Ideologia

Anticomunismo, uma religião fundamentalista (1)

por Andre Vitchek [*]

 Há 150 anos, em 21 de abril de 1870, nasceu Vladimir Ilyich Ulyanov, também conhecido como Lenine. Segundo muitos, ele foi o maior revolucionário de todos os tempos, um homem que deu origem ao internacionalismo e ao anti-imperialismo.

É tempo de "revisitar o comunismo". Também é tempo de fazer algumas perguntas básicas e essenciais:

"Como é possível que um sistema tão lógico, progressivo e tão superior ao que ainda hoje governa o mundo, não tenha derrubado permanentemente o niilismo e a brutalidade do capitalismo, imperialismo e neocolonialismo?"


Sem qualquer dúvida, foram-nos ditas coisas horríveis sobre o Comunismo, especialmente se se vive no Ocidente ou num dos países totalmente sob o controlo dos centros do anticomunismo: Washington, Londres ou Paris.

Fomos forçados a ler, repetidas vezes, acerca do "estalinismo", do massacre da Praça da Paz Celestial e do genocídio dos Khmer Vermelhos. Repetidas vezes foi elaborada uma mistura de meias-verdades, completas invenções e interpretações distorcidas da História mundial.

As probabilidades são de que muito poucos tenham estado na Rússia, China ou Camboja e feito aí alguma investigação séria.

Fomos informados de que o Camboja seria o melhor exemplo de Comunismo selvagem. Porém, nunca se percebeu que Pol Pot e seus extremistas Khmer Vermelhos eram totalmente apoiados pelos Estados Unidos, não pela União Soviética e nunca com entusiasmo pela China. Eles nunca foram realmente "Comunistas" (fiz uma pesquisa detalhada no país, e até os guardas pessoais de Pol Pot me disseram que não tinham ideias acerca do Comunismo e apenas tinham reagido ao monstruoso bombardeio americano nos campos do Camboja e à colaboração do capital com o Ocidente).

Nesse período, a maioria das pessoas morreu em resultado exatamente dos bombardeios cometidos pelos B-52 dos EUA e em resultado da fome. Fome que veio depois de milhões de camponeses se terem deslocado devido à selvajaria do bombardeio e pelos materiais que não haviam explodido, deixados por todo o lado nos campos.

Nunca foi dado conhecimento de que várias sondagens, uma após outra realizadas na Rússia, ainda mostram que a maioria das pessoas gostaria de ter a União Soviética Comunista de volta. E mesmo nos ex-Estados de maioria muçulmana, incluindo o Quirguistão e o Uzbequistão, uma tremenda maioria das pessoas que lá encontrei, recordava o tempo da União Soviética como uma idade de ouro.

E a chamada ocupação soviética do Afeganistão? Trabalhei, filmei e fiz reportagens em três ocasiões, relativamente recentes. Incontáveis pessoas afegãs, indignadas com a continuada ocupação ocidental do seu país, contaram-me histórias, ilustrando o contraste entre sua era socialista, tolerante, progressista e otimista e o horror atual, durante o qual o seu país se afundou ao nível mais baixo da Ásia, de acordo com o PNUD e a OMS. Trabalhei em Cabul, Islamabad, Herat, Bagram; ouvi as mesmas histórias e a mesma nostalgia dos professores, enfermeiras e engenheiros soviéticos.

Inundados pela implacável propaganda ocidental, as pessoas nunca perceberam realmente quão popular é o Partido Comunista da China no seu próprio país e como a ideologia comunista é apoiada no Vietname, Laos e Coreia do Norte.

Se alguém for à sua livraria local na América do Norte, Europa ou mesmo em Hong Kong, para não falar da Austrália, as hipóteses são de que apenas descubra livros escritos por "dissidentes" chineses ou russos anticomunistas, pessoas que vivem de subsídios ocidentais, recebendo inúmeros prémios para que gastem toda a sua energia manchando o Comunismo e glorificando a contra-revolução. Escritores como a ucraniana Svetlana Alexievich, que recebeu o Prémio Nobel de literatura, por cuspir nas sepulturas dos soldados soviéticos que morreram em defesa do socialismo afegão.

