Extrema direita

Batidas as asas de uma borboleta

Nunca ninguém conseguiu provar que o bater de asas de uma borboleta no continente americano possa provocar um tufão no mar da China, mas a metáfora funciona bem para múltiplas situações em que um acontecimento localizado suscite reações exponencialmente detetáveis.

 

O hediondo crime cometido contra George Floyd alterou a tal ponto a realidade norte-americana, que Trump deverá, nesta altura, estar a pôr os poucos neurónios a fazerem horas extraordinárias a fim de procurarem alguma saída airosa, que venha a explicar o seu previsível desaire de novembro. Em poucos dias um dos estados onde maior peso têm os republicanos - o Mississipi - legislou de forma a alterar a bandeira onde ainda constava a reprodução da assumida pelos racistas do Sul durante a Guerra da Secessão. No Supremo Tribunal Trump julgava já ter maioria a favor da sua agenda e duas semanas bastaram para compreender o engano: votação favorável à comunidade LGBT, aosdreamerse ao direito a abortar puseram em estado de choque os seus atoleimados apoiantes. E Mark Zuckerberg teve de vir, em pânico, comunicar que ia impor avisos a mensagens de ódio espalhadas na sua rede, quando as ações do Facebook tiveram quebra significativa por se multiplicarem os anunciantes dispostos a cortarem-lhe as receitas por nada fazer contra quem visa sabotar a onda antirracista em curso no país.

 

Cá dentro o Aldrabão terá já pressentido que os tempos correm em seu desfavor. O primeiro sinal terá dado por quem julgava fiel aliado - o grupo Cofina - e levou-o a pretender-se mais moderado do que o seu discurso extremista pressupunha. Por isso, depois da retórica de ódio contra comunidades étnicas especificas decidiu organizar a manifestação de sábado, à qual apenas compareceram os prosélitos espalhados pelo país, normalmente aquele tipo de oportunistas, que falharam a possibilidade de serem alguém nos partidos tradicionais e buscaram alternativa neste que prometia ascensões fáceis tão só debitassem os preconceitos até então guardados no seu íntimo.

 

Oflopfoi indisfarçável. O tal sapo que queria inchar até parecer um boi ameaça não passar da dimensão de um texugo por não lhe sobrar fôlego para muito mais. E se a meia dúzia de pontos percentuais a colher nas presidenciais o poderão iludir, eles significarão para Ventura os oito conseguidos por Tino de Rans em 2016: uma mão cheia de nada.

 

Daí que justifique associar-me a Miguel Pompeia quando, nas redes sociais, questiona se o partido do Aldrabão chegará sequer às próximas legislativas. E para isso decerto contribuirá o responsável da tutela, que promete reprimir todos os polícias - alguns dos principais apoiantes do Chega - que dentro ou fora do Movimento Zero fazem política contrária ao ditado pela Constituição de que devem ser incondicionais zeladores. Para eles a morte de George Floyd também terá significado o dobre de finados sobre as suas práticas protoneofascistas.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/06/batidas-as-asas-de-uma-borboleta.html

Donald Trump convida André Ventura para convenção nos Estados Unidos

(Comentário:
lol...lol)
 
 

António Pedro Santos

 

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convidou o presidente e deputado único do Chega, André Ventura, para marcar presença na Convenção Nacional do Partido Republicano (2020/RNC) nos Estados Unidos.

 

De acordo com o jornal i, que avança a notícia na sua edição impressa desta terça-feira, a convenção vai decorrer entre 24 e 27 de agosto em Jacksonville, no estado da Florida.

O mesmo jornal precisa que André Ventura fez o anúncio oficial do convite que recebeu de Donald Trump no Conselho Nacional do Chega que decorreu este domingo, em Beja.

O presidente do Chega será acompanhado por Diogo Pacheco de Amorim e Jorge Pereira.

No Conselho Nacional, André Ventura disse que o Presidente norte-americano considerou o Chega um partido conservador, o que motivou o convite para a convenção.

A convenção assinalará oficialmente a recandidatura de Donald Trump à Casa Branca.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/donald-trump-convida-andre-ventura-convencao-nos-estados-unidos-332488

O réptil

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Por -
 
O réptil tem a pele grossa e respira por pulmões. Não controla a temperatura. Aquece-se nos média e foge do calor para o ar condicionado do escritório ou da AR. É exímio na arte de se camuflar, mas é um carnívoro que não larga as presas. Põe um cravo na lapela quando lhe convém, e abomina-o se o beneficia. Defende os Direitos Humanos para ter um diploma e serve-se desse diploma para os combater.

O réptil é viscoso e repelente, e consegue atrair as presas. O réptil não tem passado, tem fome de futuro. E adapta-se muito bem ao ambiente terrestre.

O réptil passa pelas pessoas e parece normal. Psicopatas, marginais e cadastrados veem no réptil a luz que os ilumina, o arauto da nova ordem que germina no ódio à liberdade, o aríete contra as minorias e a democracia.

O réptil foi, em Portugal, o primeiro animal a conquistar um lugar na casa da Liberdade, para a combater, fazendo jus à história evolutiva, em que os répteis foram os primeiros vertebrados a conquistarem o ambiente terrestre.

O réptil adora a ditadura e defende a democracia, odeia a diferença e alicia indiferentes. Grita que é perseguido quando persegue e continua ruidoso quando lacera as vítimas.
O réptil desfila na Avenida da Liberdade, alheio ao nome que pretende extinguir. Finge apreço pela diferença e faz da manifestação de força a força da provocação que deseja.
O réptil defende a lei para a modificar, a ordem para a subverter, as forças de segurança para as atrair para a vingança e a violência.

O réptil mente e atribui aos outros a indignidade própria. É um traste que evita referir as avenças de que vive, o biltre que atribui aos outros a náusea que é, fazendo das intrigas factos e das calúnias verdades.

O réptil é um professor dispensado da docência para insultar o Governo ou o escriba em comissão de serviço nos média para corroer a democracia.

O réptil não nasceu réptil. Fez-se, debitou baba e peçonha nas televisões e cevou-se com os detritos que bolçou. Entrou na política através de um imbecil e acabou a rastejar por conta própria, a regurgitar calúnias e a atribuir aos adversários os retratos de si próprio.

O réptil é um invejoso e vingativo sem escrúpulos. É filho do acaso. Despreza a justiça e apresenta-se como justiceiro. Se não aprovarem a justiça que apregoa, dispõe de outra. Como não tem moral, a moral não conta. Tem a moral que lhe convém. Por isso defende qualquer moral. E finge que tem moral. Faz mal aos outros, e gosta, e, depois, faz-se de sonso. O réptil rouba a honra que não tem e que dispensa.

O réptil é um cobarde perverso quando ofende e ataca políticos. O réptil não tem pudor. Ouve marginais úteis e senis raivosos e tira conclusões. Depois diz que não concluiu e esconde-se atrás do que ouviu. O réptil é labrego nos jornais, grosseiro nas televisões e boçal nas entrevistas. O réptil é um político que é mestre a rastejar.

O réptil é um furúnculo recheado de pus. É a cabeça de uma infeção em marcha que se alimenta do ódio e das feridas que escarafuncha. É a metáfora da nostalgia salazarista.
O réptil é o talibã que fere e mata, mas larga os explosivos depois de esconder o corpo. O réptil não é monárquico nem republicano, de esquerda ou de direita, ateu ou crente, é um animal que roja o ventre e rasteja ao sabor do vento.

O réptil é perigoso porque nos habituamos a conviver com ele.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/06/o-reptil.html

Falemos hoje de fantasmas e de moscas...

1. No mesmo dia em que umas centenas de pascácios desceram a Avenida da Liberdade para comprovarem quão poucos são, proclamando uma das muitas mentiras em que porfiam, conheceu-se o relatório do European Social Survey sobre o racismo em Portugal. Por ele corrobora-se o que já sabíamos: quase dois terços dos portugueses manifestam comportamentos ou opiniões racistas e apenas 11% se livram de um preconceito preponderante nos mais velhos, e em que nem a escolaridade, nem o rendimento serve de demarcação. Há gente que muito poliu os bancos das escolas e universidades e nada aprendeu para saber o que é a tolerância e confirma-se que tanto faz ter conta bancária recheada como não, porque tanto ricos como pobres são racistas de acordo com índoles cuja explicação residirá em tempos mais recuados.

 

Sobre a passeata de sábado à tarde pouco haverá a acrescentar: se, desde o 25 de abril, os fascistas mais descarados têm encontrado expressão em grupúsculos ultraminoritários, as expetativas futuras prometem não lhes serem mais animadoras. É que olhando para aquela gente nem dá para reconhecer-lhes a capacidade de nos assombrarem. Porque, sem disso se darem conta, são fantasmas de tempos idos a que jamais pretenderemos regressar.

 

2. Era expectável o que anda a acontecer: depois de semanas a remoerem o azedume de Portugal passar pela crise docovid 19 com alguma benignidade, basta as coisas parecerem um pouco menos dignas de elogio para saírem da sombra os que nela se acoitaram à espera de ganharem protagonismo no que julgam ser momento propício. O bastonário da Ordem dos Médicos é tipo D. Constança, presença inevitável em cada festança onde manda o protocolo dizer cobras e lagartos do governo. E Rui Rio volta-se a mostrar o homem sem qualidades, que tantas circunstâncias passadas já confirmaram.

 

Não cuide o PS de manter as pontes possíveis com os parceiros da dita geringonça e arrisca-se a vê-los darem a mão ao PSD para levarem o antigo autarca do Porto ao colo até São Bento. Com manifesto prejuízo para todos quantos viram minguados os direitos e os rendimentos entre 2011 e 2015. Porque Rui Rio confirma aquela regra debitada pelo personagem de Lampedusa que, afiançava a necessidade de, querendo-se os ricos mais ricos e os pobres mais depenados, mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma. E, de facto, o PSD de Rui Rio em nada se diferencia do de Passos Coelho: as moscas que nele moram são exatamente as mesmas...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/06/falemos-hoje-de-fantasmas-e-de-moscas.html

Portugal | Fascistas e racistas manifestam-se hoje em Lisboa

 
 

Que “Portugal não é racista” é o mote do partido de má-ventura denominado Chega, radical de extrema-direita, fascista e repleto de bolores salazaristas, disfarçados contudo de vestes democráticas – enquanto e se não ganhar força representativa em eleições, resultado da sua postura e de declarações populistas para manipular e vigarizar eleitores portugueses.

 
Sobre o acontecimento lisboeta versa o Expresso e demais comunicação social. A PSP declarada temer desacatos. É muito provável que ocorram. Antifascistas e antiracistas podem muito bem manifestarem-se indignados com a mentira do mote, porque está mais que provado que o racismo existe em Portugal como em demasiados países do mundo. E, inevitavelmente, os fascistas são também racistas. A demonstração poderá ocorrer se alguma vez o Chega e seus correligionários chegarem aos poderes. Então sim, serão semelhantes ou ainda piores que o regime que experimentámos por quase 50 anos e que derrubámos em 25 de Abril de 1974.
 
Não devemos esquecer que Hitler foi vencedor em eleições na Alemanha… Depois deu no que deu. Evitar que o Chega não chegue a representatividade que afete as liberdades e a democracia depende dos eleitores. Vamos ver, não esquecendo que o populismo tem manhas que cativam os menos avisados sobre os realmente extremistas racistas, fascistas, nazis sem tirar nem pôr.
 
A parcial notícia do Expresso a seguir.
 
Chega: Polícia teme desacatos na ‘manif’ de André Ventura
 
 
 
Agentes da PSP receiam que haja colegas mais brandos com apoiantes do Chega se houver confrontos com antifascistas. Ventura diz que está a fazer tudo para “evitar riscos desnecessários”. Manifestação é este sábado em Lisboa.

A manifestação do Chega sob o lema “Portugal não é racista” está a ser encarada com apreensão pela PSP de Lisboa: há receios de haver desacatos entre elementos da extrema-direita nacionalista e de grupos antifascistas que possam aparecer ao longo do percurso entre o Marquês de Pombal e a Praça do Comércio.

“Estarão no terreno equipas à civil para monitorizar movimentações suspeitas. Também as equipas da Unidade Especial de Polícia estarão de prevenção”, admite uma fonte da PSP que assegura que as forças e serviços de segurança estão prevenidas para o pior cenário. Fontes da PSP receiam que, a haver confrontos com os elementos antirracistas, alguns dos agentes possam tomar partido dos manifestantes ligados ao Chega, devido às simpatias partidárias. Esta ideia, porém, é negada por Peixoto Rodrigues, sindicalista da PSP que também foi candidato às europeias pela coligação Basta (onde se incluía o Chega): “Não admito que haja parcialidade numa hipotética intervenção policial. Um polícia decide a favor da lei.”
 
Hugo Franco | Liliana Coelho | Expresso
 
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Centenas participaram em manifestação do Chega. “Obrigado por não me terem deixado caminhar sozinho”

Miguel A. Lopes / Lusa

 

Centenas de pessoas participaram este sábado, em Lisboa, numa manifestação promovida pelo Chega para mostrar que não há racismo em Portugal e para apoiar as forças de segurança.

 

O desfile, que se iniciou por volta das 14h30, no Marquês de Pombal, começou com um louvor do presidente do Chega, André Ventura, às polícias portuguesas em que destacou “Polícia bom é Polícia vivo”. A abrir a manifestação estava a faixa “Portugal não é racista” e atrás dela André Ventura ao lado da atriz Maria Vieira.

A meio do percurso, André Ventura disse que “acabou o tempo da impunidade e que está na hora dos socialistas irem embora”. “Viva as nossas polícias, os nossos professores, os nossos profissionais de saúde, os nossos motoristas de transportes e os nossos empresários”, declarou.

A manifestação foi convocada com o objectivo de contrariar a ideia de que “Portugal é um país racista e de que existe na sociedade um problema de racismo estrutural”.

“Nós, portugueses, orgulhosos do nosso país e da nossa história – com todos os seus defeitos e qualidades; nós, portugueses, que não somos racistas e que defendemos a sociedade multicultural com todos os seus direitos e deveres, temos de sair à rua e mostrar que recusamos todos os epítetos pejorativos que nos querem colar”, lê-se numa carta enviada por Ventura a Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, e Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna.

“Este movimento nacional já não vai parar”

André Ventura prometeu voltar em breve à rua, substituindo a “direita tradicional” no combate ao domínio da esquerda, contra os “políticos elitistas” e contra “as minorias que não querem fazer nada”.

As posições foram assumidas no final de uma manifestação do Chega, que durou cerca de uma hora, entre o Marquês de Pombal e o Terreiro do Paço, num discurso em criticou a “direita tradicional que tem medo de sair à sua” e em que citou por várias vezes o antigo primeiro-ministro e fundador do PPD, Francisco Sá Carneiro.

“O tempo do domínio da esquerda em Portugal, se não acabou, está a acabar. Por muitas ameaças que me façam, este movimento nacional já não vai parar, nem se vai vergar”, declarou o deputado do Chega logo a abrir o seu discurso.

Perante os seus apoiantes, Ventura citou por várias vezes Sá Carneiro, designadamente quando recorreu ao lema “hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”, mas também quando afirmou que, desde que morreu o antigo líder dos governos da Aliança Democrática (AD), “Portugal nunca mais teve um político que defendesse os portugueses”.

“Por muitos que nos queiram diminuir ou humilhar, nunca caminharemos sozinhos“, disse, já depois de ter criticado os presidentes do PSD, Rui Rio, e do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos. “Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos demarcaram-se desta manifestação, mas os portugueses vão demarcar-se deles. Há sondagens que dizem que vamos ser o terceiro partido”, apontou.

Em relação ao PSD e ao CDS, André Ventura deixou mesmo um aviso: “Para essa direita que recusa sair à rua, que tem medo do confronto, digo, esse tempo acabou. Agora é tempo de lutar por este país, que está vergado e humilhado”.

A questão das “minorias” foi outro dos temas mencionados pelo deputado do Chega, dizendo que o seu partido “representa o povo comum, o povo português que trabalha, que paga impostos e que rejeita ser extremista”.

Mas o povo comum rejeita sustentar minorias. Minorias que querem continuar a não fazer nada”, considerou, antes de elogiar em contraponto as polícias, os professores, os profissionais de saúde, os motoristas de transportes públicos e os empresários.

Na sua intervenção, o deputado do Chega deixou ainda críticas a jornalistas, dizendo que logo à noite “vão dizer que estavam poucas pessoas na manifestação e que havia um conjunto de pessoas falsas”.

“Vão dizer que é um conjunto de perfis falsos criados por mim antes de sair de casa e vão dizer que vieram do estrangeiro para aqui. Mas nós não somos como o PS”, afirmou André Ventura, antes de visar o Bloco de Esquerda – um momento que motivou logo uma prolongada vaia por parte dos seus apoiantes.

“Nós, Chega, não somos como o Bloco de Esquerda. Felizmente, esses estão a desaparecer e não vale a pena falar muito neles”, acrescentou.

ZAP // Lusa

 

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Extrema-direita começou a reorganizar-se em Portugal

 24/06/2020
 

Os números 8668 nesta soqueira apreendida aos skinheads significam "hammer skins forever, forever hammer skins" - o 8 representa o H (8ª letra do alfabeto) e o 6 o F (6ª letra) © Bruno Castanheira

No mesmo dia em que a Europol regista a atividade de movimentos neonazis em Portugal, também o SIS destaca os grupos de extrema-direita na sua avaliação de ameaça à segurança interna portuguesa.

"Em Portugal, a extrema-direita tem vindo a reorganizar-se, reciclando discurso, formando novas organizações e recrutando elementos junto de determinadas franjas sociais a que normalmente não acediam num passado não muito distante", regista o Serviço de Informações de Segurança (SIS) na análise da ameaça no nosso país, integrada no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2019, aprovado nesta terça-feira no Conselho Superior de Segurança Interna.

Os analistas do SIS escrevem que "a extrema-direita portuguesa deu primazia ao combate do que apelida marxismo cultural, numa tentativa de sensibilizar a sociedade civil ao seu discurso e ideário extremista, com vista ao alargamento da base social de apoio".

Já no RASI de 2018, as atividades dos neonazis tinham sido alvo de preocupação das secretas. "A extrema-direita portuguesa continuou a aproximar-se das principais tendências europeias, na luta pela reconquista da Europa pelos europeus. Para além de intensificarem os contactos internacionais, estes extremistas desenvolveram um esforço de convergência dos seus diferentes setores (identitários, nacional-socialistas, skinheads), no sentido de promoverem, no plano político e meta-político, os seus objetivos", foi escrito no RASI de 2018, que também assinalava que a "violência permaneceu como um traço marcante da militância de extrema-direita, havendo registo de alguns incidentes, nomeadamente agressões a militantes antifascistas"

O SIS assinala agora no RASI de 2019 que as atividades destes grupos "não se restringem à ideologia neonazi". Isto porque "tem sido verificada uma estreita conexão com outros grupos e organizações existentes na Europa, nomeadamente associados à tendência identitária, que também ganhou espaço em território nacional".

A nova extrema-direita

Os identitários, explicou ao DN Filipe Pathé Duarte, no âmbito de um artigo sobre estes grupos, afirmam querer preservar a "identidade etnocultural da Europa" - percebida como branca e cristã. Acreditam que os europeus "indígenas" estão a ser substituídos por muçulmanos e migrantes. É uma nova extrema-direita, jovem, hipster e educada, que procura destacar-se dos "falhanços" do passado. "Estão a crescer exponencialmente e são bastante ativos nas redes sociais."

De acordo com a monitorização feita pelas secretas a estes movimentos, observou-se uma tendência de "multiplicação e desdobramento de atividades na vertente online- redes sociais -, dimensão em que estão particularmente ativos, inclusivamente recorrendo a grupos fechados, mas também no espaço público em geral, ainda que de modo ocasional".

As secretas deram conta de que, em ano de eleições para o Parlamento Europeu e para a Assembleia da República, "praticamente todos os setores da extrema-direita concorreram para a intensa difusão de propaganda e desinformação tanto online como através de manifestações, debates e publicações diversas, fomentando clima de alguma tensão com os adversários do espectro político oposto, marcado por confrontos físicos pontuais.

Exemplo de confrontos violentos por motivos ideológicos foram, por exemplo, as agressões contra um militante comunista e um ativista da Frente Unitária Antifascista por parte de um grupo de 27 suspeitos neonazis, acusados neste mês pelo Ministério Públicopor vários crimes de ódio, tentativas de homicídio e tráfico de armas.

A preocupação com a ação de grupos de extrema -direita violenta foi assumida recentemente pelo diretor nacional da Polícia Judiciária. "O ódio racial, político, religioso, de género, contra os imigrantes, tudo isto tem de ser reprimido. E não pode motivar um discurso e uma ação violentos e exacerbados. Nessa perspetiva, a PJ estará sempre na primeira linha de combate, quer do ponto de vista preventivo quer do ponto de vista repressivo", sublinhou Luís Neves em entrevista ao DN.

A reorganização dos neonazis

Nos últimos dez anos, desde a operação da Polícia Judiciária em 2007 contra este grupo, que decapitou toda liderança e fez cair a estrutura da organização, os cabeças rapadas foram aos poucos recuperando. Contaram com apoios internacionais, utilizando até sistemas de comunicações encriptadas para fugir aos radares das autoridades.

A partir de 2013, a PJ começou a notar um aumento de atividade da organização extremista, designadamente novos recrutamentos. Em maio de 2015, a organização alugou um espaço, no concelho de Odivelas, que se transformou no seu quartel-general - a Skinhouse dos Portugal Hammer Skins.

Leia em Diário de Notícias

 

Valor da imagem

A justiça histórica – 1

Há imagens que, no seu simbolismo, são a reparação da iniquidade, a sentença que não foi lavrada, a justiça tardia que as circunstâncias não permitiram em tempo oportuno. Esta imagem é a linha que separa a repressão da liberdade, a democracia da ditadura, o déspota ilegítimo dos governantes que se sujeitam ao escrutínio eleitoral.

A foto de Eduardo Gajeiro regista, na apoteose do seu simbolismo, a justiça póstuma ao ditador, uma espécie de bálsamo para as feridas que dilaceraram o País durante décadas e cuja cicatrização se tornou impossível para as famílias dos perseguidos, humilhados, torturados, feridos e assassinados nas masmorras da ditadura ou mortos e estropiados na guerra colonial.

A justiça histórica – 2

Em Espanha não foi possível julgar o genocida Francisco Franco e é difícil ainda julgar o rei que foi o rei da corrupção, o iniciador de uma dinastia não sufragada que o ditador impôs ao seu País, depois de formatado nas alfurjas do regime e no respeito ao déspota que o julgou apto a perpetuar-lhe a maldade e a cleptomania.

Juan Carlos dificilmente fará companhia ao genro, apesar de ser o grande recebedor das comissões indignas e o rei das fugas do dinheiro da corrupção para paraísos fiscais, mas a Foto EPA – Jesus Diges ficará para a História como o julgamento em vida do sucessor do déspota que morreu impune e bem sacramentado.

 

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Fascismo em recuo: Queiroz nos destroços da República

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Por Tarso Genro

Tarso Genro é um advogado, jornalista, professor universitário,

ensaísta, poeta e político brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores.

 

Alguns fatos do cotidiano da política são capazes de marcar o fim de um ciclo ou o início de um novo período, dentro de um mesmo ciclo de lutas e dominações. Estes fatos podem destacar-se, tanto pelo poder destrutivo das relações articuladas para que o presente tivesse um certo significado, como pela sua capacidade de ensejar novos embates -entre forças em confronto- redesenhando os dias subsequentes e colocando-os numa nova perspectiva histórica: o tiro contra Lacerda no caso de Getúlio Vargas, a fala de Roberto Jefferson sobre o “mensalão”, a caminhoneta Elba localizada a serviço privado de Collor, a prisão de Queiroz, se inscrevem nesta perspectiva. Depois destes fatos a política deixa de ser a “mesma” e passa ser “outra”: corrói, reconstitui, reabre expectativas e altera a postura dos sujeitos em colisão.

No seu poderoso “Filho do Século” (Ed. Intrínseca Ltda, 2019, 374 e segs.), o autor A. Scurati relata que em 23 de abril de 1921 -nas colunas do “Corriere della Sera”- o Senador e diretor do jornal Luigi Albertini” escreveu que era preciso “tapar o nariz diante da malcheirosa aliança entre liberais e fascistas”. Esta aliança já estava aceita por Benito Mussolini, que preparava o “salto do fascismo”, do terreno instável e violento das ruas (…) “para o Plenário parlamentar”. Dois dias antes, Albertini afirmara ser contra essa aliança, que era rejeitada pelos liberais abrigados no “Lá Stampa” de Turim, que viam nela um suicídio do liberalismo democrático.

A rede liberal-conservadora que acordou com o fascismo miliciano no Brasil foi composta de maneira informal. Ela não tinha como propósito colocar um protofascista no poder, pois -para ela- Bolsonaro seria apenas a excrescência de uma aventura autoritária. Dela se serviriam para iludir as classes médias que um programa mínimo necrófilo -como matar bandidos e metralhar a esquerda- resolveria os problemas da nação. As classes dominantes, na verdade, só se serviram de Bolsonaro depois de uma complexa operação de desmoralização da política liberal-democrática, pela qual devastaram também as suas lideranças cativas: elas se mostravam incapazes de conduzir um projeto reformista ultraliberal para “depenar” o Estado Social em crise, o que permitiu Bolsonaro tornar-se o cotidiano taquipsíquico das classes dominantes. Já sem lideranças capazes de liderar.

O grupo de lideranças que defende a subordinação irrestrita do país ao capital financeiro e ao jogo rentista, tinha como objetivo cravar um resultado eleitoral que definisse um Governo comprometido com eliminar as políticas sociais “gastadoras”. Seu objetivo seria acabar com a proteção social e previdenciária humanista, que combatia a miséria absoluta e colocava os pobres na mesa democrática, bem como fortalecia o papel do Estado nas áreas da saúde e da educação. O jogo burguês-rentista, portanto, não enfrentava uma revolução, mas antes buscava ressecar a democracia social, reinaugurada depois de Vargas, já numa ordem internacional adversa ao legado das políticas da social democracia no pós-guerra.

Na Itália assediada pelo fascismo rondava -é verdade- o “perigo” da revolução socialista. Este projeto enchia de temor grande parte da sociedade, diferentemente da emergência fascista no Brasil, cujo destino ainda está em disputa. No Brasil, a possibilidade do ascenso da ideia totalitária remeteu diretamente contra a democracia política e a social democracia moderada, distantes -em qualquer hipótese- de uma iminência socialista. Como se livrar de Bolsonaro, que joga o país na desordem, sem base social que sustente um fascismo miliciano, é o dilema em curso do poderoso sistema de alianças que jogou o país na indeterminação e na loucura.

Na história da adesão do fascismo ao bloco de Governo do Primeiro Ministro Giolitti, que abriu os caminhos do poder para Mussolini nos anos 20, há o registro histórico de uma dupla interpretação: a de Mussolini, preparando-se para assumir o poder, certo que Giolitti não poderia “governar infinitamente” por ser “velho e ultrapassado”; e a dos eleitores “moderados”, que ficaram ao mesmo tempo “tranquilizados e horrorizados com a violência dos fascistas”. No cotidiano daquela parte da história italiana estavam em disputa quais as forças políticas que iriam responder à insegurança das pessoas do povo e iriam curar as suas feridas de Guerra.

 

Naquele momento, o antiparlamentarismo fascista foi contido pelas suas direções, que já entendiam ser possível corroer o sistema liberal “por dentro”, participando deste só como movimento tático. O fracassado plano de Giolitti era conter as ilegalidades fascistas, considerando-as um fenômeno passageiro, e submetendo-as aos marcos constitucionais. O plano de Mussolini, todavia, era instaurar a “desordem absoluta para mostrar que só ele poderia “restabelecer a ordem”. O plano fracassado das classes dominantes brasileiras -uma rápida visita ao fascismo para fazer as reformas- está sendo derrotado não só pelo medievalismo anticientífico do Presidente perante a Pandemia, mas também pela forma miliciana e familiar pela qual ele exerce a magistratura presidencial.

Mussolini venceu Giolitti e assumiu o poder. Com Bolsonaro, no Brasil, processou-se a cooptação de FHC e do centrão, pelo partido da mídia tradicional, para emplacarem na sociedade o falso dilema entre os “dois extremos”. Este dilema -o bilhete de entrada dos “liberais” para uma aliança com o fascismo- não surgiu então como resposta a ameaças de uma revolução socialista, mas como um acordo para implementar as “reformas” ultraliberais. Para isso, o moderado professor em ascenso eleitoral deveria ser bloqueado pelo capitão acusados de terrorismo. Não foi, portanto, um embate clássico entre “esquerda” e “direita”, mas uma contenda eleitoral falsificada e intensa, entre dois extremismos, onde somente um deles era real.

O preço elevado, agora explode expondo as vísceras do pacto de poder. Elas mostram o cotidiano político do país como dias deteriorados pelo milicianismo cercado. Queiroz está preso num cárcere que guarda também os destinos da democracia judicializada: “as grandes ações não cotidianas que são contadas nos livros de história -diz Agnes Heller- partem da vida cotidiana e a ela retornam. Toda a grande façanha histórica torna-se particular e histórica, precisamente graças ao seu posterior efeito na cotidianidade. ”

 

Neste momento Cotidiano e História estão retidos numa cela prisional, no Rio, onde Queiroz pensa em sua vida inteira de dependências, fidelidades, poderes aparentes e reais, crimes e generosidades mafiosas, expandidas pela política. A crise da democracia brasileira tornou-se tragédia quando as classes dominantes do país apostaram no seu aprofundamento pela via do fascismo, para realizar as reformas ultraliberais. O futuro imediato da democracia arruinada, agora, está encarcerado na mente da sua criatura mais exemplar que, quando rumina sobre a sua trajetória, também decide sobre o destino dos amigos fiéis que lhe abandonarão nos cárceres da República em destroços.

Depois de doações, Olavo de Carvalho volta a defender Bolsonaro e diz que a Constituição Federal é "um documento de merda"

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247 - O escritor Olavo de Carvalho voltou a defender o bolsonarismo depois de um momento de tensão pela falta de apoio financeiro. Olavo disse que Bolsonaro é honesto e que o Queiroz foi seu “chofer” - e que se um chofer comete um crime, isso não compromete o patrão.

Em entrevista à BBC Brasil, o astrólogo falou sobre o coronavírus: “eu diria que o problema é menos o vírus do que a atuação dos próprios governos, pouco importando que sejam de direita ou de esquerda. Estão fazendo exatamente a mesma coisa. Hoje em dia, a elite governante e a elite capitalista têm meios de ação que chegam à esfera do divino. Eles têm o poder divino sobre as pessoas, isso nunca existiu na história humana.

Quer dizer, você não tem mais privacidade, a vida individual não significa mais nada, quem tem dinheiro e poder pode fazer o que quiser. Isso nunca aconteceu antes na história humana, a quantidade de poder que os ricos e os políticos têm hoje, e também os seus planejadores, os seus engenheiros sociais, é uma coisa que os tiranos da antiguidade jamais conseguiriam imaginar: Júlio César ou Átila, o huno, ou mesmo mais recentemente até o próprio Mao Tsé-Tung não conseguiriam imaginar isso aí.

Veja, por exemplo, você por um decreto mantém todas as pessoas dentro de casa, imagina se Mao Tsé-Tung sonhou algum dia com uma coisa dessas, Mao Tsé-Tung ou Stálin, ou Hitler. Se dissessem isso pra eles, iam achar maravilhoso, mas eles não poderiam conceber que isso um dia seria possível, isso quer dizer que a atuação desempenhada pelos governantes e poderosos para controlar o tal vírus é um problema imensamente maior do que o vírus.”

Olavo ainda falou sobre o governo Bolsonaro: “o primeiro erro foi o seguinte: ele acreditou que sendo presidente ele ia poder governar o país com a colaboração de todo mundo, achou que o Brasil estava cheio de patriotas, que independentemente de seus partidos, todos iam colaborar para o levantamento do Brasil. Falso. Diagnóstico 100% falso, porque tipos como esse Doria, o pessoal do PT, o Lula etc. eles pensam neles mesmos em primeiro lugar e no país em milésimo lugar.

Lula é um sujeito que roubou trilhões do Brasil e ainda tem a cara de pau de sair dando receita e dando lição de moral, como é possível acontecer isso? E nós botamos esse sujeito na Presidência duas vezes. (nota da redação: em 2018, o ex-presidente Lula foi condenado em segunda instância a 12 anos e um mês de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá. Em maio de 2020, o ex-presidente voltou a ser condenado, também em segunda instância, a 17 anos, um mês e 10 dias de prisão no caso do sítio de Atibaia)

Então, o Bolsonaro avaliou muito mal, ele achou que todo mundo era bonzinho, eu disse o contrário: "Bolsonaro, você assumindo a Presidência, a primeira coisa que você tem que fazer é amarrar a mão desses seus inimigos, porque eles são pérfidos, eles não são patriotas, eles não querem o melhoramento do Brasil, eles só querem o bem deles, pouco importa se é direita ou esquerda, aí vai desde o Doria até o Lula, é tudo a mesma porcaria".

A Igreja católica e o fascismo

 
É ocioso repetir a participação decisiva dos bispos cristãos, católicos e protestantes, para a ascensão do fascismo na Europa, e a cumplicidade da hierarquia católica nas ditaduras ibéricas.

O 25 de Abril obrigou os bispos portugueses à discrição que lhes impunha o vergonhoso silêncio perante a perseguição dos raros bispos democratas, António Ferreira Gomes, do Porto, e Sebastião Resende e Vieira Pinto, Beira, Moçambique.

Em Espanha, a transição ‘pacífica’ de um genocida para um discípulo real, Juan Carlos, educado na ética e na honra pelos padrões das madraças franquistas, o clero permaneceu fascista e procriou sucessores da mesma estirpe. Nem um módico de pudor evitou que o Papa João Paulo II criasse santos franquistas ao ritmo a que os aviários criam frangos e bispos e cardeais com o olho esquerdo enevoado.

Sem precisar do Opus Dei, implacável escola do fascismo espanhol, já com dois santos criados, com milagres certificados, bastam os bispos diocesanos para envergonharem a Igreja espanhola, que o Papa Francisco quis higienizar.

Rouco Varela, em Madrid, e Antonio Cañizares Llovera, em Toledo, distinguiram-se na defesa dos valores mais reacionários no período democrático. O primeiro já foi atingido pelo prazo de validade há seis anos e Cañizares está a quatro meses de perder o púlpito para debitar asneiras, mas há ainda muito a esperar do cardeal que o Papa Francisco despediu de uma Prefeitura para que Bento XVI o levara para o Vaticano.

Cañizares não é um caso de estudo da biologia, é um fóssil jurássico que fala, e pertence ao mais empedernido franquismo, na política, e ao mais tridentino obscurantismo na fé.

Que “o diabo existe em plena pandemia” é uma possibilidade, e em vez de se considerar como exemplo, perora sobre os demónios que povoam aquela mente formatada no franquismo e no seu episcopado.

Para provar que o anticlericalismo só existe porque o clericalismo carece de uma vacina tão urgente como o coronavírus, deixo uma ligação com os despautérios deste troglodita que há mais de uma década me inspira numerosos textos. E não resisto a publicar uma das melhores fotos do álbum eclesiástico do cardeal Antonio Cañizares Llovera.

Eis as declarações de Cañizares

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/06/a-igreja-catolica-e-o-fascismo.html

Comissão de Cultura e Comunicação da AR discutiu petição sobre Museu Salazar

quadro salazar gageiro

A Comissão Parlamentar de Cultura e Comunicação discutiu, dia 16 de Junho, a petição “de repúdio e exigência de que se trave e abandone a anunciada criação do ´Museu Salazar´, com esse ou outro nome, em Santa Comba Dão”, da autoria da URAP, com a presença de uma delegação da organização

Estiveram presentes na Assembleia da República os subscritores Abílio Fernandes, António Vilarigues, Eulália Miranda, José Pedro Soares, José Sucena e Levy Baptista.
A comissão foi presidida pela deputada socialista Ana Paula Vitorino, que afirmou apoiar as pretensões da petição, sublinhando que quando visitou a Alemanha não viu qualquer “museu ou centro interpretativo público” sobre o nazismo, posição secundada pelos deputados do PCP e BE.

Pela URAP coube a José Sucena fazer a declaração inicial [ver em baixo] e falaram ainda António Vilarigues e José Pedro Soares.

“Aceitar que haja um museu, ou seja lá o que lhe queiram chamar, na escola que frequentou na terra onde nasceu o ditador é, de facto, permitir a existência de um local onde os saudosistas e os actuais defensores do fascismo, que insistem em por aí proliferar, possam encontrar-se, conspirar e organizar-se contra a Democracia que Abril nos trouxe, que a todos os Democratas compete defender”, disse Paulo Sucena.

António Vilarigues defendeu que se estude o Estado Novo nas universidades, para que se conheça o que foi o salazarismo, enquanto José Pedro Soares afirmou que se for construído o museu será “não respeitar a luta democrática dos portugueses”.

A petição, com 10.396 assinaturas, foi admitida para discussão na Comissão Parlamentar de Cultura e Comunicação em reunião realizada no passado dia 26 de Maio. Deverá agora pronunciar-se sobre o seu teor a ministra da Cultura, bem como todos os grupos parlamentares e será, sem seguida, discutida em Plenário.

 

Recorde-se que esta petição junta-se ao movimento da carta de 204 presos políticos e de um anterior abaixo-assinado com 18.000 assinaturas sobre o mesmo assunto.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2YejaYr

 

Petição contra museu sobre Salazar gera debate emotivo no Parlamento

(Comentário:

É lamentável e não tem qualquer 'justificação' que seja um deputado do PS a tentar defender uma iniciativa que visa efetivamente branquear o salazarismo e criar um espaço de romagem para extrema direita.

Nesta matéria não há 'centrismos' nem 'meios termos. Ou se está contra o fascismo ou se está com ele. O salazarismo e a tentativa de o 'adoçar' só engana quem quer ser enganado. Parece ser, infelizmente, o caso do deputado 'socialista'.)

 

Louro 🇵🇹🇨🇭 on Twitter: "Salazar não era fascista e a...

António de Oliveira Salazar

A petição contra a construção do museu sobre Salazar abriu, esta quarta-feira, um debate aceso e emotivo, no Parlamento, contra a ideia de tornar Santa Comba Dão, Viseu, “numa romaria de Fátima” para lembrar o ditador.

 

A discussão na comissão parlamentar de Cultura prolongou-se por quase uma hora e teve como ponto de partida a petição da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), com mais de 11 mil assinaturas, contra a construção do museu em Santa Comba Dão, Viseu, que uniu os deputados mais à esquerda.

José Sucena, um dos subscritores, editor do escritor comunista e Nobel da Literatura José Saramago (1922-2010), questionou os projetos dos autarcas da região de querer estudar o fascismo na terra onde nasceu António de Oliveira Salazar (1889-1970).

“Querem estudar a História do fascismo. Onde? Em Santa Comba Dão. Ó senhor deputado, é mesmo não querer ver”, respondeu José Sucena ao deputado do PS eleito por Viseu, José Rui Cruz, único a defender abertamente o projeto de construir o centro interpretativo.

“Venha quem estude a memória, mas não se aproveite o estudo da memória para fazerem de Santa Comba Dão uma romaria de Fátima, com o devido respeito pelos católicos”, afirmou.

Antes, o deputado socialista sublinhou que o centro projetado não é um museu e que o objetivo é estudar a história do Estado Novo, o que pode ser também uma “homenagem às vítimas”. E recusou a ideia de que venha a ser sinónimo de “uma romaria” de saudosistas de Salazar.

Da parte do PSD, Paulo Rios de Oliveira alertou que “a memória é importante”, “a boa e a má”, e que ambas“devem ser lembradas” e admitiu que os sociais-democratas não se reveem no projeto “se for para enaltecer o saudosismo”.

A presidente da comissão, Ana Paula Vitorino, também do PS, confessou-se estupefacta com “o andamento da audição” e, no final, afirmou apoiar as pretensões da petição, sublinhando que quando visitou a Alemanha não viu qualquer “museu ou centro interpretativo público” sobre o nazismo.

Na apresentação da petição, António Vilarigues, outro dos subscritores, defendeu que se estude o Estado Novo, mas nas universidades, para que se conheça o que foi o salazarismo, período em que viveu na clandestinidade e a filha só soube o verdadeiro nome do pai depois do golpe dos capitães que devolveu a democracia ao país.

Na audição, outro subscritor, José Pedro Soares, preso político libertado no dia seguinte ao 25 de Abril, emocionou-se quando fez a defesa da petição e disse que se for construído o museu será “não respeitar a luta democrática dos portugueses”. E criticou a Câmara de Santa Comba por usar-se “de um ditador para promover o concelho”.

Pelo PCP, Ana Mesquita manifestou-se contra o projeto em Santa Comba Dão, afirmando que “a sacralização de objetos de um ditador fascista não é higienizável, não é inócua”. Porque “ali não está o povo, não estão os torturados, ali apenas está o ditador”, argumentou.

Alexandra Vieira, do BE, também apoia a petição e afirmou que, “em sociedade plurais e democráticas, não há razão para temer o debate sobre o que se escolhe manter do passado na memória coletiva”, mas deixou um aviso.

É defensável um “consenso possível” em que cabe “o enaltecimento das liberdades, da justiça, da democracia e o combate às ideias fascizantes”, afirmou.

As petições, iniciativa de cidadãos, não são votadas na Assembleia da República, mas os partidos podem associar ao debate projetos de resolução ou de lei.

António Oliveira Salazar, que governou Portugal durante 40 anos, de 1936 a 1968, nasceu no Vimieiro, uma freguesia do concelho de Santa Comba Dão, mas a criação de um espaço dedicado àquele período da história portuguesa não tem sido pacífica ao longo dos anos.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/peticao-museu-salazar-debate-emotivo-330565

Bispo católico ameaçado por grupo armado da extrema-direita do Brasil

 

Por causa das ameaças, o governo do distrito federal de Brasília ordenou o fecho da Esplanada dos Ministérios por dois dias. O grupo armado “300 do Brasil” tem como líder Sara Winter, que foi ontem detida por decisão do Supremo

Após identificar ameaças a representante da Igreja Católica em Brasília, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), fechou a Esplanada dos Ministérios por dois dias —desta terça-feira (16) até o fim da quarta-feira (17).

Os setores de inteligência da Polícia Civil identificaram ameaças ao bispo-auxiliar de Brasília, dom Marcony Vinícius Ferreira, por parte de integrantes do grupo armado de extrema-direita 300 do Brasil. A informação foi confirmada pela assessoria do Governo do DF.

Leia mais em Folha de S.Paulo

Sara W. a líder da extrema-direita brasileira detida já foi feminista

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/16/bispo-catolico-ameacado-por-grupo-armado-da-extrema-direita-do-brasil/

Sara Winter a líder da extrema-direita brasileira detida já foi feminista

A jovem de 27 anos, detida hoje pela Polícia Federal a mando do Supremo, é líder do movimento “300 do Brasil”, um grupo armado da extrema-direita brasileira constituído por apoiantes do Presidente Bolsonaro. Mas no passado foi feminista na organização internacional Femen e até já pediu desculpas por isso aos cristãos

Sara Winter, de 27 anos, tem apostado na radicalização do discurso através das redes sociais. A líder do braço armado da extrema-direita brasileira, o movimento “300 Brasil”, diz que anda escoltada por seguranças armados. Publicamente, não tem poupado nas palavras. Defende, por exemplo, que os juízes do Supremo Tribunal Federal – os que ordenaram a sua prisão – “sejam removidos pela lei ou pelas mãos do povo” e apoia o “extermínio da esquerda”.

Entre abril e outubro do ano passado, atuou como coordenadora-geral de Atenção Integral à Gestante e à Maternidade do Ministério da Família, Mulheres, e Direitos Humanos, por indicação da ministra Damares Alves, com quem partilha bandeiras contra o feminismo e o aborto, como escreve a BBC Brasil num artigo de perfil da ativista, publicado hoje.

Instagram Sara Winter

Mas no passado as bandeiras do feminismo eram a sua identidade. Sara Winter foi uma das fundadoras da sucursal brasileira do grupo internacional feminista Femen, conhecido pelas ações de rua das suas ativistas que invariavelmente surgem em topless com palavras de ordem pintadas no peito. Como membro da Femen, Sara chegou a “castrar” um boneco que representava o então deputado federal Jair Bolsonaro, o homem que agora é Presidente do Brasil e que ela atualmente venera.

Quando era ativista da extrema esquerda feminista, Winter defendia causas sociais como a construção social dos géneros, o feminismo e a legalização do aborto.

A própria já admitiu em entrevistas que aderiu ao Femen porque queria “de alguma forma exterminar todo o tipo de violência contra a mulher”.

E foi essa motivação que a levou, aos 19 anos, a viajar até à cidade de Kiev, capital da Ucrânia, para conhecer uma das líderes do grupo, Inna Shevchenko, e receber treino de militância.

Winter voltou ao Brasil em 2012 e abriu a sucursal brasileira da organização feminista. Mas em 2013, menos de um ano depois de sua inauguração, esta foi fechada. Em comunicado divulgado à época, a sede retirou o direito de Winter de usar o nome Femen. Em maio daquele ano, a ucraniana Alexandra Shevchenko, uma das fundadoras do Femen, afirmou o seguinte sobre a ativista brasileira: Winter já “não faz parte do nosso grupo, tivemos muitos problemas com ela. Ela não está pronta para ser líder”.

Essa rutura com a Femen terá estado na base de uma radicalização para o lado da extrema-direita, quase como uma vingança, por parte de Sara Winter. Em 2014, a ativista chegou a publicar vídeos no YouTube em que pedia perdão aos cristãos por ter feito parte do Femen e publicou um livro intitulado “Vadia não! Sete vezes que fui traída pelo feminismo”, no qual relatava experiências negativas que teve dentro do movimento.

A partir de então, começou o seu “namoro” com personalidades conservadoras do Brasil, aproximando-se de figuras como o deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP) e o presidente Jair Bolsonaro (à época deputado federal).

Agora, segundo contou numa entrevista à BBC News Brasil, o seu foco passou a estar concentrado na convocação de militantes para que “o povo seja a classe soberana do país”.

“Em todos os nossos comunicados dizemos claramente que utilizamos técnicas de ação não violenta e desobediência civil. O que tem a ver ação não violenta com armas? Engraçado como a alcunha de milícia paramilitar foi rapidamente nos atribuída, mas jamais passou perto dos militantes do MST, que carregam armas e fações”, afirmou, na entrevista.

“(Estamos) preparados para dar a vida pela nação, e nossas armas são a fé em Deus, a esperança neste governo e os métodos de ação não violenta.”

 

 

Leia mais sobre Sarah Winter em:

Líder de grupo armado da extrema-direita do Brasil detida

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

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Apoiantes de Bolsonaro pedem intervenção militar

Um grupo de cerca de 250 apoiantes do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, manifestou-se hoje em frente à sede do Comando Geral do Exército, em Brasília, para pedir uma “intervenção militar”.

Os manifestantes carregavam cartazes com proclamações como “SOS Forças Armadas”, “Intervenção militar com Bolsonaro no poder” e “Nova aliança anticomunista”, segundo constatou a agência espanhola Efe.

Também levavam vestidas camisolas amarelas e bandeiras do Brasil, sob o olhar atento da polícia militar, que vigiava a segurança das instalações.

Os simpatizantes de Bolsonaro mudaram-se para o quartel-general do Exército depois de o Governo ter decidido encerrar ao público a Esplanada dos Ministérios durante o dia de hoje, a fim de evitar aglomerações devido à pandemia de covid-19.

A Esplanada dos Ministérios, uma ampla avenida no centro da capital brasileira, onde estão concentrados os edifícios do poder público, tem sido nas últimas semanas palco de protestos, em grande parte a favor do chefe de Estado.

Nesses atos, descritos como “antidemocráticos” pela oposição e em que Bolsonaro tem participado, pede-se o “encerramento” do Parlamento e da Suprema Corte.

Bolsonaro, capitão de reserva do Exército e líder da extrema-direita brasileira, mantém um braço de ferro com alguns poderes legislativos e judiciais, que suspenderam ou alteraram algumas das medidas mais polémicas, como a liberação de armas à população civil.

No sábado, um grupo autodenominado “300 do Brasil”, formado por cerca de 30 ativistas de extrema-direita investigados por divulgar notícias falsas na internet, protestou novamente contra esses dois poderes em Brasília.

O grupo lançou fogo-de-artifício em direção à sede do tribunal superior e fez ameaças a alguns magistrados, segundo foi divulgado nas redes sociais.

Antes, os manifestantes dirigiram-se ao Congresso e ocuparam a cúpula do edifício por alguns minutos com os gritos de “intervenção militar”.

Este grupo montou há algumas semanas um acampamento na Esplanada dos Ministérios, mas, na véspera, o governo decidiu fechá-lo porque, segundo alegou, violava as restrições impostas contra o coronavírus.

Os protestos deste domingo fazem parte de um novo dia de manifestações convocadas pelos apoiantes de Bolsonaro, bem como os opositores do mesmo.

O Brasil é o país lusófono mais afetado pela pandemia e um dos mais atingidos no mundo, ao contabilizar o segundo número de infetados e de mortos (mais de 850 mil e 42.720, respetivamente) depois dos Estados Unidos.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/14/apoiantes-de-bolsonaro-pedem-intervencao-militar/

A mando de Bolsonaro, deputados invadem hospital no Espírito Santo

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247 -Depois da sugestão de Jair Bolsonaro para que seus seguidores nas redes sociais filmem a situação nos hospitais, cinco deputados estaduais do Espírito Santo - Lorenzo Pazolini (Republicanos), Vandinho Leite (PSDB), Torino Marques (PSL), Danilo Bahiense (PSL) e Carlos Von (Avante) - invadiram o Hospital Dório Silva na última sexta-feira (12), localizado no município de Serra. A informação é do portal Correio Braziliense.

Segundo a reportagem, a imprensa capixaba divulgou nota da Secretaria de Estado da Saúde: “é inadmissível esse tipo de atitude, no momento em que o Espírito Santo, o país e o mundo enfrentam a mais grave crise de saúde em nossa geração. Mais grave é o fato de que essa atitude foi insuflada por uma declaração irresponsável do chefe da nação”.

De acordo com os parlamentares, quase todos os leitos do hospital estavam ocupados por pacientes infectados com coronavírus, não restando espaço para quem precisa tratar outras doenças. O deputado Torino Marques divulgou a ação em suas redes socias, afirmando que iria mostrar a “realidade da situação por dentro”.

 

Conexões ultraliberais nas Américas

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Inicialmente, esclareço que meu interesse nas vinculações da Atlas Network com organizações latino-americanas — e, em particular, brasileiras — deve-se, evidentemente, à conjuntura política brasileira dos últimos anos. Meu objetivo é apresentar as conexões entre o avanço de uma direita ultraliberal — no Brasil e em outros países latino-americanos — e o think tank norte-americano Atlas Network, que tem parcerias com várias organizações ultraliberais em todo o mundo.[1]

Explicito, a princípio, que fiz a opção pela expressão ultraliberal, em lugar de neoliberal, por considerá-la mais precisa. O termo neoliberal já foi utilizado, inclusive, para denominar as ideias e políticas econômicas de matriz keynesiana do período entre guerras, vinculadas à implementação de modelos de Estado de bem-estar social ou de economia social de mercado, ainda que, posteriormente, essa concepção tenha caído em desuso.

A partir dos anos 1980, o termo neoliberal passou a ser utilizado, como se sabe, em sentido praticamente inverso, ou seja, para denominar as propostas econômico-sociais de Estado mínimo, defesa do livre mercado e da desregulamentação em um período de rápida e intensa globalização. Considero o termo ultraliberal, como já afirmei, mais preciso, pois sintetiza as propostas de um liberalismo acentuado, na era da globalização financeira.[2]

A Atlas Network — think tank legalmente denominado Atlas Economic Research Foundation, sediado em Washington, D.C. — atua, desde 1981, na defesa e propagação de concepções da direita ultraliberal, com organizações parceiras em todos os continentes. Em 2013, o nome da organização foi alterado para Atlas Network, ainda que o nome legal tenha permanecido o mesmo: Atlas Economic Research Foundation. Seu principal idealizador — e fundador — foi Antony Fisher (1915-1988), um empresário britânico defensor das concepções do economista austríaco Friedrich Hayek — assim como, posteriormente, do norte-americano Milton Friedman —, que se mudou, na década de 1970, para os Estados Unidos, depois de um período de dois anos no Canadá, em que foi diretor do Fraser Institute, outro think tank ultraliberal.

Em 1955, Fisher havia fundado, em Londres, o Institute of Economic Affairs (IEA). É conhecido o fato de que, desde o início dos anos 1960, Margaret Thatcher (Partido Conservador), que viria a ser a primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990 — período em que houve um progressivo desmonte do Estado de bem-estar na Grã-Bretanha —, frequentava reuniões no IEA.[3]

Vale lembrar que, no mesmo ano da fundação da Atlas Network, 1981, teve início, nos Estados Unidos, o governo de Ronald Reagan (Partido Republicano), caracterizado pela defesa do livre mercado, desregulamentação da economia, cortes de impostos e redução do orçamento de programas sociais. Em síntese, um programa de enxugamento do Estado, com exceção do orçamento militar, que cresceu significativamente na década de 1980.

 

O governo Reagan (1981-1989), afinado com as concepções ultraliberais, contribuiu significativamente para o fortalecimento da direita norte-americana, não só por sua política econômica, que ficou conhecida como Reaganomics, como pela retomada da corrida armamentista e do discurso anticomunista. Para quem não se lembra, Reagan chamou a ex-União Soviética de “o império do mal”.

Acerca do financiamento da Atlas Network, segundo consta no site, a organização não recebe recursos governamentais, apenas privados: de corporações, fundações ou doações individuais. É registrada como uma organização sem fins lucrativos. Portanto, todas as doações feitas nos Estados Unidos são dedutíveis de impostos.[4] Entre os patrocinadores da Atlas Network, estão os irmãos Koch, bilionários norte-americanos cujas empresas atuam, entre outros setores, com petróleo e gás.[5]

A Atlas Network possui, de acordo com informações contidas em sua página na internet, 465 partners em 95 países. A maior parte dessas organizações está sediada nos Estados Unidos, 168. Em segundo lugar, estão a Europa e a Ásia Central, com 134. E, a seguir, com 79, situam-se a América Latina e o Caribe.[6]

 

Há organizações com sedes em cidades do México, países centro-americanos e caribenhos — como Bahamas, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e República Dominicana —, além de todos os países da América do Sul continental, com as seguintes exceções: Guiana, Guiana Francesa e Suriname.

Entre os países latino-americanos, aqueles com o maior número de organizações são a Argentina, com 12; Brasil, 11; e Chile, com dez. Em seguida, aparecem na lista o Peru, com oito; Costa Rica e México, cinco em cada um; Bolívia, Uruguai e Venezuela, com quatro em cada país. A Guatemala aparece na lista com três. Equador, El Salvador e República Dominicana, com duas cada um; além das Bahamas, Colômbia, Honduras, Jamaica, Panamá e Paraguai, com uma organização cada.

Além das organizações nacionais, aparece como partner da Atlas Network uma organização supranacional, Estudiantes por la Libertad (EsLibertad), que é o ramal latino-americano da estadunidense Students For Liberty (SFL). Com sede em Washington, capital dos Estados Unidos, o SFL realizou seu primeiro congresso em 2008, na Columbia University, em Nova York, e se identifica como “a maior organização estudantil libertária do mundo”.[7] Há, no Brasil, uma organização específica, Estudantes Pela Liberdade, com sede em Belo Horizonte.[8]

Vale registrar que as duas organizações parceiras da Atlas Network sediadas em Porto Rico — com nomes em espanhol: Centro para Renovación Económica, Crecimiento y Excelencia e Fundación Libertad — estão listadas entre as instituições dos Estados Unidos.

Todos os anos, a Atlas Network promove a realização do evento Liberty Forum and Freedom Dinner,[9] que assim é apresentado no site:

“A Atlas Network fortalece o movimento mundial pela liberdade, identificando, treinando e apoiando indivíduos com potencial para fundar e desenvolver organizações independentes eficazes que promovam nossa visão em todos os países. […] O Liberty Forum reúne anualmente os campeões da liberdade em uma rede para a troca de ideias e o compartilhamento de estratégias. O jantar de gala [Freedom Dinner] serve como um grand finale apropriado para o evento, celebrando os heróis do movimento pela liberdade e os princípios que os amigos da Atlas Network estão divulgando por todo o mundo.”[10]

Sobre os apoios da Atlas Network às organizações parceiras, afirma-se que:

“Com recursos modestos disponíveis para subvenções [grants], só podemos financiar uma fração das propostas que recebemos. […] Os subsídios patrocinados pela Atlas Network podem apoiar projetos específicos ou oferecer suporte operacional a organizações parceiras. Este suporte é normalmente concedido em quantidades modestas de 5 mil a 10 mil dólares, e apenas em raras ocasiões irá exceder a 20 mil dólares.”[11]

Como poderá ser constatado adiante, no caso brasileiro, as doações, nos anos de 2015 e 2016, excederam em muito os 20 mil dólares.

Nas organizações parceiras da Atlas Network, os “princípios”, “valores” ou “missão” incluem, praticamente sem variações, a defesa da livre iniciativa, do livre mercado, do empreendedorismo, da responsabilidade individual, da propriedade privada, das liberdades individuais, da meritocracia e da limitação de ação dos governos.

Algumas dessas organizações visam à capacitação de indivíduos para serem multiplicadores dos seus princípios e, em alguns casos, a formação de lideranças empresariais. Nem sempre perspectivas ultraliberais são explicitadas, ainda que com muita frequência, na maioria das organizações.

Nos sites dessas organizações são citados, frequentemente, os dois maiores expoentes da chamada “Escola Austríaca de Economia”, Ludwig von Mises (1881-1973) — principalmente seu livro Ação humana: um tratado sobre economia, de 1940 (edição em inglês de 1949) — e Friedrich Hayek (1899-1992), cuja obra mais citada é O caminho da servidão, de 1944.

Muito citados também são Ayn Rand e Murray N. Rothbard. Nascida na Rússia czarista em 1905, a romancista e filósofa Ayn Rand é autora, entre outras obras, do romance filosófico Atlas Shrugged, de 1957, publicado no Brasil com o título A revolta de Atlas, em que a autora faz uma defesa enfática do individualismo e da livre concorrência, e um rechaço veemente do modelo de Estado de bem-estar social.[12] Murray N. Rothbard, por sua vez, ficou conhecido, a partir da década de 1940, por sua defesa do que veio a ser conhecido como anarcocapitalismo, isto é, um sistema econômico em que todos os serviços, produtos e espaços seriam privados — tanto por iniciativa individual quanto coletiva — e disputados na livre concorrência, inclusive a segurança pública, a defesa e a justiça.

Os defensores dessas ideias individualistas de negação do Estado se autointitulam “libertários anarcocapitalistas”, representantes da “nova direita libertária” e do “libertarianismo”.[13] Rothbard é autor, entre outras obras, de For a New Liberty: The Libertarian Manifesto, cuja primeira edição é de 1973. Obviamente, o sentido da palavra “libertário” não se vincula ao que lhe foi dado, historicamente, pelos movimentos anarquistas, vinculados à luta dos trabalhadores por direitos e melhores condições de vida, mas ao sentido que lhe dão os movimentos ultraliberais, a partir das concepções econômicas da “Escola Austríaca” e da “Escola Econômica de Chicago”, cujo expoente maior é Milton Friedman, ou os “anarcocapitalistas”.

No site da Atlas Network, há a seguinte explicação sobre a coincidência de nomes entre a organização e o conhecido livro de Ayn Rand, Atlas Shrugged:

“O nome não foi derivado do livro. Na verdade, a palavra ‘Atlas’ em nosso nome tem relação com a natureza global do nosso trabalho. E, embora compartilhemos muitos dos valores de livre mercado encontrados no Atlas Shrugged e mantidos pela Atlas Society e Ayn Rand Institute, somos organizações separadas.”[14]

Considero, entretanto, ser indiscutível que a popularidade do livro de Ayn Rand e os valores compartilhados fazem com que essa associação seja praticamente inevitável.

