História

A HISTÓRIA RIMA OU ECOA?

                                 Mark Esper opposes the use of Insurrection Act
 
Diz-se da História, que não se repete, mas que rima. Mais do que rimar, parece-me que ecoa.
 
São ecos de um passado histórico, que se desenvolveu em determinadas circunstâncias e são estas que não se repetem. Não existem já as circunstâncias que originaram um determinado complexo de acontecimentos, que vieram a desencadear tal ou tal acontecimento histórico.  Mas a história é feita por homens e mulheres, por seres de paixões, de razão e sentimento: as suas tomadas de decisão, abertas ou ocultas, têm uma lógica, mas não será uma lógica causal linear - as mais das vezes - será um enovelado de causas, difícil de destrinçar.
 
Tudo isto para dizer que a presente situação mundial se parece com certas outras épocas: podemos encontrar «ecos» desta, em várias situações da história do século XX. 
No contexto de crise profunda actual, vem-nos à memória aquilo que sabemos da grande depressão de 29-33 e das suas funestas consequências. Muitos pensadores consideram que existe uma ligação forte do presente, com certos aspectos daquela época. 
 
- Em 1929, a fase aguda iniciou-se com um «crash» na bolsa, depois disso houve uma falsa retoma. Seguiu-se uma crise de falências, com deflação, paralisia do tecido produtivo e do comércio, um retraimento do investimento, desemprego massivo. 
 
- Em 2020, houve uma enorme quebra das bolsas em Março, seguida por uma falsa subida em Junho.
 
- A «resposta» política de então foi, por um lado, a subida do nazismo ao poder, na Alemanha de Hitler e, por outro, o «New Deal» nos EUA com Roosevelt, mas sobretudo a subida das tensões bélicas, das guerras «limitadas», do reactivar de nacionalismos e um «balão de ensaio» que foi a tragédia da guerra de Espanha, dita «civil», mas que foi também e sobretudo banco de ensaio para as potências da altura fazerem guerra por procuração e experimentarem os armamentos novos em teatros de guerra reais.
- As oligarquias que dominam hoje, não estarão interessadas em um renovo do fascismo puro e duro, mas estão empenhadas em esvaziar as democracias liberais de todas as liberdades significativas e esmagam as classes médias, que têm sido um suporte fundamental esta democracia liberal. 
Estão a pensar num novo «New Deal», onde uma pequeníssima classe dos mais afortunados continuarão usufruindo dos privilégios do poder. 
As tensões e guerras por procuração, entre as principais potências multiplicam-se. Vigora há pelo menos 20 anos, desde a guerra da Ex-Jugoslávia, um estilo de guerra híbrida, dos EUA e aliados por um lado, contra o «eixo Russo-Chinês» e aliados, por outro. 
 
- Nos anos 30 do século passado, um império em decadência ( o britânico) tinha toda a dificuldade em manter um semblante do seu extenso poderio, que possuía há apenas meio século atrás. Tinha um aliado-competidor, os EUA, a maior potência industrial mundial, que recebera ao longo da Primeira Guerra Mundial, as encomendas e cobrava as dívidas (literalmente, a peso de ouro) dos impérios coloniais britânico e francês. 
- Hoje em dia, o império em decadência é os EUA e o seu competidor, China. Esta transformou-se no motor da produção industrial mundial. Tornou-se a nação com o comércio de exportação. Os dólares obtidos neste comércio mundial são, em grande parte, convertidos em ouro. A quantidade de ouro que acumulou a China, no Banco Central de Estado e nas mãos de particulares, seria de cerca de 20 mil toneladas, segundo opinião de muitos especialistas. 
O ouro -supostamente - 8 mil toneladas, armazenadas pelos EUA em Fort Knox, além de não ser sujeito a auditoria desde os anos 50, está fortemente implicado em operações obscuras e roubos, atribuídos aos clãs Bush e Clinton. 
 
Podia-se alongar o rol de casos e de circunstâncias que evocam, ecoam, o que se passou, principalmente entre as duas Guerras Mundiais do séc. XX. 
Porém, estou convencido que agora é muito diferente, a um nível mais aprofundado, porque - agora - o capitalismo atingiu o seu grau de expansão máxima. Antes, pelo menos, ele tinha os mercados coloniais ou neo-coloniais, para extrair as matérias-primas, os países pobres da periferia do capitalismo que estavam obrigados a comprar equipamentos, produtos de consumo corrente e mesmo alimentos, aos países dominantes. 
Desde há mais de trinta anos (em termos reais), há praticamente uma estagnação da produção industrial no mundo Ocidental, não apenas porque o capitalismo já não consegue expandir-se, como também porque não consegue extrair lucro suficiente. 
A globalização foi uma fuga para a frente, para conseguir extrair mais alguma mais-valia, super-explorando a mão-de-obra do mundo em desenvolvimento. Agora, a globalização está morta e não há qualquer possibilidade de a fazer reviver. O que se perfilha -no imediato - é um período muito duro para as classes laboriosas em todo o mundo, quer nos países «pobres», quer nos países ex-«ricos». 
Porém, a guerra generalizada não é nenhuma saída real, pois a elite sabe que esta iria degenerar em guerra nuclear, onde só haveria vencidos, não haveria vencedores reais. 
Por isso, a oligarquia está a tentar pôr em marcha uma sociedade de controlo total, servindo-se da pandemia viral, como pretexto para instalação dum estado de vigilância generalizado, dum controlo totalitário sobre os corpos (quem não ficar vacinado, não terá direito a quase nada), com suspensão de qualquer veleidade de ordem constitucional e de «Estado de Direito». Ela arroga-se, sob pretexto de «pandemia», accionar a bel prazer «estados de emergência ou de calamidade pública», ou outros eufemismos de lei marcial. Especialmente, irão recorrer a isso em pontos do globo onde surjam grandes tensões, resultantes das condições criadas: restrições, brutal empobrecimento, perda das liberdades concretas. 
As grandes rupturas sociais já se estavam a desenvolver há décadas, como falhas tectónicas, onde vai aumentando a tensão, paulatinamente, apenas com uma pequena agitação, uma sacudidela pequena... de vez em quando. Mas, se crescem demasiado estas forças telúricas ao nível das falhas, dá-se um tremor de terra. Sabe-se que, quanto maior for a tensão acumulada, maior a violência do tremor de terra. 
Penso que a analogia sísmica é adequada, não porque a sociedade se mova por forças mecânicas, mas porque o grau de frustração decorrente duma opressão demasiado grande, provoca nas massas uma transformação:
- Elas deixam de ter confiança nos dirigentes habituais. Percebem que poderão sair da situação de aperto apenas por elas próprias. Sabem, confusamente, que a resolução dos problemas que as afligem não pode vir do alto. No final, vão agir e derrubar a ordem vigente, para construir a nova sociedade. 
Não estamos ainda neste ponto, mas a hipótese do despertar revolucionário não é de excluir. 
Os oligarcas tudo têm feito para desviar e enganar as pessoas revoltadas, que se atiram contra símbolos do poder (destroem estátuas de personagens históricas) ou pequenos comércios, de outras pessoas tão vítimas como elas. Não têm tido como alvo o próprio poder, os quartéis-generais da ordem que os oprime, os governos, os ministérios, as mega-corporações, os bancos, os bancos centrais e as instituições do globalismo...   
  
Neste caso, a História que se está desenrolando sob nosso olhar, rima ou ecoa às convulsões passadas. Espero que não continue assim. Pois isso significaria que, passado o tumulto da insurreição, o entusiasmo da revolução, volta tudo ao mesmo: apenas mudam as coisas, «na medida necessária para que fique tudo na mesma». 
Oxalá que desta vez, a História, ela não rime, nem ecoe... Pois, se tudo for diferente, isso significa que se está dando a verdadeira transformação sociedade. 
Uma transformação profunda, que ocorre uma vez por milénio... 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A História reescreve-se por novas mãos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/06/2020)

Daniel Oliveira

Sem querer entrar em polémica com Vítor Serrão, porque é de outra coisa que quero tratar, foi-me impossível ler uma frase do  sem espanto, apesar de ela repetir uma das muitas ideias indiscutíveis que foram ditas e escritas nestas semanas. Referindo-se à “vandalização de monumentos que em algum momento passaram a ser vistos como símbolos nefastos por parte de determinadas dinâmicas políticas, sociais, religiosas, ou de defesa de um gosto preestabelecido”, coisa que mostra “à saciedade quão acéfalo é o pendor dos homens para a violência gratuita”, o historiador escreve: “a violência contra as obras de arte é sempre um ato fascista, sejam quais forem as razões invocadas ou as bandeiras que se desfraldem para o levar à prática.” Recordo que se está a falar de monumentos no espaço público, a que genericamente se chama “obras de arte”, mandados erguer pelo poder político circunstancial para celebrar o passado de uma determinada forma, e não de peças de museu para o compreender.

D.R.

Não consegui, ao ler esta frase, deixar de me recordar das cabeças das estátuas de Hitler, numa rua de Berlim depois da libertação, e de Estaline, em Budapeste, durante a revolta húngara. Ou as de Lenine um pouco por todo o bloco de Leste. Ou a de Saddam, em Bagdad. Terão sido aqueles atos violentos contra objetos manifestações de “fascismo”? É das poucas coisas que aqui escreverei com toda a certeza: mil vezes não. E só alguém tão embrenhado na sua função zeladora do objeto mas totalmente desprovida de sentido de justiça política e empatia pode atrever-se a dizer que o foi. Foi um ato libertador, e não há coisa mais justa para dizer que as estátuas do poder que oprime estão condenadas a cair dos seus pedestais. Porque elas não se limitam a ser obras de arte para os estudiosos observarem. São instrumentos de poder e, quando enfrentadas, de libertação.

D.R.

Dirão que não faz sentido comparar aquelas estátuas decapitadas ou derrubadas com o que se passa hoje. Não estou ainda aí. O autor diz que é “sempre”, por isso só pode incluir estes momentos numa demonstração de “fascismo” “acéfalo”. Não me passaria tal ideia pela cabeça, talvez por achar que os símbolos são isso mesmo: símbolos. Pelo menos quando estão numa praça. Outra coisa, bem diferente, é quando são removidos para um museu. Mas, para que isso aconteça, é preciso que o poder político o decida fazer. É preciso um ato político. A forma como isso acontece em democracia já a deixei no meu  de sábado e não preciso de voltar a ele. Mas talvez comece, como começou em Bristol, por uma revolta.

Se me acompanham no regozijo de ver o povo celebrar a queda de estátuas de genocíidas como Hitler e Estaline, quer dizer que abandonaram a posição principista que transforma estátuas construídas pelo poder em objetos sagrados. Ótimo, porque isso torna o debate mais complicado e, em regra, menos “acéfalo”.

Passemos para a outra frase que por aí campeia: que a História não se reescreve. Até se tem dito mais: que ela não se apaga – mas disso também já tratei no . Quando uma comunidade se confronta como uma estátua que está no espaço público que usa faz o oposto de apagar a História. Está a sublinhar a História. Apagar a História é a estátua ficar lá, já sem qualquer significado, como mero adorno, sem que a maioria saiba quem é o representado.

A ideia de que a História não se reescreve resulta de haver quem ache que ela já está escrita. Definitivamente. Na pedra. Não me espanta que alguns acreditem nisso. Há quem ache que a História é um conjunto de factos indisputáveis. Mas, verdade seja dita, ninguém acha mesmo isso. É conforme o desconforto e o conforto que sentem com o que já foi fixado. Os mesmos que pedem que não se reescreva a História gostam de ver historiadores como Rui Ramos a reescrever o que era apresentado como certezas sobre o Estado Novo. E vice-versa: os mesmos que querem rever a história dos “descobrimentos” chamam “revisionista”, em tom acusatório, a Rui Ramos por querer rescrever a história do Estado Novo.

Não fazemos outra coisa na História que não seja reescrever a História. Reescrevemos porque conhecemos novos factos. Reescrevemos porque mudam-se os valores e o nosso olhar muda sobre esses factos. Pelo menos sobre a forma como os ligamos e enquadramos. E reescrevemos porque são mãos diferentes, com origens diferentes, a escrever a História. A ideia de que não devemos ter um olhar anacrónico sobre o passado está globalmente certa mas tem os seus limites. A expulsão dos judeus aconteceu há mais de meio milénio e nenhuma pessoa decente deixa de dizer que foi intrinsecamente errada. Curiosamente, com menos rodriguinhos e adversativas do que quando se fala da escravatura. E dizê-lo nunca impediu que houvesse contexto.

Quando se fala de “devolver” artefactos às ex-colónias isso é tratado como um absurdo. A História não se repara, dizem. Quando se tratou de “devolver” a nacionalidade aos descendentes de judeus sefarditas a votação foi unânime no Parlamento. Concordo evidentemente com as duas mas, se não se importam, não quero debater o seu conteúdo. Quero tentar perceber porque está a nossa relação com os judeus que perseguimos e expulsámos relativamente pacificada, de tal forma que não nos importamos de fazer julgamentos supostamente anacrónicos sobre a História, e a nossa relação com os negros que escravizámos é tratada como algo que deve ser confinado ao seu contexto. Já nem falo dos ciganos, que pura e simplesmente foram obliterados da História, sem direito a que sequer se reconhecesse a perseguição de que também foram alvo.

A diferença está no facto de os judeus, depois da segunda guerra, terem conquistado o direito à visibilidade e terem, até porque contaram com o apoio de grande parte dos vitoriosos, passado a ser fazedores da sua própria História. O seu sofrimento coletivo, mesmo quando herdado pela memória, passou a condicionar a forma como olhamos para o passado. De tal forma que garantimos aos herdeiros da expulsão, muitos séculos passados, o direito à nacionalidade. Reparámos uma História que nem sempre foi contada como se conta hoje. E fizemos muito bem. Fomos forçados a isso.

Quando as pessoas se perguntam como pode um jovem negro sentir-se insultado com a estátua de um traficante de escravos, que morreu há séculos, não se pergunta porque se sente o judeu insultado com uma suástica ou, andando mais para trás, com qualquer glorificação de responsáveis pelos pogroms Porque a herança de sofrimento é aceite para uns e não é aceite para outros. E não é por o antissemitismo ter deixado de existir que é aceite para uns e não para outros. É porque uns conquistaram o direito à visibilidade, enquanto herdeiros e sujeitos da História, e outros não.

O que está a acontecer, um pouco por todo o mundo ocidental, é que novos sujeitos ganham (muito mais nos EUA e no Reino Unido do que cá, onde as ações espetaculares ainda são mimetismo inconsequente) o direito a reescrever a História. E é bom sublinhar que aqueles que não escreveram a História que está fixada também não tiveram o direito de erguer estátuas. Esta chegada de novos atores à disputa do espaço público e da História é dolorosa para quem acha que ela já está convenientemente escrita. Não percebendo – ou percebendo muito bem – que a disputa pelo passado é sempre uma disputa pelo presente.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O 13 de Junho de 1654 e uma dedicatória, para nossa memória

«Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.»
----------------------------------------"Sermão de Santo António aos Peixes", Padre António Vieira, pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654(*)
 
 
gravura de Pieter Bruegel, 1557
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!
Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou.
 
(*)O Sermão de Santo Antônio aos Peixes foi pregado em 13 de Junho de 1654 em São Luís do Maranhão, em 1654, três dias antes de embarcar escondido para Portugal no auge da luta dos jesuítas contra a escravização dos índios pelos colonizadores, procurando o remédio da salvação dos Índios (leitura integral, aqui)
DEDICATÓRIA: Dedico este post à memória das minhas referências morais e intelectuais ligando-as a próximidade das datas de acontecimentos, uns felizes outros a lamentar: O nascimento de Fernando Pessoa; as mortes de Vasco Gonçalves, de Álvaro Cunhal, de Eugénio de Andrade. Coincidências que nos marcam. O destaque ao "Sermão" nem precisa de explicação... no dia de Santo António, dado a folguedos.
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Guia para derrubar estátuas

(Henrique Monteiro, in Expresso Diário, 11/06/2020)

Estátua de Gengis Khan na Mongólia, diz-se ser a maior estátua equestre do mundo

Além da idiotice que é olhar para a História com os olhos de hoje (não viveremos para ver o que dirão, daqui a 100 ou 200 anos, dos nossos heróis atuais), a ideia de que os seres humanos são dominados apenas por uma entre várias características é estúpida e primitiva. Sim, Churchill teve umas saídas racistas, mas livrou-nos de um (ou dois) totalitarismos sufocantes.


É sempre lamentável – e infelizmente é cada vez mais comum – verificar como um conjunto de energúmenos dão cabo de boas causas. Há imagens lindas e comoventes das manifestações antirracistas após o assassínio de George Floyd por um polícia. A própria família de Floyd apelou a que não existissem distúrbios. Porém, isso não impediu que extremistas partissem e pilhassem o que podiam, mesmo se de comerciantes sem outros meios de subsistência se tratasse.

Mas chegou-se ao cúmulo em Bristol, com o derrube e lançamento à água, de uma estátua do benfeitor da cidade (no séc. XVIII) que foi um traficante de escravos, e com a vandalização da estátua de Churchill em frente ao Parlamento de Londres, com o argumento de que o herói da II Guerra terá sido racista.

Além da idiotice que é olhar para a História com os olhos de hoje (não viveremos para ver o que dirão, daqui a 100 ou 200 anos, dos nossos heróis atuais), a ideia de que os seres humanos são dominados apenas por uma entre várias características é estúpida e primitiva. Sim, Churchill teve umas saídas racistas, mas livrou-nos de um (ou dois) totalitarismos sufocantes; sim, Colston ganhou dinheiro com o tráfico negreiro (numa época em que a consciência geral não condenava essa atividade, desenvolvida por negros, árabes, indianos, índios), mas fez na sua cidade (Bristol) e noutras, hospitais, creches, casas de recolhimento para pobres, enfim foi um filantropo. A sua estátua, atirada ao rio por um conjunto de inconscientes (que o próprio presidente da Câmara da cidade não condenou) mostra que este olhar unívoco sobre as personalidades do passado é uma desgraça a que poucos dão combate.

Por mim, e alinhando nesta onda histérica, tenho várias propostas. Por exemplo, todas as homenagens a Júlio César, ele próprio dizimador dos gauleses e possuidor de escravos. Mas não devemos ficar por aqui,

Na Hungria há uma estátua de Átila. Acorra-se a derrubá-la. Esse Átila invadiu a Europa e semeou o terror por aqui – tanto quanto Colston entre os negros, provavelmente. A palavra escravo provém de Eslavo, e perde-se na História quando os eslavos passaram a ser os seres mais procurados como… escravos.

A maior estátua equestre do mundo é na Mongólia. Dedicada a Gengis Khan, outro aterrorizador de chineses, indianos e europeus. Penso que é de bom senso derrubá-la.

Maomé II que fez cair Constantinopla e pôs fim ao Império Romano do Oriente, deixou que um saque (leia-se genocídio) brutal decorresse durante um dia inteiro. Profanando a cultura local, entrou a cavalo na principal Igreja (Santa Sofia, ou Hagia Sophia, em grego) e proclamou-a mesquita, numa demonstração de feroz colonialismo intolerante. Não sei se haverá por aí alguma coisa para destruir, mas há a de Solimão o Magnífico que fez do Império Otomano uma enorme potência imperialista, atacando os húngaros e os próprios austríacos, para além de gregos e búlgaros. Desde o seu antecessor Murat I que os otomanos raptavam crianças aos cristãos para os educarem de forma muçulmana e agressiva, transformando-os em janízaros, os mais fiéis ao sultão. Solimão tem uma estátua em Istambul que deve ter como destino o fundo do mar (para citar o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, a propósito de Colston).

Sitting Bull, o célebre ‘Touro Sentado’, índio que conjuntamente com ‘Crazy Horse’ dizimou as tropas norte-americanos em Little Big Horn (Montana), tem um monumento e um busto no Estado de South Dakota. É duvidoso. Tanto mais que ele depois se juntou ao circo de Buffalo Bill e ambos divertiram a América racista e a Europa colonialista. Teremos de pensar nesse monumento.

Como no da rainha Nginga, em Luanda. É certo que ela afrontou os portugueses por questões que nada têm a ver com a lenda que se fez. Mas é mais ou menos certo que, para não ficar de pé frente a um pouco cavalheiresco governador de Angola, mandou um negro pôr-se de quatro e sentou-se em cima dele. Num gesto que é manifestamente racista ou outra coisa qualquer que lhe queiram chamar.

E a rotunda da Boavista? Já viram que se chama Mouzinho da Silveira? O homem que derrotou Gungunhana e o obrigou às maiores humilhações? Será isto admissível? Para não falar de Pedro IV no Rossio, que parece não ser outro do que o seu primo Maximiliano do México, entretanto deposto quando a estátua feita em França ia a caminho do Novo Mundo. Não me recordo por que razão terá sido deposto, mas lá que o México estava cheio de escravos (se é que ainda os não tem…), sem dúvida.

Enfim, por motivos semelhantes a Colston, e bem piores do que as frases de Churchill, há muita coisa para os radicais antifa se entreterem. É pena que eles apenas olhem com os olhos de hoje, com o preconceito e certo ódio ao homem branco.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

“A União Soviética é um vencedor militar indiscutível, mas um vencedor ferido até à morte”

Entrevista de RT France a Annie Lacroix-Riz *

Os atuais livros de história franceses, retrabalhados com o molho académico da União Europeia e dos Estados Unidos, violam a verdade histórica com uma ousadia em que se testemunha o capítulo comum a todo o ensino médio: unifica no “totalitarismo” a URSS, o Reich nazi e a Itália fascista. A história baseada em arquivos, incluindo a da Segunda Guerra Mundial, foi varrida.

 

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Fonte: Sputnik, O desfile da Vitória na Praça Vermelha, em 24 de junho de 1945

Annie Lacroix-Riz, professora emérita de história contemporânea, autora de numerosas obras, analisa a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial e a reescrita da história pelos países ocidentais.

RT France: Bom dia, pode explicar-nos porque é que esse dia é tão importante na história contemporânea russa?

Annie Lacroix-Riz (em diante ALR): A sua data simboliza a implacabilidade alemã, que foi levada até ao último extremo: foi em 9 de maio que Praga caiu, um dia após a capitulação alemã em Berlim. Fica patente a crueldade desta guerra que foi para a Rússia uma verdadeira guerra de extermínio. O 8 de maio, em Berlim, finalmente na presença de Jukov, ainda podia passar, em certos aspetos, pela confirmação da primeira tentativa “ocidental” de Reims, em 7 de maio. A atitude indignou tanto mais os soviéticos quanto os anglo-americanos lhes infligiram, em 2 de maio, a severa humilhação de uma capitulação separada da Wehrmacht em Itália, com graves consequências políticas, em particular jugoslavas.

Essas más maneiras, somadas a um imenso litígio acumulado desde 22 de junho de 1941, antecipavam a celebração do fim da guerra europeia como uma vitória “ocidental”. Exigia que os soviéticos proclamassem solenemente diante do seu povo que os “ocidentais” tinham obtido indiscutivelmente a vitória militar.

Já em 1968, o excelente historiador americano Gabriel Kolko, estudando a política de guerra dos Estados Unidos (The Politics of War: The World and United States Foreign Policy [A Política de Guerra: A Política Externa do Mundo e dos Estados Unidos] 1943-1945), demonstrou que a Rússia tinha suportado a quase totalidade do esforço militar. Entre muitas outras, acaba de ser publicada uma obra anglo-russa sobre a correspondência Stalin-Churchill, de julho de 1941 a julho de 1945 (Churchill e Stalin. Comrades-in-arms during the Second World War [Camaradas de armas durante a Segunda Guerra Mundial]), que mostra que a União Soviética suportou o peso do conflito desde o ataque Barbarossa, em 21 de junho de 1941, sozinha em todas as etapas, até, grosso modo, o desembarque de 6 de junho de 1944. No Ocidente, esse desembarque só foi possível porque a União Soviética desencadeou a gigantesca ofensiva Bagration, que aliviou o peso da Wehrmacht para os ocidentais. [...] Se a guerra foi terrível para a União Soviética, foi bem melhor para as tropas ocidentais. Após a ofensiva das Ardenas, em janeiro de 1945, a Wehrmacht deixou de combater a oeste. Kolko fez as contas precisas, através dos arquivos americanos publicados (Foreign Relations of the United States [Relações Exteriores dos Estados Unidos]): ainda existem 270 divisões alemãs que lutam com fúria até ao último dia na frente oriental; existem 27 na Frente ocidental, 26 das quais estão envolvidas na evacuação de unidades da Wehrmacht e do seu material para os Ocidentais e subtraí-las ao Exército Vermelho. 300.000 mortes soviéticas na última fase da tomada de Berlim, contra 200.000 para os americanos em todas as frentes, europeia (incluindo o norte da África) e asiática, de 1941 até à capitulação japonesa [...]

O dia 9 de maio tem uma componente soviética e russa particularmente forte: com o que os russos mais sofrem atualmente é que a sua contribuição para a guerra e a vitória, espontaneamente reconhecida por todos os povos da Europa e do mundo em 1945, é negada agora num “Ocidente” muito ampliado desde 1989. A tal ponto que o seu país nem sequer foi convidado para as celebrações “ocidentais” do fim da Segunda Guerra Mundial.

[...] Trata-se de um verdadeiro negacionismo. Como francesa e historiadora, observo um fenómeno constante ao longo das décadas, muito amplificado nos últimos vinte anos. É caricatural – seja em maio de 1945 ou no aniversário do desembarque anglo-americano de 6 de junho de 1944 na Normandia: a União Soviética desapareceu do campo de guerra. A questão não se colocava assim em 1945, por causa da experiência geral dos povos, em particular dos países ocupados, em 1939-1945: apesar da inundação de propaganda, imediata, em 1944-1945, sobre a libertação pelos americanos (ou os anglo-americanos), essa experiência excluía a contestação do papel do Exército Vermelho.

No decorrer das celebrações, 6 de junho de 1944, 8 ou 9 de maio de 1945, a União Soviética desapareceu do campo de guerra militar, apesar de ter vencido na frente oriental. O facto é reconhecido por todos os observadores sérios, especialmente nos países de língua inglesa, onde foi publicada uma abundante literatura militar desde os anos 90.

Além dos arquivos examinados pelos historiadores, existem documentos de guerra contemporâneos preciosos. Penso em particular no Diário de Guerra de um advogado anticomunista, antissoviético e antissemita, Maurice Garçon. O seu testemunho reflete fielmente o comportamento das elites ocidentais descritas pelos arquivos e, em particular, os relatórios das eminências de Vichy e da polícia, que examinei. Entendemos que o momento decisivo da guerra não é, como costumamos pensar, Stalinegrado, por muito que tenha sido decisiva essa derrota esmagadora do Reich, nem mesmo a travagem da Wehrmacht frente a Moscovo na viragem de 1941.

O verdadeiro ponto de viragem da guerra ocorreu em junho-julho de 1941. Foi o momento em que os grandes observadores ocidentais garantiram que a guerra já não podia ser vencida pelos alemães. A Blitzkrieg morreu nos dias seguintes à Operação Barbarossa: a resistência do povo soviético (digo bem, o povo) e do Exército Vermelho e a eficácia da “tática da terra queimada” imediatamente atingiram os círculos “bem informados”. Descobri os testemunhos formais convergentes de 9 e 16 de julho de 1941 de dois soldados proeminentes, um ex-ministro da Guerra belga e o general Doyen, chefe da delegação francesa na Comissão Alemã do Armistício: se a resistência continuasse mais dois meses, os alemães encontrar-se-iam numa situação muito comprometida; ao fim de três, a derrota estaria garantida.

Doyan, portanto, escreve a Pétain: a Alemanha já não garante a nossa proteção, devemos voltar-nos rapidamente para os Estados Unidos “saídos da guerra de 1918 como os únicos vencedores” e que “ainda mais vencedores sairão do conflito atual”. “Aconteça o que acontecer, o mundo deve, nas próximas décadas, submeter-se à vontade dos Estados Unidos”, conclui este general, que cito literalmente.

Mas o seu poder económico avassalador não quer dizer capacidade militar. E, neste ponto, toda a burguesia concorda, preocupada com a resistência soviética desde o verão de 1941 e, cada vez mais, quando a vitória militar soviética se perfila. Assim, Maurice Garçon desespera a partir de Stalinegrado e, ainda mais, depois de Kursk. Porque é que o raio desses anglo-americanos não avançam? A sua litania de 1943-1944 confirma o escárnio (também textual) do chefe dos RG de Melun, em fevereiro-março de 1943: “a burguesia, na sua imensa maioria, impacienta-se com a passividade anglo-saxónica” na frente ocidental inerte. Ela nunca criticou tanto, “desde o armistício, a atitude [...] excessivamente pacífica ao bel-prazer dos exércitos anglo-saxões [...], os burgueses franceses sempre consideraram que o soldado americano ou britânico deveria estar naturalmente ao seu serviço no caso de uma vitória bolchevique”.

Hoje, no entanto, as pessoas acreditam que os ocidentais lutaram com valentia até 8 de maio de 1945. Você perguntar-me-ia se estávamos em situação de negação: sim. Mas muitos campos históricos, os da guerra e muitos outros, são hoje objeto de uma reescrita total da história, na qual, além disso, a ciência histórica não conta para nada.

RT France: Pode explicar-nos por que razão, no ensino da história na França, a parte de leão volta a insistir na vitória americana? De onde vem essa “reescrita da história” de que fala?

ALR: Eu lecionei no ensino secundário, de 1972 a 1984, antes de me tornar professora universitária. Certamente, aquilo de que está a falar constituía o assunto da propaganda persistente da grande média, mas tínhamos alguns bons manuais, como a coleção dirigida por Jacques Bouillon (Bordas). Deixe os ouvintes entrarem no mercado dos livros em segunda mão. Existia então uma apresentação honesta da coisa, que já não existe.

Os cruzados do Ocidente agarraram no assunto muito depressa. No início de 1985, na revista Historiens et Géographes [Historiadores e geógrafos], apareceu um artigo impressionante da cientista política americana Diana Pinto, desde então ao serviço de numerosos think tanks americanos oficiais e não oficiais. Analisando a nova fornada de livros didáticos do ensino secundário, ela exultou: os historiadores franceses mudaram, temos agora livros didáticos de história franceses satisfatórios para a sua visão da “América”, há muito considerada “imperialista”. É a União Soviética, até então considerada o país libertador, vitorioso sobre o nazismo, agora como ditadura “totalitária”, que concentra todas as críticas. A Sr.ª Pinto também ficou aborrecida com o “atraso” dos geógrafos franceses que ainda simpatizavam com a União Soviética e tinham a audácia de continuar a falar do imperialismo americano (“América nos livros de história e geografia das aulas finais francesas” (Historiens et Géographes n ° 303, março de 1985, pp. 611-620).

Os atuais livros de história franceses, retrabalhados com o molho académico da União Europeia e dos Estados Unidos, violam a verdade histórica com uma ousadia em que se testemunha o capítulo comum a todo o ensino médio: unifica no “totalitarismo” a URSS, o Reich nazi e a Itália fascista. A história baseada em arquivos, incluindo a da Segunda Guerra Mundial, foi varrida. Os comentários de Doyen, em julho de 1941, sobre a hegemonia americana, prenunciavam o triunfo da lenda negra sobre a URSS e o seu papel nulo na Segunda Guerra mundial.

Hoje é impossível, e isso foi conseguido por toda uma série de programas de televisão, do género “Apocalipse”, ter uma imagem correspondente às coisas simples que mencionei no início, incluindo a simples correspondência entre Stalin e Churchill: a partir do verão de 1941, Stalin pediu incansavelmente essa famosa abertura da segunda frente. Muitas vezes acabou zangado (em vão), com Churchill, que lhe prometia todos os meses, todos os trimestres, todos os semestres, que a segunda frente estava iminente. Stalin queixa-se, factualmente, que os soviéticos estão sempre sozinhos contra a Wehrmacht. E Churchill fica indignado com o seu mau humor e considera-se ofendido!

Agora, lembremo-nos de que há duas coisas na Segunda Guerra Mundial como, de resto, na Primeira. Há uma guerra militar, vencida na Primeira Guerra Mundial, por um lado, pelos franceses e ingleses e, por outro, pelos russos. Certamente estes abandonaram a guerra em 1917, mas garantiram a sobrevivência da França no verão de 1914 e, além disso, enfrentando metade das divisões alemãs. De resto, até os vencedores oficiais, afinal, dificilmente beneficiam da paz. Não vou debruçar-me sobre a história da Primeira Guerra mundial... Mas tivemos um fenómeno ainda mais massivo durante a Segunda Guerra mundial: a Alemanha entrou como manteiga no Ocidente. A sua triunfal Blitzkrieg afundou-se nas planícies russas a partir de 22 de junho de 1941. A guerra militar terminou na Europa com uma vitória soviética, incontestável.

É uma dupla vitória, tanto para a União Soviética como para os povos. O general Béthouart, membro de La Cagoule [1], apoiante de Vichy, recuperado, como todos os seus pares, pelos americanos, em novembro de 1942, durante o desembarque no norte da África, admite-o simplesmente, em maio de 1944, nas vésperas do desembarque anglo-americano. Faz a seguinte análise: até ao verão de 1943, a URSS estava quase sozinha. Atualmente, 65% da frente europeia é assegurada pelos soviéticos, pelo Exército Vermelho; 30% por resistências internas, ou seja, resistências ativas, não atentistas e pró-soviéticas (partisans italianos, gregos do ELAM-EAS, FTP-MOI [Franc tireurs et partisans – Maind’oeuvre immigrée] da França, etc.); o restante, isto é, 5% é a frente anglo-americana, então em Itália. No entanto, o esforço militar, as perdas, a realidade da guerra soviética, tudo isso foi expulso da história ocidental.

Doyen tinha previsto bem as coisas, em meados de julho de 1941: a União Soviética vence a guerra militar, mas a superioridade económica e financeira dos Estados Unidos permitiu-lhes alcançar, a partir de 1944 e especialmente 1945, os objetivos que eram já os do presidente Wilson, durante a Primeira Guerra Mundial, e que continuaram a ser os de Roosevelt: uma expansão americana global.

Os soviéticos tinham um horizonte muito simples, que tinham enunciado em julho de 1941 como objetivos de guerra, declarados por Stalin: a recuperação do território histórico do antigo Império Russo (menos a Finlândia, porque a URSS permaneceu fiel ao acordo de 12 de março de 1940); e a garantia de que o antigo “cordão sanitário”, liderado pela Polónia, deixaria de ser uma base de agressão contra as suas fronteiras e, portanto, deixaria de ter uma política externa hostil. Os objetivos americanos tinham sido proclamados em 1942 pelos chefes da força aérea: nenhum território mundial escaparia às suas bases aéreas. Esta é a razão, demonstrada por vários historiadores americanos, diplomáticos e militares, pela qual Roosevelt nunca quis discutir as “esferas de influência”: nem com Moscovo, nem com Londres. O princípio de que “nada pertence aos outros, tudo é nosso” é próprio de um imperialismo hegemónico. Os céticos que leiam as Foreign Relations of the United States [Relações Externas dos Estados Unidos] 1941-1945...

A Inglaterra, já muito enfraquecida pelos Estados Unidos durante e depois da Primeira Guerra Mundial, ficou arrumada pela Segunda, sob os golpes do seu grande “aliado”: a demonstração disso tem sido fulgurante desde 1945 e 1947, e o antigo secretário de Estado americano Acheson (1949-1953) disse, em dezembro de 1962, em West Point (ele era o consultor especial de Kennedy para a NATO) “que a Grã-Bretanha tinha perdido um império e não tinha encontrado um papel no mundo”. Os planos americanos de 1942-1945, principalmente os militares, não previam nenhuma “zona de influência” para os dois parceiros da “Grande Aliança”. O riquíssimo Harriman, embaixador em Moscovo, garantiu, em março de 1944, ao Departamento de Estado, que a URSS seria incapaz de criar uma “zona de influência” na Europa Oriental: deveria contentar-se com a promessa americana de um empréstimo de um bilião de dólares (que, de resto, não se concretizou).

Roosevelt e os seus sabiam que a URSS, prostrada pelas perdas, extremamente empobrecida, esvaziada de alguma forma, seria incapaz de lucrar com a sua vitória militar quando as armas fossem abandonadas. Foi o que aconteceu. Os Estados Unidos conseguiram contestar o que tinham de aceitar, principalmente em Yalta e Potsdam, esses famosos acordos que não tinham querido negociar durante a guerra. E Potsdam já marcou um forte recuo soviético em relação a Yalta [...]

Não existem surpresas em História, a História é o resultado de uma relação de forças – e os historiadores que trabalham nos arquivos têm a sorte de ver, com atraso, o que realmente se passou. A terminologia, a ideologia, o negacionismo sobre os quais repousa a apresentação histórica de hoje caem então por terra. Mas entre o que um estudante do ensino secundário hoje aprende, ou um espetador, e a realidade histórica estabelecida por fontes diversas e convergentes, existe um abismo.

RT France: Quais são as consequências positivas desta vitória para a URSS? Porque é que ela não conseguiu preservar as vantagens da sua posição de vencedora?

ALR: Existem fatores positivos que não podem ser negligenciados. Obviamente, o movimento comunista ganhou enorme prestígio pelo seu papel na resistência interna, um papel determinante em toda a Europa. [...]

Houve uma época em que trabalhei muito na Escandinávia, em particular na Noruega, país cuja população tradicionalmente simpatizava com os russos, especialmente os marinheiros. O caso da Islândia é ainda mais espetacular e aí a população resistiu ao rolo compressor da propaganda por mais tempo. Houve sondagens, em maio de 1945, entre a população norueguesa, sobre as alianças político-militares desejadas após a guerra: 89% dos noruegueses, na segunda metade de 1945, defendiam uma aliança com os soviéticos. Em 1947, não passavam de 15%. [...]

Em menos de dois anos, esta esmagadora tutela anglo-americana, especialmente americana, que Doyen tinha previsto em julho de 1941, tinha liquidado as consequências da vitória soviética no Ocidente. Essas são coisas que obviamente só podem ser entendidas com base em fontes. Porque, hoje, se perguntarmos a um estudante comum quem venceu a Segunda Guerra Mundial, ele dirá que foram os Estados Unidos.

A URSS sai da guerra com perdas económicas monstruosas, estimadas em 200 biliões de dólares (Jacques Pauwels, O mito da boa guerra: os EUA e a Segunda Guerra Mundial). No entanto, a reivindicação soviética das reparações de guerra alcançou em Ialta um acordo de 50% do valor total de 20 biliões de dólares, ou seja 10. Esse número, ridículo em comparação com as suas imensas perdas, e em particular a sua parte europeia destruída (base histórica da sua indústria), foi ainda menos respeitada do que as “reparações” após a Primeira Guerra Mundial. A URSS teve de se contentar com um quase-nada, entre outras coisas, sem a “reparação” da Alemanha Ocidental, ou seja, do coração industrial da agressão alemã, o Ruhr, intacto e mesmo reforçado pela guerra.

Dezenas de milhares de Oradour-sur-Glane [2], de aldeias, de cidades arrasadas, de museus destruídos, de fábricas varridas do mapa etc. Se levássemos a história e o nosso povo a sério, deveríamos mostrar-lhes as ruínas de Stalinegrado. Nem um edifício, nem uma fábrica de pé, como em toda a parte europeia da União Soviética.

RT França: Esta vitória militar soviética não é, em última análise, uma vitória de Pirro? As perdas foram colossais. A URSS conseguiu recuperar?

ALR: A União Soviética é um vencedor militar indiscutível, mas um vencedor ferido até à morte, um fator decisivo no período pós-guerra. […] A URSS nunca recuperou das perdas desta guerra. […]

Não é menos verdade que ela se reconstruiu em ritmo acelerado porque, nos anos de 1945 a 1970, o crescimento do mundo socialista atingiu uma taxa muito mais alta do que a dos países capitalistas. Hoje isto é ignorado, mas a economista Marie Lavigne elaborou, designadamente em As economias socialistas soviética e europeias, (1979), um quadro honesto do seu crescimento impressionante. Os países capitalistas foram duramente atingidos pelas crises cíclicas analisadas por Marx e pelos seus antecessores e sucessores. A de 1948-1949 foi terrível nos Estados Unidos, que só emergiram dela com a Guerra da Coreia. Não devemos tornar ainda mais negro o quadro inicial que tracei.

Houve capacidades de recuperação incontestáveis, mas quando se tem de um lado um gigante enriquecido que conserva para si um Ocidente que não foi destruído, porque, quaisquer que tenham sido os sofrimentos da Ocupação dos países ocidentais, nenhum deles conheceu a devastação que afetou os Balcãs e a Europa Oriental […] Entre os necessitados do Oriente e do Ocidente reforçado pela guerra, e especialmente os Estados Unidos, o diferencial foi considerável.

Atualmente estou a trabalhar com os Area studies ou “estudo de zonas”, que os Estados Unidos desenvolveram em 1945-47 com a ajuda de altas competências (académicas) dos chefes do OSS (serviço de informações americano: Office Strategic Service) mais tarde CIA. Eles prepararam, através de universidades e centros de investigação, o controlo de territórios, a investigação científica, o ensino, o que pressupunha um conhecimento preciso dos recursos das zonas visadas. Os Area studies da Rússia e da Europa Oriental foram logicamente uma prioridade desde 1945. Historiadores americanos quase desconhecidos na França, cujos trabalhos não estão traduzidos, estudaram a coisa, e foi surpreendente.

