Imperialismo

A POLÍTICA DO CAOS E A SALVAGUARDA DO DEMOS

SIC Notícias | China diz que resolução dos EUA de apoio aos...
 
Estou sempre de olho atento ao que se passa no Extremo-Oriente, em particular na China, incluindo Hong Kong.
 
As forças do caos estão insatisfeitas; querem mais, muito mais: A sua única satisfação é a satisfação total, ou seja, a hegemonia mundial.
 
Nenhum poder, nos últimos vinte anos, se interpôs verdadeiramente entre as suas ambições megalomaníacas e o mundo.
 
Precisavam de um «novo Pearl Harbour» e tiveram-no num 11 de Setembro. Ó quão fatídica data, pois nela se tinha inaugurado, o golpe em 1973, para derrubar o socialismo Latino Americano, no Chile de Allende, que passou a ser o modelo de golpe militar fascista de Pinochet e das forças da CIA. 
 
Passou a ser também o modelo de aplicação do neo-liberalismo, onde «liberalismo» tem apenas o significado de não haver limites - de qualquer espécie - para o capital. 
 
Mas, o domínio sem partilha do Globo está ainda dependente de conseguirem manter em cheque, para depois derrubarem, o outro super-poder. Por isso têm de construir uma narrativa diabolizante doutra civilização, cinco vezes milenária, que se transformou e se adaptou, mas que não está interessada em dominar o resto do mundo. 
 
Tem adentro de fronteiras o suficiente para garantir um nível de vida decente e mesmo além disso, para a sua população. 
Basta que não caia na irracionalidade do «mercado livre», uma aberração ideológica e lógica. 
[Como já escrevi, Adam Smith e outros idealizavam um modelo teórico, sem que se traduzisse nos factos da sociedade e economias reais, tanto do seu tempo como de todos os tempos. Por isso, o próprio conceito de «mercado livre», resulta de um equívoco ou de uma distorção, para permitir o domínio do mais forte sobre o mais fraco. Não é realmente nada do que os liberais do século XVIII sonharam. ]
 
A essência do poder na China de hoje é de um poder totalitário. Não há dúvida nisso. 
 
É verdade que, havendo meios materiais quase infintos, um poder - seja qual for a sua caracterização - é sempre derrubável: com meios diversos subversivos, desestabilizadores, conjugados com sanções e demonizações, para impedir indignação ou solidariedade (porque o público está amedrontado). 
Mas, o que não é possível é, instaurar um regime genuíno, democrático, de respeito pelos direitos humanos, resultando de actos de subversão inspirados e subsidiados do exterior, que em geral culminam com uma guerra e uma invasão. 
Felizmente para os chineses, o regime presente está bem forte. 
Os Rockefeller, Rotheschilds, Gates, Soros, e outros, vêm a conquista do Império do Meio como sua «jóia da coroa», aquela vitória que os iria realmente erguer à situação de «senhores do mundo» por mil anos. 
Este sonho de ditadores imperiais, da antiguidade aos nossos dias, não se poderá realizar. 
 
Porque a existência da espécie humana estará em jogo. Ou, por outras palavras, se tal acontecer, será depois da humanidade passar por uma guerra nuclear (total, pois não é concebível - todos os estrategas sabem-no perfeitamente - uma guerra nuclear limitada). 
 
Mas uma guerra nuclear deixará um planeta inabitável: estéril em muitas zonas e mesmo nas zonas que aparentem ser habitáveis, efeitos de longo prazo, como os níveis de radiações e de elementos radioactivos, tornarão a vida humana não sustentável.
 
A loucura da oligarquia mundialista (que alguns erroneamente chamam de«elite») é completa. Estão -  conscientemente - a encaminhar para o abismo a civilização e a natureza que os sustenta. 
 
Ofuscados pela sua incapacidade de obterem o comando sem partilha, semeiam o caos e pensam no seu delírio que do caos possa nascer a ordem. Pois a IIª Lei da Termodinâmica, a Física toda, dizem que o caos só pode originar mais caos. 
 
O que eles pretendem, semear a morte e a destruição, para se alimentarem dos despojos, será como «abutres». 
 
Mas, nem sequer serão abutres no sentido ecológico, pois estes se alimentam de carniça (cadáveres); os abutres desempenham um papel importante na saúde dos ecossistemas... são tão importantes como as gazelas ou os beija-flor, ou outros animais «simpáticos»! 
 
Nós vivemos todos hipnotizados, iludidos, intoxicados com ideologias caducas, quando o real está mesmo diante dos nossos olhos! 
 
Esta denegação, persistente incapacidade de reconhecer o real, é a verdadeira prisão dos povos. 
 
Se tivéssemos a noção clara de como estamos a entregar (incondicionalmente!) o poder a predadores e psicopatas, que têm nenhuma consideração pelas nossas vidas, saúde, ou dignidade... as construções de poder (no Ocidente, Oriente, Sul ou Norte) iriam ser rapidamente desmontadas. 
 
Elas desfaziam-se, como cenários de circo que deixaram de servir, depois de terminado o espectáculo, depois de apagadas as luzes multicolores, tal como as músicas, os cheiros e a agitação, que davam vertigens.
 
  
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

ELES ROSNAM PARA AMEAÇAR

O imperialismo rosna para ameaçar e intimidar – mas encolhe-se diante dos que lhe fazem em frente.
 
O bloqueio económico à Venezuela Bolivariana continua em vigor, mas desta vez as rosnadelas do sr. Elliot Abrams de que iria apresar navios não tiveram êxito. O valente Estado iraniano desafiou corajosamente o império e enviou cinco navios com refinados de petróleo à Venezuela.

O primeiro deles chegou hoje 23 de Abril às águas venezuelanas, escoltado por navios da Força Armada Bolivariana. O império e a US Navy não são tão poderosos quanto apregoam, mas mantêm uma estratégia de tensão contínua.
 
No ano passado já haviam apresado um petroleiro iraniano ao largo de Gibraltar, num atentado à liberdade de comércio.

Os actos de sabotagem e gangsterismo contra a Venezuela chegam até mesmo ao roubo de patrimonio do Estado venezuelano. É o caso da CITGO, empresa de distribuição de refinados nos EUA, que foi tomada pelo governo trumpiano. É o caso igualmente das 31 toneladas de ouro venezuelano depositadas em Londres que lhe foram roubadas pelo Banco da Inglaterra.

 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/eles-rosnam-para-ameacar.html

TODOS OS IMPÉRIOS TÊM UM FIM

           
 
Os impérios são governados por homens, por seres imperfeitos, sujeitos a toda uma série de erros de avaliação, alguns dos quais acabam por ser fatais para o destino destas construções de poder.
 
O primeiro desses erros é a ausência ou a perda de uma referência moral, de uma forma de exercer o poder que não seja a força arbitrária, mas seja compreendida pelos sujeitos como próxima do que consideram «justo». Com efeito, a corrupção, o arbítrio, a legalidade espezinhada, tudo isso se verifica na perda do referencial moral. A partir desse ponto, os grupos (sejam eles etnias, tribos, ou classes) que se  mantinham à sombra do império, apenas procuram uma ocasião para desertar, inclusive para virar casaca e se aliarem com os inimigos mais coerentes desse mesmo império.  
 
A segunda causa é a ausência de freio nas despesas, quer sejam sumptuárias, quer sejam militares. Neste caso, a parte de capital destinada a ser directa ou indirectamente reinvestida na economia, a parte destinada a «reproduzir capital», irá diminuir. Esta diminuição é principalmente causada pelo Estado, pois os políticos no seu comando julgam que o seu poder e vontade podem tudo («hubris»). Na realidade, estão a subtrair força à economia real, através do agravamento de impostos, que vai afectar a capacidade das empresas e dos particulares a investir de modo produtivo. Por outro lado, vai descurar os investimentos produtivos que ele próprio - Estado - se deveria encarregar de fazer (como investimentos em infraestruturas, na educação, na investigação, etc.).
 
A terceira causa, tem a ver com a estagnação tecnológica, o convencionalismo, a ausência de inovação verdadeira, em todos os domínios. Esta situação ocorre, muitas vezes, ainda no auge de um poder imperial e vai mantendo-se até ao fim, quando os «escribas» tomaram conta do barca do poder. Hoje, eles são designados por «economistas» e por «académicos». Geralmente, são uma pseudo-elite, um grupo parasitário, que se auto-atribui a «sabedoria» e esmaga, com uma espécie de censura, toda a dissidência. São cultores da norma, inquisidores, guardiões da ortodoxia. Eles vão iterando o discurso defensor do poder, reproduzindo e declinando ad infinitum a ladainha de que «Não Existe Outra Alternativa».  
 
A quarta causa tem a ver com a passividade política do povo e o seu corolário. A cidadania divorcia-se do poder, este fica cada vez mais entregue a uma oligarquia. Esta, faz a política que tende a perpetuar-la a si própria, e o ciclo vicioso vai-se iterando em círculos sucessivos. A cidadania só irá acordar - em geral - apenas quando a derrocada estiver a dar-se, ou já ocorreu. Ela poderá ter, entretanto, uma atitude de divórcio em relação ao poder, porém mantém-se passiva, até as coisas se tornarem demasiado insuportáveis. Mesmo nesta situação extrema, não terá coragem de derrubar o poder instaurado, senão quando verificar que este já não tem a força com que a ameaçava. Quando a cidadania vir que o poder já é tão frágil, que não concita a fidelidade da polícia e das forças armadas. 
 
Claro que estes quatro aspectos estão interligados; é deveras impossível de descrevê-los em pormenor separadamente. 
Analisando os impérios passados, verifica-se que padeceram destas fraquezas fatais. Seria bom as pessoas conhecerem - com um certo pormenor - o que aconteceu com os diversos impérios. Temos documentação sobre vários impérios da Antiguidade, como Roma, Cartago, etc. Existe ainda mais abundância de documentação sobre os impérios ultramarinos e coloniais, erguidos e perdidos por portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses, principalmente. Há uma profusão de dados sobre o modo como o império soviético acabou por colapsar, há cerca de 30 anos, etc, etc.
 
O desejo de manter por longo tempo uma hegemonia mundial é vão. 
Os EUA e seus vassalos da NATO deveriam estar cientes disso. Não existe um mundo estável, se enormes partes do mesmo forem oprimidas e exploradas. Um futuro benéfico e estável para as nações que actualmente se designam pelo termo de «Ocidente» nunca poderá ser construído na guerra, ou na ameaça permanente da mesma. 
O que os seus dirigentes estão a fazer é insensato: é como se estivessem combatendo o fantasma do que chamam «comunismo», tanto em relação à Rússia, como à China. Eles sabem bem que nem um nem outro responde a essa definição. São grandes potências que querem ter o seu papel reconhecido nos assuntos internacionais. Além destes, existem outros grandes países, como a Índia ou o Brasil, que também desejam ter um papel no mundo multipolar de amanhã. 
O mundo unipolar, sob hegemonia da potência triunfante da (primeira) Guerra Fria, em 1991, não poderá durar, nem é desejável que dure. 
A questão de um futuro para a Humanidade passa por os poderosos reconhecerem que é necessário um novo «Ialta» e um novo «Bretton Woods». Claro, com actores e meios diversos dos destas duas conferências, mas com alguns pontos de analogia: serão conferências onde as  principais potências geoestratégicas e económicas do Planeta se ponham de acordo em criar as condições de uma estabilidade mundial verdadeira.  
    

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A agonia do Império e o estado judeu de Israel

por The Saker

Primeiro, vamos começar por uns poucos tópicos recentes (aparentemente não relacionados):

Estas notícias aparentemente não relacionadas têm todas uma coisa em comum: ilustram quão fracas e ineficazes se tornaram as forças armadas dos EUA ao longo das últimas duas décadas. E apesar de, a bem de brevidade, eu ter escolhido apenas três exemplos, a verdade é que há centenas de histórias semelhantes na Internet, todas a apontarem para a mesma realidade: a maior parte da instituição militar dos EUA está num estado terminal de decadência.

Vamos examinar os vários serviços, um por um:

  • Toda a frota de superfície da US Navy está agora comprometida devido à sua estrutura centrada em porta-aviões. À US Navy também faltam mísseis de cruzeiro modernos. Classes inteiras de navios de superfície estão agora superadas (fragatas) ou têm grandes falhas de concepção (LCS).

     

  • A US Air Force opera sobretudo jactos da Guerra Fria, muitas vezes modernizados, mas de modo geral é uma frota ultrapassada, especialmente quando comparada aos aviões russos e chineses de 4ª++ e de 5ª geração. De facto, o desastre absoluto do programa F-35 significa que pela primeira vez na sua história os aviões dos EUA serão qualitativamente batidos pelos seus prováveis adversários. Mesmo os AWACS (Airborne Warning and Control System) dos EUA e outros aviões de reconhecimento estão agora ameaçados pelos mísseis anti-aéreos de longo alcance russos e chineses (tanto os lançados do solo como do ar).

     

  • Quanto ao US Army e ao Marine Corps, os desastres embaraçosos no Iraque, Afeganistão e alhures provam que aos forças de terreno dos EUA são basicamente capazes apenas de se protegerem a si próprios e mesmo assim não muito bem.

     

  • E há as Forças Espaciais dos EUA criadas recentemente, as quais existem só no papel, e a Guarda Costeira que é basicamente irrelevante numa grande guerra.

     

  • Finalmente, há o Comando de Operações Especiais dos EUA, o qual não é nenhum dos ramos mas apenas um comando "funcional" e "combate unificado", mas que é frequentemente pensado como um ramo separado das forças armadas. Estas forças sempre parecem grandes na propaganda, mas a verdade é que estas putativamente "as melhores do mundo" ainda têm de alcançar o seu primeiro êxito real, significativo e operacional em qualquer parte (pelo menos para equilibrar a sua longa história de fracassos abjectos, desde o Desert One, a Granada, Afeganistão, Líbia, etc). E em combates menores contra adversários muito inferiores.

Agora vamos colocar a questão crucial: o que significa isto para Israel?

Bem, em primeiro lugar significa que os "pobres" israelenses agora têm de voar com o F-35 como o seu caça principal. Na maior parte dos casos, acreditaria que os israelenses modificassem/melhorassem os seus F-35 para livrarem-se pelo menos das suas piores "características", mas no caso dos F-35 isto nem sequer é teoricamente possível devido aos seus profundos viéses de concepção (aqueles que precisarem de um recordatório "oficial" sobre a realidade catastrófica do programa F-35, leiam por favor este relatório oficial do governo dos EUA que inclui 276 deficiências "críticas". Mais cedo ou mais tarde, os F-35 israelenses deparar-se-ão com a versão de exportação do SU-35, com o muito mais barato mas de alto desempenho Mig-29M/Mig-35 ou mesmo com um SU-57 russo e então eles serão irremediavelmente batidos (ainda que o resultado de combate ar-ar não possa ser reduzido a comparar aviões, é preciso um quadro completo e muito mais complexo para modelar resultados possíveis). Actualmente, o Su-35 tem sido exportado só para a China, mas futuros operadores potenciais incluem o Egipto, Argélia e Turquia. Quanto ao Mig-29M/Mig-35, países como o Egipto e a Séria manifestaram interesse.

Por falar na Síria, até agora vimos vários casos de aviões israelenses interceptados e forçados a retirarem-se por Su-35s russos e nem um único caso oposto. Parece haver pelo menos um caso , embora não confirmado oficialmente (ainda) de um Su-35S russo enxotando um USAF F-22 (desde que o Su-35 e o F-22 estejam em suficiente proximidade, o último tem muito poucas esperanças de sobrevivência).

Pode imaginar que outra coisa os israelenses vão fazer se eventualmente se encontrarem nos céus do Médio Oriente? Possivelmente uma variante de exportação do Mig-31 ou mesmo do Mig-32BM (com os seus mísseis R-37 ar-ar com alcance de 400 km ). De facto, o alcance, velocidade, radar e armas deste avião fariam possível para a Rússia manter patrulhas de combate aéreo sobre, digamos, a Síria operando ao mesmo tempo do sul da Rússia.

Concentro-me nestes aviões porque no passado, e tal como os EUA, os israelenses sempre confiaram na prevalência da seguinte combinação de factores:

  • Um ataque surpresa (mais ou menos justificado por uma bandeira falsa ou por direito de posse)
  • A destruição dos aviões inimigos quando eles ainda estão no solo
  • Superioridade aérea a proteger para aeronaves de asa rotativa e blindagem avançada

Na verdade, os israelenses ainda têm uma grande força de F-16/15/18 (14 esquadrões, mais de 300 aeronaves), mas tal como seus homólogos dos EUA eles estão rapidamente a tornar-se datados. Em agudo contraste com a datada Força Aérea Israelense, os vizinhos de Israel estão todos a adquirir sistemas de defesa aérea cada vez mais avançados juntamente com sistemas de guerra electrónica e de gestão de batalha. Por outras palavras, isto é um tempo muito mau para Israel responder com F-35 no futuro previsível.

Exactamente agora, os israelenses estão a bombardear a Síria regularmente, mas com muito pouco resultado além da lenga-lenga, sem dúvida terapêuticas, das proclamações da superioridade judaica sobre os árabes. E, previsivelmente, os sujeitos que observam os media sionistas ficam muito impressionados. Os sírios, os iranianos e o Hesbollah, nem tanto...

Assim como o Complexo Industrial-Militar dos EUA coloca todos os seus ovos no cesto do F-35, da mesma forma os israelenses colocam todos os ovos da segurança nacional na eterna disposição e capacidade do Tio Shmuel para vir e resgatá-los com dinheiro, armas ou mesmo soldados.

A disposição ainda existe. Mas a capacidade está rapidamente a desaparecer!

Além disso, há mais dois países que estão a entrar num período de grave instabilidade, que também afectará a segurança de Israel: Turquia e Arábia Saudita.

No caso da Turquia, o relacionamento entre os EUA e a Turquia está mais em baixo do que nunca e há uma possibilidade muito real de que, com as sanções e ameaças dos EUA, os turcos possam decidir desistir do F-35 e recorrer a um avião russo, muito provavelmente uma versão de exportação do Su-35. Se bem que isto fosse má notícia (politicamente) para o complexo industrial-militar americano, seria uma notícia absolutamente terrível para os israelenses cujo relacionamento com a Turquia é geralmente bastante mau. Até agora, a Turquia ainda é um membro obediente da NATO, com tudo o que isso implica, mas quanto mais fraco se torna o Império Anglo-sionista, maiores serão as possibilidades de algum tipo de choque político entre os EUA e a NATO, por um lado, e a Turquia, por outro.

Quanto aos sauditas, eles já estão activamente a cortejar Moscovo porque perceberam que a Rússia basicamente substituiu os EUA como a potência regional número um. O fracasso total dos EUA em providenciar assistência significativa aos sauditas no Iémen e a incapacidade das defesas aéreas dos EUA em proteger o campo petrolífero saudita Houthi de ataques de mísseis convenceram os sauditas de que, a partir de agora, eles precisam falar com os russos directamente e frequentemente.

 

CENTCOM. Fonte: IISS Military Balance 2020

É verdade que os EUA ainda têm a aparência de poder real no Médio Oriente. Basta dar uma olhada nesta página do último IISS Military Balance. Ainda há muito equipamento e pessoal da CENTCOM na região. Mas tente olhar para além destes gráficos bonitos e perguntar-se: o que é que estas forças estão a fazer? O que é que estão realmente a conseguir?

Eu diria que a maior parte do que eles fazem é tentar impressionar os locais, ganhar dinheiro (através de todo o tipo de contratos militares) e, por último, mas não menos importante, tentarem proteger-se. E, sim, a "pegada" dos EUA no Médio Oriente ainda é grande, mas isso é também o que torna as forças dos EUA tão vulneráveis a ataques. Os iranianos, por exemplo, deixaram claro que encaram todas estas instalações e forças como "alvos", os quais, após os ataques de mísseis iranianos de alta precisão que se seguiram ao assassinato do general Suleimani, significa que o Irão agora tem os meios para infligir grandes danos a qualquer força regional suficientemente louca para se meter com o Irão.

Naturalmente, todas as vezes que alguém escreve que os EUA ou Israel não são invencíveis, há sempre pelo menos uma pessoa que diz algo como "sim, talvez, mas eles têm ogivas nucleares e irão usá-las se forem ameaçados". A isto a minha resposta é diferente para o caso dos EUA e para o caso de Israel.

No caso dos EUA, apesar de qualquer primeira utilização de ogivas resultará num suicídio político para o Império, nenhum adversário dos EUA no Médio Oriente tem a capacidade de retaliar do mesmo modo.

Contudo, no caso de Israel as coisas são mesmo muito mais graves.

Primeiro, é preciso recordar que por óbvias razões geográficas, os israelenses não podem utilizar ogivas nucleares contra forças atacantes, pelo menos contra quais forças próximas da fronteira israelense. Ainda assim, se gravemente ameaçado, os israelenses poderiam afirmar que outro "holocausto" estaria prestes a acontecer e que a "defesa do sangue judeu" não lhes deixa outra opção senão utilizar ogivas contra, digamos, alvos iranianos ou sírios. Eu diria que quanto pior o dano infligido por quaisquer ataques nucleares israelenses, maior será a resolução dos árabes e/ou iranianos. Este é o problema com a dissuasão: uma vez fracassada, está fracassada totalmente e habitualmente não há um "plano B".

Significará isto que um grande ataque a Israel é inevitável?

Não, de modo algum. Para começar, tanto os EUA como Israel ainda podem infligir danos imensos contra qualquer país, ou coligação de países, o que os ameaçaria (e não precisam de recorrer a ogivas nucleares para o conseguir). O facto de nem os EUA nem Israel poderem alcançar qualquer coisa que se assemelhe a uma "vitória" de modo algum implica que atacar os EUA ou Israel seja fácil ou seguro. Ambos os países têm muito poder militar convencional para extrair um preço enorme a qualquer atacante.

Em segundo lugar, é precisamente porque os EUA e Israel ainda têm muito poder militar que os seus adversários preferirão um enfraquecimento gradual e lento dos anglo-sionistas ao invés de uma confrontação aberta. Por exemplo, se é verdade que os EUA não tiveram estômago para atacar o Irão após o ataque de mísseis retaliatórios iranianos, também é verdade que os iranianos "afinaram" cuidadosamente a sua resposta para não forçar os EUA a contra-atacar. A verdade é que neste momento nenhum dos dois países quer uma guerra aberta.

O mesmo se pode dizer da Síria e do Hezbollah, que têm tido muito cuidado para não fazer nada que forçasse os israelenses (ou os EUA) a escalar dos actuais ataques simbólicos/alfinetadas para ataques reais, significativos, com ataques aéreos e de mísseis.

Neste momento, os EUA ainda podem imprimir dólares suficientes para manter Israel a flutuar, mas já sabemos que embora lançar dinheiro barato a um problema frequentemente seja muito tentador, isto não constitui uma estratégia sustentável, especialmente quando as capacidades militares reais tanto dos EUA como dos israelenses estão a degradar-se rapidamente. Neste momento, ninguém sabe quanto tempo mais durará o último regime abertamente racista do planeta, mas é extremamente improvável que a entidade sionista seja capaz de sobreviver sem o Império para sustentá-la. Por outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o "Estado judeu de Israel" não terá melhores hipóteses de sobrevivência do que, digamos, o "Estado Independente do Kosovo" ou, já agora, a "Ucrânia Independente": todas elas são feias metástases do Império que, por si mesmas, simplesmente não são viáveis.

12/Maio/2020

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/eua/saker_12mai20.html

A luta pela hegemonia

por Samuel Pinheiro Guimarães [*]

O fenômeno político, econômico e militar mais importante, anterior à emergência do Coronavírus e que, após o fim da Pandemia, permanecerá, é a firme disposição dos Estados Unidos de manter sua hegemonia mundial, seu poder de Império, face à ascensão e à competição chinesa.

A hegemonia em nível mundial é a capacidade de elaborar, divulgar e fazer aceitar pela maioria dos Estados uma visão do mundo em que o país hegemônico é o centro; de organizar a produção, o comércio e as finanças mundiais de forma a captar para a sede do Império uma parcela maior do Produto Mundial para uso de sua população, e muito em especial de suas classes hegemônicas e de seus altos funcionários; a capacidade de impor a "agenda" da política internacional; a força para punir os Governos das "Províncias" do Império que se recusem a aceitar ou se desviem das normas (informais) de seu funcionamento.

As normas (informais) que os Governos das "Províncias" (que são Estados nacionais) devem seguir são: ter uma economia capitalista, aberta ao capital estrangeiro, com mínima intervenção estatal; dar igualdade de tratamento às empresas de capital nacional e às de capital estrangeiro; não exercer controle sobre os meios de comunicação de massa; ter um regime político pluripartidário com eleições periódicas; não celebrar acordos militares com Estados adversários, a saber Rússia e China; apoiar as iniciativas dos Estados Unidos.

Sempre que conveniente aos interesses do Império Americano estas normas são "flexibilizadas", como, a título de exemplo, no caso de monarquias do Oriente Próximo.

 


Durante, após e desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, ao suceder o combalido Império Britânico, organizaram, em 1946, o sistema político mundial com as Nações Unidas e suas agências na Conferência de San Francisco; o sistema econômico, com o FMI, em 1944, para regular o sistema financeiro internacional, com base em taxas fixas de câmbio e no padrão ouro-dólar; o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, hoje Banco Mundial) criado em 1944 para financiar a reconstrução europeia; o Acordo Geral de Tarifas Aduaneiras e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade, o GATT), em 1947, para regular o comércio internacional com base na cláusula da nação mais favorecida; a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1994, que administra acordos sobre comércio de bens, de produtos agrícolas, de serviços, sobre investimentos e propriedade intelectual, e solução de controvérsias; e o Plano Marshall, em 1948, para, através de doações e de financiamentos a juros baixos, em valor atual de 100 mil milhões de dólares; a reconstrução da Europa, conter a influência dos partidos comunistas e reativar a indústria americana de bens de capital; o sistema militar, com a OTAN, em 1949, que garantiu a presença de tropas americanas em bases na Europa Ocidental; os pactos regionais de defesa "mútua" como o TIAR, o Cento, a SEATO, o acordo com o Japão, o ANZUS (Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos); as bases militares, que fora do território americano são mais de 700; as sete Frotas, que patrulham os mares e oceanos; o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em 1968, que estabelece um oligopólio nuclear que permite aos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia, França e China produzir, exportar, importar, armas e material nuclear e proíbe aos demais Estados; o sistema de "atração dos melhores cérebros" (que é o outro lado do "brain drain" ) de todos os países e de geração de ciência e tecnologia; e o sistema mundial de formação da opinião pública e de interpretação da realidade, através dos meios audiovisuais e da Internet.

Desde 1945, lograram os Estados Unidos e suas classes hegemônicas (o establishment?) extraordinárias vitórias. Executaram uma eficiente política externa bipartidária. Contribuíram para desmantelar os impérios coloniais francês, britânico, holandês e português, através da ONU, e por ações de apoio a movimentos de independência; não objetaram a abertura da China ao capital megamultinacional, em apoio implícito às políticas de Deng Xiaoping; desintegraram a União Soviética com o auxílio de M. Gorbachev e Boris Ieltsin; obtiveram a aceitação como "natural", pelos países subdesenvolvidos, da divisão de trabalho entre produtores de matérias-primas e produtores industriais; superaram as crises de 2001 e 2008; eliminaram (assassinaram ?) Bin Laden e assim vingaram o crime de lesa majestade cometido em 2001; mantiveram esmagadora supremacia militar e nuclear.

A China realizou extraordinários feitos desde 1945. O Exército de Libertação Popular e o Partido Comunista Chinês venceram e expulsaram os exércitos invasores japoneses; derrotaram e puseram em fuga Chiang Kai Shek, o Kuomintang (Partido Nacionalista Chinês), junto com seu exército de dois milhões de soldados para Taiwan; estruturaram o Estado socialista chinês; enfrentaram os Estados Unidos na Guerra da Coréia sem serem derrotados (1950 a 1953); detonaram sua primeira bomba atômica em 1964; obtiveram o reconhecimento diplomático americano; em 1971 ingressaram no Conselho de Segurança e nas agências da ONU no lugar de Taiwan; fizeram a reforma agrária e com amplos movimentos populares romperam as estruturas elitistas herdadas da China imperial e que tinham permanecido durante a China republicana (1911-49); superaram os efeitos do cisma com a URSS, em 1960; auxiliaram o Vietnam em sua vitória final contra os Estados Unidos, em 1975; expandiram os sistemas de educação e saúde e reduziram a pobreza de forma eficaz e significativa, sendo hoje os chineses em situação de extrema pobreza menos de 1% de sua população. O seu míssil Dongfeng-41 desenvolve velocidade de 8.500 m/segundo superior em 25 vezes a velocidade do som que é de 340 m/segundo e pode atingir alvos a 13.000 km, sem que haja arma comparável no arsenal americano.

A China se recusou a fazer parte do Pacto de Varsóvia, assinado em 1955 entre os países do leste europeu, e rejeitou a política de coexistência pacífica de Kruschov (1953-1964) anunciada em 1955, a qual a China denunciou como "revisionista". Em 1958, a China recusou solicitação soviética de uso de portos. A confrontação ideológica fez com que a União Soviética, em 1958, após a Segunda Crise do Estreito de Taiwan, temendo o confronto entre China e EUA, suspendesse a cooperação nuclear; revogasse a promessa de fornecer tecnologia para a construção de bomba atômica pela China e, em 1960, ordenasse a saída de todos os especialistas russos. A aproximação da China dos Estados Unidos, em 1972, fez com que as relações com a URSS se mantivessem distantes até a década de 1980 quando Gorbachev iniciou processo de aproximação que levaria a sua visita à China em 1989.

No Império Americano os sistemas políticos, econômicos e militares estão em reformulação permanente para atender às suas necessidades internas e externas. Assim ocorreu nos episódios de abandono unilateral pelos Estados Unidos da paridade ouro-dólar; de tornar indefinida a vigência do TNP; da aceitação da Índia como potência nuclear; da reformulação da política externa desde 2016 pelo Governo de Donald Trump, com base nos conceitos de America First, de anti-multilateralismo, de desrespeito às decisões do Conselho de Segurança, de unilateralismo, de uso da violência, de negação da mudança climática.

 


Desde o remoto ano de 1607, quando foi fundada a vila de Jamestown, na Virginia, e depois, com a fundação de cada uma das Treze Colônias, os Estados Unidos da América têm a convicção de que cabe a eles liderar o mundo (e não apenas o Ocidente) como nação "indispensável" e "excepcional" por serem a mais antiga democracia, a mais rica e dinâmica economia, a mais poderosa potência militar, a mais benevolente e generosa nação, e aquela que organizou o sistema internacional depois dos desastres da Grande Depressão: os desemprego que chegou a 30% nos EUA; o nazismo com seus campos de extermínio e experiência humana, e trabalho escravo e sua doutrina de superioridade racial ariana; e a Guerra Mundial, quando morreram 50 milhões de pessoas.

Os Estados Unidos da América, desde a Guerra da Independência em 1776 sempre estiveram em conflitos com outros Estados, numa longa prática de intervenção militar ao redor do mundo.

A China que, com cinco mil anos, é a mais antiga civilização, sempre foi a maior economia e o mais poderoso Estado, ainda que humilhada pelas Potências ocidentais entre 1840 e 1949, com um amplo e pioneiro legado de inovações tecnológicas, sempre se manteve um Estado com economia e instituições organizadas, e uma sociedade de grande criatividade filosófica, artística e literária. Hoje, como República Popular, ostenta grande pujança econômica e tecnológica.

A China raramente esteve em conflito militar com outros Estados e quando esteve foi como resultado de agressão externa, como o caso das agressões ocidentais e a invasão japonesa.

 


Deng Xiaoping definiu os requisitos indispensáveis para o desenvolvimento da China: estabilidade interna e ambiente de paz internacional.

Os dirigentes da República Popular reiteram em todas as ocasiões que seu desenvolvimento é pacífico e cooperativo e a China se apresenta como um Estado que deseja participar das instituições internacionais e não destruí-las ou substituí-las, procurando, todavia, reformá-las.

A China procura se apresentar como um parceiro confiável, pacífico, cooperativo em especial em relação aos países de sua vizinhança mais próxima. É importante mencionar que entre os principais investidores na China se encontram empresas de Taiwan e Hong Kong e as comunidades, prósperas e influentes, da Diáspora chinesa em vários países da Ásia, que somam cerca de 10 milhões de descendentes de chineses.

 


A partir de 1978, a reorientação radical, porém gradual e experimental, comandada por Deng Xiaoping da política econômica da República Popular da China com base na abertura externa, na atração do capital multinacional e na economia de mercado, foi possível graças à destruição (ou pelo menos ao forte abalo) das estruturas feudais e elitistas do Império chinês no período de Mao Zedong (1949-1976), quando o PIB da China cresceu à taxa anual de 4-5%.

A China atrai anualmente, após os Estados Unidos, o segundo maior fluxo de investimento estrangeiro direto, promove intensa transferência de tecnologia, expande e diversifica suas exportações, cresceu à média de 10% ao ano entre 1978 e 2008 (trinta anos) e continua a crescer a taxas elevadas. Tornou-se a segunda maior economia do mundo, o maior país exportador e o segundo maior importador, detentor das maiores reservas internacionais (três milhões de milhões de dólares), o maior investidor em títulos do Tesouro americano e grande gerador de tecnologia.

 


Xi Jinping tem insistido que o grande sonho chinês é a revitalização da cultura, do Estado e da civilização chinesa e a unidade do território, com a reincorporação de Taiwan e a realização do socialismo com características chinesas.

A China tem duas metas temporais: a do centenário de fundação do Partido Comunista Chinês, em 2020, e a do centenário da Revolução Comunista, em 2049. A meta estabelecida para o centenário de 2020 era criar uma economia moderadamente próspera e a meta para o centenário de 2049 é atingir uma economia próspera e poderosa.

 


A China executa uma estratégia de política externa com as seguintes características e objetivos:

  • manter relações de não-confrontação em geral e, acima de tudo, evitar a confrontação militar com os Estados Unidos;
  • assegurar fontes diversificadas de matérias primas para a economia chinesa;
  • abrir mercados para as exportações e para os investimentos chineses;
  • não interferir em assuntos internos políticos ou econômicos dos países;
  • não impor condicionalidades políticas ou econômicas para a cooperação econômica nem fazer críticas sobre a situação de direitos humanos ou sobre o regime político de terceiros países;
  • fortalecer seus laços com os países vizinhos através da Organização de Cooperação de Shangai (SCO), do acordo com a ASEAN (Associação de Países do Sudeste Asiático) integrada por Brunei; Camboja; Indonésia; Laos; Malásia; Mianmar; Filipinas; Singapura; Tailândia; Vietnam; de acordos bilaterais com a Rússia e das obras de infraestrutura do Cinturão e Rota da Seda.

    A China desenvolve iniciativas de aproximação e programas de cooperação com os países africanos, com os países latino-americanos, com os países árabes e com os países que se encontram no que se chamou de Cinturão e Rota da Seda.

    Três iniciativas chinesas tiveram grande importância. A primeira foi a criação dos BRICS, em companhia da Rússia, da Índia, do Brasil e África do Sul. No âmbito dos BRICS foi criado, em 2014, o Novo Banco de Desenvolvimento para financiar projetos de infraestrutura e os Acordos de Reserva Contingente, para fazer face a dificuldades de balanço de pagamentos.

    A segunda, a Organização de Cooperação de Shangai (SCO), que foi fundada em 2001, com a Rússia, o Cazaquistão, o Tadjiquistão, Quirquistão e Uzbequistão, e da qual, em 2017, a Índia e o Paquistão se tornaram membros. Sua finalidade principal é a cooperação em matéria de segurança e de combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo.

    A terceira iniciativa foi a criação, em 2014, do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. A criação do Banco atraiu grande interesse europeu e suscitou a oposição americana. Todavia, metade dos países da OTAN e os grandes países asiáticos assinaram, à exceção do Japão. Seus membros fundadores mais importantes foram a Áustria, Reino Unido, Itália, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Austrália, China, Coréia do Sul, Paquistão, Rússia, Índia, África do Sul e Brasil.

     


    Oito presidentes americanos, de Nixon a Obama, executaram uma estratégia de engajamento, baseada na convicção de que abraçando a China política e economicamente fariam com que ela se tornasse gradualmente mais capitalista e liberal.

    Essa estratégia criou a maior relação comercial entre dois países. Há cerca de 70 mil companhias americanas na China e, em 2005, iniciou-se um grande fluxo de estudantes chineses para os Estados Unidos, que são o maior grupo nacional de estudantes nos Estados Unidos.

    Assim, até a presidência de Barack Obama (2007-2015), a estratégia americana se fundava na visão de que o crescimento econômico chinês levaria à abertura política e à democracia e a uma convergência chinesa com as políticas ocidentais.

    Obama se proclamou o "primeiro presidente americano do Pacífico" (America's First Pacific President). Sua política tinha como objetivo conter a ascensão da China que viria, em 2010, a ultrapassar o Japão e a se tornar a segunda maior economia do mundo.

    O fato de a China ter superado os Estados Unidos em produção industrial causou grave preocupação aos estrategistas americanos, pois estes consideram que a manufatura é a base da indústria e que uma manufatura forte permite um poder militar forte e, com ele, a capacidade de competir pela hegemonia global.

    A ênfase na Ásia (rebalance to Asia-Pacific), slogan da política externa de Obama, era sustentada por quatro pilares: a alocação de 60% da força naval e aérea americana para a Ásia; a negociação da Trans-Pacific Partnership, com exclusão da China; a exploração das disputas da China com seus vizinhos; a manutenção do contato com a China.

    Em termos de paridade de poder de compra (PPP) a China superou os Estados Unidos como maior economia do mundo em 2014; em 2016 o Produto real (GDP) chinês era 12% maior que o americano e, em 2015, o produto manufatureiro chinês foi 150% maior. Em cada um dos cinco anos até 2016, a China foi o primeiro país em pedidos de patentes.

    Os Estados Unidos negociaram acordos militares com países da região como o Japão, a Coréia do Sul, a Austrália, as Filipinas. Na área econômica negociaram, sigilosamente e fora da OMC, o TransPacífic Partnership Agreement (TPP), entre 12 países, entre os quais se destacam EUA, Japão, Canadá, Austrália, México e Vietnam, amplo acordo de livre comércio e de normas em muitas áreas, em um esquema de normas OMC-Plus e mesmo KAFUS-Plus, (acordo Coréia do Sul-Estados Unidos).

    A negociação do TPP procurava isolar a China de seus vizinhos próximos. Os Estados Unidos, ademais, insistiam em suas críticas à situação de direitos humanos e ao regime político chinês, acusado de ditatorial, provocando irritação nas autoridades chinesas enquanto sua política de venda de armas a Taiwan e estímulo à sua independência contrariava seus compromissos.

    A estratégia de Obama de ênfase na Ásia não só fracassou como fez aumentar as desconfianças do Governo da China e o estimulou a tentar contrabalançar a ação americana com iniciativas tais como a Parceria Econômica Abrangente; a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacifico; o projeto de Um Cinturão, uma Rota, e a criação do Banco dos BRICS e do Banco Asiático de Infraestrutura. De outro lado, a China tem continuado a expandir sua presença em altos cargos de organismos como o FMI, o Banco Mundial e as Nações Unidas.

    Um conceito estratégico foi proposto por Xi Jinping a Obama em 2013: não ao conflito e não à confrontação; respeito mútuo; cooperação ganha-ganha (win-win). Os Estados Unidos não aceitaram nem rejeitaram este conceito de Xi Jinping para reger as relações China/Estados Unidos.

     


    Barack Obama foi sucedido em 2016 por Donald Trump, assumidamente um "outsider" (estranho) em relação à política e ao próprio Partido Republicano, e que provocou uma reviravolta, inclusive emocional e voluntarista, na condução da política externa americana e, em especial, quanto à China.

    Seu lema America First resume sua visão antagônica em relação a compromissos e organismos internacionais, às negociações multilaterais, em relação à não intervenção política. Trump tende a considerar que a política externa é, em realidade, uma negociação comercial em que ele, Trump, acredita que prevalecerá por ter maior experiência como homem de negócios.

    Donald Trump identificou a China não só como competidora, mas também como a principal adversária econômica, política e militar dos Estados Unidos e que tem de ser tratada com firmeza.

    A abordagem de confrontação de Trump atraiu surpreendente apoio bipartidário. Os empresários americanos passaram a se queixar do roubo de segredos comerciais, de transferência forçada de tecnologia e dos subsídios às empresas chinesas que tornavam a competição impossível. E os políticos denunciaram as prisões de ativistas de direitos humanos e de lideranças de minorias étnicas.

    A estratégia de Donald Trump de decoupling (desconexão) da China para contenção do crescimento econômico e político chinês tem como objetivos:

  • eliminar o déficit comercial bilateral dos EUA, de cerca de US$360 mil milhões anuais;
  • impedir a transferência, por empresas americanas e europeias, de tecnologia avançada; reduzir a presença de estudantes chineses nos EUA, que seriam 370 mil em 2019, dez vezes o número de 2009;
  • impedir a adoção da tecnologia 5G da Huawei;
  • promover o retorno da produção industrial e de empregos para os Estados Unidos;
  • expandir o orçamento e a presença militar na Ásia;
  • alinhar os países europeus com os Estados Unidos contra a China.

    Em março de 2018, Trump declarou que "guerras comerciais são boas e fáceis de vencer" e aumentou tarifas sobre aço e alumínio importados da China. Beijing retaliou com tarifas sobre exportações americanas.

    Em setembro de 2018, um navio de guerra chinês e um navio americano chegaram a 50 metros um do outro no Mar do Sul da China e quase colidiram.

    Em outubro de 2019 os Estados Unidos colocaram em "lista negra" empresas de tecnologia e dirigentes do Partido Comunista Chinês pelo seu envolvimento na prisão de muçulmanos em Xinjiang.

    O secretário de Estado Mike Pompeo declarou que a América e seus Aliados deveriam assegurar que a "China mantivesse apenas seu lugar próprio no mundo". Pompeo declarou que a "China quer ser a potência econômica e militar dominante no mundo, disseminando sua visão autoritária da sociedade e suas práticas corruptas".

    Em março de 2019, o Comitê do Perigo Presente, dos anos 50, foi reativado e um de seus integrantes, Newt Gingrich, que foi Presidente da Câmara de Representantes, republicano e conservador, publicou o livro Trump vs. China e apontou a China como a maior ameaça aos Estados Unidos, muito maior do que fora a Alemanha nazista ou a União Soviética.

    Donald Trump:

  • taxou em 100% as importações chinesas, usando o argumento de segurança nacional, em violação dos compromissos assumidos pelos EUA na OMC;
  • bloqueou o funcionamento do mecanismo de solução de controvérsias da OMC;
  • retirou os EUA da Trans Pacífic Partnership;
  • proibiu a venda de empresas americanas de alta tecnologia;
  • pressionou os países europeus a se alinhar com sua política anti-China;
  • denunciou as despesas militares chinesas como exageradas e provocativas;
  • renovou os tratados de aliança militar com o Japão e a Austrália;
  • retirou os EUA do Acordo de Paris sobre mudança climática;
  • publicou uma lista de dezenas de empresas chinesas, entre elas a Huawei, com as quais as empresas americanas não podem fazer negócios. A China, em retaliação, fez uma lista semelhante de empresas americanas.

     


    Em janeiro de 2020, foi assinada a Fase 1 do acordo comercial entre China e Estados Unidos que prevê:

  • cancelamento de tarifas que passariam a vigorar em 15/12/19 e incidiriam sobre US$160 mil milhões de produtos chineses; redução de 15% para 7,5% das taxas sobre outros produtos no valor total de US$120 mil milhões importados da China;
  • foram mantidas as tarifas americanas de 25% sobre US$250 mil milhões em produtos importados da China;
  • a China assumiu o compromisso de comprar US$200 mil milhões de produtos agrícolas, de energia e manufaturas americanas até 2021; o acordo inclui seções sobre propriedade intelectual, transferência forçada de tecnologia, alimentos, finanças, moeda, câmbio e solução de disputas.

    Estão em curso as negociações da Fase 2 do acordo comercial.

     


    Em 2018, a China superou a duração da URSS (1917-1991) e se tornou o mais antigo Estado comunista sobrevivente.

    A comunidade de inteligência americana espiona governos estrangeiros desde a organização na Segunda Guerra do Office of Strategic Services (OSS), precursor da CIA. Hoje, a China faz o mesmo, sob veementes protestos americanos.

    O governo chinês tem condicionado a presença de companhias americanas a programas de transferência de tecnologia. Empresários, inicialmente entusiastas das relações com a China, vieram a se tornar críticos veementes.

    A principal área de competição entre China e Estados Unidos é pela liderança da próxima geração de tecnologias. Inicialmente os executivos do Silicon Valley minimizaram o desafio chinês em tecnologia, argumentando que controles rígidos na política e na educação na China iriam impedir inovações radicais. Mas esta sua visão não mais prevalece.

    No plano "Made in China 2025" foram destinados milhares de milhões de dólares em subsídios à pesquisa para ajudar as companhias chinesas a superar seus competidores em áreas de fronteira como veículos elétricos e robótica. De seu lado, como percentagem da economia, o investimento federal nos Estados Unidos em pesquisa caiu a seu menor nível desde 1955.

    Em maio de 2019, o Departamento do Comércio proibiu a Huawei de comprar microchips americanos o que prejudicou sua capacidade de produzir smartphones e equipamentos de rede (networking). Os Estados Unidos solicitaram a 61 países que proibissem o uso de equipamento da Huawei, mas somente três atenderam ao seu pedido: Austrália, Nova Zelândia e Japão.

    O sistema 5G é a futura geração de telecomunicação móvel. Cinco empresas vendem equipamentos e sistemas 5G para operadoras: Huawei, ZTE, Nokia, Samsung e Ericsson. Diante da forte campanha contrária americana, que alega riscos para a segurança nacional dos Estados, a China tem desenvolvido intensos esforços diplomáticos para fazer com que o sistema da Huawei de 5G para telefonia venha a ser adotado em especial pelos países europeus.

    Os Estados Unidos não dispõem de uma tecnologia alternativa 5G para competir com a China.

    A imprevista Pandemia do Coronavírus criou uma oportunidade para a China prestar auxílio aos países europeus atingidos, em especial à Itália e à Espanha e demonstrar sua eficiência, como Estado, pela capacidade de controlar a Pandemia com medidas eficazes e rápidas, sofrendo a China relativamente poucos contágios e mortes, suscitando uma comparação com os Estados Unidos, a esses desfavorável.

     


    Dificilmente a estratégia de "decoupling" de Donald Trump poderia ser bem sucedida. A renda [NR] total das companhias americanas na China, em 2017, foi de US$544 mil milhões. Algumas companhias estão construindo fabricas na Índia, no Vietnam e no México, mas a maioria das companhias americanas deseja mais acesso ao mercado chinês. Em plena "guerra comercial" Starbucks anunciou planos para abrir 3.000 lojas na China e a Tesla, companhia de carros automáticos, abriu uma fábrica em Shangai para construir 150.000 carros por ano. A China é o mais lucrativo mercado, com um valor de 4 mil milhões de dólares, para a National Basketball Association (NBA) e a Nike fez mais de 1,5 mil milhões de dólares por ano na China.

    O mercado chinês se tornou tão importante para as companhias americanas que estas estão aceitando pressões para realizar adaptações culturais. Hollywood aceitou editar filmes, como o filme sobre Freddie Mercury, para poder ter acesso ao mercado chinês.

    Em 2019, dez Faculdades americanas fecharam Institutos Confúcio. Em Beijing, o governo determinou que as instituições públicas removessem todo equipamento de computador e programas de software estrangeiros.

     


    Os Estados Unidos tem enormes vantagens militares sobre a China, mais de 20 vezes armas nucleares, força aérea muito superior, e orçamentos de defesa três vezes maiores que os da China, aliados como Japão e Coréia do Sul e potenciais aliados, como Índia e Vietnam, com capacidades militares próprias. A China não desfruta de situação sequer semelhante no Hemisfério Ocidental.

     


    Em 2012, a China lançou seu primeiro porta-aviões e, em 2019, o segundo, e está construindo seis porta-aviões convencionais de natureza defensiva. A China também desenvolveu misseis, equipamento de defesa aérea e submarinos. Os Estados Unidos tem doze porta-aviões nucleares.

    Beijing considera importante controlar o Mar do Sul da China devido aos recursos naturais e a sua localização estratégica. Em 2012, a China ocupou um banco de areia perto das Filipinas chamado Scarborough Shoal ato ao qual os EUA não reagiram. Em 2014, a China começou a construir ilhas artificiais em cima de sete recifes no Mar do Sul, que considera como necessárias à sua defesa.

    A mais perigosa fronteira entre os Estados Unidos e a China se encontra em territórios contestados no Pacífico Ocidental: Taiwan, o Mar do Sul da China e uma série de recifes e bancos de areia. Desde 2016, ocorreram 18 encontros inseguros, de quase colisão no ar ou no mar, entre a China e os EUA.

    Taiwan se encontra a 130 km do Continente chinês. Há 23 milhões de taiwaneses, sendo que 850 mil moram na China Continental e outros 404 mil lá trabalham. Em 2019, 2,71 milhão de chineses visitaram Taiwan.

    Em janeiro de 2019, Xi Jinping declarou que, eventualmente, Taiwan deverá e será reunida à República Popular da China e que a China se reserva o direito de usar de força contra qualquer intervenção de forças estrangeiras.

    A competição entre China e Estados Unidos também envolve pequenas ilhas e rochedos no Mar do Sul da China, sobre os quais diversos Estados reivindicam soberania. Os Estados Unidos tem se colocado do lado desses Estados contra a China, em uma questão importante para a navegação da Sétima Frota americana designada para operar na região oeste do Oceano Pacífico e no Oceano Índico, com base em Yokosuka no Japão.

    Em 2017, Xi Jinping afirmou que a China oferece um novo caminho para países subdesenvolvidos que desejam acelerar seu desenvolvimento e preservar sua independência.

     


    Nas últimas décadas a balança de poder na Ásia Oriental se inclinou em favor da China. A China tem mísseis, aeronaves, navios de tal forma que pode afirmar que atingiu superioridade militar na região, enquanto Washington não consegue afirmar sua supremacia na região. As capacidades navais da China e o desenvolvimento de lasers, drones, ciber operações, e espaço exterior estão alcançando as dos Estados Unidos.

    Os Estados Unidos e a China parecem estar se movendo em direção a uma separação que é menos econômica do que política e psicológica. Haverá uma decisão de "lutar, mas não esmagar" e tudo indica que a coexistência não será nem decoupling (desconexão) nem appeasement (apaziguamento), já que as economias destes dois países estão hoje, e estarão no futuro previsível, ligadas.

     


    A luta pela hegemonia está, em grande parte, em suspenso pela Pandemia. Vencida esta, a luta voltará e será um processo importante para o Brasil devido aos seus importantes vínculos com os Estados Unidos e com a China.

    [NR] No Brasil chamam de renda a qualquer espécie de rendimento.

    [*] Diplomata brasileiro. Foi secretário-geral do Itamaraty (2003-09) e ministro de Assuntos Estratégicos (2009-10).

    O original encontra-se em
    jornalggn.com.br/artigos/a-luta-pela-hegemonia-por-samuel-pinheiro-guimaraes/

     

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/spguimaraes_01mai20.html

O Império – a grande oligarquia americana também chamada democracia

Lembrar
Who controls the food supply controls the people 
“Who controls the energy can control whole continents; who controls money can control the world.” .
 
 Acrescentamos ainda : quem controla as grandes agências de informação ( a CIA está bem posicionada ) controla os assuntos do dia e faz a  opinião dominante .
Em Portugal, Thomson Reuters, Associated Press (AP), Agence France-Presse (AFP) e EFE , que se repercute ,na Lusa ,na rádio ,televisão , jornais e revistas e nos papagaios como os Portas , josé Manuel Fernades  e quejandos..
 
Quando não chega e é necessário diaboliza–se um país , um regime , um governo  ou inventa-se um massacre e submete-se pela força , pois quem vai à frente no armamento e designadamente no nuclear não olha a meios para atingir os fins ,tudo em nome dos direitos do Homem e da democracia . O complexo militar industrial americano que o diga

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2Yorsxi

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/02/o-imperio-a-grande-oligarquia-americana-tambem-chamada-democracia/

Pandemia e solidariedade internacionalista

A crise sanitária mundial, com a pandemia do novo coronavírus, agrava as crises econômica e geopolítica sistêmicas. Neste quadro, as potências imperialistas, principalmente os Estados Unidos, não cessam sua ofensiva contra os povos e países oprimidos.

Por José Reinaldo Carvalho*

 

O imperialismo estadunidense está empenhado numa campanha de agressões retóricas e ameaças à República Popular da China, país socialista que aposta na cooperação internacional e efetivamente atua no sentido de dar assistência a mais de uma centena de países nos esforços para superar a pandemia.

Este mesmo imperialismo intensifica as políticas de bloqueio econômico, comercial e financeiro a países como Cuba, Venezuela, Irã, República Popular Democrática da Coreia e Síria.

Igualmente, os Estados Unidos buscam isolar a Rússia e praticam também para com o país eurasiático uma política de sanções.

É neste contexto que não cessam as ameaças de novos conflitos e atentados à soberania nacional de países e povos independentes.

Na contracorrente, os progressistas, patriotas e amantes da paz participam de campanhas em favor do combate à pandemia e de iniciativas internacionalistas de solidariedade. São apreciáveis nesses sentido as ações do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz.

São cada vez mais atuais as campanhas em solidariedade à China, Cuba, Venezuela, República Popular Democrática da Coreia, Irã, Síria, Rússia, Palestina e Saara Ocidental.

São campanhas também pela paz mundial, especificamente pela afirmação da América Latina como região de paz, pela dissolução da Otan – Organização do Tratado do Atlântico Norte, braço armado do imperialismo estadunidense, pelo fim das bases militares estrangeiras, pela abolição das armas nucleares e pelo fortalecimento e aplicação dos princípios da Carta das Nações Unidas, de defesa da autodeterminação das nações e a solução pacífica dos conflitos internacionais.

Mais do que nunca é necessário fortalecer os núcleos do Cebrapaz nos estados e municípios, principalmente nas capitais, e divulgar as atividades dessa organização política e social, que tem dois importantes veículos de comunicação – a página na internet e o canal no YouTube da TV Cebrapaz.

*José Reinaldo Carvalho é jornalista , editor do Resistência e secretário-geral do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz)

 

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

Interesses imperialistas acima da pandemia

As vozes que, acreditando nas ameaças de Trump, davam conta do fim próximo da NATO, revelam-se precipitadas. O mesmo para as que acreditaram na retirada do imperialismo norte-americano dos cenários de conflito militar. O mesmo ainda para quem pensou que a crise sanitária global traria alguma trégua ao mundo.

Pelo contrário, está a tornar-se claro que para os dirigentes norte-americanos a preocupação dos povos com a pandemia é a ocasião óptima para incrementarem as ameaças militares e quiçá tentarem “resolver” alguns dos impasses dos últimos anos.

É o que se vê com o reforço do garrote económico ao Irão; com o envio de forças militares navais para as costas da Venezuela; com o destacamento de tropas norte-americanas para solo europeu (o maior desde a Guerra Fria) a pretexto de “defender a Europa”, sem que nenhum dos povos europeus tenha reclamado tal “defesa”.

É ainda o que se vê com o estrangulamento financeiro da Organização Mundial de Saúde em plena crise sanitária, um passo mais no projecto norte-americano de desarticular os organismos internacionais que, mal ou bem, estabelecem algum grau de cooperação regulamentada entre países e, no caso, alguma protecção aos povos.

O artigo de Manlio Dinucci que publicámos no dia 19 (ver aqui) dá bem conta da verdadeira invasão do território europeu pelos centuriões da NATO, da ameaça que manobras de tal envergadura representam para todos os povos da Europa — e da colaboração vergonhosa prestada, sem rebuço, pelos dirigentes europeus.

Um outro artigo do mesmo autor, que publicaremos proximamente, revela ainda duas coisas: que o combate à pandemia está a servir de cobertura para uma militarização da acção dos Estados; e que a colaboração EUA-UE-NATO se estende para lá da Europa (neste momento, forças navais francesas e britânicas deslocadas para as Caraíbas participam com os EUA, sempre a pretexto da pandemia, numa ameaça de invasão da Venezuela).

Tais decisões foram tomadas em reuniões da UE e da NATO em que participaram os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros e da Defesa e os líderes da Aliança Atlântica.

Na parte que nos toca, importa perguntar quem deu aval ao ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, para (numa reunião em Zagreb em 4-5 de Março) envolver o país de novo nessa verdadeira provocação que são as manobras da NATO, a decorrer em Abril e Maio na Europa Central. Qual o sentido de tais manobras senão mostrar — num aviso dado à Rússia e à China, bem como aos próprios dirigentes europeus — que a bota cardada dos EUA não sairá da Europa?

Importa também saber quem autorizou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a encarregar o general norte-americano Tod Wolters de “coordenar o apoio militar necessário para combater a crise do coronavírus”, como foi decidido na reunião da NATO tida em 2 de Abril. Que significa este “apoio militar” no combate a uma crise sanitária senão que, na iminência de uma crise política generalizada, será a NATO a chamar a si as rédeas do poder, isto é, a militarizar a vida dos povos europeus?

Numa altura em que os povos do mundo e da Europa se debatem com a crise sanitária, em que milhões de trabalhadores são despedidos ou vêem os salários reduzidos, em que a pobreza está a aumentar; numa altura em que todos os recursos orçamentais deveriam ser canalizados para reforçar os serviços de saúde e combater a pobreza — é nessa altura, precisamente, que os líderes da UE, da NATO e dos EUA se põem de acordo para esbanjar milhões em manobras militares e ameaças de guerra.

Os apertos orçamentais de um lado e o esbanjamento do outro dão conta das prioridades que estão em causa: assegurar acima de tudo — e, se necessário, com sacrifício de tudo — os interesses de poder e de dominação das potências europeias e dos EUA.

É altura de voltar a unir forças para denunciar o papel criminoso e reclamar o fim da NATO. De exigir o regresso a casa de todas as tropas portuguesas em missões no estrangeiro e de canalizar as verbas aí gastas para a saúde pública e o bem estar. De reclamar que o governo português, em vez de fazer de moleque da NATO, dos EUA e das potências europeias, conduza a política externa pelas regras da igualdade e da solidariedade entre os povos.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

A nova roupa do império

Na famosa fábula infantil publicada em 1837, “A Roupa Nova do Imperador”, o dinamarquês Hans Christian Andersen conta a história de um mandatário vaidoso. Chegam a seu reinado dos vigaristas que, passando-se por tecelões, prometem ao imperador roupas especiais, feitas sob medida, que só poderiam ser vistas por funcionários preparados para seus cargos e cidadãos que não fossem tolos.

Fingindo preparar a roupa sem gastar sequer um fio no tear, os dois trapaceiros logo colhem elogios de toda a corte, e até próprio imperador, pelo esplendoroso trabalho. Marchando publicamente, as novas roupas do soberano são destino de elogios desvairados, até que uma criança aponta e denuncia: “Ele não está usando nada! Está nu!”. Parte da multidão começa a afinal reconhecer a nudez do rei, que no entanto decide manter a pompa, com seus ajudantes carregando longa cauda de tecido imaginário.

No pequeno conto de Andersen, é por não quererem reconhecer que são tolos e que não estão à altura de seus cargos que toda a corte é enganada. No Brasil, e em grande parte naintelligentsia midiática global, algo similar parece ocorrer em relação aos Estados Unidos, com apenas uma diferença: não agem como tolos evitando reconhecer suas falhas intrínsecas, mas como imorais que, não importando a qual custo, buscam lustrar a roída imagem do império.

O país mais rico do mundo, controlador da moeda de câmbio de todo o globo, comandante dos maiores exércitos, é hoje o maior dizimado pela Covid-19. Já são 614 mil casos confirmados, com 26 mil mortos – números que superam até mesmo países como Espanha e Itália, que há pouco motivavam grande ansiedade pelas manchetes dos jornais. O império, que estende suas mãos por todos os cantos desse mundo, não parece suficientemente preparado para afagar seus próprios cidadãos, a despeito de toda a louca tecnologia que possibilita a multimilionários planejar suas próprias expedições ao espaço. Em três semanas,16 milhões de empregos foram perdidos nos EUA, e a emergência alimentar se revela umaquestão prioritária para milhões de famílias no mesmo país quedesperdiça 150 mil toneladas de comida por dia. Na cidade das luzes, se avolumam os caixões de madeira crua,carregados e enterrados por prisioneiros vestidos em jalecos brancos, com corpos agora destinados à escuridão absoluta.

Com a postura demencial e homicida de costume, o império parece buscar assegurar que haja um maior número de mortos também nos países que toma por inimigos. Contra um Iêmen conflagrado pela guerra esofrendo por anos de uma epidemia de cólera, Trump decidiucortar dezenas de milhões de dólares de um programa de ajuda à saúde do país, e a coalizão liderada pela Arábia Saudita, apoiada pelos Estados Unidos,continua a bombardear civis no país. Na Somália,os bombardeios e ataques a drones continuam.
No Afeganistão,as bombas norte-americanas também seguem caindo, a despeito do recente acordo com o Talibã – que, apesar de todo o imaginário midiático,é mais próximo dos Estados Unidos do que se costuma imaginar. O império também decidiucortar um bilhão de dólares prometidos aos afegãos, o que sem dúvidas não é uma boa notícia para ascentenas de infectados pelo Covid-19 no país. Quanto ao Iraque, no dia 27 de março, quando o país já contava 458 casos confirmados de coronavírus, oThe New York Times publicava umadiretiva secreta do Pentágono que considerava aproveitar a pandemia global para pôr em marcha ações contra milícias ligadas ao Irã no país. De acordo com o jornal, “alguns altos oficiais, incluindo o Secretário de Estado, Mike Pompeo, e Robert C. O’Brien, o conselheiro de segurança nacional, têm pressionado por novas ações agressivas contra o Irã e suas forçasproxy – e veem uma oportunidade para tentar destruir as milícias apoiadas pelos iranianos no Iraque enquanto os líderes no Irã estão distraídos pela crise pandêmica em seu país”. De fato, o presidente iraquiano, Barham Salih,denunciou as “repetidas violações” contra a soberania de seu país por parte dos Estados Unidos em meio à pandemia global. No entanto, não é só com bombas que o império mata: no Irã, que já tem quase 5 mil mortos pelo coronavírus, as sanções impostas pelos EUA – e que não foram sequer afrouxadas em meio à crise –já golpeavam o sistema de saúde do país, impossibilitado de acessar certos remédios e equipamento médico. Ainda assim, os EUAanunciaram novas sanções contra o país.

Mas a mão do império é extensa. Enquanto se movia pelo Oriente Médio e África, ela também fazia uma“campanha de pressão máxima” contra a Venezuela, que incluiu a expansão de sanções, ameaças de bloqueio naval, reforço na presença de navios e aeronaves na região e, mais recentemente, a acusação de “narco-terrorismo” contra Maduro, bem como o anúncio de umarecompensa de 15 milhões de dólares por sua cabeça.

Não se trata só de um imperador senil, mas da insanidade de todo um império que acostumou-se a tratar a carnificina dos povos como um “efeito colateral” para a manutenção do modo de vida americano a seu povo,destinado à sua posição por Deus. E enquanto a mão do império enrijecia nas ações militares e sanções, também manifestava uma outra contração característica e inconsciente sua: a da pilhagem.

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, classificou comfake news as notícias de que material médico comprado pelo Brasil havia sido retido, roubado, desviado ou comprado pelos Estados Unidos. “Eu sei que há muitasfake news por aí de pessoas dizendo que isso está acontecendo, mas já investigamos e não está”, afirmou, a despeito do nosso ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ter declarado que compras de equipamentos de proteção individual junto à Chinanão haviam sido concluídas após os EUA comprarem e transportarem, com 23 aviões cargueiros, o material. A Casa Civil da Bahia também tinha acusado os EUA de terem “unilateralmente cancelado” a compra de respiradores feitos por estados do nordeste com a China; o fornecedor chinês não teria conseguido embarcar de Miami, onde fez uma escala. Tambémfizeram acusações semelhantes os governos da Alemanha e França.

AFolha de São Paulo informa que “uma vez embarcado, o carregamento tem de cumprir rotas específicas entre China e Brasil para não correr o risco de ser confiscado por outros países no reabastecimento”, eoEstadão noticia que, pretendendo enviar aviões à China, “o governo brasileiro quer evitar problemas com retenção de suprimentos, como ocorreu a diversos países, que tiveram suas compras bloqueadas pelos Estados Unidos”. Talvez devamos, no entanto, confiar nos representantes do império de roupas novas, que há alguns anos avistava invisíveis armas de destruição em massa no Iraque. Ao menos, é o que aparenta ser a posição do embaixador brasileiro em Washington, Nestor Foster, que ao invés de seguir a lida de Chapman, negando os fatos, justificou-os,declarando que “existe a faculdade de o presidente americano recorrer à Lei de Defesa da Produção, que é da época da Guerra da Coreia, para direcionar a produção para o esforço de guerra, bens considerados essenciais para a manutenção da ordem, da segurança nacional. […] Não há uma proibição à exportação nem há confisco imediato, é uma orientação para fazer o que for possível para não faltar aqui [nos EUA]. Se isso requerer o confisco, há poderes legais para fazer isso”.

Nem fábula infantil nem obra de realismo mágico poderia descrever com exatidão uma camarilha de canalhas, em redações de jornais ou em corpos diplomáticos, que como funcionários do imperador se recusam a dizer as coisas como são.Procuram na China desculpas, números, fabricam fatos, como cavalos amestrados que seguem pela estrada, bem-comportados, contanto que não olhem imediatamente a seu redor. Especulam sobre “autoritarismos” do Estado chinês, sem mencionar nenhuma das ações de guerra e sanções levadas adiante unilateralmente pelo império-amigo em todo o mundo, quase como reconhecendo que, mais do que parte de um destino-manifesto, as ações norte-americanas são leis naturais, contra as quais não cabe protesto. Ao que parece, no Brasil, os jornalões até se dispõem a tentar frear a insanidade tropical do nosso bobo da corte, mas nunca a desafiar seu verdadeiro amo, que alinha seu discurso tanto nos diários quantonas bocas de lunáticos bolsonaristas que protestam contra o “comunismo chinês”.

Talvez se os jornais e as embaixadas brasileiras fossem ocupadas por crianças, elas dissessem sem pestanejar: o império está nu. Assim ao menos uma parte dos cidadãos, vendo o rei desfilar, tomaria a coragem de dizê-lo. Mas os espertos encarregados não o fazem, e assim continuam carregando a longa cauda tricolor e estrelada do imperador, que arrasta povos por onde passa.

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Nova ordem global, globalização e "liderança" dos EUA – Descansem em paz

Nova ordem global, globalização e "liderança" dos EUA – Descansem em paz

por The Saker
 
"E os incrédulos conspiraram e planearam, e Deus também planeou, e o melhor dos planeadores é Deus".
Alcorão, Sura Al-Imran (A Família de Imran) 3:54

'. Já há muitos anos era óbvio que o Império americano-sionista não era viável, que tinha que se afundar mais cedo ou mais tarde. Havia dois cenários principais normalmente considerados para esse colapso: uma crise externa (tipicamente uma grande derrota militar) ou uma interna (colapso económico). Pessoalmente, sempre acreditei mais no primeiro cenário (especificamente, conforme descrito aqui ). Tinha até um local "favorito" para uma derrota militar catastrófica (para os EUA): o Irão e o Médio Oriente. Independentemente do cenário preferido, tornava-se óbvio que:

1. O Império não era viável
2. O Império não era reformável

O mesmo é válido para o sistema político dos EUA. No entanto, havia um problema enorme. A qualidade e a dimensão da máquina de propaganda dos EUA foi muito bem-sucedida em manter a maioria das pessoas no Ocidente na total ignorância dessas realidades. Quanto mais rapidamente o Império entrava em colapso, mais Obama ou Trump apimentavam as suas cerimonias patrióticas de agitação da bandeira (também conhecidas como "conferências de imprensa") com referências a uma "nação indispensável" proporcionando uma "liderança vital" graças à sua "melhor economia da história", os "melhores militares da história", e até "dirigentes de empresa inexcedíveis" "políticos incomparáveis" e "conversações extraordinárias". A mensagem era simples: somos os melhores, melhores que todos os outros e invencíveis.

Então o COVID19 aconteceu.

A reacção inicial nos EUA à pandemia foi descartá-la completamente ou culpar os chineses. Outra teoria excepcionalmente idiota era que o vírus afectava apenas os asiáticos. Esta mentira foi muito rapidamente desmascarada. Outros mitos, e até mentiras directas, mostraram-se muito mais resistentes, pelo menos por algum tempo.

Então a "Itália" aconteceu. Logo seguida pela Espanha e França. Algumas pessoas começaram a mudar de música. Outros ainda pensavam que a UE não era tão "incomparável" quanto os EUA. Então "Nova York" aconteceu e o inferno abriu-se para a "nação indispensável" e o "parasita imperial" que esta nação estava hospedando. Até o idiota-chefe passou de "terminará na Páscoa" para falar em poupar "milhões" de "estado-unidenses" (os EUA não se importam com os "não-americanos").

Prevejo que este processo agora só acelere. Aqui estão algumas razões para esta conclusão:

Primeiro, a máquina imperial de propaganda é simplesmente incapaz de ocultar a magnitude do desastre, mesmo em países como os EUA ou o Reino Unido. Ah, claro, inicialmente médicos e até comandantes de navios da US Navy foram sumariamente demitidos por falar a verdade, mas mesmo estes casos mostraram-se impossíveis de ocultar e a opinião pública ficou ainda mais desconfiada das garantias e declarações oficiais. A verdade é que a maior parte do planeta já percebeu que é uma crise enorme e que países como a Rússia ou a China responderam quase que infinitamente melhor que os EUA.

Também todos sabem que o sistema de assistência médica dos EUA está falido, corrompido e principalmente disfuncional e que o optimismo inicial de Trump não foi baseado em coisa alguma. Os que odeiam Trump instrumentalizaram imediatamente a crise para o esmagar. O triste é que, embora eles não sejam melhores, estão certos sobre Trump estar completamente fora da realidade. Na era da Internet, esta é uma realidade que mesmo a máquina de propaganda dos EUA não consegue esconder para sempre do público dos EUA.

Segundo: e isto é absolutamente óbvio, agora está a ficar claro que a ideologia capitalista dos mercados livres, globalismo, consumismo, individualismo extremo e, acima de tudo, ganância, é totalmente incapaz de lidar com a crise. Ainda mais ostensivamente para aqueles que acreditaram numa ideologia baseada na suposição de que a soma das cobiças criaria uma sociedade ideal, quando países com tradições colectivistas mais fortes de solidariedade ("aprimoradas" por ideias marxistas ou socialistas) se saíram muito melhor. A China, mas também Cuba e até a Rússia (que não é marxista nem socialista, mas que tem tradições colectivistas muito fortes) ou Coreia do Sul ou Singapura (ambos não-marxistas, mas com fortes tradições colectivistas). Até a Venezuela, em apuros e sitiada pelo Império, consegue sair-se muito melhor que os EUA ou o Reino Unido .

Todos esses países não apenas se saíram muito melhor que países muito mais ricos e supostamente mais "livres", além de fazerem-no sob as sanções dos EUA. E, finalmente, apenas para acrescentar o insulto à injúria, esses países supostamente "ruins" mostraram-se muito mais generosos do que os incorporados no Império: enviaram muitas toneladas de equipamentos de vital importância e centenas de cientistas especializados e até militares para ajudar os países em necessidade (Itália, Espanha, Sérvia, etc).

Antonov russo entrega ajuda aos EUA. Finalmente, até os EUA precisaram de aceitar ajuda da Rússia: o conteúdo de dois enormes transportadores militares AN-124.

Pense na ironia! O país cuja economia deveria estar "em frangalhos" (Obama) entrega ajuda humanitária à "nação indispensável" (Obama novamente). Essa ajuda não só foi entregue por um país sob sanções dos EUA, mas também foi produzida por uma empresa russa sob sanções dos EUA. Os media norte-americanos "gratos" declararam imediatamente que essa era uma acção de relações públicas da Rússia, especialmente porque 50% da carga foi paga pelos EUA (o restante, incluindo custos de transporte, foi pago pela Rússia).

Pelo menos na Itália começaram a surgir questões sobre as razões pelas quais os EUA, a NATO ou a UE não fizeram absolutamente nada para ajudá-los quando precisavam, e que os países que ajudaram generosamente (Rússia, China, Cuba) estavam todos sob sanções, incluindo as italianas! Boas perguntas, de facto. A que o presidente sérvio Vucic, respondeu declarando que a solidariedade europeia era um "conto de fadas". Ele está certo, é claro.

Terceiro, todos nós vimos a atitude vil de várias "democracias" ocidentais literalmente roubando equipamentos médicos vitais uns aos outros. De facto, sob uma lógica puramente capitalista, esse tipo de "competição" era inevitável (verdadeiro) e até desejável (falso): as principais empresas médicas e farmacêuticas usaram esse recurso financeiro para maximizar os seus lucros (que é, afinal, o que todas as empresas têm de fazer num sistema capitalista: obter o máximo de dinheiro possível para seus accionistas). Mesmo agora países competem entre si por equipamentos médicos! Enquanto tudo estava bem e o Ocidente era livre para saquear o resto do planeta, o capitalismo poderia ser visto como uma promessa de um futuro melhor (assim como o comunismo, aliás). Mas agora que esse grande "baralho de cartas propagandístico" está a desmoronar-se e o capitalismo mostra sua verdadeira face (uma ideologia criada pelos ricos para tramar os pobres), a comparação com as sociedades colectivistas (supostamente "atrasadas") é mais embaraçosa, mas inevitável.

Quarto, também testemunhamos a grosseira vilania da máquina imperial de propaganda em artigos sobre como "a Rússia enviou equipamentos inúteis para a Itália", que "equipamentos chineses não funcionaram" ou sobre como todos os países que responderam melhor e mais cedo estavam a mentir sobre os números reais (o que é totalmente sem sentido, os chineses têm sido muito abertos, assim como os russos: a verdade é que, nas fases iniciais de uma pandemia, é impossível obter números reais, o que só pode ser feito depois). Isso é tão falso quanto as "incubadoras iraquianas", "sérvios genocidas" ou "Viagra de Gaddafi" e o tempo provará isso.

Quinto, há a questão da pobreza. Vemos os primeiros sinais de que esta pandemia (como todas as pandemias) está a afectar muito mais os pobres do que os ricos. Dificilmente é uma surpresa... Por exemplo, em cidades dos EUA, como Nova York, Chicago, Detroit, Miami ou Nova Orleães, existem muitos bairros pobres e as pessoas são atingidas com muita intensidade. Mas isto é apenas o começo, existem favelas muito maiores noutros países, inclusive na América Latina e, provavelmente ainda pior, na África. Excepto algum tipo de milagre, o número de mortos nas favelas do terceiro mundo será absolutamente horroroso. E pode-se ter a certeza de que os países pobres colectivistas se sairão muito melhor do que aqueles agarrados aos delírios da economia de mercado livre. Mais uma vez, haverá grandes consequências políticas em todos esses países: prevejo vermos em alguns casos mudanças de regime num futuro não muito distante.

Putin sombrio. Sexto, assim como o próprio Império, também a NATO e a UE estão em queda livre e em pânico sem noção do que fazer de proactivo. Além do idiota em chefe que agita as bandeiras, aproveitei o tempo para ouvir Macron e Merkel. Os dois estão em estado de pânico, Macron fala repetidamente sobre uma "guerra", enquanto Merkel declarou que a pandemia é o desafio mais sério que a Alemanha enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial! Ainda assim, o contraste mais surpreendente para os EUA pode ser a Rússia. Putin fez vários apelos especiais ao povo russo, e o seu humor era claramente determinado e claramente sombrio. Tirei uma imagem da última mensagem de Putin ao povo russo e vi a sua expressão:

O principal médico responsável pela crise do COVID19 em Moscovo, disse a Putin que a Rússia precisava preparar-se para o que chamou de "o cenário italiano e para evitá-lo", embora na época (30 de Março) houvesse apenas 1 836 casos confirmados de COVID19 na Rússia, incluindo 9 óbitos e 66 recuperações. Vamos comparar os três países:

 

País COVID casos detectados Mortes Recuperados
EUA161 8072 9785 644
Itália101 73911 59114 620
Rússia1 836966

Além disso, as equipas médicas especiais russas das tropas de protecção nuclear, biológica e química das forças armadas russas estão agora em alerta máximo e, embora não haja escassez de equipamentos médicos especializados para estes efeitos na Rússia, as forças armadas russas estão agora a construir 16 hospitais especiais em vários locais na Rússia. A Rússia também está a encerrar quase completamente o tráfego aéreo e ferroviário interno. Muito disto era previsível, já que Moscovo é muito mais rica do que qualquer outra região russa, Moscovo está indo bem, apesar de ter uma população enorme (cerca de 12 milhões na cidade, mais 7 ou mais no distrito de Moscovo). Aqui estão os números oficiais da Rússia para a área de Moscovo (em 30 de Março):

 

Localização Infectados Mortes Recuperados % mortes
Cidade de Moscovo1 22611280,9%
Distrito de Moscovo1191140,85%

Parece muito estranho que um país como a Rússia, que com evidência está a sair-se muito melhor do que os EUA (mesmo em indicadores per capita) esteja a preparar-se para o pior? O que sabem os russos que os líderes americanos não dizem?

Obviamente, a máquina de propaganda anti-russa tem uma explicação. Por exemplo, alega que os russos estão a mentir sobre tudo. Existe até um psicopata colaborando com agentes ocidentais fingindo representar os médicos russos, alegando que existem milhares de mortes ocultas, que a Rússia não tem equipamento e que os russos não têm noção do que se passa. Um analista anteriormente sóbrio agora até afirma que "Putin está a perder o controlo" .

Para ser totalmente sincero, nunca na minha vida vi tal tsunami de idiotices, informações falsas, rumores infundados e, por último, mas certamente não menos importante, vergonhosas formas de enganar. Para alguns, esta crise é uma oportunidade de recuperar alguma visibilidade. É vergonhoso, realmente uma desgraça total, ser apenas uma nova forma de lucrar com uma crise.

Não sou médico especialista, certamente que não. Mas conheço o governo russo e sua "linguagem corporal". Por isso posso dizer que os russos estão a preparar-se muito, muito a sério, para o que pode muito bem tornar-se uma enorme crise até para a Rússia (ter a Ucrânia e a Bielorrússia em profunda negação obviamente não ajudará!).

Sete, nos EUA, o contraste entre o governo federal e as autoridades estaduais é bastante surpreendente. Por mais que o governo federal seja incuravelmente disfuncional, os governadores estaduais muitas vezes tiveram que usar expedientes para obter suprimentos e especialistas. Por exemplo, o governador da Florida, Ron DeSantis (R), teve que ligar para um amigo em Israel a fim de pedir à gigante farmacêutica israelense Teva Pharmaceuticals que enviasse equipamentos médicos desesperadamente necessários para a Florida. Acredito que coisas semelhantes aconteçam noutros Estados. Esta é uma das razões pelas quais os americanos geralmente desconfiam do governo federal, mas apoiam muito mais as autoridades locais (como regra geral, existem, é claro, excepções). Há muitas razões para o contraste entre as autoridades federais e estaduais, incluindo o facto de que os governadores estão muito mais "próximos" dos seus constituintes no nível local do que no nacional.

Embora não seja tão radical quanto o contraste entre sociedades baseadas na pura ganância e sociedades baseadas na solidariedade, o contraste entre os níveis local e nacional também contribuirá para o colapso do sistema imperial, ainda que mais indirectamente.

Conclusão: Nova ordem global, globalização e "liderança" dos EUA – Descansem em paz

A primeira vítima (não humana) desta pandemia será a chamada "Nova Ordem Global" prometida por vários presidentes dos EUA. O mesmo vale para a ideologia da globalização subjacente. Se o suposto "governo mundial dos iluminados", imaginado por alguns, realmente desencadeou esta pandemia, então acertou no pé, o qual agora está a sangrar rapidamente.

Os Estados Unidos mostram ao mundo que a chamada "liderança dos EUA" não passa de uma mentira grosseira para esconder o que descreveria como uma hegemonia mundial narcisista, que vai destruir mesmo os seus "aliados mais próximos" (realmente colónias) para obter alguma vantagem.

No momento, a maioria do que vemos são apenas sinais de alerta, tal como por exemplo membros da UE a fecharem as suas fronteiras. Mas, independentemente de como esta pandemia progrida, o que acontecerá a seguir é uma enorme crise económica que superará tanto a Grande Depressão, como a crise após o 11 de Setembro e a de 2008.

É claro que, mais cedo ou mais tarde, o mundo irá recuperar-se do colapso pandémico e económico. Mas o tipo de mundo que então veremos será radicalmente diferente daquele em que vivemos até agora.

