Extrema direita

Salazar encarcerava assim | Campo do Tarrafal, o campo da morte lenta

Vista da entrada do Campo de Concentração do Tarrafal (mais fotos no original)
 
A Colónia Penal do Tarrafal foi criada pelo Governo português do Estado Novo, corria o ano de 1936. Fica situada no extremo norte da ilha de Santiago, em Cabo Verde, num lugar ironicamente chamado de Chão Bom.
 
 
Filipe Morato Gomes |Alma de Viajante
 
O complexo prisional terá sido inspirado nos campos de concentração nazis, tendo como objetivo não declarado a eliminação dos opositores políticos ao regime fascista de Portugal.As condições de encarceramento eram deploráveis, com os presos a serem sujeitos a uma alimentação muito deficitária e à execução de trabalhos forçados; além da ausência quase total de medicamentos.
 
As palavras atribuídas tanto ao diretor do Campo de Concentração do Tarrafal, Manuel dos Reis (“Quem vem para o Tarrafal vem para morrer.”) como ao médico Esmeraldo Pais Prata (“Não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito.”) são bem elucidativas do inferno a que seriam sujeitos os presos no Tarrafal.
 
Foi, pois, na companhia desses pensamentos que me dirigi à antiga prisão do Tarrafal. Na verdade, já a tinha visitado em 2007, pelo que, descontando as notórias melhorias entretanto introduzidas ao nível da preservação e musealização do espaço, sabia mais ou menos o que iria encontrar. O que não sabia é que iria fazer uma visita guiada ao Campo do Tarrafal.
 
 
O nome dos presos no Campo de Concentração do Tarrafal
A minha visita ao Campo de Concentração do Tarrafal
 
Assim que cheguei ao Campo de Concentração do Tarrafal, localizado a pouco mais de 3km do centro da vila, o jovem guia cabo-verdiano que guardava a entrada ofereceu-se para o mostrar. Sugeriu, antes de mais, que visse um pequeno filme sobre a história do antigo complexo prisional no chamado Museu da Resistência do Tarrafal. Naturalmente, aceitei a sugestão.
 
O museu é uma pequena sala integrada no projeto de preservação do Campo do Tarrafal, que visa “dar dignidade ao espaço e às memórias das vítimas”.
 
Terminado o filme, que contextualizava a existência da prisão do Tarrafal, dirigi-me então ao interior da penitenciária.
 
Não há, na verdade, muito a contar. O ambiente era pesado como em qualquer campo de concentração. Daqueles locais para visitar em respeitoso silêncio.
 
Vi as celas, a enfermaria, a cozinha e até a infame “Frigideira”, uma solitária brutal de onde os prisioneiros saíam “sujos, mirrados e desgrenhados”, parecendo “seres evadidos da cela de tortura de um manicómio”, “com vincos de martírio cavados no fundo dos rostos esquálidos”. 
 
Vi a lista com os nomes dos prisioneiros detidos no Tarrafal, escritos numa parede em jeito de homenagem.
 
Mas o que verdadeiramente me impressionou foram os relatos do guia, cujo nome infelizmente não registei, sobre as degradantes condições em que os detidos se encontravam, praticamente sem comida nem medicamentos nem sequer esperança.
 
"A dieta no Campo do Tarrafal
A dieta no campo de concentração era uma arma e foi utilizada para humilhar os presos; para além de ser uma das principais fontes de doenças como o beribéri, escorbuto, xeroftalmia, anemia, infeções intestinais, entre outras (1). A comida era sempre a mesma, de péssima qualidade, diminuta e mal confecionada. Era de tal modo intragável que os presos tapavam as narinas com bolas de pão para conseguirem ingeri-la". in informação exibida na antiga cozinha do campo
 
Caminhei pelo espaço ajardinado entre as celas, em fúnebre silêncio, imaginando o sofrimento dos homens cujo destino terminou ali mesmo, em Chão Bom.
 
O Campo do Tarrafal não é bonito, mas visitá-lo é um imperativo moral. “Tarrafal, nunca mais!”.
 
Nota PG
 
(1) - Foram 36 os prisioneiros políticos que morreram no Tarrafal: 32 portugueses, 2 angolanos e 2 guineenses
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/salazar-encarcerava-assim-campo-do.html

Portugal | Mais de 23 mil assinaturas. Há petições contra e a favor do Museu Salazar

 
Assinantes das petições: Museu NÃO 15 mil | Museu SIM 8 mil
 
 
Petições públicas eletrónicas contra e a favor da instalação de um museu Salazar, em Santa Comba Dão, já motivaram a assinatura de mais de 23 mil pessoas.
 
Há sete dias, um primeiro documento digital foi colocado na Internet, no site Petição Pública tendo como subscritores o antigo líder sindical Carvalho da Silva, o analista político Pedro Adão e Silva, a escritora Maria Teresa Horta, o antigo reitor da Universidade de Lisboa José Barata Moura ou o cantor de intervenção Francisco Fanhais, entre outros. O total de assinaturas contra o museu vai agora com mais de 15 mil assinaturas.
 
Todos se insurgiam no texto "Museu de Salazar, não!" e apoiavam uma outra carta aberta dirigida ao primeiro-ministro, António Costa, em 12 de agosto, na qual 204 ex-presos políticos exigem ação ao executivo do PS, além de expressar "o mais veemente repúdio" pela iniciativa anunciada pelo autarca socialista local.
 
Segundo esta petição, o projeto de Santa Comba Dão, "longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações", seria "um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista (1926 - 1974) e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril".
 
Entretanto, há dois dias, uma outra petição foi criada e colocada em linha, desta feita "Museu Salazar, sim" porque "a memória histórica de um povo não pode ser apagada porque um minoria ruidosa assim o exige".
 
 
Neste texto dirigido à Assembleia da República, que também já conta com 8.162 aderentes, embora não estejam acessíveis os nomes, os subscritores dizem que não aceitam "que aqueles que evocam constantemente o valor da liberdade se revelem inimigos dessa mesma liberdade quando ela não vai de encontro aos seus interesses".
 
A Câmara de Santa Comba Dão, no distrito de Viseu, anunciou que pretende iniciar este mês a primeira fase de requalificação da Escola Cantina Salazar, com o objetivo de aí instalar o Centro Interpretativo do Estado Novo.
 
De acorda com o município, "a primeira fase das obras de requalificação da Escola Cantina Salazar em Centro Interpretativo do Estado Novo vai avançar ainda no decorrer deste mês de agosto, prevendo-se que esteja concluída até ao final do ano".
 
O auto de consignação da empreitada, no valor de cerca de 150 mil euros, já foi assinado e agora "é altura de avançar com este projeto, cujas obras projetadas abrangem o exterior e uma parte do interior do antigo e icónico equipamento escolar", explica a nota.
 
"Este será um local para o estudo do Estado Novo e nunca um santuário para nacionalistas. O que vai ser dado a conhecer é um período de 50 anos da história do nosso país, que teve como figura chave Salazar", garantiu o presidente da Câmara, Leonel Gouveia (PS).
 
O autarca acrescentou que, "de modo algum, se pretende contribuir para a sacramentalização ou diabolização da figura do estadista", sendo o objetivo, "apenas e só, fazer um levantamento científico e histórico de um regime político, enquanto acontecimento factual".
 
António Oliveira Salazar nasceu no Vimieiro, uma freguesia do concelho de Santa Comba Dão, mas a criação de um espaço dedicado àquele período da história portuguesa não tem sido pacífica ao longo dos anos.
 
Notícias ao Minuto | Lusa
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-mais-de-23-mil-assinaturas-ha.html

Portugal, o novo alvo da extrema-direita

 
 
Num país governado por rara coalizão de esquerda, o protofascismo manipula redes sociais, estimula estranhíssima greve de caminhoneiros e difunde intrigas entre socialistas e comunistas. Mas é possível frear sua investida
 
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
 
Vários acontecimentos recentes têm revelado sinais cada vez mais perturbadoresde que o internacionalismo de extrema-direita está transformando Portugal num alvo estratégico. Entre eles, saliento a tentativa recente de alguns intelectuais de jogar a cartada do ódio racial para testar as divisões da direita e da esquerda e assim influenciar a agenda política; a reunião internacional de partidos de extrema-direita em Lisboa e a simultânea greve do recém-criado Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas.
 
Várias razões militam a esse respeito. Portugal é o único país da Europa com um governo de esquerda numa legislatura completa e em que se aproxima um processo eleitoral [as eleições ocorrerão em 6 de outubro], e é o único onde não tem presença parlamentar nenhum partido de extrema-direita. Será Portugal assim tão importante para merecer esta atenção estratégica? É importante, sim, porque, da perspectiva da extrema-direita internacional, Portugal representa o elo fraco por onde ela pode atacar a União Europeia. O objetivo central é, pois, destruir a UE e fazer com que a Europa regresse a um continente de Estados rivais onde os nacionalismos podem florescer e as exclusões sócio-raciais podem ser mais facilmente manipuláveis no plano político.
 
Para a extrema-direita internacional, a direita tradicional desempenha um papel muito limitado neste objetivo, até porque ela foi durante muito tempo a força motora da União Europeia. Daí que seja tratada com relativo desprezo, pelo menos até se aproximar, pelo seu próprio esvaziamento ideológico, da extrema-direita, tal como está acontecendo na Espanha. As forças de esquerda, ao contrário, são forças a neutralizar. Para a extrema-direita, as esquerdas terão se dado conta de que a UE, com todas as suas limitações, que durante muito tempo foram razão suficiente para algumas dessas esquerdas serem antieuropeístas, é hoje uma força de resistência contra a onda reacionária que avassala o mundo.
 
 
Não se pode esperar da UE muito mais do que a defesa da democracia liberal, mas esta corre mais riscos de morrer democraticamente sem a UE do que com a UE. E as esquerdas sabem por experiência que serão as primeiras vítimas de qualquer regime autoritário. Talvez se lembrem de que as diferenças entre elas sempre pareceram mais importantes quando vistas do interior das forças de esquerda do que quando vistas pelos seus adversários. Por mais que socialistas e comunistas se digladiassem no período pós Primeira Guerra, Hitler, quando chegou ao poder, não viu entre eles diferenças que merecessem diferente tratamento. Liquidou-os a todos.
 
Não é relevante saber se é isto o que as esquerdas pensam. É isto que a extrema-direita pensa sobre as esquerdas, e é nessa base que se move. Quem a move? Movem-na forças nacionais e internacionais. São várias e com objetivos que só parcialmente se sobrepõem. Para surpresa de alguns, a política internacional dos EUA é uma delas. Os EUA são hoje um defensar muito condicional da democracia, pois só a defendem na medida em que ela é funcional aos interesses das empresas multinacionais norte-americanas. A razão principal é a rivalidade entre os EUA e a China, que está condicionando profundamente a política internacional. O confronto entre dois impérios, um decadente e outro ascendente, exige o alinhamento incondicional dos países aliados de cada um deles ou na sua zona de influência. A Europa fragmentada será um conjunto de países ou facilmente pressionáveis ou irrelevantes (a Alemanha é o único que exige atenção especial).
 
Mais do que nunca, são os interesses econômicos que dominam a diplomacia. Assim, segundo a BBC de 9 de agosto, os tweets em chinês do presidente Trump têm mais de 100 mil seguidores entre os dissidentes chineses que consideram o presidente norte-americano um defensor dos direitos humanos. E certamente o será no contexto da China e porque isso serve os interesses da guerra contra a China. Não é por acaso que a China está culpando os EUA pela onda de protestos em Hong Kong. Mas Trump já não é um defensor confiável dos direitos humanos ante os venezuelanos sujeitos a um embargo cruel e devastador que a própria ONU considera uma violação grosseira dos direitos humanos.
 
A extrema-direita conta com três instrumentos fundamentais: aproveitamento da contestação social contra medidas de governos considerados hostis, exploração de idiotas úteis e, no caso de governos mais à esquerda, maximização das dificuldades de governo decorrentes das coligações existentes. Do primeiro caso, talvez sirva de ilustração a greve do Sindicato de Motoristas de Matérias Perigosas. Este tipo de greve pode ter efeitos tão graves que desmoralizem qualquer governo. Tradicionalmente os sindicatos sabem disso, negociam forte e ao mesmo tempo sabem até onde podem ir para não por em causa interesses vitais dos cidadãos. Não é isso o que tem ocorrido com estes sindicato. É altamente suspeita a linguagem radicalizadora do vice-presidente do sindicato (“deixou de ser um direito laboral para ser uma questão de honra”), um personagem aparentemente arvorado em anjo protetor de sindicalistas descontentes. A história nunca se repete, mas nos obriga a pensar. O governo democrático socialista de Salvador Allende, hostilizados pelas elites chilenas e pelos EUA, sofreu a sua crise final depois das greves de sindicatos de motoristas de combustíveis, precisamente devido à paralisação do país e à imagem de ingovernabilidade que refletia. Soube-se anos depois que a CIA norte-americana tinha estado bastante ativa por detrás das greves.
 
Os idiotas úteis são aqueles que, com as melhores intenções, jogam o jogo da extrema-direita, embora nada tenham que ver com ela. Cito dois. Quando foi da primeira greve do sindicato referido, alguns ingênuos sociólogos apressaram-se a dissertar sobre o novo tipo de sindicalismo não ideológico, exclusivamente centrado nos interesses dos trabalhadores. O contraste implícito era com a Centra Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), esta sim considerada ideológica e ao serviço de obscuros interesses dos trabalhadores. Se lessem um pouco mais sobre os movimentos sindicais do passado, saberiam que, em muitos contextos, a proclamação de ausência de ideologia política foi a melhor arma para introduzir a ideologia política contrária. Mas os idiotas úteis podem sair de onde menos se espera. Um sindicalista que até há pouco tempo muito admirei, Mário Nogueira, comportou-se a certa altura como idiota útil ao transformar as reivindicações dos professores em motivo legítimo para fazer demitir o governo de esquerda apoiado pelo partido a que pertence. Este radicalismo, que confunde as árvores com a floresta, serve objetivamente os interesses desestabilizadores da extrema-direita.
 
Finalmente, a extrema-direita sabe aproveitar-se de todas as divisões entre as forças de esquerda, sabe ampliá-las e sabe usar as redes sociais para criar duas ilusões a partir de meias verdades. A primeira é que a maioria dos militantes e de anteriores dirigentes do Partido Socialista são de opinião que o PS sempre se deu melhor com alianças com a direita (o que é falso), não gosta do radicalismo de esquerda (que nunca definem) e que, de todo o modo, livre das esquerdas à sua esquerda, facilmente terá maioria absoluta (o que é improvável). A segunda é que recíprocas fraturas existem nos outros partidos de esquerda, ansiosos por regressar aos seus cantos de oposição e cansados de fazer concessões (o que em parte é verdade).
 
As forças de esquerda em Portugal têm dado testemunho de um notável bom senso que dificulta as manobras da extrema-direita. Se seguirão neste caminho, ou se se renderão às pressões internas e externas, é uma questão em aberto.
 
Imagem: Em 7/8, portugueses protestam contra reunião da extrema-direita internacional, em Lisboa
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-o-novo-alvo-da-extrema-direita.html

Novos tribunais internacionais, precisam-se!

Confesso que estava na expetativa quanto à bondade da hipótese de alguns povos sujeitarem-se a líderes infectos, apenas capazes de lhes agravarem as frustrações e ansiedades, e deles se sentirem doravante vacinados.

 

Hitler já nos demonstrara que isso não basta, porque, derrubado o ícone, logo alguns o santificam como tendo tantas virtudes e nenhuns defeitos. Mas Trump, Salvini ou Balsonaro estão a confirmar essa insuficiência do saber de experiência feito. Quando julgávamos bem estabelecidas as fronteiras vermelhas, que os impediriam de ir além com as suas ignominiosas mentes, eis que constatamos não terem elas limites no que ao mal conjeturam indo muito para além do previamente imaginado.

 

Os defensores dos direitos humanos devem rever rapidamente as suas estratégias para com gente assim para quem estão por recriar novos tribunais de Nuremberga, já que o de Haia parece incapaz de inculpar estes homicidas, causadores de tanto sofrimento em seres humanos e agravando os problemas ambientais do planeta.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/novos-tribunais-internacionais-precisam.html

Uma grande resposta democrática

 
 
 
 
 
recolhidas em poucos dias e
enviadas hoje ao Primeiro-ministro
pelos 1ºs subscritores da
petição/abaixo-assinado.

(a recolha de assinaturas prossegue)
Uma grande afirmação dos valores antifascistas. Uma claríssima e poderosa rejeição das habilidades e sofismas com que alguns procuram dourar a pílula do seu saudosismo reaccionário.
Um grande encorajamento para
uma luta que tem de continuar.
Obrigado a todos.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Itália | A intolerância de Salvini

 
 
Inês Cardoso | Jornal de Notícias | opinião
 
"Eu não quero uma Itália escrava de ninguém." A frase é de Matteo Salvini, no dia em que o primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou a sua demissão, e nas entrelinhas "ninguém" deve ler-se União Europeia. O líder da Liga, que há 15 meses é o número dois do Governo, quer mais. Aspira a plenos poderes e já demonstrou que a sua noção de liderança é capaz de atropelar colegas de coligação, tribunais e instituições europeias, pondo em causa vidas humanas, se necessário for.
 
Mais do que nunca, a situação em Itália merece toda a atenção. Não tanto pelo risco económico nem pelas obrigações à luz do tratado orçamental, um dos argumentos esgrimidos por quem defende a continuidade de um governo interino e uma aliança de ocasião do Movimento 5 Estrelas com o Partido Democrático. Mas porque se houver novas eleições Salvini será o provável vencedor, com as sondagens a darem-lhe intenções de voto próximas dos 40%.
 
 
Em maio, em vésperas de eleições europeias, vimos o líder da Liga presidir, em Milão, ao encontro de 11 partidos nacionalistas de diferentes países, perspetivando uma frente comum para retirar poder a Bruxelas. Numa altura em que só restam quatro parlamentos sem presença de partidos nacionalistas, Itália poderá tornar-se a primeira democracia da Europa ocidental governada pela extrema-direita.
 
A intolerância extrema e a falta de humanidade de Matteo Salvini sofreram ontem uma derrota judicial, com o procurador de Agrigento a ordenar que o navio "Open Arms" desembarque em Lampedusa. A situação explosiva do barco é uma metáfora dos riscos que pairam sobre Itália e sobre o projeto europeu, incapaz de encontrar caminhos sólidos para o desafio da imigração. As próximas semanas dirão se também politicamente será possível conter os malabarismos e aspirações pessoais de Salvini. Esse não é apenas um problema dos italianos. É de todos os que acreditam na democracia e na inclusão como valores que andam a par e passo.
 
*Diretora-adjunta
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/italia-intolerancia-de-salvini.html

Museu Salazar: a democracia recorda a ditadura, não a normaliza

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/08/2019)

Daniel Oliveira

 

 

Foi no final do mês passado que Jair Bolsonaro, irritado por o presidente da Ordem dos Advogados Brasileiros não ter permitido a escuta a um advogado de um criminoso, decidiu exibir de novo até onde pode ir a sua baixeza. Referindo-se ao pai de Filipe Santa Cruz, disse que um dia explicaria como ele desapareceu. O pai do advogado foi um resistente à ditadura e é sabido que foi assassinado pelos militares. Desmentido um facto histórico confirmado pelo seu próprio Governo, o Presidente quis esgravatar na ferida do filho e defender a versão dos torturadores que admira, dizendo que a foi a própria organização do pai de Santa Cruz que o assassinou. Não foi só sadismo.

Bolsonaro sabe que ir reescrevendo o passado é a base para legitimar todos os seus abusos presentes e futuros. Desta vez, até o seu apoiante João Doria, governador de São Paulo eleito pelo PSDB e também ele filho de alguém que se opôs ao regime, reagiu com incómodo. “Não vou assumir a defesa de alguém que diz que o Brasil não teve ditadura”, afirmou numa entrevista recente. Estranha declaração, vinda de quem assumiu essa defesa, apoiando Bolsonaro na segunda volta mesmo depois de ele, em pleno congresso, ter dedicado o seu voto no impeachment de Dilma ao torturador Brilhante Ustra. Aliás, mesmo depois deste novo episódio, Doria não retirou o apoio ao saudosista da ditadura militar.

É raro concordarmos ou discordarmos absolutamente de alguém. As concordâncias e as discordâncias estão hierarquizadas e é essa hierarquia que determina o apoio ou a oposição que lhe fazemos. Há assuntos essenciais que tornam impossível esse apoio. O que leva alguém que viu o seu pai ser afastado do congresso pela ditadura apoiar quem faz do apoio a essa ditadura um elemento central do seu discurso? Esse facto não ser determinante nas suas opções políticas. E é quando o discurso sobre o passado deixa de ser politicamente relevante que esse passado se pode repetir. Está a acontecer no Brasil.

A memória da nossa ditadura não é o único elemento que trava o crescimento da extrema-direita. Nem será o mais relevante. Mas conta. Tendo em conta que a ditadura brasileira terminou bem depois da nossa, seria natural que isso pesasse no Brasil. Ou que o VOX tivesse dificuldade em chegar ao Parlamento espanhol. A diferença? Brasil e Espanha tiveram transições, enquanto nós tivemos uma revolução. Mais do que isso: nós construímos um corte simbólico entre a ditadura e a democracia. Uma fronteira clara. Mesmo alguns países que não passaram por mudanças revolucionárias de regime tiveram a preocupação de acertar contas com o seu passado e construir um imaginário democrático que torna intolerável o elogio à ditadura que derrubaram. É o caso da Argentina e até do Chile.

A democracia não sobrevive quando se instala a ideia de que entre ela e a ditadura há apenas divergências de opinião. A democracia não trata os seus inimigos da mesma forma que trata os seus aliados. Ela tem os seus códigos, os seus rituais, a sua iconografia e o seu discurso oficial. Que podem integrar os que não se reveem nela, mas não lhes dão dignidade simbólica. A tolerância democrática acaba onde começa a sua destruição.

Salazar deve ser estudado e revisitado. Mas um museu sobre o ditador não pode servir para celebrar, branquear e normalizar a ditadura. Quem o permitir, sem qualquer proposta científica associada, é cúmplice de um processo de esquecimento que tornará mais fácil o regresso de um qualquer tirano. A tolerância democrática acaba onde começa a sua destruição

Não há temas e personagens tabu em democracia. O Estado Novo e Salazar fazem parte da nossa História. Devem ser estudados e revisitados. É fundamental que o sejam. Com toda a sua complexidade e as suas contradições. A democracia não lida com o passado através da propaganda, mas através da História, mesmo que ela não seja, nunca é, politicamente neutra. Por isso, não me oponho à existência de um museu sobre Salazar. Faltam museus sobre a nossa história contemporânea. Mas um museu dedicado a alguém que oprimiu um povo, que o obrigou a viver durante meio século na mais vil das misérias, que mandou prender, torturar e assassinar opositores e que impediu a expressão livre e democrática da vontade dos cidadãos não pode servir para celebrar, branquear e normalizar a ditadura. Não é preciso qualquer tipo de censura, basta entregar os aspetos científicos desse museu a historiadores da época reconhecidos pelos seus pares. Os factos falarão por si. Há muito que o município de Santa Comba Dão sonha com um Museu Salazar. Sou sensível às preocupações de atratividade económica e turística do concelho, mas há valores mais importantes a defender.

Muita coisa explica a facilidade com que a extrema-direita está a minar as democracias. A memória tem a sua relevância. Foi a falta de memória que não matou, à nascença, a candidatura de Bolsonaro depois de ele ter dedicado o seu voto ao pior torturador da história recente do Brasil. É a falta de memória que permite convencer milhões de pessoas de que uma ditadura não foi uma ditadura. Os regimes mais abjetos têm a capacidade de regenerarem a sua imagem se a democracia não os impedir de o fazer. Se não garantir, através do Estado, a sua superioridade simbólica. Se deixar que o passado seja branqueado e os criminosos sejam normalizados enquanto estadistas que apenas cometeram uns excessos.

O Museu Salazar em Santa Comba Dão, feito para celebrar e não para estudar, é um atentado à democracia. E uma nova investida depois de, em 2008, os deputados da Comissão de Assuntos Constitucionais terem aprovado por unanimidade um relatório onde se dizia que “a Assembleia da República deve condenar politicamente qualquer propósito de criação de um Museu Salazar e apelar a todas as entidades, e nomeadamente ao Governo e às autarquias locais, para que recusem qualquer apoio, direto ou indireto, a semelhante iniciativa”.

Quem permitir este museu sem qualquer proposta científica associada é cúmplice de um processo de esquecimento que tornará mais fácil o regresso de um qualquer tirano. Isto inclui o PS, se não se demarcar da ação oportunista do seu autarca Leonel Gouveia, e o Governo, se não fizer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir este insulto ao regime democrático. A democracia não se defende sozinha. Como bem temos aprendido com o que se passa noutros países.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Assinei o protesto, mas…

image
 
O museu do Botas em Santa Comba, além de insultuoso, abriria a brecha colmatada à extrema-direita desde o 25Abril e que insidiosamente agora procuram desobstruir.
O museu seria o pretexto para implantar o lugar de culto em que os saudosos, que o presidente da câmara PS pretende acolher, se reuniriam em peregrinação, quiçá aderindo ao turismo de terror que poderia englobar Santa Comba, Franco no Vale dos Caídos, Pinochet ou Dachau.
Modo enviesado de marcar terreno e avançar com botas cardadas forradas de lã.
Museu necessário é o do salazarismo da miséria, que obrigou milhões de portugueses a emigrar para fugir à fome, dos mortos e estropiados da guerra colonial, do país sem infraestruturas e o mais atrasado da Europa.
Um museu itinerante, documentado com filmes, fotos, documentos e testemunhos vivos, país de gente descalça e analfabeta abençoado pela Igreja os EUA e as “democracias” ocidentais.
Esse é o museu que devemos promover com urgência para que os turistas também possam ter acesso e recordar o que nos seus países fazem por esquecer.
 
image “O sono da razão provoca monstros”

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Salvini, a voz da “nova” ultradireita europeia

 
 
Como o vice-primeiro-ministro italiano explora o medo de parte da população diante dos imigrantes para posar de paladino da ordem e crescer eleitoralmente. Seus trunfos: a crise da velha política, uma comunicação baseada em fake news e as hesitações da esquerda
Matteo Pucciarelli, no Le Monde Diplomatique | em Outras Palavras
 
A Itália tem um novo homem forte. Na opinião de muita gente, até um novo salvador. Em Roma, o verdadeiro chefe do governo não é o presidente do Conselho, Giuseppe Conte, nem o vencedor das últimas eleições gerais, o líder do Movimento Cinco Estrelas (M5S), Luigi Di Maio. O verdadeiro chefe do governo é o ministro do Interior, Matteo Salvini. É como se, de um dia para o outro, um obscuro vereador de Milão, militante de longa data da formação separatista Liga Norte, tivesse se tornado a personalidade mais poderosa do país. Em suas mãos, um partido que parecia uma relíquia transformou-se no principal agente da política italiana e talvez europeia.
 
As raízes dessa incrível transformação chegam muito longe, não no tempo, mas no espaço. Desde 2014, as guerras e a pobreza levaram milhões de habitantes da África e do Oriente Médio a atravessar o Mediterrâneo em busca de trabalho, liberdade e paz em uma Europa rica, antiga, porém cada vez mais desigual. A resposta do Velho Continente resumiu-se ou a fingir que não via, ou a explorar os fantasmas do desespero alheio: em vez de ajudar, identificar um inimigo e lançar um concurso de humilhações. Os últimos e os penúltimos dos abandonados do planeta foram jogados uns contra os outros, e os mais favorecidos foram deixados em paz. Na Itália, Salvini iniciou a revolta dos penúltimos. Com certo talento, aprendeu a comunicar-se com suas necessidades.
 
A Liga Norte foi fundada em 1991, às vésperas da implosão dos três partidos de massa – o democrata cristão, o comunista e o socialista – que dominavam a Itália desde a Segunda Guerra Mundial. Apresentando-se como “nem de esquerda nem de direita”, ela nasceu da fusão entre a Liga Lombarda de Umberto Bossi, surgida em meados dos anos 1980, e algumas forças regionalistas que operavam no norte do país. Sua articulação se dava em torno de um objetivo particularista: a independência da Padânia, uma nação imaginária que se estenderia ao redor do Pó, uma vez que o norte, próspero e trabalhador, estaria cansado de pagar pelo sul, atrasado e dependente. Assim, cada um deveria seguir seu próprio destino.
 
Os partidos democrata cristão e socialista, na época, estavam ruindo por causa do escândalo Tangentopoli.1 O divisionismo reinava, e o Partido Comunista Italiano (PCI) abandonou qualquer referência ao comunismo após a queda do Muro de Berlim. A Liga conseguiu seu primeiro avanço nas eleições gerais de 1994, obtendo 8,7% dos votos em nível nacional e mais de 17% na Lombardia. Depois, participou do governo de centro-direita de Silvio Berlusconi. Mas, irritado com seu papel subalterno, Bossi, um franco-atirador truculento, não tardou a deixar a aliança, derrubando de passagem Berlusconi. Bancando o cavaleiro solitário nas eleições seguintes, a Liga ganhou 10% dos votos em 1996, caindo depois para 4,5% nas eleições europeias de 1999.
 
 
Ela voltou à aliança liderada por Berlusconi, na qual, durante a década seguinte, atuou como parceira minoritária, vociferante, mas altamente ineficaz. Enfraquecido por um acidente vascular cerebral e atolado em um caso de corrupção, Bossi foi afastado por seu número dois, Roberto Maroni, que assumiu a liderança do partido em 2012. Nas eleições gerais de 2013, a Liga caiu novamente para 4,1%, parecendo condenada à insignificância. Em seu feudo lombardo, porém, Maroni conseguiu conquistar a presidência da região. Ele então decidiu abandonar o cargo de secretário-geral, acreditando que seu partido não teria futuro em nível nacional e que seria melhor aproveitar os benefícios de um mandato regional.
 
Em 15 de dezembro de 2013, a Liga Norte organizou uma primária interna para designar o sucessor de Maroni, mas a consulta parecia mera formalidade. O futuro do partido foi decidido em um almoço entre Maroni e dois de seus seguidores, Salvini e Flavio Tosi, o popular prefeito de Verona: a posição ingrata de secretário-geral caberia ao primeiro, reservando-se ao segundo a possibilidade de se tornar o porta-bandeira da centro-direita quando Berlusconi, cada vez mais desacreditado, não pudesse mais exercer esse papel.
 
Salvini venceu a primária com mais de 82% dos votos. Ele era então quase desconhecido entre os eleitores italianos. Mas não entre os militantes de Milão, onde nasceu, em 1973, filho de um empresário. Aos 17 anos, ainda na época da escola, o rapaz juntou-se à Liga Lombarda. Sete anos depois, tornou-se vereador. Nesse período, frequentou o Leoncavallo, o mais importante centro social da cidade, um enclave da militância alternativa e radical, onde se encontram as várias tendências da esquerda milanesa. Ele bebia cerveja, assistia a espetáculos e cultivava sua paixão pelo cantor anarquista Fabrizio De André. Como vereador, defendeu o centro contra Marco Formentini, o prefeito da época, também membro da Liga, que desejava derrubá-lo. Quando, em 1997, a Liga organizou “eleições padanianas” para nomear o parlamento paralelo de sua pretendida nação, Salvini tornou-se chefe dos “comunistas padanianos”, uma lista adornada com a foice e o martelo.
 
Três milhões de seguidores no Facebook
 
Seu assento na Câmara Municipal de Milão permitiu-lhe dar amplo eco a suas diatribes, sobretudo em relação aos “ciganos muçulmanos” e às questões securitárias. Assim, apoiou um pai de família que atirou em um ladrão e propôs o estabelecimento de uma linha telefônica gratuita para denunciar atos de delinquência cometidos por imigrantes. Arroz de festa, logo se tornou convidado regular dos canais de televisão locais. Ele também se mostrou muito ativo nas mídias controladas pela Liga, escrevendo principalmente para o jornal Padania, antes de se tornar diretor da Radio Padania Libera. À imagem do PCI de outrora, a Liga era uma organização que atuava em todas as áreas, envolvendo seus militantes em uma ampla variedade de atividades.
 
Em 2004, o dinamismo de Salvini acabou por levá-lo a Bruxelas, onde se tornou eurodeputado pela Liga, com a maior parte de seus votos vinda dos subúrbios carentes de Milão. Ele renunciou em 2006 para liderar o grupo da Liga na Câmara Municipal de Milão, mas voltou a seu mandato europeu em 2009. Tornou-se secretário-geral da Liga Lombarda em 2012. Foi então que se impôs como o candidato lógico para a sucessão de Maroni na direção da Liga Norte.
 
O contexto histórico favoreceu essa ascensão. Evidentemente, os sonhos de Altiero Spinelli – um dos pais fundadores da União Europeia, feroz partidário de um federalismo continental – não se concretizaram. Pelo contrário: as altas esferas do bloco europeu são cada vez mais povoadas por burocratas que ditam suas políticas a governos eleitos, sem se preocupar com mandatos democráticos, e impõem a austeridade neoliberal sob a ameaça de um cataclismo a qualquer país que pretenda seguir outro caminho.
 
Na Itália, país que sofreu mais que outros as consequências do Tratado de Maastricht, o ano de 2014 assistiu ao advento de um dos governos mais arrogantes do pós-guerra, determinado não apenas a destruir o direito trabalhista por decreto, mas também a desmantelar algumas disposições fundamentais da Constituição de 1946, a fim de concentrar mais poder em suas mãos. Matteo Renzi assumiu o cargo de presidente do Conselho em fevereiro de 2014. Ele chegou ali sem nem sequer ter sido deputado antes: assumiu o controle do Partido Democrático – enterrando de passagem as reivindicações tradicionais desse partido para encarnar uma força de esquerda – e fez um pacto com Berlusconi. Beneficiando-se do apoio sem reservas do presidente da República, do principal sindicato patronal, dos bancos e das multinacionais, sem falar dos meios de comunicação, Renzi considerou-se popular o bastante para lançar um referendo sobre suas emendas constitucionais. O conjunto das forças políticas voltou-se contra ele, e os eleitores infligiram-lhe uma severa derrota.2 Entre os jovens eleitores, que ele dizia representar, 80% escolheram o “não”. Entre os vencedores dessa rodada eleitoral, Salvini, que lutou vigorosamente contra o projeto de reforma, adquiriu uma estatura nacional.
 
Para chegar a isso, o chefe da Liga teve de operar duas grandes mudanças: adotar uma nova estratégia eleitoral e estabelecer uma relação inovadora com o digital. A Liga Norte, movimento separatista fundado por Bossi, definira dois inimigos: Roma, o centro da corrupção burocrática, e o sul, terra de vagabundos e parasitas. O impasse dessa estratégia apareceu claramente no início de 2010. A separação não era nem real nem plausível, e a sobrevivência do partido – que oscilava entre 3% e 4% das intenções de voto nas pesquisas – estava em questão. Como secretário-geral, Salvini tomou um novo rumo: atacar Bruxelas em vez de Roma, e os imigrantes em vez dos habitantes do sul. Assim, falaria em nome de todos os italianos, de toda a nação, contra os opressores e contra os invasores. Abandonando a oposição entre duas Itálias, a Liga conseguiu reunir agricultores da Puglia, pescadores da Sicília, empresários venezianos e executivos lombardos, todos apresentados como vítimas de um poder distante e desalmado, e enfrentando um tsunami de estrangeiros.
 
Salvini começou explorando a frustração em relação à União Europeia, em um país onde cada orçamento deve ser aprovado pela Comissão, a qual exige sacrifício após sacrifício com o consentimento tanto da centro-direita como da centro-esquerda. Seu discurso de posse dava o tom: “Temos de reconquistar a soberania econômica que perdemos na União Europeia. Já estamos de saco cheio deles […]. Isso não é União Europeia, é União Soviética, um gulag de onde queremos sair, com quem mais estiver disposto a fazê-lo”. As eleições europeias de 2014 se aproximavam, e ele continuava sua ofensiva contra Bruxelas, exortando a Itália a abandonar o euro, uma ideia até então relegada às margens do discurso político pela esquerda e pela direita. A reivindicação não arrastou multidões. Longe de melhorar sua pontuação, a Liga perdeu três de seus nove deputados no Parlamento Europeu.
 
Foi então que entrou em cena Luca Morisi. O especialista em informática de 45 anos dirigia, com um sócio, a empresa Sistema Intranet, que não tinha nenhum funcionário, mas uma multidão de clientes institucionais. Ele assumiu Salvini em uma época na qual este já era inseparável de seu tablet e amplamente familiarizado com o Twitter, mas com uma presença ainda insignificante no Facebook. Seu novo consultor digital disse que ele precisava mudar de estratégia. O Twitter é uma camisa de força, explicou. Segundo ele, a plataforma é fundamentalmente autorreferencial e privilegia as mensagens de confirmação. “As pessoas estão no Facebook e é lá que precisamos estar”, afirma. Uma equipe dedicada às redes sociais foi montada e logo se tornou um dos serviços mais importantes da Liga.
 
Morisi definiu o decálogo que o chefe do partido deveria seguir. As mensagens em sua página do Facebook tinham de ser escritas pelo próprio Salvini, ou dar essa impressão. Deveria haver publicações todos os dias, o ano todo, e comentários inclusive sobre eventos que acabaram de acontecer. A pontuação deveria ser regular, os textos simples, as chamadas à ação recorrentes. Morisi também sugeriu usar, tanto quanto possível, o pronome “nós”, mais capaz de promover a identificação dos leitores, além de ler os comentários e, algumas vezes, responder a eles, a fim de sondar a opinião pública. Resultado: a página de Salvini no Facebook passou a funcionar como um jornal, sobretudo graças a um sistema de publicação criado internamente e conhecido como “a besta”. O conteúdo é publicado em horários fixos e replicado por uma infinidade de outras contas; as reações são monitoradas continuamente. Morisi e seus colegas redigem entre oitenta e noventa status por semana, enquanto Renzi – então presidente do Conselho – e sua equipe não passam de dez. Para manter os seguidores, Morisi tem um truque: insistir nas mesmas palavras, mantendo uma linguagem que mais lembra uma conversa de boteco do que a fala de um político tradicional.
 
O tom das mensagens oscila entre a irreverência, a agressividade e a sedução. O chefe da Liga lança seus leitores contra o inimigo do dia (os “ilegais”, os magistrados venais, o Partido Democrático, a União Europeia), depois publica uma foto do mar, de seu almoço ou uma foto sua abraçando um militante ou pescando. A opinião pública se alimenta de um fluxo interminável de imagens de Salvini comendo Nutella, cozinhando tortellini, chupando laranja, ouvindo música ou assistindo à televisão. Diariamente, uma fatia de sua vida é assim compartilhada com milhões de italianos, seguindo uma estratégia na qual o público e o privado se misturam permanentemente. Esse ecletismo tem o objetivo de conferir-lhe uma imagem humana e reconfortante, permitindo que continue suas provocações. Sua mensagem: “Apesar da lenda que me apresenta como um monstro retrógrado, um populista pouco sério, eu sou uma pessoa honesta. Falo assim porque sou como você, então confie em mim”.
 
A estratégia de Morisi também se baseia na “transmidialidade”: aparecer na televisão enquanto publica no Facebook, analisar os comentários ao vivo e citá-los durante o programa; uma vez terminado o programa, montar resumos e postá-los no Facebook. Essa abordagem, na qual Salvini se tornou mestre, não tardou a dar frutos: entre meados de janeiro e meados de fevereiro de 2015, ele recebeu quase duas vezes mais tempo na mídia do que Renzi. Em 2013, não tinha mais do que 18 mil seguidores no Facebook; em meados de 2015, eles eram 1,5 milhão, e hoje são mais de 3 milhões – um recorde entre os dirigentes políticos europeus.
 
Um rival reduzido à impotência
 
Por muito tempo Salvini foi considerado por seus adversários como caprichoso e indisciplinado, capaz apenas de gesticulações midiáticas. Mas, em um mundo político marcado por uma extrema personalização,3 o secretário-geral da Liga tem um grande trunfo. Berlusconi se dirige à nação em seus canais de televisão, do grande escritório de sua vila em Arcore; Renzi organiza eventos multimídia em Florença, onde aparece com escritores e estrelas da música; Giuseppe “Beppe” Grillo, com seu espírito mordaz do tempo em que era comediante e arrastava multidões, depois de fundar o M5S prefere ficar na sombra e controlar seu movimento a distância. Já Salvini aparece como um homem do povo, autêntico, que ama acima de tudo se misturar com as massas. Basta vê-lo em ação em uma discoteca, com um copo na mão, cercado por militantes e admiradores curiosos que aguardam uma foto: nenhum dirigente italiano poderia produzir tais imagens com tamanha naturalidade.
 
Enquanto a esquerda, ou o que resta dela, refugia-se nos símbolos do passado, se divide e se perde em lutas internas, Salvini vai falar com os trabalhadores nas fábricas, sempre arrastando as câmeras de televisão atrás de si. Ele lhes oferece um momento de atenção midiática após décadas de isolamento. Enquanto a esquerda gere seu eleitorado em miniatura multiplicando pactos e alianças, remoendo seus vãos apelos à unidade, ele brada contra as deslocalizações de fábricas para o exterior e pede medidas protecionistas contra a concorrência desleal de países que pisoteiam os direitos trabalhistas. Os resultados não demoram a chegar. Em 2016, a Liga tornou-se o segundo partido da “Toscana vermelha”, alcançando suas melhores pontuações nos subúrbios populares. Na Emília-Romanha, na Úmbria e nas Marcas – áreas outrora dominadas pelos PCI –, ela ganha terreno.
 
As eleições gerais de 4 de março de 2018 marcaram uma etapa decisiva. Aliada a Berlusconi e ao Fratelli d’Itália (“Irmãos do Norte”), um resíduo neofascista do pós-guerra, a Liga – que de passagem abandonou o complemento “Norte” – multiplicou sua pontuação por quatro e atingiu 17,3% dos votos. Embora sua base permaneça setentrional, ela agora também está no sul. Pela primeira vez, ultrapassou o Forza Italia, partido de Berlusconi. No total, a coalizão de centro-direita teve 37% dos votos e conquistou o dobro de assentos da centro-esquerda, ainda que o verdadeiro vencedor tenha sido o M5S, liderado por Luigi Di Maio, um napolitano de 30 anos: ele ultrapassou de longe todos os outros partidos, com 32% dos votos.
 
Como nenhum dos três blocos conseguiu maioria parlamentar, foi preciso acertar um casamento de conveniência. Após três meses de blefes e negociações, o M5S e a Liga finalmente chegaram a um acordo sobre um “contrato de governo”, que descreve, em termos muito gerais, as áreas de atribuição de cada um. Um governo se formou em junho. Salvini e Di Maio tornaram-se vice-presidentes do Conselho, enquanto o cargo de chefe de governo coube a um membro do M5S, Conte, um professor de direito desconhecido do grande público. Essa coalizão “verde-amarela” foi recebida por uma apoplexia geral na grande mídia, que execra o “populismo” em todas as suas formas. Então, quando dois de seus representantes se aliam…
 
As semelhanças entre os dois partidos são mais comportamentais do que políticas: veemência implacável, retórica antissistema, referências constantes aos inimigos internos e externos, invocação do “povo”, organização vertical, presença on-line agressiva que tende a transformar qualquer assunto em slogan ou em piada de mau gosto. Sua principal semelhança ideológica é a hostilidade a Bruxelas e o ceticismo em relação à moeda única, acusada de ser a responsável pela austeridade e pela estagnação econômica na Itália. Mas os programas que cada um pretende colocar em prática para quebrar esses elos mostram uma grande divergência política. A Liga quer introduzir um flat tax (imposto proporcional), a receita clássica da direita para atrair os pequenos empresários que formam sua base social no norte. Já o M5S deseja criar uma renda mínima garantida para ajudar os desempregados, os precários e os pobres, sobretudo no sul. Em termos de redistribuição, as consequências dessas duas medidas diametralmente opostas traçam uma linha de fratura entre os dois partidos na clivagem clássica entre direita e esquerda.
 
No governo, o M5S assumiu os ministérios com forte peso socioeconômico, enquanto a Liga ficou com aqueles que têm uma dimensão simbólica e identitária. Entre os novos ministros, 90% não tinham nenhuma experiência no poder executivo antes de serem nomeados. Salvini tornou-se ministro do Interior e Di Maio assumiu as rédeas do Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Assuntos Sociais. À primeira vista, o M5S, que venceu as eleições, conquistou os melhores postos – especialmente Infraestrutura, Saúde e Cultura –, os de maior impacto potencial sobre o eleitorado.
 
No entanto, a formação do governo esteve, desde o início, sob a vigilância do “Estado profundo” italiano: a presidência da República (Sergio Mattarella), o Banco da Itália, a Bolsa de Valores e, sobretudo, o Banco Central Europeu. Este cuidou para que os ministérios que realmente importam em termos de economia (Finanças e Assuntos Europeus) não ficassem com nenhum dos dois partidos. Além disso, quando a coalizão propõe candidatos que Mattarella considera insuficientemente submetidos à União Europeia, o presidente não hesita em usar seu veto. Desse modo, a influência do M5S nas políticas orçamentárias foi amplamente neutralizada desde o início. Não é novidade que, assim que uma das propostas do M5S ou da Liga ameaçou transformar-se em lei (seja a renda mínima garantida ou a redução da idade de aposentadoria), a Comissão Europeia e seus emissários internos intervieram. Meses de luta acabaram adoçando as medidas e esvaziando-as de significado. Tanto que Di Maio não tem, até agora, nenhum sucesso para exibir em seu quadro de honra governamental.
 
“Liguização” da política
 
Salvini, por sua vez, maximizou sua presença. Como ministro do Interior, está quase sempre vestindo jaqueta de policial ou de fuzileiro, como um bom xerife. Ele confiou a seu braço direito o Ministério da Família, outra excelente tribuna para declarações de grande impacto na mídia. Mas reservou para si a mais importante responsabilidade moral de um governo honesto: a cruzada contra a imigração clandestina, efetivada por meio da negação dos direitos portuários a ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo. Os anos de propaganda do M5S contra a “invasão” deixaram traços, forçando-o hoje a seguir a Liga nesse campo minado, às vezes com alguns discursos ineficazes contra atos xenófobos particularmente cruéis.
 
Poucos meses após a chegada ao poder da coalizão “verde-amarela”, não há mais dúvidas sobre qual cor domina.4 Embora tenha tido metade dos votos de seu parceiro, a Liga impôs sua hegemonia, como se tivesse tido o dobro. As três eleições regionais realizadas entre janeiro e abril de 2019 transformaram essa inversão em um fato político frio. Todas ocorreram no sul, onde, em 2018, houvera um tsunami a favor do M5S. Em Abruzzo, ele passou de 39,8% para 19,7%, quando a Liga saltou de 13,8% para 27,5%. Na Sardenha, afundou (de 42,4% para 9,7%), enquanto o partido de Salvini progrediu ligeiramente (de 10,8% para 11,4%). Na Basilicata, o movimento de Di Maio viu sua pontuação cair pela metade (de 44,3% para 20,3%), quando a Liga triplicou a sua (de 6,3% para 19,1%). Aliada ao Forza Italia, ao Fratelli d’Italia e a vários outros grupos, ela assumiu o controle dessas três regiões. Assim, venceu em todas as frentes, juntando-se ao Forza Italia e à extrema direita em nível local, ao mesmo tempo que manteve a aliança com o M5S em Roma. Por fim, a Liga venceu as eleições europeias de 26 de maio, com 34% dos votos contra 22,7% do Partido Democrático (PD) de Renzi, 17,1% do M5S e 8,8% do Forza Italia.
 
A Liga agora ocupa o centro da vida política italiana. Salvini dá as cartas e define as regras do jogo, forçando a mídia a seguir servilmente o que diz – suas promessas, suas provocações e seu “bom senso”, o qual, difundido há anos via televisão, jornais e internet, parece ter realmente se tornado um. A política italiana passou por uma “liguização” (leghizzazione). Agora é considerado normal – e isso se aplica à centro-esquerda – acusar ONGs de serem “táxis marítimos” mancomunados com passadores de imigrantes; afirmar que os cidadãos precisam de segurança em primeiro lugar; ou ver a imigração exclusivamente como um problema. Teses que outrora eram apanágio da Liga e dos círculos neonacionalistas são quase unanimemente admitidas.
 
Entre os dirigentes da direita eurocética dos grandes países da União Europeia, Salvini é o único que pode nutrir a esperança de dirigir um governo. Ele tem, de fato, um grande trunfo. Na Itália, o neofascismo está há muito tempo integrado ao sistema político, o que permite à Liga apresentar-se como “diferente”. Ideologicamente, embora pertença à direita radical, seu chefe nunca negou suas meias origens de esquerda. “Quando me confundem com um fascista, eu rio”, ele diz. “Roberto Maroni desconfiava que eu fosse um comunista dentro da Liga, pois eu era o mais próximo deles em alguns aspectos, inclusive no meu modo de vestir.” Em 2015, ele ainda era admirador do Syriza, partido de esquerda grego, e continua a enfeitar suas declarações com reivindicações outrora típicas da esquerda, como a necessidade de um banco público de investimento ou a revogação das reformas neoliberais do sistema previdenciário.
 
Salvini tem a vantagem de atuar em um contexto no qual a esquerda, reformista ou radical, praticamente desapareceu. Na França, na Espanha, no Reino Unido e até na Alemanha, as forças populares que resistem à doxa do poder estão sempre à esquerda do espectro político. Na Itália, não é assim. Ali entram em cena algumas condições socioeconômicas e geográficas. Nenhum outro país importante da União Europeia sofreu mais com a camisa de força do euro do que a Itália, cuja renda per capita quase não aumentou desde que a moeda única entrou em vigor5 e cujas taxas de crescimento eram miseráveis. Além disso, sendo uma península com a mais longa costa contínua de todos os países da União Europeia, a Itália tornou-se um entroncamento migratório, situação à qual o tradicional país de emigração, que tanto alimentou os fluxos populacionais mundiais, não estava acostumado e que se deu em um contexto de retração econômica e de feroz competição por emprego e assistência social. À medida que essas tensões se tornam cada vez mais elétricas, Salvini apresenta-se como o para-raios ideal para descarregar um potencial conflito de classes e transformá-lo em uma luta dos pobres contra os pobres.
 
Caso conquistasse o Palazzo Chigi, viria ele a se tornar um novo Berlusconi que, apesar de toda sua fanfarronice, não mudou muito? Sua atitude em relação à União Europeia é um teste decisivo. O Cavaliere se distinguiu mais por suas gafes do que pela má conduta no Conselho Europeu. Salvini é mais implacável e mais ideológico. Ele fez campanha nas eleições europeias de 2019 prometendo o surgimento de um bloco populista de direita – a “internacional soberanista”, idealizada por Steve Bannon, ex-assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Por muito tempo, ele foi admirador de Vladimir Putin. Mas os Estados Unidos contam mais que a Rússia, e suas afinidades – em termos de estilo e personalidade – são muito maiores com o ocupante da Casa Branca do que com o do Kremlin. Isso significa, em particular, um alinhamento com a tentativa de Trump de subjugar a China. Em contraste, e para grande desgosto de Salvini, Di Maio recebeu na Itália o presidente Xi Jinping, que chegou cheio de presentes relacionados à Nova Rota da Seda.
 
Arranjos com Bruxelas
 
A diferença é igualmente visível no interior da União Europeia, onde o dirigente do M5S adotou uma abordagem muito mais radical, expressando um caloroso apoio aos “coletes amarelos” franceses, que Salvini considera vândalos. No nível da União Europeia, o chefe da Liga contentou-se em batucar sobre as barras da “jaula” de Bruxelas, sem tentar quebrá-las. Ele aprovou o atual orçamento italiano, finalmente em consonância com o “parecer” da Comissão. Um compromisso assumido em um conflito institucional, e não apenas verbal, com a Europa parece menos provável do que uma adaptação pragmática ao status quo. A base social da Liga talvez seja hostil aos grandes bancos, às regulamentações comunitárias e às multinacionais, mas sua sensibilidade continua sendo indubitavelmente capitalista. Em seu tempo, Bossi também protestou contra Bruxelas, o que não impediu a Liga Norte de votar a favor dos Tratados de Maastricht e de Lisboa.
 
Para Salvini, a moeda única tem sido um espantalho útil em sua ascensão, mas que, uma vez que esta seja atingida, pode ser reacomodado. A denúncia das “fronteiras-peneiras” continua sendo seu verdadeiro passaporte para o poder. E, sobre esse assunto, a União Europeia não lhe impõe nenhuma dificuldade.
 