Porque essas “investigações” destinavam-se principalmente a facilitar a expansão económica americana. Mas elas tiveram ao mesmo tempo, desde o início, um significado tanto mais ideológico, quanto o processo foi elaborado e guiado pelas autoridades americanas, civis e militares. […] Essa extraordinária vitória ideológica tornou possível transformar um aliado num lobisomem mortal, diabólico. Entre os dois perigos, o nazista (que nunca foi perseguido pelo “Ocidente”, da década de 1920 até ao presente, é um eufemismo) e o bolchevique, é o último que passa por ser mortal. Ainda levou décadas para se alcançar esse resultado.

RT France : Se se constata uma forma de reescrita do passado, existem historiadores para restabelecer a verdade?

ALR: Num país como a França, a história é, especialmente a partir da Revolução Francesa, um ponto de fricção política permanente. É, portanto, entre as ciências sociais, todas visadas, que se verifica um campo particularmente severo de confronto.

Obviamente, hoje em dia, o debate historiográfico, ainda tão rico nos confrontos académicos dos anos 1960-1970, foi soterrado. Agora que resta apenas um campo vencedor por K.O., ouve-se o mesmo som na grande comunicação social escrita e audiovisual. Quando pudermos refazer a história sem perigo, baseada em fontes, descobriremos, antes de 1945, uma história próxima das realidades que os contemporâneos perceberam […]

Para fazer história, não se pode ficar satisfeito com o trabalho do curto prazo: uma questão que surge em 1989 ou em 2020 é objetivamente colocada passadas décadas, ou até séculos. Quando as fontes são abertas, e esse tem sido o caso há várias décadas, qualquer investigador curioso, competente e corajoso pode acumular materiais e depois construir um edifício sólido.

Se quisermos favorecer o negacionismo histórico, mesmo quando o acesso às fontes é amplo, é preciso dissuadir os jovens investigadores em busca de uma carreira, de uma publicação, de projeção mediática, de procurarem o que desagrada “às pessoas-bem”; e impedir os historiadores teimosos de difundir os seus trabalhos no país e fora dele: eu já disse até que ponto a não tradução dificultava o conhecimento histórico. Autocensura ou censura, o método é imparável, demonstrei isso em A história contemporânea sempre influenciada e em várias contribuições.

 

Notas

[1] La Cagoule, nome dado ao agrupamento político Action Française, oficialmente chamada Comité Secreto de Ação Revolucionária  era um grupo terrorista francês, fascista e anticomunista, ativo ativo de 1935 a 1941, atuando de forma extremamente violenta. – NT

[2] Povoação francesa completamente arrasada pelos alemães durante a guerra. Os seus habitantes foram queimados vivos na igreja onde se refugiaram. – NT

 

* Especialista em Segunda Guerra Mundial, Annie Lacroix-Riz é autora de obras publicadas especialmente por Armand Colin, «O Vaticano, a Europa e o Reich da Primeira Guerra Mundial até à Guerra Fria» (1914-1955) (2010 ); «Industriais e banqueiros franceses sob a ocupação» (2013); «As elites francesas», 1940-1944. «Da colaboração com a Alemanha à aliança americana» (2016); «A não depuração na França de 1943 a 1950» (2019).

Fonte: https://francais.rt.com/opinions/74878-union-sovietique-est-vainqueur-militaire-incontestable-mais-un-vainqueur-blesse-a-mort, colocado em 2020/05/08, acedido em 2020/05/13.

Tradução do francês de TAM

 

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-uniao-sovietica-e-um-vencedor-militar-96188

Portugal | Judeus sefarditas - Uma reparação histórica

 
 
Pedro Carlos Bacelar de Vasconcelos | Jornal de Notícias | opinião

1 - Aquando da partida de Vasco da Gama para as Índias, o rei Manuel I, o Venturoso, expulsou a comunidade judaica de Portugal, perseguida e torturada pelos agentes do Santo Ofício.

A denúncia do judaísmo, assim como de outras confissões e etnias, conduziu à morte, à conversão forçada e aos espetáculos de puro horror coreografados pela Santa Inquisição que ficaram conhecidos como "autos de fé". Qualquer curioso da história genealógica conhece bem a terminologia usada nas certidões de "limpeza do sangue" - exigidas para o acesso à nobilitação e, designadamente, para a aquisição do estatuto de "Familiar do Santo Ofício" que oferecia o atrativo peculiar de transferir a benefício do fiel denunciante a propriedade dos bens do herege denunciado! - onde se enumeravam as, assim chamadas, "nações de raça infeta", a saber: - os judeus, os mouros, os arménios, etc....

2 - Foi o sentimento de um dever de reparação histórica que inspirou a aprovação, por unanimidade, na Assembleia da República, em 2013, de uma alteração à lei da nacionalidade que permite a concessão da nacionalidade portuguesa aos descendentes dos judeus sefarditas, expulsos de Portugal por decreto régio há mais de quinhentos anos. Partilho esta aspiração de promover uma reparação histórica para a qual não vislumbro objeções nem quanto à justiça nem quanto à oportunidade. Apenas merecerá ponderação unânime a pertinência de reclamar igual deferência para com outras comunidades esquecidas cuja identidade tenha sido pretexto de discriminação histórica como - apenas como exemplo que, aliás, mantém infeliz atualidade! - as comunidades ciganas e as africanas.

3 - Uma reparação histórica não é, necessariamente, um gesto puramente simbólico. Por exemplo, é razoável a exigência de devolução de monumentos artísticos em exibição nos museus de Londres, Paris, Berlim ou Lisboa por parte dos estados com jurisdição sobre os territórios de onde essas peças foram retiradas. Este gesto de reparação da Assembleia da República, porém, foi um gesto simbólico de contrição e homenagem aos sefarditas expulsos, concretizado nas pessoas dos seus descendentes, sejam eles, hoje, judeus, cristãos ou ateus. Trata-se portanto de uma exceção legal e fundamentada ao regime comum da nacionalidade, na ordem jurídica da República Portuguesa. Como qualquer lei - e, por maioria de razão, qualquer regime de exceção que, por natureza, é suposto que seja temporário - seria lógico e pertinente avaliar ao fim de sete anos de vigência como tem sido a lei aplicada, a utilidade de manter a sua vigência ou, claro, em que termos se justifica a sua revisão e melhoramento. São por isso disparatadas, falsas e caluniosas as acusações de antissemitismo endereçadas aos deputados empenhados num exercício de revisão legislativa que é seu dever e indeclinável competência.

*Deputado e professor de Direito Constitucional
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-judeus-sefarditas-uma.html

Outros antepassados do pós-modernismo na história

Embora Claude Lévi-Strauss não fosse físico, mas antropólogo, sua visão da história era igualmente reducionista e decorria da fidelidade a um paradigma científico semelhante ao de Popper: o velho modelo galiláico-newtoniano da física. Um importante antropólogo inglês, em polêmica com Lévi-Strauss, escreveu que sua visão da história era “esquiva” (Leach: 1973), com dois traços característicos.

 

 

Um é a desvalorização da história ante a antropologia, com ênfase na linguagem como o elemento que define o homem e a sociedade, desconsiderando as relações sociais e econômicas que formam o metabolismo social e condicionam o desenvolvimento histórico. (Pace: 1992).

O outro traço característico da concepção de Lévi-Strauss é o relativismo que decorre do desprezo às condições materiais de organização da vida e, a pretexto de combater o eurocentrismo, iguala as sociedades sem reconhecer as diferenças de desenvolvimento que há entre elas.

Ao comentar as relações entre etnologia e história, na introdução ao livro “Antropologia Estrutural” (1949), Lévi-Strauss formulou o que chamou de “drama interior revelado” da história: a fragilidade ou impossibilidade de seu conhecimento objetivo. Ele distinguiu duas dimensões no trabalho do analista, a diacrônica e a sincrônica. “Pretender reconstruir um passado do qual se é impotente para atingir a história, ou querer fazer a história de um presente sem passado, drama da etnologia num caso, da etnografia no outro, tal é, em todo caso, o dilema no qual o desenvolvimento delas, ao longo dos últimos cinquenta anos, pareceu muito frequentemente colocá-las”, escreveu naquele texto em que emite uma sentença condenatória contra toda historiografia elaborada na primeira metade do século XX. (Lévi-Strauss: 2008).

Estas teses foram reafirmadas em “Raça e História” (1952) onde diz que o relato histórico não corresponde aos fatos ou a processos, mas às expectativas do historiador. E este é outro ponto de contato com Popper, incorporado depois por outro escritor, Michel Foucault, da mesma extração. “A historicidade, ou mais precisamente, a factualidade de uma cultura ou de um processo cultural é assim função, não das suas propriedades intrínsecas, mas da situação em que nos encontramos em relação a ela, do número e da diversidade dos nossos interesses nela apostados”. (Lévi-Strauss: 2000).

Daí o relativismo extremo de sua visão. Na mesma introdução ele descreveu como são diferentes as visões de um aristocrata e a de um plebeu sobre a tomada da Bastilha, na Revolução Francesa de 1789. Lévi-Strauss extrai daí a tese de que o conhecimento histórico é impossível. “Tudo o que o historiador e o etnógrafo conseguem fazer, e tudo o que se pode pedir-lhes para fazer, é alargar uma experiência particular às dimensões de uma experiência geral ou mais geral, e que se torne, por isto mesmo, acessível como experiência a homens de um outro país ou de um outro tempo” (Lévi-Strauss: 2008).

Eis a mesma incompreensão que há em Popper da relação dialética entre o particular e o universal, aqui encarado como um particular alargado.

Há uma nítida influência de Lévi-Strauss na obra de outro notável pensador francês que aproximou estruturalismo e marxismo, Louis Althusser. Em ferina polêmica contra esse pensamento que incorpora as teses de Lévi-Strauss, o historiador marxista inglês E. P.  Thompson notou que Althusser parte de uma premissa semelhante à de Popper e a radicaliza quando olha com desprezo o fato isolado e considera seu relato como contaminado pelo pecado do empirismo. A noção de que o reconhecimento já está “no objeto real que [o pesquisador] deve conhecer” é para Althusser a fonte da  ilusão do empirismo “abstracionista” que leva o pesquisador ao engano de tomar como descoberta empírica a própria ideia que traz, na mente, do objeto examinado; aquelas que o pesquisador traria no pensamento antes mesmo de iniciar o processo de investigação, e que atribuiria ao objeto investigado. (Thompson: 1981).

O brilho do pensamento de Louis Althusser foi intenso nos anos 1960 e 1970, quando sua obra teve grande prestígio e repercussão. Que decorria da posição política assumida por ele contra a forte onda de revisionismo que prevalecia então. Entretanto, apesar dissso, não escapou da forte distorção filosófica que marcou seu pensamento – que rejeitava a história como ciência. Para ele, o pecado original do historicismo está no erro de atribuir ao processo histórico o sentido e o propósito que existem, segundo ele, previamente na mente do investigador.

Assim, o marxismo de escassa dialética e sem história de Althusser se encontra com os pensamentos de Popper e de Lévi-Strauss, na mesma afirmação da impossibilidade do conhecimento da história e, portanto, da recusa em aceitar seu caráter científico.

Esse materialismo precário trai e abandona o materialismo moderno (dialético) de Marx e Engels e seu lugar é ocupado pelo materialismo metafísico, mecanicista, próprio do século XVIII, que os fundadores do marxismo criticaram, e superaram, nas Teses sobre Feuerbach (1845) e em Anti-Duhring (1878) (Marx: 1979; Engels: 2015).

Marx havia feito a crítica de ideias semelhantes nas cartas a Annenkov (28/12/1846), e a Schweitzer (24/01/1865) (Marx: 1982), em que criticou o idealismo de Proudhon. Seus argumentos podem ser usados na polêmica com Althusser. As categorias são construções cerebrais que refletem a práxis, a experiência concreta dos homens. Mas,na concepção mistificada de Proudhon (que Althusser repete) são “elas, e não os homens, [que] fazem história”, diz Marx. Embora não passem de reflexos de experiências que, ocorrendo no mundo real e concreto, são elaboradas no cérebro, na forma de ideias. Entretanto, na concepção de Proudhon, como na de Althusser, a teoria (que reflete no cérebro o mundo objetivo) ocupa o lugar da realidade concreta refletida pelo pensamento. Nesta concepção mistificada, a ideia é considerada como o ponto de partida, e substitui a realidade em si. Marx explica que Proudhon (como Althusser, um século depois) partilha as ilusões da filosofia especulativa na medida em que fantasia as categorias como “idéias preexistentes, eternas”, chegando outra vez “ao ponto de vista da economia burguesa”: “Quando os economistas dizem que as relações presentes – as relações da produção burguesas – são naturais, dão assim a entender que são relações em que a criação de riqueza e o desenvolvimento das forças produtivas se consumam em conformidade com as leis da Natureza. Deste modo, estas relações são elas próprias leis da Natureza, independentes da influência do tempo. São leis eternas que sempre têm de reger a sociedade. Assim, houve uma história, mas já não há mais”, polemiza Marx. (cit. in Thompson: 1981).

De fato, para Althusser a história só existe como a aplicação de uma teoria que, ela mesma, também não existe, criticou Thompson. “Devemos – escreveu Althusser em “Ler o Capital” –  encarar a sério o fato de que a teoria da história no sentido rigoroso não existe, ou que só existe para os historiadores, que os conceitos de história existentes são, pois, no mais das vezes, conceitos ‘empíricos’, isto é, fortemente mestiçados com uma ideologia que se dissimula sob suas ‘evidências’” (Althusser: 1980).

Esta concepção tem consequências teóricas relevantes. Ela repete o velho e ultrapassado materialismo mecanicista, criticado e superado por Marx e Engels, e que separava radicalmente sujeito e objeto, e transformava o conhecimento num reflexo inerte do objeto na mente do sujeito, como se fosse uma imagem no espelho ou uma cópia fotográfica, passiva. Concepção que diverge do materialismo moderno, dialético que reconhece a unidade entre sujeito e objeto.

Na trilha da compreensão inaugurada por Spinoza, que diferenciou “objetos reais e concretos” de “objetos do pensamento”, Hegel deu o passo adiante que, seguido por Marx e Engels, foi fundamental para a formulação do materialismo moderno, que é dialético e rompe com a visão reducionista que predominou no materialismo antigo. E fundou a compreensão mais avançada que encara o processo de conhecimento como a articulação sujeito/objeto, na qual o que está na mente do sujeito não é uma reprodução morta, mecânica, automática, imediata, do objeto e do mundo objetivo. Mas sim um concreto pensado, uma construção cerebral a partir dos impulsos provocados pela percepção do mundo objetivo, percepção viva, mediada, filtrada pelas concepções, crenças e visão do mundo de que o sujeito é portador. Daí o caráter incompleto, provisório e aproximativo, mas nunca relativo, do conhecimento. (Spinoza: 2010; Chauí: 2000; Lênin: 1972; Lênin: 1979).

É surpreendente que Althusser – tendo examinado em detalhe, em “Ler o capital”, o texto seminal que é o capítulo “O Método da Economia Política” (de “Introdução à crítica da economia política”), onde Marx trata dessa questão teórica, não tenha compreendido como esta concepção materialista e dialética se aplica à história.

Esta séria limitação de seu pensamento o levou a buscar na “estrutura” o esteio da história, como escreveu em “Ler o Capital”: “A verdade da história não pode ser lida em seu discurso manifesto, porque o texto da história não é um texto em que fale uma voz (o Logos) mas a inaudível e ilegível anotação dos efeitos de uma estrutura de estruturas” (Althusser: 1980) – uma frase de inegável ressonância  heideggeriana.

Foi a essa “estrutura” aprendida pela leitura da obra de Lévi-Strauss que Althusser atribuiu o caráter “material” (à maneira positivista e reducionista), a ossatura, da vida humana organizada. E fundamenta seu entendimento da história como um “processo sem sujeito” que Althusser supõe ser a “base de todas as análises em ‘O Capital’” (Thompson: 1981).

 
 
  • Althusser, L., Balibar, E., e Estabelt, R. “Ler O Capital“. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980
  • Chaui, Marilena. “Paixão, ação e liberdade em Espinosa”. Folha de S. Paulo, 20/08/2000
  • Engels, Friedrich. Anti-Duhring. São Paulo, Boitempo. 2015
  • Lênin, V. I. “Cuadernos Filosóficos“. Buenos Aires, Ediciones Estúdio, 1972
  • Lênin, V. I. “Em torno a la dialectica“. In “La Literatura y el arte”. Moscou, Editorial Progreso, 1979
  • Lévi-Strauss, Claude. “Antropologia Estrutural”, São Paulo, Cosac Naify, 2008
  • Lévi-Strauss, Claude. “Raça e História”. Lisboa, Editora Presença, 2000
  • Marx, Karl. Carta a J. B. Von Schweitzer, 24 de janeiro de 1865. In “Obras Escolhidas em três tomos“. Lisboa, Edições Progresso, 1982
  • Marx, Karl. Tesis sobre Feuerbach. In Marx/Engels, “Obras escogidas“, T. II, Madri, Editorial Ayuso, 1976
  • Marx, Karl. Introdução à Crítica da Economia Política. In “Contribuição para a Crítica da Economia Política“. Lisboa, Editorial Estampa, 1973
  • Peace,David. “Claude Lévi-Strauss: o guardião das cinzas“. Rio de Janeiro, Editora Bertrand Brasil, 1992
  • Spinoza, Baruch de. “Ética – demonstrada à maneira dos geômetras”, Parte II. Belo Horizonte, Autêntica, 2010
  • Thompson E. P.”A miséria da teoria – ou um planetário de erros (uma crítica ao pensamento de Althusser)“. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/levi-strauss-outros-antepassados-do-pos-modernismo-na-historia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=levi-strauss-outros-antepassados-do-pos-modernismo-na-historia

PORQUE XI NÃO VAI REPETIR OS ERROS DA DINASTIA MING, por PEPE ESCOBAR

OBRIGADO A PEPE ESCOBAR, PATRÍCIA ZIMBRES, ASIA TIMES, BRASIL247, ALAINET E A TODOS OS QUE TENHAM CONTRIBUÍDO PARA ESTE TRABALHO

 

Obrigado `à Wikipedia e a Bazonka

 

 

Why Xi won’t repeat Ming Dynasty mistakes, por Pepe Escobar

Asia Times, 11 de Maio de 2020

Selecção de João Machado

 

Xi Jinping dirige aos chineses mensagem de Ano Novo Foto: Xinhua

 

A China aprendeu com a sua riquíssima história e está a aplicar essas lições para voltar a aparecer como uma grande potência do século 21.

Agora que a guerra híbrida 2.0 contra a China, turbinada por uma sinistra campanha de desinformação, atinge seu pico febril, as Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Rota, continuarão a ser incessantemente demonizadas como o proverbial e maligno plano comunista para dominar econômica e geopoliticamente o mundo “livre”.

É perda de tempo discutir com simplórios. Para que possa haver um debate informado, o importante é encontrar as raízes mais profundas da estratégia de Pequim – o que os chineses aprenderam com sua rica história e como eles vêm aplicando essas lições para ressurgir como uma grande potência no jovem século XXI.

Comecemos pela maneira como o Oriente e o Ocidente, no passado, se posicionavam no centro do mundo.

A primeira enciclopédia histórico-geográfica chinesa, o Clássico das Montanhas e do Mar, do século II A.C., nos diz que o mundo era o que existia sob o sol (tienhia). Formado por “montanhas e mares” (shanhai), o mundo foi disposto entre “quatro mares” (shihai). Uma única coisa não muda nunca: o centro. E seu nome é o “Reino do Meio” (Zhongguo), ou seja, a China.

É claro que os europeus do século XVI, tendo descoberto que a Terra era redonda, viraram a centralidade chinesa de cabeça para baixo. Mas na verdade nem tanto assim (ver, por exemplo, este mapa sinocêntrico do século XXI, publicado em 2013).

O princípio de um imenso continente cercado por mares, o “oceano exterior”, parece ter tido origem na cosmologia budista, na qual o mundo é descrito como um “lótus de quatro pétalas”. Mas o espírito sinocêntrico era forte o suficiente para descartar e prevalecer sobre qualquer cosmogonia que porventura o contradissesse, tal como a budista, que colocava a Índia no centro.

Vejamos agora a Grécia Antiga. Seu centro, com base na reconstituição de mapas de Hipócrates e Heródoto, situava-se no Mar Egeu, destacando a tríade Delfos-Delos-Jônia. A grande cisão entre Oriente e Ocidente data do Império Romano do século III. E começa com Diocleciano, centrada exclusivamente na geopolítica.

A sequência é a seguinte: em 293, Diocleciano instaura uma tetrarquia, com dois Augustos e dois Césares, e quatro prefeituras. Maximiano Augusto é encarregado da defesa do Oeste (Occidens) a partir da “prefeitura da Itália”, com capital em Milão. Diocleciano assume ele próprio a defesa do Leste (Oriens), a partir da “prefeitura do Oriente”, que tinha Nicomédia como capital.

A religião política foi somada a esse novo complexo político-militar. Diocleciano funda as dioceses cristãs (dioikesis, em grego, em homenagem a ele), em um total de doze. Já existe uma diocese do Oriente – basicamente o Levante e o norte do Egito.

Não há diocese do Ocidente. Mas há uma diocese da Ásia: basicamente o que hoje corresponde à região ocidental da Turquia mediterrânea, herdeira das antigas províncias romanas na Ásia. Isso é bem interessante: o Oriente é situado a leste da Ásia.

O centro histórico, Roma, é apenas um símbolo. Não há mais centro. Na verdade, o centro vem pendendo para o Oriente. Sob Constantino, Nicomédia, a capital de Diocleciano, é rapidamente substituída pela vizinha Bizâncio, rebatizada como Constantinopla, que o novo imperador quer transformar na “nova Roma”.

Quando o Império Romano do Ocidente cai, em 476, o Império do Oriente continua existindo.

Oficialmente, ele só se transformará no império bizantino no ano de 732, enquanto o Sacro Império Romano – que, como sabemos, não era nem sagrado, nem romano e nem sequer um império – ressurge com Carlos Magno, em 800. A partir de Carlos Magno, o Ocidente passa a se ver como “Europa” e vice-versa: o centro histórico e o motor desse vasto espaço geográfico que, posteriormente, alcançou e incorporou as Américas.

 

O almirante superstar 

 

Estamos ainda imersos no debate – literalmente – oceânico travado entre os historiadores sobre o contexto e a miríade de razões que levaram multidões, a partir de fins do século XV, a se lançarem freneticamente ao mar – de Colombo e Vasco da Gama a Magalhães.

Mas o Ocidente costuma esquecer o verdadeiro pioneiro: o icônico Almirante Zheng He, originalmente chamado Ma He, um eunuco e muçulmano hui da província de Yunnan.

Seu pai e seu avô haviam peregrinado a Meca. Ele cresceu falando mandarim e árabe e aprendendo muito sobre geografia. Aos 13 anos de idade, ele foi colocado na casa de um príncipe Ming, Zhu Di, membro da dinastia que havia ascendido ao poder em 1387.

Educado como diplomata e guerreiro, Zheng He converteu-se ao budismo sob seu novo nome, embora tenha sempre permanecido fiel ao Islã. Afinal, como pude ver por mim mesmo quando visitei comunidades hui em 1997, ao tomar um desvio da Rota da Seda a caminho do mosteiro Labrang, em Xiahe, o Islã Hui é um sincretismo fascinante que incorpora budismo, taoísmo e confucionismo.

Zhu Di derrotou o Imperador em 1402, tomando o nome de Yong Le. Um ano mais tarde, ele já havia concedido a Zheng He o título de almirante, encarregando-o de supervisionar a construção de uma grande frota destinada a explorar os mares que circundavam a China. Ou, mais precisamente, o “Oceano Ocidental” (Xiyang): ou seja, o Oceano Índico.

Assim, de 1405 a 1433, ao longo de cerca de três décadas, Zheng He liderou sete expedições marítimas partindo de Nanquim, no rio Yangtze e, tirando partido dos ventos monçônicos, chegando até a Arábia e o Leste da África. Elas passaram por Champa, Bornéu, Java, Malaca, Sumatra, Ceilão, Calicute, Hormuz, Aden, Jeda/Meca e Mogadishu, chegando à costa leste da África ao sul do Equador.

Zheng He comandava verdadeiras armadas, por vezes com mais de 200 navios, incluindo 72 de alto mar, levando até 30 mil homens e grandes quantidades de mercadorias preciosas para vender: seda, porcelana, prata, algodão, produtos de couro, utensílios de ferro. O navio principal da primeira expedição, capitaneado por Zheng He, tinha 140 metros de comprimento, 50 metros de largura e uma tripulação de mais de 500 homens.

Essa foi a Rota da Seda Marítima original, que vem sendo recriada agora no século XXI. Ela foi acoplada a um outro ramal da Rota da Seda terrestre: afinal, os tão temidos mongóis batiam em retirada, havia novos aliados por todo o caminho até Transoxiana, e os chineses conseguiram firmar tratados de paz com o sucessor de Tamerlane. Assim, as Rotas da Seda voltaram a crescer rapidamente. A corte Ming enviou diplomatas a toda a Ásia – Tibé, Nepal, Bengala, e até mesmo ao Japão.

O principal objetivo dessas navegações pioneiras chinesas sempre deixou perplexos os historiadores ocidentais. Em essência, essas expedições eram uma mistura diplomática, comercial e militar. Era importante que a suserania chinesa fosse reconhecida – e materializada com o pagamento de tributos. Mas, antes de qualquer outra coisa, o objetivo era comercial: não é de admirar que os navios tivessem cabines para mercadores.

A armada recebeu o nome de Frota do Tesouro – embora denotasse ser mais uma questão de prestígio que uma operação de captura de riquezas. Yong Le era muito hábil em termos de poder brando e economia – ele assumiu o controle do comércio ultramarino impondo um monopólio imperial sobre todas as transações. Essa, portanto, foi uma aplicação ampla e inteligente do sistema tributário chinês – nas esferas comercial, diplomática e cultural.

Yong Le, na verdade, seguia as instruções de seu predecessor Hongwu, fundador da dinastia Ming (“Luzes”). Conta a lenda que Hongwu ordenou que um bilhão de árvores fossem plantadas na região de Nanquim para suprir a construção de uma marinha.

Em seguida ocorreu a transferência da capital de Nanquim para Pequim, em 1421, e também a construção da Cidade Proibida. Tudo isso custou muito dinheiro. Por mais que as expedições navais fossem caras, seus lucros, é claro, foram de grande utilidade.

Yong Le queria criar estabilidade para a China – e para toda a Ásia – com o estabelecimento de uma Pax Sinica. Essa estabilidade não seria imposta à força, mas com diplomacia aliada a uma sutil demonstração de poder. A Armada era o porta-aviões da época, com canhões bem visíveis embora raramente usados, e praticando a “liberdade de navegação”.

O que o imperador queria era conquistar aliados entre os governantes locais e, para tal, ele usava de intriga e de comércio, mais que do choque e do medo provocados por batalhas e massacres. Por exemplo, Zheng He proclamou a suserania chinesa sobre Sumatra, Cochinchina e Ceilão. Ele privilegiava um comércio equitativo, de modo que nunca houve um processo de colonização.

Ao contrário: antes de cada expedição, durante a etapa de planejamento, emissários dos países a serem visitados eram convidados à corte Ming, onde eram regiamente tratados.

 

Os saqueadores europeus 

 

Compare-se isso à colonização europeia liderada uma década mais tarde pelos portugueses, nessas mesmas terras e nesses mesmos mares. Entre uma cenoura (pequena) e uma vara (muito longa), os europeus praticavam o comércio usando, principalmente, de massacres e conversões forçadas. Postos comerciais logo foram convertidos em fortes e instalações militares, algo que as expedições de Zheng He jamais tentaram.

Aliás, Zheng He deixou tão boas recordações que foi divinizado com o nome chinês de San Bao, que significa “Três Tesouros”, em lugares do Sudeste Asiático como Malaca e Ayutthaya, no Sião.

Então veio o que só pode ser descrito como o sadomasoquismo judaico-cristão, focado em impor o sofrimento como virtude e único caminho para alcançar o Paraíso. Jamais ocorreria a Zheng He que ele e seus marinheiros, bem como as populações com as quais ele entrou em contato, teriam que pagar tamanho preço.

Então, por que tudo acabou, e tão subitamente? Em poucas palavras, Yong Le ficou sem dinheiro em razão de suas aventuras imperiais. O Grande Canal – ligando o rio Amarelo com as bacias do Yangtze– custou uma fortuna. O mesmo se deu com a construção da Cidade Proibida. A receita das expedições não foi suficiente.

E assim que a Cidade Proibida foi inaugurada, ela pegou fogo, em maio de 1421. Mau agouro. Segundo a tradição, isso significava desarmonia entre o Céu e o soberano, um acontecimento fora dos padrões astrais. Os confucionistas culpavam os conselheiros eunucos, muito próximos aos mercadores e às elites cosmopolitas que cercavam o imperador. E, para piorar as coisas, as fronteiras do sul estavam inquietas, e a ameaça mongol, na verdade, não havia chegado ao fim.

O novo imperador Ming, Zhu Gaozhi, ditou a lei: “O território da China produz todos os bens em abundância; então, por que haveríamos de comprar no exterior bugigangas sem o menor interesse?”

Seu sucessor, Zhu Zanji, foi ainda mais radical. Até 1452, uma série de éditos imperiais proibiram o comércio exterior e as viagens para fora do país. Toda e qualquer infração era considerada pirataria e punida com a morte. Ainda mais grave, o estudo de línguas estrangeiras foi banido, bem como o ensino do chinês a estrangeiros.

Zheng He morreu (em inícios de 1433? 1435?) bem a caráter, em alto mar, ao norte de Java, quando voltava da sétima e última expedição. Os documentos e os mapas usados nas expedições foram destruídos, bem como os navios.

Foi assim que os Ming repudiaram o poderio naval e retornaram ao velho confucionismo agrário, que preferia a agricultura ao comércio, a terra aos mares e o centro às terras estrangeiras.

 

Retirada naval nunca mais

 

A lição que pode ser extraída daí é que o formidável sistema naval tributário montado por Yong Le e Zheng He foi vítima de seus excessos – gastos estatais em demasia e turbulência camponesa – bem como de seu próprio sucesso.

O que ocorreu em menos de um século, das expedições de Zheng He até o recuo da dinastia Ming, se mostrou um divisor de águas tremendo na história e na geopolítica, prefigurando o que viria a acontecer logo em seguida, no longo século XVI, a era em que a Europa começou a tentar e por fim conseguiu dominar o mundo.

Uma imagem é forte. Enquanto os oficiais de Zheng He, em 1433, navegavam ao longo da costa leste da África até seu extremo sul, as expedições navais portuguesas davam início a suas aventuras no Atlântico, avançando pouco a pouco rumo ao sul ao longo da costa oeste africana. O mítico Cabo Bojador foi conquistado em 1434.

As sete expedições Ming cruzaram todo o Sudeste da Ásia e o Oceano Índico, começando em 1403 e se prolongando por quase três décadas. Apenas meio século depois, em 1488, Bartolomeu Dias conquistaria o Cabo da Boa Esperança e, dez anos mais tarde, em 1498, Vasco da Gama chegaria a Goa.

Imaginem um “e se?” histórico: os chineses e os portugueses chocando-se uns contra os outros em terras swahili. Afinal, em 1417 foi a vez de Hong Bao, o eunuco muçulmano que era imediato de Zheng He; e em 1498, a vez de Vasco da Gama, orientado pelo “Leão do Mar” Ibn Majid, seu lendário mestre navegador.

Os Ming não eram obcecados por ouro e especiarias. Para eles, o comércio deveria se basear em trocas equitativas no quadro do tributo. Como Joseph Needham provou conclusivamente em obras como Science and Civilization in China, os europeus queriam os produtos asiáticos muito mais que os orientais queriam os produtos europeus, “e a única maneira de pagar por eles era o ouro”.

Para os portugueses, as terras “descobertas” eram todas território de colonização potencial. E, para tal, os poucos colonizadores precisavam de escravos. Na China, os escravos serviam em trabalhos domésticos, no máximo. Para os europeus, tratava-se da exploração maciça de força de trabalho em plantações e em minas, muito especialmente no que se referia às populações negras da África.

Na Ásia, ao contrário do que fez a diplomacia chinesa, os europeus partiram para o massacre. Usando de tortura e mutilações, Vasco da Gama e outros colonizadores portugueses lançaram-se a uma verdadeira guerra de terror contra populações civis.

Essa diferença estrutural de importância máxima está na raiz do sistema mundial e da organização geo-histórica do mundo atual, como analisado por craques da geografia como Christian Grataloup e Paul Pelletier. Os países asiáticos não tiveram que administrar – nem sofrer – as repercussões da escravatura.

Então, em um período de apenas algumas décadas, os chineses abdicaram de manter relações mais estreitas com o Sudeste Asiático, a Índia e o Leste da África. A frota Ming foi destruída. A China abandonou o comércio ultramarino e recolheu-se em si mesma para se concentrar na agricultura.

Mais uma vez: a conexão direta entre a retirada naval chinesa e a expansão colonial europeia é capaz de explicar o desenvolvimento do processo dos dois “mundos” – o Ocidente e o centro chinês – instaurado já no século XV.

Em fins do século XV, não havia mais arquitetos chineses capazes de construir grandes navios. O desenvolvimento de armamentos também havia sido abandonado. Em poucas décadas, o mundo chinês perdeu sua vasta dianteira tecnológica sobre o Ocidente. E, mais tarde, a China pagaria um imenso preço, simbolizado no inconsciente chinês como “o século da humilhação”.

Todo o exposto acima explica uma série de coisas. Como Xi Jinping e a atual liderança fizeram seu dever de casa. Por que a China não irá reprisar uma remixagem da era Ming e bater novamente em retirada. Por que e como a Rota da Seda terrestre e a Rota da Seda marítima estão sendo revivificadas. Por que não haverá novas humilhações. E, acima de tudo, por que razão o Ocidente – em especial o Império Americano – recusa-se terminantemente a aceitar o novo curso da história.

 

– Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais Para o Asia Times

 

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

 

13 de maio de 2020

Poderá também ler este trabalho de Pepe Escobar clicando em:

https://www.brasil247.com/blog/por-que-xi-nao-vai-repetir-os-erros-da-dinastia-ming

https://www.alainet.org/es/node/206564

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/23/porque-xi-nao-vai-repetir-os-erros-da-dinastia-ming-por-pepe-escobar/

O papel do acaso na história

A teoria da evolução e a ciência da história se defrontam com um mesmo desafio: a contingência (o acaso), escreveu o biólogo Stephen Jay Gould no livro “Vida Maravilhosa – O acaso na evolução e a natureza da história”.

 

 

A contingência, diz ele, é o “princípio central de toda a história”. (Gould: 1990). Fundamenta assim uma compreensão de inspiração dialética da evolução e da história.

A palavra contingência exige uma pequena apresentação filosófica. Para os fins deste estudo, basta indicar que significa aquilo que, para acontecer, depende das circunstâncias, que indicam a possibilidade de fatos que, sendo possíveis, podem ou não ocorrer. A contingência seria, de acordo com Gould, característica da história como ciência – e também da teoria da evolução. Ele argumenta que, se fosse possível refazer o caminho que levou do passado ao presente, nada garante que este se repetiria exatamente da forma como ocorreu.

Gould polemizou em duas frentes. Primeiro, enfrentou a visão do desenvolvimento histórico como desdobramento necessário de um plano pré-estabelecido que conduziria do passado ao presente. Depois, questionou as visões que exigem da história enquanto ciência um poder de previsão que, nos detalhes, ela não pode ter.

No âmbito da teoria da evolução, Gould compreendeu o papel do acaso na mudança dos seres vivos sob influência de fatores genéticos e de sua interação com o meio ambiente. Influência ambiental que a biologia molecular demonstrou ao ressaltar seu papel na variação das espécies (Gould: 1990; Mayr: 2009; Lewontin: 2000).

Gould distingue, entre os princípios básicos das leis que regulam a evolução a contingência, que se manifesta nos detalhes. E lembra que Darwin, ao debater com seu colaborador estadunidense, o evolucionista Asa Gray – que tentou conciliar a teoria da evolução com suas convicções religiosas – já havia reconhecido esta distinção. A evolução é comandada por leis gerais, argumentou Darwin – mas o que determina a sua particularidade é a contingência (o acaso). O universo, escreveu Darwin, é regido pelas leis “com os detalhes, sejam bons ou ruins, deixados a cargo do que podemos chamar de acaso” (cit. in Gould: 1990).

A outra questão é a previsibilidade. Se a história como ciência não tem uma capacidade absoluta de previsão, argumenta Gould, nem por isso o processo histórico será “algo desprovido de sentido e de um padrão significativo”, como também ocorre com a evolução dos seres vivos. Embora a “diversidade dos itinerários possíveis” demonstre “claramente que os resultados finais não podem ser previstos no início do processo”, cada etapa “tem a sua razão”. Da mesma forma como na teoria da evolução, a “essência da história” é a contingência. Os complexos eventos históricos – como os da evolução – não podem ser reduzidos “a simples consequências das leis naturais” e, “embora os eventos históricos obviamente não violem nenhum princípio geral acerca da matéria e dos movimentos, eles ocorrem no âmbito dos detalhes contingentes” (Gould: 1990).

O reconhecimento do papel da contingência (do acaso) leva à compreensão de que não há plano fixo e pré-determinado na história, à margem da atividade prática dos homens e que oriente o rumo dos acontecimentos. Se há um plano na história, Marx e Engels mostram que ele é elaborado cotidianamente pelos homens durante o desdobramento de sua vida, no qual o acaso – o mesmo acaso que Darwin reconheceu na evolução biológica – tem um papel importante. “A história universal – escreveu Marx em 1852 – teria um caráter muito místico se excluísse o acaso. Este acaso, bem entendido, faz parte do processo geral de desenvolvimento, e é compensado por outras formas de acaso. Mas a aceleração ou o atraso do processo dependem desses ‘acidentes’, incluindo o caráter ‘fortuito’ dos indivíduos que estão à cabeça do movimento na sua fase inicial.”(Marx: 1969). Em uma carta, de 1877, Marx desenvolve essa ideia; chama a atenção para o fato de que o reconhecimento do papel do acaso não autoriza nenhum misticismo nem torna a história inacessível ao conhecimento. Ao contrário, diz Marx, estudando “cada uma dessas evoluções separadamente e então, comparando-as, é fácil encontrar a chave para a compreensão destes fenômenos; mas nunca é possível chegar a esta compreensão usando o passe partout (a chave-mestra) de alguma teoria histórico-filosófica cuja grande virtude é permanecer acima da história” (cit. in Carr: 1982).

Este é um dos traços que distinguem a história como ciência, que emprega “um tipo diferente de explicação, baseado na comparação e na riqueza de dados provenientes da observação”, diz Gould. A história não pode examinar diretamente o que aconteceu no passado, da mesma forma como outras ciências (como a teoria da evolução ou a astronomia) que se baseiam em inferências e nem sempre na “observação pura e simples”, assegura. E defende, em outro patamar, a verificabilidade como critério científico: “O que se exige com firmeza de todas as ciências – sejam históricas ou convencionais – é uma verificabilidade confiável e não a observação direta para efetuar os testes”. A explicação histórica, diz Gould, “não se baseia em deduções diretas das leis da natureza, mas numa sequência imprevisível de estados antecedentes onde qualquer grande alteração em qualquer etapa da sequência teria modificado o resultado final que, portanto, depende ou está na contingência de tudo o que aconteceu antes – a indelével e determinante assinatura da história” (Gould: 1990).

O britânico Carr tratou deste problema quando se referiu à previsibilidade na história. Inspirado em formulações da física quântica, escreveu: “diz-se que não se aprendem lições da história porque a história, ao contrário da ciência, não pode prever o futuro. Esta questão está envolvida por um encadeamento de mal-entendidos”. Argumentou que mesmo os cientistas já não estão “tão ansiosos como antes para falar sobre as leis da natureza”. Carr se apoiou na física moderna (o princípio da incerteza e a probabilística da física quântica) para dizer: mesmo os cientistas convencionais “tratam apenas das probabilidades de ocorrerem acontecimentos. A ciência hoje está mais inclinada a lembrar que a indução pode logicamente levar apenas a probabilidades ou à crença razoável, e está mais ansiosa em tratar seus pronunciamentos como regras gerais ou guias, cuja validade pode ser testada apenas em ações específicas” (Carr: 1982).

Uma das consequências do reconhecimento do papel da contingência (do acaso) no desenvolvimento histórico, é preciso enfatizar, é a compreensão de que a história não tem um plano fixo e pré-determinado, à margem da atividade prática dos homens.

A pergunta a se fazer, no exame do passado, não é como ele deveria ter acontecido, mas como realmente aconteceu; qual é o conjunto de fatos que precisam ser demonstrados e que ilustram o caminho percorrido por uma sociedade até chegar ao que ela se tornou hoje. Só assim se poderá compreender objetivamente o caminho percorrido pelo rio das eras e demonstrar de forma científica seu transcorrer, no qual a contingência tem papel tão decisivo. Marx, numa metáfora inspirada comparou, no discurso que pronunciou no aniversário do jornal operário inglês “The People’s Paper”, em 14 de abril de 1856, a revolução (e, por extensão, pode-se entender, a história) a uma toupeira que cava sob a terra, sem que se saiba onde irá surgir. Mas surgirá! (Marx: 1982).

