condutas. Acho que essas pessoas estão a subestimar o problema e pensam que é uma típica doença sazonal. 
 
Por que é que a situação se tornou tão grave em Itália?
Esta é uma situação com uma dimensão internacional, não tem uma dimensão só italiana. Em Itália, testámos um grande número de pessoas, mais do que outros países.
 
Mas como é que esta pandemia começou em Itália?
A 20 de Fevereiro, o paciente número 1 chamou a atenção das autoridades de saúde na Lombardia. De acordo com o médico que o tratou, apresentou sintomas de uma ligeira pneumonia que não estava a responder às terapias tradicionais. Ao se falar com o doente, tornou-se claro que ele tinha jantado com uma pessoa que tinha regressado da China. Isto fez com que as autoridades de saúde ficassem alarmadas e começassem a fazer testes às pessoas a propósito do novo coronavírus. O teste do paciente 1 deu positivo, mas o teste da tal pessoa que regressou da China deu negativo. Por esta razão, ainda não sabemos quem é o paciente zero. Estudos moleculares mais recentes mostraram que o paciente zero faz parte de um “episódio alemão”, ou seja, alguém que chegou ao Norte de Itália vindo de Munique, embora a origem da doença seja na China. 
 
Quais poderão ser os cenários dos próximos dias? 
A situação pode piorar e esperamos mais casos positivos, assim como mais mortes. Mas os italianos sabem como enfrentar as dificuldades e estou certo de que juntos iremos triunfar sobre este inimigo
 
Já se atingiu o pico do surto em Itália?
Não é fácil de se responder a isso porque não há apenas um foco da epidemia, o que significa que há diferentes curvas. Por agora, o Governo italiano estima que seja atingido a 18 de Março, mas isso apenas numa parte do país. Na Sicília, espera-se que seja daqui a entre 20 e 13 dias. 
 
Está a seguir a situação em Portugal? Estamos a fazer o suficiente, como a declaração do estado de alerta e fecho de escolas e limitação de circulação de pessoas? 
Sim, estou a acompanhar. Por agora, o país não tem sido fortemente afectado como outros, como Itália, mas os dados não são certamente agradáveis. Tal como vimos na China, quando o contacto entre humanos é rapidamente limitado, são alcançados melhores resultados preventivos. As medidas portuguesas são um bom sinal ao nível do risco que se está a enfrentar, mas medidas mais rigorosas deverão ser aplicadas imediatamente, para se evitar o que aconteceu em Itália.
 
E quanto a outros países europeus, como o Reino Unido ou a França, que têm aplicado diferentes medidas? Devem ser mais drásticas?
Absolutamente! Nem tenho dúvidas disso. Antes de termos uma vacina eficaz disponível, uma quarentena intensa é a melhor forma de prevenção. Tenho lido os comunicados oficiais do Reino Unido esta semana e fiquei chocado. Uma pandemia como esta deve ser vigorosamente travada. Não podemos apenas ficar sentados à espera de ver como iremos sobreviver. Tenho a impressão de que algumas pessoas ainda não perceberam a verdadeira natureza e escala deste problema. 
 
Quais são ainda os maiores riscos para Portugal?
Os mesmos de Itália. Estamos todos no mesmo barco. O principal risco é o impacto maciço no sistema de saúde. Também são esperados problemas económicos. É um problema geral com consequências já previsíveis. Mas tenho a certeza de que os médicos portugueses farão o seu melhor para conter esta nova doença.
 
Como deve ser o comportamento das pessoas nesta altura? 
Nesta fase, devemos resguardar-nos. Devemos evitar viagens e actividades ao ar livre que não sejam estritamente necessárias. Não devemos tocar ou falar muito perto com as outras pessoas. Todas as regras de higiene devem ser aplicadas no nosso quotidiano. Elas são sempre importantes, mas agora tornaram-se fundamentais. Um grande sentido de responsabilidade deve ser interiorizado a nível individual e comunitário. 
 
Fazendo uma viagem pela história, quais são as principais pandemias?
Na Ilíada de Homero temos [uma referência a uma praga] através da ira de Apolo. As grandes epidemias são reportadas em fontes históricas: a praga de Atenas [430 a.C.-426 a.C.] é descrita por Tucídides; a peste Antonina e a praga de Cipriano devastaram o Império Romano; a praga de Justiniano [afectou o mundo mediterrâneo no século VI]; a Peste Negra [no século XIV dizimou um quarto da população Ocidental], da qual Boccaccio nos deu um relato detalhado; a cólera no século XIX; e a gripe espanhola no final da Primeira Guerra Mundial. A qualquer momento, apesar dos avanços científicos, estamos vulneráveis a [estas epidemias] e as reacções das pessoas são muito semelhantes às que são descritas nas fontes históricas. À medida que a infecção se espalha, o medo é algo comum em todos estes momentos históricos. 
 
Quais as semelhanças com a pandemia que estamos a viver?
A grande semelhança entre as grandes pragas e esta pandemia é a componente animal, em que a doença passa dos animais para as pessoas, a que chamamos zoonose. Se ler a Ilíada, a doença que afecta os gregos primeiro afectou os animais. Este contacto próximo entre animais e humanos aconteceu sempre ao longo da história, o que permitiu a zoonose. Por exemplo, a peste de Atenas foi causada por uma bactéria e a pandemia actual foi por um vírus. Já a pandemia da gripe espanhola foi provocada por um vírus influenza e teve um impacto diferente porque começou a afectar os mais novos, em vez dos mais velhos. O coronavírus afecta, sobretudo, os mais velhos e também afecta as pessoas mais novas. É errado quando as pessoas dizem que só afecta os mais velhos. 
 
Já a pandemia de 2009 foi uma epidemia da gripe [suína]: era uma doença completamente diferente da covid-19 e causada pelo vírus H1N1. Esta vem de um coronavírus. Das estimativas que temos, a letalidade da gripe suína será menor do que aquela que estamos a ver por agora na covid-19, mas é muito cedo para fazermos estimativas. Uma coisa que é realmente característica da covid-19 – e que não é na gripe – é que causa pneumonia viral primária. A covid-19 tem alguns sintomas similares à influenza, mas é muito mais grave
 
E qual o impacto dessas pandemias?
Tiveram um impacto enorme na história, por diversas razões. No passado, as pessoas não sabiam o que as provocava: diziam que tinham sido causadas pela fúria de Deus. Não se tinha ideia de que os agentes patogénicos espalhavam doenças. Também não tinham medidas preventivas. As medidas de higiene eram muito poucas e a transmissão da doença era muito fácil. E a medicina da altura não tinha grande capacidade para garantir condições de vida. Não é surpreendente que tenhamos milhões de mortes durante a Peste Negra ou durante a gripe espanhola. Nesta última, a Europa estava devastada pela Primeira Guerra Mundial e os soldados e as trincheiras favoreceram a chegada da doença.
 
Apesar de ainda não termos todos os dados, a letalidade da covid-19 será muito mais baixa do que a da peste do século XIV porque estamos em períodos diferentes. Não havia medidas de higiene e a medicina não era avançada e eficaz como a de hoje. Mas é sempre algo que pode mudar. A actual pandemia é a prova de que as grandes doenças podem sempre voltar a afectar o nosso mundo. Nesta altura, é muito importante reagir rapidamente e implementar medidas preventivas para conter a epidemia. 
 
O conceito de quarentena começou em Itália. Há semelhanças com a situação actual?
No seguimento da grande peste do século XIV, foi criada uma série de medidas sobretudo pelos venezianos e pela República de Ragusa [hoje Dubrovnik, na Croácia]. O termo introduzido foi “quarentena”, o que significava que as pessoas suspeitas de terem a doença chegavam nos navios não podiam desembarcar e tinham de ficar isoladas durante 40 dias. A palavra permaneceu igual, mas o período de isolamento hoje pode ser muito menor e variar (o desta pandemia é de 14 dias). Agora [na pandemia do coronavírus] a quarentena estendeu-se a toda Itália e é apoiada por provas científicas. 
 
Quão responsáveis somos por estas pandemias?
Podemos sê-lo devido a poucas condições de higiene, movimentações e interacção social. A nível político, muitas vezes quem está no poder aborda estas questões sem usar a perspectiva médica ou sem ouvir suficientemente cedo quem investiga estes problemas. 
 
Como podemos travar a pandemia?
Se todos os países adoptarem sistemas de prevenção, podemos ter esperança no futuro. Precisamos de desacelerar a pandemia até termos medicamentos eficazes e, acima de tudo, uma vacina disponível. Temos de mostrar que a espécie humana consegue permanecer unida para derrotar um inimigo comum. 
 
 
Imagens: 1 - Limpeza nas ruas de Roma devido à pandemia do novo coronavírus ANGELO CARCONI/LUSA; 2 - Francesco Galassi DR
 
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Itália elogia especialistas médicos chineses que ajudam a combater epidemia de coronavírus, diz porta-voz

 

Beijing, 17 mar (Xinhua) -- O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, destacou nesta segunda-feira que um grupo de médicos especialistas enviado pelo governo chinês para ajudar a Itália a combater o novo coronavírus foi calorosamente recebido e altamente elogiado pelo lado italiano.

O oficial deu a declaração em uma coletiva ao comentar uma conferência de imprensa que o ministro das Relações Exteriores italiano, Luigi Di Maio, e o presidente da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, Francesco Rocca, realizaram em Roma na sexta-feira, recebendo os especialistas chineses para ajudar a Itália na luta contra a epidemia de coronavírus.

Geng disse que a equipe chinesa, composta por nove especialistas, partiu de Shanghai para Roma em 12 de março, levando suprimentos e equipamentos médicos e começou seu trabalho logo após a chegada.

Segundo o porta-voz, o grupo compartilhou experiências com o Ministério da Saúde da Itália, a Cruz Vermelha Italiana, o Instituto Nacional de Doenças Infecciosas em Roma e outras instituições sobre o tratamento de pacientes, uso de medicamentos e controle de infecção dentro de hospitais conforme a situação da epidemia na Itália.

Os especialistas chineses também trocaram ideias para melhorar a conscientização de proteção do público e da equipe médica e esclarecer o nível de proteção das instituições médicas, disse Geng. "Eles foram calorosamente recebidos e altamente elogiados pelo lado italiano".

Em seguida, eles irão para as áreas mais afetadas do norte da Itália, segundo o porta-voz.

Os especialistas também transmitiram os cuidados do governo chinês aos cidadãos chineses na Itália e conduziram orientações em vídeo para moradores e estudantes chineses que vivem e estudam no país, informando-os sobre os sintomas da COVID-19 e a prevenção e o tratamento da doença.

Eles também visitaram os pacientes chineses que foram tratados na Itália e se recuperaram, disse Geng.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/17/c_138886902.htm

Região italiana da Lombardia pede ajuda a Cuba no combate à COVID-19

Equipe médica usa máscaras enquanto ajuda pacientes do hospital Spedali Civili em Brescia, Itália, 13 de março de 2020
© REUTERS . Flavio Lo Scalzo

A região no norte da Itália tem sido a mais afetada no país, registando cerca de metade de todos os casos de coronavírus, e irá utilizar o antiviral cubano usado com sucesso na China.

O governo da região Lombardia, Itália, solicitou formalmente a Cuba pessoal especializado no tratamento de doenças transmissíveis para ajudar a aliviar a crise causada pelo novo coronavírus, confirmou a embaixada do país insular em Roma.

"É meu dever confirmar que, de fato, recebemos uma carta do senhor [Giulio] Gallera [conselheiro de Saúde e Bem-Estar da Região Lombardia], formalizando o pedido de ter pessoal cubano especializado no tratamento de doenças transmissíveis", afirma o comunicado assinado pelo embaixador cubano na Itália, José Carlos Rodríguez, escreve o portal Entorno Inteligente.

O diplomata confirmou que esta carta "foi devidamente transferida pela embaixada de Cuba na Itália às autoridades cubanas competentes, com as quais estamos em contato para este fim".

O comunicado da embaixada de Cuba em Roma acrescenta que, nos últimos dias, tanto a Associação Nacional de Amizade Itália-Cuba como a Coordenação Nacional dos Cubanos Residentes na Itália tornaram públicos seus apelos às autoridades italianas para que considerem a possibilidade de pedir ajuda a Cuba.

O pedido inclui pessoal médico, e a utilização do antiviral cubano Interferon Alpha 2 B, que tem sido utilizado com sucesso contra a COVID-19 na China.

O embaixador cubano na Itália também lamentou a alta morbidade e mortalidade que a COVID-19 está causando na Itália.

Disseminação do coronavírus

Além da Itália, as autoridades sanitárias cubanas receberam pedidos de assistência de vários países do Caribe para enfrentar o novo coronavírus, incluindo os governos de São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas, e Jamaica, aonde já chegaram 21 enfermeiras cubanas especializadas.

De acordo com os mais recentes dados, os casos de COVID-19 na Itália totalizam 24.747, incluindo 1.809 mortes. Lombardia tem sido a região mais afetada do país, registando 13.272 dos casos e 1.218 mortes.

Na sexta-feira (13), a China enviou ajuda à Itália, que tem sido a maior vítima do novo coronavírus no mundo fora da China.

No domingo (15), o Ministério da Saúde do Brasil declarou que vai convocar médicos cubanos para trabalhar na pandemia do novo coronavírus, segundo o diário Globo. Trata-se dos médicos cubanos que foram mandados embora do Brasil do programa Mais Médicos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020031615334651-regiao-italiana-da-lombardia-pede-ajuda-a-cuba-no-combate-a-covid-19/

Como o coronavírus paralisou a Itália

 
 
Para conter avanço da covid-19, comércio foi obrigado a fechar as portas, com exceção de farmácias, supermercados e postos de combustível. Linhas de produção e de abastecimento foram interrompidas.
 
Num discurso dramático no Facebook, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, agradeceu a todos os cidadãos que estão fazendo sacrifícios para conter a propagação do coronavírus no país europeu. "Vamos provar que somos uma grande nação", disse Conte, que anunciou medidas drásticas, como a declaração de quarentena em todo o território nacional, uma espécie de toque de recolher para os 60 milhões de italianos. "Eu consultei a minha consciência. A saúde dos italianos precisa estar em primeiro lugar", disse Conte.
 
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 15 mil pessoas já foram infectadas na Itália com o vírus Sars-Cov-2, que causa a doença pulmonar covid-19. Mais de mil pessoas, em sua maioria idosas, morreram devido à enfermidade. E os números continuam subindo apesar dos esforços do governo italiano de restringir ao máximo a interação social e grandes reuniões de pessoas.
 
Escolas, universidades, teatros, museus, cartórios e sedes esportivas já estão fechadas há semanas. O governo também decretou o fechamento de todos os restaurantes, bares e do comércio cujos produtos não são necessários para o dia a dia. Supermercados, mercados de construção, farmácias, tabacarias e postos de combustíveis permanecem abertos.
 
Nos supermercados, pede-se que os clientes mantenham pelo menos um metro de distância uns dos outros. Os funcionários usam máscaras, e alguns vestem luvas de látex. "Só se deveria sair de casa quando se tem um bom motivo", diz Aljoska Stefanato, empresário de turismo de Treviso. "Se a polícia te encontra na rua, você precisa carregar uma autorização de exceção", explica.
 
A chamada "auto-autorização" pode ser baixada da internet, impressa e preenchida. Não é preciso ter o aval das autoridades – e ainda não se sabe como e se essas "autorizações" são verificadas. Em Roma, de acordo com a agência de notícias Ansa, sete pessoas foram presas e 43 interrogadas por terem violado as regras de restrição de circulação vigentes no momento.
 
 
Economia sofre
 
Autorizações também são necessárias para quem se desloca para o trabalho, de carro ou a pé. A produção industrial deve ser mantida, segundo anunciou Conte – as empresas, porém, foram aconselhadas a operar com o menor número possível de trabalhadores.
 
Em diversas fábricas no norte da Itália, houve greves porque os funcionários temiam contrair o vírus Sars-Cov-2 no local de trabalho. Linhas de produção e de abastecimento estão interrompidas, e a economia italiana está sofrendo intensamente.
 
O ministro da Economia, Roberto Gualtieri, espera uma recessão no primeiro semestre deste ano. A bolsa em Milão continua registrando perdas. A Lombardia, região em torno da capital financeira, é o coração econômico da Itália e é a área mais duramente afetada pela pandemia do coronavírus. Nas últimas semanas, a economia italiana já encolheu 15%, segundo disse o economista Lorenzo Codogno à agência Reuters.
 
O governo em Roma planeja um pacote de auxílio financeiro de cerca de 25 bilhões de euro para combater o declínio econômico, uma medida que deverá ser financiada principalmente por meio de dívidas. O país já altamente endividado espera ajuda adicional da União Europeia (UE).
 
"Um tsunami de pacientes"
 
O dinheiro do fundo para combater o coronavírus também deverá ser aplicado no sistema de saúde italiano, sob pressão considerável. "Estamos vivendo um tsunami de pacientes adicionais", disse Giacomo Grasselli, em entrevista à DW. O médico coordena as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) dos hospitais na Lombardia, que conseguiu aumentar a capacidade de leitos em 50%.
 
"Certamente, há o risco de chegarmos a um ponto no qual os recursos disponíveis não serão mais suficientes para todos. Nesse caso, seria preciso dar acesso à medicina intensiva àqueles que têm as maiores chances de sobrevivência", pontua. Grasselli ainda apelou aos italianos que respeitem as regras de restrição da circulação. "Se todos nós ficarmos três semanas em casa, isso deverá passar. Teoricamente, não haveria mais novas infecções."
 
Ao mesmo tempo, houve protestos de detentos contra as novas regras em quatro prisões italianas, já que as diretrizes não permitem visitas de parentes. Além disso, os presos temem maior risco de infecção por causa do confinamento em espaços contíguos.
 
Turismo e escolas
 
Turistas também estão deixando de ir à Itália. De Veneza à Sicília, acumulam-se os cancelamentos de reservas nos hotéis e nas operadoras que oferecem casas de férias. Os restaurantes já estavam vazios antes de serem fechados. Atrações como a Basílica de São Pedro, em Roma, estão fechadas.
 
Áustria e Eslovênia até fecharam as fronteiras para o país. A Confederação Geral da Indústria da Itália (Confindustria) exortou a Áustria e a UE a reabrirem o Brenner Pass, passagem fronteiriça entre os dois países, já que a passagem pelos Alpes é a principal via de transporte para produtos de exportação na região.
 
"A liberdade de movimento para pessoas e produtos precisa ser restabelecida imediatamente", pede a Confindustria, que acredita que a Áustria deveria ser punida por seu fechamento "ilegal" das fronteiras.
 
Muitas escolas e universidades – que foram fechadas pelo governo – oferecem cursos e palestras online para alunas e alunos. Não ficou claro como serão realizadas as provas. Como todas as crianças do país estão em casa, não podem brincar do lado de fora e, além disso, não há muito o que fazer, o consumo de televisão e mídias eletrônicas vem aumentando. A plataforma digital Amazon reconheceu o fato e está oferecendo o programa gratuitamente em algumas regiões da Itália durante o período de quarentena.
 
O prefeito de Codogno, pequena cidade na Lombardia onde foi confirmado o primeiro caso de coronavírus no país, vê uma luz no fim do túnel. Após o fechamento completo da cidade, há três semanas, aparentemente não houve novas infecções.
 
"É preciso ter cuidado ao avaliar essa informação, precisamos observar a evolução nos próximos dias", afirmou Francesco Passerini à agência Ansa. Segundo uma pesquisa de opinião divulgada nos últimos dias, 89% dos italianos concordam com as medidas draconianas do governo para contenção da pandemia.
 
Bernd Riegert (rk) | Deutsche Welle
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/como-o-coronavirus-paralisou-italia.html

Equipe de especialistas chineses chega a Roma para ajudar a conter o coronavirus

Italia China
Chegou a Roma um voo fretado transportando uma equipe médica chinesa de nove membros com todo o equipamento médico. Faz parte dos esforços da China para ajudar a Itália a conter o surto de Coronavírus.
A equipa trouxe mais de 700 equipamentos, incluindo ventiladores, monitores e desfibriladores. Trouxeram também plasma de pacientes chineses recuperados.
A equipa foi recebida por especialistas locais da Cruz Vermelha Italiana, funcionários do Ministério das Relações Exteriores da Itália e delegados da Embaixada da China na Itália.
A equipa foi organizada pela Comissão Nacional de Saúde da China e pela Sociedade da Cruz Vermelha da China.
É a terceira equipa de especialistas enviada ao exterior pelas autoridades chinesas, após as equipes enviadas ao Irão e ao Iraque.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

‘A Itália nos abandonou’, diz italiano que ficou 36h preso com cadáver da irmã

247 -Italiano irmão de uma mulher que morreu em casa após contrair coronavírus, publicou no início desta semana um vídeo nas redes sociais implorando as autoridades italianas a coletarem o cadáver de sua irmã.

Agentes funerários e até o hospital de Nápoles se recusassem a buscar o corpo da mulher, segundo reportagem do Estado de S. Paulo. "Minha irmã está morta na cama. Eu não sei o que fazer. Eu não posso lhe dar o funeral que ela merece porque todas as instituições me abandonaram”, disse o Luca Franzese, no Facebook.

"Nós fomos arruinados. A Itália nos abandonou. Vamos ficar fortes juntos. Por favor, compartilhem esse vídeo em todos os lugares", disse. Agentes funerários com roupas de proteção chegaram à sua casa após 36 horas de espera e retiraram o corpo para o cemitério local, onde a mulher foi enterrada sem um funeral. A família, entretanto, ficou de quarentena em casa, por causa da doença.

 

De acordo com Franzese, sua irmã sofria de epilepsia e ele insistiu para que ela fizesse exames do coronavírus. “Para mantê-la viva, eu tentei ressuscitação boca-a-boca. Ninguém se importou”, afirmou. Porém, Luca não contraiu o vírus.

 

 

A quarentena total da Itália

 
 
Condição já abate país inteiro. Atividades como shows, missas e funerais foram vetadas. Deslocamentos somente com autorização. 28 presídios já se rebelaram, após proibição de visitas. Leia também: porquê a OMS não decreta pandemia.
 
Maíra Mathias e Raquel Torres | Outras Palavras,  10/03/2020 às 07:58 - Atualizado 10/03/2020 às 12:12
 
TODO O PAÍS Ontem, a Itália se tornou o primeiro país a entrar inteiramente em quarentena por causa do novo coronavírus. O número de casos bateu a marca dos nove mil, com 5.049 pacientes internados, sendo 733 em unidades de terapia intensiva. Foram confirmadas 463 mortes. “Não existe mais zona vermelha, uma zona um ou uma zona dois. Haverá a Itália. Uma Itália zona protegida”, afirmou o primeiro-ministro Giuseppe Conte. E continuou: “A decisão certa hoje é ficar em casa. O futuro da Itália está em nossas mãos, que devem ser mãos responsáveis, mais do que nunca. Cada um deve fazer a sua parte.” Todos os deslocamentos, inclusive os de turistas, vão precisar ser autorizados por agentes de segurança pelo menos até o dia 3 de abril. Caso o cidadão esteja fora da própria cidade, poderá voltar. A circulação será liberada por razões de saúde, trabalho ou “casos de necessidade”. Há um formulário na internet para que as pessoas preencham seus dados e os motivos da viagem. Segundo especialistas, isso torna o controle da movimentação dos cidadãos mais frágil. Mas, de acordo com o primeiro-ministro, haverá sanções – como multa e prisão por até três meses – caso as autoridades constatem que as informações são falsas. Além das aulas paralisadas, foram vetadas atividades culturais, missas, casamentos, funerais e eventos esportivos. Bares e restaurantes só podem funcionar até 18h. Lojas podem abrir, desde que tenham condições de garantir uma distância mínima de um metro de distância entre os clientes. As visitas às prisões foram proibidas – o que provocou rebeliões em 28 centros de detenção no país. A revolta teve como saldo ao menos sete mortos. Trinta detentos estão foragidos. O secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, afirma que o governo não tem planos de trazer brasileiros que estão no país. “Não existe no radar essa possibilidade”, afirmou ontem, justificando que há dezenas de milhares de brasileiros morando na Itália.
 
PANDEMIA OU NÃO Está na hora de decretar uma pandemia? Ontem, esse foi o principal assunto da coletiva de imprensa dada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O diretor-geral Tedros Ghebreyesus e sua equipe técnica reconheceram que o fato de a doença ter se espalhado por mais de cem países e ter quase chegado à marca dos 110 mil casos são fatores consistentes para que seja real “a ameaça de uma pandemia”. “Duas semanas atrás eram 30, 40 países, agora são 100”, constatou Michael Ryan, que está à frente do programa de emergências da Organização. Contudo, a OMS argumenta que o Covid-19 é um vírus que pode ser contido, dando o exemplo da China e de Singapura, onde os casos escassearam e a situação, aos poucos, volta ao controle. Com a declaração de pandemia, os governos passariam a atuar não mais na contenção, mas na mitigação dos casos. “E o que sabemos é que ir para uma condição de mitigação é essencialmente falar que a doença vai se espalhar de forma incontida”, apontou Ryan. Por aqui, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério, Wanderson Kleber de Oliveira, foi questionado ontem se há possibilidade de conter o vírus. “A Organização Mundial de Saúde diz que possivelmente será a primeira pandemia que temos capacidade de conter. Assim esperamos. Mas, se identificarmos que há transmissão comunitária por meio da vigilância de síndrome gripal, esse argumento não se sustentará por causa da natureza da doença”, respondeu. CASOS NO BRASIL O total de confirmações do coronavírus no Brasil chegou a 30 com a notificação de cinco novos casos no Rio de Janeiro. Todos os doentes visitaram países como Itália, Portugal e Espanha recentemente, estão em isolamento domiciliar e apresentam quadro estável. Do total de pessoas com infecção no país, 17 são mulheres e 13 são homens. CRASH NO MERCADO Ontem, o índice Ibovespa fechou com queda de 12,17% – a maior desde 1998. Nos Estados Unidos, a Bolsa de Valores abriu com queda tão forte que desengatilhou um raro intervalo de 15 minutos nas operações. A incerteza se espalhou pelo mundo graças à decisão da Arábia Saudita de derrubar o preço do petróleo cru em 30%. Isso porque o país queria que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) aprovasse cortes mais profundos na produção para sustentar o preço dessa commodity durante a crise do coronavírus. Mas a Rússia não concordou, o que desencadeou a ação do reino do Golfo Pérsico. Jair Bolsonaro questionou a queda tão drástica nas Bolsas que, segundo ele, pode estar sendo potencializada “até por questão econômica”. SEGUE O TETO Desde o início, a crise do coronavírus tem sido também econômica mas, segundo Paulo Guedes, sua equipe está “absolutamente tranquila” com a desaceleração mundial. Especialistas ouvidos pela Piauí criticam: “O governo por enquanto parece completamente perdido, não tem nada sendo dito nessa linha, e Paulo Guedes fica batendo na tecla das reformas, que nesse caso são absolutamente inadequadas, não vão ajudar em nada o Brasil a navegar nessa crise”, diz Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics. Para ela, uma das medidas mais urgentes é rever o Teto de Gastos que, em suas palavras, é uma “estupidez completa”. “Quem é contra medida anticíclica diante de um quadro sem precedentes de crise no mundo causado por uma epidemia grave deve ser cobrado quando der tudo errado”, disse a mesma pesquisadora no Twitter. É também a avaliação da economista Laura Carvalho, que explica que a saída do sufoco demanda verbas para investimento público neste momento. O mesmo tema é abordado na Folha, com contraponto da economista Zeina Latif, ex-XP Investimentos, que acredita que o fim da EC 95 significaria “rasgar o esforço fiscal” brasileiro. DIRETO DAS PRISÕES O trabalho nas prisões nos EUA, tão bem documentado por Ava DuVernay no filme A 13a emenda, volta a ganhar holofotes com o coronavírus. É que o governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, apresentou ontem o desinfetante “NYS Clean”, produzido justamente em penitenciárias. De acordo com ele, trata-se de um produto superior aos já existentes, porque tem teor de álcool de 75% e “aroma de flores”. Não está claro quanto os prisioneiros estão ganhando pelo serviço, mas, segundo a Time, eles em geral recebem entre US$ 0,10 e US$ 0,33 (sim) por hora de serviço. BEM SUJOS Uma curiosidade: em meados dos anos 1840, o médico Ignaz Semmelweis conseguiu reduzir taxas de mortalidade em maternidades após perceber a importância de os profissionais de saúde lavarem as mãos. Mas, quando mostrou à Sociedade Médica de Viena os resultados de suas pesquisas nesse sentido, sua teoria foi ridicularizada e rejeitada. Só anos depois da sua morte a moda começou a pegar. A interessante história está na reportagem da National Geographic. O INEXPLICÁVEL O Ministério Público Federal deu cinco dias para o Ministério da Cidadania informar a quantidade de novos beneficiários do Bolsa Família concedidos por estado e por mês desde o início do governo Bolsonaro, além dos critérios e o conjunto de indicadores sociais usados pela Pasta para a seleção de beneficiários. O requerimento vem depois de uma matéria do Estadão mostrar que a região Nordeste, onde estão 36,8% das famílias em situação de pobreza, concentra só 3% das concessões do programa. O Sul e o Sudeste, por outro lado, abrigam 75% das famílias com benefícios concedidos. O documento reforça que os critérios precisam ser “claros e lícitos”, sem chance para “preferências ou perseguições políticas”. MAPA DA MINA Um grupo de pesquisadores do Atlas de Justiça Ambiental passou o último ano reunindo informações sobre oito projetos de mineração controversos — com problemas como denúncias de contaminação e conflitos socioambientais — que operam no México, na Guatemala, no Peru, na Bolívia e na Argentina. Todos estão relacionados a uma única empresa, a canadense Pan American Silver. Agora, tudo isso está em um mapa interativo que mostra como a mineração afeta as comunidades, especialmente povos indígenas, e a matéria do site Mongabay pincela as questões de cada país. Um dos casos mais marcantes é o do México, onde a empresa tem suas minas mais lucrativas. Há problemas comuns a muitas áreas de mineração, como a remoção dos moradores e a contaminação pelos rejeitos. Mas ainda outro: “Foi estabelecida uma relação complexa entre as empresas de mineração e o crime organizado, que compartilham territórios e rotas de transferência de sua produção. Ambos têm seus próprios exércitos particulares ou guardas de segurança. Os narcotraficantes são responsáveis ​​pela limpeza da terra, para que as empresas extraiam os minerais, despovoando comunidades ou dissuadindo os habitantes insatisfeitos com as fazendas”, afirma um relatório de 2018 da organização Consultancy Technical Community, citado na mapa. PACIENTE DE LONDRES A segunda pessoa a ficar livre do HIV no mundo revelou ontem seu nome ao New York Times e disse que quer ser um “embaixador da esperança”. Adam Castillejo era conhecido como “paciente de Londres” até então e o fim da sua infecção foi declarado no ano passado. Para lembrar: ele estava vivendo com o vírus desde 2003. Em 2012, foi diagnosticado com uma leucemia mileoide aguda e fez um transplante de células-tronco. A equipe escolheu um doador cujas células-tronco tinham determinada mutação e os glóbulos brancos em que se desenvolveram eram resistentes ao HIV. Deu certo: tanto para o câncer como para o vírus. O caso é parecido com o de Timothy Brown, de Berlim, que foi a primeira pessoa a ser declarada livre do HIV, mas esse tipo de transplante não é adequado à maioria das pessoas infectadas por ser invasivo e apresentar riscos. DE OLHO NO STJ Como sabemos, um dos grandes imbróglios da saúde suplementar é o fato de a ANS só regular o teto de reajuste anual para os planos individuais e familiares, deixando de fora os coletivos – que representam 81% dos usuários, ou 38 milhões de pessoas. Além disso, esses planos (e também os individuais) podem praticar aumento de acordo com a mudança na faixa etária. Soltas, as empresas têm praticado reajustes abusivos. Na faixa etária dos 59 anos, há casos de reajustes de 130%. Os clientes judicializam: há pelo menos dois mil processos aguardando decisão no Superior Tribunal de Justiça. Este ano, o STJ começou a rediscutir os limites e parâmetros dos reajustes por faixa etária em contratos coletivos. Em 2016, o Tribunal já havia dado sinal verde para o reajustes por faixa etária nos planos individuais, desde que esse dispositivo estivesse no contrato assinado entre empresa e cliente, frisando que deveria acontecer com percentuais razoáveis. No dia 10 de fevereiro, o debate foi iniciado por uma audiência pública – que é o assunto da coluna de Claudia Collucci na Folha hoje. Ela explica: “As entidades de defesa do consumidor, como o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), e da academia defenderam que, quando se trata de contratos de planos de saúde, o consumidor é parte mais vulnerável. Ainda mais nos casos dos planos coletivos em que há muitas queixas de falta de acesso às informações sobre os custos dos serviços contratados. (…) Na audiência pública, as operadoras de planos de saúde defenderam que o STJ siga o mesmo entendimento que teve em relação aos planos individuais e familiares, ou seja, que considere legítimo o reajuste por faixa etária para os planos coletivos. (…) É possível que o STJ siga a jurisprudência já trilhada pelos Tribunais de Justiça de São Paulo e de Santa Catarina e que considere válido o reajuste. Mas é fundamental que encontre mecanismos que coíbam os abusos recorrentes, reconhecidos em inúmeras decisões favoráveis aos consumidores. Está claro que a ANS não tem dado conta de regular sozinha essa questão.” MAIS UMA VÍTIMA No domingo, morreu a sétima pessoa internada com sintomas de contaminação por dietilenoglicol – substância tóxica encontrada em lotes de cervejas da Backer. A vítima, Ronaldo Vitor Santos, tinha 49 anos. E na última sexta, o desembargador Luciano Pinto, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, aceitou o recurso da cervejaria e reduziu de R$ 100 milhões para R$ 5 milhões o valor máximo para o bloqueio de bens da empresa. O bloqueio é usado como garantia para a reparação às vítimas de intoxicação. O desembargador afirmou que  R$ 5 milhões representa valor razoável e proporcional para assegurar as indemnizações e permite que a empresa possa retomar suas atividades. A Backer disse que a decisão vai permitir que a empresa dê suporte ao tratamento médico dos clientes e às famílias.
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/a-quarentena-total-da-italia.html

Cinco especialistas chineses de Sichuan viajam à Itália para ajudar na luta contra COVID-19

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Chengdu, 11 mar (Xinhua) -- Quatro especialistas médicos e um professor de italiano da Província de Sichuan, sudoeste da China, viajarão para a Itália para ajudá-la a lutar contra o surto do novo coronavírus.

Os cinco especialistas partiram nesta quarta-feira a Shanghai e se unirão com especialistas voluntários da Sociedade da Cruz Vermelha da China, para em seguida todos voarem para a Itália.

"Assim que chegarmos à Itália, ficaremos a par da situação por lá e trocaremos experiências antiepidêmicas e cooperaremos com os médicos italianos", disse Liang Zongan, diretor do departamento de medicina pulmonar e cuidados intensivos do Hospital do Oeste da China, da Universidade de Sichuan.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/11/c_138866935.htm

'Se preparem': médicos italianos advertem Europa sobre o impacto de coronavírus nos hospitais

Ministério da Saúde do Equador verifica temperatura de pessoas em meio ao novo surto de coronavírus, em Tulcano, Equador, em 1º de março de 2020
© REUTERS / Daniel Tapia

Médicos italianos alertaram seus colegas de toda a Europa para "se prepararem" para o coronavírus, revelando que até 10 % de todos os infectados pela doença precisam de terapia intensiva.

Uma carta enviada por médicos italianos para a Sociedade Europeia de Medicina Intensiva, à qual The Independent teve acesso, relata a escala do impacto que a epidemia está tendo sobre os hospitais italianos, com 5.883 pacientes infetados com o COVID-19 e 233 mortes, segundo dados recebidos até sábado (7).

Em sua mensagem, os especialistas em terapia intensiva Maurizio Cecconi, Antônio Pesenti e Giacomo Grasselli da Universidade de Milão relatam quão difícil tem sido tratar dos pacientes com coronavírus.

"Estamos presenciando uma alta percentagem de casos positivos nas nossas unidades de terapia intensiva, uma taxa que ronda os 10% de todos os casos que deram positivo. Queremos transmitir uma forte mensagem: Se preparem!", lê-se na carta enviada pelos médicos.

De acordo com os médicos, nos hospitais italianos se deparam com um número "muito alto" de pacientes nas unidades de terapia intensiva que foram admitidos quase na sua totalidade sofrendo de insuficiência pulmonar grave provocada pelo vírus, necessitando de aparelhos de ventilação para ajudá-los a respirar.

Além disso, os especialistas italianos acrescentaram que os hospitais no Reino Unidos e em toda a Europa precisam de se preparar para o aumento de internamentos, advertindo sobre a necessidade de aumentar as instalações médicas.

"Aumentem a capacidade das unidades de terapia intensiva e identifiquem os primeiros hospitais que possam tratar do aumento inicial de maneira segura. Depois preparem áreas de terapia intensiva para receber pacientes infectados com coronavírus em todos os hospitais, se for necessário.

Na noite de segunda-feira (9), o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, anunciou que o governo irá limitar as deslocações em todo o país devido ao surto do COVID-19, cancelando todos os eventos públicos.

Inicialmente, as medidas de quarentena haviam sido impostas apenas nas regiões mais afetadas pela COVID-19, no Norte do país. Mas, a partir desta terça-feira, passará a valer para todo o país, o mais afetado pela epidemia na Europa.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020031015313204-se-preparem-medicos-italianos-advertem-europa-sobre-o-impacto-de-coronavirus-nos-hospitais/

Coronavírus em Itália: 80 infetados e dez cidades isoladas. Números não param de crescer

 
 
Conselho de ministros extraordinário aprovou legislação de emergência para travar o avanço da epidemia. Reunião do governo de Giuseppe Conte terminou perto da meia-noite, na sede da Proteção Civil. Na noite deste sábado, foram confirmados 16 novos casos. Já há 80 doentes diagnosticados em Itália e dois mortos, zonas 'vermelhas', dez cidades isoladas, jogos de futebol cancelados, universidades fechadas e forças armadas de prevenção
 
Governo de Giuseppe Conte aprovou legislação especial que prevê sanções para quem violar o isolamento das zonas mais afetadas pela epidemia, na região lombarda e no Venetto.
 
Numa conferência de imprensa que começou perto da meia noite em Itália, 23h00 em Lisboa, na sede da Proteção Civil, o primeiro-ministro Giuseppe Conte, disse que o principal "objetivo é proteger a saúde dos italianos".
 
Com o número de infeções confirmadas a aumentar ao longo do dia deste sábado, Conte, afirmou que a saúde da população "é o que é mais importante para nós. A saúde ocupa o primeiro lugar na hierarquia ideal de valores constitucionais".
 
SANÇÕES PARA QUEM INFRINGIR PERÍMETRO SANITÁRIO
 
A violação do "procedimento de entrada e saída" do epicentro da zona onde foram detetados mais casos de coronavirus, é passivel de "sanção penal, de acordo com o artigo 650 do Código Penal", escreve o diário "Corriere della Sera" na edição digital.
 
As restrições impostas à circulação de pessoas nas zonas mais atingidas pelo surto, serão "avaliadas periodicamente".
 
Perante a escalada do número de novos casos, foi criado um perímetro de segurança no Venetto e na Lombardia, que inclui o encerramento de diversos locais de trabalho, escolas e universidades, eventos públicos, o que inclui o cancelamento dos eventos desportivos previstos para este domingo, incluindo o jogo entre o Inter de Milão e o Sampdoria.
 