O presidente da Atlas Network, desde 1991, é Alejandro Antonio Chafuen, argentino radicado nos Estados Unidos. Conhecido como Alex Chafuen, é, também, fundador e presidente do Conselho do Hispanic American Center For Economic Research (HACER), fundação criada em 1996, com sede em Washington, D.C., que se dedica a promover as ideias ultraliberais na América Hispânica e entre hispano-americanos que vivem nos Estados Unidos.[15]

Chafuen ingressou na Atlas Network em 1985 e trabalhou junto com o fundador, Antony Fisher. Segundo uma consistente matéria da jornalista Marina Amaral, publicada na agência Pública em 23 de junho de 2015, Chafuen seria ligado à Opus Dei, além de simpatizante do Tea Party, tendência ultraliberal-conservadora dentro do Partido Republicano — ultraliberal na economia e conservadora no que se refere a questões sociais, religiosas e de costumes.[16]

Como já mencionado, Chafuen é argentino. Em Buenos Aires, uma das organizações parceiras da Atlas norte-americana é a Fundación Atlas para una Sociedad Libre, fundada em 1998 e também conhecida como Atlas 1853, em referência ao ano de aprovação da Constituição liberal argentina. Em seu site, afirma-se que “Atlas 1853 retoma o legado de Juan Bautista Alberdi como inspirador da Constituição de 1853, que permitiu que — em pouco mais de meio século — o deserto que era a Argentina naquele momento se transformasse no 10.º país com a maior renda per capita do planeta.”[17]

Os ultraliberais argentinos de finais do século XX e inícios do XXI retomam, à sua maneira, Alberdi e Sarmiento, em uma releitura do pensamento liberal argentino do século XIX.[18]

As organizações parceiras da Atlas Network no Brasil

No Brasil, as 11 organizações que aparecem no site da Atlas Network como parceiras são as seguintes: três no Rio de Janeiro: Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Instituto Liberal (IL) e Instituto Millenium (Imil); três em São Paulo: Instituto de Formação de Líderes – São Paulo (IFL-SP), Instituto Liberal de São Paulo (ILISP) e Instituto Ludwig von Mises Brasil (Mises Brasil); duas em Belo Horizonte: Estudantes Pela Liberdade (EPL) e Instituto de Formação de Líderes (IFL); duas em Porto Alegre: Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e Instituto Liberdade (IL-RS); e uma em Vitória (ES): Instituto Líderes do Amanhã.[19]

Chama atenção a presença das mesmas pessoas em várias dessas organizações, incluindo empresários — que, com frequência, são patrocinadores desses institutos, ou seja, doadores de recursos, como pessoas físicas ou jurídicas — e os chamados “especialistas”: economistas, jornalistas, cientistas políticos, juristas, “consultores” etc. São pessoas que atuam, ao mesmo tempo, em órgãos de imprensa da mídia corporativa, em geral como colunistas, e nas organizações liberais ou ultraliberais, além de participarem ativamente dos eventos dessas organizações, ministrando palestras, cursos etc.

Basta dar uma olhada nas páginas na internet de várias dessas organizações, incluindo o Instituto Millenium — o think tank mais diretamente vinculado às empresas brasileiras de mídia —, para constatar essa recorrência de nomes.

Grande parte dessas organizações ultraliberais latino-americanas são filiadas à Red Liberal de América Latina – Relial. A Relial foi criada em 2004 e reúne não só think tanks como partidos políticos liberais da América Latina. No caso do Brasil, as organizações filiadas à Relial são o Instituto Liberal (IL), criado no Rio de Janeiro em 1983, o Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e o Instituto Liberdade (IL-RS).[20] O vice-presidente da Relial é, segundo consta no site da organização, Ricardo Gomes, que também é membro do Conselho Deliberativo do IEE.

No Brasil, também há uma organização que reúne think tanks e demais organizações ultraliberais que atuam no país. É a Rede Liberdade, que assim se apresenta:

“Somos a rede nacional de organizações liberais e libertárias, que influencia políticas públicas, por meio de projetos próprios ou de seus membros. A Rede Liberdade coordena os membros, de forma descentralizada, e tem por objetivo potencializar a divulgação e o impacto efetivo, entre os formadores de opinião, de ideias e iniciativas que visem uma menor intervenção estatal na economia e na sociedade.”[21]

A Rede Liberdade reúne 28 institutos, além de 20 grupos de estudos ou núcleos, situados em estados de todas as regiões do Brasil. Alguns desses institutos são bastante conhecidos e com atuação em suas cidades há vários anos, como os já citados Instituto de Estudos Empresariais, Instituto Liberal, Instituto Millenium e Estudantes Pela Liberdade. A Rede Liberdade, além das organizações mais estabelecidas e conhecidas, agrega organizações como o Movimento Endireita Brasil (MEB – São Paulo), que participou ativamente, nas redes e nas ruas, da mobilização a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

A maioria dessas organizações surgiu nos últimos cinco ou dez anos, ainda que algumas delas (IEE ou IL, por exemplo) tenham sido criadas na década de 1980. Ou seja, nos anos dos governos Lula e Dilma houve uma proliferação, no Brasil, de organizações defensoras do Estado mínimo ou do enxugamento do Estado, com maior ou menor estrutura de atuação.

Vale registrar que, em visita ao site da Atlas Network em maio de 2016, verifiquei que havia 76 organizações parceiras na América Latina e Caribe, exatamente uma a mais do que as que constavam no site no dia da minha apresentação no XII Encontro Internacional da ANPHLAC, ocorrida dois meses depois, em 28 de julho. Entre as 76, estava o Movimento Brasil Livre (MBL), que, em julho, não aparecia mais na lista de parceiras. Nada, obviamente, é por acaso. Houve, provavelmente, uma deliberada decisão por ocultar o MBL da lista de partners no período de votação do impeachment da presidente Dilma no Senado.

Existem ligações estreitas, comprovadas, entre brasileiros ultraliberais que lideraram a mobilização pró-impeachment de Dilma — jovens e não tão jovens — com a Atlas Network e outras organizações norte-americanas.

O MBL — que, como se sabe, teve destacada atuação na organização dos atos a favor do impeachment de Dilma — tem origem no Students For Liberty (SFL), fundado em 2008 na Columbia University, que tem como missão “empoderar jovens estudantes liberais” ou líderes estudantis “libertários”, e no ramal do SFL no Brasil, a organização Estudantes Pela Liberdade (EPL), com sede em Belo Horizonte.

Em novembro de 2015, foi realizado o Primeiro Congresso Nacional do MBL, ocasião em que foram aprovadas propostas nas áreas da educação, saúde, sustentabilidade, reforma política, economia, justiça, transporte e urbanismo. Sem espaço para detalhar as propostas, ressalto apenas uma delas: “Fim da função social da propriedade. A propriedade privada não pode ser relativizada.”[22]

O Students For Liberty tem vínculos estreitos com a Atlas Network, que promove programas de treinamento, cursos e apoio financeiro para formar jovens lideranças do “movimento pela liberdade” em todos os continentes.

Farei, a partir desta parte do texto, algumas breves considerações sobre algumas dessas organizações parceiras da Atlas Network no Brasil.

O Instituto de Estudos Empresariais, sediado em Porto Alegre, foi fundado em 1984 e realiza, anualmente, o Fórum da Liberdade, desde 1988. Entre os patrocinadores, estão o Grupo Gerdau, que também patrocina o Instituto Millenium, o grupo de mídia RBS etc. E há uma parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em cujo Centro de Eventos é realizado o Fórum da Liberdade.

Na 29.a edição do Fórum, ocorrida em abril de 2016 no Centro de Eventos PUCRS (CEPUC), o tema escolhido foi “Quem move o mundo?”, inspirado no romance A revolta de Atlas, de Ayn Rand. Um dos principais nomes do evento foi Yaron Brook, presidente do The Ayn Rand Institute (ARI), sediado em Irvine, na Califórnia.[23]

A parceria do Instituto Millenium com a Atlas Network revela os vínculos do think tank norte-americano com a mídia corporativa brasileira. Entre os patrocinadores do Instituto Millenium (Imil), estão os grupos Abril e RBS (filiado à Rede Globo em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul). O Grupo Estado, que publica o jornal O Estado de S. Paulo, aparecia entre os “mantenedores e parceiros” do Imil até 2016. E, entre os integrantes da “Câmara de Mantenedores”, estão João Roberto Marinho (Grupo Globo) e Nelson Sirotsky (Grupo RBS); empresários do setor financeiro — como Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central de 1999 a 2002, no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso — além de outros empresários de diferentes setores da economia.[24]

Segundo informa o site do Imil, o instituto foi fundado em 2005, com o nome inicial de Instituto da Realidade Nacional, pela economista Patrícia Carlos de Andrade, e oficializado em 2006, durante o Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, organizado pelo IEE.

No site do Imil, foi divulgada a realização da 29.a edição do Fórum da Liberdade. Na ocasião, o Instituto Millenium informou que, além de ter apoiado a realização do evento, “organizou a edição em português do livro A revolta de Atlas, lançado em 2010 pela editora Arqueiro”.

Entre os “especialistas” do Instituto Millenium, além de economistas, cientistas políticos e intelectuais reconhecidos no meio acadêmico, há jornalistas e colunistas que defenderam abertamente o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Um deles é Leandro Narloch, que foi colunista da revista Veja (Grupo Abril) de dezembro de 2014 a novembro de 2016, coincidindo com o período da campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff (sua coluna era intitulada “Caçador de Mitos”), e, desde dezembro de 2016, assina uma coluna na Folha de S. Paulo.[25]

Também aparece na lista de “especialistas” o veterano jornalista José Nêumanne Pinto, colunista de O Estado de S. Paulo (OESP), e, assim como o jornal para o qual trabalha — o que ficou claramente evidenciado pelos editoriais —, foi favorável ao impeachment de Dilma. No dia 10 de março de 2016, foi publicado no site do Imil um artigo de Nêumanne Pinto publicado em OESP no dia anterior — apenas quatro dias antes das grandes manifestações de domingo, 13 de março, a favor do impeachment —, intitulado “O governo contra a lei”, de oposição duríssima à presidente. A certa altura do artigo, Nêumanne faz uma menção elogiosa ao “acordo internacional que incorporou o Brasil ao Primeiro Mundo no combate à corrupção”.[26]

O Instituto Millenium e oimpeachment

Alguns nomes que apareciam como “especialistas” do Imil em 2016, não aparecem mais na lista em fevereiro de 2017. Entre esses, estão os nomes de Carlos Alberto Sardenberg, Demétrio Magnoli, Denis Rosenfield e Marco Antonio Villa, todos com amplo espaço na mídia. Outros nomes, como Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo, colaboraram com o Instituto, com artigos e/ou participação em eventos.

Pode-se supor que o Imil tenha preferido, para tentar manter sua imagem de uma organização técnica e apartidária, excluir da lista alguns nomes que ficaram muito marcados pela defesa do impeachment de Dilma. Entretanto, permaneceram na lista de “especialistas” nomes como o do economista Rodrigo Constantino e o de Hélio Beltrão, fundador-presidente do Mises Brasil.

Enfim, são muitos os colaboradores do Instituto Millenium que tiveram participação ativa no processo de desestabilização do governo Dilma: economistas liberais com colunas em jornais, empresários favoráveis ao impeachment, jornalistas com espaço na mídia corporativa etc.

No site da Atlas Network, foi publicado um artigo de Rodrigo Constantino, no dia 24 de março de 2016, intitulado: “A corrupção governamental no Brasil apresenta ambos, riscos e oportunidades”. O texto é ilustrado com uma foto da massa vestida de verde e amarelo que participou, em 13 de março, da manifestação a favor do impeachment de Dilma em Brasília. Constantino é apresentado como “presidente do Instituto Liberal e membro-fundador do Instituto Millenium, ambos parceiros da Atlas Network no Brasil”.[27]

Além de contar com o patrocínio de empresas, o Instituto Millenium recebeu, em 2009, a certificação de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), outorgada pelo Ministério da Justiça, o que permite ao Imil receber doações dedutíveis do Imposto de Renda de pessoas jurídicas de até 2%.

É desnecessário expor aqui o papel absolutamente central das grandes empresas de mídia brasileiras na desestabilização do governo de Dilma Rousseff, a partir de junho de 2013 e, particularmente, durante a campanha pelo impeachment da presidente, a partir do início de seu segundo mandato, em 2015.

Vale registrar que, em 2013, integrantes dessas organizações ultraliberais iniciaram sua participação nas manifestações de rua, como demonstra a matéria, já citada, de Marina Amaral. A jornalista entrevistou membros do Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua, que confirmaram o início da participação nos atos de rua em junho de 2013, mas que o problema, naquela ocasião, era a diversidade de pautas. Os entrevistados afirmaram que, somente a partir de março de 2015, puderam colocar suas pautas ultraliberais nas ruas, por exemplo, em cartazes em que se podia ler “Menos Marx, Mais Mises”.[28]

Chama atenção, também, o oportunismo do Movimento Brasil Livre (MBL), que, evidentemente, inspirou-se no nome do Movimento Passe livre (MPL), que teve grande importância no desencadeamento das manifestações de junho de 2013, em defesa da melhoria e da gratuidade do transporte público, ou seja, uma pauta de esquerda, totalmente contrária à do MBL, que é privatista e defensora do Estado mínimo. Se os integrantes do MBL atuassem como Estudantes Pela Liberdade, a filiação com o Students For Liberty ficaria explícita. Daí a criação do Movimento Brasil Livre em novembro de 2014, logo depois da reeleição da presidente Dilma.

No site da Atlas Network, há um texto sobre Kim Kataguiri e o Movimento Brasil Livre, publicado no dia 1.º de abril de 2015, ou seja, um ano antes da votação pela admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, ocorrida em 17 de abril de 2016.

O artigo tem o seguinte título: “Students For Liberty jogam um importante papel no Movimento Brasil Livre”. Assim o texto apresenta Kataguiri:

“À frente do movimento [MBL] está Kim Kataguiri, uma estrela libertária emergente que trabalha com os Estudantes Pela Liberdade (Students For Liberty), partner da Atlas Network. […] Muitos membros do Movimento Brasil Livre passaram pelo principal programa de treinamento da Atlas Network, a Atlas Leadership Academy, e agora estão aplicando o que aprenderam no local onde vivem e trabalham. ‘A Atlas Leadership Academy oferece diversos treinamentos com foco no desenvolvimento de missões, saber como alcançar seu público e a importância de alcançar impacto’, afirma Cindy Cerquitella, diretora da Atlas Leadership Academy. ‘Foi emocionante trabalhar com defensores da liberdade no Brasil e em 90 países do mundo, e ainda mais emocionante foi vê-los colocar essas lições em prática’.”[29]

A fotografia que ilustra o texto mostra Kim Kataguiri à frente e, ao fundo, uma tela digital com a imagem do ex-presidente Lula.[30]

O Students For Liberty dos Estados Unidos tem vínculos não só com o Estudantes Pela Liberdade – Brasil (EPL) e o Movimento Brasil Livre (MBL), mas, também, com uma outra organização brasileira, denominada Instituto Ordem Livre.

No caso do EPL, pode-se ler o seguinte no site:

“A história do Estudantes Pela Liberdade iniciou-se em 2010 como um blog no qual Juliano Torres e Anthony Ling escreviam conteúdo. O primeiro projeto foi o ‘Estudos Pela Liberdade’ na forma de uma revista acadêmica. Nessa época dois grupos faziam parte da organização: o Círculo de Estudos Roberto Campos e Círculo Bastiat, um na URGS [sic] e outro na Faculdade Pitágoras.”[31]

Chamou-me a atenção o fato de que, no trecho acima, a sigla da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) aparece sem o “F” de Federal, como que a ocultar seu caráter de universidade pública (ou, o que me parece menos provável, ter sido um simples lapso).

Na sequência da apresentação sobre o EPL, afirma-se que, “em 2012, no Seminário de Verão do Instituto Ordem Livre organizado por Diogo Costa, Magno Karl e Elisa Martins”, decidiu-se pela criação do EPL.

Sobre a trajetória do EPL, o site traz as seguintes informações:

“O pequeno projeto deu um salto em 2014, quando obteve impacto em todos os estados do Brasil, contando com a participação de 600 lideranças voluntárias. […] Desde a sua fundação, a organização já realizou cerca de 650 eventos em instituições de ensino públicas e privadas. […] Já treinamos estudantes de 357 universidades, e com a mentoria da organização foram criados mais de 200 grupos de estudos em instituições de ensino. Através de nossos projetos, buscamos promover ideias como empreendedorismo entre jovens estudantes, um debate plural de ideias, e por meio da educação, criar uma geração de futuros líderes. Por sermos uma organização apartidária e sem fins lucrativos, buscamos desenvolver projetos que realizem mudanças no ambiente estudantil sem envolvimento com interesses de terceiros, respeitando sempre nossos valores e missão.”[32]

No site do EPL, também aparecem os seguintes números, apurados no dia 14 de fevereiro de 2017: “3.463 pessoas treinadas, 298 universidades, 235 grupos já criados, 27 projetos financiados” em cinco anos.[33] Não há, evidentemente, como atestar a veracidade desses números.

Mas cabe perguntar: quem financia o Estudantes Pela Liberdade para que possa cumprir a sua “missão”, ou seja, “empoderar líderes estudantis”? e, evidentemente, “líderes” defensores do “libertarianismo”, o nome que utilizam para se referir ao ultraliberalismo? No site aparece uma lista de “apoiadores”: Instituto Ludwig von Mises Portugal; Instituto Friedrich Naumann para a Liberdade, criado em 1992 em São Paulo (filial da Friedrich-Naumann-Stiftung für die Freiheit – FNF, fundação liberal sediada na Alemanha); Bunker Editorial (que publica a Coleção Estudantes Pela Liberdade),[34] as empresas Pipedrive e Salesforce (cujas matrizes são norte-americanas) e a Atlas Network, a principal apoiadora.

Na auditoria do EPL, disponível na internet, sobre os dois primeiros anos da organização, aparece a seguinte informação: “não houve receita”. Em 2012 e 2013, o valor total de gastos apresentado — R$ 29.199,37 em 2012 e R$ 46.780,96 em 2013 — teria sido pago por Juliano Torres, diretor-presidente do EPL. Em 2014, ano em que houve um evento conjunto do EPL com o Instituto Ordem Livre, R$ 36.467,46 teriam sido pagos por Juliano Torres (ele aparece, na contabilidade, como credor do EPL e, também, como recebedor de significativos valores ressarcidos). Além desse valor, em 2014, a auditoria elenca como doadores as seguintes organizações: cerca de R$ 56 mil reais doados pela The Atlas Economic, ou seja, The Atlas Economic Research Foundation, a Atlas Network; R$ 9 mil reais doados pelo Instituto Friedrich Naumann para a Liberdade; e valores de R$ 30 mil e R$ 3.500 que constam como pagamentos de “doador confidencial”. O valor total de despesas em 2014 foi de R$ 122.305,48. Em 2015, os gastos subiram expressivamente, para um total de R$ 261.596,55. Novamente, houve expressivas doações da Atlas Network, mais de R$ 82 mil reais, além de mais de R$ 58 mil reais doados pelo Students For Liberty. No ano de 2016, o valor total das despesas subiu para R$ 306.737,05. Novamente, as doações da Atlas Network foram expressivas: mais de R$ 139 mil reais. Do Students For Liberty, o EPL recebeu R$ 36.430 e, de doadores “confidenciais”, mais de R$ 150 mil reais. Há, entre os últimos, doações de valores quebrados. Uma delas no valor de R$72.755,78, o que indica, claramente, ter sido uma doação em moeda estrangeira.[35]

As informações acima demonstram claramente que o Estudantes Pela Liberdade – EPL recebeu recursos do exterior, principalmente dos Estados Unidos (Atlas Network e Students For Liberty). As despesas subiram mais de 10 vezes entre 2012, quando o EPL foi criado, e 2016, de cerca de R$ 29 mil para mais de R$ 300 mil reais. Dadas as vinculações do Movimento Brasil Livre com a Atlas Network, Students For Liberty, Estudantes Pela Liberdade e Instituto Ordem Livre, muito provavelmente foram repassados recursos da Atlas Network e do SFL para o MBL, utilizados na campanha na internet e na organização dos atos a favor do impeachment da presidente Dilma, realizados em 2015 e 2016. Ressalto que, em texto já citado, publicado no site da Atlas Network, afirma-se que Kim Kataguiri “trabalha com os Estudantes Pela Liberdade (Students For Liberty), partner da Atlas Network”. Os valores doados ao EPL e MBL por organizações estrangeiras podem, inclusive, ter sido mais elevados, mas não encontrei outras fontes para averiguar esses dados.

Em outro texto publicado no site da Atlas, em 6 de agosto de 2015, intitulado “Movimentos pela liberdade explodem entre estudantes brasileiros”, afirma-se que Kim Kataguiri é “membro do EPL”. Nesse artigo, há uma citação de Kataguiri — “nós defendemos mercados livres, impostos mais baixos e a privatização de todas as empresas públicas” — e uma foto sua com Fábio Ostermann (integrante do Instituto Ordem Livre), em Nova York, depois de um evento na Atlas Network.[36] Vale a pena procurar “Brazil” no mecanismo de busca no site da Atlas Network. Vários artigos sobre as organizações parceiras da Atlas no Brasil poderão ser encontrados.

O financiamento das organizações

Pode-se perguntar as razões do EPL ter publicado a auditoria na internet. O EPL recebeu doações de pessoas físicas e jurídicas, por diversos meios, inclusive pagamento eletrônico, e, provavelmente, precisou publicar a contabilidade da organização, para evitar eventuais problemas judiciais.

No caso do Movimento Brasil Livre, aparece, no site, o link para a loja on line, com produtos como uma camiseta com a frase “O Brasil venceu o PT”; o boneco “Pixuleco”, que representa o ex-presidente Lula “vestido” de presidiário; além de um boné com a frase “Make South America Great Again”, inspirada no slogan da campanha presidencial de Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos em 2016.

Vale registrar que o mesmo slogan foi utilizado, pela primeira vez, na campanha presidencial vitoriosa do ex-presidente Ronald Reagan, admirado pelos ultraliberais, em 1980. Até a imagem do PowerPoint sobre Lula, apresentado pelo procurador Deltan Dallagnol, do Ministério Público Federal, no dia 14 de setembro de 2016, foi estampada em camisetas pelo MBL, que são vendidas no site da organização. Além dos recursos da loja, o MBL também recebe doações por meios eletrônicos. Mas não há nenhuma referência a qualquer contabilidade ou auditoria.

É importante fazer algumas observações sobre os fundadores do Estudantes Pela Liberdade e do Instituto Ordem Livre, ambas as organizações, como já explicitado, vinculadas à Atlas Network: Juliano Torres (diretor-presidente do EPL), Anthony Ling, Diogo Costa, Magno Karl e Elisa Lucena Martins.

A jornalista Marina Amaral entrevistou Juliano Torres, por telefone, para a matéria já citada. A reprodução, por Amaral, da fala de Torres é contundente e não deixa margem a dúvidas:

“Quando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, vários membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, só que, como a gente recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students For Liberty, por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização, para evitar problemas. Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre. Então juntou eu, Fábio [Ostermann], juntou o Felipe França, que é de Recife e São Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E aí acabaram as manifestações, acabou o projeto. E a gente estava procurando alguém para assumir, já tinha mais de 10 mil likes na página, panfletos. E aí a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança. O Kim, inclusive, vai participar agora de um torneio de pôquer filantrópico que o Students For Liberty organiza em Nova York para arrecadar recursos. Ele vai ser um palestrante. E também na conferência internacional em fevereiro, ele vai ser palestrante.”

Juliano Torres teve treinamento na Atlas Network, assim como outros integrantes do EPL, Ordem Livre e Movimento Brasil Livre. Segundo Marina Amaral, Torres teria afirmado, sobre os treinamentos e cursos da Atlas:

“Tem um que eles chamam de MBA, tem um treinamento em Nova York também, treinamentos online. A gente recomenda para todas as pessoas que trabalham em posições de mais responsabilidade [no EPL] que passem pelos treinamentos da Atlas também.”[37]

No quadro organizacional do Students For Liberty, há vários brasileiros que são associados ou coordenadores dos programas do SFL no Brasil: André Freo, Bernardo Shamash, Bernardo Vidigal, Edson Lima Lemos, Fernando Henrique Miranda, Ivanildo Terceiro e Mariana Matos.[38]

Outra brasileira atuante nas organizações ultraliberais é Elisa Lucena Martins. Ela foi uma das organizadoras, junto com Diogo Costa e Magno Karl, do Seminário de Verão de 2012, em Petrópolis, no Instituto Ordem Livre, evento que deu origem ao Estudantes Pela Liberdade. Bacharel em Economia pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), Elisa Martins é apresentada como “Director of Institute Relations and Programs” da Atlas Network. Iniciou sua participação na Atlas em 2010 como Charles G. Koch Summer Fellow, ou seja, bolsista do Charles Koch Institute. A OrdemLivre.org é apresentada como uma “plataforma da Atlas Network em língua portuguesa”. Elisa Martins também está na lista de “especialistas” do Instituto Millenium.[39]

Assim como Elisa Martins, Diogo Costa integra a lista de “especialistas” do Millenium. Ele ocupa, além disso, a presidência do Instituto Ordem Livre e é membro do Conselho Consultivo do Estudantes Pela Liberdade. Formado em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis, Costa fez estágio no Cato Institute, outro poderoso think tank norte-americano que fornece apoio a organizações e lideranças liberais e ultraliberais em vários países, além de ser um dos mais importantes parceiros da Atlas Network.[40]

Outro nome frequente nessas organizações é Fábio Ostermann, já citado, que também fez treinamentos e participou de eventos nos Estados Unidos, na Atlas Network. No site da Atlas, há a seguinte descrição de Ostermann, na seção Our People:

“Fabio Ostermann é um cientista político de 30 anos [completou 32 anos em 30/08/2016]. Ele tem Graduação em Direito e Mestrado em Ciência Política. Ostermann é graduado pela Atlas Leadership Academy e tem se envolvido com as principais iniciativas a favor do livre mercado em seu país, Brasil, desde que se assumiu como libertário (‘liberal’ na terminologia brasileira), há mais de uma década. Atualmente é membro do conselho do Movimento Brasil Livre (Free Brazil Movement), o principal grupo da sociedade civil que atua na oposição ao atual [da presidente Dilma] governo socialista [sic] no Brasil.”[41]

Em seu próprio site, Ostermann, entre outras informações, assim se apresenta:

“Foi Fellow na Atlas Economic Research Foundation (Washington, DC), Diretor Executivo do Instituto Liberdade, Diretor de Formação e Conselheiro Fiscal do Instituto de Estudos Empresariais (IEE), cofundador da rede Estudantes Pela Liberdade, tendo sido o primeiro presidente de seu Conselho Consultivo, Diretor Executivo do Instituto Ordem Livre e Coordenador Nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), entidade da qual foi o fundador, e Diretor Executivo da Fundação Educacional do Partido Social Liberal (PSL). É Professor (licenciado) na Faculdade Campos Salles, associado honorário do IEE, membro do Grupo Pensar+ e Presidente Estadual do Livres-PSL/RS.”[42]

Fábio Ostermann foi candidato a prefeito de Porto Alegre em 2016, pelo Partido Social Liberal (PSL). Obteve apenas 7.054 votos, 0,99% do total de votos válidos, tendo ficado em 6.º lugar, mas pôde inserir as ideias liberais e ultraliberais no debate eleitoral. Atualmente, dedica-se a organizar o Livres, “tendência liberal e libertária” do PSL.[43]

Em abril de 2015, o presidente da Atlas Network, Alejandro Chafuen, esteve no Brasil. No dia 12, participou da manifestação pelo impeachment de Dilma em Porto Alegre e publicou, em sua página no facebook, uma foto sua, vestido com uma camisa da Confederação Brasileira de Futebol – CBF, em companhia de Fábio Ostermann. A foto foi reproduzida na matéria de Marina Amaral, já citada. Nos dois dias seguintes, Chafuen participou, como convidado, do 28.º Fórum da Liberdade, realizado pelo IEE.

Entre os palestrantes, estavam vários dos nomes já citados anteriormente: além de Chafuen, Demétrio Magnoli, Diogo Costa, Hélio Beltrão, Kim Kataguiri e Rodrigo Constantino. Outros nomes conhecidos participaram dos painéis do Fórum: o senador Ronaldo Caiado (DEM-Goiás), o deputado estadual Marcel van Hattem (PP-RS) e Plinio Apuleyo Mendoza (jornalista e diplomata colombiano, um dos autores do Manual del perfecto idiota latinoamericano, uma espécie de panfleto satírico antiesquerdista, publicado em 1996). Durante o 28.º Fórum, o jornalista William Waack, do Grupo Globo, recebeu o prêmio Liberdade de Imprensa, concedido pelo IEE.[44]

Sobre o Movimento Brasil Livre, é importante acrescentar que, apesar de derrotas em eleições majoritárias, já obteve algumas vitórias eleitorais. No site do MBL, constam, como parlamentares vinculados ao movimento, um deputado federal, Paulo Eduardo Martins (PSDB-PR), e oito vereadores, eleitos em três municípios paulistas (São Paulo, Americana e Rio Claro), dois gaúchos (Porto Alegre e Sapiranga), dois paranaenses (Londrina e Maringá) e um sergipano (Aracaju), pelos seguintes partidos: quatro pelo PSDB, além do DEM (Fernando Holiday, na cidade de São Paulo, presença constante nas manifestações a favor do impeachment de Dilma), PRB, PV e PEN.[45]

Farei breves referências, também, ao Instituto de Formação de Líderes de São Paulo (IFL-SP), que promove a realização do Fórum Liberdade e Democracia. Na sua 3.ª edição, realizada na cidade de São Paulo no dia 22 de outubro de 2016, houve o anúncio de duas premiações: Deltan Dallagnol, procurador do Ministério Público Federal, recebeu o “Prêmio Liberdade 2016”, “em nome da força-tarefa responsável pela Operação Lava Jato”.

As evidências acerca da convergência entre a Operação Lava Jato e os interesses, ainda que circunstanciais e oportunistas, dos setores políticos e sociais favoráveis ao impeachment de Dilma são inúmeras. Essa premiação é apenas mais uma. O segundo premiado do evento foi Fernando Holiday,[46] do MBL, que recebeu o “Prêmio Luís Gama – 2016”, por ter sido “um dos protagonistas dos movimentos de rua que lideraram os protestos a favor do impeachment, de mais liberdade, menor intervenção estatal e fim da corrupção”.[47]

O baiano Luiz Gama (1830-1882),[48] negro como o paulistano Fernando Holiday, foi republicano, em tempos de regime monárquico, e membro do Partido Liberal. Mas ficou conhecido, principalmente, como um dos mais importantes abolicionistas do século XIX. O vereador eleito em 2016, entretanto, rejeita demandas históricas do movimento negro no Brasil, entre elas, a política de reserva de vagas para negros e indígenas em universidades e concursos públicos (cotas raciais) e outras políticas de ação afirmativa.

Usar o nome de Luiz Gama para homenagear um jovem político que, ainda que negro, não tem qualquer vínculo com nenhuma organização do movimento negro e que se posiciona a favor da “revogação do Dia da Consciência Negra” é, evidentemente, uma apropriação indébita e oportunista, para dizer o mínimo.[49]

Acerca do 3.º Fórum Liberdade e Democracia, também não se pode ignorar o convite feito ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) — de evidente filiação ideológica à direita autoritária, com um discurso frequentemente truculento, misógino, homofóbico e racista — para participar do 1.º painel, intitulado “O papel do Estado no século XXI”.

Além do deputado, foram convidados para o debate a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) e Fábio Ostermann, este último como representante do pensamento ultraliberal. A mediação do debate ficou por conta de Hélio Beltrão, do Instituto Mises Brasil. Logo no início, ao apresentar os integrantes do painel, o mediador afirmou que o debate possibilitaria marcar as “diferenças entre a direita e os liberais”, obviamente referindo-se a Bolsonaro como o representante da direita.

A participação do deputado deixou claro que a intenção do convite foi exatamente esta: marcar as diferenças entre a direita liberal e a extrema direita, sendo que as posições da senadora Ana Amélia foram claramente mais próximas daquelas expressas por Ostermann.[50]

Os temas mais polêmicos abordados no painel foram os relacionados a declarações de Bolsonaro em defesa do regime militar e às palavras que o deputado pronunciou ao votar, no plenário da Câmara, a favor da admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no dia 17 de abril de 2016.

Naquela sessão histórica, e ao mesmo tempo lamentável, Bolsonaro pronunciou as seguintes palavras:

“[…] Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve [sic]; contra o comunismo; pela nossa liberdade; contra o Foro de São Paulo; pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff; pelo Exército de Caxias; pelas nossas Forças Armadas; por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim.”[51]

O deputado federal, no plenário da Câmara dos Deputados, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em outubro de 2015. Ustra atuou como diretor do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) de São Paulo, órgão subordinado ao Exército, entre setembro de 1970 e janeiro de 1974, e foi reconhecido, pela Justiça, como torturador de presos políticos durante a ditadura militar.[52]

No debate, Ostermann reforçou todas as posições dos ultraliberais: declarou que “Estado eficiente é Estado reduzido” e criticou os “incentivos perversos do Estado de bem-estar social”. Mas demarcou, com firmeza, suas diferenças em relação a Bolsonaro, ao afirmar que “se orgulhar da ditadura militar” e “defender torturador” era “vergonhoso”.[53]

O convite do IFL-SP a Jair Bolsonaro, assim como a pergunta de Hélio Beltrão sobre as posições do deputado acerca da ditadura militar e da tortura, podem ser interpretados como uma tentativa dos ultraliberais de marcar suas divergências com a extrema direita. Entretanto, foi dado um palco para o deputado, que contou com o apoio de parte significativa da plateia.

Em diversos momentos do debate, foi possível ouvir aplausos a Bolsonaro e gritos de “mito, mito, mito”. Convidar Bolsonaro significou, na prática, que os integrantes do IFL-SP consideraram o deputado um debatedor que merecia ser ouvido e que, de alguma maneira, estava à altura do debate político que se queria promover. Se a intenção foi, ao contrário, expor Bolsonaro ao contraditório para desqualificá-lo, o resultado não foi o que os organizadores esperavam, dado o apoio demonstrado por uma parcela da plateia.

É importante registrar que Hélio Beltrão fez questão de afirmar que os convidados para o painel estavam “unidos contra essa esquerda dos governos recentes”. E que, em outro momento, questionou “o que a gente pode fazer junto” para evitar o retorno ao poder “dessa esquerda que está querendo voltar”. Ou seja, Beltrão e Ostermann marcaram as diferenças em relação a diversas posições de Bolsonaro, mas não descartaram uma possível aliança entre a direita liberal e a direita autoritária para derrotar o “inimigo” maior: as esquerdas. Como, aliás, aconteceu em 2016, nas alianças que se formaram para derrubar a presidente Dilma e derrotar o Partido dos Trabalhadores.

Considerações finais

As fontes documentais utilizadas neste texto — páginas das organizações e think tanks na internet, entrevistas e artigos de integrantes — permitem demonstrar a articulação estreita entre organizações liberais e ultraliberais dos Estados Unidos, Brasil e demais países latino-americanos, além de conexões com institutos e fundações de países europeus.

Também é possível constatar que foram constituídas redes entre essas organizações que possibilitam não só a produção e circulação de textos e o debate entre formuladores de ideias liberais e ultraliberais, como o apoio efetivo à criação e o fortalecimento de novas organizações em um número crescente de países e cidades.

Essas redes também se articulam para apoiar ações políticas, ainda que frequentemente isso não seja explicitado. Esse apoio se concretiza no treinamento de novas lideranças políticas, em geral com menos de 30 ou 40 anos, e doações financeiras (realizadas de maneira transparente ou não).

A adoção, pela Atlas Economic Research Foundation, do “nome fantasia” Atlas Network em 2013 foi, portanto, oportuna, pois o objetivo da organização é, efetivamente, fomentar a criação e apoiar organizações liberais e ultraliberais em todo o globo (Atlas), trabalhando em rede (Network).

Também é possível constatar a participação das mesmas pessoas em várias dessas organizações ao mesmo tempo, tanto brasileiras como, em alguns casos, estrangeiras, particularmente dos Estados Unidos.

Entretanto, considero que não se pode superestimar a força política dessas organizações ultraliberais, no Brasil e em outros países da América Latina, onde atuam de maneira semelhante, com maior ou menor força e/ou penetração na sociedade, com o objetivo de influenciar as disputas de opinião na esfera pública.

Faço essa afirmação porque, em países com tão altas proporções da população que necessitam dos serviços públicos, a defesa do enxugamento do Estado, inclusive em áreas essenciais como educação e saúde, provoca resistências importantes.

Mas, se não é possível superestimar o poder dessas organizações e think tanks defensores das privatizações, de um Estado enxuto ou mesmo do Estado mínimo, é possível confirmar seu crescimento, tanto em número (de organizações e integrantes) como em penetração no debate público.

São evidentes os vínculos dessas organizações liberais e ultraliberais, tanto nacionais como estrangeiras, principalmente norte-americanas, com algumas das corporações de mídia mais poderosas do Brasil (Grupos Globo, Abril, Folha,[54] RBS e Estado), assim como com organizações criadas com o objetivo de mobilizar a população em manifestações de oposição ao Partido dos Trabalhadores e de apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, como o Movimento Brasil Livre, uma espécie de filial militante, no Brasil, do Student For Liberty.

Em 6 de setembro de 2012, em artigo publicado na revista CartaCapital, intitulado “Instituto Millenium, mídia e as lições da história”, o jornalista e ex-deputado federal pelo PT da Bahia, Emiliano José, fez a seguinte afirmação:

“O Millenium acompanha uma tradição golpista existente no Brasil, uma tradição golpista da nossa velha mídia inclusive. Não aceita, não engole um governo que, pela via democrática, e com parâmetros distintos do neoliberalismo, está mudando o Brasil. E fará de tudo para derrotar esse projeto. De tudo.”[55]

Ressalto que esse artigo foi escrito em setembro de 2012, ou seja, nove meses antes das chamadas “jornadas de junho” de 2013, quando teve início um intenso processo de desgaste e desestabilização do governo de Dilma Rousseff. Contudo, escrito em meio à espetacularização do julgamento iniciado em agosto de 2012 no Supremo Tribunal Federal, da AP 470, que ficou conhecido como o julgamento do “mensalão” petista.

Iniciativas de criar organizações e partidos ultraliberais, como o Partido Novo e o Libertários,[56] vêm se intensificando no Brasil nos últimos anos, particularmente como reação aos governos social-democratas e reformistas dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Ainda que representantes de concepções minoritárias, essas organizações têm se fortalecido. São organizações que têm atuado fazendo oposição a governos eleitos de esquerda, centro-esquerda e social-democratas, cujas políticas não são consideradas “amigáveis” ao livre mercado e a determinados interesses dos Estados Unidos.

Mas essas organizações não fazem apenas oposição democrática. Elas têm atuado, cada vez com mais intensidade, com o objetivo de desgastar, desestabilizar e, finalmente, derrubar esses governos.

As mesmas organizações norte-americanas que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff atuam no apoio aos setores políticos da direita liberal e ultraliberal nos demais países latino-americanos, como Argentina, Chile, Equador, Venezuela etc.[57] E, como no Brasil, participam (ou participaram), em maior ou menor grau, de ações de desestabilização de governos de esquerda, centro-esquerda e social-democratas.

No caso do processo político-jurídico que teve como objetivo o impeachment de Dilma Rousseff, concluído em 31 de agosto de 2016, a participação das grandes empresas de mídia foi central, assim como a ação (na internet e nas ruas) de organizações como o MBL e Vem Pra Rua, que tiveram o apoio, nada discreto, das corporações de mídia que criaram o Instituto Millenium.

Não posso deixar de me posicionar, neste texto, em relação ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, que considero a concretização de uma espécie de novo “modelo” de golpe de Estado, parlamentar-jurídico-policial-midiático, por não ter havido a comprovação de crime de responsabilidade cometido pela presidente deposta. Todo o processo de impeachment de Dilma foi cercado de inúmeras polêmicas e questionamentos, levantados inclusive por um expressivo número de juristas.

Minha intenção, portanto, foi mostrar, de maneira breve e preliminar, algumas das conexões entre organizações da direita ultraliberal norte-americana, brasileira e hispano-americana. Conexões estas que se estabeleceram, também, na promoção das manifestações e propaganda política a favor do impeachment de Dilma.

Organizações e fundações com posições político-ideológicas assumidas existem à direita e à esquerda do espectro político. Mas o que ocorreu no Brasil em 2015 e 2016 foram doações em dinheiro, além de treinamento — por organizações estrangeiras, principalmente norte-americanas — de personagens que tiveram um papel central na mobilização social para destituir uma presidente da República legitimamente eleita, sem a comprovação de crime de responsabilidade.

Notas

[1]Think tank – expressão que pode ser traduzida por “centro de pensamento” — é um termo criado nos Estados Unidos e utilizado, a partir da década de 1950, para designar organizações que se dedicam a produzir e/ou difundir pesquisas, ideias e projetos de políticas públicas (política econômica, política externa, políticas sociais, ambientais etc.), com o objetivo de influenciar governos e/ou conformar uma certa opinião pública. Em geral, buscam transmitir uma imagem técnica, tentando afastar-se de uma identificação estritamente ideológica, mesmo que claramente defendam determinadas concepções política e ideologicamente orientadas.

[2] Foi publicado, no site do Instituto Mises Brasil, em 18/01/2017, um artigo intitulado “Em defesa do Ultraliberal”, cujo autor, Geanluca Lorenzon, é um dos diretores da organização. Após fazer uma referência (desfavorável) ao livro Historiadores pela Democracia (Orgs.: Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz G. Mamigonian. São Paulo: Alameda, 2016) — e, sem explicitar, ao meu texto na coletânea (“Entre 2013 e 2016, das ‘jornadas de junho’ ao golpe”) —, Lorenzon defende o uso do termo ultraliberal para designar os defensores do Estado mínimo. Cf. http://www.mises.org.br/BlogPost.aspx?id=2612 (acesso em 12/02/2017).

[3] Essas informações sobre a Atlas Network podem ser encontradas na página da organização na internet: https://www.atlasnetwork.org, mais especificamente em: https://www.atlasnetwork.org/about/our-story Sobre o nome da organização, ver: https://www.atlasnetwork.org/about/faq#is-atlas-network-a-different-organization-than-the-atlas-economic-research (acesso em 07/02/2017).

[4] Cf. https://www.atlasnetwork.org/about/faq#giving-all-you-need-to-know-about-your-donation (acesso em 07/02/2017).

[5] Sobre os irmãos Koch, suas empresas e as conexões com os movimentos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, ver a matéria de Antonio Luiz M. C. Costa publicada na revista CartaCapital em 23/03/2015: “Quem são os irmãos Koch?”. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/politica/quem-sao-os-irmaos-koch-2894.html. Acerca dos vínculos e contribuições das fundações Koch para a Atlas Network, conferir a matéria da jornalista Marina Amaral na agência Pública: “A nova roupa da direita”. Pública, 23/06/2015. Disponível em: http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/ (último acesso em 15/02/2017). Ver, também, as seguintes páginas das organizações Koch na internet: https://www.charleskochinstitute.org/ e https://www.charleskochfoundation.org/ (acesso em 15/02/2017).

[6] A lista de partners da Atlas Network pode ser conferida em: https://www.atlasnetwork.org/partners/global-directory (último acesso em 13/02/2017).

[7] “We are the largest libertarian student organization in the world”. Cf. https://www.studentsforliberty.org/ e https://www.studentsforliberty.org/about/ (acesso em 10/02/2017).

[8] Cf. http://www.epl.org.br/ (acesso em 06/02/2017).

[9] Em 2017, o Fórum será em Nova York, nos dias 7 e 8 de novembro. Cf. https://www.atlasnetwork.org/events/liberty-forum-freedom-dinner (acesso em 08/02/2017).

[10] No original: “Atlas Network strengthens the worldwide freedom movement by identifying, training, and supporting individuals with the potential to found and develop effective independent organizations that promote our vision in every country. […] The annual Liberty Forum brings together amazing freedom champions from this network to exchange ideas and share strategies. The gala Freedom Dinner serves as a fitting grand finale to this conference, celebrating heroes of the freedom movement and the principles that friends of Atlas Network are advancing worldwide.” In: https://www.atlasnetwork.org/events/liberty-forum-freedom-dinner (acesso em 08/02/2017). Todas as traduções são da autora do texto.

[11] No original: “With modest resources available for grants, we can only fund a fraction of the worthy proposals we receive. […] Atlas Network-sponsored grants can support specific projects, or provide general operating support to organizations within the Atlas Network. Support is typically awarded in modest amounts of $5,000 to $10,000, and only on rare occasions will it exceed $20,000. In: https://www.atlasnetwork.org/about/faq#does-atlas-network-distribute-grants-and-if-so-how (acesso em 08/02/2017).

[12] O livro de Ayn Rand, Atlas Shrugged (1957), teve duas edições publicadas no Brasil. Na primeira, de 1987, o livro foi intitulado Quem é John Galt? (editora Expressão Cultura, 1987, 903 p.) e, na segunda, A revolta de Atlas. São Paulo: Editora Arqueiro, 2010, 3 volumes (1232 p.).

[13] Cf. Libertarianismo. In: OUTHWAITE, William et al. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p. 425-6.

[14] No original: “The name was not derived from the book. In fact, the word “Atlas” in our name has to do with the global nature of our work. And, although we share many of the free-market values found in Atlas Shrugged and held by the Atlas Society and Ayn Rand Institute, we are separate organizations.” In.: https://www.atlasnetwork.org/about/faq#was-atlas-network-named-after-the-book-atlas-shrugged-is-it-associated-with Acesso em: 08/02/2017.

[15] Sobre o Hispanic American Center For Economic Research (HACER), ver: http://www.hacer.org/ e http://www.hacer.org/board-of-directors/ Acesso em: 14/02/2017.

[16] Sobre a “nova direita” brasileira, que passou a liderar movimentos de rua nos últimos anos, particularmente contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, ver: Marina Amaral. “A nova roupa da direita”. Pública, 23/06/2015. Disponível em: http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/; “Movimento Brasil Livre – MBL e junho de 2013. Uma franquia americana depois do impeachment está presente no movimento Escola Sem Partido. Entrevista especial com Marina Amaral.” In: revista IHU On-Line, do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 01/08/2016. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/558321-movimento-brasil-livre-mbl-e-junho-de-2013-uma-franquia-americana-que-depois-do-impeachment-esta-presente-no-movimento-escola-sem-partidoq-entrevista-especial-com-marina-amaral#. Ver também Patrícia Campos Mello. “Inclinações da direita. Liberais, libertários e conservadores, uni-vos.” Folha de S. Paulo, Ilustríssima, 05/10/2014. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/188971-inclinacoes-da-direita.shtml; Luiza Villaméa: “Como Derrubar um governo.” Revista Brasileiros, 19/08/2016. Disponível em: http://brasileiros.com.br/2016/08/como-derrubar-um-governo/; e MELO, Demian Bezerra. “A direita ganha as ruas: elementos para um estudo das raízes ideológicas da direita brasileira”, trabalho apresentado no evento “Marx e o Marxismo 2015: Insurreições, passado e presente”, realizado em Niterói, na UFF, entre 24 a 28 de agosto de 2015. Disponível em: http://www.niepmarx.com.br/MM2015/anais2015/mc51/Tc512.pdf Acesso em: 08/02/2017.

[17] In: http://www.atlas.org.ar. Acesso em 14/02/2017.

[18] Sobre a organização argentina Fundación Atlas para una Sociedad Libre, ou Atlas 1853, ver: http://www.atlas.org.ar/ Acesso em: 14/02/2017.

[19] Informações em: https://www.atlasnetwork.org/partners/global-directory/latin-america-and-caribbean/brazil Acesso em: 13/02/2017.

[20] Cf. a página da Relial na internet: http://relial.org/ Acesso em: 06/02/2017.

[21] Cf. a página da Rede Liberdade na internet: https://redeliberdade.org/#/sobre Acesso em: 08/02/2017.

[22] Propostas aprovadas no Primeiro Congresso Nacional do Movimento Brasil Livre em novembro de 2015: https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/mbl-wordpress-s3/wp-content/uploads/2016/05/26222920/propostas-mbl.pdf Acesso em: 12/02/2017.

[23] Sobre o IEE, o Fórum da Liberdade e a programação de sua 29.ª edição, ver: http://iee.com.br/; http://forumdaliberdade.com.br/ e http://forumdaliberdade.com.br/edicao-atual/programacao/ Acerca do The Ayn Rand Institute, cf. https://www.aynrand.org/ Acesso em: 14/02/2017.

[24] As informações sobre os mantenedores do Instituto Millenium estão no site do instituto:

http://www.institutomillenium.org.br/institucional/quem-somos/ e http://www.institutomillenium.org.br/camara-de-mantenedores/ (último acesso em 14/02/2017). Acerca do diagnóstico e das propostas de Armínio Fraga para a crise econômica brasileira e sua opinião sobre o impeachment da presidente Dilma, ver a entrevista concedida em 17/11/2015 para a Folha de S. Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/11/1706617-impeachment-pode-ser-forma-de-destravar-crise-diz-arminio-fraga.shtml Acesso em: 14/02/2017. Sobre o Millenium, ver, também: Luciana Silveira. Fabricação de ideias, produção de consenso: estudo de caso do Instituto Millenium. Campinas: UNICAMP, 2013 (Dissertação de Mestrado em Sociologia). Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000905162 Acesso em: 14/02/2017.

[25] Leandro Narloch ficou mais conhecido como o autor do Guia politicamente incorreto…: da História do Brasil (2009); da América Latina (2011, em coautoria com Duda Teixeira); da História do Mundo (2013) e da Economia Brasileira (2015), todos com um tom irônico, simplificações e informações equivocadas, com o objetivo de endossar uma perspectiva da história supostamente coerente com a direita liberal. O primeiro, particularmente, tornou-se best seller. Sobre o livro Guia politicamente incorreto da América Latina, ver a resenha de Maria Ligia Coelho Prado, publicada no caderno Aliás, O Estado de S. Paulo, 25/09/2011: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,lombroso-oculto-livro-sobre-falsos-herois-latino-americanos-usa-simplificacoes-oportunas-omissoes-e-interpretacoes-discutiveis-avalia-professora-imp-,777219 Acesso em: 08/02/2017.

[26] Cf. http://www.institutomillenium.org.br/artigos/governo-contra-lei/ Acesso em: 08/02/2017.

[27] Cf. https://www.atlasnetwork.org/news/article/government-corruption-in-brazil-presents-both-risks-opportunities Acesso em: 08/02/2017.

[28] AMARAL, Marina. A nova roupa da direita. Pública, 23/06/2015. http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/ (último acesso em 15/02/2017).

[29] “Students For Liberty plays strong role in Free Brazil Movement”. In: Atlas Network. Citação no original: “At the head of the movement is Kim Kataguiri, a rising libertarian star working with Atlas Network partner Estudantes Pela Liberdade (Students for Liberty). […] Many members within the Free Brazil Movement have passed through Atlas Network’s premier training program, the Atlas Leadership Academy, and are now applying what they have learned on the ground where they live and work. “The Atlas Leadership Academy provides diverse trainings with a focus on mission development, knowing how to reach your audience and the importance of achieving impact,” said Cindy Cerquitella, director of Atlas Leadership Academy. “It has been thrilling to work with advocates for liberty in Brazil, and in 90 countries worldwide, and even more exciting to see them putting those lessons into practice.” Cf. https://www.atlasnetwork.org/news/article/students-for-liberty-plays-strong-role-in-free-brazil-movement e Atlas Leadership Academy: https://www.atlasnetwork.org/academy Acesso em: 13/02/2017.

[30] “Students For Liberty plays strong role in Free Brazil Movement”. In: Atlas Network. Cf. https://www.atlasnetwork.org/news/article/students-for-liberty-plays-strong-role-in-free-brazil-movement Acesso em: 13/02/2017.

[31] O Estudantes Pela Liberdade (EPL), no Brasil, tem sede em Belo Horizonte. Ver: “Quando tudo começou”. In: http://www.epl.org.br/sobre/ Acesso em: 14/02/2017.

[32] “Trajetória”. In: Estudantes Pela Liberdade. http://www.epl.org.br/sobre/ Acesso em: 14/02/2017.

[33] Cf. Estudantes Pela Liberdade: http://www.epl.org.br/ Acesso em: 14/02/2017.

[34] Cf. o site do Bunker Editorial: http://www.bunkereditorial.com.br/; e as referências sobre a Coleção Estudantes Pela Liberdade: http://www.bunkereditorial.com.br/livraria/kit-livros-colecao-estudantes-pela-liberdade-3-volumes.html Acesso em: 14/02/2017.

[35] Contabilidade do Estudantes Pela Liberdade, feita pela Tax Services Consultoria e Auditoria, de Belo Horizonte, datada de 20/12/2016: http://www.epl.org.br/wp-content/uploads/2016/12/auditoria.pdf Acesso em: 10/02/2017.

[36] “Liberty movement exploding among Brazilian students”. Cf. https://www.atlasnetwork.org/news/article/liberty-movement-exploding-among-brazilian-students Acesso em: 10/02/2017.

[37] Cf. AMARAL, Marina. A nova roupa da direita. Pública, 23/06/2015. http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/ (último acesso em 15/02/2017).

[38] Cf. https://www.studentsforliberty.org/team/ Acesso em: 10/02/2017.

[39] Sobre Elisa Lucena Martins, ver: Instituto Ordem Livre: http://ordemlivre.org/quem-somos; https://www.atlasnetwork.org/about/people/elisa-martins e http://www.institutomillenium.org.br/author/elisa-lucena/ Acesso em: 10/02/2017.

[40] Sobre Diogo G. R. Costa, ver: Instituto Ordem Livre: http://ordemlivre.org/quem-somos e Instituto Millenium: http://www.institutomillenium.org.br/author/diogo-costa/ Acesso em: 10/02/2017. Cf., também, o site do Cato Institute: https://www.cato.org/ e https://www.cato.org/about Acesso em: 10/02/2017.

[41] No original: “Fabio Ostermann is a 30-year-old political scientist. He is a law graduate and holds a master’s degree in political science. Ostermann is an Atlas Leadership Academy graduate and has been involved with the main free-market initiatives in his home country, Brazil, since he found himself to be a libertarian (‘liberal’ in Brazilian terminology), more than a decade ago. He is currently a member of the board of Movimento Brasil Livre (Free Brazil Movement), the main civil society group active on the opposition to the current socialist government in Brazil.” Cf. Atlas Network – Our People: https://www.atlasnetwork.org/about/people/fabio-ostermann Acesso em: 12/02/2017.

[42] Informações em: http://www.fabioostermann.com.br/fabio Acesso em: 15/02/2017.

[43] Sobre o Livres, ver: http://livres.psl.org.br/ Acesso em: 15/02/2017.

[44] Sobre os palestrantes convidados no 28.º Fórum da Liberdade, ver: http://forumdaliberdade.com.br/28o/ Acesso em: 12/02/2016. No site do Fórum da Liberdade é possível consultar a programação das várias edições.

[45] Cf. site do MBL: https://mbl.org.br/parlamentares/ Acesso em: 12/02/2017.

[46] O nome de registro de Fernando Holiday é Fernando Silva Bispo.

[47] Sobre o IFL-SP, cf. http://iflsp.org/ E acerca do 3.º Fórum Liberdade e Democracia, cf. http://forum-liberdade-democracia.loldesign.com.br/ Acesso em: 13/02/2017.

[48] A grafia original de seu nome era Luiz. E seu nome completo, Luiz Gonzaga Pinto da Gama.

[49] Sobre as propostas do vereador Fernando Holiday (DEM-SP), ver: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/505805-REPRESENTANTE-DO-MOVIMENTO-BRASIL-LIVRE-CRITICA-COTAS-DURANTE-COMISSAO-GERAL.html e http://www.jb.com.br/pais/noticias/2017/01/05/vereador-fernando-holiday-vai-propor-fim-de-cotas-para-negros-veja-o-video/ Acesso em: 13/02/2017.

[50] O vídeo do 1.º painel do 3.º Fórum Liberdade e Democracia de São Paulo, organizado pelo IFL-SP, pode ser visto em:

(acesso em 06/03/2017).

 

[51] O vídeo do discurso do deputado Jair Bolsonaro, no dia 17 de abril de 2016, pode ser visto em:

(acesso em 06/03/2017).

 

[52] Sobre Ustra, ver: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/15/politica/1444927700_138001.html?rel=mas (acesso em 06/03/2017).

[53] Cf.: 1º painel do 3º Fórum Liberdade e Democracia.

(acesso em 06/03/2017).

 

[54] Vale registrar que Judith Brito, superintendente do jornal Folha de S. Paulo, consta na lista de “especialistas” do Instituto Millenium (Imil). Cf.: http://www1.folha.uol.com.br/expediente/?cmpid=menupe e http://www.institutomillenium.org.br/author/judith-brito/. Entre os colunistas da Folha, estão os seguintes “especialistas” do Imil: Alexandre Schwartsman, Leandro Narloch, Marcos Troyjo e Samuel Pessôa. Também são colunistas do jornal Demétrio Magnoli, Kim Kataguiri e Reinaldo Azevedo. O coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), Kataguiri, é colunista da Folha desde janeiro de 2016. A Folha também conta, entre seus colunistas, com representantes das esquerdas, como, entre outros, Guilherme Boulos, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), desde junho de 2014. Entretanto, a orientação liberal da Folha de S. Paulo é evidente. Assim como sua posição favorável ao impeachment de Dilma Rousseff. Cf.: http://www.folha.uol.com.br/ (ver as listas de colunistas em cada uma das seções do jornal) e http://www.institutomillenium.org.br/institucional/especialistas/ (acesso em 17/02/2017).

[55] Cf. Emiliano José. Instituto Millenium, mídia e as lições da história. CartaCapital, 06/09/2012. In: http://www.cartacapital.com.br/politica/instituto-millenium-midia-e-as-licoes-da-historia Acesso em: 15/02/2017.

[56] Cf. http://oglobo.globo.com/brasil/jovens-se-organizam-tentam-criar-legendas-da-nova-direita-4305063 Acesso em: 06/02/2017.

[57] Cf. a entrevista de Marina Amaral à revista IHU On-Line, do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, de 01/08/2016, já citada: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/558321-movimento-brasil-livre-mbl-e-junho-de-2013-uma-franquia-americana-que-depois-do-impeachment-esta-presente-no-movimento-escola-sem-partidoq-entrevista-especial-com-marina-amaral# Acesso em: 08/02/2017.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/conexoes-ultraliberais-nas-americas

A quem aproveita o crime?

Os apreciadores dos bons livros policiais podem sempre alegar que as escolhas literárias decorrem da sua semelhança entre a ficção e a realidade. Ler um romance de Dashiell Hammett ou Raymond Chandler propicia mais fidedignas informações sobre a América de entre as duas guerras, que a generalidade dos ensaios históricos a ela dedicados. Muito embora a nossa interpretação possa sair distorcida pela frequente presença dafemme fatale, que convertia a intriga numa lógica docherchez la femme.

 

Distâncias ideológicas à parte, e também de cultura, talvez seja mais asizado convocarmos Hercule Poirot para desvendar a autoria da vandalização da estátua lisboeta dedicada ao Padre António Vieira. Se nos recordarmos do detetive das celulazinhas cinzentas facilmente concluímos que o seu método de esclarecimento dos homicídios assentava em duas questões muito básicas: que lucro há a retirar do crime? E a quem ele mais aproveita?

 

Não há grandes dúvidas que os putativos culpados cedo se deram a conhecer: Chicão foi o primeiro, quase tão só conhecida a notícia, como se a esperasse para mais um dos seus patéticos números com que procura, em vão, contrariar a anunciada morte do CDS. O Aldrabão logo se lhe colou na expetativa de não ver o rival areduzir-lhe os cada vez mais minguados simpatizantes. E logo à festa viria somar-se o Rangel que, das Europas, sempre se tenta fazer convidado para festas e festanças, qual conhecida figura em tempos evocada por outra estrangeirada personalidade.

 

Todos sabiam o que a central de desinformação do clã Balsemão ou o pisca-pisca da RTP logo aproveitariam para iniciarem telejornais com indignada consternação. E a pressupor serem culpados os que os suspeitos mais óbvios pretenderiam que fossem apontados.

 

Em política há sempre a considerar a possibilidade da estupidez se manifestar das formas mais absurdas e contra quem a perpetra. Mas, mais provável, é que ganhem maior peso as estratégias maquiavélicas de quem se comporta de acordo com os ganhos a alcançar com os seus atos. E não é novidade a infiltração das manifestações norte-americanas contra o racismo por suprematistas brancos dispostos a aproveitarem-nas para sabotá-las com os atos de anarquia, que lestamente fomentam.

