Europa

Joseph Stiglitz: O euro pode ser salvo?

O euro poderá estar à beira de uma nova crise. A Itália, a terceira maior economia da zona euro, escolheu o que pode ser descrito como, na melhor das hipóteses, um governo eurocético. Isto não deveria surpreender ninguém.

Joseph Stiglitz:

A reação negativa da Itália é um outro episódio previsível (e previsto) na longa saga de um acordo monetário deficientemente concebido, no qual a potência dominante, a Alemanha, entrava com as reformas necessárias e insiste em políticas que agravam os problemas inerentes, usando uma retórica aparentemente destinada a excitar os ânimos.

A Itália tem tido um fraco desempenho desde o lançamento do euro. O seu PIB real (ajustado pela inflação) em 2016 foi idêntico ao que era em 2001. Mas a zona euro, na sua totalidade, também não tem tido um bom desempenho. Entre 2008 e 2016, o seu PIB real aumentou apenas 3% no total. Em 2000, um ano depois da introdução do euro, a economia dos EUA era apenas 13% maior do que a zona euro; em 2016 era 26% maior. Depois de um crescimento real de cerca de 2,4% em 2017 – insuficiente para reverter os danos de uma década de mal-estar – a economia da zona euro está novamente a vacilar.

Se um país tem problemas, a culpa é do país; se muitos países têm problemas, a culpa é do sistema. E tal como explico no meu livro O Euro: Como uma moeda comum ameaça o futuro da Europa, o euro era um sistema quase concebido para falhar. Retirou aos governos os seus principais mecanismos de ajuste (as taxas de juro e de câmbio); e, em vez de criar novas instituições que ajudassem os países a ultrapassar as várias situações em que hoje se encontram, impôs novas restrições – frequentemente baseadas em teorias econômicas e políticas desacreditadas – sobre os déficits, a dívida, e mesmo sobre políticas estruturais.

Supunha-se que o euro traria uma prosperidade partilhada, que melhoraria a solidariedade e promoveria o objetivo da integração Europeia. Com efeito, fez exatamente o contrário, ao retardar o crescimento e semear a discórdia.

O problema não está na falta de ideias para avançar. O presidente francês Emmanuel Macron, em dois discursos, na Sorbonne no passado mês de Setembro, e quando recebeu o Prémio Carlos Magno para a Unidade Europeia em Maio, defendeu uma visão clara para o futuro da Europa. Mas a chanceler alemã Angela Merkel acabou por lançar um balde de água fria sobre as suas propostas, sugerindo, por exemplo, quantias risivelmente reduzidas para investimento em áreas que dele necessitam urgentemente.

No meu livro, realcei a necessidade urgente de um modelo de seguros de depósitos, para evitar as corridas contra os sistemas bancários dos países mais fracos. A Alemanha parece reconhecer a importância de uma união bancária para o funcionamento da moeda única mas, tal com Santo Agostinho, a sua resposta tem sido “Senhor, dai-me a pureza, mas não agora”. A união bancária é aparentemente uma reforma a realizar algures no futuro, independentemente dos problemas que ocorram no presente.

O problema central de uma zona monetária reside na correção dos desajustamentos de taxas de câmbio, como o que afeta hoje a Itália. A resposta da Alemanha consiste em colocar o fardo sobre os países mais fracos, que já sofrem com o elevado desemprego e as baixas taxas de crescimento. Sabemos onde é que isto vai levar: mais dor, mais sofrimento, mais desemprego, e um crescimento ainda mais lento. Mesmo que o crescimento acabe por recuperar, o PIB nunca chegará ao nível que poderia atingir se tivesse sido prosseguida uma estratégia mais sensata. A alternativa consiste em transferir uma maior parte do fardo do ajustamento para os países mais fortes, e em programas de investimento governamental que apoiem salários mais elevados e uma procura mais dinâmica.