O efeito prático desta medida é o isolamento de uma dezena de cidades, em particular na Lombardia (norte). "Nas zonas consideradas como de surto, não será autorizada nem a entrada nem a saída, à exceção de autorização particular", declarou aos media o primeiro-ministro italiano. Giuseppe Conte anunciou ainda o encerramento de empresas e escolas nessas zonas, e a anulação de todos os eventos públicos (carnavais, competições desportivas, excursões escolares, entre outros).
 
O chefe do Governo disse ainda que as forças de segurança já têm instruções para "agir". Se for necessário, e a os cidadãos não acatarem as instruções, haverá intervenção das "forças armadas. Mas temos muita confiança na colaboração dos cidadãos", esperando que tal não seja necessário, acrescentou.
 
 
ZONA VERMELHA: DEZ CIDADES ISOLADAS
 
O Corriere della Sera, escreve que "qualquer área em que morem ou tenham estado pessoas que testaram positivo, deve ser isolada", criando assim uma "zona vermelha", interdita à circulação.
 
"As vias de acesso serão controladas por carros patrulha e carabinieri, para que ninguém possa entrar ou sair, a menos que existam necessidades específicas que têm de ser previamente autorizadas" pelos serviços municipais.
 
Nesta primeira fase, o "cordão" de segurança será instalado nos municípios onde as atividades públicas já foram suspensas, escolas e escritórios fechados. Se a epidemia se espalhar, serão criadas áreas mais alargadas que poderão incluir mais municípios".
 
COMO O VÍRUS CHEGOU A ITÁLIA
 
O principal surto do novo coronavírus Covid-19 encontra-se em redor de Codogno, a 60 quilómetros de Milão. Nesta cidade e em nove localidades vizinhas, todos os locais públicos (bares, câmaras municipais, bibliotecas, escolas), à exceção das farmácias, estão encerrados desde a noite de sexta-feira.
 
A maioria dos casos na Lombardia tiveram origem num quadro empresarial de 38 anos da multinacional Unilever, hospitalizado desde quarta-feira em Codogno, em cuidados intensivos, e que foi transferido hoje para um estabelecimento com mais condições em Pavia. A sua mulher, grávida de oito meses, está contaminada, e ainda um amigo, frequentadores de um bar, e os médicos que o assistiram de início.
 
Em conselho de ministros, o Governo aprovou um decreto-lei que na prática isola esta zona onde se concentram mais de 50.000 habitantes. Conte indicou que vão ser instalados postos de controlo e que, se necessário, enviará o exército e todas as forças de segurança.
 
Um segundo foco de contágio foi detetado na povoação de Vo' Euganeo, na Venétia (região de Veneza, nordeste). Era desta região o primeiro cidadão italiano, e europeu, (78 anos) que morreu após um teste positivo ao novo coronavírus.
 
A maioria das novas contaminações em Itália ocorreram na Lombardia (54 casos) em redor de Codogno, e na Venétia (17 casos). O chefe da proteção civil, Antonio Borelli, também se referiu a dois casos em Emília-Romanha, vizinha da Lombardia, e um no Piemonte, que derivaram do surto de Codogno.
 
Manuela Goucha Soares | Expresso | Imagem: Mateo Corner
 
Leia em Expresso   
 
A Coreia do Sul anunciou este domingo mais uma morte causada pelo coronavírus Covid-19, elevando para quatro o número de vítimas mortais no país, enquanto o total de pessoas infetadas é já de 556
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Universidades e centros educativosvão encerrar em duas cidades do Irão, incluíndo em Qom, onde foram registados os dois primeiros casos e mortes por coronavírus no país
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A porta-voz do ministério russo dos Negócios Estrangeiros qualificou como "deliberadamente falsa" a acusação dos Estados Unidos sobre uma campanha de desinformação movida pela Rússia nas redes sociais e relacionada com o novo coronavírus.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/coronavirus-em-italia-80-infetados-e.html

Coronavírus faz duas vítimas mortais em Itália

 

Duas pessoas morreram, em menos de 24 horas, infetadas com o coronavírus, em Itália. Já há a registar três mortes na Europa devido ao Covid-19.

 

A segunda morte está a ser avançada pela agência noticiosa italiana ANSA. A morte confirmada esta manhã é uma mulher da região da Lombardia. Ontem, um cidadão italiano, de 78 anos, morreu, na região de Veneto.

De acordo com o ministro da Saúde italiano, Roberto Speranza, citado pela agência France-Presse, o homem já estava internado há dez dias devido a problemas de saúde que não estavam relacionados com o novo coronavírus, mas contraiu, entretanto, o Covid-19.

A primeira morte na Europa pelo novo coronavírus ocorreu a 15 de fevereiro, em França, tratando-se de um turista chinês, originário da província de Hubei, a mais afetada na China, onde teve origem o surto. Já há a registar três mortes na Europa devido ao Covid-19.

 
 

Ontem à tarde, as autoridades italianas confirmaram que havia 16 pessoas infetadas pelo Covid-19 e outras 250 estavam em observação, e encerraram espaços públicos em pelo menos dez cidades.

Como medida de precaução, o Ministério da Saúde italiano decretou o encerramento de bares, escolas e outros locais públicos em pelo menos nove cidades da Lombardia e uma na zona de Veneto.

Pelo menos 142 novos casos na Coreia do Sul

A Coreia do Sul anunciou 142 novos casos de Covid-19, o que eleva para 346 o número de infetados. Entre os novos casos, as autoridades sul-coreanas identificaram em 92 pessoas uma ligação com um hospital em Cheongdo, no sul do país.

Naquela localidade nasceu o fundador da seita cristã Igreja de Shincheonji Lee Man-hee, que morreu há três semanas. Os três dias das cerimónias fúnebres decorreram numa sala do hospital de Cheongdo, fortemente atingida pelo coronavírus.

Mais de 150 membros da seita foram contaminados. O primeiro caso foi uma mulher de 61 anos que ignorava estar infetada e terá transmitido o vírus ao participar nos rituais religiosos.

As autoridades de Saúde da Coreia do Sul insistiram que, até ao momento, a epidemia ainda está numa fase controlável.

O coronavírus provocou já 2.345 mortos na China continental e mais de 76 mil infetados em todo o mundo.

Além das vítimas mortais no continente chinês, morreram quatro pessoas no Irão, três no Japão, duas na região chinesa de Hong Kong, duas na Coreia do Sul, uma nas Filipinas, uma em França, uma em Taiwan e agora uma em Itália.

A Comissão de Saúde da China sublinhou que 20.659 doentes recuperaram já da doença.

As autoridades chinesas isolaram várias cidades da província de Hubei para tentar controlar a epidemia, medida que abrange cerca de 60 milhões de pessoas.

ZAP // Lusa

 
 
 

Matteo Salvini vai ser julgado pela política de migração

 

O ex-ministro do Interior de Itália, Matteo Salvini, vai ser julgado em tribunal, acusado de sequestro ao bloquear o desembarque de 131 migrantes em julho de 2019, depois de o Senado lhe ter retirado a imunidade esta quarta-feira.

 

Esta quarta-feira, o Senado (câmara alta do parlamento italiano) decidiu levantar a imunidade do líder do partido de extrema-direita Liga, Matteo Salvini, para que seja julgado pela sua política de migração quando era ministro do Interior no Governo de coligação apoiado pelo Movimento 5 Estrelas, anunciaram as agências AFP e Efe.

Salvini terá de responder pela sua política de portos fechados e por impedir que migrantes resgatados por organizações humanitárias desembarcassem em Itália, mantendo-os durante vários dias trancados nos barcos das ONG.

O ex-ministro será julgado nomeadamente por um caso que remonta a julho passado, quando impediu que 131 migrantes pisassem Itália, obrigando-os a manter-se a bordo de um navio da Guarda Costeira italiana por cinco dias.

 
 

No domingo, Matteo Salvini considerou, numa entrevista divulgada pelo La Stampa, que a única coisa que fez foi defender o país. “É uma loucura, não sei quanto custa em termos de pessoal e de dinheiro demonstrar que sou um criminoso, mas não tenho medo e explicarei que defendi o meu país”, afirmou.

O líder da extrema-direita italiana assegura que aplicou a sua “política de portos fechados” para tentar pressionar o resto dos Estados-membros da União Europeia (UE) a aceitar a realocação destas pessoas.

Em janeiro, e por instrução do próprio Salvini, a Liga votou na Junta de Imunidade Parlamentar do Senado a favor de permitir o seu julgamento, uma estratégia do partido de extrema-direita que, segundo referiu então a imprensa, visava ganhar notoriedade e votos antes das eleições regionais em Emília-Romanha.

A votação na Junta não é, no entanto, vinculativa e a decisão final cabe apenas ao Senado, que hoje votou a favor de um julgamento.

Salvini encontra-se atualmente na oposição, depois de ter abandonado em agosto passado a aliança governamental que mantinha com o Movimento 5 Estrelas (M5S, antissistema), numa tentativa fracassada de provocar eleições gerais antecipadas em Itália.

O M5S e PD acabariam por unir forças para dirigir o país e impedir a subida ao poder de Salvini, uma vez que as sondagens atribuíam na altura ao líder da extrema-direita 36% das intenções de voto.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/matteo-salvini-vai-julgado-308239

Itália | Salvini insiste que defendeu Itália ao bloquear migrantes no Mediterrâneo

 
O ex-ministro italiano Matteo Salvini, investigado por ter bloqueado migrantes no Mediterrâneo, insistiu hoje que defendeu Itália com tal decisão, a poucos dias do Senado determinar se o político irá comparecer diante dos tribunais.
 
uma loucura, não sei quanto custa em termos de pessoal e de dinheiro demonstrar que sou um criminoso, mas não tenho medo e explicarei que defendi o meu país", afirmou o ex-ministro do Interior e líder do partido de extrema-direita Liga, numa entrevista publicada no diário italiano La Stampa.
 
Na quarta-feira, o Senado (câmara alta do parlamento italiano) irá votar e determinar se o ex-ministro do Interior, investigado por ter impedido o desembarque de 131 migrantes em julho de 2019, deve comparecer diante dos tribunais pelo sequestro destas pessoas, que foram mantidas a bordo de um navio da Guarda Costeira italiana durante cinco dias no Mediterrâneo.
 
O líder da extrema-direita italiana assegura que aplicou a sua "política de portos fechados" para tentar pressionar o resto dos estados-membros da União Europeia (UE) a aceitar a realocação destas pessoas.
 
Em janeiro, e por instrução do próprio Matteo Salvini, a Liga votou na Junta de Imunidade Parlamentar do Senado a favor de permitir o julgamento do político, uma estratégia do partido de extrema-direita que, segundo referiu então a imprensa, visava ganhar notoriedade e votos antes das eleições regionais em Emília-Romanha.
 
A Liga acabaria por perder na região de Emília-Romanha contra o Partido Democrata (centro-esquerda).
 
A votação na Junta não é vinculativa e a decisão final cabe apenas ao Senado.
 
Matteo Salvini encontra-se atualmente na oposição, depois de ter abandonado em agosto passado a aliança governamental que mantinha com o Movimento 5 Estrelas (M5S, antissistema), numa tentativa fracassada de provocar eleições gerais antecipadas em Itália.
 
O M5S e PD acabariam por unir forças para dirigir o país e impedir a subida ao poder de Salvini, uma vez que as sondagens atribuíam na altura ao líder da extrema-direita 36% das intenções de voto.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | imagem: © Reuters

Leia em Notícias ao Minuto: 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/italia-salvini-insiste-que-defendeu.html

[Manlio Dinucci] COM GUERINI, AINDA MAIS LIGADOS AO PENTÁGONO


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“Relação historicamente privilegiada, que é necessário reforçar o mais possível": assim, na sua visita a Washington (29-31 de Janeiro), o Ministro da Defesa, Lorenzo Guerini (PD) definiu a ligação da Itália com os Estados Unidos.
O Secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, definiu a Itália como “um sólido aliado NATO” que, albergando mais de 34.000 militares e outros funcionários do Pentágono, “desempenha um papel vital na nossa projecção de força na Europa, no Mediterrâneo e no norte da África”.
O papel da Itália é mais importante de tudo quanto diga o mesmo Esper. O Pentágono pode lançar do nosso território, através dos comandos e das bases dos USA/NATO, operações militares numa área que, do Atlântico se estende à Rússia e, ao sul, a toda a África e ao Médio Oriente. Sempre com o consentimento e com a colaboração do Estado italiano.
“Ambos os países - sublinha o comunicado oficial do Pentágono - reconhecem a influência desestabilizadora do Irão no Médio Oriente e concordam em continuar a trabalhar juntos para conter as actividades iranianas, cada vez mais perturbadoras”. É assim cancelada a posição formal assumida pelo Governo italiano (e, portanto, pelo próprio Guerini) que, após o assassínio de Soleimani ordenado por Trump e a reacção iraniana, tinha sublinhado a necessidade de “evitar uma escalada posterior e favorecer uma redução da tensão através da diplomacia”. Confirmando que a decidir é Washington e não Roma, Guerini declarou, na conferência de imprensa no Pentágono, que “a Itália decidiu permanecer no Iraque após uma conversa telefónica com o Secretário Esper”.
Guerini - informa o Ministério da Defesa - também foi recebido pelo Conselheiro do Presidente Trump, Jared Kushner, “promotor do recente plano de paz para o Médio Oriente”, ou seja, do plano de criar um “Estado Palestiniano” segundo o modelo das “reservas índias” criadas pelos EUA, no século XIX.
O Ministro Guerini também teve, de Esper, alguns puxões de orelhas: a Itália deve empenhar-se mais para levar a sua despesa militar (cerca de 70 milhões de euros por dia) a, pelo menos, 2% do PIB (cerca de 100 milhões de euros por dia ); deve limitar também ou proibir o uso da tecnologia chinesa 5G, em particular a da Huawei, que “compromete a segurança da Aliança”.F-35 No entanto, imediatamente a seguir, o Ministro Guerini teve a sua maior satisfação: o Chefe do Pentágono agradeceu-lhe por “ter reforçado o papel da Itália como parceiro fundamental dos Estados Unidos na indústria da Defesa, e pelo seu forte apoio ao programa do caça F-35, no qual a Itália, um parceiro de segundo nível, fez investimentos importantes na pesquisa e no desenvolvimento”.
Em Washington - lê-se num comunicado publicado em Roma - o Ministro Guerini encontrou-se com “representantes da indústria italiana da Defesa e com os principais ‘think tanks’ do sector”.
Em primeiro lugar, certamente, com os dirigentes da Leonardo - a maior indústria militar italiana, da qual o Ministério da Economia e Finanças é o principal accionista - que nos EUA fornece produtos e serviços às forças armadas e às agências de inteligência/serviços secretos, e em Itália gere a fábrica de Cameri dos caças F-35 da Lockheed Martin.
Guerini também se reuniu, em Washington, com os gerentes da Fincantieri, controlada em mais de 70% pelo Ministério da Economia e Finanças. Nos EUA, o Fincantieri Marine Group constrói navios de combate costeiros para a US Navy. Quatro navios do mesmo tipo estão agora a ser construídos por esta empresa Fincantieri para a Arábia Saudita, sob um contrato de 2 biliões de dólares, estipulado pela Lockheed Martin.
Em 2019, enquanto Fincantieri, controlada pelo governo, assinava o contrato para a construção de navios de guerra para a Arábia Saudita, a Câmara aprovava uma moção, apresentada pela maioria do governo, que pedia um embargo à venda de armamentos à Arábia Saudita.
il manifesto, 4 de Fevereiro de 2020

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DECLARAÇÃO DE FLORENÇA Para uma frente internacional NATO EXIT, em todos os países europeus da NATO DANSK DEUTSCH ENGLISH ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO NEDERLANDS PORTUGUÊS ROMÎNA SLOVENSKÝ SVENSKA TÜRKÇE РУССКИЙ

Manlio DinucciGeógrafo e geopolitólogo. Livros mais recentes: Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016, Guerra Nucleare. Il Giorno Prima 2017; Diario di guerra Asterios Editores 2018; Premio internazionale per l'analisi geostrategica assegnato il 7 giugno 2019 dal Club dei giornalisti del Messico, A.C.
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos Email: luisavasconcellos2012@gmail.com Webpage: NO WAR NO NATOimage

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Nazi-fascismo em Itália | Salvini não é invencível

 
 
Jorge Almeida Fernandes | Público | opinião
 
O percurso da Liga parecia uma marcha triunfal, imparável ou até inexorável. O mito da infalibilidade, que tanto beneficiava o líder de extrema-direita italiano, desfez-se no domingo, nas eleições da Emília-Romanha.
 
Foi a primeira derrota de Matteo Salvini (26.01). As eleições de domingo, na Emília-Romanha (Norte de Itália), assinalam o fim da sua invencibilidade. 
 
O seu percurso parecia uma marcha triunfal e imparável. Ao fim de dois anos de sucessos eleitorais, cujo apogeu foi a vitória nas eleições europeias de 2019, em que a Liga se tornou no maior partido italiano, Salvini fez uma desmesurada aposta estratégica: conquistar uma “região vermelha”, governada pela esquerda há 75 anos, e que é, simultaneamente, uma região modelo, rica, moderna e com altos índices de bem-estar. Seria o começo da “conquista de Roma”. Errou. E perdeu.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/nazi-fascismo-em-italia-salvini-nao-e.html

Extrema-direita perde eleições regionais na Itália, em duro golpe para Salvini

247 - O político de extrema-direita italiano Matteo Salvini sofreu um duro golpe para seus planos de voltar a governar o país, coma derrota do seu partido em eleições regionais realizadas neste domingo.

De acordo com os primeiros resultados parciais, a candidata da Liga perdeu para a centro-esquerda nas eleições regionais da Emilia Romana (norte), nas quais Salvini aspirava a derrubar o governo e pedir eleições antecipadas.

O atual presidente da região, Stefano Bonaccini, do Partido Democrático (esquerda), supera 50% dos votos, enquanto a candidata da Liga, Lucia Borgonzoni, alcança 43%.

"Ganhamos sem tanto alarde", festejou Bonaccini, cujo estilo sóbrio e moderado foi premiado em comparação ao de Salvini, arrogante e agressivo.

O resultado na Emilia Romana é crucial para a frágil coalizão que governa a Itália, formada pelo PD e pelo Movimento 5 Estrelas, que temia que uma vitória da extrema-direita neste reduto da centro-esquerda provocasse a queda do governo, informa a AFP.

Salvini tem trunfo na manga para pedir novamente eleições antecipadas

Angelo Carconi / EPA

Matteo Salvini

Uma vitória da Liga nas eleições regionais de Emilia Romagna pode dar a Matteo Salvini o pretexto para exigir eleições antecipadas em Itália.

 

Matteo Salvini continua de olhos postos no cargo de primeiro-ministro e pode voltar a pedir eleições antecipadas no país. Segundo o Jornal Económico, tudo depende de como de desenrolem as eleições na região de Emilia Romagna, no domingo, dia 26 de janeiro.

Um bom resultado da Liga, partido liderado pelo antigo ministro do Interior, e um mau desempenho do Partido Democrata e do Movimento 5 Estrelas pode desencadear um pedido de eleições antecipadas.

A vitória de Salvini pode ser suficiente para pressionar o atual Governo de coligação. “Eles têm medo, estão aterrorizados. No domingo, vocês dar-me-ão poderes para enviá-los para casa”, atirou o político de ultradireita. O sucesso está agora nas mãos de Lucia Borgonzoni, a líder regional da Liga.

 
 

Segundo a Euronews, ainda este domingo, em Bolonha, 40 mil pessoas saíram às ruas em mais uma demonstração do movimento antifascista Sardinhas. Os manifestantes reuniram-se em protesto contra o discurso de “ódio e divisão” de Matteo Salvini. O objetivo é tentar influenciar as eleições regionais que podem pender para a direita.

A região rica de Emilia Romagna é tradicionalmente governada por uma coligação de esquerda e da democracia cristã, razão pela qual uma vitória do partido de Salvini pode dar-lhe a força necessária para exigir eleições antecipadas. Com o Governo de coligação a atravessar grandes dificuldades, este pode ser o contexto perfeito para as pretensões do antigo ministro do Interior.

Ainda no mês passado, Salvini disse acreditar que se tornaria primeiro-ministro em 2020 e mostrou vontade de melhorar as relações com os parceiros da União Europeia. Salvini acredita que o seu retorno está próximo, enquanto a nova coligação luta para chegar a um acordo sobre questões políticas cruciais e reiniciar a economia estagnada do país.

“Estou a utilizar esse tempo para forjar novas alianças e expandir a minha rede“, disse Salvini ao jornal italiano Libero, numa entrevista publicada na segunda-feira. “O novo governo de Conte já durou muito. Conheci empresários, operários, jovens, imigrantes também. Eles estão fartos deles”, disse Salvini.

“Quero fazer parte de uma frente internacional que inclui Donald Trump, que será reeleito, Boris Johnson, Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu. Estes são todos os líderes que a esquerda criminaliza, mas todos têm sido esmagadoramente apoiados pelo povo”, acrescentou.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/salvini-pedir-eleicoes-antecipadas-303365

Jesus judeu é uma ofensa aos cristãos, afirma político italiano

Um vereador italiano causou grande polêmica por criticar uma sobrevivente do holocausto e afirmar que chamar Jesus de judeu é uma ofensa aos cristãos.

Tanto os quatro Evangelhos como as principais igrejas cristãs tradicionais têm dúvidas sobre a origem judaica de Cristo, e é por isso que as declarações de Fabio Tuiach, um membro do Conselho da cidade de Trieste, no nordeste da Itália, provocaram indignação pelo mundo.

Os comentários de Tuiach estão relacionados a Liliana Segre, uma sobrevivente do Holocausto de 89 anos, que recentemente foi colocada sob proteção policial depois de receber diversas mensagens de ódio antissemitas nas redes sociais.

 

​Depois de fazer declarações contra a Parada Gay em Trieste, onde ele propôs "um rosário na praça pública para reparar a abominação" e depois de dizer que "o feminicídio é uma invenção da esquerda", a última "pérola" de Fabio Tuiach.

Segre, que é senadora no Parlamento italiano, converteu-se em um alvo de ameaças desde que pediu a criação de um comitê parlamentar para combater o racismo e o discurso de ódio. A partir daí diversos povoados e cidades da Itália começaram a apoiá-la.

"Convido com prazer essa linda vovozinha para tomar um chá, a respeito muito. Mas como alguém que é profundamente católico, fiquei confuso e ofendido por ela dizer que Jesus era judeu, sendo que para mim ele era o filho de Deus", afirmou Tuiach na Assembleia.

Os comentários renderam diversas críticas ao político italiano nas redes sociais, depois de causar indignação nos usuários.

 

Desculpe, alguém disse para Fabio Tuiach que Jesus, além de ser judeu, morreu crucificado?

Tuiach é um boxeador de peso pesado e foi eleito para o conselho municipal de Trieste em 2016, quando servia a La Liga, partido contra imigração, liderado por Matteo Salvini. Agora, faz parte do partido Forza Nuova, de direita.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/mundo_insolito/2019120314846387-jesus-judeu-e-uma-ofensa-aos-cristaos-afirma-politico-italiano/

A emergência climática , drones e vigilancia totalitaria.

A Itália na primeira linha da guerra dos drones

Aterrou na base USA/NATO, em Sigonella, na Sicília, depois de um voo de 22 horas a partir da base aérea de Palmdale, na Califórnia, o primeiro drone do sistema AGS (Alliance Ground Surveillance) da NATO, uma versão aperfeiçoada do drone Global Hawk dos EUA (Falcão Global). De Sigonella, principal base operacional, este e mais quatro aviões do mesmo tipo com pilotagem remota, apoiada por diferentes estações terrestres móveis, permitirão “vigiar”, ou seja, espiar vastas áreas terrestres e marítimas do Mediterrâneo e de África, do Médio Oriente e do Mar Negro.
Os drones NATO teleguiados de Sigonella, capazes de voar durante 16.000 km a uma altitude 18.000 m, irão transmitir para a base os dados recolhidos. Estes, depois de serem analisados pelos operadores de mais de 20 estações, serão inseridos na rede criptografada, chefiada pelo Supremo Comandante Aliado na Europa, sempre um general USA, nomeado pelo Presidente dos Estados Unidos.

O sistema AGS, que se tornará operacional na primeira metade de 2020, será integrado no Hub de Direcção Estratégica para o Sul: o centro de Serviços Secretos/Inteligência que, no quartel general da NATO, em Lago Patria (Nápoles), sob comando USA, tem a tarefa de recolher e analisar informações funcionais para operações militares, sobretudo, em África e no Médio Oriente.
A principal base para o lançamento dessas operações, efectuadas, principalmente, em segredo, com drones de ataque e forças especiais, é a de Sigonella, onde estão localizados os drones US Reaper, armados com mísseis e bombas guiadas por laser e satélite. Os drones de ataque e forças especiais, enquanto em acção, estão ligados, através da estação MUOS, de Niscemi (Caltanissetta), ao sistema militar de comunicações por satélite de alta frequência que permite ao Pentágono controlar, através da sua rede de comando e comunicações, drones e caça-bombardeiros, submarinos e navios de guerra, veículos militares e divisões terrestres, enquanto estão em movimento, em qualquer parte do mundo.
No mesmo âmbito, operam os 15 drones Predator e Reaper e os outros da Força Aérea Italiana, teleguiados pela base de Amendola, em Puglia. Os Reaper italianos também podem ser armados com mísseis e bombas guiadas a laser, para missões de ataque.
O sistema AGS, que potencia o papel da Itália na “guerra dos drones”, é realizado com “contribuições significativas” de 15 Aliados: Estados Unidos, Itália, Alemanha, Noruega, Dinamarca, Luxemburgo, Polónia, Roménia, Bulgária, República Checa, Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia, Eslovénia. A principal entidade contratada, que fabrica este sistema é a firma norte americana, Northrop Grumman. A empresa italiana Leonardo, fornece duas estações terrestres transportáveis.
A “contribuição” italiana para o sistema AGS consiste, além de nela estar incluída a disposição da principal base operacional, em comparticipar nas despesas, inicialmente, acima de 210 milhões de euros. Outros 240 milhões de euros foram despendidos na aquisição dos drones Predator e Reaper. Incluindo os outros já adquiridos e os que se espera que sejam comprados, a despesa italiana com os drones militares aumenta para cerca de um bilião e meio de euros, à qual se juntam os custos operacionais. Pago com dinheiro público, no contexto de uma despesa militar que está prestes a passar da média actual de cerca de 70 milhões de euros por dia, para cerca de 87 milhões de euros por dia.
Os investimentos italianos sucessivos em drones militares acarretam consequências que vão mais além das económicas. O uso de drones de guerra para operações secretas sob o comando USA/NATO, retira ainda mais ao Parlamento, qualquer poder real de tomada de decisão sobre a política militar e, consequentemente, sobre a política externa. A destruição recente de um Reaperitaliano (que custou 20 milhões de euros), ao sobrevoar a Líbia, confirma que a Itália está envolvida em operações militares secretas, violando o Artigo 11 da nossa Constituição.

Via: FOICEBOOK http://bit.ly/2OEDYn2

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/12/01/a-emergencia-climatica-drones-e-vigilancia-totalitaria/

A Itália na coligação “antiterrorismo”

 
 
Manlio Dinucci*
 
A Coligação Antiterrorista reuniu-se em 14 de Novembro de 2019 em Washington, a pedido expresso da França, ultrapassada pela reviravolta dos EUA na Síria. Essa reunião não mudou nada no jogo dos Estados Unidos e dos seus aliados, mas permitiu ao Secretário de Estado Mike Pompeo colocar, novamente, os franceses no seu lugar como simples executantes. É também uma oportunidade para Manlio Dinucci fazer um balanço sobre as proezas desta coligação.
 
O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio, acolhendo em Roma, os cinco soldados feridos no Iraque, declarou que “o Estado italiano nunca recuará um centímetro diante da ameaça terrorista e reagirá com toda a sua força diante dos que semeiam terror”. Voou, então, para Washington, a fim de participar na reunião de grupo restrito da “Coligação Global contra o Daesh”, do qual fazem parte, sob orientação USA, a Turquia, a Arábia Saudita, o Catar, a Jordânia e outros países que apoiaram o Daesh/ISIS e formações terroristas análogas, fornecendo-lhes armas e treino de combate (conforme documentamos neste jornal).
 
A Coligação - que inclui a NATO, a União Europeia, a Liga Árabe, a Comunidade dos Estados do Sahel/Sahara e a Interpol, mais 76 Estados individuais - afirma no seu comunicado de 14 de Novembro, “ter libertado o Iraque e o nordeste da Síria” do controlo do Daesh/ISIS», embora seja evidente que as forças da Coligação deixaram, deliberadamente, a mão livre ao Daesh/ISIS [1].
 
Esta e outras formações terroristas foram derrotadas apenas, quando a Rússia interveio militarmente em apoio às forças do governo sírio.
 
 
A Coligação também reivindica ter “fornecido 20 biliões de dólares em assistência humanitária e para a estabilização do povo iraquiano e sírio, treinado e equipado mais de 220.000 membros das forças de segurança para estabilizar as comunidades locais”. O objectivo desta “assistência” é, na realidade, não a estabilização, mas a contínua desestabilização do Iraque e da Síria, fomentando instrumentalmente, sobretudo, as diversas componentes do independentismo curdo, para desagregar esses Estados nacionais, controlar o seu território e as suas reservas de energia.
 
Como parte dessa estratégia, a Itália, definida como “um dos maiores contribuintes da Coligação”, está empenhada no Iraque, principalmente, no adestramento das “forças de segurança curdas” (Peshmerga), em particular, no uso de armas anti-tanque, morteiros, artilharia e espingardas de precisão, em cursos especiais para franco-atiradores.
 
Operam, actualmente, no Iraque, cerca de 1.100 soldados italianos, divididos em diversas ‘task force’/grupos de trabalho, em vários lugares, equipados com mais de 300 veículos terrestres e 12 meios aéreos, com uma despesa, em 2019, de 166 milhões de euro.
 
A do Iraque está apoiada por uma componente aérea italiana no Kuwait, com 4 caças-bombardeiros Typhoon, 3 drones Predator e um avião-tanque para reabastecimento em voo.
 
Com toda a probabilidade, as forças especiais italianas, às quais pertencem os cinco feridos, participam em acções de combate, mesmo que a sua tarefa oficial seja só de treino. O emprego de forças especiais é em si, secreto. Agora, torna-se ainda mais secreto porque o seu comando, o COMFOSE, foi transferido do quartel Folgore, em Pisa, para a área vizinha da base de Camp Darby, o maior arsenal USA fora da pátria, onde também são realizadas actividades de treino.
 
Na Coligação, a Itália também tem a tarefa de co-dirigir o “Grupo financeiro de combate ao “ISIS”, juntamente com a Arábia Saudita e os Estados Unidos, ou seja, aqueles que financiaram e organizaram o armamento das forças do ISIS e de outras formações terroristas [2].
 
Fortalecido com todos estes méritos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Di Maio, apresentou em Washington a proposta, imediatamente aceite, de que seja a Itália a acolher a reunião plenária da Coligação, em 2020. Assim, a Itália terá a honra de receber oponentes infatigáveis do terrorismo como a Arábia Saudita que, depois de financiar o ISIS, agora gasta os seus petrodólares para financiar a sua guerra terrorista, no Iémen.
 
 
 
Notas:
[2] « Arms Airlift to Syria Rebels Expands, With Aid From C.I.A. », par C. J. Chivers and Eric Schmitt, The New York Times, March 14, 2013. “Milhares de milhões de dólares de armas contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Julho de 2017.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/a-italia-na-coligacao-antiterrorismo.html

MANLIO DINUCCI: A ITÁLIA NA COLIGAÇÃO «ANTITERRORISMO»

Copiado de : https://nowarnonato.blogspot.com/2019/11/pt-manlio-dinucci-arte-da-guerra-italia.html
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A Arte da Guerra A Itália na coligação “antiterrorismo” Manlio Dinucci
 
O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio, acolhendo em Roma, os cinco soldados feridos no Iraque, declarou que “o Estado italiano nunca recuará um centímetro diante da ameaça terrorista e reagirá com toda a sua força diante dos que semeiam terror”. Voou, então, para Washington, a fim de participar na reunião de grupo restrito da “Coligação Global contra o Daesh”, do qual fazem parte, sob orientação USA, a Turquia, a Arábia Saudita, o Catar, a Jordânia e outros países que apoiaram o Daesh/ISIS e formações terroristas análogas, fornecendo-lhes armas e treino de combate (conforme documentamos neste jornal).
 
A Coligação - que inclui a NATO, a União Europeia, a Liga Árabe, a Comunidade dos Estados do Sahel/Sahara e a Interpol, mais 76 Estados individuais - afirma no seu comunicado de 14 de Novembro, “ter libertado o Iraque e o nordeste da Síria” do controlo do Daesh/ISIS», embora seja evidente que as forças da Coligação deixaram, deliberadamente, a mão livre ao Daesh/ISIS.
Esta e outras formações terroristas foram derrotadas apenas, quando a Rússia interveio militarmente em apoio às forças do governo sírio.
 
A Coligação também reivindica ter “fornecido 20 biliões de dólares em assistência humanitária e para a estabilização do povo iraquiano e sírio, treinado e equipado mais de 220.000 membros das forças de segurança para estabilizar as comunidades locais”. O objectivo desta “assistência” é, na realidade, não a estabilização, mas a contínua desestabilização do Iraque e da Síria, fomentando instrumentalmente, sobretudo, as diversas componentes do independentismo curdo, para desagregar esses Estados nacionais, controlar o seu território e as suas reservas de energia.
 
Como parte dessa estratégia, a Itália, definida como “um dos maiores contribuintes da Coligação”, está empenhada no Iraque, principalmente, no adestramento das “forças de segurança curdas” (Peshmerga), em particular, no uso de armas anti-tanque, morteiros, artilharia e espingardas de precisão, em cursos especiais para franco-atiradores.
 
Operam, actualmente, no Iraque, cerca de 1.100 soldados italianos, divididos em diversas ‘task force’/grupos de trabalho, em vários lugares, equipados com mais de 300 veículos terrestres e 12 meios aéreos, com uma despesa, em 2019, de 166 milhões de euro.
A força do Iraque está apoiada por uma componente aérea italiana no Kuwait, com 4 caças-bombardeiros Typhoon, 3 drones Predator e um avião-tanque para reabastecimento em voo.
Com toda a probabilidade, as forças especiais italianas, às quais pertencem os cinco feridos, participam em acções de combate, mesmo que a sua tarefa oficial seja só de treino. O emprego de forças especiais é em si, secreto. Agora, torna-se ainda mais secreto porque o seu comando, o COMFOSE, foi transferido do quartel Folgore, em Pisa, para a área vizinha da base de Camp Darby, o maior arsenal USA fora da pátria, onde também são realizadas actividades de treino.
 
Na Coligação, a Itália também tem a tarefa de co-dirigir o “Grupo financeiro de combate ao “ISIS”, juntamente com a Arábia Saudita e os Estados Unidos, ou seja, aqueles que financiaram e organizaram o armamento das forças do ISIS e de outras formações terroristas (ver a pesquisa do New York Times, em 2013).
 
Fortalecido com todos estes méritos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Di Maio, apresentou em Washington a proposta, imediatamente aceite, de que seja a Itália a acolher a reunião plenária da Coligação, em 2020. Assim, a Itália terá a honra de receber oponentes infatigáveis do terrorismo como a Arábia Saudita que, depois de financiar o ISIS, agora gasta os seus petrodólares para financiar a sua guerra terrorista, no Iémene.
 
il manifesto, 18 Novembro 2019
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DECLARAÇÃO DE FLORENÇA
Para uma frente internacional NATO EXIT,
em todos os países europeus da NATO
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PORTUGUÊS ROMÎNA SLOVENSKÝ SVENSKA TÜRKÇE РУССКИЙ
Manlio DinucciGeógrafo e geopolitólogo. Livros mais recentes: Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016, Guerra Nucleare. Il Giorno Prima 2017; Diario di guerra Asterios Editores 2018; Premio internazionale per l'analisi geostrategica assegnato il 7 giugno 2019 dal Club dei giornalisti del Messico, A.C.
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

É na Itália que se joga o futuro da Europa

É na Itália que se joga o futuro da Europa

(Denis Collin, 12 de Outubro de 2018)

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Desde a formação deste estranho governo Liga-M5S, a Itália tornou-se para os autoproclamados progressistas o o modelo perfeito de governo que se deve rejeitar. Salvini é um fascista, o seu governo é fascista e não há pois necessidade de discutir seja o que for à volta disto. Aquele que pede uma análise um pouco mais aprofundada, um pouco mais subtil já está a fazer o jogo do fascismo, tecendo a tela do “vermelho-castanho” ou a organizar a frente única dos “populistas” e dos soberanos, duas categorias que qualquer homem de esquerda deve abominar acima de tudo.

Deixem-nos entretanto permitir regressar à situação da Itália de hoje e à realidade deste governo. Primeiro devemos começar por eliminar as acusações de fascismo, de regresso aos tempos sombrios da nossa história e outras loucuras da mesma farinha. O fascismo é violência política e gangues armadas. Quantas sindicalistas foram saqueados pelas hordas de salvinistas? Quantos antirracistas ou dirigentes de esquerda (“no borders”) foram forçados a beber óleo de rícino? Quantos intelectuais foram deportados para as ilhas Lipari, quantos comunistas foram presos, quantos deputados socialistas foram assassinados? Bem, não me vão dizer que já não há nem comunistas nem socialistas, mas o desaparecimento dessas duas forças políticas não é absolutamente um mau golpe praticado por Salvini. Os líderes socialistas e comunistas, os Craxi e os Occhettos, eram suficientemente grandes para afundar os seus próprios partidos. E a esquerda faria melhor interrogar-se porque é que os líderes comunistas fizeram “Hara-Kiri” no Congresso de Bolonha em 1991. Porque razão é que os Alema, Veltroni e Tutti quanti que presidiram aos destinos do PDS se desfizeram nesta coisa infame, o PD, uma máquina política inteiramente no serviço do capitalismo globalizado e da política da União Europeia, aproveitando-se cada um da sua passagem pelo poder para fazer engolir uma nova purga pelo povo italiano. Como Romano Prodi, antigo líder da “esquerda”, disse ontem, “ele estava a obedecer às regras europeias, mesmo quando elas não são inteligentes”. Está tudo dito.

Um segundo ingrediente do fascismo é a Aliança do submundo com o exército e a grande capital. Não há, obviamente, tal coisa na Itália de hoje. O submundo da máfia, pode-se encontrar na Liga, sem dúvida, mas também muito bem infiltrados nos “honoráveis” partidos tradicionais de governo, estando na primeira linha Forza Italia e o PD, que assumiu as piores tradições da democracia cristã, na versão de Andreotti e, ao mesmo tempo, o gosto da conspiração tão cara ao PCI. O processo realizado no ano passado contra a “máfia capital” de Roma colocou tudo isso à luz do dia. Em todo o caso, o grande capital não apoia realmente Salvini e o jornal da pequena-burguesia intelectual e mesquinha e da burguesia de esquerda, La Repubblica não lhe dão tréguas com as suas críticas. O Corriere della Sera, a grande burguesia do Norte feita em jornal também não lhe é mais favorável. Por outro lado, a tradicional pequena-burguesia e alguns dos trabalhadores apoiam-no, bem como algumas franjas dos capitalistas médios, mas estes claramente preferem Berlusconi, embora a carruagem do Cavaliere ande hoje muito oscilante e já não puxe o Carroccio.