 
 
  • Carr Edward H. Carr. “Que é história?” Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982
  • Gould, Stephen Jay. “Vida Maravilhosa – O Acaso na Evolução e a Natureza da História”. Cia das Letras, São Paulo, 1990
  • Lewontin, Richard. “Biologia como ideologia: a doutrina do DNA”. Ribeirão Preto (SP), Funpec, 2000.
  • Marx, Karl. “Discurso no aniversário de’The People’s Paper’ proferido em Londres, em 14 de abril de 1856”. In “Obras Escolhidas em três tomos”. Lisboa, Edições Progresso, 1982
  • Marx, Karl. “O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969
  • Mayr, Ernst. “O que é a evolução?”. Rio de Janeiro, Rocco, 2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

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Combates por uma certa história

Em 1990, o saudoso historiador Eric Hobsbawm, uma das minhas principais referências intelectuais, escreveu um texto memorável sobre os cem anos do 1º de Maio, explicando como a data foi inscrita no calendário pela gente comum, a que, não deixando a mais das vezes registo individual, cria colectivamente tudo o que tem valor e faz a história andar para a frente.

A revista Tribune, um dos sinais de revitalização do pensamento socialista britânico, decidiu republicar o ensaio, acompanhado-o de belíssimos cartazes. Não andará por aí um tradutor?

Este texto foi escrito num período em que as coisas estavam mesmo andar para trás, em que era urgente combater pela memória. Nesse mesmo ano, noutro artigo, Hobsbawm defendeu que o principal efeito de 1989 tinha sido o fim do medo entre os ricos, o que teria consequências danosas para os pobres.

Entretanto, um discípulo de Hobsbawm, Donald Sassoon, autor de   pdfCem Anos de Socialismo(28.83 MB), que continua a ser a melhor história da esquerda europeia que eu já li, voltou, também na Tribune, ao tema da trajectória da social-democracia, depois de ter andado, entre outros, a escrever uma história global do capitalismo até 1914. E fê-lo, constatando a previsibilidade da derrota da social-democracia desde essa monumental obra:

“A maioria dos partidos social-democratas aderiu a políticas de austeridade, permitindo que os salários estagnassem, que as desigualdades aumentassem, privatizando serviços públicos numa extensão inimaginável trinta anos atrás, sem sequer ousar taxar os beneficiários prósperos deste processo. Raramente compensa lutar no terreno do adversário”.

Realmente, não compensa. Lembrei-me da síntese de outro historiador britânico, Perry Anderson, sobre evolução da social-democracia europeia, feita logo em 1994:

“Outrora, nos anos fundadores da Segunda Internacional, tinha por objectivo o derrube do capitalismo. Depois tentou realizar reformas parciais concebidas como passos graduais para o socialismo. Finalmente, passou a ser favorável ao Estado-Providência e ao pleno emprego no quadro do capitalismo. Se agora aceita a destruição do primeiro e o abandono do segundo, em que tipo de movimento se irá tornar?”

A resposta é hoje clara.

Como já argumentei, aqui ou aqui, a europeização da social-democracia explica parte importante da crise terminal dos partidos para quem o movimento era tudo: participaram activamente num movimento integrador que, com a UE, gerou impotência democrática em tantos Estados europeus. A social-democracia, o movimento socialista, conquistou tudo através dos Estados.

Mas a história não acabou, aposto. O que tem mesmo de acabar é o globalismo, que jamais pode ser confundido com internacionalismo.

 

Baixar: pdfOne Hundred Years of Socialism The West European Left in the Twentieth Century(28.83 MB)

       pdfA Crise da Crise Do Marxismo(734 KB) (Perry Anderson)

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Há 45 anos, o povo do Vietname venceu a agressão e conquistou a paz

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A libertação de Saigão (como então se chamava a atual Cidade de Ho Chi Mihn) com a entrada das forças da Frente de Libertação do Vietname, a 30 de abril de 1975, marca o fim da longa luta do povo vietnamita pela sua libertação nacional e fim da agressão estrangeira.

Desde a década de 40 do século XX, o povo vietnamita enfrentou a ocupação japonesa, o colonialismo francês e a agressão norte-americana, ou seja, a intervenção de poderosas potências económicas e militares, incluindo a mais poderosa do mundo. A todas venceu!

A tenacidade, abnegação, unidade e patriotismo do povo do Vietname revelaram-se mais fortes do que as mais avançadas armas e os mais bem equipados soldados. A vitória consumada em abril de 1975 mostrou que nenhuma força, por mais poderosa e brutal que seja, pode travar um povo que luta pelo seu direito a ser livre e a escolher soberanamente o seu próprio rumo de desenvolvimento.

Via: Início – CPPC – Conselho Português para a Paz e Cooperação https://bit.ly/2SsdqH5

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/01/ha-45-anos-o-povo-do-vietname-venceu-a-agressao-e-conquistou-a-paz/

O 1º de Maio na história: como nasceu o Dia do Trabalhador

O sábado, 1º de maio de 1886, é um dia diferente dos outros para Chicago. Desde a manhã reina um grande silêncio. As fábricas, os transportes e o comércio estão paralisados.

 

 

Os Estados Unidos surgem como nação independente em 1776, após romper seus laços coloniais com a Inglaterra. Cedo põem-se na estrada do forte crescimento capitalista. Entre 1820 e 1860, a população passa de 9,6 milhões a 31,3 milhões, graças ao forte afluxo imigratório, sobretudo de irlandeses, alemães e escandinavos. Essa massa concentra-se principalmente nos estados do norte da Federação, onde, ao contrário do que sucede no Sul, o escravismo ainda existente é muito débil.

Os imigrantes vêm a constituir a mão-de-obra fundamental das nascentes fábricas norte-americanas. Junto com eles chega também Robert Owen, o socialista utópico que tenta criar colônias igualitárias em terras do Novo Mundo. Ele começara sua experiência em New Harmony no dia 1º de maio de 1825. Em poucos anos, todas as suas tentativas se revelarão frustradas – mas essa data tem valor simbólico, pois diz respeito à primeira tentativa de organização política de núcleo operário nos Estados Unidos.

A condição dos trabalhadores é, no geral, idêntica à dos europeus – horas intermináveis de trabalho e salários que não possibilitam nem mesmo a reprodução da mão-de-obra. Em 1827, carpinteiros, pedreiros, marceneiros e vidraceiros de Filadélfia realizam a primeira greve – e criam a Union of Trade Associations of Philadelphia (União das Associações de Trabalhadores de Filadélfia). É o nascimento do movimento sindical norte-americano, embora ainda muito franzino.

Em 1842, depois de várias petições, é votada a lei de dez horas diárias de trabalho para as crianças, válida para os estados de Massachusetts e de Connecticut. Três anos depois, realiza-se o primeiro congresso operário norte-americano, o qual defende em sua plataforma a luta pela jornada de dez horas para todos. O estado de New Hampshire aceita essa reivindicação, mas a constante chegada de novos imigrantes e a usura dos patrões invalidam a lei.

O norte industrializado e o sul agrário e escravista entram em guerra civil em 1861. Depois de quatro logos e dramáticos anos, o sul é derrotado e termina a escravatura com a libertação de todas as forças da nação para o desenvolvimento das relações de produção capitalistas. Com a volta dos soldados à vida civil e a desmobilização das fábricas, cresce a necessidade por novos empregos e aumenta a pressão social pela diminuição das horas de serviço para encontrar colocações para os ex-combatentes.

Em agosto de 1866, o congresso operário de Baltimore discute esses problemas e adota a seguinte resolução: “A primeira e grande necessidade do presente, para libertar o trabalho deste país da escravidão capitalista, é a promulgação de uma lei em que oito horas devem constituir a jornada de trabalho normal em todos os Estados da União norte-americana. Nós estamos decididos a empenhar toda nossa força até que seja atingido esse glorioso resultado”.

Nesses mesmos dias, a Internacional, em seu congresso de Genebra, assumira posição semelhante e provavelmente poucos participantes dos dois encontros tiveram notícia de que, em outra parte do globo, na Austrália, os pedreiros – primeira categoria de operários a aparecer no mundo – acabavam de conquistar a jornada de oito horas.

Em 25 de junho de 1868, o Senado americano aprova a lei Ingersoll, o qual determina oito horas de trabalho para todos os empregados da União. Mas essa lei não terá aplicação, pois, a pretexto de exigências particulares que se transformaram em regra geral, as jornadas continuam as mesmas de sempre.

Uma agência para caçar operários rebeldes

Em 1877, os ferroviários paralisam o sistema de transportes exigindo as oito horas. A resposta é agressiva e os trabalhadores têm a lamentar 30 mortos entre seus colegas. Nessa época aparece o grupo autointitulado os “Defensores da Ordem”, criado por um senhor chamado Nat Pinkerton. Essa agência, antes especializada em caçar criminosos pelo Oeste, agora se torna tristemente famosa pela sanha que demonstra colaborando com os patrões e a polícia na repressão ao movimento operário.

Por outro lado, a principal organização dos trabalhadores são os Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labor) que surgira como grupo secreto em 1869, chega a possuir mais de 700 mil aderentes. Em 1881, nasce a American Federation of Labor (AFL) – Federação Americana do Trabalho –, de caráter corporativo e reivindicatório. Em sua declaração programática, afirma: “Nós declaramos que a jornada de trabalho de oito horas permitirá dar mais trabalho por salários melhores e criará condições necessárias à educação e à melhoria intelectual das massas”.

Em novembro de 1884, a AFL promove um congresso em Chicago. Ali o secretário Frank K. Foster manifesta, em seu discurso, seu descrédito que o Parlamento chegue um dia a promulgar a lei de oito horas. Prossegue dizendo que, segundo sua opinião, não adianta continuar a pressionar o governo e que a coação deve ser exercida diretamente contra os patrões. Termina propondo a realização de uma greve geral nacional para atingir o objetivo das oito horas de trabalho diárias.

O líder marceneiro Gabriel Edmonston sugere que os trabalhadores considerem normal a jornada de trabalho de oito horas para todas as categorias, a partir de 1º de maio de 1886 e que sejam automaticamente paralisados os serviços nos locais em que essa determinação não for aceita.

Essa proposta é aprovada pela assembleia. Foi uma decisão dura, radical, difícil de ser posta em prática. Tanto a AFL como os Cavaleiros do Trabalho lançam-se à mobilização de todas as categorias de trabalhadores em todo o território nacional. Serão ajudados pelo longo tempo para a preparação de que dispõem: um ano e meio. À medida que se aproxima a data fatídica, o nervosismo aumenta. O próprio presidente da República, S. G. Cleveland (1837-1908), fica apreensivo. Em abril de 1886, explodem greves violentas em diversas localidades. Vários empresários cedem e aceitam assinar contratos de oito horas de trabalho.

1886 – Ano um do Dia Internacional do Trabalho, uma data histórica

Finalmente amanhece o dia 1º de maio de 1886. As organizações sindicais haviam lançado a palavra de ordem unitária:

“A partir de hoje nenhum operário deve trabalhar mais de oito horas por dia.
Oito horas de trabalho!
Oito horas de repouso!
Oito horas de educação!”

Centenas de milhares de pessoas abandonam as fábricas. Realizam-se manifestações nos principais centros, numa verdadeira babel de línguas que refletiam as origens dos imigrados. Foi somente uma minoria que paralisou o trabalho, mas o impacto foi tremendo. A história ainda não conhecera esse tipo de luta e as vitórias adquiridas foram consistentes. Muitos estados aprovaram a lei das oito horas, outros encurtaram a jornada para dez horas, mas com substancial aumento de salários.

Chicago não é apenas o centro da máfia e do crime organizado

Para obter esse triunfo, o preço pago é muito alto, havendo refregas em várias localidades. Em Milwaukee, tombam nove vítimas. Todavia, o campo principal da batalha é Chicago. Essa cidade – que se encontra ao sul do lago Michigan, constantemente coberta por neblina natural ou proveniente das chaminés das fábricas – está na vanguarda do capitalismo americano. Ali os operários são usados de 14 a 16 horas por dia, vivem jogados em sórdidos becos e são considerados como cães por uma burguesia opulenta, prepotente, racista e religiosamente fanática.

Um dos jornais que os representa, o Chicago Times, nas semanas que antecederam o 1º de Maio divulgara uma série de artigos de claro caráter terrorista, na qual havia “pérolas literárias” do tipo: “A prisão e o trabalho forçado são a única solução possível para a questão social. É necessário que esses meios sejam mais usados”. Vejamos uma outra: “O único jeito de curar os trabalhadores do orgulho é reduzi-los a máquinas humanas, e o melhor alimento que os grevistas podem ter é o chumbo”. Isso é que se chama falar claro!

Em contraposição, Chicago na época também é o centro do anarquismo na América do Norte. E há jornais operários importantes, como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, ambos em língua alemã, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab. Não deve causar espanto o fato de que sejam escritos em alemão, pois é muito grande o número de imigrantes advindos dos Estados germânicos. Em língua inglesa, o principal periódico é o Alarm, dirigido por Albert Parsons, um dos mais prestigiosos líderes sindicai e fundador da Central Union.

O sábado, 1º de maio de 1886, é um dia diferente dos outros para Chicago. Desde a manhã reina um grande silêncio. As fábricas, os transportes e o comércio estão paralisados. Mas se vendem os jornais. No editorial do Mail, outro pasquim dos patrões, se podia ler: “Circulam livremente nessa cidade dos perigosos cafajestes, dois canalhas que querem criar desordens. Um se chama Spies, o outro Parsons… Vigiai-os, segui-los; considerai-os responsáveis se acontecer alguma coisa. E, se algo suceder, eles que paguem por isso”.

Então o ambiente de tensão e silêncio é rompido quando pela Avenida Michigan surge uma esplêndida passeata – dezenas de milhares de trabalhadores com suas famílias caminham rumos à praça Haymarket. Abrem a marcha Parsons, sua mulher e sua filha de 7 anos, Lulu. Eles vêm cercados pelos dirigentes da AFL e dos Cavaleiros do Trabalho. Seguem-se as diversas colônias em seus trajes típicos: alemães, poloneses, russos, italianos, irlandeses, etc. no alto dos edifícios e nas esquinas, estão os homens da Guarda Nacional e da agência Pinkerton. A manifestação termina com um ardente comício em que discursam oradores das diversas nacionalidades. Depois, a multidão se dissolve pacificamente.

O estado-maior dos patrões sente-se ludibriado por essa conclusão serena e planeja provocações. Na segunda-feira, dia 3, a greve continua em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a polícia dispara sem advertência prévia contra um grupo de operários. Seis deles tombam sem vida; 50 são feridos e centenas deles são presos. Spies, que estava perto do local do massacre, apela para a realização de uma concentração a realizar-se na tarde do dia seguinte. A raiva e a dor avolumam os corações. O Arbeiter Zeitung estampa: “A guerra de classes começou… Quem pode negar que os tigres que nos governam estão ávidos do sangue dos trabalhadores… Melhor a morte que a miséria”.

Apesar da revolta, os líderes conclamam à calma e pedem uma manifestação ordeira para reafirmar o caráter pacato das manifestações. Parsons apela aos operários para que também levem os filhos pequenos e, dando o exemplo, conduzirá os seus. Na mesma praça Haymarket, onde sábado pela manhã se encontraram felizes e festivos, agora, terça-feira, às sete e meia da noite, com as sombras noturnas que começam a chegar confundindo-se com o luto, os trabalhadores se reúnem para chorar seus mortos.

Um banho de sangue

Os oradores são Spies, Parsons e Sam Fielden. Eles pedem a calma e incitam todos a continuar a luta unidos e compactos. Quando a concentração começa a dispersar-se, um grupo de 180 policiais ataca com violência, espancando, pisoteando, ferindo a todos indistintamente. Nesse instante uma bomba, vindo não se sabe de onde, estoura no meio dos guardas. Uns 60 caem feridos, vários morrerão em seguida em consequência das lesões. É o sinal da carnificina. Reforços chegam e começam a atirar em todas as direções. Centenas de pessoas de todas as idades caem. O sangue ensopa as pedras das ruas. Os gritos dos feridos cobrem os suspiros dos moribundos. Em poucos minutos tudo termina.

Nunca se conseguiu apurar quantos foram os mortos daquele maldito dia, pois os corpos foram enterrados às escondidas. Seguramente foram dezenas. É decretado estado de sítio e a proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores são presos, muitas sedes sindicais incendiadas. Grupos de facínoras, pagos pelos patrões, invadem as pobres casas espancando e destruindo as poucas coisas e as pessoas que encontram.

Toda a imprensa “importante” concentra seus ataques contra os “terroristas vermelhos”. A máquina da “justiça” foi rápida. Levou a juízo um grupo de líderes sindicais: August Spies, Sam Fielden, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Schwab, Louis Lingg e Georg Engel.

O julgamento começa no dia 21 de junho de 1886. Logo na abertura, Albert Parsons, que havia conseguido escapar da prisão, apresenta-se. Entra no tribunal e declara: “Vim para ser processado, excelência”, voltando-se para o juiz Joseph Gary, “junto com os meus companheiros inocentes”. A farsa desenrola-se rapidamente. Provas e testemunhas são inventadas. O verdadeiro sentido desse tribunal é revelado nas palavras de um dos jurados: “Que sejam enforcados. São homens demais desenvolvidos, demais inteligentes. Demais perigosos para os nossos privilégios”.

A sentença é lida a 9 de outubro. Parsons, Engel, Fischer, Ling, Spies são condenados à morte; Fielden e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a 15 anos de cárcere. Mas as declarações dos condenados são uma pura reprovação ao sistema. Em primeiro lugar fala Neeb: “Cometi um grande crime, excelência. Eu vi os balconistas dessa cidade trabalhar até 9 ou 10 horas da noite. Lancei um apelo para a organização da categoria e agora eles trabalham até às 7 horas da noite; aos domingos estão livres. E isso é um grande crime”. A seguir, pede para ser enforcado junto com os companheiros, pois ele não pode ser mais inocente que os outros, já que todos são completamente inocentes.

Só os covardes não denunciam a miséria social

Numa sala abafada, lotada, silenciosa, Spies faz a última defesa: “Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário – este movimento do qual milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria´, esperam a redenção –, se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não podem apagá-lo”. Com a mesma dignidade dos outros, expressa-se Lingg: “Permiti que voz assegure que morro feliz porque estou certo de que centenas, milhares de pessoas a quem falei recordarão minhas palavras”.

Parsons discursará por horas, começando assim: “Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão”. Depois faz um longo relato da ação dos trabalhadores, desmascara com minúcias a conspiração dos patrões e fala do seu ideal: “A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais que, essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objetivo do socialismo”.

Um mês depois, a 11 de novembro, na metade de um dia de sol pálido soprado por um vento gélido do lago, Spies, Engel, Fischer e Parsons são levados para o pátio da prisão para ser executados. Lingg não está entre eles, pois havia conseguido suicidar-se. Amarram-lhes os pés e as mãos. O carrasco passa a corda por seus pescoços e dá continuidade ao horrível ritual com a abertura dos alçapões um a um. As últimas palavras de Spies são: “Adeus, o nosso silêncio será muito mais potente do que as vozes que vocês estrangulam”. Engel diz apenas: “Viva a anarquia! ” Fischer, com os olhos perdidos, como se tivesse o dom de ver o futuro, murmura: “Eis o dia mais feliz da minha vida”. Quanto a Parsons, o carrasco é rápido demais. Não se entende bem o que quer dizer. Começa algo assim: “Deixem-me falar com o meu povo…” – e a corda o estrangula.

Enquanto isso, nos locais de trabalho correm lágrimas silenciosa pelos irmãos que morriam. A Chicago burguesa suspira aliviada. Apesar de um impressionante aparato intimidativo, seis mil trabalhadores carregam com carinho os restos mortais dos mártires.

Seis anos depois do assassinato de Estado, o governador de Illinois, Atgeld, pressionado pela persistente onda de protestos contra a iniquidade do processo, anula a sentença, liberta os três sobreviventes e acusa de infâmia o juiz, os jurados e as falsas testemunhas.

A semente lançada já brota, cresce e logo dará seus frutos. Estavam para se transformar no símbolo da luta de todos os trabalhadores do mundo. Quando a AFL realiza seu congresso em dezembro de 1888, para fazer um balanço dos acontecimentos dos últimos anos, surge a proposta para se realizar nova greve geral em 1º de maio de 1890, a fim de se estender a jornada de oito horas às zonas que ainda não a haviam conquistado. Tal fato, embora não estivesse nos planos dos organizadores, terá repercussão mundial.

Cabe satisfazer a uma curiosidade. Por que, no congresso da AFL de novembro de 1884, foi proposto o 1º de maio de 1886 como início da luta pela jornada de oito horas? A rigor não sabemos, pois nas atas de reunião não consta nada a respeito. É muito improvável que fosse para comemorar alguns dos acontecimentos aos quais já nos referimos. O mais provável é que essa data estivesse ligada ao fato de que nos estados de Nova York e Pensilvânia esse dia era chamado de moving day – isto é, a data em que se celebravam os contratos de trabalho. Isto explica também o porquê do longo tempo que se passou entre a decisão de realizar a greve e a sua execução: para dar não só tempo aos sindicatos de se organizarem, mas também aos patrões para reestruturarem suas empresas com um horário de funcionamento diferente de modo a chegar ao dia do contrato coletivo em condições de aceitar as oito horas.


por José Luiz Del Roio, Escritor, historiador e ativista social   |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Publicado originalmente na Rádio Peão Brasil, baseado em trecho do livro Primeiro de Maio – Cem Anos de Luta, de José Luiz Del Roio (Centro de Memória Sindical, 2016)


 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-1o-de-maio-na-historia-como-nasceu-o-dia-do-trabalhador/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-1o-de-maio-na-historia-como-nasceu-o-dia-do-trabalhador

Lenine por Minh


«Após a Primeira Guerra Mundial, eu levava minha vida em Paris, ora como retocador de fotografias, ora como pintor de “antiguidades chinesas” (feitas em França!). Também distribuía panfletos denunciando os crimes cometidos pelos colonizadores franceses no Vietname. 

Naquele tempo, eu apoiava a Revolução de Outubro apenas por intuição, não tendo em mente ainda toda a sua importância histórica. Eu amava e admirava Lenine porque ele era um grande patriota que libertara os seus compatriotas; até então, eu não havia lido nenhum dos seus livros.

A razão para eu ter aderido ao Partido Socialista Francês foi porque essas “damas e cavalheiros” – como eu chamava aos meus camaradas na época – demonstraram a sua simpatia por mim, pela luta dos povos oprimidos. Mas eu não entendia o que era um partido, um sindicato, nem mesmo o socialismo ou o comunismo.

Discussões acaloradas aconteciam nos comités do Partido Socialista sobre a dúvida de se deveríamos continuar na Segunda Internacional, se deveria ser fundada uma Segunda Internacional e Meia ou se o Partido deveria juntar-se à Terceira Internacional de Lenine. Eu comparecia aos encontros com frequência, duas ou três vezes por semana, e ouvia atentamente a discussão. No início, eu não conseguia entender o assunto por completo. Por que os debates eram tão acalorados? Seja com a Segunda, a Segunda e Meia ou a Terceira Internacional, a revolução poderia ser alcançada. Qual o objetivo de discutir sobre isso? E a Primeira Internacional, o que aconteceu com ela?

O que eu mais queria saber – e o que justamente não era debatido nos encontros – era: qual Internacional está do lado dos povos das colónias? Eu levantei essa dúvida – a mais importante em minha opinião – no encontro. Alguns camaradas responderam: é a Terceira Internacional, não a Segunda. E um camarada deu-me para ler a “Teses sobre a questão nacional e colonial” de Lenine, publicadas pelo L’Humanité.

Havia termos políticos difíceis de entender nessa teses. Mas por meio do esforço de lê-la e relê-la pude finalmente apreender a maior parte deles. Que emoção, entusiasmo, esclarecimento e confiança essa obra provocou em mim! Eu me regozijava em lágrimas. Embora estivesse sentado sozinho no meu quarto, eu gritei fortemente, como se me dirigisse a grandes multidões: “Caros mártires compatriotas! É disso que precisamos, este é o caminho para nossa libertação”! A partir dali, tive plena confiança em Lenine e na Terceira Internacional. »
No seguimento do que escrevi ontem, lembrei-me hoje deste texto memorável. A memória tem destas coisas. Antes de ser Ho Chi Minh, assinalando assim os 90 anos do nascimento de Lenine, nasceu com o nome de Nguyễn Sinh Cun. Como relata o historiador David Priestland em A Bandeira Vermelha, uma equilibrada história do comunismo, este vietnamita tentou chegar à fala com o presidente norte-americano Woodrow Wilson em 1919, na altura da Conferência Internacional de Paris, em nome do povo da Indochina, inspirado na altura pela ideia da autodeterminação nacional a que Wilson tinha dado aparentemente fôlego. Terá confirmado que o nacionalismo liberal ainda era basicamente para ocidentais (e como soará hoje estranha a junção destas duas palavras, nacionalista e liberal, para tantos ideólogos que andam por aí...). Para o resto do mundo, era mesmo imperialismo. Por isso, tenho defendido, contra a visão liberal da história, mais Lenine e menos Wilson. Afinal de contas, quem escreveu memoravelmente sobre imperialismo, em plena barbárie da Primeira Guerra Mundial, aprendendo tudo com a melhor economia política social-liberal britânica, com John Hobson, entre outros? Só partindo das formas de imperialismo se podia, e se pode, colocar universalmente as formas da decisiva questão nacional. Profundamente influenciado pela leitura histórico-filosófica de Domenico Losurdo, valorizo hoje mais o marxismo dito oriental, o que colocou as questões da construção do Estado, da inserção internacional, da combinação de mecanismos de coordenação económica do que um certo marxismo dito ocidental, o que acabou na crítica politicamente impotente, relativizando, por exemplo, a importância da igualização das relações humanas representada pelo levantamento anti-colonial e seus efeitos de longo prazo. Enfim, lembrei-me do líder da independência de um povo que derrotou os impérios japonês e francês e, já depois da sua morte, o império norte-americano e que hoje é reconhecidamente um exemplo no combate ao Covid-19. Adenda. Mudando de geografia, mas não de abordagem, regressando ao rectângulo, gostei de ler o artigo de João Ferreira sobre a União Europeia nos 150 anos de Lenine.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Lenine

Todos concordarão em que seria insensata e até criminosa a conduta de um exército que não esteja preparado para dominar todos os tipos de armas, todos os meios e processos de luta que o inimigo possui ou possa possuir. Mas isto diz ainda mais respeito à política do que à arte militar. Em política é ainda menos fácil saber antecipadamente que meio de luta será aplicável e vantajoso para nós em tais ou tais condições futuras. Sem dominar todos os meios de luta podemos sofrer uma derrota enorme - por vezes mesmo decisiva -, se mudanças independentes da nossa vontade na situação das outras classes põem na ordem do dia uma forma de acção na qual somos particularmente fracos. 
1920

Mas o que significa a palavra transição? Não significará, aplicada à economia, que no regime actual existem elementos, partículas, pedaços de capitalismo e de socialismo? Todos reconhecem que sim. Mas nem todos, ao reconhecerem isto, reflectem sobre precisamente que elementos das diferentes estruturas económicas e sociais existem na Rússia. E nisto está toda a essência da questão (...) O capitalismo é um mal em relação ao socialismo. O capitalismo é um bem em relação ao medievalismo, em relação à pequena produção, em relação ao burocratismo ligado à dispersão dos pequenos produtores. Uma vez que ainda não temos forças para realizar a passagem directa da pequena produção ao socialismo, o capitalismo é em certa medida inevitável, como produto espontâneo da pequena produção e da troca, e portanto devemos aproveitar o capitalismo (principalmente dirigindo-o para a via do capitalismo de Estado) como elo intermédio entre a pequena produção e o socialismo, como meio, via, processo ou método de elevação das forças produtivas.
1921

Vladimir Ilyich Ulianov, conhecido por Lenine, nasceu a 22 de Abril de 1870, há 150 anos. Do Brasil ao Vietname, passando por Portugal ou pela Índia, os comunistas assinalam naturalmente o aniversário.

Junto-me a eles, não sem antes dizer que já defendi a necessidade de dizer adeus a Lenine, mas há uns anos constatei que essa despedida tinha sido talvez precipitada.

Reaprender com alguns aspectos da vida e obra de Lenine é capaz de não ser má ideia, dada a situação mundial de barbárie crescente: organização consequente dos subalternos; análise concreta da situação concreta, a partir das peculiaridades da formação social onde se intervém; avaliação da correlação de forças, o que alguém designou por “filosofia da conjuntura”; identificação dos elos mais fracos de uma cadeia imperialista em mutação, articulação entre classe e nação, entre libertação social e nacional; prontidão para aceder ao poder com novas políticas económicas, resultado de aprendizagem permanente, pugnando por uma transição socialista que terá de ser igual a sovietes, uma democracia avançada que mude as relações sociais, mais electrificação de todo o país, hoje com base em renováveis. Não é pouco.

O Estado de que Lenine foi um dos fundadores desapareceu há quase trinta anos. A experiência soviética fracassou, foi derrotada. O mundo não melhorou por causa disso, antes pelo contrário. É preciso continuar a tentar, sem fórmulas e sem garantias, aprendendo sempre.

João Rodrigues

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

RECORDAR E HOMENAGEAR LENINE -- com vídeo

 
 
Passam hoje 150 anos do nascimento de V. I. Lénine, figura primeira desse acontecimento pioneiro na história da humanidade que foi a Revolução de Outubro e as suas conquistas políticas, económicas, sociais, culturais e civilizacionais, inaugurando uma nova época histórica – a passagem do capitalismo ao socialismo. 
 
AbrilAbril, em Imagem do Dia
 
Jerónimo de Sousa: 150 anos do nascimento de Lénine
 
PCP - em Youtube
Leia em AbrilAbril: Lénine e as artes
O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/recordar-e-homenagear-lenine-com-video.html

Leitura #7 - Outubro

Hoje, todos os trabalhadores conscientes do mundo celebram o nascimento de Lénine há exactamente 150 anos. E nele, celebram a Revolução de Outubro, a construção do primeiro Estado dos trabalhadores, o momento em que a Humanidade entrou na época em que vivemos, a da transição do
capitalismo para o socialismo.

O conjunto de textos de Lénine entre Abril e Novembro de 1917 é o mais vivo mosaico da luta de classes na Rússia que criou as condições para a Revolução Socialista, com a extraordinária vantagem de serem escritos de dentro do processo, por quem o vive e o influencia, pelo marxista que tenta compreender e fazer compreender a realidade, mas essencialmente, transformá-la.

Sobre os Compromissos, Setembro 1917:
(http://dorl.pcp.pt/images/classicos/t25t083.pdf) em PDF
(https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/16.htm) em HTML

A Crise Amadureceu, SEtembro 1917:
(http://dorl.pcp.pt/images/classicos/t26t008.pdf) em PDF
(https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/29-1.htm) em HTML

Uma das Questões Fundamentais da Revolução, Setembro 1917:
(http://dorl.pcp.pt/images/classicos/t25t086.pdf) em PDF
(https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/27.htm) em HTML

II Congresso dos Sovietes, Outubro 1917:
(http://dorl.pcp.pt/images/classicos/T26T027.pdf) em PDF
(https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/10/26.htm) em HTML

 
* Autor Convidado
Manuel Gouveia

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/04/leitura-7-outubro.html

Texto português do século XVI mostra eficácia da quarentena

 

Um especialista australiano descobriu num texto português do século XVI uma prova de que a quarentena ou o isolamento podem impedir a globalização de uma doença como a covid-19, que já provocou mais de 30 mil mortos.

O texto português “é um registo antigo de uma doença que passa de animais para humanos, e mostra que a quarentena pode ser eficaz para a travar”, disse à agência Lusa Sanjaya Senanayake, professor de doenças infecciosas na Universidade Nacional da Austrália, em Camberra.

Senanayake referia-se a uma passagem do “Tratado das ilhas Maluco e dos costumes índios e de tudo o mais”, de autor desconhecido, mas geralmente atribuído a António Galvão (c. 1490-1557).

Apelidado de “apóstolo das Molucas”, António Galvão governou a partir de Ternate as chamadas ilhas das Especiarias, na atual Indonésia, entre 1536 e 1540, tendo iniciado o seu mandato 15 anos depois da passagem pela região da expedição de Fernão de Magalhães, já comandada por Juan Sebastián Elcano.

O texto manuscrito foi encontrado no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, e publicado em inglês (“A Treatsie on the Moluccas”, Hubert Jacobs, Jesuit Historical Institute, 1971) e em português contemporâneo (“Tratado das ilhas Molucas”, Luís de Albuquerque e Maria da Graça Pericão, Publicações Alfa, 1989).

A obra versa sobre o governo de António Galvão nas Molucas e nela se narra um surto de uma doença no final de abril de 1539, que primeiro matou galinhas e depois humanos.

“Com os ventos sul, veio esta enfermidade a Bachão [Bacan]; logo se espalhou por todas as ilhas, começando nas galinhas (…), que de António Galvão se acharam mais de cinquenta ou sessenta mortas, que se empolavam sãs e gordas; e depois lhe adoeceram passante de cento e dez pessoas, entre criados e escravos, que só um não ficou e a mor parte lhe faleceu, afora os portugueses e filhos deles”, lê-se no texto.

E por toda a terra era este mal tão geral que os não podiam enterrar e o mar era coalhado dos mortos e muitos lugares despovoados; andavam os homens e mulheres como pasmados, dizendo que nunca tal viram nem ouviram aos antepassados”, conta ainda o narrador.

Em dezembro de 2007, Sanjaya Senanayake e o historiador Brett Baker publicaram um artigo na revista científica The Medical Journal of Australia sobre o texto histórico, numa altura em que o mundo enfrentava a pandemia de gripe A, inicialmente designada como gripe suína.

“A epidemia do século XVI provavelmente não se espalhou devido ao isolamento das ilhas do resto do mundo por causa de padrões comerciais determinados pelo clima [monção]. Isto reforça o valor da quarentena (mesmo não intencional) ou do isolamento como medida de saúde pública. Dada a facilidade de circulação global de pessoas, animais e cargas na era moderna, a sua aplicação será agora um desafio muito maior”, concluíram Senanayake e Baker.

Sanjaya Senanayake admitiu à Lusa, num contacto telefónico em Camberra, que o estudo do texto português “não ajudou necessariamente a combater a gripe suína”.

Mas mostrou que o isolamento intencional das ilhas próximas de Ternate por não haver navegação do comércio das especiarias devido à ausência de vento terá evitado a disseminação de uma infeção que passou de animais para humanos.

A conclusão mantém-se atual, e Sanjaya Senanayake não tem dúvidas sobre a aplicação da quarentena para combater a covid-19, uma doença que se tornou global devido às viagens.

“As três coisas que usamos para combater a pandemia são quarentena, vacinas e medicamentos. São as três grandes ferramentas que temos para a covid-19”, disse Sanjaya Senanayake.

O especialista australiano admitiu que uma vacina para a covid-19 demorará “10 ou 12 meses” e que é impossível saber se haverá medicamentos eficazes em quantidade suficiente para tratar “milhões, dezenas de milhões ou centenas de milhões de pessoas”.

“Mas a quarentena é uma boa maneira de parar ou, pelo menos, de retardar um surto. E foi o que vimos neste texto português: a quarentena não intencional por causa das estações climáticas e a difícil acessibilidade mostram que a quarentena pode ser eficaz”, concluiu.

Sobre a atual pandemia, Sanjaya Senanayake é enfático ao dizer que “ninguém realmente sabe” quando é que poderá ser controlada.

O surto pode desaparecer ou pode piorar. (…) Até pode ser como a gripe espanhola em 1918, em que houve uma primeira onda que não foi tão má e, pouco tempo depois, houve uma segunda onda que foi muito, muito má”, lembrou, referindo-se à pandemia que matou mais de 50 milhões de pessoas.

“É absolutamente imprevisível. (…) Esperemos que não dure muito”, acrescentou.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/texto-seculo-xvi-eficacia-quarentena-316311

O VINTISMO – 2 de março

No último ano desta segunda década do novo século e milénio, comemora-se o primeiro ano do «Vintismo», um bicentenário caro aos democratas, em que é dever homenagear os arautos da liberdade. Começo por referir efemérides do dia de hoje, 2 de março.

Vintismo é o nome genérico da situação política em que predominaram soluções liberais e que dominou Portugal entre agosto de 1820 e abril de 1823. Iniciado em 24 de agosto de 1820 no pronunciamento militar do Porto, conduziu à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca. Terminaria ingloriamente com a Vilafrancada, em 27 de maio de 1823, em Vila Franca de Xira, na sublevação militar que levou à abolição da Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, mas a semente germinaria depois.

Desse período exaltante, espero que o ilustre historiador Amadeu Homem e outros historiadores democratas nos deem, a partir de 24 de agosto p. f., o seu contributo para a compreensão e divulgação deste período histórico, relevante para a evolução política e a conquistas das liberdades.

1821 – A elaboração da Constituição Liberal conduziu à extinção da censura prévia, há 199 anos. Este atropelo ao direito divino e absoluto abriu portas ao liberalismo, à perda da fé e à dúvida sobre a legitimidade do poder absoluto e vitalício para, finalmente, pôr em causa a via uterina como fonte de legitimidade.

1833 – A ofensiva de D. Miguel, para enforcar os inimigos que ainda restavam à fé e à monarquia absoluta, apoiada pelos párocos rurais e a totalidade dos membros do cabido da Sé de Coimbra, foi repelida nas linhas leste e noroeste do País pelas tropas do irmão, maçon e jacobino, D. Pedro IV. Deus, cuja ajuda estava prometida por párocos e bispos, manteve-se alheio à guerra civil. A promíscua Senhora D. Carlota Joaquina, que levava 3 anos de defunção, não assistiu à auspiciosa derrota que pôs fim a aspirações miguelistas.

1895 – O liberalismo fizera o seu percurso e, assim, abriu caminho para o Congresso do Partido Republicano, em Lisboa. A polícia impediu a reunião, mas no dia seguinte foi eleito o diretório: Eduardo de Abreu, Jacinto Nunes, Magalhães Lima e Gomes da Silva, maçons e democratas, isto é, os designados inimigos da tradição e dos bons costumes.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/03/o-vintismo-2-de-marco.html

Não é possível prever quase nada na História

(Pacheco Pereira, in Público, 29/02/2020)

Pacheco Pereira
 

Um homem que se diz socialista está muito à frente na competição pela nomeação para candidato presidencial americano no Partido Democrático. Sim, nos EUA. No Parlamento português foi apresentado e recusado administrativamente um projecto de castração química. Uma maioria de deputados portugueses votou a favor da legalização da eutanásiaVasco Pulido Valente morreu e uma nuvem de panegíricos ouviu-se por todo o lado. Parece que não foi ele que morreu. A ameaça de uma epidemia levou as equipas de futebol italianas a jogar em estádios vazios de público. Um governo português tentou fazer um aeroporto pela enésima vez e falhou porque uma lei de que ninguém se lembrou dá a um grupo de pequenos municípios um direito de veto sobre a obra. Um jogador negro saiu do campo por ter sido insultado com frases de carácter racista e subitamente todo o Portugal desatou a fazer juras anti-racistas. Nos EUA, um mentiroso patológico sofrendo de uma perturbação narcisista caminha, com muito poucos travões, para uma autocracia. A NATO, que parecia eterna, está comatosa. O ditador da Coreia do Norte é tratado pelo Presidente dos EUA como se fosse seu namorado. Um cavaleiro tauromáquico, cuja profissão é torturar animais em público, foi processado por maltratar uns galgos que tinha a morrer à fome. Angola sob a direcção do MPLA tornou-se a capital africana do combate à corrupção. Soldados portugueses estão no Kosovo, no Mali ou no Afeganistão, terras essas de quem nem sequer no Estado-Maior devia haver um mapa decente que não fosse do National Geographic. O Reino Unido entrou para a União Europeia e depois saiu. Há um movimento no PS e no Bloco de Esquerda para candidatar Ana Gomes à Presidência da República. Portas é lobbyista de negócios latino-americanos e africanos. Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente. O aeroporto da Madeira tem o nome de um jogador de futebol. O Partido Socialista é defensor do défice zero e das “contas certas”. A Maçonaria tentou tomar conta do PSD. Um número significativo de portugueses usa uma rede social criada para que meia dúzia de estudantes soubessem que namorados tinham (ou não tinham) as suas colegas na universidade. A Quadratura do Círculo tornou-se a Circulatura do Quadrado. Os adolescentes passam o dia a mandar mensagens uns aos outros. Centenas. Ainda não há TGV. Um partido que quer um Serviço Nacional de Saúde para os animais tem um grupo parlamentar. Santana Lopes saiu do PPD/PSD e não tem nada. O Presidente francês tem um exército aguerrido de gente vestida com coletes amarelos. O desprendimento de glaciares na Antárctida é notícia de primeira página. Há paradas de orgulho LGBTQ+ em Vila Real. Ninguém sabe o que é o +, mas ninguém liga, nem ousa perguntar. Existe censura feita por uma multidão de anónimos na Internet. A verdade está moribunda nas redes sociais. A mentira domina as redes sociais. Vladimir Putin manda na verdade e na mentira e o Presidente dos EUA é o seu discípulo dilecto. Podia encher páginas e páginas disto.

Pensem sobre cada um destes factos e andem 30 ou 20 anos para trás e vejam quantos destes acontecimentos seriam previsíveis. Com muito esforço encontramos dois com alguma similitude com eventos passados, o que significa que existe uma débil recorrência: um, mais um falhanço de governos com a construção de uma grande obra pública por uma combinação de negligência e arrogância; outro, a precedente epidemia da gripe das aves, mas mesmo assim muito mais mitigada do que a actual do coronavírus. Mas a maioria é efectivamente surpresa, não se estava à espera e não se previu.

