Ética

Mercadão: um desempenho excepcional no e-commerce português

 

Com a procura a multiplicar por 7, o Mercadão manteve a liderança na sua categoria pelo nono mês consecutivo

Num contexto em que, como recentemente o Portal da Queixa comunicou, a procura por comércio eletrónico provocou um grande aumento nas reclamações feitas no Portal por esta modalidade de comércio, o Mercadão teve um desempenho excepcional, mantendo-se como Marca do Mês pelo nono mês consecutivo em Maio, conforme noticiado pelo mesmo Portal da Queixa (https://portaldaqueixa.com/news/mercadao-lider-em-satisfacao-ha-9-meses-consecutivos-no-portal-da-queixa).

O marketplace, que surgiu em 2018 como pioneiro, com entregas em 2 horas do Pingo Doce e outras retalhistas (Body Shop, Science4You, Lev, de entre outras), viu as suas vendas multiplicarem por 7x face ao período pré-pandemia e reforçou o recrutamento para fazer face ao crescimento do negócio.

O crescimento muito rápido da procura trouxe desafios: para manter a qualidade do serviço, o Mercadão investiu em formação, numa solução de e-learning para apoiar os novos shoppers, e em novos processos de higiene e segurança (distribuição de máscaras e gel desinfectante aos shoppers bem como novos procedimentos de higienização). “Este investimento foi crítico para a qualidade do serviço prestado pelo Mercadão”, afirma Gonçalo Soares da Costa, CEO do Mercadão.

Disponível em novas cidades

“Temos mais shoppers nas cidades onde já estávamos presentes e abrimos novas áreas de entrega, para chegar a cada vez mais portugueses”, refere o mesmo responsável.

Das novas áreas destacam-se Caldas da Rainha, Marinha Grande, Malveira, Leiria, Évora, Setúbal, Montijo, Barreiro, Viana do Castelo e Viseu, expansão no Algarve, desde Lagos até Tavira, e a entrada na ilha da Madeira, com operação no Funchal e Caniço.

Mais volume, mesma estratégia

Apesar do crescimento da procura, “não subimos a taxa de entrega, que continua a ser gratuita em compras acima de 100 €, sem nenhuma taxa de serviço ou urgência; é mesmo gratuito”, condições válidas mesmo para as entregas no mesmo dia, que pesam cerca de 60% do total, segundo a empresa. “A nossa estratégia está assente na qualidade do serviço e na fidelização dos nossos mais de 100.000 utilizadores, que já contavam connosco antes da crise sanitária e sabem que podem continuar a contar connosco no futuro”, afirma o responsável.

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/lifestyle/mercadao-um-desempenho-excepcional-no-e-commerce-portugues/

As notícias sobre a apetência pelo teletrabalho são bastante exageradas

A fazer fé na maioria dos títulos de notícias sobre o recente estudo da ENSP, os portugueses gostam do teletrabalho, impulsionado pela crise pandémica e adotado em diversos setores de atividade. Uma das exceções (talvez a única) é a notícia do Público, que acrescenta uma referência, nas «gordas», à dificuldade de «equilíbrio com a vida pessoal».

Está porém longe de ser esta a conclusão do estudo da ENSP e, até, do corpo das notícias com estas parangonas e que, naturalmente, reportam os seus resultados. Entre os inquiridos (um universo limitado às pessoas em teletrabalho), cerca de 63% dizem-se insatisfeitos no que respeita à conciliação do teletrabalho com a vida pessoal, 59% consideram estar a trabalhar mais horas que o habitual e 42% reconhecem não conseguir desligar do trabalho para descansar.

Nas condições de trabalho, entre outros dados, 45% não tiveram qualquer apoio ou equipamento da entidade patronal para trabalhar à distancia e 95% não contaram com nenhuma comparticipação dos gastos acrescidos em internet. Questionados sobre se, no regresso à normalidade, os inquiridos gostariam que o teletrabalho fizesse parte da sua atividade profissional, 59% respondem que apenas a tempo parcial e 22% apenas de forma esporádica. O que obriga a relativizar, evidentemente, a propalada ideia de que «os portugueses estão satisfeitos com o teletrabalho».

É claro que para os deslumbrados da inovação-porque-sim e da uberização da vida, a par dos que vêem sistematicamente as crises como um mero banquete de oportunidades, estes títulos caem como sopa no mel. Mas é por isso mesmo que importa refletir sobre todas as implicações e impactos que uma mudança desta natureza comporta, com perdas relevantes nas dimensões relacionais e de organização da vida, acautelando nomeadamente tudo o que é preciso em termos de regulamentação das condições para o teletrabalho. É que, em contrário, um «avanço» irrefletido para «novos paradigmas» será incompatível com discursos sobre a conciliação entre a vida profissional e familiar, o combate à precariedade ou o empenho em criar perspetivas de futuro para os jovens e inverter o declínio demográfico.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Apple está a seguir iPhones roubados das lojas durante os protestos nos EUA

 

Os iPhones que têm sido roubados das lojas da Apple durante os protestos contra a violência policial, nos Estados Unidos, foram desativados e estão a ser seguidos pela empresa.

 

De acordo com a revista Newsweek, as lojas da Apple, nos Estados Unidos, têm sido alvo de saques durante os protestos contra a violência policial que se têm sucedido por todo o país, na sequência da morte do afro-americano George Floyd.

Agora, nas redes sociais, começam a aparecer relatos de que os iPhones roubados foram permanentemente desativados pela empresa. No ecrã dos aparelhos, surge uma mensagem que diz que o “dispositivo foi desativado e está a ser rastreado“.

“As autoridades locais vão ser alertadas”, lê-se ainda, com a empresa a sugerir à pessoa que roubou o telefone para, “por favor, o devolver” à loja de onde foi retirado.

https://twitter.com/onlyfanobtainer/status/1266933834064572416?ref_src=twsrc%5Etfw

 

Recorde-se que os aparelhos da Apple têm uma aplicação chamada “Encontrar”que permite aos donos de dispositivos localizá-los e/ou desativá-los.

Segundo a mesma revista, alguns utilizadores sugeriram que existem maneiras de ignorar esta função de bloqueio e ativar, novamente, um dispositivo roubado. No entanto, neste caso, como se tratam de iPhones “demo”, ou seja, que estão expostos em lojas, estes métodos tradicionais provavelmente não terão êxito.

Questionada pelo jornal Público, a equipa da Apple disse que “não comenta estratégias de dissuasão de furtos em loja”.

Estas situações de vandalismo acontecem numa altura em que a gigante tecnológica tinha começado a reabrir as suas lojas, depois de estas terem encerrado devido à pandemia de covid-19. Agora, com algumas cidades ‘em chamas’, algumas voltaram a fechar.

George Floyd, de 46 anos, morreu, a 25 de maio, em Minneapolis (Minnesota), depois de um polícia lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos numa operação de detenção.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/apple-esta-seguir-iphones-roubados-328606

Facebook tentou 'enterrar' prova que rede social divide as pessoas

 
 
Nem o fundador e CEO Mark Zuckerberg procurou atuar

O The Wall Street Journal avançou com uma notícia que os executivos do Facebook tentaram esconder uma investigação interna que prova que a rede social está feita para ser polarizada e dividir os utilizadores.
 
Entre as descobertas desta investigação, o Facebook apercebeu-se em 2016 que 64% dos utilizadores se juntou a grupos extremistas depois de recomendações do algoritmo da rede social. Mesmo tendo conhecimento do estudo em questão, nem o fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg procurou atuar.

“Aprendemos muito deste 2016 e hoje não somos a mesma empresa. Construímos uma equipa robusta de integridade, fortalecemos as nossas políticas e práticas para limitar o conteúdo perigoso e usámos investigação para compreender o impacto da plataforma na sociedade para continuarmos a melhorar”, pode ler-se no comunicado da empresa.

Miguel Patinhas Dias | Notícias ao Minuto | Imagem: © Reuters

Leia em Notícias ao Minuto:

Facebook não gosta que se fale de falhas do mercado

Resposta do Facebook quando se tenta partilhar o link referido na mensagem
Tentei partilhar no Facebook este postdo Paulo Coimbra, mas veio "devolvido", com a mensagem que se pode ler na foto em cima. Devo ter feito algum gesto mal feito ou que vá contra o algoritmo. Mas que tem muita piada, tem. Teria muita piada se não fosse um assunto demasiado sério. As falhas do mercado são demasiado graves para serem deixadas ao seu critério: desigualdades agravadas, desregulação financeira, desarticulação do Estado como instrumento regulador e equilibrador na repartição do rendimento e na provisão universal de direitos, empobrecimento geral, alterações climáticas com risco de colocar em perigo o próprio planeta. Porque se trata, na verdade, de falhas do sistema.  Foram demasiados anos de desvario. Diria a seguir uma palavra, se ela não fosse o nome do verdadeiro contrasenso nacional, já que representa a ponta de lança moderna dos interesses mais desbragados do neoliberalismo, como forma de manter esses interesses no centro do poder.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O mundo não quer uma guerra fria digital

A falha de Donald Trump em conseguir apoio internacional para apoiar sua guerra contra a companhia chinesa Huawei mostra o enfraquecimento da hegemonia dos Estados Unidos. Coerção não vai ser suficiente para Washington seguir o seu caminho.