 

Nos últimos meses as nossas direitas mais extremas - em que o se integram o Chicão e o Aldrabão - copiam receitas e propostas dos seus émulos de além-Atlântico. Será crível que lhes repliquem igualmente as estratégias...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/06/a-quem-aproveita-o-crime.html

Aos gritos de “acabou, porra”, bolsonaristas tentam invadir o Congresso Nacional (vídeo)

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247 -O grupo 300 do Brasil tentou invadir o Congresso Nacional na tarde deste sábado (13); O grupo chegou a subir no prédio, na parte externa onde ficam gôndolas. Um megafone ficou reproduzindo uma frase de Jair Bolsonaro: "Acabou, porra". A ação é uma resposta ao desmonte do acampamento que aconteceu nessa manhã. O Governo do Distrito Federal desmontou as barracas do grupo, que estava instalado de maneira irregular na Esplanada dos Ministérios. A reportagem é do portal Congresso em Foco.

Antes dessa ação, o grupo tentou impedir duas manifestações da oposição.

 

 

Saiba mais

A ativista bolsonarista Sara Winter reclamou no Twitter que a Polícia Militar do Distrito Federal desmontou, neste sábado (13), o acampamento "300 do Brasil", de apoio a Jair Bolsonaro em Brasília.

Sara afirmou que a PM destruiu a militância bolsonarista e cobrou reação de Bolsonaro.

"As 6 da manhã a Polícia Militar do Distrito Federal junto à Secretaria de Segurança desmantelou baixo gás de pimenta e agressões. Barracas, geradores, tendas, tudo tomado à força! A Militância bolsonarista foi destruída hoje. Presidente, reaja!!!", escreveu.

Ministério Público acusa 27 homens de crimes raciais e tentativa de homicídio

 

O Ministério Público (MP) concluiu uma investigação a um grupo de 27 homens, alegadamente ligados aos Hammerskins, por crimes raciais e tentativa de homicídio qualificado.

 

Segundo o jornal Público, o Ministério Público requereu o julgamento de 27 arguidos suspeitos da prática de crimes de discriminação racial, religiosa e sexual e também de tentativa de homicídio qualificado.

Os suspeitos estão ainda indiciados pela prática de ofensas à integridade física qualificada, incitamento à violência, dano com violência, detenção de arma proibida, roubo, tráfico de estupefacientes e tráfico de armas”, apurou o mesmo jornal.

De acordo com o MP, os arguidos “agiram com o propósito de pertencer a um grupo que exaltava a superioridade da raça branca“. Ao integrá-lo, os suspeitos “deveriam desenvolver ações violentas contra as minorias raciais, assim como contra todos aqueles que tivessem orientações sexuais e políticas diferentes das suas”.

A atividade do grupo terá começado em junho de 2015 e, segundo o matutino, duas pessoas foram gravemente feridas com facas e outros objetos cortantes. O MP referiu que as partes do corpo atingidas – abdómen e tórax – “eram aptas a determinar as suas mortes, o que apenas não se verificou por razões alheias às vontades dos agressores”.

De acordo com a TVI 24, os suspeitos estão, alegadamente, ligados aos Hammerskins, um grupo de extrema-direita e supremacia branca que tem como alvo negros, muçulmanos, homossexuais e comunistas.

Ao que o canal televisivo apurou, alguns dos acusados já são conhecidos da justiça, sendo que entre estes se encontram arguidos que estiveram envolvidos no homicídio do cabo-verdiano Alcindo Monteiro, em 1995.

Segundo o semanário Expresso, o caso estava a ser investigado há cerca de quatro anos e todos os arguidos, nos quais se inclui um guarda prisional, apesar de terem sido detidos pela PJ, foram libertados pelo juiz de instrução criminal.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/mp-acusa-27-homens-crimes-raciais-329828

A guerra mortal das facções de Bolsonaro, Moro e Witzel

 

Por Moisés Mendes, para oJornalistas pela Democracia

As ameaças entre Bolsonaro, Sergio Moro e Wilson Witzel já definiram o cenário e as armas para uma guerra de facções em que os três poderão tombar quase ao mesmo tempo.

No meio dessa guerra, o Estadão, que agora é um jornal 'progressista', decidiu classificar Bolsonaro como um sujeito que se dedica a “práticas fascistas”. O Estadão, coitado, está cinco voltas atrás e chega acenando.

Mas é interessante que um jornal hoje sem qualquer expressão compartilhe da luta que os veículos ditos alternativos tentam levar adiante desde muitos antes do golpe de agosto de 2016.

O Estadão e a grande imprensa serão valentes mesmo quando classificarem todos eles, seus ex-aliados da direita que foram para a extrema direita, como gângsteres, como um dia Gilmar Mendes definiu os procuradores da Lava-Jato que trabalhavam para Moro.

Mais do que uma guerra das esquerdas contra a ameaça de golpe, poderemos ter, antes mesmo do fim da pandemia, uma matança sangrenta entre facções. O latifúndio do fascismo é vasto, mas está em disputa, e os fascistas são parte do crime organizado.

 

Os personagens estão bem posicionados. O Brasil esteve entretido duramente cinco anos com a Lava-Jato de Sergio Moro, que criou o ambiente para a ascensão do bolsonarismo.

Moro montou uma estrutura arbitrária de caçada às esquerdas e a Lula em Curitiba e achou que, no próximo salto, subiria os degraus da política no mundo bacana dos tucanos ou iria virar ministro do Supremo.

O tucanismo acabou e Moro jogou-se aos braços da facção bolsonarista, para o que desse e viesse. Não teve pernas para aguentar o tranco. Bolsonaro expulsou todos os que não leram direito o tutorial do fascismo miliciano.

 

Moro, incompetente para ser um bolsonarista autêntico, foi expelido. Mas caiu atirando, inclusive pelas costas do ex-chefe. E descobriu-se que o ex-juiz também usa armas com cano serrado.

Bolsonaro é o profissional, o tenente ligado aos milicianos que virou presidente. Moro é o amador que tenta agora formar a facção capaz de ameaçar o ponto de Bolsonaro na esquina.

Sai da extrema direita, tenta correr para o centro, mas não deixará de ser uma facção. Moro somente irá sobreviver se continuar sendo facção, agora da classe média de direita, mas antibolsonarista.

Witzel é o fuzileiro naval que virou juiz e nunca deixou de ser fuzileiro. A guerra com a facção de Bolsonaro, da qual era aliado, expôs a tesouraria dos negócios que envolvem até a mulher em transações fechadas em bancos de praça.

Todos eles expuseram as mulheres. Bolsonaro com a mulher que recebe cheques de milicianos. Sergio Moro com a mulher que era sócia de Carlos Zucolotto, que agora poderá finalmente ser denunciado por Tacla Duran, o delator amordaçado pela Lava-Jato. E Witzel com a mulher que prestava serviços às máfias da saúde.

Assim é a perigosa vida das facções, com mulheres, filhos, parentes, milicianos e, se possível, o apoio de estruturas ditas institucionais, inclusive fardadas.

Bolsonaro tem o poder civil e os militares, os grileiros, os latifundiários, os destruidores da Amazônia, os adoradores de Brilhante Ustra, o centrão, a Fiesp, os tios com a camiseta da Seleção e a véia do taco de beisebol. Tem os milicianos, mass não tem nem partido.

Moro tem a fama, o acervo de justiceiro. Não tem lastro orgânico, não tem poder nem base física e também não tem partido. E Witzel (alguém sabe dizer sem pensar muito qual é o seu partido?) é uma incógnita, com sua base estadual estreita e sua polícia. É o alvo preferencial de Bolsonaro, por estar no seu reduto geográfico, empresarial e afetivo.

Desses três sujeitos dependem os movimentos da democracia brasileira hoje. Estamos entregues a uma guerra de facções violentas, como nunca estivemos, e em meio a uma pandemia.

Chamar esses personagens de fascistas não é nada entre as dezenas de adjetivos que podem defini-los. E até chamá-los de gângsteres talvez não seja o suficiente.

A emersão do neofascismo em escala global: Steve Bannon e a necrofilosofia

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A emersão do neofascismo em escala global e restauração do que proponho qualificar como necrofilosofia que habita em seu núcleo duro pode ser analisada desde diferentes ângulos, e neste texto proponho fazê-lo através de figura cuja relevância não termina de ser devidamente ressaltada, Stephen Kevin Bannon (1953-).

Conhecido mundo afora simplesmente como Steve Bannon, trata-se do personagem que vergou o subsolo da ideologia neoconservadora e emprestou-lhe novo rumo ao semear solo autoritário bastante fértil que vem ganhando trágico espaço mundo afora ao tempo em que apoia a proliferação de regimes políticos afins com a defenestração dos direitos humanos e o ataque ao direito à vida, algo que é perceptível sobretudo nos tempos de proliferação da pandemia.

Sob a ideologia neofascista de viés neoconservadora coordenada por Bannon sustentada por bilionários e grandes financistas floresceram as mais favoráveis condições culturais para a reconfiguração das forças político-partidárias que alimentam a revolução necrofilosófica que instaura a necropolítica (plano interno) e o belicismo (plano internacional) devidamente mascarados com falsa roupagem neoliberal-capitalista, pois, assim como o nazismo em seu momento histórico, tampouco pode ser apresentado em sua crueza para fins de cooptação eleitoral. Este é o sentido dos fatos políticos em curso especialmente no Ocidente, tanto nas Américas quanto na Europa, embora sob intensidades diversas, visando articular os interesses do império norte-americano e seus associados capitalistas cuja crise é notável em face do inegável avanço do imparável colosso chinês.

A trajetória de Bannon pode auxiliar na compreensão do percurso político finalmente adotado. De família católica irlandesa simpática aos democratas, Bannon percorreu caminho inverso ao seu núcleo originário, e após finalizar seus estudos, ainda antes de seus 30 anos começou a trabalhar no mercado financeiro no auge da década de 1980, sob os intensos efeitos do neoconservadorismo neoliberal da era Reagan, quando foi recrutado pela então flamejante Goldman Sachs (NY) (1984-1990), passo prévio a sua mudança para Los Angeles (LA). Sairia de LA em 1990 com colegas da Goldman para fundar a empresa Bannon & Co, cujo declarado objeto era realizar investimentos em mídia, operações que lhe foram aproximando mais de homens e instituições que logo seriam de extrema utilidade para as suas futuras ocupações e opções políticas.

Na cidade de LA Bannon atuou em diversos setores, da banca à produção de filmes mas, principalmente, como executivo de mídia, o que resultaria de extrema importância para os seus próximos passos. Bannon desenvolveu habilidades de manipulação relevantes para a propaganda política, tais como a sensibilidade para compor e divulgar notícias falsas nas redes sociais. Expressiva parte dessas habilidades vem sendo construídas a partir de uma “falsa cidadania”, a saber, um conjunto digital de alta voltagem, com densa capacidade de interferir e formatar a percepção pública sobre os fatos políticos, econômicos e culturais de um determinado grupo humano sobre o qual se pretende intervir para definir os seus rumos. Até aqui a carreira de Bannon expressava o perfil de uma figura que evolui de homem da Marinha a financista da Goldman Sachs, de produtor em Hollywood que seria logo depois transformado em rei da mídia de direita nos EUA.

Na atividade midiática Bannon atuou durante longos anos à frente do conhecido site de notícias “Breitbart News”, organização midiática da “alt-right” norte-americana financiada com fundos privados, quando já era notável o êxito do site, posto que conseguia 17 milhões de visitantes. Antes que Donald Trump surgisse no cenário e obtivesse a vitória eleitoral o Breitbart News foi instrumentalizado para realizar ataque ao então Presidente Obama e ao establishment, focando criticamente temas como comércio, globalismo e a imigração, o que predominantemente ocorreu ainda antes de 2015, sendo que logo após tornou-se uma bem azeitada máquina de propaganda articulada para beneficiar Donald Trump, levando a que seus detratores não hesitassem em apelidá-lo de “Trumpbart News”.

Antes disto, quando ainda corria o ano de 2012, Bannon assumiu o controle da direção executiva do site de notícias Breitbart News, e sua marca ideológica era a emissão de opiniões e comentários sob o tom de extrema-direita explicitando admiração por fascistas, ditadores, teocratas e fanáticos de toda sorte, tudo isto temperado por convicções antiglobalistas, tendo em perspectiva a realização de uma radical transformação em escala mundial através da articulação de grupos nacionalistas de extrema-direita neofascistas. O nacionalismo encarnado por Bannon e sua área de influência é de muito difícil justificação (se acaso pudesse ser considerado viável) relativamente aos interesses da economia e da soberania dos países de economia periférica sob os quais orientam o exercício de sua influência.

 

As habilidades de Bannon continuaram a ser desafiadas até alguns anos após quando já afastado de suas funções na Breitbart foi trabalhar como assessor político de Trump. Durante a campanha eleitoral atuou como diretor executivo a partir de agosto de 2016, apenas poucos meses antes de fevereiro de 2017, quando mereceu a capa da revista Time, que o reconhecia como o verdadeiro cérebro pensante do obtuso Trump, alguém que logo demonstraria extremas habilidades publicitárias e manipulatórias, obviamente, não sem contar com o apoio de um modelo de mídia todavia não conhecido o bastante e com alta capacidade de interferência no sistema eleitoral e também com densa capacidade de inviabilizar o modelo de democracia representativa praticado no mundo ocidental, de resto, já em crítica profunda em face de suas disfuncionalidades várias.

Bannon pertenceu ao Conselho da Cambridge Analytica, empresa criada em 2014 pelo bilionário norte-americano Robert Mercer – tão importante no que concerne às responsabilidades do atual estágio crítico das democracias representativas quanto (compreensivelmente) pouco citado pela mídia corporativa –, tendo como objetivo auxiliar o espectro ideológico conservador. Uma vez vencidas as eleições e Trump tomado posse, e tendo anunciado o seu desligamento definitivo da Breitbart em 9 de janeiro de 2017, Bannon foi uma das primeiras nomeações da nova administração, a quem serviria como estrategista-chefe na Casa Branca. Embora tenha servido por curto período, até agosto de 2017, foi o suficiente para revelar-se como intenso alimentador de ofensas, com a veiculação de notícias atravessadas e o notável propósito de ampliação das esferas de conflito ao passo em que tomando decisões perpassadas por doses de desorientação fronteiriças com o caos.

Bannon operou grande parte das estratégias de mídia carregadas do que Trump publicamente negava ser a sua real opção político-ideológica, a saber, racismo, defesa do supremacismo, sexismo e também com o conjunto de valores distanciados daqueles ordinariamente associados aos da democracia plural e tolerante bem cultivada nos meios liberais ilustrados. A este respeito David Duke (Tulsa, 1950) veio a público afirmar que Bannon estava a criar o espectro ideológico sobre o qual os EUA seriam conduzidos no futuro próximo, o qual avaliamos estar recheado de grandes perigos, todavia mais quando se sabe que Duke foi em seu momento nada menos do que o “grande líder” da Ku Klux Klan.

 

Sob este abandeiramento ideológico Bannon pode ser considerado o primeiro norte-americano de extrema-direita desde meados da década de 1930 cujas ideias efetivamente passaram a contar na cena pública, inclusive internacionalmente, que flertam abertamente com os princípios típicos do fascismo. Desde a experiência nacional-socialista este ideário extremista não havia encontrado tamanho espaço nos países em que a democracia foi brandida como valor-eixo das instituições, como base de concórdia geral para as demais ações e decisões políticas, malgrado as corrosivas atividades plutocráticas dedicadas a tentar constantemente solapá-las e capturá-las.

O conteúdo ideológico com o qual Bannon contamina as suas ações e impregna os seus contatos vem insuflado por uma personalidade excepcionalmente compatível com a finalidade belicosa que despreza os meios para alcançar os fins de dominação global aos quais se propõe. Há quem aponte o quão intenso é o compromisso de corte racista que prioriza os reclamados valores “judaico-cristãos” propagados por Bannon, que os combina e resolve em composição étnica caucasiana associada a conteúdos sexistas e xenofóbicos, focando o islamismo (outro) como inimigo ademais de, mais recentemente, também apontar o Vaticano e o Papa entre os seus objetivos. Bannon também é orientador de estratégias solapadoras das estruturas de Estado, apontando para uma espécie de falso anarquismo que apenas pode resultar proveitoso para as grandes plutocracias neofascistas que operam em escala planetária.

Firme o plano ideológico de Bannon, era indispensável encontrar firmes vias para dispor de eficientes formas de alcançar êxito em eleições fora do território norte-americano, e para tal finalidade, emtão, a Cambridge Analytica, tão próxima a Bannon, desempenharia papel central, e assim, logo veríamos como ela interveio para obter ilicitamente dados do Facebook, algo logo trazido ao conhecimento público de forma impactante em março de 2018. A Cambridge Analytica foi central para o processamento de dados obtidos ilegalmente junto ao Facebook supostamente através da quebra de códigos de acesso digital, tornando possível a manipulação decisiva do eleitorado que foi eficiente para provocar danos políticos nos processos eleitorais de diversos países. Este acesso permitiu obter informações de aproximadas 30 milhões de contas individuais, que tiveram descobertos dados particulares assim como as suas últimas pesquisas realizadas na internet, facilitando assim a montagem de um sofisticado perfil psicológico individual muito útil para influenciar imensamente, por exemplo, as eleições presidenciais brasileiras de 2018, viciando-as e servindo ao propósito de domínio do país por parte dos interesses norte-americanos.

Vencido o processo eleitoral nos EUA, a articulação norte-americana para dar sequência a crescente influência no Brasil foi declarada abertamente por Bannon em jantar com o auto-declarado intelectual Olavo de Carvalho – de pífia educação formal e péssimo trato –, brasileiro radicado nos EUA, em Washington, presenciado por segmento da mídia impressa corporativa conservadora brasileira. Na oportunidade Bannon deixou claro que o Brasil ocupa posição geopolítica chave para que os EUA possam contrabalançar o poder da China, algo que já havia sido dito mais de uma vez por seu mentor nos EUA, Steve Bannon. É justamente neste aspecto que os EUA precisam, mais uma vez, de um títere à frente do Poder Executivo, não hesitando em promover os típicos golpes de Estado e arranjos eleitorais para que os seus, como Bolsonaro, controlem os destinos do país ao largo dos reais interesses soberanos de cada um dos países da América Central , Caribe e América do Sul. A campanha de degradação do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil passou inexoravelmente por esta estratégia de dilapidar o grande capital político-eleitoral do campo popular e progressista de sorte a evitar a necessidade de uma intervenção militar direta. A este propósito as articulações entre EUA e os seus associados no Brasil, armas incluídas, vêm a espelhar os interesses do “Movimento” de Bannon na América Latina, com o qual os filhos de Bolsonaro já foram identificados publicamente e sucessivas vezes, filiando assim o Brasil e a sua política externa umbilical, irrestrita e vergonhosamente aos interesses do império, tornando o país, na prática, um mero apêndice do império, quando não um protetorado.

A estratégia de poder norte-americana é conduzida pela atual administração Trump em consonância com as diretrizes típicas desenhadas por Bannon que visa dispor livremente não apenas do Brasil para extrair os recursos e riquezas necessárias para a concretização de sua política de enfrentamento com a China, senão de toda a América Latina. Para tanto foram e continuam sendo empreendidos movimentos de desestabilização política em amplo espectro, transitando de momentos de promoção da queda de governos populares para outros em que precisam manter os seus governantes em situação de debilidade para extrair as riquezas a baixo preço, do que são exemplos a Argentina (sob os Kirchner e, após, sob Macri e, em breve, sob Fernández), na Bolívia (sob Evo e, após sob o governo golpista de Jeanine Áñez) e no Equador, onde a estratégia implicou mover peças para substituir o progressista Rafael Correa por Lenin Moreno, virtual traidor do projeto político popular e progressista. Certamente, nestes dias como em nenhum outro país, os movimentos de desestabilização são também extremamente perceptíveis na Venezuela, país ameaçado militarmente – passo que também começa a ser ensaiado no Brasil –, explicitando a concepção geopolítica que a inspira, a saber, a do “Movimento” de Bannon.

Bannon é figura de proa da organização da extrema-direita global belicista que articula no plano empírico os inconfessos interesses do financismo neofascista transnacional. Este grupo tão restrito quanto poderoso vem ocupando espaços e atuando para muito além da esfera governamental norte-americana, embora em franca defesa de seus interesses, em detrimento dos de vastas massas populacionais mundiais. Paradoxalmente, no plano retórico o extremismo ideológico de Bannon defende o “nacionalismo econômico”, mas este não se confunde com neoliberalismo ou globalismo, senão que em sua essência o contradiz. O nacionalismo econômico extremista da “alt-right” (alternative right) conceitualmente não pode ultrapassar as fronteiras do império, senão enquanto mera retórica, pois é incompatível com as políticas econômicas que realmente promovam o desenvolvimento econômico e social de qualquer outro Estado que não, eventualmente, e apenas nesta condição, naqueles em que estejam situadas as suas respectivas matrizes.

A ideologia extremista de direita, a “alt right” norte-americana colide com quaisquer outros “nacionalismos” mas, notavelmente, com os dos países situados na periferia econômica, posto que é destes que o nacionalismo dos EUA historicamente extraíram riquezas e, por conseguinte, interditando as melhores possibilidades de levar a bom termo o conceito de soberania, constituindo assim, no plano prático, nada mais do que neoprotetorados, nos quais a soberania permanece apenas em seu puro estado formal e nada mais. Para alcançar o seu objetivo o nacionalismo da “alt-right” norte-americana coopta figuras deprimentes e depressivas, dispostas a exercer falsamente o papel de “nacionalistas de pátria alheia”, pois traem os seus estados nacionais sob o patrocínio do império. Poucos países foram melhor exemplo disto do que o Brasil, que hoje não enfrenta apenas o inimigo externo para recuperar a sua soberania, senão um volume expressivo de altos traidores cuja condição sequer se furtam de ocultar, e já sem ruborizar nem temer as possíveis consequências de sua condição, a ponto de que Bannon seja o definidor de importantes segmentos da administração brasileira através de agentes interpostos, exercendo assim publicamente o reconhecido papel de influenciador sobre a família Bolsonaro na nomeação de figuras abstrusas para postos-chave da administração estatal.

A ideologia extremista de direita neofascista de Bannon tem em sua base a insatisfação devidamente estimulada por este segmento elitista com a política e os políticos mas, sobretudo, com os seus representantes, cuja origem é popular e democrática, sob os quais pesam as mais diversas acusações e máculas, ao que se acresce o destaque de que as elites são as que devem ocupar o poder. A ideologia extremista de direita está aliada a projetos que são apresentados publicamente como contrapostos à corrupção, como se os seus adversários políticos (apresentados como inimigos que merecem o extermínio) detivessem o monopólio da prática da corrupção, e também ocupam-se de focar duramente em ataques ao Estado, e em nenhum caso fazê-lo na abrangente ocorrência de corrupção na iniciativa privada.

Para o extremismo degenerado de Bannon os pobres não ocupam tal condição social em face da odiosa estrutura em que a distribuição de riqueza é organizada, reservando o acesso a ela aos meios de que grupo restrito já dispõe, permitindo assim ininterrupto processo de acumulação, o que virtualmente colabora para o aprofundamento da deslegitimação das democracias ocidentais, avaliação incompatível com a “alt-right”, que apoia tal processo. Inversamente, o extremismo de direita responsabiliza os pobres por sua condição e, paradoxalmente, e sem reconhecê-lo abertamente, isto se deve a péssima e injusta estrutura do sistema econômico que a elite cria. Inversamente, o extremismo de direita culpa as intervenções corretivas do Estado no livre mercado pela condição dos pobres, e também a estes por supostamente não dedicarem o esforço necessário para potencializar as suas chances e, novamente, círculo que se fecha, em vista de que os recursos que deveriam estar à disposição da massa de homens e mulheres se encontram nas mãos do “Estado corrupto”, que os malbarata entre aplicações em programas sociais e na corrupção. A retórica extremista quer persuadir que o seu propósito político é evitar que a elite (global) use a máquina do Estado para cumprir os seus interesses, e ela própria aparece no horizonte como uma virtuosa promessa populista com potencial mobilizador de massas, e isto no pior sentido que esta gramática política pode dispor, pois ao povo nada mais oferece do que destruição e desgraça em estado puro e, no limite, a concretização da morte, tal e como é possível observar quando os valores que envolvem a vida humana, e ela própria, se contrapõem aos interesses do capital.

Bannon já descreveu sem pejo ou hesitação no espaço da Breitbart News como a “alt-right” observava a si mesma: “Nós nos vemos como virulentamente anti-establishment, particularmente ‘anti-‘ uma classe política permanente”. O fascismo e suas versões contemporâneas mantém o traço de intermitente disposição de atacar e destruir a mediação política, e o apresentam como uma virtude, a virtude da “anti-política”. Empreendem o seu objetivo através de sucessiva marcha para o desarme das vias de diálogo e qualquer sorte de mediação de representação coletiva, e neste sentido é preciso implodir todas as pontes disponíveis, tanto no plano da disponibilidade de grupos e coletivos para a mediação dialógica como também da implosão das instituições, e logo, portanto, substituindo-os por uma emergente força política resumida em apenas um personagem mítico. Este é o DNA do fascismo que ressurge na forma contemporânea do neofascismo cuja compreensão não foi todavia devidamente disseminada.

Para Bannon “a ideologia do Breitbart era uma mistura que incorporava libertarianos, sionistas, membros conservadores da comunidade gay, opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo, partidários do nacionalismo econômico, populistas e partidários da alt-right”, algo representativo de seu propósito mais do que, de fato, a realidade. É descrição inverídica em sua totalidade, mas o que Bannon bem assume é que o populismo será o futuro da política, embora não termine de apontar com clareza quais serão todos os elementos deste modelo de populismo de direita nem muito menos quais serão as suas reais consequências, senão o contrário, posto sugerir que o extremismo foca na classe trabalhadora e na classe média (e o nazismo não adotou outra estratégia), sendo isto uma falsificação do real enquanto proteção de seus interesses, posto que os da “alt right” são incompatíveis com os dos trabalhadores, pois esta apenas opera por dentro do Estado em favor da oligarquia. O que realmente pode ser observado em suas propostas é que se trata de um horizonte neofascista sombrio ao extremo.

O projeto ideológico que publicamente vai sendo conduzido por Bannon está composto por binários simples, quando não simplórios, expressos em suas narrativas de tons apocalípticos, mas eficientes para capitalizar o apoio de mentes simples, estratégia que, aliás, foi expressamente recomendada por Hitler em seu Mein Kampf. Os códigos de que lança mão Bannon são perigosamente penetrantes, capazes de despertar o irracionalismo e mobilizar a perversidade humana ao inocular nas massas o germe da desconfiança, da inimizade e da cizânia, logo resumidos no puro ódio através de hábil manipulação de novos instrumentos digitais coordenados com as mídias tradicionais movidas a financiamento das altas capas interessadas na exclusão de bilhões de pessoas de todo o planeta da esfera da cidadania ali e onde este estágio civilizacional tenha sido alcançado. “O Movimento” é o porta-estandarte do processo hoje em curso em escala planetária, e no Brasil com especial ênfase, visando arruinar o Estado democrático de direito conforme nós o conhecemos, baseado na legalidade e igualdade de direitos para os cidadãos, assim como os parâmetros das garantias constitucionais, levando de roldão o conjunto de direitos individuais e coletivos, para os quais não houve sequer qualquer ensaio de debate coletivo ou institucional para superar o prévio acordo que resultou na promulgação da Constituição de 1988.

O neofascismo com que Bannon carrega o núcleo de sua virulenta retórica reduz o mundo à fácil antinomia entre o bem e o mal, traduzindo a complexidade do mundo e da existência em narrativas pauperrimamente simplificadas, tornando assim acessível o mundo às massas que a neurociência e a filosofia podem explicar estar órfãs da lógica binária cristalizada desde a laicização e de sua penetração e alargamento na cultura ocidental. Bannon opõe ordinariamente o sagrado ao profano como lente para apreender validamente o mundo, dividindo-o entre bons e maus, entre virtude e vício, conforme os indivíduos adiram ao seu projeto ou não o façam e assim, portanto, se tornem, respectivamente, merecedores da reputação de amigos ou, então, inimigos, aos quais o combate sem quartel nem medidas é tudo quanto cabe e justo é.

O projeto ideológico extremista neofascista de Bannon não encontraria a sua melhor forma de disseminação no Ocidente e nem as condições para exercer a atual influência se a sua execução fosse articulada nos limites dos corredores da Casa Branca, que imporia certas limitações de movimentos. Por este motivo a mudança de Bannon para Bruxelas revelou-se providencial, pois permitiu constituir uma frente de partidos políticos extremistas de direita e a superação das diferenças persistentes entre eles, e logo empreender marcha decidida para enfrentar as eleições parlamentares europeias no ano de 2019. Longe de Washington, mas não de seus propósitos, o plano de Bannon foi sendo costurado através do envolvimento de aliados de diversas nacionalidades, tais como franceses, espanhóis, portugueses, italianos, belgas, brasileiros etc., todos sob a nomenclatura de “O Movimento”, tentando enfeixar o conjunto de todas as iniciativas da ultradireita europeia para uni-las à norte-americana, e apenas mais recentemente expandindo-as para a América Latina, especialmente para o Brasil, onde o rosto da barbárie e o hábito do ditador tem a caneta e sua famiglia instalados no poder.

Bannon vem obtendo êxito em apontar para um horizonte comum desta força extremista que hoje organiza base social até então inacessível para amplos setores da direita e, ainda menos, para a extrema-direita. Bannon sente-se suficientemente à vontade com os poderes que articula em escala global a ponto de que, em discurso endereçado à direita francesa logo após a derrota eleitoral para Emmanuel Macron, declarasse que “a história está do nosso lado”". A sua confiança é crescente, e mostra disto são as tratativas para aperfeiçoar as condições para a expansão do “Movimento” no continente latino-americano, em especial no Brasil dos Bolsonaro, cujos perfis psicológicos compartilham obsessão pelo poderio do império norte-americano em igual medida, inversamente proporcional, quanto reservam desprezo pela própria gente brasileira, seu povo mestiço e sua ampla gama de riquezas, suas opções e matizes culturais, suas idiossincrasias e pluralidades mil, revelando-se tão ou mais racistas quanto o núcleo duro da proposta de Bannon. Isto os torna dotados de perfil psicológico ideal para a tarefa de concretização da submissão de seu país.

A ideologia supremacista branca que compõe a ideologia extremista de Bannon está composta por homens inspirados em primitivismo-mor tipicamente afinado com os preceitos da teoria racista nacional-socialista também sobrevivente nas profundezas da cultura norte-americana, açambarcados pela debilíssima crença de que o êxito material na vida mantém conexões com a cor da pele, e que esta se sobrepõe às oportunidades que o mundo material oferece ou bloqueia. Para os supremacistas brancos os latinos são apenas desprezíveis mestiços, não muito diferentes dos imigrantes italianos norte-americanos e, nesta condição de inferiores, merecedores de receber o tratamento de submissão. A sua máxima que hoje renasce é o “Deus Vult” (Deus assim o quis), estratégica para anunciar e tentar legitimar a precária e paupérrima visão de mundo segundo a qual a vontade divina opera no mundo determinando a vontade humana que, mesmo sob a ótica teológica católica, possui o livre arbítrio, de onde o espaço para o próprio pecado no mundo e toda a violência e o mal.

Neste sentido é congruente a intensa negação dos supremacistas brasileiros que tanto desprezam a sua gente, e exemplo disto é a família Bolsonaro, que explicitou múltiplas vezes, e publicamente, a inteireza deste seu profundo desapreço, por exemplo, por negros e indígenas, e talvez não sem razão, traduzindo, ainda que por vias oblíquas, o desprezo pelo lugar que eles próprios ocupando no mundo, vale dizer, por suas próprias origens, por sua cultura e sua raça, e assim, portanto, pela inteireza do que representam ante a sua psiquê. No limite, esta é a contradição inerente aos traidores da pátria, que não dispõe de subsídios para afirmar a sua condição pessoal e nacional.

Não foi segredo algum para a vida política brasileira e para os analistas, ainda mesmo para aqueles de mais modesta informação, que Bannon esteve por trás de muitas das estratégias adotadas na eleição presidencial brasileira, desde a compilação e manejo de informações, a análise de dados às ações digitais, passando pela captação de recursos para que este empreendimento pudesse ter sido levado a termo exitosamente aliado a gravações e métodos não republicanos de levar agentes e autoridades a alterar decisões em momentos-chave da vida política nacional. Estes movimentos, aliados à reunião do mundo do capital foi o que, finalmente, levou Bolsonaro a vitória nas eleições presidenciais de 2018 que inicialmente era de todo improvável, tendo o próprio Eduardo Bolsonaro, seu filho, declarado que Bannon havia auxiliado no processo “sem demonstrar interesse por compensação financeira”, ou seja, para o leitor médio em matéria política, foi explicitado, via inversa, qual o interesse de Bannon em todo o processo.

Tamanho “desinteresse” certamente não é coisa deste mundo, sobretudo em teriaia de relações internacionais. O preço em causa para que um candidato que não figurava entre os que dispunham de alguma chance de vitória no pleito eleitoral pudesse ser alçado à condição de vitorioso foi extremamente alto, e amargo para a população brasileira. Foi superior o valor e deveria ser pago de imediato, como de fato o foi. Assim foi que ocorreu um giro completo na política externa brasileira não apenas no concerne à adotada pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), mas de toda a tradição brasileira. Também ocorreu uma alteração da política de exploração das vastas reservas de petróleo na camada do pré-sal e, paralelamente, a adoção de alinhamento automático com os EUA. A adoção de tal posição pela administração Bolsonaro implicou abrir mão de aproximadamente U$6 bilhões que o comércio agropecuário com a China traz para as arcas brasileiras, eis que o país importador passou a comprar produtos agrícolas (não por acaso) norte-americanos em substituição aos brasileiros. Por fim, um último e importante aspecto dos interesses coordenados por Bannon foi a adoção de política econômica de completa a irrestrita privatização das empresas brasileiras assim como a entrega de parte do território nacional de forma velada, ou nem tanto, como foi o caso da base de lançamentos de foguetes de Alcântara situada no Estado do Maranhão.

As convicções filosóficas e ideológico-políticas da extrema-direita neofascista bannoniana inspiram tanto as ações de Trump tanto quanto as de Bolsonaro, e disto são sobrados os exemplos, partindo das práticas e declarações deslocadas e aparentemente sem sentido até alcançar as decisões em matéria de atentado aos direitos humanos e privilégio ao capital, mesmo quando estejam em causa a vida de dezenas de milhares de pessoas, sejam eles nacionais norte-americanos ou não, algo que restou patente nas políticas sanitárias adotadas durante a crise da pandemia do Covid-19. Para este tipo de políticas o trabalho de Bannon revelou-se essencial, pois partindo da compreensão de fundo das estratégias de propaganda de massa do nazismo adensou com a sua habilidade desenvolvida com o seu trabalho na mídia tradicional e, passo seguinte, concebeu como associar e multiplicar os dividendos políticos a partir da manipulação midiática articulando-a com os novos instrumentais oferecidos pela mídia digital de nova forma, transformadora para os fins que a nova direita neofacista precisa. Uma das faces da articulação de Bannon é a manipulação da suposta crítica ao establishment realizada pelo neofascismo cuja essência é pertencer ao pequeno grupo que coordena o establishment. Nesta dimensão é articulada a estratégia de apresentar a retórica neofascista como neoconservadora como se populista fosse, como se aglutinadora dos interesses populares fosse, e assim endereçar a sua diatribe para alvejar mortalmente o conservadorismo liberal moderado tanto na esfera política quanto midiático, judicial e legalista-garantista, opondo-se a projetos que impedem a perda da soberania nacional, algo observável tanto na versão neofascista brasileira através do Governo Bolsonaro quanto em sua matriz ideológica norte-americana.

Para Bannon a mídia estabelecida é expressão de uma bolha de poder que sintetiza tudo o que há de mal nos EUA e que favorece apenas um grupo de pessoas, estratégia de ação política que logo seria estendida a outras latitudes onde o seu grupo de poder neofascista disputa poder. Bannon não deixa de estar correto, pois a mídia é realmente controlada por grupo de plutocratas globais, mas o que ele oculta é que o seu projeto apenas tergiversa e despista ao anunciar o ataque à mídia, pois os grupos que financiam o seu projeto não estão em posição de irretorquível antinomia aos barões globais da mídia. Ambos os grupos servem aos mesmos interesses, embora possam discrepar quanto as vias, pois enquanto o grupo neofascista agora vai instrumentalizando recursos e meios capazes de mobilizar importantes capas populares, por outro lado, os democratas-liberais pareciam ter perdido ao menos parcialmente tal capacidade, bem como os que nos EUA são identificados com a tradição conservadora do republicanismo em sua versão clássica, identificados com o establishment econômico, responsável único pela radicalização da crise econômica de 2008, mas não com a violência aberta como a proposta pelo neofascismo emergente. No plano da política interna norte-americana, Bannon aproveitou a oportunidade para colar em Hillary Clinton e nos democratas a pecha de gente do establishment desinteressada pelo destino popular, que nos momentos críticos da crise de 2008 havia apoiado a imposição de seus custos ao povo, mantendo sem punição aos CEOs que foram os responsáveis por organizar a débâcle. Os democratas, portanto, deveriam ser apresentados como aqueles que mereciam a rejeição da classe trabalhadora em face de pertencerem ao que Bannon qualificava como “partido de Davos”, que para ele não passavam de uma elite científico-financeira, certa e segura de que poderia manipular o mundo em bases globais. Mas quem são, de fato, os financiadores do “Movimento” de Bannon senão estes grandes barões globais do mundo das finanças que apenas enviam a Davos os seus prepostos?

Bannon compreendeu alguns aspectos centrais para a exitosa propagação da política que sustenta a expropriação de riquezas e a continuidade deste processo de concentração em um número cada vez mais restrito de mãos, redundando na equivalente centralização extrema do poder político em escala planetária com o apoio inconsciente, mas objetivo, da massa de destinatários de suas mensagens. Um dos aspectos centrais bem compreendidos por Bannon para concretizar este projeto planetário de poder diz respeito a nova configuração do mundo da informação em sua interface com a política, que em uma era de massas acessíveis potentemente através das mídias digitais (e sem que elas próprias conheçam o decisivo potencial desta mídia) configuram a amplitude de notável espaço para a manipulação da informação e da expressão da vontade política popular. Na prática, Bannon redesenhou o emprego da propaganda política em dimensão que mesclou manipulação e ausência de escrúpulos em escala de aplicação global. Corria 2012 quando sob tais propósitos Bannon criou a Government Accountability Institute (GAI). Tratava-se de declarada organização sem fins de obtenção de lucro, cujo objetivo seria o de expor as mazelas do chamado “capitalismo amigo”, e também o “uso indevido do dinheiro dos contribuintes”, propósitos dotados de fácil capilaridade política, assim como a exposição pública de sua animosidade frente a outras fontes de suposta corrupção ou ações ilegais do Estado em prejuízo dos contribuintes, colocando assim em perspectiva, e subliminarmente, a realização de um amplo programa de descrédito do papel do Estado e de sua autoridade, mas também corroendo os possíveis instrumentos disponíveis em momento futuro para atacar a revolução necrofilosófica e o amplo leque do projeto neofascista.

Acabar com os instrumentos de reação do Estado e da coletividade popular a qual representa constituir genuína e declarada obsessão da extrema-direita encarnada por Bannon, pois isto destitui a população de seu melhor, e talvez único, instrumento de defesa em face da oligarquia neofascista de direita. Sem embargo, este ataque aos organismos do Estado não incluem a sua redução a ponto de extinguir aqueles órgãos essenciais que operam em favor destas oligarquias, que deles necessitam para financiar os seus propósitos operantes em escala global à base da violência pura, assim como também em momentos críticos em que ninguém mais do que o Estado pode atuar em socorro. Exemplo disto é a administração Trump que desde os primeiros dias intensissimamente publicava decretos ao tempo em que atacava freneticamente a imprensa, como se se tratasse de um bem estabelecido partido de oposição, tal como, em seu momento, ocorreria, ao seu modo e circunstância, com a estratégia de Bolsonaro no Brasil, mas também foi exemplo disto a crise econômica de 2008 e a atual crise sanitária global, em que o Estado, e não a iniciativa privada, é que intervém para procurar estabilizar o caótico cenário.

O que Bannon e a extrema-direita neofascista propõe é uma ruptura institucional com o estágio civilizacional dos direitos humanos, políticos e sociais, substituindo a noção de soberania estatal e supremacia popular como fonte de legitimidade política por outra fonte de poder neofacista e plutocrática. O projeto tem ambições planetárias, cuja primeira etapa tem ocorrência no Hemisfério Ocidental, e neste momento com especial intensidade, na América Latina. Em cada um dos cenários-alvo de dominação em que o neofascismo se apresenta como competidor do poder a desordem e a instauração da confusão através do desprezo dos acordos civilizatórios básicos é a nota, assim como dos mecanismos de encaminhamento de diálogo e transação política. A implosão destes instrumentos de mediação, das estruturas dialógicas e, sobretudo, do vocabulário e da gramática política e ética é causadora de profunda apreensão por parte da comunidade que, assim, perde o seu referencial mediador por antonomásia, a saber, linguagem.

Ventura chega-se à “família Bolsonaro” e vai trabalhar com a extrema-direita europeia

(Comentário;
É isto a (extrema)direita portuguesa? O 'grande patronato' luso não arranja melhor? Tadinhos...)
 

 

O Chega de André Ventura tem mantido contactos internacionais, nomeadamente nos EUA e no Brasil, no sentido de estabelecer ligações que consolidem a sua força política. Terá mantido reuniões com elementos “próximos da família Bolsonaro” e prepara-se para trabalhar com o grupo europeu que integra a extrema-direita.

 

É o próprio Ventura quem confirma ao jornal Expresso que tem mantido contactos com o Partido Republicano dos EUA e com o Governo do Brasil, através de militantes evangélicos “próximos da família Bolsonaro”.

A ideia do líder do Chega é visitar estes dois países durante o último semestre de 2020, para iniciar “contactos formais”, como refere ao Expresso.

“Se for possível, gostaríamos de ir aos EUA em Outubro ou Novembro, já ao Brasil acho mais difícil este ano devido à situação complicada” da pandemia de covid-19, atesta.

Entretanto, o Chega manteve uma reunião, através da plataforma de vídeo-conferências Zoom, com o grupo Identidade e Democracia que 73 deputados no Parlamento Europeu. Este grupo integra a Liga italiana de Matteo Salvini e outros partidos da direita nacionalista e da extrema-direita.

Ventura atesta que o partido de Salvini “manifestou interesse em trabalhar com o Chega e em acolher o partido apesar de este não ter eurodeputados”, como aponta o Expresso.

O Chega está, agora, à espera de uma “carta formal do coordenador internacional do grupo” para começar a colaboração. Ventura diz que essa carta deverá “chegar em breve”.

As últimas sondagens têm apontado uma subida do Chega nas intenções de voto. Na última análise efectuada, o partido de Ventura surge como a terceira força política do país, à frente do Bloco de Esquerda.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/ventura-chega-familia-bolsonaro-salvini-328711

Federico García Lorca – 122.º aniversário do seu nascimento

 
Foi fuzilado pelas costas, aos 38 anos, quando a violência fascista e homofóbica era a norma da Espanha franquista, beata e clerical.
 

A homenagem ao pintor, compositor, pianista, dramaturgo e poeta, é um libelo acusatório ao regime que assassinou a inteligência e regou a fé com o sangue da República.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/06/federico-garcia-lorca-122-aniversario.html

Depois de pedir repressão a antifascistas, Mourão diz que pedir golpe militar nas ruas é “liberdade de expressão”

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247 -O general vice-presidente Hamilton Mourão afirmou em entrevista nesta quinta feira (4) que os pedidos de golpe militar feitos por manifestantes bolsonaristas nas ruas são “liberdade de expressão”. A defesa dos golpistas acontece um dias dia depois de Mourão haver qualificado os manifestantes antifascistas de “baderneiros” e exigir repressão: "Baderneiros são caso de polícia, não de política".

Na entrevista a diversos veículos de comunicação nesta quinta, Mourão afirmou que pedidos de intervenção militar em manifestações bolsonaristas não são “as bandeiras mais corretas”, mas devem ser tratadas como “liberdade de expressão”.

Em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo na última quarta-feira (3), o general acusara as manifestações pacíficas da oposição de serem "um abuso”, acusando-as falsamente de “ferirem, literalmente, pessoas e o patrimônio público e privado”. Recorrendo a velho truque de retórica da direita, o general Mourão escrevera também que as manifestações ocorridas no Brasil são "umbilicalmente" ligadas ao "extremismo internacional". Batendo na tecla de que os manifestantes são baderneiros, o general ameaçou-os com repressão: "Baderneiros são caso de polícia, não de política".

 

O castigo de Deus

castigo-obs«Será então que Deus nos está a castigar com esta pestilência que estamos a sofrer em Portugal? Um sr. ministro alemão, ao contrário de um sr. bispo, responderá que sim. O sr. ministro dirá que é um castigo divino porque acredita na causalidade. E acreditando que Deus existe, e é a causa última de todas as causas, parecer-lhe-á evidente que terá sido Ele que, na sua sabedoria, terá estabelecido desde toda a eternidade as coisas para que o PS perdesse as eleições em 2015 sem que a coligação Portugal à Frente obtivesse a maioria absoluta. Para isso bastou-Lhe ordenar, através de outras causas secundárias, os afazeres e preferências de 44% dos eleitores para que não fossem votar, bem como infetar 32% dos votantes com o vírus socialista e outros 18% com uma bactéria marxista resistente a toda a evidência histórica. Embora esta calamidade nacional, que são os governos do sr. eng. Costa, tenha tido como causa próxima estas doenças ideológicas, de caracter endémico no nosso país, um crente estará consciente que a sua causa última é Deus Nosso Senhor, que opera por causas quer aparentes quer misteriosas.»

 

Não sei se o economista que assim escreve, tomando-se a sério, no Observador, se enganou na profissão. Ou se, simplesmente, nasceu no século errado.

A pandemia do novo coronavírus é o castigo divino no século XXI: não sei o que andaram a comprar e a distribuir lá pela redacção com o dinheiro dos novos apoiantes e subscritores. Mas a mocada parece ser forte…

Perante prosas delirantes como esta, já há muita gente a querer experimentar o produto…

Aos que nos querem esquecidos

TRANCA E SALA DE CONVIVIO DO RC: BAIRRO DAS MINHOCAS
 
Anda por aí um neo-fascismo engravatado que tenta branquear a dôr, a miséria e a repressão sofrida pelo povo português durante décadas. Como se não tivesse existido a pobreza, a repressão e a guerra que marcaram gerações fazendo do medo um quotidiano e da sobre-exploração uma constante de vida.
Talvez queiram transmutar em verdadeiro o patético  discurso do 'pide' que via o Campo da Morte Lenta como um paradisíaco 'resort de luxo'
 
 
Ou talvez ambicionem tornar credível a hipócrita converseta  do maquiavélico'botas'.
 
Para esses corruptores da memória  fica um recado de jovens, mesmo em tempo de confinamento.
O Povo não esquece, e a luta continua...
 
 
E o Tarrafal não voltará:
 
 
 

Bolsonaro, o “projeto secreto da cúpula militar”

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Líder!, Líder!, Líder! …”.

Com esta exaltação ao estilo “Führer!, Führer!, Führer! …” da Alemanha dos anos 1930, os aspirantes-a-oficial da Academia Militar das Agulhas Negras recepcionaram o então deputado Jair Bolsonaro, recém reeleito para o 7º mandato na Câmara Federal.

Acompanhado dos filhos Eduardo e Carlos, Bolsonaro comparecia pela enésima vez a uma solenidade de formatura dos aspirantes da AMAN. Na ocasião, ele retribuiu a recepção efusiva dos cadetes com um discurso que é o marco do lançamento formal da candidatura dele à presidência, que só ocorreria 4 anos depois, em 2018:

“Parabéns pra vocês. Nós temos que mudar este Brasil, tá ok? Alguns vão morrer pelo caminho, tá; mas eu estou disposto em 2018, seja o que deus quiser, tentar jogar pra direita este país!

[aplausos e gritos de “líder!, líder!”]

O nosso compromisso é dar a vida pela Pátria, tá ok?, e vai ser assim até morrer. Nós amamos o brasil, temos valores e vamos preservá-los. Agora, o risco que eu vou correr, posso ficar sem nada, mas eu terei a satisfação do dever cumprido, tá ok? Esse é o nosso juramento esse e o nosso lema: Brasil acima de tudo! Esse Brasil é maravilhoso, tem tudo aqui, tá faltando é político! Há 24 anos que eu apanho igual a um desgraçado em Brasília, mas apanho de bandidos. E apanhar de bandidos é motivo de orgulho e glória, tá ok? Vamos continuar assim. Boa sorte para todos. Um abraço a todos”.

 
[aplausos e mais gritos de “líder!, líder!”].

Este comício político-partidário, realizado numa unidade de alta significação das Forças Armadas, aconteceu no longínquo 29 de novembro de 2014 – vídeo aqui.

Parêntesis: [Cinco anos e cinco meses depois, em 19 de abril de 2020, e já como presidente da República, Bolsonaro promoveu outro comício político-partidário, desta vez na frente do maior totem das FFAA, o QG do Exército, para defender o fechamento do STF e do Congresso e a intervenção militar com ele mesmo, Bolsonaro, no poder.]

 

Instantes depois dos cadetes da AMAN confraternizarem com seu Führer naquele fim de primavera de 2014, o então ministro da Defesa Celso Amorim, acompanhado dos comandantes das três armas das Forças Armadas, conduziu a cerimônia de formatura. O quê dizer disso: negação, ou alienação da realidade pelos integrantes do governo Dilma?

A genealogia do “plano Bolsonaro” como dispositivo para a construção do poder militar tem raízes antigas. Hoje já é possível comprovar que a candidatura presidencial de Bolsonaro em 2018 foi metodicamente construída e preparada nos anos precedentes.

O discurso do Bolsonaro em novembro de 2014 na AMAN foi a rampa de lançamento deste projeto que estava sendo amadurecido bem antes. Ele foi o personagem que coube sob medida no figurino para contracenar, na eleição, o plano militar meticulosamente planejado. Os tuítes do general Villas Bôas, nesta perspectiva, nem de longe são peças improvisadas. Daí o segredo sepulcral firmado entre ele e Bolsonaro.

Em reportagem de 7 de outubro de 2018, a partir de informações e relatos de um alto oficial das Forças Armadas [FFAA] brasileiras, o jornalista argentino Marcelo Falak escreveu que Bolsonaro era o projeto secreto da cúpula militar; “o homem que a cúpula das FFAA elegeram, há 4 anos, para que ele se fosse convertido no presidente do Brasil”.

Segundo a influente fonte militar, Bolsonaro seria “convertido no aríete de uma doutrina para uma ‘nova democracia’ em que os militares terão voz e atuação política, superando o papel subalterno a que são confinados pelo poder civil” […], sendo que o “programa do futuro governo cívico-militar será conservador no político e absolutamente liberal no econômico, e buscará erradicar de uma vez para sempre a ‘extrema-esquerda’”.

Neste conceito de nova democracia, os militares se reconhecem “numa nova etapa”, e exigem “serem tratados como cidadãos plenos, não de segunda”. Na visão dos militares, nesta nova democracia “não deve haver nenhuma restrição à participação deles em cargos públicos” – o que se traduz hoje, concretamente, em mais de 3 mil cargos do Estado aparelhados por eles.

Estes militares mostram-se imodestos, cultivam uma imagem muito elogiosa de si mesmos. E, por isso, ambicionam exercer postos de comando do país – para aumentarem seus proventos – mesmo que incompetentes para certas funções técnicas. Gabam-se que “somos pessoas muito qualificadas, somos competentes, sabemos idiomas, temos pós-graduações. Entendem, por isso, que “tem que terminar com isso de não podermos ser ministros”.

Ainda de acordo com o alto oficial entrevistado, “o modo como Bolsonaro defendeu as FFAA fez com que crescesse nossa ponderação sobre ele, sobretudo porque o Comando estava ocupado por nós, que tínhamos sido contemporâneos dele na Academia” [AMAN].

A fonte militar de Falak menciona que Bolsonaro “se abriu para o diálogo, e dia-a-dia fomos vendo que ele mostrava valores importantes, como disciplina, respeito e muita humildade. Aceitava nossas sugestões e mudou muitas das suas posturas anteriores. Por exemplo, passou do nacionalismo econômico que antes defendia, ao liberalismo. Isso que se vê na campanha eleitoral foi produto do diálogo que o Exército abriu com ele, não tenha dúvidas”.

Segundo informou a fonte de Falak, em virtude da abordagem do comando das FFAA, Bolsonaro “mudou muito no pessoal, se casou com sua terceira mulher, teve uma filha e, algo que ninguém sabe, inclusive fez dois anos de psicanálise”.

O militar também confirma que “O nacionalismo econômico já não é nosso programa, esse deixamos para o Partido dos Trabalhadores. Agora é o liberalismo. Isso é o que dissemos a Bolsonaro. Queremos um país o mais livre possível, o que nos coloca radicalmente contra o que diz o PT”.

Por isso, reporta Falak, “o manejo da economia ficará para um civil: o ex-banqueiro ultra-liberal Paulo Guedes, cuja proposta é privatizar a totalidade das participações do Estado em empresas, incluída a Petrobras, e vender todos os bens que ainda estão em poder estatal”.

Refletindo uma visão embolorada da guerra fria, o oficial brasileiro diz ao jornalista argentino que “Pretendemos fechar o círculo que começou no Brasil com a intentona comunista de 1935, algo que ainda não acabou. Não vamos permitir estas propostas que enganam e se disfarçam de socialismo”.

Acerca da geopolítica regional, o alto oficial entrevistado por Falak em outubro de 2018 não escondeu que “ficamos muito felizes que se foi Cristina Kirchner e chegou Maurício Macri”, que ocorreu na eleição de 2015.

Como prova de reconhecimento da autoridade do capitão Bolsonaro, o alto oficial do Exército disse: “não vamos tutelar Bolsonaro. Seremos subordinados a nosso comandante Supremo. Ele é um homem com personalidade”.

Ilude-se, por isso, quem imagina que as Forças Armadas não estejam escalando a ditadura junto com Bolsonaro e tramando a intervenção militar com ele no poder. Bolsonaro é o “projeto secreto da cúpula militar”.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/bolsonaro-o-projeto-secreto-da-cupula-militar

Nosso sombrio futuro: neoliberalismo restaurado ou neofascismo híbrido?

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Por Pepe Escobar, especial paraStrategic Culture

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Com o espectro de uma Nova Grande Depressão pairando sobre grande parte do planeta, as perspectivas realpolitik de uma mudança radical na estrutura da economia política na qual vivemos não são exatamente animadoras.

As elites dominantes do Ocidente irão empregar uma miríade de táticas visando a perpetuar a passividade das populações que mal começaram a sair de uma prisão domiciliar de fato, incluindo um ímpeto maciçamente disciplinar - no sentido de Foucault - por parte de estados e círculos financeiro-empresariais.

Em seu livro mais recente, La Desaparicion de los Rituales, Byung-Chul Han mostra que a comunicação total, especialmente em um tempo de pandemia, agora coincide com a vigilância total: "A dominação se fantasia de liberdade. O Big Data gera um conhecimento dominador que abre a possibilidade de intervir na psique humana e manipulá-la. Visto sob esse ângulo, o imperativo de transparência de dados não representa a continuidade do Iluminismo, mas sim seu fim". Essa nova versão do Disciplinar e Punir de Foucault coincide com relatos de que a morte da era neoliberal vem sendo grandemente exagerada. O que vem despontando no horizonte não parece ser um mergulho simplista no nacionalismo populista, e sim uma Restauração do Neoliberalismo – maciçamente narrada como uma novidade e incorporando alguns elementos keynesianos: afinal, na era pós-Lockdown, a fim de "salvar" os mercados e a iniciativa privada, o estado deve não apenas intervir mas também facilitar uma transição ecológica possível.

Em suma: talvez estejamos frente a um mero enfoque cosmético, no qual a profunda crise estrutural do capitalismo zumbi - que segue se arrastando com suas "reformas" impopulares e suas dívidas infinitas - continua sendo ignorada.

 

Enquanto isso, o que irá acontecer com os fascismos variados? Eric Hobsbawm nos mostrou em A Era dos Extremos que a chave para a compreensão da direita fascista sempre foram as mobilizações de massa: "Os fascistas eram os revolucionários da contra-revolução".

Talvez estejamos nos dirigindo para algo além de um mero e tosco neofascismo. Podemos chamá-lo de Neofascismo Híbrido. Suas estrelas políticas curvam-se frente aos imperativos do mercado global, ao mesmo tempo em que transferem a competição política para a arena cultural.

É nisso que consiste o verdadeiro "iliberalismo": uma mistura do neoliberalismo - mobilidade irrestrita do capital e total liberdade de ação para os Bancos Centrais - e de autoritarismo político. É aí que encontramos Trump, Modi e Bolsonaro.

 

Do Antropoceno ao Capitaloceno

Para contra-atacar o neoliberalismo zumbi, aqueles que acreditam que um outro mundo é possível sonham com uma renascença social-democrática: distribuição de renda ou, pelo menos, o neoliberalismo com um rosto humano.

É aqui que o ecossocialismo entra em cena: uma ruptura radical com os ditames da Deusa do Mercado, produto de uma rebelião saudável contra o neoliberalismo ultra-autoritário e o iliberalismo.

Em suma, isso poderia ser visto como uma adaptação branda das análises de Thomas Piketty: quebrar a dominação do capital usando a democracia econômica, no espírito da social democracia de meados do século XIX.

É bem interessante, quanto a isso, nos referirmos a Fully Automated Luxury Communism (Comunismo de Luxo de Automação Total), de Aaron Bastani, um estimulante manifesto utópico onde vemos que, assim que a sociedade se livrar de tudo o que é supérfluo e ligado à alienação, ainda será possível que todos encontrem os meios técnicos necessários para ter uma "vida de luxo" sem ter que recorrer ao crescimento infindável imposto pelo Capital. E isso nos leva ao elo direto entre o Antropoceno e o que foi conceituado pelo economista francês Benjamin Coriat como o Capitaloceno.

Capitaloceno significa que o nosso atual estado de degradação planetária não deve ser associado a uma "humanidade" indefinida, e sim a uma "humanidade claramente definida e organizada por um sistema econômico predatório".

O estado do planeta no Antropoceno tem, imperativamente, que ser associado ao sistema econômico hegemônico dos dois últimos séculos: a maneira como desenvolvemos nossos sistema de produção e legitimamos práticas predatórias e indiscriminadas.

Resumindo: para superar esse estado de coisas, a economia terá que ser reorientada e reconstruída por meio de um "big bang nas políticas públicas e econômicas".

No Antropoceno, a humanidade prometeica terá que ser contida para que se possa lidar adequadamente com o estupro da Mãe Terra.

O Capitaloceno, por seu lado, descreve o Capital como a raiz crucial e o condicionante do atual sistema mundial. O resultado da luta contra os efeitos devastadores do Capital irá determinar o futuro possível do ecossocialismo.

E isso traz de volta a importância dos bens comuns - que vão muito além da oposição entre propriedade privada e propriedade pública.

Coriat mostrou que o covid-19 deixou evidente tanto a importância dos bens comuns como a incapacidade do neoliberalismo de lidar com essa questão.

Mas como construir o ecossocialismo? Deveríamos partir do ecossocialismo em um único país (em algum lugar da Escandinávia)? Como coordenar sua implantação em toda a Europa? Como combater de dentro as estruturas ossificadas da União Europeia?

Afinal de contas, tanto o Neoliberalismo Restaurado quanto o Iliberalismo já contam com estados e redes poderosas. Um bom exemplo são a Hungria e a Polônia, que continuam a funcionar como peças na cadeia de fornecimento industrial alemã.

Como evitar que alguém como Bill Gates assuma o controle de um organismo das Nações Unidas, a OMS, forçando-a assim a investir em programas que se encaixem em sua agenda pessoal?

Como mudar as regras de livre mercado da OMS, que permitem a compra de óleo de dendê e soja transgênica, contribuindo assim para o desmatamento de vastas áreas da África, Ásia e América Latina? Esse estado de coisas permite que as nações ricas de fato comprem a destruição de ecossistemas.

Revolução, não reforma

Mesmo que o neoliberalismo estivesse morto, e não está, o mundo ainda estaria carregando seu cadáver - parafraseando Nietzsche a propósito de Deus.