Por enquanto, ainda existem manifestações observáveis da "liderança dos EUA": os EUA tentam arduamente roubar remédios e equipamentos médicos de outros países, impõem sanções a países como o Irão e a Venezuela que precisam desesperadamente de remédios e agora voltam a exibir o cenário Noriega contra Maduro. Esta política externa de "liderança dos EUA" pode ser resumida como maldosa, imoral, hipócrita, disfuncional, narcisista, etc. Qualquer que seja o rótulo que se escolha aplicar, é sempre uma política moralmente repugnante e na prática auto-destrutiva.

Precisamente agora, depois de culpar a China, Trump está a apontar o dedo à OMS . Realmente, uma alma nobre e um brilhante jogador de xadrez em 5D… Não há mais como esconder isto: o SARS-COV-2 alcançou o que nem a RT ou a PressTV conseguiram: colocou uma luz bastante clara sobre a verdadeira natureza do Império americano-sionista.

Como o Alcorão diz, Deus é o melhor planeador. [2]

Actualização: Eu estava errado, admito. O governo dos EUA não pensa apenas em si mesmo. Pode ser muito generoso, mas apenas num caso especial. De facto, parece que os EUA enviaram UM MILHÃO de máscaras para... Israel, é claro! www.presstv.com/Detail/2020/04/08/622584/US-masks-Israel-coronavirus-covid19

Afinal, isto faz sentido: Israel é muito mais importante para Trump e seu gangue, do que enfermeiros, médicos ou pessoas que sofrem nos EUA.

NT
[1] Os dados de 14 de abril são os seguintes:   EUA 587 173 casos, 23 644 mortes; Itália 159 516, 20 495; Rússia 21 155, 172; Moscovo 13 002, 95; Moscovo oblast (distrito) 2 315, 24. ( https://coronavirus-monitor.ru/ ) Número de mortes por milhão de habitantes:   EUA – 71,6; itália – 341,6; Rússia 1,2; Moscovo – 7,9. Por ref. Portugal 53,5; França 223,4; RU 171,6; Alemanha 36,4.
[2] Recordemos, neste transe, Espinosa, o "pequeno" filósofo de Amsterdão, muito apreciado por Marx e Engels, filho de pais portugueses fugidos à Inquisição, para quem Deus é sinónimo da palavra Natureza: "Deus sive Natura" , "Deus está na Natureza" ou "Deus, isto é, a Natureza".

O original encontra-se em www.unz.com/tsaker/nwo-globalism-and-us-leadership-rip/

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/nova_ordem_global.html

As hienas estão atentas e já é audível o seu gargalhar*

Henry Kissinger_2016-04-26_Wikp.jpg

Título de um artigo de opinião de Henry Kissinger publicado dia 3 de Abril no Wall Street Journal (em inglês só para assinantes):

«A pandemia de coronavírus alterará para sempre a ordem mundial».

O subtítulo também não é menos elucidativo:

«Os Estados Unidos devem proteger os seus cidadãos da doença a tempo de iniciar o trabalho urgente de planificar uma nova era

No seu texto o autor, agora com 96 anos, reedita e adapta as principais teses do famigerado documento de 1974 referido nopost anterior.

«Despovoar», continua a ser, o conceito chave…

 

Pinochet_-_Kissinger_1976-01_Wikp.jpg

Augusto Pinochet e Henry Kissinger Janeiro de 1976

Via: O CASTENDO https://bit.ly/2y40WhJ

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/12/as-hienas-estao-atentas-e-ja-e-audivel-o-seu-gargalhar/

'Calúnia total e infundada com implicações perigosas', diz Cuba sobre acusações de narcotráfico

Carro descapotável norte-americano clássico passando ao lado da embaixada dos Estados Unidos em meio a bandeiras cubanas hasteadas na Tribuna Anti-Imperialista, um palco no passeio marítimo de Malecon, em Havana, Cuba, 26 de julho de 2015
© AP Photo / Desmond Boylan

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, e o embaixador do país nos EUA, Carlos Fernández de Cossío, expressaram seu desagrado sobre a incriminação norte-americana de narcotráfico com Venezuela.

Bruno Rodríguez Parrilla, ministro das Relações Exteriores cubano, rejeitou as acusações envolvendo Cuba em alegadas operações de tráfico de droga, emitidas por um funcionário do Departamento de Defesa dos EUA e publicadas na revista norte-americana Newsweek.

 

"Rejeito a suposta alegação de um alto funcionário não nomeado do Pentágono, citada pela Newsweek, de que a comunidade de serviços secretos tem provas de tráfico de droga entre Cuba e a Venezuela. É uma calúnia total e infundada, com implicações perigosas".

O artigo cita um alto funcionário anônimo do Pentágono como tendo afirmado haver provas de que o presidente venezuelano Nicolás Maduro estaria traficando droga entre a Venezuela e Cuba usando embarcações.

Carlos Fernández de Cossío, diretor-geral para os EUA do Ministério das Relações Exteriores cubano, também se pronunciou sobre a questão.

 

"Segundo a Newsweek, um 'alto funcionário' não identificado do Pentágono afirmou que houve transporte de drogas entre a Venezuela e Cuba. É uma declaração perigosa e irresponsável, totalmente infundada.

O governo dos EUA sabe perfeitamente que o 'alto funcionário' está mentindo".

Segundo a própria Newsweek, outros funcionários do governo dos EUA disseram que esta operação antidroga levada a cabo pela Casa Branca e centrada na Venezuela e Cuba apenas procura distrair das atenções da crise nos EUA gerada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2.

EUA no Caribe

O presidente norte-americano Donald Trump anunciou em 1º de abril o envio de navios de guerra, aviões e tropas em uma operação antidroga na zona do Caribe, ao largo da costa da Venezuela, destinada a aumentar a vigilância e as apreensões de carregamentos de droga nesta região.

O anúncio desta operação antidroga coincidiu com uma "proposta" lançada por Washington, conhecida como o Quadro Transitório Democrático para a Venezuela, que apela à demissão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, à constituição de um governo de transição e à realização de eleições.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020040915432973-calunia-total-e-infundada-com-implicacoes-perigosas-diz-cuba-sobre-acusacoes-de-narcotrafico/

Os cow boys do novo Far West

Talvez milhões de cidadãos do mundo, já atingidos nas suas vidas diárias pela crise do Covid 19, se interroguem sobre quais são as reais ameaças que enfrentam. E com que ajudas podem contar.

 

 

Como é que o meu governo me defendeu a mim e aos meus, como é que o meu governo defendeu os interesses nacionais, como vai o meu governo relançar a vida e a economia, devem ser medos e ou esperanças e dúvidas de todos.

Neste contexto uma questão se me coloca: tendo os EUA pretendido, desde a segunda guerra mundial, serem o líder do mundo dito livre, o mundo rico, o mundo das oportunidades, liberdades e da democracia, como é agora, neste preciso momento, percebida pela população mundial a sua ação face a este novo perigo que é a pandemia.

É difícil não concluir que as prioridades de segurança nacional do governo americano foram tão distorcidas da realidade que deixaram o país dramaticamente não preparado para a ameaça a milhões de pessoas que representa um novo vírus para o qual não temos imunidade. Isso irá refletir-se na nossa própria segurança como europeus e irá refletir-se na segurança de muitos países nos diferentes continentes.

O foco da anterior e da presente administração americana foi assinalar a vermelho dois perigos alvos de ação prioritária:

Primeiro, o perigo claro e imediato de grupos extremistas escolhidos pelos seus serviços de informações (e serviços de informação aliados) e segundo o perigo de regimes estrangeiros estrategicamente assinalados como hostis, principalmente no Oriente Médio. Nos últimos 20 anos os Estados Unidos gastaram triliões de dólares em guerras, ocupações e manutenção de bases militares em todo o planeta. Conseguiram fazer muitos inimigos e conseguiram ser olhados por milhões de pessoas como os polícias analfabrutos do planeta. No Irão, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, poucos serão aqueles a quem resta dúvidas de quem foram reféns nos últimos anos.

Mas o país que gastou biliões em guerras estrangeiras, revela-se incapaz de defender seus cidadãos de ameaças básicas como doenças e não será capaz de afastar um previsível colapso económico.

As últimas semanas revelaram um espetáculo de um governo federal errático, imprevisível, incapaz de fazer o que é necessário para impedir a propagação de uma pandemia em solo americano.

A capacidade de fazer testes de despistagem de infeção ficou muito atrás de países muito menores e menos ricos como Taiwan e Coreia do Sul, e a fragilidade de infraestruturas básicas de saúde provavelmente significará o excesso de mortes de centenas de milhares de americanos num futuro próximo, tal como foi a previsão do famoso estudo epidemiológico do Imperial College, que obrigou Trump e Boris Jonhson a arrepiarem caminha das suas estratégias definidas em bases cientificamente não comprovadas.


Confira a íntegra do estudo que teria influenciado os dois líderes:


Governadores de grandes estados pediram publicamente ao governo federal ventiladores, máscaras e outras ferramentas básicas para lidar com o surto. Há poucos sinais de que a capacidade exista atualmente para responder a essas solicitações. Mas já temos o inquilino da Casa Branca a culpar a Organização Mundial de Saúde pelos seus desaires. Afinal Trunp é o génio que percebia imenso de vírus e a OMS foi quem lhe tirou o tapete da cientologia.

As despesas militares que aumentaram exponencialmente desde o 11 de Setembro segundo estudos do projeto Costs of War da Brown University, que mostra que o governo dos EUA gastou 6,4 triliões de dólares nas guerras do Afeganistão, Iraque e Paquistão desde 2001. Esse número gigantesco, nem sequer responde pelos pagamentos de juros dos empréstimos necessários para pagar pelas guerras, que pode chegar a 8 triliões de dólares em meados do século, e muito menos os custos de oportunidade para a sociedade americana desses gastos maciços em aventuras no estrangeiro. Afeganistão, Iraque, Paquistão são um novo Far West para estes cow boys que já não entusiasmam as criancinhas do post guerra, hoje em dia transformadas em avós cépticos.

O fato de as guerras americanas de contraterrorismo terem matado centenas de milhares de pessoas, não terem trazido nenhum benefício político ou estratégico claro, e apenas transformando em desperdício uma riqueza que poderia ter sido muito melhor empregue.

O descalabro da infraestrutura americana não passou despercebido do resto do mundo nesta crise. Para a crise da pandemia originada na China, o Partido Comunista Chinês acabou por mostrar uma capacidade eficaz de controlar o surto dentro da região onde se iniciou e agora já é exportador de bens globais: máscaras, luvas, roupas, viseiras, testes, vacinas em preparação, medicamentos em fase de teste. Enviam equipas médicas e logística de desinfeção para a Europa.

Trump esbraceja para encontrar uma resposta adequada em casa, e vai subtraindo o que pode dos esforços de outros países para lidar com a crise. Exemplos: desviar recursos críticos de aliados como a França, enquanto tentava exacerbar a pandemia global por meio de sanções económicas contra inimigos como o Irão, apesar do pedido de seus aliados para mudar de estratégia.

Os Estados Unidos esvaíram as suas anémicas instituições de controle, prevenção da doença e promoção da saúde, e agora procuram bodes expiatórios no exterior, o que não lhe fará ganhar a imagem que já perderem.

Podem apontar o dedo que tiraram sujo do nariz e dizer que a bolinha de esterco foi feita pela OMS.

Podem transformar-se nos palhaços deste circo global.

E não nos vão fazer rir.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-cow-boys-do-novo-far-west/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=os-cow-boys-do-novo-far-west

Cimeira das Lajes – 16 de março de 2003

Se na tarde de hoje, há 17 anos, tivessem estado na Ilha Terceira, na base das Lajes, os da fotografia anexa, em vez dos quatro que todos conhecemos, não teria havido a cimeira da guerra onde, em macabra encenação, foi anunciada a invasão do Iraque.

O mundo não se teria livrado dos vírus, mas ter-se-ia evitado a tragédia cujas ondas de choque nunca mais deixaram de fazer sentir-se, no terrorismo, nas tensões entre o sunismo e o xiismo, na instabilidade das fronteiras do Médio Oriente e da paz mundial.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/03/cimeira-das-lajes-16-de-marco-de-2003.html

Outro vírus

Muito maior do que qualquer pandemia, por grave que esta seja, é a ameaça belicista de um imperialismo senil comandado pelos EUA e a NATO. Os seus porta-vozes proclamam cada vez mais abertamente a disposição, já não apenas para as guerras locas ou regionais que fomentam em todo o lado, mas para um confronto nuclear global. O imperialismo EUA é hoje uma ameaça global contra a vida humana e o planeta. E o governo PS é um seu fiel serventuário.

O coronavírus COVID-19 vai ser culpado dos males do mundo e talvez venha a justificar (Financial Times, 6.3.20) «empréstimos baratos aos bancos […e] uma injecção coordenada de liquidez no sistema bancário» (não deveria ser nos SNS?). Mas outro vírus, muito mais perigoso e mortal, está a alastrar: o vírus do belicismo imperialista, que ameaça a sobrevivência da Humanidade.

Na Conferência de Segurança de Munique (14-16.2.20), o Ministro da Defesa dos EUA, Mark Esper, atacou frontalmente a China e a Rússia: «a primeira prioridade» dos EUA é «implementar a Estratégia de Defesa Nacional» que proclama que «vivemos numa era de Concorrência entre Grandes Potências, sendo o nosso principal contendente a China, e logo depois a Rússia, e que devemos distanciarmo-nos dos conflitos de baixa intensidade e prepararmo-nos de novo para a guerra de alta intensidade [sic]» (www.defense.gov, transcrição oficial). Como «prioridades de segundo nível» indicou «os Estados párias, como a Coreia do Norte e o Irão». Apesar de ter acabado de tentar destituir Trump por outras questões, a Presidente da Câmara de Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, do Partido Democrático, confirmou em Munique que essa política unifica o grande capital e o poder nos EUA. Em resposta a uma pergunta sobre se concordava com a política de Trump em relação à China, foi clara: «estamos de acordo a esse respeito». E ameaçou os aliados europeus: «não se aproximem da Huawei» (vídeo disponível no site da Conferência). Já no discurso do Estado da União, em sessão conjunta do Parlamento dos EUA, Pelosi interrompeu momentaneamente o seu rasgar das páginas do discurso de Trump para aplaudir, de pé e em conjunto, o fantoche Guaidó, que Trump nomeou ‘Presidente’ da Venezuela. Por detrás das disputas pelo poder, estão unidos na imposição pela força do (senil) Império Estado-Unidense.

Poucos dias após Munique (25.2.20), a Comissão para as Forças Armadas do Senado dos EUA ouviu o Comandante Aliado Supremo da NATO para a Europa e Comandante do Comando Europeu dos EUA, General Todd Wolter (vídeo disponível em c-span.org). Declarou-se pronto a «curar a influência maligna da Rússia» que considerou um «inimigo potencial». Questionado sobre a sua opinião em relação à política de não utilizar armas nucleares antes da sua utilização por um adversário (a «no first use policy» que foi, até ao fim, a doutrina da União Soviética), Wolters foi franco: «sou fã duma política de first use flexível». Ou seja, o «uso flexível» de armas nucleares mesmo sem qualquer ataque nuclear prévio. Interrogado sobre os aliados da NATO, declarou que nunca conheceu «maior coesão». Exemplificou referindo que «pela primeira vez em mais de seis décadas, aprovámos uma Estratégia Militar da NATO. É um documento sigiloso, secreto, da NATO, que define a ameaça e a actividade que temos de empreender». Explicitou que essa Estratégia Militar da NATO «é muito semelhante à Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos» (aprovada em 2018, mas igualmente secreta, conhecendo-se apenas um resumo). Ficámos a saber pelo émulo do Dr. Estranhoamor que o Governo PS atrelou Portugal à secreta Estratégia de Defesa Nacional (dos EUA) de Trump e à ‘liberdade democrática e ocidental’ de provocar um holocausto nuclear.

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O PÂNICO DO CORONAVÍRUS ATINGE UM PAROXISMO

                              Image result for Vittorio-Emanuele
                            (galeria Vittorio-Emanuele de Milão, completamente deserta)
 
É verdade que esta criseé devida a um perigo bem real. 
O coronavírus, contrariamente ao que certos irresponsáveis nos querem fazer crer, não tem uma taxa de mortalidade semelhante à gripe(0.2% nas nossas sociedades) mas muito maior, pelo menos, dez vezes mais: o coronavírus é mortal para 3.6% dos pacientes contaminados, na população chinesa. 
É verdade que a progressão exponencial da epidemia assusta. 
Mas, também é verdade que as «elites» querem aproveitar o medo do coronavírus, para fazerem passar - sem contestação - as suas medidas de reforço da mundialização.
Enganam-se os que pensam (ainda!) que a mundialização é um processo globalmente positivo para a humanidade. 
O facto é que a fragilidade das nossas sociedades fica completamente aparente com esta epidemia, com a ruptura de cadeias de produção internacionais que - desde há alguns decénios - sustentavam o nosso consumo e nosso modo de vida. 
O exemplo pior é o dos medicamentos, fabricados na China numa percentagem tal, que é impossível relocalizar a produção, no curto prazo, na Europa e América do Norte. 
É socialmente mais grave essa dependência em medicamentos, que a paragem de produção dos telefones móveis (celulares), ou dos automóveis das marcas  europeias e americanas, montados a partir de peças fabricadas em quatro continentes.
 
Mas, prestem atenção ao que vem aí: não sabemos ao certo o que os «think-tanks» da mundialização estão cozinhando discretamente, em reuniões não publicitadas... mas podemos ter uma certeza; o que planearem será em proveito das oligarquias, dos multimilionários e bilionários. 
 
Tal como o 11 de Setembro de 2001 (que foi pretexto para o governo dos EUA lançar a sua «Guerra ao Terror», com guerras de agressão contra países frágeis, que não eram realmente a causa do terrorismo), também esta epidemia servirá de álibi para intensificar a guerra comercial e de sanções contra todos os que não aceitam a hegemonia USA: 
- A China, a Rússia, o Irão e outros, estarão sob pressão ainda maior e os países ocidentais estarão sob chantagem permanente, não podendo ter relações normais (diplomáticas e comerciais) com estes países unilateralmente sancionados pelos EUA, ansiosos, ao perder a hegemonia no continente europeu e além dele. 
 
Oxalá me engane, mas devemos estar preparados para situações de arbitrária privação de liberdade, de controlo draconiano da informação e de perda completa de autonomia financeira, com a digitalização forçada e total do dinheiro.   
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

O enigma do “acordo de paz” do Afeganistão

Por Pepe Escobar, para oAsia Times

Tradução de Patricia Zimbres para o 247

Quase duas décadas depois da invasão e ocupação do Afeganistão na esteira do 11 de setembro, e após uma guerra interminável que custou mais de dois trilhões de dólares, há muito pouco de "histórico" no possível acordo de paz entre Washington e o Talibã, que talvez seja assinado em Doha no próximo sábado.

Para começar, devemos ressaltar três pontos:

1- O Talibã queria a retirada da totalidade das tropas dos Estados Unidos. Washington recusou.

2- O possível acordo apenas reduz as tropas norte-americanas de 13.000 para 8.600, que já era o número de antes do governo Trump.

 

3- A redução só irá acontecer daqui a um ano e meio - supondo-se que isso que está sendo descrito como uma trégua consiga se sustentar.

Para que não haja mal-entendidos, o Segundo em Comando do Talibã, Sirajuddin Haqqani, em um artigo assinado que certamente foi lido por todo o Beltway, detalhou sua inequívoca linha vermelha: a retirada total das tropas dos Estados Unidos.E Haqqani é enfático: não haverá acordo de paz se as tropas americanas permanecerem. Entretanto, um acordo ainda paira no ar. Como? É simples: entra em cena uma série de "anexos" secretos.

O principal negociador norte-americano, o aparentemente eterno Zalmay Khalilzad, um remanescente das eras Clinton e Bush, passou meses codificando esses anexos - como confirmado por uma fonte de Cabul, atualmente fora do governo, mas bem informada sobre as negociações.

 

Vamos subdividir esses anexos em quatro pontos.

1- As forças de contra-terrorismo dos Estados Unidos teriam permissão para permanecer. Mesmo se conseguir a aprovação das lideranças do Talibã, isso seria anátema para as massas de combatentes talibanis.

2- O Talibã teria que denunciar o terrorismo e o extremismo violento. Trata-se apenas de retórica, e não seria um problema.

3- Haverá um esquema montado para monitorar a suposta trégua enquanto as diferentes facções afegãs que guerreiam entre si discutem o futuro, no que o Departamento de Estado dos Estados Unidos descreve como "negociações intra-afegãs". Em termos culturais, como veremos a seguir, afegãos de diferentes origens étnicas terão tremenda dificuldade para monitorar suas próprias guerras.

4- A CIA teria permissão para fazer negócios nas áreas controladas pelo Talibã. Esse é um anátema ainda mais pesado. Qualquer um que esteja familiarizado com o Afeganistão do pós 11 de setembro sabe que a principal razão para a CIA manter negócios no país são as rotas de contrabando (ratlines) de heroína que financiam as operações clandestinas (black-ops) da Langley, como revelado em 2017.

Fora isso, todos os outros aspectos desse acordo "histórico" permanecem bastante vagos. Até mesmo o Secretário de Defesa Mark Esper foi forçado a admitir que a guerra no Afeganistão estava "ainda" em um estado de impasse estratégico.

Quanto ao nada estratégico desastre financeiro, temos apenas que examinar o último relatório SIGAR. SIGAR é a sigla para Special Inspector General for Afghanistan Reconstruction (Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão). Na verdade, praticamente nada foi "reconstruído" no Afeganistão.

Nenhum acordo sem o Irã

A confusão "intra-afegã" começa com o fato de que Ashraf Ghani acabou por ser declarado vencedor nas eleições presidenciais realizadas em setembro do ano passado. Mas ele não é reconhecido praticamente por ninguém.

O Talibã não conversa com Ghani. Apenas com algumas pessoas que fazem parte do governo de Cabul. E eles descrevem essas conversas, na melhor das hipóteses, como sendo "entre afegãos comuns".

Qualquer um que tenha algum conhecimento da estratégia do Talibã sabe que as tropas dos Estados Unidos/OTAN jamais terão permissão para permanecer. O que talvez aconteça é o Talibã permitir algum tipo de expediente salva-face, como a permanência de um contingente por alguns meses, e a partir daí apenas um contingente bem reduzido para fazer a segurança da embaixada dos Estados Unidos em Cabul.

Washington, obviamente, irá rejeitar essa possibilidade. A suposta "trégua" será quebrada. Trump, pressionado pelo Pentágono, enviará novas tropas. E a espiral dos infernos voltará a girar.

Uma outra falha importante do possível acordo é os americanos terem ignorado por completo o Irã em suas negociações em Doha.

Isso é patentemente absurdo. Teerã é um parceiro estratégico da maior importância para Cabul. Além das milenares conexões histórico-culturais-sociais, há no mínimo 3,5 milhões de refugiados afegãos no Irã.

Posteriormente ao 11 de setembro, Teerã, de forma lenta mas segura, começou a cultivar relações com o Talibã - mas não de nível militar-armamentista, segundo os diplomatas iranianos. Em Beirute, em setembro, e em Nur-Sultan em novembro do ano passado, obtive um panorama claro da situação atual das discussões sobre o Afeganistão.

A conexão russa com o Talibã passa por Teerã. As lideranças talibani mantêm contatos frequentes com o Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos. Apenas no ano passado, a Rússia realizou duas conferências em Moscou entre as lideranças políticas do talibã e os mujahideen. Os russos estavam interessados em trazer os uzbeques para as negociações. Ao mesmo tempo, algumas lideranças do Talibã, por quatro vezes, se reuniram secretamente com agentes do Serviço Federal de Segurança russo em Teerã.

O ponto central dessas discussões foi "chegar a uma resolução de conflitos fora dos padrões ocidentais", nas palavras de um diplomata iraniano. O objetivo era algum tipo de federalismo: o Talibã mais os mujahideen no comando da administração de alguns vilayets.

A verdade é que o Irã tem melhores contatos no Afeganistão do que a Rússia ou a China. E tudo isso se encaixa no contexto muito mais amplo da Organização da Cooperação de Xangai (OCX). A parceria estratégica Rússia-China quer uma solução para a questão afegã vinda da interior da OCX, da qual tanto o Irã quanto o Afeganistão são observadores. O Irã pode vir a se tornar membro pleno caso o país permaneça no acordo nuclear - o Plano de Ação Conjunto Global - até outubro, não ficando portanto sujeito a sanções da ONU.

Todos esses atores querem a saída - definitiva - das tropas dos Estados Unidos. A solução, portanto, aponta para uma federação descentralizada. Segundo um diplomata afegão, o Talibã parece estar pronto para dividir o poder com a Aliança do Norte. Quem atrapalha tudo, entretanto, é o Hezb-e-Islami, com um tal de Jome Khan Hamdard, um comandante aliado ao notório mujahid Gulbudiin Hekmatyar, baseado em Mazar-i-Sharif e apoiado pela Arábia Saudita e pelo Paquistão, que estão mais interessados em recomeçar a guerra civil.

Para entender o Pashtunistão

Aqui vai uma explosão de tempos passados, uma recordação do contexto da visita do Talibã a Houston, que mostra como as coisas não mudaram muito desde o primeiro mandato de Clinton. Trata-se sempre da questão de os Talibãs receberem sua parte - naquela época, o assunto era o Oleodutistão, e agora, sua reafirmação do que pode ser descrito como o Pashunistão. Nem todo pashtun é um talibani, mas a maioria esmagadora dos talibanis são pashtun.

O establishment de Washington nunca seguiu a recomendação de "conhece teu inimigo", para tentar entender como pashtuns de grupos extremamente diversos são ligados por um sistema de valores em comum, que estabelece sua base étnica e as regras sociais necessárias. Essa é a essência de seu código de conduta - o fascinante e complexo Pashtunwali. Embora incorporando inúmeros elementos islâmicos, o Pashtunwali, em muitos pontos, está em contradição direta com a lei islâmica.

O Islã introduziu elementos de moralidade de importância fundamental para a sociedade pashtun. Mas há também normas jurídicas, impostas por uma nobreza hereditária, que dão sustentação a todo o edifício, e que são de origem turco-mongol.

Os pashtuns - uma sociedade tribal - têm uma profunda aversão ao conceito ocidental de estado. O poder centralizado só tem uma única maneira de tentar neutralizá-los: o suborno. É isso que passa por uma espécie de sistema de governo no Afeganistão. O que coloca a questão de com quanto - e com quê - os Estados Unidos estão agora subornando o Talibã.

A vida política afegã, na prática, opera com atores que são facções, sub-tribos, "coalizões islâmicas" ou grupos regionais.

De 1996 até o 11 de setembro, o Talibã encarnou o retorno legítimo dos pashtuns como elemento dominante do Afeganistão. Foi por essa razão que eles instauraram um emirado, e não uma república, o que era mais apropriado a uma comunidade muçulmana governada apenas por legislação religiosa. A desconfiança com relação às cidades, particularmente Cabul, expressa também o sentimento de que os pashtuns são superiores aos demais grupos étnicos afegãos.

O Talibã representa um processo de superar a identidade tribal e a afirmação do Pashtunistão. O Beltway nunca entendeu essa poderosa dinâmica - e essa é uma das razões cruciais da derrocada americana.

O corredor do Lápis Lázuli

O Afeganistão está no centro da nova estratégia americana para a Ásia Central, que é a de "expandir e manter o apoio à estabilidade no Afeganistão", acoplada à ênfase em "incentivar a conectividade entre a Ásia Central e o Afeganistão".

Na prática, o governo Trump quer que os cinco "istãos" da Ásia Central apostem em projetos de integração tais como o projeto de eletricidade CASA-1000 e o corredor comercial do Lápis Lázuli, que de fato é uma tentativa de reinicializar a Antiga Rota da Seda, ligando o Afeganistão ao Turcomenistão, ao Azerbaijão e à Geórgia, antes de cruzar o Mar Negro até a Turquia, e então seguindo até a União Europeia.

Mas o problema é que o Lápis Lázuli fatalmente irá se integrar ao Corredor Médio da Turquia, que faz parte das Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa do Cinturão e Rota, e também do Corredor Econômico China-Paquistão Plus, que também faz parte da Cinturão e Rota. Pequim planejou essa integração muito antes de Washington.

O governo Trump está apenas enfatizando o óbvio: um Afeganistão pacífico é de importância essencial para o processo de integração.

Andrew Korybko está correto ao afirmar que "a Rússia e a China, a essa época, poderiam avançar mais na construção do Anel de Ouro unindo os dois países ao Paquistão, ao Irã e à Turquia, "abraçando" assim a Ásia Central, com oportunidades potencialmente ilimitadas que superariam em muito a perspectiva estratégica de soma-zero dos Estados Unidos, 'forçando' sua expulsão".

O desejo otimista do falecido Zbigniew "Grande Tabuleiro" Brzezinski talvez esteja morto, mas as miríades de jogadas de dividir-para-governar impostas à Ásia Central agora se transmutaram em guerra híbrida dirigida explicitamente contra a China, a Rússia e o Irã - os três grandes nós da integração da Eurásia.

E isso significa que, no que se trata do Afeganistão da realpolitik, com ou sem acordo, as forças armadas dos Estados Unidos não têm a menor intenção de ir embora. Elas querem ficar - a qualquer custo. O Afeganistão é uma valiosíssima base do Grande Oriente Médio, a partir da qual os Estados Unidos poderão empregar suas técnicas de guerra híbrida.

Os pashtuns, certamente, entenderam a mensagem enviada pelos principais atores da Organização de Cooperação de Xangai. A questão é como eles planejam ganhar de lavada o jogo contra a Equipe Trump.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/o-enigma-do-acordo-de-paz-do-afeganistao

Guerras imperialistas beneficiam os grandes capitalistas dos Estados mais ricos

por Immanuel Ness [*]
entrevistado por Mohsen Abdelmoumen

Dr. Immanuel Ness. Mohsen Abdelmoumen:   No seu livro   pdfChoke Points: Logistics Workers Disrupting the Global Supply Chain(3.06 MB) afirma que o capitalismo global é um sistema precário. Pode explicar porquê?

Dr. Immanuel Ness – A economia global está cada vez mais integrada na indústria transformadora e, como tal, diferentes nações estão fortemente envolvidas nos diversos produtos (inputs) que contribuem para transformar os recursos naturais em produtos finais. Este sistema é muito dependente do transporte de mercadorias em todo o mundo. Assim, os trabalhadores da logística e dos transportes são parte integrante do fluxo contínuo de mercadorias em todo o mundo. Como os produtos são cada vez mais produzidos para atender às procuras específicas dos consumidores e dos mercados dos países de destino do norte, qualquer desafio a esse sistema fará com que o fornecimento de produtos falhe.

Os trabalhadores da logística e dos transportes desempenham, portanto, um papel crucial na distribuição de bens ao longo da cadeia de fornecimentos podendo interromper a entrega de bens em diferentes fases da produção. Assim, a noção de estrangulamento está enraizada no sistema de distribuição. Os estrangulamentos diminuem a velocidade da produção e impedem o sistema capitalista de processar os produtos em diferentes fases da cadeia global de mercadorias.

Essa interrupção tem um impacto significativo no fornecimento de bens essenciais, num sistema de produção global altamente integrado, no qual os consumidores de bens nas diferentes fases da produção, são impedidos de obter produtos (inputs) cruciais para o seu sistema de produção. A globalização económica e a produção flexível aumentaram a dependência da entrega rápida e fiável de mercadorias. Se o sistema de transportes para os principais pontos logísticos for interrompido nas fábricas, no transporte rodoviário ou ferroviário, aeroportos, portos e armazéns, a entrega dessas mercadorias não poderá atingir os mercados de produção e de consumo e constitui um risco para a rentabilidade. As cadeias de fornecimentos globais estão a intensificar a importância do transporte rápido e fiável de produtos agrícolas, matérias-primas e bens industriais, cada vez mais dependentes da subcontratação. Isso coloca o capital numa posição potencialmente precária, muito dependente da entrega de mercadorias "just-in-time" aos diversos mercados.

Na sua opinião, o capitalismo é capaz de superar as crises que gera?

Sim, o capitalismo atual dispersou os trabalhadores por toda uma série de processos de produção, instalações e empresas, diminuindo o poder de os trabalhadores perturbarem as cadeias globais de mercadorias. Embora existam exceções notáveis em que os trabalhadores da logística conseguiram desacelerar e, em alguns casos, impedir a produção e o transporte de mercadorias, hoje os trabalhadores não têm o poder organizacional de resistir e superar o poder esmagador do capital. Além disso, existe a propensão para trabalhadores logísticos privilegiados, como marítimos e estivadores, que recebem salários mais altos e preferem não atrapalhar um sistema que lhes foi favorável, em detrimento dos trabalhadores mal remunerados.

Em geral, os trabalhadores com baixos salários produzem bens em colónias agrícolas e informais e geralmente são encontrados nos países do sul, onde os salários são significativamente mais baixos do que nas metrópoles neocoloniais onde os bens de consumo finalizados são geralmente vendidos a consumidores com salários mais altos. Além disso, deve-se notar que os sindicatos são agora muito mais fracos do que eram em meados e nos finais do século XX, durante a era fordista, quando os trabalhadores negociavam salários muito mais altos devido ao controlo que tinham sobre a produção integrada de mercadorias. A globalização e o crescimento das cadeias de produção envolvendo diversos Estados, enfraquecem consideravelmente a capacidade de o fator trabalho enfrentar o capital. Até que este desequilíbrio de poder seja resolvido a favor dos trabalhadores, as empresas multinacionais manterão uma posição dominante.

Fingir que não há alternativa ao capitalismo revela uma impotência para criar um sistema que vai além do capitalismo, o qual mostrou os seus limites?

Não, vivemos num mundo dominado pelo capitalismo e, de facto, vastas lutas ocorrem entre trabalho e capital. O problema é que a maioria dos sindicatos foi derrotada, qualquer tentativa de regulamentação mínima à ganância dos mercados de trabalho predadores é um desafio formidável para a classe trabalhadora. Dessa maneira, ir além do capitalismo não passa de retórica, porque é muito improvável que o capitalismo seja superado num futuro próximo [NT 1] . Mesmo que seja possível para grandes Estados ou regiões desenvolver sistemas socialistas, é provável que o sistema mundial seja dominado pelo capitalismo nas próximas décadas. O principal desafio é limitar a capacidade de o capitalismo penetrar nos aspetos fundamentais da vida social e impedir que o capital inevitavelmente mercantilize serviços essenciais: comida, saúde, energia, habitação, educação, etc. A única maneira de encontrar uma alternativa é ao nível estatal, e isso exige um Estado muito forte, comprometido com o socialismo, para limitar e lentamente confrontar o capitalismo. Esses estados devem ser grandes e fortes. Exemplos recentes da maré rosa na América Latina revelaram os limites de um "ir além do capitalismo", sem capacidades excecionais para desafiar o capital multinacional e os Estados imperialistas do Ocidente e de outros lugares que procuram mercantilizar toda a vida social.

O sistema capitalista não está dizimando populações inteiras e destruindo o planeta pelo seu modo irrestrito de consumo?

Sim, o sistema capitalista atualmente em vigor, o capitalismo neoliberal, destruiu muitos dos ganhos sociais do pós-guerra nos países do norte. Enquanto os residentes de países ricos da Europa, América do Norte, Oceânia e outros países estão sendo pressionados para continuarem consumindo, de facto, o padrão de vida aumentou ou não diminuiu na maioria dos países ricos [NT 2] . Devemos entender que os países capitalistas avançados representam talvez apenas mil milhões dos 7,7 mil milhões de pessoas que habitam o planeta. Se o sistema capitalista dos países ricos fosse reproduzido à escala mundial, o planeta deixaria de ser habitável para a população mundial, onde os bens não estão disponíveis para a vasta maioria da população. Apesar disto, o consumo dos países ricos em detrimento da maioria pobre conduz o mundo ao esgotamento dos recursos. O reconhecimento do impacto ecologicamente devastador da produção capitalista não levou a um declínio do consumo no Ocidente.

É um cientista político experiente e um sindicalista. Não acha que precisamos de mais sindicatos combativos do que nunca diante da ofensiva ultraliberal, da insegurança no emprego, do desemprego maciço, etc?

Sim absolutamente. Mas não precisamos apenas de mais sindicatos combativos, mas também de organizações mais fortes. Hoje, os cientistas sociais que estudam o trabalho têm-se concentrado em organizações combativas fracas, na linha dos Industrial Workers of the World e não em organizações fortes. Os sindicatos autónomos são vistos como uma nova forma de organização do trabalho. O que essa perspetiva deixa de fora é que os trabalhadores independentes sempre se comprometeram na luta contra os patrões. É verdade que muitos sindicatos existentes tornaram-se organizações burocráticas e fossilizadas e perderam o seu envolvimento na luta de classes, preferindo envolver-se na negociação de concessões com o capital. Mas isto é especialmente verdade porque os sindicatos não têm realmente o poder de derrotar o capital. A fábrica fordista é uma estrutura ultrapassada, assim como os sindicatos que representam um grande número de trabalhadores. Portanto, é importante ter não apenas sindicatos combativos, mas também sindicatos fortes. Na minha opinião, esses sindicatos devem alinhar-se com partidos políticos fortes e comprometidos, dedicados a derrotar o capitalismo e o imperialismo. De certa forma, isto inspira-se nos sindicatos do início do século XX, alinhados com partidos políticos. Hoje devemos aprender com os sucessos e erros do passado. Mas se a classe trabalhadora e a grande maioria dos pobres do mundo querem melhorar sua situação, devem organizar-se.

Não há uma necessidade estratégica de uma frente mundial de trabalhadores contra o capitalismo e o imperialismo?

Evidentemente, é sempre útil ter solidariedade entre os trabalhadores à escala global, mas, dadas as grandes diferenças nas condições económicas resultantes da transferência de valor dos países do Sul para o Norte, é improvável que trabalhadores em países ricos vão contra seus interesses económicos e desafiem o capitalismo e o imperialismo. Tomemos, por exemplo, as recentes eleições na Europa, América do Norte, Oceânia e países da OCDE, onde há um aumento dos movimentos da classe trabalhadora de direita que se opõem aos imigrantes, não põem em causa as políticas imperialistas e estão mais inclinados a aumentar os salários e as condições de proteção social do que a solidarizarem-se com os trabalhadores da África, Ásia e América Latina. Você está certo ao dizer que é necessário uma frente global de trabalhadores, mas, na minha opinião, essa frente virá de trabalhadores oprimidos no Sul, e não dos trabalhadores com a vida relativamente desafogada no Norte.

Os sindicatos burocráticos não abandonaram a luta da classe trabalhadora?

Sim, os sindicatos burocráticos abandonaram o apoio à luta de classes. Eles ignoraram as lutas espontâneas das bases por melhores salários, condições de trabalho e benefícios. Mas esse é geralmente o caso das organizações economicistas, razão pela qual também é necessário ter um compromisso político a favor do anti-capitalismo e do anti-imperialismo. Embora a luta seja longa e cansativa, na ausência de um partido de vanguarda e liderança dedicada à classe trabalhadora, as lutas diárias dos trabalhadores descritas em numerosos estudos por todo o mundo, não ganharão terreno. A burocracia sindical é também uma marca dos sindicatos que aceitaram e fizeram progredir o capitalismo e o imperialismo a todos os níveis. Assim, a Confederação Internacional dos Sindicatos (CSI) defende modelos sindicais que assumem uma posição subordinada em relação ao capital. Isso também se aplica aos sindicatos sectoriais nacionais, com algumas exceções na Ásia, sudeste da Ásia e sul da África, onde os sindicatos rejeitam uma posição subordinada e prometem combater o imperialismo.

No seu livro, muito importante para entender as lutas dos trabalhadores: "  pdfSouthern Insurgency: The Coming of the Global Working Class(3.96 MB) ", explora as novas lutas dos trabalhadores dos países do sul, como China, Índia e África do Sul. Quais são as especificidades da luta dos trabalhadores nesses países que menciona em seu livro?

O livro revela a chegada da classe trabalhadora global, revela a expansão das lutas de classe no sul global para construir sindicatos mais responsáveis e de combate de classe, em vez de sindicatos burocráticos ligados ao colaboracionismo com as administrações das empresas, o Estado e a troca de concessões. O livro mostra que os trabalhadores de todo o mundo estão envolvidos num poder de classe autónomo. Mesmo na China, os trabalhadores estão desenvolvendo organizações independentes que buscam a melhoria de condições. Embora as características de cada uma das lutas na indústria automobilística, na produção de calçado e nas minas sejam diferentes, o poder dos trabalhadores provem e é desenvolvido pelas atividades da base dos trabalhadores. Infelizmente, os sindicatos, como organizações económicas, são incapazes de afirmar as suas reivindicações para incluir todos os trabalhadores. Altos níveis de desemprego, baixos salários e condições inseguras não podem ser combatidos numa base nacional por assembleias de trabalhadores, sindicatos independentes e falta de liderança dedicada e com princípios. O livro presta homenagem às lutas de classe dos trabalhadores em cada um desses países, que fizeram as maiores greves da segunda década do século XXI, mas também mostra os limites dessas lutas para se transformarem em forças poderosas de mudança sistémica nacional e regional.

Na Argélia, os sindicatos autónomos comprovaram o seu espírito de luta, diferentemente do sindicato burocrático vinculado ao patronato. Não acha que, para ser eficaz, os movimentos sindicais precisam livrar-se da burocracia?

Sim, como já foi dito, a burocracia é uma função do economicismo, um esforço limitado para defender trabalhadores em sectores diferentes. Na Argélia, os sindicatos autónomos comprometeram-se em ações diretas contra o patronato, o seu espírito de luta é um modelo para os trabalhadores em todo o mundo. No entanto, esses sindicatos devem mostrar que têm capacidade de se transformar em organizações mais fortes. Na Argélia, esses movimentos foram reprimidos pelas forças de segurança do Estado. O que é necessário é que esses sindicatos se reúnam em órgãos maiores, com liderança coerente, dedicada às questões dos trabalhadores. É claro que os sindicatos devem libertar-se da burocracia, mas é importante não equiparar a burocracia ao poder político e económico. A autonomia tem de ser uma prática diária que deve ser reforçada pela capacidade de quebrar o sistema capitalista. Se as ações de massa foram muito impressionantes, então a classe trabalhadora argelina deve ser unificada para exigir concessões políticas e económicas específicas do Estado e do capital.

Fez um notável trabalho de antologia publicando "   pdfThe International Encyclopedia of Revolution and Protest: 1500 to the Present(41.02 MB)", em 8 volumes, e The Encyclopedia of Global Human Migration ,    folderThe Palgrave Encyclopedia Imperialism and Anti-Imperialism . " Para combater melhor o capitalismo, não será necessário cada um armar-se com as ferramentas teóricas que oferece em particular através de seus livros?

A educação é sempre um empreendimento importante e quanto mais sabemos sobre o mundo à nossa volta e a história dos movimentos de esquerda no passado, mais podemos aprender com os sucessos e os fracassos do passado. Cada um desses trabalhos tem como objetivo mostrar a diversidade de resistências que os oprimidos enfrentam para fazer avançar os seus interesses. Mas também mostram que, em muitos casos, os movimentos políticos são confrontados com o braço forte do Estado e do capital, que geralmente os vence. É importante lutar para vencer, em vez de lutar para perder. Assim, a gama de tendências políticas apresentadas nos livros mostra como diversos movimentos políticos tiveram êxito dispondo de poder suficiente para derrotar o Estado e o capital. Aliás, estou a terminar uma segunda edição da  pdfThe Palgrave Encyclopedia Imperialism and Anti-Imperialism(7.83 MB) , que mostra como as lutas com princípios, enraizadas na realidade, em vez de objetivos utópicos, são mais eficazes para melhorar as condições dos oprimidos.

É o editor do Journal of Labor and Society . Não acha que a classe trabalhadora em dificuldades precisa dos seus próprios media para combater os media de propaganda que estão nas mãos do poder do dinheiro?

Sim, é incontestavelmente necessário dispor de meios de comunicação poderosos que contrariem a propaganda que prevalece no sistema. Os trabalhadores não precisam apenas de revistas, mas também de programas populares, publicações on-line, filmes, literatura, etc. É uma realidade permanente que, mesmo nos meios universitários, as publicações de esquerda são vítimas de ataques e são vulneráveis porque são controladas pelas grandes editoras que geram milhares de milhões de receitas cada ano. Enquanto o Journal of Labor and Society tem 50 mil leitores por ano, os editores estão interessados nos lucros e na rentabilidade, desaprovando os periódicos e publicações que desafiam o capitalismo e o imperialismo. Aqueles de nós que se opõem ao sistema capitalista e ao imperialismo devem apoiar os jornais da esquerda. Mas são poucos. Cada vez mais, descobrimos que esses periódicos estão abandonando os seus princípios de justiça social em favor da rentabilidade, que é o seu principal indicador de sucesso. Posso citar inúmeros jornais de esquerda que adotaram o neoliberalismo e mudaram-se para o centro. Devemos cuidar e proteger não apenas os periódicos universitários, mas também todos os media que desafiam a injustiça do sistema político e económico.

Vemos cada vez mais guerras imperialistas lançadas em benefício dos grandes capitalistas e que visam saquear a riqueza dos povos. Na sua opinião, o movimento sindical e outras organizações da esquerda combativa nos países do norte não têm eles também um outro combate a travar, que é o de afirmar a sua solidariedade com os povos do sul, os condenados da Terra?

Eu concordo totalmente. O balanço da resistência da esquerda à guerra imperialista é lamentável e fraco. Por vezes, grande parte dos esquerdistas apoia a guerra imperialista com base em intervenções humanitárias artificiais. Os sindicatos nos Estados Unidos e noutros países imperialistas, geralmente apoiam as orientações políticas das forças armadas, do Departamento de Estado e dos serviços secretos. Será necessária uma educação significativa para combater as agendas imperialistas dos países do norte, pois praticamente não há oposição. Estou a trabalhar num projeto com o tema da guerra sob a forma de sanções, para demonstrar que as sanções são usadas como instrumento de guerra em dezenas de países opostos aos Estados Unidos, Europa Ocidental e seus aliados. As sanções são uma forma híbrida de guerra, que em muitos casos mata mais pessoas do que um conflito militar por falta de acesso a alimentos, medicamentos, saneamento e outras necessidades. Mulheres e crianças são particularmente vulneráveis às sanções económicas. Os países não conseguem reconstruir as infraestruturas após a devastação das guerras. Essas guerras e sanções são travadas desproporcionalmente contra os Estados do sul, do sudoeste da Ásia, norte da África, África ao sul do Saara, América Latina e Caribe.

As guerras imperialistas beneficiam os grandes capitalistas dos Estados mais ricos e, como diz, saqueiam a riqueza dos povos e criam mais miséria. Não vejo o movimento sindical e a esquerda dos países do Norte comprometidos em solidariedade. A oposição vem de grupos geralmente restritos que reconhecem que essas guerras beneficiam o norte. Portanto, embora os media ocidentais frequentemente se oponham aos custos das guerras, referem-se aos dólares gastos pelos Estados Unidos, Europa e outros países ocidentais, e não ao custo infligido aos países do sul. No entanto, nós ocidentais não devemos escapar às nossas responsabilidades simplesmente porque nossos países são os beneficiários da guerra imperialista. Temos que lutar todos os dias para alterar os planos e opormo-nos à guerra. É nossa tarefa, é nossa responsabilidade. Estou no processo conclusão de três novos livros no próximo ano sobre estes assuntos.

05/Fevereiro/2020
NT]
[1] Ao dizer isto ele parece dar razo à rendio de ex-marxistas à social-democracia e ignorar que a luta de massas no pode ser desligada da luta ideolgica a fim de superar o sistema – mesmo que esta seja "longa e cansativa", como diz.   Combater a retrica é correcto, mas a luta ideolgica nada tem que ver com retrica e no deve ser abandonada. Retrica o disfarce dos que se voltaram para a social-democracia colaboracionista.
[2] No assim, pelo contrrio. O objectivo do neoliberalismo destruir todos os direitos sociais (as reformas).   As lutas dos coletes amarelos ou mesmo nos EUA so exemplos que no podem ser ignorados.

[*] Professor de ciência política no Brooklyn College da City University de Nova York. É especialista em organização dos trabalhadores, mobilização política e ativismo sindical. O seu trabalho levou-o a viajar por muitos países, principalmente na América do Norte, Ásia e África. A pesquisa e as publicações do Dr. Ness concentraram-se na economia política dos movimentos sindicais, na organização social dos trabalhadores, nas relações do Sul, no socialismo e no imperialismo contemporâneo. É co-editor do Journal of Labor and Society . O Dr. Ness também é investigador associado sénior do Centro de Mudança Social da Universidade de Joanesburgo. Foi organizador e ativista sindical entre 1989 a 2011.

O original encontra-se em mohsenabdelmoumen.wordpress.com/... . Tradução de DVC.

 

 

Baixar:

pdfGlobal Perspectives on Workers' and Labour Organizations(1.96 MB)

pdfThe Palgrave Encyclopedia of Imperialism and Anti Imperialism(7.83 MB)

pdfThe International Encyclopedia of Revolution and Protest. 1500 to the Present(41.02 MB)

pdfSouthern Insurgency The Coming of the Global Working Class(3.96 MB)

pdfChoke Points Logistics Workers Disrupting the Global Supply Chain(3.06 MB)

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/guerras_imperialistas_05fev20.html

A devolução do património saqueado pelos impérios coloniais

Manuel Augusto Araújo    11.Feb.20 

O saque do património cultural dos povos dominados atravessa toda a História. Acontece que a nossa época é a do esforço descolonizador e da reivindicação de igualdade entre Estados soberanos. As potências coloniais e neo-coloniais têm uma dívida – também cultural - a pagar, e um património a restituir.

A destruição e o saqueio do património cultural foi e é uma prática corrente, por motivos religiosos mas sobretudo políticos. Destruir o património cultural dos povos destrói a sua memória e identidade.

Os debates sobre a restituição dos bens culturais, objectos e documentos, às ex-colónias só muito recentemente acontecem em Portugal, ao contrário da Europa, em particular na França e Alemanha, onde decorrem há vários anos. Tiveram novo impulso em França quando Macron criou um grupo de estudo com base num documento em que se propõe a «restituição plena e incondicional de todos os bens que foram retirados sem consentimento dos territórios africanos». Tem sido intensa a discussão entre antropólogos, etnólogos, directores de museus e outros especialistas num debate que tem muito de cultural mas é sobretudo político. Naturalmente mais intensa nos países que tiveram impérios coloniais, em que uma grande parte dos intervenientes parte da premissa que o colonialismo foi um crime, embora também parte substancial desses litigantes se exima de considerar que a exploração colonial, a escravatura, o trabalho forçado são o núcleo duro da consolidação do regime capitalista até ao seu formato actual.

A destruição e os saques dos patrimónios culturais dos países tem uma longa história e está longe de se confinar a África. Durante séculos a destruição e a pilhagem do património cultural, sempre relacionado com grandes convulsões históricas, não provocava escândalo. O vandalismo das tribos bárbaras foi, durante séculos, uma normalidade. Só no Renascimento, quando Petrarca se indigna com a destruição de templos e palácios de Roma, perpetrada pelos próprios romanos, é que se começam a gerar movimentos em favor da sua preservação.

É na Revolução Francesa, no ano de 1790, que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, em contra-ciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. A Notre-Dame é um excelente exemplo. Era um forte símbolo da unidade entre a religião e monarquia que oprimia o povo de tudo o que contrariava os ideais do Iluminismo e da Revolução. As estátuas dos reis foram decapitadas, a arquitectura gótica brutalizada. Só transcorrido um século, com a Notre-Dame em estado deplorável, é que, depois de Victor Hugo escrever Notre-Dame de Paris, em que a catedral é o personagem principal e o corcunda o secundário, se iniciou o processo de restauração dirigido por Viollet-le-Duc. Isso também só foi possível pela mudança de mentalidades em relação ao património cultural iniciada pela Revolução Francesa, tivesse ou não conhecimento das iniciativas pioneiras de Petrarca no séc. XIV, iniciando um processo de protecção, conservação e valorização do património com os subsequentes desenvolvimentos a nível mundial.

Nada disso obstou a que a destruição do património cultural continuasse a ser uma prática corrente, com objectivos religiosos – como aconteceu com as gigantescas estátuas dos Budas de Bamyan, destruídas por ordem do governo fundamentalista dos talibãs, os quais, se deverá sempre recordar foram uma invenção da CIA e dos serviços secretos paquistaneses – mas sobretudo políticos. A estratégia política, destruindo ou danificando os patrimónios culturais dos povos, tinha e tem o objectivo de destruir as suas memórias e identidades, de afirmar a supremacia do ocupante. Não poucas vezes essa estratégia se associa ao roubo e tráfico ilegal com fins altamente lucrativos, de que são exemplo as estátuas e os baixos relevos do Partenón que Lord Elgin vendeu ao governo britânico e que repousam no British Museum, surdos às reivindicações gregas de sua devolução, apesar de serem apoiadas pela UNESCO. No quadro do tráfico ilegal, directa ou indirectamente suportado politicamente, é de referir os saques efectuados no Museu de Bagdade e sítios arqueológicos do Iraque depois da sua invasão – com um pretexto falso completamente fabricado – pelas tropas norte-americanas e aliados, que causaram estragos irreparáveis. Um saque de dezenas de milhares de antiguidades de que houve conhecimento público pelas reportagens do The Independent e do The Guardian. Um roubo efectuado por vulgares ladrõezecos ombro com ombro com um bando de larápios bem informados, cultos, traficantes especializados que o invadiram enquanto as tropas norte-americanas guardavam a ferro e fogo os poços de petróleo, como foi denunciado na altura, no Parlamento português, pelo PCP.

De Napoleão a Hitler

Essa estratégia política em relação ao património cultural tem em Napoleão um cume. Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e norte de África, Egipto e Alexandria foi sistemática e sem precedentes. Eram troféus de guerra que mostravam ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. O objectivo do imperador era distribuir as obras de arte pelos museus franceses, construir um grande museu, o Museu Napoleão, em Paris. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história mundial determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem numa grande operação de retorno, embora parte desse espólio não tenha ou ainda não tenha sido restituído, já lá vão quase duzentos anos. O Casamento em Caná de Paolo Veronese, roubado de um convento de Veneza, continua em exposição no Museu do Louvre.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, a cidade onde tinha nascido, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi. Uma comissão dirigida por Hans Posse foi encarregada da selecção que se iniciou na Alemanha, separando as obras de arte que iriam ser deslocadas para Linz das obras de arte degeneradas – de Matisse, Picasso, Kandinsky, Chagall, Van Gogh e outros – que seriam destruídas ou vendidas a preços de saldo. Com o desenrolar da guerra todos os museus e casas de coleccionadores privados foram saqueadas pelo mesmo critério, as obras transportadas e armazenadas na Alemanha enquanto o museu estava em construção. De caminho muitos dignitários e generais nazis, também coleccionadores, aproveitaram para enriquecer as suas colecções. Os exércitos aliados, conhecedores dessa situação, à medida que avançavam recuperavam-nas. Mais de 8 000 obras foram encontradas no castelo de Neuschwanstein e quase 7 000 nas minas de sal de Altaussee. Ao todo os nazis roubaram mais de 20 000 obras de arte, praticamente 20% das obras de arte europeias. Muitas das obras de arte ainda não foram encontradas, provavelmente na posse de pessoas que as compraram durante a guerra a preços módicos.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia em 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural que, de certo modo, está na origem dos actuais debates sobre a devolução dos artefactos de arte aos países colonizados pelos colonizadores.

Património, colonizados e colonizadores

Várias questões se colocam. Na comunidade científica teme-se o esvaziamento dos museus europeus de Etnologia e Antropologia. O mais paradigmático será o British Museum, uma venerável instituição, um dos mais antigos e visitados museus do mundo, fundado em 1753, com mais de oito milhões de antiguidades das mais diversas e remotas culturas. Antiguidades expropriadas e pilhadas em nome da ciência por ilustríssimos cientistas que durante mais de 150 anos pesquisaram sítios arqueológicos na Mesopotâmia, Egipto, Arábia, Palestina, Turquia ou as adquiriram por tráfico suspeito, como os já referidos «mármores de Elgin» ou como troféus de conquistas como a estátua da Ilha de Páscoa, oferecida à rainha Victoria pelos triunfantes marinheiros ingleses. O British Museum, uma referência entre os museus mundiais, com um espólio que é a excelência exemplar dos saques feitos em nome da exploração científica, poderá estar agora ameaçado por esta vaga devolutiva.

Muitos querem remeter o problema para a área científica, questionando inclusivamente a capacidade das instituições dos países de origem em preservar e criar espaços especializados para o seu conhecimento e divulgação, o que é um argumento com bastante razoabilidade. Só que a questão é sobretudo política. É reconhecer todo o passado colonial esclavagista em que não existem bons, maus ou assim-assim colonizadores. São todos maus e construiram muita da sua prosperidade na exploração desenfreada das colónias. É reconhecerem a destruição social, económica e cultural que realizaram. É reconhecerem um passado colonial bem sintetizado na frase «exterminem todas as bestas», do sinistro Kurtz no romance O Coração das Trevas de Joseph Conrad (Editorial Estampa, 1983), expressão do colonialismo justificado em nome do «progresso» e da «civilização». É reconhecerem que as antigas colónias são hoje países com direitos iguais.

Se receiam que as antigas colónias sejam carentes de meios técnicos e científicos, ou mesmo de capacidade económica para construirem ou requalificarem sítios para recepcionarem os artefactos artísticos que povoam os museus europeus podem, devem, associar à sua devolução a oferta, se solicitada, desses meios. Será um processo lento mas é um caminho a percorrer na descolonização das mentalidades e na reposição possível, ainda que insuficiente, de todo um brutal saque feito durante centenas de anos.

A discussão em Portugal, suscitada pelo O Programa para a Descolonização da Cultura apresentado na Assembleia da República, tem sido inquinada pelo conteúdo desse Programa que, bem lido, é superficial, para não referir as formulações pedantes que por lá abundam, em que se dá ênfase à devolução dos objectos sem sequer referir que essa devolução deve incidir nos objectos e colecções que tenham sido obtidos por pilhagens ou compras abusivas. Mais grave, como isso fosse ponto de partida de um processo que é muitíssimo mais multiforme, tem muitas outras componentes entre si correleccionadas em que a devolução dos objectos às suas origens é um dos pontos mas não o seu ponto de partida. Considerar que a descolonização dos museus praticamente se confina a uma «a produção de uma listagem nacional de todas as obras, objectos e património trazidos das antigas colónias portuguesas e que estão na posse de museus e arquivos nacionais» até é de uma linearidade confrangedora. O que está em causa, em Portugal e no mundo, é um processo de descolonização cultural liberto dos vícios de uma visão eurocêntrica e elitista que deve ser desconstruída. A devolução dos objectos é obviamente parte integrante desse processo longo, complexo e moroso de que não se pode excluir o diálogo intercultural que aconteceu, foi e é importante, apesar de todos os seus sobressaltos e episódios pouco dignificantes.

Há ainda a questão das colecções privadas. Em Portugal as de José Guimarães e de Berardo, muitíssimo relevantes em relação à África Subsaariana. Uma questão complicada, porque os processos de aquisição das peças que as integram não são postos em causa, foram adquiridas como o são qualquer obra de arte, mas deve ser encarada pelo governo na perspectiva de se devolverem as obras roubadas e de se organizar um Museu das Descobertas e da Colonização, com esta ou outra denominação. Tema mais complexo em que o nosso passado colonial deve figurar com o seu longo rol de iniquidades em que as populações indígenas, depois de abolida a escravatura foram submetidas ao trabalho forçado e outras leis que os excluíam socialmente. Se o passado colonial é vergonhoso as descobertas são um marco na história da humanidade.
Devolvam-se as obras, assuma-se o terrível passado colonial, construa-se um museu sobre esse período da história que se é bem negro também é notável na história do mundo e de Portugal, como bem o defende Borges Coelho : «Na verdade, foi um período fantástico na História da Humanidade, exactamente como ela é. Não podemos dizer que não houve bandidos – houve montanhas [deles]. O Albuquerque foi um homem terrível, mas foi também um homem de génio, que abriu uma rota efectiva na História da Humanidade, ele o [Vasco da] Gama e companhia» (…) «um museu com tudo lá e não só o retrato do herói com as flores em baixo, mas que refira os vários povos».

A talhe de foice outra questão obliquamente relacionada. Portugal também foi vítima de espoliações durante as Invasões Francesas, não só pelos franceses mas também pelos nossos aliados ingleses.1 Não estará na altura de serem recuperadas?

1.Para não falar da incursão de Francis Drake em Faro (1596), de onde o seu amigo Robert Devereux, Duque de Essex, saqueou a preciosa biblioteca do bispo D. Fernando Martins de Mascarenhas, uma importante figura da cultura portuguesa dos séculos XVI e XVII. Os livros ainda hoje permanecem na biblioteca Bodleian, em Oxford, e têm sido objecto de polémica. Ver The Portuguese American Journal (2014) e Algarve Daily News (2018).
(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt )

Fonte: https://pracadobocage.wordpress.com/

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O imperialismo e o desenvolvimento

Do site A Terra É Redonda

“As grandes potências são aqueles Estados de toda parte da Terra que possuem elevada capacidade militar perante os outros, perseguem interesses continentais ou globais e defendem estes interesses por meio de uma ampla gama de instrumentos, entre os quais a força e ameaças de força, sendo reconhecidos pelos Estados menos poderosos como atores principais que exercem direitos formais excepcionais nas relações internacionais” Charles Tilly, Coerção, Capital e Estados Europeus (Edusp, 1996, p. 247).

Foi depois da Primeira Grande Guerra que o movimento socialista internacional repudiou o colonialismo europeu e transformou o “imperialismo” no inimigo número um da esquerda mundial. Assim mesmo, quando os socialistas chegaram pela primeira vez ao poder na Europa e foram obrigados a governar economias capitalistas, não conseguiram extrair consequências da sua própria teoria do imperialismo para o plano concreto das políticas públicas.

Quando foram chamados a comandar diretamente a política econômica, como no caso de Rudolf Hilferding, entre outros, seguiram o receituário vitoriano clássico, do “sound money and free markets”– até muito depois da Segunda Guerra, quando aderiram, já nos anos 1960 e 1970, às ideias, propostas e políticas keynesianas. Mas na década de 1980, estes mesmos partidos se converteram ao programa ortodoxo da austeridade fiscal e das reformas liberais que levaram à desmontagem parcial do Estado de Bem-estar Social.

Esse mesmo problema reapareceu de forma mais dramática quando tocou aos socialistas e às forças de esquerda governarem países “periféricos” ou “subdesenvolvidos”. Também nestes casos, os teóricos do imperialismo e da dependência tiveram muita dificuldade para decidir qual seria o modelo de política econômica “ideal” para as condições específicas de um país situado no “andar de baixo” da hierarquia mundial do poder e da riqueza.

No caso da América Latina, a CEPAL formulou nos anos 50 uma teoria “estruturalista” do comércio internacional e da inflação e propôs um programa de industrialização por “substituição de importações” que lembrava as teorias e propostas de Friederich List, economista alemão do século XIX, com a diferença de que as ideias cepalinas não tinham nenhum tipo de conotação nacionalista, ou de coloração anti-imperialista.

 

Na prática, entretanto, dentro e fora da América Latina, os governos de esquerda dos países periféricos acabaram, quase invariavelmente, derrubados ou estrangulados financeiramente pelas grandes potências do sistema mundial, sem terem conseguido descobrir o caminho do crescimento e da igualdade, dentro de uma economia capitalista subdesenvolvida, e no contexto de um sistema internacional assimétrico, competitivo e extremamente bélico. Apesar de tudo, essas experiências deixaram um ensinamento fundamental: o de que os modelos e as políticas econômicas que funcionam em um país do “andar de cima” não funcionam necessariamente em países situados nos escalões inferiores do sistema, e menos ainda, quando esses países do “andar de baixo” tiveram a ousadia de querer mudar sua posição relativa dentro da hierarquia mundial do poder.

Desta perspectiva, para poder avançar neste debate, é útil distinguir pelo menos quatro tipos ou grupos de países [1], do ponto de vista de sua estratégia de desenvolvimento e de sua posição com relação à potência dominante em cada um dos grandes tabuleiros geopolíticos e econômicos do sistema mundial.

No primeiro grupo, encontram-se os países que lideram ou lideraram a expansão do sistema mundial, em distintos níveis e momentos históricos, as chamadas “grandes potências”, do presente e do passado, desde a origem do sistema interestatal capitalista.

 

No segundo grupo, estão os países que foram derrotados e submetidos pelas grandes potências, ou que adotaram voluntariamente estratégias de integração econômica com as potências vitoriosas, transformando-se em seus dominiums econômicos e protetorados militares.

No terceiro grupo devem ser situados os países que lograram se desenvolver questionando a hierarquia internacional estabelecida e adotando estratégias econômicas nacionais que priorizaram a mudança de posição do país dentro do poder e da riqueza mundiais.

Por fim, no quarto grupo, podemos situar todos os demais países e economias nacionais situadas na periferia do sistema e que não puderam ou não se propuseram sair dessa condição, ou mesmo sofreram um processo de deterioração ou decadência depois de terem alcançado níveis mais altos de desenvolvimento, como no caso de alguns países africanos e latino-americanos.

No caso da América Latina, a potência dominante sempre foi os Estados Unidos. Desde a Segunda Guerra Mundial, até o final da década de 1970 pelo menos, os Estados Unidos defenderam e patrocinaram na sua “zona de influência” um projeto de tipo “desenvolvimentista” que prometia rápido crescimento econômico e modernização social, como caminho de superação do subdesenvolvimento latino-americano. Mas depois da sua crise dos anos 1970, e em particular na década de 1980, os norte-americanos mudaram sua estratégia econômica internacional e abandonaram definitivamente seu projeto e patrocínio desenvolvimentista.

Desde então, passaram a defender, urbe et orbi, um novo programa econômico de reformas e políticas neoliberais que ficou conhecido pelo nome de “Consenso de Washington”, que se transformou no núcleo central de sua retórica vitoriosa depois do fim da Guerra Fria. Combinavam a defesa dos mercados livres e desregulados com a defesa da democracia e da desestatização das economias que haviam seguido seu ideário anterior, que propunha um crescimento econômico rápido e induzido pelo Estado.

Foi o momento em que o neoliberalismo se transformou no pensamento hegemônico de quase todos os partidos e governos da América Latina, incluindo os partidos socialistas e socialdemocratas. Na segunda década do século XXI, entretanto, os Estados Unidos voltaram a redefinir e mudar radicalmente seu projeto econômico para a periferia latina e mundial, defendendo um ultraliberalismo radical e com forte viés autoritário, sem nenhum tipo de preocupação social ou promessa para o futuro, seja de maior justiça ou de maior igualdade.

É nesse contexto hemisférico que se deve ler, interpretar e discutir a trajetória econômica brasileira da Segunda Guerra Mundial até hoje, começando pelo sucesso econômico do seu “desenvolvimentismo conservador”, que foi sempre tutelado pelos militares e apoiado pelos Estados Unidos. Em troca, durante todo esse período, os militares brasileiros submeteram-se à estratégia militar dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, transformando-se no único caso de sucesso no continente latino-americano daquilo que alguns historiadores econômicos costumam chamar de “desenvolvimento a convite”, que se encaixa diretamente no segundo tipo de estratégia e de desenvolvimento da nossa classificação anterior. Ressalva deve ser feita ao governo Geisel, que se manteve fiel ao anticomunismo americano, mas ensaiou uma estratégia de centralização e estatização econômica e de conquista de maior autonomia internacional, que foi vetada e derrotada pelos Estados Unidos e pelo próprio empresariado brasileiro. [2]

É exatamente o período “geiselista” do regime militar brasileiro que deixa muitos analistas confusos quando o comparam com o ultraliberalismo do atual governo “paramilitar” instalado no Brasil em 2018. Na verdade – excluída a “excrecência bolsonarista” –os militares brasileiros seguem no mesmo lugar, ocupando a mesma posição que ocuparam nos golpes de 1954 e de 1964: aliados com as mesmas forças conservadoras e com a extrema-direita religiosa, e alinhados de forma incondicional e subalterna com os Estados Unidos.

E é por isto exatamente que não representa nenhum constrangimento para eles o fato de terem sido “nacional-desenvolvimentistas” na segunda metade do século XX, e serem agora “nacional-liberistas” neste início do século XXI. Acreditam que, uma vez mais, seu alinhamento automático com os Estados Unidos lhes garantirá o mesmo sucesso econômico que tiveram durante a Guerra Fria, só que agora através de mercados desregulados, desestatizados e desnacionalizados.

O que os atuais militares brasileiros ainda não perceberam, entretanto, é que a estratégia de desenvolvimento ultraliberal se esgotou em todo o mundo, e em particular no caso dos Estados e economias nacionais de maior extensão e complexidade, como o Brasil. Os Estados Unidos já não estão em condições nem querem assumir a responsabilidade pela criação de um novo tipo de “dominium canadense” ao sul do continente americano. Além disso, nesta nova fase os EUA estão inteiramente dedicados à competição entre as três grandes potências que restaram no mundo [3]; não têm mais nenhum tipo de aliado permanente ou incondicional, com exceção de Israel e da Arábia Saudita; e consideram que seus interesses econômicos e estratégicos nacionais estão acima de qualquer acordo ou aliança com qualquer tipo de país, que por definição será sempre passageira.

Por sua própria conta, a agenda ultraliberal pode garantir um aumento da margem de lucro dos capitais privados, sobretudo depois da destruição da legislação trabalhista, e durante o período das grandes privatizações. Mas, definitivamente, a agenda ultraliberal não conseguirá dar conta do desafio simultâneo do crescimento econômico e da diminuição da desigualdade social brasileira.

No entanto, esse “fracasso anunciado” traz de volta o grande desafio e a grande incógnita da esquerda e das forças progressistas, até porque o antigo desenvolvimentismo brasileiro não foi uma obra de esquerda, mas sobretudo uma obra conservadora e militar que não teria tido grande sucesso se não tivesse contado com o “convite” norte-americano. E exatamente por isso fica muito difícil querer reinventá-lo utilizando apenas novas fórmulas e equações macroeconômicas. Talvez por isto mesmo às vezes se tem a impressão, hoje, de que a esquerda econômica vive prisioneira de um debate circular e inconclusivo, sempre em busca da fórmula mágica ou ideal que supõe ser capaz de responder por si só ao triplo desafio do crescimento, da igualdade e da soberania.

Nesses momentos de grandes “bifurcações históricas”, é preciso ter coragem de mudar a forma de pensar, é preciso “rebobinar” as ideias, mudar o ângulo e trocar o paradigma. Isto é muito difícil de esperar dos militares porque eles foram educados para pensar sempre da mesma maneira, e foram treinados para fazer a mesma coisa todo dia, em ordem unida.

O problema maior, entretanto, vem da resistência dos economistas progressistas que, quando ouvem falar em “imperialismo”, “dependência” ou em “assimetria do poder internacional”, preferem se esconder atrás do argumento velho e preguiçoso de que se trata de uma “visão conspiratória” da História, sem querer enfrentar a dura realidade revelada por Max Weber, quando nos ensinou que “os processos de desenvolvimento econômico são lutas de poder e dominação [e por isto] a ciência da política econômica é uma ciência política, e como tal não se conserva virgem com relação à política quotidiana, a política dos governos e das classes no poder, e pelo contrário, depende dos interesses permanentes da política de potência das nações”.

*José Luís Fiori é professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ.

Notas

[1] José Luís Fiori. História, estratégia e desenvolvimento. Petrópolis, Vozes, 2015, p: 43-44.

[2] “O governo Geisel tentou impor um novo movimento de centralização econômica, mas já não encontrou o apoio social e político – nacional e internacional – de início do regime militar. Por isso fracassou, e apesar da aparência em contrário, seu intento acelerou a divisão interna dos militares, que cresceu ainda mais nos anos seguintes e acabou levando-os à impotência final”. José Luís Fiori Conjuntura e ciclo na dinâmica de um Estado periférico. Tese de Doutoramento, USP, 1985, p. 214.

[3] Cf. COLBY, E.A. e MITCHELL, A. W. “The Age of Great-Power Competition. How the Trump Administration Refashioned American Strategy”. Forerign Affairs This Week. December 27, 2019.

[4] Max Weber. Escritos políticos. México, Folio Ediciones, 1982, p. 18.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/o-imperialismo-e-o-desenvolvimento

POR UMA MUDANÇA DE PARADIGMA EM ÁFRICA

 
 
 
“ENCONTRO MUNDIAL CONTRA O IMPERIALISMO”
 
"Pela vida, soberania e paz"
 
Caracas - Venezuela, de 22 a 24 de janeiro de 2020
 
A Venezuela Bolivariana é um inestimável património de vida, de soberania e de paz para toda a humanidade e como tal deve ser defendida por todos aqueles que trilham a lógica com sentido de vida, onde quer que seja a âncora de sua existência e por isso particularmente a partir dos mais obscuros rincões do planeta!
 
Desde África junto-me ao ENCONTRO MUNDIAL CONTRA O IMPERIALISMO, por que a resoluta alternativa à barbárie do império, é a civilização que luta pela vida, pela soberania e pela paz para toda a humanidade!
 
POR UMA MUDANÇA DE PARADIGMA EM ÁFRICA
 
COMUNICAÇÃO
 
I
 
01- África é, em qualquer quadro de globalização que se procure sintetizar uma avaliação do estado do mundo, uma ultraperiferia onde persiste crónico subdesenvolvimento e todo o tipo de fragilidades e vulnerabilidades próprias dessa condição, agravadas desde os artifícios coloniais e particularmente desde a Conferência de Berlim realizada entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885 (redundante da revolução industrial).
 
02- África foi alvo dum processo de descolonização tardio que não quebrou muitos dos expedientes de assimilação de raiz colonial, apesar da luta de libertação que terminou com a derrota do colonialismo português e britânico na África Austral durante a década de 70 do sáculo XX e o colapso do “apartheid” na África do Sul em princípios da década de 90 do século XX;
 
03- Por essa razão África, face ao império da hegemonia unipolar e seu sistema de vassalagens, “coligações” e “emparceiramentos”, é um dilecto campo de manobra neocolonial onde todo o pacote de acções da hegemonia se repercute intensamente, sem que haja resistências significativas, ou alternativas de vulto, inclusive em todo o tipo de transversalidades sociais.
 
04- Neste momento e nesse sentido, as políticas capitalistas neoliberais são instrumentalizadas pelos interesses do império de hegemonia unipolar, de forma a condicionar as nações, os estados e os povos do continente, mantendo o pendor extractivista de matérias-primas indispensáveis para as indústrias do leque propiciado pela revolução industrial, como pela revolução das novas tecnologias.
 
 
 
05- Esse é o modo operativo da devassa, em relação ao qual destaco entre outras coisas, intimamente associadas ou interligadas:
 
. A fragilização intempestiva dos processos antropológicos próprios, por via dos imperativos do modelo de globalização ao sabor do império;
. A fragilização dos processos de produção, sem que haja o florescimento das actividades industriais compatíveis com o século XXI;
. A sobre-exploração da força de trabalho (mão-de-obra barata ou em muitos casos quase escrava, ou escrava);
. A tendência para processos de dolarização das economias, particularmente as dependentes da exploração de petróleo e gás, assim como as mineiras (entre elas as do âmbito dos carteis dos diamantes, do ouro e da platina);
. A impossibilidade dos africanos terem voz activa sobre os mercados internacionais, inclusive onde eles, pela natureza dos seus produtos, têm maior peso, o que implica na imposição de valores ditados pelos compradores de outros continentes, subalternizando os produtores (factor que é aproveitado sobretudo pelas transnacionais que investem em África);
. Uma gritante ausência de estruturas e infraestruturas, o que influi nas dificuldades para os movimentos humanos e, com isso, promovendo assimetrias e dificultando os expedientes de comunicação e integração;
. A abertura de cada vez mais espaços nas praças económicas e financeiras, para o exercício do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, filiados nos interesses, ingerências e manipulações do império, como acontece por exemplo em Angola;
. O recurso a parâmetros de guerra psicológica “soft power” a fim de influenciar as elites e as sociedades africanas, ampliando o espectro das ingerências e manipulações sobre as nações, os estados e os povos-alvo, levando em alguns casos a penosas fracturas, divisões, ou mesmo à desagregação;
. O recurso a parâmetros de ciberguerra, sempre que justifiquem os interesses do império nos seus jogos africanos e em reforço dos seus expedientes cibernéticos e outros (entrosando processos “techint” a processos “humint”);
. A fermentação de jogos elitistas de inteligência, que inclui capacidades de manipulação entre contrários e de gestação de sínteses de conveniência (como o KAZA-TFCA, criado sobre os campos de batalha transfronteiriços do sudeste angolano);
. O recurso à legião estrangeira composta pelos “inimigos úteis” mobilizados em função da “coligação” dos Estados Unidos com as monarquias arábicas de tendência wahabita-sunita (sobretudo a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos), fundamentalmente desde a destruição da Líbia em 2011 (redes da Al Qaeda e do Estado Islâmico, que em África tem como exemplo último a sangrenta expressão do Boko Haram em torno do Lago Chade, um lago em vias de desaparecer);
. A contínua pressão elitista sobre os estados, de forma a justificar as alianças de inteligência e militares propícias ao neocolonialismo e do âmbito das articulações instrumentalizadas pelo império da hegemonia unipolar, uma vez declarado o módulo de caos, terrorismo e/ou desarticulação, (ainda que ele seja de “baixa intensidade” é sempre de “geometria variável”), o que é sobremodo visível ao longo de toda a transversal este-oeste do Sahel, desde a Somália ao Mali;
. O reaproveitamento de quadros e cenários coloniais, como é o exemplo mais flagrante da “FrançAfrique” na África Ocidental;
. A subversão (em nome da “democracia”) do quadro de leis que regem desde os relacionamentos internacionais, à constitucionalidade das nações e estados africanos e de suas tuteladas democracias representativas;
. O crescimento exponencial de mensagens produzidas pelos processos dos media de conveniência sobre África, afogando a inferior capacidade de produção de mensagens dos africanos em relação a si próprios;
. A possibilidade de criar e recriar impactos antropológicos e culturais em regime de “soft power”, tirando partido do poder do império sobre as novas tecnologias e de forma a formatar uma mentalidade-padrão que impossibilite o conhecimento dos africanos sobre si próprios, de tão mergulhados que ficam entre alienações, ilusões, ingerências e manipulações;
. O aproveitamento das profundas alterações climático-ambientais provocadas pelo homem (e sobretudo pela acção do império cujo fulcro são os Estados Unidos, eles próprios autoexcluídos do Acordo de Paris), tendo em conta a expansão dos maiores desertos quentes do globo (cada vez mais sobreaquecidos) e a pressão sobre as regiões onde, em condições equatoriais e tropicais, há riqueza de água e espaço vital;
. A compressão sobre espaços vitais existentes em função das bacias de grandes rios (como o Nilo, o Níger, o Congo, ou o Zambeze), ou de Grandes Lagos (Vitória, Tanganika…), provocada pelos movimentos impressivos de culturas humanas de nomadização sobre as culturas humanas de sedentarização ali onde há propício espaço vital (o que faz aumentar o regime de tensões, como não deixa de acontecer na República Democrática do Congo e Grandes Lagos);
. A organização da sistematização das ingerências e manipulações, de forma estratificada mas expansiva, por parte do império da hegemonia unipolar, particularmente desde a implantação do AFRICOM, em 2007, que programou a viragem a favor do ciclo de dependências a partir da implantação dos mecanismos do poder do império na Líbia, em 2011.
 
06- A evolução global aponta para uma vulnerabilização e fragilização de África ainda mais intensa, num quadro de neocolonialismo e assimilação, que tudo aponta que se vai continuar a acentuar!
 