Embora possa haver algumas tendências de fundo, no essencial a História é sempre surpresa e é por isso que os homens sábios da política e da acção devem ler Clausewitz. Adaptado aos tempos modernos, isso significa que se se quer atravessar um deserto sólido de chão duro porque não chove há 500 anos, o bom comandante de tanques prepara-se para a chuva e lama.

Fazer planos e previsões dá-nos a sensação psicológica que dominamos o futuro, mas o ruído é a voz da natureza. É por isso que esta coluna se chama o “ruído do mundo”.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A História é imprevisível

pacheco-pereira«Um homem que se diz socialista está muito à frente na competição pela nomeação para candidato presidencial americano no Partido Democrático. Sim, nos EUA. No Parlamento português foi apresentado e recusado administrativamente um projecto de castração química. Uma maioria de deputados portugueses votou a favor da legalização da eutanásia. Vasco Pulido Valente morreu e uma nuvem de panegíricos ouviu-se por todo o lado. Parece que não foi ele que morreu. A ameaça de uma epidemia levou as equipas de futebol italianas a jogar em estádios vazios de público. Um governo português tentou fazer um aeroporto pela enésima vez e falhou porque uma lei de que ninguém se lembrou dá a um grupo de pequenos municípios um direito de veto sobre a obra. Um jogador negro saiu do campo por ter sido insultado com frases de carácter racista e subitamente todo o Portugal desatou a fazer juras anti-racistas. Nos EUA, um mentiroso patológico sofrendo de uma perturbação narcisista caminha, com muito poucos travões, para uma autocracia. A NATO, que parecia eterna, está comatosa. O ditador da Coreia do Norte é tratado pelo Presidente dos EUA como se fosse seu namorado. Um cavaleiro tauromáquico, cuja profissão é torturar animais em público, foi processado por maltratar uns galgos que tinha a morrer à fome. Angola sob a direcção do MPLA tornou-se a capital africana do combate à corrupção. Soldados portugueses estão no Kosovo, no Mali ou no Afeganistão, terras essas de quem nem sequer no Estado-Maior devia haver um mapa decente que não fosse do National Geographic. O Reino Unido entrou para a União Europeia e depois saiu. Há um movimento no PS e no Bloco de Esquerda para candidatar Ana Gomes à Presidência da República. Portas é lobbyista de negócios latino-americanos e africanos. Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente. O aeroporto da Madeira tem o nome de um jogador de futebol. O Partido Socialista é defensor do défice zero e das “contas certas”. A Maçonaria tentou tomar conta do PSD. Um número significativo de portugueses usa uma rede social criada para que meia dúzia de estudantes soubessem que namorados tinham (ou não tinham) as suas colegas na universidade. A Quadratura do Círculo tornou-se a Circulatura do Quadrado. Os adolescentes passam o dia a mandar mensagens uns aos outros. Centenas. Ainda não há TGV. Um partido que quer um Serviço Nacional de Saúde para os animais tem um grupo parlamentar. Santana Lopes saiu do PPD/PSD e não tem nada. O Presidente francês tem um exército aguerrido de gente vestida com coletes amarelos. O desprendimento de glaciares na Antárctida é notícia de primeira página. Há paradas de orgulho LGBTQ+ em Vila Real. Ninguém sabe o que é o +, mas ninguém liga, nem ousa perguntar. Existe censura feita por uma multidão de anónimos na Internet. A verdade está moribunda nas redes sociais. A mentira domina as redes sociais. Vladimir Putin manda na verdade e na mentira e o Presidente dos EUA é o seu discípulo dilecto.» in Público

Dificilmente algum dos factos elencados por Pacheco Pereira seria previsível há duas ou três décadas atrás. Mas caracterizam bem a realidade incontornável dos nossos dias.

Acrescente-se que a impossibilidade de prever o futuro não torna o conhecimento histórico dispensável.

Pelo contrário. Permite-nos compreender o mundo em que vivemos hoje e de que forma chegámos até aqui.

Pois só a partir deste ponto podemos fazer escolhas esclarecidas em relação ao nosso futuro individual e colectivo.

 

 

A polêmica sobre a história como ciência é política e ideológica

“A luta política condiciona o conhecimento do passado e a seleção e hierarquização dos fatos em relatos consistentes nos quais os acontecimentos e os heróis podem surgir como legitimadores do status quo atual e da dominação de classe. “

 

 

Como já foi visto, muda a forma como as classes sociais e seus intelectuais condicionam, nas diferentes épocas históricas, as maneiras de contar a história e reconstruir o passado de acordo com sua ótica ideológica e sua visão de mundo, ressaltando seus heróis e os feitos dos antepassados que reconhece como os seus.

Francisco Adolfo de Varnhagen

No Brasil, um exemplo desta reconstrução, que legitima o presente, é representado pela obra de Francisco Adolfo Varnhagen. Historiador “oficial” do Segundo Reinado, ele foi pioneiro em ressaltar a importância da luta pela expulsão dos holandeses que haviam ocupado Pernambuco e parte do Nordeste no século XVII, e foram derrotados pela resistência dirigida pelos Restauradores, isto é, os latifundiários escravistas que estiveram à frente da luta que uniu os brasileiros para expulsar o invasor holandês (Varnhagen, 1981 e 2002).

Dois séculos depois daqueles acontecimentos, Varnhagen foi o historiador da oligarquia lstifundiária, agromercantil e escravista que dominou a monarquia após a Independência, em 1822. E destacou como fato fundador da nacionalidade justamente o evento onde os antepassados dessa oligarquia agiram com força criativa e papel dirigente incontestável. Eventos históricos em que os antepassados daquela oligarquia se constituíram em porta-vozes da sociedade e encarnaram a nacionalidade que nascia. Sua valorização por Varnhagen e pela historiografia posterior foi uma resposta a necessidades semelhantes, que os bisnetos daqueles senhores de terras e escravos enfrentavam então: o desafio de construir a nacionalidade sob sua hegemonia.

Além de ser condicionada pelos interesses mais gerais dos atores e classes sociais, a história como ciência tem uma dinâmica própria. Em certa medida, ela adquire, como todas as demais ciências, uma autonomia relativa, gerando seus próprios problemas e questões cujo esclarecimento depende da reflexão a respeito de resultados já alcançados e também da descoberta de novos dados sobre o passado, que permitem aprimorar o conhecimento e as teses que a orientam como ciência.

Edward P. Thompson

A luta política condiciona o conhecimento do passado e a seleção e hierarquização dos fatos em relatos consistentes nos quais os acontecimentos e os heróis podem surgir como legitimadores do status quo atual e da dominação de classe. Ou da contestação a esse status quo a partir da emergência de novas forças sociais cujo objetivo é construir novas, mais avançadas e justas maneiras de viver em sociedade.

Este é um dos traços que move a história como ciência. “Cada idade, ou cada praticante, pode fazer novas perguntas à evidência histórica, ou pode trazer à luz novos níveis de evidência. Nesse sentido, a ‘história’ (quando examinada como resultado da investigação histórica) se modificará, e deve se modificar, com as preocupações de cada geração ou, pode acontecer, de cada sexo, cada nação, cada classe social”, diz o historiador marxista inglês Edward P. Thompson (1981).

Se a emergência de novos personagens e a ação de novas classes sociais condiciona tão fortemente o relato histórico, é preciso frisar também outro aspecto, de natureza técnica e historiográfica. Novas evidências históricas surgem na esteira do desenvolvimento do próprio conhecimento histórico e da história como ciência, levando à descoberta, valorização e incorporação de traços que ainda não haviam sido notados ou percebidos a partir dos documentos e evidências conhecidos.

Estes fatores – a emergência de novos protagonistas no cenário político e social, o desenvolvimento do conhecimento histórico, e da própria história como ciência – fazem a história avançar. São fatores que caminham juntos, como Engels já havia chamado a atenção.

Os acontecimentos do passado não mudam nem podem ser mudados. Mas o relato sobre eles pode ser moldado e reavaliado pelos intérpretes ou interesses e visão de mundo de cada classe social.

Edward H. Carr

Ocorre um duplo movimento. De um lado, a luta política leva ao enriquecimento do conhecimento do passado pela incorporação da percepção de diferentes dimensões do que ocorreu e das situações vividas pelos seres humanos. Por outro lado, o próprio desenvolvimento dos instrumentos usados pelo historiador permite a formulação de novas perguntas e obriga à reorganização do conhecimento que se tem do passado.

Estes fatores emergem principalmente nos momentos de ruptura social, que são períodos de aceleração histórica e de grande efervescência política, cultural e ideológica. São períodos em que os problemas e contradições mais gerais das sociedades são amplamente debatidos, sendo propostas soluções para as questões candentes enfrentadas pelas classes e grupos sociais.

Historiadores tão diferentes e notáveis como Fernand Braudel e Edward H. Carr reconheceram esta especificidade da história.

Numa aula inaugural no Collège de France em 1950, Braudel disse que as “grandes catástrofes não são forçosamente as produtoras, mas são seguramente as anunciadoras infalíveis das revoluções reais, e constituem sempre uma intimação a ter que pensar, ou melhor, repensar o universo”. Carr foi mais sintético e, numa conferência pronunciada em Cambridge, em 1961, reconheceu não haver nada “como uma revolução para criar um interesse pela história” (Braudel: 1992; Carr: 1982).

Nos momentos de ruptura as classes dominantes precisam reexaminar o passado em busca de novos argumentos para defender e fortalecer a legitimidade de seu mando. Em contrapartida, para as classes e setores sociais que as desafiam, esse reexame faz parte do esforço de aprender com a experiência das gerações anteriores e identificar as leis mais gerais que regem a evolução da sociedade, cujo conhecimento é necessário para uma postura fértil e criativa frente aos desafios e contradições do presente. Buscam construir sua própria identidade de classe ao expor a antiguidade e persistência de sua luta contra a opressão.

Fernand Braudel

Esta é outra importante característica da história como ciência: é uma ciência política. Ela nasceu nos palácios, em tempos imemoriais, quando os escribas tinham a função de registrar os feitos e glórias dos poderosos. Com o tempo, a emergência das classes sociais que estão em oposição ao sistema de poder vigente trouxe pontos de vista alternativos na elaboração dos relatos sobre o passado.

Esse é um debate em que historiadores, cientistas sociais e outros intelectuais dão de bom grado sua contribuição.

Uns encaram a história como ciência; outros recusam esse estatuto a ela. Estas são as duas vertentes da arte de contar a experiência humana, e a postura do historiador revela sua adesão aos que querem manter tudo como está, ou os que defendem a mudança e o avanço social.

Além de científica, a polêmica sobre o caráter da história e a possibilidade de seu conhecimento objetivo é política e ideológica, e separa nitidamente pesquisadores comprometidos com a perspectiva da mudança social e da intervenção humana no curso da história daqueles que, por várias razões e múltiplas maneiras, defendem a manutenção e a hegemonia da ordem social vigente, pregam a descrença nas mudanças e, com mais força, na impossibilidade da intervenção humana consciente e organizada para influir no curso da história.

 
Ensaios
 
 
 
 
 
  • Braudel, Fernand. Escritos sobre a história. São Paulo, Perspectiva, 1992.
  • Braudel, Fernand. Reflexões sobre a história. São Paulo, Martins Fontes, 1992.
  • Carr, Edward H. Que é história? Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982
  • Thompson, E. P.  A miséria da teoria – ou um planetário de erros (uma crítica ao pensamento de Althusser). Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981
  • Varnhagen, Francisco Adolfo de. História Geral do Brasil. Belo Horizonte, São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1981
  • Varnhagen, Francisco Adolfo de. História das lutas com os holandeses no Brasil – desde 1624 até 1654. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 2002

Texto em português do Brasil


 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-polemica-sobre-a-historia-como-ciencia-e-politica-e-ideologica/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-polemica-sobre-a-historia-como-ciencia-e-politica-e-ideologica

História, ciência do homem

“Espero sinceramente que, nestes tempos ásperos que vivemos, que possam ajudar a compreender as contradições que enfrentamos na luta democrática e pelo progresso social “

 

 

Amigos, ao longo do tempo colecionei um conjunto de observações sobre a história como ciência. Nelas polemizo com aqueles que recusam reconhecer que a história é uma ciência que registra e analisa a ação dos homens através dos tempos. E que pode, dessa maneira, ser um guia para a intervenção consciente no processo histórico.

Nesse sentido apresentarei, sob o título geral de “História a ciência do homem”, estes textos, que submeto ao escrutínio e à crítica dos leitores.

Espero sinceramente que, nestes tempos ásperos que vivemos, que possam ajudar a compreender as contradições que enfrentamos na luta democrática e pelo progresso social.

História, ciência do homem – Introdução

Jacques Le Goff

Centrada no fato, no acontecimento, no passado irrepetível, na compreensão do processo social, a história se distingue das demais ciências pela natureza humana e social de seu objeto. Ela “não é uma ciência como as outras”, escreveu o historiador francês Jacques Le Goff (1984). Qual é o objeto da ciência da história? Não é, evidentemente, o mesmo da física, da química ou outras ciências que analisam o mundo material que quase sempre pode ser tocado, medido, observado diretamente.

Em primeiro lugar, diz Le Goff, o historiador deve “ver”. Ele ensina que a palavra “história” deriva do radical indo-europeu “wid”, “weid”, que significa “ver”.

Mas esta é metade do trabalho do historiador, diz o também francês Fernand Braudel – “ver, fazer ver”, “se possível com os nossos próprios olhos” (cit. in Le Goff: 1984). Isto não basta. Em grego, “historien” significa “procurar saber”, “informar-se”. Para entender o sentido de um fato, esclarecer seu significado, procurar os liames que o encadeiam a outros acontecimentos e lhe dão sentido, é preciso situá-los dentro da cadeia de acontecimentos que o enredam e iluminam.

Uma história baseada apenas nos fatos, que renuncie ao esforço de compreender o processo no qual se situam e estão encadeados, não passaria de mera crônica exposta por um antiquário.

Karl Marx

Para compreender e fundamentar uma visão da realidade social, a história precisa examinar o passado em busca dos traços que levaram à forma atual de organização da vida, e não à outra. Como Marx já havia chamado a atenção, a forma mais desenvolvida e mais complexa e variada é a chave para que sejam compreendidas as formas anteriores a partir das quais ela evoluiu. “A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco”, escreveu ele. No sentido de que “nas espécies animais inferiores só se podem compreender os signos denunciadores de uma forma superior quando essa forma superior já é conhecida” (Marx: 1973). Essa forma de ver se aplica, por analogia, à evolução da sociedade, cujo exame permite flagrar, no passado, os sinais que a levaram ao que é hoje. E também a ver, nas tendências atuais, a promessa de uma evolução futura num rumo progressista e avançado.

Esse exame em busca dos sinais deixados ao longo do tempo só é possível se a história for uma ciência. Ela “é a ciência do tempo”, ensina Le Goff. E, por isso mesmo, seu objeto se oculta na multiplicidade infinita dos acontecimentos que cercaram a vida humana em seu transcorrer (Le Goff: 1984). É preciso descobrir nesse emaranhado as linhas de desenvolvimento que conduziram ao presente, desvendar os processos objetivos que ocorreram no mundo real, fora da consciência humana (e igualmente de qualquer consciência transcendental, não importa o nome que se dê a ela: deus, absoluto, espírito do tempo, ser, natureza, estrutura, etc.).

O estudo da história articula um “corpo de fatos verificados”, diz o historiador inglês Edward H. Carr. Ele ressalta que os fatos nunca “chegam a nós ‘puros’, desde que eles não existem nem podem existir numa forma pura: eles são sempre retratados através da mente do registrador” (Carr: 1982).

Marc Bloch

Estes são dois traços da história como ciência. Se, de um lado, ela parte do exame dos fatos que marcaram o desenrolar da aventura humana, essa verificação é feita pelo estudioso que é, ele próprio, um ser humano que não existe isolado mas é parte de um conjunto maior (uma classe social, uma sociedade, uma religião etc.) e adere a sistemas de valores ou ideologias, tem crenças, interesses e preferências. Os “seres humanos não são apenas as mais complexas e variáveis entidades naturais, mas também têm de ser estudados por outros seres humanos, não por observadores independentes, de uma outra espécie. Aqui o homem não mais se contenta, como nas ciências biológicas, em estudar sua própria composição física e reações físicas” mas ocorre uma “interação entre o observador e o que é observado, entre o cientista social e seus dados, entre o historiador e seus fatos”, e esta “parece ser uma feição distinta da história e das outras ciência sociais”, envolvendo o homem como sujeito e objeto, investigador e coisa investigada, sendo assim incompatível “com qualquer teoria do conhecimento que acentue um divórcio rígido entre sujeito e objeto” (Carr: 1982).

Este é um aspecto da complexidade da história. Caso relacionasse apenas fatos “desprovidos de explicação, a história se reduziria a uma série de observações toscas, sem grande valor intelectual”, escreveu outro historiador notável, Marc Bloch (2001).

As leis da história não existem no vazio, ou apenas na cabeça do investigador. Elas têm existência objetiva e cabe ao historiador demonstrá-las com base “nos fatos e a partir dos fatos”, que precisam ser compreendidos e analisados em seu contexto, como escreveu Herbert Marcuse em seu estudo sobre Hegel. “Os fatos, por si, não dizem nada; eles só respondem a perguntas teóricas apropriadas. A objetividade verdadeiramente científica exige, em lugar de uma recepção passiva de fatos dados, a aplicação de categorias corretas, que organizem os dados em sua significação real” (Marcuse: 1969).

Adam Schaff

Fatos que, escreveu o marxista polonês Adam Schaff, não se reduzem a um mero acontecimento, isolado, fechado em si próprio, mas só adquirem significação quando inseridos numa rede ampla de relações (que é mais complexa do que uma série). Um fato histórico só pode ser compreendido como parte de um conglomerado de inúmeros outros, aos quais se articula e aos quais dá sentido, e dos quais, por sua vez, extrai seu próprio sentido (Schaff: 1983).

Isto é, os fatos, reais e concretos, só podem ser entendidos dentro da sequência que os ilumina e dá sentido a eles – os atuais e também aqueles do passado. E sua sequência só pode ser compreendida a partir do trabalho conceitual, cerebral, do pesquisador que os examina e pode perceber, pela análise, o encadeamento entre eles a partir de sua generalidade, da relação de causa e consequência, de sua articulação no tempo e no espaço.

Esse trabalho conceitual, cerebral, a partir da análise de fatos reais e sua articulação concreta, elabora os recortes plenos de significado que esclarecem o desenvolvimento e permitem compreender suas contradições.

Os homens querem compreender, escreveu Marc Bloch. Daí resulta que só são autênticas as ciências que estabelecem “ligações explicativas entre os fenômenos”. Isso se aplica à história, que atua “em benefício do homem na medida em que tem o próprio homem e seus atos como material”. A história “não é a relojoaria ou a marcenaria”, mas o esforço “para compreender melhor”; ela “lida com seres capazes, por natureza, de fins conscientemente perseguidos” (Bloch: 2001).

Fernand Braudel

A argumentação que nega sentido à história e a recusa como ciência revela o apego dogmático a fatos isolados, “puros”, ao particular, ao singular, ao meramente individual.

Esta tendência aparece em muitos escritores – entre eles Braudel, que cita, em apoio a ela, a frase do historiador francês Paul Mantoux que, em 1908, escreveu que o domínio da história se localiza no “particular, [no] que não acontece senão uma vez” (in Braudel: 1992).

Esta forma de pensar desconhece a dialética da parte e do todo, por um lado, e do particular, do singular e do universal, por outro. Dialética que já aparecia, em sentido positivo, na obra de Leopold von Ranke (1795-1886), o historiador dos fatos e dos documentos, para quem era “de valor incalculável, sem dúvida, a visão de determinado momento, em sua realidade, em sua evolução específica: o específico encerra dentro de si o geral” (cit in Holanda: 1979).

Constatação que, mais tarde, foi reafirmada por Carr: “o historiador não está realmente interessado no singular, mas no que é geral dentro do singular” (Carr: 1982).

Sérgio Buarque de Holanda

O instrumento fundamental para esta distinção entre o singular, o particular e o universal é o pensamento que distingue as particularidades dos objetos analisados e destaca seus traços comuns. Esta ferramenta é a abstração, precondição de toda ciência, e principalmente da história.

No prefácio à primeira edição de “O Capital”, Marx comparou os procedimentos da ciência social, da economia política (e, por extensão, da história), com os das demais ciências: “Na análise das formas econômicas não podem servir nem o microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir a ambos” (Marx: 1983).

Esta ideia foi reafirmada, décadas mais tarde, por Marc Bloch, que a generalizou ao criticar o positivismo apoiado no paradigma das ciências da natureza.

 
Mas, exclamarão alguns, as linhas que você estabelece entre os diversos modos da atividade humana estão apenas em seu espírito; não, estão na realidade, onde tudo se confunde. Você usa portanto de ‘abstração’. De acordo, por que temer as palavras? Nenhuma ciência seria capaz de prescindir da abstração. Tampouco, aliás, da imaginação. É significativo, seja dito de passagem, que os mesmos espíritos, que pretendem banir a primeira, manifestem geralmente um mal humor pela segunda, é, das duas partes, o mesmo positivismo mal compreendido”
Bloch: 2001
 
 
 
 
  • Bloch Marc – A apologia da história, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001
  • Braudel, Fernand. Escritos sobre a história. São Paulo, Perspectiva, 1992.
  • Braudel, Fernand. Reflexões sobre a história. São Paulo, Martins Fontes, 1992.
  • Carr Edward H. Carr. Que é história? Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982
  • Goff, Jacques Le. “História”, verbete à Enciclopédia Einaudi, v. 1, Memória- História. Porto,Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1984.
  • Holanda, Sérgio Buarque de (org.). “O atual e o inatual em L. von Ranke”. In Leopold von Ranke: história. São Paulo, Ática, 1979
  • Le Goff, Jacques. Verbetes “História” e “Progresso/Reação”. In Enciclopédia Einaudi – vol. 1 – Memória-História. Porto, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984
  • Marcuse, Herbert. Razão e Revolução – Hegel e o Advento da Teoria Social. Rio de Janeiro, Saga, 1969
  • Marx. Karl. O Capital, Livro I. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1983
  • Ranke, Leopold von. Leopold von Ranke: história. Organizador da coletânea: Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo, Ática, 1979.
  • Schaff, Adam. História e Verdade. São Paulo, Martins Fontes, 1983

Texto em português do Brasil


 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/historia-ciencia-do-homem/

A HISTÓRIA FOI ESCRITA PELA MÃO BRANCA, por LEONARDO BOFF

 

leonardoboff.com, 14 de Janeiro de 2020

 

Uma das realidades mais perversas da história humana foi o milenar estatuto da escravidão. Aí se mostra o que também podemos ser: não só sapiens, portadores de amor, empatia, respeito e devoção, mas também demens, odientos, agressivos, cruéis e sem piedade. Este nosso lado sombrio parece dominar a cena social de nosso tempo e também de nosso país.

 

A história da escravidão se perde na obscuridade dos tempos milenares. Há uma inteira literatura sobre a escravidão, no Brasil, popularizada pelo jornalista-historiador Laurentino Gomes em três volumes (só o primeiro já veio a lume, 2019). Fontes de pessoas escravizadas são quase inexistentes, pois elas eram mantidas analfabetas. No Brasil, um dos países mais escravocratas da história, as fontes foram queimadas a mando do ingênuo “gênio” Ruy Barbosa, no afã de borrar as fontes de nossa vergonhosa nacional. Daí, que nossa história foi escrita pela mão branca, com a tinta do sangue de pessoas escravizadas.

 

A palavra escravo deriva de slavus em latim, nome genérico para designar os habitantes da Eslávia, região dos Bálcãs, sul da Rússia e às margens do Mar Negro, grande fornecedora de pessoas feitas escravas para todo o Mediterrâneo. Eram brancos, louros com olhos azuis. Só os otomanos de Istambul importaram entre 1450-1700 cerca de 2,5 milhões dessas pessoas brancas escravizadas.

 

No nosso tempo, as Américas foram as grandes importadores de pessoas de África que foram escravizadas. Entre 1500-1867 o número é espantoso: 12.521,337 fizeram a travessia transatlântica, das quais, 1.818,680 morreram a caminho e foram jogados ao mar. O Brasil foi campeão do escravagismo. Só ele importou, a partir de 1538, cerca de 4,9 mihões de africanos que foram escravizados. Das 36 mil viagens transatlânticas, 14.910 destinavam-se aos portos brasileiros.

 

Estas pessoas escravizadas eram tratadas como mercadorias, chamadas “peças”. A primeira coisa que o comprador fazia para “traze-las bem domesticadas e disciplinadas” era castigá-las, “haja açoites, haja correntes e grilhões”. Os historiadores da classe dominante criaram a legenda que aqui a escravidão foi branda, quando foi crudelíssima.

 

Basta um exemplo: o holandês, Dierick Ruiters que em 1618 passou pelo Rio relata: “um negro faminto furtou dois pães de açúcar. O senhor, sabendo disso, mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e ordenou que um negro o surrasse com chicote de couro; seu corpo ficou da cabeça aos pés, uma chaga aberta e os lugares poupados pelo chicote foram lacerados à faca; terminado o castigo, um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal…tive que presenciar –relata o holandês – a transformação de um homem em carne de de boi salgada; e como se isso não bastasse, derramaram sobre suas feridas piche derretido; deixaram-no toda uma noite, de joelhos, preso pelo pescoço a um bloco, como um mísero animal” (Gomes, Escravidão,p.304). Sob tais castigos.  a espectativa de vida de uma pessoa escravizada em 1872 era de 18,3 anos.

 

O jesuíta André João Antonil dizia:”para o escravo são necessários três Ps, a saber: pau, pão e pano”. Pau para bater, Pão para não deixá-lo morrer de fome e Pano para esconder-lhe as vergonhas.

 

Seria longo enumerar as estações desta via-sacra de horrores pela qual passaram estas pessoas escravizadas; elas são mais numerosas do que aquelas do Filho do homem quando foi torturado e levado ao madeiro da cruz, mesmo passando entre nós “fazendo o bem e curando os oprimidos” (Atos dos Apóstolos,10,39).

 

É sempre atual o grito lancinante de Castro Alves em “Vozes d’Africa”: “Ó Deus, onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçando nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito/ Que embalde, desde então, corre o infinito… /Onde estás, Senhor Deus?”

 

Misteriosamente Deus se calou como se calou no campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau que fez o Papa Bento XVI se perguntar:” Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde permitir tanto mal?”

 

E a pensar que foram cristãos os principais escravocratas. A fé não os ajudou a ver nessas pessoas “imagens e semelhanças de Deus”, mais ainda, “filhos e filhas de Deus”, nossos irmãos e irmãs. Como foi possível a crueldade nos porões de tortura dos vários ditadores militares da Argentina, do Chile, do Uruguai, de El Salvador e do Brasil que se diziam cristãos e católicos?

 

Quando a contradição é grande demais que vai além de qualquer racionalidade, simplesmente calamos. É o mysterium iniquitatis, o mistério da iniquidade que até hoje nenhum filósofo, teólogo ou pensador encontrou-lhe uma resposta. Cristo na cruz também gritou e sentiu a “a morte”de Deus. Mesmo assim vale a aposta de que todas as trevas juntas não conseguem apagar uma luzinha que brilha na noite. É a nossa esperança contra toda a esperança.

 

 

Leonardo Boff é filósofo, teólogo e escreveu:”Paixão de Cristo-paixão do mundo”, Vozes 2009.

 

 

Leia este texto no original clicando em:

https://leonardoboff.wordpress.com/2020/01/14/a-historia-foi-escrita-pela-mao-branca/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/21/a-historia-foi-escrita-pela-mao-branca-por-leonardo-boff/

O verdadeiro Winston Churchill

 
 
Richard Seymour*
 
Churchill não foi um herói - foi um racista vil e fanático da violência, que apoiava ferozmente o imperialismo.
 
Durante os protestos em maio de 2.000 nada enfureceu mais o establishment britânico - imprensa, políticos, tribunais, e opinião respeitável - do que a profanação da estátua de Winston Churchill na Praça do Parlamento. O sangue selvagem vermelho pintado com spray em torno da boca de Churchill, a lívida marca verde que sugeria um corte de cabelo mohawk, transformando o estoico pai da nação em palhaço, era inconcebível. É difícil transmitir o valor simbólico e emocional deste homem para a classe dominante britânica e um número significativo, embora em declínio, de cidadãos. Aqueles cuja consciência nacional é moldada pelas memórias da Segunda Guerra Mundial, provavelmente o último momento de "grandeza" do império, salvo a vitória na Copa do Mundo de 1966, conhecem principalmente Churchill como o homem que esmagou a ameaça nazista. Dirigindo um governo de coligação ele exortou o que tinha sido uma nação mal-liderada e esgotada para ousar e vencer. Ele salvou o estado britânico, orientando-o através de uma de suas piores crises. Churchill foi o último líder britânico verdadeiramente amado; mais ninguém se aproximou disso.
 
Quando eu estava na escola, na década de 1980, no norte da Irlanda, a jóia esmeralda do Império, este ainda era um sentimento poderoso. Nosso professor de história, explicando a Segunda Guerra Mundial, contou com orgulho uma história apócrifa em que Hitler, depois de ter ouvido que Churchill estava liderando o esforço de guerra, disse: "O que faremos agora?" E nós, com as pupilas e olhos brilhantes, ficamos muito satisfeitos pensando nisso. O que você vai fazer agora?
Churchill é, além de mito nacional, objeto de uma pequena indústria artesanal e fonte interminável de nostalgia. Livros comemorando sua sagacidade perversa, canecas enfeitadas com sua imagem, toalhas de chá citando o grande homem, intermináveis historiadores da corte - e quando se trata de Churchill, quase não há outro tipo de historiador - recapitulando suas glórias. Há um filme sobre ele agora, com Gary Oldman? Jogue-o na pilha com o último filme com Brian Cox, e aquele anterior com Brendan Gleeson, e outro antes dele com Albert Finney e o anterior com Michael Gambon. É uma indústria dos "tesouros nacionais", e um mini-boom agora está em andamento, já que certos sentimentos que o Brexit colocou em circulação alimentam um retorno cultural ao Império.
 
Para mim, no entanto, seu brilho desapareceu há muito tempo, e fui à Praça do Parlamento para admirar aqueles manifestantes. O que deu errado?
 
 
A indústria cultural não é sempre um lugar tão ruim para descobrir a verdade sobre Churchill. O ator Richard Burton, ao se preparar para representar Churchill em um drama de televisão, escreveu para o New York Times: 
 
Durante a preparação, percebi de novo que odeio Churchill e todos de seu tipo. Os odeio fortemente. Eles tiveram um poder infinito ao longo da história.... O que um homem são diria ao ouvir sobre as atrocidades cometidas pelos japoneses contra prisioneiros de guerra britânicos e do ANZAC: "Nós os destruiremos, cada um deles, homens, mulheres e filhos. Não haverá uma esquerda japonesa na face da terra"? Essa ânsia de vingança me deixa com horror, devido à sua ferocidade simples e implacável.
Por essa iconoclastia, Burton foi impedido de trabalhar novamente na BBC, acusado de "agir de forma não profissional" e, evidentemente, considerado como traidor. No entanto, ele trouxe algo sobre Churchill que muitas vezes constrange a sensibilidade britânica, de tal modo que geralmente não se fala nisso: o gosto pelo massacre. Em todo canto, parece que Churchill baba sangue. Ele era um fanático da violência. Churchill vinha da alta aristocracia; era filho do chanceler Lord Randolph Churchill, foi um menino destinado aos altos cargos. É importante notar que o jovem Churchill não era um reacionário total. Membro do Partido Conservador, ele se considerava liberal. Defendia o livre comércio, a democracia e algumas melhorias suaves para a classe trabalhadora - refletindo a ideologia Whiggy (White Guy Groupie), e um liberalismo que estava em declínio. A única exceção foi sua rejeição da ideia de Irish Home Rule - um governo autônomo irlandês. Mas ser um liberal na época não era de modo algum incompatível com o imperialismo, o racismo, o antisemitismo, o apoio à eugenia e o desdém patriarcal pelo sufrágio universal. Como Candice Millard sugere em Herói do Império, onde conta a história da participação de Churchill na Guerra dos Boer (na África do Sul), ele foi um político criado e formado pelo Império Britânico. Atingiu a idade adulta com um senso avançado de sua grandeza potencial, como alguém que apreciava sua reputação de coragem diante da morte. O Império Britânico tinha milhões de pessoas dispostas a viajar a todo o mundo para dominar pessoas que não tinham a chance desse tipo de aventura. Era um império que dominava 450 milhões de pessoas, cujas revoltas e lutas ocorriam no sul da África, no Egito e na Irlanda. Millard escreve: 
 
Para Churchill, tais conflitos distantes ofereciam uma oportunidade irresistível para a glória e o avanço pessoal. Quando entrou no exército britânico e finalmente se tornou um soldado, com a possibilidade real de morrer em combate, o entusiasmo de Churchill não vacilou. Pelo contrário, ele escreveu para sua mãe que aguardava a batalha por causa dos riscos que oferece.
Churchill conseguiu provar-se um homem dos padrões imperiais, lutando na Índia e no Sudão, ajudando os espanhóis a reprimir os lutadores pela liberdade de Cuba e, após uma breve carreira parlamentar na África do Sul, lutando na Segunda Guerra dos Boers. Esta experiência preparou-o para buscar soluções semelhantes em problemas domésticos. Quando se uniu ao governo liberal de 1906, defendeu medidas agressivamente autoritárias para controlar a desobediência social. A promoção de Churchill no governo, quatro anos depois, ocorreu em um momento de turbulência política crescente no Reino Unido: a luta irlandesa pelo Home Rule, sufragismo, etc. Churchill se opôs a todos com violência. Há muita ênfase, na hagiografia de Churchill, para refutar a ideia de que ele ordenou o ataque das tropas contra mineiros em greve no País de Gales, algo pelo qual é desprezado na região até hoje. O que de fato aconteceu foi que Churchill enviou batalhões de polícia de Londres e manteve tropas em reserva em Cardiff, caso a polícia não conseguisse fazer o trabalho. Nunca houve dúvida de que Churchill estava ao lado dos patrões, e preparou-se para mobilizar toda a força do estado britânico para resolver as questões. Durante uma disputa com anarquistas armados em Stepney, foi dele a decisão incomum de assumir o comando operacional da polícia durante o cerco; e, finalmente, optou por matar o inimigo ao permitir que eles fossem queimados em uma casa onde estavam presos. No entanto, esse papel foi de curta duração. Churchill foi nomeado para uma posição militar sênior, que o colocou no comando político da Marinha Real. Um tecnófilo, ele a empurrou para a modernização, o combate aéreo e, mais tarde, os tanques. Mas nada em sua experiência poderia prepará-lo mais para a glória na Primeira Guerra Mundial: "Meu Deus!", exclamou em 1915. "Isso é história viva. Tudo o que estamos fazendo e dizendo é emocionante - será lido por mil gerações, pense nisso!". A natureza guerreira de Churchill pode ter sido culpada pelo desastre militar em Gallipoli em 1915. Num esforço para tomar o Estreito Dardanelos e manter a Turquia fora da guerra, ele foi responsável por uma operação que enviou britânicos, franceses, neozelandeses e australianos - principalmente voluntários, mal treinados - para a derrota na Península de Gallipoli. A debacle que se seguiu destruiu essas unidades e resultou no rebaixamento de Churchill, que deixou o governo e se juntou ao Exército para comandar um batalhão. Se suas credenciais de classe dominante fossem menos estimáveis, ele teria sido afastado devido àquele fracasso. Em vez disso, retornou ao parlamento em 1916 e mais uma vez subiu nas fileiras do governo - ministro de munições, secretário de guerra, e depois secretário do Ar. Ele foi um feroz defensor da intervenção para reprimir a Revolução Russa, e escreveu furiosamente sobre o perigo dos "Judeus Internacionais" (comunistas) e sua "sinistra confederação", contra os quais ele invocou o "judeu nacional" (o sionismo), muito mais aceitável - e isso foi interpretado de maneira mistificada por biógrafos como Martin Gilbert, como prova de seu filossemitismo. Além de ser motivado por uma dicotomia profundamente antissemita - "bom judeu-mau judeu" - os fundamentos colonialistas do apoio de Churchill ao sionismo foram mais tarde esclarecidos quando se dirigiu à Comissão Real da Palestina, sobre a autodeterminação palestina. Recorrendo ao bestilógico em suas imagens, ele comparou o autogoverno a um cão correndo em seu próprio canil - e ele não reconhecia esse direito. "Eu não admito", continuou, "que um grande erro tenha sido cometido com os índios da América, ou os negros da Austrália... pelo fato da forte disputa, uma raça de grau mais alto... tenha entrado e tomado seu lugar". Como um tático imperial, Churchill recomendou combater a insurgência contra o Mandato Britânico no Iraque com o uso de gás. Na verdade, ele fora pioneiro no uso de armas extremamente mortais na Rússia, contra os bolcheviques. É importante reconhecer que, com o seu apoio ao combate aéreo, ele justificou isso como uma alternativa "humana" e de alta tecnologia a métodos mais brutais. "Sou fortemente a favor do uso de gás envenenado contra tribos não civilizadas", escreveu e explicou: "O efeito moral deve ser tão bom que a perda de vidas deve ser reduzida ao mínimo". Quando alguns no governo britânico da Índia criticaram "o uso de gás contra os nativos", ele considerou essas objeções "irracionais". "O gás é uma arma mais misericordiosa do que bombas de alto poder e obriga o inimigo a aceitar uma decisão com menos perda de vida do que qualquer outra arma de guerra". Essa lógica, como o historiador Sven Lindqvist lembra, tem sustentado algumas das novidades mais bárbaras da guerra. Mesmo o uso de bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki foi justificado em parte como um meio para salvar vidas. Churchill, como conservador liberal, deveria ter ficado alarmado com a ascensão do fascismo na Europa. No entanto, ele era fortemente otimista e acreditava que Mussolini era um bom governante para a Itália, e o fascismo era útil contra o comunismo. Seu nacionalismo, militarismo e apoio à ordem e à tradição social marcavam sua interpretação do movimento fascista emergente. "Com o fascismo como tal... ele não teve objeções", escreve o historiador Paul Addison. "Em fevereiro de 1933 ele elogiou Mussolini... como 'o maior legislador entre os homens'". Paul Mason acrescenta que Churchill agradeceu a Mussolini por ter "prestado um serviço ao mundo" em sua guerra contra o comunismo, sindicatos e a esquerda. Visitando a Itália em 1927, ele declarou: "Se eu fosse italiano, tenho certeza de que deveria ter estado de todo coração com você desde o início para terminar sua luta triunfante contra os apetites e paixões bestiais do leninismo". Ele escreveu sobre suas "relações íntimas e fáceis com Mussolini, acrescentando que "no conflito entre fascismo e bolchevismo, não havia dúvidas sobre as condolências e convicções". Em 1935, Churchill expressou sua "admiração" por Hitler e "a coragem, a perseverança e a força vital que lhe permitiu... superar todas as... resistências em seu caminho". Addison explica que, enquanto Churchill não aprovava a perseguição do nazismo aos judeus, foram as "ambições externas dos nazistas, e não sua política interna, que causaram o maior alarme de Churchill". Mas quais eram as ambições externas que o preocupavam? A invasão da Etiópia pela Itália não perturbou a Churchill. Estava longe, numa zona considerada legítima para a disputa colonial. Quanto ao Terceiro Reich, muitas das suas concepções estratégicas e territoriais inspiraram-se no Império Britânico. Na verdade, o fetiche mais sagrado, "a raça ariana", foi inventado pelos britânicos, por seus filólogos e arqueólogos que trabalhavam no sudeste asiático. Hitler queria tomar os motivos do império e aplicá-los à Europa. Isso pode implicar uma guerra de aniquilação contra o "bolchevismo judeu", e é difícil acreditar que Churchill ou qualquer outra pessoa na classe dominante britânica teria tido algum problema com isso. Mas a expansão no continente europeu era outra questão. Em outras palavras, o fascismo só se tornou um problema quando Churchill reconheceu nele uma ameaça para o Império Britânico e a ordem europeia de estados-nação dominante. Só então, e somente a esse respeito, o fascismo se tornou pior do que o comunismo. Churchill tornou-se um proeminente advogado do rearmamento e um adversário da maioria do establishment militar e político britânico, que queria apoiar Hitler em sua guerra contra a Rússia. No entanto, ele continuou pensando que os nazistas poderiam ser isolados e que um eixo poderia ser criado com os fascismos italianos e espanhóis e, como tal, continuava a lisonjear Mussolini e se opunha a qualquer apoio à Espanha republicana, antifascista. Na Guerra Civil Espanhola, que foi, em muitos aspectos, um prelúdio para a Segunda Guerra Mundial, ele considerou a República como uma "frente comunista" e os fascistas apoiados por Hitler, um "movimento anti-vermelho" apropriado. Certamente, Churchill não poderia ter tido nenhuma objeção a Franco bombardear seus inimigos com gases venenosos, trazendo para território espanhol os métodos de combate usados no Marrocos, uma vez que eram métodos que ele próprio considerava humanos e condignos. Em última análise, a agressão de Hitler forçou a classe dominante britânica a abandonar sua preferência maioritária pela colaboração com o Terceiro Reich ("apaziguamento"). A invasão da Polónia convenceu o governo de Neville Chamberlain a entrar na guerra. Mas o julgamento do governo sobre a guerra em breve resultou em uma crise, levando-o ao colapso e à sua substituição por uma coligação liderada por Churchill. Mesmo após sua nomeação, Churchill persistiu em buscar uma aliança, menos ambiciosa, com os regimes fascistas. A historiadora Joanna Bourke relata o pedido desesperado de Churchill a Mussolini em maio de 1940: 
 
É tarde demais para impedir que um rio de sangue flua entre os povos britânico e italiano?... Os herdeiros comuns da civilização latina e cristã não devem ser voltados uns contra os outros em conflitos mortais. Olhe para isso, eu imploro em toda honra e respeito antes que o sinal de medo seja dado.
 