Os filmes a que poderia assistir, em canais comerciais, não seriam diferentes dos livros que tinha sido encorajado a ler.

O anticomunismo no Ocidente e nas suas colónias é uma indústria tremenda. É facilmente a maior e mais continuada campanha de propaganda na história do mundo. Suas metástases espalham-se até ao âmago dos próprios países Comunistas e socialistas.

Tudo isto porque os países imperialistas ocidentais sabem perfeitamente que seu império só pode sobreviver se o Comunismo entrar em colapso. Porque a própria essência do Comunismo é a luta perpétua contra o imperialismo.

Slogans falsos, mas muito eficazes, como vírus informáticos (bugs), estão sendo implantados nos cérebros. São repetidos constantemente, às vezes centenas de vezes por dia, sem que ninguém se aperceba: "O Comunismo está morto!". "Está desatualizado, é aborrecido ". "A China já não é Comunista." "O Comunismo é cinzento. A vida sob o Comunismo é controlada e monótona". "As pessoas sob o Comunismo não têm liberdade nem democracia".

O oposto é a verdade. Construir confiante e entusiasticamente uma sociedade nova e melhor para o povo, é definitivamente mais satisfatório (e "mais divertido") do que apodrecer na agonia constante do medo, preocupando-se com hipotecas, empréstimos estudantis e emergências médicas. Competindo com os outros, pisando os outros e até arruinando outros seres humanos. Vivendo vidas vazias, tristes e egoístas.

De maneira absurda e paradoxal, a propaganda ocidental acusa constantemente o Comunismo de violência. Mas o Comunismo é o maior adversário do sistema mais violento da Terra: o colonialismo e o imperialismo ocidental. Centenas de milhões de seres humanos desapareceram em seu resultado, ao longo dos séculos. Centenas de culturas avançadas foram arruinadas. Continentes inteiros foram saqueados.

Antes do Comunismo soviético, antes da própria URSS, não havia oposição verdadeira e poderosa ao imperialismo ocidental. O colonialismo e o imperialismo eram um dado adquirido; eles eram "a ordem mundial".

A União Soviética e a China ajudaram a descolonizar o mundo. Cuba e a Coreia do Norte, dois países Comunistas, lutaram heroicamente e com sucesso e trouxeram a independência para África (algo que o Ocidente nunca esqueceu nem perdoou).

Mas lutar pela liberdade e pelo fim do colonialismo não é violência; é defesa, resistência e luta pela independência.

Como regra, o Comunismo não ataca. Ele defende-se e defende os países que estão sendo brutalizados. Num trabalho futuro abordarei duas "exceções"; e explicarei dois casos que são constantemente mal interpretados pela propaganda da direita: Hungria e Checoslováquia.

Mas voltando à chamada "violência Comunista". O meu amigo e camarada, o lendário intelectual e professor russo Alexander Buzgalin escreveu no seu recente trabalho, "Lenine: Teoria como Prática, Prática como Criatividade" (para assinalar o 150º aniversário do nascimento de Lenin):

"Há um princípio em ação aqui: não é a revolução socialista que provoca violência em massa, mas a contra-revolução burguesa, que começa quando o capital percebe que está perdendo as suas propriedades e o poder. Em resposta à vitória geralmente pacífica e, em muitos casos, legítima da esquerda, o capital desencadeia violência selvagem e bárbara. A esquerda é confrontada com a questão de responder ou não a essa violência. Se acontecer a guerra, a partir daí as leis da guerra aplicam-se, e centenas de milhares são enviados para a morte, para que milhões possam ser vitoriosos. Esta é a lógica da guerra."

"A revolução foi realizada. Foi vitoriosa. Na perspetiva mais ampla, os vencedores não eram tanto os bolcheviques quanto os sovietes, nos quais a maioria apoiava a posição dos bolcheviques. A revolução foi substancialmente pacífica, prevalecendo quase sem derramamento de sangue. Os combates mais violentos ocorreram em Moscovo, onde os mortos de ambos os lados foram de alguns milhares. Além disso, a imagem era de uma "procissão triunfal do poder soviético" (este destaque nos livros didáticos soviéticos não foi acidental)."