Já assistimos muitas vezes ao primeiro e segundo atos desta peça. É eleito um novo governo, que promete um melhor desempenho nas negociações com os alemães, para acabar com a austeridade e conceber um programa de reformas estruturais mais razoável. Se os alemães fizerem alguma concessão, não será suficiente para alterar a orientação da economia. O sentimento anti-alemão aumenta, e qualquer governo que sugira as reformas necessárias, independentemente de ser de centro-esquerda ou de centro-direita, é expulso do poder. Os partidos anti-sistema ganham terreno. E surge o impasse.

Por toda a zona euro, os líderes políticos estão entrando num estado de paralisia: os cidadãos querem permanecer na UE, mas também querem o fim da austeridade e o retorno da prosperidade. Dizem-lhes que não podem ter as duas coisas. Sempre na esperança de uma mudança de opinião no norte da Europa, os governos em apuros mantém a sua rota, e o sofrimento dos seus povos aumenta.

O governo do primeiro-ministro português António Costa, liderado pelos socialistas, é a exceção a este padrão. Costa conseguiu conduzir o seu país de volta ao crescimento (2,7% em 2017) e alcançar um elevado grau de popularidade (44% dos portugueses consideraram em abril de 2018 que o desempenho do governo estava acima das expectativas).

A Itália poderá vir a ser uma outra exceção – embora de um modo muito diferente. Aí, o sentimento anti-euro está presente tanto à esquerda como à direita. Com o seu partido de extrema-direita, a Liga, agora no poder, Matteo Salvini, líder do partido e político experiente, poderá levar a cabo os tipos de ameaças que neófitos de outras paragens recearam implementar. A Itália é suficientemente grande, e com suficientes economistas bons e criativos, para conseguir um afastamento de fato – implementando efetivamente uma moeda dual flexível que ajudasse a restaurar a prosperidade. Isto violaria as regras do euro, mas o fardo de um afastamento de jure, com todas as suas consequências, seria transferido para Bruxelas e Frankfurt, e a Itália contaria com a paralisia da UE para evitar a ruptura final. Independentemente do resultado, a zona euro ficaria desfeita.

Não precisaríamos de chegar a esse ponto. A Alemanha e outros países da Europa do norte podem salvar o euro, se demonstrarem mais humanidade e mais flexibilidade. Mas tendo assistido tantas vezes aos primeiros atos desta peça, não conto com eles para uma mudança de enredo.

Por Joseph Stiglitz | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Project Syndicate)/ Tornado

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Temos o novo governo! Do Prof. Savona à ministra Trenta, dos “imigrantes” aos ataques de Oettinger, Juncker e Soros

A realidade italiana – como a qualquer outro país - nem pode ser reduzida a estereótipos nem a análises esquemáticas. Tão significativo como o conhecimento das forças políticas que o constituem (e das razões do seu sucesso eleitoral) é identificar as vozes que se levantam contra ele, da burocracia da UE a George Soros. Maior do que o risco de um poder autoritário, racista e fascista, é o risco de seguir o caminho dos governos anteriores, de submissão ao euro, aos EUA e à NATO.

Depois da surpresa do bloqueio do Presidente Mattarella à primeira tentativa de Governo 5Stelle-Lega, bloqueio certamente arbitrário e forçado, não justificado por qualquer regra constitucional, como um artigo do amigo “Piotr” (1) lucidamente analisou;
- depois de o dirigente Di Maio do 5Stelle ter ameaçado processar o Presidente;
- depois de entre ambos os contendores ter sido dado um passo atrás, e o Prof. Savona (alegado eurocéptico, que tinha sido o foco do escândalo no decurso da tentativa anterior) ter sido transferido do Ministério da Economia para o das Relações com a Europa (“se não é pão na sopa são sopas de pão”);
- depois da ridícula encenação da tentativa de formar um governo com Cottarelli à frente (perito notório em “spending review” e nos cortes de fundos);
temos finalmente um governo que coloca nos postos de comando novos homens e mulheres.