Ideologicamente, a Liga é o produto de uma transformação bizarra. Nascida como um movimento secessionista no norte, com o objetivo de construir um partido da Padânia e assim chamado mais ou menos independente, este partido era racista, especialmente para com os italianos do Sul (Roma sendo muitas vezes englobadas no Sul). Por isso, também era ultrajantemente pró-europeia: uma Padânia independente, segundo os seus dirigentes da época, encontrou o seu verdadeiro lugar numa Europa desembaraçada dos Estados centralizantes. Mudando o que precisa de ser mudado, nós poderíamos reconciliar este movimento de separatistas catalães que não são fascistas mas são adornados preferivelmente com todas as virtudes da esquerda e da extrema- esquerda… Após a eliminação de Bossi, que dela se tinha servido como uma fonte de proveitos, a Liga foi completamente reorganizada. Já não se contentam em ser um partido supletivo de Berlusconi, transformou-se num partido nacional italiano, procurou estabelecer-se no Sul e tornou-se pelo menos “eurocéptico”. e o seu “racismo” para com os italianos do Sul transformou-se preferivelmente em xenofobia geral, dirigida entretanto mais diretamente de encontro às ondas de “emigrantes”.

Ainda é necessário entender porque é que os seus ataques aos “migrantes” encontraram um tão amplo eco na população, o que, em primeiro lugar, permitiu que o Liga passasse de 4 para 18% nas eleições gerais e Salvini tivesse um enorme aumento de popularidade nas sondagens (mais de 60% de Italianos). Geralmente, a xenofobia é bastante bem partilhada e nenhuma nação existe se os seus cidadãos não preferem os seus concidadãos aos estrangeiros. Rousseau havia dito a este respeito palavras definitivas que as almas caridosas do globalismo descabelado não querem de modo nenhum ouvir, embora se saiba que em todas as latitudes os povos gostam de permanecer “donos em casa”, que os seus governos tenham um controle vigilante sobre as suas fronteiras e se saiba também que ninguém gosta de ser invadido por estrangeiros, sobretudo estrangeiros tão estranhos. Além disso, os franceses que dão lições de humanidade para o mundo inteiro fazem um controle exigente sobre a fronteira franco-italiana: nunca quer que um migrante possa passar de Itália para a França.

No caso da Itália, estes dados gerais não tinham sido muito jogados e os italianos durante anos foram muito mais hospitaleiros do que a maioria dos seus vizinhos. A Itália está perto da Tunísia e da Líbia e durante anos a sua Marinha conseguiu sozinha salvar os barcos dos traficantes que naufragaram. Centenas de milhares de refugiados foram recebidos, atendidos e muitas vezes integrados por um governo que também forneceu apoio substancial a todos os recém-chegados. Durante anos, os italianos pediram a outros governos europeus para os ajudarem e assumirem a sua parte deste fardo. Em vão. A UE apenas lembrou a Itália as restrições de Maastricht. O aumento de um sentimento de hostilidade à UE e aos imigrantes tem as suas raízes aqui e não noutros locais. E neste caso Salvini explorou esse sentimento. Acrescentemos que a situação “securitária” de alguns bairros nem sempre é muito agradável. Há máfias “romenas” que competem ou se combinam com os vários ramos da máfia italiana. Em certas regiões do Sul as máfias nigerianas operam em grande escala e Salvini não teve problema nenhum em dizer que queria bons imigrantes, não bandidos. Sabemos também que Salvini deixa em “privado” descair posições menos civilizados e que assume comportamentos bastante intragáveis -mas temos o mesmo em casa. Salvini conseguiu mesmo ganhar o eleitorado cristão cujas votações mostram que seguem mais o líder da Liga do que o Papa sobre a questão do acolhimento dos refugiados e, de repente, eis pois este homem bem pouco cristão que faz a apologia da Europa cristã… Finalmente, a aliança com Marine Le Pen – há agora uma verdadeira lua-de-mel entre estes dois – e as ligações com Orban acabam de desenhar o retrato do vice primeiro-ministro italiano. Um homem de direita, apoiando-se sobre o sentimento de hostilidade para com os estrangeiros no antifascismo que na França se parece com “Pujadista”. Em suma, alguém que se sabe que é basicamente um adversário político.

Mas uma vez que este retrato está estabelecido, podemos ver que não há nada de fascista lá dentro ou então é necessário caracterizar a direita como um todo “fascista”. Se olharmos para os pacotes de decretos anti-imigração adotados no Conselho de Ministros, a Itália ainda dificilmente chega a estar ao nível da França em termos de restrições. Ao lado de Collomb, Salvini é um pouco “de armas pequenas”. E quem sabe um pouco sobre a Itália sabe perfeitamente bem que falar sobre “perigo fascista” no momento atual é pura loucura. Pelo contrário, o evento interessante, aquele sobre o qual os comentadores se deviam questionar, é a adesão de Salvini a uma aliança com o Movimento Cinco Estrelas (M5S), um movimento que poderia ser mais prontamente colocado “à esquerda”. Apoiando uma intervenção do Estado um pouco Keynesiana mas ao mesmo tempo mais ecologista e próxima das teses do decrescimento, critico do poder burocrático e corrompido e partidária da democracia direta, é aparentemente o exato oposto da Liga ! Um pomo da discórdia entre eles: a linha Tav Lyon-Turin, a que a Liga é favorável quando o M5S está muito empenhado nos movimentos “nenhum Tav”. Há, no entanto, dois pontos de convergência: em primeiro lugar, para não dizer mais, a desconfiança face à UE – vários economistas M5S são abertamente favoráveis à saída do euro e estão a trabalhar nesta direção – e depois a recusa da imigração em massa e a preocupação da identidade italiana. Se, sobre a imigração, Salvini é quem conduz a dança, acontece o contrário no orçamento, neste orçamento que pôs fora de si Juncker e Moscovici, onde é o M5S que impõe os seus pontos de vista

Hoje, o ponto crucial não é a “natureza” do governo italiano, mas o facto de ter praticado, pela primeira vez, uma dinâmica de questionamento concreto e imediato sobre os grilhões da União Europeia.

Aqui, em França, tem –se falado muito sobre “desobediência”, mas é este governo italiano que a está a pôr em prática. Onde é que vai levar? É difícil dizê-lo. A Liga foi tirada do seu espaço tradicional, muitos italianos estão a colocar as suas esperanças em Salvini que lhes parece o homem enérgico que a Itália precisa para sair do marasmo. Eles certamente estão enganados, mas as suas ilusões são um facto objetivo. Durante o mesmo período de tempo, Salvini renovou através das eleições regionais o seu pacto com… Berlusconi! Assim, a nível local, a Liga está aliada a um partido que está em oposição ao governo Liga-M5S. Como isso será possível? Ao manter esta aliança com o Il Cavaliere, a Lega envia um sinal: não somos tão loucos como os M5S e não iremos até ao rompimento com a UE! Por outro lado, o caso do orçamento poderia levar Salvini mais longe do que ele próprio teria desejado. Se a especulação é desencadeada contra a Itália (o famoso spread, ou seja, a diferença entre as taxas alemãs e italianas, que aumentou muito), o país poderia encontrar-se perante uma situação difícil. Mas, felizmente, os italianos não confiaram num homem da esquerda como Tsipras. Os dirigentes do M5S e alguns quadros da Liga estão seriamente a estudar a possibilidade de saída do euro para salvar a Itália face à especulação mais ou menos controlada por Berlim ou Paris. Regularmente, as esferas governamentais, deixam sair informações segundo as quais se prepararia para colocar em circulação em Itália uma nova moeda em vez do euro. Será que os dirigentes serão suficientemente fortes para resistir às pressões da UE? Mistério.

Os italianos têm uma série de pontos fortes a impor nesta parte tensa que estão agora a jogar. A economia italiana, apesar de ter tido um tempo difícil para conseguir sair da crise de 2008 continua a ser um exportador líquido: nem todos podem dizer o mesmo, e especialmente a França que se continua a afundar. O segundo poder industrial da Europa, atrás da Alemanha, não é a França, mas sim a Itália.

Além disso, a dívida pública italiana, ao contrário da dívida pública francesa, é predominantemente detida pelos italianos, enquanto nós temo-nos vindo a financiar nos mercados mundiais desde que Pompidou fez disso a regra. Certamente, o sistema bancário italiano é muito frágil, mas não muito mais, finalmente, do que o dos seus vizinhos. Além disso, o forte empenho dos bancos franceses nos assuntos italianos, nomeadamente o Crédit Agricole que assumiu o controlo da maior parte das grandes Caixas de Poupança do Norte (Cariparma, Carispezia, etc.), conduzirá os dirigentes franceses a avançar cautelosamente e as declarações fanfarronas do pequeno presidente francês vão pesar pouco se o colapso dos bancos italianos arrastar consigo o colapso do Crédit Agricole e da Société Générale (nada mais!). Finalmente, último ponto forte: a Itália não é a fraca Grécia, mas sim um dos membros fundadores da UE que foi trazido para os fundos batismais em Roma e já conta mais de 60 anos de idade. A saída da Itália da zona euro levaria à sua saída da zona euro – o que foi dito aos gregos para os convencer a permanecer no euro e pagar o seu preço – e isto seria o fim da UE, o desmantelamento de todo um sistema económico inteiro com uma crise profunda em todos os países europeus.

Assim, a desobediência italiana poderia ser compensadora -mais uma vez se os seus dirigentes fossem príncipes maquiavélicos e não uma variação sobre o tema mais que usado de uma grande aldrabice embrulhada numa boa embalagem como foi típico com a velha democracia cristã. Os italianos poderiam obter uma espécie de renegociação dos tratados, dando uma margem maior aos governos nacionais. Em suma, pode-se levar a uma situação intermediária entre o plano A e o plano B de France Insoumise, o Movimento liderado por Mélenchon.

Evidentemente, isto não segue os caminhos previstos pelas nossas boas gentes de “esquerda”, obviamente, não é muito puro e não tem o selo “Indicação Geográfica Protegida (IGP) garantido de esquerda”. Mas é necessário partir das realidades, não dos caprichos e dos discursos impotentes da “esquerda da esquerda”. Isso implica que se seja capaz de hierarquizar os combates, de colocar o que é decisivo em primeiro plano e de deferir para melhores dias os debates societais que só podem dividir as classes populares. Ir até ao fim de uma revolução intelectual e política radical. Se quisermos aprender lições para nós mesmos, aqui estão algumas delas:

A primeira lição é que há uma corrida em velocidade entre a Frente Nacional/Rassemblement National FN/RN e aqueles que ainda mantêm em mente, sinceramente, os ideais emancipatórios do movimento dos trabalhadores. Se o leitor não quer ter um Salvini francês, tem que abordar o eleitorado popular de FN/RN. Caso contrário, como na Itália, os restos do movimento comunista e socialista vão olhar impotentes para uma batalha em que os seus chefes não são muito brilhantes. Mas como disse Hegel, quando a história não tem grandes homens, ela inventa-os.

Segunda lição: Pare de olhar hoje com os óculos de ontem e falar sobre fascismo para todos os molhos. Marine Le Pen não é mais fascista do que Salvini, mesmo que não tenha a coragem política de sua fofoca italiana. Em qualquer caso, o RN não é um partido fascista contra o qual seria necessário fazer uma espécie de “cordão sanitário”. A democracia não é ameaçada pelas “hordas de lepénistes” mas pelas pessoas muito limpas sobre eles que controlam o estado e as grandes empresas e engajaram a grande batalha para esmagar todos os ganhos sociais e liquidar todas as liberdades democráticas. e para defender o nosso país, o nosso modelo social, os nossos valores republicanos, devemos estar prontos para fazer aliança com o diabo e até mesmo com a avó do diabo.

Terceira lição: é preciso um partido, construído metodicamente, com seções por cidade e um local por seção, federações departamentais, seguindo a organização republicana do país, com os membros que contribuem e secretários e tesoureiros, em coisas curtas muito à  “velho mundo” que são as únicas a perdurar no tempo. É necessário parar de citar Gramsci (sem o ter lido), mas sim  fazer “gramscisme prático”. A altiva France Insoumise  virou as costas para esta tarefa e não conhece outra maneira de resolver disputas dentro do movimento que não seja  a exclusão e  a omnisciência do líder supremo. Um bilhete seguro para a derrota.

Receio não estar a ser ouvido pelo pequeno mundo dos militantes. As derrotas francas, diz Régis Debray, têm a vantagem de que não nos podemos andar a contar histórias, que se é obrigado a retomar o problema a partir de zero. Nós não tivemos uma derrota franca e, em França, a decomposição da esquerda continua e é como se nada de grave se tenha passado e como se pudéssemos continuar a repetir as mesmas litanias. Nós expulsamos as fobias. Mas há uma que se está a portar bem, que nos resiste, é a demofobia, o medo do povo, o medo da palavra que vem das gentes do baixo da escala económica, das gentes d’en bas,  e que todas os políticos se recusam a ouvir. É hora de destapar os ouvidos e ouvir já o clamor das populações que se sentem cada vez mais precarizadas.


O quarto texto desta série será publicado amanhã, 17/11/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota

Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/16/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-ii-imagens-soltas-de-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-a-partir-de-alguns-dos-seus-estados-membros-3o-texto-italia-e-na-italia-que-se-joga-o-futuro/

Itália: O fim do euro está mais próximo do que se poderia pensar

O fim do euro está mais próximo do que se poderia pensar

(Avi Tiomkin,  Novembro de 2018)

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A Europa sempre foi um continente desunido, com amplas divisões étnicas, culturais, linguísticas, políticas e económicas. Dadas estas disparidades, a imposição de uma moeda única numa população que agora totaliza 340 milhões pessoas, sem dúvida, esteve condenada desde o seu início.

Um dia de acerto de contas para o euro foi adiado em 2012, quando o Presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, disse que o Banco Central Europeu faria “o que for preciso” — um mandato que viria a incluir um estímulo monetário massivo  para preservar a moeda comum.

Mas as ações desesperadas do BCE, que conduziram ao atual confronto orçamental da Itália com a União Europeia, poderiam finalmente acabar por resultar na morte do euro.

Antes da crise da zona euro de 2011-12, causada pela incapacidade de vários Estados-Membros em refinanciarem  as suas dívidas e resgatar os seus bancos em dificuldade,  era difícil imaginar que a liderança política e burocrática da Europa sacrificaria todos os princípios monetários e adotaria políticas draconianas de austeridade fiscal que infligiram danos irreversíveis numa  grande faixa da população da União Económica.  De facto, a declaração de julho de 2012 feita por Draghi — que foi considerada pelo Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner e outros, como sendo uma afirmação improvisada — pareceu, na época, ter travado   a crise.

 Mais provavelmente, foi o lançamento de uma política de flexibilização quantitativa, uma politica monetária  não convencional e expansionista, levada a cabo pelo Federal Reserve  dos EUA que precipitou o que parecia ser uma mudança positiva da trajetória europeia. No decorrer de  um curto período de tempo, em 2012, o FED adquiriu cerca de $1 milhão de milhões de ativos financeiros, com o banco do Japão a fazer o mesmo e numa escala similar. .

No entanto, os problemas da Europa nunca foram verdadeiramente atenuados. Por volta de 2015, a zona  euro foi novamente envolvido na  crise, com o foco principalmente na Grécia, cujo sistema bancário estava em perigo. Só então é que o BCE empreendeu um vasto programa de compra de activos, gastando cerca de 80 mil milhões de euros  por mês. A campanha do BCE (que está a terminar este ano) injetou  na economia europeia  um total de $2,5 milhões de milhões  ao longo de três anos e conduziu as taxas de juro até um valor negativo, no caso, de  0,4%.

Draghi foi saudado nos últimos anos como o homem que salvou a Europa. Mas a política monetária e a austeridade impostas à maioria dos europeus revelaram-se desastrosas, resultando em turbulência sociopolítica e níveis severos de desigualdade económica. O euro, afinal, era o problema, não a solução.

Não é por coincidência, dado a  medicamentação  do BCE, que Marine Le Pen recebeu 34% dos votos nas eleições presidenciais francesas mais recentes, e que o seu partido ultranacionalista está a frente do partido do Presidente Macron nas sondagens para as eleições  para o Parlamento Europeu. A Itália é atualmente liderada por uma coligação  de direita composta pela liga do Norte e pelo  Movimento populista 5 Estrelas, ou M5S.

 Mesmo na Alemanha, o partido da extrema-direita Alternativa para a Alemanha(AfD)  e o partido de esquerda Os Verdes  tiveram  grandes ganhos nas eleições estatais  recentes. A Chanceler Angela Merkel anunciou que não voltará a concorrer em dezembro pela  sua liderança partidária da União democrática cristã, e não procurará a sua reeleição como Chanceler.

Enquanto isso, o mecanismo do TARGET2 que financia as deficiências da zona euro é integralmente sustentado pelo sistema financeiro alemão, que, juntamente com os Países Baixos, Luxemburgo e Finlândia, registam  mais de $1 milhão de  milhões de transferência a favor de países que incluem a  Itália, Espanha, e, em menor grau, a França. Em retrospetiva, a flexibilização  quantitativa do BCE apenas substituiu uma solução a longo prazo.

Neste contexto, é agora importante observar atentamente a Itália. A Comissão Europeia exigiu que o novo governo da Itália, que prometeu acabar com o mal-estar económico do país, reveja o seu orçamento, reduza o nível de despesa pública e diminua o défice. Mas ao contrário da Grécia, a Itália não é um país fácil de manejar.

Matteo Salvini, líder da Liga do Norte, rotulou Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, um “inimigo da Europa”, e chamou ao euro de “moeda alemã”, acrescentando que “esta criação foi, é, e continuará a ser um erro.”

Muitos esperam que o impasse atual seja resolvido por uma política orçamental expansiva a ser aplicada a toda a Europa.  Mesmo que a Alemanha e os seus satélites concordem em pôr em prática uma  tal política,  o que é duvidoso, esta terá que ser feita a  uma escala que é suscetível de causar uma explosão inflacionária, a desestabilização de moeda, a fuga de capitais, e um aumento dramático das taxas de juros de longo prazo.

A Comissão Europeia demonstrou pouca flexibilidade nas suas negociações sobre a Brexit, com o objetivo de punir eficazmente o Reino Unido pela sua decisão de abandonar a União Europeia. Neste caso, Bruxelas (que é o capital de facto da UE) está a ter em mente a Itália .

A solução mais plausível para o último impasse parece ser “Italexit” — a saída da Itália da zona euro.  As inúmeras negações dos líderes que essa ideia “não está a ser considerada  e não existe uma tal opção” sugerem, em vez disso, que é isso que  está a ser considerado.

Dada a dimensão da economia italiana, uma tal saída precipitaria a dissolução da própria zona  euro. Como Salvini, na verdade sentido  como o líder de fato da Itália, disse recentemente sobre o euro, “só a morte é irreversível.”


(Avi Tiomkin is an adviser to hedge funds. He previously managed money for several large hedge funds and specializes in global macroeconomic analysis)


O terceiro texto desta série será publicado amanhã, 15/11/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota

Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/15/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-ii-imagens-soltas-de-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-a-partir-de-alguns-dos-seus-estados-membros-2o-texto-italia-o-fim-do-euro-esta-mais-proximo/

A crise orgânica da Itália

O marxista italiano Antônio Gramsci cunhou o termo “crise orgânica” para descrever uma crise diferente das crises financeiras, econômicas ou políticas “comuns”. Uma crise orgânica é “abrangente”, englobando a totalidade de um sistema ou ordem que, por qualquer motivo, não é mais capaz de gerar consenso social (em termos materiais ou ideológicos). Tal crise estabelece contradições fundamentais nuas no sistema, as quais as classes dominantes são incapazes de resolver.

As crises orgânicas são, ao mesmo tempo, econômicas, políticas, sociais e ideológicas – em termos gramscianos, são crises de hegemonia – e geralmente levam à rejeição dos partidos políticos, políticas econômicas e sistemas de valores estabelecidos. Todavia, elas não levam necessariamente ao rápido colapso da ordem dominante. Gramsci descreveu essas situações como interregna, em que “o velho está morrendo, e o novo ainda não pode nascer” e, durante esse período, “uma grande variedade de sintomas mórbidos” pode aparecer.

Gramsci estava falando sobre a Itália na década de 1910. Um século depois, o país está enfrentando outra crise orgânica. Mais especificamente, é uma crise do modelo pós-Tratado de Maastricht do capitalismo italiano, instaurado no início dos anos 1990. Esse modelo, argumento eu, pode ser descrito como um tipo peculiar de capitalismo comprador – um termo usualmente utilizando no contexto do antigo sistema colonial para descrever um regime no qual as classes dominantes de um país se aliam a interesses estrangeiros em troca de um papel subordinado dentro da hierarquia dominante do poder. Embora a crise esteja se formando sob a superfície há algum tempo, ela se tornou aparente nas eleições gerais realizadas em 4 de março de 2018.

Os resultados eleitorais são bem conhecidos. O establishment político que governou a Itália nos últimos 25 anos, encarnado pelo Partido Democrático (PD) e pelo Força Itália, sofreu um colapso sem precedentes, conseguindo, respectivamente, 18,7 e 14% dos votos. Enquanto isso, os dois principais partidos “anti-establishment” – o Movimento Cinco Estrelas (M5E) e a Liga (Lega) – experimentaram uma onda espetacular, vencendo, respectivamente, por 32,7 e 17,4% dos votos. No geral, a coalizão de centro-direita – que inclui, ao lado da Liga (hoje o partido dominante da coalizão), o Força Itália de Silvio Berlusconi e o pequeno partido pós-fascista Irmãos da Itália (Fratelli d’Italia) – ganhou 37% dos votos. Todos os outros partidos – do über-liberal e pró-europeu Mais Europa (+ Europa), em coalizão com o PD, ao centro-esquerdista Livre e Igual (Liberi e Uguali), um ramo do PD que concorre contra ele, e ao radical de esquerda Poder ao Povo (Potere al Popolo) – fracassaram miseravelmente. Destes, apenas o Livre e Igual ultrapassou o limite mínimo de 3% para a representação parlamentar.

Embora houvesse perdedores óbvios, a eleição não rendeu um vencedor claro. A nova lei eleitoral do país – aprovada em 2017 pelo PD, Força Itália e Liga com o objetivo claro de conter o Movimento Cinco Estrelas – exige que qualquer partido ou coalizão de partidos obtenha, ao menos, 40% dos votos (nas urnas ou por meio de uma aliança pós-eleitoral), a fim de reivindicar a maioria e assim formar um governo. O M5E e a Liga – os dois candidatos mais óbvios para formar uma estrutura de coalizão viável – se envolveram em tensas negociações. Um acordo entre as duas partes foi alcançado, embora, até a escrita deste artigo, os detalhes ainda não houvessem sido divulgados. Portanto, a forma do governo italiano permanecia incerta. Também não podemos descartar a possibilidade de que os dois partidos não tivessem conseguido superar o impasse atual, levando o presidente a nomear um governo “tecnocrático” temporário ou a convocar mesmo a novas eleições. Contudo, independente do resultado das negociações, uma coisa já era clara: a eleição de 2018 mudou para sempre o cenário político italiano.

Os frutos da austeridade

A queda do establishment político e a ascensão dos partidos “populistas” só podem ser compreendidas no contexto da “maior e mais profunda recessão da história da Itália”, como descreveu o presidente do Banco Central italiano, Ignazio Visco. Desde a crise financeira de 2007–2009, o PIB da Itália encolheu 10%, regressando a níveis vistos pela última vez há uma década. Em termos de PIB per capita, a situação é ainda mais chocante: de acordo com essa medição, a Itália regrediu a níveis de 20 anos atrás, antes de o país ter se tornado um dos membros-fundadores da moeda única. Itália e Grécia são os únicos países industrializados que ainda não viram suas atividades econômicas superarem os níveis pré-crise financeira. Como resultado, cerca de 20% da capacidade industrial da Itália foi destruída, e 30% das empresas do país entraram em default. Essa destruição de riqueza, por sua vez, provocou ondas de choque em todo o sistema bancário do país, o que foi (e ainda é) fortemente exposto a pequenas e médias empresas (PMEs).

A crise do desemprego na Itália continua sendo uma das piores de toda a Europa. A Itália tem uma taxa oficial de desemprego de 11% (12% no sul da Itália) e uma taxa de desemprego jovem de 35% (com picos de 60% em algumas regiões do sul). E isso nem sequer considera trabalhadores subempregados e desanimados (pessoas que desistiram de procurar emprego e, portanto, nem aparecem nas estatísticas oficiais). Caso levarmos em consideração essas categorias, chegamos a uma impressionante taxa de desemprego efetivo de 30%, a mais alta de toda a Europa. A pobreza também cresceu dramaticamente nos últimos anos, agora com 23% da população em risco de pobreza – cerca de um em cada quatro italianos, o nível mais alto desde 1989.

Esses números abismais são resultado de causas conjunturais e sistêmicas, embora as duas estejam, é claro, inter-relacionadas. Do ponto de vista conjuntural, elas são em grande parte resultado das severas políticas de austeridade instituídas pelo governo “tecnocrático” de Mario Monti em 2011-2013. O próprio Monti admitiu em entrevista à CNN que o objetivo das políticas de austeridade era “destruir a demanda doméstica por meio da consolidação fiscal”. Essas políticas foram prosseguidas por todos os governos posteriores, incluindo o governo Renzi (2014-2016) e o governo cessante, liderado por Paolo Gentiloni.

De fato, o “sucesso” da destruição da demanda por Monti foi agora confirmado por um profundo estudo anexado ao último plano orçamentário italiano, que conclui que as medidas de consolidação fiscal (cortes no orçamento e aumentos de impostos), adotadas no período de 2012 a 2015, reduziram o PIB italiano em quase 5% (cerca de € 75 bilhões por ano, em um total impressionante de cerca de € 300 bilhões), o consumo em 4% e o investimento em 10%, “devido aos efeitos recessivos no PIB e nos principais componentes da demanda (consumo e investimento)”.

Embora o estudo em questão analise somente o período até 2015, a posição fiscal contracionista do governo permaneceu praticamente inalterada nos últimos anos. De fato, a Itália é um dos poucos países que manteve um superávit primário significativo em seu orçamento – hoje igual a cerca de 1,5% do PIB – durante toda a recessão pós-crise, contrariamente ao senso comum econômico.[1] A consequência tem sido uma drástica erosão do Estado de bem-estar (particularmente o sistema de saúde). Ao mesmo tempo, uma variedade cada vez maior de novos impostos tem alienado também os pequenos e médios empresários.

O Partido Democrático (PD) liderava o governo desde 2013 e supervisionou a austeridade ditada pela UE e as “reformas estruturais” há mais de meia década. Dados os efeitos desastrosos dessas políticas, não surpreende que os eleitores tenham rido da narrativa de “recuperação econômica” do governo. O tão divulgado “um milhão de novos empregos” criado nos últimos quatro anos do governo do PD era composto, em grande parte, de trabalhos temporários com salários mal pagos – uma cortesia da reforma neoliberal no mercado de trabalho promovida por Matteo Renzi, chamada Lei de Empregos, que afrouxou os procedimentos de demissão e revogou o famoso Artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores de 1970, que servia para proteger os trabalhadores de demissões sem justa causa. Até o primeiro-ministro cessante, Paolo Gentiloni, admitiu que “o crescimento econômico não está reduzindo as desigualdades, mas, em muitos países, incluindo a Itália, elas ainda estão aumentando, mesmo no caso de crescimento econômico. Eles estão alcançando níveis ainda mais intoleráveis”.

Esse barril de pólvora social ficou ainda mais complicado com a explosão da chamada crise migratória. Mais de 600 mil migrantes e requerentes de asilo entraram na Itália ilegalmente desde 2014. Esse influxo alimentou ressentimento entre muitos italianos, que sentem que os migrantes recebem mais apoio do Estado do que eles próprios recebem. Isso também levou a um sentimento crescente de insegurança. Segundo uma pesquisa internacional da Ipsos realizada em julho de 2017, 66% dos italianos pensaram que havia muitos imigrantes em seu país, a segunda maior porcentagem dos 25 países pesquisados. O Partido Democrático, nas palavras de Francesco Ronchi, “ignorou essas ansiedades e tentou encobrir a gravidade do problema”. Em setembro de 2016 – no auge da crise migratória, com milhares de estrangeiros entrando na Líbia –, o então primeiro-ministro italiano Renzi declarou: “Não há emergência. Há só algumas pessoas”.

A transformação da esquerda italiana

Medo, ódio, desemprego, precariedade e pobreza: essas foram as causas da decisiva eleição de 4 de março de 2018. O Movimento Cinco Estrelas e a Liga capitalizaram a insatisfação generalizada com o status quo, concentrando-se na proteção social (em especial, o M5E), impostos mais baixos (especialmente a Liga) e maior controle da migração (ambos). Ao mesmo tempo, os eleitores puniram explicitamente o partido considerado responsável, em grande medida, pela situação: o PD. O partido é, sem dúvida, o maior perdedor daquela eleição, tendo visto seu total de votos despencar em mais da metade em apenas alguns anos (nas eleições europeias de 2014, obteve 41% dos votos). Esse desempenho abismal é mais um exemplo de “pasokificação”, em que partidos social-democratas de centro-esquerda, tais quais muitos de seus colegas de centro-direita, são punidos pelos eleitores devido ao seu abraço ao neoliberalismo e à austeridade. O termo pasokification se refere ao partido social-democrata grego PASOK, cuja existência foi praticamente eliminada em 2014 como consequência de sua condução insana da crise da dívida grega, depois de ter dominado o cenário político grego por mais de três décadas. Outros partidos de centro-esquerda que sofreram o mesmo destino nos últimos anos incluem o Partido Socialista francês e o Partido do Trabalho holandês (PvdA) – e, agora, o PD.

A pasokificação pode ser, todavia, um termo muito leve para o PD. Se o PASOK e outras formações semelhantes começaram como genuínos partidos social-democratas para só depois serem corrompidos pela ideologia neoliberal, o Partido Democrático nasceu em 2007 já como um partido de terceira via declaradamente neoliberal-centrista, em contraste com a tradição histórica (comunista e socialista) da esquerda italiana. O PD deveria ser um partido finalmente livre do peso morto da política de massa da esquerda do século XX e apto para abraçar o admirável mundo novo da política pós-ideológica. Saem as teorias pesadas, os conflitos de classe, o intervencionismo estatal e a redistribuição econômica; agora vigoram o liberalismo econômico, as regras de mercado, os direitos individuais (e não sociais), a inovação, governança e a capacidade de resposta. A criação do PD deve ser vista como o ponto final da transição de décadas da esquerda pós-comunista italiana para a direita. Esse processo começou em 1991, com a transformação do Partido Comunista Italiano (PCI) no Partido Democrático da Esquerda (PDS), que já suprimia qualquer referência ao socialismo em seu nome. Este foi posteriormente renomeado para Democratas da Esquerda e, finalmente, tendo deixado de lado qualquer referência até à “Esquerda”, para Partido Democrático. Gradualmente, o partido se afastava mais de sua base de apoio original – as classes trabalhadoras – enquanto se remodelava como um partido das (cada vez menores) classes média e alta progressistas urbanas.

O PD incorpora plenamente esse alinhamento político perverso, comum a outros partidos de centro-esquerda, entre o politicamente correto (feminismo, antirracismo, multiculturalismo, direitos LGBTQ etc.), por um lado, e a economia ultraliberal (anti-estatismo, austeridade fiscal, desregulamentação, desindustrialização, financeirização etc.), por outro, o que Nancy Fraser chamou apropriadamente de “neoliberalismo progressista”[2] – uma ideologia que nada tem a oferecer às massas crescentes de trabalhadores desempregados e superexplorados. Um fato marcante a esse respeito, como observa Nicola Melloni, é o fato de que hoje o PD é

“[..]. o único verdadeiro partido de classe, cujo eleitorado é composto principalmente por pessoas abastadas com graus mais altos. Somente 8% dos desempregados e 12% da classe trabalhadora votaram no PD. Mais interessante ainda, segundo uma pesquisa da SWG, menos de 1/3 dos eleitores que optaram pelo PCI em 1988 votaram no PD em 2018.”

Em suma, a derrota do PD só pode ser entendida no contexto da metamorfose de décadas da esquerda italiana. Isso, por sua vez, só pode ser entendido no contexto das mudanças tectônicas que ocorreram na economia política italiana nos últimos 30 anos. A esse respeito, a crise econômica do país é apenas um epifenômeno de uma crise “estrutural” muito mais profunda do capitalismo italiano (ainda que dramaticamente acelerada pelas políticas pós-crise).

Em termos econômicos, a Itália está em crise de fato desde muito antes do colapso financeiro de 2008. Até o final dos anos 1980, o país desfrutou de três décadas de crescimento relativamente robusto; então, a partir do início e meados da década de 1990, todos os seus principais indicadores econômicos – produtividade, produção industrial, crescimento per capita etc. – começaram a declinar constantemente e estagnaram desde então. Esse é, em grande parte, o resultado da adoção pela Itália de uma superestrutura econômica – estabelecida pelo Tratado de Maastricht de 1992, que abriu o caminho para o estabelecimento da União Econômica e Monetária Europeia (UEM) em 1999 – que foi (e ainda é) fundamentalmente incompatível com a economia política do país.

Como argumentou com perspicácia por Fritz W. Scharpf, ex-diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Sociedades (MPIfG), o regime do euro pode ser entendido como um processo de “convergência estrutural forçada”, destinada a impor as exportações do norte da Europa, bem como seu lucrativo modelo econômico (bem representado por países como a Alemanha e a Holanda), sobre as economias políticas muito diferentes dos países do sul (como a da Itália), que dependem muito mais da demanda interna impulsionada pelos salários. Scharpf observa que “o impacto econômico do atual regime do euro é fundamentalmente assimétrico. Ele se encaixa nas condições prévias estruturais e nos interesses econômicos dos países do norte da Europa e entra em conflito com as condições estruturais das economias políticas do sul, condenadas a longos períodos de declínio econômico, estagnação ou baixo crescimento”.

Dado os efeitos especialmente desastrosos do regime do euro na Itália, a decisão do país de entrar na União Monetária – e a defesa contínua de seu estabelecimento desse regime – pode parecer profundamente derrotista. Entretanto, como argumentamos Bill Mitchell e eu em nosso livro recente, Reclaiming the State, a UEM deve ser entendida como um projeto político e econômico. No decorrer das décadas de 1970 e 1980, a crescente pressão salarial, o aumento dos custos e o aumento da concorrência internacional causaram um aperto nos lucros, provocando a ira de grandes detentores de capital. Em um nível mais fundamental, o regime de pleno emprego “ameaçou prover as bases para transcender o capitalismo”, à medida que uma classe trabalhadora cada vez mais militante começou a se conectar com novos movimentos contraculturais exigindo uma democratização radical da sociedade e da economia. Como o economista polonês Michał Kalecki havia antecipado 30 anos antes, o pleno emprego não se tornara simplesmente uma ameaça econômica para as classes dominantes, mas também um apolítico. Compreensivelmente, esse número preocupava as elites, fato ilustrado por vários documentos publicados na época.

Soberania nacional e o paradoxo da fraqueza

O frequentemente citado relatório Crise da Democracia de 1975 da Comissão Trilateral argumentava, da perspectiva do establishment, que era necessária uma resposta multinível. Defendia não só reduzir o poder de barganha do trabalho, mas também promover “um maior grau de moderação da democracia” e um maior desinteresse (ou “não envolvimento”) da sociedade civil nas decisões do sistema político, que seriam alcançados por meio da disseminação da “apatia”. Nesse contexto, podemos entender melhor por que as elites europeias saudaram a “restrição externa” da UEM como uma maneira de despolitizar a política econômica, ou seja, de remover as políticas macroeconômicas do controle democrático e parlamentar por meio de uma redução autoimposta da soberania nacional. Seu objetivo não era simplesmente isolar as políticas econômicas dos desafios da democracia popular, mas também reduzir os custos políticos da transição neoliberal, que claramente envolvia políticas impopulares, deslocando a responsabilidade por tais medidas para instituições e fatores externos. Pode-se dizer que isso incorpora o que Edgar Grande chama de “paradoxo da fraqueza”, pelo qual as elites nacionais transferem algum poder para um formulador de políticas supranacional (parecendo, assim, mais fracas), a fim de suportarem melhor a pressão dos atores sociais, como se tais políticas constituíssem a “vontade da Europa” (tornando-se, assim, mais fortes). Como Kevin Featherstone colocou: “Compromissos vinculativos da UE permitem que os governos implementem reformas impopulares em casa, enquanto se engajam em uma ‘mudança de culpa’ sobre tais políticas para a ‘UE’, mesmo que eles próprios as tenham desejado” (ênfase adicionada).

Em nenhum lugar isso é mais claro do que no caso italiano. E é assim provavelmente porque a economia mista da Itália pós-Guerra, centrada no Estado, foi vista pelas elites dominantes do país como sendo particularmente incompatível com o paradigma neoliberal que surgiu na década de 1980. A Itália era vista como necessitada de grandes “reformas”, embora nenhum consenso popular apoiasse tais políticas. Maastricht passou a ser encarado por uma considerável parte do establishment italiano como o meio para alcançar uma transformação radical – ou neoliberalização – a economia política do país. Guido Carli, o muito influente ministro da Economia da Itália de 1989 a 1992, não escondeu isso. Carli escreveu em suas memórias

“A União Europeia implica o abandono da economia mista, o abandono do planejamento econômico, a redefinição das modalidades de composição da despesa pública, a restrição dos poderes das assembleias parlamentares em favor do governo, o repúdio ao conceito de provisões sociais gratuitas (e a subsequente reforma dos sistemas de saúde e previdência social), a redução da presença do Estado nos sistemas financeiro e industrial, o abandono dos controles de preços e tarifas.”

É claro que Carli entendeu a União Europeia como uma forma de liderar nada menos que a transformação geral da economia italiana – uma transformação que não teria sido possível ou teria sido extremamente difícil, sem as restrições externas autoimpostas (vincolo esterno), criadas primeiro pelo Maastricht e depois pelo euro. Assim, por exemplo, o governo de Amato conseguiu, em 1992, convencer a Confederação Geral do Trabalho da Itália (CGIL) a acabar com a chamada scala mobile, a indexação dos salários à inflação, não confrontando diretamente os trabalhadores, mas apelando essencialmente para a restrição externa do Sistema Monetário Europeu (SME), o sistema de taxas de câmbio semifixadas que abriu o caminho para o euro. O próprio Carli reconheceu que “a União Europeia representava um caminho alternativo para a solução de problemas que não estávamos conseguindo resolver por meio dos canais normais do governo e do parlamento”. Portanto, a decisão da Itália de ingressar no SME e na UEM não pode ser entendida unicamente em termos de interesses enquadrados nacionalmente. Pelo contrário, como James Heartfield apontou, deveria ser visto como a maneira pela qual uma parte da “comunidade nacional” (a elite econômica e política) conseguiu restringir outra parte (o trabalho).

Capitalismo comprador na Itália

Do ponto de vista do establishment, o fato de a UEM também provocar a desindustrialização e a “mezzogiornificação” do país – em benefício das empresas alemãs e francesas, que assumiram um grande número de empresas (ou adquiriram nelas participações significativas) na Itália e em outros países da periferia – e seu rebaixamento para um papel subordinado dentro da hierarquia europeia do poder, foi um pequeno preço a pagar pela vitória doméstica na guerra contra os trabalhadores. Nesse sentido, o regime econômico italiano pós-Maastricht pode ser comparado a uma forma de capitalismo comprador – um regime semicolonial no qual as classes dominantes do país se aliam essencialmente a interesses estrangeiros em troca de relações de classe domésticas mais favoráveis. Ironicamente, a esquerda pós-comunista desempenhou um papel crucial na legitimação da narrativa de vincolo esterno; no início dos anos 1990, sua subordinação ideológica ao neoliberalismo era tão profunda que seus principais representantes passaram a acreditar que a União Europeia era realmente uma oportunidade imperdível para a Itália finalmente se juntar à família de países “modernos” e “virtuosos”. Não é por acaso que o “tratamento de choque econômico” da década de 1990 (particularmente, o desmantelamento e a privatização da outrora vasta gama de indústrias estatais da Itália) foi promovido por governos de centro-esquerda.