Notas:
1 O caso Tangentopoli, que explodiu em 1992, era um vasto sistema de subornos entre líderes políticos e empresários. Deu origem à operação judicial Mani Pulite (“Mãos Limpas”).
2 Ler Raffaele Laudani, “Matteo Renzi, un certain goût pour la casse” [Matteo Renzi, um certo gosto pelo roubo] e “Matteo Renzi se rêve en Phénix” [Matteo Renzi pensa ser uma fênix], Le Monde Diplomatique, jul. 2014 e jan. 2017, respectivamente.
3 Ver Mauro Calise, La Democrazia del leader [A democracia do leader], Laterza, Roma-Bari, 2016.
4 Ler Stefano Palombarini, “En Italie, une fronde antieuropéenne?” [Uma revolta antieuropeia na Itália?], Le Monde Diplomatique, nov. 2018.
5 O salário bruto anual médio passou, em preços corrigidos, de 28.939 euros em 2001 para 29.214 euros em 2017.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/salvini-voz-da-nova-ultradireita.html

Não, não mordemos o isco !

Atenção, muita atenção
 
 
Os defensores do museu Salazar não estão parados. Agora a sua táctica é dizer, debaixo de um chapéu-sofisma que se trata do«Centro Interpretativo de Estado Novo» (o nome tem graça porque CIEN é uma marca de cosméticos), e que isso é coisa coisa basto isenta, equilibrada, patati patatá,
Mas depois vai-se ver e os mesmos escrevem textos em que chamam a Salazar«o derradeiro patriota» e acusam os opositores da guerra colonial de estarem mancomunados com o estrangeiro.
 
A melhor resposta democrática é só esta : UMA AINDA MAIS AVASSALADORA SUBSCRIÇÃO DA PETIÇÃO QUE ESTÁ AQUI emhttps://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT94050&fbclid=IwAR2GWbsLffqz6j6cPBQJ-pT3WQf-AtHuZv7blDbUX7rChQtwIpwKjcJani4

que nenhum democrata duvide : é
 
 
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

15 dias

Sim, 15 dias foi o tempo que o Hitler demorou a criar o 1º campo de concentração. Tinha jurado solenemente ao presidente Hidenburg que nunca utilizaria força ou violência se lhe desse o poder.

Foi uma razia… deputados comunistas e socialistas, católicos, limpeza das instituições públicas, e tudo o que se seguiu (e que, curiosamente, muitos esquecem).

Em Auschwitz, as letras Arbeit macht Frei, O trabalho liberta, e assim com milhares e depois milhões de homens e mulheres reduzidos à escravatura, se criou o célebre milagre Económico Alemão!

A manipulação das massas seguiu o caminho do costume, a mentira, a coacção, a força, o recrutamento de fanáticos e a adesão benévola de cobardes, repteis e videirinhos.

Olho para o declínio cívico e humanista dos nossos tempos e penso na facilidade com que reaparece a Fénix Nazi… que pena que o Homem, o capital mais importante da Natureza, seja tão frágil de convicções. E tão cego, atirando-se para abismos irrecuperáveis.

 

Holocaust Museum


 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/15-dias/

Como se fossem escravos

 
 
Paula Ferreira | Jornal de Notícias | opinião
 
As atenções viram-se para Matteo Salvini, ministro do Interior de Itália: o homem que recusa receber no porto de Lampedusa um barco com 134 migrantes a bordo. Ontem, obedecendo a uma ordem do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, não escondendo a má vontade, Salvini autorizou o desembarque de 27 menores que viajavam sem companhia. Uma atitude de pura desumanidade, mais uma do governante de extrema-direita.
 
Parece cómodo, todavia, voltarmos as nossas atenções unicamente para o indesculpável Matteo Salvini. É hora de se reclamar algo mais dos responsáveis políticos europeus. Não basta, pontualmente, ir aceitando receber migrantes como deverá acontecer neste caso - Portugal, França, Alemanha, Luxemburgo, Roménia e Espanha já se disponibilizaram - e depois continuar, como se nada fosse, até à próxima emergência ou tragédia.
 
 
O "Open Arms", um navio humanitário há semanas ao largo de Lampedusa com 134 migrantes salvos de um naufrágio, faz lembrar um barco negreiro, do tempo em que as embarcações portuguesas e espanholas cruzavam os mares com mão de obra escrava. A situação é explosiva, relatam os voluntários, também eles retidos num navio sob um sol escaldante, com escassos meios de subsistência e praticamente nenhumas condições de higiene.
 
Não podemos continuar a ver nestas pessoas o outro, como os nossos antepassados olharam para os escravos, sem qualquer gesto de humanidade - como se eles não fossem seres humanos em tudo iguais a nós.
 
É tempo de a União Europeia definir uma política séria de imigração. Também é tempo de colocar um ponto final na hipocrisia cúmplice: alimenta, como sabemos, conflitos que conduzem ao êxodo destas pessoas em busca, não só de uma vida não digna, mas apenas melhor. E, sobretudo, à procura de um refúgio onde as armas não substituam as palavras.
 
* Editora-executiva-adjunta
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/como-se-fossem-escravos.html

BARBÁRIE | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

fascistas007

Há indícios preocupantes do crescimento da extrema-direita. Vêmo-los um pouco por todo o lado, no seu desígnio fundamental de minar a Democracia e de estilhaçar a União Europeia. Com o seu discurso xenófobo, com a apologia radical contra os imigrantes, o que eles gostariam era de um regresso à Europa dos nacionalismos e das fronteiras, onde os direitos sociais não contassem e os cidadãos fossem mera carne para canhão. Eles estão por todo o lado. Veja-se o caso da Itália, agora a braços com a ambição de Salvini chegar a primeiro-ministro.
Portugal também não foge à regra e é bom que os distraídos, ou os indiferentes à realidade, e também, já agora, os desmemoriados do fascismo, percebam que a extrema-direita anda por aí já não com pés de veludo, mas numa acção política directa, tentando cavalgar populismos, racismos, descontentamentos que emergem das desigualdade.
No outro dia, o Prof. Boaventura de Sousa Santos chamava a atenção em artigo, no "Público", a propósito de uma reunião de partidos da extrema-direita, em Lisboa, que Portugal se estava transformando "num alvo estratégico da extrema-direita internacional".
A democracia é sempre generosa, muito generosa, para aqueles que a combatem. Na revista do "Expresso" da semana passada vem uma matéria assinada por Luciana Leiderfarb, intitulada Primo Levi, O passado está sempre à nossa frente, que é um trabalho importante sobre a memória. Não só pelo recurso à narrativa biográfica do autor de Se Isto é um Homem, mas sobretudo pela recuperação do pensamento de Levi através de entrevistas que ele deu e estão hoje no limbo do esquecimento.
Numa delas,  o sobrevivente de Auschwitz dizia ter "um medo teórico do retorno da barbárie." E noutra: "Além da nossa experiência individual, fomos colectivamente testemunhas de um acontecimento fundamental e inesperado. Ocorreu contra todas as previsões: incrivelmente, na Europa, aconteceu que um povo inteiro civilizado, saído do fervilhante florescimento cultural de Weimar, seguisse um actor cuja figura hoje causa riso; e, no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e louvado até à data da sua catástrofe. Aconteceu e, por isso, pode voltar a acontecer: isto é a essência do que temos para dizer."
Não sei porquê vieram até mim os sons em que o Zeca Afonso avisava, já lá vão mais de três décadas, sobre os meninos neo-nazis. Uma ironia premonitória. O Zeca cantava: "o país vai de carrinho". Esperemos que a estupidez não vença a humanidade. Em Portugal e na Europa!
 
 
 
Os Meninos Nazis

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcóes das avenidas
São os meninos nazis

Blusão de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota

Gosta de passeio em grupo
No mercedes que o papá
Trouxe da Europa connosco
Até à Europa de cá

Despreza a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca

Se o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis

Depois mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutónica
Combater os sarracenos

Os pretos, os comunistas
Os Índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos !

Chame-se o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene

Que a cruz gamada reclama
e novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão

Mas não se esqueçam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir prà puta que o pariu

Sábado, 17 de Agosto

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Mais de 4500 já assinaram a petição

Milhares de antifascistas movem-se contra um museu em Santa Comba Dão

Milhares de antifascistas movem se contra um museu em Santa Comba Dao 900x506

Numa carta dirigida ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da Assembleia da República, no passado dia 12 de Agosto, 204 ex-presos políticos repudiaram o museu, considerando que mais não seria do que um memorial ao Salazar. Circula, agora, este abaixo-assinado dirigido ao Primeiro-Ministro, já subscrito por 4500 pessoas, em apoio da carta dos ex-presos.

 

Assinar aqui: Museu de Salazar, Não!

 

Museu de Salazar, Não!

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro

Os abaixo-assinados, conhecedores do que foi a ditadura do Estado Novo, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime – de que Salazar foi principal mentor e responsável – , o mais veemente repúdio pela criação do Museu Salazar, recentemente anunciado pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão.

Apoiam a carta dirigida a Vossa Excelência, no passado dia 12 de Agosto de 2019, por 204 ex-presos políticos, apelando ao Governo para que intervenha no sentido de impedir a concretização de um tal projecto que, longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações, se prefigura como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista (1926 – 1974) e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.

Em 16 de Agosto de 2019

 

 
 
 

 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/mais-de-4500-ja-assinaram-a-peticao/

Portugal | Saudações nazis e muito ódio em reunião no Hotel Sana

 
 
A SÁBADO no encontro de Mário Machado
 
 
Mário Machado conseguiu alugar o espaço no hotel SANA com o nome da mãe e disse que ia debater o espaço Schengen. Contudo, acabaram por promover ideias antissemitas e racistas. O encontro foi ilegal?
 
"Sieg Heil!", exclamou Francesca Rizzi, enquanto levantava o braço em jeito de saudação romana. A expressão alemã, que em português significa "viva a vitória", era usada pelo regime de Adolf Hitler, responsável pelo genocídio de cerca de seis milhões de judeus. Foi desta forma que a italiana – que se assume como "nacional socialista" – terminou o seu discurso na sala nove do piso -1 do Hotel Sana, em Lisboa, durante a conferência de sábado, 10 de agosto, organizada por Mário Machado, líder da Nova Ordem Social (NOS).
 
O gesto foi recebido com berros de aprovação e diversas saudações replicadas por membros da plateia, inclusive a mãe de Machado. "Viva a vitória!", gritavam da primeira fila, envergando T-shirts da NOS. O discurso de Rizzi é outro elemento que justifica a euforia dos presentes: ao longo de 45 minutos, a italiana apelou para a "salvaguarda da existência da raça ariana". "Vamos organizar-nos contra a tirania judaica", atirou. De Mário Machado – de camisa branca, um Rolex Submariner no pulso e anel das tropas nazis SS no dedo – recebeu aplausos.
 
Nota PG
Compete aos governos e autoridades dos países constitucionalmente democráticos não permitirem manifestações e/ou reuniões nazis, de apelo ao ódio, ao racismo e xenofobia. Declaradamente violadoras dos Direitos Humanos. Configurando crime.
Que se tenha conhecimento o avanço deste tipo de extremismo continua a beneficiar de impunidade… O que pode indiciar que até o sistema democrático já está minado - nos órgãos de Estado,  judiciais, policiais, de instituições e empresas - pela ideologia nazi.
 
*Com parcial alteração no título por PG
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-saudacoes-nazis-e-muito-odio.html

Contamos com a sua assinatura

 
Exmo. Senhor Primeiro-Ministro

Os abaixo-assinados, conhecedores do que foi a ditadura do Estado Novo,manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas doregime – de que Salazar foi principal mentor e responsável – o maisveemente repúdio pela criação do Museu Salazar, recentemente anunciadopelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão.

Apoiam a carta dirigida a Vossa Excelência, no passado dia 12 de Agostode 2019, por 203 ex-presos políticos, apelando ao Governo para queintervenha no sentido de impedir a concretização de um tal projecto que,longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações, se
prefigura como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista (1926 - 1974) e um centro de romagem para os suadosistas doregime derrubado com o 25 de Abril.

1ºs signatários:Albano Nunes, Alda de Sousa, António Regala, António Taborda, Carvalho da Silva, Francisco Fanhais, Joana Lopes, José Barata Moura, José Sucena, Levy Baptista, Margarida Tengarrinha, Maria do Rosário Gama, Maria Teresa Horta, Miguel Cardina, Pedro Adão e Silva, Raimundo Narciso, Rui Namorado.

 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Há 83 anos – A Guerra Civil espanhola e o massacre de Badajoz (14-08-1936)

Foi um dos crimes mais sinistros cometidos pelos homicidas de Franco no início da sublevação que derrubou a República espanhola.

Os historiadores calculam em 4.000 (10% da população da cidade) as vítimas do massacre, sumariamente fuziladas e cuja investigação foi [e ainda é] impedida.

Os sediciosos foram protegidos em solo português antes da rendição. Depois, a GNR prendeu as vítimas que se refugiaram do lado de cá da fronteira e, por ordem de Salazar, entregou-as para serem fuziladas.

É esta cumplicidade ibérica com o fascismo que hoje se procura esconder e, sobretudo, esquecer.

Enquanto em Madrid o PP faz acordos com o VOX para conquistar o poder e preservar a memória do genocida Franco, os democratas portugueses mantêm-se solidários com a Espanha que ainda sangra.

 

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/08/ha-83-anos-guerra-civil-espanhola-e-o.html

Antigos presos políticos denunciam criação de um «Museu Salazar»

Um grupo de 205 ex-presos políticos enviou uma carta ao primeiro-ministro e ao presidente da Assembleia da República, em que expressam «o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um "Museu Salazar"».

Imagem do filme «Luz Obscura», de Susana Sousa Dias.Créditos

Na missiva, datada de 12 de Agosto, os subscritores, «ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista – de que Salazar foi principal mentor e responsável – o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um "Museu Salazar" feito pelo presidente da Câmara de Santa Comba Dão», Leonel Gouveia (PS).

Também apelam à intervenção do Governo, «em conformidade com o relatório aprovado por unanimidade, em Julho de 2008, pela Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República e com normas da Constituição da República Portuguesa», de modo a impedir a concretização de um projecto que – sublinham –, «longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista, se prefigura como um instrumento ao serviço do seu branqueamento e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril».

O signatários lembram que, «quando em muitos países se assiste ao renascer de forças fascistas e fascizantes, o País precisa não de instrumentos de propaganda do fascismo – que a Constituição da República expressamente proíbe –, mas de meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer o cortejo de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas».

Os antigos presos políticos digirem-se ainda «a todos os democratas e amantes da liberdade», apelando para que «se manifestem contra a criação, nos termos em que tem vindo a ser anunciado, desse memorial ao ditador».

A missiva é subscrita, entre outros, por Álvaro Pato, António Borges Coelho, Aurora Rodrigues, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Fernando Correia, Fernando Rosas, Helena Pato, Isabel do Carmo, Jaime Serra, Jorge Seabra, Jorge Silva Melo, José Eduardo Brissos, José Mário Branco, Manuela Bernardino, Mário de Carvalho, Miriam Halpern Pereira, Modesto Navarro, Sérgio Ribeiro, Teresa Dias Coelho, Violante Saramago Matos e Vítor Dias.

Não se antevê como espaço de denúncia dos crimes e da política de Salazar

No final de Julho, o semanário Expresso anunciou que o Centro Interpretativo do Estado Novo iria abrir ainda este ano, com as obras a começarem em Agosto, sendo que a iniciativa avançou pela mão do presidente da Câmara Municipal.

A este propósito, Domingos Abrantes, resistente antifascista e ex-preso político, lembrou, em declarações ao AbrilAbril, que este objectivo está há muito em cima da mesa, por parte dos «saudosistas do fascismo», tendo acrescentado que o significado da iniciativa não pode ser menorizado. «Está em linha de continuidade com uma ofensiva que se tem vindo a intensificar de branqueamento do fascismo», alertou.

Rebatendo o argumento de que um museu sobre Salazar possa ser neutro, declarou ser «difícil imaginar que se possa tratar de um museu com vista ao esclarecimento do povo português e, sobretudo das novas gerações, em relação ao que foi o fascismo, a repressão, o obscurantismo, os assassinatos, durante 48 anos, do qual esta figura, não sendo única, é em grande parte responsável».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/antigos-presos-politicos-denunciam-criacao-de-um-museu-salazar

Itália em risco de ser a primeira democracia ocidental governada pela extrema-direita

(Ricardo Cabral Fernandes, in Público, 12/08/2019)

Salvini surge com 38% das intenções de voto na sondagem do “La Repubblica” 

(A Estátua, cansada de ouvir o Dr. Pardal, o Dr. António Costa, os serviços mínimos que são máximos, os camiões que rolam mas não rolam, as mangueiras que não esguicham, e coitados dos turistas na fila pro gasóleo – que mandem vir a UBER que ela entrega tudo embrulhado e quentinho -, resolveu investigar se o mundo, lá fora, tinha fechado para obras.

E deparou-se com esta ópera bufa, à italiana, com todos os ingredientes de um libreto para cantar em falsete.

É a Europa, decrépita e sem alegria. A oeste nada de novo, a não ser o crepúsculo dos deuses e o estertor do império.

Comentário da Estátua, 12/08/2019)


A Itália vive o caos político e, nos próximos dias, uma série de batalhas serão travadas para formar um improvável novo governo ou convocar eleições antecipadas. O Partido Democrático pode sofrer uma cisão, o Movimento 5 Estrelas uma pesada derrota eleitoral e a Liga passar a dominar a política italiana em caso de eleições antecipadas.

 

As jogadas prolongam-se nos corredores do poder político e partidário. O primeiro combate foi travado esta segunda-feira em conferência de líderes parlamentares no Senado. O segundo é na terça-feira, com os senadores a votarem o calendário da moção de desconfiança apresentada por Matteo Salvini.

Esta segunda-feira, os líderes parlamentares decidiram, por maioria de votos, agendar a intervenção do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, para 20 de Agosto. No entanto, por falta de unanimidade, a presidente do Senado, Elisabetta Casellati, deliberou que os senadores terão de votar individualmente o calendário da moção de desconfiança. Espera-se que a Liga saia derrotada.

Provável aliado da Força Itália de Silvio Berlusconi, Matteo Salvini, líder da Liga e vice-primeiro-ministro, exigia que o debate e votação fossem agendados já para esta terça e quarta-feiras, enquanto os restantes partidos – PD, 5 Estrelas, Misto e Livre e Igual – defenderam que fossem no dia 20. Para o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, os poucos dias de diferença são a chave para se negociar a formação de um governo institucional, enquanto o 5 Estrelas quer avançar com a votação prévia de uma emenda constitucional para reduzir o número de deputados, que, caso seja aprovada, impedirá eleições antes da próxima Primavera, pois obriga a consultar os italianos em referendo.

Além disso, esperar até 20 de Agosto daria tempo a Conte, aliado do 5 Estrelas, para poder explicar a crise ao povo italiano, encostando a Liga às cordas.

Anunciada a morte do Governo, Salvini tudo tem feito para o enterrar, e bem fundoexigiu eleições imediatas e a demissão de Conte, mas foram-lhe ambas recusadas. Decidiu então apresentar uma moção de desconfiança contra o executivo, numa altura em que os deputados e senadores estão, normalmente, de férias.

Perante a derrota anunciada, Salvini tem uma última cartada ao seu dispor: forçar os ministros do seu partido a demitirem-se. O Governo cairia de imediato e o 5 Estrelas teria de agir contra o tempo para formar novo executivo. No caso de o Presidente italiano, Sergio Mattarella, o aceitar. O chefe de Estado detém o poder de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas ou permitir a Luigi Di Maio, líder do partido mais votado, tentar formar uma nova coligação para governar.

Salvini sempre disse que as intenções de voto não norteavam a sua acção política, mas tudo indica o contrário. Na sondagem de 29 de Julho do La Repubblica, a Liga surgia na liderança destacada com 38% dos votos, permitindo-lhe formar um Governo com maioria absoluta com o Irmãos de Itália (6,6%) e a Força Itália (6,5%). O Partido Democrático surgia em segundo, com 22%, e o 5 Estrelas, que ganhou as eleições em 2018, cairia para terceiro com 17,3%.

A jogada de Salvini para acabar com a legislatura que deveria durar até 2023 é também uma tentativa de definir que Parlamento eligirá o próximo Presidente, se o actual ou um futuro por si controlado. Dominando Governo e Parlamento, ficaria bem posicionado para as eleições municipais de Maio de 2020.

A ser bem-sucedido, Salvini conseguirá liderar o primeiro Governo composto exclusivamente da extrema-direita na Europa Ocidental.

Manobras à esquerda

É precisamente esta hegemonização da política italiana que o antigo primeiro-ministro Matteo Renzi diz querer evitar a todo o custo. “Um governo institucional é a resposta para aqueles que querem plenos poderes para orbanizar Itália”, afirmou no Twitter, em referência à transformação do regime húngaro pelo líder de extrema-direita Viktor Orbán. E sublinhou: “É uma loucura ir a votos”.

A ideia de Renzi pode ter números para resultar. Em minoria, Salvini terá do seu lado uns meros 259 deputados (em 630) e 149 senadores (315), segundo contagem do Corriere della Sera, enquanto o campo do governo institucional detém 322 deputados e 166 senadores. No entanto, o campo institucional dá sinais de fragilidade e as divisões no Partido Democrático vêm à tona.

Sem nunca lhe chamar cisão, Renzi ameaçou com a criação de um novo partido – o Acção Civil –, caso a liderança do Partido Democrático não adira à ideia do governo institucional. Controla grande maioria da bancada parlamentar, fruto das legislativas do ano passado, contra o secretário-geral, Nicola Zingaretti, que deseja novas eleições.

“Não é credível que um governo faça a manobra económica e depois dispute eleições, seria um presente para uma direita perigosa que toda a gente quer travar”, argumentou Zingaretti, apelando à união no partido que lidera.

Zingaretti vê o cenário de eleições como oportunidade de afastar os apoiantes de Renzi de futuras listas, mas também receia que Salvini saia vencedor ao ficar de fora de um governo apoiado por esta legislatura. É provável que o futuro executivo tenha de subir os impostos e, por isso, venha a gerar descontentamento. Além disso, os dois principais partidos desse hipotético executivo, o PD e o 5 Estrelas, estão hoje em minoria nas intenções de voto, permitindo a Salvini acusá-los de golpe.

Porém, Renzi mostra-se irredutível, mesmo quando as hipóteses são escassas. Hipóteses enterradas esta segunda-feira, no Facebook, por Di Maio: “Ninguém se quer sentar à mesa com Renzi”.

Ao aceitar as políticas da Liga, o 5 Estrelas deixou-se enredar por Salvini, caiu nas sondagens, perdeu votos nas europeias e Di Maio ficou sem muito do seu capital político, e nem todos dão sinais de alinhar na sua posição. “Depois de termos governado com a Liga, acho que até somos capazes de fazer um acordo com Belzebu”, admitiu a deputada do 5 Estrelas Roberta Lombardi, em entrevista ao La Repubblica.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

204 ex-presos políticos repudiam a criação de Museu Salazar

Apelam ao Governo para que intervenha no sentido de impedir a concretização de um tal projecto, que se prefigura como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista de Salazar.

Oliveira Salazar

Ex-presos políticos manifestam o mais veemente repúdio pelo anúncio de um Museu do Estado Novo, a criar pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão. Apelam ao Governo para que intervenha no sentido de impedir a concretização de um tal projecto, que se prefigura como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista de Salazar e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.

Carta enviada ao Primeiro Ministro e ao Presidente da Assembleia da República, por Vítor Dias e Helena Pato, a 12 Agosto de 2019, e hoje divulgada à Comunicação Social.

 

 

 

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República

Lisboa, 12 de Agosto de 2019

Os abaixo-assinados, ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista – de que Salazar foi principal mentor e responsável – o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um “Museu Salazar” feito pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão e apelam ao Governo para que, em conformidade com o relatório aprovado por unanimidade, em Julho de 2008, pela Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República e com normas da Constituição da República Portuguesa, intervenha para impedir a concretização desse projeto que, longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista, se prefigura como um instrumento ao serviço do seu branqueamento e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.

Quando em muitos países se assiste ao renascer de forças fascistas e fascizantes, o país precisa, não de instrumentos de propaganda do fascismo – que a Constituição da República expressamente proíbe – mas de meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer o cortejo de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas.

Os abaixo-assinados apelam ainda a todos os democratas e amantes da liberdade que se manifestem contra a criação, nos termos em que tem vindo a ser anunciado, desse memorial ao ditador.

Adelino Pereira da Silva
Afonso Rodrigues
Aguinaldo Cabral
Aguinaldo Espada de Oliveira Santos
Aires de Aguiar Bustorff
Albertino Almeida
Alberto Borges
Alexandre Jorge Almeida
Alexandre José Pirata
Alfredo Caldeira
Alfredo Guaparrão
Alfredo de Matos
Alice Capela
Álvaro Monteiro
Álvaro Pato
Américo Joaquim Brás
Américo Leal
Ana Abel
António Almeida
António Antunes Canais
António Borges Coelho
António Caçola Alcântara
António Cerqueira
António Espirito Santo
António Gervásio
António Graça
António Inácio Baião
António José Baltazar Condeço
António Lenine Moiteiro
António Melo
António Pedro Braga
António Ramalho Alcântara
António Redol
António Rodrigues Canelas
António Rodrigues Correia
António Santos
António Santos Pereira
António Velhinho Ventura
Armando Cerqueira
Arménio Marques Gil
Armando de Lacerda
Artur Monteiro de Oliveira
Artur Pinto
Aurélio Pato
Aurora Rodrigues
Bárbara Judas
Camilo Mortágua
Carlos Brito
Carlos Campos Rodrigues Costa
Carlos Coutinho
Carlos Marum
Carlos Myre Dores
Carlos Oliveira Santos
Clemente Alves
Conceição Matos
Cristiano de Freitas
Daniel Cabrita
Danilo Matos
Diana Andringa
Domingos Abrantes
Domingos Lopes
Domingos Pinho
Duarte Nuno Clímaco Pinto
Eduardo Baptista
Eduardo Ferreira
Eduardo Meireles
Elídia Rosa Caeiro
Emília Brederode
Encarnação Raminho
Estevão A. P. Caeiro Oca
Eugénia Varela Gomes
Eugénio Ruivo
Feliciano David
Fernando Almeida Simões
Fernando Baeta Neves
Fernando Chambel
Fernando Correia
Fernando Cortez Pinto
Fernando Flávio Espada
Fernando Martins Adão
Fernando Miguel Bernardes
Fernando Rosas
Fernando Vicente
Filipe Augusto Neves do Carmo
Filipe Mendes Rosas
Firmino Martins
Francisco Braga
Francisco Bruto da Costa
Francisco Carrasco dos Santos
Francisco do Carmo Martins
Francisco Lobo
Francisco Melo
Francisco Nilha Jorge
Francisco Silva Alves
Graça Érica Rodrigues
Helena Cabeçadas
Helena Neves
Helena Pato
Herculano Neto Silva
Humberto Rui Moreira
Isabel do Carmo
Jaime Fernandes
Jaime Serra
João Augusto Aldeia
João Carrasco Caeiro
João Queirós
João Viegas
Joaquim Barata
Joaquim Henrique Rodrigues
Joaquim Jorge Araújo
Joaquim Judas
Joaquim Labaredas
Joaquim Monteiro Matias
Joaquim P. Pinto Isidro
Joaquim Santos
Jorge Carvalho
Jorge Querido
Jorge Neto Valente
Jorge Seabra
Jorge Vasconcelos
José A . Guimarães Morais
José Carlos Almeida
José Eduardo Baião
José Eduardo Brissos
José Ernesto Cartaxo
José Guimarães Morais
José Jaime Fernandes
José Lamego
José Leitão
José Luís Machado Feronha
José Manuel Serra Picão de Abreu
José Marcelino
José Mário Branco
José Marques
José Oliveira
José Revés
José Ribeiro Sineiro
José Teodósio Cachochas
José Pedro Soares
Justino Pinto de Andrade
Laura Valente
Luís Firmino
Luís Fonseca
Luís Moita
Luís Figueiredo
Luísa Oliveira
Manuel Candeias
Manuel Custódio Jesus
Manuel Ferreira Gonçalves
Manuel Henriques Estevão
Manuel José Brás
Manuel Pedro
Manuel Pedro Baião
Manuel Policarpo Guerreiro
Manuel Quinteiro Gomes
Manuel Ruivo
Manuel dos Santos Guerreiro
Manuela Bernardino
Maria da Conceição Moita
Maria Custódia Chibante
Maria Dulce Antunes
Maria Emilia Miranda de Sousa
Maria Fernanda Almeida Marques
Maria Fernanda Dâmaso Marques
Maria da Graça Marques Pinto
Maria Guilhermina Ferreira Galveias
Maria Helena Rocha Soares
Maria Hermínia de Sousa Santos
Maria Isabel Areosa Feio de Barros
Maria João Gerardo
Maria José Pinto Coelho da Silva
Maria João Lobo
Maria José Ribeiro
Maria Luíza Sarsfield Cabral
Maria de Lurdes Clarisse
Maria Lourença Cabecinha
Maria Margarida Barbosa de Carvalho Pino
Mário Abrantes
Mário Araújo
Mário de Carvalho
Mário Lino
Matilde Bento
Miguel Guimarães
Miriam Halpern Pereira
Modesto Navarro
Nozes Pires
Nuno Luís Silva
Nuno Pereira da Silva Miguel
Nuno Potes Duarte
Óscar Vieira
Osvaldo Osório
Paula Correia
Pedro Borges
Raúl Carvalho
Sara Amâncio
Saúl Nunes
Sérgio Ribeiro
Sérgio Valente
Teresa Dias Coelho
Teresa Tito de Morais
Úrsula da Conceição Farinha
Vasco Paiva
Violante Saramago Matos
Vítor Dias
Vítor Zacarias

 

 
 
 

 

Transferência Bancária

Nome: Quarto Poder Associação Cívica e Cultural
Banco: Montepio Geral
IBAN: PT50 0036 0039 9910 0321 080 93
SWIFT/BIC: MPIOPTPL

 

 

Pagamento de Serviços

Entidade: 21 312
Referência: 122 651 941
Valor: (desde €1)

 

Pagamento PayPal

 

 

Envie-nos o comprovativo para o seguinte endereço electrónico: [email protected]

Ao fazer o envio, indique o seu nome, número de contribuinte e morada, que oportunamente lhe enviaremos um recibo via e-mail.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Portugal, um alvo estratégico da extrema-direita

 
 
 
Da perspectiva da extrema-direita internacional, Portugal representa o elo fraco por onde ela pode atacar a União Europeia.
 
Boaventura Sousa Santos | Público | opinião
 
Vários acontecimentos recentes têm vindo a revelar sinais cada vez mais perturbadores de que o internacionalismo de extrema-direita está a transformar Portugal num alvo estratégico. Entre eles, saliento a tentativa recente de alguns intelectuais de jogar a cartada do ódio racial para testar as divisões da direita e da esquerda  e assim influenciar a agenda política, a reunião internacional de partidos de extrema-direita em Lisboa e a simultânea greve do recém-criado Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas.
 
Várias razões militam a esse respeito. Portugal é o único país da Europa com um governo de esquerda numa legislatura completa e em que se aproxima um processo eleitoral, e é o único onde não tem presença parlamentar nenhum partido de extrema-direita. Será Portugal assim tão importante para merecer esta atenção estratégica? É importante, sim, porque, da perspectiva da extrema-direita internacional, Portugal representa o elo fraco por onde ela pode atacar a União Europeia. O objectivo central é, pois, destruir a União Europeia e fazer com que a Europa regresse a um continente de Estados rivais onde os nacionalismos podem florescer e as exclusões sócio-raciais podem ser mais facilmente manipuláveis no plano político.
 
 
Para a extrema-direita internacional, a direita tradicional desempenha um papel muito limitado neste objectivo, até porque ela foi durante muito tempo a força motora da União Europeia. Daí que seja tratada com relativo desprezo, pelo menos até se aproximar, pelo seu próprio esvaziamento ideológico, da extrema-direita, tal como está a acontecer na Espanha. As forças de esquerda, ao contrário, são forças a neutralizar. Para a extrema-direita, as esquerdas ter-se-ão dado conta de que a UE, com todas as suas limitações, que durante muito tempo foram razão suficiente para algumas dessas esquerdas serem anti-europeístas, é hoje uma força de resistência contra a onda reaccionária que avassala o mundo. 
 
Não se pode esperar da UE muito mais do que a defesa da democracia liberal, mas esta corre mais riscos de morrer democraticamente sem a UE do que com a UE. E as esquerdas sabem por experiência que serão as primeiras vítimas de qualquer regime autoritário. Talvez se lembrem de que as diferenças entre elas sempre pareceram mais importantes quando vistas do interior das forças de esquerda do que quando vistas pelos seus adversários. Por mais que socialistas e comunistas se digladiassem no período pós-Primeira Guerra, Hitler, quando chegou ao poder, não viu entre eles diferenças que merecessem diferente tratamento. Liquidou-os a todos.
 
Não é relevante saber se é isto o que as esquerdas pensam. É isto o que a extrema-direita pensa sobre as esquerdas, e é nessa base que se move. Quem a move? Movem-na forças nacionais e internacionais. São várias e com objectivos que só parcialmente se sobrepõem. Para surpresa de alguns, a política internacional dos EUA é uma delas. Os EUA são hoje um defensor muito condicional da democracia, pois só a defendem na medida em que ela é funcional aos interesses das empresas multinacionais norte-americanas. A razão principal é a rivalidade entre os EUA e China que está a condicionar profundamente a política internacional. O confronto entre dois impérios, um decadente e outro ascendente, exige o alinhamento incondicional dos países aliados de cada um deles ou na sua zona de influência. A Europa fragmentada será um conjunto de países ou facilmente pressionáveis ou irrelevantes (a Alemanha é o único que exige atenção especial). 
 
Mais do que nunca, são os interesses económicos que dominam a diplomacia. Assim, segundo a BBC de 9 de Agosto, os tweets em chinês do Presidente Trump têm mais de 100.000 seguidores entre os dissidentes chineses que consideram o Presidente norte-americano um defensor dos direitos humanos. E certamente o será no contexto da China e porque isso serve os interesses da guerra com a China. Não é por acaso que a China está a culpar os EUA pela onda de protestos em Hong Kong. Mas Trump já não é credivelmente um defensor dos direitos humanos ante os venezuelanos sujeitos a um embargo cruel e devastador que a própria ONU considera uma violação grosseira dos direitos humanos.
 
A extrema-direita conta com três instrumentos fundamentais: aproveitamento da contestação social contra medidas de governos considerados hostis, exploração de idiotas úteis e, no caso de governos mais à esquerda, maximização das dificuldades de governação decorrentes das coligações existentes. Do primeiro caso, talvez sirva de ilustração a greve do Sindicato de Motoristas de Matérias Perigosas. Este tipo de greve pode ter efeitos tão graves que desmoralizem qualquer governo. Tradicionalmente os sindicatos sabem disso, negoceiam forte e ao mesmo tempo sabem até onde podem ir para não pôr em causa interesses vitais dos cidadãos. Não é isto o que tem ocorrido com este sindicato. É altamente suspeita a linguagem radicalizadora do vice-presidente do sindicato (“deixou de ser um direito laboral para ser uma questão de honra”), uma personagem aparentemente arvorada em anjo protector de sindicalistas descontentes. A história nunca se repete mas obriga-nos a pensar. O governo democrático socialista de Salvador Allende, hostilizado pelas elites locais e pelos EUA, sofreu a sua crise final depois das greves de sindicatos de motoristas de combustíveis, precisamente devido à paralisação do país e à imagem de ingovernabilidade que reflectia. Soube-se anos depois que a CIA norte-americana tinha estado bastante activa por detrás das greves.
 
Os idiotas úteis são aqueles que, com as melhores intenções, jogam o jogo da extrema-direita, embora nada tenham a ver com ela. Cito dois. Quando foi da primeira greve do sindicato referido, alguns ingénuos sociólogos apressaram-se a dissertar sobre o novo tipo de sindicalismo não ideológico, exclusivamente centrado nos interesses dos trabalhadores. O contraste implícito era com a CGTP, essa sim considerada ideológica e ao serviço de obscuros interesses antidemocráticos. Se lessem um pouco mais sobre os movimentos sindicais do passado, saberiam que, em muitos contextos, a proclamação da ausência de ideologia política foi a melhor arma para introduzir a ideologia política contrária. Mas os idiotas úteis podem sair donde menos se espera. Um sindicalista que até há pouco muito admirei, Mário Nogueira, comportou-se a certa altura como idiota útil ao transformar as reivindicações dos professores motivo legítimo para fazer demitir o governo de esquerda apoiado pelo partido a que pertence. Este radicalismo, que confunde a árvore com a floresta, serve objectivamente os interesses desestabilizadores da extrema-direita.
 
Finalmente, a extrema-direita sabe aproveitar-se de todas as divisões entre as forças de esquerda, sabe ampliá-las e sabe usar as redes sociais para criar duas ilusões a partir de meias verdades. A primeira é que a maioria dos militantes e de anteriores dirigentes do Partido Socialista são de opinião que o PS sempre se deu melhor com alianças com a direita (o que é falso), não gosta do radicalismo de esquerda (que nunca definem) e que, de todo o modo, livres das esquerdas à sua esquerda, facilmente terão maioria absoluta (o que é improvável). A segunda é que recíprocas fracturas existem nos outros partidos de esquerda, ansiosos por regressar aos seus cantos de oposição e cansados de fazer concessões (o que em parte é verdade).
 
As forças de esquerda em Portugal têm vindo a dar testemunho de um notável bom senso que dificulta as manobras da extrema-direita. Se seguirão neste caminho ou se se renderão às pressões internas e externas é uma questão em aberto.
 
*Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-um-alvo-estrategico-da-extrema.html

Polónia honra colaboradores nazis em Varsóvia

Representantes políticos juntaram-se a veteranos de guerra, este domingo, para render homenagem a uma força paramilitar que, na Segunda Guerra Mundial, colaborou com os nazis.

Representantes políticos, veteranos de guerra e neonazis homenageiam força paramilitar que colaborou com os nazis no final da Segunda Guerra MundialCréditos / The Sydney Morning Herald

Enaltecer e glorificar a acção de grupos armados que colaboraram com nazis alemães na Segunda Grande Guerra e combateram o Exército Vermelho e grupos de partisans comunistas tornou-se algo de comum nos países do Báltico, na Ucrânia, na Polónia.

Este domingo, foi a vez do partido de direita Lei e Justiça, no governo da Polónia, honrar a Brigada das Montanhas da Cruz Sagrada das Forças Armadas Nacionais, por ocasião do 75.º aniversário da sua fundação.

As cerimónias, que começaram com uma missa em honra dos membros do grupo paramilitar de extrema-direita, que combateu partisans soviéticos e comunistas polacos, contaram com o apoio do presidente polaco, Andrzej Duda, e com a presença de representantes do partido no governo, que assim fizeram questão de sublinhar a «reabilitação» dos colaboracionistas com os nazis.

De acordo com a Associated Press, as honras prestadas a uma unidade paralimitar – pelos «sacrifícios feitos em prol da Pátria» – que é louvada actualmente na Polónia por grupos nacionalistas e neonazis enquadra-se na tentativa de o Lei e Justiça apelar ao voto da extrema-direita, a poucos meses das eleições parlamentares, marcadas para Outubro.

No entanto, a mesma fonte relembra que a reabilitação oficial da Brigada das Montanhas da Cruz Sagrada começou em Fevereiro de 2018, altura em que o primeiro-ministro da Polónia, Mateusz Morawiecki, honrou os seus membros num cemitério em Munique, no Sul da Alemanha.

As cerimónias deste domingo em Varsóvia foram criticadas por descendentes dos combatentes da resistência polaca, enquanto opositores à realização da cerimónia realizaram uma acção de protesto, exibindo faixas em que se lia «Não à colaboração» e «Colaborar com o inimigo é traição».

Recorde-se que, ao mesmo tempo que o governo polaco promove a reabilitação das forças fascistas, anti-comunistas e colaboracionistas com os nazis na Segunda Guerra Mundial, leva a cabo iniciativas que visam a criminalização da ideologia comunista e a interdição da actividade dos comunistas polacos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/polonia-honra-colaboradores-nazis-em-varsovia

Da ténue linha entre silêncio e indiferença

A propósito do encontro de organizações da extrema-direita que decorreu em Lisboa este sábado, voltou a circular uma ideia tão errada quanto perigosa. Aquela que, perante determinados acontecimentos controversos ou escolhas perigosas e condenáveis, ou então diante de boatos e de mentiras, considera que o melhor é não falar deles, não tomar uma posição clara e pública, não enfrentar quem os projeta, sendo preferível deixar passar o momento. Justificando-se esse ponto de vista com a errada lógica segundo a qual toda a referência pública que lhes seja feita estará a oferecer publicidade àquilo que não deveria tê-la. Supostamente, sem essa publicidade permaneceriam insignificantes.

Ressalvando casos muito especiais, nunca fui dessa opinião, e atualmente ainda o sou menos. Num tempo em que qualquer grupo ou indivíduo pode ter ampla exposição através das redes sociais e da televisão, quando a «mentira sob forma de verdade» se dissemina como um vírus, defender que os que exprimem posições consensualmente condenáveis – populistas, terroristas, fascistas ou simples criminosos – devem merecer a indiferença pública, é dar-lhes via aberta para se exprimirem na mesma, mas sem barreiras e sem contraditório. Sabendo-se que as redes trouxeram também consigo um enorme auditório de pessoas não habituadas à crítica e à argumentação, com um conhecimento frágil, muitas vezes crédulas, e por isso permeáveis a todas as influências.

Pode dizer-se que o episódio do encontro de extrema-direita foi menos importante do que chegou a pensar-se. Os seus atores refugiaram-se num espaço encoberto e terá congregado menos de cem pessoas. Mas pode isto descansar-nos e dar razão a quem defendeu que não deveria falar-se do assunto? É claro que não dá. Desde logo porque foi a preparação da contramanifestação que tirou aquela gente das ruas e a remeteu à sala do Hotel Sana. Depois porque foi um encontro orgânico, necessariamente reduzido no plano numérico, mas representativo de estruturas muito ativas e em crescimento na Europa. Finalmente porque existem sobejos exemplos da forma como elas estão a emergir com grande impacto, surgindo de um momento para o outro com grande capacidade de intervenção.

É verdade que estas iniciativas devem ser combatidas de forma ponderada, se possível aberta a consensos e na rejeição de posições sectárias, mas de modo algum devem omitir-se e deixar-se sem resposta, fazendo de conta que não aconteceram para não se lhes dar voz, pois é do silêncio assim instalado que se fabricam a ignorância e a indiferença. E, como já foi sobejamente provado no plano histórico, é destes também que em primeiro lugar se alimenta a serpente.

Fotografia: Reuters/Rafael Marchante
 
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/08/12/de-tenue-linha-entre-silencio-e-indiferenca/

Centenas juntos em Lisboa para lembrar que racismo é crime, não opinião

 
 
Protesto coincide com organização de conferência de extrema-direita em Lisboa
 
Centenas de pessoas, perto de quinhentas, segundo a organização, juntaram-se hoje no Largo Camões, em Lisboa, por uma sociedade mais justa, contra os discursos de ódio e para lembrar que racismo não é opinião, mas um crime.
 
A concentração, planeada por 65 organizações antifascistas nacionais e estrangeiras, fez-se na Praça Luís de Camões, por volta das 14h30, mas a manifestação começou algum tempo antes, no Largo do Rossio, pelas 13:00, sendo que entre um sítio e outro estiveram presentes mais de duas mil pessoas, segundo a organização.
 
Na Praça Luís de Camões, mesmo no coração de Lisboa, ouviram-se gritos de ordem contra o líder do movimento de extrema-direita Nova Ordem Social, Mário Machado, contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo que eram visíveis cartazes com frases como "25 de Abril Sempre! Fascismo Nunca Mais!", "Não Passarão" ou "Os imigrantes ficam, saiam vocês".
 
Notícias ao Minuto | Lusa
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/centenas-juntos-em-lisboa-para-lembrar.html

Itália | Partido de Salvini vai apresentar moção de censura ao primeiro-ministro

 
 
O partido italiano de extrema-direita Liga anunciou hoje que vai apresentar uma moção de censura ao primeiro-ministro, Giuseppe Conte, a quem apoiou até agora no âmbito da coligação com o Movimento Cinco Estrelas (M5S).
 
O líder da Liga, o vice-presidente e ministro do Interior, Matteo Salvini, já tinha anunciado na quinta-feira a intenção de abandonar a coligação e pedir eleições antecipadas, dadas as divergências em várias questões.
 
"Demasiados 'nãos' prejudicam a Itália, que precisa voltar a crescer e voltar a votar rapidamente. Quem perder tempo prejudica o país", refere, num comunicado divulgado pelo partido.
 
Salvini exigiu que os senadores e deputados suspendam as férias e regressem a Roma para que o primeiro-ministro constate a sua falta de apoio no parlamento, apresente a sua renúncia e o chefe de Estado, Sérgio Mattarella, convoque novas eleições.
 
Na quinta-feira, Conte acusou Salvini de acabar com a coligação para aproveitar os bons resultados das eleições europeias (em que obteve 34%) e adiantou que vai ao parlamento para pedir explicações.
 
 
Neste momento, o parlamento está fechado, devendo ser marcada uma reunião dos líderes partidários nos próximos dias para marcar a reunião de votação da moção de censura, o que deverá acontecer a 20 de agosto, de acordo com a comunicação social local.
 
Caso Sérgio Mattarella dissolva o parlamento e convoque eleições, estas deverão acontecer num prazo mínimo de 45 dias e máximo de 70, pelo que a campanha deverá ocorrer em outubro.
 
No entanto, Mattarella é abertamente contrário a eleições no outono, período em que o Governo deverá estar a preparar o Orçamento para o ano seguinte, a discuti-lo com Bruxelas e a aprová-lo no parlamento.
 
Um governo cessante, que esteja só a gerir o dia-a-dia, não teria o peso de negociar com Bruxelas e essa situação poderia prejudicar a Itália nos mercados.
 
O chefe de Estado poderia também tentar formar Governo com a atual composição do parlamento, eleito a 04 de março de 2018, designando um Governo técnico e provisório.
Esta opção foi rejeitada tanto pela Liga como pelo M5S.
 
Segundo uma sondagem realizada em 31 de julho pelo instituto Ipsos para o Corriere della Sera e publicada na quinta-feira, a Liga de Salvini obteria 36% dos votos numas próximas eleições gerais e alcançaria 50,6% em coligação com o partido de extrema-direita Irmãos de Itália (7,5%) e o partido de Sílvio Berlusconi Forza Italia (7,1%).
Salvini já anunciou que se apresentará às eleições como candidato a primeiro-ministro.
 
O anúncio de Salvini aumentou o clima de instabilidade da economia italiana -- terceira maior da zona do euro -, tendo os investidores mostrado hoje de manhã a sua preocupação.
 
Logo na abertura dos mercados financeiros, o 'spread' - diferença entre a taxa da dívida italiana e a taxa de referência alemã a dez anos --subia 25 pontos, para 235 pontos.
 
Cerca das 10:30 de Milão (09:30 em Lisboa), a Bolsa daquela cidade estava a cair cerca de 2%, com todo o setor bancário em baixa.
 
O clima de "incerteza tem um preço, que se chama 'spread' e potencial descida da classificação da Itália pelas agências de 'rating'", explicou à agência de notícias francesa AFP o professor universitário Carlo Alberto Carnavale Maffe.
 
Alguns especialistas ouvidos pela AFP admitem que a instabilidade política possa "afundar" a economia italiana, que já no segundo semestre do ano passado registou uma "recessão técnica", e apresentava, até final de junho de 2019, um crescimento nulo no Produto Interno Bruto (PIB).
 
A economia italiana está a ser afetada pela desaceleração que toda a Europa está a viver, pelas tensões comerciais entre Pequim e Washington, mas também pela cautela das empresas, que estão a investir menos.
 
Bruxelas tem pressionando Roma para reduzir o seu défice público criando uma tensão com o Governo italiano, que, entretanto, aceitou reduzi-lo para 2,04% em 2019, em vez dos 2,4% projetados.
 
Salvini criticou Bruxelas e chegou mesmo a classificar o ministro da Economia, Giovanni Tria, como demasiado conciliador face à Comissão Europeia.
 
O ministro do Interior avisou ainda que no próximo Orçamento de Estado, o défice não poderá ficar abaixo de 2%, afirmando que "os dogmas de Bruxelas não são sagrados".
 
"Haverá certamente um confronto com a Europa que só pode ser feito por um Governo e um parlamento legitimados pelos italianos", disse, pedindo ao país que lhe dê uma "clara maioria".
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Foto: © Getty Images
 
Leia também em NM: 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/italia-partido-de-salvini-vai.html

A EXTREMA-DIREITA DOS EUA E A «NATIONAL SECURITY»

 El Paso
O recente massacre em massa de El Paso veio lembrar aos americanos que estes têm muito maiores probabilidades de serem alvejados - no seu país - por um elemento da extrema-direita branca e racista, do que por qualquer fanático islâmico radical. Porém, a simples noção de que a segurança nacional estaria posta em causa por elementos brancos, nacionais dos EUA e radicalizados em grupos de «patriotas» treinando com armas de guerra... ainda não penetrou no subconsciente das pessoas. 
Com efeito, o conceito de «Segurança Nacional» foi construído nos alvores da guerra-fria, sendo expandido como significando lutar contra qualquer ameaça à hegemonia americana no mundo, algo a ser «tratado» pela CIA, a NSA e pelas outras agências de «segurança», que levaram a guerra contra o «comunismo» ou qualquer tipo de ameaça ao «american way of life» aos quatro cantos do mundo. Basta recordar a «Operação Condor» na América do Sul, ou as «redes Gládio», na Europa com suas ligações à extrema direita... 
O facto de que a segurança nacional dos EUA esteja posta em causa por grupos de brancos americanos e fanáticos da bandeira e da simbologia nacionais, nunca foi realmente equacionado.  Timothy Mc Veigh, o bombista responsável pela morte de 168 pessoas em 1995 em Oklahoma City, foi visto como um «terrorista isolado», como uma «aberração». No subjectivismo do público e, pior ainda, nas mentes dos políticos e das forças policiais, que deveriam estar genuinamente preocupados com a segurança do seu povo, Mc Veigh «tinha» que ser um caso isolado, psicopático... 
Outros casos, de assassinos em massa de extrema-direita, têm sido tratados da mesma maneira ao logo destes quase 25 anos, desde os atentados de Oklahoma: em parte, porque a «guerra ao terror» se tem desenvolvido contra países e ideologias islâmicas, o que é visto como sinónimo de pessoas «de cor». Isto, embora o Islão - em si mesmo - não tenha nenhuma conotação rácica ou nacional, mas é assim que o grande público o percepciona. Só para se ter ideia do grau de ignorância e estupidez de alguns fanáticos, logo após os atentados do 11 de Setembro de 2001, muitos homens da comunidade Sikh foram perseguidos e agredidos por causa do turbante que usam, confundidos com «árabes», pelas pessoas ignorantes.
Está aqui em jogo o problema seguinte: a verdadeira ameaça interna, as verdadeiras forças de desagregação, de subversão e de crime organizado nos EUA, têm ficado impunes, não têm sido criminalizadas, porque a mentalidade instituída com a Guerra Fria e depois com a «guerra ao terror» veio designar, respectivamente, como inimigos «comunismo» e  o «islamismo radical».  As gerações sucessivas, sujeitas a lavagem ao cérebro, ao condicionamento, incluem evidentemente os próprios políticos e forças do aparato de segurança. Estes têm sido responsáveis pela difusão dessa crença de que determinada ideologia e os seus adeptos, são inimigos dos EUA e que é dever «patriótico» persegui-los, em qualquer parte do mundo.
Para grande parte do público americano de hoje, foi disso que se tratou, quando as forças americanas intervieram na Coreia, no Vietname, na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, etc...
A incapacidade de tomar a sério a ameaça das milícias de extrema-direita «patrióticas», que desenvolvem as suas actividades, sem dificuldade alguma, tem a ver com a forma como o conceito de «segurança nacional» foi construído ao longo de mais de 70 anos. 
A Europa, até a parte mais alinhada com os EUA, não tem a mesma insensibilidade ao fenómeno da criminalidade política de extrema-direita.  Muitos países europeus foram sujeitos a regimes deste tipo, as ditaduras de Salazar (Portugal), de Franco (Espanha), de Hitler (Alemanha) e Mussolini (Itália). Igualmente, muitos outros países tiveram regimes inspirados e aliados destes. Existe uma memória colectiva dos fascismos, embora em vias de se perder e cheia de equívocos.  Nos EUA nada disso ocorre, pois os fascismos foram sempre fenómenos exteriores, até mesmo aqueles instalados pelos próprios EUA, na sequência de golpes na América Latina.
Podemos, no entanto, compreender a extensão do fracasso do papel  que os poderes dos EUA, que controlam a força militar, policial ou de espionagem e contra-espionagem.  Na verdadeira defesa do povo americano, têm falhado repetidamente, por mais que o disfarcem!  A razão principal, num falhanço desta monta, também está à vista: trata-se da ideologia de «segurança nacional» que impregnou de anti-comunismo as instituições a seguir à 2ª Guerra Mundial, assim como a «cruzada» anti-islâmica e anti-árabe após o 11 de Setembro 2001.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

NATO e nazismo, uma irmandade

O imperialismo ocidental e o seu braço armado, a NATO, têm nos fascistas um aliado preferencial. Se no momento actual a expressão mais visível desse facto é o apoio, a promoção e a entrega do poder a bandos fascistas no Kosovo, na Ucrânia ou no Báltico, e também ao fascismo “islâmico”, convém não esquecer que o Portugal de Salazar figura entre os fundadores da NATO, e que nos seus corredores sempre foram visíveis numerosos nazis repescados.