Perante o surgimento deste Governo (apoiado – é necessário recordá-lo – por uma maioria de candidatos eleitos) verifica-se no campo da ex-esquerda e dos grupos que ainda se autodefinem como de esquerda uma reacção de medo difuso (verdadeira ou instrumental) pela retoma da direita e do fascismo. Aparecem – todavia – como absolutamente instrumentais e ridículas as manifestações a favor da Constituição por parte do PD, precisamente daquele PD de Renzi que ainda há poucos meses queria mudar a Constituição, tentativa ruidosamente rejeitada no referendo de 4 de Dezembro de 2016.

Na realidade, a formação do novo Governo respeita, ainda que de forma ambígua, a vontade de mudança de grande parte dos italianos (operários, desempregados, pequena e média burguesia empobrecida pela crise), vontade que a ex-esquerda tornada conservadora, filo-UE e filo-NATO não soube interpretar, enquanto os grupelhos de “extrema-esquerda” não fizeram mais do que repetir palavras de ordem desprovidas de análise lúcida.

Foram significativos os ataques a Savona pelas suas passadas críticas ao Euro e às sufocantes regras europeias, ataques inacreditáveis proferidos por burocratas europeus como Oettinger e Juncker (“os mercados irão ensinar aos italianos como votar” e “italianos, trabalhem em vez de se lastimarem”). Outras críticas foram as que se voltaram para a nova Ministra da Defesa Elisabetta Trenta por ter participado (vejam bem o escândalo) num mestrado em Moscovo onde estavam presentes “figuras destacadas russas favoráveis a Putin”. A mesma neo-Ministra proferiu (outro escândalo!) declarações sobre a Líbia em que defendeu as posições dos “laicos” representados no Parlamento de Tobruk e do general Haftar, e as do Egipto em seu apoio, augurando uma aliança com os “laicos” de Trípoli com exclusão dos “Irmãos Muçulmanos” e dos milicianos jihadistas.

Mesmo as críticas dirigidas à Lei Fornero e ao Jobs Act por parte de figuras destacadas do novo Governo não são de desvalorizar. Por seu lado a “flat tax”, que se opõe ao princípio da progressividade dos impostos, é decididamente de direita, ainda que seja necessário ver como vai ser concretamente aplicada.
Finalmente, um grande equívoco da “esquerda” é o do problema dos “imigrantes”, sobre o qual será necessária uma ampla e franca discussão sem preconceitos. Se “à esquerda” o problema é visto como essencialmente “humanitário” e de “anti-racismo”, na base da obsessiva propaganda neste sentido por parte das bem financiadas ONG “sorosianas” que se dedicam ao salvamento dos “imigrantes”, de um outro ponto de vista o fenómeno pode ser encarado como o novo gigantesco “comércio de escravos” destinado a fornecer carne fresca ao capitalismo ocidental e a rebaixar os direitos e os salários dos trabalhadores da metrópole. É significativa uma entrevista que fiz pessoalmente a uma neo-deputada progressista libanesa (publicada no Antidiplomatico), que denunciava o encorajamento aos fugitivos no sentido de abandonarem a Síria, encaminhando-os para um futuro incerto, como um ataque directo à estabilidade do país. Idêntico discurso pode ser feito em relação à Líbia e outros países africanos destruídos e depauperados da sua própria população – que teria podido encontrar melhores soluções de vida no seu próprio país se este fosse deixado livre de progredir e expandir-se economicamente – e também dos refugiados da Europa de Leste devastada pelas guerras e pelo neocapitalismo. As forças que se definem como “de esquerda” deveriam reflectir mais lucidamente sobre estes e outros problemas, de modo a evitar que as soluções sejam as indicadas pelos partidos populistas, com os correspondentes e consequentes sucessos eleitorais.

Se existe um perigo na acção do novo governo não reside tanto numa tentativa de tipo autoritário, racista e fascista, mas antes – depois de tantas retumbantes declarações sobre a “mudança” – na conformação oportunista em defesa dos lugares e das situações de poder, assumindo compromissos sobre Euro, UE, EUA, NATO, seguindo o exemplo dos governos anteriores, de D’Alema a Monti, de Berlusconi a Renzi e Gentiloni.