 

 

por Nicole M. Aschoff, na Jacobin | Tradução de Luciana Cristina Ruy

O Reino Unido faz parte de uma longa lista de países que ignoraram as ordens dos Estados Unidos para evitar usar tecnologia da Huawei para construir sua rede de telefones celulares 5G. Semana passada, o Primeiro Ministro Britânico Boris Johnson anunciou que, depois de pesar os custos e benefícios, a Grã Bretanha decidiu prosseguir usando equipamento da Huawei para suprir uma porção das necessidades de suas redes não essenciais.

Os Estados Unidos não estão felizes. Johnson usar a Huawei é visto como um ataque direto na santidade do arranjo de compartilhamento de inteligência “Cinco Olhos” entre os Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A Huawei, apesar de sua insistência de que opera independentemente do governo Chinês, é vista como uma frente para o Partido Comunista da China (CCP), por muitos oficiais americanos. Os falcões da China dizem que permitir a Huawei fornecer infraestrutura 5G pode prover a China uma porta traseira para dados confidenciais.

Durante o ano passado, a administração Trump implementou um número de medidas que efetivamente impedem a entrada da Huawei (junto com outras companhias chinesas) no mercado americano. Agências do governo como o Pentágono e a NASA estão proibidos de comprar equipamentos da Huawei, e a companhia foi colocada na “lista de entidades” do Departamento de Comércio, essencialmente barrando firmas americanas de fornecer produtos para ela, ou suas afiliadas. A diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou (filha do fundador da Huawei, Ren Zhengfei), também foi presa no Canadá, sob acusações de fraude bancária. Ela permanece em prisão domiciliar em Vancouver, Columbia Britânica.

Ao mesmo tempo, o Secretário de Estado Mike Pompeo e o Secretário de Comércio, Wilbur Ross, foram numa turnê mundial, tentando pressionar oficiais eleitos a implementar restrições similares – e ameaçando parar de compartilhar informações de inteligência se eles não implementarem. Os oficiais americanos insistiram que sua mensagem é centrada em preocupações políticas, ao invés de econômicas. Em Délhi, Ross declarou que “qualquer um que pense que nós estamos fazendo isso por protecionismo, simplesmente não sabe os fatos. Nós esperamos que nossa parceira geopolítica Índia não se sujeite inadvertidamente a riscos de segurança indesejáveis”.

Apoiando a causa, Steve Bannon produziu um filme de 15 minutos, “Claws of the Red Dragon’ (Nota: garras do dragão vermelho), “inspirado em eventos reais tirados das manchetes sobre a Huawei.” O filme retrata uma companhia de tecnologia chinesa parecida com a Huawei (completa, com filha mimada executiva) que está atuando como um “cavalo de Tróia” para o Partido Comunista Chinês. Depois de exibir o filme, Bannon disse a plateia: “É dez vezes mais importante desligar a Huawei nos Estados Unidos do que fazer um acordo comercial.”

Contudo, a campanha de pressão não funcionou. Até agora, só Austrália e Japão seguiram as ordens dos Estados Unidos. Alguns países, como a Índia, ainda têm que tomar uma decisão final, mas insistem que eles não vão ser balançados por pressões externas. Outros concordaram em conceder acesso parcial. A Alemanha, por exemplo, apesar de feroz debate dentro da União Cristã Democrática dominante e de avisos de dentro de sua própria comunidade de inteligência, concordou em deixar a Huawei investir no País.

Muitos países adotaram a Huawei de braços abertos. México, Chile e Cuba sinalizaram seu apoio. A Rússia é um firme sim. Tailândia, Cingapura, Filipinas, Malásia, Indonésia, e logo Camboja, são todos Time Huawei. Apesar dos esforços da administração de Trump, quarenta países assinaram contratos com a Huawei no último ano, metade deles na Europa.

O flagrante desdém pelos desejos e ameaças da Casa Branca, incluindo os principais aliados e parceiros comerciais americanos, é significante e demonstra a evolução do capitalismo global nas últimas duas décadas. Três pontos se destacam.

Primeiro, enquanto a produção (incluindo produção de tecnologia digital) se tornou profundamente integrada em escala global, muitos setores são dominados por poucas firmas multinacionais chave. Um desses é o de infraestrutura de redes 5G.


por Nicole M. Aschoff, Autora deThe New Prophets of Capital eThe Smartphone Society: Technology, Power, and Resistance in the New Gilded Age (não traduzidos para o português)   |   Texto em português do Brasil, com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-mundo-nao-quer-uma-guerra-fria-digital/

Berardo vai manter condecorações (mas leva repreensão)

(Comentário:

CLARO !!!

Ele é muito rico...)

 

Joe Berardo não deverá perder as condecorações que recebeu do Estado português, mas a repreensão é o cenário proposto no relatório final de Mota Amaral, ex-presidente da Assembleia da República. 

 

O Conselho das Ordens Honoríficas (COH), presidido por Manuela Ferreira Leite, vai reuniu a 20 de dezembro para, de acordo com o Jornal Económico, tomar uma decisão final quanto às sanções a aplicar ao empresário madeirense.

De acordo com o mesmo jornal, que avança a notícia, Berardo deverá manter as condecorações da Ordem do Infante D. Henrique e da Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

O cenário proposto no relatório final de Mota Amaral, ex-presidente da Assembleia da República, será a repreensão que poderá ocorrer em pessoa ou por escrito.

 
 

Fonte próxima ao processo, ouvida pelo Jornal Económico, disse que Berardo vai manter as comendas dado que a irradiação dos quadros da Ordem tem-se aplicado a personalidades com penas de prisão superior a três anos, como é o caso de Armando Vara, que em março perdeu a sua condecoração, após ter sido condenado a cinco anos de prisão do âmbito do processo Face Oculta.

A decisão do COH também terá sido influenciada pelo facto de, a 23 de maio, o empresário se ter retratado publicamente ao admitir que se exceder durante a sua audição na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à gestão da Caixa Geral de Depósitos.

Em 20 de abril, CGD, BCP e Novo Banco entregaram no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa uma ação executiva para cobrar dívidas de Joe Berardo, de quase 1.000 milhões de euros, executando ainda a Fundação José Berardo e duas empresas ligadas ao empresário. O valor em dívida às três instituições financeiras totaliza 962 milhões de euros.

O processo disciplinar foi iniciado depois de Berardo ter feito declarações no Parlamento consideradas desrespeitosas por vários grupos parlamentares. De acordo com a lei das ordens, o empresário enfrenta uma pena que vai da advertência até à perda das condecorações.

Em outubro, a defesa do arguido invocou outros casos de personalidades portuguesas que tiveram problemas com a Justiça para que o empresário não perca as condecorações, nomeadamente Cristiano Ronaldo e José Mourinho.

Cristiano Ronaldo foi condenado com 23 meses de prisão em pena suspensa e sujeito a uma multa de 18,8 milhões de euros por fraude fiscal em Espanha. No que respeita ao processo da alegada violação, nunca foi condenado: a Justiça norte-americana deixou cair as acusações que remontam a junho de 2009, concluindo que as acusações contra Cristiano Ronaldo não podem ser provadas.

José Mourinho, por sua vez, foi também condenado no âmbito do crime de fraude fiscal, sendo-lhe aplicada um ano de prisão em pena suspensa e uma multa de 3,3 milhões.

ZAP //

 

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/berardo-vai-manter-condecoracoes-leva-repreensao-294240

Nobreza de Espírito – um ideal esquecido

A Areia dos Dias
 
 
 
Publicado em 2011, o livro de Rob Riemen com este título continua a ser de extrema actualidade.

O Autor é holandês, ensaísta, filósofo e fundador e director do Instituto Nexus, um centro internacional sediado na Holanda e dedicado à reflexão e ao debate cultural e filosófico sobre o pensamento ocidental, designadamente a partir do sec XVII e todo o diálogo com o pensamento científico desde então emergente e com a complexidade crescente das relações entre os cidadãos e entre os povos.