Vemos a mesma lógica da restrição externa sendo aplicada hoje. Agora está ficando cada vez mais claro, por exemplo, que a chamada crise da dívida soberana de 2010-2011 não foi uma resposta “natural” dos mercados à dívida pública “excessiva” da Itália, mas foi amplamente “projetada” pelo Banco Central Europeu (BCE) para forçar os países a implementar a austeridade. Como recentemente observou Luigi Zingales, professor de finanças da Universidade de Chicago, o BCE finalmente interveio no mercado de títulos italiano, mas apenas após um longo atraso: “Esse atraso não se deve à incompetência, mas ao desejo explícito de impor a ‘disciplina do mercado’ – isto é, pressionar o governo a melhorar sua situação fiscal. Foi uma forma de ‘afogamento simulado’ econômico, que deixou a economia da Itália devastada e os eleitores italianos legitimamente com raiva das instituições europeias”.

A crise da dívida, combinada com a reação tardia do BCE, levou a apelos apopléticos da mídia para conter o déficit por meio de medidas emergenciais de austeridade e inaugurou o governo “tecnocrático” de Mario Monti. Porém, a única razão pela qual a Itália experimentou uma “crise da dívida soberana”, em primeiro lugar, é que, como todos os países da Zona do Euro, ela usa efetivamente uma moeda estrangeira. Muito parecido com um governo estadual, digamos, nos Estados Unidos ou na Austrália, os países da Zona do Euro tomam empréstimos em uma moeda que não controlam (eles não podem estabelecer taxas de juros nem rolar a dívida com dinheiro recém-emitido e, portanto, diferentemente países que emitem dívida em sua própria moeda, estão sujeitos ao risco de inadimplência). Como um relatório recente do BCE diz: “embora o euro seja uma moeda fiduciária, as autoridades fiscais dos Estados-membros do euro desistiram da capacidade de emitir dívida não inadimplente”.

Isso propicia uma enorme quantidade de poder não eleito e irresponsável ao BCE, que pode (e faz) usar seus poderes de emissão de moeda para impor suas próprias políticas a governos recalcitrantes (como fez na Grécia em 2015, quando cortou sua liquidez de emergência aos bancos gregos, a fim de chantagear o governo do Syriza e forçá-lo a aceitar o terceiro memorando de resgate) ou até forçar governos a renunciarem, como fez na Itália em 2011. Como o Financial Times reconheceu recentemente, o BCE efetivamente “forçou Silvio Berlusconi a deixar o cargo em favor do não eleito Mario Monti”, tornando sua deposição a condição prévia para mais apoio do BCE aos títulos e bancos italianos. Isso exemplifica o que o falecido grande economista britânico Wynne Godley quis dizer quando escreveu, em 1992, que “se [um] país desiste ou perde [o poder de emitir sua própria moeda], ele adquire o status de uma autoridade local ou colônia.”

Essa experiência foi um lembrete revelador para o establishment político italiano do pacto faustiano que eles haviam assinado ao entrarem na Zona do Euro. Ao renunciar à soberania econômica de seu país, eles também tornaram sua sobrevivência política dependente da boa vontade de tecnocratas não eleitos. É uma lição que o PD também aprendeu às suas próprias custas, depois de anos de intermináveis ​​(e enfim infrutíferas) negociações com a Comissão Europeia para obter um pequeno grau de “flexibilidade fiscal”. Podemos chamar isso de vingança da despolitização: essa estratégia se comprovou benéfica para as elites locais na consecução de seus objetivos internos, na medida em que o regime do euro foi capaz de garantir um pequeno crescimento aos países periféricos. Contudo, agora que as contradições fundamentais do sistema europeu têm vindo à tona, as elites políticas italianas se viram sem as ferramentas econômicas necessárias para manter o consenso da sociedade. Como escreve Scharpf, em países como a Itália, a União Monetária não acarretou simplesmente enormes custos socioeconômicos, mas também teve “o efeito de destruição da legitimidade democrática do governo”.

Um corolário dessa perda de legitimidade democrática é que os apelos à lógica da restrição externa não têm mais o mesmo peso que costumavam ter. Os cidadãos – não só na Itália – estão cada vez menos dispostos a justificarem o status quo com base em regras arbitrárias e punitivas e ditames externos, cuja natureza política (isto é, não neutra) está se tornando cada vez mais aparente. Isso é demonstrado pelo fato de que as tentativas dos establishments italiano e europeu de desacreditarem as propostas “populistas” por conta de sua suposta insustentabilidade fiscal, ameaça à estabilidade financeira ou incompatibilidade com o quadro europeu flagrantemente não alcançaram o efeito desejado. De fato, muito pelo contrário. Igualmente contraproducente, do ponto de vista do establishment, são as reivindicações dos principais representantes da UE de que o novo governo (o que quer que seja) deve cumprir as decisões tomadas por governos anteriores. À medida que mais e mais pessoas passam a reconhecer a natureza antidemocrática e neocolonial da União Europeia, essas táticas de terror não funcionam mais. Nesse sentido, a votação de 4 de março de 2018 não foi tanto “contra a Europa” – embora os partidos pró-europeus tradicionais tenham sido severamente punidos – como foi contra a despolitização e uma repolitização do processo de tomada de decisões nacional. Ou seja, para um maior grau de controle coletivo sobre a política e a sociedade, que necessariamente só pode ser exercido em nível nacional.

Futuro da Itália

Os partidos “anti-establishment” que deram voz a essa demanda de repolitização – o Movimento Cinco Estrelas e a Liga – atendem às expectativas? É improvável. Por fim, nenhum partido oferece uma alternativa viável ao status quo, ao menos em termos de economia política. A agenda econômica da Liga ainda é muito neoliberal: a principal proposta econômica do partido é uma alíquota fixa no lugar das atuais alíquotas (mais ou menos) progressivas – o que claramente é uma proposta de natureza regressiva –, somada a um pouco de proteção social (abolição da Lei Fornero, que havia aumentado a idade da aposentadoria).

Da mesma maneira, a agenda do Movimento Cinco Estrelas “está muito longe de uma força progressista”, como descreveu Nicola Melloni. Embora sua narrativa, como de movimentos de esquerda tais quais o Podemos e o Occupy, seja construída em torno da oposição do povo às oligarquias, o M5E simplesmente reduz essa oligarquia “a uma casta política corrupta”, argumenta Melloni. “Questões econômicas como relações trabalhistas e de capital, desigualdade ou o próprio capitalismo estão ausentes. Em vez disso, são uma força política populista, mas centrista – oportunista o bastante para enfrentar qualquer batalha que possa trazer consenso, mas sem ambição de mudar ou mesmo reformar o sistema.” Nesse sentido, eles são um exemplo perfeito dos “sintomas mórbidos” sobre os quais falava Gramsci.

Mais importante, mesmo que o M5E e a Liga quisessem realmente mudar o sistema, para isso teriam que desafiar o regime do euro, o que nenhum deles está disposto a fazer. Embora os dois partidos sejam comumente descritos como eurocéticos ou antieuropeus, eles foram rápidos em prometer lealdade à União Europeia antes e depois da eleição. Entretanto, enquanto mantiverem essa posição, estarão fadados ao fracasso. Conforme observado acima, as instituições europeias contam com uma ampla gama de ferramentas “para restringir e, se necessário, desativar a capacidade de resposta democrática dos governos do sul”, segundo Scharpf. “Embora a Itália tenha mais poder de barganha do que a Grécia, pode ser igualmente sufocada financeiramente”, escreve Zingales, tal qual a Grécia foi em 2015, caso for percebida como uma ameaça ao regime neocolonial europeu.

Para concluir, independentemente do resultado das negociações ou mesmo da eventualidade de uma nova eleição, a crise orgânica da Itália chegou para ficar. E isso não será resolvido até que sua causa subjacente seja enfrentada: a incompatibilidade fundamental entre a economia política da Itália e a moeda única.

Notas:

1 – Um governo que administra um superávit primário está gastando menos na economia real do que tirando por meio da tributação e, portanto, está drenando a riqueza da economia, geralmente para redistribuí-la aos detentores estrangeiros e domésticos de títulos do governo (em geral, bancos e pessoas ricas). O senso comum econômico aconselha que governos em recessão devam fazer exatamente o oposto: administrar déficits orçamentários para estimular a atividade econômica.

2 – Ver também Nancy Fraser, “From Progressive Neoliberalism to Trump – and Beyond”, American Affairs 1, n. 2 (inverno de 2017): 46–64.

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Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Itália em crise

Jorge Bateira   Itália

O relatório da Comissão Trilateral sobre a Crise da Democracia de 1975, frequentemente citado pela Comissão Trilateral, argumentava, do ponto de vista do sistema instituído, que era necessária uma resposta a vários níveis. Defendia não apenas a redução do poder negocial do trabalho, mas também a promoção de "um maior grau de moderação na democracia" e um maior afastamento (ou "não envolvimento") da sociedade civil das operações do sistema político, a ser alcançado por meio da disseminação da "apatia". 

 

Neste contexto, podemos compreender melhor porque é que as elites europeias acolheram a "restrição externa" da UEM como uma forma de despolitizar a política económica, ou seja, de retirar as políticas macroeconómicas do controlo democrático e parlamentar através de uma redução auto-imposta da soberania nacional. O seu objectivo não era simplesmente isolar as políticas económicas dos desafios democrático-populares, mas também reduzir os custos políticos da transição neoliberal, que claramente envolveu políticas impopulares, deslocando a responsabilidade por tais medidas para instituições e factores externos. Esta afirmação incorpora o que Edgar Grande designa por "paradoxo da fraqueza", a forma como as elites nacionais transferem algum poder para um decisor de políticas supranacionais (parecendo assim mais fracas), a fim de poderem resistir melhor à pressão dos atores sociais, apontando que "esta é a vontade da Europa" (tornando-se assim mais fortes). Como disse Kevin Featherstone: "Os compromissos vinculativos da UE permitem que os governos implementem reformas impopulares em casa, enquanto realizam a 'transferência da culpa' para a 'UE', mesmo que eles próprios tenham desejado tais políticas" (grifo nosso).

 

Em nenhum outro lugar isto é mais claro do que no caso italiano. E isso provavelmente porque a economia mista da Itália do pós-guerra, centrada no Estado, foi vista pelas elites governantes do país como sendo particularmente incompatível com o paradigma neoliberal que surgiu na década de 1980. A Itália era vista como exigindo "reformas" de longo alcance, embora nenhum consenso popular apoiasse tais políticas. Assim, Maastricht passou a ser visto por uma grande parte do sistema instituído italiano como o meio para alcançar uma transformação radical - ou neoliberalização - da economia política do país. Guido Carli, o ministro da Economia da Itália, altamente influente de 1989 a 1992, não fez segredo disso. Nas suas memórias, Carli escreveu:
 
 

 

“A União Europeia implica... o abandono da economia mista, o abandono do planeamento económico, a redefinição das modalidades de composição da despesa pública, a restrição dos poderes das assembleias parlamentares a favor do governo... o repúdio do conceito de serviços sociais gratuitos (e a subsequente reforma dos sistemas de saúde e de segurança social)... a redução da presença do Estado nos sistemas financeiros e industriais... o abandono dos controlos de preços e das tarifas.”
 
É claro que Carli entendeu a União Europeia em primeiro lugar, e acima de tudo, como uma forma de liderar nada menos que a transformação integral da economia da Itália - uma transformação que não teria sido possível, ou teria sido extremamente difícil, sem as restrições externas auto-impostas (‘vincolo esterno’) criadas primeiro por Maastricht e depois pelo euro. Assim, por exemplo, o governo de Amato conseguiu em 1992 persuadir a Confederação Geral do Trabalho da Itália (CGIL) a acabar com a chamada ‘scala mobile’, a indexação dos salários à inflação, não enfrentando directamente o trabalho, mas essencialmente apelando à restrição externa do Sistema Monetário Europeu (SME), o sistema de taxas de câmbio semi-fixas que abriu o caminho para o euro. O próprio Carli reconheceu que "a União Europeia representava um caminho alternativo para a solução de problemas que não estávamos a conseguir resolver através dos canais normais de governo e parlamento". Portanto, a decisão da Itália de aderir ao SME, e depois à UEM, não pode ser entendida apenas em termos de interesses numa perspectiva nacional. Pelo contrário, como salientou James Heartfield, deve ser visto como a forma como uma parte da "comunidade nacional" (a elite económica e política) foi capaz de constranger outra parte (o trabalho). 
(Minha tradução de parte de um texto de Thomas Fazi cuja leitura recomendo)

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

MINIBOTS: ILEGAIS, PERIGOSOS, DESNECESSÁRIOS. Por Mario Nuti

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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Agradecemos a Domenico Mario Nuti a disponibilidade do presente texto e com ele esperamos que os nossos leitores se sintam enriquecidos em termos de conhecimento sobre os graves problemas com que se debate a economia italiana, muitos dos quais derivam da crise que se iniciou em 2008 ,e que ainda não se pode dar por terminada, assim como das políticas austeritárias impostas por Bruxelas.

JM

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MINIBOTS: ILEGAIS, PERIGOSOS, DESNECESSÁRIOS

domenico mario nuti Por Mario Nuti

Outubro de 2019

A possível emissão de uma moeda paralela italiana, defendida pela primeira vez pelo Professor Borghi em 2012 para uma saída gradual da Zona Euro, tem sido amplamente debatida no ano passado como forma de reduzir os pagamentos em atraso ao sector privado sem aumentar a dívida pública. Neste texto defendemos que uma moeda dupla, sob a forma de Obrigações do Tesouro em pequenas denominações – MiniBots -, é ilegal, perigosa no seu impacto no diferencial das taxas de juro italianas e desnecessária para a redução dos atrasos nos pagamentos públicos.

 

Com dois partidos eurocépticos – o Movimento 5 Estrelas de Luigi Di Maio e a Lega de Matteo Salvini – formando um governo sob o primeiro-ministro Giuseppe Conte há pouco mais de um ano, as propostas para a introdução de uma moeda italiana paralela tornaram-se cada vez mais frequentes.

Originalmente, a dupla moeda foi apresentada como uma forma de organizar a saída gradual da Itália da zona euro, pelo Professor Claudio Borghi da Universidade de Siena – atualmente deputado da Lega e presidente da Comissão Parlamentar de Economia – em 2012, numa conferência organizada pelo Professor Alberto Bagnai da Universidade de Pescara. Ambos, Borghi e Bagnai – hoje senador da Lega e presidente da Comissão de Finanças do Senado – eram eurocépticos e defendiam a saída da Itália da zona euro (rotulada de Exitaly, Italexit ou, como foi recentemente chamada pelo The Economist, Quitaly). Ambos consideraram, com razão, as restrições ao défice e à dívida da UE e da UEM como as principais causas da recessão e da estagnação italianas, especialmente tendo em conta as políticas de austeridade incorporadas nessas restrições. Assim, os meios de comunicação social apressaram-se a associar Bagnai à proposta da dupla moeda – errada e injustamente, uma vez que Bagnai nunca defendeu uma dupla moeda, sendo antes favorável a uma mudança instantânea e não gradual.

A dupla moeda passou então a fazer parte do programa comum Lega – 5Star que combinava as políticas partilhadas por ambas os partidos e as consagrava num quase “contrato”, mas apenas como instrumento para reduzir a acumulação de atrasos no pagamento de dívidas contraídas pelo Estado e outros devedores públicos junto de credores privados.

Tal como no caso previsto para o Quitaly, o monopólio legal de emissão de moeda do Banco Central Europeu deveria ser contornado pela emissão de obrigações do Tesouro italiano, como os BOTs [Buoni del Tesoro], mas em denominações baixas – daí a alcunha de MiniBots. Borghi continuou a promovê-los tanto como forma de implementar uma Quitaly gradual quanto como instrumentos para reduzir os atrasados públicos em relação ao setor privado sem aumentar a dívida pública.

No passado mês de Março, foi aprovada, em princípio, uma moção parlamentar que contemplava a questão dos “MiniBots”, sem estipular pormenores, condições e montantes concretos. As sucessivas discussões sobre Quitaly e pagamentos em atraso e, sobretudo, o aumento e a manutenção do diferencial entre as taxas de juros para os BOTs italianos de longo prazo e os Bunds alemães, levaram a reflexões posteriores para que a moção nunca fosse finalizada ou fundamentada.

No contexto dos debates sobre a eventual abertura de um procedimento disciplinar sobre a próxima lei orçamental italiana (DEF), a emissão e a circulação dos “MiniBots” foram repetidamente declaradas ilegais como sendo uma moeda dupla ou sujeitas às mesmas restrições aplicáveis a qualquer instrumento de dívida utilizado para financiar os défices públicos. Esta é a posição unanimemente adoptada por muitos funcionários europeus e italianos competentes, nomeadamente: Mario Draghi, o Comissário da UE Moscovici, o Presidente da Comissão Juncker, o Presidente do Conselho Tusk, a Secretária-Geral do FMI Lagarde, os governadores dos bancos centrais holandês, austríaco e italiano, o Presidente da Itália, a Confederação da Indústria Italiana, o Primeiro-Ministro Conte e o seu Ministro das Finanças Tria, bem como muitos outros responsáveis e políticos.

Sob o forte peso deste tipo de pressão o deputado da Lega Giorgetti, atualmente Subsecretário de Estado do Conselho de Ministros, designado pelo primeiro-ministro Conte como candidato à Presidência do Parlamento Europeu, declarou que a questão dos MiniBots era “inverosímil” [improvável, irrealista, fora de questão] e gracejou “ninguém ainda está a ouvir Borghi, ele representa notícias velhas e de qualquer modo ninguém quer sair da zona do euro “.

Tanto Salvini como Di Maio comentaram que os MiniBots eram um dos compromissos políticos comuns estipulados no seu quase-contrato e que tinham sido aprovados numa moção parlamentar; se as pessoas tivessem mudado de ideias, gostariam de ouvir as suas razões. No entanto, Salvini pareceu reduzir a sua anterior ênfase nos MiniBots, acrescentando que eles eram apenas uma das várias propostas em consideração para reduzir os pagamentos em atraso. Muitos observadores rejeitaram o abrandamento de Giorgetti e Salvini como instrumental para agradecer o apoio do Parlamento Europeu à candidatura de Giorgetti a um importante cargo da UE, mas outros interpretaram os seus pronunciamentos como evidência de uma divisão não apenas entre Salvini e Di Maio (especialmente em vista da ênfase renovada de Salvini no Imposto Fixo e a sua querela sobre a sua viabilidade fiscal e a do salário mínimo de Di Maio), mas também dentro da própria Lega, com alguns membros a favor e outros contra os MiniBots.

Borghi simplesmente ignorou o gracejo de Giorgetti sobre os MiniBots serem “inverosímeis”, dizendo que isso tinha sido intencionado como uma piada, e insistiu que os instrumentos propostos eram legais e eficazes, quer como moeda dupla quer como uma forma de reduzir atrasos sem aumentar a dívida pública. Os minibots, não tendo sido confirmados em seus detalhes, condições ou valores, atualmente permanecem uma vaga possibilidade em animação suspensa.

Sempre me opus à dupla moeda, uma oposição enraizada no estudo da experiência soviética de estabilização da moeda através da dupla chervontsy [N.T. moedas de ouro estrangeiras e nacionais] na transição entre o Comunismo de Guerra e a Nova Política Económica por volta de 1925-26, bem como a uma solução aplicada na transição pós-socialista da década de 1990 através de caixas de conversão de divisas [Currency Boards] ou de outras formas de dolarização/DM-tização , ou à dupla moeda ocasionalmente debatida em profundidade na crise da dívida europeia de 2007-08.

Uma moeda dupla emitida a uma taxa de câmbio fixa com a moeda utilizada anteriormente está sujeita à Lei de Gresham, segundo a qual a moeda má (sobrevalorizada em relação ao poder de compra relativo) afasta da circulação a moeda boa (subvalorizada). Enquanto uma moeda dupla trocada em condições de mercado flutuantes gera incerteza quanto ao seu valor futuro, provocando um diferencial de taxa de juro entre as duas moedas.

Uma economia em pleno controlo da sua política monetária e orçamental pode fazer muito melhor com outras políticas de estabilização, mantendo-se fiel a uma moeda única. No entanto, também aceitei prontamente que um país cuja dívida fosse denominada numa moeda estrangeira (tal como o euro é para os membros individuais da zona euro para todos os efeitos) poderia e, em algumas circunstâncias, deveria facilitar a recuperação da soberania monetária e fiscal, se e só se quisessem fazê-lo gradualmente, através da adopção de uma moeda dupla.

O problema com os MiniBots é que, naturalmente, as regras estatutárias do BCE, totalmente aprovadas pelos membros da zona euro antes da sua adesão, os tornam naturalmente ilegais. E todas as emissões líquidas de instrumentos de dívida de qualquer tipo ipso facto aumentam automaticamente o stock da dívida pública. Isto vale também para os MiniBots emitidos com o único propósito de reduzir os pagamentos em atraso: mesmo que fossem legais, os MiniBots não podem evitar o aumento da dívida pública. Em primeiro lugar, embora o aumento da dívida devido à sua emissão seja extinto quando são gastos no pagamento de impostos ou na compra de bens e serviços do setor público, ao mesmo tempo a sua despesa diminui exatamente no mesmo montante da receita do setor público e, portanto, aumenta as suas necessidades de obtenção de empréstimos, contribuindo assim para aumentar a dívida. Como corolário, se os MiniBots forem extintos através da sua aquisição pelo setor público, obviamente eles nunca poderão desempenhar o papel de uma moeda paralela para substituir a antiga moeda em circulação monetária. Mas a própria menção de MiniBots alarma desnecessariamente os investidores, provocando automaticamente, ainda que erroneamente, a venda de títulos públicos e o aumento e permanência do spread das taxas de juros na rolagem da dívida pública que é de cerca de 400 mil milhões por ano. (Aqui o absurdo de emitir malas recheadas com MiniBots de baixa denominação para credores privados apenas para serem entregues fechadas aos devedores públicos é deixado de lado, mas também deve ser considerado).

Em segundo lugar, é verdade que os MiniBots, ao contrário dos BOTs ordinários, não dão direito a uma taxa de juros, mas os juros economizados na sua emissão são mais do que compensados pelo aumento do custo dos juros sobre a emissão daquela parcela da dívida bruta paga no vencimento, mas reemitida pelo Tesouro: o ganho de juros de aproximadamente 0,5% do PIB seria obtido à custa de um aumento de juros sobre algo próximo a 4% do PIB, que deveria ser deduzido do ganho, tornando-o negativo a menos que a taxa de juros suba mais de 800% em relação ao seu nível anterior.

Finalmente, os MiniBots não são necessários nem suficientes para reduzir os pagamentos em atraso devidos pelo setor público aos agentes privados. Os MiniBots só poderiam ser emitidos para reembolsar créditos certificados ao setor privado, ou seja, incluídos no balanço do devedor e devidamente aprovados, satisfazendo todos os requisitos para a adjudicação do contrato subjacente, desde regras antimáfia até o tamanho, qualificações técnicas e experiência das empresas adjudicatárias, bem como publicidade e concorrência. Mas para pagar esses créditos certificados, os devedores públicos desde 2012 têm acesso a financiamento de uma agência pública (a Cassa Depositi e Prestiti) a um custo simbólico de juros, enquanto os credores certificados podem sempre usá-los como garantia para obter crédito de bancos comerciais, a uma taxa que não seria necessariamente significativamente maior do que a taxa na qual os MiniBots podem ter que ser descontados de qualquer maneira para convertê-los em dinheiro. Além disso, os atrasos de pagamento em créditos certificados foram grandemente reduzidos desde 2012, com o governo central, empresas públicas e grandes cidades agora satisfazendo, em média, o novo período de espera máximo legal de 48 dias entre a certificação e o pagamento. Aparentemente, o Ministério do Trabalho e Desenvolvimento é o pagador mais rápido (5 dias), enquanto o Ministério do Interior é o pagador mais lento, com um período de espera médio 35% superior ao normal. Se Salvini realmente quisesse reduzir o acúmulo de atrasados, ele poderia simplesmente emitir um memorando interno em vez de MiniBots. É verdade que algumas cidades como Nápoles, partes do Sul e Agências Nacionais de Saúde excedem grosseiramente a norma, mas mesmo o seu atraso tem encolhido (todos os números citados aqui são de dados oficiais do ISTAT).

O problema dos pagamentos em atraso, que começou a aumentar com a crise europeia de 2007-2008 e, especialmente, com as tentativas de reduzir o défice público calculado numa base de caixa em vez de numa base de acumulação para cumprir as restrições da UE e da zona euro, foi reduzido de cerca de 120 mil milhões de euros para cerca de 50 mil milhões de euros, o que é ainda demasiado elevado. Os mini-Bots não teriam qualquer utilidade no seu caso: para serem utilizados na liquidação, esses créditos devem ser incluídos primeiro nos balanços adequados e depois sujeitos a procedimentos de certificação. Esta é a responsabilidade de cada agência devedora, não há nada que o Tesouro possa fazer a esse respeito.

Em conclusão, os MiniBots são úteis, são mesmo necessários para uma saída gradual da zona euro, mas precisamente por essa razão foram tornados ilegais. Em todo o caso, ou são uma moeda dupla, desnecessária quando a Quitaly já não é seriamente defendida, ou um instrumento de dívida sujeito a restrições da UE e do euro, e não ambas: tertium non datur. Para a compensação da dívida pública para com os credores privados, os MiniBots são desnecessários para as dívidas/créditos certificados, inúteis para os não certificados.

As negociações governamentais com a UE e o BCE, em vez de insistirem em algumas decimais adicionais do PIB em objectivos de défice e dívida, deveriam insistir no reconhecimento de que a redução dos atrasos nos pagamentos públicos envolve apenas uma mudança de credores, dos fornecedores públicos para aqueles que adquirem as obrigações emitidas para os reembolsar. Consequentemente, como não aumentam a dívida global, não devem ser incluídos no cálculo do défice. Nos últimos dois anos, tenho vindo a propor repetidamente esta abordagem em conferências e seminários públicos (incluindo um seminário na Câmara dos Deputados) e em vários blogues, mas a proposta caiu em saco roto. Repetita juvant. Talvez agora que o problema capturou a atenção e preocupação do público esta possível mudança possa ser reconsiderada.

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O autor: Domenico Mario Nuti é Professor de Sistemas Económicos Comparados (1993-2010, agora Emérito), na Faculdade de Economia da Universidade de Roma “La Sapienza”. Investigador Sénior Honorário, Centre for Russian and East-European Studies, Universidade de Birmingham. Licenciado em Direito (Roma 1962), foi membro da Academia de Ciências polaca em 1962-63 onde estudou com Oskar Lange e Michael Kalecki, e obteve o seu doutoramento em Economia em Cambridge, Inglaterra (1970), sob a supervisão de Maurice Dobb e Nicholas Kaldor. Ex-membro do King’s College, Cambridge (1965-79); Professor de Economia Política e Diretor do Centre for Russian and East European Studies, Universidade de Birmingham (1980-82); Professor de Economia, Instituto Universitário Europeu, Florença (1982-90). Professor convidado, London Business School (1993-2005). Conselheiro económico na Comissão Europeia, DG II, sobre a Europa Central e Oriental (1990-93). Consultor do Banco Mundial e outras organizações económicas internacionais. Conselheiro Especialista da Câmara dos Lordes Comité das Comunidades Europeias (1993-1994). Assessor Económico do Governo Polaco no âmbito do Programa PHARE da União Europeia (1994-1997; 2002-2003). Conselheiro económico da Administração Presidencial da Bielorrússia, sob o patrocínio do Banco Mundial (1998) e da CE (1999). Conselheiro económico da Administração Presidencial do Usbequistão, no âmbito do Programa TACIS da União Europeia (1999-2000). Presidente da Associação Europeia de Estudos Económicos Comparados, 2001-2002. Autor de numerosas publicações, principalmente sobre sistemas económicos comparados, em particular sobre 1) a reforma das economias de planeamento central e a sua transição pós-socialista para economias de mercado; 2) governança das empresas e participação dos empregados nas decisões e resultados da empresa; 3) processos de integração económica na Europa e na economia global. Referenciado em: Mark Blaug, Who’s Who in Economics. A Biographical Dictionary of Major Economists, MIT Press, Cambridge, Mass, 1983, 1986, 1999; P. Arestis and M. C. Sawyer, A Biographical Dictionary of Dissenting Economists, Elgar Publishing, London 1992, pp. 401-409. [Entradas nunca foram atualizadas]. Saul Estrin, Grzegorz W. Kolodko e Milica Uvalic editaram uma publicação comemorativa em sua honra, Transition and Beyond, Palgrave Macmillan, London 2007; a Introdução contém uma nota biográfica e uma lista das principais publicações. Analisado em Rivista di Politica Economica Jan.-Feb. 2008 por Stefano Manzocchi, http://eprints.luiss.it/180/1/Manzocchi_2008.pdf

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/10/29/minibots-ilegais-perigosos-desnecessarios-por-mario-nuti/

Manlio Dinucci: «O F-35 na agenda secreta de Pompeo em Roma»

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https://nowarnonato.blogspot.com/2019/10/pt-manlio-dinucci-arte-da-guerra-o-f-35.html

O caça furtivo F-35 torna-se invisível não só ao radar, mas também à política: nos comunicados dos encontros do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em Roma, não há vestígios. No entanto, o ‘Corriere della Sera’ revela que Pompeo solicitou à Itália  para pagar os atrasos dos caças adquiridos e para desbloquear a encomenda de uma compra posterior, recebendo de Conte a garantia de que "seremos leais aos pactos".
A Itália comprou até agora, 14 caças F-35 da americana Lockheed Martin, 13 dos quais já entregues,estão "completamente financiados". Anunciou no Senado, em 3 de Junho, a então Ministra da Defesa, Elisabetta Trenta (M5S), anunciando outras aquisições que elevarão o total a 28 caças até 2022. A Itália comprometeu-se a comprar 90, com uma despesa prevista de 14 biliões de euros. A essa despesa, junta-se a da actualização contínua do software (o conjunto dos programas operacionais) do caça de que a Lockheed Martin mantém exclusividade: somente para os aviões comprados até agora, a Itália deve despender cerca de meio bilião de euros. 
A Itália não é só compradora, mas fabricante do F-35, como parceira de segundo nível. A Leonardo (anteriormente Finmeccanica) - a maior indústria militar italiana, da qual o Ministério da Economia e Finanças é o principal accionista, com uma quota de cerca de 30% - administra a linha de montagem e testes do F-35 na fábrica de Faco de Cameri (Piemonte), de onde saem os caças destinados à Itália e à Holanda. A Leonardo também produz asas completas para os aviões montados nos EUA, utilizando materiais produzidos nas fábricas de Foggia (Puglia), Nola (Campania) e Venegono (Lombardia). O governo dos EUA seleccionou a fábrica de Cameri como centro regional europeu para manutenção e actualização da fuselagem.
A ocupação na Faco é de cerca de mil, dos quais muitos são precários, apenas um sexto do orçamento. As despesas para a construção da fábrica e a aquisição dos caças são muito superiores ao valor dos contratos estipulados pelas empresas italianas para a produção do F-35. E não devemos esquecer o facto de que, embora os ganhos vão quase inteiramente para os cofres das empresas privadas, as despesas saem do erário público, fazendo aumentar a despesa militar italiana, que já atingiu os 70 milhões de euros por dia.
O Secretário de Estado, Mike Pompeo, nos encontros com o Presidente Mattarella e com o Primeiro Ministro Conte, sublinhou a necessidade da Itália e de outros aliados europeus "aumentarem os seus investimentos na defesa colectiva da NATO". Certamente, nas reuniões confidenciais, este pedido foi feito por Pompeu com tons não diplomáticos, mas peremptórios. Certamente, enquanto o Departamento de Estado elogia a Itália porque "alberga mais de 30 mil soldados e funcionários do Pentágono em cinco grandes bases e mais de 50 sub-instalações", Mike Pompeo solicitou, em reuniões confidenciais, poder instalar outras bases militares em Itália (talvez em troca de algum alívio das taxas aduaneiras dos EUA sobre o parmesão italiano). 
Certamente, na agenda secreta de Pompeo, estava também o ajuste para próxima chegada,  a Itália, das novas bombas nucleares USA B61-12, que substituirão as actuais B-61. Uma nova arma nuclear projectada especialmente para os caças bombardeiros F-35A, seis dos quais pertencentes à Força Aérea Italiana, receberam, em Outubro, o certificado da NATO de plena capacidade operacional..
Mike Pompeo, em Roma, não se ocupou só de coisas materiais, como o F-35 e o queijo Parmesão. Num simpósio no Vaticano, fez um discurso em 1º de Outubro, sobre "Dignidade Humana e Fé nas Sociedades Livres": afirmou que "os Estados Unidos chegaram um pouco depois de São Pedro, mas protegeram sempre a liberdade religiosa" e, com ela, a "dignidade humana"; acusou a China, Cuba, Irão e Síria de suprimirem essas liberdades. Palavras proferidas, com uma grande cruz como fundo, por um homem santo que, no momento em que se tornou chefe da CIA, declarou ao Congresso que tinha considerado" a reintrodução do 'waterboarding' e de outras medidas de interrogatório aprimorado", ou seja, a tortura. 
il manifesto, 7 de Outubro de 2019 (traduzido do italiano por Luísa Vasconcellos)

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Itália e França prometem agir de maneira coordenada após conversas sobre imigração na Líbia

Roma, 18 set (Xinhua) -- Roma e Paris mostraram vontade de agir de maneira coordenada depois que o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, e o presidente francês, Emmanuel Macron, mantiveram conversas na noite de quarta-feira sobre questões importantes como imigração e instabilidade na Líbia.

 

Macron foi o primeiro líder europeu a visitar Roma após a formação do novo governo de coalizão de Conte do Movimento Cinco Estrelas e do Partido Democrata.

 

"As opiniões podem divergir, mas isso sempre deve ocorrer dentro de um diálogo orientado para a solução, baseado no respeito mútuo, já que é o caso de dois membros fundadores da União Europeia (UE)", disse Conte em entrevista coletiva após a reunião.

 

Reforçando as observações de Conte, Macron disse que "às vezes podemos brigar, mas sempre nos encontraremos no final".

 

Durante essa visita, os dois líderes prometeram agir de maneira coordenada.

 

"É crucial que a UE avance para uma gestão estrutural dos fluxos migratórios, em vez de adotar uma abordagem de emergência", disse Conte.

 

"Precisamos tirar esse tópico da propaganda anti-europeia", disse ele. "Também precisamos gerenciar o fenômeno de maneira eficiente e realista".

 

O primeiro-ministro disse que tinha "a total abertura do presidente Macron" em trabalhar juntos por um mecanismo europeu para gerenciar chegadas e distribuição de refugiados e por repatriações mais eficientes de migrantes sem direito de asilo.

A Itália pede há muito tempo aos parceiros da UE que aceitem partes dos migrantes trazidos para terra por navios resgatados operados por grupos humanitários no Mediterrâneo.

 

"Estou certo que podemos concordar com um mecanismo europeu coordenado pela Comissão Europeia", afirmou o presidente francês.

 

"Isso permitiria que países de primeiro destino, como a Itália ou Malta tivessem a garantia antes da chegada dos barcos de resgate que todas essas pessoas serão atendidas", disse ele.

 

Os ministros das relações interiores de ambos os países se reunirão na próxima semana para acompanhar essas propostas, segundo Macron.

 

Sobre a questão da Líbia, um tópico que o escritório de Conte havia antecipado que seria uma questão crucial nas negociações, os dois líderes discutiram uma estratégia comum e, neste caso, não apenas na estrutura da UE, mas também dentro da Organização das Nações Unidas.

 

"Na Líbia, há uma convergência real entre a França e a Itália", disse Macron a repórteres.

 

"Roma e Paris trabalharam juntos, fornecendo mensagens específicas aos nossos parceiros, e estamos convencidos de que a única saída para a crise da Líbia deve ser encontrada no diálogo e em um processo político", acrescentou ele.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-09/20/c_138407235.htm

A próxima crise de governo na Itália é previsível

 
 
A estranha coalizão entre populistas e social-democratas enfrentará dificuldades. A economia italiana vai mal, e a direita já começou a atacar. Mas tudo é melhor que Salvini, opina o correspondente Bernd Riegert.
 
A Itália tem um novo governo. O 66º desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Esperança, risco, experimento ou uma nova chance? De tudo um pouco.
 
Para a União Europeia (UE), brota a esperança de que, com um ministro das Finanças sensato, seja possível evitar um confronto em torno do orçamento italiano e um endividamento excessivo do país. A tagarelice do líder de extrema direita do partido Liga, Matteo Salvini, sobre uma moeda paralela, que equivaleria ao abandono do euro, por enquanto deixou de ser um tema. A Itália conseguiu um pouco de ar para respirar.
 
O risco de que o novo governo colapse após alguns meses ou, o mais tardar, em um ano é, porém, grande. O populista Movimento Cinco Estrelas (M5S) e os estabelecidos social-democratas são simplesmente muito diferentes, tanto no estilo quando no conteúdo. Eles permaneceram unidos somente por medo do poltergeist ultradireitista Salvini, que, se não tivesse havido uma coalizão, e sim novas eleições, teria triunfado e se tornado primeiro-ministro.
 
 
O novo governo de esquerda terá dificuldades, entretanto, de mudar o clima entre os italianos. Salvini é popular, assim como, sua posição linha-dura contra a imigração, contra refugiados e contra "aqueles lá de Bruxelas". O líder da Liga sabe disso e já adotou o tom de campanha eleitoral. Para ele, a coalizão populista-social-democrata do medo é "um desastre" que ele quer derrubar com todos os meios. Infelizmente, os italianos ainda não perceberam que um governo ultradireitista sob a liderança de Salvini seria um desastre ainda maior.
 
O experimento político só tem uma chance: se populistas e social-democratas entregarem algo tangível em vez de se perderem em discussões sem fim. As promessas de benefícios sociais e investimentos são grandes, mas os cofres estão vazios. O risco de jogar a bola sem querer para o hábil candidato eleitoral Salvini é grande.
 
O novo governo representa, no entanto, uma chance de abordar novamente na UE a política migratória e de refúgio. É preciso finalmente encontrar um mecanismo de distribuição. Assim, a Itália poderia voltar a abrir, pelo menos, uma brecha em seus portos e enfraquecer a criminalização de equipes de resgate marítimo privadas. Se isso não for possível, o novo governo também adotará um curso linha-dura, pois, nos últimos dois anos, o humor dos eleitores italianos foi polarizado por meio da histeria populista de direita e esquerda rumo à defesa do isolamento e da "Itália em primeiro lugar".
 
A nova coalizão quase não tem força para conduzir importantes reformas e impulsionar a economia do país. Ela vai deambular como muitos de seus antecessores. Adversidades internas também ameaçam a nova equipe. Os social-democratas, que deram uma reviravolta espantosa nas últimas semanas, estão divididos.
 
O antigo líder do partido e ex-primeiro-ministro Matteo Renzi quer voltar ao poder. Por enquanto, ele prevaleceu contra o presidente atual da legenda, Nicola Zingaretti, que queria rejeitar o experimento com o M5S. E o clima está acirrado também dentro do Movimento Cinco Estrelas. Muitos italianos frustrados ainda não entenderam a súbita transformação do partido de protesto num parceiro de coalizão estabelecido.
 
No final, a duração desta coalizão será limitada. Novas eleições no próximo ano são muito prováveis. Sendo assim, o atual governo não deve ser tão ruim. As estáticas mostram que, em média, o mandato de um gabinete na Itália é de apenas um ano e dois meses.
 