Finalmente, e quando estava já a acabar este artigo, tomo conhecimento que o conhecido financeiro intriguista e sionista George Soros, grande financiador de “revoluções coloridas” e manipulador de ONG pseudo-humanitárias, atacou directa e violentamente Salvini no congresso de Trento sobre a economia, acusando-o de receber financiamento de Putin. Essa inacreditável intervenção em pé de guerra do financeiro golpista, falso “liberal” humanitário, confirma que o que está em jogo em Itália e no mundo é muito mais complexo do que aquilo que a ex. “esquerda ingénua” gostaria de fazer crer.

Notas:

1- http://megachip.globalist.it/politica-e-beni-comuni/articolo/2018/05/29/la-sozzeria-di-stato-2025139.html

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Europeus cada vez gostam menos da Europa

Só 39% dos Italianos consideram que ser membro da União Europeia é “una cosa buona”…

Na Grécia são 45%, no Reino Unidos 47% e em Portugal 65%.

Número a merecer muita reflexão é o da França, país nuclear (duplamente…) desta UE mas em que apenas 55% da população (ainda…) a considera “uma coisa boa”…

Na Alemanha, claro, a coisa é inversa: 79% gostam desta Europa germanizada.

Exclusivo Tornado / IntelNomics
 

Ver artigo original em "O TORNADO"

Putin defende aproximação com União Europeia

Presidente russo nega desejo de desestabilizar bloco europeu e pede fortalecimento dos laços entre Moscou e Bruxelas. "Quanto mais problemas houver na UE, maiores serão os riscos e as incertezas para nós", diz.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, defendeu uma maior cooperação entre o governo russo e a União Europeia (UE). Segundo Putin, Moscou não busca a desestabilização do bloco comunitário europeu – apesar de se aproximar de partidos críticos da UE.
"Não estamos perseguindo o objetivo de dividir algo ou alguém na UE", disse Putin em entrevista à emissora estatal austríaca Österreichischer Rundfunk (ORF), um dia antes de visitar Viena.
Em vez disso, é de interesse da liderança russa "que a União Europeia esteja unida e floresça". "A UE é nosso parceiro comercial e econômico mais importante", justificou o presidente russo.
Segundo ele, quaisquer contatos de nível partidário com movimentos nacionalistas e eurocéticos não visam desestabilizar o bloco. "Pelo contrário, precisamos fortalecer a cooperação com a UE", disse Putin. "Quanto mais problemas houver na UE, maiores serão os riscos e as incertezas para nós."
A cooperação entre a legenda Rússia Unida – partido do qual foi fundador – e partidos de direita, como a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), é decidida de forma pragmática.
Putin afirmou que a Rússia Unida também gostaria de estabelecer contatos com outras forças políticas. "Tentamos cooperar com aqueles que expressam publicamente o desejo de trabalhar conosco", disse.
Putin é aguardado nesta terça-feira (05/06) para uma visita de um dia à Áustria. É a primeira visita de Putin a um país da União Europeia desde a sua reeleição como presidente russo em março. O homem mais poderoso da Rússia e líderes do Estado e do governo austríaco, entre eles o chanceler federal Sebastian Kurz, pretendem dialogar sobre a crise na Ucrânia, sanções econômicas e a situação política global.
Putin enalteceu os bons contatos com a Áustria, que faz parte da União Europeia, mas não da Otan. "Apesar de todas as dificuldades, o diálogo não foi interrompido nos últimos anos", disse.
PV/dpa/rtr | Deutsche Welle

Ver o original em 'Página Global': http://paginaglobal.blogspot.com/2018/06/putin-defende-aproximacao-com-uniao.html