 
 
II
 
07- Impõe-se a África uma mudança de paradigma em resposta ao avanço neocolonial nos termos da globalização segundo o império da hegemonia unipolar, pelo que antes do mais, os africanos devem conhecer-se e reconhecer-se a si próprios, num esforço próprio vocacionado para um contínuo processo de resgate cultural progressista, tendo em conta os impactos culturais que procuram conduzir à sua perda de identidade por via de doutrinas, filosofias, alienações, ilusões, ingerências e manipulações estimuladas pelo império;
 
08- Essa recuperação de identidade numa trilha de lógica com sentido de vida que dê sequência à cultura criada pelo movimento de libertação em África, não se deve limitar ao próprio continente, mas vocacionar-se na vastidão das duas margens do Atlântico Sul, integrando os relacionamentos com os afrodescendentes espalhados pelo mundo e, em função deles, com os processos progressistas e de libertação sobretudo na América Latina e Caribe;
 
09- Esses relacionamentos tornam-se indispensáveis para gerar articulações capazes de comunicabilidade entre si, de forma a ampliar o conhecimento dos desafios e riscos que pendem sobre África, quer os que redundam da situação crónica de subdesenvolvimento, quer os que, em função disso, são aproveitados e reaproveitados pelo império, seus vassalos e “coligações” em todo o continente, região a região, estado a estado e comunidade a comunidade;
 
10- O arranque do conhecimento científico compatível com o abandono do improviso e do empirismo, torna-se indispensável aos africanos e para benefício dos africanos e da humanidade, num processo fora da esquadria dos elitismos sob influência do poder imperial e instalado pelos tentáculos de transnacionais, suas “think tanks” e carteis (de que é exemplo negativo o Botswana);
 
11- O conhecimento do processo dialético que envolve os factores físicos, geográficos, climáticos e ambientais, entrosados com os factores humanos, torna-se indispensável para gerar a vocação duma geoestratégia africana para um desenvolvimento sustentável, ao nível da União Africana e de forma a integrar num expediente comum, numa base de lógica com sentido de vida, todos os estados africanos, distribuindo ao mesmo tempo os papéis e funções de cada um;
 
12- A gestação duma geoestratégia de desenvolvimento sustentável, deve procurar valorizar prioritariamente, acima de quaisquer outros projectos transnacionais como por exemplo é o caso da Nova Rota da Seda que vai estimulando a Etiópia e o Quénia, a urgente necessidade de gestão sustentável dos recursos hídricos do interior do continente, ou seja, garantindo a longo e muito longo prazos, o bem-estar das futuras gerações;
 
13- É indispensável também o conhecimento antropológico e científico de culturas humanas de resistência, como por exemplo os khoisan, os hereros e os cuvales na África Austral, uma vez que essas culturas são por si fontes inspiradoras para um melhor aproveitamento do conhecimento científico em relação à natureza e ao homem, no sentido da implantação duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável em todo o continente, principalmente em regiões desérticas em expansão;
 
14- África deve fazer um esforço por se libertar da visão colonial de desenvolvimento, que tirou particular proveito de estratégias provenientes do mar para dentro do continente, procurando gerar como prioridade, a sustentabilidade em função dos imensos recursos hídricos e minerais do interior do continente, numa visão que parta do interior para o litoral;
 
15- A integração de tecnologias limpas garantes de sustentabilidade devem, em África, ao mesmo tempo garantir a participação das nações, estados e povos do continente, sobrepondo-se aos interesses das transnacionais;
 
16- Os estados africanos devem criar centros de saberes africanos e afrodescendentes, capazes de provocar o florescimento duma malha de entendimentos visando dinamizar uma plataforma comum transatlântica e para dentro dos continentes de África e América, com reciprocidade de vantagens e de saberes, sobretudo em termos de ciências e investigações críticas;
 
17- Para esse mesmo efeito os estados africanos devem estabelecer cada um deles a sua própria plataforma de integração e intercâmbio universitário e de seus institutos superiores, visando a dinamização de suas respectivas geoestratégias para um desenvolvimento sustentável, de forma a facilitar os projectos e prospectivas integradas ao nível da Unidade Africana;
 
18- No âmbito dos antigos combatentes do movimento de libertação em África, é premente a necessidade de troca de experiências e de mensagens em todo o espectro africano e afrodescendente, a fim de melhor equacionar e transmitir as mensagens que conduzam ao renascimento africano progressista numa base de liberdade, democracia, solidariedade, dignidade, internacionalismo e pedagogia;
 
19- Impulsionar o turismo cultural e ambiental sul-sul, de modo a activar transversalidades próprias para fazer face aos fenómenos climático-ambientais catapultados sobretudo pelas acções do império desde o período da revolução industrial (desde os finais do século XIX);
 
20- O resgate cultural inteligente de África, pelos africanos e em benefício dos povos africanos tendo como plataforma o conhecimento científico multidisciplinar e as investigações de carácter científico, é um desafio na trilha da lógica com sentido de vida, não só para os africanos progressistas, como para todos os povos progressistas da Terra e para as nações, estados e povos identificados com e na emergência multilateral.
 
Para salvar a vida urge uma civilização capaz de em paz fazer retroceder o imenso campo de barbárie que é o corpo e o exercício sulfúrico do império!
 
Martinho Júnior -- Luanda, 22 de Janeiro de 2020
 
Imagens:
01- Sob o olhar silencioso do Comandante Hugo Chavez;
02- A Venezuela Bolivariana, exemplarmente tem dado apoio à libertação saharahui do colonialismo marroquino, um anacronismo que subsiste em África em pleno século XXI;
03- A Unidade Africana pode contar com interlocutores progressistas na América, algo muito difícil de encontrar ao nível de estados noutras partes do mundo; a Venezuela Bolivariana sendo um deles, é uma das pontes disponíveis para os relacionamentos de África com os seus próprios afrodescendentes;
04- O CARICOM, de que a Venezuela faz parte domo observador, integra as pequenas nações e estados insulares do Caribe cuja população é em grande parte afrodescendente; a Venezuela Bolivariana é, em função do isolamento a que esses pequenos estados têm sido votados, um factor progressista que por um lado visa romper os bloqueios desses estados, como também um activo factor energético, indispensável para a vida nas condições de isolamento a que têm sido deliberadamente votados.

CONSTANTE NECESSIDADE DE RADIOGRAFAR O IMPÉRIO

 
 
“ENCONTRO MUNDIAL CONTRA O IMPERIALISMO”
 
"Pela vida, soberania e paz"

Caracas - Venezuela, de 22 a 24 de janeiro de 2020
 
 
A Venezuela Bolivariana é um inestimável património de vida, de soberania e de paz para toda a humanidade e como tal deve ser defendida por todos aqueles que trilham a lógica com sentido de vida, onde quer que seja a âncora de sua existência e por isso particularmente a partir dos mais obscuros rincões do planeta!
 
Desde África junto-me ao ENCONTRO MUNDIAL CONTRA O IMPERIALISMO, por que a resoluta alternativa à barbárie do império, é a civilização que luta pela vida, pela soberania e pela paz para toda a humanidade!
 
CONSTANTE NECESSIDADE DE RADIOGRAFAR O IMPÉRIO
 
COMUNICAÇÃO
 
I
 
01- Desde o final da IIª Guerra Mundial e particularmente desde o deflagrar das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki (em Agosto de 1945 e com apenas 3 dias de diferença), um crime contra a humanidade a pretexto de mais rapidamente se pôr fim aos combates, que necessário se tornou a constante radiografia do império, agora império da hegemonia unipolar, assim como do seu comportamento nos relacionamentos internacionais, em função do seu carácter expansionista, exclusivista, dominante (em nome duma estrita aristocracia financeira mundial) e nazi-fascista.
 
02- Durante o período denominado de “Guerra Fria” (de 1947 a 1991), o socialismo remanescente da IIª Guerra Mundial conseguiu não só uma relativa paridade e equilíbrio nos contenciosos com o império, mas também apoiou a motivação em África do movimento de libertação contra o colonialismo e o “apartheid”, a luta dos povos e das organizações revolucionárias da América Latina e Caribe contra as ditaduras fantoches, parte delas emanações do plano Condor, o fortalecimento do Não Alinhamento activo no espaço da “Tricontinental” e as expressivas vitórias alcançadas sobretudo no Vietname;
 
03- Já nos anos de transição 20/30 do século XX, a Reserva Federal dos Estados Unidos havia sido tomada por um conjunto de poderosos bancos privados transnacionais sob os auspícios da aristocracia financeira mundial, algo que teve a ver com a grande depressão que então veio a ocorrer;
 
 
 
 
04- A economia de guerra dos Estados Unidos acabou por influenciar na sua própria recuperação económica e financeira, acicatando as suas intrínsecas capacidades capitalistas e expansionistas até se poder assumir como império dominante, com o sacrifício da diluição política e administrativa dos impérios coloniais, a começar pelo britânico;
 
05- Ainda em plena “Guerra Fria”, os Estados Unidos começaram a preparar uma escalada do seu poder às custas dos decadentes impérios coloniais (em colapso social, económico, financeiro, estrutural e em alguns casos, política e administrativamente) no seguimento da IIª Guerra Mundial), de forma a consolidá-lo como dominante;
 
06- Para esse efeito e depois de consolidado o domínio sob a forma de império entre 1945 e 1970, durante a década de 70 do século XX começaram a ser impulsionadas as interconexões entre a balança dos pagamentos, a dolarização da economia com base em papel-moeda (abandonando o ouro enquanto reserva e sustentáculo do dólar), a conjugação das políticas em função do controlo das prioridades energéticas por via do petróleo e o estabelecimento dum esforço militar disseminando uma constelação de mais de 8 centenas de bases no imenso espaço do “ultramar”, tirando partido das vitórias aliadas da IIª Guerra Mundial;
 
07- O contexto real da acção dos neocon tornou-se a balança de pagamentos e o papel do petróleo e da energia como uma alavanca de longo prazo da diplomacia americana, em estreita conjugação com a implantação de bases “ultramarinas”, a começar nas várias centenas que foram implantadas nas derrotadas potências do eixo, Alemanha, Itália e Japão, a coberto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), fundada a 4 de Abril de 1949.
 
08- Já nos finais da IIª Guerra Mundial, o entendimento ou “Tratado de Quincy”, havia reforçado, na montagem do eixo dessa política visando a globalização do poder dominante, com a aproximação estratégica entre os Estados Unidos e a monarquia wahabi-sunita da Arábia Saudita (encontro do Presidente Roosevelt com o Rei Ibn Saud no canal do Suez, a bordo do cruzador USS Quincy, a 14 de Fevereiro de 1945, imediatamente após o encontro de Ialta, ocorrido entre 4 e 11 de Fevereiro desse mesmo ano);
 
09- O principal deficit da balança dos pagamentos, em função dos gastos militares, agravou-se com a Guerra da Coreia (1950/1951), mas sobretudo com a do Vietname (década de 60 do século XX) e foi isso que obrigou o abandono do dólar do ouro, o surgimento do papel moeda em 1971 e uma tomada de medidas sobre a tipologia da capacidade de intervenção no “ultramar” obrigando à utilização da “legião estrangeira” criada a partir da “coligação” (com a Arábia Saudita na charneira do expediente, a que se junta o poder sionista já no século XXI);
 
10- O ouro foi substituído por Títulos do Tesouro suportados pelos bancos centrais estrangeiros, um expediente para fazer face aos crescentes gastos militares (reciclagem dos dólares em papel moeda, sem corroer a taxa de câmbio e de forma a pagar os gastos do aparato militar);
 
11- É esse expediente que tornou a Arábia Saudita e outros membros da OPEP (estados clientes da área do dólar), a partir da década de 80 do século XX, em efectivos pilares do dólar, mantendo suas reservas oficiais na forma de Títulos de Tesouro dos Estados Unidos pelo que, quando as monarquias arábicas aumentaram o preço do petróleo, grande parte dos países do sul ficaram insolventes, o que os obrigou a cair nas malhas do crédito do FMI e do Banco Mundial, tornando-se por essa via dependentes dos Estados Unidos (essa passou a ser uma das vias propícias à neocolonização por imperativos económicos e financeiros);
 
12- O superavit em dólares da Arábia Saudita passou também, por outro lado, a servir para a compra massiva de material militar e respectivas peças sobressalentes aos Estados Unidos, bem como a possibilitar a artificiosa montagem da “legião estrangeira” do império (no âmbito da “coligação” engendrada), ora convertida nas redes da Al Qaeda e do Estado Islâmico a partir da década de 80 do século passado, (“inimigos úteis” disponíveis a levar o caos, o terrorismo e a desagregação conforme tem acontecido no Médio Oriente Alargado, em África e na Oceânia (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iémen, Irão, Filipinas…);
 
13- A grande ameaça a esse esquema de dolarização e Títulos do Tesouro, passaram a ser aqueles que fogem a negociar em dólares ao mesmo tempo que aumentam suas reservas de ouro para suporte das suas e de outras moedas mais convertíveis (politica encetada pela Rússia, pela China, pelo Irão e outros que estão procurando integrar a via da emergência multipolar, com algumas cripto moedas a facilitarem a deriva (já em pleno século XXI);
 
14- A dependência do petróleo nesses termos, implicou no facto de serem as acções humanas (integradoras desse monopólio da dolarização) as principais causadoras das alterações climático-ambientais, uma das razões também dos Estados Unidos se terem afastado do Acordo de Paris;
 
15- A aversão dos Estados Unidos aos oleodutos e gasodutos da Rússia que estão vindo a abastecer países e regiões limítrofes (reforçando a Iniciativa da Nova Rota da Seda), é também explicada nessa base, pois os estrategas da hegemonia unipolar querem tratar o jogo do petróleo como um monopólio estado-unidense, inerente à hegemonia unipolar;
 
16- O caos, o terrorismo e a desagregação tornou-se no “modo democrático” dos Estados Unidos fazerem a guerra em função do “choque de civilizações”, evitando que hajam mais traumas próprios como no rescaldo da guerra perdida do Vietname (que acabou sendo condenada pela maioria do povo estado-unidense);
 
17- Desse modo, todos os que não perfilham esse “modelo de globalização” de acordo com a radiografia dos expedientes da hegemonia unipolar, passam a ser alvos hostilizados pelos Estados Unidos e, se houverem por parte desses alvos contramedidas “assimétricas” e de “geometria variável”, seus “regimes” (palavra-chave que enuncia “zona de risco” que passam a pisar enquanto alvo do império), são propensos a sofrerem medidas que integram pacotes de guerra psicológica acima do nível “soft power”, ciberguerra, sanções económicas de todo o tipo aferidas à economia do país-alvo, sabotagens, bloqueio e esforços visando a desagregação dos estados por via da fragilização contínua das sociedades e das instituições (inclusive as instituições judiciais);
 
18- Os processos de capitalismo neoliberal adequam-se a esse “modelo de globalização”, visando explorar o êxito da conjugação dos factores de manipulação e ingerência económica, financeira, de inteligência, militares e, por fim nas transversalidades sociais e institucionais;
 
19- Desde então os Estados Unidos desenvolveram nas universidades tuteladas pela aristocracia financeira mundial, doutrinas e filosofias que modelam os expedientes de caos, de terrorismo e de desagregação, em estreita consonância com os expedientes do capitalismo neoliberal (Milton Friedman, Leo Strauss, Gene Sharp, Francis Fukuyama, Goerge Soros…);
 
20- Por fim os Estados Unidos tornaram-se subversivos às leis que estão estabelecidas tanto para os relacionamentos internacionais (quadro da ONU), como em relação à constitucionalidade dos estados-alvo, tornados “regimes” (se não forem rotulados de “estados párias”, ou mesmo “terroristas”, conforme tem acontecido desde o artificioso colapso da Jugoslávia, no início da década de 90 do século XX).
 
 
II
 
21- Os estados progressistas, as organizações sociais progressistas e as entidades com consciência anti imperialista, devem constantemente preocupar-se em radiografar o império de hegemonia unipolar seguindo uma trilha de lógica com sentido de vida, o seu comportamento, a panóplia de meios ao seu dispor, os instrumentos que dão substância às vassalagens, os vínculos das “coligações”, as formas desequilibradas das “parcerias” e todas as iniciativas, inclusive as consideradas no âmbito de “soft power”;
 
22- O vector funcional desse tipo de iniciativas que conduzem a contramedidas anti-imperialistas, devem ser as nações, os estados e os povos emergentes dispostos à multilateralização, os socialistas e todos aqueles que, sem serem instruídos por doutrinas elitistas, estão dispostos a dar luta às alterações climático-ambientais provocadas pelo homem, sobretudo o homem ao serviço das acções e comportamentos do império da hegemonia unipolar;
 
23- Concomitantemente, as medidas de luta contra o subdesenvolvimento e as assimetrias, por uma geoestratégia de desenvolvimento sustentável perseguindo lógica com sentido de vida, inscrevem-se nos contenciosos do leque de contramedidas, devendo ser prioritariamente aplicadas nas regiões que mais sofrem com o isolamento (casos das pequenas nações insulares do Caribe, maioritariamente afrodescendentes), ou nas que sofrem com as alterações climático-ambientais (como a região do sul de Angola composta pelas províncias do Namibe, do Cunene, da Huíla e do Cuando Cubango);
 
24- Urgente se torna a necessidade de criar uma bolsa científica e investigativa de dados de carácter anti-imperialista, que contribua para combater subdesenvolvimento crónico, assimetrias, isolamento e regiões atingidas drasticamente pelas alterações climático-ambientais (como a região onde se regista a seca em Angola), de forma a evitar a expansão dos desertos quentes e a pressão sobre os espaços vitais ricos em água e outros recursos naturais (base das tensões que atingem em áfrica, a tão decisiva República Democrática do Congo e a Região dos Grandes Lagos);
 
25- Urgente se torna também criar centros de observação e estudo dos fenómenos de expansão das redes wahabitas-sunitas que compõem a “legião estrangeira” dos Estados Unidos, de forma a aprimorar estratégias e táticas de prevenção, persuasão e contramedidas, sobretudo no Médio Oriente Alargado, em África e na Oceânia (caso das Filipinas);
 
 
26- Na América Latina os centros de observação e de estudo anti-imperialistas, participativos e “protagónicos” devem filtrar os processos de desestabilização contínua que o império da hegemonia unipolar promove no seu dilecto “pátio traseiro”, a fim de contribuir para a implementação das mais adequadas contramedidas, em suporte sobretudo dos estados e entidades progressistas resistentes da região (desde logo Cuba, Venezuela Bolivariana e Nicarágua Sandinista),
 
27- Esse processo alargado deve integrar as articulações de forma a tornar possível aumentar a capacidade de diálogo e de troca de informações, de análise e de proposições multissectoriais para a tomada de medidas, aliando-se à resistência de organizações sociais anti-imperialistas que combatem as alterações climático-ambientais, que combatem os processos de dolarização das economias, que combatem a instrumentalização do petróleo por parte do império, e denunciem as projecções do FMI e do Banco Mundial
 
28- Urgente se torna apoiar, suportar e articular com as organizações das culturas indígenas (incluindo as culturas de resistência) e de outras iniciativas que visem fortalecer os comportamentos de dignidade, de solidariedade e de internacionalismo proletário, como as organizações sindicais;
 
29- O estabelecimento duma rede progressista de nações, estados e povos comprometidos efectivamente com uma cultura em prol duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável de largo espectro, torna-se prioritário, particularmente ali onde existe a expansão dos desertos quentes (agora sobreaquecidos), em prejuízo das áreas onde existe espaço vital e possibilidades de sedentarização.
 
30- Face à complexidade dos fenómenos que dão corpo ao império e ao seu sulfúrico exercício tendente a acabar com a vida tal qual a conhecemos na Mãe Terra, as nações, os estados e os povos progressistas (e todas as organizações integradas nesses processos alternativos), devem gerar uma cultura que dê cada vez mais espaço à lógica com sentido de vida, em nome da civilização e contra a barbárie do império da hegemonia unipolar.
 
Martinho Júnior -- Luanda, 21 de Janeiro de 2020
 
Imagens:
01- Sob o olhar silencioso do Comandante Hugo Chavez;
02- A Venezuela Bolivariana vai a caminho de construir 5 milhões de habitações por via da Gran Mision Vivienda Venezuela;
03- A Venezuela Bolivariana vai reactivar este ano os programas de saúde no quadro da Mision Barrio Adientro;
04- A Venezuela Bolivariana vai reactivar este ano o PETRICARUBE, que cobre o imenso arco de envolvência a norte da costa caribenha da Venezuela.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/constante-necessidade-de-radiografar-o.html

Arranca na Venezuela o Encontro Mundial Anti-imperialista, apesar dos «bloqueios»

Sobre o congresso que se inicia esta quarta-feira, Mervin Maldonado, do Movimento Somos Venezuela, afirmou que o país caribenho «voltará a ser o epicentro da luta pela paz e a soberania dos povos».

Mural «chavista» em CaracasCréditos / greenleft.org.au

O secretário-executivo do Movimento Somos Venezuela declarou ontem à Prensa Latina que está tudo pronto para receber os delegados dos cinco continentes que, entre hoje e a próxima sexta-feira, vão participar no Encontro Internacional Anti-imperialista.

Com o lema «Pela Vida, a Soberania e a Paz», o evento vai reunir anti-imperialistas de todo o mundo e será «espaço de discussão, debate e construção colectiva para reforçar os planos de luta dos povos», disse Maldonado.

Neste sentido, haverá cerca de 20 mesas de trabalho centradas na análise e no debate de temas como as agressões militares, a protecção do ambiente, a cultura, as políticas neoliberais e o socialismo, bem como a agenda anti-imperialista.

 

O encontro integra-se na agenda do XXV Fórum de São Paulo, que decorreu em Caracas em Julho do ano passado sob o lema «Pela Paz, a Soberania e a Prosperidade dos Povos».

Então, os representantes de mais de uma centena de movimentos e partidos políticos de esquerda abordaram os efeitos do neoliberalismo e do imperialismo, tendo decidido dar continuidade ao encontro através de outros espaços, como o que agora se concretiza.

PSUV denuncia sabotagem ao encontro

Tania Díaz, vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), denunciou esta terça-feira que os Estados Unidos e a direita venezuelana estão a tentar impedir os delegados ao Encontro Mundial Anti-imperialista de viajarem para a capital venezuelana.

A dirigente partidária sublinhou que a direita (venezuelana) levou a cabo «diversas acções de sabotagem contra os delegados internacionais», sendo que alguns se viram «impedidos de entrar nos aviões».

«Não os deixam entrar nos aviões porque o bloqueio afecta os mecanismos de pagamento e sabota os itinerários dos convidados internacionais», denunciou, citada pela Prensa Latina e a VTV.

Durante o Congresso Bolivariano dos Povos, que ontem decorreu na Casa de Bello, em Caracas, Díaz afirmou que se trata de uma tentativa desesperada para evitar a realização do Encontro Mundial Anti-imperialista, mas que, apesar do bloqueio, o evento terá lugar.

«Apesar da conduta vergonhosa dos lacaios do império, que vão à Colômbia ajoelhar-se perante os seus amos, o congresso será uma realidade, graças à organização popular da Revolução Bolivariana», afirmou.

«Que se venda a direita, nós defendemos a pátria», declarou, tendo anunciado que os movimentos sociais espalhados pelo mundo estão a ajudar os convidados a chegar a Caracas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/arranca-na-venezuela-o-encontro-mundial-anti-imperialista-apesar-dos-bloqueios

O IMPÉRIO MEXE-SE COM PÉS DE BARRO!

 
 
 
A cisão cada vez mais evidente no grupo restrito da aristocracia financeira mundial, (aqueles 1% que na sua ânsia capitalista azota o mundo com seus artificiosos jogos de poder, de domínio unipolar, do esgotamento dos recursos globais e das manipulações que têm também provocado as profundas alterações climático-ambientais em curso), expõe o início da exaustão do império com pés de barro: a força deixou de persuadir, muito menos convencer, as nações, os estados e os povos da Terra e o império tornou-se cada vez mais um pesado factor de barbárie, fazendo cair a máscara por si próprio criada e recriada de campeão de civilização! (https://www.counterpunch.org/2020/01/10/despair-in-america-the-unspoken-issue-of-the-2020-election/).
 
A RECESSÃO E A CRISE SÃO PRODUTOS DA MALHA QUE A GLOBALIZAÇÃO DO IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR TECE!
 
A EMERGÊNCIA MULTILATERAL E INTEGRADORA É P NPVP +PARADIGMA QUE SE DESTACA DA PRÓPRIA HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO NA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA!
 
 
 
01- Qualquer que seja o passo que os Estados Unidos deem no Médio Oriente Alargado, em África e na América Latina, os pés de barro indiciam começar-se a esboroar, expondo já suas internas fissuras, apodrecidas com o sangue húmido ou seco de tantos milhões de inocentes e mártires espalhados pelo mundo: o contraditório entre Congresso e Senado jamais foi tão intenso na aproximação das próximas eleições nos Estados Unidos (https://actualidad.rt.com/opinion/luis-gonzalo-segura/339388-donald-trump-incendia-iran-ano-electoral) e o carácter do Pentágono, dos serviços de inteligência e da instrumentalizada NATO, vai também reflectindo essa radiografia que expõe os filamentos dos poderes dominantes da hegemonia unipolar em início de putrefacção! (https://actualidad.rt.com/opinion/luis-gonzalo-segura/339388-donald-trump-incendia-iran-ano-electoral).
 
Os Estados Unidos, no Médio Oriente Alargado, estão presos dentro das teias do seu próprio labirinto (https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020011214998014-eua-ameacam-cortar-acesso-do-iraque-as-receitas-do-petroleo-caso-bagda-insista-na-retirada-de/), um recriado labirinto com condimentos de caos e terrorismo desde o início da década de 90 do século XX (uma década antes dos acontecimentos de Nova York a 11 de Setembro de 2001) quando o neoliberalismo de Ronald Reagan e de Margareth Thatcher se assumiram como “medida padrão”!… (https://history.state.gov/milestones/1989-1992/gulf-warhttps://actualidad.rt.com/opinion/alberto-rodriguez-garcia/339488-guerra-convencional-asimetrica-iran-eeuu;  https://plataformacascais.com/plataformacascais/artigos/mundo/62360-aristocracia-financeira-mundial-iii-guerra-mundial.html).
 
O “sistema” vem de longe e a sua utilização para fins excludentes em função de interesses próprios expressos da maneira mais pérfida, a maneira do caos e do terrorismo, mergulha nas origens do capitalismo neoliberal!... (http://pagina--um.blogspot.com/2011/03/iraque-iraque-75-anos-depois.html;  http://www.voltairenet.org/article7613.html).
 
No início do século XXI, em 2003, invadiram o Iraque, de onde não saíram mais até hoje! (https://vermelho.org.br/2018/03/20/hoje-faz-15-anos-da-invasao-no-iraque/).
 
Estimulados pelo triângulo de alianças consubstanciado na “Coligação” (http://asian-defence-news.blogspot.com/2014/09/us-coalition-in-middle-east.html), um triângulo que une os mecanismos de intervenção formatados pelo império, o sionismo e as monarquias arábicas wahabitas-sunitas (http://pagina--um.blogspot.com/2011/03/salvar-os-reis.htmlhttps://paginaglobal.blogspot.com/2011/06/o-diktat-da-hegemonia.html), os Estados Unidos forçaram a disseminação, por via da Al Qaeda e do Estado Islâmico (e seus apêndices), de “inimigos úteis” que se tornaram garantes de caos e terrorismo, inviabilizando ou enfraquecendo os estados de toda essa região (https://www.globalresearch.ca/u-s-military-aid-to-al-qaeda-isis-daesh/5548960), que agora com essa mesma “Coligação”, nada têm a ganhar e têm tudo a perder! (https://actualidad.rt.com/actualidad/339588-islamico-aplaudir-asesinato-soleimani-intervencion-divina?fbclid=IwAR2x9Tev9YND73rVTRF7K9nMKSvqPkrtXKhz7udOcDcBphnhwmZlJYVhlkohttps://www.americansecurityproject.org/national-security-strategy/u-s-bases-in-the-middle-east/).
 
São esses “inimigos úteis” que justificam o Pentágono e a sua disseminação de bases e intervenções de toda a ordem e por essa razão eles se tornaram tão úteis, a ponto de afirmarem que o assassinato do general iraniano, ser “obra de deus”!... (https://twitter.com/Minalami/status/1215558265272197122?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1215558265272197122&ref_url=https%3A%2F%2Factualidad.rt.com%2Factualidad%2F339588-islamico-aplaudir-asesinato-soleimani-intervencion-divina).
 
Nada a ganhar a tudo a perder (https://www.globalnegotiator.com/international-trade/dictionary/win-lose-strategy/), é esse o verdadeiro pântano do poder dominante e por isso se digladiam os componentes da aristocracia financeira mundial, (https://paginaglobal.blogspot.com/2017/04/aristocracia-financeira-mundial-impoe-o.html) expondo-se ao contraditório público (em vigor) e expondo as fissuras de seus pés de barro no solo mártir do Médio Oriente Alargado!
 
A guerra psicológica (https://frenteantiimperialista.org/blog/2018/07/08/la-guerra-psicologica-del-imperio-de-la-hegemonia-unipolar-en-africa/) utilizando a mentira, a hipocrisia, o cinismo, o medo, ou até o “soft power” que está à sua disposição, já não é suficiente para alimentar o artificioso jogo e a manipulação dos seus disseminados “estatutos”, por que agora, numa espiral de milhares de milhão, os outros percebem que já estão a lutar pela sua própria sobrevivência! (https://frenteantiimperialista.org/blog/2020/01/11/ahi-esta-la-iii-guerra-mundial/).
 
Com a gestação do “inimigo útil”, o império da hegemonia unipolar congeminou o seu verdadeiro inimigo, que no sul da Ásia é o Irão e toda a rede religiosa shiita, ou aqueles que, até por necessidade de luta pela sobrevivência, a ela se juntem, como os casos, entre outros, da Rússia e da China! (https://www.globalresearch.ca/america-an-empire-on-its-last-leg-to-be-kicked-out-from-the-middle-east/5699693).
 
Nessa estratégia o próprio Estado islâmico enquanto “inimigo útil”, ressurgirá numa pré-programada intensidade… logo que o império e sua dilecta “Coligação”, queiram!... (https://expresso.pt/internacional/2019-08-14-Ressurgimento-do-Daesh-e-uma-questao-de-tempo-preveem-especialistas).
 
O império na sua imensa hipocrisia e cinismo, quer ser o arquitecto e vector duma IIIª Guerra Mundial assimétrica e de geometria variável que alimenta a ilusão fundamentalista de ser-lhe favorável, (https://paginaglobal.blogspot.com/2018/01/os-falcoes-primeiro.html) mas não quer que outros lhe deem resposta em justapostos termos similares, ainda que seja para se defenderem, ou mesmo para sobreviverem parente tal tipologia de ameaças e riscos que sobre eles o império faz pender, começando por ultrapassar e vencer incompatibilidades antigas! (https://www.cavok.com.br/blog/zonas-de-guerra-ira-x-iraque/).
 
Por isso Trump rotula o general Qassem Soleimani, um dos campeões da luta contra o Estado Islâmico e Al Qaeda no Líbano, na Palestina, na Síria, no Iraque e no Iémen, de “terrorista”, (https://www.counterpunch.org/2020/01/10/assassination-lies-and-the-trump-difference/) no momento em que a todo o custo pretendem salvar o resto dos militantes do Estado Islâmico e da Al Qaeda, jogando com a permeabilidade das fronteiras entre uns e outros, algo que dá um subversivo significado às forças da “Coligação”! (https://www.globalresearch.ca/mysterious-helicopters-continue-to-evacuate-isis-militants-from-battlefields-across-middle-east/5660297).
 
Os Estados Unidos temem que se consolide a aliança e a integração do Irão, do Iraque e da Síria, sobretudo esses, tendo em conta a plataforma sionista que erradicou do mapa a Palestina! (https://neweasterneurope.eu/2019/11/20/the-new-great-game-of-alliances-in-the-middle-east/).
 
 
O assassinato do general Qassem Soleimani é também e além do mais uma diversão para cobrir a tentativa de renascimento do caos pelo menos no Iraque, agora seu dilecto campo de manobra contra o Irão, meio-perdidos que estão os campos de manobra na Síria e no Afeganistão-Paquistão (“AfPak”), também isso com muitas dificuldades para ultrapassar! (https://actualidad.rt.com/video/339560-licencia-matar-medios-justificar-asesinato-soleimani;  https://www.globalresearch.ca/a-major-conventional-war-against-iran-is-an-impossibility-crisis-within-the-us-command-structure/5682514?utm_campaign=magnet&utm_source=article_page&utm_medium=related_articles).
 
Os Estados Unidos na sua radicalizada versão de expansionismo por via do “choque de civilizações”, (tornou-se cada vez mais evidente), são no Médio Oriente Alargado, como na América Latina e em África, os que estão a mais nessas regiões, os que estão da pior maneira e mesmo as suas justificações, tal como as que agora estão a utilizar para tentar fugir a ser os “maus da fita” no assassinato do general Qassem Soleimani (dizendo que ele se preparava para atacar mais embaixadas suas), esvaem-se no labirinto por si próprios recriado, por que com eles e sua “Coligação”, para os outros há tudo a perder e literalmente nada a ganhar!... (https://www.globalresearch.ca/us-foreign-policy-shambles-nato-middle-east/5684713?utm_campaign=magnet&utm_source=article_page&utm_medium=related_articles).
 
Ninguém vai aceitar uma “Coligação win-lose”, equacionada para a guerra, para o caos e para o terrorismo, quando a oportunidade de negócios em paz e equacionada para o “win-win”, está cada vez mais próxima e, para alguns (como por exemplo os “5 satãs” da Ásia Central), está ali mesmo à mão!... (https://www.globalresearch.ca/shift-in-military-alliances-america-declares-war-on-turkey-nato-in-disarray/5651137?utm_campaign=magnet&utm_source=article_page&utm_medium=related_articles).
 
 
02- O Parlamento do Iraque e o governo iraquiano, insistem legitimamente na necessidade de saída dos instrumentos dos Estados Unidos do seu território, por que já perceberam os significados múltiplos do jogo do “poder dominante” em curso e dando sequência ao papel e exequibilidade ao império desde o Tratado de Quincy! (https://actualidad.rt.com/actualidad/339493-irak-pedir-eeuu-retirar-tropashttps://actualidad.rt.com/actualidad/339532-eeuu-responder-exigencia-irak-retirar-tropas;  https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020011014992873-eua-quer-discutir-retorno-a-parceria-estrategica-com-iraque-em-vez-de-retirar-tropas/).
 
Às instituições iraquianas vão-se juntar as vozes de muitas outras instituições e entidades, por que todas elas estão presas ao pântano recriado, num labirinto que parece não mais ter fim, onde têm tudo a perder e nada a ganhar, a não ser caos, desarticulação, vitimização, vulnerabilização, miséria, fome e morte!
 
Esse anátema “win-lose” está do lado sul da antítese que transpõe o imenso continente euro-asiático, por onde em paz e segurança se procura articular e desenvolver por via de expedientes integrados no “Belt and Road Initiative”, no âmbito da Nova Rota da Seda inspirada pela República Popular da China!
 
Só o império não reconhece seus pés de barro, nem a putrefacção bárbara do seu expansionismo, exposta nos passos que dá fora de suas próprias fronteiras! (https://www.globalresearch.ca/us-strategy-what-gas-pipeline-war-costing-us/5699048).
 
 
03- As respostas de geometria variável dos que identificaram as razões do foco de terrorismo que é o império e seu cortejo de vassalos e de cúmplices, sabem que são eles mesmo que se expõem como o “inimigo a abater”, precisamente por que não se deixaram tornar em “inimigos úteis”. (https://www.globalresearch.ca/twenty-six-things-about-the-islamic-state-isil-that-obama-does-not-want-you-to-know-about/5414735).
 
É esse o significado também da recusa dos Estados Unidos em não pretender sair do solo iraquiano, justificando com mais um jogo entre os tantos de que é pródigo, para equacionar apenas o que é de seu interesse, esquecendo-se mesmo que o seu expansionismo inveterado que já leva séculos, é histórica, política e antropologicamente, injustificável e cada vez mais impraticável! (https://www.latimes.com/opinion/story/2020-01-03/qassem-suleimani-donald-trump-iran-drone-assassination).
 
O exercício da barbárie feudal a cavalo nas tão socialmente retrógradas monarquias arábicas (https://www.businessinsider.com/trump-is-losing-badly-in-the-middle-east-2017-6 ; https://edition.cnn.com/interactive/2019/02/middleeast/yemen-lost-us-arms/), começa a ser contraproducente até já para alguns aliados da “Coligação”, por que já perceberam que com paz e segurança têm estrategicamente muito mais a ganhar! (https://www.csis.org/analysis/americas-failed-strategy-middle-east-losing-iraq-and-gulf).
 
Agora esse “vacilantes” pretendem alinhar com a República Popular da China e as iniciativas que a ela se ligam, afastando-se do “win-lose” a que exclusivamente se propõe um poder com pés de barro!
 
 
De facto, os oleodutos e gasodutos que da Federação Russa se expandem pelo continente euro-asiático, sendo percussores da Nova Rota da Seda que só tem 6 anos, constituíram fontes de inspiração para o seu conceito e os estados que compõem o Médio Oriente Alargado sabem que essas nervuras, estando por melhor equacionar no seu espaço, constituem por si uma das razões da desesperada renitência terrorista do império!... (https://time.com/5730849/end-american-order-what-next/).
 
Por incrível que possa parecer aos fundamentalistas da “civilização ocidental”, que tanto usam o petróleo como “excremento do diabo”, (https://www.globalresearch.ca/how-hide-empire-history-greater-united-states/5700299) os oleodutos e gasodutos que da Rússia se expandem, são vectores da paz que torna possível o comércio e, com ele, a integração multicultural e multicontinental!...
 
… Amanhã a paz vai chegar à Líbia e as condutas de petróleo e de gaz, serão as nervuras do novo contexto de que tanto precisa desde já o norte de África!
 
…Agora mais que nunca, o império mexe-se com pés de barro!
 
Martinho Júnior -- Luanda, 11 de Janeiro de 2019
 
Mapas:
01- Os tubos que levam o gaz da Rússia para a Europa, são veios de paz, que a NATO não pode nem beliscar, nem vencer – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Major_russian_gas_pipelines_to_europe.png;
02- A absorção energética indispensável à China, vocacionam vínculos de paz pluricontinentais – The pipelines through Myanmar will mark the third leg of major overland import routes, and will be capable of supplying 440,000 barrels of oil a day and 12 billion cubic meters of natural gas a year to China's southern Yunnan province.
The gas will come from a new development off the coast of Myanmar, while the oil will be shipped from the Middle East and Africa on tankers – http://www.oilseedcrops.org/2013/07/16/myanmar-oil-and-gas-pipelines-to-china/;
03- A Dinamarca foi o último dos falcões do Báltico; subsiste o falcão imperial –  Denmark is the last country still to complete its national permit procedure for the Nord Stream 2 gas pipeline designed to bring Russian gas offshore to Germany under the Baltic Sea, after Nord Stream 2 obtained a permit from the Swedish government yesterday (7 June) –  https://www.euractiv.com/section/energy/news/all-eyes-on-denmark-after-sweden-awards-nord-stream-2-permit/;
04-   Nem a cartada da Guerra na Ucrânia parou o gas da paz entre a Rússia e a Europa – For Europe, thinking about energy security means thinking about Russia. First in January 2006 and then in January 2009, gas pricing dispute between Russia and Ukraine led to the halt of Russian gas supplies to Europe via Ukraine – its primary transit route. This generated economic damages for Europe, notably in South-Eastern European countries heavily dependent on Russian gas for both electricity generation and residential heating.
Europe responded to these gas crises by adopting an energy security strategy mainly focused on reducing its dependency on Russian gas supply. The high priority given to Russian gas supplies arose because: (1) gas represents about one quarter of the European energy mix; (2) about one third of this gas is imported from Russia; and (3) in contrast to oil or coal, it is not possible to bring large amounts of gas to where it is needed if the corresponding infrastructure is not in place – https://bruegel.org/2018/07/beyond-nord-stream-2-a-look-at-russias-turk-stream-project/.

O petróleo, o Médio Oriente e a guerra civil imperialista

José Goulão

Um Médio Oriente em pé de guerra é uma alternativa cultivada para afectar regimes e governos que não sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que não seja o dólar.


Estimado leitor, se lhe disserem que os Estados Unidos são auto-suficientes em hidrocarbonetos e não precisam do petróleo do Médio Oriente, não acredite.

A guerra sem fim montada pelo Pentágono através de toda a região e algumas extensões geográficas tem a ver com fontes de energia, o controlo das suas reservas, produção e distribuição. Portanto, o que tem acontecido nas últimas semanas, por exemplo a simultaneidade da desestabilização do Iraque e do Irão e a nova fase da guerra na Líbia tem, e muito, a ver com isso.

Outra coisa em que o leitor não deve acreditar é nas promessas do poder globalizante de que vai reduzir o consumo de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global e cumprir as metas da redução de emissões de dióxido de carbono. Nunca, como agora, esteve inventariada uma tão elevada quantidade de reservas de petróleo e gás natural. E serão para consumir enquanto existirem, até à última gota: o capitalismo alimenta-se delas. Quem as dominar controla o mundo – um conceito básico de qualquer geopolítica e geoestratégia bem actuais.

O que se passa no Médio Oriente tem, portanto, a ver também com hidrocarbonetos. Hoje como ontem.

A era do petróleo e do gás de xisto, caracterizada pela extracção através do método de fractura hidráulica (fracking) extremamente agressivo para o meio ambiente, alterou o ranking da produção de hidrocarbonetos e terá conduzido os Estados Unidos ao primeiro lugar entre os produtores. Segundo especialistas, porém, o período áureo dessa forma de exploração já terá sido ultrapassado na América do Norte, além de ser mais dispendiosa do que a efectuada a partir de reservas mais convencionais. Além disso, em termos norte-americanos, trata-se de mais um negócio com diferentes valências: o petróleo e o gás de xisto, mais caros, são para exportar – de preferência para os aliados europeus e de outras regiões – servindo para tentar combater produções rivais, sobretudo as russas, mesmo que através de manipulações grosseira das «leis do mercado»; e, por outro lado, os Estados Unidos importam hidrocarbonetos mais baratos de regiões onde mantêm domínio e controlo, entre elas o Médio Oriente.

Domínio e controlo não se exercem apenas sobre os produtores, mas também sobre as reservas identificadas, a investigação de possíveis novas reservas e os circuitos de distribuição. Por isso as guerras têm na mira também as rotas de gasodutos e oleodutos e nem sempre são travadas com armas. As chantagens político-económico-diplomáticas envolvendo, por exemplo, os gasodutos sem participação norte-americana como o Turk Stream (agora inaugurado), o Nord Stream 2 e o South Stream (ainda bloqueado) são exemplo dos longos braços estendidos sobre o planeta de quem se diz auto-suficiente em termos energéticos.

Domínio e controlo são ainda mais do que isto: exercem-se também tentando prejudicar e inibir a concorrência.
O que está a acontecer através da desestabilização alargada no Médio Oriente tem muito a ver com esta guerra multifacetada. E o assassínio do general iraniano Qasem Soleimani, em particular, também.

Soberanias intoleráveis

Todos ainda estamos lembrados de que, há algumas semanas, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada de parte das tropas ocupantes na Síria, mas deixando militares no terreno «a tomar conta do petróleo».

De falta de franqueza, nestas circunstâncias, ninguém pode acusar Donald Trump. A Síria tem vindo a ganhar a guerra que lhe foi movida internacionalmente, mas a restauração da soberania ainda tem limites impostos pelos poderes que governam em Washington: as zonas ricas em hidrocarbonetos, a propósito das quais, aliás, há notícia da existência de grandes reservas de gás natural – por sinal no «Rojava», o «Estado curdo» criado por Estados Unidos e Israel em parte do Norte da Síria.

Durante muito tempo quase não se ouviu falar do Iraque. Apesar de se tratar de um país em grande parte destruído pela invasão e a guerra, dividido entre bolsas de poderes exercidos por comunidades étnico-religiosas e ocupado militarmente, deixou praticamente de ser notícia. As condições de vida desumana a que estão sujeitas milhões de pessoas deixaram de chamar a atenção da comunicação social corporativa. O silêncio e a «estabilidade» prevaleciam, uma vez que em Bagdade estava em funções um governo subordinado às forças de ocupação.

A situação alterou-se. Não muito, mas o suficiente para incomodar Washington. O governo do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi, descontente com as imposições apresentadas pelos Estados Unidos para se envolverem na reconstrução das infra-estruturas do país arrasadas pela invasão e a guerra – receberem em troca metade das receitas de petróleo iraquianas – estabeleceu um acordo com outro parceiro: a China.

O céu caiu em cima da cabeça de Abdul Mahdi. Donald Trump exige-lhe que revogue o acordo e, segundo o teor de um discurso feito pelo chefe do governo no Parlamento, está por detrás das manifestações e episódios de violência que têm como objectivo a dissolução do executivo.
Acresce que Abdul Mahdi teve outro acto imperdoável para os ocupantes. Estava a servir de mediador numa aproximação feita pela Arábia Saudita em direcção ao Irão para reduzir o nível de tensão em todo o Médio Oriente. Um passo que poderia beneficiar a região, designadamente estabelecer pontes para acabar com a guerra que martiriza o Iémen.

O general Qasem Soleimani ia a Bagdade entregar a resposta do governo iraniano à iniciativa saudita, em 3 de Janeiro, quando foi assassinado por ordem do presidente dos Estados Unidos.

De uma assentada, os Estados Unidos crêem ter abortado uma iniciativa pacificadora que se desenvolvia, portanto, em sentido contrário à estratégia de guerra sem fim; e activaram um clima de desestabilização que abrange simultaneamente o Iraque e o Irão e se junta ao ambiente de guerra latente que permanece na Síria.

 

As «intromissões» da China

O que se passa no Iraque é um golpe contra o governo, dado pela potência ocupante de modo a poder contar novamente com um executivo absolutamente dócil, que revogue o acordo com a China e assegure a pretendida metade das receitas petrolíferas para o Tesouro de Washington.

Aliás, Trump já definiu muito bem as cartas do jogo depois da decisão do Parlamento de Bagdade ordenando a saída das tropas de ocupação: ou os militares norte-americanos permanecem ou os Estados Unidos bloqueiam a conta do Ministério iraquiano do Petróleo na Reserva Federal de Nova York, através da qual Bagdade movimenta quase todo o seu comércio petrolífero. Não há dúvidas, portanto, que é de petróleo que se trata.

É de mudança de governo – e de regime – a trama desenvolvida por Washington contra o Irão. As sanções que asfixiam o povo e a economia do país, a aposta cada vez menos velada nas divisões entre o presidente Rouhani e a chefia religiosa de Ali Khamenei e a instabilidade nas ruas, tudo sob um clima de ameaça militar permanente, têm como fim último o regresso de Teerão à esfera de Washington. Iraque e Irão são os dois maiores exportadores de petróleo mundiais a seguir à Arábia Saudita.

A administração Trump, como as anteriores, exige um governo de confiança no Iraque para poder continuar a usar o país como base da agressão ao Irão, além de preservar a hostilidade entre Riade e a Teerão. O assassínio do general Soleimani serviu estes objectivos.

Um Médio Oriente em pé de guerra é uma alternativa cultivada para afectar regimes e governos que não sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que não seja o dólar, como está a acontecer entre a China e o Irão, com a agravante de o fazerem contrariando as sanções impostas unilateralmente pelos Estados Unidos.

Neste momento, em relação ao Médio Oriente, pode constatar-se que a China tem em curso investimentos de um milhão de milhões de dólares no Irão, acaba de assinar um acordo de reconstrução com o Iraque e importa da Arábia Saudita a maior parte dos hidrocarbonetos que consome; e a Rússia é uma potência determinante na Síria.

Dizem-nos a história e a experiência que a diplomacia não é o forte dos Estados Unidos e que o método de negociações mutuamente vantajosas é absolutamente desconhecido em Washington. Não surpreende, pois, que a generalização da guerra seja a opção tomada pela administração Trump para proteger os interesses do império, no quadro da acarinhada teoria do «caos criativo».

O cenário dos últimos tempos nesta região, um concentrado dos interesses que comandam a globalização neoliberal, é o exemplo mais flagrante da agudização da guerra civil que se trava no sistema capitalista.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/o-petroleo-o-medio-oriente-e-guerra-civil-imperialista[1]

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References

  1. ^https://www.abrilabril.pt/internacional/o-petroleo-o-medio-oriente-e-guerra-civil-imperialista (www.abrilabril.pt)
  2. ^endereço (www.odiario.info)
  3. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

ROUBO DAS PENSÕES DE REFORMA, ESTÁDIO DERRADEIRO DO CAPITALISMO?

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Foto dos anos 1930, mostrando uma «sopa dos pobres»; aquilo a que os idosos deste século XXI estarão reduzidos com a liquidação dos sistemas de pensões por repartição
O que é que caracteriza o sistema actual na maioria dos países da Europa ocidental (há excepções, como Grã-Bretanha e outros)?  - O facto de que os fundos são co-geridos pelas associações patronais e sindicatos, com a colaboração do Estado.
Qual a consequência disso na prática?  - Na sequência da crise mundial de 2008 estes fundos não ficaram demasiado afectados, ao contrário dos fundos de pensões do outro lado do Atlântico, que têm uma gestão privada nos EUA e sofreram (e sofrem) profundos abalos, pondo em causa a viabilidade das pensões de reforma de ex-empregados do Estado. Têm sido noticiadas falências de caixas de pensões de polícias, bombeiros, professores, etc... 
Porque é que tais fundos (dos EUA) ficaram descapitalizados?  - Sendo geridos privadamente, não havia restrições em colocar os capitais em instrumentos de rentabilidade alta, mas muito inseguros. Por outras palavras, fez-se participar estes fundos, em pleno, na economia especulativa. Uma maior rentabilidade significa maior risco, normalmente. Nos fundos de pensões da Europa ocidental são colocadas restrições sobre quais os investimentos que são permitidos e, dentro da estrutura dos mesmos, há uma base, suficientemente larga, de investimentos considerados sem risco ou com risco muito baixo. 
Qual o sentido profundo da reforma Macron das pensões?  - A aparente preocupação com uniformização do cálculo e uma pseudo-igualdade, vem preparar o terreno para a privatização por etapas da gestão dos fundos de pensões, a retirada do controlo dos trabalhadores.
Quais as consequências da gestão privatizada destes fundos? - Os assalariados serão empurrados para fundos de gestão privada (modelo dos EUA e de outros países onde reina o neo-liberalismo). Nestes, não apenas estarão sujeitos a um esquema «por capitalização», mas os capitais serão apropriados para toda a espécie de engenharias financeiras. Vão multiplicar-se as falências, pois a tomada de riscos excessivos é considerada «normal», sobretudo se quem toma esses riscos, não o faz com seus próprios capitais!
Christine Lagarde, ex-chefe do FMI e nova patroa da BCE, deu logo o tom, pouco depois de entrar nas novas funções, ao afirmar: «quanto à perda de juros dos depósitos (e logo a impossibilidade das poupanças), as pessoas deviam considerar isto muito menos importante do que conservar o emprego»
                                                                                                       Image result for lenine              É caso para plagiar o  título do livro de Lenine («Imperialismo, estádio supremo do capitalismo»): 
- «Roubo das pensões, estádio derradeiro do capitalismo»

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

EIXO DO MAL, QUEM?

 
 
Elenira Vilela (*), de Florianópolis, no Facebok
 
Existe um país no mundo que está sempre em guerra desde a sua própria unificação. Que nessas guerras desrespeita tratados internacionais. Que usa armas químicas, biológicas e usou inclusive armas nucleares (o único país do mundo a detonar bombas nucleares sobre cidades).
 
Essas armas mataram milhões de civis, destruíram o meio ambiente (por décadas e as vezes séculos pela contaminação) e impuseram que milhões de pessoas - antes saudáveis - desenvolvessem câncer e outras doenças e gerassem filhos com as mais diversas más-formações, incluindo seus próprios soldados.
 
Esse país tortura prisioneiros de guerra. Usa o estupro como arma sistemática e coordenada para "quebrar a moral do inimigo". Joga bombas em hospitais e escolas com o mesmo intuito.
 
Promove e financia manobras políticas, golpes de Estado e o crescimento e armamento de grupos terroristas contra governos democraticamente eleitos que não seguem sua cartilha à risca.
 
Esse país tem uma enorme indústria bélica que manda no governo (supostamente democrático, mas em que várias vezes o mais votado não é o eleito).
 
Esse país manda na ONU e se acha no direito de impor sanções económicas aos países que ironicamente apelida de "Eixo do Mal" na maior fake news (em bom português: mentira deslavada e consciente) da história da humanidade. Ataca e invade quando as sanções económicas não são suficientes para esses países se dobrarem a seus interesses.
  
Sempre que impõe essas sanções e ataca esses países, conta com grande apoio de países chamados de civilizados e desenvolvidos. Por exemplo, a tão cordial Inglaterra apoiou a invasão do Iraque com a desculpa mentirosa de que existiam armas químicas nunca encontradas.
 
França, Canadá, Bélgica, Japão, Turquia entre muitos outros apoiam, dão suporte, participam ativamente de muitas dessa ações, sejam económicas, mediáticas, políticas, boicotes e de ações de guerra propriamente ditas.
 
Esse país foi derrotado algumas vezes. A mais emblemática é a derrota para o Vietname depois de tentar massacrar esse povo por duas décadas (uma financiando a França e outra diretamente na guerra).
 
Mas o perigo são os outros, as ditaduras são as outras, a preocupação internacional é com os outros países. Por coincidência #sqn as ações mais contundentes atingem mais diretamente os países que têm ou descobrem novas reservas de petróleo.
 
Dou um doce para quem adivinhar de que país estou falando...
 
Não há dúvidas de que esse país em crise económica e política mais uma vez busca a saída para seus problemas no genocídio em massa.
 
O que aconteceu nesta sexta-feira (3) não é uma surpresa e esse país não tem o menor problema de mundializar esse conflito. Isso vai encher as burras de dinheiro e unificar o país cujo governo está sob ameaça de impeachment.
 
A guerra do Iraque unificou o país e segurou Clinton na presidência. A guerra ao Afeganistão reunificou e segurou o Bush filho na presidência. Esse país se alimenta de morte. Os capitalistas precisam da morte, do fascismo, da mentira, da destruição para permanecer acumulando capital.
 
Não será a primeira vez que a resposta para a crise será a guerra. Aliás essa tem sido uma resposta sistemática. Além das duas guerras mundiais, o capitalismo mantém ininterruptamente guerras em curso na África, na Ásia (especialmente no Oriente Médio) e mesmo na Europa (guerras recentes na Crimeia e na antiga Jugoslávia nas décadas de 1990 e 2000).
 
É pela paz que eu não quero seguir admitindo.
 
Abaixo o imperialismo
Socialismo ou barbárie
 
(*) Professora, sindicalista e feminista
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/eixo-do-mal-quem.html

Venezuela denuncia a «agressão permanente» dos EUA contra a América Latina

Jorge Arreaza afirmou em Pequim que os EUA mantêm uma agressão permanente contra a América Latina porque querem apoderar-se dos recursos naturais da região e impor governos submissos aos seus interesses.

Em Pequim, Jorge Arreaza destacou que a Venezuela e a China possuem «uma aliança inquebrável que saberá adaptarse às circunstâncias e agressões»Créditos / CancilleriaVE

Numa conferência de imprensa dada esta sexta-feira, o ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, afirmou que a região da América Latina e Caraíbas é alvo constante de tentativas de golpes de Estado, desestabilização, terrorismo, guerra de comunicação, bloqueio económico, comercial e bancário.

Arreaza, que se encontra na China em visita oficial e de trabalho desde quarta-feira, definiu a situação como um continente em que ocorre uma «disputa entre os seus povos soberanos e a elite que governa os Estados Unidos», na medida em que esta «procura assumir o controlo absoluto das riquezas em petróleo, gás, minerais, terras, água, clima e lítio», disse citado pela Prensa Latina.

Ilustrou o que disse com aquilo se passa na Bolívia e no seu próprio país desde o início de 2019, depois de a Casa Branca ter convencido vários governos a reconhecer o deputado Juan Guaidó como «presidente interino» e ter apoiado acções violentas com vista a depor o presidente constitucionalmente eleito, Nicolás Maduro.

O diplomata chamou a atenção para o facto de as sanções e medidas coercitivas unilaterais impostas ao seu país – como o bloqueio de contas bancárias no estrangeiro – atingirem a população, uma vez que a priva de produtos básicos e impede o desenvolvimento dos principais sectores económicos.

Ainda assim, destacou que «o presidente legítimo conseguiu paulatinamente devolver a tranquilidade à Venezuela, com iniciativas democráticas e pacíficas, e com o apego à via da negociação para solucionar a situação política».

Além disso, afirmou Arreaza, a Venezuela mostra já alguns sinais de recuperação e o governo está a trabalhar em alternativas com países como a Rússia, a Turquia e a China para dinamizar o comércio externo.

Aliança estratégica com a China

Sobre as relações com o gigante asiático, Jorge Arreaza disse que existe uma aliança estratégica integral, que procura diversificar a cooperação económica e se esforça para que os investimentos chineses se traduzam imediatamente em habitações, maior produção petrolífera e bem-estar social.

Precisou que a sua visita tem como objetivo reforçar estes laços e visa acelerar os elementos necessários para que haja maiores resultados, indica a Prensa Latina. «A colaboração com Pequim respeita os planos nacionais de desenvolvimento», afirmou o ministro, acrescentando que não existem «condicionamentos nem interferências em assuntos internos».

«Possuímos uma aliança inquebrável que saberá adaptarse às circunstâncias e agressões. Temos a certeza de que, com o apoio da China, Maduro poderá dinamizar os motores produtivos e recuperar a economia da agressão selvagem e criminosa de que foi alvo nos últimos anos», frisou.

Reforçar relações bilaterais

O ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros chegou à China, em visita oficial, na passada quarta-feira, tendo sido recebido por Chen Luning, conselheiro do Departamento da América Latina e Caraíbas do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros.

No dia seguinte, Jorge Arreaza manteve uma reunião com o vice-presidente da China, Wang Qishan, no decorrer da qual foram abordados os avanços e desafios existentes no âmbito da Associação Estratégica entre ambos os países.

Em Setembro de 2018, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, realizou uma visita de Estado à China, no contexto da XVI Comissão Mista de Alto Nível China-Venezuela.

Então, o encontro inter-governamental permitiu aprofundar a aliança estratégica integral que o país caribenho mantém com o asiático, tendo ambos firmado 28 acordos em sectores como a exploração mineira e petrolífera, a cibersegurança, a tecnologia aeroespacial e de satélites, a robótica, telecomunicações, o abastecimento de medicamentos e de equipas cirúrgicas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/venezuela-denuncia-agressao-permanente-dos-eua-contra-america-latina

EUA: sindicalismo, imperialismo e anticomunismo

Durante o século 20, o governo dos EUA foi repetidamente adversário de movimentos de esquerda e apoiou ou promoveu golpes de Estado em todo o mundo, com o apoio e ajuda de líderes sindicais estadunidenses. Um acerto de contas da história espúria de colaboração entre a AFL-CIO e o imperialismo dos EUA ajuda a forjar no século 21 um sindicalismo avançado e verdadeiramente internacionalista.

 

 

por Jeff Schuhrke, na Jacobin | Tradução de José Carlos Ruy

Dois dias após a deposição do presidente socialista Evo Morales, da Bolívia, por um golpe militar de direita, em novembro passado, o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka, usou o Twitter para condenar o golpe e elogiar Morales por reduzir a pobreza e defender os direitos indígenas. Ao fazer isso, Trumka juntou-se a Bernie Sanders, Ilhan Omar, Alexandria Ocasio-Cortez e outras figuras proeminentes da esquerda ao combater a narrativa dominante do establishment político e na mídia dos EUA – de que a deposição de Morales seria uma vitória da democracia.

Embora seja adequado que o presidente da maior federação sindical dos EUA denuncie um golpe de direita contra um líder de esquerda – golpe que foi endossado pelo Departamento de Estado dos EUA e pela CIA –, também representa uma importante quebra de precedente para a AFL-CIO.

Embora raramente discutida, a AFL-CIO tem uma longa história de apoio ao governo dos EUA na ação contra movimentos de esquerda em todo o mundo, inclusive através de golpes de Estado.

Durante a Guerra Fria, o Conselho Executivo da AFL-CIO e o Departamento de Assuntos Internacionais foram dirigidos por anticomunistas zelosos determinados a minar a ascensão de sindicatos de esquerda no exterior. Como seus parceiros no governo dos EUA, George Meany, presidente da AFL-CIO (1955-1979), e seu sucessor, Lane Kirkland (1979-1995), entenderam que se permitissem prosperar os movimentos de trabalhadores com consciência de classe representariam uma séria ameaça ao capital.

Meany, Kirkland e outros dirigentes da AFL-CIO aderiram a uma filosofia de “sindicalismo empresarial”, o que significa que eles não desejavam derrubar o capitalismo – mas promoveram a ideia de que a colaboração de classe e a negociação limitada no local de trabalho por questões de “pão com manteiga” trariam aos trabalhadores a prosperidade de que eles precisavam. Defendiam o nacionalismo econômico em detrimento da solidariedade internacional do trabalho, argumentando que os trabalhadores estadunidenses receberiam salários mais altos e haveria menos desemprego desde que as empresas dos EUA tivessem acesso fácil ao mercado dos outros países para vender produtos “made in USA” – uma versão do tipo de ideologia nacionalista que alimentou o racismo e a xenofobia entre segmentos da classe trabalhadora nos EUA e ajudou a ascensão de Trump ao poder.

Desde ajudar golpes militares apoiados pelos EUA no Brasil e no Chile até guerras de contra-insurgência implacáveis ​​no Vietname e em El Salvador, a política externa da AFL-CIO durante a Guerra Fria foi fundamentalmente voltada para os interesses do imperialismo americano. Na década de 1970 – quando o capital lançou seu forte ataque aos direitos dos trabalhadores em todo o mundo –, a AFL-CIO perdeu a credibilidade que poderia ter como veículo para a libertação mundial da classe trabalhadora. Foi ridicularizada pelos lutadores anti-imperialistas no país e no exterior , com o apelido de “AFL-CIA”.

Nesta nova década, a perspectiva rejuvenescida de um movimento de trabalhadores nos EUA é forte: uma nova geração de trabalhadores parece ansiosa por se sindicalizar; o número de greves é o maior em 30 anos; os Socialistas Democratas da América têm rápido crescimento com o objetivo puxar os sindicatos para a esquerda por meio de uma estratégia comum; Bernie Sanders, de longa data, planeja dobrar a filiação sindical se for eleito presidente; e sindicalistas militantes como Sara Nelson (que poderá vir a ser presidenta da AFL-CIO) se destacam.

É um bom momento, então, para ativistas e líderes sindicais de esquerda contarem a história do uso do sindicalismo de direita pelo imperialismo dos EUA – uma história ainda desconhecida pelos ativistas mais jovens que chegaram à maioridade no início do século 21. Contar essa história pode ajudar a garantir que um movimento sindical ressurgente nos EUA desempenhe um papel positivo e eficaz na construção da solidariedade mundial dos trabalhadores, em vez de sustentar uma ordem imperialista que prejudica a classe trabalhadora nos EUA e no mundo.

Embora décadas de propaganda empresarial tenham tentado dizer o contrário, o sindicato tem poder. Não apenas o poder de aumentar os salários ou ganhar uma folga remunerada, mas o poder de derrubar governos e parar as economias nacionais.

Durante a Guerra Fria, o governo dos EUA entendeu isso muito bem. Para as autoridades dos EUA determinadas a preservar e expandir o capitalismo internacional diante de uma esquerda mundial cada vez mais influente, os sindicatos representavam uma ameaça séria. Tornaram-se, portanto, um alvo crucial da intervenção imperialista dos EUA: em vez de lhes permitir montar um desafio efetivo ao capital radicalizando os trabalhadores e alimentando movimentos políticos de esquerda, os sindicatos precisariam ser transformados em instrumentos para conter o potencial revolucionário da classe trabalhadora.

Nesse processo, a arma mais poderosa do trabalho organizado – a greve – seria cooptada e usada para perseguir objetivos reacionários, ou seja, para minar os governos de esquerda. Para subverter sindicatos estrangeiros e atraí-los a seus próprios fins imperialistas, o Departamento de Estado dos EUA e a CIA encontraram um aliado entusiasmado na AFL-CIO.

A Guerra Fria coincidiu amplamente com o período em que o movimento dos trabalhadores, nos EUA, estava forte. Mais trabalhadores dos EUA foram sindicalizados nas décadas de 1950 e 1960 do que em qualquer outro momento da história, dando aos líderes sindicais como Meany grande influência política.

Como anticomunistas, os funcionários da AFL-CIO optaram por usar esse poder para ajudar o governo dos EUA a minar a influência esquerdista em sindicatos estrangeiros. Na prática, isso significava interferir nos processos internos dos sindicatos de outros países, fomentar rivalidades internacionais, criar e sustentar financeiramente organizações sindicais fragmentadas, formar sindicalistas conservadores e usar o poder da greve para sabotar governos progressistas.

Após décadas dessas intervenções imperiais, o trabalho organizado em todo o mundo ficou dividido e enfraquecido, facilitando ao capital transnacional explorar trabalhadores na era do neoliberalismo.

Graças à firme resistência contra o fascismo, os partidos comunistas da Europa Ocidental conquistaram amplo apoio popular durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente entre a classe trabalhadora. No final da guerra, federações sindicais como a Confederação Geral do Trabalho (CGT), na França, e a Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL), na Itália, foram lideradas ou fortemente influenciadas pelos comunistas.

Em 1945, os movimentos sindicais das nações aliadas – incluindo a Grã-Bretanha, a União Soviética e os EUA – formaram a Federação Sindical Mundial (FSM), uma espécie de ONU para o trabalho. Nesse momento, a AFL e o CIO ainda eram entidades distintas e concorrentes.

Fundada em 1886, a AFL, politicamente conservadora, incluía sindicatos de trabalhadores qualificados e artesanais, enquanto o CIO – fundado em 1935 como uma organização que se separou da AFL – representava trabalhadores em indústrias, como automóveis e aço. Mais novo e mais progressista, o CIO, que devia seu crescimento ao trabalho de militantes comunistas e outros da esquerda, logo aderiu à FSM. Mas a AFL, maior e firmemente anticomunista, recusou-se a ter algo a ver com a nova organização mundial porque incluía sindicatos da União Soviética (URSS).

Líderes da AFL como Meany argumentaram que os esquerdistas – particularmente os comunistas – eram inerentemente “totalitários” e que quaisquer sindicatos que liderassem eram ilegítimos como representantes dos trabalhadores. Ele e o outros internacionalistas anticomunistas da AFL sustentaram que apenas sindicatos “democráticos” ou “livres” – isto é, pró-capitalistas e empresariais – tinham alguma legitimidade.

A ironia dos sindicalistas “livres” era que frequentemente pisoteavam a democracia e a autonomia sindicais enquanto afirmavam defender esses mesmos princípios. Sempre que comunistas ou outros esquerdistas alcançavam posições de liderança em sindicatos em outros países por métodos democráticos e com apoio comum, pessoas ligadas à AFL atuavam para garantir que seus sindicalistas anticomunistas escolhidos a dedo tivessem os recursos para montar sindicatos divisionistas e posições robustas de ruptura.

Em 1944, antes que as linhas de batalha da Guerra Fria tivessem sido traçadas, a AFL estabeleceu o Comitê de Sindicatos Livres (FTUC) para minar os sindicatos liderados pelos comunistas na Europa Ocidental. Jay Lovestone, que já fora líder do Partido Comunista dos EUA, mas que foi expulso em 1929, foi escolhido para dirigir a FTUC.

Lovestone havia ingressado no movimento sindical na década de 1930, através do Sindicato Internacional das Mulheres do Vestuário. Ansioso por vingança contra seus ex-companheiros, ele trabalhou para o presidente anticomunista do UAW (United Automobile Workers), Homer Martin, e usou seu conhecimento íntimo do Partido Comunista dos EUA para ajudar Martin a expulsar seus oponentes sindicais. Essa experiência fez dele a escolha perfeita para dirigir a FTUC.

Como diretor da FTUC, Lovestone enviou seu associado, Irving Brown, para ser seu homem na Europa. De um escritório em Paris, Brown começou a dividir o movimento sindical internacional acusando a FSM de ser uma organização dominada pelos soviéticos. Ele trabalhou particularmente para dividir a CGT francesa, apoiando sua facção interna não comunista, a Força Ouvrière, a se transformar em uma concorrente direta contra a CGT.

A Force Ouvrière havia começado como um pequeno grupo na CGT, disposto a coexistir com os comunistas. Brown ajudou a transformar esse grupo em uma organização sindical anticomunista separada, sustentada mais pelos fundos dos EUA do que pelo apoio popular.

Entre 1947 e 1948, o governo dos EUA alcançou a AFL na Guerra Fria; criou a CIA e lançou o Plano Marshall para garantir a “contenção” do comunismo, reconstruindo a economia europeia destruída pela guerra, dentro de uma estrutura capitalista. Reconhecendo o movimento sindical como um campo de batalha crucial da Guerra Fria, a CIA foi atraída pela FTUC de Lovestone e, em 1949, concordou em financiar os esforços da FTUC na ação contra os sindicatos comunistas no exterior, em troca de informações sobre organizações sindicais estrangeiras.

Os líderes da AFL Meany, David Dubinsky e Matthew Woll estavam na nova parceria, assim como Lovestone e Brown, mas outros sindicalistas da AFL e dos EUA mantiveram-se no escuro e sabiam pouco do que a FTUC estava planejando.

Pode ser difícil entender que líderes sindicais dos EUA forjaram uma aliança secreta com a CIA para dividir de forma não democrática os sindicatos no exterior. Mas os líderes da AFL e a CIA compartilhavam da crença de que os sindicatos de esquerda eram literalmente capazes de provocar a revolução proletária.

Para impedir que isso acontecesse, a CIA precisava da experiência da AFL. Como as direções anticomunistas pró-capitalistas da AFL já estavam trabalhando para minar os movimentos sindicais de esquerda antes mesmo da criação da CIA, eles não precisavam de nenhum convencimento.

Agora cheio de dinheiro da CIA, no início dos anos 50, Brown tinha a reputação de carregar malas de dinheiro para comprar a lealdade de sindicalistas na França, Itália, Alemanha Ocidental e outros lugares. Onde quer que os sindicatos comunistas fossem fortes, sindicatos anticomunistas eram criados e apoiados financeiramente pela FTUC/CIA.

A AFL também fez parceria com o Departamento de Estado dos EUA, que desenvolveu um corpo de adidos sindicais e os alocou em embaixadas dos EUA no exterior. Frequentemente egressos das fileiras dos sindicatos da AFL e examinados por Lovestone, os adidos sindicais do Departamento de Estado usavam sua influência diplomática para isolar e desacreditar os sindicatos liderados pelos comunistas da Europa.

Lovestone também enviou agentes da FTUC para a Ásia. Após a Revolução Chinesa de 1949, Willard Etter, representante da FTUC, instalou-se em Formosa (Taiwan). Com os recursos fornecidos pela CIA, Etter apoiou a Liga do Trabalho da China Livre, que serviu de fachada para atividades de espionagem e sabotagem.

Equipes de agentes anticomunistas chineses viajaram secretamente de Formosa para a China continental, onde não apenas reportavam informações a Etter por transmissões de rádio – mas também explodiram o suprimento de combustível (causando baixas civis) e tentaram agitar os trabalhadores em fábricas estatais.

Com a operação na China da FTUC, a AFL tornou-se cúmplice em atividades terroristas patrocinadas pela CIA, afastando-se de seu objetivo básico de capacitar os trabalhadores. A maioria dos agentes de Etter foi capturada e executada pelo governo chinês depois que a CIA perdeu o interesse e os abandonou assim que a Guerra da Coreia começou.

A relação entre a AFL e a CIA era difícil. Lovestone se irritou com a burocracia e a supervisão da CIA, exigindo continuamente maior independência para sua FTUC. Por sua parte, alguns dos principais escalões da CIA – normalmente os WASPs da Ivy League [Nota da Redação: suposta aristocracia de brancos, protestantes e anglo-saxões, reunidos nas principais universidades dos EUA] – olhavam com desdém para os contatos da AFL, cuja maioria era de judeus e católicos irlandeses com educação de imigrantes e da classe trabalhadora.

A aversão era mútua, com Lovestone frequentemente ridicularizando seus parceiros da CIA como “garotos fracassados” em cartas a Brown. Tal acrimônia era um subproduto trivial da parceria desagradável entre a voz nominal da classe trabalhadora dos EUA e o estado imperialista dos EUA.

Apesar das tensões interpessoais, a aliança FTUC-CIA na Europa Ocidental alcançou o objetivo principal de dividir a FSM em 1949. Cada vez mais pressionado pela geopolítica da Guerra Fria, o CIO e o Sindicato Britânico de Comércio romperam com a FSM no início daquele ano. A ruptura resultou em desentendimentos sobre o Plano Marshall, ao qual os sindicatos liderados pelos comunistas se opuseram, alegando que era uma tentativa de minar sua influência e reconsolidar o sistema capitalista internacional, com os EUA no centro.

Foi no ano de 1949, também, que o movimento sindical nos EUA sofreu as mesmas divisões que a AFL espalhava pelo mundo. Querendo permanecer nas boas graças do governo, os líderes do CIO tomaram uma decisão à direita naquele ano, expulsaram os comunistas de suas fileiras e passaram a perseguir os sindicatos liderados pela esquerda. O resultado foi devastador. O CIO – que antes estava no centro de um movimento multirracial da classe trabalhadora por justiça social e econômica – foi transformado e virou à direita. Nesse contexto, em 1956 a AFL, maior e mais conservadora, absorveu o CIO, e o movimento sindical iniciou, nos EUA, um declínio de décadas.

Em dezembro de 1949, o CIO e o Sindicato dos Comércios Britânicos haviam se unido à AFL e a outros sindicatos anticomunistas para fundar a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (ICFTU), apresentada como a alternativa do mundo “livre” à FSM. Graças às maquinações da AFL, da CIA e do Departamento de Estado dos EUA, o movimento sindical internacional agora estava dividido em dois campos hostis, com os líderes sindicais estadunidenses mais concentrados em combater a esquerda do que em lutar contra o capital.

Após a reconstrução da Europa Ocidental, os líderes sindicais dos EUA e seus aliados no governo voltaram cada vez mais a atenção para os países em desenvolvimento – o então chamado 3º Mundo. No Hemisfério Ocidental, Lovestone teve uma presença mínima. Em vez disso, o “Representante Interamericano” da AFL era o emigrado italiano e ex-socialista Serafino Romualdi. Forçado a fugir da Itália por se opor a Mussolini, Romualdi se estabeleceu em Nova York. Como Lovestone, ele entrou no movimento dos trabalhadores através do Sindicato Internacional das Senhoras do Vestuário, de David Dubinsky, na década de 1930.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Romualdi viajou pela América Latina em nome do escritório de Nelson Rockefeller, coordenador de Assuntos Interamericanos. Depois voltou brevemente à Itália como agente do escritório de Serviços Estratégicos – o precursor da CIA –, onde tentou marginalizar os comunistas.

Em 1946, Romualdi se tornou o principal representante da AFL na América Latina e no Caribe. Assim como Irving Brown trabalhou para dividir a FSM, a missão de Romualdi era enfraquecer a Confederação de Trabalhadores da América Latina (CTAL), que havia sido fundada, em 1938, pelo líder sindical mexicano Vicente Lombardo Toledano, para unir o movimento consciente da classe na América Latina.

A CTAL foi uma voz autêntica para o trabalho pan-americano, liderado por sindicalistas latino-americanos e livre do domínio imperial dos EUA. Como a FSM à qual era filiada, reuniu comunistas e não comunistas em torno do objetivo comum em defesa dos trabalhadores. Romualdi e a AFL procuraram minar a CTAL e substituí-la por uma confederação interamericana de trabalhadores liderada pelos EUA, garantindo que a classe trabalhadora latino-americana não se tornasse uma força forte e independente capaz de desafiar o controle dos EUA.

Com o apoio dos partidos socialdemocratas da América Latina e dos adidos sindicais do Departamento de Estado dos EUA, Romualdi conseguiu convencer muitos sindicalistas latino-americanas a se afastarem da CTAL, reunindo os sindicatos anticomunistas da região em 1948, com a criação da Confederação Interamericana de Trabalhadores, três anos depois reconstituída como Organização Regional Interamericana de Trabalhadores (Orit) para servir como o braço regional da ICFTU no Hemisfério Ocidental. Sob a influência de Romualdi, a Orit lutou contra sindicatos esquerdistas, peronistas e católicos em toda a região ao longo da década de 1950, com o resultado de que a classe trabalhadora latino-americana permaneceu dividida.

Após a Revolução Cubana de 1959, Meany, com apoio de seus aliados no establishment da política externa dos EUA rapidamente transformou a América Latina em sua nova prioridade para a “contenção” do comunismo. Infelizmente para ele, a FTUC havia sido fechada recentemente por insistência do presidente do UAW, Walter Reuther, depois que o CIO de Reuther se fundiu com a AFL.

Embora fosse um anticomunista, Reuther acreditava que poderia haver uma coexistência pacífica entre o Oriente e o Ocidente e não desejava aumentar as tensões com a União Soviética. Desprezando Lovestone por sua tentativa de dividir o UAW anos antes, Reuther queria que a AFL-CIO conduzisse sua política externa por meio da ICFTU multilateral, e não pela FTUC de Lovestone. Embora a ICFTU tenha sido formada a pedido da AFL, durante a década de 1950, Meany havia se desencantado com os sindicalistas europeus que a administravam, acreditando que não eram beligerantes o suficiente em seu anticomunismo.

Na esperança de reorientar a Guerra Fria dos trabalhadores na América Latina após a Revolução Cubana, mas não querendo confiar na ICFTU, Meany queria uma organização nova e unilateral nos moldes da agora extinta FTUC. Ele o conseguiria com a criação do Instituto Americano para o Desenvolvimento do Trabalho Livre (AIFLD). O AIFLD se tornaria o instrumento mais importante da AFL-CIO para a Guerra Fria.

A ideia foi proposta pela primeira vez pelo presidente da Communications Workers of America, Joseph Beirne, que teve assento no Conselho Executivo da AFL-CIO. Em 1959, Beirne trouxe 16 sindicalistas afiliados à Orit, da América Latina para a Virgínia, para um treinamento sobre como ser um sindicalista eficaz. Beirne procurou ampliar esse programa e transformá-lo em uma organização permanente, convencendo Meany a apoiar o plano.

Meany, então, convenceu o novo governo Kennedy de que a organização proposta, o AIFLD, serviria como auxiliar perfeito ao trabalho para a Alliance for Progress (Aliança para o Progresso) – uma iniciativa do tipo Plano Marshall para dar ajuda dos EUA aos governos latino-americanos anticomunistas para impedir o surgimento de outra Cuba revolucionária. Como na Europa do pós-guerra, esse trabalho ajudaria novamente o governo dos EUA a cumprir os objetivos da Guerra Fria.

Em 1962, o AIFLD entrou em operação. Quase exclusivamente financiado pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), no valor de vários milhões de dólares por ano, o Instituto rapidamente ampliou sua presença em quase todos os países da América Latina, coordenando suas atividades com o aparato da política externa dos EUA.

A principal atividade do AIFLD era a educação sindical, sobretudo treinando participantes sobre como combater a influência de esquerda em seus sindicatos. Os estagiários que fossem considerados com potencial excepcional seriam levados para uma instalação em Front Royal (Virgínia) para um curso de três meses. Era uma espécie de Escola das Américas para sindicalistas. De volta aos seus países, recebiam apoio financeiro para os esforços de organização antiesquerdista.

O Instituto também usou fundos da Usaid para realizar projetos de desenvolvimento em toda a América Latina, incluindo a construção de moradias populares para trabalhadores membros de sindicatos filiados à Orit, sinalizando a eles os benefícios de ingressar no movimento sindical “livre” patrocinado pelos EUA.

Para demonstrar o compromisso da AFL-CIO com a colaboração de classe, o AIFLD convidou empresários dos EUA com interesses na América Latina para fazer parte de seu conselho de curadores, incluindo os chefes da Anaconda Company, da Pan-American Airways e da WR Grace & Co., entre outros. Essas empresas não eram estranhas à ação contra os sindicatos, o que tornava a ansiedade da AFL-CIO especialmente perturbadora. O fato de concordarem em fazer parte do AIFLD demonstra como os capitalistas dos EUA não viam ameaça – mas apenas oportunidade – no tipo de sindicalismo que o Instituto estava encorajando.

Romualdi dirigiu o Instituto nos primeiros três anos até sua aposentadoria, quando foi substituído por William Doherty Jr. Doherty, cujo pai havia sido presidente da Associação Nacional de Portadores de Carta e embaixador dos EUA na Jamaica, era um suposto amigo da CIA e atuaria como diretor do AIFLD pelos próximos trinta anos.

No início dos anos 60, o AIFLD ajudou a minar o governo esquerdista democraticamente eleito de Cheddi Jagan na pequena nação sul-americana da Guiana, que era então uma colônia chamada Guiana Britânica. A colônia estava a caminho de uma transição planejada para a independência, e Jagan esperava reorganizar a economia de acordo com as linhas socialistas. Mas o governo Kennedy, temendo que Jagan fosse outro Fidel Castro, pressionou o Reino Unido a impedir a transição até que ele pudesse ser expulso do poder.

No verão de 1962, oito sindicalistas guianenses, de uma federação de direita, vinculados à oposição política a Jagan, participaram de um curso do AIFLD nos Estados Unidos, e voltaram para casa com os subsídios fornecidos pelo Instituto. Na primavera seguinte, eles ajudaram a liderar uma greve geral contra o governo de Jagan. A greve de três meses prejudicou a economia da colônia e se transformou em um tumulto racial, pondo a oposição afro-guiana em luta contra a base indo-guiana de Jagan.

O Departamento de Estado e a Usaid ficaram tão satisfeitos com o trabalho do AIFLD que aceitaram a proposta da AFL-CIO de criar institutos semelhantes para a África e a Ásia. Entre o final de 1964 e o início de 1965, foi criado o Centro Afro-Americano de Trabalho e, em 1968, foi lançado o Instituto Americano-Asiático de Trabalho Livre.