E apesar de a tripla catástrofe - sanitária, social e climática - ser agora inegável, a matriz dominante - estrelando os Senhores do Universo no comando do cassino financeiro - vai continuar se opondo a qualquer impulso de mudança.

As táticas diversionistas que apóiam uma "transição ecológica" não enganam a ninguém.

O capitalismo financeiro é especialista em se adaptar à série de crises provocadas ou desencadeadas por ele, e até mesmo a lucrar com elas.

Para atualizar maio de 1968, o que é necessário é L’Imagination au Pouvoir. Mas é perda de tempo esperar imaginação de meros fantoches como Trump, Merkel, Macron ou BoJo.

A realpolitik, mais uma vez, aponta para uma estrutura turbocapitalista pós- Planeta Lockdown, onde o iliberalismo - com seus elementos fascistas - do 1% e a turbofinanceirização nua e crua são reforçados pela exploração redobrada de uma força de trabalho exausta e agora em grande parte desempregada.

O turbocapitalismo pós-lockdown mais uma vez se reafirma depois de quatro décadas de thatcherização ou, para ser polido - de neoliberalismo barra pesada. As forças progressistas ainda não têm munição para reverter a lógica dos altíssimos lucros canalizados para as classes dominantes - a governança da União Europeia aí incluída - e também para as grandes corporações globais.

O economista e filósofo Frederic Lordon, pesquisador do CNRS francês, vai direto ao ponto: a única solução seria uma insurreição revolucionária. E ele sabe perfeitamente que o combo mercados financeiros-mídia empresarial jamais permitiria que isso acontecesse. O Grande Capital é capaz de cooptar e sabotar qualquer coisa.

Essa, então, é a escolha que nos resta: ou Restauração Neoliberal ou ruptura revolucionária. Sem nada no meio. É preciso alguém do calibre de Marx para construir uma ideologia ecossocialista plenamente desenvolvida para o século XXI, capaz de mobilização sustentada e de longo prazo. Aux armes, citoyens.

Assembleia da República vai discutir petição sobre a criação do Museu Salazar

 entrega peticao AR 28 fev 2020 s2

A petição “de repúdio e exigência de que se trave e abandone a anunciada criação do ´Museu Salazar´, com esse ou outro nome, em Santa Comba Dão” foi admitida para discussão na Comissão Parlamentar de Cultura e Comunicação, em reunião realizada no passado dia 26 de Maio.

Segundo informou à URAP a Assembleia da República, a apreciação e deliberação da petição em sede daquela comissão deverá ocorrer no prazo de 60 dias, os peticionários terão de ser ouvidos, a ministra da Cultura irá pronunciar-se bem como todos os grupos parlamentares e será discutida em Plenário.

 

Recorde-se que esta petição – que se junta ao movimento da carta de 204 presos políticos e de um anterior abaixo-assinado com 18.000 assinaturas – foi entregue na AR dia 28 de Fevereiro, com 10.396 assinaturas, por uma comissão composta pela coordenadora da URAP, Marília Villaverde Cabral, pelo membro do Conselho Directivo, José Pedro Soares, pelo presidente da Assembleia Geral, Levy Baptista, e ainda pelos subscritores do documento Almirante Martins Guerreiro, António Vilarigues, José Sucena e Madalena Santos.

 

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2MgNMS3

Deputado bolsonarista diz que torce para que polícia mate "comunistas" em manifestações (vídeo)

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247 - O deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL) divulgou vídeo neste domingo, 31, em que defende que "comunistas" sejam mortos pela polícia durante manifestações.

"Quem sabe não seja eu o sortudo, que vocês me peguem na rua num dia muito ruim e eu descarregue a minha arma em um fdp comunista que vier tentar me agredir", diz ele.

Assista:

https://twitter.com/GugaNoblat/status/1267257809680416768?ref_src=twsrc%5Etfw

Os salazaristas e o neofascismo português

Quando todos somos fascistas | Cultura | EL PAÍS Brasil
 
Os meus leitores habituais hão de ter notado que, cada vez que acuso a ditadura fascista, surgem salazaristas a defendê-la. As datas do opróbrio são para eles facadas, os crimes meros acidentes e a guerra colonial a defesa do “nosso ultramar infelizmente perdido”.

Os assassinatos eram danos colaterais na defesa da ordem e dos bons costumes, a tortura um método de investigação e a censura uma forma de preservar a moral.

Não são os nostálgicos que intimidam, tristes sobreviventes da anacrónica ditadura, que agora saltam do armário onde se esconderam. Esses são inofensivos, crocitam, uivam, regougam, eructam e babam-se.

Perigosos são os que herdaram dos progenitores o ódio e a vocação de pides, os que não conheceram as malfeitorias do torcionário de Santa Comba, os neofascistas que nascem agora para repetir como tragédia o que olhávamos já como comédia de humor negro.

Falta-lhes a cultura, mas sobra-lhes entusiasmo a repetir mentiras, a inventar calúnias, a destilar rancor e a vestirem a pele de pessoas sérias contra os políticos que acusam de corruptos, numa generalização que é vulgar em mentes perturbadas e cérebros onde os neurónios escasseiam.

Tal como os vírus, os neofascistas sofreram mutações. Já não vêm de botas, ao som de hinos, de braços estendidos numa coreografia reles, defendem a liberdade de escolha, animam o negacionismo e corroem os alicerces da democracia representativa.

É esta capacidade camaleónica que os torna perigosos e a democracia só tem uma arma para se defender, a pedagogia cívica e a denúncia dos homúnculos que, tal como há um século, anseiam por uma nova e trágica aventura.

Cabe-nos ser vigilantes e não deixarmos sem combate os arautos de velhas ideologias e novas tragédias.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/os-salazaristas-e-o-neofascismo.html

As alfurjas do Chega

O VOO DO CORVO: Pastores evangélicos promovem André Ventura / Nas...

Quem se atreveria a imaginar que o capitão Bolsonaro, vinte anos deputado, encostado à dolce vita parlamentar brasileira, sem qualquer relevo a não ser pelo recalcitrante apoio à ditadura militar, pudesse vir a ser Presidente de um dos maiores países do mundo? O seu currículo resumia-se a defender os piores crimes da ditadura de modo grosseiro e banal, um cavernícola nunca levado a sério no que toca a ser eleito Presidente. Não passava de um capitãozeco extravagante de segunda ordem.

Mais ao Norte, naquele mesmo continente, quem imaginaria os EUA serem dirigidos por um magnata da construção civil que trazia consigo um lastro de corrupção, negocismo, de fuga aos impostos, supremacismo branco, homofobia, racismo e a mais completa incompetência para o cargo? Quem imaginaria esta personagem dos reallity show Presidente do país de Lincoln? Quem poderia imaginar esta personagem a receitar cloroquina para atacar o coronavírus, depois de aconselhar lixívia? Sim, é verdade, não é realismo fantástico, a cruel realidade vinda dos EUA…

A História a todos surpreende pelo seu elevado grau de imprevisibilidade; os fenómenos não são todos determinados pelos mais estudiosos, e nem por isso o mundo deixa de ser o que é – a anormalidade que de repente se normaliza.

Vale a pena fazer esta pergunta: Houve ou não um olhar benevolente para estes dois homens, sempre encarados como outsiders? Foi feito o que devia ser feito para o impedir?

Até certa altura o seu extremismo era tão evidente que por esse facto pensava-se que seriam barrados pelo apego democrático às instituições das populações de ambos os países.

Pois é, mas não foi. Quando se ouvem inúmeras vozes de democratas a defenderem que se não dê combate a André Ventura porque daí resulta a sua valorização e importância, vale a pena refletir com base na experiência de outras situações similares.

A eleição de Bolsonaro é a esse respeito elucidativa. E a de Trump também. Ambas subavaliadas quanto às suas possibilidades.

Em todos os povos há classes parasitárias e largas camadas sociais que se deixam atrair pelo oportunismo imediatista, pela promessa de autoridade que resolva problemas graves, pelo nacionalismo cego, pela violência contra as minorias, por homens assumidos como providenciais que dizem o que se diz no café ao contrário dos políticos que se entendem fora do parlamento para se governarem, e o rol é vasto. Sabemos que Salazar e Caetano se aguentaram 48 anos…é caso para pensar. A autoridade ditatorial a impor-se a um povo conformado, salvo honrosas e extraordinárias exceções.

Quando Ventura propõe a deportação de Joacine, o confinamento dos ciganos, o regresso à cadeia de todos os presos libertados, a castração dos pedófilos, o aumento das penas de prisão, e quando propala mentiras evidentes sobre o que Catarina Martins não disse, quando destila ódio contra o 25 de Abril e incensa a relogiosidade, poderá haver dúvidas que os antifascistas devem combater com serenidade, lucidez e inteligência este político que se tornou graças ao futebol e à CMTV/Correio da Manhã conhecido e seguido por franjas da sociedade portuguesa?

Poderá haver qualquer dúvida sobre o extraordinário trabalho do jornalista Manuel Carvalho acerca dos meandros do Chega e do seu mundo que o sustenta e que trouxe à luz do dia as alfurjas tenebrosas do Chega?

Caminhamos para dias muito difíceis com desemprego a níveis assustadores, com miséria e fome e uma U.E. nas encolhas e com um governo a esquecer-se dos que vivem muito mal, arrombando a Segurança Social para que as grandes empresas beneficiem dos descontos de que trabalhou e descontou.

Neste terreno medram os profetas evangélicos e outros, os adoradores do autoritarismo, os seguidores do mais boçal primarismo, os vendedores do divisionismo, os que se agacham na democracia para a morderem. Haja quem os combata desmitificando e esclarecendo as virtudes da vida democrática e das suas instituições. Que ninguém subestime a bestialidade e que não se deixem surpreender.

https://www.publico.pt/2020/05/29/opiniao/opiniao/alfurjas-chega-1918531

 
 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/05/29/as-alfurjas-do-chega/

Pelo menos nove dirigentes sociais assassinados na Colômbia em dez dias

Nos últimos dez dias, o Indepaz registou nove assassinatos de dirigentes comunitários, agrícolas e indígenas. Por seu lado, o partido FARC exigiu medidas de protecção para os ex-combatentes.

Desde o início do ano, o Indepaz registou 112 assassinatos de dirigentes sociais, políticos, agrícolas, indígenas, defensores do ambiente na ColômbiaCréditos / vengalecuento.com

De acordo com os dados divulgados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz), desde o início do ano foram assassinados na Colômbia mais de 110 dirigentes sociais.

Na terça-feira, Edwin Emiro Acosta foi abordado por três «alegados paramilitares», que se dirigiram à sua casa, no município de Tiquisio (departamento de Bolívar), e ali o mataram a tiro.

A Comisión de Interlocución Sur de Bolívar, Centro y Sur del Cesar, de que Acosta era membro, denunciou o assassinato do dirigente mineiro e social, que «evidencia a vulnerabilidade e os altos riscos que correm as comunidades do Sul de Bolívar», indica a TeleSur.

No dia anterior, foi assassinado, no departamento de Huila, Saúl Rojas, dirigente comunitário e presidente da Junta de Acção Comunal do Bairro de San Juanito, no município de Algeciras. De acordo com testemunhas, Rojas, de 69 anos, encontrava-se numa propriedade sua quando um grupo de desconhecidos disparou contra ele, antes de se pôr em fuga.

No dia 23, Manuel Guillermo Marriaga Martínez foi morto por desconhecidos, com seis disparos à queima-roupa, em San José de Uré, no município de Montelíbano (departamento de Córdoba). De acordo com a informação divulgada pela imprensa, Marriaga Martínez, de 50 anos, era militante do partido Alianza Social Independiente de Colombia (ASI), pelo qual se candidatara ao concelho de San José de Uré.

FARC solicita medidas de protecção para mais de dez mil ex-combatentes

Numa reunião virtual celebrada esta terça-feira com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), uma representação da Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) explicou que os ex-guerrilheiros que avançam no processo de reintegração são vítimas da «política de extermínio» levada a cabo pelo governo colombiano, indica a Prensa Latina.

Por esse motivo, porque «há uma situação grave e urgente», o FARC solicitou medidas cautelares de protecção para os mais de dez mil ex-combatentes.

Numa entrevista ao diário El Espectador, Diego Martínez, advogado e membro da Comissão Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos, sublinhou a falta de garantias à integridade física e à vida dos signatários do acordo de paz em várias regiões do país sul-americano, como Huila e Cauca.

Também se referiu à perseguição e à estigmatização dos ex-guerrilheiros que integraram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP).

De acordo com o FARC, até à data 198 ex-guerrilheiros foram assassinados – pelo menos 25 este ano –, sendo um dos factores determinantes para esta realidade a impunidade que rodeia os assassinatos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pelo-menos-nove-dirigentes-sociais-assassinados-na-colombia-em-dez-dias

Guru de bolsonaristas, Olavo defende pena de morte para Alexandre de Moraes

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247 –Olavo de Carvalho, guru intelectual do neofascismo brasileiro, defendeu pena de morte para o ministro Alexandre de Moraes, que ontem implodiu o chamado de gabinete do ódio – rede de disseminação de fake news comandada pela família Bolsonaro. Em live no youtube, ele ainda classificou Moraes como "genocida". Confira e saiba mais sobre o caso:

https://twitter.com/gentedemal/status/1265812792369709057?ref_src=twsrc%5Etfw

 

BRASÍLIA/SÃO PAULO (Reuters) -A Polícia Federal cumpriu nesta quarta-feira mandados de busca e apreensão contra aliados e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no âmbito do inquérito que apura ataques e notícias falsas contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e entre os alvos da operação estão o ex-deputado federal e presidente do PTB, Roberto Jefferson, e o empresário Luciano Hang, dono das Lojas Havan.

Entre os 29 alvos de mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina estão outros alvos próximos do presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, como os blogueiros Allan dos Santos e Bernardo Kuster. Estão na lista ainda a ativista Sara Winter, organizadora do grupo de inspiração paramilitar 300 pelo Brasil, e empresários como Edgard Gomes Corona, dono da rede de academias Smart Fit, e Otávio Oscar Kafhoury, dono do site bolsonarista Crítica Nacional.

As diligências foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, que preside o inquérito, aberto pelo presidente da corte, Dias Toffoli, em março do ano passado para apurar notícias falsas e ameaças contra ministros do tribunal. A abertura do inquérito por iniciativa de Toffoli foi alvo de críticas, já que o comum é que inquéritos sejam abertos pelo Judiciário atendendo a pedidos de outros órgãos.

 

Em seu pedido de diligências, Moraes apontou indícios de uma “associação criminosa” entre empresários e influenciadores digitais para criar uma rede de financiamento e transmissão de notícias falsas.

“As provas colhidas e os laudos periciais apresentados nestes autos apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa, denominada nos depoimentos dos parlamentares como ‘Gabinete do Ódio’, dedicada a disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às Instituições, dentre elas o Supremo Tribunal Federal, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática”, disse o ministro.

Além das 16 pessoas alvos de mandados de busca e a apreensão, Moraes determinou ainda que seis deputados federais do PSL da ala bolsonarista —Bia Kicis (DF), Carla Zambelli (SP), Daniel Silveira (RJ), Filipe Barros (PR), Junio Amaral (MG) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP)— e dois deputados estaduais paulistas, Douglas Garcia e Gil Diniz, também bolsonaristas sejam ouvidos pela PF em até 10 dias.

 

Algumas horas depois da operação ser deflagrada, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu a suspensão do inquérito até o julgamento de uma ação pelo Supremo Tribunal Federal que questiona o seu trâmite.

Aras alegou que a PGR foi “surpreendida” com a operação “sem a participação, supervisão ou anuência prévia” da PGR, que é o órgão a que se destinariam ao final as provas recolhidas na fase de investigação.

Ao longo o dia, os envolvidos na operação reagiram nas redes sociais sobre seu envolvimento no inquérito.

Em transmissão ao vivo no Facebook, Hang disse que foi alvo de mandados em sua casa e em seu escritório e que seu telefone celular e seu computador pessoal foram apreendidos pelos agentes. O empresário disse ainda que a investigação vai provar que ele não produziu notícias falsas contra ministros do STF.

“Jamais atentei ou fiz fake news contra o STF”, disse.

No Twitter, Roberto Jefferson comparou a operação desta quarta a uma ação do “Tribunal do Reich”, em referência ao regime nazista alemão comandado por Adolf Hitler.

“Com um mandado de busca e apreensão, expedido contra mim por Alexandre de Moraes, STF, para aprender meus computadores e minhas armas. Atitude soez, covarde, canalha e intimidatória, determinada pelo mais desqualificado ministro da corte. Não calarei. CENSURA”, escreveu na publicação, acompanhada da foto do mandado expedido por Moraes.

O blogueiro Allan dos Santos, do site Terça Livre, e Sarah Winter, do grupo 300 Pelo Brasil, de inspiração paramilitar de apoio a Bolsonaro, também disseram ter sido alvos da operação da PF nesta quarta.

Ele afirmou a jornalistas na porta de sua casa que as investigações contra ele irão desmoralizar o Supremo.

“Vai ser patético para a Suprema Corte. Eles vão revirar todos os documentos da Terça Livre, vão ver que a gente vive de todos os produtos que a gente vende”, afirmou.

Sarah Winter, por sua vez, disse que seu celular e notebook foram apreendidos pelos policiais federais e atacou Moraes.

“A Polícia Federal acaba de sair da minha casa. Bateram aqui às 6h da manhã a mando do Alexandre de Moraes. Levaram meu celular e notebook. Estou praticamente incomunicável! Moraes, seu covarde, você não vai me calar!!”, escreveu ela no Twitter.

O deputado estadual Douglas Garcia, que teve dois assessores alvos da operação e buscas no seu gabinete, disse que a operação desta quarta apequena a PF.

“Acabo de receber a notícia pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo que o meu gabinete está recebendo a visita da Polícia Federal”, afirmou Garcia em vídeo publicado no Twitter.

“De acordo com tuíte divulgado pela própria Polícia Federal estamos sendo investigados por ataques, crimes, alguma coisa relacionada aí a críticas aos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ora, eu sou deputado, eu fui feito para parlar, eu sou parlamentar através da minha prerrogativa que a Constituição me dá. Em opiniões e palavras de voz, eu posso criticar quem eu quiser”, afirmou ele.

Ao sair do Palácio da Alvorada nesta manhã, Bolsonaro disse, sem comentar os mandados de busca e apreensão determinados por Moraes, que mais operações ocorrerão enquanto ele for presidente.

À tarde, o presidente convocou uma reunião extraordinária com ministros do governo, segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom).

Em nota, o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, afirmou que é garantido direito de criticar representantes e instituições de quaisquer Poderes e que parlamentares têm ampla imunidade por suas palavras, considerando um “atentado à própria democracia” intimidar ou tentar cercear esses direitos.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos), filhos do presidente, por sua vez, criticaram a operação desta quarta pelas redes sociais.

Portugal | A Fina Flor do Chega

 
 
Daniel Oliveira | TSF | opinião
 
Daniel Oliveira aconselha a leitura do artigo de investigação "Chega, SA - Por dentro do Reino de 'Deus' Ventura", na última edição da revista Visão.
 
"É normal todos os partidos serem escrutinados" e o Chega não é exceção, defende o comentador. "É absolutamente normal que, estando no Parlamento, se queira saber como é que se financia, o que fazem e fizeram os seus dirigentes."
 
"Só porque chama ladrão a toda a gente não se torna um partido inimputável, mesmo que os seus eleitores possam parecer menos exigentes neste tipo de temas."
 
O partido de André Ventura junta, segundo a reportagem da Visão, "lóbis evangélicos, ultraconservadores, setores imobiliários, extremistas encartados, eleitores desiludidos e poderosas milícias digitais".
 
"Tem alguma dinâmica semelhante ao que fez Trump e Bolsonaro", nota Daniel Oliveira. "Mas o mais espantoso é que um partido pequeno, recente, sem poder para distribuir, já junta no núcleo dirigente tanta gente com passado tão duvidoso."
 
Segundo o artigo da Visão, há fortes suspeitas que o presidente da Mesa da Convenção do Chega tenha ligações a movimentos neonazis e uma candidata às legislativas e europeias, taróloga, foi diretora de operações numa sociedade que terá lesado dois milhões de pessoas em todo o mundo.
 
Há também nota de um assessor político ex-presidente de uma cooperativa que ficou a dever meio milhão de euros a 50 trabalhadores e de um vice-presidente de uma das mais importantes distritais do país com ligações a políticos brasileiros "muitíssimo pouco recomendáveis".
 
"Isto é o núcleo político mais próximo de André Ventura. Imaginem, se este partido crescer, todas estas pessoas no Parlamento para regenerar a política portuguesa", sublinha Daniel Oliveira. "Se o Chega é assim em pequeno, imaginem como será quando crescer."
 
TSF | Texto: Carolina Rico
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-fina-flor-do-chega.html

A banalização do mal e o adormecimento das consciências

O mal existe em forma de pessoa? - 22/03/2019 - Luciano Melo - Folha
 
A jornalista Hannah Arendt acompanhou, em Israel, o julgamento de Adolfo Eichmann e, quer o carrasco nazi fosse ou não o homem comum que a jornalista viu nele, intuiu a tragédia da “banalidade do mal”, expressão que usou no livro que, a seguir, escreveu, “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, onde diagnostica a origem dos totalitarismos.

A expressão é hoje frequente, porque as consequências são devastadoras e repetitivas, e está longe de provocar a reflexão que devia. A democracia tem descurado a sua defesa, mesmo quando a Constituição a protege sem ambiguidades.

O advento de partidos neofascistas é hoje evidente, na Europa e no Mundo, e Portugal não foge à regra, apesar de a CRP os proibir.

O Tribunal Constitucional errou ao legalizar o ‘Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC)’, onde aparece a sigla referente a ‘Portugal pró-Vida’, permitindo o nome, por serem ilegais as referências confessionais. Fê-lo, aliás, contrariando a sua própria jurisprudência.

Já no caso do Chega é difícil dizer que errou. É fácil apresentar um programa aceitável constitucionalmente e ter uma prática delituosa, incompatível com a CRP, a decência e a salubridade política.

No primeiro caso foi uma decisão infeliz, mas sem riscos; no segundo foi uma decisão legítima, mas perigosa. Ser reacionário não é crime; ser fascista, é. A ideologia fascista, em si, é um mero anacronismo, mas a sua práxis é delituosa.

O aparecimento de um partido que defende abertamente a subversão democrática, que promove o racismo e incita ao crime cai sob a alçada legal, mas sabemos como é frouxa a democracia a defender-se dos adversários. É, aliás, o único regime que os permite.

O partido nazi/fascista, que goza de amplas cumplicidades nos média, nas redes sociais e em nostálgicos da ditadura, vai-se infiltrando nas forças policiais, militares e sindicais, e normaliza o que, ainda há pouco, raros ousavam verbalizar. É o guarda-chuva aberto a marginais, terroristas ideológicos, membros de seitas e outros indivíduos de mau porte.

As semelhanças com o ambiente dos Anos Trinta do século passado causam perplexidade e calafrios. A publicidade concedida ao Chega e a displicência com que é tratado, como se fosse um partido democrático, amedrontam os que sofreram a ditadura.

Falar do mal é dar-lhe publicidade, mas ignorá-lo é deixá-lo à solta a envenenar os que esqueceram a mais longa ditadura europeia e suportaram 13 longos e dolorosos anos de guerra colonial.

A tragédia da pandemia não faz mais do que adensar receios de novos totalitarismos, como aconteceu com a gripe espanhola, há um século.

E os totalitarismos podem ser de natureza antagónica.

 

Ponte Europa / Sorumbático

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/a-banalizacao-do-mal-e-o-adormecimento.html

Após ameaça, Sara Winter xinga Alexandre de Moraes: "filho da puta" e "arrombado" (vídeo)

(Comentário:
Lá como cá, a extrema direita não olha a meios sendo o insulto, a violência e a mentira as suas ferramentas preferidas)
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 247 -A militante bolsonarista Sara Winter publicou um vídeo nesta quarta-feira (27) no qual xinga e ameaça, mais uma vez, o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Sara Winter diz que "a gente sabe onde o Alexandre de Moraes mora" e ofende o ministro o chamando de "filho da puta" e "arrombado".

A militante foi alvo de operação da Polícia Federal nesta quarta-feira no âmbito de um inquérito conduzido pelo STF, e de relatoria de Alexandre de Moraes, que busca investigar disseminação de fake news nas redes sociais.

https://twitter.com/GugaNoblat/status/1265761508967026690?ref_src=twsrc%5Etfw

Catarina Eufémia

Catarina, ceifeira, retirava o trigo do chão. Catarina, ceifada em seu trabalho, é semente, fecundou o chão.

 

 

Em Alentejo, a linda região no centro-sul de Portugal, as paisagens estendem um paraíso de olivais e vinhas, alongam-se em aldeias pitorescas, prados cheios de flores e florestas que respiram beleza.

Mas um fato histórico marca com sangue esse cenário. No dia 19 de maio de 1954 foi brutalmente assassinada a jovem camponesa Catarina Eufémia, de apenas 26 anos.

Naquela década, Portugal vivia sob a ditadura de António Salazar, que perdurou de 1932 a 1968, governando nos moldes do fascismo, apoiado pela doutrina social do catolicismo, exercendo o nacionalismo autoritário, orientado pelo corporativismo de Estado.

Catarina Eufémia era uma trabalhadora agrícola no Baixo Alentejo, assim denominada a região onde a capital é Beja. Ceifeira, como centenas de compatriotas, com três filhos pequenos, ajudava no sustento da casa na colheita de cereais, amendoais, ervas.

A luta por melhores condições de trabalho e salário digno vinha se intensificando desde a década de 40. Greves decorreram. As mulheres cada vez mais participativas nas reivindicações.

Naquele dia 19, uma manhã de quarta-feira, Catarina uniu-se a treze trabalhadoras para conversar com o feitor da propriedade, obter um aumento de apenas dois escudos em suas exaustivas jornadas. A Guarda Nacional Republicana foi acionada, junto com agentes da PIDE, a polícia política salazarista, para reprimir as grevistas. Um tenente de nome Garrajola interpelou o grupo de mulheres perguntando o que elas queriam.

– Quero apenas pão e trabalho – respondeu Catarina, de imediato e destemida.

O militar considerou a resposta insolente e deu-lhe uma bofetada, jogando-a no chão. Catarina levantou-se, e altiva, disse, desafiando-o:

– Já agora mate-me.

O tenente disparou três tiros espedaçando-lhe os ossos.

Há pelo menos três bons livros, “A Morte no Monte – Catarina Eufémia”, de José Miguel Tarquini, 1974, “Anatomia dos Mártires”, de João Tordo, 2013, e “O assassino de Catarina Eufémia”, de Pedro Prostes da Fonseca, 2015, que abordam de forma biográfica, romanceada e até investigativa, o que aconteceu naquele dia, o que antecedeu na vida de Catarina Eufémia e o que sucedeu na história, tornando-a símbolo da luta contra a exploração e a repressão, uma lenda da resistência antifascista pelo Partido Comunista Português, sem ter sido militante.

Conta-se que além de estar com um dos filhos no colo, de oito meses, que se machucou na queda no confronto com o tenente, Catarina estaria grávida. “Não foi uma, foram duas mortes!”, gritaram os trabalhadores diante o corpo no dia do enterro. O relato da autópsia, com os detalhes dos estragos que as balas à queima-roupa fizeram é chocante.

Poetas portugueses como Sophia de Mello Breyner, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel Duarte, José Carlos Ary dos Santos, e tantos outros, dedicaram belos e doloridos poemas em memória de Catarina Eufémia.

Um deles, “Cantar Alentejano”, de António Vicente Campinas, foi musicado por Zeca Afonso em 1971, uma bela canção réquiem gravada no disco “Cantigas de maio”.

“Acalma o furor campina
que o teu pranto não findou
quem viu morrer Catarina
não perdoa a quem matou”

Lembra um trecho do poema.

Na foto acima, de André Paxiuta, o olhar desconhecido de uma transeunte cruza o olhar de Catarina estampado na parede da memória em sua cidade, Baleizão. Os verdejantes ventos de Alentejo 66 anos depois sopram o pão de sua história. Catarina, ceifeira, retirava o trigo do chão. Catarina, ceifada em seu trabalho, é semente, fecundou o chão.

 

por Nirton Venâncio, Cineasta, roteirista, poeta e professor de literatura e cinema   |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Requiem pela democracia

“Os fascistas nem sequer escondem os seus intentos. O Presidente faz um apelo direto e inequívoco à luta armada”

 

 

Mais uma vez, depois de tantas, as elites brasileiras preferiram correr o risco de cair na ditadura (quando não a desejaram desde o início) sempre que as classes populares manifestaram a sua aspiração a ser incluídas na nação, a nação que as elites sempre conceberam como sua propriedade privada. A leitura do transcrito da reunião do conselho de ministros do Brasil no dia 22 de Abril é uma experiência dolorosa, assustadora e revoltante. O ter sido dado conhecimento público desse vídeo e transcrito é um sinal eloquente de que a democracia ainda sobrevive. Ocorreu no seguimento da denúncia do ex-Ministro Sérgio Moro de que o Presidente tentara interferir com as investigações em curso na Polícia Federal do Rio de Janeiro contra um dos seus filhos por suspeita de graves condutas criminosas. Ao ordenar a divulgação do vídeo, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, inscreveu o seu nome no livro de ouro da breve e tormentosa história da democracia brasileira.

Esperemos que o sinal de esperança que ele nos deu seja potenciador do despertar das forças democráticas de esquerda e de direita, o despertar de um sono profundo e inquietante, feito de ignorância histórica e de vaidade míope, um sono que lhes permite sonhar com cálculos eleitorais sem se dar conta da frivolidade de tais intentos quando a própria democracia está por um fio.

Os fascistas nem sequer escondem os seus intentos. O Presidente faz um apelo directo e inequívoco à luta armada. Mais do que um apelo, informa que está disposto a dirigir o armamento de civis à margem das forças armadas. E faz isso ladeado por generais! Está a confessar um crime de responsabilidade e um crime contra a segurança nacional. E nada a acontece. Ao lado do vice-presidente, está sentado impávida e parvamente o então Ministro da Justiça Sérgio Moro, o grande responsável pela destruição da institucionalidade democrática, para o que sempre contou com a cumplicidade das elites e dos seus media. O anúncio do Presidente não só é recebido com sorrisos complacentes de quem o ouve, como vários ministros se esmeram em soltar por conta própria as cloacas do ódio e do preconceito. Para além de outras aleivosias avulsas.

O que se lê é de tal modo torpe que é melhor ler para crer

Presidente

 
É putaria o tempo todo para me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa, oficialmente, e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha — que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final… Eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais”.
 
 
 

Ministro da Educação (extrema-direita)

 
Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF. E é isso que me choca… A gente tá conversando com quem a gente tinha que lutar. A gente não tá sendo duro o bastante contra os privilégios, com o tamanho do Estado e é o … eu realmente tô aqui aberto, como cês sabem disso, levo tiro … odeia … odeio o prutido (sic) comunista. Ele tá querendo transformar a gente numa colônia. Esse país não é … odeio o termo “povos indígenas”, odeio esse termo. Odeio. O “povo cigano”. Só tem um povo nesse país. Quer, quer. Não quer, sai de ré. É povo brasileiro, só tem um povo”.
 
 
 

Ministro do Meio Ambiente (momento maquiavélico)

 
porque tudo que agente faz é pau no judiciário, no dia seguinte. Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspeto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas… Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação.”
 
 
 

Ministra da Mulher da Família e dos Direitos Humanos (evangelismo reacionário)

 
Neste momento de pandemia a gente tá vendo aí a palhaçada do STF trazer o aborto de novo para a pauta, e lá tava a questão de … as mulheres que são vítima do zika vírus vão abortar, e agora vem do coronavírus? Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil? Vão liberar geral? (dirigindo-se ao Ministro da Saúde) O seu ministério, ministro, tá lotado de feminista que tem uma pauta única que é a liberação de aborto… Porque nós recebemos a notícia que haveria contaminação criminosa em Roraima e Amazônia, de propósito, em índios, pra dizimar aldeias e povos inteiro pra colocar nas costas do presidente”.
 
 
 

Ministro da Economia (feira de vaidades)

 
Eu conheço profundamente, no detalhe, não é de ouvir falar. É de ler oito livros sobre cada reconstrução dessa (Alemanha, Chile). Então, eu li Keynes, é … três vezes no original antes de eu chegar a Chicago. Então pra mim não tem música, não tem dogma, não tem blá-blá-blá”.
 
 
 

Nada disto é novo. Sobre o que disse o Presidente, basta referir que, depois das eleições de 1932, foi assim que se expressou Hitler, invocando a necessidade da ditadura para se defender da ditadura…da democracia. A reunião teve lugar no dia em que o Brasil se aproximava de 3000 mortos pelo coronavírus. Este, no entanto, foi um tema ausente. Ou, ainda mais perversamente, pretendeu-se usar a preocupação mediática com a pandemia para fazer avançar a perda de direitos, os casinos, a privatização, o desmatamento da amazónia e a eliminação das restrições ambientais. O sistema democrático brasileiro está em tamanho desequilíbrio que vive um momento de bifurcação, uma qualquer acção ou omissão política tanto o pode resgatar como afundar de vez.


por Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo   |   Texto em português do Brasil

Fonte: Brasil247


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Anticomunismo no mundo: do massacre nos anos 60 à direita global hoje

O massacre em massa de pessoas de esquerda na Indonésia, em 1965, como o golpe de 1964 no Brasil, foram atrocidade apoiada pelos EUA, que moldam o mundo de hoje

 

 

na Jacobin | Tradução de José Carlos Ruy

Os impactos econômicos e sociais da pandemia da Covid-19 abalam até o seu âmago a ordem global pós-Guerra Fria. As grandes desigualdades, no interior das nações e entre elas ficaram evidentes.

Uma das dificuldades da geração moldada pelo fim do comunismo realmente existente e do nacionalismo do 3º Mundo sempre foi acreditar que outro mundo fosse realmente possível. As gerações anteriores não tiveram esse problema; acreditavam que não apenas uma sociedade mais justa era possível, mas também próxima, ao seu alcance.

Não foram apenas as experiências econômicas fracassadas que puseram fim a esses sonhos. A derrota dos movimentos socialistas e reformistas, do Brasil à Indonésia, foi resultado de uma campanha anticomunista global organizada, liderada pelos EUA e apoiada por outras potências ocidentais e pelas classes dominantes locais. E foi terrivelmente violenta.

O livro do jornalista Vincent Bevins, The Jakarta Method: Washington’s Anti-communist Crusade and the Mass Murder Program That Shaped Our World (O Método Jacarta: A Cruzada Anticomunista de Washington e o Programa de Assassinatos em Massa que Moldou Nosso Mundo) é uma história original dessa violência praticada pelos EUA e seus aliados durante a Guerra Fria.

Bevins argumenta que o mundo atual foi construído pela violência anticomunista. O Método Jacarta é mais do que apenas mais um relato de atrocidades da Guerra Fria – é um envolvimento empático com as esperanças e os sonhos de uma geração que viveu aqueles acontecimentos. O jornalista e historiador Benjamin Fogel conversou com Bevins sobre como o anticomunismo criou o planeta desigual em que vivemos hoje.

Jacobin: O que o inspirou a escrever este livro?

Vincent Bevins: Cheguei a Jacarta, na Indonésia, em 2017, para cobrir o Sudeste Asiático para o Washington Post. Primeiro, ficou muito claro para mim que os fantasmas do massacre de 1965 estavam logo abaixo da superfície, não importa para onde eu olhasse. Nunca se falou abertamente dele. E segundo, quando eu contava às pessoas de fora da região sobre isso, elas reagiam quase sempre chocadas e com interesse. Os assassinatos em massa na Indonésia foram talvez a maior “vitória” para o Ocidente em toda a Guerra Fria. Era, de fato, muito mais importante para Washington vencer na Indonésia do que no Vietnã. Os EUA ajudaram no assassinato de cerca de 1 milhão de pessoas inocentes. Terceiro, descobri que havia muitas conexões entre o que aconteceu em países como Brasil, Chile e Guatemala. Então senti que não tinha escolha.

Como, exatamente, o conflito na Indonésia foi mais importante que a Guerra do Vietnã?

A Indonésia é o quarto maior país em população. Dentro da “teoria do dominó”, era de longe o maior dominó, tinha quase três vezes mais habitantes que o Vietnã. No início dos anos 60, todos no establishment da política externa dos EUA reconheciam que era mais importante do que o Vietnã como uma questão de política externa. Sukarno era um líder fundador do movimento do 3º Mundo (a Conferência de Bandung ocorreu na Indonésia, em 1955, para unir os países do 3º Mundo contra o imperialismo). A Guerra do Vietnã dominou a política interna dos EUA por muitos anos, mas, geopoliticamente, não conseguiu nada. A Indonésia de 1965-1966 mudou tudo.

O evento no centro do seu livro é uma campanha de extermínio em massa dirigida contra o Partido Comunista da Indonésia (PKI), na época o maior partido comunista fora da China e da URSS. Como o PKI foi tão bem-sucedido e visto como uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos?

O PKI era o partido comunista mais antigo da Ásia, fundado antes do Partido Comunista da China. Desde o início, colaborava com forças “nacional-burguesas”. Eram revolucionários em duas etapas, que deixavam a transição para o socialismo no futuro, após o pleno desenvolvimento do capitalismo. Foi muito moderado em comparação com o que os falantes de inglês pensam quando ouvem a palavra “comunista”. Em relação à China, o Comintern havia realmente instruído a Mao para colaborar com os nacionalistas, porque Moscou queria que os chineses replicassem o sucesso que os comunistas indonésios tiveram ao trabalhar com grupos muçulmanos. Não funcionou tão bem com Mao, mas o PKI ficou mais ou menos nesse caminho durante sua existência. Depois que Sukarno e as forças revolucionárias expulsaram os holandeses em 1949, o PKI se tornou parte da nova democracia multipartidária do país independente.

O presidente Sukarno, herói da independência do país, não era comunista, era um anti-imperialista de esquerda, que governava em aliança com forças diferentes. Os comunistas indonésios não eram armados, nem sequer previam a possibilidade da luta armada. As próprias autoridades dos EUA notaram na época que o PKI era uma organização muito administrada – tinham programas culturais muito populares e organizações camponesas e uma enorme base feminista, e não sofriam da corrupção desenfreada como todo mundo. Mas seu sucesso eleitoral crescente não agradou a Washington, que tentou detê-los de duas formas – e ambas fracassaram. Primeiro, começaram a injetar dinheiro num partido muçulmano mais conservador. Então, em 1958, pilotos da CIA bombardearam a Indonésia, matando civis, na tentativa de destruir o país. Naquele ano, a inteligência britânica, o MI6, observou que o PKI ficaria em primeiro lugar nas eleições. Mas, apesar dos protestos dos comunistas, não houve mais eleições, e o PKI continuou apoiando Sukarno, pois, no outro extremo do espectro político, havia militares treinados pelos EUA aguardando nos bastidores.

Parte da história que você conta é sobre como uma geração sonhava com um mundo melhor. Você pode falar um pouco sobre o que inspirou essa geração e o significado desses sonhos hoje?

Dediquei bastante tempo e esforço para tornar essa história real, com seres humanos reais e os altos e baixos em suas vidas reais, em vez de fazer apenas análise ou contagem de corpos. As pessoas que acabei conhecendo dirigiram o livro para mim e o mudaram totalmente. E uma coisa que foi realmente inesperada foi o mundo que eles abriram para mim, apenas lembrando como pensavam que seria o futuro. Nasci na década de 1980 e, para minha geração, tudo parece tão óbvio que o mundo seria assim, com um capitalismo amigável em todos os lugares, exceto em alguns países ricos, e pessoas brancas capazes de voar para qualquer país. Para países de pele escura, pobres, onde, essencialmente se compram e vendem pessoas, com o dinheiro que recebemos apenas por ter nascido no 1º Mundo.

Para minha geração, parecia claro que o “comunismo” perderia e seria varrido da face da terra, e você teria que maximizar seu valor numa economia que sabe que é uma besteira. Que o país mais poderoso da Terra estaria sempre conduzindo guerras com vários países ao mesmo tempo que são inescrutáveis ​​para a maioria das pessoas. Tudo isso parece ter que acontecer. E apenas falando com aquelas pessoas, passando meses ganhando sua confiança e entendendo como viram o mundo se desenrolar nas décadas de 1950 e 1960, ficou muito claro que isso não acontecia.

O que aconteceu na Indonésia em 1965 e o que levou a esses eventos? Você também poderia nos dar uma ideia de quais atores dos EUA estavam envolvidos e por quais razões?

A versão curta é que os militares apoiados pelos EUA usaram uma rebelião como pretexto para lançar uma grotesca campanha de propaganda anticomunista, prender e assassinar cerca de 1 milhão de esquerdistas ou acusados ​​de esquerdismo e pôr outro milhão em campos de concentração. Mas a versão longa é: primeiro, John F. Kennedy foi assassinado. Isso mudou totalmente a abordagem dos EUA em relação à Indonésia, e 1965 pode ser a consequência mais importante da morte de JFK. Seu sucessor, Lyndon Johnson, teve de responder às travessuras anti-imperialistas de Sukarno, em especial um confronto com a Grã-Bretanha pela criação da Malásia. Johnson mudou o embaixador dos EUA na Indonésia. A CIA e o MI6 intensificaram suas atividades clandestinas e de propaganda, e muito disso é secreto até hoje. Liguei para a CIA e perguntei o que eles fizeram e por que isso ainda está classificado. Adivinhem: eles não me responderam.

O que sabemos é que, em segredo, as autoridades ocidentais disseram repetidamente que a melhor coisa que poderia acontecer seria um “golpe comunista abortado” que poderia ser usado como justificativa para esmagar o PKI. Muito misteriosamente, algo exatamente assim aconteceu. As várias teorias sobre o que realmente foi a revolta poderiam preencher um emocionante podcast de 50 partes, mas basta dizer que houve na Indonésia uma rebelião de oficiais do exército de baixo escalão alegando que um grupo de generais planejava um golpe de direita. Seis desses generais foram mortos. Logo após isso, o general reacionário Suharto assumiu o controle do país, fechou toda a mídia, exceto a dele, e os militares começaram a supervisionar assassinatos em massa. Foi dito aos cidadãos que matassem ou fossem mortos.

Os EUA deram apoio material crítico, incentivaram os militares a matar mais pessoas e deram listas com nomes de pessoas a serem mortas. Os esquerdistas regulares não tinham ideia de que isso estava por vir. Muitos que conheci não tinham nenhuma ideia prévia de que ser “comunista” fosse uma coisa ruim. O massacre sem impedimentos terminou no início de 1966, e as empresas dos EUA se estabeleceram no país logo depois.

O outro grande evento do seu livro é o golpe militar no Brasil em 1964, que levou a 21 anos de regime militar. Qual foi o significado do golpe e como ele se relaciona com os eventos de 1965 na Indonésia?

O golpe brasileiro aconteceu antes, é claro. E, para mim, a história de propaganda divulgada por Suharto em 1965 parece estranhamente familiar à lenda anticomunista que motivou as forças armadas brasileiras em 1964. Mas, de maneira mais ampla, o que se tem aqui são dois países que passam pelo mesmo processo ao mesmo tempo e produzem o mesmo tipo de sociedade. Ambos os países têm golpes militares apoiados pelos EUA, que criam estruturas sociais capitalistas autoritárias e anticomunistas, que na maioria das vezes continuam em vigor até hoje. As forças armadas dos dois países foram treinadas na mesma base nos EUA e tiveram muitas oportunidades de aprender umas com as outras, e certamente estudavam com os mesmos professores estadunidenses.

Um personagem importante do livro, um homem incrível que tive a sorte de conhecer, me contou sobre a maneira como esses homens viviam no Kansas (EUA) nos anos 50. Os golpes foram importantes vitórias para a direita global – afinal, são países enormes – e os regimes resultantes embarcaram em uma espécie de “mini-imperialismo” anticomunista em suas respectivas regiões. Então, no início dos anos 70, o Brasil está na fase mais brutal de sua ditadura e ajudou as forças armadas chilenas a preparar o terreno para seu próprio golpe, de 1973. Atores de direita nos dois países buscaram inspiração na Indonésia, e o nascimento do meme terror de “Jacarta” que, no livro, localizo no mundo inteiro.

Meme do terror?

Certo, o uso amplo de “Jacarta” em todo o mundo para significar o assassinato em massa de esquerdistas. Pintado nas paredes, enviado em cartões postais, usado para nomear operações terroristas secretas, etc.

Como essas intervenções diferiram das intervenções anteriores da Guerra Fria, como as realizadas no Irã em 1953 e na Guatemala em 1954?

Faço uma espécie de distinção entre a primeira fase das intervenções da Guerra Fria no 3º Mundo – Irã em 1953 e Guatemala em 1954 são os melhores exemplos. Essas intervenções foram mais silenciosas e, em última análise, mais bem-sucedidas da década de 1960. No Irã, a CIA contratava homens fortes e artistas de circo para realizar protestos falsos. Na Guatemala, havia aviões lançando bombas sobre a capital e o governo negociando sua rendição diretamente com o embaixador dos EUA. Era óbvio que Washington estava orquestrando essas coisas, mesmo que a imprensa dos EUA não tenha dito isso.

Com a Indonésia e o Brasil, foi diferente. Na Indonésia, em 1958, a CIA tentou reproduzir o sucesso do manual de 1954 da Guatemala. Não deu certo. Fizeram pilotos estadunidenses lançar bombas em ilhas tropicais e matando civis, e foram pegos. Mudaram, então, para uma estratégia diferente, de se alinhar profundamente com um exército fortalecido – algo semelhante ao que vinha acontecendo entre o Brasil e os EUA desde a 2ª Guerra Mundial. Então, nos golpes em 1964 e 1965, no Brasil e na Indonésia, havia atores locais liderando em grande parte, mesmo que as autoridades dos EUA estivessem envolvidas nos bastidores, constantemente informadas e dando sua aprovação e conselho, deixando claro para os brasileiros e indonésios o que eles deviam e não deviam fazer.

Para o cidadão médio na Indonésia e no Brasil, parecia que era um segmento de sua própria elite que havia tomado o poder. Até certo ponto, isso era verdade. E acho que não é coincidência que os regimes estabelecidos no Brasil e na Indonésia tenham tido muito mais sucesso em deixar um legado estável e duradouro do que os governos criados no Irã em 1953 e na Guatemala em 1954.

Então, qual é exatamente o método Jacarta?

O método Jacarta é reunir e matar um grande número de esquerdistas desarmados, a serviço da criação de um tipo específico de ordem social. Ao eliminar essas pessoas, essa oposição potencial, é aberto o caminho para o capitalismo autoritário e para a criação de um ator geopolítico que se encaixa num sistema crescente liderado pelos EUA. A Indonésia 1965 foi a época o mais mortal e consequente em que esse “método” foi usado, embora não tenha sido o primeiro. Devido à sua fama e importância, os países da América Latina começaram a usar o método “Jacarta” para significar esse tipo de programa de extermínio. A razão pela qual fizeram isso, e a razão pela qual este é um momento tão chocante na história do século 20, é porque o método Jacarta funcionou. E funcionou tão bem porque foi a postura do poder proeminente do mundo, os EUA. A direita global viu o que aconteceu na Indonésia e viu que Suharto foi rapidamente aceito na constelação de respeitados aliados dos EUA.

A esquerda global também viu e reagiu de maneira que teriam consequências duradouras para os movimentos socialistas. Mas “Jacarta” foi implantado efetivamente nas Américas do Sul e Central, bem como em partes da Ásia (embora não usassem esse nome). Esses regimes acabaram construindo o mundo em que estamos hoje. A lista é grande: Chile, Brasil, Guatemala e Argentina, para citar alguns. São os principais componentes de um novo sistema globalizado, sobretudo no “mundo em desenvolvimento” – ou seja, na grande maioria do planeta. Em grande parte, vivemos num mundo criado por massacres anticomunistas.

Acho que o mais notável nesses eventos é que, com algumas exceções, os casos que ancoram seu livro – Brasil e Indonésia, ao lado do exemplo mais recente do Chile em 1973 – eram projetos reformistas e comunistas que buscavam promover mudanças democraticamente, sem meios revolucionários. Você acha que há lições aqui para a esquerda de hoje?

De modo geral, e especialmente no caso do Partido Comunista da Indonésia, foram os movimentos gradualistas e não violentos que foram mortos. A explicação simples é que não teria sido tão fácil matá-los se fossem armados. Mesmo nos países onde houve violentos movimentos de guerrilha (como na América Central), a maior parte dos mortos geralmente não era de combatentes endurecidos nos combates, mas os camponeses pegos de surpresa quando os esquadrões da morte militares chegavam. Passei algum tempo numa vila guatemalteca onde isso ocorreu, e é impossível comunicar as profundezas da depravação aqui sem mencionar a injustiça ardente da vida que restou após o fim da violência. Sinto-me culpado por dizer isso, mas esse foi um livro emocionalmente difícil de escrever – o que realmente me atrapalhou, me deixou totalmente desequilibrado e me fez questionar muitas coisas.

Embora me certificasse de não tornar o livro real violento ou horrível, estava nadando muito fundo em algumas coisas escuras, e era difícil. Talvez por esse motivo, eu não seja a melhor pessoa para extrair as lições. Definitivamente, há lições a tirar – só acho que não são 100% claras. Exigem uma consideração cuidadosa. Os apoiadores entusiasmados da campanha de Bernie Sanders, por exemplo, podem encontrar alguma ressonância com o momento atual. Mais diretamente, os leitores que vivem no “mundo em desenvolvimento” podem achar que isso lança alguma luz sobre a situação contemporânea. E a história certamente diz muito sobre a natureza da hegemonia dos EUA. O que realmente gostaria é que outras pessoas estudem o livro inteiro e digam quais são as lições.

Você argumenta no livro que a violência anticomunista destruiu o potencial de experimentos alternativos em desenvolvimento para o chamado 3º Mundo, levando à atual era de desigualdade global. Você pode expandir o que isso significava, por exemplo, em Bandung ou na Nova Ordem Econômica Internacional, no sentido de que, mais do que erros econômicos, foi o sangue que pôs fim a essas experiências?

Uma das coisas mais emocionantes, talvez mais do que a violência, foi sentar-me com esses idosos e conversar longamente sobre como entendiam o mundo no início dos anos 1960. O 3º Mundo – usado no sentido original totalmente otimista e triunfante – havia acabado de alcançar a independência do imperialismo. Os povos das nações colonizadas estavam se reunindo para ocupar seu lugar no cenário mundial. É claro que mudariam as regras da ordem global. É claro que alcançariam o Ocidente. É claro que avançariam em direção ao socialismo.

Não foram apenas os militantes de esquerda que acreditavam nisso – na Indonésia, essa era basicamente a ideologia nacional e, em toda a Ásia, África e América Latina, parecia óbvio. Você se livra do colonialismo e agora é igual aos países brancos. Podia ver seus olhos se iluminando quando lembravam esse sonho. Isso não aconteceu, é claro. Tento demonstrar neste livro que uma parte significativa da razão disso, um elemento constituinte da “globalização”, era um novo tipo de violência. E se você olhar para as pessoas que foram mortas simplesmente por suas crenças naquele futuro progressista – a feminista Gerakan Wanita na Indonésia, por exemplo –, você descobre que representavam coisas que quase todo bom liberal no mundo de língua inglesa agora defende.

Um de seus argumentos é que o anticomunismo é uma ideologia fundadora, ou mesmo religião, em países como Indonésia e Brasil. O que isso significa e como continua a moldar a política contemporânea? Acha que isso também é verdade nos EUA?

Bem, é incontroverso que o anticomunismo tenha sido a ideologia fundamental para os regimes criados em 1964 e 1965. Mas o que acho realmente interessante é que ninguém presta muita atenção ao que isso realmente significa. Vivemos em um mundo onde é tão óbvio que os anticomunistas venceram que não vemos como isso afetou nossa trajetória. E o que isso significou para as ditaduras anticomunistas do século 20 – que qualquer tipo de crítica à ordem social, qualquer pressão de baixo para cima, qualquer troca entre capital e trabalho, o tipo de coisa que todo mundo reconhece como essencial para o capitalismo funcionar – pode ser descartado como “comunismo” e deixado de lado. É o que gera a forma profundamente corrupta de capitalismo que se vê agora basicamente em toda parte.

No Brasil e na Indonésia, o legado anticomunista é especialmente óbvio. Na Indonésia, ainda é ilegal, até hoje, defender o “comunismo”. Há histórias absurdas: prisão de turistas com camiseta de um país comunista, ou, muito mais seriamente, meus amigos e colega de quarto sendo ameaçados e aterrorizados a qualquer momento quando se reúnem para conversar sobre a história de seus países. No Brasil, quando comecei a trabalhar no livro, em 2017, disse que o fantasma do violento anticomunismo nunca havia sido exorcizado e poderia voltar a aterrorizar o País. Agora, com Jair Bolsonaro presidente, não tenho prazer em me ver muito mais certo do que jamais esperava. Coincidentemente, seu filho, deputado Eduardo Bolsonaro, quer tornar ilegal o “comunismo” no Brasil e citou a lei Indonésia como exemplo.

Esses eventos foram chamados, de acordo com os vencedores no Brasil, como uma revolução em defesa da democracia contra o comunismo. Nos dois casos, em graus variados, prevalece um tipo de amnésia em massa. Como acha que esse revisionismo molda a política contemporânea?

É importante enfatizar duas coisas. Por um lado, não havia ameaça comunista no Brasil, embora houvesse uma ameaça real à ordem social que as elites, os militares e os EUA queriam manter. Essa ordem era muito frágil e precisava empregar a violência de cima para mantê-la. O presidente João Goulart foi, no máximo, um reformador liberal. O Partido Comunista era pequeno e Moscou não se interessa em provocar Washington fomentando a revolução na América do Sul. Mas, se Goulart pudesse concorrer novamente, provavelmente seria reeleito. Se tivesse implantado algumas de suas reformas básicas – permitindo que todos votassem, reforma agrária básica, alfabetização em massa –, isso teria mudado o País, inclusive para as elites.

O Brasil é uma colônia violenta de colonos, amplamente definida pelo terror que a elite tem das rebeliões de escravos ou da revolução de baixo – e mais de uma vez a classe dominante viu a ameaça vermelha e atacou primeiro. O golpe de 64 interrompeu a evolução social e congelou a ordem social de meados do século, em grande parte até hoje. Claro, todo mundo no Brasil luta por definir e redefinir a história, e Bolsonaro foi notavelmente vitorioso nos últimos dois a três anos. Hoje, vemos muito uma versão mais virulentamente anticomunista e distorcida do que a apresentada pelos generais em 1968.

Em sua opinião, qual é o legado do anticomunismo na política dos EUA?

Há duas coisas. Por um lado, não construímos estruturas socialdemocratas como a Europa Ocidental construiu no pós-guerra, e um pouco disso – nem tudo – pode ser atribuído a esse impulso anticomunista. Não tenho certeza se foi isso que nos impediu de expandir nosso Estado de bem-estar social nos últimos anos – esse tipo de expansão não aconteceu basicamente em nenhum lugar do mundo desenvolvido desde a queda do Muro de Berlim e a era histórica neoliberal do mundo. Mas acho que não é coincidência que o único país rico sem medicina socializada também tenha sido a “fortaleza global do anticomunismo”, como afirmou o historiador brasileiro Rodrigo Patto Sá Motta. E segundo, essa memória ainda está obviamente lá.

O Russiagate foi provavelmente um bom exemplo disso. Não segui as coisas de perto, mas acho que os historiadores provavelmente vão olhar e concluir: “Bem, parece que os liberais tiveram um tipo de surto, negaram que seus compatriotas elegessem Donald Trump e deslizaram em uma antiga Guerra Fria porque era mais fácil do que olhar para si mesmos”, deixando de lado, é claro, todas as maneiras pelas quais Vladimir Putin era realmente um ator ruim em 2016. Não foi exatamente isso que você pediu, mas acho que o verdadeiro legado de nossa “cruzada anticomunista”, como disse, não é tão doméstico quanto definiu nossa posição geopolítica, nossa relação com o resto do mundo. Odd Arne Westad está certo ao dizer que grande parte do sistema global foi gerada nos conflitos da “Guerra Fria”, e este é provavelmente o sistema global mais extenso e robusto da história planetária.


Texto em português do Brasil, com tradução de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Fascismo escancarado, cantemos a Bella Ciao!

“Ditadores armam o povo até o momento em que conseguem impor sua ditadura. Depois, desarmam, já não precisam mais do povo, já terão controle total sobre o poder armado do Estado. Todos os ditadores da História, especialmente os líderes do nazismo e do fascismo, seguiram este caminho. Bolsonaro escancarou a questão do fascismo”

 

 

O que houve de mais horripilante naquela reunião ministerial tenebrosa do dia 22 foi a explicitação da marcha de Bolsonaro para a fascistização do país. De resto, ela acabou com a esperança de que ele pudesse ser afastado pelo STF, com licença da Câmara, por crime comum. Ninguém agora poderá dizer que desconhecia o plano fascista, apresentado sem meias palavras por Bolsonaro.

– É escancarar a questão do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado! Que povo armado jamais será escravizado. E que cada um faça, exerça o teu papel. Se exponha.

E em outros dois trechos:

– O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui!

 

– Eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não da pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais.

Moro, já com a cabeça na bandeja, assinou a portaria no dia seguinte. É aquela que aumenta o limite para compra de munição, para quem tem armas, de 200 unidades por ano para 550 por mês. Em outras palavras, de 200 para 6.600 unidades por ano. E que sabemos nós de como anda a compra de munição país afora? E que sabemos nós sobre como anda este movimento de municiar-se, por parte dos que acreditam na possível guerra civil mencionada na nota dos militares da reserva que se solidarizaram com a nota golpista do general Heleno? Não sabemos nada mas algo sinistro pode estar acontecendo nas sombras.

Ditadores armam o povo até o momento em que conseguem impor sua ditadura. Depois, desarmam, já não precisam mais do povo, já terão controle total sobre o poder armado do Estado. Todos os ditadores da História, especialmente os líderes do nazismo e do fascismo, seguiram este caminho. Bolsonaro escancarou a questão do fascismo.

Quem pode fazer algo contra isso? O STF, que já está na linha de tiro, que já se tornou o alvo claro e brilhante das milícias do ódio e do próprio governo?

Que fará o STF contra a pregação de Abraham Weintraub: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”. Esta semana teremos agentes públicos do campo democrático provocando o STF, mas que resposta poderá ser dada? Em verdade, o Brasil é, neste momento, um país sequestrado por Bolsonaro, além de que caminha para ser o país mais dominado pelo coronavírus.

Na marcha do fascismo, o ministro Paulo Guedes também escancarou que está discutindo com o ministro da defesa um outro plano macabro, o de aliciar jovens para serem aprendizes nas forças armadas, com bolsas de R$ 200,00. Jovens que podem ser manipulados e armados para o fascismo.

Disse Guedes:

 – Eu já tenho conversado com o ministro da Defesa, já conversamos algumas vezes. Quantos? Quantos? Duzentos mil, trezentos mil? Quantos jovens aprendizes nós podemos absorver nos quartéis brasileiros? Um milhão? Um milhão a duzentos reais, que é o bolsa família, trezentos reais, pro cara ir de manhã, faz calistenia, faz é… fa… né? Aprende … civil. .. organização social e como é que é o? OSPB, né? … Faz ginástica, canta o hino, bate continência. De tarde, aprende, aprende a ser um cidadão, pô! Aprende a ser um cidadão. Disciplina, usar o … usar o tempo construtivamente, pô! É … voluntário pra fazer estrada, pra fazer isso, fazer aquilo. Sabe quanto custa isso? É duzentos reais por mês, um milhão de cá, duzentos milhões, pô! Joga dez meses aí, dois bi. Isso é nada! Então, nós vamos pegar na reconstrução, nós vamos pegar um bilhão, dois bilhões e contratar um milhão de jovens aqui. A Alemanha fez isso na reconstrução.

Este projeto, que nunca foi anunciado mas pelo visto está em gestação, é outro perigo, pode fazer parte do plano fascista que está em marcha.

Eu relutei muito em falar em fascismo. Achava que era uma certa forçação de barra, por mais que o governo e Bolsonaro fossem autoritários, retrógrados, obscurantistas, negacionistas, entreguistas e tudo o mais. Mas eles mesmos foram escancarando a natureza do regime no poder, e agora é impossível não entender isso.