Bernd Riegert | Deutsche Welle | opinião
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/a-proxima-crise-de-governo-na-italia-e.html

Itália | Meio sem querer, o centro-esquerda retorna

 
 
Sem programa claro, e a mínima sombra de seu passado, o PD, cujas origens remontam ao Partido Comunista Italiano, voltou ao governo — agora aliado ao estranhíssimo PVS. Retorno impede triunfo da ultradireita, mas por quanto tempo?
 
Steven Forti *| Outras Palavras | Tradução: Rôney Rodrigues
 
Não estava morto, estava festejando. Ou talvez não. Melhor: estava vivendo um dia após o outro, segundo alguns, ou agonizando, segundo outros. Da série It’s an Uphill Climb to the Bottom, como cantava Walter Jackson. Seja como for, ele retornou. Pelo menos, é isso que parece. Refiro-me ao Partido Democrático (PD), fruto da unificação, em 2007, dos pós-comunistas (os Democratas de Esquerda, DS) e os pós-democratas-cristãos progressistas (a Margarita), na época sustentando o frágil e heterogêneo governo liderado por Romano Prodi. O PD foi a aposta de Walter Veltroni (secretário-geral entre 2007 e 2009 e ex-prefeito de Roma) que imaginou o casamento entre as duas principais famílias da política italiana, comunistas e católicos, após a longa travessia que começou com o fim da Guerra Fria e foi até o colapso da Primeira República com o escândalo de Tangentópoli [também conhecida como Operação Mãos Limpas, que descobriu licitações irregulares e o uso do poder público em benefício particular e de partidos políticos].
 
Foi com o intuito de converter a recém-fundada Segunda República em um sistema majoritário [na Itália, os congressistas são eleitos de forma direita, que, por sua vez, elegem o primeiro-ministro], com uma centro-esquerda e uma centro-direita – então liderada por um Berlusconi ainda não-inflamável – ao estilo anglo-saxão. A aposta não avançou para além da simpatia que um projeto assim poderia despertar. Não tanto porque Veltroni – que com a criação do PD fizera uma oferta interna a Romano Prodi – perdera as eleições de 2008 para Cavaliere [O Cavaleiro, apelido de Silvio Berlusconi], mas porque o sistema majoritário, que por si só já era extremamente sui generis, devido também às leis eleitorais, veio abaixo por nada. Ou melhor, demonstrou ser um sonho úmido que pouco tinha a ver com a realidade política transalpina.
 
Nas eleições de fevereiro de 2013, de fato, depois do parêntese do governo técnico de Mario Monti, entrou em cena com força o Movimento Cinco Estrelas (M5E). Começa-se a falar na tripolaridade: por um lado, a direita ainda liderada por Berlusconi, mesmo que estivesse cada vez mais em declino físico e político; por outro, a centro-esquerda do PD e, no meio, um objeto político não-identificado, a criação populista do ex-comediante Beppe Grillo. O que o PD planejava para essa nova situação? Que projeto tinha para essa nova fase? Viu-se em seguida. Primeiro, com a intenção frustrada de Pierluigi Bersani (secretário do partido e candidato a presidência) de chegar a um pacto com o M5E e, em seguida, firmando um acordo com o arqui-inimigo Berlusconi para “furar o bloqueio”: o governo de grande coalização de Enrico Letta, patrocionado pelo presidente da República Giorgio Napolitano. Na oposição, restaram apenas os grillini [partidários de Beppe Grillo], Liga Norte [de extrema-direita], já a ponto de desaparecer, a direita dos Irmãos da Itália e a esquerda da Esquerda, Ecologia e Liberdade (SEL), de Nichi Vendola.
 
 
O partido de Renzi
 
O governo de Enrico Letta durou menos de um ano. Por um lado, Berlusconi foi cercado por escândalos de corrupção e relativas condenações, abandonou o governo destruindo o Povo da Liberdade (PdL), a resposta da direita ao PD, que se dissolveu nos finais de 2013. Renascia assim a Força Itália pela mão de um magnata da televisão, e um setor moderado – a Nova Centro-Direita, de Angelino Alfano – que rompia com il Cavaliere e se apossava do Governo. Por outro lado, o jovem destroçador Matteo Renzi ficava com a secretaria do PD e, ao final de pouco meses – fevereiro de 2014 –, destronava Letta e se convertia em presidente do governo, abrindo o jogo a partir de Berlusconi (na oposição) ao fazer acordos com ele para uma série de reformas constitucionais (o chamado Pacto de Nazareno). A infinita transformação do sistema de partidos italianos colocada em marcha depois da Operação Mãos Limpas continuava entre episódios de ressureição, divisões, new entries e transformismos. No entanto, o PD, mesmo sendo filho de uma conjuntura superada, conseguiu manter-se vivo.
 
O único que teve um projeto foi Renzi. As coisas são como são. Um projeto que queria aposentar definitivamente – e com más maneiras – o que restara da antiga tradição do velho PCI. Um macronismo a la italiana antes mesmo de Macron. Um partido da Nação, nem de direita nem de esquerda. Um blairismo 3.0, produto da fast politics e fortalecido com golpes de tuites. O PD estava a ponto de se transformar no PdR, o Partido de Renzi, como alcunhou um lúcido analista político, Ilvo Diamanti. A princípio, o destroçador, filho predileto do berlusconismo, avançou de vento em poupa: ganhou com 40% dos votos as eleições europeias de 2014, e os resultados das pesquisas sorriam para ele. Foi, durante alguns anos, o homem mais forte da Itália. E, em erro crasso, deixou-se levar pela sua arrogância nas reformas (trabalhistas e educativas) que de esquerda não tinham sequer o nome, e o projeto de reforma constitucional, que converteu o referendo de dezembro de 2016 em sua sepultura política. Adeus, Palazzo Chigi [sede da presidência do Governo].
 
Em seguida veio o Governo de transição de Gentiloni – com Renzi que, em vez de se afastar do primeiro escalão do partido, reconquistava a secretaria, mesmo já tendo se transformado em um dos políticos menos queridos da Itália –; o opróbrio de Rosatellum [reforma eleitoral], que misturava um sistema proporcional e majoritário com colégios uninominais – e as eleições de março de 2018 foram um verdadeiro terremoto político. Depois do tombo do PD (18,8%), Renzi teve que deixar pela segunda vez a secretaria do partido, ficando como simples senador, mas seguiu controlando os grupos parlamentares porque as listas foram feitas segundo seus desejos. No longo impasse que se seguiu, se negou a tentar seriamente um acordo com o M5E, definido como um partido de incapazes e incompetentes. Começou-se a utilizar o termo política pop corn(pombas) a partir de um tuite de Renzi em que ele dizia que comeria pombas olhando o espetáculo que são as tentativas de aliança entre os grillini e a Liga. A partir dessas cinzas, nasceu a chapa Di Maio-Salvini.
 
Os sapos de Nicola Zingaretti [secretário do PD]
 
O que veio depois parecia uma crônica de uma morte anunciada, com um partido que não conseguia nem se recuperar eleitoralmente nos diferentes comícios locais – a direita, já comandada pela Liga de Salvini, foi articulada em quase todas as regiões – nem encontrar um novo líder, uma linha política coerente ou mesmo uma certa unidade interna. Sem se aprofundar nessa questão, havia uma incapacidade de fazer oposição a um governo nacional-populista suficientemente incapaz e pobre, uma situação em teoria excelente para recuperar os eleitores de esquerda e fazer, ao menos, uma mínima autocrítica das políticas aplicadas nos cinco anos anteriores.
 
Reinos de Taifas
 
O PD dava a impressão de ser uma exemplificação plástica dos reinos de taifas [na história ibérica, faz alusão a um reino muçulmano fragmentado em facções], com um Renzi disposto a fazer uma cisão para criar seu próprio partido, um secretário provisório – Maurizio Martina – que parecia um professor que não conseguia colocar a sala de aula em ordem e um sem fim de correntes com dirigentes cada vez mais desvinculados de suas bases. Sem qualquer indício que haveria uma alternativa política real, o governo liderado por Giuseppe Conte, que se definiu como o “advogado do povo”, podia seguir adiante sem qualquer incômodo. Tampouco a eleição de Nicola Zingaretti para a secretaria do PD no mês de março, diante de um certo entusiasmo inicial e com as boas intenções do presidente regional de Lácio para fechar definitivamente o ciclo renzista, pareceu mudar muito as coisas: nas últimas eleições europeias, ainda que o PD tenha se recuperasse, teve que conformar com 22,7% dos votos, superando os grillini, mas ficando anos-luz da Liga (34,2%).
 
Como geralmente acontece na política, sobretudo em uma Itália onde sopram ventos levantinos, as mudanças são imprevisíveis. Às vezes se trata de terremotos devastadores, outras vezes de presentes inesperados. Presentes esses que podem ser doces envenenados. Um Salvini muito confiante, cheio de si mesmo e à frente nas pesquisas, que lhe davam quase 40% — il Capitano, como o chamam seus apoiadores, também é um dos filhos prediletos do berlusconismo –, deu um tiro no próprio pé, tocando música em uma praia do Mar Adriático enquanto tomava um mojito: pediu “plenos poderes” e abriu uma crise no governo, convencido de que haveria eleições em outubro. Eleições onde arrasaria, tirando o peso de cima do M5E, em claro declínio.
 
Mas o líder liguista não levou em conta as regras de uma democracia parlamentar, a longa tradição de transformismo italiana, as mudanças no contexto internacional – leiam a análise a esse respeito de Enric Juliano –, a preocupação por uma mudança retrógrada em parte da sociedade e da classe política italianas, além do medo atávico dos grillini e dos renzianos em convocar novas eleições. Nos cálculos de Salvini, os primeiros acabariam dizimados e sem influência em comparação com os resultados conseguidos um ano e meio antes (37,7%), sem contar que por limitação dos mandatos da maioria dos deputados e senadores não poderiam voltar a candidatar-se. Os segundos desapareceriam do mapa, já que seria Zingaretti, que controla o partido, quem faria as listas.
 
E ali, nessas horas de incerteza com metade do país já de férias, Renzi, o destroçador destroçado, que há meses preparava as bases para um racha e a criação de um novo partido de centro, deu um inesperado giro de 180 graus que mudou tudo: ele se abriu a formar um governo com o odiado M5E, depois de tê-lo atacado durante meses qualquer dirigente do PD que propusesse uma tímida abertura em direção aos grillini. Um governo de “saúde pública” para defender a democracia e evitar que Salvini conseguisse “plenos poderes”. O desaparecido Renzi voltava ao centro da cena política italiana e colocava ainda mais pressão sobre Zingaretti que, por mais que fosse defensor de um possível diálogo com o M5E, havia conseguido somente no final de julho alcançar a unidade do partido com uma moção da direção no qual afiançava que PD jamais faria uma aliança com os Di Maio.
 
E a partir dali as coisas começaram a mover-se, também dentro da zorra que é o M5E, que até o dia anterior não parava de grosseiramente insultar o PD pelo “escândalo” de Bibbiano – uma investigação que revelou uma série de adoções de crianças em uma prefeitura governada pela centro-esquerda. Consciente de que os grupos parlamentares estão controlados por Renzi e das pressões existentes, Zingaretti teve que abandonar a ideia de novas eleições e engolir alguns sapos, incluindo a permanência de Conte na presidência do futuro governo. Com isso, foram feitos os acordos de última hora de quarta (dia 28 de agosto) entre as delegações dos dois partidos e a designação do presidente da República Mattarella a Conte – reconvertido, de um dia para o outro, em estadista com prestígio internacional – para a formação de um novo executivo. 
 
Transformismo ou nova fase política?
 
Agora, a expectativa é o governo Conte não naufrague, já que o PD se encontra em uma situação extremamente delicada. Por um lado, e não cabe dúvida disso, volta a ter protagonismo e ocupará outra vez ministérios importantes (veremos quais) e, provavelmente, nomeará o membro italiano na Comissão Europeia. Assim, sairá da invisibilidade dos últimos quinze meses. Por outro lado, a experiência do governo com os grillini pode ser desastrosa: um executivo frágil e bloqueado chegaria a duras penas ao começou de 2020. Esse cenário suporia um grande desgaste para a formação de Zingaretti e presentearia, só com o atraso de alguns meses, o Palazzo Chigi a Salvini que, enquanto isso, poderia se fortalecer na oposição. Significaria, em síntese, a morte do PD.
 
Zingaretti, que não entrará no Executivo, perdeu um “governo de mudança e descontinuidade”, conseguindo até o momento manter o partido unido, apesar de ter sido abandonado pelo eurodeputado e ex-ministro Carlo Calenda. Conseguirá também nos próximos meses? A princípio, Renzi defendia um executivo de curto prazo, enquanto que Zingaretti e a maior parte da direção do PD advogam por um acordo no Legislativo com o M5E, o que permitiria reverter as políticas do governo Salvini-Di Maio, a partir da imigração, da política exterior e da economia. Além disso, obviamente, eles liquidariam a oposição ao líder da Liga, privado de seu pedestal propagandístico no Ministério do Interior e a espera das investigações sobre Moscopoli, o escândalo do financiamento russo a seu partido.
 
No fundo, há três questões cruciais: a eleição para a Presidência da República em 2022 – o Legislativo acabaria em princípio de 2023 –, as possíveis alianças regionais – no outono se vota em Compania, Umbria e Emilia Romaña, todas regiões governadas pelo PD e que poderiam cair nas mãos da Liga – e a reforma da lei eleitoral – que prevê a redução do número de parlamentares, uma das bandeiras que o M5E negocia no Parlamento. O PD era contra, mas poderia chegar a um acordo se trabalharem paralelamente em uma nova lei eleitoral, do tipo proporcional, o que impediria Salvini de conseguir uma maioria absoluta.
 
Os obstáculos são muitos, é evidente, principalmente pelas diferenças e pelos anos de troca de onfensas entre PD e M5E. Continuam com a elaboração dos orçamentos que devem ser aprovados antes de dezembro. Ali as instituições europeias poderiam ajudar. A Europa é uma das chaves, não se pode perder de vista: o voto do M5E a favor de Ursula von der Leyen [na eleição que a política de centro-direita alemã conquistou a presidência da Comissão Europeia] em julho – a Liga votou contra – abriu a primeira brecha.
 
Os partidários de Di Maio aceitarão essa mudança de prioridades? Até que ponto? E Renzi? Quão confiável é? Muito pouco, tendo em vista os antecedentes: pode derrubar o governo quando quiser e, enquanto isso, fazer uma guerra contra Zingaretti com o objetivo de reconquistar a secretaria do partido. Ou se não fizer isso, ele pode abandonar o PD e criar seu próprio partido. Para isso, no entanto, precisa da nova lei eleitoral do tipo proporcional. Uma ficção científica? Tudo pode acontecer, ainda mais depois do que vimos nesse estranho mês de agosto. Mas todos estão conscientes de uma coisa: o governo Conte pode ser um simples exercício transformista e um gato-pardo de curto alento ou o início de uma nova fase política. Isso dependerá tanto do M5E como do PD, que ainda não explicou qual projeto tem para o país além de algumas fórmulas vazias e uma navegação sem rumo nem bússola.
 
* STEVEN FORTI - É professor associado de História Contemporânea na Universidade Autônoma de Barcelona e pesquisador do Instituto de Históriai Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.
 
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Itália | A anatomia do suicídio político de Matteo Salvini

 
 
O ministro do Interior italiano errou no momento e na forma de fazer cair o Governo de seu país, mas já havia uma operação em marcha para afastá-lo do poder
 
Matteo Salvini colocou bermuda em 5 de agosto e apareceu no Papeete Beach, um bar na beira da praia com dançarinas de maiô, house music e coquetéis na costa adriática. O ministro do Interior tirou a camiseta, pediu um mojito e se animou a botar o hino da Itália para tocar enquanto algumas garotas mexiam o corpo no palco. Seus spin doctors haviam lhe contado que ele tinha quase 38% de apoio nas pesquisas e uma influência descomunal nas redes sociais. Fez centenas de selfies, distribuiu abraços. Mas havia dias que um mau pressentimento o perseguia. “Estava atormentado. Il Capitano não falava com ninguém de seu círculo, nem com Lorenzo Fontana [ministro de Assuntos Europeus, também de bermuda], nem com Massimo Casanova [membro da Liga e dono do beach club]... Passou o dia olhando o celular. Todo ano ele vai a uma praia e faz algo assim... Mas desta vez tinha um humor lúgubre”, explica uma pessoa que esteve com ele e o conhece há 20 anos. Naquele dia, ele tomou uma decisão que propiciou algo parecido com um histórico suicídio político.
 
A anatomia do colapso de Salvini, o maior ciclone eleitoral da Itália recente e um político que ainda conserva o apoio nas ruas, é complexa demais para ser atribuída a um erro de cálculo, um acidente. Fazia meses que o líder da Liga tinha medo de terminar mal após um pacto entre o seu então sócio de Governo, o Movimento 5 Estrelas (M5S), e com o Partido Democrático (PD). Depois das eleições europeias, quando a Liga arrasou na Itália, o Governo dividiu-se em três blocos: o Executivo de Salvini; o de Luigi Di Maio; e outro formado pelo primeiro-ministro, Giuseppe Conte, o chanceler, Enzo Moavero Milanesi, o ministro da Economia, Giovanni Tria, e o próprio presidente da República, Sergio Mattarella. A partir do terceiro polo (mais institucional e próximo da União Europeia), explica um deputado do PD que presenciou as negociações, começou a ser planejada, de forma transversal, a chamada Operação Ursula [em alusão aos partidos que apoiaram a nova presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen]. Desconfiado por natureza, desta vez Salvini percebeu indícios reais.
 
 
A teoria diz que quem rompe um Governo na Itália paga nas urnas. Salvini queria o poder, mas sem ter de usar esse sambenito. Com a chegada do verão europeu, cada vez mais encurralado, ele pensou que era o momento oportuno. “Era evidente que algo estava acontecendo. Houve um movimento europeu para construir um cordão sanitário e isolá-lo. A Operação Ursula já estava em marcha e, nesse processo, Conte foi uma peça fundamental de dentro das instituições. Além disso, o vazamento da negociação de um de seus assessores em Moscou [Gianluca Savoini se reuniu com supostos enviados do Kremlin para discutir a compra de gás em troca de uma suposta comissão para a Liga] teve uma origem estranha”, diz o cientista político Giovanni Orsina. A obscura explosão da trama russa, justo depois do grande resultado nas eleições europeias, persuadiu Salvini de que os serviços secretos de algum país próximo pretendiam frustrar seus planos.
 
Os assessores do líder da Liga, incluindo o subsecretário do Governo, Giancarlo Giorgetti, pediam havia semanas que Salvini rompesse com o M5S. Em pleno verão, quando ele deixou de consultá-los e se fechou em si mesmo, os assessores começaram a se desesperar, diz um deputado da Liga. Poucas pessoas, além de seu guru digital, Luca Morisi, tiveram acesso ao seu estado de ânimo até que em 8 de agosto, três dias depois da festa do Papeete, ele lançou a bomba e pediu “plenos poderes” aos italianos para anunciar a queda do Executivo. “A data não foi casual. Ele pensou que durante as férias seria muito mais difícil que as instituições reagissem e que o PD e o M5S chegassem a um acordo”, diz o congressista.
 
A jogada era arriscada, e Salvini primeiro quis garantir que não haveria pacto entre o PD e o M5S. Ligou para Nicola Zingaretti, secretário-geral dos sociais-democratas, que o tranquilizou dizendo que alguns atos políticos também poderiam reforçar sua liderança no PD. A ideia era forçar a reabertura das Câmaras e o regresso de todos os parlamentares, acelerando uma moção de censura. Mattarella só poderia convocar eleições o mais breve possível para evitar um desastre. Mas logo notou que o chão se movia. Matteo Renzi, histórico inimigo dos grillinos [seguidores de Beppe Grillo, o fundador do M5S] e ainda possuidor do controle da maioria dos sociais-democratas, começou a fazer declarações e deu uma série de entrevistas, entre elas ao EL PAÍS, pedindo o que semanas antes era inimaginável: um Governo de unidade com o M5S. A armadilha estava pronta.
 
Grillo e Renzi entraram em acordo após anos de insultos, e o ex-premiê convenceu o secretário-geral de seu partido sobre as vantagens de um armistício apoiado do presidente da República até a Santa Sé, profundamente escandalizada com a tendência de ódio contra a imigração e a ostentação pornográfica de símbolos religiosos. O líder da Liga havia trabalhado a política nacional sem descanso durante os últimos quatro anos. Mas sua ação exterior, encarregada pessoalmente ao ex-grillino Marco Nazzi, tinha sido um desastre. Especialmente na hora de esclarecer sua posição na Aliança Atlântica. E por esse flanco veio a última estocada.
 
Em 17 de junho, Salvini havia ido a Washington para se reunir com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo. A foto do encontro, como tantas antes, seria exibida perfeitamente no Facebook. Mas sobre a mesa de Pompeo havia várias pastas importantes que exigiam respostas, como a relação da Itália com a Rússia de Putin, a China (Conte acabava de assinar um estranho acordo para a Rota da Seda) e a imigração. O encontro não foi bom, segundo soube-se posteriormente, e os EUA confirmaram suas dúvidas sobre Salvini. “Se você é a Itália, pode estar com os EUA e contra a Europa; ou com a Europa e contra os EUA... mas não pode se aliar com a Rússia e estar com todos. Salvini abriu um desencontro com a Europa sem ter o respaldo dos EUA. E isso é não compreender os mecanismos da alta política e criar um problema estrutural”, diz Orsina.
 
O problema se materializou no último fim de semana, justo quando Salvini tentava convencer Luigi Di Maio, de forma desesperada, a retroceder oferecendo-lhe ser primeiro-ministro. Conte, reunido com outros seis líderes mundiais no G7 em Biarritz, fechou essa porta e anunciou que a aventura com a Liga chegava ao fim. Logo depois o presidente dos EUA, Donald Trump, incentivado pelo mandatário francês, Emmanuel Macron, segundo informaram jornais norte-americanos, manifestou-se abertamente a favor de uma continuidade de Conte — embora o chamasse de “Giuseppi” — e, indiretamente, do pacto que estava sendo forjado em Roma. A autópsia logo diria que esse foi o último suspiro do Capitano.
 
Daniel Verdu, Roma | El País
 
Na foto: Matteo Salvini, líder da Liga, na última sexta-feira em Pádua | Marco Bertorelo / AFP
 
 
 

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Coisas que o nome não resolve

Qualquer dia em Santa Comba Dão ?
 
fachistas001
aqui no «Reppublica»
«Erano un centinaio i nostalgici del ventennio giunti questa mattina a Predappio per commemorare l’anniversario della nascita di Benito Mussolini. Fez, camicie nere, magliette della X Mas e le immancabili tshirt nere griffate "Boia chi molla", questa volta però a mancare i saluti romani non erano moltissimi. Infatti come ha spiegato Mirco Santarelli, organizzatore del corteo, davanti al cimitero di San Cassiano, dove è sepolto Benito Mussolini: "Siamo sotto osservazione, purtroppo il saluto romano potrebbe essere punito". Qualcuno però non resiste e all’appello: "Camerata Benito Mussolini" risponde: "Presente", tendendo platealmente il braccio destro. Alla messa privata in onore del Duce ha partecipato Giulio Caio Mussolini, pronipote di Benito e cugino di Alessandra, ex candidato alle elezioni europee con Fratelli d’Italia. A tenere banco sono le polemiche per la riapertura permanente della tomba della famiglia Mussolini: "La riapertura della cripta è prevista per la fine dell’anno - ci racconta Santarelli- il sindaco ha capito che la tomba di Mussolini è come un pozzo di petrolio a Predappio, se la tieni chiusa il turismo e l’indotto cala in maniera clamorosa". Dal canto suo il neoeletto Roberto Canali, il primo di centrodestra nella storia di Predappio (dal dopoguerra), replica: "E’ una tomba privata, non decidiamo noi dell’apertura, come ho detto in campagna elettorale, noi ci auspichiamo venga aperta in maniera permanente".»
 
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Conte quer "recuperar tempo perdido" na Itália

 
 
Primeiro-ministro italiano é reconduzido ao cargo após acordo entre populistas e centro-esquerda. Em discurso, ele acena para União Europeia e promete governo de mudanças. Novo gabinete será anunciado nos próximos dias.
 
O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, que renunciou ao cargo na semana passada, recebeu nesta quinta-feira (29/08) a incumbência de formar um novo governo, um dia após a confirmação de uma nova coligação entre o populista e eurocético Movimento Cinco Estrelas (M5S) e o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.
 
As duas legendas, que viveram uma rivalidade ferrenha durante anos, vão agora governar juntas após o fracasso da coligação entre o M5S e a ultradireitista Liga, de Matteo Salvini. Bem avaliado nas pesquisas, Salvini anunciou o fim da coligação na tentativa de convocar novas eleições. A jogada política, no entanto, fracassou.
 
 
Em seu discurso, Conte afirmou que entregará nos próximos dias ao presidente italiano, Sergio Mattarella, uma lista de nomes para compor o novo ministério. Ele ainda prometeu que este será um "governo de mudanças". "Precisamos transformar esta crise em oportunidade", declarou, assegurando que a Itália voltará a ser um dos principais poderes na Europa, após 14 meses do governo populista e eurocético do M5S e a Liga.
 
"Este é o tempo de uma nova estação, uma grandiosa nova estação de reformas, de reinício, de esperança, de dar ao país algumas respostas e certezas", afirmou. Conte disse querer uma Itália "mais justa, competitiva, unida e inclusiva". O tom adotado no discurso já apresenta diferenças significativas em relação ao governo anterior.
 
"Temos que recuperar o tempo perdido para que a Itália possa ter o papel de liderança [na União Europeia] que um dos países fundadores merece", destacou o primeiro-ministro.
 
Conte avalia que o país, atolado em dívidas, atravessa "uma fase muito delicada", com a desaceleração da economia europeia e as tensões no comércio internacional, principalmente entre os Estados Unidos e a China.
 
O PM afirmou que começará a trabalhar imediatamente em um orçamento que possa se contrapor ao aumento nos impostos sobre valor agregado (IVA), proteger as poupanças e prover perspectivas sólidas de crescimento e desenvolvimento social.
 
As prioridades da nova coligação incluem melhorar a infraestrutura, fortalecer as energias renováveis e combater a sonegação fiscal. Conte, no entanto, evitou mencionar a questão da imigração, a grande obsessão política de seu ex-parceiro Salvini.
 
Em 8 de agosto, Salvini retirou a Liga da coligação de governo e exigiu a convocação de novas eleições, na certeza de que seu partido venceria o pleito e ele seria indicado para o cargo de primeiro-ministro. Seu ex-parceiro de governo, porém, conseguiu evitar esse cenário ao se aliar com um inimigo comum de ambos, o Partido Democrático.
 
Após sua renúncia, Conte, um professor de direito de 55 anos, permaneceu na chefia de governo em caráter provisório. Depois de confirmada a coligação M5S-PD, ele recebeu do presidente Mattarella o mandato para formar um novo governo, ao ser indicado pelas duas legendas como o novo primeiro-ministro.
 
Mattarella correu para encontrar uma solução para a crise política que se instalara, com o país atolado em dívidas e sob pressão para aprovar o orçamento nos próximos meses. A ausência de um governo poderia gerar efeitos graves na economia que levariam o país à recessão.
 
Após ver fracassar sua estratégia para chegar ao poder, o líder da Liga teceu duras críticas à nova coligação, afirmando que "nasceu em Bruxelas para se livrar daquele chato do Salvini". Ele disse que o novo governo se alimentará de sua narrativa populista e alegou não ter pressa para voltar ao poder, confiante de que seu partido vencerá as próximas eleições.
 
A nova coligação tem enorme potencial para ser tão atribulada quanto a anterior, considerando a longeva e espinhosa rivalidade entre os dois partidos que a compõem.
 
Deutsche Welle | RC/dpa/afp
 
 
 
 

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Partidos italianos alcançam acordo para formar novo governo

 
 
Arranjo entre o Partido Democrata e o Movimento Cinco Estrelas prevê a continuidade de Giuseppe Conte como primeiro-ministro. Anúncio representa derrota para o direitista Matteo Salvini, que vinha tentando forçar novas eleições.
 
Um acordo político foi firmado na Itália nesta quarta-feira (28/08) entre o Partido Democrata (PD), de centro-esquerda, e o populista Movimento Cinco Estrelas (M5S) para formar uma nova coligação de governo com o atual primeiro-ministro, Giuseppe Conte, na liderança.
 
A manutenção de Conte na chefia de governo foi uma das condições impostas ao PD pelo líder do M5S, Luigi Di Maio, um dos vice-pm do país. O M5S é a principal força do Parlamento italiano, enquanto o PD conta com a terceira maior bancada. Juntos, os dois partidos terão 317 deputados de um total de 630.
 
Inicialmente, as conversas entre as siglas quase naufragaram por causa da relutância do Partido Democrata em aceitar a continuidade de Conte no cargo.
 
"Metade da Itália pediu-me que faça este governo com Conte como primeiro-ministro. Escutei todo mundo e percebi que devia me render", afirmou Nicola Zingaretti, líder do PD.
 
 
Já Di Maio, ao anunciar o acordo, fez críticas ao ministro do Interior, Matteo Salvini, que também atua como vice-pm. Há três semanas, Salvini anunciou divisão na coligação de governo entre seu partido, a direitista Liga, e o M5S, a fim de forçar a convocação de novas eleições. O abandono levou Conte a renunciar ao cargo, parecendo sinalizar que novas eleições eram iminentes. 
 
O anúncio desta quarta-feira já está sendo encarado como uma derrota para Salvini. Caso nenhuma nova coligação fosse formada, ele tinha esperança de aumentar a bancada da Liga em um novo pleito e conquistar a chefia de governo, deixando o papel coadjuvante que detinha na coligação com o M5S.
 
Há três semanas, pesquisas apontavam que a Liga poderia conquistar até 38% dos votos em uma eleição parlamentar antecipada, graças à popularidade que Salvini conquistou à frente do Ministério do Interior com sua campanha severa contra a entrada de imigrantes ilegais no país.
 
A formação do novo governo ainda liderado por Conte aconteceu quase no fim de um prazo-limite estabelecido pelo presidente da Itália, Sergio Mattarella.
 
Inicialmente, ele havia estabelecido que os partidos interessados em formar uma coligação deveriam apresentar um acordo até terça-feira, mas, a pedido do M5S, concordou em prorrogar o prazo por 24 horas.
 
A ideia na nova coligação com a participação do PD foi apresentada pelo ex-primeiro-ministro Matteo Renzi (2013-2016), que apelou para uma compatibilização dos programas dos dois partidos, sobretudo na área económica e social. Agora, as duas legendas devem discutir a divisão de ministérios.
 
Deutsche Welle
 
 
 

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Primeiro-ministro renuncia e coloca fim a governo na Itália

PM italiano, Giuseppe Conte, chamou de irresponsável seu vice, Matteo Salvini (esq.)
Em discurso no Senado, Giuseppe Conte anuncia que vai deixar o cargo e acusa seu vice, Matteo Salvini, por crise na coalizão de governo. Presidente deve decidir sobre convocação de novas eleições.
 
 
O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, anunciou sua renúncia nesta terça-feira (20/08), afirmando, em discurso no Senado, sua intenção de informar no mesmo dia o presidente italiano, Sergio Mattarella de sua decisão. Ele atribuiu a culpa pelo fim do governo populista, que durou 14 meses, ao ministro do Interior e vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini.
 
"Estou dando fim aqui a essa experiência de governo", disse Conte, chamando Salvini de "irresponsável" por provocar uma crise do governo.
 
O primeiro-ministro criticou severamente as recentes demandas de Salvini por um eleição antecipada, para que, segundo ele, pudesse ganhar "plenos poderes" e conquistar o posto de primeiro-ministro.
 
 
Conte afirmou que o vice-premiê mostra "grave desprezo pelo Parlamento" e coloca a Itália em risco de uma "vertiginosa espiral de instabilidade política e financeira" nos próximos meses, criando uma crise desnecessária que derruba um governo em funcionamento.
 
Salvini, que esteve sentado ao lado de Conte, sorrindo às vezes enquanto o premiê discursava, começou o debate no Senado dizendo, desafiadoramente: "Eu faria tudo novamente."
 
Pressionando por uma nova eleição o mais breve possível, Salvini, que enquanto ministro do Interior liderou uma repressão aos migrantes, disse: "Eu não temo o julgamento dos italianos."
 
Tanto na eleição para o Parlamento Europeu na Itália, há três meses, como nas mais recentes pesquisas de opinião, a Liga de Salvini subiu em popularidade.
 
Salvini já havia afirmado no dia 8 de agosto que a coalizão governista, formada pelo partido Liga, de extrema direita, e o populista Movimento Cinco Estrelas (M5S), rachou e que o único caminho para solucionar o impasse seria realizar novas eleições.
 
A tensão na coailizão de governo veio à tona depois de o Senado derrotar uma moção apresentada pelo M5S visando acabar com um projeto de trem alta velocidade, financiado pela União Europeia (UE), que ligaria Turim à França. O projeto foi apoiado, porém, pela Liga, de Salvini.
 
A votação no Senado expôs o conflito entre as legendas, que há meses têm tido uma série de atritos. Segundo a imprensa italiana, antes do embate parlamentar, Salvini já havia imposto várias condições para a Liga permanecer no governo, incluindo a renúncias dos ministros do Transporte, Defesa e Economia.
 
O rompimento lança a terceira economia da zona do Euro num futuro político incerto. Antes de convocar novas eleições, o presidente italiano, Sergio Mattarella, deve primeiro verificar se o governo realmente perdeu apoio no Parlamento.
 
Deutsche Welle | MD/ap/afp
 
 
 

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Salvini, a voz da “nova” ultradireita europeia

 
 
Como o vice-primeiro-ministro italiano explora o medo de parte da população diante dos imigrantes para posar de paladino da ordem e crescer eleitoralmente. Seus trunfos: a crise da velha política, uma comunicação baseada em fake news e as hesitações da esquerda
Matteo Pucciarelli, no Le Monde Diplomatique | em Outras Palavras
 
A Itália tem um novo homem forte. Na opinião de muita gente, até um novo salvador. Em Roma, o verdadeiro chefe do governo não é o presidente do Conselho, Giuseppe Conte, nem o vencedor das últimas eleições gerais, o líder do Movimento Cinco Estrelas (M5S), Luigi Di Maio. O verdadeiro chefe do governo é o ministro do Interior, Matteo Salvini. É como se, de um dia para o outro, um obscuro vereador de Milão, militante de longa data da formação separatista Liga Norte, tivesse se tornado a personalidade mais poderosa do país. Em suas mãos, um partido que parecia uma relíquia transformou-se no principal agente da política italiana e talvez europeia.
 
As raízes dessa incrível transformação chegam muito longe, não no tempo, mas no espaço. Desde 2014, as guerras e a pobreza levaram milhões de habitantes da África e do Oriente Médio a atravessar o Mediterrâneo em busca de trabalho, liberdade e paz em uma Europa rica, antiga, porém cada vez mais desigual. A resposta do Velho Continente resumiu-se ou a fingir que não via, ou a explorar os fantasmas do desespero alheio: em vez de ajudar, identificar um inimigo e lançar um concurso de humilhações. Os últimos e os penúltimos dos abandonados do planeta foram jogados uns contra os outros, e os mais favorecidos foram deixados em paz. Na Itália, Salvini iniciou a revolta dos penúltimos. Com certo talento, aprendeu a comunicar-se com suas necessidades.
 
A Liga Norte foi fundada em 1991, às vésperas da implosão dos três partidos de massa – o democrata cristão, o comunista e o socialista – que dominavam a Itália desde a Segunda Guerra Mundial. Apresentando-se como “nem de esquerda nem de direita”, ela nasceu da fusão entre a Liga Lombarda de Umberto Bossi, surgida em meados dos anos 1980, e algumas forças regionalistas que operavam no norte do país. Sua articulação se dava em torno de um objetivo particularista: a independência da Padânia, uma nação imaginária que se estenderia ao redor do Pó, uma vez que o norte, próspero e trabalhador, estaria cansado de pagar pelo sul, atrasado e dependente. Assim, cada um deveria seguir seu próprio destino.
 
Os partidos democrata cristão e socialista, na época, estavam ruindo por causa do escândalo Tangentopoli.1 O divisionismo reinava, e o Partido Comunista Italiano (PCI) abandonou qualquer referência ao comunismo após a queda do Muro de Berlim. A Liga conseguiu seu primeiro avanço nas eleições gerais de 1994, obtendo 8,7% dos votos em nível nacional e mais de 17% na Lombardia. Depois, participou do governo de centro-direita de Silvio Berlusconi. Mas, irritado com seu papel subalterno, Bossi, um franco-atirador truculento, não tardou a deixar a aliança, derrubando de passagem Berlusconi. Bancando o cavaleiro solitário nas eleições seguintes, a Liga ganhou 10% dos votos em 1996, caindo depois para 4,5% nas eleições europeias de 1999.
 
 
Ela voltou à aliança liderada por Berlusconi, na qual, durante a década seguinte, atuou como parceira minoritária, vociferante, mas altamente ineficaz. Enfraquecido por um acidente vascular cerebral e atolado em um caso de corrupção, Bossi foi afastado por seu número dois, Roberto Maroni, que assumiu a liderança do partido em 2012. Nas eleições gerais de 2013, a Liga caiu novamente para 4,1%, parecendo condenada à insignificância. Em seu feudo lombardo, porém, Maroni conseguiu conquistar a presidência da região. Ele então decidiu abandonar o cargo de secretário-geral, acreditando que seu partido não teria futuro em nível nacional e que seria melhor aproveitar os benefícios de um mandato regional.
 
Em 15 de dezembro de 2013, a Liga Norte organizou uma primária interna para designar o sucessor de Maroni, mas a consulta parecia mera formalidade. O futuro do partido foi decidido em um almoço entre Maroni e dois de seus seguidores, Salvini e Flavio Tosi, o popular prefeito de Verona: a posição ingrata de secretário-geral caberia ao primeiro, reservando-se ao segundo a possibilidade de se tornar o porta-bandeira da centro-direita quando Berlusconi, cada vez mais desacreditado, não pudesse mais exercer esse papel.
 
Salvini venceu a primária com mais de 82% dos votos. Ele era então quase desconhecido entre os eleitores italianos. Mas não entre os militantes de Milão, onde nasceu, em 1973, filho de um empresário. Aos 17 anos, ainda na época da escola, o rapaz juntou-se à Liga Lombarda. Sete anos depois, tornou-se vereador. Nesse período, frequentou o Leoncavallo, o mais importante centro social da cidade, um enclave da militância alternativa e radical, onde se encontram as várias tendências da esquerda milanesa. Ele bebia cerveja, assistia a espetáculos e cultivava sua paixão pelo cantor anarquista Fabrizio De André. Como vereador, defendeu o centro contra Marco Formentini, o prefeito da época, também membro da Liga, que desejava derrubá-lo. Quando, em 1997, a Liga organizou “eleições padanianas” para nomear o parlamento paralelo de sua pretendida nação, Salvini tornou-se chefe dos “comunistas padanianos”, uma lista adornada com a foice e o martelo.
 
Três milhões de seguidores no Facebook
 
Seu assento na Câmara Municipal de Milão permitiu-lhe dar amplo eco a suas diatribes, sobretudo em relação aos “ciganos muçulmanos” e às questões securitárias. Assim, apoiou um pai de família que atirou em um ladrão e propôs o estabelecimento de uma linha telefônica gratuita para denunciar atos de delinquência cometidos por imigrantes. Arroz de festa, logo se tornou convidado regular dos canais de televisão locais. Ele também se mostrou muito ativo nas mídias controladas pela Liga, escrevendo principalmente para o jornal Padania, antes de se tornar diretor da Radio Padania Libera. À imagem do PCI de outrora, a Liga era uma organização que atuava em todas as áreas, envolvendo seus militantes em uma ampla variedade de atividades.
 