Geopolítica de petróleo e gás: Aproxima-se uma tempestade de petróleo

Rússia, sauditas e Irão têm todas as cartas
“Chevron e Exxon Mobil têm participação na petroleira em Tengiz; Exxon, em Kashagan; e Chevron, em Karachaganak, todas no Cazaquistão. (…) OK. Agora, então, imaginem que Washington resolva que Chevron e Exxon Mobil não podem continuar a fazer negócios com empresas russas ‘sancionadas’…”
Pepe Escobar, Asia Times (de Doha) in Russia Insider*
Rússia e Arábia Saudita estão em debate profundo sobre aumentar a produção de petróleo OPEP e não OPEP em 1 milhão de barris/dia para compensar a queda drástica na produção na Venezuela além de possíveis reduções depois que as novas sanções dos EUA contra o Irã entrarem em vigência em novembro.
O problema é que nem esse aumento pensado na produção bastará, segundo o Credit Suisse; apenas 500 mil barris/dia seriam acrescentados ao mercado global.
O petróleo já alcançou $80 o barril – de que não se ouve falar desde 2014. O aumento da produção poderia certamente alterar a tendência. Ao mesmo tempo, fornecedores chaves manteriam o cru nos mercados futuros em $70-$80 o barril. Mas o preço poderia chegar até a $100 antes do fim do ano, dependendo do impacto que tenham as sanções norte-americanas.
Corretores de petróleo no Golfo Persa disseram a Asia Times que o preço atual do petróleo seria “muito mais alto hoje, se os estados do Golfo cumprissem o papel que sempre tiveram, de reduzir a produção” – para 10% ou 15% ou 20% da oferta da OPEP. Segundo um trader de Abu Dhabi, “os atuais cortes da OPEP só atingem 1,8 milhões de barris por dia, o que é ridículo e indica que os EUA ainda estão pressionando para manter baixo o preço.”
Um acordo russo-saudita poderia com certeza virar a mesa.
E há também a questão adicional da redução da oferta da OPEP. Há um consenso entre os traders de que “o corte a ser substituído é de cerca de 8% do suprimento total, que dá aproximadamente 8 milhões de barris/dia/ano. Grande parte disso foi alcançado na extração pré-2014, mas nos próximos quatro anos a extração cairá consideravelmente, colapso estimado em 50%.”
Implica dizer que a única regra é a incerteza. Como se não bastasse, a Société Générale previu que as sanções dos EUA podem tirar do mercado global até 500 mil barris/dia de cru iraniano.
E isso nos leva ao assunto realmente importante no futuro de curto prazo, que surgiu de análises que Asia Times cruzou, de traders do Golfo Persa e de diplomatas na União Europeia: à parte as questões técnicas, a questão é como os mercados de petróleo e energia são hoje reféns da pressão geopolítica.
Os EUA estão em posição relativamente confortável. A produção de petróleo alcançou 10,7 milhões de barris/dia – o suficiente para as necessidades domésticas. E a produção do petróleo de xisto deve chegar no próximo mês à produção recorde de 7,18 milhões de barris/dia, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA.
Os EUA importam apenas 3,7 milhões de barris/dia – três milhões dos quais, do Canadá. Como traders no Golfo Persa confirmaram, os EUA “importam óleo pesado e exportam óleo leve. Em três anos, o país estará essencialmente totalmente independente.”
Sancionar ou morrer
Mais uma vez, o coração da matéria tem a ver com o petrodólar. Depois que o governo Trump separou-se unilateralmente do acordo nuclear iraniano (Plano Amplo Conjunto de Ação, ing. Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA), diplomatas da União Europeia em Bruxelas admitem off the record e ainda em choque, que erraram muito gravemente ao “não configurar a Eurozona como área distinta e separada da hegemonia do dólar”. Agora podem ter de pagar o alto preço da própria impotência, cedendo o comércio com o Irã, tornado “ilegal”.
