Geoestratégia

RÚSSIA E CHINA DESCONGELARAM A GEOESTRATÉGIA


2020-06-14

Do Extremo Ocidente ao Extremo Oriente, a Eurásia é um conceito geoeconómico e geopolítico onde se mexem as pedras de um Grande Tabuleiro de Xadrez, assim definido por Zbigniew Brzezinski, um dos estrategos imperialistas a par de Henry Kissinger. Nesse cenário deverão ser enquadrados os passos em curso para um desanuviamento entre a União Europeia e a Rússia – para desespero da administração Trump – mas também as contradições existentes na redefinição de uma nova ordem internacional onde a parceria estratégica Rússia-China tem um papel cada vez mais determinante – descongelando a geoestratégia moldada pelo imperialismo.

Pepe Escobar, Asia Times/O Lado Oculto

O professor Sergey Karaganov é informalmente conhecido nos círculos influentes da política externa como o "Kissinger russo" - com o bónus extra de não ter de carregar com o rótulo de "criminoso de guerra" desde o Vietname e do Camboja ao Chile e além.

Karaganov é o reitor da Faculdade de Economia Mundial e Assuntos Internacionais da Universidade Nacional de Pesquisa da Escola Superior de Economia de Moscovo. É também o presidente de honra do Presidium do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia.    

Em Dezembro de 2018 tive o prazer de ser recebido no escritório de Karaganov em Moscovo para uma conversa individual, essencialmente sobre a Grande Eurásia - o roteiro russo para a integração da Eurásia.

Agora Karaganov expandiu as suas principais reflexões para um veículo atlantista italiano normalmente mais destacado pelos seus mapas do que pelas suas “análises" previsíveis, elaboradas como se fossem um comunicado de imprensa directo da NATO.  

Mesmo observando, correctamente, que a União Europeia é uma "instituição profundamente ineficiente" no caminho lento para a dissolução – o que é um eufemismo total - Karaganov observa que as relações Rússia-UE estão a caminho de uma relativa normalização.

Isto é uma coisa que vem sendo discutida activamente nos corredores de Bruxelas há meses. Não é exactamente a agenda prevista pelo Deep State (Estado profundo) dos Estados Unidos – ou mesmo pela administração Trump. O grau de exasperação com as artimanhas da equipa de Trump é inédito.

Ainda assim, como reconhece Karaganov, "as democracias ocidentais não conseguem existir sem um inimigo." Espaço onde entram as banalidades rotineiras do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, sobre a "ameaça" russa”.

Mesmo quando o comércio da Rússia com a Ásia é agora equivalente ao comércio com a UE, uma nova "ameaça" surgiu na Europa: a China. 

Uma Aliança Interparlamentar sobre a China foi inventada na semana passada como uma nova plataforma de diabolização, reunindo representantes do Japão, Canadá, Austrália, Alemanha, Reino Unido, Noruega e Suécia, assim como membros do Parlamento Europeu.

A China, "sendo liderada pelo Partido Comunista Chinês", deve ser encarada como uma "ameaça" aos "valores ocidentais" - a mesma velha tríade de democracia, direitos humanos e neoliberalismo. A paranóia encarnada na dupla "ameaça" Rússia-China nada mais é do que uma ilustração gráfica do primeiro grande choque do tabuleiro de xadrez: a integração da NATO com a Eurásia.

Uma grande potência asiática 

Karaganov divide a crucial parceria estratégica Rússia-China numa fórmula de fácil absorção: assim como Pequim encontra um forte apoio no poder estratégico da Rússia como contrapoder aos Estados Unidos, Moscovo pode contar com o poder económico da China.

E lembra um facto crucial: quando a pressão ocidental sobre a Rússia estava no auge após o golpe de Maidan na Ucrânia e o referendo na Crimeia, "Pequim ofereceu a Moscovo crédito praticamente ilimitado, mas a Rússia decidiu enfrentar a situação por conta própria".

Um dos benefícios subsequentes é que Rússia e China abandonaram a disputa na Ásia Central - algo que vi com os meus próprios olhos em viagens realizadas no final do ano passado.

Isso não significa que a competição tenha sido eliminada. Conversas com outros analistas russos revelam que o medo do excessivo poder chinês ainda está presente, especialmente quando se trata das relações da China com Estados mais fracos e não soberanos. Mas o resultado final, para um praticante de realpolitik tão bom como Karaganov, é que o "pivot para o Oriente" e a entente estratégica com a China favoreceram a Rússia no Grande Tabuleiro de Xadrez (a Eurásia).  

Karaganov entende totalmente o ADN russo como uma grande potência asiática - levando em consideração tudo, desde política autoritária até à riqueza de recursos naturais da Sibéria.

A Rússia, diz, está "próxima da China em termos de história comum, apesar da enorme distância cultural que os separa". Até ao século XV, ambos estiveram sob o império de Genghis Khan, o maior da história. Se a China assimilou os mongóis, a Rússia acabou por expulsá-los, mas em dois séculos e meio de submissão incorporou muitos traços asiáticos".

Karaganov considera Kissinger e Brzezinski "estrategos lúcidos" e lamenta que, mesmo sugerindo o contrário, "a classe política americana" tenha inaugurado uma "nova Guerra Fria" contra a China. Nesse sentido, observa o objectivo de Washington como o de quem trava uma "última batalha" lucrando com as bases avançadas que os Estados Unidos ainda dominam no que Wallerstein definiria como o colapso do sistema

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China e EUA "à beira de uma nova Guerra Fria" -- Governo chinês

 
 
Pequim, 24 mai 2020 (Lusa) - O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, alertou hoje que as posições de "certas forças políticas norte-americanas", sobre a origem do novo coronavírus, está a colocar os dois países "à beira de uma nova Guerra Fria".

"Certas forças políticas norte-americanas estão a tornar reféns as relações entre a China e os Estados Unidos e conduzir os nossos dois países à beira de uma nova Guerra Fria", disse Wang Yi, citado pela agência France-Presse (AFP).

o chefe da diplomacia chinesa, que falava hoje aos jornalistas à margem da sessão plenária da Assembleia Popular Nacional iniciada na sexta-feira, reagia as declarações proferidas, nas últimas semanas, por Donald Trump.

Nas últimas semanas, o Presidente dos Estados Unidos, tem acusado as autoridades chinesas de atrasarem a comunicação de dados cruciais sobre a gravidade do novo coronavírus, que poderiam ter travado a propagação da doença.

"Além da devastação causada pelo novo coronavírus, um vírus político está a espalhar-se pelos Estados Unidos. Esse vírus político aproveita todas as oportunidades para atacar e difamar a China", disse Wang.
A tensão entre Pequim e Washington tem aumentado nos últimos dois anos, com a guerra comercial iniciada pelo Governo Trump com as sobretaxas alfandegárias.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 339 mil mortos e infetou mais de 5,2 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Mais de dois milhões de doentes foram considerados curados.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano passou a ser o que tem mais casos confirmados (mais de 2,3 milhões, contra dois milhões no continente europeu), embora com menos mortes (mais de 140 mil, contra mais de 173 mil).

Os Estados Unidos são o país com mais mortos (97.087) e mais casos de infeção confirmados (mais de 1,6 milhões).

ABC // JH
 
 

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A pandemia muda o equilíbrio geopolítico de oeste para leste

 
 
 
Não está claro como o mundo acabará por transitar da atual pandemia de Covid-19. Existem apreensões profundas e, ainda assim, sinais esperançosos de progresso em direção a um futuro melhor.
 
A Organização Mundial da Saúde alerta esta semana que a doença viral não pode ser erradicada e pode se tornar uma ameaça permanente à saúde humana da mesma forma que a doença pelo HIV apresenta.

De qualquer forma, as mortes globais por Covid-19 aumentarão além do nível atual de 300.000, causando assim mais estragos nas economias e sociedades nacionais.
 
A devastação económica da pandemia é de abrangência global, mas as economias ocidentais parecem particularmente mais atingidas. Os Estados Unidos e a Europa estão olhando sombriamente para quedas abismais nas suas economias, que estão sendo descritas como as piores desde a Grande Depressão nos anos 30. Há pouca dúvida de que a pandemia está provocando mudanças épicas no mundo.

 
Uma análise recente da Economist Intelligence Unit prevê que o equilíbrio geopolítico do poder económico girará decisivamente de oeste para leste após a pandemia.
 
A EIU comenta: "Atuará como um acelerador das tendências geopolíticas existentes, em particular a crescente rivalidade entre os EUA e a China e a mudança no equilíbrio económico de poder do Ocidente para o Oriente".

A escalada de acusações provocatórias do governo Trump contra a China, culpando-a pela pandemia, é infundada e imprudente. Mas essa difamação fala do antagonismo mais agudo expresso pelos EUA em relação à China, um antagonismo que vem fervendo há anos antes do surgimento da última crise. A pandemia de Covid-19 intensificou a hostilidade americana em relação a Pequim justamente porque a crise expôs a fragilidade do poder global dos EUA e a mudança subjacente que já estava em andamento, longe de uma ordem mundial dominada pelos EUA. Em suma, Washington está atacando uma terrível apreensão de seus próprios sentimentos de insegurança como o suposto "poder excepcional" do mundo.

Em um mundo confrontado por ameaças existenciais, a ênfase deve estar na cooperação multilateral e na parceria mútua. A história de um patógeno invisível movendo-se rápida e sem problemas pelas fronteiras, tornando inúteis os sistemas de segurança de triliões de dólares, demonstra o imperativo da cooperação global.

A chamada política "América First'' do Presidente Trump e, mais geralmente, o conceito unipolar americano que existe há décadas, está sendo exposto à falácia perigosa que é. O abandono de Trump da Organização Mundial da Saúde com base em alegações difamatórias relacionadas à China resume a redundância do modelo americano de energia global. As falhas abjetas dos EUA em conter a pandemia de Covid-19 decorrem não apenas de suas políticas externas maléficas, mas também da falência de sua economia capitalista e da monetização da infraestrutura de saúde pública em particular.

Como eloquentemente o epidemiologista evolucionista Rob Wallace colocou em entrevista recente : “Pandemias são espelhos. Eles dizem à sociedade seu status.”

Com um número de mortes extraordinariamente alto, os EUA (80.000) e a Grã-Bretanha (40.000) demonstram que seus sistemas socioeconómicos estão longe de ter um status saudável. O modelo anglo-americano de capitalismo é um fracasso. Partes da Europa saíram-se melhor ao lidar com a pandemia devido à social-democracia mais ampla, mas ainda assim a adesão ao capitalismo neoliberal fez muito para agravar os danos causados ​​pela doença na União Europeia, como atestam Itália e Espanha.

China e Eurásia, em geral, parecem ter demonstrado maior firmeza e resiliência na administração da pandemia. O número de mortos é muito menor em comparação com os países ocidentais, apesar da infecção generalizada do Covid-19. Parte desse sucesso é a intervenção estatal mais forte e os serviços públicos de saúde. Isso não quer dizer que China, Rússia e outros são modelos de progresso económico a serem imitados pelo resto do mundo. Mas uma coisa para seu imenso crédito é a defesa consistente do multilateralismo e da parceria mútua que os líderes desses países fizeram ao longo de muitos anos. Essa defesa contrasta fortemente com a mentalidade de guerra fria de soma zero dos EUA e de seus aliados europeus (minions), que busca demarcar o mundo em esferas de influência sob a hegemonia de Washington e o capital privado ocidental.

Há sinais claros de que a antiga ordem global dominada pelos EUA é na verdade uma desordem em que prevaleceram relações destrutivas, predatórias e guerras sem fim. Uma doença pandémica apenas expôs o distúrbio sociopático do capitalismo global dominado pelos EUA.

Como a ameaça de pandemias parece aumentar a cada década, de acordo com este estudo internacional de Rob Wallace e seus colegas, é hora de um novo arranjo global e visão de cooperação entre nações.

Parece inteiramente apropriado que essa pandemia atual esteja mudando o equilíbrio global do poder económico de oeste para leste de uma maneira que facilite a transição para um mundo mais viável. Uma transição pacífica e bem-sucedida está longe de ser uma conclusão precipitada. Mas é possível.

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TODOS OS IMPÉRIOS TÊM UM FIM

           
 
Os impérios são governados por homens, por seres imperfeitos, sujeitos a toda uma série de erros de avaliação, alguns dos quais acabam por ser fatais para o destino destas construções de poder.
 
O primeiro desses erros é a ausência ou a perda de uma referência moral, de uma forma de exercer o poder que não seja a força arbitrária, mas seja compreendida pelos sujeitos como próxima do que consideram «justo». Com efeito, a corrupção, o arbítrio, a legalidade espezinhada, tudo isso se verifica na perda do referencial moral. A partir desse ponto, os grupos (sejam eles etnias, tribos, ou classes) que se  mantinham à sombra do império, apenas procuram uma ocasião para desertar, inclusive para virar casaca e se aliarem com os inimigos mais coerentes desse mesmo império.  
 
A segunda causa é a ausência de freio nas despesas, quer sejam sumptuárias, quer sejam militares. Neste caso, a parte de capital destinada a ser directa ou indirectamente reinvestida na economia, a parte destinada a «reproduzir capital», irá diminuir. Esta diminuição é principalmente causada pelo Estado, pois os políticos no seu comando julgam que o seu poder e vontade podem tudo («hubris»). Na realidade, estão a subtrair força à economia real, através do agravamento de impostos, que vai afectar a capacidade das empresas e dos particulares a investir de modo produtivo. Por outro lado, vai descurar os investimentos produtivos que ele próprio - Estado - se deveria encarregar de fazer (como investimentos em infraestruturas, na educação, na investigação, etc.).
 
A terceira causa, tem a ver com a estagnação tecnológica, o convencionalismo, a ausência de inovação verdadeira, em todos os domínios. Esta situação ocorre, muitas vezes, ainda no auge de um poder imperial e vai mantendo-se até ao fim, quando os «escribas» tomaram conta do barca do poder. Hoje, eles são designados por «economistas» e por «académicos». Geralmente, são uma pseudo-elite, um grupo parasitário, que se auto-atribui a «sabedoria» e esmaga, com uma espécie de censura, toda a dissidência. São cultores da norma, inquisidores, guardiões da ortodoxia. Eles vão iterando o discurso defensor do poder, reproduzindo e declinando ad infinitum a ladainha de que «Não Existe Outra Alternativa».  
 
A quarta causa tem a ver com a passividade política do povo e o seu corolário. A cidadania divorcia-se do poder, este fica cada vez mais entregue a uma oligarquia. Esta, faz a política que tende a perpetuar-la a si própria, e o ciclo vicioso vai-se iterando em círculos sucessivos. A cidadania só irá acordar - em geral - apenas quando a derrocada estiver a dar-se, ou já ocorreu. Ela poderá ter, entretanto, uma atitude de divórcio em relação ao poder, porém mantém-se passiva, até as coisas se tornarem demasiado insuportáveis. Mesmo nesta situação extrema, não terá coragem de derrubar o poder instaurado, senão quando verificar que este já não tem a força com que a ameaçava. Quando a cidadania vir que o poder já é tão frágil, que não concita a fidelidade da polícia e das forças armadas. 
 
Claro que estes quatro aspectos estão interligados; é deveras impossível de descrevê-los em pormenor separadamente. 
Analisando os impérios passados, verifica-se que padeceram destas fraquezas fatais. Seria bom as pessoas conhecerem - com um certo pormenor - o que aconteceu com os diversos impérios. Temos documentação sobre vários impérios da Antiguidade, como Roma, Cartago, etc. Existe ainda mais abundância de documentação sobre os impérios ultramarinos e coloniais, erguidos e perdidos por portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses, principalmente. Há uma profusão de dados sobre o modo como o império soviético acabou por colapsar, há cerca de 30 anos, etc, etc.
 
O desejo de manter por longo tempo uma hegemonia mundial é vão. 
Os EUA e seus vassalos da NATO deveriam estar cientes disso. Não existe um mundo estável, se enormes partes do mesmo forem oprimidas e exploradas. Um futuro benéfico e estável para as nações que actualmente se designam pelo termo de «Ocidente» nunca poderá ser construído na guerra, ou na ameaça permanente da mesma. 
O que os seus dirigentes estão a fazer é insensato: é como se estivessem combatendo o fantasma do que chamam «comunismo», tanto em relação à Rússia, como à China. Eles sabem bem que nem um nem outro responde a essa definição. São grandes potências que querem ter o seu papel reconhecido nos assuntos internacionais. Além destes, existem outros grandes países, como a Índia ou o Brasil, que também desejam ter um papel no mundo multipolar de amanhã. 
O mundo unipolar, sob hegemonia da potência triunfante da (primeira) Guerra Fria, em 1991, não poderá durar, nem é desejável que dure. 
A questão de um futuro para a Humanidade passa por os poderosos reconhecerem que é necessário um novo «Ialta» e um novo «Bretton Woods». Claro, com actores e meios diversos dos destas duas conferências, mas com alguns pontos de analogia: serão conferências onde as  principais potências geoestratégicas e económicas do Planeta se ponham de acordo em criar as condições de uma estabilidade mundial verdadeira.  
    

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Venezuela | Guaidó fantoche dos EUA? E Santos Silva?

 
"Perguntar não ofende", é dito popular. O que não significa que linearmente assim seja. Porque há os que se ofendem. Já o mesmo não se pode dizer quando existem evidências. 

Alguém que rouba e é apanhado em flagrante como poderá ofender-se por dizer-se a verdade, o facto de ter sido apanhado a roubar? Alguém que mente e que a mentira é comprovada, como pode ofender-se por lhe chamarem mentiroso? 

Alguém que apoia politicamente oportunistas, golpistas, adeptos de narcotraficantes, de terrorismo, de golpes de estado, de invasão sorrateira e cobarde de um estado de direito, em conluio com forças que pretendem espoliar - em que o termo mais correto será roubar país e povo - o que se lhe pode chamar? Guaidó? Santos Silva?

Afinal, perante a realidade do que acontece na Venezuela e perante o apoio que o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Santos Silva, tem vindo a dar a Juan Guaidó - um fracassado golpista, um fantoche dos EUA - podemos concluir que os vastos salpicos de lama da realidade que estão a ser transportados para Portugal por Santos Silva atingem também o governo de António Costa. E ele, primeiro-ministro, não põe cobro a isso?

Por isso mesmo já também apelidam Santos Silva de fantoche dos EUA. Será? Não será? Perguntar ofende? Não ofende?

E qual é a realidade que está à vista de todos que atentamente acompanham a constante e criminosa desestabilização da Venezuela? Em que não só os EUA têm responsabilidades acrescidas mas também o RU e a União Europeia. 

E Portugal onde cabe neste jogo tão sujo? E onde cabe o MNE português? Será que diplomacia obriga?

Pois.

PG

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FLEXIBILIDADE

 
 
Dinis Chan | Plataforma | opinião
 
A propagação do novo coronavírus tem acelerado o processo de reordenação de toda a dinâmica mundial. Tal como durante a Guerra Fria, nós que estamos num ponto de confluência entre a China e o Ocidente estamos na linha da frente desta nova era.
 
Nos últimos anos, a "diplomacia de divisão" tem-se tornado cada vez mais popular, especialmente em países do Sudeste Asiático que têm de lidar com a pressão do crescimento dos EUA e da China. Ou seja, estes pequenos países recusam-se a tomar partido, adotando uma diplomacia um pouco contraditória que, no entanto, os mantém numa posição ambígua que possibilita retirarem-se a qualquer momento.
 
No passado, devido ao atraso em desenvolvimento económico, vários países no sudeste asiático ficaram reduzidos a colónias do ocidente. No entanto, entre estes existe uma exceção, a Tailândia. O Reino Unido e a França lutaram por este território, porém acabou por ser o único país na região a não ser ocupado por forças estrangeiras.
 
Depois da nova epidemia a Tailândia não fechou as fronteiras, tornando-se num centro de trânsito global, já que vive em grande parte do turismo e o descanso e lazer são a fonte de subsistência.
 
Embora Macau seja uma cidade pequena, há muito que mantém um contacto próximo com o sudeste asiático devido à história e localização geográfica. E ao longo dos últimos anos a cidade tem também aprendido muito a nível político com esta região. Numa era em que o mundo está em constante mudança, temos de nos manter firmes, e, talvez, imitar a atitude tailandesa, o seu otimismo, estabilidade emocional e flexibilidade, para garantir que Macau continua com o seu dia-a-dia normal.

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GEOPOLÍTICA DA NOVA INFLUÊNCIA GLOBAL CHINESA

 
 
Diante do declínio de Washington, incapaz de liderar resposta à pandemia, Pequim avança. Apoio material e influência diplomática vão muito além dos países pobres: chegam à Itália, à Espanha e até às populações empobrecidas nos EUA…
 
 
Já se sabe que o impacto da pandemia sobre a economia e a política no mundo está sendo dramático. Porém, como é uma doença desconhecida, para a qual ainda não existe vacina, não se pode estimar ainda a sua profundidade e extensão. Após as polêmicas iniciais, e as tentativas do governo dos EUA e da imprensa ocidental, de jogar no colo da China a responsabilidade sobre a origem do coronavírus, este país iniciou um ambicioso e agressivo programa de combate à pandemia.
 
A China conseguiu de forma muito rápida realizar a identificação da sequência do genoma do vírus. O país logrou, em janeiro, colocar em quarentena uma população de 56 milhões de habitantes em Wuhan e três cidades próximas. Com certeza essa é a primeira vez que isso acontece em toda a história. Além do empenho estatal, a campanha mobilizou milhões de cidadãos, na chamada “guerra popular” contra o coronavírus.
 
O plano do governo chinês foi complexo, desenvolvido de forma extremamente ágil, além de ter envolvido diversas instâncias de governo. Em todas as fases da campanha o sacrifício da economia e da produção industrial foi inevitável. Mas, em decorrência da complexa e impressionante operação, a partir de 7 de março não foram registrados novos casos oriundos do país (até o momento). Surgem ainda novos infectados, mas vindos de fora, estrangeiros ou chineses advindos do exterior. No final de março, praticamente a doença tinha sido controlada.
 
 
O que explica o sucesso da China no controle da doença em lapso tão breve de tempo? Ainda mais: com prejuízos humanos reduzidos, se comparados ao número de vítimas nos EUA, Itália e Espanha? Esse debate deverá ainda ser aprofundado, mesmo por que não há uma resposta única para a questão. Problemas complexos (muitas vezes, também os simples) têm várias respostas. Mas um aspecto que se destaca é a capacidade de o Estado chinês colocar seus recursos e sua força organizadora na resposta à pandemia. Independente das contradições que se possa apontar na sociedade chinesa, ou mesmo da caracterização que se faça do regime econômico do país, ficou evidente sua superioridade no enfrentamento da doença em relação às economias do capitalismo central, em geral. A estruturação do atendimento aos pacientes, realizado de forma extremamente ágil, a organização da população, a adaptação da produção industrial às novas necessidades, a construção de hospitais em tempo recorde, a disponibilização de um grande número de testes – ações em grande parte levadas à cabo pelo Estado – levaram a um rápido e impressionante controle da doença.
 
No que se refere à saúde pública, a China acendeu um sinal vermelho com a epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2003, que matou 774 pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A experiência, ao contrário do que ocorreu em outros países, parece ter servido de lição para o governo chinês. O país mudou a política governamental, ampliando os investimentos em saúde, facilitando o acesso da população aos serviços e melhorando as políticas de prevenção.
 
O sucesso da China no enfrentamento do Covid-19 tem melhorado expressivamente a projeção internacional do país, apesar de toda a campanha da imprensa ocidental, no sentido de culpá-la pelo surto. Pequim tem enviado os mais diversos tipos de materiais para o mundo todo, como máscaras, kits para testes, respiradores, ventiladores, medicamentos em geral. Os demandantes geralmente são países pobres como Sérvia, Libéria, Filipinas, Paquistão, República Checa, Egito, Iraque, Malásia, Camboja e Sri Lanka. Mas a China já enviou material para a Espanha, Itália e EUA. A França, no processo de contenção do vírus, encomendou quase dois bilhões de máscaras faciais à China. O país enviou, inclusive, doações aos EUA de equipamentos para o enfrentamento da doença, como kits de testes, máscaras e outros. Os chineses estão enviando material de combate ao coronavírus também para a África. Dessa forma, em meio a essa monstruosa crise global, a China move-se para redefinir seu lugar no mundo, com uma postura civilizada com os países que precisam de ajuda, colocando inclusive sua poderosa indústria a serviço do combate à pandemia.
 
Ao mesmo tempo, as notícias que circulam sobre os EUA, são de prática de pirataria, de que o país está fazendo ofertas mais altas aos países vendedores de produtos hospitalares, especialmente a China. Ou seja, está usando seus recursos e seu poder bélico para “atravessar” negócios que já tinham sido contratados por outros países. Donald Trump, adicionalmente, baseado em uma lei da época da Guerra da Coréia, nos anos 1950, que obriga as empresas a redirecionarem sua produção para o mercado interno em função do interesse do pais, proibiu a empresa norte-americana 3M, de exportar seus produtos médicos, fabricados em boa parte em território chinês.
 
O Brasil foi um dos países prejudicados por essa postura imperial do governo norte-americano. Em 2 de abril, uma carga de 600 respiradores artificiais encomendada de uma empresa chinesa por estados do nordeste brasileiro não pode sair do aeroporto de Miami, onde fazia escala, em direção ao Brasil. Segundo informou o governo da Bahia, a operação foi cancelada pelo vendedor e tudo indica que a razão do acontecido foi uma maior oferta dos EUA para os produtos contratados. Essa prática também foi denunciada por outros países, inclusive do bloco imperialista, como Alemanha e França.
 
Washington está se aproveitando também do momento de crise econômica e sanitária para intensificar as pressões golpistas contra a Venezuela, utilizando o surrado pretexto de “combate às drogas”. Os inúmeros conflitos espalhados pelo mundo, neste momento entram em fase de cessar fogo, visando concentrar todas as energias possíveis no inimigo principal, que é o novo coronavírus. No entanto, em 2 de abril Trump anunciou operações “antidrogas” no mar do Caribe, próximo à costa da Venezuela, deslocando barcos de combate, helicópteros e aviões de vigilância. Já foi denunciado pelo governo venezuelano que a movimentação visa realizar um duro bloqueio naval ao país vizinho, para impedir o abastecimento normal de combustíveis, alimentos e remédios.
 
Fica evidente que o que está por detrás desses movimentos é, primeiro, a tentativa de esconder o caos causado pelo Covid-19 nos EUA. O país rapidamente tornou-se o epicentro mundial da pandemia (até quarta-feira, 8/4, já tinham sido contabilizados mais de 400 mil casos, com 12.936 mortos). Em segundo lugar, a ação hostil dos EUA se explicaria também pela tentativa de melhorar a performance de Trump na corrida para as eleições norte-americanas previstas para outubro próximo.
 
Obviamente, o boqueio naval de insumos industriais e outros viola gravemente direitos humanos da população venezuelana e representa crime de lesa-humanidade. Quem acompanha, mesmo de longe, a conjuntura internacional, sabe que o interesse dos EUA na suposta falta de democracia na Venezuela, ou mesmo no “combate às drogas”, não passa de disfarce para os reais interesses econômicos e geopolíticos naquele país. A Venezuela, como se sabe, detém a maior reserva de petróleo do mundo (quase 300 bilhões de barris), além de outros minerais fundamentais para a produção industrial. Além do interesse geopolítico, na medida em que fica em região estratégica para os EUA, do ponto de vista militar.
 
A ação dos EUA viola todas as regras internacionais de relações diplomáticas e é uma clara ameaça à segurança e soberania de um país latino-americano. Mas alguém que conheça, mesmo que de modo superficial a forma como os EUA se relacionam historicamente com os países da América Latina (e países subdesenvolvidos do mundo, em geral) poderia se surpreender com a atitude do império do Norte?
 
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Manobras estratégicas por trás da crise do Coronavírus

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Manlio Dinucci
 
 
À medida que a crise do Coronavírus paralisa sociedades inteiras, forças poderosas movem-se para tirar a máxima vantagem da situação.
· No dia seguinte - enquanto o exercício USA “Defensor da Europa 2020” prosseguia, com menos soldados, mas com mais bombardeiros nucleares - iniciou na Escócia, o exercício aeronaval NATO Joint Warrior com forças USA, britânicas, alemãs e outras, que durará até 10 de Abril, também com operações terrestres.
Entretanto, os países europeus da NATO são advertidos por Washington de que, apesar das perdas económicas provocadas pelo Coronavírus, devem continuar a aumentar os seus orçamentos militares para “manter a capacidade de se defender”, obviamente, da “agressão russa”.
Na conferência de Munique, em 15 de Fevereiro, o Secretário de Estado, Mike Pompeo, anunciou que os Estados Unidos solicitaram aos aliados para reservar outros 400 biliões de dólares para aumentar as despesas militares da NATO, que já ultrapassam bem mais de 1 trilião de dólares, anualmente.
A Itália deve, portanto, aumentar as suas despesas militares, que já subiram para mais de 26 biliões de euros por ano, ou mais do que o que o Parlamento autorizou destinar, precisamente, para a emergência Coronavírus (25 biliões). Assim, a NATO ganha terreno numa Europa largamente paralisada pelo vírus, onde os USA, hoje mais do que nunca, podem fazer o que querem.
Na conferência de Munique, Mike Pompeo, atacou violentamente não só a Rússia, mas também a China, acusando-a de usar a Huawei e outras empresas como “cavalo de Tróia dos serviços secretos”, ou seja, como ferramentas de espionagem. Deste modo, os Estados Unidos aumentam a sua pressão sobre os países europeus para que também quebrem os acordos económicos com a Rússia e com a China e fortaleçam as sanções contra a Rússia.
 
O que é que a Itália deveria fazer, se tivesse um governo que quisesse defender os nossos verdadeiros interesses nacionais?
Ø Antes de tudo, deveria recusar-se a aumentar a nossa despesa militar, avolumada artificialmente com a fake news da “agressão russa”, e submetê-la a uma revisão radical para reduzir o desperdício de dinheiro público em sistemas de armas como o caça americano F-35.
Ø Deveria suspender imediatamente as sanções contra a Rússia, desenvolvendo o intercâmbio ao máximo.
Ø Deveria aderir ao pedido - apresentado em 26 de Março à ONU, pela China, Rússia, Irão, Síria, Venezuela, Nicarágua, Cuba e Coreia do Norte - que as Nações Unidas pressionem Washington para abolir todas as sanções, particularmente prejudiciais no momento em que os países que sofrem com elas, estão afectados pelo coronavírus.
 
Da abolição das sanções ao Irão também resultariam vantagens económicas para a Itália, cuja troca com este país foi praticamente bloqueada pelas sanções USA. Estas e outras medidas dariam oxigénio, sobretudo, às pequenas e médias empresas sufocadas pelo encerramento forçado, disponibilizariam fundos para a emergência, especialmente, a favor das camadas mais desfavorecidas, sem, por isso, se endividarem.
O maior risco é sair da crise com o nó corrediço no pescoço de uma dívida externa, que poderia reduzir a Itália às condições da Grécia.
Mais poderosas do que as forças militares, aquelas que mantêm as alavancas das tomadas de decisão, mesmo no complexo industrial-militar, são as forças da grande finança internacional, que estão a usar a crise do Coronavírus para uma ofensiva global, com as armas de especulação mais sofisticadas. São elas que podem arruinar milhões de pequenos poupadores e que podem usar a dívida para se apoderarem de sectores económicos inteiros.
Decisivo nesta situação, é o exercício da soberania nacional, não a da retórica política, mas a que está consagrada na nossa Constituição, a verdadeira soberania que pertence ao povo.
 
Manlio Dinucci
il manifesto, 31 de Março de 2020
 
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COMMUNIQUÉ ON THE CONFERENCE OF 25 APRIL
 
 
 
 
 
 
 
 
DECLARAÇÃO DE FLORENÇA
Para uma frente internacional NATO EXIT, 
em todos os países europeus da NATO
 
 
Manlio DinucciGeógrafo e geopolitólogo. Livros mais recentes: Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016, Guerra Nucleare. Il Giorno Prima 2017; Diario di guerra Asterios Editores 2018; Premio internazionale per l'analisi geostrategica assegnato il 7 giugno 2019 dal Club dei giornalisti del Messico, A.C.
 
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos 
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com
 
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A politica externa de Trump


https://www.moonofalabama.org

É um momento de crise e a política externa dos EUA está se tornando caótica

O governo Trump está reagindo ao setresse pandémico atacando os inimigos internos e externos conhecidos. O secretário de Estado Mike Pompeo está liderando o ataque externo.
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu um “cessar-fogo global imediato” para se concentrar no combate ao Covid-19. Ele apelou pela “renúncia a sanções que possam prejudicar a capacidade dos países de responder à pandemia”.
Mas Washington não está ouvindo.
 
Os pedidos da Venezuela e do Irã para empréstimos de emergência do FMI para comprar suprimentos médicos foram bloqueados pelas intervenções dos EUA.
Há apenas um mês, Pompeo anunciou um aumento de sanções contra o Irã. As sanções bloqueiam transferências de dinheiro. Eles tornam impossível para o Irã importar os equipamentos médicos necessários urgentemente para combater a epidemia.
Enquanto os EUA renovaram a renúncia de sanção que permite ao Iraque importar eletricidade e gás do Irã, a renúncia agora está limitada a apenas 30 dias . Um terço da eletricidade do Iraque depende dessas importações do Irã e, se a renúncia não for renovada, seus hospitais escurecerão exatamente quando a epidemia atingir seu auge.
Partes do governo Trump estão até pressionando por uma guerra mais ampla contra as supostas forças substitutas iranianas no Iraque:

O Pentágono ordenou que os comandantes militares planejassem uma escalada dos combates americanos no Iraque, emitindo uma diretiva na semana passada para preparar uma campanha para destruir um grupo de milícias apoiado pelo Irã que ameaçou mais ataques contra tropas americanas.Mas o principal comandante dos Estados Unidos no Iraque alertou que essa campanha pode ser sangrenta e contraproducente e corre o risco de guerra com o Irã.

Algumas autoridades, incluindo o secretário de Estado Mike Pompeo e Robert C. O’Brien, conselheiro de segurança nacional, vêm pressionando por novas ações agressivas contra o Irã e suas forças substitutas – e veem uma oportunidade de tentar destruir o Irã. grupos de milícias apoiados no Iraque como líderes no Irã estão distraídos com a crise de pandemia em seu país.
Líderes militares, incluindo o secretário de Defesa Mark T. Esper e o general Mark A. Milley, presidente do Estado Maior Conjunto, têm receio de uma forte escalada militar, alertando que pode desestabilizar ainda mais o Oriente Médio em um momento em que o presidente Trump disse que espera reduzir o número de tropas americanas na região.

O plano é lunático. Não se pode “destruir” o Hezbollah Kataib e outros grupos xiitas iraquianos que o Irã ajudou a construir durante a guerra contra o ISIS. Esses grupos fazem parte de partidos políticos com raízes profundas na sociedade iraquiana.
França, Itália e República Tcheca começaram a se retirar do Iraque. A Dinamarca também está saindo e o Reino Unido está removendo 50% de sua força. Existem menos de 5.000 soldados americanos no Iraque e uma guerra contra o Hezbollah Kataib pode mobilizar centenas de milhares de iraquianos para lutar contra a ocupação americana. Essa guerra também envolveria o Irã e os EUA certamente a perderiam.
Atualmente, os EUA têm dois grupos de porta-aviões no mar árabe para ameaçar o Irã. Mas esses navios não têm utilidade no momento. Eles são “navios de cruzeiro com armas”. Placas de Petri de cinco bilhões de dólares movidas a energia nuclear para novos surtos de coronavírus. Dois grupos de transportadoras dos EUA no Pacífico já estão fora de ação porque têm surtos maiores a bordo. É apenas uma questão de tempo até que as outras transportadoras o sigam.
Não são apenas o Iraque e o Irã que os EUA visam. O Departamento de Estado dos EUA cortou suas contribuições para os cuidados de saúde no Iêmen justamente no momento de maior necessidade:

Autoridades da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional disseram que a decisão de suspender o financiamento, relatado anteriormente pelo The Washington Post, incluía exceções para “atividades essenciais que salvam vidas, incluindo tratamento de desnutrição, bem como programas de água, saneamento e higiene, destinados a manter as pessoas saudáveis. e evitar doenças. “Mas autoridades humanitárias disseram que as exceções da agência não prevêem o financiamento contínuo de programas básicos de assistência médica, que dependem fortemente de ajuda externa, e não parecem levar em conta o que pode ocorrer quando o coronavírus começar a se espalhar.

Não satisfeito por apenas atrapalhar o Oriente Médio, o Departamento de Estado também renovou seu ataque à VenezuelaNa quinta-feira, o Departamento de Justiça anunciou acusações de ‘Narcoterrorismo, corrupção, tráfico de drogas e outros crimes’ contra o presidente Nicolas Maduro e 14 ex-funcionários atuais ou atuais. Ele ofereceu uma recompensa de US $ 15 milhões pela prisão de Maduro.
Alega que Maduro trabalhou com cartéis colombianos para contrabandear cocaína pela Venezuela.
Mas aqui está um mapa das rotas de contrabando do aliado americano Columbia, onde a maior parte da cocaína é produzida. Foi mostrado durante uma audiência no Congresso. Tudo o que é contrabandeado através da Venezuela é uma pequena parcela em comparação com o enorme fluxo que atravessa o Pacífico.

Quem escreveu e assinou a acusação também cometeu um grande erro. As acusações incluíam Clíver Antonio Alcalá Cordones, ex-general nas forças armadas venezuelanas, e colocaram uma recompensa de US $ 10 milhões em sua cabeça.
Alcalá Cordones não é amigo de Maduro. Aposentou-se em 2013, quando Maduro foi eleito após a morte de Hugo Chávez. Alcalá Cordones fugiu para a Colômbia, de onde apoiou o palhaço escolhido nos Estados Unidos Juan Guaidó como autoproclamado presidente da Venezuela.
 
Após a acusação do Departamento de Justiça contra ele, ele revelou que estava envolvido em planos de golpe em apoio a Juan Guaidó:
Alcalá está envolvido em uma conspiração recente para atacar o governo Maduro. Em 24 de março, as autoridades colombianas apreenderam um caminhão cheio de armas e equipamentos militares, incluindo 26 rifles de assalto , no valor de US $ 500.000. Os serviços de inteligência venezuelanos ligaram as armas a três campos na Colômbia, onde grupos paramilitares de desertores venezuelanos e mercenários americanos estão treinando para realizar ataques contra a Venezuela. Segundo o ministro da Comunicação da Venezuela, Jorge Rodríguez, esses grupos planejavam aproveitar a pandemia do COVID-19 para atacar unidades militares e plantar bombas. Ele também vinculou os grupos a Alcalá.
Essas alegações mostraram-se corretas, pois Alcalá, em um vídeo que ele postou on-line horas após as acusações, admitiu que as armas estavam sob seu comando. Ele admitiu ainda que as armas foram compradas com os fundos dados a ele por Juan Guaidó , com quem ele teria assinado um contrato. Além disso, Alcala afirmou que a operação foi planejada por consultores americanos, com quem ele supostamente se encontrou pelo menos sete vezes . Aclalá também alegou que Leopoldo López, o fundador do partido de Guaidó, Voluntad Popular, nascido de prisão domiciliar durante a tentativa de insurreição de Guaidó em 30 de abril , tinha pleno conhecimento da trama de terror.
Como resultado desses vídeos, o procurador-geral da Venezuela abriu uma investigação sobre Juan Guaidó por uma tentativa de golpe .
Os EUA estragaram tudo acusando o único homem que estava disposto a ajudar o palhaço escolhido e não o informando antes da acusaçãoAquele homem então surtou e apitou. Isso está ameaçando agora todo o plano de oposição que os EUA inventaram com Guaidó e os homens por trás dele.
Na sexta-feira, Alcalá Cordones decidiu que não era seguro ele ficar na Colômbia. Ele ‘ ligou ‘ para a Administração de Repressão às Drogas dos EUA e desistiu. Ele foi extraditado para Nova York e agora se tornará uma “testemunha” contra Maduro, a quem ele se opôs publicamente em primeiro lugar. 
Esse caos foi certamente criado por Elliott Abrams , o Representante Especial neoconservador dos EUA para a Venezuela . Abrams tem talento para estragar tudo.
A política externa dos EUA durante a crise tem sido péssima. Os EUA enfureceram a China, o maior produtor de máscaras e drogas urgentemente necessárias, chamando o vírus de “vírus Wuhan” ou “vírus chinês”, uma prática que só foi interrompida após um telefonema entre Trump e Xi Jinping. Enfureceu a Alemanha ao tentar comprar direitos exclusivos para uma potencial vacina que está sendo desenvolvida lá. Os pedidos de apoio de vários aliados europeus foram deixados sem resposta, enquanto China e Rússia se mobilizaram para ajudar mais de 80 países. Enquanto isso, Pompeo castigou a Itália por aceitar medicamentos e médicos cubanos.
Haverá um grande custo a pagar por isso quando a pandemia terminar. Os EUA se expuseram como aliados não confiáveis, como idiotas da guerra que não se esquecem de prejudicar seus melhores interesses e são incapazes de ajudar seus próprios cidadãos.
A China, por outro lado, derrotou a epidemia em casa e agora ajuda a derrotá-la onde quer que possa. Este será o seu século. 

Postado por b em 28 de março de 2020 às 15:13 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/3bABAX3

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/29/a-politica-externa-de-trump/

A CHINA PREPARA-SE PARA SER LÍDER GLOBAL

 
 
Um porta-voz do ministério das Relações Exteriores acusa Washington de introduzir o coronavírus no país. Xi Jinping ataca o “diabo branco”. Pequim contém a pandemia e assiste agora ao incêndio dos mercados financeiros do Ocidente
 
Pepe Escobar, no Asia Times | Outras Palavras | Tradução: Piero Leiner
 
Dentre os inumeráveis efeitos geopolíticos tectónicos do coronavírus, que são impressionantes, um já é claramente evidente. A China reposicionou-se. Pela primeira vez desde o início das reformas de Deng Xiaoping em 1978, Pequim considera abertamente os EUA como ameaça, declarou há um mês o ministro de Relações Exteriores Wang Yi na Conferência de Segurança de Munique, no pico da luta contra o coronavírus.
 
Pequim está modelando passo a passo, com todo o cuidado, a narrativa segundo a qual, desde os primeiros casos de doentes infectados pelo coronavírus, a liderança já sabia que estava sob ataque de guerra híbrida. A terminologia de que se serviu o presidente chinês é eloquente. Xi disse abertamente que se tratava de guerra. E que foi necessário iniciar uma “guerra do povo”, como contra-ataque. E descreveu o vírus como “um diabo”.
 
Xi é, por formação, confuciano. E, diferente de outros pensadores chineses antigos, Confúcio não admitia discussões sobre forças sobrenaturais e julgamentos depois da morte. Contudo, no contexto cultural chinês, “diabo” designa os “diabos brancos” ou “diabos estrangeiros”: guailo em mandarim, gweilo em cantonês. Xi, aí, fez forte denúncia, em código.
 
Quando Zhao Lijian, porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China, expressou num twitter incandescente que “é possível que “o Exército dos EUA tenha trazido a epidemia a Wuhan” – primeiro tiro nessa direção, vindo de alto funcionário – Pequim lançava um balão de ensaio, sinalizando que a luva havia sido jogada. Zhao Lijian fez a conexão direta com os Jogos Militares em Wuhan em outubro de 2019, que incluíram uma delegação de 300 militares dos EUA.
 
 
Lijian citou diretamente o diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (ing. CDC) dos EUA, Robert Redfield, o qual, quando perguntado na semana passada se foram descobertas postumamente mortes por coronavírus nos EUA, respondeu que “alguns casos foram realmente diagnosticados desse modo, hoje, nos EUA”.
 
A explosiva conclusão de Zhao é que o Covid-19 já estava ativo nos EUA, antes de ser identificado em Wuhan – devido à incapacidade dos EUA, hoje já completamente documentada, para testar e verificar as diferenças que houvesse, na comparação com a gripe.
 
 
Acrescentando tudo isso ao facto de que os genomas dos coronavírus recolhidos no Irão e na Itália já foram sequenciados, e já se sabe que não são a mesma cepa de vírus que infectou Wuhan, a mídia chinesa já fez e já pergunta abertamente por uma conexão com o fecho em agosto do ano passado, de um laboratório militar de armas biológicas declarado “inseguro” em Fort Detrick, com os Jogos Militares e com a epidemia de Wuhan. Algumas dessas perguntas tem sido feitas – e continuam sem resposta – dentro dos próprios EUA.
 
Perguntas extras permanecem, sobre o nada transparente Event 201 em Nova York, dia 18 de outubro de 2019: um ensaio-simulação para uma pandemia mundial causada por vírus mortal – precisamente o coronavírus. Essa magnífica coincidência aconteceu um mês antes do surto em Wuhan.
 
O Evento 201 foi patrocinado pela Fundação Bill & Melinda Gates, Fórum Económico Mundial (WEF), CIA, Bloomberg, Fundação John Hopkins e ONU. Os Jogos Militares Mundiais começaram em Wuhan, no mesmo dia.
 
Independentemente de sua origem, que ainda não está conclusivamente estabelecida, tanto quanto os twitters de Trump sobre o “vírus chinês”, o Covid-19 já impõe questões imensamente sérias sobre biopolítica (onde está Foucault quando se precisa dele?) e bioterrorismo.
 
A hipótese de trabalho de o coronavírus ser arma biológica muito poderosa, mas não provocadora do Armagedão, revela essa arma como veículo perfeito para controle social generalizado – em escala global.
 
Cuba ascende como potência biotecnológica
 
Xi com o rosto coberto por uma máscara cirúrgica, em visita à linha de frente de Wuhan  na semana passada, foi demonstração gráfica para todo o planeta de que a China, com imenso sacrifício, está vencendo a “guerra do povo” contra o Covid-19. Assim também, o movimento dos russos, de Sun Tzu, contra Riad, cujo resultado final foi o barril de petróleo muito mais barato, ajudou, para todos os fins práticos, a iniciar a inevitável recuperação da economia chinesa. Eis como opera uma boa parceria estratégica.
 
O tabuleiro de xadrez muda a uma velocidade vertiginosa. Depois que Pequim identificou o coronavírus como ataque por armas biológicas, a “guerra do povo” disparou, com toda a potência do estado. Metodicamente. Em base de “tudo que for necessário”. Agora estamos entrando em nova etapa, que será usada por Pequim para recalibrar substancialmente a interação com o Ocidente, e sob padrões muito diferentes no que tenham a ver com EUA e União Europeia.
 
O poder brando (soft power) é essencial. Pequim mandou para a Itália um avião da Air China com 2.300 grandes caixas de máscaras cirúrgicas. Nas caixas lia-se: “Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim”. A China também enviou um grande pacote humanitário ao Irão, a bordo de oito aviões da Mahan Air – companhia aérea que está sob sanções ilegais e unilaterais do governo Trump.
 
O presidente sérvio Aleksandar Vucic não poderia ter sido mais explícito: “O único país que pode nos ajudar é a China. Até agora, todos vocês entenderam que a solidariedade europeia não existe. Nunca passou de conto de fadas no papel.”
 
Sob duras sanções e demonizada desde sempre, Cuba ainda é capaz de realizar avanços gigantes – até em biotecnologia. O antiviral Heberon– ou Interferon Alfa 2b – medicamento, não vacina, tem sido utilizado com grande sucesso no tratamento de pacientes contaminados por coronavírus. Uma joint venture na China está produzindo versão inalável do medicamento e pelo menos 15 nações já estão interessadas em importá-lo.
 
Agora comparem tudo isso, e o governo Trump, que oferece US$1 bilhão para subornar cientistas alemães que trabalham na empresa de biotecnologia Curevac, com sede na Turíngia, numa vacina experimental contra o Covid-19, contando com ‘reservar’ a vacina para ser usada “apenas nos Estados Unidos”.
 
Operação psicológica (psy-op) para engenharia social?
 
Sandro Mezzadra, coautor, com Brett Neilson, do seminal The Politics of Operations: Excavating Contemporary Capitalism , já está tentando determinar conceitualmente em que ponto estamos atualmente em termos de combate ao Covid-19.
 
Estamos diante de uma escolha entre uma vertente malthusiana – inspirada no darwinismo social – “liderada pelo eixo Johnson-Trump-Bolsonaro” e, por outro lado, uma vertente que aponta para a “requalificação da saúde pública como ferramenta fundamental”, exemplificada pelo que fazem China, Coreia do Sul e Itália. Há lições importantes a serem aprendidas por Coreia do Sul, Taiwan e Singapura.
 
A opção forte, observa Mezzadra, é entre admitir uma “seleção natural da população”, com milhares de mortos, e “defender a sociedade”, empregando “graus variáveis de autoritarismo e controle social”. Fácil imaginar quem pode beneficiar dessa reengenharia social, remix, para o século 21, de “A Máscara Rubra da Morte”, de Allan Poe, de 1842 (Consortium News) (1).
 
No meio de tanta desgraça e tristeza, conte com a Itália para nos oferecer tons de luz, à Tiepolo. A Itália escolheu a opção Wuhan, com consequências imensamente graves para sua economia já frágil. Os italianos em quarentena reagiram notavelmente cantando das varandas: um verdadeiro ato de revolta metafísica.
 
Sem mencionar a justiça poética de a verdadeira Santa Corona (“coroa” em latim) estar enterrada na cidade de Anzu desde o século 9º. Santa Corona foi morta no governo de Marcus Aurelius em 165 dC, e já há séculos é um dos santos padroeiros das vítimas de pandemias.
 
Nem mesmo triliões de dólares chovendo do céu por um ato de misericórdia divina do Fed foram capazes de curar doentes do Covid-19. Os “líderes” do G-7 tiveram que recorrer a uma videoconferência para perceber o quanto não têm noção de o que fazer – mesmo quando a luta da China contra o coronavírus garantiu ao Ocidente uma vantagem inicial de várias semanas.
 
O Dr. Zhang Wenhong, que trabalha em Xangai, um dos principais especialistas da China em doenças infecciosas, cujas análises foram até aqui certeiras, diz que a China emergiu dos dias mais sombrios da “guerra do povo” contra o Covid-19. Mas o Dr. Wenhong não acha que a coisa acabe no verão. Agora, a mesma ideia, para o mundo ocidental.
 
Ainda nem é primavera, e já sabemos que basta um vírus para destruir sem piedade a Deusa do Mercado. Na 6ª-feira passada a Goldman Sachs disse a nada menos que 1.500 empresas que não havia risco sistémico. Falso.
 
Fontes bancárias de Nova York contaram-me a verdade: o risco sistémico tornou-se muito mais grave em 2020, que em 1979, 1987 ou 2008, devido ao risco mais alto de colapso do mercado de derivativos, de US$ 1,5 trilhão.
 
Como dizem as fontes, a história jamais viu coisa semelhante à intervenção do Fed via a eliminação, ainda pouco compreendida, das exigências de reservas bancárias nos bancos comerciais, desencadeando uma expansão potencialmente ilimitada de crédito, para evitar uma implosão dos derivativos, decorrente de um colapso total de bolsas de mercadorias e ações em todo o mundo.
 
Aqueles banqueiros pensaram que funcionaria, mas, como sabemos agora, nem todo aquele som e fúria jamais significaram coisa alguma. E permanece aí o fantasma de uma implosão dos derivativos – nesse caso não causada pelo que antes se temia (que o Estreito de Ormuz fosse fechado).
 
Apenas começamos a compreender as consequências do Covid-19 para o futuro do turbo-capitalismo neoliberal. Certo é que toda a economia global foi atingida por interruptor de circuitos insidioso, literalmente invisível. Pode ser só “coincidência”. Ou pode ser, como alguns estão argumentando corajosamente, parte de uma maciça operação psicológica, que crie o ambiente geopolítico e de engenharia social perfeito para a dominação de pleno espectro.
 
Além disso, ao longo da árdua caminhada, com imenso sacrifício humano e económico, com ou sem um reboot do sistema mundial, permanece uma pergunta mais premente: as elites imperiais continuarão insistindo em fazer guerra híbrida contra a China, pela dominação de pleno espectro?
 
NOTA dos Tradutores:
(1) Em português, tradução de José Paulo Paes, in A causa secreta: e outros contos de horror (VVAA). São Paulo: Boa Companhia, 2013, transcrito na íntegra em Revista Prosa e Verso).
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/a-china-prepara-se-para-ser-lider-global.html

Onde se esvai parte do caos e do terrorismo imposto pela IIIª guerra mundial

 
 

 

Martinho Júnior, Luanda
 
…”As Administrações Bush e Obama seguiram esta estratégia: destruir as estruturas estatais de regiões inteiras do mundo. A guerra dos EUA já não tem como objectivo vencer, mas durar (a «guerra sem fim»).
O Presidente Donald Trump e o seu primeiro Conselheiro de Segurança Nacional, o General Michael Flynn, puseram em causa esta evolução sem conseguir alterá-la. Hoje em dia, os defensores da teoria Rumsfeld/Cebrowski prosseguem os seus objectivos não tanto através do Secretariado da Defesa mas mais através da OTAN”… (https://www.voltairenet.org/article209454.html).
 
01- Mais um ciclo de operações militares se fechou agora sobre a bolsa de caos, terrorismo e desagregação de Idlib, no noroeste da Síria (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/a-siria-uma-ampulheta-viva-na-mudanca.html) e com ele, há factos que são incontornáveis: (https://actualidad.rt.com/opinion/alberto-rodriguez-garcia/343713-idlib-ultimo-bastion-yihadismo-siria).
 
. As Forças Árabes Sírias libertaram a autoestrada M-5 que liga Damasco a Alepo, limpando além do mais suas imediações no sentido oeste;
 
. As Forças Árabes Sírias avançaram de sul para norte na bolsa de Idlib, aproximando-se da autoestrada M-4, que liga Alepo a Latakia;
 
. As principais ligações que percorrem o país e possibilitam o movimento e as comunicações entre as principais cidades, estão em vias de ser, sem remissão, libertas pelo governo sírio;
 
. As Forças Árabes Sírias fizeram-no enfrentando coligações não declaradas dos agrupamentos terroristas que tutelam a região sob a égide das Forças Armadas Turcas (a Turquia possui a 2º maior força militar da NATO), às quais foram sendo infligidas baixas significativas, reduzindo à impotência os esforços da Operação Escudo da Primavera (o Presidente Erdogan confirma a morte de 59 efectivos turcos)… (https://southfront.org/59-turkish-soldiers-were-killed-in-idlib-during-last-month-erdogan/).
 
. As Forças Armadas Russas podem garantir a qualquer momento um conjunto integrado de dispositivos que neutralizam as capacidades electrónicas do inimigo, reduzindo-o à completa inoperância… (https://www.voltairenet.org/article209438.htmlhttps://www.voltairenet.org/article206197.html);
 
. Continua a deliberada propaganda, a múltiplos níveis, por parte do império da hegemonia unipolar contra o resistente estado sírio, no sentido de enganar a opinião pública internacional sobre o carácter desse estado, sobre o seu comportamento face aos desafios artificiosos que lhe firam impostos e sobre tudo o que se passa na Síria. (https://www.fort-russ.com/2020/03/major-syrian-army-uncovers-terrorist-chemical-weapons-workshop-in-western-aleppo-video/?utm_medium=ppc&utm_source=wp&utm_campaign=push&utm_content=new-articlehttps://www.globalresearch.ca/douma-whistleblowers-respond-opcw-attacks/5706111).
 
A corrente pausa da confrontação foi obtida com mais um Acordo que se juntou a outros anteriores, desta feita celebrado em Moscovo (https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/05/russia-anuncia-cessar-fogo-com-a-turquia-no-norte-da-siria.ghtml): dum lado há a coerência (e o avanço) da aliança síria-russa-iraniana e do outro, de ilusão em ilusão, de manipulação em manipulação, de propaganda em propaganda, de cosmética em cosmética, o caos e o terrorismo com arquitectura e engenharia agora da Turquia, que continua a esvair-se, corroendo o carácter da própria NATO!... (https://www.resistir.info/asia/escobar_22jan20.html).
 
 
 
02- O governo de Erdogan está a provar por isso as múltiplas contradições do próprio labirinto de sua superestrutura ideológica e de sua prática que está longe de fazer a avaliação imprescindível da correlação de forças no terreno e do pesadelo que constituem as suas alianças: (https://southfront.org/great-idlib-rebranding-and-turkish-victories-over-russian-air-defense/https://www.euractiv.com/section/global-europe/news/assad-accuses-erdogan-of-close-ties-to-muslim-brotherhood/).
 
. A nível interno está a braços com uma severa crise económica e financeira que atinge todo o tecido social da Anatólia, provocando um cada vez maior desgaste na credibilidade do poder, que não pode ser compensado com a propaganda das vitórias a sul, muito menos quando a propaganda assume as raias da extravagância; (https://www.terra.com.br/economia/crise-turca-e-mistura-de-imprudencia-economica-e-autoritarismo-populista,6ff298bf4ffcd9dfcf864adc3f33e069ji2utwh1.html).
 
. A nível externo, “branqueando os factos”, a propaganda mesmo face às evidentes perdas de território, procura uma saída que não há, pois caos e terrorismo, por muito “moderados” que os pintem, jamais se poderão assumir sob uma camaleónica capa “mutante”, de ocasião em ocasião, entre cada guerra e cada cessar-fogo. (https://www.globalresearch.ca/video-syrian-army-recaptures-saraqib-erdogan-forces-syrian-turkish-conflict-idlib-intensifies/5705367).
 
O governo Erdogan está assim remetido a um beco sem saída com a sua presença em Idlib e na Síria (https://www.al-monitor.com/pulse/originals/2020/02/turkey-syria-russia-idlib-collapse-erdogans-foreign-policy.html), remetido a processos defensivos que não possuem consistência suficiente, pois caos e terrorismo trazem em si a inconsistência psicológica de onde não há saída a não ser a rendição! (https://www.counterextremism.com/content/muslim-brotherhood-turkey).
 
A única saída que o estado turco possui face ao labirinto que contribuiu para criar, é aceitar as premissas que se estendem desde a China e a Rússia (https://frenteantiimperialista.org/blog/2020/01/11/ahi-esta-la-iii-guerra-mundial/), sob pena de ser também atingido pelo espectro de caos, terrorismo e desagregação que afecta Médio Oriente Alargado e África, ainda que Erdogan seja um “Islamic brotherhood”! (https://www.mjmenergy.com/MZINE/2007/np.htm).
 
 
03- O acordo de Moscovo que entrará paulatinamente em vigor, terá como corolário a 15 de Março de 2020 o início do patrulhamento da M-4, entre Alepo e Latakia, por unidades comuns russas e turcas. (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/putin-salva-erdogan-de-si-proprio.htmlhttps://southfront.org/opposition-supporters-protest-on-m4-highway-ahead-of-joint-russian-turkish-patrols-videos/).
 
O acordo deixou em aberto o pronunciamento dos agrupamentos terroristas que a Turquia se esforça agora por unir num Comando único, sem que eles renunciem à devassa contra a Síria e quando uma diminuta parte do território por si controlado se situa a sul dessa autoestrada... (https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020030615301420-acordo-entre-russia-e-siria-protegera-populacao-e-militares-turcos-diz-erdogan/).
 
Com uma bolsa de Idlib cada vez mais reduzida, a nova armadilha está montada e, sem ilusões, o que se espera é que o cosmético Comando único (agrupamentos das forças terroristas) que não cauciona o Acordo, produza acontecimentos que levarão as Forças Árabes Sírias a uma nova tensão, que pode levar a uma escalada ainda maior se comparada à deste período último que se fechou. (https://www.globalresearch.ca/indepthreport/syria-nato-s-next-war).
 
O argumento da Síria é mais que suficiente: trata-se do seu território e as forças componentes de Idlib existem ilegítima e ilegalmente em solo nacional, pelo que a qualquer momento podem ser sujeitos, à mínima provocação, a nova ofensiva! (https://www.fort-russ.com/2020/03/in-depth-interview-with-assad-we-will-liberate-idlib-from-erdogans-muslim-brotherhood-terrorists/).
 
 
04- A situação permite uma pausa que leva ao limpar das armas, à tentativa de consolidação das posições, ao rearmamento e ao reequipamento de ambos os lados do front.
 
Da última batalha estão-se a fazer balanços e avaliações importantes na previsão dos futuros acontecimentos.
 
A Rússia contém reservas que poderão vir a ser implicadas, visando sobretudo a neutralização electrónica do poder do campo inimigo, que notoriamente jamais conseguiu o domínio do ar, apesar de ter derrubado algumas aeronaves sírias e clamar a destruição de 8 unidades antiaéreas Pantsir. (https://orientalreview.org/2020/02/25/chess-grand-master/).
 
As Forças Armadas Turcas provaram a eficácia dessas armas russas que as limitaram e condicionaram, a ponto de impedir contraofensivas sobre a autoestrada M-5, o principal objectivo das Forças Árabes Sírias durante o período. (https://southfront.org/turkish-led-forces-attack-saraqib-as-syrian-army-advances-on-afis-map-update/).
 
A Turquia está com o jihadismo nas suas mãos (https://www.aljazeera.com/news/2020/02/turkey-erdogan-confirms-sending-syrian-fighters-libya-200221082443159.html) mas, interessada na estabilização a sul de suas fronteiras a fim de evitar sua própria desagregação, poderá evacuar os terroristas para a Líbia, um processo aliás que já começou… (https://www.theguardian.com/world/2020/jan/05/turkish-troops-deploy-to-libya-to-prop-up-embattled-governmenthttps://southfront.org/over-100-turkish-backed-syrian-militants-were-killed-in-libya-report/).
 
 
05- A Líbia, com todas as tendências para o caos, para o terrorismo e para a desagregação que comporta, ergue-se como um dos próximos horizontes dum novo impacto das doutrinas de Rumsfeld/Cebrowski, afectando toda a África, a sul. (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/um-mar-de-morte-martinho-junior.htmlhttps://www.bbc.com/news/world-africa-49971678).
 
Se eclodir o novo ciclo de combates na bolsa de Idlib, algo que se pode adivinhar, será a autoestrada M-4 o principal objectivo imediato das Forças Árabes Sírias, mas os combates poderão levar até à sede do agrupamento Turquistão Islâmico, Jisr-el-Shugur ou mesmo a Idlib, o que será o fim da bolsa. (https://www.fort-russ.com/2020/03/military-expert-turkey-using-ceasefire-in-idlib-to-reequip-terrorists/).
 
Se assim acontecer, a Turquia não vai poder adoptar as mesmas posições que até aqui, podendo mesmo implicar-se no combate ao jihadismo na Síria, sem perder o ensejo de transferir os jihadistas para a Líbia, ainda que o faça “por portas e travessas”… (https://eeradicalization.com/muslim-brotherhood-conference-in-istanbul-described-as-disappointing/).
 
Para a Rússia há no horizonte próximo a necessidade de salvar a Turquia da desagregação, para além do salvamento da Síria e é esse jogo que parece estar já sobre a mesa, até pelo contraditório fluente no interior da NATO, no âmbito da própria União Europeia e na evolução da situação na Líbia, por tabela em África! (https://eeradicalization.com/erdogans-turkey-and-the-muslim-brotherhood-in-africa/).
 
06- África, para além da Líbia, particularmente a África do Sahel até às ricas regiões transbordantes de água e espaço vital a sul, desenha-se como um alvo maior desse jogo de caos, terrorismo e desagregação transcontinental, abrindo espaço a uma “IIª Conferência de Berlim”, fundamentalmente caótica, e desagregadora, vulnerável às redes jihadistas e terroristas! (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/01/07/africa-dilecto-alvo-neocolonial/).
 
Em África não se está a fazer uma avaliação suficiente da capacidade de manobra do sistema de inteligência do império da hegemonia unipolar na Líbia, com os Estados Unidos à cabeça, ou seja, até que ponto subsiste a manipulação entre contrários, a fim de tornar o atoleiro ainda mais praticável para os interesses das transnacionais do petróleo afins às políticas do “excremento do diabo”! (https://www.globalresearch.ca/benghazi-the-cia-and-the-war-in-libya/5386266https://www.alaraby.co.uk/english/indepth/2019/4/10/who-is-khalifa-haftar-libyas-cia-linked-rogue-general-turned-warlord).
 
Sintomaticamente, em África está-se a garantir ao jihadismo as regiões para onde se deslocarão as ondas de impacto do seu caos, do seu terrorismo e da desagregação que comportam, conforme as condicionantes geoestratégicas de manipulação contraditória originária das correntes wahabitas/sunitas da península Arábica e dos enlaces do AFRICOM com o dispositivo de forças europeias, nomeadamente francesas e portuguesas no Mali, no Níger, no Burkina Faso, no Chade e República Centro Africana (http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/05/a-africa-do-caos-e-africa-presa-pelo.html), assim como em relação ao espectro do Boko Haram à volta do quase desaparecido Lago Chade! (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/a-dialetica-como-arma-geoestrategica-do.html).
 
Se na África do Oeste se estão a multiplicar os factores de caos, terrorismo e desagregação, o que dá mãos livres ao AFRICOM, às forças francesas agora reforçadas com os portugueses (Mali e República Centro Africana), pelo leste de África a onda jihadista já atingiu Cabo Delgado, a norte de Moçambique! (https://www.crisisgroup.org/africa/west-africa/c%C3%B4te-divoire/b149-lafrique-de-louest-face-au-risque-de-contagion-jihadiste;  http://www.rfi.fr/en/international/20200112-france-macron-seeks-legitimise-Sahel-anti-jihad-fight-Pau-summithttps://foreignpolicy.com/2019/05/16/in-africa-all-jihad-is-local/;  https://clubofmozambique.com/news/mozambiques-jihadists-terror-group-who-are-they-and-what-do-they-want/https://www.latestly.com/world/jihadist-attacks-in-mozambique-ahead-of-elections-12-killed-1221087.htmlhttps://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/cabo-delgado-e-preciso-melhorar.html).
 
Os países africanos no geral, têm-se orientado diplomaticamente para relacionamentos do quadro de coligações da NATO no Médio Oriente Alargado, que incluem o sionismo em vigor em Israel, as monarquias arábicas wahabitas/sunitas que possuem franjas de financiamento do jihadismo tendo como eixo a Al Qaeda e a Turquia, membro da NATO que está agora a descoberto nos seus relacionamentos directos com as redes da Al Qaeda conforme o que se pode constatar em Idlib, pondo de lado relacionamentos diplomáticos com países como Iraque e sobretudo a Síria, no fundo os que mais têm resistido aos impactos directos da doutrina Rumsfeld/Cebrowski.
 
É sintomática a opção dos países africanos e da própria União Africana nos relacionamentos de opção no Médio Oriente Alargado e isso é prova que as suas elites governamentais são extremamente vulneráveis às ingerências e manipulações em curso que obedecem à aparente contradição entre os alinhamentos AFRICOM e o jihadismo financiado a partir das monarquias arábicas wahabitas/sunitas e do governo de Erdogan, agora tão empenhado em transferir jihadistas para a Líbia! (http://www.finalcall.com/artman/publish/Perspectives_1/article_7783.shtml).
 
África é um corpo inerte, onde o jihadismo está a procurar também depenicar o seu pedaço, conforme às condicionantes do jogo do império da hegemonia unipolar em fase de erosão e declínio!... (https://www.crisisgroup.org/africa/west-africa/c%C3%B4te-divoire/b149-lafrique-de-louest-face-au-risque-de-contagion-jihadiste).
 
07- A doutrina Rumsfeld/Cebrowski (https://orientalreview.org/2019/11/12/the-insoluble-contradictions-of-daesh-and-the-pkk-ypg/) foi concebida com base na implosão da URSS, no fim do bloco socialista europeu, na opressiva quarentena imposta à Revolucionária Cuba e nos acontecimentos que em África no geral e Angola no particular, se foram sucedendo desde 31 de Maio de 1991 (Acordo de Bicesse), até ao 22 de Fevereiro de 2002 (morte de Savimbi). (https://www.voltairenet.org/article197541.html).
 
De facto em África travou-se a “Iª Guerra Mundial Africana” entre 1992 e 2002, que além do mais foi uma guerra de usura sobre as riquezas naturais do continente (em Angola, como na Serra Leoa e na Libéria, essa extensiva guerra é conhecida como “guerra dos diamantes de sangue”, denunciada por via do Relatório Fowler, da ONU – https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Fowler_(diplomat)), uma “experiência” que sendo alvo de acompanhamento e de estudo, muitos elementos forneceu para os fundamentos da doutrina Rumsfeld/Cebrowski e, sintomaticamente, para a base da criação do Comando África do Pentágono! (https://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/em-angola-ha-20-anos-i.html;  http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/em-angola-ha-20-anos-ii.html;  https://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/em-angola-ha-20-anos-iii.htmlhttps://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/em-angola-ha-20-anos-iv.html).
 
A “guerra dos diamantes de sangue” (http://paginaglobal.blogspot.pt/2014/04/a-tripla-fronteira.html), recorde-se, rebentou com as infraestruturas e uma grande parte das estruturas de Angola, irrompeu dolorosamente pelo tecido humano do país levando-o à exaustão, conduziu quase ao colapso o estado angolano e, enquanto choque neoliberal, criou as condições para a terapia neoliberal, cujos resultados mais negativos têm sido consubstanciados nos níveis insuportáveis de corrupção que afectou todo o país, pondo em causa a paz tão duramente alcançada, uma paz que não tem comportado os padrões éticos mínimos de justiça social por que afastou Angola dos seus programas socialistas!... (https://www.odiario.info/outro-virus/).
 
A “guerra dos diamantes de sangue” foi também uma “guerra nas cidades” algo que tem que ver com os métodos do jihadismo hoje (pode-se repetir em Angola noutros moldes e com outros intervenientes)! (https://eeradicalization.com/how-urban-design-can-help-combat-terrorism/).
 
A meu ver, está-se longe de se fazer um inventário completo da situação de risco em África (https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2018/07/03/islamist-terrorist-groups-are-turning-their-attention-to-west-africa/), particularmente em função do espaço de manobra alcançado pelo império da hegemonia unipolar, a sua imensa capacidade de manipulação contraditória, a sua guerra psicológica de intensidade e ementas variáveis, os seus interesses sobre sectores primários extractivistas e a sua rede de avassalados dum largo espectro de matizes! (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/18-anos-de-excremento-do-diabo.html).
 
África, por inteiro, está à mercê da doutrina Rumsfeld/Cebrowski!... (http://www.informationclearinghouse.info/53014.htm).
 