Que haverá de comum entre um grupo armado formado por membros das Waffen SS em Estados bálticos, designado Irmãos da Floresta, o regimento Azov da Guarda Nacional ucraniana, o emir do Daesh no Magrebe, de seu nome Abdelhakim Belhadj, e o mistério do armamento sofisticado descoberto recentemente num santuário neonazi em Turim, Itália?

Por muito que seja considerada inadmissível pela comunicação mainstream e seus fiéis seguidores, a resposta é: NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte.

É a linguagem objectiva dos factos. E se contra factos pode haver quantos argumentos quiserem, todos eles serão rejeitados pela mais transparente realidade. As circunstâncias citadas têm em comum, sem dúvida, o culto do nazi-fascismo e, de uma maneira ou de outra, estão igualmente interligadas pela acção, protecção ou propaganda da NATO.

Vamos então a factos.

Os Irmãos da Floresta

A Segunda Guerra Mundial entrava na sua fase final quando foram criados os Irmãos da Floresta, grupos armados anticomunistas nascidos na Estónia, Letónia e Lituânia. Os membros, na sua maioria, foram recrutados entre os destacamentos locais das Waffen SS, integrados no aparelho de guerra hitleriano que tentou ocupar a União Soviética. Na Estónia, por exemplo, estes terroristas faziam juramento de fidelidade ao Fuhrer1.

Com a cumplicidade de serviços de espionagem de países ocidentais – nessa altura, formalmente em aliança com o lado soviético – os Irmãos da Floresta, ex-Waffen SS, foram reciclados como tampões contra o avanço do Exército Vermelho para Oeste depois de este ter vergado o nazismo na decisiva e sangrenta batalha de Estalinegrado.

Em suma, os Irmãos da Floresta, tal como os destacamentos bálticos das Waffen SS, tinham como missão, de facto, impedir que os soviéticos esmagassem completamente os nazis – o que também significava travar a libertação dos seres humanos que ainda sobreviviam nos campos da morte hitlerianos2.

Pois os Irmãos da Floresta são agora glorificados como heróis de uma gesta democrática, através de um documentário da NATO inserido no seu espaço de propaganda noYouTube. São oito minutos e alguns segundos de pura heroicidade ao melhor estilo de Hollywood, durante os quais os feitos dos Irmãos da Floresta são apresentados como inspiradores das forças especiais das repúblicas bálticas que agora «estão na linha da frente» contra a temível «ameaça russa». Afinal, hoje como ontem, explica-nos a NATO.

é pena que os propagandistas da aliança não tenham podido dedicar um segundo sequer às origens hitlerianas e terroristas da gloriosa irmandade – certamente por falta de tempo. Que outras razões haveria para esconder uma matriz tão inspiradora?3

O regimento Azov

Dos Estados bálticos para a Ucrânia, dos Irmãos da Floresta dos anos quarenta para o actual e activo regimento Azov, um bastião da «pureza rácica» ucraniana, como estipula o seu fundador, Andriy Biletski, aliás o «Fuhrer Branco». Pretende assim que os genes dos seus compatriotas «não se misturem com os de raças inferiores», cumprindo «a sua missão histórica de comandar a Raça Branca mundial na sua cruzada final pela sobrevivência».

Ao contrário do que possam pensar, isto não é folclore nem delírio sob efeito de qualquer fumo. O grupo nazi designado Batalhão Azov, e outros do género, receberam treino de instrutores norte-americanos e da NATO e foram decisivos no êxito do golpe «democrático» de 2014 na Praça Maidan, em Kiev. Depois disso, foram transformados em regimentos integrados na Guarda Nacional, o novo corpo militar nascido da «revolução» e que se tornou a guarda pretoriana do regime fascista patrocinado pela Aliança Atlântica, os Estados Unidos e a União Europeia4 .

O regimento Azov e outros grupos neonazis, inspirados pela figura de Stepan Bandera, um executor do genocídio hitleriano contra as populações ucranianas, tornaram-se corpos fundamentais na agressão do actual regime contra as populações ucranianas russófonas da região de Donbass.

Os membros do regimento Azov orgulham-se de posar com as bandeiras nazi e da NATO, dando-se assim a conhecer ao mundo.

A gratidão é uma atitude que nunca fica mal. Mesmo aos nazis.

Sob o regime actual em Kiev, a Ucrânia tornou-se, de facto, membro da NATO. Trata-se, como nos Estados bálticos, de combater a terrível «ameaça russa». Para executar tão nobre missão até o nazismo engrossa as hostes da «democracia».

Abdelhakim Belhadj

Embora desempenhando, desde 2015, a tarefa mais recatada e menos mediática de emir do Daesh, ou Estado Islâmico, no Magrebe, Abdelhakim Belhadj não desapareceu como figura de referência das transformações «libertadoras» que galoparam pelo Médio Oriente e Norte de África sob as exaltantes bandeiras das «primaveras árabes».

Abdelhakim Belhadj, para quem não se recorda, foi um dos chefes terroristas islâmicos que contribuíram, em aliança com a NATO, para «libertar a Líbia» do regime de Khaddafi. Houve-se tão bem da missão que a aliança fez dele «governador militar de Tripoli» logo que as hordas fundamentalistas tomaram a capital líbia.

Quando ainda mal aquecera o lugar, a tutela atlantista enviou-o para a Síria formar o «Exército Livre», o grupo terrorista «moderado» no qual os Estados Unidos e os seus principais parceiros da NATO apostaram inicialmente todas as fichas com o objectivo de «libertar Damasco».

Abdelhakim Belhadj recebeu honrarias dos Estados Unidos, outorgadas pelo embaixador na Líbia e pelo falecido senador McCain, então movendo-se febrilmente entre a Líbia, a Síria e a Ucrânia, onde foi um dos principais timoneiros do golpe de Maidan e das suas frentes nazis.

A partir de 2015, segundo a Interpol, Belhadj tornou-se emir do Daesh – o tão proscrito Estado Islâmico – no Magrebe.

Porém, cada vez que algum jornalista a sério mexe em acontecimentos da história recente arrisca-se a encontrar-se com a figura de Belhadj. Foi o que sucedeu com profissionais do jornal espanhol Publico: ao investigarem o envolvimento dos serviços de informações de Madrid (CNI) no atentado terrorista de 11 de Março de 2004, que provocou 200 mortos, depararam com outras situações que dizem muito sobre o tipo de «democracia» em que vivemos.

Segundo o próprio chefe do governo espanhol da época, José María Aznar – invasão do Iraque, lembram-se? –, Abdelhakim Belhadj foi um dos estrategos do atentado, embora nunca tenha sido preso nem julgado.
O curioso é que o atentado começou por ser atribuído à ETA e depois à al-Qaida; e que a maior parte dos operacionais detidos eram informadores dos serviços secretos espanhóis.

Mais curioso ainda é o facto de o tema do exercício europeu CMX 2004 da NATO, que decorreu de 4 a 10 de Março, tenha sido precisamente o da simulação de um atentado com as características do que aconteceu em 11 de Março na capital espanhola. «A semelhança do cenário elaborado pela NATO com os acontecimentos ocorridos em Madrid provoca calafrios na espinha e impressionou os diplomatas, militares e serviços de informações que participaram no exercício apenas algumas horas antes», escreveu o jornal El Mundo, inconformado com a tese que acabou por ficar para a história: atentado cometido por uma rede islamita sem ligações à al-Qaida.

Entre as névoas do caso avultam, porém, algumas circunstâncias que é possível focar: a declaração de Aznar envolvendo Abdelhakim Belhadj, que se revelou vir a ser uma aposta da NATO antes de ter ascendido ao topo do Estado Islâmico no Magrebe; e os dons proféticos desta mesma NATO, concebendo um tema para exercícios que se tornou realidade menos de 24 horas depois.

O santuário nazi de Turim

Há poucos dias, a polícia italiana descobriu um arsenal de armamento num santuário nazi em Turim, Itália.
O que à primeira vista poderia ser mais um armazém de velhas e nostálgicas recordações dos fãs do Fuhrer mudou de figura quando foram desembalados alguns sofisticados mísseis que não costumam estar ao alcance de pequenos e médios traficantes de armas.

Diz a imprensa italiana que os investigadores do caso seguiram pistas que conduziam até aos grupos nazis ucranianos mas não obtiveram dados consistentes. E provavelmente não encontrarão esses e outros elementos: a verdade é que as notícias sobre o assunto quase desapareceram. O caso é um nado-morto.
Já as redes clandestinas formadas pela NATO, do tipo Gládio, não estarão mortas, desafiando todas as propagandas, como recordaram alguns jornalistas italianos.

A história do arsenal está mal contada e, previsivelmente, será arquivada com celeridade; já o apoio da NATO aos grupos nazis ucranianos não suscita dúvidas: os próprios beneficiários o confessam. Porém, não é um auxílio que deva ser feito aos olhos de todos, tratando-se da NATO, uma aliança que existe para «defender a democracia» – a NATO só defende, nunca ataca, como se sabe. A verdade é que desde que passou de batalhão a regimento da Guarda Nacional o grupo terrorista Azov foi equipado com armas pesadas, incluindo tanques, que chegaram de algum lado. Talvez agora seja a hora dos mísseis, quem sabe? Ainda recentemente as forças policiais italianas e o regimento Azov assinaram um acordo de cooperação desbravando novos caminhos.

É provável que todas estas relações dêem os seus frutos; é improvável, porém, que cheguem ao conhecimento dos cidadãos comuns, tal como o desfecho do mistério dos mísseis nazis de Turim.

A grande irmandade

Irmãos da Floresta, regimento Azov, Abdelhakim Belhadj, o Estado Islâmico e o terrorismo «moderado», fornecimento clandestino de armamento sofisticado.

Não é necessário escavar muito estas histórias, casos e mistérios para tropeçarmos na associação entre a NATO e os nazi-fascismos, duas correntes que, a acreditar na propaganda oficial, deveriam ser como a água e o azeite.

Afinal não. Trata-se de uma fluida cooperação nos tempos em que se fala no risco de uma nova guerra mundial e que traz raízes consolidadas na altura em que o anterior conflito ainda não tinha acabado.

É, como se percebe, uma grande e frutífera irmandade. Factos são factos.

1.Note-se que os teóricos nazis atribuíam desde os anos 30, na sua propaganda, o estatuto de «raça superior» aos povos estónio e letão, facilitando a formação dos sanguinários esquadrões da morte bálticos integrados nas Waffen SS, tão ou mais temidos pelos povos e etnias que viviam no território soviético ocupado pela Alemanha nazi do que os próprios alemães.
2.No período posterior à derrota hitleriana no Báltico os Irmãos da Floresta mantiveram-se activos até meados da década de 50. Actualmente, os próprios admiradores destes colaboradores nazis no Báltico reciclados reconhecem o carácter terrorista dos seus heróis, como é fácil de confirmar através do volume de baixas soviéticas nos anos de 1944-1958 no Báltico: mais de 25 mil civis foram assassinados e muitos torturados antes de executados, enquanto os polícias que combatiam os Irmãos da Floresta tiveram quatro mil baixas. Outro pormenor menos ventilado é que o maior apoio interno daquelas organizações provinha dos poderosos e ricos latifundiários da região, que tinham um profundo ódio aos camponeses que os tinham expropriado durante os anos da Revolução Russa. Após a deportação para a Sibéria, no final dos anos 40, da maioria dos grandes proprietários de terras no Báltico, a actividade dos Irmãos da Floresta decaiu consideravelmente, apesar de todos os esforços da CIA e dos serviços secretos britânicos para reactivá-los. O golpe final foi dado após a amnistia concedida pelas autoridades soviéticas após a morte de José Estaline, em 1953. O leitor terá de procurar em língua russa (mesmo que em sítios como a insuspeita Rádio Liberdade, financiada pelo governo americano) as fontes documentais sobre este assunto, visto os websites do Ocidente serem consideravelmente parcos a respeito destes dados e optarem habitualmente por uma visão puramente apologética dos Irmãos da Floresta, escondendo a sua verdadeira natureza.
3.Neonazis e veteranos da Waffen-SS voltaram a marchar em Riga em Março de 2019, como denunciou o AbrilAbril em artigo publicado na altura.
4.O regimento Azov [ou «Batalhão Azov», ou muito simplesmente «Azov»] é uma organização paramilitar criada em 2014, durante os protestos da praça Euromaidan e do golpe de Estado que lhe foi subsequente. É enquadrado e remunerado pelo Ministério do Interior da Ucrânia como um dos membros da chamada Guarda Nacional, que confere poderes estatais a este e outros grupos fascistas ucranianos. Originalmente fundado como um grupo paramilitar voluntário, é acusado de ser uma organização neonazi e neofascista, além de estar envolvido em vários casos de abusos de direitos humanos e crimes de guerra leste da Ucrânia, principalmente em casos de torturas, estupros, saques, limpeza étnica e perseguição de minorias como homossexuais, judeus e russos. O Azov tem ligações a grupos nazi-fascistas internacionais, como em Itália ou no Brasil onde recruta combatentes na guerra que move contra as populações do Donbass, no leste da Ucrânia.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/nato-e-nazismo-uma-irmandade

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

De ontem

«A grande catástrofe não pertence ao passado. É apenas de ontem. Da minha geração. Quando o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau foi libertado, eu era menino, tinha 3 anos de idade. Ontem faz parte das nossas vidas. A grande catástrofe é de hoje.
Os racistas e xenófobos de hoje, que querem reunir-se em Portugal no próximo dia 10, trazem tatuada, nas t-shirts e na pele, a glorificação dos assassinos de ontem. Enquanto tivermos memória podemos, e devemos, combater com todas as nossas forças qualquer tentativa de fazer reviver o crime que dá pelo nome de Shoah, Holocausto, Catástrofe, Genocídio...
Uso, preferencialmente, Shoah, mas o nome não é o mais importante, porque nenhum nome será capaz de dizer plenamente a parte da nossa História contemporânea em que milhões de pessoas foram não só eliminadas fisicamente, mas também privadas da sua identidade e da sua humanidade.
Não está em causa, apenas, o imperativo dever de não esquecer a Shoah, mas algo mais: está em causa o imperativo ético e político de “tornar presente o que não é da ordem da presença”, como escreveu Jean-Luc Nancy, de tornar visível o que o nazismo de ontem – que o nazismo de hoje pretende comemorar – quis manter invisível.
Para dizer a trágica experiência da Shoah, é pois necessário recorrer a todas as formas possíveis de memória e resistir a toda a reemergência e difusão da ideologia nazi. Sob pena de renunciarmos às nossas responsabilidades perante a História.
Quase oito décadas depois da libertação dos campos da morte continuamos a ser contemporâneos da Shoah e de todas as suas vítimas.» Abílio Hernandez (facebook)

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

"O bolsonarismo é o neofascismo adaptado ao Brasil do século 21"

por Manuel Loff
entrevistado por Ricardo Viel

Manuel Loff. Manuel Loff tinha nove anos quando um grupo de capitães e soldados portugueses, cansados de serem mandados à África para uma guerra sanguinária contra os movimentos de libertação das colônias, derrubou uma ditadura que já durava 41 anos – a mais longeva da Europa. A lembrança mais viva que tem daquele dia 25 de abril de 1974, quando a Revolução dos Cravos colocou fim ao regime salazarista (fundado por António de Oliveira Salazar), é do irmão, que tinha 14 anos, bêbado, a gritar: "Já não vou para a guerra!".

Há pouco tempo uma amiga de infância fez Loff recordar que com 10 anos ele escreveu e dirigiu uma peça de teatro para ser encenada pelos colegas da escola. O tema era os últimos dias de Hitler no bunker. "A mim próprio me surpreende, não sei como cheguei até lá com essa idade", confessa. Quando era criança, o pai lhe contava histórias sobre a Guerra Civil Espanhola. Ainda garoto, ia a bibliotecas tomar emprestados livros sobre as Grandes Guerras e pedia de presente de Natal obras sobre o nazismo. Hoje, aos 54 anos, é um dos historiadores mais respeitados em Portugal quando o assunto são regimes autoritários, em especial como o salazarismo e o franquismo. É autor de vários livros, entre eles O nosso século é fascista (2008) e Ditaduras e revoluções (2015) – nenhum deles publicado no Brasil.

Atualmente divide o seu tempo entre Portugal, onde é professor associado do Departamento de História e Estudos Políticos e Internacionais da Universidade do Porto e pesquisador no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e Espanha, onde realiza parte da sua investigação. É doutor pelo Instituto Universitário Europeu, em Florença, na Itália, e colabora com várias universidades e centros de investigação europeus e americanos. Também escreve com frequência para jornais e revistas portugueses. Acompanha com atenção e preocupação o crescimento da extrema direita no mundo. Não hesita em classificar o governo de Jair Bolsonaro como representante do neofascismo. "O discurso que tem sobre os movimentos sociais e políticos que se lhe opõem, sobre as mulheres, as minorias étnicas, a família, a nação, o Ocidente configura um neofascismo adaptado ao Brasil do século 21", resume. Leia abaixo a entrevista.

Você estuda há mais de 30 anos os regimes autoritários. Quando olha para a extrema direita do século passado e a de agora, quais diferenças vê?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que já havia extrema direita antes do fascismo: desde o início do século 19 havia uma extrema direita antiliberal e contrarrevolucionária, mas era muito elitista. A extrema direita fascista, que é mais moderna, nasce a partir do fim da Primeira Guerra Mundial – como nasce a esquerda radical também. Depois de 1945, há um primeiro ciclo da extrema direita em que, em grande parte dos países europeus, ela, embora presente, é ilegalizada. Por exemplo, logo a partir de 1947 na Alemanha há partidos da extrema direita, com vários nomes, e só um deles é ilegalizado. É a geração dos nostálgicos e daqueles que se organizavam, em grande parte clandestinamente, para tentar salvar da Justiça muita gente que era procurada. Portanto, a extrema direita de 1945 até 1968, mais ou menos, é de uma geração que viveu a Segunda Guerra Mundial, viveu os regimes fascistas italiano, alemão e os movimentos fascistas de toda a Europa. Depois há uma segunda geração que, como evidentemente a esquerda dos anos 60, é diferente da anterior, que aprendeu várias das lições do passado. Por exemplo: abandonou o discurso abertamente racista para passar a um discurso culturalista. Desde a libertação de Auschwitz, em 1945, o racismo perdeu um enorme espaço, embora esteja presente, não pode ser assumido. Hoje, os racistas dizem que a sua incompatibilidade com as minorias é de natureza cultural.

Você concorda com a ideia de que a extrema direita vem crescendo em poder e importância desde o começo dos anos 1970 no mundo?

Bom, a derrota do nazifascismo foi uma grande derrota da cultura política da direita e significou, mais do que em qualquer momento político na história, uma virada à esquerda do ponto de vista social, da cultura política e do triunfo dos valores da esquerda em torno da democracia e de uma versão da democracia que exigia uma certa distribuição da riqueza e bem-estar social. Tanto que a maioria dos Estados capitalistas do Ocidente "rico", que se chamava a si próprio desenvolvido, adotaram essas políticas de natureza social.

E havia uma ideia de que esses direitos individuais e coletivos eram um bem adquirido que não seriam perdidos…

Evidentemente. O que vemos hoje é um ataque a toda lógica redistributiva das políticas sociais. Estão, por exemplo, as propostas de flat tax, como agora chamam na Itália, de que todos pagam rigorosamente a mesma coisa… A primeira versão de uma extrema direita com sucesso na Europa foi na Escandinávia: antes de atacar a imigração, focou-se contra o Estado de bem-estar social, pelo peso dos impostos. O seu primeiro alvo foram os mais pobres, dizendo que se estava a criar uma classe de preguiçosos que não querem trabalhar, para depois passarem a dizer, com mais sucesso, que os imigrantes vinham para "mamar da teta" do Estado de bem-estar social. Obviamente, invertendo tudo, pretendendo ignorar que qualquer comunidade de imigrante, de não nacionais, em qualquer sociedade, é em média muito mais jovem do que a média daquela sociedade e trabalha muito mais e ganha muito menos, portanto contribui incomparavelmente mais para a produção de riqueza e para a segurança social.

E qual é o momento atual da extrema direita mundial?

A partir dos anos 70 e 80, sobretudo a partir da consolidação da tese do choque de civilizações, a extrema direita toma Israel como vanguarda do Ocidente na luta contra o Islã e abandona o antissemitismo, que passou a ser um componente claramente minoritário no seu discurso. O alvo passa a ser a imigração, sobretudo se ela é muçulmana. E isso permite juntar o Sul do mundo com uma característica que, para a extrema direita, do ponto de vista identitário, é central, que é a religião. Porque a extrema direita nunca abandonou uma descrição do Ocidente branco e cristão que colonizou o resto do mundo – hoje, visto como um Ocidente judaico-cristão herdeiro das duas religiões monoteístas do Livro Sagrado. Isso é particularmente visível nas Américas, particularmente nos EUA e no Brasil, por via das novas igrejas pentecostais e evangélicas que deram uma virada de 180 graus na visão que tinham dos judeus.

Edir Macedo, para essa aproximação com Israel, mudou até de visual, adotando barba e quipá…

Essa é, portanto, uma das evoluções da extrema direita. Ela tende a abandonar a dimensão do discurso negacionista do Holocausto, sabe que tem que o fazer, e concentrar-se no novo inimigo, o Islã. Esse racismo culturalista permite criar uma plataforma de convergência de todas as sensibilidades reacionárias que descrevem a imigração, o imigrante, como "o outro", e atrai muita gente que não partilha, ou não partilhava, muitas outras das bandeiras da extrema direita. E depois soma-se um outro ponto, que é muito visível no caso latino-americano – e nesse sentido o bolsonarismo é a versão mais completa e mais despudorada da extrema direita –, que é o do discurso da ditadura cultural marxista. Nesse ponto o bolsonarismo é mais Steve Bannon [estrategista da campanha política de Donald Trump em 2016 e conselheiro informal da campanha de Bolsonaro] que o próprio Trump.

Por quê?

A partir da tese de que há uma ditadura cultural marxista da esquerda, a extrema direita, numa escala internacional, avança com a explicação de que aquela se teria imposto através da escola pública. O que significa que a universidade e a escola pública seriam formadoras de esquerdistas. No fundo, com essa tese, eles atacam todas as ciências sociais, tudo quanto dizem a sociologia, a antropologia e a história. E no Brasil levou-se isso muito mais longe politicamente, e com mais eficácia, com o movimento Escola Sem Partido, cuja tese é de que todas as ciências sociais são engajadas, militantes, e portanto nenhuma delas é objetiva. Todas elas pretenderiam, desde há décadas, minar os fundamentos da natureza, da comunidade, da ordem social: a família, a pátria, a nação etc. Há ainda outra coisa que é muito visível no discurso do Bolsonaro, e também no do Trump, que já existia com Berlusconi, que é o papel das mulheres na sociedade. Já nem digo o universo LGBT, o mundo gay, mas particularmente as mulheres. É a tese de que todo feminismo é radical, todo feminismo é uma invenção da ditadura cultural da esquerda e o único que pretende é legitimar uma "ofensiva contra Deus", como diria o ministro das relações exteriores do Bolsonaro. E, segundo eles, qual é a melhor forma de se agredir a Deus, e a ordem social e a família? Transformando o papel da mulher nas famílias e criando novas formas de família. E a extrema direita brasileira levou isso muito mais longe, não acho que do ponto de vista da formulação teórica, mas com muito mais sucesso do que noutro país.

Você defende a tese de que o mundo vive uma "transição autoritária" desde o 11 de Setembro de 2011. E o Brasil, em que ponto estaria nesse caminho até o fim da democracia?

O Brasil é dos casos mais avançados, porque a agenda política do governo atual inclui um programa aberto, explícito, de repressão e intimidação dos adversários, ameaça de ilegalização do maior partido da oposição, repressão sobre os movimentos sociais e ameaça de detenção de dirigentes políticos da oposição. E ainda que isso não se concretizasse… Bem, o Lula está preso, o Fernando Haddad ainda não, mas houve uma ameaça nesse sentido; Bolsonaro disse abertamente que ele deveria ser preso e o PT, ilegalizado.

E disse que as alternativas eram exílio ou fuzilamento…

Exatamente. As sociedades autoritárias não são simplesmente aquelas em que o Estado é autoritário, mas também a sociedade é autoritária. O que está a acontecer é uma intimidação sobre os adversários que vai reduzir a capacidade de manobra das oposições sociais e da resistência social – potencialmente é assim, agora falta ver os dados da realidade.

Isso é próprio de um Estado neofascista?

Isso é próprio de um Estado em transição para o autoritarismo que pode ou não reunir todas as características clássicas do fascismo. Mas isso é como a democracia, eu pergunto: os Estados em que nós vivemos são puramente democráticos? O Estado português é puramente democrático? Eu tenho muitas dúvidas em relação a isso. Quando falamos de regimes fascistas e regimes democráticos, falamos de processos de construção permanente da democracia e também do fascismo. A transição autoritária começa quando se degrada a democracia. E quando é que termina? Termina quando já não há democracia. Falta agora estabelecer se já não há democracia no Brasil.

Quem defende que o governo do Bolsonaro não é fascista diz que é impossível que haja 50 milhões de fascistas no Brasil.

Exatamente, e era impossível que na Alemanha, em 1933, existissem 17 milhões de nazistas…

Mas eu penso na frase que você escreveu num artigo recentemente: "O regime fascista não se sustenta só com fascistas".

Nunca, em momento nenhum da história ele nasceu ou se consolidou apenas com fascistas.

Portanto, no Brasil não há 50 e tantos milhões de fascistas, mas há um percentual grande da população que tolera, aceita ou não se levanta contra isso.

Claro. Todas as soluções autoritárias se sustentam mais sobre o apoio, sobre a intimidação e o medo, ou a indiferença, dos demais. Em todas as soluções autoritárias há uma economia da violência, não se exerce violência sobre todos. E normalmente, quando se exagera, quando se perde o controle do exercício da violência, a reação pode ser demasiado forte e pode provocar, por exemplo, uma guerra civil e a derrota do regime opressor. A indiferença é tão central na sustentação de um regime quanto é o nível de apoio. É totalmente a-histórico e associal imaginar soluções políticas, por mais totalitárias que elas fossem, apoiadas por 100% ou 99% das pessoas. Elas só sobrevivem se tiverem uma minoria muito escassa e sem apoio, ou sem suficiente apoio, que lhe resista e sobre a qual se possa exercer essa repressão "econômica". E precisa de ter um nível suficiente de apoio, que até pode ser muito reduzido, desde que haja uma grande maioria de indiferentes ou intimidados. Era entre estes que, durante a ditadura em Portugal, se escutava a frase "a minha política é o trabalho".

Você considera que o governo Bolsonaro tem características suficientes para ser chamado de fascista ou neofascista?

O fascismo não se impõe, como disse, da noite para o dia: o programa do governo Bolsonaro é socialmente tão reacionário e, na sua tentativa de fundir os interesses das direitas políticas e econômicas do Brasil, tão ambicioso que deverá avaliar da necessidade de usar uma violência institucional, paralegal, que está fora do alcance de qualquer governo democrático. Se não hesitar em usá-la, a prática será muito próxima da abordagem fascista. O discurso que tem sobre os movimentos sociais e políticos que se lhe opõem, sobre as mulheres, as minorias étnicas, a família, a nação, o Ocidente configura um neofascismo adaptado ao Brasil do século 21.

Voltando à questão do ataque aos movimentos feministas, essa resposta abertamente machista, de um discurso de retomada de poder, é uma das características desse novo fascismo?

Há uma evidente falocracia e um neopatriarcalismo em tudo isto. A extrema direita raramente assume abertamente a defesa da desigualdade social e política entre homens e mulheres: limita-se a defender o que era a família tradicional. Muitos dos discursos que a extrema direita tem desde 1945 são discursos que transformam o perpetrador numa vítima. Por exemplo, os ex-combatentes de guerras ofensivas perpetradas por vários países ocidentais em vítimas da própria guerra; no Brasil, transformaram os militares que torturaram em vítimas da guerrilha da esquerda, da mesma forma como nos EUA transformaram os combatentes da Guerra do Vietnã em vítimas dos vietnamitas. A mesma coisa é feita com os homens hoje, como se faz com o patrão que é vítima do empregado que não trabalha e está poderosamente defendido por um sindicato, o patrão esmagado pelo Estado que lhe rouba os impostos. Reinventa a organização da sociedade e inverte tudo: o homem, afinal, é que é vítima das mulheres feministas, o empregador é vítima do empregado… E desta forma recupera como vítimas da contemporaneidade, da democratização das relações sociais, aqueles que eram/são os grupos dominantes.

Se na Europa a extrema direita usa a "ameaça" da imigração para fomentar o discurso do medo e ganhar votos, no Brasil o demônio é o comunismo, embora eles aparentemente nem sabem muito bem o que é e quem seja comunista.

Mas sabem porque usam o comunismo. É muito revelador no bolsonarismo, logo desde a sua primeira versão antipetista, como recuperaram toda a linguagem anticomunista dos anos 60 e 70. O Brasil tem dois partidos comunistas, o velho Partidão e o PCdoB, que são comparativamente menores em relação a outros países, e foram aliados menores do PT no poder. Será tudo, menos razoável, dizer que há uma "ameaça comunista" no Brasil – ao contrário do que aconteceu em Portugal, em que estiveram no poder, na França, até na Espanha, em que em determinadas regiões governaram. E ainda assim, eles recuperam diretamente o velho discurso anticomunista. É, também, uma questão de memória, e isso tem um significado particular porque eles sabem que ainda funciona.

E esse ataque às universidades também não é uma coisa nova, verdade?

Todos os Estados autoritários atacam as universidades. Todas as fórmulas políticas, e sobretudo quando se transformam em Estado, querem ter os seus instrumentos de formação e de enquadramento – e as escolas e universidades são alguns deles – e querem ter, ao mesmo tempo, uma bolsa de intelectuais orgânicos que consigam formular, com um discurso relativamente erudito e outro, mais aberto, voltado às massas, aquilo que é a sua ideologia. Se lermos as intervenções espontâneas do Bolsonaro, e mesmo os discursos redigidos, aquilo é de uma grande pobreza de construção. Pode ter um grande sucesso dizer coisas como "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", é verdade, mas é pobre.

É importante, portanto, controlar o pensamento crítico nas escolas e universidades…

O que hoje a extrema direita faz atacando a universidade e a escola pública já tem 200 anos, existe desde as revoluções liberais no final do século 18, início do 19, quando se criam os sistemas públicos de educação. Foi quando o Estado veio dizer que a educação é uma tarefa do Estado e dever dos cidadãos, retirou o monopólio da pouca educação que havia das mãos das igrejas e entrou diretamente num campo, o da formação moral doutrinária, que as igrejas tinham para si próprias. Antes de as extremas direitas do século 20 atacarem a educação pública, já a Igreja havia atacado a educação pública no século anterior. As direitas descreveram o Estado da forma como as igrejas sempre fizeram, acusando-o de querer doutrinar as crianças e roubá-las das famílias – depois de as igrejas terem querido ensinar às crianças tudo sobre a família, sobre identidade de gênero, sobre sexualidade, ordem e obediência. Essa disputa de hegemonia através da educação entre os Estados liberais, e depois democráticos, e as igrejas hoje é reproduzida pela extrema direita que acusa todas as ciências sociais, todas as humanidades de terem uma versão abertamente ideológica. Diga-se de passagem que isso só tem sucesso porque uma grande parte da sociedade também pensa dessa forma. Eu vivo rodeado de gente que entende que o que disserem as ciências tecnológicas e exatas é mais ou menos indiscutível, mas o que diz a ciência social não é especializado; que o que eu, um historiador, disser, ou um antropólogo ou sociólogo, é sempre opinião.

O discurso do governo atual no Brasil é de que a formação deve seguir uma lógica utilitária e que cursos como filosofia e sociologia não trazem retorno para a sociedade.

Em Portugal, até o final da ditadura salazarista, não havia sociologia, antropologia ou psicologia na universidade. Em todos esses casos só havia curso nas escolas de formação de funcionários coloniais. Uma visão utilitarista. Aliás, as primeiras ciências sociais do século 19 nascem para ajudar a dominação, para o conhecimento dos povos colonizados. Aconteceu também no Brasil, era para conhecer os indígenas. De repente, quando a ciência passou a ser um instrumento de emancipação, os detentores da ordem passam a não gostar dela e entender que ela é pecaminosa, blasfema ou, na sua versão no século 20/21, militante. Desde Galileu foi assim. Ou seja, tudo o que eu investigo, interpreto e concluo com uma metodologia científica da interpretação da realidade é simplesmente um discurso que sustenta uma ideologia.

A velha batalha fé versus ciência.

Para esta extrema direita religiosa, o que conta é o texto sagrado, é uma descrição da natureza feita a partir do sagrado, e que é imutável. Esse debate tem milhares de anos. E, portanto, este ataque não é novidade nenhuma, e digamos também que não é exclusivo da extrema direita. Mas é muito grave o que se está passando agora: o neoliberalismo começou a reverter uma política de investimento na educação que vinha desde os anos 40, desde o fim da Segunda Guerra, em vários países ocidentais, e entra no discurso de que a universidade tem que se ligar ao mundo do trabalho – que é o mundo da empresa, na verdade –, de que a universidade – e a escola em geral – deve mostrar o seu caráter prático, e que portanto é um desperdício de bens públicos formar essa gente. E pior ainda se são um "bando de vermelhos".

O bolsonarismo é uma fórmula que pode se espalhar pela América Latina?

Acho que tem algumas características que lhe permitiriam claramente expandir-se. O bolsonarismo é, sobretudo, uma somatória de nostalgia da ditadura militar, com demagogia anticorrupção e um discurso político centrado na questão moral. Na questão puramente moral, dois dos líderes das direitas clássicas que subiram ao poder com o apoio da extrema direita, Silvio Berlusconi e Donald Trump, são homens que não podem reclamar probidade alguma na sua vida profissional tributária e familiar. Isso não impede que, em ambos os casos, possam fazer discursos profundamente reacionários sobre a família. Com uma "cara de pau", como vocês brasileiros dizem, um despudor, que não tem nome. O Berlusconi fazia discurso sobre a família depois de publicamente meter a mão nas mulheres. O Trump é a mesma coisa. Portanto, o bolsonarismo é simplesmente o somatório dessa nostalgia da ditadura, discurso sobre a corrupção – portanto demagogia moralista –, a que se soma depois uma ligação ao mundo evangélico. E se essas três condições existirem em outras sociedades latino-americanas, o bolsonarismo poderia se expandir, conseguiria se replicar. E creio que há características muito semelhantes na direita venezuelana, mexicana, argentina e chilena, para que isso aconteça.

Você é capaz de arriscar uma previsão para o futuro próximo? A extrema direita ainda continuará a crescer pelo mundo ou já chegou no teto?

Do ponto de vista estritamente eleitoral, creio que ainda não atingiu teto na maioria dos casos. O problema, contudo, não creio ser eleitoral: a extrema direita não chegou nunca sozinha ao poder, nem chegará no futuro. O seu triunfo depende da capacidade de contaminar as políticas do Estado por via das suas alianças com o resto das direitas, que ocupam facilmente o poder, e por via dos apoios muito substanciais que têm dentro dos grupos sociais dominantes, dentro do próprio aparelho de Estado, sobretudo nas forças armadas e policiais, nos serviços de informação, na própria magistratura. O perigo para a democracia não é exterior ao Estado e aos sistemas de representação, ele está no seu interior.

29/Julho/2019
O original encontra-se em apublica.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/brasil/loff_29jul19.html

Bolsonaro não quer buscas a mortos e desaparecidos durante a ditadura

Os torcionários da ditadura militar brasileira vão poder dormir descansados. Já para os familiares dos torturados e assassinados que ainda esperam por justiça, as noites continuam a ser de pesadelo.

Os manifestantes exibem fotos de pessoas que desaparecidas e mortas durante o período de ditadura militar no Brasil, durante um protesto em São Paulo, Brasil, 31 de Março de 2019. O presidente Bolsonaro marcou o 55º aniversário da ditadura militar com celebrações laudatórias.CréditosSebastião Moreira / Agência Lusa

Três dias depois de a presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), a procuradora da República Eugénia Gonzaga, ter anunciado publicamente ir questionar o presidente Jair Bolsonaro pelas suas graves acusações sobre a morte, em 1974, de Fernando Santa Cruz, o presidente do Brasil resolveu de forma radical o problema substituindo a maioria dos membros do CEMDP por assessores do PSL e por militares, noticia o jornal Folha de São Paulo.

A decisão tomada por Jair Bolsonaro e pela ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) ameaça a continuidade dos trabalhos desta comissão, que continua a lutar em várias frentes na sua «tentativa de localizar e identificar mortos e desaparecidos durante a ditadura militar (1964-1985)».

«As mudanças na comissão representam uma ameaça, pois partem de uma premissa em sentido contrário à sua função e têm por objectivo desacreditar o trabalho que vinha sendo realizado, perpetuando um cenário de desinformação e omissão do Estado brasileiro no tema», disse à Folha o procurador da República Júlio José Araújo Júnior, coordenador do Grupo de Trabalho Povos Indígenas e Ditadura do Ministério Público Federal.

A ex-presidente da comissão confirmou que ainda há muito a ser feito pela CEMDP. Uma das prioridades imediatas é concluir as investigações sobre a vala clandestina no cemitério de Perus, em São Paulo, da qual foram retirados esqueletos que compreendem 1040 caixas, já abertas e examinadas. Em Abril de 2019 um decreto de Jair Bolsonaro pôs fim ao Grupo de Trabalho Perus, responsável por identificar corpos de desaparecidos políticos naquele cemitério de São Paulo.

Também é necessário investigar locais onde houve execuções, como a Casa da Morte, em Petrópolis (RJ); cemitérios públicos no Rio e em Pernambuco nos quais estariam enterrados restos mortais de desaparecidos; continuar as pesquisas sobre possíveis ossadas enterradas no Parque Nacional do Iguaçu (PR); buscas no interior da Bahia; e reavaliar, com novas técnicas, ossadas atribuídas a guerrilheiros do Araguaia (PA), apontou Eugénia Gonzaga.

«Colocar essas pessoas que defendem a ditadura para comandar a CEMDP seria como colocar nazistas na direcção do Museu do Holocausto. É uma loucura completa do ponto de vista histórico»

Carlos Pimenta, ex-membro do CEMDP, demitido por Bolsonaro

Waldomiro Batista, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de Goiás, diz que as declarações de Bolsonaro ofendem os familiares. «Ser partidário da “ala dura” dos militares não quer dizer que Bolsonaro e Damares tenham o direito de enxovalhar os que tombaram nos cárceres, no asfalto e nas matas de todo o Brasil, dando suas vidas na esperança de que a ditadura civil e militar se findasse», disse o activista.

«O governo deve, em primeiro lugar, dar sequência ao esforço que vem sendo feito em sucessivos governos para garantir o respeito à verdade e ao esclarecimento sobre o paradeiro de mortos e desaparecidos, bem como o reconhecimento da responsabilidade do Estado nesses episódios», disse o procurador Júlio Araújo.

Não só a comissão «será assumida por pessoas inexperientes no tema e desconhecidas no meio», como é o caso do novo presidente, Marco Vinicius Pereira de Carvalho, um antigo assessor de Damares, sem actividade conhecida no tema de mortos e desaparecidos políticos, como «colocar essas pessoas que defendem a ditadura para comandar a CEMDP seria como colocar nazistas na direcção do Museu do Holocausto». Trata-se de «uma loucura completa do ponto de vista histórico», como declarou à Folha o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), um dos integrantes removidos por Bolsonaro.

O prestigiado jornal brasileiro afirma, na sua notícia, ter feito «reiterados pedidos de entrevista ao novo presidente da comissão desde quinta-feira», mas «não obteve retorno até a noite» de sexta-feira, véspera da publicação da notícia.

Bolsonaro pretende esconder as suas falhas de carácter tanto quanto os crimes da ditadura

A decisão de Jair Bolsonaro de controlar e neutralizar os esforços da CEMDP para revelar as torturas e assassinatos cometidos pela ditadura militar prendem-se com a ideologia do presidente do Brasil mas também com a necessidade de esconder as suas falhas de carácter, que diariamente se revelam e contribuem tanto quanto a sua política reaccionária para o seu desgaste rápido.

Ainda recentemente, a 27 de Julho, aquele que foi um dia endeusado como o salvador do Brasil foi assobiado no estádio de futebol do Palmeiras, em São Paulo, aonde se deslocara para assistir ao encontro do clube da casa com o Vasco da Gama. Segundo a edição em papel do jornal Hora do Povo (consultável aqui), não foi a primeira vez que tal aconteceu, nos últimos tempos. «Repetiu-se ali o que já ocorreu no Mineirão e no Maracanã», com Bolsonaro a receber «uma sonora vaia» dos apoiantes das duas equipas. Vaias crescentes ao presidente brasileiro, escreve o Hora do Povo, «estão directamente relacionadas» com as «medidas tomadas pelo seu governo contra os trabalhadores», particularmente o «ataque às aposentadorias, à Educação, à enorme subserviência do governo aos estrangeiros, principalmente ao governo dos Estados Unidos», além de «outros absurdos», onde caem os problemas de personalidade de Bolsonaro.

 
O militante de esquerda Raul Foi assassinado pela ditadura militar brasileira em 1971, em condições inéditas até num regime terrorista. Em 2014 apurou-se que fora torturado e executado no Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Créditos
 

O gatilho do ataque de pânico que desencadeou a substituição da maioria da CEMDP foi o anúncio feito na quarta-feira, dia 31 de Julho, por Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), de que dera entrada uma acção no Supremo Tribunal Federal (STF) para que o dirigente do Partido Social Liberal (PSL) esclarecesse as «as informações que afirma ter sobre o desaparecimento de seu pai, Fernando Santa Cruz, assassinado pela ditadura em 1974». Além do subscritor, o documento foi assinado por «12 ex-presidentes da OAB».

Felipe Santa Cruz e a OAB têm sido firmes opositores das transgressões à lei por Jair Bolsonaro, encontrando-se entre as instituições que recentemente criticaram o comportamento cúmplice do Governo nos ataques à tribo Waiãpi, cujas terras reservas indígenas Bolsonaro quer entregar a empresas mineiras norte-americanas, como recentemente o AbrilAbril deu conta.

«Pusilânime e covarde»

Acuado por vários lados, acusado publicamente de «pusilânime e covarde» no passado dia 20 de Julho por Ricardo Galvão, director do respeitado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Jair Bolsonaro não achou melhor, para responder a Felipe Santa Cruz, do que dar uma entrevista informal aos mídia, em 29 de Julho, em que, ao longo de dois minutos e meio de vídeo abjecto, simula conhecer a verdade sobre a morte em 1974 de Fernando Santa Cruz, pai do seu opositor e desaparecido político no período da ditadura militar, tinha Felipe dois anos.

«Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade», disse o político do PSL, para a seguir afirmar que aquele católico progressista e apoiante de organizações revolucionárias contra a ditadura teria sido morto por integrantes da organização clandestina a que pertencia.

 
O relatório encontrado no Ministéroo da Aeronáutica contém a data precisa da prisão de Fernando Santa Cruz, desmentindo liminarmente a insinuação, lançada por Jair Bolsonaro, de que aquele militante de esquer teria sido morto pelos seu próprios correligionários Créditos
 

O absurdo, inventado por Bolsonaro, levantou uma onda de indignação e foi desmentido por oficiais da Aeronáutica, da Marinha e do Ministério da Defesa. Questionado sobre as decisões da Comissão da Verdade, órgão de Estado criado para levantar os crimes cometidos no regime autoritário, Bolsonaro disse que os relatórios desta comissão «eram balelas».

«Não foram os militares que mataram ele, não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo que acontece. Isso mudou», afirmou.

Pior para Bolsonaro, um dos assassinos da ditadura, o ex-delegado Cláudio Guerra, admitiu que o corpo de Fernando Santa Cruz foi, tal como muitos outros naquela altura, incinerado por ele «numa usina de cana na cidade de Campos, no Norte Fluminense», pertencente a um empresário que colaborou com os torturadores e assassinos para proteger o Brasil do comunismo.

A resposta do presidente da OAB foi denunciar a «crueldade e a falta de empatia» – uma maneira elegante de chamar psicopata a Jair Bolsonaro – e manifestar estranheza por «tal comportamento em um homem que se diz cristão». Felipe Santa Cruz, que por diversas ocasiões tem manifestado «orgulho» por ser «filho de um herói que resistiu ao arbítrio», afirmou, que «se Bolsonaro sabe sobre o destino de seu pai e outros desaparecidos políticos do período da Ditadura, as famílias das vítimas querem saber».

A 2 de Agosto Bolsonaro desarticulou o CEMDP.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/bolsonaro-nao-quer-buscas-mortos-e-desaparecidos-durante-ditadura

A chegada ao poder da extrema-direita

 
 
Da profunda crise financeira que assolou o Mundo, após 2008, despontou um fenómeno político e social; o surgir de uma extrema-direita, readaptada aos tempos modernos; apareceu como uma oposição muito forte ao estabelecido; em resultado, de profundas clivagens sociais, politicas e económicas, surgidas na sociedade em resultado da crise económica; surgiu como uma reacção directa ao neoliberalismo pan-mundial; doutrina económica que dominou o Mundo, no pós queda do Muro de Berlim; a qual falhou, nas promessas defendidas pelos seus apologistas; relacionadas com progresso económico e social global, para todos; em vez disso trouxe depressão, marginalização, enfraquecimento dos Estados e dos povos, conflitos sociais e demográficos.
Mas os movimentos de extrema-direita também se desenvolveram, em virtude da corrupção generalizada que assolou o Mundo; a qual teve por base, a fome de privilégios das elites políticas e económicas, possuidoras do poder; inseridos num sistema neoliberal onde a ética e a moral desapareceram, substituídas por um vale tudo, podre e defraudante; na busca de riqueza, sucesso e aparência; á custa dos Estados e das comunidades.
Foi o profundo desencanto das pessoas comuns, que tem servido de profícua terra arável para a implantação da extrema-direita, em muitos países; e onde tomaram o poder, tem-se assistido à imposição de regimes autocráticos e autoritários, apesar de terem aparência democrática.
A maioria dos regimes ditatoriais do passado seculo, tinha origem castrense, de raiz ideológica fascista; justificavam-se a si mesmos, pelo combate às ideologias de esquerda; mas ao mesmo tempo, serviam o interesse e privilégio das classes dominantes; actualmente, embora possam ter apoio militar mais ou menos explicito, os regimes autoritários ganham a sua justificação na necessidade de segurança que as pessoas sentem, na defesa dos interesses económicos das élites nacionais, e como reacção emocional dos povos ao que é diferente da sua cultura predominante.
São normalmente, regimes dirigidos por personalidades carismáticas; as Filipinas de Duterte e o Brasil de Bolsonaro, devido à progressiva quebra de segurança das populações; a Turquia do Erdogan, devido ao islamismo xenófobo; a Hungria do Viktor Urban, devido à xenofobia e a problemas culturais e rácicos internos; os EUA de Trump, devido às causas económicas negativas, provocadas pela aplicação das doutrinas neoliberais!
 
 
Outro aspecto que caracteriza este neo-autoritarismo; a sua irracionalidade; porque embora, quem o promova tenha as suas agendas politicas bem definidas; os argumentos, que os sustentam não são razoáveis; pois normalmente residem no medo do diferente; no preconceito de ideias arreigadas e difundidas massivamente; na fé messiânica em líderes mal formados, mas carismáticos; num nacionalismo profundamente xenófobo; em linhas ideológicas muito mal formadas e informadas; até em fundamentalismos religiosos muito ultrapassados.
Mas para os verdadeiros democratas, logo se verifica não serem solução; pois realmente não têm capacidade para o ser; as elites que com eles se instalam na manjedoura do poder, são medíocres e profundamente corruptas; amigas de viver à sombra do Estado; e de desenvolverem sistemas protegidos de influências, que enriquecem interesses; que apenas sobrevivem, porque conseguem controlar a informação, e manipular demagogicamente o sentir das populações.
No fundo, não são mais do que a deriva autoritária, dos sistemas de democracia representativa; os quais se tornaram reféns, pela via eleitoral, de grupos de interesses que se instalaram no poder, e manipularam a vontade popular em seu proveito, perpetuando pela via autoritária o seu domínio sobre a sociedade; o que só vem comprovar a ineficiência dos sistemas supostamente democráticos, arquitectados com base na democracia representativa.
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/a-chegada-ao-poder-da-extrema-direita.html

Madrid debaixo da pata da direita fascizante

O que eles não perdoam
 
 
«Seguimos asistiendo a la nueva era en la ciudad de Madrid con el alcaldeJosé Luis Martínez Almeida, sostenido por PP, Ciudadanos y VOX. Entre sus primeras decisiones ya le habíamos visto imponer lamoratoria de las multas de Madrid Central(anulada poco después por la Justicia), relegar la bandera LGTBI a un lado de la fachada del Ayuntamiento durante el Orgullo o suspender un concierto de Def con Dos.Ahora hemos visto otra: la cancelación de un concierto de Luis Pastor que fue cerrado durante el mandato de Carmena.
El músico, símbolo de la lucha antifranquista, tenía programada la actuación para el próximo 8 de septiembre, acompañado de su hijo Pedro.
Tras conocer la noticia, el secretario de Organización de Podemos, Pablo Echenique, ha recordado un poema de Pastor titulado “¿Qué fue de los cantautores?”. Echenique resume: “La mejor manera de entender por qué la derecha y la extrema derecha vetan el concierto de Luis Pastor en Madrid es escuchar este poema en boca de Luis Pastor”.»
poema aqui
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Cemitério de Espanha tem ossadas de mais de 1.400 vítimas do franquismo

 
 
Um relatório revela que o cemitério de La Soledad de Huelva, em Espanha, tem ossadas de pelo menos 1.437 vítimas do franquismo enterradas em valas comuns.
 
O trabalho, promovido pela Associação de Memória Histórica da Província de Huelva, foi realizado pelo historiador espanhol José María García Márquez, que se tem debruçado sobre a justiça militar em Sevilha e Huelva durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e o pós-guerra.
 
Huelva foi a província espanhola que sofreu mais com a repressão na Guerra Civil, uma vez que tem mais de 120 valas e 8.000 vítimas identificadas, um número que pode ser bem maior, segundo historiadores e outros especialistas.
 
A repressão militar exercida em Huelva durante a guerra, que opôs nacionalistas e republicanos, foi maioritariamente contra os civis com ideais de esquerda.
 
Os nacionalistas ganharam a guerra, em 1939, e governaram a Espanha até à morte do seu líder, Francisco Franco, em novembro de 1975.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: Twitter
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/cemiterio-de-espanha-tem-ossadas-de.html

Documentos oficiais comprovam: Bolsonaro mente sobre morte na ditadura

Ao apresentar sem provas a versão de que o servidor público Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira foi morto por militantes de esquerda, o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) escreveu mais um capítulo na longa lista das versões vagas e enganosas entregues por servidores da União à família Santa Cruz. Bolsonaro só inovou em um ponto: segundo os familiares, foi a primeira vez, em 45 anos de buscas, que ouviram falar num suposto “justiçamento” pela esquerda.