Em 2004, o dinamismo de Salvini acabou por levá-lo a Bruxelas, onde se tornou eurodeputado pela Liga, com a maior parte de seus votos vinda dos subúrbios carentes de Milão. Ele renunciou em 2006 para liderar o grupo da Liga na Câmara Municipal de Milão, mas voltou a seu mandato europeu em 2009. Tornou-se secretário-geral da Liga Lombarda em 2012. Foi então que se impôs como o candidato lógico para a sucessão de Maroni na direção da Liga Norte.
 
O contexto histórico favoreceu essa ascensão. Evidentemente, os sonhos de Altiero Spinelli – um dos pais fundadores da União Europeia, feroz partidário de um federalismo continental – não se concretizaram. Pelo contrário: as altas esferas do bloco europeu são cada vez mais povoadas por burocratas que ditam suas políticas a governos eleitos, sem se preocupar com mandatos democráticos, e impõem a austeridade neoliberal sob a ameaça de um cataclismo a qualquer país que pretenda seguir outro caminho.
 
Na Itália, país que sofreu mais que outros as consequências do Tratado de Maastricht, o ano de 2014 assistiu ao advento de um dos governos mais arrogantes do pós-guerra, determinado não apenas a destruir o direito trabalhista por decreto, mas também a desmantelar algumas disposições fundamentais da Constituição de 1946, a fim de concentrar mais poder em suas mãos. Matteo Renzi assumiu o cargo de presidente do Conselho em fevereiro de 2014. Ele chegou ali sem nem sequer ter sido deputado antes: assumiu o controle do Partido Democrático – enterrando de passagem as reivindicações tradicionais desse partido para encarnar uma força de esquerda – e fez um pacto com Berlusconi. Beneficiando-se do apoio sem reservas do presidente da República, do principal sindicato patronal, dos bancos e das multinacionais, sem falar dos meios de comunicação, Renzi considerou-se popular o bastante para lançar um referendo sobre suas emendas constitucionais. O conjunto das forças políticas voltou-se contra ele, e os eleitores infligiram-lhe uma severa derrota.2 Entre os jovens eleitores, que ele dizia representar, 80% escolheram o “não”. Entre os vencedores dessa rodada eleitoral, Salvini, que lutou vigorosamente contra o projeto de reforma, adquiriu uma estatura nacional.
 
Para chegar a isso, o chefe da Liga teve de operar duas grandes mudanças: adotar uma nova estratégia eleitoral e estabelecer uma relação inovadora com o digital. A Liga Norte, movimento separatista fundado por Bossi, definira dois inimigos: Roma, o centro da corrupção burocrática, e o sul, terra de vagabundos e parasitas. O impasse dessa estratégia apareceu claramente no início de 2010. A separação não era nem real nem plausível, e a sobrevivência do partido – que oscilava entre 3% e 4% das intenções de voto nas pesquisas – estava em questão. Como secretário-geral, Salvini tomou um novo rumo: atacar Bruxelas em vez de Roma, e os imigrantes em vez dos habitantes do sul. Assim, falaria em nome de todos os italianos, de toda a nação, contra os opressores e contra os invasores. Abandonando a oposição entre duas Itálias, a Liga conseguiu reunir agricultores da Puglia, pescadores da Sicília, empresários venezianos e executivos lombardos, todos apresentados como vítimas de um poder distante e desalmado, e enfrentando um tsunami de estrangeiros.
 
Salvini começou explorando a frustração em relação à União Europeia, em um país onde cada orçamento deve ser aprovado pela Comissão, a qual exige sacrifício após sacrifício com o consentimento tanto da centro-direita como da centro-esquerda. Seu discurso de posse dava o tom: “Temos de reconquistar a soberania econômica que perdemos na União Europeia. Já estamos de saco cheio deles […]. Isso não é União Europeia, é União Soviética, um gulag de onde queremos sair, com quem mais estiver disposto a fazê-lo”. As eleições europeias de 2014 se aproximavam, e ele continuava sua ofensiva contra Bruxelas, exortando a Itália a abandonar o euro, uma ideia até então relegada às margens do discurso político pela esquerda e pela direita. A reivindicação não arrastou multidões. Longe de melhorar sua pontuação, a Liga perdeu três de seus nove deputados no Parlamento Europeu.
 
Foi então que entrou em cena Luca Morisi. O especialista em informática de 45 anos dirigia, com um sócio, a empresa Sistema Intranet, que não tinha nenhum funcionário, mas uma multidão de clientes institucionais. Ele assumiu Salvini em uma época na qual este já era inseparável de seu tablet e amplamente familiarizado com o Twitter, mas com uma presença ainda insignificante no Facebook. Seu novo consultor digital disse que ele precisava mudar de estratégia. O Twitter é uma camisa de força, explicou. Segundo ele, a plataforma é fundamentalmente autorreferencial e privilegia as mensagens de confirmação. “As pessoas estão no Facebook e é lá que precisamos estar”, afirma. Uma equipe dedicada às redes sociais foi montada e logo se tornou um dos serviços mais importantes da Liga.
 
Morisi definiu o decálogo que o chefe do partido deveria seguir. As mensagens em sua página do Facebook tinham de ser escritas pelo próprio Salvini, ou dar essa impressão. Deveria haver publicações todos os dias, o ano todo, e comentários inclusive sobre eventos que acabaram de acontecer. A pontuação deveria ser regular, os textos simples, as chamadas à ação recorrentes. Morisi também sugeriu usar, tanto quanto possível, o pronome “nós”, mais capaz de promover a identificação dos leitores, além de ler os comentários e, algumas vezes, responder a eles, a fim de sondar a opinião pública. Resultado: a página de Salvini no Facebook passou a funcionar como um jornal, sobretudo graças a um sistema de publicação criado internamente e conhecido como “a besta”. O conteúdo é publicado em horários fixos e replicado por uma infinidade de outras contas; as reações são monitoradas continuamente. Morisi e seus colegas redigem entre oitenta e noventa status por semana, enquanto Renzi – então presidente do Conselho – e sua equipe não passam de dez. Para manter os seguidores, Morisi tem um truque: insistir nas mesmas palavras, mantendo uma linguagem que mais lembra uma conversa de boteco do que a fala de um político tradicional.
 
O tom das mensagens oscila entre a irreverência, a agressividade e a sedução. O chefe da Liga lança seus leitores contra o inimigo do dia (os “ilegais”, os magistrados venais, o Partido Democrático, a União Europeia), depois publica uma foto do mar, de seu almoço ou uma foto sua abraçando um militante ou pescando. A opinião pública se alimenta de um fluxo interminável de imagens de Salvini comendo Nutella, cozinhando tortellini, chupando laranja, ouvindo música ou assistindo à televisão. Diariamente, uma fatia de sua vida é assim compartilhada com milhões de italianos, seguindo uma estratégia na qual o público e o privado se misturam permanentemente. Esse ecletismo tem o objetivo de conferir-lhe uma imagem humana e reconfortante, permitindo que continue suas provocações. Sua mensagem: “Apesar da lenda que me apresenta como um monstro retrógrado, um populista pouco sério, eu sou uma pessoa honesta. Falo assim porque sou como você, então confie em mim”.
 
A estratégia de Morisi também se baseia na “transmidialidade”: aparecer na televisão enquanto publica no Facebook, analisar os comentários ao vivo e citá-los durante o programa; uma vez terminado o programa, montar resumos e postá-los no Facebook. Essa abordagem, na qual Salvini se tornou mestre, não tardou a dar frutos: entre meados de janeiro e meados de fevereiro de 2015, ele recebeu quase duas vezes mais tempo na mídia do que Renzi. Em 2013, não tinha mais do que 18 mil seguidores no Facebook; em meados de 2015, eles eram 1,5 milhão, e hoje são mais de 3 milhões – um recorde entre os dirigentes políticos europeus.
 
Um rival reduzido à impotência
 
Por muito tempo Salvini foi considerado por seus adversários como caprichoso e indisciplinado, capaz apenas de gesticulações midiáticas. Mas, em um mundo político marcado por uma extrema personalização,3 o secretário-geral da Liga tem um grande trunfo. Berlusconi se dirige à nação em seus canais de televisão, do grande escritório de sua vila em Arcore; Renzi organiza eventos multimídia em Florença, onde aparece com escritores e estrelas da música; Giuseppe “Beppe” Grillo, com seu espírito mordaz do tempo em que era comediante e arrastava multidões, depois de fundar o M5S prefere ficar na sombra e controlar seu movimento a distância. Já Salvini aparece como um homem do povo, autêntico, que ama acima de tudo se misturar com as massas. Basta vê-lo em ação em uma discoteca, com um copo na mão, cercado por militantes e admiradores curiosos que aguardam uma foto: nenhum dirigente italiano poderia produzir tais imagens com tamanha naturalidade.
 
Enquanto a esquerda, ou o que resta dela, refugia-se nos símbolos do passado, se divide e se perde em lutas internas, Salvini vai falar com os trabalhadores nas fábricas, sempre arrastando as câmeras de televisão atrás de si. Ele lhes oferece um momento de atenção midiática após décadas de isolamento. Enquanto a esquerda gere seu eleitorado em miniatura multiplicando pactos e alianças, remoendo seus vãos apelos à unidade, ele brada contra as deslocalizações de fábricas para o exterior e pede medidas protecionistas contra a concorrência desleal de países que pisoteiam os direitos trabalhistas. Os resultados não demoram a chegar. Em 2016, a Liga tornou-se o segundo partido da “Toscana vermelha”, alcançando suas melhores pontuações nos subúrbios populares. Na Emília-Romanha, na Úmbria e nas Marcas – áreas outrora dominadas pelos PCI –, ela ganha terreno.
 
As eleições gerais de 4 de março de 2018 marcaram uma etapa decisiva. Aliada a Berlusconi e ao Fratelli d’Itália (“Irmãos do Norte”), um resíduo neofascista do pós-guerra, a Liga – que de passagem abandonou o complemento “Norte” – multiplicou sua pontuação por quatro e atingiu 17,3% dos votos. Embora sua base permaneça setentrional, ela agora também está no sul. Pela primeira vez, ultrapassou o Forza Italia, partido de Berlusconi. No total, a coalizão de centro-direita teve 37% dos votos e conquistou o dobro de assentos da centro-esquerda, ainda que o verdadeiro vencedor tenha sido o M5S, liderado por Luigi Di Maio, um napolitano de 30 anos: ele ultrapassou de longe todos os outros partidos, com 32% dos votos.
 
Como nenhum dos três blocos conseguiu maioria parlamentar, foi preciso acertar um casamento de conveniência. Após três meses de blefes e negociações, o M5S e a Liga finalmente chegaram a um acordo sobre um “contrato de governo”, que descreve, em termos muito gerais, as áreas de atribuição de cada um. Um governo se formou em junho. Salvini e Di Maio tornaram-se vice-presidentes do Conselho, enquanto o cargo de chefe de governo coube a um membro do M5S, Conte, um professor de direito desconhecido do grande público. Essa coalizão “verde-amarela” foi recebida por uma apoplexia geral na grande mídia, que execra o “populismo” em todas as suas formas. Então, quando dois de seus representantes se aliam…
 
As semelhanças entre os dois partidos são mais comportamentais do que políticas: veemência implacável, retórica antissistema, referências constantes aos inimigos internos e externos, invocação do “povo”, organização vertical, presença on-line agressiva que tende a transformar qualquer assunto em slogan ou em piada de mau gosto. Sua principal semelhança ideológica é a hostilidade a Bruxelas e o ceticismo em relação à moeda única, acusada de ser a responsável pela austeridade e pela estagnação econômica na Itália. Mas os programas que cada um pretende colocar em prática para quebrar esses elos mostram uma grande divergência política. A Liga quer introduzir um flat tax (imposto proporcional), a receita clássica da direita para atrair os pequenos empresários que formam sua base social no norte. Já o M5S deseja criar uma renda mínima garantida para ajudar os desempregados, os precários e os pobres, sobretudo no sul. Em termos de redistribuição, as consequências dessas duas medidas diametralmente opostas traçam uma linha de fratura entre os dois partidos na clivagem clássica entre direita e esquerda.
 
No governo, o M5S assumiu os ministérios com forte peso socioeconômico, enquanto a Liga ficou com aqueles que têm uma dimensão simbólica e identitária. Entre os novos ministros, 90% não tinham nenhuma experiência no poder executivo antes de serem nomeados. Salvini tornou-se ministro do Interior e Di Maio assumiu as rédeas do Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Assuntos Sociais. À primeira vista, o M5S, que venceu as eleições, conquistou os melhores postos – especialmente Infraestrutura, Saúde e Cultura –, os de maior impacto potencial sobre o eleitorado.
 
No entanto, a formação do governo esteve, desde o início, sob a vigilância do “Estado profundo” italiano: a presidência da República (Sergio Mattarella), o Banco da Itália, a Bolsa de Valores e, sobretudo, o Banco Central Europeu. Este cuidou para que os ministérios que realmente importam em termos de economia (Finanças e Assuntos Europeus) não ficassem com nenhum dos dois partidos. Além disso, quando a coalizão propõe candidatos que Mattarella considera insuficientemente submetidos à União Europeia, o presidente não hesita em usar seu veto. Desse modo, a influência do M5S nas políticas orçamentárias foi amplamente neutralizada desde o início. Não é novidade que, assim que uma das propostas do M5S ou da Liga ameaçou transformar-se em lei (seja a renda mínima garantida ou a redução da idade de aposentadoria), a Comissão Europeia e seus emissários internos intervieram. Meses de luta acabaram adoçando as medidas e esvaziando-as de significado. Tanto que Di Maio não tem, até agora, nenhum sucesso para exibir em seu quadro de honra governamental.
 
“Liguização” da política
 
Salvini, por sua vez, maximizou sua presença. Como ministro do Interior, está quase sempre vestindo jaqueta de policial ou de fuzileiro, como um bom xerife. Ele confiou a seu braço direito o Ministério da Família, outra excelente tribuna para declarações de grande impacto na mídia. Mas reservou para si a mais importante responsabilidade moral de um governo honesto: a cruzada contra a imigração clandestina, efetivada por meio da negação dos direitos portuários a ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo. Os anos de propaganda do M5S contra a “invasão” deixaram traços, forçando-o hoje a seguir a Liga nesse campo minado, às vezes com alguns discursos ineficazes contra atos xenófobos particularmente cruéis.
 
Poucos meses após a chegada ao poder da coalizão “verde-amarela”, não há mais dúvidas sobre qual cor domina.4 Embora tenha tido metade dos votos de seu parceiro, a Liga impôs sua hegemonia, como se tivesse tido o dobro. As três eleições regionais realizadas entre janeiro e abril de 2019 transformaram essa inversão em um fato político frio. Todas ocorreram no sul, onde, em 2018, houvera um tsunami a favor do M5S. Em Abruzzo, ele passou de 39,8% para 19,7%, quando a Liga saltou de 13,8% para 27,5%. Na Sardenha, afundou (de 42,4% para 9,7%), enquanto o partido de Salvini progrediu ligeiramente (de 10,8% para 11,4%). Na Basilicata, o movimento de Di Maio viu sua pontuação cair pela metade (de 44,3% para 20,3%), quando a Liga triplicou a sua (de 6,3% para 19,1%). Aliada ao Forza Italia, ao Fratelli d’Italia e a vários outros grupos, ela assumiu o controle dessas três regiões. Assim, venceu em todas as frentes, juntando-se ao Forza Italia e à extrema direita em nível local, ao mesmo tempo que manteve a aliança com o M5S em Roma. Por fim, a Liga venceu as eleições europeias de 26 de maio, com 34% dos votos contra 22,7% do Partido Democrático (PD) de Renzi, 17,1% do M5S e 8,8% do Forza Italia.
 
A Liga agora ocupa o centro da vida política italiana. Salvini dá as cartas e define as regras do jogo, forçando a mídia a seguir servilmente o que diz – suas promessas, suas provocações e seu “bom senso”, o qual, difundido há anos via televisão, jornais e internet, parece ter realmente se tornado um. A política italiana passou por uma “liguização” (leghizzazione). Agora é considerado normal – e isso se aplica à centro-esquerda – acusar ONGs de serem “táxis marítimos” mancomunados com passadores de imigrantes; afirmar que os cidadãos precisam de segurança em primeiro lugar; ou ver a imigração exclusivamente como um problema. Teses que outrora eram apanágio da Liga e dos círculos neonacionalistas são quase unanimemente admitidas.
 
Entre os dirigentes da direita eurocética dos grandes países da União Europeia, Salvini é o único que pode nutrir a esperança de dirigir um governo. Ele tem, de fato, um grande trunfo. Na Itália, o neofascismo está há muito tempo integrado ao sistema político, o que permite à Liga apresentar-se como “diferente”. Ideologicamente, embora pertença à direita radical, seu chefe nunca negou suas meias origens de esquerda. “Quando me confundem com um fascista, eu rio”, ele diz. “Roberto Maroni desconfiava que eu fosse um comunista dentro da Liga, pois eu era o mais próximo deles em alguns aspectos, inclusive no meu modo de vestir.” Em 2015, ele ainda era admirador do Syriza, partido de esquerda grego, e continua a enfeitar suas declarações com reivindicações outrora típicas da esquerda, como a necessidade de um banco público de investimento ou a revogação das reformas neoliberais do sistema previdenciário.
 
Salvini tem a vantagem de atuar em um contexto no qual a esquerda, reformista ou radical, praticamente desapareceu. Na França, na Espanha, no Reino Unido e até na Alemanha, as forças populares que resistem à doxa do poder estão sempre à esquerda do espectro político. Na Itália, não é assim. Ali entram em cena algumas condições socioeconômicas e geográficas. Nenhum outro país importante da União Europeia sofreu mais com a camisa de força do euro do que a Itália, cuja renda per capita quase não aumentou desde que a moeda única entrou em vigor5 e cujas taxas de crescimento eram miseráveis. Além disso, sendo uma península com a mais longa costa contínua de todos os países da União Europeia, a Itália tornou-se um entroncamento migratório, situação à qual o tradicional país de emigração, que tanto alimentou os fluxos populacionais mundiais, não estava acostumado e que se deu em um contexto de retração econômica e de feroz competição por emprego e assistência social. À medida que essas tensões se tornam cada vez mais elétricas, Salvini apresenta-se como o para-raios ideal para descarregar um potencial conflito de classes e transformá-lo em uma luta dos pobres contra os pobres.
 
Caso conquistasse o Palazzo Chigi, viria ele a se tornar um novo Berlusconi que, apesar de toda sua fanfarronice, não mudou muito? Sua atitude em relação à União Europeia é um teste decisivo. O Cavaliere se distinguiu mais por suas gafes do que pela má conduta no Conselho Europeu. Salvini é mais implacável e mais ideológico. Ele fez campanha nas eleições europeias de 2019 prometendo o surgimento de um bloco populista de direita – a “internacional soberanista”, idealizada por Steve Bannon, ex-assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Por muito tempo, ele foi admirador de Vladimir Putin. Mas os Estados Unidos contam mais que a Rússia, e suas afinidades – em termos de estilo e personalidade – são muito maiores com o ocupante da Casa Branca do que com o do Kremlin. Isso significa, em particular, um alinhamento com a tentativa de Trump de subjugar a China. Em contraste, e para grande desgosto de Salvini, Di Maio recebeu na Itália o presidente Xi Jinping, que chegou cheio de presentes relacionados à Nova Rota da Seda.
 
Arranjos com Bruxelas
 
A diferença é igualmente visível no interior da União Europeia, onde o dirigente do M5S adotou uma abordagem muito mais radical, expressando um caloroso apoio aos “coletes amarelos” franceses, que Salvini considera vândalos. No nível da União Europeia, o chefe da Liga contentou-se em batucar sobre as barras da “jaula” de Bruxelas, sem tentar quebrá-las. Ele aprovou o atual orçamento italiano, finalmente em consonância com o “parecer” da Comissão. Um compromisso assumido em um conflito institucional, e não apenas verbal, com a Europa parece menos provável do que uma adaptação pragmática ao status quo. A base social da Liga talvez seja hostil aos grandes bancos, às regulamentações comunitárias e às multinacionais, mas sua sensibilidade continua sendo indubitavelmente capitalista. Em seu tempo, Bossi também protestou contra Bruxelas, o que não impediu a Liga Norte de votar a favor dos Tratados de Maastricht e de Lisboa.
 
Para Salvini, a moeda única tem sido um espantalho útil em sua ascensão, mas que, uma vez que esta seja atingida, pode ser reacomodado. A denúncia das “fronteiras-peneiras” continua sendo seu verdadeiro passaporte para o poder. E, sobre esse assunto, a União Europeia não lhe impõe nenhuma dificuldade.
 
Notas:
1 O caso Tangentopoli, que explodiu em 1992, era um vasto sistema de subornos entre líderes políticos e empresários. Deu origem à operação judicial Mani Pulite (“Mãos Limpas”).
2 Ler Raffaele Laudani, “Matteo Renzi, un certain goût pour la casse” [Matteo Renzi, um certo gosto pelo roubo] e “Matteo Renzi se rêve en Phénix” [Matteo Renzi pensa ser uma fênix], Le Monde Diplomatique, jul. 2014 e jan. 2017, respectivamente.
3 Ver Mauro Calise, La Democrazia del leader [A democracia do leader], Laterza, Roma-Bari, 2016.
4 Ler Stefano Palombarini, “En Italie, une fronde antieuropéenne?” [Uma revolta antieuropeia na Itália?], Le Monde Diplomatique, nov. 2018.
5 O salário bruto anual médio passou, em preços corrigidos, de 28.939 euros em 2001 para 29.214 euros em 2017.
 
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Itália em risco de ser a primeira democracia ocidental governada pela extrema-direita

(Ricardo Cabral Fernandes, in Público, 12/08/2019)

Salvini surge com 38% das intenções de voto na sondagem do “La Repubblica” 

(A Estátua, cansada de ouvir o Dr. Pardal, o Dr. António Costa, os serviços mínimos que são máximos, os camiões que rolam mas não rolam, as mangueiras que não esguicham, e coitados dos turistas na fila pro gasóleo – que mandem vir a UBER que ela entrega tudo embrulhado e quentinho -, resolveu investigar se o mundo, lá fora, tinha fechado para obras.

E deparou-se com esta ópera bufa, à italiana, com todos os ingredientes de um libreto para cantar em falsete.

É a Europa, decrépita e sem alegria. A oeste nada de novo, a não ser o crepúsculo dos deuses e o estertor do império.

Comentário da Estátua, 12/08/2019)


A Itália vive o caos político e, nos próximos dias, uma série de batalhas serão travadas para formar um improvável novo governo ou convocar eleições antecipadas. O Partido Democrático pode sofrer uma cisão, o Movimento 5 Estrelas uma pesada derrota eleitoral e a Liga passar a dominar a política italiana em caso de eleições antecipadas.

 

As jogadas prolongam-se nos corredores do poder político e partidário. O primeiro combate foi travado esta segunda-feira em conferência de líderes parlamentares no Senado. O segundo é na terça-feira, com os senadores a votarem o calendário da moção de desconfiança apresentada por Matteo Salvini.

Esta segunda-feira, os líderes parlamentares decidiram, por maioria de votos, agendar a intervenção do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, para 20 de Agosto. No entanto, por falta de unanimidade, a presidente do Senado, Elisabetta Casellati, deliberou que os senadores terão de votar individualmente o calendário da moção de desconfiança. Espera-se que a Liga saia derrotada.

Provável aliado da Força Itália de Silvio Berlusconi, Matteo Salvini, líder da Liga e vice-primeiro-ministro, exigia que o debate e votação fossem agendados já para esta terça e quarta-feiras, enquanto os restantes partidos – PD, 5 Estrelas, Misto e Livre e Igual – defenderam que fossem no dia 20. Para o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, os poucos dias de diferença são a chave para se negociar a formação de um governo institucional, enquanto o 5 Estrelas quer avançar com a votação prévia de uma emenda constitucional para reduzir o número de deputados, que, caso seja aprovada, impedirá eleições antes da próxima Primavera, pois obriga a consultar os italianos em referendo.

Além disso, esperar até 20 de Agosto daria tempo a Conte, aliado do 5 Estrelas, para poder explicar a crise ao povo italiano, encostando a Liga às cordas.

Anunciada a morte do Governo, Salvini tudo tem feito para o enterrar, e bem fundoexigiu eleições imediatas e a demissão de Conte, mas foram-lhe ambas recusadas. Decidiu então apresentar uma moção de desconfiança contra o executivo, numa altura em que os deputados e senadores estão, normalmente, de férias.

Perante a derrota anunciada, Salvini tem uma última cartada ao seu dispor: forçar os ministros do seu partido a demitirem-se. O Governo cairia de imediato e o 5 Estrelas teria de agir contra o tempo para formar novo executivo. No caso de o Presidente italiano, Sergio Mattarella, o aceitar. O chefe de Estado detém o poder de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas ou permitir a Luigi Di Maio, líder do partido mais votado, tentar formar uma nova coligação para governar.

Salvini sempre disse que as intenções de voto não norteavam a sua acção política, mas tudo indica o contrário. Na sondagem de 29 de Julho do La Repubblica, a Liga surgia na liderança destacada com 38% dos votos, permitindo-lhe formar um Governo com maioria absoluta com o Irmãos de Itália (6,6%) e a Força Itália (6,5%). O Partido Democrático surgia em segundo, com 22%, e o 5 Estrelas, que ganhou as eleições em 2018, cairia para terceiro com 17,3%.

A jogada de Salvini para acabar com a legislatura que deveria durar até 2023 é também uma tentativa de definir que Parlamento eligirá o próximo Presidente, se o actual ou um futuro por si controlado. Dominando Governo e Parlamento, ficaria bem posicionado para as eleições municipais de Maio de 2020.

A ser bem-sucedido, Salvini conseguirá liderar o primeiro Governo composto exclusivamente da extrema-direita na Europa Ocidental.

Manobras à esquerda

É precisamente esta hegemonização da política italiana que o antigo primeiro-ministro Matteo Renzi diz querer evitar a todo o custo. “Um governo institucional é a resposta para aqueles que querem plenos poderes para orbanizar Itália”, afirmou no Twitter, em referência à transformação do regime húngaro pelo líder de extrema-direita Viktor Orbán. E sublinhou: “É uma loucura ir a votos”.

A ideia de Renzi pode ter números para resultar. Em minoria, Salvini terá do seu lado uns meros 259 deputados (em 630) e 149 senadores (315), segundo contagem do Corriere della Sera, enquanto o campo do governo institucional detém 322 deputados e 166 senadores. No entanto, o campo institucional dá sinais de fragilidade e as divisões no Partido Democrático vêm à tona.

Sem nunca lhe chamar cisão, Renzi ameaçou com a criação de um novo partido – o Acção Civil –, caso a liderança do Partido Democrático não adira à ideia do governo institucional. Controla grande maioria da bancada parlamentar, fruto das legislativas do ano passado, contra o secretário-geral, Nicola Zingaretti, que deseja novas eleições.

“Não é credível que um governo faça a manobra económica e depois dispute eleições, seria um presente para uma direita perigosa que toda a gente quer travar”, argumentou Zingaretti, apelando à união no partido que lidera.

Zingaretti vê o cenário de eleições como oportunidade de afastar os apoiantes de Renzi de futuras listas, mas também receia que Salvini saia vencedor ao ficar de fora de um governo apoiado por esta legislatura. É provável que o futuro executivo tenha de subir os impostos e, por isso, venha a gerar descontentamento. Além disso, os dois principais partidos desse hipotético executivo, o PD e o 5 Estrelas, estão hoje em minoria nas intenções de voto, permitindo a Salvini acusá-los de golpe.

Porém, Renzi mostra-se irredutível, mesmo quando as hipóteses são escassas. Hipóteses enterradas esta segunda-feira, no Facebook, por Di Maio: “Ninguém se quer sentar à mesa com Renzi”.

Ao aceitar as políticas da Liga, o 5 Estrelas deixou-se enredar por Salvini, caiu nas sondagens, perdeu votos nas europeias e Di Maio ficou sem muito do seu capital político, e nem todos dão sinais de alinhar na sua posição. “Depois de termos governado com a Liga, acho que até somos capazes de fazer um acordo com Belzebu”, admitiu a deputada do 5 Estrelas Roberta Lombardi, em entrevista ao La Repubblica.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Itália | Partido de Salvini vai apresentar moção de censura ao primeiro-ministro

 
 
O partido italiano de extrema-direita Liga anunciou hoje que vai apresentar uma moção de censura ao primeiro-ministro, Giuseppe Conte, a quem apoiou até agora no âmbito da coligação com o Movimento Cinco Estrelas (M5S).
 
O líder da Liga, o vice-presidente e ministro do Interior, Matteo Salvini, já tinha anunciado na quinta-feira a intenção de abandonar a coligação e pedir eleições antecipadas, dadas as divergências em várias questões.
 
"Demasiados 'nãos' prejudicam a Itália, que precisa voltar a crescer e voltar a votar rapidamente. Quem perder tempo prejudica o país", refere, num comunicado divulgado pelo partido.
 
Salvini exigiu que os senadores e deputados suspendam as férias e regressem a Roma para que o primeiro-ministro constate a sua falta de apoio no parlamento, apresente a sua renúncia e o chefe de Estado, Sérgio Mattarella, convoque novas eleições.
 
Na quinta-feira, Conte acusou Salvini de acabar com a coligação para aproveitar os bons resultados das eleições europeias (em que obteve 34%) e adiantou que vai ao parlamento para pedir explicações.
 
 
Neste momento, o parlamento está fechado, devendo ser marcada uma reunião dos líderes partidários nos próximos dias para marcar a reunião de votação da moção de censura, o que deverá acontecer a 20 de agosto, de acordo com a comunicação social local.
 
Caso Sérgio Mattarella dissolva o parlamento e convoque eleições, estas deverão acontecer num prazo mínimo de 45 dias e máximo de 70, pelo que a campanha deverá ocorrer em outubro.
 
No entanto, Mattarella é abertamente contrário a eleições no outono, período em que o Governo deverá estar a preparar o Orçamento para o ano seguinte, a discuti-lo com Bruxelas e a aprová-lo no parlamento.
 
Um governo cessante, que esteja só a gerir o dia-a-dia, não teria o peso de negociar com Bruxelas e essa situação poderia prejudicar a Itália nos mercados.
 
O chefe de Estado poderia também tentar formar Governo com a atual composição do parlamento, eleito a 04 de março de 2018, designando um Governo técnico e provisório.
Esta opção foi rejeitada tanto pela Liga como pelo M5S.
 
Segundo uma sondagem realizada em 31 de julho pelo instituto Ipsos para o Corriere della Sera e publicada na quinta-feira, a Liga de Salvini obteria 36% dos votos numas próximas eleições gerais e alcançaria 50,6% em coligação com o partido de extrema-direita Irmãos de Itália (7,5%) e o partido de Sílvio Berlusconi Forza Italia (7,1%).
Salvini já anunciou que se apresentará às eleições como candidato a primeiro-ministro.
 
O anúncio de Salvini aumentou o clima de instabilidade da economia italiana -- terceira maior da zona do euro -, tendo os investidores mostrado hoje de manhã a sua preocupação.
 
Logo na abertura dos mercados financeiros, o 'spread' - diferença entre a taxa da dívida italiana e a taxa de referência alemã a dez anos --subia 25 pontos, para 235 pontos.
 
Cerca das 10:30 de Milão (09:30 em Lisboa), a Bolsa daquela cidade estava a cair cerca de 2%, com todo o setor bancário em baixa.
 
O clima de "incerteza tem um preço, que se chama 'spread' e potencial descida da classificação da Itália pelas agências de 'rating'", explicou à agência de notícias francesa AFP o professor universitário Carlo Alberto Carnavale Maffe.
 
Alguns especialistas ouvidos pela AFP admitem que a instabilidade política possa "afundar" a economia italiana, que já no segundo semestre do ano passado registou uma "recessão técnica", e apresentava, até final de junho de 2019, um crescimento nulo no Produto Interno Bruto (PIB).
 
A economia italiana está a ser afetada pela desaceleração que toda a Europa está a viver, pelas tensões comerciais entre Pequim e Washington, mas também pela cautela das empresas, que estão a investir menos.
 
Bruxelas tem pressionando Roma para reduzir o seu défice público criando uma tensão com o Governo italiano, que, entretanto, aceitou reduzi-lo para 2,04% em 2019, em vez dos 2,4% projetados.
 
Salvini criticou Bruxelas e chegou mesmo a classificar o ministro da Economia, Giovanni Tria, como demasiado conciliador face à Comissão Europeia.
 
O ministro do Interior avisou ainda que no próximo Orçamento de Estado, o défice não poderá ficar abaixo de 2%, afirmando que "os dogmas de Bruxelas não são sagrados".
 
"Haverá certamente um confronto com a Europa que só pode ser feito por um Governo e um parlamento legitimados pelos italianos", disse, pedindo ao país que lhe dê uma "clara maioria".
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Foto: © Getty Images
 
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«A arte da guerra»O modelo USA do governo «soberanista»

Na ocasião do discurso grotesco de Giuseppe Conte aos embaixadores italianos, Manlio Dinucci recorda-nos que, independentemente da simpatia que possamos ter pelos Estados Unidos, este país continua a ser o principal predador da Humanidade. Seja qual for a circunstância, não podemos, nem devemos reivindicar os seus “valores”.

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Embora a oposição ataque sempre o governo e existam divergências no seio do próprio governo, em todo o arco parlamentar não se ergueu uma única voz, quando o Primeiro Ministro Conte expôs as linhas de orientação da política externa, na Conferência dos Embaixadores (em 26 de Julho), o que prova o amplo consenso multipartidário.

Conte definiu, antes de tudo, qual é o fundamento da posição da Itália no mundo: “O nosso relacionamento com os Estados Unidos continua qualitativamente diferente do que temos com outras Potências, porque é baseado em valores, em princípios partilhados, que são o próprio fundamento da República e parte integrante da nossa Constituição: a soberania democrática, a liberdade e a igualdade dos cidadãos, a salvaguarda dos direitos humanos fundamentais”.

O Primeiro Ministro Conte não só reitera que os EUA são o nosso “aliado privilegiado”, como também afirma um princípio orientador: a Itália considera os Estados Unidos como um modelo de sociedade democrática. Uma mistificação histórica colossal.

- No que diz respeito à “liberdade e à igualdade dos cidadãos”, basta lembrar que os cidadãos americanos ainda hoje são oficialmente registados com base na “raça” - brancos (distintos entre não hispânicos e hispânicos), negros, índios americanos, asiáticos, nativos havaianos - e que as condições de vida médias dos negros e dos hispânicos (latino-americanos pertencentes a todas “raças”) são, de longe, as piores.

- No que diz respeito à “salvaguarda dos direitos humanos fundamentais”, basta lembrar que nos Estados Unidos mais de 43 milhões de cidadãos (14%) vivem na pobreza e cerca de 30 milhões não possuem plano de saúde, enquanto muitos outros possuem seguro de saúde insuficiente (por exemplo, para pagar uma longa quimioterapia contra um tumor).

- E no que diz respeito à “salvaguarda dos direitos humanos”, basta recordar os milhares de negros desarmados, assassinados impunemente, por polícias brancos.

- No que diz respeito à “soberania democrática”, basta recordar a série de guerras e golpes de Estado, efectuados pelos Estados Unidos, desde 1945 até hoje, em mais de 30 países asiáticos, africanos, europeus e latino-americanos, causando 20-30 milhões de mortes e centenas de milhões de feridos (ver o estudo de J. Lucas apresentado pelo Prof Chossudovsky em Global Research [1]).

Estes são os “valores partilhados” sobre os quais a Itália baseia a sua relação “qualitativamente diferente” com os Estados Unidos. E, para demonstrar como ela é profícua, Conte assegura: “Encontrei sempre no Presidente Trump, um interlocutor atento aos legítimos interesses italianos".

Interesses que Washington considera “legítimos” enquanto a Itália ➢ Permanecer associada à NATO, dominada pelos EUA ➢ Seguir os EUA, de guerra em guerra, ➢ Aumentar a sua despesa militar, a seu pedido, ➢ Colocar o seu território à disponísição das forças e bases USA, incluindo as nucleares.

Conte procura fazer crer que o seu governo, habitualmente designado como “soberanista”, tem um amplo espaço autónomo de “diálogo com a Rússia com base de aproximação NATO de duplo binário” (diplomático e militar), uma abordagem que, na realidade, segue o binário único de um confronto militar cada vez mais perigoso.

A este respeito - refere ‘La Stampa’ [2] - o Embaixador dos EUA, Eisenberg, telefonou ao Vice Presidente Di Maio (considerado por Washington o mais “confiável”), pedindo esclarecimentos sobre as relações com Moscovo, em particular do Vice Presidente Salvini (cuja visita a Washington, apesar dos seus esforços, teve um “resultado decepcionante”).

Não se sabe se o governo Conte vai passar no exame. Sabe-se, no entanto, que prossegue a tradição, segundo a qual, em Itália, o governo deve ter sempre a aprovação de Washington, confirmando qual é a nossa “soberania democrática”.


[1] “The Loss of Life, From World War I to World War III. What Would Happen if a Third World War Were to Break Out?”, Michel Chossudovsky, Global Research, November 20, 2018.

[2] «I dubbi degli Usa sul leghista. Ma Di Maio non scarica l’alleato», Federico Capurso, La Stampa, 26 Luglio 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Trabalhar para que o novo possa nascer

A crise em Itália é profunda e o xadrez político está em convulsão. Para colmatar a ausência de uma proposta política de esquerda soberanista, surgiu o movimento Nuova Direzione. Para uma leitura do Manifesto Pela Soberania Constitucional, subscrito pelas organizações da esquerda italiana que tomaram esta iniciativa, ver aqui. Traduzo o comunicado:
Nuova Direzione
quarta-feira, 17 de Julho de 2019
As assembleias dos signatários da "Carta para o Manifesto Pela Soberania Constitucional", na sequência de um processo democrático de tomada de decisão, escolheram a designação "Nova Direcção" como o nome que os identifica.
Nova Direcção porque "o velho morre", mas trabalhamos para que o novo possa nascer.
Nova Direcção porque para atravessar o deserto é necessário substituir o "não se pode fazer" pelo "tem de ser feito".
Se a crise do velho persiste, o novo deve nascer, e o novo é o socialismo, entendido como um sistema em que a economia e os mercados estão subordinados às necessidades dos indivíduos e da comunidade - à democracia - e não vice-versa.
Um socialismo do século XXI que parte de análises concretas do mundo real e das condições históricas, das transformações dos modos de produção, do regresso do Estado, das novas formas de luta de classes.
A Nova Direcção nasceu com os pés bem assentes na melhor tradição do movimento operário e democrático italiano e internacional.
A Nova Direcção quer retomar o caminho percorrido pelos Pais Constituintes, denunciando a plena incompatibilidade entre os Tratados europeus e a Constituição da República.
A Nova Direcção é um movimento de mulheres e homens que quer romper as pontes com todas as expressões do pensamento neoliberal, inclusive as que se enraizaram na esquerda (tanto a institucional como a "radical").
Uma Nova Direcção que finalmente coloca no centro os temas do trabalho, da democracia, da soberania e do ambiente, e que é capaz de conjugar a questão "social" com a questão "nacional".
Uma Nova Direcção consciente de que só o Estado é capaz de assegurar um desenvolvimento compatível com o bem-estar social e ambiental.
Uma Nova Direcção que defende a República Italiana do risco de voltar à "mera expressão geográfica", de se tornar um simples segmento administrativo do mercado único liderado pela Franco-Alemanha.
Uma Nova Direcção contra aqueles que acreditam que o mundo é apenas uma soma de indivíduos que maximizam os seus lucros. Porque a sociedade existe e as forças colectivas podem sempre criar uma alternativa.
Uma Nova Direcção para assumir o sonho de uma sociedade livre e igualitária, de uma pátria independente e da solidariedade internacional entre os explorados.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

«A arte da guerra»A Farsa das Relações com a Rússia

 

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O estado das relações entre a Itália e a Rússia é “excelente”: afirmou o Primeiro Ministro Conte, ao receber em Roma, o Presidente Putin. A mensagem é reconfortante, na verdade, soporífera em relação à opinião pública. Limitamo-nos, fundamentalmente, ao estado das relações económicas.