"No inverno de 1917-1918, a relação de forças viu meio milhão de membros da milícia operária, a Guarda Vermelha, colocados frente a algumas dezenas de milhares de membros da Guarda Branca no sul da Rússia. Tudo ficou calmo até a contra-revolução receber grandes somas de dinheiro da Tríplice Aliança (principalmente da Alemanha) e da Entente, e todos esses países imperialistas lançaram agressões contra o jovem poder soviético".

Esta é uma visão brilhante de Aleksandr Buzgalin. Abordei este tópico em muitas ocasiões, mas nunca de forma tão coerente. E isso aplica-se a inúmeros exemplos, por todo o mundo em que o Ocidente provocou e brutalmente antagonizou países socialistas ou comunistas, depois acusou-os de crueldade e finalmente "libertou-os" em nome da liberdade e da democracia, literalmente violando a vontade de o seu povo. Tudo isso para o imperialismo europeu e norte-americano sobreviver e prosperar.

Vamos relembrar apenas alguns exemplos: URSS, Indonésia 1965, Chile 1973, Bolívia 2019. E a maior tentativa até hoje: desestabilizar e derrubar o sistema chinês de enorme sucesso. Mas existem, é claro, inúmeros outros exemplos em todos os cantos do globo.

 


Ron Unz, editor da The Unz Review , escreveu num seu relato em " American Pravda Series ": "A catástrofe de coronavírus será uma reviravolta na guerra biológica?", recordando quando a China protestou em 1999, contra o bombardeio da NATO à sua embaixada em Belgrado:

"Quando considerei que o governo chinês ainda estava teimosamente a negar o massacre dos estudantes em protesto na Praça Tiananmen uma década antes, concluí que era de esperar tal comportamento irracional por funcionários da RPC" (….)

"Tais eram os meus pensamentos sobre o assunto há mais de duas décadas. Mas nos anos que se seguiram, a minha compreensão do mundo e de muitos eventos cruciais da História moderna sofreu transformações abrangentes que descrevi na minha série "American Pravda". Algumas das minhas suposições dos anos 90 estavam entre elas".

"Considere-se, por exemplo, o Massacre da Praça da Paz Celestial que no dia 4 de junho ainda é evocado numa onda anual de duras condenações, nas páginas de notícias e opiniões de nossos principais jornais. Eu nunca duvidei desses factos, mas há um ano ou dois encontrei um pequeno artigo do jornalista Jay Matthews intitulado "O Mito de Tiananmen" que inverteu completamente essa aparente realidade".

"Segundo Matthews, o infame massacre aparentemente nunca aconteceu, foi apenas um artifício dos media, produzido por repórteres ocidentais embaraçados e propaganda desonesta, uma crença equivocada que rapidamente foi incorporada nas histórias dos media, repetida sem cessar por tantos jornalistas ignorantes que acabaram por acreditar que fosse verdade. Em vez disso, o mais próximo possível de ser determinado, foi que todos os estudantes que protestavam deixaram a Praça da Paz Celestial pacificamente, exatamente como o governo chinês sempre manteve. De facto, importantes jornais como o New York Times e o Washington Post ocasionalmente reconheceram esses factos ao longo dos anos, mas geralmente enterraram essas escassas admissões tão profundamente que poucos notaram. Enquanto isso, a maior parte dos media convencionais caíram numa evidente fraude".

"O próprio Matthews tinha sido chefe da delegação em Pequim do Washington Post, cobrindo pessoalmente os protestos na época. O seu artigo apareceu na Columbia Journalism Review, a publicação de maior prestígio quanto a críticas aos media".