A União Europeia – pelo menos na retórica – quer agora pagar em euros pelo petróleo iraniano. Acrescente-se a isso o ultimatum que o governo Trump fez à chanceler Merkel: desista do gasoduto Ramo Norte II a partir da Rússia, ou os EUA aplicarão tarifas extras sobre o aço e o alumínio –, isso, para que se possa avaliar o ponto de ignição do qual se aproximam hoje as relações EUA-UE.
Essa matéria do Deutsche Bank Research tem o mérito de destacar as vantagens do gasoduto Ramo Norte II. E toca num dos nervos, quando destaca que “os fluxos de gás russo que atravessam a Ucrânia parecem instalados para se manterem depois de 2019, quando expirarem os velhos contratos”. E isso “pode promover a aceitação do Ramo Norte II”.
Mas essa não é a história completa.
Diplomatas da União Europeia temem que “os EUA possam estrangular o Irã, bloqueando o acesso dos iranianos aos sistemas SWIFT e CHIPS [dois sistemas de compensações bancárias internacionais], o que impedirá que façam as compensações do que recebam, além de também estrangular o Irã com sanções.”
Simultaneamente, no Golfo Persa não é segredo entre os traders que mais cedo ou mais tarde todos terão de enfrentar a realidade de que o Irã, se atacado pelos EUA, “tem poder para derrubar as economias ocidentais, se destruir 20% da produção de petróleo no Oriente Médio. E a Rússia também tem esse poder.
A Rússia é amplamente autossuficiente para atender as próprias necessidades. Pode ganhar dessa vez – como batalha econômica, em vez de batalha militar”.
Os EUA parecem estar ampliando a proverbial “oferta que ninguém pode recusar” também à União Europeia: uma entrega furtiva, garantida, de Gás Natural Liquefeito (GNL), na eventualidade (pouco provável) de corte do fornecimento de gás natural russo para a União Europeia.
Para começar, a Gazprom russa não tem qualquer intenção de deixar vedar seu extremamente lucrativo mercado europeu. Além disso, essa suposta capacidade dos EUA para fornecer GNL “ainda não existe nos EUA. Os EUA não podem substituir o petróleo ou o gás russos para a União Europeia” – disseram os traders –, ainda que “o petróleo russo fornecido à UE tenha diminuído 40%, ao tempo em que as exportações de petróleo russo para a China cresceram 30%.”
Indiferente à realidade objetiva, o EUA-Capitólio, servindo-se da lei CAATSA, Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act [“lei das sanções”], prepara-se para atacar os setores russos de defesa e energia com sanções secundárias (que se aplicam a nações que negociem com Moscou) devastadoras.
E esse movimento de aprofundar as sanções sobre o Irã e sobre a Rússia, sem dúvida terá repercussões imensas não só na Europa, mas em toda a Ásia Central.
Problemas no Cazaquistão
Considerem-se os três principais projetos de energia do Cazaquistão: Tengiz, Kashagan e Karachaganak. A maior parte das exportações de cru do Cazaquistão corre pelos 1.500 km do oleoduto Caspian Pipeline Consortium, CPC – que pertence em parte a Moscou (Transneft é proprietária de 24%, contra 15% da Chevron e 7,5% da Exxon Mobil).
A expansão dos dois projetos, Tengiz e Kashagan, que bombeia cerca de 950 mil barris/dia para a costa russa do Mar Negro, depende de rotas russas de trânsito.
Os 250 mil barris/dia de condensado de Karachaganak seguem Caspian Pipeline Consortium, CPC, e quase 18 bilhões de metros cúbicos de gás ao ano vão para a Rússia e são comercializados pela Gazprom.
Chevron e Exxon Mobil têm participação em Tengiz; Exxon, em Kashagan; e Chevron, em Karachaganak.
Executivos de petróleo e gás russos foram apanhados na rede das sanções dos EUA. A Transneft está sob sanções desde 2014. OK. Agora, então, imaginem que Washington resolva que Chevron e Exxon Mobil não podem continuar a fazer negócios com empresas russas…