 
A política e os interesses da política britânicas são baseados na independência e na unidade da Espanha e estamos ansiosos para vê-la assumir o devido lugar como um grande poder mediterrâneo e como um dos principais membros da família da Europa e da cristandade.
Embora isso não tenha acontecido na Itália, Churchill chegou a uma aliança com Franco que prolongou a vida de seu regime. É claro que, como muitos sugeriram, a Segunda Guerra Mundial não era apenas uma só guerra. Ernest Mandel argumentou que eram pelo menos cinco guerras: ao lado da guerra entre poderes imperialistas, havia também uma guerra popular anti-colonial envolvendo assuntos coloniais do sul da Ásia e África, a autodefesa da Rússia, a luta da China contra o imperialismo japonês e uma guerra antifascista popular. Havia lutas populares contra o fascismo na Grécia, Espanha, Jugoslávia, Polónia e França, enquanto na China, Vietname, Índia e Indonésia a resistência era contra o imperialismo japonês. Mesmo na Grã-Bretanha, houve uma forte radicalização após 1940, e esforços concertados para transformar o esforço de guerra em uma guerra popular e antifascista. Para Churchill, no entanto, era apenas uma guerra imperialista, e a dirigiu como tal. Foram os britânicos que primeiro bombardearam civis durante o conflito, atacando-os nos subúrbios de Berlim. A Grã-Bretanha não conseguiu derrotar o Terceiro Reich através de um enorme exército continental, afirmou, mas "deve destruir o regime nazista através de um ataque absolutamente exasperante e exterminador de bombardeiros muito pesados". A grande maioria das bombas foi voltada para edifícios e áreas residenciais, em vez da infraestrutura estratégica. De acordo com o diretor da Air Intelligence, citado pelo historiador Richard Overy, as bombas foram direcionadas para "as casas, a cozinha, o aquecimento, a iluminação e a vida familiar daquela parte da população que, em qualquer país, é menos móvel e mais vulnerável a um ataque aéreo geral - a classe trabalhadora". Isso culminou, notoriamente, no bombeamento de Dresden.
 
A tática de incineração de civis apostou, absurdamente, na ideia de que isso desmoralizaria a população e eliminaria a resistência - uma ideia que o Império britânico devia ter repetidamente aplicado nas guerras coloniais. Uma guerra antifascista poderia ter poupado a população civil, em busca de apoio para um movimento de resistência antifascista que aceleraria o colapso do nazismo. Mas para Churchill, isso era simplesmente impensável. Ele foi o homem que se juntou à carga de cavalaria em Omdurman para se vingar do general Gordon, e cuja carreira militar foi marcada por um entusiasmado amor pelo perigo e pela morte. Churchill foi o homem que lutou para reprimir os insurgentes em todos os lugares, o homem que considerou adequado bombardear "nativos" onde quer que eles recusassem o domínio britânico. A guerra total foi a culminação lógica. Após a guerra, quando houve um debate entre os Aliados sobre o uso da dependência de Franco sobre o petróleo para persuadir o regime a moderar, Churchill ficou indignado com raiva, declarando que era "pouco menos do que revolver uma revolução na Espanha". Você "começa com o petróleo, e acabará rapidamente com o sangue". Os comunistas, disse,"se tornariam mestres da Espanha" e a "infecção se espalharia muito rapidamente pela Itália e pela França". Derrotada a agressão nazista, o comunismo era de novo o principal inimigo, e ele daria o sinal disso no discurso onde forjou a expressão "cortina de ferro", em março de 1946, que anunciou a Guerra Fria. Quando a guerra acabou Churchill estava enfraquecido. Ele fora extremamente popular durante o conflito, e continuaria a ser muito respeitado por sua decisão de lutar, e sua implacável energia na luta. Mas havia forte demanda por grandes reformas sociais, e isso significou uma mudança entre os trabalhadores. Churchill gozou de mais um período como primeiro ministro, a partir de 1951 e durante ele, manteve a maioria das reformas implementadas pelo Partido Trabalhista, mas foi principalmente brutal contra a revolta do Mau Mau, no Quénia, e a insurgência malaia. Na da Malásia, Churchill voltou a ser um "modernizador" bélico: a Grã-Bretanha foi o primeiro país a usar o agente laranja e herbicidas do mesmo tipo, e adotou com alegria a mesma política de bombardeio de saturação que os Estados Unidos aplicariam no Vietname. E então, ficando decisivamente doente, Churchill se aposentou. Tendo passado grande parte de sua vida repelindo ameaças "nativas" ao Império Britânico, ele ajudou a salvá-lo do Terceiro Reich. Mas as pessoas que julgou aptas para governar, na maioria dos casos conseguiram derrubar essa regra, em parte por causa da mobilização mundial contra Hitler. Faz sentido que o estado britânico idolatre Churchill. Sua história é a história do império. Mas quem, sabendo o que é essa história, pode participar da reverência a ele?
 
Sobre o autor
*Richard Seymour é o autor de vários livros, incluindo Corbyn: The Strange Rebirth of Radical Politics. Ele mantém o blog Lenin's Tomb.
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/o-verdadeiro-winston-churchill.html

Colapso do Antigo Egito pode se repetir no mundo em tempos modernos, alerta arqueólogo

A descoberta da tumba de Khentkaus III, rainha do Império Antigo do Egito, pode dar lições preciosas para o mundo de hoje, relata o tabloide britânico Daily Express.

De acordo com o jornal, a descoberta da câmara sepulcral, juntamente com as inscrições no interior e os artefatos, dão uma visão de uma líder que "pode não ter sido bastante glamorosa", mas ajudam a desvendar "uma sombra negra na história do Antigo Egito", comenta o professor Miroslav Barta, líder da equipe arqueológica tcheca que encontrou o túmulo.

O período em questão, segundo Barta, enfrentou "grandes fatores críticos" como "o impacto horrível do nepotismo" e "as mudanças climáticas" que "contribuíram para a desintegração da era dos construtores de pirâmides".

"Sem cheias razoáveis, não havia colheitas razoáveis e, por isso, os impostos eram insuficientes; sem impostos apropriados não havia meios suficientes para financiar o aparelho estatal e manter a ideologia e a integridade do Estado", explicou o professor.

Repetição da história

O arqueólogo também observou que a história pode realmente se repetir, devido à crise climática que nosso planeta parece estar enfrentando.

"Você pode encontrar muitos caminhos para o nosso mundo moderno, que também está enfrentando muitos desafios internos e externos. Estudando o passado, você pode aprender muito mais sobre o presente", complementou.

Bart argumenta ainda que, "se aceitarmos o colapso como um fato, entenderemos os colapsos como sendo parte do curso natural das coisas e um dos passos necessários no processo que leva à ressurreição".

Esfinge de Guizé (foto de arquivo)
© Sputnik / Fayed Al Geziri
Esfinge de Guizé (foto de arquivo)

"Então, seremos capazes de fazer algo a respeito", disse ele, acrescentando que são necessários mais alguns anos para estabelecer o que sua descoberta significa para o Egito.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019122214924878-colapso-do-antigo-egito-pode-se-repetir-no-mundo-em-tempos-modernos-alerta-arqueologo/

1º de Dezembro | Portugal libertou-se do invasor castelhano há 439 anos

 
 
Este ano, em mais uma comemoração da restauração da independência ocorrida em 1640, recordamos a libertação do jugo espanhol que durante 60 anos nos oprimiu e ocupou. Não nos aconteceu o mesmo que à Catalunha, senão atualmente ainda estaríamos a pugnar pela independência de Portugal do reino de Espanha. Espanha, um país composto por várias nações que se subjugaram ao Reino de Castela... E assim continuam.
 
Num total de 439 anos após a restauração da independência lusa, este é mais um ano de júbilo e homenagem aos portugueses revoltosos que expulsaram os espanhóis de Portugal, com maior ou menor violência (e mortes) e entregaram ao rei D. João IV a competência de restaurar o país de norte a sul, de este a oeste. Tarefa que, segundo os historiadores, assumiu e cumpriu até à sua morte.
 
De parte dessa história recolhemos um vídeo alusivo da RTP. Assim como um texto que publicamos a seguir. O regozijo de sermos portugueses(as) manifesta-se hoje e torna mais fácil de entender nestas datas comemorativas porque lutamos pela justiça que todos os povos merecem. Nós também.
 
Redação PG
 
 
A Restauração de 1640
 
A dinastia espanhola dos Filipes governou o país entre 1580 e 1640, altura em que o futuro D. João IV liderou uma revolta que afastou os castelhanos do trono.
 
Foram 120 os conspiradores que, na manhã de 1 de Dezembro de 1640, invadiram o Paço da Ribeira, em Lisboa, para derrubar a dinastia espanhola que governava o país desde 1580. Miguel de Vasconcelos, que representava os interesses castelhanos, foi morto a tiro e atirado pela janela.
 
Foi do balcão do Paço que foi proclamada a coroação do Duque de Bragança, futuro D. João IV, e foi também dali que foi ordenado o cerco à guarnição militar do Castelo de S. Jorge e a apreensão dos navios espanhóis que se encontravam no porto.
 
Até ao final de 1640 todas as praças, castelos e vilas com alguma importância tinham declarado a sua fidelidade aos revoltosos.
 
A restauração da independência só seria reconhecida pelos espanhóis 27 anos depois, com a assinatura do Tratado de Lisboa.
 
RTP

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/1-de-dezembro-portugal-libertou-se-do.html

Os quarenta rebuçados da Restauração

O Fernando, tiritando de frio, não me presta atenção, o olhar fito num qualquer sonho distante, quente, farto e doce. Reparo que veio calçado:  botas de borracha enormes, rotas — mas calçado. Por causa da visita do inspector na semana passada.


 

 

 

O vento sopra cortante, tremem os corpos, batem os dentes com frio. Resguardamo-nos no pequeno vestiário da escola, gelado, desabrigado.

— Lê a lição, pede-me o Fernando, que, mais uma vez, não terá feito os trabalhos de casa. E eu, que gosto de ler, começo: “Na madrugada do dia 1 de Dezembro, quarenta vultos rebuçados… “

Os olhos do Fernando brilham e rebrilham, tantos rebuçados juntos, estômago vazio, cabeça cheia de iguarias, ele que chega à escola com aguada de café de cevada no bucho e talvez umas sopas de côdea em resto da lavadura do caldo da véspera…

Corrijo-o: — Não são rebuçados desses.

Resplandece-lhe a face: — São rebuçados “Noivos”? Tão bons!

Surpreendo-me: — Já comeste desses? Sim, conta, um que lhe deram. Nunca provara nada tão bom na vida! Ah, se eu fosse rico, era só o que comia. Rebuçados “Noivos” de manhã à noite.

Recomeço a leitura. (Gosto de rebuçados, mas prefiro ler, sobretudo quando me ouvem…)

— Quarenta vultos rebuçados…

E ele, augado: — Não me fales mais em rebuçados.

Prossigo. O Fernando, tiritando de frio, não me presta atenção, o olhar fito num qualquer sonho distante, quente, farto e doce. Reparo que veio calçado:  botas de borracha enormes, rotas — mas calçado. Por causa da visita do inspector na semana passada. Ralhou com a professora: — Há meninos descalços! E para nós: — Não podeis vir descalços para a escola, ouvistes?

Atrapalhada, a professora tenta desculpar-se: — São muito pobres, os pais não podem…

O inspector, ar de santo: —Então ajude-os, com o dinheiro da Caixa Escolar

— Mas, Senhor Inspector, o dinheiro da Caixa nunca chega para as despesas, tinta permanente, papel, giz… É terra de gente pobre…

Que visse o que podia fazer. Descalços, não.

Eis que chega a professora: — Bom dia, minha senhora.

— Bom dia, meninos. Vamos entrar.

Seguimo-la, sempre deslumbrados com a sua beleza: bem jovem, alta, elegante, cabelo negro, a graça de um sinalzinho no queixo. Todos apaixonados por ela desde que cá chegou, em Outubro. Só é pena ser tão má, maltratar-nos tão cruelmente. Precisamente por isso, o Fernando, uma das suas principais vítimas, a alcunhou: Foguete 24; foguete, porque se assustou com o estoiro de um na festa; 24, porque é a sua conta normal de reguadas, uma dúzia em cada mão. Não há régua que lhe resista por muito tempo. Há semanas, partiu uma nas costas de um desses matulões que se arrasta pela escola à espera dos catorze anos, para então a poder abandonar, incapaz de fazer a quarta classe — a professora nem o leva a exame. Pois na manhã seguinte, eis que se levanta e respeitosamente se lhe dirige: — Minha senhora, está aqui esta régua que o meu pai fez e lhe manda. Manda também dizer que é de castanho, não parte às primeiras.

— Vamos lá a experimentá-la. Dá cá a mão.

E segue-se tareia preventiva: — Fica por por desconto das que hás-de apanhar esta manhã!

Começa o interrogatório, pretexto para o primeiro espancamento matinal:

— Que dia é amanhã?

— 1 de Dezembro, respondo prontamente, sempre sabichão.

— Porque é que é feriado?

E eu, mão no ar: — Porque é o dia da Restauração.

— Tu, cala-te. Respondes quando te perguntar. Fernando: o que é que aconteceu?

E ele, sofrendo por antecipação as duas dúzias de reguadas, contorce-se já na carteira, esfrega as mãos enregeladas, por tique nervoso ou para para as aquecer, que pancada em mãos frias dói muito mais:

— Houve a Restauração…

— Isso já sabemos. Pára de dançar e responde.

— Quarenta…, soluça, — Quarenta…

Que prossiga, ordena severa, brandindo a régua na mão direita, com vigor semelhante ao das espadas com que aqueles revolucionários trespassaram Miguel de Vasconcelos, antes ou depois de o defenestrarem, já não me lembro.

O Fernando, cada vez mais atrapalhado, só gagueja: — Quarenta…

— Quarenta quê? Desembucha!

— Quarenta rebuçados, já disse! — chora o Fernando.

E a professora, no gozo: — Quarenta rebuçados?

— Sim, um pote cheio deles, como os que há na loja da Tia Joaquina….

Torce-se, grita, tenta fugir com a mão cheia de frieiras à tortura, acaba por levar as últimas no rabo, nas costas, na cabeça: — Culpa tua, que não paras quieto!

A professora só se moderará anos mais tarde, já na Primavera Marcelista. Um desses calmeirões, louco de dor, exasperado com os espancamentos diários, virou-se a ela: — Sua puta, se me bate mais, fodo-a!

— Ai, tragam-me um copo de água, que vou desmaiar.

Foi o irmão da vítima que lhe trouxe a água, mas não lha deu a beber, atirou-lha à cara.

(Conta-se que um cidadão romano, octogenário, dizia preferir a morte a voltar à infância, tendo de passar novamente pela escola e pelas suas torturas…)


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-quarenta-rebucados-da-restauracao/

HOJE É O PRIMEIRO DE DEZEMBRO, por João Machado

 

 

Portugal, na sua história, tem várias datas com forte significado. O 14 de Agosto, dia da batalha de Aljubarrota  e  o 1.º de Dezembro,  que marca o início do processo de expulsão da casa de Habsburgo, assinalam momentos decisivos para a independência do nosso país. O 5 de Outubro e o 25 de Abril são símbolos de etapas em que se procurou afirmar e consolidar os direitos do nosso povo.  Na primeira daquelas datas há quem defenda que se deveria celebrar o tratado de Zamora, de 1147, entre Afonso Henriques e Afonso VII de Leão, marco fundador do nosso país. A 10 de Junho,  data da morte de Luís Camões,  actualmente, comemora-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Hoje é uma dessas datas. Está actualmente considerada como feriado nacional, após uma “suspensão” imposta em 2012 pelo governo Passos/Portas e promulgada pelo então presente Cavaco Silva. O governo de António Costa (que alguns chamam da “gerigonça”) repô-lo e o actual presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa declarou mesmo que nunca devia ter sido suspenso. Hoje mesmo presidiu às comemorações oficiais, na Praça dos Restauradores. Esperemos que assim continue. Não se trata aqui de criar expectativas ou de fazer vaticínios para as próximas eleições presidenciais, que ocorrerão, salvo erro, em 2021. Trata-se sim de reconhecer a importância da data.

Nos anos anteriores a 1640 os portugueses sentiram os inconvenientes da dependência de Madrid, com o incumprimento do acordado nas cortes de Tomar (1581) e a política centralizadora e despótica de Olivares. Deram a sua resposta em 1640 e nos anos seguintes, com as guerras da independência. Muitos episódios ocorreram desde então, nas relações entre os dois países. Hoje em dia, integrados na União Europeia e tendo à sua frente governos que parecem dar prioridade absoluta à contemporização com Madrid, há problemas com as águas do Tejo, por diversas razões, entre as quais avultam o transvase Tejo-Segura, um projecto que já vem do tempo de Francisco Franco, as ligações por caminho de ferro (1) e os efeitos poluidores da central nuclear de Almaraz e das minas de Retortillo.  A necessidade de uma política firme na defesa dos interesses portugueses continua a ser premente.

Não é com certeza apenas com Madrid que os portugueses necessitam de afirmar a sua independência. A adesão à União Europeia tem sido uma desilusão para muitos de nós, e o imperialismo norte-americano continua presente. As relações com a China não são feitas de modo nenhum numa base de igualdade. Tudo aponta no sentido de ser necessário reforçar cada vez mais a independência nacional.

Ser independente não é ser hostil com os outros povos, a começar pelos nossos vizinhos. Mas inclui não aceitar comportamentos hostis, incluindo todos os que nos são prejudiciais. É indispensável para que uma nação subsista que o seu povo se sinta seguro, e que não é rebaixado nas relações internacionais, tal como na sua vida interna.

Hoje, até cerca das 23 horas, tivemos no nosso blogue mais de duzentas visites para ouvirem o Hino da Restauração.  Ajudem-nos a compreender o significado dessas visitas. E acreditem que não queremos nenhuma guerra peninsular, de qualquer espécie. Nem outra guerra qualquer.

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(1) – Para ler sobre este assunto clique nos links abaixo:

 

https://aviagemdosargonautas.net/2017/06/03/editorial-sera-desta-que-portugal-aposta-na-ferrovia-por-antonio-gomes-marques/

https://aviagemdosargonautas.net/2017/08/09/manifesto-portugal-uma-ilha-ferroviaria-na-uniao-europeia-enviado-por-antonio-gomes-marques/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/12/01/hoje-e-o-primeiro-de-dezembro-por-joao-machado/

República 130 anos: Para onde vai o Brasil?

Esta sexta-feira (15) marca os 130 anos de vida republicana no Brasil. Todo o processo de lutas em favor da República que culminou com o golpe de Estado de 1889 mostra que predominou a aliança entre os setores da elite envolvidas para a derrocada do Império que já durava 67 anos no país.

 

 

Venceu a união de um projeto moderado e liberal, que pretendia afastar os setores mais radicais e manter uma República sob controle oligárquico. Os liberais se uniram aos positivistas, que se baseavam no pensamento do francês Augusto Comte, pelo qual “o amor por princípio; a ordem por base; o progresso por fim”, por isso a frase “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.

O projeto defendido por setores mais radicais, que se baseavam nos ideias da Revolução Francesa (1789-1799) de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” foi derrotado. Eles defendiam a participação popular no processo revolucionário de constituição da República. Aliás, ao longo da história, predomina no Brasil o acerto entre as elites e o distanciamento dos setores populares do poder.

Por isso, a democracia quase inexistiu ao longo de toda a história do país. No período republicano, democracia para valer, mesmo no conceito da burguesia, foram 31 anos encerrado pelo golpe de Estado de 2016, quando a presidenta Dilma Rousseff sofreu um processo de impeachment sem comprovação de crime nenhum.

Entre 1945 e 1964 predominaram traços de democracia e os presidentes e vice-presidentes eram eleitos, mas o Partido Comunista do Brasil vivia na ilegalidade, porque o presidente eleito, Gaspar Dutra cassou o partido e seus parlamentares em 1947, depois de 2 anos de inédita vida legal do partido que foi fundado em 1922.

O Brasil passou por tudo isso e agora assiste ao desastre do 38º presidente, Jair Bolsonaro, num conluio das elites para evitar o avanço das forças populares e democráticas na direção dos rumos da vida brasileira na construção de uma sociedade mais justa e mais igual.

Com a posse do primeiro governo de inspiração popular em 2003, com Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência, a democracia avançou e diversas políticas públicas de combate às desigualdades foram implementadas e mesmo que timidamente, o Brasil experimentou por 14 anos um decréscimo nunca visto na pobreza do país.

As chamadas elites se alvoroçaram e sucessivamente passaram a atacar a política de cotas raciais e sociais para o ingresso nas universidades, os programas sociais de distribuição de renda e principalmente o distanciamento a que estavam do controle do Estado.

Resultou disso, a união dos principais setores da elite econômica para decretar o fim da democracia e instaurar o projeto neoliberal de destruição do Estado nacional. Veio o golpe de Estado e a unidade de praticamente toda a direita para a eleição do ultrarreacionário Jair Bolsonaro, dois anos após o golpe.

Portanto, aos 130 anos da República não sobra outra alternativa aos setores democráticos e populares a não ser o de lutar pelas liberdades democráticas e pelo respeito aos direitos humanos e sociais de todas e todos os brasileiros. Somente a unidade de quem defende a democracia e respeita os direitos humanos pode tirar o Brasil dos rumos do autoritarismo.

 

Proclamação da República, Benedito Calixto, 1893

 


Texto em português do Brasil


Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/republica-130-anos-para-onde-vai-o-brasil/

O Pacto Hitler-Stálin: Mito e Realidade

Em um livro extraordinário, “1939: The Alliance That Never Was and the Coming of World War II”, o historiador canadense Michael Jabara Carley descreve como, no final dos anos 30, a União Soviética repetidamente tentou, mas por fim falhou, em estabelecer um pacto de segurança mútua, em outras palavras uma aliança defensiva, com a Grã-Bretanha e a França. Esse arranjo proposto foi planejado para conter a Alemanha Nazista que, sob a liderança ditatorial de Hitler, estava agindo de forma cada vez mais agressiva, e era provável que envolvesse alguns outros países, incluindo Polônia e Checoslováquia, que tinham motivo para temer as ambições alemãs. O protagonista dessa abordagem soviética em relação às potências ocidentais foi o ministro de Relações Exteriores Maxim Litvinov.

Moscou estava ansiosa para concluir tal tratado porque os líderes soviéticos sabiam muitíssimo bem que, mais cedo ou mais tarde, Hitler pretendia atacar e destruir seu Estado. Com efeito, no “Mein Kampf“, publicado nos anos 20, ele deixava bem claro que desprezava a URSS por ser uma “Rússia governada por judeus” (Russland unter Judenherrschaft), já que era o fruto da Revolução Russa, a obra dos Bolcheviques, que supostamente não eram nada além de um bando de judeus. Além disso, nos anos 30, virtualmente todo mundo com algum interesse em relações internacionais sabia muito bem que, com a remilitarização da Alemanha, o programa de rearmamento em larga escala e mais outras violações do Tratado de Versalhes, Hitler preparava-se para uma guerra onde uma das vítimas seria a União Soviética. Isso foi demonstrado muito claramente em um estudo detalhado escrito por um importante historiador militar e cientista político, Rolf-Dieter Müller, intitulado “Der Feind steht im Osten: Hitlers geheime Pläne für einen Krieg gegen die Sowjetunion im Jahr 1939” (“O Inimigo está no Leste: os Planos Secretos de Hitler para uma Guerra Contra a União Soviética em 1939”).

Um cartaz alemão diz: “Por trás dos poderes inimigos: os judeus”.

Hitler, então, estava desenvolvendo a força militar da Alemanha e pretendia usá-la para limpar a União Soviética da face da Terra. Do ponto de vista das elites que ainda estavam dominando o poder em Londres, Paris e em todo lugar no assim chamado “mundo Ocidental”, esse era um plano que eles só podiam aprovar e desejavam encorajar e até mesmo apoiar. Por quê? Porque a União Soviética era a encarnação da temida revolução social, a fonte de inspiração e orientação para revolucionários de seus próprios países e até mesmo de suas colônias, já que os soviéticos eram também anti-imperialistas que, através da Internacional Comunista (ou a Terceira Internacional), apoiavam a luta pela independência nas colônias das potências ocidentais.

Por meio de uma intervenção armada na Rússia em 1918-1919, essas elites já haviam tentado matar o dragão da revolução que havia levantado sua cabeça por lá em 1917, mas tal projeto falhou miseravelmente. As razões para esse fiasco foram, por uma lado, a forte resistência feita pelos revolucionários russos, que desfrutaram do apoio da maioria do povo russo e de muitos outros povos do antigo Império Czarista; e, por outro, a oposição entre os próprios países intervencionistas, onde soldados e civis simpatizavam com os revolucionários Bolcheviques e fizeram o apoio valer através de manifestações, greves, e até mesmo motins. As tropas tiveram que ser retiradas de forma inglória. Os cavalheiros no poder em Londres e Paris tiveram que contentar-se e apoiar Estados antissoviéticos e antirrussos – principalmente a Polônia e os países bálticos – por toda a fronteira ocidental do antigo Império Czarista, assim erguendo um “cordão sanitário” que supostamente seria o escudo do Ocidente contra a infecção do vírus revolucionário bolchevique.

Em Londres, Paris e outras capitais da Europa Ocidental, as elites esperavam que o experimento revolucionário na União Soviética colapsasse por si próprio, mas esse cenário falhou em se desdobrar. Pelo contrário, a partir do início dos anos trinta, quando a Grande Depressão devastou o mundo capitalista, a União Soviética experimentou um tipo de revolução industrial que permitiu que a população gozasse de considerável progresso social, e o país tornou-se mais forte, não só economicamente, mas também militarmente. Como resultado disso, o “contra-sistema” que o socialismo oferecia em relação ao capitalismo – assim como a ideologia comunista – tornaram-se mais e mais atrativos aos olhos dos plebeus no Ocidente, que sofriam cada vez mais com o desemprego e a miséria. Nesse contexto, a União Soviética passou ainda mais a ser um espinheiro bem no pé das elites em Londres e Paris. Inversamente, Hitler, com seus planos para uma cruzada antissoviética, pairava como um elemento cada vez mais útil e compreensivo. Além disso, corporações e bancos, principalmente americanos, mas também britânicos e franceses, fizeram muito dinheiro ajudando a Alemanha Nazista a rearmar-se, emprestando muito do dinheiro necessário para tanto. Por fim, mas não menos importante, acreditava-se que encorajando uma cruzada alemã em direção ao Oriente, isso poderia reduzir, se não eliminar por completo, o risco de uma agressão alemã contra o Ocidente. Assim, podemos entender porque as propostas de Moscou para estabelecer uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista não impressionaram esses cavalheiros. Mas havia uma razão pela qual eles não podiam se dar ao luxo de rejeitar essas propostas sem mais delongas.

Após a Grande Guerra, as elites dos dois lados do Canal da Mancha foram forçadas a introduzir reformas democráticas relativamente abrangentes, por exemplo, uma considerável expansão das eleições na Grã-Bretanha. Por causa disso, tornou-se necessário levar em conta a opinião dos Trabalhistas, assim como de outras “pragas de esquerda” que povoavam as legislaturas, e, às vezes, até mesmo incluí-las em governos de coalizão. A opinião pública, e uma parte considerável da mídia, era esmagadoramente hostil a Hitler e, portanto, fortemente a favor da proposta soviética de uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista. As elites queriam evitar tal aliança, mas também buscavam criar a impressão de que a queriam; pelo contrário, as elites queriam encorajar Hitler a atacar a União Soviética, e até ajudá-lo a tal, mas elas precisavam garantir que as pessoas jamais se dessem conta disso. Esse dilema levou a uma trajetória política cuja função manifesta era convencer o público de que os líderes haviam aceitado a proposta soviética para uma frente comum antinazista, mas cuja função latente – em outras palavras, a função real – era apoiar os projetos antissoviéticos de Hitler: a infame “política de apaziguamento“, associada acima de tudo com o nome do primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain e sua contraparte francesa, Édouard Daladier.

Os partidários do apaziguamento começaram a trabalhar assim que Hitler chegou ao poder na Alemanha em 1933 e deu início à preparação para a guerra, guerra essa contra a União Soviética. Já em 1935, Londres deu a Hitler uma espécie de sinal verde para seu projeto de rearmamento ao assinar com ele um tratado naval. Hitler então continuou violando todo tipo de provisões do Tratado de Versalhes, por exemplo reintroduzindo o serviço militar compulsório na Alemanha, armando a força militar alemã até os dentes, e, em 1937, anexando a Áustria. Em cada ocasião, os estadistas no poder em Londres e Paris queixaram-se e protestaram como forma de causar uma boa impressão no público, mas acabaram aceitando o fato consumado. O público foi levado a acreditar que tal indulgência era necessária para evitar uma guerra. Essa desculpa foi efetiva a princípio, já que a maioria dos britânicos e franceses não desejavam estar envolvidos em uma nova edição da mortífera Grande Guerra de 1914-1918. Por outro lado, logo ficou óbvio que tal apaziguamento fortaleceu a Alemanha militarmente e tornou Hitler cada vez mais ambicioso e exigente. Consequentemente, o público eventualmente sentiu que haviam sido feitas concessões suficientes ao ditador alemão, e nesse ponto os soviéticos, na figura de Litvinov, vieram à frente com a proposta de uma aliança anti-Hitler. Isso causou dores de cabeça para os arquitetos do apaziguamento, de quem Hitler esperava ainda mais concessões.

Cartaz de propaganda nazista em holandês diz: “A Europa avança. Sob o estandarte da SS o oeste luta contra o bolchevismo.”

Graças às concessões que já haviam sido feitas, a Alemanha Nazista estava se tornando uma grande besta militar, e em 1939 somente uma frente comum das forças ocidentais e soviéticas parecia ser capaz de contê-la, já que, em caso de guerra, a Alemanha teria de lutar em duas frentes. Sob forte pressão da opinião pública, os líderes em Londres e Paris concordaram em negociar com Moscou, mas “havia uma mosca na pomada”: a Alemanha não compartilhava nenhuma fronteira com a União Soviética, isso porque a Polônia estava prensada entre esses dois países. Oficialmente, ao menos, a Polônia era uma aliada da França, por isso era esperado que ela fizesse parte em uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista, mas o governo em Varsóvia era hostil em relação à União Soviética, vizinho que era considerado tão ameaçador quanto a Alemanha. A Polônia teimosamente recusou-se a autorizar o Exército Vermelho, em caso de guerra, a cruzar o território polonês como forma de batalhar contra os alemães. Londres e Paris recusaram-se a pressionar Varsóvia, e assim as negociações não resultaram em nenhum acordo.

Enquanto isso, Hitler fazia novas demandas, dessa vez em relação à Checoslováquia. Quando Praga se recusou a ceder um território chamado Sudetos, local habitado por uma minoria de falantes de língua alemã, a situação ameaçou resultar em guerra. Essa foi, de fato, uma oportunidade única para concluir uma aliança anti-Hitler com a União Soviética e a militarmente forte Checoslováquia como parceiras dos britânicos e franceses: Hitler teria enfrentado a escolha entre uma retirada humilhante e a virtualmente certa derrota em uma guerra de duas frentes. Mas isso também significava que Hitler jamais seria capaz de iniciar a cruzada antissoviética que as elites em Londres e Paris estavam esperando. É por isso que Chamberlain e Daladier não aproveitaram a crise na Checoslováquia para formar uma frente comum anti-Hitler com os soviéticos, mas, ao invés disso, correram de avião para Munique para concluir um acordo com o ditador alemão onde as terras dos Sudetos, que por acaso estavam incluídas na versão checoslovaca da linha Maginot, foram oferecidas a Hitler em uma bandeja de prata. O governo checoslovaco, que não foi sequer consultado, não teve escolha a não ser a renúncia, e os soviéticos, que haviam oferecido assistência militar a Praga, não foram convidados para essa infame reunião.

No “pacto” que concluíram com Hitler em Munique, os estadistas britânicos e franceses fizeram enormes concessões para o ditador alemão; não para manter a paz, mas desse modo eles poderiam continuar a sonhar com uma cruzada nazista contra a União Soviética. Para o povo de seus próprios países, no entanto, o acordo foi apresentado como uma solução mais sensata para uma crise que ameaçava dar início a uma guerra geral. “Paz para o nosso tempo!” foi o que Chamberlain proclamou de forma triunfante em seu retorno à Inglaterra. O que ele quis dizer era paz para seu próprio país e seus aliados, mas não para a União Soviética, cuja destruição pelas mãos dos nazistas era largamente esperada.

Na Grã-Bretanha também haviam políticos, incluindo um punhado de membros de boa-fé da elite do país, que se opuseram à política de apaziguamento de Chamberlain, como Winston Churchill. Eles não o fizeram por simpatia pela União Soviética, mas por não confiarem em Hitler e temerem que o apaziguamento poderia ser contraproducente de duas maneiras. Primeiro, a conquista da União Soviética poderia prover a Alemanha Nazista de matéria-prima virtualmente ilimitada, incluindo terra fértil, petróleo, e outras riquezas, e desse modo permitir que o Reich estabelecesse no continente europeu uma hegemonia que representaria um perigo ainda maior para a Grã-Bretanha do que foi Napoleão. Segundo, também era possível que o poder da Alemanha Nazista e as fraquezas da União Soviética fossem ambos superestimados, assim a cruzada antissoviética de Hitler poderia na verdade resultar em uma vitória soviética, resultando em uma potencial “bolchevização” da Alemanha e talvez de toda a Europa. É por isso que Churchill foi extremamente crítico em relação ao acordo concluído em Munique. Ele alegadamente havia observado que, na capital da Baviera, Chamberlain fora capaz de escolher entre a desonra e a guerra, e que ele escolheu a desonra, mas também receberia a guerra. Com seu “paz para o nosso tempo”, Chamberlain na verdade errou lamentavelmente. Apenas um ano depois, em 1939, seu país estaria envolvido em uma guerra contra uma Alemanha Nazista que, graças ao escandaloso pacto de Munique, tornara-se um inimigo ainda mais formidável.

O principal determinante da falha de negociações entre a dupla anglo-francesa e os soviéticos foi a falta de vontade tácita dos apaziguadores de concluir um acordo anti-Hitler. Um fator auxiliar foi a recusa do governo em Varsóvia em permitir a presença das tropas soviéticas em território polonês no caso de uma guerra contra a Alemanha. Isso deu a Chamberlain e Daladier um pretexto para não concluir um acordo com os soviéticos, pretexto esse necessário para satisfazer a opinião pública (mas outras desculpas também foram evocadas, por exemplo a alegada fraqueza do Exército Vermelho, o que supostamente faria da União Soviética um aliado inútil). Com relação ao papel desempenhado pelo governo Polonês neste drama, existem alguns sérios mal-entendidos. Vamos dar uma olhada neles.

Primeiramente, deve ser levado em consideração que a Polônia do entreguerras não era um país democrático, longe disso. Após seu (re)nascimento no fim da Primeira Guerra Mundial como uma democracia, não levou muito tempo até que o país se encontrasse governado com mão de ferro por um ditador militar, o general Józef Pilsudski, em nome de uma elite híbrida que representava a aristocracia, a Igreja Católica, e a burguesia. Esse regime antidemocrático continuou a governar após a morte do general em 1935, sob a chamada liderança dos “coronéis Pilsudski” cujo primus inter pares (primeiro entre iguais) era Józef Beck, o ministro de Relações Exteriores. Sua política estrangeira não refletia sentimentos calorosos em relação à Alemanha, que havia perdido uma parte de seu território para o novo Estado polonês, incluindo um “corredor” que separava a região alemã no leste da Prússia do resto do Reich; além de um atrito com Berlim por conta de Gdansk (Danzig), importante porto no mar Báltico que havia sido declarado uma cidade-estado independente pelo Tratado de Versalhes, mas era reivindicado tanto pela Polônia como pela Alemanha.

A atitude da Polônia em relação ao seu vizinho ao Leste, a União Soviética, era ainda mais hostil. Pilsudski e outros nacionalistas poloneses sonhavam com a volta do grande Império Polaco-Lituano [República das Duas Nações] dos séculos XVII e XVIII, que se estendia do mar Báltico ao Mar Negro. Ele aproveitou a revolução e a subsequente Guerra Civil na Rússia para tomar uma vasta parte do território do antigo Império Czarista durante a Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921. Esse território, que ficou conhecido de forma imprecisa como “Polônia Oriental,” se estendia por várias centenas de quilômetros ao leste da famosa Linha Curzon que deveria ter sido a fronteira oriental do novo Estado polonês, pelo menos de acordo com as potência ocidentais que tinham sido os padrinhos da nova Polônia ao final da Grande Guerra. A região era essencialmente habitada por russos brancos e ucranianos, mas nos anos seguintes a Varsóvia buscou “polonizar” a região o quanto fosse possível, trazendo colonos poloneses. As chamas da hostilidade polonesa em relação à União Soviética também foram ventiladas pelo fato de que os soviéticos simpatizavam com os comunistas e outros plebeus da própria Polônia que se opunham ao regime aristocrático. Finalmente, a elite polonesa era antissemita e tinha abraçado o conceito de “judeu-bolchevismo”, a noção de que o comunismo e todas outras formas de marxismo eram parte de uma nefasta conspiração judaica, e que a União Soviética, o produto de um esquema revolucionário bolchevique, e portanto supostamente judaico, representava nada mais do que uma “Rússia governada por judeus.” Ainda assim, as relações com os dois poderosos vizinhos foram normalizadas o quanto possível com Pilsudski e com a conclusão de dois tratados de não-agressão, um com a União Soviética em 1932 e um com a Alemanha logo após Hitler subir ao poder, firmado em 1934.

Após a morte de Pilsudski, os líderes poloneses continuaram a sonhar com expansão territorial para as bordas da praticamente mítica “Grande Polônia” de um passado distante. Para a realização desse sonho, pareciam haver diversas possibilidades no Oriente, e particularmente na Ucrânia, parte da União Soviética que se estendia de forma convidativa entre a Polônia e o Mar Negro. Apesar das disputas com a Alemanha e uma aliança formal com a França, que contava com ajuda polaca em caso de conflito com a Alemanha, primeiro o próprio Pilsudski, e então seus sucessores, flertaram com o regime nazista na esperança de uma conquista conjunta dos territórios soviéticos. Antissemitismo era outro denominador comum dos dois regimes que armaram esquemas para livrarem-se de suas minorias judaicas, por exemplo, deportando-as para a África.

A aproximação de Varsóvia em relação a Berlim refletia a megalomania e ingenuidade dos líderes poloneses, que acreditavam que seu país era uma grande potência do mesmo calibre que a Alemanha, um país que Berlim respeitaria e trataria como um parceiro de pleno comprometimento. Os nazistas estimularam essa ilusão, já que dessa forma enfraqueceriam a aliança entre a Polônia e a França. As ambições orientais da Polônia também foram encorajadas pelo Vaticano, que esperava que dividendos consideráveis fluíssem das conquistas da Polônia católica na majoritariamente ortodoxa Ucrânia, vista como madura para a conversão ao catolicismo. É nesse contexto que um novo mito foi conjurado pela máquina de propaganda de Goebbels em colaboração com a Polônia e o Vaticano, a saber, a ficção de uma grande fome na Ucrânia orquestrada por Moscou. A ideia era poder apresentar futuras intervenções militares da Polônia e da Alemanha por lá como sendo uma ação humanitária. Esse mito foi ressuscitado durante a Guerra Fria e tornou-se o mito criador do estado independente ucraniano que emergiu das ruínas da União Soviética. Para uma visão objetiva acerca do período de fome, recomendamos os vários artigos do historiador americano Mark Tauger, um especialista em história da agricultura soviética; tais artigos foram reunidos e publicados em uma obra francesa intitulada “Famine et Transformation agricole en URSS“.

O conhecimento desse contexto nos permite entender a atitude do governo polonês durante as negociações para o estabelecimento de uma frente defensiva comum contra a Alemanha Nazista. Varsóvia obstruiu essas negociações, não por medo da União Soviética, mas ao contrário, por causa de aspirações antissoviéticas e de seu acordo concomitante com a Alemanha. A respeito disso, a elite polonesa encontrava-se no mesmo barco que as contrapartes britânica e francesa. Desse modo, também podemos entender porque, após a conclusão do Acordo de Munique, que permitiu que a Alemanha anexasse a região dos Sudetos, a Polônia pegou um pedaço da pilhagem do território checoslovaco, mais especificamente a cidade de Cieszyn (Teschen) e seus arredores. Ao descer para essa parte da Checoslováquia como uma hiena, como observou Churchill, o regime polonês revelou suas reais intenções – e sua cumplicidade com Hitler.