Além disto, o que os grandes media ocidentais descreviam como um grupo de "combatentes da liberdade" e "movimento pró-democracia" tinha um número substancial de radicais nas suas fileiras, até mesmo racistas, que protestavam contra a presença de negros nas universidades chinesas. Exigiram a proibição dos seus relacionamentos com mulheres chinesas. Foram totalmente apoiados e, pelo menos, parcialmente financiados pelo Ocidente, simplesmente devido ao seu anticomunismo selvagem, agressivo e fundamentalista.

O governo chinês não quer mais tocar neste assunto. Acha que, perante a propaganda maciça do Ocidente, não é possível entender a História. Em resumo, no Ocidente perdeu-se o conteúdo das narrativas.

(continua)

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação, tendo coberto guerras e conflitos em dezenas de países. É o criador de Vltchek's World in Word and Images . Alguns dos seus livros: China's Belt and Road Initiative: Connecting Countries Saving Millions of Lives . Escreve regularmente para "New Eastern Outlook".

O original encontra-se em journal-neo.org/...

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/anticomunismo_religiao_fundamentalista_1.html

As contas fazem-se agora

Miguel Guedes - Músico e Jurista

Miguel Guedes

É liberal mas, meses depois de uma bela campanha de outdoors, o Estado assumiu-se na sua natureza indispensável e o Mundo encarregou-se de desabar sobre o fim das ideologias.

É empreendedor mas o "espírito de equipa" da padaria que coze salários mínimos não permite que se aguente um mês de remunerações dos seus precários. É pseudocientista mas esta coisa das vacinas para a Covid-19 afinal dava muito jeito que avançasse rápido. É negacionista climático mas isto de ter a natureza a ensinar-nos tanto sobre o respeito que deixamos de ter pelo Mundo em forma de vírus dá um calor tremendo e um calafrio dos diabos. É racista ou xenófobo mas ver brancos, pretos e amarelos a lutar pela mesma dita sobrevivência enquanto seres humanos é uma lição só comparável a ver europeus e americanos a disseminarem conscientemente a infecção a uma velocidade bem superior à dos asiáticos. Estes tempos não são fáceis para ninguém, muito menos para estes.

Há quem queira, com engodos de enguia, confundir ajuste de contas com as contas que devemos fazer. Um previsível movimento a apoderar-se do espaço mediático que pretende convencer-nos que não é o momento para dividir opiniões ou para ter uma visão crítica sobre políticas. Uma espécie de "igreja do fim dos dias" que exige que as contas se façam no fim, quando tudo isto passar, quando a epidemia se for, quando todos estivermos bem e nos recomendarmos uns aos outros. Uma corrente de opinião que, em nome do humanismo de pacotilha, pretende silenciar o debate entre o sector público e o sector privado, à boleia da pandemia. Porque é conveniente. Um conjunto de opiniões que pretende passar um pano de esquecimento rápido sobre as opções tomadas pela selva financeira em detrimento da preservação dos sectores estratégicos da economia nas mãos do Estado. Um conjunto de pessoas que mais depressa defende que se possam pagar "impostos portugueses" em paraísos fiscais no estrangeiro do que se reforce o SNS. Gente que despreza a causa pública mas não se cansa de reivindicar ao Estado mais apoios para as suas empresas em momentos de crise. Há um cíclico séquito de gente que vocifera por liberalismo económico para desatar a correr para os cueiros do Estado quando as coisas dão para o torto.

As contas fazem-se agora. É nos momentos de crise que percebemos como tantas das nossas prioridades estão invertidas, como tantas das nossas (não) opções se arrastam para a irreversibilidade pela aceleração dos tempos. Este é um momento de emergência, exigência e urgência. É aqui, não depois de sairmos de um pesadelo, que devemos deitar contas à vida por muitas decisões políticas passadas que quase desmantelaram o SNS, sem dó nem piedade. Os responsáveis estão aí, não migraram fígados para seguros de saúde. O clima altera-se quando estamos remetidos ao confinamento. Deixamos de ter estações, faça chuva ou faça sol. Que se ilumine Rousseau. Ninguém irá apagar da nossa memória o que poderia ter sido se tivéssemos deixado os maus selvagens ir mais longe.

