Esquerdas

Partidos de esquerda mordem a isca do isolamento do PT

Perfil do Colunista 247

Bepe Damasco

No momento, PSB, PDT e Rede e até o PCdoB dão seguidas indicações de que caminham para formar alianças eleitorais com o centro e com a direita liberal. Faria bem à transparência do jogo democrático se assumissem publicamente a nova tática

Mais do que nunca, em tempos tão trevosos, é importante reafirmar algumas premissas: estou entre os que defendem a frente mais ampla possível para proteger os direitos civis e a democracia do projeto autoritário de Bolsonaro.

Também vejo como essencial a formação de uma frente popular e de esquerda, para lutar pelo Fora Bolsonaro, frear o estrago social causado pelo ultraneoliberalismo tardio, inserir na disputa pelo poder o nosso projeto popular e democrático e alicerçar a reconstrução soberana do país.

Isto posto, um dado da realidade, antes tratado com melindre, agora emerge com uma nitidez cada vez maior: a atuação conjunta dos partidos de esquerda para resistir a Bolsonaro e na constituição de frentes de resistência vem sendo contaminada de forma crescente pela movimentação das peças do tabuleiro eleitoral de 2022.

E tudo gravita em torno do Partido dos Trabalhadores. Primeiro é preciso constatar que está em curso uma política de invisibilização do PT protagonizada pela Globo e congêneres e que conta com forte adesão da elite do país.

A ideia é tão simples quanto antidemocrática: apontar o bolsonarismo e o petismo como dois extremos de uma polarização indesejável para o Brasil. Somente doses cavalares de desonestidade podem levar alguém a não reconhecer a trajetória petista de compromisso democrático e, pior, comparar o partido ao esgoto civilizatório representado por Bolsonaro.

Pois nem no enfrentamento dessa ação deformadora da realidade nem na luta para a restituição dos direitos políticos de Lula o PT tem contado com a solidariedade dos demais partidos do campo progressista e de esquerda. Existem exceções, evidentemente, mas o que se vê é uma postura complacente, movida pelo desejo de substituir o PT como alternativa viável de poder.

 

Grave equívoco: a censura explícita ao PT significa esconder da sociedade projetos, programas e visões de mundo caras a toda a esquerda, independentemente de partido. Manietar a maior liderança popular do país, mantendo-o proscrito da vida política institucional do país, é, antes de tudo, um atentado ao estado democrático de direito.

Se é verdade que o hegemonismo petista já trouxe prejuízos à unidade das forças de esquerda ao longo da história, e até em passado recente, tampouco contribui para o avanço da resistência ao governo neofascista a espécie de acerto de contas com o PT que os partidos de oposição resolveram fazer.

Quando os cálculos eleitorais estão no posto de comando, gestos em prol da unidade resultam infrutíferos. Cito dois exemplos:

 

1) O PT, em 2019, cedeu, no Congresso Nacional, as lideranças da oposição e da minoria para parlamentares de partidos aliados, abrindo mão de sua prerrogativa como maior bancada não só da oposição, mas da própria Câmara dos Deputados. Mas a desconfiança não acabou.

2) O PT se empenhou no Rio de Janeiro para a unificação da esquerda em torno da candidatura do deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL. Nada feito, a birra antipetista levou à pulverização de candidaturas de oposição ao prefeito Crivella.

O PT nos governos de Lula e Dilma cometeu muitos erros.Todavia, a cassação sem crime da presidenta Dilma e a infame perseguição a Lula devem-se aos acertos das políticas petistas que mudaram para melhor a vida do povo. O ódio devotado pela burguesia brasileira ao partido é um reflexo disso.

Outra coisa: não pode ser vista com naturalidade a interdição feita pela Globo, uma concessão pública, e não uma propriedade dos Marinho, ao partido que ganhou quatro eleições presidenciais consecutivas, tem grande capilaridade nacional, uma forte e ativa militância, mais de 2 milhões de filiados, a maior bancada na Câmara dos Deputados, cinco governadores e uma penca de deputados estaduais, prefeitos e vereadores.

No momento, PSB, PDT e Rede e até o PCdoB dão seguidas indicações de que caminham para formar alianças eleitorais com o centro e com a direita liberal. Têm todo o direito, claro, de escolher seus caminhos. Faria bem à transparência do jogo democrático, porém, se assumissem publicamente a nova tática.

A esquerda Peter Pan e o discurso dionisíaco do fascismo bolsonarista

Siga o Brasil 247 no Google NewsAssine a Newsletter 247

 

 

Efetivamente a internet é terra de ninguém. Concordo com Umberto Eco quando ele diz que a “internet promoveu o idiota da aldeia” a portador da verdade, citando ainda outra frase muito conhecida, o gênio reacionário Nelson Rodrigues previa que os idiotas ainda iriam dominar o mundo, não porque não fossem idiotas, mas porque são muitos. Este prolegômeno, meio desabafo, meio nariz de cera, é para ilustrar minha revolta quando vejo coisas na internet como grupos feministas de esquerda discutindo “sororidade” com Sara Winter. Tem uma parte da esquerda Peter Pan que simplesmente não quer crescer e tem uma projeção narcisista sobre o mundo, como se fossem eternos professores do maternal, que com palavras doces e carinho vão “converter” todo mundo, numa epifania, ao “caminho da razão”.

Só lembrar às companheiras que o nome da figura não é Sara Winter, o nome da nazifascista é Sara Fernanda Giromini, o apelido que ela mesmo se deu é homenagem a uma ativista e espiã nazifascista inglesa. Sim, uma esquerda Peter Pan, que recusa-se a crescer, quer oferecer flores e sororidade a uma militante assumida do nazifascismo. Isto é um ultraje a mulheres que lutaram arriscando sua vida contra o nazifascismo, como Vera Zasulich, Clara Zetkin, Simone de Beauvoir, Pagu, Olga Benário, Krupskaya, e tantas outras, que em lugar de sororidade diriam que com fascistas não se dialoga. O fascismo se destrói, se derrota, se necessário, de armas na mão. Como a famosas frase da atiradora russa Lyudmila M. Pavlichenko, que quando perguntada sobre quantos homens ela havia matado na guerra respondeu, “eu não atiro em homens, atiro em fascistas”.

Uma das grandes tragédias da esquerda brasileira é que, depois da perda, primeiro, do monopólio ideológico do PCB, depois, da hegemonia ideológica do Partidão, não foi oferecida uma crítica sistemática para entender o capitalismo brasileiro e gerar um projeto alternativo de país. A crítica “pós-marxista” oferece o nada como filosofia para interpretar o mundo. O mundo é sempre uma interpretação, uma ideologia, uma figura invertida (como diria Marx) nas nossas cabeças. A necessária crítica à falta de dialética ao marxismo que chega ao Brasil, (vejam Konder, em A derrota da dialética) seguiu-se uma reação na esquerda de aversão à dialética e adesão a discursos pós-modernos. A criança foi jogada fora junto com a água do banho. Mas a tragédia é ainda maior.

Nélson Werneck Sodré fez duas observações muito argutas sobre as dificuldades enfrentadas pelo marxismo no Brasil. Uma é que, quando o marxismo chega ao Brasil, não tínhamos um proletariado de terceira geração, na verdade, poucos eram os proletários de segunda geração. Assim, a crítica operária e proletária era algo em status nascendi. A segunda era o baixíssimo nível filosófico acadêmico no Brasil, que, via de regra, segue modas que, em geral, já saíram de cartaz na França, na Alemanha, nos Estados Unidos, e que chegam ao Brasil como pálidos ecos do que foram em seus países de origem.

Assim, à perda do monopólio e depois da hegemonia do pensamento da Segunda e da Terceira Internacional, organizado no Brasil pelo PCB, não se seguiu um pensamento metódico catalisador de um Bloco Orgânico capaz de promover um novo projeto de nação. O projeto do PT, vitorioso em 2002, não possui um discurso ideológico unificador, fora da ideia do antagonismo entre um projeto desenvolvimentista autônomo, versus o entreguismo pseudo moralista histórico da direita. Foi o suficiente para garantir a vitória eleitoral e a governabilidade por 3 mandatos, mas insuficiente para formar uma aliança hegemônica de classes capaz de levar à frente às reformas estruturais, que não podem ser feitas sem enfrentamentos de classe. A ideologia de consenso durou o tempo em que foi possível arrancar pequenas concessões da elite, sem mexer na estrutura hierárquica de dominação, enquanto a alta das commodities não ameaçou baixar a taxa de lucro da burguesia dependente nacional. Na primeira crise econômica internacional, não debelada internamente, a elite brasileira golpeou este consenso, para manter sua taxa de lucro, aumentando a mais-valia absoluta, em detrimento de qualquer projeto de crescimento nacional.

Pode parecer grego o que estou falando acima, e é. É grego porque simplesmente passamos 13 anos não discutindo ideologia e falando de resultados, evitando falar de luta de classes. A história é imperdoável, não é possível fazer as mudanças estruturais que o país necessita sem fazer um discurso minimamente ideológico e transformar o grego em português, numa linguagem que as massas entendam e adiram a estas. Não digam que é impossível pois esta tradução das tarefas políticas de médio e longo prazo já foram traduzidas em lutas e programas, não só em Cuba, mas no Chile de Allende, e o nível médio de discussão política em outros países da América Latina é mais elevado do que o nosso, não porque o povo seja diferente, mas porque a falsa ideia de “um pragmatismo político” (que de pragmático não tem nada) não é hegemônica. Esconder o discurso ideológico para se tornar palatável é uma bomba relógio nos nossos colos. Dá certo durante um prazo de tempo muito curto. A esquerda necessita voltar a falar em ideologia e dizer claramente que tem um projeto popular de emancipação nacional, em lugar de ficar falando apenas de ampliação do consumo.

 

E o que isto tem que ver com discurso dionisíaco de Bolsonaro? Já vou explicar, enquanto a esquerda tenta neuroticamente esconder seus símbolos e discursos (lembram da ideia patética do marqueteiro de plantão escondendo o vermelho da campanha no segundo turno de Haddad contra Bolsonaro?), tornar mais palatável e “popular” sua propaganda; a direita saiu do armário e se arma ideologicamente. Vivemos uma dupla tragédia no Brasil. Temos uma direita armada belicamente, organizada nas milícias bolsonaristas, que são hegemônicas nas policiais militares e que agora começam a se armar fora delas, e temos uma direita também armada ideologicamente, com discurso assumidamente ideológico. Do outro lado temos uma esquerda desarmada belicamente e sem nenhuma possibilidade de se armar e, pior, desarmada ideologicamente, com um discurso Peter Pan namastê.

O discurso populista de Bolsonaro dialoga com o povo brasileiro, que não vive na Praça Salvador, uma espécie de reduto cool de esquerda, está para o pensamento tautológico e auto-suficiente da esquerda brasileira, assim como Los Gatos na Califórnia está para um confortável reduto gay. É uma esquerda que fala para dentro e disputa entre si a popularidade no PCI (Partido Comunista de Ipanema), numa Fla x Flu eterno, PSOL x PT, a hegemonia na classe média educada e que não gosta de palavrões. Enquanto isto, o bolsonarismo explora a potência de uma fala que dialoga com a linguagem popular (como a esquerda fazia na década de 60 – veja a linha “maldita” do Pasquim). Antes que pensem que isto é uma apologia ao machismo ou a homofobia na linguagem bolsonarista, é uma constatação que a direita criou uma estética que visa a falar diretamente com as massas, mexendo com o imaginário do homem comum.

Enquanto nos digladiamos em processos de auto-censura e punição da linguagem, iludidos por uma pós fenomenologia que defendia que “discurso é poder”, algo que já passou de moda pelo menos há 40 anos na França; os comunicadores bolsonaristas estabelecem uma ligação direta com a população, usando o linguajar dos homens e das mulheres que andam de trem. A gente sequer para ler ou pensar na crítica do “homem civilizado” castrado e controlado pelo capitalismo, feita de Nietzsche a Adorno, passando por Benjamin e Debord. Estamos presos a fórmulas bem comportadas e discutimos entre nós mesmos em intermináveis rodas catárticas de conversa. E não conseguimos mais falar a linguagem popular, porque não entendemos que o ser humano é esta luta permanente entre o dionisíaco e o apolíneo, entre a castração civilizada e a vontade de potência. A esquerda ficou limpinha, cheirosa, apolínea, com uma linguagem muito parecida com a dos escoteiros mirins.

 

A linguagem da direita fala diretamente ao dionisíaco do trabalhador cansado e explorado. Só vemos selvageria na linguagem de bolsonaro e não entendemos o seu elemento comunicacional direto popular. Por incrível que pareça, a linguagem de Bolsonaro joga na catarse. A nossa na censura.

Até mesmo para responder aos ataques fascistas das redes bolsonaristas nos pedem sensatez. Passamos todo o tempo a ideia do cidadão controlado pela indústria do espetáculo, asseado, arrumado, penteado, carente de aprovação do politicamente correta. A direita nos roubou a estética do inconformismo e consegue passar a estética do outsider, captando os elementos de angústia e revolta dos explorados. E a gente sequer entendeu isto. Assim o bolsonarismo tem captado a atenção de jovens rebeldes que antes viam na esquerda a expressão da sua revolta. O discurso limpinho, cheiroso, asseado, bem comportado, pouco atrai estes jovens. Perdemos a estética do maldito e do outsider e sequer avaliamos como isto é importante, como esta se incorpora na estética de Bolsonaro para se vender como um “revoltado” para as massas populares.

É óbvio que não é só isto temos outras questões a resolver. A esquerda foi picada por uma mistura oligofrênica entre um pragmatismo de quinta, que nada tem de pragmático, um cretinismo parlamentar eleitoreiro, que não organiza minimamente o povo (enquanto a direita tem células em cada bairro disfarçadas de igrejas neopentecostais da terceira onda) e discursos “anti-autoritários” pós modernos, que são ecos muito modorrentos de filosofias que saíram de modas na Europa, estamos paralisados ideologicamente. O “horizontalismo” estilo Peter Pan, a falta de organicidade, leitura e formação, a falta de quadros de vanguarda com o mínimo de leitura do mundo, a falta de investimento em criação de quadros orgânicos de esquerda, capazes de fazer uma leitura melhor da realidade, nos jogou no oportunismo, no arrivismo e no aventureirismo.

O discurso extremista de uma esquerda minoritária, que ainda está na Segunda Revolução Industrial fordista, que quer reorganizar o “partido bolchevique no Brasil” e tomar o palácio de inverno, não é consolo ou salvação. O discurso histérico do “vamos para as ruas” todo o tempo, sem leitura de correlação de forças, tática ou estratégia, nem chega a ser uma alternativa à burocratização e ao cretinismo parlamentar.

Enquanto a Europa passou pelo desencantamento do mundo, com a crítica ao progresso (Benjamin, Adorno, Sartre), o Brasil apenas importou estes discurso. Sem fazer os embates reais, inclusive entre o chamado marxismo ortodoxo e os vieses revolucionários de esquerda marxista, sem a aventura surrealista na arte, sem uma disputa de pensamento entre alternativas marxistas e os embates destas contra as tendências não marxistas, o Brasil copia ecos teóricos dos países dominantes no sistema e transforma o lugar de fala, necessário, numa recusa a juntar todas as forças na luta de classes contra o capital.

É óbvio que a luta identitária veio para ficar. Não estou entre os marxistas “anti-identitários”. Acredito mesmo que anti-identitários e identitários anti luta de classes padeçam de uma mesma doença dialética. Estes, porque veem as árvores, mas não conseguem identificar a floresta. Não dá para fazer luta anti machista, anti racista consequente que não seja, ao fim e ao cabo, uma luta anticapitalista. O capitalismo é a estrutura nodal que mantém o colonialismo, o machismo, o racismo, a homofobia. Já os marxistas anti identitários não conseguem entendem a importância estratégica de juntar todas estas lutas, numa luta anticapitalista, e querem montar uma orquestra, sem juntar os instrumentistas. Todavia, não há luta revolucionária sem ideologia revolucionária.

A recusa sistemática, com a desculpa de autoritarismo contra qualquer sistema ideológico, de uma análise global do sistema capitalista – que só pode ser feita através de um método dialético, que análise a conjunção de todos os elementos do sistema, estruturais e superestruturais – é a recusa a fazer a luta anticapitalista. É o que Guy Debord chama de protesto permitido pela indústria cultural, é o protesto amestrado, destinado a tornar-se produto vendável do sistema, que no máximo, tautologicamente, irá lacrar (esquerda organizada para lutar no BBB da Globo, por exemplo) e circular na internet. Este protesto amestrado não vai ameaçar nunca as estruturas de dominação. O mal dialético como elemento destrutivo da análise, o negativo como força permanente de dissolução, o dionisíaco (vontade de potência), como elemento não amestrado pela civilização castradora (que quer transformar o ser humano num parafuso), a crítica corrosiva e antissistêmica, a denúncia da inconciliabilidade dos interesses de classe, de incontrolabilidade e da ameaça de destruição que o capitalismo hoje faz do planeta e à humanidade; todos estes fatores não cabem nos ritos horizontais, sem organização centralizada da esquerda Peter Pan namastê. É necessário uma dialética sistemática global de esclarecimento, a única capaz de arrastar conjuntamente todos os oprimidos para lutar organizadamente contra a derrubada do capital.

Ou a esquerda redescobre a dialética, ou vai no máximo ficar lacrando na internet presa ad eternum na Terra do Nunca da crítica que o capitalismo tolera, como crítica bem-comportada e politicamente correta à “má-educação da direita”, como produto vendável de rebeldia permitida pró Capital. A esquerda Peter Pan namastê é a esquerda que a direita ama.

Combates por uma certa história

Em 1990, o saudoso historiador Eric Hobsbawm, uma das minhas principais referências intelectuais, escreveu um texto memorável sobre os cem anos do 1º de Maio, explicando como a data foi inscrita no calendário pela gente comum, a que, não deixando a mais das vezes registo individual, cria colectivamente tudo o que tem valor e faz a história andar para a frente.

A revista Tribune, um dos sinais de revitalização do pensamento socialista britânico, decidiu republicar o ensaio, acompanhado-o de belíssimos cartazes. Não andará por aí um tradutor?

Este texto foi escrito num período em que as coisas estavam mesmo andar para trás, em que era urgente combater pela memória. Nesse mesmo ano, noutro artigo, Hobsbawm defendeu que o principal efeito de 1989 tinha sido o fim do medo entre os ricos, o que teria consequências danosas para os pobres.

Entretanto, um discípulo de Hobsbawm, Donald Sassoon, autor de   pdfCem Anos de Socialismo(28.83 MB), que continua a ser a melhor história da esquerda europeia que eu já li, voltou, também na Tribune, ao tema da trajectória da social-democracia, depois de ter andado, entre outros, a escrever uma história global do capitalismo até 1914. E fê-lo, constatando a previsibilidade da derrota da social-democracia desde essa monumental obra:

“A maioria dos partidos social-democratas aderiu a políticas de austeridade, permitindo que os salários estagnassem, que as desigualdades aumentassem, privatizando serviços públicos numa extensão inimaginável trinta anos atrás, sem sequer ousar taxar os beneficiários prósperos deste processo. Raramente compensa lutar no terreno do adversário”.

Realmente, não compensa. Lembrei-me da síntese de outro historiador britânico, Perry Anderson, sobre evolução da social-democracia europeia, feita logo em 1994:

“Outrora, nos anos fundadores da Segunda Internacional, tinha por objectivo o derrube do capitalismo. Depois tentou realizar reformas parciais concebidas como passos graduais para o socialismo. Finalmente, passou a ser favorável ao Estado-Providência e ao pleno emprego no quadro do capitalismo. Se agora aceita a destruição do primeiro e o abandono do segundo, em que tipo de movimento se irá tornar?”

A resposta é hoje clara.

Como já argumentei, aqui ou aqui, a europeização da social-democracia explica parte importante da crise terminal dos partidos para quem o movimento era tudo: participaram activamente num movimento integrador que, com a UE, gerou impotência democrática em tantos Estados europeus. A social-democracia, o movimento socialista, conquistou tudo através dos Estados.

Mas a história não acabou, aposto. O que tem mesmo de acabar é o globalismo, que jamais pode ser confundido com internacionalismo.

 

Baixar: pdfOne Hundred Years of Socialism The West European Left in the Twentieth Century(28.83 MB)

       pdfA Crise da Crise Do Marxismo(734 KB) (Perry Anderson)

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

As contas fazem-se agora e depois!

Não tem sido frequente, mas também sucedeu de quando em vez comigo aquilo de que o Miguel Guedes se queixa na sua crónica no Jornal de Notícias: aparecer-lhe quem ache ser este o tempo de unir forças não fazendo sentido um discurso marcado pelas diferenças entre as esquerdas e as direitas. Algo do tipo ontem aqui verberado a propósito de José Miguel Júdice, que quereria ver um governo de união nacional a responder a estas circunstâncias excecionais como se o de António Costa não esteja a fazer tudo quanto é possível e necessário com o agrado manifesto da maioria dos portugueses como o atestam as sondagens.

 

Esses que vêm com a falácia de não se justificarem divisões são os apoiantes dos que, entre 2011 e 2015 perpetraram tais cortes no setor, que quatro anos de recuperação não bastaram para pôr cobro a todos os danos suscitados pela sua herança de má memória. São os mesmos que, para evitarem essa chatice que continua a ser a existência de classes sociais com interesses contraditórios, gostariam de nos convencer sobre o fim das ideologias, porque as sabem capazes de lhes darem cabo deste estado de coisas em que se sentem confortáveis. São os mesmos que se incomodam com as evidências de nada de essencial ter faltado até aqui nos hospitais e serviços do SNS, mas não veem qualquer problema nas perguntas acintosas dos supostos jornalistas (na realidade ativistas das direitas) que, todas as manhãs procuram - em vão, reconheça-se! - pôr em causa a fiabilidade dos números apresentados pelo secretário de Estado, a ministra ou a diretora-geral de saúde.

 

Por isso mesmo concordo em absoluto com o cronista do Jornal de Notícias, quando ele diz que “as contas fazem-se agora. É nos momentos de crise que percebemos como tantas das nossas prioridades estão invertidas, como tantas das nossas (não) opções se arrastam para a irreversibilidade pela aceleração dos tempos. Este é um momento de emergência, exigência e urgência. É aqui, não depois de sairmos de um pesadelo, que devemos deitar contas à vida por muitas decisões políticas passadas que quase desmantelaram o SNS, sem dó nem piedade.”

 

Daí que reitere essa regra: as contas fazem-se agora e depois do fim do jogo como defendia um célebre capitão do clube do mesmo cronista. Porque no agora e no que se seguirá será sempre imperioso dividir as águas entre aqueles que sempre defenderam o Serviço Nacional de Saúde e o querem mais forte e os que contra ele votaram desde início e só se fazem seus paladinos quando lhes dá jeito. E aqui Marcelo está obviamente incluído.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/as-contas-fazem-se-agora-e-depois.html

Brasil | Sobre a “morte da esquerda”

Em artigo recentemente publicado em El País, Vladimir Safatle afirma a morte da “esquerda populista”, e vem gerando inúmeros comentários e críticas.

 

 

O autor até acerta no que diz respeito ao esgotamento de certos setores da esquerda em não atingirem as massas que nas últimas eleições optaram pela direita, e não é uma direita qualquer, mas sim de corte fascista associada com um rigoroso programa neoliberal liderada por Guedes dando prosseguimento às bases fincadas pelo governo Temer. O problema do seu artigo é do seu diagnóstico quanto à esquerda populista, pois a seu ver o seu ciclo já está esgotado e marcado por derrotas ao citar como exemplo o governo Jango antes do governo Lula.

O seu erro principal consiste em depreciar o histórico do populismo de esquerda no Brasil, pois representou um grande modelo de mobilização popular nos anos 1950/60, e que teve uma forte sobrevida durante os governos Brizola no pós 1979. O populismo representado por Brizola, Jango, Arraes, Julião, e da intelectualidade isebiana (especialmente Guerreiro Ramos e Vieira Pinto) expressou o nacionalismo revolucionário anti-imperialista que marcou as lutas de libertação nacional do chamado Terceiro Mundo. É o que Laclau define o populismo de esquerda enquanto uma ideologia nacionalista revolucionária que expressa a contradição Povo X Bloco no Poder. Safatle reproduz em seu artigo para atingir o lulismo o mesmo preconceito da já datada (e equivocada) perspectiva uspiana que predominou na seara acadêmica entre os anos 1960-1980, e não se limitando à própria USP, mas que atravessou a cidade de São Paulo e sendo reproduzida em diversos espaços acadêmicos. Essa leitura de fundo funcionalista pautada na mobilização do campo à cidade onde teria se formado uma nova classe operária sem consciência revolucionária e de classe, e diluída nas lideranças carismáticas e subalternas ao Estado. Isso ficou expresso nas teses defendidas por Weffort, Ianni, FHC, Marilena Chauí, Maria Sylvia Carvalho Franco, etc. Essas análises eram completamente equivocadas e reducionistas já que colocavam na mesma cesta Ademar de Barros, Jânio Quadros conjuntamente a nomes como Brizola, Arraes e Julião. Não separavam o populismo de direita do de esquerda. Chega a ser risível de tão absurdo associar Brizola e suas políticas contra o latifúndio e de encampações de empresas estrangeiras em seu governo no RGS (na década de 1980 encampou as empresas de ônibus da família Barata que foram devidamente devolvidas num dos primeiros atos do governo Moreira Franco) ao lado de Ademar de Barros.

O nacionalismo popular foi sempre uma ideologia de mobilização e de efetivação de uma consciência crítica e de engajamento. Chega a ser paradoxal Safatle citar o exemplo positivo da Argentina diante o julgamento da junta militar. Ora, distintamente do Brasil onde o populismo de esquerda foi varrido pelo meio acadêmico uspiano (digo sobre a USP pregressa já que a mesma como outros centros acadêmicos paulistas e fora de São Paulo há atualmente uma maior diversificação, e mesmo recuperação desse legado político e teórico), e pelas organizações partidárias pós 1979 a exemplo do PT e da esquerda do PMDB (que posteriormente vai se tornar PSDB). Diferentemente do Brasil, a Argentina não anulou o populismo de esquerda do peronismo (tendo como referência máxima John William Cooke), e por isso mesmo teve e ainda tem base de mobilização reativa ao projeto neoliberal e do fim dos direitos sociais. O mesmo pode ser dito do chavismo na Venezuela. Ao reproduzir a crítica uspiana ao PCB na defesa deste ao governo Jango e de suas reformas de base (que eram bem mais radicais se comparadas ao projeto implementado pelos governos Lula e Dilma) se equivoca historicamente ao citar Marighella. A posição crítica de Marighella só veio depois de 1964. A única organização comunista que defendia a derrubada do governo Jango era o PCdoB que posteriormente em agosto de 1964 fez autocrítica dessa posição equivocada no documento “O golpe de 1964 e seus ensinamentos”. E mesmo Marighella nos tempos de ALN não descartava a aliança com a burguesia nacional na derrubada da ditadura e na retomada de um projeto nacional popular. As únicas organizações que defendiam a revolução de caráter socialista eram a POLOP e o MR-8, enquanto as demais (incluindo o PCdoB) se posicionaram em defesa da etapa nacional popular.

Mas de fato há certas esquerdas que mataram o projeto da “esquerda tradicional” e vêm solapando a formação de um programa nacional popular para o confronto do projeto neofascista e neoliberal em curso no Brasil. Primeiramente é a chamada “esquerda identitária” que se limita às conquistas dos direitos civis, mas sem nenhum projeto de confronto direto ao projeto neoliberal e ao modo de produção capitalista. Esses grupos fartamente financiados nos últimos 30 anos pela Fundação Ford escolheram como alvo crítico principal o marxismo, e eivados de um discurso fortemente anticomunista. O problema para esses grupos não é o capitalismo em si, mas o “capitalismo branco” ou o “capitalismo patriarcal”, como se a solução fosse um “capitalismo preto” ou um “capitalismo matriarcal”. A defesa dos grupos marginalizados (e a defesa de suas identidades) pelo capitalismo e de sua verdadeira inserção social, econômica e política só poderá se efetivar por meio da articulação com os demais grupos opostos à política neofascista e neoliberal implantada pelo governo Bolsonaro num projeto comum. No mais é continuar lutando contra moinhos de vento à lá Don Quixote, sem efeito algum. Por isso, os movimentos feministas, movimentos negros e movimentos LGBT + precisam abrir cada vez mais diálogos e pautas em comum para a construção de um projeto nacional antineofascista e antineoliberal com os chamados movimentos da dita “esquerda tradicional”.

Em segundo, a esquerda vinculada à tradição da Quarta Internacional tem mostrado uma agonia e descenso na última década. Isso ficou explícito diante a sua reação a um evento sobre Stalin na USP gerando manifestações contrárias, e mesmo censura. O seu mal estar diante do crescimento de uma nova geração de militantes que têm como referência o legado da Terceira Internacional nas figuras de Stalin e de Mao Zedong deve-se a seus próprios erros ao longo das últimas décadas. Sou de uma geração de militantes que se constituiu em grande adversidade a esse legado que optaram pelas teses trotskistas como também autonomistas e social-democratas. Defender a herança das conquistas soviética e chinesa era a própria heresia. Contudo, qual foi o resultado dessa perspectiva? Um somatório de erros e de derrotas do campo progressista e da vitória do que há mais de reacionário. A “grande vitória” da Quarta Internacional que foi a derrubada do regime socialista polonês liderada pelo “camarada” Lech Walesa por meio do Solidariedade resultou num enorme retrocesso político na Polônia ao impor o modelo neoliberal e construindo uma política de caráter xenófobo e ultra conservadora. Walesa já deixou bem explícito a sua posição racista e homofóbica em seus discursos. O mesmo diante o apoio à derrubada do regime de Kadafi pela OTAN e por mercenários no que resultou no fim da própria Líbia com direito ao retorno da escravidão (que inexistia nos tempos do governo Kadafi, sem falar no fim da liberdade religiosa e dos direitos das mulheres). Como se não bastasse isso, tivemos o remake desse apoio à OTAN na derrubada do governo sírio, como também à ultra-direita ucraniana, ao movimento reacionário de Hong Kong (com direito a desfile da bandeira dos EUA) contra o governo chinês, e da oposição conservadora venezuelana ao chavismo. Em defesa das massas? Não, na prática foi e tem sido a defesa do que há de pior no cenário político. O mesmo pode ser dito no “Fora Todos” que defendia a derrubada do governo Dilma – que a despeito de seus limites – não pode ser comparado nem de longe ao que se seguiu a partir de 2016 em nossa formação social. Certamente nem todas as organizações trotskistas tem compactuado com esse desastre, a exemplo do PCO e de alguns militantes, mas a maioria infelizmente está distante de um Jorge Abelardo Ramos. Por isso, essa nova geração emergente afinada com legado da Terceira Internacional e de seus acertos (obviamente também houve erros, mas quem não errou? Trotsky mesmo nunca foi exemplo de flexibilidade haja vista as críticas de Lenin a seu centralismo diante os sindicatos, sem falar na absurda tese da “Revolução Permanente” como se as diferentes formações sociais não tivessem contradições específicas e temporalidades distintas em suas estruturas) como a construção da URSS e de seu papel decisivo no confronto ao fascismo, como também do legado de Mao na China e nos movimentos de libertação nacional dos países coloniais e semicoloniais têm sido a referência por parte dessa juventude emergente. Se identificam com a vitória e com as conquistas obtidas no campo socialista, e não com o fracasso e com a associação aos movimentos conservadores e reacionários que se fazem presentes em diversas formações sociais, especialmente no Leste Europeu de hoje.

É essa esquerda com a qual Safatle deveria mirar a sua crítica e não com a esquerda que se pautou na constituição de movimentos que abranjam amplos setores da sociedade em suas múltiplas diversidades. A falha do PT foi a sua acomodação desde que ocupou os aparelhos de Estado e se afastando da mobilização popular, na contramão do exemplo venezuelano, e mesmo em relação da esquerda nacionalista pré 1964, lembrando que a iniciativa de não reagir e de usar os aparatos militares para neutralizar o golpe foi a de Jango e não a de Brizola. E se parte da esquerda mantiver essa posição de insistir cada vez mais em suas lutas fragmentadas isso resultará cada vez mais na cooptação de setores populares pela direita (em suas diversas correntes que abrangem desde os neopentecostais até “patrioteiros” neofascistas pró Bolsonaro e pró Trump, sem falar nos milicianos que expandem o seu poder territorial). Se queremos aprender com los hermanos argentinos em sua resistência ao projeto da direita para o continente, temos sim de recuperar esse legado para a formação de um projeto comum visando a recuperação do desenvolvimento nacional e dos direitos perdidos numa frente que comporte uma ampla pauta que se faça presente tanto nas redes sociais como nas ruas. Mas para isso o diagnóstico do fracasso tem de ser preciso, o que infelizmente não se fez presente no texto de Safatle.


por Luiz Eduardo Motta, Professor de Ciência Política da UFRJ e militante há 40 anos no campo da esquerda  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/sobre-a-morte-da-esquerda/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=sobre-a-morte-da-esquerda

WARREN BUFFET, BERNIE SANDERS E O «MARXISMO CULTURAL»

«Claro que há uma guerra de classes em curso, e nós (os ricos) estamos a ganhá-la»
warren buffett
 
Nos EUA, os adeptos de um sector do Partido Democrata, que se pode classificar como neoliberal, odeiam Bernie Sanders, acima de tudo, porque este tem a 'ousadia' de introduzir a componente de classe nas suas análises.
Ora, embora a análise de classes não seja absoluta, serve como ferramenta sociológica, não apenas a marxistas estritos, como a social-democratas (caso de Bernie Sanders), socialistas anti-autoritários e mesmo a bilionários, como Warren Buffet.  Este muito bem sucedido homem de negócios, há alguns anos afirmou, realista e cinicamente, o seguinte:
«Claro que há uma guerra de classes em curso, e nós (os ricos) estamos a ganhá-la» - O fundo que ele gere, Berkshire Hathaway, possui a maior fatia das acções da Apple, com uma percentagem de 5,4%,correspondente a $72 biliões.
A chamada esquerda neo-liberal (existe também no lado de cá do Atlântico) tem como característica principal andar sempre em «combates», que são absolutamente divisionistas (ditos fracturantes). Seu resultado é colocar explorados contra explorados. 
- Como é isso possível?  A política identitária afirma que as pessoas são como um puzzle de identidades, socialmente construídas, sujeitas a opressões. Daí derivam as correspondentes lutas de emancipação. 
São exemplos notórios os feminismos «mais radicais», mas de facto, os mais burgueses, pois fazem dos homens, em geral, os inimigos do género feminino. Da mesma maneira, os identitários estimulam os racismos anti-brancos, acirrando a guerra racial. São defensores dum ponto de vista agressivo em relação ao que a sociedade deve tolerar, com o pretexto de não «discriminar» homossexuais, transsexuais e outros. 
Tudo isso se conjuga numa série de «frentes» mono-temáticas, absolutamente inócuas, com o efeito de aliviar (numa altura de crise aguda do capital) a classe detentora do poder. Do mesmo modo, estão dificultando as contestações eficazes e certeiras, que ponham em xeque o capitalismo, ou que - pelo menos - o coloquem na defensiva. 
É esta militância, essencialmente da «esquerda» neoliberal, que tem o ódio como impulsor e é financiada por fundações tais como a de George Soros. Estes neoliberais fazem tudo para difamar e ridicularizar o discurso e análises de Bernie Sanders e seus adeptos. 
Jordan Peterson (o psicólogo) decidiu cunhar o termo «marxismo cultural», para caracterizar comportamentos dessa esquerda neoliberal.  Algumas pessoas começaram a usar essa expressão. Mas é evidente que o termo é um contra-senso, pois a essa esquerda realmente é anti-classista, portanto também anti-marxista.  Dizer isto, não significa que se esteja de acordo com a atitude dogmática de reduzir tudo à luta de classes, de analisar tudo sob o prisma das classes. 
De qualquer maneira, muitos dos que se dizem de esquerda, passam o seu tempo a difamar-se uns aos outros, enquanto a direita - que também tem clivagens ideológicas profundas - sabe cerrar fileiras, quando necessário. Por isso, ela ganha eleitoralmente. Atrai eleitores de todas as classes, incluindo os que mais têm a perder com as políticas da direita, pró-elite e anti-trabalhadores!
Talvez Warren Buffet estivesse a pensar justamente nesta atitude de auto-derrota da esquerda, quando proferiu a célebre frase acima citada.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Como devolver a esperança a quem, há quatro anos, a recuperou

Longe vão os dias de novembro de 2015 quando António Costa declarou o óbito ao «arco da governação» do nosso descontentamento e convergiu com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins para a criação de uma maioria parlamentar, que perduraria nos quatro anos seguintes. Não deveria ter-me iludido, já que o passado me dera lições bastantes sobre a inconveniência de acreditar na competência, lucidez e determinação dos que considero os da minha trincheira política. É que ficaram pelo caminho muitas das vãs esperanças alimentadas logo a seguir à Revolução de Abril!

 

Quatro anos depois, com o governo minoritário a fechar-se de forma autista numa falsa autossuficiência, as demais esquerdas a darem tiros nos pés em nome de dogmas insensatos e a acelerada reconversão das direitas aos seus pendores mais extremistas, dá para recear o que nos trará o futuro a médio prazo. Até porque estará em Belém quem para lá foi com a assumida missão de devolver o poder aos que considera donos disto tudo e andam por ora a conterem os danos de não o abocanharem para já.

 

No governo aplaudo o que Pedro Nuno Santos tem feito em prol da recuperação da ferrovia, mormente o que agora se sabe a propósito de aquisição de composições à Renfe de forma a contornar as limitações do aumento da procura dos serviços da CP enquanto não chega o novo material circulante já encomendado.
Mas é difícil engolir a amarga pílula de Marta Temido lançar novo concurso para a PPP do Hospital de Cascais ou Graça Fonseca nomear para o Património quem o vai querer rentabilizar a favor dos interesses imobiliários donde é oriundo.

 

As esquerdas governamentais poderiam ganhar lucidez, seguindo o conselho de Manuel Carvalho da Silva que, no Diário de Notícias, reconhece que o Bloco e o PCP precisam de defender-se das inusitadas desconsiderações socialistas “mas terão de ser mais convergentes e ofensivos na definição da agenda desta legislatura”, buscando menores denominadores comuns onde mais sentido fazem. E dá exemplos: no perfil da economia, na distribuição da riqueza, na coesão social e territorial, nos constrangimentos orçamentais e no serviço da dívida. Sem desprimor para as qualidades negociais de Duarte Cordeiro, podemo-nos questionar se o referido Pedro Nuno Santos não estará a fazer mais falta na recriação parlamentar de coligações positivas, que obstem à repetição das de sinal contrário, causadoras de indigestos amargos de boca no passado?

 

É que, como conclui o antigo líder da CGTP, hoje investigador na Universidade de Coimbra,“só assim existirão espaço e condições para soluções que não matem a justa esperança da esmagadora maioria dos portugueses.” Tanto mais que o reverso dessa hipótese pode revelar-se sinistro se potenciar o incremento da influência social e eleitoral da desventurada assombração sugerida por algumas sondagens.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/02/como-devolver-esperanca-quem-ha-quatro.html

A mediocridade e mesquinhez que nos ameaçam

Para mal dos nossos pecados a História portuguesa tem sido feita de uma sucessão de confrontos entre aqueles que os paladinos da dialética marxista, distinguem entre os velhos e os novos.

 

Se o espírito renascentista acompanhou o seu surgimento em Itália logo o clero e a aristocracia acautelaram o seu silenciamento através da Inquisição. Se um Marquês do Pombal consagrou na governaçãoos valores dos Iluministas, logo uma viradeira deu plenos poderes a Pina Manique para lhes esmagar as aspirações progressistas. Se os republicanos derrubaram a monarquia e impuseram a separação entre a Igreja e o Estado ou a democratização do ensino, logo se alevantou a aventesma de Santa Comba a fazer-nos “pobrezinhos, mas honrados”. Se os capitães de Abril nos devolveram a Democracia e Mário Soares nos agregou ao que a Comunidade Europeia prometia ser, enquanto prenúncio de uma grande potência inovadora e continental, logo surgiu uma versão recauchutada do *lente de Coimbra” para comprovar que a mesquinhez preconceituosa germinada num posto de gasolina de Boliqueime encontrava no imaginário coletivo os apoiantes suficientes para nos imporem o horrível mostrengo por quase duas décadas.

 

E assim continua a suceder: a metade lusa, que execra a inteligência, e só se conforta com a promoção dos mais medíocres, não desiste de impor à outra metade alguns seres, que o mestre Almada Negreiros poderia reconhecer como aqueles compatriotas onde se identificariam todos os defeitos presentes em todas as grandes nações... só lhes faltando as qualidades que os compensassem e superassem. Daítermos aguentado com um cábula contumaz como primeiro-ministro entre 2011 e 2015 e olhamos para o lado direito da Assembleia da República com a pavorosa constatação de quanto ali se congregam os piores exemplos de rasteirice e preconceito.

 

Se à esquerda da bancada do Partido Socialista podemos encontrar estratégias e intervenções com que não concordamos, mas entendemos como fruto de uma obstinação ideológica desfasada dos constrangimentos e circunstâncias atuais, à direita não existe um pensamento coerente quanto ao tipo de país pretendido. Sobretudo na bancada laranja que passou a discussão orçamental em jogos tacticistas incoerentes, que se contradiziam entre si. Nada de estranhar: quando a cabeça não tem juízo e o país é que, à sua conta, se arrisca a pagar.

 

Mas a mesma pequenez da direita par(a)lamentar, encontra-se em Carlos Alexandre, esse juiz de Mação, que poderia revelar a argúcia tantas vezes presente em quem tem rústicas origens, mas dessa condição só reteve o ignóbil fanatismo que dedica aos que sabe superiores e expresso no manifesto ódio ao primeiro-ministro. É tanta a vontade de o acusar do que quer que seja, que tal aversão manifesta-se nos exercícioscatárticos (ainda) propiciados pelo seu cargo. A resposta de António Costa às tropelias por ele cometidas em nome do seu estranho conceito de Justiça - publicando o texto, que os prosélitos da criatura já andavam a deturpar! - é uma estocada , que desejaríamos letal para quem reiteradamente desprestigia a classe a que pertence.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/02/a-mediocridade-e-mesquinhez-que-nos.html

Portugal | Votar ao lado dos fascistas

 
 
Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
 
A questão em epígrafe coloca-se agora que existe um partido fascista com assento parlamentar, e agora que partidos como o Bloco de Esquerda não percebem que votar propostas desses partidos é passar uma linha vermelha, por muito interessante que a proposta apresentada aparente ser.
 
Aconteceu numa das votações do Orçamento de Estado e Bloco caiu na asneira de ver apenas a medida ignorando o enorme elefante na sala. Ao votar-se numa proposta do Chega está-se, mesmo que inadvertidamente, a reforçar a importância de um partido cujo líder e deputado, há escassos dias, convidou outra deputada a voltar para a sua terra, entre um chorrilho de ideias, frases e gestos fascistas.
 
Não adiantará depois acusar esse mesmo partido de "não ter gente séria", quando antes se votou numa das suas propostas.
 
Tudo isto é novo. É um facto. Pelo menos na História recente do país. O aparecimento de partidos de génese fascista causa naturalmente apreensão, hesitações e até confusão. Espera-se assim que partidos como o Bloco de Esquerda percebam que este fenómeno é para ser combatido e não apoiado, mesmo que inadvertidamente.
 
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-votar-ao-lado-dos-fascistas.html

As causas das derrotas recentes da esquerda

Por Valério Arcary

(artigo originalmente publicado no site A Terra é Redonda)

Recordemos a metáfora da curvatura da vara utilizada por Lênin: quando a vara está muito inclinada numa direção, se queremos encontrar o ponto de equilíbrio, é preciso incliná-la, primeiro, até ao extremo oposto. Lênin herdou este método de Marx. Um debate entre posições opostas, não se resolve produtivamente pela via das mútuas concessões.

Em um primeiro momento, para esclarecer as diferenças e reduzir as margens de erro, o melhor caminho é desenvolver cada uma das posições até ao extremo, para conferir quanto e quais das hipóteses iniciais se sustentam. As forças que explicam os fluxos e refluxos das lutas sociais, as inflexões inesperadas, as longas estagnações, as bruscas acelerações e, de novo, a terrível lentidão das mudanças que não vêm, até que se precipitam transformações vertiginosas, quase como uma surpresa, não se revelam com facilidade.

A história conhece os movimentos de superfície, e as transformações nas camadas tectônicas mais profundas. O regime politico construído desde o fim da ditadura, a chamada Nova República, está ameaçado pelas investidas bonapartistas, mas ainda não ruiu. Estamos em uma situação reacionária, porém, não contrarrevolucinária. Tampouco estamos em uma situação pré-revolucionária em que se abre a oportunidade de derrubar o governo, convocando o Fora Bolsonaro.