 

 

Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, após ser preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, na época um bebê de dois anos. A versão de Bolsonaro – que ele disse genericamente ter ouvido de pessoas cujos nomes não citou – contraria toda a série de documentos produzidos pela própria ditadura sobre Fernando.

Seu irmão, o advogado Marcelo, 75, disse ter ficado perplexo e indignado. “Nunca ouvimos falar nisso. Acredito que Bolsonaro esteja mentindo e tentando deturpar a verdade histórica”, disse. Nem o governo militar (1964-1985), especialmente interessado em demonizar a esquerda, alguma vez falou que Fernando – um dos mais de 200 nomes que constam das listas de desaparecidos políticos – foi morto por militantes esquerdistas.

O próprio ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel (1974-1979), Armando Falcão (1919-2010), informou por escrito ao então ministro do SNI (Serviço Nacional de Informações), João Figueiredo (1918-1999), que Fernando se encontrava “na clandestinidade”. A carta é de março de 1975, um ano e um mês depois do desaparecimento. O aviso ministerial de Falcão integra um conjunto de 37 páginas, hoje sob a guarda do Arquivo Nacional, que documenta parte da peregrinação da família Santa Cruz.

Há três cartas desesperadas de sua mãe, Elzita Santos de Santa Cruz, endereçadas a Falcão, a Geisel e até à primeira-dama da época, Lucy Geisel (1917-2000). Elzita morreu em junho passado, aos 105 anos. “Esta carta é um grito de desespero de uma mãe, que há oito meses chora a perda de um filho e espera em vão uma solução para o seu angustioso problema. Já bati em todas as partes à espera de pelo menos uma notícia sobre o paradeiro de meu estimado filho”, escreveu em uma delas.

Em outra carta, dirigida ao ministro da Casa Civil Golbery do Couto e Silva (1911-1987), Elzita e a mãe de outro desaparecido e amigo de Fernando, Eduardo Collier Filho, Risoleta, revelaram que, dias após os desaparecimentos, o apartamento de Collier “foi invadido por elementos pertencentes aos órgãos de segurança”, que apreenderam “livros de cunho ideológico”. Para as mães, estava claro “que se tratava de uma diligência consequente da prisão política”.

Elzita Santa Cruz posa em frente à foto do filho Fernando, um dos mais de 200 desaparecidos políticos sob o regime militar

Na mesma carta, as mães narraram momentos fundamentais das buscas. A partir de uma informação recebida pelas famílias, elas se dirigiram a uma unidade da repressão do Exército em São Paulo, o DOI, onde foram recebidas pelo carcereiro de plantão, apelidado de Marechal.

Depois de anotar os nomes dos amigos e fazer uma checagem de meia hora, Marechal, segundo as mães, retornou dizendo que ambos estavam presos ali, mas não poderiam receber visitas naquele momento, só no domingo seguinte. Elas disseram que ele informou o sobrenome “Oliveira” sem que elas o tivessem citado. Quando regressaram ao DOI na data marcada, um outro militar negou que os dois estivessem presos lá e disse que houve um “lamentável equívoco”.

Em outro episódio, em 29 de abril de 1974, um funcionário da Cruz Vermelha (CV) confirmou às mães que os dois estavam de fato detidos com o Exército. Em 13 de maio, porém, a CV informou que não conseguia mais contato com os presos. Os três episódios – a blitz na casa de Collier, a fala do carcereiro e a informação da CV – contrariam a versão de Bolsonaro de que Fernando foi morto por militantes de esquerda.

A informação de que ele e Collier morreram em poder do Estado ganharia ainda mais certeza em 2004, quando o ex-agente da repressão Marival Chaves declarou à revista IstoÉ que ambos foram mortos em meio a uma ampla operação de assassinatos e prisões deflagrada pela ditadura contra integrantes da AP (Ação Popular), na qual Fernando havia atuado nos anos 1960. Chaves disse que o Exército “se interessou pela AP no Nordeste” e, por isso, desencadeou uma operação nacional que prendeu mais de cem pessoas e “desapareceu” com pelo menos quatro.

Oito anos depois, no livro escrito pelo jornalista Marcelo Netto, Memórias de uma Guerra Suja (2012), o ex-delegado Cláudio Guerra disse que os corpos de Fernando, Collier e outros dez desaparecidos foram incinerados em fornos numa usina de açúcar de Campos de Goytacazes (RJ). Assim, a versão de um suposto “justiçamento” na AP é desacreditada por especialistas.

Conforme diversos registros documentais e testemunhais, são conhecidos apenas quatro atos do gênero na esquerda durante a ditadura. Três episódios ocorreram na organização ALN (Ação Libertadora Nacional) e um no PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), mas nenhum na AP, como lembra o jornalista Lucas Ferraz, que escreve um livro sobre “justiçamentos”. O tema também foi abordado em detalhes em um livro já clássico do historiador Jacob Gorender (1923-2013), Combate nas Trevas (1987), que nada fala sobre Fernando ter sido assassinado pela esquerda.

Nascido no Recife (PE), onde chegou a ser detido numa manifestação estudantil, Fernando deixou a AP no final dos anos 1960 e se juntou a uma dissidência chamada APML (Ação Popular Marxista Leninista). Nenhum documento escrito sobre ele pela própria ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada contra o governo. Fernando não era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Usava seu nome e sobrenome reais e era funcionário público de uma empresa de água e energia elétrica de São Paulo. Durante o carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Segundo a família, ele desapareceu quando se dirigia ao encontro no bairro de Copacabana.

Em 7 de agosto do mesmo ano – data que completará 45 anos na próxima quarta-feira –, seus familiares conseguiram, por intermédio de dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), uma audiência com o poderoso ministro Golbery, eminência parda do governo Geisel. Não houve nenhuma resposta sobre o paradeiro dos amigos. Meses depois, o ministro Falcão soltou uma nota à imprensa dizendo que eles estavam “na clandestinidade”.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

Transferência Bancária

Nome: Quarto Poder Associação Cívica e Cultural
Banco: Montepio Geral
IBAN: PT50 0036 0039 9910 0321 080 93
SWIFT/BIC: MPIOPTPL

 

 

Pagamento de Serviços

Entidade: 21 312
Referência: 122 651 941
Valor: (desde €1)

 

Pagamento PayPal

 

 

Envie-nos o comprovativo para o seguinte endereço electrónico: [email protected]

Ao fazer o envio, indique o seu nome, número de contribuinte e morada, que oportunamente lhe enviaremos um recibo via e-mail.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Equívocos. Marxismo e Fascismo

Corre nos meandros dos radicais conservadores a ideia peregrina de que o Fascismo tem as suas raízes de origem no Marxismo.

 

 

Esta teoria assenta em pressupostos da militância política partidária de Benito Mussolini, fundador do Partido Nacional Fascista, em organização socialista da época, assim como na designação “Nacional Socialista” do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido por Partido Nazista, que foi liderado por Adolf Hitler, nomeado Chanceler da Alemanha pelo seu Presidente na época, Hindenburg, em condições muito específicas resultantes da instabilidade política e social de miséria instalada no seio das populações face à devastação provocada pela primeira guerra mundial.

Situação não muito diferente da existente ao tempo na Itália e que motivou a ascensão ao poder de Benito Mussolini.

O fascismo foi apresentado como partido político em 1921. Desde essa altura, a palavra “fascista” é usada para mencionar uma doutrina política com tendências autoritárias, anticomunistas e antiparlamentares, que defende um Estado totalitário. Trata-se de um movimento antiliberal que atua contra as liberdades individuais. Surge como sendo uma terceira via entre os efeitos políticos internacionais provocados pela revolução bolchevique de 1917 na Rússia e o liberalismo estruturado no iluminismo, ambos emergentes na grave crise social existente no tempo.

Benito Mussolini, o Duce, liderou o Partido Nacional Fascista implementando um modelo de organização política ditatorial em que o anticomunismo era um dos argumentos para vingar e se implantar.

Adolf Hitler, Chanceler do Reich e Führer da Alemanha Nazista de 1934 até 1945, liderou o Partido Nazista cuja ideologia central foi o fascismo como modelo político e social de combate ao comunismo e, por conjuntura da época, fim da primeira guerra mundial em que a Alemanha se encontrava no abismo económico e a fome era uma realidade foi a mola propulsora da segunda guerra mundial cujos efeitos todos conhecemos.

Curiosamente, é um facto Histórico, houve sindicalistas que aderiram a esta corrente do pensamento o que nada tem a ver com o Marxismo. Uma corrente do pensamento filosófico, anterior ao Fascismo, resultante da revolução industrial e da revolução agrária que gerou a luta de classes, e, em que na organização política e social dos Estados, se defende que os operários (proletariado), assumiriam o poder para que assim houvesse uma evolução na melhoria das condições de vida das populações organizadas em sociedades, conducente a uma condição igualitária. O Socialismo.

Uma corrente do pensamento que continua a ter partidos políticos seguidores.

Curiosamente a sociedade atual encontra-se nesse patamar. O da igualdade em vários domínios: conhecimento; género; oportunidade; entre muitos outros.

Já o Comunismo remonta à Antiguidade em que as tribos se organizavam e distribuíam entre si os produtos – a caça nas tribos nómadas; os géneros nas tribos sedentárias -. A este modelo se associa a tese do Comunismo Primitivo.

Marx preconizou uma sociedade comunista como sendo o culminar do aperfeiçoamento da organização política no quadro de uma máxima: “de cada um, segundo as suas possibilidades. A cada um, segundo as suas necessidades.” sem delinear a forma de organização social nem tão pouco o tempo, reportando sempre para a matriz da “luta de classes” como sendo o “motor” de toda a evolução politica e social em que com o desenrolar da História e das contradições por si  geradas, se encarrega dos ajustamento necessários para o equilíbrio ambiental e social onde a espécie Humana domina.

Até porque, no tempo, havia já uma corrente do pensamento filosófico de tendência anarquista que fazia escola nas franjas pequeno burguesas, mas também em pequenos núcleos do operariado.

Assume por isso, o pensamento, transversalidade ímpar, onde nada se mistura naquilo que é a sua essência e referencia matricial única.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 

Transferência Bancária

Nome: Quarto Poder Associação Cívica e Cultural
Banco: Montepio Geral
IBAN: PT50 0036 0039 9910 0321 080 93
SWIFT/BIC: MPIOPTPL

 

 

Pagamento de Serviços

Entidade: 21 312
Referência: 122 651 941
Valor: (desde €1)

 

Pagamento PayPal

 

 

Envie-nos o comprovativo para o seguinte endereço electrónico: [email protected]

Ao fazer o envio, indique o seu nome, número de contribuinte e morada, que oportunamente lhe enviaremos um recibo via e-mail.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Museu Salazar: «Chamam-lhe apenas Estado Novo, nunca falam em fascismo»

Questionado pelo AbrilAbril sobre a abertura de um museu dedicado a Salazar, Domingos Abrantes afirmou que «é difícil imaginar que se possa tratar de um museu com vista ao esclarecimento do povo português».

Salazar e Franco, líderes dos dois regimes fascistas da Península IbéricaCréditos

Não é nova a tentativa de branquear o Estado Novo, através da criação de um museu dedicado à figura de António de Oliveira Salazar, presidente do Conselho da mais longa ditadura fascista da Europa.

Segundo o semanário Expresso, o chamado Centro Interpretativo do Estado Novo vai abrir ainda este ano, com as obras a começarem em Agosto. O espaço será o da antiga escola-cantina Salazar, ao lado da casa onde viveu o ditador, em Santa Comba Dão.

A iniciativa avança pela mão do presidente da Câmara Municipal, Leonel Gouveia (PS), que afirmou não se destinar a um «santuário para nacionalistas» mas onde também não se quer «diabolizar o estadista».

Em declarações ao AbrilAbril, Domingos Abrantes, resistente antifascista e ex-preso político, lembrou que este objectivo já está há muito tempo em cima da mesa, por parte dos «saudosistas do fascismo», acrescentando que o significado da iniciativa não pode ser menorizado. «Está em linha de continuidade com uma ofensiva que se tem vindo a intensificar de branqueamento do fascismo», alertou. 

Rebatendo o argumento de que um museu sobre Salazar possa ser neutro, afirmou que «é difícil imaginar que se possa tratar de um museu com vista ao esclarecimento do povo português e, sobretudo das novas gerações, em relação ao que foi o fascismo, a repressão, o obscurantismo, os assassinatos, durante 48 anos, do qual esta figura, não sendo única, é em grande parte responsável».

Sublinhou que, ao contrário do que se procura com o Museu do Aljube, em Lisboa, e com o Museu Nacional da Resistência e Liberdade, em Peniche, este não se anuncia como um espaço de denúncia dos crimes e da política de Salazar, apoiada pelos grandes grupos económicos e financeiros. «Aliás, chamam-lhe apenas Estado Novo, nunca falam em fascismo, e o Estado Novo é fascismo», afirmou.

Assembleia da República condenou a criação do museu Salazar

Já em 2008 havia chegado à Assembleia da República uma petição dinamizada pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), com cerca de 16 mil subscritores, que condenava a abertura deste museu.

No texto afirmava-se que o espólio para o acervo museológico – não contando com o que existe na Torre do Tombo –  não teria qualquer relevo para o estudo objectivo da história deste período, e que com objectos de uso pessoal do ditador não se construía um centro de estudos. «Este projecto assume o objectivo de materializar um pólo de saudosismo fascista e de revivalismo do regime ilegal e opressor, derrubado pelo 25 de Abril de 1974», lê-se no documento.

Fruto desta petição, viria a ser aprovado por unanimidade o relatório final no sentido de dever a Assembleia da República «condenar politicamente qualquer propósito de criação de um museu Salazar e apelar a todas as entidades, e nomeadamente ao Governo e às autarquias locais, para que recusem qualquer apoio, directo ou indirecto, a semelhante iniciativa». No mesmo relatório ficou expresso que «a Assembleia da República não pode ter uma posição neutral entre a ditadura e a democracia», já que a Constituição da República portuguesa «proíbe as organizações que perfilhem a ideologia fascista».

Para Domingos Abrantes, a condenação expressa na petição de 2008 «mantém-se mais actual do que nessa altura, uma vez que desde então assistimos ao renascer em toda a parte das forças fascistas, que se assumem com maior ou menor timidez».

Considerando esta iniciativa um «insulto às vítimas do fascismo», o ex-preso político deixa o apelo a que se intensifique «a luta contra o que isto significa, em nome da liberdade e dos que sacrificaram as suas vidas para que o povo português pudesse viver melhor».

Historiadores não acompanham a iniciativa 

Ao Expresso, o historiador Fernando Rosas transmite também a ideia de que este projecto «será uma forma de tentar atrair turismo político e não de aprofundar a História do regime», e alerta para os exemplos de Predappio, onde nasceu Benito Mussolini, e do Vale dos Caídos, onde se encontra sepultado Francisco Franco, que se transformaram em locais de culto dos neofascistas de toda a Europa. 

A historiadora Irene Pimentel referiu igualmente ao semanário que não faz a «mínima ideia» de como vai ser feito e que acredita existir uma «estratégia de elogio da personalidade» do ditador.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/museu-salazar-chamam-lhe-apenas-estado-novo-nunca-falam-em-fascismo

Oliveira Salazar, criminoso nazi-fascista, vai ter museu na sua “xanta-terrinha”

 
 
 
Ficámos a saber pelo jornal Público, no passado sábado (27.07), que o fascista Salazar e o seu regime ditatorial e monstruoso vai ter direito a museu na terra que o viu nascer, Santa Comba Dão (Vimieiro), saudosos que estão os de lá e mais alguns energúmenos – ditos estudiosos – daquela negra e nazi figura que assassinou portugueses, que os torturou, que os encerrou em campos de concentração e em prisões desse tal dito e tenebroso Estado Novo que por mais de 40 anos isolou o país, reprimiu e explorou o povo, votou-o à ignorância, ao trabalho de sol-a-sol e à fuga compulsiva para a emigração, para a liberdade, para países onde prevalecia a democracia ou pelo menos regimes mais brandos para com esses portugueses expatriados.
 
Afinal o monstruoso Salazar está vivo na mente de uns quantos seus pares do nazi-fascismo que a coberto de pretextos culturais e de estudo pretendem fundar na terra natal do criminoso-mor de Portugal e de portugueses lugar de culto ao causador de mortandade, dores e vivências perdidas a tantos portugueses. É expectável que Santa Comba Dão passe a ser o local em que os nazi-fascistas se reunirão a uivar em uníssono ao execrável homenageado, talvez santificado, Salazar. Estará então aquela santa-terrinha beirã, para os nazi-fascistas-salazaristas, como Fátima para os cristãos?
 
A promoção e adoração ao fascismo é patente na pretensão de construir aquele museu. Ou aquela lavandaria de quatro terríveis décadas de negação de direitos de cidadania democrática, de direitos humanos, de progresso e das liberdades implícitas, que só foram restauradas a partir de 25 de Abril de 1974 com o derrube do desumano e anacrónico chamado Estado Novo.
 
 Em tempos, pós-25 de Abril de 1974, e após a aprovação da Constituição da República Portuguesa, era explicito que o Portugal democrático não pactuava com o fascismo ou com as suas “relíquias”. Nem com aquela ideologia, que a proibia sob todo e qualquer pretexto. E agora? Agora, eis que os nazi-fascistas-salazaristas, a pretexto de estudos, anunciam a construção de uma espécie tenebrosa de santuário ao fascista Salazar, ao fascismo em toda a sua amplitude e promoção.
 
A isso, o brando e atual estado democrático, a branda Constituição, os brandos governos sempre infetados de semelhantes a Salazar, e por vezes infestados de falsos democratas, abre mão e estende a passadeira vermelha a homenagens e adulações ao mentor e autor-moral de crimes e atrozes ações ditatoriais contra o povo português por via da ideologia nazi-fascista-salazarista.
 
O branqueamento do regime fascista de António de Oliveira Salazar e do seu Estado Novo sempre esteve em curso e tem sido posto em prática por "estudiosos" e outros manhosos, ditos democratas - porque é como assenta bem dizer nesta já tão periclitante democracia. Nada há melhor que cobrir com pele de cordeiro os lobos para desse modo ludibriar os menos avisados e esclarecidos. Os que vão ser "comidos".
 
Leia a seguir a lavra do Público acerca do museu e dos “estudos” que se perspetivam serem objeto de "branqueamento-democrático", como habitual, como até agora e futuramente.
 
Mário Motta | Redação PG
 
 
Santa Comba Dão quer abrir museu do Estado Novo e Salazar no fim do Verão
 
Obras do Centro Interpretativo do Estado Novo estarão iminentes. Ideia do museu foi alvo de fortes críticas nas últimas décadas.
 
O Centro Interpretativo do Estado Novo deverá abrir dentro de três meses no Vimieiro, em Santa Comba Dão, terra onde nasceu António de Oliveira Salazar. A notícia é avançada este sábado pelo semanário Expresso. A ideia de um museu dedicado a Salazar em Santa Comba foi alvo de um inquérito em 2016 em que a maioria das vítimas do Estado Novo era contra o projecto.
 
“Este será um local para o estudo da história do Estado Novo. Não um santuário destinado a nacionalistas nem um museu onde se vai diabolizar o estadista de Santa Comba Dão”, diz o presidente da câmara de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia, ao Expresso.
 
O autarca eleito pelo PS não revela qual a direcção científica do projecto museológico nem os seus responsáveis, aludindo de acordo com o semanário à ligação do centro interpretativo a uma “Rota das Figuras Históricas” que, dissera o responsável há meses à Lusa, é um projecto com uma associação de desenvolvimento local.
 
Já em Dezembro de 2018 a Agência Lusa avançara o plano do autarca Leonel Gouveia para a abertura do espaço em 2019 - o presidente da câmara acreditava então que o projecto trouxesse “não só visitantes, como estudiosos”.
 
O Expresso noticia este sábado que as obras na antiga Escola-Cantina Salazar, junto à casa do antigo presidente do Conselho de Ministros e rosto da ditadura do século XX português no Vimieiro, devem começar “dentro de duas a três semanas”, citando o autarca Leonel Gouveia.
 
A autarquia detém agora a totalidade do espólio, bem como a casa onde nasceu Salazar, a adega e a sua quinta – não sem a sua dose de polémica, com o sobrinho-neto do ditador Rui Salazar de Melo ainda a dirimir argumentosna justiça com a autarquia por incumprimentos contratuais quanto a um terço desse espólio — e prevê instalar no Centro Interpretativo do Estado Novo conteúdos multimédia e interactivos e não apostando tanto em mostrar objectos pessoais do ditador, que deverão ficar reservados para exposição nos imóveis que pertenceram ao governante após sua recuperação.
 
Em Dezembro de 2018, Leonel Gouveia disse à Lusa que o orçamento do centro interpretativo era de “170 mil euros para a requalificação do edifício” e primeira fase da obra, que queria que tivesse sido inaugurada no início de 2019.
 
 
O historiador Fernando Rosas, especialista na História do Estado Novo, diz ao Expresso ter sido contactado por Leonel Gouveia sobre o tema e rejeitar qualquer colaboração com “esse pseudo-centro interpretativo” que considera ser um mero “chamariz de turismo político”, aponta, “mesmo que seja feito com as melhores intenções”. A historiadora Irene Flunser Pimentel, também no semanário, não se opõe à criação de um museu sobre o tema, mas frisa a importância da equipa científica e das intenções da sua criação.
 
O projecto autárquico de um museu em torno da figura de Salazar é antigo e já em 2007 mobilizava activistas antifascistas em abaixo-assinados e petiçõespela oposição à sua criação. O Ministério da Cultura, então liderado por Isabel Pires de Lima, rejeitava a sua integração na rede nacional de museus.
 
Em 2016, o inquérito Memória da Oposição e Resistência ao Estado Novoquestionou 131 pessoas que foram detidas, exiladas, afastadas das suas profissões ou obrigadas a recorrer à clandestinidade e à deserção pelo regime do Estado Novo, que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974.  Sobre a eventual construção de um museu dedicado a Oliveira Salazar em Santa Comba Dão, 51% dizem que não devia ser permitida e 23% são a favor. Vinte e seis por cento não tomaram qualquer posição.
 
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/oliveira-salazar-criminoso-nazi.html

Um género de direita

(Daniel Oliveira, in Expresso, 27/07/2019)

Daniel Oliveira

 

Não é o direito à autodeterminação da identidade de género (quando não há uma correspondência entre género biológico e aquilo com que a pessoa se identifica) que está em causa no recente pedido de fiscalização de constitucionalidade por 85 deputados de direita. O que está em causa são as medidas para que se combata a discriminação na escola e se proteja quem exerce esse direito. Segundo este grupo de deputados, encabeçado por Miguel Morgado, o Estado pode garantir um direito mas não deve proteger quem o exerça. Sabendo que não há como pedir a inconstitucionalidade da promoção da tolerância e do combate à discriminação, Morgado socorreu-se de um discurso novo na direita democrática portuguesa: que isto é ideologia de género. E impô-la nas escolas é violar o dever de neutralidade política do sistema de ensino. É a versão portuguesa da “Escola Sem Família”, que permitiu que Bolsonaro transformasse a transmissão de qualquer valor de tolerância em propaganda partidária. Ao mesmo tempo que promovia o nacionalismo e a fé, claro.

Comecemos pelo básico: a ideologia de género não existe. Pelo menos no sentido que lhe dá Miguel Morgado, único que lhe permite recorrer à Constituição. Antes de chegar aos discursos de Bolsonaro, aos tuítes de Trump ou aos cartazes do PNR, a expressão surgiu em trabalhos dos estudos de género como forma de caracterizar as crenças sociais vigentes sobre o lugar da mulher e do homem na sociedade. E foi depois apropriada, ganhando o sentido inverso, por Ratzinger, para definir aqueles que contestam essas crenças. Hoje é usada por grupos de extrema-direita e por religiosos radicais. Em qualquer dos casos, não é uma autodefinição ideológica, é uma definição crítica das convicções de outros. A ideologia de género não tem ideólogos, não tem seguidores, não existe enquanto doutrina que possa caber na definição constitucional. No sentido que lhe dá Morgado, faz parte da novilíngua extremista a que parte da nossa direita parece agora querer aderir. Ainda os vamos ouvir falar de “marxismo cultural”.

A agenda económica de Miguel Morgado é bastante radical. Só que não tem eleitorado num país pobre. Vale os votos que teve a Iniciativa Liberal, com a qual o deputado do PSD tem relações muito próximas. Como explicou José Miguel Júdice na SIC, esta “guerra cultural” é mais mobilizadora para a direita. Foi por perceberem isto que muitos neoliberais abandonaram qualquer tipo de liberalismo político ou cultural e se têm aliado às correntes autoritárias de direita. No Brasil, enquanto Bolsonaro trata do circo, o seu ministro Paulo Guedes prepara a privatização de recursos naturais e de serviços públicos, começando pela Segurança Social, filet mignon dos Estados. A vantagem desta aliança é que mobiliza o povo com uma agenda política menos impopular, ao mesmo tempo que responsabiliza as minorias pela ansiedade criada pela destabilização social. De caminho, ganha músculo para pôr quem resista na ordem.

Alguns velhos militantes do PSD têm avisado que Miguel Morgado é de uma direita radical sem qualquer tradição no partido e que o usa como mero veículo para um projeto político que nunca se conseguiu afirmar autonomamente. A adoção da conversa da “ideologia de género” é um sinal claro de que está a fazer o seu caminho. Os 85 deputados que o seguiram apenas confirmam que a ausência de liderança na direita tradicional é o melhor que estes extremistas podem desejar.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

«A Arte da Guerra»Na Ucrânia, viveiro NATO de neonazis

Para os que duvidem da persistência da rede italiana stay behind da NATO, a Gladio, a apreensão de um arsenal de armas de guerra em Turim fornece uma resposta categórica. A rede de neonazi que trabalha com a Aliança Atlântica contra a Rússia, está operacional na Ucrânia.

JPEG - 49.7 kb

Prosseguem as investigações sobre os arsenais modernos, descobertos no Piemonte, na Lombardia e na Toscana, de clara origem neonazi, como demonstram as suásticas e as citações de Hitler encontradas juntamente com as armas. Mas permanece sem resposta, a pergunta: trata-se de algum nostalgico do nazismo, de um coleccionador de armas, ou estamos perante algo muito mais perigoso?

Os investigadores – refere o ‘Corriere della Sera’ – indagaram sobre “extremistas da direita, familiarizados com o batalhão Azov”, mas não descobriram “nada de útil”. No entanto, tem havido, há anos provas, amplas e documentadas sobre o papel desta e de outras formações armadas ucranianas, compostas de neonazis treinados e utilizados no putsch da Praça Maidan, em 2014, sob a direcção USA/NATO e no ataque aos russos da Ucrânia, em Donbass. Deve esclarecer-se, antes de tudo, que o Azov não é mais um batalhão de tipoparamilitar (como o define o ‘Corriere della Sera’), mas foi transformado num regimento, ou seja, numa unidade militar regular de nível superior.

O batalhão Azov foi fundado em Maio de 2014, por Andriy Biletsky, conhecido como o “Führer branco”, na qualidade de defensor da “pureza racial da nação ucraniana, impedindo que seus genes se misturem com os de raças inferiores”, realizando assim “a sua missão histórica da Raça Branca global na sua cruzada final pela sobrevivência”. Para o batalhão Azov, Biletsky recrutou militantes neonazis já sob o seu comando como chefe de operações especiais de Pravy Sektor. O Azov distingue-se imediatamente pela sua ferocidade nos ataques às populações russas da Ucrânia, em particular em Mariupol.

Em Outubro de 2014, o batalhão foi integrado na Guarda Nacional, dependente do Ministério do Interior e Biletsky foi promovido a coronel e recebeu a “Ordem da Coragem”. Retirado do Donbass, o Azov foi transformado num regimento de forças especiais, equipado com tanques e com artilharia da 30ª Brigada mecanizada. O que conservou nessa transformação foi o emblema, copiado segundo o da SS Das Reich, e a formação ideológica dos recrutas modelada de acordo com a formação nazi. Na qualidade de unidade da Guarda Nacional, o regimento Azov foi treinado por instrutores USA e da NATO.

“Em Outubro de 2018 – lê-se num texto oficial - representantes dos Carabinieri italianos visitaram a Guarda Nacional Ucraniana para discutir a expansão da cooperação em diferentes direcções e assinar um acordo de cooperação bilateral entre as instituições”.

Em Fevereiro de 2019, o regimento Azov foi enviado para a linha de frente do Donbass. O Azov não é apenas uma unidade militar, mas um movimento ideológico e político. Biletsky - que criou o seu próprio partido em Outubro de 2016, «Corpo Nacional» - continua a ser o dirigente carismático em particular para a organização juvenil que é educada, com o seu livro «As palavras do Führer branco», no ódio contra os russos e treinada militarmente. Simultaneamente, Azov, Pravy Sektor e outras organizações ucranianas recrutam neonazis de toda a Europa (incluindo da Itália) e dos EUA.

Depois de serem treinados e testados em acções militares contra os russos do Donbass, regressam aos seus países, mantendo, evidentemente, vínculos com os centros de recrutamento e treino. Isto acontece na Ucrânia, país parceiro da NATO, já membro de facto, sob comando rígido dos EUA.

- Portanto, compreende-se por que é que a investigação sobre os arsenais neonazis, em Itália, não será capaz de ir até ao fim.
- Também se percebe por que é que os que enchem a boca com antifascismo, permanecem mudos perante o nazismo, que renasce no coração da Europa.





Ver original na 'Rede Voltaire'



Abaixo o caviar, viva o kebab

Há muitos anos que o jornalismo está a ser cozinhado em lume brando. Quando deixou de questionar o poder e passou a servir de apêndice dos grandes grupos económicos e financeiros, os principais jornais, rádios e televisões entraram numa espiral decadente que preferem atribuir às recentes transformações tecnológicas. Em momento algum lhes ocorre questionar se por acaso não terá algo a ver com a crise do sistema político e económico.

Sejamos claros. Durante décadas, venderam-nos falsas verdades e agora que outros seguem o mesmo caminho apontam-lhes o dedo e defendem o monopólio da mentira. Foi a imprensa que serviu de comissária política na cruzada neoliberal pela precarização do trabalho e pela privatização dos serviços públicos. Agora espantam-se que as redes sociais se assumam como fonte prioritária de conhecimento para muitos. É certo que é um mar agitado de mentiras por onde sopram os perigosos ventos da extrema-direita mas é justamente por não haver uma imprensa livre de interesses privados que o discurso destravado do fascismo volta a estar em cima da mesa.

Há umas semanas, a filósofa belga Chantal Mouffe afirmava, em entrevista ao Público, que “a melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Como qualquer pós-marxista, tem um perigoso gosto por transfigurar conceitos que o próprio Pacheco Pereira fez questão em desfazer. Não há populismo de esquerda. Mas, ainda assim, Chantal Mouffe tocou no sensível nervo do campo das armas do nosso tempo para combater o fascismo. Na verdade, de todos os tempos. Só a radicalização do discurso em defesa da ruptura com o capitalismo pode fazer com que os trabalhadores voltem a confiar na esquerda.

Não são poucos os países onde a esquerda descafeinada abandonou princípios e abraçou a política do possível. Sobretudo, deixou de ter a questão de classe como eixo central do seu discurso. Hoje, a extrema-direita é praça-forte em muitos lugares porque adoptou um discurso forte, apesar de pejado de mentiras, construindo uma imagem que aparece aos olhos dos trabalhadores e das populações como alternativa anti-sistema. Foi precisamente a comunicação social que promoveu a anti-política, o individualismo e a ideia de que são todos iguais para que se apoiem sempre os mesmos escondendo que há alternativas.

Há esgotos mais limpos que os corredores por onde as portas giratórias do poder conduzem o dinheiro. São muitos os jornalistas que apenas cumprem ordens e que como qualquer polícia se limitam a brandir o cassetete quando lhes mandam. Mas tanto a caneta como o bastão fazem as mesmas vítimas.

Na Alemanha, a população ficou ganha para o conceito de expropriação quando percebeu que era a única forma de ter direito a ter uma habitação digna. No País Basco, centenas de jovens ocuparam um bairro operário abandonado que estava destinado a servir de terreno para futuros apartamentos para ricos. Na Andaluzia, vários trabalhadores do campo entram em herdades improdutivas e põem-nas a produzir para proveito de todos. Acabou o tempo das palavras mansas e das soluções edulcorantes. Mas também da prática ruminante inconclusiva. Combater o fascismo é defender a justiça social por todos os meios possíveis.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/07/abaixo-o-caviar-viva-o-kebab.html

Em entrevista de Clara Ferreira Alves

Oh, que grande confusão !
Escreveu Clara Ferreira Alves : «a sua biografiaatravessa e confunde-se com a democracia».
Aplaudo com ambas as mãos pois foi isso mesmo que demonstrei neste post há cerca de 5 anos.

Esclarecendo uma vez mais que nunca fui de amarrar ninguém ao seu passado mas o que, ao mesmo tempo, não tolero são as reescritas de histórias pessoais, encontrei ontem no DN, que tem em curso um inquérito que, em homenagem a Baptista-Bastos, pergunta a diversas personalidades «onde estava no 25 de Abril?», um José Miguel Júdice a contar o seu regozijo com esse dia histórico. Na sequência disso, também encontrei um antiga entrevista de J.M.J. em que declarava nunca ter tido nada a ver com a ditadura. Face a isto, só venho aqui acrescentar duas coisas: uma é que os seus colegas no seu tempo na Universidade de Coimbra muito se devem ter rido; e a outra é que se nunca teve «nada que ver com a ditadura» só se for do ponto de vista de que ainda estva mais à direita que o marcelismo. Como se pode ver por estas duas passagens de um ensaio de Riccardo Marchi na Análise Social:
 
 
 
 
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Neofascismo avança nos Estados Unidos

Últimos ataques feitos pelo presidente dos EUA contra congressistas do partido democrata, nos quais chamou-as de “não americanas” durante um comício na Carolina do Norte, reacendeu o temor do avanço do neofascismo no país.


 

Os últimos ataques feitos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra congressistas do partido democrata, nos quais chamou-as de “não americanas” durante um comício na Carolina do Norte, nesta quarta-feira (17), reacendeu o temor do avanço do neofascismo no país. Enquanto Trump atacava a deputada Ilhan Omar, a multidão entoou gritos de “mande-a de volta”, em referência ao fato da parlamentar ter nascido na Somália e ter se tornado cidadã americana em 2000.

Os ataques de Trump, que tenta a reeleição, porém, se estenderam a outros legisladores democratas. No Twitter, Trump já havia incitado o ódio ao afirmar que Rashida Tlaib, Alexandria Ocasio-Cortez e Ayanna Pressley, além de Ilhan eram “prototerroristas terrivelmente anti-Israel, anti-EUA”, além de as descrever como comunistas”.

“Se você odeia este país ou se não está feliz aqui, pode sair!”, emendou. As parlamentares Ocasio-Cortez de ascendência porto-riquenha; Tlaib, palestina; e Pressley, afro-americana; fazem parte de um grupo crítico ao governo Trump conhecido como o “esquadrão”.

A ofensiva contra os imigrantes e opositores vem sendo elaborada por uma equipe de estrategistas, que têm à frente Stephen Miller, um ativista de extrema-direita que atua como assessor sênior de Donald Trump. Os argumentos comumente utilizados costumam ser empregados por grupos fascistas e de extrema direita, visando criminalizar a oposição e colocar a opinião pública contra o pensamento crítico, além de criminalizar a liberdade de expressão.

Este conjunto de ideias foi empregado por teóricos do nazismo, como o jurista Carl Schmitt, que desenvolveu a teoria de um “estado de exceção” visando justificar o totalitarismo nazista.

As agressões com tendências neofascistas levaram Shaun King, colunista do The Intercept, a qualificar, no Twitter, o momento como “um dos momentos mais racistas na história política americana moderna”

“Este é um dos momentos mais racistas na história política americana moderna. Quando Trump começou a atacar minha amiga congressista Ilhan Omar, a multidão começou a cantar “ENVIE-A, ENVIE-A DE VOLTA”. É totalmente desprezível e perigoso. Estamos aqui. Estamos naquele tempo. FEIO”, postou.

Confira o Twitter de Shaun King sobre o assunto.

I am having to fight back the tears I am so angry.

Between the denial of justice for the family of Eric Garner and this openly bigoted attack, my own heart is on the edge.

This is not just a chant. These aren’t just words – to be easily dismissed or ignored.

They mean us harm. https://t.co/eKDtIYxIPA

— Shaun King (@shaunking) July 18, 2019

 


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/neofascismo-avanca-nos-estados-unidos/

A deriva reacionária das Igrejas e a extrema direita

Não se pode dissociar o regresso ao fascismo do comportamento das Igrejas, embora se possa discutir, na multiplicidade das causas, se a influência maior é a das Igrejas sobre a deriva política ou vice-versa.

Na Europa, há factos inquietantes que raramente merecem uma reflexão serena, como o regresso do antissemitismo, tantas vezes a pretexto do sionismo, igualmente condenável. É cada vez mais frequente, aparecem notícias sobre a vandalização de cemitérios judaicos ou ataques a sinagogas, logo atribuídas aos suspeitos do costume, os muçulmanos, que odeiam judeus e cristãos.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o antissemitismo está impresso no ADN do cristianismo, o que se compreende por ter sido a primeira cisão com êxito do judaísmo. A origem comum dos monoteísmos é o Antigo Testamento, um testemunho de inegável valor histórico e literário sobre a vida e o pensamento das tribos patriarcais da Idade do Bronze. O racismo, a xenofobia e a misoginia são a herança que transmite às Religiões do Livro.

O cristianismo poderia ter enjeitado, a partir do Novo, o Antigo Testamento, e nunca o fez. Por isso, do esclavagismo à Inquisição, todas as malfeitorias encontraram aí a sua justificação. O Novo Testamento introduz um humanismo a que é alheio o Antigo, mas acrescenta-lhe duas taras, o proselitismo e o antissemitismo, este último típico de todos os trânsfugas.

Os quatro Evangelhos (Marcos, Lucas, Mateus e João) e os Atos dos Apóstolos têm, na contabilidade de Daniel Jonah Goldhagen (in A Igreja católica e o Holocausto) cerca de 450 versículos explicitamente antissemitas, «mais de dois por cada página da edição oficial católica da Bíblia».

Por sua vez, o islamismo, um plágio grosseiro do judaísmo e do cristianismo, consegue ter o pior dos dois anteriores monoteísmos, a que não é alheia a violência das tribos nómadas onde se criou um ‘profeta’ analfabeto e amoral que decorou durante vinte anos o que o arcanjo Gabriel lhe ditou, entre Medina e Meca, com a paciência do alcoviteiro que tinha alertado a mãe de Jesus para a sua gravidez, de que as mulheres só costumam aperceber-se, avisadas por anjos.

Ainda hoje me surpreendo com a bondade e generosidade dos  crentes  com livros que tão maus ensinamentos contêm. A generosidade humana é um bálsamo para a perversidade divina.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/07/a-deriva-reacionaria-das-igrejas-e.html

Para entender o fascismo dos impotentes

Franco Berardi entrevistado por Juan Íñigo Ibáñez | Outras Palavras | Tradução: Rôney Rodrigues | Imagem: Edward Hopper, Four Lane Road (1956)
O filósofo italiano Franco Berardi, referência na esquerda europeia, avalia as causas que levaram ao fortalecimento da ultradireita, as divergências no feminismo e como a conexão tecnológica ameaça acabar com a ironia na linguagem e a sedução.
No início de agosto de 2017, tudo estava pronto para que Franco “Bifo” Berardi apresentasse sua performance “Auschwitz na Praia” na feira de arte alemã documenta 14. No último minuto, os curadores da exposição decidiram cancelar a proposta do acadêmico bolonhês: várias organizações reclamaram que a situação dos imigrantes era incomparável com a enfrentada pelos judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Ao fim, a performance foi substituída pela leitura pública do poema de “Bifo” que inspirou o trabalho original, além de um debate aberto sobre a crise dos migrantes na Europa.
Apesar disso, Berardi seguiu insistindo – ferreamente – no paralelismo entre as condições que enfrentam os refugiados que dia após dia chegam à costa europeia, com os seis milhões de judeus assassinados durante o nazismo. E foi ainda mais longe: equiparou o contexto político atual – marcado pelo crescimento da extrema-direita – com o que tornou possível a ascensão do nazismo na Alemanha.
Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, os resultados para a ultradireita passaram longe do triunfo significativo que alguns prenunciavam e, no fim das contas, os grandes vencedores foram os partidos ecologistas. No entanto, 21 coalizões ultraconservadoras ganharam assentos e aumentaram em 10% seus representantes no Parlamento Europeu. E, enquanto os tradicionais partidos socialistas e de centro-direita perderam a maioria absoluta – e, por isso, já não podem mais formar uma “grande coalizão” –, as propostas de Marine Le Pen, Matteo Salvini e Nigel Farage – líder do partido do Brexit – conseguiram impor-se na França, Itália e Reino Unido. Da mesma forma, na Hungria, Polônia e Suécia também se consolidaram forças de extrema-direita e antieuropeias.
Apesar de esse avanço eleitoral ser aparentemente modesto, para muitos analistas o discurso de populistas xenófobos goza hoje de excelente saúde, chegando, inclusive, a “infiltrar-se” por dentro das social-democracias nórdicas: na Dinamarca, a centro-esquerda liderada por Mette Frederiksen acaba de recuperar o poder com base na promessa de implantar uma forte política anti-imigração.
  
 
Por que o senhor considera que a derrota de Hitler não foi o fim do nazismo na história da Europa nem do mundo?

Antes de tudo, a dinâmica social que tornou possível a onda neorreacionária contemporânea (do Brexit a Trump, de Duterte a Bolsonaro) é a mesma que levou à vitória de Hitler em 1933. Hitler ganhou porque convenceu os trabalhadores empobrecidos e humilhados na Alemanha de que não eram trabalhadores derrotados, mas guerreiros brancos e arianos.

O nazismo substitui o devir social pela identidade nacional. É o que está acontecendo nessa época de Trump; é o que acontece hoje na Europa: os trabalhadores, empobrecidos pela máquina financeira e humilhados pela esquerda neoliberal, rebelam-se em nome da identidade, da raça, da nação. Os humilhados, como classe social, se reafirmam como classe guerreira.

Em relação ao que está acontecendo na região do Mediterrâneo: é um verdadeiro holocausto que se desenvolve diante dos olhos da população europeia. Todos os dias, estamos matando homens e mulheres que vêm da Síria, do Afeganistão, da África. Todos os dias deportamos pessoas que estão fugindo das guerras que os europeus e norte-americanos provocaram aos torturadores da Líbia e da Turquia.

Alguém disse que não se pode comparar os seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas. 30 mil não parece ser suficiente… Vamos esperar que cheguem a seis milhões?

O nazismo de hoje tem uma dimensão planetária: os “judeus de hoje” são milhões de pessoas que o colonialismo humilhou e que tentam escapar de seus campos de extermínio.

O senhor apontou que o auge da extrema-direita se dá em consonância com a obsessão pela “identidade”. Por que isso é problemático na política?

A política é fundada na escolha de alternativas, é baseada no pensamento, na estratégia racional. A identidade é o contrário da liberdade, é o contrário da escolha. Sou branco, sou negro, sou muçulmano, sou cristão… A política não tem nada a ver com o “ser”, mas com o devir.  

Quando a política é pensada em termos de “ser”, a guerra se torna inevitável. O fascismo sempre é baseado na confusão de que a política é a expressão de uma identidade.

Embora muitos rotulem os partidos e governos de extrema-direita de “fascistas”, o senhor diz que essa categoria não é suficiente. Por quê?

O fascismo histórico do século XX foi a expressão de jovens que lutavam pela supremacia nacional e racial, mas baseados em uma visão futurista, expansiva e eufórica. Não se pode entender o fascismo italiano, e tampouco o alemão e o japonês, sem a referência a esse futurismo, a afirmação agressiva de um futuro glorioso. Hoje nada disso existe. Não há exuberância juvenil futurista na onda neorreacionária atual.

A onda neorreacionária de hoje é um fenômeno de senescência (envelhecimento biológico). Não importa que muitos jovens tenham votado na direita: são jovens sem futuro, sem euforia, sem esperança e sem glória. O horizonte contemporâneo é de impotência; e a impotência é a origem da vingança.

Em 2018, intelectuais e artistas francesas assinaram uma carta que acusava o feminismo anglo-saxão, especificamente o movimento #MeToo, de provocar uma “caça às bruxas” que conduziria a um novo “puritanismo” sexual. Que opinião você tem sobre esse cisma dentro do feminismo?

O movimento #MeToo foi um acontecimento importante de denúncia do poder (masculino) implícito dentro da sexualidade contemporânea. Concordo. Mas a dinâmica cultural que o #MeToo desencadeia coincide com uma visão puritana que tem um papel importante na história do movimento feminista mundial, mas sobretudo na base do feminismo norte-americano. A visão puritana se manifesta na rejeição do que é ambíguo e impuro na comunicação erótica e na comunicação em geral.

Naturalmente, frente às condições atuais de violência e de agressividade masculina, a onda de denúncias femininas é necessária e legítima, mas há um grande perigo cultural: a criminalização da ambiguidade, da sedução como jogo linguístico.

O #MeToo é a expressão de uma cultura na qual a sexualidade perdeu toda a relação com a ironia da linguagem, onde a linguagem tem que ser “sim-sim, não-não”, onde o medo reciproco é a única maneira de evitar a violência. É um mundo infernal que corresponde perfeitamente ao inferno de um país onde o que é humano foi suprimido, porque a linguagem foi submetida a um código binário. A binarização da sensibilidade implica na identificação do erotismo com a pornografia.

As denúncias contra o produtor Harvey Weinstein, que desencadearam a onda de crítica feminista nos Estados Unidos, têm que ser contextualizadas dentro da crise política da democracia norte americana, na crise da classe política democrática, no sistema de cumplicidade “clintoniana”. Quem era Weinstein, todos sabiam, mas o poder da democracia liberal e da mídia foram cúmplices de sua violência, que não era só sexual, mas também social, econômica e profissional.

Existe hoje algum coletivo feminista que transcenda a visão puritana?

O movimento “Ni una menos” da Argentina tem um caráter cultural profundamente diferente porque se baseia na ação coletiva das mulheres, não em uma abstrata afirmação de uma verdade e de uma pureza que não existe, mas na palavra da lei.

Nos últimos anos surgiram blogueiros e youtubers de extrema-direita. A que atribui sua proliferação e como isso se relaciona com a ascensão de governos de extrema-direita?

A impotência é o caráter fundamental de identificação das raças brancas. A cultura declinante dos dominadores é ameaçada pela globalização, pela migração e, ao mesmo tempo, pelo superpoder da técnica e das finanças.

Impotência é uma palavra que se refere à potência política perdida, mas também à potência sexual. A depressão massiva, a precariedade e a ansiedade contemporânea tem produzido um efeito de impotência psíquica e sexual massiva que se manifesta como agressividade antifeminina.

A guerra civil global contemporânea é, antes de mais nada, uma guerra contra as mulheres. Em seu livro Muerte a los normies [sem tradução no Brasil], Angela Nagle [ pdf Kill All Normies_ Online Culture Wars From 4Chan and Tumblr to Trump and the Alt-Right-Zero Books (2017)] (612 KB) explica muito bem o papel que a cultura dos “homens beta” (machos pouco assertivos com as mulheres e que foram relegados, involuntariamente, do mercado sexual) está desenvolvendo uma onda neorreacionária.

Nos anos que antecederam o triunfo de Trump, muitas subculturas da web, vinculadas a alt right, utilizaram memes como “Pepe, o Sapo” que, de forma irônica e cínica, conseguiram atingir milhares de homens jovens, “trolls” da raça branca e com sensibilidade política indefinida. Que implicações éticas e cognitivas tem a estética dos memes?

Em condições de aceleração e intensificação da infosfera, o tempo de elaboração cognitiva se faz cada vez mais breve e restrito. Por isso, a faculdade crítica, como a capacidade de discriminar o que é verdadeiro e falso, fica confusa e obscurecida. Não temos tempo para analisar intelectualmente, nem para elaborar emocionalmente, os estímulos que chegam a nossa mente. Consequentemente, as formas de comunicação mais eficientes são as que substituem a razão crítica com a velocidade da síntese memética.

Em seu livro Os meios de comunicação como extensão do homem (1964), Marshall McLuhan escreveu que, quando a simultaneidade eletrônica substitui a sequencialidade alfabética, a faculdade mitológica substitui a cultura social e a razão crítica. O meme é a expressão midiática do pensamento mitológico que – como o inconsciente freudiano – não conhece o princípio de não contradição, não conhece a irreversibilidade temporal, não conhece a crítica nem a temporalidade histórica.

O senhor mostrou-se incrédulo diante das fake news e declarou que não constituem um fenômeno novo. A que atribui a crescente tendência a acreditar e difundir notícias e informações falsas?

As notícias falsas não são, naturalmente, um fenômeno novo; sempre houve informação mal-intencionada na história dos meios. O volume de notícias faltas aumentou hoje porque aumenta, em geral, a quantidade de informações que circulam na infosfera digital.

A aceleração e intensificação da infosfera é a causa de um pânico comunicacional que se manifesta como uma incapacidade de distinção consciente. E as estratégias do pensamento crítico são ineficazes no contexto desta “tempestade de merda”, nas palavras do filósofo sul-coreano Byung-Chil Han.

Em La segunda venida [sem tradução no Brasil], seu mais recente livro, o senhor mergulha no vocabulário teológico para tentar desvendar os motivos por trás do descontentamento social atual. Que propostas o senhor oferece para superar o caos que nos rodeia? E a que potencial “vinda” o senhor se refere?

Acreditamos que ingressamos em uma época apocalíptica em seu sentido duplo; uma época de catástrofe e uma época de revelação. Não se pode evitar o apocalipse porque as tendências apocalípticas já estão se manifestando. Só podemos preparar a segunda vinda. E não me refiro a segunda vinda de Jesus Cristo porque não sou religioso. Refiro-me a segunda vinda do comunismo, mas não na forma totalitária em que se manifestou durante o século passado.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

COMO SE TEM INSTALADO A DITADURA GLOBAL TOTALITÁRIA?

ARTIGO DE MANUEL BAPTISTA, PARA O «Observatório da Guerra e Militarismo»

image
Com efeito, estamos a caminho de uma ditadura global totalitária, que não se assume como tal. Os EUA continuam a ter o poder supremo de decidir quem tem o direito de comprar o quê a quem; quem tem o direito à vida, com os inúmeros (e quase nunca noticiados), ataques com drones assassinos; com o uso sistemático de exércitos mercenários; de grupos terroristas como ISIS, criados pelos serviços secretos americanos e israelitas; com a apreensão de dinheiro que pertence a outros Estados soberanos (caso mais recente: Venezuela); captura de navios, como o petroleiro iraniano, tomado numa operação de piratagem ao largo de Gibraltar, pelos cães de guarda dos EUA que são os britânicos, etc, etc.
É impossível – para qualquer observador imparcial – não ficar com a forte convicção de que os EUA criaram a chamada «Guerra ao Terror», essa guerra sem fim, para poderem melhor subjugar tudo e todos. Os regimes amigos não são poupados, veja-se o golpe de Estado que tentaram contra Erdogan e que abortou, causando a aproximação deste com a Rússia, que teve o sentido de oportunidade de fornecer auxílio, decisivo para o falhanço do referido golpe. Na política actual, os media têm um poder enorme, maior do que no passado. Os grandes grupos económicos e os Estados sabem-no bem. Não podem ser considerados desperdício, despesas de ostentação ou mecenato benévolo, os biliões gastos nos media, incluindo as redes sociais, que desempenham cada vez mais um papel de fonte exclusiva de «notícias» para milhões de utilizadores. Evidentemente, desempenham tais aquisições e participações,- um papel estratégico, como todo o investimento feito nestas áreas. A Terceira Guerra Mundial, a meu ver, está em curso e já há um certo tempo, só que quase ninguém ou muito poucos vêm a panorâmica mundial assim. De facto a guerra híbrida tem sido abundantemente usada, numa panóplia que vai de sanções unilaterais até a ciber-ataques às redes eléctricas de poderes inimigos e sobretudo, com o condicionamento das massas, através duma media mainstream, inteiramente ao serviço dos grandes poderes da finança e do complexo militar-securitário-industrial do Ocidente. Como nas guerras passadas, uma guerra de propaganda antecede as operações militares propriamente ditas. Mas, diferentemente das guerras mundiais passadas, isto ocorre na apatia, na anomia, das populações mesmo as mais «cultivadas», «civilizadas». Elas foram adormecidas com o ópio da procura do prazer imediato, com a adição às redes sociais e à comunicação com zero conteúdo informativo. Assim, grande parte das pessoas foi transformada em «socio-zombies», isto é, pessoas sem qualquer participação cívica. Muitas delas, estão em estado de «denegação» pois se lhes mostrarmos que a realidade não é nada parecida com a imagem que lhes é vendida nos media, elas «preferem» descartar uma tal evidência, como não tendo cabimento dentro no seu mundo digital, virtual. Julian Assange é um prisioneiro político, sujeito a prisão arbitrária, tortura e tentativa de assassínio, por um poder globalista que se foi afirmando – até conseguir o controlo quase absoluto – nos países ditos de «democracia liberal». Isto é característico duma ditadura totalitária.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Falar de fascismo no Brasil

por Vladimir Safatle [*]

Cartaz na UFRJ. Há o medo de certas palavras. Esse medo vem na maneira com que tentamos, até o limite, não utilizá-las. Porque seu uso acende alertas vermelhos, nos quebra a letargia de sentir que, por mais que nossa situação atual seja complicada, a vida corre. E corre com um correr de quem acaba por acertar seu passo, abaixar os gritos. Bem, não há palavra que nos leve mais a temer seu uso do que "fascismo". No entanto, é ela que se ouve de forma cada vez mais insistente quando se é questão da situação brasileira atual. Coloquemos então, de maneira direita e simples, uma questão que vários de nós já colocou a si mesmo: Estaria o Brasil caminhando para o fascismo?