O mundo após a pandemia

 
 
Os Presidentes Xi e Diaz-Canel em Novembro de 2018. Cuba instalou o laboratório de ChangHeber em Jilin que produz um dos medicamentos utilizados com êxito contra o Covid-19. Os dois «ditadores comunistas» conseguiram proteger melhor os seus concidadãos que os «democratas liberais».
 
Thierry Meyssan*
 
As reacções políticas à pandemia de Covid-19 deixam ver espantosas fraquezas das democracias ocidentais : preconceitos e ignorância. Pelo contrário, a China e Cuba aparecem como mais capazes de enfrentar o futuro.
 
O brusco encerramento generalizado das fronteiras e, em inúmeros países, de escolas, universidades, empresas e serviços públicos, assim como a interdição de ajuntamentos, modificam profundamente as sociedades. Em poucos meses, não voltarão a ser mais o que foram antes da pandemia.
 
Antes de mais, esta realidade modifica a nossa concepção da Liberdade; um conceito em volta do qual os Estados Unidos se ergueram. Segundo a sua interpretação —que são os únicos a defender— esta não teria limites. Todos os outros Estados do mundo admitem, pelo contrário, que não há Liberdade sem Responsabilidade; por consequência, eles afirmam que não se pode exercer a liberdade sem para tal definir os limites. Hoje em dia, a cultura dos EUA exerce uma influência determinante um pouco por todo o mundo. Ela acaba de ser contradita pela pandemia.
 
Fim da sociedade totalmente aberta
 
Para o filósofo Karl Popper, a liberdade numa sociedade mede-se pela sua abertura. Escusado será dizer que a livre circulação de pessoas, bens e capitais é a marca da modernidade. Essa maneira de ver prevaleceu durante a crise dos refugiados de 2015. É claro, sublinharam alguns desde há bastante tempo, que este discurso permite aos especuladores como George Soros explorar os trabalhadores nos países mais pobres. Ele prega o desaparecimento das fronteiras e, portanto, dos Estados, agora mesmo em direcção a um governo supranacional global futuro.
 
A luta contra a pandemia lembrou-nos de repente que os Estados existem para proteger os seus cidadãos. No mundo pós-Covid19, as «ONG sem fronteiras» deveriam, pois, progressivamente desaparecer e os partidários do liberalismo político deveriam lembrar-se que sem Estado «o homem é apenas o lobo do homem», segundo a fórmula de Thomas Hobbes. Seguir-se-á, por exemplo, que o Tribunal Penal Internacional aparecerá como um absurdo face ao Direito Internacional.
 
A reviravolta de 180 graus do Presidente Emmanuel Macron ilustra esta tomada de consciência. Há pouco tempo ainda, ele denunciava a «lepra nacionalista» que associava aos «horrores do populismo»; hoje em dia ele glorifica a Nação, única estrutura legítima de mobilização colectiva.
 
 
O Interesse Geral
 
A noção de Interesse Geral, que a cultura anglo-saxónica contesta desde a experiência traumática de Oliver Cromwell, é indispensável para nos protegermos de uma pandemia.
 
No Reino Unido, o Primeiro-Ministro Boris Johnson, tem dificuldade em decretar medidas coercivas por imperativo sanitário, visto o seu povo só admitir esta forma de autoridade em caso de guerra. Nos Estados Unidos, o Presidente Federal, Donald Trump, não tem poder para decretar a quarentena da população no conjunto do seu território, sendo esta questão da estrita competência dos Estados Federados. Ele é forçado a torcer os textos, entre as quais a famosa Stafford Disaster Relief and Emergency Assistance Act («A Lei Stafford de Assistência em Emergências e Alívio de Desastres-ndT»).
 
Fim da liberdade infinita do empresariado
 
No plano económico, não será possível continuar a seguir a teoria de Adam Smith «laissez-faire, laissez-aller» depois de se ter fechado compulsivamente todo o tipo de empresas, de restaurantes a estádios de futebol. Teremos que admitir limites à sacrossanta livre empresa.
 