Neste livro, o seu Autor argumenta que a nobreza de espírito é “a quinta-essência de um mundo civilizado. Sem nobreza de espírito, a cultura desvanece-se”. E adverte: ”Contudo, no século XXI, um tempo em que a dignidade humana e a liberdade estão em perigo, este conceito é raramente tido em conta”.

Para Rob Riemen, a nobreza de espírito é o grande ideal. É a realização da verdadeira liberdade, e não pode haver democracia, mundo livre, sem este alicerce moral. Neste sentido, há que revisitar o pensamento de grandes pensadores, como Goethe, Thomas Man ou Spinoza, entre muitos outros.

Estas reflexões são da maior actualidade e ajudam a perceber, entre outros, o fenómeno da corrupção generalizada que grassa não só no nosso País como no mundo em geral e evidencia como não basta aperfeiçoar os meios legais de o prevenir e combater, por mais relevantes e urgentes que estes sejam.

Entre nós, é raro o dia em que a comunicação social não desoculta ao cidadão novos casos de corrupção, a sua relevância, abrangência e nível de sofisticação crescentes, que pode inclusive, aproveitar dos “buracos negros “ das leis em vigor, desvanecendo, perigosamente a fronteira da legalidade e da legitimidade.

As leis carecem de aperfeiçoamento, mas estes de pouco valerão se não forem enxertadas num ideal esquecido de valores humanistas de aceitação generalidade e tidos estes como padrão de comportamentos devidamente consensualizados e explícitos. De contrário, caminharemos para a barbárie resultante da condescendência quanto aos valores em causa, quando não para o relativismo e o nihilismo, porta aberta para pôr em risco a própria democracia.

A justiça está longe de cumprir a sua função de repor a legalidade e a legitimidade, dentro de prazos aceitáveis que sirvam de factor de dissuasão e de prevenção, mas, ao invés, alimenta a ideia generalizada de que o crime compensa. Assim, vemos grassar, quase impune, a lavagem de dinheiro, a fuga aos impostos e perda de elevados montantes de receitas públicas, a promiscuidade de interesses entre o público e o privado, com prejuízo do estado e do bem comum.

Cabe ao cidadão zelar pelo “nobreza de espírito” e trazer para a agenda política, mas também para a acção educativa, nas famílias, nas escolas, nas várias instituições empresariais, políticas e cívicas, este ideal esquecido.

Ver o original em

Incompatibilidades

DIA 15, FALAMOS

I

As incompatibilidades são um dos temas preferidos da mais recente análise política. Parece que se descobriu agora o tema e a realidade que lhe está associada. Infelizmente, vários governantes e autarcas de vários partidos já prevaricaram. Mas, suponho, aqui ainda nenhum perdeu o mandato ou foi condenado.

A questão, se tivermos uma posição dura, é muito simples. Só que, em política, nada é o que parece.

Até onde pode ir a hipocrisia ao abordar este tema? Ou a falsa ingenuidade em que os alegados prevaricadores nunca têm consciência do que fizeram nem da ilegalidade em que estavam a incorrer.

Há algumas semanas, os jornais noticiaram a situação de um autarca que negociou com a empresa do pai…

De facto, a situação é grave. Sobretudo porque, perante a descoberta das alegadas ilegalidades, a fuga é sempre a melhor solução. O fingir de morto.

Pergunto, não seria possível escrever uma lei mais clara que determinasse as regras sem o menor grau de dúvida e esclarecendo muito bem o que pode (ou não) ser feito?

Sobre a redacção das leis: será pedir muito se disser que me parece óbvio e normal esperar que o legislador seja eficaz? Com tantos advogados e juristas na Assembleia da República, não seria de esperar uma grande eficácia legislativa? Enfim…

II

Mas, se me permitem, há algo que não me sai da cabeça: qual será a dúvida que pode ter uma pessoa sobre uma situação como este simples exemplo: suponhamos que sou autarca. Preciso de comprar uns produtos ou uns serviços.

  • Primeiro princípio a adoptar: transparência e clareza. Definir bem as regras subjacentes ao Caderno de Encargos da compra a realizar.
  • Segundo princípio a adoptar: abertura de concurso para garantir a igualdade de oportunidades dos vários operadores.
  • Terceiro princípio a adoptar: não misturar família e amigos no negócio.

Defendo estes três princípios que me parecem oriundos do mais absoluto e genuíno bom senso. Acho até que deveriam ser universalmente respeitados.

Ora, se eu quero cumprir com estes três princípios, obviamente, não vou negociar nem fechar um contrato com o meu Pai ou com uma das suas empresas.

Será difícil perceber isto? Será preciso ser jurista para compreender (e aplicar…) estes três princípios?

III

A questão das incompatibilidades não é difícil de interpretar nem de gerir.

O que se passa com muita frequência é a tendência para uma de duas situações:

  1. uma sensação de impunidade (“Posso fazer o que quiser porque não serei apanhado”) e
  2. uma sensação de que a lei e a Justiça não funcionam pelo que, mesmo que seja detectada alguma ilegalidade, as consequências tarde (ou nunca…) se farão sentir.

Oscilando entre estes dois péssimos cenários, o assunto será tema de múltiplas conversas de café. Mas, o que realmente falta é uma acção concertada e eficaz. Esta situação redunda, muitas vezes, em demagogia anti-democracia e favorece o aparecimento de vozes populistas.


 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/incompatibilidades/

Privacidade sem limites

Privacidade sem limites

Facebook transcrevia os áudios de seus usuários empregando trabalhadores externos, sem lhes explicar o objetivo da transcrição e origem das gravações.

A empresa confirmou a informação publicada pelo Bloomberg, entretanto notou que transcrições das mensagens de voz foram interrompidas "há mais de uma semana".

Um representante do gigante das redes sociais indicou que usuários, que tiveram mensagens de voz transcritas, deram a permissão no aplicativo Facebook Messenger. Entretanto o Facebook não informou aos usuários que seus dados podem ser entregues a terceiros. Esse fato fez com que vários trabalhadores externos considerassem antiético o trabalho prestado.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2019081414386432-privacidade-sem-limites/

Quando os vilões conseguem virar para outros as atenções coletivas

É clássica a situação dos correios de droga denunciados ao transitarem fronteiras para que outros, com quantidades mais significativas de produto, as atravessem sem problemas. Meros peões num jogo em que as peças maiores são quem contam, acabam por encher prisões sem sequer perceberem a armadilha em que se viram enredados.

 

Pensei nesse exemplo ao ver uma longa-metragem sobre os novos mercenários russos, ou seja aqueleshackers de que tanto se tem falado a propósito da eficácia da sua intervenção na eleição de Donald Trump ou da vitória dosbrexiteers concentrando em si toda a má fama do que a internet pode suscitar na vertente mais perversa.

 

Só já depois do filme ir para além da hora e um quarto é que um dos entrevistados diz o óbvio: sim, é verdade, que ele e os cúmplices podem arcar com a má fama suscitada pelo seu comportamento, mas que dizer dos bem mais perigosos e insuspeitoshackers a soldo da CIA, do FBI e das muitas outras agências norte-americanas dedicadas à espionagem, quer interna, quer fora dos EUA? Já todos esqueceram as denúncias de Snowden a respeito da NSA?

 

O problema com oshackersrussos - os que agem demotu próprio pretendendo enriquecer por conta das suas capacidades informáticas - é serem identificáveis pelos que trabalham por conta dos respetivos Estados. Do regime de Putin têm garantida a complacência conquanto dirijam as ações única e exclusivamente para quem não colida com o seu interesse. E até podem ser subcontratados para trabalhos orientados para objetivos bem precisos. Mas ai deles se falarem do assunto ou mostrarem excessiva curiosidade para o que o Kremlin impõe como sua área reservada de acesso ao conhecimento...

 

Das atividades da espionagem norte-americana por conta das suas agências oficiais nada sabemos desde que o principal lançador de alertas garantiu asilo em Moscovo. E, no entanto, as provas da sua intensa ação não nos escapa à atenção. Veja-se este simples exemplo: publico textos em dois blogues, que têm uma média muito constante de visualizações diárias quanto ao seu número de leitores, E, no entanto, com uma frequência mensal, se não quinzenal, lá surge o dia em que esse número sobe estratosfericamente com leitores nos Estados Unidos. Porque se interessam pelo que digo bem de António Costa ou mal de Rui Rio? Porque faço uma crítica entusiasmada a um livro ou desaconselho um filme? Claro que não! Algoritmos das agências de espionagem percorrem-me os blogues e qualificam-no de acordo com um conjunto de parâmetros, que me deem uma identificação fácil de consultar se for à Embaixada norte-americana pedir um visto para a mais inocente das visitas. Por conta dessa intenção policial perscruta-se em permanência a vida de qualquer pacato cidadão a nível mundial.