Esta questão não se ouve apenas no Brasil. Ela se ouve na Itália, na Hungria , na Polônia, nas Filipinas. Esta confluência de semblantes perplexos a fazer o tour do mundo não é mero acaso. Ela indica uma fenda global que parece paulatinamente crescer, fenda por onde passaria a emergência de novas formas de governo com traços claramente fascistas.

Mas não seriam tais governos simplesmente "populistas"? Não é assim que se diz hoje, "governos populistas de direita"? Sim, é assim que se diz. Mas e se este uso extensivo do termo "populismo" fosse, na verdade, uma forma de não chamar de gato um gato? Pois talvez os chamamos de "populistas" para não dizer o que eles realmente são: governos nos quais uma certa concepção de 'estado total', uma forma explícita de implosão de qualquer possibilidade de solidariedade social com grupos historicamente vulneráveis, uma noção paranoica de nação e o culto da violência são a verdadeira tônica. Mas seria isto exatamente "fascismo"? E por que não falar em "populismo", neste caso?

Lembremos como o uso extensivo da noção de "populismo" voltou. Há pelo menos dez anos havia ficado claro que a política mundial tendia a se deslocar para os extremos. A incapacidade de responder ao processo de degradação social provocado pela crise econômica de 2008, ou seja, a inanidade das políticas neoliberais diante da crise e sua partilha, em maior ou menor grau, por todos os principais atores políticos, provocara uma desidentificação tal com o poder instituído, uma frustração tal daqueles que um dia acreditaram nas sereias da globalização, que o fortalecimento dos extremos era uma tendência irresistível. A democracia liberal havia tocado seu limite. Pois o problema não era apenas econômico, ele era principalmente político. Não havia espaço no campo político para ações e discursos de ruptura clara com a ordem econômica responsável pela pauperização de camadas cada vez maiores da população.

Diante de um desejo de recusa forte dos limites de nossa vida institucional, criou-se essa palavra mágica que faz tudo o que coloca em questão os sistemas de paralisias e acordos da democracia liberal parlamentar parecer "irracional", "emotivo", "fruto de frustrações", "convite a regressões atávicas", ou seja, "populista". Ainda de quebra, o termo permitia juntar os extremos, falar de um populismo de direita e de um populismo de esquerda, anulando com isto os dois polos, fazendo-os operar em uma balança de equivalências. Como se, no fundo, existisse apenas a "democracia" que conhecemos e os "populismos".

Mas era claro que as diferenças entre os polos eram profundas. À direita, via-se uma crítica à pauperização social que colocava a conta da catástrofe nas costas dos mais desfavorecidos, a saber, os imigrantes espoliados por relações de trabalhos sub-humanas, os refugiados vítimas das consequências das intervenções imperialistas em regiões de conflito perene, como o Oriente Médio. Quando não havia grandes levas de imigrantes, via-se a mobilização das clivagens originárias de raça e de gênero, em uma reedição de estratégias cuja ressonância fascista era evidente. À direita, via-se ainda todo o imaginário a respeito da fronteira, da imunidade do corpo social, da invasão, do contágio retornar diretamente dos discursos mais inflamados de Goebbels.

Ou seja, não havia proximidade alguma entre os polos. Mas estávamos diante de uma prática de "normalização" da extrema-direita e recuperar a tópica do "populismo" vinha mesmo a calhar. Porque recusar sua normalização acabaria por levar toda a força anti-institucional ao outro polo e com isto produzir uma ruptura sem negociação com a ordem econômica atual.

Mas nada disto respondeu à pergunta colocada no início deste artigo, a saber, estaria o Brasil caminhando para o fascismo? Talvez fosse o caso de levantar alguns traços que têm a força de falar por si mesmos.

Quando o jurista nazista Carl Schmitt procurou explicar o que era o Estado total fascista, ele tomou o cuidado de estabelecer uma distinção. Segundo ele, nós conheceríamos uma forma de Estado total no interior das democracias parlamentares. Trata-se desse Estado que ouve todos os lados da sociedade, que está presente em todos os conflitos sociais e que produz estruturas de mediação e de legislação em todas as esferas da vida social. Ele procura dar conta dos conflitos trabalhistas, dos problemas de desigualdade, da violência específica contra grupos vulneráveis, entre outros. O Estado está assim, em todos os lugares. Ele não pode pairar acima da sociedade e decidir, pois é apenas a emulação dos conflitos sociais. Contra isto, dirá Schmitt, precisamos de outro Estado total. Mas sua função será diferente: ele deverá usar toda sua força para despolitizar a sociedade, impedir que as escolas sejam focos de sedição e formação, impedir que os trabalhadores pressionem seus patrões através de obrigações legais, usar a força policial para impedir greves, paralisias, ocupações. Assim, pode-se garantir a única liberdade real, a saber, a "liberdade de empreender" (que é sempre uma liberdade para alguns, ou melhor, para os de sempre). Este era o Estado total fascista.

Por outro lado, nesse Estado, um dos poucos princípios liberais que qualquer democracia real deveria preservar, a saber, a possibilidade de que indivíduos sempre terão, independente de quem são ou do que fizeram, de se defenderem do Estado quando julgados, não existia. Pois essa possibilidade exige inviolabilidade do sistema de defesa (em bom português, meu advogado de defesa não pode ser grampeado [NR] pelo juiz), exige desinteresse da parte dos julgadores (mais uma vez, em bom português, se sou candidato a presidente, o juiz que julga meu caso não pode me prender porque tem um projeto pessoal de poder e quer ser ele o próprio presidente).

Por fim, e esta era uma compreensão precisa de Franz Neumann, o Estado nazista não governa. Ele é uma associação instável entre grupos que estão em conflito contínuo. Mas esse conflito é uma forma de perpetuar o "movimento", já que ele permite ao governo entrar em conflito contínuo com o Estado, dizer sempre que nosso grande projeto não está a ser implementado porque forças obscuras estão agindo dentro do Estado para impedir nossa grande redenção. O estado nazista é uma crise permanente elevada à condição de governo. A única coisa que tenho a dizer é: junte os pontos e diga se a cena não lhe parece demasiado familiar.

05/Julho/2019

[NR] Grampear: fazer escutas telefónicas clandestinas.

[*] Professor de Filosofia na Universidade de S. Paulo.

O original encontra-se em brasil.elpais.com/brasil/2019/07/03/opinion/1562176410_719446.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/brasil/safatle_05jul19.html

A desmemória e a volta das ideologias reacionárias

A desmemória é uma doença triste. Quando as gerações que viveram sob as ditaduras (e sobreviveram a elas) envelhecem ou morrem, as lembranças, os traumas e as marcas físicas dos horrores enfrentados se transferem para os livros de história e não comovem as gerações mais novas, que as veem como abstrações narrativas.

E então essas novas gerações (partes delas, é claro) se deixam novamente seduzir pelas sereias fascistas (como na Itália agora), neonazistas (como na Alemanha), neofranquistas (na Espanha) e bajuladoras das ditaduras militares (como no Brasil).

Junte-se a isso uma precarização absoluta da vida social, do trabalho, da política, do clima, do meio ambiente, do acesso ao conhecimento, junte-se ainda o ultraliberalismo neofeudal histérico, e o terreno está aplainadinho para as ideologias assassinas semearem seu discurso de ódio.

Num planeta em que o homem mais rico do mundo (Jeff Bezos, da Amazon) tem na conta bancária o PIB da Croácia e o dobro do PIB do Uruguai (para não mencionar incontáveis países mais pobres da África e da América Latina), é compreensível que o discurso contra o "sistema" atraia tanta gente desavisada.

E boa parte da culpa de tudo isso é dos partidos tradicionais social-democratas ou "socialistas" (como o PS francês, o PSOE espanhol ou o PD italiano), que abandonaram suas pautas de defesa dos direitos da população e se jogaram nos braços ávidos da grande finança internacional.

Em 2008, em vez de protegerem suas populações contra a crise, esses governos correram para salvar os bancos, despejando neles bilhões de euros e de dólares e impondo o austericídio ao povo. Sem a cumplicidade do PS, Marine Le Pen dificilmente teria a projeção que tem hoje.

Quanto ao Brasil, melhor nem começar a falar, porque é um quadro ainda mais aterrorizante já que nem as instituições democráticas que ainda existem na Europa nós temos, nunca tivemos e, pelo andar da carruagem, jamais teremos.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/a-desmemoria-e-a-volta-das-ideologias-reacionarias

Homenagem do Exército brasileiro a oficial condecorado por Hitler é afronta a FEB, diz especialista

Medalha nazista
© Sputnik / А. Shadrin

O Exército brasileiro homenageou nesta segunda-feira (1º) o major alemão Eduard Ernest Thilo Otto Maximilian von Westernhagen (1923-1968), que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) defendeu o Exército nazista.

A homenagem publicada juntamente com um texto no site oficial do Exército brasileiro diz que ele foi homenageado como aluno da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército do Brasil.

No texto, Otto é classificado como "um sobrevivente da 2ª Guerra Mundial e das prisões totalitárias soviéticas, cuja vida foi encurtada por um ato terrorista insano e covarde".

No dia 1º de julho de 1968, há exatos 51 anos, Otto foi assassinado a tiros no Rio de Janeiro pelo grupo radical de esquerda Colina (Comando de Libertação Nacional), enquanto participava de um intercâmbio promovido pelo Exército brasileiro.

No entanto, sua morte foi um engano. Otto foi confundido com o capitão boliviano Gary Prado, que em 1967 havia participado da captura do líder comunista Che Guevara (1928-1967).

© Foto : Reprodução/Exército brasileiro
Montagem feita pelo Exército brasileiro com a foto do major alemão Otto von Westernhagen, uma página de jornal noticiando sua morte e de placa de homenagem

Uma noticia da época publicada pelo jornal Folha de S.Paulo disse que "a vítima fora condecorada por Hitler quando da ocupação da França e recebera graves ferimentos quando do ataque do Exército soviético a Berlim. Terminada a guerra, permaneceu no Exército alemão, devido às suas qualidades de perito em artilharia".

Em entrevista à Sputnik Brasil, Vinicius Ramos, historiador e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), diz que a homenagem do Exército Brasileiro a um oficial que atuou para as forças nazistas é uma afronta aos soldados brasileiros que lutaram na Segunda Guerra.

"Para mim essa posição do Exército é uma afronta a principal força que foi enviada aqui da América do Sul, que foi a Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma vez que os nossos pracinhas se deslocaram em direção a Europa para lutar contra o nazismo. A posição do Exército hoje é totalmente contrária ao esforço de guerra que foi feito por milhares de brasileiros que abandonaram suas famílias na luta contra a ditadura nazista", disse.

Cerca de 25 mil pracinhas brasileiros desembarcaram na Itália, o país terminou com um saldo de 443 militares mortos e cerca de 3.000 feridos.

"O major era um homem do alto oficialato, isso significa que sem dúvida nenhuma ele tinha alguma afinidade com a ideologia nazista porque naquele momento não era possível dentro do Reich se pensar em promover um sujeito, ele foi homenageado pelo Hitler, não se pode pensar em uma homenagem feita pelo Fuher sem que o sujeito tivesse afinidade com a ideologia", afirmou Ramos.

A Segunda Guerra Mundial deixou um saldo de 70 milhões de pessoas mortas, entre civis e militares.

Para Vinicius Ramos, a homenagem a Otto é uma sinalização do Exército para sua militância que apoia o regime militar que ocorreu no Brasil entre 1964 e 1985.

"É claramente uma tentativa do Exército em tentar rememorar alguma coisa para a sua militância, a militância mais a direita, porque não foi a toa que foi escolhido justamente o major que foi assassinado durante o período da ditadura por um movimento radical", destacou.

Vinicius Ramos também chama a atenção para o fato do Exército brasileiro também ter escolhido homenagear um oficial do Exército que perdeu a guerra, ao invés de homenagear combatentes responsáveis pela derrota do nazismo, como o Exército da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

"Mais de 80% do esforço de guerra para a vitória dos aliados foi feito pelo Exército Vermelho, foi feita pelo povo da União Soviética, o brilhantismo destacado desses soldados alemães ele me parece muito mais um brilhantismo que não se enquadra na realidade. O brilhantismo tem que ser destacado pelo Exército que venceu a guerra e livrou o mundo do nazismo", completou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019070214152767-homenagem-do-exercito-brasileiro-a-oficial-condecorado-por-hitler-e-uma-afronta-a-feb-diz-expert/

Uma eloquente resposta antinazi

Ou estive distraído ou a notícia não chegou aos jornais e televisões nacionais embora mereça ser referenciada: em Ostritz, pequena cidade alemã oriental, um festival de rock neonazi foi sabotado de forma inteligente pela ação conjunta das autoridades policiais e da população local. Ficou posta em causa a intenção dos simpatizantes hitlerianos em replicarem a estratégia dos admirados antecessores, que conseguiram chegar ao poder ao som de marchas patrióticas e de muito álcool.

 

Na sexta-feira a polícia apreendeu 4200 litros de cerveja e outros 200 litros no sábado. Por seu lado os moradores compraram as 200 caixas remanescentes nos supermercados da cidade. Segundo um ativista o plano de boicote ao festival foj organizado com uma semana de antecedência impedindo os neonazis de acederem a bebidas alcoólicas durante o evento. E para darem as «boas vindas» aos forasteiros afixaram cartazes com imagens de excrementos, que proclamaram como sinónimos do tipo de ideias por eles assumido.

 

O resultado foi eloquente: enquanto no ano passado haviam comparecido 1200 energúmenos, desta feita eles não chegaram a seiscentos.

 

E tão-só saíram da cidade com o rabo entre as pernas logo ali se iniciou um contra festival tendo a integração dos refugiados e a convivência inter-racial comoleitmotiv e cerveja obviamente à descrição.

 

Muito pudesse ser mais consequente uma proibição efetiva das atividades da extrema-direita há que ponderar se a resposta dada pelos habitantes de Ostritz não terá revelado maior eficácia para o futuro...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/uma-eloquente-resposta-antinazi.html

A aposta fascista do grande capital

Os estreitos contactos entre os partidos da extrema-direita europeia, a reunião realizada em Milão para formarem um bloco político, a concertação entre eles visando as eleições para o Parlamento Europeu — sem esquecer os “conselhos” do agente fascista norte-americano Stephen Bannon — são factos que revelam o propósito destas forças de criar uma estrutura internacional que as congregue.

Isto coloca-as muito para lá dos programas nacionalistas que apregoam, bem como do anti-europeísmo que arvoram. Importa à esquerda, portanto, saber bem com o que está a lidar.

O engodo da “Nação”

O “nacionalismo”, no sentido do regresso à Nação, com que essas forças se têm promovido, mostra-se aos poucos como uma veste falsa. É apenas o argumento útil para captar apoios em cada país, explorando a ideia ingénua de que cada povo se entende melhor com “os seus” líderes, com “as suas” classes dominantes, e que poderá assim melhor determinar os seus destinos políticos. Foi esse um dos argumentos fortes do Brexit, tal como no resto da Europa.

O anti-europeísmo que apregoam, no sentido de renúncia à União Europeia, revela-se igualmente como uma capa sob a qual tentam captar, em cada país, o descontentamento popular com a marcha da UE: a política de austeridade, a degradação e esvaziamento das instituições democráticas, a concentração do poder numa burocracia altamente centralizada, a “distância” entre eleitores e eleitos, etc. fornecem-lhes bons argumentos.

A competição entre burguesias nacionais, pugnando cada uma delas por uma posição de vantagem no plano europeu, alimenta a competição das forças da extrema-direita. Mas isso não obsta a que exista entre estas uma efectiva cooperação num propósito: tornarem-se conjuntamente hegemónicas na UE. Glosando uma ideia célebre, o movimento que a extrema-direita de vários azimutes corporiza é nacionalista na forma, mas internacionalista no conteúdo e nos objectivos.

Não será de estranhar que os ódios manifestados contra a UE — que na sua expressão primária pareceriam conduzir a uma separação de nações, cada uma por si — se vão transmudando afinal (pelo menos nos países continentais) num pró-europeísmo de feição fascista, uma vez que, como deixou entender o italiano Salvini, “agora já podemos ambicionar dirigir a UE à nossa maneira”. É o que ele significa quando fala em “restaurar o poder dos estados-membros” no seio da UE.

Ou seja, o imperialismo “democrático” da UE tende assim a transformar-se num imperialismo antidemocrático, fascista, sob a acção dos batedores da extrema-direita e contando com a gradual adesão das forças da direita tradicional a pontos-chave da sua ideologia e do seu programa político.

Um plano global

Porquê “fascistas” e não apenas “populistas”, como, tolerantemente, os designam as forças burguesas da direita tradicional?

Na verdade, não é o fascismo ou o nazismo de Mussolini ou Hitler que reentram em cena com o seu folclore de antanho. As novas forças de extrema-direita, que reúnem apoios de massas consideráveis, não aparecem de braço estendido nem de camisas castanhas. A sua maturação política deixou para trás essa coreografia de pequenas seitas.

A designação de fascistas assenta-lhes bem porque, na sua natureza política de fundo, defendem o mesmo programa de superação das debilidades do democratismo liberal (do liberalismo burguês em crise) pela via do autoritarismo antidemocrático. O programa da extrema-direita aponta para a instauração de um poder de “tipo novo” com a missão de “repor a ordem” — expressões estas que veiculam uma ditadura burguesa sem democracia, no lugar da ditadura burguesa legitimada por processos democráticos.

O plano não é italiano, ou francês, ou alemão. É um plano à escala europeia (para já, centrado na UE) e é também mundial pelo que se prova com os casos de Trump nos EUA e, numa outra escala, de Bolsonaro no Brasil.

A intervenção activa da equipa de Trump, seja no Reino Unido — incentivando o Brexit a qualquer preço, prometendo acordos vantajosos ao capital britânico —, seja no apoio às forças de extrema-direita por toda a Europa, confirma a concertação e as ambições globais do movimento. E mais: mostra o empenho do imperialismo norte-americano em tornar-se o estado-maior desta vasta mudança política.

Tentando sair do pântano

A decomposição da democracia liberal, da democracia capitalista, é patente. E é nesse terreno instável que a extrema-direita progride no sentido de estabelecer a sua apregoada “nova ordem”.

Tal decomposição, que decorre de uma crise histórica dos regimes liberais, não pode ser revertida. Só pode ser ultrapassada por uma de duas vias. Ou pela via revolucionária, definitiva, que supere o capitalismo — o que corresponde não a “tirar o capitalismo da crise” mas a “sair do capitalismo em crise”, na expressão feliz de Samir Amin. Ou pela via reaccionária, sempre provisória, que procura salvar o capitalismo do pântano através da instauração de um “estado novo”.

É com este “estado novo” que a extrema-direita espera eliminar as fraquezas de que o democratismo burguês enferma no enfrentamento da grande crise do capitalismo — na linha do fascismo e do nazismo de entre-guerras, consideradas as diferenças entre uma época e outra.

Tal como então, os grandes poderes económicos convergem com estes movimentos políticos por sentirem que a ordem liberal envelheceu e se tornou incapaz de garantir a acumulação do capital e a segurança do poder político. Trabalham activamente, portanto, não já para reformar a arquitectura institucional do sistema político mas para o ultrapassar, para o pôr de lado. (1)

Uma não-explicação

O poder e os comentadores à sua volta tratam a questão como se fosse um simples confronto de concepções ou de “filosofias” políticas. Não deixam mesmo de levar em boa conta o “sentido democrático” das forças fascistas pelo facto de se submeterem aos sufrágios eleitorais…

Atribuem à demagogia e ao “populismo” os sucessos eleitorais da extrema-direita. Mas isto é, quando muito, falar dos processos utilizados para ganhar apoios, não das razões do fenómeno.

Fica assim tudo por explicar. Nomeadamente, isto: porque perde a direita apoios para a extrema-direita? porque acolhe proposições da extrema-direita, inclusive incorporando-as nos seus programas? por que motivo estabelece alianças e forma governos com ela? porque desliza enfim para o seu terreno?

A direita tradicional segue esta trajectória de encosto à extrema-direita porque as forças vivas do poder, o grande capital, a elite das classes dominantes, apostam em soluções extremas e empurram nesse sentido as forças partidárias que as podem servir. Onde radica, então, esta mudança na esfera política?

A crise do capital em fundo

É impossível compreender o que se passa sem relacionar esta evolução com a crise de senilidade, com o beco sem saída, em que o capitalismo mundial se encontra.

Para trazer à superfície a raiz da questão é preciso repisar que a acumulação mundial estagnou e não há no horizonte sinais de que possa retomar os ritmos necessários à valorização do capital. O capitalismo inundou o mundo e desenvolveu-se até onde pôde. Esbarra agora com os limites do seu próprio crescimento: taxas de lucro em queda, capitais gigantescos sem valorização possível, marasmo.

A “agitação social”, o fim da “paz social”, isto é, o crescimento da luta de classes, são factores que acompanham tal decadência e que entram nos cálculos políticos da burguesia. Antecipando a eventualidade de acções de massas de envergadura, o capital procura dotar-se de meios que assegurem a estabilidade e a eficácia do poder, libertando-o de regras incómodas.

A excepção democrática

É com o objectivo de tentar romper aquela estagnação e de prevenir os riscos de ondas revolucionárias que os propósitos políticos da burguesia se transfiguram. A democracia representativa, glorificada como modelo e cume da “civilização”, é afinal perecível, acompanhando de perto a decadência do sistema económico.

De facto, não é escusado lembrar que nas metrópoles imperialistas o poder exercido na sua modalidade democrática só se implantou e sobreviveu nas condições de um progresso material contínuo, isto é, de uma acumulação crescente de capital. Um tal sistema político raramente se implantou ou durou muito tempo nos países da periferia capitalista.

Foi a exploração desenfreada, colonialista e imperialista, das periferias que permitiu sustentar (no duplo sentido material e ideológico) os regimes democráticos estabelecidos nos centros de acumulação de capital. O “modelo” democrático burguês é, à escala do mundo e da história, uma excepção de que gozam os povos das metrópoles imperialistas.

Globalizar é nivelar por baixo

Ora, a crise generalizada, a estagnação presente, trouxe para as metrópoles capitalistas aquilo que era atribuído ao “subdesenvolvimento”: desigualdades colossais e crescentes, pobreza em alta, desemprego permanente, serviços sociais degradados… Com isso trouxe também a crise dos sistemas políticos que assentam a sua existência e devem a sua estabilidade ao progresso material.

O fim deste progresso material começou por arrasar as condições do reformismo burguês, social-democrata e “socialista”, e de todo o aparelho político e partidário que o enquadrou. É o que mostram as perdas eleitorais dos partidos do “centro”. Mas, mais além disso, ele atinge agora a base do próprio regime democrático. A democracia burguesa, a mais perfeita forma de dominação do capital sobre as massas trabalhadoras, é arrastada cano abaixo pela crise do sistema social capitalista.

Dois passos na mesma direcção

Procurando colocar os acontecimentos em perspectiva, vê-se que o impulso chamado “neoliberal”, iniciado nos anos 1980, foi um primeiro movimento no sentido de libertar de peias o capital no seu confronto com o trabalho (2) — conseguindo de facto adiar por duas décadas o deflagrar, em 2007-2008, da crise que se prolonga até hoje.

O esgotamento desse impulso exige agora à burguesia um passo mais para a direita. Um passo que, do seu ponto de vista, ultrapasse, desta vez definitivamente, os bloqueios e a ineficácia do democratismo que ainda resta. (3)

É neste ambiente de decadência que os novos fascismos surgem com soluções brutais, na tentativa de debelar o crescimento das lutas de classes nas suas diversas manifestações — de que as migrações em massa, não por acaso tão verberadas pelos fascistas, são um exemplo.

O objectivo, repita-se, é criar um novo quadro institucional mais favorável à exploração do trabalho e à recuperação do capital; um projecto de poder, assente na violência de classe. Nada menos serve à grande burguesia dos nossos dias, cada vez mais restrita como classe e justificadamente assombrada pelo fantasma da revolta social. (4)

Nem reformismo nem passadismo resolvem

Estamos, pois, perante uma vaga de fundo que abala os equilíbrios mundiais existentes até há pouco, redesenha o mapa dos confrontos entre as grandes potências, nomeadamente as imperialistas, e coloca os trabalhadores e os povos diante de novos desafios.

Por isso, a via de tipo social-democrata, reformista, que promete introduzir “melhoramentos” no sistema político, em si mesma não serve por teimar em ignorar a raiz do problema. A tentativa recente dos partidos socialistas europeus de forjarem uma “frente” com a direita liberal — como a que é representada em França por Macron — a fim de fazerem oposição ao bloco fascista, é um sinal de fraqueza e não de força dos chamados partidos “do centro”, que assim ficam amarrados à própria deriva direitista da direita tradicional.

Também o nacionalismo e o patriotismo defendidos à esquerda (5) se mostram por si incapazes de travar a crescente onda fascista. Seja porque representam uma fuga, irrealizável, para um tempo de “capitalismo nacional” que já não existe nem existirá mais; seja porque alimentam a miragem de transformar “por dentro” as instituições do imperialismo europeu. Nas suas diferentes tonalidades, mantêm a ilusão de que o poder imperialista da UE pode ser, ou torneado com um regresso ao passado nacional, ou moderado em nome “das pessoas”, da “razão” ou dos “ganhos civilizacionais”.

Estas correntes, comummente chamadas da esquerda, são a esquerda do regime, importa precisar. Isto é, são a esquerda possível dentro dos limites das instituições democrático-burguesas. E é esta condição que as impede de levantarem perante as massas trabalhadoras o objectivo de superar — através de uma revolução social anticapitalista, socialista — o impasse a que o capitalismo conduziu o mundo de hoje.

Neste vazio, para o qual contribui igualmente a desorganização e a ausência de programa da esquerda revolucionária europeia, é que a extrema-direita tem progredido, sem contraponto à altura até agora.

O capital como alvo

Mas, para um número crescente de trabalhadores, não é a confiança no capitalismo que os leva a aceitá-lo — disso também fala a crescente abstenção nas eleições. É antes a noção real de que não há um programa político coerente que o substitua, e de que não há hoje força organizada em condições de o deitar abaixo.

Também a democracia vigente, a que realmente existe, é percebida pela grande massa como um monopólio da burguesia em que os interesses operários e populares não têm campo para se imporem. A falta de empenho em defendê-la ou em “aperfeiçoá-la” traduz assim um natural reflexo de classe.

A evolução brutal que os acontecimentos prefiguram torna evidente que a luta de massas só será eficaz se ferir os interesses do capital, e isso acontecerá apenas se à cabeça estiverem as classes trabalhadoras. É essa a única via de o movimento de resistência acumular a força que lhe permita travar a deriva reaccionária do poder.

Reerguer a luta contra o capital não é, portanto, uma utopia, nem representa um estreitamento do campo da luta de massas, como a esquerda reformista argumenta contra “o irrealismo” das bandeiras revolucionárias. Pelo contrário, é a condição de fazer despertar o sentido de classe dos trabalhadores, de os colocar na dianteira da acção e de alargar a resistência.

Importa incentivar a disposição de luta — no plano sindical, no plano político, no plano social geral — e rejeitar a chantagem sobre os perigos de “convulsão social”. Com o argumento da “ordem”, as classes dominantes pretendem assegurar as condições para continuarem a esmagar os de baixo. Contra isso, é preciso unir todas as forças que participam na luta de massas e declarar a legitimidade do combate social em todas as suas formas. O movimento popular precisa de romper o bloqueio que o tem limitado: a sua sujeição voluntária à ordem capitalista.

A resposta à crise do capitalismo, de que as mudanças mundiais em curso são um espelho, não está na habilidade nem na inventiva das soluções propostas, mas na força colocada no confronto de classes. É na solidez do combate anticapitalista que está a chave para derrotar a extrema-direita e a sua pretendida “nova ordem”.

————

(1) O Corporate Europe Observatory, uma organização, insuspeita de esquerdismo, que investiga a influência e os privilégios das grandes empresas na definição da política da UE, afirma, num relatório de Maio de 2019, que, em países como Itália, Hungria, Áustria, Alemanha e outros, “dirigentes empresariais defendem a cooperação com, ou apoiam activamente, os partidos autoritários quando eles estão no governo ou têm real possibilidade de lá chegar”. O recente escândalo que abalou a extrema-direita da Áustria, revelou que o FPÖ, um dos partido no poder, foi financiado pelo fabricante de armas Glock e por gigantes como a Japan Tabacco International e a British-American Tabacco, além de manter estreitos laços com a Federação da Indústria da Áustria.

(2) Nos centros imperialistas, claro, porque no resto do mundo a selvajaria de um capital “desregulado” esteve instituída desde sempre… Acresce o facto de a decadência e o colapso da URSS e dos regimes do leste europeu terem eliminado a pressão que obrigara o capitalismo a fazer concessões sociais com o fito de desarticular os movimentos revolucionários.

(3) Ou seja, o essencial do Estado Social montado no segundo pós-guerra nas metrópoles imperialistas, designadamente: direitos e protecção do trabalho, defesa das mulheres e de minorias, direitos individuais, sistema fiscal “redistributivo”, limites legais à acção do capital. O direito de voto até pode ser mantido ad eternum, desde que bem manipulado, como capa para “legitimar” a “nova ordem”…

(4) Não obstante, vistos de perto, os motes com que a extrema-direita alicia as massas descontentes (nação, racismo, ódio religioso, mais a corrupção e a insegurança) são bandeiras estreitas que não formam reais propostas para um futuro novo. O programa é curto: gerir por outros meios o mesmo capitalismo senil e em final de vida. Diferentemente do que sucedeu na Europa e no Japão de há quase cem anos, as perspectivas de renovação do crescimento económico não estão à vista, nem nos grandes blocos capitalistas-imperialistas, nem, muito menos, em cada nação isolada. E será esse o principal ponto fraco da apregoada “nova ordem” que ditará, a prazo, a sua sentença de morte.

(5) Seja, entre nós, na versão “dura” do PCP, de saída da UE e do euro, em nome de um “patriotismo de esquerda”; seja na versão “branda” do BE, colada ao reformismo social-democrata, de “reivindicar” vantagens em Bruxelas. Com diferenças, outro tanto se pode ver nas posições do Podemos em Espanha, La France Insoumise em França, Syriza na Grécia, Die Linke na Alemanha…

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Como derrotar a “direita Trump-Bolsonaro”

Multiplicam-se, em todo o mundo, as alianças entre donos do dinheiro e lúmpen-políticos. Por que o poder econômico abandonou a direita “civilizada”? Como a esquerda “esqueceu-se” da crítica radical ao sistema? É possível retomá-la?

Nick Dearden | Outras Palavras | Tradução:Marianna Braghini
“Viajei 24 horas, de Manila ao Rio, para estar aqui e ainda assim, politicamente, sinto que não deixei minha casa”. Walden Bello, principal guia do “movimento anti-globalização” e ex-deputado das Filipinas, refletiu sobre o ascenso dos “homens fortes” autoritários de direita, das Filipinas até o Brasil. Juntei-me à ele no Brasil para avaliar o que mudou nos últimos 20 anos desde que os protestos massivos em Seattle levaram a Organização Mundial do Comércio a paralisar e anunciaram o nascimento de um novo movimento internacional ao mundo. “Mas 20 anos atrás, Seattle era uma questão exclusivamente da esquerda” continuou Bello. “Nós precisamos entender como a extrema-direita conseguiu comer o nosso almoço”.

Como o capitalismo está passando por uma de suas piores crises na história, uma galeria de desonestos, financistas, empresários bilionários e os políticos mais establishment possível conseguiram capturar, suficientemente, o imaginário popular e tomar o poder de um dos maiores países do mundo? E onde está a esquerda internacional que, há 20 anos atrás, fermentou um dos movimentos mais internacionais e diversos que o mundo já viu, mas atualmente parece defensiva e insular frente à uma crise que previmos e alertamos a respeito?

Estávamos no Brasil para comparar experiências, para aprender uns com os outros, para trabalhar em como reconstruir um internacionalismo forte o suficiente para combater esta tendência “trumpista”. Como a citação inicial de Walden Bello esclarece, as similaridades enfrentadas por diversas sociedades ao redor do mundo é surpreendente. O capitalismo está enfrentando sua mais profunda crise desde a Segunda Guerra Mundial, uma crise que ameaça a própria existência deste modelo econômico. Mas, ao passo que a esquerda política está recuada em diversos lugares e fortemente focada em uma agenda defensiva e doméstica, a direita usou este momento para construir uma assustadora rede global, sustentada com muito dinheiro e capaz de se alimentar da insatisfação popular.

Em países incluindo Brasil, Índia, as Filipinas e Turquia, homens-fortes autoritários têm sido eleitos para o Executivo, alimentando movimentos de medo e ódio e, ainda, demonizando grupos marginalizados, retrocedendo os limitados ganhos sobre as mudanças climáticas, em equidade sexual e racial e até mesmo desafiando os espaços relativamente democráticos nos quais nos organizamos. O chefão é Donald Trump, normalizando e legitimando esta política, dando confiança às redes de extrema-direita, encorajando o financiamento internacional. E as narrativas estão se espalhando para muito além dos países onde estes homens-fortes governam, se infiltrando na política em todos os lugares.

Trumpismo ao redor do mundo

Há 20 anos, o Brasil era uma das plataformas de lançamento daquilo que se tornou conhecido como o movimento anti-globalização. Foi aqui, sob um governo regional radical, que o primeiro Fórum Social Mundial aconteceu, uma tentativa de fazer frente à reunião das elites em Davos, na Suíça, conhecido como Fórum Econômico Mundial. O Fórum Social Mundial era um espaço para encontrar, aprender e formular estratégias com ativistas de todo o globo. Dois anos depois, Lula foi eleito presidente, parte da “Onda Rosa” [em inglês Pink Tide] que varreu a América Latina e colocou um espinho no capitalismo de livre mercado.

Atualmente, Lula esta na prisão e o Brasil é governado por Jair Bolsonaro, um membro de extrema-direita da elite, um apologista da ditadura militar que violou direitos humanos, que de alguma forma conseguiu cultivar uma imagem popular e ganhar uma maioria. Ele chegou ao poder denunciando terroristas ativistas da esquerda e movimentos social. Um racista, um misógino e um homofóbico, Bolsonaro faz Trump parecer moderado.

Certamente, quando você chega ao Brasil, você não vê stormtroopers [de Star Wars] ou suásticas. E muitos turistas sequer irão notar que algo mudou. Mas, para a esquerda e para os marginalizados, as coisas mudaram bastante. A polícia e os militares foram soltos da coleira. Durante nossos cinco dias no país, soldados deram 80 tiros em um carro com uma família dentro, sem avisos, assassinando um músico negro. Eles alegaram que foi um caso de confusão na identificação. Um ano atrás, Marielle Franco, uma vereadora negra e lésbica, que era porta voz dos pobres nas favelas e contra a violência policial, foi assassinada junto com seu motorista. Dois homens acabaram de ser presos por este crime, depois de muito clamor público, mas sabemos que os reais mandantes do crime são associados à um sombrio grupo criminoso, com conexões com a elite, incluindo o novo presidente. De forma mais geral, grupos da sociedade civil estão sendo cada vez mais assediados e qualquer pessoa que nutra o ódio na sociedade se sente empoderada para espalhar suas visões intolerantes online e nas ruas.

O Brasil não está sozinho. O atual presidente das Filipinas, mencionado por Walden Bello na abertura da conferência, é Rodrigo Duterte. Duterte é responsável pelo assassinato de 20 mil usuários de drogas, vítimas da perversa guerra às drogas que por sua vez tem sido um dos temas centrais de sua presidência. Duterte comparou a guerras às drogas com a exterminação de judeus por Hitler. Ele se orgulha disso. Ele encorajou esquadrões da morte a tomar parte na matança, que não só inclui usuários de drogas, mas também crianças de rua e pobres marginalizados em geral. E ele é um agressivo oponente de organizações de direitos humanos que fazem qualquer crítica a essas políticas.

Também temos a Índia, governada por Narendra Modi, um nacionalista hindu, cujo período no governo já viu uma alta massiva de crimes de ódio, assassinatos, linchamentos, espancamentos coletivos e gangues de estupro, especialmente contra muçulmanos e grupos de baixa casta e, ao melhor estilo Trump, combinado com uma quantidade sem precedentes de interferência política em — e às custas de — instituições democráticas, do parlamento às cortes e até na mídia.

É claro, são apenas três países. As ideias trumpistas estão se espalhando de forma mais ampla, incluindo na Europa onde fascistas são uma parte importante do governo italiano e na Hungria, que é essencialmente governada por um fascista. Até mesmo na Grã-Bretanha, durante meu tempo no Brasil, uma pesquisa de opinião sugeriu que 54% da população concordava com a declaração “A Grã-Bretanha necessita de um governo forte disposto à quebrar as regras”. Apenas 23% discordaram. No Uruguai, uma sociedade estável, progressiva, sem nenhum histórico recente de atividade de extrema-direita, o chefe das Forças Armadas, recentemente, deu um passo inconstitucional para criticar o Judiciário pelas investigações de abusos de direitos humanos. Após ser dispensado pelo presidente, ele se tornou uma estrela populista em ascensão, que os ativistas temem disputar a eleição presidencial neste ano.

A essência do trumpismo

Todas estas situações possuem importantes diferenças. Pela natureza dos “homens-fortes”, há uma dose pesada de excentricidade individual, às vezes beirando doenças mentais, nos líderes ascendentes. Mas há convergências suficientes para começar a esboçar lições desta situação que nos confronta.

Os líderes e movimentos trumpistas sempre tendem a demonizar certos grupos vulneráveis na sociedade: migrantes, classes inferiores (rotuladas como “criminosos” ou “drogados”), muçulmanos ou grupos de baixa casta, mulheres, transsexuais, homossexuais. Isso se provou ser um meio vital na construção da popularidade desfrutada por estes líderes. A base popular dos trumpistas é bem masculina e alimenta uma sensação de que os homens brancos (ou hindus, ou latinos) perderam espaço para grupos mais marginalizados, que eles não podem mais falar o que quiserem sem serem confrontados. Ainda que este confrontamento venha de grupos que tradicionalmente nunca tiveram voz, e finalmente podem se expressar de alguma forma, ele foi equacionado com sucesso para um projeto elitista liberal do “politicamente correto”. O fascismo sempre apela para aqueles que tem algum poder a perder – mesmo que pequeno. E, é claro, geralmente há alguém mais ferrado que você, e se alguém lhe diz para “tomar cuidado com eles, eles estão atrás de um pedaço do que você tem” – sejam migrantes, ou mulheres, ou muçulmanos ou quem quer que seja – pode ser bem efetivo.

Nesse sentido, figuras intrinsecamente ligadas ao establishment (Trump, o bilionário; Bolsonaro e Modi, os políticos da elite;  Jacob Rees-Mogg e Nigel Farage, financistas da classe alta) tem conseguido se retratar como anti-establishment. Após derrotar os sindicatos e capitular os sociais democratas para as forças do livre mercado, estes políticos da elite se retrataram, com sucesso, como a voz da ordinária e esquecida maioria, canalizando uma raiva, muitas vezes legítima, a uma elite que passou os últimos 40 anos se enriquecendo às custas de todo os outros.

Também explica o aspecto mais assustador destes homens-fortes – sua popularidade. Nenhuma destas pessoas chegou ao poder com um golpe. Elas foram democraticamente eleitas. Elas possuem um apoio bem significativo da classe média e de porções da classe trabalhadora que, na verdade, irão perder economicamente por conta das políticas econômicas adotadas. O mortífero Duterte tem uma taxa de aprovação pairando em cerca de 80%. A Modi deve ganhar a próxima eleição indiana. Trump e Bolsonaro, mesmo que não tão populares no cenário atual, podem facilmente ganhar um segundo mandato.

É assim que eles saíram impunes de seus ataques sem precedentes às instituições da democracia liberal em todos os setores, o desmantelamento destes sistemas que, embora fosse imperfeitos, pelo menos nos permitiam espaços para nos organizar por nossos direitos e por mudança. Como fascistas tradicionais, trumpistas estão determinados a subverter qualquer forma de pluralismo ou de democracia que possa contrariar seu poder ou permitir que uma resistência se construa e triunfe. Eles estão tentando remodelar nossa política como um todo, em direção ao que represente seu poder e seus programas, e irão desfrutar de uma longevidade para além de seus mandatos.

O que são estes programas? Em seu núcleo, está deixar o capitalismo fora da (comprida) coleira. Muitos destes líderes são negacionistas das mudanças climáticas. Trump se retirou do principal acordo internacional climático e Bolsonaro deve fazer o mesmo, independentemente dos termos extremamente fracos deste tratado. Trump começou a abrir todos os mares estrangeiros à exploração de gás e petróleo, para expandir massivamente o potencial do fracking[fraturamento hidráulico] e abrir totalmente o mercado dos EUA aos canadenses. Bolsonaro prometeu remover proteções da Amazônia e abri-la, sem limites, para a mineração. Modi está a beira de despejar mais de um milhão de indígenas de terras que as corporações extrativas estão desesperadas para explorar. Os indígenas, em todo o mundo, são um grande alvo destes homens-fortes, pois mesmo que possam estar assentados nas piores terras do mundo — para onde são empurrados — o capitalismo está tão desesperado que agora precisa daqueles recursos também. E os indígenas estão “no caminho”.

A visão do capitalismo é muito mais autoritária e nacionalista do que vimos nos últimos quatro anos, mas os grandes negócios e a grande financeirização ainda estão no núcleo de seu modelo. Trump deu uma das maiores isenções tributárias às corporações norte-americanas em toda história. Ele está arrebentando a leve regulamentação financeira de Obama. Bolsonaro indicou um ministro da economia adepto de um livre mercado radical, que baseia suas políticas no primeiro — e mais brutal e autoritário — líder neoliberal, o General Pinochet do Chile, e declara que “estamos criando uma sociedade aberta popperiana”, do ideólogo do livre mercado Karl Popper. Duterte e Modi também estão envolvidos em uma radical desregulamentação de investimentos financeiros e em privatizações.

Então o programa, em seu núcleo, é sobre eliminar os limites que estão sendo colocados ao capital pelas mudanças climáticas e pela oposição pública. Mas a desculpa de que o Estado-nação não é importante para o capitalismo foi varrida. Parcialmente, porque o Estado será necessário para lidar com a crescente indignação que resultará destas políticas. Está claro que essas políticas, por exemplo, irão alimentar migração em todo o globo. Não é de se admirar que construir muros mais altos e impor regras mais duras para migração são parte deste programa. Uma abordagem, cada vez mais autoritária, daqueles que oferecem resistência também será necessária quando a situação explodir, o que explica o foco em solapar espaços para oposição e o desmantelamento das instituições democráticas liberais.

É claro, o problema com estes homens-fortes é que eles são difíceis de controlar, difíceis até de prever. Não há manual. Duterte diz que se importa com o meio ambiente e até mesmo se autointitula um socialista. Trump supostamente goza de relações mais produtivas com alguns sindicatos do que os Democratas conseguiram em muito tempo. Modi apoiou uma série de reformas econômicas ao se deparar com certa resistência. Mas isso é muito imprevisível e a habilidade de rasgar o livro de regras da política torna estes líderes tão necessários nesse tempo.

Um pouco disso também estará em contradição com os valores de líderes corporativos individuais. Jeff Bezos, dona da Amazon, não aprecia a retórica incendiária anti-imigração de Trump. Eu acredito nele. Estou certo que muitos diretores de indústria não gostavam de aspectos da retórica de Hitler ou Mussolini. Mas a questão não é que estes são os regimes em que capitalistas individuais gostariam idealmente de viver. É que há uma necessidade estrutural dessas políticas e o Vale do Silício precisa mais do que a maioria. Pois a revolução em tecnologia e comunicações que está acontecendo ameaça a automação, o que pode eliminar milhões de trabalhos ordinários, dizimar pequenos negócios, permitir a conclusão da aquisição corporativa do setor agricultor e aumentar massivamente a vigilância a que estamos submetidos todos os dias.

Há soluções democráticas para isso – socialização generalizada destas tecnologias. Mas isso significa que Jeff Bezos e Mark Zuckerberg perdem o controle de seus impérios. Eles não estarão muito interessados nesta solução. E a alternativa é que as coisas irão de fato se complicar. Se eles pensam que estão sob escrutínio agora, eles ainda não viram nada. Eles irão descobrir que precisam do capitalismo autoritário mais do que qualquer um, gostem disso ou não.

Nos anos 1930, grandes industriais e financistas descobriram o fascismo era mais palatável do que o comunismo. Atualmente, eles o acham mais palatável até do que formas moderadas de social-democracia – prova disso é horror gerado por Lula no Brasil e que, agora, é despertado por Corbyn na Grã-Bretanha. Essa é a extensão da crise que a elite atual observa.

Trump está chegando…ponha a mão na massa

Trump é a peça-chave do plano B do capitalismo. Sua eleição legitimou as novas formas políticas de homens-fortes.  Ainda que outros tenham o precedido, ele torna estas políticas seguras por meio da normalização e do desmantelamento de instituições internacionais, que anteriormente poderiam ter tornado a vida difícil para estes homens-fortes. Trump também altera o discurso – centristas como Blair e Hillary Clinton clamaram por um reforço nas políticas anti-migração para “responder” aos trumpistas. Derrotá-lo ao se torná-lo. As redes de think tanks e dark money [interferência corporativa monetária na política] estão encorajadas. Elas irão espalhar o ódio ao direito ao redor de todo o mundo. Elas irão utilizar novas tecnologias para manipular o eleitorado em formas que não poderíamos ter imaginado dez anos atrás.

Como nós respondemos? Primeiro, não ceder um centímetro. Nós não devemos sacrificar os mais impactados e maiores opositores dos homens-fortes. Na verdade, precisamos empoderá-los. A camada da sociedade norte-americana com menor probabilidade de ter votado em Trump é formada pelos 20% de baixo, medida segundo níveis de riqueza na sociedade norte-americana. Aqueles realmente marginalizados não gostam de nada disso, e com boas razões. Ajudá-los a se organizar e tomar posições de liderança em nosso movimento é essencial. E confrontar de forma visível Trump e sua laia nas ruas – por exemplo quando vier para a Grã-Bretanha em 4 de junho ou mais a frente no ano na reunião de cúpula da OTAN – é uma parte vital deste confrontamento. É simplesmente mentira dizer que Trump merece uma visita oficial porque ele é o presidente dos EUA. Esta é uma honra incomum que simplesmente legitima seu programa e seu discurso de ódio.

Isso não significa que devemos depreciar aqueles na classe trabalhadora que não são ultra racistas, mas que foram atraídos pela retórica estilo Trump, pois o sistema econômico falhou claramente com eles. Sem suavizar nossa defesa de migrantes, nossa oposição aos anti-aborto e por aí vai, nós temos que admitir que estas mensagens sozinhas não irão alcançar a todos. Elas só irão funcionar como parte de uma plataforma radical de reestruturação econômica – colocar o poder nas mãos de pessoas comuns por meio da socialização das coisas que precisamos – moradia, saúde, educação, energia, comunicações. Precisamos mostrar claramente que nós estamos ao lado daqueles que nada tem, não da elite. Muitos já estão envolvidos em disputas locais para tomar de volta o controle da moradia e energia e para se opor a desenvolvimentos que visam o lucro e não as pessoas. É por meio destas lutas concretas que podemos ganhar a argumentação sobre migração.

Nossos lamentos do Brexit são replicados em muitos outros países ao redor do mundo, enquanto a esquerda luta para responder a direita autoritária. Nas Filipinas, alguns comunistas até chegaram à administração de Duterte; na Tailândia, alguns esquerdistas apoiaram o golpe militar; nos EUA há uma sensação de que alguns mais tradicionais da extrema-esquerda eram muito suaves frente aos perigos de Trump. Isso criou muitas divisões e quebrou a confiança no pior momento. Nós devemos encontrar um caminho para além disso. É certo que uma pequena minoria (por exemplo, qualquer um que defendeu o Partido Brexit nas eleições europeias) é inadmissível. Exceto por eles, nós devemos tentar encontrar um terreno em comum, provavelmente baseado mais em valores do que em políticas específicas.

Reinventar o internacionalismo é chave para o nosso projeto também. Há 20 anos eu fui parte do movimento “anti-globalização”, o maior movimento internacional que o mundo ja viu, que também era de base e conseguiu algumas vitórias incríveis. Atualmente, enquanto a extrema-direita desenvolveu assustadoramente impressionantes redes internacionais, a esquerda nunca foi tão insular. Vamos aprender com a história. Ao passo que a Primeira Guerra Mundial se aproximava, a Internacional socialista se partiu em diferentes grupos nacionais e atrasou suas próprias máquinas de guerra nacionais. Os horrores desencadeados foram sem precedentes. É claro que não devemos dispensar a importância vital das lutas domésticas. Mas devemos encontrar meios de internacionalizar nossas lutas, pois nunca precisamos tanto de solidariedade internacional. Não é um luxo. O poder do Estado nação irá nos levar somente até um ponto. Deparados com as mudanças climáticas, poder corporativo transnacional e uma extrema direita bem articulada, não podemos ganhar a Grã-Bretanha sozinhos. Na verdade, os experimentos com democracia local – de Porto Alegre à Barcelona e até Preston – podem ser a maneira perfeita de fazer pressão e dar poder às pessoas sem cair nos Estados nação imperialistas como resposta. Uma forma do que podemos chamar de internacionalismo local.

Não será fácil. As mudanças climáticas e mesmo a enorme escala de degradação ambiental significa que devemos repensar nossa visão linear de história e “progresso”. Nós não sabemos como será o amanhã, mas terá que ser bem diferente e temos que aceitar isso. Mesmo o nosso “inimigo” não é tão claro quanto no passado; a razão para a qual parte da direita foi capaz de “comer nosso almoço” e parecer mais radical que a esquerda.

Precisamos transmitir esperança e isso pode ser um desafio a esse ponto da história. Mas tentemos manter a mente aberta. Novamente, para um nível em que a nova direita fez isso melhor que a esquerda, abandonar a ideologia neoliberal quando ela falhou em servir seus valores (de fato, os únicos neoliberais remanescentes são aqueles no centro, que para começar, jamais deveriam ter absorvido esse dogma).

Nós podemos encontrar esperança no colapso do dogma “o mercado sabe melhor”, com o progresso agora sendo feito no entendimento público das mudanças climáticas, na indignação sentida por tantos no poder das gigantes de tecnologia, na inabilidade das lideranças mundiais em completar grandes acordos comerciais como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento. Nós precisamos ter confiança em nossa causa, nossas ideias, nosso programa e não sermos tirados do trilho por estes homens-fortes. Nós não podemos resolver todos os problemas dos últimos 200 anos. A tentativa iria nos sobrecarregar e nos paralisar. Mas nós podemos e devemos começar algo. Como eu aprendi no Brasil, o que estamos sentindo também está sendo sentido por todos ativistas como nós ao redor de todo o mundo. Vamos aprender, compartilhar, tentar extrair energia uns dos outros.