A luta contra a pandemia lembrou-nos que o Interesse Geral pode justificar o questionar de qualquer actividade humana, seja ela qual for.
 
Disfunções
 
Por ocasião desta crise, percebemos igualmente as disfunções das nossas sociedades. Por exemplo, o mundo inteiro está consciente que a pandemia foi vivida primeiro na China, mas que este país a controlou e que levantou as medidas coercivas que havia tomado no início. No entanto, raros são os que sabem como os Chineses venceram o Covid-19.
 
A imprensa internacional ignorou os agradecimentos do Presidente Xi Jinping ao seu homologo cubano, Miguel Díaz-Canel, em 28 de Fevereiro passado. Ela não referiu, pois, o papel do Interferon Alfa 2B (IFNrec). Ele evocou, pelo contrário, o uso do fosfato de cloroquina, o qual já se utiliza contra o paludismo. Nada de nada também sobre o estado das pesquisas em matéria de vacinas. A China deverá estar a ponto de efectuar os primeiros ensaios em humanos no fim de Abril, sendo que o laboratório do Instituto de Pesquisa de Vacinas e Soros de São Petersburgo já finalizou cinco protótipos de vacina.
 
Estes esquecimentos explicam-se pelo egocentrismo das grandes agências de notícias. Quando acreditamos viver numa «aldeia global» (Marshall McLuhan), apenas somos informados acerca do microcosmo ocidental.
 
Este desconhecimento é explorado por grandes laboratórios ocidentais que se dedicam a uma concorrência desenfreada em matéria de vacinas e de medicamentos. Tudo se passa como nos anos 80. À época uma epidemia de «pneumonia de gays», identificada em 1983 como sendo a SIDA (AIDS-br), provocava uma hecatombe nos meios homossexuais de São Francisco e de Nova Iorque. Quando ela apareceu na Europa, o então Primeiro-ministro francês, Laurent Fabius, retardou a utilização do teste de despistagem dos EUA de modo a que o Instituto Pasteur tivesse o tempo preciso para desenvolver o seu próprio sistema e o patentear. Este escândalo de negócio graúdo provocou milhares de mortos suplementares.
 
A geopolítica após a pandemia
 
A epidemia de histeria que acompanha a do Covid-19 mascara a actualidade política. Quando a crise tiver terminado e as pessoas recuperarem a sua tranquilidade, o mundo será talvez bastante diferente. Na semana passada, mencionamos a ameaça existencial que o Pentágono fazia pairar sobre a Arábia Saudita e a Turquia, ambos destinados a desaparecer [1]. A resposta de um e do outro foi a de ameaçar os Estados Unidos com as piores calamidades —o colapso da indústria do petróleo de xisto pelo primeiro, uma guerra com a Rússia pelo segundo— ; duas apostas muito arriscadas. Estas ameaças são tão graves que elas devem receber rapidamente uma resposta, e não demorará provavelmente três meses.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 
Nota:
[1] “Que alvo após a Síria ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Março de 2020.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/o-mundo-apos-pandemia.html

Governar com ideologia

 
 

Durante quatro anos, a esquerda acusou a direita de radicalismo ideológico: "PS acusa Passos de excesso de ideologia" (2011), "A austeridade persiste como ideologia no governo" (2012), "Passos age por ideologia" (2014), "A política de privatizações, nomeadamente a TAP, é cegueira ideológica" (2015). Desde que a gerigonça governa, nos últimos 14 meses, ouvimos a mesma coisa do lado da direita contra o alegado radicalismo ideológico da esquerda: "Passos diz que a decisão do governo com o fim dos contratos de associação na educação é ideológica", "Portas não quer pagar imposto ideológico pela TAP", "As reversões são opção ideológica do governo", "As medidas da gerigonça mostram que estamos no tempo de radicalismos ideológicos" (tudo isto se pôde ler em 2016). Em Portugal governar com ideologia é consensualmente mau.