Martinho Júnior | Luanda, 13 de Março de 2020
 
Imagens:
01- “Com um prazer sardónico, o Kremlin encenou a rendição da Turquia: a delegação turca está de pé, contrariamente ao que é habitual em que se providencia cadeiras aos hóspedes; nas suas costas, uma estátua da Imperatriz Catarina, a Grande, lembra que a Rússia estava já presente na Síria no século XVIII. Finalmente, os Presidentes Erdoğan e Putin estão sentados em frente a um pêndulo comemorativo da vitória russa sobre o Império Otomano” – https://www.voltairenet.org/article209454.html;
 
02- “Le Monde: SÍRIA: PERIGOSA ESCALADA EM TORNO DE IDLIB – Pelo menos 33 soldados turcos foram mortos, quinta-feira 27 de Fevereiro, em Idlib, no Noroeste da Síria, pelas forças de Bashar al-Assad, apoiadas pela aviação russa; Em represália Ancara bombardeou posições sírias e ameaça os Europeus de permitir um afluxo de refugiados em direcção ao Ocidente; Cerca de 900. 000 pessoas, das quais 80 % de mulheres e crianças, fugiram dos combates na região de Idleb desde Dezembro de 2019” – https://www.voltairenet.org/article209415.html;
 
03- Mapa produzido pelo South Front comparando as situações a 1 de Setembro de 2015 e a 9 de Março de 2020 - https://southfront.org/;
 
04- «The Turkish regime has found a new way to invest in terrorism to serve its Ottoman expansionist illusions in the region through transferring its mercenaries and terrorists from Syria to Libya to exacerbate the security situation in it and to usurp its resources. U.S. Bloomberg News Agency mentioned that an official at the Turkish regime and another one from the Government of National Accord (GNA) in Libya revealed that a number of Erdogan’s mercenaries in Syria will be transported to Libya». – https://www.gospanews.net/en/2019/12/30/libya-arrived-300-jihadists-turkish-backed-at-260-miles-from-italy-for-2500-month/
 
05- Map of Africa’s Militant Islamist Groups – By the Africa Center for Strategic Studies – April 26, 2017 – A review of militant Islamist group activity in Africa over the past year reveals considerable variation and a geographic concentration. – https://africacenter.org/spotlight/map-africa-militant-islamic-groups-april-2017/.  

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/onde-se-esvai-parte-do-caos-e-do.html

Como os “cisnes negros” estão a moldar o pânico no planeta

«A equação aponta agora para uma confluência de Wall Street em pânico; histeria Covid-19 massiva; persistentes e inumeráveis abalos secundários resultantes da balbúrdia comercial global do presidente Donald Trump; o circo eleitoral dos EUA; e instabilidade política na Europa. Essas crises entrelaçadas significam Tempestade Perfeita.»


 

Pepe Escobar    20.Mar.20

Está o planeta sob o feitiço de uma variedade de «Cisnes Negros» - um colapso de Wall Street causado por uma suposta guerra do petróleo entre a Rússia e a Casa de Saud, mais a disseminação descontrolada do Covid-19 - levando a um “pandemónio de cruzamento de activos”, como o designou Nomura, a holding japonesa?

Ou, como sugere o analista alemão Peter Spengler, seja o que for que “o evitado clímax no Estreito de Ormuz não provocou ainda até agora, pode agora suceder pela via das ‘forças de mercado’”?

Comecemos com o que realmente aconteceu depois de cinco horas de discussões relativamente educadas na última sexta-feira em Viena. Que se tenha transformado num efectivo colapso na OPEP+ foi uma reviravolta no enredo.

OPEP+ inclui Rússia, Cazaquistão e Azerbaijão. Essencialmente, depois de anos a suportar a fixação de preços pela Opep - resultado da implacável pressão dos EUA sobre a Arábia Saudita - enquanto reconstruía pacientemente as suas reservas em moeda estrangeira, Moscovo vislumbrou a janela de oportunidade perfeita para atacar, visando a indústria de xisto dos EUA.
As acções de alguns desses produtores dos EUA caíram até os 50% na “Segunda-feira Negra”. Simplesmente não podem sobreviver com um barril de petróleo nos US $ 30 - e é para aí que se está a encaminhar. No fim de contas, essas empresas estão afogadas em dívidas.

Um barril de petróleo a US $ 30 tem de ser visto como um precioso pacote de brinde/estímulo para uma economia global em turbulência - especialmente do ponto de vista dos importadores e consumidores de petróleo. Foi isso que a Rússia tornou possível.

E o estímulo pode durar algum tempo. O Fundo Nacional de Riqueza russo deixou claro que possui reservas suficientes (mais de US $ 150 milhares de milhões) para cobrir um déficit orçamental de entre seis e 10 anos - mesmo com o petróleo a US $ 25 o barril. O Goldman Sachs já admitiu a possibilidade do petróleo Brent a US $ 20 o barril.

Como enfatizam os traders do Golfo Pérsico, a chave daquilo que é percebido nos EUA como uma “guerra do petróleo” entre Moscovo e Riad é principalmente sobre derivativos. Basicamente, os bancos não poderão pagar aos especuladores que possuem derivativos garantidos contra um declínio acentuado no preço do petróleo. Um stress adicional resulta de traders em pânico com o Covid-19, espalhando-se por países visivelmente impreparados para lidar com ele.

Observe o jogo russo

Moscovo deve ter apostado de antemão que as acções russas negociadas em Londres - como as de Gazprom, Rosneft, Novatek e Gazprom Neft - entrariam em colapso. Segundo o co-proprietário da Lukoil, Leonid Fedun, a Rússia poderá perder até US $ 150 milhões por dia a partir de agora. A questão é por quanto tempo isso será aceitável.

Ainda assim, desde o início, a posição da Rosneft era de que, para a Rússia, o acordo com a OPEP+ era “desprovido de sentido” e apenas “abrira caminho” ao petróleo de xisto norte-americano.

O consenso entre os gigantes da energia russos foi que a actual configuração do mercado - maciça “procura negativa de petróleo”, “choque de oferta” positivo e nenhum produtor em situação de viragem - tinha inevitavelmente que provocar uma queda no preço do petróleo. Estavam a assistir, impotentes, enquanto os EUA já estavam a vender petróleo a um preço mais baixo do que a OPEP.

A acção de Moscovo contra a indústria de fracking dos EUA foi uma resposta à interferência do governo Trump no Nord Stream 2. A inevitável, acentuada desvalorização do rublo foi praticada - considerando também que, de qualquer maneira, o rublo já estava baixo.

Ainda assim, o que aconteceu depois de Viena tem pouco a ver com uma guerra comercial entre Rússia e Arábia Saudita. O Ministério da Energia da Rússia é fleumático: seguir em frente, nada para ver aqui. Riyadh, significativamente, tem vindo a emitir sinais de que o acordo OPEP+ pode estar de regresso num futuro próximo. Um cenário viável é que esse tipo de terapia de choque continuará até 2022, e então a Rússia e a OPEP voltarão à mesa para elaborar um novo acordo.
Não há números definitivos, mas o mercado de petróleo corresponde a menos de 10% do PIB da Rússia (costumava ser 16% em 2012). As exportações de petróleo do Irão em 2019 caíram 70%, e ainda assim Teerão conseguiu adaptar-se. No entanto, o petróleo representa mais de 50% do PIB saudita. Riad precisa de petróleo a não menos do que US $ 85 o barril para pagar as suas contas. O orçamento para 2020, com preço de US $ 62-63 o barril, tem ainda um déficit de US $ 50 milhares de milhões.

A Aramco diz que oferecerá nada menos que 300.000 barris de petróleo por dia além da sua “capacidade máxima sustentada” a partir de 1 de Abril. Dizem que serão capazes de produzir uns impressionantes 12,3 milhões de barris por dia.

Traders do Golfo Pérsico dizem abertamente que isso é insustentável. E é. Mas a Casa de Saud, em desespero, estará a explorar as suas reservas estratégicas para despejar o máximo possível de petróleo o mais rápido possível - e manter a guerra de preços em alta. A ironia (oleosa) é que as principais vítimas da guerra de preços são uma indústria pertencente ao protector norte-americano.

A Arábia ocupada pelos Sauditas está uma confusão. O Wall Street Journal informou sexta-feira que um dos irmãos do rei, o príncipe Ahmed bin Abdulaziz al Saud, e um sobrinho, o príncipe Mohammed bin Nayef, dois poderosos sauditas, foram presos e acusados ​​de traição por supostamente conspirarem contra o rei Salman e seu filho, o Príncipe Mohammed bin Salman (MbS).

Todo grão de areia no deserto de Nefud sabe que o compincha do Jared «da Arábia? Kushner, o MbS, é o governante de facto dos últimos cinco anos, mas o momento desta sua nova purga em Riad diz muito.

A CIA está furiosa: Nayef foi e continua a ser o principal patrimônio de Langley. O facto de a contra-informação do regime saudita ter denunciado os “americanos” como parceiros num possível golpe contra MBS deve ser lido como “CIA”. É apenas uma questão de tempo até que o Deep State dos EUA, em conjunto com elementos insatisfeitos da Guarda Nacional, venha pela cabeça de MbS - mesmo que ele articule a tomada do poder total antes da cimeira do G-20 em Riad em Novembro próximo.

Black Hawk Down?

Então, o que acontece a seguir? Por entre um tsunami de cenários, de Nova York a todos os pontos da Ásia, a regra mais optimista é que a China está prestes a vencer a “guerra do povo” contra o Covid-19, e os números mais recentes confirmam-no. Nesse caso, a procura global de petróleo pode aumentar em pelo menos 480.000 barris por dia.
Bem, a coisa é muito mais complicada.

A equação aponta agora para uma confluência de Wall Street em pânico; histeria Covid-19 massiva; persistentes e inumeráveis abalos secundários resultantes da balbúrdia comercial global do presidente Donald Trump; o circo eleitoral dos EUA; e instabilidade política na Europa. Essas crises entrelaçadas significam Tempestade Perfeita. No entanto, o ângulo do mercado é facilmente explicado talvez como o começo do fim de o Fed injectar dezenas de milhões de milhões de dólares EUA na economia por meio de QEs e de operações compromissadas desde 2008. Chamem-lhe o descobrir do bluff dos banqueiros centrais.

Pode argumentar-se que o actual pânico financeiro apenas se reduzirá quando o último Cisne Negro - Covid-19 - estiver contido. Tomando de empréstimo o famoso ditado de Hollywood - “ninguém sabe de nada” - todas as apostas estão suspensas. Por entre um denso nevoeiro, e descontando a usual quantidade de desinformação, um analista do Rabobank, entre outros, apresentou quatro cenários plausíveis do Covid-19. Reconhece agora que está a ficar “feio” e o quarto cenário - o “impensável” – já deixou de ser impossível.

Isso implica uma crise económica global de, sim, impensável magnitude.
Tudo dependerá em grande parte da rapidez com que a China - o elo crucial inescapável da cadeia de fornecimentos just-in-time global - regresse a uma nova normalidade, compensando intermináveis semanas de encerramentos em série.

Desprezada, discriminada, demonizada 24 horas por dia todos os dias pelo “líder do sistema”, a China assumiu um nietzschianismo total – está prestes a provar que “o que não te mata torna-te mais forte” quando se trata de uma “guerra popular” contra o Covid-19. Na frente EUA há poucas esperanças de que o reluzente Black “helicopter money” Hawk vá cair definitivamente. O Cisne Negro extremo terá a última palavra.

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Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

A Conferência de Munique revela divisão Este-oeste

A Conferência de Segurança de Munique ilustrou como a agressividade EUA-NATO se sustenta ideologicamente no ressurgir da ambição colonialista ocidental, na defesa de um direito irrestrito de agir pela força onde quer que seja. Tal como faz com as relações laborais, o capitalismo tenta fazer o planeta inteiro regressar ao século XIX.

Poucas pantomimas políticas pós-modernas têm sido mais reveladoras do que as centenas de chamados “tomadores de decisão internacionais”, na maioria ocidentais, cada vez mais líricos, desgostados ou nostálgicos sobre o “Ocidentalismo” na Conferência de Segurança de Munique.
“Ocidentalismo” soa como um desses conceitos indigestos emitidos em resultado de má ressaca depois de uma festa na Rive Gauche durante a década de 1970. Em teoria (mas não na Teoria Francesa), o Ocidentalismo na era do Whatsapp deveria significar um déficit de acção multilateral para enfrentar as ameaças mais prementes à “ordem internacional” - ou (des) ordem - enquanto o nacionalismo, ridicularizado como onda populista de vistas curtas, prevalece.

No entanto, o que Munique realmente revelou foi um profundo anseio – ocidental – saudoso dos efervescentes dias do imperialismo humanitário, com o nacionalismo em todas as suas vertentes sendo apontado como o vilão que impede o avanço imparável de lucrativas e neocoloniais Guerras Permanentes.

Por mais que os organizadores do MSC - um robusto grupo atlantista - tentassem encaminhar as discussões enfatizando a necessidade de multilateralismo, um cabaz de males variando desde a migração descontrolada à “morte cerebral” a NATO foi referido como consequência directa do “crescimento de um campo iliberal e nacionalista no interior do mundo ocidental”. Como se isso fosse uma ofensiva perpetrada por uma hidra todo-poderosa ostentando as cabeças de Bannon-Bolsonaro-Orban.

Longe desses chefes do «Ocidente-é-mais» em Munique está a coragem de admitir que os variados contra-golpes nacionalistas se qualificam também como reveses para o implacável saque ocidental do Sul Global por meio de guerras - quentes, frias, financeiras, empresariais-exploradoras.

Pelo que vale, eis o relatório da MSC. Apenas duas frases seriam suficientes para denunciar o jogo da MSC: “Na era pós-Guerra Fria, as coligações lideradas pelo Ocidente eram livres de intervir em quase qualquer lugar. Na maioria das vezes, havia apoio no Conselho de Segurança da ONU e, sempre que uma intervenção militar era lançada, o Ocidente desfrutava de liberdade de movimento militar quase incontestada.”

Ora aí está. Aqueles eram os dias em que a NATO, com total impunidade, podia bombardear a Sérvia, perder miseravelmente uma guerra no Afeganistão, transformar a Líbia num inferno das milícias e planear inúmeras intervenções em todo o Sul Global. E é claro que nada disso tinha qualquer ligação com os bombardeados e os invadidos sendo forçados a tornar-se refugiados na Europa.

Ocidente é mais

Em Munique, a ministra das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Kang Kyung-wha, aproximou-se da questão central quando disse que considerava o tema “Ocidentalismo” bastante insular. Fez questão de enfatizar que o multilateralismo é muito uma característica asiática, desenvolvendo o tema da centralidade da ASEAN.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, com a sua elegância habitual, foi mais agudo, observando como “a estrutura da rivalidade da Guerra Fria está a ser recriada” na Europa. Lavrov foi um prodígio do eufemismo quando observou como “a escalada de tensões, o avanço para o leste da infraestrutura militar da NATO, exercícios de escala sem precedentes perto das fronteiras russas, o incremento de orçamentos de defesa para além de qualquer bom-senso - tudo isso gera imprevisibilidade”.

Foi no entanto o conselheiro de Estado chinês e ministro das Relações Exteriores Wang Yi quem realmente atingiu o cerne da questão. Enfatizando que “fortalecer a governança global e a coordenação internacional é urgente agora mesmo”, Wang disse: “Precisamos livrar-nos da divisão entre Oriente e Ocidente e ir além da diferença entre Sul e Norte, numa tentativa de construir uma comunidade com um futuro partilhado para a humanidade.”

“Comunidade com um futuro partilhado” pode ser a terminologia padrão de Pequim, mas comporta um significado profundo, pois incorpora o conceito chinês de multilateralismo como significando que nenhum Estado tem prioridade e que todas as nações compartilham os mesmos direitos.

Wang foi mais além: o Ocidente - com ou sem o Ocidentalismo – deveria livrar-se de sua subconsciente mentalidade de supremacia civilizacional; abandonar o seu preconceito contra a China; e “aceitar e acolher o desenvolvimento e revitalização de uma nação do Oriente com um sistema diferente do do Ocidente”. Wang é um diplomata suficientemente sofisticado para saber que isso não vai acontecer.

Wang também não deixou de fazer levantar as sobrancelhas do grupo do Ocidente a níveis alarmantes quando enfatizou, uma vez mais, que a parceria estratégica Rússia-China será aprofundada – juntamente com a exploração de “formas de coexistência pacífica” com os EUA e uma cooperação mais profunda com a Europa.

O que esperar em Munique da parte do chamado “líder do sistema” era bastante previsível. E foi expresso, fiel ao roteiro, pelo actual chefe do Pentágono, Mark Esper, mais um praticante do sistema de portas giratórias em Washington.

Ameaça do século XXI

Todas as posições do Pentágono foram expostas. A China não passa de uma ameaça crescente à ordem mundial - como “ordem” ditada por Washington. A China rouba o conhecimento ocidental; intimida todos os seus vizinhos menores e mais fracos; procura “vantagem por qualquer meio e a qualquer custo”.

Como se fosse necessário algum lembrete para esse público bem informado, a China foi novamente colocada no topo das “ameaças” do Pentágono, seguida pela Rússia, “estados safados” Irão e Coreia do Norte e “grupos extremistas”. Ninguém perguntou se a Al-Qaeda na Síria faz parte da lista.

O “Partido Comunista e seus órgãos associados, incluindo o Exército de Libertação Popular”, foram acusados de “operar em cada vez mais teatros fora das fronteiras da China, incluindo na Europa”. Toda a gente sabe que apenas uma “nação indispensável” é autorizada a operar “em teatros fora de suas fronteiras” para bombardear outros em direcção à democracia.

Não é de admirar que Wang tenha sido forçado a qualificar todos os itens acima como “mentiras”: “A causa raiz de todos esses problemas e questões é que os EUA não querem ver o rápido desenvolvimento e rejuvenescimento da China, e menos ainda desejam. aceitar o sucesso de um país socialista”.

Assim, no final, Munique desintegrou-se no saco de gatos que irá dominar o resto do século. Com a Europa de facto irrelevante e a UE subordinada aos desígnios da NATO, o Ocidentalismo é apenas um conceito vazio e bloqueado: toda a realidade é condicionada pela dinâmica tóxica da ascensão da China e do declínio dos EUA.

A irreprimível Maria Zakharova acertou em cheio uma vez mais: “Falavam desse país [China] como uma ameaça para toda a humanidade. Disseram que a política da China é a ameaça do século XXI. Tenho a sensação de que estamos a testemunhar, em particular através dos discursos proferidos na conferência de Munique, o renascimento de novas abordagens coloniais, como se o Ocidente tivesse deixado de considerar vergonhoso reencarnar o espírito do colonialismo por meio da divisão de pessoas, nações e países.”

Um destaque absoluto do MSC foi quando o diplomata Fu Ying, primeiro responsável pelas relações exteriores do Congresso Nacional do Povo, reduziu a poeira a presidente da Câmara de Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, com uma pergunta simples: “Acha realmente que o sistema democrático é tão frágil” que possa ser ameaçado pela Huawei?

Fonte: https://asiatimes.com/2020/02/munich-summit-illustrates-east-west-divide/

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A SÍRIA, UMA AMPULHETA VIVA NA MUDANÇA DE PARADIGMA!

 
 
 
Grão a grão, como se fosse por gravidade, desde 2016 que a Síria mantém viva a saga de reconquista do seu território e isso confirma o parto prolongado e crítico da emergência multipolar sobretudo a toda a extensão da EurÁsia!...
 
O território tem sido desde então reconquistado a palmo, rua a rua, quarteirão a quarteirão, estrada a estrada e as Forças Árabes Sírias foram eliminando assim primeiro as bolsas do Estado Islâmico, os “radicais”, depois as bolsas da Frente al Nusra e do Exército Livre Sírio, pela propaganda considerados de “moderados”, como se um sistema de “vasos comunicantes” fosse determinante na máscara do exercício dos interesses do capitalismo neoliberal ao serviço do império da hegemonia unipolar…
 
Agora que o “rei vai nu”, em Idlib, o último “vaso comunicante”, a réstia de caos, de terrorismo e de desagregação, as Forças Armadas Turcas procuram suster o inevitável: a recuperação de todo o território a sul do Eufrates, a preparação para um entendimento a norte dele e o colapso da argumentação justificativa para a presença ilegal e mais que desacreditada das unidades ao serviço do Pentágono em território sírio e iraquiano!...
 
Essa ampulheta viva, traduz o mais sacrificado vaso da emergência multipolar em toda a EurÁsia, um escudo para a progressão da Nova Rota da Seda desde logo na Ásia Central e no AfPaq!
 
 
 
 
 
01- No princípio era o Estado Islâmico que imperava, catapultado pelos meandros duma “Coligação” que pintou o quadro de suas perversas cores, em nome duma “democracia” que não passava de fundamentalista caos, de terrorismo e de desagregação! (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=211675https://actualidad.rt.com/actualidad/211501-siria-eeuu-guerra-estado-islamico).
 
O mapa da Síria reflectia precisamente isso: caos, terrorismo e desagregação, até à medula da vida em todo o território e a região controlada pelo governo parecia minguar, colocando à mercê a própria capital e a principal cidade económica do país, Alepo! (http://www.veteranstoday.com/2016/12/17/breaking-syrian-special-forces-captured-14-us-coalition-officers-captured-in-aleppo/https://topeteglz.org/2016/12/07/video-siria-alepo-ejercito-sirio-libera-el-85-de-la-ciudad-a-punto-de-la-liberacion-total-7-diciembre-2016/).
 
A “civilização judaico-cristã ocidental” nessa altura regozijava e redobrava intensivamente a sua máquina de propaganda, contra um “sanguinário ditador” instalado em Damasco, que estava já em estertor, pois estava tudo pronto para “a batalha final”! (https://actualidad.rt.com/actualidad/217222-apocalipsis-profecia-ei-turquia-siriahttps://actualidad.rt.com/actualidad/219082-tercera-guerra-mundial-ataque-coalicion-siriahttp://hispantv.com/newsdetail/arabia-saudi/216839/arabia-saudita-israel-plan-atacar-siria-libano-jubeir).
 
As monarquias arábicas fundamentalistas, o ariete turco e o sionismo, teciam as malhas de uns e de outros, alimentando a fogueira da Síria, sempre com a garantia do guarda-chuva do Pentágono e da NATO, pois havia uma certeza: tudo havia corrido a contento nos Balcãs, no Iraque, na Líbia, na Ucrânia e por isso haveria de “correr bem” também na Síria… (https://actualidad.rt.com/actualidad/197796-arabia-saudita-financiar-operacion-secreta-cia-siria;  http://sana.sy/es/?p=38229http://original.antiwar.com/dan_sanchez/2015/10/05/seize-the-chaos/;  https://br.rbth.com/politica/2016/11/24/documentario-de-oliver-stone-acusa-eua-por-revolucoes-na-ucrania_650595).
 
A máscara de “civilização”, a coberto de “guerra entre civilizações” contudo, foi-se deteriorando e mostrando cada vez mais o rosto da barbárie, tal qual ela é possível em pleno seculo XXI. (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/07/16/praticas-arriscadas-de-conspiracao/http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/08/barbarie-em-nome-da-democracia.html;  http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/01/os-falcoes-primeiro.html).
 
02- A bolsa de Idlib está agora em quarto minguante, ao ritmo dum Pentágono em vias de ser desbaratado dos seus propósitos que se vão esvaindo sem remissão por todo o Médio Oriente Alargado, da Síria ao Paquistão!... (https://www.globalresearch.ca/america-an-empire-on-its-last-leg-to-be-kicked-out-from-the-middle-east/5699693):
 
. As Forças Árabes Sírias reabriram a M-5, a autoestrada que liga Damasco a Alepo (https://southfront.org/mission-accomplished-m5-highway-completely-secured-by-syrian-army/);
 
. As Forças Árabes Sírias, estão já a travar a batalha pela M-4, a autoestrada que liga Alepo a Latakia (https://southfront.org/syrian-army-is-advancing-on-kafr-nubl-in-southern-idlib-map-update/).
 
A cidade de Jisr al-Sughur onde se encontra instalado o Partido Islâmico do Turquistão, encontra-se a sul da M-4, ou seja, está já a ser um dos alvos imediatos das Forças Árabes Sírias e dos russos, que não perderão de vista a ameaça que são para a República Popular da China (os Uigures da Província Ocidental de Xinjiang). (http://www.syriahr.com/en/?p=155466&__cf_chl_jschl_tk__=0403a44ef669dfc401a4546f359722238c3e968e-1582565872-0-ATJa5HWeTydfWML8Jij9edPpD5V8YrzKYpKBI6JO8nsSoEESnTHqUPgjqqzD52ZbcD8-abqz0p6UhFhDa58vQrGwaS9orHkutltIHR45ymuR_Yof5s9-2EjcLtHqWpYJQDihxjYzLYnRiyVDhZXxJ2v9aZVvsBCvYNBEB591ltDJ2QmkFJsbu_9s9JTH9ePT_AlqDBhTcUzKaFF0YbkV5f9aZfC0PyhedvkUIS85WLps2fWGoC3-eg9jx6EH2cjhLNhUFN4Gmxqy0SR9EHyiQuzrvpS346SwF23ljP6pYBe4).
 
As unidades turcas que em desespero de causa se infiltraram no espaço de Idlib, arriscam-se a ser aniquiladas, tal qual os seus terroristas protegidos, face à avalanche de ataques das Forças Árabes Sírias (com algumas unidades de elite) e da poderosa aviação russa. (https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020021315210971-turquia-envia-forcas-especiais-e-misseis-para-idlib-em-meio-a-tensoes-crescentes-na-siria-video/https://southfront.org/russian-airstrikes-pound-turkish-convoy-in-southern-idlib-videos/https://southfront.org/13-turkish-soldiers-were-killed-in-airstrike-in-southern-idlib-reports/).
 
A injecção intempestiva de material de guerra na Grande Idlib, já nem meios, nem tempo tem para adquirir armas que um dia pertenceram ao Pacto de Varsóvia (agora é tudo material e equipamento turco, com entregas de última hora a fim de partir para as frentes de combate)! (https://southfront.org/in-photos-hayat-tahrir-al-sham-members-publicly-use-turkish-supplied-military-equipment-in-battle-of-idlib/https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019102614692725-militares-russos-divulgam-fotos-de-satelite-comprovando-contrabando-de-petroleo-sirio-pelos-eua/).
 
Sem supremacia aérea, sem unidades compactas de artilharia reactiva, sem unidades de elite ao nível do Tigre (divisão que constitui uma autêntica espinha dorsal das Forças Árabes Sírias), a resistência em Idlib é carne para canhão e só a hipocrisia da propaganda (e tanto a Rússia, como a Síria e o Irão sabem-no), pode tentar prover um (efémero) cessar-fogo, ou um acordo que redundará mais cedo que tarde num ultimato para as Forças Armadas Turcas na área!... (https://plataformacascais.com/plataformacascais/index.php?option=com_content&view=article&id=108265:pesadelo-humanitario-causado-pelo-homem-para-o-povo-sirio-deve-parar-imediatamente-diz-chefe-da-onu&catid=45&auid=54577https://topeteglz.org/2020/02/11/videosiria-imagenes-aereas-del-ataque-de-artilleria-contra-convoy-turco-10-febrero-2020/https://topeteglz.org/2020/02/21/videosiria-idlib-turquia-intenta-derribar-aviones-rusos-su-24-y-estos-responde-21-febrero-2020/).
 
A Turquia terá de se sentar à mesa de negociações, uma mesa que aponta para 5 de Março, mas parece ficar claro que já nem Idlib haverá para nessa altura discutir (talvez só tenham possibilidade de contenção em relação a Rojava, o “Curdistão sírio”, a norte do Eufrates)!... (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/a-turquia-joga-com-um-pau-de-dois-bicos.html#morehttps://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/a-turquia-manda-abater-4-oficiais-do.htmlhttps://southfront.org/battle-of-idlib-and-prospects-of-turkish-syrian-war/).
 
Neste momento, depois de terem abatido 4 oficiais russos num posto de observação, os soldados turcos que na Grande (cada vez mais pequena) Idlib reforçam os rebeldes, passarão a ser “danos colaterais” por que o objectivo é desbaratar a Al Qaeda (Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Sham e o  que os próprios turcos estão a reequipar, a municiar e a tentar reprogramar… (https://www.counterextremism.com/threat/nusra-front-jabhat-fateh-al-shamhttps://www.wilsoncenter.org/article/the-ahrar-al-sham-movement-syrias-local-salafists-0https://carnegie-mec.org/diwan/72935).
 
 
03- A batalha que se trava em Idlib terá influência na Ásia Central e no Ocidente da China, pelo que as suas implicações são da abrangência das linhas ligadas à Turquia, com forte influência em Ankara e no próprio governo de Erdogan, que está sujeito assim a uma pressão em toda a linha, susceptível de redimensionar o conflito para um outro escalão. (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/a-nova-rota-da-seda-chinesa-esta.htmlhttp://www.geolinks.fr/la-chine-et-les-nouvelles-routes-de-la-soie-instruments-au-service-de-la-projection-de-la-puissance-chinoise/https://www.mei.edu/publications/china-and-syria-war-and-reconstruction#_ftn29https://schillerinstitute.com/media/aleppo-the-eternal-city-project-phoenix/).
 
A situação implica-se também na geoestratégia da Nova Rota da Seda em curso na Ásia Central, como também na direcção do AfPaq (Afeganistão e Paquistão) e Irão. (https://www.strategic-culture.org/news/2019/11/01/middle-easts-new-post-regime-change-future/https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/washington-esta-travar-uma-guerra-de.html#morehttps://www.voltairenet.org/article208871.html?__cf_chl_jschl_tk__=4884a55d4903fd0e85c1ce0e18d6bd8424b06e7d-1579972555-0-AY6lQNmQGD-wocpVlLZOUYtyC7pjKCPKZwKSceSc48OvnhDHkVPT9NKnrR7UErCbvAl54tzRMfEUa08jRjocC6vxmvk6uWbxpNVnQdMe9OSV99hZTRotW12eaHDAjvtN9oCkTrBIKQRXNoF5oiEmU9KuGCTFENoLJCWzqT2SpSiRvHabsgH4bRbczN8tXdrN1gWi0cb0xzi97mmGM_Aokp8pOBkeyO-DiyBMlYCalhG-kezWvK2FCn2-GxSbokvY83L0wuXRd2yjJgLiKTs0XZcqwF0P-j9jWTOwaU1bEEUYhttp://www.realinstitutoelcano.org/wps/portal/rielcano_en/contenido?WCM_GLOBAL_CONTEXT=/elcano/elcano_es/zonas_es/asia-pacifico/ari53-2016-esteban-china-pakistan-corridor-transit-economic-development).
 
Os Estados Unidos e o processo da hegemonia unipolar estão a jogar com Israel e a Turquia sobre a Síria, mexendo assim com seus principais “aliados” na região e procurando mover os europeus enquadrados na NATO, em reforço dos seus interesses, ingerências e manipulações! (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/esta-ai-iii-guerra-mundial.htmlhttps://vermelho.org.br/2019/10/03/a-nova-rota-da-seda-e-a-atual-encruzilhada-historica/https://www.voltairenet.org/article209001.htmlhttps://www.globalresearch.ca/us-foreign-policy-shambles-nato-middle-east/5684713?utm_campaign=magnet&utm_source=article_page&utm_medium=related_articles).
 
 
Martinho Júnior -- Luanda, 24 de Fevereiro de 2016
 
Imagens:
01- A guerra na Síria, uma longa confrontação entre hegemonia unipolare a emergência multilateral;
02- O ano de 2016 marcou o início da reviravolta a favor do Presidente Assad na Síria e a progressiva derrota do injectado caos, terrorismo e desagregação;
03- As bases do Pentágono no Médio Oriente Alargado;
04- Comparação do território dominado pelo governo do Presidente Assad em 2016 e hoje;
05- Mapa da região sul da Grande Idlib, neste momento alvo das ofensivas sírias e russas.

Choque de titãs no coração da Terra

por Pepe Escobar [*]

Os loucos anos vinte começaram com o estrondo do assassínio do general iraniano Qasem Soleimani.

No entanto, um estrondo maior nos aguarda ao longo da década: os vários desdobramentos do Novo Grande Jogo na Eurásia mercê do afrontamento dos Estados Unidos contra a Rússia, a China e o Irão, os três principais pilares da integração na região.

Qualquer acto de mudança neste jogo em termos de geopolítica e geoeconomia terá de ser analisado em conexão com esse choque de grande envergadura.

O Estado Profundo (Deep State) norte-americano e os sectores determinantes da classe dominante dos Estados Unidos da América vivem absolutamente aterrorizados com o facto de a China estar a ultrapassar economicamente a "nação indispensável" e de a Rússia a ter superado militarmente . O Pentágono designa oficialmente os três pilares da Eurásia como "ameaças".

As técnicas de guerra híbrida – acompanhadas pela demonização sorrateira incessante – irão proliferar com o objectivo de conter a "ameaça" da China, a "agressão" russa e o "patrocínio do terrorismo" do Irão. O mito do "mercado livre" continuará a sentir-se de maneira asfixiante através da imposição de uma enxurrada de sanções ilegais, eufemisticamente apresentadas como novas "regras" comerciais.

No entanto, tais práticas dificilmente serão suficientes para inviabilizar a parceria estratégica sino-russa. Para desvendar o significado mais profundo dessa parceria é importante compreender que Pequim a define como o rumo para "uma nova era". Isso significa um planeamento estratégico a longo prazo – na perspectiva da data-chave de 2049, o centenário da Nova China.

O horizonte para os múltiplos projectos da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE), também conhecida como Nova Rota da Seda, é, de facto, a década de 2040, altura em que Pequim calcula ter tecido completamente um novo paradigma multipolar de nações/parceiros soberanos na Eurásia e além dela, todos associados por um labirinto interligado de cinturas e estradas.

Quanto ao projecto russo – a Grande Eurásia – reflecte de alguma maneira a Cintura e Estrada e estará integrado nesse processo. A Iniciativa Cintura e Estrada, a União Económica da Eurásia, a Organização de Cooperação de Xangai e o Banco de Investimento em Infraestruturas da Ásia convergem na mesma perspectiva.

Realpolitik

Esta "nova era" definida pela parte chinesa depende fortemente de uma estreita coordenação entre Pequim e Moscovo em cada sector. O projecto "Made in China 2025" engloba uma série de avanços técnico-científicos. Ao mesmo tempo, a Rússia afirma-se com recursos tecnológicos sem paralelo em armas e sistemas, em níveis que a China ainda não consegue atingir.

Na última cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada em Brasília, o presidente Xi Jinping disse a Vladimir Putin que "a actual situação internacional, com crescentes instabilidade e incerteza, instou a China e a Rússia a estabelecer uma coordenação estratégica mais estreita". A que Putin respondeu: "Na situação actual, os dois lados devem continuar a manter uma estreita comunicação estratégica".

A Rússia está a mostrar à China como o Ocidente respeita o poder da Realpolitik de qualquer forma; e Pequim está finalmente começando a usá-lo. O resultado é que, após cinco séculos de dominação ocidental – que, aliás, levaram ao declínio das antigas rotas da seda – o Heartland [1] está de volta com estrondo, afirmando a sua influência.

A minha observação pessoal, as viagens que realizei nos últimos dois anos na Ásia Ocidental e Central e as minhas conversas nos últimos dois meses com analistas em Nur-Sultan (Casaquistão), Moscovo e Itália permitiram-me mergulhar na complexidade do que algumas mentes afiadas definem como Double Helix (dupla hélice). Estamos cientes dos imensos desafios que há pela frente – ao mesmo tempo que é difícil acompanhar o impressionante ressurgimento do Heartland em tempo real.

Em termos de soft power, o papel de destaque da diplomacia russa tornar-se-á ainda mais importante – sustentado por um Ministério da Defesa liderado por Serguei Shoigu, um tuvano da Sibéria e um braço de inteligência capaz de dialogar construtivamente com todos: Índia/Paquistão, Coreia do Norte/Sul, Irão/Arábia Saudita, Afeganistão.

Esse processo amortece (complexas) questões geopolíticas de uma maneira que ainda ilude Pequim.

Paralelamente, praticamente toda a região Ásia/Pacífico tem agora em consideração a Rússia e a China como forças opostas à superioridade financeira e naval dos Estados Unidos.

Apostas no Sudoeste asiático

O assassínio direccionado do general Soleimani, por todas as suas consequências a longo prazo, é apenas um movimento no tabuleiro do Sudoeste da Ásia. Em última análise, o que está em jogo é um prémio macro-geoeconómico: uma ponte terrestre do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo Oriental.

No Verão passado uma reunião trilateral Irão-Iraque-Síria estabeleceu que "o objectivo das negociações é activar o corredor de carga e transportes" entre os três países "como parte de um plano mais vasto que é o da reactivação da Rota da Seda".

Não poderia haver um corredor de ligação mais estratégico, capaz de se interligar simultaneamente com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul; com a conexão Irão-Ásia Central-China até ao Pacífico; e com Latakia (Síria) em direcção ao Mediterrâneo e ao Atlântico.

O que está no horizonte é, de facto, uma sub-secção da Iniciativa Cintura e Estrada no Sudoeste da Ásia. O Irão é um nó central da ICE. A China está fortemente envolvida na reconstrução da Síria; e Pequim e Bagdade assinaram vários acordos e criaram um Fundo de Reconstrução Iraquiano-Chinês (receitas de 300 mil barris de petróleo por dia em troca de crédito chinês para as empresas chinesa que reconstroem as infraestruturas iraquianas).

Uma rápida olhadela aos mapas revela o "segredo" da atitude dos Estados Unidos de se recusarem a fazer as malas e a deixar o Iraque, conforme lhes foi exigido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro iraquianos: impedir o ressurgimento desse corredor através de todos os meios necessários. Especialmente quando sabemos que todas as estradas em construção pela China na Ásia Central – passei por muitas delas em Novembro e Dezembro – acabam ligando a China ao Irão.

O objectivo final: unir Xangai ao Mediterrâneo Oriental por terra, através do Heartland.

Por mais que o porto de Gwadar no Mar da Arábia (no Baluchistão paquistanês) seja um nó essencial do Corredor Económico China-Paquistão, e parte da multifacetada estratégia da China para "escapar ao Estreito de Malaca" (controlado pelos Estados Unidos), a Índia também cortejou o Irão para replicar Gwadar com o porto de Chabahar, no Golfo de Omã.

Enquanto a China pretende ligar o Mar da Arábia ao Xinjiang através do corredor económico, a Índia deseja conectar-se ao Afeganistão e à Ásia Central via Irão.

No entanto, os investimentos da Índia em Chabahar podem dar em nada, uma vez que Nova Deli ainda está a ponderar se deve tomar parte activa na estratégia "Indo-Pacífico" dos Estados Unidos; nesse caso, o Irão retirar-se-ia desse processo.

O exercício militar conjunto Rússia-China-Irão em finais de Dezembro, iniciado exactamente em Chabahar, foi um sinal inequívoco dado a Nova Deli. A Índia não pode simplesmente ignorar o Irão ou acaba por perder o seu principal nó de ligação, Chabahar.

Há um facto imutável: todas as partes interessadas têm necessidade de ligações com o Irão. Por razões óbvias, desde o Império Persa, trata-se de um centro privilegiado de todas as rotas comerciais da Ásia Central.

Mais importante ainda é o facto de, para a China, o Irão ser uma questão de segurança nacional. A China investe fortemente no sector energético do Irão. Todo o comércio bilateral é processado na moeda chinesa ou numa cesta de moedas que ignora o dólar norte-americano.

Enquanto isso, os neocons (neoconservadores) dos Estados Unidos sonham ainda com o objectivo de Cheney na década passada: mudança de regime no Irão que permita aos Estados Unidos dominarem o Mar Cáspio como trampolim para a Ásia Central, apenas a um passo de distância de Xinjiang e do incentivo aos procedimentos anti-chineses. Isto poderia ser encarado como uma Nova Rota da Seda ao contrário, para afundar o projecto da China.

A batalha das eras

Um novo livro, The Impact of the Belt and Road Iniciative (O Impacto da Iniciativa Cintura e Estrada) da China, de Jeremy Garlick, da Universidade de Economia de Praga, tem o mérito de admitir que o facto de a ICE "fazer sentido" é "extremamente difícil".

Trata-se de uma tentativa extremamente séria de teorizar sobre a imensa complexidade da Iniciativa Cintura e Estrada, especialmente considerando a abordagem flexível e sincrética da China para elaboração de políticas, bastante desconcertante para os ocidentais. Para atingir o seu objectivo, Garlick entra no paradigma da evolução social do professor Shiping Tang , mergulha na "hegemonia neo-gramsciana" e disseca o conceito de "mercantilismo ofensivo" – tudo como parte de um esforço no sentido do "ecletismo complexo".

O contraste com a vulgar narrativa de demonização da ICE terrestre que emana dos "analistas" norte-americanos é flagrante. O livro aborda em pormenor a natureza multifacetada do transregionalismo da ICE como um processo orgânico em evolução.

Os criadores de políticas imperiais não se preocupam em compreender como e porquê a ICE tem vindo a estabelecer um novo paradigma global. A recente cimeira da NATO em Londres proporcionou algumas dicas. A NATO adoptou acriticamente três prioridades dos Estados Unidos: política ainda mais agressiva em relação à Rússia; contenção da China (incluindo vigilância militar); e militarização do espaço – uma recuperação da doutrina do domínio do espectro total (Full Spectrum Dominance) de 2002.

Deste modo, a NATO será atraída para a estratégia "Indo-Pacífico", o que significa contenção da China. E como a NATO é o braço armado da União Europeia, isso implica que os Estados Unidos venham a interferir, a todos os níveis, na maneira como a Europa negoceia com a China.

O coronel na reserva do Exército dos Estados Unidos Lawrence Wilkerson, chefe de gabinete de Colin Powell de 2001 a 2005, vai directo ao ponto:

"Hoje a América existe para fazer a guerra De que outra maneira poderemos interpretar 19 anos seguidos de guerra e sem fim à vista? Faz parte de quem somos. Faz parte do que é o Império Americano. Vamos mentir, trapacear e roubar, como Pompeo está a fazer, como Trump está a fazer, como Esper está a fazer… e vários outros membros do meu partido político, os republicanos, estão a fazer. Vamos mentir, trapacear e roubar de maneira a fazer o que for preciso para manter esse complexo de guerra. Esta é a verdade de tudo isto. E essa é a agonia".

Moscovo, Pequim e Teerão têm plena consciência das apostas. Diplomatas e analistas estão a trabalhar na tendência do trio para desenvolver um esforço conjunto de modo a protegerem-se entre si de todas as formas de guerra híbrida – incluindo sanções – lançadas contra cada um deles.

Para os Estados Unidos, esta é realmente uma batalha existencial – contra todos os processos de integração da Eurásia, as Novas Rotas da Seda, a parceria estratégica Rússia-China, as armas hipersónicas russas com uma diplomacia flexível, as profundas oposição e revolta contra as políticas norte-americanas através de todo o Sul global, o quase inevitável colapso do dólar norte-americano. Mas é certo que o Império não se irá desvanecer silenciosamente durante a noite. Todos devemos estar preparados para a batalha das eras.

(1) Heartland, "coração da terra" é uma teoria geoestratégica exposta em 1904 pelo geógrafo britânico Halford John Mackinder assente na importância da Eurásia como "Grande Ilha" e cujo desenvolvimento, em termos de interligações terrestres, demonstraria que as grandes potências marítimas estavam confrontadas com os seus limites. Berlim-Moscovo seria o eixo do Heartland, substituído hoje por Moscovo-Pequim mas mantendo-se Rússia, Alemanha e China como "Estados-pivot". O Heartland deve ser entendido hoje, em termos de desenvolvimento, como "deslocado" para Leste, isto é, menos europeu e mais asiático.

[*] Jornalista, brasileiro, colaborador do Asia Times e de várias publicações internacionais

O original encontra-se em thesaker.is/battle-of-the-ages-to-stop-eurasian-integration/
e a tradução em www.oladooculto.com/noticias.php?id=627

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/asia/escobar_22jan20.html

A “questão Malvinas” e a geopolítica do Atlântico Sul

A “questão Malvinas” refere-se a um conflito geopolítico que envolve quase 6 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a duas Argentinas e um oceano repleto de recursos.

Há um mês [20 de novembro de 2019], precisamente no Dia da Soberania Nacional, começou a operar o voo que conecta São Paulo às Ilhas Malvinas, uma nova rota comercial administrada pela Latam Airlines Brasil.

Não se trata de um evento isolado, devendo ser concebido como resultado do Acordo Foradori-Duncan, assinado no dia 13 de setembro de 2016. Dito acordo pretende limitar ou evitar as restrições econômicas impostas pelas leis argentinas, sancionadas pelo Congresso Nacional, sobre proteção de recursos de pesca e exploração de hidrocarbonetos. Entre outras medidas, incluiu-se a possibilidade de aumentar o número de voos às ilhas, com escala na Argentina, mas sem aceitação das empresas de transporte aéreo nacionais nem de voos diretos saindo da Argentina continental. Tudo no marco da política sobre as Malvinas implementada durante a presidência de Mauricio Macri, destinada a melhorar as condições desse enclave neocolonial-militar, como um dos pilares para recuperar as relações amistosas (subordinadas) com as potências ocidentais.

Contexto

1) O governo de Mauricio Macri trabalhou para “remover os obstáculos” que impedissem a exploração britânica nas Ilhas Malvinas e seus espaços marítimos circundantes, como ficou explícito no acordo de setembro de 2016; remover os obstáculos (leia-se “desmantelar medidas jurídicas, administrativas e legais”) supõe, por exemplo, em matéria de navegação, pesca e hidrocarbonetos, evitar punir as empresas que atuem em território argentino sem permissão.

2) Esta orientação diverge substancialmente das diretrizes sobre as Malvinas durante os governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e de Cristina Fernández (2007-2015), centradas na questão soberana e que articularam as denúncias sobre a depredação de recursos naturais e militarização do Atlântico Sul, e que levaram à decisão de limitar a exploração de recursos naturais por parte da Grã Bretanha e outros países, inclusive de empresas multinacionais detentoras de licenças comerciais.

Malvinas e o Atlântico Sul: impacto geopolítico global

Vale destacar que no Atlântico Sul ocidental – setor correspondente à América do Sul – apenas dois atores regionais detêm quase a totalidade do litoral marítimo: Brasil e Argentina. Por outro lado, as potências extrarregionais que mantêm forte presença são os Estados Unidos e o Reino Unido, detentores da cadeia de ilhas que se encontram no centro do Oceano Atlântico Sul, entre a América e a África, simultaneamente exercendo controle naval da zona [1]. Desta forma, longe de uma disputa de 11 mil quilômetros quadrados – correspondentes às duas ilhas maiores e ao conjunto de ilhotas que se desprende delas – a “questão Malvinas” diz respeito a um conflito sobre cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados, ou seja, nada mais, nada menos do que o correspondente a duas Argentinas continentais e um oceano repleto de recursos.

O Estreito de Magalhães e os canais de Beagle e Drake possibilitam a comunicação interoceânica Atlântico-Pacífico e são fundamentais para o monitoramento e intervenção no comércio mundial. Estima-se que cerca de 200.000 navios de carga transitam anualmente pelo Atlântico Sul, onde 80% do petróleo que demanda a Europa Ocidental e 40% das importações dos EUA representam parte importante deste fluxo comercial [2]. Outra dimensão que mostra a importância geoestratégica das Malvinas é a conexão que estabelece com a Antártida, território cobiçado pelas potências hegemônicas por ser uma reserva de minerais, biodiversidade e mais de ¾ da água doce existente no planeta armazenada em forma de gelo, além da suma importância para a atividade espacial.

Atualmente, o enclave militar com a base aérea de Mount Pleasant conta com uma pista de 2590 metros e outra de 1525 que permitem o deslocamento de aviões de grande porte e helicópteros. A isto agrega-se o porto de águas profundas Mare Harbour utilizado pela Marinha Real para a amarra de navios e submarinos (Londres tem enviado submarinos de última geração e de propulsão nuclear), além de silos e rampas para lançamento de armas nucleares. Aí vivem entre 1500 a 2000 efetivos, dos quais cerca de 500 residem de forma permanente enquanto os demais são parte de contingentes rotativos que chegam para serem submetidos a treinamento, sendo posteriormente enviados a cenários bélicos onde a Grã Bretanha esteja envolvida, como foi o caso do Iraque e do Afeganistão [3].

Esta base conta com aviões de última geração, intitulados Eurofighter Typhoon, que substituíram os Tornado F3 e Harrier usados na guerra; nenhuma força aérea na América Latina conta com este tipo de avião [4]. Além disso, em 2017 o Ministério de Defesa britânico resolveu ampliar o orçamento da base para 267 milhões de libras durante os próximos dez anos, implementando novos sistemas de defesa de mísseis que substituam o sistema anterior de defesa Rapier.

Essas informações deixam claro que se trata de um ponto geopolítico e geoestratégico de primeira importância. Os assentamentos coloniais britânicos – cuja descolonização segue pendente no século XXI – servem para estabelecer um sistema interconectado de bases militares que incluem Tristán de Acuña, Santa Elena e Ascensión. Ainda que algumas não conformem bases militares clássicas, constituem importantes “barreiras” na geopolítica do Atlântico Sul, já que, como Santa Elena – com uma recente inauguração de uma pista aérea – podem transformar-se rapidamente em bases úteis para o transporte e apoio logístico; uma espécie de coluna vertebral que permite o abastecimento e translado de forças de combate rapidamente [5].

Rede de bases e infraestrutura britânicas distribuída pelo hemisfério

– Ilha Ascensión (base militar Wideawake Airfield a 8000 km de distância de Londres, enclave anglo-americano fundamental para abastecimento e logística).
– Ilha Santa Elena e ilhota Tristán de Cunha
– Ilhas Malvinas (Monte Agradable é a principal base militar da OTAN no Atlântico Sul)
– Ilhas Georgias e Sandwich del Sur (último elo da cadeia de controle naval)

Malvinas e a disputa “Ocidente versus Oriente”

É fundamental entender a estratégia do Reino Unido no Atlântico Sul como complementar à dos Estados Unidos e ao esquema de implementação militar da OTAN. Em 2004, Londres transferiu o Comando Naval do Atlântico Sul a Mare Harbour e Monte Agradable. Quatro anos depois, os EUA anunciaram a reativação da IV Frota para patrulhar o Caribe, América Central e América do Sul com fins “humanitários”. Em 2009 as Ilhas Malvinas, ilhas do Atlântico Sul e Território Antártico reivindicado pela Grã Bretanha foram incorporados unilateralmente como territórios europeus ultramarinos através da ratificação do Tratado de Lisboa e da aprovação da Constituição Europeia pelo Parlamento Europeu.

Em agosto de 2018 o secretário de Defesa britânico, Gavin Williamson, diante do grupo de especialistas do Atlantic Councilthink-tank que é referência do establishment imperialista, fundado em 1961 no marco da Guerra Fria – ressaltou a fortaleza da relação entre o Reino Unido e os EUA:

“(…) Estamos prontos para responder a qualquer situação em qualquer momento. Implantamos forças em todo o mundo, podemos recorrer aos nossos territórios ultramarinos em Gibraltar, às Áreas da Base Soberana no Chipre, à ilha Ascensión, às ilhas Falklands* e ao Território Britânico do Oceano Índico. Eles geralmente fornecem instalações estratégicas não apenas para nós, mas também para os Estados Unidos”[6].

Em um relatório da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA – China do Congresso dos Estados Unidos intitulado “Acordos militares da China com a Argentina: uma potencial nova fase nas relações de Defesa China – América Latina” há uma consideração sobre a “intensificação temporal da disputa pelas Falklands”:

– Os EUA não adotam nenhuma posição sobre a disputa das ilhas Falklands que não seja a de encorajar uma resolução diplomática das diferenças, mas os seus interesses serão prejudicados pelo aumento das tensões entre os reclamantes – ambos aliados dos Estados Unidos –, e a tensão que isto geraria para os seus esforços de estabilidade regional.

– Os potenciais acordos de venda de armas e cooperação espacial da China com a Argentina já têm servido para intensificar marginalmente a disputa, e a China apoia publicamente o reclamo da Argentina sobre as ilhas, provavelmente vendo-o como análogo ao seu próprio reclamo sobre Taiwan.

– Antes que fossem conhecidos os seus acordos oficiais com a China, o mero interesse da Argentina nos caça-bombardeiros russos SU-24 levou o Reino Unido a realizar uma revisão oficial das defesas das ilhas e investir em pequenas melhoras, uma medida que foi fortemente criticada pela Argentina.

– Apesar do potencial valor de bilhões de dólares, esses acordos não proporcionariam ativos suficientes para inclinar o equilíbrio de poder militar a favor da Argentina [7].

Hidrocarbonetos

Durante os anos 70, a Grã Bretanha realizou várias missões científicas e estudos de prospecção sobre os recursos nas ilhas, especialmente de petróleo. No fim da década, por mero acaso, diversos meios começaram a expressar consensualmente que a Coroa britânica deveria buscar novas fórmulas para o desenvolvimento das potencialidades de mineria nas ilhas, assim como a importância de tirar da mesa de discussão com a Argentina a questão da soberania. Ao mesmo tempo, os EUA sentenciavam que “a única região fora da OPEP e dos países comunistas com um potencial petroleiro significativo é a bacia das Malvinas, entre a Argentina e as ilhas Falkland” [8].

Logo após a guerra, durante o governo de Carlos Menem, as Malvinas deixaram de ser uma questão soberana, no marco de uma política de “abordagens práticas”, favorecendo através de tratados e convênios os interesses econômicos e políticos da Grã Bretanha [9].

Este marco legal permitiu que a Grã Bretanha lançasse unilateralmente uma licitação pública para a exploração de petróleo nas ilhas durante os anos 90. Foram perfurados seis poços em 1998, e em 2010 a Ocean Guardian liderou um novo ciclo de perfurações. No dia 2 de abril de 2015 a Premier Oil, a Falkland Oil & Gas e a Rockhopper Exploration anunciaram a descoberta de reservas de petróleo e gás superando, de longe, as expectativas [10]. Em setembro de 2017, durante a Conferência Capital Oil, o CEO da Rockhopper Exploration anunciou que o poço denominado Sea Lion possuía reservas certificadas entre 500 milhões e 1 bilhão de barris de petróleo. Estima-se que a extração comercial de petróleo cru nas Malvinas poderia começar em 2020. Para 2022 é projetada uma produção offshore de 75.000 barris diários, volume que poderia alcançar um máximo de 120.000 em 2025 [11].

É importante lembrar da condição transnacional das companhias petroleiras. No caso das Malvinas, existem importantes interesses estadunidenses em aliança com as companhias britânicas. A Rockhopper Exploration e a Diamond Offshore, por exemplo, negociam a documentação vinculante a partir dos princípios acordados para o fornecimento de uma unidade de perfuração e de financiamento do provedor [12]. Atualmente, as empresas que buscam e exploram a área são: Falkland Oil and Gas Limited, Borders and Southern Petroleum, Rockhopper Exploration, Diamond Offshore Driling, BHP Billition e Argos, além de empresas responsáveis por serviços financeiros e acionistas [13].

Uma informação fundamental é que a lei de hidrocarbonetos da Argentina, modificada em 2013, prevê que nenhuma empresa petroleira que tenha atuado nas Malvinas poderá fazê-lo na plataforma continental argentina, por ser uma exploração clandestina e ilegal. Em outubro de 2018, o governo de Mauricio Macri lançou o decreto 872 que instrui a Secretaria do Governo de Energia, dependente do Ministério da Fazenda, a convocar um concurso público internacional para adjudicar permissões de exploração e busca de hidrocarbonetos offshore.

Neste contexto, foram concedidas áreas a empresas europeias que já estão operando nas Malvinas [14], enquanto entregam informação geológica da plataforma continental argentina e aceitam empresas britânicas que operaram nas Malvinas sob a administração ilegal das ilhas. Esses acontecimentos fortalecem a ocupação colonial britânica ao conceder explorações a essas empresas, que violam a Constituição Argentina ao reconhecer o governo kelper** [15]. Em outras palavras, não apenas foram outorgadas essas concessões ilegais como também legitimou-se a ocupação colonial.

Recursos marinhos vivos

Depois da guerra, e como parte do plano para o apoio econômico das ilhas e manutenção da base militar do Reino Unido, o apoio econômico foi concretizado por meio do outorgamento de licenças de pesca no Mar Argentino. Na última década, a pesca representou mais da metade da renda das ilhas, a partir do sistema de licenças ilegais. Em 2011, 118 navios com licença britânica pescaram um total de 232.000 toneladas. Apenas a pesca de lulas ultrapassou o valor de 1,6 bilhões de dólares em 2012, produto da captura de 50 toneladas por dia.

Dados importantes

  1. A temporada 2019 foi a de melhor rendimento desde 1995, alcançando 51 mil toneladas, a partir da presença de mais de meia centena de barcos estrangeiros.
  2. Em fevereiro de 2019, o governo britânico das Malvinas outorgou 105 licenças de pesca apenas para lulas, ao mesmo tempo em que realizam uma investigação “conjunta” com o governo argentino sobre a espécie de lula illex, com o navio “Victor Angelescu”, para estimar a quantidade desse tipo de molusco para março de 2020.

 

Perspectiva: a urgência de uma nova etapa para as Malvinas e o Atlântico Sul

Durante o governo de Macri o “reclamo” pelas Malvinas e o Atlântico Sul esteve supeditado ao desejo de relançar o vínculo comercial com Londres, como um importante sócio para a estratégia de “reinserção no mundo”. Consequentemente, desatendeu o histórico reclamo pela soberania e desenvolvimento do Atlântico Sul. À luz da mudança de governo na Argentina, torna-se importante destacar aspectos fundamentais sobre a questão das Malvinas, que devem voltar a ser considerados como ponto de partida para o debate e tomadas de decisão:

  • É fundamental conceber as Malvinas no contexto de uma política oceânica e antártica. Para isso a Argentina deve pensar-se como um país marítimo e antártico.
  • A “questão Malvinas” implica recursos em disputa como o petróleo, a pesca, os grandes recursos na plataforma continental ou os minerais das profundezas marinhas oceânicas.
  • A Argentina oceânica e antártica deve ser pensada como política para o Atlântico Sul, como desenvolvimento da ciência e de uma logística para a Patagônia argentina continental e insular.
  • É urgente reativar as estratégias que tendem a gerar um acompanhamento regional e internacional na questão.
  • Seria conveniente reorientar as negociações para impedir a unilateralidade britânica em setores como a pesca ou hidrocarbonetos.

Notas autorais:

[1] Altieri, Mariana, “Regionalización de la Cuestión Malvinas: la construcción de una estrategia de política exterior desde un posicionamiento frente al mundo”, en Wainer, Luis (coord.), Malvinas en la geopolítica de América Latina, Ed. CCC-Unsam, 2019 (en edición).

[2]https://www.vocesenelfenix.com/content/geopol%C3%ADtica-del-atl%C3%A1ntico-sur-desarrollo-e-integraci%C3%B3n-para-defender-la-soberan%C3%ADa-en-el-sigl

[3] Entrevista a la Dra. Sonia Winer (UBA-CONICET) realizada el 3 de diciembre de 2019

[4]Volpe, Mario, “Razones e intereses de una soberanía en disputa internacional y cultural”, en Giordano, C. Malvinas y Atlántico sur: estudios sobre soberanía, UNLP, 2017.

[5]Volpe, Mario, ob. cit.

[6]https://www.gov.uk/government/speeches/defence-secretary-at-atlantic-council

[7]https://www.uscc.gov/sites/default/files/Research/China’s%20Military%20Agreements%20with%20Argentina.pdf

[8]Álvarez Cardier, Jorge, La guerra de las Malvinas, enseñanzas para Venezuela, Editorial Enfoque, Caracas, 1982.

[9]https://www.nodal.am/2018/04/malvinas-entre-un-tiempo-de-recomposicion-neocolonial-y-un-nuevo-ciclo-de-desmalvinizacion-por-luis-wainer/

[10]https://www.theguardian.com/business/marketforceslive/2015/apr/02/premier-falkland-oi-gas-and-rockhopper-announce-oil-discovery

[11]https://www.revistapetroquimica.com/dos-petroleras-norteamericanas-dejan-de-explorar-en-malvinas/

[12]https://www.revistapetroquimica.com/dos-petroleras-norteamericanas-dejan-de-explorar-en-malvinas/

[13]Entrevista a la Dra. Sonia Winer (UBA-CONICET) realizada el 3 de diciembre de 2019

[14]https://www.perfil.com/noticias/equipo-de-investigacion/nuevo-vuelo-malvinas-vinculo-comercial-petroleo-kelpers.phtml

[15]http://www.oetec.org/nota.php?id=4206&area=1

 

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

América Latina: Entre o porrete ianque e o dragão chinês

Em 1901, o banqueiro e militar venezuelano Manuel Antonio Matos lançou, com o apoio daCompañia Francesa de Cables Telegráficos(França), daFerocarril Alemán(Alemanha) e das norte-americanasNew York & Bermúdez CompanyeOrinoco Steamship Company, um movimento militar com o objetivo de derrubar Cipriano Castro da presidência da Venezuela.

No centro do conflito, os interesses de banqueiros norte-americanos e europeus, que insistiam que o país pagasse suas dívidas. O diplomata alemão Theodor Von Holleben, por exemplo, enviou ao secretário de Estado norte-americano John Hay um informe sobre uma dívida venezuelana com o banco alemãoDisconto-Gesellschaft no montante de 33 milhões de bolívares. O presidente venezuelano se negava a reconhecer a dívida, que seria na verdade cinco vezes menor.

Por quase um ano, a chamada Revolução Libertadora de Matos se enfrentou com o Governo Restaurador de Castro, que acabou vitorioso, às custas de milhares de vidas. Derrotados, era a hora dos interesses internacionais passarem à intervenção direta. 

Em 1902, navios de guerra alemães, ingleses e italianos bloqueiam os portos venezuelanos, exigindo o pagamento das dívidas – em especial aquelas contraídas para a construção da rede ferroviária no país – e, para tanto, bombardeando as costas do país e saqueando povoados. Cipriano Castro volta-se aos Estados Unidos, exigindo que o presidente Theodore Roosevelt agisse, mediando o conflito, em conformidade com a Doutrina Monroe. 

Anunciada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe, a Doutrina Monroe tinha como premissa apresentar os EUA como defensor de um continente frente às tentativas europeias para submetê-lo. Em muitos países da América Latina, era vista com otimismo; Colômbia e Argentina, por exemplo, solicitaram a proteção norte-americana algumas vezes. O ministro chileno Diego Portales (1793-1837) era mais receoso. “Nós devemos tomar muito cuidado: para os americanos do norte, os únicos americanos são eles mesmos”, dizia. Mas, à época, os norte-americanos eram de preocupação menor: eram os países europeus, as maiores potências coloniais daqueles tempos, que faziam as veias abertas pulsar e derramar sangue.

Cipriano se punha em meio de dois blocos, tentando avistar a liberdade por suas brechas. Mas Portales estava certo: americanos, todos – mas uns mais que os outros. O presidente Theodore Roosevelt, que considerava Castro “um macaquinho indescritivelmente vil” e que já havia declarado que “se qualquer país sul-americano se portar mal frente a um país europeu, que o país europeu o espanque”, lavou suas mãos, e a surra começou. Cipriano Castro foi forçado a aceitar um acordo no qual o país comprometia 30% de seus direitos aduaneiros de seus principais portos para o pagamento dos credores, em troca do fim do bloqueio. Em troca, os europeus se retiravam.

Cipriano Castro em seu escritório. 1906.

Esse episódio teve especial importância para a mensagem ao Congresso do presidente norte-americano em 1904, no qual ficava consolidado o Corolário Roosevelt (ou Política do Grande Porrete –Big Stick Policy,assim chamada a partir do provérbio africano “fale manso, mas sempre com um porrete em mãos.”) Com o Corolário, ficava definido, de maneira mais concreta, o que a Doutrina Monroe afinal significaria 80 anos depois, quando o poderio dos Estados Unidos já crescia, junto de sua frota naval: “Não é verdade que os Estados Unidos sentem qualquer fome de terra. […] Tudo o que este país deseja é ver os países vizinhos estáveis, ordeiros e prósperos. Qualquer país cujo povo se conduza bem pode contar com nossa amizade sincera. […] [Mas] irregularidades crônicas, ou uma incapacidade que resulte num afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada, podem em última instância exigir, na América como em outro lugar, intervenção por alguma nação civilizada, e no Hemisfério Ocidental a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, ainda que com relutância, em casos flagrantes de tais irregularidades ou incapacidade, ao exercício de um poder de polícia internacional.” De protetores contra oshegemons europeus, os Estados Unidos passaram a proclamar – e a garantir – sua hegemonia regional. Era óbvio: o pan-americanismo não buscava isolar opressores e abraçar aliados, mas isolar competidores, na busca de novos escravos.

O general Juan Vicente Gómez, vice de Castro, assume a presidência no ano de 1908, enquanto Cipriano embarca para a Europa, para tratar da sífilis que o acometia e que havia agravado sua saúde. Essa viagem é aproveitada por Gómez, que com um movimento apoiado pelos EUA, França e Países Baixos dá um golpe de Estado em 19 de dezembro. Goméz lideraria uma ditadura – com fachada constitucional e democrática – durante 27 anos. O “César democrático” usou da nascente indústria petroleira do país para pagar a dívida externa, orbitando – principalmente por conta do petróleo – em torno dos Estados Unidos. A dependência era tamanha quepartes da Lei do Petróleo de 1922 foram escritas por companhias petroleiras estrangeiras. O pagamento das dívidas, com o petróleo, afastava os europeus. Mas sua produção atiçava e aproximava os norte-americanos.

A hegemonia regional

Se nos tempos de Monroe havia líderes latino-americanos buscando consolidar alguma independência navegando pelas brechas de duas grandes rochas, a virada do século ficava marcada por um mapa de ação em que qualquer respiro se encontrava em torno de um só rochedo, ao redor do qual se podia orbitar ou ser esmagado. Os encouraçados do Irmão do Norte serviam para espantar europeus, mas também para subjugar latinos.

Em 1903, por exemplo, após o Senado colombiano recusar-se a aprovar o Tratado Hay-Herrán, que concedia aos norte-americanos o domínio sobre as terras na zona do Canal do Panamá, Manuel Amador e seus rebeldes panamenhos, estimulados por Roosevelt, proclamaram a independência do Panamá. Quinze dias depois, os EUA conseguiam do novo governo o tratado necessário para a construção do canal.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos se projetavam para o mundo, exibindo seu poderio naval. Em 1909, uma esquadra de guerra da Marinha dos EUA, composta por 16 encouraçados, deu a volta ao mundo, saindo de Hampton Roads e passando por Brasil, Argentina, Peru, México, Havaí, ilhas Samoa, Nova Zelândia, Austrália, Filipinas, Japão, China, Sri Lanka, Egito, Argélia, Grécia, Líbano, Turquia, Marrocos, França e Itália. “Reconhecida pela sociedade internacional, a emergente Marinha dos EUA dançaria uma valsa conduzida pelo balanço do mar, como a debutante que, de branco, exibe diante do público que está preparada (e armada!) para ingressar no mundo daqueles que já alcançaram a maturidade”,escreveu Luigi Bonafé.

Após a aprovação, em 1907, de um tratado que tornava ilegal o uso de força militar para a cobrança de dívidas, os EUA passaram a revisar alguns de seus métodos – o que não implicou em um fim do intervencionismo norte-americano na América Latina. O presidente republicano William Taft, sucessor de Roosevelt, foi responsável pela virada, que deixava de lado as intervenções como forma preferencial de resolver cobranças de dívida, implicando na “Diplomacia do Dólar”. O movimento consistia em incentivar bancos dos EUA a comprarem dívidas de países do Caribe e América Central com credores europeus, além de aumentar sua penetração na China.

Cunhando moedas de sangue

O senador republicano liberal pelo Estado de Nebraska, George W. Norris, proclamou um discurso no dia 4 de abril de 1917, no qual dizia: “Estamos indo à guerra sob o comando do ouro. Nós vamos arriscar sacrificar milhões de vida de nossos compatriotas para que outros compatriotas possam cunhar sua força vital em dinheiro”.

Com cerca de 20 milhões de mortes, muito sangue foi vertido, de fato, nas trincheiras da Primeira Guerra. Mas muito dinheiro era também cunhado. De acordo com Moniz Bandeira, em“Formação do Império Americano: Da guerra contra a Espanha à Guerra contra o Iraque”, as exportações de aço dos EUA durante a guerra quadriplicaram. As de munição foram de 40 milhões de dólares para 330 milhões. Os explosivos exportados, em 1914, eram da ordem de 60 milhões de dólares – entre 1916 e 1917, eram de 1,7 bilhão. A empresa norte-americana DuPont havia suprido, sozinha, dois quintos da munição usada pelos países daEntente, testemunhando nas suas ações de mercado um salto que foi de 20 dólares, em 1914, para mil dólares, em 1918.

Quando o armistício pôs fim à guerra, em 1918, havia 21 mil novos milionários nos EUA. Dos 20 milhões de mortos ao final da guerra, somente 116 mil eram norte-americanos, num fato que corrigia a declaração do senador Norris: cunhava-se dinheiro com força vital, sim, mas não com a de seus compatriotas. Por outro lado, quatro impérios estavam completamente arruinados ao fim da guerra: o alemão, o russo, o austro-húngaro e o otomano. E os poderes aliados haviam acumulado uma enorme dívida com os EUA, de forma que o país logo se transformou, de devedor, para credor da Europa. Em 1914, os EUA deviam à Europa entre 4 e 5 bilhões de dólares. Em dois anos, liquidaram a dívida, e em 1918 já haviam concedido créditos no montante de 25 bilhões de dólares.

As bombas enriquecem: arsenal inglês durante a Primeira Guerra. (Foto: Ministry of Information First World War Official Collection)

À guerra seguia a partilha. No Oriente Médio, Palestina e Iraque ficavam sob mandato inglês, e Síria e Líbano sob o francês, que se apossaram também de colônias alemãs na África. O Japão e a Itália também participavam a partilha. Mas a América Latina ficava livre da divisão. Assim, conservava-se a América Latina e o Caribe como protetorado norte-americano.

Duas décadas depois, em 14 de abril de 1939, o presidente norte-americano Franklin D. Rooseveltenviou um telegrama a Hitler, manifestando sua preocupação com uma nova guerra e solicitando a garantia de não-agressão, por 10 anos, a 31 países. Hitler respondeu duas semanas depois, dizendo que se Roosevelt tinha tanto interesse em saber de suas intenções na Europa, ele também queria saber quais eram as intenções dos EUA em relação aos países da América Latina. E, evocando a Doutrina Monroe, disse que “nós alemães sustentamos doutrina similar para a Europa – sobretudo para o território e para os interesses do Grande Império Alemão.”

A guerra de fato viria. E, com ela, “Roosevelt colimava, simultaneamente, alguns objetivos: esmagar a Alemanha, como potência, principal concorrente dos Estados Unidos, e liquidar as possessões da Itália e do Japão; dissolver o império colonial que a França, a Holanda e a Bélgica ainda mantinham, e assumir todas as posições e domínios da Grã-Bretanha, proposta feita a Churchill na reunião de Placentia Bay (9 de agosto de 1941), e estabelecer nova ordem mundial, sob a hegemonia dos Estados Unidos”, de acordo com Moniz Bandeira. 

Assim foi feito. 

Globalizando a hegemonia

A emergência do movimento anticolonial em todo o mundo representava a retirada de uma parcela considerável do globo do jugo das antigas potências. Aqui estava incluída a União Soviética, bastião desta luta, que conseguira sair da Primeira Guerra Mundial escapando pelos dedos do domínio estrangeiro e afirmando a sua própria independência política.

O projeto de Hitler, como ele mesmo dissera, era “sustentar teoria similar [à Doutrina Monroe] para os interesses do Grande Império Alemão”. Ocorre que a União Soviética era um alvo especial dos nazistas.