E o pior, não estamos respondendo. Não temos uma resistência de fato. Nem as panelas batem mais nas varandas. A pandemia nos imobilizou. Por ora, só nos resta cantar a Bella Ciao. Ainda que a canção antifascista não os possa deter, ela pode nos inspirar, ela pode nos lembrar que os italianos da resistência também venceram. De olhos bem abertos, é como devemos estar.

Há muitas gravações de Bella Ciao mas eu gosto particularmente desta, com Yves Montand.

 

Texto original em português do Brasil



 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/fascismo-escancarado-cantemos-a-bella-ciao/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=fascismo-escancarado-cantemos-a-bella-ciao

A gripe espanhola ..e o nazismo: tomem nota

Hospital militar de emergencia durante la epidemia de Gripe Española, en Camp Funston (Kansas, EEUU) FOTO: Museo Nacional de Salud y Medicina
 
Os estudos científicos  que mostraram a alta correlação entre a deterioração da vida económica e a ascensão da extrema direita são muito abundantes.
Mais especificamente, alguns fatos estão demonstrados e devem ser levados muito a sério por nossos políticos e líderes.
Antes de tudo, sabemos que a ascensão da extrema direita não ocorre como consequência de todos os tipos de crise, mas das financeiras, e quando o período de recessão pós-crise é duradouro.
Também sabemos que políticas de austeridade, cortes nos gastos públicos que levam a reduzir benefícios sociais  e  a deterioração dos serviços públicos estão altamente correlacionados com a ascensão da extrema direita.Algo que foi perfeitamente demonstrado no caso alemão: depois das políticas de grandes cortes realizadas entre 1930 e 1932, o partido nazista multiplicou seu voto, passando de pouco mais de 2% em 1928 para quase 45% em 1933.
 
Hoje , sabemos um pouco mais sobre a ascensão do nazismo na Alemanha, desde que uma economista do Federal Reserve de Nova York, Kristian Blickle, publicou um estudo, ainda na versão preliminar, que mostra a grande influência que a pandemia  da gripe espanhola teve sobre o sucesso subsequente de Adolf Hitler (pode ser lidoaqui ).
 
Blickle analisou as mortes causadas por essa pandemia nas diferentes regiões e cidades alemãs e pôde verificar que, onde a mortalidade era mais alta, havia maior apoio eleitoral aos partidos de extrema direita e, em particular, aos nazistas.
Sua análise mostra que as cidades e regiões onde houve mais mortes devido à pandemia mais tarde registraram mais desemprego e cortes nos gastos públicos.Esses dois fatores estão claramente relacionados à ascensão da extrema direita, segundo a análise de Blickle, embora também mostre que nem o nível mais alto de desemprego nem as políticas de austeridade foram as únicas maneiras pelas quais a pandemia acabou produzindo um aumento no voto. para o partido nazista.De fato, ele ressalta que outras doenças, como a tuberculose, que produziram mais ou menos as mesmas mortes causadas pela gripe espanhola, não tiveram o mesmo efeito nas eleições.
 
Na sua opinião, o que aconteceu foi que essa pandemia concentrou principalmente seus efeitos sobre a juventude, primeiro em termos de mortalidade e, posteriormente, como conseqüência de cortes de gastos e mudanças demográficas, em mentalidade e atitudes sociais.Blickle ressalta, por exemplo, que os cortes afetaram os serviços de que a população mais jovem desfrutava e que a origem estrangeira do vírus fomentou ressentimentos em relação aos estrangeiros vistos como responsáveis ​​pela pandemia.De fato, mostra que a porcentagem de votos para extremistas de direita aumentou particularmente em regiões que historicamente culpam as minorias pelas pragas medievais.
 
De qualquer forma, a ascensão do nazismo certamente não pode ser explicada apenas por esse tipo de razões econômicas.Também ficou provado que a enorme polarização social e política daquele período teve uma influência decisiva.Leon Trotski retratou muito graficamente o que estava acontecendo naquela Alemanha onde o terror germinava.Ele disse que era como uma pirâmide no topo da qual havia uma bola que a extrema direita, por um lado, tentava virar para a esquerda para quebrar as costas do movimento trabalhista, enquanto o partido comunista, por outro lado, empurrava para o outro lado, para quebrá-lo ao capitalismo.
 
Depois de 2008, sofremos uma recessão longa e muito dura, por alguns anos que assistiram à extrema direita crescer em quase todos os países do mundo, a ponto de muitos serem governados por líderes extremistas como Trump, Orban ou Bolsonaro.ORoyal United Service Institute , um think tank inglês bastante conservador, acaba de lançar um pequeno relatório afirmando que o nível de ameaça do extremismo de direita amplificado pela crise global é alto (aqui )Por um lado, porque está disseminando a idéia de que “a reconstrução de uma ordem mundial racialmente pura exige abanar o caos através de ataques maciços e pegar em armas para desencadear uma guerra racial”;e, por outro, devido ao risco de que um colapso econômico causado pelas medidas necessárias para combater a pandemia produza agitação civil maciça que desestabiliza governos e forças de segurança.
 
O Covid-19 não é uma pandemia exatamente como a causada pela gripe espanhola, mas devemos ter cuidado porque sua história e a situação que está sendo gerada têm quase todos os ingredientes que facilitaram a ascensão ao poder dos nazistas: deterioração econômica é evidente, os cortes que já sofremos e outros novos estão chegando, o desprezo pela política democrática como instrumento de gestão dos assuntos públicos é extraordinário, a polarização opressiva e a tremenda xenofobia.O que você pode esperar quando nada mais e nada menos que o porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos da primeira potência mundial, Michael Caputo, diz que o Covid-19 é produzido porque “aqui ).
 
Na minha opinião, a conclusão dada a esses estudos históricos e a situação em que nos encontramos é bastante clara.É preciso ser muito pragmático, porque o melhor tende a ser o inimigo do bem: você deve evitar, antes de mais nada, que a economia, a situação das empresas e as condições de vida das pessoas se deteriorem.Além disso, devemos lutar contra a polarização política e tentar evitá-la por todos os meios.Insistir hoje em uma estratégia de confronto entre direita e esquerda é a maneira mais rápida e segura de provocar um choque social com terríveis conseqüências de que as classes trabalhadoras e os menos favorecidos sofrerão mais.É essencial projetar um projeto político com uma maioria muito maior, baseado na defesa dos direitos humanos, democracia, transparência,liberdade, solidariedade e justiça;um projeto que apenas enfrenta aqueles que estão entrincheirados no abrigo de seus privilégios e seu imenso egoísmo, e não metade da sociedade.
 
Juan Torres López
 
 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2WX1eRb

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/24/tomen-nota-a-gripe-espanhola-e-o-nazismo/

O declínio económico e a ameaça do fascismo

Rob Urie *

O mito de que os nazis eram uma revolta da classe trabalhadora organizada a partir de baixo é desmentido pelos laços estreitos da liderança nazi com os principais industriais na Alemanha e nos EUA  e, até, com a realeza britânica. Que os relatos ideológicos deixem como nota de rodapé, ou excluam inteiramente, o papel da Grande Depressão na criação das condições materiais em que a lógica do fascismo se firmou, sugere que eles são motivados por ignorância voluntária e/ou interesses económicos.

 

Photograph Source: srslyguys – CC BY 2.0

Com o recente aumento de 26 milhões de pessoas nas listas do desemprego nos Estados Unidos e mais milhões na economia informal postos à deriva pelas medidas tomadas para combater a pandemia de coronavírus, certamente haverá uma resposta política. Enquanto já estão a ser apresentadas comparações económicas superficiais com a Grande Depressão, os EUA já tiveram mais de três anos de comparações políticas com a ascensão do fascismo europeu sem as condições económicas da Grande Depressão. Ambas estão erradas pelos motivos especificados abaixo.

As comparações económicas ignoram a resposta do governo na forma de subsídios de desemprego, aumentados e prolongados para os que têm sorte suficiente para serem contados como oficialmente desempregados. A alto nível, como milhões de pessoas já sofreram as agruras económicas extraordinárias, ganhou-se algum tempo antes que uma catástrofe absoluta proporcional à da Grande Depressão fosse traçada como nosso destino. Embora sirva de pouco consolo para os que sofrem, o problema sistémico, caso a pandemia abrande, é que as já ténues relações económicas levarão algum tempo para serem reconstruídas.

Muitas dessas ténues relações já se romperam, pelo que a miséria económica generalizada e profunda persistirá. Uma Garantia Federal de Emprego poderia, em teoria, proporcionar um emprego útil com um salário digno àqueles que não são contratados/recontratados, devido a problemas tais como empresas permanentemente fechadas pela pandemia. Como demonstram os resgates das grandes empresas, o governo federal tem a capacidade de gastar limitada apenas pelos recursos reais. No entanto, quatro décadas de “reformas” neoliberais tornaram improváveis mobilizações ad hoc no interesse público.

O capitalismo de Estado (corporativismo) produziu uma divisão do trabalho entre a classe política, com os republicanos a servir indústrias sujas, enquanto os democratas servem Wall Street. As despesas sociais podem ser financiadas publicamente ou privadamente. Wall Street lucra com o financiamento privado. As políticas de austeridade dos democratas são impostas para aumentar esse financiamento privado. Atualmente, os republicanos comandam os pedidos de resgate dos seus patronos, enquanto os democratas fingem desconhecer como funcionam as finanças públicas, para perguntar como serão pagas as despesas no interesse público.

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Adolf Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha em 1933, mesmo no auge da Grande Depressão, numa plataforma de renovação económica ligada ao bode expiatório racial. A explicação americana para o seu surgimento provém do bode expiatório racial, sem mencionar a contribuição americana para isso, as circunstâncias materiais da Grande Depressão ou a plataforma nazi de renovação económica. Fonte: voxeu.org.

Isto é, aproximadamente, análogo ao papel que os liberais e os conservadores desempenharam na Alemanha de Weimar, antes da ascensão política dos nazis. A diferença agora é que o Ocidente ainda não está numa nova Grande Depressão. A questão mais importante é saber se esta pertinente analogia tem tido impacto nas analogias banais e simplistas que estão a ser feitas. No entanto, seria tolice, dadas as circunstâncias, não pensar na questão e agir, se necessário. A “visão americana” de que a ideologia impulsiona a história foi desenvolvida após a Segunda Guerra Mundial para explicar a ascensão do fascismo europeu, sem abordar o papel do capitalismo na criação da Grande Depressão.

Para entender a improbabilidade de pessoas bem alimentadas, bem alojadas e com um bom emprego, motivadas pela ideologia, se juntarem a movimentos fascistas em número significativo, pode dizer-se que tem poucos antecedentes históricos. O caso mais conhecido nos EUA foi o “Complô dos Negócios” de 1933, liderado por financeiros de Wall Street. Novamente, o pano de fundo foi a Grande Depressão  e esses financeiros tentaram reverter as reformas do New Deal, alegando que colidiam com a sua liberdade. A conspiração foi denunciada pelo autoproclamado “gangster a favor do capitalismo”, general dos EUA Smedley Butler, que os golpistas tinham tentado aliciar. A noção de ideologia como propulsora da história – nas atuais circunstâncias, o fascismo europeu –, foi desenvolvida por membros da Sociedade Mont Pelerin, onde o neoliberalismo foi fundado como capitalismo “pragmático”.

O membro fundador e antigo filósofo Karl Popper emprestou uma pátina de esquerda à economia da direita radical – que ficou conhecida como a “Escola de Chicago”, ignorando ou deturpando os estudos e os trabalhos de Marx e Heidegger, para criar uma visão americana. O problema filosófico do pragmatismo é que ele parte de premissas não documentadas. O que é pragmático para os ricos – digamos, reduzir salários –, pode ser o oposto para os trabalhadores.

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De acordo com os dados do SPLC (Southern Poverty Law Center [Centro de Direito da Pobreza do Sul], o número de grupos racistas brancos nos EUA atingiu o pico, na história recente, em 2008, no início da Grande Recessão. Apesar da conversa tóxica e racista do presidente dos EUA, Donald Trump, este número tem diminuído ao longo de seu mandato na Casa Branca. No ano passado, 2019, registou-se o menor número de grupos racistas brancos desde 2008. Embora qualquer número maior que zero seja demais, as acusações de que Trump está a liderar um ressurgimento fascista não são confirmadas por esses dados. Fonte: SPLC.

Através dessa visão americana, um líder moral e politicamente corrupto usa a coerção psicológica para levar seguidores fracos de vontade ao abismo fascista do massacre racial e militarizado. O mito de que os nazis eram uma revolta da classe trabalhadora organizada a partir de baixo é desmentido pelos laços estreitos da liderança nazi com os principais industriais na Alemanha e nos EUA  e, até, com a realeza britânica. Que os relatos ideológicos deixem como nota de rodapé, ou excluam inteiramente, o papel da Grande Depressão na criação das condições materiais em que a lógica do fascismo se firmou, sugere que eles são motivados por ignorância voluntária e/ou interesses económicos.

A filosofia “pragmática” da ciência de Karl Popper salvou a visão tecnocrática americana a seu respeito, como um método divorciado da ideologia. Enquanto os poucos que passaram mais de alguns minutos a pensar nisso apoiam essa visão – a premissa ontológica “estrutural” do dualismo sujeito-objeto é totalmente ideológica, ela teve a sua concretização depois da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA trouxeram dezenas de cientistas nazis para os EUA, para trabalhar na indústria americana, no que foi apelidado como “Operação Paperclip”. O facto de esses nazis terem conseguido fazer-se valer para contribuir para os genocídios americanos na Coreia, Vietname, Laos, Camboja e assim por diante, é comovente do ponto de vista de uma encarnação do mal.

Após a Segunda Guerra Mundial, este novo pragmatismo foi usado para separar a era americana moderna de três séculos de escravidão e genocídio contra a população indígena, que ainda se verificava quando os nazis chegaram ao poder, para o programa de eugenia americano, que ainda se encontra nas leis estaduais nos EUA em 2020, e para as tendências genocidas da era imperial. Se a ideologia motiva a história, que ideologia motivou esta história? Antes de responder, o leitor pode querer interrogar-se se concorda com os nazis quanto a saber se a raça é uma categoria ontológica e não histórica.

A diferença é crucial. No que isso se traduz em linguagem clara é que, se a raça é uma qualidade intrínseca, os tropos racistas como a criminalidade negra, podem ser atribuídos a diferenças naturais entre as raças, e não à história das relações raciais de classe, estratégias de exploração económica como a escravidão e o aluguer de mão-de-obra de condenados, e o uso da lei para apoiar e manter relações de classe exploradoras. Como afirma a ciência de Karl Popper, a reivindicação de distinções intrínsecas fora das relações históricas de classe é muito pouco apoiada. Isso não reduz a raça a uma questão de classe, o chamado reducionismo de classe, mas, perspetivando-a na história, afasta-se dos nazis.

Uma pergunta que os americanos provavelmente poderiam fazer a si próprios, mas quase certamente não fazem, é: reconheceriam eles um governo fascista se fossem seus beneficiários? Obviamente, a questão assume que existem beneficiários do governo fascista. Mas e se esses americanos vivessem em belas casas e tivessem todos os bens de consumo necessários, enquanto o estado criava o maior sistema penitenciário da história humana em termos absolutos e relativos, transformasse a força da polícia civil em força militar com carta branca para matar algumas categorias de cidadãos e os ricos oligarcas e executivos de empresas assumissem de facto o controle do Estado?

A questão não é o clichê da direita da liberdade perdida, mas a ideia de que, a menos que alguém esteja do lado perdedor da história, as condições indignas em que outras pessoas se encontram tendem a ser invisíveis. A pergunta perene para os alemães, há uma geração atrás, era quantos sabiam das atrocidades nazis?  Paralelamente, surgiu uma literatura importante em torno do milagre económico nazi. Adolf Hitler subiu ao poder em 1933, o pico da Grande Depressão. As circunstâncias em que ele subiu ao poder e a sua capacidade de colocar um grande número de alemães desempregados a trabalhar produziram realidades diferentes para os alemães “comuns” e os milhões de vítimas dos nazis.

Não se trata aqui de discutir a equivalência moral, política ou histórica entre os EUA e os nazis. Existem pontos de interseção e divergência. A questão é: pode haver vivências radicalmente diferentes na chamada democracia liberal? Como pode uma nação “livre” ter a maior população prisional absoluta e relativa da história mundial? A produção militar pode explicar por que razão o equipamento militar excedente deveria ser disponibilizado para as forças policiais civis, mas a disponibilidade de equipamentos não explica a militarização da polícia. E a presença da polícia militarizada tem um significado diferente nos bairros pobres ou nos ricos.

Seria encorajador se a classe liberal, que inclui a maior parte da esquerda americana, estivesse a olhar para as condições económicas quando manifestasse publicamente preocupações com a ameaça do fascismo ascendente. Se as pessoas estão bem empregadas (com garantia de emprego), têm abrigo e segurança alimentar (Green New Deal [New Deal verde]) e um sistema de saúde em funcionamento (Medicare para todos), a ameaça do fascismo ascendente é mínima, não importa a desgraça que venha dos céus. Mais uma vez, o número de grupos racistas vem caindo nos últimos quatro anos e não aumentando como o MSNBC, a CNN e o New York Times passaram os últimos anos a dizer.

Mas a questão é ainda mais profunda. A classe liberal está disposta a viver com condições deploráveis para uma proporção já grande, e com certeza crescente, da população. E o seu papel como agente dos ricos torna-a moral e politicamente culpada por essas condições sem o benefício de ser rica. Isso dá uma base material à sua preferência por explicações efémeras – ideológicas, explicação da ascensão do fascismo europeu. Se a culpa pode ser atribuída a um líder errático, e não a crises em série do capitalismo, mudar de líder significa que o capitalismo se pode manter.

A solução neoliberal para a ameaça fascista foi/é o capitalismo pragmático. Qualquer pessoa com uma compreensão de esquerda do capitalismo sabe que não existe essa criatura. O que é pragmático para uma classe não é para outra. Por exemplo, os resgates de 2009 caíram sobre os trabalhadores (austeridade) e as poupanças dos aforradores bancários (execuções de hipotecas). Isso torna a austeridade particularmente pouco construtiva para os que estão preocupados com o fascismo ascendente. Foi a austeridade que se seguiu aos resgates anteriores que preparou o terreno para Donald Trump. Por mais profundamente construtivo que Donald Trump seja, ele não criou as condições que levaram à sua ascensão política. Os liberais sim.

 

* Rob Urie  é economista político. O seu livroZen Economics  foi publicado por CounterPunch Books.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/05/01/economic-decline-and-the-threat-of-fascism/, publicado e acedido em 2020/05/01

Tradução do inglês de TAM

 

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/o-declinio-economico-e-a-ameaca-do-94830

Brasil | Bolsonaro e o ''fascismo eterno''

 
 

 

A liberdade e a libertação são tarefas sem fim
(Umberto Eco)

Na data de 19/11/2009, Carta Maior publicou o admirável ensaio de Umberto Eco sobre o fascismo intitulado O Fascismo Eterno, que se tornou posteriormente um livro publicado em 2018 pela Editora Record. O ensaio foi publicado originalmente em inglês sob o título de “Ur-Fascism” na edição de 22/6/1995 da revista “The New York Review of Books” a partir de uma conferência na Universidade de Columbia em 24/4/1995.

O ex-deputado Jair Bolsonaro, que atualmente ocupa o Palácio do Planalto como presidente, foi inúmeras vezes acusado de fascista. Entre os historiadores e cientistas políticos, não faltou quem protestasse contra esse uso abusivo da palavra fascismo, que só encontraria sentido na Europa, no período histórico de1930 a1945, antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Como as características e atitudes do atual presidente são próximas ao fascismo, ressalvadas as diferenças históricas, julgamos útil recorrer ao texto clássico de Umberto Eco sobre o fascismo. O escritor italiano aponta 14 características como típicas do que chamou de “Fascismo Eterno” ou “Ur-Fascismo”. Passamos a resumi-las com o objetivo de comparar com o fascismo tropical do atual presidente, recomendando, entretanto, a leitura integral do magnífico texto de Umberto Eco.


1. A primeira característica de um Fascismo Eterno é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico. Em consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. Fascismo e fundamentalismo sempre vêm juntos. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. O iluminismo, a idade da Razão, era considerado o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”. Daí a rejeição a direitos iguais, mudanças climáticas, luta pelo reconhecimento de identidades oprimidas etc, vistas como “coisa de comunistas”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada sem nenhuma reflexão. “Pensar é uma forma de castração”. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. As universidades são um ninho de “comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma fé sincrética pode suportar críticas analíticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista é contra os intrusos. O Fascismo é, portanto, racista e xenofóbico por definição.

6. O Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos.

7. Para os que se veem privados de qualquer identidade social, o Fascismo exalta o país onde nasceram. Esta é a origem do nacionalismo vulgar. Os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Na falta deste, inventa-se um inimigo interno. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é o apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus e os comunistas são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Os inimigos são ora fortes demais, ora fracos demais, conforme a necessidade da retórica. O fascista é incapaz de analisar a correlação de forças e avaliar a real força do “inimigo”.

9. Para o Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Então, haveria paz, o que gera uma contradição, porque isso contraria o princípio da guerra permanente do fascismo eterno.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. Todos os elitismos aristocráticos e militaristas mostraram desprezo pelos fracos. O líder, cujo poder em geral não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força se baseia na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia do Fascismo Eterno o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era “Viva la muerte!” O herói do Fascismo Eterno espera impacientemente pela morte. E sua impaciência consegue em geral levar os outros à morte.

12. Como a guerra permanente e o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o “Ur-Fascista” transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico.

13. O Fascismo baseia-se em um “populismo seletivo” ou “qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Fascismo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade abstrata, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral.

Encontramos um populismo qualitativo na TV ou Internet, influenciando a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos que pode ser apresentado e aceito como a “voz do povo”. Por causa de seu populismo qualitativo, o Fascismo Eterno deve ser contra os governos parlamentares, considerados “podres”. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Fascismo.

14. O Fascismo Eterno fala a “novilíngua”, termo inventado por George Orwell em seu livro 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico.

Se aplicarmos a Bolsonaro os 14 critérios de Umberto Eco para avaliação do “fascismo eterno”, veremos que a maioria é adequada e ele pode tranquilamente ser chamado de fascista. Com efeito, os dois primeiros critérios – o tradicionalismo e o irracionalismo – se aplicam perfeitamente. Bolsonaro assumiu os valores tradicionais do neopentecostalismo e adotou uma postura pré moderna e anticientífica. Sua atitude na crise da pandemia é uma triste e criminosa demonstração de sua negação da ciência, com base no “pensador” que influenciou o bolsonarismo, aquele astrólogo que mora nos EUA.

O terceiro e o quarto critérios caem como uma luva. O irracionalismo e a negação do espírito crítico são marcas do bolsonarismo. Quem critica é traidor. O intelectual, o artista, por terem espírito crítico, são vistos como inimigos. A cultura é repudiada. Deve-se aceitar a verdade da ordem estabelecida. Daí, “escola sem partido”, sem iniciação ao pensamento crítico e a liberdade de expressão e ação.

O quinto critério é a negação da diversidade e da diferença que leva a preconceitos contra a mulher, gay, negro e índio, tantas vezes demonstrados pelo atual presidente.

O sexto critério é o apelo às classes médias, frustradas pelas crises econômicas e assustadas com a possível ascensão dos mais pobres, como ocorreu no governo Lula. O sétimo e o oitavo critérios se baseiam no sentimento de patriotismo fundado somente no fato de ser brasileiro e se apegar aos símbolos da nacionalidade como a bandeira e o hino nacionais. Estamos fartos de ver isso nas manifestações bolsonaristas contra a democracia e contra o inimigo imaginário que foi inventado para assustar: o comunismo. Os que não se identificam com isso são inimigos da nação. Portanto, devem ser excluídos. Daí, o grito de “Vai pra Cuba” ou “Vai pra Venezuela”.

O nono critério é a exaltação da guerra, palavra frequente no vocabulário de Bolsonaro como, por exemplo, a “guerra contra o marxismo cultural” e a “guerra contra os governadores e prefeitos”. O décimo é o desprezo das massas que devem aceitar sem discussão a decisão de seu líder despótico. O décimo primeiro é sobre o heroísmo e a exaltação da morte. Não creio que o bolsonarista padrão esteja disposto a morrer, estará provavelmente mais disposto a matar. Mas a necropolítica está presente no discurso e nas diversas propostas de Bolsonaro, desde suprimir as medidas de controle do tráfego, armas para todos, a guerra civil “onde morrerão 30 mil”, até o incentivo à morte pela rejeição do isolamento social na pandemia.

O décimo segundo critério diz respeito à transferência do poder para questões sexuais. A arma se torna a projeção do pênis. Daí vem a violência, o machismo, o desprezo das mulheres (“no quarto filho eu fraquejei e nasceu mulher”) e o ataque a comportamentos sexuais visto como “anormais” como o LGBT. Não há lugar para a liberdade de opção sexual e de gênero.

No décimo terceiro, o povo é visto como entidade abstrata, uma ficção teatral, e os direitos individuais são negados. O líder fala em nome da “maioria” para negar direitos civis, políticos e sociais e ataca as instituições democráticas e o poder legislativo, considerado corrupto e podre. Quem representa o povo é o líder e não o Parlamento. As manifestações estimuladas por Bolsonaro e seu grupo sempre atacam e pedem o fechamento do Congresso e do STF.

Finalmente, o décimo quarto critério aponta para a linguagem pobre e elementar que limita a possibilidade de um raciocínio complexo e crítico. Além da pobreza da linguagem de Bolsonaro, são exemplos grotescos o uso frequente de palavrões e o famoso “tá Ok”, pronunciado “talquei”.

Com efeito, com um ou outro ponto que talvez não se aplique tendo em vista a diferença no espaço e no tempo histórico, creio que os critérios de Umberto Eco para definir o fascismo eterno se aplicam quase integralmente aos bolsonaristas.

Assim, caro leitor, se você, como eu, já chamou Bolsonaro de fascista e já leu críticas ao uso não rigoroso do termo fascista, pode ficar tranquilo. Temos um bom fundamento teórico e prático. E, com Umberto Eco, estamos em boa companhia.

 
Liszt Vieira | Carta Maior
 
Leia em Carta Maior:

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/brasil-bolsonaro-e-o-fascismo-eterno.html

O vídeo devastador de uma reunião escandalosa

O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril revela as entranhas fascistas do governo Bolsonaro, e a intensão do capitão-presidente em intervir na Polícia Federal para proteger familiares e amigos ante as investigações em andamento.

 

 

vídeo mostra, entre outras coisas, que Bolsonaro acusou, naquela reunião escandalosa, a Polícia Federal do Rio de Janeiro de perseguir sua família. Quem pode assisti-lo classifica o vídeo de “devastador para o presidente”.

A repercussão do vídeo – cuja liberação depende de decisão do ministro Celso de Mello, do STF, relator do caso naquela Corte, que o assistiu na segunda-feira (18) –  diz que ele é profundamente negativo para a imagem do governo e do presidente Bolsonaro; muitos o veem como demonstração da degeneração do governo.

Deputados federais, juristas, comentaristas políticos e outras personalidades – são unânimes em ressaltar o escândalo da reunião de um governo sem decoro, e que não tem nenhum respeito ao que se acostuma designar como a “liturgia do cargo”.

O deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA) ressalta que a Polícia Federal existe para “proteger de criminosos e não proteger os criminosos.” E proclama: “Solta o vídeo, ministro!”. Quem pode assisti-lo revela que, no vídeo, Bolsonaro, aparece dizendo que precisava “saber das coisas” que ocorriam na Polícia Federal do Rio de Janeiro e que suas investigações não podem “prejudicar a minha família” nem “meus amigos”. Comportamento em que, acusa o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), Bolsonaro “deixou de ser presidente e virou chefe mafioso”. A deputada Professora Marcivânia (PCdoB-AP) – que assistiu à exibição no Instituto Nacional de Criminalística – acusa Bolsonaro de dizer que gostaria de substituir o superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro e que demitiria até o então ministro da Justiça Sergio Moro caso não pudesse fazer isso.

O caráter pró-fascista do governo Bolsonaro é demonstrado também nos pedidos de prisão ilegais e abusivos feitos naquela reunião. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, pediu a prisão de prefeitos e governadores, e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chamou os ministros do STF de “filhos da puta” que “tinham que ir para a cadeia”.

“As entranhas autoritárias e perigosíssimas desse governo expostas”, disse a deputada comunista Jandira Feghali (RJ).

Bolsonaro e muitos ministros usaram, na constrangedora reunião, palavras duras e palavrões. Bolsonaro estava em “dia de fúria”, disse um participante da reunião. O chefe do executivo disse: “Não vou esperar foder alguém da minha família. Troco todo mundo da segurança. Troco o chefe, troco o ministro”. Reclamou de “apanhar sozinho” e que, se fosse preciso, chamaria as Forças Armadas “para evitar um golpe”. Citou inimigos políticos com palavras de baixo calão e chamou os governadores João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ), de “bosta” e “estrume”.

falta de compostura do inquilino do Palácio do Planalto e seus cupinchas demonstra mais uma vez, e de forma muito clara, seu desrespeito às instituições, à divisão constitucional e harmonia dos poderes – numa ação que vai, além do golpismo, à tentativa de impor o fascismo que foca, na figura do presidente, o exercício do poder. Isto, no meio de uma pandemia que já matou cerca de 20 mil brasileiros, significa, além do atentado à democracia e ao Estado Democrático de Direito, o desprezo pela vida – e repete o grito dos fascistas espanhóis: “viva la muerte.”


 

 

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-video-devastador-de-uma-reuniao-escandalosa/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-video-devastador-de-uma-reuniao-escandalosa

Auschwitz faz hoje 80 anos. Que nunca se esqueça

Os primeiros prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz, chegaram 80 anos atrás, em 20 de Maio de 1940. Os primeiros de milhões que seria condenados a trabalho e morte sem fim num dos mais notórios campos de concentração da Alemanha nazi.

O primeiro transporte, de acordo com a Enciclopédia do Holocausto , consistia em cerca de 30 internos alemães que a SS havia classificado como “criminosos profissionais”. Eles foram selecionados para o transporte do campo de concentração de Sachsenhausen, perto de Berlim.

Entre 1940 e 1945, as SS e a polícia, deportaram pelo menos 1,3 milhão de pessoas para os campos de Auschwitz. Destes, cerca de 1,1 milhão de pessoas foram mortas. Auschwitz foi libertado pelo exército soviético em 27 de Janeiro de 1945.

Sobreviventes e famílias de Auschwitz marcaram recentemente o 75º aniversário da libertação do campo. De acordo com um estudo divulgado no Memorial do Holocausto em 2018,cerca de dois terços dos millennials americanos não sabem o que é Auschwitz, de acordo com o The Washington Post. À medida que as memórias da Segunda Guerra Mundial continuam desaparecendo, os pesquisadores da Conferência sobre Reivindicações de Materiais Judaicos Contra a Alemanha descobriram que o conhecimento sobre os 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas também está a desaparer, principalmente entre adultos de 18 a 34 anos.

Vinte e dois por cento dos millennials disseram que não ouviram falar do Holocausto ou não têm certeza se ouviram falar sobre o Holocausto. O estudo contou com respostas de 1.350 adultos americanos em fevereiro, informou o Post. Segundo o estudo, 41% dos adultos americanos e 66% dos millennials foram incapazes de responder correctamente que Auschwitz era um campo de concentração ou um local onde os prisioneiros foram exterminados, informou o Post.

Novas informações sobre as vítimas e sobreviventes da perseguição nazista foram adicionadas ao que já é o banco de dados on-line mais abrangente do mundo.

O Arquivo Arolsen – Centro Internacional de Perseguição nazista, anteriormente conhecido como Serviço Internacional de Rastreamento, publicou 26 milhões de documentos no seu banco de dados, incluindo novas informações sobre trabalhadores forçados e judeus deportados, segundo Israel Hayom .

O banco de dados foi estabelecido pelos Aliados Ocidentais em 1944 e mudou seu nome para Arolsen Archives em 2019.

Todos os 26 milhões de documentos do Arquivo Arolsen já estão disponíveis online, incluindo novas informações sobre 21 milhões de pessoas deslocadas, perseguidas e assassinadas pelos nazis.

Os funcionários do arquivo disseram que a recente adição ao seu banco de dados on-line foi concluída com seu parceiro, Yad Vashem, o centro memorial do Holocausto de Israel em Jerusalém.

Isto significa que a maioria dos documentos do arquivo mais abrangente do mundo sobre perseguição nazi, agora está acessível online“, disse a organização em comunicado. “Eles são um conjunto único de evidências que documentam os crimes cometidos pelos nazis e têm um valor incomensurável para os parentes das vítimas da perseguição nazi“.

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/internacional/auschwitz-faz-hoje-80-anos-que-nunca-se-esqueca/

Governo boliviano acusa partido de Morales de desestabilizar o país

Presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, participa de cerimônia de posse de seu novo ministro da Saúde no palácio presidencial em La Paz, Bolívia, 8 de abril de 2020
© AP Photo / Juan Karita

Diversas organizações sociais e sindicatos exigem a marcação da data das eleições, que ainda não foram realizadas desde que a presidente Jeanine Áñez derrubou Evo Morales do poder no ano passado.

O governo de transição da Bolívia acusou os crescentes bloqueios de estradas como fazendo parte de um plano de desestabilização promovido pelo Movimento ao Socialismo (MAS) contra a candidatura da presidente Jeanine Áñez.

Os manifestantes exigem a marcação de uma data para as eleições gerais.

"Eles sabem que, se amanhã houver uma eleição ou no domingo, quem vai ganhar é a sra. Jeanine Áñez, sabem disso, e é por isso que agora estão procurando desestabilizar o país", disse Arturo Murillo, ministro do Governo, em entrevista coletiva, se referindo aos líderes e militantes do MAS, o partido liderado pelo ex-presidente Evo Morales.

Ele afirmou que o MAS, cujo candidato Luis Arce era claro favorito nas urnas antes da crise da pandemia da COVID-19, estaria realizando "uma ação política [que] é uma questão de dinheiro, chantagem, extorsão que eles fazem ao povo".

Luis Arce, candidato presidencial do Movimento ao Socialismo (MAS), e Evo Morales, ex-presidente da Bolívia

© Sputnik / Ana Delicado Palacios
Luis Arce, candidato presidencial do Movimento ao Socialismo (MAS), e Evo Morales, ex-presidente da Bolívia

Murillo fez o pronunciamento logo após as principais organizações sindicais do país terem emitido um comunicado de imprensa exigindo que o Supremo Tribunal Eleitoral fixe uma data para as eleições o mais breve possível, conforme exigido pelos sindicatos e organizações de bairro, que bloqueiam estradas em quatro departamentos do país.

O MAS "só busca desestabilizar o país através dessas manifestações, apesar da emergência sanitária causada pela pandemia global, mas a única coisa que conseguiu foi perder o apoio da população, e por isso investiu dinheiro em alguns movimentos sociais", disse Murillo.

Ele acrescentou que os pedidos de demissão da presidente Áñez que surgiram em alguns pontos de bloqueio fariam parte da mesma estratégia do MAS.

Pressão crescente

Entre as organizações que exigem uma data para a votação, que deve ser realizada até 2 de agosto deste ano, de acordo com uma lei aprovada pelo parlamento, estão as federações de mineiros e de camponeses, uma federação de bairro em El Alto e sindicatos do transporte, bem como vários líderes da Central Boliviana de Trabalhadores.

"A única coisa que resta para este governo de transição é, através do seu Órgão Eleitoral chefiado por Salvador Romero, que nos diga o dia da eleição proposto, mas já de maneira formal, caso contrário eles serão responsáveis pelas ações que o povo no seu conjunto irá tomar", disse Orlando Gutiérrez, líder da Federação dos Mineiros.

O líder camponês Froilán Mamani disse que a demanda por eleições "tem como objetivo instalar um governo legítimo que enfrente a COVID-19".

As organizações sociais expressaram seu "pleno apoio" às medidas de pressão, como os bloqueios de ruas e rodovias iniciados há uma semana pelos moradores de um setor popular da cidade de Cochabamba (no centro), que passaram da exigência inicial de acabar com o confinamento sanitário para a exigência de eleições gerais, e até mesmo a renúncia da presidente Áñez.

Ao mesmo tempo, desde o fim de semana há relatos de bloqueios de estradas na região agroindustrial de Yapacaní, no departamento de Santa Cruz (leste), com as mesmas exigências.

Desde domingo (17), também há bloqueios na periferia da cidade de El Alto e nas províncias do norte de Potosí, no sudoeste do país.

O ministro Murillo disse que o governo pretende resolver os protestos através do diálogo, mas que não cederá à pressão.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051915597161-governo-boliviano-acusa-partido-de-morales-de-desestabilizar-o-pais/

Portugal | Um mundo cão?

 
 
Jorge Rocha* | opinião
 
Recuso-me a ouvir o Aldrabão, pelo que dele vou sabendo o que a imprensa ou as redes sociais me vão dando conta a propósito do seu sinistro pensamento. Agora soube da tentativa de cavalgar a onda emocional suscitada pelo crime na Atouguia da Baleia para vir com propostas insanas sobre as penas a aplicar em tais casos, procurando remeter para o esquecimento a campanha contra a etnia cigana, que tão mal lhe correu, sobretudo graças à trivela de Quaresma.

Advogado de formação, o Aldrabão teria aqui motivos para ser expulso da respetiva Ordem, porque supostamente desaprovaria um dos seus pares que viola o princípio de presunção de inocência dos suspeitos, ou mesmo arguidos, até transitar em julgado o veredito sobre eles decidido por um tribunal competente para o emitir. Mas, tendo em conta que as Ordens há muito se converteram em organizações apostadas na intervenção política contra as esquerdas em geral e os socialistas em particular, será improvável que a do Aldrabão venha a pronunciar-se sobre a sua recorrente demonstração de violação de qualquer ética deontológica.

O caso veio coincidir com a leitura de uma antologia de crónicas de Mário de Carvalho («O que eu ouvi na barrica das maçãs») publicadas em jornais e revistas há cerca de duas dúzias de anos.

São textos deliciosos e um deles veio ao encontro do que o Aldrabão anda a propalar.

Conta o escritor que, logo a seguir à Revolução de Abril, num comício do PCP a multidão começou a gritar a palavra de ordem “Morte à Pide” ou “Morte à CIA”. Pedagógico, Álvaro Cunhal pegou no microfone e desaprovou tais ditos, porque, se algo há de que os portugueses se podem sentir muito orgulhosos é o de terem sido os primeiros a acabar com a pena de morte.

Essa evocação é elucidativa sobre as diferenças entre as práticas políticas de há quase meio século com as atuais. Na altura valorizavam-se os princípios, os valores e enaltecia-se a educação para a cidadania, que nos tornaria melhores e mais informados. Hoje, à conta da comunicação social, que aliena, desinforma, manipula e mente sem qualquer pudor, surgem os Aldrabões, que procuram promover-se à conta dos piores instintos dos que, acriticamente, os ouvem.

Noutro texto da mesma época Mário de Carvalho previa o que se teme para o futuro próximo: “o jornalismo cão há-de merecer um mundo cão”.

*Publicado por jorge rocha em Ventos Semeados

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-um-mundo-cao.html

O novo velho continente e suas contradições: O Brasil, a Europa e o fascismo

 
 
A Europa encontra-se hoje, mais uma vez, ameaçada pela sombra do seu passado. Os partidos de extrema direita tentam reeditar as crenças e os métodos do nazifascismo e têm crescido nas últimas eleições. O mesmo ocorre no Brasil, nestes dias obscuros para a saúde da sua população diante de uma pandemia. E do retrocesso político que o país está a viver neste momento mesmo

Celso Japiassu | Carta Maior

A imagem do Brasil na Europa e em todo o mundo nunca esteve em patamar tão baixo. Faz poucos anos que o país era visto como uma promessa para o futuro e todos acreditavam que o gigante latino-americano finalmente despertara para a construção de uma grande civilização nos trópicos. Mas agora a decepção ocupa o lugar da esperança de todos. Dos absurdos que têm caracterizado o atual governo à alta incidência da pandemia que aos poucos constrói o país como epicentro global da Covid-19, o noticiário veiculado na mídia europeia desconstrói o Brasil como nação de alguma importância no mundo de hoje. A destruição da Amazónia, o genocídio que ameaça as populações indígenas, a guerra cultural, os riscos representados pelos ataques à democracia e as polêmicas internacionais que o Brasil alimenta são assuntos do quotidiano no noticiário. Com um governo, destacam os jornais, dividido entre militares, antiglobalistas e economistas, com o núcleo de poder a cada dia mais nas mãos dos militares. A respeitada revista Foreign Policy definiu a política externa brasileira: combina retórica nacionalista raivosa com submissão patética aos Estados Unidos.
 
 
 
 
Artistas, intelectuais, políticos, académicos e brasilianistas manifestam preocupação com o que acontece e revelam seu temor diante do avanço do país, em grande velocidade, na direção do fascismo. E vai perdendo todas as conquistas que havia obtido desde sua volta à democracia no final dos anos 1980. A opinião democrática, socialista e liberal da Europa manifesta seus temores. A memória coletiva ainda não esqueceu o que foi a tragédia nazifascista que varreu o continente na primeira metade do século XX. Foi na Europa que nasceu e criou-se a concepção do mundo inspirada pelos movimentos de extrema direita: ódio às minorias, nacionalismo exacerbado, supremacia racial e a crença no surgimento do Übermensch, deturpação nazista das concepções de Nietzsche no seu poético livro “Assim falou Zaratustra” (Also sprach Zarathustra).

 
O fascismo A data que marca a ascensão do fascismo é a de 22 de outubro de 1922, com a Marcha sobre Roma. Uma multidão de 40 mil pessoas vinda de várias partes da Itália dirigiu-se a Roma para exigir do rei Vitor Emanuel III a nomeação de Benito Mussolini como Primeiro Ministro. A Itália nessa época vivia uma efervescência revolucionária e os socialistas aumentavam o seu poder de mobilização popular. O Partido Nacional Fascista, fundado e dirigido por Mussolini, financiado pelo grande capital, surgiu para combater a crescente influência socialista.
 
O programa estratégico fascista de controle do poder pode ser resumido da seguinte forma: invocar um terrível inimigo interno e externo; criar um sistema de vigilância interna; criar bodes expiatórios; controlar a imprensa; qualquer dissidência é sinónimo de traição; colocar as garantias legais em suspenso. Junte-se a isso o desprezo pelos direitos humanos, supremacia do militarismo, a ligação entre Estado e religião, corporativismo, totalitarismo, nacionalismo e anticomunismo. Está composta a receita. Todos estes conceitos estão ou pretendem estar presentes na doutrina do atual governo brasileiro. Alemanha Se o receituário de poder fascista foi criado na Itália, foi no entanto na Alemanha que obteve a sua mais bem acabada representação. Com a vitória eleitoral do nazismo em 1933 e a subida de Adolf Hitler ao governo iniciou-se uma fase negra na história alemã. A ideologia que levou o país à guerra foi responsável por 85 milhões de mortos no conflito, o equivalente a 3 por cento da população mundial na época. Promoveu o genocídio de judeus e ciganos, perseguiu e matou homossexuais, artistas, intelectuais e cientistas. E deixou como herança uma terra arrasada. Até hoje, depois de o país se ter reerguido, o regime de extrema direita liderado por Hitler está presente no país como uma má memória daqueles tempos e ainda não foi inteiramente afastado o sentimento de culpa em parte da sua população consciente dos crimes que foram cometidos em seu nome.
 
O contagio Como uma metástase, o fascismo atingiu e chegou ao poder em outros países. Na Espanha, um general fascista liderou o que seria um golpe de estado mas tornou-se uma guerra civil diante da resistência que uniu republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas e a consciência democrática daquela época. Vitorioso, com a ajuda crucial da Alemanha e da Itália nazifascistas, o General Francisco Franco governou o país de 1939 até sua morte em 1975. Foi um regime cruel e repressor que atrasou em décadas o desenvolvimento da Espanha. Em Portugal, o regime de António de Oliveira Salazar, autodenominado Estado Novo, ocupou o poder a partir de 1933 até depois de sua morte. O país foi resgatado do fascismo na primavera de 1974, com a inspiradora Revolução dos Cravos. No Brasil, o integralismo foi uma réplica do fascismo europeu e o governo de Getúlio Vargas, chamado também de Estado Novo, importou fortes traços dos governos totalitários da Europa. A Europa encontra-se hoje, mais uma vez, ameaçada pela sombra do seu passado. Os partidos de extrema direita tentam reeditar as crenças e os métodos do nazifascismo e têm crescido nas últimas eleições. Já controlam os governos da Hungria, Sérvia e Montenegro. E espreitam em quase todos os outros países. O mesmo ocorre no Brasil, nestes dias obscuros para a saúde da sua população diante de uma pandemia. E do retrocesso político que o país está a viver neste momento mesmo. O fascismo é um parasita que renasce forte das cinzas como sintoma das crises do capitalismo.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/o-novo-velho-continente-e-suas.html

Portugal | A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”

 
 
José Pacheco Pereira* | opinião
 
Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.
 
Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

Nuno Melo escreveu recentemente um artigo com o título sugestivo de “A supremacia do marxismo cultural”, que é um bom exemplo de quem não percebe nada do que está a falar. Começa com uma citação de Marx, aquilo a que ele chama a “lição” que a esquerda aprendeu:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.”

Muito bem. A frase quer dizer exactamente o contrário do que ele pretende. Quer ele dizer que é o proletariado a “classe dominante” nos dias de hoje e que é por isso que a “força intelectual dominante” é o marxismo? Interessante, ele vai certamente explicar-me quando é que houve mudança de “força material dominante”, ou seja, quando é que houve uma revolução. Na interpretação de Marx, são escritos como o de Melo que revelam a “força intelectual dominante”, ou seja, a da burguesia. O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial.

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria.

Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.
 
José Pacheco Pereira, in Público, 16/05/2020
 
Também publicado em Estátua de Sal
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/a-pandemia-da-ignorancia-proposito-do.html

Mais de 100 dirigentes sociais assassinados na Colômbia

Com o assassinato de Freddy Angarita Martínez, em Cúcuta, e de Jorge Enrique Oramas, em Cáli, o Indepaz regista 101 dirigentes sociais mortos na Colômbia este ano, 26 desde que foi decretada a quarentena.

Protesto na Colômbia contra o assassinato de dirigentes sociais (imagem de arquivo)Créditos / fayerwayer.com

O assasinato do sociólogo e defensor do ambiente Jorge Enrique Oramas, de 70 anos, apareceu bem divulgado na imprensa. Morto a tiro, este sábado, numa quinta de Cáli (departamento de Valle del Cauca), é o centésimo «dirigente social» a ser assassinado no país andino-amazónico este ano, segundo o registo que tem estado a ser feito pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz).

«Cem» vale efemérides. De tal modo que, este fim-de-semana, o assassinato de dirigentes sociais assumiu destaque, inclusive, em agências ocidentais que costumam centrar-se na «ditadura de Maduro» e têm menos o hábito de virar o foco para a miséria e a violência extremas no país vizinho, presidido por Iván Duque, grande aliado dos Estados Unidos na América do Sul, também no que às tentativas de desestabilização da Venezuela diz respeito.

O assassinato de Enrique Oramas, professor, defensor da agricultura biológica e conhecido por se opor a projectos de exploração mineira no Parque Nacional Farallones de Cali, foi confirmado ontem pelo Indepaz e denunciado pelo presidente do município, Terry Hurtado, que pediu às autoridades que procedam a «uma investigação ágil».

Também no sábado, foi morto a tiro, na cidade de Cúcuta (departamento de Norte de Santander), o dirigente comunitário Freddy Angarita Martínez. De acordo com o periódico La Opinión de Cúcuta, dois indivíduos dirigiram-se a sua casa e efectuaram oito disparos. A mesma fonte revela que, dias antes, Angarita Martínez tinha sido ameaçado de morte.

Na lista que o Indepaz vai actualizando, respeitante a 2020, Martínez surge como o dirigente social assassinado número 101. Na véspera, foi morto o guarda indígena Javier García Guaguarabe, informa o portal tn8.tv. Tinha 20 anos e foi assassinado no município de Argelia (Valle del Cauca).

O Indepaz alertou que, desde que a quarentena foi decretada pelo governo, a 25 de Março, para conter a propagação do vírus SARS-coV-2, já foram assassinados na Colômbia 26 dirigentes sociais. O organismo pediu às autoridades que garantam aos dirigentes sociais e defensores dos direitos humanos a possibilidade de exercerem as suas actividades em segurança, em todo o país.

Sirley Muñoz, coordenadora do Sistema de Informação da organização Somos Defensores, afirmou que o aumento do número de crimes contra defensores dos direitos humanos está relacionado com o incremento das ameaças de morte registadas em 2019, revela o tn8.tv.

Os departamentos com maior incidência de casos de assassinatos são, segundo o Indepaz, o Cauca, Antioquia e Putumayo.

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https://www.abrilabril.pt/internacional/mais-de-100-dirigentes-sociais-assassinados-na-colombia

Homens presos por questionarem gestão da Covid-19 pelo Governo da Hungria

 
 
Dois homens foram detidos e interrogados durante horas na Hungria esta semana por criticarem a gestão do Governo em relação à pandemia do novo coronavírus, que provoca a covid-19, segundo a agência de notícias EFE.

As prisões, descritas pelos críticos do Executivo ultranacionalista húngaro como uma tentativa de intimidação, ocorreram devido à aplicação de uma lei recente que pune com prisão a disseminação de informações "alarmistas" sobre o vírus.
 
"És um déspota cruel. Mas não esqueça que, até agora, todos os ditadores caíram", foi um dos comentários publicados na rede social Facebook por András Kusinkszki, de 64 anos, preso na terça-feira.

János Csóka-Szücs, membro do partido Momentum (oposição) e que foi preso na quarta-feira, relembrou, numa das suas mensagens publicadas na mesma rede social, uma manifestação contra o Governo e acrescentou que o hospital em sua cidade esvaziou mais de 1.100 camas para atender pacientes do covi-19.

Ambos foram detidos com um dia de intervalo e o momento de suas detenções foi registado pela polícia húngara, que divulgou os vídeos na Internet.

As mensagens publicadas pelos dois críticos foram vistas e partilhadas por apenas dezenas de pessoas.

A polícia agiu, em ambos os casos, sob a suspeita de que os detidos haviam violado a lei que proíbe a divulgação de informações alarmistas.

No entanto, o Ministério Público da Hungria determinou que nenhum crime foi cometido.

Segundo dados oficiais da polícia, as autoridades estão a investigar 87 casos de possível delito de "alarmismo".

A oposição e as organizações não-governamentais (ONG) afirmam que essas prisões servem apenas para intimidar os cidadãos e, assim, minimizar as críticas ao Governo do primeiro-ministro ultranacionalista, Viktor Orbán.

O Parlamento húngaro, no qual o partido Fidesz (de Orbán) possui uma maioria de dois terços, concedeu ao Governo poderes especiais em março para administrar a crise do novo coronavírus, sem especificar por quanto tempo.

O pacote legal inclui uma emenda que prevê penas de até cinco anos de prisão por espalhar informações "falsas" ou "alarmistas" que dificultam ou impossibilitam a luta contra a pandemia.

A comissária europeia para os Valores e Transparência, Vera Jourová, prometeu na quinta-feira que a Comissão Europeia irá vigiar se a Hungria remove progressivamente as restrições para conter a pandemia.

Notícias ao Minuto | Lusa

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"A Hungria já não é uma democracia"

O ditador húngaro Orbán avança perante a inércia da UE
Governo Orbán aproveita a pandemia para assumir poderes emergentes por prazo indeterminado, em choque frontal com os valores da UE. Especialista húngaro em direito analisa perigos da nova lei e possibilidades de revogá-la.
 
 
Em 30 de março, o Parlamento húngaro, dominado pelo partido Fidesz, do primeiro-ministro Vitkor Orbán, aprovou um projeto de lei concedendo ao governo poderes de emergência.
 
Pouco mais tarde, a assim chamada "lei de capacitação" foi ratificada, permitindo ao PM governar por decreto, a fim de conter a pandemia de covid-19. Ela não tem prazo de prescrição e possibilita ao Executivo passar facilmente por cima do Parlamento.
 
Em meados de abril, o Parlamento Europeu divulgou uma declaração afirmando que as novas medidas na Hungria são "incompatíveis com os valores europeus". A Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, ameaçou Budapeste com uma ação legal.
 
Orbán insiste que a lei é essencial à reação do governo à pandemia, e até ao momento Bruxelas não tomou medidas legais. Nesta quinta-feira (14/05), a comissária da UE para Valores e Transparência, Vera Jourová, reiterou que a Comissão Europeia está apreensiva e avalia diariamente "se podemos adotar ações legais".
 

Os militares são presença constante nas ruas da Hugria, o pretexto é a pandemia
 
Gábor Halmai é professor de Direito Constitucional Comparado no Instituto Universitário Europeu (IUE), em Florença, Itália. De1990 a1996, foi o consultor-chefe do presidente no Tribunal Constitucional Húngaro. Em entrevista à DW, ele fala sobre os perigos da lei de emergência e as possibilidades de revogá-la.
 
DW: Até ao momento, a UE decidiu não agir contra a muito criticada "lei de capacitação" da Hungria, e recentemente Viktor Orbán exigiu que os seus críticos se desculpassem. Numa carta ao grupo Partido Popular Europeu (EPP) – do qual a legenda dele foi suspensa –, o PM húngaro fala de um "ataque e campanha de desinformação contra a Hungria, infundados e sem precedentes". O clamor inicial contra a lei foi injustificado?
 
Gábor Halmai:  No começo de abril, Vera Jourová deu uma entrevista criticando o governo húngaro sobre a falha do país, na última década, de acatar o preceito da UE de Estado de direito. Ao mesmo tempo, enfatizou que não via nenhuma maneira imediata de contestar a lei de capacitação. O governo húngaro aproveitou essa oportunidade para atacar seus críticos.
 
Agora Jourová parece ter mudado de ideia: numa entrevista recente, ela disse ver numerosas imprecisões e perigos na lei e nos decretos governamentais impostos através dela. O governo húngaro reagiu muito zangado e agora está criticando-a, assim como aos que eram contra a lei desde o começo.
 
O que a UE poderia fazer se decidisse agir contra a Hungria?
 
Há muitas possibilidades legais. Não existe nenhuma razão real para a Comissão não iniciar um procedimento de infração, nos termos do Artigo 2º do Tratado da União Europeia – isso significaria acusar a Hungria de violar os valores básicos da UE. Passados dez anos, o sistema do país já não é uma democracia, nem segue os valores básicos da UE. O problema não é a falta de instrumentos legais, mas a falta de vontade política.
 
O governo húngaro, em especial a ministra da Justiça, Judit Varga, criticou a aplicação de "duplos critérios". Ela alega que na atual crise do coronavírus outros Estados estão também governando com leis de emergência e restringindo os direitos fundamentais. Em que a lei húngara difere das leis  de emergência de outros países?
 
Alguns aspectos são exclusivos da Hungria, não podendo ser comparados às medidas em qualquer outro Estado-membro da UE ou outro país do mundo. A lei húngara viola a Constituição do país de diversas formas – uma Constituição que, aliás, só foi aprovada em 2011 com os votos do atual governo.
 
A lei não foi só inconstitucional, mas também supérflua, já que o sistema legal húngaro provê uma base suficiente para lidar com o coronavírus. Assim, mesmo que Budapeste argumente que 20 países-membros da UE introduziram leis de emergência, a húngara simplesmente não era necessária: ela só está lá para dar ao governo poder ilimitado sem limite de tempo.
 
Que medidas o governo de Orbán tomou até agora, usando a lei?
 
Desde o princípio de abril, foram expedidos mais de 80 decretos. Um dos primeiros alterou a lei do trabalho, cancelando toda a proteção para os empregados. Um dos exemplos mais recentes é um decreto que suspende os regulamentos da UE de proteção de dados. Além disso, todos os hospitais e aproximadamente 150 companhias estatais e privadas estão sob controlo militar: a diretoria dessas organizações só pode tomar decisões empresariais com a aprovação de pessoal militar. Isso não aconteceu em nenhum outro Estado-membro e é uma violação gritante tanto das leis húngaras como das da UE.
 
As autoridades governamentais têm repetidamente enfatizado que o Parlamento húngaro poderia retirar os poderes de emergência em qualquer momento. No entanto a coligação de governo controla a maioria dos assentos. Como é que o órgão poderia revogar a lei?
 
O argumento do governo húngaro é muito capcioso. Não me lembro de nenhuma ocasião, na última década, em que o Parlamento tenha votado contra qualquer proposta governamental importante. Isso quer dizer que não há a menor hipótese de que este Parlamento, liderado pelo Fidesz, com seus dois terços de maioria, se vá opor a qualquer medida governamental. E para revogar a lei é preciso uma maioria de dois terços. Portanto, mesmo que o governo atual perdesse sua atual supermaioria, nas eleições ou devido à morte de um deputado – coisa que certamente não desejo –, a lei não poderia ser revogada.
 
O Tribunal Constitucional da Hungria poderia intervir para assegurar que o governo não explore ainda mais seus novos poderes?
 
Outros países democráticos da UE têm pesos e contrapesos entre os poderes, para além do parlamento, que talvez não seja capaz de controlar o governo: há tribunais constitucionais e supremos ou presidentes. No caso da Hungria, todos os membros do Tribunal Constitucional são nomeados ou eleitos pelo Fidesz, eles nunca se pronunciam contra o governo em qualquer questão política séria.
 
O presidente da Hungria [János Áder] é um dos fundadores do Fidesz e um bom amigo de Orbán, ele ratificou a lei de capacitação em apenas duas horas: foi esse todo o tempo de que precisou para investigar se ela é política e constitucionalmente aceitável. Como é que esse presidente se oporia a qualquer coisa que faça o governo?
 
Os poderes de emergência deveriam vigorar apenas enquanto dure a crise do coronavírus. No entanto, ninguém sabe quando ela acabará. Orbán já falou de um segundo surto no terceiro trimestre. A lei chegou para ficar?
 
Chegou. Deixe-me recordá-lo: em 2015, durante a crise migratória [quando centenas de milhares de solicitantes de refúgio e migrantes atravessaram a Hungria], o governo introduziu uma lei de emergência para a imigração. Ela ainda está em vigor, embora não haja mais migrantes na Hungria, e as fronteiras estejam fechadas. O governo prorrogou essa lei a cada seis meses, sendo a última vez em março. Então, eu não vejo qualquer garantia de que essa situação de emergência vá acabar com o fim da pandemia.
 
Felix Schlagwein (av) | Deutsche Welle
 
 

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Fascismo e “regime de sonho”

 
 
 
José Goulão

 

 | AbrilAbril | opinião
 
Vivemos os dias de hoje envolvidos em promessas irrealistas, declarações de boas intenções e embalados pelo slogan de culto a dizer-nos que «vai ficar tudo bem».

Completaram-se 75 anos sobre a derrota militar do nazi-fascismo. Então, as chamadas democracias liberais juntaram-se às «democracias iliberais» em redor da agenda de comemorações estabelecida por estas e que apaga da História o decisivo contributo da União Soviética para a vitória – ditando assim a segunda morte das mais de 26 milhões pessoas sacrificadas neste país para que ela fosse possível. Não foi uma celebração, foi uma vingança.

Nada mais natural. O fascismo latente e em exercício nas nossas sociedades não iria tolerar que se assinalasse com rigor histórico, humanista e libertador o dia da sua derrocada. Num momento em que os herdeiros políticos dos vencidos já têm de novo rédeas de poder e ditaram o ambiente político-ideológico-económico da abordagem do epílogo da Segunda Guerra Mundial seria contra-natura qualquer evocação patrocinada pelo «espírito» da NATO que reflectisse seriamente sobre as causas e consequências da derrota do nazi-fascismo.

Os episódios associados à efeméride confirmam a influência que as tendências fascistas voltaram a exercer sobre a sociedade ocidental e a maneira como algumas importante correntes políticas não-fascistas, arrastadas pelo vigor da ditadura económica, se vão rendendo aos avanços do autoritarismo.

Não é um fascismo de botas cardadas, de impressionantes e militarizadas mobilizações de massas e apoiado no terror espalhado por grupos de choque – embora estes andem por aí, como se percebe nos Estados Unidos, no Brasil, na Colômbia, na Hungria. É um fascismo aparentemente mais polido, movendo-se ainda entre as baias da democracia política formal, insidioso, até bem-falante e elaborado na expressão do racismo e da xenofobia.

E não se pense que o fascismo que nos cerca é apenas o de grupos e movimentos facilmente identificáveis como tal na sua demagogia, no racismo primário, nas saudades por expressões fascistas de outros tempos, no restauracionismo animado por ânsias de vingança. O novo fascismo não se assume como tal, está ainda em rivalidade com essas correntes, digamos, tradicionais, e tem ambições globalizantes.