E, no entanto, uma determinada ideologia, seja ela qual for, é uma forma de pensar a organização económica e social de uma comunidade. Consequentemente, um bom governo tem de ser ideológico por natureza. Governar com ideologia é saber o que se quer para um país em termos das ideias e dos projetos em que se acredita. Governar sem ideologia é fazê-lo em função dos interesses pontuais, dos estímulos externos ou da corrupção. Nenhum país, certamente, quer ser governado por um conjunto de indivíduos sem ideologia, sem projeto, sem visão para a sua comunidade.

Primeiro, a dicotomia entre interesse nacional e ideologia. Por exemplo, como defendia Passos Coelho, em maio de 2016, "com o fim dos contratos de associação no ensino o governo não está a pensar nos interesses das famílias e dos estudantes, mas em interesses corporativos e ideológicos". Portanto, há o interesse de Portugal e dos portugueses (o tal interesse nacional) e a ideologia (um misterioso interesse de gente malvada). Interesse nacional e ideologia são antónimos. Como foi largamente difundido durante o Estado Novo, os partidos dedicam-se à mera guerra de ideologias, mas o verdadeiro patriota defende o interesse nacional acima da ideologia traiçoeira. Portanto, é preciso governar com patriotismo e não com ideologia. Como se isso, em si mesmo, não fosse uma ideologia. Como se o interesse nacional existisse numa determinação absoluta sem qualquer referência a uma ideologia. Lamentavelmente, tanto a direita como a esquerda, quando na oposição, recuperam a falsa dicotomia entre interesse nacional (defendido evidentemente pela oposição) e a ideologia (propriedade do partido no governo). Fugindo, assim, a qualquer discussão política. Porque, de um lado, temos as ideias (a malvada ideologia) e do outro aqueles que estão acima das ideias (os patriotas que defendem o interesse nacional).

A segunda ideia é a ideologia como lado mau e o pragmatismo como lado bom das políticas públicas. Enquanto os partidos se dedicam à intriga ideológica, o "nosso" chefe governa por amor a Portugal, sem amarras a grandes filosofias ou a intelectualidades. Apenas quer o bem dos portugueses. Cavaco pegou nessa tese do Estado Novo e ajustou-a à realidade dos anos 90. O PSD bom, pragmático, sem ideologia, amigo do desenvolvimento, contra o PS, ideológico, agarrado a ideias ultrapassadas. Para já não falar do PC. O tal da ideologia comunista. Ou, como disse Cavaco no final do seu mandato presidencial, vinte anos depois, "a realidade acaba por derrotar a ideologia". Há ideologia e há realidade. Uma autêntica impossibilidade filosófica e política. Como se houvesse realidade sem ideologia. Como se fosse possível perceber a realidade económica e social num completo vácuo ideológico. Como se o próprio pragmatismo não fosse ele mesmo uma ideologia. Mais uma vez, trata-se de viciar a discussão política entre os realistas tecnocratas (sem ideologia) e os irrealistas irresponsáveis (com ideologia).

Em política, socorrer-se do interesse nacional ou do realismo contra a ideologia é fugir ao saudável combate das ideias. Mas, acima de tudo, é insistir num discurso pouco democrático. Felizmente, vamos tendo governos de esquerda e de direita com ideologia. Mas faz falta mais ideologia. Porque sem ideologia não sei que projeto de futuro esperam os partidos oferecer aos portugueses. E Portugal, estagnado há quase vinte anos, bem precisa de algum projeto. Portugal precisa de alguma esperança. Sem ideologia, não há esperança possível.

 

Ver o original em 'Diário de Notícias' na seguinte ligação:

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/nuno-garoupa/governar-com-ideologia-5652294.html