Heinrich Himmler, comandante militar da SS e uma das principais figuras do partido nazista, disse em um discurso na cidade de Posen, na Polônia: “O que acontece a um russo, ou a um checo não me interessa o mínimo. O que as nações podem oferecer na forma de bom sangue do nosso tipo, nós vamos tomar, se necessário, raptando os seus filhos e criando-os aqui conosco. Se as nações vivem em prosperidade ou morrem de fome, só me interessa enquanto nós precisarmos deles como escravos para a nossa cultura; caso contrário, não me interessa. Se 10.000 mulheres russas caem de exaustão enquanto cavam uma vala antitanque, interessa-me apenas na medida em que a vala antitanque para a Alemanha esteja terminada. Nunca seremos rudes e sem coração quando isso não for necessário, isso é claro. Nós alemães, que somos o único povo no mundo que tem uma atitude decente para com os animais, também assumimos uma atitude decente para com estes animais humanos (Menschentieren).”

Assim eram vistos: “animais humanos”. OGeneralplan Ost nazista (Grande Plano para o Leste) consistia em genocídio, limpeza étnica e colonização em larga escala dos países do leste europeu. Escravos seriam então usados nos esforços de guerra, junto das reservas de petróleo do Cáucaso e ascommodities agrícolas da União Soviética. Em última instância, o leste europeu poderia se tornar colônia alemã.

Para os Estados Unidos, a Alemanha nazista significava, por um lado, uma ponta de lança contra os comunistas (na Europa e em relação a União Soviética) e, por outro, um ousado competidor no campo geopolítico. Aquela antiga potência, derrotada na Primeira Guerra e submetida ao endividamento, emergia mais uma vez, estendendo sua influência por todos os continentes com promessas de guerra. E se a guerra fosse declarada contra os Estados Unidos – como de fato foi, em 1941 – a América Latina seria um território chave.

Ataque em Pearl Harbor, 1941. (Foto: US archives)

Para a Alemanha nazista, bastava que os países latino-americanos ficassem neutros. Os Estados Unidos garantiram apoio na região, no entanto, por meio da “Política de Boa Vizinhança”, aumentando os investimentos na América Latina e promovendo intercâmbios culturais. Os países que tenderam mais à neutralidade – como Chile e Argentina – foram castigados no campo econômico.

Depois que um furacão de carne humana, alimentado principalmente pelo sangue soviético, varreu o governo nazista da Alemanha e impôs a rendição ao Japão e à Itália, o tabuleiro global ficou limpo: norte-americanos de um lado, soviéticos de outro. A partilha já havia sido preparada em Yalta, na Crimeia, oito meses antes, e um ano antes os Estados Unidos já haviam decidido, na Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas, em Breton Woods, pela criação do Acordo Geral sobre Comércio e Tarifas (GATT, em inglês), do Fundo Monetário Internacional (FMI), e do Banco Mundial.

A intenção era promover o comércio multilateral, com livre circulação de mercadorias e investimentos, por meio da conversibilidade das moedas (tendo o dólar como base); a concessão de ajuda financeira aos países em troca de medidas de redução de gastos e privatizações, e a promoção de investimentos privados e empréstimos em massa às nações no pós-guerra. Por meio dele, os Estados Unidos não só estariam em luta contra a URSS, mas também assegurando o domínio sobre as antigas colônias britânicas e francesas e, porque não, sobre a Inglaterra e a França em si.

Logo após a Segunda Guerra, chegou-se à chamada Guerra Fria. A disputa geopolítica entre soviéticos e norte-americanos no pós-guerra, cada vez mais, tornaria o estalar de uma nova guerra necessário. No entanto, ela seria contraprodutiva para ambas as partes: as duas potências saíam vitoriosas de campos de batalha que lhes haviam custado enormes quantidades de recursos, humanos e financeiros. Guerrear não só implicava abrir mão dos garantidos e imediatos espólios da Segunda Guerra, como jogar-se, como potência, num mundo em que o caos poderia destronar ambos os reis.

Era necessário guerrear sem armas, mas sempre sob sua sombra. A Guerra Fria foi, assim, feita nos moldes da política, e a política era feita como num mapa da guerra. O desenvolvimento da capacidade nuclear soviética em 1949 transpunha para o campo militar o paradoxo político após a Segunda-Guerra: vencer o inimigo era necessário, para ambos os lados. Mas para ambos os lados era contraproducente e perigoso demais combater. Neste jogo de xadrez em que não havia mais torres, cavalos, bispos ou rainhas, a vitória seria alcançada pelos peões, convertidos em torres de hegemonia de cada um dos reis.

Torres de hegemonia

A Guerra Fria foi combatida em todo o mundo, na dimensão cultural, política e econômica. Batalhas militares eram efetivamente travadas, mas com caráter limitado. 

Na Ásia, em 1949, a Revolução Chinesa ergueu, às portas da Rússia, a primeira torre de hegemonia contra os Estados Unidos. Igualmente ocorreu na Península Coreana, que acabou dividida e passou pela Guerra da Coreia entre 1950 e 1953. O Japão e a Coreia do Sul, por sua vez, serviram de torres norte-americanas na região, com centenas de milhares de dólares em investimentos e ajuda financeira, e ostensiva presença militar norte-americana. A Tailândia e as Filipinas também cumpriram papéis importantes na “doutrina asiática” daSoutheast Asian Treaty Organization(Organização do Tratado do Sudeste Asiático), um pacto militar que incluiu também a Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália, França e Paquistão, com o objetivo de defender o Vietnã do Sul, o Laos e o Camboja dos comunistas. A doutrina asiática, como a Doutrina Monroe, considerava que qualquer intrusão no sudeste da Ásia era perigosa para a paz e segurança dos EUA. 

No Leste Europeu, até a Alemanha Oriental, a influência foi assegurada à União Soviética. Na Europa Ocidental, a hegemonia norte-americana era mantida.

Um campo de batalha especial foi o Oriente Médio. Ali, a influência norte-americana era forte, com a grande torre de Israel, erguida em 1948, a Arábia Saudita e, depois do golpe contra Mohammad Mossadegh, o Irã. A Síria e o Iraque permaneciam alinhadas ao Bloco Soviético, que teve sua influência expandida também para o Egito, cujo líder, Abdel Nasser, nacionalizou o Canal de Suez em 1956.

Na América Latina, prevalecia a Doutrina Monroe. A hegemonia em alguns países, durante o final dos anos 40 e os anos 50, já era assegurada pelo grande porrete literal do irmão do norte: Costa Rica, Guatemala e Paraguai. Em 1959, no entanto, a Revolução Cubana estourou, e a ilha se alinhou ao Bloco Soviético a partir de 1961. A tensão, agora no protetorado preferencial dos Estados Unidos, deveria ser resolvida. Argentina, Brasil, Chile, Nicarágua, Panamá, Peru e Uruguai seriam todos alvos do porrete norte-americano e seus representantes regionais: coturnos e milicos.

Novas potências

Gay Talese, o lendário escritor e jornalista norte-americano, escreveu certa vez, sobre a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 1999, disputada entre EUA e China: “Era sim uma visão contrastante e atualizada do tipo de mulher chinesa que Mao havia imaginado capaz de levar o mundo nas costas. Aquelas modernas finalistas chinesas, que viajavam pelo planeta e calçavam chuteiras com travas na final da Copa do Mundo de 1999, eram, em certos casos, netas ou bisnetas de mulheres que no passado manquitolavam em sua terra com pés atados e, por isso, deformados. Aquelas jogadoras de futebol eram, num sentido histórico, parte de uma longa marcha que ainda continuava, de um grande salto avante rumo ao século XXI, no qual, como futuras mães numa superpotência florescente e tecnicamente avançada, seus genes competitivos talvez epitomassem a energia e a determinação com que novas gerações de chineses poderiam vir a competir com os americanos na tentativa recíproca de riscar o outro país do mapa.”

Oito anos antes, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas encontrava o colapso, depois dos governos comunistas caírem nos aliados Hungria, Tchecoeslováquia, Bulgária, Romênia e Alemanha Oriental, e a as repúblicas soviéticas da Lituânia, Letônia e Estônia declararem sua independência.

A China, que já se mantinha independente dos soviéticos, havia empreendido a partir de 1976 grandes reformas econômicas. Na década de 1960-1970, a economia do país crescia no passo de 4,5%; entre 1970-1980, 5,8%; entre 1980-1990, 8,5%.

A União Soviética havia sido destruída, sim, e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se expandia para suas antigas fronteiras. Mas na Ásia Oriental o “perigo vermelho” crescia e se tornava uma potência. Os canhões rudimentares viraram modernos e sofisticados mísseis. A industrialização avançava a passos largos. E os pés confinados por panos e deformados agora vestiam chuteiras e chutavam ao gol no final da Copa.

Desde aquela final, em 1999, o PIB chinês saltou de 1,094 trilhão para 12,24 trilhões (em comparação, o PIB norte-americano saltou de 9,6 trilhões para 19,3 trilhões). O tamanho dessa potência econômica é tal que,de acordo com um relatório daOxford Economics, “a indústria chinesa […] reduziu os preços dos bens de consumo nos Estados Unidos, amorteceu a inflação e colocou mais dinheiro nos bolsos americanos […] o comércio com a China […] economizou até 850 dólares por ano para essas famílias.” Além disso, tudo indica que a Chinaesteja na dianteira no desenvolvimento do 5G, a “quarta revolução tecnológica”, enquanto a indústria bélica norte-americana se torna cada vez mais dependente decommodities chinesas, em especial das chamadas “terras raras”.Um relatório do Departamento de Defesa norte-americano considera que a China “representa um risco significativo e crescente para o fornecimento de materiais considerados estratégicos e críticos para a segurança nacional dos EUA, já que o país asiático é a única fonte ou provedor principal de uma série de materiais utilizados na indústria de defesa.”

Velhos porretes

O ex-Secretário de Defesa dos Estados Unidosdeclarou em 2018, quando anunciando a nova doutrina estratégica de seu país: “Continuaremos a levar adiante a campanha contra terroristas em que estamos envolvidos hoje, mas a competição entre grandes potências, não o terrorismo, agora é o foco principal da segurança nacional dos EUA.” Como escrevi em “Carta no Coturno – A volta do Partido Fardado no Brasil”, “a retomada da Doutrina Monroe não é só uma teoria; é discurso oficial. Se em 2013 o então Secretário do Estado John Kerrydeclarava publicamente que ‘a era da Doutrina Monroe acabou”, o então Secretário de Estado de Trump, Rex Tillersondeclarava, antes de embarcar para uma série de viagens na América Latina, que a Doutrina era ‘claramente um sucesso […] tão relevante hoje como no dia em que foi escrita.’ Nesta mesma ocasião, disse que ‘hoje a China está colocando um pé na América Latina. Está usando políticas econômicas para colocar a região na sua órbita. A pergunta é: a que preço? A América Latina não precisa de novos poderes imperiais que só buscam beneficiar seu próprio povo.’ O Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, também gosta de rememorar o presidente Monroe.Respondendo a uma pergunta sobre a Venezuela, declarou que ‘nessa administração nós não temos medo de usar a frase ‘Doutrina Monroe’. Esse é um país em nosso hemisfério, tem sido o objetivo de presidentes desde Ronald Reagan ter um hemisfério completamente democrático.”

De fato, a China tem posto um pé na América Latina. Um não; vários. E de chuteiras. Desde 2005, são cerca de 140 bilhões de dólares em empréstimos enviados à região, dos quais 90% foram para quatro países: Venezuela, Brasil, Equador e Argentina. Os empréstimos chineses para o desenvolvimento da América Latina e Caribe nos últimos anostêm sido maiores do que os do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Banco de Desenvolvimento da América Latina juntos.

O país que mais recebeu dinheiro chinês na região foi a Venezuela (67,2 bilhões de dólares entre 2001-2018). O país deve à China cerca de 19 bilhões de dólares em petróleo. No Brasil, para o mesmo período, o montante foi de 29,8 bilhões de dólares, e a China é o nosso principal parceiro comercial desde 2009. O Equador, de 2009 a 2018, recebeu 18 bilhões de dólares, e um acordo com o ex-presidente Rafael Correa estabeleceu que 90% das exportações de petróleo cru seriam feitas ao dragão asiático. E a Argentina, nas últimas duas décadas, recebeu quase 17 bilhões de dólares. Grande parte dos investimentos se destinam ao desenvolvimento de infraestrutura.

No Brasil, Bolsonaro fala duro com a China e mole com os Estados Unidos, mas a língua é mordida, no primeiro caso, e ignorada, no segundo. O presidente chegou a abrir mão de benefícios da Organização Mundial do Comércio (OMC) em troca de uma prometida entrada do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),que foi frustrada. Os EUA tambémnegaram a abertura de seus mercados para a carne bovinain natura do Brasil. E Trump também disse que taxaria as exportações de aço brasileiro, para queBolsonaro depois dissesse que o mandatário norte-americano se comprometeu a não fazê-lo; o brasileiro já foi enganado pelo amigo do norte antes.

A China, por outro lado,colocou 100 bilhões de dólares à disposição do Brasil após a XI Cúpula de Líderes do Brics, e foi o único país a tomar parte no mega leilão do pré-sal ocorrido em novembro (de acordo com aFolha de São Paulo, a pedido do próprio Bolsonaro).

Para fazer frente à presença econômica da China na região, os Estados Unidos criaram o programa “América Cresce”.O Brasil deve assinar em breve um memorando para participar. Mas concorrer em empréstimos com outras potências – em especial uma liderada por um Partido Comunista – não é o que prega a Doutrina Monroe. Forçar sua retirada sim.

(Washington, DC – EUA 19/03/2019) Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, entrega uma camisa personalizada, simbolizando o esporte nacional, ao Presidente da República Jair Bolsonaro. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

O presidente brasileiro, com sua política pró-americana, parece buscar, a partir da fraqueza, o apoio incondicional dos Estados Unidos. Acena a todas as posições norte-americanas e, também no campo diplomático, as repete.Aceitou inclusive sediar um encontro “anti-Irã” no Brasil em fevereiro. A lógica de Bolsonaro, ao que tudo indica, é falar mais manso do que quem fala manso. Não sem custos internos, econômicos e políticos. Por outro lado, adotou uma postura chamada “mais pragmática” pelos grandes meios em relação à China nos últimos meses.

Nada disso está ocorrendo nos tempos de Cipriano Castro. Tampouco os eventos ocorrem na Europa, na Ásia, no Oriente Médio, nas portas da China ou da Rússia. Os oficiais norte-americanos não estão declarando, neste momento, que “o mundo é assim” ou que “os mercados são livres”. Pelo contrário, estão dizendo: o porrete está vivo; nós acreditamos no porrete!

No Brasil, e em toda a América Latina, chegará o momento em que os governos terão de fazer uma escolha. E, para aqueles que não entendam o falar manso do império, o porrete está ao alcance das mãos. Ele já afastou antes potências muito menos perigosas, já comprou dívidas, já derrubou governos, já procurou os militares, já autorizou surras. Somente a ingenuidade pode nos permitir acreditar que não fará de novo.

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Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Qual seria o sinal que Rússia, Irã e China deram com exercícios navais conjuntos?

Marinheiros iranianos fazem cerimônia de recebida do navio de patrulha russo Yaroslav Mudry durante exercícios navais
© Foto / Iranian Army

Exercícios navais conjuntos do Irã, Rússia e China trazem consigo questões de segurança e econômicas e ocorrem enquanto EUA conduzem sua política contra o Irã.

Em meio a tensões no Oriente Médio, o Irã, a Rússia e a China realizaram exercícios navais conjuntos no golfo de Omã. A ação decorreu do dia 27 ao dia 30 de dezembro no norte do oceano Índico. A Sputnik explica as implicações dos exercícios, assim como que sinal eles trazem consigo.

Para as manobras Moscou enviou o navio de patrulha Yaroslav Mudry, além de um navio-tanque e o rebocador Viktor Konetsky. Já a China designou seu destróier Xining.

Conforme contou à Sputnik Irã o vice-comandante do Exército do Irã, Habibollah Sayyari, os exercícios têm como objetivo "demonstrar a autoridade marítima do Irã no norte do oceano Índico e apresentar a sua experiência a outras nações [...] assim como o reforço das relações internacionais entre Irã, Rússia e China e a busca de caminhos para futuros exercícios".

Reação externa

Os EUA expressaram sua desaprovação dos exercícios. Recentemente, Washington declarou que acompanhará de perto a atividade.

Além disso, os EUA tentaram desestimular os exercícios convocando a China e a Rússia a tomarem parte das sanções contra o Irã.

"Não é hora de os governos realizarem qualquer tipo de exercício militar com tal regime [referência ao Irã]. Nós achamos que agora é tempo de introduzir sanções contra o governo iraniano por sua violação dos direitos humanos", declarou um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA a jornalistas no último dia 30.

Embora as manobras não signifiquem que Rússia, Irã e China formem uma coalizão, Teerã expressa o desejo em repetir os exercícios em ocasiões futuras.

"Os exercícios navais do Irã, Rússia e China no norte do oceano Índico certamente não serão os últimos", disse Sayyari no site do Exército do Irã.

'Resposta ao comportamento dos EUA'

Segundo disse à Sputnik Brasil o diretor da revista Arsenal Otechestva, Aleksei Leonkov, exercícios militares entre dois ou mais países podem ter objetivos explícitos ou não.

"Qualquer exercício militar é conduzido por duas razões. Ou ele é executado de acordo com os planos de treinamento da prontidão de combate que um país tem, ou quando existem acordos internacionais entre órgãos de Defesa sobre exercícios conjuntos. O cenário de tal exercício pode ser de caráter tanto aberto quanto fechado", afirmou o especialista.

Reforçando a ideia, o especialista militar e antigo oficial da Marinha russa Vasily Dandykin declarou à Sputnik Sérvia que o comportamento dos EUA na região seria uma razão.

"Tais exercícios são uma resposta ao comportamento dos EUA, os quais anunciaram a China como sua principal adversária, e não a Rússia [...] É um forte sinal para os EUA, para os países da OTAN, para seus aliados no Oriente Médio, um sinal de que existem forças que podem controlar a situação", afirmou Dandykin.

É necessário levar em conta a forte presença militar americana no golfo Pérsico assim como os esforços de Washington para criar uma coalizão na região, principalmente após os ataques cometidos contra as instalações da Saudi Aramco.

Na ocasião, o Irã foi considerado por Washington como culpado pelo ataque, assim como pelos ataques realizados contra navios-tanque no golfo Pérsico em meados de 2019.

Em resposta, os EUA aumentaram seu contingente militar na Arábia Saudita, assim como fortaleceram sua pressão contra o país persa ao promover um boicote ao petróleo iraniano.

Mesmo assim, a ameaça que o terrorismo representa na região do golfo Pérsico não é excluída como outra das razões dos exercícios.

"Atualmente, nesta região a ameaça principal é o terrorismo", destacou Leonkov.

Interesses econômicos

De qualquer forma, os exercícios, chamados de Cinturão de Segurança Naval, têm como fundo tanto a rivalidade entre os EUA e o Irã, como entre Washington e Pequim.

A região é uma das espinhas dorsais do abastecimento energético do gigante asiático, enquanto o Irã é frequentemente referido pelos EUA como uma "ameaça".

Além disso, o país faz parte dos interesses de cooperação econômica tanto de Moscou quanto de Pequim.

"O Irã está presente em muitos projetos políticos e econômicos realizados por países como a Rússia e a China. Desta forma, não é de surpreender que a cooperação econômica, e em outros projetos, também traga consigo a cooperação militar", disse Leonkov.

Na contramão dos projetos russos e chineses estariam os EUA, os quais impõem sanções contra a economia iraniana, visando o enfraquecimento do país.

Tal fato explicaria a razão dos exercícios não serem bem vistos por outros países.

"Tais exercícios geram uma reação negativa nos EUA, e talvez na Europa e em outros países da região, os quais veem o Irã como o inimigo e tentam de tudo para destruir a economia do Irã", declarou Dandykin.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sputnik_explica/2020010214961590-qual-seria-o-sinal-que-russia-ira-e-china-deram-com-exercicios-navais-conjuntos-/

Você diz que quer uma Revolução (Russa)?

Por Pepe Escobar, de Moscou-Especialmente para o Consortium News

Tradução de Patricia Zimbres para o 247

Muito de vez em quando é publicado um livro indispensável, que defende de forma clara a sanidade nisso que é hoje um mundo pós-insano. Essa responsabilidade é desempenhada por "The (Real) Revolution in Military Affairs" (A (Verdadeira) Revolução nos Assuntos Militares, de Andrei Martyanov (Clarity Press), talvez o livro mais importante de 2019.

Martyanov é o pacote completo — que vem com os atributos extra de ser um analista militar russo de primeira linha, nascido em Baku nos velhos tempos Back in the U.S.S.R, e de viver e trabalhar nos Estados Unidos e escrever artigos e blogs em inglês.

Logo de partida, Martyanov, sem perder tempo, destrói não apenas os delírios de Fukuyama e Huntington, mas principalmente o infantil e totalmente sem sentido argumento da Armadilha de Tucídides de Graham Allison — como se a equação de poder entre os Estados Unidos e a China no século XXI pudesse ser interpretada com base em um paralelo com a inevitabilidade da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta há mais de 2.400 anos. O que vem a seguir? Xi Jinping como o novo Genghis Khan?

(Por sinal, o melhor ensaio atual sobre Tucídides é em italiano, de autoria de Luciano Canfora (Tucidide: La Menzogna, La Colpa, L’Esilio). Não há Armadilha nenhuma. Martyanov, visivelmente, se delicia em definir a Armadilha como "produto da imaginação" de gente que tem uma "compreensão muito vaga do que vem a ser a guerra real no século XXI. Não é de admirar que Xi tenha afirmado explicitamente que a Armadilha não existe).

 

Martyanov já havia detalhado em seu esplêndido livro anterior, " pdfLosing Military Supremacy: The Myopia of American Strategic Planning(8.76 MB)" (A Perda da Supremacia Militar: a Miopia do Planejamento Estratégico Americano), de que forma a "falta de experiência histórica em guerras continentais" acabou por "plantar as sementes da destruição final da mitologia militar americana dos séculos XX e XXI, que está na base do declínio americano, devido à hubris e ao distanciamento da realidade". Ao longo de todo o livro, ele, ininterruptamente, fornece evidências sólidas sobre o tipo de letalidade que espera as forças militares dos Estados Unidos em uma possível futura guerra contra exércitos, forças aéreas, defesas aéreas e poderio naval reais (não o Talibã ou o exército de Sadam Hussein).

Faça os Cálculos

Uma das conclusões é o fracasso dos modelos matemáticos americanos: os leitores do livro têm que digerir um número significativo de equações matemáticas. O ponto principal é que esse fracasso levou os Estados Unidos a "uma espiral descendente contínua de diminuição de capacidade militar frente à nação [Rússia] que eles pensaram ter derrotado na Guerra Fria".

 

Nos Estados Unidos, a Revolução nos Assuntos Militares (RMA - Revolution in Military Affairs) foi criada pelo falecido Andrew Marshall, também conhecido como Yoda, o antigo diretor do Office of Net Assessment - ONA (Gabinete de Avaliação Geral, o laboratório de ideias do Pentágono) e o verdadeiro inventor do conceito do "pivotar para a Ásia". Martyanov, no entanto, nos diz que o RMA, na verdade, começou como MTR (Military Technological Revolution), e foi criado por teóricos militares soviéticos na década de 1970.

Um dos elementos básicos do RMA diz respeito a nações capazes de produzir mísseis de cruzeiro de ataque terrestre, ou TLAMs. Na situação atual, apenas os Estados Unidos, a Rússia, a China e a França detêm essa capacidade. E existem apenas dois sistemas globais que fornecem orientação por satélite a mísseis de cruzeiro: o GPS americano e o GLONASS russo. Nem o BeiDou chinês nem o Galileo europeu qualificam-se - ainda - como sistemas globais de GPS.

Há também a Guerra Centrada em Redes (Net-Centric Warfare - NCW). O termo foi cunhado pelo falecido Almirante Arthur Cebrowski em 1998, em um artigo escrito em colaboração com John Garstka, intitulado Network-Centric Warfare – Its Origin and Future" (A Guerra Centrada em Redes - sua Origem e Futuro).

Com o uso de suas equações matemáticas, Martyanov não tarda a nos revelar que "a era dos mísseis subsônicos anti-navios chegou ao fim". A OTAN, esse organismo com morte cerebral (copyright de Emmanuel Macron) agora tem que enfrentar o supersônico russo P-800 Onyx e o Kalibr-class M54 em um ambiente de guerra eletrônica altamente hostil". A totalidade das forças armadas modernas hoje emprega a Guerra Centrada em Redes (NCW), desenvolvida pelo Pentágono na década de 1990.

Representação de uma futura rede de sistemas de combate. (soldiersmediacenter/Flickr, CC BY 2.0, Wikimedia Commons)

Martyanov menciona em seu novo livro algo que aprendi em minha visita a Donbass, em março de 2015: como os princípios da NCW, "baseados nas capacidades C4ISR russas, fornecidas pelas forças armadas da Rússia aos exércitos numericamente inferiores das Repúblicas de Donbass (LDNR), foram empregados com efeitos devastadores nas batalhas de Ilovaisk e Debaltsevo, ao atacar as pesadas e pouco ágeis forças armadas ucranianas, ainda da época soviética".

Não há como escapar do Kinzhal

Martyanov fornece informações abundantes sobre o mais recente míssil da Rússia – o Kinzhal aerobalístico Mach-10 hipersônico, recentemente testado no Ártico.

O que é mais importante, explica ele, é que "nenhuma das atuais defesas antimísseis da Marinha dos Estados Unidos é capaz de derrubá-lo, mesmo no caso de o míssil ser detectado". O Kinzhal tem um alcance de 2.000 quilômetros, o que torna seus portadores, o MiG-31K e o TU-22M3M, "invulneráveis à única defesa que uma esquadra de porta-aviões dos Estados Unidos, o principal pilar do poderio naval americano, é capaz de montar - os porta-aviões de combate. Esses aviões de combate simplesmente não têm alcance suficiente.

O Kinzhal foi um dos armamentos anunciados na fala de 1º de março de 2018 proferida pelo Presidente russo Vladimir Putin na Assembleia Federal, que se constituiu em um verdadeiro divisor de águas. Esse foi o dia, afirma Martyanov, em que teve início a verdadeira Revolução nos Assuntos Militares (RMA), "alterando por completo e de forma drástica a face da guerra entre pares, a competição e o equilíbrio de poder global".

Oficiais de alta patente do Pentágono, como o General John Hyten, vice-presidente do Estado Maior, admitiram oficialmente que não há "atualmente, medidas defensivas" contra, por exemplo, o veículo planador hipersônico Mach 27 Avangard (que torna inúteis os sistemas de mísseis antibalísticos), dizendo à Comissão de Serviços Armados do Senado americano que a única saída seria a "dissuasão nuclear". Também não há, atualmente, medidas defensivas contra mísseis antinavios como o Zircon e o Kinzhal.

Qualquer analista militar tem conhecimento de que o Kinzhal, na Síria, destruiu um alvo terrestre do tamanho de um Toyota Corolla, depois de ser lançado de uma distância de 1.000 quilômetros em más condições atmosféricas. O corolário provoca pesadelos na OTAN: o comando e as instalações de controle da Organização são, na verdade, indefensáveis.

Martyanov vai direto ao assunto: "É certo que a introdução de armas hipersônicas joga baldes de água gelada na obsessão americana em defender o continente norte-americano de ataques retaliatórios".

O Kh-47M2 Kinzhal na Parada do Dia da Vitória de 2018, em Moscou. (Kremlin via Wikimedia Commons)

Martyanov, portanto, não perdoa os formuladores de políticas norte-americanos, a quem "falta o instrumental necessário para compreender a realidade geoestratégica atual, na qual a verdadeira revolução em assuntos militares... já havia rebaixado drasticamente as sempre infladas capacidades militares americanas, e continua a redefinir o status geopolítico dos Estados Unidos de forma bastante diferente de sua auto-proclamada hegemonia".

E o que é ainda pior: "Essas armas asseguram uma retaliação garantida [os itálicos são de Martyanov] sobre os próprios Estados Unidos". Até mesmo as forças de dissuasão nuclear russas - e, em menor grau, as chinesas, como demonstrado recentemente - "são capazes de vencer os sistemas anti-balísticos norte-americanos e destruir os Estados Unidos", apesar de toda a propaganda tosca que o Pentágono tenta vender.

Em fevereiro de 2019, Moscou anunciou o término dos testes de um motor alimentado a energia nuclear para o míssil de cruzeiro Petrel. O Petrel é um míssil de cruzeiro subsônico com propulsão nuclear que pode permanecer no ar por um tempo bastante longo, cobrindo distâncias intercontinentais e capaz de atacar das direções mais inesperadas. Martyanov, em tom malicioso, descreve o Petrel como "uma arma de vingança, no caso de alguma autoridade americana que tenha contribuído para precipitar uma nova guerra mundial tente se esconder dos efeitos daquilo que eles mesmos desencadearam, se refugiando na relativa segurança do Hemisfério Sul".

A Guerra Híbrida Enlouquecida

Parada em Pequim celebrando o 70º aniversário da República Popular, em outubro de 2019 (Screenshot do YouTube)

Uma seção do livro trata dos avanços militares da China e dos frutos da parceria estratégica Rússia-China, como por exemplo a compra por Pequim de mísseis antiaéreos S-400 Triumph - "idealmente adequados para lidar com o exato tipo de equipamento de ataque que os Estados Unidos usariam no caso de um conflito convencional com a China".

Em razão de sua data, a análise não chega a tratar do arsenal apresentado em inícios de outubro na parada em celebração do 70º aniversário da República Popular, em Pequim.

Aí se incluem, entre outros, o "porta-aviões matador" DF-21D, projetado para atingir navios de guerra em alto mar a uma distância de até 1.500 quilômetros; o "Guam Killer" de alcance médio DF-26; o míssil hipersônico DF-17 e os mísseis de cruzeiro antinavio de longo alcance YJ-18A lançados de submarinos e de navios. Para não falar do DF-41 ICBM – a espinha dorsal das forças de dissuasão chinesas, capazes de alcançar o território continental dos Estados Unidos portando múltiplas ogivas.

Martyanov não pode deixar de tratar da RAND Corporation, cuja razão de existir é a insistente pressão por mais dinheiro para o Pentágono - culpando a Rússia pela "guerra híbrida" (uma invenção americana), ao mesmo tempo em que se lamenta da incapacidade dos Estados Unidos de derrotar a Rússia em todos os jogos de guerra. Os jogos de guerra da RAND, atiçando os Estados Unidos e seus aliados contra a Rússia e a China, invariavelmente terminaram em catástrofe para a "melhor força de combate do mundo".

Martyanov trata também dos S-500s, capazes de atingir aviões AWAC e, possivelmente de interceptar alvos hipersônicos não-balísticos. O S-500 e seu mais recente sistema estado-da-arte de defesa aérea de médio alcance, o S-350 Vityaz estarão prontos para entrar em operação em 2020.

Sua principal conclusão: "Não há paridade entre a Rússia e os Estados Unidos nos campos de defesa aérea, armas hipersônicas e desenvolvimento de mísseis em geral, para citar apenas alguns - os Estados Unidos ficaram para trás em todos esses campos, não apenas em termos de anos, mas de gerações" [itálicos meus].

Por todo o Sul Global, são muitos os países que têm perfeito conhecimento de que a "ordem" - ou desordem - econômica norte-americana está à beira do colapso. Por outro lado, relações externas cooperativas, conectadas e baseadas em regras entre nações soberanas vem avançando na Eurásia - simbolizadas pela fusão das Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), da União Econômica Eurasiana (EAEU), da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB) e do NDB (o banco dos BRICS).

Os principais fiadores desse novo modelo são a Rússia e a China. E Pequim e Moscou não alimentam qualquer ilusão quanto à dinâmica tóxica de Washington. Conversas que tive com analistas de primeira linha no Cazaquistão, no mês passado, e em Moscou, na semana passada, mais uma vez ressaltaram a futilidade de negociar com pessoas descritas - com uma superposição de tons sarcásticos - como excepcionalistas fanáticos. A Rússia, a China e muitos países da Eurásia já entenderam que não há qualquer possibilidade de negociações significativas com uma nação que insiste em descumprir todas as negociações.

Indispensável? Não: Vulnerável

Martyanov não pode deixar de evocar a fala de Putin à Assembleia Federal, em fevereiro de 2019, depois de Washington ter abandonado unilateralmente o tratado INF, abrindo caminho para que os Estados Unidos empregassem mísseis de curto e médio alcance posicionados na Europa e apontados para a Rússia:

"A Rússia será forçada a criar e empregar tipos de armamentos... apontados contra as regiões de onde vêm as ameaças diretas, mas também contra as regiões que abrigam os centros onde são tomadas as decisões sobre o uso desses sistemas de mísseis que nos ameaçam.

Tradução: a Invulnerabilidade Americana chegou ao fim - para sempre.

No curto prazo, as coisas sempre podem piorar. Em sua tradicional entrevista coletiva de fim de ano, em Moscou, que durou quase quatro horas e meia, Putin afirmou que a Rússia está mais que pronta para "simplesmente renovar o Novo Acordo START", que expira no início de 2021: "Eles [os Estados Unidos] podem nos enviar o acordo amanhã, ou nós podemos assinar e encaminhar a Washington". E no entanto, até agora nossas propostas ficaram sem resposta. Se o Novo START deixar de existir, nada neste mundo evitará uma corrida armamentista. Em minha opinião, isso é ruim".

"Ruim" é um eufemismo. Martyanov prefere ressaltar que "a maioria das elites americanas, pelo menos até agora, ainda reside em um estado de dissonância cognitiva orwelliana", mesmo depois de a RMA real ter "destruído o mito da invencibilidade convencional americana fora da água".

Martyanov é um dos poucos analistas - sempre de diferentes países da Eurásia - que advertiram quanto ao perigo de os Estados Unidos "entrarem acidentalmente em uma guerra contra a Rússia, a China ou ambas, uma guerra impossível de ser ganha por meios convencionais, e menos ainda pelo pesadelo de uma catástrofe nuclear global".

Será que isso bastaria para instilar ao menos um mínimo de bom-senso naqueles que comandam essa imensa galinha dos ovos de ouro que é o complexo industrial-militar de segurança? Não contem com isso.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/voce-diz-que-quer-uma-revolucao-russa

A NATO e a China

 
 
“A China será provavelmente um rival mais formidável do que a União Soviética alguma vez foi”, escreveu recentemente Stephen M. Walt.
 
José Pedro Teixeira Fernandes* | Público | análise, opinião
 
1. “Pela primeira vez, abordamos a ascensão da China — tanto nos desafios quanto nas oportunidades que coloca — e nas implicações para a nossa segurança. Os líderes concordaram que necessitamos de resolver esse assunto juntos, como uma Aliança. E que devemos encontrar formas de incentivar a China a participar nos acordos sobre o controlo de armamentos.” (Ver press conference by NATO Secretary General Jens Stoltenberg, 4/12/2019). Esta referência feita à China num comunicado de imprensa oficial da NATO, ainda que em tons diplomáticos e ambivalentes — equaciona desafios (leia-se nas entrelinhas, ameaças) e oportunidades (leia-se, possibilidade de alguns compromissos) —, é mais do que uma referência simbólica. Não é um mero parágrafo inócuo no meio de um comunicado para o público, nem uma frase vazia do ponto de vista estratégico.
 
2. Se as actuais tendências económicas e políticas se confirmarem, a disputa sino-americana irá ser a linha maior da política internacional do século XXI, pelo menos no que toca às lutas de poder entre grandes potências. O futuro da NATO irá jogar-se assim, de uma forma ou de outra, também na relação com a China. Não é uma previsão muito arriscada de efectuar. Obviamente que não se pode afastar de todo a possibilidade de rupturas provocadas por acontecimentos imprevistos, que alterem drasticamente o rumo dos acontecimentos. Isso poderia levar a questão chinesa, tal como se desenha agora, a perder relevância em termos de segurança e defesa, ou a não ser um ponto de atrito maior nas relações internacionais. Mas, feita essa ressalva, tudo indica que a China irá estar no centro de uma renovada finalidade estratégica partilhada pela Aliança Atlântica, ou então alimentar, ainda mais, as divisões e as tendências de desagregação que já são observáveis nesta.
 
 
3. A Cimeira de Londres celebrou os 70 anos do Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington, nos EUA, em 1949. Encontra-se aí a origem da NATO. Foi um dos pilares da reconstrução e pacificação europeia no mundo pós-II Guerra Mundial — o outro pilar foram as Comunidades Europeias. Excepto para os seus inimigos ideológicos e/ou rivais estratégicos, é uma organização de defesa e segurança sem alternativas sólidas à vista para os europeus. Isto não significa que a sua actuação esteja acima de críticas fundadas, como aconteceu nos casos dos conflitos da Jugoslávia nos anos 1990, especialmente no Kosovo, ou na guerra da Líbia em 2011. Mas esse é o problema da NATO a partir de 1989, com o final da Guerra-Fria. Apesar dos sucessivos alargamentos posteriores mostrarem uma renovada atracção, esta perdeu uma parte significativa da sua consistência estratégica original. As alianças militares normalmente só são sólidas quando há a percepção generalizada de um poderoso inimigo comum. E a União Soviética já não existe. Hoje, diferentes Estados da NATO percepcionam diferentes ameaças e inimigos.
 
4. Há um período que vale a pena revisitar, ocorrido após a extinção do Pacto de Varsóvia e a dissolução da União Soviética em 1991. Nessa altura, existiam dois caminhos possíveis para a NATO: o seu fim na lógica do término da Guerra-Fria, ou a sua continuidade adaptando-a ao novo mundo que estava a emergir. A garantia de segurança dada pela “hiperpotência” norte-americana — o rótulo foi popularizado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Hubert Védrine —, a atracção pelo bem-estar europeu ocidental e as marcas deixadas por mais de quatro décadas de domínio soviético, foram decisivos para a mudança de campo dos antigos aliados soviéticos-russos. E para a continuidade da NATO. Estes tiverem um papel central na sua perpetuação no pós-Guerra Fria. Mas a sua reconfiguração sempre foi uma questão delicada na relação com a Rússia. A relação futura seria de cooperação e de parceria para paz, não de rivalidade e de conflito. A Rússia deixava de ser o inimigo do passado, que originara a própria NATO. Todavia, aí começou uma ambiguidade estratégica nunca resolvida — a maioria dos novos membros do Leste tinham em mente a Rússia como ameaça à sua segurança. Era contra esta que procuravam abrigo. Como Mikhail Gorbachev notou na época, o alargamento da NATO só não induziria novo impulso nacionalista entre os russos se a Rússia fosse uma pequena nação cosmopolita. Mas a Rússia não é uma coisa nem outra.
 
5. Apesar das memórias da Guerra-Fria — e da União Soviética — se projectarem na Rússia actual, para os EUA esta é mais um “irritante estratégico” e que causa alguns danos de maior ou menor dimensão, do que um sério rival a nível global, como nos tempos da União Soviética. Entre outras fraquezas, a Rússia não dispõe de uma economia, nem uma população, que lhe permitam competir globalmente e projectar o seu poder como os EUA e China fazem. Para além do petróleo, do gás natural, ou do armamento, não tem produções importantes para exportar e competir nos mercados globais. Se tivesse esses meios, poderia usá-los como instrumento para criar uma rede de dependências e de Estados-clientes, mas não tem. Assusta os Estados Bálticos, a Polónia e Geórgia, tornou o Leste da Ucrânia um terreno de batalha, projecta influência política e militar na Síria ou na Venezuela. Mas essas são acções que disfarçam muitas fraquezas do Estado russo, por muito hábil que Vladimir Putin seja estrategicamente — e tem, de facto, inquestionáveis qualidades nesse campo. Mas uma Rússia relativamente frágil que se faz forte, nunca será o cimento do medo que a União Soviética foi para a NATO até à queda do muro de Berlim, em 1989.
 
6. Nas análises prospectivas de tipo geopolítico, a China ocupava já um papel de relevo no pensamento realista político norte-americano da década de 1990, sendo antecipada como o grande rival do futuro. Reler o que Henry Kissinger (ver Diplomacia, trad. port, Gradiva, 1996) ou Samuel P. Huntington (ver O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, trad. port., Gradiva, 1999) escreviam na época mostra bem isso. Mas esse futuro já chegou.
 
Agora a China está mesmo no centro da discussão estratégica. Recentemente foi Stephen M. Walt a levantar a questão, colocando os chineses no cerne de uma reconfiguração da NATO. Atente-se neste excerto: “A ascensão da China continua a desviar a atenção dos EUA da Europa para a Ásia e não há motivos para pensarmos que essa tendência irá parar. A China será provavelmente um rival mais formidável do que a União Soviética alguma vez foi”. Como consequência, os EUA irão reduzir gradualmente o seu comprometimento de defesa com a Europa. Para Stephen M. Walt, a solução — que também seria do interesse dos europeus — passa por reorientar a NATO para conter a China. Pelo menos na esfera económica, os europeus têm um papel relevante nessa contenção, a qual deixará os EUA mais empenhados na continuidade da Aliança Atlântica. Tal reconfiguração, “poderá fornecer à NATO a justificação estratégica que lhe falta desde 1992 e manter a parceria transatlântica durante mais tempo”. (Ver Stephen M. Walt, “Europe’s Future Is as China’s Enemy” in Foreign Policy, 22/01/2019, https://foreignpolicy.com/2019/01/22/europes-future-is-as-chinas-enemy/).
 
7. Na imprensa chinesa, dominada pelo Partido Comunista, o espectro da NATO designar a China como inimigo já está a provocar fortes reacções. “Graças aos EUA, o perigo de uma nova Guerra Fria está a aproximar-se da região da Ásia-Pacífico. No dia 26 de Setembro foi realizado o primeiro Diálogo Quadrilateral de Segurança ao nível ministerial — conhecido como Quad —, o qual decorreu em Nova Iorque entre os EUA, o Japão, a Índia e a Austrália. Os políticos dos EUA designaram-no como ‘um aumento significativo’ do nível do diálogo, enquanto alguns observadores argumentam que o Quad, que visa a China, tem agora mais probabilidades de evoluir para uma ‘NATO asiática.’” (Ver NATO naming China the enemy will lead to consequences no Global Times, 12/11/2019). Na mesma linha, o embaixador chinês nos EUA, Cui Tiankai, afirmou que os EUA estão a tentar construir um ‘muro de Berlim’ contra a China. (Ver China’s man in Washington says US building ‘Berlin Wall’ against Beijing em South China Morning Post, 5/12/2019). Como se pode verificar pelas tendências descritas, tudo indica que a disputa sino-americana irá continuar, ou até acentuar-se. Para a NATO, a luta contra o terrorismo sempre foi um cimento superficial, pela desproporção da ameaça face aos meios militares da organização e divergências políticas — basta ver o desalinhamento da Turquia para quem as milícias curdas é que são os terroristas. Os seus membros europeus, Portugal incluído, têm agora um delicadíssimo problema nas mãos. Estavam habituados a separar as questões económicas — o comércio e o investimento —, das questões estratégicas de segurança político-militar. Esse mundo acabou e não estão preparados para o novo mundo que se aproxima.
 
*Investigador do IPRI-NOVA
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Multilateralismo ou Direito Internacional?

 
 
Thierry Meyssan*
 
Contrariamente ao que se pensa, o multilateralismo que promovem os Europeus não se opõe ao bilateralismo praticado hoje em dia pelos Estados Unidos, mas ao Direito Internacional. O «Forum de Paris sobre a paz», organizado pelo Presidente Emmanuel Macron, não permitiu alcançar um método para prevenir os conflitos, apenas tentar salvar o que resta de quatro séculos de hegemonia europeia.
 
França acaba de organizar em Paris o «IIº Forum de Paris sobre a paz» [1]. Segundo o Presidente Emmanuel Macron, trata-se de promover o multilateralismo que o seu homólogo dos EUA, o Presidente Donald Trump, estaria em vias de destruir.
 
Isso é verdade? É este o problema?
 
Os factos levam, pelo contrário, a pensar que os Ocidentais, entre os quais a França, empreendem desde a desintegração da URSS uma acção de fundo contra o Direito Internacional e as Nações Unidas ; não passando este Forum senão de uma ocasião para salvar o poder que exercem desde há quatro séculos sobre o resto do mundo.
 
Para compreender o que se passa, voltemos atrás:
 
O Presidente Bill Clinton e sua Secretária de Estado, Madeleine Albright, reescreveram pacientemente, um por um, todo o tipo de tratados da ONU, substituindo a linguagem do Direito Internacional pela do Direito anglo-saxónico. Esta «modernização» não era uma simples tradução. É, na realidade, a aplicação da «doutrina Korbel» visando fazer evoluir qualquer jurisprudência em favor dos anglo-saxões. Esta estratégia foi continuada pelo Presidente George Bush Jr. e sua Secretária de Estado, Condoleezza Rice, filha adoptiva do Professor Korbel, e a este título irmã de Madeleine Albright [2].
 
O mesmo Bill Clinton aceitou um compromisso favorável a Israel e fê-lo validar pelo Conselho de Segurança. Já não se fala de um único estado na Palestina, dentro do princípio igualitário «Um homem um voto», mas de dois, no modelo dos bantustões do apartheid sul-africano.
 
 
Sempre sob o impulso do Presidente americano Bill Clinton, e também do Primeiro-ministro britânico Tony Blair, a Aliança Atlântica proclamou-se «defensora dos perseguidos», condenou a malvada Sérvia e lançou-lhe uma «guerra humanitária». (sic). A moral substituiu-se ao Direito permitindo à NATO violá-lo.
 
É este o mesmo raciocínio que foi usado depois contra o Afeganistão, contra o Iraque, contra a Líbia e contra a Síria. Laura Bush garantia que era preciso atacar o Afeganistão porque as rapariguinhas não tinham permissão para usar verniz das unhas; Colin Powell que era preciso derrubar o Presidente Saddam Hussein porque ele estava implicado nos atentados do 11-de-Setembro; Nicolas Sarkozy que devia derrubar Muammar Kaddafi porque ele ia matar o seu próprio povo; e Laurent Fabius que era preciso caçar o Presidente Bashar al-Assad porque ele não tinha «o direito de viver na Terra».
 
O argumento humanitário ou o recurso aos Direitos do Homem mascaram mal o profundo desprezo ocidental pela Humanidade e pelos Direitos do Homem. Lembremos que a Declaração Universal dos Direitos do Homem reconhecia uma hierarquia entre eles [3]. Ela proclama que os três principais direitos são «a vida, a liberdade e a segurança da pessoa» (art. 3). É por isso que coloca como primeira aplicação concreta a luta contra a escravidão (art. 4) e somente depois a luta contra a tortura (art. 5). Ora, os Ocidentais restabeleceram a escravatura na Líbia e apoiam Estados esclavagistas como a Arábia Saudita. Eles também têm o pior balanço em matéria de tortura, se nos lembrarmos das 80. 000 pessoas sequestradas e torturadas pela US Navy (Marinha dos EUA-ndT) em barcos estacionados em águas internacionais, no início deste século XXI [4].
 
A retórica humanitária, o «direito-homismo», faz lembrar a maneira como o Reino Unido atacou o Império Otomano, pretensamente para salvar os Gregos de sua opressão, na realidade para controlar o seu país: Londres convidou São Petersburgo e Paris a reconhecer a independência da Grécia, em 1827; depois, com base nesse reconhecimento, e em violação das regras do Congresso de Viena, montou uma guerra, tornada «legítima», contra Constantinopla para concretizar essa «independência»: manter sempre as aparências de respeito pelo Direito quando se está a violá-lo!
 
Desde a guerra da NATO contra a Jugoslávia, a ONU apagou-se progressivamente. A NATO não liga nada ao que pensam o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral. Em alguns anos, em violação da Carta, as «forças de interposição» das Nações Unidas tornaram-se «forças de manutenção de paz». Já não se trata mais de vigiar a aplicação de um cessar-fogo entre beligerantes, mas, sim de impor uma solução aos beligerantes --- pior ainda, por vezes entre partidos políticos de um mesmo país. E, até ao momento, a NATO é a única aliança militar a ter sido convidada a «manter a paz».
 
A Administração da ONU, ela própria, passou do serviço dos seus membros para o da NATO. Assim, pôde ver-se o seu Director de Assuntos Políticos, Jeffrey Feltman, promover um plano de capitulação incondicional da República Árabe Síria em vez de trabalhar pela paz [5].
 
Os membros ocidentais do Conselho de Segurança dizem-se Protectores do Direito Internacional, mas longe de mostrar exemplo, manifestam, sem vergonha, o seu desdém quando este Direito lhes é desfavorável. Assim, o Reino Unido, acaba de declarar exercer a sua soberania sobre as Ilhas Chagos, entre as quais a base de Diego Garcia, apesar do recurso dos legítimos habitantes, a opinião do Tribunal Internacional de Justiça e a injunção (liminar-br) da Assembleia Geral [6].
 
O Direito Internacional actual tem a sua origem na Conferência da Haia de 1899. Convocada pelo Czar Nicolau II, ela reuniu várias potências da época para encarar um tratado de desarmamento. Mas, o Francês Leon Bourgeois propôs regular aí os diferendos entre Estados estabelecendo uma câmara de arbitragem; tendo como meio único para prevenir guerras o encontrar acordos que respeitem os interesses das partes, como se faz entre indivíduos civilizados. Ao contrário de um tribunal, uma câmara de arbitragem não se impõe. Ela só tem competência se as duas partes a reconhecem previamente como tal.
 
Esta Câmara de arbitragem foi incorporada na Sociedade das Nações (SDN), depois na ONU. Ela continua a existir e funciona bem como mostra o actual procedimento de resolução sobre a resolução do conflito no mar de Azov entre a Ucrânia e a Rússia.
 
Progressivamente, foram formadas a SDN e depois as Nações Unidas. Contrariamente a uma ideia feita, o falhanço da Sociedade das Nações não é imputável aos regimes imperial japonês, fascista italiano e nazista alemão, mas à recusa dos Estados Unidos em aí tomar assento e à recusa do Império Britânico em reconhecer a igualdade dos povos (apesar da proposta japonesa apoiada por Leon Bourgeois).
 
A título de exemplo, o abandono do Direito Internacional foi levado um pouco mais longe com a reforma da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ-OPCW) proposta pela França [7]. Agora, numa aparente «preocupação de eficácia», as decisões serão tomadas por maioria simples e a Organização poderá designar culpados no final das suas investigações técnicas.
 
Ora, a OPAQ é, na origem, uma agência técnica encarregada de verificar o respeito pelos seus signatários do Tratado proibindo as armas químicas. Ela tem o poder de investigar segundo procedimentos muito estritos, aprovados por todos os signatários, e de estabelecer os factos para que a Assembleia de signatários julgue a propósito. No direito penal, nenhum país do mundo admite que os polícias se instituam como juízes e carrascos, que sozinhos investiguem, designem os culpados e os punam. No entanto, é muito precisamente o poder aberrante que a reforma francesa dá à OPAQ. E, como essa mesma reforma valida as decisões pela maioria simples de signatários do Tratado, esta Agência torna-se um instrumento da política ocidental.
 
Desde há já vários anos, os Ocidentais retiraram qualquer referência ao Direito Internacional nas suas declarações e comunicados. Eles exprimem-se, pelo contrário, em favor do «multilateralismo baseado em regras». Mas quais regras? As dos mais fortes.
 
De resto, este segundo Fórum sobre a paz (e não para a paz) não fez diferença. Em relação à sua primeira edição, eram duas vezes menos os chefes de estado e de governo os que nele participavam [8].
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] Paris Peace Forum, sítio oficial.
[2] « La fulgurante intégration de Condoleezza Rice », par Arthur Lepic, Paul Labarique, Réseau Voltaire, 8 février 2005.
[3] “Teoria e prática dos Direitos do Homem”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Outubro de 2019.
[4] « 17 prisons secrètes ont déjà remplacé Guantanamo », Réseau Voltaire, 3 juin 2008. “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.
[5] “A Alemanha e a ONU contra a Síria”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 28 de Janeiro de 2016.
[6] “O Reino Unido desafia a AG da ONU e o seu Tribunal”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Novembro de 2019.
[7] “A França propõe mudar os estatutos da OPAQ”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 8 de Maio de 2018.
[8] « Emmanuel Macron au Forum de Paris sur la Paix », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 12 novembre 2019.

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EUA preparam a NATO para enfrentar a Rússia e a China

por M K Bhadrakumar [*]

A cimeira de 3-4 de Dezembro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), em Londres, assemelha-se a uma reunião de família após o ressentimento quanto à questão dos gastos militares dos aliados europeus dos EUA.

A tendência é aumentar os gastos com defesa dos aliados europeus e do Canadá. É expectável que mais de US$100 mil milhões sejam acrescentados aos orçamentos de defesa dos Estados membros até o final de 2020.

Mais importante ainda, a tendência na reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, em Bruxelas nos dias 19 e 20 de Novembro, na véspera da cimeira de Londres, mostrou que apesar das crescentes diferenças dentro da aliança os Estados membros cerraram fileiras em torno de três itens prioritários da agenda global dos EUA – escalada da política agressiva em relação à Rússia, militarização do espaço e contenção da ascensão da China.

A NATO seguirá a liderança de Washington para estabelecer um comando espacial, considerando oficialmente o espaço como "um novo domínio operacional". Segundo o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, esta decisão "pode permitir aos planeadores da NATO solicitarem aos aliados que forneçam recursos e serviços, tais como comunicações por satélite e imagens de dados".

Stoltenberg disse : "O espaço também é essencial para a dissuasão e defesa da aliança, incluindo a capacidade de navegar, para reunir inteligência e detectar lançamentos de mísseis. Cerca de 2.000 satélites orbitam a Terra. E cerca de metade deles pertence a países da NATO".

Da mesma forma, Washington instou a NATO a identificar oficialmente a ascensão da China como um desafio a longo prazo. Segundo reportagens dos media, a reunião de Bruxelas atendeu à exigência dos EUA e decidiu oficialmente iniciar a vigilância militar da China.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, atacou a China após a reunião de Bruxelas: "Finalmente, nossa aliança deve tratar da ameaça actual e potencial a longo prazo representada pelo Partido Comunista Chinês. Setenta anos atrás, as nações fundadoras da NATO uniram-se pela causa da liberdade e da democracia. Não podemos ignorar as diferenças e crenças fundamentais entre os nossos países e aquelas do Partido Comunista Chinês".

Até aqui, tudo bem. Contudo, está para ser visto se o grande desígnio de Washington de arrastar a NATO para sua "estratégia indo-pacífica" (leia-se contenção da China) ganhará força. Claramente, os EUA pretendem ter uma palavra a dizer nas crescentes relações comerciais e económicas dos aliados europeus com a China a fim de delimitar a influência chinesa na Europa. A campanha dos EUA para bloquear a tecnologia 5G da China deparou-se com a rejeição de vários países europeus.

Por outro lado, o projecto europeu descarrilou e o eixo franco-alemão que era a sua âncora tornou-se instável. O fosso entre Paris e Berlim funciona em vantagem de Washington mas, paradoxalmente, também atrapalha o sistema de aliança ocidental.

O presidente francês Emmanuel Macron irritou a Alemanha com os seus recentes apelos a melhores relações com a Rússia "para impedir que o mundo entre numa conflagração"; com as suas observações brutalmente francas acerca da "morte cerebral" da NATO e de a política dos EUA sobre a Rússia ser "histeria governamental, política e histórica"; assim como sua ênfase repetida numa política militar europeia independente dos EUA.

A congruência de interesses entre Berlim e Washington em relação a Macron manifestou-se no endosso da NATO à escalada liderada pelos EUA contra a Rússia e a China, com a França bastante isolada. No entanto, esta congruência será posta à prova muito em breve na reunião da cimeira no formato Normandia sobre a Ucrânia, que a França sediará em 9 de Dezembro, após a cimeira da NATO em Londres. A França está a ajudar a Rússia a negociar um acordo com a Ucrânia.

Os recentes telefonemas entre o presidente russo Vladimir Putin e seu colega ucraniano Volodymyr Zelensky enfatizaram o crescente interesse em Moscovo e em Kiev ao nível da liderança de melhorar as relações entre os dois países.

Em última análise, as relações franco-alemãs são de importância crucial não apenas para o futuro estratégico da Europa, mas também para o sistema de aliança ocidental como tal. Se alguém estivesse em dúvida, o veto francês em Outubro significa morte súbita para a proposta de adesão à União Europeia do estado balcânico da Macedónia Norte, que a NATO está a promover como seu mais novo membro. Berlim e Washington estão lívidos, mas um veto é um veto.

Com a NATO a ser configurada por Washington para uma postura de confronto, Rússia e China não baixarão a sua guarda. Numa reunião do Conselho de Segurança da Federação Russa em 22 de Novembro, Putin disse : "Existem muitos factores de incerteza... a competição e a rivalidade estão a aumentar e a transmutar-se em novas formas... Os países principais desenvolvem activamente suas armas ofensivas... o chamado "clube nuclear" está a receber novos membros, como todos sabemos. Também estamos seriamente preocupados acerca da infraestrutura da NATO que se aproxima das nossas fronteiras, bem como com as tentativas de militarizar o espaço sideral".

Putin enfatizou: "Nestas condições, é importante fazer previsões adequadas e precisas, analisar as possíveis mudanças na situação global e utilizar as previsões e conclusões para desenvolver nosso potencial militar".

A acumulação militar liderada pelos EUA contra a Rússia e a China estará em exibição em dois grandes exercícios no próximo ano, com os nomes de código " Defender 2020 in Europe " e " Defender 2020 in the Pacific ".

Significativamente, apenas quatro dias antes de Putin fazer as observações acima, o presidente chinês Xi Jinping disse-lhe numa reunião em Brasília à margem da cimeira do BRICS que "as mudanças complexas e profundas em curso na actual situação internacional com crescente instabilidade e incerteza instam a China. e a Rússia a estabelecerem uma coordenação estratégica mais estreita para defender conjuntamente as normas básicas que governam as relações internacionais, oporem-se ao unilateralismo, ao bullying e à interferência nos assuntos de outros países, salvaguardar as respectivas soberania e segurança e criar um ambiente internacional razoável e justo".

Putin respondeu dizendo que "a Rússia e a China têm um importante consenso e interesses comuns em manter a segurança e estabilidade estratégicas globais. Sob a actual situação, os dois lados devem continuar a manter uma estreita comunicação estratégica e apoiar-se firmemente na salvaguarda da soberania, segurança e direitos de desenvolvimento". ( MFA chinesa )

 A resposta russa também é visível no terreno. A parcela de armas e equipamentos modernos na Marinha e no Exército russos atingiu um nível impressionante de 70%. O primeiro lote piloto de tanques T-14 Armata da próxima geração chegará às tropas russas no final de 2019 – princípio de 2020.

Em 26 de Novembro, o Ministério da Defesa da Rússia declarou que o inovador sistema de mísseis Avangard de Moscovo com o veículo hipersónico de impulso deslizante em Dezembro será instalado em prontidão de combate na Força Estratégica de Mísseis.

Pela primeira vez, os sistemas de guerra electrónica na base militar da Rússia no Tajiquistão serão reforçados com a mais recente estação de interferência Pole-21 que pode conter mísseis de cruzeiro, drones e bombas aéreas guiadas e sistemas de orientação de armas de precisão. Moscovo está a proteger-se contra a presença dos EUA e da NATO no Afeganistão.

27/Novembro/2019
[*] Analista poltico, indiano.

O original encontra-se em https://indianpunchline.com/us-primes-nato-to-confront-russia-china/

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/bhadrakumar_27nov19.html

China - EUA e a geopolítica do lítio

 
 
 
Por vários anos, desde o impulso global para o desenvolvimento de veículos elétricos em grande escala, o elemento Lithium passou a se concentrar como um metal estratégico. Atualmente, a demanda é enorme na China, na UE e nos EUA, e garantir o controle do suprimento de lítio já está desenvolvendo sua própria geopolítica, não muito diferente da do controle do petróleo. 
China muda para fontes seguras
 
Para a China, que estabeleceu metas importantes para se tornar o maior produtor mundial de veículos elétricos, o desenvolvimento de materiais para baterias de lítio é uma prioridade para o período do 13º Plano Quinquenal (2016-20). Embora a China tenha suas próprias reservas de lítio, a recuperação é limitada e a China passou a garantir direitos de mineração de lítio no exterior.
 
Na Austrália, a empresa chinesa Talison Lithium, controlada pela Tianqi, explora e possui as maiores e mais altas reservas de espodumênio do mundo em Greenbushes, Austrália Ocidental, perto de Perth.
 
A Talison Lithium Inc. é o maior produtor de lítio primário do mundo. Seu site Greenbushes na Austrália produz hoje cerca de 75% das demandas de lítio da China e cerca de quarenta por cento da demanda mundial . Isso, assim como outras matérias-primas vitais da Austrália, estabeleceu relações com a Austrália, tradicionalmente uma empresa aliada dos EUA, de importância estratégica para Pequim. Além disso, a China se tornou o maior parceiro comercial da Austrália.
 
No entanto, a crescente influência econômica da China no Pacífico em torno da Austrália levou o Primeiro Ministro Scott Morrison a enviar uma mensagem de aviso à China para não desafiar a região estratégica do quintal da Austrália . No final de 2017, a Austrália, com crescente preocupação com a expansão da influência chinesa na região, retomou a cooperação informal no que às vezes é chamado de Quad, com EUA, Índia e Japão, revivendo uma tentativa anterior de verificar a influência chinesa no Pacífico Sul. A Austrália também intensificou recentemente os empréstimos a países estratégicos das ilhas do Pacífico para combater os empréstimos da China . Tudo isso claramente torna imperativo que a China se torne global em outros sites para garantir seu lítio, a fim de se tornar o ator-chave na economia emergente de veículos elétricos na próxima década.
 
À medida que o desenvolvimento de veículos elétricos se tornava prioridade no planejamento econômico chinês, a busca por lítio seguro se voltou para o Chile, outra fonte importante de lítio. Lá, a Tianqi da China acumula grande parte da SociedadQuimica Y Minera (SQM) do Chile, um dos maiores produtores mundiais de lítio. Se o Tianqi da China conseguir obter o controle do SQM, isso mudará a geopolítica do controle mundial de lítio, de acordo com relatórios da indústria de mineração .
 
O suprimento global de metais de lítio, um componente estratégico das baterias de íons de lítio usadas para alimentar veículos elétricos (VEs), está concentrado em muito poucos países.
 
Para dar uma idéia da demanda potencial de lítio, a bateria do Modelo S da Tesla requer 63 kg de carbonato de lítio, suficiente para alimentar aproximadamente 10.000 baterias de telefones celulares. Em um relatório recente, o banco Goldman Sachs chamou o carbonato de lítio de nova gasolina. Apenas um aumento de 1% na produção de veículos elétricos pode aumentar a demanda de lítio em mais de 40% da produção global atual, de acordo com o Goldman Sachs. Com muitos governos exigindo menor emissão de CO2, a indústria automobilística global está expandindo maciçamente os planos de veículos elétricos na próxima década, o que tornará o lítio potencialmente tão estratégico quanto o petróleo hoje.
 
 
 
Arábia Saudita de lítio?
 
A Bolívia, cujo lítio é muito mais complicado de extrair, também se tornou nos últimos anos um alvo de interesse de Pequim. Algumas estimativas geológicas classificam as reservas de lítio da Bolívia como as maiores do mundo. Estima-se que os salares de Salar de Uyuni por si só contenham nove milhões de toneladas de lítio .
 
Desde 2015, uma empresa de mineração chinesa, a CAMC Engineering Company, opera uma grande fábrica na Bolívia para produzir cloreto de potássio como fertilizante. O que a CAMC minimiza é o fato de que, abaixo do cloreto de potássio, estão as maiores reservas de lítio conhecidas no mundo nas salinas Salar de Uyuni, uma das 22 salinas na Bolívia. A Linyi Dake Trade da China em 2014 construiu uma planta piloto de bateria de lítio no mesmo local .
 
Então, em fevereiro de 2019, o governo de Morales assinou outro acordo de lítio, este com a China Xinjiang TBEA Group Co., Ltd., que deterá uma participação de 49% em uma joint venture planejada com a empresa estatal de lítio YLB da Bolívia. Esse acordo é produzir lítio e outros materiais a partir dos planos de sal Coipasa e PastosGrandes e custaria cerca de US $ 2,3 bilhões.
 
Em termos de lítio, a China até agora domina o novo grande jogo global para controle. Agora, as entidades chinesas controlam quase metade da produção global de lítio e 60% da capacidade de produção de baterias elétricas. Dentro de uma década, o Goldman Sachs prevê que a China poderia fornecer 60% dos veículos elétricos do mundo. Em suma, o lítio é uma prioridade estratégica para Pequim.
 
EUA China Rivalidade de lítio?
 
O outro ator principal no mundo global da mineração de lítio atualmente são os Estados Unidos. A Albemarle, uma empresa de Charlotte, Carolina do Norte, com um impressionante conselho de administração, possui uma importante mineração de lítio na Austrália e no Chile, notadamente, assim como a China. Em 2015, a Albemarle se tornou um fator dominante na mineração mundial de lítio quando comprou a empresa americana Rockwood Holdings. Notavelmente, a Rockwood Lithium tinha operações no Chile no Salar de Atacama e na mesma mina Greenbushes na Austrália, onde o Grupo da Indústria Tianqi da China possui 51%. Isso deu a Albemarle 49% do enorme projeto australiano de lítio, em parceria  com a China.
 
O que está começando a ficar claro é que as tensões EUA-China sobre os planos econômicos chineses também provavelmente incluem combater a influência da China no controle das principais reservas estratégicas de lítio. O recente golpe militar na Bolívia que forçou Evo Morales ao exílio mexicano, desde as primeiras evidências, teve as impressões digitais de Washington. A entrada da presidente interina em exercício Jeanine Áñez, uma cristã de direita e do milionário de direita Luis Fernando Camacho, sinaliza uma desagradável virada para a direita no futuro político do país, apoiado abertamente por Washington. Crucial entre outras questões será se um futuro governo anulará os acordos de mineração de lítio com empresas chinesas.
 
Também o cancelamento da reunião de 16 de novembro no Chile da APEC, que deveria ter apresentado uma cúpula sobre comércio entre Trump e Xi Jinping, assume outro significado. A reunião também deveria ter sido palco de grandes acordos comerciais China-Chile, de acordo com o South China Morning Post. A delegação planejada de Xi incluiria 150 chefes de empresas e planos para assinar grandes acordos econômicos, estreitando ainda mais os laços econômicos Chile-China, algo que os EUA alertaram recentemente.
 
A erupção de protestos em massa em todo o Chile, que se opõe ao aumento da tarifa do transporte público governamental, carrega os sinais de gatilhos econômicos semelhantes em outros países usados ​​para provocar o Washington Color Revolutions. Os protestos tiveram o efeito a curto prazo do cancelamento da cúpula da APEC no Chile. O papel ativo das ONGs financiadas pelos EUA nos protestos no Chile não foi confirmado, mas as crescentes relações econômicas entre o Chile e a China claramente não são vistas como positivas por Washington. A exploração de lítio na China no Chile, neste momento, é um fator geopolítico estratégico pouco discutido que poderia ser alvo de intervenções de Washington, apesar da economia de livre mercado do atual governo.
 
Neste momento, o que está claro é que há uma batalha global pela dominação do mercado de baterias de EV do futuro e o controle do lítio está no centro disso.
 
*F. William Engdahl é consultor e professor de risco estratégico, é formado em política pela Universidade de Princeton e é um autor best-seller de petróleo e geopolítica, exclusivamente para a revista on-line  “New Eastern Outlook”,  onde este artigo foi publicado originalmente. Ele é um colaborador frequente da. Global Research
 
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Sementes de destruição: agenda oculta da manipulação genética
Nome do autor: F. William Engdahl
Número ISBN: 978-0-937147-2-2
Ano: 2007
Páginas: 341 páginas com índice completo
 
Preço especial: US $ 18,00
 
Este livro habilmente pesquisado enfoca como uma pequena elite sociopolítica americana procura estabelecer controle sobre a própria base da sobrevivência humana: a provisão de nosso pão diário. "Controle a comida e você controla as pessoas."
 
Este não é um livro comum sobre os perigos do OGM. Engdahl leva o leitor para dentro dos corredores do poder, para os fundos dos laboratórios de ciências, a portas fechadas nas salas de reuniões corporativas.
 
O autor revela convincentemente um mundo diabólico de intrigas políticas com fins lucrativos, corrupção e coerção do governo, onde a manipulação genética e o patenteamento de formas de vida são usados ​​para obter controle mundial sobre a produção de alimentos. Se o livro costuma ser lido como uma história de crime, isso não deve surpreender. Pois é isso que é.
 
A fonte original deste artigo é Pesquisa Global
 
Copyright © F.William Engdahl , Global Research , 2019
 

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A causa dos conflitos mundiais

Nos Estados Unidos da América Donald Trump evocando a América First “ganha” as eleições. Na Inglaterra a elite e boa parcela da classe média briga incessantemente pelo Brexit, (separação da União Europeia). Na Espanha separatistas querem a independência da parte mais rica, a Catalunha. Em vários outros países acirram-se os conflitos de mesma natureza.

 

 

Nas últimas décadas do século passado após a capitulação e a implosão da União Soviética os teóricos do capital chegaram a anunciar o “fim da história”, ou a vitória final do capitalismo. Então, natural seria esse sistema se revigorar e retomar a pujança que tivera outrora. Mas não foi o que ocorreu. No mundo todo as crises do capitalismo se tornaram mais e mais frequentes, as desigualdades, o desemprego, a violência, a fome e a miséria cada vez maiores. Consequentemente os conflitos entre ricos, médios e pobres se avolumaram.

A disputa por emprego, pela sobrevivência, como num “salve-se quem puder” polarizou de um lado as elites aliadas a grandes parcelas da classe média engrossadas por alienados pauperizados e de outro lado a grande maioria dos trabalhadores e setores democráticos.

Nações antes defensoras da globalização, do liberalismo, fecharam-se dentro de si mesmas, aferraram-se a um nacionalismo exclusivista, exalando ódio às classes mais vulneráveis econômica e socialmente, a estrangeiros imigrantes pobres, numa demonstração não só de discriminação, mas também por medo da perder seus privilégios.

Nos Estados Unidos da América Donald Trump evocando a América First “ganha” as eleições. Na Inglaterra a elite e boa parcela da classe média briga incessantemente pelo Brexit, (separação da União Europeia). Na Espanha separatistas querem a independência da parte mais rica, a Catalunha. Em vários outros países acirram-se os conflitos de mesma natureza.

Os governos de direita ou ultradireita que chegaram ao poder catapultados por esses movimentos nacionalistas ou elitistas, tratam logo de arrancar direitos conquistados pelos trabalhadores e por outros segmentos marginalizados ou pauperizados.

Um outro fator que potencializa esses conflitos de classes é o vertiginoso crescimento da China, sob o comando do Partido Comunista, na construção de um outro sistema tido como morto há menos de meio século. Esse fenômeno provoca nova disputa acirrada entre as duas atuais superpotências, Estados Unidos e China, em outras palavras, entre o capitalismo e o socialismo. Daí a guerra comercial deflagrada pelos norte-americanos.