Este governo de extrema-direita não foi um acidente historico. Só foi possível porque aconteceu uma derrota séria. Acidentes históricos são compreendidos, em uma tradição teórica hegeliana, como fenômenos imprevistos, acasos, uma “ironia” da história, portanto, sem consistência duradoura. Bolsonaro e a corrente neofascista que lidera são uma extravagância perigosa, mas, desde 2016 era uma candidatura favorita para chegar ao segundo turno de 2018. Nunca foi o melhor inimigo a ser derrotado. Mas sua eleição não foi, tampouco, uma derrota histórica.

 

Uma derrota histórica define um quadro estável duradouro da relação social e política de forças por um longo periodo. Ainda há reservas sociais e políticas na esquerda brasileira para deter Bolsonaro, e tudo que seu governo significa. Existem debates históricos encerrados, e outros que estão em aberto. As interpretações sobre a derrota do Quilombo de Palmares, dos paulistas na Guerra dos Emboabas, da Inconfidência Mineira, da Confederação do Equador, de Canudos, ou do governo Jango Goulart em 1964 são debates instigantes sobre derrotas devastadoras, mas discussões encerradas. A discussão das derrotas acumuladas nos últimos cinco anos têm, também, uma dimensão histórica, mas permancece em aberto. Trata-se de um debate de importância estratégica. Isso quer dizer que dele depende o futuro.

As três grandes batalhas políticas da última década foram as Jornadas de Junho de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff de 2016, e as eleições de 2018. Perdemos todas, mas a relação entre os três processos é a chave da situação atual. Existem, grosso modo, três interpretações na esquerda brasileira sobre o significado do governo Bolsonaro. Elas são incompatíveis. O debate entre as três pode e deve ser, intelectualmente, honesto. Entre as três há, também, posições intermediárias que fazem, como sempre acontece, mediações. Mas são três as grandes narrativas, em perspectiva histórica.

A primeira posição defende que junho de 2013 inaugurou uma onda conservadora, e abriu o caminho para uma ofensiva burguesa em 2015/16 que derrubou o governo Dilma Rousseff, criminalizou e prendeu Lula. O governo Bolsonaro resultou, essencialmente, de uma reação às reformas progressivas dos governos de coalizão liderados pelo PT, ou seja, de seus acertos.

A segunda considera que junho de 2013 foi uma mobilização democrática progressiva; as mobilizações contra a corrupção em 2015 estavam em disputa; e o governo Bolsonaro resultou, fundamentalmente, dos limites e dos erros dos governos do PT.

A terceira sustenta que as jornadas de junho de 2013 estavam, socialmente, em disputa, mas que as mobilizações da classe média em 2015/16 eram, politicamente, reacionárias. Defende que o giro do governo Dilma Rousseff para o ajuste fiscal que produziu uma recessão econômica catastrófica, provocou desmoralização social entre os trabalhadores; concluindo assim que o governo Bolsonaro só foi possível em função de derrotas acumuladas pelos erros da direção do PT, mas seu significado histórico repousa numa reação burguesa, em escala continental, impulsionada pelo imperialismo.

A maioria do campo petista-lulista explica este processo como reação às reformas progressivas que foram feitas durante treze anos. Ou seja, foram derrotados pelos seus acertos, e não pelos seus erros. A ideia impressiona porque tem um grão de verdade. Nenhum governo, porém, é derrotado quando acerta.

Este campo identifica o início da ofensiva reacionária nas jornadas de junho de 2013, contextualiza o giro da burguesia para o impeachment na pressão de Washington, sublinha o papel das agências de inteligência e serviços secretos (a fórmula das guerras híbridas), adverte que o deslocamento da classe média seria produto de um incontível ressentimento social, e explica a debilidade da mobilização popular contra o golpe pela reestruturação produtiva. Vê uma continuidade ininterrupta da dinâmica da luta social entre as Jornadas de Junho de 2013, as mobilizações pelo impeachment de 2015/16, as lutas contra Temer e a prisão de Lula, culminando com a eleição de Bolsonaro.

A análise se restringe a uma avaliação da evolução desfavorável da relação social de forças, desconsiderando as variações que a relação política de forças conheceu nesses cinco anos. Quando aceita atribuir sentido à luta política, capitula a versões de teorias de conspiração. No aniversário dos seus quarenta anos a direção do PT abraça um discurso ideológico fatalista circular de autojustificação. Perdemos porque nossos inimigos eram mais fortes.

A segunda análise tem expressão em correntes da esquerda radical que vê, também, uma continuidade ininterrupta da dinâmica da luta social ao longo destes cinco anos, mas de signo oposto. Por isso defende o Fora Bolsonaro como campanha política prioritária. A miopia tem o efeito inverso. Despreza o peso acumulado das derrotas na consciência da classe trabalhadora, e sobrevaloriza as tensões do governo Bolsonaro com frações da classe dominante. Desconsidera que prevaleceu a insegurança política na hora de lutar contra a reforma de previdência. Destaca, entretanto, os conflitos entre o governo de extrema-direita e o Congresso, o STF, e a mídia empresarial.

Explica o governo Bolsonaro como um acidente histórico. A eleição de Bolsonaro pode ser descrita como um acidente histórico, porque não era o candidato preferencial da burguesia. Mas a ofensiva de golpes institucionais em Honduras, Paraguai, Brasil e Bolívia, não. Ela obedece a um projeto estratégico do imperialismo na America Latina. O governo Bolsonaro só foi possível em função de um processo de acumulação de derrotas dos trabalhadores na luta de classes, anterior às eleições de 2018. Nesse contexto, o governo Bolsonaro se beneficia de uma grande unidade burguesa, e do apoio da maioria da classe média.

A terceira análise é aquela que identica melhor, dialecticamente, as contradições sociais e políticas do processo. A evolução política entre 2013 e 2018 não foi linear. As mobilizações de junho de 2013 foram um campo de batalha em que tudo estava em disputa, e o desenlace muito longe de estar pré-determinado. Tanto que Dilma Rousseff venceu as eleições em 2014.

Já as mobilizações de 2015/16 foram, desde o início, uma explosão de fúria reacionária da classe média. Um deslocamento tão reacionário que abriu o caminho para que a extrema direita, até então muito marginal, pudesse se transformar em um movimento com influência de massas. Não é necessário um exercício de contrafactuais, recorrendo a hipóteses do que poderia ter acontecido se o governo do PT não tivesse apostado em Joaquim Levy como neutralização in extremis das pressões burguesas em 2015, para concluir que o governo Bolsonaro não era inevitável. Mas tampouco é correto concluir que foi um acidente histórico. Não fosse Bolsonaro, seria outra liderança. A eleição de Bolsonaro é incompreensível sem a Lava Jato, a prisão de Lula, a facada em Juiz de Fora, e tem portanto, muito de aleatório, fortuito, contingente. A ruptura da burguesia brasileira com o governo Dilma Rousseff, não. Mas esta ruptura não se explica pelo Bolsa-Família, nem pelo Minha casa, minha Vida, nem pela expansão da rede federal de ensino, nem pelo Luz para todos. Ela obedeceu a um projeto estratégico de reposicionamento do capitalismo brasileiro no mercado mundial.

Uma análise marxista deve considerar diferentes níveis de abstração. O estudo da relação social de forças busca identificar na estrutura da sociedade as posições respectivas das classes em luta. A investigação da relação política de forças procura compreender a esfera da superestrutura onde a luta social se expressa por meio de representações: as instituições do Estado, as distintas organizações, os partidos, a mídia, o mundo da cultura, etc. Não há sempre coincidência perfeita entre a relação social e a relação política de forças, embora haja tendência à confluência. Neste momento, a relação social de forças está um pouco pior que a relação política de forças.

Ao longo do primeiro ano do governo Bolsonaro surgiram tensões com o Congresso, o STF, alguns dos principais grupos de midia comercial em torno de diferentes temas. Foram variados os choques, as desavenças, até algum tumulto diante de inciativas esdrúxulas do núcleo neofascista. O secretário de cultura foi demitido.

Estas crises na superestrutura não iludem que estamos em uma situação reacionária. Prevalece uma unidade burguesa no apoio ao governo, ainda com sustentação majoritária na classe média. Pesquisas de opinião são um indicador significativo da variação dos humores na sociedade, mas somente uma variável, entre outras, para aferir as relações de forças. A situação é reacionária, mas não sofremos uma derrota histórica. A resistência em 2020 pode se elevar a um patamar superior ao de 2019.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/as-causas-das-derrotas-recentes-da-esquerda

A renovação de quadros na esquerda brasileira

Precisamos discutir com maturidade sobre a renovação dos líderes na esquerda. Há duas dimensões diferentes nesta questão. Há uma reorganização das organizações, e há uma substituição de quadros. A reorganização pela esquerda tem sido um processo lento e de vanguarda, pleno de oscilações, que remete à experiência do ativismo mais radicalizado, desde 2013, com a direção do PT.

Dependerá, essencialmente, da dinâmica de uma nova onda de grandes lutas de massas, quando ela chegar. Terá que ser a “quente”. A mudança de referência de massas não se completa a “frio” em uma situação reacionária, portanto, defensiva. Uma nova direção, para poder se afirmar, tem que passar pela prova de grandes combates e vitórias.

A outra dimensão é a renovação de quadros nas organizações existentes. Encontramos com razão muita insatisfação, até frustração acumulada com o excesso de homens de classe média, brancos, envelhecidos e heteros, não poucos paulistas, à frente da maioria das organizações. Há, também, cansaço e desconfiança com lideranças que se perpetuam ao longo de décadas nas posições dirigentes, seja à frente de mandatos, sindicais ou parlamentares, ou de cargos.

Novas lideranças de operários e jovens intelectuais, mulheres e negros, indígenas e LGBT’s, assim como ativistas do nordeste e norte, estão ocupando seu lugar, desde 2013, em uma revolução geracional que só pode ser comparada, talvez, com aquela que ocorreu quarenta anos atrás, nos idos de 1979/1983, quando da onda de fundação do PT e da CUT. Nenhuma revolução é indolor.

O critério de representação é necessário e legítimo, porque é uma inspiração para os explorados e oprimidos. Mas não devemos ser ingênuos. A burocratização dos sindicatos revela que uma origem social proletária não é o bastante. Precisamos de mais e, sobretudo, melhores dirigentes. São dois problemas diferentes, mas indivisíveis, porque é indispensável uma massa crítica importante, quantitativa e qualitativa, para que nela amadureçam grandes talentos.

A classe trabalhadora nunca precisou tanto de revolucionários profissionais. Uma velha brincadeira entre nós era que tinha muito cacique para pouco índio. Mas nunca foi assim. Na verdade, com oscilações, sempre tivemos um déficit na formação de lideranças. A esquerda brasileira organiza, relativamente, uma militância muito menor que sua influência na sociedade permitiria. Isso decorre da debilidade estrutural na formação de quadros. Mais recentemente prevalece a ideia de uma militância como uma doação voluntária ocasional.

 

Os chefes políticos que representam os interesses do capitalismo são quadros muito especializados. A burguesia brasileira leva a sério a formação de suas lideranças. Deixou de investir somente no improviso e amadorismo das velhas dinastias hereditárias. Surgiram muitas incubadoras financiadas pelos maiores milionários. São quadros formados nas melhores universidades e treinados, desde jovens, para o exercício da carreira política, seguindo modelos de seleção norte-americanos e europeus.

Ser um profissional da revolução não é o mesmo que ser um funcionário político de um aparelho. Claro que a idealização de dirigentes de ferro, os homens de aço, uma caricatura, vulgarização e deformação do bolchevismo com forte inspiração militar, fez estragos terríveis. Longas profissionalizações, que foram necessárias quando a existência de organizações revolucionárias era ilegal, eternizam acomodação e maus hábitos. Há funcionários que não são profissionais da revolução, e profissionais da revolução que trabalham para viver.

Revolucionários profissionais são aqueles que abraçam a defesa da necessidade de uma revolução, mas muito mais do que isso. Significa que a dedicação de suas melhores forças, a concentração de suas energias, o sentido de sua vida está orientado para a luta revolucionária. Isso significa a disposição de assumir responsabilidades. Esse deve ser o primeiro critério na seleção de quadros.

 

Mas, como julgar a qualidade dos dirigentes? Existe uma régua? Quais são os critérios? Esta discussão é um tema clássico inescapável. Ressurgiu nos últimos meses, mais uma vez, nas comparações entre Trotsky e Stalin.

Devemos considerar quais são os critérios. Existe a tenacidade, inteligência, coragem, enfim, a capacidade é uma variável. Há que considerar, também, a personalidade. Forte ou fraca, agregadora ou conflitiva, doce ou áspera, narcisista ou modesta, estável ou perturbada. Não se pode deixar de avaliar a experiência, e o repertório. A trajetória são as provas dadas, e o nível teórico político, a formação. Não se deve ignorar o desempenho, o balanço ou os resultados alcançados.

Mas é perigoso quando se negligencia o caráter. O caráter remete à índole da pessoa, ao seu modo de ser, à qualidade moral, à integridade, ao domínio de si mesmo, enfim, ao temperamento. A idealização de um mundo em que só há gente boa não é razoável, muito menos uma premissa socialista.

Qualquer organização humana tem o direito e o dever de se proteger, de decidir quem pode ser membro dela. Querer ser membro de uma corrente socialista significa aceitar que qualquer um pode ser criticado, ser julgado e, eventualmente, punido, até com a exclusão. Significa, também, evidentemente, o direito irredutível de poder se defender, porque não é incomum que as diferenças de opinião, os choques de personalidades, transbordem em rivalidades pessoais nocivas para o coletivo. Há uma dialética nestes processos de seleção de quadros. A ausência de autocontrole é o caminho da autodestruição de qualquer organização.

Qualquer um destes critérios é unilateral e destrutivo, se for absolutizado. Quadros com grande aptidão e disposição ficam, muitas vezes, pelo caminho, pelas mais variadas razões, enquanto outros, menos capazes, se impõem, um processo de seleção que pode ser cruel e regressivo, um “antidarwinismo”. Sempre teremos que considerar o peso objetivo das derrotas, que pode ser devastador, e o custo subjetivo dos desgastes pessoais, que pode ser desolador.

Não podemos esquecer que as organizações de esquerda são coletivos em que devem ser construídas equipes de direção. As figuras públicas ocupam um lugar destacado, mas são somente os porta-vozes das correntes, movimentos e partidos. Ser um porta-voz oferece visibilidade e peso político desproporcional. Em uma equipe, há lugar para quadros com as mais diferentes habilidades: parlamentares, sindicalistas, intelectuais, agitadores, propagandistas, teóricos, organizadores.

As posições da organização devem resultar do debate e de votações. Em um regime interno saudável não há lugar para caudilhos. Ninguém é infalível. Ninguém é especialista de tudo. Não pode haver um chefe, porque o sujeito político é uma organização coletiva, sustentada por uma militância voluntária.

Mas, ainda que a direção seja um coletivo surge o problema da liderança da liderança, ou do centro da direção. Ou seja, dos dirigentes que têm a tarefa de preservar a união dos quadros. A solução pode passar por um pequeno coletivo, na forma de triunvirato ou dupla. A pior solução é que esse papel seja assumido por um só, que toma a responsabilidade da condução da equipe de direção. Podemos aprender com as tragédias do século XX.

Em uma de suas últimas participações em reuniões do comitê central bolchevique, já rompido, politicamente, com Stalin, Bukharin tomou a palavra e, em tom de brincadeira, “teorizou” que a história podia se classificada em três grandes eras: o matriarcado, o patriarcado e o secretariado. Pagou com a vida a insolência provocativa.

Nunca precisamos tanto de revolucionários profissionais. Mas podemos ser leninistas do Brasil, portanto, um pouquinho de irreverência deve ser bem vinda. Podemos rir de nós mesmos, sem nos diminuirmos.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/a-renovacao-de-quadros-na-esquerda-brasileira

Dia 25, sábado: Fórum de Inverno da Manifesto

Dedicado às questões da igualdade e da desigualdade, e privilegiando ângulos de análise e reflexão transversais (a economia, o território, e a tensão entre identidade e classe), realiza-se no próximo sábado, dia 25 de janeiro, a partir das 14h30, na FCSH (em Lisboa), o Fórum de Inverno da Manifesto.

 

Participam nesta edição Paulo Pedroso, Cláudia Joaquim e José Castro Caldas (num primeiro painel, dedicado às interligações entre a economia, o trabalho e a redistribuição), Teresa Barata Salgueiro, José Reis e João Ferrão (que partem do território, nas suas diferentes escalas, para pensar as desigualdades e políticas de igualdade), e Miguel Vale de Almeida e Nuno Ramos de Almeida (que refletem sobre a atual tensão, política e programática, à esquerda, entre identidade e classe). As sessões são moderadas por Eugénia Pires, Irina Gomes e Ana Drago. A entrada é livre (inscrições aqui). Apareçam.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Sexta-feira, em Sines: apresentação do nº 4 da Manifesto

«Quando este número da Manifesto começou a ser preparado, a atmosfera era já de pré-campanha para as eleições legislativas, com os partidos que integraram a solução política de convergência e compromisso à esquerda a acentuar gradualmente as suas identidades próprias. Prevendo-se já nessa altura que a esquerda, no seu conjunto, saísse vencedora das eleições, sem que o Partido Socialista alcançasse a maioria absoluta – cenário que não deixava de constituir um incentivo adicional para a afirmação da identidade própria e do lugar ideológico de cada candidatura – admitia-se que estariam criadas condições para consolidar e aprofundar a governação à esquerda na próxima legislatura. Tanto mais quanto tinham sido dados passos importantes na tarefa conjunta de recuperar o país das marcas mais violentas deixadas pela austeridade de direita, entre 2011 e 2015. Nesse pressuposto, o cenário de reedição da "geringonça", mesmo que em moldes distintos, passaria pela formulação de políticas públicas nos diferentes domínios e, desse ponto de vista, por uma valorização clara do papel do Estado na transformação e desenvolvimento do país. Isto é, da valorização da centralidade do Estado num combate mais determinado e consistente às desigualdades, na efetiva recuperação, melhoria e expansão dos serviços públicos, e no reforço do seu papel enquanto agente económico. Ou seja, da assunção plena do Estado como parte da economia.» Do editorial do nº 4 da Revista Manifesto, que será apresentado em Sines na próxima sexta-feira, dia 17 de janeiro, a partir das 18h00 (na na Livraria «A das Artes»), por Isabel do Carmo e Manuel Coelho. Apareçam.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Y el mundo sigue girando...

Na semana passada havia-o aqui escrito e assim o vi confirmado: a aprovação do Orçamento Geral do Estado para este ano de 2020 constituirá uma mera formalidade, porque, mesmo através das abstenções, as esquerdas sabem ponderar definitivamente o que têm a ganhar ou a perder se não se concertarem com o governo para prosseguir a caminhada conjunta iniciada no final de 2015. É que, quatro anos passados, e mesmo em aparente crise nas suas representações políticas, as direitas não perderam a sua carga virulenta: perante a ineficiência do PPD ou do CDS têm sempre a seu favor a maior parte da imprensa e das redes sociais, os juízes e os magistrados do ministério público, as ordens profissionais e até a provedora da Justiça que, por estes dias, apareceu com a ideia peregrina de haver manuais escolares gratuitos no ensino privado. A referida criatura reconhece não ter razão para, constitucionalmente, exigir essa benesse a quem mete os filhos no ensino privado, mas procura abrir uma pequena nesga pela qual volte o forrobodó de ter o Orçamento a financiar os colégios religiosos e os pertencentes a quem considera a educação um bom negócio para encher os cofres.

 

Felizmente que, aqui ao lado, os espanhóis passaram a ter aquilo que, ainda há poucos meses se afigurava impossível: um governo de coligação com as esquerdas a dividirem as pastas ministeriais entre si. Depois de ter-se esfumado a esperança de Portugal dar o exemplo a ser seguido pelos demais governos europeus, é a vez de Pedro Sanchez e Pablo Iglésias demonstrarem os benefícios de se ter finalmente dobrado um cabo das Tormentas. Acaso vençam todos os escolhos metidos por uma direita radicada ideologicamente no golpismo franquista, poderão mostrar à generalidade dos partidos socialistas e sociais-democratas europeus qual a melhor estratégia a assumir para reduzir as extremas-direitas às suas merecidas irrelevâncias.

 

E continuamos com Trump a assombrar-nos os dias não havendo grandes dúvidas quanto ao verdadeiro objetivo do assassinato de Qasem Soleimani: se Clinton disparava mísseis sobre Belgrado para atirar uma cortina de fumo sobre oimpeachment, que ameaçava expulsá-lo da Sala Oval, o pato-bravo de Queens repete-lhe a estratégia. Daí ter vindo, com a maior das canduras, propor que o processo fosse arquivado para lhe dar tempo para melhor «defender os interesses da América» contra os terríveis aiatolas. Tivemos, pois, uma repetição da matéria há muito dada e, infelizmente para ele, não esquecida entretanto. Mas até às eleições de novembro estamos fadados para lhe aturar os perigosos disparates...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/01/y-el-mundo-sigue-girando.html

Carta do Dr. John Womack ao Partido Comunista do México (PCM)

Como historiador que sou da história moderna do México, especialmente das lutas do povo trabalhador mexicano contra as tremendas injustiças que sofria e sofre, quero afirmar que este documento, as “Teses”, é o melhor resumo, o mais honesto e verdadeiro que já li sobre os primeiros anos tão difíceis do partido, as suas relações internacionais, através da Comintern, as suas bravas lutas pelo proletariado mexicano, industrial e rural, os seus sucessos e os seus erros e, até, os seus fracassos durante os anos setenta e o pior erro, a liquidação do partido, em 1981.


 

 

Sem Título (4).jpg

Três breves comentários sobre um século de luta comunista no México

John Womack, Jr. *

 

Estimados camaradas do Partido Comunista do México,

Recebam as minhas solidárias saudações e estes poucos parágrafos de comentários, que espero lhes sejam úteis.

Em primeiro lugar, felicito-os pela celebração que dignamente desenvolvem para honrar o centenário do Partido Comunista no México, nascido em novembro de 1919 e, dois anos depois, já Partido Comunista Mexicano, devidamente reconhecido como a Secção Mexicana da Internacional Comunista.

Em segundo lugar, felicito-os pelas “Teses do Comité Central do PCM” [1], de 7 de novembro. Como historiador que sou da história moderna do México, especialmente das lutas do povo trabalhador mexicano contra as tremendas injustiças que sofria e sofre, quero afirmar que este documento, as “Teses”, é o melhor resumo, o mais honesto e verdadeiro que já li sobre os primeiros anos tão difíceis do partido, as suas relações internacionais, através da Comintern, as suas bravas lutas pelo proletariado mexicano, industrial e rural, os seus sucessos e os seus erros e, até, os seus fracassos durante os anos setenta e o pior erro, a liquidação do partido, em 1981. Como historiador, devo dizer-lhes que em alguns pontos da história discordo das teses, mas são poucos e pequenos, são detalhes. Com as linhas importantes da análise, que considero muito perspicazes e muito interessantes – e, também muito a propósito para celebrar o centenário – estou inteiramente de acordo.

Em terceiro lugar, mais amplamente, um comentário clarificador: entendo que, hoje, se está a disputar no México a história do PCM, isto é, como comemorar o centenário. De acordo com as notícias que tenho, a diferença surge mais clara entre aqueles que querem lembrar a história e aqueles que querem estudá-la para a utilizar, a atualizar e torná-la eficaz nas lutas pelo poder no México. Esta questão pode expressar-se na diferença entre dois propósitos.

O propósito de lembrar a história, só para comemorar o partido, é, com efeito, o propósito de, finalmente, lhe fazer um enterro decente e respeitoso, prestar-lhe os devidos ritos funerários, regressando de seguida, nostalgicamente, à vida quotidiana subordinada ao domínio perpétuo do imperialismo. Por respeito sincero à memória do pobre partido liquidado, o enlutado pode, de vez em quando, participar em movimentos para limitar a exploração e a opressão que o imperialismo impõe, no México e em outros países. Estes movimentos podem dedicar-se a suavizar o imperialismo, torná-lo menos doloroso e pesado, insistir para que deixe de fazer aquilo que, sistemicamente, é a razão de ser da sua existência. Mas, como o enlutado enterrou o partido e celebrou a sua história para a encerrar, já não sonha pôr fim ao capitalismo. Tampouco pensa num partido para se opor ao imperialismo nas suas bases, muito menos para o derrubar, mas antes fazer um partido capaz, quando o imperialismo se destruir por si mesmo, no México e no mundo, de lutar por uma nova ordem pública, mexicana e internacional, de justiça trabalhadora.

Este triste e resignado propósito parece-se com o daqueles que propõem que tudo o que há de bom para comemorar e salvar do pobre partido liquidado em 1981 já foi subsumido no Morena e no AMLOismo [2] – que tudo o que tinha de bom aquele partido se vai cumprir na chamada Quarta Transformação e, agora, novo baralho, mas o mesmo jogo. Ou seja, uma transformação que não toca nos três fortes pilares do imperialismo no México –, os grandes bancos estrangeiros, os monopólios e os impostos que os capitalistas estrangeiros e mexicanos no México (não) pagam –, outra transformação burguesa, é a maior conquista que os trabalhadores mexicanos podem esperar. Se este é o fruto da liquidação de 1981, se comemorá-lo agora é referenciá-lo ao passado e pretender que o seu destino termine nestas mudanças de forma do capitalismo no México, esta nova fuga do problema fundamental do México trabalhador parece-me que, inconsciente ou deliberadamente, é a desonra da história do partido. Pessoalmente, não questiono aqueles que de boa fé sabem e confessam que estão apenas a fazer o melhor que podem imaginar, dentro dos limites do imperialismo no México. Eu rejeito os limites do capitalismo e desejo que os de boa fé tenham sido comunistas, mas não questiono os seus motivos nos limites que aceitam. São honestos e não pensam que possa fazer-se outra coisa, na melhor das hipóteses, do que mudar a forma da exploração capitalista –, talvez, se o sonho se realizasse, fazer mais outra transformação do capitalismo no México que seja, pelo menos a breve prazo, um pouco menos injusto. Mas aqueles que defendem que nesta mudança de forma do capitalismo, nesta rendição ao capitalismo, o partido liquidado chegou ao seu destino, ou mentem e sabem-no bem (nada de novo na política), ou sofrem dessa triste e doce loucura onde as ilusões são reais. Nas histórias futuras, os mentirosos sairão desonrados; os iludidos lamentados.

O outro propósito, o que leio nas “Teses” do CC do PCM, de estudar a história do PCM para entender os seus sucessos e erros, aprender as melhores lições para a atualizar, ou seja, desenvolver lutas efetivas pelo socialismo no México, esse propósito parece-me que sim, honra a história do partido. Significa, o que eu também creio, que nem o capitalismo nem a sua expressão internacional no imperialismo são a signa humana, tão perpétua e inevitável quanto o sol ou a lua. Significa o reconhecimento de que o capitalismo, sistema internacional do imperialismo, não desaparecerá por si só, nem aceitará novas regras que o limitem por muito tempo, que mobilizará toda a sua força e inteligência para defender a sua ordem. Atualizar a história do PCM é reconhecer que sem luta consciente e perseverante das classes trabalhadoras não é possível acabar com este indecente mundo de exploração e, de seguida, implantar uma nova ordem de justiça trabalhadora. Além disso, é reconhecer que não será possível garantir essa nova ordem sem o comando do trabalhador, dedicado, com toda a consciência e total compromisso, à formação do socialismo, no longo caminho das lutas para o comunismo. E só um partido decidido contra o capitalismo e o seu sistema internacional, um partido que não se limita a reformar um inimigo incorrigível, mas a derrotá-lo para tornar o mundo justo, pode merecer esse mandato.

Por isso gostei muito e, muito especialmente, da referência das Teses ao Partido Comunista como o Estado Maior da classe operária.

20 de novembro de 2019

 

Notas

[1] As Teses do Comité Central do PCMforam publicadas neste blog, em 2 partes, nos dias 22 e 25 de novembro de 2019. – NT

[2] Morena: acrónimo de Movimento de Regeneração Nacional, partido político social-democrata do México, que começou por ser um movimento/associação civil social e político impulsionado por Andrés Manuel López Obrador, conhecido pelo acrónimo AMLO, atual presidente do México, desde 1 de dezembro de 2018. – NT

* John Womack, Jr. é um historiador da América Latina, particularmente do México, da Revolução Mexicana (1910-1921) e de Emiliano Zapata. Aposentou-se em junho de 2009 do cargo de professor de História e Economia da América Latina, na Universidade de Harvard. – NT

Fonte: http://www.comunistas-mexicanos.org/partido-comunista-de-mexico/2223-carta-del-dr-john-womack-al-pcm, publicado em 2019/11/27, acedido em 2020/01/02

Tradução do castelhano de PAT

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/carta-do-dr-john-womack-ao-partido-84899

Boaventura de Souza Santos e as esquerdas

 

O Trilhas da Democracia do domingo, 22 de dezembro, recebeu o sociólogo e jurista português Boaventura de Sousa Santos para uma entrevista de uma hora de duração. Na primeira parte, o diálogo girou em torno do recém lançado O fim do império cognitivo. A afirmação das epistemologias do sul(Belo Horizonte: Autêntica, 2019). Na segunda parte, a conversa deslocou-se para Esquerdas do mundo, uni-vos!(São Paulo: Boitempo, 2018).

A permear as duas partes da entrevista com o intelectual que tem a sua trajetória intimamente vinculada à história do Fórum Social Mundial, a preocupação central com a construção de um projeto contra-hegemônico, que seja capaz de fundamentar o combate às três principais modalidades sistêmicas de opressão/exploração erigidas e/ou reforçadas no curso da modernidade ocidental: o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.

Para tanto, Boaventura apresenta a necessidade de “aprendizagens globais” geradas por um “Sul epistemológico” originado do conjunto das lutas sociais e políticas travadas exatamente contra o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado, “tanto no Norte geográfico como no Sul geográfico”, dando forma a um mecanismo de alimentação e retroalimentação entre saberes/conhecimentos e lutas anti-sistêmicas.

Com a sua defesa das “epistemologias do Sul”, o professor da Universidade de Coimbra não estabelece uma ruptura apenas com o “Norte epistemológico” ocidentalocêntrico, mas também com a tradição socialista e comunista que, desde meados do século XIX, localiza na luta de classes o espaço central da conflitualidade social – uma noção que hierarquiza os tipos de luta social tendo como base uma “ontologia do ser social” que não resiste à observação da multiplicidade de fundamentos objetivos que propulsionam diversos sujeitos históricos a se fazerem presentes na gigantesca arena de conflitos existentes politicamente desde, pelo menos, a grande virada de 1968.

Dito de outra maneira, o conceito de esquerda ampliou-se em relação à movimentação histórica do socialismo, à medida que foi se expandindo para além da luta (mais que atual e necessária) pela igualdade social, rumo a uma miríade de demandas surgidas em nome das liberdades individuais e coletivas, bem como na direção do reconhecimento dos direitos relativos à afirmação da diversidade.

Com isso, o conceito de esquerda estaria, hoje, muito mais próximo da versão contra-hegemônica dos direitos humanos do que propriamente de uma ideia de socialismo que insiste em situar na luta de classes a decisiva chave de compreensão e superação das relações de exploração e opressão existentes na atualidade, ainda que recorrendo à “varinha de condão do uso das múltiplas mediações”.

Em tempos sombrios como os que vivemos, cujos riscos de regressão passam pela ofensiva do “fascismo político” num cenário que já é de “fascismo social”, talvez seja uma questão de sobrevivência – política e física – para as esquerdas superar as disputas inócuas em torno de qual luta é mais central, por intermédio da distinção entre “lutas urgentes” e “lutas importantes” (para fazer, outra vez mais, uso do vocabulário utilizado por Boaventura de Sousa Santos).

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/boaventura-de-souza-santos-e-as-esquerdas

Esquerda, para onde vais?

Bateira001

Se a esquerda quer ser alternativa à extrema-direita, terá de romper com o neoliberalismo da UE e reorganizar-se.

 

 

Snacks de economia política #21

Esquerda, para onde vais?

 

Se a esquerda quer ser alternativa à extrema-direita, terá de romper com o neoliberalismo da UE e reorganizar-se para representar os ‘de baixo’. Tem de estar presente, ser solidária com as comunidades pobres, para poder falar com credibilidade em nome de uma sociedade livre e justa.

 

Para saber mais:

 
 
 
 

 

Ver todos

 

Parceria editorial Rádio Transforma / Jornal Tornado


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/esquerda-para-onde-vais/

Quarta-feira, em Lisboa: apresentação do nº 4 da Manifesto

«Quando este número da Manifesto começou a ser preparado, a atmosfera era já de pré-campanha para as eleições legislativas, com os partidos que integraram a solução política de convergência e compromisso à esquerda a acentuar gradualmente as suas identidades próprias. Prevendo-se já nessa altura que a esquerda, no seu conjunto, saísse vencedora das eleições, sem que o Partido Socialista alcançasse a maioria absoluta – cenário que não deixava de constituir um incentivo adicional para a afirmação da identidade própria e do lugar ideológico de cada candidatura – admitia-se que estariam criadas condições para consolidar e aprofundar a governação à esquerda na próxima legislatura. Tanto mais quanto tinham sido dados passos importantes na tarefa conjunta de recuperar o país das marcas mais violentas deixadas pela austeridade de direita, entre 2011 e 2015.
Nesse pressuposto, o cenário de reedição da "geringonça", mesmo que em moldes distintos, passaria pela formulação de políticas públicas nos diferentes domínios e, desse ponto de vista, por uma valorização clara do papel do Estado na transformação e desenvolvimento do país. Isto é, da valorização da centralidade do Estado num combate mais determinado e consistente às desigualdades, na efetiva recuperação, melhoria e expansão dos serviços públicos, e no reforço do seu papel enquanto agente económico. Ou seja, da assunção plena do Estado como parte da economia.» Do editorial do nº 4 da Revista Manifesto, que será apresentado na próxima quarta-feira, dia 18, por Isabel do Carmo e Nuno Teles. Apareçam.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Uma bala é uma bala

Bruno Carvalho 4.12.19
Eu tinha acabado de chegar à rádio quando a emissão foi interrompida por uma mensagem urgente de Hugo Chávez ao país. Os acontecimentos sucediam-se em catadupa e a sensação era de que a história não era apenas uma disciplina mas algo que caminhava em cima dos ombros daquela gente. Nos bairros chiques da parte oriental de Caracas, os ricos sabiam pela primeira vez o que era ter insónias e insinuavam que as empregadas domésticas eram agentes chavistas.

Foi na cidade da eterna Primavera que viajei no tempo pela primeira vez. Não era o assalto aos céus mas era uma noite tão escura que os galos desataram a cantar quando começámos a disparar dos telhados de Caracas. Era preciso barulho, muito barulho. Havia apenas um mês que Hugo Chávez expulsara o embaixador norte-americano da Venezuela ao grito de 'vayanse al carajo, yankis de mierda, que aqui hay un pueblo digno' e o perigo electrizante de um novo golpe de Estado reclamava uma resposta à altura. Ao nosso lado, ladrava um enorme cão tinhoso que me fazia lembrar o conto de Luís Bernardo Honwana e ouviam-se foguetes por toda a cidade.

Foi no dia seguinte que conheci o Sérgio. Apresentaram-mo na livraria Divulgación. Já estava doente mas eu não sabia. Quando não estava a fumar, estava a beber café. Quando não estava a beber café, estava a fumar. Parecia um marinheiro à deriva num mar de livros e beatas de cigarros. Tinha chegado a Caracas na década de 50 e já trazia a consciência política de quem conheceu de perto a realidade da classe trabalhadora, dos pescadores e das varinas de Espinho. Chegou a conviver com António Ferreira Soares, médico assassinado pela polícia fascista, e aterrou na Venezuela como exilado político. Depois, participou no movimento cívico-militar que derrubou o ditador Marcos Pérez Jiménez em 1958 e liderou ainda o estágio militar dos membros do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) que realizaram o primeiro sequestro político de um navio contra o fascismo de Salazar e Franco.

Mas a mais bonita das livrarias de Caracas apresentava no escaparate obras que em Portugal já só viviam no letargo dos alfarrabistas, prova de que algures no tempo também nós levámos a literatura a sério. Escreveu Bertolt Brecht, há 80 anos, que eram "maus tempos para a poesia". A poucos meses de rebentar a mais sanguinária das guerras, o comunista alemão sentia-se perdido entre uma massa que dava mais valor à forma do que ao conteúdo. "Os barcos verdes e as velas alegres do Sund/não os vejo/de todas as coisas/vejo só a enorme rede do pescador".

Quando o mundo volta a rugir e a velha serpente renasce do ovo, esquecemo-nos, como nos ensinaram estes dias os colombianos, que já chorávamos antes das granadas de gás lacrimogéneo. Talvez nos custe reaprender tudo o que nos fizeram esquecer e é provável que tenhamos de superar velhos debates. Com a desvalorização da ciência, regressam os idealismos, as velhas fórmulas mitológicas e a desmaterialização do real. A obsessão com o novo cega-nos de tal forma a experiência histórica acumulada numa vertigem constante de procurar algo diferente que não reparamos que muitas vezes é o outro lado da barricada que tem de nos mostrar que pouco mudou.

Uma bala, esteja ou não no carregador, é sempre uma bala. Aqui, no Chile, na Bolívia ou na Colômbia.

 

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/12/uma-bala-e-uma-bala.html

Portugal | Quando a esquerda se perde

 
 
Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
 
A esquerda perde-se, fractura-se, desconjuntura-se. É quase um aforismo. A direita com maior facilidade encontra terreno comum e com uma facilidade ainda maior aperta a mão a quem tiver de apertar para levar a sua avante.
 
Vem isto a propósito dos desentendimentos - chamemos-lhe assim - entre a candidata eleita pelo Livre, Joacine Katar Moreira e o próprio Livre. Depois de um voto contra as orientações do partido e subsequente chamada de atenção; depois de entrevistas facultadas pela agora candidata com lavagem de roupa suja; depois da escolha do silêncio por parte do partido, mas não por parte da candidata, sobra as fragilidades de uma esquerda que tão facilmente se perde.
 
A comunicação social, que ataca e explora ferozmente todas as fragilidades da esquerda, sobretudo da esquerda mais à esquerda, não deixa cair o assunto e a deputada eleita pelo Livre faz questão de usar essa comunicação social para deitar cá para fora o que sente. Sem filtros. Quando a esquerda se perde. Novamente. Vezes e vezes sem conta.
 
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/portugal-quando-esquerda-se-perde.html

Redes sociais, movimentos identitários, religião e crime organizado

Um debate atual que se coloca é se as esquerdas não estariam abandonando os movimentos populares e privilegiando a disputa política nas redes sociais e nos movimentos identitários.

 

 

Penso que se coloca uma falsa polêmica nesta discussão, uma vez que a adesão às redes sociais se dá majoritariamente nas camadas médias da sociedade e a classe média sempre foi um campo de disputa. Também é falsa a polêmica no que diz respeito aos chamados movimentos identitários, pois as bandeiras de igualdade de gênero, de combate aos preconceitos, sejam eles de ordem racial, religioso, de opção sexual etc., sempre foram incorporadas pelas esquerdas. Ou seja, nunca houve contradição no fato das esquerdas atuarem junto a segmentos médios e/ou segmentos identitários e os movimentos populares comunitários.

Já os movimentos populares, mais especificamente o comunitário, e sindicais operários, por sua vez, passaram por uma verdadeira desestruturação a partir das décadas de 80/90, o que resultou em grandes dificuldades de ação das organizações de esquerda nestes seguimentos e, consequentemente, levou a uma aparente opção por atuação prioritária nos segmentos médios e movimentos identitários.

O movimento sindical operário, após as vigorosas greves metalúrgicas do final dos anos 70, foi perdendo força com as mudanças no mundo do trabalho promovidas pela imposição dos conceitos neoliberais e pelo avanço da automação, associados também às crises econômicas. O movimento sindical se manteve forte no funcionalismo público e nas empresas estatais, lembrando que os petroleiros sofreram um forte revés no governo FHC.

Ao final dos anos 70, em que pese o desmantelamento das organizações de esquerda pela violência repressora do regime militar, não só o movimento sindical no ABC paulista era vigoroso, mas também os movimentos no campo e principalmente o movimento comunitário, organizado nas periferias das grandes e médias cidades. Tal força tinha como elemento motor os setores progressistas da Igreja Católica, em especial aqueles ligados à Teologia da Libertação, que conseguiam estabelecer profunda capilaridade nos seguimentos populares através das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Todo este movimento convergiu para a organização da ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais) em 1980, que fundaria e se constituiria na corrente majoritária do Partido do Trabalhadores. A penetração desta corrente era de tal ordem que, em menos de uma década, converteria o PT no maior partido de esquerda e em duas décadas chegaria ao poder.

Com a anistia e o processo de abertura, os partidos tradicionais de esquerda começam a se rearticular e a buscar reconquistar sua influência de massas. No decorrer dos anos 80, em especial nos movimentos comunitários e no campo, encontravam os espaços ocupados pelas pastorais que colocavam ferrenha resistência em dividir sua influência com outras forças, muitas vezes até mesmo expressando uma posição anticomunista explícita.

A partir dos anos 90 a Teologia da Libertação passa a sofrer forte oposição dentro da Igreja Católica, em especial do próprio Vaticano, ao tempo que no campo religioso as igrejas evangélicas começam gradativamente ocupar os espaços das CEBs nas periferias dos grandes centros. De um percentual de 9% da população que professava credos evangélicos contra 83% de católicos em 1991, segundos dados do IBGE, em 2010 já representavam 22% contra 65% de católicos e, segundo o Data Folha, atualmente o percentual já é de 32%. Em 2030, permanecendo a atual tendência, os evangélicos serão a maioria com aproximadamente 45% da população convertida.


15ª Estação da Cruz da América Latina, de Adolfo Pérez Esquivel

Os indicadores apontam também que este crescimento exponencial se dá principalmente nas periferias dos grandes centros. O Rio de Janeiro e sua região metropolitana é a região que apresenta o maior crescimento.

Este fenômeno não representa tão somente uma conquista de espaço religioso, mas também passou a representar um movimento político que controla o voto e a participação política de seus fiéis. Adquiriu tal dimensão que há anos a chamada bancada evangélica, congregando pastores de diversas igrejas, atua como um verdadeiro partido. Na atual legislatura soma 82 parlamentares na Câmara, muito superior às duas maiores bancadas que são a do PT (56) e PSL (52). Destes, 28 são ligados à Assembleia de Deus, de Silas Malafaia e outros 17 a Igreja Universal, de Edir Macedo. São Paulo elegeu 17 deputados evangélicos e o Rio de Janeiro 11.

Importante lembrar também que em 2002 e 2006 os evangélicos apoiaram Lula e em 2018 foi uma das principais bases eleitorais de Bolsonaro.

Não foi, porém, só o avanço dos evangélicos que afastou as esquerdas dos seguimentos populares. Já no início dos anos 80 surge a organização criminosa chamada Comando Vermelho, estruturada inicialmente no presídio de Ilha Grande, passando a controlar posteriormente o tráfico de drogas e armas nas favelas do Rio e se expandindo no restante do país, dando origem inclusive a sua hoje grande rival, o PCC. Estas duas organizações criminosas se digladiam atualmente em quase todas as unidades da Federação pelo controle dos presídios e dos bairros periféricos nas capitais, grandes e médios centros.

Mas não só o narcotráfico tomou forma organizada. Nos anos 90, originárias dos esquadrões da morte, começam a atuar também de forma ostensiva e organizada as milícias que passam a disputar o controle de territórios com as organizações de narcotraficantes. Passam a controlar não só as atividades criminosas, mas também organizações populares como associações de moradores e, principalmente, dar salvo conduto ou vetar quem pode ou não pode fazer política nos territórios sob seu controle.

Da mesma forma atuam as organizações de narcotráfico em territórios sob seu controle Em muitos casos, tais organizações, milicianas ou de narcotráfico, atuam em acordo explícito ou velado com evangélicos. Chegamos ao absurdo de ouvirmos falar hoje de narcotraficantes evangélicos. Junto as castas militares e judiciárias, esta combinação explosiva e escabrosa entre religião e crime se transformaram no elemento motor de retrocessos não só no Brasil, mas em muitos países da América do Sul.