Os problemas da política identitária e as alternativas possíveis

identitaria

A política identitaria original é de direita: afirma que a nação é branca e cristã, e que os outros são minorias toleradas. Perdeu a hegemonia há muito, e em Portugal só na direita mais extrema se encontra quem articule politicamente que alguém é menos português do que os outros por ser de origem africana ou de cultura cigana. A política identitaria de esquerda opõe-se à da direita erigindo a "mulher negra lésbica" em arquétipo da vítima de todas as discriminações e opressões do "homem branco heterosexual". Ambas desvalorizam a classe social quer como causa de exclusões e privações quer como solução para aspirações frustradas. E ambas esquecem que todos os indivíduos têm necessidades, ambições e interesses comuns, independentemente dessas diferenças. De direita ou de esquerda, a política da identidade tem como pressuposto que o lugar de cada indivíduo nas hierarquias sociais é especificado pela identidade de género, ou a religião, ou a pertença étnica (ou «racial»), ou a orientação sexual. Na versão de direita, as mulheres não devem tomar decisões nem assumir grandes responsabilidades, os bichas que se fechem em casa, e os pretos e ciganos que desapareçam. Na versão de esquerda, só tem direito a definir (vulgo, ter «lugar de fala») o anti-racismo quem é negro ou cigano, a falar de direitos LGBT quem o for, e o feminismo é das mulheres. Ambas as versões são portanto excludentes ou, no mínimo, hierarquizantes das relações entre indivíduos. Negam a palavra ou a dignidade a pessoas por critérios de género, etnia, opção religiosa ou orientação sexual. Nenhuma tem como objectivo uma sociedade igualitária, que seja cega, surda e muda quanto às características tribais atrás referidas. A politização das identidades representa um perigo para a democracia representativa que não se coloca com a classe social. Porque rejeita que partidos, deputados e governos representem ideologias e interesses sociais, e os reduz a montras de identidades. Todavia, não há qualquer razão para que um branco gay não se sinta representado politicamente por uma negra hetero, ou vice versa, ou qualquer cidadão por outro cidadão de "identidades" diferentes. E felizmente, a maioria das pessoas em países civilizados tem o bom senso de não escolher em quem vota por critérios de cor de pele, orientação sexual ou afins. Mas os dois lados da política identitaria alimentam-se mutuamente, e nos países democráticos envenenados pelos choques de identidades verifica-se que quem ganha é a identidade maioritária, não as oprimidas. Há em Portugal trabalhadores precários que todos os dias se esmifram para ganhar o salário mínimo antes de voltarem de transportes públicos para os subúrbios. Se lhes disserem que serem homens ou brancos ou heterossexuais os transforma a eles (ou a elas) em privilegiados ou até opressores, a reacção será entre o sorriso irônico e a irritação. A reacção será porém mais agreste se lhes explicarem paternalmente que usar com desleixo certas palavras em que nunca pensaram muito tipifica machismo, racismo e homofobia. Não se voltarão imediatamente para os santos protectores das identidades tradicionais, que só têm para oferecer a caridade e o orgulho num passado que passou. Mas será sempre melhor tratar cada cidadão como um indivíduo provido de razão e capaz de articular a relação entre as suas circunstâncias e as suas opções políticas livre das suas "identidades", e que no fundo só quer viver melhor. 
 
 
 
 

Ver original em 'Esquerda Republicana' na seguinte ligação:

http://esquerda-republicana.blogspot.com/2019/08/os-problemas-da-politica-identitaria-e.html

Citações com classe

Num crónica oportuna no último Expresso, Daniel Oliveira assinala “os riscos para a esquerda da obsessão identitária”, “uma tragédia que começou com o abandono pela esquerda da representação de classe”, citando a socialista norte-americana Alexandra Ocasio-Cortez: “O que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe.” Neste contexto de perversas ideias atomizadoras que também vêm do outro lado Atlântico e dos que as combatem, ainda que de forma desigual, na origem, lembrei-me de um outro socialista norte-americano chamado Bernie Sanders, citado num importante artigo sobre o argumento de esquerda contra as fronteiras abertas na excelente American Affairs.
 
Questionado sobre se seria a favor de fronteiras abertas, Sanders respondeu: “Fronteiras abertas? Não. É uma ideia dos irmãos Koch”, ou seja, uma ideia dos bilionários financiadores de todas as causas do neoliberalismo mais radical. De facto, sem fronteiras, sem controlos dos fluxos, não há democracia que resista à globalização capitalista mais intensa.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

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