 
A casa-mãe e os pais do neoliberalismo

Há um conceito económico de sociedade unindo todas as manifestações de fascismo que nos ameaçam: o neoliberalismo como estado selvagem do capitalismo. O fascismo é a casa-mãe do neoliberalismo implantado em 1973 pelos Chicago Boys no Chile de Pinochet, dando corpo às ideias de Friedrich von Hayek e Milton Friedman – ambos devidamente agraciados com o Prémio Nobel. Foi «encontrado o regime de sonho do capitalismo», sentenciou então a revista The Economist, a bíblia destes assuntos.

O neoliberalismo é o «regime de sonho» que nos governa e que dita a política como qualquer coisa subsidiária da economia – a economia da «mão invisível» do mercado, como pregava von Hayek. Governa-nos à escala da União Europeia e tendencialmente global porque a sua consolidação a partir do início dos anos oitenta do século passado se processou com a chamada globalização económica, ideológica e tecnológica suportada num pensamento único decorrente das grandes centrais de informação e propaganda que formatam a comunicação social corporativa. Uma globalização neoliberal que se tornou programática e obrigatória através do «Consenso de Washington» de 1989 – a instauração do neoliberalismo como fascismo económico que viria a modelar a União Europeia e a dominar as práticas económicas e financeiras à escala mundial. Num quadro de unilateralismo geopolítico e geoestratégico sustentado pelo aparelho militar mundializante da NATO.

De Reagan e Thatcher a Merkel, de Blair a Bush, Hollande e Mark Rutte, do casal Clinton a Cavaco, Barroso, Conte, van der Leyen e muitos outros com variados rótulos políticos foi-se casando a democracia política formal com o absolutista e inquestionável fascismo económico. «Algumas das linhas aplicadas no Chile são inaceitáveis», desculpava-se Margaret Thatcher em carta ao seu guru van Hayek. «Por vezes o processo poderá parecer dolorosamente lento mas estou certa de que o concretizaremos à nossa maneira e no nosso tempo». Então, acrescentou, «ficará para durar».

Ele aí está, o neoliberalismo de hoje, ao serviço de uma elite cada vez mais restrita em número dos ultrajantemente ricos e ao mesmo tempo globalista na sua amplitude. A selectividade do grupo, a vocação arbitrária e autoritária das instituições e dos mecanismos transnacionais foi sacrificando pelo caminho algumas burguesias nacionais ambiciosas que, como reacção, foram buscar inspiração política e social ao fascismo retinto sem porem minimamente em causa o código de conduta neoliberal – abrindo uma guerra dentro do «regime de sonho»; a qual, no entanto, não é suficientemente fratricida para gerar discordâncias quanto ao espírito com que foi evocado o fim da Segunda Guerra Mundial. Olhemos também, nesse âmbito, os paninhos quentes com que as instâncias de Bruxelas, Parlamento Europeu incluído, tratam as «democracias iliberais» – o respeitoso pudor diz tudo – na Hungria, Polónia, nos Estados bálticos, na Croácia e outros para entender como prevalece a convergência em relação ao modelo económico neoliberal. Sem esquecer que foi a União Europeia, de braço dado com a corrente política de referência do neoliberalismo globalista, o Partido Democrático dos Estados Unidos, que deu o golpe dito «democrático» na Ucrânia que se institucionalizou como regime, de facto, fascista, europeísta, atlantista e neoliberal.

O efeito COVID-19

A fronteira entre o «liberal» e o «iliberal», entre a democracia formal e o fascismo de velho-novo tipo é, portanto, bastante difusa. Sobretudo nas fases de crise aguda do capitalismo como a que agora atravessamos.

É inegável que existe um confronto político aceso e estratégico entre as correntes neoliberais globalista e fascista porque há acentuados desequilíbrios na repartição do maná que resulta da gestão totalitária de um mundo onde as fronteiras não perturbam quem tem a força do seu lado. A guerra está ao rubro no coração do imperialismo e do unilateralismo, os Estados Unidos da América, onde o fascismo que tomou conta do Partido Republicano veio abalar os feudos do globalismo que se expressam fundamentalmente através do aparelho do Partido Democrático e respectivas emanações do Fórum Económico Mundial e da falsa «Agenda Verde». E a partir daí o conflito dissemina-se por todo o cenário ocidental: de um lado ainda a democracia formal como cobertura política para o totalitarismo económico; do outro, o fascismo – sem disfarces apesar dos rótulos eufemísticos que lhe aplicam.

A pandemia de COVID-19 e os problemas económicos que lhe estão associados fizeram explodir o neoliberalismo numa crise que já estava anunciada, eventualmente sem a gravidade que agora assume.

O neoliberalismo vai querer sobreviver – «ficará para durar», profetizou Thatcher. Por isso, há que esperar uma resposta ao nível da gravidade dos problemas que o sistema enfrenta para garantir os seus objectivos de sempre, o máximo fluxo de lucros.

Não surpreenderá, portanto, que entre os danos colaterais da resposta «musculada» – termo que cedo começou a fazer carreira na comunicação social corporativa – esteja a própria democracia formal. «Temporariamente», prometem; estas coisas são sempre «temporárias» antes de se eternizarem. «As restrições à democracia podem ser necessárias num período de transição», já dizia Friedrich van Hayek.

No seu afã pela sobrevivência, o neoliberalismo tenderá a encaminhar-se para a casa-mãe fascista. Para salvaguardar as leis de mercado, «um governo ditatorial pode ser mais liberal que uma democracia», escreveu o mesmo Friedrich van Hayek. E se «a opção totalitária é a única oportunidade que existe num determinado momento, então pode ser a melhor solução», acrescentou em 1981 ao jornal chileno El Mercurio, órgão oficioso da ditadura fascista de Pinochet e dos Chicago Boys.

Não será difícil imaginar o lado pelo qual o neoliberalismo vai nivelar a sua resposta política às dificuldades económicas resultantes da pandemia. O globalismo escorregará naturalmente para o autoritarismo «iliberal» na convergência recomendada pelos ideólogos históricos do neoliberalismo.

Pacote autoritário em vigor

Actos como a caça aos dados pessoais dos cidadãos a pretexto de medidas sanitárias, as restrições a direitos e liberdades sem prazo fixo, a imposição arbitrária de novas modalidades laborais, os controlos de movimentos, a multiplicação de medidas de última geração tecnológica para seguir rastos das pessoas, incluindo a aplicação de chips de detecção – como sugere Netanyahu, homem experiente em metodologias fascistas – fazem parte de um pacote autoritário já activo. Não são medidas avulsas; uma vez aplicadas entrarão no acervo dos mecanismos de controlo de pessoas que se tornarão irreversíveis, como vem alertando Edward Snowden baseado na sua experiência de trabalho nas agências norte-americanas de espionagem.

Vivemos os dias de hoje envolvidos em promessas irrealistas – como a de não existir a ameaça de mais austeridade –, declarações de boas intenções e embalados pelo slogan de culto a dizer-nos que «vai ficar tudo bem». Em paralelo, o «regime de sonho do capitalismo», de pesadelo para milhares de milhões de habitantes do planeta, vai usando o pretexto do COVID-19 e do pós-pandemia para tecer o colete-de-forças com que pretende imobilizar-nos, convencendo-nos da justeza da sua aplicação através do reforço dos mecanismos censórios contra todos os meios que tenham a ousadia de não alinharem com a opinião única, a que é manipulada pela «mão invisível» do mercado.

Unidas na negação da História da Segunda Guerra Mundial e num ritual de vingança dos que a perderam, as democracias liberais e «iliberais» convergem também na plataforma fascista que assegurará a sobrevivência do neoliberalismo como «regime de sonho do capitalismo» – que não hesitará em atropelar os colaborantes não-fascistas se a tanto for preciso chegar.

No entanto, apesar da complexidade e dos perigos da situação, com mais ou menos apertados coletes-de-forças, o problema de fundo não se alterou: para extirpar o monstro é necessário derrotar o capitalismo.

Este artigo é um exclusivo O Lado Oculto / AbrilAbril
 
 

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Há uma linha que separa

«Ninguém se lembraria de explicar a Nuno Melo a autonomia pedagógica, o atentado aos mais básicos direitos individuais se um académico ou qualquer docente fosse impedido de ter ação política ou o bom que seria se os miúdos da telescola tivessem a sorte de ter mais lições de académicos e divulgadores culturais da craveira do Rui Tavares (e não, não vou escrever nomes de historiadores de outras áreas ideológicas porque seria ofender a inteligência de quem me lê) e muito menos a brilhante e ideologicamente anódina lição do historiador sobre a Exposição do Mundo Português de 1940. O homem não perceberia e mesmo que percebesse não estaria interessado em nada disso. O CDS sempre conseguiu albergar Nunos Melos e pessoas de extrema-direita bem mais sinistras. Aliás, entre os vários agradecimentos que temos de fazer aos centristas (de Freitas do Amaral a Paulo Portas) é a capacidade de albergar uma direita não democrática sem nunca a ter deixado impor a sua agenda. O Nuno Melo, por exemplo, só não se transformou num Ventura por ser mais limitado, mas fundamentalmente porque Paulo Portas e outros controlavam-no. Mais, até seria menos plástico do que o líder do Chega, que já defendeu tudo e o seu contrário. (...) Assistir a um partido com importância para a construção da democracia como o CDS concorrer com oportunistas miseráveis como o Ventura não é nada agradável, vê-lo morrer às mãos de Nuno Melo e do seu compagnon de route Telmo Correia tão-pouco é.»

Pedro Marques Lopes, O cordão sanitário

«Quando uma mentira está a ser propalada, e uma suposta polémica não resiste à análise mais básica dos factos, não há “um dos seus”. As velhas categorias morais têm precedência sobre o tribalismo político. Não há mentirosos de direita ou de esquerda — há mentirosos. Não há corruptos de esquerda ou de direita — há corruptos. Não há demagogos de esquerda ou de direita — há demagogos. Há uma diferença radical entre cada um de nós ter um campo ideológico com o qual se identiÆca ou ter um clube ideológico com o qual tem de se identificar. O primeiro é para homens livres. O segundo é para serviçais ou para fanáticos. O que é verdade ou mentira, o que é justo ou injusto, o que é decente ou indecente, precede e prevalece sobre sermos de esquerda ou de direita — e quem não percebe isto não percebe coisa nenhuma. (...) Nuno Melo escolheu mal a época para fazer a apologia da teoria “um dos seus”, porque aquilo que mais existe à nossa volta são cavernícolas de direita a estamparem-se ao comprido. Todos os que desvalorizaram os Trumps, os Bolsonaros ou que acharam que André Ventura, o confinador de ciganos, é que dizia “grandes verdades”, estão a assistir agora da primeira fila aos resultados catastróficos de ceder nos princípios mais básicos em nome de estratégias políticas.»

João Miguel Tavares, Duas ou três coisas que a direita precisa de ouvir

Já agora, vale a pena assinalar que dias depois de o CDS-PP de Nuno Melo pretender calar um historiador, o Chega de Ventura quis calar um futebolista. Foi isso, não foi?

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Um mundo cão?

Recuso-me a ouvir o Aldrabão, pelo que dele vou sabendo o que a imprensa ou as redes sociais me vão dando conta a propósito do seu sinistro pensamento. Agora soube da tentativa de cavalgar a onda emocional suscitada pelo crime na Atouguia da Baleia para vir com propostas insanas sobre as penas a aplicar em tais casos, procurando remeter para o esquecimento a campanha contra a etnia cigana, que tão mal lhe correu, sobretudo graças à trivela de Quaresma.

 

Advogado de formação, o Aldrabão teria aqui motivos para ser expulso da respetiva Ordem, porque supostamente desaprovaria um dos seus pares que viola o princípio de presunção de inocência dos suspeitos, ou mesmo arguidos, até transitar em julgado o veredito sobre eles decidido por um tribunal competente para o emitir. Mas, tendo em conta que as Ordens há muito se converteram em organizações apostadas na intervenção política contra as esquerdas em geral e os socialistas em particular, será improvável que a do Aldrabão venha a pronunciar-se sobre a sua recorrente demonstração de violação de qualquer ética deontológica.

 

O caso veio coincidir com a leitura de uma antologia de crónicas de Mário de Carvalho («O que eu ouvi na barrica das maçãs») publicadas em jornais e revistas há cerca de duas dúzias de anos.

 

São textos deliciosos e um deles veio ao encontro do que o Aldrabão anda a propalar.

 

Conta o escritor que, logo a seguir à Revolução de Abril, num comício do PCP a multidão começou a gritar a palavra de ordem “Morte à Pide”ou“Morte à CIA”.Pedagógico, Álvaro Cunhal pegou no microfone e desaprovou tais ditos, porque, se algo há de que os portugueses se podem sentir muito orgulhosos é o de terem sido os primeiros a acabar com a pena de morte.

 

Essa evocação é elucidativa sobre as diferenças entre as práticas políticas de há quase meio século com as atuais. Na altura valorizavam-se os princípios, os valores e enaltecia-se a educação para a cidadania, que nos tornaria melhores e mais informados. Hoje, à conta da comunicação social, que aliena, desinforma, manipula e mente sem qualquer pudor, surgem os Aldrabões, que procuram promover-se à conta dos piores instintos dos que, acriticamente, os ouvem.

 

Noutro texto da mesma época Mário de Carvalho previa o que se teme para o futuro próximo:“o jornalismo cão há-de merecer um mundo cão”.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/05/um-mundo-cao.html

O dr. Ventura e o CM

vednturinha004
 
A simbiose entre o Dr. Ventura e o CM que o criou é cada vez maior. Populiza um populiza o outro na compita por audiências lucrativas.
Agora foi o indecoroso aproveitamento partidário de um lamentável crime.
 
venturinha CM003
 
Aguarda-se para breve que o CM passe a promover diariamente o Dr. nas suas páginas mais rentáveis e 'populares' em que faz a promoção da prostituição.
 
 
 

A desventura de André Ventura

Os humanos são seres muito especiais. Vêm de muito longe, diz-se que do fundo dos tempos. Quem viu o magnífico filme de Stanley Kubrik “2001 - Odisseia no espaço” terá certamente registado o instante em que de um grupo de macacos se destaca e servindo-se de um osso de um outro animal “dá conta” que o pode usar com violência contra outro. Descobre o instrumento/ferramenta.

Não se sabe com precisão o momento que os macacos se ergueram e iniciaram a sua marcha a caminho de se humanizar.

Sabe-se, no entanto, que esta verdade trouxe grandes dissabores a Darwin e continua a trazer a outros defensores do evolucionismo, dado o poder dos negacionistas que só aceitam a fórmula do Génesis e do casal desgraçado (Adão e Eva) para toda a eternidade devido à sua ambição em querer abarcar o conhecimento, o qual estava reservado à divindade.

Do grupo às tribos, às comunidades, às cidades, às nações e países, foi um longo percurso a desbravar ignorâncias e a abarcar conhecimentos.

Os filósofos gregos, não renegando as múltiplas divindades, defenderam o homem como medida das coisas. Epicuro foi mais longe e lançou a primeira pedra do materialismo.

As mãos que matavam e faziam razias podiam ter outros gestos e acarinhavam. Veio a escravatura e logo se impôs Espartacus.

Na velha Galileia Cristo era Deus feito homem. São Paulo defendia que todos os homens eram irmãos, mas a própria Igreja se esqueceu dessa irmandade ao adotar as práticas do velho Império romano, incluindo a escravatura.

Portugal e Castela trouxeram a primeira globalização e com ela o colonialismo sustentado em Impérios.

E o mundo humano continuou na sua senda e a rodar e o que parecia eterno afinal não era.

Vieram séculos de ignomínia com as perseguições aos judeus e hereges, a mando da Inquisição.

O colonialismo foi-se. E ficaram Gandi e Mandela.

Hitler insistiu na estrela amarela na lapela dos judeus. E abriu fornos de cremação para quem não pertencia à raça ariana, incluindo ciganos e judeus.

Passaram há dias 75 anos da derrota do nazismo. A Europa e o mundo sofreu 50 milhões de mortos.

Parecia que havia um tempo gasto, morto. Mas a verdade é outra. Vozes enterradas fazem-se ouvir com o seu ódio, aproveitando o desencanto de um mundo com tanta desigualdade.

Quando a significância de André Ventura resulta de assumir posições que no passado levaram às maiores desgraças é assustador. A defesa do confinamento dos ciganos, da deportação de Joacine ou outros atoardas sobre o 25 de abril insere-se num roteiro de aproveitamento político de alguém que se quer apresentar contra o sistema, mas sempre viveu dele desde o futebol à política mais reles.

Representa em termos políticos o que de mais simbólico existe de desventura humana – a perseguição a outros seres humanos.

https://www.publico.pt/2020/05/11/opiniao/opiniao/desventura-andre-ventura-1916031

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/05/11/a-desventura-de-andre-ventura/

Os 75 anos da vitória da civilização contra a barbárie nazista

Em 8 de maio, completaram-se 75 anos da rendição alemã, que marcou o fim da Segunda Grande Guerra. Foi a vitória da democracia e da civilização contra a barbárie da extrema direita.

 

 

Na madrugada de 8 de maio de 1945, em uma pequena escola de tijolos vermelhos, em Reims, no nordeste da França, os alto dignatários do que restava da arrogância nazista, o general Alfred Jodl (ex-chefe do Alto Comando da Wehrmacht, condenado a morte em 1946 por crimes contra a humanidade pelo Tribunal de Nuremgerg) e o almirante Hans Georg von Friedeburg (ex-comandante da marinha alemã) assinaram a rendição incondicional da Alemanha, ante os generais Ivan Susloparov (soviético), Walter Bedell Smith (estadunidense) e François Sevez (francês).

Foi o fim da agressão nazista no Ocidente, na Ásia e no Pacífico a guerra continuaria mais alguns meses, até a rendição do Japão em 2 de setembro de 1945. A Segunda Grande Guerra foi o maior e mais sangrento episódio da luta de classes e contra a democracia no século 20.

A guerra ocorreu num contexto de agravamento intenso da resistência das classes dominantes europeias contra o avanço da democracia, resistência radicalizada na Alemanha e outros países, como a Itália e mesmo setores da elite na França, Inglaterra, EUA e outros lugares.

O marco dessa resistência à democracia foi a Revolução Russa de 1917 e o início da construção do socialismo. Isso era inaceitável para as classes dominantes do Ocidente, que tudo fizeram para derrotar a república proletária, esforço reacionário acentuado desde que o governo bolchevique venceu a Guerra Civil, apoiada pelas potências ocidentais, em 1922.

Depois da ascensão do nazismo ao poder em 1933, os governantes da Inglaterra e da França fizeram vistas grossas às transgressões de Adolf Hitler às obrigações impostas pelo Tratado de Versalhes à Alemanha, e não se opuseram ao fortalecimento das forças armadas alemãs, nem reagiram à anexação de territórios como a Renânia em 1936. Os governos britânico e francês chegaram a assinar um vergonhoso tratado com Hitler – o Acordo de Munique, de 29 de setembro de 1938, que entregou a Tchecoeslováquia à sanha nazista. E que deu liberdade de ação aos nazistas na Europa para que recuperassem territórios perdidos na Primeira Grande Guerra. Dessa maneira, esperavam amansar Hitler e dirigir sua ação para destruir a União Soviética.

Adolf Hitler e a liderança nazista acreditavam que teriam uma vitória rápida contra os russos, que viam como “sub-humanos”, bárbaros, racialmente inferiores. Seu objetivo era a expansão sobre os territórios no leste da Europa, sobretudo as estepes férteis da Ucrânia, vistos como um “lebensraum” (espaço vital) para a expansão alemã.

A guerra como recurso para conquistar esse “espaço vital” fora registrada por Hitler, em 1925, no livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”), que se tornou o evangelho nazista. “Quando hoje falamos em novo território na Europa, devemos pensar principalmente na Rússia e nos seus Estados vassalos limítrofes”, escreveu o líder nazista. Para isso seria necessário abrir naquelas terras um vazio populacional com o assassinato de ao menos 30 milhões de pessoas.

Em 30 de março de 1941, numa reunião para planejar a invasão da URSS (que ocorreria em junho daquele ano) Hitler teria dito que aquela seria a “luta de duas visões de mundo”, uma “sentença aniquilatória contra o bolchevismo”, que é a “mesma coisa que criminalidade antissocial”, registrou o general Franz Haider, que participou daquela reunião. “Comunismo, tremendo perigo para o futuro”, teria dito Hitler. O führer acreditava que a invasão seria mais uma “blitzkrieg” – um ataque relâmpago, rápido. Em seus planos, a guerra contra a URSS terminaria antes do Natal de 1941 e do temível inverno russo. “Nós só temos que chutar a porta da frente e todo o edifício ruirá”, disse em outra ocasião, relata o historiador Rupert Matthews. A reação russa à invasão alemã deu-se num nível e com uma força e determinação que os nazistas não esperavam, nem as classes dominantes nas demais potências. A resistência popular contra a ocupação nazista começou a ser preparada logo no início da invasão. Em 27 de junho, cinco dias após a agressão alemã, o governo soviético começou a organizar a ação guerrilheira (que mobilizou na luta toda a população adulta, homens e mulheres) como força complementar à do exército regular. Ela foi, disse o historiador Henri Bernard, uma gigantesca operação militar em harmonia com os planos de luta e com “apoio total da população”. A enorme mobilização do povo justifica o nome que os russos dão àquele conflito: “grande guerra pátria”.

Aqueles que esperavam que a invasão da URSS repetisse o desempenho das “blitzkrieg” e fosse uma guerra rápida erraram feio. Aquele foi num ótimo exemplo da cegueira ideológica que impede uma visão clara da vida real: o conservadorismo de direita, o nazismo, a repulsa à liberdade e autonomia dos povos, foi o grande embaraço que impediu as lideranças burguesas de então de enxergarem a solidez do regime soviético e apostarem em sua destruição pelos nazistas.

Solidez que os nazistas provaram na prática ao invadir a URSS. Em janeiro de 1942, um diplomata inglês que servia em Moscou enviou a seu governo, em Londres, um telegrama onde dizia: “Essa ofensiva forçará os nazistas a um longo recuo. Uma nova ofensiva alemã está prevista para a primavera, podendo fazer alguns progressos limitados na Rússia, mas não logrará muito. Em seguida, os russos pretendem dar o golpe de misericórdia no outono ou no inverno. Não acredito que os russos parem nas fronteiras alemãs, mas que partam para uma derrota da Alemanha de forma conclusiva e definitiva” (citado por Rupert Matthews).

Assim, aquele diplomata inglês anteviu o que aconteceria nos anos seguintes. O ponto alto da contra-ofensiva soviética que derrotou o nazismo foi registrado visualmente na conhecida fotografia de um soldado russo hasteando a bandeira da foice e do martelo no teto do Reichstag, a sede do parlamento alemão, em Berlim, em 2 de maio de 1945 – cerca de três anos e três meses após a vitória soviética em Stalingrado, onde começou a virada da guerra contra os nazistas.

A entrada do Exército Vermelho em Berlim, no início de maio de 1945 foi o ponto final da sangrenta e criminosa aventura guerreira iniciada por Adolf Hitler e seus asseclas em 31 de setembro de 1939, acentuada desde a invasão da União Soviética, em 22 de junho de 1941.

Desde 1941 o governo soviético apelava pela abertura de uma segunda frente, no Ocidente, contra a agressão nazista. Mas enfrentaram a oposição da liderança ocidental. O primeiro ministro inglês, Winston Churchill, por exemplo, era contrário à abertura de uma segunda frente, sob o pretexto do poderio alemão. Os soviéticos, dirigidos por Joseph Stalin, apelavam por uma grande aliança mundial, de comunistas, socialistas, democratas e defensores do progresso social, na luta contra o nazismo, o governo de extrema-direita que ameaçava a civilização em seu conjunto.

As batalhas de Moscou (2/10/1941 – 07/01/1942), Stalingrado (23/08/1942 – 02/02/1943, considerada o início da derrota nazista na guerra), Kursk (04/07/1943 – 23/08/1943), e o heroísmo do povo russo contra o cerco nazista a Leningrado (08/09/1941 – 27/01/1944), deixaram claro para o mundo que as tropas nazistas não eram invencíveis apesar da crença em contrário que havia no Ocidente, sobretudo depois da queda e ocupação nazista da França em 1940, que se fixaram no norte do país, deixando o sul sob o regime pró-nazista dirigido pelo marechal Henri Philippe Pétain.

Os criminosos nazistas não eram indestrutíveis – esta foi a mensagem que os russos deram ao mundo desde Moscou, Stalingrado, Leningrado e Kursk.

Começou ali o rolo compressor vermelho que expulsou os nazistas e os empurrou ao território alemão. Não foi um passeio, mas um esforço de guerra que ninguém, na liderança nazista ou na ocidental acreditava que fosse possível. Os governos da Inglaterra e dos EUA acreditavam que o povo russo, ante a ocupação alemã – que, apostavam, veriam como “libertadora do comunismo” – se levantaria contra o governo soviético.

Na véspera da invasão da União Soviética, o serviço secreto britânico calculou que a URSS seria derrotada em oito ou dez semanas. Na mesma linha um funcionário do Departamento de Estado dos EUA foi mais “pessimista” e previu que a derrota soviética ocorreria entre um a três meses. (citados por Domenico Losurdo).

O historiador estadunidense John Bagguley dá a dimensão das razões da insistência soviética pela abertura da segunda frente. Ele é taxativo ao dizer que a ação ocidental (inglesa e estadunidense) não foi central na guerra para derrotar Hitler. Era contra os russos e os povos do leste da Europa que os nazistas dirigiam a parte mais significativa de sua ação guerreira, cuja medida é dada pela lembrança que o então primeiro ministro britânico, Winston Churchill registrou, ele próprio, em suas memórias: enquanto os aliados brincavam, no Ocidente europeu, com seis divisões alemãs, os russos enfrentavam 185 divisões da Wehrmacht – 30 vezes mais! Essa disparidade levou o historiador Bagguley a reconhecer que a Segunda Grande Guerra foi na verdade, “uma guerra soviético-germânica, com a ação inglesa e americana apenas na periferia”.

Poucos meses após a vitória em Stalingrado, as forças soviéticas chegaram aos países ocupados pelos nazistas no Leste da Europa, e, em abril de 1945, ao território da Alemanha, cuja capital, Berlim, foi tomada por eles.

O desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944 – o famoso Dia D, que significou a abertura da frente ocidental que os soviéticos pediam desde 1941 – só ocorreu depois do começo da ofensiva do Exército Vermelho no Leste Europeu, no início daquele ano e que avançou rapidamente rumo ao oeste.

A derrota alemã coroou a árdua e difícil caminhada iniciada desde vitória soviética em Stalingrado, dois anos antes.

O número de mortos se conta aos milhões: uma pesquisa no Google diz que foram entre 50 milhões e 70 milhões – dos quais mais de 27 milhões de russos (entre os quais mais de 13 milhões de civis) vítimas da ocupação nazista, 14 milhões de chineses mortos pelos invasores japoneses e 6 milhões de judeus assassinados na máquina de matar montada pelos nazistas.

A Segunda Grande Guerra foi o mais violento e letal episódio da luta de classes que marcou aquele que foi o período do início da luta pelo socialismo: o século XX.

O mundo mudou depois da assinatura da rendição incondicional alemã em 8 de maio de 1945. A democracia saiu fortalecida daquele conflito onde as forças do progresso social lutaram para derrotar a direita mais radical e preconceituosa. Há 75 anos venceram a democracia e a civilização, contra a barbárie. Hoje, três quartos de século após, as mesmas forças anti-democráticas, que defendem o ódio, o racismo e o preconceito voltam a ameaçar o mundo, inclusive o Brasil. Para se resguardar contra elas, e em defesa da democracia e dos direitos de todos, o conhecimento da história, daquilo que já aconteceu, é fundamental.

 
 
  • Bagguley, John. “A guerra mundial e a guerra fria”. in Horowitz: 1969
  • Bernard, Henri. “Historia de la resistencia europea”. Barcelona, Ediciones Orbis, 1986
  • Evans, Richard J. O Terceiro Reich em Guerra. São Paulo, Planeta, 2012
  • Hobsbawm, Eric. “Era dos extremos – O breve século XX” -1914-1991. São Paulo, Cia das Letras, 1995
  • Horowitz, David (org.). “Revolução e Repressão”. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1969
  • Losurdo, Domenico. Stalin – storia e critica di uma legenda nera. Roma, Carocci editore, 2008
  • Matthews, Rupert. Segunda Guerra Mundial: Stalingrado. A resistência heroica que destruiu o sonho de Hitler de dominar o mundo. São Paulo, M. Books do Brasil, 2013
  • Shirer, William. “Ascensão e queda do Terceiro Reich”. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1975
  • Volkogonov, Dimitri. “Stalin: triunfo e tragédia – 1939-1953”, (vol. 2). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004

Texto em português do Brasil



 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-75-anos-da-vitoria-da-civilizacao-contra-a-barbarie-nazista/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=os-75-anos-da-vitoria-da-civilizacao-contra-a-barbarie-nazista

O camaleão e a sua natureza

 
Todos os répteis da família Chamaeleonidae e da ordem Squamata são designados por camaleões. Admite-se que haja mais de 150 espécies, uns mais capazes do que outros de se mimetizarem com o meio ambiente.

N a guerra colonial tive no quarto um camaleão, para me livrar dos insetos. A princípio achei-o repugnante, depois habituei-me. O réptil, voraz, não tinha apetência para incomodar os humanos. Diverti-me a apagar e a acender a luz, para o ver mudar de cor.

Apreciava aquela capacidade ímpar de virar cada um dos olhos para sítios diferentes e de os rodar até 360º. Com o tempo esqueci a viscosidade e apreciava a distância a que projetava a língua. Um inseto a sessenta ou setenta centímetros, fixado por um dos olhos, enquanto o outro vigiava um eventual inimigo, era um pitéu ao alcance daquela língua rápida, eficiente e pegajosa.

As enciclopédias referem pertencer a uma família com origem há mais de 100 milhões de anos, quando se separou da família Agamidae, segundo provam fósseis estudados.
É fácil conhecer a vida destes répteis e compreender as capacidades que desenvolveram para assegurarem a sobrevivência face aos predadores, ao longo de milhões de anos.

É mais difícil compreender a semelhança de homúnculos cuja coluna vertebral é frágil e a cor se altera ao sabor da ambição e da pusilanimidade. Sei de um, que Passos Coelho levou para o PSD, que tem características dos camaleões e a mentalidade dos políticos derrotados há 75 anos com a capitulação da Alemanha nazi.

Não o tendo a natureza dotado com cromatóforos, células com moléculas de pigmentos e dotadas da capacidade de refletir a luz, foi buscar essa capacidade à vileza de quem encontra no racismo o caminho da sua ambição.

No camaleão do meu quarto havia a genuinidade de um réptil que procurava sobreviver. No que ora refiro há a maldade de quem perfilha ideias capazes de provocar tragédias e a ambição de ostracizar os mais desprotegidos e perseguir os mais fracos.

Sendo um Hitler de nível paroquial, não sonha com a ‘solução do problema’ de judeus e ciganos, contenta-se em instilar o ódio aos últimos. Há répteis assim e, no início, todos têm êxito.

Há 75 anos acabaram mal.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/o-camaleao-e-sua-natureza.html

O perigo é a direita, não a extrema-direita

A primeira foto é retirada da página online da TSF, a segunda é a newsletterdo jornal Correio da Manhã. Ambos os grupos económicos em que estes órgãos de comunicação social estão inseridos, dão espaço, promovem, alardam os temas que a extrema-direita em Portugal defende. E fazem-no numa prática continuada de violação da Constituição e, por isso, de violação da lei de imprensa, já não falando individualmente de cada jornalista que está na Direcção de Informação desses órgãos.

O caso do Correio da Manhã é mais claro quando se distorce claramente a realidade para promover eleitoralmente uma determinada força política cuja linha política é inconstitucional e antidemocrática. Quem assistiu ao debate quinzenal de ontem percebeu o que o primeiro-ministro disse: não há um problema com a comunidade cigana; há um problema com quem não cumpre as regras, independentemente da sua cor, raça, etnia, opinião. Como foi que o Correio da Manhã viu a coisa? Deu voz ao inconstitucional.

Tudo isto tem um propósito que não é o de criar uma nova República. É, sim, o de colocar a direita no centro do poder, puxando a direita para a extrema-direita e a esquerda mais moderada para a direita, de modo a que qualquer opção seja de direita. E que o voto útil seja o da direita moderada contra a extrema-direita. Não é novidade. Está em toda a Europa. 
 
A questão é saber como se impedem estas práticas inconstitucionais e ilegais que se albergam, precisamente, no direito de comunicar. A segunda, é como combater a direita, porque são as forças apoiantes da direita que estão por detrás desta deriva.

E isso apenas se pode fazer com um alargamento do entendimento político. Caso contrário, estaremos a votar em alguém de direita para evitar que um qualquer Bolsonaro apalhaçado chegue ao poder para ser substituído rapidamente, a mando de um status quo vigente. E nesse debate, o PS vai ter de fazer opções muito claras, como tem feito António Costa nos debates parlamentares.  

Até lá, eis a minha contribuição (o coro cigano na ópera O Trovador, de Verdi):

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | Trivela contra vozes de burros, cabazada de Quaresma

 
 
Ferreira Fernandes | Diário de Notícias | opinião

 

 
Eu não vou falar da coelha anã "Acácia, a coelha anã do deputado do Chega", fotografada em pose e em gesto fofo com o referido político. Não vou porque também tive um sagui com o qual dormia, agarradinho ao meu pescoço. É certo que eu ainda não tinha idade para ser elegível, tinha oito anos, mas defendo que todos temos direito às nossas idiossincrasias peludas e não devemos ser julgados por elas.

 


Venturinha001Outra coisa é o caráter que um eleito revela em público. Se for muito peçonhento há que estar atento. Vota-se, espero, pelas propostas políticas de um candidato, mas alguns traços da personalidade ajudam ou desajudam - e, às vezes chegam a ser determinantes. Ao André Ventura, chegam-me as suas ideias políticas, que me repugnam. Acresce, porém, que o homem, pessoa, vai consoante o seu papel político.

Sorte a do bem público, porque assim, juntar a pessoa mais as ideias, tudo mau, então, aumentam as probabilidades do político ser rechaçado - dirá um ingénuo. Errado. Primeiro, porque aquelas inomináveis criaturas serem o Donald e o Jair, não as impediu de serem eleitas com os execráveis programas deles. Segundo, porque o narcisismo patológico, de um, e o ser calhau, de outro, tiveram um efeito de corrupção sobre as sociedades respetivas. E a maré pútrida já se espalhou mundo fora.

 


É assim que os malefícios que são de prever vindos do político André Ventura, mesmo antes de se transformarem em leis, salvo seja, já o seu comportamento público faz razias sociais. Deixar-se enxovalhar num programa televisivo da CMTV, engolir os insultos, de "vigarista!" a "palhaço!", não desminto a justeza, preocupa-me é o exemplo, é de um, como dizer... pusilânime. Repetir semanas a fio esses tristes diálogos com o mesmo indivíduo que o amarrota e humilha é de um... de um... não há volta a dar, um pusilânime.

 


E que é um pusilânime? É uma coisa em forma de descer as escadarias da Assembleia da República, numa manif de polícias, os olhinhos circundantes, medrosos, "onde m"estou a meter, valha-me Deus...", apesar do seu grupinho lhe ter garantido o afeto, "e, credo!, se eles me confundem com um político a sério..." Um pusilânime nota-se pelos olhinhos e transpira pusilanimidade pelos poros.

 


Também há pusilânimes lá fora. O mais famoso foi um adepto de futebol, desses raquíticos e língua de víbora, com um truque: ele insultava os atletas famosos porque estes tinham tudo a perder se respondiam... Ter na mão um poderoso, ah o prazer cobarde da chantagem!

 

 
A amiba, num dia de 1995, apanhou o Cantona a caminho do balneário. Cantona, soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada, e o nosso pusilânime, a metro e meio, tungas: insultou. O Cantona levou nove meses de suspensão, e os adeptos do truque sentiram um choque (um deles, literalmente): se calhar é melhor não... Foi remédio santo.

 


Onde é que eu estava? Ah, no André Ventura, esse que tem um truque: diz o que lhe vem à cabeça, tem parangonas, mobiliza os excitados e recolhe os votos dos cobardes. Esta semana, ele disse ser necessário "um plano de confinamento específico para a comunidade cigana." E aqui faço um salto epistemológico, do indivíduo André, o pusilânime, para o político Ventura, o sem princípios. O que disse o líder do Chega, o deputado Ventura, foi indecente.

 


Antes desta bojarda de Ventura, o futebolista Quaresma, no início da quarentena, publicou um vídeo, no Facebook, em casa com a família. Ele, a mulher e o casalinho de filhos jogavam cartas, riam e fingiam discutir. Olhem um cidadão, pelo texto que escreveu: "Desta vez quem resolve o jogo é a quarentena não é o Quaresma! Cumpram as regras que vos são pedidas pelas autoridades. Metam a bandeira portuguesa na janela de casa para apoiar os nossos campeões que estão a trabalhar nos hospitais. Em breve teremos uma vacina, mas até lá a melhor vacina é ser solidário uns com os outros. Obrigado Portugal." 15 de março.

 


Um mês e picos depois, o cidadão Ricardo Quaresma soube que um deputado português propôs que ele, a mulher e os dois filhos podiam não estar na casa que ele comprou com o seu trabalho e talento e que tantas alegrias deram a Portugal. O tal deputado propunha que se discutisse como pôr as famílias ciganas - o que quer dizer, a de Quaresma também - num "confinamento específico" para ciganos.

 


Eu estou a transmitir um facto, as minhas palavras são substantivas. Cito André Ventura por palavras da boca dele. Vão lê-las. Sobre isso, para mim, ponto final. Se o leitor, o meu patrão, o polícia da rua, o meu dentista, um parente chegado e a quem devo muito, o cardeal patriarca, Costa ou Marcelo, se alguém quiser ponderar a questão do confinamento específico de ciganos, já não aviso segundo ponto final. Mando à merda.

 


Já discuto gostosamente sobre o que Quaresma fez por nós. Se o leitor não teve a dita de ver ao vivo, recorra a vídeos. Os cruzamentos de trivela de Quaresma são dos maiores momentos do futebol mundial. Um misto de ciência, pela curva traçada, um sentido dramático pelo espanto de colegas, adversários e público, e uma beleza pegada. Como o outro, Garrincha, também magnífico e demasiado povo, Quaresma teve como destino ser a alegria do povo.

 


Dito isto, Ricardo Quaresma é soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada, um senhor como Cantona, e ainda maior talento. A Quaresma podia ter-lhe dado na veneta lembrar-se do ocorrido numa tarde de futebol em 1995. Mas não, e um artista da Net, a bela página Insónias em Carvão, criou esta semana um Quaresma, príncipe do séc. XIX, farda de gala e condecorações. Apanhou-o bem: apesar da indecência do pusilânime desbocado, Quaresma não sujou as botas nas trombas dele.

 


Ricardo Quaresma voltou ao twitter e publicou: "Olhos abertos, amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros..." Que frase política, de quem podia aproveitar-se para soprar no fogo, e não o fez. Sem ter andado em seminário, nem universidade inglesa, que respeito pela comunidade, a estreita e a Pátria. Que sentido de Estado!

 


Que sabedoria de quem, sabendo que há problemas, quer resolver e não inquinar. Quanto mais fácil seria, para uma vedeta que tem a sua vida e a dos seus materialmente resolvida, poder juntar a isso a vã glória de cavalgar uma qualquer rebeldia. Os meus, disse Quaresma aos seus e a nós, somos nós todos. Que lição do que é ser português!

 


Até a mim enganaste, Ricardo Quaresma, com o teu entrar em campo sempre de sobrecenho carregado, o último gole de água bocejado e cuspido, um agarrar impudico nas partes baixas, as tatuagens expostas... Sabia-te artista mas misturado com um bruto. Mas o que tu és é isso tudo e também um homem comovedor. Chapeau. Respect. Dá cá um abraço.

 


E ontem, ainda no Facebook, publicas a recordação do teu tio-avô, também futebolista, Artur Quaresma, do Belenenses. Num Portugal-Espanha, 1938, ele e dois colegas da seleção e do clube (José Simões e Mariano Amaro), não fizeram a saudação fascista. Portugal-Espanha, resultado: um hat-trick, ganhámos nós todos a memória de uma coragem. Não era um gesto sem risco: depois daquilo, Cândido dos Reis, treinador dos três no clube e na seleção, foi parar ao campo de concentração do Tarrafal.

 


Ricardo Quaresma à escrita: "Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história." Talvez cientificamente a frase não valha uma passagem por universidade inglesa, mas há mestrados que são desmentidos à primeira oportunidade. Já a tua frase tem a vantagem de ser dita com o penhor de uma vida assim cumprida. Quaresma, não chegarás a deputado mas chega para eu me sentir honrado em atravessar a rua para te dizer, "Obrigado, senhor."

 


Sobre tudo isto, André Ventura, que em programas sobre futebol na CMTV ganhou a notoriedade que lhe permitiu ser eleito deputado, disse ao Correio da Manhã: "É lamentável que um jogador da seleção nacional se envolva em política." Quer dizer, além de confinamento específico por ser cigano, avisa-se Quaresma com a mordaça por ser jogador da seleção.

 


E para remate final, André Ventura ainda disse: "Espero que as autoridades do futebol não deixem que isto se torne o novo normal." É a posição em que o político Ventura melhor joga. Mandar os outros dar porrada porque com o André ele não conta, é um fraco.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-trivela-contra-vozes-de-burros.html

André Ventura e «a cobardia de querer calar quem lhe faz frente»

«André Ventura fez uma proposta inqualificável, de decidir o confinamento de pessoas, tendo em conta a sua origem étnica. Teve a resposta que devia por um campeão português, Ricardo Quaresma, e veio logo sugerir que os futebolistas deveriam ter direitos limitados à opinião. Ficámos portanto a saber que o Chega não só tem opiniões repugnantes, como André Ventura tem a cobardia de querer calar quem lhe faz frente. Senhor deputado André Ventura, eu lutarei pelo seu direito a ter opiniões sobre o futebol. Embora também vá lutar para acabar com a pouca vergonha de receber vários salários, além do de deputado. E no que disser respeito ao Bloco, fique certo que as suas ideias racistas hão-de ir parar ao caixote do lixo, de onde nunca deviam ter saído».

Catarina Martins

«Nós discordamos do pressuposto: nós não temos nenhum problema com a comunidade cigana em Portugal. Nós temos problemas, em Portugal, com pessoas que cumprem, ou não cumprem, as normas sanitárias. É muito simples, a lei é para cumprir e deve ser aplicada a todos por igual. (...) O senhor deputado é que tem um problema, é que já foi de trivela. (...) É que o senhor deputado resolveu criar um caso com uma parte importante dos portugueses, que é a comunidade cigana. Como se eles fossem estrangeiros. E não sabendo que, há séculos, que eles são tão portugueses como qualquer um de nós. E aquilo que teve foi uma resposta à altura de um grande campeão nacional e de um grande jogador da nossa seleção. E que de facto é ter muito mau perder quando, depois de levar um baile do Quaresma, a única resposta que teve para dar foi dizer que, sendo jogador da seleção nacional, só tinha a obrigação de estar calado. Não, o direito à palavra e o direito à opinião é uma liberdade de todos, sua, do Quaresma, minha, ou de quem quer que seja.»

António Costa

Via Uma Página Numa Rede Social, as respostas da Coordenadora do Bloco de Esquerda e do Primeiro-Ministro ao deputado do Chega, André Ventura, no debate quinzenal desta quinta-feira. Como bem se assinala nesta Página, não tendo soluções para os verdadeiros problemas do país, os partidos populistas «distraem a sua base eleitoral com temas como o dos ciganos», como se esta comunidade «fosse responsável por algum dos grandes problemas do país» e quando «não são os ciganos que todos os anos fogem com milhares de milhões de euros para offshores, não são os ciganos que arruinaram bancos e, com eles, as poupanças de muitas famílias e as contas do país, e não foram os ciganos que venderam empresas públicas estratégias e lucrativas a fundos de investimento, que agora enriquecem à custa do trabalho do povo português». Por isso, sempre que ouvirem «André Ventura repetir que vem combater "o sistema", recordem que ele trabalha, em regime de acumulação de funções, numa empresa de engenharia fiscal que ajuda pessoas ricas a desviarem fortunas para offshores. Enquanto Ventura acena com os ciganos numa mão, para distrair os incautos, a outra mão está a ajudar algumas das pessoas mais poderosas do país a fugir aos impostos».

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

“Agora que o hálito fétido de 64 nos bafeja a nuca…”

Faço minhas as palavras do Sr. Ariclenes. Do ser humano que ele é. Não apenas do Lima Duarte, o ator. Do Sinhôzinho Malta, do Sassá Mutema e de tantos, tantos outros. A alma brasileira apresentada por sua voz e gesto.

 

 

Faço minhas as palavras do Sr. Ariclenes. Do ser humano que ele é. Não apenas do Lima Duarte, o ator. Do Sinhôzinho Malta, do Sassá Mutema e de tantos, tantos outros. A alma brasileira apresentada por sua voz e gesto. Com você meu senhor, eu nunca tive tanto orgulho de ser tupiniquim, tanta alegria em ser Jeca. Nunca foi tão doce ser caipira, tão singelo e nobre ser simples e trabalhador.

Mas veja que hoje, o homem que falava com as rosas e borboletas não existe mais. Talvez ele ainda sobreviva em algum lugar dessa tua Minas Gerais. Refúgio de tantas almas sensíveis e de pássaros raros como você e como o Flávio. O Flávio… O querido Xerife. O senhor Chalita.

Sim. Esse homem nobre e singelo que vocês representaram tão bem ficou no esquecimento. Ele foi aos poucos virando personagem de telas bucólicas, daquelas que ficam por cima do velho sofá das avós e que são substituídas às pressas por suas netas modernas. O bom virou cafona, senhor Ariclenes. A moda agora é ser supérfluo e ralo. Telas impressionistas, cores berrantes, museus de vidro e aço. O mundo virou mesmo uma exposição grotesca. As violas da tua terra cantam um música distante que não alcança os decibéis da imensa balburdia. A turba se refastela em ignorância. Agora a moda é não saber nada, especular sobre tudo, inventar verdades, distorcer fatos, comprar eleições. Nunca um tirano foi tão amado. Antes amava-se o corrupto porque achavam que ele era um homem bom. Antes éramos apenas desavisados. Hoje amamos abertamente o déspota, o arrogante, o debochado. Rimos de suas piadas, lustramos suas armas, lambemos suas botas. Nunca se precisou tanto de violência como expressão íntima. Um homem que faz do gesto um cano de revólver e uma nação inteira o copia. O que dizer…

Sassá Mutema

Eu tento, senhor Ariclenes. E perdoe-me se o chamo assim com essa intimidade. É que pessoas como você acalentam um mundo inteiro. Quantas vezes não dormi no colo do querido Mutema ao som da música do Osvaldo Montenegro? Sim. Você é como o pai e avó de algumas boas gerações.

Mas eu dizia que tento, ao ver essa aglomeração de gente desinformada articulando discursos ditados, que tento imaginar que esse período é apenas um sono pesado após o almoço. Um pesadelo curto desses que o corpo impõe aos pensamentos e eles ficam todos encavalados e cruéis. Crianças repetindo o gesto do grande homem, senhoras afirmando que todos os bandidos devem ser mortos. Isso não é coisa real. Não somos isso. Não somos. Em breve acordaremos e poderemos voltar à lida e à dança como todos os personagens lindos que você interpretou.

Porque sabe, senhor Ariclenes, a barra tá pesada. As músicas de hoje são de chocar a mais vulgar das mulheres e arrepiar o mais cruel dos homens. As valsas e sanfonas foram trocadas por batidas violentas e os passos de dança que antes expressavam o estado de espírito humano, agora são mera cacofonia de um coito animalesco. E perdoem-me os animais, mas hoje em dia até eles possuem mais elegância que os homens.

Ruiu toda e qualquer possibilidade de diálogo, meu caro. Os dois polos não querem mais nada além de se digladiarem. É a guerra pela guerra. Voltamos às arenas. A política e seus banqueiros e também o interesse privado finalmente conseguiram o que queriam. Nos tiraram o ideal. Não há um mártir que compre essa briga. Não o que salvar. Uma luta sem armas. A mais perigosa de todas. Mais letal que esse vírus de origem duvidosa. Porque o desânimo, o deboche, o descaso se infiltrou nas fibras do cidadão brasileiro que sofreu um processo lento e silencioso de abdução. Explico:

Primeiro lhe amaciaram as carnes com um governo assistencialista. Bolsas e benefícios, acesso a bens materiais e centros acadêmicos. Mas a vera instrução, nada. A reflexão sobre nossa origem, nossa história e seus preconceitos, nada. Deram aos jovens uma ilusão de que podiam tudo. Computadores, carros, motocicletas, celulares de última geração. E os mesmos pés desinformados de antes pisando no mesmo lodo da ignorância.

Depois instalaram o caos, a desordem geral. Os caminhões pararam, não havia abastecimento, não havia comida. Protestos fechando as rodovias e na televisão, a Lava Jato esguichando diariamente o rio de corrupção que estava por baixo do nosso verde tapete. Eis o nosso pré sal. Rios de dinheiro desviados, políticos presos, empresários presos, banqueiros presos. E após minarem toda e qualquer esperança em cada um de nós, lá vem um homem de farda com o seu discurso de salvação. “Segurança.” “Mão de ferro.” “Armas em punho.”

Ah senhor Ariclenes… Somo tão facilmente guiados. Há poucos anos atrás éramos todos em prol dos direitos humanos. Parecíamos tão modernos e prósperos. Mas nossa convicção era tão fina e rala quanto as paredes da maquete da pseudo economia emergente e sólida. Da época que o homem sem dedo era considerado “o cara.” Pois é… Pouquíssimos anos depois, essas mesmas pessoas modernas e que defendiam o livre pensar posavam ao lado do grande homem imitando o seu patético gesto bélico. Jogos de vídeo game foram criados onde gays e negros eram abatidos como animais. Eu via aquilo tudo e achava se tratar de algum grupo separatista que conseguia se propagar pela internet dando a impressão de que eram muitos. Mas não. Eles eram muitos. Representavam e representam boa parte da população do país. E estão por toda parte. E isso é coisa assustadora de se constatar.

Então meu amigo, eu só posso pensar que tudo isso não passa de um grande pesadelo. Que daqui do velho mundo eu verei o despertar da nossa bravia nação. Dia onde todos iremos cantar novamente a bela música do Geraldo Vandré. É o que eu espero de verdade. Pois sou muito nova pra assistir tão grande e contundente declínio da minha terra.

Sim. O manto de escuridão do militarismo nos abraça mais uma vez. E para ilustrar o momento, corrompo as palavras do poeta Bessonov, personagem de Tolstói. Que se não entendia nada dos trópicos, muito sabia sobre opressão:

 

A neve está chegando. Rodopiando agitadamente sobre a terra fria. O mundo ficou ainda mais triste. Eu me recuso a acreditar que Deus não existe. Que minha oração, como um rio, leva uma sílaba semi sussurrada de vela em vela, na expectativa de algo maior.

E a morte vigia, cruel sem temer, prendendo a terra à sua escravidão.”

 

 
 
 

Tem razão Vandré. Esperar não é saber…

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

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Post dedicado ao André Ventura

O dia mais odiado
pelos fascistas antigos e novos
 
 
 
Há 75 anos, na sequência imediata da tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, o marechal Keitel assina a rendição incondicional da Alemanha nazi face a uma delegação soviética dirigida pelo Marechal Zhukov. Entre muitas outras coisas, terminava de vez o Reich que queria durar mil anos e "confinou" e exterminou milhões de judeus, comunistas, social-democratas, ciganos e resistentes.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Brasil Sempre: Ideais Traídos e lacaios eminentes

O Brasil vem encarando fantasmas do militarismo. Ou, melhor dizendo, encarnando-os. Com a participação dos militares na política nacional, ressurgiu o interesse na formação ideológica da corporação e em expoentes ideológicos. Algumas vozes se referem à influência do general da linha dura Sylvio Frota, que atuou na fase final do regime militar e escreveu um longo livro, intitulado “Ideais Traídos”, no qual narra a história do regime militar pela sua lente radical e conta sua própria participação nos acontecimentos. 

Se estamos vendo uma coalizão de militares, extremistas, revanchistas e até supostos moderados como o presidente do STF, Dias Toffoli, revendo o golpe militar como uma “Revolução” cujos meios se justificam por certas condições, é muito bom para nós recorrer ao documento histórico produzido por um mentor da linha dura e expoente da defesa do regime militar.

Sylvio Frota foi devidamente lembrado por alguns como influência ou predecessor do bolsonarismo, ao ponto de ser até mesmo uma referência explícita para o comportamento de nossos dirigentes atuais. Em seu livro, Frota expôs uma teoria política.

Ele articula a tradição que fundamenta tanto a identidade do Exército como sua tradição intervencionista, enxergando uma dialética entre exército e política, onde surgem duas correntes de opinião: a militar e a do governo. Com “governo” ele não se refere a uma descrição de valor neutro, mas a um “grupo dominante”, oligarquias de interesses escusos que “ameaçam conduzir o país a perigosos destinos, inconciliáveis com a filosofia de vida de seu povo”, contrapostas à corrente de opinião do Exército, que pretende “arrancar a Nação dum secular marasmo”, marasmo proveniente da ignorância e enfermidades, resultado de governantes “incapazes e irresponsáveis”.

Segundo Frota, se o chefe militar “abraça o grupo dominante” em nome da disciplina ou por razões de consciência, ele desvirtua as ideias militares e vai cindir sua instituição. A alternativa é “identificar-se, patrioticamente, com o pensamento do Exército – que é o do povo – numa demonstração integral de solidariedade e espírito de classe, nobres sentimentos amalgadores de nossa Força”. Na verdade, vemos aqui um recurso retórico em que a alternativa decisiva é a segunda: a mensagem é que o militar que não está à altura desse ideal de “demonstração integral de solidariedade e espírito de classe” não se compromete com a política da Força com desculpas sobre disciplina ou consciência, então ele está “abraçando o grupo dominante”.

Um exemplo: nessa visão, um general recalcitrante ou que apoiasse Jango em 1964 estava traindo a Força e abraçando o grupo dominante. Traidor não era quem se levantava contra a autoridade constitucional instituída, não era a figura de um Amaury Kruel recebendo maletas recheadas de dólares para articular o golpismo, mas justamente o oficial que fizesse às vezes de legalista, se referisse à disciplina, à Constituição ou não aderisse ao movimento irrevogável por razões de consciência; no mínimo, quem ficou quieto deveria aceitar o fato consumado, seguir suas atividades cotidianas e reconhecer a primazia representativa dos comandantes que se mobilizaram.

Apesar de se tratar de um general da linha dura, Frota recorre a uma imagem que está no fundamento da presença militar na política do Brasil, nos anos que antecederam o golpe republicano que deu fim ao Império: o Exército é a alma da nação.  Essa ideia é compartilhada pela chamada “facção tradicionalista”, menos radical, referida na literatura sobre o regime militar como grupo moderado.

Frota constrói também sua visão do tipo ideal do ministro militar dentro de um governo:

“Encaro, desta maneira, a conduta dos chefes militares na política, não excluindo deles o próprio ministro que, embora ocupe cargo funcionalmente político, sendo militar,não perde suas características castrenses. Ele é o traço de ligação entre a instituição e o presidente, cabendo-lhe a árdua tarefa de, como comandante superior do Exército, expor ao chefe do governo, sempre que for necessário, o pensamento da Força militar que dirige.

Um ministro militar é, do meu ponto de vista, primordialmente, o representante e defensor de sua Força junto ao presidente e, secundariamente, um delegado deste na sua instituição. Em última análise, quando no confronto de opiniões os obstáculos tornam-se intransponíveis e a conciliação impossível, impõe-se ao titular da pasta solidarizar se com o pensamento de sua Força.”

O militar que se desvia desse modelo será considerado, “no linguajar severo da nossa caserna”, um“lacaio eminente”. O lacaio eminente quer aparecer e é aquele que está disposto a “abraçar o grupo dominante” em troca de prêmios individuais.

O exemplo histórico que forma essas ideias não é o golpe militar de abril de 1964, mas os acontecimentos que culminaram no 15 de novembro de 1889. Essa época é a argamassa da identidade que os militares possuem até hoje, é de lá onde tiram sua auto-imagem, é de lá os quadros chiques que os rodeiam – claro, com um acréscimo menos republicano de ter Caxias como referência, indicando que acreditam no Exército como instituição mais perene do que a própria República.

Nos concentremos, não obstante o Duque de Caxias, nessa identidade-narrativa republicana: os militares, altivos representantes do melhor da Nação, recusaram a humilhação e o servilismo, dedicando seu desprezo à “canalhocracia jurídica”, os doutores civis indisciplinados, faladores, venais e egoístas, que agora grassavam sob as barbas de um monarca doente. Os militares, por outro lado, são abençoados pelas qualidades de sua instituição, que ganha um caráter transcendente.

Os “casacas” oportunistas, egoístas e incompetentes de um lado, do outro os fardados como representantes de valores superiores, do interesse nacional e da competência.

Sem faltar com essa memória, no primeiro capítulo de sua obra Frota parafraseia a revistaA Defesa Nacional, em específico um artigo intervencionista de 1913. Ele encerra definitivamente o capítulo falando de como no século XX se inaugurou uma luta gloriosa dos oficiais militares, que “despertaram com suas granadas” e “com o troar de seus canhões” a “Nação brasileira, iluminando-lhe o caminho da ressurreição liberal democrata com os clarões de suas granadas”. ¹

O general Frota se esforça para ser poético. Apesar de se repetir na referência às granadas, o estrondo dos seus versos ecoam agora em discursos como de Mourão, que não perdem sequer o tom “liberal democrata”, com devidas atualizações informadas pela “gente decente” do mundo dos empresários e grandes gestores, estranho às fúrias e os populismos da raia miúda.

É característico de nossa história que a política militarista que culminou na Doutrina de Segurança Nacional não fosse católica, integrista, arqui-reacionária, mas um reformismo liberal gradualista, com altas doses de positivismo (“governo racional”) e, no fim, poucos escrúpulos ideológicos que se disfarçam de gradualismo, justificando que os generais coletivamente são capazes de identificar o que é necessário ser feito, de forma “pragmática” e “alinhada ao espírito nacional” – para alguns olhares mais críticos, algo que pode ser identificado com oportunismo ou até uma aspiração às prerrogativas de Poder Moderador. Aqui guarda a diferença com o militarismo espanhol, por exemplo. Os argentinos, ideologicamente, ficaram no meio do caminho, aderindo ao liberalismo mas preservando sua formação católica conservadora de maneira mais decisiva.

Por essa originalidade e pelo patrocínio elogioso dos Estados Unidos que nosso regime militar nascido de 64 seria modelo para o estado de sítio na América Latina nos anos seguintes, superando tradições de corte mais caudilhista.

Nos dias de hoje, Mourão vai até lugares como o banco BTG Pactual e é belicoso ao bradar os dogmas liberais e falar da necessidade de se reformar o Brasil para termos uma verdadeira democracia, que ele identifica com os moldes dos Estados Unidos. A diferença é que Mourão tempera o discurso com sonhos tecnológicos e platitudes sobre o futuro, comuns a uma certa linguagem do mundo dos negócios. Heleno, tido por alguns como mais conservador e antiquado, faz a mesma coisa quando comenta economia.

Frota argumenta que o seu tipo foi criado por “formação primariamente técnica”, junto com a mística de grandeza da pátria. A pretensão de neutralidade, superioridade e tecnicidade é fundamento da confiança militar. Fora isso, “o amor à carreira” e o “espírito de classe” que devem começar precisamente na turma de formação de oficiais (lembrem-se: a turma de Bolsonaro está aí, vicejando). Os acontecimentos revolucionários dos anos 20 – protagonizados por tenentes² – são apropriados por Frota, que despreza as divisões políticas (afinal, dali saíram getulistas, prestistas, comunistas, toda sorte de militares que ele detesta) dizendo que acima de tudo imperou o sentimento de “solidariedade castrense, o espírito de classe”.