Como o AIFLD, essas duas organizações sem fins lucrativos foram quase inteiramente financiadas pela Usaid para realizar programas de treinamento e desenvolvimento para apoiar sindicatos anticomunistas e antiesquerda. Em 1977, uma quarta organização sem fins lucrativos – o Instituto de Sindicatos Livres – foi criada para se concentrar na Europa.

Na convenção da AFL-CIO de 1965 em São Francisco, Meany apresentou uma resolução, escrita por Lovestone, prometendo o “apoio irrestrito” da federação trabalhista à política do presidente Lyndon Johnson de ampliar a Guerra do Vietname. Quando a resolução estava prestes a ser votada sem discussão ou debate, um grupo de estudantes universitários que, da sacada, observava os procedimentos, levantou-se e gritou “Saia do Vietname!” e “Debate!”. Meany respondeu mandando-os embora do salão de convenções, descartando-os como “malucos”. A resolução pró-guerra foi então adotada por unanimidade.

Um punhado de sindicatos independentes, sindicatos locais e sindicalistas já havia expressado ceticismo em relação à guerra, se não à oposição total. Após testemunhar a hostilidade de Meany em relação ao movimento antiguerra e sua falta de vontade de permitir o debate, mais líderes sindicais – especialmente do UAW – começaram a expressar abertamente suas divergências com a política externa da AFL-CIO.

O presidente do UAW opôs-se à escalada militar no Vietname, querendo ver o fim da guerra através de negociações pacíficas. Além disso, ele não gostava da abordagem agressiva e independente de Meany para questões internacionais, preferindo trabalhar com a ICFTU. Reuther também não confiava em Lovestone, que agora era diretor do Departamento de Assuntos Internacionais da AFL-CIO. Ainda assim, ele estava relutante em divulgar suas divergências, não querendo criar uma brecha entre o UAW e a AFL-CIO.

Em vez disso, Victor Reuther – irmão mais novo de Walter, encarregado das relações internacionais do UAW – falou para a imprensa, em 1966, que Lovestone e a AFL-CIO estavam “envolvidos” com a CIA, e criticou o papel do AIFLD no golpe de 1964 contra João Goulart, no Brasil. No ano seguinte, uma série de matérias jornalísticas ajudou a substanciar a reivindicação de Victor, revelando os laços da CIA com a federação sindical e suas afiliadas, voltando à FTUC. Obviamente, Meany e os outros internacionalistas da AFL-CIO negaram vigorosamente qualquer relacionamento com a CIA.

Juntamente com a postura agressiva de Meany sobre o Vietname – que incluía tentativas de reforçar a Confederação Anticomunista Vietnamita do Trabalho do Vietname do Sul –, as revelações sobre a CIA prejudicaram gravemente a credibilidade da AFL-CIO entre liberais e membros da Nova Esquerda. Desentendimentos sobre política externa, bem como várias questões domésticas, finalmente levaram o UAW a se afastar da AFL-CIO em 1968 (retornaria em 1981).

Apesar dessas controvérsias, Meany, Lovestone e AIFLD não alteraram o curso. Quando o socialista Salvador Allende foi eleito presidente do Chile em 1970, eles decidiram ajudar o governo Nixon a desestabilizá-lo. Enquanto a classe trabalhadora chilena apoiava predominantemente a Allende, o AIFLD apoiou associações profissionais de direita e da classe média, junto com o sindicato conservador de trabalhadores marítimos do país. Em 1972, pelo menos 29 chilenos participaram do curso de treinamento do AIFLD na Virgínia (EUA), muito mais do que jamais haviam participado nos anos anteriores.

Com a ajuda do AIFLD, em 1972 e 1973, donos de caminhões e comerciantes em todo o Chile realizaram uma série de greves destinadas a criar um caos econômico e subverter o governo de Allende. Como na Guiana Britânica, nove anos antes, os grevistas receberam apoio da CIA. Os esforços dos EUA para minar Allende culminaram no violento golpe militar de 11 de setembro de 1973. A nova ditadura militar que o AIFLD ajudou a levar ao poder usando táticas tradicionais da classe trabalhadora, como a greve, ironicamente – e tragicamente – atropelou os direitos dos trabalhadores, prendeu e assassinou milhares de sindicalistas chilenos.

Depois que pesquisadores como Ruth Needleman e Fred Hirsch ajudaram a expor o papel do AIFLD no golpe chileno, obtendo documentos, realizando entrevistas e divulgando suas descobertas, os sindicalistas nos EUA começaram a exigir mais transparência em torno do AIFLD em meados dos anos 1970. Vários sindicalistas pediram à AFL-CIO que financie seus programas estrangeiros de forma independente, em vez de confiar na Usaid. Enquanto essas demandas foram ignoradas, Lovestone finalmente se aposentou em 1974, e Meany seguiu seu exemplo após cinco anos.

Depois da aposentadoria de Meany, seu antigo braço direito, Lane Kirkland, se tornou presidente da AFL-CIO. Como seu antecessor, Kirkland era um anticomunista de linha dura. Preparado para ser um diplomata na Escola de Serviços Estrangeiros de Georgetown, era amigo pessoal de Henry Kissinger.

Sob Kirkland, a AFL-CIO apoiou a política externa agressiva do governo Reagan, destinada a reacender a Guerra Fria, mesmo quando Reagan inaugurou uma nova era antissindical ao demitir 11 mil controladores de voo em 1981. Por insistência da AFL-CIO, Reagan supervisionou a criação da National Endowment for Democracy (NED) em 1983, uma fundação de doação financiada pelo governo para desembolsar dinheiro aos mesmos tipos de organizações anticomunistas no exterior, anteriormente financiadas secretamente pela CIA. Com Kirkland atuando no conselho de diretores da NED, o AIFLD e os outros institutos estrangeiros da AFL-CIO tornaram-se os principais beneficiários de subsídios.

Kirkland apoiou a política de Reagan na América Central de armar forças da repressão em El Salvador e contrarrevolucionários terroristas na Nicarágua. O AIFLD foi especialmente ativo em El Salvador na década de 1980, desempenhando um papel crítico no desenvolvimento e na implantação de um programa de reforma agrária destinado a minar o apoio rural ao movimento revolucionário de esquerda. O governo de contra-insurgência de El Salvador – totalmente apoiado por generosa ajuda militar dos EUA – combinou a reforma agrária com um estado de sítio em que milhares de camponeses foram assassinados brutalmente em uma onda de massacres.

Alarmados com o apoio de Kirkland à política externa de Reagan, os sindicalistas nos EUA se tornaram ativos no movimento de paz e solidariedade à América Central, exigindo a mudança de direção da AFL-CIO. Em um dos desenvolvimentos mais significativos para o internacionalismo sindical nos EUA desde o início da Guerra Fria, os presidentes de vários sindicatos nacionais filiados à AFL-CIO se uniram para formar o Comitê Nacional do Trabalho de Apoio à Democracia e aos Direitos Humanos em El Salvador (NLC).

O NLC se opôs abertamente a Kirkland e ao Conselho Executivo, pressionando o Congresso a cortar a ajuda militar dos EUA ao governo salvadorenho. O NLC também enviou delegações de sindicalistas dos EUA para El Salvador e Nicarágua, a fim de testemunhar em primeira mão como o apoio dos EUA estava ajudando os direitistas a assassinar e intimidar os trabalhadores da América Central. Mais tarde, o NLC evoluiu para uma organização que ajudou a expor a cumplicidade das principais marcas de roupas em violações dos direitos dos trabalhadores na América Central, no Caribe e na Ásia.

Enquanto enfrentava oposição interna ao seu programa na América Central, a AFL-CIO deu apoio financeiro e político ao Solidarność, o sindicato polonês liderado por Lech Wałęsa que acabou ajudando a derrubar o governo comunista na Polônia. Opondo-se a funcionários da política externa que temiam provocar hostilidades com a União Soviética, a ação da AFL-CIO na Polônia tem sido apontada pelos intervencionistas como um estudo de caso da “promoção da democracia”.

Embora Kirkland tenha reivindicado a vitória do sindicalismo “livre” na Polônia na década de 1990, os líderes sindicais associados ao NLC estavam convencidos de que a federação precisava muito para melhorar sua imagem no exterior. Além disso, vários presidentes sindicais no Conselho Executivo da AFL-CIO acreditavam que a federação havia se tornado letárgica diante dos anos de declínio da atividade sindical.

Nesse contexto, o sindicalista John Sweeney reuniu apoio suficiente para forçar Kirkland a se aposentar, e assumiu o controle da AFL-CIO em 1995. Chamando a si mesmos de ardósia da “Nova Voz”, Sweeney e seus aliados pretendiam revitalizar a AFL-CIO, organizando novos trabalhadores e abandonando as prioridades anticomunistas ultrapassadas.

Sob Sweeney, em 1997, o AIFLD e os outros institutos estrangeiros foram encerrados e reorganizados em uma nova ONG chamada Centro Americano de Solidariedade Internacional do Trabalho, ou Centro de Solidariedade, que continua sendo o braço operacional da AFL-CIO no Sul Global. Mas, como suas predecessoras, o Centro de Solidariedade é financiado principalmente pelo governo dos EUA, particularmente a Usaid, o Departamento de Estado e o NED, conhecido por se intrometer nos processos democráticos de outros países e promover a “mudança de regime” para manter o domínio global dos EUA, incluindo Venezuela, Haiti, Ucrânia e vários países da América Central.

Dada a história da FTUC e do AIFLD, a dependência financeira do Centro de Solidariedade em relação ao governo dos EUA e a associação com a NED devem ser motivos de preocupação no movimento sindical e merecem um exame mais minucioso. Isso não é particularmente surpreendente, considerando que a AFL-CIO ainda não reconheceu ou se desculpou formalmente pelo importante papel que desempenhou durante a Guerra Fria na divisão dos sindicatos no exterior, minando as democracias estrangeiras e endossando o militarismo – tudo o que serviu apenas para fortalecer o capital multinacional e enfraquecer o poder dos trabalhadores.


por Jeff Schuhrke, PhD em História na Universidade de Illinois (Chicago, EUA)   |   Texto em português do Brasil, com tradução, adaptação e seleção de trechos de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 
 
 
 
 
 
 
 
 

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A esquerda, os militares e o imperialismo

Quando ouvem falar em “imperialismo”, “dependência” ou em “assimetria do poder internacional”, economistas progressistas preferem se esconder atrás do argumento velho e preguiçoso de que se trata de uma “visão conspiratória” da História.

 

 

 

As grandes potências são aqueles Estados de toda parte da Terra que possuem elevada capacidade militar perante os outros, perseguem interesses continentais ou globais e defendem estes interesses por meio de uma ampla gama de instrumentos, entre eles a força e ameaças de força, sendo reconhecidos pelos Estados menos poderosos como atores principais que exercem direitos formais excepcionais nas relações internacionais.”

Charles Tilly, Coerção, Capital e Estados Europeus (São Paulo: Edusp, 1996, p. 247)
 
 

Foi depois da 1ª Grande Guerra que o movimento socialista internacional repudiou o colonialismo europeu e transformou o “imperialismo” no inimigo número um da esquerda mundial. Assim mesmo, quando os socialistas chegaram pela primeira vez ao poder, na Europa, e foram obrigados a governar economias capitalistas, não conseguiram extrair consequências da sua própria teoria do imperialismo para o plano concreto das políticas públicas.

E quando foram chamados a comandar diretamente a política econômica, como no caso de Rudolf Hilferding, entre outros, seguiram o receituário vitoriano clássico, do sound money and free markets – até muito depois da 2ª Guerra, quando aderiram, já nos anos 60 e 70, às ideias, propostas e políticas keynesianas. Mas, na década de 80, estes mesmos partidos se converteram ao programa ortodoxo da austeridade fiscal e das reformas liberais que levaram à desmontagem parcial do Estado de Bem-Estar Social.

Esse mesmo problema reapareceu de forma mais dramática quando lhes tocou aos socialistas e às forças de esquerda governarem países “periféricos” ou “subdesenvolvidos”. Também nestes casos, os teóricos do imperialismo e da dependência tiveram muita dificuldade para decidir qual seria o modelo de política econômica “ideal” para as condições específicas de um país situado no “andar de baixo” da hierarquia mundial do poder e da riqueza.

No caso da América Latina, a Cepal formulou nos anos 50 uma teoria “estruturalista” do comércio internacional e da inflação, e propôs um programa de industrialização por “substituição de importações” que lembrava as teorias e propostas de Friederich List, economista alemão do século 19 – com a diferença de que as ideias cepalinas não tinham nenhum tipo de conotação nacionalista ou de coloração anti-imperialista.

Na prática, entretanto, dentro e fora da América Latina, os governos de esquerda dos países periféricos acabaram, quase invariavelmente, derrubados ou estrangulados financeiramente pelas grandes potências do sistema mundial, sem terem conseguido descobrir o caminho do crescimento e da igualdade, dentro de uma economia capitalista subdesenvolvida, e no contexto de um sistema internacional assimétrico, competitivo e extremamente bélico.

Apesar de tudo, essas experiências deixaram um ensinamento fundamental: que os modelos e as políticas econômicas que funcionam em um país do “andar de cima” não funcionam necessariamente em países situados nos escalões inferiores do sistema – e menos ainda quando estes países do “andar de baixo” tiveram a ousadia de querer mudar sua posição relativa dentro da hierarquia mundial do poder.

Desta perspectiva, para poder avançar neste debate, é útil distinguir pelo menos quatro tipos ou grupos de países[1], do ponto de vista de sua estratégia de desenvolvimento e de sua posição com relação à potência dominante em cada um dos grandes tabuleiros geopolíticos e econômicos do sistema mundial. No primeiro grupo, encontram-se os países que lideram ou lideraram a expansão do sistema mundial, em distintos níveis e momentos históricos, as chamadas “grandes potências”, do presente e do passado, desde a origem do sistema interestatal capitalista.

No segundo grupo, estão os países que foram derrotados e submetidos pelas grandes potências, ou que adotaram voluntariamente estratégias de integração econômica com as potências vitoriosas, transformando-se em seus dominiums econômicos e protetorados militares. No terceiro grupo devem ser situados os países que lograram se desenvolver questionando a hierarquia internacional estabelecida e adotando estratégias econômicas nacionais que priorizaram a mudança de posição do país dentro do poder e da riqueza mundiais.

Por fim, no quarto grupo, podemos incluir todos os demais países e economias nacionais situadas na periferia do sistema e que não puderam ou não se propuseram sair dessa condição, ou mesmo sofreram um processo de deterioração ou decadência depois de terem alcançado níveis mais altos de desenvolvimento, como no caso de alguns países africanos e latino-americanos.

No caso da América Latina, a potência dominante sempre foram os Estados Unidos. E desde a 2ª Guerra Mundial até o final da década de 70 pelo menos, os EUA defenderam e patrocinaram na sua “zona de influência” um projeto de tipo “desenvolvimentista” que prometia rápido crescimento econômico e modernização social, como caminho de superação do subdesenvolvimento latino-americano.

Mas depois da sua crise dos anos 70, e em particular na década de 80, os norte-americanos mudaram sua estratégia econômica internacional e abandonaram definitivamente seu projeto e patrocínio desenvolvimentista. Desde então, passaram a defender, urbe et orbi, um novo programa econômico de reformas e políticas neoliberais que ficou conhecido pelo nome de “Consenso de Washington”, que se transformou no núcleo central de sua retórica vitoriosa depois do fim da Guerra Fria. Combinavam a defesa dos mercados livres e desregulados com a defesa da democracia e da desestatização das economias que haviam seguido seu ideário anterior, que propunha um crescimento econômico rápido e induzido pelo Estado.

Foi o momento em que o neoliberalismo se transformou no pensamento hegemônico de quase todos os partidos e governos da América Latina, incluindo os partidos socialistas e socialdemocratas. Na segunda década do século 21, entretanto, os EUA voltaram a redefinir e mudar radicalmente seu projeto econômico para a periferia latina e mundial, defendendo um ultraliberalismo radical e com forte viés autoritário, sem nenhum tipo de preocupação social ou promessa para o futuro, seja de maior justiça ou de maior igualdade.

É nesse contexto hemisférico que se deve ler, interpretar e discutir a trajetória econômica brasileira da 2ª Guerra Mundial até hoje, começando pelo sucesso econômico do seu “desenvolvimentismo conservador”, que foi sempre tutelado pelos militares e apoiado pelos Estados Unidos. Em troca, durante todo esse período, os militares brasileiros submeteram-se à estratégia militar dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, transformando-se no único caso de sucesso no continente latino-americano daquilo que alguns historiadores econômicos costumam chamar de “desenvolvimento a convite”, que se encaixa diretamente no segundo tipo de estratégia e de desenvolvimento da nossa classificação anterior.

Ressalva deve ser feita ao governo Geisel, que se manteve fiel ao anticomunismo americano, mas ensaiou uma estratégia de centralização e estatização econômica e de conquista de maior autonomia internacional, que foi vetada e derrotada pelos Estados Unidos e pelo próprio empresariado brasileiro[2].

É exatamente o período “geiselista” do regime militar brasileiro que deixa muitos analistas confundidos quando o comparam com o ultraliberalismo do atual governo “paramilitar” instalado no Brasil em 2018. Na verdade – excluída a “excrecência bolsonarista” –, os militares brasileiros seguem no mesmo lugar, ocupando a mesma posição que ocuparam nos golpes de 1954 e de 1964: aliados com as mesmas forças conservadoras e com a extrema-direita religiosa, e alinhados de forma incondicional e subalterna com os Estados Unidos.

E é por isto exatamente que não representa nenhum constrangimento para eles o fato de terem sido “nacional-desenvolvimentistas” na segunda metade do século 20, e serem agora “nacional-ultraliberalistas” neste início do século 21. Acreditam que, uma vez mais, seu alinhamento automático com os Estados Unidos lhes garantirá o mesmo sucesso econômico que tiveram durante a Guerra Fria, só que agora através de mercados desregulados, desestatizados e desnacionalizados.

O que os atuais militares brasileiros ainda não perceberam, entretanto, é que a estratégia de desenvolvimento ultraliberal esgotou-se em todo mundo, e em particular no caso dos Estados e economias nacionais de maior extensão e complexidade, como o Brasil. E que os EUA já não estão em condições nem querem assumir a responsabilidade pela criação de um novo tipo de dominium canadense ao sul do continente americano.

Além disso, nesta nova fase os EUA estão inteiramente dedicados à competição entre as três grandes potências que restaram no mundo[3]; não têm mais nenhum tipo de aliado permanente ou incondicional, com exceção de Israel e Arábia Saudita; e consideram que seus interesses econômicos e estratégicos nacionais estão por cima de qualquer acordo ou aliança com qualquer tipo de país, que por definição será sempre passageira.

Por sua própria conta, a agenda ultraliberal pode garantir um aumento da margem de lucro dos capitais privados, sobretudo depois da destruição da legislação trabalhista, e durante o período das grandes privatizações. Mas, definitivamente, a agenda ultraliberal não conseguirá dar conta do desafio simultâneo do crescimento econômico e da diminuição da desigualdade social brasileira.

No entanto, esse “fracasso anunciado” traz de volta o grande desafio e a grande incógnita da esquerda e das forças progressistas, até porque o antigo desenvolvimentismo brasileiro não foi uma obra de esquerda, como já dissemos, mas sobretudo uma obra conservadora e militar que não teria tido grande sucesso se não tivesse contado com o “convite” norte-americano. E exatamente por isso fica muito difícil querer reinventá-lo utilizando apenas novas fórmulas e equações macroeconômicas.

Talvez por isto mesmo às vezes se tem a impressão, hoje, de que a esquerda econômica vive prisioneira de um debate circular e inconclusivo, sempre em busca da fórmula mágica ou ideal que supõe ser capaz de responder por si só triplo desafio do crescimento, da igualdade e da soberania.

Nesses momentos de grandes “bifurcações históricas”, é preciso ter coragem de mudar a forma de pensar, é preciso “rebobinar” as ideias, mudar o ângulo e trocar o paradigma. Isto é muito difícil de esperar dos militares porque eles foram educados para pensar sempre da mesma maneira, e foram treinados para fazer a mesma coisa todo dia, em ordem unida.

O problema maior, entretanto, vem da resistência dos economistas progressistas que, quando ouvem falar em “imperialismo”, “dependência” ou em “assimetria do poder internacional”, preferem se esconder atrás do argumento velho e preguiçoso de que se trata de uma “visão conspiratória” da História, sem querer enfrentar a dura realidade revelada por Max Weber, quando nos ensinou que “os processos de desenvolvimento econômico são lutas de poder e dominação [e por isto] a ciência da política econômica é uma ciência política, e como tal não se conserva virgem com relação à política quotidiana, a política dos governos e das classes no poder, e pelo contrário, depende dos interesses permanentes da política de potência das nações”[4].

 

 
 

[1] Fiori, J.L., “História, estratégia e desenvolvimento”, Editora Vozes, Petrópolis, 2015, p: 43 e 44

[2] “O governo Geisel tentou impor um novo movimento de centralização econômica, mas já não encontrou o apoio social e político – nacional e internacional – do início do regime militar. Por isso fracassou, e apesar da aparência em contrário, seu intento acelerou a divisão interna dos militares, que cresceu ainda mais nos anos seguintes e acabou levando-os à impotência final”. FIORI, J.L. Conjuntura e ciclo na dinâmica de um Estado periférico. Tese de Doutoramento, mimeo, USP, 1985, p. 214.

[3] COLBY, E.A. e MITCHELL, A.W. The Age of Great-Power Competition. How the Trump Administration Refashioned American Strategy. Forerign Affairs This Week. December 27, 2019.

[4] Weber, M. “Escritos Políticos”, Folio Ediciones S.A., México, 1982, p: 18


por José Luís Fiori, Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ/CNPQ  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Publicado originalmente no Outras Palavras

 
 
 
 

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ANGOLA, RECESSÃO, CRISE E IMPÉRIO…

 
 
 
A paz capitalista, sem vocação para a justiça social, é a bengala duma representatividade elitista que de tanto o ser, esgota o carácter da própria democracia: desaparece o mito do “socialismo democrático” de salão e o neoliberalismo desponta com todo o seu arsenal de contrassensos, inclusive com a ressaca dum amplo processo contrarrevolucionário intestino, sob a égide programática tão bem-sucedida do Bilderberg e de seus afins (“Le Cercle” e “Clube 1001”, este último dominante nas articulações do WWF)!
 
A RECESSÃO E A CRISE SÃO PRODUTOS DA MALHA QUE A GLOBALIZAÇÃO DO IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR TECE!
 
01- A evolução deste “modelo” de globalização com os contraditórios entre a hegemonia unipolar e a emergência multilateral, é determinante para a recessão e a crise universal, que nas ultraperiferias económicas são assim agravadas, penalizando as nações, os estados e os povos que preenchem a cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano. (http://www.4pt.su/pt-br/content/multipolaridade-definicao-e-diferenciacao-entre-seus-significados).
 
Sob o ponto de vista de África o estado deste modelo de globalização é na verdade um índice do aprofundar do subdesenvolvimento global, com todas as cargas feudais e retrógradas na superestrutura ideológica das elites e sobretudo da própria aristocracia financeira mundial, manifestada pelas práticas dos seus processos de domínio imperialista e neocolonial. (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/04/28/africa-da-inercia-a-catastrofe/).
 
De facto esgotar em meio ano os recursos do planeta que só deveriam ser utilizados num ano, mantendo-se de forma cada vez mais reforçada a agenda da aristocracia financeira mundial (cada vez mais dominadora na expressão de 1% sobre o resto da humanidade), cria as condições para a vulnerabilidade cada vez maior da vida na própria “casa comum”, a Mãe Terra, ou seja para a exaustão da vida tal qual hoje a conhecemos… (https://www.dw.com/pt-br/humanidade-j%C3%A1-esgotou-os-recursos-renov%C3%A1veis-de-2019/a-49789439).
 
Inexoravelmente as espécies vão continuar a desaparecer num ritmo ainda mais alucinante e com elas a sustentabilidade ambiental afectando as condições de vida humana. (https://www.dn.pt/ciencia/biosfera/mundo-esta-iniciar-sexta-extincao-em-massa-e-homem-pode-desaparecer-4635190.html).
 
Num mundo que em nome quantas vezes da civilização, é um mundo que se tornou cada vez mais bárbaro, tudo começa a entrar em irremediável decadência e ruptura, com sinais cada vez mais evidentes em África, onde além do mais os conflitos nascem do chão das disputas, sem remissão e com as mais aleatórias alegações e justificações!... (http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/533025-capitalismo-violencia-e-decadencia-sistemica).
 
Em África havendo tão pouca consciência crítica sobre os fenómenos, (tanto pior sobre as dialéticas de natureza sociocultural) sobrevive-se numa mentalidade que de tão formatada pelos mecanismos e instrumentos neocoloniais estimulados pelo “soft power” do império (https://frenteantiimperialista.org/blog/2018/07/08/la-guerra-psicologica-del-imperio-de-la-hegemonia-unipolar-en-africa/), reduz-se a processos de assimilação, de consumismo e de sobrevivência que agudizam o estado de subdesenvolvimento enquanto efeito, ao invés de alguma vez poder combater as suas profundas razões causais. (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/01/03/capitalismo-reconversao-e-continuidade-da-barbarie/).
 
… Em África está-se no modo do tanto pior, por razões da sobrevivência das espécies e de sobrevivência da própria espécie humana, (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/01/07/africa-dilecto-alvo-neocolonial/) por que esse fenómeno traduz-se por um aumento da superfície dos maiores desertos quentes do globo que provoca por si um aumento de tensão sobre as áreas de espaço vital, onde a água interior em regimes tropicais é cada vez mais disputada, sem que haja as acções adequadas para garantir sustentabilidade em benefício das gerações presentes e vindouras. (https://tudoparaminhacuba.wordpress.com/2012/10/05/o-fardo-da-hegemonia/).
 
Dirão alguns que essa é uma visão pessimista sobre a evolução da situação, mas o que persiste com o capitalismo é um esgotar das possibilidades da própria vida inerentes ao subdesenvolvimento global que ano após ano é sinónimo também do esgotar dos recursos, algo a que os ambientalistas do norte estão em grande parte alheados, por que longe dos cenários humanos do sul e do seu significado antropológico. (http://wizi-kongo.com/historia-do-reino-do-kongo/africa-e-as-interpretacoes-sobre-o-seu-subdesenvolvimento/).
 
Os ambientalistas do norte são um fluido estimulado transversalmente, atravessado pelos interesses das transnacionais capazes de alterar o paradigma energético global e confinados nessa torrente!
 
Por isso continuam a nada dizer em relação às proporções do fenómeno do subdesenvolvimento global e às suas incidências sobre os mais frágeis seres do planeta: os seres vivos de África, os vegetais, os animais e o homem! (http://www.comciencia.br/dossies-1-72/reportagens/cidades/cid21.htm).
 
 
 
02- Angola está a apanhar por tabela toda essa complexidade de fenómenos produtores de subdesenvolvimento global que, de forma desencadeada resulta, na cada vez mais periclitante base da pirâmide da riqueza global, em função de cada vez mais esgotados recursos, na formatação da mentalidade da superestrutura ideológica das suas elites e de elas mesmas, cada vez mais refractárias à premente necessidade de se superarem por via da consciência crítica. (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/05/17/una-lucha-sobre-las-brasas-i/).
 
As elites africanas, por tabela as elites angolanas, mentalizadas mas sem capacidade crítica, fazem surrealisticamente parte do estado de subdesenvolvimento e neocolonialismo, pois estão incapazes de poderem dar início às possibilidades das nações, dos estados e dos povos africanos poderem sair do pântano neocolonial (em regime de ultraperiferia económica) em que se encontram, indiciando por si o estado de agravamento do índice de subdesenvolvimento global, apontando para níveis insuportáveis de corrupção! (http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/justica-arresta-contas-bancarias-de-isabel-dos-santos-e-do-marido).
 
A ausência de capacidade crítica tem levado Angola a um modelo inquinado de paz que é mais visível desde o 4 de Abril de 2002, quando precisamente na mesma altura, o petróleo africano, por causa do início da campanha contra o Iraque por parte do império da hegemonia unipolar, em África era tido deliberadamente como bonançoso, “petróleo para o desenvolvimento”, quando era já, pelo desencadear dos conflitos e do caos no Médio Oriente Alargado, “petróleo sinónimo de excremento do diabo”! (http://paginaglobal.blogspot.com/2017/03/revitalizar-paz.html).
 
Foram os conceitos do capitalismo neoliberal que conduziram esses processos de choque, de terapia e de alienação, que apanharam Angola precisamente na “nova era” que correspondia ao fim dos conflitos armados.
 
Naquela altura, foram “think tanks” ao nível do IASPS (Institute for Advanced Strategic & Political Studies – https://www.sourcewatch.org/index.php/Institute_for_Advanced_Strategic_%26_Political_Studies), que manipularam a ambivalência do petróleo, as duas “qualidades” geoestratégicas do petróleo, eminentemente “qualidades” de ingerência e manipulação da aristocracia financeira mundial e com toda mentira e alienação adequada (conforme às suas próprias mensagens, destinatários e alvos), algo que se prolonga até hoje em todos os continentes e com os mais diversificados cenários que dizem muito mais respeito à barbárie que alguma vez tivessem dado respeito à civilização!
 
Na altura o IASPS forjou o AOPIG (African Oil Policy Initiative Group – https://www.business-humanrights.org/en/african-oil-policy-initiative-group-us-house-of-representatives-subcommittee-on-africa-statement-of-chairman-ed-roycehttps://www.sourcewatch.org/index.php/African_Oil_Policy_Initiative_Group;  https://allafrica.com/stories/200206120501.htmlhttps://pt.scribd.com/document/70373464/African-Oil-Policy-Initiative-Group-White-Paper), criando um engodo para a “nova era” que também Angola estava a experimentar após o final do choque de Savimbi e sua “guerra dos diamantes de sangue”.
 
O 31 de Maio de 1991 (http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/bicesse-foi-a-31-de-maio-de-1991http://www.redeangola.info/bicesse-valeu-pena-diz-durao-barroso/), confirma-o agora o triunfalista Durão Barroso, caucionou o golpe neoliberal em Angola, pondo fim à linha do Partido do Trabalho no MPLA (e à conduta marxista-leninista enunciada por António Agostinho Neto no Iº Congresso), afectou o carácter da Segurança do Estado, pôs fim às FAPLA, que haviam saído vitoriosas dos campos de batalha, fortaleceu a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos na opção sobre o carácter do estado, introduziu o choque protagonizado servilmente pelo “freedom fighter” Savimbi (testando o comportamento do estado angolano por via da radicalização dos métodos e dos objectivos) e, por fim, levando ao esgotamento a sociedade e o povo angolano, introduziu a formatação típica da terapia neoliberal até aos nossos dias, sem remissão nem alternativa palpável a curto, ou médio prazo!
 
Para Angola a viragem do 31 de Maio de 1991 em Bicesse (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/angola-bicesse-e-paz-que-estamos-com.html) tinha garantido assim, sub-repticiamente, a gestação da introdução do capitalismo neoliberal e o choque garantiu a seu tempo (1992-2002) e por seu turno que sob o rótulo do multipartidarismo democrático, as elites angolanas não mais pudessem escapar ao jogo dos processos dominantes que caracterizam a hegemonia unipolar, sobretudo nas esferas da superestrutura ideológica e da infraestrutura económica do próprio país, facilitando a assimilação “lusófona” com seu papel bem definido na “cadeia” da instrumentalização!
 
Este é um subsídio que decerto a actual direcção do MPLA terá muita dificuldade em aceitar, marginalizando-o de qualquer colóquio, mas não me venham mais com a estória alucinante do “golpe de estado sem efusão de sangue” dos oficiais da Segurança do Estado em meados da década de 80 (https://plataformacascais.com/plataformacascais/artigos/partilhado/68762-confesso-que-vivo.html), pois as decisões liberais então tomadas, que esperaram mais de três décadas para melhor se fazer a radiografia do seu significado, fortaleceu desde logo o tráfico de diamantes e tornou possível a disposição de Savimbi em partir para o choque por via da “guerra dos diamantes de sangue”, sem possibilidade de medidas de prevenção! (https://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/em-angola-ha-20-anos-iii.html).
 
Tornou depois possível a tomada do sector dos diamantes, por quem deveria ter tido a incumbência de velar mais que ninguém pelos interesses do estado angolano nesse sector, ou seja, se houve “golpe de estado” foi o próprio Presidente José Eduardo dos Santos “& família” que o deu! (https://www.makaangola.org/2018/01/isabel-dos-santos-e-a-lavagem-do-dinheiro-dos-diamantes/).
 
Afastar os oficiais duma Segurança do Estado que primavam pelo patriotismo e o rigor, para dar no que deu, entre choque e terapia de natureza neoliberal, é um crime de mercenários contra a Pátria de Agostinho Neto e daí o eclipse da vocação socialista do estado angolano, para que Angola se tornasse numa espécie de caverna de Ali Bábá e seus 40 ladrões, em pleno século XXI, possibilitando com isso a penetração da inteligência económica de interesses em “jogos africanos”, que souberam aproveitar o êxito das “portas escancaradas” desse mesmo modo propiciadas!... (https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/banca---financas/detalhe/ana-gomes-isabel-dos-santos-lava-que-se-farta-e-o-banco-de-portugal-nao-quer-ver).
 
De facto não foi saudável a concentração do poder presidencial que não quis avaliar melhor os sinais dos tempos (até por que afinal, nem sequer o carácter dos oficiais que serviam nos instrumentos do poder do estado quiseram alguma vez avaliar) e o estado angolano ficou fragilizado com a introdução dum multipartidarismo envenenado pelo neoliberalismo, algo sem recuperação por parte do MPLA até hoje, apesar dos esforços de mobilização “de massas”, com demonstrações que vão sendo visíveis por via do “barómetro” das eleições numa democracia dita representativa! (https://www.makaangola.org/2017/08/sondagem-eleitoral-mpla-fica-atras-da-oposicao/https://www.makaangola.org/2017/08/resultados-provisorios-maioria-do-mpla-em-risco/).
 
A sucessão de eleições indicam que o MPLA, na medida em que se esvaziou sua linha decorrente do movimento de libertação e o miolo foi sendo tomado pelo neoliberalismo, pode estar cada vez mais em perda e pode começar a convencer cada vez menos o eleitorado, que indicia que se vai cansando da distância cada vez maior entre as “representativas” ideologias eleitoralistas e as práticas que confirmam o agravamento das injustiças sociais, das assimetrias e do abismo das desigualdades! (https://g1.globo.com/mundo/noticia/partido-no-poder-mpla-vence-eleicoes-em-angola.ghtmlhttps://www.dw.com/pt-002/mpla-vence-elei%C3%A7%C3%B5es-gerais-em-angola-com-6107/a-40388567).
 
O cúmulo dessa deriva foi a corrupção que imparavelmente se instalou, que agora se pretende combater; será mesmo possível combater a corrupção, sem tocar nas causas neoliberais profundas de sua essência?!
 
 
03- Antes do 31 de Maio de 1991, (https://noticias.sapo.ao/economia/artigos/durao-barroso-diz-que-situacao-economica-de-angola-e-um-desafio-permanentehttps://www.iberlibro.com/ACORDO-PAZ-ANGOLA/30036953479/bdhttps://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/angola-bicesse-e-paz-que-estamos-com.html) Angola já tinha dado os primeiros passos nessa direcção, algo que não escapa à observação “bem informada e flexível” do neoliberal Durão Barroso, ainda que sob cobertura social-democrata dum governo do “Arco de Governação” sob os auspícios do Partido Social Democrata, PSD, (TPA, Grande Entrevista – https://www.youtube.com/watch?v=QZhMKskPBQA), conforme aliás o que manifestou também na sua intervenção no IIº Colóquio Internacional de História do MPLA (http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/historia-do-mpla-debatida-em-coloquio-internacionalhttp://jornaldeangola.sapo.ao/politica/trajectoria-do-mpla-discutida-em-coloquio) e numa altura em que lutar contra a corrupção, rendendo-se ao neoliberalismo, é um contrassenso que prolongará a recessão e a crise em Angola, agravada pelo crescimento irreparável das desigualdades, das assimetrias e da injustiça social, verdadeiros indicadores do subdesenvolvimento “que estamos com ele”!
 
Não é por acaso que Durão Barroso sustenta que “também costumo dizer que a queda do Muro de Berlim, que aconteceu em Novembro de 1989, começou em África”, algo que tem a ver com sua “imagem de marca” em África, mas sobretudo em Angola, sobretudo com Bicesse naquele apropriado espectro de 31 de Maio de 1991... (http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/as-relacoes-entre-ex-colonizador-e-ex-colonizados-nunca-sao-faceishttp://tpa.sapo.ao/noticias/politica/durao-barroso-destaca-papel-de-angola-na-africa-australhttp://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/politica/2019/11/49/Durao-Barroso-destaca-papel-Angola-Africa-Austral,f7eacbe1-b2d0-443a-b92f-9e8389669456.html).
 
O muro de Berlim é cristãmente uma verdadeira obsessão para o neoliberal Durão Barroso, brilhando um pouco mais quando ele está entre seus pares!... (https://www.radioecclesia.org/mundo/europa/5244-20-anos-depois-antigos-inimigos-unidos-na-celebracao-a-queda-do-muro-de-berlim).
 
O neoliberal Durão Barroso tem sido apontado como o virtual sucessor do que se pode considerar “duas vezes liberal” (no fascismo e na reinventada “democracia” após o 25 de Novembro de 1975 em Portugal), Francisco Pinto Balsemão, inveterado delegado no Bilderberg e membro fundador do mesmo PSD!... (https://www.publico.pt/2018/11/09/politica/noticia/balsemao-cria-grupo-bilderberg-portuguesa-cascais-1850424https://www.publico.pt/2015/05/27/politica/noticia/balsemao-escolhe-durao-barroso-para-lhe-suceder-em-bilderberg-1696978).
 
Desconhecem a maior parte dos portugueses e a esmagadora maioria dos angolanos, quanto o Bilderberg tinha já que ver com as tendências liberalizantes do colonial-fascismo português (https://www.publico.pt/2016/12/12/p3/cronica/bilderberg-abriramnos-as-portas-de-um-segredo-bem-guardado-1827106), onde os grupos Champalimaud e Mello correspondiam não só à nascente burguesia industrial portuguesa, como também eram responsáveis duma parte substancial da inteligência colonial contra a FRELIMO e o MPLA, por via do artifício que foi Jorge Jardim!
 
Jorge Jardim desde Moçambique e Malawi foi apontado à plataforma da linha da frente informal constituída desde 1964 na Zâmbia, no quadro da tentativa desesperada do Exercício Alcora suster a avalanche libertária que apontava a sul!
 
Em 1986, a entrada de Portugal e da Espanha (que com o colonial-fascismo haviam formulado o Pacto Ibérico), na Comunidade Europeia, era redundante das sensibilidades inscritas no Bilderberg! (https://www.wook.pt/livro/o-governo-bilderberg-frederico-duarte-carvalho/18954754http://www.planeta.pt/livro/o-governo-bilderberghttps://www.lusonoticias.com/index.php/livros/509-livro-da-semana-o-governo-bilderberg).
 
A repescagem pelo grande camaleão de muitos dos conteúdos e “ensinamentos” do Exercício Alcora (http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=22415) a fim de continuar a gestão dos “Jogos Africanos” (incluindo os de Jaime Nogueira Pinto – http://artoliterama.blogspot.com/2009/05/jogos-africanos-de-jaime-nogueira-pinto.html) teve sempre que ver com a “ala liberal” portuguesa e sua trilha “democrático-parlamentar”, que diligentemente atravessou os tempos desde sua gestação no colonial-fascismo, integrando o miolo dos processos elitistas e da corrente globalização da feição do império da hegemonia unipolar (por isso o quadro da “democracia representativa”), acompanhando o surgimento da burguesia financeira-industrial de então, a que ficou sempre imensamente grata!... Constate-se a própria trilha de Mário Soares, vista pelo articulista Martim Silva no  “Expresso” do “Bilderberger” Francisco Pinto Balsemão, que como é lógico tanto olvida os “Contos proibidos”!... (https://expresso.pt/politica/2017-01-07-Portugal-amordacado-quando-Soares-viu-o-futurohttps://aventar.eu/2010/12/19/contos-proibidos-o-ficheiro/).
 
Recordo que é fundamentalmente por causa desse liberalismo-neoliberal, entre fascismo e império da hegemonia unipolar, que alguns como Fernando Pacheco do Amorim, chegaram a pôr em causa o próprio 25 de Abril de 1941 (“25 de Abril, episódio do Projecto Global” – http://macua.blogs.com/files/25abril_episodiodoprojectoglobal.pdf).
 
Em Portugal multiplicaram-se assim os “milagres das rosas”, quando as armas cruzavam o espaço intercontinental e ferviam as ingerências e as manipulações escondidas… as rosas foram parar às mãos dos contras, dos iranianos e há pistas desses milagres, contemporâneos dessoutro milagre sem pistas, ou com tão poucas pistas: como foram parar às mãos de Savimbi, outro dos “freedom fighters” da ocasião (https://fehrplay.com/novosti-i-obschestvo/71053-zhonash-savimbi-borec-za-svobodu-angoly.htmlhttps://www.christianheadlines.com/articles/jonas-savimbi-rebel-warlord-or-man-of-god-1127038.html), os “stinger” (https://ips-dc.org/jonas_savimbi_washingtons_freedom_fighter_africas_terrorist/https://www.youtube.com/watch?v=Xt2hVETc9Xshttps://www.wikiwand.com/en/FIM-92_Stingerhttps://www.wikiwand.com/en/UNITA) que não podiam cair nas mãos dos carcamanos, nas mãos do “apartheid”?...
 
 
 
 
 
 
Esta entidade merece essa referência precisamente nesse quadro, pois foi sob um governo de Cabo Verde sob sua presidência, que pela primeira vez as Forças Especiais da NATO, em 2006 (https://www.nato.int/multi/video/2006/060629-steadfast_jaguar/v060629e.htmhttps://www.youtube.com/watch?v=_y_FbHmhftAhttps://books.google.co.ao/books?id=ALaX22MxDSEC&pg=PA191&lpg=PA191&dq=steadfast+jaguar+2006+nato&source=bl&ots=XSUK6l5H-N&sig=ACfU3U2JA4TMSNQ-lk-c-LqzTxMl4TUCUw&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjx0d6729XmAhXVUhUIHf35Brw4ChDoATAEegQICRAB#v=onepage&q=steadfast%20jaguar%202006%20nato&f=false), realizaram um exercício de grande envergadura fora da Europa e, na altura, preparatório para as acções que iria desencadear no Médio Oriente Alargado (inclusive o treino de organizações terroristas) e em África, com influências disseminadas até nossos dias! (https://www.globalresearch.ca/truth-revealed-mccains-moderate-rebels-in-syria-are-isis/5426535).
 
 
 
 
… Um círculo vicioso estimulado pelo “modelo” de globalização do império da hegemonia unipolar, em especial antes do Presidente Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos! (https://www.mondialisation.ca/how-the-us-supports-the-islamic-state-isis-one-accidental-airdrop-vs-billions-in-covert-military-aid/5409449;   https://www.voltairenet.org/article208599.htmlhttps://www.globalresearch.ca/a-italia-na-coligacao-antiterrorismo/5695387).
 
 
“Seria relativamente admissível a Cabo Verde empenhar-se na luta contra o tráfico de droga, assim como na luta contra as migrações clandestinas, ou ainda na luta contra a pirataria nos mares e oceanos, mas não é admissível, em nome do bom entendimento com Portugal e com outras potências europeias (Holanda e Itália, por exemplo), abrigar em seu próprio território para treino e preparação, as forças especiais da NATO (a espinha dorsal do potencial de agressão daquela Organização), fosse a que pretexto fosse.
 
Na qualidade de Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires acompanhou a par e passo o Exercício da NATO, Steadfast Jaguar 2006, esquecendo-se por completo dos sacrifícios impostos ao movimento de libertação em África, que experimentou o potencial das armas da NATO colocadas ao serviço de Portugal, desde então membro dessa Organização!
 
Entre o jovem Pedro Pires e o Presidente, é evidente que toda a nossa simpatia só pode ir para o primeiro; para o segundo e neste caso: parece que quanto mais velho, mais memória perdeu, mais oportunista se tornou e sobretudo, demonstra não ter aprendido a lição!
 
Não são dirigentes deste tipo que África precisa!”…
 
 
... “Muitos daqueles que algum dia haviam participado na saga do movimento de libertação contra o colonialismo, apesar da modernidade das organizações politicamente mais enriquecidas, acabaram também por soçobrar, desaparecendo fisicamente, escolhendo, ou sendo obrigados a escolher muitos deles os caminhos contrários aos que antes com tanta coragem haviam trilhado, numa viragem de 180º que reduz ainda mais as possibilidades de independência de muitas das jovens nações.
 
A lógica de Brazzaville, a lógica da segunda coluna do Che em África, a lógica da libertação e do Não Alinhamento, não teve dirigentes para lhe dar continuidade em nenhuma das ex-colónias portuguesas e depois de 1985.
 
No final da Guerra Fria, sensivelmente a partir de 1992, as lógicas do capitalismo globalizante impuseram-se sem alternativas, vestindo as cores geo estratégicas de cada região em que se inseriam os diversos estados libertados do colonialismo e do apartheid, mas sem remissão à mercê do neo colonialismo e de suas manipulações”…
 
 
… “É no espaço físico geográfico dessa sentinela que a NATO escolheu precisamente o cenário para testar a sua Força de Intervenção Rápida (NATO Reponse Force), ao nível de mais duma vintena de unidades navais (algumas delas constituídas em autênticas plataformas estratégicas) e de 7.000 homens e para isso muito contribuíram o antigo guerrilheiro Pedro Pires, (actual Presidente de Cabo Verde), o PAICV (herdeiro histórico do movimento de libertação) e dirigentes ao nível do Primeiro Ministro de Cabo Verde, expoente da nova geração de governantes das ilhas.
 
 
O Steadfast Jaguar 2006 não serviu apenas para testar a capacidade da NATO Reponse Force fora dos limites tradicionais da NATO e, pela primeira vez, num país africano: o exercício foi mais um elo na sucessão que o poder hegemónico vem dinamizando no eixo dum paralelo que vai das Caraíbas ao Afeganistão, bordejando uma estratégia de alargamento de influência das principais potências do sistema Norte-Americano – Europeu”…
 
 
É evidente que o jogo de ambiguidades ao serviço do império da hegemonia unipolar, reflectiu-se de forma inequivocamente mais amadurecida em Luanda… “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”!
 
 
05- A “queda do muro de Berlim em Angola” (https://www.dw.com/pt-002/o-muro-de-berlim-tamb%C3%A9m-caiu-em-%C3%A1frica/a-51153570) equivale a mandar para as urtigas a maior das preocupações de António Agostinho Neto em relação a Angola: “o mais importante é resolver os problemas do povo” (https://www.pensador.com/frase/NTgwMTQ3/), por que desde 1986 que o mais importante começou a ter que ver com o egoísmo das elites liberais angolanas até então “diplomaticamente” escondidas no ventre do Partido do Trabalho, mas que a partir do Março de 1986 em Angola, altura em que se mexeu 180º num instrumento de poder como o Ministério da Segurança do Estado, (tema “MPLA, contexto internacional e mudança do sistema político em Angola (1986-1991)”, referenciado ao de leve pelo “O País” – https://opais.co.ao/index.php/2019/12/04/coloquio-sobre-o-mpla-junta-hoje-especialistas-nacionais-e-estrangeiros/) começaram a despontar, algo que não foi estranho às mudanças rápidas que ocorreram na Embaixada de Portugal àquela época em Luanda, com um governo e uma sensibilidade PSD bem cavaquista (https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Social_Democrata_(Portugal)), característico do 25 de Novembro de 1975 então instalado em Lisboa e da assimilação de elites segundo a trilha “lusófona” que nem dispensa Camões (“em terra de cegos, quem tem um olho é rei”)!... (https://observador.pt/opiniao/angola-e-nossa/).
 
Agora que um camaleónico Bilderberg faz típicas mudanças de cor, entre rosa pálido e um laranja desmaiado, a toranja do Trópico de Capricórnio vai-se tornando, como a borboleta do rei Lobengula, apesar da recessão e da crise, ou melhor, precisamente por causa disso, mais tragável que nunca!...
 
Não o foi a 11 de Novembro de 1975… mas está a sê-lo a 11 de Novembro de 2019, por que até a história, à maneira de Francis Fukuyama, corre o risco de começar a ser apagada, ou borrada, pois milagres das rosas e globais conveniências se levantam e dão à costa descoberta por Diogo Cão!... (https://plataformacascais.com/plataformacascais/artigos/partilhado/79505-angola-11-de-novembro-de-2019-martinho-junior.html).
 
Os números e as visões quotidianas contudo fazem-nos cair na real, do que acontece quando há uma ultraperiferia económica como Angola, com tão evidentes práticas de conspiração!
 
 
Para mim não é novidade, percebendo eu quotidianamente nas minhas próprias deambulações e de minha família, quanto os índices de subdesenvolvimento humano que jamais foram vencidos, muito menos agora, quando a pobreza paira com seus cortejos lúgubres no ambiente humano da própria Luanda, até na própria baixa infestada de torres de vidro apenas ocupadas pelos ratos (haverá algum acordo tácito entre os novos ricos e os ratos, quando a bolha imobiliária era mais que previsível?) e infestada por andrajosos “sonâmbulos” de todas as idades, que procuram uma vã redenção de sobrevivência!...
 
Depois as notícias caem em catadupa:
 
 
“O IVA e a desvalorização do Kz aceleram preço dos carros e afectam vendas”! (http://www.expansao.co.ao/artigo/123367/iva-e-desvalorizacao-do-kz-aceleram-preco-dos-carros-e-afectam-vendas?seccao=exp_merc);
 
 
“Exigência de garantias às empresas trava financiamento à economia”! (http://www.expansao.co.ao/artigo/123366/credito-mais-caro-de-sempre-com-taxa-luibor-nos-27-62-?seccao=exp_merc);
 
“Sete províncias estão abaixo da linha que separa a pobreza, com maior incidência no sul do país”! (http://www.expansao.co.ao/artigo/123354/sete-provincias-estao-abaixo-da-linha-que-separa-a-pobreza-com-maior-incid-ncia-no-sul-do-pais?seccao=5)…
 
O semanário economicista “Expansão” (que coloca deliberadamente a economia como primado sobre tudo o demais, à boa maneira neoliberal e dos seus mercados e mercadores), tornou-se no último trimestre de 2019, eminentemente catastrofista, só lhe faltando honestamente mudar de título: por que não “Recessão”?!…
 
“Recessão” e “Recessão” sem luz alguma no fundo do túnel, é o que nos espera em 2020 e sintomaticamente aí por diante!... (http://www.expansao.co.ao/).
 
Terá passado despercebido ao “Expansão”, o que não passou despercebido ao “Observador” ?... (“FMI elogia reformas em Angola ao abrigo do Programa de Financiamento Alargado” – https://observador.pt/2019/04/13/fmi-elogia-reformas-em-angola-ao-abrigo-do-programa-de-financiamento-ampliado/)  
 
Assim será enquanto definitivamente não se mudar de paradigma, de consciência crítica e de vontade em, antes de tudo o mais, enveredar pela abandonada trilha sugerida pelo movimento de libertação em África: a lógica com sentido de vida e ávida de segurança vital!
 
Martinho Júnior -- Luanda, 1 de Janeiro de 2020
 
Imagens:
01- “A Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) já tem documento final acerca da ambição climática em 2020 e do cumprimento do Acordo de Paris, que limita os países para impedir a subida da temperatura média do planeta este século acima de 1,5 °C. O acordo, intitulado “Chile-Madrid, hora de agir”, foi alcançado no domingo, 15 de dezembro, quase dois dias após o dia marcado para encerrar a 25ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.” – https://www.revistaplaneta.com.br/texto-final-da-cop-25-propoe-metas-mais-ambiciosas-para-emissoes/
02- Restos de “apartheid”.
“O governo de Botsuana prometeu restaurar a Reserva de Caça do Kalahari Central alguns dos serviços essenciais que cortou há 14 anos.
Os serviços de saúde e água, que o governo vem dizer que vai restituir, foram encerrados pelo governo durante os despejos brutais dos Bosquímanos da reserva em 2002.
Em 2006, O Tribunal Supremo de Botsuana considerou que os despejos eram ilegais e sustentou o direito dos Bosquímanos para voltar à reserva. No entanto, a maioria dos Bosquímanos continua a ser negada o acesso à sua terra ancestral e o governo impôs um sistema de autorização de um mês para as crianças que quiserem viver com as suas famílias no interior da reserva depois de terem completado os 18 anos. O sistema tem sido comparado às práticas do apartheid da África do Sul.” – https://www.survivalbrasil.org/ultimas-noticias/11159;
03- “O Governo Bilderberg, do Estado Novo aos nossos dias” – https://www.wook.pt/livro/o-governo-bilderberg-frederico-duarte-carvalho/18954754;
04- “Pode dizer-se que a queda do Muro de Berlim começou aqui em Angola, em África”, referiu, sob fortes aplausos de mais de dois mil conferencistas nacionais e estrangeiros. – http://tpa.sapo.ao/noticias/politica/durao-barroso-destaca-papel-de-angola-na-africa-austral;
05- “Todos os indicadores sobre África, ao invés de revelarem indício de algum renascimento, remetem-nos para leituras crónicas que muito têm a ver com a inércia, a catástrofe e a morte.
 
Os indicadores integrados, que abrangem sobretudo as questões de largo espectro relativas ao relacionamento do homem com o ambiente que o cerca no espaço físico-geográfico continental, são os mais críticos e conferem-nos uma certeza: África testemunha nas suas próprias entranhas vitais a aceleração da degradação da Mãe Terra e torna-se no mais incontrolável factor de desequilíbrio, à beira dum dramático abismo, onde o futuro é apenas uma garantida aridez que tem tudo a ver com uma incandescente catástrofe!” – https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/04/28/africa-da-inercia-a-catastrofe/ 

EUA intensificam sua guerra "democrática" pelo petróleo do Médio Oriente

por Michael Hudson

Os meios de comunicação de referência estão a evitar cuidadosamente o método oculto por trás da aparente loucura americana em assassinar o general da Guarda Revolucionária Islâmica Qassim Suleimani para iniciar o Ano Novo. A lógica por trás do assassinato foi uma aplicação da consagrada política global dos EUA, não apenas uma "loucura" da personalidade de Donald Trump por acção impulsiva. Seu assassinato do líder militar iraniano Suleimani foi na verdade um acto de guerra unilateral que viola o direito internacional, mas foi um passo lógico numa estratégia americana consagrada. Foi explicitamente autorizado pelo Senado na lei de financiamento do Pentágono que aprovou no ano passado.

O assassinato destinava-se a escalar a presença dos EUA no Iraque a fim de manter o controle das reservas de petróleo da região e apoiar as tropas Wahabi da Arábia Saudita (Isis, Al Quaeda no Iraque, Al Nusra e outras divisões que na verdade são a legião estrangeira da América) para apoiar o controle dos EUA do petróleo do Oriente Próximo como um baluarte do US dólar. Isto permanece como a chave para o entendimento desta política e a razão porque ela está em processo de escalada, não de abrandamento.

Participei de discussões sobre esta política quando foi formulada há quase cinquenta anos atrás, quando trabalhava no Hudson Instituto e comparecia a reuniões na Casa Branca, encontrava-me com generais em vários think tanks das forças armadas e com diplomatas nas Nações Unidas. Meu papel era como economista especializado em balança de pagamentos, especializado durante uma década na Chase Manhattan, na Arthur Andersen e em grupos de estudo da indústria de petróleo e de gastos militares. Estas foram duas das três principais dinâmicas da política externa e da diplomacia americanas. (A terceira preocupação era como travar uma guerra numa democracia em que os eleitores rejeitavam a conscrição após a Guerra do Vietname.)

Os media e a discussão pública têm desviado a atenção desta estratégia ao propalar especulações de que o presidente Trump fez isso, não para combater a (não)ameaça de impeachment como um volteio, ou para apoiar impulsos israelenses por espaço vital (lebensraum) ou simplesmente para render a Casa Branca à síndrome do ódio neocon pelo Irãoo. O contexto real da acção dos neocon foi a balança de pagamentos e o papel do petróleo e da energia como uma alavanca de longo prazo da diplomacia americana.

A dimensão da balança de pagamentos

O principal défice da balança de pagamentos dos EUA tem sido os gastos militares no exterior. Todo o défice de pagamentos, começando com a Guerra da Coreia em 1950-51 e estendendo-se pela Guerra do Vietname da década de 1960, foi o responsável por forçar a retirada do dólar do ouro em 1971. O problema enfrentado pelos estrategas militares dos Estados Unidos era como continuar a suportar as 800 bases militares dos EUA em todo o mundo e suportar tropas aliadas sem perder a alavancagem financeira dos EUA.

A solução acabou por ser substituir o ouro por títulos do Tesouro dos EUA (IOUs) como a base das reservas dos bancos centrais estrangeiros. Depois de 1971, os bancos centrais estrangeiros tinham pouca opção sobre o que fazer com a sua entrada contínua de dólares, excepto reciclá-los para a economia dos EUA através da compra de títulos do US Treasury. O efeito dos gastos militares estrangeiros dos EUA, portanto, não corroeu a taxa de câmbio do dólar e nem mesmo forçou o Tesouro e o Federal Reserve a aumentar taxas de juros para atrair divisas que compensassem as saídas de dólares na conta militar. De facto, os gastos militares estrangeiros dos EUA ajudaram a financiar o défice do orçamento federal dos EUA.

A Arábia Saudita e outros países OPEP do Médio Oriente rapidamente tornaram-se um pilar do dólar. Depois que destes países quadruplicarem o preço do petróleo (em retaliação pelos Estados Unidos quadruplicarem o preço das suas exportações de cereais, um dos pilares da balança comercial dos EUA), os bancos americanos foram inundados com um influxo de muitos depósitos estrangeiros – os quais foram emprestados ao países do Terceiro Mundo numa explosão de empréstimos podres que explodiu em 1972 com a insolvência do México e destruiu o crédito dos governos do Terceiro Mundo durante uma década, forçando-o a depender dos Estados Unidos via FMI e Banco Mundial).

Para coroar tudo, é claro, o que a Arábia Saudita não salva em activos dolarizados com os seus ganhos na exportação de petróleo é gasto na compra de centenas de milhares de milhões de dólares de armas exportadas pelos EUA. Isto tranca-a na dependência do fornecimento de peças de reposição e reparações dos EUA e permite que os Estados Unidos desliguem o equipamento militar saudita a qualquer momento, caso os sauditas tentem actuar de modo independente da política externa dos EUA.

Portanto, manter o dólar como moeda de reserva mundial tornou-se um dos suportes principais dos gastos militares dos EUA. Os países estrangeiros não têm de pagar directamente ao Pentágono por estes gastos. Eles simplesmente financiam o Tesouro e o sistema bancário dos EUA.

O medo deste desenvolvimento foi uma das principais razões pelas quais os Estados Unidos actuaram contra a Líbia, cujas reservas estrangeiras eram mantidas em ouro, não em dólares, o que instava outros países africanos a seguirem o exemplo a fim de se libertarem da "Diplomacia do Dólar". Hillary e Obama invadiram-na, agarraram seus stocks de ouro (ainda não temos ideia de quem acabou com esse ouro no valor de milhares de milhões de dólares) e destruiu o governo da Líbia, seu sistema público de educação, sua infraestrutura pública e as demais políticas não-neoliberais.

A grande ameaça a isto é a desdolarização, pois a China, a Rússia e outros países procuram evitar a reciclagem de dólares. Sem a função do dólar como o veículo para a poupança mundial – com efeito, sem o papel do Pentágono em criar a dívida do Tesouro que é o veículo para as reservas dos bancos centrais do muno – os EUA se veriam constrangidos militarmente e portanto diplomaticamente, como acontecia sob o padrão divisas-ouro.

Esta é a mesma estratégia que os EUA têm seguido na Síria e no Iraque. O Irãoo estava a ameaçar esta estratégia de dolarização e o seu esteio na diplomacia estado-unidense do petróleo.

A indústria do petróleo como esteio da balança de pagamentos dos EUA e da diplomacia estrangeira

A balança comercial é respaldada pelo petróleo e excedentes agrícolas. O petróleo é a chave, porque é importado por empresas americanas quase sem nenhum custo para a balança de pagamentos (os pagamentos acabam nas administrações da indústria do petróleo como lucros e pagamentos à gestão), ao passo que os lucros nas vendas das empresas petrolíferas dos EUA a outros países são remetidos para os Estados Unidos (via centros de evasão fiscal offshore, durante muitos anos sobre a Libéria e o Panamá). E, como observado acima, os países da OPEP foram instruídos a manter suas reservas oficiais na forma de títulos dos EUA (acções e títulos, bem como títulos de dívida do Tesouro, mas não a compra directa de empresas dos EUA consideradas economicamente importantes). Financeiramente, os países da OPEP são estados clientes da Área do Dólar.

A tentativa americana de manter esse esteio explica a oposição dos EUA a quaisquer medidas de governos estrangeiros para reverter o aquecimento global [NR] e o estado atmosférico (weather) extremo causado pela dependência mundial do petróleo patrocinada pelos EUA. Quaisquer acções da Europa e de outros países que reduzisse a dependência das vendas de petróleo dos EUA e, portanto, a capacidade de os EUA controlarem a torneira global do petróleo como um meio de controle e coação, são encaradas como actos hostis.

O petróleo também explica a oposição dos EUA às exportações de combustíveis da Rússia via Nordstream. Os estrategas dos EUA querem tratar a energia como um monopólio nacional dos EUA. Outros países podem se beneficiar da maneira que a Arábia Saudita tem feito – enviando seus excedentes para a economia dos EUA – mas não para suportar o seu próprio crescimento económico e diplomacia. O controle do petróleo implica portanto apoio ao continuado aquecimento global [NR] como parte inerente da estratégia dos EUA.

Como uma nação "democrática" pode travar guerra e terrorismo internacionais

A Guerra do Vietname mostrou que as democracias modernas não podem montar exércitos para qualquer grande conflito militar, porque isto exigiria uma conscrição dos seus cidadãos. Isto levaria qualquer governo que tentasse tal projecto a ser votado para fora do poder. E sem tropas não é possível invadir um país para conquistá-lo.

O corolário desta percepção é que as democracias têm apenas duas opções quando se trata de estratégia militar: Elas só podem empregar poder aéreo, bombardeando oponentes; ou elas podem criar uma legião estrangeira, ou seja, contratar mercenários ou apoiar governos estrangeiros que providenciem este serviço militar.

Aqui, mais uma vez, a Arábia Saudita desempenha um papel crítico, através do seu controle dos Wahabi Sunita transformados em terroristas jihadistas dispostos a sabotar, bombardear, assassinar, explodir e combater qualquer alvo designado como um inimigo do "Islão", o eufemismo para a actuação da Arábia Saudita como estado do cliente dos EUA. (A religião realmente não é a chave; não sei de nenhum ISIS ou ataque Wahabi semelhante a alvos israelenses.) Os Estados Unidos precisam que os sauditas forneçam ou financiem wahabistas loucos. Assim, além de desempenharem um papel chave na balança de pagamentos dos EUA pela reciclagem dos seus ganhos com a exportação de petróleo em acções, títulos e outros investimentos nos EUA, a Arábia Saudita fornece mão-de-obra apoiando os membros Wahabi da legião estrangeira americana, o ISIS e Al-Nusra/Al Qaeda. O terrorismo tornou-se o modo "democrático" de hoje da política militar dos EUA.

O que torna a guerra do petróleo da América no Médio Oriente "democrática" é que esta é a única espécie de guerra que uma democracia pode travar – uma guerra aérea, seguida por um exército terrorista odioso que compensa o facto de nenhuma democracia poder colocar em campo o seu próprio exército no mundo de hoje. O corolário é que o terrorismo se tornou o modo "democrático" de fazer a guerra.

Do ponto de vista dos EUA, o que é uma "democracia"? No vocabulário orwelliano de hoje, significa qualquer país que apoie a política externa dos EUA. Bolívia e Honduras tornaram-se "democracias" desde seus golpes, juntamente com o Brasil. O Chile, sob Pinochet era uma democracia de livre mercado no estilo Chicago. O mesmo acontecia com o Irãoo sob o xá e a Rússia sob Yeltsin – mas não desde que elegeu o presidente Vladimir Putin, tal como a China sob o presidente Xi.

O antónimo de "democracia" é "terrorista". Isso significa simplesmente uma nação disposta a combater para se tornar independente da democracia neoliberal dos EUA. Isto não inclui os exércitos por procuração dos EUA.

O papel do Irãoo como inimigo norte-americano

O que obstaculiza a dolarização, o petróleo e a estratégia militar dos EUA? Obviamente, a Rússia e a China têm sido visadas como inimigos estratégicos de longo prazo por buscarem suas próprias políticas económicas e diplomacia independentes. Mas a seguir a elas, o Irão está na mira dos Estados Unidos há quase setenta anos.

O ódio americano ao Irãoo começa com sua tentativa de controlar sua própria produção, exportações e ganhos de petróleo. Isso remonta a 1953, quando Mossadegh foi derrubado porque pretendia soberania interna sobre o petróleo da Anglo-Persian. O golpe da CIA-MI6 substituiu-o pelo flexível Xá, que impôs um estado policial para impedir a independência iraniana da política dos EUA. Os únicos lugares físicos livres da polícia eram as mesquitas. Isso fez da República Islâmica o caminho de menor resistência para o derrube do xá e a reafirmação da soberania iraniana.

Os Estados Unidos chegaram a termos com a independência petrolífera da OPEP em 1974, mas o antagonismo em relação ao Irão estende-se a considerações demográficas e religiosas. O apoio iraniano à sua população xiita e ao Iraque e outros países – enfatizando o apoio aos pobres e a políticas quase-socialistas em vez do neoliberalismo – tornou-o o principal rival religioso do sectarismo sunita da Arábia Saudita e do seu papel como legião estrangeira americana dos Wahabi.

Os EUA opuseram-se ao general Suleimani, acima de tudo, porque ele estava combatendo contra o ISIS e outros terroristas apoiados pelos EUA na tentativa de romper a Síria e substituir o regime de Assad por um conjunto de líderes locais acomodatícios com os EUA – o velho estratagema britânico "dividir e conquistar". Na ocasião, Suleimani havia cooperado com tropas americanas no combate contra grupos do ISIS que ficaram "fora de linha", o que significa a linha do partido dos EUA. Mas todas as indicações são de que ele estava no Iraque para trabalhar com o governo que procurava recuperar o controle dos campos de petróleo que o presidente Trump jactou-se em alta voz de capturar.

Já no início de 2018, o presidente Trump pediu ao Iraque que reembolsasse os EUA pelo custo de "salvar sua democracia" pelo bombardeamento do remanescente da economia de Saddam. O reembolso era para assumir a forma de Petróleo Iraquiano. Mais recentemente, em 2019, o presidente Trump perguntou: por que não simplesmente agarrar o petróleo iraquiano. O gigantesco campo petrolífero tornou-se o prémio da guerra do petróleo de Bush-Cheney após o 11 de Setembro. "'Foi em geral uma reunião muito comum e discreta", disse a Axios uma fonte que estava na sala. E então, no final, Trump diz algo provocante, com um sorriso afectado no rosto e diz: 'Então, o que vamos fazer acerca do petróleo?' " [1]

A ideia de Trump de que os EUA deveriam "obter algo" dos seus gastos militares na destruição das economias iraquiana e síria reflecte simplesmente a política dos EUA.

No final de Outubro de 2019, o New York Times informou que: "Nos últimos dias, Trump estabeleceu as reservas de petróleo da Síria como uma nova lógica para parecer inverter o curso e enviar centenas de tropas adicionais para o país devastado pela guerra. Ele declarou que os Estados Unidos "asseguraram" campos de petróleo no nordeste caótico do país e sugeriu que a captura (seizure) do principal recurso natural do país justifica que os EUA ampliem ainda mais sua presença militar ali. 'Tomamos e garantimo-lo', disse Trump sobre o petróleo da Síria durante declarações na Casa Branca no domingo, depois de anunciar a morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi. " [2] Um funcionário da CIA lembrou ao jornalista que tomar o petróleo do Iraque era uma promessa da campanha de Trump.

Isso explica a invasão do Iraque por petróleo em 2003, e novamente este ano, como o presidente Trump disse: "Por que simplesmente não tomamos o petróleo deles?" Também explica o ataque Obama-Hillary à Líbia – não apenas pelo seu petróleo, mas por investir suas reservas estrangeiras em ouro ao invés de reciclar suas receitas excedentes de petróleo em títulos do Tesouro dos EUA – e, é claro, por promover um estado socialista laico.

Explica porque os neoconservadores dos EUA temiam o plano de Suleimani de ajudar o Iraque a reafirmar o controle do seu petróleo e a resistir aos ataques terroristas ao Iraque apoiados pelos EUA e pela Arábia Saudita. Foi isso que tornou o seu assassínio um impulso imediato.

Os políticos americanos desacreditaram-se ao começarem a sua condenação de Trump dizendo, como fez Elizabeth Warren, quão "má" pessoa era Suleimani, como ele havia matado tropas americanas ao planear a defesa iraquiana de bombardementos rodoviários e outras políticas que tentavam repelir a invasão dos EUA para agarrar o seu petróleo. Ela estava simplesmente a papaguear a descrição de Suleimani como um monstro feita pelos media americanos, desviando a atenção da questão política que explica porque ele foi assassinado agora.

A contra-estratégia dos EUA para a diplomacia do petróleo, do dólar e do aquecimento global

Esta estratégia continuará até que países estrangeiros a rejeitem. Se a Europa e outras regiões não o fizerem, sofrerão as consequências desta estratégia dos EUA na forma de uma guerra crescente patrocinada pelos EUA por meio do terrorismo, do fluxo de refugiados e da aceleração do aquecimento global [NR] e de condições climáticas extremas.

A Rússia, a China e seus aliados já lideram o caminho da desdolarização como meio de conter a política militar global dos EUA como meio de apoio à sua balança de pagamentos. Mas todo mundo agora está a especular sobre qual deveria ser a resposta do Irão.

A pretensão – ou mais precisamente, o diversionismo – dos media norte-americanos no fim-de-semana foi descrever os Estados Unidos como estando sob ataque iminente. O presidente da municipalidade de Blasio posicionou policias em cruzamentos importantes para nos informar o quão iminente é o terrorismo iraniano – como se fosse o Irão, não a Arábia Saudita que montou o 11 de Setembro, e como se o Irão tivesse de facto efectuado alguma acção contundente contra os Estados Unidos. Os media e os tertulianos da televisão saturaram o público com advertências de terrorismo islâmico. Os âncoras da televisão estão simplesmente a sugerir onde será mais provável que ocorram os ataques.

A mensagem é que o assassinato do general Soleimani foi para nos proteger. Como Donald Trump e vários porta-vozes militares disseram, ele havia matado americanos – e agora eles devem estar a planear um ataque enorme que ferirá e matará muitos mais americanos inocentes. Esta posição tornou-se a postura da América no mundo: fraca e ameaçada, exigindo uma forte defesa – na forma de um forte ataque.

Mas qual é o interesse real do Irão? Se é realmente minar a estratégia do dólar e do petróleo, a primeira política deve ser a retirada das forças militares dos EUA do Oriente Próximo, incluindo a ocupação americana dos seus campos de petróleo. Acontece que o acto precipitado do presidente Trump agiu como um catalisador, provocando exactamente o oposto do que ele queria. Em 5 de Janeiro, o parlamento iraquiano reuniu-se para insistir em que os Estados Unidos saíssem. O general Suleimani era um convidado, não um invasor iraniano. São as tropas americanas que estão no Iraque em violação do direito internacional. Se eles partirem, Trump e os neocons perdem o controle do petróleo – e também da sua capacidade de interferir na defesa mútua iraniano-iraquiana-síria-libanesa.

Para além do Iraque, surge a Arábia Saudita. Tornou-se o Grande Satanás, o defensor do extremismo wahabista, a legião terrorista dos exércitos mercenários dos EUA que lutam para manter o controle das reservas de petróleo e de divisa estrangeira do Oriente Próximo, a causa do grande êxodo de refugiados para a Turquia, Europa e para onde mais puderem fugir das armas e do dinheiro fornecidos pelos apoiantes americanos do Isis, da Al Qaeda no Iraque e das suas legiões aliadas sauditas wahabistas.

O ideal lógico, em princípio, seria destruir o poder saudita. Esse poder jaz nos seus campos de petróleo. Eles já foram atacados por modestas bombas iemenitas. Se os neocons americanos ameaçarem seriamente o Irão, a sua resposta seria o bombardeio e a destruição por atacado dos campos de petróleo sauditas, juntamente com os do Kuwait e xeques aliados do Oriente Próximo. Isto acabaria com o apoio saudita aos terroristas wahabistas, bem como ao dólar americano.

Uma tal actuação seria, sem dúvida, coordenada com um apelo aos palestinos e outros trabalhadores estrangeiros na Arábia Saudita se levantassem e expulsassem a monarquia e seus milhares de vassalos familiares.

Além da Arábia Saudita, o Irão e outros defensores de uma ruptura diplomática multilateral com o unilateralismo neoliberal e neocon dos EUA deveriam pressionar a Europa a retirar-se da NATO, na medida em que esta organização funciona principalmente como uma ferramenta militar centrada nos EUA na sua diplomacia do dólar e do petróleo e, portanto, opondo-se às políticas de mudança climática [NR] e de confrontação militar que ameaçam tornar a Europa parte do turbilhão dos EUA.

Finalmente, o que podem fazer os opositores à guerra dos EUA para resistir à tentativa neocon de destruir qualquer parte do mundo que resista à autocracia neoliberal dos EUA? Esta foi a resposta mais decepcionante ao longo do fim-de-semana. Eles estão debater. Não foi útil para Warren, Buttigieg e outros acusarem Trump de agir precipitadamente, sem pensar nas consequências das suas acções. Aquela abordagem evita o reconhecimento de que a sua acção na verdade tinha uma lógica – trace uma linha na areia, para dizer que sim, a América IRÁ à guerra, combaterá o Irão, fará qualquer coisa para defender seu controle do petróleo do Oriente Próximo e ditará à OPEP a política dos bancos centrais, defenderá suas legiões do ISIS como se qualquer oposição a esta política fosse um ataque aos próprios Estados Unidos.

Posso entender a resposta emocional ou ainda novos pedidos de impeachment de Donald Trump. Mas isso é uma óbvia não-solução, em parte porque tem sido obviamente um movimento partidário do Partido Democrata. Mais importante é a falsa e egoísta acusação de que o presidente Trump ultrapassou seu limite constitucional ao cometer um acto de guerra contra o Irão ao assassinar Soleimani.

O Congresso endossou o assassínio cometido por Trump e é totalmente culpado por ter aprovado o orçamento do Pentágono com a remoção pelo Senado da emenda à Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2019 que Bernie Sanders, Tom Udall e Ro Khanna haviam inserido na versão da Câmara dos Deputados, explicitamente não autorizando o Pentágono a travar guerra contra o Irão ou assassinar seus responsáveis. Quando este orçamento foi enviado ao Senado, a Casa Branca e o Pentágono (também conhecido como complexo militar-industrial e neoconservadores) removeram aquela restrição. Era uma bandeira vermelha anunciando que o Pentágono e a Casa Branca realmente pretendiam fazer guerra contra o Irão e/ou assassinar seus responsáveis. Faltou ao Congresso coragem para discutir este ponto no primeiro plano das discussões públicas.

Por trás de tudo isso está o acto do 11 de Setembro de inspiração saudita, que retira o único poder do Congresso de travar guerra – sua Autorização para o Uso da Força Militar, de 2002 (2002 Authorization for Use of Military Force), tirada da gaveta ostensivamente contra a Al Qaeda, mas na verdade o primeiro passo no longo apoio dos Estados Unidos ao próprio grupo que foi responsável pelo 11 de Setembro, os sequestradores sauditas de aviões.

A questão é: como fazer com que os políticos do mundo – EUA, Europa e Ásia – vejam como a política americana de tudo ou nada está a ameaçar novas ondas de guerra, refugiados, interrupção do comércio de petróleo no Estreito de Ormuz e, finalmente, global aquecimento [NR] e dolarização neoliberal impostas a todos os países. É um sinal de quão pouco poder existe nas Nações Unidas que não haja nenhum país a clamar por um novo julgamento de crimes de guerra no estilo de Nuremberga, nenhuma ameaça de retirada da NATO ou mesmo de evitar manter reservas sob a forma de dinheiro emprestado ao Tesouro dos EUA para financiar o orçamento militar dos EUA.

05/Janeiro/2020
[1] www.axios.com/... O artigo acrescenta: "Na reunião de Março, o primeiro-ministro iraquiano respondeu: 'O que quer dizer isso?' segundo a fonte na sala. E Trump diz: 'Bem, fizemos muito, fizemos muito por lá, gastamos triliões por lá e muitas pessoas têm falado sobre o petróleo' ". ?
[2] Michael Crowly, " 'Keep the Oil': Trump Revives Charged Slogan for new Syria Troop Mission' ", The New York Times, 26/Outubro/2019. https://www.nytimes.com/2019/10/26/us/politics /trump-syria-oil-fields.html . O artigo acrescenta: "Eu disse para ficarem com o petróleo", tornou a dizer Trump. "Se vão para o Iraque, que fiquem com o petróleo. Eles nunca o fizeram. Nunca o fizeram". ?

[NR] Hudson sabe muito de economia, finanças e balanças de pagamentos – mas não de climatologia.   Aparentemente deixou-se influenciar pela mistificação aquecimentista , agora transformada numa espécie de nova "religião" global.   Mas o mundo já tem problemas reais suficientes e não precisa inventar outros adicionais.

O original encontra-se em thesaker.is/america-escalates-its-democratic-oil-war-in-the-near-east/

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/irao/hudson_05jan20.html

A guerra EUA/ Irão

 
O assassinato ordenado por Trump, contra o general sírio Qasem Soleimani, chefe da Força Revolucionária da Guarda Quds do Irão, em Bagdad, demonstrou a insânia de um demente e a arrogância de um déspota. A posterior ameaça de destruir o rico património histórico da civilização persa, ameaça de que já recuou, revela a sua indigência cultural e a indiferença perante mais um crime previsto nas leis internacionais.

A execução do importante general e de mais oito pessoas, no país ocupado pelos EUA, a convite das autoridades locais, foi um crime para aliviar a pressão do “impeachment”, em apreciação, que os seus ataques reiterados à legalidade e à ética exigiram.

Este crime é uma afronta à legalidade internacional de alguém, com um poderio brutal, capaz de tudo para garantir a reeleição e a impunidade à sua conduta. A transferência da embaixada de Telavive para Jerusalém foi uma provocação gratuita aos muçulmanos, ao arrepio dos países tradicionalmente aliados dos EUA, e só serviu para acirrar ódios e aumentar a tensão na região.

Nesta altura não se podem esquecer os nomes sinistros de Bush, Blair, Aznar e Barroso na invasão do Iraque, invasão criminosa que agravou os problemas do Médio Oriente e pôs o mundo em progressivo sobressalto, sem que o TPI os possa julgar.

Que o Irão é uma teocracia, abjeta como todas as teocracias, uma ditadura fascista como a Arábia Saudita, do Eixo do Bem, ninguém duvida. Que o Islão político é quase tão perigoso como Trump é evidente, mas ninguém, até hoje, tinha ido tão longe no desafio a leis internacionais e desprezo pelos tratados que o próprio país assinou, como os EUA de Trump.

Como danos colaterais há o reforço dos grupos terroristas islâmicos e a iminência de um desastre global com uma guerra que, se começar, pode não deixar ninguém para contar.
Não se esperava de um presidente americano, apesar dos vários e graves desvarios após a guerra de 1939/45, que houvesse um Trump que atraiçoasse os tratados assinados, que se atribuísse o direito de negar vistos a participantes na ONU, como se fosse refém do país em cujo território tem a sede, e que decidisse guerras em nome da NATO sem a anuência dos seus aliados.

Enfim, a barbárie já começou. O futuro do mundo é cada vez mais incerto e reduzido. A atitude da Rússia e da China são decisivas. A chantagem de Trump sobre a UE já se faz sentir e a comunicação social já está a ser submetida aos seus interesses.

A opinião pública mundial hesita entre o medo, a angústia e a revolta.