As concessões feitas pelos arquitetos do acordo fizeram da Alemanha Nazista ainda mais forte do que antes e deixaram Hitler mais confiante, arrogante e exigente. Após Munique, ele revelou-se longe de estar satisfeito, e, em março de 1939, violou o Acordo de Munique ocupando o restante da Checoslováquia. Na França e na Grã-Bretanha, o público estava chocado, mas as elites dominantes não fizeram nada além de expressar a esperança de que o “Herr Hitler” eventualmente passasse a ser “sensível”, isso é, começasse sua guerra contra a União Soviética. Hitler sempre teve a intenção de fazê-la, mas, antes de satisfazer os apaziguadores britânicos e franceses, ele queria extorquir mais algumas concessões deles. Afinal de contas, parecia não haver o que eles pudessem recusar a ele; além disso, tendo fortalecido ainda mais a Alemanha com suas concessões anteriores, estariam eles em uma posição de negar a Hitler aquele que era presumidamente o último favor que ele pediria? Esse pequeno favor final dizia respeito à Polônia.

Ao final de março de 1939, Hitler subitamente exigiu Gdansk, assim como algum território polonês entre a Prússia Oriental e o resto da Alemanha. Em Londres, Chamberlain e seus colegas arqui-conciliadores estavam de fato inclinados a ceder mais uma vez, mas a oposição por parte da mídia e da Câmara dos Comuns provou-se muito forte para permitir que isso acontecesse. Chamberlain então repentinamente mudou de direção, e, em março de 1931, ele formalmente – mas de forma totalmente não realista, como Churchill observou – prometeu assistência armada à Varsóvia em caso de uma agressão alemã contra a Polônia. Em abril de 1939, quando pesquisas de opinião revelaram o que todo mundo já sabia, ou seja, que quase noventa porcento da população britânica desejava uma aliança anti-Hitler ao lado da União Soviética e também da França, Chamberlain viu-se obrigado a demonstrar oficialmente um interesse na proposta soviética de estabelecer diálogos a respeito da “segurança coletiva” frente a uma ameaça alemã.

Na realidade, os partidários do apaziguamento não estavam interessados na proposta soviética, e pensaram em todo tipo de pretexto para evitar a conclusão de um acordo com um país que eles desprezavam e contra um país com quem eles secretamente simpatizavam. Foi somente em julho de 1939 que eles se declararam preparados para dar início às negociações militares, e foi somente ao fim de agosto que uma delegação franco-britânica foi enviada para Leningrado com esse propósito. Em forte contraste com a velocidade com que, um ano antes, o próprio Chamberlain (acompanhado por Daladier) correu de avião para Munique, dessa vez um time de subalternos anônimos foi enviado para a União Soviética a bordo de um lento cargueiro. Além disso, quando finalmente chegaram em Moscou, após passarem por Leningrado, no dia 11 de agosto, descobriu-se que eles não possuíam as credenciais ou a autoridade necessária para realizar tais discussões. A essa altura, os soviéticos já haviam tido desprezo o bastante, e qualquer um pode entender porque eles resolveram romper as negociações.

Enquanto isso, Berlim discretamente deu início a uma aproximação com Moscou. Por que? Hitler sentiu-se traído por Londres e Paris, que a princípio haviam feito todo tipo de concessões, mas agora lhe negavam a pequena Gdansk e ficavam ao lado da Polônia. Desse modo, Hitler já encarava a perspectiva de uma guerra contra a Polônia, que negava entregar Gdansk, e também contra a dupla franco-britânica. Para poder vencer essa guerra, o ditador alemão precisava que a União Soviética se mantivesse neutra, e para tal ele estava disposto a pagar um preço alto. Da perspectiva de Moscou, a proposta de Berlim contrastava fortemente com a atitude dos apaziguadores ocidentais, que demandavam que os soviéticos fizessem promessas obrigatórias de assistência, mas sem oferecer uma contraparte significativa. O que havia começado em maio como discussões informais entre a Alemanha e a União Soviética no contexto de negociações comerciais sem importância, discussões nas quais os soviéticos inicialmente não mostraram interesse, eventualmente se transformou em um diálogo sério envolvendo os embaixadores dos dois países e até mesmo seus ministros das Relações Exteriores, Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov – este último substituindo Litvinov.

Um fator que teve um papel secundário, mas que não deve ser subestimado, é o fato de que, na primavera de 1939, tropas japonesas com base no norte da China invadiram o território soviético no Extremo Oriente. Eles seriam derrotados e recuariam em agosto, mas essa ameaça japonesa confrontou Moscou com a possibilidade de ter que travar uma guerra em duas frentes, a menos que fosse encontrada uma maneira de eliminar a ameaça proveniente da Alemanha Nazista. Finalmente, Moscou viu uma forma de neutralizar essa ameaça por intermédio da proposta de Berlim, refletindo seu próprio desejo de evitar uma guerra em duas frentes.

Foi somente em agosto, porém, quando os líderes soviéticos perceberam que a Grã-Bretanha e a França não pretendiam conduzir negociações de boa-fé, que o nó foi cortado e que a União Soviética assinou um pacto de não-agressão com a Alemanha Nazista, mais especificamente no dia 23 de agosto. Esse acordo foi nomeado como “Pacto Ribbentrop-Molotov”, em homenagem aos ministros das relações exteriores, mas também ficou conhecido como o “Pacto Hitler-Stálin”. A conclusão desse acordo dificilmente chegou como uma surpresa: um número de políticos e líderes militares na Grã-Bretanha e na França já haviam previsto em diversas ocasiões que a política de apaziguamento de Chamberlain e Daladier levaria Stálin “aos braços de Hitler”.

“Aos braços” é na verdade uma expressão inadequada nesse contexto, já que o pacto certamente não refletia sentimentos calorosos entre os signatários. Stálin, inclusive, recusou uma sugestão de incluir no texto algumas linhas convencionais sobre uma hipotética amizade entre os dois povos. Ademais, o acordo não era uma aliança, mas somente um pacto de não-agressão. Desse modo, foi similar a diversos outros pactos de não-agressão que foram assinados anteriormente com Hitler, por exemplo o pacto com a Polônia de 1934. Tudo se resumia a uma promessa de não atacar um ao outro e de manter relações pacíficas, uma promessa que cada lado provavelmente manteria enquanto lhes fosse conveniente. Uma cláusula secreta foi anexada ao acordo com respeito à demarcação de esferas de influência na Europa Oriental para cada um dos signatários. Essa linha correspondia mais ou menos à Linha Curzon, o que fazia da “Polônia Oriental” parte da esfera soviética de influência. O que esse arranjo teórico significava em termos práticos estava longe de ser claro, mas o pacto certamente não implicava uma partição ou amputação territorial da Polônia comparável ao destino imposto à Checoslováquia pelos britânicos e franceses no pacto que assinaram com Hitler em Munique.

O fato de a União Soviética reivindicar uma esfera de influência além de suas fronteiras é por vezes descrito como evidência de sinistras intenções expansionistas; contudo, o estabelecimento de esferas de influência, seja de forma unilateral, bilateral, ou multilateral, tem sido uma prática largamente aceita entre grandes potências e outras não tão grandes, sendo muitas vezes algo planejado com a intenção de evitar conflitos. A Doutrina Monroe, por exemplo, que “afirmou que o Novo Mundo e o Velho Mundo permaneceriam como esferas de influência distintas”, pretendia impedir novas incursões coloniais de potências europeias que poderiam levá-las aos conflito com os Estados Unidos. De forma similar, quando Churchill visitou Moscou em 1944 e ofereceu a Stálin a divisão da Península Balcânica em esferas de influência, a intenção era evitar o conflito entre seus respectivos países após o fim da guerra contra a Alemanha Nazista.

Hitler agora era capaz de atacar a Polônia sem correr o risco de ter de travar uma guerra tanto contra a União Soviética como contra a dupla franco-britânica, embora o ditador alemão tivesse bons motivos para duvidar de que Londres e Paris declarariam guerra. Sem a assistência soviética, ficou claro que nenhuma ajuda efetiva poderia ser oferecida à Polônia, de modo que não demoraria para a Alemanha derrotar o país (somente os coronéis em Varsóvia acreditavam que a Polônia era capaz de suportar a investida das poderosas hordas nazistas). Hitler sabia muito bem que os arquitetos do apaziguamento continuavam a esperar que, cedo ou tarde, ele acabaria por realizar seu desejo e destruiria a União Soviética, de maneira que estavam dispostos a fechar os olhos para sua agressão contra a Polônia. Ele também estava convencido de que os britânicos e os franceses, mesmo que declarassem guerra contra a Alemanha, não atacariam pelo lado ocidental.

O ataque alemão contra a Polônia foi iniciado em 1 de setembro de 1939. Londres e Paris ainda hesitaram alguns dias, antes de reagirem com uma declaração de guerra contra a Alemanha, mas eles acabaram não atacando o Reich no momento em que a maior parte de suas forças armadas estava invadindo a Polônia, que era o que alguns generais alemães temiam. Na verdade, os protagonistas do apaziguamento somente declararam guerra contra Hitler porque a opinião pública a demandava. Em segredo, eles esperavam que a incursão na Polônia logo terminasse; desse modo “Herr Hitler” poderia finalmente voltar sua atenção para a União Soviética. A guerra que eles travaram foi somente uma “guerra de mentira”, como seria corretamente chamada, uma farsa na qual suas tropas, que poderiam virtualmente ter marchado na Alemanha, permaneceram inativamente instaladas atrás da Linha Maginot. Hoje é quase certo que os simpatizantes de Hitler no campo francês, e, possivelmente, os apaziguadores britânicos também, fizeram saber ao ditador alemão que ele poderia usar todo o seu poder militar para acabar com a Polônia sem precisar temer um ataque das potências ocidentais (aqui nos referimos aos livros de Annie Lacroix-Riz, “Le choix de la défaite“, “Les élites françaises dans les années 1930“, e “De Munich à Vichy. L’assassinat de la 3e République“.)

Os defensores poloneses ficaram impressionados, e logo ficou óbvio que os coronéis que governavam a Polônia teriam que se render. Hitler tinha todos os motivos para acreditar que eles o fariam, e suas condições implicariam, sem dúvida, em grandes perdas territoriais, especialmente, é claro, nas regiões ocidentais do país, em sua fronteira com a Alemanha. No entanto, uma Polônia mutilada provavelmente continuaria a existir, do mesmo modo que a França, após sua rendição em junho de 1940, continuou a existir sob o disfarce da França de Vichy. Em 17 de setembro, no entanto, o governo polonês repentinamente fugiu para a vizinha Romênia, um país neutro. Ao fazer isso, o governo deixou de existir, já que, de acordo com a lei internacional, não somente os militares, mas também os membros do governo de um país em guerra, devem ser detidos ao entrar em um país neutro durante um período de hostilidades. Esse foi um ato irresponsável e até mesmo covarde, com consequências nefastas para o país. Sem um governo, a Polônia efetivamente degenerou-se em uma espécie de terra de ninguém – uma terra nullius, em terminologia jurídica – onde os conquistadores alemães poderiam fazer o que quisessem por não haver ninguém com quem negociar a respeito do destino do país derrotado.

Essa situação também deu aos soviéticos o direito de intervir. Países vizinhos podem ocupar uma potencialmente anárquica terra nullius; além disso, se os soviéticos não interviessem, os alemães iriam, sem a menor sombra de dúvida, ocupar cada centímetro quadrado da Polônia, com todas as consequências que isso implicaria. É por isso que, no mesmo 17 de setembro de 1939, o Exército Vermelho cruzou a Polônia e começou a ocupar as regiões do leste do país, a já mencionada “Polônia Oriental”. O conflito com os alemães foi evitado porque tal território era pertencente à esfera soviética de influência estabelecida no Pacto Ribbentrop-Molotov. Aqui e ali, as tropas alemãs que haviam penetrado a leste da linha de demarcação tiveram que se retirar para dar espaço aos homens do Exército Vermelho. Onde fosse que fizessem contato, os militares alemães e soviéticos se comportaram de forma adequada e seguiram o protocolo tradicional, o que, às vezes, envolvia algum tipo de cerimônia, mas jamais houve qualquer tipo de “parada da vitória” conjunta.

Como seu governo fora reduzido a fumaça, as forças armadas polonesas que continuaram a oferecer resistência foram reduzidas ao nível de irregulares, de guerrilheiros, expostas a todos os riscos associados a esse papel. A maioria das unidades do exército polonês se deixou desarmar e ser detida pelo Exército Vermelho, mas as vezes houve resistência, por exemplo, pelas tropas comandados por oficiais hostis aos soviéticos. Muitos desses oficiais haviam servido na Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921, tendo alegadamente cometido crimes de guerra como a execução de prisioneiros. É amplamente aceito que tais homens foram liquidados pelos soviéticos em Katyn e em outros lugares (ainda que, com relação a Katyn, tenham surgido questionamentos recentemente; esse assunto foi analisado em grandes detalhes em um livro de Grover Furr, “The Mystery of the Katyn Massacre“).

Muitos soldados e oficiais poloneses foram detidos pelos soviéticos de acordo com as regras do direito internacional. Em 1941, depois que a União Soviética passou a estar envolvida na guerra, e, portanto, não mais sujeita às regras que regem a conduta dos neutros, esses homens foram transferidos para a Grã-Bretanha (pelo Irã) para participarem da guerra contra a Alemanha Nazista ao lado dos aliados ocidentais. Entre 1943 e 1945, eles dariam uma grande contribuição para a libertação de uma parte considerável da Europa Ocidental (destino muito mais trágico tiveram os militares poloneses que caíram nas mãos dos alemães). Outros que se beneficiaram da ocupação de territórios da chamada “Polônia Oriental” pelos soviéticos foram os habitantes judeus. Eles foram transferidos para o interior da União Soviética e, desse modo, escaparam do destino que os esperava se eles tivessem continuado em seus shtetls quando os alemães chegaram em 1941. Muitos sobreviveram à guerra e puderam começar uma nova vida nos Estados Unidos, Canadá e, claro, Israel.

A ocupação da “Polônia Oriental” foi realizada corretamente, isso é, de acordo com as regras do direito internacional, de modo que essa ação não constituiu um “ataque” contra a Polônia, como muitos historiadores (e políticos) têm apresentado, e certamente não foi um ataque em colaboração com o “aliado” Nazi-Alemão. A União Soviética não se tornou aliada da Alemanha Nazista por concluir um pacto de não-agressão com esta, assim como não passou a ser aliada por conta de sua ocupação da “Polônia Oriental”. Hitler teve que tolerar essa ocupação, mas ele certamente teria preferido que os soviéticos não interviessem, permitindo que ele pudesse tomar toda a Polônia. Churchill expressou publicamente sua aprovação à iniciativa soviética, principalmente porque isso impediu que os nazistas também conquistassem a Polônia. O fato de essa iniciativa não constituir um ataque, e, portanto, um ato de guerra contra a Polônia, também se mostrou claramente no fato de que a Grã-Bretanha e a França, antigos aliados da Polônia, não declararam guerra contra a União Soviética, como eles certamente deveriam fazer. E a Liga das Nações Unidas não impôs sanções à União Soviética, o que também deveria ter acontecido se tal ação fosse considerada um ataque autêntico contra um de seus membros.

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Do ponto de vista soviético, a ocupação das regiões orientais da Polônia significava a recuperação de parte de seu território que fora perdido no conflito de 1919-1921. É verdade que Moscou havia reconhecido sua perda no Tratado de Paz de Riga que pôs um fim à guerra em março de 1921, mas Moscou seguiu buscando uma oportunidade para recuperar a “Polônia Oriental”, e em 1939 essa oportunidade se materializou e foi agarrada. Pode-se estigmatizar os soviéticos por isso, mas nesse caso pode-se também estigmatizar a França, por exemplo, por recuperar a Alsácia-Lorena no fim da Primeira Guerra Mundial, já que Paris havia reconhecido sua perda de território no Tratado de Paz de Frankfurt que pôs um fim à Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871.

Mais importante é o fato de que a ocupação – ou libertação, ou retomada, ou recuperação, ou qualquer nome que se queira dar – da “Polônia Oriental” deu à União Soviética um ativo extremamente útil que, no jargão da arquitetura militar, é chamado de “glacis“, ou seja, um espaço aberto onde um agressor pode atravessar antes de alcançar o perímetro defensivo de uma cidade ou fortaleza. Stálin sabia que, apesar do pacto, Hitler atacaria a União Soviética mais cedo ou mais tarde, e esse ataque veio a ocorrer de fato em junho de 1941. Naquele momento, Hitler teve que iniciar seu ataque de um ponto de partida muito mais distante das importantes cidades no coração da União Soviética do que teria sido o caso em 1939, quando ele já estava ansioso para iniciar o ataque. Por causa do pacto, os pontos de partida para a ofensiva nazista de 1941 estavam várias centenas de quilômetros mais a oeste, e, portanto, a uma distância muito maior de seus objetivos estratégicos nas profundezas do território soviético. Em 1941, as forças alemãs chegaram a pouca distância de Moscou, o que significa que, sem o pacto, eles certamente teriam tomado a cidade, podendo resultar na capitulação dos soviéticos.

Graças ao Pacto Ribbentrop-Molotov, a União Soviética não somente ganhou um espaço valioso, mas também um tempo valioso, a saber, o tempo extra que eles precisavam para se preparar para o ataque alemão que estava originalmente agendado para 1939, mas que foi postergado até 1941. Entre 1939 e 1941, infraestruturas de importância crucial, sobretudo as fábricas que produziam todo tipo de material de guerra, foram transferidas para o outro lado dos Montes Urais. Além disso, entre 1939 e 1940, os soviéticos tiveram a oportunidade de observar e examinar a guerra que estourava na Polônia, Europa Ocidental, e outros lugares, e assim estudar valiosas lições sobre o estilo moderno, motorizado e “rápido como um relâmpago” da ofensiva militar alemã, a blitzkrieg. Os estrategistas soviéticos aprenderam, por exemplo, que a concentração da maior parte das forças armadas para propósitos defensivos próximo da fronteira seria fatal, e que somente uma “defesa em profundidade” ofereceria a possibilidade de parar o rolo compressor nazista. Seria, entre outras coisas, graças às lições aprendidas dessa maneira que a União Soviética conseguiria – reconhecidamente com grande dificuldade – sobreviver ao ataque nazista em 1941 e eventualmente vencer a guerra contra esse poderoso adversário.

Para tornar possível a defesa de Leningrado em profundidade, uma cidade com vitais indústrias de armas, a União Soviética propôs trocar territórios com a vizinha Finlândia no outono de 1939, um arranjo que teria mudado a fronteira dos dois países, deixando a cidade soviética mais distante. A Finlândia, aliada da Alemanha Nazista, recusou, mas através da “Guerra do Inverno” de 1939-1940, Moscou finalmente conseguiu realizar essa modificação da fronteira. Por causa do conflito, entendido como uma agressão, a União Soviética foi excomungada pela Liga das Nações. Em 1941, quando os alemães, auxiliados pelos finlandeses, atacaram a União Soviética e cercaram Leningrado durante muitos anos, foi o ajuste de fronteira que permitiu a sobrevivência da cidade durante esta provação.

Não foi a União Soviética, mas a Alemanha, quem tomou a iniciativa para as negociações que eventualmente resultaram no pacto. Eles o fizeram porque esperavam obter um vantagem disso, uma vantagem temporária, porém muito importante: a neutralidade da União Soviética enquanto a Wehrmacht atacava primeiro a Polônia e depois a Europa Ocidental. Mas a Alemanha Nazista também obteve um benefício adicional do acordo comercial que fora associado ao pacto. O Reich sofria com uma penúria crônica de todo tipo de matérias-primas estratégicas, e essa situação ameaçava se tornar catastrófica quando, como era de se esperar, uma declaração de guerra britânica levasse ao bloqueio da Alemanha pela Marinha Real. Esse problema foi neutralizado pela entrega de produtos como o petróleo por parte dos soviéticos, tal como fora estipulado no acordo. Não está claro o quão cruciais essas entregas realmente foram, especialmente as entregas de petróleo: não muito importantes, de acordo com alguns historiadores; extremamente importantes, de acordo com outros. De todo modo, a Alemanha Nazista continuou a depender de uma grande quantidade de petróleo importado – principalmente através de portos da Espanha – dos Estados Unidos, pelo menos até o Tio Sam entrar na guerra em dezembro de 1941. No verão de 1941, dezenas de milhares aviões, tanques, caminhões e outras máquinas de guerra nazistas envolvidas na invasão da União Soviética ainda eram dependentes em grande parte do combustível fornecido pelos fundos de petróleo americanos.

Ainda que seja incerto o quão importante o petróleo fornecido pelos soviéticos foi para a Alemanha Nazista, é certo que o pacto exigiu que o lado alemão retribuísse fornecendo aos soviéticos uma série de produtos industriais acabados, incluindo equipamento militar de ponta, o que foi usado pelo Exército Vermelho para atualizar suas defesas contra o possível ataque alemão que eles esperavam que fosse acontecer cedo ou tarde. Esse foi um dos maiores fatores de preocupação para Hitler, que estava interessado em iniciar sua cruzada antissoviética o mais cedo possível. Ele decidiu por fazê-lo ainda que, após a queda da França, a Grã-Bretanha estivesse longe de ser levada em conta. Consequentemente, em 1941, o ditador alemão teria que enfrentar o tipo de guerra em duas frentes que ele esperava evitar em 1939 graças ao seu pacto com Moscou, dessa vez enfrentando um inimigo soviético que havia se tornado muito mais forte do que era em 1939.

Stálin assinou um pacto com Hitler porque os arquitetos do apaziguamento em Londres e Paris recusaram todas as ofertas soviéticas de formar uma frente comum contra o ditador alemão. E os apaziguadores recusaram essas ofertas porque esperavam que Hitler marchasse para o Leste e destruísse a União Soviética, um trabalho que eles procuraram facilitar ao oferecerem a ele um “trampolim” sob o disfarce do território checoslovaco. É praticamente certo que, sem o pacto, Hitler teria atacado a União Soviética em 1939. Por causa do pacto, contudo, Hitler teve que esperar dois anos antes que finalmente estivesse apto a lançar sua cruzada antissoviética. Isso deu à União Soviética tempo e espaço extras que permitiram que suas defesas fossem aperfeiçoadas o suficiente para sobreviver à investida quando Hitler finalmente enviou seus cães de guerra para o Leste em 1941. O Exército Vermelho sofreu terríveis perdas, mas eventualmente conseguiu parar a avalanche nazista. Sem esse sucesso soviético, uma conquista descrita pelo historiador Geoffrey Roberts como “o maior feito das armas na história mundial”, a Alemanha muito provavelmente venceria a guerra, já que eles teriam ganho o controle dos campos de petróleo do Cáucaso, as ricas terras agrícolas da Ucrânia, e muitas outras riquezas do vasto território dos soviéticos. Tal triunfo teria transformado a Alemanha Nazista em uma superpotência insuperável, capaz de travar guerras ainda mais longas contra qualquer um, incluindo uma aliança anglo-americana. Uma vitória contra a União Soviética teria dado à Alemanha Nazista hegemonia sobre a Europa. Hoje, no continente, a segunda língua não seria o inglês, mas o alemão, e em Paris os fashionistas iriam subir e descer os Champs-Élysées usando lederhosen(traje típico alemão).

Sem o Pacto, portanto, a libertação da Europa, incluindo a libertação da Europa Ocidental pelos americanos, britânicos, canadenses, etc., nunca teria ocorrido. A Polônia não existiria; os poloneses seriam “untermenschen”, servos dos colonos “arianos” em uma Ostland germanizada do Báltico aos Cárpatos ou até mesmo aos Urais. E um governo polonês nunca teria ordenado a destruição de monumentos honrando o Exército Vermelho, como tem sido feito recentemente, não somente porque não haveria Polônia e, portanto, um governo polonês, mas porque o Exército Vermelho nunca teria libertado a Polônia e esses monumentos nunca teriam sido erguidos.

A ideia de que o Pacto Hitler-Stálin desencadeou a Segunda Guerra Mundial é pior do que um mito, é uma mentira completa. O oposto é verdade: o pacto foi a precondição para o feliz resultado do armageddonocorrido entre 1939 e 1945, isso é, a derrota da Alemanha Nazista.

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O revisionismo histórico do Parlamento Europeu

Por iniciativa do grupo Renew Europe de Emmanuel Macron e de Dacian Cioloș, o Parlamento Europeu adoptou, em 19 de Setembro de 2019, uma Resolução «sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa» [1]. Este documento pretende criar um mito justificando a posteriori a criação da União Europeia contra a Rússia. Ele afirma que, ao assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop, a URSS partilhou os objectivos funestos do Reich nazi e desencadeou a Segunda Guerra Mundial.

Este mito opõe-se ao, fundador, da Federação da Rússia segundo o qual, pelo sacrifício que aceitou na sua luta contra o nazismo, o Povo russo formou a sua nação.

A realidade histórica é que durante seis anos, de 1933 a 1939, a diplomacia soviética não parou de instar os Europeus do Ocidente a formar uma aliança antinazi, enquanto que estes apoiavam abertamente o projecto nazi para colocar os Eslavos na escravatura (untermenschen) e colonizar o seu território.

O pacto germano-soviético de 23 de Agosto de 1939 previa efectivamente esferas de influência dos dois países e antecipava uma possível partilha da Polónia. Mas, ele não pode ser interpretado sem o situar no seu contexto. Em 30 de Setembro de 1938, o Pacto Chamberlain-Daladier-Hitler-Mussolini, dito «Acordo de Munique», partilhava a Checoslováquia —na ausência dos seus representantes— entre a Alemanha, a Hungria e a Polónia. Ele abria a via ao projecto nazi de colonização da Europa central e oriental, afastando assim o espectro de um confronto entre o Reich e os Impérios inglês e francês. Estes acordos foram confirmados pelo Tratado franco-alemão, de 6 de Dezembro de 1938, o Pacto Bonnet-Ribbentrop.

Como é evidente, a URSS tem uma responsabilidade quanto à Segunda Guerra Mundial, mas muito menos importante que a do Reino Unido e sobretudo a da França.

É preciso notar que as razões que conduziram à guerra são hoje em dia sistematicamente ocultadas. Já não se fala mais da colonização da Europa central e oriental e da continuação das colonizações britânica e francesa fora da Europa. Da mesma maneira, já não se fala mais de projecto de escravatura dos Eslavos, mas, antes do extermínio dos judeus que, aliás, só começou em 1942.




Ver original na 'Rede Voltaire'



Supostos pergaminhos da família de Júlio César podem ser lidos pela 1ª vez em 2 mil anos (FOTOS)

Fragmento de pergaminho Herculano
© REUTERS / George Sargent

Misteriosos pergaminhos da família de Júlio César, que ficaram carbonizados durante erupção do Vesúvio, podem ser lidos pela primeira vez depois de 2 mil anos.

O Monte Vesúvio entrou em erupção em 79 d.C., queimando as cidades de Pompeia e Herculano, além de destruir um dos bens mais preciosos para os romanos, a biblioteca de pergaminhos.

Os frágeis documentos foram conservados durante anos, porém sua fragilidade impossibilitou a abertura deles, segundo o tabloide Daily Mail.

Uma equipe norte-americana, liderada pelo professor Brent Seales, diretor de informática da Universidade de Kentucky, iniciou uma pesquisa para decifrar as escritas através de uma nova técnica de raios X, que conta com a inteligência artificial.

Fragmento de pergaminho Herculano de 2.000 anos
© REUTERS / George Sargent
Fragmento de pergaminho Herculano de 2.000 anos

Os pergaminhos que deverão ser estudados pertencem ao Instituto da França em Paris e formam parte de uma coleção de 1.800 documentos descobertos em 1752 durante as escavações de Herculano, quando foi suposto que os documentos pertenciam à família de Júlio César.

A técnica de raios X foi utilizada anteriormente por Seales e sua equipe para interpretar um pergaminho hebreu de 1.700 anos, que pertencia à arca sagrada de uma sinagoga em Israel.

Pergaminho Herculano carbonizado há 2.000 anos
© REUTERS / Universidade de Kentucky / Iniciativa de Restauração Digital
Pergaminho Herculano carbonizado há 2.000 anos

Na ocasião foi revelado um texto do livro bíblico do Levítico, entretanto, a tinta desta escrita era composta por uma base de metal, enquanto que a dos pergaminhos de Herculano era baseada em carbono, material mais fácil de detectar.

Perante o desafio, a equipe criou um novo método baseado em raios X de alta energia e com inteligência artificial.

Fragmento de pergaminho Herculano de 2.000 anos
© REUTERS / George Sargent
Fragmento de pergaminho Herculano de 2.000 anos

Acredita-se que a densidade do papel com a escrita seja diferente das partes em branco. Ao escanear as partes onde os caracteres estão visíveis, um algoritmo decifrará o que está escrito nos pergaminhos.

O objetivo é que o sistema recolha as diferenças entre as áreas desenhadas e vazias, gerando dados que seriam decifrados através de técnicas informáticas avançadas.

Pergaminho Herculano carbonizado há 2.000 anos
© REUTERS / Universidade de Kentucky / Iniciativa de Restauração Digital
Pergaminho Herculano carbonizado há 2.000 anos

Seales ainda revelou que os dados dos raios X estão sendo recolhidos, inclusive seus algoritmos, para aplicar o novo sistema nos próximos meses.

"A primeira coisa que esperamos fazer é aperfeiçoar a tecnologia para que possamos utilizá-la nos 900 pergaminhos que faltam", informou Seales, ressaltando que a maioria das escritas se refere à filosofia grega.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019100314593699-pergaminhos-julio-cesar-de-2-mil-anos-podem-ser-lidos-pela-1-vez-fotos/

Resistentes antifascistas rejeitam «falsificações históricas» promovidas pela UE

A Federação Internacional de Resistentes (FIR) rejeita, numa nota, a resolução do Parlamento Europeu (PE) aprovada no passado dia 19 em que se «equipara e condena nazi-fascismo e comunismo».

A 27 de Janeiro de 1945, as tropas soviéticas libertaram o campo de concentração de AuschwitzCréditos

Tanto a FIR como as federações que a integram – como é o caso da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) – não podem de modo algum concordar com a resolução que, a 19 de Setembro de 2019, foi aprovada no PE, com os votos favoráveis de 535 deputados, a oposição de 66 e a abstenção de 52, e que alegadamente abordava «o significado do passado europeu (ou consciência histórica europeia) para o futuro da Europa».

Para a FIR, o «texto da declaração não mostra o futuro da Europa, mas é uma recaída ideológica nos piores tempos da Guerra Fria, que estão expressos nesta resolução, que surgiu por iniciativa dos estados Bálticos e da Polónia».

«Contrariamente a todas as evidências científicas, o texto alega que foi apenas com o Tratado de Não Agressão Germano-Soviético que «ficou marcado o rumo para a Segunda Guerra Mundial», denuncia a FIR, sublinhando que «a reconstrução dos acontecimentos que conduziram à Segunda Guerra Mundial é limitada, tendenciosa, instrumental e não tem qualquer base científica».

«Junta opressores e oprimidos, vítimas e carniceiros, invasores e libertadores. A resolução é um texto grosseiro de propaganda ideológica, digna dos piores momentos da Guerra Fria», declara-se na nota.

A FIR questiona os deputados sobre a ameaça externa actual a que se referem quando, na resolução aprovada, se afirma, «perversamente», que «assume uma importância decisiva para a unidade da Europa e dos seus povos, e para o fortalecimento da resistência da Europa às actuais ameaças exteriores que as vítimas dos regimes autoritários e totalitários sejam lembradas».

«Não» às falsificações da história

«A declaração criticou de facto um novo revisionismo histórico». No entanto, «se os membros do PE condenam nalguns estados europeus a glorificação das pessoas que colaboraram com os nazis, ao mesmo tempo adoptaram a narrativa histórica desses mesmos estados europeus de que a Rússia alegadamente falsifica factos históricos e encobre os "crimes cometidos pelo regime totalitário da União Soviética"», denuncia a Federação de Resistentes.

Neste sentido, a FIR e todas as federações dos «sobreviventes da perseguição fascista, os combatentes contra a barbárie nazi e todos os antifascistas dizem “não” a tais falsificações históricas» e acusam a resolução do PE de «escolher um caminho de divisão lacerante, em vez de uma responsável e rigorosa unidade», num tempo de «perigo crescente de fascismo, racismo e nacionalismo».

A FIR, que rejeita a recente resolução do PE em que se equipara e condena nazi-fascismo e comunismo, lembra as palavras do escritor alemão Thomas Mann, que, em 1945, avisou: «Colocar comunismo russo no mesmo plano moral que o nazi-fascismo, porque ambos seriam totalitários, é, na melhor das hipóteses, superficial; na pior, é fascismo. Quem insiste nesta equiparação pode considerar-se um democrata, mas, na verdade e no fundo do seu coração, é um fascista, e irá seguramente combater o fascismo de forma aparente e hipócrita, e deixa para o comunismo todo ódio».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/resistentes-antifascistas-rejeitam-falsificacoes-historicas-promovidas-pela-ue

Verdade histórica - Apontamentos sobre a II Guerra Mundial

É permanente a necessidade de repor a verdade histórica sobre a II Guerra Mundial, sistematicamente falsificada. Falsificação que atinge o delírio oficial, como sucedeu com as recentes comemorações ocidentais do desembarque na Normandia para as quais a Rússia não foi convidada mas em que, em compensação, estava presente… a Alemanha. Para toda esta gente continua a ser insuportável o papel decisivo da URSS na derrota do nazi-fascismo.


 

A História da II Guerra Mundial (II GM) é alvo de falsificação permanente. A revista do Expresso (7.6.19) fala do desembarque na Normandia (6 Junho, 1944) como «a maior operação aeronaval de todos os tempos e o prelúdio da derrota nazi». Mas como escreve Adam Tooze, Professor de História Económica nas Universidades de Cambridge e Yale:

«o ataque lançado pela Wehrmacht [ contra a URSS] em 22 de Junho de 1941 foi a maior operação militar única de que há registo histórico. Uma força não inferior a 3 050 000 homens participou na assalto […]. Nunca, nem antes nem depois, se travou batalha com tanta ferocidade, por tantos homens, numa frente de batalha tão extensa» 1. Apresentar o Dia D como ‘prelúdio da derrota nazi’ significa apagar da História três anos (!) de batalhas decisivas. É fake History. A propaganda anticomunista dá nisto.

Os propagandistas enfrentam um problema: a realidade. Em Junho de 1944 já a URSS libertara quase todo o seu território e, com os movimentos de resistência popular armada em inúmeros países (e o papel decisivo dos comunistas), preparava-se para libertar Berlim (Maio, 1945).

Já em Agosto de 1941, Goebbels escrevia no seu diário: «O Führer está intimamente muito irritado por se ter deixado enganar sobre o potencial bélico dos bolcheviques. […] Trata-se duma grave crise […]. Em comparação, as campanhas conduzidas até aqui eram meros passeios». E em Setembro: «Avaliámos de forma totalmente errada o potencial dos bolcheviques» 2.

Os nazis foram pela primeira vez travados às portas de Moscovo. Para o historiador Jacques Pauwels, foi o momento de viragem: «a Batalha de Moscovo […] e em especial o começo da contra-ofensiva do Exército Vermelho em 5 de Dezembro de 1941, assinalou o fim da estratégia até então extremamente bem sucedida de blitzkrieg, ou “guerra-relâmpago”. E desta forma, condenou a Alemanha Nazi a perder a guerra» 3.

A brutal dominação nazi-fascista estendia-se, em 1942, a quase toda a Europa. Nesse ano «o exército soviético combatia contra 98% do exército alemão operacional – 178 divisões concentradas na frente leste – enquanto que os britânicos combatiam contra 4 no Norte de África» 4. Os EUA ainda estavam longe de entrar em guerra na Europa. Em 1943 travaram-se batalhas decisivas. Diz Tooze: «A batalha de Estalinegrado é o feito militar e político mais importante da [II GM…]. Entre 17 Julho 1942 e 2 Fevereiro 1943, os exércitos do bloco fascista perderam cerca dum quarto das forças que operavam na frente soviético-alemã» 5. No Verão é a batalha de Kursk, «uma das mais grandiosas da [II GM…]. O exército fascista alemão sofreu uma derrota de que já não foi capaz de se recompor…]. A iniciativa estratégica ficou até ao final nas mãos […] da URSS» 6.

Faltava quase um ano para o Dia D. Em Janeiro de 1944, após quase dois anos e meio, o Exército Vermelho rompeu o cerco à segunda cidade da URSS. O sacrifício inenarrável de Leninegrado custou mais vidas soviéticas do que o total de baixas dos EUA e Reino Unido em todos os teatros de guerra da II GM 7. Nos «três anos entre Junho 1941 e Maio 1944, a taxa média de baixas da Wehrmacht na Frente Leste foi de quase 60 000 mortos por mês. Nos últimos doze meses da guerra a sangria atingiu proporções realmente extraordinárias» 8. O Exército Vermelho foi responsável por 90% dos soldados alemães mortos na II GM 9.

Tooze sintetiza a verdade histórica:

«É inquestionável que foi na Frente Leste que o 3.º Reich sangrado até à morte, e foi o Exército Vermelho o maior responsável pela destruição da Wehrmacht» 10.

Compadrio com o fascismo

As causas de fundo da II GM residem na natureza agressiva do capitalismo. Poucos anos antes, as grandes potências imperialistas combateram-se na I Guerra Mundial, disputando mercados, matérias-primas e colónias e tentando vergar, pelo militarismo, a classe operária dos seus países 11. Mas a chacina teve resultados inesperados. A guerra termina com os povos em revolta. Em 1917 houve duas revoluções na Rússia czarista, levando os bolcheviques ao poder e lançando a primeira experiência histórica de construção do socialismo. A Alemanha foi obrigada ao Armistício pela revolta dos seus marinheiros, soldados e operários, em Novembro de 1918. No Reino Unido, a efervescência revolucionária leva o PM liberal Lloyd George a encarar, em 1919, bombardear cidades operárias em revolta, como Glasgow, Liverpool e Manchester 12. As potências capitalistas vencedoras aproveitam a derrota alemã para se apossar das suas colónias e parte do seu território europeu. O Tratado de Versalhes (1919) impôs-lhe pesadas compensações de guerra, conducentes à hiperinflação dos anos 20 e arruinando a pequena e média burguesia alemã.

Quando em 1929 eclode a grande crise do capitalismo, era generalizada a sensação de um sistema em derrocada, ao qual o impetuoso crescimento económico da URSS socialista nos anos 30 fazia evidente contraponto. Logo no primeiro Plano Quinquenal (1928-32) a produção industrial soviética cresceu 22% ao ano, valores ainda hoje sem paralelo.

Este contexto explica a conivência de boa parte das classes dominantes europeias com o ascenso do fascismo, no qual viam um ‘salvador’. Em 1927, Churchill declarou em Itália, após encontrar-se com Mussolini, que «se fosse italiano, estou seguro de que teria estado ao vosso lado, de alma e coração, do princípio até ao fim, na vossa luta triunfante contra as paixões e apetites animalescos do Leninismo» 13. O Governador do Banco de Inglaterra, Norman Montagu, dizia em 1934, em Nova Iorque: «Hitler e Schacht [o seu homólogo alemão] são na Alemanha bastiões da civilização. São os únicos amigos que temos naquele país. Defendem o nosso tipo de ordem social contra o comunismo» 14. Uma mensagem bem acolhida pelo grande capital dos EUA 15.

Hitler nunca escondera a sua ambição de colonizar o Leste europeu, para assegurar o Lebensraum (espaço vital) alemão. Diz o Embaixador soviético em Inglaterra (1932-39), Ivan Maisky 16: «Em Janeiro de 1933 os fascistas tomaram o poder na Alemanha. No mundo capitalista […] formaram-se dois grupos de potências: o primeiro, composto pela Alemanha, Itália e Japão, colocou abertamente o problema da redivisão do mundo […]; o segundo grupo, composto por Inglaterra, França e Estados Unidos, detentores da maioria das riquezas mundiais, tomou partido pelo status quo. Esforçando-se por ultrapassar a cisão […] os dirigentes do capitalismo […] pensaram conciliar as suas contradições à custa da URSS. Os homens de Estado de Londres, Paris e Washington deram a entender a Hitler, por todas as formas, que poderia procurar o seu ‘espaço vital’ a Leste».

Após a chegada de Hitler ao poder, «a 15 Julho 1933, foi assinado o ‘Pacto de Concórdia e Cooperação’ entra a Inglaterra, França, Alemanha e Itália […] no qual se expressava o […] ‘direito’ da Alemanha a rearmar-se sem limites» 17. A ‘Concórdia’ inspirou o compadrio com as agressões das potências fascistas que marcou a década de 30 e abriria caminho à guerra.

Em Setembro de 1931, o Japão, futuro aliado da Alemanha e Itália no Pacto Anti-Comintern 18, invadiu e ocupou parte da China. O Presidente dos EUA Hoover falou, compreensivo, em «restabelecimento da ordem» 19. No Outono de 1935, a Itália fascista invadiu o único país africano que escapara à colonização, a Etiópia. O apelo da Etiópia à Sociedade das Nações, «apenas foi apoiado pela União Soviética e alguns pequenos Estados. Os EUA, Inglaterra e França não só se negaram a vender armas à Etiópia, como recorreram, na prática, a um bloqueio contra ela» 20.