Portanto, travar a disputa com estes segmentos não se trata somente de recuperar a influência sobre as massas mais pobres e periféricas, mas principalmente fazer frente a ofensiva reacionária e conservadora em curso no Brasil e no Continente. Encontrar formas de capilarização nos bairros, vilas e favelas, rompendo o cerco criminoso e religioso é o grande desafio do momento. As redes de educação, saúde e movimentos culturais talvez seja um caminho a ser explorado.


por Jorge Gregory, Jornalista e professor, trabalhou no Ministério da Educação (MEC)  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/redes-sociais-movimentos-identitarios-religiao-e-crime-organizado/

RU | Quando a esquerda volta a instigar a juventude

 
 
Inspirações para sair do labirinto: no Reino Unido, o Momentum, criado há quatro anos, ressuscitou o Partido Trabalhista, livrou-o de uma burocracia encarquilhada e pensa agora vencer as eleições e reverter décadas de neoliberalismo
 
Ruby Lott-Lavigna |  em Vice | Outras Palavras | Tradução: Simone Paz e Gabriela Leite
 
Estou num escritório surrado em Finsbury Park, na região norte de Londres. Um letreiro colado à parede apresenta uma contagem regressiva até 12 de dezembro. Diz: “30 dias para o socialismo”. Outro cartaz lista os restaurantes locais, juntamente com um lembrete que incentiva as pessoas a “considerarem gastar seu dinheiro em um deles, em vez de numa cadeia sonegadora de impostos”. Tirando essas placas da parede, o espaço se parece com qualquer outro escritório — laptops em todo lugar, tapetes feios, o murmúrio baixo da conversa telefônica. A diferença é que as pessoas que trabalham aqui não tentarão vender nada para você. Eles estão aqui para ganhar uma eleição.
 
São os escritórios do Momentum, a organização de base filiada ao Partido Trabalhista britânico, que foi criada em 2015. O Momentum, originalmente uma fusão de grupos de apoiadores de Jeremy Corbyn, formada durante sua campanha pela liderança trabalhista, está agora registrado legalmente, tem um conselho de administração e mais de 130 grupos locais em todo o Reino Unido. Após a convocação de eleições gerais para dezembro, a equipe mudou-se para este escritório para dar conta da expansão de cerca de 13 mobilizadores para 40.
 
O Momentum faz campanha por um governo trabalhista e é conhecido por sua importante presença nas redes (leia-se: ótimos memes), por ter uma grande base de jovens apoiadores e por gostar muito das políticas propostas por Jeremy Corbyn. Embora funcione de maneira semelhante a outros grupos adjacentes ao partido, como o Progress ou o Labor First, o Momentum ganhou atenção especial por seu papel crítico na eleição de 2017, ajudando os trabalhistas a quebrar a maioria do Partido Conservador. Enquanto estes batiam a cabeça, o Momentum sabia que havia alcançado algo enorme.
 
“A história da eleição [2017] é que, essencialmente, a Momentum, em conjunto com a liderança, tinha uma abordagem muito ousada, positiva e enérgica da campanha, que não se baseava na simples defesa de cadeiras para os trabalhistas”, me conta Laura Parker, coordenadora nacional do movimento. “Fomos muito, muito, muito melhores do que todos imaginavam que seríamos, e uma grande parte disso deve-se ao fato dos membros do Momentum terem pensado: eu não estou ligando pra isso [o número de cadeiras no Parlamento]”.
 
 
Mas, para compreender melhor as origens do Momentum, precisamos voltar mais no passado — para 2015, especificamente. O Partido Trabalhista, sob o comando de Ed Miliband, acabara de perder a eleição para o conservador David Cameron. Os trabalhistas escolhiam uma nova liderança. Jeremy Corbyn, até então um discreto membro do Parlamento, foi empurrado para a cédula. Era um tiro no escuro, claro, mas os parlamentares argumentaram que valia a pena ter um candidato como ele na disputa para permitir um amplo espectro de debates. E então, aconteceu algo que ninguém esperava. Ele ganhou. Esta foi a primeira de muitas viradas de jogo que os ativistas do Momentum iriam testemunhar [veja textos de Outras Palavras a respeito: 1 2 3]. A vitória de Corbyn levou à criação do Momentum, e provocou um grande aumento das adesões ao Partido Trabalhista. Jon Lansman, Adam Klug, Emma Rees e James Schneider, todos envolvidos na campanha de liderança de Corbyn, criaram o Momentum para defender idéias de esquerda dentro entre o partido, incorporar táticas de ativismo nas campanhas e apoiar Corbyn como líder. Enquanto visito o Momentum, o novo escritório está sempre cheio de gente coordenando telefonemas e editando vídeos. Por isso, Laura Parker e eu vamos ao Gadz Cafe. O restaurante libanês já é conhecido como o “café Corbyn”, e possui fotos dele nas paredes, além de cartazes que dizem “Vote Trabalhista”. Laura brinca: “Eu provavelmente não traria o Sunday Times aqui”. Os objetivos originais do Momentum eram três: vencer as eleições, criar um governo trabalhista socialista e ajudar a construir um movimento social mais amplo. “Costumo pensar que o Momentum é mais ou menos uma ponte”, diz Laura. “Você tem as questões do partido, com as quais, em vários momentos, estamos muito alinhados, é claro, mas não necessariamente sempre; e além , você tem o movimento sindical, as campanhas pelo clima, as lutas dos inquilinos, etc. Entre os dois lados, funcionamos como uma ponte”.
 
Esse modus operandi mostrou-se muito eficaz na última eleição. No verão de 2017, Theresa May convocou uma eleição geral relâmpago, tentando ampliar sua precária maioria. Em vez disso, o Partido Trabalhista ganhou 32 cadeiras, vencendo em áreas afluentes como Kensington e Portsmouth South, onde os conservadores anteriormente detinham uma maioria de 12,5%. Muitos meios de comunicação falaram num “terremoto jovem” [orig: youthquake] como responsável pelo resultado imprevisível. Em parte, fora causado pelas campanhas digitais da Momentum. Embora a escala da participação de jovens tenha sido questionada pelo Estudo das Eleições Britânicas, cujos dados (um pouco limitados) sustentam que a participação de menores de 25 anos na verdade caiu, nas eleições de 2017, jovens recém-mobilizados foram vistos consensualmente como a chave para o sucesso do Partido Trabalhista.
 
Laura explica: “em termos de organização, os produtos de mídia social do Momentum foram claramente muito mais criativos, energizantes e divertidos do que quaisquer outros, de modo que a organização recebeu muita cobertura.” Veja, por exemplo, abaixo, o vídeo de paródia da Momentum sobre o conhecido anúncio de recrutamento da Primeira Guerra Mundial, no qual uma criança pergunta ao pai: “Papai, o que você fez na Grande Guerra?”. Na imitação da Momentum para os conservadores, o vídeo é ambientado em “Tory Britain 2030” [“Grã-Bretanha conservadora 2030”]. Um pai conversa com a filha sobre todas as coisas que recebeu do Estado quando era mais novo, como refeições gratuitas nas escolas. “Por que eu não tive nada disso?”, a menina pergunta. “Porque”, ele diz com orgulho, “votei em Theresa May”. Atualmente, o vídeo tem 1,2 milhões de visualizações.
 
Laura prossegue: “Acho que tem a ver com a linguagem que utilizamos com as pessoas. Os vídeos do Momentum transmitem mensagens muito profundas politicamente, mas de uma maneira interessante para pessoas de uma geração que, se não for cativada nos três primeiros segundos, pulará o vídeo”.
 
O Momentum aproveitou o campo de batalha político da internet. Em 2017, o Partido Conservador gastou 18,5 milhões de libras em anúncios no Facebook, em comparação com 11 milhões do Partido Trabalhista. Nas últimas três eleições desde o nascimento das mídias sociais, Facebook, Twitter e WhatsApp ofereceram novas maneiras de alcançar os eleitores — incluindo o uso controverso de dados pessoais para atingir usuários do Facebook durante a votação do Brexit em 2018. Os Conservadores já estiveram em maus lençóis este ano devido a anúncios on-line enganosos e postagens patrocinadas no Facebook, gastando até agora mais de 100 mil libras desde o dia 29 de outubro. Embora o Momentum não possa se igualar aos conservadores nos gastos para promover artificialmente seus anúncios ou vídeos, pode vencê-los com vídeos e memes mais engraçados, melhores e compartilhados organicamente. Um relatório recente do Guardian mostrou exatamente isso: listou muitos vídeos do Momentum alcançaram mais de 19 milhões de visualizações, em comparação com um mísero milhão para os conservadores.
 
Mas o sucesso não tem a ver apenas com o modo como o Momentum compartilha suas informações. É a própria informação”, diz Laura. “Acho que muitas pessoas mais jovens foram cativadas por finalmente ouvirem algo diferente”, explica. “Penso que o que Jeremy diz toca os jovens que acumulam dívidas, pagam anuidades de 57 mil libras e não têm nenhuma perspectiva de comprar uma casa ou de sequer poder pagar o aluguel”.
 
A mensagem de Corbyn deve ressoar com os jovens, mas sua imagem mudou desde as eleições de 2017. Naquele momento, como líder da oposição, seu otimismo era alto e o Momentum dirigiu a nova onda da “corbynmania”. “Oh, Jeremy Corbyn” [paródia da canção “Seven Nation Army”, da banda norte-americana The White Stripes]
 
era cantada em todo lugar, das ruas aos festivais, e Corbyn apareceu no [festival de música] Glastonbury. Mas é difícil para qualquer político permanecer com sua imagem imaculada. Acusações de antisemitismo fizeram com que muitos eleitores judeus se sentissem incapazes de apoiar um partido sob a liderança Corbyn. Alguns artistas que se envolveram na campanha de 2017 chamada de Grime4Corbyn agora fazem reclamações dizendo que se sentiram “usados” pelo líder trabalhista.
 
Laura diz que a mudança que o Momentum quer deve ir além de uma única figura. “As pessoas muitas vezes pensam que se trata apenas de Jeremy, porque ele é a cabeça do movimento”, explica. “As mudanças que precisamos fazer são tão expressivas que todas vão se manter para além de Jeremy Corbyn e John McDonnell.”
 
Na disputa pelas eleições de 2019, o Momentum, além de sua forte campanha digital, vai focar nos diálogos presenciais com os eleitores. O Partido Trabalhista tem 485 mil membros, e muitos não-membros que poderão ir de porta a porta, conversar pelo telefone e atingir com panfleto áreas potencialmente em disputa. Os conservadores, por outro lado, têm apenas 180 mil membros, muitos dos quais são mais velhos e presumivelmente menos dispostos a andar a pé no frio de novembro. Nas últimas eleições, o Momentum teve como alvo as disputas marginais, ao invés de tentar defender os assentos seguros do Partido Trabalhista, o que provou ser algo crucial para a vitória.
 
Neste ano, o grupo está fazendo o mesmo, segundo a linha de seu documento chamado “Plano para vencer”. Embora os conservadores tenham possivelmente muito mais dinheiro que os trabalhistas, estes são ricos no que diz respeito ao poder de falar povo. Conversei com Simon Youel, um apoiador do Partido Trabalhista que começou a trabalhar para o Momentum pouco depois que as eleições de 2019 foram anunciadas. Youel negociou um intervalo temporário em seu trabalho para trabalhar para a organização, apoiando seu departamento de imprensa no período pré-eleitoral. “Estava trabalhando para uma pesquisa sem fins lucrativos e em um grupo de campanha”, me conta. “No momento em que [as eleições] foram chamadas, estava pronto para largar tudo e fazer o que for possível.”
 
O Momentum também tem uma nova estratégia chamada Labour Legendes, que pede que as pessoas deixem de trabalhar por e se voluntariem a fazer campanha. Até agora, mais de mil pessoas já se comprometeram. A organização também introduziu treinamento de debate persuasivo, que ensina os voluntários a estimular conversas sobre os assuntos mais importantes, usando histórias pessoais que iluminam as políticas do Partido Trabalhista.
 
“Na primeira vez que fui fazer campanha, era “[toc toc] Qual o seu nome? Como você vota? Agradeço muito, vou seguir.’”, explica Laura. “Ninguém persuadia quem quer que fosse com este tipo de fala.”
 
No dia em que visitei a sede do Momentum, a organização estava preparando para fazer campanha porta-a-porta em Kensington, o rico distrito eleitoral de Londres que mudou para o lado do Partido Trabalhista nas últimas eleições por 20 votos. Os Liberais Democratas estavam, otimisticamente, considerando-se na disputa e os Tories ainda são uma ameaça real. Por isso, é essencial que o partido mantenha sua cadeira. Coincidentemente, é a área onde eu cresci.
 
Fui à rua com os organizadores do Momentum e me uni a outras cerca de 200 pessoas em uma ação com a parlamentar local Emma Dent-Coad e o jornalista Owen Jones. Estamos de pé em um parque perto de Ladbroke Grove e divididos em grupos, prontos para ir de porta em porta. Acabei ficando com Dent-Coad e outros voluntários — alguns com experiências em fazer campanha, outros não. O chão está molhado e cheio de folhas. Converso brevemente com Dent-Coad, apresentando-me como “um dos 20” que mudaram de voto nas últimas eleições. Não sou o primeiro a dizer isso para ela, aparentemente.
 
A primeira porta na qual batemos é aberta por uma mulher grávida com filhos que está vivendo na casa de sua mãe. Parece nos dizer que votará com certeza nos conservadores. Preparo-me para um papo difícil. Depois fica claro que na verdade ela definitivamente não vai votar nos conservadores e discutimos questões com as quais está preocupada, como o NHS [sistema público de saúde britânico, no qual o SUS brasileiro foi inspirado]. É um bom início. Em seguida, visitamos mais duas casas, uma de um idoso e outra de um casal. Ambos votarão com certeza nos trabalhistas. Isso não é muito surpreendente, considerando que a subdivisão daquela zona eleitoral em que estamos historicamente elege o partido. Mas é um bom sinal, de qualquer maneira.
 
Pergunto a Youel o que ele está achando da campanha até agora. “Depois de ficar trancado no escritório do Momentum nas últimas duas semanas, é ótimo finalmente sair para visitar as pessoas”, me diz. “É algo completamente diferente do que eu estava vendo nas notícias. Apesar de ser um distrito altamente disputado, não falei com ninguém que não estivesse votando pelos trabalhistas.”
 
Isso muda quando o grupo vai em direção a uma rua mais abastada. Um bocado de pessoas não abre suas portas, ou dizem que não querem conversar. Na próxima rua, algumas casas depois de um café português onde David Cameron foi criticado, encontramos uma mulher chamada Joyce, de uns 90 anos de idade. Ela pede desculpas por não nos convidar para entrar, e conta sobre como foi sobreviver a duas guerras mundiais. Sente-se com sorte por viver em um apartamento de propriedade pública, em uma área tão agradável. Ainda não tem certeza em quem vai votar, mas realmente quer que o Reino Unido fique na Europa e crê que Dent-Coad fez um ótimo trabalho. É uma conversa boa, mas fico com a impressão de que ela estava se sentindo solitária e poderia estar apenas aproveitando a oportunidade para conversar.
 
Em favor das 14,3 milhões de pessoas que vivem na pobreza no Reino Unido — 33,3% das quais são crianças — alguém vai ter de ceder. Seja devido ao subfinanciamento perigoso do NHS, ou ao aumento de 65% do uso do banco de alimentos nos últimos cinco anos, o Momentum está confiante que as pessoas vão perceber e chegar o ponto de ruptura para exigir mudanças reais.
 
Pergunto a Laura o que ela acha que vai acontecer na manhã do dia 13 de dezembro. “Alguém tem que ganhar”, responde. “E é melhor que sejamos nós, pelo bem do país e do clima.”
 
“Não podemos deixar que isso continue”, ela continua”. “Temos níveis insustentáveis de desigualdade. Estive trabalhando em Westminster recentemente, e fui para uma quadra do Hyde Park onde havia um apartamento sendo vendido por 116 milhões de libras [R$ 700 milhões]. A três minutos de distância a pé, havia pessoas dormindo em sleeping bags na soleira de uma porta.”
 
“Isso não pode ser aceitável, na consciência de ninguém, num país tão rico. Nos temos de ganhar!”
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/ru-quando-esquerda-volta-instigar.html

A politica economica do partido Trabalhista

Sea el que sea el gobierno que se forme en el Reino Unido después de las elecciones del 12 de diciembre, se enfrenta a un inmenso desafío. La economía británica está hecha un desastre y su sociedad está completamente dividida.
Después de diez años de políticas de austeridad bajo gobiernos conservadores / liberal-demócratas, los servicios públicos y los beneficios del estado de bienestar se han reducido hasta la médula. ¡La pensión estatal británica es la más baja de Europa! La sanidad pública, el NHS, después de haber sido vaciado a golpe de subcontrataciones y privatizaciones de servicios,  y asfixiado financieramente, está de rodillas. La atención social a ancianos y enfermos ha sido diezmada y / o es terriblemente costosa. El tamaño de las aulas escolares es mayor que nunca, las universidades están en bancarrota y los estudiantes acumulan enormes deudas. La escasez de viviendas es tan grave que los jóvenes se ven obligados a vivir en casa de sus padres o en alojamiento de alquiler privados, abarrotados e inadecuados. El transporte es una pesadilla cara: los precios del ferrocarril, la energía y el combustible se encuentran entre los más altos de Europa.
La desigualdad de riqueza e ingresos es tan alta como en la década de 1930. Mientras que Gran Bretaña se jacta de tener 135 mil millonarios, 14 millones de británicos están oficialmente clasificados como pobres y 4 millones de niños viven en la pobreza. Las disparidades regionales en los niveles de vida entre Londres y el sureste y el resto del Reino Unido son las mayores en el norte de Europa. Millones trabajan como autónomos mal remunerados en la nueva ‘gig’ economía, y un millón de personas trabajan con contratos precarios por debajo del salario mínimo oficial; mientras que los discapacitados y enfermos se ven obligados a trabajar con salarios bajos porque se les eliminan los beneficios.

Todo esto mientras la gente en Gran Bretaña se divide sobre si es mejor abandonar la Unión Europea o no; si Escocia e Irlanda del Norte deberían romper con la Unión; y si la inmigración es buena o mala para la economía y la sociedad.
Más importante aun, en el frente económico, el crecimiento de la producción nacional de Gran Bretaña se está desacelerando aunque la población crece, lo que hace cada vez más difícil proporcionar los recursos para enfrentar estos desafíos. El crecimiento económico de Gran Bretaña está desapareciendo rápidamente. El sector capitalista de la economía no ha logrado satisfacer las necesidades de las personas, aunque ha generado mayores ganancias y aumentado los precios de la vivienda y la bolsa se infla para los ricos. El ingreso real disponible por persona se ha estancado más o menos desde el final de la Gran Recesión, ¡el período más largo en 167 años!
Esto se debe a que la inversión de las grandes empresas se está contrayendo, en parte debido a la incertidumbre de lo que sucederá después del Brexit y en parte porque los inversores nacionales y extranjeros ya no esperan un gran retorno de su inversión en Gran Bretaña. Con la caída de la inversión viene un bajo crecimiento de lo que cada trabajador en Gran Bretaña puede producir. Y el bajo crecimiento de la productividad significa un bajo crecimiento económico permanente.
La producción real por hora trabajada aumentó solo el 1.4% entre 2007 y 2016. En el G7 solo Italia tuvo resultados peores (-1.7%). Excluyendo al Reino Unido, los países del G7 han experimentado un aumento de la productividad del 7,5% durante este período, liderado por EE UU, Canadá y Japón. Además, la “brecha de productividad” para el Reino Unido -la diferencia entre la producción por hora en 2016 y su tendencia anterior a la crisis-, es menos 15,8%; mientras que la brecha de productividad para los países del G7 menos el Reino Unido es menos 8.8%.
El capitalismo británico es una “economía rentista“, concentrada en servicios financieros, inmobiliarios y comerciales, más que cualquier otra economía importante. Después de haber ayudado a desencadenar el colapso financiero mundial y la Gran Depresión en 2008-2009, la ciudad de Londres no ha hecho nada desde entonces para apoyar a las empresas del Reino Unido, especialmente las más pequeñas. Los préstamos a pequeñas empresas han caído. En cambio, los préstamos bancarios se han volcado en bienes raíces. Los sectores productivos de Gran Bretaña (industria manufacturera, actividades profesionales científicas y técnicas, información y comunicación y servicios administrativos y de apoyo) representan el 28.7% del PIB real. Pero los préstamos bancarios a estos cuatro sectores suman solo el 5,5% del PIB. Esto es menos que el total de préstamos vivos a empresas dedicadas a la compra, venta y alquiler de bienes inmuebles (6,9% del PIB).
Así que, ¿qué hacer? El manifiesto electoral del Partido Laborista del Reino Unido asume el desafío. La cuestión subyacente clave de la que todo depende es encontrar la manera de aumentar la inversión en proyectos que mejoren la productividad y en una fuerza laboral mejor capacitada y cualificada, con trabajo decente y salarios que permitan vivir dignamente. En este sentido, los laboristas están haciendo serios intentos para revertir el declive de la industria británica.
Primero, buscan lanzar un New Deal verde que redirija recursos de las actividades improductivas y, en cambio, sirvan para frenar la aceleración del calentamiento global invirtiendo en proyectos de energía renovable que faciliten cientos de miles de trabajos que permitan especializarse en proyectos ecológicos.
En segundo lugar, buscan recuperar la propiedad pública de las compañías clave de energía y agua, poniendo fin a la estafa del público por parte de los actuales monopolios privados. El transporte ferroviario y en autobús también volverá a ser público, terminando así con la derrochadora anarquía de las rutas franquiciadas y unos servicios de autobuses locales ineficientes y costosos. Y los laboristas prometen ofrecer Internet de banda ancha súper rápido y gratuito a cada hogar dentro de diez años, a la mitad del coste del sector privado, al hacerse cargo del departamento de banda ancha de BT. Y Royal Mail volvería a ser la propiedad pública. Las compañías más grandes tendrán que repartir a sus trabajadores acciones de la compañía con derechos de representación en sus directorios. Y se restablecerían los derechos de negociación colectiva, revirtiendo las leyes antisindicales de Thatcher. Estas medidas proporcionarían un nuevo impulso para la inversión y el empleo.
Y tercero, los laboristas ampliarían la inversión pública para compensar la falta de inversión de las empresas privadas. El Partido Laborista crearía una Junta de Inversión Estratégica para coordinar I + D, servicios comerciales y flujos de información. Establecería un banco de inversión estatal para invertir £ 25 mil millones al año en proyectos e infraestructura. Introduciría un nuevo servicio bancario para pequeñas empresas basado en las oficinas de correos.
¿Cómo se pagará todo esto? En las condiciones existentes, el Partido Laborista planea aumentar los impuestos de IRPF al 5% más rico (es decir, más de £ 80,000 al año); y quiere recuperar los impuestos que actualmente no pagan las grandes empresas y los ricos a través de paraísos fiscales y la evasión, ¡que se estima en unos 25 mil millones de dólares al año! Los laboristas estarían dispuestos a aumentar la deuda del gobierno para financiar más gastos en salud, educación y algunos de los proyectos a más largo plazo. Dado que las tasas de interés están en su punto más bajo en 60 años, el coste de esta nueva deuda supondría poco a los costes del presupuesto anual. Además, las inversiones planificadas deberían generar mayor productividad y crecimiento y, por lo tanto, más ingresos fiscales. Se estima que el coste de nacionalizar la energía, los ferrocarriles, el agua y las telecomunicaciones se cubriría con los ingresos de estos sectores dentro de siete años.
Contrariamente a la reacción de los medios, esto no supondría que el Reino Unido tuviera el mayor gasto público de las principales economías. Como demuestra la Fundación Resolución, elevaría el tamaño del gasto público como parte del gasto anual total a alrededor del 45% del PIB, en el rango medio de las economías de la OCDE.
Como dice Simon Wren-Lewis, en un artículo bastante explicativo, “otra forma de decirlo es que el Reino Unido se acercará más al promedio europeo y se distanciará del nivel de EEUU / Canadá”.
¿Puede funcionar este plan para convertir a Gran Bretaña en una sociedad más próspera, más igualitaria y más unida? Mucho depende de tres cosas. Primero, ¿bastará un banco estatal y una junta de inversión para reconvertir la economía rentista de Gran Bretaña y reorientarla hacia áreas más productivas para el empleo? El Partido Laborista no propone nacionalizar y controlar los cinco grandes bancos o las principales compañías de seguros y fondos de pensiones. Sin embargo, estos continuarán proporcionando la mayor parte de los posibles fondos de inversión (alrededor del 15% del PIB en comparación con el 4% del estado, en el mejor de los casos). Eso debilitará la capacidad de un gobierno laborista para ofrecer mejoras reales en inversiones, servicios e ingresos. La reforma fiscal y otras medidas laboristas para redistribuir los ingresos y la riqueza de los súper ricos al resto también son muy limitados. De hecho, aunque el Partido Laborista planea aumentar el gasto en el NHS un 4% anual, sigue siendo menos que bajo el gobierno de Blair y apenas es suficiente para satisfacer las necesidades de una población que envejece rápidamente. Las medidas laboristas solo harían una pequeña mella en los niveles extremos de desigualdad.
En segundo lugar, está la reacción inevitable de las grandes empresas y los medios de comunicación. Harán lo imposible para bloquear y revertir los planes laboristas y aprovecharán cualquier señal de fracaso para ello. Por lo tanto, existe un grave riesgo de que los planes relativamente modestos del Partido Laborista para reequilibrar la riqueza y el poder dentro del país puedan fracasar Las grandes empresas y los ricos ya han amenazado con llevarse su inversión y dinero a otra parte y la llegada al poder de un gobierno laborista radical puede provocar lo que se llama una ‘fuga de capitales’, provocando una caída del valor de la libra y elevando las tasas de interés. El Partido Laborista quizás tenga que tomar medidas más drásticas como controles de capital. Pero sin el control de los principales bancos, la moneda estaría amenazada por este terrorismo financiero.
Y tercero, y más importante, es la alta probabilidad de una nueva caída mundial de la producción, la inversión y el empleo. Han pasado diez años desde el final de la Gran Recesión, la mayor depresión mundial desde la década de 1930. Se avecina una nueva recesión, ya que las principales economías se están desacelerando significativamente y la guerra comercial y tecnológica entre Estados Unidos y China se está intensificando, destruyendo el crecimiento del comercio mundial. Para el año próximo, el nuevo gobierno británico podría enfrentarse a la quiebra de empresas británicas, el despido de trabajadores y una huelga de inversiones.
La única forma de reducirse el impacto de semejante recesión sería que los laboristas tomaran el control de lo que solía llamarse “los puestos de mando de la economía”: los bancos, las compañías de seguros, los fondos de pensiones y las compañías estratégicas manufactureras clave en Gran Bretaña, la energía y otros sectores productivos. Solo entonces sería posible un plan nacional de inversión y empleo y para combatir el cambio climático, porque no dependería de la inversión capitalista. Las políticas económicas actuales del Partido Laborista se quedan muy cortas. En cambio, los líderes y asesores del Partido Laborista descartan de antemano medidas tan drásticas porque piensan que no serán necesarias y, en cambio, que “un capitalismo regulado y administrado” aún puede satisfacer las necesidades de los británicos. La historia nos dice lo contrario.
es un reconocido economista marxista británico, que ha trabajador 30 años en la City londinense como analista económico y publica el blog The Next Recession.

Via: FOICEBOOK http://bit.ly/2KXgqaO

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/11/26/a-politica-economica-do-partido-trabalhista/

Guerra de classe: a “esquerda” entra no jogo a perder! Porquê?

O que se passou recentemente com a iníqua resolução anticomunista no Parlamento europeu deixou de novo em evidência que não pode existir anti-comunismo ou anti-sovietismo «de esquerda». Que se trata de opções ideológicas inculcadas pela classe dominante. E que transigir com elas é, desde logo, aceitar a derrota.

“Há uma guerra de classes, é um facto. Mas é a minha classe, a classe dos ricos, que está a travar essa guerra e está em vias de a vencer.” Ninguém esqueceu realmente essa afirmação “chocante” do multimilionário Warren Buffet. Foi no canal CNN dos EUA, em 2005. Após a crise de 2008 e sua “solução” financeira exponencial, ele afirmava mesmo o carácter definitivo dessa vitória …!

Até há pouco tempo, quase 15 anos depois, a história, apesar da violência exacerbada dos vários conflitos no planeta, parecia ainda dar-lhe razão. Nos últimos tempos, no entanto, as múltiplas e massivas revoltas em todo o mundo reintroduziram de certa forma uma séria dúvida sobre essa afirmação. Porque sucede que, apesar de sua aparência maciça, todas essas lutas parecem sistematicamente encalhar em impasses, por falta de uma perspectiva política realmente alternativa ao sistema em vigor, que assim parece permanecer inamovível. E isso apesar da gritante evidência de desigualdades gigantescas que ele continua a cavar e das aberrações económicas e ecológicas que gera.

O gerador desta catástrofe planetária está no entanto perfeitamente identificado, e em particular precisamente desde a crise de 2008: é claramente a dominação planetária do capital financeiro sobre praticamente todas as formas de expressão do poder.
A “democracia” liberal deixou de ser o campo delimitado onde os diferentes lobbies se confrontam pela partilha de influências lucrativas, através de seus fantoches políticos cada vez mais confrangedoramente agitados no palco e dos quais Trump parece ser o arquétipo, caricatural ao extremo.

E a guerra de classes, no domínio ideológico e cultural, nunca parou realmente, muito pelo contrário! A burguesia não deixou de perseguir a menor reminiscência do período em que uma alternativa ao capitalismo parecia possível, e era-o realmente assim, em certa medida.

Por um lado, o absurdo do sistema actual é tão flagrante que uma parte substancial da intelligentsia e das classes médias ao seu serviço regularmente se declara mais ou menos “anticapitalista”, mesmo que isso não tenha outras consequências senão movimentos de contestação puramente formal rapidamente recuperados sob as diferentes formas de reformismo da sua classe política. Mas, por outro lado, o verdadeiro medo que ainda parece afectar a burguesia é o possível ressurgimento do “espectro comunista” que ele não cessa de perseguir onde quer que pudesse retomar forma.

Ao contrário das esperanças que fundou na “queda do muro” e no período 1989-92, é o chamado “fim da história” que pertence já claramente ao passado e, se um “fim” parece estar a aproximar-se novamente a grandes passos, é de facto o” fim” possivelmente apocalíptico do próprio sistema, não necessariamente devido a sabe-se lá qual hipotético” inimigo “, mas muito simplesmente pelas suas próprias contradições. Nestas condições, o sistema mantém constantemente um olho alerta sobre todos os vestígios de memória, sejam eles quais forem, do período soviético. Foi o que vimos por ocasião do centenário de Outubro em que toda uma bateria de “especialistas” e “historiadores” entrou em cena, por vezes muito oficialmente designados e, se não, indirectamente, por para garantir um sono profundo a este terrível fantasma …

Mas o sistema, à falta de resolver a sua própria crise, tem todo o interesse em alimentar ele mesmo o “messianismo” milenar de um fim apocalíptico próximo, seja ele “ecológico” ou não, e contra o qual possa portanto apresentar-se como “baluarte da humanidade”, e assim tentar prolongar-se, através de algumas fórmulas “choque”, como única “alternativa” possível … ao desastre que ele próprio engendrou!

Para a burguesia, tudo o que não é ela própria ou diretamente dependente dela mesmo é “apocalíptico”. Desde o nascimento da URSS, esforçou-se para forjar uma visão “apocalíptica”, a ponto de tentar torná-la um mito de pesadelo federador da sua própria classe, e até mesmo passando por cima dos seus próprios conflitos internos de interesses. . É assim que o verdadeiro monstro nazi, potencialmente criado em 1919 pelo Tratado de Versalhes pôde ser chocado como um antídoto potencial a esse pesadelo, apesar dos seus desmandos no próprio coração do capitalismo europeu e internacional.

Mas a burguesia tinha claramente subestimado a bulimia desse monstro gerado no seu seio, e cuja natureza profunda não era, portanto, diferente dela mesma. Ela esperava simplesmente que essa bulimia apenas fosse orientada para leste …

Esse “erro de perspectiva” acabou por levá-la a uma inversão, mesmo que muito provisória, na atribuição do papel dos monstros a exorcizar …

É isso que nos lembra um filme notável recentemente encontrado por um de nossos camaradas e que apresentamos no TML. Este filme foi realizado no essencial em 1943, pouco depois da vitória soviética de Estalinegrado. Realizado por encomenda para as autoridades dos EUA, foi manifestamente pensado por cineastas que tinham já uma visão histórica espantosamente pertinente do conjunto da “Frente Oriental”, tendo em conta a reduzida distância temporal em relação a acontecimentos muito recentes para eles e para o mundo dessa época!

A Batalha da Rússia pelo governo dos EUA em 1943 !!!
https://my.pcloud.com/publink/show?code=XZUUn8kZMKew9HkqsdyqR7hwHoT88m6hYjek
Evidentemente, esses cineastas tinham portanto acesso a fontes em primeira mão, o que o torna ainda hoje um documento histórico excepcional. Mas o que é mais característico relativamente aos pontos de vista “oficiais” actuais sobre aquela época é a importância que atribuem à vida social das infraestruturas económicas soviéticas, que tornaram precisamente possível e eficaz o esforço de guerra.

Fica claro neste filme que a vitória desse esforço de guerra é de facto a vitória do conjunto da sociedade socialista soviética, e não a de um tirano maquiavélico secundado por um punhado de generais e burocratas despóticos. É a vitória dos soviéticos que se mobilizaram na ordem dos milhões, seja na linha de frente ou como guerrilheiros, por detrás das linhas inimigas, ou simplesmente nos seus postos de trabalho, todos eles essenciais para o esforço de guerra .

É um vislumbre da realidade soviética, neste filme norte-americano de 1943, que é, portanto, concretamente a antítese da visão supostamente “histórica” ​​que nos é dada nos manuais escolares actuais, nos registos Wikipédia, nas emissões de televisão etc.

E, é claro, é também a antítese da desde agora votada “oficialmente” no Parlamento Europeu por sua “resolução” sobre a “memória” da 2ª Guerra Mundial, que atribui sem rodeios à URSS a responsabilidade pelo desencadeamento da guerra! (*)

E é nesse sentido que este filme é hoje particularmente significativo!

De facto, o Parlamento Europeu, ao endereçar directamente a sua “resolução” assimilando o comunismo ao nazismo ao parlamento da Federação Russa, ordena expressamente ao governo russo que na prática cesse de comemorar essa vitória soviética.
E por que razão real, se não para tentar novamente apagar a memória, não apenas dessa vitória, mas da sociedade socialista soviética que a tornou possível?

De facto, porquê tantos esforços e sacrifícios da parte dos cidadãos soviéticos, se não para defender este país, a URSS, que vinham de reconstruir quase inteiramente numa dezena de anos, desde o final da NEP e o início da colectivização?

Porque teriam eles feito tanto esforço e sacrifícios, se o seu país correspondesse de algum modo à visão de pesadelo que dela dão hoje os manuais escolares, a Wikipédia e outros media?

Porquê tanto esforço e sacrifício por este país, se a “resolução” de 19/09/2019 do Parlamento Europeu não passa simplesmente de uma manipulação enganosa da história?

Através da memória nacional russa, o que ainda hoje é massivamente comemorado, em todas as ocasiões possíveis e com o apoio efectivo do governo da Federação Russa, não é apenas a festa da vitória, mas é precisamente a memória desse esforço colectivo e de todos os sacrifícios que foram necessários para construir, passo a passo, essa vitória.

É nesse sentido que essas comemorações se tornaram uma comunhão nacional popular que constitui ainda hoje uma parte essencial da alma russa.

E acontece que essa memória coletiva da Rússia coincide completamente com a realidade filmada em 1943 pelos cineastas norte-americanos, e não com a actual caricatura ocidental de pesadelo que o Parlamento Europeu vem de “legalizar” pelo seu voto.
Este voto é, no campo da “memória” em que pretende situar-se, uma declaração de guerra ideológica, nem mais nem menos.

O que o Parlamento Europeu procura expressamente, nas expectativas do seu voto, é todo o conjunto do período socialista soviético que permitiu a construção dessa capacidade de derrotar o fascismo. É um momento histórico particularmente emocionante deste período que nos é dado a entender no filme de 1943, e ele mostra-nos precisamente o que o socialismo real significava na URSS, para a classe operária e o conjunto das classes populares desse país. Este acto de guerra ideológica fomentado pelo Parlamento Europeu é, portanto, também, e acima de tudo, um acto de guerra de classe.

Agora, como é que a “esquerda” francesa se situa face a este acto de guerra de classe? Situa-se verdadeiramente do lado do proletariado e das classes populares? É ela é capaz de conduzir uma contra-ofensiva?

Na realidade, desde há décadas que ela não cessa de denegrir a URSS, seja durante a sua vida seja após sua queda! E autoflagela-se pelo o período em que a apoiou.
Orgulha-se de “antifascismo” mas é incapaz de assumir o desafio deste confronto, quando é atacada a memória da URSS que é realmente o país que fez o essencial do esforço de guerra contra o nazismo, infligiu-lhe a primeira derrota às portas de Moscovo em Dezembro de 1941 e finalmente o derrotou em Estalinegrado antes de o vencer finalmente em Berlim!

Uma boa parte da esquerda encaixa-se mesmo directamente nos apoios a esta “resolução”, e se uma outra parte esboça protestos, é sempre de maneira a de algum modo caucionar o anti-sovietismo fundamental, directamente ou não. Nenhum desses “esboços” retóricos, por mais alambicados e sofisticados que sejam, assume o essencial daquilo que exacta e realmente fazia a força da URSS na época: a construção do socialismo e o desenvolvimento das forças produtivas que ele tornou possível, na década anterior à guerra.
A vitória da URSS sobre o nazismo não é simplesmente a vitória do exército de uma nação sobre outra, mas antes de tudo a vitória da construção do socialismo, a vitória do proletariado e das classes populares, precisamente, na guerra de classes!

E certamente a maior vitória histórica do proletariado nesta guerra de classes da qual hoje os financeiros multimilionários, como Warren Buffet, que estão a acabar de destruir o planeta, ousam proclamar-se vencedores!

Reduzir a responsabilidade da vitória histórica proletária da URSS à de um só homem, seu líder político, Joseph Stalin, e tentar fazer dele ao mesmo tempo uma espécie de demiurgo, concentrando na sua pessoa toda força de um país do tamanho de um continente e apresentá-lo como um burocrata despótico irresponsável e paranoico, uma caricatura de diabo de opereta, é essa a estratégia de comunicação conduzida em todas as direcções pelo Ocidente, da direita à «esquerda», desde há décadas, como contra-ofensiva nesta guerra de classe, para mascarar a mais do que culpável tolerância que a burguesia demonstrou em relação à sua própria e verdadeiramente monstruosa descendência, o nazismo!

Não podendo apagar historicamente o comportamento criminoso desse avatar ideológico da sua própria classe, a burguesia negou-o oficialmente como ela sabe fazer de qualquer descendência indigna, escorraçando-o pela grande porta das suas proclamações humanistas, para o deixar entrar pela pequena janela das suas necessidades urgentes, como continua a fazer na Ucrânia, por exemplo.

É o que normalmente emerge desta resolução de 19 de Setembro de 2019, que de facto cauciona os regimes europeus legalizando e incentivando o anticomunismo, o anti-sovietismo e a russofobia.

Pretendendo embora equiparar o comunismo ao nazismo, trata-se de facto de uma tentativa de apagar a responsabilidade do Ocidente “liberal” e a sua complacência de Munique em relação ao nazismo, ou seja, a sua responsabilidade real na génese da Segunda Guerra Mundial, a mais mortífera de todas, e que assassinou mais de 25 milhões de cidadãos soviéticos em quatro anos!

Como pode a actual esquerda pretender afirmar-se antifascista ao caucionar, directa ou hipocritamente, essa mentira da burguesia europeia e sentar-se, de facto, sobre essa montanha de cadáveres proletários?

Como pode ela, por um único segundo, falar em nome das revoltas proletárias e populares que se levantam, um pouco por toda a parte, hoje, ao redor do mundo?
Não apenas não pode, mas é muito natural que se veja rejeitada pelo proletariado pelo que realmente é: uma emanação do pensamento “liberal” escravizada ao sistema que destrói o planeta e condena cada dia para novos retrocessos sociais, e em muitos países a uma miséria cada vez mais negra.

Se alguns raros elementos sinceramente de esquerda, sinceramente decididos a acabar com este sistema ainda estão nessa esquerda, este filme pode constituir para eles matéria de reflexão sobre a realidade histórica da guerra de classe.

E perante a ofensiva ideológica da burguesia expressa nesta “resolução europeia”, deve ser para eles logicamente o tempo de uma escolha política essencial: a do campo em que realmente querem estar na guerra de classe.

Já em 1941, apenas seis meses após a sua entrada “triunfal” na URSS, o exército nazi era detido às portas de Moscou e obrigado a recuar 200 km. Para o nazismo, era o verdadeiro começo do fim.

Na guerra de classe, não há derrota que seja irremediável. Mas sem uma contra-ofensiva adequada, a vitória permanece com os Warren Buffet e seus zeladores políticos, direita e “esquerda” misturados. Eles são o campo determinado a manter o sistema mortífero no seu lugar.

Eles são o campo dos destruidores do planeta, o campo dos financeiros imperialistas para os quais a memória da URSS e da sua vitória antifascista é intolerável. A mentirosa resolução europeia de 19 de Setembro de 2019 é o culminar da sua ideologia na guerra de classe.
A vitória antifascista do proletariado na Segunda Guerra Mundial não repousa obviamente sobre os ombros de um único homem, Joseph Stalin, mas sobre os de todo um país socialista reconstruído em dez anos com base na sua ideologia de classe, o legado da Revolução de Outubro, o legado de Marx e Lénine: o Marxismo-Leninismo.

Enquanto a esquerda continuar a rejeitar os fundamentos que permitiram a histórica vitória do proletariado permanecerá no campo dos inimigos do proletariado, no campo da burguesia e, enquanto se proclamava “antifascista”, no campo dos neonazis, no fim de contas. E a sua derrota não será senão a demolição de um dos muitos palermas descartáveis ​​do sistema, e não a do proletariado que tenta hoje levantar a cabeça por meio das suas múltiplas revoltas no planeta.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/guerre-de-classe-la-gauche-joue-desormais-perdant-pourquoi.html.

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^endereço (www.odiario.info)
  2. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Sobre a «fragilidade» de certas mentes

Falta de memória
ou confusão nas cabeças


Em editorial (significativamente intitulado «A força do Governo está na fraqueza da esquerda»), Manuel Carvalho escreve no «Público» o seguinte:«(...) Se no passadoa“geringonça” se alicerçou na dissimulação de uma relação entre partidos que na sua essência têm mais para se confrontar do que para colaborar,o futuro quadro político vai ser mais claro. O PS viverá sempre condicionado, mas quer o Bloco e o PCP estarão condenados a ponderar todos os dias os riscos políticos de deixarem cair um governo de esquerda. (...)QuandoAntónio Costa declara que “a direita toda junta, desde o PSD ao Chega, só poderá derrotar o PS se conseguir somar os votos do PAN e de toda a esquerda(2)está a tornar clara a razão pela qual desta vez decidiuprescindir da negociação de posições conjuntas com o Bloco e o PCP.Está a sugerir que há uma coacção política a pairar sobre os partidos da esquerda que protege o seu Governo.Para o primeiro-ministro, e para a maioria dos cidadãos, só uma anormalidade permitiria a soma dos votos de um destes partidos com o PSD. A imunidade do Governo a moções de censura, na teoria de António Costa, justifica-se pela fragilidade estratégica dos seus mas não ponta de conexão com os outrora parceiros.(...)».

Ora, supondo que os leitores seguiram atentamente estes raciocínios de Manuel Carvalho, eu quero sobretudo afirmar que esta longa citação é uma pura efabulação em que até pode haver alguma criatividade mas não há qualquer ponto de contacto com realidades passadas e presentes. Com efeito, a este respeito, parece-me útil lembrar o seguinte :
 
1. Para a legislatura de 2015 a 2019, as «posições conjuntas» celebradas separadamente entre o PS e o PCP, o BE e o PE não estabeleciam qualquer vinculação de voto dos «parceiros» do PS a moções de censura, de leis avulsas (excepto naturalmente em relação às matérias comummente acordadas) e Orçamentos de Estado, apenas se prevendo para estes um «exame comum».
 
2.Quer isto dizer, sem margem para contestação, que o «perigo» ou o «cenário»(1) de PCP, BE e PE, como invoca Manuel Carvalho, convergirem com a direita contra o governo minoritário do PS é exactamente igual nesta legislatura ao que era na legislatura anterior.
 
3.E se diferença há agora é em sentido contrário ao que desenha Manuel Carvalho; com efeito, na situação pós últimas eleições até se pode dizer que enquanto na legislatura anterior para não cair o governo PCP, BE e PE tinham de votar ao lado do do PS, agora até se podem abster porque o PS tem mais deputados que a direita toda somada.
 
4. Tudo isto, fixe-se o essencial : ou seja, o que será determinante no futuro próximo não são conjecturas e palpites sobrequem votacomo ou o quê mas simo quê que vai estar a votação.

(1)Como tantos outros, Manuel Carvalho parece estar esquecido que, entre 2015 e 2019, o PS votou várias vezes ao lado da direita contra propostas do PCP, do BE e do PE.