 

Ponte Europa / Sorumbático
 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/01/a-guerra-eua-irao.html

Cronologia das invasões norte-americanas no mundo

A palavra imperialismo, quando usada para descrever o acionar belicista dos Estados Unidos ao redor do mundo, é considerada um termo exclusivo de comunistas, de intelectuais marxistas, e que pretende desqualificar as intencionalidades democratizantes do país do norte nas civilizações que são vítimas de governos ditatoriais. A história recente demonstra que a guerra do Iraque, de 2003, foi apoiada por uma opinião pública que foi previamente manipulada pela mídia nacional, que anunciava o envolvimento direto do Saddam Hussein no atentado às Torres Gêmeas e a produção de armas nucleares e outras químicas de destruição massiva. Após a invasão, nem a CIA, nem a NSA conseguiram provar a existência dessas armas, nem do envolvimento de Saddam Hussein nos atentados de setembro de 2001. As consequências da guerra foram de mais de 600.000 pessoas mortas, de forma direta ou indireta, e a de um país endividado, devastado pelo poder destrutor da força de coalizão, liderada pelos Estados Unidos, que se estima, gastou mais de 800 bilhões de dólares na operação. Cineastas, historiadores e jornalistas ao redor do mundo denunciaram os fortes vínculos entre G. W. Bush e as empresas privadas de fabricação de armamentos, assim como os vínculos que essa família tem desde há décadas com os maiores empresários de petróleo do mundo. E que a guerra foi um agir oportunista dessas interessas para expandir seu poder em oriente médio. Em 2005, Nestor Kirchner, presidente da Argentina, contou para Oliver Stone, que Bush tinha falado para ele, em confissão íntima, que “Estados Unidos não se fez rico por ter políticas como as do plano Marshall e sim por fazer a guerra”. A guerra do Iraque, em definitiva, e sem ninguém com argumentos suficiente para rebater esse argumento, foi consequência do interesse dos Estados Unidos (O governo e os setores empresariais que sustentam suas políticas) em se apropriar da exploração do petróleo naquele país, e pelo negócio que resulta para USA (para os mega empresários da indústria das armas) entrar em conflitos armados.

Em novembro de 2019, o Irã anuncia a descoberta de um importante campo de petróleo na província do Khuzistão. Em menos de dois meses, Estados Unidos instiga a mais uma guerra a milhares de quilômetros de distância, agindo de forma desproporcional e violando todos os acordos diplomáticos internacionais.

Vale lembrar que imperialismo, ou neoimperialismo (que qualifica o acionar sobretudo de USA na nossa era contemporânea) não se resume aos confrontos bélicos, nem se refere a um estado liderado por um único sujeito sem renovação de mandato pelo através do sufrágio. O imperialismo seria uma forma de expansão forçada e unilateral de uma forma de fazer política, de uma identidade cultural, de uma prática económica. As indústrias culturais, sobretudo as que são ligadas ao que a gente conhece como “cultura de massas” (como a música e o cinema, em todos os países e com raras exceções), são também vítimas da pressão norte-americana por expandir sua cultura, o que tem como consequência lógica uma expansão da sua economia. Se a indústria cinematográfica norte-americana se expande em território brasileiro é porque a indústria local dá o espaço para que isto aconteça. O que tem consequências económicas inegáveis no país. As grades dos cinemas, hoje, no Brasil, têm uma programação maioritariamente norte-americana, o que, como resulta óbvio, prejudica a indústria nacional, restringindo e enfraquecendo a capacidade de autofinanciamento para produzir localmente.

De forma direta ou indireta, Estados Unidos impõe sua supremacia em todos os países. Seu potencial bélico é uma ferramenta de pressão na hora de aplicar sanções económicas a países que se recusam a praticar os esquemas económicos que contrariam seus interesses. Se o poder bélico dos Estados Unidos é regulador, de forma direta ou indireta, do que acontece na vida económica, social e cultural de diferentes países ao redor do mundo, estamos falando sim, de um procedimento imperialista, no sentidos mais elementar do termo.

É casual que a primeira potência bélica a nível mundial seja quem impôs sua língua, sua cultura? É democrático o agir unilateral nos últimos conflitos armados sobre populações soberanas como Síria, Iraque e hoje, potencialmente, o Irã?

O jornalista e ex-professor Urias Rocha, de Mato Grosso do Sul, realizou uma breve cronologia das invasões e ataques dos Estados Unidos ao redor do mundo nos últimos 150 anos. A quantidade de mortes pelas quais são responsáveis é de aproximadamente 110 milhões de pessoas. Nunca foram denunciados formalmente ante tribunais internacionais:

 

1846/1848 - México – Invasão e ataque por causa da anexação, pelos EUA, da República do Texas;

1891 - Chile - Fuzileiros Navais esmagam forças rebeldes nacionalistas;

1891 - Haiti - Tropas debelam a revolta de operários negros na ilha de Navassa, reclamada pelos EUA;

 

1893 - Hawai - Marinha enviada para suprimir o reinado independente e anexar o Hawaí aos EUA;

1894 - Nicarágua - Tropas ocupam Bluefields, cidade do mar do Caribe, durante um mês;

1894/1895 - China - Marinha, Exército e Fuzileiros desembarcam no país durante a guerra sino-japonesa;

1894/1896 - Coréia - Tropas permanecem em Seul durante a guerra;

1895 - Panamá - Tropas desembarcam no porto de Corinto, província Colombiana;

1898/1900 - China - Tropas ocupam a China durante a Rebelião Boxer;

1898/1910 - Filipinas - Luta pela independência do país, dominado pelos EUA (Massacres realizados por tropas americanas em Balangica, Samar, 27/09/1901, e Bud Bagsak, Sulu, 11/15/1913; 600.000 filipinos mortos;

1898/1902 - Cuba - Tropas sitiaram Cuba durante a guerra hispano-americana;

1898 - Porto Rico - Tropas sitiaram Porto Rico na guerra hispano-americana, hoje 'Estado Livre Associado' dos Estados Unidos;

1898 - Ilha de Guam - Marinha desembarca na ilha e a mantêm como base naval até hoje;

1898 - Espanha - Guerra Hispano-Americana - Desencadeada pela misteriosa explosão do encouraçado Maine, em 15 de fevereiro, na Baía de Havana. Esta guerra marca o surgimento dos EUA como potência capitalista e militar mundial;

1898 - Nicarágua - Fuzileiros Navais invadem o porto de San Juan del Sur;

1899 - Ilha de Samoa - Tropas desembarcam e invadem a Ilha em conseqüência de conflito pela sucessão do trono de Samoa;

1899 - Nicarágua - Tropas desembarcam no porto de Bluefields e invadem a Nicarágua (2ª vez);

1901/1914 - Panamá - Marinha apóia a revolução quando o Panamá reclamou independência da Colômbia; tropas americanas ocupam o canal em 1901, quando teve início sua construção;

1903 - Honduras - Fuzileiros Navais desembarcam em Honduras e intervêm na revolução do povo hondurenho;

1903/1904 - República Dominicana - Tropas atacaram e invadiram o território dominicano para proteger interesses do capital americano durante a revolução;

1904/1905 - Coréia - Fuzileiros Navais dos Estados Unidos desembarcaram no território coreano durante a guerra russo-japonesa;

1906/1909 - Cuba -Tropas dos Estados Unidos invadem Cuba e lutam contra o povo cubano durante período de eleições;

1907 - Nicarágua - Tropas invadem e impõem a criação de um protetorado, sobre o território livre da Nicarágua;

1907 - Honduras - Fuzileiros Navais desembarcam e ocupam Honduras durante a guerra de Honduras com a Nicarágua;

1908 - Panamá - Fuzileiros invadem o Panamá durante período de eleições;

1910 - Nicarágua - Fuzileiros navais desembarcam e invadem pela 3ª vez Bluefields e Corinto, na Nicarágua;

1911 - Honduras - Tropas enviadas para proteger interesses americanos durante a guerra civil invadem Honduras;

1911/1941 - China - Forças do exército e marinha dos Estados Unidos invadem mais uma vez a China durante período de lutas internas repetidas;

1912 - Cuba - Tropas invadem Cuba com a desculpa de proteger interesses americanos em Havana;

1912 - Panamá - Fuzileiros navais invadem novamente o Panamá e ocupam o país durante eleições presidenciais;

1912 - Honduras - Tropas norte americanas mais uma vez invadem Honduras para proteger interesses do capital americano;

1912/1933 - Nicarágua - Tropas dos Estados Unidos com a desculpa de combaterem guerrilheiros invadem e ocupam o país durante 20 anos;

1913 - México - Fuzileiros da Marinha invadem o México com a desculpa de evacuar cidadãos americanos durante a revolução;

1913 - México - Durante a revolução mexicana, os Estados Unidos bloqueiam as fronteiras mexicanas;

1914/1918 - Primeira Guerra Mundial - EUA entram no conflito em 6 de abril de 1917 declarando guerra à Alemanha. As perdas americanas chegaram a 114 mil homens;

1914 - República Dominicana - Fuzileiros navais da Marinha dos Estados invadem o solo dominicano e interferem na revolução em Santo Domingo;

1914/1918 - México - Marinha e exército invadem o território mexicano e interferem na luta contra nacionalistas;

1915/1934 - Haiti - Tropas americanas desembarcam no Haiti, em 28 de julho, e transformam o país numa colônia americana, permanecendo lá durante 19 anos;

1916/1924 - República Dominicana - Os EUA invadem e estabelecem governo militar na República Dominicana, em 29 de novembro, ocupando o país durante oito anos;

1917/1933 - Cuba - Tropas desembarcam em Cuba e transformam o país num protetorado econômico americano, permanecendo essa ocupação por 16 anos;

1918/1922 - Rússia - Marinha e tropas enviadas para combater a revolução bolchevista. O Exército realizou cinco desembarques, sendo derrotado pelos russos em todos eles;

1919 - Honduras - Fuzileiros desembarcam e invadem mais uma vez o país durante eleições, colocando no poder um governo a seu serviço;

1918 - Iugoslávia - Tropas dos Estados Unidos invadem a Iugoslávia e intervêm ao lado da Itália contra os sérvios na Dalmácia;

1920 - Guatemala - Tropas invadem e ocupam o país durante greve operária do povo da Guatemala;

1922 - Turquia - Tropas invadem e combatem nacionalistas turcos em Smirna;

1922/1927 - China - Marinha e Exército mais uma vez invadem a China durante revolta nacionalista;

1924/1925 - Honduras - Tropas dos Estados Unidos desembarcam e invadem Honduras duas vezes durante eleição nacional;

1925 - Panamá - Tropas invadem o Panamá para debelar greve geral dos trabalhadores panamenhos;

1927/1934 - China - Mil fuzileiros americanos desembarcam na China durante a guerra civil local e permanecem durante sete anos ocupando o território;

1932 - El Salvador - Navios de Guerra dos Estados Unidos são deslocados durante a revolução das Forças do Movimento de Libertação Nacional - FMLN - comandadas por Marti;

1939/1945 - II Guerra Mundial - Os EUA declaram guerra ao Japão em 8 de dezembro de 1941 e depois a Alemanha e Itália, invadindo o Norte da África, a Ásia e a Europa, culminando com o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades desmilitarizadas de Iroshima e Nagasaki;

1946 - Irã - Marinha americana ameaça usar artefatos nucleares contra tropas soviéticas caso as mesmas não abandonem a fronteira norte do Irã;

1946 - Iugoslávia - Presença da marinha ameaçando invadir a zona costeira da Iugoslávia em resposta a um avião espião dos Estados Unidos abatido pelos soviéticos;

1947/1949 - Grécia - Operação de invasão de Comandos dos EUA garantem vitória da extrema direita nas "eleições" do povo grego;

1947 - Venezuela - Em um acordo feito com militares locais, os EUA invadem e derrubam o presidente eleito Rómulo Gallegos, como castigo por ter aumentado o preço do petróleo exportado, colocando um ditador no poder;

1948/1949 - China - Fuzileiros invadem pela ultima vez o território chinês para evacuar cidadãos americanos antes da vitória comunista;

1950 - Porto Rico - Comandos militares dos Estados Unidos ajudam a esmagar a revolução pela independência de Porto Rico, em Ponce;

1951/1953 - Coréia - Início do conflito entre a República Democrática da Coréia (Norte) e República da Coréia (Sul), na qual cerca de 3 milhões de pessoas morreram. Estados Unidos são um dos principais protagonistas da invasão usando como pano de fundo a recém criada Nações Unidas, ao lado dos sul-coreanos. A guerra termina em julho de 1953 sem vencedores e com dois estados polarizados: comunistas ao norte e um governo pró-americano no sul. Os EUA perderam 33 mil homens e mantém até hoje base militar e aero-naval na Coréia do Sul;

1954 - Guatemala - Comandos americanos, sob controle da CIA, derrubam o presidente Arbenz, democraticamente eleito, e impõem uma ditadura militar no país. Jacobo Arbenz havia nacionalizado a empresa United Fruit e impulsionado a reforma agrária;

1956 - Egito - O presidente Nasser nacionaliza o canal de Suez. Tropas americanas se envolvem durante os combates no Canal de Suez sustentados pela Sexta Frota dos EUA. As forças egípcias obrigam a coalizão franco-israelense-britânica, a retirar-se do canal;

1958 - Líbano - Forças da Marinha invadem apóiam o exército de ocupação do Líbano durante sua guerra civil;

1958 - Panamá - Tropas dos Estados Unidos invadem e combatem manifestantes nacionalistas panamenhos;

1961/1975 - Vietnã. Aliados ao sul-vietnamitas, o governo americano invade o Vietnã e tenta impedir, sem sucesso, a formação de um estado comunista, unindo o sul e o norte do país. Inicialmente a participação americana se restringe a ajuda econômica e militar (conselheiros e material bélico). Em agosto de 1964, o congresso americano autoriza o presidente a lançar os EUA em guerra. Os Estados Unidos deixam de ser simples consultores do exército do Vietnã do Sul e entram num conflito traumático, que afetaria toda a política militar dali para frente. A morte de quase 60 mil jovens americanos e a humilhação imposta pela derrota do Sul em 1975, dois anos depois da retirada dos Estados Unidos, moldou a estratégia futura de evitar guerras que impusessem um custo muito alto de vidas americanas e nas quais houvesse inimigos difíceis de derrotar de forma convencional, como os vietcongues e suas táticas de guerrilhas;

1962 - Laos - Militares americanos invadem e ocupam o Laos durante guerra civil contra guerrilhas do Pathet Lao;

1964 - Panamá - Militares americanos invadiram mais uma vez o Panamá e mataram 20 estudantes, ao reprimirem a manifestação em que os jovens queriam trocar, na zona do canal, a bandeira americana pela bandeira de seu país;

1965/1966 - República Dominicana - Trinta mil fuzileiros e pára-quedistas desembarcaram na capital do país, São Domingo, para impedir a nacionalistas panamenhos de chegarem ao poder. A CIA conduz Joaquín Balaguer à presidência, consumando um golpe de estado que depôs o presidente eleito Juan Bosch. O país já fora ocupado pelos americanos de 1916 a 1924;

1966/1967 - Guatemala - Boinas Verdes e marines invadem o país para combater movimento revolucionário contrário aos interesses econômicos do capital americano;

1969/1975 - Camboja - Militares americanos enviados depois que a Guerra do Vietnã invadem e ocupam o Camboja;

1971/1975 - Laos - EUA dirigem a invasão sul-vietnamita bombardeando o território do vizinho Laos, justificando que o país apoiava o povo vietnamita em sua luta contra a invasão americana;

1975 - Camboja - 28 marines americanos são mortos na tentativa de resgatar a tripulação do petroleiro estadunidense Mayaquez;

1980 - Irã - Na inauguração do estado islâmico formado pelo Aiatolá Khomeini, estudantes que haviam participado da Revolução Islâmica do Irã ocuparam a embaixada americana em Teerã e fizeram 60 reféns. O governo americano preparou uma operação militar surpresa para executar o resgate, frustrada por tempestades de areia e falhas em equipamentos. Em meio à frustrada operação, oito militares americanos morreram no choque entre um helicóptero e um avião. Os reféns só seriam libertados um ano depois do seqüestro, o que enfraqueceu o então presidente Jimmy Carter e elegeu Ronald Reagan, que conseguiu aprovar o maior orçamento militar em época de paz até então;

1982/1984 - Líbano - Estados Unidos invadiram o Líbano e se envolveram nos conflitos no país logo após a invasão por Israel - e acabaram envolvidos na guerra civil que dividiu o país. Em 1980, os americanos supervisionaram a retirada da Organização pela Libertação da Palestina de Beirute. Na segunda intervenção, 1.800 soldados integraram uma força conjunta de vários países, que deveriam restaurar a ordem após o massacre de refugiados palestinos por libaneses aliados a Israel. O custo para os americanos foi a morte 241 fuzileiros navais, quando os libaneses explodiram um carro bomba perto de um quartel das forças americanas;

1983/1984 - Ilha de Granada - Após um bloqueio econômico de quatro anos a CIA coordena esforços que resultam no assassinato do 1º Ministro Maurice Bishop. Seguindo a política de intervenção externa de Ronald Reagan, os Estados Unidos invadiram a ilha caribenha de Granada alegando prestar proteção a 600 estudantes americanos que estavam no país, as tropas eliminaram a influência de Cuba e da União Soviética sobre a política da ilha;

1983/1989 - Honduras - Tropas enviadas para construir bases em regiões próximas à fronteira invadem o Honduras;

1986 - Bolívia - Exército invade o território boliviano na justificativa de auxiliar tropas bolivianas em incursões nas áreas de cocaína;

1989 - Ilhas Virgens - Tropas americanas desembarcam e invadem as ilhas durante revolta do povo do país contra o governo pró-americano;

1989 - Panamá - Batizada de Operação Causa Justa, a intervenção americana no Panamá foi provavelmente a maior batida policial de todos os tempos: 27 mil soldados ocuparam a ilha para prender o presidente panamenho, Manuel Noriega, antigo ditador aliado do governo americano. Os Estados Unidos justificaram a operação como sendo fundamental para proteger o Canal do Panamá, defender 35 mil americanos que viviam no país, promover a democracia e interromper o tráfico de drogas, que teria em Noriega seu líder na América Central. O ex-presidente cumpre prisão perpétua nos Estados Unidos.

1990 - Libéria - Tropas invadem a Libéria justificando a evacuação de estrangeiros durante guerra civil;

1990/1991 - Iraque - Após a invasão do Iraque ao Kuwait, em 2 de agosto de 1990, os Estados Unidos, com o apoio de seus aliados da Otan, decidem impor um embargo econômico ao país, seguido de uma coalizão anti-Iraque (reunindo além dos países europeus membros da Otan, o Egito e outros países árabes) que ganhou o título de "Operação Tempestade no Deserto". As hostilidades começaram em 16 de janeiro de 1991, um dia depois do fim do prazo dado ao Iraque para retirar tropas do Kuwait. Para expulsar as forças iraquianas do Kuwait, o então presidente George Bush destacou mais de 500 mil soldados americanos para a Guerra do Golfo;

1990/1991 - Arábia Saudita - Tropas americanas destacadas para ocupar a Arábia Saudita que era base militar na guerra contra Iraque;

1992/1994 - Somália - Tropas americanas, num total de 25 mil soldados, invadem a Somália como parte de uma missão da ONU para distribuir mantimentos para a população esfomeada. Em dezembro, forças militares norte-americanas (comando Delta e Rangers) chegam a Somália para intervir numa guerra entre as facções do então presidente Ali Mahdi Muhammad e tropas do general rebelde Farah Aidib. Sofrem uma fragorosa derrota militar nas ruas da capital do país;

1993 - Iraque - No início do governo Clinton é lançado um ataque contra instalações militares iraquianas em retaliação a um suposto atentado, não concretizado, contra o ex-presidente Bush, em visita ao Kuwait;

1994/1999 - Haiti - Enviadas pelo presidente Bill Clinton, tropas americanas ocuparam o Haiti na justificativa de devolver o poder ao presidente eleito Jean-Betrand Aristide, derrubado por um golpe, mas o que a operação visava era evitar que o conflito interno provocasse uma onda de refugiados haitianos nos Estados Unidos;

1996/1997 - Zaire (ex-República do Congo) - Fuzileiros Navais americanos são enviados para invadir a área dos campos de refugiados Hutus;

1997 - Libéria - Tropas dos Estados Unidos invadem a Libéria justificando a necessidade de evacuar estrangeiros durante guerra civil sob fogo dos rebeldes;

1997 - Albânia - Tropas invadem a Albânia para evacuar estrangeiros;

2000 - Colômbia - Marines e "assessores especiais" dos EUA iniciam o Plano Colômbia, que inclui o bombardeamento da floresta com um fungo transgênico fusarium axyporum (o "gás verde");

2001 - Afeganistão - Os EUA bombardeiam várias cidades afegãs, em resposta ao ataque terrorista ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Invadem depois o Afeganistão onde estão até hoje;

2003 - Iraque - Sob a alegação de Saddam Hussein esconder armas de destruição e financiar terroristas, os EUA iniciam intensos ataques ao Iraque. É batizada pelos EUA de "Operação Liberdade do Iraque" e por Saddam de "A Última Batalha", a guerra começa com o apoio apenas da Grã-Bretanha, sem o endosso da ONU e sob protestos de manifestantes e de governos no mundo inteiro. As forças invasoras americanas até hoje estão no território iraquiano, onde a violência aumentou mais do que nunca.

ENTRE 2014/2016 esteve por trás do golpe que derrubou a nossa PRESIDENTA DILMA e claro com o objetivo de roubar o nosso Petróleo.

2020: matou o GENERAL QASEEM SULEIMANI com certeza por conta do Petróleo . Irã anuncia descoberta de imenso campo de petróleo

Total de mortos promovidos pelos EUA atingiram 110 milhões de pessoas direto ou indireto. Sem ser denunciados em tribunais internacionais

Fonte: Urias Rocha, jornalista e ex professor de Mato Grosso do Sul.

Governos dos EUA mataram 110 milhões de pessoas ao longo do século

A palavra imperialismo, quando usada para descrever o acionar belicista dos Estados Unidos ao redor do mundo, é considerada um termo exclusivo de comunistas, de intelectuais marxistas, e que pretende desqualificar as intencionalidades democratizantes do país do norte nas civilizações que são vitimas de governos ditatoriais. A história recente demonstra que a guerra do Iraque, de 2003, foi apoiada por uma opinião publica que foi previamente manipulada pela mídia nacional, que anunciava o envolvimento direto do Saddam Hussein no atentando às Torres Gêmeas e a produção de armas nucleares e outras químicas de destruição massiva. Após a invasão, nem a CIA, nem a NSA conseguiram provar a existência dessas armas, nem do envolvimento de Saddam Hussein nos atentados de setembro de 2001. As consequências da guerra foram de mais de 600.000 pessoas mortas, de forma direta ou indireta, e a de um país endividado, devastado pelo poder destrutor da força de coalisão, liderada pelos Estados Unidos, que se estima, gastou mais de 800 bilhões de dólares na operação. Cineastas, historiadores e jornalistas ao redor do mundo denunciaram os fortes vínculos entre G. W. Bush e as empresas privadas de fabricação de armamentos, assim como os vínculos que essa família tem desde há décadas com os maiores empresários de petróleo do mundo. E que a guerra foi um agir oportunista dessas interessas para expandir seu poder em oriente médio. Em 2005, Nestor Kirchner, presidente da Argentina, contou para Oliver Stone, que Bush tinha falado para ele, em confissão intima, que “Estados Unidos não se fez rico por ter políticas como as do plano Marshall e sim por fazer a guerra”. A guerra do Iraque, em definitiva, e sem ninguém com argumentos suficiente para rebater esse argumento, foi consequência do interesse dos Estados Unidos (O governo e os setores empresariais que sustentam suas políticas) em se apropriar da exploração do petróleo naquele país, e pelo negócio que resulta para USA (para os mega empresários da indústria das armas) entrar em conflitos armados.

Em novembro de 2019, o Irã anuncia a descoberta de um importante campo de petróleo na província do Khuzistão. Em menos de dois meses, Estados Unidos instiga a mais uma guerra a milhares de quilômetros de distância, agindo de forma desproporcional e violando todos os acordos diplomáticos internacionais.

Vale lembrar que imperialismo, ou neoimperialismo (que qualifica o acionar sobretudo de USA na nossa era contemporânea) não se resume aos confrontos bélicos, nem se refere a um estado liderado por um único sujeito sem renovação de mandato pelo a través do sufrágio. O imperialismo seria uma forma de expansão forçada e unilateral de uma forma de fazer política, de uma identidade cultural, de uma prática económica. As industrias culturais, sobretudo as que são ligas ao que a gente conhece como “cultura de massas” (como a música e o cinema, em todos os países e com raras exceções) são também vítimas da pressão norte-americana por expandir sua cultura, o que tem como consequência lógica uma expansão da sua economia. Se a indústria cinematográfica norte-americana se expande em território brasileiro é porque a indústria local dá o espaço para que isto aconteça. O que tem consequências económicas inegáveis no país. As grades dos cinemas, hoje, no Brasil, têm uma programação maioritariamente norte-americana, o que, como resulta obvio, prejudica a indústria nacional, restringindo e enfraquecendo a capacidade de autofinanciamento para produzir localmente.

De forma direta ou indireta, Estados Unidos impõe sua supremacia em todos os países. Seu potencial bélico é uma ferramenta de pressão na hora de aplicar sansões económicas a países que se recusam a praticar os esquemas económicos que contrariam seus interesses. Se o poder bélico dos Estados Unidos é regulador, de forma direita ou indireta, do que acontece na vida económica, social e cultural de diferentes países ao redor do mundo, estamos falando sim, de um procedimento imperialista, no sentidos mais elementar do termo.

É casual que a primeira potência bélica a nível mundial seja quem impõe sua língua, sua cultura? É democrático o agir unilateral nos últimos conflitos armados sobre populações soberanas como Síria, Iraque e hoje, potencialmente, o Irã?

O jornalista e ex-professor Urias Rocha, de Mato Grosso do Sul realizou uma breve cronologia das invasões e ataques dos Estados Unidos ao redor do mundo nos últimos 150 anos. A quantidade de mortes pelas quais são responsáveis é de aproximadamente 110 milhões de pessoas. Nunca foram denunciados formalmente ante tribunais internacionais:

 

1846/1848 - México – Invasão e ataque por causa da anexação, pelos EUA, da República do Texas;

1891 - Chile - Fuzileiros Navais esmagam forças rebeldes nacionalistas;

1891 - Haiti - Tropas debelam a revolta de operários negros na ilha de Navassa, reclamada pelos EUA;

 

1893 - Hawai - Marinha enviada para suprimir o reinado independente e anexar o Hawaí aos EUA;

1894 - Nicarágua - Tropas ocupam Bluefields, cidade do mar do Caribe, durante um mês;

1894/1895 - China - Marinha, Exército e Fuzileiros desembarcam no país durante a guerra sino-japonesa;

1894/1896 - Coréia - Tropas permanecem em Seul durante a guerra;

1895 - Panamá - Tropas desembarcam no porto de Corinto, província Colombiana;

1898/1900 - China - Tropas ocupam a China durante a Rebelião Boxer;

1898/1910 - Filipinas - Luta pela independência do país, dominado pelos EUA (Massacres realizados por tropas americanas em Balangica, Samar, 27/09/1901, e Bud Bagsak, Sulu, 11/15/1913; 600.000 filipinos mortos;

1898/1902 - Cuba - Tropas sitiaram Cuba durante a guerra hispano-americana;

1898 - Porto Rico - Tropas sitiaram Porto Rico na guerra hispano-americana, hoje 'Estado Livre Associado' dos Estados Unidos;

1898 - Ilha de Guam - Marinha desembarca na ilha e a mantêm como base naval até hoje;

1898 - Espanha - Guerra Hispano-Americana - Desencadeada pela misteriosa explosão do encouraçado Maine, em 15 de fevereiro, na Baía de Havana. Esta guerra marca o surgimento dos EUA como potência capitalista e militar mundial;

1898 - Nicarágua - Fuzileiros Navais invadem o porto de San Juan del Sur;

1899 - Ilha de Samoa - Tropas desembarcam e invadem a Ilha em conseqüência de conflito pela sucessão do trono de Samoa;

1899 - Nicarágua - Tropas desembarcam no porto de Bluefields e invadem a Nicarágua (2ª vez);

1901/1914 - Panamá - Marinha apóia a revolução quando o Panamá reclamou independência da Colômbia; tropas americanas ocupam o canal em 1901, quando teve início sua construção;

1903 - Honduras - Fuzileiros Navais desembarcam em Honduras e intervêm na revolução do povo hondurenho;

1903/1904 - República Dominicana - Tropas atacaram e invadiram o território dominicano para proteger interesses do capital americano durante a revolução;

1904/1905 - Coréia - Fuzileiros Navais dos Estados Unidos desembarcaram no território coreano durante a guerra russo-japonesa;

1906/1909 - Cuba -Tropas dos Estados Unidos invadem Cuba e lutam contra o povo cubano durante período de eleições;

1907 - Nicarágua - Tropas invadem e impõem a criação de um protetorado, sobre o território livre da Nicarágua;

1907 - Honduras - Fuzileiros Navais desembarcam e ocupam Honduras durante a guerra de Honduras com a Nicarágua;

1908 - Panamá - Fuzileiros invadem o Panamá durante período de eleições;

1910 - Nicarágua - Fuzileiros navais desembarcam e invadem pela 3ª vez Bluefields e Corinto, na Nicarágua;

1911 - Honduras - Tropas enviadas para proteger interesses americanos durante a guerra civil invadem Honduras;

1911/1941 - China - Forças do exército e marinha dos Estados Unidos invadem mais uma vez a China durante período de lutas internas repetidas;

1912 - Cuba - Tropas invadem Cuba com a desculpa de proteger interesses americanos em Havana;

1912 - Panamá - Fuzileiros navais invadem novamente o Panamá e ocupam o país durante eleições presidenciais;

1912 - Honduras - Tropas norte americanas mais uma vez invadem Honduras para proteger interesses do capital americano;

1912/1933 - Nicarágua - Tropas dos Estados Unidos com a desculpa de combaterem guerrilheiros invadem e ocupam o país durante 20 anos;

1913 - México - Fuzileiros da Marinha invadem o México com a desculpa de evacuar cidadãos americanos durante a revolução;

1913 - México - Durante a revolução mexicana, os Estados Unidos bloqueiam as fronteiras mexicanas;

1914/1918 - Primeira Guerra Mundial - EUA entram no conflito em 6 de abril de 1917 declarando guerra à Alemanha. As perdas americanas chegaram a 114 mil homens;

1914 - República Dominicana - Fuzileiros navais da Marinha dos Estados invadem o solo dominicano e interferem na revolução em Santo Domingo;

1914/1918 - México - Marinha e exército invadem o território mexicano e interferem na luta contra nacionalistas;

1915/1934 - Haiti - Tropas americanas desembarcam no Haiti, em 28 de julho, e transformam o país numa colônia americana, permanecendo lá durante 19 anos;

1916/1924 - República Dominicana - Os EUA invadem e estabelecem governo militar na República Dominicana, em 29 de novembro, ocupando o país durante oito anos;

1917/1933 - Cuba - Tropas desembarcam em Cuba e transformam o país num protetorado econômico americano, permanecendo essa ocupação por 16 anos;

1918/1922 - Rússia - Marinha e tropas enviadas para combater a revolução bolchevista. O Exército realizou cinco desembarques, sendo derrotado pelos russos em todos eles;

1919 - Honduras - Fuzileiros desembarcam e invadem mais uma vez o país durante eleições, colocando no poder um governo a seu serviço;

1918 - Iugoslávia - Tropas dos Estados Unidos invadem a Iugoslávia e intervêm ao lado da Itália contra os sérvios na Dalmácia;

1920 - Guatemala - Tropas invadem e ocupam o país durante greve operária do povo da Guatemala;

1922 - Turquia - Tropas invadem e combatem nacionalistas turcos em Smirna;

1922/1927 - China - Marinha e Exército mais uma vez invadem a China durante revolta nacionalista;

1924/1925 - Honduras - Tropas dos Estados Unidos desembarcam e invadem Honduras duas vezes durante eleição nacional;

1925 - Panamá - Tropas invadem o Panamá para debelar greve geral dos trabalhadores panamenhos;

1927/1934 - China - Mil fuzileiros americanos desembarcam na China durante a guerra civil local e permanecem durante sete anos ocupando o território;

1932 - El Salvador - Navios de Guerra dos Estados Unidos são deslocados durante a revolução das Forças do Movimento de Libertação Nacional - FMLN - comandadas por Marti;

1939/1945 - II Guerra Mundial - Os EUA declaram guerra ao Japão em 8 de dezembro de 1941 e depois a Alemanha e Itália, invadindo o Norte da África, a Ásia e a Europa, culminando com o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades desmilitarizadas de Iroshima e Nagasaki;

1946 - Irã - Marinha americana ameaça usar artefatos nucleares contra tropas soviéticas caso as mesmas não abandonem a fronteira norte do Irã;

1946 - Iugoslávia - Presença da marinha ameaçando invadir a zona costeira da Iugoslávia em resposta a um avião espião dos Estados Unidos abatido pelos soviéticos;

1947/1949 - Grécia - Operação de invasão de Comandos dos EUA garantem vitória da extrema direita nas "eleições" do povo grego;

1947 - Venezuela - Em um acordo feito com militares locais, os EUA invadem e derrubam o presidente eleito Rómulo Gallegos, como castigo por ter aumentado o preço do petróleo exportado, colocando um ditador no poder;

1948/1949 - China - Fuzileiros invadem pela ultima vez o território chinês para evacuar cidadãos americanos antes da vitória comunista;

1950 - Porto Rico - Comandos militares dos Estados Unidos ajudam a esmagar a revolução pela independência de Porto Rico, em Ponce;

1951/1953 - Coréia - Início do conflito entre a República Democrática da Coréia (Norte) e República da Coréia (Sul), na qual cerca de 3 milhões de pessoas morreram. Estados Unidos são um dos principais protagonistas da invasão usando como pano de fundo a recém criada Nações Unidas, ao lado dos sul-coreanos. A guerra termina em julho de 1953 sem vencedores e com dois estados polarizados: comunistas ao norte e um governo pró-americano no sul. Os EUA perderam 33 mil homens e mantém até hoje base militar e aero-naval na Coréia do Sul;

1954 - Guatemala - Comandos americanos, sob controle da CIA, derrubam o presidente Arbenz, democraticamente eleito, e impõem uma ditadura militar no país. Jacobo Arbenz havia nacionalizado a empresa United Fruit e impulsionado a reforma agrária;

1956 - Egito - O presidente Nasser nacionaliza o canal de Suez. Tropas americanas se envolvem durante os combates no Canal de Suez sustentados pela Sexta Frota dos EUA. As forças egípcias obrigam a coalizão franco-israelense-britânica, a retirar-se do canal;

1958 - Líbano - Forças da Marinha invadem apóiam o exército de ocupação do Líbano durante sua guerra civil;

1958 - Panamá - Tropas dos Estados Unidos invadem e combatem manifestantes nacionalistas panamenhos;

1961/1975 - Vietnã. Aliados ao sul-vietnamitas, o governo americano invade o Vietnã e tenta impedir, sem sucesso, a formação de um estado comunista, unindo o sul e o norte do país. Inicialmente a participação americana se restringe a ajuda econômica e militar (conselheiros e material bélico). Em agosto de 1964, o congresso americano autoriza o presidente a lançar os EUA em guerra. Os Estados Unidos deixam de ser simples consultores do exército do Vietnã do Sul e entram num conflito traumático, que afetaria toda a política militar dali para frente. A morte de quase 60 mil jovens americanos e a humilhação imposta pela derrota do Sul em 1975, dois anos depois da retirada dos Estados Unidos, moldou a estratégia futura de evitar guerras que impusessem um custo muito alto de vidas americanas e nas quais houvesse inimigos difíceis de derrotar de forma convencional, como os vietcongues e suas táticas de guerrilhas;

1962 - Laos - Militares americanos invadem e ocupam o Laos durante guerra civil contra guerrilhas do Pathet Lao;

1964 - Panamá - Militares americanos invadiram mais uma vez o Panamá e mataram 20 estudantes, ao reprimirem a manifestação em que os jovens queriam trocar, na zona do canal, a bandeira americana pela bandeira de seu país;

1965/1966 - República Dominicana - Trinta mil fuzileiros e pára-quedistas desembarcaram na capital do país, São Domingo, para impedir a nacionalistas panamenhos de chegarem ao poder. A CIA conduz Joaquín Balaguer à presidência, consumando um golpe de estado que depôs o presidente eleito Juan Bosch. O país já fora ocupado pelos americanos de 1916 a 1924;

1966/1967 - Guatemala - Boinas Verdes e marines invadem o país para combater movimento revolucionário contrário aos interesses econômicos do capital americano;

1969/1975 - Camboja - Militares americanos enviados depois que a Guerra do Vietnã invadem e ocupam o Camboja;

1971/1975 - Laos - EUA dirigem a invasão sul-vietnamita bombardeando o território do vizinho Laos, justificando que o país apoiava o povo vietnamita em sua luta contra a invasão americana;

1975 - Camboja - 28 marines americanos são mortos na tentativa de resgatar a tripulação do petroleiro estadunidense Mayaquez;

1980 - Irã - Na inauguração do estado islâmico formado pelo Aiatolá Khomeini, estudantes que haviam participado da Revolução Islâmica do Irã ocuparam a embaixada americana em Teerã e fizeram 60 reféns. O governo americano preparou uma operação militar surpresa para executar o resgate, frustrada por tempestades de areia e falhas em equipamentos. Em meio à frustrada operação, oito militares americanos morreram no choque entre um helicóptero e um avião. Os reféns só seriam libertados um ano depois do seqüestro, o que enfraqueceu o então presidente Jimmy Carter e elegeu Ronald Reagan, que conseguiu aprovar o maior orçamento militar em época de paz até então;

1982/1984 - Líbano - Estados Unidos invadiram o Líbano e se envolveram nos conflitos no país logo após a invasão por Israel - e acabaram envolvidos na guerra civil que dividiu o país. Em 1980, os americanos supervisionaram a retirada da Organização pela Libertação da Palestina de Beirute. Na segunda intervenção, 1.800 soldados integraram uma força conjunta de vários países, que deveriam restaurar a ordem após o massacre de refugiados palestinos por libaneses aliados a Israel. O custo para os americanos foi a morte 241 fuzileiros navais, quando os libaneses explodiram um carro bomba perto de um quartel das forças americanas;

1983/1984 - Ilha de Granada - Após um bloqueio econômico de quatro anos a CIA coordena esforços que resultam no assassinato do 1º Ministro Maurice Bishop. Seguindo a política de intervenção externa de Ronald Reagan, os Estados Unidos invadiram a ilha caribenha de Granada alegando prestar proteção a 600 estudantes americanos que estavam no país, as tropas eliminaram a influência de Cuba e da União Soviética sobre a política da ilha;

1983/1989 - Honduras - Tropas enviadas para construir bases em regiões próximas à fronteira invadem o Honduras;

1986 - Bolívia - Exército invade o território boliviano na justificativa de auxiliar tropas bolivianas em incursões nas áreas de cocaína;

1989 - Ilhas Virgens - Tropas americanas desembarcam e invadem as ilhas durante revolta do povo do país contra o governo pró-americano;

1989 - Panamá - Batizada de Operação Causa Justa, a intervenção americana no Panamá foi provavelmente a maior batida policial de todos os tempos: 27 mil soldados ocuparam a ilha para prender o presidente panamenho, Manuel Noriega, antigo ditador aliado do governo americano. Os Estados Unidos justificaram a operação como sendo fundamental para proteger o Canal do Panamá, defender 35 mil americanos que viviam no país, promover a democracia e interromper o tráfico de drogas, que teria em Noriega seu líder na América Central. O ex-presidente cumpre prisão perpétua nos Estados Unidos.

1990 - Libéria - Tropas invadem a Libéria justificando a evacuação de estrangeiros durante guerra civil;

1990/1991 - Iraque - Após a invasão do Iraque ao Kuwait, em 2 de agosto de 1990, os Estados Unidos, com o apoio de seus aliados da Otan, decidem impor um embargo econômico ao país, seguido de uma coalizão anti-Iraque (reunindo além dos países europeus membros da Otan, o Egito e outros países árabes) que ganhou o título de "Operação Tempestade no Deserto". As hostilidades começaram em 16 de janeiro de 1991, um dia depois do fim do prazo dado ao Iraque para retirar tropas do Kuwait. Para expulsar as forças iraquianas do Kuwait, o então presidente George Bush destacou mais de 500 mil soldados americanos para a Guerra do Golfo;

1990/1991 - Arábia Saudita - Tropas americanas destacadas para ocupar a Arábia Saudita que era base militar na guerra contra Iraque;

1992/1994 - Somália - Tropas americanas, num total de 25 mil soldados, invadem a Somália como parte de uma missão da ONU para distribuir mantimentos para a população esfomeada. Em dezembro, forças militares norte-americanas (comando Delta e Rangers) chegam a Somália para intervir numa guerra entre as facções do então presidente Ali Mahdi Muhammad e tropas do general rebelde Farah Aidib. Sofrem uma fragorosa derrota militar nas ruas da capital do país;

1993 - Iraque - No início do governo Clinton é lançado um ataque contra instalações militares iraquianas em retaliação a um suposto atentado, não concretizado, contra o ex-presidente Bush, em visita ao Kuwait;

1994/1999 - Haiti - Enviadas pelo presidente Bill Clinton, tropas americanas ocuparam o Haiti na justificativa de devolver o poder ao presidente eleito Jean-Betrand Aristide, derrubado por um golpe, mas o que a operação visava era evitar que o conflito interno provocasse uma onda de refugiados haitianos nos Estados Unidos;

1996/1997 - Zaire (ex-República do Congo) - Fuzileiros Navais americanos são enviados para invadir a área dos campos de refugiados Hutus;

1997 - Libéria - Tropas dos Estados Unidos invadem a Libéria justificando a necessidade de evacuar estrangeiros durante guerra civil sob fogo dos rebeldes;

1997 - Albânia - Tropas invadem a Albânia para evacuar estrangeiros;

2000 - Colômbia - Marines e "assessores especiais" dos EUA iniciam o Plano Colômbia, que inclui o bombardeamento da floresta com um fungo transgênico fusarium axyporum (o "gás verde");

2001 - Afeganistão - Os EUA bombardeiam várias cidades afegãs, em resposta ao ataque terrorista ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Invadem depois o Afeganistão onde estão até hoje;

2003 - Iraque - Sob a alegação de Saddam Hussein esconder armas de destruição e financiar terroristas, os EUA iniciam intensos ataques ao Iraque. É batizada pelos EUA de "Operação Liberdade do Iraque" e por Saddam de "A Última Batalha", a guerra começa com o apoio apenas da Grã-Bretanha, sem o endosso da ONU e sob protestos de manifestantes e de governos no mundo inteiro. As forças invasoras americanas até hoje estão no território iraquiano, onde a violência aumentou mais do que nunca.

ENTRE 2014/2016 esteve por trás do golpe que derrubou a nossa PRESIDENTA DILMA e claro com o objetivo de roubar o nosso Petróleo. ..

2020 : matou o GENERAL QASEEM SULEIMANI com certeza por conta do Petróleo . Irã anuncia descoberta de imenso campo de petróleo

Total de mortos promovidos pelos EUA atingiram 110 milhões de pessoas direto ou indireto. Sem ser denunciados em tribunais internacionais

Fonte: Urias Rocha, jornalista e ex professor de Mato Grosso do Sul.

OPCW

Os EUA/NATO/EU não suportam que seja quem for – organização internacional ou personalidade individual – ponha em causa as falsidades com que pretendem justificar sucessivas agressões militares. Cientistas da OPAQ (OPCW) que questionaram essa manipulação foram ameaçados. Jornalistas saíram dos órgãos em que trabalhavam. E Julian Assange está a ser lentamente assassinado na cela da prisão.

Peritos da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ, ou OPCW na sigla inglesa) estão em revolta contra a manipulação e mentira que visa submeter a organização internacional ao belicismo imperialista.

Em Abril de 2018 uma das campanhas mediáticas que antecedem as operações militares dos EUA/NATO/UE acusava o governo sírio de usar armas químicas em Douma. Um video mostrava crianças, supostamente vítimas, a serem encharcadas com água por Capacetes Brancos. A foto dum cilindro em cima duma cama numa casa bombardeadea seria a prova. EUA, França e GB lançaram mais de 100 mísseis sobre a Síria, ainda antes dum relatório da OPAQ falar em cloro no local do alegado ataque.

Mas cientistas da OPAQ divulgaram pela Wikileaks documentos provando que o relatório oficial não foi escrito pela equipa de peritos que visitou o local do suposto ataque e «não reflecte as suas opiniões». Um memorando refere que «cerca de 20 inspectores expressaram a sua preocupação sobre a situação», adiantando que «o relatório da FFM [Missão de Apuramento dos Factos] não reflecte as opiniões de todos os membros da equipa que visitou Douma. Apenas um membro [do grupo que escreveu o relatório final] esteve em Douma». Particular revolta provocou o falso desmentido de que o inspector Ian Henderson tinha estado em Douma.

Henderson foi suspenso e expulso à força da sede da OPAQ. Após visitar Douma, tinha escrito que era inexplicável que o cilindro que alegadamente foi lançado dum helicóptero e atravessou um tecto em cimento armado, pudesse estar intacto em cima da cama onde foi fotografado. Foram também questionadas as imagens do hospital, lançando a suspeita duma encenação. O relatório final escondeu a informação de que o cloro encontrado era residual.

Já o primeiro chefe da OPAQ, o brasileiro Bustani, enfrentou o gangsterismo imperialista. Segundo contou à RT (7.4.18), o futuro Director de Segurança Nacional dos EUA, Bolton, visitou a sede da OPAQ antes da invasão do Iraque, dando-lhe um ultimato de 24 horas para se demitir. Face à recusa de Bustani, Bolton imitou Al Capone: «OK, haverá represálias. Prepare-se para aceitar as consequências. Sabemos onde estão os seus filhos». Segundo Bustani, o Iraque já não tinha armas químicas, mas os EUA «já tinham planos para […] acções militares».

Com raríssimas excepções, a comunicação social de regime não noticia a revolta na OPAQ. O jornalista Tareq Haddad conta como foi censurado pela Newsweek. Para não ter de calar-se ou mentir, optou por despedir-se (tareqhaddad.com, 14.12.19). Julian Assange, o fundador da Wikileaks, está preso em Londres, aguardando sentença sobre a sua extradição para as masmorras dos EUA. O Relator Especial da ONU sobre Tortura, Nils Melzer, considerou que Assange está a ser sujeito a torturas psicológicas (RT, 16.10.19). O ex-Embaixador britânico Craig Murray, após assistir a uma das sessões judiciais, manifestou-se «profundamente abalado» pelo estado físico e psíquico de Assange, receando «que possa não chegar vivo ao fim do processo de extradição» (craigmurray.org.uk, 22.10.19).

Querem calar quem desmascara a mentira para poderem cometer crimes com impunidade.

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Guerra dos EUA pela dominação global

 
 
Nota do autor 
 
O texto a seguir foi apresentado na Sociedade de Defesa dos Direitos Civis e da Dignidade Humana (GBM), Berlim, de 10 a 11 de dezembro de 2003, e na Universidade Humboldt, Berlim, em 12 de dezembro de 2003.
 
Escrito 16 anos atrás, após a invasão do Iraque liderada pelos EUA (março a abril de 2003), o artigo identifica "a próxima fase da guerra liderada pelos EUA", incluindo a intenção de Washington de travar uma guerra contra o Irã. Também se concentra no plano de Tel Aviv de "criar um Grande Israel", o que equivale a destruir a Palestina. 
 
Ele aborda a questão de "Bandeiras Falsas" e o papel da mídia na divulgação de propaganda de guerra. 
 
Dezesseis anos depois, a agenda militar hegemônica da América atingiu um limiar perigoso: o assassinato do general Soleimani do IRGC, ordenado por Donald Trump em 2 de janeiro de 2020, equivale a um Ato de Guerra contra o Irã.
 
O secretário de Defesa dos EUA, Mark T. Esper, descreveu como uma "ação defensiva decisiva", confirmando que a operação ordenada por Donald Trump havia sido realizada pelo Pentágono. "O jogo mudou", disse o secretário de Defesa Esper.  
 
Como reverter a maré da guerra?
 
Minar com força o aparato de propaganda da mídia que procura justificar “guerras humanitárias” sob a bandeira da responsabilidade de proteger (R2P).
 
Acuse todos os criminosos de alto cargo, incluindo o POTUS, bem como todo o aparato do Congresso que presta homenagem às guerras lideradas pelos EUA.
 
Alveje os poderosos interesses econômicos  que sustentam a guerra americana sem fronteiras,  incluindo Wall Street, Big Oil e o Complexo Industrial Militar
 
Como restaurar a democracia? 
 
“Para reverter a maré da guerra, as bases militares devem ser fechadas, a máquina de guerra (ou seja, a produção de sistemas avançados de armas como armas de destruição em massa) deve ser parada e o crescente estado policial deve ser desmantelado. Em geral, devemos reverter as reformas do “mercado livre”, desmantelar as instituições do capitalismo global e desarmar os mercados financeiros.
 
A luta deve ser ampla e democrática, abrangendo todos os setores da sociedade em todos os níveis, em todos os países, unindo-se em um grande impulso: trabalhadores, agricultores, produtores independentes, pequenas empresas, profissionais, artistas, funcionários públicos, membros do clero, estudantes e intelectuais.
 
Os movimentos anti-guerra e anti-globalização devem ser integrados em um único movimento mundial. As pessoas devem estar unidas entre os setores, os grupos de “questão única” devem dar as mãos em um entendimento comum e coletivo sobre como a Nova Ordem Mundial destrói e empobrece. ”(M. Chossudovsky, dezembro de 2003)
 
Não é tarefa fácil. Derrubar o projeto hegemônico.
 
Mudança de regime na América? 
 
Michel Chossudovsky , 4 de janeiro de 2020

 
 
 
Estamos no momento da crise mais séria da história moderna
 
O governo Bush embarcou em uma aventura militar que ameaça o futuro da humanidade
 
As guerras no Afeganistão e no Iraque fazem parte de uma agenda militar mais ampla, lançada no final da Guerra Fria. A agenda de guerra em andamento é uma continuação da Guerra do Golfo de 1991 e das guerras da OTAN na Iugoslávia (1991-2001).
 
(Professor Michel Chossudovsky, juntamente com o Almirante (aposentado) Elmar Schmaehling, Universidade Humboldt, Berlim, dezembro de 2003)
 
O período pós-Guerra Fria também foi marcado por numerosas operações secretas dos EUA na antiga União Soviética, que foram fundamentais para desencadear guerras civis em várias das antigas repúblicas, incluindo a Chechênia (dentro da Federação Russa), a Geórgia e o Azerbaijão. Neste último, essas operações secretas foram lançadas com o objetivo de garantir o controle estratégico sobre os corredores de oleodutos e gasodutos.
 
As operações militares e de inteligência dos EUA no período pós Guerra Fria foram lideradas em estreita coordenação com as "reformas de livre mercado" impostas sob orientação do FMI na Europa Oriental, na antiga União Soviética e nos Bálcãs, o que resultou na desestabilização das economias nacionais e no empobrecimento de milhões de pessoas.
 
Os programas de privatização patrocinados pelo Banco Mundial nesses países permitiram que o capital ocidental adquirisse propriedade e ganhasse o controle de uma grande parte da economia dos antigos países do bloco oriental. Esse processo também está na base das fusões e / ou aquisições estratégicas da antiga indústria soviética de petróleo e gás por poderosos conglomerados ocidentais, por meio de manipulação financeira e práticas políticas corruptas.
 
Em outras palavras, o que está em jogo na guerra liderada pelos EUA é a recolonização de uma vasta região que se estende dos Balcãs à Ásia Central.
 
A implantação da máquina de guerra dos EUA pretende aumentar a esfera de influência econômica dos Estados Unidos. Os EUA estabeleceram uma presença militar permanente, não apenas no Iraque e no Afeganistão, mas também com bases militares em várias das antigas repúblicas soviéticas na fronteira ocidental da China. Por sua vez, desde 1999, houve um acúmulo militar no mar da China Meridional.
 
Guerra e globalização andam de mãos dadas. A militarização apóia a conquista de novas fronteiras econômicas e a imposição mundial do sistema de "mercado livre".
 
A próxima fase da guerra
 
O governo Bush já identificou a Síria como a próxima etapa do "roteiro da guerra". O bombardeio de presumidas 'bases terroristas' na Síria pela Força Aérea Israelense em outubro pretendia fornecer uma justificativa para intervenções militares preventivas subsequentes. Ariel Sharon lançou os ataques com a aprovação de Donald Rumsfeld. (Ver Gordon Thomas, Global Outlook, nº 6, inverno de 2004)
 
Essa extensão planejada da guerra na Síria tem sérias implicações. Isso significa que Israel se torna um importante ator militar na guerra liderada pelos EUA, bem como um membro 'oficial' da coalizão anglo-americana.
 
O Pentágono vê o 'controle territorial' sobre a Síria, que constitui uma ponte terrestre entre Israel e o Iraque ocupado, como 'estratégico' do ponto de vista militar e econômico. Também constitui um meio de controlar a fronteira iraquiana e restringir o fluxo de combatentes voluntários, que estão viajando para Bagdá para se juntar ao movimento de resistência iraquiano.
 
Esta ampliação do teatro de guerra é consistente com o plano de Ariel Sharon de construir um 'Grande Israel' “nas ruínas do nacionalismo palestino”. Enquanto Israel procura estender seu domínio territorial em direção ao rio Eufrates, com áreas designadas de assentamentos judaicos no coração da Síria, os palestinos são presos em Gaza e na Cisjordânia, atrás de um 'Muro do Apartheid'.
 
Enquanto isso, o Congresso dos EUA reforçou as sanções econômicas à Líbia e ao Irã. Além disso, Washington está sugerindo a necessidade de uma "mudança de regime" na Arábia Saudita. Pressões políticas estão se formando na Turquia.
 
Portanto, a guerra poderia realmente se espalhar para uma região muito mais ampla, que se estendia do Mediterrâneo Oriental ao subcontinente indiano e à fronteira ocidental da China.
 
O uso "preventivo" de armas nucleares
 
Washington adotou uma primeira política nuclear "preventiva", que agora recebeu aprovação do Congresso. As armas nucleares não são mais uma arma de último recurso, como durante a era da Guerra Fria.
 
Os EUA, a Grã-Bretanha e Israel têm uma política coordenada de armas nucleares. Ogivas nucleares israelenses são apontadas nas principais cidades do Oriente Médio. Os governos dos três países declararam abertamente, antes da guerra no Iraque, que estão preparados para usar armas nucleares "se forem atacados" com as chamadas "armas de destruição em massa". Israel é a quinta energia nuclear em o mundo. Seu arsenal nuclear é mais avançado que o da Grã-Bretanha.
 
Poucas semanas após a entrada dos fuzileiros navais dos EUA em Bagdá, o Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA deu luz verde ao Pentágono para desenvolver uma nova bomba nuclear tática, a ser usada em teatros de guerra convencionais, "com um rendimento [de até para] seis vezes mais poderoso que a bomba de Hiroshima ”.
 
Após a decisão do Senado, o Pentágono redefiniu os detalhes de sua agenda nuclear em uma reunião secreta com altos executivos da indústria nuclear e do complexo industrial militar realizado na sede do Comando Central na Base da Força Aérea de Offutt, em Nebraska. A reunião foi realizada em 6 de agosto, o dia em que a primeira bomba atômica foi lançada em Hiroshima, 58 anos atrás.
 
A nova política nuclear envolve explicitamente os grandes contratados de defesa na tomada de decisões. Isso equivale à "privatização" da guerra nuclear. As empresas não apenas obtêm lucros multibilionários com a produção de bombas nucleares, mas também têm voz direta na definição da agenda referente ao uso e uso de armas nucleares.
 
Enquanto isso, o Pentágono lançou uma grande campanha de propaganda e relações públicas com o objetivo de manter o uso de armas nucleares para a "defesa da pátria americana".
 
Totalmente endossado pelo Congresso dos EUA, as mini-armas nucleares são consideradas "seguras para os civis".
 
Esta nova geração de armas nucleares está programada para ser usada na próxima fase desta guerra, em "teatros de guerra convencionais" (por exemplo, no Oriente Médio e na Ásia Central), ao lado de armas convencionais.
 
Em dezembro de 2003, o Congresso dos EUA destinou US $ 6,3 bilhões apenas para 2004, para desenvolver essa nova geração de armas nucleares "defensivas".
 
O orçamento anual total de defesa é da ordem de US $ 400 bilhões, aproximadamente da mesma ordem de grandeza que todo o Produto Interno Bruto (PIB) da Federação Russa.
 
Embora não exista uma evidência firme do uso de minicombustíveis nos teatros de guerra do Iraque e do Afeganistão, testes realizados pelo Centro de Pesquisa Médica do Canadá (UMRC), no Afeganistão, confirmam que a radiação tóxica registrada não era atribuível ao urânio empobrecido do 'heavy metal' munição (DU), mas a outra forma não identificada de contaminação por urânio:
 
“Alguma forma de arma de urânio havia sido usada (...) Os resultados foram surpreendentes: os doadores apresentaram concentrações de isótopos tóxicos e radioativos entre 100 e 400 vezes maiores do que os veteranos da Guerra do Golfo testados em 1999.” www.umrc.net
 
O Planejamento da Guerra
 
A guerra contra o Iraque está em fase de planejamento, pelo menos desde meados dos anos 90.
 
Um documento de segurança nacional de 1995 do governo Clinton afirmou claramente que o objetivo da guerra é o petróleo. “Para proteger o acesso ininterrupto e seguro dos EUA ao petróleo.
 
Em setembro de 2000, alguns meses antes da adesão de George W. Bush à Casa Branca, o Projeto para um Novo Século Americano (PNAC) publicou seu projeto de dominação global sob o título: "Reconstruindo as defesas da América".
 
O PNAC é um think tank neoconservador ligado ao establishment de Inteligência de Defesa, ao Partido Republicano e ao poderoso Conselho de Relações Exteriores (CFR), que desempenha um papel nos bastidores na formulação da política externa dos EUA.
 
O objetivo declarado do PNAC é bastante simples:
 
"Lute e vença decisivamente em várias guerras simultâneas no teatro".
 
Esta declaração indica que os EUA planejam se envolver simultaneamente em vários teatros de guerra em diferentes regiões do mundo.
 
O vice-secretário de Defesa Paul Wolfowitz, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney encomendaram o plano da PNAC antes das eleições presidenciais.
 
O PNAC traça um roteiro de conquista. Apela à “imposição direta de“ bases avançadas ”dos EUA em toda a Ásia Central e no Oriente Médio“, com o objetivo de garantir o domínio econômico do mundo, enquanto estrangula qualquer “rival” potencial ou alternativa viável à visão americana de um 'livre' "economia de mercado" (Ver Chris Floyd, Cruzada do império de Bush, Global Outlook, No. 6, 2003)
 
O papel dos “eventos massivos de produção de baixas”
 
O plano da PNAC também descreve uma estrutura consistente de propaganda de guerra. Um ano antes do 11 de setembro, o PNAC pediu "algum evento catastrófico e catalisador, como um novo Pearl Harbor", que serviria para galvanizar a opinião pública dos EUA em apoio a uma agenda de guerra. (Veja isto )
 
Os arquitetos da PNAC parecem ter antecipado com precisão cínica o uso dos ataques de 11 de setembro como "um incidente de pretexto de guerra".
 
A referência da PNAC a um "evento catastrófico e catalisador" ecoa uma declaração semelhante de David Rockefeller ao Conselho Empresarial das Nações Unidas em 1994:
 
“Estamos à beira da transformação global. Tudo o que precisamos é da grande crise certa e as nações aceitarão a Nova Ordem Mundial. ”
 
Da mesma forma, nas palavras Zbigniew Brzezinski em seu livro The Grand Chessboard:
 
"... pode ser mais difícil estabelecer um consenso [na América] sobre questões de política externa, exceto nas circunstâncias de uma ameaça externa direta verdadeiramente massiva e amplamente percebida".
 
Zbigniew Brzezinski, que foi consultor de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, foi um dos principais arquitetos da rede Al Qaeda, criada pela CIA após o ataque da guerra soviética no Afeganistão (1979-1989).
 
O "evento catastrófico e catalisador", conforme declarado pelo PNAC, é parte integrante do planejamento da inteligência militar dos EUA. O general Franks, que liderou a campanha militar no Iraque, apontou recentemente (outubro de 2003) para o papel de um "evento massivo de produção de baixas" para reunir apoio à imposição do regime militar na América. (Ver o general Tommy Franks pede a revogação da Constituição dos EUA, novembro de 2003 ).
 
Franks identifica o cenário exato pelo qual o governo militar será estabelecido:
 
“Um evento terrorista, maciço e causador de baixas [ocorrerá] em algum lugar do mundo ocidental - pode ser nos Estados Unidos da América - que faz com que nossa população questione nossa própria Constituição e comece a militarizar nosso país para evitar uma repetição de outro evento massivo de produção de vítimas. ”(Ibid)
 
Esta declaração de um indivíduo, que estava ativamente envolvido no planejamento militar e de inteligência nos níveis mais altos, sugere que a “militarização do nosso país” é uma suposição operacional em andamento. Faz parte do "consenso de Washington" mais amplo. Ele identifica o "roteiro" da administração Bush de guerra e "Defesa da Pátria". Desnecessário dizer que também é parte integrante da agenda neoliberal.
 
O “evento terrorista de produção maciça de vítimas” é apresentado pelo general Franks como um ponto de virada política crucial. A crise resultante e a turbulência social visam facilitar uma grande mudança nas estruturas políticas, sociais e institucionais dos EUA.
 
A declaração do general Franks reflete um consenso entre os militares dos EUA sobre como os eventos devem se desenrolar. A "guerra ao terrorismo" é uma justificativa para a revogação do Estado de Direito, com o objetivo de "preservar as liberdades civis".
 
A entrevista de Franks sugere que um ataque terrorista patrocinado pela Al Qaeda será usado como um "mecanismo de gatilho" para um golpe de estado militar na América. O “evento do tipo Pearl Harbor” do PNAC seria usado como justificativa para declarar um estado de emergência, levando ao estabelecimento de um governo militar.
 
Em muitos aspectos, a militarização de instituições civis do Estado nos EUA já é funcional sob a fachada de uma falsa democracia.
 
Propaganda de Guerra
 
Após os ataques de setembro ao World Trade Center, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld criou para o Escritório de Influência Estratégica (OSI), ou "Escritório de Desinformação", como foi rotulado por seus críticos:
 
“O Departamento de Defesa disse que eles precisavam fazer isso e que estavam indo para plantar histórias falsas em países estrangeiros - como um esforço para influenciar a opinião pública em todo o mundo. (Entrevista com Steve Adubato, Fox News, 26 de dezembro de 2002.)
 
E, de repente, o OSI foi formalmente dissolvido após pressões políticas e histórias "incômodas" da mídia de que "seu objetivo era deliberadamente mentir para promover os interesses americanos". (Air Force Magazine, janeiro de 2003, itálico acrescentou) Rumsfeld recuou e disse que isso é embaraçoso. ”(Adubato, op. cit. itálicos acrescentados) No entanto, apesar dessa aparente mudança de direção, a campanha de desinformação orwelliana do Pentágono permanece funcionalmente intacta:“ [O] secretário de defesa não está sendo particularmente sincero aqui. A desinformação na propaganda militar faz parte da guerra. ”(Ibid)
 
Rumsfeld mais tarde confirmou em uma entrevista à imprensa que, embora o OSI não exista mais no nome, as "funções pretendidas do Escritório estão sendo executadas". (Citado no Secrecy News da Federação de Cientistas Americanos (FAS) , a entrevista à imprensa de Rumsfeld pode ser consultada aqui ).
 
Várias agências governamentais e unidades de inteligência - com ligações ao Pentágono - permanecem ativamente envolvidas em vários componentes da campanha de propaganda. As realidades estão de cabeça para baixo. Atos de guerra são anunciados como "intervenções humanitárias" voltadas para "mudança de regime" e "restauração da democracia". A ocupação militar e o assassinato de civis são apresentados como "manutenção da paz". A derrogação das liberdades civis - no contexto da chamada "legislação antiterrorista" - é retratada como um meio de proporcionar "segurança doméstica" e defender as liberdades civis.
 
O papel central da Al Qaeda na doutrina de segurança nacional de Bush
 
Explicada na Estratégia de Segurança Nacional (NSS), a doutrina preventiva da “guerra defensiva” e a “guerra ao terrorismo” contra a Al Qaeda constituem os dois elementos essenciais da campanha de propaganda do Pentágono.
 
O objetivo é apresentar a "ação militar preventiva" - significando a guerra como um ato de "autodefesa" contra duas categorias de inimigos, "Estados desonestos" e "terroristas islâmicos":
 
“A guerra contra terroristas de alcance global é uma empresa global de duração incerta. (…) Os EUA agirão contra essas ameaças emergentes antes de serem totalmente formadas.
 
... Estados desonestos e terroristas não procuram nos atacar usando meios convencionais. Eles sabem que esses ataques falhariam. Em vez disso, eles se baseiam em atos de terror e, potencialmente, no uso de armas de destruição em massa (…)
 
Os alvos desses ataques são nossas forças militares e nossa população civil, violando diretamente uma das principais normas da lei de guerra. Como foi demonstrado pelas perdas de 11 de setembro de 2001, as baixas civis em massa são o objetivo específico dos terroristas e essas perdas seriam exponencialmente mais graves se os terroristas adquirissem e usassem armas de destruição em massa.
 
Os Estados Unidos mantêm há muito a opção de ações preventivas para combater uma ameaça suficiente à nossa segurança nacional. Quanto maior a ameaça, maior o risco de inação - e mais convincente é o caso de tomar ações antecipadas para nos defendermos (...). Para prevenir ou impedir tais atos hostis de nossos adversários, os Estados Unidos, se necessário, agirão preventivamente. ”12 ( Estratégia de Segurança Nacional, Casa Branca, 2002 )
 
Para justificar ações militares preventivas, a Doutrina de Segurança Nacional exige a "fabricação" de uma ameaça terrorista, ou seja. "Um inimigo externo". Também precisa vincular essas ameaças terroristas ao "patrocínio estatal" pelos chamados "estados desonestos".
 
Mas isso também significa que os vários “eventos maciços de produção de vítimas”, supostamente da Al Qaeda (o inimigo fabricado), fazem parte da agenda de Segurança Nacional.
 
Nos meses que antecederam a invasão do Iraque, operações secretas de "truques sujos" foram lançadas para produzir informações enganosas referentes às armas de destruição em massa (armas de destruição em massa) e à Al Qaeda, que depois foram introduzidas na cadeia de notícias.
 
Na esteira da guerra, enquanto a ameaça de armas de destruição em massa foi atenuada, as ameaças da Al Qaeda à 'Pátria' continuam repetidas ad náuseas em declarações oficiais, comentadas na rede de TV e coladas diariamente nos tablóides de notícias.
 
E por trás dessas realidades manipuladas, as ocorrências terroristas de "Osama bin Laden" estão sendo confirmadas como justificativa para a próxima fase desta guerra. O último articula de maneira muito direta:
 
1) a eficácia da campanha de propaganda do Pentágono-CIA, que é inserida na cadeia de notícias.
 
2) A ocorrência real de “eventos de produção massiva de vítimas”, conforme descrito no PNAC
 
O que isso significa é que os eventos terroristas reais (“produção massiva de vítimas”) são parte integrante do planejamento militar.
 
Ataques terroristas reais
 
Em outras palavras, para ser "eficaz", a campanha de medo e desinformação não pode se basear apenas em "avisos" infundados de ataques futuros, mas também requer ocorrências ou "incidentes" terroristas "reais", que dão credibilidade aos planos de guerra de Washington. Esses eventos terroristas são usados ​​para justificar a implementação de "medidas de emergência", bem como "ações militares de retaliação". Eles são obrigados, no contexto atual, a criar a ilusão de "um inimigo externo" que está ameaçando a pátria americana.
 
O desencadeamento de "incidentes de pretexto de guerra" faz parte das suposições do Pentágono. De fato, é parte integrante da história militar dos EUA (ver Richard Sanders, Incidentes de pretexto de guerra, Como iniciar uma guerra, Perspectiva Global, publicada em duas partes, Edições 2 e 3, 2002-2003).
 
Em 1962, os Chefes do Estado-Maior Conjunto haviam planejado um plano secreto intitulado "Operação Northwoods", para deliberadamente provocar vítimas civis para justificar a invasão de Cuba:
 
“Poderíamos explodir um navio americano na Baía de Guantánamo e culpar Cuba”. “Poderíamos desenvolver uma campanha terrorista comunista cubana na área de Miami, em outras cidades da Flórida e até em Washington”. de indignação nacional. ”(Veja o documento Top Secret 1962, desclassificado, intitulado“ Justificativa para a intervenção militar dos EUA em Cuba ”16 (Veja a Operação Northwoods aqui ).
 
 
Não há evidências de que o Pentágono ou a CIA tenham desempenhado um papel direto nos recentes ataques terroristas, incluindo na Indonésia (2002), Índia (2001), Turquia (2003) e Arábia Saudita (2003).
 
Segundo os relatórios, os ataques foram realizados por organizações (ou células dessas organizações), que operam de forma bastante independente, com um certo grau de autonomia. Essa independência é da natureza de uma operação secreta de inteligência. O «ativo de inteligência» não está em contato direto com seus patrocinadores secretos. Não é necessariamente consciente do papel que desempenha em nome de seus patrocinadores de inteligência.
 
A questão fundamental é quem está por trás deles? Através de quais fontes eles estão sendo financiados? Qual é a rede subjacente de laços?
 
Por exemplo, no caso do ataque a bomba em Bali em 2002, a suposta organização terrorista Jemaah Islamiah tinha links para a inteligência militar da Indonésia (BIN), que por sua vez tem links para a CIA e a inteligência australiana.
 
Os ataques terroristas de dezembro de 2001 ao Parlamento indiano - que contribuíram para levar a Índia e o Paquistão à beira da guerra - foram supostamente conduzidos por dois grupos rebeldes do Paquistão, Lashkar-e-Taiba (“Exército dos Puros”) e Jaish- e-Muhammad ("Exército de Mohammed"), ambos de acordo com o Conselho de Relações Exteriores (CFR), com o apoio do ISI do Paquistão. ( Conselho de Relações Exteriores , Washington 2002).
 
O que o CFR deixa de reconhecer é a relação crucial entre o ISI e a CIA e o fato de o ISI continuar a apoiar Lashkar, Jaish e o militante Jammu e Kashmir Hizbul Mujahideen (JKHM), além de colaborar com a CIA. (Para mais detalhes, consulte Michel Chossudovsky, Fabricating an Enemy, março de 2003 )
 
Uma investigação classificada em 2002, elaborada para orientar o Pentágono, “pede a criação do chamado 'Grupo de Operações Proativas e Preemptivas' (P2OG), para lançar operações secretas destinadas a“ estimular reações ”entre terroristas e estados que possuem armas de massa. destruição - isto é, por exemplo, instigando as células terroristas a se exporem a ataques de 'resposta rápida' das forças americanas. ”(William Arkin, The Secret War, The Los Angeles Times, 27 de outubro de 2002)
 
A iniciativa P2OG não é novidade. Estende essencialmente um aparato existente de operações secretas. Amplamente documentada, a CIA apoia grupos terroristas desde a era da Guerra Fria. Esse “estímulo de células terroristas” sob operações secretas de inteligência geralmente requer a infiltração e o treinamento de grupos radicais ligados à Al Qaeda.
 
Nesse sentido, o apoio secreto do aparato militar e de inteligência dos EUA foi canalizado para várias organizações terroristas islâmicas por meio de uma complexa rede de intermediários e representantes de inteligência. No decurso dos anos 90, agências do governo dos EUA colaboraram com a Al Qaeda em várias operações secretas, como confirmado por um relatório de 1997 do Comitê do Partido Republicano do Congresso dos EUA. (Ver Congresso dos EUA, 16 de janeiro de 1997 ). De fato, durante a guerra na Bósnia, os inspetores de armas dos EUA estavam trabalhando com agentes da Al Qaeda, trazendo grandes quantidades de armas para o Exército Muçulmano da Bósnia.
 
Em outras palavras, o governo Clinton estava "abrigando terroristas". Além disso, declarações oficiais e relatórios de inteligência confirmam as ligações entre as unidades de inteligência militar dos EUA e os agentes da Al Qaeda, como ocorreu na Bósnia (meados dos anos 90), Kosovo (1998-99) e Macedônia (2001). (Veja Michel Chossudovsky, Guerra e Globalização, A verdade por trás de 11 de setembro, Visão Global, 2003, Capítulo 3 )
 
A administração Bush e a OTAN tinham ligações com a Al Qaeda na Macedônia. E isso aconteceu poucas semanas antes de 11 de setembro de 2001, os conselheiros militares dos EUA de uma equipe particular de mercenários contratados pelo Pentágono estavam lutando ao lado de Mujahideen nos ataques terroristas às forças de segurança da Macedônia. Isso está documentado pela imprensa macedônia e declarações feitas pelas autoridades macedônicas. (Veja Michel Chossudovsky, op cit). O governo dos EUA e a Rede Militante Islâmica estavam trabalhando juntos no apoio e financiamento do Exército de Libertação Nacional (NLA), que estava envolvido nos ataques terroristas na Macedônia.
 
Em outras palavras, os militares dos EUA estavam colaborando diretamente com a Al Qaeda poucas semanas antes do 11 de setembro.
 
Al Qaeda e Inteligência Militar do Paquistão (ISI)
 
É de fato revelador que em praticamente todas as ocorrências terroristas pós-11 de setembro, a organização terrorista é relatada (pela mídia e em declarações oficiais) como tendo “laços com a Al Qaeda de Osama bin Laden”. Isso por si só é uma informação crucial. Obviamente, o fato de a Al Qaeda ser uma criação da CIA não é mencionado nas reportagens da imprensa nem é considerado relevante para a compreensão dessas ocorrências terroristas.
 
Os laços dessas organizações terroristas (particularmente as da Ásia) com a inteligência militar do Paquistão (ISI) são reconhecidos em alguns casos por fontes oficiais e comunicados de imprensa. Confirmado pelo Conselho de Relações Exteriores (CFR), alguns desses grupos teriam links para o ISI do Paquistão, sem identificar a natureza desses links. Escusado será dizer que esta informação é crucial para identificar os patrocinadores desses ataques terroristas. Em outras palavras, diz-se que o ISI apóia essas organizações terroristas, mantendo ao mesmo tempo laços estreitos com a CIA.
 
11 de setembro
 
Enquanto Colin Powell - sem apoiar evidências - apontou em seu discurso da ONU em fevereiro de 2003 ao "nexo sinistro entre o Iraque e a rede terrorista da Al Qaeda", documentos oficiais, relatórios de imprensa e inteligência confirmam que sucessivas administrações dos EUA apoiaram e incentivaram a rede militante islâmica . Essa relação é um fato estabelecido, corroborado por numerosos estudos, reconhecidos pelos principais think tanks de Washington.
 
Colin Powell e seu vice Richard Armitage , que nos meses que antecederam a guerra acusaram Bagdá e outros governos estrangeiros de "abrigar" a Al Qaeda, tiveram um papel direto, em diferentes pontos de suas carreiras, no apoio a organizações terroristas.
 
Os dois homens estavam envolvidos - operando nos bastidores - no escândalo de Irangate Contra durante o governo Reagan, que envolveu a venda ilegal de armas ao Irã para financiar o exército paramilitar da Nicarágua Contra e os Mujahideen afegãos. (Para mais detalhes, consulte Michel Chossudovsky, Expor as ligações entre a Al Qaeda e a administração Bush )
 
Além disso, Richard Armitage e Colin Powell tiveram um papel importante no encobrimento do 11 de setembro. As investigações e pesquisas realizadas nos últimos dois anos, incluindo documentos oficiais, testemunhos e relatórios de inteligência, indicam que o 11 de setembro foi uma operação de inteligência cuidadosamente planejada, e não um ato conduzido por uma organização terrorista. (Para mais detalhes, consulte Center for Research on Globalization, 24 artigos principais, setembro de 2003)
 
O FBI confirmou em um relatório divulgado ao final de setembro de 2001 o papel da Inteligência Militar do Paquistão. Segundo o relatório, o suposto líder do anel do 11 de setembro, Mohammed Atta, foi financiado por fontes do Paquistão. Um relatório de inteligência subsequente confirmou que o então chefe do general ISI Mahmoud Ahmad havia transferido dinheiro para Mohammed Atta. (Veja Michel Chossudovsky, Guerra e Globalização, op.cit.)
 
Além disso, relatos da imprensa e declarações oficiais confirmam que o chefe do ISI foi uma visita oficial aos EUA de 4 a 13 de setembro de 2001. Em outras palavras, o chefe do ISI do Paquistão, que supostamente transferiu dinheiro para os terroristas também tinha um relacionamento pessoal próximo com vários altos funcionários do governo Bush, incluindo Colin Powell, o diretor da CIA George Tenet e o vice-secretário Richard Armitage, que ele conheceu durante sua visita a Washington. (Ibidem)
 
O movimento anti-guerra
 
Um movimento anti-guerra coeso não pode basear-se apenas na mobilização de sentimentos anti-guerra. Em última análise, deve derrubar os criminosos de guerra e questionar seu direito de governar.
 
Uma condição necessária para derrubar os governantes é enfraquecer e eventualmente desmantelar sua campanha de propaganda.
 
O momento dos grandes comícios antiguerra nos EUA, na União Européia e no mundo todo deve estabelecer as bases de uma rede permanente composta por dezenas de milhares de comitês antiguerra em bairros, locais de trabalho, paróquias, escolas , universidades etc. É finalmente através dessa rede que a legitimidade daqueles que “governam em nosso nome” será contestada.
 
Para desviar os planos de guerra da administração Bush e desativar sua máquina de propaganda, precisamos alcançar nossos concidadãos em todo o país, nos EUA, Europa e em todo o mundo, para os milhões de pessoas comuns que foram enganadas sobre as causas e consequências desta guerra.
 
Isso também implica descobrir completamente as mentiras por trás da "guerra ao terrorismo" e revelar a cumplicidade política do governo Bush nos eventos do 11 de setembro.
 
11 de setembro é uma farsa. É a maior mentira da história dos EUA.
 
Desnecessário dizer que o uso de "eventos massivos de produção de baixas" como pretexto para a guerra é um ato criminoso. Nas palavras de Andreas van Buelow, ex-ministro da Tecnologia da Alemanha e autor da CIA e 11 de setembro:
 
"Se o que eu digo está certo, todo o governo dos EUA deve acabar atrás das grades."
 
No entanto, não basta remover George W. Bush ou Tony Blair, que são meros fantoches. Também devemos abordar o papel dos bancos, corporações e instituições financeiras globais, que estão indelevelmente por trás dos atores militares e políticos.
 
Cada vez mais, o establishment da inteligência militar (em vez do Departamento de Estado, da Casa Branca e do Congresso dos EUA) está dando os tiros na política externa dos EUA. Enquanto isso, os gigantes do petróleo do Texas, os contratados de defesa, Wall Street e os poderosos gigantes da mídia, operando discretamente nos bastidores, estão se esforçando. Se os políticos se tornam uma fonte de grande constrangimento, eles próprios podem ser desacreditados pela mídia, descartados e uma nova equipe de fantoches políticos pode ser levada ao cargo.
 
Criminalização do Estado
 
A “criminalização do Estado” é quando criminosos de guerra ocupam legitimamente posições de autoridade, o que lhes permite decidir “quem são os criminosos”, quando na verdade eles são criminosos.
 
Nos EUA, republicanos e democratas compartilham a mesma agenda de guerra e há criminosos de guerra em ambas as partes. Ambas as partes são cúmplices no encobrimento do 11 de setembro e na busca resultante pela dominação mundial. Todas as evidências apontam para o que é melhor descrito como “a criminalização do Estado”, que inclui o Judiciário e os corredores bipartidários do Congresso dos EUA.
 
Sob a agenda da guerra, oficiais de alto escalão do governo Bush, membros das forças armadas, do Congresso dos EUA e do Judiciário receberam a autoridade não apenas para cometer atos criminosos, mas também para designar aqueles no movimento anti-guerra que se opõem a estes. atos criminosos como "inimigos do Estado".
 
De maneira mais geral, o aparato militar e de segurança dos EUA endossa e apóia interesses econômicos e financeiros dominantes - isto é, a formação, bem como o exercício de forças armadas, pode impor o "livre comércio". O Pentágono é um braço de Wall Street; A OTAN coordena suas operações militares com o Banco Mundial e as intervenções políticas do FMI e vice-versa. Consistentemente, os órgãos de segurança e defesa da aliança militar ocidental, juntamente com as várias burocracias civis e governamentais e intergovernamentais (por exemplo, FMI, Banco Mundial, OMC) compartilham um entendimento comum, consenso ideológico e compromisso com a Nova Ordem Mundial.
 
Para reverter a maré da guerra, as bases militares devem ser fechadas, a máquina de guerra (ou seja, a produção de sistemas avançados de armas como armas de destruição em massa) deve ser parada e o crescente estado policial deve ser desmantelado. Em geral, devemos reverter as reformas do “mercado livre”, desmantelar as instituições do capitalismo global e desarmar os mercados financeiros.
 
A luta deve ser ampla e democrática, abrangendo todos os setores da sociedade em todos os níveis, em todos os países, unindo-se em um grande impulso: trabalhadores, agricultores, produtores independentes, pequenas empresas, profissionais, artistas, funcionários públicos, membros do clero, estudantes e intelectuais.
 
Os movimentos anti-guerra e anti-globalização devem ser integrados em um único movimento mundial. As pessoas devem estar unidas entre os setores, os grupos de “questão única” devem dar as mãos em um entendimento comum e coletivo sobre como a Nova Ordem Mundial destrói e empobrece.
 