O trumpismo é ainda um crescente fenômeno global. Ele pode ser interrompido, mas somente com um programa radical que, por sua vez, é local e global. Não será fácil. Mas certamente é possível. Se não nós, então quem, se não agora, e quando?

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
TANTO para ler, em Outras Palavras



Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/como-derrotar-direita-trump-bolsonaro.html

Basta? O quê?

Isabel do Carmo 15.Jun.19

Passadas as recentes eleições e feito o balanço dos resultados, ficaram ainda várias questões
importantes por aprofundar. Por exemplo o papel desempenhado pela proliferação de
candidaturas na extrema-direita do espectro partidário. Uma das hipóteses possíveis é essas
candidaturas terem via livre para dizer coisas que a outra direita não pode dizer tão claramente,
nomeadamente sobre os direitos sociais que só o Estado garante, nomeadamente à Saúde.

Agora que já não há campanha eleitoral e há resultados, mas os outdoors ainda perduram com as suas mensagens, vale a pena pensar na leitura que nós e os outros, os que votaram e não votaram, vamos recebendo consciente ou inconscientemente ao passarmos por eles ou ao ouvirmos vozes de rua. Nomeadamente a daqueles que, sendo perdedores, não desistirão e têm objectivos.
Dizem alguns especialistas que os partidos da extrema-direita europeia atingiram o seu “tecto de vidro” e que não vão crescer mais, pelo menos eleitoralmente. Mas já chegam para oprimir os povos da Polónia e da Hungria. Os votantes em Portugal, dada a abstenção, não são uma amostra significativa, visto que há grupos sociais que não votaram mas votarão nas legislativas. São uma tendência, pelos vistos boa para quem defende o papel de redistribuição do Estado. No entanto, não deixa de ser preocupante quando se olha ao microscópio e se vê onde houve votação no Basta com os seus apoios monárquicos e “cristãos”.
A votação mais importante foi nos concelhos longe do poder central – Barrancos, Vila Viçosa, Monforte. E na “cintura industrial” – Odivelas, Vila Franca de Xira, Loures. Foi assim que começou a Frente Nacional de Le Pen em França, agora Rassemblement National. Apelou e apela aos que se sentem abandonados pelo poder, aos idosos e distantes, a uma classe ex-operária, mal informada, de revolta primária e cheia de razão perante as desigualdades. É altura de se olhar para essa mancha que é o resultado último da política chamada neo-liberal iniciada em 1979/80 por Reagan e Thatcher, e seguida por uma “social-democracia” que se foi moldando à política da “não-alternativa”. É também a altura da esquerda que não é populista ousar discutir os caminhos da unidade e praticá-la, para além do protesto que está na sua genealogia.
E é por isso que devemos observar o que é que basta. Para além dos outdoors vermelhos (quem é que os paga?), há outros. Há os que usam o apelo ao manifesto dos “contribuintes”, unidos como outrora o foram os trabalhadores. Há os que no discurso apelam a “menos Estado”, esse odioso cobrador de impostos. O público visado é diverso, mas o objectivo é o mesmo. São todos contra o Estado da redistribuição. Uns visam o “povo”, outros a classe média, outros a população da linha Estoril/Cascais. Perante estes outdoors apetece-me sempre perguntar se os autores e, sobretudo, os seguidores têm alguém de família a fazer tratamento de oncologia. É natural que sim. Se assim acontece, essa pessoa ou essas pessoas estão a consumir mensal e gratuitamente muitos milhares de euros de medicamentos – inovações no tratamento oncológico. Não é água que lhes corre nas veias, é o resultado do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Quando extremo o caso até à oncologia, é exactamente porque faz parte dos nossos medos. Em Portugal e em todos os países desenvolvidos morre-se de cancro ou de doenças cardiovasculares. E é nisso que pensamos quando, como seres vivos e pensantes que somos, temos medo da finitude. Convém lembrar, e é necessário repeti-lo e ser pedagógico, que nestas duas áreas Portugal tem uma prática ao mais alto nível no seu SNS. E convém lembrá-lo quando se repetem manchetes de jornais, com personalidades e responsáveis de ordens a denegrir o SNS, de tal modo que alarmam e atemorizam quem procura solução. E a solução fora do SNS, quando existe, é muito cara e não é melhor.
Ora, o SNS também não vive da água, vive dos impostos e os directos são cobrados só a uma parte da população. Mas os tratamentos são iguais para todos. É esta a filosofia da redistribuição, que devia ser explicada pedagogicamente através dos meios usados pela publicidade, sem o discurso pesado do financiêsou do economicês. Quando se lê a manchete dos jornais dizendo que um quinto dos doentes com cancro ultrapassam os tempos de espera de cirurgia, isto assusta. Mas se formos ver qual é a espera excessiva média, é de 15 dias para os “muito prioritários” e de 60 dias para os “normais”. Terrível para quem espera, eu sei. Mas quanto tempo esperariam nos EUA, mesmo que pagassem um daqueles seguros de topo? Talvez esperassem para o resto da vida, que seria curta. E quanto esperariam nas PPP, mesmo que fossem enfiados numa sala de refeitório ou numa casa de banho? Essas sacudiriam a água do capote se o caso fosse mais complicado e ficasse fora do contrato. E iriam para os hospitais de gestão pública.
No entanto, é altura para discutirmos o que fazer com o dinheiro que a indiscutível competência de Centeno conseguiu e vai conseguir se os juros se mantiverem a este nível. Quanto ao SNS haverá que planear e organizar a médio e a longo prazo, com recuperação de equipamentos, estabilização e reconhecimento de carreiras, utilização da capacidade existente. E, o maior dos estímulos, a exclusividade profissional, devidamente remunerada, que terá resultados como tem sido provado nacional e internacionalmente. A prova está também nas Unidades de Saúde Familiar que terão que aumentar em número e que retirarão urgências hospitalares. E deste modo e explicitamente ir contra o apoio ao “desenvolvimento do sector privado da saúde (…) em concorrência com o sector público” e o crescente aumento de celebração de “acordos com entidades privadas para a prestação de cuidados” como rezam as Bases I, II e IV que foram aprovadas pelo CDS e o PSD em 1990 e que ainda vigoram.
Este programa avançado na saúde tem que entrar em discussão com as Finanças? Tem. As Finanças só sabem de Finanças, não conhecem as necessidades dos sectores, caso a caso. Igual discussão em relação à aplicação da Lei de Bases da Habitação, às Leis do Trabalho e, dentro destas últimas, às práticas dos privados, que nas grandes empresas mantêm salários baixos e exaustão de horários. Como disse Bernard Kouchner, fundador dos Médicos Sem Fronteiras, “as diferenças entre ricos e pobres tornaram-se insuportáveis”.
As frases extremas do Basta e dos que falam em nome dos contribuintes são a forma mais descarada de expressar os programas do PSD e do CDS – “menos Estado”. Qual Estado? O da redistribuição. Não é o da segurança. Esta é a discussão clara que tem que ser feita. Todos nós procuramos pagar menos impostos, também é preciso dizer isso sinceramente. As pequenas empresas muitas vezes vêem-se aflitas para os pagar. Esta contradição está na sociedade. Os tais 22 mil milhões que foram para os bancos e que beneficiaram indirectamente empresários sentimos que foram tirados a quem paga impostos. Mas eu e a maioria da população portuguesa, que somos como a menina da tabacaria de Fernando Pessoa e não percebemos nada de finanças, precisamos que nos expliquem em linguagem que se perceba, sem palavras como “imparidades”.
Sendo que, quando um jornalista usa indevidamente Os Vampiros do Zeca Afonso para falar dos impostos que nos cobram, usa mal. Os “vampiros” de que falava o Zeca, os que “comem tudo e não deixam nada”, são os de cima, são os que fogem com o dinheiro para as offshores, são os que estabelecem sedes em países onde pagam menos, são os que usam consultadorias fiscais. São os que discutem o salário mínimo apesar de serem orgulhosamente “os mais ricos de Portugal” e terem CEO’s a ganharem fortunas. São os que não querem pagar impostos e com eles sustentarem a redistribuição. São talvez os que pagaram os outdoors.

Fonte: https://www.publico.pt/2019/06/11/politica/opiniao/basta-1875528[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ https://www.publico.pt/2019/06/11/politica/opiniao/basta-1875528 (www.publico.pt)
  2. ^ endereço (www.odiario.info)
  3. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Umberto Eco, Um serial exagerado?

image

Umberto Eco, Um serial exagerado?
Ondas curtas e longas do fascismo infiltradas nas democracias.
Ao ritmo a que os laboratórios de guerra psicológica elaboram as suas "matrizes ideológicas", a conferência que Umberto Eco deu em 1995 - no simpósio da Universidade de Columbia - parece coisa de hoje porque o tema possui o dom da vigência, da ubiquidade e da advertência: "Contra o fascismo". Eco sabia muito bem do que falava porque foi amamentado pelas "vias lácteas" do primeiro fascismo, do original, do que nutriu, esmeradamente, as juventudes do seu tempo (e do atual). Dizem alguns, que exagerava.
Eco interessou-se especialmente em explicar, e explicar-se, o conceito de "fascismo", na sua amplitude e profundidade, para o não deixar escapar e ser capaz de alertar sobre os mil disfarces desenvolvidos para se projetar para futuro e camuflar essa fase da ideologia da classe dominante que expressa, em simultâneo, o medo burguês, mas com arrogância criminosa. Intolerância e ódio disfarçado de pensamento civilizador para seres "superiores". Um modelo ideológico opressor, de "novo cunho" capaz de se atualizar permanentemente sem deixar de ser "velha tradição" e fatalidade repressora. Modelo opressor com muitos rostos (e nomes) numa mesma "substância" imutável. E, se isso não bastasse, com laços internacionais, mas sem perder seus vínculos locais.
Eco, dizem que exagerou, propôs-se desnudar a estrutura íntima do fascismo e seus clones. Acabou por lhe chamar "uro-fascismo", ou seja, o fascismo eterno. Construiu uma espécie de "casa dos espelhos" culturais aproveitando o seu reflexo sobre a realidade em categorias tais como: 1) o culto da tradição e a investigação de uma hipotética verdade primitiva; 2) a negação da modernidade e do racionalismo; 3) empirismo dogmático; 4) a satanização do pensamento crítico; 5) o repúdio da diferença; 6) o chauvinismo e a xenofobia; 7) a lógica da perseguição permanente; 8) desprezo pela fraqueza; 9) o amor pelo machismo... e algumas outras mónadasmais, coroadas pela ideia de que o fascismo deve ter a habilidade de se desenvolver em permanência, para se adaptar "aos tempos" e travestir-se na semântica, nas formas e nas inter-relações sociais como um baluarte histórico capaz de possuir, não um uniforme único, mas todos que convenha à ocasião.
Umberto Eco, ao colocar um interesse enfático no aspeto moral, ideológico e psicológico do fascismo, parece não ter lido Trotsky, que explicou de maneira admirável a base económica, material e concreta do fascismo, na sua pachangadesmoralizadora e saqueador da classe trabalhadora dos setores proletários e pequeno-burgueses. Alguns deles fiéis seguidores do fascismo, especialmente acorrentados pelas burocracias dirigentes. Até a data. Em primeiríssimo lugar, o fascismo italiano. Parece ter pouco interesse para Eco interrogar as virtudes guerreiras dos povos contra o fascismo, ele observou que o essencial estava no seu "sentido", como se se tratasse principalmente de um problema moral, mas incluso, nesta espécie de memória adoçada contra o fascismo, parece haver uma contradição cujo resultado deriva em debilitar a democracia para a aprovação dos fascistas mais novos. Sem exagerar.
Mas o que é realmente valioso, talvez, no texto de Eco, está na sua advertência contra a vigência do fascismo e a sua multiplicidade de disfarces inoculados nas cabeças de todo o mundo, por mais que certo pudor esteja disposta a rejeitá-lo e repudiá-lo. No texto "Contra o Fascismo", Eco consegue destacar as vozes que chama a combater permanentemente o fascismo. Não explica um método único além de certa semiótica, mas abre espaço para lembrar, por exemplo, a proposta de Trotsky de combater o fascismo numa frente comum de trabalhadores convocando milhões de pessoas dispostas a despir o "uro-fascismo" e o maior número de suas "mutações" invisíveis na vida cotidiana. E, na prática, milhões de pessoas hoje estão dispostas, por exemplo, a votar pelo fascismo nas suas urnas sem ter em conta a realidade que as sufoca, levados por um "síndrome de Estocolmo" eleitoral e sentindo um certo prazer mórbido de exercer o poder de votar com irresponsabilidade desinformada. Só porque é uma moda dos "media". Estamos exagerando?
Na democracia burguesa, sequestrada pelas agências de publicidade e pelas empresas de sondagens, rende-se culto a um conjunto complexo de flashes fascistas que começam por reduzir tudo à "simpatia" da mercadoria chamada candidato. Fizeram da mentira em um atrativo bumerangue que permite prometer as mais descabeladas e improváveis tarefas ​​de "gestão governativa", sabendo que farão exatamente o contrário. Ou, nada farão. Nalguns processos eleitorais (Brasil, Argentina, Espanha, Itália, EUA, Colômbia...) dominados pelo despotismo ou fanatismo, coagula estentoreamente uma nebulosa fascista impúdica em que os candidatos ou candidatas, adoram a tecnologia para se fazerem “populares” ante as massas, enquanto recitam, com orgulho amnésico, carradas de sucessos empresariais nos quais a vida se protagoniza como num episódio de reality-show.
Falam de liberdade de expressão, de imprensa, de associação política apenas para os perseguir e condenar. O Ur-Fascismorodeia-nos, às vezes em trajos civis e com as mais diversas aparências ou camuflados como entretenimentos inocentes. O nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador a cada uma das suas "novas" formas, todos os dias, em todos os lugares do mundo. Seja entre linhas de música, fotos de paisagem, orações ou tele-series. Seja no penteado e no vestuário, nas teorias e nos métodos científicos, em horóscopos ou nas notícias esportivas. Seja em tatuagens, em frases familiares, em livros para jovens ou para a infância... seja nas "histórias de amor" ou nas "boas intenções". Há que ler o texto de Eco, mesmo que seja apenas para ver o quanto das suas declarações estão exagerando os factos. Sem exagerar.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Surge a “Internacional Neofascista”?

Santiago Abascal, líder do espanhol Vox, ao chegar em um comício no dia 24 de abril
Extrema-direita cresce na Espanha, seguindo a cartilha de Trump e Bolsonaro: discursos virulentos, redes de fake news e demagógica negação da política. Levanta-se a suspeita: haveria uma articulação internacional que financia e promove a reação conservadora mundo afora?
Anne Applebaum, no El País Brasil
Amanhece na zona rural espanhola. Um homem caminha em câmera lenta, corre e pula uma cerca. Como em um filme de Hollywood, o homem atravessa um campo de trigo enquanto roça as espigas com as mãos. Ao fundo soa uma música enquanto uma voz narra: “Se você não ri da honra porque não quer viver entre traidores… Se você anseia por novos horizontes sem desprezar suas origens… Se você mantém intacta sua honradez em tempos de corrupção…”. Nasce o sol. O homem sobe um caminho íngreme, atravessa um rio e é pego por uma tempestade. “Se você sente gratidão e orgulho por aqueles que, de uniforme, guardam o muro… Se você ama sua pátria como ama seus pais…”. A música atinge o clímax, o homem está no topo da montanha e a voz culmina: “… você saberá que está conseguindo fazer a Espanha grande outra vez”. As últimas palavras que aparecem na tela são “Fazer a Espanha grande outra vez”.

O slogan é a versão espanhola do “Make America Great Again”. O homem é Santiago Abascal, e isto, é claro, é uma propaganda do Vox, o partido político que mais cresce na Espanha. Nas eleições gerais de 2016 — o ano do vídeo —, o Vox, com seu nacionalismo espanhol de macho alfa e cinematográfico, não conquistou uma única cadeira. Pouco depois, um site espanhol publicou um artigo que perguntava: “Por que ninguém vota em Santiago Abascal?”. Mas em 28 de abril deste ano, o apoio ao Vox entre o eleitorado passou de 0% a 10%: ganhou 24 deputados no Congresso. Sua ruidosa presença na campanha eleitoral ajudou a impulsionar a participação a um de seus níveis mais altos em anos, já que os espanhóis estavam ansiosos para apoiar o Vox ou votar contra.

Como isso aconteceu e o que isso tem a ver com o caso de Donald Trump? A velocidade da explosão do Vox é, em muitos aspectos, uma história exclusivamente espanhola, marcada por uma reação nacionalista a uma crise separatista regional, pelo crescimento da polarização e da fragmentação do que costumava ser um sistema bipartidário. O colapso econômico de 2009 reduziu a confiança nos partidos políticos tradicionais e levou a uma forte reação da extrema esquerda. O Vox é o contragolpe.


No entanto, sua história também pertence a uma visão mais global e ampla das estratégias de campanhas tradicionais e digitais desenvolvida pela extrema direita europeia e pela direita alternativa norte-americana (alt-right) que agora é usada em todo o planeta. O uso das redes sociais para agudizar a polarização, os sites criados especificamente para alimentar narrativas polarizadas, os grupos privados de fanáticos que compartilham teorias da conspiração, uma linguagem que enfraquece deliberadamente a confiança em políticos e jornalistas “convencionais”: tudo isto também ajudou o partido que quer “fazer a Espanha grande outra vez” abandonar a periferia e se tornar conhecido. Ao que se deve acrescentar que conta com financiamento em parte de origem estrangeira que não lhe chega diretamente, mas é canalizado através de organizações com as quais compartilha opiniões, uma forma de financiamento político que é familiar aos norte-americanos, mas nova na Europa.

Em março e abril, pouco antes das eleições de 28 de abril, fiz algumas viagens a Madri para conversar com militantes do Vox e outras figuras, incluindo ex-líderes do PP, de centro-direita, e do PSOE, de centro-esquerda, os dois partidos que dominaram a política nacional durante três décadas desde a Transição. O sentimento na capital espanhola era um pouco como o que havia em Londres logo antes do referendo do Brexit ou como o de Washington antes da vitória de Trump. Tive uma forte sensação de déjà-vu: mais uma vez, uma classe política estava prestes a ser atingida por uma onda de ira.

No outrora previsível mundo da política espanhola, isso representa uma mudança considerável. Em 2018, jornalistas e analistas espanhóis perguntavam por que, na Espanha, ao contrário da França e da Itália, não havia partidos de extrema direita. Muitos supunham que o fantasma da ditadura de Franco, que culminou apenas nos anos setenta, era o responsável por essa “exceção espanhola”. Enquanto ninguém politicamente ativo hoje na França ou na Alemanha lembra de Vichy ou dos nazistas, uma grande quantidade de espanhóis lembra hoje do nacionalismo ostentoso de Franco, que nos comícios usava o lema “Arriba Espanha!” e, por essa razão, sempre o rejeitaram.

Mas durante o ano passado, o Vox quebrou esse tabu. Em sua conta no Twitter, Abascal publicou uma série de tuítes que começou na primavera de 2018 e continua até hoje. Cada tuíte tem um link de um vídeo ou de uma fotografia de um recinto repleto de gente. Os tuítes mais recentes têm a hashtag #EspañaViva e comentários eufóricos. Esses tuítes mais os constantes ataques do partido às “falsas” pesquisas de opinião dos meios de comunicação “parciais” tinham um propósito: fazer com que qualquer seguidor do Vox sentisse que fazia parte de um movimento enorme. Abascal fala de um “movimento patriótico de salvação da unidade nacional” e, de alguma forma, era isso.

Alimentado por separatismos

O vice-secretário do Vox, Iván Espinosa de los Monteros, vem de uma rica família da nobreza espanhola. Quando o Vox ataca “as classes dominantes”, refere-se aos meios de comunicação e às classes políticas, não à alta burguesia ou a sua classe empresarial. Ainda mais importante é o fato de que Espinosa é um usuário especialista em redes sociais, assim como sua esposa, Rocío Monasterio, que também é política do Vox.

Eu segui os dois no Twitter durante um tempo e notei o quanto eram eficientes criando espetáculo. Por meio do Twitter, Espinosa convocou um protesto público quando uma universidade de Madri, sua alma mater, cancelou uma conferência que ele faria. Monasterio acumulou milhares de likes por declarar que iria boicotar qualquer mobilização relativa ao Dia Internacional da Mulher e depois por tuitar um vídeo em que enfrentava feministas irritadas manifestando-se com imagens de mulheres e homens de mãos dadas.

Espinosa também é responsável pelas “relações internacionais” do partido, e a mensagem principal que quis me transmitir foi sobre a natureza excepcionalmente espanhola do Vox. Tomando o café da manhã em um café em Madri que, segundo disse, não fica longe de sua empresa imobiliária, afirmou que o Vox tinha muito pouco em comum com outros partidos europeus de “ultradireita”. “O Vox é frequentemente e facilmente associado a outros partidos e a coisas novas que estão acontecendo em outras partes do mundo… mas não é realmente verdade.”

Em vez disso, argumenta que o Vox surgiu em grande parte por causa do fracasso da Espanha em lidar com seus prolongados conflitos regionais. Abascal, ex-membro do Partido Popular (PP, de centro-direita), é natural do País Basco. Seu pai, também político do PP, era amplamente conhecido como alvo do ETA, o grupo terrorista basco. Por essa razão, afirma ter uma pistola Smith & Wesson consigo o tempo todo, um hábito inusual na Espanha que fez com que ganhasse o carinho de uma pequena minoria de proprietários de armas. No entanto, a crise da secessão catalã, iniciada em 2017, foi o que colocou o Vox no centro da política espanhola. José María Aznar, ex-presidente do Governo de centro-direita, me disse que o Vox era “uma consequência da inação do Governo durante o golpe de Estado da Catalunha”, e quase todos com quem falei em Madri disseram mais ou menos o mesmo.

A Catalunha é uma província rica, onde muitos dos seus habitantes falam uma língua diferente, o catalão. A região tem uma longa história e alguns velhos ressentimentos datam de vários séculos. Depois que as forças lideradas por Franco venceram a Guerra Civil e impuseram uma ditadura, qualquer indício de separatismo catalão foi severamente reprimido. Em contraste, a Constituição espanhola de 1978 concedeu a autonomia não só à Catalunha e ao País Basco, cujo movimento separatista tinha uma ala terrorista, mas a todas as comunidades espanholas. Desde então, gerou-se uma discussão constante sobre a relação entre o Governo central e as comunidades autônomas. Em 2017, o Governo regional da Catalunha, estreitamente controlado pelos separatistas, decidiu realizar um referendo sobre a independência. O Tribunal Constitucional o declarou ilegal. Uma clara maioria de catalães boicotou o referendo –um evento emocionante, arruinado pela brutalidade policial– mas os que votaram escolheram a independência.

No caos posterior, o Senado autorizou a imposição de um Governo direto sobre a Catalunha e convocou novas eleições nessa comunidade. Alguns líderes separatistas fugiram para o exílio, enquanto outros foram presos e levados a julgamento. Na Espanha se permite que advogados particulares sejam coacusadores durante os processos judiciais públicos. O Vox aproveitou essa legislação para entrar com uma ação contra os separatistas. Na prática, isso significou que, durante o julgamento público amplamente televisionado, o “advogado do Vox” e o secretário-geral do partido, Javier Ortega Smith, estiveram presentes junto aos promotores do Governo.

Para um pequeno partido que defende a unidade espanhola, se opõe à autonomia regional e quer proibir os partidos separatistas e prender o presidente catalão, é difícil pensar em uma maneira mais eficaz de evocar emoções fortes ou provocar uma forte reação contrária. Quando o Vox organizou um de seus comícios em Barcelona nesta primavera, Ortega Smith chamou o Governo catalão de “organização criminosa”. No entanto, a maioria da cobertura da mídia se concentrou nos anarquistas que atiraram pedras, queimaram barricadas e protestaram violentamente contra os visitantes “fascistas”. Em outras palavras, foi outra vitória de imagem para o Vox. Abascal tuitou uma fotografia de si mesmo consolando uma mulher que havia sido ferida nas manifestações. Espinosa fez o mesmo. Ironicamente, se mostrar como “vítimas da brutalidade” foi a mesma estratégia com a qual os separatistas catalães procuram ganhar apoio nacional e internacional.

“Não têm ideias”

A Catalunha não foi o único assunto espanhol que ajudou o Vox. Assim como outros novos partidos europeus (não necessariamente de direita), como o Movimento 5 Estrelas na Itália, o Vox selecionou uma série de assuntos subestimados cujos adeptos tinham começado a se colocar em contato e se organizar na Internet. Em geral, os movimentos políticos bem-sucedidos costumavam ter uma única ideologia. Agora, algumas vezes, combinam várias. Pensemos no processo de uma gravadora que quer criar uma nova banda pop: faz um estudo de mercado, escolhe o tipo de rostos condizentes com a pesquisa e então apresenta a banda ao público que lhe é mais favorável. Os novos partidos políticos são assim: agora se podem agrupar diferentes temas, reempacotá-los e depois comercializá-los usando o mesmo tipo de mensagens direcionadas que se sabe que funcionaram em outros lugares.

A oposição ao separatismo catalão e basco, ao feminismo e ao casamento igualitário, à imigração, especialmente a muçulmana; a ira contra a corrupção; o tédio com a política tradicional; um punhado de temas, como a propriedade de armas e a caça, com os quais algumas pessoas se importam profundamente, enquanto outras nem sabem que existem; uma pitada de apelos libertários, talento para a zombaria e um leve ar de nostalgia, embora não se saiba exatamente do quê: todos esses ingredientes foram usados para a criação do Vox. Na maior parte, esses temas pertencem ao campo da política de identidade, não ao da economia. Espinosa se refere a eles como questões que se opõem à “esquerda”, não em referência apenas ao partido de ultraesquerda marxista Podemos, mas também ao PSOE, de centro-esquerda, ao menos em sua mais recente encarnação. Especificamente, ele designa o Governo socialista que controlou a Espanha entre 2004 e 2010, sob o mandato do presidente José Luis Rodríguez Zapatero, que aprovou uma série de leis para flexibilizar as restrições sobre o aborto, o divórcio e o casamento igualitário, e para estender proteções especiais, incluindo julgamentos em tribunais especializados — que Espinosa chama de “tribunais de homens” — para as vítimas da violência doméstica. Descreve essas iniciativas como “todas as leis que Zapatero pôde conceber para atacar a família, o bastião do conservadorismo”.

Zapatero também reabriu o debate sobre o questionamento da história, aprovando uma Lei de Memória Histórica que, entre outras coisas, condenou formalmente o regime franquista e eliminou os símbolos franquistas dos espaços públicos. Isso foi uma novidade para a Espanha: durante as duas primeiras décadas depois da transição democrática, os Governos espanhóis simplesmente se esquivaram do assunto. Para o Vox, esse assunto é uma mera nuance e não uma questão fundamental, pelo menos em público. No entanto, a exigência de ter “liberdade para falar sobre a nossa história” é uma frase que Abascal usa nos comícios.

Espinosa afirma que o “extremismo” do Governo de Zapatero mais o extremismo dos separatistas, junto com o fracasso posterior da centro-direita para combatê-los, é o que justifica a posição do Vox: “Ninguém questiona a nação em outros lugares, ninguém questiona suas instituições básicas, sua bandeira, seu hino, seu presidente, suas instituições democráticas, seu Tribunal Supremo”. Espinosa ilustra seu argumento usando dois saleiros. “Olhe”, diz, colocando os dois juntos, “estas são as políticas espanholas nos anos oitenta e noventa”. E “aqui”  — coloca um garfo a várias polegadas de distância — está a Espanha atual: “Levada para a extrema esquerda. O centro e a direita não reagem, não contra-atacam. Não têm ideias”.

Esse tipo de linguagem não só enfurece os separatistas, mas também aqueles que se identificam com a centro-esquerda. Como também enfurecem as provocações do Vox. Em dezembro, antes das eleições locais na Andaluzia, Abascal postou um vídeo de si mesmo montando um cavalo, recriando a “reconquista” medieval da Espanha diante da ocupação muçulmana, ao ritmo da trilha sonora de O Senhor dos Anéis. Em outra ocasião, o partido criou um vídeo que mostrava uma notícia falsa anunciando a imposição da lei islâmica na Andaluzia e a transformação da Catedral de Córdoba em uma mesquita. Cada uma dessas ações causou uma reação contrária. Mais retuítes para o Vox, mais fúria do outro lado. Espinosa sabe disso. “Somos parte dessa polarização? Infelizmente o somos. Não estou dizendo que não…”. No entanto, do seu ponto de vista, “a esquerda” é a extremista, não o Vox.

Espinosa fala um excelente inglês — passou parte da infância nos Estados Unidos e frequentou a Escola de Negócios da Universidade de Northwestern — e, ocasionalmente, tuíta nesse idioma. Muitas vezes entrou no Twitter para atacar a cobertura da imprensa estrangeira sobre o Vox, especialmente quando compara o partido com grupos de extrema direita da França e da Itália. Uma vez felicitou ironicamente um jornalista do Guardian por sua “história politicamente correta”. Tem a mesma queixa sobre a imprensa espanhola. “Parabéns ao EL PAÍS”, escreveu recentemente, “por ser capaz de incluir as expressões ‘ultraconservador’, ‘ultranacionalista’ e ‘extrema direita’ em apenas cinco parágrafos. Goebbels os admiraria”.

A verdade é que houve inúmeros contatos entre o Vox e outros partidos políticos de “extrema direita” europeus. Em 2017, como mostra a conta do Vox no Twitter, Abascal se encontrou com Marine Le Pen, a líder francesa de extrema direita. Na véspera da eleição, ele tuitou seu agradecimento a Salvini, o líder da extrema direita italiana, por seu apoio. Abascal e Espinosa foram recentemente a Varsóvia para uma reunião com líderes do partido governista polonês, nativista [que favorece os nativos de um país] e antiplural, e Espinosa também apareceu na Conferência de Ação Política Conservadora, em Washington.

Mesmo assim, Espinosa está certo quando minimiza esses encontros públicos, considerando-os como reuniões de cortesia. As relações importantes entre o Vox e a extrema direita europeia, bem como com a alt-right norte-americana, estão se desenvolvendo em outro lugar.

“Restaurando a ordem natural”

Os nacionalistas de extrema direita ou os partidos nativistas na Europa raramente trabalhavam juntos até recentemente. Ao contrário dos sociais-democratas europeus, que sempre compartilharam uma visão de mundo, ou inclusive dos democratas-cristãos de centro esquerda europeus, que desde os anos cinquenta foram o verdadeiro motor que impulsionou a União Europeia, os partidos nacionalistas, arraigados em suas próprias histórias particulares, costumavam estar em conflito quase por definição. A extrema direita francesa nasceu dos debates sobre Vichy e a Argélia. A extrema direita italiana foi historicamente moldada pelos descendentes intelectuais de Mussolini, incluindo sua própria filha. As tentativas de confraternização sempre terminaram afundando por velhas controvérsias. A extrema direita da Itália e da Áustria, por exemplo, romperam relações recentemente depois que começaram a discutir — acaba sendo engraçado — sobre a identidade nacional do Tirol do Sul, uma província no norte da Itália onde se fala principalmente alemão.

Há pouco isso começou a mudar. A extrema direita europeia encontrou um grupo de temas com os quais todos podem estar de acordo. A oposição à imigração, especialmente muçulmana. A promoção de uma visão de mundo socialmente conservadora. Dito de outra forma: o desagrado com o casamento igualitário ou com os taxistas africanos é algo que até austríacos e italianos, em desacordo sobre a localização de sua fronteira, podem compartilhar.

Os vínculos e conexões são visíveis na Internet. Entre os que analisaram a ascensão do Vox, encontra-se uma firma de análise de dados de Madri chamada Alto Data Analytics. Especializada na aplicação de inteligência artificial na análise de dados públicos de sites como Twitter, Facebook, Instagram e YouTube, entre outras fontes, a Alto elaborou há pouco vários mapas coloridos sobre as interações dos espanhóis nas redes, com o objetivo de identificar campanhas de desinformação que buscassem distorcer as conversas digitais. Os mapas mostraram três conversas polarizadas e periféricas, ou seja, “câmaras de ressonância”, cujos membros praticamente só conversam entre si: a conversa sobre a autonomia da Catalunha, a conversa sobre a extrema esquerda e a conversa sobre o Vox.

Não foi uma surpresa, como tampouco foi descobrir que a maioria dos “usuários com atividade anormalmente alta” — bots ou pessoas reais que publicam constantemente e talvez recebendo algum pagamento por isso — faziam parte dessas três comunidades, especialmente a do Vox, que reunia mais da metade deles. Poucos dias antes das eleições, o Instituto para o Diálogo Estratégico (ISD, em inglês) — uma organização britânica que rastreia o extremismo na Internet na qual trabalho como conselheira e colaboradora — descobriu uma rede de quase 3.000 “usuários com atividade anormalmente alta”, que haviam bombardeado o Twitter no ano passado com cerca de 4,5 milhões de mensagens anti-islâmicas e pró-Vox. As origens da rede não são claras, e não se sabe quem a financia. Inicialmente, foi configurada para atacar o Governo de Nicolás Maduro na Venezuela, mas o objetivo mudou após o ataque terrorista de Barcelona em 2017. Nos últimos anos, a rede se concentra em histórias atemorizantes de imigração cuja intensidade aumenta gradualmente. Parte do conteúdo promovido são materiais extraídos de redes extremistas, e quase todos são alinhados com as mensagens publicadas pelo Vox. Em 22 e abril, por exemplo, uma semana antes das eleições espanholas, a rede postou no Twitter imagens daquilo que seus membros descreviam como uma revolta num “bairro muçulmano na França”, quando o que mostravam, na verdade, era um protesto recente contra o Governo na Argélia.

A Alto e o ISD perceberam também outra singularidade: os simpatizantes do Vox, sobretudo os “usuários com atividade anormalmente alta”, têm muitíssimas probabilidades de publicar conteúdos e materiais de um grupo de fontes muito específico: um conjunto de sites conspirativos, em geral criados pelo menos há um ano, e às vezes administrados por uma única pessoa, que publica grande quantidade de artigos e títulos muito partidários.

Curiosamente, a equipe da Alto encontrou os mesmos tipos de sites na Itália e no Brasil nos meses prévios às eleições de 2018, nos dois países. Em ambos os casos, os portais começaram a publicar material partidário — na Itália sobre a imigração, no Brasil sobre corrupção e feminismo — durante o ano prévio à votação. E serviram para alimentar e amplificar vieses ideológicos antes mesmo que fizessem parte da política convencional.

Na Espanha há meia dúzia de portais como esses, alguns profissionais e outros claramente feitos por aficionados. Alguns, de origem desconhecida, parecem ter sido criados sob medida: um dos portais mais obscuros tem exatamente o mesmo estilo e disposição que um portal brasileiro pró-Bolsonaro, quase como se ambos tivessem sido desenhados pela mesma pessoa. No dia anterior às eleições espanholas, sua notícia principal foi uma teoria conspirativa: George Soros, o judeu milionário nascido na Hungria que tem sido representado como o demônio pela extrema direita na Europa, ajudaria a orquestrar uma fraude eleitoral. Soros não era uma figura muito conhecida na Espanha até que o Vox o incluiu no debate.

Do outro lado da balança está o DigitalSevilla, que em geral informa sobre a Andaluzia, e o CasoAislado, que publica constantemente histórias sobre imigrantes e crimes. Ambos parecem administrados por equipes muito reduzidas e financiadas pelo sistema de publicidade do Google. Aparecem com muita frequência na câmara de ressonância do Vox. O dono do DigitalSevilla — segundo o EL PAÍS, um homem de 24 anos sem experiência como jornalista — produz manchetes que comparam a presidenta do Partido Socialista da Andaluzia com a “mulher malvada de Game of Thrones”, em ocasiões, conseguiu atrair mais leitores que os jornais tradicionais. Espinosa me disse que o dono do CasoAislado é “um sujeito que simpatiza conosco, um aficionado. Garanto que não pagamos para nenhum deles.”

Os norte-americanos reconhecerão sites desse tipo: funcionam de formas não muito diferentes das utilizadas pelo InfoWars e o Breitbart, os portais infames e enviesados que operaram da Macedônia durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, e pelas páginas do Facebook criadas pela inteligência militar russa. Todos eles produzem notícias carregadas, conspirativas e polarizadoras com manchetes indignantes, prontas para serem enviadas às câmaras de ressonância. Às vezes, esses sites e as redes que os promovem na Europa trabalham de maneira coordenada. Em dezembro, as Nações Unidas reuniram os líderes mundiais para discutir a migração numa cúpula não muito pretensiosa que produziu um acordo com poucos compromissos: o Pacto Mundial para uma Migração Segura, Ordenada e Regular. O acordo recebeu pouca atenção da mídia. Mas a Alto descobriu que, na véspera da reunião, cerca de 50.000 usuários publicaram no Twitter teorias da conspiração sobre o convênio, centenas deles alternando francês, alemão, italiano e, em menor medida, espanhol e polonês. Com um funcionamento similar ao da rede espanhola que promove o Vox, esses usuários promoveram material de portais conspirativos, usando imagens idênticas, com links entre si e retuítes feitos de diversos países.

Uma rede internacional semelhante começou a operar após o incêndio da catedral de Notre Dame, em Paris. O ISD rastreou milhares de publicações de pessoas afirmando terem visto muçulmanos “comemorando” o incêndio, assim como outras de pessoas que publicavam rumores e fotos pretendendo provar que o fogo havia sido provocado. O CasoAislado montou uma publicação quase de imediato, declarando que “centenas de muçulmanos” comemoravam o incêndio, com uma imagem em que parecia que pessoas com sobrenomes árabes publicavam no Facebook emoticons sorridentes sob as fotos do incêndio. Poucas horas depois, Abascal expressou pelo Twitter seu rechaço a aquelas “centenas de muçulmanos” e usou a mesma imagem, embora vinculando-a com uma publicação do teórico da conspiração da direita alternativa dos EUA, Paul Watson. Este, por sua vez, identificou o ativista francês de extrema direita Damien Rieu como a fonte.
“Os islamistas, que querem destruir a Europa e a civilização ocidental, comemorando o incêndio de #NotreDame”, escreveu Abascal. “Levemos isso a sério antes que seja tarde.”
Esse mesmo tipo de memes e imagens se expandiram pelos grupos de seguidores do Vox no WhatsApp e no Telegram. Incluíam, por exemplo, um meme em inglês que mostrava Paris “antes de Macron” com a Notre Dame ardendo, e outra “depois de Macron” com uma mesquita em seu lugar; assim como uma notícia em vídeo — sobre outro incidente sem relação com Notre Dame — que detalhava detenções e a descoberta de um carro com bombas de gás perto do lugar do incidente. Foi o exemplo perfeito de como a alt-right, a extrema direita e o Vox propagaram a mesma mensagem ao mesmo tempo, e em múltiplos idiomas, para tentar motivar as mesmas emoções em toda a Europa, a América do Norte e outros lugares.

Esses grupos também têm conexões fora da Internet. Tendo em vista o apelo gerado pelos problemas sociais, criaram-se organizações pan-europeias que usam um modelo norte-americano de financiamento e promoção. Uma delas é a CitizenGo, fundada em Madri em 2013. A CitizenGo é o braço internacional da HazteOir.org, uma organização espanhola criada há mais de uma década. Segundo Neil Datta, secretário do Foro Parlamentar Europeu sobre População e Desenvolvimento e autor de um relatório sobre a direita cristã europeia, a CitizenGo integra uma rede maior de organizações europeias que procuram “restaurar a ordem natural”: eliminar os direitos dos homossexuais, restringir o aborto e os métodos anticoncepcionais e promover uma agenda explicitamente cristã. Essa rede compila listas de e-mails e se mantém em contato com seus seguidores. Eles dizem que chegam a nove milhões de pessoas.

Apoio internacional

O conselho da CitizenGo inclui Brian S. Brown, o cofundador norte-americano da Organização Nacional para o Casamento, e Alexey Komov, da divisão russa do Congresso Mundial de Famílias (WCF, em iglês). Komov tem sido associado ao empresário russo Konstantin Malofeev. Na prática, ele atua como vínculo entre Malofeev e a direita religiosa norte-americana. O líder da CitizenGo, Ignacio Arsuaga, aparece com frequência em eventos pan-europeus, incluindo a reunião em março do Congresso Mundial de Famílias em Verona, na Itália. De acordo com o portal do WCF, entre seus participantes estivam Salvini, ministro do Interior do Governo da Itália e líder da Liga Norte (de extrema direita), assim como um grupo de políticos húngaros, um alto sacerdote russo e até sua alteza Glória, princesa de Thurn e Taxis (aristocrata alemã).

Segundo o grupo de pesquisa não governamental OpenDemocracy, Darian Rafie, líder de uma organização norte-americana chamada ActRight, também assessora a CitizenGo e ajuda a mantê-la financeiramente. (Para contextualizar um pouco: a página do Facebook da ActRight faz piada da presidenta da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, e pergunta constantemente quanto o presidente Barack Obama pagou para matricular sua “filha maconheira” na Universidade Harvard). Rafie disse a um repórter da OpenDemocracy que tinha “arrecadado muitos fundos” para Trump. Contatos desse tipo não são incomuns: a OpenDemocracy identificou outra dezena de organizações dos EUA que financiam ou apoiam ativistas conservadores na Europa. E não só por lá: Viviana Waisman, da Women’s Link Worldwide, organização de direitos humanos e da mulher com sede em Madri, me contou que costuma se deparar com a linguagem da CitizenGo pelo mundo inteiro. Entre outras coisas, a organização popularizou a expressão “ideologia de gênero” — um termo inventado pela direita cristã e usado para descrever uma grande variedade de temas, da violência doméstica até os direitos dos homossexuais— na África e na América Latina, além da Europa.

Na Espanha, a CitizenGo ganhou fama estampando lemas provocadores em ônibus que percorrem as cidades. As mensagens irritam as pessoas e atraem muita atenção para a CitizenGo e para o Vox. As coincidências entre ambos não são um segredo: nos últimos anos, a organização entregou seu prêmio anual a Abascal, Ortega Smith e outras pessoas que agora são políticos do Vox, assim como a ativistas católicos e ao líder iliberal húngaro Viktor Orbán.

No período prévio às eleições de abril — as primeiras em que o Vox se mostrava como uma formação com chances eleitorais —, o dinheiro, a rede e o talento da CitizenGo mostraram-se muito úteis. Como já havia feito, a organização lançou a campanha “Vote em valores”. Desta vez, os ônibus foram pintados com frases que buscavam menosprezar os líderes de partidos que não fossem o Vox. O grupo criou um site com listas mostrando quais partidos estavam de acordo com seus “valores”, deixando claro que o único que tinha valores era o Vox.

Trata-se de um padrão conhecido na política norte-americana. Assim como nos EUA é possível apoiar os Comitês de Ação Política (PAC, em inglês), que geram publicidade em torno dos temas defendidos por determinados candidatos, agora os norte-americanos, os russos e a princesa de Thurn e Taxis também podem fazer doações para a CitizenGo e, assim, apoiar o Vox. Esse modelo de financiamento não tem sido muito utilizado na Europa. Na maioria dos países, o financiamento político tem limitações. Em alguns deles (não na Espanha), o financiamento externo é proibido. Um grande alvoroço foi gerado ao redor da organização The Movement, de Stephen K. Bannon, que se estabeleceu na Europa para ajudar os candidatos de extrema direita a vencer as eleições. No entanto, embora muitos europeus provavelmente não tenham percebido, os estrangeiros que querem financiar a extrema direita europeia podem fazer isso há muito tempo. O último relatório da OpenDemocracy diz que Arsuaga informou a um jornalista que o dinheiro dado ao seu grupo poderia “indiretamente” apoiar o Vox, já que “hoje” estão “totalmente alinhados”. O dinheiro que organizações como a CitizenGo gastam nas eleições importa menos que as campanhas que organizam nos meses que antecedem esses pleitos. Como disse Arsuaga ao repórter da OpenDemocracy, “ao controlar o entorno dos políticos, você acaba controlando-os também”. O que realmente importa é a batalha pelos valores nos meios de comunicação, na educação, nas instituições culturais e, acima de tudo, nas redes sociais. A Europa, incluindo os países que antes buscavam o consenso — Holanda, Alemanha e agora a Espanha — começam a se parecer mais com os EUA, onde a batalha pelos valores se transformou numa guerra aberta.

Entendendo os vínculos da extrema direita

Quando perguntei a Rafael Bardají sobre o vídeo “Fazer a Espanha grande outra vez”, ele sorriu: “Essa ideia foi minha. Foi uma espécie de piada do momento.” Bardají se uniu ao grupo dirigente do Vox pouco depois de Espinosa e Abascal. Como eles — e como a maioria no partido —, é um ex-membro do PP que acabou desiludido com o centrismo e a moderação. Trabalhou com Aznar no início dos anos 2000 e ficou conhecido como o assessor que mais pressionou para que a Espanha se unisse à invasão dos EUA ao Iraque.

Por isso é considerado “neoconservador”, embora não se saiba ao certo o que isso significa no contexto espanhol. Bardají também ganhou o apelido de Darth Vader, algo que o diverte (colocou a foto do vilão de Star Wars no Twitter). “Fazer a Espanha grande outra vez”, explica, “foi uma espécie de provocação… A intenção era irritar a esquerda um pouco mais.” Este, claro, é um conceito muito familiar. “Faça isso porque ofende o establishment.” “Humilhe os progressistas.” Um clássico sentimento breitbartiano. Sim, Bardají conhece Bannon. E os dois têm um amigo em comum. Mas Bardají acha engraçada a relevância que as pessoas dão para esse fato. Os jornalistas espanhóis, me disse, “dão a Bannon uma importância que ele não tem.”

Não está claro se Bannon, ex-diretor do Breitbart e ex-diretor de estratégia do presidente Trump, influenciou Bardají ou vice-versa. Bardají me disse que teve a oportunidade de visitar a Casa Branca logo depois da vitória de Trump. Disse-me que estava em contato com o conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn e com seu sucessor, H.R. McMaster, e discutiram sobre a primeira visita de Trump à OTAN, bem como sobre o discurso que faria em Varsóvia, aquele em que enfatizou a necessidade de defender o mundo cristão do islamismo radical: “A aspiração de civilizar, o modo pelo qual o Ocidente deve se defender…, estávamos completamente em sintonia”, disse-me Bardají. O número de muçulmanos espanhóis hoje é relativamente baixo — a maioria da imigração espanhola vem da América Latina — e o dos EUA é ainda menor. Mas a ideia de que a civilização cristã precisa se redefinir diante do inimigo islâmico tem, é claro, uma ressonância histórica especial na Espanha, como nos Estados Unidos pós-11 de setembro e pós-Iraque.

Há outros aspectos que revelam que o Trumpworld e o Vox são simbióticos. Bardají, que diz também conhecer Jason Greenblatt, o negociador da Administração Trump no Oriente Médio, tem laços de longa data com o Governo israelense. Bardají me disse que em 2014 organizou para o Vox a visita de um assessor de relações públicas de Israel: “Eu o trouxe da equipe que venceu as eleições para Netanyahu”. Nesse mesmo ano, o primeiro candidato derrotado do Vox para o Parlamento Europeu, Alejo Vidal-Quadras Roca, recebeu uma generosa doação — de mais de 800.000 euros, divididos entre dezenas de doações individuais — da Organização Mundial dos Mujahidin do Povo Iraniano (MEK), uma organização/culto iraniano que se opõe à República Islâmica. O MEK tem uma reputação ambígua em Washington  — foi classificado como organização terrorista em algumas ocasiões —, mas tem alguns aliados: tanto o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton quanto o advogado de Trump Rudolph W. Giuliani fizeram discursos em seu evento anual em Paris. Esses vínculos compartilhados entre o Vox e a Administração Trump não sugerem uma conspiração, mas sim interesses e amigos em comum há anos. Mais do que qualquer outra coisa, são pessoas que veem que têm inimigos em comum e conseguiram adotar com o tempo uma visão similar do mundo. Assim como Espinosa, Bardají reconhece a polarização da política espanhola e, além disso, pensa que é algo permanente: “Estamos entrando em um período em que a política está se tornando algo mais, é uma guerra com outros meios — não queremos ser assassinados, queremos sobreviver… Acredito que agora na política quem ganha leva tudo. Não é um fenômeno exclusivo da Espanha”.

Bardají diz que, até agora, o Vox foi pequeno demais para orquestrar muita propaganda, e muito menos fazer parte de um movimento internacional: “Fomos um partido pequeno com um orçamento limitado”. Espinosa disse o mesmo, como fez Vidal-Quadras, que me disse que o dinheiro do MEK acabou quando ele deixou o partido. Foi um reconhecimento pessoal por suas lutas passadas. Não há razão para não acreditar neles.

Mas o fato é que muitos outros, na Europa e nos Estados Unidos, têm pressionado e promovido os temas que se tornaram a principal agenda do partido. Como o ex-presidente Aznar disse, o Vox é uma “consequência”, embora não apenas, do separatismo catalão. É também consequência do trumpismo, dos sites de conspiração, das campanhas digitais da alt-right e da extrema direita internacional e, especialmente, da reação conservadora que vem se desenvolvendo em todo o continente há anos.

De certo modo, é a maior das ironias: nacionalistas, antiglobalistas, pessoas céticas em relação às leis internacionais e muitas outras organizações agora trabalham juntos, rompendo fronteiras, por causas comuns. Compartilham contatos. Obtêm dinheiro dos mesmos fundos. Aprendem com os erros uns dos outros, copiam o vocabulário uns dos outros. E estão convencidos de que, juntos, algum dia, vencerão.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/surge-internacional-neofascista.html

EUA teriam participado de plano para realojar nazistas na América, diz historiador

Medalha nazista
© Sputnik / А. Shadrin

O historiador argentino Abel Basti revelou que milhares de oficiais e líderes nazistas (incluindo o próprio Adolf Hitler) conseguiram se mudar para a América Latina e outras zonas do mundo depois da Segunda Guerra Mundial graças a um "plano" dos EUA de "absorver" o conhecimento alemão e o usar contra a União Soviética.

Abel Basti, autor de vários livros sobre o destino de Hitler após a queda do nazismo, disse à Sputnik Mundo que em 1945 houve um "pacto" entre o regime nazista e o governo dos EUA para permitir "a transferência para o Ocidente de pessoas, tecnologia, desenvolvimentos industriais e moeda" que pertenciam ao nazismo.

Em troca, os líderes do Terceiro Reich solicitaram que os EUA garantissem a "impunidade" de várias de suas figuras, começando no próprio Hitler.

Basti indicou que o objetivo dos EUA nesse acordo era aproveitar o conhecimento militar desenvolvido pelos nazistas, no âmbito da corrida armamentista que estava começando e que tinha na União Soviética seu principal concorrente.


Segundo o historiador, assim "os especialistas em guerra química, bacteriologia e mísseis", bem como "toda a rede de espionagem alemã" ficaram ao serviço de Washington no período do pós-guerra.

O processo de "transferência" das capacidades alemãs se estendeu além da década de 1950 e incluiu todo o continente americano, disse o especialista. Segundo ele, os governos dos países latino-americanos, principalmente as ditaduras militares de direita interessadas em combater o comunismo, sabem desse plano.

Basti argumentou que o plano para a reinstalação dos nazistas contemplava dois tipos de casos: os nazistas "ativos", que se reincorporavam nos exércitos ou forças especiais dos países que os recebiam, e aqueles que iniciavam uma nova vida em segredo.


Nessa última categoria, por razões óbvias, se encontrava o próprio Adolf Hitler, que segundo os trabalhos de Basti, não morreu em seu bunker em Berlim, mas conseguiu fugir para a Argentina. Com a impunidade assegurada, Hitler pôde se mover livremente em um território de mais de um milhão de hectares na Patagônia, desde Bariloche até Junín de los Andes.

Em seu próximo livro, intitulado "A Segunda Vida de Hitler", Basti promete divulgar o testemunho "da empregada que cuidou de Hitler" e revelar a história do "comandante alemão que foi seu secretário na Argentina".