 

Compreensível tal precaução num mundo pontuado por atentados terroristas, dirão alguns ingénuos. Mas essa explicita consulta a textos disponibilizados em blogues poderá ser apenas a espuma de algo mais profundo: através dessa porta de entrada, vasculham a privacidade de quem lhes interessar porque, acedendo à sua específica IP, possuem capacidades para detalharem os conteúdos dos respetivos computadores. Se isso não vai muito além do que Orwell considerava como tenebroso no seu (ultrarreacionário) «1984», não sei que mais faltará inventar.
E o maior vilão da história não está propriamente no Leste Europeu, mas na costa oriental dos Estados Unidos!
 
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/quando-os-viloes-conseguem-virar-para.html

A economia, a ética e o nosso futuro comum

 
Para todas as áreas do conhecimento, existem várias definições construídas ao longo dos tempos, consoante os seus aspectos mais relevantes e evidentes em cada momento do tempo e a sensibilidade dos autores dessas mesmas definições.

E a economia, como é natural, não é excepção. 

O nosso actual estilo de vida reveste-se de características que não eram tão evidentes há, digamos, sessenta anos atrás: as agressões ao ambiente (rotuladas, à época, como “externalidades”, quando a economia sempre foi e será um subsistema do ecossistema que a suporta), o poder desmesurado dos grandes interesses instituídos, as políticas dos governos reféns desses interesses, as extremas desigualdades sociais e as migrações daí decorrentes, o afluxo maciço e o congestionamento das grandes metrópoles, a robotização e os seus efeitos nos níveis de emprego, etc.. 

Quando ouvimos as soluções que políticos, analistas e comentadores advogam para os problemas que dali advêm (desde os fogos em monoculturas florestais às indecorosas práticas especulativas, aos vergonhosos offshores ou à mera “necessidade” de construção de um aeroporto, por exemplo) constatamos que, por norma, se posicionam em dois campos opostos: o da preservação a todo o custo do status quo tendo sempre como guia supremo os sacrossantos mercados e o crescimento económico (quando este tem vindo, desde há quarenta anos, a resultar no favorecimento dos muito ricos do planeta e no empobrecimento de todos os restantes, incluindo as classes médias) e o da defesa das condições de vida das populações invocando muitas vezes valores como a solidariedade, mais equidade e justiça. 

Por outro lado, e a título de exemplo, não é difícil admitir que se privilegiarmos a nossa saúde e a do planeta consumiremos alimentos isentos de químicos (tóxicos e poluentes) e produzidos de preferência localmente e recorrendo a energias renováveis ou se respeitarmos a dignidade de todos os seres sencientes não teremos uma das actividades económicas mais predadoras e poluentes que é a pecuária intensiva. 

Ou ainda se tivermos compaixão por quem sofre e passa fome, viveremos num mundo mais harmonioso e equitativo. 

Definitivamente, se assumirmos todos, como é nosso dever, uma solidariedade intergeracional, ainda poderemos deixar um mundo habitável aos nossos filhos. 

Por tudo isto, prefiro definir Economia como a forma como dispomos dos bens materiais em função dos nossos bens imateriais (valores, sentimentos, aspirações, projectos,…).

Ver o original em

Roubo do século? Hackers levam mais de US$ 40 milhões em bitcoins de corretora

A empresa Binance, uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo, informou nesta quarta-feira (8), que hackers roubaram US$ 40,7 milhões (R$ 160 milhões) em bitcoins de sua plataforma.

De acordo com uma publicação no site da corretora, o presidente-executivo Zhao Changpeng comunicou que a empresa sofreu um prejuízo de 7 mil bitcoins, que foram roubadas de uma única carteira através de uma variedade de técnicas, "incluindo phishing, vírus e outros ataques".

"Foi lamentável que não tenhamos conseguido bloquear este saque antes de ser executado. Uma vez executado, o saque acionou vários alarmes em nosso sistema. Interrompemos imediatamente todos os saques depois disso", lê-se no comunicado da empresa.

Apenas a carteira de bitcoins foi afetada e, segundo a empresa, apenas 2% do total dessa criptomoeda saíram prejudicadas. Enquanto o restante dos fundos está aparentemente seguro.


Para cobrir a perda, a Binance declarou que os fundos dos usuários serão protegidos por ativos de reserva, e que ninguém sairá no prejuízo.

A Binance ressaltou que todos os depósitos e saques da bolsa permaneceriam suspensos enquanto a empresa realizava uma minuciosa revisão de segurança, que, segundo estimativas, levaria uma semana.

Somente em 2018, US$ 950 milhões em moedas eletrônicas foram roubados de bolsas de criptomoedas e serviços de infraestrutura, como carteiras - um aumento de quase 260% em relação ao ano anterior, segundo pesquisa da CiptherTrace, empresa de segurança cibernética sediada nos EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019050813835038-roubo-do-seculo-hackers-levam-mais-de-40-milhoes-bitcoins/

RES PUBLICA!

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QUADRO DE PEDRO PORTUGAL QUE CAVACO NÃO DEIXOU EXIBIR NA EUROPÁLIA
Quando me sentei à mesa do café, para a hora da bica, o ambiente estava vivo e um clamor crítico subia no ar. Tinha sido impossível não ter ouvido as notícias despejadas severamente pela televisão, alto e bom som, sobre a nomeação de casais e outras adjacências familiares para o governo da nação. O folhetim, que o caso tinha flash-back, também falava em jogos cruzados de primos ou simpatizantes para lugares catitas na órbita governamental.
Todos se explicavam muito bem, os de antes e os de depois, sobre a cartilha da nomenclatura. E, quem ouvia, fez um encolher de ombros desalentado:
-- Fazem todos o mesmo! São os espertos do costume...
Há muito que sabemos terem caído em saco roto os princípios republicanos que se traduziam num conceito de exigência política na Res Publica, que mandava eticamente servir e não servir-se.
Venham cá, agora, com essas!
À roda da bica, o meu amigo já tinha engolido várias indignações. Meio a gozar, foi dizendo:
-- Não dizem para aí que em Portugal somos todos primos e primas?
Eu lancei para a mesa:
-- Houve sempre famílias mais iguais do que outras no acesso ao poder! Lembram-se do livro do Louçã sobre as Cem Famílias que foram sempre donas disto...
-- Julgava que isso já tinha passado... -- disse, ingenuamente, o meu amigo. -- Mas há uma coisa que me atemoriza...
-- O que é? --inquietei-me eu.
-- É se eles passam a levar para o governo e imediações também o periquito, o canário e o gato! O que isso nos vai custar em alpista!
Desatámos todos a rir.
Quarta-Feira, 10 de Abril

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Google encerra conselho de ética em inteligência artificial após uma semana de atividades

Escritório da Google na Suiça.
© AP Photo / Keystone, Walter Bier, file

O Google confirmou nesta quinta-feira (4) que desmobilizou um painel consultivo de ética em inteligência artificial, recentemente montado, em meio a controvérsias sobre seus membros.

O fim do Conselho Consultivo Externo de Tecnologia Avançada (ATEAC na sigla em inglês) ocorre poucos dias depois que um grupo de funcionários do Google lançou uma campanha pública contra a presença do presidente da organização conservadora Heritage Foundation entre seus membros.


Outro membro do conselho já havia renunciado, e a inclusão de um executivo de uma companhia de drone reacendeu as preocupações sobre potenciais usos militares da inteligência artificial, segundo o site de notícias Vox, que primeiro informou sobre o desmantelamento do conselho.

"Ficou claro que no ambiente atual, o ATEAC não pode funcionar como queríamos", disse o Google à AFP. "Então, estamos terminando o conselho e voltando à prancheta."

O Google acrescentou que buscaria formas alternativas de coletar informações externas sobre o uso responsável da inteligência artificial.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019040513616783-google-encerra-conselho-etica-inteligencia-artificial/

A mente humana como um campo de batalha.

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A mente humana como um campo de batalha.