A globalização dessa luta é fundamental, exigindo um grau de solidariedade e internacionalismo sem precedentes na história mundial. Esse sistema econômico global se alimenta da divisão social entre e dentro dos países. A unidade de propósitos e a coordenação mundial entre diversos grupos e movimentos sociais é crucial. É necessário um grande impulso que reúna movimentos sociais em todas as principais regiões do mundo em uma busca e compromisso comuns com a eliminação da pobreza e uma paz mundial duradoura.
 
***
No dia dos direitos humanos, em 10 de dezembro de 2003, Michel Chossudovsky recebeu o Prêmio de Direitos Humanos da Sociedade para a Proteção dos Direitos Civis e da Dignidade Humana (GBM), de 2003. [ detalhes deutsch ] Fotos do evento GBM em Berlim, clique aqui
 
O texto em alemão deste artigo foi publicado por Junge Welt: Vortrag von Michel Chossudovsky Neuordnung der Welt Der Krieg der USA um mundo hegemônico (Teil 1)   Die Gesellschaft zum Schutz Von Bürgerrecht Und Menschenwürde (GBM), 10 de dezembro de 2003
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/guerra-dos-eua-pela-dominacao-global.html

O APODRECIMENTO DO IMPÉRIO EUA

 
 
Desde há décadas o imperialismo manda assassinar aqueles que em todo o mundo parecem ameaçar os seus interesses. Estadistas como Lumumba no Congo e Omar Torrijos no Panamá caíram vítimas das tramas dos serviços secretos estado-unidenses.
 
As tentativas de assassínio de Fidel Castro precisariam de uma base de dados para serem listadas, pois foram às centenas. Até agora, todos esses crimes eram cometidos de modo encoberto. Os métodos utilizados eram sempre camuflados e a CIA, na sua linguagem característica, procurava ter uma "negação plausível" para isentar-se de responsabilidades. 
 
Agora, com o assassínio do general Soleimani, tudo isto mudou. Assim, vemos o chefe de Estado da potência imperial assumir publicamente a responsabilidade de ter sido o mandante do crime. Isto é inédito – indica o grau de deterioração moral do governo dos EUA. Ele já se comporta descaradamente como gangster.
 
Resistir.info

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/o-apodrecimento-do-imperio-eua.html

Trump ameaça atacar Irã 'ainda mais forte do que eles foram atacados antes'

Presidente dos EUA Donald Trump descendo do Marine One no Aeroporto Executivo de Miami, na Flórida, 3 de janeiro de 2020
© REUTERS / Tom Brenner

Logo quando o corpo do recém-assassinado general Soleimani chegou ao Irã para despedida, o presidente Trump ameaçou Teerã com resposta dura caso o país persa atacar os EUA.

Na noite de domingo, o presidente dos EUA, Donald Trump, respondeu no seu Twitter ao senador Dan Crenshaw que comentou um artigo do Foreign Policy:

 

Para aqueles que dizem que "não há plano", que isso foi "imprudente":
Passo #1 de qualquer estratégia é deixar de permitir que regimes terroristas nos ataquem sem repercussão
Por que essa verdade básica da política externa é tão controversa?

Trump escreveu que o Irã vai enfrentar uma resposta dura se der algum passo ameaçador em direção aos EUA.

 

Se eles [iranianos] nos atacarem, nós batemos em resposta. Se eles atacarem de novo, o que eu lhes aconselharia vivamente que não façam, nós vamos atacá-los mais duramente do que eles já foram atacados antes!

Ele também ameaçou enviar mais equipamento bélico para a região:

 

Os Estados Unidos acabam de gastar dois trilhões de dólares em equipamento militar. Nós somos os maiores e de longe os MELHORES no mundo! Se o Irã atacar uma base americana, ou qualquer americano, nós vamos enviar algum desse maravilhoso equipamento completamente novo na sua direção... e sem hesitação!

 

As novas ameaças de Trump surgem umas horas após ele ter prometido atacar 52 locais no Irã, que "representam 52 reféns feitos pelo Irã há muitos anos", caso Teerã atacar algum americano ou ativos americanos.

As tensões entre dois países continuam se agravando desde o fim de dezembro, quando a Embaixada dos EUA no Iraque foi bloqueada por manifestantes. Trump acusou o Irã por este ataque e uns dias depois, em 3 de janeiro, os EUA realizaram um ataque aéreo contra o aeroporto internacional nos subúrbios de Bagdá em que mataram um major-general iraniano, o comandante da força Quds, Qassem Soliemani.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020010514970989-trump-ameaca-atacar-ira-ainda-mais-forte-do-que-eles-foram-atacados-antes/

Trump ameaça bombardear 52 alvos no Irã

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (foto de arquivo)
© REUTERS / Leah Millis

Donald Trump escreveu no seu Twitter que o ataque aéreo do seu país contra aeroporto de Bagdá foi retaliação às atividades do Irã na região e ameaçou realizar ataques aéreos contra cidades do Irã.

O comandante militar iraniano Qasem Soleimani foi morto nesta sexta-feira em Bagdá por um ataque aéreo dos EUA autorizado pelo presidente Donald Trump. O Irã prometeu vingar-se severamente do assassinato, enquanto o governo Trump alegou estar buscando acalmar as tensões na região.

Por outro lado, Donald Trump publicou uma em uma série de tweets neste sábado às ameaças da liderança iraniana. O presidente dos EUA ameaçou Teerã, alertando sobre um possível ataque contra "52 locais iranianos".

"O Irã está falando muito ousadamente sobre ter como alvo certos ativos dos EUA como vingança por livrarmos o mundo de seu líder terrorista que acabara de matar um americano e ferir gravemente muitos outros, sem mencionar todas as pessoas que ele matou ao longo de sua vida, incluindo recentemente centenas de manifestantes iranianos. Ele já estava atacando nossa embaixada e se preparando para ataques adicionais em outros locais.", escreveu o norte-americano.

"O Irã tem sido um problema há muitos anos. Que isso sirva como um aviso de que, se o Irã atingir americanos ou ativos americanos, temos 52 locais iranianos na mira (representando os 52 reféns americanos tomados pelo Irã há muitos anos), alguns em um nível muito alto e importante para o Irã e a cultura iraniana, e esses alvos, e o próprio Irã, serão atingidos rápidamente e com muita força. Os EUA não querem mais ameaças!", concluiu Donald Trump.

Trump se referiu aos eventos dramáticos que chocaram a comunidade global em 1979. Na época, 52 funcionários diplomáticos americanos foram mantidos como reféns no Irã por 444 dias. Em função desses eventos, Estados Unidos e o Irã romperam laços diplomáticos. Desde então, os Estados Unidos iniciaram a adoção de sanções contra o Irã.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020010414970642-trump-ameaca-bombardear-52-cidades-no-ira/

O totalitarismo da «comunidade internacional»

 
 
A única «comunidade internacional» actuante é a espelhada nos conteúdos dos media corporativos globais, base de uma «ordem internacional» cada vez mais arbitrária e movida por interesses totalitários.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
“Comunidade internacional» e «ordem internacional» são expressões que nos surgem a cada passo quando se trata de abordar os acontecimentos e as situações que se sucedem através do mundo. O uso recorrente tem contribuído para transformá-las numa espécie de muletas de linguagem em que vão perdendo conteúdo, esbatendo-se assim a realidade dos seus conteúdos e significados actuais. Desse desvanecimento surgem múltiplas interpretações e a confusão generalizada – que nada tem de inocente. Prevalecendo então o sistema sem mandato que dá corpo à ordem global neoliberal.
 
Acompanhando os relatos dos acontecimentos mundiais produzidos pela comunicação social dominante, de obediência corporativa, conclui-se que a comunidade internacional é uma espécie de entidade mais ou menos abstracta que dá cobertura à ordem arbitrária formatada pelos poderes económicos, financeiros, militares e políticos determinantes no mundo. Uma comunidade que decide guerras, sanções, penalidades e medidas de coacção contra povos e nações sem que esteja claro como funcionam os mecanismos que estabelecem essas práticas. A «comunidade internacional» de hoje é, deste modo, uma instância de poder cuja transparência não se discute porque supostamente lhe é inerente, existe mesmo não existindo.
 
Procurando dissecar o conceito, retirando-o das amarras dos poderes totalitários e passando do abstracto ao concreto, o caminho mais natural é ir ao encontro de uma ideia de comunidade internacional que junta as principais instâncias internacionais, designadamente a ONU, a sua rede de instituições e as organizações de cariz continental que não sejam – não deveriam ser – alianças políticas, económicas e militares: União Africana, Organização dos Estados Americanos, o próprio Conselho da Europa e outras do mesmo género.
 
Mais em concreto ainda: do universo das Nações Unidas e do agregado de tratados, convenções e convénios internacionais emana a legalidade internacional à qual todas as nações, uniões e alianças de nações teriam de submeter-se e que deveria ser responsável por todos os mecanismos reguladores das relações internacionais.
 
O mundo de hoje, porém, está muito longe deste cenário – aquele que estaria mais próximo de garantir que todas as nações ficassem mais equilibradas em termos de direitos e deveres.
 
Pelo contrário, a única «comunidade internacional» actuante é a espelhada nos conteúdos dos media corporativos globais, base de uma «ordem internacional» cada vez mais arbitrária e movida por interesses totalitários.
 
O «Consenso de Washington»
 
Neste ano de 2019 cumpriram-se 30 anos sobre a data em que o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos ditaram a autêntica «nova ordem internacional» ao especificarem o chamado «Consenso de Washington».
 
Embora tal não seja assumido do ponto de vista institucional, as dez medidas básicas desse documento são os princípios em que assenta o real funcionamento da «comunidade internacional». São os dez mandamentos neoliberais que todos os países devem cumprir para fazerem parte da «comunidade internacional» e estarem alinhados com a «ordem internacional». Caso contrário, são tratados como párias e sujeitam-se à arbitrariedade que faz as vezes de lei.
 
O «Consenso de Washington» nada tem de consensual: é um diktat que instaura o modelo económico neoliberal, sistema que deve ser posto em prática pelas políticas e os autoritarismos militares que realmente fazem mover a sociedade globalizante.
 
O mundo chegou ao diktat de Washington ao cabo de uma década em que os regimes de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e de Margaret Thatcher, no Reino Unido, deram verniz «democrático» à primeira experiência económico-política aplicada pela ortodoxia neoliberal, a ditadura fascista de Augusto Pinochet no Chile, regida economicamente pelos discípulos de Milton Friedman da Universidade de Chicago.
 
O «Consenso de Washington» marcou a vitória do sistema capitalista na sua versão mais selvagem – o neoliberalismo – sobre os escombros da União Soviética, do Muro de Berlim, do Tratado de Varsóvia.
 
E estabeleceu uma «nova ordem internacional» através de uma série de acontecimentos que aniquilaram o que restava da autoridade do grupo das Nações Unidas sobre os assuntos internacionais determinantes, deixando-os nas mãos de uma «comunidade internacional» indefinida mas totalitária. E foi assim que o primado da legalidade internacional saiu de cena.
 
Não é necessário ser exaustivo na enumeração de factos e acontecimentos das três últimas décadas para se perceber como o «Consenso de Washington» modelou o mundo de hoje: o Tratado de Maastricht, a neoliberalização da União Europeia através do euro e do apressado alargamento aos países anteriormente aliados com a União Soviética; o constante reforço da NATO em todas as frentes, não só engolindo o Tratado de Varsóvia como alargando a sua área de intervenção a praticamente todo o planeta; o takeover da RDA pela RFA; a balcanização dos Balcãs através da destruição criminosa da Jugoslávia; as duas guerras contra o Iraque; o aproveitamento multifacetado dos atentados de 11 de Setembro, cujas versões oficiais não coincidem com explicações factuais que têm vindo a ser demonstradas; a falsa guerra «contra o terrorismo»; as guerras do Afeganistão, da Líbia e da Síria, as «revoluções coloridas» de inspiração norte-americana e as «primaveras árabes»; a extinção gradual, mas sistemática, de direitos humanos, democráticos, políticos, sociais e laborais conquistados ao longo do século XX, em especial a seguir à Segunda Guerra Mundial; as sanções, golpes de Estado e operações de mudança de regime patrocinadas pelos Estados Unidos e aliados contra os países cujos governos se recusam obedecer ao «Consenso de Washington».
 
O descalabro da ONU
 
A Organização das Nações Unidas (ONU) deveria ser a matriz de uma autêntica comunidade internacional, gerindo-a segundo a legalidade internacional que assenta, sobretudo, na sua Carta.
 
No entanto, tem vindo a demitir-se aceleradamente desse papel, submetida como está às sequelas do «Consenso de Washington», à gestão antidemocrática do Conselho de Segurança, à minimização do papel da Assembleia Geral e à subvalorização da actividade das agências da organização, sobretudo em termos de direitos humanos, igualdade e justiça.
 
Ao compasso deste processo, a actuação do secretário-geral tem vindo a ser reduzida à de mero executor das ordens dos poderes inquestionáveis, não lhe restando qualquer espaço para intervir – se, por absurdo, quisesse – de acordo com posições que contrariem o diktat neoliberal. Em vez de governarem, as Nações Unidas são governadas pelo mesmo sistema opaco que funciona como «comunidade internacional».
 
Mais graves ainda são os estados em que se encontram as organizações regionais, como por exemplo a União Africana e a Organização dos Estados Americanos, autênticas correias de transmissão de poderes coloniais que ganharam poderes reforçados com a instauração do totalitarismo neoliberal.
 
Os verdadeiros poderes
 
Não é difícil identificar quem está por detrás da actividade da «comunidade internacional» actuante: o establishment norte-americano, os seus braços políticos e militares, entre os quais avultam a União Europeia e a NATO, instituições não-eleitas como o FMI e o Banco Mundial.
 
Esta é, porém, a face visível do sistema totalitário. Num mundo onde os golpes financeiros e os grandes negócios que fazem mover a economia decorrem em ambientes opacos, sobrepondo-se à política – quantas vezes manu militari – desobrigando-se, por norma, das orientações estabelecidas por mecanismos democráticos, a «comunidade internacional» é uma entidade que ninguém elegeu para aplicar uma «ordem internacional» que ninguém votou. A definição perfeita de totalitarismo.
 
 
Imagem: A Assembleia Geral das Nações UnidasCréditos/ HispanTV

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/o-totalitarismo-da-comunidade.html

Nunca vi o mundo tão fragmentado!

por Andre Vltchek [*]

É impressionante a facilidade com que o império ocidental está a conseguir destruir os países "rebeldes" que estão no seu caminho, sem que haja resistência.

Trabalho em todos os cantos do planeta, onde "conflitos" kafkianos forem desencadeados por Washington, Londres ou Paris.

O que vejo e descrevo, não são apenas aqueles horrores que estão a acontecer à minha volta; horrores que estão a arruinar vidas humanas, a destruir aldeias, cidades e países inteiros. O que tento perceber é que, nas telas da televisão e nas páginas dos jornais e da Internet, os crimes monstruosos contra a Humanidade são descritos até certo ponto, mas as informações são distorcidas e manipuladas de tal forma que os leitores e os espectadores de todas as partes do mundo, acabam por não saber quase nada sobre o seu próprio sofrimento e/ou o sofrimento dos outros.

Por exemplo, em 2015 e em 2019, tentei reunir-me e argumentar com manifestantes de Hong Kong. Foi uma experiência verdadeiramente reveladora! Eles não sabiam nada, absolutamente nada sobre os crimes que o Ocidente cometeu em lugares como o Afeganistão, Síria ou Líbia. Quando tentei explicar-lhes quantas democracias latino-americanas Washington havia derrubado, pensaram que eu era um lunático. Como é que o Ocidente, bom, terno e "democrático", tinha matado milhões de pessoas e mergulhado continentes inteiros em sangue? Não foi o que nos ensinaram nas universidades. Não foi o que a BBC, a CNN ou mesmo o que o China Morning Post disseram e escreveram.

Olhem, estou a falar a sério. Mostrei-lhes fotografias do Afeganistão e da Síria; fotos armazenadas no meu telefone. Eles deviam ter de compreender que era algo genuíno, em primeira mão. Ainda assim, eles observavam, mas os seus cérebros não eram capazes de processar o que lhes estava a ser mostrado. Imagens e palavras; essas pessoas estavam condicionadas a não compreender certos tipos de informações.

Mas isto não está a acontecer só em Hong Kong, uma antiga colónia britânica.

Talvez considerem difícil de acreditar, mas mesmo num país comunista como o Vietname; um país orgulhoso, um país que sofreu enormemente com o colonialismo francês e o imperialismo louco e brutal dos EUA, as pessoas com quem me relacionei (e morei em Hanói durante dois anos) não sabiam quase nada sobre os crimes horríveis cometidos pelos EUA e pelos seus aliados durante a chamada "Guerra Secreta" contra os pobres e indefesos habitantes do país vizinho, o Laos; crimes que incluíam o bombardeio de camponeses e búfalos de água, dia e noite, por bombardeiros estratégicos B-52. E no Laos, onde fiz uma reportagem sobre os trabalhos de desminagem, as pessoas não sabiam nada sobre as mesmas monstruosidades que o Ocidente tinha cometido no Camboja; onde haviam assassinado centenas de milhares de pessoas através de atentados à bomba e desalojado milhões de camponeses das suas casas, provocando a fome e abrindo as portas para o domínio do Khmer Vermelho.

Quando falo dessa falta de conhecimento chocante no Vietname, sobre a região e sobre o que esse povo foi forçado a suportar, não falo apenas de vendedores ou de fabricantes de vestuário. Aplica-se a intelectuais, artistas, professores vietnamitas. É uma amnésia total e surgiu com a chamada 'abertura' para o mundo, o que significa com o consumo da comunicação mediática ocidental e, mais tarde, com a infiltração das redes sociais.

Pelo menos, o Vietname partilha fronteiras com o Laos e o Camboja, além de uma história turbulenta.

Mas imaginem dois grandes países só com fronteiras marítimas, como as Filipinas e a Indonésia. Alguns moradores de Manilha que conheci, pensavam que a Indonésia se situava na Europa.

Agora, adivinhem, quantos indonésios têm conhecimento dos massacres que os Estados Unidos efectuaram nas Filipinas há um século, ou como as pessoas nas Filipinas foram doutrinadas pela propaganda ocidental sobre todo o Sudeste Asiático? Ou quantos filipinos têm conhecimento do golpe militar de 1965, desencadeado pelos EUA, que depôs o Presidente Sukarno, matando entre 2 a 3 milhões de intelectuais, professores, comunistas e sindicalistas na "vizinha" Indonésia?

Consultem as secções estrangeiras dos jornais indonésios ou filipinos e o que verão? As mesmas notícias da Reuters, AP, AFP. De facto, também verão os mesmos relatórios nas agências de notícias do Quénia, da Índia, do Uganda, do Bangladesh, dos Emirados Árabes Unidos, do Brasil, da Guatemala e a lista continua. Este esquema foi planeado para produzir um único resultado: a fragmentação completa!

 


A fragmentação do mundo é incrível e está a aumentar com o passar do tempo. Aqueles que esperavam que a Internet melhorasse a situação, pensaram erradamente.

Com a falta de conhecimento, a solidariedade também desapareceu.

Neste momento, em todo o mundo, decorrem tumultos e revoluções. Estou a noticiar as mais significativas; no Médio Oriente, na América Latina e em Hong Kong.

Deixem-me ser franco: não há absolutamente nenhuma percepção no Líbano sobre o que está a acontecer em Hong Kong, ou na Bolívia, no Chile ou na Colômbia.

A propaganda ocidental joga tudo no mesmo saco.

Em Hong Kong, os manifestantes doutrinados pelo Ocidente são apresentados como "manifestantes pró-democracia". Eles matam, queimam, espancam pessoas, mas ainda são os favoritos do Ocidente. Porque estão a antagonizar a República Popular da China, considerada agora, o maior inimigo de Washington. E porque esses manifestantes foram criados e apoiados pelo Ocidente.

Na Bolívia, o Presidente anti-imperialista foi derrubado por um golpe orquestrado por Washington, mas a maioria da população indígena, que exige o seu regresso, é citada como um bando de arruaceiros.

No Líbano, assim como no Iraque, os amotinados são tratados gentilmente pela Europa e pelos Estados Unidos, principalmente porque o Ocidente espera que o Hezbollah pró-iraniano e outros grupos e partidos xiitas, possam vir a ser enfraquecidos pelos protestos.

A revolução, visivelmente anti-capitalista e anti-neoliberal no Chile, bem como os protestos legítimos na Colômbia, são relatados como uma espécie de combinação de explosão de queixas genuínas e hooliganismo e saques. Mike Pompeo alertou, recentemente, que os Estados Unidos apoiarão os governos de direita da América do Sul, na tentativa de manter a ordem.

Todas essas reportagens são um absurdo. De facto, têm um único objectivo: confundir os espectadores e os leitores. A fim de assegurar que eles não saibam nada ou que percebam muito pouco. E que, no final do dia, aterrem nos sofás com suspiros profundos, exclamando: "Oh, o mundo está um caos!"

 


Também conduz à tremenda fragmentação dos países em cada continente e em todo o hemisfério sul do globo.

Os países asiáticos conhecem muito pouco uns dos outros. O mesmo acontece com a África e com o Médio Oriente. Na América Latina, são a Rússia, a China e o Irão que estão, literalmente, a salvar a vida da Venezuela. Os outros países latino-americanos, com a excepção brilhante de Cuba, não fazem nada para ajudar. Todas as revoluções latino-americanas estão fragmentadas. Todos os golpes produzidos pelos EUA, basicamente, não têm oposição.

A mesma situação está a acontecer em todo o Médio Oriente e na Ásia. Não há brigadas internacionalistas que defendam os países destruídos pelo Ocidente. O grande predador vem e ataca a sua presa. É uma visão horrível, como um país morre perante o mundo, em terrível agonia. Ninguém interfere. As pessoas apenas vêem.

Um após o outro, os países estão a render-se.

Não é assim que, no século XXI, os Estados devem comportar-se. Esta é a lei da atracção da selva. Quando eu morava em África, fazia documentários no Quénia, no Ruanda e no Congo, conduzindo através do deserto; era assim que os animais se comportavam, não as pessoas. Os grandes felinos a encontrarem a sua vítima. Uma zebra ou uma gazela. E a caça começava: uma ocorrência terrível. Depois, a morte lenta – comendo a vítima viva.

Muito semelhante à designada Doutrina Monroe

O Império tem de matar. Periodicamente. Com regularidade previsível.

E ninguém faz nada. O mundo está a assistir. Fingindo que nada de extraordinário está a acontecer.

Perguntem a si mesmos: A revolução legítima pode ser bem sucedida em tais condições? Qualquer governo socialista eleito democraticamente poderá sobreviver? Ou tudo que é decente, esperançoso e optimista acaba sempre vítima de um império degenerado, brutal e vulgar?

Se for esse caso, qual é o sentido de seguir regras? Obviamente, as regras estão podres. Existem só para manter o status quo. Protegem os colonizadores e castigam as vítimas das rebeliões.

Mas não é este assunto que eu queria discutir aqui, hoje.

O que quero dizer é que as vítimas estão divididas. Sabem muito pouco umas das outras. As lutas pela verdadeira liberdade estão fragmentadas. Aqueles que lutam e sangram, mas que mesmo assim lutam, muitas vezes são hostilizados pelos seus companheiros que são mártires menos ousados.

Eu nunca vi o mundo tão dividido. Afinal, o Império está a vencer?

Sim e não.

A Rússia, a China, o Irão, a Venezuela – já acordaram. Ergueram-se. Estão a adquirir conhecimento sobre os outros, uns com os outros.

Sem solidariedade, não pode haver vitória.

Sem conhecimento, não pode haver solidariedade.

Nitidamente, a coragem intelectual vem agora da Ásia, do "Oriente". Para mudar o mundo, a comunicação mediática de destaque ocidental precisa de ser marginalizada, confrontada. Todos os conceitos ocidentais, incluindo a "democracia", a "paz" e os "direitos humanos" devem ser questionados e redefinidos.

E naturalmente, o conhecimento.

Precisamos de um mundo novo, não de um mundo melhorado.

O mundo não precisa de Londres, Nova York e Paris para ensiná-lo sobre si mesmo.

A fragmentação tem de terminar. As nações precisam de aprender, directamente, umas sobre as outras. Se o fizerem, dentro em breve, as verdadeiras revoluções serão bem sucedidas, enquanto os tumultos e as falsas revoluções coloridas, como as de Hong Kong, da Bolívia e de todo o Médio Oriente, serão confrontadas regionalmente e impedidas de arruinar milhões de vidas humanas.

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo. É o criador de Vltchek's World in Word and Images . Escreve especialmente para a revista online New Eastern Outlook .

O original encontra-se em journal-neo.org/2019/12/10/i-never-saw-a-world-so-fragmented/ e a verso em portugus em nowarnonato.blogspot.com/2019/12/pt-andre-vltchek-nunca-vi-o-mundo-tao.html . Tradução de Maria Luísa de Vasconcellos, luisavasconcellos2012@gmail.com

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/vltchek_fragmentacao_13dez19.html

Senado dos EUA aprova sanções contra Nord Stream 2

Gasoduto russo
© Sputnik / Sergei Guneev

Nesta terça-feira (17), o Senado dos Estados Unidos aprovou um projeto de lei com diversas medidas econômicas, políticas e militares, incluindo a aplicação de sanções a países e ao Nord Stream 2, além de estipular o orçamento para a Defesa do país.

Ao lado de outras medidas, as sanções foram direcionadas ao gasoduto Nord Stream 2 e também contra a Turquia e a Síria. Além disso, foi aprovado um orçamento para a Defesa de US$ 738 bilhões.

A votação, que teve 86 votos a favor das medidas e 8 contra, aprovou o chamado Ato de Autorização Nacional de Defesa (NDAA, na sigla em inglês), que agora deve passar por sanção presidencial.

A lei que aplica sanções contra o Turkstream e o Nord Stream 2 também barra a cooperação militar entre Rússia e EUA. As sanções aplicadas contra Turquia são motivadas pela aquisição, por Ancara, dos sistemas russos S-400 este ano e proíbem a transferência de jatos F-35 ao país. Já em relação às sanções sobre a Síria, o Senado dos EUA justificou as medidas como punição a supostos crimes de guerra cometidos durante a guerra civil no país.

Navio Solitaire inicia os trabalhos de instalação do gasoduto Nord Stream 2 no golfo da Finlândia, em 5 de setembro de 2018
Navio Solitaire inicia os trabalhos de instalação do gasoduto Nord Stream 2 no golfo da Finlândia, em 5 de setembro de 2018

O presidente dos EUA, Donald Trump, já havia sinalizado seu apoio à medida pedindo agilidade para aprovar o orçamento militar. A Câmara dos Deputados dos EUA aprovou o projeto na semana passada por 377 votos contra 48.

O projeto de lei de gastos com Defesa também renova o envio de US$ 300 milhões em assistência de segurança dos EUA à Ucrânia, que inclui US$ 100 milhões em armas. Além disso, a medida expande os tipos de ajuda que a Ucrânia pode receber para incluir mísseis de cruzeiro de defesa costeira e mísseis antinavio.

Além do orçamento, a medida cria um sexto ramo das Forças Armadas dos EUA, uma Força Espacial, e inclui US$ 71,5 bilhões para guerras estrangeiras em andamento ou "operações de contingência no exterior". Além disso, inclui o fornecimento de relatórios sobre ameaças colocadas pela China e as relações militares com a Rússia e proclama que o Congresso dos EUA apoia Hong Kong.

Rússia diz que Nord Stream 2 continuará

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou na semana passada durante uma entrevista coletiva após reunião com Trump que as sanções dos EUA não impediriam a construção do oleoduto Nord Stream 2.

A Alemanha já está considerando medidas de retaliação que podem ser tomadas em resposta às sanções contra o Nord Stream 2, segundo informou o jornal Bild nesta terça-feira, citando um documento interno do Ministério de Assuntos Econômicos e Energia alemão.

O projeto Nord Stream 2 é uma joint venture entre a Gazprom da Rússia e cinco empresas europeias - a ENGIE da França, a OMV da Áustria, a Royal Dutch Shell do Reino Unido, a Uniper da Holanda e Wintershall da Alemanha.

O gasoduto de mais de mil quilômetros de comprimento transportará quase 2 trilhões de pés cúbicos de gás por ano da Rússia para a Alemanha, passando por territórios de Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Rússia e Suécia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2019121714904429-senado-dos-eua-aprova-sancoes-contra-nord-stream-2/

Sem máscara

Os EUA e outras potências imperialistas apadrinham descaradamente o fascismo, a violência e o golpismo. Para os EUA não existe qualquer direito internacional nem qualquer tratado assinado que tenha de cumprir, da Palestina ao controlo de armas, do comércio ao clima e ao Irão. A regra que cumpre é a do gangsterismo. A UE, com o governo do PS em Portugal seguindo fielmente o guião, presta vassalagem a esta criminosa conduta.

As hipócritas máscaras ‘democráticas’ do imperialismo dão lugar ao apadrinhamento descarado do fascismo, da violência e do golpismo. Os EUA rasgam impunemente os tratados que assinaram: da Palestina ao controlo de armas, do comércio ao clima e ao Irão. Os seus golpes de Estado e subversões envolvem cada vez mais o roubo descarado dos bens das vítimas (como à Venezuela). Desmascarando anos de propaganda sobre ‘direitos humanos’ e ‘ditadores’, Trump anuncia que vai manter tropas na Síria para ocupar os poços petrolíferos «porque vamos ficar com o petróleo. Eu gosto de petróleo. Vamos ficar com o petróleo» (SputnikNews, 2.11.19). São os ‘valores ocidentais’ em todo o seu esplendor.

No seu estilo, Trump dispara em todas as direcções, incluindo contra potências da UE, por fazerem acordos comerciais que não beneficiam os EUA e por não darem mais dinheiro para as guerras de que também beneficiam. A UE geme, mas alinha. Os seus governos (incluindo o do PS em Portugal) colaboram nas operações golpistas contra Venezuela e Bolívia. Macron, em entrevista à revista Economist (1.11.19) lamenta a «morte cerebral» da NATO. Mas é uma queixa de capataz: os EUA retiraram alguns soldados da Síria sem aviso prévio à França, que também tinha ilegalmente tropas na sua antiga colónia e ficou descalça. Qual a alternativa de Macron? Enquanto não está ocupado a arrancar olhos a manifestantes, «o dirigente francês apela à Europa para começar a pensar em si própria como uma ‘potência geo-política’» (BBC, 7.11.19), reforçando a sua força militar. Antecipando a Cimeira da NATO em Londres, o ‘trabalhista’ norueguês Stoltenberg, Secretário-Geral da NATO, está orgulhoso por militarizar o Espaço, seguindo as decisões anunciadas pelos EUA em Fevereiro.

O governo PS não denuncia o golpe de Estado na Bolívia, mas proclama a sua ‘fidelidade atlântica’. No jornal Sol (19.11.19) o Ministro da Defesa Cravinho orgulha-se da «trajectória de sucesso [da NATO], benéfica para Portugal na qualidade de fundador e aliado ativo». Trajectória que começou na ditadura fascista de Salazar, que a NATO ajudou beneficamente a sustentar, juntamente com a sua guerra colonial. Seguindo as exortações de Trump, Cravinho anuncia que «Portugal, como os outros Aliados, irá aumentar a despesa militar [com …] um aumento muito significativo de investimento em equipamento ao longo dos próximos anos». Quem disse que não há dinheiro? A saúde e a educação podem esperar. Porque «depois de uma crise económica e financeira muito aguda, era preciso reforçar o investimento na segurança e defesa na Europa». Mesmo se «a União Europeia, no seu conjunto, tem já a segunda maior despesa em defesa do mundo», logo após os EUA.

Há dias, na 3.ª Comissão da ONU, 121 países aprovaram a moção «Combatendo a glorificação do Nazismo, do neo-nazismo e outras práticas que contribuem para alimentar as formas actuais de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada». Os ‘democráticos’ EUA e Ucrânia foram os únicos dois países a votar contra. Os países da UE (incluindo Portugal) abstiveram-se. Em países bálticos da UE e na Ucrânia há desfiles anuais e estátuas de comemoração de colaboracionistas que combateram nas fileiras das Waffen-SS. Há apenas dois meses o Parlamento Europeu aprovou uma infame resolução condenando ‘o nazismo e o comunismo’. Está visto que só acreditam na segunda parte da condenação.

 

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Por que os EUA poderiam estar por trás do golpe de Estado na Bolívia?

O presidente dos EUA, Donald Trump, em evento do Partido Republicano.
© AP Photo / Jose Luis Magana

Ex-presidente da Bolívia acusou os EUA de terem orquestrado o golpe de Estado contra ele. Não é a primeira vez que os líderes latino-americanos denunciam a ingerência estadunidense em seus países.

Quais são os eventuais interesses que os EUA podem ter para promover a mudança de regime na Bolívia?
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as acusações de que os Estados Unidos estiveram na origem da desestabilizações e mudanças de governo na América Latina e no Caribe se tornaram constantes.

Provocação de conflitos internos, invasões militares e vários golpes de Estado figuram na lista de denúncias contra a nação norte-americana na região.

Qual é o interesse dos EUA na Bolívia?

Os Estados Unidos têm diversos interesses na Bolívia. De acordo com o Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (Celag), organização internacional que estuda fenômenos conjunturais na região, os interesses de Washington mais importantes estão relacionados com a ajuda ao desenvolvimento e os recursos naturais que podem ser extraídos do seu território.

Autoproclamada presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, durante cerimônia de posse de novo comandante da polícia boliviana
© REUTERS / Marco Bello
Autoproclamada presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, durante cerimônia de posse de novo comandante da polícia boliviana
Desde o emblemático Plano Marshall (que impulsionou a recuperação da Europa após da Segunda Guerra Mundial), a assistência econômica aos países se transformou em um dos canais de influência mais utilizados pelos EUA. Considerando que os recursos naturais existentes na América Latina são essenciais para o seu próprio desenvolvimento, procurava-se facilitar o acesso às matérias estratégicas para sustentar a economia estadunidense.

A partir do ano 2000, a ajuda aumentou consideravelmente, com a Bolívia ocupando o terceiro e quarto lugares entre os países que recebiam mais ajuda no continente sul-americano, inclusive depois da chegada de Morales à presidência do país. A assistência começou a descer depois de um embaixador estadunidense ser expulso da agência antidrogas DEA em 2008.

Recursos naturais que são escassos nos EUA

A Bolívia está entre os principais países exportadores de antimônio, tungstênio, estanho e boro, dos quais os Estados Unidos carecem, destacam os analistas da Celag.

Em 2015, os EUA eram o destino principal das exportações de minerais da Bolívia, com 28%, em 2017 baixaram para o quinto lugar, com 10,7%.

Boas relações com Rússia e China

Para a Bolívia, as relações bilaterais com Rússia e China são de vital importância, destaca o investigador brasileiro Pedro Marin, fundador do jornal Opera.

21% de suas importações provêm do país asiático, enquanto apenas 7,5% são dos EUA. Entre os anos 2000 e 2014 o comércio bilateral entre China e Bolívia aumentou de US$ 75 milhões para US$ 2.250 bilhões. Pequim se tornou também no principal credor dos bolivianos, de acordo com Marin.

As relações com a Rússia, especialmente no setor energético, também tem estado a crescer. As parcerias incluíram a construção do Centro de Investigação e Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear na cidade El Alto, a segunda maior cidade do país.
Evo Morales, ex-presidente de Bolívia
© REUTERS / Carlos Jasso
Evo Morales, ex-presidente de Bolívia

Outro aspecto importantíssimo é que a Bolívia é um território-chave no continente, e o governo do partido Movimento para o Socialismo (MAS) não quer que os EUA interfiram nos seus assuntos. Assim afirmou em julho de 2019 o então ministro da Presidência do país sul-americano, Juan Ramón Quitana, ao dizer que a Bolívia voltará a ser uma nação esmagada se retomar plenas relações com os EUA, adianta a Hispan TV. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019111614784365-por-que-os-eua-poderiam-estar-por-tras-do-golpe-de-estado-na-bolivia/

Para onde vão os EUA? O "sonho americano" tornou-se um "pesadelo"

 
 
 
As expectativas mínimas de todas as famílias trabalhadoras são simples e nobres. Eles querem criar seus filhos para serem educados, satisfeitos e prósperos em um ambiente seguro. Esta é uma aspiração universal. De Bagdad a Boston, as famílias trabalhadoras compartilham as mesmas esperanças e expectativas; somente o grau de sofrimento os separa. Quando uma parte do corpo está em tensão, o corpo inteiro reage com complexidade. Pessoas de todo o mundo estão respondendo a seus problemas particulares de diferentes maneiras. Um agricultor no Equador é confrontado com a questão da vida e da morte, enquanto um agricultor americano enfrenta um futuro incerto e sombrio. Em outras palavras, nos diferentes níveis, todos estão sofrendo.
 
Nos EUA, para muitos, o "sonho americano" significava ser seguro e próspero. A América era a “terra do leite e do mel” e o “Sonho Americano” era o sonho dos imigrantes. Hoje esse sonho se transformou em um pesadeloSe alguém é pobre nos EUA, ele ou ela, de uma maneira ou de outra, vive no estado de medo constante. Esse medo é real e está enraizado em um sistema económico que classifica as pessoas com base em sua classe; o status socioeconómico, raça e género. Logicamente, esse medo é muito mais intenso para aqueles que são rotulados como imigrantes pobres com ou sem um "status legal" claro.
 
Em geral, as famílias pobres e de baixa renda nos EUA, independentemente de sua raça, estão sofrendo. O relatório especial das Nações Unidas sobre a extrema pobreza e os direitos humanos nos Estados Unidos da América declara que
 
“Cerca de 40 milhões vivem na pobreza, 18,5 milhões na pobreza extrema e 5,3 milhões vivem em condições de pobreza absoluta no Terceiro Mundo”.

 
Em todas as grandes cidades, o número de pessoas sem-teto está aumentando. Essa realidade nos EUA com a economia mais poderosa do mundo é absolutamente chocante. Por que a economia mais forte do mundo está irremediavelmente enredada com problemas como “falta de moradia” ou é incapaz de fornecer necessidades básicas, como “água limpa”, para seus cidadãos?
 
Hoje em dia, não é incomum observar o número crescente de cidadãos americanos que dormem nas calçadas perto de arranha-céus de luxo nas principais cidades! Deve haver algo de podre no próprio núcleo de um sistema social que aumenta sua riqueza sem diminuir sua miséria. De fato, o problema está em um sistema económico de exploração - que é o sistema capitalista.
 
Desde o início, os EUA cresceram como um sistema económico injusto. O que é inédito hoje é a maior lacuna entre riqueza e pobreza. Aproximadamente nas últimas 3 décadas, o 1% superior ganhou de US $ 8,4 triliões para US $ 29,5 triliões em riqueza. Essa intensa desigualdade expôs a natureza extrema do racismo e chauvinismo do governo dos EUA. Embora hoje os políticos de extrema direita, funcionários e os chamados analistas políticos propaguem corajosamente o racismo e a xenofobia mais do que nunca; no entanto, é vital concentrar-se nas raízes do problema e não no resultado.
 
A escravidão nos EUA não se originou do racismo; antes o racismo exigia a justificativa da exploração de escravos. Hoje, "Black Lives Matter" e "Me Too" - os chamados movimentos - estão confundindo as raízes de uma exploração económica com seus subprodutos, racismo e chauvinismo. Um bom médico procura descobrir a causa real do problema médico de um paciente através dos sintomas aparentes. Nos EUA, como qualquer outro país capitalista, a exploração dos trabalhadores é a causa do problema; racismo e chauvinismo são os sintomas.
 
No entanto, essa diferença simples entre a causa real e os sintomas de qualquer problema nos EUA não é clara para muitos ativistas. Sua energia valiosa, dedicação e determinação são representadas como ousadas, mas com os olhos vendados politicamente! Eles carregam bandeiras diferentes, de pseudo-socialistas a pequenos grupos da Antifa, na esperança de "acordar" a maioria. Na realidade, eles se tornaram ferramentas para distração e obstáculos no caminho revolucionário. Seus gurus que eles adoram enfaticamente geralmente são os funcionários capitalistas na melhor das hipóteses. É inacreditável, mas é verdade que os chamados "socialistas" ou "comunistas" encontram sua salvação no Partido Democrata! Eles são tão fracos que adoram a Sra. Gabbard ou o Sr. Sanders como seus salvadores do povo trabalhador! Esses pequenos grupos de ativistas contra o poder dos trabalhadores acreditam nos "fatos alternativos"! Eles ainda acreditam que o sistema capitalista ultrapassado é reformável, se apenas os políticos certos estiverem no comando! Enquanto isso, como “progressistas”, eles apoiam a censura on-line e ficam totalmente calados sobre o encarceramento injusto de denunciantes inocentes e verdadeiros jornalistas como Julian Assange e Chelsea Manning.
 
A profunda disparidade entre riqueza e pobreza está moldando o futuro dos Estados Unidos da América. Essa distribuição desequilibrada e injusta da riqueza chegou inegavelmente a um estágio explosivo e instável. Isso significa que a grande ideologia dos plantadores e comerciantes do século XVII na criação de uma República não serve mais ao interesse de todo o "1%" nos Estados Unidos da América.
 
Esta é uma situação única que exige um novo sistema de operação. Um sistema que abraça uma forma de barbárie ou libera as forças poderosas dos "99%" na criação de uma organização social e económica justa e revolucionária em benefício da maioria. O resultado da revolução e da contra-revolução determinará o futuro dos Estados Unidos da América. Hoje, os três ramos do governo dos EUA (Executivo, Legislativo e Judiciário) são desarmónico e, como resultado, são ineficientes para administrar um governo funcional.
 
Para a elite financeira, a funcionalidade e não a formalidade descritiva do governo é a principal preocupação. O apoio ao fascismo na Alemanha - uma nova forma de governo capitalista - aumentou rapidamente em dois anos. Nas eleições de setembro de 1930, os insignificantes votos do Partido Nazista aumentaram em 700%! Em 30 de janeiro de 1933, a elite financeira alemã nomeou Hitler como chanceler e líder da Alemanha. É claro que essas mudanças drásticas ocorrerão; os elementos reacionários na Alemanha estavam se projetando por um longo tempo e estavam prontos para aproveitar o momento na hora certa.
 
Hoje, nos EUA, os mesmos elementos fascistas estão encontrando sua voz e oportunidade de implementar o estilo americano do fascismo. A Presidência de Trump abriu um novo método de governação, um regime autoritário e ditatorial. A Casa Branca intensificou sua disposição de minar a ideia de separação de poderes pela iminente saga do “impeachment” (destituição). O presidente Trump, de várias maneiras, deixou claro que está preparado para utilizar forças violentas contra seus oponentes políticos. Em muitas ocasiões, Trump projetou que qualquer tentativa de substituí-lo iniciará uma "guerra civil" nos EUA.
 
Para as famílias trabalhadoras, a animosidade e a hostilidade descontrolada dos partidos democratas e republicanos uma pela outra é preocupante. As eleições de 2016 colocaram Trump, um vigarista com uma agenda fascista na Casa Branca. O presidente Trump, desde o início, criou uma base de apoio para si mesmo contra aqueles que ele afirma "odiar a América".
 
Em 23 de janeiro rd de 2016 em Iowa, o Sr. Trump como um vigarista profissional projeta-se como o líder mais confiável entre os seus seguidores, dizendo:
 
"... meu povo é tão inteligente... eu poderia ficar no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém e não perderia nenhum voto."
 
Desde então, ele criou uma informal “Quinta Avenida. Club ” com membros hardcore. Ele aproveitou o desejo da classe média negligenciada. Um grupo de pessoas que procuram desesperadamente estar associadas à glória da minoria rica da América, assim como os camponeses medievais que adoravam seus gloriosos reis e rainhas na Europa. Eles olham para Trump como seu "Líder Escolhido de Deus", com a sabedoria de "Tornar a América Grande de Novo".
 
Logo após a eleição de 2016, o Partido Democrata, em oposição à nova realidade política, fez seus próprios truques sujos. Eles fizeram de tudo incansavelmente para difamar Trump como um "ativo russo", apoiando-o de todo o coração na redução de impostos para os ricos e aumentando o orçamento militar. Os democratas, em essência, estavam de acordo com o presidente Trump para limitar os direitos democráticos e governar como um estado policial em nome de "Segurança Nacional". Após o fracassado "Relatório Mueller", os democratas iniciaram a saga "impeachment" na esperança de ocupar a Casa Branca em breve, sem a participação do povo americano. Eles querem um golpe de Estado pacífico no Congresso, uma transformação do poder sem incitar o povo trabalhador.
 
À medida que a saga do impeachment (destituição) surge a cada dia, as famílias trabalhadoras dos EUA estão testemunhando uma transformação de seu governo de "democracia" para um futuro desconhecido. Se a liderança do Partido Democrata for bem-sucedida em seu impeachment, a ala militar da classe dominante estará no poder, ansiosa por arrastar a nação para um perigoso confronto militar com seus "adversários" de longa data, como a Rússia. Um Partido Democrata triunfante após a batalha de impeachment dará aos defensores da guerra uma oportunidade única de advogar uma solução militar como a única solução para o problema americano.
 
Com essa estratégia, o partido de guerra exigirá o apoio incondicional e a obediência do povo trabalhador, atacando seus direitos democráticos em nome da "Segurança Nacional". Um período em que os dissidentes serão rotulados como "ativos russos" e o McCarthyismo é desencadeado por perseguições cruéis e caça às bruxas. Por outro lado, se o esforço de impeachment falhar, o povo americano testemunharia um período de extremo "estado de direito e ordem" por um presidente despótico. Um período sombrio na história americana em que milhões de pessoas conscientes serão silenciadas, aprisionadas ou simplesmente perecerão pela dura repressão política e pelo estilo americano do fascismo.
 
Fascismo é uma palavra que tem sido usada muitas vezes de "esquerda" ou "direita" para descrever um demónio que eles detestam. Mas o fascismo tem sua própria definição política concreta. Trump está representando uma versão do fascismo na América. A ascensão de Trump e Trumpismo ao poder nos EUA está-se formando em diferentes circunstâncias políticas e económicas que Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha ou Franco na Espanha. O Trumpismo é um recém-nascido prematuro do fascismo. Trump foi eleito presidente - é claro que não pelo voto popular - agora ele quer aproveitar esta oportunidade e reinar como líder absoluto. O principal obstáculo contra a aventura pessoal de Trump e o Trumpismo é o Trabalho Americano. A maioria dos trabalhadores nos EUA está pronta para combater qualquer forma de regras reacionárias.
 
No entanto, apesar do presidente fascista, com seus representantes incompetentes do Partido Republicano e a ilusória liderança democrata, o povo americano está lutando independentemente por seus próprios direitos como trabalhadores, agricultores, professores, estudantes, imigrantes e minorias em geral. O aumento dos 99% nos EUA nesse nível é extraordinário. Compreender a nova onda de resistência dos trabalhadores nos EUA exige uma investigação do cenário social, político e económico.
 
Os principais países capitalistas estão passando por recessão ou entrando nela. A economia dos EUA como a economia mundial mais poderosa também não está imune a esta crise. Até os economistas americanos mais otimistas admitem que a economia dos EUA está em "risco" ou à beira da recessão. Joshua Green, da Bloomberg Business Week, destaca que
 
"O verdadeiro perigo que a presidência de Donald Trump enfrenta... é a possibilidade de que o clima atual de pessimismo económico possa se intensificar e levar o país a uma recessão total".
 
Certamente a guerra comercial de Trump acabou com qualquer esperança de "alcançar a estabilidade económica global" que os capitalistas de todo o mundo esperavam no último encontro do G20. Nos EUA, a economia real está minando a ascensão do mercado de ações. As elites financeiras estão nervosas ao antecipar outra crise ainda mais grave que 2008. O presidente Obama, após o presidente Bush, diante da crise económica de 2008, ficou atrás das pessoas que trabalham nos Estados Unidos para socorrer os bancos em crise.
 
A mídia comercial da época elogiou Obama como um herói e salvador que mudou a recessão! No entanto, em 2019, a economia dos EUA está enfrentando mais uma recessão, mas desta vez sob a liderança de uma caótica Casa Branca e sem um herói pretensioso, como Obama. Essa situação peculiar dá aos trabalhadores e agricultores americanos a chance de transformar a recessão pendente em um estágio de uma nova economia próspera - essa perspectiva só é possível se uma liderança consciente e revolucionária conquistar a confiança da maioria dos trabalhadores nos EUA.
 
Trabalhadores e agricultores - com ou sem recessão iminente - já estão resistindo às medidas de austeridade de 1%, lutando por salários dignos e condições sociais. Eles reconhecem que sua luta é um fenómeno global. Milhões de trabalhadores em todo o mundo do Chile, Haiti, Catalunha, França, Reino Unido, Hong Kong, Argélia, Líbano, Equador, Marrocos, Egito, Rússia, Iraque e muitos outros estão nas ruas desafiando o status quo em seus países. Eles estão lutando não em dias, mas em semanas e meses, que é um fenómeno novo na luta de classes. Os trabalhadores e professores de automóveis americanos já aderiram a esse movimento internacional, apesar de seus chefes sindicais conspiradores.
 
No entanto, o cenário mais catastrófico que a humanidade enfrenta em geral, além das sérias consequências das mudanças climáticas, é a inevitabilidade da terceira e última guerra mundial nuclear. Sem uma indústria de guerra robusta, a economia dos EUA entrará em colapso em um instante. Lutar pela PAZ é e deve ser a principal preocupação de todas as pessoas de espírito democrático.
 
*Massoud Nayeri  é designer gráfico e ativista independente da paz e vive nos EUA. Ele é um colaborador frequente de Global Research
 
*A fonte original deste artigo é Global Research, November 12, 2019
 
Copyright © Massoud Nayeri , Global Research
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/para-onde-vao-os-eua-o-sonho-americano.html

EUA expandem sanções contra entidades de Cuba

Bandeiras nacionais de Cuba e EUA
© AP Photo / Ramon Espinosa

Os Estados Unidos acrescentaram cinco entidades pertencentes às forças armadas cubanas à sua lista de sanções que proíbem transações financeiras diretas.

O anúncio foi feito pelo secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, nesta sexta-feira (15), enquanto Cuba comemora o aniversário de 500 anos de Havana.

"Hoje, estou anunciando uma atualização da lista de restrições de Cuba para adicionar cinco entidades de propriedade de militares cubanos à lista de entidades com as quais as transações financeiras diretas são proibidas", diz o comunicado.

O Departamento de Estado explicou que os Estados Unidos geralmente proíbem transações financeiras diretas com entidades e subentidades porque elas "beneficiariam desproporcionalmente os serviços ou pessoal militar, de inteligência e segurança cubanos às custas do povo ou empresas privadas cubanas em Cuba".

No início de outubro, a administração de Donald Trump suspendeu os voos comerciais dos EUA para Cuba, exceto para Havana.

Desde 2016, os Estados Unidos adotam uma política rígida em relação à Cuba, restringindo viagens, aumentando o embargo econômico e impondo sanções a Raul Castro, líder do Partido Comunista de Cuba.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019111514782674-eua-expandem-sancoes-contra-entidades-de-cuba/

O ataque de Trump aos curdos da Síria e duas hipóteses

Nazanin Armanian    21.Oct.19

Na ofensiva turca contra a Síria pouco é o que querem que pareça. Nem os EUA retiraram as suas tropas de ocupação, nem a Turquia realiza qualquer operação de defesa da sua «segurança». Os EUA prosseguem a criminosa estratégia visando dominar todo o Médio Oriente, se necessário através de uma situação de caos total. E pode suceder que os problemas internos de Trump o conduzam também – como conduziram outros presidentes antes dele – a aventuras de consequências cada vez mais perigosas.


 

Milhares de pessoas, incluindo crianças, idosos, doentes e pessoas com deficiência que viviam no norte da Síria fogem novamente de suas casas, desta por causa do bombardeamento da Turquia. Não há dúvida de que o autor “intelectual” da invasão de 9 de Outubro comandada por Erdogan foi o presidente dos Estados Unidos, que dois dias antes ordenou a saída de uns poucos soldados que tinha na área para que as vítimas não fossem norte-americanas. Perante o assombro dos seus oponentes no Congresso e no Pentágono, por ter entregue esta estratégica zona ao aliado rebelde da NATO, Donald Trump apresentou as suas particulares desculpas:

1. Os curdos não ajudaram os EUA na Normandia; pelo que não há dívida histórica para com eles, antes pelo contrário: receberam milhões de dólares e equipamentos militares para defender seu próprio território, não o dos EUA.

2. O motivo da presença de tropas americanas na Síria era acabar com o ISIS, algo completamente alcançado - diz ele - e caso o grupo terrorista ressurja, serão os países da região quem o enfrentará.

3. Com esta retirada (pequeníssima), os EUA economizam “um monte de dinheiro” e encerram uma das muitas “guerras ridículas” em que têm participado. Mas o presidente não explica por que, no mesmo dia, anuncia o envio de outros 3.000 soldados para a Arábia Saudita para enfrentar o Irão.

Mesmo assim, e de repente, acrescenta: “Dito tudo isso, gostamos dos curdos”, deixando a porta aberta para ir salvá-los se o presidente “na sua inigualável sabedoria” o considerar. Membros do Conselho de Segurança, incluindo China e Rússia, não castigaram e nem sequer condenaram a invasão turca de um estado soberano da ONU: limitaram-se a expressar a sua preocupação.

O que Trump não confessa

1. Que a presença de tropas dos EUA em solo sírio é ilegal, uma vez que não possui a autorização de Damasco, da ONU, ou sequer do Congresso dos EUA.

2. Que não se retira da Síria, mas de uma zona no norte deste país. Graças à guerra, os EUA pela primeira vez em sua história têm aqui cerca de vinte bases militares e, do mesmo modo que não retirou as suas tropas do Japão ou da Alemanha passados 74 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, não as eliminará, nem a mal, de um Estado localizado no coração da Eurásia.

Os EUA não alcançaram todos os seus objectivos na Síria, que foram:

1) Quebrar o Eixo da Resistência contra Israel, composto pela Síria, Irão, Hezbollah e Hamas;

2) Eliminar o único aliado do Irão, sendo este o “prémio” das suas guerras na região, abrigando a primeira reserva mundial de gás e a terceira maior em petróleo;

3) Desmantelar outro estado árabe depois de transformar o Iraque e a Líbia em cinzas, convertendo-o numa armadilha mortal para os rivais de Israel;

4) Dividir o país em mini-estados (como revelou o Sirialeaks), a fim de os dominar facilmente no futuro: Trump já reconheceu o domínio de Israel sobre uma parte da Síria, os Montes Golã;

5) Impor uma guerra longa e viver do suculento negócio de armas;

6) NATO-izar completamente o Mediterrâneo, sem as dificuldades que a Líbia e a Síria podem causar;

7) Dominar a Eurásia - a «heartland» ou “Zona Charneira” – a partir da Síria;

8) Cortar a secção síria da Rota da Seda Chinesa;

9) Impedir a construção do gasoduto Irão-Iraque-Síria-Mediterrâneo;

10)Continuar a reconfigurar o mapa do «Novo Médio Oriente» à medida dos seus interesses, um século depois de a França e o Reino Unido terem feito o mesmo, desintegrando o Império Otomano. Criar um Estado Frankenstein curdo de a partir das entranhas da Síria e do Iraque é um dos projetos de Washington, apesar da sua impossibilidade. Pelo que a guerra contra a Síria continuará.

 

Como os mortais não têm acesso às caves sombrias da Casa Branca e do Pentágono para saber o que cozinharam, deixamos a nossa imaginação voar à procura de respostas para essa misteriosa acção de Trump.

Primeira hipótese

O presidente está a executar o Projecto do Novo Próximo Oriente e considerou que é hora de balcanizar a Síria ao longo das suas fracturas étnico-religiosas. No seu comunicado, a Casa Branca alega que a Turquia ia tomar conta dos prisioneiros do ISIS, que estão no campo de al-Hol, perto do Iraque, o que significa que não se trata de criar uma zona-tampão na fronteira turco-síria, mas de os turcos se apoderarem de grande parte do nordeste da Síria. Se Erdogan estivesse realmente preocupado com a “segurança” das suas fronteiras, teria levantado um muro em vez de lançar um ataque tão arriscado e dispendioso.

Os EUA estão a provocar uma situação semelhante à que teve lugar no Iraque em 1991, coincidindo com o fim da União Soviética: incitou os curdos (e os árabes xiitas) a levantarem-se em armas contra o regime de Saddam Hussein, seu próprio aliado. Depois de o terem feito, abandonou-os, deixando-os à mercê da vingança de Saddam. O protesto mundial contra essa traição foi o pretexto dos EUA para estabelecer duas zonas de exclusão aérea, retirando-as do controlo de Bagdad. Uma vez debilitado o Estado, pelos contínuos bombardeamentos e por um criminoso embargo, em 2003 derrubou Saddam com 7 mentiras e por 10 objectivos, e criou a Região Autónoma Curda (com o seu parlamento, exército, hino, bandeira etc.), convertendo-a em uma das suas principais bases na região.

É possível que Washington tenha agora traçado os seguintes passos na Síria:

haverá um massacre de curdos às mãos do exército turco e uma terrível crise humanitária, amplamente televisionados (ao contrário das atrocidades cometidas pela coligação liderada pelos EUA e Arábia Saudita no Iémen);

O ISIS reaparecerá cortando cabeças em frente às câmaras de televisão.Em 2014 nasceu como um exército de mercenários cuja missão foi “agir como um bulldozer”, abrindo o caminho para o domínio dos EUA sobre a Síria, sem perder um único soldado: lições do Vietname, Iraque e Afeganistão.

Passo seguinte, a chamada “comunidade internacional” será obrigada, por razões éticas, a enviar tropas de “paz” compostas por árabes, turcos e europeus ao norte do país - o celeiro da Síria, onde também possui as suas reservas de petróleo e água - , para assim o separar do resto do território.

De caminho, cria uma grande armadilha para a Turquia de Erdogan - agora que o golpe de Estado contra ele fracassou - afundando-o no que será um profundo pântano para o seu exército e a sua economia enfraquecida. Além disso, é provável que os curdos da Turquia retornem à guerra de guerrilha semelhante à da década de 1980. De facto, os países da NATO, que estavam sem dúvida cientes do plano de invasão, chamaram “operação” ao ataque militar ilegal a um país soberano. Como reagiriam se a Venezuela invadisse a Colômbia, por exemplo?

Segunda hipótese

Tratar-se-ia de uma estratégia de sobrevivência de Donald Trump encurralado pelos democratas e pelo “Deep State”, que tentaram destituí-lo, tentando inclusivamente um golpe de Estado: tentaram-no através do Russiagate, da campanha MeToo – lançada pelo Hollywood “Democrata” -, sensibilizando a opinião pública relativamente a abusos sexuais (e ele tem já umas quantas denúncias) e, acima de tudo, empurrando-o para uma guerra com o Irão. A partir de Agosto, a pressão sobre o presidente aumentou:
12 de Agosto: um petroleiro japonês e outro norueguês sofrem ataques no Golfo de Omã, no meio do aumento das sanções sobre o petróleo iraniano.

20 de Agosto: o Irão derruba por engano um avião não-tripulado dos EUA. Poderia ter sido um pretexto perfeito para uma punição militar contra o Irão, mas Trump recusou-se e afirmou que não tinha sido intencional.

10 de Setembro: Trump destitui o falcão mais belicista do seu governo: John Bolton. O seu impacto na política dos EUA é tal que o preço do petróleo cai cerca de 2 dólares por barril, algo que nunca havia acontecido neste país com a saída de um assessor de segurança.

12 de Setembro: A Casa Branca filtra que as agências de inteligência dos EUA acusaram Israel de colocar dispositivos de escuta na Casa Branca para espiar o presidente.

14 de Setembro: um ataque de procedência misteriosa destrói a instalação petrolífera da Saudí Aramco e Mike Pompeo, sem apresentar qualquer prova, acusa o Irão. Mesmo assim, Trump recusa-se a entrar em guerra com o Irão, o que poderia acabar com as suas aspirações eleitorais para 2020. Pompeo, ex-chefe da CIA, assumiu a secretaria de Estado pondo fim à diplomacia nos EUA, substituindo Rex Tillerson que foi demitido por defender o acordo nuclear com o Irão e e que tinha reduzido em 31%.o orçamento para operações militares no exterior.

26 de Setembro: começa o Ucraniagate, e a possibilidade real do triunfo de uma moção contra Trump e o vice-presidente Mike Pence, oferecendo à presidente democrata do Congresso Nancy Pelosi substituí-lo.

É neste contexto que Trump telefona a Erdogan, convidando-o a atacar o norte da Síria e anuncia a retirada de uns poucos soldados de uma base militar, surpreendendo até Mike Pompeo que afirmava que os EUA nunca deram ‘autorização’ à Turquia para lançar esta “operação militar” contra os curdos. Pompeo pode ser o próximo a cair do governo!

Trump continua a jogar o seu trunfo de chefe máximo das forças armadas para desfazer as conquistas imperialistas do “Deep State”: poderá desmantelar quase 800 bases militares dos EUA espalhadas pelo o mundo e repatriar dezenas de milhares de soldados, assestando um duro golpe no Pentágono e no complexo militar-industrial. Neste caso, a sua intenção seria uma troca com os seus inimigos: eles retirariam a moção de censura e ele não deitaria para o lixo o resultado de anos de guerras de expansão dos EUA no Médio Oriente.
De momento, o vencedor é Trump: conseguiu, com este caos controlado, desviar a atenção do mundo do Ucraniagate para a brutalidade dos turcos e a tragédia dos curdos.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6080/el-ataque-de-trump-a-los-kurdos-de-siria-y-dos-hipotesis/

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References

  1. ^endereço (www.odiario.info)
  2. ^odiario.info (odiario.info)

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Trump: 'Estamos em muitos países, me envergonha dizer em quantos'

Presidente Donald Trump durante reunião com o presidente italiano Sergio Mattarella, na Casa Branca em 16 de outubro de 2019
© AP Photo / Evan Vucci

Alguns dias após ter ordenado a retirada de tropas da Síria, Donald Trump confessa se sentir "envergonhado" pela quantidade de países na qual os EUA mantêm presença militar.

Quando perguntado acerca da situação na Síria, durante entrevista coletiva com seu homólogo italiano, o presidente Donald Trump fez a seguinte declaração:

"Estamos [presentes] em muitos países. Em muitos, muitos países. Me envergonha dizer quantos. Eu não sei o número exato, mas me envergonha dizer porque é muito estúpido."
 

Além disso, Trump disse que a Rússia e o Irã são quem deveria combater o Daesh , pois são os países que estão mais próximos geograficamente. Para o presidente norte-americano, osEUA não têm razões para proteger o território sírio nem dos extremistas, nem de uma invasão turca.

"Estamos presentes e inclusive protegemos países que não nos querem, que se aproveitam de nós e não nos pagam nada."

O mandatário não esqueceu de sua recente decisão de enviar tropas para a Arábia Saudita, mas justificou o ato, dizendo que os sauditas irão cobrir os custos da operação. Segundo ele, os sauditas "concordaram em pagar 100% por este envio de tropas, inclusive mais do que era necessário, muito mais".

"[A Arábia Saudita] é um país rico, devem pagar se quiserem algum tipo de proteção. O mesmo vale para a OTAN", concluiu.

Em quantos países os EUA mantêm tropas?

Conforme disse o presidente norte-americano, de fato não é fácil definir o número exato de países nos quais os Estados Unidos mantêm forças militares.

De acordo com os dados mais recentes do Departamento de Defesa dos EUA, publicados em 30 de julho deste ano, as tropas norte-americanas estariam estacionadas em 150 países ao redor do mundo.

Soldado americano tirando uma selfie na base militar dos EUA em al-Qayyara, ao sul de Mossul em 25 de outubro de 2016
© REUTERS / Alaa Al-Marjani
Soldado americano tirando uma selfie na base militar dos EUA em al-Qayyara, ao sul de Mossul em 25 de outubro de 2016

No entanto, os números podem variar. O general Joseph Dunford, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, em declaração feita em outubro de 2018, disse que o país teria mais de 275.000 soldados presentes em 177 países.

O mundo tem 193 países reconhecidos oficialmente pela ONU. Portanto, de acordo com o general, os EUA manteriam tropas em 91% dos países do mundo.

No entanto, de acordo com o centro analítico Pew Research Center, que reuniu dados até 2016, o número de soldados estacionados no exterior é um dos menores registrados desde o fim da década de cinquenta.

Soldada americana bate continência durante celebração do Dia dos Veteranos.
© AP Photo / Anja Niedringhaus
Soldada americana bate continência durante celebração do Dia dos Veteranos

Durante seu pico, atingido nas décadas de sessenta e setenta, os EUA tinham mais de 1 milhão de tropas mobilizadas no mundo. Na década de noventa, o número baixou para 600.000 e tem registrado tendência de queda desde então.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019101714651618-trump-estamos-em-muitos-paises-me-envergonha-dizer-em-quantos/

CONSIDERAÇÕES SOBRE A POLíTICA EXTERNA DE TRUMP

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COMPARAÇÃO COM OS MANDATOS ANTERIORES

Apesar de Trump ter sido eleito em 2016 e empossado como Presidente dos Estados Unidos em Janeiro de 2017, continuam a causar surpresa e muita perplexidade algumas das posições por ele assumidas no plano internacional. Todavia, o tempo decorrido e a prática desde então seguida no plano das relações internacionais já seriam suficientes para se tentar uma interpretação do que realmente se está a passar.

 

De facto, Trump tentou aproximar-se da Rússia com vista ao estabelecimento de uma relação que atenuasse a crispação existente entre os dois países como consequência quer do “cerco” que a Nato montou em redor das fronteiras norte e ocidental da Rússia quer das tentativas até agora falhadas de fazer o mesmo na fronteira sul e até nas fronteiras orientais, bem como consequência da resposta russa a estas manobras – a reintegração da Crimeia no território pátrio. Essas tentativas foram manifestamente boicotadas pelo “establishment” de Washington que lançou mão de toda uma série de insinuações para descredibilizar a acção do Presidente. Não obstante, toda essa oposição, a relação entre os dois países acalmou-se, contrariando assim parcialmente os interesses do complexo militar-industrial, que necessita, para poder crescer e prosperar, de uma relação com a Rússia sempre à beira do conflito, como potência militar mais poderosa depois dos Estados Unidos. A Rússia, porém, não representa na mundividência de Trump um concorrente, daí que situação, tal como está, o satisfaça, desde que a NATO não crie situações de facto que o obriguem a gastar dinheiro. Que é exactamente o que Trump não quer, embora esse objectivo apenas disfarce a pouca ou nenhuma importância que atribui à Nato, no quadro da sua concepção imperialista.

 

Um tipo de actuação semelhante passou-se nas relações com a Coreia do Norte. Depois de um período de grande tensão em parte provocado pelo nervosismo com que Kim Jong-un reagiu à eleição de Trump – ele também uma vítima da campanha americana anti-Trump que rapidamente se estendeu aos quatro cantos o mundo -, contra todas as expectativas Trump divisou naquele comportamento não apenas um oportunidade de negociação mas uma vontade de negociação que, se bem aproveitada, poderia vir a criar sérios problemas à China. Essas negociações, ou mais correctamente, essas conversas entre os dois dirigentes foram mais longe do que alguma vez tinham ido nos múltiplos contactos já tentados entre os dois países. Apesar de Trump não ter clarificado suficientemente a sua ideia e de, portanto, não ser fácil antever as possibilidades de êxito, o que parece não haver dúvida é que Trump foi boicotado, porque a ideia, mesmo que bem trabalhada, de uma desmilitarização da península da Coreia, é algo que o imperialismo americano da linha tradicional nem sequer pode ouvir falar. Aliás, não foi por acaso que Kim Jong-un disse que as negociações tinham de ser com Trump. O “dossier Coreia” não está fechado, longe disso, mas acalmou e pode ainda ter uma saída aceitável se Trump for reeleito.

 

Da América Latina nem vale a pena falar tão grande é a diferença que separa a política desta administração das antecedentes, quer com “amigos” e aliados quer com inimigos. Apenas de registar a forma como Trump conseguiu escapar à “cilada venezuelana”, montada por Bolton, Pence & C.ª. Sendo de esperar que uma escalada das sanções tenha em vista forçar uma negociação numa posição negocial mais favorável.

 

É contudo no Médio Oriente e no Afeganistão que o conflito entre a estratégia imperialista de Trump e a dos seus mais próximos antecessores é mais evidente. O Médio Oriente, principalmente o Golfo, embora conserve uma grande importância estratégica, está hoje longe de representar para os Estados Unidos o mesmo que já representou há uns anos atrás. Mas nem por isso deixa de ser uma região onde Trump tem tido muita dificuldade em impor a sua política. O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel está longe de ter o significado que inicialmente se lhe atribuiu. Significa fundamentalmente a garantia dos Estados Unidos à continuidade de Israel como Estado independente. Mas não significa maior envolvimento na região. Aliás parece mesmo ser a contrapartida de um menor envolvimento. Todavia, as dificuldades para esse menor envolvimento são notórias. É que de pouco vale dizer que o objectivo é mandar para casa todos os soldados americanos em serviço no Médio Oriente e depois reforçar as forças navais no Golfo e o contingente americano na Arábia Saudita com mais dois mil homens, mais uns tantos esquadrões de caças e um novo sistema de mísseis, justificado pelo recente ataque de drones a instalações petrolíferas. De pé permanece porém a ideia de que a guerra no Iémen não será ganha e isso levará inevitavelmente a retirada das proximidades do teatro de operações. Já na Síria parece em vias de consumação a retirada das tropas americanas do terreno, apesar das críticas que chovem de todos os lados.

 

No Afeganistão, as negociações de paz goraram-se aparentemente por culpa dos talibãs, embora actos da natureza do que provocou o rompimento das negociações, em princípio, não ocorram desinseridos de um contexto de boicote, de um lado ou do outro. De qualquer modo, a semente está lançada e mais mês, menos mês, as conversações acabarão por ser retomadas.

 

Quanto ao Irão, a questão complica-se por se tratar de algo que continua na agenda israelita como primeira prioridade. Todavia, se a intenção de Trump fosse fazer a guerra pretextos não lhe faltavam para a começar, mesmo sob a forma de retaliação. Mas também aí já se percebeu que não é esse o seu objectivo. O que parece movê-lo é a intenção de obrigar o Irão a renegociar o “tratado de não proliferação nuclear”, um tratado, diga-se, que não vinculava os Estados Unidos não obstante a assinatura de Obama.

 

Deste breve enunciado do que parece ser a política externa americana na administração Trump, a primeira grande diferença entre este presidente e os seus antecessores mais próximos é a que resulta de ele querer restaurar a grandeza (perdida) da América de dentro para fora e não o contrário. E daí decorrem logo uma série de consequências politicas. Nacionalismo económico por contraposição a uma globalização de cariz neoliberal que destruiu indústria americana, estava em vias de destruir a agricultura e iria ter graves consequências no próprio sector terciário por força da acumulação de capitais que aquela política gerava nos concorrentes, muitos deles "amigos" e aliados, da América. No plano externo, para fazer a defesa dos interesses americanos, Trump actua, não obstante uma ou outra fanfarronice (quase sempre para tirar vantagens negociais), quer pela via das sanções quer pelas das tarifas alfandegárias, consoante a importância e a força da contraparte (Irão, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, no primeiro caso; China e União Europeia, no segundo). A guerra, segundo Trump, dá prejuízo (e nisso ele tem indiscutível razão), e envolve a América numa teia de compromissos e situações da qual terá sempre muita dificuldade em sair. Daí que ele afirme que "uma grande potência não pode participar em guerras que nunca mais acabam". Esta frase, para quem a souber interpretar devidamente, ilustra uma estratégia que pressupõe um método de acção (atrás genericamente descrito) mas também uma forte ameaça, mais ou menos desta natureza: "Se nos obrigarem a ir para a guerra, então, com os meios que nós temos, ela será uma guerra rápida". Obviamente, que nada disto tem a ver com a estratégia imperialista de Bush, Cheney, Clinton, Obama & Cª, que é uma estratégia imposta pela complexo militar-industrial contra a influência do qual Eisenhower, no fim do segundo mandato, foi a primeiro a alertar. Não apenas por força desta influência mas também por tradicionalmente a via da presença militar ser aparentemente a que melhor salvaguarda o domínio. Ora, o que parece estar a levar a esta alteração de política é o efeito alcançado estar cada vez mais longe de ser o pretendido ou o esperado. Os Estados Unidos têm centenas de bases militares por todo o mundo, têm destacados milhares de soldados e perdem dinheiro, enquanto os que teriam a obrigação de financiar esse esforço de defesa o poupam, além de economicamente estarem mais fortes e mais concorrenciais. Esta ideia de assegurar a grandeza actuando de fora para dentro tem dado, segundo Trump, resultados muito negativos. E talvez Trump não conheça as últimas duas décadas da URSS, porque se as conhecesse mais reforçadas ficariam as suas convicções...

 

E poderíamos continuar, enfim. Quem supõe que Trump é um bronco, por ele ter dito que Joe Biden só é conhecido como político por ter andado oito anos a lamber o rabo a Obama, vai-se arrepender, mais tarde, de ter olhado para o mandato de Trump segundo as reacções pavlovianas que as centrais de intoxicação se encarregaram de veicular com muito êxito. Ou seja, quando alguém pronuncia "Trump", a essa palavra são logo associados um conjunto de adjectivos e outras qualificações depreciativas que imediatamente impedem o sujeito de pensar. Todavia, as coisas têm uma lógica…

Publicada por JM Correia Pinto

Ver o original em Politeia (clique aqui)

Os donos disto tudo

Ao contrário do que a imprensa ocidental subserviente após interesses que a dominam escreve, o presidente Trump não toma decisões de forma impulsiva. Não é um elefante na casa das porcelanas. Ele acredita num plano que já o levou ao poder: gerir de crises usando falácias cobertas por milhões de dólares, enquanto  ganha outros milhões com a industria militar.

 

 

Mas a situação internacional desde 2009, depois da crise financeira de 2007/2008, levou ao surgimento de forças militares, económicas e políticas que entraram em competição com os Estados Unidos.

Depois a queda da União Soviética e do colapso do sistema socialista, foi repescada a narrativa ideológica dos teóricos neo conservadores da globalização usada como contexto económico e cultural, seja por ex, as teses de Samuel Huntington (guerras futuras seriam travadas não entre países, mas entre culturas) ou de Francis Fukuyama, que fechou a história do modelo americano defendendo a tese de que “democracias maduras raramente ou nunca entram em guerra entre si”.

Acabadas as guerras acabava a História?

E ainda a narrativa de todos os que acreditaram que o presidente dos EUA é o líder do mundo, de um mundo americano como o ideal da evolução humana e o supra sumo do conhecimento e da liberdade.

Trump, no seu discurso de twitter e em conferências de imprensa diz-se dono de uma virtuosa sabedoria. E acrescenta na “minha grande e inigualável sabedoria”. Enlouqueceu? Não. Mas quer enlouquecer-nos a nós todos. Talvez ande a ler o Livro Vermelho de Mao Tse-Tung pensando que foi escrito pelo querido presidente Xi, the great guy!

Os Estados Unidos fizeram guerra no Afeganistão e no Iraque, manifestando que o faziam para defesa da democracia, mas de facto nesses países o domínio e a autoridade nunca passou para as mãos e a vontade desses povos. O Conselho de Segurança das Nações Unidas foi desprezado. A liderança do mundo, deixou de ter por base a partilha de benefícios e equilíbrio nas relações internacionais e a da Carta das Nações Unidas ficou dentro de um envelope fechado e selado.

Para modernizar o cenário a China emerge como uma força económica e a Rússia como uma força militar e económica que decidem que têm uma palavra a dizer no contexto internacional. Outras forças regionais e internacionais como Índia, Brasil, África do Sul e Irão, também eclodiram, causando uma dor de cabeça política à administração americana, que pensava ter feito xeque mate ao mundo. Estes países  começaram a marcar uma presença cada vez mais visível no Conselho de Segurança e colocaram forças militares no terreno em vários países, para desespero dos falcões militares americanos, isto já desde o segundo mandato de Obama.

Trump entra neste xadrez político usando um tom arrogante, arruaceiro, popular que cala fundo nos corações americanos que se iam sentindo diminuídos na sua orgulhosa convicção de que eram os donos disto tudo. Trump entrou na Casa Branca com um discurso sobre a América que tinha perdido o seu norte e o seu prestígio, acusando Obama de ser fraco e o causador do caos e propondo-se a fazer renascer a fénix das cinzas, utilizando o poder financeiro e militar.

Quase sem aparentemente mexer grandes forças militares no terreno, foi violando convenções  e tirando legitimidade às  organizações internacionais, sem se ralar muito nem perder cabelo, com o Congresso, o Pentágono, a CIA , os jornais e cadeias de televisão do seu próprio país. O Twitter transformou-se na voz oficial do presidente.

Em vez de leis internacionais e de tratados a Casa Branca exerce o poder económico e militar que conseguiu agregar para controlar o mundo. E usa o dólar americano como arma, estratégia em que não é o único residente da Casa Branca a usar. Uma arma que lhe permite impor sanções económicas aos países mal comportados.

Tal como disse Vladimir Putin em Julho de 2018 na décima cimeira do BRICS na África do Sul, o governo dos EUA está a cometer um erro estratégico ao usar o dólar como ferramenta política. Putin esclareceu que quaisquer restrições ao uso de transações em dólares diminuem  a confiança no dólar como moeda de reserva mundial. O presidente russo fez notar que  há dezenas de países  insatisfeitos e por isso exploram alternativas ao dólar no comércio. Uma nova moeda de reserva mundial ou mesmo o aumento de moedas regionais poderia contribuir para uma economia mundial e um sistema financeiro global mais estável.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-donos-disto-tudo/

Banco Mundial: Brasil deve diminuir salários e contratações no setor público

Pessoa não identificada segura a carteira profissional no Centro de Apoio ao Trabalhador da Luz (CAT) em 11 de fevereiro de 2010.
© Folhapress / Leticia Moreira/Folhapress

Um estudo do Banco Mundial apresentado nesta quarta-feira (9) sugere diminuição de gastos com salários e contratações de funcionários públicos.

Segundo o estudo publicado pela instituição, as mudanças sugeridas teriam um impacto de economia de R$ 389 bilhões até 2030.

Para o Banco Mundial, o fato de Brasil estar em um pico de número de funcionários públicos prestes a se aposentar configura uma janela de oportunidades.

A instituição acredita que esse é um bom momento para diminuir salários iniciais de novos contratados e aponta que os salários dos servidores seriam em média 96% maiores do que no setor privado.

O Banco Mundial afirma que o serviço público que os salários altos e o tempo de carreira até o topo causam ineficiência.

Um dos argumentos apresentados também é a ideia de instituir um teto para o salário inicial de servidores no valor de R$ 5 mil. Com isso, há uma expectativa de economia ce R$ 104 bilhões até 2030.

Além disso, o texto sugere a possibilidade de congelamento de salários por três anos com reajuste da inflação até 2030 para que atingir a economia de R$ 232,6 bilhões.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019100914616945-banco-mundial-brasil-deve-diminuir-salarios-e-contratacoes-no-setor-publico/

Alexandrópolis, a nova base USA contra a Rússia

Geoffrey R. Pyatt exerceu a função de Embaixador dos EUA, na Ucrânia, de 2013 a 2016. Organizou com Victoria Nuland, o golpe EuroMaidan. Nomeado por Barack Obama Embaixador dos EUA, na Grécia, em 2016, elaborou um cisma dentro da Igreja Ortodoxa e agora está encarregado de bloquear o fornecimento de gás natural russo à União Europeia.

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Acabei de voltar de Alexandrópolis, uma visita estrategicamente importante que se concentrou nas relações militares excepcionais entre os Estados Unidos e a Grécia e no investimento estratégico que o governo dos EUA está a fazer em Alexandrópolis”: declarou, em 16 de Setembro, o Embaixador dos EUA na Grécia, Geoffrey Pyatt (nomeado em 2016, pelo Presidente Obama).

O porto de Alexandrópolis, no nordeste da Grécia, confinante com a Turquia e a Bulgária, está localizado no mar Egeu, perto do Estreito de Dardanelos, que, ligando o Mediterrâneo e o Mar Negro ao território turco, constitui uma rota de trânsito marítimo fundamental, sobretudo para Rússia. Qual é a importância geoestratégica deste porto, que Pyatt visitou, juntamente com o Ministro da Defesa grego, Nikolaos Panagiotopoulos, explica a Embaixada dos EUA em Atenas: "O porto de Alexandrópolis, graças à sua localização estratégica e infraestrutura, está bem posicionado para apoiar exercícios militares na região, como demonstrado pelo recente Sabre Guardian 2019 ".

O “investimento estratégico”, que Washington já está a realizar nas infraestruturas portuárias, tem como objectivo tornar Alexandrópolis uma das bases militares americanas mais importantes da região, capaz de bloquear o acesso dos navios russos ao Mediterrâneo. Isto é possível pelas “relações militares excepcionais” com a Grécia, que há muito tempo disponibilizam as suas bases militares para os EUA: em particular Larissa, para os drones armados Ripers e Stefanovikio para os caças F-16 e para os helicópteros Apache.Esta última, que será privatizada, será comprado pelos EUA.