Em seu livro, Frota narra um episódio pouco conhecido que ocorreu na Academia Militar de Realengo no término do ano letivo de 1931, em que um cadete da Arma de Artilharia seria expulso por motivos disciplinares em um contexto que foi considerado injusto: os colegas tentaram interceder junto aos oficiais, sem sucesso, e então optaram pelo desligamento coletivo como protesto, o que fez com que a punição inicial fosse reconsiderada. O general Frota elogia ao mesmo tempo os cadetes revoltosos, que fizeram algo censurável do ponto de vista disciplinar “mas soberbo do ponto de vista de classe”, e o coronel que comandava a escola e que tentava aplicar uma punição aos revoltosos em nome da disciplina.

O general comenta também sua versão sobre empastelamento do Diário Carioca que ocorreu no dia 25 de fevereiro de 1932, segundo ele pelo 1 Regimento de Cavalaria Divisionário, elogiando acima de tudo como os militares que se dirigiam para a baderna recusaram a participação de um político civil (o pernambucano Pedro Ernesto do Rego Batista) no meio da desforra – o Diário havia ofendido os militares –  por ser “assunto dos militares”. O General rasga de elogios a forma como a corporação reagiu perante a censura dos políticos e depois ao processo judicial, não colaborando com a investigação, sabotando e se esquivando em nome da honra e do espírito de corpo.

É a partir de exemplos como esse que se exemplifica a “honra e lealdade” como valores militares.

Apesar de falar de um espírito que seria essencialmente militar e inerente à mistura de patriotismo com educação técnica, o general não parece perceber que ele mesmo coloca um movimento político como referência sagrada da origem de 64; a Cruzada Democrática, que surge como um grupo de oficiais que se volta primariamente contra outros militares, que seriam “comunizados”, nacionalistas, pretendendo tomar o Clube Militar para depois seguir em uma marcha de expurgos na instituição – a chapa da Cruzada Democrática nas eleições do Clube foi encabeçada pelo general Alcides Etchegoyen (avô do general Sérgio Etchegoyen).

Por mais que Frota tenha escrito seu livro para dirigir – e digerir – sua repulsa aos últimos generais-presidentes do governo militar, Geisel e Figueiredo, não deixa de ser irônico que na ideologia militar hoje persistam os ecos igualmente politizados dos que levam o legado que Frota rejeita: pintam a necessidade da “Revolução de 64” em função do “ambiente internacional”, “produto do contexto”, se identificando com Castelo Branco, Golbery e Figueiredo como grandes artífices políticos, capazes de manipular a tigrada mais radical, construtores de democracia e sábios pragmáticos. Afinal, todos concordam que a corporação e seu espírito são sagrados.

O próprio Frota em seu livro traça dois perfis na origem do movimento de 64: Castelo Branco, feito para atuar “nos padrões e normas estabelecidas”, “modelo de chefe institucional talhado para épocas de estabilidade”; Costa e Silva, “chefe ‘dominante’” e “destinado a imperar nos períodos de desintegração e violência”. Hoje também lidamos com esse tipo de dialética, dos que lidam com a política moderada e dos que atuam mais próximos do bolsonarismo. Frota lamenta que Castelo Branco, com suas qualidades, tenha sido líder – e um líder brando – em um período em que o necessário era ser implacável, “depurações, reforma de militares, cassações e prisões, a do desprezo às leis e instituições abatidas”.

Não faltam relatos – tanto do general Frota como dos livros de história do período – sobre conflitos entre líderes militares imediatamente depois do golpe até a redemocratização. Em 1965 já trocavam farpas, exigiam troca de ministros (Frota fala de como ele e um grupo de oficiais se colocaram em defesa de Costa e Silva), especulavam com ações de destruir urnas das eleições controladas. Tanto nos escalões de cima como nos de baixo. Na véspera do AI-5, por exemplo, oficiais alunos da Escola de Aperfeiçoamento enviaram um documento para seu comandante, falando de problemas mais mundanos da caserna e de problemas nacionais que “desprestigiavam” a chamada “Revolução” (sendo eles a corrupção e subversão) – o que não deixa de ser uma informação interessante para se pensar em um período ditatorial e se compararmos isso com a “preocupação de que ocorra uma politização dos quartéis” manifesta hoje em dia pelo general Villas Boas.

A divisão entre moderados e a linha dura pode criar uma dinâmica que fortalece o poder militar perante os civis, criando uma balança de poder e alternativas para os civis. Hoje talvez a divisão seja medida pela adesão a Jair Bolsonaro, mas de toda forma toda vez que se evoca um fantasma da intervenção militar surge uma decisão que fica no colo dos militares: ou os militares salvam Bolsonaro ou os militares nos salvam de Bolsonaro.

Nem a existência de conflitos e nem a convivência com outras forças exclui a existência de uma política militar. Muitos já compreendem que existe uma cultura corporativista no Exército, mas é preciso atentar que esse corporativismo é de um tipo especial, principalmente quando ele está diretamente inserido na política e no governo. Existe uma ideologia de um partido fardado.

Braga Netto, da Casa Civil, e Ramos, da Secretaria de Governo, saíram diretamente da ativa para ocupar os seus cargos, e mesmo assim ocupam posições políticas de primeira relevância – eles não representam os partidos políticos que estão no Congresso; quando falou-se dos militares envolvidos em crises do governo, como aquela relacionada a permanência de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde, não foi um conflito resolvido pela mediação dos partidos políticos.

A troca de figuras também é menos impactante quando pensamos em um partido fardado: o tempo inteiro, no Exército, o oficial muda de função, assume novos comandos e missões.

Esta ideologia não está isolada, por mais que ela se construa como algo independente e parte de uma identidade militar, ela é um discurso que se enfrenta com outros: sua própria pretensão de superioridade técnica, quando colocada à prova em um governo, os incentiva a buscar certos especialistas, e mais uma vez, vemos os oficiais militares se misturando com uma intelectualidade orgânica formada pela tecnoburocracia e por dirigentes empresariais.

Quando estão em uma posição de poder e têm capacidade de escolher quadros de especialistas para acompanhar suas políticas, podem variar em suas escolhas justificando que não são fiéis a este ou àquele programa econômico, mas somente ao pragmatismo. Assim, os militares que estão no governo Bolsonaro hoje de repente criam sua própria equipe com quadros econômicos saídos do Estado brasileiro e formulam uma política independente do comando do ministro da Economia, Paulo Guedes – eles podem se posicionar de forma distinta do radicalismo do ministro. Mourão, muito representativo, faz um programa vídeo-conferência com oItaú Personnalité para discutir o programa econômico.

Há uma dialética de sua formação e ideologia militar com o mundo externo, o mundo dos políticos civis: entram em contato com o mundo militar, mas quando entram na política se apresentando como tipos especiais, mais neutros e acima das disputas, já estão vestindo uma farda ideológica – afinal, eles podem ser as “armas das boas ideias”, mas ninguém quer ser um lacaio eminente.

Jogadores na política, nunca se isolam do resto do jogo e dos processos sociais maiores. René Armand Dreifus descreveu em seu clássico “1964 – A Conquista do Estado” como o IPES/IBAD e a intelectualidade orgânica do capital transnacional tiveram uma política de infiltração do Exército, explicando 1964 a partir de um bloco que reunia intelectuais, capitalistas e dirigentes empresariais, além dos oficiais militares. Isso não quer dizer que os militares, por não serem “puramente autônomos”, não tinham agência política própria: dentro de suas fileiras, se articulavam grupos de oficiais adeptos de certo ideário e que avançaram seu programa político para concretizar o golpe. Da mesma forma, a participação dos militares no fim do império e o início da tutela não se resumiram só à intervenção militar direta ou à filiação de generais a este ou aquele partido político.

Hoje, os militares se apresentam como guardiões em relação ao radicalismo do “núcleo ideológico” do governo Bolsonaro, já sendo abraçados e saudados pelos civis por isso.

Se fosse um empresário ou magistrado sem passado político, somente ocupando cargos como o da Casa Civil, talvez já tivéssemos muito mais consideração sobre a ideologia por trás dessas figuras. O problema é que a força dos militares já está além de ocupar cargos no governo (assim como a força política da Lava Jato não morre com a saída de Sérgio Moro do Ministério). Muitos concebem a atuação de um “partido jurídico” ou “partido da Lava-Jato”, que se une através de uma ideologia comum, mas resistem em discutir o significado dos militares na política… o tempo vai correr, o debate já correu muito desde a publicação do livro “Carta no Coturno”, quem sabe gradualmente passem a  identificar a atuação de um partido fardado.

Os militares têm suas próprias ideias e fidelidades. O que diria Sylvio Frota em dias como estes?

Quem seriam os lacaios eminentes: os ministros que servem a Jair Bolsonaro? Eu acho que não, pois me parece – e essa impressão é reproduzida hoje por vários civis da política e militares da ativa, cheio de elogios ao espírito “profissional e patriótico” dos ministros  militares –  que eles guardam no coração, acima de outras lealdades, o “pensamento do Exército” e os“nobres sentimentos amalgadores da Força”; segundo militares anônimos, respondendo jornalistas, que se adiantam a explicar o que eles foram fazer no governo Bolsonaro é algo bem próximo de prezar pelo “Interesse da nação” sendo um “representante e defensor de sua Força junto ao Presidente”, “traço de ligação” da instituição, ocupando um cargo “funcionalmente político” mas sem deixar de ser militar, afinal a maioria dos generaisnão perde suas características castrenses só por pendurar a farda.

O lacaio eminente seria o próprio capitão Jair Bolsonaro? Ele que esquece a sagrada instituição, despreza seus companheiros de farda e superiores de hierarquia – e no caso de Mourão, veterano de turma – quando se esconde num círculo de fanáticos civis, seguidores de um astrólogo da Virgínia, aquele mesmo Olavo de Carvalho que cospe impropérios contra os generais e desrespeitou de forma vil, infame, a integridade do general Villas Boas? General Villas Boas a quem o capitão Bolsonaro jurou gratidão e é visto por alguns como um arquiteto da vitória de Jair Bolsonaro?

O tempo inteiro, nos dizem os comentaristas civis, geralmente citando militares anônimos, que os militares “têm medo” que Bolsonaro comprometa a imagem da instituição, por isso se adiantaram para participar de tal governo.Não seria ingratidão do capitão Bolsonaro, se cercando de conselheiros excêntricos, se agarrando em civis e fazendo um papel de lacaio eminente que constrange a instituição?

Mourão, Braga Netto, Pujol e outros podem fazer as mesmas perguntas, o que não quer dizer que vão responder da pior forma para Bolsonaro. Afinal, até o general Frota, um radical da linha dura, coloca o diálogo como pré condição – mas,“em última análise, quando no confronto de opiniões os obstáculos tornam-se intransponíveis e a conciliação impossível, impõe-se ao titular da pasta solidarizar se com o pensamento de sua Força.”

Quando isso acontecer, não haverá juíz, chicago boy ou astrólogo onde Bolsonaro possa se agarrar.

Notas:

¹ – Frota pode ser a expressão mais decadente de uma tradição, mas não é um maluco qualquer que deu sorte de subir na hierarquia do Exército ( Bolsonaro seria um maluco que fracassou na hierarquia militar mas teve sucesso como político?). Ele não inventou a roda. O civilismo dos anos 1880 era sinal de distinção de uma elite sem futuro, instituições sem sentido e também refúgio de revanchistas escravocratas (apesar dessa identificação não ser automática) – no final do Império, um dos momentos da desobediência militar foi a recusa em dar perseguição a homens que haviam escapado do cativeiro; oficiais se aproximaram de abolicionistas e soldados confraternizaram com o povo quando ocorreu a Abolição. Depois de proclamada a República, o civilismo republicano frequentemente se identificou com um ufano liberalismo que se traduzia no domínio de coronéis fazendeiros a nível estadual.

² – Nos anos 20, o liberalismo federalista – ufano, que se traduzia no domínio de coronéis fazendeiros a nível estadual – tremia em suas bases contraditórias; se os altos oficiais conviviam com a oligarquia e se afastavam do jacobinismo, uma nova geração de tenentes protagonizava um movimento de contestação e revoltas, como um setor armado e esclarecido nascido do seio do povo.

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O poder da pandemia

«El expolicía franquista Antonio González Pacheco había sido denunciado en numerosas ocasiones por torturas a militantes antifranquistas. Su nombre se había convertido en símbolo de la represión franquista. Disfrutaba de cuatro medallas, cuatro condecoraciones que le permitían cobrar hasta un 50% mas de pensión »

 

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Vírus e política

Dói o coração ler isto que se segue… e perceber o que está a acontecer em dois grandes países continentais, e até na Europa, na Hungria, pelo menos…


A luta política sob o pretexto do coronavirús, no Brasil, e nos EUA, Bolsonaro e Trump, transformou-se numa luta entre Democracia e Fascismo, renovado, readaptado ao tempo presente, agora chamado de “Populismo”.

Este Populismo/Fascismo cerceia todas as Liberdades cívicas, desrespeita os Direitos Humanos, põe em causa as grandes organizações internacionais de regulação, nega as alterações climáticas, defende a supremacia do Homem branco, diminui a Mulher, ataca as minorias em geral, e as étnicas em particular, tentando em alguns casos extermina-las, desacredita os dados científicos que não  convêm, pretende anular o multipartidarismo, chamando sempre os outros partidos de traidores da pátria, ora vendidos, ora comprados, por um “inimigo da pátria”, que não se sabe exactamente, quem é, porque é inventado conforme as conveniências do momento.

Quanto à corrupção, não termina.

Só mudam os fautores que passam a ser só os do partido no Poder, mas mais defendidos, para não se poder saber quem são.

Se alguém acusa, jornal ou jornalista, algum membro do partido, corre o perigo de ser apelidado de traidor à pátria, e possivelmente morto pelos gangues que são pagos para isso, e bem protegidos pela policia.

Não deixemos que isto avance em lado nenhum do Planeta pois corremos, seriamente PERIGO!


por António Serzedelo


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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OS PRIMEIROS PASSOS DA NOVA ORDEM MUNDIAL

                         

É fácil compreender que as pessoas apenas vão se submeter à imposição de normas, mesmo as mais absurdas, se tiverem um grau de confiança muito grande nas «autoridades». 
As «autoridades» decretam do alto, porque sabem que tal ou tal medida é «o melhor» para o povo. 
As «autoridades» concedem um «rendimento mínimo vital», pelo qual estamos provisoriamente isentos de morrer de fome, quaisquer que sejamos, pois basta ter um cartão de cidadão para ter direito a recebê-lo. Ou, mais ou menos...elas exigem-te umas pequenas e insignificantes concessões em troca; tens de estar vacinado com a última mistura imunizante contra o «corona» e outras «pragas», tens de cumprir escrupulosamente todas as regras de «distanciamento social», o teu desempenho será monitorizado através de IA e de algoritmos (cuja patente é detida pela Microsoft), associados a «sensores inteligentes».
Exactamente os mesmos, por coincidência, que estiveram a colocar - em grande quantidade - um pouco por todo o lado (as torres para o «5G»), enquanto estávamos todos em «confinamento» («lockdown»). 
Agora, já não vai ser necessário usar violência física, policial, contra os desobedientes, a vigilância e o «tracejar por contacto» («contact tracking») vão permitir monitorizar a sociedade no seu todo.
Aliás, Elon Musk foi autorizado a lançar - nestes dias mais recentes - uma quantidade enorme de satélites com a capacidade para recolher e reenviar todos os dados obtidos nas antenas de «5G». 
Não é isto maravilhoso? Não é isto a sociedade evoluída,  «inteligente», controlada pela tecnologia, dispensadora de tudo aquilo que as pessoas vulgares (tu e eu) precisam para viver, na maior segurança e conforto, longe da angústia de procurar a subsistência através de emprego incerto, precário ou negócio ainda mais incerto e pouco rentável? 
Mas, a percepção do que se está a passar à nossa volta é fundamental para a imagem mental que formamos do mundo e portanto, da nossa determinação para funcionar dentro de certos parâmetros. 
A manipulação da percepção é o factor principal pelo qual a oligarquia (erroneamente designada, por muitos, pelo termo «elite») consegue levar as massas a cooperarem na sua própria redução à condição de escravos. 
Uma manipulação não resulta se for muito óbvia a sua existência, o seu mecanismo tem -portanto - de estar disfarçado no que seria o seu oposto... a utopia negativa ou distopia de G. Orwell 1984, torna-se aqui como o guia prático dos poderes. É a liberdade, a autonomia, a segurança, o conforto etc. que eles apregoam, os grandes deste mundo, Google, Facebook, Twitter, etc, etc... Mas, estás constantemente bombardeado de propaganda, de imagens e de uma narrativa que te obriga a VER O MUNDO DE UMA CERTA MANEIRA, DA MANEIRA QUE ELES QUEREM... Nada melhor que escutar com atenção as entrevistas de David Icke dadas a Brian Rose de «London Real», especialmente a última, de 3 de Maio passado
A matrix é - ao fim e ao cabo - uma construção fantasmagórica(porque não é real) sobre a qual as pessoas constroem a sua percepção do real. A matrix é indestrutível enquanto narrativa consistente e permanentemente reforçada, para persuadir as pessoas de que aquilo que lhes é apresentado como «a realidade» é verdade. 
Tudo o resto, que contradiga a narrativa da matrix, será percepcionado apenas como devaneio, ou será até interpretado como ameaçadora «teoria da conspiração». Será rejeitado veementemente, como algo ansiogénico,  que reforça a nossa angústia, derivada da incerteza e do medo...
Sem a colaboração da media «mainstream», esta narrativa não seria sustentável. Sem a constante propaganda do medo, não haveria o consentimento dos cidadãos para tudo o que lhes têm feito nestes últimos anos, cerceando - ou mesmo, anulando - qualquer réstia de liberdade, supostamente para garantir a sua «segurança», a sua «saúde»...
 
Mas, nós estamos a viver no «Admirável Mundo Novo» do romance homónimo de Aldous Huxley, no Estado de Vigilância Permanente da IA, estamos a assistir à «revolução» fascista da Nova Ordem Mundial... 
Muitas pessoas estão em denegação e pensarão ao ler isto que acabo de escrever, que eu «flipei» da cabeça, mas a realidade irá abri-lhe os olhos, irão acordar do sonho - e verão que o mundo, que julgavam ser real, afinal não era mais do que pura ilusão.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A câmara de gás da Trofa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/04/2020)

Daniel Oliveira

Se houver quem ponha aquele espaço a funcionar como uma câmara de gás, eu pago o gás”. Foi com esta “piadola” que o coordenador da equipa de assistentes operacionais da Câmara Municipal da Trofa terminou um post, publicado no seu Facebook, em que criticava as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República.

Entre os 17 “gostos” estava, nem mais nem menos, o presidente da Câmara, Sérgio Humberto. Assim como o seu adjunto. É bom recordar, para tornar isto ainda mais absurdo, que além do PSD da Trofa ter dois deputados, o próprio Sérgio Humberto já lá esteve.

 

Vivemos tempos estranhos, onde as palavras e as indignações deixaram de ter qualquer valor. A liberdade de expressão é desvalorizada. Porque não significa nada. Tudo é uma vergonha e tudo é banal. Tudo é um escândalo e tudo é irrelevante. Uma cerimónia no Parlamento é motivo de ira, propor que ele se transforme numa câmara de gás é uma piada inofensiva. É desta indiferenciação moral das palavras que vivem os populistas. Porque eles conseguem um exercício duplamente vantajoso: podem dizer tudo, sem que isso deva ser levado a sério, o que lhes permite banalizar a ignomínia; mas tudo o que os outros façam ou digam pode ser adjetivado sem medida, de forma desproporcionada. Se eu não tiver qualquer problema em banalizar as palavras ganho sempre: tudo o que diga não faz mal nenhum, tudo o que o meu adversário faça é um escândalo sem fim. O outro só me pode combater se usar as mesmas armas, destruindo com isso qualquer ideia de debate público.

Por isso, é fundamental usar a proporção certa. E é o uso da proporção certa que me leva a dizer que a polémica em torno da comemoração do 25 de Abril não autoriza estas palavras e que elas são várias vezes gravíssimas. Porque correspondem à banalização de um dos crimes mais horrendos da história da humanidade, ao desejo da morte de políticos porque se discorda das suas opções e a um apelo contra a democracia. Por esta ordem de gravidade.

Ter um funcionário do Estado a escrever uma coisa tão grotesca e o Presidente da Câmara, seu superior hierárquico, a aplaudi-lo não pode ser um pormenor. Estamos perante um texto público e político. O apoio dado é público e político. As explicações, que me parecem impossíveis de dar a não ser confessando um comportamento leviano no espaço público, também têm de ser públicas e políticas. Que devem passar por um pedido de desculpas aos deputados, em primeiro lugar; à memória dos que morreram no Holocausto e à comunidade judaica em particular, em segundo; e aos trofenses, pela imagem grotesca que o autarca e os seu funcionário passaram da instituição que dirigem e onde trabalham.

Se o autarca aplaudiu sem ler até ao fim (o que é possível), terá de passar a ser mais cuidadoso nos seus gestos públicos. Não deixa de ser político quando está nas redes sociais. E deve esclarecê-lo publicamente, com a devida retratação, não optando pelo silêncio a ver se passa, como uma criança.

As palavras não são dejetos que se atiram para a rua, são instrumentos de relação com os outros, tão importantes como os atos. E as redes sociais são espaço público – se as deixamos abertas – ou semipúblico, se as fechamos. Não fazem parte da nossa privacidade e seguramente não fazem parte da privacidade de um político. Nem de um jornalista ou de quem tem funções públicas que dependem da imagem e do nome. O “gosto” do presidente a uma das afirmações mais grotescas que já li nas redes sócias – e todos sabem como isso é um concurso difícil de vencer – não pode ser mais um daqueles episódios irrelevantes em que o abjeto se normaliza até deixar de ser tratado como abjeto.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Candidatura do Campo de Concentração do Tarrafal a Património da Humanidad

 
O terror fascista, não pode nem deve ser esquecido, manter as novas gerações informadas para que mais facilmente se defendam, é tarefa meritória e indispensável.

 

 

 

 
Os governos de Portugal e de Cabo Verde acertaram os detalhes da cooperação técnica portuguesa à candidatura do antigo Campo de Concentração do Tarrafal a Património da Humanidade, que avança em 2021.
 
De realçar os despachos de António Oliveira Salazar, datado de 1935, em que determinou a construção do campo, e do então ministro das Colónias, Adriano Moreira, de 1961, a ordenar a reabertura do campo.

Via: as palavras são armas https://bit.ly/2yR5sAA

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/27/candidatura-do-campo-de-concentracao-do-tarrafal-a-patrimonio-da-humanidad/

Grupo neonazi divulga e-mails e senhas da OMS e da Fundação Bill e Melinda Gates

 

Um grupo neonazi divulgou quase 25 mil endereços de e-mail e senhas de funcionários da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Fundação Bill e Melinda Gates e de outras entidades que combatem a pandemia de Covid-19.

 

O grupo de inteligência do SITE – que monitoriza grupos terroristas islâmicos e de extrema-direita -, citado pelo Independent, indicou que esses dados foram divulgados no domingo e na segunda-feira.

“Neonazis e supremacistas brancos capitalizaram as listas e publicaram-nas de forma agressiva”, disse ao Washington Post Rita Katz, diretora executiva do SITE.

“Utilizando esses dados, membros de extrema-direita pediam uma campanha de assédio enquanto compartilhavam teorias da conspiração sobre a pandemia”, disse a responsável, acrescentando que “a distribuição dessas supostas credenciais é apenas uma parte de uma iniciativa da extrema-direita” que dura há meses.

 
 

Mais de nove mil e-mails e senhas pertencem aos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, 6.800 aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, 5.120 ao Banco Mundial e 2.732 à OMS. Outros dados pertenciam à Fundação Bill e Melinda Gates, que anunciou um fundo de 150 milhões de dólares (138 milhões de euros) para combater a pandemia de Covid-19.

Os dados foram partilhados no 4chan e depois encaminhados para o Twitter e para canais extremistas através do Telegram.

De acordo com o Washington Post, as informações obtidas com o uso desses dados já foram usadas para fins de desinformação, ligando o surto de coronavírus ao VIH.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/neonazis-mails-senhas-oms-fundacao-gates-320994

CHOMSKY: UM ANTÍDOTO CONTRA A ULTRA DIREITA

 
 
Ela avançou porque capital financeiro tirou a máscara: bancos e corporações já aceitam aliar-se com os Trump e Bolsonaro. Mas a crise económica mostra que este arranjo é frágil e abre brechas para a construção de alternativas inovadoras
 
Noam Chomsky, em entrevista a Amy Goodman, no Democracy Now! | Tradução por Simone Paz e Gabriela Leite
 
Dissidente político, linguista e autor de renome mundial. Professor laureado no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona e professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde lecionou por mais de 50 anos. Na entrevista a seguir, responde aos cortes de Trump no financiamento à Organização Mundial da Saúde, fala sobre o aumento recorde das mortes nos Estados Unidos, e discute as condições em Gaza, a ascensão do autoritarismo no mundo todo e a resposta dos progressistas. “Esse é o típico comportamento dos autocratas e ditadores. Quando você comete erros colossais, que acabam matando milhares de pessoas, é preciso encontrar alguém para botar a culpa”, explica Chomsky. “Nos Estados Unidos, infelizmente, é o caso: há mais de um século, um século e meio, tem sido sempre mais fácil culpar o “perigo amarelo”.
 
Na quarta-feira, pouco antes de Bernie Sanders anunciar que se retiraria da corrida presidencial, perguntei ao dissidente político, linguista e autor Noam Chomsky sobre sua avaliação da campanha de Bernie Sanders nesta época de pandemia do coronavírus.
 
Se Trump for reeleito, será um desastre indescritível. Significa que as políticas dos últimos quatro anos, que tem sido extremamente destrutivas para a população estadunidense e para o mundo, não só vão continuar como, provavelmente, serão aceleradas. Para a saúde, isso já é péssimo. Mas o que significa para o meio ambiente, ou para a ameaça de uma guerra nuclear — que é um risco extremamente sério, do qual ninguém está falando — é indescritível.
 
Suponha que Biden seja eleito. Eu presumo que seria, basicamente, uma continuação do governo Obama: nada demais, mas, pelo menos, não tão destrutivo, e com a possibilidade de que um público organizado consiga fazer pressão e mudar o que está sendo feito.
 
Atualmente, é comum dizer que a campanha do Sanders falhou. Eu acho que dizer isso é um erro. Eu vejo como um sucesso extraordinário, que mudou completamente o terreno do debate e das discussões. Questões que, até alguns anos atrás, eram impensáveis, agora passaram para o centro das atenções.
 
O pior crime que ele cometeu, aos olhos do establishment, não foi a política proposta por ele, mas o fato de conseguir inspirar movimentos populares, que já tinham começado a se desenvolver — como o Occupy, Black Lives Matter e muitos outros — e transformá-los em movimentos ativistas, que não aparecem a cada dois anos só para dar força a um líder e depois voltar para casa, mas aplicam pressão constante, com ativismo constante e assim por diante. Isso poderia afetar um governo Biden.
 
 
A taxa de mortalidade da pandemia do coronavírus continua acelerando. Primeiro, Trump rejeitou os testes da Organização Mundial de Saúde. Agora, ele diz que vai parar de financiá-la. Você pode falar sobre o que ele anda ameaçando fazer?
 
Esse é o típico comportamento dos autocratas e ditadores. Quando você comete erros colossais, que acabam matando milhares de pessoas, é preciso encontrar alguém para botar a culpa. E, nos EUA, infelizmente, é o caso: há mais de um século, um século e meio, tem sido sempre mais fácil culpar o “perigo amarelo”. “Eles estão vindo atrás de nós”. Temos visto isso a vida toda, e de fato, isso vem de muito antes. Então, culpar a OMS, culpar a China, alegar que a OMS tem relações insidiosas com a China, está funcionando muito bem para eles. Isso vende bem para uma população doutrinada profundamente há tanto tempo — desde os Atos de Exclusão da China, no século 19 — para dizer: “Sim, aqueles bárbaros amarelos estão vindo para nos destruir”. Isso é quase instintivo.
 
Sou velho o suficiente para me lembrar de quando, criança, ouvia os discursos de Hitler no rádio, nos Comícios de Nuremberg. Não conseguia compreender as palavras, mas o tom e a reação da multidão, da plateia encantada, eram muito claros e muito assustadores. Sabemos ao que levou. É difícil — isso vem à mente quando ouvimos os delírios de Trump e a multidão. Não sugiro que ele seja parecido com Hitler. Hitler tinha uma ideologia, uma ideologia horrível, não apenas pelo massacre de todos os judeus e dos 30 milhões de eslavos e ciganos, mas também uma ideologia interna que conquistou grande parte do mundo: o Estado, sob o controle do Partido Nazista, deveria controlar todos os aspectos da vida, deveria controlar a comunidade empresarial, inclusive. Esse não é o mundo em que vivemos. Na verdade, é quase o oposto: as empresas controlando o governo. E, no que diz respeito a Trump, a única ideologia detectável nele é a do narcisismo puro. Sua ideologia é a do “Eu”: enquanto for esperto o suficiente para continuar servindo aos verdadeiros mestres, enchendo de dinheiro os bolsos dos mais ricos e do setor corporativo, eles o deixarão em paz com suas palhaçadas.
 
É muito impressionante observar o que aconteceu na conferência de Davos em janeiro deste ano. Davos é o encontro das pessoas que são chamadas de “mestres do universo” — CEOs das principais empresas, grandes estrelas da mídia e assim por diante. Trump apareceu e deu o discurso principal. Eles não gostam de Trump. Sua vulgaridade não combina com a imagem que eles tentam projetar de um humanismo culto. Mas o aplaudiram loucamente, aplaudiam excitados a cada palavra que ele pronunciou, porque percebem que ele sabe bem quais bolsos encher com dólares, e de que forma. Enquanto ele fizer isso, desde que sirva seu principal eleitorado, eles o deixarão se sair com suas babaquices.
 
Como eu dizia, os países asiáticos têm atuado de forma sensata. A Nova Zelândia parece ter acertado. Taiwan vai bem. Na Europa, talvez a Alemanha tenha a menor taxa de mortalidade, o mesmo com a Noruega. Há formas de reagir.
 
E há formas de tentar destruir tudo — que é o que o Presidente Trump está fazendo, com o apoio da câmara de eco de Murdoch, Fox News e outros. Surpreendentemente, está funcionando. Então, ele levanta uma mão ao céu: “Eu sou o escolhido. Sou seu salvador. Vou reconstruir os EUA, fazer deles grandiosos para vocês novamente, porque sou seu servo. Sou o servo fiel da classe trabalhadora”, e por aí vai. Mas, enquanto isso, com a outra mão ele os esfaqueia pelas costas. Levar tudo isso adiante é um ato de genialidade política. Precisamos reconhecer que há um talento sério envolvido, seja um planeamento intuitivo ou consciente. É devastador. Já vimos isso antes. Vemos isso agora em ditadores, autocratas, sociopatas que passam a ocupar posições de liderança. E agora está acontecendo no país mais rico e importante da história mundial.
 
Muitos trabalhadores essenciais precisam sair de suas casas em plena pandemia e enfrentar um grande risco às suas vidas. Você poderia comentar se vê essa pandemia ameaçando o capitalismo global em geral ou apoiando-o, e se os triliões de dólares que estão sendo colocados nesses pacotes de estímulo vão simplesmente intensificar a desigualdade ou realmente ajudar as pessoas que mais precisam?
 
O setor corporativo está trabalhando duro num plano para um futuro como o que você descreve. A questão é entender se as organizações populares serão capazes de impor pressão suficiente para garantir que isso não aconteça.
 
Vejamos as corporações. O que elas têm feito nos últimos anos? Os lucros têm ido para as nuvens. Elas têm se entregado a uma orgia de recompra de ações, que são dispositivos para aumentar a riqueza dos acionistas ricos e de seus gestores, enquanto minam a capacidade produtiva das empresas em grande escala, instalando seus escritórios em alguma pequena sala de algum lugar da Irlanda, para não ter de pagar impostos, usando paraísos fiscais. Essa mudança não é pequena. São dezenas de trilhões de dólares, roubando o contribuinte. Precisa ser assim?
 
Vejamos a oferta atual para as corporações. Ela deveria ser acompanhada de condicionantes — termo com o qual estamos familiarizados, por causa do FMI. Eles deveriam ser obrigados a garantir que não haverá mais uso de paraísos fiscais, nem recompras de ações, e ponto final. Se eles não o cumprirem, com uma garantia firme, não receberão nenhum dinheiro público.
 
Deveriam existir muito mais condicionantes. Parte da administração deveria ser de representantes dos trabalhadores. É impossível? Não, é feito em muitos países, na Alemanha, por exemplo. Deveria ser exigido que eles garantissem um salário digno para viver: não apenas um salário mínimo, um salário digno. Essa é uma condicionante que pode ser imposta.
 
Você poderia falar um pouco, de forma geral, sobre uma questão que habita seu coração há décadas, que são os Territórios Ocupados, Gaza e Cisjordânia. O que significa a pandemia num lugar como Gaza, classificada pela ONU e por pessoas do mundo inteiro como uma “prisão a céu aberto” com quase 2 milhões de pessoas?
 
É quase impossível pensar nisso. Gaza é essa prisão a céu aberto com 2 milhões de pessoas que a ali habitam, sob ataque constante. Israel, que se impôs como o poder da ocupação, reconhecido por todos os países como um invasor, menos por eles mesmos, tem estabelecido sanções muito duras desde que os palestinos cometeram o erro de realizar a primeira eleição livre no mundo árabe e eleger as pessoas erradas. Os Estados Unidos e Israel caíram em cima como uma tonelada de tijolos.
 
Há agora alguns casos [de covid-19] em Gaza. Se a pandemia se estender, será um verdadeiro desastre. Instituições internacionais apontam que em 2020, ou seja, agora, Gaza seria praticamente inabitável. Quase 95% de sua água é completamente poluída. O lugar é um desastre. E Trump garantiu que ficará pior. Ele retirou o financiamento dos sistemas de apoio aos Palestinos em Gaza e na Cisjordânia, matou o financiamento a hospitais palestinos. E ele tinha um motivo. Eles não o elogiaram o suficiente. Eles não foram respeitosos com deus, portanto, serão estrangulados, apesar deles mal sobreviverem sob um regime severo e brutal.
 
O que você considera necessário numa resposta internacional para frear a ascensão do autoritarismo que pode surgir com a pandemia? E o que seria necessário para transformá-la numa resposta progressista?
 
Na medida em que podemos identificar alguma política coerente dentro da loucura da Casa Branca, surge, com considerável clareza, uma coisa: a saber, um esforço para construir uma internacional dos estados mais reacionários e opressivos, liderada pelo gangster desde a Casa Branca. E, agora, isso está ganhando forma.
 
Na Índia, o presidente Modi, que é um hindu nacionalista e extremista, está se movimentando estrategicamente para destruir a democracia secular indiana e esmagar a população muçulmana. O que está acontecendo na Caxemira é assustador. Já era ruim o suficiente antes, agora ficou muito pior. O mesmo acontece com a enorme população muçulmana na Índia. É possível descrever a quarentena imposta como genocida. Modi deu um aviso de bloqueio total cerca de 4 horas antes. São mais de um bilião de pessoas. Alguns deles não têm para onde ir. As pessoas na economia informal, que são um grande número de pessoas, foram simplesmente expulsas. “Volte a pé para a sua vila”, que pode estar a milhares de quilómetros de distância. “Morra na beira da estrada.” Essa é uma enorme catástrofe, bem como os severos esforços para impor as doutrinas ultradireitistas do Hindutva, que estão no centro do pensamento e da bagagem de Modi.
 
Para além do caso da Índia, o que está acontecendo, de fato, é que o sul da Ásia vai se tornar inabitável muito em breve, se as políticas climáticas atuais continuarem assim. No último verão, a temperatura em Rajasthan foi parar em 50 graus Celsius. E continua a subir. Há centenas de milhares de pessoas que não têm acesso à água na Índia. Vai ficar muito pior, pode até levar a uma guerra nuclear entre as duas potências que basicamente contam com os mesmos recursos hídricos, em declínio, sob o aquecimento global: Paquistão e Índia. Ou seja, a história de terror que está se desenvolvendo é, novamente, indescritível. Não é possível encontrar palavras para isso. E algumas pessoas estão torcendo por isso, como Donald Trump e seu amigo Bolsonaro no Brasil, e alguns outros sociopatas.
 
Mas como se opor a uma internacional reacionária? Desenvolvendo uma Internacional Progressista. E há alguns passos para isso. É um tema que não ganha muitos holofotes, mas acho que em dezembro próximo haverá um anúncio formal do que está em andamento há algum tempo. Yanis Varoufakis — fundador e principal figura do DiEM25, o importante movimento progressista na Europa — e Bernie Sanders publicaram uma declaração pedindo uma Internacional Progressista para combater e, esperamos, superar a internacional reacionária com base na Casa Branca.
 
Agora, se você olha a nível de Estados, parece uma competição extremamente desigual. Mas os Estados não são o único elemento. Olhando para o nível das pessoas, não é impossível. É possível construir uma Internacional Progressista baseada nas pessoas. Abrangeria desde grupos politicamente organizados que têm se proliferado, que foram muito impulsionados pela campanha de Sanders, desde auxílio mútuo de autogestão, a organizações de autogestão que estão crescendo em comunidades por todo o mundo, nas áreas mais empobrecidas do Brasil, por exemplo. Há inclusive um fato impressionante, lá: o crime organizado está se responsabilizando por trazer alguma forma de proteção decente contra a pandemia nas favelas do Rio de Janeiro. Tudo isso está acontecendo a um nível popular. Se isso se expande e desenvolve, se as pessoas não simplesmente desistirem de tudo, em desespero, mas trabalharem para mudar o mundo, como já fizeram no passado em condições muito piores, haverá a oportunidade para uma Internacional Progressista.
 
E tenha em mente que também há casos marcantes de um internacionalismo progressista, no nível do Estado. Pense na União Europeia. Os países ricos da Europa, como a Alemanha, recentemente nos deram uma lição sobre união. Certo? A Alemanha está gerenciando [a crise sanitária] muito bem. Eles têm provavelmente a menor taxa de morte no mundo, na sociedade organizada. Logo ao lado deles, no norte da Itália, as pessoas estão sofrendo miseravelmente. A Alemanha está oferecendo a eles algum auxílio? Não. Na verdade, a Alemanha até bloqueou o esforço para desenvolver títulos em euros, títulos gerais na Europa que poderiam ter sido usados para aliviar o sofrimento em países em piores condições. Mas, felizmente, a Itália recebeu ajuda do outro lado do oceano Atlântico, vinda de uma superpotência do hemisfério ocidental: Cuba. Cuba está, novamente, como antes, mostrando um internacionalismo extraordinário, enviando médicos à Itália. A Alemanha não vai fazer isso, mas Cuba pode. A China está fornecendo auxílio material. Esses são passos na direção do internacionalismo progressista a nível de estado.
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/chomsky-um-antidoto-contra-ultra-direita.html

Uma boa oportunidade para Cotrim ter ficado calado

1. Durante umas quinzenas, enquanto foi inquietante novidade na Assembleia da República, prestei particular atenção ao momento dos debates em que o primeiro-ministro via-se confrontado com as perguntas do deputado situado na mais extrema posição das direitas. Sabendo-o levado ao colo por um coro de fiéis nas redes sociais e pelos jornais da Cofina, aferia o perigo que poderia vir a constituir no futuro. Mas depressa me desinteressei da pugna: o sujeito em causa é tão contraditório e primário no que defende, que António Costa não precisa de recorrer aos reconhecidos dotes de tribuno para o devolver rapidamente à insignificância.

 

Desaparecida Assunção Cristas e estando o CDS confinado às inconsequentes telmices de quem comanda o exíguo grupo parlamentar, ganha acrescido interesse a intervenção do ultraliberal de serviço. Menos execrável que o desventurado vizinho, detetando-se-lhe até educação menos trauliteira, Cotrim de Figueiredo lá vai fazendo os possíveis para manter desfraldada a bandeira pró-liberdade total para os mercados. Só que a pandemia tem acentuado a importância determinante do Estado em tudo quanto é feito para a combater e para lhe vir a debelar os efeitos na economia. Daí que, uma vez mais, o representante da Iniciativa Liberal investiu desajeitadamente pelo lado da ineficiência do Estado no apoio aos empresários, que se andariam a queixar da excessiva burocracia no acesso aos programas para eles aprovado.

 

Letal, António Costa espetou-lhe dolorosa farpa:“Vou-lhe dar uma amarga notícia: foram os socialistas quem inventaram o Simplex e foram os liberais que o meteram na gaveta”.De facto, quanto tempo ficou perdido na maximização da eficiência da Administração Pública quando, entre 2011 e 2015, Passos Coelho e os seus cortesãos deitaram a perder todo o trabalho criado nos anos anteriores pela equipa de Maria Manuel Leitão Marques?

 

Cotrim só pode corresponder com aquela expressão conformado de quem intimamente sentiu quão preferível teria sido ficar calado.

 

2. Muito positiva a decisão tomada pelo Ministério da Cultura, que anunciou a compra de 400 mil euros em livros a pequenas editoras e livreiros cuja condição financeira era de manifesto estrangulamento devido à pandemia. E, ao mesmo tempo, também antecipou as bolsas literárias atribuídas anualmente a projetos de alguns escritores. 

 

Estas são daquelas notícias positivas sobre as quais a maioria das televisões não diz uma palavra...
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/uma-boa-oportunidade-para-cotrim-ter.html

Ecofascismo em tempo de Coronavirus

 
Asistimos a una creciente proliferación de teorías ecofascistas y eugenésicas, que cuentan con todo el apoyo de los grandes medios, puesto que son un arma importante en la guerra contra la capacidad de comprensión de la realidad, que constantemente adelanta la clase dominante contra la clase explotada. La guerra de alienación, de colonización de las mentes, es un elemento fundamental para el mantenimiento de la actual situación de profunda injusticia social y depredación contra la humanidad y el planeta. Por ello es repetida al infinito la anti-científica premisa según la cual «el humano es malo por naturaleza», el constante mantra mediatizado en todos los formatos de: «los humanos somos la peste».
 
En vez de señalar la responsabilidad del sistema socio-económico capitalista en la depredación y devastación de la naturaleza, el ecofascismo promovido por la burguesía sale a confundir para que no se identifiquen las responsabilidades concretas de tanta barbarie.Las teorías malthusianas según las cuales es mediante la eliminación de tantos humanos como sea posible, que se “salvará” el planeta, han sido abundantemente promovidas, y están hoy relacionadas con el imperialismo más racista, neocolonial y depredador, con multinacionales minero-energéticas e incluso del complejo militar-industrial, a menudo parapetadas detrás de sus fundaciones con rotulación “ecológica” (en un cinismo llevado a la máxima potencia).  Las teorías eugenésicas y otras ponzoñas pretenden suplantar la toma de consciencia sobre la realidad que nos aqueja.
La “peste” para el planeta NO son los millones de campesinos e indígenas despojados por el agroindustrial y las multinacionales extractivas, tampoco lo somos las y los trabajadores, la clase explotada en un modelo productivo aberrante que succiona nuestras vidas y hasta envenena la comida. La peste es la clase explotadora y su sistema criminal en el que un puñado acumula fortunas sobre la explotación de la clase trabajadora y sobre el saqueo del planeta. La peste es el capitalismo, sistema en el que hasta la salud es concebida como una mera “mercancía”, con las catastróficas consecuencias que podemos apreciar en nuestras propias carnes.
 
La peste es un sistema que promueve (a través de los medios masivos propiedad de grandes capitalistas) el tele-guiado consumo parasitario; un sistema que permite el crimen de la Obsolescencia Programada (envejecimiento prematuro de las cosas programado desde su misma producción, para obligar a comprar otras). La Dictadura del Capital impone la aberración que le sea necesaria para acumular fortunas, así sea convirtiendo al planeta en un basural.
 
La peste es un sistema en el que los medios de producción están en manos privadas y no en manos colectivas: si estuvieran en manos colectivas seríamos las y los trabajadores los que decidiríamos qué fabricar y cómo hacerlo, y primaría el bien de la colectividad y no el lucro de unos cuantos. Trabajaríamos en mejores condiciones y durante menos tiempo, y nos quedaría tiempo para vivir en plenitud, para estudiar y crecer emocionalmente e intelectualmente, nadie sería excluido de condiciones de vida dignas. La tecnología sería puesta al servicio de nuestra emancipación y no de nuestro sometimiento. La investigación científica se dedicaría a buscar curas para las enfermedades y no a la patraña criminal de la Obsolescencia Programada o al desarrollo de armas. La investigación científica no estaría supeditada a la voluntad de multinacionales, que impiden que salgan a la luz ciertos medicamentos que no estiman “rentables”, porque su finalidad es lucrarse sobre el sufrimiento de millones de personas. 
 
Si los medios de producción estuvieran en manos de la colectividad, la salud, la educación, la vivienda, la cultura, la armonía metabólica con nuestra madre Naturaleza, serían derechos universales efectivos, y no fuentes de lucro para un puñado, no privilegios como lo son, en los hechos, en el capitalismo. Construiríamos (por ejemplo) respiradores artificiales en suficiencia y no armas. Pero en el capitalismo las armas le son indispensables a los Estados burgueses para pertrechar a las fuerzas represivas y así reprimir la protesta social contra tanta injusticia, también le son necesarias a la burguesía para desatar sus guerras imperialistas por codicia. En el capitalismo escasean hospitales, médicos, personal sanitario, insumos, tests, equipos de protección anti-contagio, mientras que abundan fuerzas represivas hyper equipadas para reprimir y someter. Si la clase trabajadora tuviera los medios de producción, ninguna epidemia se llevaría por delante tantísimas vidas, porque decidiríamos que la sanidad es lo prioritario. Pero padecemos un sistema capitalista que todavía nos toca abolir.
 
 
El capitalismo depreda a la naturaleza y al ser humano, degradando las relaciones, normalizando la explotación, erosionando la capacidad de empatía al punto de concebir todo como “desechable”. La peste es este sistema que promueve racismo, machismo, xenofobia, individualismo, hedonismo y todo paradigma de opresión y sumisión que le es funcional a la burguesía para dividir a la clase explotada y así perpetuar la opresión de la misma. La peste es un sistema basado en la explotación, que banaliza hasta la tortura para que las prácticas que lo sustentan sean percibidas como “normales”.
 
La peste es un sistema que desata guerras imperialistas para que el capitalismo transnacional saquee los recursos de los países invadidos, provocando destrucción, muerte, éxodos poblacionales dantescos… lo que sea para agigantar los bolsillos de un puñado de criminales capitalistas. El capital viene al mundo chorreando sangre y lodo por todos los poros”[1], escribía un señor barbudo que hasta hoy buscan proscribir las burguesías, debido a su lúcida inteligencia puesta al servicio de la emancipación de los pueblos. “El descubrimiento de los yacimientos de oro y plata de América, el exterminio, la esclavización y el sepultamiento en las minas de la población aborigen, el comienzo de la conquista y el saqueo de las Indias Orientales, la conversión del continente africano en cazadero de esclavos negros: tales son los hechos que señalan los albores de la era de producción capitalista.”, escribía Marx acerca de la acumulación capitalista originaria [Ibíd.]. Sobre genocidio y despojo, sobre la barbarie de la colonización, fueron acumuladas gigantescas fortunas por la élite aristócrata y burguesa europea, a la vez que fue consolidada la burguesía esclavista en las colonias poblacionales como Estados Unidos. En la actualidad, entre las mayores fortunas del planeta se siguen encontrando los descendientes de los buitres mayúsculos de la Historia colonial, que se juntan a buitres de raigambre más reciente para proseguir el saqueo. 
 
 
El capitalismo transnacional prosigue hoy el saqueo de África, Asia y América Latina, causando genocidios y ecocidios, empobreciendo a millones de personas… Luego crea fortalezas en torno al botín saqueado por las metrópolis capitalistas (como la Unión Europea o Estados Unidos): el imperialismo quiere succionar las riquezas, pero rechaza a las personas desposeídas por su rapiña, forzándolas a trayectos migratorios de espanto y a padecer esclavitud moderna si logran llegar. Mujeres y hombres originarios de la periferia capitalista son arrinconados, por causa de unas leyes de inmigración que vulneran los derechos humanos, a padecer las peores explotaciones en los países del centro capitalista, como trabajar a destajo en el agro industrial en condiciones laborales y de vivienda infrahumanas, o como verse abocadas (en el caso de las mujeres) a la explotación aberrante que es la prostitución. Es el saqueo de los cuerpos humanos, concatenado al saqueo capitalista de los territorios. Es el funcionamiento de un sistema criminal heredero de una Historia colonial y cuyo presente es la continuidad sangrante de un sistema de clases, en el que un puñado de multimillonarios agigantan sus fortunas en base a la explotación de la clase trabajadora y al saqueo de la naturaleza.
 
La peste son los bancos y organismos usureros que cobran eternas deudas espurias a decenas de países; tan espurias como son las aberrantes “deudas” para “compensarle” a los colonizadores las “pérdidas” de sus colonias [2]. La peste son las multinacionales que envenenan ríos y destruyen ecosistemas, que se apropian fuentes de agua y cometen genocidio contra los pueblos (como las multinacionales BHP Billiton, Glencore y Anglo American que están exterminando al pueblo Wayú en Colombia… Por dar un ejemplo de miles). La peste son esas transnacionales que arrasan selvas y hacen estallar montañas enteras, transformando en muerte los verdes valles de decenas de países.
 
 
 
Es superficial y poco analítico declarar “la peste somos todos los humanos”, sin hacer distinciones de clases sociales, sin evidenciar la responsabilidad sistémica de la depredación de la naturaleza, sin identificar como responsables mayúsculas a las multinacionales que ordenan el arrasamiento de poblaciones enteras mediante masacres atroces con la finalidad de saquear los recursos (masacres que perpetran las herramientas militares y paramilitares de Estados funcionales al saqueo capitalista); es poco analítico no ponderar el carácterinducido (por la propaganda constante) del delirante comportamiento sobre-consumista. Es cegato, o malintencionado, no discernir siquiera cuestiones geopolíticas… y sin embargo las cifras hablan: si todos los habitantes del planeta consumieran como un estadounidense promedio, se necesitarían 5 planetas Tierra [3]. Entre Estados Unidos y la Unión Europea consumen el 50% de los recursos del planeta, pese a que tan solo representan el 12% de la población mundial [4]. Se observa nítidamente que el sobreconsumo de los recursos por parte de una minoría afecta a todo el planeta. Estados Unidos, Europa, Australia y Japón encabezan las regiones que mayor impacto ecológico (por habitante) le causan al planeta, debido al frenético consumismo al que es teledirigida su población. El consumo compulsivopretende inútilmente ser “compensatorio” del vacío y las frustraciones que el mismo sistema genera. Andrew Collier expresaba: “Observar a la gente en una sociedad capitalista y concluir que la naturaleza humana es egoísta, es como observar a la gente en una fábrica donde la polución está destruyendo sus pulmones y concluir que la naturaleza humana es toser”. Vemos cómo los niveles de alienación y degradación del ser humano, inherentes al sistema socio-económico depredador bajo el que vive, son cada vez más brutales. Asimismo, es cada día más brutal la depredación de los ecosistemas (y lo es pese a los paños de agua tibia que supuestamente pretenden evitarla, sin cuestionar al sistema de raíz)La depredación de la Naturaleza, la desaparición de ecosistemas y especies e incluso la proliferación a nivel pandémico de enfermedades zoonóticas son inherentes a la lógica y modelo productivo del capitalismo. 
 
“La producción capitalista distorsiona la interacción metabólica entre el ser humano y la tierra”[5]. La “fractura metabólica” causada por este sistema, entre la madre naturaleza y sus hijos humanos, es aberrante: “El hecho de que la vida física y espiritual del ser humano dependa de la naturaleza no significa otra cosa sino que la naturaleza se relaciona consigo misma, ya que el humano es una parte de ella.” escribía Marx. Y enfatizaba: “El capitalismo tiende a destruir sus dos fuentes de riqueza: la naturaleza y el ser humano”[6].
 
 
No, la “peste” no somos “los humanos”, así en abstracto y sin analizar las relaciones de producción, la geopolítica y la existencia de clases sociales en este sistema. Ese tipo de planteamientos que meten en un mismo saco a opresores y oprimidos, solamente buscan perpetuar esta barbarie. Frente al ecofascismo que promueve la burguesía, con sus teorías eugenésicas, su línea de “todos-los-seres-humanos-somos-malos” que pretende borrar las responsabilidades concretas de la clase opresora, con sus personajes hyper-mediatizados financiados por grandes multinacionales depredadoras, los pueblos alzamos la ecología que hemos alzado siempre (muchas veces incluso sin siquiera etiquetarla como tal): la ecología con conciencia de clase, la de Berta Cáceres y Chico Méndes, la de tantos militantes por la naturaleza y la justicia social, siempre en lucha contra la depredación capitalista… la de los miles que han sido asesinados por la herramienta sicarial de las transnacionales y de los miles y miles que siguen en primera línea de lucha.
Desde la clase explotada, alzando la consciencia de clase y el amor a la Tierra, somos naturaleza en lucha para tumbar a la clase explotadora y su sistema criminal.
NOTAS:
[1] Marx, El Capital, Capítulo XXIV, Acumulación Originaria
La Banque mondiale est directement impliquée dans certaines dettes coloniales, puisqu’au cours des années 1950 et 60, elle a octroyé des prêts aux puissances coloniales pour des projets permettant aux métropoles de maximiser leur exploitation de leurs colonies. Les dettes contractées auprès de la Banque par les autorités belges, anglaises et françaises pour leurs colonies ont ensuite été transférées aux pays qui accédaient à leur indépendance sans leur consentement”.
[3] Estados Unidos consumen el 30 % de los recursos mundiales, a pesar de que representan solo el 5 % de la población mundial. www.chicagotribune.com/hoyla-diadelatierra-los-10-paises-que-generan-mas-basura-en-el-mundo-20190422-story.html
5 % de la población mundial, los estadounidenses, producen tres veces más desechos que los chinos y siete más que los etíopes.www.lavozdegalicia.es/noticia/mercados/2019/09/29/humanidad-devora-tierra/0003_201909SM29P2991.htm
[4] La huella ecológica de la UE es equivalente a 2,8 planetas Tierra. La Unión Europea utiliza el 20% de los recursos naturales mundiales, pese a que demográficamente sólo representa el 7% de la población global. WWF y Global Footprint Network, informe “Vivir por encima de los límites de la naturaleza en el mundo” www.awsassets.wwf.es/downloads/wwf_overshoot_europa_esp_.pdf
[5] Concepto de la “fractura metabólica” de Marx, central para una crítica integral al capitalismo: (La producción capitalista) distorsiona la interacción metabólica entre el ser humano y la tierra. (…) La propiedad de la tierra a gran escala reduce la población agrícola a un mínimo constantemente decreciente, confrontado con un constante crecimiento de la población industrial conglomerada; de esta manera, produce las condiciones que provocan una fractura en el proceso interdependiente entre el metabolismo social y el natural.”. Para Marx: El hecho de que la vida física y espiritual del ser humano dependa de la naturaleza no significa otra cosa sino que la naturaleza se relaciona consigo misma, ya que el humano es una parte de ella.” (Marx, Manuscritos Económico-filosóficos, 1844): https://n9.cl/6s8d
[6] La industria a gran escala y la agricultura industrial van de la mano. Si ellas están originariamente distinguidas por el hecho de que la primera deja residuos y arruina a la fuerza de trabajo, y así la potencia natural del ser humano; mientras que la segunda hace lo mismo a la fuerza natural del suelo, ellas terminan vinculándose dado que el sistema industrial aplicado a la agricultura acaba por debilitar a los trabajadores, mientras que la industria provee a la agricultura con los medios para el agotamiento del suelo” (Marx). “Todo progreso de la agricultura capitalista no es solo un progreso en el arte de esquilmar al obrero, sino a la vez en el arte de esquilmar el suelo; todo avance en el acrecentamiento de la fertilidad de un periodo dado, es un avance en el agotamiento de las fuentes duraderas de esa fertilidad […] La producción capitalista sólo sabe desarrollar la técnica y la combinación del proceso social de producción socavando al mismo tiempo las dos fuentes originales de toda riqueza: la tierra y el humano” (Marx, primer tomo de “El Capital”)
 

 

 
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Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/23/ecofascismo-em-tempo-de-coronavirus/

Le Pen defende 'neutralização da escória' após onda de violência na França

Candidata francesa pela Frente Nacional, Marine Le Pen (arquivo)
© REUTERS / Stephane Mahe

A política francesa Marine Le Pen defendeu hoje a "neutralização da escória" após uma nova onda de violência em várias vilas da França na última noite, escreve a AFP.

Novos incidentes eclodiram na noite de segunda-feira (20) em várias localidades dos subúrbios parisienses, na sequência de um misterioso acidente de um motociclista, no último sábado, em Villeneuve-la-Garenne (Hauts-de-Seine), no qual policiais estariam envolvidos. Ao menos nove pessoas foram detidas na madrugada na região da capital após tumultos violentos, segundo informações da polícia citadas pela Agence France-Presse.

Além da área de Paris, episódios de violência também teriam sido registrados em outras partes da França, em meio a críticas pela libertação de milhares de presos como medida de reduzir a propagação do novo coronavírus no país, um dos mais afetados pela pandemia da COVID-19 em todo o mundo. 

 

​Aqui estão as cenas insuportáveis de guerrilha urbana que ocorreram ontem em toda a França. Não é mais hora de bons sentimentos, desculpas e políticas urbanas arruinadas: é hora do desarmamento da escória, de sua punição e neutralização. 

Para Le Pen, líder do Rassemblement National (Reagrupamento Nacional), a ministra da Justiça, Nicole Belloubet, ao liberar tantos detentos, "deu asas à violência" que está paralisando as forças de segurança em centenas de cidades francesas.

"O Estado macroniano não desistiu apenas de combater a delinquência: ele lhe ofereceu um reforço insano", disse ela.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020042115483353-le-pen-defende-neutralizacao-da-escoria-apos-onda-de-violencia-na-franca/

COVID-19: líder filipino ameaça enviar militares contra quem descumprir quarentena

Presidente filipino Rodrigo Duterte fala à população sobre a COVID-19
© AP Photo / Karl Norman Alonzo / Divisão de Fotógrafos Presidenciais de Malacanang

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, disse que a polícia e os militares intervirão para controlar o distanciamento social e o toque de recolher se os cidadãos continuarem a violar as regras de quarentena da COVID-19.

Duterte enviou seu aviso em um discurso televisionado.

"Estou pedindo sua disciplina, porque se você não quiser [seguir as regras], os militares e a polícia assumirão. Estou ordenando que eles estejam prontos agora", declarou ele, conforme citado pela mídia local.

"A polícia e os militares farão cumprir o distanciamento social e o toque de recolher. Seria como lei marcial. Você escolhe", ameaçou.

O presidente filipino afirmou ainda que poderia entregar o pedido já na "próxima semana".

As palavras de Duterte vieram após relatos de filipinos continuando a violar as regras de quarentena. No início desta semana, o prefeito da capital do país, Manila, Isko Moreno, impôs temporariamente um "bloqueio total" em um dos bairros da cidade após um vídeo de cerca de 100 moradores participando de uma luta de boxe na rua.

Duterte, que é conhecido por usar linguagem simples e grosseira, já havia dito anteriormente que ordenou que a polícia, o Exército e as autoridades da cidade atirassem em violadores de quarentena em legítima defesa se "revidarem" contra as autoridades.

Ele também alertou que aqueles que violarem as regras de quarentena não receberão ajuda do governo - especialmente pessoas que organizam torneios de briga de galos e sessões de bebida.

Nesta sexta-feira (17), as Filipinas tinham mais de 5.800 casos confirmados de COVID-19, com 387 mortes.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2020041715469224-covid-19-lider-filipino-ameaca-enviar-militares-contra-quem-descumprir-quarentena/

Em tempos de confinamento, um livro que nos ajuda

“Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
“É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.”
image
Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
Daniela Castro
 
(Edições Afrontamento, Porto)
 
 
 
Há 44 anos, um atentado bombista matou dois jovens transmontanos na flor da vida: Maximino de Sousa e Maria de Lurdes Correia. Foram vítimas do ódio político. O Padre Max, assim conhecido na comunidade, era tido como um Padre com ideias comunistas, e a Maria de Lurdes era uma jovem estudante, alegre e espontânea, a quem dera boleia.
Tratou-se de um crime político, planeado e executado por um comando da rede terrorista da extrema-direita, com apoios locais, que aconteceu numa fase já declinante do processo revolucionário, justamente em 2 de Abril de 1976, dia em que o Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes, promulgou a Constituição, no momento seguinte à sua votação final.
 