Revolução tecnológica e guerra de redes

Por Matías Caciabue (*)
Golpes suaves, manipulação informativa e guerra jurídica (lawfare) são instrumentos de uma estratégia militar definida como soft-power. O soft-power é a estratégia central da net-war, guerra de redes, assim definida pela RAND Corporation, uma fábrica de ideias das forças armadas estado-unidenses.
Esse tipo de guerra, quando incorpora elementos da estratégia de hard-power, isto é, quando necessita do uso de instrumentos militares, de segurança ou paramilitares, torna-se em guerra de enxameação (swarming).
A guerra de redes baseia-se na estruturação de unidades de combate autónomas e disseminadas que se dedicam ao ataque a um objetivo comum.Essas unidades são coordenadas para atacar a partir de múltiplas direções e dimensões, com o objetivo de destruir a vontade de lutar, a unidade e a coesão do inimigo.
Na guerra das redes, as fronteiras entre guerra e paz tendem a desaparecer, e cada mente humana converte-se num campo de batalha. Provavelmente, a tentativa de assassinar o presidente venezuelano Nicolás Maduro é o sinal mais claro do advento de um momento político-militar ("em rede") para toda a região.O ataque com drones de última geração "DJI M600", a posterior relativização mediática do facto, que deixou no esquecimento uma caterva de notícias mal-intencionadas, indica a aplicação mais devastadora desse novo tipo de guerra nos povos latino-americanos.
Esse modo de conceber a guerra surge da consolidação da quarta revolução industrial, desencadeada pela implementação generalizada de novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) em todas as áreas da vida social.
O materialismo histórico indica que as mudanças nas forças produtivas provocam mudanças nas relações sociais de produção e, as últimas têm um elo dialético com a forma de organização da política.
Assim como a sociedade da " fábrica da grande indústria" é a base do poder dos grandes sindicatos e dos partidos policlassistas, a configuração de rede do capitalismo contemporâneo reúne uma série de mudanças substanciais na organização do social, do político e do político militar.
Nos seus “Cadernos do Cárcere”, Antonio Gramsci enunciou uma das suas teses mais relevantes, que se referia à famosa "passagem da guerra do movimento (e do ataque frontal) à guerra de posição também no campo político".
Em pleno século XXI, com a revolução tecnológica estruturando uma nova fase do sistema capitalista, devemos nos encorajar a estudar, a transição da guerra de posições para a guerra de redes, também no campo da política.
Poderíamos afirmar que, assim como o "assalto ao palácio de inverno" foi superado na sociedade do capitalismo industrial do pós-guerra, a "ocupação das posições e trincheiras" poderia estar ficando na obsolescência neste século XXI.
Com base na "revolução das TIC’s" está-se a expandir uma nova superestrutura social, longe das formas verticais e hierárquicas que caracterizavam a era industrial.Está configurado, diante dos nossos olhos, uma sociedade organizada em rede.
Esta "nova" forma de organização social não é neutral nem pública: dentro da concentrada e centralizada rede financeira, os "Big Five"do setor de tecnológico, impuseram o seu domínio.
Como bem indica Florencia Paz Landeira num artigo na Revista argentina "MU", "há dez anos, a lista das cinco maiores empresas do mundo, de acordo com a capitalização de mercado, era composta pelas Microsoft, Exxon Mobil, General Electric, Citigroup e Shell Oil.Destes, apenas a Microsoft persiste. As outras quatro foram substituídas pela Apple, Alphabet (empresa-mãe do Google), Amazon e Facebook ". Por outro lado, a cubana Rosa Miriam Elizalde destaca que "só existem apenas 16 países com um PIB igual ou superior ao valor de mercado atual da Apple".
A rede de capital financeiro transnacional impulsiona o desenvolvimento de uma "democracia de mercado global", com as grandes empresas de tecnologias conversas em "mega-intermediários" corporativos de uma cidadania sonhada sem causas, sem pátria e sem bandeira.
Nas redes de Internet, não só se constrói uma nova forma de relacionamento entre as pessoas, mas também, e além do mais, também se prefigura o vínculo entre os indivíduos e a realidade em que vivem.Noutras palavras, a "revolução das TIC’s" está impondo uma mudança no "como pensa" e no "que faz" nas classes sociais subalternas. Nesse sentido, as pessoas são organizadas e vigiadas no território virtual a partir do que poderíamos denominar de "tribos", isto é, comunidades de interesses homogéneos.
Enxurradas de informação falsa - ou "fakenews" - são lançadas no território virtual, sem ter em conta a sua correlação com a realidade, mas sim, como reage cada uma dessas tribos.
Para tal, utiliza-se uma estratégia de marketing chamada "storytelling" (contar histórias).Nesta estratégia comunicacional, nenhum conteúdo está completo. É uma história que apresentam de uma forma muito simples, mas segmentada, por exemplo, "lutar contra a ditadura faz de si um herói", e logo outra pequena história que diz "Maduro é um ditador". Múltiplas mensagens são geradas, articuladas apenas no inconsciente das pessoas, para impor um "sentido comum" construído milimetricamente.
A Utilização do Big Datapermite a classificação dos perfis de cada pessoa, comas suas diferentes preferências e interesses, para que a "estória contada" vá mais além da posição política e ideológica que cada indivíduo alegue sustentar.
Nas guerras de redes, as elites económicas (e políticas), em mais de uma ocasião, conduzem os indivíduos desde o virtual ao real, colocando-os em posição de provocar arruaças (atos, mobilizações, guarimbas). Qual unidade de infantaria, os indivíduos são atores de uma guerra da qual, não só, não conhecem as motivações (casus belli), como nem sequer são capazes de reconhecer os seus próprios oficiais: os thinktanksarticulados dentro da rede financeira, localizados por detrás dos governos das direitas, das corporações mediáticas, da vigilância e do controle estratégico das redes de Internet.Em relação a este último, são esclarecedoras as denúncias de intervenção eleitoral que pesam sobre "Cambridge Analytica" - incluindo na Argentina em 2015.
Mas as ruas não são fáceis de controlar.Sempre foram o território onde as classes subalternas expressaram os seus níveis de organização, autoconsciência e homogeneidade em relação ao que acontece.Sem isto, as pessoas não podem projetar a construção da organização social e política que permita construir uma mudança nas estruturas sociais que confrontam exploradores e explorados.
Assim sendo, precisamos de fortalecer a rede do popular, moldar e fortalecer uma força social com uma iniciativa política baseada num programa de classe. Ligar-se no virtual e implantar-se no social, gerando uma maior capacidade de influência para intervir com sucesso no processo de desenvolvimento no conjunto das lutas sociais e políticas do nosso continente.
Torna-se imprescindível a reflexão e debate sobre esta "guerra de redes".Os povos devem romper a manipulação sobre as nossas subjetividades e continuar construindo o destino da sua própria emancipação.             

 

(*) Bacharel em Ciências Políticas (UNRC), aluno da Especialização em Pensamento Nacional e Latino-Americano (UNLa), redator-investigador argentino do Centro Latino-americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la). Artigo elaborado em colaboração com a revista La Correo (www.lacorreo.com).
Trad. C.S.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Adira à nova moda: implante um "microship". É tão fácil e rápido como fazer um piercing!

Numa notícia da Euronewsde ontem, passada na RTP, dizia-se que a implantação de microchips no corpo humano é, agora, além de uma questão de comodidade, de funcionalidade, de utilidade, uma questão de moda.
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Imagem recolhida aqui.
Na breve notícia  não se percebeu nenhum sobressalto na voz muito técnica de quem a leu, não se deu conta de nenhuma interrogação da parte de qualquer entidade e também não se introduziu nenhum comentário especializado. Apenas a declaração inequívoca e airosa de que o apetrecho garante destaque social, o que se torna tanto mais convincente por ser ilustrada com gente sorridente, jovem e bela.
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É moda, sublinho, na Europa, continente onde a escolaridade obrigatória anda pelos dez anos ou mais, onde se tem acesso fácil a livros, jornais, internet.Acresce que tanto os implantadores como os implantados parecem ser de um nível cultural, académico e social médio ou acima disso. Estes dois aspectos tornam ainda mais desconcertante a ausência de um toque de apreensão por parte dessas pessoas, já nem falo em crítica... É certo que os microchips também ganham adeptos na América, do Norte e do Sul, e na Oceania, mas é da Europa que me centro.

Parece que Estocolmo, com todo o seu conforto material, é, neste final de 2018, a cidade como mais "microchipados": o número, que vai para 4.000, subiu rapidamente nos últimos meses e espera-se que assim continue.

Abrir portas, usar computadores e impressoras, substituir bilhetes de transportes públicos, fazer pagamentos da mais diversa ordem, substituindo o cartão bancário, e monitorizar o funcionamento do corpo a todo o momento estão entre as grandes e maravilhosas vantagens apontadas aos microchips, além que não são caros e certas empresas têm a "amabilidade" de os oferecer. 

Há outros argumentos mobilizadores, talvez ainda mais potentes. Quem resiste a estes dois: "é como colocar um piercing", "não ter o microchip é estar ultrapassado"?

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Textos consultados: aquiaquiaquiaqui e aqui
Textos que escrevi antes sobre oassunto:"Tecnologia e dignidade. Aplicação de microchips em pessoas"aqui, aqui, aqui e aqui.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/12/adira-nova-moda-implante-um-micoship-e.html

História suprimida: como CIA e NSA ajudaram a criar o Google para espionar cidadãos?