O Embaixador Pyatt não esconde os interesses que levam os EUA a reforçar a sua presença militar na Grécia e noutros países da região mediterrânea: “Estamos trabalhando com outros parceiros democráticos da região para rejeitar personagens malignas, como Rússia e China, que têm interesses diferentes dos nossos”, em particular" a Rússia que usa a energia como instrumento da sua influência maléfica”.

Sublinha, assim, a importância assumida pela “geopolítica da energia”, afirmando que “Alexandrópolis tem um papel crucial na ligação da segurança energética e na estabilidade na Europa”. A Trácia Ocidental, a região grega onde o porto está situado, é, de facto, “uma encruzilhada energética para a Europa Central e Oriental”. Para compreender o que o Embaixador significa, basta lançar um olhar à carta geográfica.

A vizinha Trácia Oriental – ou seja, a pequena parte europeia da Turquia - é o ponto em que chega, depois de atravessar o Mar Negro, o gasoduto Turk Stream vindo da Rússia, na fase final da construção. A partir daqui, através de outro gasoduto, o gás russo deve chegar à Bulgária, à Sérvia e a outros países europeus. É a contramedida da Rússia ao movimento bem sucedido dos Estados Unidos que, com a contribuição decisiva da Comissão Europeia, bloquearam, em 2014, o oleoduto South Stream que deveria levar gás russo para a Itália e de lá, para outros países da UE.

Os Estados Unidos tentam agora bloquear também o oleoduto Turk Stream, objectivo mais difícil, visto que entram em jogo as relações, já deterioradas com a Turquia. Fazem-no na Grécia, a quem fornecem quantidades crescentes de gás natural liquefeito como alternativa ao gás natural russo. Não se sabe o que os Estados Unidos estão a preparar na Grécia, também contra a China, que pretende fazer do Pireu um ponto de paragem importante, na Nova Rota da Seda. Não seria surpreendente se, no modelo do “Incidente do Golfo de Tonkin”, se verificasse no Egeu, um “Acidente de Alexandrópolis".





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As sanções matam

Barbárie sob bandeira democrática I

As sanções matam

Workers World (*)

A generalidade das populações dos países Ocidentais vê com indiferença, quando não apoia, as intervenções do imperialismo, norte-americano ou europeu, em qualquer outra parte do mundo. Sejam elas acções militares, sanções económicas, ameaças diplomáticas ou conspirações políticas, directas ou por procuração. Tornam-se assim cúmplices de crimes, de dimensão muitas vezes desconhecida, cometidos contra milhões de pessoas.

O facto de os regimes políticos dos países imperialistas serem democráticos ainda mais responsabiliza essas populações, uma vez que, melhor ou pior, elas os escolhem. Mas, ao invés, esse facto tem servido para “legitimar” todo o tipo de agressões. Sob a bandeira da democracia, das liberdades individuais, do “Estado de direito” — arvorada pelas potências imperialistas de hoje — cometem-se as maiores barbaridades contra a humanidade.

Em quatro artigos, a publicar sucessivamente, divulgamos as denúncias feitas por comunistas norte-americanos sobre as sanções aplicadas em quase todo o mundo pelos EUA, e as revelações do italiano Manlio Dinucci sobre o rasto histórico de crimes e as ameaças militares presentes dos EUA e da NATO.

As sanções matam. Fim às sanções dos EUA! (**)

Mais de 30 países em todo o mundo são alvo de sanções pelos EUA, incluindo China, Cuba, Irão, Líbia, Coreia do Norte, Rússia, Sudão, Síria, Ucrânia, Venezuela, Iémen e Zimbábue. As sanções são punições colectivas contra populações civis. As sanções matam. Provocam escassez crónica de bens, desarticulação económica e hiperinflação caótica. Aqueles que impõem sanções visam induzir fome, doença, pobreza e desespero entre os mais vulneráveis. Em todos os países, os mais pobres e os mais fracos — crianças, doentes crónicos e idosos — são os que sofrem o pior impacte das sanções.

O gangue que anuncia as políticas de Washington estabeleceu um programa de punição destinado a populações de países em três continentes. Qualquer tribunal internacional honesto acusá-los-ia de crimes contra a humanidade.

O secretário de Estado Mike Pompeo, o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton e o presidente Donald Trump declararam em momentos diferentes em Março e Abril [2019] que haverá novas e mais severas sanções contra a Venezuela, Cuba e Nicarágua. As sanções contra o Zimbábue serão estendidas por mais um ano e o Irão não poderá exportar petróleo.

As sanções existentes contra a Rússia acrescentam um quarto continente, a Europa. Além disso, as empresas dos países da União Europeia que façam negócios normais com, por exemplo, Cuba ou Irão, enfrentam punições económicas nos EUA.

Para impor ao resto do mundo o seu domínio em declínio, e agora em decomposição, o imperialismo dos EUA usa o poder militar destrutivo ainda superior — com 800 bases em todos os continentes — juntamente com a máquina de propaganda e o poder económico, minguante, mas ainda impressionante, que detém.

Lembremos as sanções contra o Iraque, que começaram em 1990, continuaram sob as administrações republicana e democrata e terminaram apenas com a invasão dos EUA em 2003. Nesse período, as sanções foram responsáveis pela morte de 1,5 milhão de iraquianos, incluindo 500 mil crianças.

A máquina de guerra mata rapidamente. As sanções, mesmo que mais lentas, são tão mortais como as invasões. Na América, as armas económicas do imperialismo têm como alvo Venezuela, Cuba e Nicarágua com o objectivo de derrubar os seus governos soberanos. No caso de Cuba, o governo socialista desafia as sanções, o bloqueio e a agressão directa dos EUA há 60 anos. O objectivo de Bolton, Pompeo e Trump é fazer com que as populações desses países sofram tanto que se revoltem e derrubem os seus governos.

Mas as sanções nem sempre mudam as políticas dos governos ou os removem. Políticos imperialistas reaccionários como Bolton e Pompeo frequentemente subestimam a determinação das massas ou dos seus governos em resistir à subjugação. Os planos dos criminosos dos EUA podem falhar.
As sanções, no entanto, quase sempre fazem a população sofrer, com os mais pobres e vulneráveis mais afectados — a menos que sejam protegidos por um governo socialista popular como o de Cuba.

Parte da actual nova onda de sanções, disse Bolton, visa impedir a entrega de petróleo da Venezuela a Cuba, ferindo as populações de ambos os países. Bolton não disse se a Marinha dos EUA está envolvida neste tipo de bloqueio, o que seria um acto de guerra.

Os governos de todos os países envolvidos declararam a sua determinação em enfrentar as sanções dos EUA sem alterar as suas linhas políticas. O presidente cubano Miguel Diaz-Canel disse-o no Twitter:

“Aqueles que levantam uma espada contra nós não mudam a nossa atitude. Nós cubanos não nos rendemos. … Em Cuba, mandam os cubanos. ”

Nesse mesmo espírito, os anti-imperialistas nos EUA devem tratar as sanções impostas pelos EUA da mesma maneira que tratam as guerras e as ameaças de guerra dos EUA. Devemos mobilizar-nos para lhes resistir. E com base nas sanções criminosas do governo, nosso próprio objectivo é acusar essa quadrilha de assassinos por crimes contra a humanidade.
Pelo fim de todas as sanções dos EUA.

———

(*) Semanário do Workers World Party, EUA
(**) Workers World, 25 Abril e 4 Agosto 2019

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

A união nacional na Síria e na Venezuela

Como sozinhos o anunciávamos no início do mês, um passo decisivo para a paz foi dado simultaneamente na Síria e na Venezuela, a 16 de Setembro. As duas nações já não se forçam mais a negociar com terroristas, mas os seus governos decidiram construir um novo regime em colaboração com a sua oposição patriótica.

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Os Presidentes Bashar al-Assad e Nicolás Maduro.

O futuro da Síria e da Venezuela joga-se simultaneamente e em paralelo. O que é bastante normal, já que a origem destes conflitos não é local, mas resulta da estratégia do Pentágono de destruição das estruturas estatais, primeiro no «Próximo-Oriente Alargado», depois na «Bacia das Caraíbas» (doutrina Rumsfeld/Cebrowski [1]).

A situação e as capacidades dos dois Estados são muito diferentes, mas a sua resistência ao imperialismo global é idêntica. Hugo Chávez (presidente de 1999 à 2013) foi o porta-voz dos povos da periferia face às ambições das sociedades transnacionais. Desapontado pelo Movimento dos Não-alinhados, no qual certos membros se tornaram vassalos dos Estados Unidos no fim da Guerra Fria, ele havia considerado junto com o Presidente Bashar al-Assad refundá-lo sobre novas bases : o Movimento dos Aliados Livres [2]. Aos que se interrogavam sobre o tempo necessário para concretizar este desejo, o Presidente venezuelano respondera antecipando que o seu homólogo sírio lhe sucederia na cena internacional. Havia, assim, acrescentado, no plano quinquenal de 2007-2013, que escreveu pelo seu punho, instruções a todas as administrações do seu país para apoiar este aliado político longínquo : a Síria [3].

A guerra lavra há dezoito anos o Médio-Oriente Alargado, e desde há oito anos na Síria. O Afeganistão, o Iraque e a Líbia já foram destruídos. O Iémene está submetido à fome. Em relação à Síria, um governo no exílio foi reconhecido pelos Estados Unidos e por um punhado dos seus aliados. Todos os activos do país no Ocidente foram apreendidos. Um governo alternativo substituiu o governo constitucional na Liga Árabe. E os vassalos regionais do Pentágono colocaram-se às ordens da OTAN.

As premissas de guerra estão já bem avançadas na bacia das Caraíbas, nomeadamente na Nicarágua e em Cuba. Em relação à Venezuela, um autoproclamado presidente foi reconhecido pelos Estados Unidos e por um punhado dos seus aliados. Todos os activos venezuelanos no Ocidente foram apreendidos. Um governo alternativo substituiu o governo constitucional na Organização de Estados Americanos (OEA). E os vassalos regionais do Pentágono reactivam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).

A guerra caminha para o fim na Síria porque a presença militar russa torna impossível o envio de novas tropas contra o país; sejam soldados regulares norte-americanos, mercenários oficialmente contratados pelo Pentágono ou jiadistas oficiosamente contratados pelos aliados da OTAN. Mas a vitória do Exército Árabe Sírio contra dezenas de milhar de mercenários estrangeiros não significa a paz.

Isso só é possível na Síria, tal como na Venezuela, com a condição de recuperar a sociedade, fracturada pela guerra aqui ou pelos seus preparativos acolá. Na Síria, isso passa pela redacção, depois adopção, de uma nova Constituição, como previsto há quatro anos pela Resolução 2254. Identicamente, isso passará na Venezuela pela criação de um regime de união nacional, associando chavistas e oposição patriótica. Nos dois casos, a dificuldade consiste em afastar a oposição mercenária, paga pelos Estados Unidos ou seus aliados e pronta para tudo, e mobilizar a oposição patriótica, sempre presente no país e preocupada em preservar a nação.

Com o acordo do Presidente Trump, e apesar da oposição de generais do Pentágono e de diplomatas do Departamento de Estado, a Síria e a Venezuela avançaram nesta via a 16 de Setembro. No mesmo dia, o Irão, a Rússia e a Turquia anunciaram a constituição da «Comissão Constitucional Síria» [4], e a Venezuela anunciou a abertura de uma «Mesa de Diálogo» reunindo representantes do governo e da oposição patriótica [5]. O que substitui as negociações que o governo constitucional tinha empreendido em Barbados, na presença de mediadores noruegueses, com os representantes do autoproclamado presidente, Juan Guaidó; negociações que este havia já declarado «esgotadas» e que ele próprio tinha abandonado. Identicamente, a Comissão Constitucional Síria põe fim às negociações que o governo desde há anos encetava com os jiadistas «moderados», sob os auspícios da ONU.

Na Síria, o princípio de União Nacional impôs-se progressivamente desde o início da guerra. Em 2014, o Presidente Assad conseguira organizar uma eleição presidencial conforme aos padrões internacionais dos regimes democráticos. Mas isso é uma novidade na Venezuela, onde nem todos estão ainda convencidos. Uma tentativa precedente de união, iniciada pelo Papa Francisco, falhara. Dessa vez, em algumas horas, os negociadores conseguiram por-se de acordo sobre quase tudo o que Juan Guaidó pretendia reivindicar, mas que ele se recusou a por em prática. Os chavistas deixaram, assim, de jogar à cadeira vazia na Assembleia Nacional; a Comissão Eleitoral está a passar por reformas; o Vice-presidente da Assembleia Nacional que estava detido foi libertado; etc.

Este avanço considerável foi tornado público durante a saída do Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA. A substituição de John Bolton por Robert O’Brien favorece o surgimento de um novo discurso em Washington. Os dois homens têm as mesmas referências ideológicas, o «excepcionalismo americano», mas estilos opostos: o primeiro ameaçava com guerra a Terra inteira, o segundo é um negociador profissional.

A União Europeia e o Grupo de Lima, que não têm o pragmatismo do Presidente Trump, condenam estes avanços porque os partidários do terrorismo são deles excluídos : ou seja, os jiadistas «moderados» e os guarimberos de Juan Guaidó.


[1] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.

[2] «Chávez y Assad llaman a la creación de un Movimiento de Aliados Libres» («Assad e Chavez apelam para a formação de um Movimento de aliados Livres»- ndT), Red Voltaire , 15 de julio de 2010.

[3] Proyecto Nacional Simón Bolívar. Primer Plan Socialista (PPS) del Desarrollo Económico y Social de la Nación (2007/2013), Presidencia de la República Bolivariana de Venezuela.

[4] “Joint Statement by Iran, Russia and Turkey on the International Meeting on Syria”, Voltaire Network, 16 September 2019.

[5] «Venezuela : Mesa Nacional», Red Voltaire, 26 de septiembre de 2019.



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BARBÁRIE EM PLENO SÉCULO XXI

 
 
 
Qualquer que seja a articulação do poder do império da hegemonia unipolar, independentemente de suas tensões e contradições internas, continua a haver um garante: a persistência da barbárie, ainda que esse poder sopre aos mil ventos que se decide e age em nome da democracia e da civilização!
 
A barbárie em pleno século XXI manifesta-se desde quando esse império estimulou a exaustão do planeta (neste ano, o que se devia ir buscar à Mãe Terra no período civil de 365 dias, foi exaurido num semestre), até aos gestos comuns palpáveis pelas vias dos seus relacionamentos para com os outros, numa prática constante de conspiração contra a humanidade, contra o planeta, contra a vida!... 
O império da hegemonia unipolar domina com um insano egoísmo, sem ética, sem moral e estende seus crimes abrindo caminho ao fim da vida, tal qual se conhece ainda hoje! (http://paginaglobal.blogspot.pt/2015/12/iii-guerra-mundial-no-fulcro-dum.html).
 
1- Alguns analistas internacionais, com um nível de informação invejável, como Thierry Meyssan da Rede Voltaire, estão a fazer uma leitura optimista da evolução da administração republicana de Donald Trump, considerando que há da parte dela uma remota vocação para a paz. (https://www.youtube.com/watch?v=r0Pwv9fzzoY).
 
No artigo “Donald Trump, trará ele a paz?”, Thierry Meyssan considera, com base nos fundamentos que possui:
 
“Depois de dois anos e meio no Poder, o Presidente Donald Trump está a ponto de impor os seus pontos de vista ao Pentágono.
 
Ele que pôs fim ao projecto de «Sunistão», do Daesh, entende acabar com a doutrina Rumsfeld/Cebrowski de destruição das estruturas estatais do Médio Oriente Alargado.
 
Se o conseguir, a paz regressará à região assim como à Bacia das Caraíbas.
 
No entanto, os povos que tiverem sobrevivido ao imperialismo militar terão ainda de lutar pela sua soberania económica”…(https://www.voltairenet.org/article207511.html).
 
 
2- A paz global exige muito mais que uma aposta numa tendência intestina do exercício do império da hegemonia unipolar, por muito abnegada que ela possa parecer, por muito que ela possa aparentemente alijar a carga de fascismo que faz parte do carácter do poder dominante, por muito que procure a imagem e os conteúdos “soft” da sua última manifestação!...
 
A aristocracia financeira mundial tacteia nas suas práticas de conspiração e guerra psicológica (https://frenteantiimperialista.org/blog/2018/07/08/la-guerra-psicologica-del-imperio-de-la-hegemonia-unipolar-en-africa/), pois no essencial persiste já muito acima das possibilidades dum planeta pequeno e esgotável como é a Mãe Terra, por via da busca insaciável de lucro face a qualquer tipo de concorrência ou de consequente racionalidade!
 
Entre capitalismo financeiro transnacional e capitalismo protecionista, tem havido muito ténue diversificação prática e o aumento de sanções têm penalizado criminosamente nações e povos, sobretudo no “Terceiro Mundo”, que nunca foi um mundo entre iguais!
 
Esse tactear vem desde o seu berço, desde a época do expansionismo, antes de se vislumbrar a natureza do império com projecções de domínio planetário! (http://paginaglobal.blogspot.com/2014/12/uma-fruta-que-nao-caiu-i.html).
 
 
 
 
Cuba, a maior das ilhas das Caraíbas imediatamente a sul, teve desde logo essa percepção, pois desde logo era a sua independência e soberania que estava em jogo! (http://paginaglobal.blogspot.com/2014/12/uma-fruta-que-nao-caiu-ii.html).
 
Esse tactear é pois algo que está no “adn” de própria gestação, crescimento e actual comportamento contemporâneo do império, não se podendo apagar por qualquer “varinha mágica”, que a administração republicana de Donald Trump sequer é!...
 
A paz, por que sustentável apenas quando houver a liberdade alcançável no patamar da justiça social, dum equilíbrio saudável entre estados, nações e povos e da superação das abissais assimetrias que têm sido propagadas esmagando até culturas humanas que têm sido vivenciadas na própria natureza do planeta, continua a ser a paz artificiosamente virtual, ou a impostura física de mais de 800 bases militares “ultramarinas”, que interessam aos poderosos, a paz do seu domínio, a paz do intrínseco enxofre que corre nas veias de sua economia e da sua “alta” finança, por que as práticas de conspiração do seu bárbaro egoísmo continuam indelevelmente congénitas e é algo que está muito longe de ser estripado!...
 
 
3- Para além da barbaridade que se alastrou no Médio Oriente Alargado e em África, agora esse anátema ressurge na América, até por que a Doutrina Monroe é parte integrante do exercício do império desde a já longínqua época do expansionismo!
 
Os estados, as nações e os povos que buscam soluções socialmente mais justas, solidárias e equânimes e por esse caminho procuram vencer assimetrias em nome duma civilização a que toda a humanidade tem direito, estão a ser o alvo dilecto da barbárie tornada império da hegemonia unipolar! (https://www.telesurtv.net/news/venezuela-samuel-moncada-onu-sanciones-bloqueo-eeuu-salud-20190526-0018.html).
 
O respeito pela Mãe Terra, está por tabela posto em causa, tendo em conta as características da prática de conspiração que se alastra, ao invés de se desvanecer!
 
Cuba (http://www.embajadacuba.com.ve/bloqueo/7-preguntas-sobre-bloqueo/) e a Venezuela Bolivariana enfrentam um bloqueio ainda mais drástico que antes, um bloqueio que faz prevalecer a conspiração desta feita com a prática de sanções e duma pirataria que afecta o Caribe, a América Latina e até alguns substractos mais pobres das grandes cidades estado-unidenses!... (https://br.sputniknews.com/americas/2019081514391575-o-que-ha-em-comum-entre-os-bloqueios-a-cuba-e-venezuela-/https://www.youtube.com/watch?v=I4534KBkqOghttps://www.youtube.com/watch?v=P5Em2DKs18chttps://cnnespanol.cnn.com/video/venezuela-injerencia-cuba-tropas-militares-estados-unidos-sanciones-pkg-patrick-oppmann/).
 
A administração republicana de Donald Trump, protecionista e herdeira dos genes do expansionismo, tem vindo a sofisticar entre outras práticas de conspiração, o bloqueio e as sanções energéticas, atingindo muito em particular a Venezuela, Cuba e as tão precárias nações insulares das Caraíbas maioritariamente habitadas pelos descendentes dos escravos que à força foram, em séculos passados, arrancados a África!
 
 
Enquanto os navios petroleiros da PDVSA (http://www.pdvsa.com/index.php?lang=es) são bloqueados em boa parte por causa das dívidas que se vão acumulando em função da acção directa do império (https://www.dn.pt/pais/interior/o-navio-invisivel-a-vista-de-toda-a-gente-10229109.html), em nome da sua própria “democracia” e dos tão propalados “direitos humanos” inscritos na ordem do império da hegemonia unipolar (https://www.telesurtv.net/news/venezuela-exige-levantar-bloqueo-eeuu-derechos-humanos-onu-20190912-0010.html), nos Estados Unidos a CITGO que entre outras iniciativas fornecia combustível a preços bonificados para que houvesse aquecimento em época de inverno das comunidades afrodescendentes de alguns dos subúrbios mais pobres das grandes cidades estado-unidenses, foi tomada por dentro pela pirataria oligárquica venezuelana avassalada!... (https://www.citgo.com/press/news-room/news-room/2019/decisive-court-victory-for-citgo-boards-of-directors).
 
Em Lisboa, em resultado da acção do império e sob os olhos de milhões de espectadores que circularam no largo anfiteatro do Tejo, esteve retido o navio petroleiro Rio Arauca (https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-nov-2018/interior/um-ano-no-meio-do-tejo-a-vida-dos-tripulantes-do-rio-arauca-10208281.html) durante largos meses, graças ao “democrático” alinhamento dos teleguiados guaidós tugas! (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/o-encaixe-dos-teleguiados-guaidos-tugas.html).
 
Por piratas, a PETROCARIBE, notável gesto energético de solidariedade do Comandante Hugo Chavez para com as isoladas e pobres comunidades insulares do Caribe, está a ser fisicamente neutralizada nos seus propósitos, empobrecendo ainda mais os afrodescendentes que são a maioria da população dos componentes do CARICOM!... (https://caricom.org/projects/detail/petrocaribe).
 
A barbárie ataca em todas as frentes e em toda a linha, incluindo nas esferas da educação e da saúde, afectando projectos que beneficiam os seres humanos dos países-alvo, como a Venezuela (https://www.telesurtv.net/telesuragenda/consecuencias-bloqueo-sanciones-eeuu-poblacion-venezolana-20190522-0043.html), Cuba (https://www.telesurtv.net/news/cuba-consecuencias-bloqueo-estados-unidos--20181019-0043.html) ou o Irão (https://www.hispantv.com/noticias/ee-uu-/392678/sanciones-iran-trump-causas-consecuencias) numa primeira linha de impactos!
 
Seres humanos morrem nesses países por causa do impacto directo de sanções que inviabilizam a aquisição de meios e medicamentos para salvar vidas em muitas situações de doenças que precisam de urgente resposta, como se os tão propalados direitos humanos passassem a ser letra morta à disposição das criminosas vocações da aristocracia financeira mundial que gere o império da hegemonia unipolar!
 
A paz jamais poderá ser alguma vez construída, enquanto a humanidade e o planeta forem pasto de tanta hipocrisia, de tanto cinismo, de tanta leviandade criminosa, de tanto ódio para com os outros, particularmente para com aqueles que em consciência buscam soluções dignas para com seus povos e para com toda a humanidade!
 
As sanções que afectam a Venezuela Bolivariana e Cuba, reflectem-se por fim na ultraperiferia económica que é África, por que as sanções procuram a todo o transe fazer desvanecer o exercício de solidariedade que durante largas décadas ambos os países têm levado a cabo em relação aos afrodescendentes caribenhos, como aos africanos, por que tão legitimamente assumiram, com amor próprio de profundas convicções e sentimentos, que pátria é humanidade!
 
Martinho Júnior -- Luanda, 13 de Setembro de 2019
 
Imagens:
01- O bloqueio a Cuba é, de há décadas, justamente considerado de crime contra a humanidade;
02- Entre os crimes contra a humanidade por via do bloqueio contra a Venezuela, está o dinheiro roubado, incluindo com a conivência do Novo Banco de Portugal e das autoridades governamentais portuguesas… “guaidós tugas”;
03- Outro dos crimes do bloqueio à Venezuela: o que atinge parte da população (na escala de milhões de cidadãos) com SIDA, diabetes e hipertensão;
04- O petroleiro Rio Arauca esteve arrestado largos meses no anfiteatro do Tejo por que a PDVSA, sem mais capacidade financeira quando o dinheiro foi roubado pelo Novo Banco, não pôde pagar;
05- Criança iraniana carente de medicamentos contra o cancro alvo de sanções dos Estados Unidos, internada num hospital de Teherão.
 
MINHA MEMÓRIA DE HÁ DEZ ANOS NO PÁGINA UM BLOGSPOT, RESPONDE À QUESTÃO ESSENCIAL: O IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR QUER QUE OS OUTROS CONTINUEM A SER VASSALOS E SUBDESENVOLVIDOS, COM TODAS AS MISÉRIAS QUE A VASSALAGEM E O SUBDESENVOLVIMENTO ACARRETAM!
 
 
Sexta-feira, Abril 03, 2009
 
Martinho Júnior
 
As pujantes democracias latino americanas que vão despontando do outro lado do Atlântico, apesar das contrariedades que têm surgido nos seus processos internos e as crises de relacionamento muito em particular fazendo face às contínuas ingerências do poder norte americano, trilham o caminho do resgate dos seus povos do analfabetismo e do obscurantismo como uma das suas prioridades.
É evidente que os estágios entre os diversos países são distintos, fruto dos desenvolvimentos históricas, culturais e sócio-políticas de cada um deles, todavia o caminho parece estar hoje mais claro e evidente que nunca, pelo que o sonho da integração já não é uma pálida visão num longínquo horizonte.
Depois de Cuba, a Venezuela e a Bolívia declararam-se livres do analfabetismo, todavia nenhum deles parou por aí.
A Nicarágua está em relação a esses três com um significativo atraso na luta contra o analfabetismo, mas tem em curso a campanha baseada no programa “Yo si puedo”, que está a ganhar agora um novo impulso.
O departamento de Carazo acaba de ser o primeiro a declarar-se livre do analfabetismo, tendo recebido o certificado do Ministro da Educação Nicaraguense, Miguel de Castilla.
Nicarágua tinha marcado para o dia 19 de Julho a data da declaração de sua libertação do analfabetismo, mas isso não será possível pois a batalha está a ser mais difícil nos departamentos da costa Atlântica.
O Comandante Daniel Ortega enfatizou na crimónia: “Si sólo se pueden declarar libres de analfabetismo 120 municipios, pues sólo eso serán declarados, y el reto será continuar dando la batalla este año, para que en el año del 30 aniversario del Triunfo de la Revolución Popular Sandinista, Nicaragua quede libre de analfabetismo. Tenemos que cumplir con esa meta”.
Na Bolívia a batalha contra o analfabetismo foi ganha e torna-se necessário ir mais além, com o programa “Yo si puedo seguir”, que foi agora inaugurado pelo Presidente Evo Morales na localidade andina de Chipaya (departamento de Oruro).
Este programa visa eliminar por um lado o “analfabetismo funcional”, por outro a transmitir noções de ciências naturais, matemática, língua, história e geografia, dirigido a maiores de 15 anos que não tenham tido escolaridade.
No referido município instalaram-se 18 pontos de ensino dos 3.000 que tiveram arranque por todo o país.
De acordo com a informação do programa de post-alfabetização, em La Paz, a capital, há 450 pontos, em Oruro 350, em Potosi 400, em Cochabamba 450, em Tarija 200, em Chuquisaca 350, em Santa Cruz 450, em Beni 200 e m Pando 100.
Cada ponto terá 15 alunos.
Para além dos programas massivos, aqueles que estão mais avançados no conhecimento não param de desenvolver as suas aptidões em direcção às mais diversas especialidades.
A revolução cubana, a partir de sua estóica resistência que abre cada vez mais espaço a uma democracia participativa imunizada aos “lobbies” típicos das lógicas capitalistas, dá um contributo valioso ao empenho que se multiplica por uma parte cada vez mais ampla da América Latina.
Bom, Cuba há muito se viu livre do analfabetismo, mas é parte integrante do empenho quando o nível de escolaridade está a atingir patamares nunca antes alcançados.
Para Cuba abre-se hoje mais que nunca o caminho da investigação científica, em alguns sectores do conhecimento bastante avançada, de vanguarda para a América Latina.
Neste momento por exemplo, um grupo de cientistas está a levar a cabo a tarefa do mapeamento do cérebro humano, utilizando equipamentos de ressonância magnética, com o objectivo de criar um atlas da estrutura e funcionamento cerebral que contribua para o conhecimento dos substratos neurais tanto nas suas funções normais quanto nas suas alterações nas enfermidades neurológicas e psiquiátricas.
Outro dos propósitos mais específicos dos esforços dos cientistas visa determinar as influências genético-ambientais sobre o cérebro, assim como desenvolver métodos para a pesquisa atempada de desordens e avaliar tratamentos com novos fármacos e terapias no âmbito das enfermidades psiquiátricas e do desenvolvimento infantil.
Neste momento há um domínio maior de conhecimentos em relação a 23% do cérebro humano, que permitem já algumas conclusões.
Há por exemplo uma relação entre volume cerebral e capacidade intelectual: aqueles que têm uma maior Coeficiente de Inteligência e melhores provas de inteligência verbal e algumas executivas, possuem um maior volume cerebral, em especial dos lóbulos parietais, sobretudo mo esquerdo.
Após décadas de desperdício e subdesenvolvimento, em que o poder das oligarquias se entrosava com o exercício da hegemonia dos Estados Unidos em toda a vasta região, entre outras coisas inibindo as possibilidades de massificação do sistema educativo abrindo-o aos substratos sociais de base e aos marginalizados, as democracias latino americanas que conseguiram colocar pela via democrática governos à esquerda, não estão a perder tempo nos seus esforços dirigidos para a prioridade que constitui o homem e, uma a uma, avançam nesse caminho de resgate cujos limites são inimagináveis se considerarmos os avanços que se seguirão geração post geração!
A educação alargada, sem limites para o conhecimento no seu dimensionamento a longo prazo e construindo a base da consciência crítica em relação à natureza ambiental, à vida e a todas as humanísticas, é vital para a construção do socialismo do século XXI, numa visão-projecto que já nada tem a ver com o socialismo do século XX!
*(Curta pesquisa elaborada a esta data a partir do site da ALBA – http://www.alternativabolivariana.org. )

Um mestre espião abre o livro

Comentário à notícia (vídeo) seguinte:
Este distinto 'mega-espião' deu uma interessante entrevista que vale a pena ser integralmente vista e refletida por quem tenha algum tempo disponível e saiba francês.
Entre outros aspetos o mestre de espionagem referiu o seguinte:
  • Desde o Presidente Jacques Chirac a França tem uma política externa meramente "auxiliar dos EUA" e estes são atualmente dominados pelos neo-conservadores.
  • O convite de Macron ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão para comparecer na recente cimeira do G7 há-de ter sido combinado com Donald Trump porque a França não tem autonomia nesta matéria.
  • Os EUA foram  o farol da liberdade durante a Guerra Fria contra os Soviéticos.
  • Desde o início do século os EUA têm vindo a caminhar para uma "República policial" e "quasi-fascista".
  • Os EUA (i) legalizaram a tortura, (ii) têm voos clandestinos para raptar e torturar pessoas em qualquer parte do Mundo, (iii) têm um vasto sistema com que espiam a generalidade da sua própria população e a estrangeira, (iv)  apoiam os piores regimes do Mundo e (v)desrespeitam crescentemente o Direito Internacional.
  • Os EUA precisam de promover a ideia de um inimigo externo para susterem contradições internas e assegurarem a sua coesão.
  • A CIA é efetivamente um ator da política externa porque tem uma ligação direta ao Presidente norteamericano.
  • Com o fim da Guerra Fria a situação da espionagem norteamericana conheceu algum enfraquecimento porque 30% dos seus quadros foram dispensados e foram trabalhar para agências privadas.
  • A CIA tem tido alguma dificuldade nas operações encobertas porque tem que prestar informação ao Congresso. É mais fácil ao Pentágono desenvolver ações encobertas.
  • Desde há uns anos (2001) a CIA e outras agências de espionagem estão bastante mais à vontade e reforçadas.
  • Os atentados terroristas permitiram, tanto na França como nos EUA, aumentar consideravelmente as estruturas e os quadros dedicados à espionagem.
  • Os EUA precisam de criar inimigos para reforçarem o financiamento do seu armamento.
  • As atuais elites políticas têm uma cultura política muito limitada.
  • Muitos quadros de alguma anterior "esquerda terceiro-mundista" tornaram-se aliados dos neoconservadores.
  • São os interesses dos grandes grupos económicos que condicionam as iniciativas políticas e as guerras.
  • Donald Trump procurava a aproximação com a Rússia contra a China.
  • As práticas dos países ocidentais, nomeadamente dos norteamericanos, são as principais responsáveis pela tendência da Rússia para se afastar do 'Ocidente'.
  • A 'revolução' na Ucrania, contra a Rússia, que abriu as portas a fascistas contou com o enquadramento, no terreno, de mais de 250 quadros da CIA, entre outros.
  • Donald Trump tem bastante apoio popular e dá resposta a vários sectores da América profunda. O mainstream norteamericano passa uma outra imagem.
  • Atualmente quase toda a informação é controlada por algumas grandes organizações(sobretudo norteamericanas).
  • John Bolton criou guerras como factos consumados e exagerou na agenda que quis impor a Trump nomeadamente face à Venezuela e ao Irão.
  • Os EUA tiveram como principal objetivo na desestabilização do Médio Oriente impedir o acesso da China a fontes de energia que lhes possibilitasse o seu desenvolvimento.
  • Porque é que os EUA invadiram o Iraque em vez da Arábia Saudita ?
  • Sob quase todos os pontos de vista a Arábia Saudita tem um regime político muito pior do que o do Irão.
  • Só se entende a posição do EUA ao manter relações estreitas com a Arábia Saudita por causa do dinheiro desta e porque os seus dirigentes são amigos dedicados dos EUA.
  • Os EUA estabeleceram uma aliança com a Irmandade Muçulmana baseada, entre outros pontos, em que a existência de Israel seria aceite e que as empresas norteamericans seriam privilegiadas no acesso ao petróleo, nas reconstruções nacionais e noutros negócios.
  • Os sunitas são 80% do islamismo mas os wahhabitas são apenas 10% destes Não se percebe porque é que os norteamericanos estão do lado desses 8% do Islão (Irmandade Muçulmana, Arábia Saudita,Al Qaeda, ISIS) para criar todo o atual caos.
  • As revoluções coloridas, designadamente as do Médio Oriente, não foram diretamente dirigidas pelos serviços norteamericanos porque desde há alguns anos que esses serviços criaram e treinaram ONGs (Organizações Não Governamentais) preparadas para capitalizar os descontentamentos locais sempre existentes e convertê-los em revoltas.
  • Várias estruturas norteamericanas têm financiado e apoiado essas ONGs na promoção das revoluções coloridas.
  • Nos diversos países onde houve revoluções coloridas (nomeadamente da Primavera Árabe) os Chefes dos Estados Maiores das Forças Armadas de cada um desses países foram chamados aos EUA uma semana antes das respetivas revoltas para lhes ser dito que as Forças Armadas não deveriam intervir contra as 'revoluções'.
  • A imagem que foi construída sobre a Síria para justificar a guerra foi muito desfocada da realidade.
  • Opositores 'históricos' de Bashar al-Assad perguntam-se porque é que os ocidentais apoiam forças muito piores do que aquele.
  • Na Síria há uam coabtação extraordinária das religiões.
  • Mentiu-se muito para procurar justificar a eliminação de Bashar al-Assad.
  • Hoje há uma massa enorme de dinheiro em permanente circulação pelo Mundo que não é investido na produção de riqueza. Se esse dinheiro se fosse investido dava para resolver o subdesenvolvimento de África em dois anos.

Eric Dénécé 01

 

Há anos dedicado à “informação económica” e doutorado em ciência política, Eric Dénécé  “est un chercheur spécialiste du renseignement, du terrorisme, des opérations spéciales et de l’Asie du Sud-Est. Il est également consultant en Risk Management et en Intelligence Économique.

 
Eric Dénécé a notamment opéré au Cambodge, aux côtés de la résistance anticommuniste, et en Birmanie, pour la protection des intérêts de Total contre la guérilla locale.
Parallèlement, il a été consultant pour le ministère de la Défense concernant l’avenir des forces spéciales.

 

“En 1999, il crée la revue Renseignement et opérations spéciales4 et la collection «Culture du renseignement» (éditions L’Harmattan) puis en 2000 le Centre Français de Recherche sur le Renseignement (CF2R), dont il assure la direction.

“Il dirige également la collection «Poche Espionnage» aux éditions Ouest France.

“Eric Dénécé a enseigné à Bordeaux é l’Ecole de Management (BEM) après avoir été Professeur-associé à l’université Montesquieu-Bordeaux IV (faculté de science politique). Il a également enseigné le renseignement ou l’intelligence économique dans diverses autres institutions (Collège interarmées de Défense, Ecole nationale d’administration, Centre d’études supérieures de l’Air, Institut des Hautes études de Défense nationale, Université Notre–Dame de Beyrouth de Beyrouth, etc.).

“Il est l’auteur de plus de vingt ouvrages et de nombreux articles et rapports consacrés au renseignement, à l’intelligence économique, au terrorisme et aux opérations spéciales. Ses travaux lui ont valu d’être lauréat du Prix 1996 de la Fondation pour les Etudes de Défense (FED) et du Prix Akropolis 2009 (Institut des Hautes Etudes de Sécurité Intérieure)”

 
 

Nesta entrevista, Eric Dénécé “abre o livro” e, se não mostra as páginas todas e faz mesmo prova de “dever de reserva”, diz o que até agora muito pouca gente terá ouvido…

Entrevista | La France en danger: où en est le renseignement? Eric Dénécé

 

Exclusivo Tornado / IntelNomics


 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eric-denece-um-mestre-espiao-abre-o-livro/

O Ocidente oprimiu o Terceiro Mundo por tanto tempo…

Os sem-abrigo nos EUA são ás dezenas de milhar
… que ele próprio se tornou Terceiro Mundo
 
Andre Vltchek [*]
 
Muitos já notaram: os EUA realmente não parecem o líder mundial, ou mesmo um "país do primeiro mundo". É evidente que escrevo isto sarcasticamente, pois detesto expressões como "primeiro mundo" e "terceiro mundo". Mas os leitores entendem o que quero dizer. Pontes, metros, cidades do interior, tudo está a desmoronar, a cair em pedaços. Quando eu morava na cidade de Nova York, mais de duas décadas atrás, retornar do Japão era chocante: os EUA pareciam um país pobre, despojado, cheio de problemas, miséria, pessoas confusas e deprimidas, pessoas sem abrigo, em suma – desesperados. Agora, sinto o mesmo quando aterro nos EUA depois de passar algum tempo na China. E está muito pior. Aquilo de que o Ocidente costumava acusar a União Soviética agora é claramente detectável nos Estados Unidos e também no Reino Unido: a vigilância está a cada passo hoje em dia; em Nova York, Londres, Sydney e mesmo em áreas rurais. Todo movimento que uma pessoa faz, toda compra, todo clique no computador, é registado em algum lugar, de algum forma. E esse monitoramento, muitas vezes, nem é ilegal. O discurso é controlado pelo politicamente correcto. Alguém nos bastidores decide o que é aceitável e o que não é, o que é desejável ou não e até o que é permissível. Se cometer um "erro" é excluído; de posições de ensino nas universidades ou dos meios de comunicação.
 
Em tais condições, o humor não pode prosperar e a sátira morre. Não é muito diferente do fundamentalismo religioso: você é destruído se "ofender". Nestas circunstâncias, escritores não podem escrever romances inovadores, porque verdadeiros romances ofendem por definição e sempre empurram os limites. Em consequência, quase ninguém mais lê romances. Só o humor desdentado e "controlado" é permitido. Nenhuma piada pode ser aplicada intuitivamente. Tudo tem de ser calculado previamente. Nenhuma ficção política "ultrajante" pode passar pela "censura invisível" no Ocidente (e, portanto, os romances quase morreram). Quem lê em russo ou chinês sabe perfeitamente bem que a ficção na Rússia e na China é muito mais provocativa e de vanguarda. No Ocidente, a poesia também morreu. E o mesmo acontece com a filosofia, a qual foi reduzida a uma disciplina académica aborrecida, bolorenta e indigesta. Enquanto Hollywood e os mass media continuam a produzir, incansavelmente, toda espécie de lixo racista altamente insultuoso e estereotipado (principalmente contra chineses, russos, árabes, latinos e outros), grandes escritores e cineastas que querem ridicularizar o regime ocidental e sua estrutura, já foram silenciados. Só se pode humilhar os não-ocidentais de um modo que seja aprovado (mais uma vez: em algum lugar, de alguma forma), mas Deus o livre se se atrever a criticar as elites pró-ocidentais que estão a arruinar seus países por conta de Londres e Washington, no Golfo, no Sudeste Asiático ou na África – isso seria "arrogante" e "racista". Um óptimo arranjo para o Império e seus serviçais, não é? Todos nós sabemos o que aconteceu a Julian Assange e Edward Snowden. No Ocidente, as pessoas estão a desaparecer, a ser presas, censuradas. Milhões estão a perder empregos: nos media, editoras e estúdios de cinema. A era da Guerra Fria parece ser relativamente "tolerante", em comparação com o que está a ocorrer agora. Os medias sociais constantemente reprimem indivíduos "incómodos", meios de comunicação "inaceitáveis" e pensamentos demasiado "não ortodoxos". O "SECURISTÃO" Viajar tornou-se um campo de treino. É aqui que eles o violam. Mova-se pelos aeroportos ocidentais e encontrará o vulgar e insultuoso "securistão". Agora, espera-se de si não só que abaixe as calças, se solicitado, ou tire os sapatos, ou jogue fora todas as garrafas que contêm líquidos: espera-se que sorria, que sorria brilhantemente, como um idiota. Espera-se que demonstre quão ansioso, quão cooperativo você é: responder em voz alta, olhando directamente nos olhos de seus atormentadores. Se for humilhado, ainda assim seja polido. Se quiser voar, mostre que está a desfrutar dessa humilhação estúpida e inútil, administrada por uma única razão: quebrá-lo, torná-lo patético e submisso. Para ensinar-lhe o lugar a que realmente pertence. Se não. Se não! Todos sabemos o que acontecerá se se recusar a "cooperar".
 
Agora, "eles" utilizarão dupla linguagem para informá-lo que tudo isso é para o seu próprio bem. Isto não será pronunciado, mas fazem sentir: "Você está a ser protegido daqueles horríveis monstros do Terceiro Mundo, loucos, pervertidos". E, naturalmente, de Putin, dos comunistas chineses, do carrasco Maduro, de Assad ou dos fanáticos xiitas iranianos. O regime está a lutar por si, cuida de si, está a protegê-lo. Claro, se morar no Reino Unido ou nos EUA, as probabilidades são de que esteja profundamente endividado, deprimido e sem perspectivas para o futuro. Talvez seus filhos estejam com fome, talvez, nos EUA, não possa ter recursos para cuidados médicos. Mais provavelmente, não pode pagar habitação na sua própria cidade. Talvez seja forçado a ter dois ou três empregos. Mas, pelo menos, sabe que seus "líderes sábios" na Casa Branca, no Congresso, no Pentágono e nas agências de segurança estão a trabalhar dia e noite, protegendo-o de incontáveis conspirações, de ataques cruéis do exterior e daqueles maus chineses e russos, os quais estão ocupados a construir sociedades progressistas e igualitárias. Sortudo!
 
Excepção: algo não faz sentido aqui. Durante anos e décadas foi-lhe dito quão livre era. E quão oprimidos e não livres eram aqueles dos quais está a ser protegido. Disseram-lhe quão rico era e quão miseráveis eram "os outros". Para travar aquelas hordas de pessoas carentes e perturbadas, algumas medidas sérias tinham de ser aplicadas. Um esquadrão da morte de direita em algum país da América Central ou do Sudeste Asiático tinha de ser treinado em campos militares dos EUA; um monarca totalmente absolutista e corrupto precisava ser apoiado e mimado; um golpe militar fascista tinha de ser arranjado. Milhões de violações, dezenas de milhares de cadáveres. Não é nada bonito, mas você sabe... necessário. Para o seu próprio bem, cidadãos norte-americanos ou europeus; para o seu próprio bem…. Até mesmo para o bem do país que destinamos a ser "libertado". No ocidente, poucos dissidentes protestaram, durante décadas. Ninguém lhes prestou muita atenção. A maioria deles tornou-se "não empregável" e foi silenciada pela miséria e pela incapacidade de pagar suas contas. Mas de repente… O que aconteceu de repente? Porque alguma coisa realmente aconteceu...
 
O Império cansou-se de pilhar exclusivamente as partes não ocidentais do mundo. Bem condicionado, com o cérebro bem lavado e assustado, o público ocidental começou a ser tratado com o mesmo desprezo, tal como as pessoas nas partes saqueadas e miseráveis do mundo. Bem, ainda não, não exactamente. Ainda há algumas diferenças essenciais, mas a tendência definitivamente está aí. O público ocidental não pode fazer muito para se proteger, realmente. O regime sabe tudo sobre todos: espiona todo cidadão: onde anda, o que come, dirige, voa, observa, consome, lê. Não há mais segredos. É ateu? Não há necessidade de "confessar". Já está a confessar a cada minuto, com cada clique no computador, ao pressionar o botão do controle remoto ou a fazer compras na Amazon. O Big Brother está a observar? Ah não; agora há uma vigilância muito mais minuciosa. O Big Brother está a observar, a gravar e a analisar. O general Pinochet do Chile costumava jactar-se de que, sem seu conhecimento, nenhuma folha poderia se mover. O velho desgraçado fascista estava a gabar-se; exagerando. Por outro lado, os governantes ocidentais nada dizem, mas sabem claramente o que estão a fazer. Sem o seu conhecimento, nada se move e ninguém se move. Ao chegar da China, da Rússia ou de Cuba, a primeira coisa que me impressiona é quão disciplinados, obedientes e amedrontados os europeus e os norte-americanos realmente são. Eles subconscientemente sabem que estão a ser controlados e nada podem fazer acerca disso. Quando os comboios atrasam ou são cancelados, eles timidamente murmuram maldições semi-audíveis. Seus benefícios médicos são reduzidos; eles aceitam ou silenciosamente cometem suicídio. Sua infraestrutura pública desmorona; mas eles não dizem nada, lembrando os "bons velhos tempos". Por que sinto esperança, rio com as pessoas na Cidade do México, em Joanesburgo ou Pequim? Por que são tão calorosos em cidades geograficamente frias como Vladivostok ou Petropavlovsk no Kamchatka? Por que o povo de Londres, Paris e Los Angeles parece tão preocupado, tão deprimido? Alguns países historicamente pobres estão em ascensão. E as pessoas de lá demonstram apreço por cada pequena melhoria. Nada é mais belo do que o optimismo. O Ocidente combateu o chamado "terceiro mundo" por muitas e longas décadas; oprimindo-o, atormentando-o, saqueando-o, violando seus povos. Isso os impediu de escolherem seus próprios governos. Agora está a ir longe demais: está a tentar controlar e oprimir o mundo inteiro, inclusive seus próprios cidadãos. Quando vários países do mundo inteiro estão a recuperar-se, a resistir às pressões de Washington, Londres, Paris e Berlim, o povo no Ocidente está a ser tratado pelos seus governos com o desprezo que costumava ser reservado exclusivamente para os "países subdesenvolvidos" ”(sim, mais uma expressão repugnante). Claramente, o Ocidente "aprendeu por si mesmo". Enquanto países como a Rússia, China, Vietname, México, Irão e outros estão a avançar, muitos impérios colonialistas e neocolonialistas anteriormente ricos agora começam a assemelhar-se ao "Terceiro Mundo". Hoje em dia, é muito triste ser escritor em Nova York ou em Londres. Tão assustador quanto ser pobre. Ou ser diferente. Por todo o mundo, os papéis estão a ser revertidos.
 
02/Setembro/2019

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo. É o criador de Vltchek's World in Word and Images . Escreve especialmente para a revista online "New Eastern Outlook". O original encontra-se em journal-neo.org/... Este artigo encontra-se em http://resistir.info
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/o-ocidente-oprimiu-o-terceiro-mundo-por.html

Na rota das contra-revoluções "coloridas"

por Daniel Vaz de Carvalho [*]

As ações contra-revolucionarias do imperialismo que diretamente não usam meios militares, ditas por perverso eufemismo necessário à manipulação, "revoluções coloridas" levam-nos a colocar as clássicas questões do: "quem, como, quando, onde e porquê". É este o tema que nos propomos abordar.

1 - QUEM

Não esqueço uma frase de um filme francês de 1958, que vi ainda adolescente, num cinema de bairro, intitulado "As grandes famílias" (segundo o romance homólogo de Maurice Druon). Num diálogo entre dois donos de uma fábrica, dizia um deles (Jean Gabin) para o irmão (Pierre Brasseur): "Eu sou de direita para defender os meus interesses, tu és de direita porque odeias os operários."

Esta frase, define muito de "quem" lidera e apoia, sobretudo financeiramente, movimentos contra-revolucionários. Para além destes juntam-se as massas do lumpen proletariado, os contaminados pelo anticomunismo, os que seduzidos pela propaganda da direita se revoltam contra o que percecionam como males, a maioria das vezes causados pelas políticas de direita e acham necessário "dar uma volta a isto tudo" sob a liderança do poder hegemónico transnacional "pois são os que vão dar dinheiro", outras camadas seguem a forma como se movimenta maioritariamente o meio em que se inserem.

Podemos questionar como foi possível um troglodita político como Bolsonaro ter-se tornado Presidente de um país como o Brasil, cujas tradições revolucionárias não devem ser esquecidas sobretudo neste momento crítico da sua História. Como foi possível um títere como Macron, ser Presidente da França. Como foi possível nulidades políticas como Cavaco Silva ou Passos Coelho serem erigidos em líderes da direita e ocuparem funções das mais elevadas do Estado, etc, etc.

Estes processos contra-revolucionários têm como intenção destruir tudo o que de progressista subsista nos países e cumprir religiosamente as imposições do imperialismo. Vejamos como nos protestos anti-China de Hong Kong se encontra gente local intimamente ligada aos EUA. [1]

- Joshua Wong, 22 anos alardeado nos media ocidentais como "defensor da liberdade", promovido através de seu documentário na Netflix e recompensado com o apoio dos EUA. Por detrás de porta-vozes televisivos como Wong estão elementos mais extremistas, do Partido Nacional de Hong Kong, cujos membros participaram nos protestos agitando a bandeira dos EUA. Este partido banido oficialmente apela à independência de Hong Kong, objetivo dos radicais de Washington.

- Jimmy Lai, 70 anos, "chefe dos media de oposição", descrito como o Rupert Murdoch da Ásia, mistura de jornalismo de estilo tablóide obsceno, fofocas de celebridades e uma forte dose anti-China. Lai é o fundador e acionista maioritário da Next Digital, a maior empresa de media de Hong Kong, usada para proclamar "o fim da ditadura" chinesa".

Lai esteve recentemente em Washington, coordenando ações com membros da equipe de Trump, incluindo John Bolton. Emails revelaram que Lai entregou mais de 1,2 milhão de dólares para partidos políticos anti-China. Milhões de dólares foram entregues para projetos de mudança de regime pelo National Endowment for Democracy (NED) para organizações políticas anti-China.

- Edward Leung, 28 anos, dirigente do partido pró-independência brandiu bandeiras coloniais britânicas e assediou turistas chineses da parte continental. Em 2016, foi visto com autoridades diplomáticas dos EUA num restaurante local.

- Andy Chan, ativista pró-independência do Partido Nacional de Hong Kong, proibido, combina o ressentimento contra a China com pedidos para que os EUA intervenham. Embora não tenha ampla base de apoio, atrai uma atenção internacional desproporcional. Chan pediu que Trump intensifique a guerra comercial e acusou a China de colonialista e de realizar uma "limpeza nacional" contra Hong Kong.

- Joey Gibson, fundador da Patriot Prayer, apareceu recentemente num protesto anti-extradição em Hong Kong, transmitindo o evento para dezenas de milhares de seguidores. "Precisamos saber que a América nos apoia. Ao apoiar-nos, os Estados Unidos também estão semeando a sua autoridade moral, porque somos o único lugar na China, que compartilha seus valores, que é a mesma guerra que têm com a China".

- Martin Lee, um dos aliados de Lai, teve uma audiência com Pompeo e outros líderes dos EUA, incluindo Nancy Pelosi e o ex-vice-presidente Joseph Biden.

Wong, Martin Lee e Benny Tai Lee, professor de Direito da Universidade de Hong Kong, foram homenageados pela Freedom House, uma organização de direita financiada pela NED. A visita de Wong proporcionou ocasião para dois dos neoconservadores mais agressivos do Senado, Marco Rubio e Tom Cotton, apresentarem a "Lei dos Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong".

Se olharmos para os países ex-socialistas da Europa dos Leste e a URSS, encontramos na liderança dos projetos de contra-revolução desde social-democratas deslumbrados pelo fausto imperialista e oligárquico com Vaclav Havel e Gorbatchov, ou corruptos (e alcoólicos) como Walesa e Yeltsin que juntaram à sua volta uma rede de traidores e ambiciosos sem escrúpulos [2] . Proclamavam a democracia, os direitos humanos e a liberdade, escamoteando os crimes do imperialismo e mesmo de líderes social-democratas como no México, Venezuela, Egito, Tunísia, etc. [3]

2 - COMO

Na génese destes processos encontramos constante manipulação mediática, promoção dos protagonistas e das suas ideias. A rede por trás das manifestações é cultivada com a ajuda de milhões de dólares dos EUA, oligarquia local ligada a Washington e ONG que são a ponta visível do icebergue das conspirações organizadas pela CIA.

Relembremos Beaumarchais, em o "O Barbeiro de Sevilha": "A calúnia, senhor! Acredite que não há malícia mais repleta de horrores, não há conto absurdo, que não seja adotado pelos ociosos de uma cidade grande, (…) Primeiro um leve ruído, rasando o chão como andorinha antes da tempestade, suave, suave sussurra murmura e segue, semeando o traço envenenado. O mal está feito".

Os oligarcas dos media, organizam o processo de lavagem ao cérebro das massas populares – "para defenderem os seus interesses ou por ódio ao proletariado" – através das "fake news". Mentiras, deturpação da realidade, manipulação de imagens, omissão de factos, tornam-se o quotidiano da desinformação. Trata-se introduzir a visão de que políticas progressistas de defesa da soberania e recusa em submeter-se aos ditames do capital transnacional, constituem violação dos direitos humanos e totalitarismo. Agentes locais logo se tornam porta-vozes destas acusações, apelando à intervenção imperialista e aplicação de sanções.

Em Hong-Kong, mesmo depois da lei de extradição – que se justificava [1] – ter sido suspensa as demonstrações degeneraram em cenas de provocação e exigências impossíveis de satisfazer por qualquer Estado. Centenas de desordeiros mascarados ocuparam o aeroporto e o metro, assediaram viajantes e agrediam violentamente jornalistas e policiais. Tal como na Venezuela e noutros locais, nos media da oligarquia o vandalismo é apresentado como expressão democrática, "revolta popular" e luta "pró-democracia". A defesa de bens e a segurança dos 7,3 milhões de cidadãos de Hong-Kong é apresentada como violência policial.

Em 10 de agosto realizou-se uma manifestação em Moscovo, cujo motivo começou por ser o protesto contra candidaturas não aceites para a autarquia, dado que algumas das assinaturas dos proponentes eram falsas ou de pessoas falecidas. A jornalista Karine Bebechet-Golovko descreve o que ocorreu: [4]

Além da promoção feita pela Voz da América os media ocidentais divulgaram, como prova da ditadura do Kremlin, que candidatos da oposição tinham sido excluídos de participar nas eleições municipais em Moscovo. Uma rede social prometeu uma retribuição a quem comparecesse. Era indicado um local e hora para receber 1 000 rublos, desde tivessem tirado uma selfie e 10 fotos da manifestação transmitidas nas redes sociais. Diga-se que nada foi pago, o objetivo era juntar participantes e conseguir agitação sobretudo para os media estrangeiros.

Como verificou um jornalista local infiltrado na manifestação, havia de tudo, desde gente que não fazia a mínima ideia em termos políticos do que estava ali a fazer até jovens que foram para se divertirem e mostrar que eram "grandes", até quem estava ali "porque queria ir para a UE". A missão desta oposição politicamente ultra-minoritária é quebrar os mecanismos eleitorais, substituindo-os por efeitos de rua, onde podem participar menores, nacionais de outro país, não eleitores, etc.

A oligarquia, através dos seus media, domina e condiciona a opinião publica. Problemas sociais, reais ou não, criteriosamente escolhidos são ampliados, dramatizados e repetidos à exaustão, deixando na sombra as contradições e os dramas do sistema que defendem.

Veja-se, por exemplo, a direita PSD e CDS cavalgando as deficiências do SNS, causadas em primeira análise pelos constrangimentos das políticas orçamentais e financeiras da UE, que apoiam, quando seu objetivo ideológico, comprovado pela prática no passado, é reduzi-lo a uma expressão quase medieval em proveito de grupos privados e das Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS).

3 - ONDE

Desde o final da II Guerra Mundial, não incluindo ameaças nucleares ou outras, contam-se umas 56 intervenções militares diretas dos EUA ou com o comando das operações. Entre 1902 e 2002, registaram-se 327 golpes de Estado em 25 países latino-americanos. [5]

John Perkins em "Confessions of an Economic Hit Man" descreve com rigor e conhecimento de causa os processos de desestabilização e intervenção do imperialismo. [6]

Há dois casos típicos na escolha dos "alvos": derrubar governos progressistas, governos que mesmo não seguindo políticas progressistas defendam a sua soberania não aceitando o controlo externo de natureza imperialista ou neocolonial; países cujos recursos escapem ao controlo das transnacionais dos "países democráticos" – terminologia mediática usada para referir o domínio da oligarquia.

Um país que pretenda libertar-se do domínio do dólar, pretenda realizar uma política financeira soberana, torna-se de imediato alvo de sanções e conspirações sendo considerado totalitário e violador dos direitos humanos. Os dramas impostos à população pelas sanções, bombardeamentos, violência dos mercenários são apresentados como ações pró-democracia e de "combatentes da liberdade".

Dizia Goebbels que quanto maior a mentira, mais gente acredita nela. Estes ensinamentos não foram esquecidos, sobretudo quando se trata de caluniar tudo o que tenha a ver com soberania, socialismo ou apenas políticas de cariz progressista. A partir daqui estudam-se os pontos fracos do país, como o descontentamento de camadas que se considerem lesadas nos seus privilégios por políticas populares.

O separatismo é impulsionado por oportunistas com um mínimo de escrúpulos e gente de extrema direita, promovidos a líderes. Procura-se criar um caos que alastre para todo o país, levando à sua rendição perante o imperialismo. É o caso de Hong-Kong, como foi no Tibete, o separatismo para liquidar a Jugoslávia, a URSS, depois Rússia com a Tchetchenia, Ossécia do Norte, etc. [2]

Onde possa ser fomentado o separatismo, a região fica sujeita à depredação de mercenários ("combatentes da liberdade") o povo é entorpecido com promessas de dinheiro fácil do imperialismo ou dos "países amigos" (como os da UE, na terminologia da social-democracia) "que nos querem ajudar". Claro que, o país assim criado acaba com o povo dominado pela corrupção, por máfias e com uma dívida insustentável, garantia da sua submissão.

Na Rússia estes processos foram praticamente bloqueados obrigando organizações e ONG a apresentarem contas das suas finanças e proibindo financiamento estrangeiro.

4 - QUANDO

A passagem do capitalismo para o socialismo realiza-se através de fases de transição nas quais as leis económicas de um sistema vão dando lugar às leis económicas do outro sistema. São períodos em que se mantêm estruturas produtivas, interesses e portanto modos de pensar e agir próprios do capitalismo. Tal torna-se evidente em Hong-Kong e em muitas outras partes (como na Venezuela), independentemente do que possam ser considerados erros das políticas postas em prática.

Milhões de dólares da NED foram despejados em grupos separatistas, movimentos de estudantes e falsos "formadores de opinião" sob o lema de "construção da democracia". Em Hong Kong desde 2017, a NED aplicou 1,7 milhão de dólares em subsídios, um aumento significativo em relação aos 400 milhões aquando do fracassado "Ocuppy HK" de 2014.

Quando o trabalho preparatório permite criar uma massa crítica de descontentamento, a ação é desencadeada num momento decidido pelos EUA em conluio com as "quintas colunas" locais, aproveitando a tomada de qualquer decisão mais polémica.

Precedendo o fim da URSS foi realizado um referendo em que, apesar da intensa propaganda anticomunista da "perestroika", a população manifestou-se de forma esmagadora a favor da manutenção da URSS (entre 70,4% na Ucrânia e 90% em Repúblicas da Ásia). Mas o social-democrata Gorbatchov considerou que não era vinculativo (!) e Ieltsin agravou a tragédia bombardeando um Parlamento que era desfavorável aos desígnios de traição e submissão ao imperialismo.

PORQUÊ

Sanções, promoção de contra-revoluções, ameaças ou intervenções militares, são formas de violência a que os EUA/NATO recorrem dado que perderam a capacidade de defender o que consideram serem os seus interesses (os da oligarquia). Os invertebrados políticos e éticos da UE aderem sem peso na consciência. Mas não são sintomas de força, são de perda de poder e de controlo sobre o resto do mundo.

A propaganda mediática apoiada com milhões de dólares difunde uma visão idílica da "american way of life" hollywoodesca, ignorando uma sociedade disfuncional com 40 milhões de pobres, centenas de milhares de sem abrigo, mais de 2 milhões de presos, enquanto cada ano centenas de pessoas são mortas pela polícia e 70 mil morrem de overdose, sem falar nos massacres de tresloucados que disparam sobre multidões. Porém, o que deve ser considerado exemplo de disfuncionalidade social e crise – de que o povo dos EUA é também vítima – são atributos para os que querem ser líderes aliados ao "excecionalismo dos EUA" (versão atual do Herrenvolk) e "meter o proletariado na ordem"

Gente incensada no ocidente (NATO e aliados) como Vaclav Havel ou a corrupta corte de Ieltsin apelava à intervenção direta do imperialismo para estabelecer a "democracia". Mas esta democracia oligárquica não vai além da arbitrariedade feudal, reclamada então como "liberdades feudais".

O rasto destas contra-revoluções "coloridas" está pleno de crimes e miséria humana: guerras civis, horrores das "máfias" e dos mercenários (Afeganistão, Líbia, Síria, Sudão, Iémen, etc) domínio de poderes fascistas como na Ucrânia, Polónia, etc, apoiados pelas "democracias". Situações que a UE dos "valores" silencia ou distorce e apoia.

A questão é que os EUA perderam a superioridade militar. A Rússia tem capacidade militar para ripostar no próprio território dos EUA. [7] Nestas condições o Pentágono elaborou um estudo baseado numa guerra nuclear contra Rússia a partir da Europa (claro!) em que sairiam vencedores (claro, claro!). Por outro lado, o desenvolvimento das capacidades militares da China dotou-a de um potencial balístico capaz de destruir bases e navios dos EUA na Ásia e no Pacífico.

Os EUA e a UE encaminham-se para mais uma crise sem terem resolvido a de 2008, porém aumentam as despesas militares e cortam nas sociais. Acresce o endividamento federal dos EUA (22, 5 milhões de milhões de dólares, 105,6% do PIB, crescendo ao ritmo de 1 milhão de milhões por ano), Esta situação de crise económica e social, assente numa montanha de capital fictício de dívidas e especulação, não tem fim nem solução à vista dentro do sistema, conduzindo a uma crescente insanidade agressiva.

Nos EUA as divergências políticas não são entre partidos, para além de protagonismos reduzem-se a como expandir e consolidar o imperialismo e o mecanismo de domínio do dólar. Podem reduzir-se a duas variantes: os adeptos da guerra a curto prazo, criando conflitos armados em zonas que chocam com a segurança e interesses estratégicos da Rússia e da China. A outra corrente defende um prazo mais longo de desgaste prosseguindo com as contra-revoluções ditas coloridas, aplicando sanções, criando conflitos artificiais e mobilizando a opinião pública contra todos os que não aceitem a suserania de Washington.

A questão é que o tempo passa e as contradições do capitalismo agravam-se. A necessidade objetiva do capital de contrariar a lei da queda tendencial da taxa de lucro, seja com tecnologias mais avançadas, com maior taxa de exploração, com a expansão de mercados submetidos aos seus interesses, conduzem de imediato ao agravar das contradições, para além de alguma aparente recuperação transitória.

Por isso, podemos dizer que o imperialismo e associados se encontram num labirinto, do qual a insanidade de tresloucados constitui o principal perigo para a paz no mundo, ardilosamente camuflado com hipócritas "boas intenções" ambientalistas.

Perante a ofensiva contra-revolucionária impõe-se como uma prioridade o esclarecimento ideológico das camadas populares, a par de medidas visando a soberania nacional, políticas anti-monopolistas e anti-oligárquicas e avanço de formas de transição para o socialismo, única via para superar as crescentes contradições antagónicas do capitalismo, dar lugar à paz e também à real defesa do ambiente.

Notas
[1] Dan Cohen, Behind a made-for-TV Hong Kong protest narrative, Washington is backing nativism and mob violence, www.informationclearinghouse.info/52123.htm
[2] Ver: Do fim da URSS à atual Russofobia Notas de Dimitri Rogozin, um embaixador russo junto da NATO resistir.info/v_carvalho/rogozin_resenha_1.html e resistir.info/v_carvalho/rogozin_resenha_2.html
[3] Carlos Andrez Perez, Venezuela, tratado por "camarada" por Filipe Gonzalez, responsável por 3 000 mortos no Caracazo de 1989; Paz Zamora, Bolívia, apoiado pela IS; os ditadores Ben Ali da Tunísia e Mubarac do Egito membros da IS. Ben Ali só excluído da IS após a repressão de 2011. A IS silencia os crimes da Colômbia, silenciou os crimes de Israel, dos contra na Nicarágua e o derrube de Jacob Arbenz, mas ataca todos os que se opõem ao FMI e ao neoliberalismo.
[4] Karine Bechet-Golovko Russie : Comment ont été recrutés les manifestants du 10 août par l'opposition www.legrandsoir.info/...
[5] Ángeles Maestro, E o génio escapou-se da garrafa… Uma imagem da Revolução Bolivariana da Venezuela em Março de 2018, www.odiario.info/e-o-genio-escapou-se-da/
[6] John Perkins Confessions of an Economic Hit Man, Berrett-Koehler Publishers, Disponível em resistir.info/livros/john_perkins_confessions_of_an_economic_hit_man.pdf
[7] A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA, um livro de Andrei Martyanov, resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_1.html e resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_2.html

Ver também:

 

[*] Autor de Amanhecer em Porto Desejado, uma história de amor, união e resistência, no cenário da América do Sul, www.facebook.com/EmporiumEditora/videos/1974035789374330/ (wook.pt, fnac.pt) e O triunfo de Diana e outros Contos (bertrand.pt)

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/v_carvalho/c_revolucoes_coloridas.html

Inédito: EUA oferecem US$ 15 milhões por informações contra o Irã

Brian Hook, representante dos EUA para o Irã após declaração sobre a criação do Grupo de Ação para o Irã
© AP Photo / Cliff Owen

Os Estados Unidos ofereceram uma recompensa de até US$ 15 milhões por informações com o objetivo de minar mecanismos financeiros do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.

A oferta busca também informações sobre vendas de petróleo e navios-tanque, segundo informou o Departamento de Estado dos EUA em nota publicada nesta quarta-feira (4).

"O setor de Recompensas por Justiça do Departamento de Estado dos EUA (RFJ) está oferecendo uma recompensa de até US$ 15 milhões por informações que levem à interrupção dos mecanismos financeiros da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e suas filiais", diz a nota.

O texto acrescenta que a recompensa "inclui buscar informações sobre as vendas ilícitas de petróleo" da Guarda Revolucionária iraniana.

Em comentários posteriores, o representante especial dos EUA, Brian Hook, disse que essa ação marca a primeira vez que os Estados Unidos oferecem recompensa por informações que perturbam as operações financeiras de uma entidade governamental. Ele acrescentou que a ação era necessária porque o IRGC age mais como uma organização terrorista do que como um governo.

Hook também alertou os operadores portuários para que evitem negociações com qualquer navio petroleiro vinculado ao Irã, o que violaria as sanções impostas ao Irã.

O representante acrescentou que a guarda iraniana utiliza as receitas do petróleo para financiar atividades do Hezbollah, Hamas, Houthis no Iêmen e forças no Iraque e na Síria.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019090414476674-inedito-eua-oferecem-us-15-milhoes-por-informacoes-contra-o-ira/

Donald Trump, trará ele a paz?

 
 
Thierry Meyssan*
 
Depois de dois anos e meio no Poder, o Presidente Donald Trump está a ponto de impor os seus pontos de vista ao Pentágono. Ele que pôs fim ao projecto de «Sunistão», do Daesh, entende acabar com a doutrina Rumsfeld/Cebrowski de destruição das estruturas estatais do Médio Oriente Alargado. Se o conseguir, a paz regressará à região assim como à Bacia das Caraíbas. No entanto, os povos que tiverem sobrevivido ao imperialismo militar terão ainda de lutar pela sua soberania económica.
 
Desde há dois anos e meio, os Estados Unidos empregam paralelamente duas estratégias contraditórias e incompatíveis [1]. 
-- De um lado, a destruição das estruturas estatais de grandes regiões —o Médio Oriente Alargado desde 2001, depois a Bacia das Caraíbas desde 2018—, apoiada pelo Departamento da Defesa (doutrina Rumsfeld/Cebrowski) [2]; 
-- Do outro, o controle do mercado mundial de energia (doutrina Trump/Pompeo), apoiado pela Casa Branca, a CIA e o Departamento de Estado [3].
 
Parece que o Presidente Donald Trump está a ponto de impor as suas ideias à sua Administração, ainda dominada pelos funcionários e militares das eras Bush Jr e Obama, e deste modo anunciar as consequências a 19 de Setembro, aquando da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas: a paz no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Iémene, na Venezuela e na Nicarágua.
 
 
Anunciada durante a sua campanha eleitoral em 2016, teremos a passagem de uma lógica beligerante de conquista para uma outra, pacífica, de hegemonia económica, que não está ainda formalmente decidida.
 
Mesmo depois de uma vez assumida, uma tal reviravolta não se dará num dia. E ela será acompanhada por um preço a pagar.
 
Em relação ao principal conflito actual, a Síria, os princípios de um acordo foram negociados entre os Estados Unidos, o Irão, a Rússia e a Turquia. 
-- Não se tocará nas fronteiras do país e não se criará nenhum novo Estado (nem «Sunistão» do Daesh (E.I.) [4], nem «Curdistão» do PKK). Mas o país será neutralizado : as bases militares legais da Rússia na costa mediterrânica serão equilibradas por postos norte-americanos permanentes —de momento ilegais— no Nordeste do país.
-- Nenhum "pipeline" atravessará o país, seja catariano ou iraniano. A Rússia explorará os hidrocarbonetos, mas os Estados Unidos deverão ser-lhe associados [5]. 
-- A reconciliação síria será autorizada em Genebra, durante a elaboração de uma nova Constituição por um Comité representativo das diversas forças em conflito.
-- As empresas dos EUA deverão participar, directa ou indirectamente, na reconstrução da Síria.
 
O processo preparatório deste acordo está apenas no seu início. Desde há dois meses, o Exército Árabe Sírio foi autorizado a reconquistar a província de Idlib ocupada pela Alcaida [6] e os Estados Unidos ajudam-no ao bombardear aí o QG da organização terrorista [7]. Depois, os Estados Unidos começaram a desmantelar as fortificações do pseudo-Curdistão (o «Rojava») [8], ao mesmo tempo desenvolvendo as das sua bases militares ilegais, nomeadamente em Hasaka. De momento, o componente económico do plano não arrancou. Os Estados Unidos cercam a Síria desde o Outono de 2017 e sancionaram as empresas estrangeiras —à excepção das emiradenses— que ousaram participar na 61ª Feira Internacional de Damasco (28 de Agosto-6 de Setembro de 2019) [9]. A reconstrução do país permanece bloqueada.
 
Simultaneamente, na Bacia das Caraíbas, iniciaram-se discretamente negociações em Junho de 2019 entre os Estados Unidos e a Venezuela [10]. Enquanto Washington repete ainda que a reeleição de Nicolás Maduro, em Maio de 2018, é nula e sem efeito, já está fora de questão entre os diplomatas denegrir o chavismo ou «julgar o ditador», mas, sim, abrir uma porta de saída ao «Presidente constitucional» [11]. Os Estados Unidos estão prontos para abandonar o seu projecto de destruição das estruturas estatais se forem associados à exploração e ao comércio do petróleo.
 
Será fácil para pseudo-intelectuais explicar que os Estados Unidos realizaram todas estas manobras de desestabilização e de guerra unicamente por causa do petróleo. Mas esta teoria não dá conta daquilo que se passou durante dezoito anos. O Pentágono atribuira-se a missão de destruir as estruturas estatais destas regiões. Conseguiu-o no Afeganistão, na Líbia e no Iémene, parcialmente no Iraque, e nada na Síria. Somente agora é que a questão do petróleo volta ao topo das prioridades.
 
A estratégia Trump/Pompeo é uma nova calamidade para as regiões petrolíferas, mas ela é infinitamente menos destrutiva do que a de Rumsfeld/Cebrowski, a qual tem devastado o Médio Oriente Alargado desde há duas décadas com as suas dezenas de milhar de torturas e as suas centenas de milhar de mortes.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] “A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Março de 2019.
[2] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.
[3] “Mike Pompeo Address at CERAWeek”, by Mike Pompeo, Voltaire Network, 12 March 2019. “Geopolítica do petróleo na era Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Abril de 2019.
[4] “Imagining a Remapped Middle East”, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, September 28, 2013. “A Coligação dividida sobre os seus objectivos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2014.
[5] “Os Estados Unidos e Israel vão pilhar o petróleo da Síria ocupada”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 21 de Julho de 2019.
[6] “Libertação parcial da província de Idlib”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Agosto de 2019.
[7] “Os EUA bombardeiam a Alcaida em Idlib”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Setembro de 2019.
[8] “Curdos destroem as suas fortificações no «Rojava»”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Agosto de 2019.
[9] “Parâmetros e Princípios da Assistência das Nações Unidas na Síria”, Jeffrey D. Feltman, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Rede Voltaire, 15 de Outubro de 2017. “A Rússia denuncia a diarquia na ONU e nos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 28 de Agosto de 2018. «Comentario ruso sobre los intentos de Estados Unidos de sabotear la Feria Internacional de Damasco», Red Voltaire , 27 de agosto de 2019.
[10] “Contatos secretos EUA-Venezuela”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Agosto de 2019.
[11] “U.S. Offers Amnesty to Venezuelan Leader, if He Leaves Power”, Lara Jakes & Anatoly Kurmanaev, The New York Times, August 28, 2019.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/donald-trump-trara-ele-paz.html

Nazistas contra o mundo – 80 anos da 2ª Grande Guerra

Hitler e os nazistas tentaram destruir raças vistas como inferiores, o movimento comunista e a URSS. Não conseguiram!

 

 

O início da 2ª Grande Guerra completou 80 anos em 1º de setembro. Foi nesse dia, em 1939, que ocorreu o ataque da Wehrmacht (o exército alemão) à Polônia. Foi o início do conflito que durou seis anos – os nazistas se renderam em 8 de maio e os japoneses capitularam em 2 de setembro de 1945.

Dois dias depois, em 3 de setembro, em cumprimento a um acordo com a Polônia, Inglaterra e França declararam guerra à Alemanha, embora com pequeno apoio militar ao aliado agredido. O mais significativo foi o bloqueio naval à Alemanha, na tentativa de sufocar economicamente o país.

De qualquer maneira, estava criada a situação para a generalização da guerra, que logo depois se estendeu por toda a Europa e, em junho de 1941, à União Soviética (URSS). E, na Ásia, envolveu a agressividade japonesa por todo o continente.

Foi uma tragédia bélica enorme. O número de mortos se conta aos milhões: foram entre 50 milhões e mais de 70 milhões – dos quais 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas, 14 milhões de chineses mortos pelos invasores japoneses e mais de 27 milhões de russos (entre os quais mais de 13 milhões de civis), vítimas da ocupação nazista.

A 2ª Grande Guerra foi o mais violento e letal episódio da luta de classes que marcou aquele que foi o período do início da luta pelo socialismo: o século 20. Século que o historiador Eric Hobsbawm chamou de “breve”, limitado pelos anos de 1914 e 1991, que indicam o início da 1ª Grande Guerra e o fim da União Soviética.

Hobsbawm deu ao capítulo inicial de seu livro sobre o século 20 justamente o título de “A era da guerra total”. E disse que não se pode compreender o século 20 sem que se entenda a 1ª Grande Guerra e o período prolongado de confrontos que ela iniciou, do qual a 2ª Grande Guerra, que começou duas décadas depois do fim do primeiro conflito mundial, foi um episódio muito mais sangrento e destruidor.

O século 20 inaugurou a época dos confrontos bélicos de proporções gigantescas. Eles “iriam dar-se numa escala muito mais vasta do que qualquer coisa experimentada antes”, diz o historiador; ele avalia que a guerra de 1914 inaugurou “a era do massacre”, que prosseguiu e se aprofundou no conflito iniciado em 1939.

A conjuntura foi além do confronto nacional e inter-imperialista. No período imediatamente posterior ao fim da 1ª Grande Guerra, um componente importante no enfrentamento mundial foi a formação, desde 1917, na Rússia, do primeiro Estado socialista, algo inaceitável – e ameaçador – para as classes dominantes das grandes potências. Essa luta marcou a política externa naqueles anos. Luta contra o socialismo, o proletariado organizado e o movimento revolucionário anticapitalista e anti-imperialista.

O tratado de Versalhes – que pôs fim à guerra, em 1919 – aprofundou o tempo da revolução proletária, que vinha desde as revoluções de 1848 na Europa e, sobretudo, desde a Comuna de Paris, de 1871, e sucedeu, no plano histórico, o tempo da revolução burguesa. No documento “A Guerra e a Social-Democracia na Rússia”, de 28 de setembro de 1914, Lênin escreveu: “O aumento dos armamentos, a extrema agudização da luta pelos mercados na época do estágio atual, imperialista, do desenvolvimento do capitalismo nos países avançados e os interesses dinásticos das monarquias mais atrasadas da Europa Oriental, deviam conduzir inevitavelmente, e conduziram, a esta guerra”.

O conflito entre esses interesses contraditórios tinha o objetivo de “conquistar terras e subjugar nações estrangeiras, arruinar a nação concorrente, saquear as suas riquezas, desviar a atenção das massas trabalhadoras das crises políticas internas da Rússia, da Alemanha, da Inglaterra e de outros países”, o “extermínio de sua vanguarda [dos trabalhadores] com o objetivo de debilitar o movimento revolucionário do proletariado”. Tratava-se, concluia Lênin, do “único real conteúdo, significado e sentido da atual guerra”.

Os objetivos imperialistas presentes no primeiro conflito mundial foram mantidos na 2ª Grande Guerra, com um agravante para a política das grandes potências capitalistas: a luta pelo socialismo não era mais apenas parte de um programa revolucionário – o novo e mais avançado sistema social era agora concreto e estava sendo construído na União Soviética.

Isto é, longe de exterminar o movimento revolucionário dos trabalhadores, o primeiro conflito mundial serviu para impulsioná-lo, e a guerra terminou com uma ameaça ainda maior para o domínio da burguesia e seus aliados: a Revolução Russa de 1917, a conquista revolucionária do poder e o início da construção do primeiro estado socialista da história.

Lênin havia acentuado que, entre os objetivos guerreiros das grandes potências, havia a disposição de derrotar a luta dos trabalhadores e afastar o fantasma da revolução proletária. Não foi o que ocorreu, e a conjuntura posterior ao término da guerra, em 1919, acentuou aquele propósito contrarrevolucionário.

O arranjo de classes surgido após a Revolução Francesa do final do século 18 tinha, em sua base, a aliança entre a burguesia e a plebe de trabalhadores urbanos e camponeses. Esse arranjo se desfez quando o acirramento da luta de classes culminou, na Europa, com o surgimento, em meados do século 19, do programa claramente operário e popular, que emergiu nas jornadas de 1848, quando o levante das massas nas principais nações foi percebido como ameaçador pela burguesia e seus aliados. Foi naquele contexto que Karl Marx e Friedrich Engels redigiram o Manifesto Comunista, registrando o programa e os objetivos das forças avançadas e revolucionárias.