Igual sorte coube à República Espanhola e ao seu democraticamente eleito governo de Frente Popular, aquando do golpe militar do General Franco (Julho, 1936). Franco recebia o apoio militar de Hitler e Mussolini (também através do Portugal fascista 21), mas o governo legítimo foi impedido de se defender pelas democracias burguesas, incluindo o Governo de Frente Popular na vizinha França. Apenas a URSS ajudou a República. Escreve o historiador Viñas: «a decisão soviética de ajudar a República com homens e sobretudo armas, não sendo rápida, teve efeitos muito significativos. Sem essas armas, e na ausência de fontes regulares de abastecimento alternativo, o nascente Exército Popular não teria podido resistir durante muito tempo» 22. A «solidão da República» ficou conhecida como ‘política de Não Intervenção’ mas foi uma forma de intervenção, assente no ódio de classe, que ajudou à vitória franquista. Em 1936, Churchill descrevia os Republicanos como «um proletariado empobrecido e atrasado que exige o derrube da Igreja, do Estado e da propriedade e a instauração dum regime comunista», contra o qual se erguiam «forças patrióticas, religiosas e burguesas, sob a direcção das forças armadas […] que marcham para reestabelecer a ordem através duma ditadura militar» 23. O compadrio deu a estocada final numa República isolada e em dificuldades. Escreve Maiski: «A 27 Fevereiro [1939] a Inglaterra e França reconhecem oficialmente o Governo de Franco e rompem relações diplomáticas com o governo espanhol. Foi apenas o prelúdio. Em 5-6 Março rebentou uma sedição contra-revolucionária, chefiada pelo socialista de direita Besteiro e pelo comandante da frente central da República, general Casado. O complot foi organizado por agentes [dos PM inglês e francês] Chamberlain [e] Daladier. […] Os conjurados tomaram o poder. Abriram a frente ao general Franco e viraram-se selvaticamente contras as unidades fiéis à República, comandadas por comunistas. Consumada a traição, a 1 de Abril 1939, Casado transfere-se para Inglaterra» 24. Assim caiu a República Espanhola.

Em Março de 1938, Hitler anexa a Áustria (o Anschluss). Escreve Deborin: «Nenhum país capitalista protestou, nem sequer formalmente […] contra este acto de agressão. A Inglaterra e França reconheceram sem demora a anexação da Áustria. […] O Vaticano também não condenou a anexação da Áustria católica pela Alemanha hitleriana» 25.

Munique e ouro

O compadrio atinge o auge na Conferência de Munique em Setembro de 1938. Chamberlain e Daladier juntam-se a Hitler e Mussolini, na Alemanha, para desmembrar a Checoslováquia, cujos dirigentes foram excluídos da Conferência. O jornalista W. Shirer descreve o ultimato inglês aos representantes checos: «Em nome de Chamberlain, [Sir Horace] Wilson informou-os dos pontos principais do acordo entre as quatro potências e entregou-lhes um mapa das áreas Sudetas que deveriam ser imediatamente evacuadas pelos checos [para entregar à Alemanha]. Quando os dois enviados tentaram protestar, o funcionário britânico cortou-lhes a palavra […] e retirou-se rapidamente da sala» 26. A 30 de Setembro, «Hitler, Chamberlain, Mussolini e Daladier, por essa ordem, [assinaram o] Acordo de Munique, que estipulava que o Exército alemão começaria a sua marcha sobre território da Checoslováquia no dia 1 de Outubro, tal como o Führer sempre disse que aconteceria». O Acordo criou uma Comissão Internacional que «decidiu em favor da Alemanha todas as disputas territoriais adicionais […] e dispensou a realização dos plebiscitos que o Acordo previa […] Os polacos e húngaros […] desceram qual abutres para abocanhar pedaços de território checoslovaco. A Polónia […] apoderou-se de cerca de 650 milhas quadradas na zona de Teschen, com uma população de 228 000 habitantes, dos quais 133 000 checos». O resto da Checoslováquia foi ocupada por Hitler, em Março de 1939.

Coroando a infâmia, as reservas de ouro da Checoslováquia, à guarda do ‘banco dos banqueiros’, BIS, foram entregues aos nazis após a ocupação de Praga, com a conivência directa do Banco de Inglaterra. Chamberlain, «accionista importante nas Imperial Chemical Industries, parceiro da I. G. Farben, cujo Hermann Schmitz era director do BIS», negou a transferência, mentindo perante o Parlamento 27. Ouro da Bélgica teve igual destino 28.

A traição fora preparada com antecedência. Maiski diz 29: «lord Halifax foi encarregue por Chamberlain de […] negociar com Hitler um acordo global […]. A Acta do encontro Hitler-Halifax de 17 Novembro 1937, publicada […] em 1948, mostra que lord Halifax propôs a Hitler, em nome do governo de sua majestade, uma aliança baseada num ‘pacto a quatro’ e deixou ‘mãos livres’ ao Führer na Europa Central e Oriental. Em particular, Halifax declarou que não se deveria ‘excluir a possibilidade de modificar a situação existente’ na Europa e precisou que neste âmbito de questões se incluiam ‘Danzig [Gdansk], a Áustria e a Checoslováquia’. […] quando em Fevereiro 1938 Eden […] foi substituído no Foreign Office por lord Halifax […] o Führer decidiu não perder tempo, e a 12 Março 1938 […] apossou-se da Áustria […] no mesmo dia em que Chamberlain recebia solenemente em Inglaterra o Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Joachim Ribbentrop». O ‘Pacto Chamberlain-Ribbentrop’ continuou no dia após Munique, quando Chamberlain propôs a Hitler «cooperação ulterior para pôr fim à Guerra Civil Espanhola […] e mesmo uma solução do problema russo» 30. Daladier afirmou, em 1938, recear «que a Alemanha fosse derrotada na guerra […] e que os únicos beneficiários viessem a ser os Bolcheviques, uma vez que haveria uma revolução social em todos os países da Europa […] os Cossacos dominariam a Europa» 31.

A conivência com o nazi-fascismo e a recusa duma aliança das potências anti-fascistas, que a URSS há muito advogava e que poderia ter evitado a guerra, acabaria por se virar contra os próprios governantes de França, Inglaterra e Polónia. Churchill, que mais cedo do que outros dirigentes ingleses compreendeu que a Alemanha ressurgente também ameaçava a posição global da Inglaterra (a maior potência colonial da História), haveria de acertadamente dizer a Chamberlain, após Munique: «Foi-vos dada a opção entre a desonra e a guerra. Escolheram a desonra. Vão ter a guerra».

Agosto de 1939

É convenção considerar que a II GM começou com a invasão alemã da Polónia, a 1 Setembro de 1939. Na realidade começara antes para muitos povos e a declaração de guerra de Inglaterra e França no dia 3 foi sobretudo simbólica. A Polónia teve de se defender sozinha, rendendo-se ao fim de poucas semanas. Não houve combates entre anglo-franceses e alemães durante muitos meses, até que Hitler invadiu a Bélgica, Holanda e França (Maio, 1940).

É uma falsificação grosseira afirmar que a II GM resultou da assinatura, a 23 de Agosto, do tratado de não-agressão entre a URSS e a Alemanha nazi, um mito que esconde as cumplicidades já referidas. Maiski expõe a perspectiva soviética:

«Em 1939, a União Soviética estava de novo ameaçada por um perigo grave, duma eventual agressão das potências fascistas e, em particular, da Alemanha e Japão. Existia também o perigo que se constituísse uma frente capitalista anti-soviética, pois […] Chamberlain e Daladier poder-se-iam, a qualquer momento, alinhar com as potências fascistas e apoiar, duma ou outra forma, um ataque contra a União Soviética. […] A solução melhor, a que a União Soviética aspirava então, com todas as suas forças e meios, era uma coligação defensiva de potências que não tinham interesse em desencadear uma segunda guerra mundial. Na prática isto significava em primeiro lugar um pacto de assistência mútua entre URSS, Grã Bretanha e França. […] Mas, devido à sistemática sabotagem de Chamberlain e Daladier, que visavam um conflito entre a Alemanha e a URSS, no mês de Agosto 1939 as negociações ficaram num impasse. […] O governo soviético tinha perante si duas perspectivas: uma política de isolamento ou um acordo com a Alemanha. Na situação de 1939, quando junto às fronteiras do Extremo Oriente já soavam os canhões [… japoneses], quando Chamberlain e Daladier faziam grandes esforços para atiçar a Alemanha contra a URSS, quando os próprios alemães ainda estavam incertos sobre a direcção do seu primeiro golpe – nessa situação, uma política isolacionista teria sido extremamente arriscada e o governo soviético fez muito bem em recusá-la».

Note-se que no Verão de 1939 os ingleses também negociavam com os nazis. Ponting refere, com base em documentos oficiais, que «os britânicos ofereceram um acordo global [com a Alemanha], baseado num gigantesco empréstimo do Reino Unido para ajudar a economia alemã […]. Foi dado a entender que a Grã Bretanha estaria disposta a abandonar os polacos em caso de acordo» 32.

O acordo de não-agressão com a Alemanha e a política dos meses seguintes apenas se compreendem à luz da convicção soviética de que a guerra da Alemanha contra a URSS, com que Hitler sonhara desde a primeira hora, se tornara inevitável. Tratava-se de adiá-la ao máximo e combatê-la nas melhores condições possíveis. Em 1939-40, a URSS recuperou territórios que lhe foram retirados nas agressões que sofreu após a Revolução de Outubro e em Brest-Litovsk. Recuperando as suas fronteiras, criou melhores condições para suster o embate da Operação Barbarossa que Hitler desencadearia em Junho de 1941. A História regista como a URSS foi assim capaz de sobreviver e derrotar o nazi-fascismo, prestando um serviço maior à Humanidade.

Porque é que Hitler, furando as expectativas, atacou primeiro a Ocidente, antes de se virar contra a URSS? Não deve ser subestimado o papel das contradições inter-imperialistas, que já haviam conduzido à I GM, e o desejo de desforra da derrota e humilhação sofrida pela Alemanha em 1918. Hitler queria também assegurar a sua retaguarda antes da invasão da URSS, e o controlo sobre a Europa Ocidental entregou-lhe um enorme potencial industrial e de matérias-primas. Hitler sabia que o ódio de classe que levava grande parte da alta sociedade francesa a clamar «antes Hitler que [Leon] Blum» 33, adubava a «opção pela derrota» 34 que se traduziu na rendição e no colaboracionismo de Vichy 35. Em Inglaterra também havia germanófilos (incluindo na família real) e episódios de ‘diplomacia paralela’, incluindo a viagem de Hess em 1941 36.

Resistência

A vitória soviética na II GM não teria sido possível sem a industrialização dos anos 30. Diz Tooze:

«Apesar de ter sofrido perdas territoriais e uma perturbação que se traduziu numa quebra de 25% no produto nacional total, a União Soviética conseguiu ultrapassar a Alemanha na produção de quase todas as categorias de armamento. […] Foi esta superioridade industrial, contrária a todas as expectativas, que permitiu ao Exército Vermelho, primeiro absorver a segunda grande investida da Wehrmacht, e depois, e Novembro de 1942, lançar uma série de contra-ataques devastadores. […] Os triunfos de Jukov e dos seus colegas teriam sido impossíveis, não fora o excelente material militar fornecido pelas fábricas» 37.

A consciência da importância da industrialização para a capacidade de resistência em caso de agressão foi um dos aspectos que levou, no final dos anos 20, à opção soviética pela industrialização acelerada.

Mas a Vitória resultou também da determinação em resistir, que não existiu noutros países. Falando do avanço imparável de Hitler até a invasão da URSS, diz Deborin 38: «A situação criada era principalmente resultado da profunda contradição que existia nos países europeus entre os meios governantes e as massas populares. […] os governos burgueses temiam os seus povos mais do que aos invasores alemães». E ainda: «a guerra contra a Alemanha, Itália e Japão só podia ter êxito enquanto guerra antifascista, só na medida em que os inimigos dos Estados fascistas fossem superiores não apenas no aspecto técnico-militar, mas no político-moral. Essa superioridade não se podia conseguir numa guerra que tivesse carácter imperialista dos dois lados».
Foi mérito histórico inegável da direcção do Estado e do Partido soviéticos terem compreendido a natureza dos acontecimentos e terem resistido face às maiores adversidades. Independentemente de avaliações sobre outros momentos históricos, a Humanidade deve muito à firmeza de Stáline e do Partido Comunista da União Soviética na II GM. Negar esse facto é também falsificar a verdade histórica.

A natureza das potências envolvidas na II GM evidenciou-se na conduta de guerra. A barbárie nazi-fascista é bem conhecida. A aniquilação atómica de duas cidades japonesas pelos EUA é outro crime maior da História. O ataque a civis como técnica de guerra anglo-americana na II GM está documentado: «A 25 Setembro [1941] o Chefe da Força Aérea apresentou a Churchill os objectivos da campanha [aérea]: ‘o ponto fraco da máquina de guerra alemã é o moral da população civil e em particular dos operários da indústria. […o] ataque à moral não é uma mera questão de matar […] Trata-se de criar a perturbação geral da vida industrial e social […] é nas cidades densamente povoadas que o efeito moral dos bombardeamentos se fará sobretudo sentir» 39.
Churchill defendeu o uso de armas químicas (que usara contra a Rússia Soviética em 1919 40) contra populações civis: «‘Podemos encharcar as cidades do Ruhr e muitas outras na Alemanha de tal forma que a maioria da população necessite de cuidados médicos permanentes’». Os bombardeamentos anglo-americanos atingiram proporções dramáticas em Hamburgo (Julho de 1943, 35 mil mortos), Dresden (Fevereiro de 1945, 100 mil mortos) e Tóquio (Março de 1945, 100 mil mortos).
O elemento de classe esteve também presente na forma como, ainda antes do fim da II GM, os ‘Aliados’ imperialistas viraram armas contra a resistência dos povos que se tinham lançado no combate antifascista, para impedir que a libertação fosse também social. A resistência grega da EAM-ELAS (com forte influência comunista) foi aniquilada pela violência, sob direcção anglo-americana, no que inadequadamente se convencionou chamar ‘Guerra Civil’. E a 27 de Maio de 1944, na Marselha ocupada em greve geral «toda a cidade parecia ter descido à rua. […] De repente, às 10 horas, aviões americanos ocupam o céu e despejam as suas bombas sobre a população que disputa a rua aos ocupantes! Os bairros operários são os primeiros a ser atingidos […]. Balanço: mais de 10 mil casas são atingidas, e 5 mil vítimas ficam sob os escombros. Nenhum alvo inimigo foi atingido!» 41.
***
As lições da II GM são múltiplas. Ganham maior importância quando de novo se adensam os perigos duma guerra de enormes proporções, fruto das contradições de um sistema capitalista em profunda crise sistémica, incapaz de resolver os grandes problemas da Humanidade, e que só conhece a guerra como forma de dirimir as suas rivalidades e travar as aspirações dos povos a um mundo melhor.

Notas
(1) Adam Tooze, The Wages of Destruction, Penguin Books, 2007, p. 432 e 480. Não leva em conta quase 700 mil soldados de outros países que participaram no ataque, como referido em Jacques Pauwels, The myth of the Good War, James Laurimer & Company Publishers, Toronto, 2015 (ed. Revista), p. 66.↲
(2) Citações em Domenico Losurdo, Stalin. Storia e critica di una leggenda nera. Carocci editore, 2008.↲
(3) Jacques Pauwels, op. cit., p. 9.↲
(4) Clive Ponting, Churchill, Sinclair-Stevenson, 1994, p. 566.↲
(5) La Gran Guerra Patria de la Unión Sovietica, Editorial Progresso, 1975, pp. 195-6.↲
(6) La Gran Guerra Patria, op. cit., p. 223.↲
(7) Jacques Pauwels, op. cit., p. 113.↲
(8) Adam Tooze, op. cit., p. 513.↲
(9) Jacques Pauwels, op. cit., p. 73.↲
(10) Veja-se Jacques Pauwels, 1914-1918, La Grande Guerre des Classes, Ed. Aden, 2014.↲
(10) Adam Tooze, op. cit., p. 429.↲
(11) Veja-se Jacques Pauwels, 1914-1918, La Grande Guerre des Classes, Ed. Aden, 2014.↲
(12) Jacques Pauwels, op. cit., 1914-1918, p. 763.↲
(13) Clive Ponting, Churchill, op. cit., p. 350.↲
(14) Citado em Jacques Pauwels, Big business avec Hitler, Ed. Aden, 2013, p. 162.↲
(15) Veja-se Jacques Pauwels, Big business avec Hitler, op. cit., e Charles Higham, Trading with the Enemy: an exposé of the Nazi-American Money Plot 1933-1949. Robert Hale ed., 1983.↲
(16) Ivan Maiski, Perché scoppió la Seconda Guerra Mondiale?, Editori Riuniti, 1965, p. 325.↲
(17) Deborin, La Segunda Guerra Mundial, Editorial Progreso, 1977, p. 20.↲
(18) Ou seja, anti-Internacional Comunista.↲
(19) Deborin, op. cit., p. 15.↲
(20) Idem, p. 28.↲
(21) Ivan Maiski, op. cit., p. 344 e 388.↲
(22) Ángel Vinas, La República en guerra, Crítica contrastes, 2012, p. 21.↲
(23) Clive Ponting, Churchill, op. cit., p. 390.↲
(24) Ivan Maiski, op. cit., pp. 460-1.↲
(25) Deborin, op. cit., pp. 59-60.↲
(26) Shirer, op. cit., pp. 417-421.↲
(27) Higham, op. cit., pp. 5-7.↲
(28) Idem, p. 8 e 16.↲
(29) Ivan Maiski, op. cit., pp. 473-4.↲
(30) Shirer, op. cit., p. 419.↲
(31) Clive Ponting, 1940, Myth and Reality. Cardinalo, p. 48.↲
(32) Idem, pp. 38-39.↲
(33) William L. Shirer, The Collapse of the Third Republic, Pan Books, 1970, p. 359.↲
(34) Título dum livro da historiadora francesa Annie Lacroix-Riz, Le choix de la défaite, Armand Colin, 2.ª ed., 2010.↲
(35) O Governo colaboracionista de Vichy foi chefiado pelo Marechal Pétain e reconhecido pelos EUA. Segundo Deborin (op. cit., p. 97) foi aceite por Hitler para não permitir que o Império colonial e a frota naval francesas fossem parar às mãos dos seus concorrentes.↲
(36) Ver Clive Ponting, 1940, pp. 73, 95, 111-115, e Deborin, p. 147.↲
(37) Adam Tooze, op. cit., p. 588.↲
(38) Deborin, op. cit., p. 311, 87 e 91.↲
(39) Clive Ponting, 1940, op. cit., p. 539. Citações seguintes pp. 627-8 e 640.↲
(40) Clive Ponting, Churchill, op. cit., p. 237.↲
(41) Charles Tillon, Les F.T.P., Ed. 10|18, p. 278.↲

 

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References

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O perigo e o erro da História «certa»

 

O regresso da extrema-direita ao primeiro plano do debate político nas sociedades democráticas tem dado um papel de relevo aos chamados «usos da História». Por isso, é um erro atribuir a esta disciplina um lugar neutro, limpo, silencioso, supostamente acima dos interesses e dos conflitos. Se vivemos a era da globalização, permanecemos ainda herdeiros das estruturas políticas nascidas no século XVIII, o que, como notou Marc Ferro, se reflete em muitos dos problemas e dos confrontos que enfrentamos. Estes continuam a passar por batalhas em redor da democracia e da liberdade, do papel do Estado e dos nacionalismos, do lugar da solidariedade e do individualismo, dos direitos humanos e da igualdade, bem como pelos processos de transformação que seguem modelos e ideais contraditórios, associados a diferentes interesses.

De forma empírica ou impressiva o referencial histórico é muitas vezes invocado, como argumento ou fator de manipulação, por quem mais diretamente está envolvido nos sistemas de poder e na luta política, mas quando se procura afirmar de forma mais consistente tem tido, muitas vezes, a colaboração da história profissional. Basta observar de modo crítico as múltiplas interpretações dos acontecimentos que inspiraram as mais volumosas historiografias – as da Revolução Francesa e da Revolução de Outubro de 1917, assim como as das duas Guerras Mundiais – para que se perceba a constância e a inevitabilidade das leituras situadas em diferentes trincheiras. O mesmo acontece em relação a temas que permanecem controversos, como os sistemas totalitários do século XX, a natureza do Holocausto e do Gulag, os «longos Anos 60», a Guerra Fria e a Queda do Muro, ou os movimentos emancipatórios e as lutas de libertação: sobre todos eles diferentes interpretações determinam diferentes modos de usar a História.

O papel do Estado, das instituições públicas, dos partidos políticos é aqui crucial. O conceito-chave é o de «legitimação». A História é usada como instrumento que confere identidade a determinadas categorias e assegura a legitimidade de regimes, relações de poder ou programas políticos. Neste contexto, qual pode ser então o papel da História profissional e dos organismos que a tutelam? Ao longo do século XIX a disciplina foi ganhando peso no espaço do saber universitário, demarcando-se em parte da filosofia e do direito, para os quais tivera até então um sentido propedêutico, definindo a autonomia e o papel do que podemos chamar a cultura histórica.

Esta assentou em dois pilares que foram a sua força, mas definiriam também a sua fragilidade. No primeiro, a escrita da História visava principalmente a produção e a validação dos projetos nacionais em construção. No segundo pilar, ela assentava na crença positivista na ciência objetiva, «inquestionável», que tendia a orientar explicações unívocas e a impedir a apresentação de alternativas aos pontos de vista dominantes. A História emergia assim como verdade «pura», que configurava as escolhas dos vencedores e dos poderosos, enquanto omitia, silenciava e colonizava as dos vencidos e dos oprimidos, apresentando-se enganosamente como una e comum a todos eles.

Apesar de se confrontar a partir dos meados do século passado com outras escolas e metodologias de abordagem do passado, essa forma de encarar o foco historiográfico não desapareceu. A História de «ciência certa», julgada inequívoca, fundada quase exclusivamente no documento escrito, trouxe, sem dúvida, alguns contributos notáveis para o conhecimento do passado, mas ao mesmo tempo disseminou a convicção de que existe nele uma dimensão de «verdade» que é insuscetível de uma leitura política, considerada parcial. Um certo saber histórico é assim fixado numa enorme lápide e provido de «selo branco», quando na verdade está sujeito à usura do tempo e às circunstâncias dos seus intérpretes, que lhes conferem leituras diversas e em permanente construção.

Na verdade, o campo do saber histórico só pode ser plural, sendo nesta pluralidade que assenta a capacidade para reduzir as margens de erro e de manipulação, e para tudo colocar em perspetiva, possibilitando um conhecimento mais completo e dinâmico. Num livro sobre as violências do século, Enzo Traverso interpreta a História, em particular a contemporânea, «como um campo de batalha», como espaço para a verbalização de conflitos, olhares e projetos que, apesar de ancorados na pesquisa histórica, inúmeras vezes ultrapassam as suas fronteiras. Retira assim à disciplina a sua conceção «sacral», definindo-a como lugar de confrontos e de debates que não lhe permitem que se coloque fora da política, e afasta o historiador profissional do papel de sacerdote, requalificando-o como cidadão. Com Walter Benjamin, Traverso assume que ele escreve e reescreve «um texto a tinta invisível», jamais fixo, linear e definitivo.

No mundo atual, em Portugal também, é, pois, um perigoso equívoco – e um desvio epistemológico profundamente retrógrado – pretender-se, seja sobre que tema for, produzir um conhecimento histórico apresentado como absolutamente certo e seguro, que exclua a política, assim como a pluralidade e a transitoriedade das representações contemporâneas, que possa fixar o que merece ser escrito ou mostrado, ou o que se justifica omitir. Por isso, na polémica em curso sobre as interpretações da História e os «lugares de memória» do Estado Novo, representa um logro e um perigo afirmar a possibilidade de existirem interpretações inteiramente únicas e fidedignas, julgadas estritamente científicas. É esse um passo para retirar à História a capacidade conflitual que contém, para a desumanizar, para a «despolitizar», colocando-a ao dispor de quem tenha meios para a manipular e interesse em fazê-lo. Gente dessa não falta.

Imagem: Traçado do Muro de Berlim (fot. desconhecido)
Publicado originalmente no Público de 15/9/2019
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/09/15/o-perigo-e-o-erro-da-historia-certa/

Há 230 anos, a Direita e a Esquerda “nasciam” na vida política

Em 11 de setembro de 1789, a Assembleia Constituinte, na França revolucionária, se reuniu para deliberar sobre o poder de veto do rei Luís 16. Cada grupo de deputados escolheu seu lugar conforme as afinidades políticas. Assim, de modo involuntário, mas histórico, a distribuição dos parlamentares franceses, há exatamente 230 anos, marcou a divisão entre a Direita (conservadora ou reacionária) e a Esquerda (revolucionária ou reformista), que ainda hoje pontua a vida política nas democracias.

 

 

A Revolução Francesa explodira em julho de 1789. Dois meses depois, os deputados contrários à revolução ou ansiosos por contê-la (alguns nobres e clérigos) sentaram-se no lado direito do salão, em relação ao presidente da Assembleia. Este era, tradicionalmente, o chamado “lado da rainha”. Tais parlamentares – monarquistas fiéis ao rei e dispostos a lhe dar o direito de veto absoluto – foram chamados de “aristocratas”, com um tom de desprezo.

Os demais – burgueses representantes do Terceiro Estado e alguns nobres – queriam limitar o veto do rei e sentaram-se do lado esquerdo do presidente (o “lado do Palais Royal”). Favoráveis à revolução e chamados de “patriotas”, eles se dividiam em três grupos. Os “democratas” eram os mais radicais. Defendiam, entre outras bandeiras, as ideias de Rousseau, como o sufrágio universal.

Havia os “monarquistas”, moderados, como Jean Joseph Mounier, autor dos três primeiros artigos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Era esse grupo que lutava por uma monarquia constitucional parlamentar e bicameral, do tipo inglês. Por fim, os “constitucionalistas” formavam o grupo majoritário, entre os quais estava o abade Sieyès, Talleyrand e Lafayette, fonte da primeira Constituição que estabeleceu uma monarquia constitucional.

Na Assembleia de 1789, a composição social dos deputados de cada Estado estava longe de ser uma representação coesa de cada ordem. Junto aos “aristocratas” – os monarquistas, sentados à direita –, a maioria era de nobres provincianos pobres. Já os representantes do Terceiro Estado, à esquerda, eram homens abastados – advogados, médicos, homens de negócio e até nobres “esclarecidos”, escolhidos pela eloquência e cultura.

Portanto, já na sua origem, Direita e Esquerda não correspondiam a um determinado grupo social, como ainda hoje não necessariamente correspondem. A classificação nos ajuda, porém, a indicar tendências, isto é, serve de critérios para organizar as ideias políticas de uma pessoa ou um partido em um certo período. Mas é preciso, justamente, contextualizar os termos Esquerda e Direita para compreendê-los.

O caso francês

Se a Revolução Francesa foi o berço da Esquerda e da Direita, o século 19 foi o período de maturação e mudanças dessas tendências. Foi também quando surgiu a questão social no contexto da Revolução Industrial. O liberalismo, o nacionalismo, o socialismo, o anarquismo e o marxismo trouxeram novas ideias e ajudaram a forjar reivindicações que tornaram mais complexa essa polarização.


Assembleia Constituinte da França, em 11 de setembro de 1789: marco inaugural da divisão Esquerda-Direita

A divisão Esquerda-Direita ganhou contornos mais precisos entre a segunda metade do século 19 e o início do século 20. De uma geração a outra e de acordo com as circunstâncias históricas, os termos oscilaram de uma posição a outra, inclusive contrária à anterior. Na França, ao longo do século 19, a principal linha divisória de Esquerda e Direita foi discussão sobre o regime político. Partidários da república e da monarquia mudaram de posição e adquiriam novas nuances conforme a batalha e as demandas da época.

Foi o político direitista François Guizot, ministro da Educação e ardente defensor do rei Luis Filipe, que, em 1833, criou e organizou a educação primária pública da França, lei que marcou a história. A preocupação com a educação só entrou no programa da esquerda na segunda metade do século 19. Jules Ferry, chefe da esquerda republicana, tornou o ensino primário gratuito e obrigatório na França (1881-1882).

A primeira campanha pela abolição da pena de morte foi liderada por François Guizot, ao lado do jovem Victor Hugo, um monarquista convicto na época. Ambos eram de direita. A campanha, contudo, não teve sucesso. Somente em 1981 a pena de morte foi abolida na França – e graças à pressão da esquerda, em especial do socialista Robert Badinter, ministro da Justiça do governo François Mitterand, também socialista.

Uma lei de 1816 havia revogado o divórcio estabelecido pelo Código Napoleônico de 1804. No final daquele século, por pressão da esquerda representada pelos republicanos e socialistas, o divórcio foi legalizado na França (Lei Naquet, 1884). O divórcio era um aspecto importante do programa anticlerical da esquerda que defendia uma sociedade secular igualitária. Com a nova lei, o divórcio passou a ser permitido em caso de crueldade, violência, abuso sério ou adultério.

Ao tornar o adultério motivo para o divórcio e, por conseguinte, criminalizar o adultério, a esquerda rejeitou a reivindicação das feministas – que defendiam o “divórcio revolucionário”, com consentimento mútuo. Em uma sociedade patriarcal e masculina, a lei de 1884 pouco beneficiou a mulher. A esposa infiel continuou sujeita a até dois anos de prisão, o que não ocorria com o homem. Foi somente em 1975 que a França aprovou a descriminalização do adultério, durante o governo de Valéry Giscard d’Estaing, do Partido Republicano, de centro-direita.

O mesmo Jules Ferry, chefe da esquerda republicana que criou o ensino primário gratuito e obrigatório, foi um ardoroso defensor da colonização da África como forma de “civilizar as raças inferiores”. Com a notória exceção de Georges Clemenceau, reconhecido em sua época como um socialista radical, boa parte da esquerda francesa permaneceu fiel à sua política colonial até o final dos anos 1950.

Dimensões mais amplas

A partir do início do século 20, os termos Esquerda e Direita passaram a ser associados a ideologias específicas e foram usados para descrever posições políticas dos cidadãos. Ganharam um espectro mais complexo, que buscava combinar as dimensões política, econômica e social. Visando reconhecer a complexidade e a diversidade que marcam diferentes movimentos e ideologias, Esquerda e Direita foram subdivididas, indo do centro à extrema radical.

Criou-se um certo consenso de que a Esquerda inclui sociais-liberais, sociais-democratas, ambientalistas, socialistas, comunistas e anarquistas. A Direita abarca conservadores, liberais, neoliberais, monarquistas, fascistas e nazistas. Note que o liberalismo, considerado como uma ideia mais à esquerda no século 19, deslocou-se para a direita – um exemplo de como as tendências políticas não são estanques e, portanto, devem ser historicamente contextualizadas.

Isso não significa que o marcador tradicional Esquerda-Direita tenha desaparecido, pelo menos do senso comum. A democracia precisa de argumentos claros e compreensíveis para os eleitores comuns. Isto é o que é torna uma divisão Esquerda-Direita ainda presente e operante.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Blog Ensinar História= / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/ha-230-anos-a-direita-e-a-esquerda-nasciam-na-vida-politica/

Arqueólogos descobrem vestígios de sociedade misteriosa antecessora do Antigo Egito

Um grupo de cientistas internacional relatou a descoberta de locais de sepultamento que remontam a uma cultura antiga que existia no deserto líbio e permitiu a ascensão do Antigo Egito.

Membros da Expedição Pré-histórica Combinada, com autorização do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, estudaram locais de sepultamento com foco no Neolítico Final (4.600-4.000 a.C.), que foi construído sobre o sucesso do Neolítico Tardio (5.500-4.650 a.C.), e situados ao longo das antigas margens de um lago sazonal extinto perto de um lugar chamado Gebel Ramlah.

Arqueólogos lançam luz sobre misteriosa sociedade neolítica por trás da ascensão do Antigo Egito

Cientistas publicaram algumas de suas descobertas na African Archaeological Review. Em "Gebel Ramlah – um Cemitério Único de Recém-Nascidos do Saara Neolítico", os pesquisadores oferecem importantes detalhes sobre os misteriosos modos de vida dos povos antigos.

Cemitérios descobertos

Nessa altura, o clima no deserto era mais húmido do que hoje, o que permitiu aos antigos agricultores povoar a região. Esta cultura era caracterizada pela cultura do gado e pela criação de estruturas megalíticas, santuários e mesmo círculos de calendário semelhantes a Stonehenge.

Durante a última parte do período neolítico, as pessoas começaram a enterrar seus mortos em cemitérios formais. Os esqueletos fornecem informações sobre sua saúde, relacionamentos, dieta e até mesmo experiências psicológicas.

Em 2001-2003, os arqueólogos escavaram três cemitérios desta época, tendo descoberto e estudado 68 esqueletos e os artefatos deixados nas sepulturas: ferramentas cosméticas elaboradas para mulheres, armas de pedra para homens, bem como cerâmica ornamental, conchas marinhas, joias de pedra e de casca de ovo de avestruz.

Pesquisadores descobriram que essas pessoas tinham um baixo nível de mortalidade infantil, alto crescimento e uma expectativa de vida relativamente longa (40-50 anos).

Desigualdade social

Em 2009-2016, foram descobertos mais dois cemitérios com 130 esqueletos e um pequeno número de artefatos. De acordo com os resultados da análise, estas pessoas eram baixas, havia um elevado grau de mortalidade infantil e tinham uma esperança de vida curta. Pensando nas razões para as tremendas diferenças nos locais de sepultamento, os investigadores chegaram a uma série de teorias.

É possível que alguns locais fossem destinados a pessoas de alto status social, enquanto outros eram para a classe trabalhadora. Esta poderia ser a primeira evidência de estratificação de classes no Egito, afirmam os especialistas.

Esses indicadores, juntamente com a arquitetura tecnológica e cerimonial inovadora, como os círculos de calendário e santuários, implicam que essas pessoas apresentavam um nível de sofisticação para além do dos pastores de gado bovino e ovino/caprino comuns. Os achados fascinantes podem ser vistos como um precursor das coisas que irão acontecer no Antigo Egito.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019080614349902-arqueologos-descobrem-vestigios-de-sociedade-misteriosa-antecessora-do-antigo-egito/

Marxistas somos todos nós

Que haja quem chamando marxista a outro julgue estar a insultá-lo não será um exclusivo da reacção argentina. Em Portugal também há disso. É um sinal da degradação cultural e intelectual de boa parte da direita nos dias de hoje. Nem sequer tem a noção de que, sem o marxismo, as próprias dificuldades do capitalismo serão incompreensíveis.


Atilio Borón*    03.Ago.19 

Os trogloditas da direita argentina quiseram desqualificar Axel Kicillof acusando-o de “marxista”. Este ataque revela o nível cultural primário dos seus críticos, ignaros quanto à história das ideias e teorias científicas elaboradas ao longo dos séculos. É óbvio que na sua inépcia desconhecem que Karl Marx produziu uma revolução teórica de enorme alcance na história e nas ciências sociais, equivalente, segundo muitos especialistas, ao que no seu tempo produziu Copérnico no campo da Astronomia. Por isso hoje, quer o saibamos ou não (e muitos não o sabem) somos todos copernicianos e marxistas, e quem quer que negue essa verdade revela-se como um grosseiro sobrevivente de séculos passados alheado das categorias intelectuais que lhe permitem entender o mundo de hoje.

Copérnico argumentou na sua grande obra, A Revolução das Esferas Celestes, que era o Sol e não a Terra quem ocupava o centro do universo. E, além disso, ao contrário do que sustentava a Astronomia de Ptolomeu, ele descobriu que nosso planeta não era um centro imóvel em torno do qual giravam todos os outros, mas ela mesma se movia e girava. Lembre-se das palavras de Galileu quando os médicos da Inquisição o obrigaram a retratar-se da sua adesão à teoria de Copérnico: “E no entanto ela move-se”, sussurrou para os seus censores que ainda estavam enfurecidos com Copérnico mais de um século depois da formulação da sua teoria.

Descoberta revolucionária, mas não apenas no campo da Astronomia, pois punha em questão crenças políticas cruciais de sua época. Como recorda Bertolt Brecht na sua magnifica peça Galileu, a dignidade e a sacralidade dos tronos e poderes foram irremediavelmente prejudicados pela teorização do astrónomo polaco. Se, na teoria geocêntrica de Ptolomeu, o papa, reis e imperadores eram excelsas figuras que estavam no topo de uma hierarquia social num planeta que não era nada menos que o centro do universo, com a revolução coperniciana eles foram reduzidos à condição de frágeis reizinhos de um pequeno planeta, que como tantos outros, girava em torno do sol.

Quatro séculos depois de Copérnico, Marx produziu una revolução teórica de envergadura semelhante ao deitar por terra as concepções dominantes sobre a sociedade e os processos históricos. A sua genial descoberta pode resumir-se assim: a forma como as sociedades resolvem as suas necessidades fundamentais – alimentar-se, vestir-se, abrigar-se, proteger-se, promover o bem-estar, possibilitar o crescimento espiritual da população e garantir a reprodução da espécie – constituem a indispensável sustentação de toda a vida social.

Sobre este conjunto de condições materiais cada sociedade constrói um imenso entrelaçado de agentes e estruturas sociais, instituições políticas, crenças morais e religiosas e tradições culturais que vão variando à medida em que o substrato material que as sustem se vai modificando.

Da sua análise, Marx extraiu duas grandes conclusões: primeiro, que o significado profundo do processo histórico assenta na sucessão das maneiras pelas quais homens e mulheres enfrentaram esses desafios ao longo de milhares de anos. Segundo, que essas formações sociais são inerentemente históricas e transitórias: elas surgem sob certas condições, expandem-se, consolidam-se, atingem o seu pico e então começam um declínio irreversível. Portanto, nenhuma formação social pode aspirar à eternidade e muito menos o capitalismo, dada a densidade e a velocidade com que as contradições que lhe são próprias se desenvolvem. Más notícias para Francis Fukuyama e seus discípulos que no final do século passado anunciaram ao mundo o fim da história, o triunfo dos mercados livres, da globalização neoliberal e da vitória final da democracia liberal.

Tal como acontecera com Copérnico na Astronomia, a revolução teórica de Marx deitou por terra o conhecimento convencional que prevalecera durante séculos. Este conhecimento concebia a história como um desfile caleidoscópico de personalidades notáveis (reis, príncipes, papas, presidentes, chefes de Estado, líderes políticos, etc) pontuado por grandes eventos (batalhas, guerras, inovações científicas, descobertas geográficas).

Marx pôs de parte todas essas aparências e descobriu que o fio condutor que permitia decifrar o hieróglifo do processo histórico foram as mudanças que ocorreram no modo como homens e mulheres se alimentavam, vestiam, abrigavam e davam continuidade à sua espécie, tudo o que sintetizou sob o conceito de “modo de produção”. Essas mudanças, nas condições materiais da vida social, deram origem a novas estruturas sociais, instituições políticas, valores, crenças, tradições culturais, enquanto decretavam a obsolescência das precedentes, embora não houvesse nada de mecânico ou linear nesse condicionamento “em última instância” do substrato material da vida social.

Com isto Marx desencadeou na história e nas ciências sociais uma revolução teórica tão retumbante e transcendente quanto a de Copérnico e, quase simultaneamente, como a que fluiu das revelações sensacionais de Charles Darwin. E assim como hoje se tornaria objecto de riso mundial quem reivindicasse a concepção geocêntrica de Ptolomeu, não teriam melhor sorte aqueles que acusassem alguém de “marxista”. Porque isso nega o papel fundamental que a vida económica desempenha na sociedade e também os processos históricos (dos quais Marx foi o primeiro a colocar no centro da cena).

Quem profere tal “insulto” confessa, para sua vergonha, a sua ignorância dos últimos dois séculos no desenvolvimento do pensamento social. Personagens grotescos como esses não apenas se tornam pré-copernicianos, mas também pré-darwinianos, pré-newtonianos e pré-freudianos. Eles representam, em suma, uma fuga para a parte mais obscura do pensamento medieval.

Bem, mas acima foi dito é que “somos todos marxistas”? Acho que sim, e pelas seguintes razões: se algo caracteriza o pensamento e a ideologia da sociedade capitalista, é a tendência para a comercialização total da vida social. Tudo em que o capital toca se torna mercadoria ou um facto económico: das crenças religiosas a antigos direitos, consagrados em tradições multisseculares; da saúde à educação; da segurança social às prisões, ao entretenimento e informação.

Sob o domínio do capitalismo, as nações degradam-se à categoria de mercados e o bem estar ou mal social são medidos exclusivamente pelos números da economia, pelo PIB, pelo défice das contas públicas ou pela capacidade exportadora.

Se alguma impressão deixou o capitalismo na sua passagem pela história – transitória, porque como sistema está destinado a desaparecer, como aconteceu sem excepção com todas as formas económicas que o precederam – tem sido tornar a economia o parâmetro supremo para distinguir a boa e a má sociedade.

A ordem do capital erigiu o mercado como seu deus e as únicas ofertas que este moderno Moloch admite são as mercadorias e os lucros que a sua troca produz. A ênfase subtil e cautelosa que Marx deu às condições materiais – sempre mediada por componentes não económicos, como cultura, política, ideologia – atinge no pensamento burguês extremos de vulgaridade que confinam o obsceno.

Escutemos aquilo com que Bill Clinton confrontou George Bush na campanha presidencial de 1992: “É a economia, idiota!”. E é suficiente ler os relatórios de governos, académicos e organizações internacionais para verificar se o que distingue o bem do mal de uma sociedade capitalista é o progresso da economia. Quer saber como é um país? Veja como os seus títulos do Tesouro são negociados na Wall Street ou qual é o índice de “risco” do seu país. Ou ouçam o que os governantes da direita lhe dizem mil vezes para justificar o holocausto social a que submetem o povo através dos ajustes no orçamento, afirmando que “os números governam o mundo”.