O golpe de 25 de Novembro acabou com a fase mais criadora da Revolução. O Governo e a Assembleia Constituinte continuaram em funções, mas havia forças que pensavam poder ainda reverter o curso da História. O período entre Novembro de 75 e Abril de 76 foi dos mais violentos e mortíferos, tendo sido cometidos 97 atentados bombistas. Lembro o assassínio a tiro, na própria noite de 25 de Novembro, do operário vidreiro e sindicalista António Almeida e Silva, numa rua do Porto, a morte de Rosinda Teixeira, em Santo Tirso, de duas pessoas da Embaixada de Cuba, de um cidadão junto do CT Vitória, do PCP, em Lisboa, vítimas de explosões, sem esquecer, noutro quadro, a morte, por disparos da GNR, de quatro pessoas, numa pequena multidão que se manifestava pacificamente, no final do ano, junto à cadeia de Custóias, onde estavam detidos militares de esquerda, acusados de envolvimento no 25 de Novembro. Foi nessa época que ocorreu o atentado bombista na Câmara Municipal de Vila Real, que por pouco não atingiu o Presidente da Comissão Administrativa, Rogério Fernandes, conhecido militante do PCP e amigo do Padre Max. Foi na mesma altura que uma bomba destruiu o carro do médico de Chaves Maximino Cunha. O crime infame que vitimou o Padre Max e a estudante Maria de Lurdes não foi um caso isolado. 
 
Um dos méritos do livro de Daniela Costa é o de mostrar o outro lado da História, para além dos números, dos factos e da sua interpretação. São as pessoas, os seus sonhos, as vivências, as emoções, os desejos, os conflitos, o sofrimento, o enfrentamento de interesses, o entorno social, o caldeio de lutas, a miséria moral e a grandeza humana, os acasos e as causas, o encanto e o desencanto, a sordidez dos actos e a beleza da vida, a inquietação, a magia, o mistério, o egotismo e a generosidade e o amor em dádiva, tudo isto, e muito mais do que isto, flui na leitura de um texto que transcende o tempo e o lugar.
 
Outro mérito advém do modelo narrativo. A voz da autora desdobra-se em outras vozes, todas elas com densidade própria, coloração, respiração, e uma autenticidade que nos transporta às fragas do Marão e às lonjuras, ao cheiro da terra, e aos socalcos do Douro, lá onde a mão humana esculpiu a paisagem. Uma escrita com rara mestria que permitiria mesmo uma expressão cénica pois, uma a uma, em diferentes registos, como que se apresentam num proscénio.
Logo de início uma primeira figura, antecedendo as demais, assim fala: “Os meus dedos grossos de trabalho e velhice arranham-me as maçãs do rosto de cada vez que enxugo estas lágrimas que não me deixam”. E com isto se anuncia o dramatismo da acção.
 
Em outras falas se cruzam palavras como sonho, fuga, liberdade, que lembram aquele verso de Torga “ grandes serras paradas à espera de movimento”. E com isto se define a essência de uma contradição: a fixidez, a imobilidade do que está, e a mudança a que se aspira.
Outra figura diz detestar um quadro torto e uma sala desarrumada. E com isto revela a fonte do desajustamento que o incomoda: não é a desordem das coisas mas sim a desordem das pessoas que não aceitam a perpetuação das desigualdades.
 
As figuras sucedem-se cada uma com o seu testemunho. Sempre ausentes e sempre presentes lá estão o Padre Max e a Maria de Lurdes através das palavras de quem os conheceu, e amou ou odiou.
 
Lá vem aquela suposta avó, mulher do campo digna, honesta, carinhosa, a quem os filhos emigrantes permitiram uma vida melhor na cidade, e que tanto estimava o seu hóspede Padre Maximino.
 
Lá vêm os colegas da Lurdes e alunos do Padre Max, a quem este apoiava com aulas gratuitas para poderem prosseguir os estudos.
 
Lá vêm os sacerdotes amigos de Max, um mais compreensivo, outro mais distante.
 
Lá vem o prelado com suas blandícias, espelhando as contradições da Igreja.
 
E o cacique de direita e suas más companhias.
 
E o grande proprietário do Douro a quem um dia as trabalhadoras reclamaram o justo pagamento.
 
E uma colega que juntava a altura da sua condição social à baixeza dos seus sentimentos.
 
E o filho família, de raiva exposta e verbo radical, um tanto aventureiro.
 
E o activista sindical da UDP que lutava na empresa por melhores salários.
 
E gente da rede terrorista e dos interesses de classe que serviam.
 
E o advogado, corajoso e persistente, que não deixou cair o caso na obscuridade.
 
E personagens luminosas, por ideais e afectos, e outras sombrias, pela trama de ódios e violências.
 
Uma a uma chegam ao proscénio e falam, os discursos não se cruzam mas vão construindo um quadro. Os percursos pessoais, as relações humanas, onde não falta um enredo amoroso e, em fundo, o eco de lutas sociais, pela devolução dos baldios aos povos, pela justa paga do trabalho nas vindimas e na apanha da azeitona, ou em torno da Gestão da Casa do Douro.
 
Foi a época das grandes manifestações, como a que foi organizada pela Igreja, com pretexto no caso da Rádio Renascença, mas que, talvez por diligências do PCP, designadamente junto do Bispo, e um Apelo dirigido aos cristãos de Vila Real, não causou violências, como, entre outras cidades, aconteceu em Braga, onde o Centro de Trabalho foi destruído.
 
Ou a manifestação em Lamego contra os militares do MFA da Comissão de Gestão da Casa do Douro. “Nem Cunhal nem Pardal” era o grito de guerra de uma multidão arrebanhada pelos caciques e que chegou à Assembleia Constituinte pela voz de um deputado da região.
 
Cenas da luta de classes em Trás-os-Montes, dir-se-á. O livro de Daniela Costa é isto, mas é muito mais do que isto, porque tem o dom da boa literatura: desde início a leitura nos prende e logo nos transporta e nos situa num outro mundo, e nos coloca dentro de uma história, como se tivéssemos também conhecido e convivido com o Padre Max, um jovem bom, generoso, um cristão convicto, um homem de fé.
 
Falámos das vítimas, falemos agora da rede terrorista a que já nos referimos, responsável por 566 actos violentos, entre Maio de 75 e Abril de 77, entre os quais 310 atentados bombistas e 194 incêndios e assaltos, tendo como alvo forças de esquerda e o movimento sindical.
 
Quem a constituía? O ELP, o MDLP, a rede Maria da Fonte e outras organizações congéneres, que tinham como base logística a Espanha franquista, onde actuavam com nomes de fachada como a empresa Tecnomotor ou a Fundação Nossa Senhora de Fátima. Uma das melhores fontes para conhecer este mundo sórdido é o livro de Maria José Tíscar “A contra-revolução no 25 de Abril” (edições Colibri).
 
Quem a dirigia? Inicialmente antigos dirigentes da PIDE como Barbieri Cardoso e Cunha Passo, ou o inspector Meneses Aguiar ou o legionário Rebordão Esteves Pinto, a que se juntou depois a corte spinolista que fugiu para Espanha, após o golpe falhado de 11 de Março.
 
Quem eram os efectivos? Antigos agentes da PIDE e legionários, alguns colonos inconformados, mercenários, fascistas convictos, gente a mando dos caciques, um certo lumpen de fácil recrutamento.
 
Quem os financiava? Banqueiros e grandes empresários que nunca aceitaram o 25 de Abril e muito menos o rumo socialista que tomou e veio a ser consagrado na Constituição, além de conhecidas agências de países da NATO.
 
Os crimes foram punidos? As primeiras prisões são do verão de 76, efectuadas pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária, mas poucos foram os autores morais e materiais presos e menos os condenados. Em geral beneficiaram de uma teia de cumplicidades que lhes permitiu encontrar boas soluções de vida, e alguns vieram até a ser distinguidos pelo poder político emergente.
 
Houve mesmo quem publicasse livros em que se gaba dos seus feitos. Foi o caso de um tal Manuel Gaspar, de quem o jornalista Ricardo Saavedra escreveu as memórias (O Puto, edições Quetzal). Depois de ter participado no golpe racista de 7 de Setembro de 74 em Moçambique, donde era natural, e na marcha até Luanda com as forças sul-africanas que tentavam impedir a independência de Angola em 11 de Novembro, sob a direcção do MPLA, desembarcou em Portugal, onde logo entrou ao serviço da rede terrorista. É um dos participantes confessos no assassínio do Padre Max e da Maria de Lurdes que, nas pgs, 337 a 340, descreve com detalhe. É um relato impregnado de cinismo onde defende, como é habitual nestes casos, que a intenção não era matar mas apenas assustar. Começa, com certo gáudio, a descrever a cena em que “à hora certa”…”lá vinha Maria de Lurdes, toda fresca e radiante nos seus dezoito ou dezanove anos”, para terminar explicando as mortes: “Só que o destino do casal, infelizmente, estava traçado, e contra o destino não há planos que resistam”. Por curiosidade se acrescenta que o indivíduo esteve preso em Alcoentre, por outras acusações, donde fugiu passado pouco tempo.
 
No mesmo livro se transcreve um artigo do jornal fascista A Rua, de 8 de Junho de 77, onde se fazia a afirmação de que a Maria de Lurdes estava “grávida de 3 meses”, que ficou provado, mais tarde, ser uma abjecta calúnia.
 
O fascismo não é coisa do passado, está de regresso e em força. Há uma direita tradicional, que se move no campo democrático, que tem da violência fascista uma visão instrumental pelo que possa ser útil para os seus interesses de classe. Tende a contemporizar ou condescender porque teme, acima de tudo, o ascenso revolucionário que a crise do capitalismo possa gerar nas classes trabalhadoras. A grande burguesia, a alta finança, têm com as organizações fascistas laços de cumplicidade e mesmo vínculos orgânicos, muito resguardados. Como aconteceu nos anos 20 e 30 com os resultados conhecidos. Como aconteceu em Portugal nos anos da Revolução. Como hoje vai acontecendo na Europa ou no continente americano.
 
O livro de Daniela Costa, para além do valor literário que tem, é um contributo mais para conhecer a revolução e a contra-revolução no Portugal de Abril.
 
É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.
 
 
Jorge Sarabando
Abril de 2020
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Cada vez mais memoriais do Holocausto estão a ser vandalizados com provocações de extrema-direita

 

As provocações de extrema-direita são um problema crescentes nos locais dos antigos campos de concentração nazi na Alemanha.

 

“Mensagens a glorificar o nazismo ou a exigir a reabertura dos campos de concentração para estrangeiros tornaram-se mais comuns”, disse Volkhard Knigge,​ diretor do museu do antigo campo de concentração de Buchenwald, onde o número de incidentes duplicou desde 2015, em declarações à AFP.

“Sempre houve incidentes em memoriais, mas temos notado uma escalada recente devido à violação dos tabus linguísticos por parte da extrema-direita”, acrescentou.

Diretores de museus dedicados ao Holocausto têm alertado para um aumento do número de incidentes, como mensagens de negação nos livros de visitas.

 
 

Também há quem tire selfies sorridentes em frente a fornos usados ​​para cremar vítimas e deixar adesivos que glorificam o nazismo.

Recentemente, um número crescente de guias turísticos têm sido interrompidos por extremistas que propagavam teorias revisionistas.

Uwe Neumaerker, diretor do Memorial de Berlim aos Judeus Mortos da Europa, disse que o seu museu enfrenta problemas semelhantes. “Os visitantes estão a questionar a veracidade do genocídio. Isso é algo que nunca vivenciámos.”

O aumento de incidentes em memoriais também ocorre quando a geração de alemães que viveram a 2.ª Guerra Mundial está a começar a desaparecer e a atenção está a mudar para garantir que os horrores do Holocausto, nos quais seis milhões de judeus foram assassinados, não sejam esquecidos.

Porém, nos últimos anos, o partido anti-imigrante AfD estabeleceu-se como o movimento de extrema-direita de maior sucesso eleitoral na história do pós-guerra da Alemanha. Fundado em 2013, o AfD é o maior partido da oposição no parlamento alemão. De acordo com o Diário de Notícias, muitas de suas figuras-chave atacaram a antiga cultura de expiação por crimes nazis.

O líder regional Bjoern Hoecke pediu uma “reversão de 180 graus” na cultura da memória alemã e classificou o memorial do Holocausto de Berlim como “monumento da vergonha”.

Existem 15 antigos campos de concentração em solo alemão que foram transformados em memoriais. Os mais conhecidos – Dachau, Sachsenhausen, Neuengamme, Bergen-Belsen, Ravensbrueck e Buchenwald – receberam quase três milhões de visitantes em 2018.

Neumaerker permite que os seus guias escolham se aceitam ou não grupos do AfD e forneceu aos funcionários treino especial sobre como reagir a provocações. Em Neuengamme, todas as delegações do AfD são acompanhadas por guias turísticos extras.

Alguns sítios proíbem o acesso a qualquer pessoa que use roupas que façam referência ao Terceiro Reich.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/vez-memoriais-do-holocausto-estao-vandalizados-pelo-extrema-direita-319093

Fascismo, por Manuel Loff

arame farpado

Estádio conjuntural da evolução do capitalismo e do imperialismo europeus, superado pela derrota militar do nazismo em 1945, ou proposta permanente de práxis política dos setores mais violentos da classe dominante da sociedade capitalista? Desvio incaraterístico na leitura burguesa do mundo contemporâneo, típico de uma era depressiva, ou categoria válida de interpretação da realidade política, social e cultural, aplicável a contextos muito distintos do europeu e a conjunturas posteriores a 1945, à resistência imperialista à descolonização formal, à relativa desindustrialização do Norte do fim de Novecentos, ao fim dos modelos reacionários autoritários clássicos na Europa e nas Américas?

manuel loffDiscutir a atualidade e a operatividade histórica do conceito de fascismo é necessariamente dificultado pelo facto evidente de este ser tornado maldito pela memória do Holocausto e pela sua própria representatividade no conjunto das estratégias políticas das direitas, reconhecendo-se ao fascismo, portanto, uma entidade própria e, sobretudo, ainda hoje vigente como categoria do real.

Não conseguir ler a realidade com que nos deparamos é a forma mais evidente de não ser sujeito da nossa própria vida, da nossa própria história. Saber onde e quando há fascismo é tão importante hoje como o foi no passado. A proposta de leitura do fenómeno que aqui faço bebe a sua vitalidade teórica fundamentalmente na perspetiva de construção do conceito de fascismo genérico, que teve em Enzo Collotti o seu pensador mais sólido. Para a geração de movimentos e regimes autoritários e simultaneamente reacionários do período de entre-guerras mundiais, pelo menos, Collotti sustenta ser possível perceber a «existência de uma ideia-guia, e de tendências de evolução das ideias e instituições políticas, que [podem] assimilar-se no conceito de fascismo, entendido como força de rutura capaz de modificar equilíbrios políticos e sociais, e capaz também de mobilizar estados e potências para a desestabilização da ordem existente, na sua ambição de propor e impor uma nova ordem à Europa»1.

Na definição do mais representativo historiador que trabalha nestes termos em Portugal, Fernando Rosas, trata-se de «uma realidade «fundamental da história europeia dos primeiros 30 ou 40 anos deste século [XX]: a do surgimento de um movimento reacional geral de tipo novo, nascido da crise do sistema liberal, particularmente afirmado e clarificado no período de entre as duas guerras, o qual, sem prejuízo de diferentes formalizações e expressões nacionais, atravessa e unifica historicamente o conjunto das sociedades capitalistas europeias desse período» (Rosas, 1989: 22).

Antes de mais, o fascismo progride em conjunturas de crise da economia capitalista e da cultura social e política que lhe está associada. Ele esconde-se por detrás de reações ultraconservadoras à sociedade de massas, incorporando, contudo, um discurso modernizador e metodologias de mobilização social e política adaptadas às caraterísticas próprias da massificação, o que se tornou, logo nos anos 1920, uma das mais seguras garantias do seu sucesso.

Os fenómenos de concentração capitalista, como aqueles que correspondem à atual fase de desenvolvimento capitalista, com a consequente ameaça de proletarização das classes médias, produzem habitualmente formas de discurso anticapitalista reacionário, que diz pretender o regresso a formas corporativas protegidas, de organização da economia e da sociedade, de atividade económica, aparentando recusar por igual concentração e coletivização, ainda que, socioeconomicamente, a História tenha amplamente demonstrado que a primeira foi uma das mais evidentes consequências da prática política do fascismo.

Nos processos de conquista de poder em que o fascismo se envolveu, os seus arautos sustentaram retóricas em torno do que, nos anos 1930, pelo menos, se chamava o socialismo nacional, escorado, nos países de maioria católica, pela teorização vaticana do corporativismo.

Chegado ao Poder, conquistada a hegemonia no plano do Estado, os fascismos submeteram as classes populares, e muito particularmente os assalariados, em evidente colaboração de classe com um patronato industrial e agrário que vivera o período 1917-23 sob verdadeiro pânico. A prática política destes regimes foi a da intervenção regulamentadora e hiperburocrática das atividades económicas mas assegurando sempre o consenso com os grandes interesses patronais.

Particularmente popular entre os setores social e economicamente menos seguros da burguesia, essas novas e frágeis classes médias que o avanço da escolarização, da urbanização e da terciarização propiciou a partir da I Guerra Mundial, o fascismo emergiu nos anos que se seguiram ao triunfo da Revolução de Outubro como forma brutal de reação ao avanço do movimento operário, reforçado este pelo empenho (e consequente desilusão profunda) das massas no esforço de guerra e pelo triunfo e resistência da revolução soviética.

O pânico antirrevolucionário que viveu a classe dominante e que se estendeu às classes médias foi certamente terreno lavrado para a sementeira fascista, mas é necessário termos bem presente que a grande maioria das experiências fascistas e fascizadas tiveram êxito em momentos de refluxo, e não de avanço, do movimento operário: desde a Itália do fim de 1922 à Alemanha de 1933, passando pelas ditaduras reacionárias que se implantam por toda a Europa meridional e do Sul durante o período, os fascismos instalam-se no poder de forma mais preventiva face à possibilidade de reemergência da capacidade revolucionária do movimento operário, num momento em que esta se perdera ou estava em vias de se perder.

Efetivamente, nem o triunfo de Mussolini ocorre nos anos (1919-20) de mais intensa mobilização revolucionária em Itália, nem Hitler é chamado ao poder pela burguesia mais reacionária em 1919 ou em 1923, quando o movimento espartaquista/comunista alemão conseguiu reunir o maior consenso na classe operária alemã em torno de uma alternativa revolucionária; e muito menos as ditaduras antirrevolucionárias se instalam no poder em Portugal, em 1926, ou na Áustria em 1934, confrontando movimentos revolucionários no clímax da sua capacidade sociopolítica, ainda que, pelo contrário, essa situação possa configurar os casos do levantamento militar franquista na Espanha de 1936.

O fascismo não foi meramente um estádio conjuntural da evolução do capitalismo e do imperialismo europeus, porque não só esteve e está presente fora da Europa e não foi completamente superado pela derrota militar do nazismo em 1945. Pelo contrário, ele emerge como proposta permanente de práxis política dos setores mais violentos da classe dominante da sociedade capitalista.

Como leitura burguesa do mundo contemporâneo, típico de uma era depressiva, ele não foi um desvio incaraterístico, mas, pelo contrário, ele deve, a meu ver, ser lido como categoria válida de interpretação da realidade política, social e cultural, aplicável, insisto, a contextos muito distintos do europeu e a conjunturas muito posteriores a 1945, como pode vir a ser presente, caraterizada pela relativa desindustrialização do norte do planeta, acompanhada por formas muito acentuadas de desmantelamento da democracia política e social onde ela parecia consolidada, por modelos muito evidentes de reforço do poder pseudo-carismático de chefes políticos endeusados por novas técnicas de manipulação e controlo simbólico, por práticas muito eficazes de atomização das formas de representação da opinião e da organização dos interesses sociais.

O fascismo é, em suma, uma das componentes mais perigosas do neo-totalitarismo capitalista que avança sobre o planeta neste novo século.

Texto publicado no boletim da URAP nº161 (Jan-Mar 2020)

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2VpHFiz

 
 

O Vox de Espanha

Coisa de fascistas
 
 
E quando pensas que não se pode descer mais
baixo, chega o Vox e publica uma fotomontagem
da Grã Via de Madrid cheia de caixões
Não têm ponta de vergonha estes tipos do Vox. Se a tivessem, lembrar-se-iam que a ditadura franquista de que são herdeiros, já depois de alcançada a sua vitória militar ,fuzilou 200 mil prisioneiros republicanos, o que dá outros tantos caixões.
aqui
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

A ingenuidade do padre Pedro Coutinho e um vírus de carne e osso

 
Há estórias sem história, um padre inocente que se deixa infetar por um vírus de carne e osso, um fascista que pediu a demissão do partido(*) de que é deputado, sem usar a palavra irrevogável, e tendo para o adjetivo o dicionário de Paulo Portas.

O padre Pedro Coutinho é amigo do assessor do Chega e presidente do Partido Pró-Vida (PPV). Quando este lhe telefonou a perguntar as carências e recebeu, depois, a dádiva, não sabia que posaria para fotografias, a segurar leite e fraldas para incontinência, com o líder do partido nazi.

Não imaginei que fossem de coisas políticas. Fiquei chateado” – disse o ingénuo padre ao saber-se que a versão masculina e laica da Dr.ª Isabel Jonet lhe apareceu com luzidia comitiva em campanha política.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/04/a-ingenuidade-do-padre-pedro-coutinho-e.html

(*) Esclarecimento PC-mc: Enquanto muitos lutam contra a pandaemia e a generalidade dos portugueses estão preocupados com a evolução ad crise a extrema direita anda em grande convulsão com o seu líder a dizer que está farto e cansado numa daquelas habituais golpadas para conquistar o poder absoluto e  incriticável dentro do seu partido. Nada que não se conheça há muito na partidocracia da direita.

Líder das Filipinas autoriza polícia a atirar e matar quem furar confinamento da COVID-19

Duterte testa os armamentos
© Foto / REUTERS/Romeo Ranoco

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, alertou que aqueles que violarem a quarentena em meio à crise da COVID-19 podem acabar mortos, ordenando que as forças de segurança atirem nos violentos "causadores de problema" enquanto o país luta contra o surto.

O alerta foi dado durante um discurso televisionado na quarta-feira à noite, em que Duterte disse à polícia e aos militares que adotassem uma abordagem para violadores de medidas de bloqueio em Luzon - a maior e mais populosa ilha do país - imposta no mês passado propagação do novo coronavírus.

"Eu não hesitarei. Minhas ordens são para a polícia e os militares, assim como os [distritos], de que, se houver problemas ou a situação surgir, as pessoas brigam e suas vidas estão em risco, matem-nos a tiros", afirmou o presidente.

"Você entendeu? Morto. Em vez de causar problemas, enviarei você para o túmulo", acrescentou.

Duterte fez seu discurso apenas algumas horas depois de 21 residentes em Quezon City - a maioria deles trabalhadores de fábricas e construções de baixa renda, incapazes de trabalhar durante o bloqueio - foram presos por protestar sem permissão.

As prisões foram condenadas pelo grupo trabalhista Solidariedade de Trabalhadores Filipinos (BMP), que castigou o governo por ter como alvo pessoas pobres pedindo ajuda durante a crise.

Primeira foto do novo coronavírus feita com microscópio eletrônico por cientistas chineses

© Foto / Arquivo nacional de microrganismos patogênicos da China
Primeira foto do novo coronavírus feita com microscópio eletrônico por cientistas chineses

O presidente pediu que os pacientes que precisavam de ajuda fossem pacientes, exortando-os a "esperar pela entrega mesmo que demorasse, ela chegará e você não passará fome", mas alertou os moradores "não intimidam o governo. Não desafie o governo. Você certamente perderá".

O amplo pedido de bloqueio colocou a população inteira de 57 milhões de Luzon em "quarentena comunitária aprimorada", limitando o movimento em torno da ilha a comprar alimentos, medicamentos e outros itens essenciais e a fechar todas as indústrias, exceto as vitais.

As Filipinas confirmaram mais de 2.300 casos de COVID-19 e contabilizaram 96 mortes. A Organização Mundial da Saúde (OMS), no entanto, observou que, devido ao baixo número de testes administrados lá, é provável que haja um número maior de infecções, mas afirmou que espera que os exames "aumentem substancialmente nos próximos dias".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2020040215407573-lider-das-filipinas-libera-policia-para-atirar-e-matar-quem-furar-confinamento-da-covid-19/

“Matem-nos”. Presidente das Filipinas autoriza disparos contra quem violar quarentena

 

 

O Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, ordenou aos agentes da polícia e aos militares que disparem sobre qualquer pessoa que esteja a causar “problemas” durante o isolamento obrigatório, decretado devido à da pandemia de Covid-19.

 

De acordo com o siteRappler, citado pelo Observador, numa declaração emitida na noite de quarta-feira, Duterte disse:

“Não hesitarei. As minhas ordens são para a polícia e para o exército, e também para os barangay [órgãos administrativos de bairro]: se houver problemas ou se surgir uma situação em que as pessoas resistem e as vossas vidas estiverem em risco, matem-nos. Compreendem? Mortos. Em vez de provocarem problemas, vou mandar-vos para a cova”.

O anúncio do Presidente surgiu depois de um protesto em Sitio San Roque, um bairro de Quezon, no qual os residentes exigiram apoio económico, acabando detidas 21 pessoas.

“Lembrem-se, seus esquerdistas: vocês não são o governo”, declarou Duterte. “Não andem por aí a provocar problemas e motins, porque ordeno que sejam detidos até que este surto de Covid [acabe]”, acrescentou.

 
 
https://twitter.com/amnestyph/status/1245551959601373184?ref_src=twsrc%5Etfw

 

À Al Jazeera, a líder do protesto explicou que a manifestação prende-se com as dificuldades económicas. “Estamos aqui a pedir ajuda por causa da fome. Não nos deram comida, arroz, compras ou dinheiro. Não podemos trabalhar. Viramo-nos para onde?”, questionou Jocy Lopez, que acabaria por ser detida.

As declarações do Presidente já foram criticadas pela Amnistia Internacional, que as classificou como “perigoso incitamento à violência”. As Filipinas têm neste momento mais de dois mil casos de infeção por Covid-19 confirmadas. Ao todo, 96 pessoas morreram.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/presidente-filipinas-disparos-violar-quarentena-317033

À boleia da pandemia, Parlamento da Hungria reforça poderes de Viktor Orbán

O Parlamento húngaro aprovou, esta segunda-feira, uma série de medidas para fazer face à pandemia de covid-19, entre as quais um projeto de lei que permite o estado de emergência por tempo indeterminado.

 

De acordo com o jornal The Guardian, o Parlamento húngaro aprovou, com 137 votos a favor e 53 contra, um projeto de lei que permite o estado de emergência por tempo indeterminado.

Durante este período, o primeiro-ministro, Viktor Orbán, poderá governar por decreto, adiar ou cancelar a realização de eleições e alterar leis.

Além de garantir poderes reforçados ao chefe do Executivo, a maioria do partido Fidesz também aprovou a condenação, com penas que podem ir até aos cinco anos de prisão, de pessoas acusadas de disseminar “informação falsa” que dificulte a resposta do Governo à pandemia.

Na segunda-feira, o país tinha 447 casos confirmados de covid-19 e 15 mortes, embora os números reais sejam provavelmente maiores. O país fechou as suas fronteiras para estrangeiros e instituiu medidas de isolamento. A população foi desencorajada a sair de casa, as escolas estão fechadas, assim como os restaurantes e as lojas. Apenas se mantêm em funcionamento as atividades essenciais.

Para os partidos da oposição, que pretendiam aprovar o pacote de medidas se houvesse uma data limite para o estado de emergência, a pandemia está a ser utilizada como um pretexto para o primeiro-ministro ampliar o seu controlo sobre o país de forma desproporcional e autoritária.

Em declarações ao jornal britânico, Dávid Vig, diretor da Amnistia Internacional Hungria, afirma que a lei dá ao Governo “carta branca para restringir os direitos humanos”.

Segundo o jornal Público, as medidas aprovadas também mereceram críticas de membros do Parlamento Europeu que, em 2019, aprovaram a abertura de um processo de infração à Hungria, por violação das normas do Estado de Direito que regem os países da União Europeia (UE).

O antigo primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, por exemplo, considerou que depois desta votação a Hungria deveria ser imediatamente expulsa da UE.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/hungria-reforca-poderes-viktor-orban-316640

Porque importa que sejam poucos os que se juntem aos vilões

À partida julgaria improvável que a desumanidade de uns quantos energúmenos não chegasse à dimensão do sucedido na localidade andaluza de La Linea de la Concepcion: as ambulâncias que transportaram vinte e oito idosos infetados foram apedrejadas e as instalações que os receberam atacadas com engenhos explosivos. Mas, depois, associando a notícia com a de alguns meses e atrás quando as direitas espanholas celebraram o afastamento do PSOE do governo da Andaluzia pela primeira vez em democracia, porque se associaram aos fascistas do Vox, entendemos melhor o significado profundo do sucedido. Porque tem-se verificado em vários países a confirmação do provérbio: junta-te aos bons, e serás como eles; junta-te aos maus e serás pior que eles.

 

De facto enquanto vigoraram linhas vermelhas a impedirem que partidos cristãos-democratas se associassem às extremas-direitas, aqueles continuaram a mascarar a sua natureza por trás de alguns princípios tidos como essenciais. Mas tão só dispostos a aliarem-se a elas para mais facilmente destronarem as esquerdas do poder, constatou-se espúria qualquer distinção entre uns e outros.

 

O exemplo andaluz serve-nos de pré-aviso quanto ao que pode suceder se, confirmando o que disseram nas respetivas campanhas internas, os líderes do PSD e do CDS não vejam qualquer problema em aliarem-se ao Chega. Uma sociedade em que um tipo de aliança desse tipo se forja prescinde dos seus principais valores civilizacionais e adota comportamentos bárbaros. Não foi por acaso que, no tempo da troika, um deputado do PSD falou da dispensável peste grisalha. Os conceitos desse timbre agitam-se nessas cabeças e, acaso encontrem alibi nas alianças às extremas-direitas, saem livremente sem qualquer moderação quanto a uma ética, em que efetivamente não se reconhecem.

 

Vemos isso lá fora, quando Bolsonaro arrisca a vida de milhões de brasileiros considerando ocovid-19 uma espécie de «resfriadinho». Ou Trump, que quer a economia a funcionar plenamente antes da Páscoa, porque sabe o destino a si reservado ao chegar à eleição de novembro com a bolsa muito abaixo das cotações de há três anos e meio e a taxa de desemprego a alcançar uns históricos 13% como prevê a Morgan Stanley. Ou ainda Viktor Orban, que dando um passo mais na sua absoluta ditadura, quer passar a governar por decreto. Ou Netanyahu, que aproveita a crise sanitária para adiar mais uma vez o seu encontro com o cárcere.

 

Mas todos esses são crápulas de alto gabarito. Não se pense, porém, que os não temos em dimensão mais reduzida, mas igualmente nociva, como sucede com os alarmismos do vice-presidente do PSD, que é edil em Ovar e põe em causa os números da Direção Geral de Saúde como se não nos lembrássemos de como ignorou os conselhos para não levar por diante os festejos de Carnaval. Ou outro autarca do PSD, Almeida Henriques - notório passista e apoiante de Montenegro - que veio reclamar para o hospital de Viseu meios para ele não previstos por não ser considerado de primeira linha no combate ao flagelo. Ou ainda os jornalistas que interpelam Graça Freitas e o secretário de Estado, ou a ministra da Saúde, nas conferências de imprensa do meio-dia, cujas perguntas acintosas merecem, segundo o diretor do «Diário de Notícias», que se os convidem a irem dar banho ao cão.

 

Estamos, pois, num tempo em que a barbárie, a estupidez e o oportunismo andam de mãos dadas para contrariarem aquilo que a maioria dos portugueses já reconheceu nas sondagens dos últimos dias: que António Costa é o político mais confiável para levá-los a superar este momento difícil. Não admira, por isso, que prevendo o quanto isso porá em causa os seus interesses ideológicos, José Miguel Júdice ande a clamar por um governo de unidade nacional. Ele sabe que, vencida a tormenta, o eleitorado apoiará quem se mostrou à altura das circunstâncias quando elas se declararam...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/porque-importa-que-sejam-poucos-os-que.html

Olhar para o Futuro

O avanço do vírus tem sido imparável e já atingiu figuras importantes e não só povo anónimo, o que promoveu o Vírus à categoria de “democrático”. Além de ser mais uma machadada nas democracias que tão mal se têm comportado, é uma verdadeira injustiça para o verdadeiro Vírus do nosso tempo, o vírus nazi.

 

 

Feito pela vontade do homem, não invisível, concreto, glorioso – fotos dos comícios endeusando Hitler, massacres de milhões, o Holocausto, um país, a Alemanha, ajoelhada e hipnotizada pela desumanidade, rendida ao êxito do Eixo – Mussolini e o sinistro Imperador Medieval do Japão, Hirohito causador de centenas de milhares de mortos na China e raptor de mulheres transformadas em escravas sexuais.

Todos estes crimes vistos complacência, como já se tinha passado com a I Guerra Mundial. No fim das duas Guerras a Sociedade das Nações e a ONU tentaram melhorar a responsabilidade cívica e económica desta Europa destruída. Serviço nacional de saúde, leis laborais, etc.

No combate actual contra este “misterioso” Vírus chegam boas notícias de recuperação e de investigações de vacinas. Outra boa notícia é a China, Cuba e até a massacrada Venezuela estarem a ajudar outros países com produtos, médicos e enfermeiros. Os do costume já começaram a dizer que são ditaduras, o que é uma estupidez. Sejam reaccionários, mas estúpidos também não. Então não percebem que essas ditaduras estão a ficar muito bem vistas devido à sua acção fraterna e filantrópica? Vocês assim perdem votos. CUIDADO!

Daqui a uns tempos, o Vírus vai ser dominado.

Espero 2 coisas.

  1. que se investigue se este Vírus é de origem natural ou se foi invenção humana;
  2. tem que se criar um sistema Mundial (estamos todos juntos, como se viu), que garanta os direitos e o triunfo da PAZ para termos uma HUMANIDADE tranquila e pacífica.

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/virus-nazi-olhar-para-o-futuro/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=virus-nazi-olhar-para-o-futuro

Coronavírus: Bolívia adia eleições nacionais e enfrenta o primeiro dia quarentena total

 

Márcio Resende,RFI - Logo após a presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, anunciar que o país entraria em quarentena total a partir desde domingo (22), o presidente do Tribunal Supremo Eleitoral, Salvador Romero, anunciou que as eleições nacionais de 3 de maio serão adiadas.

"O Tribunal Supremo Eleitoral reitera a sua vontade de prosseguir com o diálogo amplo e plural com todas as forças políticas para definirmos uma nova data para a jornada de votação das eleições gerais de 2020", anunciou o presidente do TSE boliviano, Salvador Romero, confirmando que "na próxima segunda-feira (23), haverá uma reunião com os partidos políticos que poderá ser de maneira virtual" para abordarem uma nova data para as eleições nacionais de 3 de maio.

O adiamento do pleito veio logo após a presidente interina, Jeanine Ánez, anunciar uma quarentena total no país a partir da zero hora deste domingo, como medida para conter a pandemia no país que, por enquanto, registra 19 casos e que tem um frágil sistema de Saúde. "É uma decisão dura, mas necessária para o bem de todos", anunciou Áñez no Palácio Quemado, sede do Governo boliviano.

As eleições gerais de 3 de maio elegeriam presidente e vice, além de 36 senadores e 120 deputados.

Perde e ganha eleitoral

Com o adiamento, a Bolívia prolonga a sua incerteza política e os mandatos que originalmente venceram no dia 22 de janeiro sem que o país tivesse eleitos para substituir os atuais. O adiamento é um forte exemplo de como o coronavírus altera a agenda na América do Sul.

"Agora, como efeito cascata, adiar as eleições gerais obrigará a adiar também as eleições municipais marcadas para dezembro. Os prefeitos já estão com os mandatos vencidos à espera de uma definição das eleições nacionais", sublinha à RFI o analista político boliviano, Raúl Peñaranda.

 

Para além dessa primeira consequência, quais são os ganhadores e quais são os perdedores numa corrida eleitoral? Segundo as sondagens, a disputa é liderada pelo candidato do ex-presidente Evo Morales, o ex-ministro da Economia, Luis Arce. Porém, embora o candidato da esquerda lidere a corrida no primeiro turno, perderia num segundo turno para o candidato da centro-esquerda, o ex-presidente Carlos Mesa, ou para a atual presidente de direita, Jeanine Áñez, também candidata.

Para Raúl Peñaranda, com o adiamento, Jeanine Ánez tem a chance de construir uma forte liderança, mas também arrisca perder capital político. "A presidente interina ganha porque é o foco de atenção. Ela ganha em exposição e mostra-se como quem toma as decisões sobre o assunto. Mas poderia sair prejudicada se as coisas saírem do controle. Um país pobre como a Bolívia terá graves problemas na área de saúde", adverte Peñaranda.

Na outra ponta, o Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales, é o único que discorda com um adiamento das eleições. Para adiar o pleito, será preciso uma lei que deverá sair de um Parlamento dominado pelo MAS tanto na Câmara de Deputados quanto no Senado. O partido de Morales, refugiado na Argentina,exige que a data se mantenha.

 

"O MAS, que tem maioria parlamentar, não está de acordo com o adiamento porque tem a ideia de que, se o país se descontrolar com o coronavírus e houver uma crise social e sanitária, isso seria vantajoso para os interesses políticos e eleitoral do MAS, hoje na oposição", aponta Peñaranda.

Num pronunciamento em fevereiro de 2019, o então presidente Evo Morales, criticado pela falta de construção de hospitais, disse que "entregar um campo esportivo é como entregar um hospital" porque "o esporte é saúde". Com o avanço do coronavírus, o vídeo desse pronunciamento passou a circular novamente pelas redes sociais na Bolívia.

"Também não convém ao MAS recordarem que, depois de 14 anos de governo de Evo Morales, a situação da Saúde na Bolívia é péssima", pondera Raúl Peñaranda.

Quarentena total

Evo Morales deixou o país em 12 de novembro, após renunciar à Presidência em meio a uma convulsão social, resultante de três semanas de protestos e greves. Depois de constatada fraude nas eleições de 20 de outubro pela Organização dos Estados Americanos, auditora do processo eleitoral, Morales perdeu o apoio dos sindicatos, da Igreja e das Forças Armadas, pondo fim a um quarto mandato, depois de 14 anos de governo.

A quarentena na Bolívia, que vai durar pelo menos duas semanas, implica que mercados e centros de abastecimento funcionem apenas até o meio-dia. Somente uma pessoa por família poderá sair de casa para as compras. Também poderá sair quem precisar de atendimento médico.

Farmácias, hospitais e bancos continuarão a funcionar, assim como empresas produtoras de alimentos básicos e medicamentos. "Nosso primeiro inimigo é o vírus e o segundo é o pânico. Vamos frear os dois com união e com serenidade", pediu Áñez.

Na sexta-feira (20), já tinham sido fechadas as fronteiras em toda a Bolívia. No sábado, foram proibidas todas as viagens interurbanas e os aeroportos pararam de operar. Rege no país um toque de recolher entre as 17 e as 5 horas.

Desde a eclosão do coronavírus na região, o governo já tinha anunciado a proibição de reuniões com mais de mil pessoas e os principais candidatos anunciaram que não fariam mais comícios.

Racismo contra os pobres

Hoje, no Parlamento, o deputado tido como sendo da extrema-direita teve a brilhante capacidade de, em menos, dois minutos se contradizer. Gritou que o Governo português demorou a fechar fronteiras e a proteger a sua população do vírus que veio de fora. "Sim, eram preciso fronteiras, eram precisas medidas que tivessem acautelado que não chegaríamos aqui hoje". E teve razão. Mas logo a seguir gritou ainda mais virulento que era inadmissível que outros países - atrasados - fechassem fronteiras. "Não podemos estar ajoelhados aos outros países e não podemos ter países do Terceiro Mundo a fecharem-nos as fronteiras,  a dizer que vão dificultar o regresso dos nossos nacionais e nós agirmos como se nada fosse. É tempo de ser Portugal e Portugal não envergonha os seus cidadãos!". A soberba racista e egoísta virada contra os pobres do Mundo é incomensuravelmente desmesurada quando nos apercebemos pelo gráfico que - até ao momento - os ditos países do Terceiro Mundo (África, América Latina por exemplo) são aquelas que mal foram beliscadas pelo vírus e que tudo tinham a beneficiar desse fecho de fronteiras. Mas nem isso os vai proteger, porque o vírus já lá chegou e esses países arriscam-se a ser - pela ausências de estruturas - as zonas do planeta com maiores percentagens da população atingida. Até hoje havia 584 casos em África contra 93 mil na Ásia, 83,9 mil na Europa, cerca de 19,7 mil no Médio Oriente, cerca de 8,2 mil na América do Norte e 596 na Oceania. E isso deveria merecer dos países mais ricos um olhar solidário, antes que daqui a duas semanas os vejamos a morrer em multidão. 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Covid-19. Ventura é igual aos que preferem a praia ou andam nos copos no Bairro Alto

(Martim Silva, in Expresso Diário, 17/03/2020)

André Ventura e o Chega, na sua onda desenfreada de populismo irresponsável, decidiram afixar mais um outdoor político, desta vez destinado a criticar o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há duas semanas em isolamento voluntário na sua casa de Cascais.

“Marcelo em quarentena. Um verdadeiro Presidente não se esconde”, lê-se na mensagem difundida por aquele partido.

 

A forma como se comportou Marcelo nas últimas semanas dá azo a muitas críticas e por isso mesmo este tipo de mensagem pode passar com alguma facilidade, mesmo junto daqueles que não professam qualquer simpatia por André Ventura.

O problema é que a mensagem esconde algo de bem mais grave, que decorre da ‘normalização’ da sociedade pós-verdade das redes sociais, em que a informação correta sobre os assuntos vale bastante menos que seguir uma onda de indignação fácil que apela aos nossos instintos mais primários. E em que o insulto faz parte do dia a dia.

Perante uma pandemia de proporções ainda desconhecidas, acusar alguém de se esconder quando opta pelo isolamento voluntário é do mais mesquinho que já ouvi

No fundo, o que Ventura e o Chega fazem é mais ou menos o mesmo que aqueles que, atirando às urtigas as recomendações das autoridades e responsáveis de saúde, não se coibiram de rumar aos milhares às praias mal o sol fez subir um pouco a temperatura. Ou que continuam alegremente a assobiar para o lado e a enfrascar uns copos no Bairro Alto ou outros locais de diversão noturna, ignorando os perigos para si e sobretudo para os outros.

No fundo, o que fazem é ignorar o alarme que a pandemia do Covid-19 representa para cada um de nós e para a sociedade coletivamente. É ignorar o potencial de risco de um novo vírus do qual ignoramos muito (mas que já sabemos que é muito contagioso e bastante mais mortal que a gripe comum) e acreditar que tudo não passa de uma imensa cabala ou histeria coletiva criada para nos assustar a todos.

Voltemos ao Presidente.

Claro que Marcelo devia ter explicado melhor logo desde o primeiro dia a que se devia o seu isolamento (que foi aconselhado pela ministra da Saúde).

Claro que Marcelo nunca deveria ter ido à janela dar ‘entrevistas’ sem nexo.

Claro que Marcelo devia evitar falar aos portugueses num vídeo caseiro de má qualidade em que a mensagem mal passa.

Mas, ao isolar-se, Marcelo mostrou aos portugueses como o assunto era para levar a sério.

Mas Marcelo ao falar aos jornalistas também mostrou como se deve ter todos os cuidados mas sem cair em alarmismos e acreditando que a vida continua e que a normalidade deve ser mantida… dentro da anormalidade disto tudo.

Mas Marcelo, ao seguir os passos exigidos para convocar o Conselho de Estado e decretar o estado de emergência, também mostra como, mesmo numa situação delicadíssima, a burocracia é necessária e a melhor garantia que temos contra a tirania e a arbitrariedade de quem nos governe.

Marcelo pode ter cometido erros políticos. Mas mil vezes mil os erros políticos de Marcelo do que as mensagens incentivadoras de ódio primário destes populistas que nos entraram pela janela.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A ascensão do nazismo aos ombros do capital

 
 
A ascensão de Hitler foi lenta, mas consolidou-se ao longo dos anos à custa de grandes apoios financeiros, provenientes de industriais que apreciavam a forma como se opunha aos sindicatos e aos marxistas.
 
António Abreu | AbrilAbril| opinião
 
Esta revisitação dos factos essenciais pretende, por um lado, contribuir para impedir que os que querem reescrever a História fiquem sozinhos eliminando a nossa memória colectiva e, por outro, contribuir para o entendimento das causas da Segunda Guerra Mundial, de como ela se desenrolou, quem foram os principais protagonistas da contenção da agressão e do volte-face até à derrota dos nazi-fascistas, da Alemanha e de outros países europeus, e dos militaristas japoneses.
 
Por isso começamos por sustentar que os crimes nazis não foram apenas actos de tresloucados. Eles foram essencialmente uma expressão do extremo a que podem ir os interesses de classes dominantes, o fanatismo político que alimentaram, que tiveram várias expressões como o anticomunismo ou a falta de respeito dos direitos das minorias, fossem elas étnicas, religiosas ou nacionais.
 
Os nazis chegaram ao poder na década de 1930, numa situação de crise económica e social que o grande capital alemão usou contra o movimento sindical, os comunistas e os judeus.
 
No plano externo elegeu a URSS como o grande inimigo a abater e grande território a conquistar para expansão do mercado alemão.
 
A vitória democrática de 8 de Maio de 1945 custou perdas humanas e materiais terríveis, mas o nazi-fascismo e o militarismo foram derrotados.
 
Durante as quatro décadas seguintes ao final do conflito, a humanidade viveu um equilíbrio precário, baseado na corrida aos armamentos, mas foi nesses anos que, simultaneamente: progrediram as bases técnicas e cientificas do desenvolvimento; os direitos dos trabalhadores e uma maior efectividade no exercício dos direitos humanos; se contiveram disputas nacionais; se ensaiaram soluções de respeito pelos direitos das minorias; e foi praticamente eliminado o colonialismo, com a consequente proclamação de independência de muitos novos países.
 
 
Depois da derrota do campo socialista a «nova ordem» internacional, hoje, é bem mais perigosa. Ao desenvolvimento das posições da extrema direita, somam-se fundamentalismos diversos resultantes de longos processos colonialistas e de humilhação nacional, as grandes potencias intervêm militarmente como entendem, os trabalhadores perdem direitos fundamentais, o controlo mediático dos comportamentos atinge níveis preocupantes, a violência é banalizada, a insegurança cresce nas cidades, as políticas antissociais e a corrupção nas camadas dirigentes afastam muitos cidadãos da vida política, desenvolvem-se fenómenos de indiferença.
 
Por isso, nos 75 anos depois da Vitória, importa continuar a dar força ao sentido de dignidade do Homem, lutando contra a exploração, por melhores condições de vida, de educação e saúde, pela cultura, pelos sentimentos humanistas, pela participação dos cidadãos para que a democracia não regrida e, pelo contrário, se amplie e aprofunde.
As origens do conflito
 
Nos finais do século XIX o mundo estava divido. A política colonial então levada a cabo completou a tomada das terras não ocupadas no nosso planeta. No futuro só seriam possíveis transferências de um «dono» para outro.
 
A primeira guerra de repartição começou em 1914 e chegou ao fim com os tratados de paz de 1918 e 1919.
 
Opuseram-se a Tríplice Entente (Reino Unido, França, Sérvia e Império Russo) e os Impérios Centrais, (Alemanha e Áustria-Hungria). No final da guerra, a Tríplice Entente sai vitoriosa, e as potências centrais foram derrotadas e tiveram de pagar por todos os prejuízos da guerra, na chamada «Paz dos Vencedores». Na Conferência de Paz de Paris foi assinado o Tratado de Versalhes, que obrigou as nações derrotadas, principalmente a recém-formada República de Weimar, alemã, a arcar com pesadas indemnizações, o que contribuiu para provocar uma séria crise económica e política interna.
 
A área de rivalidade principal e mais aguda situava-se no Sudeste da Europa e no Próximo Oriente, incluindo o Mediterrâneo Oriental, criando problemas e ambições internacionais que envolveram todas as potências europeias.
 
Por outro lado, existiam as aspirações das nacionalidades oprimidas da região balcânica, que desejavam independência nacional e criação de novos Estados.
 
As duas maiores potências não europeias, os Estados Unidos e Japão, também foram arrastadas na voragem da guerra, que só chegou ao fim com o colapso da resistência austro-húngara e alemã.
 
A Rússia soviética decretou a paz, depois do envolvimento do Império Russo com a parte dos contendores que viriam a ser vitoriosos. Significativo foi o primeiro decreto soviético ter sido o Decreto da Paz. Os seus soldados, tendo passado longo sofrimento, regressariam às suas famílias, às suas terras.
 
O tratado de paz de Versalhes foi dominado pela Inglaterra e pela França. A sua criação residiu na vontade dos países vencedores da Primeira Guerra Mundial refazerem o mapa da Europa, obterem novos mercados e novas fontes de matérias primas, novas possessões e colónias e pretenderem, também, alargar as suas esferas de influência.
 
Importantes áreas produtoras de matérias primas, a leste e oeste da Alemanha, foram dadas a uma Polónia restabelecida, à França e à Bélgica. A Alemanha renunciou a todas as suas colónias, que seriam administradas por potências indicadas pela Sociedade das Nações.
 
As forças armadas alemãs ficaram reduzidas a um exército profissional de 100 mil homens.
 
A Alemanha comprometeu-se a reparar os danos entregando aos aliados, entre outras coisas, quase toda a sua frota comercial e perdendo a sua armada.
 
O Império Austro-Húngaro foi reduzido a um anel de novos Estados, estabelecidos no Sudeste e Leste da Europa, para isolar a União Soviética e agir como contrapeso de um possível ressurgimento alemão.
 
A Alemanha perdeu a Alsácia-Lorena, Poznam, a Prússia Ocidental e Memel. O Schleswig, a Prússia Polaca e a Alta Silésia veriam a sua sorte decidida por via plebiscitária.
 
O Sarre ficou sobre administração da Sociedade das Nações durante 15 anos e as suas minas de carvão tornaram-se propriedade francesa.
 
Os EUA e o Reino Unido garantiram assistência à França em caso de agressão.
 
Em 1919 e 1920 vários tratados complementares do Tratado de Versalhes foram assinados, concretizando a supremacia aliada sobre a Áustria, a Hungria, a Bulgária e a Turquia, através do desmembramento dos impérios turco e austro-húngaro.
 
Do ponto de vista da estrutura política mundial, os resultados da Primeira Grande Guerra de partilha podem ser resumidos da seguinte forma: 1) o poderio germânico foi temporariamente esmagado e o seu império colonial tomado pelas nações vitoriosas, principalmente Inglaterra e França; 2) a Áustria-Hungria foi eliminada do cenário político 3) Os Estados Unidos surgiram como a nação do mundo mais forte economicamente; 4) a Itália e o Japão, embora do lado dos vencedores, viram as suas ambições imperiais frustradas; 5) a Rússia deu inicio à sua tentativa de construir a primeira sociedade socialista do mundo.
 
A formação da Sociedade das Nações era uma das propostas do documento dos «14 pontos», apresentado pelo presidente dos EUA, Woodrow Wilson, em Janeiro de 1918. Previa nomeadamente o direito dos povos à autodeterminação, a renúncia à diplomacia secreta e à guerra para resolver os problemas entre Estados, a limitação dos armamentos, a liberdade dos mares e da economia mundial, limitações às reivindicações coloniais e a criação de novas fronteiras na Europa, que se revelaram dificilmente conciliáveis com o carácter de rapina dos acordos resultantes da Primeira Grande Guerra Mundial.
 
No período em que a Sociedade das Nações efectivamente funcionou (de 1920 a 1938), apesar de coleccionar alguns êxitos – nomeadamente o Pacto Briand-Kellog de Agosto de 1928 no qual 15 nações, entre elas a Alemanha, renunciaram à guerra como forma de solução para os conflitos internacionais –, acabou por falhar rotundamente a sua acção pela paz e pelo desarmamento, assistindo impotente às agressões japonesa na Manchúria (1931) e italiana na Abissínia (1935), à intervenção fascista em Espanha e às acções nazis preparatórias da Segunda Guerra Mundial. A Sociedade das Nações seria dissolvida em 1947, depois da sua acção ter sido confiada à Organização das Nações Unidas (ONU) no ano anterior.
 
Em 1921 e 1922, os Acordos de Washington completaram a partilha do mundo estabelecendo a divisão da zona do Pacífico, através de convenções como:
 
1. a convenção naval: fixação da importância naval das cinco potências, EUA, Reino Unido, Japão, França e Itália;
 
2. a convenção das quatro potências: EUA, Reino Unido, França e Japão, que estabeleceram a repartição do Pacífico;
 
3. a convenção das nove potências: garantida independência da China.
 
4. O tratado de Chang-Tong, pelo qual o Japão devolveu à China os territórios por si ocupados e retirou as suas tropas da Sibéria.
 
A disposição básica da segunda guerra de repartição já era perceptível nos resultados da primeira. As nações que tinham ficado de fora da primeira partilha (casos da Alemanha, da Itália e do Japão) começaram a preparar-se para uma segunda.
 
A campanha começou realmente com a invasão da Manchúria pelo Japão, em 1931, e continuou com a absorção da Etiópia pela Itália (1935), com a guerra civil espanhola (1936), a continuação da invasão da China pelo Japão (1937) e, finalmente, a série de agressões alemãs directas no continente europeu, iniciada com a ocupação da Áustria em 1938.
 
A ascensão dos nazis
 
Ninguém diria a 1 de Abril de 1920, data em que foi formado o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães1, que este minúsculo partido viria a governar a Alemanha e que o seu líder, Adolfo Hitler, viria a tornar-se o ditador mais sangrento da história contemporânea.
 
O Partido Nazi, como ficou conhecido, foi no início apenas mais um partido cujos objectivos consistiam na recusa do Tratado de Versalhes e na vingança pela humilhação sofrida pela Alemanha após a derrota na primeira Guerra Mundial. O seu discurso ideológico era uma miscelânea de nacionalismo exacerbado e de anti-comunismo visceral. Outra característica que o Partido Nazi evidenciou foi a militarização de grande parte da sua organização, que se agrupava nas chamadas secções de Assalto (SA), grupos de arruaceiros que, além de garantirem a segurança dos comícios nazis, intervinham violentamente contra os comícios de outros partidos, nomeadamente do partido comunista.
 
O símbolo adoptado pelo novo partido foi a cruz suástica, que viria a transformar-se no sinal da opressão e terror nazis.
 
A ascensão de Hitler foi lenta, mas consolidou-se ao longo dos anos, à custa de grandes apoios financeiros à sua causa.
 
Em Novembro de 1923, Hitler, cujo partido crescera entretanto, ensaiou um golpe na Baviera que ficou conhecido como o «Putsch da Cervejaria». Embora tendo falhado o golpe que o levou à prisão, foi libertado ao fim de nove meses, acto que confirmou as simpatias e conivências que já existiam, a alto nível no estado, com o futuro ditador.
 
Na prisão, Hitler escreveu parte daquele que viria a ser o livro-base do pensamento nazi: Mein Kampf (A Minha Luta).
 
Nesse livro Hitler explanou as teses que viriam a transformar-se na filosofia de acção do Estado nazi. Todas essas teses seriam postas em prática com impressionante rigor durante o período em que os nazis dominaram grande parte da Europa.
 
Ao aproximar-se o final da década de 20, o dinheiro começou a afluir ao Partido nazi, proveniente de alguns industriais bávaros e renanos que apreciavam a forma contundente como Hitler se opunha aos sindicatos e aos marxistas. Contudo, apesar desses apoios, os nazis sofreram um revés eleitoral em 1928.
 
Com a grande depressão económica, a produção alemã caiu 50% entre 1929 e 1932. As falências das empresas sucederam-se aos milhares e os desempregados atingiram os seis milhões nos finais de 1930. A miséria e a fome grassavam na Alemanha.
 
Nas eleições de 1930 Hitler conseguiu um resultado completamente inesperado, que transformou os nazis em segunda força política na Alemanha.
 
Os apoios à causa nazi aumentaram.
 
Nas eleições presidenciais de 1932, à segunda volta, o marechal Hindenburgo, símbolo vivo da moribunda república de Weimar, venceu Hitler que duplicara a sua votação em dois anos.
 
A 31 de Julho de 1932, os cidadãos da Alemanha foram chamados às urnas para a eleição dos membros do parlamento alemão, o Reichstag. Tratavam-se de eleições antecipadas, convocadas pelo presidente Hindenburgo para resolver a crise política então existente, que resultava de um impasse no parlamento que impedia a formação de uma maioria e, por consequência, de um governo estável. O governo em funções caiu, precisamente, por não ter apoio parlamentar. A composição do Reichtag reflectia o crescimento das duas grandes forças antagónicas nos extremos do espectro político, o partido nazi e o partido comunista. O principal resultado destas eleições foi a vitória expressiva do Partido Nazi, que duplicou a sua base de apoio, passando de 18 para 37% dos votos e de 107 para 230 deputados, em relação às eleições anteriores de 1930. Era agora o maior partido na Alemanha, mas não dispunha de maioria absoluta.
 
Neste período, além dos apoios de capitalistas alemães, Hitler passou a beneficiar do apoio de várias multinacionais. Quando Hitler subiu ao poder, «os industriais não falavam uma língua só», diz Jonathan Wiesen. Mas a maioria estava feliz de apoiar nazistas em vez de comunistas, e de dar suporte a um movimento político que prometia limitar, senão esmagar, o crescente poder dos trabalhadores organizados.
 
A pequena e média burguesia tinham-se passado em massa para os nazis.
 
Goering, o mais próximo colaborador de Hitler, foi eleito presidente do Reichstag. Hitler exigia a chefia do governo e criava um ambiente de terror e de pró-guerra civil com as suas Secções de Assalto.
 
Hindenburgo negava todo o poder a Hitler e aconselhava-o a formar um governo de coligação, que ele recusou. Perante o impasse foram convocadas novas eleições em Novembro, que redundaram num recuo dos nazis. Os comunistas continuaram a subir e os sociais-democratas a baixar, mas estes recusaram qualquer entendimento com os comunistas para deterem os nazis.
 
Em 30 de Janeiro de 1933, Hindenburgo acabou por nomear Hitler como Chanceler, iniciando-se assim o período mais negro da história da Alemanha.
 
Os nazis incendiaram o Reichstag para disso acusarem os comunistas e justificarem a feroz repressão que se seguiu.
 
A nível mundial davam-se os primeiros indícios da repartição do mundo.
 
O Japão foi a primeira potência a lançar-se no caminho de revisão do sistema de Versalhes – Washington. Em 1936 Japão e Alemanha firmaram o Pacto Anti-Komintern, a que a Itália fascista aderiu um ano mais tarde. Em 1937 os japoneses lançaram-se abertamente na tentativa de dominar completamente a China.
 
A conquista da Etiópia pela Itália, em 3 de Outubro de 1935, foi consequência directa da política de conivência com o agressor por parte do Reino Unido, da França e dos EUA.
 
Assim, em 7 de Janeiro de 1935, era assinado em Roma, entre o primeiro ministro francês Pierre Laval e Mussolini, o acordo franco-italiano de partilha de esferas de influência em África, que deixava aos fascistas italiano mãos livres para a invasão da Etiópia.
 
Em 31 de Agosto, a Câmara dos Representantes e o Senado norte-americanos aprovaram a célebre «política de neutralidade» que, proibindo o fornecimento de armas a países beligerantes, de facto privou a Etiópia de se defender, enquanto a Itália continuava a fornecer-se no mercado norte-americano.
 
Embora a URSS tivesse apelado para medidas especiais que impedissem a agressão, tal foi recusado pela França, Reino Unido e outros Membros da Sociedade das Nações.
 
A «política de apaziguamento» da França e do Reino Unido, em relação à Alemanha nazi, consistiu numa série de cedências e falta de resposta militar às escaladas de sucessivas agressões e provocações expansionistas do nazismo alemão, nos anos imediatamente anteriores ao desencadear da Segunda Guerra Mundial (1936-1939).
 
O apoio aos nazis de grandes empresas e multinacionais
 
Algumas das mais importantes empresas, alemãs e multinacionais, que apoiaram os nazis:
 
IG Farben - A empresa gigante envolveu-se fortemente com os