Os Estados Unidos, tentando conter seu declínio, voltam a promover golpes e retomar o poder principalmente no “seu quintal”, a América Latina, como também em vários outros países.

Por outro lado, a China utilizando de sua sabedoria milenar e tática, não de guerra, mas de métodos persuasivos de ganha-ganha, amplia sua influência no continente assim como na Europa e outras áreas, inclusive Brasil, através da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, que propõe parcerias para o desenvolvimento mútuo

Esses são os principais fatores do ressurgimento e potencialização das correntes de direita, de ultradireita, do nacionalismo xenófobo, do acirramento e polarização das classes sociais, e suas representações políticas de direita aliadas ao centro contra as correntes democráticas e de esquerda. Quando não pela eleição, geralmente fraudadas, aplicam se os golpes sobre governos democraticamente eleitos. O que importa é a conquista do poder a qualquer preço, para impor o seu projeto político aqui e em vários outros países chamado de neoliberalismo. Em outras palavras de destruição da soberania, de assalto das riquezas e dos direitos do povo, do desmantelamento da democracia para facilitar a implementação de suas ideias e retardar a morte do seu sistema, o capitalismo.

Em suma, é a disputa entre os dois sistemas vigentes, é a roda da história girando, ora para trás, porém, historicamente sempre para a frente, como outrora vencendo o Escravismo, depois o Feudalismo, e hoje, se bem que ainda no início, para vencer mais um regime injusto, cruel e desumano, o atual capitalismo selvagem.


por Aluisio Arruda, Jornalista, arquiteto, urbanista  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-causa-dos-conflitos-mundiais/

Seis projectos contraditórios de ordem mundial

 
 
Thierry Meyssan*
 
As seis principais potências mundiais abordam a reorganização das relações internacionais em função das suas experiências e dos seus sonhos. Prudentemente, pensam primeiro defender os seus interesses antes de promover a sua visão do mundo. Thierry Meyssan descreve as respectivas posições antes que a luta comece.
 
A retirada dos EUA da Síria, mesmo que tenha sido imediatamente corrigida, indica, com certeza, que Washington não pretende ser mais o gendarme do mundo, o «Império necessário». Sem esperar, desestabilizou todas as regras das relações internacionais. Entramos, assim, num período de transição no decurso do qual cada grande potência persegue uma nova agenda. Eis aqui as principais.
 
Os três «grandes»
 
Os Estados Unidos da América
 
O colapso da União Soviética poderia ter provocado o colapso dos EUA na medida em que os dois Impérios estavam encostados um ao outro. Nada disso se passou. O Presidente George Bush Sr. garantiu com a Operação «Tempestade no Deserto» que Washington se tornasse o líder incontestado de todas as nações, depois desmobilizou 1 milhão de soldados e anunciou a busca da prosperidade.
 
As empresas transnacionais selaram então um pacto com Deng Xiaoping para que os seus produtos fossem fabricados por trabalhadores chineses, vinte vezes mais mal pagos do que os seus homólogos norte-americanos. Seguiu-se, por isso, um desenvolvimento considerável dos transportes internacionais de mercadorias, depois o desaparecimento progressivo de empregos e das classes médias nos EUA. O capitalismo industrial foi suplantado por um capitalismo financeiro.
 
No final dos anos 90, Igor Panarine, professor da Academia Diplomática Russa, analisa o colapso económico e psicológico da sociedade norte-americana. Ele emite a hipótese de desagregação desse país, baseado no modelo do que acontecera com a União Soviética, com o aparecimento de novos Estados. Para repelir o colapso, Bill Clinton saca o seu país do Direito Internacional com a agressão à Jugoslávia pela OTAN. Mostrando-se este esforço insuficiente, personalidades dos EUA imaginam adaptar o seu país ao capitalismo financeiro e organizar, pela força, o comércio internacional, a fim de que o período a seguir seja um «novo século americano». Com George Bush Jr., os Estados Unidos abandonaram a sua posição de nação líder e tentaram transformar-se num Poder unipolar absoluto. Assim, lançaram a «guerra sem fim» ou «guerra ao terrorismo» para destruir, uma a uma, todas as estruturas estatais do «Médio-Oriente Alargado». Barack Obama prosseguiu esta meta para isso associando uma infinidade de aliados.
 
Esta política trouxe os seus frutos, mas apenas um pequeníssimo número beneficiou dela, os «super-ricos». Os Norte-Americanos reagiram elegendo Donald Trump para a presidência do Estado Federal. Este rompe com a herança dos seus predecessores e, tal como Mikhaïl Gorbatchev na URSS, tenta salvar os EUA afastando-o dos seus compromissos mais onerosos. Ele relançou a sua economia encorajando as indústrias nacionais contra as que haviam deslocalizado os seus postos de trabalho. Subvencionou a extracção de petróleo de xisto e conseguiu tomar o controle do mercado mundial de hidrocarbonetos apesar do cartel formado pela OPEP e pela Rússia. Consciente de que o seu exército é, antes de mais, uma enorme burocracia, esbanjando um orçamento colossal para resultados insignificantes, cessou o apoio ao Daesh (E.I.) e ao PKK, negociando com a Rússia uma via para terminar com a «guerra sem fim» perdendo no processo o mínimo possível.
 
No período que se segue, os Estados Unidos serão prioritariamente guiados pela necessidade de economizar em todas as suas acções no exterior, indo até ao seu abandono, se necessário. O fim do imperialismo não é uma escolha, mas uma questão existencial, um reflexo de sobrevivência.
 
 
A República popular da China
 
Após a tentativa de golpe de Estado de Zhao Ziyang e o levantamento de Tienanmen, Deng Xioping empreendeu a sua «viagem para o Sul». Ele anunciou que a China continuaria a sua liberalização económica estabelecendo contratos com as multinacionais dos EUA.
 
Jiang Zemin prosseguiu nesta via. A costa transformou-se na «fábrica do mundo», provocando um gigantesco desenvolvimento económico. Progressivamente, limpou o Partido Comunista dos seus caciques e velou para que empregos bem remunerados se estendessem para o interior do país. Hu Jintao, preocupado com uma «sociedade harmoniosa», revogou os impostos que os camponeses pagavam nas regiões do interior ainda não abrangidas pelo desenvolvimento económico. Mas não conseguiu dominar os poderes regionais e afundou-se num caso de corrupção.
 
Xi Jinping propôs-se abrir novos mercados montando, para tal, um projecto titânico de rotas comerciais internacionais, as «Rota da Seda». No entanto, este projecto chegou demasiado tarde porque, ao contrário da antiguidade, a China já não propõe produtos originais, mas, antes o que as empresas transnacionais vendem mais barato. Este projecto foi acolhido como uma bênção pelos países pobres, mas temido pelos ricos que se preparam para o sabotar. Xi Jinping retoma posições em todas as ilhotas que o seu país havia abandonado no mar da China, aquando do colapso do Império Qing e da ocupação pelos oito Exércitos estrangeiros. Consciente do poder de destruição dos Ocidentais, ele fez uma aliança com a Rússia e absteve-se de qualquer iniciativa política internacional.
 
No período que se segue, a China deverá afirmar as suas posições nas instâncias internacionais conservando em mente aquilo que os Impérios coloniais lhe infligiram no século XIX. Mas ela deverá abster-se de intervir militarmente e permanecerá uma potência estritamente económica.
 
A Federação da Rússia
 
Aquando de colapso da URSS, os Russos acreditaram que se iam salvar aderindo ao modelo ocidental. Com efeito, a equipa de Boris Ieltsine, formada pela CIA, organizou a pilhagem dos bens colectivos por alguns indivíduos. Em dois anos, uma centena de entre eles, 97 % originários da minoria judaica, apoderaram-se de tudo aquilo que estava disponível e tornaram-se bilionários. Estes novos oligarcas dedicaram-se a uma batalha sem tréguas a rajadas de metralhadora e atentados em plena Moscovo, enquanto o Presidente Ieltsine fazia bombardear o Parlamento. Sem verdadeiro governo, a Rússia não passava de um destroço. Senhores da guerra e jiadistas armados pela CIA montaram a secessão da Tchechénia. O nível e a esperança de vida afundaram-se.
 
Em 1999, o director du FSB, Vladimir Putin salvou o Presidente Ieltsine de uma investigação por corrupção. Em troca, foi nomeado presidente do Conselho de Ministros; posto que ele utilizou para forçar o Presidente à demissão e se fazer eleger para o seu lugar. Colocou em prática uma vasta política de restauro do Estado : pôs fim à guerra civil na Tchechénia e destruiu metodicamente todos os oligarcas que recusaram vergar-se perante o Estado. O retorno da ordem foi também o fim da fantasia ocidental dos Russos. O nível e a esperança de vida melhoraram.
 
Tendo restabelecido o Estado de Direito, Vladimir Putin não se apresentou para os dois mandatos seguintes. Ele apoiou um pálido professor de direito, adulado pelos Estados Unidos, Dmitry Medvedev, para lhe suceder. Mas não tendo a intenção de deixar o Poder em mãos fracas, fez-se nomear Primeiro-ministro até à sua reeleição como Presidente em 2012. Crendo erradamente que a Rússia se iria afundar de novo, a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, mas encontrou, instantaneamente, o Primeiro-Ministro Putin no seu caminho. Este verificou, então, o estado deplorável do Exército vermelho, mas conseguiu vencer graças ao efeito de surpresa. Reeleito para a presidência, ele empenhou-se em reformar a defesa. Mandou para a aposentação centenas de milhar de oficiais, muitas vezes desmoralizados e por vezes ébrios, e colocou o General tuvan (turcófono da Sibéria) Serguei Shoigu no Ministério da Defesa.
 
Retomando um modo de gestão russa tradicional, Vladimir Putin separou o orçamento civil de uma parte do orçamento militar. O primeiro é votado pela Duma, o segundo é secreto. Ele restaurou a pesquisa militar, enquanto os Estados Unidos pensavam já não ter mais que investir neste domínio. Ele testou uma quantidade de armas novas, antes de movimentar o novo Exército vermelho em socorro da Síria. Experimentou as suas novas armas em situação de combate real e decidiu aquelas que seriam produzidas e as que seriam abandonadas. Organizou uma rotação trimestral das suas tropas a fim de que todos, uns após os outros, se endurecessem com a guerra. A Federação da Rússia, que em 1991 não valia nada, tornou-se, em dezoito anos, a primeira potência militar do mundo.
 
Simultaneamente, ele utilizou o Golpe de Estado nazi na Ucrânia para recuperar a Crimeia, um território russo administrativamente colado à Ucrânia por Nikita Khrushchev. Então, enfrentou uma campanha de sanções agrícolas da União Europeia que utilizou para criar uma produção doméstica auto-suficiente.
 
Ele formou uma aliança com a China, e forçou-a a modificar o seu projecto de "rotas da seda" nele integrando as necessidades de comunicação do território russo, para fundar uma «Parceria da Euroásia Alargada».
 
Nos anos que se seguem, a Rússia vai tentar reorganizar as relações internacionais sobre duas bases:
» separar os poderes políticos e religiosos;
» restaurar o Direito Internacional nas bases formuladas pelo Czar Nicolau II.
 
Os Europeus Ocidentais
 
O Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte
 
Aquando da queda da URSS, o Reino Unido subscreveu com reservas o Tratado de Maastricht. O Primeiro-Ministro conservador John Major pretendia tirar proveito do Estado supranacional em construção enquanto mantinha a sua moeda de fora. Portanto, ficou satisfeito quando George Soros atacou a Libra e a forçou a sair do SME («serpente monetária»). O seu sucessor, o trabalhista Tony Blair, restaurou a plena independência do Banco da Inglaterra e encarou deixar a UE para se juntar ao ALENA (NAFTA). Ele transformou a defesa dos interesses do seu país, substituindo referências aos Direitos do Homem pelo respeito pelo Direito Internacional. Fez-se promotor das políticas dos EUA, de Bill Clinton e George Bush Jr., encorajando e justificando o alargamento da União Europeia, a «guerra humanitária» contra o Kosovo, depois o derrube do Presidente iraquiano Saddam Hussein. Em 2006, elaborou o plano das «Primaveras Árabes» e submeteu-o à aprovação dos EUA.
 
Gordon Brown hesitou em prosseguir esta política e tentou encontrar uma margem de manobra, mas a sua energia foi sugada pela crise financeira de 2008, que ele, no entanto, conseguiu ultrapassar. David Cameron pôs em prática, com Barack Obama, o plano Blair-Bush das «Primaveras Árabes», nomeadamente a guerra contra a Líbia, mas, a prazo, conseguiu apenas parcialmente colocar os Irmãos Muçulmanos no Poder no Médio-Oriente Alargado. Para resumir, demitiu-se após a voto do Brexit pelos eleitores quando o plano para se juntar ao ALENA (NAFTA) já não estava na ordem do dia.
 
Theresa May propôs-se aplicar o Brexit no que concerne à saída do Estado supranacional do Tratado de Maastricht, mas não em relação à saída do Mercado Comum anterior a Maastricht. Ela falhou e foi substituída pelo biógrafo de Winston Churchill, Boris Johnson. Este decidiu sair totalmente da União Europeia e reactivar a política externa tradicional do Reino: a luta contra qualquer Estado concorrente no continente europeu.
 
Se Boris Johnson ficar no Poder, o Reino Unido deverá nos próximos anos tentar levantar a União Europeia e a Federação da Rússia uma contra outra.
 
A República Francesa
 
François Mitterrand não entendeu a desarticulação da URSS, chegando até a apoiar o putsch dos generais contra o seu homólogo russo, Mikhail Gorbachev. Seja como for, ele viu nisso uma oportunidade para construir um Estado supranacional europeu suficientemente grande para rivalizar com os EUA e a China, na continuação da tentativa napoleónica. Assim, promoveu, junto com o Chanceler Helmut Kohl, a unificação alemã e o Tratado de Maastricht. Inquieto com este projecto de Estados Unidos da Europa, o Presidente Bush Sr, convencido pela «Doutrina Wolfowitz» em prevenir o aparecimento de um novo rival à liderança dos EUA, forçou-o a aceitar a proteção da U.E. pela OTAN, e o seu alargamento aos antigos membros do Pacto de Varsóvia. François Mitterrand utilizou a coabitação e o ministro gaullista do Interior, Charles Pasqua, para combater os Irmãos Muçulmanos que a CIA o havia forçado a aceitar em França e que o MI6 utilizava para afastar a França da Argélia.
 
Jacques Chirac desenvolveu a dissuasão francesa concluindo os ensaios nucleares aéreos no Pacífico antes de passar às simulações e assinar o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (TICE). Simultaneamente, adaptou os exércitos às necessidades da OTAN encerrando o serviço militar obrigatório e ingressando no Comité Militar (planificação) da Aliança. Ele apoiou a iniciativa da OTAN contra a Jugoslávia (a guerra do Kosovo), mas ---depois de ter lido e estudado L’Effroyable imposture [1]--- colocou-se à cabeça da oposição mundial à agressão contra o Iraque. Este episódio permitiu-lhe sintonizar-se com o Chanceler Helmut Kohl e fazer avançar o Estado supranacional europeu que ele, desde sempre, concebia como uma ferramenta de independência em torno do par franco-alemão. Desestabilizado pelo assassinato do seu parceiro de negócios, Rafic Hariri, virou-se contra a Síria que os Estados Unidos designavam como a comanditária do assassinato.
 
Preconizando uma política radicalmente diferente, Nicolas Sarkozy colocou o Exército francês sob o comando dos EUA, através do Comando Integrado da OTAN. Ele tentou alargar a zona de influência francesa organizando a União para o Mediterrâneo, mas esse projecto não funcionou. Deu os primeiros passos derrubando Laurent Gagbo na Costa do Marfim e, muito embora tenha sido ultrapassado pelas Primaveras Árabes na Tunísia e no Egipto, tomou a cabeça da operação da OTAN contra a Líbia e contra a Síria. Por realismo, no entanto, constatou a resistência síria e retirou-se do teatro de operações. Ele prosseguiu a construção dos Estados Unidos da Europa fazendo adoptar o Tratado de Lisboa pelo Parlamento quando os eleitores haviam rejeitado o mesmo texto sob o nome de «Constituição Europeia».
 
Na realidade, a modificação de instituições, que supostamente se deviam tornar mais eficazes com 27 Estados, transformou em profundidade o Estado supranacional que pode agora impor a sua vontade aos Estados-Membros.
 
Chegado ao Poder, sem para isso estar preparado, François Hollande segue de uma forma um pouco rígida os passos de Nicolas Sarkozy, o que o obriga a adoptar a ideologia. Assina todos os tratados que o seu predecessor havia negociado ---incluindo o Pacto Fiscal Europeu que permite sancionar a Grécia--- acrescentando-lhe de cada vez, como se estivesse a desculpar-se pela sua reviravolta, uma declaração repetindo o seu próprio ponto de vista, mas sem valor vinculativo. Assim, autoriza a instalação de bases militares da OTAN em solo francês, pondo um fim definitivo à doutrina gaullista de independência nacional. Ou, ainda, prosseguindo a política de agressão contra a Síria, entregando-se a uma escalada verbal antes de nada fazer a ordens da Casa Branca. Ele ordena ao Exército terrestre francês uma missão no Sahel, fazendo de auxiliar do AfriCom no terreno. Por fim, justifica a Bolsa de troca de direitos de emissão de CO2 com Acordo de Paris sobre o clima.
 
Eleito graças ao Fundo de investimento norte-americano KKR, Emmanuel Macron é, antes de mais, um defensor da globalização ao estilo de Bill Clinton, George Bush Jr e Barack Obama. No entanto, adopta rapidamente a visão de François Mitterrand e de Jacques Chirac segundo a qual apenas um Estado supranacional europeu permitirá à França continuar a jogar um papel internacional relevante, mas na sua versão Sarkozy-Hollande: a União permite a imposição. Estas duas linhas conduzem-no por vezes a contradições, nomeadamente face à Rússia. No entanto, elas juntam-se numa condenação ao nacionalismo dos Estados-Membros da União Europeia, a um Brexit rápido, ou ainda a uma vontade de restabelecer o comércio com o Irão.
 
Nos anos que seguem, a França deverá pesar as suas decisões quanto ao impacto na edificação da União Europeia. Prioritariamente, ela procurará aliar-se a qualquer potência que trabalhe neste sentido.
 
A República Federal da Alemanha
 
O Chanceler Helmut Kohl entendeu a desagregação do Império Soviético como uma oportunidade para reunir as duas Alemanhas. Ele obtêm luz verde da França em troca do apoio alemão ao projecto de moeda única da União Europeia, o euro. Obtêm também o acordo dos Estados Unidos, que veem nisso um meio retorcido de fazer entrar o Exército da Alemanha de Leste na OTAN, apesar da promessa feita à Rússia de nela não fazer ingressar a República Democrática Alemã.
 
Uma vez a reunificação alemã consumada, o Chanceler Gerhard Schröder coloca a questão do papel internacional do seu país, sempre sob o estigma da sua derrota durante a Segunda Guerra Mundial. Se a Alemanha já não está militarmente ocupada pelas quatro grandes potências, ela não deixa, por isso, de abrigar nada menos que enormes guarnições dos EUA, as instalações do EuCom, e em breve do AfriCom. Gerhard Schöder utiliza a guerra «humanitária» contra o Kosovo para deslocar legalmente, pela primeira vez desde 1945, as tropas alemãs fora do país. Mas recusa a reconhecer este território conquistado pela OTAN como um Estado. Da mesma forma, empenha-se fortemente ao lado do Presidente Chirac contra a guerra americano-britânica no Iraque, sublinhando que nada prova a implicação do Presidente Saddam Hussein nos atentados do 11-de-Setembro. Ele tenta influenciar a construção europeia de forma pacífica. Assim, reforça os laços energéticos com a Rússia e propõe uma Europa federal (incluindo a prazo a Rússia ) dentro do modelo alemão, mas enfrenta a oposição da França muito ligada ao projecto de Estado supra-nacional.
 
A Chancelerina Angela Merkel regressa à política do seu mentor Helmut Kohl, o qual a fez passar, numa noite, dos seus cargos nas Juventudes Comunistas da Alemanha Democrática (RDA) para o Governo da Alemanha Federal. Estreitamente vigiada pela CIA, que não sabe muito bem como a definir, ela reforça os laços da Alemanha com Israel e o Brasil. Em 2013, sob proposta de Hillary Clinton, pede a Volker Pethes para estudar a possibilidade de desenvolver o Exército alemão a fim de jogar um papel central no CentCom se os Estados Unidos transferirem as suas tropas para o Extremo Oriente. Então, encomendou estudos sobre como os oficiais alemães poderiam supervisionar os Exércitos da Europa Central e Oriental, e pediu a Volker Perthes que esboçasse um plano para a capitulação da Síria. Muito apegada às estruturas atlantistas e europeias, distancia-se da Rússia e apoia o golpe de Estado nazista na Ucrânia. Por questão de eficácia, exige que a União Europeia possa impor a sua vontade aos pequenos Estados-Membros (Tratado de Lisboa). Ela mostra-se muito dura aquando da crise financeira grega e coloca pacientemente os seus peões na burocracia europeia até à eleição de Ursula von der Leyen para a presidência da Comissão Europeia. Assim que os Estados Unidos se retiram do Norte da Síria, reage imediatamente propondo à OTAN enviar o Exército alemão para os substituir, conforme o plano de 2013.
 
Nos anos que se seguem, a Alemanha deverá privilegiar as possibilidades de intervenção militar dentro do quadro da OTAN, particularmente no Médio-Oriente, e agir com cautela no projecto de Estado supra-nacional europeu centralizado.
 
Viabilidade
 
É muito estranho ouvir falar hoje em dia de «multilateralismo» e «isolacionismo» ou de «universalismo» e de «nacionalismo». Estas questões não se põem na medida em que todos sabem, desde a Conferência de Haia (1899), que o progresso da tecnologia torna todas as nações solidárias. Essa logorreia disfarça mal a nossa incapacidade em admitir as novas relações de força e em encarar uma ordem do mundo menos injusta possível.
 
Somente as três Grandes potências se podem dar ao luxo de ter os meios próprios para a sua política. No entanto, elas só podem alcançar os seus fins sem guerra seguindo a linha russa fundada no Direito Internacional. Todavia, o perigo de uma instabilidade política doméstica nos EUA faz pairar, mais do que nunca, um risco de confronto generalizado.
 
Ao deixar a União, os Britânicos colocaram-se no imperativo de se juntar aos Estados Unidos (o que Donald Trump recusa) ou de desaparecer politicamente. Enquanto a Alemanha e a França, em perda de ritmo, não têm outra escolha senão construir a União Europeia. Ora, de momento, elas avaliam de forma muito diferente o tempo disponível e encaram-no de duas maneiras incompatíveis, o que poderá levá-las, a elas próprias, a desmantelar a União Europeia.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 

Nota:

[1] Portugal : 11 de Setembro, 2001 A terrível impostura. Nenhum Avião Caíu Sobre o Pentágono!, Thierry Meyssan, Frenesi, 2002. Brasil : 11 de setembro de 2001: uma terrível farsa. Nenhum Avião Caíu Sobre o Pentágono!, Usina do livre, 2002.

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A Rússia e a autodeterminação dos curdos em 26 notas

Nazanín Armanian    01.Nov.19

Uma interessante ficha de leitura de um complexo processo, inserido em processos regionais e globais ainda mais complexos e perigosos. De momento o que parece é que a intervenção russa marcou pontos. O que não garante de forma alguma que se esteja mais próximo de qualquer solução, quanto mais não seja porque uma das ramificações da questão poderá passar pelo que venha a suceder a Trump.


1. Quem semeia ventos colhe tempestades, insinuou o embaixador russo na ONU, Vasili Nebenzia, sobre a dramática situação dos curdos após o ataque militar da Turquia de 9 de Outubro no norte da Síria: “Nós incentivámos os curdos a terem um diálogo directo com o Governo sírio, mas eles preferiram outros protectores e agora podem ver o que sucede”. Depois, na votação do Conselho de Segurança, recusou-se a condenar a agressão militar ilegal turca contra a Síria “soberana” e apenas pediu ao agressor “máxima contenção”. Por outro lado, Donald Trump, para se defender dos que o chamam “traidor dos curdos”, disse que esses “não são anjos” e que alguns líderes do PKK são piores que o Daesh e deveria ser-lhes dado tempo para lutarem entre si para depois ir separá-los, deixando uma porta aberta para reocupar a Síria. Traidor? Não foi uma equipa da CIA e a Mossad quem capturou no Quénia o líder curdo Abdullah Öcalan e o entregou à ditadura turca em 1999?

2. Seis dias depois, - tempo suficiente para que os líderes curdos se desesperassem com a morte de uma centena de pessoas (entre elas a lapidação da dirigente Hevrin Khalaf) e a fuga espavorida de dezenas de milhares dos seus lares, abandonassem suas exigências nacionalistas -, Moscovo chegou a um acordo com Erdogan e com os presidentes da Síria, EUA e Irão para realizar patrulhas conjuntas na fronteira entre a Turquia e a Síria. Trump está tão feliz com esta solução que levantou as últimas sanções que impôs a Ancara. Com essa jogada de mestre, Moscovo conseguiu:

3. Evitar um banho de sangue curdo.

4. Impedir que a Turquia ocupe território sírio e instale bases militares como tinha planeado.

5. Forçar os curdos a chegarem a um acordo com Damasco e Assad a aceitar um certo grau de autonomia curda.

6. Provocar fissuras nas forças curdas: uma facção aceitou pactuar com Damasco, outra apostou em resistir a nada menos do que o conjunto das tropas da Rússia, Turquia e Síria.

7. Exigir ao Partido da União Democrática (PYD) que renuncie ao PKK e chegue a um acordo com Ancara, como fizeram os curdos iraquianos, com os quais Erdogan tem magníficas relações, o que desmente a curdofobia do Sultão, que na opinião geral se tornou o seu modus vivendi.

8. Que as tropas sírias entrassem no norte sem disparar uma única bala.

9. Oferecer a Erdogan o fim da autonomia curda em troca de devolver a província árabe-sunita de Idlib a Damasco, que ocupou com milhares de rebeldes e “jihadistas” (com numerosos chechenos nas suas fileiras) e depois assumir o seu controlo. É um acordo magnífico para Erdogan que não quer 1) mais bombardeamentos da Rússia e da Síria contra esses grupos nos quais ele investiu milhões de euros (e servirão para um novo uso no futuro) e 2) a entrada na Turquia de outros milhares de refugiados Idlibíos aterrorizados.

10. Ressuscitar o Acordo de Adana assinado entre Ancara e Damasco em 1998, que compromete a Síria (antiga sede do PKK) a não abrigar os “terroristas” e autoriza a Turquia a entrar em solo sírio até cinco quilômetros para os perseguir. Com isso, a Rússia propõe fortalecer a segurança nas fronteiras da Síria, em vez de estabelecer uma zona-tampão, como a Turquia exigia.

11. Tranquilizar o Irão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que declararam inaceitável a ocupação de uma região síria pela Turquia: será mais fácil, num futuro próximo, expulsar os turcos do que as tropas norte-americanas.

12. Pactuar com Erdogan a retirada gradual dos seus homens, para serem substituídos pelo exército sírio, e certamente com a aprovação de Trump (não dos EUA, o que acentua a natureza provisória desta situação).

13. Salvar a Europa da ameaça de Erdogan de enviar milhões de refugiados, como em 2015, se o tivesse castigado por matar curdos. Putin mostrou como tratar o “honrado” Erdogan, enquanto Trump chamava “tonto” ao caudilho turco.

14. Proporcionar uma saída “digna” à Turquia de um terrível pântano onde iria cair. Agora e depois de ver os seus sonhos neo-otomanos quebrados na Síria - por não ter conseguido derrubar al Assad, nem instalar uma teocracia de Irmãos Muçulmanos em Damasco, nem expandir ali a sua influência na região -, Erdogan não tem outro remédio senão suportar o presidente sírio durante mais algum tempo, engolindo sapos. Ancara, além da Síria, perdeu a oportunidade de influenciar o Sudão e a Líbia, sem ter ainda recuperado da derrota no Egipto, pelo que ganhar ao que chama “mercenários curdos pró-americanos ” era uma questão de honra para consumo interno Esse presente a Erdogan – de afastar os curdos da fronteira turca - fortalece a associação da Rússia com um parceiro da NATO sem prejudicar al Assad.

15. Melhorar ainda mais a posição da Rússia para decidir o futuro da Síria.

16. Converter-se no árbitro principal das relações turco-curdo-sírias.

17. Esta mudança ocorre porque Trump impôs a sua vontade na Casa Branca, apesar da pressão dos sectores mais agressivos do Estado Profundo (incluindo o complexo militar industrial, a AIPAC e a comunidade dos serviços de informações), por sua recusa em 1) lançar uma guerra contra o Irão e aplicar uma contenção branda à Turquia; e 2) dinamitar a Síria e o Iraque para formar um Curdistão tutelado pelos EUA, Europa, Arábia Saudita e Israel, com outra década de guerras, envolvendo além disso a Turquia e o Irão, que resistirão a esse plano macabro. Trump regressa à narrativa da CIA, que apresentava aos curdos que não há muito tratava de “terroristas” nas primeiras páginas da imprensa direitista ocidental como heróis e heroínas. Desde 2012, os curdos apoiados pelo Pentágono enfrentaram os “rebeldes e jihadistas” organizados pela CIA como carne de canhão para converter a Síria num Estado falhado. Mas Trump não é mais do que uma anomalia no poder dos EUA: não leu o livro de Lénine sobre o imperialismo. A política tradicional dos EUA impor-se-á, ou este país deixa de existir como tal.

18. Última notícia: a ofensiva contra Trump avança e pode haver “Impeachment”, especialmente agora que “ele entregou a Síria à Rússia e ao Irão”: Dissemos já que Trump é agente do Kremlin! O “Estado Profundo” também tem as suas “gargantas profundas” e pode apresentar mais provas sobre a traição do presidente. Ninguém se lembra de que Obama também permitiu que a Turquia e o Irão abortassem a autonomia curda no Iraque em 2017.
Moscovo e os curdos
Para a Rússia, as mudanças no interior de um país são assunto interno desse estado, o que não significa indiferença face aos grupos “insurgentes” dos estados que a rodeiam. Moscovo, que sofre o extremismo islâmico dentro e fora das suas fronteiras (”jihadismo” foi inventado para destruir o socialismo e a União Soviética), apesar de não ter uma “política curda”, vê os curdos como um factor de contenção a essas forças tanto na Síria como no resto da região. A carta curda também foi utilizada pelo Kremlin:

19. Em Fevereiro de 2016, em apoio às aspirações curdas sírias, é aberto em Moscovo um serviço de representação curdo e Putin convida-os para negociações sobre o futuro da Síria no âmbito de sua política de criação de influência de natureza dupla: a vertical, nas instituições estatais, e a horizontal, com a sociedade e suas entidades. Um gesto que pretendia enfraquecer o seu rival turco, além de fazer com que Damasco e Ancara dependessem da Rússia para influenciar essa minoria étnica.

20. Em Julho de 2016 há uma mudança radical nesse cenário: a tentativa de golpe de Estado contra Erdogan é possivelmente frustrado pela Rússia, e o Sultão acusa os EUA de querer derrubá-lo e atentar contra a integridade territorial da Turquia, armando os curdos sírios. Assim, os EUA apoiam os curdos afastando-se da Turquia, enquanto a Rússia recolhe um Erdogan destroçado. A partir de agora, a “autonomia curda” será considerada por Ancara “a base militar dos EUA” e os curdos como outro instrumento do imperialismo, juntamente com o “jihadismo”.

21. A Rússia começa a dar um apoio tácito às agressões militares turcas na zona curda da Síria em 2016, e em 2018 dias depois de os EUA anunciarem expandir a sua presença militar nessa região e com dois objectivos: forçar os curdos a pedir socorro a Damasco, coisa que não aconteceu, e distrair a Turquia da sua intenção de derrubar al Assad.

22. Mas, em 2017 a Rússia, de forma matizada, apoia a independência do Curdistão iraquiano, onde tem importantes negócios de petróleo. Aqui, são os EUA quem se opõe: não era a hora.

23. A Rússia defende uma autonomia cultural e administrativa limitada para os curdos sírios. Resta saber se o grosso das guerrilhas curdas, os Peshmarga (termo persa-curdo que significa “quem abraça a morte”) se dissolverão ou se converterão em unidade do exército sírio no norte.

24. A diplomacia do Kremlin, baseada em uma aplicação delicada e subtil de pragmatismo e realismo, fez com que “a Rússia se tornasse novamente grande “, além do mais a baixo custo e acompanhada pela China, impedindo que os EUA recuperem o seu curto período de reinado unilateral sobre o mundo: começou em 1991 e terminou em 2001, ano da formação da Organização de Cooperação de Xangai, liderada pela China e pela Rússia.

A aproximação entre Turquia e Síria, duas repudiadas da Europa, não significa uma mudança radical no tabuleiro: essas alianças são furtivas e tácticas, enquanto prosseguir a guerra na Síria, esse Afeganistão da Eurásia, destroçada por um conflito a três dimensões.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6090/rusia-y-la-autodeterminacion-de-los-kurdos-en-26-apuntes/[1]

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References

  1. ^https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6090/rusia-y-la-autodeterminacion-de-los-kurdos-en-26-apuntes/ (blogs.publico.es)
  2. ^endereço (www.odiario.info)
  3. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O novo mundo surge diante de nós

O Rei Salman recebe o Presidente Vladimir Putin, o pacificador
Thierry Meyssan*
 
 
Thierry Meyssan sublinha a extrema gravidade, não da retirada dos EUA da Síria, mas do colapso dos pontos de referência actuais no mundo. Entramos, segundo ele, num curto período de transição, no decurso do qual os actuais mestres do jogo que são os «capitalistas financeiros» —e aqueles que ele designa assim não têm qualquer relação nem com o capitalismo original, nem com a banca original— vão ser afastados em proveito de regras de Direito enunciadas pela Rússia em 1899.
 
É um momento que só acontece uma ou duas vezes por século. Uma nova ordem mundial surge. Todas as referências anteriores desaparecem. Os que estavam condenados ao pelourinho triunfam enquanto os que governavam são precipitados nos infernos. Claramente, as declarações oficiais e as interpretações dadas pelos jornalistas já não mais correspondem aos acontecimentos que se sucedem. Os comentadores devem mudar o seu discurso o mais rápido possível, alterá-lo completamente ou ser engolidos pelo turbilhão da História.
 
Em Fevereiro de 1943, a vitória soviética face ao Reich nazi marcava a viragem da Segunda Guerra Mundial. A sequência dos acontecimentos era inelutável. Foi preciso, no entanto, esperar o desembarque anglo-americano na Normandia (Junho de 1944), a Conferência de Ialta (Fevereiro de 1945), o suicídio do Chanceler Hitler (Fevereiro de 1945) e, por fim, a capitulação do Reich (8 de Maio de 1945) para se ver levantar este mundo novo.
 
Num ano (Junho de 44-a Maio de 45), o Grande Reich fora substituído pelo duopólio soviéto-americano. O Reino Unido e a França, que eram ainda as duas primeiras potências mundiais, doze anos antes, iam assistir à descolonização dos seus Impérios.
 
É um momento como esse o que nós vivemos hoje em dia.
 
 
Cada período histórico tem o seu próprio sistema económico e constrói uma super-estrutura política para o proteger. Durante o fim da Guerra Fria, e da dissolução da URSS, o Presidente Bush Sr desmobilizou um milhão de militares dos EUA e confiou a procura da prosperidade aos patrões das suas multinacionais. Estes fizeram uma aliança com Deng Xiaoping, deslocalizaram os empregos dos EUA para a China, que se tornou a fábrica (usina-br) do mundo. Longe de trazer a prosperidade aos cidadãos dos EUA, eles monopolizaram os lucros, provocando progressivamente o lento desaparecimento das classes médias ocidentais. Em 2001, financiaram os atentados do 11-de-Setembro para impor ao Pentágono a estratégia Rumsfeld/Cebrowski de destruição das estruturas estatais. O Presidente Bush Jr transformou então o «Médio-Oriente Alargado» no teatro de uma «guerra sem fim».
 
A libertação numa semana de um quarto do território sírio não é somente a vitória do Presidente Bashar al-Assad, «o homem que desde há oito anos deve sair», ela marca o fracasso da estratégia militar que visava estabelecer a supremacia do capitalismo financeiro. O que parecia inimaginável aconteceu. A ordem do mundo mudou. O desenrolar dos acontecimentos vai tornar-se inevitável.
 
A recepção do Presidente Vladimir Putin com enorme pompa na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos atesta a espetacular reviravolta das potências do Golfo que se viram agora para o campo russo.
 
A igualmente espectacular redistribuição de cartas no Líbano sanciona o mesmo fracasso político do capitalismo financeiro. Num país dolarizado, onde já não se encontram mais dólares desde há um mês, onde os bancos fecham seus guichês e onde os saques bancários são limitados, não serão as manifestações anti-corrupção que irão parar o derrube (derrubada-br) da antiga ordem.
 
As convulsões da antiga ordem espalham-se. O Presidente equatoriano Lenín Moreno atribui a revolta popular contra as medidas impostas pelo capitalismo financeiro ao seu predecessor, Rafael Correa, que vive no exílio na Bélgica, e a um símbolo da resistência a esta forma de exploração humana, o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, muito embora eles não tenham qualquer influência no seu país.
 
O Reino Unido já retirou as suas Forças Especiais da Síria e tenta sair do Estado supranacional de Bruxelas (União Europeia). Depois de ter pensado conservar o Mercado Comum (projecto de Theresa May), decidiu romper com toda a construção europeia (projecto de Boris Johnson). Após os erros de Nicolas Sarkozy, François Hollande e Emmanuel Macron, a França perde subitamente toda a credibilidade e influência. Os Estados Unidos de Donald Trump deixam de ser a «nação indispensável», o «gendarme do mundo» ao serviço do capitalismo financeiro para voltar a ser, eles próprios, uma grande potência económica. Retiram o seu arsenal nuclear da Turquia e aprestam-se a fechar o CentCom no Catar. A Rússia é reconhecida por todos como o «pacificador» fazendo triunfar o Direito Internacional que ela havia criado ao convocar, em 1899, a «Conferência Internacional da Paz» em Haia, cujos princípios foram depois pisados pelos membros da OTAN.
 
Tal como a Segunda Guerra Mundial pôs fim à Liga das Nações (SDN) para criar a ONU, este mundo novo vai, provavelmente, dar à luz uma nova organização internacional fundada sobre os princípios da Conferência de 1899 do Czar russo, Nicolau II, e do Prémio Nobel da Paz francês, Léon Bourgeois. Para isso, será preciso primeiro dissolver a OTAN, que tentará sobreviver estendendo-se para o Pacífico, e a União Europeia, Estado-refúgio do capitalismo financeiro.
 
É preciso entender bem o que se passa. Entramos num período de transição. Lenine dizia, em 1916, que o imperialismo era o estágio supremo da forma de capitalismo que desapareceu com as duas Guerras Mundiais e a crise bolsista de 1929. O mundo de hoje é o do capitalismo financeiro que devasta, uma a uma, as economias em benefício exclusivo de alguns super-ricos. O seu estádio supremo pressupunha a divisão do mundo em dois: de um lado os países estáveis e globalizados, do outro, regiões do mundo privadas de Estado, reduzidas a não ser mais do que simples reservas de matérias-primas. Este modelo, contestado tanto pelo Presidente Trump nos Estados Unidos, como pelos coletes amarelos na Europa Ocidental, ou a Síria no Levante, agoniza diante dos nossos olhos.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

China ajuda reforma do sistema de governança global, sem "reinventar a roda", diz livro branco

Beijing, 27 set (Xinhua) -- A China participará ativamente da reforma e desenvolvimento do sistema de governança global com o objetivo de ajudar o sistema a avançar com os tempos por meio de inovação e aperfeiçoamento, em vez de "reinventar a roda", segundo um livro branco publicado nesta sexta-feira.

É a aspiração comum dos países em todo o mundo fazer a governança global mais justa e mais equitativa e cumprir os princípios de consulta extensiva, contribuição conjunta e benefícios compartilhados, disse o documento intitulado "A China e o Mundo na Nova Era" publicado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado.

"Que tipo de ordem internacional e sistema de governança se adequa melhor ao mundo e aos povos de todos os países? A China advoga que isso deve ser decidido por todos os países via consulta, não por um único país ou uma pequena minoria de países", disse o livro branco.

A China fará um papel ativo, reforçará a coordenação com todas as partes relevantes, e promoverá a paz, desenvolvimento, igualdade, justiça, democracia, liberdade e outros valores humanos comuns, fazendo o sistema de governança global refletir melhor as mudanças para a arquitetura internacional e a vontade da comunidade internacional em uma maneira mais equilibrada, segundo o documento.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-09/27/c_138428228.htm

A união nacional na Síria e na Venezuela

Como sozinhos o anunciávamos no início do mês, um passo decisivo para a paz foi dado simultaneamente na Síria e na Venezuela, a 16 de Setembro. As duas nações já não se forçam mais a negociar com terroristas, mas os seus governos decidiram construir um novo regime em colaboração com a sua oposição patriótica.

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Os Presidentes Bashar al-Assad e Nicolás Maduro.

O futuro da Síria e da Venezuela joga-se simultaneamente e em paralelo. O que é bastante normal, já que a origem destes conflitos não é local, mas resulta da estratégia do Pentágono de destruição das estruturas estatais, primeiro no «Próximo-Oriente Alargado», depois na «Bacia das Caraíbas» (doutrina Rumsfeld/Cebrowski [1]).

A situação e as capacidades dos dois Estados são muito diferentes, mas a sua resistência ao imperialismo global é idêntica. Hugo Chávez (presidente de 1999 à 2013) foi o porta-voz dos povos da periferia face às ambições das sociedades transnacionais. Desapontado pelo Movimento dos Não-alinhados, no qual certos membros se tornaram vassalos dos Estados Unidos no fim da Guerra Fria, ele havia considerado junto com o Presidente Bashar al-Assad refundá-lo sobre novas bases : o Movimento dos Aliados Livres [2]. Aos que se interrogavam sobre o tempo necessário para concretizar este desejo, o Presidente venezuelano respondera antecipando que o seu homólogo sírio lhe sucederia na cena internacional. Havia, assim, acrescentado, no plano quinquenal de 2007-2013, que escreveu pelo seu punho, instruções a todas as administrações do seu país para apoiar este aliado político longínquo : a Síria [3].

A guerra lavra há dezoito anos o Médio-Oriente Alargado, e desde há oito anos na Síria. O Afeganistão, o Iraque e a Líbia já foram destruídos. O Iémene está submetido à fome. Em relação à Síria, um governo no exílio foi reconhecido pelos Estados Unidos e por um punhado dos seus aliados. Todos os activos do país no Ocidente foram apreendidos. Um governo alternativo substituiu o governo constitucional na Liga Árabe. E os vassalos regionais do Pentágono colocaram-se às ordens da OTAN.

As premissas de guerra estão já bem avançadas na bacia das Caraíbas, nomeadamente na Nicarágua e em Cuba. Em relação à Venezuela, um autoproclamado presidente foi reconhecido pelos Estados Unidos e por um punhado dos seus aliados. Todos os activos venezuelanos no Ocidente foram apreendidos. Um governo alternativo substituiu o governo constitucional na Organização de Estados Americanos (OEA). E os vassalos regionais do Pentágono reactivam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).

A guerra caminha para o fim na Síria porque a presença militar russa torna impossível o envio de novas tropas contra o país; sejam soldados regulares norte-americanos, mercenários oficialmente contratados pelo Pentágono ou jiadistas oficiosamente contratados pelos aliados da OTAN. Mas a vitória do Exército Árabe Sírio contra dezenas de milhar de mercenários estrangeiros não significa a paz.

Isso só é possível na Síria, tal como na Venezuela, com a condição de recuperar a sociedade, fracturada pela guerra aqui ou pelos seus preparativos acolá. Na Síria, isso passa pela redacção, depois adopção, de uma nova Constituição, como previsto há quatro anos pela Resolução 2254. Identicamente, isso passará na Venezuela pela criação de um regime de união nacional, associando chavistas e oposição patriótica. Nos dois casos, a dificuldade consiste em afastar a oposição mercenária, paga pelos Estados Unidos ou seus aliados e pronta para tudo, e mobilizar a oposição patriótica, sempre presente no país e preocupada em preservar a nação.

Com o acordo do Presidente Trump, e apesar da oposição de generais do Pentágono e de diplomatas do Departamento de Estado, a Síria e a Venezuela avançaram nesta via a 16 de Setembro. No mesmo dia, o Irão, a Rússia e a Turquia anunciaram a constituição da «Comissão Constitucional Síria» [4], e a Venezuela anunciou a abertura de uma «Mesa de Diálogo» reunindo representantes do governo e da oposição patriótica [5]. O que substitui as negociações que o governo constitucional tinha empreendido em Barbados, na presença de mediadores noruegueses, com os representantes do autoproclamado presidente, Juan Guaidó; negociações que este havia já declarado «esgotadas» e que ele próprio tinha abandonado. Identicamente, a Comissão Constitucional Síria põe fim às negociações que o governo desde há anos encetava com os jiadistas «moderados», sob os auspícios da ONU.

Na Síria, o princípio de União Nacional impôs-se progressivamente desde o início da guerra. Em 2014, o Presidente Assad conseguira organizar uma eleição presidencial conforme aos padrões internacionais dos regimes democráticos. Mas isso é uma novidade na Venezuela, onde nem todos estão ainda convencidos. Uma tentativa precedente de união, iniciada pelo Papa Francisco, falhara. Dessa vez, em algumas horas, os negociadores conseguiram por-se de acordo sobre quase tudo o que Juan Guaidó pretendia reivindicar, mas que ele se recusou a por em prática. Os chavistas deixaram, assim, de jogar à cadeira vazia na Assembleia Nacional; a Comissão Eleitoral está a passar por reformas; o Vice-presidente da Assembleia Nacional que estava detido foi libertado; etc.

Este avanço considerável foi tornado público durante a saída do Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA. A substituição de John Bolton por Robert O’Brien favorece o surgimento de um novo discurso em Washington. Os dois homens têm as mesmas referências ideológicas, o «excepcionalismo americano», mas estilos opostos: o primeiro ameaçava com guerra a Terra inteira, o segundo é um negociador profissional.

A União Europeia e o Grupo de Lima, que não têm o pragmatismo do Presidente Trump, condenam estes avanços porque os partidários do terrorismo são deles excluídos : ou seja, os jiadistas «moderados» e os guarimberos de Juan Guaidó.


[1] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.

[2] «Chávez y Assad llaman a la creación de un Movimiento de Aliados Libres» («Assad e Chavez apelam para a formação de um Movimento de aliados Livres»- ndT), Red Voltaire , 15 de julio de 2010.

[3] Proyecto Nacional Simón Bolívar. Primer Plan Socialista (PPS) del Desarrollo Económico y Social de la Nación (2007/2013), Presidencia de la República Bolivariana de Venezuela.

[4] “Joint Statement by Iran, Russia and Turkey on the International Meeting on Syria”, Voltaire Network, 16 September 2019.

[5] «Venezuela : Mesa Nacional», Red Voltaire, 26 de septiembre de 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Macron confessa-se ou as angústias da burguesia francesa ...e alemã

 
"O fascismo não é o contrário da democracia burguesa, é a sua evolução em tempos de crise",
B. Brecht
 
por Daniel Vaz de Carvalho

Macron, o banqueiro dos Rothschild. 1 - A burguesia no "fio da navalha" das crises

Em 27 de agosto o sr Macron proferiu um discurso perante os embaixadores franceses, em que fez praticamente o pleno sobre política internacional, economia, soberania, NATO, UE, interesses da França em África e no Médio Oriente, etc, afastando-se da habitual ortodoxia, porém praticamente ignorado pelos grandes media.

Macron, limita-se a ser porta-voz e um dos executantes dos interesses da burguesia francesa, em íntima ligação com as posições do governo alemão. Os últimos presidentes franceses limitaram-se a ser arautos de políticas decididas em Berlim. Por isso, é importante percebermos o que diz e por que o diz.

Em primeiro lugar, avaliemos os contextos deste discurso, que reflete as preocupações da burguesia francesa e por certo alemã. É significativo que Macron, que tem demonstrado ser uma nulidade intelectual e política, de repente se exprima de forma alheia à ortodoxia vigente, sobre política internacional, ordem mundial, globalização, soberania, economia de mercado.

A França está em estagnação desde a adoção do euro. Que surpresa! De 2000 a 2018 o crescimento médio anual foi inferior a 1,3%, mas de 2008 a 2018 apenas 0,86%. A BC de bens, positiva antes de 2000, atingiu em 2018 um défice de 76,7 mil milhões de euros! (dados AMECO) Acrescente-se o atraso tecnológico e industrial da França em muitas áreas face a parceiros/concorrentes e a perda de voz na cena internacional.

Na lista da Forbes entre os 50 primeiros ultraricos contam-se 25 dos EUA com a agravante de estarem nos primeiros lugares (8 entre os 10 primeiros), mas apenas dois franceses. A Alemanha conta com cinco. Esta classificação não agrada aos oligarcas.

A agitação social não cessou, o total descrédito dos políticos do sistema e da UE, a ascensão de uma direita mais radical, que em muitos aspetos coloca em causa os dogmas neoliberais e o federalismo da UE, conquistando largas camadas da "classe média", coloca a burguesia francesa e não só, no "fio da navalha", perante o avanço de nova crise económica e financeira.

Já antes das manifestações dos coletes amarelos as sondagens davam a Macron apenas uns 26% de apoio. Face a isto, não deixa de ser sintomático o esforço mediático desde então para promover Macron, "omnipresente em todas as suas facetas e em todos os canais" [1]

2 - Política internacional: "enfrentando o fim da hegemonia ocidental no mundo"

Diz Macron que a ordem internacional está a ser abalada de uma maneira sem precedentes: uma grande reviravolta em quase todos os campos, com uma magnitude profundamente histórica, que traduz uma recomposição geopolítica e estratégica. "Provavelmente, estamos enfrentando o fim da hegemonia ocidental no mundo".

"A posição ocidental no mundo profundamente abalada pelos erros dos ocidentais em certas crises, pelas escolhas, também americanas durante vários anos e que não começaram com esse governo, mas que levam a revisitar certas implicações dos conflitos no Médio Oriente e noutros lugares".

Desta forma, Macron diz ser necessário repensar profundamente uma estratégia diplomática e militar, mesmo "elementos de solidariedade que pensávamos serem intangíveis para a eternidade, mesmo que a tivéssemos formado juntos em momentos geopolíticos que hoje mudaram".

Por outras palavras, os EUA que façam o seu caminho que nós faremos o nosso. Mas quem? A França e a Alemanha? A UE? A zona euro? Com quem não é claro, mas o facto é que aqueles "nós" olham agora estarrecidos para Leste.

Reconhece-se "o surgimento de novos poderes, cujo impacto provavelmente subestimamos há muito tempo. A China na vanguarda, mas também a estratégia que a Rússia liderou, é preciso dizer, nos últimos anos com mais sucesso. A Índia emergente, essas novas economias que estão se tornando não apenas económicas, mas também políticas e que se pensam como verdadeiras civilizações estatais e que não apenas empurram a nossa ordem internacional, como chegam a pesar na ordem económica, a repensar a ordem política e o imaginário político que a acompanha. A Índia, Rússia e China, têm uma inspiração política muito mais forte do que os europeus de hoje. (...) uma lógica real, uma filosofia verdadeira, um imaginário que perdemos um pouco".

Eis como as burguesias dominantes na UE (alemã e francesa) verificam que se tornam cada vez mais irrelevantes, agarradas a teses falhadas, ao contrário da "estratégias de sucesso da Rússia".

3 - A "ordem internacional"

A intervenção de Macron reflete a desorientação que reina na "ordem internacional" que o ocidente (leia-se NATO e aliados) comandava: "Acostumámo-nos a uma ordem internacional que se baseava na hegemonia ocidental. As coisas estão mudando". Macron refere-se também ao insucesso relativo do G7, que exibiu divergências, incapacidade de consenso e liderança.

O receio de aventuras bélicas "num mundo onde os conflitos se multiplicam", e cujas consequências diretas, como no caso do fim do tratado INF (misseis de médio alcance) em que "os mísseis retornariam sobre o nosso território" ou indiretas lançando o caos nas economias e no comércio internacional: "uma ordem em que nossa segurança e organização se baseia e está desaparecendo".

O distanciamento em relação aos EUA é evidente, quer no fim dos tratados de controlo de armas, na questão do Irão ou das relações com a Rússia. "É indispensável estruturar a Europa para um novo relacionamento com a Rússia". Neste sentido é anunciada a visita dos ministros das Relações Exteriores e o ministro dos Exércitos, a Moscovo para retomar "um diálogo constante com o Presidente Putin, criando um grupo de trabalho para avançar nessa arquitetura comum".

Quanto ao Irão, é deixado claro, que todos (no G7) estão comprometidos com a estabilidade e a paz na região". Isso significa que todos também se absterão de comportamentos que possam ameaçar essa paz e estabilidade". Embora decididos a não permitir que o Irão obtenha a arma atómica.

O que é evidente, é que os EUA e aliados (incluindo a França) podem ter vencido batalhas mas não ganharam nenhuma guerra, pelo contrário criaram caos, fragilizaram a economia, degradaram a situação internacional, envolveram-se em atoleiros de que não sabem sair. Bem pode Macron lastimar a Líbia "cena inaceitável ao nível humanitário" que a França ajudou a criar, podia também falar da situação no Iémen criada pela Arábia Saudita (outra derrota "ocidental"), grande cliente de armas francesas.

Por seu lado, aparecendo como vencedora "a Rússia maximizou todos os seus interesses no contexto atual: voltou à Síria, voltou à Líbia, voltou à África, está em todos os assuntos de crise por nossas fraquezas ou erros".

As oligarquias francesa e alemã, parecem finalmente reconhecer que atreladas ao carro de guerra dos EUA caminham para o desastre. A falhada hegemonia dos EUA quer manter-se sobre os pés de barro do dólar, o poder militar, um estatuto imperial e uma ganância que desestabiliza e ameaça destruir o mundo inteiro, sem sequer ter em conta os interesses dos seus aliados mais próximos.

"A ordem em que nossas certezas e nossa organização repousam está desaparecendo isso deve-nos levar a questionar nossa própria estratégia, porque hoje os que têm cartas reais nas mãos são os EUA a China". Esta constatação leva-o a colocar a questão da fragilidade da UE e da incapacidade de ter uma política própria, limitando-se a decidir "ser aliados minoritários de um ou de outro ou um pouco de um e um pouco do outro ou decidir ter nossa parte no jogo e pesar".

4 - Economia de mercado, globalização

Seria divertido apreciarmos as piruetas políticas destes títeres da oligarquia, caso não nos envolvessem nelas. Afinal, após anos de propaganda de não haver alternativa, dizem-nos que "estamos passando por uma crise sem precedentes na economia de mercado.

Uma economia "profundamente financiarizada e o que era uma economia de mercado, que alguns poderiam até teorizar como uma economia social de mercado e que estava no centro do equilíbrio em que pensávamos, se tornou um capitalismo cumulativo, (...) levando a uma maior concentração de riqueza". Uma "economia de mercado produzindo desigualdades sem precedentes que, no final, abalam profundamente nossa ordem política".

Parece então que o problema já não é não se explicar devidamente as "reformas", como diziam, mas do seu descrédito. "Como explicar aos nossos concidadãos que é uma boa organização quando eles não encontram sua parte. Quando as classes médias, que são a base de nossas democracias, não têm mais a sua participação, duvidam e são legitimamente tentadas por regimes autoritários, democracias iliberais ou pondo em questão o sistema económico".

A globalização também é posta em causa: "portanto, devemos encontrar os meios para repensar a globalização, mas também para repensar essa ordem internacional".

E necessário "manter empregos em nosso país". Como? Fazer "concessões vacilantes a grupos nos quais não podemos fazer nada". Mas a estratégia adaptação também não serve. Consiste em dizer: é necessário correr mais rapidamente contra esse mundo em movimento", "fazer reformas para alcançar outros tentando nada mudar de verdade. Este é um cenário que rapidamente nos levará ao mesmo resultado". Ou seja, a requentada história das "reformas estruturais" não passa de uma falácia"...

Por fim – era o que estava a faltar (!) – queixa-se das privatizações: "a crise económica e financeira, levou vários Estados a privatizações forçadas sem opção europeia, decidindo reduzir sua soberania entregando muitas infraestruturas essenciais no sul da Europa aos chineses. Não culparemos os chineses por serem inteligentes, podemos nos culpar por sermos estúpidos". (!) Pois sim, mas nem agora nem antes as troikas foram questionadas, nem as austeridades para compensar a banca francesa e alemã, nem as imposições dos famigerados tratados orçamentais da UE – que a França não cumpre.

5 - UE e soberania

É necessário "trabalhar pela construção de uma soberania europeia (...) militar, estratégica, em todos os assuntos. Esta não é uma iniciativa para desafiar a NATO, mas é complementar a ela muito profundamente, porque também nos dá espaço para manobras e autonomia estratégica."

Em termos de soberania "devemos repensar em nossas fronteiras. Devemos ser mais capazes de proteger nossas fronteiras". Quanto aos migrantes o objetivo é que possam "retornar ao seu país de origem com o apoio da União Africana" e da UE.

Torna-se evidente que a burguesia francesa não está interessada na atual UE em que países do Leste estão mais alinhados com os EUA do que com a CE, arrastando os demais para confrontos contrários aos interesses da França e da Alemanha.

O interesse da burguesia francesa é pela zona euro, que obviamente tem intenções de controlar, servindo-se de reforçados mecanismo financeiros que deseja aprofundar para se salvar a ela própria. "Precisamos lutar por um reforço, uma maior integração da área do euro, uma maior integração dos mercados e atores financeiros da zona do euro e uma capacidade de construir tudo o que realmente constrói soberania financeira e monetária, é indispensável".

Os interesses dos países periféricos não contam. A questão é saber se a Alemanha vai nisso de favorecer a França à sua custa, embora, segundo os tratados a Alemanha, já devesse ter sido penalizada pela dimensão do excedente comercial

6 - Concluindo

A França e a Alemanha vêm a "sua" "Europa" e elas próprias entrarem em crise tendo apenas soluções que se mostraram inúteis ou contraproducentes. O que Macron afirma sobre a "adaptação" e o prosseguimento das medidas atuais entra em choque com a política decidida pelo BCE.

Os burocratas da CE, fixados nos dogmas que os suportam, não chegam a uma solução para o Brexit, aliás uma forma de mostrar às tendências centrífugas o que o futuro lhes reservaria. A Leste os vários países mostram que acima da UE a sua fidelidade é para com os EUA que ajudaram a colocar no poder e suportam cliques neofascistas e corruptas que os dominam, funcionando como agentes da agressividade contra a Rússia.

Apesar do silêncio dos media controlados pela oligarquia, um país com as ambições da Alemanha não pode ignorar o dinamismo da Organização de Cooperação de Shangai, da Nova Rota da Seda, nem mesmo da União Económica Eurasiática [2] , face ao descalabro da economia mundial liderada pelos EUA, FMI, BM, OMC, que já mostraram não ter controlo sobre o que se passa na economia.

A agressividade dos EUA, roça o desnorte de uma guerra total, ameaçando em primeiro lugar os países europeus sede de inúmeras de bases norte-americanas.

O comércio internacional não progride, preso às agendas imperialistas que têm conduzido a Estados caóticos e a sanções contra importantes clientes, como a Rússia cujas retaliações recaíram significativamente sobre as exportações da França e da Itália.

A França permanece envolvida em guerras e conspirações na África francófona, resultando em caos, miséria, corrupção. O capitalismo precisa de expandir os mercados, mas as políticas da sua ganância conduzem ao desastre global.

A "classe média" que a oligarquia considera o esteio do seu domínio pela democracia burguesa, foge-lhe pela indiferença, pelo desprezo a que vota os seus políticos, pelo descrédito de protagonistas dessa mesma burguesia atolada em escândalos, fraudes, crises nunca resolvidas e uma austeridade permanente que apenas beneficia os ultra-ricos.

Para tudo isto a solução habitual do capitalismo é a guerra e isso pretendem muitos nos EUA e os seus próceres da NATO. Porém, acordam das suas mentiras e verificam que o "ocidente" perdeu a superioridade tecnológica para a China, a superioridade militar para a Rússia, os domínios imperialistas e neocoloniais estão ou caóticos ou endividados, enfrentam crescente resistência popular, dificilmente a exploração pode ser levada mais longe.

A Rússia e a China tornam inúteis as arrogantes ameaças dos EUA ao Irão. A Rússia garante continuar a cooperar e apoiar o sistema bancário iraniano. A China investe 400 mil milhões de dólares no Irão: 280 para o sistema petrolífero e petroquímico, 120 em infraestruturas de transporte e produção.

A UE é o mais evidente falhanço do poder entregue à burocracia. Não é possível manter as mesmas políticas, suportadas pelas ameaças contidas nos seus Tratados e no poder de chantagem atribuído ao BCE.

Claro que os habituais "especialistas" e analistas" e outros "comentadores" devem estar a ser reciclados para ver qual a direção a tomar no seu discurso. Neste momento preferem o silêncio sobre estes temas. Lembremos o recente litígio – um entre vários – surgido na Alemanha com o embaixador dos EUA, acerca da compra de petróleo à Rússia, que seria substituído pelo "petróleo da liberdade" (!) dos EUA – bastante mais caro.

Torna-se evidente a recusa da unipolaridade dos EUA. Macron reflete as "angústias" da oligarquia francesa e alemã, pelos fracassos imperialistas e neocoloniais. O Ocidente não consegue ganhar nenhuma das guerras em que se envolveu: criou caos, endividou-se, liquidou comércio necessário para contrariar a tendencial queda da taxa de lucro.

O mais curioso de tudo isto é Macron, sem pudor, seguindo ordens dos seus mentores, copiar quase integralmente o programa do partido da sra. Marine le Pen (M le P), e do seu criptofascismo, tanto nos aspetos de política internacional, como nas relações de soberania, migrações, controlo de fronteiras, críticas à "economia de mercado" e à UE.

Até na tese de M le P querer um "Estado estratega", Macron alinha ao confessar que não tem mais controlo sobre as políticas "dos grupos". Que diferenças existem na posição sobre o movimento sindical? Sobre as migrações, sobre as relações com a Rússia e África ou Médio Oriente. Mesmo sobre a UE e euro as diferenças passam a mínimas dado que M le P já tinha deixado cair as propostas mais radicais. Até a "democracia musculada" de M le P, foi posta em prática de maneira mais que brutal contra os "coletes amarelos".

Tudo o que serviu para eleger Macron contra a "extrema-direita" de M le Pen foi deitado para o lixo, perante uma "esquerda ausente" [3] adotando o programa da sua principal oponente, aliás à frente do partido de Macron nas eleições para o PE.

Portanto não surpreende que a burguesia mande Macron roubar o programa da le Pen. É que Macron é um homem que a oligarquia escolheu e controla, coisa que não têm por garantido com M le Pen.

Assim vai a UE e em geral o mundo capitalista entre a guerra e os fascismos. Mas como disse Brecht: "o fascismo não é o contrário da democracia burguesa é a sua evolução em tempos de crise".

Aqui chegámos. Mas uma pergunta se impõe: o que é que os interesses nacionais têm a ver com este vespeiro?

[1] A desinformação dos media dominantes sobre a vida internacional: mentiras, manipulações, silêncios, resistir.info/varios/desinformacao_dos_media.html
[2] A União Eurasiática, visa a integração económica e política entre a Bielorrússia, Cazaquistão, Rússia, Quirguistão, Tajiquistão, Moldávia (observador), prevendo-se alargar à Mongólia, Síria, Tajiquistão, tendo já acordos de comércio com outros nove Estados, entre os quais Vietname, Índia, Irão, Tunísia, etc.
[3] A esquerda ausente, Domenico Losurdo, resistir.info/losurdo/esq_ausente.html

O discurso integral de Macron encontra-se em www.elysee.fr/...

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/v_carvalho/macron_confessa_se.html

O desafio de Donald Trump face à sua administração

O Presidente Trump prometera muito em matéria de relações internacionais durante a sua campanha eleitoral. Pouco fez, exceptuando o fim do apoio dos EUA ao Daesh (E.I.). Apesar da hostilidade da sua própria Administração, ele avança em várias frentes simultaneamente. Espera poder impor o seu ponto de vista e valer-se desta mudança radical para se apresentar perante os eleitores.

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Donald Trump e John Bolton

Vários elementos se definem quanto à possível mudança de doutrina dos Estados Unidos que eu anunciava, há duas semanas atrás [1]. Desde há três anos, o President Trump tenta impor o seu ponto de vista a uma Administração cujos principais altos funcionários permanecem focados, desde há 18 anos, na doutrina Rumsfeld/Cebrowski de destruição das estruturas estatais de regiões inteiras do mundo não-globalizado. Pelo contrário, para Donald Trump convêm, numa óptica jacksoniana, substituir a guerra pela negociação e o "business", de maneira a dominar o mundo em bom entendimento com a Rússia e a China e não mais contra elas. Ele espera chegar aos seus objectivos até 23 de Setembro, data do seu discurso na ONU, quer dizer, um ano antes da eleição presidencial norte-americana. Poderia assim justificar recandidatar-se fazendo valer o seu balanço positivo.

Os elementos novos que completam o que eu indicava a propósito da Síria e da Venezuela dizem respeito ao Afeganistão, ao Irão e ao Iémene. Mas, o mais evidente sendo, é claro, a demissão do Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton. Ele não foi convidado a demitir-se, mas louvado pelos seus bons e leais serviços.

- John Bolton não é de forma nenhuma um neoconservador como escreveram alguns média (mídia-br), mas um feroz partidário do «excepcionalismo norte-americano» [2]. Esta escola de pensamento funda-se no mito dos «Pais Peregrinos». Ela recusa aplicar os tratados internacionais no Direito interno; julga os comportamentos dos outros com severidade, mas absolve, por princípio, os Norte-americanos que agem da mesma forma; e recusa que qualquer jurisdição internacional meta o nariz nos seus assuntos internos. Em resumo, ela acha que, por razões religiosas, os Estados Unidos não são comparáveis aos outros Estados e não devem submeter-se a nenhuma lei internacional.

Este personagem truculento não hesita em dizer o que lhe interessa, sem se preocupar com provas ou verosimilhança. Assim, aquando da votação do Syrian Accountability Act (Lei de Responsabilização da Síria- ndT), em 2003, argumentou perante o Congresso que a Síria —tal como o Iraque— ameaçava a paz mundial com armas de destruição maciça. Mais recentemente, fez história ao proibir a Procuradora (Promotora-br) do Tribunal Penal Internacional de vir investigar aos Estados Unidos.

John Bolton, que é muito popular entre os eleitores da ultradireita, não partilha as ideias do Presidente Trump em matéria de política internacional. O único Conselheiro de Segurança Nacional que estava em harmonia com ele foi o General Michael Flynn, o qual foi forçado à demissão logo ao fim de três semanas. Bolton sucedeu-lhe depois do General H. R. McMaster. Como nas novelas de televisão dos EUA, ele interpretava junto de Donald Trump o papel do «bad cop» («o polícia mau»), permitindo ao Presidente parecer muito mais suave.

- O segundo elemento, é a evolução dos conflitos afegão e iemenita. Sabia-se que os Estados Unidos haviam iniciado negociações com os Talibã no fim do mandato Obama, em 2015, no Catar. O que se sabe menos é que, desde Março de 2019, o Presidente Trump negoceia o futuro do Afeganistão, não apenas com as autoridades do país e os insurgentes, mas também com a Rússia e a China. Não se tratava, desta vez, de partilhar o Poder entre as duas facções, mas de reconhecer a legitimidade da resistência Talibã às presenças estrangeiras no seu solo em troca da sua condenação do jiadismo. Duas reuniões tiveram lugar em Moscovo e Pequim [3]. Uma outra devia realizar-se na semana passada secretamente em Camp David, na presença dos Presidentes Donald Trump e Ashraf Ghani. _ Azar! A 5 de Setembro, os Talibã, desejando negociar em posição de força, reivindicaram um ataque em Cabul que matou doze pessoas, incluindo um Norte-americano. De imediato a reunião de Camp David foi anulada e o Exército dos EUA bombardeou as zonas dos Talibã.

Simultaneamente, ficava-se a saber que Washington havia iniciado negociações secretas com os Hutis iemenitas que contestam o Poder do presidente internacionalmente reconhecido, Abdrabbo Mansour Hadi. Há ainda algumas semanas, Washington apresentava-os como agentes iranianos. Os Estados Unidos lembraram-se de repente que os Hutis não eram apoiados pelo Irão no início do conflito e que eles apenas se aliaram a Teerão por espírito de sobrevivência. Por conseguinte, é evidente que em vista dos desacordos saudo-emiradenses, o interesse de Washington já não é o de apoiar um fantoche, a quem ninguém obedece, e que se refugiou há muito tempo na Arábia Saudita.

Durante estas negociações, a guerra continua sem os Estados Unidos. Os Hutis enviaram uma dezena de drones para incendiar as instalações de petróleo sauditas. Riade alegou então ter sofrido danos consideráveis, diminuindo em metade a sua produção nacional. Mike Pompeo denunciou a mão de Teerão que atacaria o fornecimento mundial de petróleo. Tudo isto é, no mínimo, desproporcionado. Estas declarações devem ser interpretadas no contexto do nosso terceiro ponto: as relações americano-iranianas.

Lembremos os factos: em 2012, a Administração Obama negociara secretamente, em Omã, com emissários do Guia da Revolução, o afastamento da equipe do nacionalista Mahmoud Ahmadinejad e a eleição de um negociante de armas do escândalo Irão-Contras, Xeque Hassan Rohani. Uma vez este eleito, um acordo internacional, o JCPoA, fora negociado na Suíça. Ele estabelecia a impossibilidade de reactivar o programa nuclear militar que os Guardas Revolucionários haviam abandonado em 1988, considerando as armas de destruição maciça como incompatíveis com a sua visão do Islão. Enquanto um segundo acordo, bilateral e secreto desta vez, previa aprovisionar a Europa com gás iraniano a fim de substituir o gás russo. Logo que chegou à Casa Branca, Donald Trump deu a entender que os Estados Unidos devem controlar o mercado mundial de energia, mas nem em detrimento da Rússia, nem da China, com os quais ele esperava dominar o mundo. Retirou-se, pois, de dois acordos com o Irão e propôs imediatamente retomar a discussão. Percebendo que tinha tudo a perder com a troca, o Xeque Hassan Rohani exigiu respeito pela palavra dada, recusou a mão estendida, e —considerando o impeachment (processo de destituição-ndT) iminente— declarou esperar o retorno dos Democratas à Casa Branca. O Guia da Revolução, quanto a ele, reagiu como religioso e não como político. Indignado com a deslealdade dos EUA, que condenou moralmente, o Aiatola Ali Khamenei deu instruções ao seu exército pessoal, os Guardas da Revolução, para estender a sua autoridade sobre todas as comunidades xiitas estrangeiras. De um dia para o outro, os Guardas cessaram de defender os interesses nacionais iranianos em troca dos interesses religiosos xiitas; uma reviravolta que foi particularmente visível na Síria e que começa a tornar-se no Líbano. Na semana passada, o Secretário-geral do Hezbolla, Hassan Nasrallah, pronunciando um discurso na festa da Achura, apresentou a sua organização já não mais como a Resistência libanesa ao imperialismo, mas como enfeudada ao Aiatola Khamenei. Não se trata evidentemente de uma viragem de 180 graus, mas talvez mais de um apoio ao Guia da Revolução na véspera das negociações.