(2)A esta declaração de António Costa, já se seguiu a de AugustoaSantos Silva segundo o qual «"O aviso é que, nesta composição parlamentar, só é possível retirar as condições básicas de governação ao Governo do Partido Socialista através da constituição de uma coligação negativa e contranatura entre o centro-direita e direita e todas as forças à esquerda do PS - e todos sabemos, na maioria parlamentar, que isso seria uma traição ao nosso eleitorado".Estamos pois perante uma linha de orientação do PS caracterizada por uma inoportuna agressividade e chantagem que, a continuar, não facilitará as coisas.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Portugal | Contra os populismos que meteram os pés na porta

 
 
Os desafios futuros para a esquerda, contra a tralha neoliberal e os populismos em marcha, não são fáceis. Há que lutar, contra todas as evidências, sabendo de ciência certa que a razão está do lado da esquerda mesmo.
 
Manuel Augusto Araújo | AbrilAbril | opinião
 
Pela primeira vez três partidos, Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega, meteram o pé na porta da Assembleia da República (AR), colocando um deputado cada e o outro, o PAN, que já tinha metido o pé na porta nas eleições anteriores elegendo um deputado, viu aumentada a sua representação para quatro deputados. A direita viu a sua presença na AR ampliada em número de partidos embora com menos 18 deputados do que tinha em 2015. As esquerdas, embora aumentassem o número de deputados em relação a 2015, mais dezasseis deputados, perderam quase 50 mil votantes, o que deve preocupar. Nestas contas direitas/esquerdas não entra o PAN que afirma não ser de direita nem de esquerda. Uma espécie de partido sem eira nem beira, de um oportunismo sem peias.
 
Embora o espaço da direita se tenha reduzido o seu futuro não se advinha adverso. A comunicação social já anda a bolinar a seu favor, veja-se o tempo concedido sobretudo à Iniciativa Liberal e a lavagem do Chega classificado de extrema-direita populista, uma forma simplista de mascarar a readaptação do fascismo de que é herdeiro, ao contexto actual em nova versão.
 
Igualmente a Iniciativa Liberal, que elege um deputado na primeira vez que concorre, é travestida de liberal quando de liberal nada tem. É a grande corrupção intelectual por não se assumirem o que realmente são, ultra-liberais em linha com Hayek e os Chicago Boys que renegam os liberais, de Stuart Mill a Keynes e seus continuadores actuais, que defendem a educação pública, universal e gratuita, impostos progressivos, a protecção social universal, a expansão do investimento e do emprego público, a repressão dos especuladores financeiros, um Estado interventivo no combate à sucessivas crises do capitalismo e que, nos dias de hoje, são as políticas dos partidos socialistas e sociais-democratas que as praticam com enormes e devastadoras concessões ao capital, uma das mais graves é terem abdicado de moeda própria, deixando o financiamento do Estado nas mãos de especuladores internacionais. Essa gente do IL tem o desplante, a incomensurável lata de pregarem um pseudo-liberalismo económico contra o excesso de intervencionismo do Estado, quando nas últimas décadas se privatizou tudo o que havia para privatizar, excepto a Caixa Geral de Depósitos, o serviço público da comunicação social, onde ocupam, directa e indirectamente, um espaço desmesurado em comparação com a esquerda, o Serviço Nacional de Saúde e a Educação que paulatinamente tem sido entregue aos privados. É esse pouco que ainda resiste aos ataques dos ultra-liberais que agora está na sua mira.
 
 
Sem uma ruga de vergonha, coisa que não sabem o que é, fingem que a liberalização do sistema financeiro e a livre circulação de capitais não são os responsáveis pelo exponencial aumento do endividamento público e privado e que as leis do trabalho que têm facilitado os despedimentos, os horários flexíveis, a precarização não estão suficientemente desregulamentadas porque o que desejam é voltar à barbárie, aos mitos neoliberais do séc. XIX. A política fiscal que propõem é um ascensor para aumentar as desigualdades. A meritocracia que usam como brilhante emblema na lapela é a adulteração do verdadeiro mérito para favorecer os de sempre.
 
Os próceres da Iniciativa Liberal proclamam – a sua campanha eleitoral é um relambório de manhosices, um manual completo de manipulação eleitoral – que querem colocar Portugal a crescer. A realidade é que as ideias que defendem são exactamente as que têm sido postas em prática desde a década de 80 e que nos fazem crescer de forma frágil. Que por causa delas Portugal é um dos países mais pobres da Europa, onde as desigualdades sociais são das mais brutais. São essas evidências que negam com uma desfaçatez, uma insolência todo-o-terreno. O perigo dos próximos anos é terem uma desencabulada voz na AR para ampliar a voz que já têm numa comunicação social ao serviço da plutocracia e também no chamado serviço público.
 
O Chega, carinhosamente apelidado de extrema-direita populista, diz-se anti-sistema, o que dá imenso jeito num país em que o descrédito da política e dos políticos, o desencantamento com a política que os media, produzindo e propondo uma visão cínica do mundo político nas notícias, na selecção das notícias, nas perguntas das entrevistas, nos comentários políticos, instalam com contumácia preparando e adubando o terreno para as simplificações demagógicas, que foi bem explorado também pelo IL e que também já tinha sido e continua ser explorado pelo PAN. É esse o terreno que o Chega vindima sem descanso, que o fez obter os resultados eleitorais que obteve. Acresce a notoriedade pública do seu líder iniciada em Loures pelo lugar que Passos Coelho lhe outorgou, consolidada pelo comentarismo desportivo, leia-se futebol, que é um campo fértil para se alcandorarem na política, lembrem-se de Santana Lopes e Fernando Seara, entre outros.
 
O PAN cavalga sem freio a causa ambiental. Cavalga mas não sai da pista de corrida da lavagem verde que o capitalismo iniciou e que teve e tem em Al Gore um dos rostos mais mediáticos em que agora todos, mesmo Christine Lagarde e Vítor Gaspar, se empenham em apregoar. Eles são adeptos convictos de que verde é a cor do dinheiro que continua a dominar o sistema financeiro internacional.
 
Contra esse ambientalismo neoliberal tem sido lembrado recorrentemente e com razão a frase de Chico Mendes, sindicalista-ambientalista brasileiro assassinado em 1988, de que «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem». Depois do discurso pungente de Greta Thunberg na ONU, que tem sido usado com desonra pela lavandaria ambiental e destratado grosseiramente pelos arautos neoliberais, nas acções de massas das Sexta-Feiras pelo Ambiente surgiu com força a ideia nuclear de que o capitalismo não é verde, de que a luta ecológica tem de colocar a questão da superação do capitalismo, como escreveu João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas coloca de forma clara e sintética.
 
Para o PAN essa não é a equação, a jardinagem é o que está a dar, a vender bem na Feira da Ladra da ecologia. A ver vamos se os vigésimos premiados continuam sem prazo de validade a render votos.
 
Os desafios futuros para a esquerda, contra a tralha neoliberal e os populismos em marcha, não são fáceis. É urgente uma nova política económica em que o Estado agarre as alavancas do investimento e da banca para reduzir as desigualdades sociais, combater o desemprego, valorizar o trabalho em vez do capital, colocar em prática uma nova ordem ambiental, e essa não é agenda de alguma esquerda que só muito empurrada faz algumas, poucas, cedências.
 
Há que traduzir essa urgência em votos, o que com o panorama comunicacional manipulador existente vai exigir esforços acrescidos. Há que lutar, contra todas as evidências, sabendo de ciência certa que a razão está do lado da esquerda mesmo, apesar e contra as conjunturas, o que não é garante de nenhuma certeza mas vitamina a luta.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/portugal-contra-os-populismos-que.html

A geringonça

Primeiro dia: a geringonça ganhou as eleições em Portugal. Dia seguinte: a geringonça acabou. Eis um invulgar caso de uma política que não resiste ao seu próprio sucesso.

 

 

O  governo que foi popularizado como “geringonça” – um governo só do partido socialista, mas apoiado no parlamento pelos outros dois partidos de esquerda – teve três domínios de indiscutível triunfo:

a)  o êxito económico, em particular no emprego;

b) o discurso crítico da austeridade enquanto política económica europeia;

c) a unidade das forças políticas de esquerda como novidade política. Foi aliás este ultimo aspeto estratégico que mais atenção e interesse despertou no meios políticos do Brasil. Agora, que ouvem dizer que acabou, perguntam-me o que é que aconteceu. Eis a minha análise.

Esclareçamos de entrada que, a acreditar na sinceridade das declarações oficiais, ela não acabou definitivamente. Os três partidos que a compunham – o socialista , o bloco de esquerda e o partido comunista – continuam a afirmar a intenção de cooperar e dialogar em torno de propostas concretas que serão analisadas caso a caso. No entanto, o aspeto mais relevante do anterior cenário – um acordo parlamentar que  garantiu a estabilidade política durante os quatro anos de legislatura – terminou.  Se isso significa que a solução política está definitivamente enterrada é ainda matéria de especulação. Mas podemos dizer com segurança que nada será como dantes.

O partido comunista foi o primeiro a manifestar a intenção de não fazer qualquer acordo prévio. O facto é que os ganhos políticos foram distribuídos assimetricamente. Ao contrário dos outros parceiros, os comunistas perderam votos e deputados e querem agora ter as mãos livres. Aceitemos. Todavia, o que determinou o desenlace não foi esse facto, mas a recusa do partido socialista em fazer um acordo programático com o bloco de esquerda, cuja soma de deputados é suficiente para garantir a maioria parlamentar. Esta foi a decisão que provocou a rotura – acabou a geringonça.

A escolha do partido socialista é surpreendente, como surpreendente é, igualmente, o argumento usado para a justificar. Dizem os socialistas que preferem continuar a negociar medida a medida com todos os outros partidos de esquerda, entre os quais o partido comunista, para não criar uma hierarquia entre eles. O argumento, pura e simplesmente, não faz sentido. Essa hierarquia existe de facto e foi criada pelos únicos que a podem criar – os eleitores portugueses. Foi o povo e mais ninguém que deu ao bloco de esquerda a posição de terceira força política, capaz de fazer com os socialistas,  maioria absoluta no parlamento (cerca de 127 deputados num parlamento com 230). Na verdade, ninguém está a dar nada ao bloco de esquerda que este partido não tenha conquistado. Mal vai a política que não reconhece as realidades eleitorais.

Acresce que um dos sucessos mais celebrados pela solução política chamada “geringonça” foi o de quebrar uma cultura política que excluía os partidos à esquerda do partido socialista das soluções governativas, remetendo-os para a sua condição de partidos de protesto. Na Itália da guerra fria chamavam a isto  conventio ad excludendum que servia, na altura, para afastar o partido comunista de qualquer acordo que incluísse a sua presença em cargos governamentais. No entanto, e para fazer valer a verdade, é necessário dizer que essa situação era igualmente alimentada pelos próprios partidos quando recusavam fazer alianças e estabelecer compromissos, assumindo um orgulhoso distanciamento da governação que os preservava de responsabilidades. Seja como for, a experiência parlamentar realizada mostrou que esse preconceito político teve o seu tempo e que nada o justifica agora. Quebrou-se um muro, diziam orgulhosos os socialistas. Sim, quebrou-se um muro, mas ficamos agora a saber que era apenas metade do muro. O resto ficou. A recusa em estabelecer um acordo de legislatura com o bloco de esquerda parece assim evidenciar uma visão meramente utilitária: o bloco de esquerda serviu na altura para apoiar os socialistas em alturas de aflição (quando o partido socialista perde, mas a direita não tem maioria) mas não serve agora para momentos de normalidade (em que o partido socialista  ganha, embora sem maioria absoluta no parlamento). O que deveria ficar registado como um gesto de grandeza e densidade histórica ficará assim reduzido a um expediente instrumental de sobrevivência política.

Na verdade, esta situação é muito parecida à que se viveu em Espanha e que foi muito referida na campanha eleitoral portuguesa. Também ali os socialistas espanhóis recusaram fazer uma coligação de governo com o partido Podemos (da mesma família política do bloco de esquerda) esperando que aquele partido os apoiasse no parlamento, sem terem lugares no governo. Em síntese: podeis apoiar o nosso governo, mas não integrá-lo. Podeis apoiar, mas não caminhar a nosso lado. Como se os catorze por cento dos votos do Podemos não os colocassem legitimamente na situação de reivindicar o poder proporcional à responsabilidade que partilhariam com o apoio parlamentar que lhes é solicitado.

Seja como for, assinalemos que a popularidade da solução geringonça é ainda tão forte nos respetivos eleitorados que nenhum dos partidos quis assumir a responsabilidade pelo seu fim. Começou a fase de apontar culpas e esta fase não é bonita. Uma das mais importantes mudanças politicas que a geringonça permitiu foi trazer esses partidos para o denominado “arco da governação”, introduzindo-os  nas dificuldades das responsabilidades executivas e na dura realidade da política que nem sempre representa uma clara escolha entre o bem e o mal, consistindo, muitas vezes, na escolha do mal menor. Esse é o fracasso que resta. Oxalá me engane, mas o que podemos esperar é o crescimento do ressentimento. E o ressentimento é uma poderosa força política.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-geringonca/

Obrigado, esquerda!

Agradeço ao governo que ora finda o fim da crispação e o esforço para melhorar a vida dos portugueses, depois da claustrofobia democrática e das maldades que satisfizeram os carrascos, Cavaco, Passos Coelho e Portas.

Agradeço ao PS, BE, PCP e PEV a pedagogia de ensinarem que os governos se formam na AR e que a direita não decide quais os partidos que podem fazer parte do Governo.

Agradeço a António Costa a liderança do Governo que trouxe uma lufada de ar fresco a Portugal, e à Europa que esqueceu a década de 30 do século passado, e mostrou à direita que não mais pode imaginar que, em minoria, pode impedir alternativas.

Sinto mágoa, muita mágoa, por não se manter a experiência nos quatro anos que aí vêm, mas compreendo a defesa da identidade de cada partido e silencio a mágoa com que vi a luta fratricida da campanha eleitoral. Estou, porém, certo de que nunca mais a esquerda deixará de ponderar o entendimento entre os seus partidos, atuais ou futuros.

O governo que aí vem não tem a benevolência do PR, com margem de manobra para as ambições futuras. O problema da sua saúde, que em breve resolverá, é uma rábula para dar força à recandidatura.

Cada partido será julgado pelo que fizer na AR e já é tempo de deixar de haver partidos que se julguem com alvará para decidirem quem é de direita ou de esquerda, tal como a direita já engoliu o mantra dos ‘partidos do arco do poder’.

Na geografia, há quem pense que o hemisfério norte começa no Trópico de Câncer e, na política, quem julgue que a direita começa no PS.

E a direita, agora em convulsão, com profundas raízes no Portugal salazarista, não tarda a unir-se em torno de um cabo eleitoral. Resta saber se da direita civilizada ou trauliteira.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/10/obrigado-esquerda.html

Abandono do leninismo?

 

Em matéria de perceção de aceleração o tempo em que vivemos, a leitura de duas obras (“O esquerdismo doença infantil do comunismo” e “O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, de Lenine e Cunhal respetivamente) que há quarenta e muitos anos os marxistas leram sofregamente, fica-se com a dimensão dessa aceleração.

O interessante é que há cinquenta anos quem lia o livro de Lenine não sentia essa tremenda diferenciação entre o movimento operário de então e o do início do século passado. Como mudaram as circunstâncias…

Mesmo em relação a toda esta problemática, no fim dos anos sessenta, tratada por Álvaro Cunhal, voltando ao livro, parece que mergulhamos em algo que a sociedade já não reconhece.

Tudo isto vem a propósito da velha e estafada discussão no movimento revolucionário e progressista sobre os compromissos.

A resposta de Lenine independentemente de se perfilhar ou não o leninismo é clara …”A história do bolchevismo antes e depois da revolução de outubro está cheia de exemplos de acordos, de conciliações e de compromissos com os outros partidos, sem excetuar os partidos burgueses”… Pag.94 Edições Avante.

Álvaro Cunhal escreveu …”cada etapa tem fases diversas, que não podem estabelecer-se segundo esquemas, que apresentam sempre novidades e imprevistos, um processo complexo e irregular, mas exigem que se defina o alvo do golpe principal”… Pag.63 Edições Avante.

Esta constatação e muitos outros dados explicam a razão que levou a que o PCP tivesse estado nos governos provisórios com Sá Carneiro e Mário Soares e tivesse aconselhado a votar em Mário Sores para derrotar Freitas do Amaral.

A fase da luta, dentro das orientações saídas dos últimos Congressos do PCP, é por uma democracia avançada que se insere na estratégia mais geral da luta pelo socialismo.

O alvo principal é o grande capital, a burguesia parasitária nativa, e em boa medida a direita, independentemente das suas contradições que é preciso explorar… voltando a Lenine ( é obrigação dos leninistas conhecerem Lenine) “.… só se pode triunfar sobre um adversário mais poderoso à custa de uma extrema tensão de força e com a condição obrigatória de tirar partido, com a maior atenção, minúcia, prudência e inteligência, dos menores “desentendimentos” entre os inimigos, dos menores oposições de interesses entre burgueses de diversos países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia no interior do país e também das possibilidades de se assegurar um aliado numericamente forte, ainda que seja temporário, hesitante, condicional, pouco sólido e pouco seguro"Pag.95.

Assim o eixo principal da ação política é contra todos os que pretendem impor empobrecimento ao país e a todos os que vivem do trabalho.

São aliados todos os que, pelas mais diferentes razões, não estão interessados no empobrecimento e na austeridade que permita ao grande patronato e ao sistema financeiro / banca esmifrar o povo português através da chamada competitividade, ou seja, no apagamento dos direitos laborais, sociais, culturais e ambientais.

Nestas circunstâncias cabe perguntar –  é ou não possível fazer propostas que “obriguem” o PS a sair da sua tendência claudicante e conquistar novos, mesmo que pequenos avanços, na reconquista de direitos que a troica e a direita roubaram?

É ou possível no domínio do SNS propôs medidas que impeçam a sua destruição ou a degradação dos mesmos?

É ou não possível em relação à Escola Pública pequenos avanços que façam todos readquirir maior confiança no sistema educativo?

No domínio da Segurança Social é ou não possível avançar com aumentos por mais pequenos que sejam, mas que se vejam, em relação às pensões mais degradados?

No que se refere à Função Pública é ou não possível negociar acordos de aumentos salariais?

É ou não possível encontrar medidas para minorar a desgraça em que se encontra o interior do país?

É ou não possível encontrar meios de tornar a Justiça mais acessível e menos morosa?

Se não são possíveis avanços nada de compromissos. Se são possíveis, há que avançar. Embora o tempo e as circunstâncias das lutas se tenham alterado por referência àquelas obras, aqueles princípios acima referidos permanecem válidos, mesmo para quem nunca é capaz de reconhecer erros próprios não deve deixar de ter em conta o que os seus mestres ensinaram.

In Público online

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/10/12/abandono-do-leninismo/

Decepção

Ricardo Alves
Sou dos que há muitos anos defendem um governo de esquerda de preferência a um governo do PS.
O que tivemos na última legislatura foi um governo do PS apoiado pela esquerda, o que sempre foi melhor do que governos do PS sozinho, apoiado pela direita como nos anos 70 e 80, ou navegando à vista como na viragem para este século e no último governo Sócrates. Foi portanto um passo no sentido certo a aliança das esquerdas, passo tornado possível pelo sobressalto que foi a maior crise económica e social da democracia: a austeridade dos anos da tróica.
Na próxima legislatura, haveria condições para ir mais longe, e pela primeira vez termos um governo com ministros dos partidos à esquerda do PS. Seria aritmeticamente possível o PS fazê-lo com o BE ou com a CDU. Acontece que o PS não terá aceitado nem sequer um acordo escrito de incidência parlamentar com o BE.
Iniciamos portanto uma legislatura que deverá ser marcada pelo conflito parlamentar e eventualmente pela instabilidade. Só o facto de haver uma eleição presidencial em Janeiro de 2021 garante que durará dois anos. É pena.
 

Ver original em 'Esquerda Republicana' na seguinte ligação:

http://esquerda-republicana.blogspot.com/2019/10/decepcao.html

A história secreta da geringonça

(In Expresso, 24/09/2019)

Texto publicado a 20 Fevereiro 2016, na revista do Expresso, quando a ‘geringonça’ comemorou os primeiros 100 dias


Na noite de 4 de outubro de 2015, Passos e Portas preparavam-se para formar Governo, mas já PS, BE e PCP tinham dado passos que abriam portas ao inédito entendimento da esquerda. Segredos, bastidores e fait-divers de um acordo cuja paternidade está a ser foco de polémica entre António Costa e Catarina Martins nesta campanha eleitoral.


Sexta-feira, 2 de outubro, último dia de campanha eleitoral das legislativas de 2015. Depois do clássico almoço na Trindade, o PS faz a não menos tradicional arruada pelo Chiado. Na cervejaria, ouvem-se discursos de extrema dureza de Ferro Rodrigues e de Fernando Medina para com os partidos à esquerda do PS. Talvez inspirados ainda pelas palavras de Manuel Alegre que, na véspera, em Coimbra, lamentara que “parte da esquerda gaste as suas energias a fazer do PS o seu inimigo principal” e tentara chamá-la à razão com um argumento inesperado: “Álvaro Cunhal, com quem tivemos grandes divergências ideológicas, nunca se esqueceu de que há uma fronteira entre esquerda e direita. E teve a lucidez e a coragem política de convocar um congresso extraordinário para lançar a palavra de ordem: contra a candidatura da direita, vota Soares.”

Durante o desfile pelas ruas de Lisboa, com a agitação e o barulho típico do momento, ninguém repara num discreto encontro entre figuras do PS e do PCP. O comunista, ex-autarca da Área Metropolitana de Lisboa (AML), parecendo que estava casualmente na rua, espera que o cortejo passe por ele. Mete conversa com uma ex-presidente de Câmara do PS da AML e, de seguida, com outro antigo autarca socialista, igualmente da metrópole lisboeta. O ambiente dos dois diálogos nada tem a ver com a acrimónia acabada de ouvir na Trindade.

 

Aqui olha-se pragmaticamente para o futuro. E a mensagem do lado do PCP é clara: não há razão para precipitações. Há disponibilidade para uma negociação que possa dar ao PS uma maioria parlamentar, algo que os socialistas não deverão obter nas urnas. Com efeito, as sondagens dão um avanço à coligação de direita, mas apenas com maioria relativa.

Juntos, PS, CDU e Bloco terão mais deputados. E a contagem dos votos haveria de confirmar o cenário. No Chiado, do lado do PS, há alguma surpresa ante a oferta comunista. Mas, ceticismo socialista à parte, os dados estão lançados.

Nesse mesmo dia, o Bloco está na zona do Porto. Entre bloquistas e socialistas não há ainda qualquer indício de um acordo da esquerda. A 14 de setembro, no debate na TV com António Costa, Catarina Martins lançara um repto. Se o PS desistisse de três pontos do seu programa (congelamento de pensões, cortes na TSU e regime de despedimento conciliatório), o Bloco veria nisso “um início de conversa” para poder viabilizar um Governo alternativo ao da direita.

Ao longo de duas semanas e meia, a porta-voz do BE repete tal disponibilidade, dezenas de vezes, sem resposta alguma do PS. Nem publicamente nem em privado – garante agora uma fonte bloquista. Um silêncio que, visto a esta distância, se percebe melhor. Se fosse para dizer “não”, Costa teria fechado logo as portas; e se pensasse ou admitisse dizer “sim”, como veio a verificar-se, teria de ficar calado, para, entre outras coisas, poder continuar a pedir ao país uma maioria absoluta.

A perplexidade sobre uma possível negociação à esquerda atinge o auge no dia 26 de setembro, quando o Expresso intitula em manchete: “Costa chumba governo de direita minoritário”. Sob aquele título acrescenta-se que o líder do PS “confia na maioria de esquerda e na capacidade para fazer acordos”.

No Bloco descrê-se de tal cenário. E duvida-se mesmo que tenha sido a direção do PS a veicular tal possibilidade. “Não havia qualquer indicação de que isso fosse verdade”, diz agora uma fonte do Bloco. “Até ao final da campanha, não houve qualquer sinal da parte do PS”, acrescenta. De repente, tudo se precipita: “Os primeiros sinais dados pelo PS foram recebidos no sábado, dia de reflexão.” Mas as “garantias não eram suficientes”, pelo que foi necessário “confirmar a sua credibilidade”.

AS RESERVAS INICIAIS RAPIDAMENTE SE DESVANECEM

De sábado para domingo realizam-se contactos entre figuras dos dois partidos. Ana Catarina Mendes assume que foi nesse dia de reflexão que “o cenário de entendimento foi posto em cima da mesa”. Mas desde pelo menos quarta-feira, 30 de setembro, que ele vinha ganhando vida nos pensamentos de António Costa. Nesse dia, ao saber dos resultados da última sondagem para o Expresso e a SIC, que apontam para uma vitória da PàF mas sem maioria absoluta (37,7%), o líder socialista comenta: “Não é uma boa notícia, mas também não é má.” Por outras palavras, parecia certo que a maioria parlamentar seria à esquerda, e isso era quanto (lhe) bastava naquele momento.

A 3 e 4 de outubro, nuns casos, a iniciativa dos contactos parte do lado do PS; noutros, é do Bloco. Segundo relata agora um dos envolvidos nas conversações, elas foram no máximo do conhecimento de três a quatro pessoas em cada partido. O relacionamento é feito sobretudo por telefone. Naturalmente, nele participam António Costa e Catarina Martins, mas não falam entre si. Há também encontros presenciais.

O que está em cima da mesa é mais do que um entendimento bilateral. Sendo já praticamente certo que dois (sejam quais forem) não bastam para conseguir uma maioria no Parlamento, tudo remete para um acordo a três, que inclua o PCP (que, pelas sondagens, até deveria ser a segunda força mais importante). Jerónimo terá sido contactado por António Costa, mas o líder comunista é perentório: “Não houve contactos formais ou informais com o PS”, garantiu no dia 6 de outubro, no final da reunião do Comité Central.

João Oliveira, que esteve presente em todas as reuniões de negociação, também confirma a versão oficial de que “não houve contactos antes da reunião em que António Costa foi à Soeiro Pereira Gomes” (7 de outubro). E mais: “Não houve troca de opiniões no dia das eleições”, garante o líder da bancada parlamentar.

Ao Expresso, o PCP limita-se a dizer que houve “uma solicitação no dia 3 para se estabelecer um contacto que se efetivou no dia 4, dia das eleições, limitado a uma troca de informações por telefone sobre o andamento da noite eleitoral, designadamente quanto ao momento das declarações”. Ao início da tarde do domingo das eleições, com um princípio de diálogo à esquerda já alinhavado, e sobretudo jogando com essa possibilidade, António Costa mede a temperatura no seu partido. O líder socialista, que um ano antes fora eleito secretário-geral prometendo maioria absoluta nas legislativas, liga a Francisco Assis e aos presidentes das mais influentes distritais do PS para os sondar sobre um possível entendimento com os partidos de esquerda no caso de o PS ganhar as eleições com minoria ou, ainda que perdendo-as, conseguir ter mais deputados do que o PSD. Na noite das eleições, conhecidos os resultados iniciais, o primeiro sinal público de abertura para um entendimento à esquerda é dado na sede do PCP, no Centro Vitória.

Francisco Lopes não tem dúvidas de que a anterior maioria PSD/CDS “perdeu a capacidade de formar Governo” e que a esquerda “conseguirá isolar politicamente” o anterior Executivo. A frase da noite seria dita mais tarde por Jerónimo de Sousa: “O PS só não forma Governo se não quiser.” Os comunistas lançam o isco de que “o PS tem condições para formar Governo” e avançam com a promessa de apresentar uma moção de censura a uma solução governativa liderada por PSD e CDS. Mas a prudência comunista é uma marca de ADN. Jerónimo sublinha que, “a menos que o PS viabilize” um Governo de direita, há uma “alternativa política” à vista. “A vida dirá” o que se irá passar, conclui o líder do PCP, assumindo que “a procissão ainda vai no adro”.

PCP E BE DESCONCERTADOS COM COSTA

A poucos metros dos comunistas, do outro lado da Avenida da Liberdade, no Cinema São Jorge, o Bloco assenta arraiais. Um dos responsáveis da campanha comenta a nuance do discurso de Francisco Lopes e desce apressado as escadas, em direção ao camarim onde Catarina Martins prepara o seu discurso, ainda a tempo de garantir a sua adequação ao facto político da noite.

A líder do Bloco, que fala entre Lopes e Jerónimo, deixa “bem claro” que, “se não tiver maioria, não será pelo BE que [a direita] conseguirá formar Governo”. Minutos antes, Mariana Mortágua ainda falara de “uma possível vitória da direita”. Agora, o léxico é corrigido: “A direita perdeu votos e perdeu mandatos.” E se Cavaco empossar PSD e CDS, o BE “vai rejeitar no Parlamento essa hipótese”.

Não muito longe, na Rua Castilho, no Hotel Altis, António Costa reconhece a derrota. Os apoiantes que o escutam, temendo que a frase seguinte seja a do anúncio da demissão do lugar de secretário-geral do PS, gritam “não”. Eles pede–lhes paciência: “Já vão dizer que sim.” Reitera que o PS “será inteiramente fiel aos compromissos que assumiu perante os eleitores” e que, por isso, “a coligação de direita não poderá contar com ele para viabilizar a prossecução das suas políticas”.

E acrescenta: “Ninguém conte connosco para sermos só uma maioria do contra, sem condições para formar um Governo credível e alternativo ao da direita.” O discurso de Costa é recebido com algum agastamento no Bloco, pela sua “ambiguidade”.

Ao contrário do que os contactos de véspera e desse próprio dia fariam supor, o líder do PS mantém canais abertos tanto à esquerda como à direita. Já os comunistas sentem o tapete a fugir-lhes debaixo dos pés quando ouvem Costa afirmar que não alinhará em “maiorias do contra”. Dois dias depois das eleições, Carlos César, novo líder parlamentar do PS, reúne-se com os presidentes das federações.

Conta-lhes das negociações à esquerda mas, segundo quem lá esteve, sempre num tom de que seriam manobras mais táticas do que efetivas, porque “dificilmente o PCP aceitará um acordo com o PS”. Ficaria claro, ainda assim, que não seria o PS a inviabilizar essa hipótese. Marcos Perestrello, líder da FAUL, discorda da estratégia. José Luís Carneiro, do Porto, e Capoulas Santos, de Évora, expressam reservas sobre a orientação, que admitem arriscada.

Pedro Nuno Santos, líder da distrital de Aveiro, Ana Catarina Mendes, presidente da federação de Setúbal, e Luís Testa, de Portalegre, são os maiores entusiastas do que, nessa altura, ainda é apenas e só uma miragem.
Nessa mesma noite, a Comissão Política do PS aprova (com 63 votos a favor, 4 contra e 3 abstenções) o mandato para António Costa poder encetar diálogo com todas as forças políticas, à esquerda e à direita. Horas antes já Cavaco encarregara Pedro Passos Coelho de “desenvolver diligências” para formar um Governo. Passos chama a Costa “líder do maior partido da oposição” e pede ao PS a adoção de uma “cultura de diálogo”. É com este canto da sereia da direita que António Costa (acompanhado de Carlos César e Ana Catarina Mendes, Pedro Nuno Santos e Mário Centeno) entra, ao final da tarde de 7 de outubro, na sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. O encontro dura cerca de uma hora e meia e, no final, o líder socialista diz que “correu bem” e sublinha que, apesar das diferenças conhecidas, há “pontos de convergência importantes”.

Mas é, surpreendentemente, Jerónimo quem vai mais longe. A reunião “produtiva” vai continuar “nos próximos dias” e o líder comunista viabilizar um Governo do PS”. O acordo da esquerda começa ata deixa uma mensagem clara: o PCP está disposto a ” mover-se de modo notório e aos olhos de todos.

Ana Catarina Mendes diria mais tarde, sobre essa reunião, que Jerónimo tinha “vontade de superar–se a si próprio”.

À distância, João Oliveira lembra que este primeiro encontro “acabou por ser o decisivo”. Para surpresa dos socialistas, os comunistas puseram as cartas todas em cima da mesa: assumiram a disponibilidade para viabilizar o Governo socialista.

Em contrapartida, queriam “discutir o programa de Governo e a solução alargada e interpartidária na formação” desse mesmo Executivo. Nesta primeira reunião, o PCP não afastou a possibilidade de participar no Governo. A hipótese acabou por cair mais à frente, no caminho das negociações. O importante, na altura, era deixar um sinal claro de que o PS podia, desta vez, contar com os comunistas.

A primeira reunião entre PS e BE só chegará dias depois. O Bloco pretendia um encontro técnico em primeiro lugar; o PS, então a negociar também no tabuleiro da direita, exige uma reunião política.

Inicialmente marcado para dia 8, o encontro acaba por se realizar apenas a 12 de outubro, na sede do Bloco, na Rua da Palma. É bastante mais produtivo, com frutos imediatos, do que o mantido seis dias antes, entre socialistas e comunistas.

O que Costa deixara por esclarecer durante quase um mês tem agora uma resposta clara: o PS aceita as três condições colocadas por Catarina Martins na TV. Com uma maratona negocial em perspetiva, socialistas e bloquistas adotam um princípio que os isentará da tarefa de partir muita pedra na mesa negocial: decidem que, logo à partida, constarão do acordo os assuntos em que há convergência dos respetivos programas eleitorais e os temas que votações anteriores no Parlamento demonstraram ser “chão comum”, conta um dos negociadores.

Há sintonia num terceiro aspeto: não figurará no acordo qualquer referência aos pontos sobre os quais venha a ser impossível obter um consenso (ao contrário do que a posição conjunta de PS e PCP viria semanas depois a consagrar).

COMUNISTAS E BLOQUISTAS EM MESAS SEPARADAS

Socialistas e comunistas, primeiro; socialistas e bloquistas, depois – estão estabelecidas as bases de duas negociações. Para rematar o triângulo, falta perceber como evoluirá o binómio PCP-BE. Os dois partidos encontram-se no dia 16 de outubro, uma sexta-feira à tarde, no Parlamento.

À saída da reunião dá-se um caso extraordinário.
Catarina Martins fala em primeiro lugar.

Analisa o estado das relações do Bloco com o PS, mas não dedica uma única palavra ao encontro que acabara de ter. Ninguém lhe coloca essa questão. A seguir intervém Jerónimo de Sousa. Lê uma declaração, na qual só menciona o BE na primeira frase (referindo-se ao encontro). No resto, comenta as negociações com o PS. Também aqui as perguntas colocadas não se desviam um milímetro do tema inicial de conversa.

Há uma razão para que nem Catarina nem Jerónimo mostrem qualquer vontade de falar do que se passara minutos antes: as posições dos dois partidos são diametralmente opostas. Instado a relatar as divergências, um dos presentes na reunião diz apenas: “Houve perspetivas muito diferentes sobre a necessidade de fazer refletir no acordo um debate sobre as questões orçamentais.” Fontes conhecedoras do processo negocial dão mais pormenores. O Bloco solicitara a reunião para aferir o grau de empenhamento efetivo do PCP na concretização de um acordo à esquerda. E para saber da possibilidade de uma conversação direta com os comunistas .

À semelhança da reunião dos presidentes de federação do PS, também no PCP se está de pé atrás em relação à efetivação de um acordo. Acreditam que ele nunca verá a luz do dia, por uma (ou várias) de três razões: uma divisão do PS; obstáculos colocados por Cavaco Silva; pressões externas, de Bruxelas às agências de rating.

Já quanto a uma negociação direta, os comunistas deixam claro que só a farão com o PS. O que só muito mais tarde seria evidente – a impossibilidade de um acordo tripartido – fica cavado no dia 16 de outubro.

Esta geometria variável entre PS, Bloco e PCP ganha letra de forma dois dias depois. Mas é uma subtileza que passa despercebida e só numa leitura posterior se torna clara. A 18 de outubro, um domingo, reúne-se a Mesa Nacional do Bloco. Na resolução política, distinguem-se dois comprimentos de onda: “O prosseguimento das negociações com o PS com vista à consagração, no programa de Governo”, por um lado, e “o prosseguimento do diálogo com o PCP sobre o processo de negociações com o PS”, por outro. Para bom entendedor…

Não é a única decisão cifrada no comunicado: ele é omisso sobre os termos da negociação com o PS. O facto mais relevante da reunião só é destapado na conferência de imprensa. Então, Catarina Martins afirma aos jornalistas que a Mesa Nacional “aprovou por unanimidade a ratificação do mandato da equipa negocial do Bloco para as negociações de um Governo que proteja empregos, salários e pensões”.

Antes, na reunião, em relação a cada ponto passível de figurar num acordo, a porta-voz do Bloco apresentara o ponto de partida da negociação e o limite até onde o BE admitia ceder. A aprovação meramente verbal foi considerada pelos bloquistas a melhor forma de preservar uma informação que se fosse divulgada iria ser mais um grão de areia no espinhoso caminho da esquerda.

A SEMANA DE TODAS AS VERTIGENS

Com partidas desencontradas, as duas negociações bilaterais (PS-Bloco e PS-PCP) avançam a velocidades diferentes. Há grande atenção mediática sobre cada uma das reuniões entre os vários partidos, mas ocorrem alguns encontros longe dos olhares dos jornalistas, tanto nas sedes partidárias como no Parlamento.

Na última semana antes da assinatura do acordo, a primeira de novembro, jogam-se todas as decisões. Num ambiente em que é preciso juntar as pontas, os ânimos até começam por ficar mais inflamados logo no dia 1, um domingo.

Uma entrevista de Catarina Martins ao “Diário de Notícias” incendeia os ânimos. Um pouco no PS, onde criticam um “excesso de protagonismo”, mas sobretudo no PCP. Por um lado, a líder do Bloco é vista como alguém que gosta de aparecer a dar as boas notícias – “Há acordo à esquerda, as pensões vão ser todas descongeladas”, intitula o “DN” na primeira página -, algo que irrita os parceiros da esquerda. A tampa salta mesmo aos comunistas quando Catarina afirma: “Seria demagógica se dissesse que acredito que seria possível ter [um salário mínimo de] 600 euros em 2016.” “Demagógica” passa assim a ser a proposta do PCP, que defendia tal valor. E “demagógica” passa também a ser uma das promessas eleitorais do Bloco, que se apresentara às legislativas com a mesmíssima medida no programa.

O mal-estar entre bloquistas e comunistas, que haveria de ter novos episódios no fim de semana seguinte, não impede Catarina Martins de entrar na Soeiro Pereira Gomes, a sede do PCP, poucos dias depois, a 4 de novembro. Foi um dos vários encontros que envolveram líderes partidários que passou despercebido até hoje. A única referência fê-la o Expresso no sábado seguinte, mas ainda com poucos pormenores.

A meio da manhã, numa altura em que o bar está cheio de gente, alguns militantes e funcionários do PCP veem com surpresa a chegada da porta-voz do Bloco, acompanhada por outro membro do partido. Segundo fonte oficial do Bloco, a reunião foi pedida por Jerónimo de Sousa, e pretendia-se que decorresse com discrição. Já o PCP dá uma versão diferente em relação àquele encontro: a iniciativa partiu do BE e ocorreu no dia 5 (e não 4).

Na Soeiro, Catarina informa os comunistas sobre o estado das conversações com o PS, já concluídas em relação às medidas a inscrever no documento final. Os comunistas percebem que o Bloco vai assinar o acordo com os socialistas e que não lhes resta outra saída se não entenderem-se também com o PS. O tempo urge. O fim de semana está a chegar e para ele estão marcadas as reuniões de PCP e PS (Comité Central, no primeiro caso; Comissão Política e Conselho Nacional, no segundo), às quais as respetivas direções têm de submeter a ratificação do texto aprovado entre ambas (e, no caso do PS, também com o BE e Os Verdes).

Um filtro que a direção do Bloco já não enfrenta, pois tem um mandato da Mesa Nacional. Se os ecos da entrevista de Catarina Martins ao “DN” tiveram réplicas na reunião que manteve com Jerónimo de Sousa na sede do PCP é algo que o Expresso não conseguiu apurar. Nessa mesma noite de 4 de novembro, a líder do Bloco é entrevistada na SIC. Para os comunistas tem palavras de mel.

Questionada sobre o facto de o PCP negociar só com o PS, Catarina responde: “Se há uma coisa em que eu tenho toda a confiança e certeza é que o PCP será o defensor de parar o ciclo de empobrecimento do país.” E vai mais longe, metendo comunistas e bloquistas no mesmo campo, numa alusão à soma dos votos dos dois partidos: “Um milhão de pessoas são os obreiros de uma nova solução de Governo.” Praticamente à mesma hora, pela segunda vez neste processo, António Costa vai à sede do PCP, onde de manhã estivera Catarina. O líder do PS passara uns dias de férias em Itália, deixando Carlos César na condução das negociações, e foi no estrangeiro que soube das dificuldades persistentes entre socialistas e comunistas. A ida de Costa à Soeiro, entre outras coisas para um cara a cara com Jerónimo, é uma das formas de desbloquear o impasse.

No dia 5, quinta-feira, o prazo para conseguir um acordo da esquerda aproxima-se do fim. Nas segunda e terça-feira seguintes é discutido e votado o programa do segundo Executivo de Pedro Passos Coelho. Se PS, Bloco e PCP não se entenderem antes disso, os socialistas não chumbam o Governo.

ENCONTRO SECRETO…NO LARGO DO RATO

É nessa quinta-feira que António Costa e Catarina Martins se encontram mais uma vez, num encontro no Largo do Rato até agora mantido em segredo.

Com a hipótese de um acordo subscrito a três (ou a quatro, com Os Verdes) já desde há muito descartada, socialistas e bloquistas debatem a “simetria” dos textos. Para o Bloco, sobretudo, trata-se de “uma questão crucial” – a simetria iria garantir um grau de responsabilização igual para todos. Ainda que preâmbulos e anexos pudessem assumir forma distinta em cada “posição conjunta”, o elenco de medidas objeto de entendimento teria de ser o mesmo para todos.

É já depois desta reunião que se reúne a Comissão Política do Bloco, ainda na noite de 5 de novembro. Catarina informa os seus pares dos últimos desenvolvimentos do processo, entre os quais os encontros mantidos com Jerónimo, uma surpresa para quase todos, e com Costa. A Comissão Política dá luz verde às medidas já acordadas com o PS para viabilizar o Governo e, sobretudo, o OE. Ficam também assentes os termos do acordo político, mas não a aprovação formal do mesmo. A ratificação final só terá lugar depois de socialistas e comunistas acertarem as suas agulhas.
Não foi à primeira que BE e PCP aceitaram, já na reta final das negociações, a versão que o PS lhes apresentou, com uma referência aos “compromissos com as regras europeias”, formulação que os dois partidos à esquerda do PS chumbaram.

Noutro caso, no vaivém de e-mails com o elenco de medidas sectoriais passíveis de acordo, os socialistas acabam por fazer sair à luz do dia propostas que nem sequer haviam sido discutidas ou eram desejadas pela outra parte. Naturalmente, foram devolvidas à origem e expurgadas do documento final. No dia da queda do segundo Governo de Passos Coelho, o acordo está feito. Mas ninguém sabe onde, quando e por quem será assinado. A exigência partiu dos comunistas, que recusam uma cerimónia conjunta e a presença de jornalistas. “Na nossa perspetiva, a discussão foi bilateral, não fazia sentido uma assinatura coletiva”, diz João Oliveira.
“Não queríamos uma encenação, não víamos vantagem nisso”, acrescenta. Face à posição do PCP, o BE faz uma exigência: ser o último a assinar, por ter a bancada mais numerosa. João Oliveira acompanha Jerónimo à Sala Europa, do PS, mas só o secretário–geral assina: e é o primeiro dos parceiros de António Costa a rubricar a posição conjunta. São 14h34 de 10 de novembro, poucas horas antes da queda do Governo de Passos. Seguem-se, quatro minutos depois, Os Verdes, representados por Heloísa Apolónia e Manuela Cunha. Por fim, chega a vez do Bloco.

Num protocolo improvisado, com convocatórias em cima da hora, Catarina Martins telefona a Pedro Filipe Soares, para que este a acompanhe. Mas o líder parlamentar está nesse momento no refeitório, num almoço de trabalho, já marcado. Não tem como sair da sala. E, como não faz questão de ser ele a assinar o acordo, avança Jorge Costa, um dos vice-presidentes da bancada. É então selada a terceira posição conjunta que vai viabilizar um Governo do PS apoiado pela restante esquerda.
Ao fim de 34 dias de negociações, o folhetim termina às 14h42 do dia 10 de novembro de 2015. É nesse momento, ainda sem conhecer o nome que a há de celebrizar (via Paulo Portas, a partir de uma crónica de Vasco Pulido Valente), que a “geringonça” ganha pernas para andar. Fez 100 dias na última quinta-feira.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | Novo contexto, novas exigências

 
 
Manuel Carvalho Da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
 
Penso que a maioria dos portugueses e portuguesas que votaram nos partidos da Esquerda (ou esquerdas) em 2015, e depois se regozijaram com os acordos parlamentares estabelecidos entre eles, mantêm até hoje uma avaliação globalmente positiva deste ciclo de governação e desejam a renovação de compromissos para novo mandato.
 