A presença de vários altos cargos da Schutzstaffel no Brasil, na Bolívia, no Paraguai e no Chile, por exemplo, também teve a ver com essa "imigração" planejada dos nazistas para o continente americano, com o conhecimento da inteligência dos EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050813832991-eua-teriam-participado-de-plano-para-realojar-nazistas-na-america-diz-historiador/

Uma apresentação às lições sobre o fascismo e antifascismo

O professor Marcos Aurélio da Silva apresenta o livro ‘Nas trincheiras do ocidente: lições sobre o fascismo e antifascismo’, escrito por Gianni Fresu.

 

A obra, que se utiliza das contribuições teóricas e políticas de Gramsci e Togliatti, “nos conduz a um amplo e ao mesmo tempo rigoroso panorama não só da história do fascismo e do maior partido comunista do Ocidente (o PCI), mas também do próprio movimento comunista internacional”, segundo o apresentador.

Desvendado o fascismo e o antifascismo italiano na Itália[1]

O livro que Gianni Fresu dedica ao estudo do fascismo representa enorme contribuição para o aprofundamento dos conhecimentos sobre o tema em pelo menos dois domínios. São eles o da historiografia sobre o fascismo, que o autor percorre com apurado senso critico, fazendo ver os avanços e problemas de diferentes interpretações, e aqueles dos estudos gramscianos, especialmente favorecidos pela capacidade que demonstra o autor em relacionar o tema ao contexto histórico em que Gramsci forjou seu rico cabedal conceitual. Na verdade é mesmo a abordagem gramsciana que permite organizar as diferentes interpretações historiográficas, no mais das vezes de corte liberal, operando nelas uma espécie de superação dialética. Como realça Fresu, as interpretações liberais, inclinando-se a uma leitura fortemente reacionária, buscavam apresentar o fascismo como um simples parêntese da história européia (tese de Benedetto Croce, mas com muitos ecos fora da Itália), sempre insistindo na perda de consciência e na crise moral provocada pela Guerra, ou ainda nas mobilizações de massa e na vitória do bolchevismo (tese sustentada na historiografia alemã por Ernest Nolte). Já Gramsci, sem desprezar os elementos ideológicos revelados pela crise moral da burguesia européia, uma vez apoiado no materialismo histórico, ressalta em primeiro lugar as relações destes elementos com aqueles de fundo econômico e social. Caberia, pois, dar atenção a engenhos institucionais como o Estatuto Albertino, expressão mais acabada de uma revolução passiva e dos problemas de transformismo – vale dizer, das debilidades da classe dirigente italiana –, tão bem estudados por Gramsci nos Cadernos. Por este engenho, forjou-se um ordenamento parlamentar que, resultando em uma forte união entre o rei e o legislativo, terminou por conceder ao primeiro amplos poderes, como no exemplo da nomeação de ministros e até a dissolução do parlamento. Recorde-se que, após a encenação da marcha sobre Roma, foi Vitor Emanuel III quem nomeou Benito Mussolini chefe de governo. 

Sempre em confronto com as teses de Gramsci, é ainda a leitura liberal de Croce que é alvejada para destacar outro elemento central do fascismo. Enquanto o filósofo italiano sustenta que o regime de Mussolini não é expressão de uma única classe, aparecendo, antes, em todas as classes, Fresu recupera a ênfase de Gramsci nas camadas médias – um ponto, cabe observar, a ligar o regime italiano àquele conduzido por Hitler. Aliás, é aqui que o autor abre espaço para explorar a grande contribuição do comunista sardo, a saber, a interpretação do fascismo não apenas como um regime de coerção, mas simultaneamente apoiado no consenso, os dois núcleos centrais do conceito de hegemonia. Por este ângulo é que se pode compreender os esforços do fascismo para absorver toda uma camada de estudantes inadaptados, de oficiais de guerra sem função social, de pequenos burgueses em vias de proletarização – geralmente utilizando-se do mito da “vitória mutilada”, enunciado pelo poeta Grabriele D’Annunzio, ele que explorava a recusa dos EUA às aspirações italianas na península balcânica e na África após o fim da I Guerra. Verdadeiro chefe inicial do intervencionismo, ressalta Fresu, é de D’Annunzio que o Duce toma a retórica, as poses teatrais, as liturgias funerais e militares, a iconografia e enfim as palavras de ordem, todos meios para mobilizar e disciplinar a base de consenso do regime. E eis as relações entre consenso e militarismo, o último o eixo central do fascismo e da existência do próprio partido, mas também o seu verdadeiro ponto de chegada, a saber, uma geopolítica agressiva, inscrita em uma política externa de corte abertamente imperialista.

Certamente o consenso servia também à absorção do operariado no Estado burguês, especialmente por meio da assimilação dos organismos da sociedade civil por ele forjados, a exemplo das instituições corporativas – estruturas de associação econômica e social desenvolvidas já na década de 1920. E é aqui que Fresu nos convida a refletir criticamente acerca das interpretações sectárias predominantes na Internacional Comunista (IC) no período de 1928-34 – elas que tinham origem nas teses do Partido Comunista Alemão, então sob liderança de Ernst Thälmann. Estas interpretações se inclinavam a apresentar o fascismo como simples reação anti-proletária e, por este caminho, condenavam a socialdemocracia como mero social-fascismo. Com efeito, a leitura do texto de Fresu permite concluir que o fascismo encerrava antes um quadro bem mais complexo. Ele se apresentava como uma “ideologia sem ideologia” e, nesse sentido, não surpreende que recolhesse as mais diferentes doutrinas. Não apenas D’Annunzio e a disposição para a Guerra, mas também os economistas nacionalistas e sua ênfase nas corporações como forma de superar o conflito social; o irracionalismo e o futurismo de Marinetti, com seu niilismo de aparência inovadora, fautor de um débil programa liberal; e ainda o nacionalismo de Enrico Corradini e tese da luta entre nações proletárias e capitalistas, premissa para o emprego da trágica teoria do Lebensraum, ou “espaço vital”. (Uma teoria, como se sabe, maturada pela pena do geógrafo Friedrich Ratzel na Alemanha bismarkiana, o mesmo Ratzel que serviu de inspiração seja para o marxismo vulgarizado da II Internacional – capaz de sustentar a guerra e o colonialismo –, quanto para a escola de geopolítica alemã, expansionista e racista)[2]

Se antes dissemos que é no desenvolvimento do fascismo que ganham sentido muitas das categorias gramscianas, é preciso dizer que também a luta antifascista não pode ser bem compreendida sem o conhecimento dos textos do comunista sardo. Sem dúvida, como bem o demonstra Fresu, toda a luta de libertação e o próprio papel que aí cumpriu o Partido Comunista Italiano (PCI) se desenvolveram em estreita relação com as reflexões de Gramsci. Um fato, aliás, a pôr em questão as teses que buscam estabelecer uma descontinuidade entre as fases pré e pós-carcerária de Gramsci, e isto despeito da universalidade do seu aporte categorial – sempre a ser lido pelo critério da tradutibilidade, vale dizer, de modo a evitar os “abstracionismos mecanicistas”[3].

É ilustrativa, nesse sentido, a demonstração dos desenvolvimentos que se seguiram ao caso do deputado Giacomo Matteoti, dirigente do Partido Socialista que, ao denunciar as fraudes e a violência que envolveu a vitória de Mussolini nas eleições de 1924, fora pelo regime barbaramente assassinado. Diante da ampla reação das camadas médias e até mesmo das direções do mundo industrial e bancário, o PCI lança a proposta de uma greve geral e de um parlamento alternativo, todavia não aceita pelo conjunto dos liberais e católicos, que desejavam uma oposição apenas moral ao fascismo. A desmobilização das massas daí resultante, permitiu que Mussolini abrisse uma segunda fase do regime, instalando, a partir de outubro de 1926, uma aberta ditadura, que pôs na ilegalidade todos os seus adversários, incluindo Gramsci e diversos comunistas, conduzidos à prisão.

E é no clima de crescente tensão sucessivo ao assassinato de Matteoti que se realiza, no PCI, o famoso Congresso de Lyon (ainda em janeiro de 1926), opondo as linhas de Bordiga e Gramsci, como sabemos com desfecho vitorioso para a segunda. Como demonstra Fresu, a corrente bordiguiana nada tinha a oferecer à Resistência que se organiza a partir dos anos 30. Prendendo-se às teses dominantes na IC, ela se inclinava a apontar o reformismo, e não o fascismo, como o inimigo a derrotar, incluindo o que chamava de “fascismo intermediário”, um agrupamento de constitucionalistas, democratas e também socialdemocratas. Já a corrente de Gramsci, valorizando o debate em torno das Frentes Únicas, realizado no III (1921) e IV (1922) Congressos da IC, abria-se para a ideia leniniana vitoriosa nos anos da NEP, verbi gratia a ideia das alianças e da questão camponesa como uma questão estratégica. Ao fim e ao cabo, uma forma de evitar a negligência das diferenças entre quadro democrático e reacionário (ou fascismo). Vitoriosa em Lyon, a nova posição do PCI fora crucial para a mudança de avaliação na própria IC a partir de 1934, tendo desempenhado aí um papel importante Palmiro Togliatti – embora mesmo ele tivesse se apegado a uma espécie de impaciência revolucionária no início dos anos 30, aceitando a tese do fim da fase de estabilização relativa do capitalismo, posição quiçá compreensível à luz do contexto de isolamento dos comunistas e da própria URSS[4]. De fato, reaproximando-se da linha sustentada por outros dirigentes (Angelo Tasca, Umberto Terracini, o próprio Gramsci), Togliatti que irá abrir críticas à IC no que respeita à ausência de uma política para atrair a pequena burguesia rural e urbana, e ainda da negligência quanto à importância de defender as liberdades democráticas nas nações livres e nos países fascistizados. E é nesse sentido, ressalta Fresu, que na Itália ainda dominada por Mussolini, o mesmo Togliatti irá sustentar a inserção nos sindicatos fascistas como meio de fazer avançar a luta de massas, pondo-se mesmo a tarefa de investigar a nova política econômica do regime, encaminhada em 1927 com a “Carta del Lavoro” e o corporativismo – elementos, dadas as suas exigências de uma base de massas e de consenso passivo, a distingui-lo dos tradicionais regimes autoritários, ressalta Fresu.

Estão aí descritas as raízes da política de Frente Única, capaz de reunir comunistas, socialistas e republicanos. Ela mesma experimentada nas mais de 500 formações partigianas que, ao fim da Guerra, e diante da lentidão das forças aliadas, tomaram em suas próprias mãos a tarefa de liquidar os restos do nazifascismo, conformando uma estrutura unitária que correspondia ao “grande bloco democrata e nacional dos partidos antifascistas”, ao qual deveria integrar-se o PCI, segundo sustentava Togliatti. E, note-se, a rigor o mesmo bloco que esteve na base da construção da democracia social italiana do pós 1948, uma democracia que, enraizada na luta popular da Resistência, encaminha a superação das limitações do Estatuto Albertino por meio de uma síntese pós-liberal entre as concepções formal e substancial de justiça – respectivamente fundadas na igualdade dos cidadãos perante a lei e na superação das diferenças econômicas e sociais.

Como se vê, o livro de Gianni Fresu nos conduz a um amplo e ao mesmo tempo rigoroso panorama não só da história do fascismo e do maior partido comunista do Ocidente, mas também do próprio movimento comunista internacional e do duro contexto em que se formaram amplas legiões de militantes. Quando, no Brasil de hoje, e a despeito das particularidades do tempo, socialistas e comunistas voltam a ser alvo de movimentos obscurantistas; quando, nesta mesma formação sócio-territorial, o pouco de Estado social que se ensaiava organizar, é alvejado por um amplo arco de políticas regressivas nos mais diferentes campos da vida social, nada melhor que a publicação de uma obra como esta que o leitor agora tem em mãos, dotada de elevado rigor teórico e historiográfico, mas também, como não poderia deixar de ser, de um superior compromisso social e histórico.

 

 

[1] O título da apresentação foi dado pela redação do Portal Grabois. 

[2] Sobre Ratzel e a teoria do Lebensraum pode-se ler Lacoste, Y. A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra Trad. Ma C. França. São Paulo: Papiros, 1988, p. 128; e também Losurdo, D. Il revisionismo storico: problemi e miti. Roma-Bari: Laterza, 2015, pp. 301-2. Para a influência de Ratzel no marxismo da II Internacional ver Moraes, A. C. R. A antropogeografia de Ratzel. In: Ratzel – Geografia. Moraes, A. C. R. (org.) São Paulo: Ática, p. 11 (Coleção Grandes Cientistas Sociais – Coord. de Florestan Fernandes). 

[3] Gramsci, A. Quaderni del Carcere. Edizione critica dell’Istituto Gramsci. Torino: Einaudi, 1977, p. 1469.

[4] Sobre o isolamento geopolítico da URSS pode-se ler Losurdo, D. Stalin: história crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010, pp. 135-6.

 

Lançamento do livro ‘Nas trincheiras do ocidente: lições sobre o fascismo e antifascismo’, escrito por Gianni Fresu 

Local: Sede da Fundação Maurício Grabois (Rua Rego Freitas,192 – São Paulo) 

Data: Sexta-feira (10.05), às 19 horas 

 

 

 

 

por Marcos Aurélio da Silva, Professor da Universidade Federal de Santa Catarina  |  Texto original em Português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Portal Grabois) / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/uma-apresentacao-as-licoes-sobre-o-fascismo-e-antifascismo/

Estudo revela como gigante químico dos EUA ajudou Alemanha nazista

Adolf Hitler e Rudolf Hess
© AP Photo /

Nadan Feldman, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém, revelou como uma das principais empresas químicas dos EUA e de todo o mundo, a DuPont, apoiou o regime nazista, mesmo depois do início da Segunda Guerra Mundial.

Segundo o jornal Haaretz, embora este não seja o único caso de cooperação entre a Alemanha nazista e empresas americanas, essa história se destaca por ter motivos ideológicos.


Em junho de 1941, quando Hitler tinha toda a Europa continental a seus pés e se preparava para invadir a URSS, a gigante química alemã IG Farben lançou uma fábrica para produzir borracha sintética, um material necessário para fins militares. A fábrica estava localizada perto do campo de concentração de Auschwitz e milhares de prisioneiros morreram dentro de seus muros devido às duras condições de trabalho. Após a guerra, dois altos executivos da empresa foram julgados por crimes contra a humanidade.

À primeira vista, essa história se parece a muitos outros casos sobre empresas alemãs que enriqueceram durante a guerra enquanto exploravam os prisioneiros. Mas a história da empresa IG Farben esconde ligações comerciais entre a Alemanha nazista e empresas americanas.

Nadan Feldman, que está escrevendo uma tese de doutorado na Universidade Hebraica de Jerusalém, revelou que a IG Farben forneceu seus serviços às ambições de Hitler graças a acordos de troca de tecnologia com a empresa americana DuPont.

"Alguns dos acordos assinados pelas duas empresas deram à IG Farben o conhecimento fundamental para a sua produção, permitindo que a Alemanha nazista iniciasse a guerra", explicou Feldman ao Haaretz.

Entretanto, a DuPont era apenas uma das cerca de 150 empresas estadunidenses com laços comerciais com a Alemanha nazista. Essas conexões incluíam empréstimos enormes, grandes investimentos, acordos de cartel, a construção de usinas na Alemanha e o fornecimento de enormes quantidades de material bélico.


Sabe-se que as corporações envolvidas incluíam a Standard Oil, que fornecia o combustível que a Alemanha não dispunha; a General Motors e Ford, que venderam seus veículos; a IBM e ITT, que forneceram equipamentos de comunicação; e o Union Banking, que deu grandes empréstimos para a compra de equipamentos.

Nos últimos anos, Feldman estudou os arquivos dos EUA e da Alemanha e analisou relatórios financeiros, documentos normativos e correspondência, que lançaram luz sobre o papel da DuPont, que era então a empresa de uma das famílias americanas mais ricas, nos abastecimentos à Alemanha nazista, revelando que se tratava não apenas de interesses puramente comerciais, mas também de razões ideológicas.

"A aliança entre o capitalismo americano e a Alemanha nazista ajudou Hitler a implementar um programa de armamentos sem precedentes na época e iniciar a guerra mundial", resumiu Feldman.

O pesquisador afirma que "sem a mobilização da corporação norte-americana para ajudar a Alemanha nazista, é muito duvidoso que Hitler possa ter começado a guerra, é duvidoso que tivesse conseguido reabilitar a economia alemã".


Analisando os documentos do Arquivo Nacional dos EUA, Feldman descobriu que a DuPont, em particular, continuou a manter ligações com a IG Farben mesmo depois do início da Segunda Guerra Mundial.

Assim, o último acordo entre as duas empresas foi assinado em 1940, após a ocupação da França, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. As relações só terminaram em setembro de 1943, quando a Alemanha confiscou os ativos da DuPont com o resto das empresas americanas.

Até agora, a maioria das pesquisas relacionadas se concentrava em motivos financeiros dos laços com a Alemanha nazista, mas no caso da DuPont "o motivo principal que levou a essa colaboração foi ideológico", afirmou Feldman.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050213796922-estudo-revela-como-gigante-quimico-dos-eua-ajudou-alemanha-nazista/

Extremista escondido com a desonestidade de fora

Depois de Nuno Melo desvalorizar a ameaça da ascensão do Vox, recusando classificá-lo como um partido de extrema-direita (ver aqui), há uma nova voz da direita portuguesa que vem a público fazer declarações inquietantes acerca do que verdadeiramente pensa sobre as eleições espanholas.
Trata-se de Joaquim Miranda Sarmento, braço-direito de Rui Rio para a área da economia e das finanças, que dedicou a sua mais recente coluna do ECO (ver aqui) a analisar as eleições do nosso parceiro ibérico. A tese central do seu texto é que Espanha mergulhará num período de grande instabilidade, porque os resultados apontam para uma coligação entre o PSOE, de Pedro Sanchez - que na linguagem elevada de Miranda Sarmento é o “o político mais sem vergonha que [se] lembra[a] de ter visto, porque tomou o poder aliando-se à extrema-esquerda e aos independentistas” - e do Unidos Podemos, de Pablo Iglesias, um perigoso radical de extrema-esquerda. A partir desta tese, discorre longamente sobre a transição espanhola, em estilo panfletário e pleno de lugares comuns, onde não faltam a defesa da superioridade da transição democrática espanhola em relação à tumultuosa revolução portuguesa e a postura reverencial em relação a Adolfo Suárez e a Felipe Gonzalez. O grande problema, segundo Miranda Sarmento, é não existirem hoje, ao contrário do passado, “líderes moderados que percebem que o mais importante é o interesse nacional e não o poder pessoal”. Como se Suarez e Gonzalez não tivessem beneficiado tremendamente da transição para o seu poder pessoal, não é? Enfim. Todo o texto mereceria ser escrutinado, mas vale a pena centrar a nossa atenção em duas passagens de conteúdo inqualificável. 1ª Passagem: “A ascensão do VOX deve preocupar-nos. Mas não menos que a ascensão há uns anos do Podemos”. Com efeito, para Miranda Sarmento, o grau de preocupação deve ser semelhante. De um lado temos o Podemos, um partido que emergiu no decurso das mobilizações contra a austeridade, o desemprego e os despejos, que se bate pelo fortalecimento do Estado Social, pela maior transparência da democracia, pelo acolhimento digno dos migrantes que chegam a Espanha e pelo combate à discriminação das minorias. Do outro temos o VOX, um partido que emerge na cena política espanhola para resgatar o imaginário franquista e para encerrar o processo em curso de exposição pública dos crimes franquistas e que possui um posicionamento hostil em relação aos imigrantes e às minorias. De um lado temos um partido inquestionavelmente democrático; do outro, temos um partido que se propõe a trazer para o século XXI o legado franquista e falangista, responsável pela prisão, tortura e morte de dezenas ou centenas de milhares de democratas. De um lado, um partido que pretende denunciar esses crimes perante a história, do outro um partido que foi criado para os encobrir. Para Miranda Sarmento, constituem a mesma ameaça. Estranha escala de equivalências a do autor. 2ª passagem: “Com Felipe Gonzalez e depois com José Maria Aznar, Espanha deu um enorme salto no seu desenvolvimento. Usou, e muito bem, a sua dimensão e os apoios comunitários para se desenvolver de uma forma extraordinária. E criar grupos económicos que nos anos 90 e no início do século XXI davam cartas a nível europeu e mundial. Mas em 2004 tudo começou a mudar. (…) Espanha elegeu em 2004 um péssimo político que ficava a milhas de Gonzalez. Zapatero deixou que a economia espanhola perdesse fulgor. Destapou velhas feridas sobre o regime anterior. Não soube, ou não quis, proteger a Monarquia dos escândalos.” Em primeiro lugar, é falso sugerir que 2004 foi um ano de viragem no padrão de crescimento económico espanhol. EM 2004, o PIB espanhol cresceu 3,2%, a que se seguiriam crescimentos 3,7%, 4,2% e 3,8% nos três anos seguintes. O ciclo favorável só viria a ser interrompido na sequência da crise internacional. Com efeito, torna-se claro que olhar 2004 como um ponto de inversão é um exercício retórico sem adesão à realidade, que serve o único propósito de tentar corroborar a narrativa de que o governo de Zapatero (PSOE) foi o responsável pela diminuição do desempenho económico de Espanha. Resta saber se o professor Miranda Sarmento considere que Zapatero é o responsável pela crise internacional que em 2008 atingiu todas as economias do mundo. Mas a gravidade da passagem vai muito além da simples adulteração dos números: o professor Miranda Sarmento reduz a explicação da crise económica espanhola a duas curiosas variáveis: o destapar “de velhas feridas sobre o regime anterior” e o facto de Zapatero não ter querido ou não ter sabido proteger a monarquia de escândalos. O professor Miranda Sarmento não reserva uma única palavra para o papel desempenhado pelo rebentar da bolha imobiliária espanhola, que pôs fim a vários anos de crescimento assente na expansão do crédito e do setor imobiliário, incentivado por uma integração europeia que incentivou os países do Sul a sustentarem o seu modelo económico em dívida contraída junto dos países do centro da Europa. Para o professor Miranda Sarmento, este fator estrutural é irrelevante. O grande problema da economia espanhola foi Zapatero ter feito um esforço – ainda que tímido, na verdade – para trazer à luz do dia os crimes do fascismo e julgar os seus responsáveis, resgatando-os da sombra a que uma transição conivente os havia votado e, assim, procurando a justiça adiada para milhares de vítimas do fascismo e para as suas famílias. Como é que isto poderá ter tido um impacto negativo no crescimento económico? – o autor não explica. Mas talvez considere julgar crimes contra os direitos humanos desincentiva o investimento. Só ele saberá. Finalmente, Zapatero seria também responsável pelo momento negativo da economia espanhola – que, como vimos, só ocorreu na cabeça do professor Miranda Sarmento – porque não soube ou não quis proteger a monarquia. Em que medida é que cabe a um chefe do executivo preservar a imagem da monarquia? Não será uma exigência que a monarquia deve colocar a ela própria? Deveria Zapatero ter ligado ao rei Juan Carlos a exortá-lo a não ir caçar furtivamente elefantes para África? E, mais uma vez: qual é o canal que tudo isto tem com o crescimento económico? 
Numa pequena coluna, Joaquim Miranda Sarmento equipara um partido neo-fascista a um partido democrático e responsabiliza a busca da verdade sobre o franquismo pela recessão espanhola que, obviamente, se deveu à crise internacional. A desonestidade intelectual não tem limites para alcançar os seus intentos. Rui Rio e a direção do PSD até podem tentar ensaiar uma imagem de moderação perante o eleitorado. Mas não podem negar que figuras sinistras se sentam à sua mesa.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Apresentação


O fascismo não cai do céu aos trambolhões. Não é um clube político fruto do ‘espírito do tempo’, ou uma ideia na moda. Não é um produto maléfico saído da psique perturbada de alguns chefes, não é a expressão de características específicas de certos povos ou etnias, em suma, não é uma aberração política e ideológica misteriosa que se abate inopinadamente, como uma pandemia, sobre o liberalismo oligárquico e as sociedades europeias do pós-Primeira Guerra Mundial. […] O grande cenário para a emergência dos fascismos na Europa é a crise do sistema liberal. […] É certo que a História nunca se repete na sua factualidade. O fascismo dos anos 20 e 30 também não. Os movimentos que, na segunda metade do século XX e no início do presente, o pretenderam mimetizar transformaram-se invariavelmente em grupos de actividades criminais ligados à violência racista, ao tráfico de armas ou de drogas; ou seja, repetem-se como farsa marginal e de delinquência, mas sem qualquer influência real na sociedade ou expressão política relevante. Não foi ali que a serpente pôs o ovo.

Fernando Rosas na contracapa de um livro que “demorou muito tempo a escrever”.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Hitler gargalhava quando o nazismo era confundido com a esquerda

O que Adolf Hitler diria do disparate de que o nazismo “é de esquerda”, como afirmam o presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, e o guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho? Ele provavelmente iria rir alto.

De fato, gargalhar era o que Hitler e seus colegas nazistas faziam quando eram confundidos com os “vermelhos”, com quem disputaram na porrada o poder durante os turbulentos anos que antecederam o início do Terceiro Reich. Quem conta é o próprio Hitler, em “Minha Luta”, o misto de autobiografia e manifesto de ódio lançado em 1925 no qual a ideologia nazista foi consolidada.

Em um capítulo devidamente intitulado “A Luta com os Vermelhos”, Hitler narra como seu partido era muitas vezes confundido com o do seus inimigos da esquerda, principalmente pelos “burgueses comuns” que, escreveu Hitler, “ficavam muito chocados por nós termos também recorrido à simbólica cor vermelha do bolchevismo”.
Segundo ele, muitas pessoas “nos círculos nacionalistas sussurravam que éramos apenas uma variação de marxistas, talvez marxistas disfarçados ou, melhor, socialistas.” Mais do que a cor vermelha, escreveu o futuro Führer, esses “nacionalistas” pareciam preocupados com a linguagem usada pelos nazistas, que chamavam um ao outro de “camaradas”, como comunistas faziam.


Hitler afirma que a confusão – em certa medida incitada pelos próprios nazis como estratégia publicitária – era, para ele, hilária.

“Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade! A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Anos depois de ter escrito o livro, Hitler usaria esse mesmo horror da “burguesia” nacionalista ao marxismo para arregimentar apoio da elite industrial alemã ao seu projeto autoritário. Uma vez empossado chanceler, em 1933, Hitler usou o incêndio no Reichstag como prova que de os comunistas estavam conspirando contra o seu governo. E, em 1934, ordenou a destruição das chamadas SA, uma facção paramilitar nazista comandada por Ernst Röhm, mais simpático às ideias comunistas. O violento expurgo, no qual centenas foram assassinados, foi apelidado de a Noite dos Longos Punhais.

O completo absurdo das declarações de Bolsonaro e companhia fica imediatamente claro para qualquer leitor mediano que tenha estômago para consultar o “Minha Luta” – proibido em vários países, mas facilmente encontrável na internet. Desde o início do livro, Hitler explicita que o anti-marxismo era, para ele, inseparável do antissemitismo e que ambos são o motivo fundante do nazismo. Em uma passagem em que explica seu processo de politização em Viena, Hitler chega a listar o primeiro antes do segundo: “Meus olhos se abriram para dois perigos, cujos nomes e significado terrível para a existência do povo alemão eu mal conhecia. Esses dois perigos eram o marxismo e o judaísmo”.

Mais do que essa imaginada conexão entre marxistas e judeus, Hitler tinha repulsa ao ideário igualitário universal comunista. Com razão, já que ele contradiz o núcleo ideológico nazista, segundo o qual a “raça” ariana seria inerentemente superior, tendo, portanto, direito sobre as demais. Como escreveu o propagandista do Reich, Joseph Goebbels, num famoso livreto de propaganda de 1926: “O marxismo, cujas teorias são fatais para os povos e raças, é exatamente o oposto do [nacional] socialismo.”

Ao longo de sua autobiografia, Hitler descreve o marxismo diversas vezes como uma doença pestilenta, uma doutrina irracional e um risco existencial à Alemanha, que deveria ser combatido e aniquilado. Diz ele:

“Nos anos de 1913 e 1914, expressei minha opinião pela primeira vez em vários círculos, alguns dos quais agora são defensores do movimento nacional socialista, de que o problema sobre como o futuro da nação alemã pode ser assegurado é o problema sobre como o marxismo pode ser exterminado”.

Depois, reafirma: “No dia em que o marxismo for quebrado na Alemanha, os grilhões que nos prendem serão esmagados para sempre”. Disse ainda, ao rememorar eventos de 1923: “A primeira tarefa em um governo verdadeiramente nacionalista era procurar e achar as forças que estivessem decididas a lutar uma guerra de aniquilação contra o marxismo e, em seguida, dar liberdade de ação a essas forças.”

Não surpreende que os marxistas tenham sido um dos primeiros grupos a ser levados para campos de concentração, nos quais foram assassinados às centenas de milhares. Nem que todos os grupos neonazistas do pós-guerra mantenham o ódio à esquerda como ponto ideológico central.

Ninguém, no Brasil ou no exterior, precisa acreditar em jornalistas ou em historiadores para saber que o nazismo se opunha frontalmente ao comunismo. Basta ler as palavras de Hitler.
Imagem: Adolf Hitler (1989-1945) sendo recebido por apoiadores em Nuremberg. em 1933. Foto: Hulton Archive/Getty Images
-----
Dependemos do apoio de leitores como você para continuar fazendo jornalismo independente e investigativo. Junte-se a nós 

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/hitler-gargalhava-quando-o-nazismo-era.html

Um em cada dez eleitores europeus apoia populistas de direita, diz estudo

Extremistas são grupo político que obtém maior percentual de intenção de votos em pesquisa da Fundação Bertelsmann. Maioria dos consultados prefere votar contra partidos que mais rejeita e não em seu favorito.

Cerca de 10% dos eleitores europeus pretendem apoiar partidos de extrema direita ou populistas de direita nas eleições para o Parlamento Europeu, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Fundação Bertelsmann nesta sexta-feira (26/04).

Entre os demais eleitores, a maioria usará suas cédulas de votação para tentar barrar partidos a que se opõem em vez de apoiar um determinado grupo. Segundo os pesquisadores, esse tipo de votação "do contra" poderá beneficiar os movimentos políticos extremistas e dificultar a formação de uma maioria no Parlamento Europeu.

O estudo da Fundação Bertelsmann indica que 10,3% dos eleitores europeus devem apoiar partidos populistas de direita ou de extrema direita – o mais alto percentual de um agrupamento político. Em contraste, 6,2% dos entrevistados disseram que se identificam com a extrema esquerda ou com populistas de esquerda, e outros 4,4%, com os verdes.


Uma grande parte dos eleitores se mostrou motivada por oposição a um grupo – apenas 6,3% dos entrevistados disseram ter uma identificação positiva com um partido, e 49% nomearam um partido para o qual jamais votariam. Pouco mais da metade (52%) afirmou que jamais votaria em partidos extremistas em nenhum dos lados do espectro político.

Assim, 50,7% dos questionados disseram que jamais votariam nos liberais, enquanto 47,8% não votariam de jeito nenhum nos conservadores, ou democrata-cristãos, e 42% rejeitam as legendas de centro-esquerda e os partidos socialistas.

A pedido da Fundação Bertelsmann, o instituto de pesquisa YouGov entrevistou 23.725 eleitores em 12 países da União Europeia (UE) – dois terços de todos os europeus e três quartos dos alemães questionados afirmaram que planejam participar da eleição europeia em 26 de maio.

Os pesquisadores disseram que os eleitores que acreditam que os principais partidos pró-UE não representam mais seus interesses tendem a acolher mensagens populistas.

"Os partidos populistas conseguiram criar uma base de eleitores estável e leal num espaço de tempo relativamente curto", disse Robert Vehrkamp, um dos autores do estudo e especialista em democracia na Fundação Bertelsmann. "Mas o alto nível de rejeição [desses partidos] também mostra como seria perigoso para outros partidos imitá-los."

"Muitos cidadãos não optam mais por apoiar um partido, mas por votar contra os partidos que mais rejeitam", acrescentou Vehrkamp.

O presidente-executivo da Fundação Bertelsmann, Aart De Geus, afirmou que o sucesso dos partidos populistas em mobilizar simpatizantes significa que o comparecimento às urnas será "crucial para determinar os resultados eleitorais e o futuro da Europa".

"A mobilização do predominante centro pró-UE é um pré-requisito importante" para a criação de maiorias nos grupos de trabalho no novo Parlamento Europeu, segundo De Geus.

PV/afp/dpa | Deutsche Welle

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/um-em-cada-dez-eleitores-europeus-apoia.html

Extrema direita une forças para eleições europeias

Líderes de partidos populistas de direita europeus reúnem-se em Praga. Aliança eurocética busca formar forte bloco parlamentar nas eleições europeias no próximo mês.
Numa demonstração de união, líderes de partidos europeus de extrema direita reuniram-se em Praga nesta quinta-feira (25/04). Após forte ascensão dos movimentos contrários à União Europeia (UE) em várias partes do bloco comunitário, populistas de direita esperam alcançar no um sucesso sem precedentes nas eleições europeias do mês que vem.

A francesa Marine Le Pen, do Rassemblement National (Agrupamento Nacional), da França e o holandês Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (PVV), estão entre os palestrantes, enquanto o mandatário da Liga e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, contribuiu com o envio de uma mensagem em vídeo.

No comício, Le Pen defendeu a união da extrema direita e afirmou que pela primeira vez o "movimento democrático de patriotas" possibilita uma reforma na conjuntura do bloco.


"O que vemos aqui é o nascimento de uma nova harmonia europeia com partidos nacionalistas europeus unidos para oferecer a 500 milhões de europeus um no quadro de cooperação, um novo projeto e um novo impulso para o futuro", disse a política francesa ao lado de Wilders.

"A imigração deve ser travada e a ideologia islamita deve ser erradicada", insistiu Le Pen, acusando a União Europeia de supostamente "financiar uma imigração em massa, organizada e desejada".

Numa coletiva de imprensa antes do comício, tanto Le Pen quanto Wilders defenderam posturas eurocéticas. A francesa alegou que a UE não pode ser baseada "numa ideologia imposta à força" e afirmou que o globalismo e o islamismo são ameaças.

"Todos querem mais União Europeia, o que é negativo, pois isso significa menos Estados-nação", ressaltou Wilders, defendendo a criação de leis para impedir a imigração de muçulmanos no bloco.

Uma banda tcheca de extrema direita abriu o evento na praça central de Wenceslas, em Praga, que teve como anfitrião Tomio Okamura, parlamentar tcheco que dirige o partido Liberdade e Democracia Direta (SPD).

"Na quinta-feira, o SPD lançará oficialmente a campanha eleitoral da UE. Queremos mostrar que não estamos sozinhos", disse Okamura. "Pesquisas mostram que a Aliança Europeia de Pessoas e Nações [EAPN], liderada por Matteo Salvini, Marine Le Pen, pelo Partido da Liberdade da Áustria [FPÖ] e outros, tem a chance de formar um dos grupos mais fortes do Parlamento Europeu."

Partidos e agrupamentos participantes da aliança eurocética, que incluem a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Partido do Povo Dinamarquês, compartilham políticas contrárias a migrantes e promovem a soberania nacional e as liberdades individuais. 

O SPD, que nunca participou das eleições legislativas na União Europeia e, portanto, não possui parlamentares em Estrasburgo, defende o Czexit, a saída da República Tcheca da UE, assim como o PVV de Wilders apoia um Nexit, a saída da Holanda do bloco comunitário.

Os partidos eurocéticos receberam um impulso adicional há uma semana, quando o Partido dos Verdadeiros Finlandeses alcançou o segundo lugar nas eleições gerais da Finlândia.

Salvini, que visitou Okamura em Praga no início deste mês, recentemente convocou partidos nacionalistas espalhados pelo Parlamento Europeu para unir forças e formar uma nova aliança. Ele disse que espera que o novo bloco seja o maior do parlamento de 751 assentos, após a votação marcada para 23 a 26 de maio.

"Esses partidos chegarão lá, serão fortes, terão bons resultados nas eleições, especialmente na Itália", disse o analista político tcheco Jan Kubacek. "Mas o problema com todos esses grupos é que eles não podem realmente cooperar, pois estão muito focados em seus interesses nacionais."

Se a aliança, de fato, sair do papel após a eleição europeia, um líder terá de ser escolhido – e Le Pen e Salvini estão de olho no cargo.

"Le Pen será muito ativa no Parlamento Europeu. Ela não pode realmente mostrar seu melhor na política francesa, então ela usa o parlamento como sua segunda plataforma", disse Kubacek.

Salvini convocou uma grande reunião dos partidos anti-EU para Milão em 18 de maio, com a participação de Le Pen e Okamura.

"A reunião deve ser uma demonstração pan-europeia da capacidade das nações europeias de cooperar sem um mandado de Bruxelas, apenas com base em acordos mútuos", disse Okamura.

Le Pen, Wilder e Okamura já haviam se encontrado em Praga em dezembro de 2017 para comemorar a conquista de 22 assentos do SPD no Parlamento Tcheco naquele ano. O partido ganhou pontos com os eleitores com uma campanha anti-imigração – embora muitos migrantes tenham desprezado a República Tcheca em troca de países mais ricos, como a Alemanha – e com discurso contrário ao islã, lema-chave também para as eleições europeias.
PV/afp/ots | Deutsche Welle
Na foto: Marine Le Pen, Tomio Okamura e Geert Wilders durante encontro de partidos anti-imigração em dezembro de 2017

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/extrema-direita-une-forcas-para.html

FBI desclassifica documentos sobre 'fuga' de Hitler para Argentina

Ditador nazista alemão Adolf Hitler, 1938
© AFP 2019 / AFP FILES

O FBI investigou rumores sobre fuga do líder nazista, Adolf Hitler, após o cerco de Berlim em 1945, de acordo com documentos desclassificados pelo departamento federal.

De acordo com o material, que agora não é mais secreto, o líder nazista atingiu o território argentino de submarino seis meses depois de suposta morte em bunker de Berlim.


Por sua vez, no país sul-americano, Hitler teria sido recebido por seis oficiais de alto escalão argentinos que organizaram abrigo para ele em um rancho no sul dos Andes. 

De acordo com os documentos, o então diretor do FBI, Edgar Hoover, estava ciente das informações, porém, o departamento as considerou "incompletas", ressaltando que era impossível continuar as buscas de Hitler se baseando nestas informações. 

O primeiro relatório é de 21 de setembro de 1945. 

Segundo historiadores, Adolf Hitler cometeu suicídio em 30 de abril de 1945, ao atirar na cabeça.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019042313737617-hitler-fuga-argentina-fbi-investigacao/

Europa em chamas

Não vou falar do incêndio de Notre Dame. Foi um acidente – dizem – e haverá a recuperação do monumento.

Quero falar de um mosteiro em Itália, dito COLLEPARDO, de um pequeno povoado de angélico nome Parisis. Acontece que esse mosteiro já é a base de uma Escola-Universidade? onde Steve Bannon vai ensinar o nazismo, o populismo e como trabalhar com mentiras, falsidades e intrigas.

Este ex-Goldamn Sachs e conselheiro do Trump assumiu descaradamente que viria ressuscitar o nazi-fascismo por toda a Europa. E por aí anda impunemente reabilitando Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e outras figuras das trevas da II Guerra Mundial!

Em 2014 deu uma conferência dentro do Vaticano… talvez o reaparecimento da múmia Benedito anunciando que a pedofilia e os abusos sexuais se devem ao Maio de 68!!! (tanto medo dessa data!!!), e a insistência sobre a escravatura a que a comunidade Europeia submete os países, e o ataque ao € Euro clarifique o verdadeiro plano do imperialismo USA… atacar a Europa, liquidando a sua moeda e, se necessário for, criar guerras localizadas.

O que foi a destruição da Jugoslávia? um ataque a um país forte que iria integrar a comunidade!

E o ódio ao €? a defesa total do dólar. Saddam Hussein e Gaddafi foram liquidados porque queriam abandonar o dólar.

Tudo isto implica uma enorme vigilância e mobilização para as eleições Europeias que estão a ser o alvo preferencial da actual campanha nazi. Usarem a democracia para se infiltrarem, destruir o projecto do interior e… ainda por cima fazerem o sale boulot continuando a serem bem pagos… como Farage, Bolsonaro e outros capangas.

Basta de passividade. A defesa da PAZ exige mobilização e atenção permanentes.


O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/europa-em-chamas-steve-bannon-vai-ensinar-o-nazismo/

Os trafulhas, que emergem com discursos fascistas

Anuncia-se que a «coligação» fascista encabeçada pelo «gauleiter» Ventura tem mais dinheiro para investir na campanha eleitoral do que o CDS de Assunção Cristas. Razão para ficarmos, particularmente, atentos sobre quem estará por trás desse financiamento, que não seria ideia despicienda começar a ser investigado pelo Ministério Público. Porque havendo regras bem concretas sobre como se podem financiar os partidos, convém aferir se elas estarão a ser cumpridas por quem da legalidade tem tal conceção, que nem sequer conseguiu legalizar o respetivo partido no Tribunal Constitucional.

 

Identificados esses generosos investidores, poderemos compreender quais os desígnios, que lhes vão na alma para complementarem os apoios financeiros habitualmente concedidos aos outros partidos das direitas e aos vários jornais, rádios e televisões, e assim contarem com uma voz extremada, quer na assumida xenofobia, quer na despudorada defesa de valores exógenos a uma sociedade democrática.

 

Depois do que aconteceu no Brasil desde que, em 2013, se verificou um grande movimento popular contra o aumento dos preços dos transportes, que serviu de trampolim para pôr em causa a presidência de Dilma Roussef e suscitar o seuimpeachment,estamos cientes de como certas lutas, aparentemente eivadas de algum sentido de justiça, mais não são do que ensaios para o verdadeiro propósito de quem as organiza na sombra. Vide a «luta« dos camionistas de substâncias perigosas, que terá facultado oportunas ilações aos que nos anseiam bolsonarizar com os seus sinistros desígnios.

 

Não se podem ter, pois, quaisquer contemplações com o tipo de criaturas, que vão emergindo do anonimato para ganharem poses de heróis contestatários. Até porque, tal qual se vai sabendo mais do Pardal, que ganhou súbita fama na semana transata, o mais provável é merecerem o tratamento judicial de quem é imperdoável trafulha.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/os-trafulhas-que-emergem-com-discursos.html

Resultado na Finlândia mostra avanço da extrema-direita antes de eleições na Europa

O forte desempenho da extrema-direita nas eleições na Finlândia mostrou a força dos partidos anti-imigrantes em todo o continente, pouco mais de um mês antes das eleições para o Parlamento Europeu.

O Partido dos Finlandeses mais do que dobrou seus assentos sob a liderança do nacionalista Jussi Halla-aho, na votação do último domingo.

Foram necessários 17,5% dos votos, logo atrás dos social democratas, que chegaram em primeiro com 17,7% — o que pode dificultar para o líder social democrata Antti Rinne formar um governo que exclua a extrema-direita.

A extrema-direita fez novos ganhos recentemente em países da União Europeia (UE), da Estônia à Espanha, além de suas bases fortes em nações como França, Alemanha e Itália.


Os eleitores europeus devem escolher um novo Parlamento nas eleições de 23 a 26 de maio, e ganhos para a extrema-direita seriam um novo golpe para os líderes estabelecidos do bloco depois da crise causada pelo Brexit.

Identidade e imigração são a "força motriz" por trás do voto populista na Europa, avaliou o pesquisador francês Jean-Yves Camus, especialista em extrema-direita, em entrevista à Agência AFP.

"Há uma crise real da democracia representativa que está sendo desafiada pela democracia direta", pontuou.

Ele disse que Hallo-aho dirigiu seu partido em uma direção muito mais radical do que seu antecessor, Timo Soini, que se conformava mais ao modelo de um conservador nacional europeu.

"Houve radicalização dentro do Partido dos Finlandeses", acrescentou Camus.

Goran Djupsund, professor de ciência política na Universidade Abo Akademi, na Finlândia, observou que nenhum partido na eleição ultrapassou a marca de 20%: um sinal de crescente fragmentação na política.

O partido do primeiro-ministro Juha Sipila foi relegado para o quarto lugar.

"É um fenômeno que estamos compartilhando com o resto da Europa", analisou Djupsund.

'Contágio'

Após as eleições inconclusivas de março na Estônia, o primeiro-ministro Juri Ratas está em negociações de coalizão com o partido EKRE, de extrema-direira e anti-EU, e os conservadores do Isamaa para se agarrarem ao poder.

E o partido anti-imigração Vox surpreendeu observadores na Espanha no ano passado com um forte desempenho nas eleições regionais da Andaluzia, ajudando a empurrar os socialistas para fora do poder na região.

Halla-aho, uma figura de fala mansa, cuja personalidade pública calma esconde suas obras escritas, criticando severamente o Islã e a migração, ecoou seus colegas de extrema-direita em toda a Europa durante sua campanha.


Ele destacou a importância da identidade particular da Finlândia, criticou a imigração e denunciou a "histeria climática", dizendo que a pressão para parar o aquecimento global está "destruindo a economia e a indústria finlandesa".

Tais temas saíram diretamente da ideologia do partido de extrema-direita Alternativa para Alemanha (AfD), que repetidamente denuncia o preço da interrupção do aquecimento global.

O Partido dos Finlandeses poderia tornar-se aliados próximos dos líderes de extrema-direita mais conhecidos da Europa, como Matteo Salvini na Itália e Marine Le Pen na França, criando potencialmente um bloco poderoso no novo parlamento da UE.

A Frente Nacional de Le Pen (FN) foi rápida em elogiar o forte desempenho do Partido dos Finlandeses.

"Após o recente sucesso dos partidos patrióticos na Estônia e na Espanha, os ótimos resultados do Partido Finlandês confirmaram a dinâmica em nível continental em favor dos partidários de uma Europa de nações livres e orgulhosas", ponderou Nicolas Bay, Front legislador nacional no Parlamento Europeu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019041813710435-avanco-extrema-direita-europa/

Marine e Salvini: A Europa da Direita dura apresenta-se

Marine Le Pen, que hooje, segunda-feira, apresenta o manifesto para a “Aliança europeia das Nações”, tem um problema com uma sobrinha irrequieta e muito inspirada a brincar à “Guerra dos Tronos”…

A família é mesmo um problema, com sobrinhos assim quem é que precisa de inimigos?

Marine já convenceu homem-forte de Itália, Matteo Salvini, a aderir ao projecto de “Aliança europeia das Nações” que se propõe combater o “capitalismo nómada” com o “localismo”, combater o “livre câmbio” com o “câmbio justo”, combater os “dumpings” social e ambiental (de países estrangeiros que exportam para a Europa…) e reconciliar a economia com a ecologia. Um vasto e ambicioso programa mas também uma narrativa política capaz de mobilizar e de seduzir eleitores…

Para o Le Point,

“Marine Le Pen rêvait d’une alliance des nationalistes européens avant l’élection. Au final, si elle a su rallier Matteo Salvini, il n’y aura pas de grand front uni. Celui-ci pourrait, selon elle, arriver ensuite, “en fonction du poids des uns et des autres.” Décidée à pouvoir peser dans les débats, elle propose donc un manifeste, tiré à 5 000 exemplaires. Au coeur du projet? Le “localisme”, qu’elle oppose à un capitalisme “nomade” et veut réconcilier écologie et économie. “Il s’agit de construire un système dans lequel ce qui vient de près coûte moins cher que ce qui vient de loin et ce, afin de réindustrialiser les territoires” explique Marine Le Pen.

“Conséquence directe, selon elle, le développement du “juste échange” en opposition au “libre-échange”. “Nous considérons que le commerce ne doit pas obligatoirement passer par une recherche du moins-disant social ou environnemental. Il faut réintégrer ces exigences dans la manière dont on commerce avec l’étranger”. Autant d’arguments selon elle en faveur d’une “Alliance européenne des Nations.

Une autre définition du populisme

Si le Rassemblement national ne parvient pas encore à fédérer au niveau européen, il a aussi échappé à une liste concurrente menée par Eric Zemmour et Marion Maréchal. Comme prévu, Marine Le Pen utilise aussi cette interview au Parisien pour répondre à sa nièce. Interrogée sur leurs visions divergentes du populisme, elle se montre offensive. “Je crois qu’elle commet une erreur d’analyse sur le concept de populisme que, par ailleurs, nous n’avons pas repris à notre compte. Le populisme, ce n’est pas le fait de défendre les pauvres ou les chômeurs. Le populisme, tel que le conçoit Matteo Salvini, c’est le fait de défendre le peuple. Dans le peuple, il y a aussi les classes moyennes. Il y a même les classes supérieures. Reste que le rôle d’un dirigeant politique est d’aller au chevet de ceux qui en ont le plus besoin. C’est ça la grandeur d’un responsable politique.”

Líder nas sondagens para as próximas eleições europeias (Maio), a dirigente principal da direita dura de França parece ser o único dirigente político francês a ter sabido tirar da crise estrutural as conclusões necessárias para se apresentar como quem compreende o povo e os seus problemas e até oferece soluções políticas onde os outros apenas são capazes de apresentar pequenas medidas quantitativas… Daí que ela diga que de Macron não espera “absolument rien”.

Vivemos tempos confusos, muito confusos. E ao analisar este discurso (quase) revolucionário de Marine é bom ter presente duas coisas:

  1. Seria um erro reduzi-lo a cinismo e a simples fachada para encobrir a “verdadeira natureza” do Rassemblement national (Rassemblement… um conceito político gaulista!);
  2. Não é por acaso que boa parte das estruturas que compõem a quadrícula com que o RN cobre a França vieram (com “armas e bagagens”) do… PCF. Tal como, aliás, Salvini também vem do PCI. O próprio nome que o RN ostentava até ao ano passado Front National) se inspirava de uma estrutura “frentista” do PCF…

Exclusivo Tornado / IntelNomics


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/marine-e-salvini-a-europa-da-direita-dura-apresenta-se/

Bisneto de Mussolini diz que fascismo na Itália é 'exagero de propaganda esquerdista'

Foto de arquivo datada de 28 de setembro de 1938 mostra o ditador italiano Benito Mussolini, à esquerda, e o líder nazista Adolf Hitler, à direita, tirada pouco antes da assinatura do Acordo de Munique, Alemanha.
© AP Photo /

O político também especulou sobre a necessidade de ação da direita na Itália, trazendo estatísticas sobre a sobre-representação dos migrantes nas taxas de criminalidade e dados da população carcerária.

O bisneto do ex-premiê fascista da Itália, Benito Mussolini, Caio Giulio Cesare Mussolini, é candidato ao Parlamento Europeu nas eleições que acontecem no mês que vem. Ele é membro de um partido de oposição nacional-conservador italiano, Irmãos de Itália, mais popular no sul do país.


Em uma entrevista por escrito com o DPA, o político de 51 anos de idade disse que estava "orgulhoso" de seu sobrenome, embora fosse "muitas vezes um fardo" para ele. Caio, porém, negou que sua campanha tenha sido inspirada por alguma nostalgia fascista, embora defenda o slogan #EscrevaMussolini (um apelo para que cidadãos escreva o sobrenome dele na cédula, como manda a lei).

No início deste mês, membros de dois partidos de direita da Itália, Casa Pound e Forza Nuova, participaram de protestos em Torre Maura, um antigo distrito de Roma, bloqueando a transferência de 70 pessoas da minoria cigana em um centro de recepção local. Segundo Cesare Mussolini, compreender tais incidentes como um indicador de novo fascismo “é um exagero de propaganda da esquerda, que não tem outros argumentos”.

Ele prosseguiu dizendo que em algumas áreas “há muito medo” dos ciganos e que esse sentimento “deve ser entendido, não demonizado”. Abordando o problema migratório de modo mais amplo, Cesare Mussolini ressaltou que “na Itália, como na Alemanha”, os migrantes tendem a fazer aumentar as estatísticas de criminalidade, além de comporem fatia considerável nos números de encarcerados.

"São estatísticas. O que não pode ser contestado", afirmou Mussolini.

O candidato do BDI foi oficial da Marinha no passado, bem como representante do Oriente Médio para a Finmeccanica, uma empresa de defesa italiana que agora é conhecida como Leonardo.


Ele se autoclassifica como “patriota” e admitiu admirar políticos como o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, “mas também” a chanceler alemã Angela Merkel. Para ganhar uma cadeira nas eleições de 26 de maio, ele precisará não só receber um número suficiente de votos pessoais, mas torcer que seu partido supere a cláusula de barreira nacional (atualmente fixada em 4%).

Se eleito, ele seria o segundo Mussolini a representar a Itália, depois de sua prima Alessandra. Outro membro de sua família, Rachele, é vereadora em Roma.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019041413681160-mussolini-fascismo-italia-propaganda/

Um fascista é um fascista, é um fascista, é um fascista, é...