Parece que toda esta agitação poderá parar: as duas partes exibem os músculos enquanto se preparam para negociar de novo. Até aqui, a Rússia mantêm boas relações com o Irão mesmo conhecendo a esperança persa em substituir o gás russo na Europa. Simultaneamente, só intervinha quando Israel atravessava os céus sírios ---que controla--- para bombardear alvos iranianos. Moscovo poderá cessar de jogar com o pau e a cenoura. Assim, poderá avalizar a validade de um acordo americano-iraniano (ou talvez mais a sua durabilidade), se ele não for feito contra si. Neste caso, protegerá as bases iranianas no Médio-Oriente. É, parece, o que acaba de anunciar Vladimir Putin a Benjamin Netanyahu.

Todos estes desenvolvimentos ajudam o papel do Secretário de Estado, Mike Pompeo. Este aparece como o verdadeiro arquitecto da política externa de Donald Trump. Ele foi o primeiro director da CIA do novo Presidente. Ele dispõe hoje em dia do privilégio de ser convidado diariamente para o seu "briefing" com a Agência, de tal modo que acumula as informações da CIA com as do Departamento de Estado. Acima de tudo, ele é o mentor da estratégia energética do Presidente [4]. Uma parte dos líderes republicanos não crê que Donald Trump conseguirá impor seja o que for aos militares, e certamente não a doutrina —segundo eles desatualizada— do Presidente Andrew Jackson. Aconselham, portanto, Pompeo a não ficar à sombra do seu patrão, a demitir-se e apresentar-se a uma eleição senatorial no Kansas.


[1] “Donald Trump, trará ele a paz ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Setembro de 2019.

[2] American Exceptionalism and Human Rights, Michael Ignatieff, Princeton University Press (2005).

[3] “Pequim, Moscovo e Washington acordam em segredo sobre o Afeganistão”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 30 de Abril de 2019.

[4] “Mike Pompeo Address at CERAWeek”, by Mike Pompeo, Voltaire Network, 12 March 2019. “Geopolítica do petróleo na era Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Abril de 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Maquiavel e o armário dos esqueletos

Juncker, depois da almoçarada de hoje, no Luxemburgo, com o loiro Boris Johnson, acrescentou ironicamente que continua à espera de uma proposta credível do Primeiro Ministro do UK . Falamos do Brexit.

 

 

Na reunião previa-se haver uma reavaliação das conversações técnicas que estão a decorrer entre a UE e o Reino Unido. O principal negociador da comissão europeia, Michel Barnier também esteve presente. Parece que também meneou a cabeça, desiludido. Para Juncker e por suposto, para a União Europeia, é o Reino Unido que tem de apresentar soluções dignas e viáveis para  a retirada votada pelo povo inglês. Mas para o luxemburguês nenhumas propostas dignas de atenção séria foram feitas.

O conselho europeu reunirá em Outubro sem ter nada na mesa para conversar?

O presidente Juncker seguiu para Estrasburgo onde vai falar no plenário do parlamento europeu na quarta-feira de manhã.

Na verdade quando os jornalistas perguntaram a Boris Jonhson se estava entusiasmado com este almoço e com as negociações, e ele respondeu, ao menos por uma vez, de forma cautelosa.

Boris Johnson não vai solicitar  um aumento do período de transição  para depois de Dezembro de 2020, se conseguir um acordo para o Brexit, o que deixará apenas 14 meses para um enorme rol de medidas serem tomadas para evitar uma fronteira de conflito com a Irlanda. A ideia sulfúrica de um período de transição foi apresentada por Stephen Barclay, o secretário do Brexit, que disse no passado domingo que a Grã-Bretanha poderia permanecer no regime de transição até o final de 2022 e potencialmente permitir que os ministros restaurassem a partilha  de poder na Irlanda do Norte. Mas ao que parece essa ideia não agrada a John Bull.

Donald Trump e Boris Johnson tinham já tomado o pequeno almoço na reunião do G7, em  Biarritz, a 25 de agosto, há umas escassas três semanas.

Irmãos no caos ”, dizia o título da notícia com a foto dos gémeos bivitelinos no Los Angeles Times nessa data.

Negras almas gémeas brincando com o Jogo do Mundo para ver quem pode causar mais danos políticos, económicos, sociais nos seus respetivos países e por efeito dominó em todos os outros. O presidente americano e o primeiro-ministro britânico têm esta tendência para a desordem em comum.

Quando éramos pequenos jogávamos Monopólio, mas no tabuleiro do jogo ainda não apareciam carros de combate, misseis, armas químicas, nem violações de mulheres usadas como arma de guerra. Tanto quanto sei, hoje em dia as crianças habituam-se desde cedo a cenários desvairados em jogos mortíferos que adultos programam para elas. Essa programação fará parte de um plano.

Parece-me que Trump e Jonhson não conseguem é, ao mesmo tempo, desestabilizar  os países satélites dos amigos amedrontados com as manobras do Brexit  e terem tento na língua reptilinea que estendem pelas Arábias empurrando-as para o confronto com o Irão. Podiam ir fazendo as coisas aos poucos, mas não o sabem fazer.

Trump não gosta de guerras, diz-se. Manda-as fazer por contratados_podem ser empresas contratadas ou países sob contrato.

Mas está tudo cada vez mais caro e fora da  mira de alça telescópica com que tentam fazer pontaria sobre o outro lado do mundo.

É possível que Trump acredite mesmo que a Terra é plana e que pode atingir Teerão como se a capital da Pérsia fosse uma cidade europeia.

O senhor Casa Branca pode baralhar os nomes dos estados americanos e deslocalizar Cuba para a Patagónia. Tudo lhe permitem!

E o amigalhaço Boris deve divertir-se à grande enquanto empurra a melena para trás, tentando não  imaginar o que pode acontecer se a rainha lhe descobre os esqueletos que escondeu nos armários do nº 10 de Downing Street.

Imagino-o, e imaginar é direito meu de escritora, a beber chá com amigos com quem frequentou Eton ou o Balliol College em Oxford e todos a rir das bacalhoadas do tio Americano.

E sabendo quanto tudo isto nos pode sair muito caro do ponto de vista social, político, económico e emocional, só podemos perguntar: QUE FAZER?

Rir ou chorar?


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 
 

Um mestre espião abre o livro

Comentário à notícia (vídeo) seguinte:
Este distinto 'mega-espião' deu uma interessante entrevista que vale a pena ser integralmente vista e refletida por quem tenha algum tempo disponível e saiba francês.
Entre outros aspetos o mestre de espionagem referiu o seguinte:
  • Desde o Presidente Jacques Chirac a França tem uma política externa meramente "auxiliar dos EUA" e estes são atualmente dominados pelos neo-conservadores.
  • O convite de Macron ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão para comparecer na recente cimeira do G7 há-de ter sido combinado com Donald Trump porque a França não tem autonomia nesta matéria.
  • Os EUA foram  o farol da liberdade durante a Guerra Fria contra os Soviéticos.
  • Desde o início do século os EUA têm vindo a caminhar para uma "República policial" e "quasi-fascista".
  • Os EUA (i) legalizaram a tortura, (ii) têm voos clandestinos para raptar e torturar pessoas em qualquer parte do Mundo, (iii) têm um vasto sistema com que espiam a generalidade da sua própria população e a estrangeira, (iv)  apoiam os piores regimes do Mundo e (v)desrespeitam crescentemente o Direito Internacional.
  • Os EUA precisam de promover a ideia de um inimigo externo para susterem contradições internas e assegurarem a sua coesão.
  • A CIA é efetivamente um ator da política externa porque tem uma ligação direta ao Presidente norteamericano.
  • Com o fim da Guerra Fria a situação da espionagem norteamericana conheceu algum enfraquecimento porque 30% dos seus quadros foram dispensados e foram trabalhar para agências privadas.
  • A CIA tem tido alguma dificuldade nas operações encobertas porque tem que prestar informação ao Congresso. É mais fácil ao Pentágono desenvolver ações encobertas.
  • Desde há uns anos (2001) a CIA e outras agências de espionagem estão bastante mais à vontade e reforçadas.
  • Os atentados terroristas permitiram, tanto na França como nos EUA, aumentar consideravelmente as estruturas e os quadros dedicados à espionagem.
  • Os EUA precisam de criar inimigos para reforçarem o financiamento do seu armamento.
  • As atuais elites políticas têm uma cultura política muito limitada.
  • Muitos quadros de alguma anterior "esquerda terceiro-mundista" tornaram-se aliados dos neoconservadores.
  • São os interesses dos grandes grupos económicos que condicionam as iniciativas políticas e as guerras.
  • Donald Trump procurava a aproximação com a Rússia contra a China.
  • As práticas dos países ocidentais, nomeadamente dos norteamericanos, são as principais responsáveis pela tendência da Rússia para se afastar do 'Ocidente'.
  • A 'revolução' na Ucrania, contra a Rússia, que abriu as portas a fascistas contou com o enquadramento, no terreno, de mais de 250 quadros da CIA, entre outros.
  • Donald Trump tem bastante apoio popular e dá resposta a vários sectores da América profunda. O mainstream norteamericano passa uma outra imagem.
  • Atualmente quase toda a informação é controlada por algumas grandes organizações(sobretudo norteamericanas).
  • John Bolton criou guerras como factos consumados e exagerou na agenda que quis impor a Trump nomeadamente face à Venezuela e ao Irão.
  • Os EUA tiveram como principal objetivo na desestabilização do Médio Oriente impedir o acesso da China a fontes de energia que lhes possibilitasse o seu desenvolvimento.
  • Porque é que os EUA invadiram o Iraque em vez da Arábia Saudita ?
  • Sob quase todos os pontos de vista a Arábia Saudita tem um regime político muito pior do que o do Irão.
  • Só se entende a posição do EUA ao manter relações estreitas com a Arábia Saudita por causa do dinheiro desta e porque os seus dirigentes são amigos dedicados dos EUA.
  • Os EUA estabeleceram uma aliança com a Irmandade Muçulmana baseada, entre outros pontos, em que a existência de Israel seria aceite e que as empresas norteamericans seriam privilegiadas no acesso ao petróleo, nas reconstruções nacionais e noutros negócios.
  • Os sunitas são 80% do islamismo mas os wahhabitas são apenas 10% destes Não se percebe porque é que os norteamericanos estão do lado desses 8% do Islão (Irmandade Muçulmana, Arábia Saudita,Al Qaeda, ISIS) para criar todo o atual caos.
  • As revoluções coloridas, designadamente as do Médio Oriente, não foram diretamente dirigidas pelos serviços norteamericanos porque desde há alguns anos que esses serviços criaram e treinaram ONGs (Organizações Não Governamentais) preparadas para capitalizar os descontentamentos locais sempre existentes e convertê-los em revoltas.
  • Várias estruturas norteamericanas têm financiado e apoiado essas ONGs na promoção das revoluções coloridas.
  • Nos diversos países onde houve revoluções coloridas (nomeadamente da Primavera Árabe) os Chefes dos Estados Maiores das Forças Armadas de cada um desses países foram chamados aos EUA uma semana antes das respetivas revoltas para lhes ser dito que as Forças Armadas não deveriam intervir contra as 'revoluções'.
  • A imagem que foi construída sobre a Síria para justificar a guerra foi muito desfocada da realidade.
  • Opositores 'históricos' de Bashar al-Assad perguntam-se porque é que os ocidentais apoiam forças muito piores do que aquele.
  • Na Síria há uam coabtação extraordinária das religiões.
  • Mentiu-se muito para procurar justificar a eliminação de Bashar al-Assad.
  • Hoje há uma massa enorme de dinheiro em permanente circulação pelo Mundo que não é investido na produção de riqueza. Se esse dinheiro se fosse investido dava para resolver o subdesenvolvimento de África em dois anos.

Eric Dénécé 01

 

Há anos dedicado à “informação económica” e doutorado em ciência política, Eric Dénécé  “est un chercheur spécialiste du renseignement, du terrorisme, des opérations spéciales et de l’Asie du Sud-Est. Il est également consultant en Risk Management et en Intelligence Économique.

 
Eric Dénécé a notamment opéré au Cambodge, aux côtés de la résistance anticommuniste, et en Birmanie, pour la protection des intérêts de Total contre la guérilla locale.
Parallèlement, il a été consultant pour le ministère de la Défense concernant l’avenir des forces spéciales.

 

“En 1999, il crée la revue Renseignement et opérations spéciales4 et la collection «Culture du renseignement» (éditions L’Harmattan) puis en 2000 le Centre Français de Recherche sur le Renseignement (CF2R), dont il assure la direction.

“Il dirige également la collection «Poche Espionnage» aux éditions Ouest France.

“Eric Dénécé a enseigné à Bordeaux é l’Ecole de Management (BEM) après avoir été Professeur-associé à l’université Montesquieu-Bordeaux IV (faculté de science politique). Il a également enseigné le renseignement ou l’intelligence économique dans diverses autres institutions (Collège interarmées de Défense, Ecole nationale d’administration, Centre d’études supérieures de l’Air, Institut des Hautes études de Défense nationale, Université Notre–Dame de Beyrouth de Beyrouth, etc.).

“Il est l’auteur de plus de vingt ouvrages et de nombreux articles et rapports consacrés au renseignement, à l’intelligence économique, au terrorisme et aux opérations spéciales. Ses travaux lui ont valu d’être lauréat du Prix 1996 de la Fondation pour les Etudes de Défense (FED) et du Prix Akropolis 2009 (Institut des Hautes Etudes de Sécurité Intérieure)”

 
 

Nesta entrevista, Eric Dénécé “abre o livro” e, se não mostra as páginas todas e faz mesmo prova de “dever de reserva”, diz o que até agora muito pouca gente terá ouvido…

Entrevista | La France en danger: où en est le renseignement? Eric Dénécé

 

Exclusivo Tornado / IntelNomics


 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eric-denece-um-mestre-espiao-abre-o-livro/

Guerra de tecnologia e sanções dos EUA terminará por bifurcar a economia global

 
 
Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation*
 
“A verdadeira razão por trás da guerra ‘comercial’ EUA-China pouco tem a ver com o comércio real (…) O que está realmente à base do conflito de civilizações entre EUA e China (…) são as ambições da China de liderar a tecnologia de próxima geração, como a inteligência artificial (IA), que depende de conseguir projetar e produzir chips de ponta; por isso Xi prometeu pelo menos $150 bilhões, para ampliar o setor”, escreve ZeroHedge. (…)
 
Até aí, nenhuma novidade. Mas por trás dessa ambição há outra, pouco mencionada, o conhecido “elefante na sala”: é que a ‘guerra comercial’ é também o primeiro estágio de uma nova corrida armamentista entre EUA e China – embora se trate de novo ‘gênero’ de corrida armamentista. Essa corrida armamentista de ‘nova geração’ trata de alcançar superioridade nacional no campo tecnológico para o longo prazo, mediante Computação Quântica, Big Data, Inteligência Artificial (IA), Aeronaves Hipersônicas, Veículos Eletrônicos, Robótica e Ciber-segurança.
 
O projeto chinês não é secreto: é de domínio público: o ‘Made in China 2025’ (atualmente reduzido, mas longe de esquecido). E o gasto previsto pelos chineses ($ 150 bilhões) para alcançar a liderança na tecnologia – será enfrentado custe o que custar (‘head on’, nas palavras de ZeroHedge),“por uma estratégia [de oposição] de “America First”:
 
Daí que a ‘corrida armamentista’ nos gastos em tecnologia (…) esteja intimamente ligada aos gastos da Defesa. Nota: o FMI prevê crescimento substancial no gasto militar de EUA e China nas próximas décadas, mas o que muito surpreende é o seguinte: à altura de 2050, a China superará o gasto dos EUA, com investimento de mais de $4 trilhões nos militares, e com os EUA com $1 trilhão menos que isso, ou $3tn (…). Significa que mais ou menos em torno de 2038, praticamente daqui a duas décadas, a China ultrapassará os EUA em gasto militar.”
 
Essa intimidade muito próxima entre tecnologia e defesa, no futuro pensamento de defesa dos EUA é clara: trata-se sempre de dados, grandes dados [ing. big data] e Inteligência Artificial (IA). Artigo em Defense One expõe isso muito claramente,
“Os domínios de combate ‘espaço’ e ‘ciber’ são campos divorciados, largamente, da nua realidade física da guerra. Mas para Hyten [Gen. John E. Hyten, comandante do Comando Espacial da Força Aérea dos EUA], esses dois espaços não habitados refletem-se especularmente, de outro modo: a guerra moderna trava-se nesses campos – de dados e informações. “O que são as missões que cumprimos hoje no espaço? Prover informação; prover vias para o trânsito da informação; em conflito, negamos aos adversários acesso àquela informação,” – disse ele em pronunciamento na 4ª-feira na conferência anual da Associação da Força Aérea, próximo de Washington, D.C. O mesmo vale para o domínio ‘ciber’.
 
 
Os EUA fazem guerra com ferramentas que exigem muita informação (…) Inevitavelmente, mais adversários empregarão eventualmente drones conectados por dados e com suas próprias armas específicas. O pesado componente informacional ativo nas armas contemporâneas, especialmente no armamento usado por forças aéreas, também cria vulnerabilidades. Essa semana, líderes da Força Aérea discutiram o que está sendo trabalhado para reduzir a vulnerabilidade dos EUA, ao mesmo tempo em que a aprofundam para os adversários dos EUA”.
 
Assim sendo, a ‘linha de frente’ dessa guerra comercial/de tecnologia/de defesa, efetivamente gira em torno de quem possa projetar – e fabricar semicondutores de ponta (dado que a China já lidera nos setores de Big Data, Computação Quântica e Inteligência Artificial). E é nesse contexto que o comentário do general Hyten, sobre reduzir a vulnerabilidade dos EUA, ao mesmo tempo em que os EUA buscam aprofundar a vulnerabilidade dos seus concorrentes ganha maior significado.
 
Para Washington, o plano é bloquear a exportação (vale dizer, sancionar as exportações) das chamadas “tecnologias fundacionais” – tecnologias capazes de promover o desenvolvimento numa ampla gama de setores.
 
E o equipamento para fabricar chips, ou semicondutores – o que não surpreende ninguém – é uma das áreas-alvo cruciais, que estão sendo discutidas.
 
Mas o controle sobre a exportação é só uma parte dessa estratégia de guerra, de ‘negar (big) data’ ao inimigo. Porque o setor de semicondutores é um dos setores no qual a China é realmente vulnerável, uma vez que a indústria global de semicondutores depende crucialmente de apenas seis empresas fabricantes de equipamento, das quais três têm sede em território dos EUA. Juntas, essas seis empresas fabricam praticamente todas as ferramentas de máquinas e programas [ing. hardware and software] necessários para fabricar chips. Implica dizer que se os EUA impõem bloqueio a exportações, a China pode realmente perder acesso as ferramentas basicamente indispensáveis para produzir os chips que tenham projetados. (Sim, a China pode retaliar, fechando o suprimento de terras raras, das quais depende toda a tecnologia sofisticada).
 
“Você não pode construir uma fábrica de semicondutores sem usar produtos das grandes fabricantes de equipamentos, nenhuma das quais opera em território chinês” – disse Brett Simpson, fundador de Arete Research, empresa de pesquisa, análise e consultoria do mercado de ações. E, como faz também o FT, observa que “a real dificuldade nem é tanto o serviço de projetar os chips, mas a fabricação de chips efetivamente de ponta.”
 
Assim sendo, esse é o ponto: os EUA tentam posicionar-se no controle não só do conhecimento-tecnologia ‘puro’, mas também, além disso, também no controle da cadeia de suprimento prático, de experiência e knowhow, no esforço para expulsar a China para fora da esfera tecnológica ocidental.
 
Ao mesmo tempo, outro braço da estratégia dos EUA – como já se viu em ação contra Huawei, empresa líder global na tecnologia 5G (campo em que os EUA já estão atrasados) – é agir para meter medo em todos que se interessem por incorporar a tecnologia 5G nas respectivas infraestruturas nacionais. Esse foi o sentido da prisão de Meng Wanzhou (por não respeitar as sanções impostas pelos EUA).
 
Mesmo antes da ‘prisão’ dela, os EUA já estavam sistematicamente bloqueando o trabalho da empresa Huawei, servindo-se sempre das palavras mágicas ‘riscos de segurança’ (exatamente como também tentam bloquear os russos dos processos de venda de armas no Oriente Médio, e também dos processos de alta tecnologias: estados ficaram proibidos de comprar equipamentos russos de defesa, porque esses negócios dariam à Rússia uma ‘abertura’ para conhecer as capacidades técnicas da OTAN).
 
E, como o general Hyten esclareceu perfeitamente, não se trata só de ampliar os impedimentos para acesso tecnológico ou físico, e de promover a vulnerabilidade de adversários no campo dos chips: os EUA também planejam estender seus bloqueios para impedir também o acesso tecnológico ou físico, de concorrentes dos EUA, também aos equipamentos espaciais, ciber, de aviônica e militares.
 
É outra Guerra Fria – mas dessa vez se trata de negar acesso a tecnologias e a dados.
 
Ora… A China, com sua economia centralizada, jogará dinheiro e cérebros e criará suas próprias linhas de abastecimento, sua própria “esfera não dolarizada”: para semicondutores; para componentes – e para uso seja civil seja militar. Talvez demore, mas não há dúvidas de que a solução virá.
 
Uma das consequências dessa nova corrida armamentista entre EUA e China-Rússia – é, claramente, que linhas de suprimento especializadas, com baixas populações, terão de ser descartadas, e surgirão novas, cada uma em sua própria respectiva esfera: vale dizer, de um lado, dentro da esfera OTAN-dólar; de outro lado, na esfera não-dólar, liderada por China e Rússia.
 
E não haverá só essa diferenciação e separação de linhas de suprimento físicas. Caso os EUA persistam em suas táticas de estilo ‘Guerra ao Terror’ contra Huawei, com ‘entregas especiais’ de empresários estrangeiros, homens ou mulheres, acusados de desobedecer sanções de amplo espectro impostas pelos EUA contra empresas de tecnologia, haverá também diferenciação e separação nos conselhos diretores e de administração, para evitar que funcionários das empresas sejam presos e processados individualmente. Já está acontecendo grave limitação a viagens de executivos de várias empresas para vários países onde mantêm negócios (efeito da prisão de Meng Wahzhou) – e também para evitar que funcionários de empresas norte-americanas sejam presos, por efeito de represália.
 
A bifurcação da economia global já está em curso. Começou com o regime de sanções geopolítico-financeiras dos EUA (as “Guerras do Tesouro”, ing. Treasury Wars) – e providências, nos estados atacados, para se descolarem da esfera do dólar. Os ‘falcões pró-guerra’ que cercam o presidente dos EUA estão inventando agora uma nova safra de ‘crimes tecnológicos’ para usar como motivo para novas sanções – tudo, ostensivamente, para dar a Trump sempre mais de seu tão desejado ‘poder de barganha’. Claramente, os falcões estão usando o pretexto do poder de barganha para subir muito a aposta contra China, Rússia e seus aliados, muito além do necessário para apenas garantir ‘mais cartas’ na mão do presidente. O mais provável é que estejam tentando um Reset em todo o equilíbrio de poder na disputa EUA contra China e Rússia.
 
Consequência óbvia e inevitável tem sido a acelerada separação financeira, obrada por países que querem deixar a esfera do dólar; e o desenvolvimento de uma arquitetura sem dólar. Numa palavra, é a desdolarização.
 
Efetivamente, os EUA parecem preparados para destruir o status em que sempre viveram, de gestor da moeda internacional de reserva, para ‘salvar-se’, para ‘Fazer a América Rica Outra Vez’ [‘Make America Rich Again’, MARA] e impedir a ascensão da China.
 
Mas enquanto põe fogo na hegemonia do dólar, o governo Trump põe fogo também na própria ‘ordem global’ controlada pelos EUA, que vai deixando de ser global, para se converter em simples esfera reduzida de aliados tecnológicos dos EUA… contra China e o planeta não ocidental.
 
As consequências domésticas para os EUA serão sentidas na frustração (desconhecida dos norte-americanos) de descobrir o quanto pode ser difícil se autofinanciar, depois de os EUA se habituarem ao autofinanciamento, ao longo dos últimos cerca de 70 anos.
 
Peter Schiff, principal executivo global e estrategista-chefe da consultoria Euro Pacific Capital, diz que:
“O dólar – que tem status de moeda internacional de reserva [os EUA] estão pondo em risco esse status. E não acho que o mundo goste muito de dar aos EUA esse tipo de poder… poder para que [os EUA] imponham regras próprias e exijam que o resto do mundo obedeça cegamente. Quero dizer: acho que as ramificações disso são maiores e mais amplas do que tudo se que vê em andamento hoje no mercado de ações. Entendo que, no longo prazo, o dólar acabará enfraquecido, e a função que ainda tem de moeda internacional de reserva será comprometida. Quando acontecer, vai-se também o padrão de vida nos EUA: porque vai colapsar.”
 
“As pessoas tendem a achar que temos todas as cartas, porque temos esse descomunal déficit em relação à China. Mas é o contrário. Acho que o fato de eles nos abastecerem com todo tipo de mercadoria de que nossa economia carece, e o fato de os chineses serem detentores de grande parte da dívida externa dos EUA e mesmo assim continuarem a nos emprestar todo esse dinheiro que permite que os EUA vivamos muito acima dos nossos próprios meios… – Acho que quem está escolhendo a música são eles; os EUA temos de dançar como os chineses decidam.”
 
Essa Nova Guerra Fria em torno de Big Data e tecnologia polarizará a economia mundial em duas esferas, e de fato já está polarizando o mundo em termos de ‘conosco, ou contra nós’, quer dizer, contra o paradigma norte-americano. Politico observa:
A campanha global do governo Trump contra a gigante de telecomunicações Huawei está colocando a Europa contra seus próprios interesses – no que tenha a ver com a China. Em meio a um conflito comercial EUA x China, Washington passou os últimos meses pressionando seus aliados da UE, pelos embaixadores, para tomarem posição mais forte contra fornecedores de telecomunicações chineses, como a Huawei e a ZTE.
 
A violenta pressão dos norte-americanos (…) está expondo falhas entre os aliados dos EUA na Europa, bem como dentro da chamada comunidade de inteligência “Cinco Olhos” – que tem seguido em grande parte a liderança dos EUA – e outros que resistem à pressão americana para desistir da tecnologia chinesa.
 
Por outro lado, há a Alemanha, que quer provas dos Estados Unidos de que a Huawei representaria um risco de segurança, assim como França, Portugal e uma série de países da UE do centro e do leste.
 
As atitudes cada vez mais divergentes mostram como Donald Trump está forçando os próprios aliados a tomar partido numa disputa global e a atropelar os próprios interesses econômicos – muitas vezes profundamente associados aos produtores chineses – em nome de manter uma aliança de segurança com Washington”.
 
O potencial para desdolarização acelerada é um dos aspectos, mas há outra potencial falha inerente à repatriação das linhas de suprimento do varejo. Os ganhos das empresas norte-americanas aumentaram muito ao longo das duas últimas décadas. Parte desse aumento teve a ver com ‘dinheiro fácil’ e ‘crédito fácil’; mas outro elemento decisivo foi o corte nos custos – quer dizer, a ‘expatriação’ dos mais altos custos de produção nos EUA (altos salários, impostos e direitos trabalhistas), para estados onde a mão de obra é mais barata e menos regulada.
 
A bifurcação da economia global que se aproxima tem portanto, como consequência inevitável, a ‘repatriação’ da produção de baixo custo, para estados mais fortemente regulados – como são os EUA e os países europeus. Talvez seja excelente – mas com certeza significa que custos e preços aumentarão nos EUA, o que implica que os modelos comerciais serão atingidos diretamente, quando se consumar a ‘repatriação’ dos postos de trabalho. O padrão de vida fatalmente colapsará nos EUA, como Peter Schiff já previu acima.
 
A alienação e o descontentamento dos “deploráveis” nos EUA e dos “Coletes Amarelos” na Europa são sem dúvida problema profundo – e problema que não será resolvido por alguma Nova Guerra Fria. As raízes de nossos descontentamentos atuais estão precisamente no tal paradigma da liquidez ‘fácil’ e do crédito ‘fácil’, que centrifugou nossas sociedades para o paradigma dos 10% que tudo possuem e 90% que nada possuem, paradigma que tão completamente degradou a noção de estado de bem-estar e segurança.
 
Claro que esse descontentamento só pode ser realmente superado, se cuidarmos desse nosso paradigma de economia super financeirizada – serviço do qual nossas elites não cogitam nem querem que se cogite.
 
* Em Oriente Mídia | Traduzida por Vila Mandinga
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/guerra-de-tecnologia-e-sancoes-dos-eua.html

ENTREVISTA DO EX-EMBAIXADOR DE ITÁLIA EM PEQUIM

embaixador01
 
 
 
 
Comentário: estamos realmente numa época fascinante e perigosa. O ex-embaixador é muito preciso e rigoroso, claro nas suas análises, directo nas respostas. Em suma, não se retrai de dizer o que pensa. De facto, muito do que diz parece-me uma evidência, já o tinha pensado antes, em várias ocasiões. Porém, parece que as chancelarias / ministérios de negócios estrangeiros dos países ocidentais estão recheadas de senhores /senhoras que têm todos os preconceitos da classe dominante, nenhuma prudência em relação às políticas que ajudam a moldar, ou será que são pessoas como este ex-embaixador, mas que têm medo de falar, de dizer o que pensam, sabendo que a sua submissão ao império USA é condição sine qua nonpara avanço na carreira?

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A comunicação, única aposta da cimeira do G-7 em Biarritz

 
 
Thierry Meyssan*
 
O G7, que era originalmente um lugar de conversas entre dirigentes ocidentais para melhor compreender os pontos de vista respectivos, tornou-se uma questão de comunicação. Longe de expor à porta fechada os fundamentos do seu pensamento, os convidados tornaram-se actores de um show mediático onde cada um tenta fazer boa figura. O pior terá sido, desta vez, a surpresa inventada por Emmanuel Macron para os jornalistas e contra o seu convidado norte-americano.
 
Um clube, não uma organização decisória
 
Aquando da sua criação em 1976, por Valéry Giscard d’Estaing e Helmut Schmidt, o G-6 era um grupo de discussões informal, o Presidente francês e o Chanceler alemão pensavam trocar ideias com os seus homólogos para acertar as suas ideias no contexto da crise do dólar que resultou do fim da guerra contra o Vietname. Não se tratava de tomar decisões, mas de reflectir sobre o futuro da economia ocidental. Os convidados eram os mesmos que se reuniam com o Tesouro norte-americano, pela mesma razão, um pouco antes. No entanto, a reunião não juntava desta vez os Ministros das Finanças, mas os chefes de Estado ou de Governo e a Itália, que agora fora incorporada.
 
Com a dissolução da União Soviética e o fim da divisão do mundo em dois campos, o G-7 passou a abordar questões políticas, depois associou a Rússia às suas discussões informais. Mas assim que Moscovo se levantou, opôs-se à OTAN na Síria e recusou o Golpe de Estado na Ucrânia, a confiança foi quebrada e os Ocidentais decidiram reunir-se de novo só entre si, episódio que encerrou, também, qualquer veleidade de fazer participar a China.
 
Os últimos G-7 produziram inúmeras Declarações e Comunicados. Essa "literatura" não registou nenhuma decisão, antes elaborou um discurso comum, tanto mais prolixo quanto a política interna dos EUA era dominada pelo «politicamente correcto». Como sempre, quando não se tem consciência de ter contrapoderes, a separação entre a realidade e este discurso não parou de aumentar.
 
 
Deu-se em 2005 um desvio, no Reino Unido, onde o Primeiro-ministro britânico, Tony Blair, chamou a atenção de todos assegurando que o G8, que ele presidia, ia anular a dívida dos 18 países mais pobres de África. Na realidade, o anúncio era fútil: o G8 jamais tomou essa decisão. Posteriormente, 14 países aceitaram as condições leoninas da Grã-Bretanha, depois morderam os dedos. Outros 4 recusaram esta armadilha. Essa encenação deixou a impressão falaciosa de que o G7/8 era uma espécie de governo mundial.
 
É, na realidade, essencial que não tome qualquer decisão: isso seria constituir um cartel no seio da Assembleia Geral da ONU e violar o princípio de igualdade entre todos os Estados qualquer que seja o seu poderio. Existe já um privilégio, reconhecido aos principais vencedores da Segunda Guerra Mundial, que é o de ter assento permanente no Conselho de Segurança e, aí, ter poder de veto. Privilégio que decorre do realismo: nenhuma maioria de Estado pode impor a sua vontade a tão grandes potências.
 
A cimeira de 2019
 
Seja como for, a importância desta reunião mede-se pelo poderio somado dos seus convidados. Convêm, em primeiro lugar, observar que o G-7 junta 9 personalidades: para ele são convidados o Presidente da Comissão Europeia e o do Conselho Europeu. Acontece que por razões de saúde, Jean-Claude Juncker falhará a chamada. Em seguida, notemos que, desde 2015, o presidente rotativo do G7 convidou personalidades estrangeiras. Emmanuel Macron escolheu 8, dos quais 3 já o haviam sido no ano passado: dois dos BRICS (a Índia e a África do Sul), a Austrália (que para aí fora convidada, tal como Canadá, enquanto dominion Britânico, e deverá aderir nos próximos anos à OTAN e aí constituir uma força anti-Chinesa com o Japão) e «clientes« (o Egipto, o Burkina-Faso, o Chile, o Ruanda e o Senegal). Estes Estados irão participar em certas reuniões, mas não em todas.
 
O Presidente Macron lembrou a possibilidade de reintroduzir a Rússia neste círculo fechado... em 2020 (evocado pelo Presidente Trump, que presidirá então a este clube). Isso suporia primeiro que a Síria seja libertada e que a adesão da Crimeia à Federação Russa seja reconhecida. Além disso, para que a participação de Moscovo tenha sentido, seria preciso que a Rússia se ponha a falar como os Ocidentais. Serguei Lavrov respondeu já polidamente que iria examinar esta proposta (absurda) quando ela fosse apresentada.
 
Após o fiasco do G-7 de 2018, onde não se conseguiu elaborar um discurso comum, Emmanuel Macron optou por um discurso mais amplo e mais generalista que cai sempre bem e não ameaça ninguém, um assunto sociológico e acima de tudo não social: a «luta contra às desigualdades entre as mulheres e os homens». Cautelosamente, preveniu que desta vez não haveria comunicado final.
 
No plano económico, as consequências da guerra alfandegária desencadeada pelos Estados Unidos contra a China são a principal fonte de preocupação dos membros do G7. Não tendo a mínima intenção de ser de novo colocado na situação de acusado, como o foi no ano passado, o Presidente Trump escolheu o ataque denunciando, assim, os impostos franceses sobre o Google/Apple/Facebook/Amazon. Este é, com efeito, o ponto fraco do seu parceiro. A França optou por atacar os GAFA no plano fiscal, mas não reage às duas questões mais importantes: a sua posição monopolista e as suas violações de liberdades individuais. O que deverá ser resolvido, à margem da reunião de Biarritz, pelos Ministros das Finanças francês e norte-americano.
 
Uma peça de teatro de Emmanuel Macron
 
Emmanuel Macron e a sua antiga professora de teatro, sua esposa Brigitte Trogneux-Macron, tinham previsto uma encenação particular para esta cimeira (cúpula-br). Ninguém pode negar a qualidade cénica e as reviravoltas.
 
O Presidente fez preceder a cimeira por uma breve alocução televisiva [1] no decurso do qual anunciou diversas iniciativas espectaculares e comprometeu-se a apresentar um balanço, ao princípio da noite, em 26 de Agosto.
 
Nos dias que precederam esta cimeira, os média (mídia-br) europeus difundiram, sem descanso, uma campanha de intoxicação segundo a qual toda a floresta amazónica estaria em chamas. A sua destruição privaria a Terra de oxigénio e aceleraria o aquecimento global. Ora, não é a floresta que arde, mas as zonas desmatadas submetidas à técnica de limpeza por queima; e a Amazónia fornece apenas uma pequenina porção de oxigénio da atmosfera. Na realidade, certos membros do G7 esperam contornar a OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazónica) a fim de poder explorar as fabulosas riquezas minerais, farmacêuticas e madeireiras desta região.
 
Emmanuel Macron autorizou já a exploração de várias minas auríferas na Guiana Francesa por um consórcio franco-canadiano, em total desprezo pela floresta e pelos seus habitantes. Com inteira razão, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, denunciou a natureza colonial do empreendimento do G7. As mentiras de Emmanuel Macron terão pesadas consequências.
 
Outro assunto e não dos menores : o Presidente sugeriu, ele próprio, que tinha recebido um «mandato» do G7 para negociar com o Irão. É evidentemente impossível não só porque o G7 não atribui mandatos, mas também porque jamais os Estados Unidos delegam esse poder a um país terceiro. Depois da imprensa internacional ter retomado de olhos fechados este absurdo e o Presidente Trump ter tido um ataque de nervos, Emmanuel Macron reconheceu o erro. Assim, ele convidou o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) iraniano, Mohammad Javad Zarif, o qual chegou de imediato a Biarritz e com quem ele se encontrou. Era impossível fazer algo mais espetacular, mas, claro, às custas de um insulto público ao seu convidado, Donald Trump, e de um ambiente embaraçoso para os seus outros convidados.
 
Os conselheiros do Eliseu garantem que o Presidente norte-americano tinha dado o seu acordo. Mas acordo a quê ? Mohammad Javad Zarif não foi autorizado a entrar no hotel do Palácio onde se realizava a cimeira. Ele foi acolhido durante três horas pelo seu homólogo Jean-Yves Le Drian e o Ministro das Finanças, Bruno Lemaire, na câmara municipal (prefeitura-br) de Biarritz. Emmanuel Macron abandonou os seus convidados para se juntar aos seus dois comparsas durante uma meia hora. A reunião deu-se na presença dos conselheiros britânico e alemão. Esta visita imprevista não fará evoluir o conflito Irano-EUA, mas virará os Estados Unidos, ao mesmo tempo, contra o Irão e contra a França. Este cenário é o primeiro grave erro internacional de um Presidente cuja inclinação sociopata é conhecida muito antes da sua eleição. Por sociopatia entendemos uma tendência geral à indiferença em relação a normas sociais e a direitos alheios associado a um comportamento impulsivo.
 
Conclusão
 
O Presidente Donald Trump considera o «discurso politicamente correcto » como sintoma do controlo da oligarquia mundialista sobre o seu país. Segundo o Washington Post, não teria o menor desejo de ir perder o seu tempo a Biarritz. Obviamente, a chegada à cidade de um hóspede que ele não desejava ver transformou o seu aborrecimento em raiva. Os conselheiros do Eliseu garantem que os seus encontros cara-a-cara com o seu homólogo francês decorreram agradavelmente, mas foram péssimos segundo os americanos — e isso desde o pequeno-almoço—. Segundo a sua Conselheira, Kelly Ann Shaw, o Presidente desejaria pois que a próxima reunião nos Estados Unidos, em 2020, fixe novos objectivos.
 
A Declaração final da cimeira de Biarritz [2] não passa de um curto enunciado de pontos de acordo entre os seus participantes. Todo o mundo constatará que, apesar da auto-satisfação do Presidente Macron e a veneração que lhe concede uma certa imprensa, ela teria podido ser escrita muito tempo antes : nenhum assunto avançou. Ninguém ganhou o braço de ferro a ninguém.
 
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] « Adresse d’Emmanuel Macron avant le G7 », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 24 août 2019.
[2] « Déclaration des chefs d’État et de gouvernement du G7 », Réseau Voltaire, 26 août 2019.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/a-comunicacao-unica-aposta-da-cimeira.html

A comunicação, única aposta da cimeira do G-7 em Biarritz

O G7, que era originalmente um lugar de conversas entre dirigentes ocidentais para melhor compreender os pontos de vista respectivos, tornou-se uma questão de comunicação. Longe de expor à porta fechada os fundamentos do seu pensamento, os convidados tornaram-se actores de um show mediático onde cada um tenta fazer boa figura. O pior terá sido, desta vez, a surpresa inventada por Emmanuel Macron para os jornalistas e contra o seu convidado norte-americano.

Um clube, não uma organização decisória

Aquando da sua criação em 1976, por Valéry Giscard d’Estaing e Helmut Schmidt, o G-6 era um grupo de discussões informal, o Presidente francês e o Chanceler alemão pensavam trocar ideias com os seus homólogos para acertar as suas ideias no contexto da crise do dólar que resultou do fim da guerra contra o Vietname. Não se tratava de tomar decisões, mas de reflectir sobre o futuro da economia ocidental. Os convidados eram os mesmos que se reuniam com o Tesouro norte-americano, pela mesma razão, um pouco antes. No entanto, a reunião não juntava desta vez os Ministros das Finanças, mas os chefes de Estado ou de Governo e a Itália, que agora fora incorporada.

Com a dissolução da União Soviética e o fim da divisão do mundo em dois campos, o G-7 passou a abordar questões políticas, depois associou a Rússia às suas discussões informais. Mas assim que Moscovo se levantou, opôs-se à OTAN na Síria e recusou o Golpe de Estado na Ucrânia, a confiança foi quebrada e os Ocidentais decidiram reunir-se de novo só entre si, episódio que encerrou, também, qualquer veleidade de fazer participar a China.

Os últimos G-7 produziram inúmeras Declarações e Comunicados. Essa "literatura" não registou nenhuma decisão, antes elaborou um discurso comum, tanto mais prolixo quanto a política interna dos EUA era dominada pelo «politicamente correcto». Como sempre, quando não se tem consciência de ter contrapoderes, a separação entre a realidade e este discurso não parou de aumentar.

Deu-se em 2005 um desvio, no Reino Unido, onde o Primeiro-ministro britânico, Tony Blair, chamou a atenção de todos assegurando que o G8, que ele presidia, ia anular a dívida dos 18 países mais pobres de África. Na realidade, o anúncio era fútil : o G8 jamais tomou essa decisão. Posteriormente, 14 países aceitaram as condições leoninas da Grã-Bretanha, depois morderam os dedos. Outros 4 recusaram esta armadilha. Essa encenação deixou a impressão falaciosa de que o G7/8 era uma espécie de governo mundial.

É, na realidade, essencial que não tome qualquer decisão: isso seria constituir um cartel no seio da Assembleia Geral da ONU e violar o princípio de igualdade entre todos os Estados qualquer que seja o seu poderio. Existe já um privilégio, reconhecido aos principais vencedores da Segunda Guerra Mundial, que é o de ter assento permanente no Conselho de Segurança e, aí, ter poder de veto. Privilégio que decorre do realismo: nenhuma maioria de Estado pode impor a sua vontade a tão grandes potências.

A cimeira de 2019

Seja como for, a importância desta reunião mede-se pelo poderio somado dos seus convidados. Convêm, em primeiro lugar, observar que o G-7 junta 9 personalidades: para ele são convidados o Presidente da Comissão Europeia e o do Conselho Europeu. Acontece que por razões de saúde, Jean-Claude Juncker falhará a chamada. Em seguida, notemos que, desde 2015, o presidente rotativo do G7 convidou personalidades estrangeiras. Emmanuel Macron escolheu 8, dos quais 3 já o haviam sido no ano passado: dois dos BRICS (a Índia e a África do Sul), a Austrália (que para aí fora convidada, tal como Canadá, enquanto dominion Britânico, e deverá aderir nos próximos anos à OTAN e aí constituir uma força anti-Chinesa com o Japão) e «clientes« (o Egipto, o Burkina-Faso, o Chile, o Ruanda e o Senegal). Estes Estados irão participar em certas reuniões, mas não em todas.

O Presidente Macron lembrou a possibilidade de reintroduzir a Rússia neste círculo fechado... em 2020 (evocado pelo Presidente Trump, que presidirá então a este clube). Isso suporia primeiro que a Síria seja libertada e que a adesão da Crimeia à Federação Russa seja reconhecida. Além disso, para que a participação de Moscovo tenha sentido, seria preciso que a Rússia se ponha a falar como os Ocidentais. Serguei Lavrov respondeu já polidamente que iria examinar esta proposta (absurda) quando ela fosse apresentada.

Após o fiasco do G-7 de 2018, onde não se conseguiu elaborar um discurso comum, Emmanuel Macron optou por um discurso mais amplo e mais generalista que cai sempre bem e não ameaça ninguém, um assunto sociológico e acima de tudo não social: a «luta contra às desigualdades entre as mulheres e os homens». Cautelosamente, preveniu que desta vez não haveria comunicado final.

No plano económico, as consequências da guerra alfandegária desencadeada pelos Estados Unidos contra a China são a principal fonte de preocupação dos membros do G7. Não tendo a mínima intenção de ser de novo colocado na situação de acusado, como o foi no ano passado, o Presidente Trump escolheu o ataque denunciando, assim, os impostos franceses sobre o Google/Apple/Facebook/Amazon. Este é, com efeito, o ponto fraco do seu parceiro. A França optou por atacar os GAFA no plano fiscal, mas não reage às duas questões mais importantes: a sua posição monopolista e as suas violações de liberdades individuais. O que deverá ser resolvido, à margem da reunião de Biarritz, pelos Ministros das Finanças francês e norte-americano.

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O adolescente Emmanuel Macron e a sua professora de teatro, Brigitte Trogneuxa, sua futura esposa.

Uma peça de teatro de Emmanuel Macron

Emmanuel Macron e a sua antiga professora de teatro, sua esposa Brigitte Trogneux-Macron, tinham previsto uma encenação particular para esta cimeira (cúpula-br). Ninguém pode negar a qualidade cénica e as reviravoltas.

O Presidente fez preceder a cimeira por uma breve alocução televisiva [1] no decurso do qual anunciou diversas iniciativas espectaculares e comprometeu-se a apresentar um balanço, ao princípio da noite, em 26 de Agosto.

Nos dias que precederam esta cimeira, os média (mídia-br) europeus difundiram, sem descanso, uma campanha de intoxicação segundo a qual toda a floresta amazónica estaria em chamas. A sua destruição privaria a Terra de oxigénio e aceleraria o aquecimento global. Ora, não é a floresta que arde, mas as zonas desmatadas submetidas à técnica de limpeza por queima; e a Amazónia fornece apenas uma pequenina porção de oxigénio da atmosfera. Na realidade, certos membros do G7 esperam contornar a OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazónica) a fim de poder explorar as fabulosas riquezas minerais, farmacêuticas e madeireiras desta região.

Emmanuel Macron autorizou já a exploração de várias minas auríferas na Guiana Francesa por um consórcio franco-canadiano, em total desprezo pela floresta e pelos seus habitantes. Com inteira razão, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, denunciou a natureza colonial do empreendimento do G7. As mentiras de Emmanuel Macron terão pesadas consequências.

Outro assunto e não dos menores : o Presidente sugeriu, ele próprio, que tinha recebido um «mandato» do G7 para negociar com o Irão. É evidentemente impossível não só porque o G7 não atribui mandatos, mas também porque jamais os Estados Unidos delegam esse poder a um país terceiro. Depois da imprensa internacional ter retomado de olhos fechados este absurdo e o Presidente Trump ter tido um ataque de nervos, Emmanuel Macron reconheceu o erro. Assim, ele convidou o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) iraniano, Mohammad Javad Zarif, o qual chegou de imediato a Biarritz e com quem ele se encontrou. Era impossível fazer algo mais espetacular, mas, claro, às custas de um insulto público ao seu convidado, Donald Trump, e de um ambiente embaraçoso para os seus outros convidados.

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Os conselheiros do Eliseu garantem que o Presidente norte-americano tinha dado o seu acordo. Mas acordo a quê ? Mohammad Javad Zarif não foi autorizado a entrar no hotel do Palácio onde se realizava a cimeira. Ele foi acolhido durante três horas pelo seu homólogo Jean-Yves Le Drian e o Ministro das Finanças, Bruno Lemaire, na câmara municipal (prefeitura-br) de Biarritz. Emmanuel Macron abandonou os seus convidados para se juntar aos seus dois comparsas durante uma meia hora. A reunião deu-se na presença dos conselheiros britânico e alemão. Esta visita imprevista não fará evoluir o conflito Irano-EUA, mas virará os Estados Unidos, ao mesmo tempo, contra o Irão e contra a França. Este cenário é o primeiro grave erro internacional de um Presidente cuja inclinação sociopata é conhecida muito antes da sua eleição. Por sociopatia entendemos uma tendência geral à indiferença em relação a normas sociais e a direitos alheios associado a um comportamento impulsivo.

Conclusão

O Presidente Donald Trump considera o «discurso politicamente correcto » como sintoma do controlo da oligarquia mundialista sobre o seu país. Segundo o Washington Post, não teria o menor desejo de ir perder o seu tempo a Biarritz. Obviamente, a chegada à cidade de um hóspede que ele não desejava ver transformou o seu aborrecimento em raiva. Os conselheiros do Eliseu garantem que os seus encontros cara-a-cara com o seu homólogo francês decorreram agradavelmente, mas foram péssimos segundo os americanos — e isso desde o pequeno-almoço—. Segundo a sua Conselheira, Kelly Ann Shaw, o Presidente desejaria pois que a próxima reunião nos Estados Unidos, em 2020, fixe novos objectivos.

A Declaração final da cimeira de Biarritz [2] não passa de um curto enunciado de pontos de acordo entre os seus participantes. Todo o mundo constatará que, apesar da auto-satisfação do Presidente Macron e a veneração que lhe concede uma certa imprensa, ela teria podido ser escrita muito tempo antes : nenhum assunto avançou. Ninguém ganhou o braço de ferro a ninguém.

 
[1] « Adresse d’Emmanuel Macron avant le G7 », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 24 août 2019.

[2] « Déclaration des chefs d’État et de gouvernement du G7 », Réseau Voltaire, 26 août 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



OS DIRIGENTES DO G7 JÁ NÃO CONSEGUEM ESCONDER SUA IRRELEVÂNCIA

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A conversações de Biarritz (País Basco Francês) entre líderes  mundiais, deixam de fora dois factos incómodos:
- primeiro, os países que constituem os BRICS têm agora, em agregado de PIB e de população, a maioria em relação aos países participantes no G7. Porém, as relações de alguns membros do G7 com este bloco têm sido hostis.
- a nível das conversações e na preparação de Biarritz, não se vê que as grandes questões estejam a ser tratadas, pelo menos com um mínimo de seriedade.  Estes dirigentes vão - com certeza - apresentar grandes declarações de princípio sobre temas que sabem terem eco mediático assegurado como, por exemplo, os grandes incêndios que assolam a Amazónia (... e África, da qual quase não se fala!) mas sobre os quais não irão fazer nada.
Quanto às economias do Ocidente, lideradas por bancos centrais: a sua linha é a da política de juros zero ou negativos, associada a injecção de triliões, no que designo como economia fictícia - os mercados de obrigações e acções e ainda os derivados - para «estímulo», supostamente, da economia global, sem que estimulem nada... senão bolhas especulativas.  Já expliquei que a motivação real é salvarem bancos e grandes instituições corporativas da falência, usando os Estados como fiadores e promovendo a espiral inflacionista.  A desvalorização das moedas ocidentais vai continuar e acelerar-se; é a única coisa que sabem fazer. Eles nunca foram vistos, desde a criação do G7 (1973), a enfrentar uma crise com políticas de desenvolvimento industrial, em seus respectivos países.  Não espero que ocorra qualquer mudança de rumo quanto à guerra comercial iniciada e estimulada pela administração Trump contra a China, assim como as tarifas que ameaçam amigos e inimigos Os EUA irão continuar, arrastando os outros, com as suas sanções económicas. São actos de guerra, são ilegais face ao direito internacional... Mas é como se tal fosse absolutamente normal! 
A ironia disto tudo sobressai, se nos referirmos ao entusiasmo com que os mesmos países ocidentais criaram a OMC, há pouco mais de 25 anos e, rapidamente, admitiram nela a China.  Agora, sobretudo os EUA, país que pretende ser o «líder» no mundo, quer inverter tudo, ao deparar-se com as demasiado visíveis consequências.  Com efeito, a catástrofe da globalização capitalista (mercados laborais desregulados, transferências de tecnologia, economia de «serviços», dependência às indústrias situadas noutros países e continentes, etc.) foi fabricada totalmente pela «elite» no poder no Ocidente.  Aliás, os que tentaram destruir a Rússia nos anos 90 e quase conseguiram, submetendo a sua população a ataque severo, na época de Yeltsin, pilotaram políticas económicas em tudo análogas, no sul da Europa e noutros pontos, incluindo países do G-7.
Dificilmente se poderá usar a expressão políticas «liberais» para estas situações, se as palavras guardam um significado com relação à História: - Os liberais, historicamente, eram os que defendiam uma ordem mundial onde os mercados não eram confinados, limitados, por barreiras alfandegárias, por tarifas e impostos ao comércio entre países. Ao nível interno, eram pela liberdade do indivíduo face ao Estado, etc.  Podemos ver agora o exemplo dos «campeões» da «democracia liberal» - os EUA, Reino Unido, seus aliados  dentro e fora do G7 - que afinam pelo mesmo diapasão, só que é o exacto oposto do «liberalismo clássico». Tanto o liberalismo político, como económico, é explicitamente contrariado em quaisquer dos casos.  - Protagonizam uma política agressiva, imperialista, belicista, fora das regras do direito internacional, no campo externo. - No campo interno, há cada vez maior repressão, retirada sistemática de direitos aos mais pobres, desprezo pela legalidade, produção de leis limitadoras e mesmo anuladoras das liberdades individuais, a perseguição de jornalistas e de quaisquer pessoas por exprimirem sua opinião, etc, etc.
A resposta ao G-7 não foi, infelizmente, dada adequadamente pelos anti-globalistas, os quais foram impedidos de se manifestar, sob o pretexto falacioso de que «poderiam» adoptar posturas violentas, ilegais, etc. Assim, a polícia e o Estado francês não apenas estão a negar os direitos constitucionais dos manifestantes, como o fazem com claro objectivo de deixar campo de manobra,  e discretamente, promover quem lá for com intuito violento... é assim que infundem a desinformação e o medo perante a dissidência, nos espíritos das pessoas comuns.
Na minha modesta opinião, o G7 é um «show» caro e vazio de propaganda dos dirigentes globalistas.  A forma de os desmascarar será mostrar o seu ridículo, arrogância e autoritarismo...  Não interessam para nada! Vão para vossas respectivas mansões e deixem as pessoas comuns se auto-governarem; estas sabem o que é necessário para começar a consertar a «porcaria» que vocês têm feito!!!   

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Barreira sino-russa contra a intromissão dos EUA

Os EUA acumularam suficiente experiência e sucessos na promoção de “revoluções coloridas” para se abalançarem a duas operações simultâneas de grande ambição: Hong Kong e Moscovo. O problema é irem confrontar-se com forças e meios muito superiores àqueles com que se depararam em outros lugares. E desta nova ofensiva resultarem novas plataformas de cooperação sino-russa, outro pesadelo para os EUA e seus aliados.


 

A China acusou explicitamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha de fomentarem os protestos “pró-democracia” em Hong Kong. Pequim assumiu o assunto por meio do canal diplomático exigindo que os serviços secretos dos EUA parem de incitar e encorajar os manifestantes de Hong Kong. Na semana passada, evidências fotográficas apareceram nos media mostrando a conselheira política do consulado dos EUA em Hong Kong, Julie Eadeh, a confabular no átrio de um hotel de luxo local com os líderes estudantis envolvidos neste movimento “pró-democracia” de Hong Kong.

Washington ficou ressentida pelo facto de a cobertura de Julie ter sido quebrada. Aparentemente ela é uma especialista que organizou “revoluções coloridas” em outros países e foi revelado que estava envolvida na trama de “actos subversivos” na região do Médio Oriente. O Global Times escreveu um editorial furioso . Dizia:
“O governo dos EUA desempenhou um papel vergonhoso nos distúrbios de Hong Kong. Washington apoia publicamente os protestos e nunca condena a violência que atinge a polícia. O consulado geral dos EUA em Hong Kong está a aumentar a sua interferência directa na situação de Hong Kong. A administração dos EUA está a instigar tumultos em Hong Kong, da mesma forma que alimentou “revoluções coloridas” em outros lugares do mundo.2
A alegação chinesa será plausível? Escrevendo no Asia Times , o renomado académico, economista e autor canadiano Ken Moak comentou recentemente que os protestos são generosamente financiados e que a sua logística e organização são de uma escala de recursos financeiros a que “só governos estrangeiros ou indivíduos ricos que poderiam lucrar com eles se comprometeriam”. Pormenorizou exemplos passados de tentativas anglo-americanas para desestabilizar a China.

Moak prevê futuras operações subversivas “mais intensas e violentas” contra a China por parte EUA.

De facto, agentes provocadores estão a calibrar os protestos quase diariamente, como a queima da bandeira chinesa e a ocupação do aeroporto de Hong Kong. O plano do jogo é forçar Pequim a intervir para que se siga o dilúvio – sanções ocidentais, et al.

Com a tecnologia 5G prestes a ser lançada, este é um momento oportuno para os EUA arrebanharem os seus aliados ocidentais num boicote económico à China, no momento em que países como a Alemanha e a Itália, que têm relações comerciais e de investimento florescentes com a China, abominam ficar a reboque os EUA.

O renomado jornalista e escritor italiano e observador de longa data da China baseado em Pequim, Francesco Sisci, escreveu recentemente que Hong Kong é, na verdade, a “válvula de segurança” de Pequim e sufocá-la pode causar asfixia em todo o sistema chinês. Sisci compara Hong Kong a “uma câmara de compensação, uma válvula de segurança entre a economia fechada da China continental e as economias abertas do resto do mundo”.

Se a China podia globalizar com avidez e ainda assim manter a sua economia fechada era por ter Hong Kong, que era completamente aberta e proporcionava o terceiro maior mercado financeiro do mundo. Se ocorrer uma fuga de capitais em larga escala em Hong Kong a China terá que efectuar os seus futuros acordos financeiros através de países sobre os quais não tem controlo político. Para citar Sisci, “o actual status de Hong Kong pode ajudar Pequim a comprar tempo, mas a questão crucial ainda é o status da China. A época de estar dentro e fora do sistema comercial global graças a uma arquitectura complexa de acordos especiais está rapidamente a esgotar-se “.

Dito simplesmente, a agitação em Hong Kong torna-se um modelo da abordagem de pressão máxima dos EUA para quebrar o ímpeto de crescimento da China e a sua ascensão como uma rival na tecnologia global do século XXI. As mãos nos EUA que influenciam a China já estão a abrir a garrafa de champanhe por “a revolução estar no ar em Hong Kong” – e, isso marcará “o fim do comunismo sobre o solo chinês”.

Entra a Rússia. Coincidência ou não, ultimamente pequenos fogos estão a ser acesos também nas ruas de Moscovo e estão a propagar-se em protestos significativos contra o presidente Vladimir Putin. Se a lei de extradição foi o pretexto para o tumulto de Hong Kong, a eleição para a Duma de Moscovo (legislativo da cidade) foi aparentemente o que provocou o protesto russo.

Assim como em Hong Kong há descontentamento económico e social, a popularidade de Putin diminuiu ultimamente, o que é atribuído à estagnação da economia russa.

Em ambos os casos, a agenda americana é descaradamente pela “mudança de regime”. Isto pode parecer surpreendente, uma vez que as lideranças chinesa e russa parecem sólidas. A legitimidade do Partido Comunista Chinês presidido por Xi Jinping e a popularidade de Putin ainda estão a um nível que faz inveja a qualquer político em qualquer parte do mundo, mas a doutrina das “revoluções coloridas” não é construída sobre princípios democráticos.

As revoluções coloridas referem-se à inversão de uma ordem política estabelecida e não tem correlação com o apoio das massas. A revolução colorida é o golpe por outros meios. Não é nem mesmo acerca de democracia. As recentes eleições presidenciais e parlamentares na Ucrânia revelaram que a revolução colorida de 2014 foi uma insurreição que a nação repudia.

É claro que as apostas são muito altas quando se trata de desestabilizar a China e a Rússia. Está em causa nada menos do que o equilíbrio estratégico global. A estratégia de contenção dupla dos EUA contra a Rússia e a China é na sua quinta-essência o projecto New American Century – a hegemonia global dos EUA ao longo do século XXI.

Os EUA apostaram que Moscovo e Pequim seriam duramente pressionados para enfrentar o espectro das revoluções coloridas e que as isolariam. Afinal de contas, regimes autoritários são exclusivos e dentro do sanctum sanctorum das suas políticas internas nem os seus amigos ou aliados mais próximos são permitidos.

É aqui que Moscovo tem uma surpresa desagradável para Washington. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse na sexta-feira em Moscovo que a Rússia e a China deveriam intercambiar informações sobre a interferência dos EUA nos seus assuntos internos. Ela assinalou que Moscovo está consciente das declarações chinesas de que os EUA interferem nos assuntos de Hong Kong e trata estas informações “com toda a seriedade”.

“Além disso, penso que seria correcto e útil trocar tais informações através dos respectivos serviços”, disse Zakharova, acrescentando que os lados russo e chinês discutirão a questão dentro em breve. Acrescentou que os serviços secretos dos EUA estão a utilizar tecnologia para desestabilizar a Rússia e a China.

Pouco antes, na sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia convocou o chefe da Secção Política da embaixada estado-unidense, Tim Richardson, e apresentou-lhe um protesto oficial contra o encorajamento dos EUA a uma manifestação não autorizada da oposição em Moscovo no dia 3 de Agosto.

Na verdade, Moscovo tem muito mais experiência do que Pequim em neutralizar operações secretas da inteligência dos EUA. É uma característica marcante da grande habilidade e perícia bem como da tenacidade do sistema russo que durante toda a era da Guerra Fria e no período “pós-soviético” nunca tenha havido nada parecido com os motins na Praça Tiananmen em Pequim (1989) ou em Hong Kong (2019) desencadeados pelos serviços secretos dos EUA.

A mensagem de Moscovo para Pequim é directa e franca – “Unidos venceremos, divididos cairemos”. Sem dúvida, os dois países estiveram em consultas e queriam que o resto do mundo soubesse disso. Na verdade, a mensagem transmitida por Zakharova – sobre uma barreira (firewall) conjunta contra a interferência dos EUA – é de significado histórico. Ela eleva a aliança russo-chinesa a um nível qualitativamente novo, criando mais um reforço político de segurança colectiva.
11/Agosto/2019

O original encontra-se em indianpunchline.com/a-sino-russian-firewall-against-us-interference/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O último Império ocidental?

 
 
The Saker, Unz Review e The Vineyard of the Saker * | Tradução de Vila Mandinga
"Veem as árvores, mas não veem a floresta" é boa metáfora para muitos dos comentários que circulam sobre os últimos vinte e poucos anos pelo planeta. E o período é notável pelo número genuinamente tectônico de mudanças pelas quais passou o sistema internacional.  
 
Tudo começou durante o que chamo de a "Kristallnacht [Noite dos Cristais] da lei internacional", dia 30 de agosto-setembro de 1995, quando o Império atacou os sérvios-bósnios, em direta e total violação dos mais fundamentais princípios do Direito Internacional. Depois foi o 11/9, que deu aos neoconservadores, segundo eles, o "direito" de ameaçar, atacar, bombardear, matar, violar, sequestrar, assassinar, torturar, chantagear e todas as demais práticas para fazer o mal a qualquer pessoa, grupo ou país em todo o planeta, 'porque' "somos a nação indispensável" e "ou você está conosco ou está com os terroristas". Durante esses mesmos anos, vimos a Europa tornar-se colônia de 3ª classe dos EUA, incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos europeus mais fundamentais, ao mesmo tempo em que os EUA tornou-se colônia de 3ª classe de Israel e igualmente incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos mais fundamentais dos EUA. Ainda mais interessante, se se observa esse passado próximo, ao mesmo tempo em que EUA e União Europeia colapsavam sob o peso dos próprios erros, Rússia e China estavam em clara ascensão. Rússia, principalmente em termos militares (ver aqui e aqui), e China principalmente em termos econômicos. Mais crucialmente importante,  Rússia e China gradualmente concordaram em se tornar corpos simbiontes, processo pelo qual, na minha avaliação, tornaram-se ambos ainda mais fortes e mais significativos do que se os dois países se unissem mediante algum tipo de aliança formal: alianças podem ser partidas (especialmente quando esteja envolvida uma nação ocidental), mas relacionamentos de simbiose de modo geral duram para sempre (sim, sim, nada dura para sempre, é claro, mas quando o tempo de vida mede-se em décadas, uma relação simbiótica é o equivalente funcional de "para sempre", pelo menos em termos de análise estratégica). Os chineses desenvolveram recentemente uma expressão oficial, especial e única para caracterizar esse relacionamento com a Rússia. Falam de uma "Parceria estratégica abrangente de coordenação para a nova era." É o pior pesadelo dos anglo-sionistas, e a respectiva mídia sionista faz de tudo para ocultar o fato de que Rússia e China são, sim, para todas as finalidades práticas, aliadas estratégicas. Tentam até, empenhadamente, convencer o povo russo de que a China seria ameaça à Rússia (usam os argumentos mais ridículos, mas nada disso é importante). A coisa não funcionará, mesmo que alguns russos tenham alguns medos relacionados à China, porque o Kremlin sabe dos fatos e da verdade desses assuntos e continuará a aprofundar cada vez mais o relacionamento simbiótico da Rússia com a China. E não só isso.
 
Hoje já parece que o Irã está sendo admitido gradualmente nessa aliança. Já temos disso a confirmação mais oficial possível, em palavras do general Patrushev enunciadas em Israel depois de se reunir com funcionários dos EUA e de Israel: "O Irã sempre foi e continua a ser nosso aliado e parceiro." Poderia estender muito a lista dos vários sinais do colapso do Império Anglo-sionista, e dos sinais de que uma nova ordem paralela internacional mundial está em processo de construção bem aí, diante de nossos olhos. Já fiz isso muitas vezes e não repetirei aqui (os interessados podem clicar aqui e aqui). Direi então que os anglo-sionistas chegaram a um estágio terminal de degeneração no qual o "se" da pergunta é substituído por "quando?". Mas ainda mais interessante seria examinar o "quê?": o que realmente significa o colapso do Império Anglo-sionista? Raramente vejo essa questão ser discutida; e quando é, a discussão só visa a repetir e repetir, para 'garantir' que o Império não, de modo algum, jamais colapsará; que é poderoso demais, rico demais e grande demais para desandar, e que as atuais crises políticas nos EUA e Europa resultarão em mera transformação reativa do Império, tão logo os problemas específicos que o atingem tenham sido devidamente resolvidos. Esse tipo de irracionalidade delirante absolutamente nada tem a ver com a realidade. E a realidade do que tem lugar agora, aí, diante de nossos olhos é muito, muito, muito mais dramática e seminal do que alguns poucos problemas simples, que ganhem remendos aqui e ali, e tudo possa continuar alegremente como sempre foi. Um dos fatores que nos induzem a uma espécie de relaxamento complacente é que já vimos tantos outros impérios colapsar ao longo da história para, em seguida, serem substituídos bem rapidamente por outro império, que não conseguimos nem imaginar que o que acontece hoje é fenômeno muito mais dramático: estamos vivendo o trânsito gradual rumo à irrelevância, de uma civilização inteira!
 