Visitante tira foto com celular no stand do Google no âmbito do Congresso Mobile World, em 28 de fevereiro de 2017, em Barcelona
© AFP 2018 / LLUIS GENE

Devido à comemoração dos 20 anos do Google, a própria empresa e diversas mídias publicaram histórias relatando os principais momentos do gigantesco mecanismo de busca. Mas a narrativa de como a CIA e outras agências de espionagem dos EUA ajudaram a financiar sua criação foi silenciada.

No início da década de 90, agências de espionagem buscavam aperfeiçoar o rastreamento de atividades de grupos e indivíduos pelo mundo, foi então que a comunidade de inteligência dos EUA lançou essa iniciativa ousada.

A ânsia de criar um meio online que facilitaria a coleta de uma grande quantidade de dados pessoais de cidadãos, juntamente com a revolução computacional ocorrida no momento, fez com que a Agência Central de Inteligência (CIA) e a Agência de Segurança Nacional (NSA) realizassem uma estratégia. Tal colaboração lançaria várias empresas importantes de destaque, entre elas, a Google.

Negação plausível

Já em 1993, a Comunidade de Inteligência dos EUA (IC, na sigla em inglês) lançou os Sistemas de Dados Digitais Massivos (MDDS, em inglês), um programa de pesquisa e desenvolvimento.

"A demanda em constante mudança exige que a IC processe diferentes tipos e volumes de dados […] A equipe de gerenciamento da comunidade contratou um grupo de trabalho de sistemas massivos de dados digitais para atender às necessidades e identificar e avaliar possíveis soluções", afirmaram em um briefing.


Sob proteção da Fundação Nacional de Ciências (NSF, na sigla em inglês), as agências financiariam equipes para identificar "rastros digitais" de indivíduos e grupos, decifrando quaisquer padrões significativos e rastreando suas futuras trilhas digitais. Caso o projeto desse certo, um grande número de empresas de tecnologia se beneficiaria com isso, e a Google foi uma delas.

Além disso, foi alocada uma doação do MDDS a uma equipe de pesquisa em ciência da computação na Universidade de Stanford (em que participaram dois estudantes de pós-graduação prodígios na época, Sergey Brin e Larry Page) para criar "técnicas de otimização de consultas muito complexas, descritas usando a abordagem de 'grupos de consultas'".

Os resultados das pesquisas formaram exatamente o que a CIA e a NSA tanto esperavam — o Google, capaz de encontrar informações específicas em um vasto conjunto de dados.

Ao longo do desenvolvimento do mecanismo de busca, Brin informou regularmente sobre o progresso de seu projeto para o Dr. Bhavani Thuraisingham e o Dr. Rick Steinheiser, não estando nenhum deles ligados à Stanford.

"O fundador da Google, Sergey Brin, foi parcialmente financiado por este programa enquanto estudante de doutorado em Stanford, juntamente com seu assessor […] desenvolveram o Sistema Query Flocks que produziu soluções para mineração de grandes quantidades de dados armazenados em bancos de dados", escreveu Thuraisingham.

"A última vez que nos encontramos em setembro de 1998, Brin demonstrou-nos seu motor de busca que se tornou o Google logo depois", continuou.


Mentindo via Omissão?

A sugestão de que a CIA ajudou na criação da Google, de certa forma é quase tão antiga quanto a própria empresa, e é uma alegação que a empresa nega repetida e veementemente.

Por exemplo, em 2006, foi amplamente divulgado que a Google tinha um relacionamento de longa data com agências de inteligência dos EUA, recebendo financiamento da comunidade ao longo do seu caminho. Um porta-voz da empresa refutou fortemente as alegações, referindo-se a elas como "completamente falsas".

Além disso, o histórico oficialmente sancionado da empresa não faz referência à subvenção do MDDS, sendo o testemunho de Thuraisingham o único fato comprovatório do registro público de uma doação do MDDS a Brin e Page.

"A Google é uma empresa de mecanismos de busca cujo crescimento a trouxe para o primeiro nível […] Sua tecnologia principal, que permite encontrar páginas com muito mais precisão do que outros motores de pesquisa, foi parcialmente apoiada por esta concessão", escreveu.

Outro fato é um artigo de pesquisa de 1998 que nomeia Brin e Page como autores, referindo-se a Brin como parcialmente apoiado por um programa de dados digitais massivos, patrocinado pela NSF.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2018092712311930-historia-suprimida-cia-nsa-ajudaram-criar-google-espionar-cidadaos/

Transparência… Foi Você Que Pediu Transparência?

A transparência invadiu a semântica político-mediática.

Fala-se de transparência porque “está de moda”. Sem nunca, porém, a definir ou definir os seus campos. E, à fortiori, sem definir os critérios de tais definições (as da ‘coisa’ e dos seus campos). Muitas ONGs, por exemlo, exigem transparência nos campos da política e da economia. Mas recusam-se a divulgar os seus orçamentos, as  origens dos seus fundos e os destinos e aplicações deles. Ou seja, recusam-se a que a transparência seja aplicada no campo das ONGs.

No seu campo… Um conhecido jornalista dizia-me hoje, ao telefone, ao falar das obscuras actividades de certo autarca, que “é preciso transparência nisto”. Ficou calado quando, ao responder-lhe, lhe perguntei quantos directores de media manteriam o rabo sentado na cadeira da direcção se fossem abrangidos por essa exigênia de transparência…

Ao fim de um longo silêncio, perguntou-me “então, achas que não é preciso transparência?” A pergunta revela bem como esta storyelling da “transparência” obnubila o racicocínio.

A transparência pode ficar bem em certas roupas mas, naquilo de que tu falas, o que se precisa é seriedade nas pessoas e nos processos, rigor e juizinho e, no fim do caminho, uma pesada moca legal para quem se tenha atrevido a mijar fora do penico”.

Na foto, há transparência aos pontinhos. Ou há uns pontinhos na transparência. Enfim, como se queira… Mas muito cuidado com os pedidos de transparência!

Exclusivo Tornado / IntelNomics

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Ver artigo original em "O TORNADO"

Máquinas digitais: hora de desconectar?

Douglas Rushkoff, um dos grandes teóricos do mundo digital, adverte: redes sociais mobilizam nosso lado réptil- primitivo, paraque troquemos a política pelo consumo

Entrevista a Juan Iñigo Ibánez| Imagem: MC Escher

“Para o Facebook somos o produto, não o cliente”, repete o teórico da mídia estadunidense Douglas Rushkoff desde 2011. Embora o episódio Cambridge Analytica e o comparecimento de Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano tenham abalado a opinião pública, o que realmente chamou a atenção deste escritor e documentarista de 57 anos foi “como as pessoas ficaram surpresas”. “O plano de negócios do Facebook – assegura ele, falando do subúrbio novaiorquinho de Hastings-on-Hudson, onde reside – sempre foi extrair dados da atividade das pessoas, para vendê-los em seguida”. [ pdfThrowing Rocks at the Google Bus How Growth Became the Enemy of Prosperity Portfolio (2016)(1.88 MB)]

As críticas do professor de Teoria dos Meios e Economia Digital da Universidade do Estado de Nova York à empresa de Mark Zuckerberg podem ser estendidas também à maioria das grandes companhias fundadas em tempos de economia digital. Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity [Atirando pedras no ônibus do Google: como o crescimento converteu-se no inimigo da prosperidade], editado pela Penguin Books nos Estados Unidos, o teórico de meios argumenta que empresas como Amazon, Netflix ou iTunes acabando utilizando a rede – que a seu ver prometia ser mais uma ferramenta de utilidade pública que uma plataforma comercial – para reviver as piores práticas do capitalismo industrial — agora, porém, “funcionando com esteroides digitais”.

Pioneiro e entusiasta da cibercultura, participante do movimento Occupy Wall Street e ativista da democracia de código aberto, Rshkoff é doutor em Novos Meios e Cultura Digital pela Universidade de Utrecht (Holanda).

Em 2013, o MIT – Massachusetts Institute of Tecnology, o incluiu – junto com Niall Ferguson e Steven Pinker – entre os dez intelectuais mais influentes do mundo. Considerado por muitos o mais fiel herdeiro das ideias de Marshall McLuhan e Neil Postman, é o responsável por cunhar termos como “nativos digitais”, “meios virais” e “moeda social”. Eis sua entrevista.

Como se explica o mea-culpa realizado por Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano, ao assumir a falta de maior responsabilidade sobre o modelo de negócios do Facebook?