Imaginemos um político, que seja uma coisa híbrida, meio-André Ventura, meio-Santana Lopes. Em França essa bastardia chama-se Nicolas Dupont-Aignan, outrora dirigente dos partidos tradicionais da direita, mas, mais recentemente, a tender para a sua extrema, namorando ostensivamente com Marine Le Pen, a quem apoiou na batalha eleitoral perdida para Emanuel Macron.
O trazê-lo aqui à colação tem uma razão de ser: as direitas, sobretudo se tendem a radicalizar-se, usam e abusam das mentiras, torcem e distorcem as estatísticas para que pareçam secundar-lhes os falaciosos argumentos. Desta feita, num debate televisivo com os cabeças-de-lista dos vários partidos e movimentos às eleições europeias, o tratante proferiu uma atoarda logo desmentida em direto: que nos últimos anos tinham entrado no espaço europeu 20 milhões de novos emigrantes.
Ora a estatística, que invocou é bastante explicita quanto ao significado desse número: ele comporta, por exemplo, os portugueses, que emigraram para Inglaterra, os espanhóis que se mudaram para França, os polacos que se mudaram para a Alemanha, etc. Ou seja: a grande maioria dos 20 milhões de pessoas em causa transitaram no espaço europeu já dele provindo e nele tendo nascido.
O que Dupont procurava era suscitar o alarme quanto a uma invasão de populações não brancas, que viessem precipitar a decadência da civilização ocidental, mormente através da escandalosa miscigenação entre elas e as impolutamente alvas que nem a neve.
Por muito que se procure alguma pinga de honestidade nesse tipo de gente, ela não se vislumbra: além de indisfarçáveis fascistas, só sabem recorrer a argumentos trapaceiros para iludir quantos neles julgam ver salvadores da ameaçada cristandade.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/um-fascista-e-um-fascista-e-um-fascista.html

Fascismo na UE | Cinismo em nome da "vida familiar"

Ultradireita tenta promover sua ideologia sob o disfarce de "valores da família", como demonstrou o Congresso Mundial das Famílias em Verona. Precisamos conter esses ventos, opina Krsto Lazarevic*.
No último fim de semana de março, a cidade italiana de Verona sediou o Congresso Mundial das Famílias. Mas esse nome aparentemente inofensivo esconde o fato de que esse foi um dos maiores encontros mundiais de homofóbicos de direita, ativistas antiaborto e antifeministas, que se reuniram na Itália para investir contra muitas conquistas civilizatórias das últimas décadas.

Eles se reuniram num magnífico palácio no centro da cidade, sob os auspícios da administração municipal, que em outubro passado declarou Verona oficialmente como uma "cidade pró-vida". Embora também possa parecer algo relativamente inócuo, isso significa efetivamente tornar a vida muito difícil para as mulheres que desejam abortar.


Curiosamente, muitas das coisas ditas no Congresso Mundial das Famílias em Verona tinham pouco a ver com a vida familiar. Os participantes repetidamente questionaram a Teoria da Evolução, e um participante chegou a afirmar que os EUA não deveriam ter abolido a segregação entre brancos e negros nas escolas.

O parlamentar evangélico ucraniano Pavlo Unguryan expressou a sua esperança de que a Europa assista à ascensão de um cinturão bíblico ao longo de Itália, Romênia, Croácia, Hungria e Ucrânia.

Visivelmente, os participantes continuaram reiterando a sua crença de que as famílias são os elementos básicos da sociedade. Mas a definição de papéis familiares e de gênero pode variar – e essas diferenças são importantes.

Aqueles que pensam ser uma boa ideia obedecer cegamente a um pai autoritário também estarão inclinados a seguir cegamente um autocrata sem respeito por seu povo. A ideia que uma pessoa tem sobre a família perfeita revela, portanto, muito sobre as suas convicções políticas e se estão abertas a ideologias totalitárias.

O tema do congresso – "Vento de Mudança" – mostra que os organizadores esperam que uma rajada política de ar venha e acabe com a democracia liberal. Os participantes são contra o tipo de políticas liberais adotadas por países como Suécia, Noruega e Coreia do Sul; nações que foram relativamente bem-sucedidas na criação de sociedades mais igualitárias.

Em vez disso, esses conservadores reverenciam países como a Hungria e o Brasil, onde os governos de direita estão implementando políticas inspiradas por uma ideia anacrônica de família, ao mesmo tempo em que dificultam a vida das minorias étnicas e sexuais. A ministra húngara da Família, Katalin Novák, discursou durante a conferência. O governo Jair Bolsonaro foi representado por Angela Vidal Gandra Martins, secretária nacional da Família do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que discursou no evento.
Rados Pejovic, do Dveri, legenda de extrema direita da Sérvia, também esteve entre os convidados da conferência. Seu partido glorifica Ratko Mladic, criminoso de guerra condenado e também conhecido como o "açougueiro da Bósnia", dizendo que o massacre de Srebrenica de 1995 – realizado sob seu comando e que deixou 8 mil muçulmanos mortos – foi necessário para "libertar" a cidade na atual Bósnia e Herzegovina. Nada mais cínico que um membro desse partido defenda publicamente santificar toda a vida humana.

Não é por acaso que esta conferência de extrema direita tenha sido realizada na Itália, apenas algumas semanas antes das eleições parlamentares europeias no final de maio. Os organizadores do encontro pretendiam demonstrar que não apenas países como a Hungria, onde a cúpula de 2017 foi realizada com o apoio do primeiro-ministro Viktor Orbán, mas também um dos membros fundadores da UE é receptivo à política autoritária de direita.

Eles querem atacar a Europa liberal a partir de dentro com o apoio da Liga, partido anti-imigração da Itália, cujo membro mais proeminente, Matteo Salvini, também participou da conferência.

A região de Vêneto, que é governada pela Liga, forneceu apoio financeiro ao Congresso Mundial das Famílias – o que significa que os contribuintes italianos colaboraram para uma conferência que atacou abertamente gays e lésbicas, e questionou a igualdade de direitos para as mulheres.

Krsto Lazarevic* | Deutsche Welle | opinião

*Krsto Lazarevic nasceu na Bósnia e Herzegovina e fugiu para a Alemanha com sua família quando criança. Hoje ele vive em Berlim, onde trabalha como jornalista e comentarista, escrevendo para vários meios de comunicação de língua alemã.

Na imagem: Ativista segura cartaz na Marcha pela Família durante evento em Veron

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/fascismo-na-ue-cinismo-em-nome-da-vida.html

Populistas anunciam aliança europeia de extrema direita

Após encontro em Milão, líderes da AfD, da Alemanha, e da Liga, da Itália, prometem formar novo bloco de partidos eurocéticos no Parlamento Europeu e promover mudanças radicais na UE.
Os partidos populistas de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e Liga, da Itália, anunciaram nesta segunda-feira (08/04) que pretendem formar um novo bloco no Parlamento Europeu junto com outras legendas eurocéticas e de extrema direita.

O novo grupo deve se chamar Aliança Europeia de Pessoas e Nações (EAPN), afirmou Jörg Meuthen, um dos líderes da AfD, em coletiva de imprensa ao lado do líder da Liga, o ministro do Interior e vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, em Milão.

Meuthen, que também é o principal candidato da AfD para as eleições europeias de maio deste ano, afirmou que o encontro em Milão foi um "sinal de partida para algo novo". Ele viajou à Itália a convite de Salvini, que também lançou sua campanha para o Parlamento Europeu.


Meuthen enfatizou que, no futuro, os nacionalistas de direita não estariam mais fragmentados, mas unidos. O desejo do grupo é promover a concessão de mais poderes aos Estados-membros e reduzir a influência de Bruxelas.

"Queremos reformar a União Europeia (UE) e o Parlamento Europeu, sem destruí-los. Queremos trazer mudanças radicais", disse Meuthen.

Líderes dos direitistas Partido Popular Dinamarquês e Finns, da Finlândia, também participaram do encontro organizado por Salvini. A Rassemblement National (Agrupamento ou Comício Nacional, a antiga Frente Nacional), de Marine Le Pen, e o Partido da Liberdade da Áustria também devem se juntar à EAPN, embora não tenham participado da reunião desta segunda-feira.

"A ideia é deixar de ter uma Europa centralizada e comum para todos, mas devolver o poder aos parlamentos nacionais para criar uma cooperação honesta entre Estados iguais e abandonar a perigosa utopia dos Estados unidos da Europa", disse Marco Zanni, porta-voz de assuntos estrangeiros da Liga, à agência de notícias alemã DPA.

Meuthen defendeu uma "proteção poderosa" das fronteiras externas da UE e a supressão da "migração ilegal".

Na Itália, o discurso de Salvini contra a imigração ilegal e o lema de "primeiro os italianos" seduziu eleitores. Agora, ele quer conquistar com a suas ideias também as instituições europeias.

"Fazemos parte de famílias políticas distintas, mas o importante é que estamos promovendo alianças, estamos trabalhando para tornar realidade um novo sonho europeu, ainda que para alguns em Bruxelas isso seja um pesadelo", afirmou Salvini.

Atualmente, há três grupos de extrema direita e eurocéticos no Parlamento Europeu: o Europa da Liberdade e da Democracia Direta, da AfD; os Conservadores e Reformadores Europeus, que incluem o Partido Lei e Justiça (PiS), da Polônia; e o Europa das Nações e da Liberdade, da Liga e de Le Pen.

LE/dpa/afp/efe | em Deutsche Welle

Massacre em Mesquita na Nova Zelândia: Supremacia Branca e Guerras Ocidentais

O recente massacre de fiéis muçulmanos na Nova Zelândia tem aspectos particulares que suscitam perplexidade, sobretudo no que diz respeito à ausência de vigilância a um indivíduo que anunciara a intenção de o levar a cabo. Mas mais importante ainda é o ambiente geral que favorece tais crimes: se os EUA, a UE e Israel massacram muçulmanos, como não haverá indivíduos que se sintam autorizados a fazer o mesmo?

O ferimento e assassínio em massa de 97 fiéis muçulmanos em Christchurch, Nova Zelândia (NZ) ocorrido na sexta-feira, 15 de Março de 2019, tem profundas raízes ideológicas e psicológicas.
Primeiro e mais importante, os países ocidentais liderados pelo mundo anglo-americano têm estado impunemente em guerra nos últimos trinta anos matando e arrancando das suas terras milhões de muçulmanos. Comentadores nos media, porta-vozes políticos e ideólogos identificaram os muçulmanos como uma ameaça terrorista global e como alvos de uma “guerra contra o terror.” No próprio dia do massacre na Nova Zelândia Israel lançou ataques aéreos de larga escala contra cem alvos em Gaza. Israel já matou várias centenas e feriu mais de vinte mil Palestinianos desarmados em menos de dois anos. Os massacres israelitas acontecem à sexta-feira, o sábado Muçulmano.
A islamofobia é um fenómeno de massa em curso que excede em muito outros “crimes de ódio” em todo o Ocidente e permeia as instituições político-culturais judaico-cristãs.
Tendo os líderes políticos ocidentais e israelitas imposto políticas de imigração extremamente restritivas - em alguns países proibição completa de imigrantes muçulmanos. Israel dá um passo adiante, desalojando e expulsando residentes islâmicos de longa data. O assassino neozelandês seguiu claramente a prática ocidental/israelita.
Em segundo lugar, nos últimos anos, violentos rufias fascistas e da supremacia branca têm sido tolerados por todos os regimes ocidentais e são livres de propagar violentas palavras e acções antimuçulmanas. Muitos dos massacres antimuçulmanos foram antecipadamente anunciados nas chamadas redes sociais como o Twitter, que alcança milhões de seguidores.
Em terceiro lugar, enquanto as polícias locais e federais recolhem “dados” e espiam muçulmanos e cidadãos cumpridores da lei, aparentemente não incluem autoidentificados homicidas que advogam o anti-islamismo.
Tal como é o caso do recente assassino em massa da Nova Zelândia, Brenton Torrant. A polícia e os Serviços de Informações de Segurança da NZ não mantiveram ficheiro e vigilância sobre Torrant apesar da sua aberta opção pela violenta supremacia branca e por destacados suprematistas, incluindo o assassino norueguês de mais de 70 crianças-campistas, Anders Brevet.
Torrant publicou um manifesto antimuçulmano de 74 páginas, facilmente disponível para qualquer um com computador - até mesmo um polícia idiota – para não falar da totalidade as forças de segurança da Nova Zelândia.
Torrant planeou o ataque com meses de antecedência mas não estava em qualquer “lista de observados”.
Torrant não teve problema em obter uma licença de porte de arma e comprar uma dúzia de armas de alta potência, incluindo o material para dispositivos explosivos improvisados ​​(IED), que a polícia descobriu mais tarde ligado a um veículo.

Por que se atrasou a polícia?

A Mesquita Al Noor, que sofreu o maior número de mortos e feridos, está na baixa de Christchurch, a menos de 5 minutos da sede da polícia - mas a polícia levou 36 minutos a responder. O suprematista branco teve tempo para assassinar e aleijar; para deixar a mesquita e voltar ao seu carro; para recarregar e entrar novamente na mesquita; esvaziar a munição nos muçulmanos que rezavam —- usando uma versão civil de uma M16; guiar até ao Centro Islâmico Linwood e abater e mutilar vários outros fiéis muçulmanos, antes de a polícia finalmente aparecer em cena e prendê-lo.
O presidente da Câmara elogiou a polícia! Pode suspeitar-se que as autoridades eram coniventes!
O que explica a total ausência ou o falhanço das autoridades políticas e forças de segurança: a falta de investigação prévia; as demoras na hora dos crimes; e a falta de autocrítica?

A ascensão da extrema-direita antimuçulmana anti-imigrante

Os Torrents de Brenton estão a proliferar em todo o mundo e não por serem mentalmente perturbados ou psicopatas autoinduzidos. São menos produtos da ideologia da supremacia branca do que mais prováveis produtos ​​das guerras ocidentais e israelitas contra Muçulmanos – os seus líderes fornecem-lhes a lógica, os seus métodos (armas) e reivindicações de imunidade.
Os regimes ocidentais organizam ficheiros de manifestantes ambientalistas e antiguerra, mas não de suprematistas antimuçulmanos, abertamente preparando a guerra contra a “invasão” de imigrantes muçulmanos – que fogem da guerra dos EUA e da UE no Médio Oriente.
A polícia demorou meio minuto para responder ao tiroteio sobre um polícia. Não permitem que assassinos de polícias atirem, recarreguem, atirem de novo e passem para outro alvo policial. Não acredito que os atrasos sejam negligência da polícia local.
O massacre resultou do facto de as vítimas serem muçulmanas, numa mesquita.
As lágrimas e grinaldas, as orações e bandeiras após o facto não mudam nem mudarão o assassínio de pessoas muçulmanas.
Campanhas educativas para combater a islamofobia podem ajudar, se e somente se é dirigida acção efectiva do Estado contra as guerras ocidentais e israelitas contra povos e países islâmicos.
Somente quando as autoridades eleitas ocidentais deixarem de impor restrições especiais contra os chamados de “invasores” muçulmanos, os “suprematistas brancos” e seus descendentes ideológicos cessarão o recrutamento de seguidores entre cidadãos em outros aspectos normais.
Massacres em mesquitas e crimes contra muçulmanos individuais deixarão de ocorrer quando os estados imperialistas e seus governantes pararem de invadir, ocupar e desalojar países e povos islâmicos.

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Após vitória na Itália, Salvini diz que é hora da direita 'mudar a Europa' em maio

Italian Deputy Prime Minister and League leader Matteo Salvini arrives for a news conference at the Senate upper house parliament building in Rome, Italy March 8, 2019
© REUTERS / Yara Nardi

Os parceiros de coalizão do governo da Itália iniciaram lutas separadas para as eleições da União Europeia (UE) em maio, depois que as recentes eleições regionais viram uma vitória retumbante para a coalizão de direita de Matteo Salvini às custas da esquerda.

A coalizão do vice-primeiro-ministro obteve 42% das urnas na região de Basilicata, no sul do país, nas eleições locais de domingo, com 18,8% provenientes da base de partidários do partido Liga, de Salvini.


O resultado marcou o fim da administração de centro-esquerda da região principalmente agrícola pela primeira vez desde 1995.

Ele também significou um declínio acentuado no apoio local ao Movimento 5 Estrelas (M5S), cuja popularidade na Basilicata foi reduzida pela metade em relação aos 44,3% obtidos nas eleições gerais do ano passado, para pairar pouco mais de 20% após a pesquisa regional do último fim de semana.

No entanto, eles ainda continuam sendo o maior partido da região. Enquanto o M5S e a Liga são parceiros de coalizão no governo nacional, a legenda de direita se associa localmente ao Forza Italia, do ex-premiê Silvio Berlusconi, e com o partido menor dos Irmãos da Itália, com quem eles estão mais alinhados ideologicamente.

Salvini agradeceu aos eleitores por seu apoio na segunda-feira.

"OBRIGADO! A Liga triplicou seu voto em um ano, a vitória também na Basilicata! Adeus à esquerda", declarou, antes de proclamar que "agora [é hora de] mudar a Europa".

Salvini depois assegurou aos seus parceiros nacionais que ele estava feliz com a atual coalizão, observando que o apoio total à Liga e ao M5S era "ainda a maioria absoluta neste país". Ele acrescentou: "Meu oponente é o [centro-esquerda] PD [Partido Democrata]".

No entanto, a onda de apoio à Liga fora de sua base de poder no Hemisfério Norte é motivo de preocupação para seu parceiro nacional, o M5S, que também está procurando transformar a frustração dos eleitores com os partidos estabelecidos na Itália em sucesso eleitoral continuado.


Para esse fim, o M5S formou um novo grupo parlamentar com vários outros partidos reformistas da Grécia, Polônia, Croácia e Finlândia, antes das eleições da UE em maio. Luigi Di Maio, do 5 estrelas, que é o vice-primeiro-ministro da Itália, compartilhando a posição com Salvini, disse que o grupo se inspira em "criar uma nova Europa".

Evangelos Tsiobanidis, cujo partido grego Akkel se juntou à aliança, afirmou à RT que o grupo é pró-europeu, mas lutaria contra as políticas de protetorado implementadas por membros mais ricos da UE em detrimento de outros.

"Nós nos opomos à forma atual da UE. O pró-europeísmo, de fato, é a oposição à atual UE, com seu desrespeito corrupto dos interesses nacionais de todos os estados membros", avaliou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019032713569368-salvini-vitoria-direita/

De baixo das pedras, como as serpentes

Temos sempre a história para nos ajudar a conhecer o passado e a compreender o presente, mas a memória pessoal pode dar também uma boa ajuda. Quem tenha vivido os anos finais do Estado Novo já com alguma consciência política – felizmente ainda existem muitas pessoas nestas condições e capazes de oferecer o seu testemunho – sabe que nessa altura, em particular a partir do «período marcelista» de 1968-74, eram já pouquíssimas as pessoas com voz pública que fora dos organismos e dos círculos do poder assumiam claramente a defesa do regime. Muitas calavam-se por vergonha ou desmotivação, mas muitas também, em número cada vez maior a cada dia que passava, porque eram mesmo contra ele e desejavam que ruísse o mais depressa possível.

Logo no dia 25 de Abril de 1974, esses poucos que eram declarados defensores do Estado Novo perderam a voz e desapareceram como por um passe de mágica. Diz-se por vezes, provavelmente apenas com um pouco de exagero, que nas manifestações do primeiro 1º de Maio em liberdade não celebraram na rua a chegada da democracia só mesmo os membros do governo tombado, os agentes e informadores da PIDE, alguns salazaristas mais renitentes, os doentes acamados e os moribundos. De seguida, durante o biénio revolucionário de 1974-75, os defensores do regime desapareceram de todo: alguns emigraram para o Brasil ou para a África do Sul, outros travestiram-se de «democratas» e a maioria passou a andar calada, aceitando com amargura a derrota.

Mesmo após aquele período mais tenso e de ardorosos combates, quando a democracia representativa foi institucionalizada com a aprovação da Constituição de 1976 e foram legalizados os primeiros partidos conotados com a direita política, os fascistas inveterados, isolados ou reunidos em pequenas organizações, algumas de natureza terrorista, permaneceram ausentes da vida pública. Continuavam a existir, é certo, mas tinham medo de se assumir como tal, em parte porque a nova opinião pública democrática e a comunicação social lhes eram completamente desfavoráveis. Como as serpentes movimentavam-se sob as pedras, lutando com as crias pela sobrevivência da sua triste espécie, aparentemente sem qualquer futuro.

De repente, com a muleta oferecida pelas redes sociais sem qualquer controlo e com a complacência de boa parte da imprensa e das televisões, mas também em ligação com uma tendência internacional para o regresso dos autoritarismos – dos Estados Unidos ao Brasil, da Rússia à Hungria – eis que passaram a saltar de onde se escondiam e a emergir às claras, revelando, agora já sem quaisquer disfarces, ao que vêm. Mais: levando até ao fim, já não a antiga vontade de retorno a um ideal de pátria ou de império, que ninguém hoje consegue vislumbrar como viável ou sequer inteligível, mas com o desejo de impor uma sociedade assente no ódio, na defesa da desigualdade, no racismo, na homofobia, na perseguição da diferença, no efetivo desprezo pelos mais desprotegidos, na defesa de uma cultura passadista de ignorância e barbárie.

A esses fascistas, agora já os vemos também por cá, de tórax impante e de verbo agressivo, mostrando o rosto e as bandeiras, orgulhosos do fel que regurgitam e à espera da sua vez de chegar ao poder. Por isso ainda é mais necessário desmascará-los onde apareçam e imprescindível combatê-los sem tibiezas.

Fotografia: Climb, por Pierre Lagarde
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 23/3/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/03/23/de-baixo-das-pedras-como-as-serpentes/

Pompeo diz que Trump pode ter sido escolhido por Deus para 'salvar o povo judeu'

Presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu
© REUTERS / Ariel Schalit/Pool

O presidente dos EUA, Donald Trump, pode ser o escolhido de Deus para salvar o povo judeu da "ameaça iraniana", declarou o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo em uma entrevista desconcertante com a Christian Broadcasting Network.

Especificamente, o entrevistador perguntou a Pompeo se Trump poderia ser uma versão moderna da personagem bíblica Esther, uma bela mulher escolhida para se casar com o rei persa Assuero.


Presumivelmente, a comparação não foi convidada à luz do charme feminino de Trump, mas devido ao fato de que Esther estragou os planos do principal conselheiro do rei, Haman, que queria matar todos os judeus que viviam na Pérsia.

O entrevistador afirma bastante factualmente que há um "novo Haman" no Oriente Médio que quer "erradicar o povo judeu", também conhecido como Irã, e perguntou se o presidente Trump havia sido escolhido, "como a rainha Ester", a fim de "salvar o povo judeu da ameaça iraniana?"

"Como cristão, eu certamente acredito que isso é possível", respondeu Pompeo com um sorriso. A entrevista aconteceu durante a visita de Pompeo a Jerusalém, no dia em que os judeus marcam o frustrado plano de Hamã com um feriado chamado Purim.


Além do feriado, os comentários da secretária vieram à luz do anúncio de Trump de que os EUA reconheceriam as colinas ocupadas de Golan como parte de Israel, apesar de uma resolução da ONU que condena a aquisição forçada de Tel Aviv do território.

"Estou confiante de que o Senhor está trabalhando aqui", acrescentou Pompeo, descrevendo o papel dos Estados Unidos na preservação do "Estado judeu".

Pompeo está atualmente envolvido em um giro pelo Oriente Médio que visa formar uma frente unida contra o Irã. Tendo parado no Kuwait antes de ir para Israel, ele visitará o Líbano antes de voltar aos Estados Unidos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019032213543225-pompeo-trump-israel/

Neonazis e veteranos da Waffen-SS voltaram a marchar em Riga

Cerca de mil pessoas participaram no desfile do Dia do Legionário em homenagem aos mais de 140 mil letões que integraram unidades nazis. A diplomacia russa classificou a marcha como uma «vergonha».

Marcha do Dia do Legionário, em Riga, capital da Letónia (16 de Março de 2019)Créditos / Sputnik

O Dia do Legionário, a 16 de Março, é assinalado na Letónia desde os anos 90, para homenagear e evocar aqueles que fizeram parte da Legião da Letónia na Waffen Schutzstaffel (Tropa de Protecção Armada, mais conhecida como Waffen-SS).

A marcha deste ano, em Riga, contou com a participação de alguns veteranos legionários, que integraram a 15.ª e a 19ª divisões de Granadeiros da Waffen-SS, de apoiantes e neonazis. O evento anual, que tem sido criticado a nível internacional como uma forma de «glorificação do nazismo», também mereceu oposição interna, com alguns manifestantes a exibirem cartazes em que classificavam a Legião como uma «organização criminosa» e a lembrar que «lutaram ao lado de Hitler», segundo refere o periódico Haaretz.

A Embaixada da Rússia no país do Báltico condenou a marcha de homenagem aos legionários da Waffen-SS, que classificou como «uma vergonha». Na sua conta oficial de Twitter, a Embaixada afirmou, no sábado: «Que vergonha! Veteranos da Waffen-SS e apoiantes estão novamente a marchar com honra no centro de uma capital europeia. E isto acontece na véspera do aniversário dos 75 anos da libertação de Riga dos invasores nazis!»

Também a Embaixada da Rússia no Canadá se manifestou no Twitter contra o desfile realizado em Riga: «Veteranos da Waffen-SS nazis e apoiantes marcham desafiantes e livremente no dia 16 de Março em Riga, Letónia, recohecidos pelas autoridades como heróis nacionais. Uma realidade ignorada por muitos no Ocidente que não pode ser descartada como "propaganda do Kremlin".»

A Waffen-SS, que foi criada como um ala armada do Partido Nazi alemão, foi considerada uma organização criminosa nos julgamentos de Nuremberga, após a Segunda Guerra Mundial, pela sua ligação ao Partido Nazi e envolvimento em inúmeros crimes de guerra e contra a Humanidade.

Glorificação do nazismo e reescrita da história

A Legião da Waffen-SS da Letónia foi fundada em 1943. Muitos dos seus membros viriam a integrar depois, juntamente com combatentes da Lituânia e da Estónia, os chamados Irmãos da Floresta, que até 1953 lutaram contra as tropas soviéticas nos países bálticos.

Em Julho de 2017, a NATO publicou um vídeo que apresenta, com visível dose de heroísmo, essa guerrilha anti-soviética, sem mostrar grande preocupação pelo facto de, nessas forças, estarem integrados muitos legionários das SS nazis ou os que, nos países bálticos, haviam colaborado com as forças invasoras nazi-fascistas.

Repúdio da Rússia

Então, Maria Zakharova, porta-voz do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros, pediu que «se veja com respeito as páginas trágicas da história e se repudie tão repugnante acção da Aliança Atlântica». Disse ainda esperar que «não seja necessário recordar os assassinatos massivos perpetrados por muitos dos membros dos Irmãos da Floresta».

Por seu lado, a representação da Rússia junto da NATO considerou que o material fílmico constitui uma nova tentativa de reescrever a história, para a colocar de acordo com os processos políticos nas ex-repúblicas socialistas do Báltico, onde prolifera o neofascismo e o nacionalismo.

Moscovo tem reafirmado a sua preocupação sobre o surgimento de grupos neonazis e acerca de políticas que glorificam colaboradores com o nazismo na Ucrânia, na Polónia e nos Estados Bálticos – países onde, refere a agência Sputnik – são frequentes as marchas em louvor de destacadas figuras fascistas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/neonazis-e-veteranos-da-waffen-ss-voltaram-marchar-em-riga

Terrorismo de direita e racista cresce nos EUA

Membro do grupo KKK
© Foto : ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Os Estados Unidos vivenciam um considerável aumento de crimes de ódio e atos de terrorismo associados aos grupos que defendem a supremacia branca e neonazistas durante a última década.

Após o ataque terrorista de um supremacista branco contra fiéis muçulmanos na Nova Zelândia, nesta sexta-feira, a imprensa dos EUA apontou o também para o aumento do terrorismo doméstico praticado por grupos racistas e nacionalistas na América do Norte, informou CBS News.


Em outubro de 2018, uma igreja em Pittsburgh, na Pensilvânia, foi alvo de um ataque que matou 11 pessoas. Em Charlottesville, Virgínia, um comício contra manifestações nacionalistas terminou com três mortos, depois que um supremacista branco avançou em seu carro contra a multidão. 

Após o incidente na Nova Zelânda, mesquitas em todos os EUA tiveram sua segurança reforçada. Embora oficiais e investigadores tenham notado que não houve uma ameaça direta, as forças de segurança do país afirmaram que o extremismo de direita e o terrorismo motivado por motivos raciais parece estar aumentando nos Estados Unidos.

"Estamos vendo um aumento na propaganda", observou o vice-chefe de contraterrorismo do estado de Nova York, John Miller.

"[Grupos de ódio de direita] estão tomando emprestadas técnicas de propaganda de outros grupos terroristas", acrescentou ele, citado pela Cbsnews.com.

Ataques de nacionalistas de extrema-direita contra imigrantes na Europa aumentaram em 43% entre 2016 e 2017, enquanto nos EUA os extremistas de direita foram ligados a um mínimo de 50 assassinatos em 2018, um aumento de 35% em relação ao ano anterior, segundo a CBS News.


"Eu diria que a maior responsável por isso é propagada online. Na verdade, esta manhã, depois dos ataques [da Nova Zelândia], eu estava vendo celebrações dos ataques online nos sites de ódio anti-muçulmanos. É realmente repugnante", observou, Ibrahim Hooper, porta-voz dos Conselho Muçulmano dos Estados Unidos, citado por Msn.com.

Em fevereiro deste ano, um tenente da Guarda Costeira da ativa foi preso depois de ser apurado que ele estava guardando grande quantidade de armas para iniciar o que a supremacia branca chama de uma "guerra racial".

"Todos esses caras estão observando", alertou Fran Townsend, ex-assessora de Segurança Interna da Casa Branca.

"Eles observam a reação, eles observam as táticas daqueles que vieram antes deles. E devemos reconhecer que há um aumento no […] nacionalismo em todo o mundo", acrescentou ela, citada por Cbsnews.com.

O FBI atualmente estima estar acompanhando cerca de 900 casos de terrorismo doméstico ativo, e muitos estão relacionados aos supremacistas brancos, segundo relatos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019031613506070-supremacismo-branco-eua-online-terrorismo/

Estamos no ciclo dos patetas perigosos

Eis-nos no culminar no tempo dos patetas na política. Mas patetas perigosos, entenda-se. Porque são guiados na sombra por quem possui um sentido de humor menos atoleimado e guia-se por sinistro projeto ideológico. A sua habilidade está na repetição do que intentavam os imperadores romanos com os seus coliseus: distraem-se os incautos cidadãos com aparente diversão e prepara-se o chicote com que os fustigar, quando derem conta do logro em que terão caído, agindo no sentido da crescente contestação.
A eminência parda do Movimento 5 Estrelas em Itália, o esquivo Davide Casaleggio, que manipula Luigi Di Maio como lerda marioneta, tem uma frase elucidativa quanto ao seu pensamento:“uma formiga não deve saber como funciona o formigueiro, porque, de outro modo, todas as formigas ambicionariam desempenhar os melhores papéis e os menos fatigantes, criando um problema de coordenação”.
A metáfora denuncia-lhe o propósito totalitário de manter a grande maioria dos italianos na inconsciência da sua importância social, aperrando-os a uma máquina produtiva detida pelos patrões privados, que funcionam como uma elite plutocrata. Para consolidar essa nova forma de fascismo, Casaleggio é, de facto, o dono do 5 Estrelas, que controla através da Plataforma Rousseau, autêntico sistema nervoso do Movimento. À conta de ilusórias «modernices» como o dos contínuos referendos, através do recurso às redes sociais, para decidir tudo quanto importa ao futuro dos italianos, Casaleggio «vende» a ideia de uma falsa democracia direta, que se substituiria à representativa, que execra como sendo corrupta e dissociada dos cidadãos. Só não confessa a sua capacidade de manipular essas consultas populares, que a sua plataforma se encarregaria de distorcer no sentido de garantirem os resultados, que melhor conviessem á sua estratégia.
A vigarice é hábil e demorará a ser desmascarada como o demonstram as sondagens para as eleições europeias de maio: além de servirem de alavanca à ascensão do parceiro de coligação, ainda mais fascista na sua retórica, os responsáveis pelo 5 Estrelas ainda conseguem iludir 1/4 do eleitorado, que se dispõe a ir votar.
A leste, na Ucrânia, que foi intencionalmente desestabilizada pela CIA, com a conivência de governos europeus subservientes aos interesses, que apenas aproveitarão aos norte-americanos, as eleições de 31 de março levarão à presidência outro palerma, cujo nome é Volodomir Zelenski. Ator de comédias parvas na televisão, sabe-se teleguiado por um oligarca russo, que nele vê a oportunidade de recuperar a influência económica perdida durante o mandato do corrupto Poroshenko. Entre o que sai de cena e o que nela entra, a diferença para o povo ucraniano será idêntica à que possa separar a peste da lepra. Com o país empobrecido por causa da guerra civil, e com os oportunistas a sucederem-se na governação, adivinha-se-lhe futuro assaz problemático.

Como as cobras

Mocidade Portuguesa

Temos sempre a história para nos ajudar, mas quando a memória a acompanha torna-se ainda mais fácil recorrer ao passado. Sem modéstia: defronto o fascismo quase desde que me recordo, tendo o primeiro momento do qual tenho certeza e testemunhas ocorrido por volta dos catorze, durante um boicote de jovens alunos à receção organizada a um ministro de Salazar de visita. Isto significa cerca de uma década de combate com memória ao que restava do Estado Novo, acentuado de forma já militante e organizada a partir de 1971. Durante todo esse tempo, tirando alguns dignitários locais, parte deles da União Nacional, uns quantos pides e informadores, e mais alguns velhos salazaristas e filhos de família identificáveis, já poucos assumiam claramente a defesa do regime. Muitos por vergonha ou desmotivação, muitos também, e cada vez mais, porque eram mesmo contra ele.

Mas mesmo esses poucos, logo após a Revolução de Abril desapareceram como por um passe de mágica. Diz-se muitas vezes, talvez só com um pouco de exagero, que nas manifestações do 1º de Maio de 1974 só não celebraram na rua mesmo os fascistas mais renitentes e, é claro, os doentes acamados e os moribundos. E mesmo depois do período revolucionário, quando a democracia representativa foi institucionalizada e se desenvolveram os primeiros partidos de direita, os fascistas inveterados, ainda que sob a forma de uma extrema-direita supostamente renovada, não se viam de todo. Existiam, é claro, mas ou tinham vergonha ou tinham medo, em parte porque a opinião pública e a comunicação social lhes era completamente desfavorável. 2019 EuropeiasViviam, como é de supor, mas basicamente rastejavam sob as pedras, lutando pela sobrevivência da sua triste espécie.

Eis, porém, que, de repente, sobretudo com a muleta oferecida por um setor das redes sociais e com a complacência de boa parte da imprensa e das televisões, passaram a saltar de onde se escondiam e a surgir às claras, mostrando, agora já sem disfarces, ao que vêm. Mais: levando até ao fim, já não a antiga vontade de retorno a um ideal de pátria ou de império, que ninguém hoje consegue vislumbrar em parte alguma, salvo na cabeça de pessoas um tanto retardadas, mas o desejo de impor uma sociedade assente no ódio, na desigualdade, no racismo, na homofobia, na perseguição da diferença, no desprezo pelos mais necessitados, na defesa de uma cultura de ignorância e barbárie. E a esses, agora, já os vemos, de tórax inchado e verbo agressivo. Precisamente por isso, porque já não têm vergonha e agora os vemos e escutamos, ainda é mais necessário combatê-los.

Publicado inicialmente no Facebook

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/03/02/como-as-cobras/

Bannon detona Mourão e diz que Flávio Bolsonaro é 'vítima do marxismo cultural'

Steve Bannon, exestratega jefe de la Casa Blanca
© AP Photo / Andrew Harnik

O ex-assessor de Donald Trump, Steve Bannon, afirmou nesta quarta-feira que o vice-presidente do Brasil, Antônio Hamilton Mourão, não tem nenhuma utilidade para o governo de Jair Bolsonaro, cujo filho estaria sendo vítima do "marxismo cultural".

As declarações de Bannon foram dadas em uma entrevista publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, na qual uma das figuras mais relevantes para a eleição de Trump para comandar a maior potência mundial rasgou elogios à família Bolsonaro.


"O Brasil tem problemas na economia e Bolsonaro vai atacá-los de forma bem diferente do socialismo passado. Você vê a tragédia na Venezuela. De forma esperta, o presidente Bolsonaro e Eduardo [Bolsonaro, deputado federal e filho de Jair] estão preparados para ajudar, mas não querem ter uma responsabilidade que o Brasil não deve ter", disse.

Questionado se a escolha do vice-presidente foi ruim, Bannon não poupou criticas a Mourão, um general da reserva do Exército Brasileiro que vem dando declarações diferentes de Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo no campo da política externa.

"Não é muito útil. Pela minha experiência com Trump, quando você chega [ao poder], tem que ser o mais unificado possível […]. Ele é desagradável, pisa fora da sua linha. Bolsonaro vai fazer uma grande diferença no Brasil e devolver o país ao palco mundial, onde deve estar […]. Me parece que o vice-presidente Mourão gosta de falar muito sobre política externa. Mas, até onde sei, o presidente Bolsonaro não lhe atribuiu responsabilidades e parece que foi uma decisão sábia", avaliou.

O ex-assessor de Trump ainda deu a sua opinião sobre as investigações envolvendo o nome do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente. Bannon deu a entender que o caso envolvendo o ex-assessor do senador, Fabrício Queiroz, tem as marcas do "marxismo cultural", como ele próprio viu no seu tempo ao lado do presidente dos EUA.


"Eles vêm atrás de você pelas menores coisas. O Capitão Bolsonaro e Eduardo são líderes dinâmicos no palco mundial. Por isso eles são alvos. A luta deles é contra o marxismo cultural que restou. O socialismo econômico faliu claramente. Faliu no Brasil, na Venezuela, em Cuba, é um modelo falido. Mas há ainda um marxismo cultural muito poderoso. Eles vão tentar atacar e destruir. Capitão Bolsonaro, Eduardo e a família ficarão sob intensa pressão […]. Acho que tentam criar escândalos. Disse a eles que precisam estar preparados, porque serão atacados", afirmou.

Na mesma entrevista, Bannon rasgou elogiou ao guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho ("É um herói, até mesmo global, da direita") e abordou os próximos passos da organização nacionalista O Movimento, para qual o ex-assessor de Trump possui planos ambiciosos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019020613264949-bannon-mourao-bolsonaro/

O ovo de serpente que alguns andam involuntariamente a chocar

Num muito interessante artigo no «Público» a historiadora Irene Pimentel enuncia as razões para nos inquietarmos com a crescente afirmação do ideário fascista na nossa realidade, fundamentada num canal de televisão a entrevistar um nazi-fascista ou outro a promover ativamente uma manifestação inspirada nessa mesma (falta de) cultura. E acrescenta a interpretação muito correta do jornal inglês «The Guardian», quando interpretou a agressão policial no Bairro Jamaica como o espelho de uma larvar manifestação do racismo de que estão imbuídos alguns elementos das forças policiais, capazes de dispararem balas de borracha contra quem contra eles se manifestaram em Lisboa, mas passivos, senão mesmo complacentes guardiões, dos saudosistas de Salazar, quando resolvem, igualmente, dar a cara.
As reações de quantos diabolizaram Mamadou Ba, e incensaram a polícia, revelaram a confusão de quem, nada tendo a ver com o fascismo, lhe vai servindo de caução, num fenómeno semelhante ao ocorrido na Alemanha nazi e que leva a historiadora a citar as conclusões sobre ele formuladas por Hannah Arendt: “Nos anos 60 do século XX, a filósofa judia e refugiada Hannah Arendt recorreu ao imperativo categórico kantiano, lembrando, no seu livro «Eichmann em Jerusalém», que, na Alemanha nazi, a sociedade alemã no seu conjunto sucumbiu a Hitler, num tempo em que desapareceram as máximas (morais) que determinam o comportamento social e os mandamentos da religião. Os raros seres humanos ainda capazes de distinguirem entre o bem e o mal tiveram ‘de julgar por eles próprios cada caso à medida que se apresentava, pois que não havia regra para aquilo que não tinha precedente’.”
Quando se confunde violência policial com uma mera operação de assegurar a ordem pública e se aceita como natural, que um cidadão português, nascido e criado em Portugal, não tem cabimento na sociedade plural e democrática em que exigimos viver, é essa tal serpente ilustrada num célebre filme de Ingmar Bergman, que andamos a ajudar a chocar no ovo.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/02/o-ovo-de-serpente-que-alguns-andam.html

Ex-assessor de Trump escolhe filho de Bolsonaro como líder de movimento mundial de direita

Eduardo Bolsonaro ao lado de Steve Bannon em Nova York
© Foto : Divulgação / Twitter Eduardo Bolsonaro

Estrategista da campanha vencedora de Donald Trump nos EUA, Steve Bannon escolheu o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, para liderar O Movimento, organismo que reúne nacionalistas de direita de todo o mundo.

A informação foi publicada pelo parlamentar brasileiro em sua página no Twitter e também pelo jornal Folha de S. Paulo.

"Estou muito orgulhoso de me juntar a Steve Bannon como o líder do Movimento no Brasil, que representa as nações da América Latina", escreveu Eduardo Bolsonaro em uma postagem no Twitter.

"Trabalharemos com Bannon para resgatar a soberania de forças progressistas, globalistas e elitistas e para expandir o nacionalismo de bom senso para todos os cidadãos latino-americanos", acrescentou.

Comandado por Bannon e pelo advogado belga Mischaël Modrikamen, O Movimento apoia partidos e candidatos na Europa e em outras partes do mundo que defendam o nacionalismo, em detrimento à globalização e em favor da soberania do interesse interno ante organismos internacionais.

"É uma honra para O Movimento dar as boas-vindas a Eduardo Bolsanaro como parceiro ilustre e ao Brasil, um aliado-chave na América do Sul", disse Bannon, segundo a Folha.


"Continuamos unidos em nossa busca por uma agenda nacionalista populista para a prosperidade e soberania dos cidadãos em todo o mundo", complementou o ex-assessor de Trump, que deixou a Casa Branca poucos meses após a vitória eleitoral do magnata nos EUA.

Em março, O Movimento prevê realizar o seu primeiro congresso em Bruxelas, na Bélgica. Em uma entrevista no ano passado, Bannon sugeriu que poderia convidar Jair Bolsonaro para participar do evento.

Antes e depois da campanha vitoriosa do pai, Eduardo Bolsonaro teve encontros com Bannon nos Estados Unidos, sempre destacados por ele em suas redes sociais. O ex-estrategista de Trump, contudo, negou qualquer participação na campanha do ex-capitão do Exército Brasileiro.

Uma das primeiras metas do grupo nacionalista é apoiar e eleger um grande número de representantes nas eleições do Parlamento Europeu, que acontecem em maio.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019020213234719-bannon-eduardo-bolsonaro/

O próximo teste

(Um texto de alguém de direita, a roçar a extrema-direita, que ilustra o atual discurso que procura chamar para si a defesa dos excluídos da sociedade capitalista neoliberal.

Onde a esquerda (convertida ao 'centro') deixa de ser a defensora ativa e efetiva dos "que estão por baixo" é esta direita que lhe ocupa o lugar. Demagogicamente ? Claro, mas o fascismo sempre foi assim.

Comentário ao artigo seguinte)

 

(Jaime Nogueira Pinto, in Diário de Notícias, 31/01/2019)

np1

(Hoje a Estátua resolveu dar voz à Direita mais civilizada. De facto, Jaime Nogueira Pinto é das raríssimas vozes da direita que consegue soletrar, contar até 100 e capaz de ter um discurso minimamente articulado e que não ofenda a inteligência, ainda que dele se possa discordar.

Enquanto Nogueira Pinto sabe falar e escrever – este texto é prova disso mesmo -, a maior parte dos direitolas que pululam pelo espaço público não vai além do cacarejo e do parlar.

Para que não digam que sou um fundamentalista enviesado.

Comentário da Estátua, 01/02/2019)


A crise venezuelana é mais um sinal do novo modo confrontacional por que está a passar a sociedade internacional. A reacção constitucionalista do presidente do Parlamento, o extraordinário apoio popular que recebe e a atitude dos Estados Unidos e do Brasil reconhecendo-o, mostram que o movimento iniciado em 2016 com o Brexit e a eleição de Trump está a mudar a política.

O ano de 2018 foi marcado pelo novo paradigma que está a abalar o modelo político-económico estabelecido há um quarto de século, no final da Guerra Fria; um modelo que projectava, para todo o sempre, uma democracia de mercado globalizada e globalizante coberta intelectualmente por uma cultura progressista, materialista e hiperliberal em matéria de valores e costumes.

Em 2018, o acontecimento mais significativo desta nova vaga foi a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil, contra a violenta hostilidade das forças sistémicas, dos grandes media e de parte substancial da classe artística e intelectual. Num desfecho mais uma vez “inesperado”, o candidato nacionalista e conservador quase venceu na primeira volta por maioria absoluta e derrotou, na segunda, o seu opositor com o “voto útil” que lhe faltava.

Em Itália, há um governo de direita nacional e identitária, coligado com populistas de esquerda. Na Mitteleuropa – Polónia, Hungria, Áustria, República Checa, Eslováquia – há governos de partidos de direita conservadora ou de direita nacionalista que, em alguns casos, governam coligados. No resto da União Europeia, com excepção da Irlanda e de Portugal, estão a emergir partidos eurocépticos e identitários, hostis à hegemonia da esquerda e ao seu breviário, mas também com reservas ao liberalismo desenfreado e ao capitalismo selvagem.

Esta vaga nacional-identitária e popular está a alterar profundamente os modelos partidários do Continente, fixados, em grande parte, entre um centro-direita conservador ou democrata-cristão e um centro-esquerda socialista ou social-democrata. Isto depois da implosão da União Soviética ter levado à redução à expressão mais simples ou mesmo ao fim dos partidos comunistas da Europa Ocidental, com excepção do PCP português.

Ora é precisamente este modelo de alternância ao centro que tem vindo a ser posto em causa. Não por maquiavélicas conspirações antidemocráticas, inspiradas por Putin ou Bannon, mas porque os valores, os princípios e os interesses deste modelo e dos seus representantes se mostram incapazes de responder aos problemas que se colocam hoje às sociedades euroamericanas.

Entre as causas desta incapacidade de resposta, está a redução da política a uma escrava da economia e a consequente globalização desregulada, na Europa e nos Estados Unidos, que atingiu as classes trabalhadoras e que chega agora às classes médias.

A edição de Novembro-Dezembro da Foreign Affairs (uma publicação do mainstream ideológico), num artigo de Kenneth Scheve e Matthew Slaugher, “How to save Globalization”, enuncia, com algum pormenor, as raízes económico-sociais da nova corrente antiglobalização nos Estados Unidos, destacando a baixa dos salários reais dos trabalhadores e dos quadros médios e a subida em flexa dos vencimentos e prémios dos altos executivos nas últimas décadas. Assim, numa sociedade de tradição igualitária e meritocrática, o salário dos “de cima” é, em média, 330 vezes superior ao dos “de baixo”; há dez anos era 300 vezes superior e há trinta não chegava a 50. As mudanças tecnológicas e as deslocalizações rápidas das empresas estão na base destas desigualdades. Numa sociedade que, desde o fim da Grande Depressão, se habituara a que os filhos viessem a viver melhor do que os pais, este agravamento da disparidade tem profundas implicações na saúde física e mental dos trabalhadores.

As “doenças do desespero” e do desemprego ou subemprego – suicídios, overdoses, alcoolismo – matam muitos destes marginalizados do mercado de trabalho (especialmente brancos não-hispânicos sem estudos superiores); ao mesmo tempo, aceleraram-se as desigualdades de nível de vida entre as grandes metrópoles e as comunidades mais pequenas. Foram, sobretudo, estes “brancos zangados” dos decadentes Estados industriais do Nordeste, do chamado Rust Belt, que deram a vitória a Trump em 2016 e com isso começaram a mudar o rumo da História do século XXI.

Trump, Bolsonaro, Salvini, Orbán sendo, por um lado, consequência de coligações negativas – anti-Hillary, anti-PT, anti-sistema -, são também sinal de um redescobrimento de valores orgânicos e identitários que ressurgem como alternativa ao fracasso dos valores individualistas e globalistas-humanitários. Vêm contradizer a filosofia do fim da História pós Guerra Fria, que proclamava a construção de uma ordem mundial apresentada como ideologicamente neutra e definitiva, uma ordem democrática e capitalista, governada pela “mão invisível” dos tratadistas de Manchester e por uma reedição do iluminismo mundializante dos filósofos franceses, acolitada por um ala de progressismo radical e relativismo absoluto.

Esta ala, que ganhou uma hegemonia artificial graças a minorias de controlo na Academia e nos media, impõe ou quer impôr a sua agenda minoritária através da legislação em matérias não-económicas, que as “direitas” do sistema secundarizam e por isso lhe entregam de mão-beijada. Perante a inércia dos “moderados”, estas políticas – como as da ideologia de género e as políticas anti-família – desencadeiam reacções também radicais de grupos religiosos identitários, como os Evangélicos – decisivos, por exemplo, para as vitórias de Trump e Bolsonaro. O tempo é agora de bipolarização, sem grande espaço para terceiras vias.

O que é interessante e parece perturbar o sistema é que estas mudanças vêm dos votos dos eleitores, do povo, e não de uma conspiração reaccionária, de um golpe militar, das manobras de uma elite qualquer. É um despertar, uma frente comum, que começou por definir-se pela negativa mas que, a pouco e pouco, vai encontrando valores alternativos.

O próximo teste vão ser as Europeias, em Maio.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os tabuleiros de jogo da extrema-direita

O presente artigo visa, em continuação dos anteriores, alertar para alguns tabuleiros em que a extrema-direita nos “países ocidentais” (curioso o renascimento do conceito) vem procurando jogar, e discutir em que medida eles são utilizáveis em Portugal.

Numa breve enumeração vemos o questionar da legitimidade do sistema político (em relação ao nosso país já falei dos coletes cinzentos e das justificações que avançam para a introdução do sistema uninominal nas eleições para a Assembleia da República, mas está aí também de novo a questão do número de deputados), o nacionalismo e o orgulho nacional ou nacional-religioso, a insegurança, e, por si só, ou em conjugação com os já referidos, o ódio: o ódio aos costumes “desviantes”, o ódio racial ou aos estrangeiros, o ódio aos muçulmanos… potenciados estes ódios pelo medo e, por vezes, pela inveja.

Estas plataformas têm sido geralmente denunciadas como oportunistas – os que agitam estes temas não acreditarão verdadeiramente no que veiculam, mas utilizam-nos para tentar alcançar / reforçar o seu poder – e apenas em alguns casos (mas estes não devem ser menosprezados[i]) colocam na agenda o bloqueio de conquistas sociais, que esteve subjacente na altura de forma mais generalizada à onda de fascismos nos anos 1920 e 1930, ou a retirada das existentes[ii].

Os argumentos em favor de “restaurar a grandeza” de alguns dos países ocidentais parecem relevar do wishful thinking, como no caso do Brexit. Não abordarei aqui a questão dos movimentos de extrema-direita nos países árabes e em geral no mundo muçulmano (é assim que devem ser vistos a Al Queda e o Daesh), no entanto assinalo que a presente agitação anti-muçulmana nos países europeus apenas os pode reforçar e prejudicar os esforços pacificadores da Igreja Católica e a manutenção da presença histórica de comunidades cristãs em zonas como o Médio Oriente.

Excepção portuguesa?

A última grande pulsão nacionalista em Portugal, aliás canalizada pela propaganda republicana, esteve ligada à expansão colonial e ao Ultimato britânico. Com a descolonização, é pouco provável que o levantar “hoje de novo o esplendor de Portugal” e o marchar “contra os bretões”[iii] ainda que o hino fosse todas as manhãs cantado em todas as escolas e acompanhado do hastear da bandeira, venham a ser inspiradores de qualquer novo movimento. Valha-nos o futebol onde é invariavelmente entoado. No plano estritamente político, Portugal foi integrado na Europa para garantir a democracia, ou pelo menos, uma certa forma de democracia, e para beneficiar dos fundos estruturais, e a direita