Entretanto, o contexto atual é radicalmente diferente do de 2015.
 
Em 2015, havia um rolo compressor a esmagar salários, pensões, direitos sociais e emprego que era preciso deter. Exigia-se aos partidos da Esquerda um entendimento mínimo que pudesse evitar a institucionalização do "estado de exceção" como um novo normal.
 
Em 2015, surgia um ciclo de crescimento económico à escala global e na União Europeia, e um BCE interveniente, fatores que favoreciam a criação de emprego em Portugal e a queda das taxas de juro, facilitando alguma conciliação entre "devolução de rendimentos" e "ajustamento orçamental".
 
Em 2015, na composição do Parlamento que resultou das eleições, havia uma coligação PSD-CDS capaz de bloquear qualquer iniciativa do PS sozinho.
 
A batalha agora tem de ser por novas conquistas, o que em regra é mais difícil do que resistir.
 
Hoje, embora os salários e as pensões se mantenham praticamente estagnadas em termos de poder de compra, e alguns direitos sociais - a começar pela saúde - continuem quase tão comprometidos como estavam em 2015, não há a perceção de uma ameaça eminente, proveniente de iniciativas do Governo, intencionalmente dirigidas contra as "classes populares", os seus meios de existência e direitos básicos.
 
Agora, muitos dos que desejam renovação do mandato na Esquerda, pretendem que se continue a reparar os estragos do "ajustamento", mas querem também levar adiante um projeto bem mais profundo de progresso, de mudança qualitativa do perfil da nossa economia, de reparação mais estrutural das desigualdades.
 
Às portas de 2020, existem fundadas preocupações e antevisões de um novo ciclo recessivo, que pode emergir a partir de guerras abertas ou potenciais, sejam elas bélicas, económicas ou financeiras. Quadraturas do círculo, envolvendo reposição dos rendimentos e investimento público a par de amortização da dívida em passo de corrida, são muito mais difíceis no novo contexto global e europeu que se perspetiva.
 
A acreditar na bissetriz do conjunto das sondagens conhecidas, das eleições de 6 de outubro não resultará uma bancada PSD-CDS capaz de bloquear o PS-sozinho. O PS não será colocado em estado de necessidade de negociações à esquerda. Mesmo sem maioria absoluta - cenário indesejável por múltiplas razões -, a hipótese mais que provável do crescimento do PS combinado com um descalabro da Direita, produzirá um contexto favorável ao forte setor do PS que sente urticária e enjoos com os acordos à esquerda e encorajam uma solução PS-sozinho, agindo em geometria variável e caso a caso, de que resultaria um viés de direita.
 
Uma maioria desproporcionada do PS tende a dispensar, absoluta ou parcialmente, uma negociação à Esquerda para um tão necessário novo mandato, agora focado na dignidade do emprego, no crescimento dos salários e pensões, no resgate do SNS, nas questões do território e do ambiente, na mudança do perfil da nossa economia.
 
É preciso reforçar as forças à esquerda do PS.
 
* Investigador e professor universitário

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/portugal-novo-contexto-novas-exigencias.html

A esquerda alemã e os desafios levantadas pelas migrações

A esquerda alemã e os desafios levantadas pelas migrações

(Peter Whal, 9 de Fevereiro de 2019)

alemanha

Desde que a Chanceler alemã suspendeu o Acordo de Dublin em Setembro de 2015, permitindo a entrada de um milhão e meio de refugiados no país durante os dezoito meses seguintes, a questão da migração desempenhou um papel espetacular na política alemã.

Havia muita especulação sobre as motivações da Merkel. Tratou-se de uma estratégia a longo prazo contra o declínio demográfico e o envelhecimento da população? Um plano para a garantia financeira das pensões? Ou foi para resolver a escassez de mão-de-obra? Ou um ataque neoliberal contra os trabalhadores, usando os migrantes para o dumping salarial  e social? Ou será que a Chanceler atuou desta forma por motivos humanistas, quase Madre Teresa dos migrantes?

Sumário

– Crise no sistema político e viragem à direita

– Aprofundamento da  crise da esquerda

– Mais do que um conflito sobre a  migração

Como mostraram as investigações sobre a noite dramática de 4-5 de setembro de 2015[1]  Merkel não tinha nenhum plano, nenhuma estratégia. Foi tão simples quanto pragmático para ela evitar imagens dramáticas de televisão, com dezenas de milhares de refugiados na estrada na fronteira entre a Áustria e a Baviera. Foi a curto prazo, para evitar stress e desentendimentos. As considerações a longo prazo não desempenharam qualquer papel na sua decisão. Isto está em perfeita sintonia com o seu estilo político geral, que ela própria descreve como “condução à vista”.

Nos primeiros meses que se seguiram a esta noite, houve uma incrível onda de solidariedade entre a população. Em todas as cidades e mesmo nas zonas rurais, os grupos de apoio aos refugiados desenvolveram-se espontaneamente. Eles assumiram grande parte do fardo sobre os ombros, que as administrações sobrecarregadas e por vezes resistentes não conseguiram suportar. Uma nova palavra foi criada: “Willkommenskultur” (cultura anfitriã).

Ao mesmo tempo, a decisão unilateral de Berlim teve enormes efeitos colaterais. Em primeiro lugar, sobre a União Europeia. Para além das fortes tendências centrífugas já existentes, foi acrescentada uma outra crise profunda entre os Estados-Membros. Ainda não está resolvida.

Depois de alguns meses, no entanto, outras consequências problemáticas também apareceram quando, na véspera de Ano Novo 2015-2016, várias centenas de mulheres foram vítimas de assédio sexual, que foi atribuído a migrantes Maghrebi frente   à Catedral de Colónia. A partir desse momento, desencadeou-se um enorme retrocesso, um voltar atrás. O governo federal implementou todo um pacote de medidas que colocaram a política de migração alemã de volta ao resto da Europa Ocidental. O número de requerentes de asilo passou de 890.000 em 2015 para 722.370 em 2016 e para  198.317 em 2017. [2] O gesto humanista de Setembro de 2015 é agora sentido  como perda de controlo- e com razão.

Crise no sistema político e viragem à direita

Entretanto, o clima político no país tinha mudado drasticamente. A cultura de acolhimentofoi colocada na defensiva e é agora marginalizada. Os problemas relacionados com a imigração em massa estão em primeiro plano no discurso público. Os desenvolvimentos em torno da migração serviram de catalisador para acelerar uma mudança geral da sociedade para a direita. A hegemonia sócio liberal que o país viveu nas últimas décadas está cada vez mais em erosão, o que está agora a ter um efeito dramático no sistema político:

– Com a AfD (“Alternativa para a Alemanha”), um partido de extrema-direita a entrar no Bundestag pela primeira vez desde o fim da guerra. Este partido  representa o maior grupo de oposição do país. Está representada em todos os parlamentos dos Länder. Na Saxónia, é mesmo o partido  mais forte. O seu tema central é a migração.

– A CDU de Merkel passou  de 40% dos votos no passado para uma média de 30%. A sua ala bávara, a CSU, perdeu a sua maioria absoluta no Parlamento de Munique após meio século de dominio. A maioria das suas perdas foram a favor da AfD e, incidentalmente, para os Liberais (FDP). Entretanto, Angela Merkel teve de se demitir do seu cargo de líder do partido e não está claro se continuará a ser chanceler até ao final da legislatura. Dentro da CDU, há um conflito agudo entre o conservadorismo iluminado representado por Merkel e a ala direita do partido. O resultado da luta é incerto.

– O SPD, o mais antigo partido social-democrata do mundo, segue a tendência de todos os social-democratas que se tornaram neoliberais: está em crise existencial. Depois de atingir 40% com Schröder em 1998, situa-se atualmente entre 14% e 18% nas sondagens . Este é o nível mais baixo desde 1887 [3] , com as maiores perdas de eleitores a favor da AfD e dos Verdes.

– Depois da AfD, os maiores vencedores destas  convulsões são os Verdes. Enquanto se situavam atrás do Partido de Esquerda (9,2%) nas eleições federais de 2017 com 8,9%, eles atualmente representam 18% a 20% nas sondagens.

– A percentagem de eleitores no Partido da Esquerda estagna entre 8% e 10%. No entanto, por trás da fachada das estatísticas há uma mudança profunda na base eleitoral. Nos novos Länder do Leste, onde o partido tradicionalmente tinha as suas fortalezas, está a perder massivamente para a AfD, enquanto ganha terreno nos centros metropolitanos do Ocidente.

    – Apenas o FDP neoliberal está relativamente estável no momento, com um percentual de votos de 8% a 10%. Nas eleições para o Parlamento Europeu, espera ganhar influência através do partido de Emmanuel Macron, que aderiu ao grupo liberal ALDE.l’Ouest.

A instabilidade do sistema político é acompanhada por uma intensificação e polarização do clima geral de opinião no país. Insegurança, polémica, incomodidade  e agressividade no debate público estão em ascensão numa ampla frente.

No entanto, é de salientar que estas perturbações não podem ser atribuídas simplesmente ao afluxo de migrantes. Eles são, acima de tudo, a expressão de problemas mais profundos que se têm estado a desenvolver desde há  muito tempo sob a capa  da estabilidade. No entanto, o debate sobre a migração realçou-os e contribuiu para a sua intensificação.

Aprofundamento  da crise da esquerda

A esquerda alemã existe. [4) É ativa, discute, publica,  organiza ações, está presente nas lutas locais e nos movimentos sociais. Se tomarmos como indicador os resultados das eleições, estes permaneceram estáveis entre 8% e 10% na última década. Ao mesmo tempo, as sondagens mostram  repetidamente que segmentos crescentes da população estão cada vez mais insatisfeitos com as condições sociais, económicas e políticas. A incerteza e os receios sobre o futuro estão a aumentar. De facto, os grandes desafios ecológicos, económicos, sociais e políticos exigem uma esquerda forte.

No entanto, a esquerda alemã ainda não conseguiu aproveitar as oportunidades decorrentes das mudanças verificadas. Por trás da fachada de estabilidade, há diferentes processos de crise. Ela está a ter dificuldade em lidar com as rápidas mudanças no capitalismo, as mudanças sociais e mentais na sociedade e a nova confusão no sistema internacional. Fica atrás da dinâmica do desenvolvimento social e a sua orientação  estratégica é opaca. O resultado é um pratica na ação feita de rotinas  que durante muito tempo escondeu  a impotência, a fragmentação e a formação de diversas correntes.

O afluxo de imigração caiu nesta situação em 2015. Ele agudizou de forma  acentuada  as contradições dentro da esquerda, e especialmente trouxe o Partido de esquerda para a beira de uma  divisão aberta. As linhas da frente cruzaram a liderança do partido. Um campo era liderado por Sahra Wagenknecht, co-presidente do grupo parlamentar do Bundestag e figura pública mais proeminente do partido. Do outro lado, Katja Kipping, co-presidente do Partido.

O partido é composto por   cinco ou seis correntes, que também são oficialmente reconhecidas como tal e formalmente constituídas. Mas o debate sobre migração levou a uma polarização binária que às vezes degenerou em agressão odiosa. Por um lado, registou-se um aumento acentuado das comparações nazis e acusações de racismo. Por outro lado, os respetivos adversários têm sido descritos como marionetes  do neoliberalismo. Por conseguinte, ambas as partes afirmam estar comprometidas com os valores fundamentais da esquerda. Nestas condições,  cada discussão é altamente carregada de efeitos que inevitavelmente os levam ao confronto e à dinâmica sectária.

O conflito irradiava para toda a esquerda, mesmo que raramente assumisse formas tão dramáticas.

Atualmente, o conflito no seio do Partido da Esquerda acalmou um pouco. A principal razão prende-se com as próximas eleições a nível de vários Länder. Especialmente no Leste, Brandeburgo, Saxónia e Turíngia, as apostas são altas. Em Brandeburgo, o partido e o SPD formam o governo, na Turíngia até o primeiro-ministro vem do partido de esquerda. Em ambos os casos, existe o risco de perder o lugar do governo e abandonar ainda mais votos para a AfD.

O que também contribui para uma redução das tensões é a redução drástica do número de migrantes. Num ompromisso no final de 2018, a posição programática básica do partido também foi alterada. No programa adotado em 2011, afirmava-se ainda: “Exigimos a abertura das fronteiras para todos. [5] Esta foi a posição inicial do campo de Kipping, que também está representado em muitos sectores da esquerda extraparlamentar. No contexto do afluxo de imigrantes em 2015 e 2016, o campo de Wagenknecht criticou esta posição como uma utopia irrealista, que não poderia ser alcançada nas condições de uma sociedade de classes.

Mais do que um conflito sobre migração

Entretanto, chegou-se a um compromisso com a fórmula que defende uma política de migração generosa e humana, livre de interesses económicos utilitários, mas, ainda assim, regulada pela política. O “sem fronteiras”, o slogan do programa para 2011, já não é mencionado. Não é certo que este compromisso se mantenha a longo prazo. Porque os problemas subjacentes ainda não estão resolvidos.

Entre estes problemas, há, em primeiro lugar, a questão da base social da esquerda. As atitudes anti-imigrantes são encontradas em maior grau em grupos subordinados da população, entre aqueles que se sentem ameaçados pela perda do seu estatuto social e que não se sentem reconhecidos pela política. Por exemplo, a proporção de sindicalistas da DGB que votam na AfD está significativamente acima da média. Estes três fenómenos aplicam-se particularmente aos alemães de Leste. . Isto explica o grande sucesso da AfD, por um lado, e as perdas da esquerda, por outro, nos novos Länder. O campo de Wagenknecht quer reconquistar, pelo menos em parte, os antigos eleitores do partido e salienta que, especialmente no domínio do emprego precário e do sector dos baixos salários, um grande número de migrantes não qualificados tornar-se-ia um concorrente dos trabalhadores locais.

No campo de Kipping, argumenta-se que é racismo opor os interesses dos trabalhadores locais  aos migrantes, e que as atitudes anti-migrante dos trabalhadores alemães devem ser combatidas de forma ofensiva como forma de racismo. Este argumento é reforçado pelo facto de que as perdas eleitorais a Leste   são parcialmente compensadas pelo ganho  de grupos jovens e instruídos nas grandes cidades a Ocidente.

A controvérsia faz parte de um quadro analítico que tem vindo a mostrar   desde há algum tempo uma divisão sócio estrutural das sociedades ocidentais em sectores ditos comunitários e cosmopolitas. Ao nível da estratégia política, isto corresponde à diferenciação entre políticas identitárias , por um lado, e política social e de classe, por outro. [6]

Naturalmente, para uma estratégia de esquerda, a consequência óbvia é combinar as duas, que é também o que está a ser tentado. Interseccionalidade é uma palavra-chave aqui. [7] Mas construir um conceito teórico é uma coisa, a sua realização prática é outra. Especialmente quando os laços com a comunidade já foram cortados, a divisão cultural é muito grande e em que ocorreu uma perda de confiança ao longo dos anos.

Para sair da  estagnação, Wagenknecht fundou um movimento extraparlamentar – “Aufstehen” (De  pé) – em setembro de 2018. Mais de 150.000 apoiantes se ligaram através da Internet. Inspira-se no movimento britânico Momentum , que desempenhou um papel decisivo na rutura do Partido Trabalhista com o neoliberalismo. A direção do  partido e muitos dos seus membros interpretaram isto como uma preparação para a fundação de um novo partido. No entanto, até agora, “Aufstehen” com dificuldade está a ir um pouco para além da sua presença na Internet.

Outra área de conflito estende-se a temas como “Heimat”[8] nação, Estado-nação, nacionalismo, soberania ou, por outro lado, internacionalismo, cosmopolitismo, europeísmo ou supranacionalismo. Isto também afeta as questões da globalização e da integração no quadro da UE. Aqui, a esquerda alemã ocupa uma posição especial em comparação com a esquerda de outros países: no contexto da história do século XX alemão, é particularmente anti-nacional e considera-se, pelo contrário, particularmente cosmopolita e internacionalista. Nos debates sobre  a migração, a corrente que defende sem fronteiras refere-se, portanto, explicitamente ao internacionalismo de esquerda. Por outro lado, uma vez que a AfD é obviamente nacionalista, muitas pessoas receiam reforçar a extrema-direita se não se posicionarem contra as fronteiras enquanto tal, o Estado-nação e a soberania. Esta atitude reflete-se também no debate sobre o futuro da UE. Uma maioria, embora em declínio, considera que o supranacionalismo da UE é, no fundo, um projeto progressista e defende o aprofundamento da integração.

Face a  todas essas questões complexas, seria necessário encontrar formas, espaços e métodos que permitissem trabalhar as diferenças de forma produtiva para evitar o agudizar  das contradições e uma rutura completa. Mas ninguém pode dizer, neste momento, se isto será bem sucedido.


Notas

[1] Un bon compte rendu en anglais, accessible par internet se trouve dans :. « The Night Germany Lost Control », Die Zeit, n° 36/2016.

[2] Bundesamtes für Migration (2019) : Migrationsbericht 2016/2017 : Zentrale Ergebnisse. Nürnberg. p. 2

[3] Com exceção, naturalmente   dos anos da Grande Guerra e do fascismo,emq eu não houve nenhumas eleições.

[4] Neste texto, a esquerda é entendida não só como o Partido de Esquerda (Die Linke), mas também como as partes dos sindicatos, da sociedade civil organizada e dos movimentos sociais que se opõem às políticas neoliberais. Isto também inclui os vestígios  da ala esquerda da social-democracia e da ala esquerda dos Verdes, embora eles sejam agora amplamente marginalizados.

 [5] Programm der Partei DIE LINKE

[6] Uma boa análise geral destes conceitos : Merkel, Wolfgang (2016) : The Political Sociology of Cosmopolitanism and Communitarianism. Dans : WZB Mitteilungen, Heft 154, Dezembro 2016. Berlin. Merkel (sem nenhuma relação com a chanceler) é diretor  do programa  de investigação  Roturas  – cosmopolitismo, communitarismo e a democracia em  Wissenschaftszentrum Berlin : https://www.wzb.eu/en/research/completed-research-programs/cosmopolitanism-and-communitarianism

[7] Ver também  : Butler, Judith (2003) : Das Unbehagen der Geschlechter, Frankfurt/M.

[8] Em francês, “pays natal” está próximo do significado alemão, sem que o traduza  completamente. Uma dimensão do Heimat é realmente a região em que nasceu e onde foi cresceu enquanto criança.  Uma vez que a Alemanha só se tornou um Estado-nação muito tarde, as particularidades regionais, dialetos, etc., duraram muito mais do que em França. Heimat, portanto, desempenha um papel mais importante na psicologia coletiva. Mas o conceito vai além do país natal  e pode ter um significado mais amplo e abstrato. Por exemplo, na obra principal do filósofo marxista Ernst Bloch, Prinzip Hoffnung, ele estabelece uma ligação entre Heimat e a utopia socialista/comunista. A obra termina com a frase: Heimat, é onde ninguém ainda  foi. O abuso do termo pelos nazis desacreditou-o. Em resposta à incerteza causada pela globalização neoliberal, o termo renasce na sociedade alemã e tornou-se um terreno contestado na luta pela hegemonia.


O Sexto texto desta série será publicado amanhã, 05/09/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/09/04/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-ii-imagens-soltas-de-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-a-partir-de-alguns-dos-seus-estados-membros-5o-texto-a-esquerda-alema-e-os-desafios-levantada/

Sou o diabo e estou aqui para fazer o trabalho do diabo

(Pedro Candeias, in Expresso Diário, 30/08/2019)

Na política, há um recurso que doravante designarei de apropriação linguística disfarçada para efeitos de dramatização. É só uma expressão comprida que me veio à cabeça quando li as análises da Ângela Silva às entrevistas de António Costa e Catarina Martins; em ambas, a Ângela refere que o “Diabo” foi subliminarmente introduzido na pré-campanha, pelo PM e pela coordenadora do BE, na guerra particular que vão alimentar – mas sem que nenhum deles tivesse utilizado textualmente a palavra “Diabo”.

Fazê-lo seria uma apropriação linguística às claras com efeitos dramáticos para eles, pois tanto um como o outro se bateram contra a previsão diabólica de Passos Coelho, acusando-o de lançar maus presságios infundados para, lá está, ganhar pontos.

Assim que o melhor é não acicatar o Belzebu, não vá o povo lembrar-se. Porque, na verdade, é difícil saber se Lúcifer assomará brevemente à porta, a julgar por este trabalho do Jorge Nascimento Rodrigues e da Sónia Lourenço, que procuraram respostas sobre o elefante na sala. Então, senhor e senhora especialistas, a crise vem aí? Bom, sim, não, talvez; na verdade, é complicado.

Portanto, para já, foquemo-nos na política, fiemo-nos na Ângela Silva.

A estratégia de António Costa parece delineada: afastar, mais ou menos, o parceiro Bloco de Esquerda, manter o Partido Comunista a uma distância amigável e ir lançando o tema de um eventual crash, motivado pelas incertezas dos mercados face ao Brexit e aos delírios de Donald Trump. É uma narrativa plausível.

Perante isto, Portugal precisaria de um Governo seguro, sólido e pouco permeável a um partido “mass media”, não é verdade? E qual é o único partido que pode oferecer a estabilidade e a impermeabilidade sem cedências ou derivações? “Não vale a pena complicar a nossa vida acrescentando riscos de uma crise política aos riscos externos”, disse Costa à TVi, na quarta-feira.

Vai daí, na quinta-feira, Catarina Martins argumentou perante o país que o BE é mais parecido com o Partido Comunista do que aquilo que o PM disse na entrevista ao Expresso. E que também o BE é capaz de ser estável, previsível, sustentável, e todas essas coisas que um eleitor comum gosta. “Nunca inventámos crises, houve dossiês complicadíssimos e apresentámos sempre soluções, algumas vezes foi o PS que não as quis”.

De modo que, entre os dois, o jogo continuará a jogar-se nestas regras, independentemente (ou indiferentemente?) àquilo que o PSD ou o CDS possam fazer à direita. A julgar pelas palavras de Catarina Martins, a coligação ex-PaF está moribunda e a questão vital das futuras eleições está na possibilidade de o PS conseguir uma maioria verdadeiramente absoluta.

Se não conseguir, logo que se vê, porque na política as palavras valem o que valem. “Perguntei a António Costa se estava disponível para conversar sobre uma solução. António Costa está mais virado para fazer acordos com o PSD. Era bom que o PS dissesse qualquer coisa de esquerda”.

Estas frases não são de agora, mas de 2015, e depois foi o que foi (pode lê-las aqui). Talvez estejamos somente a assistir a uma cinematográfica pausa dramática.

Falando nisso, fiz a minha quota parte da apropriação linguística: o título é uma deixa do último de Quentin Tarantino. Se não o viram, fica a recomendação.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Não tratem o PCP como um urso de peluche

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 27/08/2019)

A afirmação da entrevista de António Costa que tem consequências mais graves não é a exibição da sua animosidade contra o Bloco de Esquerda nem a demonstração da volúpia da maioria absoluta. É evidente que o PS definiu este tripé e não sai dele: exigir maioria absoluta, elogiar o PCP, atacar o Bloco. Com franqueza, tudo isso já se sabia. Não tinha sido tão esplendorosamente gritado aos sete ventos, mas era segredo de polichinelo e, em todo o caso, nesta entrevista só aparece de novo o frenesim político, ou a adrenalina eleitoral. Foi demais, como se viu. Costa levou três dias a justificar-se, o que é prova provada de que meteu o pé na argola. Mas as frases que, pelo contrário, demonstram uma estratégia mais fria, são as que se referem ao PCP, sob o manto diáfano de elogios desbragados.

Há quem, anunciando intimidade com os sentimentos profundos do primeiro-ministro, explique que se trata dos seus amores antigos, de um respeito histórico e até de uma devoção filial. Disso nada tenho a comentar. Ainda me surpreende que se utilizem conversas pessoais ou, pior ainda, simples interpretações psicologizantes, para analisar a ação pública de políticos profissionalíssimos que sabem que, neste negócio, o que parece é, ou que tudo o que dizem também é lido pelo significado literal e pelas implicações evidentes. A amizade entre o comentador e o político não devia dar carta de alforria para o justificacionismo.

O facto factual é que a geringonça é o primeiro caso de uma aliança negociada e assinada entre Costa e os partidos de esquerda, ressalvadas algumas manobras de curto alcance que fez no passado. O certo é que, quaisquer que fossem os seus amores e desamores íntimos, o atual primeiro-ministro foi candidato em Loures para tentar vencer uma maioria PCP e, mais tarde, enquanto autarca em Lisboa, não é conhecido nenhum pacto continuado com aquele partido, ao contrário do que acontecera com Jorge Sampaio. Fez o que achava que cumpria a sua escolha política e deve ser respeitado por isso. Assim, essa história de devoção mútua, agora confabulada, é uma ficção, injusta para o socialista (social-democrata desde muito jovem, como ele próprio explica com graça), que lutou sempre pelas suas cores, e falsa para o PCP, que tratou da sua vida.

Ora, o elogio do primeiro-ministro ao PCP tem outra leitura. Não é um estado de alma. É uma estratégia, aliás explícita: apresentar o PCP como um partido acessível e manejável, cordato e orientável. Fá-lo por duas razões também evidentes. A primeira é friamente instrumental, sugerindo um contraste com o Bloco, que seria rebelde. A segunda é criar uma ponte com o eleitorado do PCP, ou pelo menos limitar a sua área de expansão potencial. Essa estratégia foi prosseguida meticulosamente ao longo do último ano, nas negociações do Orçamento, nos debates quinzenais, até na questão da Lei de Bases da Saúde quando, com algum descaramento, o Governo assegurava (falsamente, ao que se sabe) que tinha o acordo do PCP para incluir na lei as parcerias público-privado. Não foi um arroubo na entrevista ao Expresso, tem pelo menos um ano que esta manobra é prosseguida meticulosamente.

Se isto vai ter um efeito eleitoral facilitando a votação no PS, ou prejudicando o PCP, está ainda por ver. Teve esse impacto nos processos eleitorais desde 2015, mas é tudo menos certo que agora se repita, estas eleições têm outro alcance. Há no entanto um efeito que merece atenção: estes elogios desvalorizam o sentido do discurso do PCP e pretendem torná-lo estranhamento ambíguo. Sempre que Jerónimo de Sousa enunciar a sua crítica dura ao Governo ou aos limites da ação do PS, às suas alianças com a direita na lei laboral, às insuficiências do programa económico ou à submissão às regras europeias, Costa responde, com condescendência, qualquer coisa como que “eu adoro a confiabilidade do PCP”. O subtexto é poderoso, sugerindo que todo o discurso crítico é um biombo e que, no fundo, o PCP não constitui uma alternativa e é por isso apreciado em S. Bento.

Tratar o PCP, deste modo, como um urso de peluche, é um insulto. E quem o faz sabe que é um insulto. Mais, é mesmo uma forma de agressividade que pretende agir no debate interno daquele partido.

Vale a pena por isso lembrar a história. Jerónimo de Sousa foi eleito secretário-geral do PCP substituindo Carlos Carvalhas, depois de um período que agora a historiografia oficial do partido designa por “desvio de direita”. Houve nisto uma evidente injustiça, na opinião de quem assina estas linhas, dado que Carvalhas, sempre fiel ao seu partido e inicialmente com o apoio de Cunhal (mais tarde retirado com fragor, como lembrou Domingos Lopes em entrevista ao “Público”), ficou acusado de inaugurar um processo de diálogos à esquerda, o “Novo Impulso”, que abriu o PCP a políticas unitárias – e a esquerda que não tem política unitária não tem caminho. Mas a história é como é, e Jerónimo triunfou claramente com o regresso a uma ortodoxia de autorreferência partidária. Talvez se possa intuir que só um dirigente nestas condições poderia ter conduzido este partido a um acordo como o da geringonça. Mas o preço é a existência de tensões internas e de resistências, que não as anedoticamente enunciadas por alguma imprensa, antes as que são expressivas e portanto pouco se manifestam em público, e que são radicalizadas por esta abordagem de Costa.

A estratégia condescendente, ou do urso de peluche, é prejudicial para toda a esquerda por isto: divide em vez de unir, cria animosidade partidária, dificulta discussões centradas sobre objetivos sociais e, acima de tudo, pretende enfraquecer um dos pilares importantes das respostas das esquerdas. Como aqui abundantemente defendi, continuo a pensar que medidas de esquerda exigem a ação tanto do Bloco como do PCP. São precisos os dois conjugados para melhorar a relação de forças com o Governo.

E, se a estratégia do urso de peluche resultar, os custos sociais serão profundos, em particular nos riscos de desagregação sindical ou de marginalização de sectores sociais que se reconhecem numa longa história política. Se é isto que fica da entrevista, é um sinal de alarme.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A VÍTIMA

image
Quem não se compadece com a vítima, quem não se entristece com as agressões, calúnias e injustiças sofridas pelo paralelepípedo (tem quatro facetas políticas), mais conhecido por bloco.
 
 A promoção via vitimização é um velho truque, basta abrir um jornal e ver as parangonas: “O PS e o desprezo pelo Bloco”, “porque não trata o PS o Bloco como trata o PCP?”, "PCP é um verdadeiro partido de massas, o Bloco é um partido de mass media." Rui Rio saltou em defesa da vítima: “Ingratidão”, exclama.
 
O cenário é de feira, mas fazem para que a peça resulte.
 
Rádios, televisões, jornais e redes sociais de megafone em punho ampliam o sentimento de Rio: “ingratidão”.
 
Algumas verdades vêm inquinadas de cinismo e sofisma, procurando colar o PCP ao governo, e afastar a “esquerda radical” do PS, ou seja, criar um Syrisa português, escancarar de novo os portões à política neoliberal que o PS/PSD/CDS sempre têm feito quando se encontram de mãos livres. Vide Grécia.
 
O Bloco, não é bem um bloco, é a armadinha que o PS e a outra direita usam para apanhar a esquerda desorientada, não vá cair na esquerda consequente, o seu fantasma de sempre.
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Como a Esquerda Ocidental perdeu o jogo…

Robert Pfaller, um universitário austríaco, põe a nu a miséria teórica e o percurso errante da esquerda “pós-modernista”, numa entrevista muito crítica, tanto da “esquerda de governo” como da “esquerda de contestação”.

 

 

A entrevista tem ainda o curioso (ou nem tanto…) interesse de ser uma iniciativa da agência iraniana ILNA…

 

Postmodernism: The Ideological Embellishment of Neoliberalism

Robert Pfaller interviewed by Kamran Baradaran, via ILNA | Aug.11, 2019

“This is how the left became “cultural” (while, of course, ceasing to be a “left”): from now on the marks of distinction were produced by all kinds of concerns for minorities or subaltern groups. And instead of promoting economic equality and equal rights for all groups, the left now focused on symbolic “recognition” and “visibility” for these groups… Thus not only all economic and social concerns were sacrificed for the sake of sexual and ethnic minorities, but even the sake of these minorities itself. “

Robert Pfaller is one of the most distinguished figures in today’s radical Left. He teaches at the University of Art and Industrial Design in Linz, Austria. He is a founding member of the Viennese psychoanalytic research group ‘stuzzicadenti’. Pfaller is the author of books such as “On the Pleasure Principle in Culture: Illusions Without Owners”, “Interpassivity: The Aesthetics of Delegated Enjoyment”, among others. Below is the ILNA’s interview with this authoritative philosopher on the Fall of Berlin Wall and “Idea of Communism”.

 

The ideology of postmodernism is to present all existing injustice as an effect of discrimination; Robert Pfaller tells ILNA

The ruling ideology since the fall of the Berlin Wall, or even earlier, is postmodernism. This is the ideological embellishment that the brutal neoliberal attack on Western societies’ welfare (that was launched in the late 1970s) required in order to attain a “human”, “liberal” and “progressive” face.

ILNA: What is the role of “pleasure principle” in a world after the Berlin Wall? What role does the lack of ideological dichotomy, which unveils itself as absent of a powerful left state, play in dismantling democracy?

Until the late 1970s, all “Western” (capitalist) governments, right or left, pursued a Keynesian economic policy of state investment and deficit spending. (Even Richard Nixon is said to have once, in the early 1970ies, stated, “We are all Keynesians”). This lead to a considerable decrease of inequality in Western societies in the first three decades after WWII, as the numbers presented by Thomas Piketty and Branko Milanovic in their books prove. Apparently, it was seen as necessary to appease Western workers with high wages and high employment rates in order to prevent them from becoming communists. Ironically one could say that it was precisely Western workers who profited considerably of “real existing socialism” in the Eastern European countries.

At the very moment when the “threat” of real existing socialism was not felt anymore, due to the Western economic and military superiority in the 1980ies (that led to the fall of the Berlin Wall), the economic paradigm in the Western countries shifted. All of a sudden, all governments, left or right, pursued a neoliberal economic policy (of privatization, austerity politics, the subjection of education and health sectors under the rule of profitability, liberalization of regulations for the migration of capital and cheap labor, limitation of democratic sovereignty, etc.).

Whenever the social democratic left came into power, for example with Tony Blair, or Gerhard Schroeder, they proved to be the even more radical neoliberal reformers. As a consequence, leftist parties did not have an economic alternative to what their conservative and liberal opponents offered. Thus they had to find another point of distinction.

This is how the left became “cultural” (while, of course, ceasing to be a “left”): from now on the marks of distinction were produced by all kinds of concerns for minorities or subaltern groups. And instead of promoting economic equality and equal rights for all groups, the left now focused on symbolic “recognition” and “visibility” for these groups. Thus not only all economic and social concerns were sacrificed for the sake of sexual and ethnic minorities, but even the sake of these minorities itself. Since a good part of the problem of these groups was precisely economic, social and juridical, and not cultural or symbolic. And whenever you really solve a problem of a minority group, the visibility of this group decreases. But by insisting on the visibility of these groups, the policies of the new pseudo-left succeded at making the problems of these groups permanent – and, of course, at pissing off many other people who started to guess that the concern for minorities was actually just a pretext for pursuing a most brutal policy of increasing economic inequality.

ILNA: The world after the Berlin Wall is mainly considered as post-ideological. Does ideology has truly decamped from our world or it has only taken more perverse forms? On the other hand, many liberals believe that our world today is based on the promise of happiness. In this sense, how does capitalism promotes itself on the basis of this ideology?

The ruling ideology since the fall of the Berlin Wall, or even earlier, is postmodernism. This is the ideological embellishment that the brutal neoliberal attack on Western societies’ welfare (that was launched in the late 1970s) required in order to attain a “human”, “liberal” and “progressive” face. This coalition between an economic policy that serves the interest of a tiny minority, and an ideology that appears to “include” everybody is what Nancy Fraser has aptly called “progressive neoliberalism”. It consists of neoliberalism, plus postmodernism as its ideological superstructure.

The ideology of postmodernism today has some of its most prominent symptoms in the omnipresent concern about “discrimination” (for example, of “people of color”) and in the resentment against “old, white men”. This is particularly funny in countries like Germany: since, of course, there has been massive racism and slavery in Germany in the 20th century – yet the victims of this racism and slavery in Germany have in the first place been white men (Jews, communists, Gypsies, red army prisoners of war, etc.). Here it is most obvious that a certain German pseudo-leftism does not care for the real problems of this society, but prefers to import some of the problems that US-society has to deal with. As Louis Althusser has remarked, ideology always consists in trading in your real problems for the imaginary problems that you would prefer to have.

The general ideological task of postmodernism is to present all existing injustice as an effect of discrimination. This is, of course, funny again: Since every discrimination presupposes an already established class structure of inequality. If you do not have unequal places, you cannot distribute individuals in a discriminating way, even if you want to do so. Thus progressive neoliberalism massively increases social inequality, while distributing all minority groups in an “equal” way over the unequal places.


Interview by: Kamran Baradaran | INLA

 

 
 
 

Exclusivo Tornado / IntelNomics


 
 
 
 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/como-a-esquerda-ocidental-perdeu-o-jogo/

Citações com classe

Num crónica oportuna no último Expresso, Daniel Oliveira assinala “os riscos para a esquerda da obsessão identitária”, “uma tragédia que começou com o abandono pela esquerda da representação de classe”, citando a socialista norte-americana Alexandra Ocasio-Cortez: “O que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe.” Neste contexto de perversas ideias atomizadoras que também vêm do outro lado Atlântico e dos que as combatem, ainda que de forma desigual, na origem, lembrei-me de um outro socialista norte-americano chamado Bernie Sanders, citado num importante artigo sobre o argumento de esquerda contra as fronteiras abertas na excelente American Affairs.
 
Questionado sobre se seria a favor de fronteiras abertas, Sanders respondeu: “Fronteiras abertas? Não. É uma ideia dos irmãos Koch”, ou seja, uma ideia dos bilionários financiadores de todas as causas do neoliberalismo mais radical. De facto, sem fronteiras, sem controlos dos fluxos, não há democracia que resista à globalização capitalista mais intensa.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Plural e vinculado à esquerda

Há vínculos que libertam. Nem todos o fazem e é raro libertarem completamente, mas podem ir nesse sentido. Foi o que aconteceu em Portugal na legislatura que está a terminar. O executivo do Partido Socialista (PS) tomou posse vinculado a acordos firmados com os partidos à sua esquerda – Bloco de Esquerda (BE), Partido Comunista Português (PCP) e Partido Ecologista - Os Verdes (PEV) – e isso permitiu, aproveitando uma conjuntura internacional favorável, que fossem adoptadas medidas de reversão do rumo austeritário da legislatura anterior. Foram recuperados salários e pensões, aumentou o salário mínimo, reduziu-se o desemprego, repuseram-se feriados e prestações sociais, aumentou o investimento nos serviços públicos.

Significa isto que acabou a falta de investimento nos serviços públicos, uma economia assente em salários baixos, prestações sociais insuficientes, a pobreza e as desigualdades? Não. Todos estes problemas persistem e exigem um Parlamento capaz de aprofundar o debate democrático sobre quais as melhores formas de os resolver. Mas pelo menos a discussão agora é essa, e não a da constatação da degradação diária dos anos em que a direita aproveitou a crise e a Troika para impor o que nunca havia conseguido impor. Aliás, é também porque estes anos melhoraram de facto a vida das pessoas e porque a discussão agora é esta – como continuar a melhorar – que os partidos da direita deverão continuar afastados do poder.

Isto não significa também que o governo tenha legislado sempre com a esquerda. Em áreas de discordância política, algumas das quais já evidentes nos silêncios dos acordos com as esquerdas, o governo apoiou-se na direita. Exemplo disso foi o processo da contagem, para a aposentação, do tempo de serviço dos professores congelado durante mais de nove anos. Mas há muitos outros exemplos, em particular na área do trabalho, com o combate à precariedade a ficar muito aquém do anunciado, mesmo na função pública, e com o Código do Trabalho a manter as marcas neoliberais da austeridade, como as que levam a trabalhar mais para ganhar menos (ver, na edição de Agosto, o artigo de João Fraga de Oliveira).

Nestes quatro anos, muito ficou por fazer à esquerda ou, é verdade, foi feito à direita. A distribuição de deputados na Assembleia da República assim o permitiu e não houve força social – sindical, associativa, etc. – suficiente para o impedir. O investimento público continua em níveis insuficientes – e é ele que permite quebrar o ciclo da escassez de poupança, não ao contrário (ver o artigo de Paulo Coimbra e João Rodrigues na edição de Agosto). Dirá o governo que era mais importante esmagar o défice tanto quanto possível, a pensar nas crises futuras, desviando verbas do investimento. Mas este «ir além do défice» opera outro esmagamento, o das hipóteses de mais recuperação social e económica, além de traduzir uma aceitação preocupantemente passiva de uma União Europeia que nos reserva como destino crises de repetição, quando o mínimo necessário seria a assunção de um conflito claro com as suas orientações neoliberais e conservadoras.

Com efeito, quanto tempo mais podemos adiar a reflexão sobre que padrão de especialização produtiva tornaria o país menos dependente das receitas sempre instáveis do turismo? Ou sobre os preços desmedidos da habitação e os custos da especulação que têm, no polo oposto, originado desenvolvimento desigual, metropolizado e litoralizado do território? Até quando podemos adiar o investimento nos transportes colectivos, mais sustentáveis em termos sociais, económicos e ambientais? Depois do avanço importantíssimo nos tarifários integrados em áreas metropolitanas, responsáveis por um dos maiores aumentos de poder de compra para muitos, é altura de apostar na ferrovia, e em todo o território. Tal como é altura de acabar com a pobreza energética, que é a outra face das rendas excessivas impostas pelos privados na electricidade (ver o artigo de Jorge Costa na edição de Agosto).

Estas e outras medidas suscitam acesos debates político-ideológicos. Já o vimos na Lei de Bases da Saúde, na avaliação das consequências de não se promover uma separação clara entre o público e o privado (parcerias público-privadas, várias formas de medicina convencionada…). Já o vimos cada vez que são postos em causa contratos e convenções que o Estado estabeleceu e que não trouxeram melhores resultados, não implicaram melhor gestão, não se traduziram em preços mais baixos, não garantiram mais cobertura, não criaram mais justiça social, etc. A Autoridade da Concorrência reage, mas a sua perplexidade não esconde o mais importante: está a esboroar-se um consenso neoliberal que vigorou durante décadas nas políticas do Estado e nas cabeças dos cidadãos, e que foi cimentado pelos media.

Uma nova consciência social, económica e ambiental impedem hoje a direita – e os sociais-democratas e socialistas conquistados pelo neoliberalismo – de contar com alguns dos seus dogmas: «os privados fazem sempre melhor do que o público», «as privatizações e demais engenharias neoliberais são irreversíveis», «o papel do Estado é criar condições para os negócios dos privados». É ainda incerto o desfecho que vai ter, em Portugal como na Europa, a crise da social-democracia que ficou patente desde 2008. Partidos como o PS continuam atravessados por estes debates, especialmente visíveis quando vários dos seus dirigentes se pronunciam sobre os serviços concessionados, sobre o rentismo instalado à sombra de mercados sem risco, sobre o despesismo que é o público não utilizar a capacidade instalada em serviços e empresas públicas, sobre os apetites privados dirigidos às partes de negócio que são rentáveis, deixando o resto para o público, etc.

Mas estes debates existem, desde logo, por dois motivos: porque a crise mostrou que o modelo económico implantado há décadas impede estruturalmente a social-democracia de se dotar dos meios para defender os valores sociais que afirma defender; e porque tem existido na Assembleia da República força política (e nas ruas força social) para os impor. Este debate político, partidário, social é hoje a melhor hipótese de manter a democracia a funcionar com pluralismo e ancorada à esquerda. Se o Parlamento não mantiver ou aumentar essa vinculação plural e à esquerda, não se perderá apenas debate plural e democrático, como aconteceu no tempo dos diktats da Troika. Perder-se-á capacidade concreta para melhorar a vida das pessoas e para contrariar os ventos autoritários e conservadores que sopram em tantas nações, e que cavalgam essa incapacidade neoliberal para melhorar a vida das pessoas.

Nada é tão útil para suster esse avanço como ser claro na separação entre esquerda e direita. Nos próximos meses, a campanha eleitoral vai levar o combate partidário a acentuar outras fracturas. É normal que assim seja: daí resultará a força que cada partido terá para definir a força parlamentar que a esquerda terá. O trabalho começa a seguir, as hipóteses de se avançar mais ou menos também. A próxima legislatura não terá porventura um contexto económico internacional tão favorável como a que agora termina. A composição do Parlamento não será também alheia ao comportamento político do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no tempo que lhe falta até à conclusão do mandato, nem sequer à sua decisão de se candidatar a um segundo (e último) mandato. Como actuaria este neoliberal convicto perante um Parlamento em que houvesse uma maioria absoluta, em particular quando a sua família política, a direita, está em refluxo e com necessidade vital de recuperar espaço?

Na próxima legislatura vai ser fundamental ter um Parlamento plural e vinculado à esquerda. Para avançar, sem dúvida, mas também para resistir.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Mau Maria

Caldo entornado

Se foi isto que Pedro Filipe Soares quis dizer ou sugerir, então seria caso para anotar que, de repente, as tradicionais vítimas choronas de alegados «ataques doPCP se transformaram em verdugos implacáveis do PCP. Não, não retribuo em moeda semelhante.Caldo entornado mas conversa acabada.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

A fraqueza da ilusão democrática:  um ensaio político não sentimental

– O golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro impõem um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas. Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.

por Jones Manoel [*]

'. O ano de 2016 foi emblemático na história política brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT), organização política surgida no bojo da resistência à ditadura empresarial-militar, originalmente com tendências pronunciadamente socialistas, foi despojado da Presidência da República. O PT tem que viver com a amarga experiência de redescobrir a existência da luta de classes, do imperialismo, da não-neutralidade republicana dos aparelhos do Estado etc. Marilena Chaui, lamentavelmente, também teve que lembrar que o maior mal do mundo não reside na "classe média" paulista.