Mas comecemos por definir nossos termos. Diferente do que ensinam escolas ocidentais obcecadas com engrandecer o 'ocidente', a civilização ocidental não tem raízes em Roma nem, e menos ainda, na Grécia antiga. Fato é que a civilização ocidental nasceu da Idade Média em geral e, muito especialmente, do século 11, o qual, coincidentemente assistiu à seguinte sequência de passos empreendidos pelo Papado:
1054: Roma separa-se do resto do mundo cristão, no chamado Grande Cisma; 1075: Roma adota os chamados Decretos Papais; e 1095: Roma lança a Primeira Cruzada.
Esses três eventos tão intimamente relacionados entre eles têm importância absolutamente decisiva para a história do ocidente. O primeiro passo que o ocidente tinha de dar era libertar-se da influência do restante do mundo cristão. Tão logo foram quebrados os laços entre Roma e o mundo cristão, foi fácil e lógico que Roma decretasse que o Papa passava a ter os mais incríveis superpoderes, maiores que tudo que qualquer bispo até então se atrevera a imaginar. E por fim, a nova autonomia e a ânsia de controle absoluto sobre todo o planeta resultou no que bem se pode definir como "a primeira guerra europeia imperialista": a Primeira Cruzada. Dito sucintamente: os francos do século 11 foram os verdadeiros pais da moderna Europa "ocidental"; e o século 11 marcou a primeira "guerra estrangeira" (para usar termo moderno) imperialista. Ao longo dos séculos mudou o nome do Império dos Francos, mas não a natureza, a essência ou o propósito. Hoje, os verdadeiros herdeiros dos francos são os anglo-sionistas (para discussão realmente *soberba* do papel dos francos na destruição da verdadeira, antiga civilização cristã romana do ocidente, ver aqui). Ao longo dos mais de 900 anos seguintes, muitos diferentes impérios substituíram o Papado dos Francos, e muitos países europeus viveram "momentos de glória" com colônias no além-mar e alguma espécie de ideologia que, por definição e axioma se autodeclarava o único bem (ou mesmo "o único cristão"), com o resto do planeta vivendo em condições não civilizadas e de modo geral terríveis, as quais só poderiam ser mitigadas pelos que *sempre* acreditaram que eles, a religião deles, a cultura deles ou a nação deles teriam algum tipo de papel messiânico na história (chamem de "destino manifesto" ou de "a carga que o homem branco tem de suportar às costas", ou deKulturträger [al. no orig., "portador de cultura"]), todos eles sempre em busca de um Lebensraum [al. no orig., aprox. "espaço vivo", "habitat"] muito perfeitamente merecido; "eles" aí, são os europeus ocidentais. Parece que a maioria das nações europeias tentaram a sorte na empreitada de converter-se em império e em guerras imperialistas. Mesmo miniestados modernos como Holanda, Portugal ou Áustria já tiveram seus dias como temidas potências imperiais. E cada vez que caiu um Império Europeu, lá estava outro para assumir aquele lugar. Mas... e hoje? Quem, imaginam vocês, poderia criar império suficientemente poderoso para preencher o vazio resultante do colapso do Império Anglo-sionista? A resposta canônica é "China." Para mim, não faz sentido, é nonsense. Impérios não podem ser exclusivamente comerciais. O comércio, só ele, não basta para manter viável um império. Impérios também precisam ter força militar, mas o tipo de força militar que torna fútil qualquer resistência. A verdade é que NENHUM país moderno está sequer próximo de ter as capacidades necessárias para tomar o papel dos EUA na função de Hegemon Mundial: nem se se somassem as forças militares russas e chinesas se chegaria àquele resultado, porque esses dois países não têm:
1) suficiente rede mundial de bases (que os EUA têm, entre 700 e 1.000 bases, dependendo de como você conte); 2) capacidade importante para projetar poder estratégico por ar e por mar; e 3) suficiente rede dos chamados "aliados" (na verdade, fantoches coloniais) que sempre ajudarão em qualquer deslocamento de força militar.
Mas ainda mais crucialmente importante que isso: China e Rússia não têm desejo algum de voltar a ser império. Esses dois países finalmente compreenderam a verdade eterna segundo a qual impérios são como parasitas que se alimentam do corpo que os hospeda. Sim, não apenas todos os impérios são sempre e inerentemente maus, como tampouco seria difícil demonstrar que as primeiras vítimas do imperialismo são sempre as nações que "hospedam o império", por assim dizer. Ah, sim, claro, chineses e russos desejam que o próprio país seja realmente livre, poderoso e soberano; e compreendem que isso só é possível quando o país conta com forças armadas realmente capazes de conter um ataque, mas nem China nem Rússia tem qualquer interesse em policiar o planeta ou em impor mudança de regime a outros países. A única coisa que China e Rússia realmente querem é salvarem-se, os próprios países, da agressão norte-americana. É isso. Essa nova realidade é especialmente visível no Oriente Médio, onde países como EUA, Israel ou Arábia Saudita (o chamado "Eixo da Gentileza") só tem capacidade militar para massacrar civis ou destruir a infraestrutura dos países, mas não tem suficiente capacidade militar para lançar-se contra as duas reais potências regionais - Irã e Turquia -,porque essas potências regionais têm poder militar moderno e efetivo. Mas o teste crucial e mais revelador foi a tentativa dos EUA para subjugar a Venezuela e forçá-la de volta à submissão. Apesar de todas as ameaças fedendo a enxofre feitas por Washington, todo(s) o(s) "plano(s) (?) de Bolton" para a Venezuela resultaram em muito embaraçoso fracasso. Se a Única "Hiperpotência" do planeta não consegue subjugar nem um país tremendamente enfraquecido e bem ali, no seu quintal, e país que enfrenta crise gravíssima... fica provado que as Forças Armadas dos EUA estão obrigadas a se conformar com só invadir pequenos países como Mônaco, Micronésia e talvez o Vaticano (supondo que a Guarda Suíça resista à tentação de dar uns tiros no traseiro dos representantes da "nação indispensável"). Fato é que um número crescente de países de tamanho médio estão hoje adquirindo gradualmente os meios para resistir a um ataque dos EUA. A pergunta é: em que pé estamos, se já se lê escrito pelos muros que se esgota o tempo do Império Anglo-sionista, e não se vê país à vista para substituir os EUA como hegemon imperial mundial? A resposta é que 1.000 anos de imperialismo europeu estão chegando ao fim! Dessa vez, nem Espanha nem Reino Unido nem Áustria tomarão o lugar dos EUA nem tentarão tornar-se hegemon planetário. De fato, não há nenhuma nação europeia que tenha capacidade militar sequer remotamente capaz de promover ações do tipo "pacificação colonial", indispensáveis para manter colônias em estado de permanente desespero e terror. Os franceses emitiram o último vagido na Argélia; o Reino Unido, nas Falklands; a Espanha não consegue nem recuperar Gibraltar; e a Holanda nem tem Marinha de verdade, da qual valha a pena falar. Quanto a países da Europa central, estão muito ocupados lambendo botas do império agonizante e não lhes resta tempo para cuidar de se converterem em império (ok, talvez com exceção da Polônia, que sonha com algum tipo de Império Polonês entre o Báltico e o Mar Negro. Que sonhem; sonham com isso há séculos, e continuarão a sonhar com isso ainda por muitos outros séculos...). Agora compare as forças armadas europeias e o tipo de forças armadas que os EUA podem encontrar na América Latina ou na Ásia. Há uma suposição tão irrefletida de superioridade na maioria dos anglos, que sequer veem completamente que países de médio e pequeno porte podem desenvolver forças armadas suficientes para tornar impossível uma invasão dos EUA; ou, pelo menos, para tornar qualquer ocupação proibitivamente cara em termos de vidas humanas e dinheiro (ver aquiaqui e aqui). Essa nova realidade também torna quase completamente inútil a típica campanha de mísseis e ataques aéreos dos EUA: destruirão muitos prédios e pontes, converterão as estações de TV locais ("pontos de propaganda", na terminologia imperial) em pilhas gigantes de escombros fumegantes e cadáveres, matam muitos inocentes, mas nem assim obterão algum tipo de mudança de regime. O fato a observar é que se aceitarmos que a guerra seja a continuação da política por outros meios, também temos que admitir, que sob essa definição, as forças armadas dos EUA são totalmente inúteis, pois não conseguem ajudar os EUA a alcançar quaisquer objetivos políticos significativos. Verdade é que, em termos militares e econômicos, o "ocidente" já está derrotado. E não faz qualquer diferença que quem compreende isso não diga, e que os que falam sobre isso (só para negar, é claro) nada compreendam do que está realmente acontecendo. Em teoria, poderíamos imaginar que algum tipo de líder forte chegaria ao poder nos EUA (os outros países ocidentais são totalmente irrelevantes), esmagaria neoconservadores, como Putin esmagou os neoconservadores na Rússia, e evitaria o colapso brutal e repentino do Império. Mas não vai acontecer. Se há coisa que as últimas duas décadas provaram para além de qualquer dúvida razoável é que o sistema imperial é totalmente incapaz de se autorreformar, apesar de gente como Ralph Nader, Dennis Kucinich, Ross Perrot, Ron Paul, Mike Gravel ou, mesmo ,Obama e Trump - todos esses homens que prometeram mudança significativa e que foram realmente impedidos pelo sistema de alcançar qualquer resultado significativo. Implica dizer que o sistema ainda é 100% eficaz, pelo menos dentro dos EUA: os neoconservadores precisaram de menos de 30 dias para esmagar Trump e todas as suas promessas de mudança. E já conseguiu, até agora, que Tulsi Gabbard se curvasse e cedesse à ortodoxia e aos mitos políticos absolutamente obrigatórios dos neoconservadores. Assim sendo, o que acontecerá a seguir? Simplificando: a Ásia substituirá o Mundo Ocidental. Mas - e isso é crucial - desta vez nenhum império aparecerá para substituir o Império Anglo-sionista. Em vez disso, uma coalizão fluida e informal de países principalmente asiáticos oferecerá um modelo econômico e civilizacional alternativo e imensamente atraente para o resto do planeta. Quanto ao Império, ele se dissolverá muito efetivamente; e lentamente se tornará irrelevante. Tanto os americanos como os europeus terão, pela primeira vez na história, de se comportar como pessoas civilizadas. Significa que o seu tal tradicional "modelo de desenvolvimento" (saquear todo o planeta e roubar tudo de todos) terá de ser substituído por outra coisa, alguma espécie de arranjo pelo qual norte-americanos e europeus terão de trabalhar como todos os outros, para acumular riqueza. Essa ideia horrorizará absolutamente as atuais elites dominantes imperiais, mas aposto que será bem recebida pela maioria dos povos, especialmente quando este "novo" modelo (para eles) provar que gera mais paz e prosperidade do que o anterior! De fato, se os neocons não explodirem o planeta num holocausto nuclear, EUA e Europa sobreviverão, mas somente depois de um doloroso período de transição, que pode durar uma década ou mais. Um dos fatores que complicarão imensamente a transição do Império para a situação de país "normal" é profunda influência que tiveram sobre as culturas ocidentais os 1.000 anos de imperialismo, especialmente sobre os EUA já completamente megalomaníacos (a série de conferências do Professor John Marciano, "Empire as a way of life" [Império como modo de vida] discute magnificamente esse tópico - recomendo vivamente!). Um milênio de lavagem cerebral não é coisa que se supere facilmente, especialmente quando já penetrou no nível subconsciente. Finalmente, a reação bastante desagradável que se vê contra o multiculturalismo imposto pelas elites dominantes ocidentais, não é menos patológica, para começar, este o próprio multiculturalismo corrosivo. Refiro-me às novas teorias que "revisitam" a Segunda Guerra Mundial e encontram inspiração em tudo que tenha a ver com o TerceiroReich, incluindo um renascimento das teorias racistas/racialistas. É especialmente ridículo (e ofensivo) quando vem de gente que tenta fazer-se passar cristãos, mas cujos lábios, em vez de orações, só bobagens semelhantes às de 1488. Essas pessoas representam precisamente o tipo de "oposição" que os neoconservadores amam ter pela frente, e que os neoconservadores sempre (e quando digo "sempre" é *sempre* mesmo) acabam derrotando. Esta oposição (que se faz de oposição; de fato, são idiotas úteis) permanecerá forte enquanto permanecer bem financiada (o que ela hoje é). Mas assim que a atual megalomania ("Nós somos a Raça Branca! Nós construímos Atenas e Roma! Nós somos Evropa!!!") cair de cara inevitavelmente no chão, as pessoas recuperação a sanidade e perceberão que o atual estado do ocidente não é coisa que se possa atribuir a algum bode expiatório externo. A triste verdade é que o ocidente fez tudo isso a si mesmo (principalmente por orgulho e arrogância!). As atuais ondas de imigrantes nada são além de 1.000 anos de carma de sofrimento e dor sendo devolvidos para onde tudo começou. Não quero sugerir que as pessoas no Ocidente seriam individualmente responsáveis pelo que está acontecendo agora. O que digo é que todas as pessoas no Ocidente vivem hoje com as consequências de 1.000 anos do mais desenfreado imperialismo. Será difícil, muito difícil, mudar de rumo, mas uma vez que essa é também a única saída viável, é o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Mas ainda assim, há esperança. Se os neoconservadores não explodirem o planeta, e se a humanidade tiver tempo suficiente para estudar a própria história e entender onde enveredou pela trilha errada, então talvez, apenas talvez, haja esperança. Acho que todos podemos encontrar consolo no fato de que por pior, mais feio, estúpido e maligno seja ainda o Império Anglo-sionista, é o último. E não haverá outro império para substituí-lo. Em outras palavras, se sobrevivermos ao império atual (o que absolutamente não é garantido!), então, pelo menos, poderemos afinal, olhar para um planeta sem impérios, feito só de países soberanos.
Entendo que esse é futuro pelo qual vale a pena lutar.
 
[assina] The Saker
 
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/o-ultimo-imperio-ocidental.html

NÃO-ALINHAMENTO ACTIVO, IMPRESCINDÍVEL PILAR DA PAZ GLOBAL

 
 
“Nuestros pueblos de América Latina, El Caribe, África, Asia y más allá, hemos logrado batallar con causas justas, ideas claras, valentía y gran potencia rebelde, por dos siglos, frente a los viejos colonialismos y todas sus formas de explotación” – Presidente Nicolas Maduro – 20 de Julho de 2019
 
Martinho Júnior, Luanda  
 
01- No dia 20 de Julho de 2019 em Caracas, teve início a Reunião Ministerial do Gabinete de Coordenação da Organização do Movimento dos Países Não Alinhados, que durou dois dias. (http://noticias.ciudadccs.info/comenzaron-actividades-previas-reunion-ministerial-del-mnoal-caracas/).
 
Essa Reunião culminou a profícua actividade de três anos da Venezuela à frente dessa Organização e serviu de preparação para a Reunião de cúpula que deverá ocorrer em Baku em Outubro do corrente ano, pois será o Azerbeijão que vai assumir a coordenação no próximo triénio. (https://mundo.sputniknews.com/politica/201907201088088838-comienza-en-caracas-la-reunion-ministerial-del-movimiento-de-los-paises-no-alineados/).
 
Com a Venezuela à frente dos destinos do Movimento, foi feito um exercício de revitalização vocacionado a defender as causas da paz global, do respeito entre as nações, os estados e os povos ao nível dos relacionamentos internacionais, da solidariedade sul-sul e da luta por um mundo melhor com a humanidade assumindo o respeito devido à Mãe Terra, tudo isso levando sempre em consideração a trilha da própria ONU. (http://www.correodelorinoco.gob.ve/venezuela-presenta-informe-sobre-gestion-presidencia-del-mnoal/).
 
120 países membros do Movimento procuraram com a Venezuela esforçar-se para a gestação duma plataforma consensual que se aproximasse da emergência da Rússia e da China, enquanto garantes exponenciais dum multilateralismo capaz de responder a essas tão legítimas aspirações, num momento em que o poder do império da hegemonia unipolar ostensivamente provoca desequilíbrios e subversões de toda a ordem, espalhando caos, terrorismo e desagregação ali onde exercem mais obstinada pressão. (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/o-paralelo-do-choque-martinho-junior.html).
 
Essa plataforma foi também inspiradora de outras iniciativas em busca da paz no mundo, inclusive em relação aos Grandes Lagos e República Democrática do Congo, tendo em conta que os componentes regionais (Uganda, Ruanda, Burundi, RDC e Angola), são também membros do Movimento. (https://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/politica/2018/6/29/Angola-participa-reuniao-para-paz-seguranca-dos-Grandes-Lagos,c7d7aae0-7ebb-45a5-b807-32437b7d0a6f.html).
 
 

 

02- A aproximação dos Não-Alinhados à emergência que promove o multilateralismo é, depois do que se convencionou chamar de “Guerra Fria”, uma força de atracção decorrente, tanto mais quando, com a Venezuela no exercício da coordenação nos últimos três anos, o império da hegemonia unipolar radicalizou suas intenções de domínio ao ponto de voltar a evocar a Doutrina Monroe para justificar o arregimentar de seus meios por toda a América, instrumentalizando-os nos seus bárbaros propósitos. (https://www.hispantv.com/noticias/venezuela/433559/movimiento-alineado-rusia-eeuu-unilateralismo).
 
À subversão da democracia, a Venezuela responde enquanto país Não-Alinhado com a integradora Doutrina Bolivariana, fazendo-a renascer 200 anos depois da saga das lutas pela independência, por que em pleno século XXI é a independência, a soberania, a busca de diálogo e de consensos nos relacionamentos internos e internacionais, assim como a paz que estão em causa. (http://noticias.ciudadccs.info/arreaza-venezuela-libra-segunda-gesta-libertaria-historia/).
 
A paz não é apenas a ausência de tiros, por que a paz só pode ser construída com organizações sociais abrangentes e partícipes no caudal da democracia, protagonizando as mais legítimas aspirações populares e a incessante busca por justiça social. (https://www.laprensalatina.com/los-no-alineados-cargan-contra-ee-uu-y-defienden-el-multilateralismo/).
 
Aos caminhos de civilização integradora a que se propõe a Doutrina Bolivariana, a bárbara Doutrina Monroe, excludente e determinada no domínio do império sobre os outros americanos tem procurado em vão impor-se. (https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/america-latina/54730/o-retorno-da-doutrina-monroe-e-do-big-stick-ensaio-do-trumpismo-na-venezuela).
 
Está-se perante um processo histórico muito sensível na sua dialética e a determinação dos Não-Alinhados nos seus desempenhos deve corresponder aos interesses e às mais legítimas aspirações dos povos, a autêntica trincheira na construção da liberdade!
 
O império da hegemonia unipolar ao recorrer à Doutrina Monroe e sistematicamente ao cacete, esgotou as cenouras… o modo grotesco da conduta de Donald Trump é disso testemunho!

 

 
03- A Reunião de Caracas foi um ponto de situação imprescindível na preparação da Cimeira de Baku, pois o Azerbeijão, apesar de viver outras conjunturas, nas linhas gerais de conduta vai sentir a responsabilidade de dar sequência aos propósitos de mais de 2/3 dos estados que compõem a ONU. (https://www.telesurtv.net/news/venezuela-mnoal-delegaciones-reunion-ministerial-20190719-0034.html).
 
Foi também uma Reunião que serve de antecâmara ao XXVº Foro de São Paulo, que estimulará a solidariedade internacional com a Venezuela Bolivariana, sobretudo ao nível de busca de consensos práticos e integrados de organizações sociais da América. 
 
Recorde-se a propósito as palavras do Comandante Hugo Chavez sobre a responsabilidade do Foro de São Paulo, responsabilidade cuja vigência se continua hoje:
 
“Nos toca a nosotros asumir el papel de vanguardia y tenemos que asumirlo así, compañeros y compañeras, para que nos demos cuenta y tomemos conciencia de la gigantesca responsabilidad que tenemos sobre nuestros hombros, cada una de ustedes compañeras, cada uno de ustedes compañeros, camaradas, nosotros en el Partido Socialista Unido, los partidos aliados, nosotros en el gobierno la inmensa responsabilidad que tenemos… por eso honestamente creo que llegó la hora de convocar a la V Internacional y la convocamos desde Caracas y hacemos un llamado a todos los partidos socialistas revolucionarios, movimientos y corrientes de los que luchan por el socialismo, contra el capitalismo, contra el imperialismo para salvar el mundo” (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/07/23/venezuela-la-internacional-de-los-pueblos-en-lucha/).
 
A aspiração à paz é de primeira grandeza e nos relacionamentos sul-sul a paz está na ordem do dia, sobre a mesa de todos os esforços diplomáticos, por que sendo atirados histórica e antropologicamente para um subdesenvolvimento crónico, as nações e os povos precisam de encontrar caminhos de desenvolvimento sustentável, num momento em que se tem consciência do quanto o homem que realizou a revolução industrial e leva por diante a revolução das novas tecnologias, tem sido bárbaro para com o seu próprio planeta, a casa-comum de toda a humanidade e para com a humanidade!
 
Em Caracas respirou-se e respira-se essa responsabilidade transcendental e em Baku deve-se garantir a continuidade e até o aprofundamento das acções nessa trilha imprescindível para a sobrevivência da civilização e de forma que a barbárie capitalista, aquela arreigadamente mais fundamentalista, mais hipocritamente social-democrata, mais subversivamente neoliberal, seja votada finalmente ao fracasso, dando lugar a um outro mundo que, por via daqueles que lutam pela civilização, se vai para todos tornando possível! (http://noticias.ciudadccs.info/presidente-maduro-participa-reunion-mnoal/).
 
Ainda que sob a constante ameaça do império, em Julho Caracas é a capital mundial da paz!
 
Martinho Júnior - Luanda, 22 de Julho de 2019
 
Imagens:
.01- Exterior do lugar da Reunião do Movimento Não Alinhado, em Caracas, a 20 e 21 de Julho de 2019; 
.02- Intervenção do Presidente Nicolas Maduro na Reunião dos Não-Alinhados em Caracas;
.03- Aspecto da sala e dos representantes de 110 países membros do Movimento dos Não-Alinhados, 2/3 dos membros da ONU.
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/nao-alinhamento-activo-imprescindivel.html

O longo alcance do Clube Bilderberg

Assinalou-se este ano o 65º aniversário da formação do Clube Bilderberg, também conhecido como Grupo Bilderberg ou Conferência Bilderberg. Segundo a versão oficial, nasceu da iniciativa de “eminentes cidadãos” dos EUA e da Europa, mas como veículo de apoio à NATO contra a URSS terá conhecido desde a primeira hora um forte incentivo dos principais serviços secretos dos dois lados do Atlântico (a CIA e o MI6) e mesmo depois da Queda do Muro de Berlim manteve esse mesmo papel de apoio à estratégia dos EUA/NATO.

 

Muito tem sido escrito ao longo dos anos sobre este areópago de ilustres que anualmente se reúnem num país diferente e em local adequado à sua protecção e ao secretismo com que desde sempre se procuraram proteger. Ainda assim é crescente o número de investigadores e pesquisadores – entre os quais é impossível não destacar o nome do jornalista lituano Daniel Estulin (que tem desenvolvido um trabalho de investigação em torno do Clube Bilderberg, sendo o autor de uma das obras mais aclamadas sobre o assunto: o seu «Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg» que tem edição portuguesa das Publicações Europa-América, revela boa parte da natureza das reuniões mantidas em vários locais do mundo, bem como a sua possível influência sobre as grande decisões políticas, económicas e sociais desde a sua primeira reunião em 1954) – que têm procurado transmitir-nos uma visão confiável das suas actividades. Fruto desta actividade, há já uma década que se escrevia nas páginas do TIMES ON LINE a propósito da reunião desse ano do Grupo Bilderberg: «Não digam a ninguém, não espalhem a informação, mas os mais poderosos do mundo vão novamente encontrar-se secretamente, para salvarem o planeta da catástrofe económica»…

Mas até o habitual humor britânico parece insuficiente para dar uma verdadeira imagem do que anualmente acontece nas reuniões para as quais são convidados cerca de centena e meia de representantes do mundo político, económico, militar, dos meios de comunicação social e dos serviços secretos, provenientes quase exclusivamente da Europa Ocidental e da América do Norte, que participam a título pessoal nos encontros à porta fechada que têm lugar em países diferentes e em super luxosos hotéis protegidos por fortes sistemas de segurança. Não é permitida a presença a nenhum jornalista ou observador, nenhum comunicado de imprensa é publicado e contrariando a “transparência” que proclamam é imposto aos participantes uma regra de silêncio draconiana.

Esta política de exclusividade e secretismo tem sido a característica desde a primeira hora de uma iniciativa lançada com o alto patrocínio do príncipe Bernardo da Holanda (a quem alguns investigadores apontam ligações ao III Reich de Adolf Hitler) ao que se diz para combater a crescente influência na Europa de políticas antiamericanas, que ganhou o nome a partir do local onde se realizou a primeira reunião – o Hotel Bilderberg, na vila holandesa de Oosterbeek – e que tem sido mantida em grande parte graças à conivência dos meios de informação cujos proprietários ou grandes decisores são membros activos ou convidados regulares.

A reunião anual do Clube Bilderberg, o selecto “clube” que já teve em Junho de 1999 uma reunião no Caesar Park Hotel Penha Longa, em Sintra, juntou este ano a elite da plutocracia em Dresden e que se propôs (segundo a sua página oficial) debater os seguintes temas:

  1. Uma ordem estratégica estável
  2. O que se segue para a Europa?
  3. Mudança climática e sustentabilidade
  4. China
  5. Rússia
  6. O futuro do capitalismo
  7. Brexit
  8. A ética da Inteligência Artificial
  9. O uso dos Meios de Comunicação como arma
  10. A importância do Espaço
  11. Ameaças cibernéticas

teve entre as presenças mais regulares e importantes a dos americanos: Henry Kissinger, “figura histórica” do núcleo que criou o grupo com o banqueiro David Rockefeller (também fundador da Comissão Trilateral, falecido em 2017) e James Baker, ex-secretário de Estado de Ronald Reagan e George Bush e actual conselheiro do Pentágono. Entre as figuras da actualidade destaque-se: Mike Pompeo, ex-chefe da CIA e actual Secretário de Estado; David Petraeus, general e ex-chefe da CIA; Jared Kushner, amigo íntimo do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, genro do presidente Donald Trump e seu conselheiro para o Médio Oriente. Entre os políticos “estrangeiros” note-se a participação do reconduzido Secretário Geral da OTAN, o norueguês Jens Stoltenberg; de Annegret Kramp-Karrenbauer, a recém escolhida presidente da CDU alemã e sucessora indigitada da chanceler Angela Merkel; do presidente do Partido Popular espanhol, Pablo Casado; do ministro francês das finanças, Bruno Le Maire, e do ex-primeiro ministro italiano, Matteo Renzi.

A lista conta mais de uma dúzia de personalidades ligadas ao mundo da imprensa (cerca de 10% dos participantes), com particular destaque para Javier Monzón, o presidente do grupo editorial espanhol Prisa, e para Martin Wolf, director do muito influente Financial Times; dentro da mesma linha de difusão de “informação” saliente-se ainda a presença dos historiadores Timothy Garton Ash (inglês) e do americano Niall Ferguson.

A conferência é o destaque do ano para uma elite plutocrata que se reúne para ouvir, uns quantos (poucos) para serem ouvidos e um terceiro grupo para ser “reconhecido”; sobre os dissertantes recorde-se que opinam sobre as crises que eles próprios criam e controlam, seja mediante claras manipulações dos famigerados “mercados”, seja mediante o controlo que exercem sobre os aparentes centros de decisão política (governos) e financeira (grandes bancos), enquanto sobre a última categoria importa referir a presença do ex-presidente da Comissão Europeia e actual presidente do Goldman Sachs International, Durão Barroso, que se fez acompanhar do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, cuja participação se poderá inserir na lógica de apresentação de primo-ministeriáveis credíveis, há semelhança das verificadas em anos anteriores com José Sócrates, Pedro Santana Lopes, Durão Barroso, António Guterres e António Costa (todos candidatos confirmados a chefiar governos) ou, para referir só os mais recentes e que ainda não alcançaram o Olimpo, Ferro Rodrigues, Manuel Ferreira Leite, Paulo Rangel, Paulo Portas e António José Seguro.

Daniel Estulin cita no seu livro entre as “investiduras mais famosas: a eleição de Bill Clinton em 1992, depois deste ter participado na reunião de 1991; depois de ter assistido à reunião de 1993, Tony Blair, foi escolhido como líder dos Trabalhistas, em 1994, e primeiro-ministro em 1997; o ex-Secretário-geral da NATO, Jorge Robertsom, eleito para o cargo em 1999 depois de ter participado na reunião de 1998; a escolha de Romano Prodi para presidente da Comissão Europeia em Setembro de 1999, poucos meses após ter participado na reunião desse ano. Não mencionado por aquele investigador (a publicação do livro é de data bem anterior), existem fontes que admitem a possibilidade de Barack Obama e Hillary Clinton também terem participado (pelo menos em parte) da reunião que em 2008 teve lugar no estado norte-americano de Virgínia

É claro que o objectivo da reunião esteve muito para além destas, ou doutras, “investiduras” (recorde-se, por exemplo, os convites de 2014 ao actual presidente da República francesa Emmanuel Macron, para este anunciar a sua ruptura com François Hollande, ou em 2016, quando o então presidente da câmara de Le Havre e actual primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, pronunciou o seu apoio a Emmanuel Macron) e o facto é que embora agora um pouco menos “secreta”, já que nos últimos anos aumentou substancialmente o escrutínio público sobre o Bilderberg a ponto de em 2013 ter passado a haver uma assessoria de imprensa não oficial, nem por isso os seus membros deixam de continuar a influenciar, para o melhor e o pior, os destinos dos milhares de milhões de cidadãos do planeta a quem continuam a recusar o direito de fazer ouvir as opiniões e de cumprir as vontades.

E para o conseguirem (porque o custo duma organização desta natureza é directamente proporcional ao estatuto e qualidade dos participantes) beneficiam, como escreveu Charlie Skelton neste artigo do jornal inglês The Guardian, do apoio de uma «…instituição de caridade registada oficialmente como a Associação Bilderberg…» que felizmente «…recebe regularmente quantias de cinco dígitos de dois gentis apoiantes dos seus benevolentes objectivos: a Goldman Sachs e a BP». Dúvidas sobre o verdeiro objectivo duma cimeira que junta a nata da finança e da indústria mundial com os seus dilectos representantes (os políticos que fazem, ou querem fazer, eleger pelas populações) e alguns jornalistas (criteriosamente seleccionados e ligados aos influentes The Economist ou do Financial Times) para ouvirem gurus como Henry Kissinger (membro da Comissão Trilateral e ex-secretário de estado de Richard Nixon e Gerald Ford), são tanto mais justificadas quanto é espesso o manto de silêncio que tem coberto as anteriores iniciativas.

Distantes parecem os tempos em que se falava sobre os “segredos” que então se tentavam preservar através do elitismo dos participantes e das densas cortinas de desinformação e segurança policial que rodeavam o “clube”, adensando a ideia de que este pretenderá esconder mais do que candidamente deixa transparecer; situação que se mantém na actualidade, bastando recordar que alguns dos seus membros regulares e mais proeminentes ou pertencem à elite plutocrata ou participam noutras organizações – como a já referida Comissão Trilateral – e em “think tanks” com reconhecidos papéis interventivos na definição das grandes linhas da política mundial (como é o caso do conceituado Council on Foreign Relations), pelo que as referidas medidas de abertura e transparência continuarão a não passar de mera manobra de contra-informação a quem interessa ver escolhidas as opções e aplicadas as medidas que melhor os protegem ou melhor servem os seus interesses.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-longo-alcance-do-clube-bilderberg/

Um mundo sem fronteiras? – Boaventura

Brutal paradoxo: os mesmos que exigem “liberdade” para o dinheiro e as redes sociais empenham-se em construir muros que segregam os “não-seres”. Mas até nestes linhas de exclusão brota resistência — talvez, desesperada esperança…

Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras

Vivemos num tempo de abolição de fronteiras ou num tempo de construção de fronteiras? Se tivermos em conta dois dos poderes ou instrumentos que mais minuciosamente governam as nossa vidas – o capital financeiro e a internet – é inescapável a conclusão de que vivemos num mundo sem fronteiras. Qualquer tentativa de qualquer dos 195 Estados que existem no mundo para regular estes poderes será tida como ridícula. No atual contexto internacional, a avaliação não será muito diferente, se a regulação for levada a cabo por conjuntos de Estados, por mais ominoso que seja o provável desenlace da falta de regulação. Por outro lado, se tivermos em conta a incessante construção ou reafirmação de muros fronteiriços, facilmente concluímos que, pelo contrário, nunca as fronteiras foram tão mobilizadas para delimitar pertenças e criar exclusões. Os muros entre os EUA e o México, entre Israel e a Palestina, entre a Hungria e a Sérvia, entre a Crimeia e a Ucrânia, entre Marrocos e o povo saharaui, entre Marrocos e Melila/Ceuta aí estão a afirmar o dramático impacto das fronteiras nas oportunidades de vida daqueles que as procuram atravessar.

Esta ambivalência ou dualidade do nosso tempo não é nova. Para nos restringirmos ao mundo ocidental, podemos dizer que ela existe desde o século XV, no momento em que a expansão transatlântica europeia obriga a vincar os poderes gêmeos de eliminar e de criar fronteiras. O Tratado de Tordesilhas de 1494 regulava a liberdade marítima dos reinos de Portugal e de Castela, ao mesmo tempo que excluía os outros países do comércio oceânico, o mare clausum. Quando, em 1604, lhe contrapõe a doutrina do mare liberum, Hugo Grotiustem tem em vista disputar as fronteiras existentes para as substituir por outras, mais condizentes com as aspirações da emergente Holanda. Na mesma lógica de conveniências, Francisco de Vitória, ao mesmo tempo que defendia a soberania dos países ibéricos, defendia que o direito de livre comércio se sobrepunha a qualquer pretensão de soberania dos povos das Américas.


Desde o Renascimento do século XV até ao Iluminismo do século XVIII vai-se afirmando a universalidade sem fronteiras da humanidade e do conhecimento, ao mesmo tempo que se vão vincando as fronteiras entre civilizados e selvagens, entre colonizadores e colonizados, entre livres e escravos, entre homens e mulheres, entre brancos e negros. Immanuel Kant advoga a ideia do Estado universal, berço de todo o cosmopolitismo eurocêntrico, um século depois de a Europa se ter retalhado entre países soberanos no Tratado de Vestefália de 1648. Foi essa a única forma de garantir a coexistência pacífica entre poderes e religiões que se tinham guerreado de modo bárbaro na guerra dos trinta anos, onde morreu um milhão de pessoas. Um século depois de Kant, as potências europeias, apostadas em garantir a expansão sem limites do capitalismo emergente, reúnem-se em Berlim para desenhar as fronteiras na partilha de África, sem que obviamente os africanos sejam ouvidos. O relato poderia continuar com a instabilidade crônica das fronteiras da Europa de Leste e dos Balcãs e a massiva deslocação forçada de populações decorrente do colapso do império Otomano. Por sua vez, nos nossos dias, o espaço Schengen ilustra bem como o mesmo poder pode simultaneamente eliminar e criar fronteiras. Enquanto, para os europeus incluídos, este espaço tornou as fronteiras internas num antiquado impedimento felizmente superado, para os não-europeus, as fronteiras externas tornaram-se uma montanha opaca e burocrática, quando não um pesadelo kafkiano.

Todas as situações conduziriam à mesma conclusão: as fronteiras são instrumentais e são sempre expressão do poder de quem as define. Por sua vez, a violação das fronteiras ou é expressão de um poder emergente que se pretende sobrepor ao poder existente, ou é expressão daqueles que, sem terem poder para redefinir ou eliminar as fronteiras, as atravessam sem autorização de quem as controla.

Sendo instrumentais, as fronteiras são muito mais que linhas divisórias geopolíticas. São formas de sociabilidade, exploração de novas possibilidades, momentos dramáticos de travessia, experiências de vida fronteiriça, linhas abissais de exclusão entre ser e não ser, muros de separação entre a humanidade e a sub-humanidade, tempos-espaços de exercício de poder arbitrário e violento. Neste domínio, o que melhor caracteriza o nosso tempo é a diversidade de experiências de fronteira, a aceleração dos processos sociais, políticos e culturais que erigem e derrubam fronteiras, a valorização epistemológica do viver e pensar fronteiriços e os modos de resistência contra fronteiras consideradas arbitrárias ou injustas.

Vejamos algumas situações paradigmáticas. A travessia das fronteiras tanto pode ser uma experiência banal, quase irrelevante, como uma experiência violenta, degradante, em que a única banalidade é a do horror quotidiano. Do primeiro caso são paradigmáticas as travessias quotidianas, para comércio e convivialidade, das comunidades africanas que foram separadas por fronteiras arbitrárias depois da Conferência de Berlim em 1894-95; dos povos indígenas da Amazónia que têm parentes dos dois lados da fronteira dos vários países amazónicos; ou das “gentes da raia” entre Portugal e a Espanha (sobretudo na Galiza). No segundo caso, há que distinguir entre travessias quotidianas e de duplo sentido e as travessias singulares ou as experiências reiteradas e frustradas das travessias imaginadas, umas e outras como de sentido único. Das primeiras são paradigmáticas as travessias quotidianas dos palestinos a caminho do trabalho em Israel, através dos infames check-points, onde podem passar horas ou não passar, em qualquer caso vítimas do mesmo poder violento, arbitrário e totalmente opaco. Das segundas são paradigmáticas as travessias logradas ou frustradas dos milhares de emigrantes, ou melhor, de fugitivos da fome, da miséria, das guerras e das mudanças climáticas que atravessam a América Central a caminho dos EUA, ou naufragam no Mediterrâneo ao cruzá-lo a caminho da Europa. Nestas travessias, as temporalidades históricas tanto se dramatizam como perdem sentido. Estes peregrinos da deserança moderna, capitalista, colonial e patriarcal, fogem para o futuro ou fogem do futuro? Vêm do passado ou vão para o passado? São filhos da espoliação colonial que tentam libertar-se da devastação que ela criou ou são projetos de carne jovem para reescravizar, desta vez nos interiores das fachadas das avenidas do glamour metropolitano, e já não nos campos de extermínio nas plantações das colónias?

A sociabilidade de fronteira tanto pode resultar do exercício permanente de deslocação das fronteiras, como da vida suspensa junto a fronteiras fixas e bloqueadas, muros de cimento ou redes de arame farpado. No primeiro caso, a fronteira é definida e deslocada por quem tem poder para tal. É paradigmática a experiência de pioneiros, bandeirantes, emigrantes que, ao longo dos séculos de expansão colonial, foram invadindo e colonizando os territórios dos povos nativos. Por ter acontecido num contexto supostamente pós-colonial, a experiência do far westnorte-americano é particularmente reveladora da linha abissal que a fronteira vai desenhando entre as zonas de ser e a zonas de não ser, como diria Frantz Fanon. Do lado de cá da linha, sempre em movimento, está a sociabilidade dos pioneiros, uma sociabilidade de tipo novo caracterizada pelo uso seletivo e instrumental das tradições e a sua mistura com a criatividade das invenções de convivência que o novo contexto exigia, pela pluralidade de poderes e hierarquias débeis entre os diferentes grupos de pioneiros, pela fluidez das relações sociais e a promiscuidades entre estranhos e íntimos. Do outro lado da linha estão os índios, os donos do território, que os pioneiros convertem em seres inferiores, indignos de tanta abundância, obstáculos ao progresso, a serem superados com a inexorável conquista do Oeste. De um lado da fronteira, a convivência, do outro, a violência. A matriz moderna da construção paralela de humanidade e de desumanidade tem aqui uma das suas mais dramáticas e violentas ilustrações.

Por sua vez, a sociabilidade das fronteiras bloqueadas está hoje bem presente nos campos de internamento de refugiados que se vão multiplicando em vários países europeus e em países associados para o efeito, como é o caso da Turquia. São, na verdade, campos de concentração dos novos presos políticos do nosso tempo, os presos políticos do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado, populações consideradas descartáveis ou sobrantes para estas três formas de dominação moderna que hoje parecem mais agressivas que nunca.

As fronteiras são as feridas incuráveis e expostas de um mundo sem fronteiras. O único motivo de esperança que elas nos permitem é a emergência de movimentos e associações de jovens que se rebelam contra as fronteiras e se solidarizam ativamente com as lutas dos migrantes e refugiados. Não praticam ajuda humanitária, envolvem-se nas suas lutas, facilitam a comunicação entre os migrantes, exploram meios legais e ilegais de os libertar destas infames prisões. Estes jovens constituem a melhor manifestação da desesperada esperança do nosso tempo.

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/um-mundo-sem-fronteiras-boaventura.html

Análise: no mundo há várias 'linhas de frente' onde se sente o 'bafo' de Washington

Militares norte-americanos
© AFP 2019 / Nikolay Doychinov

O analista Andrei Suzdaltsev revelou, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik, sua opinião que a visita do chanceler da Venezuela a Moscou foi muito oportuna.

Caracas apela a Washington que dialogue e respeite o direito internacional, informou a chancelaria da Venezuela no final do encontro entre os chanceleres russo e venezuelano.


O analista e professor da Escola Superior da Economia russa Andrei Suzdaltsev partilha o mesmo ponto de vista em relação à situação, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik

Podemos ver que uma abordagem por parte dos EUA direcionada ao diálogo para resolver a crise na Venezuela não tem a ver com esta administração estadunidense, opina o analista.

"No mundo há várias 'linhas de frente' quentes onde se sente o 'bafo' de Washington. Além da Venezuela, elas são a Síria, Ucrânia, etc. Em todas essas direções os EUA não mostram vontade de se sentarem à mesa das negociações e buscarem algum tipo de compromisso", disse Andrei Suzdaltsev.

A administração do presidente norte-americano se verificou ser incapaz de atuar no palco internacional, afirmou o analista.

"Há muitas campanhas de propaganda, 'demonstrações da força', [os EUA] enviam constantemente forças de porta-aviões para todo o mundo, mas ainda nenhum problema foi resolvido", declarou ele.


A administração dos EUA conta abertamente com que o líder da oposição venezuelana Juan Guaidó encabece o país, afastando o presidente legitimo Nicolás Maduro, considera Andrei Suzdaltsev.

Ele revela sua opinião que a visita a Moscou do chefe da chancelaria da Venezuela foi muito oportuna, porque ela recordou a Washington que sua política é contraproducente.

"Esse encontro em Moscou com o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, que teve lugar um dia antes do encontro do chanceler russo, Sergei Lavrov, com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, foi muito oportuno, especialmente depois das tentativas de realizar um golpe de Estado na Venezuela", concluiu o analista Andrei Suzdaltsev.

O encontro entre Lavrov e Pompeo tem lugar em 6 de maio, na Finlândia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019050613820511-analise-mundo-varias-linhas-frente-sente-bafo-washington/

ODiario.info » O Sri Lanka no Grande Jogo dos EUA e da Índia contra a China

Os recentes atentados no Sri Lanka ganham um significado especial se se considerar a importância geopolítica do país, e as disputas de influência na zona. Um processo em que a ingerência e a conspiração por parte dos EUA se exercem num tabuleiro particularmente volátil, perigoso e complexo

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Por que cada vez mais países retiram reservas de ouro dos EUA?

Barras de ouro (imagem de arquivo)
© AP Photo / Michael Probst

Durante décadas, muitos países guardaram suas reservas de ouro nos EUA. Porém, a situação está mudando. No ano passado vários países, incluindo a Turquia, Alemanha e Holanda, retiraram seu ouro armazenado nos EUA e outros Estados estão considerando a mesma ideia.

A colunista da Sputnik Natalia Dembinskaya revelou que ainda há uma década cerca de 60 países guardavam suas reservas de ouro nos EUA, principalmente para garantir a segurança das suas reservas em caso de uma guerra e para aumentar a liquidez, porque os maiores negócios com ouro são realizados na Bolsa de Mercadorias de Nova York (NYMEX).

Guardar o ouro nos EUA permitia reduzir gastos de transporte, que são muito altos no caso de metais preciosos devido a seguros caros, e os Estados decidem pagar esses custos apenas em uma situação econômica ou política excepcional. O fato de que em 2018 a Turquia, a Alemanha e a Holanda retiraram seu ouro armazenado nos EUA e que a Itália está considerando essa medida significa que essa situação poderia estar chegando.


Além disso, nos últimos tempos têm aumentando as dúvidas sobre se os EUA guardam o ouro dos outros países adequadamente.

Segundo o Departamento do Tesouro americano, os EUA continuam guardando 261 milhões de onças de ouro. No entanto, pela última vez a auditoria dessas reservas foi realizada nos anos de 1960. Depois disso, todas as tentativas de realizar uma nova inspeção foram bloqueadas pelo Congresso, afirma Dembinskaya.

Há quem suponha que os americanos usam o ouro estrangeiro em seus próprios interesses: alugam-no aos bancos que operam com ele no mercando para controlar o preço do metal precioso.

"Isso levanta uma questão: se Washington está pronto para devolver em qualquer momento o ouro que não pertence aos EUA. Para não arriscar, cada vez mais países retiram o seu ouro", explicou a analista.

A vaga de retiradas começou em 2012, quando a Venezuela decidiu retirar dos EUA todas as 160 toneladas do seu ouro no valor de nove bilhões de dólares. Naquela época, o presidente Hugo Chávez declarou que é necessário fazer regressar os lingotes à Venezuela para não se tornarem reféns e em um meio de pressão de Washington. Essa previsão do presidente venezuelano se tornou realidade em 2018: o Banco da Inglaterra recusou ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, um pedido para entregar 1,2 bilhão de dólares em barras de ouro.


Em 2014 o Banco Central da Holanda retirou de Nova York 20% das suas reservas de ouro (naquela época 50% das reservas holandesas estavam guardadas nos EUA), argumentando que guardar metade das reservas de ouro no mesmo lugar é imprudente e inadequado. Entretanto, os analistas estão certos: o país continua retirando seu ouro dos EUA para não depender das ações imprevisíveis do presidente dos EUA, Donald Trump.

O Deutsche Bundesbank, banco central da Alemanha, também lançou um programa de retirada do seu ouro dos EUA em 2012. Além disso, em abril de 2018, a Turquia retirou 27,8 toneladas de seu ouro guardado nos EUA.

Segundo Dembinskaya, as razões de refluxo do ouro estrangeiro das caixas-fortes americanas são evidentes: o aumento das taxas de juro nos EUA, a pressão contra euro e outras moedas, o aumento dos riscos geopolíticos e as guerras comerciais desencadeadas por Washington.

Em meio a isso, a economia global está tentando reduzir sua dependência do dólar americano e aposta no ouro como um ativo seguro, e já não o confia aos EUA: Washington, que usa a pressão financeira cada vez mais frequentemente, poderia simplesmente congelar os ativos dos países "indesejáveis" para os EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019042413748043-por-que-cada-vez-mais-paises-retiram-reservas-ouro-eua/

«OS CÃES LADRAM; A CARAVANA PASSA...»

                              China’s Belt and Road Continues to Win Over Europe While Technocrats Scream and Howl

https://www.strategic-culture.org/news/2019/04/20/china-belt-road-continues-win-over-europe-while-technocrats-scream-howl.html
Enquanto as forças militaristas dos EUA e da NATO e seus lacaios continuam a gabar-se da sua «força», conduzindo guerra após guerra, sanção após sanção, sob os mais variados e falsos pretextos, a comunidade das «Novas Rotas da Seda» vai-se alargando, nos seus projectos e nas suas adesões, em particular de países da Europa Central. Uma cimeira 16+1, reuniu 16 chefes de estado europeus com a China, no passado dia 12 de Abril.  Antes, no passado dia 26 de Março, houve a adesão da Itália (3ª economia da Eurolândia, a seguir à Alemanha e França) às Novas Rotas da Seda.  No final de Abril, haverá a segunda cimeira das Novas Rotas da Seda [second Belt and Road Summit ], que terá lugar em Pequim e envolverá 126 nações.
É um facto que estes desenvolvimentos estão a moldar o futuro imediato e longínquo do mundo. Porém, a media corporativa, subserviente, não dá o devido destaque, menoriza, distorce, ou simplesmente oculta aquilo que desagrada aos seus patrões dos grandes conglomerados mediáticos, associados à banca e negócios, incluindo os mafiosos partidos ditos «de poder».
Se quisermos saber o que realmente importa, em termos globais, não temos outro remédio senão nos socorrermos, ou da media dos países do Oriente, ou da media alternativa, confinada a uma mão cheia de sites na Internet.

É esta a «liberdade de informação», que os potentados que monopolizam o poder, reservam aos seus cidadãos no «Ocidente».  Por isso mesmo, eles podem continuar (durante quanto tempo?) a manter as aparências. Mas, a cidadania terá de acordar e ver que as «democracias liberais» se transformaram em regimes destituídos da liberdade de informar ou ser informado.  Querem inclusive fazer-nos crer que «democracia» seja sinónimo de estados policiais, bélicos, opressores, uma evolução prevista pelo genial Orwell. Nestes regimes, apenas resta a «liberdade», vazia, de depor um voto na urna, de tantos em tantos anos, para eleger A ou B ou C, todos eles lacaios das grandes corporações...

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A estratégia do Caos Encaminhado

A estratégia do Caos Encaminhado
Manlio Dinucci*

Como um cilindro compressor, os Estados Unidos e a NATO alastram pelo mundo a estratégia Rumsfeld/Cebrowski de destruicão das estruturas estatais dos países não integrados na globalização económica. Para concretizá-la, usam os europeus aos quais fazem crer numa alegada “ameaça russa”. Ao fazê-lo, incorrem o risco de provocar uma guerra generalizada.

Tudo contra todos: é a imagem mediática do caos que se alarga à mancha de petróleo na costa sul do Mediterrâneo, da Líbia à Síria. Uma situação perante a qual até Washington parece impotente. Na realidade, Washington não é um aprendiz de feiticeiro incapaz de controlar as forças postas em movimento. É o centro motor de uma estratégia - a do caos - que, ao demolir Estados inteiros, provoca uma reação em cadeia de conflitos a serem utilizados de acordo com o critério antigo - “dividir para reinar”.

Tendo saído vitoriosos da Guerra Fria, em 1991, os USA autoproclamaram-se “o único Estado com uma força, uma escala e uma influência, em todas as dimensões - política, económica e militar - verdadeiramente global”, propondo-se “impedir que qualquer poder hostil domine uma região - Europa Ocidental, Ásia Oriental, o território da antiga União Soviética e o Sudoeste Asiático (Médio Oriente) - cujos recursos seriam suficientes para criar uma potência global”. Desde então, os EUA e a NATO sob o seu comando, fragmentaram ou demoliram com a guerra, um após outro, os Estados considerados obstáculos ao plano de domínio global - Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria e outros - enquanto mais alguns (entre os quais o Irão e a Venezuela) ainda estão na sua mira.


Nessa mesma estratégia está incluído o golpe de Estado na Ucrânia, sob direcção USA/NATO, com o fim de provocar na Europa, uma nova Guerra Fria, a fim de isolar a Rússia e fortalecer a influência dos Estados Unidos na Europa.

Enquanto a atenção político-mediática se concentra no conflito na Líbia, deixa-se na sombra o cenário cada vez mais ameaçador da escalada da NATO contra a Rússia. A reunião dos 29 Ministros dos Negócios Estrangeiros, convocada em 4 de Abril, em Washington, para celebrar o 70º aniversário da NATO, reiterou, sem qualquer prova, que “a Rússia viola o Tratado INF, instalando, na Europa, novos mísseis com capacidades nucleares”.

Uma semana depois, em 11 de Abril, a NATO anunciou que neste verão haverá uma “actualização” do sistema USA Aegis de “defesa antimíssil”, instalado em Deveselu, na Roménia, assegurando que a mesma actualização “não oferece nenhuma capacidade ofensiva ao sistema”. Este sistema, instalado na Roménia e na Polónia e a bordo de navios, pode lançar não só mísseis interceptores, como também mísseis nucleares.

Moscovo advertiu que, se os EUA instalarem mísseis nucleares na Europa, a Rússia distribuirá no seu território, mísseis idênticos apontados para as bases europeias. Consequentemente, aumentam as despesas para a “defesa” da NATO: os orçamentos militares dos aliados europeus e do Canadá, aumentarão até 2020, para 100 biliões de dólares.

Os Ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, reunidos em Washington, em 4 de Abril, comprometeram-se em particular, a “enfrentar as acções agressivas da Rússia na região do Mar Negro”, estabelecendo “novas medidas de apoio aos nossos parceiros chegados, a Geórgia e a Ucrânia”. No dia seguinte, dezenas de navios e caça bombardeiros dos Estados Unidos, Canadá, Grécia, Holanda, Turquia, Roménia e Bulgária iniciaram um exercício de guerra naval da NATO, perto das águas territoriais russas, usando os portos de Odessa (Ucrânia) e Poti (Geórgia).

Ao mesmo tempo, mais de 50 caça bombardeiros dos Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, França e Holanda, decolando de um aeroporto holandês e reabastecidos em voo, exercitavam-se em “missões aéreas ofensivas atacando alvos em terra ou no mar”. Por sua vez, bombardeiros italianos Eurofighter serão enviados pela NATO, para patrulhar novamente a região do Báltico contra a “ameaça” dos aviões russos.

A corda está cada vez mais tensa e pode quebrar-se (ou ser quebrada) a qualquer momento, arrastando-nos para um caos muito mais perigoso do que o da Líbia.

Na imagem: O Presidente romeno, Klaus Iohannis, declara abertas as manobras dos exercícios de fogos reais da NATO “Sea Shield 2019”.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/a-estrategia-do-caos-encaminhado.html

SÍNDROMA DE CORPO INERTE

1- A contraofensiva da hegemonia unipolar ao sabor do “the americans first” ciosa do papel do petrodólar, manifesta-se a pleno vapor e à escala global, no momento em que os Estados Unidos passam a 1º produtor mundial de petróleo e gaz de xisto.
Neste momento, com todos os instrumentos em progressão (diplomáticos, de inteligência, no âmbito do seu relativo domínio nas novas tecnologias e consolidando o “lobby” energético-armamentista que tradicionalmente suporta os republicanos) os Estados Unidos pretendem ser o mais evidente “reitor” das tão frágeis quão subservientes articulações de relacionamento internacional em função das aptidões hegemónicas...
Capitalismo produtivo, proteccionismo e um novo vigor vinculativo do sistema de choque brutal e influência, constituem eixos de acção no âmbito da hegemonia unipolar, versão Donald Trump e isso conduziu, mais que antes, à simplificação entre contrários, numa confrontação entre dois grupos de contingência: Estados Unidos – China.
A versão de capitalismo financeiro transnacional está em recuo, salvo em relação ao papel dos que accionam o terrorismo e o caos em algumas regiões pontuais do globo, como o caso dos redutos de resistência nas Américas (Cuba, Venezuela e Nicarágua).
Essa “simplificada” redundância coroa em função das contramedidas dos Estados Unidos em curso, a visão da contradição hegemonia unipolar versus multilateralismo!

 
No caudal das opções, ninguém escapa à feroz batalhada IIIª Guerra Mundial, duma forma ou de outra, a começar pelos imperativos sistemas de vassalagem dum lado e de persuasiva integração articulada do outro…
Mesmo assim, o capim vai sendo pisado pelos dois elefantes, provocando por vezes dramáticas alterações de curso, como é por exemplo o caso angolano, na ultraperiferia e na “reserva de matérias-primas e mão-de-obra barata” a que é remetida África!...
2- Os países que albergam bases estado-unidenses, de acordo com o presidente Donad Trump, vão passar a pagar os “bons serviços” da protecção hegemónica, algo que trará elevados custos às componentes europeias da NATO, a alguns países latino-americanos e ao Japão.
Quem se aninhar à protecção, terá de pagá-la e os “caloteiros” serão penalizados, conforme os “avisos à navegação” de acordo com a recém-inaugurada fórmula “Cost Plus 50”...
Trata-se de mobilizar recursos em jeito de contraofensiva, em torno da pirâmide estrutural do projecto hegemónico, de forma a prevenir a persuasão chinesa das “novas rotas da seda” que se vão estendendo por dentro do supercontinente euroasiático desde os portos chineses do Pacífico, até aos portos da costa atlântica da União Europeia.
Nessa mobilização de recursos pelo prisma do Presidente de turno nos Estados Unidos, é inevitável o salto da indústria armamentista, ela própria conectada às indústrias energéticas, que providenciará a aplicação acelerada de novas “aliciantes”, tendo em conta os impactos das novas tecnologias, aumentando os gastos nas novas armas e conceitos militares, refazendo arsenais quando o mundo tanto necessita de construir civilizadamente a paz e o respeito inadiável para com o planeta.
As tensões na Europa do Leste, em particular entre o Báltico e o Mar Negro com fulcro continental na Ucrânia, estão na ordem do dia…
Os Estados Unidos procuram inviabilizar no Báltico o projecto Nord Stream 2, colocando em cheque a Alemanha, tentando persuadir ao mesmo tempo a venda de seu petróleo e do seu gaz, a serem transportados por navios num serviço costa-a-costa por dentro do dilecto espaço físico-geográfico da NATO, o Atlântico Norte.
Os Estados Unidos aumentam a pressão do petrodólar sobre o euro, de forma a procurar reforçar as duas moedas sincronizando-as em torno de projectos estritamente comuns…
Os Estados Unidos reforçam o papel de charneira da Polónia, dos países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia) e da Ucrânia, mobilizando os vassalos da NATO em função da manobra que implica a concentração de unidades estratégicas junto às fronteiras com a Federação Russa, tida como ariete ocidental das transcontinentais novas rotas da seda…
Os Estados Unidos alimentam um contencioso especial de manobras e veladas pressões para com a Turquia, atraída para o campo multilateral a ponto de cometer o “sacrilégio” de adquirir armamento russo de quarta geração, rompendo com os cânones da NATO…
Os Estados Unidos impulsionam seus meios no Iémen, desde a coligação em torno da Arábia Saudita, até à Al Qaeda, por que se é obrigado a transigir no Golfo Pérsico (agora face à aproximação do Iraque ao Irão), pretende que o Mar Vermelho continue a ser um “mare nostrum”…
Os Estados Unidos aumentam a sua presença reorganizando suas forças e suas bases na Europa do Leste, Médio Oriente Alargado (onde o Irão tende a ser um dos alvos principais para o apêndice fulcral que constitui Israel reforçado pelas monarquias arábicas sunitas wahabitas)…
… e mesmo assim os Estados Unidos estão em vias de se retirar do Afeganistão, quando a Ásia Central baldeia a favor das novas rotas da seda…
3- No extremo oriente e África a manobra está também convulsiva:
A China reforça aceleradamente o seu potencial militar e de intervenção nos mares e regiões circundantes…
A China joga procurando diluir o contencioso radical entre o Paquistão e a Índia no Caxemira, quando apesar de tudo os dois estados passaram a ser membros activos da Organização de Cooperação de Shangai.
A China atrai à sua causa o Japão e a Coreia do Sul, países industrializados com capacidades de expansão nas suas conexões de relacionamento económico internacional, que não vão poder recusar, por causa da dinâmica de suas opções, participação nas novas rotas da seda, apesar das âncoras que os Estados Unidos lhes colocaram desde a IIª Guerra Mundial e Guerra da Coreia…
A China, abrandando o potencial de sua presença na ultraperiferia que é África, começa a investir na Síria, no Irão e no Iraque, reforçando as conexões a sul das novas rotas da seda, alargando a amplitude dos projectos já em curso na Ásia Central e Sibéria, (neste caso no miolo geoestratégico da Federação Russa, entre o leste e o oeste)…
A China cria a sua primeira base militar geoestratégica, no Djibouti, à entrada do Mar Vermelho e acesso à passagem do Suez, no Egipto, de forma a reforçar a vigilância sobre as conexões marítimas das novas rotas da seda entre o Índico Norte e o Mediterrâneo Oriental…
A China acaba de queimar os últimos cartuchos dos homens-de-mão que controlavam os clãs coloniais “híbridos” de Macau e de Hong Kong em África, (entre eles Sam Pa cuja visibilidade maior, por via do China International Found, foi em Angola), de forma a começar a estender os interesses de suas poderosas empresas estatais que numa primeira fase se começaram a implicar na África Oriental (Etiópia, Djibouti, Quénia e Tanzâna), em dircção ao miolo do continente (Grandes Lagos, Republica Democrática do Congo e Zâmbia)…
4- Nas Américas a batalha acende-se.
A administração de Donald Trump está a mobilizar as oligarquias tradicionais latino-americanas da Doutrina Monroe e procura isolar os focos que procuravam integração e articulação, como Cuba, Venezuela e Nicarágua, em manobras de contingência geométrica e intensidade variável, mas procurando bloquear, comprimir ou isolar, onde não conseguem vencer…
De facto a potencialidade de novas rotas da seda conectando o México ao Cabo Horn nunca existiram e as novas rotas da seda idealizadas pelo comandante Hugo Chavez, conectando em projectos articulados e integração a Venezuela ao Cabo Horn, foram guardadas nos baús, face à sua ofensiva…
O projecto do novo canal na Nicarágua enfrenta obstáculos de toda a ordem, alguns deles inesperados, tornando-se em mais um projecto protelado nas Américas…
Mesmo na ultraperiferia que são os pequenos estados insulares das Caraíbas, os termos da pressão dos Estados Unidos tornaram-se arrogantes nos exercícios que são distendidos em Porto Rico e no Haiti, tal como aliás em relação à América Central…
Os Estados Unidos tiram partido do que estão brutalmente a realizar contra as iniciativas energéticas lançadas pelo Comandante Hugo Chavez (PDVSA, CITGO, PETROCARIBE e sistema hidroeléctrico venezuelano em rede), sabendo que as conexões integradoras bolivaianas são inteligentes linhas resistentes aos projectos da hegemonia…
Nas Américas os BRICS sofreram violação com a eleição do fantoche Bolsonaro no Brasil e o multilateralismo está obrigado a uma porfiada e resoluta defensiva, desde a Bolívia a Cuba, comprimidas que também estão as organizações que compõem o sistema social progressista nas Américas, com uma única resposta em contrapartida: o México, que renunciou ao neoliberalismo e sente os efeitos na fronteira comum com os Estados Unidos, fronteira essa alvo das medidas de barragem em desespero de causa, do âmbito do “the americans first”…
5- Mesmo na ultraperiferia africana as coisas não se passam pacificamente em termos geoestratégicos e a comprovar estão vários casos dramáticos: Sahel, Sudão e… Angola… com uma África do Sul, a única componente africana dos BRICS, a constituir-se num caso aparte ainda que secundário em relação à dinâmica de tensões nas rotas marítimas internacionais…
Na África do Norte, a Líbia não mais se recuperou e a Argélia entrou numa fase de incertezas de prognóstico reservado, enquanto o Egipto garante aos Estado Unidos, desde que os militares voltaram ao poder, uma fluência inteligente adequada, tendo em conta o carácter do canal do Suez…
No Sahel após a destruição da Jamahiriya Árabe Líbia em 2011, distenderam-se as linhas de disseminação fundamentalistas-sunitas-wahabitas do Senegal à Somália…
O AFRICOM multiplica, face a essas redes muito móveis, as suas pequenas articulações operativas em jeito de resposta, mantendo a pressão“soft” duma guerra psicológica manipulada e cada vez mais abrangente, com “parceiros africanos” impotentes e sem melhor alternativa, ao mesmo tempo que contribui para a defesa das raras infraestruturas geoestratégicas dos seus vassalos europeus, como acontece com o urânio da AREVA no neocolonizado Níger (Agadez)…
Na África do Oeste (Sahel adentro), a neocolonial “FrançAfrique” é peça fundamental nos parâmetros da hegemonia unipolar em África, controlando sobretudo um sistema económico e financeiro de padrão neocolonizado que interessa às conexões da NATO com o AFRICOM, expostas aliás recentemente, ainda que de forma breve e acintosa, por alguns membros do governo italiano…
Os interesses económicos e financeiros da França são em África de tal maneira poderosos e de tendência aglutinadora que o seu feudo se estende ao poder do Paribas sobre as redes de bancos comerciais europeus, africanos e até estado-unidenses, em matéria de transacções energéticas no continente e dele para fora…
O Sudão pagou o preço da resistência: foi dividido e agora está absorvido pelo caudal de interesses das monarquias arábicas e de Israel, fornecendo contingentes para a guerra no Iémen, ainda que espreite a viabilidade de outras janelas, como aconteceu recentemente na Síria…
A região produtora de petróleo tornou-se “independente”, fraccionando o Sudão em desrespeito aos postulados da Conferência de Berlim, enquanto a saída para o mar do petróleo para exportação é feito pelo Norte, via Porto Sudão, no Mar Vermelho, pressionando com esse fracionamento os interesses chineses…
Em Angola se acabaram os efeitos perniciosos dos “lóbis” interconectados de Macau e Hong Kong, de tipologia social-democrata, a China entrou em perda precisamente na altura do alinhamento angolano até agora sem melhores alternativas, com o capitalismo produtivo segundo Donald Trump, que está a aproveitar a ofensiva contra a corrupção que foi sobretudo implantada no âmbito do capitalismo financeiro transnacional que as administrações democratas neoliberais, particularmente a de Barack Hussein Obama, injectaram previamente desde antes do Acordo de Bicesse a 31 de Maio de 1991, desde Março de 1986, há 33 anos…
Não foi por mero acaso que a saída do Presidente José Eduardo dos Santos e a entrada do Presidente João Lourenço, foi um processo contemporâneo às tensas transformações internas nos Estados Unidos (entrada do republicano Donald Trump, protecionista e reitor do capitalismo produtivo e a saída do democrata Obama, reitor do capitalismo financeiro transnacional, neoliberal e interessado directo na expansão de caos, terrorismo e desagregação a fim de, com isso, abrir espaço aos interesses transnacionais)…
A “reconversão” angolana está a ser feita com visibilidade “dramática”, não sendo transparente na sua profundidade e nela nos seus enredos humanos, ou seja na profundidade dos nexos dos interesses económicos e financeiros, tendo em conta que, apesar de estar inserida numa ultraperiferia, Angola continua a ser uma peça importante em relação ao fornecimento das matérias-primas e alvo de ferozes disputas das potências geoestratégicas com ementas tão diferenciadas (hegemonia unipolar versus multilateralismo), o que passa já por tensões internas nas suas elites, quase sempre em “circuitofechado”…
A intensidade do jogo que está a ser feitos sobre o capim em que se tornou Angola enquanto órfão dum socialismo que não houve, com todo o tipo de ingerências e manipulações que aproveitam as portas escancaradas do país, esbate-se na forja do projecto de criação duma elite angolana que tende a evoluir para a construção duma oligarquia, ainda que tudo isso esteja ainda longe de atingir maturação…
Neste momento o processo angolano tende a afastar-se do multilateralismo e enquadrar os processos da hegemonia unipolar, o que é decorrente da deriva do processo histórico interno, de há 33 anos a esta parte…
O papel adjacente e “transversal” de inteligência económica e financeira de Portugal, nutrindo processos de assimilação que advêm desde o tempo do tráfico de escravos por via da arregimentação de clãs e famílias “afins”, vão procurando alinhar no comprometimento dessas elites que em parte são compostas de famílias “tradicionais” aptas aos circuitos do poder desde então instalado em Luanda (desde os tempos das feitorias transformadas em portos de embarque de escravos na costa ocidental africana)…
Sobre os laços que vêm de longa a avassalada luso-ingerência sócio cultural, o regime oligárquico português trabalha como poucas ingerências para além da inteligência económica, na formatação mental dos angolanos e na superestrutura ideológica afeita às conveniências das patrocinadoras aristocracia financeira mundial e avassalada social-democracia portuguesa, ela própria constituída em regime desde o 25 de Novembro de 1975, ambas em níveis distintos, mas aptas à permissibilidade de “correias de transmissão” da NATO, da União Europeia e do AFRICOM…
Compreendem-se bem os silêncios, por exemplo em relação às prementes necessidades de renascimento africano, em relação à antropologia e à história das raízes transatlânticas do movimento de libertação desde a revolução dos escravos do Haiti (as elites angolanas são particularmente avessas ao conhecimento sobre o Haiti) e em relação à minha proposta de geoestratégia para um desenvolvimento sustentável com fulcro na região central das grandes nascentes…
6- Com toda a sensibilidade do sul, sobretudo África manifesta o síndroma de corpo inerte própria de capim exposto às elefantinas tensões globais contemporâneas entre a hegemonia unipolar e o multilateralismo e não é por acaso que não surge qualquer manifestação de novas rotas da seda por dentro do seu miolo… tudo se passa à ilharga e África até parece um contingente que não existe, sobrevivendo de tragédia em tragédia em profunda crise existencial!
Mesmo as poucas iniciativas infraestruturais estão desgarradas, sem força de integração e articulação, ainda que estejam inseridas em regiões como a da SADC, onde a África do Sul continua a gerir mais os interesses próprios no âmbito do “lóbi” dos minerais e cartel dos diamantes, assim como os dum quadro internacional alargado no Atlântico Sul e Índico Sul remotos, até à Antártida!...
As atávicas “missões internacionais” da África do Sul são visões contemporâneas da velha trilha da British South Africa Company, sob o génio de Cecil John Rhodes (“do Cabo ao Cairo”), pelo que nem com a entrada nos BRICS o poder económico e financeiro eminentemente elitista e indexado ao “loby” dos minerais e ao cartel dos diamantes, mudou de feição no que a África diz respeito…
O fenómeno Botswana comprova-o, como se comprova os raios de influência que fluem persuasivamente a partir desse Botswana enquanto plataforma, para uma região de expansão com 519.000 km2, que conforma desde já o KAZA-TFCA (Kavango Zambezi Trans Frontier Conservation Area), com os olhos nas kimberlites angolanas que se espalham mais a norte, incluindo as kimberlites que existem no solo onde se travaram alguns dos cruciais confrontos no âmbito da batalha decisiva do Cuito Cuanavale, em que o “apartheid” foi vencido, soçobrando em todos os seus projectos desumanos e ambições até se eclipsar…
As imensas dificuldades das elites africanas actuarem sobre as raízes de suas crises existenciais profundas, estão muitas delas a descoberto, conferindo noção às ambiguidades, fragilidades e vulnerabilidades tropicalizadas (próprias de relógios e motores a dois tempos) dum tal sistema democrático-representativo nas condições de elites que disputam espaço nas conjunturas duma ultraperiferia…
Os equilíbrios globais estão cada vez mais longe de ser alcançados e as tensões no sentido da barbárie sobrepõem-se ao que, no quadro duma lógica com sentido de vida se poderia já hoje estar a realizar para a afirmação duma civilização global!
Face a um cada vez mais próximo abismo, cujos sinais são a cadência de fenómenos naturais radicalizados e cada vez mais radicalizados actos de barbárie humana, face a uma África que, conforme testemunhava Agostinho Neto, continua hoje a parecer “um corpo inerte onde cada abutre vem depenicar o seu pedaço”, a consciência crítica de que me animo permite-me avisar, ainda que minha sobrevivência o tenha sido sempre bem no âmago do síndroma de corpo inerte: amanhã será tarde demais!
Martinho Júnior - Luanda, 22 de Março de 2019, dia mundial da água
Imagem: … sendo água, vida, há um caldo que se entorna…

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/sindroma-de-corpo-inerte.html

Fim da “Pax Americana”… Que se Segue?

Coisas que os economistas não perceberam, não percebem e nem parece que consigam alguma vez vir a perceber …

… mas que, no entanto, são simples, como muito bem demonstra o nosso velho amigo Peter Zeihan nas linhas abaixo.

“What the Americans have done in the post-World War II era is to vastly expand continuity via the global Order. Instead of specialization and interaction being limited to the internal affairs of individual nations, the Americans imposed security on the global system. Think of Europe, a place where dozens of ethnicities have fought wars with one another for millennia. (…) The civilizational process is reaching for its ultimate, optimal peak. But “optimal” is not the same thing as “natural.” The Americans deliberately forced the Order into existence to fight the Cold War. The Americans have a deep continuity and large economies of scale without the Order, but the global system is wholly artificial. Making matters worse, the Order does not and cannot maintain itself. Someone must pay the bill to keep it going, and the American right, the American left, and the American center have lost interest and are all arguing for a more constrained American role in the wider world. No one else has the spare economic heft or the large market or the globe-spanning naval capacity to force an Order. Break the global continuity and everything that makes our world work quickly cracks apart…”

O sistema da “pax americana”, criado pelos Estados Unidos e seus aliados vencedores da II Guerra Mundial, no pós-1945, está esgotado e mostra-se impotente para responder aos desafios que a evolução das realidades, nestas primeiras duas décadas do século XXI, já lhe colocou e lhe continua a criar todos os dias. Donald Trump foi apenas o miúdo que gritou que o rei ia nu quando toda a gente lhe elogiava as vestes…

A grande questão, a mãe de todas as questões, é saber o que se segue a esta “pax americana”.

Ao modelo saído da vitória na II Guerra, segue-se novo modelo de “pax americana” (com o primado da potência marítima e, portanto, do comércio aberto e da circulação livre, da liberdade e da democracia, como desde o tempo de Péricles e da potência marítima de Atenas se começaram a entender) ou, pelo contrário, segue-se outra coisa, como, por exemplo, um modelo de domínio imperial de potência continental, cujas características estão nos antípodas das que são próprias das potências marítimas?

O jogo a decorrer é esse…


Exclusivo Tornado / IntelNomics


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https://www.jornaltornado.pt/fim-da-pax-americana-que-se-segue/

Olhar um pouco mais além

A concretização do Brexit, sob qualquer das formas que possa vir a assumir, a par com a decisão da administração de Donald Trump de cortar com uma série de tratados e acordos internacionais parecem claros sinais de ruptura com um modelo de organização internacional que orientou o Mundo do pós-guerra.

Aquele Mundo onde os EUA assumiram um papel de hegemonia com o Acordo de Bretton-Woods, reforçado após a Queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS, mas que parece agora de uma extremamente curta duração (quase tão curta como a do Reich que derrotou e pretendia durar mil anos) e ainda maior instabilidade.

Esta sensação de instabilidade é aliás sintoma do desaparecimento gradual de todos os laços da estabilidade conhecida no Mundo do pós-guerra (organizações internacionais, tratados, alianças, etc.), de que a denúncia do tratado INF (Intermediate-Range Nuclear Forces) entre russos e americanos é apenas um exemplo. Visto como um sinal de potencial confronto leste-oeste, merece ser observado com maior detalhe, tanto mais que o primeiro gesto de crítica ao acordo surgiu de Moscovo e o principal visado na nova situação pode bem ser uma China que, mantida fora daquele acordo, disso mesmo beneficiou no seu processo de armamento, ou até uma Europa que deverá perder os “benefícios” do chapéu-de-chuva nuclear norte-americano e enfrentar as suas próprias (e específicas) necessidades de defesa e de projecção de força.