Acrescente-se a tudo isso a reação da Rússia. Recente legislação aprovada na Rússia criminaliza empresas russas que aceitem sanções dos EUA – e ainda é possível retaliar também com proibição de empresas norte-americanas trabalharem na construção de infraestrutura na Rússia.
Traders no Golfo Persa dizem que, se a Rússia finalmente se convencer a “redirecionar sua oferta de petróleo e gás natural para a China, e a União Europeia ficar totalmente exposta ao Oriente Médio para receber petróleo extraído de/por estados do Golfo, todos gravemente instáveis, toda a Europa pode a qualquer momento ver-se em colapso, no sentido econômico, no caso de corte na produção de um ou outro estado do Golfo.”
A opção nuclear
Com isso somos lançados no coração do jogo geopolítico, como já admitem, jamais on the record, especialistas em Bruxelas: a União Europeia tem de reavaliar sua aliança estratégica com EUA essencialmente independentes em termos energéticos. “Estamos arriscando todos os nossos recursos de energia naquelas análises geopolíticas à Halford Mackinder, de que eles têm de conseguir separar Rússia e China.”
É referência direta ao falecido epígono de Mackinder, Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski, que morreu sonhando com conseguir pôr a China contra a Rússia.
Em Bruxelas, há crescente percepção de que a pressão dos EUA contra Irã, Rússia e China é efeito do medo geopolítico de que toda a massa continental eurasiana, organizada como super bloco comercial via a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), a União Econômica Eurasiana (UEE), a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (BAII) está escapando da influência de Washington.
Essa análise[1] aproxima-se muito de como os três nodos chaves da integração da Eurásia no século21 – Rússia, China e Irã – identificaram a questão chave: ambas as moedas, o euro e o yuan têm afastar-se do petrodólar; o meio ideal, como os chineses destacam, para “pôr fim à oscilação entre ciclos de dólar forte e ciclos de dólar fraco, que são tão lucrativos para instituições financeiras norte-americanas, mas letais para mercados emergentes.”
E é por isso que os mercados de petróleo futuro de Xangai estão passando por tamanha mudança, já aprofundando o mercado de papéis soberanos da China. Traders do Golfo Persa manifestam forte interesse em como os traders asiáticos lucram do fato de o petroyuan ter lastro ouro (pode ser resgatado em ouro). O petróleo iraniano vendido em Xangai também expandirá esse processo.
Tampouco é segredo entre os traders do Golfo Persa que no caso – esperemos que nunca aconteça – de uma guerra Israel-sauditas-EUA no sudoeste da Ásia, contra o Irã, um cenário de guerra a favor do qual o Pentágono jogará seria “destruir os poços de petróleo nos países do Conselho de Cooperação do Golfo. O Estreito de Ormuz nem precisaria ser bloqueado, porque destruir os poços de petróleo teria efeito muitas vezes mais eficaz.”
E o que a possível perda de mais de 20% do suprimento mundial de petróleo pode significar é apavorante: a implosão, de consequências inimagináveis, da pirâmide de quatrilhão de derivativos e, consequentemente, da superestrutura de todo o cassino financeiro ocidental.
Podem chamar de reação em cadeia de uma arma nuclear financeira de destruição em massa. Comparada a isso, a crise financeira de 2008 não passaria de passeio num parque de preservação ecológica.
*Em Oriente Mídia | Traduzido por Vila Vudu
* “A storm IS coming” [Vem aí uma tempestade] – RI deu título muito pertinente ao meu mais recente mergulho na matrix de petróleo e gás. E está muito próxima, It’s just a shot away [aprox. “à distância de um tiro/de um beijo”, by The Rolling Stones]” (Pepe Escobar, pelo Facebook).