A Rússia, onde funcionam 500 empresas italianas, é o quinto mercado extra-europeu para as nossas exportações e fornece 35% da procura italiana de gás natural. O intercâmbio - Putin especifica - foi de 27 biliões de dólares em 2018, mas em 2013 chegou a 54 biliões. Portanto, reduziu para metade o que Conte designa como a “deterioração das relações entre a Rússia e a União Europeia, que conduziu às sanções europeias” (decididas, na realidade, em Washington).

Porém, existe um “relacionamento intenso a todos os níveis” entre os dois países. Tons tranquilizadores que reflectem os da visita de Conte a Moscovo, em 2018 e do Primeiro Ministro Renzi, a São Petersburgo, em 2016, quando garantiu que “a expressão Guerra Fria está fora do contexto da História e da realidade”. Assim, a farsa continua.

Nas relações com a Rússia, Conte (como Renzi, em 2016) apresenta-se unicamente, nos trajes de Chefe de Governo de um país da União Europeia, escondendo-se atrás da adesão da Itália à NATO, sob o comando dos Estados Unidos, considerado “aliado privilegiado”. O “aliado privilegiado” em cuja esteira a Itália está colocada. À mesa das conversações da Itália com a Rússia, continua ainda a sentar-se, como “convidado de pedra,” o “aliado privilegiado”, sob cuja alçada se coloca a Itália.

O governo Conte declara “excelente” o estado das relações com a Rússia quando, há apenas uma semana, no quartel general da NATO, acusou novamente a Rússia de violar o Tratado INF (com base nas “provas” fornecidas por Washington), alinhando-se com a decisão USA de destruir o Tratado, para instalar na Europa, novos mísseis nucleares de alcance intermédio, apontados para a Rússia.

Em 3 de Julho, um dia antes da visita de Putin à Itália, foi publicada em Moscovo o decreto-lei assinado por ele, que suspende a participação russa no Tratado: uma medida preventiva antes que Washington saia definitivamente, em 2 de Agosto.

- O próprio Putin advertiu que, se os EUA colocarem novas armas nucleares na Europa ao redor da Rússia, esta apontará os seus mísseis para as zonas onde estiverem localizados.

- Assim, também previne a Itália, que se prepara para hospedar, a partir de 2020, as novas bombas nucleares B61-12 à disposição da força aérea italiana, sob comando USA.

- Uma semana antes da confirmação do estado “excelente” das relações com a Rússia, o governo Conte confirmou a participação da Itália na força NATO, sob o comando USA, de 30 navios de guerra, 30 batalhões e 30 esquadrões aéreos que se podem instalar ​​em 30 dias na Europa, contra Rússia, a partir de 2020.

- Sempre em função anti-Rússia, navios italianos participam nos exercícios da NATO, de guerra submarina; forças mecanizadas italianas fazem parte do grupo de combate da NATO, na Letónia e a brigada blindada Ariete exercitou-se há duas semanas na Polónia, enquanto caças italianos Eurofighter Typhoon estão instalados na Roménia e na Letónia.

Tudo isto confirma que a política externa e militar da Itália é decidida não em Roma, mas em Washington, apesar da “soberania” atribuída ao governo actual.

As relações económicas com a Rússia e até com a China, assentam sobre as areias movediças da dependência italiana das decisões estratégicas de Washington. Basta recordar como, em 2014, por ordem de Washington, foi destruído o gasoduto South Stream Rússia-Itália, com prejuízos de biliões de euros para as empresas italianas. Com o silêncio absoluto e com o consentimento do governo italiano.





Ver original na 'Rede Voltaire'



A ITÁLIA NA ENCRUZILHADA – VI – por ANNA ROSA SCRITTORI

 

Nestes últimos tempos a opinião pública italiana está a viver momentos de grande tensão, sobretudo por causa do complexo tema da emigração, sobre o qual Salvini fundou a sua fortuna eleitoral, até nas recentes eleições europeias, apresentando-a como um perigo para a segurança e a integridade da nação.

 

No passado dia 12 de Junho o navio “Sea Watch 3”, propriedade de uma ONG alemã, navegando sob bandeira holandesa, depois de ter salvo 52 náufragos em águas líbicas, dirigiu-se para o porto de Lampedusa como lugar mais seguro para desembarcar os 42 refugiados que estavam a bordo. Matteo Salvini negou-lhe imediatamente o acesso, declarando o encerramento do porto, que não reabriu nem sequer quando, depois de lentíssimas negociações com a Europa, alguns países voluntariosos (entre os quais Portugal) se declararam disponíveis para acolher os emigrantes. A comandante Carola Rackete decidiu então entrar no porto, forçando o bloqueio e chocando, na manobra, contra uma motovedeta da Guarda Fiscal, que queria impedir o desembarque. Deve notar-se que, durante os 17 dias em que o navio, à espera de licença para desembarcar, vagueou pelo Mediterrâneo com a carga de pessoas expostas a uma temperatura de 40 graus, dezenas de barquinhos-“fantasmas” provenientes da Tunísia, com poucos emigrantes a bordo, chegaram livremente às praias de Lampedusa e os mesmos foram acolhidos na geral indiferença das autoridades.

 

Carola, pelo contrário, apenas desembarcada na noite de 29 de Junho, foi logo presa com diversas acusações: instigação à emigração clandestina, ataque a navio de guerra, etc.

Os comentários

Logo que pôs os pés no cais de Lampedusa, Carola foi objecto de violências verbais inenarráveis. A este propósito escreve o comentador de “Avvenire”, jornal da Conferência Episcopal Italiana: «Quando o contraste político se torna invectiva sexista…é necessário dizer que a vergonha não diz respeito só aos gestos que se têm em público, mas refere-se também às palavras… Aqueles Italianos que em Lampedusa disseram aquelas coisas envergonham-me e fazem-me ter vontade de pedir desculpa, como italiano, à comandante do Sea Watch».

 

A comandante violou a lei do Estado e merece uma punição exemplar (de 3 a 10 anos de prisão) – dizem os seus muitos detractores; Carola violou a lei – contrapõem os seus defensores – mas fê-lo obedecendo a leis internacionais (salvar vidas humanas em perigo) que prevalecem sobre a legislação nacional. Carola, em conclusão, cumpriu um acto de desobediência civil, que, segundo o colunista do jornal“Foglio” , é «uma prática séria que impõe ao desobediente rigor e sentido de responsabilidade»,… uma prática que «tem um passado nobre (batalhas, falências, vitórias) de Antígona a Rosa Parks até Gandhi, um culto grupo intelectual capaz de fornecer à prática um modelo teórico de grande força».

 

Trata-se talvez das mesmas considerações que induziram a juíza do inquérito preliminar, de Palermo, a conceder a Carola a liberdade à espera da sentença do tribunal competente. Para além das intervenções vulgares e meramente propagandistas do Ministro do Interior, que acusou a juíza palermitana de ter posto em liberdade uma criminosa por razões puramente políticas, a situação está a tornar-se muito difícil; de facto, outros navios, com a sua carga de desesperados salvos do inferno líbico, pedem para atracar em Lampedusa, travando um “braço de ferro” com Salvini, que não os quer aceitar.

 

Chegados aqui, uma pergunta se coloca: porque é que a Europa não consegue impor a TODOS OS ESTADOS MEMBROS uma revisão funcional do tratado de Dublin, gerindo assim a emigração, fenómeno epocal não transitório, com uma acção política partilhada, capaz de conjugar solidariedade e segurança? No actual panorama geo-político, a relação correcta com a África é, para a nova Europa, uma aposta para o futuro.

(tradução de Manuel Simões)

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/07/10/a-italia-na-encruzilhada-vi-por-anna-rosa-scrittori/

A CRISE ORGÂNICA de ITÁLIA – por THOMAS FAZI

 

Italy’s Organic Crisis, by Thomas Fazi
American Affairs, 20 de Maio de 2018
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
 

O marxista italiano Antonio Gramsci cunhou o termo “crise orgânica” para descrever uma crise que difere das crises financeiras, económicas ou políticas “comuns”. Uma crise orgânica é uma “crise abrangente”, abrangendo a totalidade de um sistema ou ordem que, por qualquer razão, deixou der ser  capaz de gerar consenso social (em termos materiais ou ideológicos). Tal crise põe a nu contradições fundamentais no sistema que as classes dominantes não são capazes de resolver. As crises orgânicas são ao mesmo tempo económicas, políticas, sociais e ideológicas – em termos gramaticais, são crises de hegemonia – e geralmente levam à rejeição de partidos políticos estabelecidos, políticas económicas e sistemas de valores. No entanto, estas crises não levam necessariamente  ao colapso rápido da ordem dominante. Gramsci descreveu estas situações como interregna em que “o velho está a  morrer e  o novo ainda não pode nascer” e durante o qual pode aparecer “uma grande variedade de sintomas mórbidos”

 Gramsci estava a falar de Itália em 1910. Um século depois, o país enfrenta outra crise orgânica. Mais especificamente, é uma crise do modelo pós-Maastricht do capitalismo italiano, inaugurado no início da década de 1990. Esse modelo, defendo, pode ser descrito como um tipo peculiar de capitalismo comprador – um termo geralmente usado no contexto do antigo sistema colonial para descrever um regime no qual as classes dominantes de um país se aliam a interesses estrangeiros em troca de um papel subordinado dentro da hierarquia dominante de poder. Embora a crise tenha vindo à tona há já  algum tempo,  esta tornou-se evidente nas últimas eleições gerais, realizadas em 4 de março de 2018.

Os resultados da eleição são bem conhecidos. O establishment político que governou a Itália durante o último quarto de século, representado pelo Partido Democrático (PD) e pela Forza Italia, sofreu um colapso sem precedentes, assegurando, respetivamente, apenas 18,7% e 14% dos votos. Enquanto isso, os dois principais partidos “anti-estabelecimento” – o Movimento Cinco Estrelas (M5S) e a Liga do Norte (Lega) – experimentaram uma onda espetacular, ganhando, respetivamente, 32,7% e 17,4% dos votos. Em geral, a coligação de centro-direita – que inclui, ao lado da Liga do Norte (agora o partido dominante da coligação), a Forza Italia, de Silvio Berlusconi, e o pequeno partido pós-fascista Irmãos de Itália  (Fratelli d’Italia) – obteve 37% dos votos. Todos os outros partidos – desde o ultraliberal, pró-europeu Mais Europa (+Europa), em coligação com o PD, até ao centro-esquerda Livre e Igual (Liberi e Uguali), um ramo do PD concorrendo contra ele, até ao poder radical de esquerda para o povo (Potere al Popolo) – falharam estrondosamente. Destes, apenas o partido  Livre e Igual  ultrapassou em pouco o limiar mínimo de 3 por cento para a representação parlamentar.

Embora houvesse perdedores óbvios, a eleição não produziu um vencedor claro. A nova lei eleitoral do país – aprovada em 2017 pelo PD, Forza Italia e Liga do Norte com o objetivo claro de conter o Movimento Cinco Estrelas – exige que qualquer partido ou coligação de partidos obtenha pelo menos 40% dos votos (nas urnas ou através de uma aliança pós-eleitoral) para obter uma maioria e assim formar um governo. Nos últimos dois meses e meio, M5S e Lega – os dois candidatos mais óbvios para formar uma estrutura de coligação viável-estão envolvidos em negociações tensas. No momento em que escrevemos este artigo, parece que um acordo entre as duas partes foi alcançado, embora os detalhes ainda não tenham sido tornados públicos. Assim, a forma do próximo governo italiano continua a ser pouco clara. Também não podemos descartar a possibilidade de que os dois partidos não consigam superar o atual impasse, levando o presidente a nomear um governo “tecnocrático” temporário ou mesmo a convocar novas eleições. No entanto, independentemente do resultado das negociações, uma coisa é certa: esta eleição mudou para sempre o cenário político italiano.

Os frutos da austeridade

A queda do establishment político – e a ascensão dos partidos “populistas” – só pode ser entendida no contexto da “mais longa e profunda recessão da história da Itália”, como o governador do banco central italiano, Ignazio Visco, a descreveu. Desde a crise financeira de 2007-9, o PIB da Itália diminuiu massivamente em 10%, regressando aos níveis de há mais de uma década atrás. Em termos de PIB per capita, a situação é ainda mais chocante: de acordo com esta medida, a Itália voltou aos níveis de vinte anos atrás, antes de o país se tornar membro fundador da moeda única. A Itália e a  Grécia são os únicos países industrializados que ainda não viram a atividade económica ultrapassar os níveis da crise pré-crise financeira. Como resultado, cerca de 20% da capacidade industrial da Itália foi destruída e 30% das empresas do país entraram em falência. Essa destruição de riqueza, por sua vez, provocou ondas de choque em todo o sistema bancário do país, que estava (e ainda está) fortemente exposto às pequenas e médias empresas (PMEs).

A crise do desemprego em Itália continua a ser uma das piores de toda a Europa. A Itália tem uma taxa de desemprego oficial de 11% (12% no sul da Itália) e uma taxa de desemprego juvenil de 35% (com picos de 60% em algumas regiões do sul). E isso nem sequer considera os trabalhadores subempregados e desencorajados (pessoas que desistiram de procurar um emprego e, portanto, nem sequer figuram nas estatísticas oficiais). Se tivermos em conta estas categorias, chegamos a uma espantosa taxa de desemprego efetiva de 30%, que é a mais elevada de toda a Europa. A pobreza também aumentou drasticamente nos últimos anos, com 23% da população, cerca de um em cada quatro italianos, a estar  agora em risco de pobreza – o nível mais alto desde 1989.

Estes números abismais são o resultado de causas conjunturais e sistémicas, embora as duas estejam, evidentemente, inter-relacionadas. Do ponto de vista conjuntural, eles são em grande parte o resultado das severas políticas de austeridade instituídas pelo governo “tecnocrático” de Mario Monti em 2011-13. O próprio Monti admitiu em entrevista à CNN que o objetivo das políticas de austeridade era “destruir a procura interna através da consolidação fiscal”. Essas políticas foram continuadas por todos os governos sucessivos, incluindo o governo Renzi (2014-16) e o governo cessante, liderado por Paolo Gentiloni.

Com efeito, o “sucesso” da destruição da procura praticada por Monti foi agora confirmado por um estudo meio escondido  num anexo ao último plano orçamental italiano, que conclui que as medidas de consolidação orçamental (cortes orçamentais e aumentos de impostos) aplicadas no período 2012-15 reduziram o PIB italiano em quase 5% (cerca de 75 mil milhões de euros por ano, para um total impressionante de cerca de 300 mil milhões de euros), o consumo em 4% e o investimento em 10%, “devido aos seus efeitos recessivos no PIB e nas principais componentes da procura (consumo e investimento)”.

Embora o estudo em questão analise apenas o período até 2015, a orientação orçamental contracionista do governo permaneceu praticamente inalterada nos últimos anos. De facto, a Itália é um dos poucos países que manteve um excedente primário significativo – hoje igual a cerca de 1,5% do PIB – durante toda a recessão pós-crise, contrariamente ao senso comum económico (1). A consequência foi uma erosão drástica do estado de bem-estar social (particularmente do sistema de saúde). Ao mesmo tempo, um conjunto cada vez maior de novos impostos alienou também os pequenos e médios empresários.

O Partido Democrático (PD) lidera o governo desde 2013 e supervisionou  a austeridade ditada pela UE e as “reformas estruturais” há mais de meia década. Dados os efeitos desastrosos dessas políticas, não é surpreendente que os eleitores tenham rido da narrativa de “recuperação económica” do governo cessante. Os muito publicitados “milhões de novos empregos” criados nos últimos quatro anos são em grande parte temporários e mal pagos – cortesia da reforma neoliberal do mercado de trabalho de Matteo Renzi, a chamada Lei do Emprego, que afrouxou os procedimentos de despedimento e revogou o famoso Artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores de 1970 que anteriormente protegia os trabalhadores contra o   despedimento sem justa causa. Até mesmo o primeiro-ministro cessante, Paolo Gentiloni, admitiu que “o crescimento económico não está a reduzir as desigualdades, mas em muitos países, incluindo a Itália, estas estão ainda a ampliar-se, mesmo quando  o crescimento económico se está a verificar. As desigualdades estão a atingir níveis ainda mais intoleráveis”.

Este barril de pólvora social tornou-se  ainda mais complicado pela explosão da chamada crise migratória. Mais de 600.000 migrantes e requerentes de asilo entraram ilegalmente na Itália desde 2014. Este afluxo tem alimentado o ressentimento entre muitos italianos, que sentem que os migrantes recebem mais apoio do Estado do que eles próprios. Este fenómeno migratório também levou a um sentimento crescente de insegurança. De acordo com uma pesquisa internacional da Ipsos realizada em julho de 2017, 66% dos italianos achavam que havia demasiados  imigrantes no seu país, a segunda maior percentagem dos 25 países pesquisados. O Partido Democrata, nas palavras de Francesco Ronchi, “ignorou essas ansiedades e tentou encobrir a gravidade do problema”. Em setembro de 2016, no auge da crise migratória, com milhares de estrangeiros a entrarem  na Itália vindos da Líbia, o primeiro-ministro Renzi declarou: “Não há nenhuma  emergência. São apenas  algumas pessoas”.

A transformação da esquerda italiana

Medo, profundo sentimento de mal-estar, desemprego, precariedade e pobreza: estas são as causas do voto decisivo de 4 de março. O Movimento Cinco Estrelas e a Lega capitalizaram a insatisfação generalizada com o status quo, concentrando-se na proteção social (especialmente M5S), na redução de impostos (especialmente a Lega) e no maior controle da migração (ambos). Ao mesmo tempo, os eleitores puniram explicitamente o partido considerado em grande parte responsável pela situação: o PD. O partido é, sem dúvida, o maior perdedor da eleição, tendo visto o seu resultado eleitoral total cair mais da metade em apenas alguns anos (nas eleições europeias de 2014, obteve 41% dos votos). Este desempenho abismal é mais um exemplo de “pasokificação”, em que os partidos social-democratas de centro-esquerda nominalmente, como muitos dos seus homólogos de centro-direita, são punidos pelos eleitores devido à sua adesão ao neoliberalismo e à austeridade. (O termo pasokificação  refere-se ao partido social-democrata grego PASOK, que foi praticamente eliminado da existência em 2014 como consequência de seu tratamento inútil da crise da dívida grega, depois de dominar a cena política grega por mais de três décadas). Outros partidos de centro-esquerda  sofreram o mesmo destino nos últimos anos incluem o Partido Socialista Francês e o Partido Trabalhista Holandês (PvdA) – e, agora, o PD.

No entanto, a pasokificação  pode ser um termo demasiado suave para o PD. Onde o PASOK e outras formações semelhantes começaram como verdadeiros partidos social-democratas, para serem posteriormente corrompidos pela ideologia neoliberal, o Partido Democrático nasceu em 2007 como um partido dito de “Terceira Via ” reconhecidamente neoliberal-centrista, em contraste com a tradição histórica (comunista e socialista) da esquerda italiana. O PD era para ser um partido finalmente limpo do peso morto da política de massas seguida pela esquerda do século XX e pronto para abraçar o admirável mundo novo da política pós-ideológica. De fora ficaram as teorias ditas de  pesos pesados, os conflito de classes, o intervencionismo estatal e a redistribuição económica; para dentro entraram liberalismo económico, domínio de mercado, direitos individuais (ao invés de sociais), inovação, governança e capacidade de resposta. A criação do PD deve ser vista como o ponto final da mudança de décadas da esquerda pós-comunista italiana para a direita. Este processo teve início em 1991 com a transformação do Partido Comunista Italiano (PCI) no Partido da Esquerda Democrática (PDS), já expurgado de qualquer referência ao socialismo no seu próprio nome. Este partido foi posteriormente renomeado Democratas da Esquerda, e, finalmente, tendo abandonado qualquer referência até mesmo à “Esquerda”, ficou apenas PD. A cada passo, o partido  ficava ainda mais distante da  sua base de apoio original, as classes trabalhadoras, enquanto se reformulava como um partido das classes médias e altas progressistas urbanas (em retração)

O  PD  incorpora plenamente esse alinhamento político perverso, comum a outros partidos de centro-esquerda, entre o politicamente correto (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo, direitos LGBTQ, etc.), de um lado, e a economia ultraliberal (anti-estatismo, austeridade orçamental, desregulamentação, desindustrialização, financeirização, etc.), por outro, o que Nancy Fraser apropriadamente chamou de “neoliberalismo progressista “(2)  – uma ideologia que nada tem a oferecer às crescentes massas de trabalhadores desempregados e sobreexplorados. Um facto marcante a este respeito, como observa Nicola Melloni, é o facto de que hoje o PD é . . . . . o único partido verdadeiramente baseado em classes, cujo eleitorado é composto principalmente por pessoas a viverem bem, tendo diplomas de nível superior. Apenas 8 por cento dos desempregados e 12 por cento da classe trabalhadora votou a favor do PD. Mais interessante ainda, de acordo com uma pesquisa do SWG, menos de um terço dos eleitores que haviam escolhido o PCI em 1988 votaram no PD em 2018.

.Em suma, a derrota do PD só pode ser entendida no contexto da metamorfose de décadas da esquerda italiana. Isto, por sua vez, só pode ser entendido no contexto das mudanças tectónicas que ocorreram na economia política italiana ao longo dos últimos trinta anos. Neste sentido, a crise económica do país é apenas um epifenómeno de uma crise “estrutural” muito mais profunda do capitalismo italiano (ainda que dramaticamente acelerada pelas políticas pós-crise).

Em termos económicos, a Itália atravessa uma crise, de facto, desde muito antes da crise financeira de 2008. Até ao final dos anos 80, o país desfrutou de três décadas de crescimento relativamente robusto; em seguida, começando no início e meados dos anos 90, todos os seus principais indicadores económicos – produtividade, produto industrial, crescimento per capita, etc. – começaram a diminuir progressivamente e estagnaram desde então. Este é, em grande medida, o resultado da adoção pela Itália de uma superestrutura económica – estabelecida pelo Tratado de Maastricht de 1992, que abriu caminho para o estabelecimento da União Monetária Europeia (UEM) em 1999 – que era (e é) fundamentalmente incompatível com a economia política do país.

“Como Fritz W. Scharpf, antigo director do Max Planck Institute for the Study of Societies (MPIfG), muito bem explicou  o regime do euro pode ser entendido  como um processo de “convergência estrutural forçada”, destinado a impor o modelo económico do Norte da Europa, o  de crescimento sustentado pelas exportações e  pela maximização do lucro  (modelo bem representado por países como a Alemanha e os Países Baixos),  às muito diferentes economias políticas dos países do Sul, como a Itália, que tendem a ser muito mais orientadas pela procura interna e pelos salários. Scharpf observa que “o impacto económico do atual regime do euro é fundamentalmente assimétrico. Ele encaixa-se  nas condições estruturais e nos interesses económicos das economias do norte da Europa  e entra em conflito com as condições estruturais das economias políticas do sul, que assim são condenadas  a longos períodos de declínio económico, estagnação ou baixo crescimento”.

Dados os efeitos especialmente desastrosos do regime do euro na Itália, a decisão do país de entrar na união monetária – e a defesa contínua desse regime pelo seu establishment político – pode parecer em grande parte autodestrutiva. No entanto, como Bill Mitchell e eu argumentamos em nosso recente livro, pdfReclaiming the State,(1.98 MB) a UEM deve ser entendida tanto como um projeto político quanto económico. Ao longo dos anos 70 e 80, a crescente pressão salarial, o aumento dos custos e o aumento da concorrência internacional provocaram uma compressão dos lucros, provocando a ira dos grandes detentores de capital. A um nível mais fundamental, o regime de pleno emprego “ameaçou fornecer as bases para transcender o próprio capitalismo”, quando uma classe trabalhadora cada vez mais militante começou a interligar-se  com novos movimentos contraculturais para exigir uma democratização radical da sociedade e da economia. Como o economista polaco  Michał Kalecki havia antecipado trinta anos antes, o pleno emprego não se tornou simplesmente uma ameaça económica para as classes dominantes, mas também uma ameaça política. Compreensivelmente, essa questão preocupava as elites, um facto que eé  ilustrado por vários documentos publicados na época.

Soberania Nacional e o Paradoxo da Fraqueza

O relatório da Comissão Trilateral sobre a Crise da Democracia de 1975, frequentemente citado pela Comissão Trilateral, argumentava, do ponto de vista do establishment, que era necessária uma resposta a vários níveis. Defendia não apenas a redução do poder de negociação dos  trabalhadores mas também a promoção de “um maior grau de moderação na democracia” e um maior afastamento (ou “não envolvimento”) da sociedade civil nas operações do sistema político, a ser alcançado por meio da difusão da  “apatia” politica. Neste contexto, podemos compreender melhor porque é que as elites europeias acolheram a “restrição externa” da UEM como uma forma de despolitizar a política económica, ou seja, de retirar as políticas macroeconómicas do controlo democrático e parlamentar através de uma redução auto-imposta da soberania nacional. O seu objetivo não era simplesmente isolar as políticas económicas dos desafios democrático-populares, mas também reduzir os custos políticos da transição neoliberal, que claramente envolve políticas impopulares, deslocando a responsabilidade por tais medidas sobre instituições e fatores externos.

Isso pode ser dito para incorporar o que Edgar Grande chama de “paradoxo da fraqueza”, pelo qual as elites nacionais transferem algum poder para um formulador e decisor de políticas supranacionais (parecendo assim mais fracas), a fim de se permitir resistir melhor à pressão dos atores sociais, testemunhando que “esta é a vontade da Europa” (tornando-se assim mais forte). Como disse Kevin Featherstone: “Compromissos vinculativos da UE permitem que os governos implementem reformas impopulares nos seus respetivos países, enquanto se empenham  em ‘transferir a culpa’ para a ‘UE’, mesmo que eles próprios tenham desejado tais políticas” (sublinhado do autor).

Em lado nenhum isto é mais claro do que no caso italiano. E isso provavelmente porque a economia mista da Itália do pós-guerra, centrada no Estado, foi vista pelas elites dominantes do país como sendo particularmente incompatível com o paradigma neoliberal que surgiu na década de 1980. A Itália era vista como tendo forte necessidade de  “reformas” de longo alcance, embora nenhum consenso popular apoiasse tais políticas. Assim, Maastricht passou a ser visto por uma grande parte do establishment italiano como o meio pelo qual se iria alcançar uma transformação radical – ou neoliberalização – da economia política do país. Guido Carli, o ministro da Economia da Itália, altamente influente de 1989 a 1992, não fez segredo disso. Nas suas memórias, Carli escreveu

“A União Europeia implica … o abandono da economia mista, o abandono do planeamento económico, a redefinição das modalidades de composição da despesa pública, a restrição dos poderes das assembleias parlamentares a favor do governo. . o repúdio do conceito de disposições sociais livres (e a subsequente reforma dos sistemas de saúde e de segurança social) . . . . a redução da presença do Estado nos sistemas financeiros e industriais . . . o abandono dos controlos de preços e das tarifas.”

É evidente que Carli entendia a União Europeia, antes de mais, como uma forma de liderar nada mais  nada menos do que a transformação total da economia italiana – uma transformação que não teria sido possível, ou teria sido extremamente difícil, sem as restrições externas autoimpostas (condicionalidade externa) criadas primeiro por Maastricht e depois pelo euro. Assim, por exemplo, o governo de Amato conseguiu em 1992 persuadir a Confederação Geral do Trabalho da Itália (CGIL) a acabar com a chamada escala móvel, a conhecida indexação dos salários à inflação, não enfrentando diretamente o trabalho, mas essencialmente apelando à restrição externa do Sistema Monetário Europeu (SME), o sistema de taxas de câmbio semifixas que abriu caminho para o euro. O próprio Carli reconheceu que “a União Europeia representava um caminho alternativo para a solução de problemas que não a estávamos a conseguir resolver através dos canais normais de governo e parlamento”. Portanto, a decisão da Itália de aderir ao SME e depois à UEM não pode ser entendida apenas em termos de interesses enquadrados nacionalmente. Pelo contrário, como salientou James Heartfield, deve ser visto como a forma como uma parte da “comunidade nacional” (a elite económica e política) foi capaz de restringir e condicionar a outra parte (o trabalho).

Capitalismo Comprador na Itália

Do ponto de vista do establishment, o facto de a UEM implicar também a desindustrialização e a “mezzogiornificação” do país – em benefício das empresas alemãs e francesas, que adquiriram um grande número de empresas (ou nelas adquiriram participações significativas) em Itália e noutros países periféricos – e a sua despromoção para um papel subordinado dentro da hierarquia de poder europeu, foi um pequeno preço a pagar pela vitória da guerra contra o trabalho no país.  Nesse sentido, o regime económico da Itália pós-Maastricht pode ser comparado a uma forma de capitalismo comprador – um regime semicolonial em que as classes dominantes do país estão essencialmente aliadas a interesses estrangeiros em troca de relações de classe no plano interno  mais favoráveis. Ironicamente, a esquerda pós-comunista desempenhou um papel crucial na legitimação da narrativa da condicionalidade externa ; no início da década de 1990, a sua subordinação ideológica ao neoliberalismo era tão profunda que os  seus principais representantes tinham vindo a acreditar que a União Europeia era realmente uma oportunidade a não perder  para a Itália se juntar finalmente à família dos países “modernos” e “virtuosos”. Não é coincidência que o “tratamento de choque económico” da década de 1990 (particularmente o desmantelamento e a privatização da outrora vasta gama de indústrias estatais da Itália) tenha sido promovida, em grande parte, pelos governos de centro-esquerda.

Vemos a mesma lógica da restrição externa  a ser  aplicada hoje. Está cada vez mais claro, por exemplo, que a chamada crise da dívida soberana de 2010-11 não foi uma resposta “natural” dos mercados à dívida pública “excessiva” da Itália, mas foi em grande parte “projetada” pelo Banco Central Europeu (BCE) para forçar os países a implementar a austeridade. Como Luigi Zingales, professor de finanças da Universidade de Chicago, observou recentemente, o BCE acabou por intervir no mercado de títulos italiano, mas só depois de um longo atraso: “Essa demora não se deveu à incompetência, mas ao desejo explícito de impor ‘disciplina de mercado’, ou seja, de pressionar o governo a melhorar a sua situação orçamental. Foi uma forma de  tortura do afogamento económico que deixou a economia italiana devastada e os eleitores italianos legitimamente irritados com as instituições europeias”.

A crise da dívida, combinada com a reação tardia do BCE, levou os media italianos a lançarem apelos apopléticos para se conter o défice através de medidas de austeridade de  emergência e a lançarem  o governo “tecnocrático” de Mario Monti. Mas a única razão pela qual a Itália experimentou uma “crise da dívida soberana”, em primeiro lugar, é que, como todos os países da zona do euro, ela  usa efetivamente uma moeda estrangeira. Enquanto um governo estatal nos Estados Unidos ou na Austrália, por exemplo, emitem dívida na sua própria moeda, que eles controlam, os países da zona euro contraem empréstimos numa moeda que não controlam (não podem fixar taxas de juro nem renovar a dívida com dinheiro recém-emitido e, portanto, ao contrário dos países que emitem dívida na sua própria moeda, estão sujeitos ao risco de incumprimento). Como diz um relatório recente do BCE, “embora o euro seja uma moeda fiduciária, as autoridades orçamentais dos Estados-Membros do euro renunciaram à possibilidade de emitir dívida que possa ser passível de incumprimento”.

Isto dá um enorme poder ao BCE, não eleito e não responsável, que pode (e usa) os seus poderes de emissão de moeda para impor as suas próprias políticas a governos recalcitrantes (como fez na Grécia em 2015, quando cortou a sua liquidez de emergência aos bancos gregos, a fim de pôr o governo Syriza  em extrema dificuldade e forçá-lo a aceitar o terceiro memorando de resgate) ou mesmo para forçar os governos a resignarem, como fez na Itália em 2011. Como o Financial Times reconheceu recentemente, o BCE efetivamente “forçou Silvio Berlusconi a deixar o cargo em favor de Mario Monti, não eleito”, ao fazer da sua saída a condição prévia para um maior apoio do BCE aos títulos e bancos italianos. Isto exemplifica o que a falecida e grande economista britânica Wynne Godley quis dizer quando escreveu, em 1992, que “se um país desiste ou perde [o poder de emitir a sua própria moeda], ele adquire o estatuto de autoridade local  ou colónia”.

Essa experiência foi um lembrete revelador para a classe política italiana do pacto faustiano que tinham assinado ao aderirem à zona euro. Ao renunciarem à soberania económica do seu país, fizeram também depender a sua sobrevivência política da boa vontade de tecnocratas não eleitos. É uma lição que o  PD também aprendeu à sua própria custa, depois de anos de negociações intermináveis (e, em última análise, infrutíferas) com a Comissão Europeia para obter um pequeno grau de “flexibilidade orçamental”. Podemos chamar a isto a vingança da despolitização: essa estratégia revelou-se benéfica para as elites locais na medida em que o regime do euro foi capaz de garantir um mínimo de crescimento aos países periféricos. Mas agora que as contradições fundamentais do sistema europeu têm estado a vir à tona, as elites políticas italianas viram-se sem as ferramentas económicas necessárias para manter o consenso social. Como escreve Scharpf, em países como a Itália, a união monetária não implicou simplesmente enormes custos socioeconómicos, mas também teve “o efeito de destruir a legitimidade democrática do governo”.

Um corolário desta perda de legitimidade democrática é que os apelos à lógica do constrangimento externo já não têm o mesmo peso que costumavam ter. Os cidadãos – não apenas na Itália – estão cada vez menos dispostos a justificar o status quo com base em regras arbitrárias e punitivas e diktats externos, cuja natureza política (ou seja, não neutra) se torna cada vez mais evidente. Isto é demonstrado pelo facto de as tentativas do establishment italiano e europeu para desacreditar as propostas “populistas” com base na sua alegada insustentabilidade orçamental, a constituírem uma ameaça à estabilidade financeira ou a serem incompatíveis  com o quadro europeu,  não terem manifestamente produzido o efeito desejado. Muito pelo contrário. Igualmente contraproducentes, do ponto de vista do establishment, são as afirmações dos principais representantes da UE de que o novo governo (seja ele qual for) deve respeitar as decisões tomadas pelos governos anteriores. À medida que cada vez mais pessoas começam a reconhecer a natureza antidemocrática e neocolonial da União Europeia, estas táticas de medo deixam de funcionar. Neste sentido, o voto de 4 de março não foi tanto um voto “contra a Europa” – ainda que os partidos pró-europeus tradicionais fossem severamente punidos – mas foi sobretudo um voto contra a despolitização, e por uma repolitização do processo decisório nacional. Ou seja, para um maior grau de controlo coletivo sobre a política e a sociedade, que necessariamente só pode ser exercido a nível nacional.

O futuro da Itália

Os partidos “anti-establishment ” que deram voz a esta procura de repolitização – Movimento Cinco Estrelas e Lega- podem estar à altura das expectativas? É improvável. Em última análise, nenhum dos partidos oferece uma alternativa viável ao status quo, pelo menos em termos de economia política. A agenda económica de Lega ainda é muito neoliberal: a principal proposta económica do partido é uma taxa de imposto fixa no lugar das atuais (mais ou menos) taxas progressivas de impostos, que são claramente de natureza regressiva, com um pouco de proteção social (abolição da lei Fornero, que aumentou a idade de passagem à reforma). Da mesma forma, a agenda do Movimento 5 Estrelas “está muito distante de uma força progressista”, como escreve Nicola Melloni. Embora a sua narrativa, tal como a dos movimentos populistas de esquerda, como Podemos e Occupy, seja construída em torno da contraposição de pessoas e da oligarquia, o M5S simplesmente reduz esta oligarquia “a uma oligarquia corrupta”.

Questões económicas como as relações de trabalho e de capital, a desigualdade ou o próprio capitalismo estão ausentes. Pelo contrário, eles são uma força política populista, mas centrista – oportunista o suficiente para travarem qualquer batalha que possa trazer consenso, mas sem qualquer ambição de mudar, ou mesmo reformar, o sistema. Neste sentido, são um exemplo perfeito dos “sintomas mórbidos” de que Gramsci falou.

Mais importante ainda, mesmo que M5S e Lega realmente quisessem mudar o sistema, para isso teriam que desafiar o regime do euro, o que nenhum deles está disposto a fazer. Embora os dois partidos sejam comumente descritos como eurocéticos, ou mesmo anti-europeus, ambos foram rápidos em prometer a sua lealdade à União Europeia antes e depois das eleições. No entanto, enquanto mantiverem esta posição, estão condenados ao fracasso. Como se mencionou acima, as instituições europeias têm uma ampla gama de ferramentas “para restringir e, se necessário, incapacitar a capacidade de resposta democrática dos governos do sul”, segundo Scharpf. “Embora a Itália tenha mais poder de negociação do que a Grécia, ela pode ser igualmente sufocada financeiramente”, escreve Zingales, tal como  a Grécia foi em 2015, se for percebida como uma ameaça ao regime neocolonial europeu.

Para concluir, independentemente do resultado das negociações ou mesmo na eventualidade de uma nova eleição, a crise orgânica da Itália veio para ficar. E não será resolvida enquanto a sua causa subjacente não for resolvida: a incompatibilidade fundamental entre a economia política italiana e a moeda única.

________

Notas

1 Quando um governo  está a ter um excedente primário isso significa que  está a gastar menos na economia real do que retira dela através da tributação e está, portanto, a drenar a riqueza da economia, geralmente para a redistribuir aos detentores estrangeiros e nacionais de títulos do Estado (normalmente bancos e indivíduos ricos). O senso económico comum aconselha que os governos numa situação de recessão devem fazer exatamente o contrário: praticarem défices orçamentais para estimular a atividade económica.

2 Ver também , Nancy Fraser, “From Progressive Neoliberalism to Trump—and Beyond,” American Affairs 1, no. 2 (Winter 2017): 46–64.