Num período em que se questionam os próprios fundamentos do paradigma mundial, aceleram-se as inevitáveis convulsões ao nível dos sistemas financeiro, monetário, democrático e de governança e enquanto nos aproximamos do ponto de não retorno continua a fazer-se sentir a ausência das lideranças esclarecidas que orientem o processo.

Assistimos a isso mesmo na denúncia americana do Acordo de Paris para o combate às alterações climáticas ou na questão venezuelana, com as ameaças de uma invasão norte-americana para desapear Nicolas Maduro do poder no que será a contrapartida para uma Síria abandonada aos russos, naquela que poderá ter sido uma tentativa (mais  uma…) para levar turcos e iranianos a um acordo com sauditas e israelitas para construir um projecto de paz no Médio Oriente; assistimos também a avanços e recuos naquela que foi a fracassada tentativa norte-americana de projectar os sauditas para a liderança regional e para um acordo de paz na região que está agora a culminar com a perda do controle saudita na guerra do Iémen, onde até já o moderado regime marroquino (tradicional aliado saudita) abandonou a coligação sunita que tem combatido a facção iemenita dos houthis.

Noutras latitudes temos a promessa de paz coreana, apesar da mais recente Cimeira entre Trump e Kim ter terminado abruptamente e sem acordo, que entregará o controlo da região a russos e chineses, quando as negociações ditas comerciais entre estes e americanos devem estar a incluir outras realidades como princípios de co-governança e partilha do Mundo, acabando por se transformar numa espécie de Yalta 2, o recente acto terrorista na fronteira indo-paquistanesa na Caxemira que aumenta os riscos de guerra indo-paquistanesa (duas potências nucleares deixam a guerra à distância de um erro de cálculo) e reforça o estigma internacional contra os muçulmanos enquanto esquece as provocações e perseguições do BJP (o partido nacionalista do primeiro-ministro Narendra Modi) que procura beneficiar do atentado nas próximas eleições através de uma clivagem religiosa que polarize o eleitorado, ou o Brexit que obrigará à redefinição dos princípios de cooperação entre os estados europeus que poderá criar a oportunidade para que estes encontrem novas margens de actuação, como indica o exemplo do recém criado INSTEX (o Instrument Support of Trade Exchanges é o novo mecanismo de pagamentos internacionais criado, em finais de Janeiro deste ano, pela Alemanha, França e Reino Unido para assegurar o comércio com o Irão) que além de afrontar a decisão norte-americana de aplicar sanções económicas ao Irão ainda revela a capacidade dos países europeus verem além do Brexit.

Estas boas notícias não eliminam, porém, os pontos de fricção que persistem na UE, como o movimento dos “coletes amarelos”, a crise diplomática franco-italiana a eles ligada ou a delicada situação catalã, que serão até sintoma dos próprios tempos de transição, mas um sintoma onde germinam as agendas radicais dos “populistas” e as agendas de segurança das tecnocracias que podem acabar com a Europa de liberdades que conhecemos.

Apesar de continuarem por abordar as delicadas questões da regulamentação financeira e da liquidação dos offshores, também nesta área surgem sinais de mudança que poderão contribuir para a resolução de alguns dos seus crónicos problemas, como sejam as criptomoedas; isto apesar das dúvidas e dos riscos a elas associados, embora até já o FMI fale nos novos ventos da digitalização, e toda a revolução que poderão trazer as fintech (empresas de inovação tecnológica nos serviços financeiros) com a promessa de simplificação de alguns dos serviços burocráticos e caros disponibilizados pelos bancos, passando a resolver tudo numa empresa muito mais prática, rápida, barata e descomplicada.

A tudo isto a imprensa ocidental pouca atenção tem prestado, continuando mais preocupada em julgar e criticar que em informar e explicar as questões complexas e as políticas enfrentadas pelas nossas sociedades e pelos seus líderes.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/olhar-um-pouco-mais-alem/

EUA são ultrapassados pela China e vêem Rússia se aproximar em ranking de liderança global

Presidente chinês Xi Jinping e presidente russo Vladimir Putin visitam exposição no âmbito do Fórum Econômico Oriental em Vladivostok, na Rússia
© Sputnik / Mikhael Klimentyev

O mundo tem mais confiança nos líderes da China do que no presidente Donald Trump, enquanto a Rússia está agora empatada com os Estados Unidos em termos de liderança global, mostrou uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira (28).

A pesquisa Gallup "Rating World Leaders: 2019" descobriu que a confiança nos líderes da China ultrapassou os EUA em 2018, com uma liderança de índice médio de aprovação de 34%. É a maior pontuação de Pequim desde 2009, observou a Gallup.

Enquanto isso, o índice de aprovação da Rússia subiram para 30% em 2018, acima dos 27% registrados no ano anterior. Dessa forma, pela primeira vez, Moscou está quase em pé de igualdade com Washington, segundo a pesquisa.


A visão da liderança dos EUA se estabilizou depois de cair para um recorde de baixa de 30% em 2017, o primeiro ano da presidência de Trump. De acordo com a pesquisa, a média do índice de aprovação global da liderança dos EUA em 133 países e áreas permaneceu estável em 31% em 2018.

"Como o equilíbrio global do soft power continua mudando, pode ser ainda mais difícil para os EUA combater essa influência e permanecer relevante na segunda metade da presidência de Trump, a menos que a administração possa solucionar algumas das dúvidas que parceiros e aliados dos EUA têm sobre o seu compromisso", disse a Gallup.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alemanha permaneceu como a potência global mais bem cotada. No entanto, o índice de aprovação do país caiu para 39% em 2018, a primeira pontuação abaixo de 40% desde 2009.

A Gallup entrevistou 1.000 pessoas em cada um dos 133 países para avaliar as opiniões globais sobre a China, a Alemanha, a Rússia e os EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2019022813408004-eua-china-russia-geopolitica/

Entre guerra mundial e outro mundo possível

Estudo sugere: capitalismo ingressou em fase desintegradora: caos político e desastres ambientais ampliam riscos de grande conflito global. Mas é também a brecha para sacudir estruturas que parecem eternas

Nafeez Ahmed | Outras Palavras | Tradução: Marianna Braghini

Um economista sênior da Comissão Europeia alertou que uma Terceira Guerra Mundial é “extremamente possível” nos próximos anos, dada a desintegração do capitalismo global.

Em um artigo (“From Integrated Capitalism to Disintegrating Capitalism. Scenarios of a Third World War”) publicado mês passado [19/1], o Professor Gerhard Hanappi afirmou que desde o crash financeiro de 2008, aeconomia global tem se distanciado de um capitalismo “integrado” e caminhado para uma mudança “desintegradora” marcada pelos mesmos tipos de tendências que precederam as guerras mundiais anteriores.

Hanappi é professor do Instituto para Modelos Matemáticos em Economia da Universidade de Tecnologia de Viena. Ele também compõe o comitê de administração do grupo de especialização em Riscos Sistêmicos na rede de pesquisas sobre Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia, financiada pela União Européia.


Em seu novo artigo, Hanappi conclui que as condições globais carregam inquietantes paralelos com tendências anteriores à eclosão da I e II Guerras Mundiais. Os sinais-chaves de que podemos estar escorregando para um terceiro conflito global incluem, segundo ele:

o aumento inexorável de gastos militares;

as democracias tornando-se Estados policiais crescentemente autoritários;

o aumento de tensões geopolíticas entre grandes potências;

o ressurgimento do populismo entre a esquerda e a direita;

a derrocada e enfraquecimento de instituições globais estabelecidas que governam o capitalismo transnacional;

a ampliação implacável de desigualdades globais.

Estas tendências, algumas das quais eram visíveis no preâmbulo das guerras mundiais, estão reaparecendo de novas formas. Hanappi argumenta que a característica definitiva do período atual é uma transição de uma forma mais antiga de “capitalismo integrado” para uma nova forma de “capitalismo desintegrado”, cujos aspectos mais visíveis emergiram após a crise financeira de 2008.

Na maior parte do século XX, ele diz, o capitalismo global estava em um caminho de “integração” rumo a concentrações maiores de riqueza transnacional. Isso foi interrompido pelos surtos de nacionalismo violento envolvendo as duas guerras mundiais. Depois disso, uma nova forma de “capitalismo integrado” emergiu, baseado em um quadro institucional que permitiu que países industrializados evitassem uma guerra mundial por 70 anos.

O sistema está agora entrando em um período de desintegração. Anteriormente, fraturas dentre o sistema entre ricos e pobres eram superadas “distribuindo um pouco dos ganhos do tremendo aumento dos frutos da divisão global do trabalho às classes trabalhadoras mais ricas nestas nações.” Similarmente, tensões internacionais eram dissipadas por meio de estruturas de governança global e acordos para a regulação do capitalismo.

Mas desde a crise financeira de 2008, a distribuição de riqueza piorou, com o poder de compra das classes médias e trabalhadoras declinando enquanto a riqueza se torna ainda mais concentrada.

O crescimento nos centros ocidentais de capital transnacional está mais vagaroso, na medida em que os antes sacrossantos acordos de comércio internacional estão sendo rasgados. Isso contribuiu para uma reversão ao nacionalismo em que estruturas globais e transnacionais são rejeitadas e os “estrangeiros” demonizados. À medida em que o capital global continua a se desintegrar, estas pressões ampliam-se, particularmente enquanto sua justificativa interna depende cada vez mais em intensificar a competição com rivais externos.

Enquanto o capitalismo integrado dependeu de estruturas institucionais transnacionais que permitiram “exploração estável em nível nacional”, Hanappi argumenta que o “capitalismo em desintegração” vê esta estrutura desagregar-se entre EUA, Europa, Rússia e China, cada qual buscando novas formas de subordinação hierárquica dos trabalhadores.

O capitalismo em desintegração, ele explica, irá recorrer cada vez mais a “poderes coercitivos diretos apoiados por novas tecnologias informacionais” para suprimir tensões internas, bem como uma maior propensão a hostilidades internacionais: “O novo império autoritário demanda confrontação de uns contra os outros, para justificar sua própria estrutura interna de comando inflexível.”

Conflito de Grandes Potências

Hanappi explora três cenários potenciais sobre como um novo conflito global poderia se desencadear. Em seu primeiro cenário, ele explora a prospecção de uma guerra entre as três potências militares mais proeminentes: EUA, Rússia e China.

Todas as três viveram grande aumento dos gastos militares desde o colapso da União Soviética. Uma redução, no caso dos EUA, a partir de 2011, foi revertida sob Trump; a Rússia manteve o aumento e as despesas chinesas crescem rapidamente. Os três países também viveram uma deriva autoritária.

Com base na teoria dos jogos, Hanappi argumenta que o cálculo de que nenhum destes países seria capaz de “ganhar” uma guerra mundial pode estar mudando percepções das lideranças destes países. Segundo uma estimativa, a China tem a maior probabilidade de sobrevivência num conflito global (52%), seguida pelos EUA (30%) e Rússia (18%). Esse cálculo sugere que, das três potências, a China pode ser a que está mais inclinada a ampliar atividades militares hostis diretas que desafiem seus rivais, se perceber uma ameaça direta ao que vê como seus interesses legítimos.

EUA e Rússia, em contraste, podem transferir o foco de suas atividades militares para ações mais encobertas, indiretas e terceirizadas. No caso dos EUA, Hanappi aponta:
“… a estratégia militar de Trump parece incluir a possibilidade de delegar parte da responsabilidade operacional local para vassalos próximos, que recebem apoio maciço de armamentos dos EUA — por exemplo a Arábia Saudita e Israel, no Oriente Médio. A Turquia, um dos braços mais fortes da OTAN na área, é um caso especial. Ela parece ter sido autorizada a destruir um Estado emergente da população curda, o que estaria mais próximo do estilo europeu de governança.”
Há sinais crescentes da intensificação de tensões entre as grandes potências, o que poderia explodir devido a um acidente ou uma provocação imprevista, em um conflito global que ninguém quer.

A guerra comercial entre EUA e China está acelerando, enquanto ambas potências disputam sobre segredos de tecnologia e discutem acerca da crescente presença militar da China no Mar da China Meridional. Enquanto isso, a expansão massiva de Trump da marinha e força aérea dos EUA aponta para a preparação de um grande conflito com China e Rússia.

EUA e Rússia abandonaram um importante acordo nuclear, estabelecido desde a Guerra Fria, abrindo caminho para uma corrida armamentista nuclear. A Coréia do Norte permanece disposta a manter seu programa nuclear em andamento, enquanto o desmantelamento de Trump do acordo nuclear com o Irã desincentiva este país a se desarmar e a relatar sua situação militar exata.

No ano passado, um estudo estatístico da frequencia de grandes guerras na história humana avaliou que os 70 anos da chamada “grande paz” não são um fenômeno comum, sugerindo um período de paz sem precedentes. O estudo concluiu que não havia razão para acreditar que o período de 70 anos não abriria espaço para uma outra grande guerra.

Pequenas guerras, contágio global

O segundo cenário de Hanappi explora a prospecção de uma série de “pequenas guerras civis em diversos países.” Os ingredientes para tal cenário estão enraizados no ressurgimento do populismo nos campos da esquerda e da direita. “Ambas variantes – às vezes implicitamente, outras explicitamente – referem-se a uma forma de Estado histórico nacional passado que se propõem a restaurar,” pensa Hanappi.

Enquanto o populismo de direita remete aos regimes autoritários e racistas estabelecidos na Alemanha e Itália na década de 1930, o populismo de esquerda anseia por retornar ao modelo de “capitalismo integrado” das primeires três décadas após a Segunda Guerra Mundial, o qual combateu a desigualdade inerente ao capitalismo por meio da “rede social” do chamado “estado de bem estar”, bem como de várias formas de intervenção estatal na economia, ainda que num regime de indústria privada.

O problema é que este “capitalismo integrado” já está enredado em suas próprias contradições internas, o que impulsiona a entrada num período de desintegração.

Isso coloca o populismo de esquerda em uma posição sistematicamente mais fraca, pois o populismo de direita pode apontar para os múltiplos fracassos do “capitalismo integrado”: o fracasso em “superar os antagonismos de classe” e o fracasso em “cumprir a promessa de uma vida substancialmente melhor para a maioria das pessoas.” De acordo com Hanappi:
“Os defensores de uma economia integrada são forçados a experimentar novas formas de organização nacional. Formas mais participativas de organização democrática levam mais tempo e, com múltiplos grupos sociais envolvidos, isso pode enfraquecer movimentos diante do populismo de direita. Além disso, a visão de um capitalismo integrado é afetada pelo fato de que muitas pessoas ainda se lembram de sua crise, enquanto a canção da glória nacional que o populismo de direita canta refere-se a um distante passado imaginado, que ninguém jamais viveu”.
Neste contexto, ele argumenta, há potencial para que irrompam guerras civis nacionais entre ramos paramilitares de direita e movimentos de esquerda, num contexto em que ambas as correntes movimento poderiam assumir o poder do Estado e entrar em conflito com a oposição.

Hanappi alerta para a possibilidade de um efeito de “contágio” regional ou global, se estas irrupções ocorrem dentro de uma escala de tempo similar. Nesse cenário:

“A mobilidade fluida de agentes políticos nacionais, os criadores de movimentos populistas, choca-se com a rigidez das terríveis restrições econômicas globais. Este é o acidente que provoca guerras locais. ”

Insurgência global dos pobres

O terceiro cenário de Hanappi sugere que nos próximos anos, o mundo tende a encarar uma série “movimentos de independência” e “anti imperialistas”, “protestos de massa pró-reformas estruturais, contra governos nacionais” e “insurreições armadas” ou “insurgências” associadas à duas ideologias em particular, “marxismo” e “islamismo”.

De acordo com Hanappi, a plausibilidade desse cenário pode ser encontrada nas “trajetórias profundamente divergentes de bem-estar das partes pobres e de regiões ricas da economia mundial”.

Embora o PIB tenha continuado a crescer globalmente, nas últimas três décadas, as desigualdades de renda e riqueza ampliaram-se em quase todos os países, e tendem a se acentuar ainda mais. Se esse ciclo continuar, é possível uma sintonia de rebeliõpes entre os três bilhões mais pobres, estimulada pela interconectividade das comunicações na era do smartphone.

Hanappi argumenta que, na realidade, as condições globais tornam uma combinação desses três cenários mais provável do que a prevalência de apenas um deles. Ele afirma: “O capitalismo em desintegração não é uma profecia. Sua época já chegou e ele molda a vida cotidiana. O desaparecimento do capitalismo integrado também não é uma previsão. O capitalismo em desintegração dissolve o capitalismo, mas para isso é preciso primeiro destruir o capitalismo integrado, seu antecessor imediato”.

A característica distintiva do capitalismo em desintegração é a sua tendência para estabelecer “restrições nacionalistas e racistas” destinadas a excluir “o que seus líderes definem como uma minoria inferior”, a fim de proteger a acumulação de capital para uma identidade nacional estreita e paroquialmente definida. Antigas instituições capitalistas integradas são abandonadas e novas estruturas de governança mais coercitivas são introduzidas.

Neste contexto, Hanappi conclui que uma terceira guerra mundial “não necessariamente” irá acontecer, mas expressa uma “probabilidade assustadoramente alta”. Evitá-la, ele sugere, requer a adoção de estratégias de contra-ofensiva efetivas, como o movimento de paz global.

Para além da desintegração: o que vem depois?

O diagnóstico de Hanappi é perspicaz, mas em ultima instancia, limitado devido ao seu foco direcionado em economia. Em sua análise falta qualquer referência à crise biofísica que leva à desintegração do capitalismo global: aos fluxos ecológicos e energéticos pelo quais as economias capitalistas funcionam – e portanto os limites naturais (os limites planetários) que estão sendo violados.

Entretanto, sua concepção de “capitalismo em desintegração” — que produz maior propensão ao conflito violento – adere bem a um conceito ecológico mais amplo, do declínio civilizacional, explorado em um recente artigo da geógrafa norte americana Stephanie Wakefield, publicado no periódico Resilience.

Wakefield chama atenção ao trabalho pioneiro de CS Holling, um ecologista de sistemas que argumentou que os ecossistemas naturais tendem a acompanhar um “ciclo adaptativo” consistindo em duas fases, “um loop para frente de crescimento e estabilidade e um loop para trás de liberação e reorganização”.

Ela aponta que enquanto o trabalho de Holling estava focado no estudo de ecossistemas locais e regionais, ainda permanecia a questão de se a ideia do “loop para trás” poderia ser aplicado em uma escala planetária, para entender a dinâmica da transição civilizacional: “Estamos nós em um ‘profundo loop para trás’ que apresenta as mesmas oportunidades e crises que os estudos de loops regionais que descrevemos?”, ele perguntou em 2004.

Wakefield explora a ideia do “loop para trás” do Antropoceno, assinalando uma mudança de fase em que uma ordem, estrutura e sistema de valores particulares, abrangendo a relação da humanidade com a Terra, experimenta uma profunda ruptura e declínio:
“As alegações do domínio humano sobre o mundo estão sendo varridas pela elevação dos mares e pelas tempestades sem precedentes, enquanto os diagnósticos terminais da civilização ocidental proliferam tão rapidamente quanto as fantasias do fim.”
Nesta nova fase, há um paralelo entre a escalada de crises ambientais e a intensificação da ruptura política.
“A lista de pontos de ruptura induzidos por fatores antropogênicos cresce: colapso da pesca; perda de biodiversidade; derretimento das calotas polares e a elevação dos mares; concentrações de CO² atingindo 350 partes por milhão (ppm) e agora 400 ppm; entradas de nitrogênio antropogênico; acidificação dos oceanos e branqueamento de recifes de coral; desmatamento … Mas igualmente e junto com esses processos, desde 2011 também estamos em uma era de tumultos, revoluções, experimentos locais e movimentos sociais que podem parecer insanos, mas são muito reais. “
Mas o paralelo entre a disrupção politica e ambiental não é nenhum acidente. Na verdade, é uma característica fundamental do que Wakefield chama de “loop para trás do Antropoceno”, uma fase de declínio sistêmico que vê o desfiamento da antiga ordem – mas que simultaneamente abre possibilidades para a emergência de um novo sistema.

“Em resumo, uma coisa pareceria clara: nós não estamos mais em um loop para a frente,” escreve Wakefield.

“No loop para frente havia o ‘espaço seguro operacional’ do Antropoceno…este mundo complexo, não linear, de pós-verdade, de fragmentação, fratura, dissolução e transfiguração é o que proponho chamarmos de loop para trás do Antropoceno.”

O loop para frente, então, seria equivalente ao ápice do “capitalismo integrado” de Hanapper, que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e continuou a evoluir por meio da ‘era de ouro’ do crescimento neoliberal, de 1980 ao início dos anos 2000.

Desde então, cada vez mais testemunhamos a erupção das contradições internas neste ‘loop para frente’ do capitalismo integrado, na forma de uma trajetória de desintegração que desencadeia o “loop para trás” do declínio sistêmico civilizacional:

“O loop para trás é nosso presente, o momento de nomear o Antropoceno (como um fracasso), no qual o passado (o loop para frente) não desapareceu, como pontos atrás de uma linha, mas está surgindo de formas imprevisíveis no presente. ”

A fase de desintegração do capitalismo, portanto, faz parte de um “ciclo adaptativo” mais amplo de capital global que agora se encontra à beira de um colapso prolongado. E, no entanto, adotar essa lente do sistema além do pensamento econométrico em uma estrutura ecológica mais profunda nos permite ver mais do que apenas a destruição da velha ordem em jogo, mas, nesse mesmo processo, o surgimento de possibilidades sem precedentes para um novo ‘loop para frente’’:

“Há um conjunto de benefícios em enxergar o Antropoceno através das lentes do ciclo adaptativo, e em particular em ver nosso limiar “atual” de terrenos acidentados, e de modos desconcertados de conhecer e ser como um loop para trás”, sugere Wakefield. “O principal deles é a capacidade de ver o Antropoceno não como um fim trágico ou como um mundo de ruínas, mas uma fase caótica em que novas possibilidades estão presente e o futuro mais aberto do que normalmente imaginamos”.

O reposicionamento de Wakefield sobre condição humana no âmbito do “loop para trás” abre espaço para visualizá-la como parte de uma série histórica mais longa de ciclos civilizacionais de declínio e renovação, nos quais a tarefa diante de nós é abraçar nosso papel em ativar e ampliar as possibilidades para renovação.

Isso significa ir muito além dos modelos convencionais de ‘loop para frente’ de resiliência – transformando as estruturas políticas e econômicas existentes, rompidas, em modelos de resiliência que visem reinventar e redesenhar a nós mesmos e a nossas estruturas:
“Em vez de aceitar o fim da ação humana – e de nos imaginar como vítimas ou administradores do ‘loop para trás’ – afirmo que existe outra possibilidade: decidirmos por nós mesmo, localmente e de maneiras diversas, onde e como habitar o loop para trás”. Habitar requer mais do que “lutar contra ou viver com medo”. Requer um grau de aceitação, achar o próprio lugar no processo: “ser familiar, confortável e envolvido… Um ato cotidiano e habitual, livre, de criação e construção.”
E isso requer reconhecer que estamos nos movendo em um terreno fundamentalmente e desconhecido, o que só pode ser feito dispensando velhos “modos de pensamento e ação do loop anterior.”

No loop para trás, tudo está em aberto – não apenas infraestruturas antigas, mas também ideologias políticas e realidades filosóficas assumidas. E assim, para responder à fase de desintegração do capitalismo e à ameaça de uma guerra global, é preciso irmos além de antigos modelos como a ideia de um “movimento global de paz”. Precisamos de espírito e práticas inteiramente novos e comprometidos com o surgimento de um novo mundo:
“O que o loop para trás nos sugere é que o Antropoceno é agora um momento para explorar de fundamentos do pensar e do agir – e nos abrir para as possibilidades oferecidas aqui e agora. Esse é um espaço operacional “inseguro” porque já ultrapassamos os limites, mas também porque não há projetos transcendentes, confiança ou garantias: a única coisa a fazer é nos tornarmos criadores de novos valores e novas respostas.“
O trabalho de Wakefield nos lembra que, enquanto os perigos de uma terceira guerra mundial estão aumentando no ciclo Antropocênico do capitalismo em desintegração, as oportunidades de renovação, reorganização e reavivamento também emergem rapidamente.

Elas precisam ser compreendidas e assumidas, quer uma nova guerra ecloda ou não. Mais que isso, precisamos trabalhar para soar o alarme, incansavelmente, em todos os níveis, para despertar a consciência sobre a mudança de fase em que nos encontramos como espécie. O que quer que emerja, ao final, não será o fim — estamos diante do alvorecer desconhecido de um novo começo.

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/entre-guerra-mundial-e-outro-mundo.html

Excerto do Vladimir Putin Discurso na Assembleia Federal Russa

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Colegas, a Rússia tem sido e será sempre, um Estado soberano e independente. Isso é um dado adquirido, uma verdade. Sê-lo-á sempre ou, simplesmente, deixará de existir. Devemos compreendê-lo claramente. Sem soberania, a Rússia não pode ser um Estado. Alguns países podem fazê-lo, mas não a Rússia.

Construir relações com a Rússia significa trabalhar em conjunto para encontrar soluções para os assuntos mais complexos, em vez de tentar impor soluções. Não fazemos segredo sobre as nossas prioridades na política externa. Elas incluem o fortalecimento da confiança, o combate às ameaças globais, promoção de cooperação na economia e no comércio, educação, cultura, ciência e tecnologia, bem como facilitar o contacto entre as pessoas. Esses princípios advogam o nosso trabalho na ONU, na Comunidade de Estados Independentes, bem como no Grupo dos 20, nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai.

Acreditamos na importância de promover uma cooperação mais estreita e essencial no interior do Estado da União da Rússia e da Bielorrússia, incluindo na política externa e na coordenação económica. Juntamente com nossos parceiros de integração dentro da União Económica Eurasiática, continuaremos a criar mercados comuns e esforços de disseminação. O que inclui estabelecer decisões para coordenar as actividades da EAEU com a iniciativa ‘Belt and Road’ da China, em direcção a uma parceria eurasiática mais alargada.

Actualmente, as relações iguais e mutuamente benéficas da Rússia com a China, agem como um factor importante de estabilidade nos assuntos internacionais e em termos de segurança euroasiática, oferecendo um modelo de cooperação económica produtiva. A Rússia valoriza a realização do potencial de parceria estratégica privilegiada especial com a Índia. Continuaremos a promover o diálogo político e a cooperação económica com o Japão. A Rússia está pronta para trabalhar com o Japão na procura de termos mutuamente aceitáveis para a assinatura de um tratado de paz. Pretendemos promover laços mais profundos com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Também esperamos que a União Europeia e os principais países europeus finalmente tomem as medidas necessárias para regressar às relações políticas e económicas normais com a Rússia. Os povos desses países estão ansiosos por cooperar com a Rússia, incluindo as corporações, bem como pequenas e médias empresas e empresas europeias em geral. Escusado será dizer que isso serviria aos nossos interesses comuns.

A retirada unilateral dos EUA do Tratado INF é a questão mais urgente e mais discutida nas relações russo-americanas. Por esse motivo é que sou obrigado a falar sobre este assunto com mais detalhes. De facto, ocorreram mudanças preocupantes no mundo, desde que o Tratado foi assinado, em 1987. Muitos países desenvolveram e continuam a desenvolver estas armas, mas a Rússia ou os EUA não o fizeram – limitamo-nos, a esse respeito, por livre e espontânea vontade. Compreensivelmente, esse estado de coisas levanta questões. Os nossos parceiros americanos deveriam tê-lo dito com honestidade, em vez de fazerem acusações forjadas contra a Rússia, para justificar a sua retirada unilateral do Tratado.

Teria sido melhor se tivessem feito o que fizeram em 2002, quando abandonaram o Tratado ABM e o fizeram, aberta e honestamente. Se foi bom ou mau, é outro assunto. Penso que foi mau, mas eles fizeram-no e é o que aconteceu. Desta vez, também deveriam ter feito o mesmo. O que é que eles estão, realmente, a fazer? Primeiro, violam tudo, depois procuram desculpas e acusam a outra parte de ser culpada. Mas também estão a mobilizar os seus Estados satélites que são cautelosos, mas ainda fazem barulho em apoio aos EUA. Ao princípio, os americanos começaram a desenvolver e a usar mísseis de médio alcance, designando-os como “mísseis alvo” para defesa anti-mísseis. Depois, começaram a instalar sistemas de lançamento universal Mk-41, que podem possibilitar o uso de combate ofensivo dos Tomahawk, mísseis de cruzeiro de médio alcance.

Estou a falar sobre este assunto e a usar o meu tempo e o vosso, porque temos de responder às acusações que nos são feitas. Mas tendo feito tudo o que acabei de descrever, os americanos ignoraram, completamente, as disposições previstas pelos Artigos 4 e 6 do Tratado INF. De acordo com a Cláusula 1, do Artigo VI (estou a citar): “Cada Parte eliminará todos os mísseis de alcance intermédio e os lançadores de tais mísseis… de modo que… nenhum desses mísseis e lançadores… será possuído por nenhuma das Partes”. O parágrafo 1 do Artigo VI estabelece que (e passo a citar): “Após a entrada em vigor do Tratado e posteriormente, nenhuma das Partes poderá produzir ou testar em voo, qualquer míssil de alcance intermédio ou produzir quaisquer estágios ou lançadores de tais mísseis”. Fim da cotação.

Ao utilizar mísseis-alvo de médio alcance e ao instalar lançadores na Roménia e na Polónia que são adequados para o lançamento de mísseis de cruzeiro Tomahawk, os EUA violaram abertamente essas cláusulas do Tratado. Eles fizeram-no há algum tempo. Esses lançadores já estão estacionados na Roménia e nada acontece. Parece que nada está a acontecer. Isso é mesmo estranho. Não é completamente estranho para nós, mas as pessoas devem ser capazes de ver e compreender.

Como é que estamos a avaliar a situação neste contexto? Já disse e quero repetir: a Rússia não pretende - e isto é muito importante, estou a repeti-lo de propósito - a Rússia não pretende ser a primeira a colocar esses mísseis na Europa. Se eles realmente forem construídos e instalados no continente europeu, e os Estados Unidos têm planos para fazê-lo, pelo menos não ouvimos o contrário, irá exacerbar dramaticamente a situação de segurança internacional e criará uma séria ameaça à Rússia, porque alguns deles mísseis podem chegar a Moscovo em apenas 10 a 12 minutos. É uma ameaça muito perigosa para nós. Neste caso, seremos forçados, gostaria de salientar, seremos forçados a responder com acções idênticas ou assimétricas. O que é que isto significa?

Estou a dizê-lo, directa e abertamente, agora, para que ninguém possa culpar-nos mais tarde, para que fique claro para todos, com antecedência, o que está a ser dito aqui. A Rússia será forçada a criar e instalar armas que possam ser usadas, não apenas nas áreas onde somos ameaçados directamente, mas também nas áreas que contenham centros de tomada de decisão para os sistemas de mísseis que nos ameaçam.

O que é importante a este respeito? Há alguma informação nova. Estas armas corresponderão totalmente às ameaças dirigidas contra a Rússia nas suas especificações técnicas, incluindo os tempos de vôo para esses centros de tomada de decisão.

Sabemos como fazê-lo e accionaremos esses planos imediatamente, logo que as ameaças para nós se tornarem reais. Não creio que precisemos de mais nenhuma exacerbação irresponsável da situação internacional actual. Não queremos fazê-lo.

O que é que gostaria de acrescentar? Os nossos colegas americanos já tentaram obter superioridade militar absoluta com o seu projecto global de defesa antimíssil. Eles precisam não ter mais ilusões. A nossa resposta será sempre eficiente e eficaz.

O trabalho sobre protótipos promissores e sistemas de armas sobre os quais falei no meu discurso do ano passado, continua conforme programado e sem interrupções. Lançamos a produção em série do sistema Avangard, que já mencionei hoje. Como foi planeado, este ano, o primeiro regimento de Tropas de Mísseis Estratégicos será equipado com o Avangard. O míssil intercontinental super-pesado Sarmat, de potência sem precedentes, está a ser submetido a uma série de testes. A arma laser Peresvet e os sistemas de aviação equipados com mísseis balísticos hipersónicos Kinzhal, deram prova das suas características únicas durante as missões de alerta de teste e combate, enquanto o pessoal aprendia a manobrá-los. No próximo mês de Dezembro, todos os mísseis Peresvet fornecidos às Forças Armadas serão colocados em alerta. Continuaremos a expandir a infraestrutura dos interceptores do MiG-31,com capacidade de transportar mísseis Kinzhal. O míssil de cruzeiro nuclear Burevestnik de alcance ilimitado e o veículo submarino não tripulado nuclear Poseidon, de alcance ilimitado, estão a ser submetidos a testes, com sucesso.

Neste contexto, gostaria de fazer uma declaração importante. Não o anunciamos antes, mas podemos dizer hoje que, nesta primavera, será lançado o primeiro submarino movido a energia nuclear transportando este veículo não tripulado. O trabalho está a prosseguir como foi planeado.

Hoje também penso que posso informar-vos, oficialmente, sobre outra inovação promissora. Como se podem recordar, da última vez eu disse que tínhamos algo mais para mostrar, mas era um pouco cedo para fazê-lo. Então vou revelar, pouco a pouco, o que mais temos na manga. Outra inovação promissora, que está a ser desenvolvida com sucesso, de acordo com o planeado, é o Tsirkon, um míssil hipersónico que pode atingir velocidades de aproximadamente Mach 9 e atingir um alvo a mais de 1.000 km de distância, tanto debaixo d’água quanto no solo. Pode ser lançado a partir da água, de navios de superfície e de submarinos, incluindo aqueles que foram desenvolvidos e construídos para transportar mísseis Kalibr de alta precisão, o que significa que, para nós, não existe custo adicional.

Numa nota relacionada, quero ressaltar que, para a defesa dos interesses nacionais da Rússia, dois ou três anos antes do cronograma estabelecido pelo programa estatal de armamentos, a Marinha Russa receberá sete novos submarinos polivalentes e a construção começará com cinco embarcações projectadas para oceano aberto. Dezasseis embarcações suplementares desta classe, entrarão em serviço na Marinha Russa, até 2027.

Para concluir, sobre a retirada unilateral dos EUA do Tratado sobre a Eliminação de Mísseis de Alcance Intermédio e de Curto Alcance, aqui está o que eu gostaria de dizer: A política dos EUA em relação à Rússia, nos últimos anos, dificilmente pode ser considerada amigável. Os interesses legítimos da Rússia estão a ser ignorados, há campanhas constantes contra a Rússia e cada vez mais sanções, que são ilegais nos termos do Direito Internacional e são impostas sem nenhum motivo. Deixem-me salientar que não fizemos nada para provocar estas sanções. A arquitetura de segurança internacional que tomou forma nas últimas décadas está a ser completa e unilateralmente desmantelada, ao mesmo tempo que refere a Rússia, como sendo, práticamente, a principal ameaça contra os EUA.

Deixem-me dizer abertamente que isso não é verdade. A Rússia quer ter relações sólidas, iguais e amistosas com os EUA. A Rússia não está a ameaçar ninguém e tudo o que fazemos em termos de segurança, é simplesmente uma resposta, o que significa que as nossas ações são defensivas. Não estamos interessados em confrontos e não o queremos, especialmente com um poder global como os Estados Unidos da América. No entanto, parece que nossos parceiros não percebem a profundidade e o ritmo das mudanças em todo o mundo e para onde estão indo. Eles continuam com a sua política destrutiva e claramente equivocada. O que, dificilmente, vai ao encontro dos interesses dos próprios EUA. Mas, não cabe a nós, decidirmos.

Podemos ver que estamos a lidar com pessoas pró-activas e talentosas, mas dentro da elite, há também muitas pessoas que têm uma fé excessiva no seu excepcionalismo e supremacia sobre o resto do mundo. Claro que têm o direito de pensar o que quiserem. Mas eles sabem contar? Provavelmente, sim. Então, deixem que eles calculem o alcance e a velocidade dos nossos futuros sistemas de armas. É tudo o que pedimos: primeiro façam as contas e depois, tomem as decisões que criem novas ameaças perigosas para o nosso país. Escusado será dizer que estas decisões levarão a Rússia a responder a fim de garantir a sua segurança de forma fiável e incondicional.

Já disse e vou repetir: Estamos prontos para entabular conversações sobre desarmamento, mas jamais iremos bater a uma porta fechada. Esperaremos até que os nossos parceiros estejam preparados e conscientes da necessidade de dialogar sobre este assunto.

Continuamos a desenvolver as nossas Forças Armadas e melhorar a intensidade e a qualidade de treino de combate, em parte, usando a experiência que adquirimos na operação anti-terrorista na Síria. Foi adquirida muita experiência por praticamente todos os comandantes das Forças Terrestres, pelas forças de operações secretas e pela polícia militar, pelas tripulações dos navios de guerra, pelo exército, pela aviação táctica, estratégica e de transporte militar.

Gostaria de salientar, novamente, que precisamos de paz para um desenvolvimento sustentável a longo prazo. Os nossos esforços para aumentar a nossa capacidade de defesa têm, apenas, um propósito: garantir a segurança deste país e dos nossos cidadãos, para que ninguém sequer pensar em nos pressionar ou lançar uma agressão contra nós.

Colegas, estamos perante metas ambiciosas. Estamos a abordar soluções de maneira sistemática e consistente, a construir um modelo de desenvolvimento socio-económico que nos permitirá assegurar as melhores condições para a auto-realização da nossa gente e, assim, fornecer respostas adequadas aos desafios de um mundo que está a mudar rapidamente, e estamos a preservar a Rússia como uma civilização e com identidade própria, enraizada em tradições seculares e na cultura do nosso povo, dos nossos valores e costumes. Claro que só seremos capazes de alcançar os nossos objectivos, combinando os nossos esforços, juntamente com uma sociedade unida, se todos nós, todos os cidadãos da Rússia, estivermos dispostos a ter sucesso em empreendimentos específicos.

Tal solidariedade na luta pela mudança é sempre a escolha deliberada das pessoas. Elas fazem essa escolha quando compreendem que o desenvolvimento nacional depende delas, dos resultados do seu trabalho, quando o desejo de serem necessárias e úteis goza de apoio, quando todos encontram um trabalho por vocação com o qual se sentem felizes e o que é mais importante, quando existe justiça e um vasto espaço de liberdade e igualdade de oportunidades de trabalho, estudo, iniciativa e inovação.

Esses parâmetros para desenvolver descobertas não podem ser traduzidos em números ou indicadores, mas são estas coisas - uma sociedade unificada, pessoas envolvidas nos negócios do seu país e uma confiança comum no nosso poder - que desempenham o papel principal para alcançar o sucesso. E, se for necessário, alcançaremos esse sucesso de qualquer maneira.

Grato pela vossa atenção.





Ver original na 'Rede Voltaire'



A hegemonia unipolar retorna em força ao quintal traseiro da América…

… Em força?
1- Ainda como um grande camaleão, a massa bruta instrumental da hegemonia unipolar, no âmbito duma administração republicana de Donald Trump aglutinadora do esforço capitalista alicerçado na produção nacional, faz toque a rebate sob o slogan “the americans first”, concentrando-se todavia, em termos de relacionamentos internacionais, em geoestratégias indexadas aos seus interesses no quintal traseiro da América, por manifestas insuficiências de geoestratégia noutras partes no mundo e na hora das mudanças de orientação suscitadas pelo quadro da nova Presidência dos Estados Unidos.
Um atoleiro de vícios e de armadilhas manifestam-se na hora dessa mudança do capitalismo financeiro transnacional para o capitalismo produtivo nacional, em especial na Europa e na Ásia e o próprio presidente Donald Trump é refém de muitos desses vícios e armadilhas, longe de levar por diante o “the americans first”.
De facto os Estados Unidos, seus aliados-vassalos da NATO, assim como os vassalos da América Latina (na Organização dos Estados Americanos e no Grupo de Lima), ainda não fizeram um balanço sério da derrota no Médio Oriente Alargado e sobretudo na Síria e no Afeganistão, pressupondo que na América Latina estarão a salvo para persistir na hegemonia unipolar!
Seria um momento propício à reflexão, isolada ou colectivamente, mas a força bruta de que são herdeiros e a vitalidade das transnacionais ávidas das riquezas de outros, é má conselheira.
À escala global o capitalismo triunfante e quase solitário nas suas práticas, esmerou-se em vários percursos e as economias de mercado derivam desses percursos agora com duas visões distintas: por um lado a visão da hegemonia unipolar, com o domínio em concentrado nas mãos da aristocracia financeira mundial servida por seu cortejo de oligarquias e elites e por outro um emergente universo multilateral, que resulta da sua intestina contradição, a que se juntam os raros países que possuem uma substantiva visão alternativa de orientação socialista, concentrados na América Latina.
Os Estados Unidos, apesar das mais de 800 bases militares espalhadas pelo globo e as centenas de missões e operações em vivo curso por terra, ar e mar (uma das últimas conhecidas foi por estes dias no Gabão), não possuem mais, claramente, geoestratégias coerentes, particularmente no imenso continente Euroasiático, tal foi a influência nociva e auto destruidora das transnacionais que estimularam as portas abertas neoliberais, as alianças malparadas com o sionismo dos falcões do “apartheid” e a densidade negativa das monarquias arábicas sunitas-wahabitas vocacionadas por via de suas próprias opções à disseminação do caos, do terrorismo e da desagregação indexadas aos Irmãos Muçulmanos e seus derivados.
A mudança dos paradigmas energéticos, numa altura em que é o próprio planeta a estar em risco, influi também nas transnacionais, obrigadas a reconversões, em especial as tradicionais petroleiras anglo-saxónicas do poderoso clã Rockefeller.
Isso é visivelmente sensível na convulsão que se generalizou no Médio Oriente Alargado, mas também sensível na sensação de perda geoestratégica em relação a toda a Eurásia.
As transnacionais para dominarem sob o rótulo da hegemonia unipolar, adoptaram com esses aliados a ementa da divisão (dividir para melhor reinar) e da subversão, uma ementa aliás desde sempre utilizada, fixando-se e obrigando os Estados Unidos a fixarem-se nos empenhos contraditórios entre artificiosos bons e maus de contingência, num processo de ingerências e manipulações que sem remissão levaram à incoerência e à asfixia geoestratégica na Eurásia, particularmente no campo de batalha em que se tornaram o Iraque e a Síria, às portas dum maltratado “aliado” como a Turquia.
Uma luta com o fito de, por via duma hegemonia unipolar, dar cada vez mais lucros, gera o pântano das ilusões inconciliáveis!
O cerco à Rússia e à China, particularmente nas linhas terrestres, foi feito com um padrão de abcessos no Báltico, no Mar Negro, no Cáucaso, no Médio Oriente Alargado e no AfPaq, mas esses abcessos, minados pelo jogo sistemático da exploração das contradições, afastaram-se duma ordem tácita inicial substantiva, resvalando para as miragens pantanosas da desordem, do caos, do terrorismo e da desagregação que vão acabando por apagar a energia das próprias forças, começando a minar os alicerces da própria NATO.
Essa é também uma das razões profundas do “Brexit” e das derivas neofascistas na e à volta da União Europeia!
Enquanto isso, a Rússia, a China e a Índia, instrumentalizaram suas opções por via de tão amplas quão atractivas geoestratégias económicas em busca de consensos que se impõem por si sem perder coerência nos vínculos que possibilitam criar e nas pressionantes disputas em função de sua expansão, como acontece sintomaticamente no cronicamente desarticulado Médio Oriente Alargado.
A substituição do esforço oficial da “coligação” para um esforço tutelado pelas mãos privadas desencadeadas pela e a partir da aristocracia financeira mundial, feito numa altura em que a especulação financeira acompanhava os procedimentos económicos, político-diplomáticos, de inteligência e os militares, conduziu a pantanosas derrotas ainda que as transnacionais obtivessem imensos lucros, em particular aquelas transnacionais que davam corpo aos sistemas de armamento, da energia e da exploração mineral, fundamentos dos “lobbies” democrata e republicano.
A barbárie multiplicou-se em tantas barbaridades que minou o seu próprio chão de coerência!
Têm sido essas ilusões de óptica que têm conduzido à mentira e às “fake news” de que os media controlados pela aristocracia financeira mundial são campeões!...
Esse rei vai de tal maneira nu, que o próprio presidente Donald Trump não se coíbe de chamar a atenção para essas“fake news”, ainda que o faça à maneira dos interesses e das conveniências do capitalismo nacional que o colocou no poder!
2- É em África e na América Latina onde as geoestratégias dos Estados Unidos nos seus relacionamentos externos perderam menos coerência (em termos da visão da aristocracia financeira mundial) também por que sujeitas a menos caos, terrorismo, desagregação e desgaste autoinfligido no engodo do cerco à Rússia e à China, ou por que esses universos humanos são culturalmente mais simplificados em seus estágios de desenvolvimento e de auto afirmação.
Desse modo garantem ainda, ao mesmo tempo, seus próprios sistemas de alianças formados por complexas formatações“tradicionais” de vassalagem, que assimilaram com outra fluência os contraditórios tácitos próprios dum neocolonialismo que em algumas regiões sucedeu-se sem meios-termos ao colonialismo (por exemplo no Oeste de África, no Sahel e um pouco na África Central, por via do papel inteligente pacientemente elaborado a partir das “redes Foccard” da “FrançAfrique”).
Em África a instrumentalização do AFRICOM e da NATO, tendo vínculos preparados com muito mais à vontade (e livres das mais incisivas contramedidas directas russas e chinesas como acontece na Eurásia) sobretudo com o concurso da França, da Grã-Bretanha e da Itália (antigas potências coloniais carregadas de experiências “no terreno”) está a produzir capacidades neocoloniais quase ilimitadas, inteligentemente camufladas, persuasivas e tanto quanto o possível recorrendo às culturas garantes de “soft power” e assimilação, numa rede de difícil percepção, até pelos estímulos que cria e recria nos termos do delineamento e acção da guerra psicológica de baixa intensidade em tempo de disseminação de democracias representativas e seus conteúdos próprios das sociedades de consumo inscritas nos mercados globais.
O neocolonialismo deita mão mais que nunca ao consumismo gerado nas democracias representativas, formatando em conformidade a mentalidade humana de sua inteira conveniência e obstruindo assim a formação da consciência cidadã e das potencialidades de sua capacidade crítica, participativa e de protagonismo.
Na América Latina o arrumar dos processos de domínio é também ainda possível nesse plasma que tanto tem a ver com o passado da barbárie do capitalismo transnacional, refazendo a Doutrina Monroe em função do recurso às novas tecnologias instrumentalizadas em novos jogos úteis que até permitem manter funções típicas e objectivos do capitalismo neoliberal apesar do “the americans first”.
Na inércia que o anima, o poder retrógrado manifesta-se de tal modo que na contradição estão aqueles que abriram janelas na direcção do socialismo, a fim de os obrigar a fechar!
A riquíssima Venezuela tornou-se pois um alvo dilecto a tomar e os episódios nesse sentido vão-se sucedendo a ponto de, precisamente na mesma altura da tomada de posse no seu segundo mandato do presidente Nicolas Maduro, a transnacional EXXON-Mobil fazer mais uma provocação em mares nacionais, dando azo à manifestação hostil na Organização dos Estados Americanos, da própria administração republicana de Donald Trump e do Grupo de Lima, fieis representantes sociopolíticos da transnacional conformada pelo clã Rockefeller.
Na América Latina, identificados os parâmetros antropológicos e culturais que estão longe de ser tão complexos como na Eurásia, ou em África, as opções possuem outras ementas contraditórias, menos intensas e enfáticas, vindas detrás e disponibilizadas “sobre carris” em sincronizadas vias do jogo entre um poder iluminado por um capitalismo produtivo nacional e um capitalismo financeiro transnacional.
A influência multilateral, por via da Rússia, da China, ou até mesmo dum Irão, ou duma Turquia que não fazem parte dos BRICS (será que agora o Brasil ainda é componente?), ainda que se faça sentir, não tem a mesma intensidade como acontece na Eurásia.
O empertigamento da Doutrina Monroe atiçada pelos interesses transnacionais anglo-saxónicos, levará os emergentes a um esforço combinado, que já está minimamente em curso, mas que inexoravelmente se vai intensificar, em prol da defesa da independência, da soberania e da democracia participativa e protagonista da Venezuela.
Na América Latina por outro lado, não se fazem sentir os enlaces retrógrados das alianças da “civilização judaico-cristã ocidental”, sob a égide anglo-saxónica com as alianças das monarquias arábicas e suas ideologias fundamentalistas religiosas, mas aqueles que integram a corrente da Teologia da Libertação assumem um papel não negligenciável nas lutas sociais contrariando essas correntes do domínio, algo que o actual Vaticano reflecte.
Por outro lado o Irão enquanto vítima dos jogos do clã Rockefeller via transnacionais, está a surgir ciente da necessidade das alianças para fazer face à hegemonia unipolar inspirada na voracidade dos interesses das transnacionais petroleiras anglo-saxónicas.
Por essa razão os preceitos religiosos judaico-cristãos aptos à radicalização medram com facilidade e fluência particularmente entre algumas elites e oligarquias nacionais barricadas contra a participação e o protagonismo, tornando-se possível recriar por via deles fundamentalismo sublimados propiciados pelos processos democrático-representativos, em especial onde o campo das alienações pôde ser subtilmente trabalhado com todo o à vontade pelos vínculos múltiplos da hegemonia unipolar, inclusive em áreas inovadoras como a da justiça (?) brasileira, explorando subtis êxitos anteriores.
O recurso ao padrão redutor das democracias representativas alimenta o carácter do domínio que começa a pertencer ao passado de barbárie, quando a civilização resulta mais que nunca na integração de articulações formuladas a partir de amplas participações e de protagonismos capazes de chegar aos consensos vocacionados para o futuro.
Sem recorrer em todos os casos ao choque neoliberal (conforme o exemplo de 1973 no Chile), os mesmos objectivos para serem alcançados pela hegemonia unipolar que ainda se manifesta na América recorreram a terapias neoliberais muito antes do aparecimento do “produto sublimado” como o recém-inaugurado modelo tisnado de fascismo de Bolsonaro, pois“as raposas já estavam no galinheiro”, ou a ser paulatinamente introduzidas nele, de há cerca de duas décadas a esta parte.
A hegemonia unipolar no quintal traseiro propiciado desde os tempos iniciais da Doutrina Monroe pode ter atingido o zénite, mas a partir da derrota noutras paragens, já está também a perder sua capacidade geoestratégica na América por que é também retrógrada nesse quintal, apesar dos disfarces, das ilusões e da falsa representatividade que ostenta e dissemina como propaganda duma força e duma energia que já não tem.
3- Aqueles que lutam por abrir as janelas socialistas na América Latina estão aparentemente a ficar confinados em seus espaços físico-geográficos, apesar das suas fontes de inspiração que advêm da luta contra a escravatura e o colonialismo, apesar do plasma humano das suas opções quantas vezes criativas, um plasma que possui capacidade de mobilização cívico-militar, assim como poder anímico de resistência e de sustentação na tentativa de alcançar a plataforma consolidada da lógica com sentido de vida garante de civilização e futuro face à barbárie.
O manancial do exercício de domínio hegemónico unipolar está aparentemente ainda a ganhar preponderância na América Latina, contrariando os povos que possuem uma consciência crítica alternativa, vocação sociocultural e vocação ideológica e psicológica para a mobilização e a resistência, capazes de contramedidas de resposta que estão vitoriosamente em vigor.
Há neste momento um arsenal de medidas “em crescendo” que estão a ser tomadas pela administração de Donald Trump que neste caso não excluem as opções do capitalismo financeiro transnacional ao contrário do que acontece na Eurásia, visando três fulcros alternativos de resistência popular: Cuba, Venezuela, Nicarágua e, por tabela, as organizações internacionais onde sua acção se faz melhor sentir.
Ainda que não tenham conseguido vencer os propósitos alternativos desses componentes-chave da ALBA (Alternativa Bolivariana para os Povos da América), os Estados Unidos sob a égide de Donald Trump procuram estruturalmente bloqueá-los e fixá-los a fim de eles não inspirarem, no seu ponto de vista não “contaminarem”, outros povos e sociedades latino-americanas e a fim de não deixarem que eles possam livremente aprofundar as suas próprias opções.
Desconhecem a dialética e são incapazes de amadurecer na atenção devida ao estudo das contradições.
A “luta contra o comunismo” no vasto campo de manobra latino-americano, segundo a perspectiva da mentalidade formatada pelos interesses hegemónicos da aristocracia financeira mundial estruturalistas, está a fazer sentido emergindo até das alienações no caso do subcontinente que é o Brasil, cuja independência foi assumida através de suas próprias elites travestidas de origem monárquica e não através de luta armada dos substractos humanos mais decisivos de sua sociedade.
Essas correntes estão prontas para se voltar à adopção, agora também com o recurso às novas tecnologias, dos bárbaros parâmetros da Doutrina Monroe, procurando “repetir a dose” fechadas a outra capacidade criativa aberta aos actos de civilização de que a humanidade e o planeta tanto carecem…
As ideologias e práticas judaico-cristãs “iluminam” esses pressupostos e procuram obstinada e brutalmente romper caminho com recurso a opções radicalizadas e de natureza fascizante, neocolonial nos termos de vassalagem ao poder dominante que sopra do norte e prontas a preencher brechas no “cerco à Venezuela” e miná-la nem que seja como recurso às “revoluções coloridas”…
É a visão propiciada pela vasta experiência das redes “stay behind” da NATO e do “Le Cercle”, adaptadas ao agenciamento de vastos sectores das oligarquias nacionais e de outras elites latino-americanas, que se movem já em desespero de mau agoiro em proveito da hegemonia unipolar nesse mais simplificado tabuleiro.
Lançada a subversão da ementa bárbara contra a Venezuela por via sociopolítica, económica, financeira e ideológica (com recurso à guerra psicológica constante), restou agora à hegemonia unipolar montar o bloqueio físico-geográfico que já está em curso desde o aumento da intensidade da pressão a partir dos últimos processos eleitorais e manobras dignas dos golpes de estado em muitas configurações da América Latina, com a expressão em sentido contrário do México.
Ao bloqueio possível, com o agenciamento dum parlamento que a decadente hegemonia considera ser uma brecha na aliança cívico-militar venezuelana mas é um artefacto retrógrado que tem que ver com o passado, a tentativa de rejeitar a eleição do presidente Nicolas Maduro poderá servir para desencadear outra onda mais de sangrenta oposição nas ruas, conforme à aprendizagem que foi feita com as “revoluções coloridas”.
A Venezuela Socialista Bolivariana está a ser sujeita a tentativas de golpe de estado, umas atrás das outras, cada uma com sua própria justificação, ementa e enredo, precisamente no país onde tem havido mais processos eleitorais no globo e onde os ganhos populares têm sido consolidados…
Nessa conjuntura, a transparência de sua revolução tem conseguido capacidade criativa para as respostas, por que a Venezuela além do mais não está só e os emergentes que a apoiam estimulam os rasgos em direcção aos processos de vitórias que têm sido obtidas com recurso à dialética face ao estruturalismo retrógrado da hegemonia unipolar e seus cortejos de agenciamentos e vassalagens transnacionais.
De há dois anos a esta parte, os Estados Unidos não põem de parte a possibilidade duma agressão militar e por isso vão preparando os cenários em redor da Venezuela a fim de organizar as capacidades para tal, recorrendo tanto quanto o possível aos seus vassalos na OEA e Grupo de Lima…
Ao grupo de Lima, à OEA, à Colômbia e até à Guiana por causa dum litígio territorial antigo, os Estados Unidos vão juntar agora, após a eleição de Bolsonaro, uma outra posição do Brasil, que se poderá associar às iniciativas que se vão levando a cabo a caminho da agressão!
Cuba Revolucionária, a Venezuela Socialista e Bolivariana, a Nicarágua Sandinista, vão ser alvo da implementação de ainda mais medidas de bloqueio, subversão e desestabilização ao longo deste e dos próximos anos, haja ou não impeachment do exercício do presidente Donald Trump, enquanto a hegemonia unipolar procura consolidar os processos de domínio no resto da América, sem a consciência que dos traumas daí advenientes novas contradições irão inexoravelmente fermentar e as respostas têm agora cada vez mais razões e fundamentos para “dar a volta por cima”!
Uma coisa é certa, não tendo feito suficiente balanço das derrotas no Médio Oriente Alargado em função dos conceitos estruturalistas que lhe são inerentes, as ementas de caos, de desagregação e de subversão que estão em curso na América Latina, acentuarão a derrota internacional dos Estados Unidos, agora começando a estar remetidos a um dos seus últimos redutos!
Martinho Júnior - Luanda, 10 de Janeiro de 2019
Imagens:
- O capitalismo financeiro transnacional é uma fórmula de hegemonia unipolar apta a enredar o mundo em benefício de poucas mãos dominantes, em benefício da aristocracia financeira mundial;
- A Doutrina Monroe abriu e abre caminho aos apetites dominantes no seguimento da expansão, por parte dos Estados Unidos em relação a todos os estados latino-americanos;
- Grupo de Lima instrumento de vassalagem que corrobora os contemporâneos propósitos da Doutrina Monroe;
- Segundo mandato do presidente Nicolas Maduro reafirma a independência, a soberania, o aprofundamento da democracia e a justeza do bolivarianismo na América;
- Mapa do incidente com navios de pesquisa ao serviço da EXXON-Mobil do clã Rockefeller, um dos clãs de há muito implicado na prossecução da Doutrina Monroe na América.

Expansão da OTAN na Europa é uma 'relíquia da Guerra Fria', diz Putin

Presidente russo, Vladimir Putin, parabenizando os cidadãos russos pelo Ano Novo
© Sputnik / Mikhail Kliementiev

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse em entrevista à imprensa sérvia publicada nesta quarta-feira (horário local) que a Rússia não quer uma nova corrida armamentista.

"Não vamos fechar os olhos ao desdobramento de mísseis de cruzeiro dos EUA [na Europa] e sua ameaça direta à nossa segurança. Teremos que tomar medidas eficazes de retaliação. Mas como país responsável e sensato, a Rússia não está interessada em uma nova corrida armamentista", afirmou.

Segundo o presidente russo, Moscou enviou em dezembro a Washington algumas propostas sobre a manutenção do Tratado INF. Além disso, Putin destacou que a Rússia está pronta para um diálogo sério com os Estados Unidos sobre toda a agenda estratégica.

No entanto, os Estados Unidos parecem ter uma política de "desmantelamento" em relação ao controle global de armas, acrescentou o presidente russo.

Durante a entrevista aos meios de comunicação sérvios, Putin também instou os parceiros ocidentais a estabelecer um diálogo baseado nos princípios do direito internacional. Segundo Putin, essa é a chave para manter intacta a paz global e a estabilidade regional.


Putin também enfatizou que a expansão da OTAN na Europa é uma estratégia destrutiva, acrescentando que essa política é "uma relíquia da Guerra Fria". Segundo o presidente, a Aliança está atualmente tentando fortalecer sua posição nos Bálcãs.

Putin falou com os jornais sérvios antes de sua viagem ao país dos Bálcãs. Ele disse que a decisão da Sérvia de se aproximar da União Europeia não impediria a "cooperação multifacetada" entre Moscou e Belgrado.

"Nós respeitamos a decisão do governo sérvio de aderir à UE e, ao contrário dos parceiros ocidentais, não estamos forçando Belgrado a escolher entre a Rússia e a UE", ponderou.

"Temos fornecido [a Sérvia] equipamentos e armas militares e auxiliando na sua manutenção… Continuaremos desenvolvendo esta cooperação técnico-militar", prometeu o presidente russo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2019011513118001-expansao-otan-putin/

Polícias eleitorais ou as duas faces da mesma moeda

As fake news e as novelas das supostas ingerências externas em actos eleitorais são o pretexto para a criação de corpos transnacionais de polícia eleitoral e o reforço do neoliberalismo como fascismo social.
José Goulão | AbrilAbril | opinião
A par da convergência dos populismos e neofascismos para as muitas campanhas eleitorais que aí vêm no plano internacional, está também em campo uma variante aglutinadora que contribui para replicar, mais coisa menos coisa, as eleições presidenciais norte-americanas de 2016. Incluindo aquilo a que o mainstream parece reduzir a política de hoje: as fake news e as novelas das supostas ingerências externas em actos eleitorais. Tudo a funcionar como nevoeiro para disfarçar o grande objectivo em jogo: reforçar o neoliberalismo como fascismo social – com mais ou menos fascismo político.
Chama-se Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, funciona no âmbito de uma denominada Aliança para as Democracias, com sede em Copenhaga e, entre muitas outras coisas, afirma dedicar-se a combater as informações falsas e as interferências externas em eleições; para isso, parte do princípio de que nenhum dos lados do Atlântico está verdadeiramente preparado para os riscos que ameaçam os cerca de 20 actos eleitorais que se realizam até 2020. Entre as notáveis e recomendáveis figuras que desempenham estas missões estão membros das administrações Bush e Obama, um ex-secretário geral da NATO e um organizador de esquadrões da morte na América Latina, além de José María Aznar e Tony Blair.
A Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral diz que nasceu para acabar com a desinformação e as interferências estrangeiras em actos eleitorais norte-americanos, latino-americanos e europeus. Junta políticos no activo, ex-presidentes, vice-presidentes e vários ministros de vários países, jornalistas, apresentadores e editores de alto gabarito, algumas fundações, homens de negócios e também figuras de proa de impérios tecnológicos globais como o Facebook e a Microsoft, além de instituições indubitavelmente sintonizadas pela CIA, como o Conselho do Atlântico.
Esta comissão define-se a si mesma como «bi-partidária», entendendo-se por isso não apenas a formatação política norte-americana mas também o tradicional «arco da governação» do regime globalista neoliberal, isto é, os sociais-democratas liberais e a direita da área do Partido Republicano/Partido Popular Europeu.
O seu objectivo central está plasmado na panóplia de discursos e declarações proferidos e aprovadas na primeira «Cimeira das Democracias», realizada em 22 de Junho de 2018 em Copenhaga: combater tudo o que perturbe «o livre desenvolvimento das democracias em todo o mundo e a instauração de mercados livres». A cimeira nasceu das iniciativas do ex-secretário geral da NATO Anders Fogh Rasmussen e do vice-presidente de Obama, Joseph Biden. As notas finais do encontro foram redigidas por Tony Blair, acusado no seu país de ter mentido para provocar a invasão do Iraque; e que já discursara anteriormente, tal como o ex-chefe do governo espanhol, o neofranquista José María Aznar, que participou na encenação da mesma mentira feita em Março de 2003 na Cimeira das Lages, nos Açores.
Combater a interferência interferindo
Monitorar os riscos eleitorais que vão sendo detectados, de modo a ajudar os países a identificar as vulnerabilidades que facilitam as ingerências eleitorais externas, é uma das linhas de acção da Comissão Transatlântica, que promete disponibilizar soluções tecnológicas «contra a desinformação» e ferramentas baseadas em inteligência artificial que sejam «destrutivas em relação a conteúdos falsos», além de reduzirem as possibilidades de intromissão externa.
Segundo os apuramentos feitos pela Cimeira das Democracias, na sequência de actividades de monitorização, 80% das intromissões externas em eleições são de origem russa, como ficou provado, segundo a Comissão Transatlântica, nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, nos Balcãs e também no México, em 2018.
Embora não haja qualquer alusão ao que se passou no Brasil de Bolsonaro, sabe a Comissão Transatlântica que as eleições mexicanas ganhas pelo progressista e anti-neoliberal Lopez Obrador foram alvo de ingerências do Irão, da Venezuela e, claro, da Rússia.
E sabe ainda que, nos Balcãs, casos graves envolvendo igualmente Moscovo foram detectados no referendo sobre a mudança de nome na Antiga República Jugoslava da Macedónia e que abriu a porta às futuras integrações do território na União Europeia e na NATO.
Ora o que também está absolutamente comprovado – mas fora do âmbito de acção da Comissão Transatlântica – é que tanto o referendo macedónio como as recentes eleições gerais da Bósnia-Herzegovina decorreram sob comando directo dos embaixadores dos Estados Unidos e dos representantes locais da União Europeia, passando inclusivamente pela compra de votos de deputados para obtenção, por via parlamentar, do que não foi possível pelo caminho referendário. Terão sido estas acções inseridas já no âmbito da «monitorização» montada pela Comissão Transatlântica? Nada obsta, tanto mais que um dos objectivos expresso por esta é estar «um passo à frente dos acontecimentos», onde cabe perfeitamente o princípio de combater a interferência interferindo por antecipação.
Convergência no fascismo ucraniano
«Trabalhar com empresas tecnológicas na criação de ferramentas inovadoras para combater a desinformação e os conteúdos falsos» é um dos mandamentos de topo da Comissão Transatlântica para a Integridade Territorial, no âmbito da Aliança das Democracias.
Por isso, na lista de nomes sonantes que dão corpo a estas novas instituições supranacionais é possível encontrar, a par de famosos leitores de telepontos na ABC e na CNN e da editora do Bild, o expoente dos tablóides europeus, um dos mais graduados directores da Microsoft na Europa, John Frank, e também Richard Allan, vice-presidente da divisão de Soluções Políticas Globais do Facebook. Tendo já sido detectadas actividades desta catedral das redes sociais pouco compatíveis com a liberdade de expressão, a democracia e o equilíbrio eleitoral, não será difícil prever agora uma dinâmica reforçada no combate às chamadas fake news, tendo no horizonte as eleições até 2020, a começar pelas europeias de Maio próximo. Chegados a este ponto fica a faltar saber como vão as novas ferramentas distinguir entre conteúdos falsos ou aqueles que apenas contradizem democraticamente quem as manipula. Os famosos algoritmos estarão fiavelmente ensinados para distinguir o que é verdadeiro do que é falso ou é apenas contraditório?
Sabemos que a extrema-direita e o neofascismo, arrebanhados atrás da figura carismática de Steve Bannon, o homem que fez de Trump presidente dos Estados Unidos e de Bolsonaro presidente do Brasil, trabalham activamente nas estratégias para próximas eleições na Europa e Américas.
A Comissão Transatlântica, dentro da Aliança das Democracias, surge igualmente a marcar terreno na área do neoliberalismo, parecendo contrapor o globalismo do chamado «Partido de Davos» – o classicismo neoliberal que tem prevalecido – a uma ortodoxia do regime que vai beber às suas raízes em Pinochet e ao fascismo chileno.
Mas se este pode ser confundido com a figura de Steve Bannon, não é difícil encontrar almas gémeas na Comissão Transatlântica como Michael Churtoff, secretário para a segurança interna na administração de George W. Bush e, sobretudo, o inigualável John Negroponte, há muito defendendo a democracia com Reagan, Bush pai e filho, Clinton, Obama, Trump e até como embaixador na ONU. Esteve na saga dos «combatentes da liberdade» apoiando terroristas como os da Unita, somozistas na Nicarágua, Mujahidines e al-Qaida, sem esquecer os métodos de falsificação de eleições, designadamente nas Honduras, de que houve novo exemplo bem recentemente. O mesmo Negroponte que não hesitou em coordenar a formação e actuação de esquadrões da morte na América Latina, enquanto embaixador dos Estados Unidos, quando a sua «democracia» estava supostamente em perigo, mesmo que fosse através de eleições livres e democráticas. Agora reencontramo-lo disponibilizando inesgotáveis recursos à Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, sendo legítimo supor que a sua cartilha democrática, tão testada e aplicada, apenas se reforçou, não se alterou.
Pelo que não é surpresa observar as hostes de Bannon e Biden, Rasmussen e Negroponte – erigidas em polícias eleitorais – convergindo na figura de Porochenko nesta nova fase para reforço da institucionalização do fascismo ucraniano, nas eleições presidenciais de Março.
Será talvez difícil apurar qual das polícias, ou se foram ambas, recorreu à ferramenta nada inovadora da provocação no Estreito de Kerch, no passado dia 25 de Novembro, que permitiu ao presidente Porochenko declarar a lei marcial para se posicionar como favorito inquestionável. Ele que não passava dos 8% antes do conveniente «incidente». Não tenhamos dúvidas, porém, de que as próximas eleições ucranianas, decorrentes de um estado de excepção e organizados por metade de um país que impõe o terror militar fascista a outra metade, encaixa tanto no figurino «democrático» do «Partido dos Populistas» de Steve Bannon como no do «Partido de Davos» de Blair, Aznar, Biden e Negroponte, mais esquadrão da morte, menos esquadrão da morte. Donde não nos será difícil ter uma ideia dos critérios que vão seleccionar a informação expurgada de toda a desinformação e falsidade a servir aos eleitores envolvidos na escolha de duas dezenas de governos, parlamentos e presidentes em pouco mais de 12 meses.
Para estes corpos transnacionais de polícia eleitoral, com as suas divergências, que não são de fundo – longe disso – o que vai jogar-se é somente a manutenção do sistema de exploração garantido pelo capitalismo selvagem, o neoliberalismo económico, o fascismo social. Mais ou menos fascismo político, isso depende apenas do doseamento de meios para obter o mesmo fim.
Na verdade, estes campos são fáceis de identificar. Assim as pessoas queiram vê-los e combatê-los.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/policias-eleitorais-ou-as-duas-faces-da.html

Metamorfose

Retomamos aqui o editorial do Al-Watan em que Thierry Meyssan apresenta aos leitores sírios a retirada das tropas dos EUA do seu país. Este artigo contem várias informações que foram ignoradas pelos média ocidentais e lançam luz sobre a maneira como a decisão foi tomada pelo Presidente Trump, com os seus aliados sauditas e catarianos, e seus parceiros russos.


 

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A Síria fora transformada em campo de batalha pelas nações do mundo inteiro. Aí, os Estados Unidos e a Rússia confrontavam-se. A 20 de Dezembro de 2018, Washington decidiu retirar-se sem compensação.

Esta data irá contar na história mundial como a mais importante desde 26 de Dezembro de 1991 (dissolução da URSS). Durante 27 anos, o mundo foi unipolar. Os Estados Unidos eram a primeira potência económica e militar. Eram os maestros exclusivos dos acontecimentos.

Há três anos, perderam o seu estatuto económico e foram ultrapassados pela China. Depois, perderam o seu estatuto de primeira potência militar convencional face à Rússia. Acabam, agora, de perder o de primeira potência militar nuclear face às armas hipersónicas russas.

O Presidente Trump e o General Mattis cumpriram as promessas de retirar o apoio do seu país aos jiadistas, assim como a de retirar as suas tropas de combate tanto da Síria como do Afeganistão. No entanto, para Mattis o fim da Coligação anti-Daesh (E.I.), reunindo 73 nações em torno dos Estados Unidos, prefigura a dissolução da OTAN. Enquanto soldado, ele não pode aceitar o risco de ser privado de alianças. Pelo contrário, o Presidente Trump afirma que a decadência dos Estados Unidos já não permite manter seja que guerra for. Segundo ele, é impossível continuar comandar os aliados e a urgência é recuperar a economia dos EUA.

A decisão do Presidente Trump foi maduramente reflectida.