Aparentemente, a burguesia brasileira, em suas diversas frações, não aprendeu o respeito bobbiano às regras do jogo. Já a esquerda pós-comunista, como muitos queriam nos anos 1980 do século XX, aprendeu o "valor da democracia": as principais tendências da esquerda nos últimos trinta anos respeitaram religiosamente os limites impostos pela democracia burguesa no Brasil e, de tanto respeitarem, como prezam as regras explícitas, mas não ditas do jogo, passaram a ser fiéis gerentes do sistema.

As esperanças brasileiras no processo de redemocratização – que optamos por chamar de otimismo democrático – foram derrotadas. Aliás, mais que isso, esperava-se dos anos 1980 uma oportunidade única para combater o "autoritarismo" e a "exclusão social" históricos da formação socioeconômica brasileira.

Inegavelmente, o otimismo tinha uma razão de ser. Afinal não é em toda conjuntura histórica que, depois de mais de duas décadas de ditadura, emerge um pulsante movimento operário e popular. Tudo podia acontecer. E, no que é essencial, nada aconteceu. O sistema político brasileiro continuou fundamentado numa democracia restringida e com uso dilatado do terrorismo de Estado por meio de uma política sistemática de extermínio frente a segmentos da classe trabalhadora – notadamente, a população negra das favelas brasileiras.

No ano do golpe parlamentar, pudemos constatar que o Estado brasileiro mata, tortura e viola mais os direitos humanos que na época da ditadura empresarial-militar. O extermínio sistemático – enquanto política de Estado – segue firme e encontra até uma forma jurídica e constitucional para sua reprodução: os autos de resistência (Zaccone, 2014). A militarização da vida social não parou de crescer: um soldado do Exército Brasileiro passa, em média, cem dias do ano em atividades "internas" (policiamento) – ver a coletânea  Até o último homem , organizada por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira.

Ironicamente, Orlando Zaccone pergunta "o que resta da ditadura?" E responde, ecoando Tales Ab'Saber, tudo, menos a ditadura! A democracia burguesa é bem mais parecida com a ditadura militar burguesa do que suspeitava o otimismo democrático dos anos 80. Porém, curiosamente, a cada nova constatação de que a democracia e o famoso "Estado de Direito" estão longe das ideias dos livros e dos discursos, os setores hegemônicos da esquerda, ao invés de questionarem a própria ideia de democracia abraçada, optam por reforçar suas convicções anteriores insistindo que a democracia é pouco democrática e precisa ser democratizada [1] . Num ciclo de imunidade auto-atribuída, o problema da democracia se resolve com mais democracia e cada "regressão democrática" deve ser respondida com uma defesa mais enfática da democracia.

O objetivo dessa reflexão é debater a regressão democrática da democracia, abordar o processo de retirada dos direitos democráticos da classe trabalhadora no âmbito da democracia burguesa e o consequente empobrecimento teórico e político dos setores majoritários da esquerda brasileira e mundial na crítica à democracia realmente existente. A chave analítica fundamental que guiará nossa análise é a  distinção política e teórica entre direitos democráticos e democracia burguesa, buscando demostrar as diferenças e os desencontros entre ambos e como a confusão entre as duas produziu nas últimas décadas um enfraquecimento significativo na crítica e nas possibilidades revolucionárias.

Somos todos democratas

Na história de organização da classe trabalhadora, desde a gênese do capitalismo, sempre houve concepções diferentes do que é democracia. Até mesmo nas revoluções burguesas europeias, especialmente francesa e inglesa, é possível identificar setores mais radicalizados que apresentavam propostas avançadas do que chamaríamos hoje de soberania popular e igualdade social – como o caso do jacobinismo, na França.

A primeira grande expressão da maturidade organizativa e política da classe operária europeia, a socialdemocracia, continha um projeto de democracia antagônico ao defendido pela classe dominante: o liberalismo, expressão ideológica da burguesia, compreendia uma concepção jurídico-formal e restritiva de democracia (igualdade jurídica e direitos políticos apenas para os homens brancos, proprietários e europeus) e descarta qualquer conteúdo "social" na dimensão do regime político.

A socialdemocracia apresentava uma concepção ampla de democracia, alargando a esfera dos iguais e dos portadores de direitos políticos e exigindo, de forma indispensável, que a democracia tivesse um conteúdo social: o fim da propriedade privada e da anarquia na produção, compreendidos, à época, como os principais elementos do capitalismo, eram determinantes fundamentais da realização da verdadeira democracia.

Durante boa parte do século XX, por matrizes diferentes, houve um confronto entre concepções diferenciadas de democracia. Esse gigantesco embate teórico e político foi esvaziado nos anos 1980. De 1917 até a década de 1970 – entre grandes derrotas, como a Revolução Alemã e a Guerra Civil Espanhola, e grandes vitórias, como as revoluções Russa, Chinesa, Cubana e Coreana – o conflito entre capital e trabalho no âmbito mundial encontrava-se numa situação de relativo equilíbrio. Embora a maioria do mundo fosse capitalista, a distância entre, por um lado, as forças do capital e, por outro, as forças dos povos coloniais e da classe trabalhadora, não era tão discrepante e existiam ameaças reais de superação do capitalismo.

Com a contrarrevolução neoliberal e neocolonial que avançou ao final dos anos 1970, ganhou forças na década seguinte e foi finalmente vitoriosa nos anos 90 – indo além dos sonhos mais otimistas da ordem dominante com a derrubada da União Soviética e das democracias populares do Leste Europeu –, instala-se uma situação social na qual a crítica radical do existente, e, portanto, da democracia, não estava na ordem do dia e foi banida do debate teórico. A despeito da valentia de intelectuais tomados individualmente que se recusaram a capitular e a aceitar "o fim da história", formou-se um "consenso conservador sobre a democracia [2] .

A democracia em sua versão liberal parlamentar, tida apenas como uma competição eleitoral regular entre partidos semelhantes, passou a ser o sinônimo da única democracia possível e aceitável. O revezamento sistemático do poder entre partidos da classe dominante, liberais ou conservadores, socialdemocratas ou neoliberais, que executam basicamente o mesmo programa e garantem que "não há alternativa".

Nesse cenário, os poucos que se atreviam a debater os limites da democracia burguesa – agora não mais adjetivada como tal – eram logo tachados de autoritários ou totalitários. Três noções são fundamentais para a hegemonia do consenso conservador em torno da democracia burguesa. A primeira (talvez a que se mantém mais sólida nos dias atuais) é que a esquerda revolucionária (sobretudo os comunistas) seria antidemocrática, violadora dos direitos humanos e que sacrifica no altar da igualdade social as liberdades individuais. Como consequência disso, as experiências de transição socialista, chamadas em linguagem jornalística de "países" ou "governos" comunistas, se resumiriam a regimes autoritários ou totalitários – e a crítica/denúncia do "stalinismo" evidentemente desempenha um papel central nessa narrativa [3] .

Se o principal problema das experiências de transição socialista foi a ausência de democracia e o autoritarismo dos Partidos Comunistas, é necessário compreender a importância do valor em si da democracia. Aqui entramos na segunda noção. Os anos 1980 e 90 marcaram processos muito importantes: o fim do apartheid na África do Sul e o término de várias guerras de libertação nacional em África, a saída de cena do ciclo de ditaduras militares do grande capital na América Latina e a legalização/desarmamento de agrupamentos político-militares revolucionários na América Central. Nesses processos, já numa correlação de forças política e militar em âmbito mundial desfavorável e com a hegemonia neoliberal consolidada, vários ex-revolucionários das mais diversas matizes, aceitaram que não se tratava de pôr termo à dependência, ao subdesenvolvimento e às democracias burguesas, mas recuperar ou criar uma democracia liberal burguesa.

O desenrolar histórico é, por si só, expressivo, e podemos abordar rapidamente como exemplo o caso da África do Sul. O regime pós-apartheid, dirigido Nelson Mandela e seu partido (Congresso Nacional Africano), garantiu a vigência de uma igualdade jurídico-formal, mas a segregação étnico-racial nos seus vários determinantes (geográfico, econômico, cultural, social e político) não só se manteve, como foi ampliada. Em suma, na democracia pós-apartheid na África do Sul, mantém-se intacto o Estado racialista [4] .

O complemento necessário desse violento desarme político e teórico é o  banimento  da tematização do imperialismo, do colonialismo e da máquina de guerra operante em todos os cantos do planeta, mas em especial na periferia do sistema – a terceira noção desse consenso democrático. A derrota do movimento comunista no século XX foi acompanhada da derrota da revolução anticolonial que marcou a América, a África e a Ásia (revolução que politicamente teve várias expressões, como o movimento terceiro-mundista, o nacionalismo revolucionário e a fusão entre patriotismo e marxismo, como na Revolução Coreana e Chinesa); o imperialismo, nos anos 90, retoma uma ofensiva neocolonial de proporções assustadoras e, justamente nesse momento, some de cena a reflexão sobre o imperialismo, o colonialismo e o complexo industrial-militar [5] .

Enquanto o neocolonialismo vivia seu melhor momento desde a ascensão do nazifascismo, as modas acadêmicas do momento falam em micropoder, disciplina, poder simbólico, fim do Estado Nacional e dominação burguesa especialmente por meio da ideologia. Poucas vezes na história foi possível achar um momento em que reflexões que se pretendiam críticas ao  establishment (em aspectos totais ou parciais) se descolaram tanto da realidade [6] . Como ciclos que se completam, a negação de qualquer "aspecto positivo" nas experiências de transição socialista se combina com a canonização "crítica" ou acrítica da democracia (burguesa) e se fundem com o banimento de qualquer reflexão a respeito do imperialismo, do militarismo e do colonialismo. Surge o melhor dos mundos: um mundo em que não haveria mais espaço para ditaduras, golpes militares ou o fascismo e todos serão beneficiados pela globalização. O grande problema da ideologia dominante é que a realidade teima em contradizê-la.

A regressão democrática da democracia

Domenico Losurdo, no seu livro Contra-história do liberalismo , demostra que o pensamento liberal, desde o seu surgimento, foi uma ideologia que buscou compreender a liberdade como um direito da comunidade dos livres: homens brancos, proprietários e europeus (dos países centrais da Europa). Os trabalhadores eram considerados não-humanos, como máquinas falantes, os escravos e os povos coloniais apareciam como essência da inumanidade, e as mulheres recebiam a qualificação de seres inferiores.

Nunca houve dúvidas para a burguesia de que era necessário construir um sistema político que tivesse como objetivo primeiro a defesa da propriedade privada e da riqueza fruto da exploração: o mecanismo de câmaras legislativas para os lordes, o voto censitário, a proibição da montagem de partidos operários e sindicatos, a negação de votos para analfabetos e mulheres, a perseguição à imprensa operária, o terrorismo estatal etc. exemplificam esse momento histórico.

Portanto, a burguesia nunca confundiu a democracia política (isto é, liberdade de organização partidária, imprensa, reunião, manifestação, etc.) para a classe trabalhadora (ou seja, a imensa maioria da população), com seu regime constitucional-parlamentar. A primeira é criação  da classe trabalhadora nos seus enfrentamentos contra o capital , enquanto o último é criação da burguesia sob o liberalismo. A relação entre regime burguês e democracia política em tempo algum foi harmoniosa. Ao aceitar pela força a participação da classe operária no "jogo" democrático-burguês, a classe dominante nunca deixou de buscar mecanismos de exclusivismo no exercício do poder: a lógica é permitir a participação política da classe trabalhadora negando sua incidência nos centros de controle do poder político.

Não é nosso objetivo nesta coluna detalhar os mecanismos mobilizados pela classe dominante a fim de esvaziar qualquer possibilidade mínima de incidência da classe trabalhadora no poder por meio da participação política institucional. O fato importante é o seguinte: para a ordem do capital sempre foi clara a distinção entre os direitos democráticos e seu regime constitucional.

Contudo, há que se considerar um fenômeno importante já brevemente pontuado: durante a fase de ascensão das lutas proletárias e dos povos coloniais, a tensão entre regime burguês e direitos democráticos chegou a tal ponto que condicionou várias rupturas democráticas, ensejando soluções fascistas, ditaduras militares e/ou invasões militares neocoloniais. Houve, efetivamente, momentos em que a burguesia não suportou a sua democracia burguesia , porém, ao mesmo tempo em que a democracia política sob o Estado burguês era um impedimento temporário para seguir num padrão de acumulação de capital desejável, era um limitador da ação das classes subalternas contra a ordem do capital; exemplo significativo é o Chile da Unidade Popular [7] .

Durante a contrarrevolução neoliberal e neocolonial, ganhou força um fenômeno novo em sua proporção:  a gigantesca regressão dos direitos democráticos da classe trabalhadora sem precisar de rupturas institucionais. Um dos exemplos mais significativos desse processo é a chamada "onda punitiva" e a formatação do Estado penal nos países centrais do capitalismo (ver as obras do sociólogo francês Loïc Wacquant, em especial As duas faces do gueto e As prisões da miséria ).

Todo esse processo de regressão democrática dos direitos da classe aconteceu com uma inestimável contribuição dos aparelhos de repressão e espionagem do Estado burguês. A narrativa de uma "sociedade ocidental" na qual a repressão cede lugar progressivamente à luta pelo consenso na dominação burguesa, perde de vista que, frente ao aumento da densidade da rede associativa das classes em luta na disputa ideológica, a classe dominante respondeu com a criação de aparelhos de repressão/controle/vigilância herméticos a qualquer controle popular ou público. Esses aparelhos atuam numa permanente "guerra suja" contra os movimentos e organizações das classes subalternas: sequestros, assassinatos, infiltrações, roubos, sabotagens, apoio a golpes de Estado, falsificação de eleições, promoção de determinadas vertentes culturais e guerra econômica estão entre algumas atividades promovidas pela CIA e o FBI – paradigmas maiores desse tipo de aparelho estatal burguês, que se generalizou e profissionalizou nos países centrais do capitalismo no pós Segunda Guerra [8] .

O avanço da classe dominante em seus objetivos de fazer regredir os direitos democráticos dentro da democracia burguesa é sempre facilitado pela própria posição de classe das personificações do capital. Democracia política não é a mesma coisa que dominação burguesa, mas, sob o Estado burguês, toda democracia política é uma forma de dominação burguesa.

Isso ocorre porque: a) Os centros decisórios estratégicos do Estado estarão sempre subordinados ao interesse geral de acumulação do capital (o que não se confunde com o interesse de um capitalista ou um de grupo deles tomado como exemplo "empírico"); b) são tomados como fato dado, natural de um ponto de visto ideológico, político e jurídico, a propriedade privada dos meios de produção, a apropriação privada da riqueza e a mercantilização da força de trabalho; c) por ter o poder econômico concentrado, a burguesia em suas diversas frações está estruturalmente em vantagem na disputa pelo controle dos diversos aparelhos do Estado e, quando perde aparelhos centrais, como um Governo Federal, dispõe de uma rede de aparelhos de hegemonia privados que conseguem com relativa facilidade paralisar ou destruir a ação incômoda do aparelho estatal que se tornou disfuncional.

Dito de maneira mais simples: sobre a base capitalista, toda democracia é burguesa, embora os direitos democráticos sejam conquistas da classe trabalhadora . Cabe, portanto, a pergunta: qual é o fator determinante que permite em determinadas conjunturas a classe trabalhadora impor conquistas democráticas ou tornar disfuncional a democracia burguesa? Resposta: a ação de classe com radicalidade na defesa não da democracia em si, mas dos direitos democráticos da classe [9]. Em todos os momentos históricos em que a classe trabalhadora avançou em conquistas democráticas se deu em um horizonte onde se pretendia muito mais que melhorar o Estado burguês. Isto é, foi criticando agudamente os limites da democracia burguesia e buscando radicalmente superá-la que foi possível impor uma relativa democratização do Estado burguês.

No caso brasileiro, o Partido dos Trabalhadores, em sua origem advoga a conquista do poder político. O PT dizia, numa formulação de clara inspiração leninista clássica, que não existe exemplo de transição socialista iniciada sem os trabalhadores tomarem o poder do Estado (ver as obras de Mauro Iasi, em especial, As metamorfose da consciência de classe e Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural ).

A não aliança com partidos da ordem, independência financeira e política, o foco na luta de massas e não na disputa institucional e o programa político radical foi o principal vetor de resistência à transição conservadora da ditatura empresarial-militar à democracia burguesa. Por uma série de determinantes históricos que não cabe aprofundar nesse momento, o PT progressivamente suavizou a radicalidade do programa, abrandou a independência de classe financeira e política, centrou-se na luta institucional e passou a defender como sinônimo de "caminho democrático ao socialismo" a atuação nos marcos da democracia (burguesa) brasileira.

A consequência é o esvaziamento da ação de classe dos subalternos como vetor de resistência ao fortalecimento da autocracia burguesa, e a conversão do PT em operador político do sistema, deixando "legados" perfeitos à dominação de classe, como a lei antiterrorismo, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e o apassivamento dos explorados. Nas palavras de Mauro Iasi:

"As mudanças que se verificam não se operam aleatoriamente, mas no sentido de recolocar a consciência que se emancipava de volta nos trilhos da ideologia. Não é, em absoluto, certas palavras-chaves vão substituindo, pouco a pouco, alguns dos termos centrais das formulações: ruptura revolucionária por rupturas, depois por democratização radical, depois por democratização e finalmente chegamos aos "alargamento das esferas de consenso"; socialismo por socialismo democrático, depois por democracia sem socialismo; socialização dos meios de produção por um controle social do mercado; classe trabalhadora, por trabalhadores, por povo, por cidadãos; e eis que palavras como revolução, socialismo, capitalismo, classes, vão dando lugar cada vez mais marcante para democracia, liberdade, igualdade, justiça, cidadania, desenvolvimento com distribuição de renda".
Mauro Luis Iasi, As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento (São Paulo: Expressão Popular, 2006), p. 435.

Em resumo, o consenso conservador em torno da democracia é o norte de uma época histórica de brutal regressão da democracia política, e as respostas hegemonicamente formuladas pela esquerda (a perspectiva de democratizar a democracia) não estão conseguindo fazer frente a esse fenômeno. O desarme teórico está imbricado com a derrota política num processo de retroalimentação.

Conclusão

O adversário de classe não está retrocedendo na democracia. Esta conclusão não impõe posturas esquerdistas e mecanicistas que não conseguem apreender, para as classes dominadas, a diferença entre lutar sob uma democracia burguesia ou sob uma ditadura fascista. A mudança de rota que deve ser operada pelas forças de esquerda empenhadas em derrubar a ordem capitalista tem como prisma primeiro encarar a democracia burguesa como ela realmente é: na democracia realmente existente, a violência, o terrorismo estatal, a negação de direitos básicos (como liberdade de imprensa e organização sindical), os massacres no campo, os autos de resistência e a história de milhares na mesma situação de Rafael Braga não constituem um desvio, uma perversão, do ideal do Estado democrático de Direito – são o seu funcionamento concreto, são a sua essência de classe em movimento.

O confronto da democracia realmente existente deve andar casado com a defesa intransigente, estratégica, dos direitos democráticos da classe trabalhadora. A democracia política sempre carregou altíssimo potencial de contradição com a ordem burguesa. A novidade, contudo, é que nesse momento de crise estrutural do capital e ofensiva neocolonial, tal contradição é aguçada. O golpe parlamentar de 2016 e a posterior eleição de Jair Bolsonaro, enquanto particularidades da conjuntura brasileira, impõem, igualmente, um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas décadas.

Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.

A conclusão que se impõe, portanto, é máximo combate à democracia burguesa e máxima defesa dos direitos democráticos da classe trabalhadora . Dentro desta perspectiva temos um norte de atuação para uma retomada crítica da luta política no âmbito da "questão democrática". Democratizar a democracia é a forma política do reformismo burguês. Tal como as ideologias do crescimento econômico com a distribuição de renda , democratizar o Estado burguês retira do horizonte a luta pelo poder popular, isto é, pela derrubada do Estado burguês e a construção de uma verdadeira democracia fundada na propriedade social com economia planificada e democracia operária. Não há futuro fora da luta pelo poder popular.

 


Vídeo do autor na TV Boitempo, onde apresenta os quatro vetores fundamentais da obra do filósofo marxista italiano Domenico Losurdo:
www.youtube.com/watch?time_continue=21&v=ReVUgX5Mw34 Notas
[1] "O feitiço do Estado democrático de Direito faz dele uma entidade idealizada que alimenta uma retórica sustentada na fé, malgrado as práticas coloquem os seus ideais em questão. Acredita-se no Estado Democrático de Direito e, como toda crença, é alvo de fé e não de questionamentos. Naturaliza-se o seu sentido e a sua lógica. A força das consignas e dos princípios é despotencializada no seu processo de institucionalização, quando práticas contraditórias com as promessas liberais e democráticas são entendidas como erro e não percebidas como coerentes com o ideário político que as produz […] Fertiliza com isto a ilusão de ser possível cumprir as promessas quebradas" (Coimbra, Scheinvar, 2012, p.62).
[2} "[…] segundo o qual qualquer tentativa de alterações substanciais no modelo representativo parlamentar nas conduziria necessariamente a algum beco sem saída, como algumas formas de autoritarismo, o que pode ser facilmente detectado como suposto de inúmeras análises teóricas do tema, de ampla aceitação na mídia impressa e televisionada" (VIEIRA, 2006, p. 15).
[3] O estudo "Fuga da História? A Revolução Russa e a Revolução Chinesa vista de hoje", de Domenico Losurdo, sintetiza com brilhantismo os argumentos dessa larga tendência teórico-política e, ao mesmo tempo, fornece subsídios essenciais para refutá-la.
[4] "Na África do Sul, a vida miserável da maioria pobre em geral continua a mesma de antes do apartheid, e o crescimento dos direitos civis e políticos é contrabalançado pelo aumento da insegurança, da violência e do crime. A grande mudança é que à antiga classe branca dominante se somou a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas se lembram do antigo Congresso Nacional Africano que prometeu não apenas acabar com o apartheid, mas também justiça social e até mesmo uma espécie de socialismo. Esse passado bem mais radical do CNA é gradualmente obliterado da nossa memória. Não é de espantar que o ódio entre os pobres e negros sul africanos esteja aumentando". Slavoj Žižek, "Por que o socialismo de Mandela Fracassou?", Pragmatismo Político . Acessado em 20/07/2017.
[5} "Durante quase todo o século XX, o conceito de imperialismo foi excluído do conjunto dos discursos políticos aceitáveis para os círculos dominantes do mundo capitalista […] Em 1971, no "Prefácio" à edição americana do Imperialism is the Seventies de Pierre Anime, Harry Magdoff aponta: "Como regra, os corteses acadêmicos preferem não usar o termo imperialismo. Acham-no de mau gosto e não científico" (Foster, 2006, p.431)
[6} Nesse ponto é necessário evitar confusões. Não estamos afirmando que esses estudos são irrelevantes. Ao contrário. Muitos deles, como as contribuições de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, são importantes na compreensão de aspectos tópicos das estruturas de poder no capitalismo contemporâneo. O norte da crítica é que essas pesquisas no momento de sua produção e difusão ignoraram a tendência principal da dominação política burguesa, produzindo um empobrecimento da compreensão do problema enquanto totalidade.
[7] Para uma análise brilhante dessa contradição chilena da Unidade Popular, conferir o clássico de Ruy Mauro Marini El reformismo y la contrarrevolución estudios sobre Chile
[8] Um tratamento mais ou menos sistemático do tema pode ser encontrado no livro de Sérgio Lessa Capital e Estado de bem-estar: o caráter de classe das políticas públicas , (São Paulo, Instituto Lukács: 2013), p. 135-149.
[9] "A classe molda o comportamento político dos indivíduos tão-somente se os que são operários foram organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos não mobilizam as pessoas como operários, e sim como "as massas", "o povo", "consumidores", "contribuintes" ou simplesmente "cidadãos", os operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da classe e, consequentemente, a votar como operários" (Przeworski, 1991, p. 42).

Referências
Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.), Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social . São Paulo: Boitempo Editoral, 2013.
Cecília Coimbra e Estela Scheinvar, "Subjetividades punitivo-penais" Em: Vera Malaguti Batista (org.), Loïc Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal . Rio de Janeiro: Editora Revan, 2012.
Mauro Luis Iasi,  As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento . São Paulo: Expressão Popular, 2006.
_____________,  Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural . São Paulo: Instituto Caio Prado Jr, 2017.
Domenico Losurdo,  Contra-história do liberalismo . São Paulo: Editora Ideias e Letras, 2006.
Loïc Wacquant.  As duas faces do gueto . São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.
____________.  As prisões da miséria. , Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011.
Adam Przeworski,  Capitalismo e social-democracia . São Paulo: Cia das letras, 1991.
Luiz Vicente Vieira,  A democracia com os pés de barro . Recife: Editora UFPE, 2006.
Orlando Zaccone,  Indignos de vida: a forma jurídica da política de extermínio de inimigos na cidade do Rio de Janeiro . São Paulo: Editora Revan, 2014.

17/Julho/2019
[*] Brasileiro, de Pernambuco, professor de história, militante do PCB. Mantém um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow.

O original encontra-se em blogdaboitempo.com.br/...

Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/brasil/ilusao_democratica_17jul19.html

Lições óbvias, mas tão difíceis de aprender

A notícia darutura das negociações entre o PSOE e o Unidos Podemos para viabilizar um sólido governo das esquerdas no Palácio de la Moncloa coincidiu com um debate num canal televisivo francês sobre as razões porque os partidos sociais democratas estão a decair, se não mesmo a desaparecer (como ocorreu na Grécia com o PASOK), do mapa político europeu, permitindo o predomínio das direitas, desde as mais liberais (França, Alemanha, Holanda) até às de extrema-direita (Hungria, Polónia ou Itália).

 

Pedro Sanchez e Pablo Iglésias revelaram-se incompetentes para chegarem a um acordo, um porque se julgou autossuficiente e confia nas sondagens, que lhe perspetivam grande subida de votos (mas que podem fugir-lhe até ao final do ano!), o outro, porque insiste naqueles erros tão frequentes no nosso Bloco de Esquerda e que um tal Ulianov qualificou de «doença infantil».

 

Muito embora os líderes das esquerdas europeias pudessem olhar para o exemplo português e dele colher proveitosos ensinamentos, preferem ignorá-lo e repetirem estratégias condenadas ao fracasso. Inebriados no convívio amistoso com o grande patronato e a alta finança, não perceberam que os derrota a falta de contacto direto com as populações trabalhadoras, passando a ser por elas tidos como detestáveis elites.

 

Há quem julgue possível ganhar eleições com uma intervenção contínua nas redes sociais, como se tivesse deixado de fazer sentido o exercício da política à moda antiga. Criem-se uns apelativos canais youtube e umas páginas no Instagram, no Facebook ou no Whatsapp e esqueçam-se as visitas a mercados e a bairros problemáticos, a estações multimodais e a centros sociais. Como se iludem! Porque nada substitui a interação com os eleitores, apresentando-lhes propostas consistentes para que vejam melhorada a qualidade de vida, mas também os oiçam, porque não é difícil comprovar que, além de acorrerem às urnas de voto para elegerem os políticos em que mais confiam, as pessoas estão desejosas de falar, de comunicar as suas preocupações e aspirações. Acaso as esquerdas esqueçam este imperativo de cidadania deixam as redes sociais contaminarem-se comfake newse outras formas de manipulação das consciências em que as direitas se revelam muito mais competentes como se viu nas vitórias de Trump ou de Balsonaro.

 

Daí que as esquerdas portuguesas tenham a responsabilidade histórica de persistirem nas convergências futuras, construindo um modelo capaz de confirmar o terror enunciado por Poiares Maduro que, numa entrevista ao «Público», confessa o temor da mexicanização do país. E não é por causa da corrupção do PRI, que o antigo ministro de Passos Coelho se assusta, mas perante a possibilidade de um duradouro exercício do poder pelas esquerdas, já que aquele partido foi absolutamente maioritário no grande país da América Central entre 1929 e 2000.

 

Se souberem ser inteligentes os partidos da nossa ainda atual maioria parlamentar podem aliar forças para transformar o país durante muitos mandatos. Assim saibam Sanchez e Iglésias imitá-los nesse objetivo...

 

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/licoes-obvias-mas-tao-dificeis-de.html

Coligação SPD, Os Verdes e Die Linke vai governar Bremen

O Estado de Bremen deverá ser o primeiro território da antiga República Federal Alemã com um governo de coligação que inclui o Die Linke.

Os partidos SPD, Os Verdes e Die Linke acordaram em formar um governo de coligação no Estado de Bremen, para a legislatura de 2019-2023. Na foto os representantes de uma comissão tripartida apresentam o Acordo de Coligação para o Governo do Estado. Bremen, Alemanha, 1 de Julho de 2019CréditosEPA/DAVID HECKER / LUSA

Os sociais-democratas do SPD, Os Verdes e o Die Linke (A Esquerda) aprovaram no fim-de-semana passado um programa comum de governo para o Estado de Bremen na legislatura que vai de 2019 a 2023, segundo noticiou o Zeit Online.

O denominado Acordo de Coligação para o Governo do Estado, considerado como a base política para o estabelecimento de uma coligação governativa em Bremen, fora apresentado publicamente no passado dia 1 de Julho pelas delegações empenhadas na sua elaboração, após três semanas de negociações tripartidas.

Se, como tudo indica, este acordo entrar em vigor, será a primeira vez que um Estado situado no território da antiga República Federal Alemã é governado por uma coligação que inclua o Die Linke, partido que no Parlamento Europeu se senta ao lado do PCP e do BE no Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL).

«As eleições para o Parlamento do Estado de Bremen, realizadas no passado mês de Junho, deram o primeiro lugar à CDU, no que constituiu a primeira derrota dos sociais-democratas do SPD nos vinte plebiscitos aí realizados após o fim da Segunda Guerra Mundial.»

Com 700 mil habitantes, a Cidade Livre Hanseática de Bremen – que inclui o exclave de Bremerhaven, antigo porto da marinha de guerra alemã – é o mais pequeno dos 16 estados regionais da Alemanha. É um estado pobre, assolado por uma grande dívida pública e governado nas últimas décadas sob sucessivas políticas austeritárias.

A nova coligação está sob o escrutínio atento dos olhares alemães, com vários dirigentes social-democratas a defender uma aliança tripartida à esquerda a nível nacional, como alternativa aos governos de «grande coligação» com a União Democrata-Cristã (CDU) dirigida por Angela Merkel1. Também de observadores do estrangeiro: em artigo na revista de esquerda Monthly Review Online, fazia-se uma interrogação: «Funcionará esta tripla coligação? Poderão as facções locais de esquerda no SPD e nos Verdes e uma liderança militante no Die Linke unir-se, desafiarem a enorme dívida pública, alcançar melhorias na educação, habitação e meio ambiente?». Para concluir: «A experiência será observada, ao pormenor e criticamente».

Partidos aprovam acordo por larga maioria

As decisões, segundo o Zeit e outras fontes alemãs, foram tomadas por uma larga maioria dos delegados presentes às reuniões extraordinárias daquelas forças políticas.

Tanto no Congresso Estadual do SPD como na Assembleia Regional de Os Verdes essa maioria foi esmagadora: no primeiro caso os 140 delegados aprovaram a coligação com apenas quatro abstenções e no segundo o acordo foi aprovado por unanimidade com uma única abstenção.

A presidente estadual do SPD, Sascha Karolin Aulepp, defendeu a coligação como «um ponto de partida, um recomeço» para criar «maiorias sustentáveis de centro-esquerda também na Alemanha Ocidental».

Na Conferência Extraordinária do Die Link o debate foi mais dividido, tendo diversos delegados expresso preocupação com a possibilidade de o partido vir a conformar-se com a política de austeridade e cortes orçamentais no Estado e nas políticas sociais, que tem caracterizado o governo do SPD com a direita.

«[O SPD] teve a votação mais baixa de sempre em Bremen, onde governa, sozinho ou em coligação, desde 1946. Até 1995, quando iniciou a nível local uma coligação governativa com os conservadores da CDU, a cidade era um autêntico bastião do SPD e este partido recolhia à volta de 50% dos votos nas eleições para o Parlamento estadual.»

O acordo foi aprovado por 71% dos delegados e decorre até 22 de Julho uma consulta aos militantes, que a imprensa calcula não vir a alterar a decisão tomada, já que no Acordo de Coligação ficaram estabelecidas algumas das medidas mais emblemáticas do Die Linke, como o fim das privatizações de terrenos urbanos, o fim do programa de redução de pessoal (no sector público), o aumento da construção social (após décadas de declínio), o combate à pobreza, o apoio aos sem-abrigo, a obrigatoriedade de as empresas darem formação aos trabalhadores ao seu serviço, ou a formação e financiamento de Conselhos da Juventude.

Para o governo a formar-se está prevista uma divisão de três ministros e um presidente para o SPD, cabendo ao Os Verdes e Die Linke, respectivamente, três e dois ministros.

As eleições estaduais em Bremen

As eleições para o Parlamento do Estado de Bremen, realizadas em 26 de Maio, em simultâneo com as eleições para o Parlamento Europeu Junho, deram o primeiro lugar  à CDU, no que constituiu a primeira derrota dos sociais-democratas do SPD nos vinte plebiscitos aí realizados após o fim da Segunda Guerra Mundial.

«As eleições para o Parlamento do Estado de Bremen revelaram um acréscimo da luta política e do interesse do eleitorado, registando-se uma afluência de 64% que contraria o declínio de participação verificado a partir de 1995 e que levou a que, nas eleições locais entre 2007 e 2015, se registasse uma afluência às urnas inferior a metade do eleitorado»

No entanto, os cerca de 392 mil votos do partido de Angela Merkel, que representaram 26,7% dos votos entrados em urna, nem sequer foram o melhor resultado recolhido pelos conservadores nas eleições locais naquela cidade-estado alemã. Desde a reunificação da Alemanha e até 2005, ano em que o seu eleitorado começou a ser vulnerável à nova extrema-direita germânica, a CDU recolheu regularmente cerca de 30% dos votos em Bremen, com um auge de 37,6% em 1999.

Acontece que o SPD, ao receber 366 mil votos (24,9%) teve a votação mais baixa de sempre no Estado onde governa, sozinho ou em coligação, desde 1946 – ano das primeiras eleições realizadas após a derrota nazi. Até 1995, quando iniciou a nível local uma coligação governativa com os conservadores da CDU, a cidade era um autêntico bastião do SPD e este partido recolhia à volta de 50% dos votos nas eleições para o Parlamento estadual.

Em 1995 o SPD convida a CDU para o governo de Bremen e partilha com os conservadores o governo estadual até 2007.

Anteriormente apenas o fizera, episodicamente, em 1950, no auge da Guerra Fria e no contexto de uma feroz campanha anti-comunista contra o seu anterior aliado do pós-guerra, o Partido Comunista da Alemanha2.

A proximidade entre os dois partidos do «bloco central» alemão reforça-se quando o SPD inaugura em 2005, a nível federal, uma coabitação governativa com a senhora Merkel. Os sociais-democratas participam em três dos quatro governos dirigidos pela chanceler alemã e prevê-se que permaneçam no seu governo até às eleições federais de 2022.

«A presidente estadual do SPD, Sascha Karolin Aulepp, defendeu [uma] coligação [SPD, Os Verdes, Die Linke] como "um ponto de partida, um recomeço" para criar "maiorias sustentáveis de centro-esquerda também na Alemanha Ocidental"»

O eleitorado de Bremen do SPD tem-se mostrado progressivamente oposto a esta aliança. A nível local o SPD tentou contrariar os efeitos da «grande coligação» nacional e desde 2007 até ao presente governa com Os Verdes, mas tal não evitou a contínua erosão do seu eleitorado. Só em relação às eleições de 2015 sofreu uma perda de 7,9 pontos.

Carsten Sieling, líder do partido SPD e Presidente da Câmara de Bremen, apresentou a sua demissão a seguir às eleições.

Instalação do artista Ottmar Hörl, numa das praças emblemáticas de Trier, a 5 de Maio de 2013, para celebrar a passagem do 195.º aniversário do nascimento, naquela cidade alemã, de Karl Marx. Créditos

Um quadro político novo em Bremen

Ainda assim, o SPD vai manter-se no governo de Bremen, devido ao particular quadro político surgido das mais recentes eleições para o Parlamento estatal.

As eleições para o Parlamento do Estado de Bremen revelaram um acréscimo da luta política e do interesse do eleitorado, registando-se uma afluência de 64%, que contraria o declínio de participação verificado a partir de 1995 e que levou a que, nas eleições locais entre 2007 e 2015, se registasse uma afluência às urnas inferior a metade do eleitorado.

Ao contrário de outros estados alemães, aqui a extrema-direita do Alternativa Para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 90 mil votos (6,1%) e praticamente não progrediu (+0,6 pts). Os liberais dos Partido dos Democratas Livres (FDP), tradicionalmente parceiros de sociais-democratas ou conservadores, conforme a situação, receberam 87 mil votos (6%) e sofreram um ligeiro recuo (-0,6 pts).

Já Os Verdes, que centraram a sua campanha no perigo das alterações climáticas, apesar de não terem atingido o melhor resultado de sempre (22,5% nas eleições de 2011), obtiveram 256 mil votos (17,4%) tendo progredido relativamente às eleições precedentes (+2,3 pts). Após as eleições rejeitaram a proposta da CDU de integrarem uma coligação com os liberais do FDP e preferiram dirigir-se ao SPD e ao Die Linke com uma proposta de governo alternativo.

«Será a primeira vez que um Estado situado no território da antiga República Federal Alemã é governado por uma coligação que inclua o Die Linke, que no Parlamento Europeu se senta ao lado do BE e do PCP no Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL)»

O Die Linke atingiu 166 mil votos (11,3%) e posicionou-se como a quarta força política em Bremen (+1,8 pts). O seu crescimento acentuou-se nas duas últimas eleições – o resultado de 2015, 9,5%, foi o mais alto do partido, até então. Fundado em 2007, é um resultado da fusão da organização Trabalho e Justiça Social - a Escolha Alternativa, uma fracção de esquerda no partido social-democrata, e do Partido do Socialismo Democrático (PDS), sucessor do Partido Socialista Unificado da Alemanha (PSUA) que dirigiu os destinos da República Democrática Alemã até 1989. Por essa razão, a actividade do Die Linke, tal como acontece com os comunistas do DKP, sofre a vigilância dos órgãos de segurança do Estado.

  • 1. Ver notícias na Reuters e no Euroactiv.
  • 2. O Partido Comunista da Alemanha (KPD) viria a ser ilegalizado em 1956, numa decisão que se mantém até hoje, apesar das crescentes críticas a este respeito em sectores cada vez mais amplos da sociedade alemã. Em 1968 militantes reuniram-se para formar o Partido Comunista Alemão (DKP), que opera sob severas restrições e permanente vigilância das autoridades.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/coligacao-spd-os-verdes-e-die-linke-vai-governar-bremen

Candidato de esquerda declara vitória em eleições no Panamá

O Canal do Panamá ampliado foi inaugurado em 26 de junho de 2016
© AP Photo / Moises Castillo

O candidato presidencial do Partido Democrático Revolucionário Laurentino Cortizo, do Panamá, declarou vitória, após 93% dos votos serem apurados.

Apesar disso, há pequena diferença com seu rival, Romulo Roux, que ainda não admitiu a derrota, segundo informou a mídia local.


"Estou satisfeito. Vitória. Nós vencemos. Agora temos que unir forças", disse ele, conforme citado pela rede de televisão Telemetro.

Apesar das declarações de Cortizo no final do domingo (5), o chefe do Tribunal Eleitoral do Panamá, Heriberto Arauz, disse em uma coletiva de imprensa ainda não estaria pronto para divulgar o nome do vencedor.

No momento da declaração de Cortizo, a diferença entre os dois principais candidatos, Cortizo e Roux, era de apenas 1,93%, ou menos de 35 mil votos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050613815936-panama-laurentino-cortizo-eleicoes/

Cinco ideias de Karl Marx que continuam válidas

No dia do aniversário do nascimento de Karl Marx, lembram-se algumas ideias do filósofo, economista e lutador pela emancipação dos trabalhadores do sistema do capital.

Instalação do artista Ottmar Hörl, numa das praças emblemáticas de Trier, a 5 de Maio de 2013, para celebrar a passagem do 195.º aniversário do nascimento, naquela cidade alemã, de Karl Marx.Créditos / Pinterest

Karl Marx nasceu a 5 de Maio de 1818 em Trier e morreu em Londres a 14 de Março de 1883. O filósofo e economista que dedicou a sua vida ao estudo do sistema do capital foi também um revolucionário consequente, que pôs o seu talento ao serviço da emancipação da classe operária e dos trabalhadores e lançou as bases do socialismo científico.

Marx continua a ser recordado e lido por milhões de pessoas no mundo inteiro, geração após geração. A teoria de Marx mudou a forma de entender o mundo, a economia e a sociedade capitalista. Da lei da mais-valia à alienação do trabalho recordam-se aqui, hoje, cinco ideias suas cuja actualidade permanece.

1. «A história de todas as sociedades que existiram, até aos nossos dias, é a história da luta de classes», em Manifesto do Partido Comunista (1848), com Friedrich Engels.

Marx deixou claro que a história da humanidade não tem sido outra coisa senão a luta de classes pelo controlo dos meios sociais de produção – como acontece hoje. [e isto não mudou].

2. «A contradição essencial na sociedade capitalista é a contradição entre o capital e o trabalho».

Marx previu que essa contradição apenas podia ser resolvida através de uma revolução social, cuja necessidade se mantém.

3. A alienação no trabalho.

O trabalhador, ao ser despojado da sua força de trabalho e do valor que produz, sente-se alienado. Embora saiba que produz valor e riqueza, o seu trabalho não lhe pertence. Só está consigo quando está fora do trabalho, e quando está no trabalho sente-se fora de si.

4. A ideia de mais-valia.

A mais-valia é o valor que o trabalho não remunerado do trabalhador cria sobre ele e de que o capitalista se apropria gratuitamente. Na sua essência radica a exploração, que não mudou muito.

5. O valor de uso, o valor de troca, o dinheiro e o mundo das mercadorias.

O capitalismo cria um valor para além do valor do uso das coisas. Reduz tudo a uma mercadoria, a um valor de troca que simboliza e resume a expropriação, pelo capital, do trabalho.

A obra de Karl Marx não só permite compreender o sistema capitalista no século XXI como, para aqueles que estão interessados na sua eliminação – os trabalhadores e todos os explorados – se tornou uma ferramenta indispensável para a transformação revolucionária da sociedade.

Com Telesur.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/cinco-ideias-de-karl-marx-que-continuam-validas

Tavarish e o seu pequeno mundo

Ricardo M Santos 11.4.19
"Por acaso, foi uma ideia minha", dizia, em 2015, Passos Coelho sobre a utilização de fundos de pensões gregos para capitalizar a banca daquele país. Quatro anos depois, Rui Tavares, o Pequeno Gigante da Esquerda, revela, numa entrevista ao portal Notícias ao Minuto que, por acaso, "houve Geringonça porque fizemos muito trabalho para isso" e, numa entrevista à Lusa, no mês passado, considera-se mesmo pai espiritual da atual situação governativa: "Rui Tavares assinala, porém, que os dirigentes do Livre sempre foram conhecidos como “os pais espirituais da geringonça”.
Obviamente, o país esperava pela ideia de Rui Tavares e já imagino, nas reuniões bilaterais entre os partidos, os suspiros e agradecimentos a Rui Tavares, virados para os céus pelo envio do novo messias, para ser possível inverter o ciclo de miséria que estava a ser traçado por PSD e CDS. Importa relembrar que Rui Tavares saiu de um partido para fundar um partido para unir os partidos. Na mesma entrevista, Tavarish afirma que "todos os partidos instalados na política portuguesa têm esse medo [do Livre]". E é verdade. Há noites em que não se dorme, à espera que Tavarish volte a dar-nos, por exemplo, tarefas urgentes para antifascistas, porque andamos todos aqui à nora e isto é um fenómeno novo, nunca antes visto.

Tavarish vai mais longe e refere mesmo que "é verdade que outros que tentam empurrar o Livre para as boxes, que tentam que ele não seja ouvido, que tentam ele não possa falar ao grande público, têm muito medo disso". Tavarish é dono de um partido que teve em 2015, em coligação com o Tempo de Avançar, 0,73% dos votos (39.340).

Em 2014, nas Europeias, valeu 2,18% (71.602 votos). E queixa-se Tavarish de que está subrepresentado na imprensa. O Rui Tavares sozinho tem mais presença mediática do que todo o PCP junto. Vamos ao absurdo de o facto de uma dirigente do Livre abrir um restaurante ter sido notícia, com o seguinte título: "Safaa Dib. A dirigente do Livre abriu um restaurante libanês". Estão a imaginar o título "Manuel da Silva, o dirigente do PCP que abriu um restaurante", não estão?