Os jovens desenvolvedores abandonam a escola para iniciar suas empresas, com pouco ou nenhum conhecimento dos impactos políticos e sociais dos produtos que querem construir. Zuckerberg afirmou que não tinha ideia de que sua plataforma afetaria nossa sociedade e nossas eleições da maneira como fizeram. Se ele conhecesse algo sobre a economia política dos meios, não seria tão ignorante. Mas o Facebook é dirigido por alguém que só se formou na escola secundária.

No ano passado, o Facebook revelou os países que mais usaram sua nova modalidade de “interações” e o México se encontrava em primeiro lugar, em nível mundial. Como se relacionam as “interações” e as “curtidas” com o uso que a empresa poderia estar fazendo de nossos dados?

O Facebook usa a “aprendizagem automática” para determinar o que funciona e o que não funciona com você. Quanto mais informação tenham sobre você, maior a precisão com que poderão prever e manipular seu comportamento. Os botões de interação são como um dispositivo de votação instantâneo. São como um “grupo focal” mecânico. Estão fazendo as perguntas que lhe faria um psicólogo que tentasse hipnotizá-la.

No início de 2014 ficamos sabendo que o Facebook havia comprado a patente para desenvolver as lentes de realidade virutal Oculus VR. Em 2016, a empresa lançou seu primeiro protótipo. Qual sua opinião sobre uma empresa acusada de negociar com os dados dos usuários excursionar pelo campo da realidade virtual?

O Facebook quase perdeu a plataforma de telefones inteligentes. Chegaram aos telefones muito tarde, e muitos temiam que a companhia não os alcançasse. Ao comprar a Oculus Rift, asseguram-se de que, se a realidade virtual converter-se num grande negócio (embora eu creia que isso não ocorrerá), então estarão participando da corrida.

Mas eles ainda não sabem o que fazer com isso. Talvez jogos. O que é certo é que criarão um entorno muito mais controlado para manipular as pessoas, e poderão observar muitas dessas decisões insignificantes que tomamos costumeiramente. Obterão muita informação sobre nossas formas de movimentar-nos através desses entornos.

Que tipos de medida os governos devem tomar para controlar o que empresas como o Facebook poderiam fazer, através da realidade virtual, com nossos dados? Ainda dá tempo de regular isso?

A Europa é melhor nisso do que a América do Norte. Nos Estados Unidos acredita-se que impedir uma corporação de fazer algo é como dizer a Deus que se cale. O mercado é a sabedoria do universo, que se expressa nos assuntos humanos. Controlar uma empresa é considerado uma afronta à natureza.

O problema com a regulação é que as empresas que supostamente estão reguladas são com frequência as que terminam escrevendo as regras. E as escrevem de modo a garantir seus próprios monopólios. Creio que o mais fácil é converter as plataformas tecnológicas mais gigantescas – as que todos usam – em bens públicos.

Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus, você afirma que a Amazon proporciona o exemplo mais claro de como – contrariamente ao sonho da economia colaborativa que muitos imaginaram ser possível no início da internet – os velhos valores corporativos foram amplificados graças à rede. Que tipos de prática as grandes empresas surgidas em tempos de economia digital, como a Amazon, executaram?

Elas destroem as empresas com que trabalham. Exploram seus trabalhadores, conhecidos como os “turcos mecânicos” da Amazon. Pagam uma ninharia para que façam o trabalho com os computadores, inclusive porque não têm como denunciar, se quem os contrata decide não pagar. Exercem o controle do monopsônio [também chamado “monopólio do comprador”] para pagar menos e exigir mais. Não ajudam as pequenas empresas a intercambiar valor entre elas. Convertem-se na única plataforma e aproveitam seu monopólio para expulsar as pequenas empresas do negócio. É uma má estratégia a longo prazo, porque se ninguém tem dinheiro, não podem gastá-lo na Amazon.

Como a Amazon afetou a indústria do livro?

O que a Amazon fez de mais notável foi prejudicar editores e autores. Pagam por livro menos que as livrarias normais. Preferem perder dinheiro com a venda de livros para que as outras livrarias se arruinem. É um conceito difícil de entender: venderão livros abaixo do custo com o objetivo de fazer com que outras livrarias fechem. Não lhes importa o ganho de seus livros. Querem ser um monopólio. E assim, quando forem os livreiros mais importantes do mundo, poderão finalmente impor suas condições aos editores. Podem estabelecer preços, controlar a distribuição e cortar da lista de livros os que não estejam de acordo com eles. É muito assustador, na verdade. O plano, a longo prazo, é que todos os autores trabalhem diretamente para a Amazon. É o que já propõem, de fato, a alguns escritores.

Você mencionou numa entrevista anterior que empresas como a Uber estão realmente usando seus motoristas como “pesquisadores de desenvolvimento”, e assim preparam o terreno para o negócio real: treinar o algoritmo para as viagens que os veículos automatizados farão no futuro…

Ao longo da história da humanidade, e certamente desde a era industrial, as novas tecnologias fazem com que certas habilidades humanas tornem-se obsoletas. Então, as pessoas procuram outro trabalho. Agora mesmo está ocorrendo em múltiplos setores: alimentos, medicamentos, educação, transportes, recursos, energia e inclusive entretenimento e arte.

O importante a ser lembrado, ao analisar esses problemas, é enxergar o que as empresas de fato pretendem ao excluir o trabalho humano. É realmente mais barato? É melhor? Não. Simplesmente elimina os humanos da equação. A longo prazo, a consequência disso é que não sobrarão seres humanos para comprar os bens e serviços.

Em 1988, Isaac Asimov previu, numa entrevista à BBC, que graças aos computadores, em poucos anos, cada pessoa seria capaz de aprender em seu próprio ritmo, de forma autodidata e durante toda a vida. Você crê que, em certa medida, isso se cumpriu?

Sim e não. A rede oferece enormes possibilidades educativas, desde a Wikipedia até o aprendizado a distância. Mas elas certamente não representam a cultura em rede dominante hoje em dia. E em muitos casos está sendo utilizada para minar o impacto mais subversivo e verdadeiramente humano da educação. Uma aula ou uma biblioteca digital online oferece uma grande oportunidade a quem não as teve antes, mas também prescinde do fator humano: o intercâmbio vivo de ideias e valores. Um bibliotecário humano é muito mais que uma base de dados.

Todos tinham os mesmos pensamentos otimistas sobre a televisão logo que ela apareceu. Ia ser a grande educadora. Supunha-se que em particular a televisão a cabo desencadearia uma nova revolução na educação. Contudo, nada disso aconteceu. Nenhuma mídia promoverá valores por si mesma. Ela só pode expressar os valores daqueles que a estão desenvolvendo. Neste momento, esses são os valores dos especuladores, razão pela qual as soluções educativas que vemos se desenvolvendo são as que têm modelos de negócios ampliáveis.

Há alguns dias, o New York Times voltou a publicar um artigo sobre a tendência, entre os executivos do Google, de inscrever seus filhos em escolas Waldorf. Parece que ali aprendem a tecer, interagem com a natureza, mas sobretudo não é permitido que se exponham a monitores e são proibidos de usar gadgets. O que isso revela a você?

Escrevi sobre isso há anos, quando as pessoas sequer acreditavam que fosse verdade. Para mim, significa que são hipócritas. Como os executivos de televisão e publicidade dos anos 1980, que não deixavam seus filhos ver televisão. É porque sabem que esses meios foram intencionalmente desenhados para frustrar a cognição, fazer com que as pessoas tenham medo, sejam burras e sintam-se sós e desesperadas. Isso não é teoria da conspiração. Os designers de interfaces das principais empresas tecnológicas do Vale do Silício estudam “captologia” em Stanford. Leem livros sobre o funcionamento das máquinas caça níqueis de Las Vegas para desenhar algoritmos que viciem.

As tecnologias digitais estão desenhadas especificamente para viciar, criar comportamentos obsessivos e fazer com que as pessoas prefiram as experiências digitais às reais. Os que fazem esse trabalho sabem que muito ruim e insano, e com razão querem proteger suas famílias dos possíveis danos.

Algumas pessoas apontam a simplicidade moralista, a agressividade e a irritação diante de opiniões contrárias que as pessoas demonstram na internet. Há alguma relação entre a forma como essas plataformas foram configuradas e a ascensão online, nos últimos anos, de grupos como ultra-direita [alt-right] nos Estados Unidos?

Essas plataformas foram concebidas para provocar respostas simplistas, impulsivas e primitivas — subreptícias. Estas são menos reflexivas que as reações dos mamíferos, e muito menos que as das comunidades de humanos.

Nossas emoções e condutas mais humanas provêm de uma parte do cérebro chamada neocortex. É a parte que as plataformas digitais tratam de evitar a todo custo. A captologia é a ciência de driblar o neocórtex e chegar diretamente no tronco do encéfalo. Essa é a parte que diz “matar ou morrer”. Se essa é a parte do cérebro que está ativa online, ela fomentará esse tipo de comportamento primitivo.