Ela segue-se à viagem a Damasco do Vice Primeiro-ministro Yuri Borisov. No seu país, ele dirige o complexo militar-industrial. Dispõe para isso de um orçamento especial, que escapa a qualquer controle ocidental e não figura no orçamento oficial de Estado. Está organizado de acordo com as condições da reconstrução e das relações económicas futuras, unicamente em rublos e a partir de um banco especial, fora do alcance do dólar.

Esta decisão também se segue à visita a Damasco de um chefe de Estado árabe, Omar al-Bashir. O Presidente do Sudão representava, ao mesmo tempo, os seus homólogos norte-americano, saudita e catari. Assim que ele informou o Presidente Trump do resultado da sua entrevista com o Presidente Bashar al-Assad, foi feito o anúncio da retirada militar dos EUA.

Foi considerado um plano de reintegração dos combatentes curdos no Exército Árabe Sírio com a ajuda do Irão. O que passaria por uma intervenção da principal milícia xiita iraquiana.

Simultaneamente, o acordo (deal-ndT) do século não foi anunciado, mas já está a ser posto em marcha. O Hamas não combaterá mais contra Israel, antes será agora financiado por ele, via Catar. A monarquia hachemita terá que aceitar reinar sobre os Palestinianos mesmo correndo o risco de por eles ser derrubada. O regime de apartheid de Telavive deverá conhecer, nos próximos anos, a mesma sorte que o de Pretória.

O mundo não evolui como nós o havíamos imaginado: de um sistema unipolar para um sistema multipolar. Certo, existe de um lado a união eurasiática russo-chinesa, mas já não há mais Ocidente. Subitamente, cada Estado da OTAN reencontra a sua independência. É provável que alguns venham a tomar iniciativas, convencidos em saber o que devem fazer. É até possível que se envolvam, novamente, em guerras entre eles.

Tudo o que havíamos aprendido do mundo acabou. Uma nova era começa.

Thierry Meyssan



Ver original na 'Rede Voltaire'



Analista: não se deve acreditar nas declarações dos EUA relacionadas a 'pontos quentes'

Veículos blindados norte-americanos na Síria
© AP Photo / Hussein Malla

As relações da Rússia com a Turquia e o Irã na Síria não se deteriorarão devido à retirada das tropas norte-americanas do território sírio, afirmou o cientista político Aleksandr Perendzhiev à Sputnik.

Anteriormente, o coronel aposentado do Exército dos EUA, Douglas MacGregor, declarou que a retirada das tropas norte-americanas da Síria seria um "passo astuto" para que a Rússia entre em conflito com seus aliados na região.


"A Rússia e seus aliados na Síria não se confrontarão depois da retirada das tropas dos EUA. Essa declaração sobre confronto é um desejo peculiar em relação à Rússia […] A simples retirada das tropas norte-americanas do território da Síria não é suficiente para que isso aconteça", comentou Perendzhiev.

Ele observou que a declaração do coronel aposentado americano expõe os EUA como "palhaços na arena internacional" e é difundida para provocar uma reação dos países que estão em solo sírio em relação a questões do direito internacional.

"A declaração de MacGregor é surpreendente, porque não está claro o motivo de dizer ao mundo inteiro que as ações dos EUA para retirar tropas da Síria são um 'passo astuto', revelando assim segredos militares e estatais […] Não se deve acreditar nos EUA, especialmente, em declarações em relação a pontos quentes", conclui.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019010413045954-eua-declaracoes-retirada-tropas-siria/

Nova guerra fria e ameaças iminentes

John PilgerNesta notável entrevista com dois jornalistas indianos, John Pilger traça uma visão de conjunto da ofensiva dos EUA e dos seus aliados no Médio Oriente, na Ásia e na América Latina. Uma experiência pessoal iniciada na guerra do Vietname e que prossegue até aos dias de hoje, exemplo da forma como um jornalismo esclarecido e progressista pode ser um poderoso aliado da luta dos povos.


 

O seu recente documentário, The Coming War on China, mostra como os Estados Unidos estão em guerra com a China. Pode explicar o mecanismo dessa guerra secreta? Acha que a Ásia-Pacífico será a próxima região de intervenção imperialista? Como ocorrerá essa intervenção e quais serão as consequências?

É uma “guerra secreta” apenas porque a nossa percepção é moldada para ignorar a realidade. Em 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, viajou a Manila e incumbiu o recém-inaugurado presidente filipino, Benigno Aquino, de tomar posição contra a China pela sua ocupação das Ilhas Spratly e de aceitar a presença de cinco bases de Marines dos EUA. Manila entendia-se bem com Pequim, tendo negociado empréstimos bonificados para infraestruturas das quais necessitava muito. Aquino fez o que lhe foi dito e aceitou que uma equipa jurídica liderada pelos EUA contestasse as reivindicações territoriais da China no Tribunal de Arbitragem da ONU em Haia. O tribunal concluiu que a China não tinha qualquer jurisdição sobre as ilhas; um julgamento que a China categoricamente rejeitou. Foi uma pequena vitória numa campanha de propaganda americana visando retratar a China mais como territorialmente rapace do que como defensiva na sua própria região. O motivo foi o crescente receio da elite de segurança nacional/militar/mediática dos EUA de ter deixado de ser a potência dominante no mundo.

No ano seguinte, em 2011, o presidente Obama declarou uma “viragem para a China”. Isso marcou a transferência da maioria das forças navais e aéreas dos EUA para a região da Ásia-Pacífico, o maior movimento de equipamentos militares desde a Segunda Guerra Mundial. O novo inimigo de Washington - ou melhor, um inimigo de novo - era a China, que atingira extraordinários patamares económicos em menos de uma geração.

Os Estados Unidos têm há muito tempo uma série de bases em torno da China, da Austrália às ilhas do Pacífico, passando pelo Japão, Coreia e Eurásia. Estas estão em vias de ser reforçadas e modernizadas. Quase metade da rede global dos EUA, que conta mais de 800 bases, cerca a China “como o laço corredio perfeito”, disse um responsável do Departamento de Estado. Sob o pretexto do “direito à liberdade de navegação”, navios de baixo calado dos EUA entram nas águas chinesas. Os drones americanos sobrevoam o território chinês. A ilha japonesa de Okinawa é uma vasta base americana, com os seus contingentes preparados para um ataque à China. Na ilha coreana de Jeju, os mísseis da classe Aegis são apontados a Xangai, a 640 quilômetros de distância. A provocação é constante.

Em 3 de outubro, pela primeira vez desde a Guerra Fria, os Estados Unidos ameaçaram abertamente atacar a Rússia, a aliada mais próxima da China, com quem a China tem um pacto de defesa mútua. Os media interessaram-se pouco pela questão. A China está a armar-se rapidamente; de acordo com a literatura especializada, Pequim mudou sua postura nuclear, passando de um alerta baixo para um alerta alto.

Pessoas como Noam Chomsky dizem que o império americano está em declínio. Pensa realmente isso? Nos últimos tempos, vimos os Estados Unidos tentarem chegar a um acordo com a Coreia do Norte; antes, eles tentaram reestabelecer relações diplomáticas com Cuba. O que indicam esses episódios? Acha que o mundo se está a diversificar?

O império americano enquanto ideia pode estar em declínio, a ideia de uma única potência dominante e a dolarização da economia mundial, mas o poder militar dos EUA nunca foi tão ameaçador. Uma nova guerra fria conduz ao isolamento dos Estados Unidos e é um perigo para todos nós. No início do século XXI, Norman Mailer [jornalista e romancista norte-americano] escreveu que o poder americano havia entrado em uma era “pré-fascista”. Outros sugeriram que já estamos lá.

Disse que um dos triunfos do século XXI em matéria de relações públicas foi o slogan de Obama “a mudança em que acreditamos”. Disse também que a campanha mundial de assassínios de Obama foi sem dúvida a mais dispendiosa campanha de terrorismo desde o 11 de Setembro de 2001. Por que foi tão duro com Obama, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Que acha de Donald Trump e da sua presidência?

Eu não fui duro com Obama. Foi Obama quem foi duro com grande parte da humanidade, ao contrário da sua muitas vezes absurda imagem mediática. Obama foi um dos mais violentos presidentes americanos. Lançou ou apoiou sete guerras e deixou o poder sem que nenhuma delas fosse resolvida: um recorde. Durante o seu último ano como presidente, em 2016, lançou 26.171 bombas, segundo o Conselho de Relações Exteriores. É uma estatística interessante; trata-se de três bombas a cada hora, 24 horas por dia, principalmente sobre civis. A técnica de bombardeamento adoptada por Obama foi o assassínio por meio de drones. Todas as terças-feiras, relatava o New York Times, ele escolhia os nomes daqueles que iriam morrer num “programa” de execuções extrajudiciais. Todos os homens em idade militar no Iémen e nas fronteiras do Paquistão eram considerados inteiramente como animais. Ele multiplicou as operações das forças especiais dos EUA no mundo, especialmente em África. Juntamente com a França e a Grã-Bretanha ele e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, destruíram a Líbia como Estado moderno com o falso e familiar pretexto de que o seu líder estava prestes a cometer um massacre de “inocentes”. Isso conduziu directamente ao crescimento dos medievalistas Daesh [ou Estado Islâmico] e uma vaga de emigração de África para a Europa. Ele derrubou o presidente democraticamente eleito da Ucrânia e instalou um regime abertamente apoiado pelo fascismo - como uma provocação deliberada à Rússia.

A concessão do Prêmio Nobel da Paz a Obama foi uma impostura. Em 2009, esteve no centro de Praga e prometeu aí ajudar a criar um mundo “livre de armas nucleares”. Na verdade, aumentou o número de ogivas nucleares americanas e autorizou um programa de construção nuclear de longo prazo de US$ 1 milhar de milhões. Processou mais denunciantes, reveladores da verdade, do que todos os presidentes dos EUA juntos. O seu principal sucesso, pode dizer-foi pôr fim ao movimento antiguerra norte-americano. Os manifestantes regressaram a casa dando crédito às mensagens de ‘esperança’ e ‘paz’ de Obama, e começaram a acreditar nisso. A única diferença de Obama foi ter sido o primeiro presidente negro na terra da escravidão. Em quase todos os outros aspectos, ele era apenas outro presidente americano cuja constante afirmação era que os Estados Unidos eram “a única nação indispensável”, o que presumia que outras nações eram dispensáveis.

Talvez a inteligência de Obama residisse na imagem que Obama e outros fabricaram e cultivaram com sucesso. Donald Trump também pode ser descrito como apenas outro presidente americano (violento). O que o distingue é que ele é uma caricatura. Muitos membros da elite americana detestam Trump, não por causa de seu comportamento pessoal, mas por causa de um embaraço muito mais profundo; ele é a imagem crua da América, sem a máscara.

O seu filme The War on Democracy documenta o golpe de Estado orquestrado pelos Estados Unidos contra Hugo Chávez, que se opunha ao imperialismo, com a ajuda da burguesia de direita e capitalista da Venezuela. Isso não era novo para a maioria dos países latino-americanos. Hoje, porém, vemos cada vez mais países do continente resistindo ao imperialismo americano. Fora de Cuba e da Venezuela, os governos de esquerda estão no poder em países como a Bolívia e o Equador. Qual é o significado disso? Hoje em dia, também ouvimos histórias de ofensivas de direita em países como a Venezuela e o Brasil. Como avalia o actual cenário político latino-americano?

Eu não concordo que “mais e mais países [na América Latina] estejam a resistir ao imperialismo dos EUA”. Pode ter sido verdade quando Hugo Chávez ainda estava vivo; mas mesmo então, os Estados Unidos nunca desistiram da sua influência no continente. Hoje, há apenas Bolívia, Nicarágua e, claro, Venezuela, a Venezuela em luta pela sobrevivência. A maior parte da América Latina está de volta à influência de Washington, especialmente o Brasil. O Equador, anteriormente esclarecido, é outro exemplo eloquente. O governo obsequioso de Lénine Moreno convidou a tropas norte-americanas a voltarem e ameaçou abandonar Julian Assange. A opressão económica do FMI está novamente a prejudicar a Argentina. Versões do Consenso de Washington, conhecido como neoliberalismo, dominam quase todo o continente. Cuba está calma, o que é compreensível.

Nos últimos anos, vimos denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden revelarem documentos confidenciais que mostravam como funciona o sistema de poder. Notará que o WikiLeaks não fez nada mais do que ‘The New York Times’ e ‘The Washington Post’ tinham feito num celebrado passado – revelaram a verdade sobre guerras de rapina e as maquinações de uma elite corrupta.

Disse que “o WikiLeaks é um marco no jornalismo”. Qual é a importância dessas revelações? O que é que elas nos ensinam?

O WikiLeaks fez muito mais do que o New York Times e o Washington Post com todos os louros que estes têm. Nenhum jornal conseguiu igualar - ou chegar perto - os segredos e mentiras do poder que Assange e Snowden revelaram. O facto de os dois homens serem fugitivos testemunha o recuo das democracias liberais em relação aos princípios da liberdade e da justiça. Porque é o WikiLeaks um marco no jornalismo? Porque as suas revelações nos disseram, com 100% de precisão, como e porquê uma grande parte do mundo é dividida e dirigida.

Como analisa a evolução do panorama dos media na era digital? Por um lado, a Internet abriu uma vasta via de espaço livre ou de plataforma independente. A Internet oferece um espaço contra-narrativo, ao qual os grandes media corporativos não prestam atenção. Mas, por outro lado, grandes monopólios digitais controlam o espaço digital. Como vê a situação? Quais são os desafios a enfrentar?

Os desafios estão à altura da nossa permissividade. Os dados digitais são a nova corrida ao ouro do capitalismo; A vigilância digital é o novo adversário da democracia. Ambos diferem apenas em forma e escala das inúmeras formas de poder a que as pessoas tiveram que resistir desde o início da história. Hoje, todos nós temos um pé no mundo digital; temos a Internet, que é o poder. A maneira como desenvolvemos esse poder, em vez de o banalizar, depende da nossa disposição de adoptar princípios intemporais de resistência.

Está envolvido em reportagens de guerra há mais de cinco décadas. Cobriu a maioria das grandes guerras, incluindo a Guerra do Vietname, a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão. Um certo número de países pratica uma política de armamento crescente como política econômica. O papel das grandes empresas de venda armas também é importante. O que é a economia política da guerra?

A economia política da guerra na era moderna é a economia política dos Estados Unidos. Os Estados Unidos privam cerca de 80 milhões dos seus cidadãos de cuidados de saúde adequados e gastam quase 60% do seu orçamento discricionário federal na preparação para a guerra. A Índia também tem uma economia de guerra. Em 2018, a Índia ficou entre os cinco países que mais gastaram no campo militar, com um orçamento militar de US $63,9 milhares de milhões, o que supera o da França. Quase metade do orçamento nacional é dedicado a gastos militares. Quando fui à Índia pela primeira vez, descobri outro mundo dentro de bases militares, habitado por pessoas saudáveis e bem nutridas, com água potável e crianças educadas. No exterior dessas bolhas magníficas, a Índia conta mais crianças subnutridas do que qualquer outro país do mundo.

Síndroma do Vietname

A Guerra do Vietname foi um dos capítulos mais sangrentos e mortíferos do pós-guerra. Começou as suas reportagens de guerra no Vietname. Esta foi a primeira guerra televisionada. A Guerra do Vietname é a história do massacre de mais de três milhões de pessoas. Poderia falar-nos do horror que viu no Vietname? Qual foi o papel dos media ocidentais no Vietname? Recentemente, captou a tentativa de reescrever a história da Guerra do Vietname em manuais escolares norte-americanos. A própria recordação do Vietname assombra o Estado mais poderoso do mundo?

Não tenho certeza de que “assombrar” seja a palavra certa. O que incomoda os apologistas americanos é que o exército de ‘nação indispensável’ foi expulso da Ásia por uma nação de camponeses, que ela sofreu uma derrota humilhante. Desde então, eles têm procurado um ‘melhor resultado’, reescrevendo o que chamaram de ’síndrome do Vietname’, um eufemismo para o embaraço prolongado causado por uma catástrofe.

A série de documentários épico de Ken Burns para a Public Broadcasting em 2017 começou com a seguinte declaração: ‘A guerra foi desencadeada de boa-fé por pessoas honestas como resultado de mal-entendidos fatais, do excesso de confiança dos norte-americanos e dos mal-entendidos da guerra fria”. A desonestidade desta declaração ignora os muitos falsos pretextos que levaram à invasão do Vietname, como o “incidente” do golfo de Tonquim em 1964. Não houve boa-fé. A fé era podre e cancerosa e mais de quatro milhões de pessoas morreram.

Vi algo do sofrimento: o facto de o comandante norte-americano, general William Westmoreland, ter tomado por alvo civis a quem chamava “baratas”. No delta do Mekong, após um bombardeamento, havia um cheiro de napalm e árvores petrificadas enfeitadas com pedaços de corpos. Também testemunhei heroísmo. Em 1975, encontrei a única sobrevivente de uma bateria antiaérea vietnamita, todas adolescentes; estava ajoelhada diante dos novos túmulos de seus camaradas.

O terrorismo é o produto dos Estados

Questionou a guerra dos EUA contra o terrorismo como um exemplo de hipocrisia e de duplicidade. Porque diz isso? Se assim for, a questão é de saber como parar o terrorismo. Até que ponto a ameaça do terrorismo é um desafio para uma vida moderna e cívica?

A grande maioria do terrorismo é o produto dos Estados. O Iémen é actualmente vítima de incessantes actos de terrorismo por parte do Estado saudita, que patrocinou outras formas de terrorismo, nomeadamente os ataques de 11 de Setembro. A “guerra contra o terrorismo” lançada em 2001pelo presidente dos EUA, George W. Bush, foi na verdade, uma guerra de terror, matando milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanos. Estados poderosos, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, tornaram o terrorismo uma arma “estratégica”; o apoio ao jihadismo na Líbia e na Síria é um exemplo notável disso. A conclusão é ou deveria ser óbvia: quando os governos pararem de promover o terrorismo, os ataques sangrentos nas suas próprias cidades provavelmente acabarão.

Disse que os Estados Unidos têm ao mesmo tempo “bons terroristas” e “maus terroristas”. Quem são os bons e os maus terroristas da América?

A designação pode mudar sem aviso prévio. Actualmente, os sauditas são “bons terroristas”; na verdade, nem são chamados de terroristas. Os extremos terroristas maus - Al Qaeda - são agora bons terroristas que lutam ao lado dos Estados Unidos na sua longa guerra contra os xiitas. Historicamente, os curdos sempre foram ao mesmo tempo bons e maus terroristas; no Iraque, os curdos eram bons; na Turquia, eram maus. A designação assentava em eles estarem ou não lutando contra o mais recente inimigo dos Estados Unidos.

Nas últimas décadas do século XX, o mundo viu a região da Ásia Ocidental tornar-se o ponto quente da intervenção ocidental. Depois de 11 de Setembro de 2001, essa intervenção tomou a forma de duas guerras: a guerra no Afeganistão e a guerra no Iraque. A islamofobia atingiu novos picos no Ocidente. A teoria do choque de civilizações encontrou campeões na máquina estatal, sendo George Bush o melhor exemplo. Como situa historicamente os interesses ocidentais no Médio Oriente e a ascensão da islamofobia no Ocidente?

Recomendo o trabalho do historiador britânico Mark Curtis, cujo livro pdfSecret Affairs(5.22 MB) relata a estreita relação entre o estado britânico e o islamismo extremista. O que está claro é que organizações como Daesh e Al-Qaeda eram o produto dos governos imperiais ocidentais.

No Afeganistão, os mujahidin poderiam ter permanecido uma influência tribal se não fosse a Operação Ciclone, um plano liderado pelos Estados Unidos para transformar o Islão extremista numa força que expulsaria a União Soviética e derrubaria o estado soviético. O que o Ocidente temia no Médio Oriente era o que Gamal Abdel Nasser, no Egipto, chamava “pan-arabismo”. Temia que os povos árabes se desembaraçassem das cadeias do tribalismo e do feudalismo e controlassem e desenvolvessem os seus próprios recursos. Por esta razão, o único governo progressista no Afeganistão foi declarado “comunista” e destruído. Pela mesma razão, os palestinos são mantidos num estado de opressão interminável.

Com os Estados Unidos reconhecendo Jerusalém como capital de Israel em 9 de Dezembro de 2017, o sofrimento e o medo dos palestinos aumentaram. Como disse, eles são refugiados no seu próprio território. Descreveu a agressão contra a Palestina como a ocupação militar mais longa da história moderna. poderia dizer-nos algo mais sobre a questão palestina? Quais são os interesses estratégicos e geopolíticos dos Estados Unidos na região? Qual é o caminho para ser feita justiça aos palestinos?

Um dos principais objectivos dos Estados Unidos é manter o Oriente Médio num estado de incerteza, instável e dividido por guerras tribais. John Bolton, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, disse-o com grande satisfação. Foi assim que os britânicos controlaram a região. O centro de concepção dessa “política” é Israel, um anacronismo imperial imposto ao Médio Oriente quando o mundo se descolonizava. Como o historiador israelita folderIlan Pappe documenta no seu último livro, Israel foi concebido como uma prisão para seus povos autóctones, os palestinos. Toda a hipocrisia ocidental reside em Israel. Bashar al-Assad é designado como um monstro, mas Benjamin Netanyahu, um monstro supremo, goza de impunidade para controlar os palestinos e, em grande medida, o Congresso dos EUA, a Casa Branca e as Câmaras do Parlamento em Londres.

Essa impunidade manifestou-se recentemente quando Jeremy Corbyn, o líder trabalhista britânico que pode ser o próximo primeiro-ministro britânico, foi alvo de uma campanha inteiramente falsa que o difama como antissemita. Em vez de a rejeitar com desprezo, Corbyn curvou-se a ela e traiu os seus muitos anos de apoio aos direitos dos palestinos aceitando uma definição de sionismo que negava a Israel o seu verdadeiro estatuto de estado racista. No momento em que escrevo, os soldados israelitas massacram regularmente palestinos em Gaza, incluindo crianças. Desde março [2018], 77 palestinos desarmados tiveram que ser amputados, incluindo 14 crianças; 12 ficaram paralisadas por toda a vida após serem baleados nas costas. Nem um único israelita ficou ferido.

Aquilo a que chamamos globalização é, na verdade, o capitalismo neoliberal. Provavelmente expôs a primeira experiência do programa de ajustamento estrutural na Indonésia na década de 1960. Diz que não há diferença entre a implacável intervenção do capital internacional nos mercados estrangeiros hoje e os de antes, quando eram apoiados por canhoneiras. Como jornalista familiarizado com o funcionamento do Estado profundo, poderia falar-nos sobre a evolução das experiências econômicas neoliberais? Como funciona isso hoje em dia?

O neoliberalismo é uma extensão do que antes era chamado monetarismo, as duas versões exóticas ou extremas do capitalismo dominante. No Ocidente, sob a liderança de Margaret Thatcher e Ronald Reagan e seus homólogos europeus, foi declarada uma “sociedade a dois terços”. O terço superior seria enriquecido e pagaria pouco ou nenhum imposto. O terço médio seria “ambicioso”, alguns de entre eles seriam “bem-sucedidos” num mundo impiedosamente competitivo e outros ficariam irrevogavelmente endividados. O terço inferior seria abandonado ou ser-lhe-ia oferecido um empobrecimento estável em troca da sua obediência. A relação entre as pessoas e o Estado mudaria de benigna para maligna. Uma nova classe de gestores educados no espírito empresarial dos Estados Unidos, com a sua própria “cultura” e vocabulário, supervisionaria a conversão da social-democracia numa autocracia de empresa. O “debate” público, gerido por meios de comunicação totalmente integrados, seria dominado por “políticas de identidade”, todas as noções de classe banidas como “falsidades”. Falsos demônios estrangeiros (liderados pela Rússia, seguidos de perto pela China) seriam designados como “inimigos necessários”.

A unidade europeia é propaganda

A experiência da União Europeia foi saudada como um sinal de unidade dos europeus e um modelo na era pós-socialista. Mas o Brexit foi um grande golpe que atingiu essa propaganda. Qual é o seu ponto de vista sobre a UE? Como analisa o Brexit e reivindicações semelhantes?

A União Europeia é basicamente um cartel. Não há ‘livre comércio’. Existem regras de exclusividade estabelecidas e controladas pelos bancos centrais, principalmente o banco central alemão, com benefícios para os membros mais fracos, nomeadamente o movimento transfronteiriço de mão-de-obra, embora isso seja agora posto em causa. O objectivo central da UE é a proteção e o fortalecimento do poder econômico dos mais fortes. Bruxelas é uma burocracia centralizada; a democracia é mínima. A “unidade europeia” de que você fala é propaganda, promovida por aqueles que mais recebem da UE. O esmagamento da Grécia é uma lição que a maioria dos britânicos parece ter entendido.

O seu trabalho concentra-se em quem controla o destino da humanidade, de que forma nações poderosas, grandes empresas, a burguesia, lobbies poderosos fazem as leis e regras do mundo. A democracia parece ser a vítima disso. Apesar disso, temos histórias inspiradoras em todo o mundo sobre a resistência contra essas forças poderosas. É optimista, e optimista no que diz espeito a um mundo melhor?

Existem forças inspiradoras de resistência em muitos países, incluindo a Índia. Desde a minha primeira reportagem na Índia, na década de 1960, emocionou-me o desejo das pessoas comuns, especialmente dos agricultores, de defender a justiça na sua vida. A recente grande marcha [de 23 de Setembro a 2 de Outubro] de 50.000 agricultores de [Haridwar] em Uttar Pradesh, em Nova Deli, era típica. Disciplinados, políticos e engenhosos, eles têm muito a ensinar àqueles de nós que no Ocidente que imaginam que o protesto consiste em gozar com Trump ou assinar uma petição dirigida ao deputado da sua zona. Quando o governo de Deli permitiu que a polícia atacasse os fazendeiros no aniversário de Mahatma Gandhi, eles reagiram. A promessa política de saber onde seus movimentos podem conduzir talvez seja o mais notável registo revolucionário do mundo hoje. Eles representam a luta dos povos e da agricultura em todo o mundo contra os bulldozer neoliberais do ‘desenvolvimento urbano’: o roubo do espaço humano e sua conversão numa mercadoria grotesca e lucrativa. O facto de os governos indianos não terem reagido aos suicídios de mais de 300.000 agricultores é uma tragédia histórica, mas pode ser revertida a qualquer momento. De certo modo, os agricultores indianos representam-nos a todos. Como Vandana Shiva escreve, a sua difícil situação e a sua resistência constituem uma advertência: a menos que a segurança sobre a terra, a segurança sobre as sementes e a agricultura pertençam ao povo, a colonização dos campos do mundo por gente como a Monsanto é uma ameaça tão séria para a existência humana quanto as alterações climáticas. Claro que as pessoas nunca estão paradas. Eles “levantar-se-ão como um leão depois de dormir …’, como Percy Bysshe Shelley escreveu … Quando a resistência não é visível, é ainda uma ’semente sob a neve’. Nunca conheci tanta sensibilização do público como hoje, mas reina também a confusão. O “populismo” dos ocidentais, tantas vezes deturpado como reaccionário, exprima ao mesmo tempo a disposição de resistir e uma desorientação sobre como o fazer. Isso vai mudar. O que nunca muda é o medo dos poderosos do poder das pessoas comuns.

O tipo de jornalismo que pratica é realmente um desafio, e difícil. Através de seus documentários, artigos e outros trabalhos jornalísticos, questionou os Estados mais poderosos do mundo e suas fraudes democráticas. O que moldou o seu ponto de vista para se tornar uma voz dissidente no jornalismo? Quais são as suas influências e o que é que o mantém atento?

Hoje, a maioria dos jornalistas estabelecidos são estafetas do poder. Não são o “mainstream”, que é uma palavra orwelliana. Um mainstream real tolera a dissidência, não a censura. O que é que moldou o meu ponto de vista? O facto de relatar a luta das sociedades pelo mundo fora, incluindo os seus triunfos, por mínimos que sejam, continua sendo uma influência duradoura. Ou talvez essas influências tenham início cedo na vida. “Apoiamos os oprimidos”, disse-me minha mãe um dia, quando eu era pequeno. Eu gosto disso.

John Pilger

Entrevista com Jipson John e Jitheesh P.M., membros do Tricontinental: Institute for Social Research e que contribuem para várias publicações nacionais e internacionais, incluindo The Indian Express, o The Wire e o Montly Review. Podem ser contactados em jipsonjohn10@gmail.com e jitheeshpm91@gmail.com.

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Capitalismo, reconversão, e continuidade da barbárie

1- Como um grande camaleão, na viragem de 2018 para 2019 o capitalismo globalizante assume “dramaticamente” a reconversão para um novo formato geoestratégico com muitos conteúdos e contornos ainda por definir, em função da perspectiva de suas tensões internas e contradições internacionais, sem renunciar ao carácter bárbaro que lhe é intrínseco na persistência da esteira feudal que nutre sua própria essência expansionista e imperialista.
A administração republicana de Donald Trump toca a rebate em relação à hegemonia unipolar nos termos em que ela foi parida e estimulada pelo capitalismo financeiro transnacional, reflectindo decisões que ao arrepiarem no caminho global do caos, do terrorismo e da desagregação, impõem-se por via de medidas proteccionstas que mechem com a profundidade das placas tectónicas socioculturais da complexa sociedade estado-unidense, assim como em relação aos relacionamentos internacionais, num momento em que a IIIª Guerra Mundial “de baixa intensidade” se dilui num plasma de imprevisibilidade.
O presidente Trump iniciou um processo de tensas transformações, ao colocar em primeiro lugar a necessidade de se adoptarem nos Estados Unidos as práticas protecionistas agora já em curso, sem as quais e segundo a sua interpretação, estariam destinados a esvaírem-se nos desgastes implicados quer nas iniciativas do capitalismo neoliberal transnacional que foi semeado desde o final do que tem sido considerado de período da Guerra Fria, quer em função do carácter privado da Reserva Federal que desde a 1ª metade do século XX começou a corresponder às estratégias dominantes e hegemónicas da aristocracia financeira mundial.
O Presidente Donald Trump e a máquina que o apoia, não pretendem ser mais reféns desse capitalismo financeiro transnacional irresponsável perante a humanidade e também perante o próprio eleitorado estado-unidense, mas refugia-se num ciclo conservador de difícil compatibilidade com outras sensibilidades internas e externas, em especial em relação ao espaço das Américas, onde os cânones da Doutrina Monroe ressurgem envoltos nas roupagens contemporâneas de lesa-democracia.
A nível interno, o regresso a casa das capacidades e do poder financeiro das transnacionais que ocuparam o espaço da hegemonia unipolar e agora estão, forçosamente ou não, à procura de reconversão nos próprios Estados Unidos, está a activar o vulcão sociocultural e sociopolítico meio adormecido, herdado ao longo dum processo histórico expansionista e sangrento, substancialmente desde a IIª Guerra Mundial (os Estados Unidos, que se lembre sempre, foram os únicos a, até hoje, fazerem uso de armas atómicas sobre as cidades, no caso de Hiroshima e Nagasaki, no Japão).
Desde a sua origem que os Estados Unidos se vocacionaram nos processos de expansão, acabando por se tornar assim num império hegemónico unipolar, arrogante, sangrento e despótico no dobrar do século XX para o século XXI, mas agora os Estados Unidos começaram a ser obrigados ao movimento inverso, no sentido do recuo e da regressão, algo a que nunca se haviam antes habituado nos termos dos interesses da aristocracia financeira mundial, assim como das suas oligarquias e elites vassalas espalhadas pelo mundo e sobretudo pela Europa, América Latina e África...
2- O Partido Republicano apresenta tensões internas resultantes dessa deriva “contra natura”, mas as contradições sociopolíticas principais (entre a corrente que se propõe ao proteccionismo e os vícios do capitalismo neoliberal globalizante) resultam da confrontação com o criminoso papel servil que os Democratas desempenharam (e em muitos aspectos continuam a desempenhar) ao serviço do capitalismo financeiro transnacional, ele próprio corresponsável pelo contraditório crescimento meteórico da emergência chinesa, (tida agora como estando a trilhar já o caminho destinado à primeira potência económica global), como corresponsável pela tendência em direcção à exaustão financeira do papel-moeda correspondente ao petrodólar, esgotado nos labirintos de caos, de terrorismo e de desagregação semeados a partir dos enlaces derivados com e a partir do 11 de Setembro de 2001, enlaces que tiveram antecedente na formulação do Tratado de Quincy a 14 de Fevereiro de 1945, no imediato seguimento do encontro entre os aliados vencedores da IIª Guerra Mundial, em Ialta.
Há analistas que alertam para o risco duma convulsão interna nos Estados Unidos e em termos de relacionamentos internacionais, os sinais vão evidenciando a insustentabilidade da manutenção das geoestratégias erráticas das transnacionais da hegemonia unipolar no imenso continente euroasiático, apesar das crispações em torno da Rússia e da China, assim como nos oceanos e mares que lhes são próximos.
Nos subterrâneos dos relacionamentos, há cada vez mais países que vão abandonando o petrodólar nos seus negócios bilaterais e até multilaterais, deixando com isso de alimentar o monstro, apesar das sanções a que se sujeitam.
Esses países adoptaram o crescimento de suas reservas indexadas ao padrão ouro, que lhes permite também a, em função de suas riquezas naturais, criar cripto-moedas a fim de melhor salvaguardar a precária independência e soberania (como o caso da Venezuela socialista e Bolivariana).  
Abandonando o Tratado Trans Pacífico, saindo militarmente da Síria, ou reduzindo o seu contingente militar no Afeganistão, os Estados Unidos pela voz do Presidente Donald Trump renunciam em ser “os polícias do mundo”, apesar de ainda manterem mais de 800 bases espalhadas pelo planeta, apesar de suas naves de guerra sulcarem todos os oceanos e mares, apesar das ameaças ao Irão, ou à Venezuela Socialista e Bolivariana, apesar de continuarem a ser o maior vendedor de armas à escala global.
As capacidades geoestratégicas dos Estados Unidos na Eurásia estão todavia obsoletas e impotentes, face à pujança por um lado do “Belt and Road” da iniciativa chinesa, ligando Vladivostock a Londres, por outro face ao surgimento das armas hipersónicas russas e da panóplia de meios militares aparentemente vetustos, a que se adaptaram as mais avançadas tecnologias militares que se possam imaginar, do lado da Rússia e, pouco a pouco, também da China.
A Rússia ludibriou a capacidade de inteligência dos Estados Unidos e dos seus vassalos, ao reutilizar equipamentos navais, aéreos e terrestres da segunda metade do seculos XX, transformados em armas de vanguarda com as novas tecnologias desenvolvidas pelos engenheiros de suas Academias forjadas a partir do imenso mérito soviético.
Com inteligência e um “know how” incomparável, a Rússia é desde logo eficiente nas economias que faz ao vocacionar-se para o reaproveitamento de armas com aparência de obsoletas, mas que agora garantem uma superioridade geoestratégica abissal.
O presidente Putin, apesar de jogar em tantos tabuleiros à volta das imensas fronteiras terrestres e marítimas da Rússia, com mestria e subtileza diplomática responde com nervos de aço e contenção, tirando partido da superioridade tão dificilmente alcançada desde os tempos de traição, desde Gorbatchov e Ieltsin.
Na Síria não houve apenas uma vitória, houve a afirmação de sua capacidade dissuasora, sempre acima da fasquia que as potências retrógradas foram apresentando “no terreno”, por mais manipulados e contraditórios que se apresentassem os seus “jogos”, mantendo sempre aberta a janela no caminho da paz.
Na Síria houve também a previsão do assalto ao Mar Negro, cuja batalha se desenvolve à volta da tensão ucraniana tornada neofascista e neonazi após o “colorido” golpe de estado da praça Maidan.
Os vassalos dos Estados Unidos com rótulo de aliados na NATO, estão confundidos apesar dos tambores de guerra na Ucrânia, mais confundidos ainda quando uma das maiores forças armadas europeias componentes, a da Turquia,“dança com os ursos”, eternos alvos de sua propaganda irresponsável e agora apanhada em contra pé!
3- Até onde irá a retracção dos Estados Unidos, quando agora as suas esquadras navais se tornaram ridículas latas à mercê das enormes vantagens geoestratégicas russas, quando o carnaval de suas iniciativas sangrentas, motivadas pelas mais insaciáveis transnacionais, é posto a nu com a acumulação de derrotas, quando seu poder financeiro com base no petrodólar fica impotente e inútil, quando as bolsas começam a tremer esbatendo-se na orgia dos seus esgotados horizontes?
Até que ponto o investimento anunciado às pressas no sentido de se criarem armas hipersónicas, vai colmatar o deficit geoestratégico face à Rússia nos próximos dez anos?
Julgam que nos próximos dez anos a Rússia que demonstrou tanta clarividência e pujança em relação ao seu armamento, vai ficar estática, à espera que os Estados Unidos se recomponham?
Alguns candidatam-se ainda a serem artífices de “bons ofícios” na miragem do império anglo-saxónico, como a Grã-Bretanha que quer aumentar o número de suas bases “além-mar” a começar nas Caraíbas, juntando-se aos arsenais da ocasião que procuram cercar a Venezuela, Cuba e a Nicarágua.
Com a eclosão do exercício do novo presidente Obrador no México, que contramedidas se poderão equacionar bem na fronteira sul dos Estados Unidos?
Em época de retracção os Estados Unidos pretendem veladamente que outros preencham papeis que antes a si se reservava, o que aumenta a imprevisibilidade, os riscos e os movimentos erráticos também propiciados pelo disseminado arsenal “informal” de novas tecnologias.
O complexo enredo da guerra psicológica confunde-se com o emprego de operações que vão desde as de falsa bandeira com emprego de armas químicas, ou de drones, aos assassinatos selectivos, provocando caos, terrorismo e desagregação, aumentando a vulnerabilidade dos estados mais subdesenvolvidos da Terra.
O mundo bárbaro distende-se evocando ainda a “civilização judaico-cristã ocidental” ancorada nos fundamentalismos cristãos de ordem feudal, conforme às últimas eleições no Brasil, ou em nacionalismos rampantes tisnados de neofascismo e neonazismo, como na Ucrânia.
Entre os islâmicos, a Arábia Saudita atiça a espiral fundamentalista sunita-wahabita dos irmãos muçulmanos, conjugando veladamente esforços nesse sentido com os falcões de Israel.
África tem sido uma das diletas vítimas dessa espiral, que aproveita os enredos contraditórios da dialética entre as populações dos maiores desertos quentes do globo e as das ricas regiões tropicais, para melhor disseminar caos, terrorismo e desagregação, abrindo espaço ao neocolonialismo.
Chegou o ano de 2019 e muitas surpresas estão por surgir a curto e médio prazos, com uma NATO obsoleta, confundida e minada pelos nacionalismos alienados da Europa, com um comando cada vez mais ciente que a hegemonia unipolar está em estado malparado, em vias duma doença crónica irreversível.
Um mundo multipolar se vai desenhando a partir das convulsões que compõem a IIIª Guerra Mundial não declarada mas evidente, abrindo-se o caminho em terrenos quantas vezes fumegantes às integrações e articulações ainda que sem vislumbre consolidado duma paz duradoura, sem vislumbre da afirmação peremptória de civilização que a humanidade e o planeta tanto precisam!
O pré-aviso sobre uma hecatombe nuclear nunca foi tão sério como agora, no âmbito dessa IIIª Guerra Mundial que fermenta em relativamente “baixa intensidade” e em distendida “geometria variável” multiplicando os escombros, o vazio e as migrações forçadas… até quando?
Martinho Júnior - Luanda, 1 de Janeiro de 2019.
Imagens – três quadros de salvador Dali:
Metamorfose de Narciso;
O grande masturbador;
A face da guerra.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/capitalismo-reconversao-e-continuidade.html

Análise: como Ocidente destruiu relações com Rússia

Interceptor de mísseis lançado do cruzador USS Lake Erie da Marinha dos EUA perto do Havaí
© AFP 2018 / Marinha dos EUA

As ações dos EUA e seus aliados levaram a uma crise nas relações entre o Ocidente e a Rússia, mas Moscou apenas está respondendo à agressão contra si, escreveu na revista The American Conservative o especialista em política de segurança Ted Carpenter.

"Quando os historiadores estudam as primeiras décadas da assim chamada era depois da Guerra Fria, eles, provavelmente, olham surpreendidos para a política absurda e provocadora dos EUA e seus aliados da OTAN em relação à Rússia", escreveu o autor do artigo.

As numerosas ações mal pensadas do Ocidente levaram ao início da nova Guerra Fria, com tendências nos últimos tempos para virar uma guerra "quente", assinala.

Neste momento existe a possibilidade de evitar tal desenvolvimento dos acontecimentos, no entanto, o comportamento das elites norte-americanas depois do recente "incidente insignificante" no estreito de Kerch indica que não foram tiradas as conclusões necessárias dos seus erros. Ao contrário, parece que os americanos são prestes a reforçar a sua política dura contra Moscou, opina o especialista.


Imprevisibilidade da trajetória de voo do novo sistema Avangard, deve-se à sua alta capacidade de manobrar e neutralizar todos os sistemas de defesa antiaérea
© Sputnik / Ministério da Defesa da Federação da Rússia

A política de três administrações dos EUA em relação à Rússia foi imprevidente, segundo Carpenter. Os países da OTAN "organizaram uma série de provocações", apesar de Moscou não conduzir uma política agressiva que pudesse explicar tais passos do Ocidente, afirma o autor.

Além disso, o desejo de desafiar a Rússia tem apenas aumentado, o que é confirmado pela tensão de hoje relacionada ao incidente no estreito de Kerch, segundo Carpenter. "Neste caso, o Ocidente é retratado erroneamente como um jogador passivo, apenas reagindo às circunstâncias, como se as iniciativas da OTAN nunca tivessem sido provocadoras, pouco pensadas ou agressivas", afirma ele.

Porém, na realidade é mais justo dizer que são as ações de Moscou que representam uma resposta às iniciativas agressivas do Ocidente, ressalta.

De acordo com Carpenter, também é errado falar que a responsabilidade pelo agravamento das relações entre o Ocidente e o Leste é da Rússia por causa dos acontecimentos na Geórgia em 2008 e na Ucrânia em 2014, como dizem os norte-americanos. Os problemas começaram antes — o alargamento da OTAN e a indiferença perante os interesses russos nos Bálcãs deterioraram as relações amistosas, disse ele.

Os países da OTAN tratam Moscou como inimigo, e agora surge um perigo sério de que a Rússia possa se tornar mesmo um inimigo, conclui Carpenter.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/mundo/2018123013017660-analise-ocidente-relacoes-russia-destruir/

Nove hipóteses sobre a (não) saída do Exército dos EUA da Síria

Nazanín ArmanianO anúncio feito por Trump de que os EUA iriam retirar todas as suas tropas da Síria vale o que vale. A estratégia dos EUA na região é de aumentar a ingerência e a ocupação militar, não de a reduzir. Este artigo coloca várias interessantes hipóteses de interpretação.


 

“Uma vez que derrotamos o ISIS na Síria, as tropas voltarão para casa”. Algo como isto disse o presidente Trump em 19 de Dezembro, provocando um terremoto político. Os neocons acusam-no de cometer um erro colossal que pode levar a outro 11-S, de entregar a Síria ao Irão e à Rússia ou de traição dos aliados curdos.

Obviamente, os EUA não derrotaram o ISIS, porque:

1) O “Jihadismo” é uma criatura do Pentágono[1], Israel e Reino Unido, como foi confirmado pelo ex-funcionário da NSA Edward Snowden ou pelo The New York Times (24 de Março de 2013), que revelou que a CIA havia enviado toneladas de equipamento militar para os rebeldes via países árabes e Turquia;

2) A luta contra o ISIS é travada pela Rússia, o exército sírio, as milícias do Irão e os curdos, não pelos EUA;

3) Pelo menos 2,5 milhões de sírios são ainda reféns dos terroristas em diferentes regiões do país;

4) Milhares de “jihadistas”, depois de cumprir sua missão (que foi demolir o Estado sírio) foram transferidos pela CIA para Arco de Crises na Ásia Central[2] e Oriental para continuar actuando como paramilitares NATO nos países estratégicos. É por isso que Israel já deixou de os armar na Síria[3].

Algumas hipóteses

Como os EUA nunca retiraram voluntariamente as suas tropas de nenhum país, aqui se adiantam algumas ideias possíveis:

A) Que se trata uma notícia falsa. A “missão cumprida” de Trump na Síria soa à de George W. Bush em 2003, quando anunciou a destruição total do Iraque imperialista e derrubou o seu presidente legítimo Saddam Hussein: 15 anos depois as tropas ainda estão lá. Obama também se gabou em 2011 de matar o demônio Bin Laden (melhor dizendo, o seu fantasma) declarando o fim do Mal, embora em 2014 tenha ressuscitado o terrorismo na Síria, para justificar outra agressão militar contra outro país estratégico. Se é verdade que Trump repatria os seus soldados uma vez “cumprida a missão”, o que fazem eles no Japão ou na Alemanha 74 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial? Por que não desmantela as cerca de 800 bases militares semeadas pelo planeta? Em 5 de Outubro do ano passado, John Bolton, o (ainda) conselheiro de Segurança Donald Trump dizia que a ameaça terrorista na Síria é “mais complexa do que nunca” e que os EUA vão permanecer ali indefinidamente. Quem mente e por quê? Os EUA já possuem umas de 20 bases e instalações militares na Síria. É ingênuo pensar que irão perder de boa-vontade essa conquista na Eurásia. Diz o Fact Checker’s database, um detector de mentiras dos discursos de Trump, que até Novembro de 2018 o presidente havia dito 7.546 mentiras.

B) Que se trate de uma suspensão temporária, enquanto durar a ofensiva turca na cidade árabe de Manbich na Síria para “libertar” os curdos. Trump, que ordenou a saída da Síria para todos os funcionários do Departamento de Estado no prazo de 24 horas, apoia o ataque enquanto salva os seus soldados de serem apanhados no fogo cruzado (e também uma possível retaliação do Irão se Israel cumpre as suas ameaças e ataca o Líbano). Assim, Trump acaba com a autonomia curda e crise “desnecessário” que o Pentágono provocou com a Turquia utilizando os curdos e, de caminho, lança uma armadilha ao exército sírio, confrontando-o com os turcos para defender a sua terra. Era este o preço que Erdogan tinha colocado sobre a cabeça do príncipe Mohammed Bin Salman (o autor nada intelectual do crime sobre Khashoggi) exigindo também o levantamento das sanções contra o Catar e a expulsão do teólogo opositor Fethullah Gulen, residente nos EUA. Em troca, Erdogan renovaria os seus compromissos com a NATO, pagaria os 3.500 milhões de dólares pelo o sistema de defesa da Patrio, e outros milhões mais pelos F35, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - que, de acordo com o jornal turco Yenisafak tinham enviado tropas para a região curda da Síria -, deixará de apoiar Rojava e congelará os milhões que ia destinar-lhes. O anúncio do cessar-fogo no Iémen é outra das medidas de Washington para lavar a cara dos sauditas.

C) Uma medida eleitoralista, precisamente antes do Natal, como prenda às famílias dos militares que fazem parte da sua base social e um gesto com impacto depois de perder as eleições parlamentares de Novembro. Integra-se nesta linha o destinar de milhares de milhões de dólares para um absurdo e cruel muro na fronteira com o México.

D) Uma tática de desvio de atenções. Trump enfrenta um ano judicial muito complicado, com várias investigações sobre o Caso Mueller, a Fundação Trump e “Russiagate”. Não é de descartar, por outro lado, que com o mesmo objetivo, recorra a uma guerra como cortina de fumo.

E) Deslocar os projectores para o Irão:
• Após duas décadas de ausência, os EUA voltam a enviar o porta-aviões nuclear John C. Stennis para o Golfo Pérsico, enquanto reforçam a sua presença na base militar que possuem na cidade curda iraquiana de Erbil, na fronteira com o Irão. Por outro lado, é possível que Trump, ao excluir oito países das sanções que impôs sobre o petróleo iraniano, tenha querido demonstrar que o embargo não tem sido eficaz para deter o “terrorismo iraniano” e tenha querido puni-lo militarmente, embora de momento prefira apertar o torniquete económico em torno do pescoço dos iranianos para sejam eles a acabar com a República Islâmica.
• Trump demitiu o secretário da Defesa, o general Mattis, o último defensor do acordo nuclear com o Irão e de relações cordiais com a China, que se opusera a que qualquer primeira viagem ao exterior do presidente fosse à Arábia e a Israel.
• A nomeação de Yossi Cohen como novo diretor de Mossad: ele é um fanático anti-iraniano, perito em operações secretas no exterior.

F) Privatizar as guerras: Outro dos motivos da “renúncia” de Mattis foi a sua insatisfação com Trump por delegar as “missões” militares do Pentágono a empresas privadas, que mancham a imagem dos EUA e procuram apenas maximizar os lucros privados. O Constellis Group (ex-Blackwater) que foi acusado de torturas no Iraque, celebra a sua queda: deste modo 8000 “contratados” substituiriam cerca de 23.000 soldados da NATO no Afeganistão, por exemplo. Além disso, a formação de cerca de 40.000 homens curdo-árabes das Forças Democráticas Sírias (FDS) pelo Pentágono, ou o projeto “NATO árabe” vai no mesmo sentido: os EUA dirigirão as operações militares usando as suas armas avançadas e os seus conselheiros e o dinheiro e a carne para canhão serão colocados por outros.

G) Entregar a direção da guerra síria à NATO: Turquia e França retirarão uma carga de cima dos Estados Unidos, e ao permanecerem atolados neste conflito deixarão de ser contestatários face a Trump. Além disso, assim os EUA repartirão com os aliados o ódio sentido pelos povos da região contra o país que só nas últimas duas décadas destruiu a vida de quase 100 milhões de pessoas.

H) Fazer de Madman, provocando caos e nervosismo na Síria para que o exército dos EUA venha a ser convidado a ocupar “legalmente” o país, a mesma tática usada por Obama em 2009 retirando parte das suas tropas ilegais do Iraque para em seguida enviar mais 3.000 soldados a pedido do primeiro-ministro Nuri al Maliki. Assim, além de agradecer, pagam a manutenção dos ocupantes. Trump mostra deste modo o seu descontentamento para com Israel por ter contratado duas empresas chinesas que administrarão os portos de Haifa e Ashdod (como parte da Nova Rota da Seda), em vez de acolher a Marinha dos EUA.

I) Que a Arábia Saudita e o Qatar, afetados pela queda dos preços do petróleo, não podem continuar a financiar as tropas na Síria, que não tenham cumpriram o “encargo” de acabar com Assad e expulsar o Irão.

***

A guerra contra o terrorismo é uma patranha a que o complexo industrial-militar não vai renunciar. A ameaça contra os EUA e seus aliados é zero, enquanto o imperialismo precisa de recursos naturais e mais mercados: a batalha pelos últimos barris de petróleo está apenas a começar. Como a decisão de Trump é mais pessoal do que uma nova estratégia dos EUA, ela pode ser corrigida, matizada ou revogada.

Nazanín Armanian 

 

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5376/nueve-hipotesis-sobre-la-no-salida-del-ejercito-de-eeuu-de-siria/

Divulga o endereço[4] deste texto e o de odiario.info[5] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ “Jihadismo” é uma criatura do Pentágono (blogs.publico.es)
  2. ^ Arco de Crises na Ásia Central (blogs.publico.es)
  3. ^ Israel já deixou de os armar na Síria (blogs.publico.es)
  4. ^ endereço (www.odiario.info)
  5. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

O Gás Que Muda o Jogo no Mediterrâneo Oriental

Geopolítica da Energia. Um trabalho de análise geopolítica do Prof. Giuseppe Gagliano.

Visto de Itália: Um trabalho de análise geopolítica do nosso amigo Prof. Giuseppe Gagliano, presidente do Centro Studi Strategici Carlo de Cristoforis e líder da escola italiana de inteligência económica, sobre as consequências geopolíticas e geoeconómicas da “irrupção” do gás no Mediterrâneo Oriental.

Si gioca sul gas la partita del Mediterraneo orientale

Giuseppe Gagliano | 22 dicembre 2018

Roma, 22 dic – In Europa, le questioni legate al gas sono particolarmente esasperate a causa della volontà di dipendere meno dalle risorse del gas russo. In effetti, l’emergere di nuovi esportatori di gas con cui negoziare, rappresenta una grande opportunità per diversi attori, in particolare gli stati o le compagnie petrolifere.

Mapa – Geopolítica do Gás no Mediterrâneo Oriental

La scoperta di nuovi giacimenti di gas in Israele, aggiunta al potenziale energetico dell’Egitto e alle ambizioni turche, suggerisce che il Mediterraneo sia ora un grande teatro per il gioco energetico. Sebbene i depositi del nostro bacino naturale siano lontani dal rappresentare la maggior parte delle risorse di gas del mondo, la loro ubicazione solleva questioni geopolitiche di rilievo. Possiamo vedere che il gas, una fonte di energia e opportunità, è diventato una nuova fonte di tensione. Molto probabilmente si giocherà il dominio dell’energia tra Israele ed Egitto, aprendo una nuova fase di sviluppo nella regione ma determinando anche nuove rivalità e lotte di potere. I nuovi giacimenti di gas scoperti in Israele stanno infatti contrastando l’apparente dominio energetico del Cairo, che aveva cominciato a emergere. Ancora più sorprendente, anche se l’Egitto era un importante produttore di gas, un contratto presentato come “storico” è stato firmato tra l’Egitto e Israele, con il secondoche ora si posiziona come nuovo fornitore dei primi. Quest’ultimo ha visto diminuire il proprio potenziale di leader a causa dell’aumento del fabbisogno energetico legato a una crescita demografica significativa e all’esplosione del consumo di energia. È quindi paradossale notare che i due attori che si contenderanno in futuro per il dominio del mercato del gas sono, per il momento, in una fase di cooperazione.

Tuttavia, questo accordo sembra essere la bozza di strategie specifiche per entrambi i paesi. Da un lato, le buone relazioni con Israele e il contratto siglato, potrebbe consentire all’Egitto sia di incrementare la propria politica commerciale sia di risparmiare tempo per sviluppare il proprio mercato del gas in seguito alla scoperta del deposito Zohr nel 2015. Con questa importante nuova fonte di gas, l’Egitto prima o poi troverà il percorso dell’indipendenza energetica.

Dall’altra parte, Israele deve fare i conti con l’assenza, sul suo territorio, di infrastrutture adatte. Le risorse di gas implicano infatti installazioni specifiche e costose. La domanda interna, non importa quanto sia forte, non può essere sufficiente per finanziare questi investimenti: la sfida è quella di trovare nuovo sbocchi. Per Israele, un accordo con l’Egitto è l’occasione per ottenere risultati tangibili, generare una significativa domanda estera e quindi ravvivare la speranza di dominare il mercato prima che l’Egitto riprenda il sopravvento.

È utile ricordare che in precedenza esisteva un contratto tra Israele ed Egitto, quando l’Egitto era indipendente in termini energetici e si posizionava come un potente esportatore di gas. Tuttavia, questo contratto non aveva resistito alle tensioni tra i due stati: le loro relazioni erano state indebolite dal rovesciamento dei Rais, nonché dalle operazioni di sabotaggio del gasdotto. Anche l’Egitto considerava questo contratto troppo vantaggioso per Israele.

La questione principale è stabilire insomma se Israele e l’Egitto possono andare oltre le loro differenze storiche e le loro rivalità. Piuttosto che un vero disgelo nei rapporti tra i due paesi, sembra più appropriato parlare di strategie di sviluppo individuali per la leadership energetica nel Mediterraneo. Questo elemento è tanto più vero in quanto le principali differenze di percezione tra Israele ed Egitto sembrano preesistere. Se Israele parla di un contratto storico e sembra intimamente convinto che questa alleanza sarà la chiave del successo, l’Egitto è più misurato e cauto riguardo all’accordo. Quest’ultimo potrebbe benissimo essere rotto, non essendo considerato ufficiale. Tutto dipenderà dai benefici che sarà in grado di portare. Pertanto, questi diversi punti di vista, simboli di divergenze di lunga data tra i due attori, costituiscono una potenziale fonte di ulteriore tensione e sottolineano la natura destabilizzante delle risorse energetiche, o almeno la loro gestione.

Il problema delle partnership con gli stati oltre il Mediterraneo sta anche facendo rivivere le tensioni. Allo stato attuale, tutto sembra indicare che l’Europa favorirà l’Egitto per le sue importazioni: una relazione del Parlamento europeo nel 2017 (elaborata dalla Direzione generale per le politiche estere) afferma che “l’Egitto sembra detenere la chiave per il futuro del gas nel Mediterraneo orientale”.

Oltre alle infrastrutture che lo rendono più competitivo, l’Egitto sembra concentrare più risorse di Israele, soprattutto in termini di confini. L’Egitto ha fissato le frontiere, dove Israele non è ancora d’accordo con il Libano sui suoi confini terrestri e marittimi. Sembra quindi molto più facile negoziare con l’Egitto. Tuttavia, l’Europa ha deciso di concludere accordi separati con l’Egitto e Israele: mentre questa strategia può servire gli interessi europei, costituisce tuttavia un nuovo elemento di disturbo nelle relazioni tra i due stati mantenendo una concorrenza fra di loro.

Tutti questi nuovi elementi portano alla conclusione che non è sempre vero pensare che lo sviluppo economico di una regione consentirà di regolare le tensioni geopolitiche. La prova consiste proprio nell’osservare che il successo del gas di alcuni paesi sta creando ancora più tensioni e rivalità. Le questioni legate al gas nel Mediterraneo non riguardano solo Israele e l’Egitto, ma sono anche collegate ad altri attori regionali o internazionali. In primo luogo, la questione del dominio dell’energia non sarà risolta senza l’irruzione della Turchia nelle strategie locali. Erdogan desidera da tempo trasformare la Turchia in un centro energetico, un’ambizione che compete con le aspirazioni dell’Egitto. La Turchia ha già dimostrato di poter agire per impedire lo sviluppo di altri stati della zona che potrebbero costituire una potenziale minaccia per la sua leadership (come ha dimostrato con Cipro). È quindi possibile pensare che la Turchia non permetterà a Israele di diventare uno dei principali attori del gas nella regione, il che non può che rafforzare le tensioni.

Oltre la Turchia, non dobbiamo dimenticare il ruolo svolto dai maggiori gruppi petroliferi nella regione: l’Eni ha scoperto i grandi giacimenti egiziani, il contratto tra Israele ed Egitto è stato firmato dalla compagnia egiziana Dolphinus e da un consorzio israelo-americano (Delek e Noble Energy). Ciò che questi esempi dimostrano è che gruppi come l’Eni hanno compreso le questioni in gioco nel Mediterraneo, che saranno decisive per il futuro energetico della regione e del mondo. A questa influenza delle grandi aziende, si può aggiungere anche la presenza, sempre in filigrana, degli Stati Uniti, che non intende rimanere passiva nella regione allo scopo di ostacolare le ambizioni russe o cinesi che hanno legami sempre più stretti con Ankara. In ogni caso, la sfida per Israele, l’Egitto e altri attori regionali sarà quella di essere i più competitivi possibili al fine di continuare ad attirare l’interesse degli attori chiave dell’energia per la regione. Ciò che è importante sottolineareè che anche la lotta per il dominio dell’energia nel Mediterraneo è destinata ad aumentare ulteriormente la volatilità geopolitica della regione.

Giuseppe Gagliano

Si gioca sul gas la partita del Mediterraneo orientale


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Quando os elefantes lutam

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 20/12/2018) 

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Os economistas e especialistas em relações internacionais dividem-se quanto à questão de até que ponto é que a hegemonia norte-americana se encontra em declínio. Seguramente, os Estados Unidos da América continuam a ser a maior economia mundial em termos absolutos, controlam a infraestrutura do sistema financeiro internacional, emitem a moeda-base do sistema global, exercem uma enorme influência cultural sobre o resto do planeta e possuem um poderio militar sem rival. Além do mais, a economia norte-americana encontra-se neste momento a viver um dos mais longos períodos de expansão da sua História e a taxa de desemprego encontra-se no nível mais baixo dos últimos cinquenta anos.

Porém, o conceito de hegemonia é necessariamente relacional. A questão não é se os EUA se encontram num processo de declínio absoluto, mas se o seu poder relativo tem vindo a ser erodido ao ponto de podermos desde já antecipar uma transição hegemónica. E para isso é inevitável que olhemos para a China e para o fulgurante crescimento da sua economia e da sua influência externa.

A China tem vindo a crescer economicamente ao ponto de ir em breve ultrapassar em termos absolutos a dimensão da economia norte-americana, tem construído gradualmente um conjunto de estruturas institucionais de apoio a essa expansão (dos BRICS ao Fórum de Cooperação China-África e do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas à Iniciativa “Uma Faixa, uma Rota”) e tem adoptado uma política muito forte de empréstimos externos e aquisição de activos por todo o mundo, incluindo em países do Sul da Europa como Portugal. Não há dúvida que o seu poder global é crescente e, nalgumas regiões como África ou o Sudeste Asiático, rivaliza claramente com a influência norte-americana. A abertura em 2017 da primeira base militar chinesa no estrangeiro no Djibouti, junto à entrada do Mar Vermelho, constituiu um momento particularmente significativo.

Xi Jinping tem asseverado – ainda há poucos dias o fez novamente, num discurso pelos quarenta anos do início das reformas de Deng Xiaoping – que a China não pretende disputar a hegemonia global. No contexto da actual rejeição do multilateralismo por parte da liderança norte-americana, tem até assumido o papel de defensora de uma ordem internacional multilateral e baseada em regras, o que não deixa de denotar uma brilhante capacidade de aproveitamento da oportunidade para aumentar o seu próprio “soft power”.

Porém, independentemente das intenções de uns e outros serem mais ou menos pacíficas, a expansão global da influência chinesa implica materialmente uma probabilidade cada vez maior de ocorrência de confrontos entre interesses chineses e norte-americanos em diferentes pontos do globo. De forma para já relativamente circunscrita e por “procuração” através de agentes locais (como no Sudão ou no Mar do Sul da China), estas colisões de interesses estão já a ocorrer e vão tender a intensificar-se à medida que a China continuar a alargar a sua influência.

Para a maioria dos teóricos das transições hegemónicas, os períodos de declínio de uma potência hegemónica e de afirmação crescente de uma ou mais potências rivais são tendencialmente períodos de instabilidade e conflitualidade acrescidas no sistema internacional. A natureza inter-imperialista dos confrontos de interesses entre a anterior potência hegemónica (a Grã-Bretanha) e as potências emergentes à época (EUA, Alemanha e Japão) é certamente uma parte importante da explicação para o período de turbulência global e conflito generalizado entre 1914 e 1945.

A forma como terá lugar a erosão da hegemonia norte-americana e a ascensão da China será uma das grandes questões para a paz e para o futuro da humanidade neste Século XXI. Como afirma o provérbio africano, quando os elefantes lutam a erva sofre.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

ATRACÇÃO GEOESTRATÉGICA

 

A prioridade na atenção conferida pela Rússia à Turquia, é uma força de atracção geoestratégica que concorrerá para fortalecer os programas em curso inseridos na nova Rota da Seda e contribuirá para a decadência dos Estados Unidos e da NATO no Médio Oriente e na Ásia Central, influindo na evolução da situação no miolo continental euro-asiático.
1- Depois das últimas reuniões, a tripartida entre a Rússia, a Turquia e o Irão (cimeira de Teherão de 9 de Setembro de 2018) e a bilateral entre a Rússia e a Turquia (cimeira de Sochi, a 17 de Setembro de 2018), dando sequência à Convenção sobre o Mar Cáspio, assinada na cidade cazaque de Aktau a 12 de Agosto de 2018 pela Rússia, o Irão, o Azerbeijão, o Turcomenistão e o Cazaquistão, continuam a ser dados passos que reforçam a geoestratégia impulsionadora da construção da nova Rota da Seda que se distende do Pacífico ao Atlântico e tem como pontos muito sensíveis as dinâmicas inscritas na Ásia Central e no Médio Oriente.
Em Sochi, na Rússia, conforme divulga a Rede Voltaire de 18 de Setembro corrente no artigo “A batalha de Idlib é adiada”(http://www.voltairenet.org/article203026.html), “Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdoğan assinaram, antes de tudo, acordos de cooperação económica a respeito da construção do gasoduto Turkish Stream e da central nuclear civil de Akkuyu, acordos particularmente bem-aceites por Ankara, cuja economia acaba de desmoronar brutalmente” face às fustigadoras medidas do aliado Estados Unidos sob a orientação da administração de Donald Trump.
Essa iniciativa contribui para o fortalecimento e sustentabilidade dos planos da nova Rota da Seda, tal como a Convenção sobre o Mar Cáspio, em duas regiões críticas para a sua construção, no Médio Oriente e na Ásia Central, o que significa que a manobra da atracção turca, ao se tornar prioritária e de primeira grandeza, neste momento subordina tudo o demais, inclusive o contencioso de Idlib na Síria e quaisquer outras abordagens sobre a Síria, atirando a coligação sob a égide dos Estados Unidos para um mero sinal periférico, desvalorizado e decadente.
A geoestratégia inscrita na nova Rota da Seda está já a esbater e a atirar para um segundo plano toda a confrontação militar no terreno, inclusive em relação às acções de Israel, do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos, dentro ou fora da coligação com os árabes. sunitas e wahabitas.

O próprio “timing” da reunião bilateral de Sochi é disso esclarecedor: só depois da assinatura das iniciativas económicas geoestratégicas que socorrem a Turquia face às emergências impostas pelos Estados Unidos, se passou à discussão relativa às questões militares operacionais correntes sobre a Síria e Idlib:
“Será estabelecida, em 5 de Outubro, uma linha de demarcação entre a zona jihadista e o resto da Síria. Esta zona desmilitarizada estará sob a responsabilidade conjunta da Rússia e da Turquia. As tropas turcas deveriam recuar alguns quilómetros dentro da actual zona, de modo a deixar os sírios libertar a autoestrada que liga Damasco a Alepo.
Assim, a Rússia afasta a Turquia dos ocidentais, evita colocar o seu aliado sírio em perigo e continua a libertação de seu território sem ter de envolver-se em combates”…

2- O derrube do avião de reconhecimento IL-20, cujo carácter operacional se inscreve numa provocadora manobra de guerra psicológica por parte dos falcões israelitas, franceses e seus pares, eles próprios também periféricos que procuram obstruir a construção da nova Rota da Seda, é colocada pelo Presidente Putin, um notável estratega, precisamente no seu lugar, malgrado a radiografia contundente do Ministério da Defesa da Rússia sobre o incidente.
A geostratégia para a construção da nova Rota da Seda exige que em paz as portas se mantenham sempre abertas para a integração de novos participantes nela, em função do seu notável poder de atracção enquanto espinha-dorsal para a economia euro-asiática do século XXI e, se a Turquia está neste momento na primeira linha das opções da manobra de atracção, Israel tem em aberto essa oportunidade, algo que em nome da paz geoestratégica vai confundir, mas também inibir, o carácter de suas intervenções militares e dos seus aliados.
Nesse sentido a provocação que levou ao derrube do avião de reconhecimento russo IL-20 e à morte de seus 15 ocupantes militares, teve da parte do estratega Putin a interpretação adequada, ainda que medidas de retaliação persuasivas e inibidoras desse tipo de provocações estejam necessariamente a ser tomadas.

A constante busca por um ambiente de paz que será sempre necessária para levar por diante a geoestratégia da construção da nova Rota da Seda, continua a ter ainda um preço elevado na Síria, mas as provocações, sendo um sinal de desespero, demonstram quanto os “estrategas” ocidentais e seus aliados, entre eles os falcões de Israel, não passam de rasantes pardais, face à visão de águia do Presidente Putin e daqueles que estão empenhados no universo mutipolar emergente.
A visão geoestratégica com largos horizontes civilizacionais ávidos de futuro, não se perturba com provocações que são elas próprias um desespero que remete para a barbárie do passado!
Haverá melhor forma de convencer a Turquia, na ânsia resoluta da construção dum universo multipolar, sobre a necessidade de ruptura com a NATO e seu contraditoriamente insustentável absurdo hegemónico e unipolar?
Martinho Júnior - Luanda, 24 de Setembro de 2018
Ilustrações:
Linhas de orientação geoestratégica da nova Rota da Seda;
Cimeira de Teherão a 9 de Setembro de 2018:
A Síria retalhada;
Mapa da região de Idlib;
Derrube do avião de reconhecimento russo IL-20 a17 de Setembro de 2018.
Minhas intervenções de 2018 sobre a Síria:
IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR ESTÁ A SOFRER REVESES GEOESTRATÉGICOS NO MÉDIO ORIENTE! – http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/05/imperio-da-hegemonia-unipolar-esta.html:
ROJAVA, UMA EMBRULHADA À MEDIDA DOS ALUCINADOS LABIRINTOS DE TRUMP! – http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/01/rojava-uma-embrulhada-medida-dos.html;
Algumas consultas:
A Nova Rota da Seda passará pela Síria – http://www.orientemidia.org/a-nova-rota-da-seda-passara-pela-siria/;
La iniciativa de la Franja y la Ruta requiere un ambiente pacífico y estable – https://mundo.sputniknews.com/economia/201705141069147786-china-foro-economico/;
La cumbre de Teherán: un paso más para el establecimiento de la paz en Siria – https://mundo.sputniknews.com/orientemedio/201809091081842427-cumbre-teheran-paso-para-establecimiento-paz-siria/;
A guerra contra a Síria, ou de como se falsifica a história – http://paginaglobal.blogspot.com/2018/03/a-guerra-contra-siria-ou-de-como-se.html;
Putin y Erdogan acuerdan crear una zona desmilitarizada cerca de Idlib – https://actualidad.rt.com/video/289510-putin-erdogan-crear-zona-desmilitarizada-idlib;
A batalha de Idlib é adiada – (http://www.voltairenet.org/article203026.html);
A batalha de Idleb que Washington, Paris & Londres querem impedir –  https://www.resistir.info/moriente/idlib_27ago18.html;
As reivindicações ocidentais sobre a Síria – http://www.voltairenet.org/article203003.html;
Declaração de Princípios para o Pequeno Grupo da Síria – http://www.voltairenet.org/article202994.html;
Ejército sirio descubre pruebas de apoyo israelí a terroristas – http://www.hispantv.com/noticias/siria/364514/israel-apoyo-terroristas-extremistas-golan;
Fragata francesa dispara mísseis a partir do Mediterrâneo – https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2018091712231166-misseis-fragata-franca/;
La 'teoría del todo' sobre el derribo del Il-20 ruso en las costas sirias – https://mundo.sputniknews.com/blogs/201809211082147964-sobre-derribo-avion-ruso-en-siria/;
Israel provocou de forma consciente situação perigosa no céu sobre Síria, opina analista – https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2018092412282907-israel-siria-il-20-especialista-culpa-aviao-russo/;
Rússia: novos dados indicam claramente que Israel é culpado por derrubada do avião Il-20 – https://br.sputniknews.com/russia/2018092412286062-russia-siria-il-20-defesa/;
Síria com S-300 russos deixará caças israelenses só espiando – https://br.sputniknews.com/charges/2018092412284278-siria-cacas-israel-abate-il20/.