À boleia da TSF e do programa "Uma questão de ADN", a mesma dirigente esteve, na passada semana, a falar sobre o seu projeto. Obviamente que o facto de ser candidata à Assembleia da República não tem nada a ver com este acompanhamento mediático e o seu lançamento. 

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/04/tavarish-e-o-seu-pequeno-mundo.html

César e Catarina, e se não fizessem um favor à direita?

(Por Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/03/2019)

Estiveram os dois mal

Quando, numa eleição, se sabe à partida quem será o vencedor e o perdedor os combates eleitorais tendem a não se fazer entre os principais partidos mas nas suas franjas. À direita, já se percebeu que guerrilha interna do PSD continuará e os seus promotores terão como principal objetivo desviar votos para o CDS e novos movimentos. À esquerda, a guerra será entre o PS e o Bloco de Esquerda. Não por qualquer razão ideológica ou por o PS ter mais dificuldades em trabalhar com o BE do que com o PCP, mas porque aquela é a sua fronteira eleitoral mais porosa. O PS e o Bloco partilham muito eleitorado e os socialistas sabem que é ali que podem perder ou ganhar mais votos. Com o Bloco acontece o mesmo.

Tudo isto me parece saudável. Este é o momento para sublinhar as diferenças entre os partidos da “geringonça”. E é neste pressuposto que ouvi Carlos César dizer que foi “penoso” negociar com os partidos à sua esquerda. O subtexto é evidente: estivesse o PS sozinho e tudo o que foi conseguido teria sido mais simples e rápido. Não é fácil vender este peixe quando se conseguem aprovar quatro orçamentos com um superavit primário histórico e quando assistimos ao descontentamento dos funcionários do Estado. Mas BE e PCP tentarão dizer o oposto: sem eles este governo teria sido igual a todos os que o PS teve antes. Até aqui, parece-me uma guerra normal. Preferia que se concentrassem um pouco mais nas suas verdadeiras divergências políticas, mas na hora de conquistar votos não podemos esperar grande sofisticação.

O erro que nenhum dos três partidos deve cometer é assumir a retórica da direita. Isso seria mortal para todos eles. Nem aquela que diz que o PS, no fundo, é igual ao PSD, tendo sido este entendimento contranatura, nem a que aponta o BE e o PCP como irresponsáveis em que nenhum partido sério pode confiar. Isso é matar os últimos quatro anos de maioria de esquerda, que são o melhor património que os três têm. Ou preferem que as pessoas se lembrem de Sócrates ou do chumbo do PEC?

Mas pior do que assumir esta retórica é fugir para o beco em que a direita quer acantonar as duas próximas campanhas: afastar a política dos holofotes e resumir tudo a um combate ético. É natural que o PSD e o CDS tentem ir por aí. A economia está por agora melhor, as contas públicas também, as pessoas estão satisfeitas e as medidas sociais deste governo têm largo apoio. Resta cavalgar uma espécie de excecionalidade imoral dos socialistas, que tem e continuará a ter Sócrates como pano de fundo. Agora são as famílias dos ministros, depois será outra coisa qualquer. É absurdo que a esquerda siga este guião nos seus confrontos. É sair do terreno onde toda ela ganha para ir lutar noutro, onde tudo o que se conseguiu nestes anos será esquecido.

Ao descentrar a campanha das grandes escolhas políticas, levando-a para a conversa sobre os familiares do PS, Catarina Martins faz um grande favor à direita. Não por fragilizar o PS, a quem tenta disputar votos, mas porque desconcentra dos resultados sociais e económicos destes quatro anos. São esses ganhos que ela deve disputar ao PS. Os que se conseguiram e os que não se conseguiram e se podiam ter conseguido. Dos passes sociais e salário mínimo aos défices mais baixos do que alguma vez foi exigido por Bruxelas. Duas coisas que deixam a direita sem nada para dizer, na realidade.

Como seria de esperar, a resposta veio rápida e em versão piorada, com Carlos César a dizer que o seu parceiro, por ter irmãs no mesmo grupo parlamentar, não pode dar lições a ninguém. A direita, que tem uma longa história de linhagens familiares nos seus partidos, ri-se por ficar de fora do alvo e conseguir que não se fale do que realmente vale votos para o PS, BE e PCP. E ainda se ri mais por o PS ter escolhido Carlos César para falar de nepotismo.

Olhem para a relação entre o PSD e o CDS ao longo destes anos. Não ficam a dizer o mesmo mas evitam os ataques mais rasteiros. Seria bom aprenderem com eles. Confrontem-se na política. As divergências são mais do que suficientes para fazerem duas campanhas e ainda ficar muito por dizer. É um confronto que vale votos e ajuda a clarificar muitas coisas para o futuro. Deixem o resto para a direita, que quer falar de tudo menos do que melhorou na vida das pessoas.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Voltar atrás com boas razões para o fazer

Num artigo da mais recente edição do «Le Monde Diplomatique», na sua versão portuguesa, Serge Halimi lembra como, no final dos anos 80, os defensores do social-liberalismo proclamaram o fim das convulsões ideológicas com a definitiva marginalização das classes populares dos debates públicos e das instituições políticas, doravante monopolizadas pela burguesia cultivada.
Esse processo teve início na França de Mitterrand em 1983, seguindo-se-lhe a Nova Zelândia no ano seguinte e consagrando-se depois com Tony Blair, Bill Clinton e Gerhard Schroeder naquilo que seria descrito como «A Terceira Via». Tratava-se de invadir o aparelho de Estado, a comunicação social e os conselhos de administração das empresas com os antigos paladinos da «social-democracia».
Os partidos, que se reivindicavam dessa herança política prescindiam da sua pretérita base social de apoio, ou seja dessas classes populares doravante abandonadas, sem representação política até a extrema-direita ver nela um filão a explorar. Porque, como dizia Dominique Strauss-Kahn, antes de cair em desgraça, a esquerda deveria atrair os assalariados informados e educados, que sentissem apego à economia de mercado. Eles representariam o paradigma das classes médias, sem as quais seria estulta a ambição de conquistar, e exercer o poder político.
O resultado dessa estratégia, profundamente errada, ficou à vista: no Parlamento Europeu, que será eleito em maio, o grupo socialista ver-se-á reduzido a uma dimensão impensável há uns quantos anos atrás. Razão para ganhar juízo e recuperar o que perdeu entretanto, a começar pela ideologia efetivamente socialista. Para tal não será descabida a vertente sindical. Segundo Daniel Oliveira importa retomar o sindicalismo político (não partidário), que se fundamente na solidariedade entre todos os trabalhadores, quer do setor público, quer do privado, transversal a enfermeiros ou a entregadores de pizzas, porque reassumido como de classe e não de corporação.
Para muitos apoiantes das políticas de esquerda pode justificar-se voltar atrás, até ao momento em que a dinâmica política destinada a consagrar valores, que se pretenderiam valorizar - a liberdade, a igualdade e a justiça social - se viram amesquinhados por quem via na globalização a solução para que o sistema económico baseado na exploração do homem pelo homem conseguisse perdurar mais algumas décadas. Recuperar os valores e os conceitos ideológicos, espezinhados como datados e ineficazes para a aplicação futura, poderá constituir a alternativa a esta contínua entropia política e social, que ameaça agravar a caótica falta de rumo, que ameaça todos atrair a fatal vórtice.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/03/voltar-atras-com-boas-razoes-para-o.html

O futuro pertence à esquerda e não à direita

(Por Wolfgang Münchau , in DN, 26/02/2019)

Wolfgang Münchau

Por enquanto, a direita está em crescendo, mas a sua ascensão está autolimitada. Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro de Itália, está a preparar-se para formar o seu próprio movimento político centrista, muito parecido com o La République en Marche!, do presidente francês Emmanuel Macron. Um novo grupo centrista no Reino Unido também causou excitação, embora por motivos diferentes.
 

Mas as hipóteses não são boas para muitos deles. A democracia liberal está em declínio por uma razão. Os regimes liberais mostraram-se incapazes de resolver problemas que surgiram diretamente de políticas liberais como cortes de impostos, consolidação orçamental e desregulamentação: instabilidade financeira persistente e as suas consequências económicas; um aumento da insegurança entre as pessoas de baixos rendimentos, agravada pela mudança tecnológica e pelas políticas de imigração abertas; e falhas de coordenação de políticas, por exemplo, na repressão à evasão fiscal global.

Quando a crise financeira os atingiu, os governos europeus continentais não assumiram o controlo total dos seus sistemas bancários, não reprimiram a sério os bónus nem impuseram impostos sobre transações financeiras. Eles não aumentaram os impostos sobre o rendimento nem sobre as empresas para contrabalançar os cortes na despesa do setor público. Eles não reforçaram as políticas de imigração.

As estatísticas económicas usuais não capturam a forma como as vidas das pessoas de baixos rendimentos mudaram nas duas últimas décadas. A estagnação do rendimento real disponível é importante, mas também o é a menor segurança no emprego e a redução do acesso a mercados de crédito e hipotecas.

Penso que a resistência contra o liberalismo virá em etapas. Estamos no primeiro estágio – a fase trumpiana anti-imigração. A imigração acarreta benefícios económicos líquidos, especialmente no longo prazo. Mas também há perdedores, reais e imaginários. A decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as fronteiras da Alemanha a um milhão de refugiados em 2015 foi justificada por razões éticas e tenho a certeza de que trará benefícios a longo prazo, mas transformou-se numa crise porque ela não preparou politicamente o seu país.

Também o euro foi uma construção liberal de um clima propício. Quando a crise chegou, os políticos fizeram o mínimo necessário para garantir a sua sobrevivência, mas não conseguiram resolver os problemas subjacentes, que hoje se expressam como desequilíbrios que não se autocorrigem. Sem um ativo seguro único e uma união bancária genuína, a zona euro permanecerá propensa a crises financeiras.

A democracia liberal foi bem-sucedida a derrubar barreiras comerciais, proteger os direitos humanos e fomentar sociedades abertas. Mas a incapacidade para gerir as consequências sociais e económicas de tais políticas tornou os regimes liberais inerentemente instáveis.

Por enquanto, a direita está a prosperar com a reação anti-imigração. Mas a sua ascensão está autolimitada por duas razões. Primeiro, as políticas de direita não estão a ser bem-sucedidas nem mesmo nos seus próprios termos restritos. Um muro ao longo da fronteira com o México não vai impedir os fluxos migratórios dos EUA, da mesma forma que a renacionalização das políticas de imigração na Europa também não o faria. Em segundo lugar, suspeito que a imigração será superada em breve por outras questões, como o impacto da inteligência artificial nos meios de subsistência da classe média; os níveis crescentes de pobreza; e a deslocalização económica decorrente das mudanças climáticas.

Este é um ambiente político que favorece a esquerda radical sobre a direita radical. A direita não está interessada na pobreza e os seus partidos estão cheios de negacionistas das alterações climáticas. Alguns dos populistas de direita podem falar a linguagem das classes trabalhadoras, mas a esquerda tem maior probabilidade de as satisfazer.

A política assassina da esquerda será a taxa de imposto de 70% proposta pela recém-chegada congressista norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez. Não é o número que importa, mas a determinação de reverter uma tendência de 30 anos para uma tributação mais baixa de rendimentos e lucros muito elevados. Uma tal política traria danos colaterais, com certeza, mas, do ponto de vista da esquerda radical, danos colaterais são uma promessa, não uma ameaça.

E o centro radical? Macron demonstrou que o liberalismo de base pode ter sucesso como estratégia eleitoral. Mas existem fatores específicos no sistema eleitoral francês que favoreceram a vitória de Macron em 2017, e ainda é cedo para avaliar se as suas políticas reais vão cumprir o que os seus eleitores desejavam. A Itália também é candidata a uma revolução ao estilo de Macron, mas isso, por si só, não conseguirá resolver os problemas profundamente arreigados do país.

O impacto económico e social das políticas liberais varia conforme os países. A Alemanha evitou até agora a espiral descendente devido à sua posição única dentro da zona euro e a sua base industrial ainda relativamente forte, mas basta esperar até que a força irresistível do carro elétrico autónomo atinja o objeto imóvel dos condutores de carros a diesel.

Entrámos numa era que favorecerá o radicalismo sobre a moderação, e a esquerda sobre a direita. Não vai ser a era de Donald Trump.

© The Financial Times Limited, 2019

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Terça-feira, no ISEG: Apresentação do nº 2 da revista Manifesto

Segunda sessão de apresentação em Lisboa do número 2 (IIª série) da revista Manifesto, que tem como tema «Geringonça 2.0 - Prioridades sociais». Participam nesta sessão Carlos Bastien (docente no ISEG), José Gusmão (economista), Rita Raposo (docente no ISEG) e Vicente Ferreira (aluno no ISEG). É a partir das 16h30, no Anfiteatro 3. Estão todos convidados, apareçam.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Em defesa do marxismo

A campanha conservadora contra o marxismo é intensa; ela cresceu desde a campanha eleitoral de 2018 e, agora, sob o governo de direita de Jair Bolsonaro, alguns membros do governo federal multiplicam os ataques contra o que chamam de “cultura marxista”, generalisando as acusações contra o pensamento avançado de todos os matizes.

Em relação ao marxismo não há argumentos novos, mas repetem a longa série de inverdades usadas desde os tempos em que Marx e Engels escreviam e atuavam, no século XIX. A violência verbal continua igualmente simplista, repetitiva, e reflete a indigência intelectual dos acusadores.

O marxismo continua sendo, como disse o pensador francês Jean-Paul Sartre, a filosofia insuperável de nosso tempo. Embora simpatizaante, Sartre não foi propriamente marxista mas um existencialista com forte influência da fenomenologia. Mas esteve decididamente envolvido na luta democrática, popular e anti-imperialista de seu tempo.

Sartre tinha razão. O marxismo, como pensamento radical e avançado é, sobretudo num país tão desigual, injusto e autoritário como o Brasil, mais que uma necessidade. É uma exigência ética e moral, científica e política que se impõe aos que se esforçam em entender, explicar e lutar contra as injustiças e a desigualdade extrema entre os homens que há no mundo capitalista.

A dimensão ética e moral do marxismo foi exposta de maneira cabal quando Marx, ainda jovem, em novembro de 1837, escreveu uma carta ao pai justificando sua troca do curso de Direeito pelo de Filosofia. E expôs sua profunda necessidade de compreender as injustiças do mundo burgês e lutar contra elas.

Marx não aceitava a igualdade meramente formal do direito burguês e exigia a igualdade real e concreta entre todos os seres humanos como prenúncio da emancipação da humanidade. A compreensão da igualdade que decorre do direito burguês é apenas formal. Contra ela, Marx compreendia que todos os homens são substancialmente iguais e, assim, tem igual direito ao acesso aos meios que tornem a vida possível . Tem igual direito à alimentação, abrigo. saúde, educação – e tudo isso resulta do trabalho de todos, que é igualmente um direito.
Este princípio ético, de que todo os homens tem igual direito à vida e aos meios de vida nunca foi abandonado por Marx, embora tenha compreendido como ninguém que a igualdade entre os homens não decorre de uma condição moral mas resulta do desenvolvimento material e cultural da sociedade para criar as condições para o atendimento das necessidades de toda a humanidade.

A moral por trás destas idéias de Marx é a da fraternidade universal, que rejeita a desigualdade concreta imposta pelo capitalismo e disfarça, sob o rótulo da igualdade formal perante a lei, a verdadeira espoliação dos trabalhadores implícita neste sistema que transforma a força de trabalho em mercadoria, no qual a “justiça” se resume ao respeito ao preço daquela mercadoria no mercado comandado pelo direito à propriedade privada encarada como o principal dos chamados direitos humanos, e que permite a exploração do homem pelo homem disfarçada como “justiça”.

Foi com esta convicção que o jovem Marx, partindo da filosofia, passou ao estudo da sociedade e, mais adiante, da economia política: o estudo da sociedade para compreender suas contradições. O passo seguinte foi a compreensão da maneira como os homens produzem seus meios de vida e distribuem o produto do trabalho coletivo: a economia política.

A compreensão da forma de produção e de divisão do resultado do trabalho leva à outra dimensão fundamental do pensamento de Marx: a luta política.

Foi também naqueles anos de passagem dos escritos e estudos da juventude para a maturidade que Marx formulou, em “A Ideologia Alemã” (1845), as condições para que a história ocorra: é preciso comer, beber, abrigar-se, criar as condições materiais de vida para que a história seja feita. Assim, o primeiro ato histórico é a produção – e distribuição – dos meios de vida, que resultam do trabalho de todos. Produto que, nas diferentes formas históricas da organização da sociedade e do trabalho, é apropriado de maneira desigual entre o conjunto dos indivíduos. Em todas elas – com exceção do período inicial do comunismo primitivo – as sociedades são divididas em classes antagônicas, opondo aqueles que trabalham à minoria que controla o trabalho dos demais e é privilegiada na divisão e apropriação do resultado da ação coletiva.

A organização social que surge para garantir essa situação contraditória e a exploração de uma parte da sociedade (a maioria) por um setor minoritário da população, é o Estado. A ação política é a forma assumida pela luta para controlar o poder do Estado e tornar menos predatória a apropriação privada do resultado do trabalho coletivo. Neste sentido a luta política em torno do poder do Estado é fundamentalmente a luta pelo reconhecimento e ampliação dos direitos sociais, pela redistribuição do produto do trabalho social de forma que possa atender às necessidades de todos e, fundamentalmente, pela apropriação coletiva da propriedade privada dos meios de produção, colocando-os sob controle da sociedade, fora do domínio privado.

É nesse sentido que a luta política se torna uma necessidade fundamental para o marxismo. É na política que o domínio de uma minoria sobre os demais pode ser derrotado para abrir caminho para a reorganização radical da sociedade, para eliminar as injustiças que decorrem da exploração do homem pelo homem.

O marxismo se distingue de outras formas de pensamento social e correntes do movimento social (como os anarquistas e os socialistas utópicos) ao adotar o adjetivo “científico” para cracterizar a análise para fundamentar a organização eficiente da luta: “socialismo científico”. A proposta de mudança social (revolucionária) do marxismo deriva não da mera vontade individual e subjetiva, mas da análise científica das condições sociais, da correlação de forças na sociedade, do grau de amadurecimento das condições sociais para a mudança, que resulta da situação concreta e subjetiva existente, e não da mera vontade de cada um. Nesse sentido, a mudança social obedece a leis que precisam ser conhecidas para que seja possível intervir nelas para haver a mudança.

Marx começou a amadurecer seu método ainda muito jovem, num artigo que publicou em 1843, no qual analisou a Lei da Repressão ao Roubo de Lenha, aprovada em 1842.

O estudo do chamado “roubo da lenha” levou Karl Marx ao caminho do comunismo. Aquela lei proibia e tornava crime o hábito secular dos camponeses pobres de coletar, nas terras comunais agora transformadas em propriedade privada, galhos caídos e gravetos para usar como lenha.

O estudo científico da sociedade e das relações de dominação que regem o direito passou a se impor de maneira crescente para Marx. De que maneria, e atendendo a que interesses um costume camponês tão antigo foi transformado em crime? Marx compreendeu, desde então, a dinâmica avassaladora da propriedade privada, que chega ao auge sob o capitalismo. Nesta altura a ética dá as mãos à ciência em seu pensamento.

Anos mais tarde, no prefácio de “Para a Crítica da Economia Política” (1859) ele reconheceu a importância daquele episódio para o desenvolvimento de suas idéias: “Vi-me pela primeira vez, perplexo, perante a dificuldade de ter também de dizer alguma coisa sobre o que se designa por interesses materiais”, entre eles o “roubo de lenha” e o parcelamento da propriedade da terra. Marx escreveu, naquele prefácio: “tinha-se nesse tempo – em que a boa vontade de ‘ir adiante’ repetidas vezes contrabalançava o conhecimento das questões – tornado audível na redação da Rheinische Zeitung um eco do socialismo e do comunismo francês, sob uma tênue coloração filosófica. Declarei-me contra esta remendaria, mas ao mesmo tempo confessei abertamente, numa controvérsia com a Allgemeine Augsburger Zeitung, que os meus estudos até essa data não me permitiam arriscar eu próprio qualquer juízo sobre o conteúdo das orientações francesas”. Concluiu dizendo: preferi “me retirar do palco público e recolher ao quarto de estudo”.

Ele revela aqui o impulso científico do marxismo: não basta a mera vontade subjetiva de “ir adiante”; é preciso o estudo cauteloso, acurado e aprofundado das condições para a mudança. O resultado final daquele recolhimento “ao quarto de estudos” começou a vir a público mais de duas décadas depois com a publicação do primeiro volume de “O Capital” (1867), a obra genial de Marx que orienta não só o pensamento econômico inspirado por ele, mas sobretudo o pensamento filosófico, político e social.

O governo de direita instalado no Palácio do Planalto pretende afastar a influência do pensamento marxista, que cresce entre os brasileiros. É uma tarefa vã; o marxismo já enfrentou, no Brasil, períodos de grande adversidade e saiu fortalecido da luta. A união entre as dimensões ética e moral, científica e política faz do marxismo o pensamento insuperável de nosso tempo. Resistente às críticas interesseiras daqueles que defendem o sistema injusto e desumano que é o capitalismo, querem sua manutenção mas não tem uma filosofia que justifique a defesa desta sociedade desigual.


Texto em português do Brasil

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/em-defesa-do-marxismo/

REVOLUCIONÁRIOS DA TRETA

Os revolucionários da treta fazem o mal e a caramunha, as suas análises políticas são jogos de malabares com citações de Marx e Lenine, entremeados de Gramsci e Rosa Luxemburgo.

Os revolucionários da treta fizeram campanha contra Lula e PT seguindo a velha tática de diabolizar o inimigo para mais facilmente o vencer. Diziam os revolucionários da treta que Haddad e Bolsonaro eram farinha do mesmo saco.

Os revolucionários da treta quando da campanha eleitoral de Andrés Manuel López Obrador para a presidência do México, com as suas sábias análises marchistas, os revolucionários da treta menosprezavam AMLO, afirmando enfaticamente, que era um social-democrata e que a sua eleição nada significaria para o povo mexicano.

Os revolucionários da treta, como analistas deviam convocar um suicídio coletivo, caso tivessem a coragem em reconhecer as criminosas análises que divulgaram, tendo em conta a tragédia venezuelana para a qual explicitamente contribuíram.

Os revolucionários da treta exigiam a saída de Portugal da União Europeia, com o à-vontade de quem vai à mercearia comprar amendoins, mais calmos quanto a esta questão [brexit] continuam a socavar a posição dos comunistas por não permitirem o acesso da outra direita ao poder.

Alguns dos revolucionários da treta, não obstante a realidade que se impõe, continuam a mascar o mesmo chiclete, relegando para o passado a culpa do presente que ajudaram a construir.

Estes são tópicos para que não se menospreze o papel dos “revolucionários da treta” no processo histórico.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

Alexandria Ocasio-Cortez: a nova voz progressista na política norte-americana

Não é só o conservadorismo que tem ditado a agenda política norte-americana nos últimos anos e o maior símbolo da renovação do pensamento progressista nos EUA vem do Bronx, em Nova York: Alexandria Ocasio-Cortez.


 

Não é só o conservadorismo que tem ditado a agenda política norte-americana nos últimos anos. O maior símbolo da renovação do pensamento progressista nos EUA vem do Bronx, em Nova York: Alexandria Ocasio-Cortez, 29, elegeu-se deputada federal americana numa ascensão meteórica dentro dos Democratic Socialists of America, a ala socialista do Partido Democrata Norte-Americano.

Criada numa região com um dos maiores índices de pobreza dos EUA, Cortez teve uma trajetória difícil até alcançar o Congresso Americano.

Minha mãe limpava casas e dirigia ônibus escolares, e quando minha família estava à beira de perder nossa casa, comecei a trabalhar como bartender e garçonete”.

Cortez ao The Guardian

A política e o debate social sempre tiveram espaço na vida de Alexandria Cortez. Segundo sua mãe, Blanca Ocasio-Cortez, era impossível impedi-la de tecer críticas sociais e políticas, mesmo na mesa de jantar. “Eu pude ver suas tendências políticas desde muito, muito cedo”, afirmou em entrevista o NY Times.

No entanto, as dificuldades não a impediram de cursar o ensino superior. Formou-se em Economia e Relações Internacionais na Boston University, na cidade de Boston, Massachusetts. As dificuldades econômicas durante sua formação também a fizeram trabalhar em restaurantes durante sua vida estudantil. Seu grande entusiasmo pela política apenas se consolidou ao trabalhar com o então senador democrata Edward M. Kennedy, de Massachusetts. Naquele momento, Cortez afirma que compreendeu seu possível lugar no cenário político norte-americano.

Depois de sua gradação, voltou ao Bronx para defender melhores condições para a educação básica e, principalmente, alfabetização de crianças pobres em seu bairro. Tal trabalho rendera poucos frutos econômicos para a jovem – para completar sua renda, Cortez ainda trabalhava como garçonete em restaurantes de seu bairro.

Sua rápida ascensão no cenário político nacional começou, no entanto, em 2016. Cortez foi uma das organizadoras da histórica campanha do senador norte-americano Bernie Sanders à presidência dos EUA. O senador, considerado um dos maiores quadros políticos da esquerda americana, propôs medidas consideradas revolucionárias num país de raízes liberais: propôs o início da construção de um sistema público de saúde, bem como a gratuidade das universidades públicas do país. Sanders ganhou grande apoio de jovens e da classe estudantil durante as eleições primárias do Partido Democrata. No entanto, em controversa eleição interna, Hillary Clinton foi designada a disputar as eleições nacionais.

A experiência em uma campanha de tamanha grandeza sedimentou o desejo de Cortez a concorrer a um cargo na disputa de novembro de 2018, quando seriam eleitos certos cargos do Executivo e Legislativo, como governadores estaduais, deputados federais e senadores.

Sua campanha foi simples. Sem extravagâncias, Cortez e sua equipe focaram no uso de mídias sociais, assim como um trabalho de porta a porta.

Eu gastei toda a primeira parte da campanha apenas indo à sala-de-estar das pessoas, tomando café com elas, por quase seis ou sete meses. Foi assim que, de fato, aconteceu a campanha”.

Alexandria Ocasio-Cortez, em entrevista para o NY Times

Cortez levantou bandeiras políticas muito semelhantes às de Bernie Sanders em 2016, como universalização no acesso à saúde pública e ao ensino superior público. Tais pautas se mostraram populares na campanha presidencial e garantiram sua eleição: as primárias de Junho de 2018 mostraram a força de campanha simples e efetiva.

No dia três de janeiro, Cortez assumiu oficialmente o cargo, se tornando a mais jovem congressista feminina da história americana. Em suas falas oficiais, tal qual nas mídias sociais, Cortez segue afirmando seu compromisso com o estado de bem-estar social para os mais pobres nos EUA.


por Luís Mauro Queiroz | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/alexandria-ocasio-cortez-a-nova-voz-progressista-na-politica-norte-americana/

Pouco cito o Pacheco Pereira... calhou hoje, desta maneira

O cartaz ao lado foi por mim escolhido para ilustrar o texto do Pacheco. Qual texto?
Ei-lo 
«A política de “identidades” e das “causas fracturantes” foi um processo que facilitou a passagem de grupos revolucionários a reformistas. Para o Bloco de Esquerda não está mal, porque isso facilita a aproximação com o PS, cuja ala esquerda pensa o mesmo. O Bloco rende-se àquilo a que Rosa Luxemburgo chamava “movimento” em detrimento dos “fins”, que considerava a essência do reformismo, ou seja, o abandono da revolução, neste caso a favor de uma miríade de “causas”.
Facilita igualmente a integração de grupos anti-racistas, feministas, LGBT, de defesa dos animais, antiespecistas, muitos dos quais são fortemente subsidiados por dinheiros públicos. Eles podem colocar o rótulo de anticapitalista em tudo isto, mas é pouco mais do que um rótulo.
Sendo a política de “identidades” uma forma de reformismo, daí não vem nenhum mal ao mundo. Porém, tem um efeito perverso cujos custos a esquerda ainda não percebeu que está a e vai pagar: é fazer espelho com a outra política de “causas” da direita radical, os movimentos antiaborto e anti-imigrantes, a islamofobia a favor da “civilização cristã”, a mulher dona de casa, o anti-intelectualismo, a defesa dos valores “familiares”, o lobby pró-armas nos EUA, ou “as meninas são de cor-de-rosa e os rapazes de azul” dos Bolsonaros, os pró-tourada, os homofóbicos, etc. Acantonados nas suas “causas”, cada uma reforça a outra, o SOS Racismo dá forças ao PNR e vice-versa, e fora do “meio” destes confrontos, a nova direita “alt-right” ganha sempre mais força...»
Pode ler tudo aqui

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A esquerda “identitária” diz adeus a Marx

(José Pacheco Pereira, in Público, 26/01/2019)

marx6

Uma parte importante da nossa esquerda radical, a das “causas fracturantes” e “identitárias”, mesmo quando se presume de marxista, abandonou há muito aspectos essenciais da interpretação marxista do mundo, em particular a ideia central de que é a relação de exploração entre o capital e o trabalho que define a forma actual da luta de classes. Ou seja, que há inscrito no capitalismo uma relação de exploração que só se elimina com a abolição da propriedade privada pela revolução. Não é uma pequena coisa, é o núcleo central da sua teoria, que Marx considerava ser “científica”.

Fê-lo, porque considerou que a teoria marxista estava ultrapassada e não correspondia às características da sociedade contemporânea, em particular àquilo a que se chama o mundo “pós-industrial”? Se fosse assim, poderia ter um ponto, mas não foi assim. Foi por uma deriva que os clássicos do marxismo (e, by the way, Cunhal e o PCP) classificariam com pouca ironia de “pequeno-burguesa”, com uma forte componente intelectual, mediática, de moda, do radical chic, que acompanha o progressivo abandono da sua relação com a tradicional base social da esquerda no mundo operário e nos sindicatos.

Resumindo de forma simplificada: a nação não conta, a religião não conta, a origem social não conta, a condição social não conta, a classe social conta cada vez menos, mas a raça, a cor, o sexo e o género contam muito, quase tudo. Essa política de “identidades” foi uma das responsáveis pelo desastre do Partido Democrático nos EUA nas eleições presidenciais de 2016, quando Hillary Clinton falava para as mulheres, os latinos, os LGBT, etc., etc., e Donald Trump falava para os americanos. Nós sabemos que Trump falava para os brancos e para os ricos, mais do que para os americanos e para os pobres, mas as palavras, o discurso e a retórica têm em democracia muito valor, inclusive para acabar com ela. E Trump nos EUA, e muitos dos mais reaccionários movimentos europeus, como a FN, ou os movimentos anti-imigração alemães, assim como os populistas do Leste revelaram capacidade de mobilizar essa base social de apoio que no passado era tida como sendo da esquerda. É verdade que esta era uma afirmação muitas vezes voluntarista, mas correspondia ao cânone do marxismo.

Em Portugal, quando se está num verdadeiro festival político de identidades, neste caso a propósito do racismo, o efeito de ocultação do discurso ideológico “anti-racista” sobre as questões de fundo esbate os problemas sociais, a exclusão, a marginalização. Sem dúvida, a cor da pele conta e agrava, mas as fontes do conflito são sociais antes de serem “identitárias”. Um negro rico, ou académico, ou yuppie, ou consultor financeiro é cada vez menos negro e um negro pobre é cada vez mais negro. Todos têm de lidar com a cor da pele, como os brancos em África, e o racismo é inaceitável, mas só a melhoria da condição social é eficaz para o combater.

E outro efeito das políticas “identitárias” é esconder também os fenómenos associados de deriva criminal, a pequena criminalidade, a receptação, o tráfico de droga, a imitação “identitária” dos gangs dos filmes televisivos, que tem que ver com a “resistência” à polícia. Acaso pensam que a defesa dos bairros, brancos e negros, como “território” em que a polícia não pode entrar é apenas um resultado do ódio à “bófia”? O resultado é que parece que falar disto é ser racista ou defensor da violência policial, ou seja, uma denegação da realidade, coisa que se paga sempre caro.

A política de “identidades” e das “causas fracturantes” foi um processo que facilitou a passagem de grupos revolucionários a reformistas. Para o Bloco de Esquerda não está mal, porque isso facilita a aproximação com o PS, cuja ala esquerda pensa o mesmo. O Bloco rende-se àquilo a que Rosa Luxemburgo chamava “movimento” em detrimento dos “fins”, que considerava a essência do reformismo, ou seja, o abandono da revolução, neste caso a favor de uma miríade de “causas”.

Facilita igualmente a integração de grupos anti-racistas, feministas, LGBT, de defesa dos animais, antiespecistas, muitos dos quais são fortemente subsidiados por dinheiros públicos. Eles podem colocar o rótulo de anticapitalista em tudo isto, mas é pouco mais do que um rótulo.

Sendo a política de “identidades” uma forma de reformismo, daí não vem nenhum mal ao mundo. Porém, tem um efeito perverso cujos custos a esquerda ainda não percebeu que está a e vai pagar: é fazer espelho com a outra política de “causas” da direita radical, os movimentos antiaborto e anti-imigrantes, a islamofobia a favor da “civilização cristã”, a mulher dona de casa, o anti-intelectualismo, a defesa dos valores “familiares”, o lobby pró-armas nos EUA, ou “as meninas são de cor-de-rosa e os rapazes de azul” dos Bolsonaros, os pró-tourada, os homofóbicos, etc. Acantonados nas suas “causas”, cada uma reforça a outra, o SOS Racismo dá forças ao PNR e vice-versa, e fora do “meio” destes confrontos, a nova direita “alt-right” ganha sempre mais força, porque é capaz de transformar isto tudo num discurso global através do populismo e a esquerda não.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | Capacidades destruídas e novos problemas

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
Na passada quarta-feira, intervindo como convidado num almoço da Associação 25 de Abril, o primeiro-ministro, António Costa, afirmou como "importante precaução" para o futuro a necessidade de se "continuar" a garantir "equilíbrio" entre as respostas aos problemas com que os portugueses se deparam, a redução da dívida e dos seus encargos e o assegurar de "contas certas".
Este objetivo político pressupõeque durante a atual legislatura esse equilíbrio foi garantido, questão a merecer uma atenta análise para se observar se foram justos, e os mais favoráveis para o país, os termos em que foi assegurado. Por outro lado, é hoje evidente que o cenário económico que se perspetiva no plano internacional pode colocar o país perante problemas novos, nomeadamente: redução do crescimento (no quadro da guerra comercial de Trump) em alguns dos principais mercados das exportações portuguesas, impactos negativos vindos do Brexit e o aumento das taxas de juro. No plano nacional tornaram-se prementes grandes investimentos nas áreas da saúde, da habitação, das mobilidades, do ensino e da justiça, bem como na recuperação geral das capacidades do Estado. Nestas áreas já não chegam pequenos acertos como o Governo fez (e bem) nesta legislatura. Vai ser preciso optar entre garantir direitos fundamentais aos portugueses, ou sermos simpáticos para com as imposições europeias e agradarmos aos mercados.
António Costa disse que, na saúde, o Governo "repôs todos os cortes" que tinham sido feitos no setor, provavelmente a pensar só no número total de trabalhadores e contando que serão cumpridas as promessas de recrutamento entretanto anunciadas. Há que dizer que os obstáculos a vencer de forma alguma se esgotam aí. Nos últimos oito anos os problemas agravaram-se muito e surgiram novos: o setor público foi desestruturado e os privados ganharam posições, há degradação e falta de equipamentos porque não houve o investimento necessário, os profissionais da saúde foram maltratados e escorraçados, desfizeram-se e enfraqueceram-se equipas multidisciplinares imprescindíveis, a população envelheceu exigindo agora mais e novas valências nos serviços, e os avanços científicos e técnicos trouxeram a necessidade de outros investimentos que nos permitem viver mais tempo e com melhor saúde.
O setor da habitação oferece um outro exemplo eloquente de como a resolução dos desequilíbrios causados pelo abandono de vários domínios da política social não se consegue fazer com políticas de pequenos acertos. Sobre este tema crucial, o Observatório sobre Crises e Alternativas promove, no próximo dia 22, em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, um oportuno debate 1 .
O hiato entre os rendimentos das pessoas e os preços de aquisição, ou de rendas das casas, é um obstáculo que se agudiza a cada dia que passa. Ele agrava os problemas da mobilidade nas áreas metropolitanas, expulsa os pobres que ainda restavam no centro das grandes cidades e as classes médias para as periferias, limita as aspirações dos jovens em vários planos. Tornaram-se insuportáveis, para milhares de famílias, os custos da habitação de um estudante nas principais cidades do país, quando é imperioso muitos mais jovens acederem ao Ensino Superior.
As políticas de incentivos e isenções fiscais para os proprietários, recentemente anunciadas para estimular o mercado de arrendamento, não resolvem o problema. A manutenção de todos os outros incentivos de atração do capital financeiro estrangeiro para o imobiliário através de programas como o Regime de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (vistos dourados), só acentua a crise habitacional. Na habitação o Governo tem uma escolha crucial a fazer: promover um mercado imobiliário internacional especulativo ou optar por uma política de provisão de habitação para os habitantes das grandes cidades, ao mesmo tempo que trata de outros problemas do setor, associados ao reordenamento do território.
A recuperação de capacidades destruídas e a resposta a novos problemas entretanto surgidos exigem políticas de alcance estratégico - não chegam pequenos acertos.
1 https://ces.uc.pt/eventos/habi-tacao-em-portugal
*Investigador e professor universitário

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-capacidades-destruidas-e-novos.html

Esquerda: a extrema e a radical

Há poucos dias, em entrevista concedida ao jornal online Observador, Catarina Martins afirmou, quando confrontada pelos entrevistadores com o uso qualificativo da expressão «extrema-esquerda», que esta «está associada a totalitarismos, perseguição, ódio», acrescentando que nada disso se encontra no Bloco de Esquerda. Afirmou preferir, se uma categoria houver mesmo de ser utilizada, a expressão «esquerda radical», uma vez esta ter mais a ver «com a raiz da esquerda, a raiz das lutas».

Passe a simplicidade da resposta, imprescindível numa entrevista em discurso direto, o que diz parece ir, de facto, ao encontro do que é hoje o Bloco. Não do que julgam absolutamente todos os seus militantes e simpatizantes, obviamente, mas do que o partido é e defende enquanto tal. É também esta a minha escolha, a do combate pelo que estruturou a raiz do socialismo e este nunca deveria ter abandonado, como por vezes aconteceu: a luta pela justiça, pela igualdade, pela liberdade, pela democracia, pela decência. Todas elas – substantivos femininos, já agora – e nem uma só a menos.

Todavia, a «extrema-esquerda» existe. Sendo múltipla, «uma galáxia ou uma nebulosa» como se lhe refere a politóloga Christine Pina, e também em evolução, pois parte da atual nada tem a ver com a que emergiu à tona da opinião pública mundial no ano de 1968, mantém uma atitude comum que é aquela próxima do chamado maximalismo. A linha que em política procura impor sempre o o máximo das reivindicações. Por princípio, recusa todos os consensos não obtidos dentro do que cada uma das suas partes entende como o «campo revolucionário», transformando os que dentro dele duvidam e divergem em apóstatas.

Neste sentido, combina algumas reivindicações justas com objetivos em regra deslocados, falando sobretudo para dentro, na lógica da seita, sem conseguir afinal atrair as «massas» ou os «trabalhadores» que tanto venera, embora falando em nome delas e deles. Desta «extrema-esquerda» encontramos em Portugal exemplos vários, desde pequenas organizações à esquerda do Bloco, e também de alguns ativismos, até aos setores do PCP que, na prática, seguem trajetos paralelos aos da direção partidária, continuando a ver a luta política como um eterno assalto ao Palácio de Inverno, ou como a sua Sierra Maestra. Nunca, de modo algum, algo menos que isso.

 

Imagem: Manifestação em Paris, 28 de Maio de 1968 (Photo Agip)

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/20/esquerda-a-extrema-e-a-radical/

Rosa Luxemburgo, mais atual que nunca?