[1] “De tanto que distribuem sanções pelo mundo, EUA inadvertidamente firmam e confirmam o multipolarismo”, 28/5/2018, Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation(traduzido em Blog do Alok [NTs]).

Ver o original em 'Página Global':  http://paginaglobal.blogspot.com/2018/06/geopolitica-de-petroleo-e-gas-aproxima.html

Merkel afasta perdão de dívida a Itália. E defende Fundo Monetário Europeu

Chanceler alemã diz que a solidariedade na Zona Euro passa por ajudar os outros países a ajudarem-se a si mesmo, afastando qualquer perdão de dívida. Apoia a criação do Fundo Monetário Europeu.
Achanceler alemã afastou qualquer perdão de dívida a Itália, argumentando que o princípio da solidariedade entre os Estados membros da Zona Euro não deve passar pela transformação do bloco da moeda única numa união de partilha da dívida. Angela Merkel defendeu ainda a criação do Fundo Monetário Europeu, como propôs o Presidente francês.
“A solidariedade entre os parceiros do euro nunca deve levar a uma união da dívida, deve ser antes sobre ajudarmos os outros a ajudarem-se a si mesmo”, referiu Merkel numa entrevista ao Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, citada pela agência Reuters, depois de questionada sobre os planos do Movimento 5 Estrela e da Liga Norte de pedir ao Banco Central Europeu (BCE) um perdão de dívida no valor de 250 mil milhões de euros.
“Irei abordar o novo Governo italiano de forma aberta e irei trabalhar com eles em vez de fazer especulações sobre as suas intenções”, disse ainda a governante alemã.
Na mesma entrevista, Merkel disse apoiar a ideia de transformar o fundo de resgate europeu no novo Fundo Monetário Europeu, com poderes para dar aos países membros em situação problemática linhas de crédito. O Presidente francês, Emmanuel Macron, já tinha defendido esta ideia, com o Fundo Monetário Europeu a funcionar como uma espécie de almofada para futuras crises na Zona Euro.
“Se toda a Zona Euro está em perigo, o Fundo Monetário Europeu deve ser capaz de assegurar crédito de longo prazo para ajudar os países. Esses empréstimos poderiam ser até 30 anos, com a condição de o país implementar haver reformas estruturais”, sublinhou.
“Além disso, posso imaginar a possibilidade de uma linha de crédito que seja de curto prazo, cinco anos por exemplo. Dessa forma seríamos capazes de colocar debaixo da nossa asa países que atravessem dificuldades devido a circunstâncias extraordinárias”, acrescentou.
ECO – Economia Online

Ver o original em 'Página Global': http://paginaglobal.blogspot.com/2018/06/merkel-afasta-perdao-de-divida-italia-e.html

Guerra Económica Euro-Americana

Gosta de beber “bourbon” do Kentucky, de vestir uns jeans Levi’s e de andar de Harley? Então, apresse-se, é que o eixo Bruxelas/Berlim está a pensar lançar pesadas taxas alfandegárias sobre estes produtos americanos. Parece que será a resposta “europeia” às medidas de Trump sobre o aço e o alumínio…

Os pornográficos excedentes comerciais da Alemanha são a razão de ser deste conflito. Trump acha que os USA, que pagam também a defesa da Alemanha, alimentam os cofres de Berlim com esta relação comercial desequilibrada a favor da Alemanha. Portanto, conclui Trump, está na altura de equilibrar as coisas e as contas. Como as conversas não levaram a lado nenhum, resta aos USA tomar “medidas”. Ou seja, nesta guerra económica euro-americana é a Alemanha quem mais tem a perder e quem é realmente visada por Trump.

O “joker” luxemburguês de Merkel em Bruxelas, o inefável senhor Junker, apressou-se a declarar que «L’Union européenne ne peut pas rester sans réagir. Ce qu’ils (les États-Unis) peuvent faire, nous sommes capables de faire exactement la même chose». Provavelmente, esta esclarecida declaração do eurocrata máximo foi proferida depois do almoço…

Merkel veio também a terreiro e fez saber que vai “analisar em detalhe a decisão americana” e que a UE responderá com “as contra-medidas apropriadas”. A resposta ao “America First” será, acrescentou Merkel, “a Europa unida” (o “unida atrás da Alemanha” está implícito e, por isso, não foi necessário que Merkel o verbalizasse). A resposta de Trump a este ballet verbal foi fazer saber que pode considerar uma taxa de 25% sobre Mercedes e BMW…

Curiosamente, Macron (que diz serem os excedentes comerciais da Alemanha um dos grandes problemas da Europa…) adoptou, neste caso, uma postura mais radical que a alemã e mandou dizer que as medidas americanas eram “ilegais” e que «La France et l’Allemagne continueront de travailler de façon étroite et coordonnée sur le sujet».

Do leitor, não sei qual será a decisão, mas eu vou já comprar três pares de Levi’s 501, antes que a coisa dê para o torto.

Exclusivo Tornado / IntelNomics

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        •05/06/2020
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