A aliança de classes pelo progresso social e o avanço civilizacional foi rompida desde então – e a burguesia, temerosa, juntou-se à aristocracia, em defesa da ordem e da propriedade. Marx registrou essa mudança em O Capital: A “insurreição parisiense de junho e sua sangrenta repressão fez com que se unissem em bloco, tanto na Inglaterra como na Europa Continental, todas as frações das classes dominantes, latifundiários e capitalistas, especuladores da Bolsa, lojistas protecionistas e livre-cambistas, governo e oposição, padres e livre pensadores, jovens prostitutas e velhas freiras, sob a bandeira comum da salvação da propriedade, da religião, da sociedade!”.

A velha e decadente aristocracia europeia, e as monarquias que Lênin incluiu entre as mais atrasadas (alemã, austro-húngara e russa) teve uma sobrevida, passando a governar ao lado da burguesia em arranjos contrarrevolucionários e antidemocráticos, dos quais o fascismo é um exemplo candente. E que levaram até as primeiras décadas do século 20 práticas do velho absolutismo.

Os impérios alemão, russo, austro-húngaro e otomano chegaram a 1919 derrotados. Na Rússia, os revolucionários bolcheviques tomaram o poder e iniciaram a construção, em meio a grandes dificuldades, do primeiro Estado socialista da história. Os impérios austro-húngaro e otomano foram estilhaçados em inúmeros pequenos países, cujas contradições não resolvidas foram fatores de instabilidade no período entre-guerras.

A Alemanha, sufocada pelas exigências impostas pelas potências vencedoras (com França e Grã-Bretanha à frente) e tolhida pelas contradições de classe não resolvidas dentro do país, que resultaram nas crises sucessivas da república de Weimar, foi – alguns anos depois, em 1933 – dominada pelo governo racista, xenófobo e radicalmente antidemocrático de Adolf Hitler e dos nazistas.

A existência da União Soviética foi o fator mais radical na conjuntura de entre- Guerras. E o enfrentamento do socialismo moveu a principal contradição da política externa mundial naqueles anos. Era uma situação contraditória, com vários e graves desdobramentos diplomáticos nos quais as potências ocidentais esperavam conter e apaziguar o belicismo nazista e ao mesmo tempo o dirigir contra a URSS, que esperavam ver destruída.

As potências ocidentais fizeram vistas grossas quando os alemães, em 1936, ocuparam a Renânia, a qual o tratado de Versalhes havia incorporado à França. Ante o crescimento das ameaças nazistas, fizeram um tratado com Hitler – o vergonhoso Acordo de Munique, de 29 de setembro de 1938, que entregou a Tchecoslováquia à sanha nazista. Os russos foram deixados de fora das negociações daquele acordo, e isso foi corretamente interpretado pelo governo de Moscou como uma forma ceder à violenta retórica antissoviética de Hitler e incentivar sua ação contra o país dos soviétes.

A Grã-Bretanha assinou também, em março de 1939, um acordo de cooperação militar com a Polônia, com o compromisso de defendê-la contra qualquer agressão estrangeira – o que a levou à declaração de guerra contra a Alemanha, em 3 de setembro de 1939.

Em 1939, houve uma tentativa de acordo de não agressão entre França, Grã Bretanha e URSS. As negociações foram iniciadas em março, em Moscou, e os três países buscavam um acordo militar e político. O governo soviético estava premido ante duas ameaças, a dos nazistas, de um lado, e a das potências imperialistas, de outro, que poderiam tentar reforçar o “cerco capitalista” contra o país do socialismo. Na tentativa de acordo, a liderança soviética pretendia uma aliança que afastasse o perigo de uma guerra com o Ocidente e previsse o apoio caso fosse atacada pelos nazistas.

Quando os russos propuseram que uma virada pró-Alemanha nazista nos governos dos Estados Bálticos fosse considerada uma “agressão indireta” à URSS, os britânicos não aceitaram, e a tentativa de acordo chegou ao fim em julho. As negociações militares prosseguiram, também sem êxito. Uma demonstração da falta de seriedade britânica nessas negociações foi o fato de que seu principal negociador, o almirante Sir Reginald Drax, não tinha sequer as necessárias credenciais, não estando assim autorizado a garantir qualquer coisa à URSS – mas tinha orientação do governo de Londres para prolongar as discussões pelo maior tempo que pudesse.

Ante a nítida complacência – ou cumplicidade mesmo… – entre as potências europeias e os nazistas e, pressionado entre dois adversários igualmente ferozes, o governo soviético assinou com a Alemanha, em 23 de agosto de 1939, o Tratado de Não Agressão Germano-Soviético, também conhecido como Pacto Nazi-Soviético, ou Pacto Molotov-Ribbentrop, lembrando os ministros de relações exteriores que o assinaram – o nazista Joachim von Ribbentrop e o soviético Vyacheslav Molotov.

Foi um acordo inusitado, entre dois adversários ferozes. Mas fez parte do esforço do governo soviético para preparar o país ante a ameaça de agressão que se desenhava. No caso de Hitler, o acordo era necessário para deixar suas mãos livres para agir, sem o risco de uma dupla frente de batalha – França e Inglaterra a oeste e URSS no leste.

Hitler e os nazistas já se preparavam para a invasão da Polônia, que ocorreu uma semana depois da assinatura do tratado com a URSS. Os soviéticos viam a agressão alemã como inevitável, e o governo de Moscou pretendia – com aquele acordo – ganhar tempo para preparar a economia, a indústria e as forças armadas para defender o país.

Os sinais de uma próxima agressão nazista se multiplicavam. Hitler e a ideologia nazista consideravam os eslavos “untermenschen” (inferiores, subumanos), e nunca esconderam o objetivo de criar um vazio populacional no leste da Europa, dizimando os eslavos e ocupando seu território com colonos alemães naquilo que chamavam de “lebensraum” (“espaço vital”).

A guerra para ocupar esse “espaço vital” e expandir o território alemão no leste europeu havia sido prevista por Hitler em 1925, no livro Mein Kampf (Minha Luta). O alvo era a Rússia soviética e os povos eslavos ao leste da Alemanha. Em 1934, Hitler falou sobre o que considerava uma inevitável batalha contra o eslavismo, na qual esperava equivocadamente ter a ajuda de um eventual levante do povo russo contra o governo soviético.

O objetivo soviético no tratado com a Alemanha era ganhar tempo e preparar a pátria socialista para uma guerra que se avizinhava e na qual seria o alvo principal. Agressão externa movida pelos nefastos objetivos nazista – a luta racial contra os eslavos – ligado à meta das demais potências imperialistas – a luta de classes, para destruir a ameaça representada pela construção do socialismo na URSS.

O fôlego ganho pelos soviéticos durou menos de dois anos – os nazistas invadiram a URSS em 22 de junho de 1941, menos de dois anos após a assinatura do pacto de não agressão. Aquele período foi bem aproveitado. Já em setembro de 1939, poucas semanas depois da assinatura do pacto entre Berlim e Moscou, o governo russo construiu nove fábricas de aviões e reformou as que existiam. “A indústria começou então a funcionar em ritmo frenético”, escreveu William l. Shirer. Novos tanques de guerra surgiram, entre eles o T-34 (considerado o melhor então existente) e o carro pesado KV. Em 1940 a fabricação de material bélico cresceu 27% em relação a 1939. Quando a invasão alemã começou, os soviéticos tinham fabricado 2.700 aviões de tipos novos e 4.300 carros-de-combate.

Uma operação de defesa empreendida então foi a mudança do grosso da indústria soviética para leste dos montes Urais que, assim, passavam a ser uma muralha natural contra uma eventual invasão. Em janeiro de 1942, 1.523 fábricas (entre elas 1.360 de materiais bélicos) haviam sido transferidas e estavam em operação normal.

A alta direção nazista previa uma ação rápida; o ministro de relações exteriores, Ribbentrop, refletiu o estado de espírito da cúpula nazista e chegou a prever que a Rússia seria “riscada do mapa em oito semanas”. Ele se enganou, na companhia de ingleses e americanos. Em Londres, calculava-se que duraria apenas alguns meses; o ministro da guerra dos EUA, Henri Stimson pensava que o “máximo imaginável” seria entre um a três meses.

Mas logo nazistas e a liderança ocidental perceberam que a invasão não seria um passeio. Já no dia 1º de agosto, a pouco mais de um mês do início da agressão, Joseph Goebbels, o todo-poderoso ministro nazista da Propaganda, escreveu em seu diário: “Os bolcheviques revelam uma resistência maior do que havíamos suposto; sobretudo os meios materiais à sua disposição são maiores do que pensamos”. Em 16 de setembro, ele reconheceu que haviam errado: “havíamos calculado o potencial dos bolcheviques de modo todo errado”.

Um general alemão, Guenther Bluimentritt, também reconheceu que as tropas russas eram em maior número e mais bem equipadas do que os nazistas achassem que fosse possível. Outro comandante nazista, o marechal de campo Gerd von Rundstedt, foi direto e admitiu, sem rebuços, quando foi interrogado pelos seus captores depois da guerra: “Percebi, logo depois de termos começado o ataque, que tudo o que se escrevera sobre a Rússia não passara de tolices”.

A resistência popular contra a ocupação nazista começou a ser preparada logo no início da invasão. Em 27 de junho, cinco dias após a agressão alemã, o governo soviético começou a organizar a ação guerrilheira como força complementar à do exército regular. Ela foi, disse o historiador Henri Bernard, uma gigantesca operação militar em harmonia com os planos de luta e com “apoio total da população”. Um dos maiores enganos da cúpula nazista foi a crença na revolta popular antissocialista, que favorecesse a ocupação. Era uma ilusão: o patriotismo do povo guiou a resistência e a unidade em torno do governo soviético.

O ataque nazista foi interrompido nas batalhas de Moscou (2/10/1941-7/1/1942), Stalingrado (23/8/1942-2/2/1943, considerada o início da derrota nazista na guerra) e Kursk (4/7/1943-23/8/1943), e no heroísmo russo no cerco a Leningrado (8/9/1941 – 27/1/1944). Essas derrotas das tropas nazistas foram decisivas, sobretudo em Stalingrado; assinalam a virada da guerra e o início da derrota da aventura guerreira – e assassina – dirigida por Adolf Hitler.

Em poucos meses, as forças soviéticas chegaram aos países ocupados pelos nazistas no Leste da Europa, e, em abril de 1945, ao território da Alemanha, cuja capital, Berlim, foi tomada por eles. A nova conjuntura da guerra deixou claro que a pretensão imperialista de usar Hitler e os nazistas contra o país do socialismo fracassara. As vitórias russas deixavam cada vez mais visível a destruição dos nazistas, com as tropas russas movendo-se rapidamente para o Ocidente europeu. Começou então a corrida, entre os aliados, pela abertura da frente ocidental – reclamada pelos russos desde 1941. Várias ações militares ocorreram então no ocidente europeu, contra os nazistas – a principal delas foi o chamado “Dia D” (06/06/1944), o desembarque de tropas aliadas na Normandia.

Uma das lendas ideológicas de nosso tempo assegura que quem venceu a guerra foram os “aliados”, acentuando a participação dos EUA e da Inglaterra. Que foi de fato, importante. Mas o envolvimento decisivo foi o dos soviéticos, que suportaram o grosso da guerra em seu território e derrotaram a agressão nazista. O historiador estadunidense John Bagguley, que não se rende à ideologia e reconhece a verdade histórica, escreveu que a 2ª Grande Guerra foi, na verdade, “uma guerra soviético-germânica, com a ação inglesa e americana apenas na periferia”.

A história contada em filmes e muitos livros destaca o papel dos EUA na guerra contra Hitler. Mas o principal esforço de guerra dos nazistas voltou-se contra a URSS – que, praticamente sozinha, enfrentou e derrotou a ofensiva guerreira da Alemanha nazista, ao custo de 27 milhões de mortos.

 
 
  • Bagguley, John. “A guerra mundial e a guerra fria”. in Horowitz: 1969
  • Bernard, Henri. “Historia de la resistencia europea”. Barcelona, Ediciones Orbis, 1986
  • Hobsbawm, Eric. “Era dos extremos – O breve século XX” -1914-1991. São Paulo, Cia das Letras, 1995
  • Hobsbawm, Eric. “História do Marxismo”. Vol. VI. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1985
  • Hajek, Micos. “A discussão sobre a frente única e a revolução abortada na Alemanha”. In Hobsbawm: 1985
  • Horowitz, David (org.). “Revolução e Repressão”. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1969
  • Lênin, V. I. “A Guerra e a Social Democracia na Rússia”. In Lênin, V. I. “Obras Escolhidas”, T. 1. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1979
  • Loureiro, Isabel. “A revolução alemã (1918-1923)”. São Paulo, Editora UNESP, 2005
  • Marx, Karl. “O Capital”. Vol. 1. México DF, Fundo de Cultura Económica, 1978 (Cap. VIII, Item 6)
  • Mayer, Arno. “A força da tradição”. São Paulo, Cia das Letras. 1987
  • Mayer, Arno. “Dinâmica da contra revolução na Europa, 1870-1956”. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1977
  • Shirer, William. “Ascensão e queda do Terceiro Reich”. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1975
  • Volkogonov, Dimitri. “Stalin: triunfo e tragédia – 1939-1953”, (vol. 2). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004

Texto em português do Brasil


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Subitamente o ocidente já não consegue derrubar "regimes"

por Andre Vltchek [*]

Goya, Ascens Costumava ser feito regularmente e funcionava: O ocidente identificava um país como seu inimigo, desencadeava sua propaganda profissional contra ele, a seguir administrava uma série de sanções, esfaimando e assassinando crianças, idosos e outros grupos vulneráveis. Se o país não entrasse em colapso num prazo de meses, ou num par de anos, começaria o bombardeamento. E a nação, totalmente abalada, em sofrimento e em desordem entraria em colapso como um castelo de cartas, antes de as primeiras botas da NATO pisassem seu terreno.

Tais cenários foram reencenados, múltiplas vezes, desde a Jugoslávia até o Iraque.

Mas subitamente algo significativo aconteceu. Este horrendo desrespeito à lei, este caos, cessou; foi travado.


 

O ocidente continua a utilizar as mesmas tácticas, mantém-se a aterrorizar países independentes, a assustar os povos, da derrubar o que ele define como "regime", mas o seu poder monstruosamente destrutivo subitamente tornou-se ineficaz.

Ele ataca e a nação atacada treme, chora, sangra, mas mantém-se de pé, orgulhosamente erecta.

Vivemos um grande momento da história da humanidade. O imperialismo ainda não foi derrotado, mas está a perder seu domínio mundial de poder.

Agora temos de entender claramente o "porque", de modo a que possamos continuar nossa luta com ainda maior determinação, com ainda maior eficácia.

Acima de tudo, agora sabemos que o ocidente não pode combater. Ele pode gastar triliões em "defesa", pode construir bombas nucleares, "mísseis inteligentes" e aviões de guerra estratégicos. Mas é demasiado covarde, demasiado mimado para arriscar as vidas dos seus soldados. Ele ou mata remotamente ou através de utilização de mercenários regionais. Sempre que se torna evidente a necessidade das suas tropas, ele recua.

Em segundo lugar, ele, o ocidente, está totalmente horrorizado diante do facto de que agora há dois países super-potência – China e Rússia – os quais estão relutantes em abandonar seus aliados. Washington e Londres fazem tudo o que podem para enlamear a Rússia e intimidar a China. A Rússia está a ser provocada continuamente: pela propaganda, pelas bases militares, sanções e pelas novas e cada vez mais bizarras invenções dos mass media que as pintam como o vilão em todas as circunstâncias imagináveis. A China tem sido provocada praticamente e de modo insano em todas as frentes – desde Formosa, Hong Kong, Tibete e na assim chamada "questão uyghur" até no comércio.

Qualquer estratégia que possa enfraquecer estes países é aplicada. Mas a Rússia e a China não sucumbem. Eles não se rendem. E não abandonam seus amigos. Estão, ao invés, a construir grandes ferrovias na África e na Ásia, educam pessoas de quase todos os países pobres e desesperados, e apoiam aqueles que estão a ser aterrorizados pela América do Norte e a Europa.

Em terceiro lugar, todos os países do mundo agora estão claramente conscientes do que lhes aconteceria se abandonassem e se "libertassem" do império ocidental. O Iraque, as Honduras, a Indonésia, a Líbia e o Afeganistão são os "melhores" exemplos. Ao submeterem-se ao ocidente, os países não podem esperar senão a miséria, o colapso absoluto e a extracção implacável dos seus recursos. O país mais pobre da Ásia – o Afeganistão – está totalmente afundado sob a ocupação da NATO.

O sofrimento e a dor do povo afegão e iraquiano é muito bem conhecido dos cidadãos do Irão e da Venezuela. Eles não desistem, porque não importa quão dura seja a sua vida sob sanções e o terror administrado pelo ocidente, estão bem conscientes do facto de que as coisas podiam ficar pior, muito pior, se os seus países fossem ocupados e governados pelos maníacos injectados por Washington e Londres.

E todos sabem o destino do povo que vive na Palestina ou na Alturas de Golan, lugares invadidos pelo mais estreito aliado do ocidente no Médio Oriente, Israel.

É claro que há outras razões porque o ocidente não consegue por de joelhos seus adversários.

Uma delas é que os mais resilientes são deixados. A Rússia, Cuba, China, Coreia do Norte (RDPC), Irão, Síria e Venezuela não vão fugir do campo de batalha. Trata-se de países que já perderam milhares, milhões, mesmo dezenas de milhões de pessoas, no combate contra o imperialismo e o colonialismo ocidental.

Se alguém acompanhar cuidadosamente os mais recentes ataques do ocidente, o cenário é patético, quase grotesco: Washington e muitas vezes também a UE fazem grandes esforços, golpeiam, gastas milhares de milhões de dólares, utilizando os mercenários locais (a que chamam "oposição local", depois retiram-se rapidamente após uma derrota miserável, mas expectável. Até agora a Venezuela tem sobrevivido. A Síria sobreviveu. O Irão sobreviveu. A China luta contra horríveis subversões apoiadas pelo ocidente, mas ela sobrevive altivamente. A Rússia mantém-se sempre de pé.

Isto é um momento tremendo na história humana. Pela primeira vez, o imperialismo ocidental não está a ser derrotado, mas plenamente desvelado e humilhado. Muitos agora riem-se dele, abertamente.

Mas não deveríamos celebrar, ainda. Deveríamos entender o que e porque isto está a acontecer, e então continuar a combater. Há muitas e muitas batalhas pela frente. Mas estamos no caminho certo.

Que tentem. Sabemos como combater. Sabemos como prevalecer. Já combatemos o fascismo, sob muitas das suas formas. Sabemos o que é a liberdade. A sua "liberdade" não é a nossa liberdade. Aquilo a que eles chamam "democracia" não é o modo como queremos que o nosso povo governe e seja governado. Deixem-nos partir, nós, o nosso povo, não os queremos!

Eles não podem derrubar nossos sistemas, precisamente porque são nossos. Sistemas que queremos, que o nosso povo quer; sistemas pelos quais estamos prontos a combater e a morrer!

23/Agosto/2019
[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigador. Fez coberturas de guerras e conflitos em dezenas de países. Os seus livros mais recentes são: Exposing Lies Of The Empire", "Fighting Against Western Imperialism", "Discussion with Noam Chomsky: On Western Terrorism , ou o seu aclamado romance politico Oceania – a book on Western imperialism in the South Pacific . Sobre a Indonésia escreveu Indonesia – The Archipelago of Fear . Presentemente realiza filmes para a Telesur e Press TV. Pode ser contactado através de seu stio web ou do Twitter

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/west-failing-overthrow-regimes/5686967
e a versão em francês em www.legrandsoir.info/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/vltchek_23ago19.html

O capitalismo em debate

 
 
Depois de várias décadas de cozidos requentados pós-modernos, sopas “pós-marxistas”, saladas reformistas e sobremesas pós-coloniais à la carte, a discussão sobre o capitalismo mundial volta ao centro da mesa.
 
Néstor Kohan*
 
Nos movimentos sociais, nas organizações políticas e no mundo cultural. Já ninguém se conforma com os “microrrelatos”, os “micropoderes”, a “micro-história”. Todos os pretextos e malabarismos para não encarar as crises selvagens que atravessam o sistema capitalista são afastados, como migalhas sujas, para fora da toalha.
 
O incêndio da crise de 2008 não se apaga. O fogo estende-se. O planeta range. Cada vez se tornam mais inadiáveis as explicações totalizantes sobre o que atravessamos.
 
Estaremos, por fim, numa época de capitalismo “desterritorializado” e interdependente, sem imperialismo, metrópoles, dependências nem periferias, onde um grupo de vendedores ambulantes de um bairro perdido do Haiti desempenha o mesmo papel no sistema mundial que o Bundesbank alemão, uma aldeia longínqua da Indonésia tem a mesma categoria de poder financeiro e político-militar que a Wall Street ou o Pentágono? Ou talvez continuemos localizados, ainda que não percebamos, no antigo capitalismo keynesiano do pós-guerra, com cadeias produção de valor ancoradas em cada país e capitais regulados em escala puramente nacional? Terá sido totalmente inócua a contraofensiva capitalista iniciada em setembro de 1973 no Chile, estendida a seguir à Argentina de 1976 e finalmente aplicada durante 1979-1980 na Londres de Margaret Thatcher e na Washington de Ronald Reagan? Que alguém avance uma explicação por favor e nos esclareça o panorama!
 
Não estaremos vivendo, talvez, uma nova fase do capitalismo, na qual se combinam as revoluções tecnológicas do capitalismo tardio estudadas por Erneste Mandel, os cinco monopólios mundiais explicados por Samir Amin e a reconquista planetária por expropriação (desposesión) sobre a qual nos alertou David Harvey?
 
 
Seja qual for a resposta correta, o que está claro é que a partir da crise feroz de 2008 e da reconversão dos antigos fanáticos do livre comércio em “protecionistas” e “guerreiros comerciais” (EUA, Alemanha, China, etc), somadas às invasões, bombardeios, bloqueios econômicos e intervenções político-militares imperialistas da última década, qualquer análise séria do presente já não pode continuar a repetir os tiques, os slogans e as modulações da “coexistência pacífica” de 1960.
 
Aquele tosco e demasiado inocente “pacifismo” de Nikita Kruschev dos velhos documentários em branco e preto, uma década mais tarde adotado nas metrópoles ocidentais pelo eurocomunismo (acompanhado de refinadas e esquisitas argumentações epistemológicas), hoje... nos atrasa!
 
Afirmar que a grande meta estratégica do comunismo é... “a paz” (assim, em geral, como diziam os soviéticos) e a defesa “da democracia” (também em geral, sem especificações e qualificações), está demodé. Não vai mais. Não corresponde ao planeta em que vivemos.
Flower power frente ao imperialismo ou estratégia comunista?
 
O mundo mudou. Lamentavelmente não foi para melhor. O movimento hippie de John Lennon e Yoko Ono, junto com o flower power, ficaram no belo rincão da nostalgia estética e da memória musical. Longe daqueles cabelos compridos e dos seus protestos pacifistas em lençóis brancos, nosso mundo atual parece-se muito mais com as sombrias imagens distópicas onde proliferam as invasões, as bases militares em escala planetária, a vigilância global, a repressão das massas empobrecidas migrantes e as guerras por recursos naturais não renováveis.
 
Se tivermos os pés na terra e não confundirmos o princípio do prazer (e a imaginação psicodélica) com o princípio da realidade, o trauma da queda do Muro de Berlim e as antigas nostalgias, hoje imperantes, devem ser superadas de uma vez por todas. De nada serve invocá-las periodicamente para reinventar novos reformismos.
 
Num livro recente, Estudiando la contrainsurgencia de Estados Unidos. Manuales, mentalidades y uso de la antropología (2019), o antropólogo mexicano Gilberto López y Rivas descreve o sistema mundial capitalista da nossa época. É só uma tentativa possível, mas a nosso ver muito útil e realista.
 
No momento de definir as características centrais e o tipo de capitalismo que predomina nos nossos dias, o autor recusa de fato as versões apologéticas de uma suposta globalização “homogênea, plana, sem assimetrias nem desenvolvimentos desiguais”. Gilberto López y Rivas afirma que o sistema capitalista do nosso presente constitui um imperialismo global lançado sem escrúpulo algum numa “recolonização do mundo”. Sua tese, arriscada e precisa, desmonta na prática esse lugar comum das academias (financiadas por fundações “desinteressadas” como a NED ou a USAID) segundo a qual “num mundo globalizado, governado pela informação e o capitalismo cognitivo, os Estados Unidos, a Europa ocidental e os países capitalistas mais desenvolvidos já não necessitam da América Latina, África nem dos países pobres da Ásia, ou seja, do Terceiro Mundo”. Essa formulação trivial, repetida até à exaustão por especialistas em guerra psicológica, opiniólogos do marketing midiático e diletantes vários a soldo do império, depara-se com as guerras permanentes contra países periféricos, os bombardeios “humanitários” contra as sociedades dependentes, os bloqueios econômicos e comerciais contra qualquer governo desobediente – nomeados com desdém como um “regime” só pelo facto de não se ajoelhar perante as ordens das embaixadas estadunidenses, da União Europeia ou as receitas do FMI e do Banco Mundial – e o saqueio ininterrupto dos recursos naturais e da biodiversidade do Terceiro Mundo. Esse processo renovado de dominação e apropriação, ou a tentativa de levá-lo a cabo por métodos violentos, constitui a manifestação de um “neocolonialismo imperialista”, segundo a análise rigorosa de Gilberto López y Rivas. Toda uma definição.
 
O arco-íris da bandeira vermelha
 
Dentro deste contexto global, não cabe a passividade. As resistências são múltiplas. Ainda que nem todas tenham a mesma capacidade de organização, mobilização, nem a mesma nitidez ideológica para convocar e unir em escala internacional as iras populares, as rebeldias antissistêmicas e as dissidências contra “a nova ordem mundial”, cada dia mais caótica, cruel e desapiedada. As bandeiras das massas oprimidas e dos movimentos sociais em escala planetária têm as cores mais diversas, desde o verde ecologista e o violeta feminista até o emblema multicor LGTBI, entre muitíssimas outras expressões da palestra rebelde. Mas de todas as cores e matizes, necessariamente variados e coexistentes, acreditamos que o horizonte vermelho do marxismo continua a ser a perspectiva teórico-política mais abrangente, inclusiva e integradora e a que permite articular e unir todas as demais rebeldias à escala mundial, como há alguns anos assinalou a pensadora dos Estados Unidos Ellen Meiksins Wood no seu conhecido livro A renovação do materialismo histórico. Democracia contra capitalismo (2000).
 
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Trecho do texto: El fantasma comunista en su laberinto: notas "desde un oscuro rincón del mundo". In: La Haine.
 
 
*Néstor Kohan | Investigador e docente na Universidade de Buenos Aires (UBA). Publicou numerosas obras sobre teoria marxista e história do pensamento revolucionário, entre os quais destacam: “O capital: história e método”; “Ernesto Che Guevara: o sujeito e o poder”, “Gramsci para principiantes” e “Fidel para principiantes”. Vários deles têm sido editados na Argentina, Brasil, México, Cuba, Venezuela, Colômbia e no Estado espanhol.
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/o-capitalismo-em-debate.html

As origens anglo-americanas das revoluções coloridas & da "National Endowment for Democracy"

por Matthew Ehret [*]

Manifestante em Hong Kong. Até há poucos anos poucas pessoas entendiam o conceito das revoluções coloridas.

Se a liderança da Rússia e da China não tivessem decidido unir-se solidariamente em 2012 , quando começaram a vetar o derrube de Bashar al Assad na Síria, seguindo-se a sua aliança em torno da Iniciativa Estrada da Seda (Belt and Road Initiative) , seria duvidoso que hoje o conceito de revolução colorida fosse tão bem conhecido.

Naquela época, a Rússia e a China perceberam que não tinham escolha senão ir à contra-ofensiva, uma vez que as operações de mudança de regime e as revoluções coloridas orquestradas por organizações como National Endowment for Democracy (NED), filiada à CIA, e a Soros Open Society Foundations eram concebidas para atacá-las. Os esforços a favor de revoluções rosa, laranja, verde ou amarela na Geórgia, Ucrânia, Irão ou Hong Kong – sempre reconhecidos como pontos fracos na periferia – ameaçavam a formação de uma grande aliança de nações soberanas euro-asiáticas que teria o poder de desafiar a elite anglo-americana com base em Londres e na Wall Street.

A expulsão da Rússia em 2015 de 12 importantes canais de revolução colorida incluiu a Open Society Foundation de Soros que, tal como a NED, era poderosas quinta-colunas do inimigo, com o Ministério dos Negócios Estrangeiros a classificá-la como "uma ameaça os fundamentos da ordem constitucional da Rússia e à sua segurança nacional". Isto resultou em apelos fanáticos de George Soros em favor de um fundo de US$50 mil milhões para actuar contra a interferência da Rússia em defesa da democracia na Ucrânia. Aparentemente os US$5 mil milhões gastos pelos NED na Ucrânia não foram suficientes [1] .

Apesar da luz que incidiu sobre estes vermes, as operações da NED e da Open Society continuaram com força total concentrando-se nos elos mais fracos do Grande Tabuleiro de Xadrez, desencadeando o que ficou conhecido como uma "estratégia de tensão". Venezuela, Caxemira, Hong Kong, Tibete e Xinjian (alcunhado de Turquestão Oriental pela NED) foram todos atacados nos últimos anos. Milhões de dólares da NED foram despejados em grupos separatistas, sindicatos, movimentos de estudantes e falsos "formadores de opinião" sob o disfarce da "construção da democracia". US$1,7 milhão em subsídios foram gastos pela NED em Hong Kong desde 2017, o que representou um aumento significativo em relação aos US$400 mil gastos para coordenar o fracassado protesto "Ocuppy HK" em 2014 .

O caso da China

Como resposta a mais de dois meses de caos controlado, o governo chinês manteve uma postura admiravelmente contida, permitindo às autoridades de Hong Kong que administrasse a situação com a sua polícia privada de armas letais e até mesmo cedendo à exigência dos manifestantes de que mudanças no tratado de extradição – nominalmente o que desencadeou esta confusão – fossem anuladas. Apesar deste tom paciente, os desordeiros que provocaram danos em aeroportos e edifícios públicos criaram listas de exigências quase impossíveis de cumprir para a China continental, incluindo 1) um "comité independente para investigar os abusos das autoridades chinesas", 2 ) que a China deixe de se referir aos desordeiros como "desordeiros", 3) que todas as acusações contra desordeiros sejam canceladas, e 4) sufrágio universal – incluindo candidaturas que promovam a independência ou o regresso ao Império Britânico.

Como a violência continua a crescer, e como se tornou uma realidade crescente que alguma forma de intervenção do continente possa ocorrer a fim de restaurar a ordem, o Foreign Office britânico adoptou um tom agressivo ameaçando a China com "graves consequências" a menos que seja permitida "uma investigação totalmente independente" quanto à brutalidade policial. O ex-governador colonial, Christopher Patten, atacou a China ao dizer: "Desde que o presidente Xi entrou no governo, tem havido repressão a dissidentes por toda a parte, o partido tem estado no controle de tudo".

O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês respondeu dizendo que "o Reino Unido não tem jurisdição soberana ou direito de supervisão sobre Hong Kong… é simplesmente errado que o governo britânico exerça pressão. O lado chinês insta seriamente o Reino Unido a cessar sua interferência nos assuntos internos da China e a cessar de fazer acusações aleatórias e inflamatórias acerca de Hong Kong".

Os britânicos não seriam capazes de efectuar suas manipulações de Hong Kong sem o papel vital das operações sujas de ONGs dos EUA. De um modo realmente imperial, a classe política de ambos os lados atacou a China, com o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, e Nancy Pelosi a fazerem o barulho mais ruidoso levando o Comité do Assuntos Estrangeiros da Câmara americana a ameaçar "condenação universal e consequências rápidas se Pequim intervier. Isso só fez com que as fotografias de Julie Eadeh, a chefe do Gabinete Político do Consulado Americano em Hong Kong, reunida com líderes das manifestações de Hong Kong se tornassem muito mais repugnantes para qualquer observador.

Se bem que tanto a Grã-Bretanha quanto a América foram apanhadas em flagrante a organizarem esta revolução colorida, é importante ter em mente quem controla quem.

As origens estrangeiras da NED

Ao contrário da crença popular, o Império Britânico não desapareceu após a Segunda Guerra Mundial, nem entregou as "chaves do reino" à América. Ele nem mesmo se tornou o parceiro júnior num novo relacionamento especial anglo-americano. Ao contrário da crença popular, ele permaneceu no assento dos condutores.

A ordem pós-Segunda Guerra Mundial foi em grande medida moldada por um golpe britânico que tomou conta da América através de um combate. Ninhos de Rhodes Scholars[NT 1] treinados em Oxford, fabianos e outros ideólogos inseridos no interior do establishment americano tiveram um bocado de trabalho quando lutavam para expurgar todos os impulsos nacionalistas da comunidade de inteligência americana. Se bem que o expurgo mais agressivo de patriotas americanos da comunidade de inteligência se verificasse durante a dissolução do OSS [NT 2] e a criação do MI6, em 1947, e a caça às bruxas comunistas que se seguiu, houve outros expurgos que foram menos bem conhecidos.

Durante uma organização que começava a tomar forma e que viria a se tornar conhecida como a Comissão Trilateral , organizada pela "mão britânica na América" chamada Council on Foreign Relations e o Grupo Internacional Bilderberg, verificou-se outro expurgo. Foi em 1970 sob a direcção de James Schlesinger, nos seus breves seis meses como director da CIA. Naquela época, 1000 altos funcionários da CIA considerados "inadequados" foram demitidos. A isto seguiu-se, nove anos depois, outros 800 demitidos de acordo com uma lista elaborada pelo "espião-mestre" da CIA, Ted Shackley . Tanto Schlesinger como Shackley eram membros de alto nível da Comissão Trilateral que participaram da formação do grupo em 1973 e tomaram o pleno poder da América durante a presidência de Jimmy Carter em 1977-1981, a qual desencadeou uma reorganização distópica da política externa e interna americana esboçada no meu relatório anterior .

Projecto de captura da democracia

Na década de 1970, a mão suja da CIA a financiar operações anarquistas tanto dentro como fora dos Estados Unidos tornou-se bem conhecida pois a cobertura dos media sobre suas operações escabrosas tanto em casa como no exterior estragou a imagem patriótica que a comunidade de inteligência desejava. Enquanto a resistência interna ao comportamento fascista a partir de dentro da própria comunidade de inteligência era tratada através de expurgos, a realidade era que uma nova agência tinha de ser criada para assumir as funções de desestabilização encoberta de governos estrangeiros.

Aquilo que se tornou o Project Democracy teve origem numa reunião da Comissão Trilateral em 31 de maio de 1975 em Quioto, Japão, quando um protegido do director da Comissão Trilateral, Zbigniew Brzezinski, chamado Samuel (Choque de Civilizações) Huntington, apresentou os resultados da sua Força-tarefa sobre a governabilidade das democracias . Este projecto foi supervisionado por Schlesinger e Brzezinski e apresentou a noção de que as democracias não poderiam funcionar adequadamente nas condições de crise que a Comissão Trilateral estava a preparar-se para impor à América e ao mundo através de um processo alcunhado de "Desintegração controlada da sociedade" .

O relatório Huntington apresentado na reunião da Trilateral declarava: "Poderíamos considerar… meios de obter apoio e recursos de fundações, corporações de negócios, sindicatos, partidos políticos, associações cívicas e, quando possível e apropriado, agências governamentais para a criação de um instituto destinado ao fortalecimento das instituições democráticas".

Levou quatro anos para que este projecto se tornasse realidade. Em 1979 três membros da Comissão Trilateral, William Brock (RNC Chairman), Charles Manatt (DNC Chairman) e George Agree (chefe da Freedom House), estabeleceram uma organização denominada American Political Foundation (APF) que tentava cumprir o objectivo esboçado por Huntington em 1975.

A APF foi utilizada para montar um programa que usava fundos federais chamado Democracy Program, o qual emitiu um relatório intermediário chamado "O compromisso para com a democracia", o qual dizia: Nenhum tema exige atenção mais constante no nosso tempo do que a necessidade de fortalecer as probabilidades futuras de sociedades democráticas num mundo que permanece predominantemente não livre ou parcialmente acorrentado por governos repressivos.... Nunca houve uma estrutura abrangente para um esforço não governamental através do qual os recursos do eleitorado pluralista da América... pudesse ser mobilizado de forma eficaz.

Em Maio de 1981, Henry Kissinger, que substituira Brzezinski como chefe da Comissão Trilateral e tinha muitos operacionais plantados em torno do presidente Reagan, pronunciou um discurso na Chatham House britânica (a mão controladora por trás do Council on Foreign Relations) onde descrevia seu trabalho como secretário de Estado dizendo que os britânicos "tornaram-se um participante nas deliberações internas americanas, num grau provavelmente nunca antes praticado entre nações soberanas... Na minha encarnação na Casa Branca mantive então o Foreign Office britânico mais bem informado e mais estreitamente envolvido do que fazia com o Departamento de Estado dos EUA… Era sintomático". No seu discurso, Kissinger delineou a batalha entre Churchill e Franklin Dellano Roosevelt durante a Segunda Guerra Mundial e destacou que ele favorecia a visão de mundo de Churchill para o mundo do pós-guerra (e ironicamente também a do príncipe Metternich que dirigia o Congresso de Viena que em 1815 destruiu movimentos democráticos na Europa).

Em Junho de 1982, o discurso de Reagan no Westminster Palace inaugurou oficialmente a NED e em Novembro de 1983 a lei do National Endowment for Democracy foi aprovada transformando em realidade esta nova organização encoberta com US$31 milhões financiados por quatro organizações subsidiárias (AFL-CIO Free Trade Union Institute, o Center of International Private Enterprise da Câmara de Comércio dos EUA, o International Republican Institute e o International Democratic Institute) [2] .

Ao longo da década de 1980, esta organização pôs-se a trabalhar administrando o [projecto] Irão-Contra, desestabilizando estados soviéticos e desencadeando a primeira moderna revolução colorida "oficial" na forma da Revolução amarela que depôs o presidente filipino Ferdinand Marcos. Falando mais abertamente do que o habitual, o presidente do NED, David Ignatius, disse em 1991 que "muito do que fazemos hoje há 25 atrás era feito secretamente pela CIA".

Com o colapso da União Soviética, a NED foi instrumental a fim de trazer os antigos países do Pacto de Varsóvia para o sistema NATO/OMC e a Nova Ordem Mundial era anunciada por Bush pai e Kissinger – ambos foram recompensados com o título de cavaleiros pelos seus serviços à Coroa, em 1992 e 1995 respectivamente.

Naturalmente, a vasta teia de ONGs que permeia o terreno geopolítico só pode ser eficaz na medida em que ninguém disser a verdade nem der "os nomes aos bois". O próprio acto de denunciar suas motivações nefastas torna-as impotentes e este simples facto torna importante na luta actual o recém anunciado acordo China-Rússia para a formulação de uma resposta estratégica adequada às revoluções coloridas.

17/Agosto/2019
(1) Sem dúvida, a retirada pelo presidente Trump de dois terços do financiamento da NED em 2018 só reforçou as acusações de Soros de que Putin é a mão condutora da América enquanto despejava milhões em operações de mudança de regime anti-Trump na América. Enquanto neocons tais como Boldon, Pompeo e o líder do Senado Mitch Mcconnell tomaram uma posição dura contra a China em apoio à revolução colorida, deveria ser notado que Trump tem continuamente tomado uma linha oposta. Nos tweets de 14 de Agosto disse que "a China não é problema nosso" e que "o problema é com o FED".
(2) No início de 1984, uma reorganização semelhante havia ocorrido no Canadá sob a orientação do secretário do Conselho Privado da Comissão Trilateral, Michael Pitfield, o qual criou o CSIS [Canadian Security Intelligence Service] quando as "operações sujas" da RCMP [Royal Canadian Mounted Police] durante a crise da FLQ [Front de libération du Québec] foram divulgadas numa série de reportagens de jornais.

NT
[1] Rhodes scholars: Bolsas de estudos destinadas à Universidade de Oxford.
[2] OSS (Office of Strategic Services): agência de inteligência do governo norte-americano formada durante a Segunda Guerra Mundial (antecessora da CIA).

Ver também:

 

[*] Jornalista, fundador da Rising Tide Foundation

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/rev_coloridas_17ago19.html

EUA estariam construindo base militar na fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai

O Paraguai teria permitido que os EUA instalassem uma base militar na zona da tríplice fronteira, com Argentina e Brasil.

"Este não é um processo de médio prazo. Há militares lá e as construções já iniciaram", alertou o ex-político e jornalista uruguaio Juan Raúl Ferreira durante entrevista à rádio Sputnik.

Recentemente, Ferreira escreveu um artigo intitulado "Nova intervenção dos EUA na região".

"Houve uma lei paraguaia que, se não fosse trágica, a questão seria até engraçada, pois é uma lei sem precedentes, já que é como uma confissão da parte", afirmou Ferreira.

A norma em questão permitiu a instalação e presença militar dos EUA em seu território, porém em uma zona que também envolve o Brasil e a Argentina: na chamada tríplice fronteira.

"É um lugar especialmente perigoso pela instalação do crime organizado há muitos anos. Mais de uma vez os EUA utilizaram lugares de periculosidade delituosa como pretexto para instalar bases em lugares estrategicamente importantes para eles", ressaltou.

Ele citou uma situação semelhante quando o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, recebeu durante seu primeiro mandato (2000-2005) o mandatário colombiano daquela época.

"Lembro-me da visita do então presidente [Álvaro] Uribe para avisar a todos os presidentes da América Latina que ele aceitaria a instalação de bases norte-americanas na Colômbia com o pretexto de lutar contra o narcotráfico. E algo semelhante ocorreu no Paraguai", explicou.

Militares da Marinha dos EUA durante a cerimônia de descida das bandeiras
© AFP 2019 / Toru YAMANAKA
Militares da Marinha dos EUA durante a cerimônia de descida das bandeiras

A lei aprovada pelo legislativo guarani "tem um artigo que se refere à imunidade dos militares das bases; e diz textualmente que 'serão dadas todas as imunidades diplomáticas necessárias'", questionou, adicionando uma nova informação que do ponto de vista jurídico "não tem precedente".

"Se alguém ainda tinha alguma dúvida, o artigo seguinte diz que, sem prejuízo do artigo anterior, alguma outra imunidade solicitada pelos EUA será concedida automaticamente. É uma coisa que não se pode acreditar, até como técnica jurídica", ressaltou.

Ferreira também afirma que a instalação está se desenvolvendo em um ritmo acelerado e, como se trata de uma lei paraguaia e não de um acordo, não é possível saber quantos militares há no local, bem como que material e tecnologias militares serão instalados.

"Preocupa a falta de interesse que há por parte dos governos que permitem que os EUA estabeleçam a agenda de prioridades" na região, concluiu Ferreira.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019082014410604-eua-estariam-construindo-base-militar-na-fronteira-entre-argentina-brasil-e-paraguai/

A Mafalda e eu

Como comprei um globo terrestre de prenda pelo Natal, vou-o rodando, olhando e lembrando. Passei os últimos meses nisto.

 

 

Cada país tem uma história, mas há países de quem o grande público apenas conhece, e superficialmente, a história recente.

Há muitos países cuja história está ligada ao sangue. A banhos de sangue.

Mas, como disse Chomsky, há banhos de sangue que o dito mundo livre considera banhos de sangue benignos. Benignos pode significar quer benéficos, quer sem interesse económico ou estratégico.

Todos os que se pronunciam sobre estes assuntos parecem querer adivinhar o futuro de zonas em conflito. No futuro podem ignorar-se todos os banhos de sangue passados e também no futuro podem projetar-se todas as benignas inocências também chamadas de esperança.

Ao fazer rodar o mapa mundi recordo alguns destes desastres que foram notícia durante alguns períodos de tempo, e logo substituídos pelo desastre seguinte. Faço-o pois acredito profundamente que, quer nos agrade ou não, o passado está na minha frente e posso vê-lo. O futuro está atrás de mim e não o posso visualizar, nem dele ter memória.

Assim, com a música de Bob Dylan, olho o passado à minha frente e vou acariciando o globo terrestre com um olhar perdido nas tantas vítimas, por exemplo do “apodrecimento post-colonial”e do terror contra revolucionário.

Vietname do Sul, um presidente Diem executou uma política de massacre, perseguição e terror apoiada pelos USA até ser assassinado em 1963.

Tailândia, onde o ditador fascista Phibune, mestre na extorsão de ajuda financeira e militar, meios que utilizou para massacrar o seu povo e depois disso feito doutor em direito pela Universidade de Columbia (USA) lembrando-lhe na homenagem, o então presidente Nixon, “sua vocação para a liberdade”.

Guatemala, República Dominicana, Paquistão, Burundi, Indonésia, Filipinas, Bolívia, Grécia, Somália e mais recentes, Iraque, Afganistão, Líbia todos  ligados por extensos e mais ou menos esquecidos rios de sangue benignos, pacificadores, apaziguadores, destinados a defender os interesses vitais, económicos, estratégicos e militares dos Estados Unidos e dos aliados ocidentais e acidentais. Aliados de percurso.

Foi este rio vermelho do passado recente, meio esquecido mas não cicatrizado, que fez nascer a ideia da defesa de Direitos Humanos. (1948) Essa defesa parece a manta de retalhos em que Pilatos enxuga as mãos.

Defendem-se do Direitos Humanos indo ali ao Iémen distribuir comida. Ou a outro sítio qualquer onde se possa filmar a boa acção.

Comida ardente, restos do ocidente livre e empanturrado, obeso, decadente e doente.

Para a defesa dos direitos humanos constrói-se um discurso político, social e paroquial. Até há o discurso da caridade. Os valores não se reinventam.

O que são os Direitos Humanos? Os direitos dos seres humanos são iguais para todos os habitantes do planeta?

Ou haverá habitantes do planeta que pelas suas ideias políticas, crenças religiosas, raça e etnia são esquecidos por todos nós?

Para defender os direitos de uns podem abater-se os outros? Benignamente? Pacificadoramente?

O passado recente à minha frente é trágico e simples. O meu globo terrestre cintila. Não deixa adivinhar o futuro. Quem somará as vítimas?

Para quando dar-lhes um título Honoris Causa?


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 
 
 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-mafalda-e-eu-globo-terrestre/

SOBRE A GUERRA HÍBRIDA

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A guerra híbrida levada a cabo pelos EUA contra a China, com a assistência de seus mais próximos vassalos, Reino Unido, Canadá, Austrália... é um caso bem estabelecido em como uma potência em declínio, está a fazer tudo para travar e - se possível - inverter a ascensão de outra potência a primeiro lugar mundial. 
Embora a China seja uma antiquíssima civilização que já foi, em tempos, o mais poderoso império sobre a Terra, um século de opressão colonial e devastações terríveis antes e durante a IIª Guerra Mundial, deixaram uma pesada herança.  O estado de pobreza e fraqueza levaram que a República Popular da China (proclamada em 1949) não fosse considerada o principal objectivo estratégico dos EUA e da NATO, durante a guerra fria, mas sim a União Soviética. Quando se desmoronou a URSS e a Rússia foi transformada em repasto para os apetites das multinacionais (sobretudo do petróleo) durante o governo fraco e corrupto de Yeltsin, parecia efectivamente que - quer se gostasse, ou não - se iria assistir a «um século americano», conforme afirmado num célebre manifesto (PNAS) tornado público por um grupo de «neocons», pouco tempo antes da viragem do milénio. 
A Rússia de Putin encarregou-se de destruir as veleidades de omnipotência das forças mais agressivas do imperialismo americano.  Mas, igualmente, jogaram dois outros factores: -A forte resistência encontrada pelos americanos e seus aliados da NATO no Afeganistão e no Iraque,  -A ascensão da China ao lugar de gigante económico, com a sua iniciativa das Novas Rotas da Seda.
Este desenvolvimento é lógico e corresponde a uma filosofia - intrinsecamente liberal - de respeito pelos parceiros comerciais e de vantagens mútuas.  É preciso não esquecer que isto vem na sequência da tarefa que lhe foi proporcionada e favorecida pelos próprios grandes capitalistas ocidentais: a de tornar-se a «fábrica do mundo».  É, portanto, particularmente desesperante, numa observação das relações internacionais e políticas no Ocidente, verificar que os ditos dirigentes apenas orientaram a barca ao sabor da corrente maior de dinheiro.  Assim foi com todos os presidentes dos EUA, desde Bill Clinton, especialmente com Barack Obama, que fez acreditar que haveria uma real viragem da política dos EUA devido à cor de sua pele, mas que foi o instigador da política de «pivot to Asia» /«viragem para a Ásia», o que em claro significa viragem para fazer o cerco à China, unificando contra ela uma coligação de forças (estados vassalos) e aumentando os dispositivos bélicos, desde as bases militares, às frotas que a cercam em permanência.
Assim, os EUA cliente primeiro dos produtos industriais fabricados na China (muitos dos quais sob licença de firmas americanas), começaram a objectar contra a suposta «injustiça» da grande disparidade na balança comercial EUA-China, tendo a administração Trump passado a sancionar alguns bens importados com tarifas, já em 2018.  Esta política de pressão sobre a China foi subitamente agravada, em Dezembro desse ano, com o aprisionamento da vice-presidente executiva da Huawei - quando ela se encontrava em trânsito em Vancouver, Canadá - sob pretexto desta firma ter «violado as sanções» contra o Irão, sanções ilegais e unilaterais e que não podiam obrigar cidadãos e empresas estrangeiros, comerciando fora das fronteiras dos EUA.
Xi Jin Pin e altos dirigentes chineses levaram a cabo conversações, com vista a minorar e - se possível - eliminar as situações de conflito comercial. Enquanto a administração Trump foi para conversações com outro espírito: insistia em queixas relacionadas com patentes, mas sem de facto chegar a algo concreto, que permitisse uma base negocial. As conversações capotaram e as tarifas decretadas por Trump entraram em vigor.
Como retaliação, a China deixou de importar produtos agrícolas dos EUA (sobretudo soja, produzida pelos agricultores do Midwest, sólida base de apoio eleitoral de Trump).
As forças da propaganda, comandadas pela CIA e outras agências, intensificaram a propaganda contra o alegado mau registo de direitos humanos da China, nomeadamente na região mais ocidental do Xinjiang onde existem populações de etnias minoritárias, muçulmanas. Entre eles, a CIA conseguiu infiltrar elementos radicais islâmicos, muitos tendo experiência de combate nas fileiras de grupos djihadistas na Síria. Pelo que, as medidas de contenção - de «contra-guerrilha» - de Pequim, podem ser consideradas demasiado duras, porém têm de ser contextualizadas, coisa que a imprensa ocidental não faz, em 99% dos casos.
Agora, a pretexto de uma lei de extradição que estava em discussão na Assembleia Legislativa de Hong-Kong, elementos radicalizados procuram desencadear a repressão do exército, sendo que Pequim não irá permitir que a violência e o caos sejam semeados impunemente no território de Hong-Kong. 
Este território sempre fez parte da China; esteve sob ocupação britânica desde as guerras do ópio e foi restaurada a soberania chinesa em 1997, através do processo de devolução, negociado com o Reino Unido. Este processo reconhece a soberania chinesa ao mesmo tempo que institui uma zona administrativa especial.
A situação económica do território de Hong-Kong é especial, na medida em que as leis socialistas não se aplicam nele; ou seja, a propriedade dos meios de produção continua a ser privada até 2047.  A revolta estudantil, apesar de ter inicialmente uma relativa legitimidade, está a tomar uma feição cada vez mais violenta e não se compreende quais as motivações políticas concretas, pois o território de Hong-Kong está firmemente na China.
As bandeiras do Reino Unido ou dos EUA, agitadas por alguns manifestantes - mais do que exprimirem uma influência directa destes países na revolta - é apenas uma maneira de fazer valer uma adesão primária ao Ocidente, no desespero de causarem simpatia na opinião pública e nos poderes ocidentais. É escusado dizer que eles estão completamente equivocados a esse respeito. O «Ocidente», que está sempre pronto a criticar a China, ou outros, na ONU e noutros aéropagos, tem feito muito mais e muito pior, em relação a manifestações semelhantes, nos seus próprios países.
Mas, sobretudo, a China é demasiado importante para o comércio e as relações económicas mundiais para ser decretado um embargo comercial. Os EUA e seus aliados bem gostariam de o fazer, mas simplesmente não podem, devido à dependência estrutural da sua própria estrutura produtiva, dos seus produtos de consumo, das importações chinesas. 
Um mundo em que os produtos chineses deixassem de fluir simplesmente parava num espaço de tempo relativamente curto. Imagino que bastariam semanas, não meses... pois tudo rapidamente começaria a falhar, ao não haver peças intermédias no fabrico, como micro-processadores, e outras. 
Talvez, a única coisa positiva que nos trouxe a globalização capitalista, seja a impossibilidade de uma guerra total, apenas possibilitando uma série de provocações bélicas, desestabilizações, subversões... tudo o que cabe dentro do conceito de «guerra híbrida». 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

O último Império ocidental?

 
 
The Saker, Unz Review e The Vineyard of the Saker * | Tradução de Vila Mandinga
"Veem as árvores, mas não veem a floresta" é boa metáfora para muitos dos comentários que circulam sobre os últimos vinte e poucos anos pelo planeta. E o período é notável pelo número genuinamente tectônico de mudanças pelas quais passou o sistema internacional.  
 
Tudo começou durante o que chamo de a "Kristallnacht [Noite dos Cristais] da lei internacional", dia 30 de agosto-setembro de 1995, quando o Império atacou os sérvios-bósnios, em direta e total violação dos mais fundamentais princípios do Direito Internacional. Depois foi o 11/9, que deu aos neoconservadores, segundo eles, o "direito" de ameaçar, atacar, bombardear, matar, violar, sequestrar, assassinar, torturar, chantagear e todas as demais práticas para fazer o mal a qualquer pessoa, grupo ou país em todo o planeta, 'porque' "somos a nação indispensável" e "ou você está conosco ou está com os terroristas". Durante esses mesmos anos, vimos a Europa tornar-se colônia de 3ª classe dos EUA, incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos europeus mais fundamentais, ao mesmo tempo em que os EUA tornou-se colônia de 3ª classe de Israel e igualmente incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos mais fundamentais dos EUA. Ainda mais interessante, se se observa esse passado próximo, ao mesmo tempo em que EUA e União Europeia colapsavam sob o peso dos próprios erros, Rússia e China estavam em clara ascensão. Rússia, principalmente em termos militares (ver aqui e aqui), e China principalmente em termos econômicos. Mais crucialmente importante,  Rússia e China gradualmente concordaram em se tornar corpos simbiontes, processo pelo qual, na minha avaliação, tornaram-se ambos ainda mais fortes e mais significativos do que se os dois países se unissem mediante algum tipo de aliança formal: alianças podem ser partidas (especialmente quando esteja envolvida uma nação ocidental), mas relacionamentos de simbiose de modo geral duram para sempre (sim, sim, nada dura para sempre, é claro, mas quando o tempo de vida mede-se em décadas, uma relação simbiótica é o equivalente funcional de "para sempre", pelo menos em termos de análise estratégica). Os chineses desenvolveram recentemente uma expressão oficial, especial e única para caracterizar esse relacionamento com a Rússia. Falam de uma "Parceria estratégica abrangente de coordenação para a nova era." É o pior pesadelo dos anglo-sionistas, e a respectiva mídia sionista faz de tudo para ocultar o fato de que Rússia e China são, sim, para todas as finalidades práticas, aliadas estratégicas. Tentam até, empenhadamente, convencer o povo russo de que a China seria ameaça à Rússia (usam os argumentos mais ridículos, mas nada disso é importante). A coisa não funcionará, mesmo que alguns russos tenham alguns medos relacionados à China, porque o Kremlin sabe dos fatos e da verdade desses assuntos e continuará a aprofundar cada vez mais o relacionamento simbiótico da Rússia com a China. E não só isso.
 
Hoje já parece que o Irã está sendo admitido gradualmente nessa aliança. Já temos disso a confirmação mais oficial possível, em palavras do general Patrushev enunciadas em Israel depois de se reunir com funcionários dos EUA e de Israel: "O Irã sempre foi e continua a ser nosso aliado e parceiro." Poderia estender muito a lista dos vários sinais do colapso do Império Anglo-sionista, e dos sinais de que uma nova ordem paralela internacional mundial está em processo de construção bem aí, diante de nossos olhos. Já fiz isso muitas vezes e não repetirei aqui (os interessados podem clicar aqui e aqui). Direi então que os anglo-sionistas chegaram a um estágio terminal de degeneração no qual o "se" da pergunta é substituído por "quando?". Mas ainda mais interessante seria examinar o "quê?": o que realmente significa o colapso do Império Anglo-sionista? Raramente vejo essa questão ser discutida; e quando é, a discussão só visa a repetir e repetir, para 'garantir' que o Império não, de modo algum, jamais colapsará; que é poderoso demais, rico demais e grande demais para desandar, e que as atuais crises políticas nos EUA e Europa resultarão em mera transformação reativa do Império, tão logo os problemas específicos que o atingem tenham sido devidamente resolvidos. Esse tipo de irracionalidade delirante absolutamente nada tem a ver com a realidade. E a realidade do que tem lugar agora, aí, diante de nossos olhos é muito, muito, muito mais dramática e seminal do que alguns poucos problemas simples, que ganhem remendos aqui e ali, e tudo possa continuar alegremente como sempre foi. Um dos fatores que nos induzem a uma espécie de relaxamento complacente é que já vimos tantos outros impérios colapsar ao longo da história para, em seguida, serem substituídos bem rapidamente por outro império, que não conseguimos nem imaginar que o que acontece hoje é fenômeno muito mais dramático: estamos vivendo o trânsito gradual rumo à irrelevância, de uma civilização inteira!
 
Mas comecemos por definir nossos termos. Diferente do que ensinam escolas ocidentais obcecadas com engrandecer o 'ocidente', a civilização ocidental não tem raízes em Roma nem, e menos ainda, na Grécia antiga. Fato é que a civilização ocidental nasceu da Idade Média em geral e, muito especialmente, do século 11, o qual, coincidentemente assistiu à seguinte sequência de passos empreendidos pelo Papado:
1054: Roma separa-se do resto do mundo cristão, no chamado Grande Cisma; 1075: Roma adota os chamados Decretos Papais; e 1095: Roma lança a Primeira Cruzada.
Esses três eventos tão intimamente relacionados entre eles têm importância absolutamente decisiva para a história do ocidente. O primeiro passo que o ocidente tinha de dar era libertar-se da influência do restante do mundo cristão. Tão logo foram quebrados os laços entre Roma e o mundo cristão, foi fácil e lógico que Roma decretasse que o Papa passava a ter os mais incríveis superpoderes, maiores que tudo que qualquer bispo até então se atrevera a imaginar. E por fim, a nova autonomia e a ânsia de controle absoluto sobre todo o planeta resultou no que bem se pode definir como "a primeira guerra europeia imperialista": a Primeira Cruzada. Dito sucintamente: os francos do século 11 foram os verdadeiros pais da moderna Europa "ocidental"; e o século 11 marcou a primeira "guerra estrangeira" (para usar termo moderno) imperialista. Ao longo dos séculos mudou o nome do Império dos Francos, mas não a natureza, a essência ou o propósito. Hoje, os verdadeiros herdeiros dos francos são os anglo-sionistas (para discussão realmente *soberba* do papel dos francos na destruição da verdadeira, antiga civilização cristã romana do ocidente, ver aqui). Ao longo dos mais de 900 anos seguintes, muitos diferentes impérios substituíram o Papado dos Francos, e muitos países europeus viveram "momentos de glória" com colônias no além-mar e alguma espécie de ideologia que, por definição e axioma se autodeclarava o único bem (ou mesmo "o único cristão"), com o resto do planeta vivendo em condições não civilizadas e de modo geral terríveis, as quais só poderiam ser mitigadas pelos que *sempre* acreditaram que eles, a religião deles, a cultura deles ou a nação deles teriam algum tipo de papel messiânico na história (chamem de "destino manifesto" ou de "a carga que o homem branco tem de suportar às costas", ou deKulturträger [al. no orig., "portador de cultura"]), todos eles sempre em busca de um Lebensraum [al. no orig., aprox. "espaço vivo", "habitat"] muito perfeitamente merecido; "eles" aí, são os europeus ocidentais. Parece que a maioria das nações europeias tentaram a sorte na empreitada de converter-se em império e em guerras imperialistas. Mesmo miniestados modernos como Holanda, Portugal ou Áustria já tiveram seus dias como temidas potências imperiais. E cada vez que caiu um Império Europeu, lá estava outro para assumir aquele lugar. Mas... e hoje? Quem, imaginam vocês, poderia criar império suficientemente poderoso para preencher o vazio resultante do colapso do Império Anglo-sionista? A resposta canônica é "China." Para mim, não faz sentido, é nonsense. Impérios não podem ser exclusivamente comerciais. O comércio, só ele, não basta para manter viável um império. Impérios também precisam ter força militar, mas o tipo de força militar que torna fútil qualquer resistência. A verdade é que NENHUM país moderno está sequer próximo de ter as capacidades necessárias para tomar o papel dos EUA na função de Hegemon Mundial: nem se se somassem as forças militares russas e chinesas se chegaria àquele resultado, porque esses dois países não têm:
1) suficiente rede mundial de bases (que os EUA têm, entre 700 e 1.000 bases, dependendo de como você conte); 2) capacidade importante para projetar poder estratégico por ar e por mar; e 3) suficiente rede dos chamados "aliados" (na verdade, fantoches coloniais) que sempre ajudarão em qualquer deslocamento de força militar.
Mas ainda mais crucialmente importante que isso: China e Rússia não têm desejo algum de voltar a ser império. Esses dois países finalmente compreenderam a verdade eterna segundo a qual impérios são como parasitas que se alimentam do corpo que os hospeda. Sim, não apenas todos os impérios são sempre e inerentemente maus, como tampouco seria difícil demonstrar que as primeiras vítimas do imperialismo são sempre as nações que "hospedam o império", por assim dizer. Ah, sim, claro, chineses e russos desejam que o próprio país seja realmente livre, poderoso e soberano; e compreendem que isso só é possível quando o país conta com forças armadas realmente capazes de conter um ataque, mas nem China nem Rússia tem qualquer interesse em policiar o planeta ou em impor mudança de regime a outros países. A única coisa que China e Rússia realmente querem é salvarem-se, os próprios países, da agressão norte-americana. É isso. Essa nova realidade é especialmente visível no Oriente Médio, onde países como EUA, Israel ou Arábia Saudita (o chamado "Eixo da Gentileza") só tem capacidade militar para massacrar civis ou destruir a infraestrutura dos países, mas não tem suficiente capacidade militar para lançar-se contra as duas reais potências regionais - Irã e Turquia -,porque essas potências regionais têm poder militar moderno e efetivo. Mas o teste crucial e mais revelador foi a tentativa dos EUA para subjugar a Venezuela e forçá-la de volta à submissão. Apesar de todas as ameaças fedendo a enxofre feitas por Washington, todo(s) o(s) "plano(s) (?) de Bolton" para a Venezuela resultaram em muito embaraçoso fracasso. Se a Única "Hiperpotência" do planeta não consegue subjugar nem um país tremendamente enfraquecido e bem ali, no seu quintal, e país que enfrenta crise gravíssima... fica provado que as Forças Armadas dos EUA estão obrigadas a se conformar com só invadir pequenos países como Mônaco, Micronésia e talvez o Vaticano (supondo que a Guarda Suíça resista à tentação de dar uns tiros no traseiro dos representantes da "nação indispensável"). Fato é que um número crescente de países de tamanho médio estão hoje adquirindo gradualmente os meios para resistir a um ataque dos EUA. A pergunta é: em que pé estamos, se já se lê escrito pelos muros que se esgota o tempo do Império Anglo-sionista, e não se vê país à vista para substituir os EUA como hegemon imperial mundial? A resposta é que 1.000 anos de imperialismo europeu estão chegando ao fim! Dessa vez, nem Espanha nem Reino Unido nem Áustria tomarão o lugar dos EUA nem tentarão tornar-se hegemon planetário. De fato, não há nenhuma nação europeia que tenha capacidade militar sequer remotamente capaz de promover ações do tipo "pacificação colonial", indispensáveis para manter colônias em estado de permanente desespero e terror. Os franceses emitiram o último vagido na Argélia; o Reino Unido, nas Falklands; a Espanha não consegue nem recuperar Gibraltar; e a Holanda nem tem Marinha de verdade, da qual valha a pena falar. Quanto a países da Europa central, estão muito ocupados lambendo botas do império agonizante e não lhes resta tempo para cuidar de se converterem em império (ok, talvez com exceção da Polônia, que sonha com algum tipo de Império Polonês entre o Báltico e o Mar Negro. Que sonhem; sonham com isso há séculos, e continuarão a sonhar com isso ainda por muitos outros séculos...). Agora compare as forças armadas europeias e o tipo de forças armadas que os EUA podem encontrar na América Latina ou na Ásia. Há uma suposição tão irrefletida de superioridade na maioria dos anglos, que sequer veem completamente que países de médio e pequeno porte podem desenvolver forças armadas suficientes para tornar impossível uma invasão dos EUA; ou, pelo menos, para tornar qualquer ocupação proibitivamente cara em termos de vidas humanas e dinheiro (ver aquiaqui e aqui). Essa nova realidade também torna quase completamente inútil a típica campanha de mísseis e ataques aéreos dos EUA: destruirão muitos prédios e pontes, converterão as estações de TV locais ("pontos de propaganda", na terminologia imperial) em pilhas gigantes de escombros fumegantes e cadáveres, matam muitos inocentes, mas nem assim obterão algum tipo de mudança de regime. O fato a observar é que se aceitarmos que a guerra seja a continuação da política por outros meios, também temos que admitir, que sob essa definição, as forças armadas dos EUA são totalmente inúteis, pois não conseguem ajudar os EUA a alcançar quaisquer objetivos políticos significativos. Verdade é que, em termos militares e econômicos, o "ocidente" já está derrotado. E não faz qualquer diferença que quem compreende isso não diga, e que os que falam sobre isso (só para negar, é claro) nada compreendam do que está realmente acontecendo. Em teoria, poderíamos imaginar que algum tipo de líder forte chegaria ao poder nos EUA (os outros países ocidentais são totalmente irrelevantes), esmagaria neoconservadores, como Putin esmagou os neoconservadores na Rússia, e evitaria o colapso brutal e repentino do Império. Mas não vai acontecer. Se há coisa que as últimas duas décadas provaram para além de qualquer dúvida razoável é que o sistema imperial é totalmente incapaz de se autorreformar, apesar de gente como Ralph Nader, Dennis Kucinich, Ross Perrot, Ron Paul, Mike Gravel ou, mesmo ,Obama e Trump - todos esses homens que prometeram mudança significativa e que foram realmente impedidos pelo sistema de alcançar qualquer resultado significativo. Implica dizer que o sistema ainda é 100% eficaz, pelo menos dentro dos EUA: os neoconservadores precisaram de menos de 30 dias para esmagar Trump e todas as suas promessas de mudança. E já conseguiu, até agora, que Tulsi Gabbard se curvasse e cedesse à ortodoxia e aos mitos políticos absolutamente obrigatórios dos neoconservadores. Assim sendo, o que acontecerá a seguir? Simplificando: a Ásia substituirá o Mundo Ocidental. Mas - e isso é crucial - desta vez nenhum império aparecerá para substituir o Império Anglo-sionista. Em vez disso, uma coalizão fluida e informal de países principalmente asiáticos oferecerá um modelo econômico e civilizacional alternativo e imensamente atraente para o resto do planeta. Quanto ao Império, ele se dissolverá muito efetivamente; e lentamente se tornará irrelevante. Tanto os americanos como os europeus terão, pela primeira vez na história, de se comportar como pessoas civilizadas. Significa que o seu tal tradicional "modelo de desenvolvimento" (saquear todo o planeta e roubar tudo de todos) terá de ser substituído por outra coisa, alguma espécie de arranjo pelo qual norte-americanos e europeus terão de trabalhar como todos os outros, para acumular riqueza. Essa ideia horrorizará absolutamente as atuais elites dominantes imperiais, mas aposto que será bem recebida pela maioria dos povos, especialmente quando este "novo" modelo (para eles) provar que gera mais paz e prosperidade do que o anterior! De fato, se os neocons não explodirem o planeta num holocausto nuclear, EUA e Europa sobreviverão, mas somente depois de um doloroso período de transição, que pode durar uma década ou mais. Um dos fatores que complicarão imensamente a transição do Império para a situação de país "normal" é profunda influência que tiveram sobre as culturas ocidentais os 1.000 anos de imperialismo, especialmente sobre os EUA já completamente megalomaníacos (a série de conferências do Professor John Marciano, "Empire as a way of life" [Império como modo de vida] discute magnificamente esse tópico - recomendo vivamente!). Um milênio de lavagem cerebral não é coisa que se supere facilmente, especialmente quando já penetrou no nível subconsciente. Finalmente, a reação bastante desagradável que se vê contra o multiculturalismo imposto pelas elites dominantes ocidentais, não é menos patológica, para começar, este o próprio multiculturalismo corrosivo. Refiro-me às novas teorias que "revisitam" a Segunda Guerra Mundial e encontram inspiração em tudo que tenha a ver com o TerceiroReich, incluindo um renascimento das teorias racistas/racialistas. É especialmente ridículo (e ofensivo) quando vem de gente que tenta fazer-se passar cristãos, mas cujos lábios, em vez de orações, só bobagens semelhantes às de 1488. Essas pessoas representam precisamente o tipo de "oposição" que os neoconservadores amam ter pela frente, e que os neoconservadores sempre (e quando digo "sempre" é *sempre* mesmo) acabam derrotando. Esta oposição (que se faz de oposição; de fato, são idiotas úteis) permanecerá forte enquanto permanecer bem financiada (o que ela hoje é). Mas assim que a atual megalomania ("Nós somos a Raça Branca! Nós construímos Atenas e Roma! Nós somos Evropa!!!") cair de cara inevitavelmente no chão, as pessoas recuperação a sanidade e perceberão que o atual estado do ocidente não é coisa que se possa atribuir a algum bode expiatório externo. A triste verdade é que o ocidente fez tudo isso a si mesmo (principalmente por orgulho e arrogância!). As atuais ondas de imigrantes nada são além de 1.000 anos de carma de sofrimento e dor sendo devolvidos para onde tudo começou. Não quero sugerir que as pessoas no Ocidente seriam individualmente responsáveis pelo que está acontecendo agora. O que digo é que todas as pessoas no Ocidente vivem hoje com as consequências de 1.000 anos do mais desenfreado imperialismo. Será difícil, muito difícil, mudar de rumo, mas uma vez que essa é também a única saída viável, é o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Mas ainda assim, há esperança. Se os neoconservadores não explodirem o planeta, e se a humanidade tiver tempo suficiente para estudar a própria história e entender onde enveredou pela trilha errada, então talvez, apenas talvez, haja esperança. Acho que todos podemos encontrar consolo no fato de que por pior, mais feio, estúpido e maligno seja ainda o Império Anglo-sionista, é o último. E não haverá outro império para substituí-lo. Em outras palavras, se sobrevivermos ao império atual (o que absolutamente não é garantido!), então, pelo menos, poderemos afinal, olhar para um planeta sem impérios, feito só de países soberanos.
Entendo que esse é futuro pelo qual vale a pena lutar.
 
[assina] The Saker
 
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/o-ultimo-imperio-ocidental.html

O imperialismo, estado supremo da fome

 

Amal Hussain (foto) morreu com a idade de 7 anos em 2 de novembro de 2018. Esta pequena iemenita foi torturada pela fome: a foto antes de sua morte é insuportável de ver. A mãe desta menina, a Sra. Mariam Ali, disse: "Amal estava sempre sorridente. Agora estou preocupada com meus outros filhos". Segundo o Programa Alimentar Mundial, uma criança menor de cinco anos morre de fome cada 11 segundos: Amal Hussain representa 3 milhões de crianças todos os anos! No Iémen, as vias humanitárias que permitiriam a ajuda alimentar foram cortadas pelas forças da coligação saudita: a pequena Amal Hussain não beneficiou dessa ajuda alimentar. Amal Hussain foi classificada como "danos colaterais": ou seja, aceitável para os países imperialistas. Os países imperialistas estão a semear confusão, guerra, miséria, ruína ao serviço do super-lucro capitalista: a fome é uma arma de guerra do imperialismo. Enquanto palavras escritas sobre a propaganda de rua do LREM [NT - partido de Macron] são denunciadas como "ataques", a morte de milhares de crianças sob os bombardeamentos foi apresentada como uma "contribuição da democracia"(!) especialmente quando se sabe que essas armas foram vendidas pela França. Imperialismo, o opressor dos povos Há mais de 815 milhões de pessoas que sofrem de fome e desnutrição no mundo: 9,1 milhões de pessoas morreram em 2015; 3,1 milhões de crianças menores de 5 anos morrem cada ano. 815 milhões de pessoas passaram fome em 2017. Havia mais de 38 milhões de pessoas sofrendo de desnutrição em 2016: a desnutrição mata tanto quanto o cancro: 25 000 pessoas morrem de fome todos os dias: 151 milhões de crianças sofrem de fraco crescimento devido à desnutrição; 613 milhões de mulheres entre 15 e 49 anos foram afetadas por anemia, principalmente na Ásia e na África. Nos países imperialistas, também, as pessoas sofrem de fome porque o diabo devora seus próprios filhos: - 3 milhões nos Estados Unidos
- 2,7 milhões no Reino Unido
- 0,8 milhões na Alemanha
- 0,9 milhões na França
- 0,6 milhões na Itália As instituições imperialistas classificaram a fome em fases de gravidade com o cinismo que as caracteriza:

  • Fase 1, mínima: Os agregados familiares são capazes de cobrir as suas necessidades básicas de alimentos.
  • Fase 2, sob pressão: Em pelo menos um em cada cinco agregados familiares, o consumo de alimentos é reduzido.
  • Fase 3, crise: Pelo menos um em cada cinco agregados familiares enfrenta défices alimentares significativos com desnutrição aguda em níveis altos ou acima do normal.
  • Fase 4, emergência: Pelo menos um em cada cinco agregados familiares tem um défice alimentar completo e uma mortalidade excessiva.

    Para "declarar" estado de fome (fase 5, portanto), é necessário que as seguintes condições tenham sido atendidas:

  • Pelo menos 20% dos agregados familiares devem enfrentar carências alimentares severas e ter capacidade limitada para lidar com o problema.
  • A prevalência da desnutrição global é superior a 30%.
  • A taxa de mortalidade bruta deve ser superior a 2 mortes por 10 000 pessoas por dia.

     

 

Fome, uma arma de dominação do imperialismo

As instituições imperialistas permitem-se manipulações semânticas através de "escalas de gravidade" e, assim, afirmam diferenciações no sofrimento humano: este sistema de "fase" é uma ferramenta de desresponsabilização dos países imperialistas. De fato, o diretor do Programa Alimentar Mundial em Paris disse: "Não há fome no mundo hoje; você deve saber que declarar a fome num país é complexo e repleto de consequências". Por outras palavras, é necessário que os números cheguem à "fase 5", caso contrário, crianças que morrem de fome não existem: elas permanecem como mortes aceitáveis.

O imperialismo não quer saber da vida humana, que é uma simples mercadoria produtora de lucros (capital variável) na sua lógica capitalista. Os países imperialistas oprimem as pessoas como o vampiro fecharia a sua presa numa gaiola para sugar o seu sangue sempre que estivesse com fome. De facto, a base do desenvolvimento do imperialismo está na exportação de capital para fontes de matérias-primas e mão-de-obra barata. As fronteiras das nações imperialistas são agora muito estreitas: elas continuam a criar um mundo à sua imagem. O imperialismo, seja usurpador ou guerreiro, oprime os povos económica, política, social, filosófica e religiosamente. Por outras palavras, os imperialistas monopolizam as superestruturas dos países devedores, que assim se tornam sua extensão natural.

Os povos oprimidos pelos países imperialistas produzem bens em condições atrozes. Estes bens são então exportados para os países imperialistas a preços imbatíveis. O valor da força de trabalho nesses países é zero e isso reflete-se nos preços das mercadorias exportadas. As "vítimas da moda" ocidentais ficam então muito satisfeitas por encontrarem roupas a preços muito acessíveis.

Os meios de produção, mas também as matérias-primas dos países dominados são monopolizados pelas forças imperialistas. Os povos desses países dominados não podem, portanto, trabalhar para o desenvolvimento económico de seus países: eles produzem para seus colonizadores. Os países imperialistas podem contar com os criados da burguesia compradora (governos fantoches ao serviço dos interesses imperialistas) que participam na opressão aos seus próprios povos.

Os países imperialistas desenvolvem-se de forma desigual: alguns estão a desenvolver-se mais rapidamente que os outros. A Índia é um país capitalista que irá aceder ao estado imperialista é, portanto um "jovem monopólio". Os países imperialistas como a França, a Alemanha ou a Inglaterra, por exemplo, são "velhos monopólios". As guerras imperialistas são inevitáveis, porque os jovens vampiros vão querer devorar os antigos vampiros pelo acesso a fontes de matérias-primas e mão-de-obra barata.

Mas a intervenção militar imperialista é apenas o fim de um processo de desestabilização que opera a montante. Governos fantoches, milícias (que geralmente incluem pessoas que não têm mais nada a perder) são armadas pelos países imperialistas. Estes grupos armados dos países imperialistas abrem caminho para os monopólios capitalistas. Os países imperialistas fomentam guerras civis, para semear o caos, a destruição, a miséria e depois enviar seus exércitos em "salvadores da democracia": de facto, aproveitam estas situações para colonizar esses países "devedores".

O processo de desestabilização e destruição pode assumir muitas formas, mas a primeira arma usada pelas forças imperialistas é, evidentemente, a fome. Há muitas crianças famintas na África: Níger, Nigéria, Sudão do Sul, Somália, Iémen, entre outras.

Na Nigéria, no lado Biafra, a população foi atingida por uma fome de 1967 a 1970, resultando em mais de um milhão de mortes. A população do Estado de Bornéu suportava também uma situação atroz. De facto, esta área era o lar de grupos armados islâmicos (cujo nascimento tem causas nas devastações da dominação imperialista) alimentando o conflito armado. Na Nigéria, mais de três milhões de pessoas sofriam de fome: 250 000 delas eram crianças.

Os Médicos Sem Fronteiras acusaram a ajuda alimentar que, segundo essa organização humanitária, era "totalmente inadequada" e pouco coordenada. Na cidade de Ngala, mais de 80 mil pessoas haviam sido aprisionadas em "campos de extermínio" e isoladas do mundo: a falta de cuidados e a comida eram totais. Mais de 2 000 crianças com menos de cinco anos de idade foram encarceradas por milícias armadas nesses campos e sofreram de desnutrição severa.

A ONG "Ação Contra a Fome" declarou em 2017: "Os governos devem aliviar os obstáculos burocráticos à importação de fornecimentos de bens essenciais e simplificar os processos de vistos para trabalhadores humanitários que se deslocam para áreas vulneráveis". Esses "obstáculos burocráticos" refletem uma das peculiaridades do modo de produção capitalista chegado ao seu estado supremo (imperialista, portanto), que é a sua a máquina de Estado, que corresponde à sua máquina burocrática e militar. Esta máquina de Estado é um poder que todas as burguesias desejam monopolizar ?– se já não for o caso – e o seu eixo de orientação supõe o fortalecimento da exploração da classe trabalhadora, das camadas populares e dos povos oprimidos: lucro e sobrelucro é o seu objetivo principal.

- No Níger, mais de 3 milhões de pessoas, incluindo 800 000 crianças foram atingidas pela fome em 2005. Durante a fome de 2005 no Níger, os imperialistas declararam que as causas eram secas e enxames de gafanhotos na região: o diabo não está a esconder-se atrás da mentira? Se sim, foi encontrado! Mais de 4 milhões de pessoas estavam a sofrer de fome neste país bem antes dos "gafanhotos".

As ONG que estavam lá disseram que as fomes estavam localizadas nas áreas férteis e agrícolas do sul. De facto, as instituições do Estado ao serviço de interesses imperialistas, como o Banco Mundial ou o FMI (que monopolizaram essas áreas férteis), liberalizaram os mercados agrícolas nos países da África Subsariana. O governo do sul do Níger, em seguida, vendeu os seus produtos para a Nigéria, enquanto os seus habitantes morreriam de fome.

Obviamente, os países imperialistas e a burguesia compradora, representada pelo governo nigeriano, tomaram o cuidado de bloquear a ajuda humanitária para não interferir nos mercados de ações especulativo sobre os cereais. Entre 2008 e 2011, o imperialismo norte-americano (os Estados Unidos) investiu milhares de milhões de dólares nos valores de matérias-primas e alimentos, resultando em uma crise de alimentos e tumultos devido à fome. Essa crise afetou países da América Latina, Ásia, África Subsariana, Sahel, Chade, Sudão e Etiópia.

Investigadores do Center for Disease Control and Prevention (CDC) de Atlanta viajaram por oito regiões do Níger: Agadez, Diffa, Dosso, Maradi, Niamey, Tahoua, Tillabery, Zinder. O objetivo era obter dados sobre os níveis de desnutr