Você incluiu os efeitos das tecnologias digitais no conceito de “choque de presente”. Como se poderia vincular essa ideia a nossa propensão a crer em fake news e pós-verdade?

Minha ideia de “choque do presente” se referia à ênfase que as tecnologias digitais aplicam ao momento presente. Mas não ao presente real, e sim a uma instantaneidade e avalanche de dados e escolhas que fazem com que pareça que temos de estar alertas o tempo inteiro. É muito desorientador. Isso nos leva a desejar algo familiar. Qualquer coisa com uma forma familiar, seja ou não verdadeira. Odiamos o caos. Preferiríamos que uma pessoa malvada governasse o mundo a que ninguém o governasse. Isso é mais familiar e seguro.

No ano passado, veio a público a notícia de que o governo mexicano estava usando o software Pegasus para espionar jornalistas através de seus telefones celulares. Que potencial têm esses aparatos para intrometer-se em nossa privacidade?

Nossos dispositivos têm capacidade de conseguir acesso total a nossas vidas. Tudo. E não somente as coisas que você sabe sobre si mesmo, que tipo de sexo gosta, como se masturba, que drogas usa, mas também as coisas que não sabe sobre si. Essa é a parte mais perigosa. Podem usar macrodados (Big Data) para saber o que provavelmente fará no futuro. Eles sabem, antes de você, se ficará doente, se se divorciará, se mudará de sexo… qualquer coisa.

A única coisa que impede as empresas de explorar essa capacidade é o medo da lei ou seu sentido ético. Mas até o momento não as vejo preocupadas com nenhum desse aspectos.

Frequentemente nos chegam notícias de novos protótipos robóticos que fazem piruetas e se movem com incrível agilidade por terrenos acidentados. Qual é, na sua opinião, a característica humana que os robôs nunca poderão adquirir ou imitar?

É precisamente esse o tema de dois dos meus livros, de modo que talvez possa responder um pouco mais brevemente. Que significa ser humano? Podemos ver isso da perspectiva da consciência, da inteligência, da biologia, da espiritualidade, da arte ou do amor? Em que diferem os humanos dos animais em cada um desses aspectos, como diferem dos computadores? Como você pode ver, é um grande conjunto de problemas.

Penso haver uma diferença entre informática e pensamento. Creio que os computadores podem resolver muitos dos problemas que um cérebro humano pode resolver, mas não creio que sejam conscientes de que estão resolvendo os problemas, do mesmo modo que uma pá não sabe que está cavando. Então, quando decidimos substituir a humanidade por computadores, temos que perguntar: por que se incomodar, se as máquinas nem sabem que estão lá?

No início dos anos 1990, em São Francisco, você foi testemunha de como surgiu a cultura rave, junto com o otimismo tecno e a espiritualidade psicodélica. A promessa parecia ser de que a tecnologia e os valores do humanismo se uniriam, numa simbiose promissora. Como crê que poderíamos voltar ao ethos original desse renascimento digital, sem que ele implique um retiro perpétuo nas montanhas ou o ingresso numa espécie de idade pré-digital?

O mais provável é que façamos isso por necessidade. Simplesmente seremos pobres demais para participar desta sociedade industrial digital. Precisaremos de casa e comida, e para isso teremos de voltar a aprender os conceitos básicos. Isso nos fará trabalhar com nossas mãos e com as outras pessoas. Aprenderemos a trabalhar juntos. Olharmo-nos nos olhos, tomar decisões juntos e colaborar.

A outra possibilidade é que a geração que cresce agora simplesmente compreenda que os humanos estão à beira da extinção, e que a sobrevivência requer desconectar-se dessas máquinas, acabar com a escravidão adotada para fabricá-las e romper com o controle mental que nos liga a elas.

Que papel teriam os artistas e os humanistas nesse renascimento digital?

Os artistas rompem mitos. Ao admitir que o que fazem é artifício, revelam o artifício à sua volta. Seu papel sempre foi explorar o significado de nossa existência: romper as ilusões que se colocam no caminho, sejam elas o medo, o mercado, a dominação ou as leis. A arte pode ajudar a nos demonstrar que os humanos são especiais, inexplicáveis e dignos de existir. Que há neste mundo algo além do valor utilitário. Que o mundo é mais complexo do que aquilo que nossos cálculos algum dia resolverão. Penso que os humanistas são os que tentam convencer-nos de que nossa arte realmente possui essa capacidade. Essa arte verdadeira é mais que entretenimento ou cuidados paliativos. Essa arte é o caminho a seguir.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/maquinas-digitais-hora-de-desconectar/

 

Portugal | Política e ética

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
Nesta última semana tivemos, em Portugal e no plano internacional, comportamentos de alguns políticos que causam indignação e deixam, ao cidadão comum, acrescidas desconfianças para o futuro. Trump foi, uma vez mais, a expressão limite da amoralidade, da utilização descarada da mentira, da negação de valores e princípios éticos que se exigem no exercício da política. E não faltam por aí atores políticos com total desprezo pela verdade e dispostos a mobilizar os cidadãos contra a democracia e pela negação da política. Na Assembleia da República (AR) assistimos a um comportamento desses: Manuel Pinho achincalhou os deputados e gozou com os portugueses, talvez por acreditar que os buracos nas leis, o espaço para manobras processuais e o arrastamento dos processos judiciais, e a sobreposição do poder económico ao poder político lhe permitirão passar impune. A sua arrogância e sobranceria foram chocantes.
Entretanto, também esta semana, vimos partir um político exemplar - João Semedo - um Homem de enorme humanismo e compromisso com as gerações futuras, que dedicou a vida à causa pública buscando como contrapartida a construção de vida mais feliz para o conjunto dos seres humanos - sempre a partir da defesa dos que mais precisam - e por consequência para ele. Era esse o alimento da alegria que nos mostrava nas horas boas e más dos combates políticos, sociais ou culturais em que se envolveu, a partir de uma militância empenhada primeiro no PCP e depois no BE.
Este contraste desafia-nos a uma reflexão séria sobre o que se passa com o exercício de responsabilidades públicas, com a política e a ética, identificando e denunciando as suas subversões. Imaginemos, por exemplo, uma associação cuja missão é a ajuda a terceiros em situação de necessidade e que nela, oportunisticamente, alguém se oferece para ocupar um cargo de responsabilidade, não para cumprir a missão da associação, mas para retirar do cargo vantagens pessoais de algum tipo. Quando a tramoia é descoberta, o prestígio da associação sofre um duro golpe, da mesma forma que a honorabilidade de todos os que trabalham para essa associação, mesmo a dos mais honestos e dedicados. E basta a existência de um ou outro caso destes para a reputação de todas as associações serem postas em causa. A partir daí, o desconforto de ser confundido com práticas detestáveis não afastará malandros dispostos a obterem vantagens por qualquer forma, mas levará muitas pessoas generosas e honestas a pensar duas vezes antes de se disponibilizarem para assumir responsabilidades.
Nesta sociedade tão dominada pela economia e pela finança, lembremos o palavrão que os economistas usam - "seleção adversa" - para designar situações em que o mau produto expulsa do mercado o bom produto. É claro que falar de política é mais amplo e exigente do que tratar estas questões, mas na verdade a política é para aqui chamada.
O que designa a expressão "classe política" nestes dias? Um grupo sob suspeita a que se associam normalmente epítetos do tipo "o que tu queres sei eu" e "eles são todos iguais" - uma associação de malfeitores. Quem quer ser da "classe política"?
As coisas estão tão mal que há um certo espanto quando se descobre, geralmente demasiado tarde, que há mulheres e homens honrados que dedicam ou dedicaram uma vida inteira à política por convicção e por generosidade. Aí surge uma espécie de ritual coletivo de penitência pública feito de elogios adiados, alguns genuínos, outros hipócritas.
Se queremos evitar que os partidos e outras instituições sejam desacreditados, que as cadeiras do Governo ou da AR não passem a estar em pleno ocupadas por malandros - mesmo que malandros finos, de gravata e muito "bons modos" - são precisos mais do que elogios requentados. É preciso sermos severos contra a conversa do "é tudo farinha do mesmo saco" que polui as caixas de comentários da Internet. É necessário não transigir com o "ele rouba mas faz" que já produziu, mesmo entre nós, candidatos vencedores. É preciso combater os julgamentos na praça pública feitos pelo jornalismo de cordel. É indispensável construir projetos políticos alternativos de rigor e de compromisso efetivo com as pessoas.
*Investigador e professor universitário

Ver o original em 'Página Global':  http://paginaglobal.blogspot.com/2018/07/portugal-politica-e-etica.html

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