Personagens como esses compõem uma classe especial e aberrante de “marxistas” porque reduziram a descoberta radical de seu fundador e toda a complexidade do seu aparelho teórico a um economicismo grosseiro. O “materialismo economicista” é uma versão abortada, incompleta e distorcida do marxismo, mas é muito conveniente para as necessidades da burguesia e de uma sociedade que só conhece preços e nada de valores. Um marxismo deformado e abortado porque a burguesia e seus representantes só se apropriaram de parte do argumento marxista: o que destacava a importância decisiva dos factores económicos na estruturação da vida social.

Por instinto certeiro puseram de lado a outra metade: a que estabelecia a dialéctica das contradições sociais – o incessante conflito entre as forças produtivas e as relações de produção e a resultante luta de classes – que conduziriam inexoravelmente à abolição do capitalismo e à construção de um tipo histórico de sociedade pós-capitalista. Que isso não esteja iminente não significa que não vá acontecer. Por outras palavras: o “marxismo” de que as classes dominantes no capitalismo se apropriaram através dos seus intelectuais orgânicos foi reduzido a um materialismo economicista grosseiro.

Por isso hoje somos todos marxistas. Os marxistas mais aberrantes, de “cozedura incompleta”, exaltam até ao paroxismo a importância dos acontecimentos económicos e ocultam conscientemente que as dinâmicas sociais levarão, mais cedo ou mais tarde, a uma transformação revolucionária da sociedade actual. Esse economicismo é o grau zero do marxismo, seu ponto de partida, mas não o ponto de chegada. É um marxismo truncado no seu desenvolvimento teórico; Ele contém os germes do materialismo histórico, mas estagna nas suas primeiras hipóteses e ignora – ou esconde conscientemente – o resultado revolucionário e a proposta de construir uma sociedade mais justa, livre e democrática.

Mas temos outros marxistas para quem a revolução teórica de Marx não só corrobora a transitoriedade da sociedade actual como também sugere os caminhos prováveis da sua superação histórica, seja por diferentes meios revolucionários ou pela dinâmica imparável de um processo de reforma radicalizado.

Contra os marxistas inacabados, da “cozedura incompleta”, apologistas da sociedade burguesa, defendemos a tese de que o modo de produção capitalista será substituído, por meio de intensos conflitos sociais (porque nenhuma classe dominante abdica do seu poder económico e político sem lutar até ao fim) para finalmente dar à luz uma sociedade pós-capitalista e, como disse Marx, pôr fim à pré-história da humanidade. Porém, para além dessas diferenças, somos todos filhos do marxismo no mundo de hoje. Não poderíamos deixar de ser marxistas, assim como não poderíamos deixar de ser copernicianos.

O capitalismo contemporâneo é muito mais “marxista” do que quando, há quase dois séculos, Marx e Engels escreveram o Manifesto do Partido Comunista. A diatribe contra Axel Kicillof é um desabafo que pinta o brutal anacronismo de vastos sectores da direita argentina e latino-americana e dos seus representantes políticos e intelectuais, que no seu escandaloso atraso receiam os avanços produzidos pelos grandes revolucionários do pensamento contemporâneo. Eles desconfiam de Darwin e Freud e acreditam que o marxismo é o delírio de um judeu alemão.

Mas, como Marx disse com astúcia, alguns são marxistas como Monsieur Jourdain, aquela curiosa personagem de O Burguês Gentil-Homem de Molière que falava em prosa sem o saber. Eles balbuciam um marxismo desenfreado, transformado num economicismo grosseiro e sem a menor consciência da origem dessas ideias na obra de um dos maiores cientistas do século XIX. Outros, por seu lado, sabem que o marxismo é a teoria que nos ensina como o capitalismo funciona e que, portanto, fornece os instrumentos que nos permitirão deixar para trás este sistema desumano, predatório e destrutivo da natureza e das sociedades, que se alimenta de inúmeras e intermináveis guerras que ameaçam acabar com toda a vida deste planeta.

Portanto, longe de ser um insulto, ser um marxista no mundo de hoje, no capitalismo de nosso tempo, é um timbre de honra, constituindo uma nódoa indelével naqueles que o expressam como um insulto.

[*] Doutorado em Filosofia pela Universidade de Harvard. Foi Professor de Ciências Políticas no Instituto Latino-Americano de Ciências Sociais e na Universidade de Buenos Aires. Foi secretário-geral do CLACSO .

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org/…

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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Manuscrito cristão mais antigo do mundo é descoberto na Suíça (FOTO)

Um manuscrito (imagen referencial)
© Sputnik / Eugueni Odinokov

A carta P.Bas. 2.43, escrita por um membro da elite provincial romana, é 40-50 anos mais antiga que os outros textos cristãos conhecidos.

Um dos papiros da coleção da Universidade de Basileia (Suíça) é o manuscrito cristão mais antigo que se conhece, afirmou essa entidade em um comunicado com referência a uma monografia escrita este mês pela professora de História Antiga Sabine Huebner.

Trata-se de um papiro que provém do povoado de Theadephia, localizado no centro de Egito. Ele contém uma carta escrita por Arrianus, membro da elite provincial romana, ao seu irmão Paulus na qual ele conta como vão as coisas na sua família e pede para lhe enviar um bom molho de peixe.

O que chamou a atenção dos investigadores é a forma de expressão que aparece na última linha do texto: "Rezo ao Senhor para que tudo esteja bem contigo."

"O uso desta abreviatura, conhecida neste contexto como "nomen sacrum", não deixa lugar para dúvidas sobre as crenças cristãs do remetente. É uma forma exclusivamente cristã que se conhece dos manuscritos do Novo Testamento", explicou Huebner.

Para além disso, a professora pensa que o nome do destinatário é "extremamente raro" para aquela época, indicando que os pais de Arrianus e Paulus, fazendeiros e funcionários públicos, também seriam cristãos.

De acordo com o comunicado, o manuscrito contraria o conceito de acordo com o qual os primeiros cristãos "eram retratados como excêntricos que se refugiavam do mundo e eram ameaçados por perseguição". Pelo contrário, mostra que algumas famílias cristãs ocupavam cargos importantes na província romana de Egito já no início do século III d.C.

Uma análise meticulosa do documento permitiu a Huebner afirmar o texto teria sido elaborado na década de 230, se tornando assim no manuscrito conhecido mais antigo escrito por um cristão. De fato, o papiro é 40 a 50 anos mais antigo que o resto das cartas cristãs conhecidas, indica o mesmo comunicado.

O P.Bas. 2.43 é guardado na Universidade de Basileia junto com outros 64 papiros egípcios. Ele faz parte do chamado ‘arquivo Heroninos’, um dos maiores desta época, que contém cerca de 1.000 papiros.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019071514219945-manuscrito-cristao-mais-antigo-do-mundo-e-descoberto-na-suica-foto/

On the wrong side of history

 

On the wrong side of history - TruePublica

 Toldyou

 

A simple quote from Twitter user Ivor Tymchak around the time of the Extinction Rebellion protests in London May 2019

 Just a few years will reveal who was on the wrong side of history.

The phrase, “I told you so” will be ashes in many peoples throats.

 

Ver o original em "TruePublica" (clique aqui)

Os dias negros de Outubro – I

Coincidência, ou não, os piores crash bolsistas (designação usada nos mercado de capitais para uma descida grande e inesperada do valor das acções que se traduz num impacto negativo na economia) registados no século XX ocorreram quase sempre no mês de Outubro, ou muito próximo dele.

(Illustrirte Zeitung Nr. 1564)

Deixando um pouco de lado a histórica Crise das Túlipas, ocorrida em 1636 na mesma Holanda que assistiu ao embrião das modernas bolsas de valores mas onde a febre duma verdadeira tulipamania levou a que um simples bolbo daquela espécie vegetal atingisse o valor de alguns hectares de terra, que a falta de dados históricos e estatísticos não permitirá a classificação do episódio como bolha especulativa, remontemos ao ano de 1873 para recordar o crash da bolsa de Viena que na sequência do processo de reunificação alemão de 1871 e ao rápido desenvolvimento económico que gerou conduziria ao aumento da concorrência, à estagnação dos preços e à queda das cotações das acções na zona germanófila (Alemanha e Áustria) até que em Outubro de 1873 a crise atingiria Berlim e outras praças europeias e americanas.

O pânico de 1907

Já no início do século XX, mais propriamente em 1907, ocorreu um episódio nos EUA que ficaria conhecido como o Pânico de 1907 ou o Pânico dos Banqueiros. Foi despoletado em meados de Outubro por uma tentativa fracassada para manipular o mercado de acções da United Copper Company, que levou a uma queda abrupta da Bolsa de Valores de Nova York e a uma corrida aos levantamentos bancários que alastraria a outros estados, originando uma vaga de falências.

A suportar aquela estratégia esteve a Knickerbocker Trust Company, o terceiro maior banco de Nova York, cuja falência ampliou ainda mais a onda de pânico e abalou definitivamente a confiança dos depositantes. Entre as principais causas para a corrida aos levantamentos estiveram uma retracção na liquidez do mercado por parte de vários bancos da cidade de Nova York e uma perda de confiança entre os depositantes, ampliada pelas apostas paralelas não reguladas nas casas de apostas (bucket shops) então muito populares.

A situação arrastou-se por três longos dias, até à intervenção do banqueiro J. P. Morgan, que prometendo recorrer ao seu próprio dinheiro convenceu outros banqueiros de Nova York a formar um sindicato para sustentar o sistema bancário e assim garantir a liquidez de que todos careciam. Esta iniciativa, dirigida pelo banqueiro que já tinha ajudado a resolver idêntica situação em 1893, quando contribuiu para suster outra corrida aos levantamentos na sequência do incumprimento da dívida argentina e da eminente falência do banco inglês Baring Brothers, destacou a impotência do sistema do Tesouro que administrava a oferta de moeda do país, mas não conseguia injectar a liquidez necessária no mercado.

A crise de confiança era tal que os bancos de Nova York continuavam relutantes em fazer os empréstimos de curto prazo com que normalmente facilitavam as negociações diárias de acções. As cotações começavam a cair, devido à falta de fundos para financiar as compras e a agitação nos mercados e nos bancos persistiria até 1908 e terá sido factor determinante na criação da Reserva Federal (FED), segundo o modelo que perdura até aos nossos dias. O FED tem como missão a definição e execução da política monetária (através da compra ou venda de títulos e do aumento ou redução da taxa de desconto), a fiscalização dos Federal Reserve Banks regionais (cada estado norte-americano tem o seu FED) e a regulação e supervisão dos bancos; é independente do governo mas está sujeita à supervisão do Congresso norte-americano e o seu Conselho de Governadores é escolhido pela Casa Branca.

O Pânico de 1907 ocorreu num período de longa contracção económica e o pânico bancário e a queda do mercado de acções resultaram em significativas perturbações económicas, com o sector industrial a ver a produção cair 11% e a registar ao segundo maior volume de falências até aquela data; ajudou ainda a cimentar a ideia que o Outono era um período vulnerável para um sistema bancário, na época, muito dependente dos ciclos agrícolas, que vira a sua liquidez reduzida em virtude dos grandes investimentos provocados pelo terramoto que ocorrera no ano anterior em São Francisco e que com a conjunção com a agitação no mercado de acções, até mesmo um pequeno choque poderia ter graves repercussões.

Ver artigo original em "O TORNADO"

RELAÇÃO AMBÍGUA DE PORTUGAL COM O SEU PRÓPRIO PASSADO

                           PortugalA proclamação da república em 5 de Outubro de 1910 foi resultante de um golpe civil-militar que conseguiu derrotar militarmente as últimas forças fiéis ao monarca. D. Manuel II[1] subiu ao trono em 1908, depois do regicídio que vitimou D. Carlos e seu irmão, o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe.                      

A história dos tempos conturbados da 1ª República e os que precederam a revolução republicana de 1910, está ainda largamente ignorada pelo grande público. 

Os republicanos dos finais do século XIX eram um grupo heterogéneo, tanto nas classes sociais, como nas ideologias. Havia alguns com uma concepção «social» da república, nomeadamente os que tinham militância ou afinidades com os movimentos operários, muito influenciados pelos ideais socialistas e anarquistas. 

Mas outros, eram membros da grande burguesia, industrial ou latifundiária, cujo fim era a implantação de um regime que favorecesse o desenvolvimento industrial do país. 

A grande massa porém, era constituída por funcionários públicos, por empregados do comércio e serviços, sobretudo na capital e nas grandes cidades, imbuídos de um republicanismo com colorações nacionalistas. Imagem relacionada

Não esqueçamos que o Partido Republicano explorou a veia nacionalista aquando do episódio do «ultimato», da humilhação sofrida por Portugal face à aliada Grã-Bretanha («a pérfida Albion»). 

Muitos republicanos da viragem do século XIX para o século XX eram firmes defensores do colonialismo português. Muitos tinham uma visão paternalista da relação do povo colonizador com os povos colonizados. Um destacado exemplo disso foi Norton de Matos[2], escolhido pela oposição republicana como candidato presidencial em 1948, o qual tinha tido uma larga carreira como administrador colonial em Angola[3]

É um erro projectar os valores dos finais do século XX na mentalidades do início deste mesmo século. A chamada «república democrática», foi tudo menos democrática, pelos padrões comuns hoje em dia. 

- A eleição parlamentar era censitária: Só quem fosse instruído e tivesse um mínimo de rendimento podia votar. Os deputados eram eleitos por círculos desenhados de acordo com as conveniências do poder. As mulheres, em geral, estavam arredadas dos cargos públicos. Muitas eleições tinham uma taxa de participação muito fraca. Eram frequentes as «chapeladas» (fraudes eleitorais).  

- Os operários eram reprimidos violentamente, durante as greves. Afonso Costa era admirado e louvado, em certos meios, por ter «quebrado a espinha» aos movimentos grevistas. As prisões enchiam-se de sindicalistas e outros militantes operários. 

- Havia uma polícia política em embrião, ligada ao aparelho do Partido Republicano. 

- A corrupção era potenciada pela instabilidade política e pela desorganização da economia. 

- O anti-clericalismo radical de certos políticos favoreceu a aliança entre os conservadores republicanos, os monárquicos e o clero. Esta aliança esteve na origem do peculiar fascismo clerical português. 

No golpe de 28 de Maio de 1926, que veio proporcionar a posterior ascensão de Salazar, participou uma facção republicana do exército. Talvez por isso Salazar nunca se tenha atrevido a restaurar o regime monárquico, como o fizera Franco, o outro ditador ibérico. 

Uma obra da república com verdadeiro mérito foi o esforço enorme, apesar das condições económicas, para alargar a alfabetização do povo, para propagar um ensino laico e de acordo com os métodos pedagógicos mais avançados para a época. 

Foi esta obra, a da educação pública, que Salazar se esmerou em anular, fechando as Escolas do Magistério Primário, centros de formação de professores primários, instaurados pelo regime republicano desde muito cedo, e entregando a instrução primária ao clero e «regentes escolares» com formação rudimentar, para educação das classes pobres.

Hoje em dia há uma larga ignorância das pessoas em relação ao seu passado, não tão longínquo. 

Tal como em relação à história do colonialismo, em relação à da Iª República, há imenso a fazer: sobre os antecedentes, o conturbado período de sua vigência, ou o seu derrube. 

O povo português ignora importantes períodos da sua história, particularmente os finais do século XIX e a primeira metade do século XX. Na forma como é ensinada no ensino básico e secundário, é reduzida a uma série de chavões e lugares-comuns, que mais ocultam a verdade do que realmente esclarecem sobre os factos. 

Um povo que ignora o seu passado não pode compreender o presente, pelo que está mais susceptível de ser enganado e arrastado para falsas soluções.   



References

  1. ^ D. Manuel II (pt.wikipedia.org)
  2. ^ Norton de Matos (pt.wikipedia.org)
  3. ^ administrador colonial em Angola (www.rtp.pt)

Leia original aqui

Viva a República!

Viva a República!

Há 108 anos, ao meio-dia, na Câmara Municipal de Lisboa, Eusébio Leão proclamou a República, perante a aclamação jubilosa de milhares de populares.

A ação doutrinária e política levada a cabo pelo Partido Republicano Português, desde a sua criação, em 1876, conduziu à Revolução que, iniciada em 2 de outubro de 1910, fez capitular a monarquia na data gloriosa do 5 de Outubro.

Portugal colocou-se na vanguarda dos países que aboliram a monarquia, regime que se perpetuava dentro de uma só família, com precedência etária e do sexo masculino, cuja legitimidade era a tradição e a alegada vontade divina.

Em 5 de outubro de 1910, os súbditos tornaram-se cidadãos e os heróis que se bateram na Rotunda foram arautos da mudança que rejeitou os regimes monárquicos na Europa e no Mundo, ou os remeteu para um lugar decorativo.

Foi o ideário libertador da República que instituiu as leis do divórcio, do registo civil obrigatório, da separação Igreja/Estado, marcas inapagáveis da História de um povo e do seu avanço civilizacional. Foram abolidos os títulos nobiliárquicos, os privilégios da nobreza e o poderio da Igreja católica. O Registo Civil obrigatório substituiu os registos paroquiais de batizados, casamentos e óbitos. Findou a injúria às famílias discriminadas pelo padre no enterramento das crianças não batizadas, dos duelistas e suicidas. O seu humanismo assentiu direitos iguais na morte aos que dependiam do humor e do poder discricionário do clero ou do exotismo do direito canónico.

Fazem parte do devocionário laico os nomes de Cândido dos Reis, Machado dos Santos, Magalhães Lima, António José de Almeida, Teófilo Braga, Basílio Teles, Eusébio Leão, Cupertino Ribeiro, José Relvas, Afonso Costa, João Chagas, além de Miguel Bombarda, entre muitos outros, alguns anónimos, que prepararam e fizeram a Revolução.

É em homenagem a essa plêiade de portugueses íntegros, que serviram a República sem dela se servirem, que foram dedicados e não se moveram por desejos de honrarias ou de riqueza, que, hoje e sempre, os republicanos sentem o dever de recordar o 5 de Outubro de 1910, data identitária do país que somos e do regime que o 25 de Abril repôs, depois de 48 anos de fascismo.

Viva a República! 

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2018/10/viva-republica.html

Paul Bauduin, ou por que os economistas de mercado adoram o fascismo

“Os “mercados” podem operar perfeitamente em regimes autoritários, democracia é bom para pobres, para os “mercados” (ou “grande capital” como diria Guerin) é indiferente no mínimo”.

A história da França de Vichy sempre me fascinou, desde os anos 60, coleciono livros sobre o período para entender o abismo politico que a França tenta esquecer.

Vichy é a prova de que países não desaparecem, não quebram, não acabam, apenas decaem.

Como foi possível a França de Luis XIV, o país que criou o Estado Nacional na Era Moderna, com personagens do porte dos Cardeais de Richelieu e Mazarin, o pais das glórias do Imperador Napoleão e do maior diplomata do Século XIX, o Principe de Talleyrand, como foi possível esse pais poderoso e imperial, símbolo do Estado forte se entregar de forma vexatória à dominação alemã? Não foi uma simples derrota militar, foi um rendição humilhante para o mundo, depois de uma luta apenas para constar, dois terços das armas francesas não foram usadas na campanha de 1940, quando a França se rendeu docemente. Mas o pior veio depois, a colaboração consentida e alegre com o conquistador. A saga de Vichy é uma lição de História, do que pode acontecer a países em situações muito especiais.

No quadro maior da rendição despontaram personagens sinistros prontos a servir aos alemães e que deixaram no registro da História sua triste biografia , entre tantos outros o maior deles, Pierre Laval, depois Camille Chatemps, o Conde Fernand de Brinon, que se dispôs ser Embaixador da França em Paris junto ao Comando Alemão, Marcel Deat, o Almirante Darlan, Raphael Alibert, o General Maxime Weygand, derrotista com pose de vencedor, Phelippe Henriot, o líder fascistoide disfarçado de patriota Charles Maurras e muitos mais. A “colaboração” com os alemães foi ampla na alta sociedade francesa, temerosa dos movimentos populares. Afinal o grupo politico do Front Populaire tinha conquistado o governo em 1936 com um programa de esquerda, para horror da elite financeira e industrial francesa representada pelo Comité des Forges e pelas famosas “200 famílias de França”, a nata do capitalismo francês, mesclada com a alta moda e a aristocracia de sangue dos salões, até o pretendente Orleans ao trono, o Conde de Paris, flertou com os alemães em busca de uma possível restauração, já a alta costura viu um novo mercado se abrir com as esposas dos oficiais alemães, Coco Chanel inclusive se amarrou em um oficial SS como companheiro.

A colaboração foi um fenômeno único por sua dimensão na Europa nazificada. Houve colaboradores em outros territórios conquistados pelos alemães, mas em nenhum Pais na escala do que aconteceu na França, onde os restaurantes durante a ocupação estavam lotados pela burguesia local se banqueteando lado a lado com generais alemães com quem trocavam gentilezas e sorrisos, afinal os alemães “nos salvaram do comunismo”.

Nesse grande quadro que a França de hoje faz tudo para apagar do implacável arquivo da Historia, foi esquecido por historiadores o papel central do “economista a serviço dos alemães”, um notável personagem cujos contornos psicológicos mostram o extraordinário perigo do “ economista eficiente” ou “economista de mercado”. Mas a servilo de que causa? Baouduin era eficiente, organizado, racional  mas a serviço do inimigo, do ocupante, do invasor, representava no contexto o economista que sob a capa da racionalidade presta seus serviços ao poder de ocasião, a qualquer poder, sem noção de povo. de Estado, no papel de feitor de seus próprios compatriotas, para extrair riquezas para o conquistador.

Bauduin não é um perfil raro nos paises emergentes, aliás é muito comum, economistas a serviço do mercado mas de que mercados? Ao fim servem ao financismo internacional, representam os interesses estrangeiros acima do interesse nacional sob a capa do “mercado”.

Não é do mercado de sua população nativa, os patrões desse mercado a que servem são outros e pagam bem, é tudo o que importa. A consciência de servir aos seu compatriotas pobres se perdeu nas universidades americanas onde estudaram, os seus compatriotas que necessitam de sua ciência e muitas vezes pagam seus estudos são abandonados e trocados pelo fascínio do dominador. A saga dos “economistas de mercado” tem tudo a ver com a carreira de Paul Bauduin, um espécie de patrono dos economistas sem pátria.

O “economista de mercado” representa uma visão de mundo, onde o mercado prevalece sobre o Estado. Este passa ser um mero gestor de serviços, como um zelador em um prédio de apartamentos, essa a visão de Bauduin, se os alemães são bons administradores do território, porque não aceita-los, não é mesmo? Os “mercados” pensam exatamente a mesma coisa.

Qualquer Presidente serve desde que garanta o mercado e seus objetivos, acima de qualquer interesse nacional ou do interesse de sua população pobre, o Estado zelador do mercado é

o que esse grupo de personagens deseja, Bauduin tem herdeiros.

Quem era Paul Bauduin

Diretor-Geral de la Banque de L’Indochine, um dos grandes bancos de investimento da França de então, catedral do capitalismo imperial francês, com vastos recursos amealhados na exploração comercial da Indochina, hoje Vietnam, Cambodja e Laos, então colônia francesa.

La Banque de l’Indochine era uma potência e ainda é. Depois de sua fusão com a Compagnie Universalle du Canal Maritime de Suez, a companhia do canal de Suez, e com a belga Tractabel, a companhia de bondes e trens do Barão Empain, o Banco da Indochina se transformou hoje em um dos grandes conglomerados do capitalismo europeu, com o nome de Engie, importante investidora no setor de energia em nosso Pais. Comprou a Eletrosul nos leilões da Era FHC e continua a investir pesadamente em geração na América do Sul.

Paul Bauduin nasceu em 1894 e viveu até 1964. Em 16 de Junho de 1940 foi nomeado pelo Marechal Petain Ministro das Relações Exteriores do novo Governo que nasceu dos escombros da Terceira Republica com o fim especifico de se render aos alemães. Sua experiência e conexões com o mercado financeiro deu a Bauduin um poder especial sobre a gestão econômica, já que como Ministro das Relações Exteriores cabia a ele a crucial negociação financeira com o ocupante, que se tornou o eixo da nova economia francesa.

O drama das negociações e tratativas politicas internas e as intensas discussões com a Inglaterra sobre a necessidade da rendição politica da França ao Terceiro Reich marcam a primeira metade de 1940. Com o governo em fuga já longe de Paris, primeiro em Bordeus, depois em Clermont Ferrand e finalmente em Vichy, capital da parte não ocupada, escolhida por sugestão de Bauduin, um novo Estado sem nome de Republica cujo chefe nominal era o Marechal Petain, herói da Grande Guerra de 1914 e chefe do partido derrotista, tendo com Primeiro Ministro o politico de longa carreira Pierre Laval, Bauduin como Chanceler . O período de fuga e de enterro da Terceira Republica e criação de um novo Governo dá por si só uma biblioteca, um período dramático de desfazimento de um regime que vinha do fim do Segundo Império de Napoleão III em 1870 e durou 70 anos até a rendição de 1940.

Com Baudoin como Chanceler o governo Petain requer através da Espanha os termos de um armistício que os alemães apresentam em 22 de Junho no fatídico vagão ferroviário na Floresta de Compiegne, o mesmo vagão onde o Império Alemão assinou sua rendição militar em 1918. Hitler exigiu essa condição como vingança pela humilhação à Alemanha na situação inversa de 1918. (descrição da cena de rendição em “Vichy Political Dilemma”, de Paul Farmer, Columbia Universaity Press, 1955). Mas Hitler tinha um plano especial para a Drança, Hitler admirava Napoleão e tinha certo carinho pela França, preferia um acordo do que uma rendição “raise campagne”, uma rendição puramente militar como em outros países.

Baudoin era portanto personagem central nos acontecimentos da submissão do Estado francês à Alemanha. Não era uma rendição fruto da derrota militar, era mais que isso.

O armistício de junho de 1940 foi uma abertura de portas para uma desejada colaboração com a Alemanha nazista, considerada então uma barreira a proteger a elite francesa contra a esquerda que tinha conseguido o poder nas eleições de 1936 e que assustava esse elite com leis trabalhistas, como a semana de 40 horas. Os alemães seriam nessa condição os “salvadores” da França contra a esquerda que crescia e assustava a alta classe francesa.

Nasceu desse pano de fundo a saga do “colaboracionismo”, uma ideologia de governar sob a proteção da Alemanha e a ela prestando reverencia, uma submissão consentida para atingir um fim maior, a proteção da elite (hoje seriam “os mercados”) contra o progressismo social.

A lógica dos colaboracionistas era evidentemente de que o Terceiro Reich iria ganhar a guerra europeia e a Alemanha seria a dona da Europa, vamos então escolher um bom lugar a mesa, mesmo que secundário, para participar do banquete dessa nova constelação de poder.

Como acontece com enorme frequência com gente apenas focada em seus próprios interesses, o calculo deu errado, a Alemanha não ganhou a guerra e os colaboracionistas caçados e presos, como Paul Bauuin, condenado à prisão por 5 anos, pena comutada em 1949, os colaboracionistas em França eram tantos que não haveria prisões para todos.

O maior deles, Pierre Laval, Primeiro Ministro de Vichy, foi condenado à morte e fuzilado,

Petain também foi condenado à morte mas teve a pena comutada em prisão perpetua, morreu na cadeia. Além dos processados em tribunais, milhares de colaboracionistas foram justiçados pela Resistencia ou em linchamentos pela população logo após a retirada dos alemães de Paris em Julho de 44 com a rendição do General von Choltitz na Gare du Nord e a entrada em Paris da Divisão Leclerc, do exercito gaullista, como libetador.

Foi Bauduin quem deu a Petain a ideia de transferir a sede do Governo em fuga, de Bordeus para Vichy, que passou a ser a capital do território francês não ocupado pelos alemães, a parte sul da França, enquanto a parte norte foi submetida à ocupação direta e governada pelo Comando Militar Alemão com sede em Paris. Vichy então criou a ficção de um Estado francês soberano, que mantinha Embaixadores por todo o mundo, inclusive no Brasil e os EUA de Roosevelt. Com uma estratégia anti-gaullista, mantinham um Embaixador em Vichy até a invasão da Normandia, era o Almirante Lehay, amigo pessoal de Roosevelt.

Na verdade a ficção de Vichy acabou com a invasão americana da África do Norte em 1942, quando os alemães romperam os acordos de soberania sobre a parte sul da França e ocuparam todo o território mas o agora mais artificial Governo de Vichy se manteve em operação, com soldados alemães à parta do Hotel du Parc, sede do Governo em Vichy.

Na verdade o Governo de Vichy sobreviveu à própria invasão da França pelos anglo-americanos em junho de 1944, Petain e Laval fugiram para a Alemanha e mantiveram a sede ficcional do Estado francês no Castelo de Sigmaringen, na Bavieira, com toda sua corte.

A economia da França sob ocupação alemã

Nos termos do Armistício de junho de 1940 a França se obrigou a pagar ao Terceiro Reich uma taxa de ocupação de 300 milhões de Francos por dia, valor que seria creditado ao Governo alemão em uma conta especial no Banco de França. A soma era tão gigantesca que com a retirada alemã de 1944 ainda metade dos valores creditados permaneciam em saldo, não conseguiram ser gastos pelos alemães durante todos os anos de ocupação.

Em 1941 esse valor pago à Alemanha foi de 144,3 bilhões de Francos, correspondente a 36,8% do PIB, em 1942 foi de 156,7 bilhões de Francos, correspondente a 36,9% do PIB, em 1943 foi de 273,6 bilhões de Francos, correspondentes a 55,5% do PIB. (Estudo da Universidade de Rutgers, 2005, Eugene N.White)

Com esses créditos o Governo alemão comprava na França uma infinidade de mercadorias industriais, alimentos e artigos de luxo. Dentro do espirito de amizade proposto por Hitler, que não considerava a França um inimigo, mas sim um governo colaborador, os alemães não requisitavam “manu militari” essas mercadorias, eles comprovam em transação comercial ao preço de mercado e pagavam com a moeda extraída da França como taxa de ocupação.

Para tanto foram criados 14 Escritórios “informais” de Compra, conhecidos como “Escritorios Otto que compravam artigos de luxo, tecidos, roupas, iguarias finas, vinhos, champagne, perfumes, sapatos, café, chocolates, chás, tudo que pudesse ser comprado no mercado.

Hitler para manter alto o moral das famílias de soldados que ficavam na Alemanha queria que as esposas dos militares tivessem bens de luxo como compensação pelos sofrimentos da guerra. A França era também grande produtora de alimentos e os alemães compravam tudo que podiam para remeter à Alemanha, manteigas, queijos, legumes, pescados, etc.

Também havia o turismo em larga escala. A França foi destinada por Hitler a ser um “resort” para os soldados alemães após períodos de ação na terrível Frente Leste. As “férias” dos soldados podiam ser passadas na França com dinheiro francês para hotéis e restaurantes.

Mas a “taxa de ocupação” era tanta que sobrava dinheiro e ai os “donos” dos “Escritórios Otto” começaram a comprar imóveis na Riviera e apartamentos em Paris, a corrupção nos “escritórios”, todos comandados por oficiais SS, era gigantesca. Jacques Delarue narra em um livro inteiro essas transações ( Tráficos e Crimes, Jacques Delarue).

Obra fundamental para o período é La Francis de Vichy (em italiano) de Robert Aron, Rizzoli Editore, 1972, 668 paginas, onde se mostra como a economia francesa foi inteiramente submetida ao esforço de guerra nazista, as industrias francesas produzindo peças para tanques e aviões alemães, as Usinas Renault fabricando para a Alemanha, o que custou no pós guerra a prisão do industrial Louis Renault e o confisco de sua empresa pelo Estado francês, a Renault era e continuou a ser um dos maiores fabricantes de automóveis da Europa.

Bauduin, na qualidade de grande banqueiro, era uma espécie de controlador da economia francesa a serviço do Terceiro Reich. Sua amizade com Otto Abetz, o ultra eficiente Embaixador alemão em Paris antes da guerra (Abetz falava francês melhor que franceses e era aficionado pela cultura francesa), foi elemento chave para a ligação entre o interesse alemão e a elite empresarial francesa. Abetz comprou com estipêndios quinzenais os jornais de Paris que passaram a colaborar com os nazistas. Aliciou também o Judiciário, que passou a perseguir os adversários do Terceiro Reich com um rigor tal que os próprios alemães achavam exagerado (ver o filme Seção Especial de Justiça, de Costa Gravas, sobre esse contexto).

Vichy e os economistas

O exemplo de Vichy nos mostra como economistas de mercado não tem nenhuma vocação de Estado, um ente que para eles nem deveria existir. Henry Rousso em Le Syndrome de Vuchy (Editions du Seuil, 1980) mostra esse desdobramento onde um grupo de pessoas em uma espécie de autismo politico, faz por desconhecer a função de um Estado como nau que abriga toda a sociedade. Para esse grupo de pessoas a economia é autônoma do Estado, não precisa dele, portanto a sorte dos que não estão contemplados é indiferente. Que um Estado possa ser o conjunto de toda uma população e não plataforma de mercado é algo incompreensível para esses elementos, como Paul Bauduin.

É espantoso como a Síndrome de Vichy atravessou o Século XX e chegou a nossos dias. A globalização financeira e comercial é a resultante desse ciclo de desconstrução social iniciada no Governo Thatcher no Reino Unido, um desastre na tentativa de desmonte do estado nacional para em seu lugar a sociedade ser operada por bancos e corporações, sem Estado ou com um Estado mínimo, se não há emprego, proteção e renda para os mais pobres esse não é um problema do Estado, essa é a regra dos

economistas de mercado, felizmente um ciclo que está terminando porque não existe estrutura social e politica que subsista por muito tempo com altíssimo desemprego e desequilíbrio social, o fascismo e o nazismo nasceram nesses contextos como mecanismo de controle social e não de solução de problemas econômicos a longo prazo.

Se a eficiência da economia depende da ineficiência do tecido social, o preço a ser pago será cobrado do próprio mercado por agitação política, crime e vida social impossível, a conta do desequilíbrio social é infinitamente mais alta do que o ganho dos mercados por uma suposta eficiência artificial gerada pela concentração de renda, fusões e aquisições, abertura da economia, fechamento de fabricas e grande parte da elite vivendo de renda financeira.

O fascismo renovado

O fascismo é uma ideologia forte, nascida dos escombros da Grande Guerra de 1914, por causa da crise social provocada pela guerra, desemprego em massa e falta de comida.

Do fascismo nasceu o nazismo como descendência adaptada ao caráter alemão, Mussolini foi o modelo adotado por Hitler, que foi sempre um admirador ideologico de Mussolini.

Com o mesmo DNA também surgiu o franquismo espanhol, o justicialismo argentino, o salazarismo português, o estadonovismo brasileiro e os neofascismos de hoje.

Daniel Guerin, no clássico Fascismo de Gran Capitaie (Guerin era francês mas a melhor edição é a italiana) mostrou a estreita ligação entre o grande capital e o fascismo. Pode-se substituir a expressão belle-epoque “gran capitale” por “mercados”. A capa do livro de Guerin (na edição que tenho, há outras) é emblemática, Mussolini de casaca e cartola ao lado de dois grandes capitalistas, logo Mussolini que começou na vida politica como socialista.

Na expansão desenfreada do capital em busca de concentração cria-se um perigoso quadro social com alto desemprego e carências. Nesse quadro começam agitações causadas exatamente pela falta de emprego. A Democracia não mais dá conta de administrar a crise.

A solução então é o fascismo com violência e truculência para conter a sociedade pela força e blindar o capital. Mas há uma armadilha. O fascismo não é estável, ele precisa se agitar continuamente até implodir, o prazo de validade do fascismo é curto no tempo histórico.

Os economistas, por perfil psicológico, tem fascínio pela ordem e horror ao caos, dai a adesão ao “ partido da ordem” é um passo. Salazar era professor de economia, Sergio de Castro, formado na Universidade de Chicago, foi o primeiro Ministro da Fazenda do regime Pinochet. É muito mais fácil fazer as “reformas” em uma ditadura do que na democracia.

Dai nasce uma espécie de adesão dos “economistas de mercado” a quem pode assegurar ajustes e reformas, muito mais difícil em uma democracia em funcionamento.

Na verdade, os “mercados” podem operar perfeitamente em regimes autoritários, democracia é bom para pobres, para os “mercados” (ou “grande capital” como diria Guerin) é indiferente no mínimo.

Quem ver alguma semelhança com o Brasil de hoje é mera coincidência.

  • Alem dos livros citados mais dois livros básicos para entender a França de Vichy: THE IDES OF MAY, John Williams, Constable, Londres, 1968 e THE VICHY REGIME 1940-1944, Beacon Press, Boston 1958).
  • A literatura sobre Vichy é curiosamente muito maior editada fora da França, os franceses não curtem esse tema como material de Historia, é uma pagina que preferem esquecer.
Por André Araújo, Advogado  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (GGN) / Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

Obra histórica de Borges Coelho sobre expansão portuguesa regressa às livrarias

O historiador António Borges Coelho, que completa 90 anos em Outubro, vê reeditada a sua obra Raízes da Expansão Portuguesa, publicada pela primeira vez em 1964, e que agora regressa às livrarias.

Foto de arquivo de António Borges Coelho, historiador. 24 de Novembro de 2009CréditosAntónio Cotrim / Agência LUSA

O historiador defende, nesta obra, que a expansão portuguesa, nos séculos XV e XVI, designadamente a expansão marítima, foi impulsionada pela «alta burguesia marítima agrícola» e não pela nobreza, contrariando a visão dominante da época e a propaganda da ditadura.

«Quem obriga a sociedade portuguesa a saltar por cima das barreiras marítimas, quem obriga a dar o salto, quem determina a expansão geral dos portugueses e, no caso, a conquista e o comércio com o litoral marroquino, é a alta burguesia marítima agrícola», escreve o historiador, que se afasta das teses então defendidas que atribuíam esse impulso à nobreza, liderada pelo infante D. Henrique, filho de D. João I.

Confronto com a historiografia oficial fascista

Em 1964, o regime fascista usou a censura para mandar retirar a obra das livrarias, «duas semanas depois» do lançamento, como conta Borges Coelho na presente edição. No mesmo texto, recorda que a publicação da obra pela antiga Prelo Editora lhe valeu «uma tarde de interrogatório», pelas forças da ditadura fascista, «com a ameaça de que lhe iriam revogar a liberdade condicional».

Raízes da Expansão Portuguesa de António Borges Coelho, Editorial Caminho (reedição 2018)

Na opinião dos censores, Borges Coelho «[desvirtuava] algumas das páginas mais brilhantes da nossa História, adulterando sacrilegamente os factos e classificando de "abutres" homens que foram heróis». As afirmações citadas são retiradas do «Auto de Declarações», datado de 1 de Agosto, que é reproduzido na íntegra na actual edição, com a chancela da Editorial Caminho.

Esta é a sexta edição da obra em Portugal, mas a sétima em termos globais, já que, após a proibição original, «saiu em Bruxelas uma nova edição, organizada por estudantes portugueses exilados», recorda o historiador. No entanto, continuou a ser vendida em Portugal «por baixo do balcão, editaram-se exemplares copiografados, que circularam na Faculdade de Letras de Lisboa».

Para António Borges Coelho, «em resumo, a luta entre a burguesia, assinaladamente a sua cabeça agrícola-comercial, e a nobreza feudal pelo domínio do Estado, com a força impulsionadora dominante e decisiva de uma burguesia estrategicamente na ofensiva, luta entrecortada por alianças e traições, é o verdadeiro motor da história do século XV, pelo menos e no caso da história da expansão».

Acrescenta o historiador que esta afirmação não ignora «a acção das forças populares, camponeses e mesteirais, acção que fica marcada nos principais movimentos do século», a quem atribui «a profundidade da revolução de 1383», outra temática em que apresentou, juntamente com Álvaro Cunhal, com quem esteve preso na Fortaleza de Peniche, uma nova leitura dos acontecimentos históricos.

Revolução de 1383

Para Borges Coelho, os acontecimentos que se sucederam à morte do rei D. Fernando foram mais do que uma crise social e política, mas uma revolução liderada pelas forças populares e burguesas, que se emanciparam. «Ao longo do século XV», escreve o historiador, a burguesia irá «defender a paz com Castela, mas, graças à concorrência no campo económico, diplomático e colonial», acabará por «impor o avanço pelo oceano, em busca do ouro, escravos, das tintas, das novas bases e de terras virgens sem senhor para assegurar, por fim, o acesso e o domínio das fontes das especiarias orientais».

Para o historiador, a expansão dos portugueses manteve «este rumo», em que dominou a «alta burguesia marítima agrícola», e, no reinado de D. Afonso V (1448-1481), a burguesia irá «interessar-se pela hegemonia ou uma posição reforçada numa Península [Ibérica] reunificada sob o ceptro da casa real portuguesa».

António Borges Coelho, nascido em Murça, em Trás-os-Montes, há 89 anos, estreou-se editorialmente, em 1962, com um livro de poesia, Roseira Verde, ao qual se seguiu Raízes da Expansão Portuguesa (1964), tendo ainda publicado ensaios historiográficos, obras de poesia, teatro, romance e biografias. Tem em curso a publicação de uma História de Portugal, actualmente com seis volumes.

Com Agência Lusa

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

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