 

Baixar: pdfReclaiming the State A Progressive Vision of Sovereignty for a Post Neoliberal World (2017, Pluto Press)(1.98 MB)

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/25/a-crise-organica-de-italia-por-thomas-fazi/

Itália: o espelho da crise europeia

“A mais longa e profunda recessão na história de Itália.” Foi assim que o governador do banco central de Itália, Ignazio Visco, se referiu aos últimos tempos em Itália. Tem boas razões para o fazer, já que a Itália entrou de novo em recessão técnica – é a terceira vez nos últimos 10 anos – muito por culpa das sucessivas políticas de austeridade. Desde a crise financeira de 2007-08, o país ainda não regressou aos níveis de atividade económica do período anterior, e o PIB per capita diminuiu para mínimos das últimas duas décadas. O desemprego está longe de estar resolvido – a taxa de desemprego oficial está perto de 11%, sendo que o desemprego jovem supera os 32%. Cerca de 1 em cada 4 italianos encontram-se em risco de pobreza, o valor mais alto desde 1989. Além disso, o capital destruído, o elevado número de empresas que entraram em insolvência e o crédito malparado são entraves à recuperação e acentuam a fragilidade dos bancos italianos. No entanto, as origens da profunda crise italiana não se resumem apenas às políticas de austeridade levadas a cabo pelos governos recentes, de Monti a Renzi e Gentiloni (que saiu em junho de 2018). Num artigo recente, o economista holandês Servaas Storm analisa a evolução da economia italiana desde a assinatura do Tratado de Maastricht, em 1992, concluindo que este constitui um notável exemplo de “como destruir um país em três décadas.” A austeridade e as reformas estruturais neoliberais têm sido o traço principal da política italiana desde o início da integração europeia – o país tem sido o exemplo do excelente aluno europeu, cumprindo com zelo todas as orientações de Bruxelas. Storm começa por notar que a Itália viveu um período de convergência com países como a França ou a Alemanha entre a década de 1960 e a introdução do Tratado de Maastricht, em 1992. Mas algo mudou nos anos seguintes: “desde meados da década de 1990, a economia italiana começou a cambalear e depois a ficar para trás, à medida que todos os indicadores – rendimento por pessoa, produtividade do trabalho, investimento, quotas de mercado das exportações, etc. – entraram numa trajetória constante de declínio.” Este foi o preço pago pela integração europeia e por décadas de compromisso com a lógica austeritária da União Europeia. O compromisso com a ortodoxia económica é visível na evolução da economia italiana: registou sucessivos excedentes orçamentais primários (excluem o pagamento de juros da dívida), de 3% em média entre 1995 e 2008; no entanto, o rácio da dívida pública (% PIB) diminuiu bastante menos do que o pretendido, pelo impacto negativo dos cortes na despesa pública, investimento e transferências sociais no crescimento económico. A Itália foi o único país que alcançou excedentes primários consecutivos desde a crise financeira (em média, 1,3% entre 2008 e 2018). As declarações de Monti, segundo o qual o objetivo do governo de então era “destruir a procura doméstica através da consolidação orçamental”, demonstram a importância dada pela elite italiana à disciplina da austeridade. Storm percorre os anos da integração europeia em Itália, destacando o ataque ao poder de negociação dos trabalhadores italianos devido ao conjunto de reformas estruturais levadas a cabo até 2008, que incluem a redução drástica das proteções laborais e a facilitação da contratação temporária (a percentagem de trabalhadores temporários no emprego total quase duplicou entre 1990 e 2017, quando atingiu 18,5%). As reformas laborais foram acompanhadas pela estagnação dos salários reais, que “cresceram” a um ritmo anual médio de meros 0,35% entre 1992 e 2008. Storm salienta que a restrição eficaz dos salários italianos conseguiu atingir três objetivos de uma só vez – controlo da inflação, alguma redução do desemprego pela redução dos custos do trabalho e aumento significativo da parte dos lucros no PIB, o que indica um aumento da riqueza produzida apropriada pelos detentores de capital. Apesar de ter seguido à risca o consenso neoliberal europeu, a Itália nunca alcançou a prosperidade prometida. Nas palavras do autor, “com inflação baixa, restrição eficaz dos salários, o desemprego e o endividamento público em declínio, e o aumento da parte dos lucros no PIB, a Itália parecia lançada para um período de crescimento robusto. Isso não aconteceu. A operação foi levada a cabo com sucesso, mas o paciente morreu.” O resultado é o desastre anunciado: décadas de austeridade sufocaram a procura doméstica e travaram o “crescimento robusto” que se esperava, refletindo-se no declínio da indústria italiana, do investimento na produção nacional e nas atividades exportadoras. A redução do investimento ajuda a explicar o atraso tecnológico da Itália em relação a países como a França ou a Alemanha (menos rentabilidade dos investimentos diminui os incentivos à inovação que permitiria gerar ganhos de produtividade). Além disso, o contexto de adesão ao euro, o compromisso com as políticas de concorrência europeias que limitam a política industrial e a entrada de países como a China na OMC (que competem no comércio internacional com base em salários muito baixos) contribuíram para acentuar as fragilidades estruturais da economia italiana. Na última década, a compressão da procura interna significou o fecho de grande número de PME’s, destruição de postos de trabalho e acumulação de créditos malparados. É seguro afirmar, à semelhança do que escreveu o jornalista Matthew Lynn, que “a Itália não enfrenta uma crise bancária, mas antes uma crise do euro.” É por este motivo que Thomas Fazi se refere ao atual momento em Itália como uma “crise orgânica”, no sentido, cunhado por Gramsci, de uma profunda crise estrutural que ameaça a legitimidade da ordem social estabelecida ao expor as contradições fundamentais do sistema. Fazi descreve o modelo do capitalismo italiano pós-Maastricht como um “regime em que as classes dominantes do país se aliaram a interesses estrangeiros [da cúpula da União Europeia] em troca de um papel subordinado dentro da estrutura hierárquica de poder dominante”. A transferência de poderes dos estados para a União Europeia foi, como argumenta Fazi, promovida pelas elites nacionais como forma de desresponsabilização pelas reformas neoliberais implementadas, que passaram a ser apresentadas como “a vontade da UE”. Desta forma, a despolitização das decisões e o fraco envolvimento das populações reduziram os custos políticos das reformas que protegiam os interesses da elite italiana. A crise de hegemonia deste sistema, com o colapso financeiro de 2007-08 e a incapacidade de resposta das elites italianas e europeias, estão na base do recente terramoto político em Itália, com a erosão dos partidos tradicionais e a formação do governo de coligação entre o M5S e a Liga. Ambos os autores discutem as soluções para a armadilha do euro. Para Storm, estas terão de passar pelo abandono da austeridade, a recuperação dos rendimentos (para promover a procura) e a aposta no desenvolvimento tecnológico da estrutura produtiva, receita que se podia estender a países periféricos na UE, como Portugal. No entanto, a rutura com o consenso neoliberal não parece figurar entre os planos do novo governo italiano, cuja estratégia passa por exacerbar discursivamente um suposto confronto com as instituições europeias, que depois não se tem traduzido em mudanças de fundo concretas. Fazi recorda que, embora acusados de euroceticismo, tanto a Liga como o M5S foram rápidos a garantir a sua fidelidade à União Europeia depois das eleições. Além disso, algumas medidas limitadas de recuperação do consumo propostas pela coligação não resolverão os problemas estruturais do país. Uma coisa parece certa: a crise orgânica de Itália não se resolverá dentro do colete-de-forças do euro.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Bisneto de Mussolini diz que fascismo na Itália é 'exagero de propaganda esquerdista'

Foto de arquivo datada de 28 de setembro de 1938 mostra o ditador italiano Benito Mussolini, à esquerda, e o líder nazista Adolf Hitler, à direita, tirada pouco antes da assinatura do Acordo de Munique, Alemanha.
© AP Photo /

O político também especulou sobre a necessidade de ação da direita na Itália, trazendo estatísticas sobre a sobre-representação dos migrantes nas taxas de criminalidade e dados da população carcerária.

O bisneto do ex-premiê fascista da Itália, Benito Mussolini, Caio Giulio Cesare Mussolini, é candidato ao Parlamento Europeu nas eleições que acontecem no mês que vem. Ele é membro de um partido de oposição nacional-conservador italiano, Irmãos de Itália, mais popular no sul do país.


Em uma entrevista por escrito com o DPA, o político de 51 anos de idade disse que estava "orgulhoso" de seu sobrenome, embora fosse "muitas vezes um fardo" para ele. Caio, porém, negou que sua campanha tenha sido inspirada por alguma nostalgia fascista, embora defenda o slogan #EscrevaMussolini (um apelo para que cidadãos escreva o sobrenome dele na cédula, como manda a lei).

No início deste mês, membros de dois partidos de direita da Itália, Casa Pound e Forza Nuova, participaram de protestos em Torre Maura, um antigo distrito de Roma, bloqueando a transferência de 70 pessoas da minoria cigana em um centro de recepção local. Segundo Cesare Mussolini, compreender tais incidentes como um indicador de novo fascismo “é um exagero de propaganda da esquerda, que não tem outros argumentos”.

Ele prosseguiu dizendo que em algumas áreas “há muito medo” dos ciganos e que esse sentimento “deve ser entendido, não demonizado”. Abordando o problema migratório de modo mais amplo, Cesare Mussolini ressaltou que “na Itália, como na Alemanha”, os migrantes tendem a fazer aumentar as estatísticas de criminalidade, além de comporem fatia considerável nos números de encarcerados.

"São estatísticas. O que não pode ser contestado", afirmou Mussolini.

O candidato do BDI foi oficial da Marinha no passado, bem como representante do Oriente Médio para a Finmeccanica, uma empresa de defesa italiana que agora é conhecida como Leonardo.


Ele se autoclassifica como “patriota” e admitiu admirar políticos como o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, “mas também” a chanceler alemã Angela Merkel. Para ganhar uma cadeira nas eleições de 26 de maio, ele precisará não só receber um número suficiente de votos pessoais, mas torcer que seu partido supere a cláusula de barreira nacional (atualmente fixada em 4%).

Se eleito, ele seria o segundo Mussolini a representar a Itália, depois de sua prima Alessandra. Outro membro de sua família, Rachele, é vereadora em Roma.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019041413681160-mussolini-fascismo-italia-propaganda/

Itália vai investigar morte de modelo que depôs contra Berlusconi em caso de pedofilia

A modelo disse ao tribunal em 2012 que jovens se despiram para Berlusconi na mansão do ex-premiê perto de Milão. Ela alegou que não fazia sexo com ele, mas que aque algumas meninas recebiam quantias significativas de dinheiro.

Magistrados italianos lançaram uma investigação sobre o possível assassinato de uma dançarina que foi uma das principais testemunhas em um caso de prostituição contra o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.

Imane Fadil — uma modelo marroquina que alegou ter comparecido a oito das notórias festas "bunga bunga" — tinha 34 anos e morreu em um hospital de Milão em 1º de março depois de um "mês de agonia".


Fadil foi levado ao hospital em 29 de janeiro com fortes dores de estômago que a fizeram vomitar. Ela disse a amigos e advogados que ela havia sido envenenada.

"Os médicos não identificaram com certeza nenhuma patologia que possa explicar a morte", disse à Reuters o procurador-geral de Milão, acrescentando que havia "várias anomalias" em suas amostras de sangue e registros médicos.

No entanto, de acordo com a agência de notícias italiana Ansa, testes toxicológicos revelaram que ela havia morrido de uma "mistura de substâncias radioativas".

Os investigadores dizem ter encontrado um livro que a modelo estava escrevendo sobre suas experiências.

Fadil testemunhou no julgamento de Berlusconi em 2012, quando o ex-premiê foi acusado de hospedar "festas de prostituição" em sua vila em Arcore, perto de Milão. Ela disse que as jovens vestidas de freiras haviam realizado stripteases para o político e receberiam ainda mais se concordassem em fazer sexo com o primeiro-ministro.


Berlusconi foi acusado de fazer sexo com uma dançarina de boate menor de idade conhecida sob o nome artístico de Ruby Rubacuori. Ele também foi acusado de abusar de seu poder em uma tentativa de esconder sua conexão com Ruby. O magnata admitiu que as jovens participaram de suas festas, mas disse que promovia "concursos burlescos". Ele também insistiu que Ruby, que tinha 17 anos quando participou de suas festas, disse ter 24 anos à época.

Inicialmente, ele foi considerado culpado e sentenciado a 7 anos de prisão, mas acabou sendo inocentado de todas as acusações por um tribunal de apelação que decidiu que, mesmo após ter feito sexo com Ruby, Berlusconi desconhecia a verdadeira idade da menina.

O ex-premiê enfrentou ainda, acusações de subornar testemunhas para mentir no julgamento da prostituição com menores de idade.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019031613503564-italia-berlusconi-morte/

A França retira um dos seus embaixadores junto a um membro da UE

Algo sem precedentes desde o Tratado de Roma: a França chamou o seu embaixador junto a um Estado-membro da União Europeia, a Itália. A crise incubava desde a constituição do Governo de Giuseppe Conte. Ela rebentou após a reunião de Luigi Di Maio, chefe do Movimento 5 estrelas e Vice-presidente do Conselho italiano, com um grupo de “Coletes Amarelos” em Montargis (foto).

A França denuncia uma ingerência italiana nos seus assuntos internos.

Ao mesmo tempo, a França recebeu, por três vezes, os líderes da Oposição venezuelana pró-EUA e reconheceu o Presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, como Presidente interino do país. Aparentemente, o Quai d’Orsay interpreta de maneira elástica a sua concepção de ingerência em assuntos internos.





Ver original na 'Rede Voltaire'



Alexis Tsipras diz que «é melhor» a Itália ceder

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, sugeriu ao governo transalpino acatar as imposições de Bruxelas. «É melhor que façam hoje aquilo que, de outra forma, vos farão fazer depois», alertou.

Angela Merkel, chanceler alemã, disse ao seu homólogo grego, Alexis Tsipras, para aceitar o acordo para o terceiro «resgate» à Grécia. 26 de Junho de 2015, Berlim, AlemanhaCréditos / Reuters

Segundo avançou este fim-de-semana o Corriere della Sera, citado pelo Jornal de Negócios, o governante grego terá alertado «personalidades italianas com responsabilidades governativas» que, se não cederem aos ditames da Comissão Europeia, «depois será pior». 

O alerta do outrora «radical» Syriza surge após oito anos de empobrecimento do povo grego, em consequência dos programas de «resgate» que levaram à perda de soberania nacional e atacaram direitos sociais e laborais, nomeadamente o direito à greve. 

O periódico italiano adianta que Tsipras pediu desculpa por não ter apoiado o governo de Giuseppe Conte na intenção de manter a proposta de orçamento que, conforme revelou o AbrilAbril, apesar do aumento do défice para 2,4% do PIB, acima dos 1,8% previstos para este ano, não prevê uma ruptura. Ao todo, Roma estima gastar apenas mais 0,5% em apoios sociais do que em 2018.

Num comício, em Janeiro de 2015, Catarina Martins falava do Syriza, «partido-irmão», como a «possibilidade de esperança de que, na Europa, se possa sorrir». Volvido este tempo é a Comissão Europeia que continua a sorrir, insistindo na manutenção de instrumentos e pressões sobre os países-alvo de programas de acompanhamento. 

À margem da cimeira sobre o Brexit, ontem, a chanceler alemã Angela Merkel terá insistido com Giuseppe Conte para que revisse a proposta orçamental. Hoje, a coligação governamental entre o Movimento 5 Estrelas (M5S) e a Liga admitiu aceder ao «pedido» da Comissão e reduzir o défice previsto no Orçamento do Estado para 2019.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/alexis-tsipras-diz-que-e-melhor-italia-ceder

Itália a preparar-se para a Guerra Económica

“É absolutamente necessário que a Itália ponha em prática, o mais breve possível, um dispositivo de inteligência económica adequado e eficiente para prevenir, de maneira sistemática e não ocasional, qualquer ofensiva de guerra económica”.

Avisa o nosso amigo Giuseppe Gagliano, presidente do Centro Studi Strategici Carlo de Cristoforis, em artigo publicado no “Il Primato Nazionale”, com o título “Interesses Privados e Especulação: Quem Está Atrás das Agências de Rating?”

Interessi privati e speculazione: chi c’è dietro le agenzie di rating?

Di Giuseppe Gagliano | 19 novembre 2018

È assolutamente necessario che l’Italia ponga in essere al più presto un adeguato ed efficiente dispositivo di intelligence economica per prevenire in modo sistematico e non occasionale qualsiasi offensiva di guerra económica.

Non c’è dubbio che le agenzie di rating abbiamo giocato un ruolo estremamente rilevante nel contesto della guerra economica che ha determinato la crisi italiana dell’autunno 2011.

Ebbene, se analizziamo con estrema attenzione la composizione interna di alcune di esse come per esempio Moody’s e Standard & Poor’s, non avremo alcuna difficoltà ad individuare gli intrecci di natura economica tra queste agenzie di rating e gli interessi di alcune delle principali multinazionali.

Per quanto riguarda la prima, è estremamente agevole individuare come questa sia una sussidiaria della Mood’s Corporation composta da Robert Glauber della Ing Group – multinazionali bancaria e assicurativa con sede in Olanda – Henry McKinnel, legato alla multinazionale farmaceutica Pfizer e alla multinazionale Exxon Mobil e John K. Wulff, legato sia alla Hercules – multinazionale chimica – sia alla multinazionale petrolifera Sunoco.

Quanto all’altra agenzia, Standards & Poor’s, è sussidiaria della McGraw Hill company, una delle più importanti multinazionali dell’editoria e delle comunicazioni.

L’amministratore delegato di questa multinazionale è McGraw Hill III, membro della United Technology, multinazionale delle armi e della Conoco Phillips, altra multinazionale nel campo dell’energia. All’interno della McGraw Hill Company vi sono – fra gli altri- il presidente di Citigroup Europa Wilfred Bischoff, Douglas Daft, presidente della CocaCola Company e Hilda Brillenbourg, dirigente del Fondo monetario internazionale.

A seguito dell’indagine del pubblico ministero della procura di Trani Michele Ruggero, alcune di queste agenzie di rating sono state rinviate a giudizio per avere destabilizzato l’immagine dell’Italia sul mercato finanziario e per aver determinato una significativa alterazione dei valori dei titoli di Stato italiani con lo scopo di indebolire l’euro.

Ebbene ,allo scopo di evitare una nuova destabilizzazione di natura economica e politica, è assolutamente necessario che l’Italia ponga in essere al più presto un adeguato ed efficiente dispositivo di intelligence economica per prevenire in modo sistematico e non occasionale qualsiasi offensiva di guerra economica proveniente sia dall’Europa che da paesi extra -europei allo scopo di tutelare la propria sovranità economica e politica.

Giuseppe Gagliano
Exclusivo Tornado / IntelNomics

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/italia-a-preparar-se-para-a-guerra-economica/

UMA «UNIÃO» EUROPEIA EM DESAGREGAÇÃO

A imagem que me ocorre quando reflicto nos processos que se verificam actualmente na União Europeia, é a de arribas ou falésias, em que as bases são escavadas pelo mar, as fissuras no calcário das arribas vão-se alargando e - de tempos a tempos - um enorme bloco deixa de ser capaz de se sustentar e cai ao mar ou na orla costeira. 

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Aqui, na minha analogia, os blocos representam nações: no estádio mais avançado da desagregação está a Grã Bretanha e seu doloroso e incerto «brexit». 

Mas o processo de fragmentação existe também a Leste, com o grupo de países (Polónia, Hungria, República Checa, Eslováquia) que recusa a política de migração imposto pelos poderes dominantes da UE. 

Outro grupo problemático é o dos países com défices e dívidas públicas excessivos. Estes incluem vários países do Sul: Grécia, Itália, Espanha e Portugal. 

Nestes países, a crise do tecido económico com desemprego de massa, resultante da austeridade imposta desde Bruxelas, engendraram uma profunda crise social. 

A Itália tem um governo resultante de uma coligação heterogénea, mas que está decidida a fazer frente às exigências de um «Euro-grupo», dos comissários e doutros burocratas que, afinal, não representam senão a vontade de uma oligarquia instalada na mecânica eurocrática.  

Tudo se conjuga, neste dia 29 de Outubro, para que a Itália veja rejeitado o seu orçamento pelos todo-poderosos comissários da UE. 

Porém, ao contrário do que certa imprensa propala, papagueando o discurso dos eurocratas em Bruxelas ou de quem os apoia ao nível local, a Itália tem boas razões para manter tal orçamento, moderadamente expansionista, num contexto em que a crise social, iniciada com a grande recessão de 2008, permanece - 10% de desemprego -[1] gerando ou aprofundando fenómenos inquietantes como racismo, xenofobia, etc.  O rigor contra Itália explica-se como uma espécie de retaliação pelo facto do seu governo[2] não aceitar as políticas migratórias instituídas pelos poderes centrais. 

Com efeito, o seu orçamento com um défice de 2,4% apresenta uns 0,4% acima do que os comissários de Bruxelas achavam sustentável, porque a dívida pública italiana excede 132 % do PIB. Mas, por outro lado, um orçamento moderadamente expansionista é necessário para desencadear um maior consumo nas camadas que foram mais afectadas pelos dez anos de depressão que atravessamos. 

Se houvesse um mínimo de boa vontade, não iriam ser colocados demasiados obstáculos à Itália, até porque o seu governo tem uma legitimidade muito maior do que os senhores de Bruxelas. 

Mas, aqui joga-se um jogo que visa intimidar, dar o exemplo: «se te portas mal, olha o que te acontece». O comportamento da UE em relação à Grécia[3], em 2010-2014, seguiu este padrão.  O que se está a passar com o «brexit»[4] igualmente, embora as responsabilidades do péssimo governo de Theresa May também sejam enormes.  A média económica põe em realce a subida dos juros das obrigações soberanas italianas: porém, deveria também realçar o facto de que as obrigações soberanas (a dívida emitida pelos estados) de todos os países do sul foram compradas sistematicamente pelo BCE[5], durante mais de 6 anos (2012 -2018) e distorceram o mercado da dívida destes países, até valores de juros irrisórios, totalmente artificiais.  Creio que a miopia da eurocracia no poder vai arrastar a Itália[6] para a ruptura. Mas a Itália tem muitos trunfos; tem potencial na indústria, no comércio, no turismo. Terá, com certeza, muitos parceiros económicos (dentro e fora da Europa) com os quais poderá estabelecer acordos mutuamente vantajosos.   

References

  1. ^ permanece - 10% de desemprego - (manuelbaneteleproprio.blogspot.com)
  2. ^ seu governo (manuelbaneteleproprio.blogspot.com)
  3. ^ em relação à Grécia (manuelbaneteleproprio.blogspot.com)
  4. ^ com o «brexit» (manuelbaneteleproprio.blogspot.com)
  5. ^ compradas sistematicamente pelo BCE (manuelbaneteleproprio.blogspot.com)
  6. ^ miopia da eurocracia no poder vai arrastar a Itália (www.zerohedge.com)

Leia original aqui

A União Europeia põe em causa a independência nacional dos Estados

Ao exigir alterações Orçamentais a um Estado membro, a UE cria as condições propicias a desconfianças sobre as suas pretensões em domínios específicos como o são o da hegemonia que já detém no plano económico e que se deduz querer alargar ao plano político.

A União Europeia perdeu a confiança de mais um dos seus membros. A Itália.

E, perdeu essa confiança ao ingerir descaradamente naquilo que é o direito a governar num País que é independente ao querer, a partir de Bruxelas, emanar diretrizes transversais comuns de forma prepotente e tendenciosa, deixando todos os Estados membros em alerta geral sobre este organismo que gerindo de forma duvidosa a sua casa não se coíbe de querer gerir a casa dos outros impondo regras.

Bruxelas chumbou o Orçamento Geral do Estado de um seu Estado membro.

Uma atitude que não abona em favor da unidade que se pretende num tempo em que a economia se globaliza e o risco da perda de identidade nacional é uma evidencia.

Esta atitude desfere um golpe tremendo que abala a Europa e dá consistência aos nacionalismos que, efervescente em Espanha onde os independentistas Catalães comemoram o primeiro aniversário do referendo que consignou a independência a que Madrid respondeu com o artigo 155 da Constituição de Espanha reforçado por votação maioritária no Congresso dos Deputados, encontram argumentos para as suas pretensões.

Em Espanha, a discussão política está ao rubro entre o PSOE de Pedro Sanches e Ciudadanos de Albert Rivera.

Pedro Sanchez rompeu com Casado do Ciudadanos por este o ter acusado de “golpista” ao manter o entendimento político com independentistas na Catalunha.

Em visita a Itália, Pedro Sanchez solidariza-se com o Governo Italiano chefiado por Giuseppe Conte nesta questão fulcral para a governação de um Estado soberano e independente fazendo inclusive um apelo a todos os progressistas Europeus para que se solidarizem com o Governo Italiano.

Em Portugal também já se ouviram vozes de membros do Partido Socialista, partido do Governo, pronunciar sobre esta ingerência externa em matéria que é do foro interno do Governo Italiano que resultou de uma eleição democrática e que por esta via é condicionado num exercício que foi sufragado pelos eleitores.

A União Europeia tem de rever a curto prazo as suas linhas gerais de conduta sob pena de colocar em risco a sua própria configuração que só não se desmorona pelo vinculo monetário existente que facilita as operações financeiras no espaço Europeu e a livre circulação de pessoas que aligeira os processos de empregabilidade e de transito de mercadorias.

Não fora isso e os motivos que estiveram na origem do resultado do referendo feito na Inglaterra teriam efeito por simpatia em todo o espaço Europeu.

A constituição da Comunidade Económica Europeia (CEE), hoje, União Europeia (UE), depois do acordo do carvão e do aço evoluiu para um acordo de livre circulação e de moeda única com regras bem definidas em que o princípio do respeito pela independência dos Estados é supremo e basilar.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

5 de Outubro passado com o Brasil no pensamento

A foto não é de um brasileiro, mas de um italiano. É maestro. Ricardo Mutti. Escolho a foto desse homem pois a ele se deve uma das mais ousadas (e belas) manifestações anti-fascistas na Itália de Berlusconi.
Dizia ele:
«Não terei mais 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquieço a vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o côro que cantava "Ó meu pais, belo e perdido", eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual se assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente ‘bela e perdida. [aplausos retumbantes, incluindo os artistas da peça].
Reina aqui um ‘clima italiano’, eu, Mutti me calei por longos anos. Gostaria agora... nós deveriamos dar sentido a este canto ; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um côro que cantou magnificamente, e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos.»
Veja o vídeo, e cante baixinho pelo Brasil Talvez lá se faça ouvir

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

« A Arte da Guerra » O Poder político das armas

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Os mercados e a União Europeia estão em alarme, a oposição está ao ataque, o apelo do Presidente da República à Constituição, tudo porque a anunciada manobra financeira do governo resultaria num déficit de cerca de 27 biliões de euros. No entanto, silêncio absoluto, tanto no governo como na oposição, sobre o facto de que a Itália gasta num ano uma quantia análoga para fins militares. A verba de 2018, é de cerca de 25 biliões de euros, à qual se junta outros elementos de carácter militar, elevando-a para mais de 27 biliões. São mais de 70 milhões de euros por dia, em expansão visto que a Itália se comprometeu com a NATO a elevar essa despesa até cerca de 100 milhões por dia.

Por que razão é que ninguém questiona a crescente despesa de dinheiro público com armas, com as forças armadas e com intervenções militares?

Porque isso significaria ficar contra os Estados Unidos, o “aliado privilegiado” (ou seja, dominante), que exige um aumento contínuo da despesa militar.

A despesa dos EUA para o ano fiscal de 2019 (iniciado em 1 de Outubro de 2018), ultrapassa 700 biliões de dólares, além de outros itens militares, incluindo quase 200 biliões para os militares aposentados. A despesa militar total dos Estados Unidos sobe para mais de 1 trilião de dólares por ano, ou um quarto da despesa federal. Um investimento progressivo na guerra, que permite aos Estados Unidos (segundo a motivação oficial do Pentágono) “permanecer a potência militar predominante no mundo, assegurar que as relações de poder permaneçam a nosso favor e fazer avançar uma ordem internacional que favoreça ao máximo, a nossa prosperidade”. No entanto, a despesa militar provocará um déficit de quase 1 trilião no orçamento federal, no ano fiscal de 2019.

Isso aumentará ainda mais a dívida do Governo Federal USA, que subiu para cerca de 21,5 triliões de dólares. Essa despesa incide no valor atribuído ao orçamento interno, com cortes nas despesas sociais e no orçamento externo, imprimindo dólares, usados como principal moeda das reservas globais e das quotizações das matérias primas. Mas há os que ganham com o aumento crescente da despesa militar. São os colossos da indústria bélica. Entre as dez maiores empresas fabricantes de armas do mundo, seis são americanas: Lockheed Martin, Boeing, Raytheon Company, Northrop Grumman, General Dynamics, L3 Technologies. Seguem-se: BAE Systems - britânica, Airbus - franco-holandesa, Leonardo (ex-Finmeccanica) – italiana que subiu para o nono lugar, e Thales - francesa.

Não são, apenas, empresas gigantescas de fabrico de armas. Elas formam o complexo militar-industrial, estreitamente integrado nas instituições e nos partidos, num extenso e profundo entrelaçamento de interesses. Isto cria um verdadeiro ‘establishment’ das armas, cujos lucros e poderes aumentam, à medida que se expandem as tensões e as guerras.

A Leonardo, que recebe 85% da sua faturação com a venda de armas, está integrada no complexo militar-industrial USA: fornece produtos e serviços não apenas às Forças Armadas e às empresas do Pentágono, mas também para as agências de serviços secretos (br. Inteligência), enquanto, na Itália, admninistra as instalações da Cameri, dos caças F-35 da Lockheed Martin. Em Setembro, a Leonardo foi escolhida pelo Pentágono, como a primeira empresa contratante da Boeing, para fornecer à Força Aérea dos EUA o helicóptero de ataque AW139. Em Agosto, a Fincantieri (controlada pela sociedade financeira do Ministério da Economia e Finanças) entregou à US Navy, com a Lockheed Martin, mais dois navios de combate costeiro.

Tudo isto deve estar presente quando se pergunta por que motivo, nos órgãos parlamentares e institucionais italianos, há um acordo multipartidário esmagador em relação a não cortar, mas para aumentar, a despesa militar.





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« A Arte da Guerra »Em Itália, o maior barril de pólvora USA

A seguir à Segunda Guerra mundial, as tropas aliadas ocuparam o continente europeu. Se a França e a Rússia se retiraram, hoje, os Estados Unidos da América e o Reino Unido conservam aí uma parte das suas tropas. Desde há um ano, o Pentágono, prevendo uma guerra mundial contra a China e contra a Russia, utiliza as suas numerosas bases em Itália para aumentar, de maneira maciça, o armazenamento das suas armas na Europa, incluindo bombas atómicas.

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Lewis Eisenberg era o presidente do Porto de New York que vendeu o World Trade Center precisamente antes dos atentados do 11de Setembro a fim de que eles podessem ser organizados aí. Hoje, é o Embaixador dos Estadis Unidos em Roma, e transforma a peninsula num arsenal USA.

No dia 8 de Agosto de 2018 fez escala no porto de Livorno, o navio Liberty Passion (Paixão pela Liberdade) e no dia 2 de Setembro, o Liberty Promise (Promessa de Liberdade), que serão secundados, no dia 9 de Outubro, pelo Liberty Pride (Orgulho da Liberdade). Os três navios regressarão a Livorno, sucessivamente, nos dias 10 de Novembro, 15 de Dezembro e 12 de Janeiro de 2019. São navios Ro-Ro enormes, com 200 metros de comprimento e 12 pontes, cada um capaz de transportar 6500 automóveis. Mas eles não carregam carros, mas tanques. Fazem parte de uma frota norte-americana de 63 navios pertencentes a empresas privadas que, por conta do Pentágono, transportam armas continuamente num circuito mundial entre os portos dos EUA, do Mediterrâneo, do Médio Oriente e da Ásia. A escala principal do Mediterrâneo é Livorno, porque o seu porto está ligado à base americana limítrofe de Camp Darby.

Qual é a importância da base foi recordado pelo coronel Erik Berdy, comandante da guarnição do Exército dos EUA em Itália, numa visita recente ao jornal "La Nazione" em Florença. A base logística, situada entre Pisa e Livorno, é o maior arsenal dos EUA fora da pátria. O coronel não especificou o conteúdo dos 125 bunkers em Camp Darby. Pode ser estimado em mais de um milhão de projécteis de artilharia, bombas para aviões e mísseis, além de milhares de tanques, veículos e outros materiais militares. Não pode ser descartado que, no futuro, nessa base estiveram, estão ou podem ter estado bombas nucleares.

Camp Darby - sublinhou o coronel - desempenha um papel fundamental, reabastecendo as forças terrestres e as áreas dos EUA num espaço de tempo muito mais curto do que seria necessário se elas fossem abastecidas directamente pelos USA. A base forneceu a maioria das armas para as guerras contra o Iraque, Jugoslávia, Líbia e Afeganistão. Desde Março de 2017, com os grandes navios que param mensalmente em Livorno, as armas de Camp Darby são constantemente transportadas para os portos de Aqaba na Jordânia, Jeddah na Arábia Saudita e outros portos do Médio Oriente para serem usados pelas forças americanas e pelas forças aliadas nas guerras na Síria, no Iraque e no Iémen.

Na sua viagem inaugural, o Liberty Passion desembarcou 250 veículos militares e outros materiais em Aqaba, em Abril de 2017. Entre as armas que são transportadas por mar todos os meses, de Camp Darby a Gedda, certamente há também bombas americanas para aviões que a aviação saudita emprega (como evidenciado por provas fotográficas) para matar civis no Iémen. Há também sérios indícios de que, na ligação mensal entre Livorno e Gedda, os grandes navios também transportam bombas aéreas fornecidas pela RWM Itália (Radioactive Waste Management) de Domusnovas (Sardenha), à Arábia Saudita para a guerra no Iémen.

Como resultado do aumento do trânsito de armas de Camp Darby, a ligação por canal e estrada, da base com o porto de Livorno e o aeroporto de Pisa, já não é suficiente. Uma reorganização maciça da infraestrutura foi decidida (confirmada pelo Coronel Berdy), incluindo uma via férrea nova. O plano envolve o abate de 1.000 árvores numa área protegida, mas já foi aprovado pelas autoridades italianas. Tudo isto não basta. O Presidente do Conselho Regional da Toscana, Giani (Pd), ao receber o coronel Berdy, prometeu “promover a integração entre a base militar dos EUA de Camp Darby e a comunidade que a circunda”. Posição substancialmente partilhada pelo prefeito de Pisa, Conti (Lega) e de Livorno, Nogarin (M5S). Este último, recebendo o coronel Berdy e depois o Embaixador americano Eisenberg, içou a bandeira de estrelas e riscas, na Câmara Municipal.





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« A Arte da Guerra »Uma Itália Soberana, sem Soberania

Longe de liderar a política de soberania que proclama, o governo de Conte se comprometeu com a Líbia sob o comando dos EUA. A verdadeira soberania não é medida por discursos, mas por ações, particularmente pelo respeito pela própria Constituição.


A confusão político-mediática originada pelo choque entre “europeístas” e “soberanistas” esconde aquela que, pelo contrário, é a realidade: um europeísmo sem Europa e um soberanismo sem soberania.

A erguer prontamente a bandeira do europeísmo está, neste momento, o Presidente Macron, para fazer avançar o poder francês não somente na Europa, mas também em África.

A França, juntamente com os EUA, promotora da guerra NATO que, em 2011, destruiu o Estado líbio (na qual a Itália desempenhou um papel de primeiro plano), procura por todos os meios, controlar a Líbia:

• os seus ricos recursos - enormes reservas de petróleo, gás natural, água fóssil
• o próprio território líbio, de grande importância geoestratégica.

Para este fim, Macron colabora com as milícias que combatem o “governo” de Fayez al-Serraj, apoiado pela Itália, que, juntamente com a ENI, mantém grandes interesses no país. Este é só um dos exemplos de como a União Europeia, construída sobre os interesses das oligarquias económicas e financeiras das grandes potências, está a desmoronar-se devido a contradições de natureza económica e política, dos quais a questão dos migrantes é apenas a ponta do iceberg.

Perante o predomínio da França e da Alemanha, o Governo 5 Stelle-Lega fez uma escolha vital: aumentar o peso da Itália, ligando-a ainda mais estreitamente aos Estados Unidos. Daí a reunião do Presidente Conte com o Presidente Trump, ao qual os media italianos deram pouca importância. No entanto, nesse encontro foram tomadas decisões que influem notavelmente no posicionamento internacional da Itália.

Em primeiro lugar, decidiu criar-se “um lugar permanente onde se concentram os poderes de comando Itália-USA, no Mediterrâneo Alargado”, ou seja, na área que, na estratégia USA/NATO, se estende do Atlântico ao Mar Negro e, a sul, até ao Golfo Pérsico e ao Oceano Índico.

O comando está realmente nas mãos dos USA, especificamente do Pentágono, enquanto a Itália tem algumas funções secundárias como assistente de gestão e, genericamente, o papel de comparsa.

Segundo Conte, “é uma cooperação estratégica, quase uma geminação, em virtude da qual a Itália se torna um ponto de referência na Europa e um interlocutor privilegiado dos Estados Unidos para os principais desafios a enfrentar”. Anuncia-se, assim, mais um reforço de “cooperação estratégica” com os Estados Unidos, ou seja, o papel “privilegiado” da Itália como ponte de lançamento das forças USA, incluindo as forças nucleares, tanto para Sul como para Leste.

“A Administração americana reconhece à Itália, uma função de liderança como país promotor da estabilização da Líbia», declara Conte, anunciando, implicitamente, que a Itália, e não a França (menos confiável aos olhos de Washington), foi incumbida pela Casa Branca da tarefa de “estabilizar” a Líbia. É necessário investigar de que maneira.

Não bastará a Conferência Internacional sobre a Líbia, que deverá ocorrer no Outono, em Itália, antes das “eleições” líbias patrocinadas pela França, que devem ser realizadas em Dezembro. Acontecerá do lado italiano um compromisso militar directamente no terreno, de custos humanos, materiais e resultados imprevisíveis.

A escolha "soberanista" do Governo Conte reduz ainda mais a soberania nacional, tornando a Itália ainda mais dependente do que decidem em Washington, não apenas na Casa Branca, mas no Pentágono e na Comunidade dos Serviços Secretos/Inteligência(br.), composta por 17 agências federais especializadas em espionagem e operações secretas.

A verdadeira escolha soberana é a concretização real do princípio constitucional de que a Itália repudia a guerra como instrumento de ataque à liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas internacionais.





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Itália: Estará Trump a Sabotar o “Projecto Europeu”?

Ao incentivar a acção do governo italiano, alvitrando a compra de dívida italiana pelos EUA, Trump estaria a procurar sabotar o projecto europeu, temos visto escrito, nestes últimos dias. Isso, porém, seria, parece-nos, apenas chover no molhado. Ou seja, uma acção absolutamente desnecessária. Expliquemo-nos. 

Trump não precisa de incentivar o ex-comunista, que manda na Itália, a destruir o “projecto europeu” (seja lá isso o que for e que nas últimas duas décadas tem sido apenas o império do ordo-liberalismo “made in Germany”).

Juncker, Merkel e seus gauleiters (como o inenarrável Coelho de Massamá) já trataram de sabotar esse tal “projecto europeu”… Portanto, não é preciso que os italianos com o apoio de Trump venham agora refazer o que Juncker, Merkel e seus gauleiters já trataram de fazer.

Ao menos (oh paradoxos! ou de como a geopolítica escreve direito por linhas tortas), ao contrário do pobre Obama, Trump não tem obedecido aos arcaicos e irracionais desígnios ordo-liberais da frau que veio do frio.

E isso tem criado momentos de respiração para Estados como Portugal. Repare-se nas “coindidências”. Após um ano de presidência de Trump, apareceu logo a decisão de tirar a Grécia da “solitária”. Também o segundo orçamento de Centeno já não teve de passar as passas do Algarve, em Bruxelas, e o trabalho do ministro já não foi tratado por cima da burra.

E, mesmo se apenas como efeito colateral, a “Trumpice” cria também uma margem de manobra geopolítica que aproveitada com inteligência pode abrir espaços até agora inconcebíveis… Salvini e Conte foram, aliás, dos primeiros a perceber isto. E daí a visita do primeiro-ministro italiano à Casa Branca, logo depois de tomar posse.

Mais, pode-se hoje dizer, sem grande margem para errar, que o mundo que engendrou o “projecto europeu” simplesmente já não existe.

A Salvini e Conte não é a Europa que os preocupa. É a Itália…  E a Trump o que o preocupa, quanto à Itália, é o que sempre foi, desde 1945, a preocupação de Washington e que pouco tem a ver com “Europa”: impedir que Roma caia na órbitra de Moscovo.
Exclusivo Tornado / IntelNomics

Ver artigo original em "O TORNADO"

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