Tamme de Boer, You Played Yourself, 2012
Em tempos de ultra-capitalismo, três de suas ideias destacam-se: só a revolta salvará o planeta; ela poderá partir das periferias do sistema – mas só em democracia as multidões transformarão o mundo e a si mesmas
Michael Löwy | Outras Palavras
Algumas palavras pessoais, a título de introdução. Descobri a Rosa Luxemburgo por volta de 1955, aos 17 anos, graças ao meu amigo Paulo Singer. Paulo explicou-se longamente a teoria do imperialismo, mas o que me atraiu mesmo foram os textos políticos que me passou, a crítica do centralismo, a visão revolucionária e democrática de Rosa Luxemburgo. Aderimos juntos a uma pequena organização “luxemburguista”, a Liga Socialista Independente, da qual também faziam parte Maurício Tragtenberg, Hermínio Sacchetta e, alguns anos depois, os irmãos Sader. Tínhamos um local de reuniões no centro de São Paulo que media 2×5 metros e cuja única ornamentação era um quadro com um desenho que representava Rosa Luxemburgo.
Nessa época, recebi da minha mãe um exemplar das cartas de prisão[fn]Rosa Luxemburgo, “Briefe” (Berlim, Verlag der Jugend-Internationale, 1927) que tinha trazido de Viena quando emigrou para o Brasil, o que me permitiu apreciar melhor a dimensão humana e generosa da revolucionária intransigente. Anos mais tarde, escrevi, sob a orientação de Lucien Goldmann, uma tese sobre o jovem Marx, apresentada na Sorbonne em 1964. Esta tese está disponível no Brasil com o título “A teoria da revolução do jovem Marx” (Boitempo, 2013), toda inspirada no marxismo de Rosa Luxemburgo. É uma paixão que dura até hoje.
Marxismo e a filosofia da práxis
Quando publicou as “Teses sobre Feuerbach” [Em “A ideologia alemã”, Boitempo 2007] de Marx, em 1888, Engels qualificou-as de “primeiro documento em que está depositado o germe genial de uma nova concepção do mundo”. Com efeito, nesse texto Marx supera dialeticamente – a famosa Aufhebung, negação/conservação/superação – o materialismo e o idealismo anteriores e formula uma nova teoria, que se poderia designar como filosofia da práxis. Enquanto os materialistas franceses insistiam que é necessário mudar as circunstâncias para que os seres humanos se transformem, os idealistas alemães acreditavam que, ao promover uma nova consciência nos indivíduos, se modifica depois a sociedade. Contra essas duas percepções unilaterais, que conduziam ao impasse – e à busca de um “Grande Educador” ou Salvador Supremo – Marx afirma na Tese III: “A coincidência da mudança das circunstâncias e da atividade humana, ou mudança de si mesmo [Selbstveränderung], pode ser apreendida e racionalmente compreendida apenas enquanto práxis revolucionária”. Por outras palavras: na prática revolucionária, na ação coletiva emancipadora, o sujeito histórico – as classes oprimidas – transforma ao mesmo tempo as circunstâncias materiais e sua própria consciência. Marx volta a essa problemática na Ideologia alemã, na qual escreve:
“A revolução, portanto, não é apenas necessária porque não há outro meio de derrubar a classe dominante, mas porque a classe subversiva [stürzende] pode ter êxito apenas por meio de uma revolução para se livrar de toda a velha merda [Dreck] e tornar-se assim capaz de efetuar uma nova fundação da sociedade.” Karl Marx e Friedrich Engels, “L’idéologie allemande” (Paris, Éditions Sociales, 1968), VI, p. 243. [Ed. bras.: “A ideologia alemã”, São Paulo, Boitempo, 2007.]
Isso significa que a autoemancipação revolucionária é a única forma possível de libertação: é só pela sua própria práxis, pela sua experiência na ação, que as classes oprimidas podem transformar a sua consciência, ao mesmo tempo que subvertem o poder do capital. É verdade que em textos posteriores, como, por exemplo, no famoso prefácio de 1857 à “Contribuição à Crítica da Economia Política” [em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], encontramos uma versão muito mais determinista, que vê a revolução como resultado inevitável da contradição entre forças e relações de produção, mas o princípio da autoemancipação dos trabalhadores continua a inspirar o pensamento político de Marx.
É Antonio Gramsci, nos “Cadernos da Prisão” [em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], que vai utilizar pela primeira vez a expressão “filosofia da práxis” para se referir ao marxismo. Afirmam alguns que isso seria apenas uma astúcia para enganar os guardas de prisão fascistas, que poderiam desconfiar de qualquer referência a Marx; mas esse argumento não explica porque não usou outra fórmula, como “dialética racional” ou “filosofia crítica”. Na verdade, com essa expressão, ele define de modo preciso e coerente o que distingue o marxismo como visão de mundo específica e distancia-se radicalmente das leituras positivistas e evolucionistas do materialismo histórico.
A filosofia da práxis no pensamento de Rosa Luxemburgo
Poucos marxistas do século XX estiveram tão próximos do espírito dessa filosofia marxista da práxis como Rosa Luxemburgo. Claro, ela não escrevia textos filosóficos nem elaborava teorias sistemáticas – como observa com razão Isabel Loureiro: “as suas ideias, dispersas em artigos de jornais, brochuras, discursos, cartas […] são muito mais respostas imediatas à conjuntura do que uma teoria lógica e internamente coerente”. Isabel Loureiro, “Rosa Luxemburgo: os dilemas da ação revolucionária” (São Paulo, Unesp, 1995, p. 23). Ainda assim, a filosofia da práxis, que ela interpreta de maneira original e criativa, é o fio condutor – no sentido elétrico da palavra – da sua obra e da sua ação enquanto revolucionária. Mas o seu pensamento está longe de ser estático: é uma reflexão em movimento, que se enriquece com a experiência histórica. Tentaremos reconstituir a evolução do seu pensamento usando alguns exemplos.
É verdade que os seus escritos são atravessados por uma tensão entre o determinismo histórico – a inevitabilidade da derrocada do capitalismo – e o voluntarismo da ação revolucionária. Isso aplica-se em particular aos seus primeiros trabalhos, anteriores a 1914; “Reforma ou revolução?”, de 1899, obra com que Rosa Luxemburgo se tornou conhecida no movimento operário alemão e internacional, é um exemplo claro dessa ambivalência. Contra Bernstein, insiste que a evolução do capitalismo se orienta no sentido de um desmoronamento (Zusammenbruch) e que esse desmoronamento é “a via histórica que conduz à realização da sociedade socialista”. Trata-se, em última análise, de uma variante socialista da ideologia do progresso linear e inevitável que dominou o pensamento ocidental desde a “Filosofia da Ilustração”. O que salva o seu argumento de um economicismo fatalista é a pedagogia revolucionária da ação: “Somente no curso […] de lutas demoradas e tenazes, poderá o proletariado chegar ao grau de maturidade política que lhe permita obter a vitória definitiva da revolução”. Rosa Luxemburgo, “Reforma ou revolução?” (São Paulo, Expressão Popular, 1999), p. 24, 41 e 105. Cito a tradução brasileira, de Lívio Xavier, bela figura militante e intelectual que ainda cheguei a conhecer.
Essa pedagogia dialética da luta é também um dos principais eixos da polémica com Lenine, em 1904:
“É apenas no decorrer da luta que o exército do proletariado se recruta e que toma consciência dos fins dessa luta. A organização, a conscientização [Aufklärung] e o combate não são fases distintas, mecanicamente separadas no tempo […] mas apenas aspectos diversos de um único e mesmo processo.”
É claro que a classe se pode se equivocar no decurso desse combate, mas, em última análise, “os erros cometidos por um movimento realmente revolucionário são histórica e infinitamente mais fecundos e valiosos que a infalibilidade do melhor ‘Comité Central’”.
A autoemancipação dos oprimidos implica a autotransformação da classe revolucionária por sua experiência prática; esta, por sua vez, produz não só à consciência – tema clássico do marxismo –, mas também à vontade:
“O movimento histórico-universal [Weltgeschichtlich] do proletariado até à sua vitória é um processo cuja particularidade reside no fato de que aqui, pela primeira vez na história, as próprias massas populares impõem a sua vontade contra as classes dominantes […]. Entretanto, as massas não podem conquistar essa vontade senão na luta quotidiana com a ordem estabelecida, isto é, no quadro dessa ordem”. Idem, “Organisationsfragen der russischen Sozialdemokratie” (1904), em “Die Russische Revolution” (Frankfurt, Europäische Verlagsanstalt, 1963), p. 27-8, 42 e 44. [Ed. bras.: “ARevolução Russa”, Petrópolis, Vozes, 1991.]
Poderíamos comparar a visão de Lenine com a de Rosa Luxemburgo na seguinte imagem: para Vladimir Ilitch, redator do jornal Iskra, a centelha revolucionária é trazida pela vanguarda política organizada, de fora para dentro das lutas espontâneas do proletariado; para a revolucionária judia polaca, a centelha da consciência e da vontade revolucionária acende-se no combate, na ação de massas. É verdade que a sua visão de partido como expressão orgânica da classe correspondia mais à situação na Alemanha do que na Rússia ou na Polônia, onde já se colocava a questão da diversidade de partidos em relação ao socialismo.
Os eventos revolucionários de 1905 no Império Russo czarista vão amplamente confirmar Rosa Luxemburgo na sua convicção de que o processo de tomada de consciência das massas operárias resulta menos da atividade “esclarecedora” do partido do que da experiência de ação direta e autônoma dos trabalhadores:
“É o proletariado que vai derrubar o absolutismo na Rússia. Mas o proletariado necessita para isso de um alto grau de educação política, de consciência de classe e de organização. Todas essas condições não podem surgir da leitura de panfletos e brochuras, mas somente na escola da luta e na luta política viva, no curso da revolução em marcha. […] O súbito levantamento geral [Generalerhebung] do proletariado em janeiro, sob a forte impulsão dos acontecimentos de São Petersburgo, foi, na sua ação dirigida para o exterior, um ato político de declaração de guerra revolucionária ao absolutismo. Mas essa primeira ação geral direta da classe teve um impacto ainda maior numa direção interna, despertando pela primeira vez, como que por um choque elétrico [einen elektrischen Schlag], o sentimento e a consciência de classe em milhões e milhões de indivíduos”. Idem, “Massenstreik, Partei und Gewerkschaften”, em “Gewerkschaftskampf und Massenstreik” (Berlim, Vereinigung Internationaler Verlagsanstalten, 1928, p. 426-7) [ed. bras.: “Greve de massas, partido e sindicatos”, São Paulo, Kayros, 1979]. Trata-se de uma coletânea de ensaios de Rosa Luxemburgo sobre a greve de massas, organizada por seu excelente discípulo e biógrafo Paul Frölich, expulso nos anos 20 do Partido Comunista. Consegui esse livro num alfarrabista em Tel-Aviv; o exemplar tinha o carimbo do Kibutz Ein Harod, “Seminário de Ideias, Biblioteca Central”. O proprietário do livro era, sem dúvida, um esquerdista judeu alemão que emigrou para a Palestina em 1933 e entregou sua biblioteca ao kibutz onde se instalou. Com a morte dos velhos militantes do kibutz, e como a nova geração não lê alemão, a biblioteca vendeu ao alfarrabista o seu stock de livros na língua de Marx.
É verdade que a fórmula polémica sobre “panfletos e brochuras” parece subestimar a importância da teoria revolucionária nesse processo; por outro lado, a atividade política de Rosa Luxemburgo, que consistia em grande parte na redação de artigos de jornais e de brochuras – sem falar de suas obras teóricas no campo da economia política – demonstra, sem dar margem a dúvidas, o significado decisivo que atribuía ao trabalho teórico e à polémica política no processo de preparação da revolução.
Na famosa brochura de 1906 sobre a greve de massas [publicado em “As Armas da Crítica”, Boitempo 2012], Rosa Luxemburgo ainda utiliza os argumentos deterministas tradicionais: a revolução ocorrera “com a necessidade de uma lei da natureza”. Mas a sua visão concreta do processo revolucionário coincide com a teoria da revolução de Marx, tal como ele a desenvolve na Ideologia alemã, obra que ela não conhecia, já que só foi publicada após a sua morte: a consciência revolucionária não se pode generalizar senão no curso de um movimento “prático”, a transformação “maciça” dos oprimidos só pode se generalizar no decorrer da própria revolução. A categoria da práxis – que, para ela e para Marx, é a unidade dialética entre o objetivo e o subjetivo, a mediação pela qual a classe em si se torna para si – permite superar o dilema paralisante e metafísico da social-democracia alemã, entre o moralismo abstrato de Bernstein e o economicismo mecânico de Kautsky: enquanto, para o primeiro, a mudança “subjetiva”, moral e espiritual dos “homens” é a condição do advento da justiça social, para o segundo é a evolução econômica objetiva que leva “fatalmente” ao socialismo. Isso permite entender melhor por que razão Rosa Luxemburgo se opunha não só aos revisionistas neokantianos, mas também, a partir de 1905, à estratégia de “atentismo” passivo defendida pelo assim chamado “centro ortodoxo” do partido.
Essa mesma visão dialética da práxis é que lhe permite superar o tradicional dualismo encarnado no Programa de Erfurt do Partido Social-Democrata Alemão entre as reformas (ou o “programa mínimo”) e a revolução (ou o “objetivo final”). Pela estratégia da greve de massas que ela propõe em 1906 – contra a burocracia sindical – e em 1910 – contra Kautsky –, Rosa Luxemburgo encontra precisamente o caminho capaz de transformar as lutas econômicas ou o combate pelo sufrágio universal num movimento revolucionário geral.
Ao contrário de Lenine, que distingue a “consciência sindical” da “consciência social-democrata”, ela sugere uma distinção entre a consciência teórica latente, característica do movimento operário no período de dominação do parlamentarismo burguês, e a consciência prática e ativa, que surge no processo revolucionário, quando as próprias massas, e não apenas os deputados e dirigentes do partido, aparecem na cena política, cristalizando a sua “educação ideológica” diretamente na práxis; é graças a essa consciência prático-ativa que as camadas menos organizadas e mais atrasadas se podem tornar, num período de luta revolucionária, o elemento mais radical. Dessa premissa decorre a sua crítica àqueles que baseiam a sua estratégia política numa superestimação do papel da organização na luta de classes – o que é acompanhado em geral da subestimação do proletariado não organizado –, esquecendo a ação pedagógica da luta revolucionária: “Seis meses de revolução farão mais para a educação das massas atualmente não organizadas do que dez anos de reuniões públicas e distribuição de panfletos”. Ibidem, p. 455-7.
Então, Rosa Luxemburgo é espontaneísta? Não é bem assim. Na brochura sobre “Greve de massas, partido e sindicatos” (1906) [em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], ela insiste que o papel da “vanguarda consciente” não é esperar “com fatalismo” que o movimento popular espontâneo “caia do céu”. Ao contrário, seu papel é precisamente “preceder [vorauseilen] a evolução das coisas e tentar acelerá-la”. Ela reconhece que o partido socialista deve tomar “a direção política” da greve de massas, o que consiste em “dar à batalha a sua palavra de ordem, a sua tendência, assim como a tática da luta política”; chega a afirmar que a organização socialista é “a vanguarda [Vorhut] dirigente de todo o povo trabalhador” e que “a clareza política, a força, a unidade do movimento resultam precisamente dessa organização”. Ibidem, p. 445 e 457.
É interessante observar que a organização polaca dirigida por Rosa Luxemburgo e Leo Jogiches, o Partido Social-Democrata do Reino da Polónia e Lituânia (SDKPiL), clandestina e revolucionária, tinha mais semelhanças com o partido bolchevique do que com a social-democracia alemã. Deve-se também levar em conta, na discussão das concepções organizacionais de Rosa Luxemburgo, as suas teses sobre a Internacional como partido mundial centralizado e disciplinado, propostas num documento redigido em 1914, após o colapso da Segunda Internacional. Por uma ironia da história, Karl Liebknecht, numa carta à amiga Rosa Luxemburgo, censurou essa concepção da nova Internacional como sendo “demasiado centralista e mecânica”, com “‘disciplina’ em excesso e muito pouca espontaneidade”, considerando as massas “demasiados instrumentos da ação, não portadoras de vontade; mais como instrumentos da ação desejados e decididos pela Internacional, e menos desejados e decididos por elas mesmas”. Ver Karl Liebknecht, “À Rosa Luxemburg: remarques à propos de son projet de thèses pour le groupe ‘Internationale’”, Partisans, n. 45, jan. 1969, p. 113.
O otimismo determinista (econômico) da teoria do Zusammenbruch, a derrocada do capitalismo como vítima das suas próprias contradições, não desaparece dos seus escritos, mas, ao contrário, encontra-se no centro da sua grande obra econômica “A acumulação do capital” [trecho em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], de 1911. O texto que vai superar essa visão tradicional do movimento socialista do começo do século é a brochura “A Crise da Social Democracia”, escrita na prisão em 1915, publicada na Suíça em janeiro de 1916 e assinada com o pseudônimo Junius. Esse documento, graças à palavra de ordem “socialismo ou barbárie”, é um marco na história do pensamento marxista. Curiosamente, o argumento de Rosa Luxemburgo começa por se referir às “leis inalteráveis da história”; ela observa que a ação do proletariado “contribui para determinar a história”, mas parece acreditar que se trata apenas de “acelerar ou retardar” o processo histórico. Até aqui, nada de novo!
Logo em seguida, porém, ela compara a vitória do proletariado a “um salto da humanidade do reino animal para o reino da liberdade”, acrescentando: esse salto não será possível “se a faísca incendiária [zündende Funke] da vontade consciente das massas não surgir das circunstâncias materiais que são fruto do desenvolvimento anterior”. Aqui aparece então a famosa Iskra, essa centelha da vontade revolucionária que é capaz de fazer explodir a pólvora seca das condições materiais. Mas o que produz essa zündende Funke? É graças a uma “grande cadeia de poderosas lutas” que “o proletariado internacional fará o seu aprendizado sob a direção da social-democracia e tentará tomar em suas mãos a sua própria história [seine Geschichte]”. Rosa Luxemburgo, “Brochura Junius”, em “Rosa, a vermelha” (2. ed., São Paulo, Busca Vida, 1988), p. 114-5, corrigido pelo original alemão Die Krise der Sozialdemokratie von Junius (Bern, Unionsdruckerei, 1916), p. 11. Essa cópia da edição original pertenceu ao meu professor e orientador Lucien Goldmann; recebi-a recentemente da sua viúva, Annie Goldmann. Por outras palavras: é na experiência prática da luta que se acende a centelha da consciência revolucionária dos oprimidos e explorados.
Ao introduzir a expressão “socialismo ou barbárie”, Junius refere-se à autoridade de Engels num escrito de “quarenta anos atrás” (o “Anti-Dühring”): “Friedrich Engels disse certa vez: ‘A sociedade burguesa acha-se num dilema: avanço ao socialismo ou regressão à barbárie’”.[1] Na verdade, o que Engels disse é bastante diferente:
“As forças produtivas engendradas pelo modo de produção capitalista moderno, assim como o sistema de repartição dos bens que criou, entraram em contradição flagrante com o modo de produção em si, e isso a tal grau que se torna necessária uma mudança do modo de produção e de repartição, se não quisermos ver toda a sociedade moderna perecer”.[2]
O argumento de Engels – essencialmente económico e não político, como o de Junius – é bem mais retórico, uma espécie de demonstração por absurdo da necessidade do socialismo, senão a sociedade moderna vai “perecer” – fórmula vaga que não se sabe bem a que se refere. Na verdade, foi Rosa Luxemburgo quem inventou, no sentido pleno da palavra, a expressão “socialismo ou barbárie”, que teria tanto impacto no curso do século XX. Se se refere a Engels, é talvez para tentar dar legitimidade maior a uma tese bastante heterodoxa. Evidentemente, foi a guerra – e o desmoronamento do movimento operário internacional, em agosto de 1914 – que terminou abalando sua convicção na vitória inevitável do socialismo. Nos parágrafos seguintes, Junius desenvolve seu ponto de vista inovador:
“Encontramo-nos hoje, tal como profetizou Engels há uma geração, diante da terrível opção: ou triunfa o imperialismo, provocando a destruição de toda a cultura e, como na Roma Antiga, o despovoamento, a desolação, a degeneração, um imenso cemitério, ou triunfa o socialismo, ou seja, a luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo, os seus métodos, as suas guerras. Tal é o dilema da história universal, a sua alternativa de ferro, a sua balança a oscilar no ponto de equilíbrio, aguardando a decisão do proletariado”.
Pode-se discutir o significado do conceito de “barbárie”: trata-se, sem dúvida, de uma barbárie moderna, “civilizada”, portanto a comparação com a Roma Antiga é pouco útil e, nesse caso, a afirmação da brochura Junius revela-se profética: o fascismo alemão, manifestação suprema da barbárie moderna, resultou da derrota do socialismo. Contudo, o mais importante na fórmula “socialismo ou barbárie” é a palavra “ou”: trata-se do princípio de uma história aberta, de uma alternativa ainda não decidida (pelas “leis da história” ou da economia), que depende, em última análise, de fatores “subjetivos”: a consciência, a decisão, a vontade, a iniciativa, a ação, a práxis revolucionária. Não insisto mais porque escrevi já há muitos anos um artigo sobre essa questão.[3] Como aponta Isabel Loureiro no seu belo livro, é verdade que mesmo na brochura Junius, assim como em textos posteriores de Rosa Luxemburgo, ainda encontramos referências ao colapso inevitável do capitalismo, à “dialética da história” e à “necessidade histórica do socialismo”.[4] Mas de alguma maneira, com a fórmula “socialismo ou barbárie”, colocavam-se as bases de uma outra concepção da “dialética da história”, distinta do determinismo econômico e da ideologia iluminista do progresso inevitável.
Voltamos a encontrar a filosofia da práxis no centro da polêmica de 1918 sobre a Revolução Russa – outro texto capital redigido atrás das grades da prisão. O teor desse documento é conhecido: de um lado, o apoio aos bolcheviques, que, com Lenine e Trotsky à frente, salvaram a honra do socialismo internacional, ousando a Revolução de Outubro; de outro, um conjunto de críticas, algumas bastante discutíveis, como as questões agrária e nacional, e outras, como o capítulo da democracia, que aparecem como proféticas. O que preocupa a revolucionária judia polaco alemã é, acima de tudo, a supressão das liberdades democráticas pelos bolcheviques: liberdade de imprensa, de associação e de reunião, que são precisamente a garantia da “atividade política das massas operárias”; sem elas, “é inconcebível a dominação das grandes massas populares”. As tarefas gigantescas da transição ao socialismo – “às quais os bolcheviques se apegaram com coragem e resolução” – não podem ser realizadas sem “uma intensa educação política das massas e uma acumulação de experiências”, impossíveis sem liberdades democráticas. A construção de uma nova sociedade é uma “terra virgem”, que levanta “problemas para milênios”; ora, “só a experiência é capaz de trazer as correções necessárias e abrir novos caminhos”. O socialismo é um produto histórico “nascido da própria escola da experiência”: o conjunto das massas populares (Volksmassen) deve participar nessa experiência, de outro modo “o socialismo é decretado, outorgado, por uma dezena de intelectuais reunidos em torno de um pano verde”. Para os inevitáveis erros do processo, “o único sol curativo e purificador é a própria revolução e o seu princípio renovador, a vida espiritual, a atividade e a autorresponsabilidade [Selbstverantwortung] das massas que surgem com ela e formam-se na mais ampla liberdade política”.[5]
Esse argumento é muito mais importante do que o debate sobre a Assembleia Constituinte, no qual se concentraram as objeções “leninistas” ao texto de 1918. Sem liberdades democráticas é impossível a práxis revolucionária das massas, a autoeducação popular pela experiência prática, a autoemancipação revolucionária dos oprimidos e o próprio exercício do poder pela classe trabalhadora.
Georg Lukács, no seu importante ensaio “Rosa Luxemburgo marxista”, de janeiro de 1921, mostra com grande agudeza como, graças à unidade da teoria e da práxis (formulada “por Marx nas suas Teses sobre Feuerbach”), Rosa Luxemburgo conseguiu superar o dilema da impotência dos movimentos social-democratas, “o dilema do fatalismo das leis puras e da ética das puras intenções”. O que significa essa unidade dialética?
Da mesma forma que o proletariado como classe não pode conquistar e guardar a sua consciência de classe, elevar-se ao nível da sua tarefa histórica (objetivamente dada) senão no combate e na ação, o partido e o militante individual não podem apropriar-se realmente da sua teoria senão ao passar essa unidade na sua práxis.[6]
Portanto, é surpreendente que, apenas um ano mais tarde, em janeiro de 1922, Lukács redija o ensaio “Comentários críticos sobre a crítica da Revolução Russa em Rosa Luxemburgo”, que também acaba por figurar em “História e consciência de classe” e em que rejeita na totalidade o conjunto dos comentários dissidentes da fundadora da Liga Espártaco, afirmando, ainda por cima, que ela “representa a revolução proletária nas formas estruturais das revoluções burguesas”[7] – uma acusação pouco credível, como mostra Isabel Loureiro.[8] Como explicar a diferença, no tom e no conteúdo, entre o ensaio de janeiro de 1921 e o de janeiro de 1922? Uma conversão rápida ao leninismo ortodoxo? Possivelmente, mas também entra em jogo a posição de Lukács em relação aos debates do comunismo alemão. Paul Levi, principal dirigente do Partido Comunista Alemão, tinha se oposto à “Ação de Março de 1921”, uma tentativa fracassada de insurreição comunista na Alemanha, que teve o apoio entusiasmado de Lukács, mas foi criticada por Lenine. Excluído do partido, Paul Levi decide publicar em 1922 o manuscrito sobre a Revolução Russa, que Rosa Luxemburgo lhe tinha confiado em 1918. A polêmica de Lukács em relação a esse documento é também, indiretamente, um acerto de contas com Paul Levi.
Na verdade, o capítulo sobre democracia desse folheto de Rosa Luxemburgo é um dos textos mais importantes do marxismo, do comunismo, da teoria crítica e do pensamento revolucionário no século XX. E difícil imaginar uma refundação do socialismo no século XXI que não tenha em conta os argumentos desenvolvidos nessas páginas febris. Os representantes mais inteligentes do leninismo e do trotskismo, como Ernest Mandel, reconheciam que essa crítica de 1918 ao bolchevismo, no que diz respeito à questão das liberdades democráticas, era, em última análise, justificada. É óbvio que a democracia à qual se refere Rosa Luxemburgo é a exercida pelos trabalhadores num processo revolucionário, e não a “democracia de baixa intensidade” do parlamentarismo burguês, na qual as decisões importantes são tomadas por banqueiros, empresários, militares e tecnocratas.
A zündende Funke, a centelha incendiária de Rosa Luxemburgo, brilhou uma última vez em dezembro de 1918, na conferência do congresso de fundação do Partido Comunista Alemão (Liga Espártaco). Ainda encontramos nesse texto referências à “lei do desenvolvimento objetivo e necessário da revolução socialista”, mas trata-se, na realidade, da “amarga experiência” que várias forças do movimento operário têm de fazer antes de encontrarem o caminho revolucionário. As últimas palavras dessa memorável conferência são diretamente inspiradas pela perspectiva da práxis autoemancipadora dos oprimidos:
“É só exercendo o poder que a massa aprende a exercer o poder. Não há outra maneira de ensinar-lhe. Nós já superamos, felizmente, o tempo em que se pretendia ensinar o socialismo ao proletariado. Aparentemente, esse tempo ainda não passou para os marxistas da escola de Kautsky. Educar as massas queria dizer: fazer-lhes discursos, difundir panfletos e brochuras. Não, a escola socialista dos proletários não necessita de nada disso. A sua educação faz-se quando eles passam à ação [zur Tat greifen]”.
Aqui Rosa Luxemburgo refere-se a uma famosa frase de Goethe: Am Anfang war die Tat! No começo de tudo não se encontra o Verbo, mas a Ação! Nas palavras da revolucionária marxista: “No começo era a Ação, tal é aqui nossa divisa; e a ação é quando os conselhos de operários e de soldados se sentem chamados a tornarem-se a única força pública do país e aprendem a sê-lo”.[9] Poucos dias depois, ela seria assassinada pelos paramilitares (Freikorps) mobilizados pelo governo social-democrata contra a insurreição dos operários espartaquistas de Berlim.
Rosa Luxemburgo não era infalível, cometeu erros como qualquer ser humano e qualquer militante, e as suas ideias não constituem um sistema teórico fechado, uma doutrina dogmática para ser aplicada em qualquer lugar e em qualquer época. Mas, sem dúvida, o seu pensamento é uma caixa de ferramentas preciosa para tentar desmontar a máquina capitalista que nos tritura. Não é por acaso que ela se tornou nos últimos anos, em particular na América Latina, uma das referências mais importantes do debate acerca de um socialismo do século XXI, capaz de superar os impasses das experiências, reivindicando o socialismo do século passado, seja a social-democracia, seja o estalinismo. A sua oposição irreconciliável ao capitalismo e ao imperialismo, a sua concepção de um socialismo revolucionário e ao mesmo tempo democrático, baseado na práxis autoemancipadora dos trabalhadores, na autoeducação pela experiência e pela ação das grandes massas populares, é de uma impressionante atualidade, sobretudo no Brasil e na América Latina.
Dizem os jornais que recentemente, noventa anos após a sua morte, o seu corpo teria sido encontrado. Haverá um novo enterro de Rosa Luxemburgo? Por mais que a enterrem uma e outra vez, não conseguirão libertar-se de seu espectro. Ninguém conseguirá apagar a centelha incendiária das suas ideias.
Artigos originalmente publicados no número 15 da revista semestral Margem Esquerda – Ensaios Marxistas da Boitempo, com o título, “A centelha se acende na ação: a filosofia da práxis no pensamento de Rosa Luxemburgo”, e republicado a 5 de março de 2015 no Blog da Boitempo
Notas:
1 Ibidem, p. 115.
2 Friedrich Engels, Anti-Dühring (Boitempo, 2015).
3 Michael Löwy, “O significado metodológico da fórmula ‘socialismo ou barbárie’”, em Método dialético e teoria política (3. ed., São Paulo, Paz e Terra, 1985).
4 Isabel Loureiro, Rosa Luxemburg, cit., p. 123.
5 Rosa Luxemburgo, “A Revolução Russa”, em Rosa, a vermelha, cit., p. 217-22, corrigido pelo original alemão, Die Russische Revolution, cit., p. 73-6.
6 Georg Lukács, “Rosa Luxemburg, marxiste”, em Histoire et conscience de classe (Paris, Minuit, 1960), p. 65. [Ed. bras.: História e consciência de classe, São Paulo, Martins Fontes, 2003.]
7 Ibidem, p. 321.
8 Isabel Loureiro, Rosa Luxemburg, cit., p. 85-8.
9 Rosa Luxemburgo, “Rede zum Programm der KPD (Spartakusbund)”, em Ausgewählten Redenund Schriften (Berlim, Dietz Verlag, 1953), Band II, p. 687. A edição que estou utilizando aqui tem uma história curiosa: trata-se de uma coletânea de ensaios de Rosa Luxemburgo editada pelo “Marx-Engels-Lenin-Stalin Institut beim ZK der SED”, com prefácio de Wilhelm Pieck, dirigente stalinista da República Democrática Alemã, e introduções de Lenin e Stalin, com críticas aos “erros” da autora. Comprei esse exemplar num sebo e descobri que trazia uma dedicatória em inglês, datada de 1957, assinada por “Tamara e Isaac” – sem dúvida, Tamara e Isaac Deutscher –, em que pediam desculpas por não terem encontrado uma edição sem todas essas supérfluas “introduções”!
Publicado originalmente em Esquerda.net
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/rosa-luxemburgo-mais-atual-que-nunca.html

Boaventura: Adeus ao futuro?

Revolta dos escravos no Haiti. Revolução cubana. Levante zapatista. Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regridiremos agora aos Bolsonaros?
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo. Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo. Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas. Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.
No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético. Tal como Lênin quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida. O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel. Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA. Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”. A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes lideres: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar. Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil) mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo. No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.
Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos. Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo. O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um ativista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde caberiam muitos mundos”. Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o caráter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.
Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação. Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, reinaugurações de um passado que se julgava superado. O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à revolução francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade. Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo. Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita. Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas. Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/boaventura-adeus-ao-futuro.html

Sair da sombra

Segundo Pedro Santana Lopes, “no ano em que se celebram 30 anos da queda do muro de Berlim, parece que se reforça o ocaso das esquerdas”. Santana Lopes pode não ser Francis Fukuyama, e uma coisa são os desejos e outra as realidades, mas convenhamos que as coisas não estão realmente fáceis. Entretanto, aproveito para repescar para este ano um artigo do ano passado, publicado no número especial da Revista Crítica de Ciências Sociais, celebrando o quadragésimo aniversário do Centro de Estudos Sociais, onde argumento precisamente que continuamos a viver na sombra intelectual e política de 1989. Sair dessa sombra, implica superar um conjunto de instituições entretanto criadas, particularmente europeias, entendidas também como hábitos arreigados e demasiado partilhados de pensamento, rearticulando neste continente as questões nacional e social e voltando a meter medo às elites do poder, às do centro do império e as que, a partir da periferia, se imaginam no centro. Sim, o império pós-democrático é hoje a única alternativa ao Estado nacional, ou seja, à condição necessária da democracia. Se estes hábitos não forem superados, temo bem que Lopes, tal como Fukuyama antes dele, possa vir a ter razão.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Fim da linha?

Parece que a social-democracia na UE chegou ao fim da linha quando o “guião” para os trabalhos da sua conferência, realizada no passado fim-de-semana em Lisboa, resultou do trabalho de uma “comissão independente para a igualdade sustentável”. A força do hegemónico consenso de Bruxelas e da sua novilíngua revela-se nos nomes das coisas. Parece que a social-democracia chegou ao fim da linha quando ainda decide participar na farsa da “eleição” do Presidente da Comissão Europeia e com Frans Timmermans como “candidato”, ou seja, com a versão em negócios estrangeiros de Dijsselbloem, ambos membros de um agora merecidamente pequeno partido holandês, indicando portanto aos outros o seu provável futuro. Parece que a social-democracia chegou ao fim da linha, graças sobretudo à integração europeia irremediavelmente neoliberal, quando a grande esperança no regresso às suas raízes, Jeremy Corbyn, escreve um artigo para o ilegível The Guardian, onde toma o comércio internacional “sem fricções” como uma referência para o Brexit, o que está em flagrante contradição com certos aspectos do seu programa, incluindo as ajudas de Estado aí afloradas, parte de uma necessária política industrial. Espero que seja tudo táctica para trabalhista europeísta, uma contradição nos termos, ver. Veremos. Entretanto, Brexit só há um e é duro, como agora se diz de forma manipuladora, aliás como dura será sempre a luta democrática contra a lógica pós-democrática do mercado único. Parece que a social-democracia chegou ao fim da linha quando Geórgios Papandreou, o da pasokização, lidera um apelo a Corbyn, publicado no The Guardian, para que cometa suicídio político, lutando pela manutenção do Reino Unido na UE, travando o Brexit. Só por cinismo se compreende que Assis subscreva tal apelo. Afinal de contas, a UE é o fim da social-democracia, o fim de Corbyn. E por falar em cinismo euro-liberal, que dizer do discurso pretensamente idealista do dirigente social-democrata Augusto Santos Silva, que pelos vistos desconhece o pretensamente realista Ministro dos Negócios Estrangeiros português Augusto Santos Silva? Enfim, parece que a social-democracia chegou ao fim da linha quando o partido socialista deste país é uma referência para o resto. O governo deste país aprovou recentemente a transposição do pacote europeu de liberalização da ferrovia. O fim da linha passa de metáfora a realidade...

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Num mundo ideal

Era tão bom que o mundo fosse tão diferente do que é! Há sempre um hiato significativo entre as realidades e o que desejamos, que elas configurassem! Mesmo que, às vezes - e a formação da atual maioria parlamentar há três anos, ou a manhã clara e limpa de 1974 são disso exemplo! - tenham correspondido à quase sintonia dos sonhos com o então vivido.
Num mundo ideal o Bloco de Esquerda não precisaria de se valer de críticas ao Partido Socialista para conseguir os votos necessários e impor-se-lhe como parceiro do governo. Ora, António Costa tem toda a razão, quando alerta a pouca inteligência das esquerdas se decidirem digladiarem-se entre si no ano eleitoral que se aproxima.
Num mundo ideal essas mesmas esquerdas parlamentares, cada vez mais tentadas a questionarem as convergências destes três anos, não seriam tão ineptas que decidiram cortes de 140 milhões de euros às eólicas para os reverterem a favor dos consumidores, sem ponderarem que, afinal, esse dinheiro terá de ser devolvido a Bruxelas, donde terão vindo na forma de subsídios, agora por elas considerados ilegítimos.
Num mundo ideal os partidos das direitas não andariam tão à deriva, tão sem rumo, que não lhes resta alternativa senão a de mentirem insidiosamente. É o que continua a fazer Cristas, abespinhada pela medalha de ouro de despesista ofertada por António Costa, e daí lhe sair a velha falácia da responsabilidade do governo de Sócrates na dita bancarrota, como se não tivesse havido a crise dossubprimes, a falência da Lehman Brothers ou as indefinições da Comissão Europeia do arrivista Barroso, ora mandando gastar dinheiro à fartazana, ora impondo cortes brutais logo a seguir.
Num mundo ideal os mais de 334 mil desempregados seriam ainda menos, apesar de nunca terem sido tão poucos nos últimos cinco anos, e a metade deles que sobrevive, sabe-se lá como, sem quaisquer apoios do Estado, recebê-los-iam para se livrarem de parte substantiva das suas angústias.
Num mundo ideal a empresa de estiva turca, que mantém os seus trabalhadores numa precariedade revoltante, já teria perdido a concessão no porto de Setúbal sob o argumento de não contar com efetivos bastantes para cumprir os compromissos a que se vinculou, sendo substituída por outra com melhores práticas do que as de uberizarem quem exploram sem escrúpulo.
Os exemplos poderiam prosseguir por muitas mais linhas, mas fica a ideia geral: a realidade dissocia-se tanto mais do que desejamos quanto mais desistirmos de lutar por essa sintonia. O compromisso com a exigência de melhor futuro reside no que fazemos no dia-a-dia.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/11/num-mundo-ideal.html

Uma explicação política

(Luís Alves de Fraga, 23/11/2018)

ger2

Não tenho a pretensão de ensinar ninguém ou de saber mais do que todos, mas possuo um bem do qual, em regra, nem toda a gente usufrui e que aproveito ao máximo: tempo para pensar. Por isso, hoje vou tentar dar uma (de várias que se podem dar) explicação da actualidade política nacional.

Por certo, já repararam que este Governo é o primeiro, desde 25 de Novembro de 1975, que é apoiado no Parlamento pelos partidos de esquerda. Isto não faz dele um Governo de esquerda, mas leva-o a ser o que de melhor é possível fazer com a esquerda, em Portugal.

Ora, esta situação é, do ponto de vista político, um momento de RUPTURA com o passado, pois, se os Portugueses souberem votar nas eleições futuras de modo a manter esta maioria parlamentar de esquerda, tão próximo não teremos desgraças como foram todas aquelas provenientes de Governos de direita, onde tudo se fez para favorecer os interesses financeiros e nada se deu em troca para modificar, um pouco que fosse, a vida dos trabalhadores com pequenos ou médios rendimentos do seu trabalho.

Se a maioria se mantiver à esquerda, é sempre possível negociar a três (PS, PCP e BE) para encontrar soluções tendentes a equilibrar um pequeno país, pobre de recursos e com uma economia super frágil.

Uma consequência imediata da actual situação é o esvaziamento ideológico do PSD e o desespero em que vive o CDS/PP. É evidente e salta aos olhos de toda a gente, que não esteja cega pelo facciosismo partidário, que os partidos do centro-direita e direita andam à deriva sem encontrarem um rumo para fazer oposição efectiva e alternativa a este Governo.

Face a tal panorama, qual é a solução que adoptam? Vejamo-la, porque ela é subtil, insidiosa e capciosa.

Com o drama dos incêndios do ano passado desencadeou-se uma tentativa muito evidente de desacreditar o Governo com base em razões emocionais e, depois, com base em toda a casta de irregularidades e pormenores possíveis de imaginar – recordo, por exemplo, a questão da contagem dos mortos – para gerar à volta do Governo uma nuvem de irresponsabilidade e descrédito. Foi de tal ordem que a ministra da Administração Interna se viu obrigada a pedir a demissão. Se recordarmos o período anterior, ganhamos a certeza de uma oposição errática de Passos Coelho completamente à deriva, sem apoios de lado nenhum.

Entretanto, na falta de outra forma de desgaste, foi-se envenenando a opinião pública com as fugas de informação sobre o processo “Marquês”. Estava em rescaldo o assunto fogos e, de repente, sem se perceber exactamente o que havia acontecido, surge na imprensa o caso do roubo de material de guerra em Tancos. Caso que se reacendeu, meses depois, com implicações tais que levaram à demissão do ministro da Defesa e do Chefe do Estado-Maior do Exército.

No entretanto, à beira das férias de Verão e na falta de fogos, há a greve dos professores, assumindo posições irredutíveis. Há greves de enfermeiros no começo do Outono e, de novo, inconformidade dos professores; sucedem-se greves menores até estalar a ameaça da dos juízes e, de volta do orçamento, se tecerem reivindicações de toda a ordem. Mas, de permeio, vem à tona a questão de falta de investimentos em unidades hospitalares e a demissão de médicos por falta de condições de trabalho. Surgiu a situação da CP. Veio a greve dos oficiais de justiça, que paralisou os tribunais, a dos enfermeiros, a dos estivadores de Setúbal. Continuar é acrescentar um rol de factos, alguns de pequena importância ou grande importância (caixa de munições caída de uma camioneta dos fuzileiros, desaparecimento de material de um navio da nossa Armada) como a falência da estrada em Borba.

Em todas as situações a opinião pública foi sendo envenenada pelos órgãos de comunicação social de modo a reduzir a credibilidade do Governo, criando artificialmente a sensação de que ele é pior do que o de Passos Coelho, pois a memória colectiva é muito fraca e nela só prevalece o imediato.

Quem é que está por trás dos órgãos de comunicação social? Naturalmente, grandes interesses financeiros aos quais não satisfaz uma ruptura nos hábitos governativos, deslocando para a esquerda o que antes estava na direita.

Se tivermos em atenção que, numa perspectiva macro em Portugal, a “Geringonça”, ao contrário do esperado, fez um “milagre” económico e financeiro, esta é a manobra estratégica que a alta finança, se calhar até com a simpatia de vários sectores de Bruxelas, está a desenvolver, para, perante uma solução “ganhadora”, a médio prazo “rebentar” com o Governo e com futuros entendimentos de esquerda.

Não consegui ser mais conciso, mas creio ter posto a claro o cenário onde se estão a movimentar as forças da direita mal servidas pelos “seus” partidos políticos.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Ter ou não ter a maioria absoluta é a questão

Na sexta-feira, quando um dos canais televisivos dava conta da sondagem, que apontou para a aproximação do Partido Socialista à maioria absoluta, um camarada, com quem jantava na altura, manifestou o contentamento perante tal hipótese se traduzir em votos no dia das próximas legislativas.
Apesar de militante do partido do governo não sinto um particular entusiasmo com essa possibilidade, porque basta ver a desautorização à ministra da Cultura por uma parte do grupo parlamentar socialista para compreender quão heterogéneo é, nele cabendo quer quem se posiciona mais à esquerda e se sente consonante com a atual maioria parlamentar, quer os que a suportam com enfado por terem as mentes mais formatadas à direita. Porque António Costa tende sempre para a congregação das divergências internas em vez de concretizar a separação das de águas entre quem comunga da sua Visão e quem a vai suportando em silêncio, nada impediria de uma maioria absoluta, alicerçada num par de deputados, pender para um centrão, que, por toda a Europa vem significando o definhamento dos seus promotores em detrimento dos populistas de extrema-direita. Até porque, desde o primeiro minuto, os atuais parceiros da maioria parlamentar cuidariam de se colocar numa oposição tenaz, que acrescidos argumentos dariam a essa direita dentro do PS para se fazer maioritária nas propostas aprovadas no parlamento. Apesar de ser um dos defensores das touradas, Manuel Alegre outra coisa não diz na entrevista dada hoje ao «Diário de Notícias»: a solução política concretizada com sucesso nestes últimos três anos deve prolongar-se por muitos mais.
Desejo, pois que Bloco e CDU mantenham ou subam um pouco mais do patamar dos 7% em que atualmente se situam, de preferência à custa dos 33,8% atribuídos aos dois partidos das direitas ou dos quase oito por centro concentrados nas demais opções contempladas pela amostra. Mas não me iludo com o facto de subsistir, numa ou noutra possibilidade, uma oposição firme dos maiores detentores de riqueza a nível nacional, ansiosos pelo dia em que um qualquer Passos Coelho venha a aliviar-lhes as obrigações fiscais ou a eduzir os direitos dos que trabalham nas suas empresas. Para a maioria dos que se sentem agastados com a existência de um governo de maioria de esquerda em Portugal - que procuram desgastar nas suas televisões e jornais ou financiando centrais defake news - o ideal seria traduzir a toda a atividade laboral a modalidade imposta pela empresa Operestiva no porto de Setúbal. Ter trabalhadores há anos condenados a comparecerem diariamente numa autêntica praça da jorna e pagar-lhes mal em função da precariedade, que lhes impõem, seria o ideal para os senhores da CIP, da CAP e das demais associações patronais.
O que indigna muitos socialistas é ter-se chegado quase ao final da legislatura e nada se ter alterado nas relações laborais agora denunciadas com a paralisação do porto por onde se escoam os carros produzidos na Autoeuropa.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/11/ter-ou-nao-ter-maioria-absoluta-e.html

Portugal | O Bloco quer ser Governo. E isso não é um pormenor

Ricardo Costa | Expresso | opinião (crónica)
Bloco de Esquerda deixou oficialmente de ser um partido de protesto ou de oposição. O processo de “governamentalização” do BE começou em 2015 quando decidiu apoiar o Executivo minoritário socialista, consolidou-se nas sucessivas negociações orçamentais, ganhou forma no discurso dos seus dirigentes e terminou agora. A Convenção deste fim de semana passou a escrito aquilo que era progressivamente evidente: o Bloco sabe ao que vem e não tem receio de o dizer, pelo contrário, acha isso relevante para se diferenciar do PCP e, em simultâneo, não entregar o voto útil ao PS.

Se a estratégia é boa ou não, só as eleições o poderão mostrar. Mas esta mudança é muito relevante no nosso sistema partidário, que alarga oficialmente o chamado “arco da governação” e muda a história do Bloco para sempre. O partido – ou conjunto de partidos – viveu sempre sob o chamado dilema dos Verdes alemães: deve ou não um partido que já é muito relevante na influência do poder dar o salto para soluções de Executivos?

Pelos vistos, a resposta coletiva é sim. Francisco Louçã já afirmava isso há algum tempo. O ex-líder foi a candeia que alumiou o caminho de outros dirigentes, balanceando progressivamente o discurso de exigências com algumas cedências, mas sublinhando sempre as vitórias conseguidas. Esse passo no sentido da negociação e do compromisso foi um pouco afetado pelas autárquicas, mas apenas para ser retomado mais à frente.

Enquanto o PCP se foi mostrando cada vez menos inclinado a repetir a atual solução de Governo, o Bloco passou a querer influenciar a governação por dentro. Ou seja, perante os maus resultados das autárquicas, o PCP preferiu preparar o caminho de regresso à sua posição natural no xadrez partidário; ao contrário, o Bloco entendeu que deve ter uma posição mais afirmativa e arriscada.

É cedo para se perceber se o eleitorado leva a sério esta evolução e se ela joga a favor do Bloco. Mas esta mudança não é um pormenor. Depois da guinada à esquerda do PS e do apoio a um Governo por parte do PCP, esta é a terceira grande mudança da esquerda portuguesa em apenas três anos. Temos passado muito tempo a discutir a configuração da direita e do centro-direita, mas a verdade é que as alterações mais estruturais têm ocorrido todas à esquerda. E vão todas no sentido de alargar as soluções de poder.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/portugal-o-bloco-quer-ser-governo-e.html

Portugal | O voto útil renasce nas próximas eleições

Paulo Baldaia * | Jornal de Notícias | opinião

O voto útil da Esquerda no PS ou da Direita no PSD morreu, mas pode vir aí o voto útil do centrão e uma eventual maioria absoluta de António Costa pode ser conseguida assim.

Há um eleitorado moderado, receoso de uma excessiva influência da Esquerda no Governo do PS, votante tradicional no PSD ou no CDS, que pode aparecer disponível para contribuir para uma maioria absoluta dos socialistas. Não é possível saber ainda quanto vale esse eleitorado, mas é certo que ele existe e mais se fará notar com a expectativa de que a Direita está muito longe de conseguir formar uma maioria. Um voto útil para muitos eleitores sociais-democratas, sem vontade de votar no PSD por causa da permanente guerrilha em que vive o partido, ou mesmo para eleitores mais à Direita que não ouvem o canto de sereia de Assunção Cristas, com promessas de vitória, e que preferem uma maioria de Costa a uma maioria com o Bloco e o PCP lá dentro.

Na convenção do Bloco de Esquerda, Catarina Martins recordou a morte do voto útil e desejou paz à sua alma. Com a solução parlamentar encontrada à Esquerda em 2015, viabilizando o Governo de um partido que não tinha ganho as eleições, tornou-se evidente, de facto, que deixou de fazer sentido o voto útil à Esquerda no PS para impedir um Governo de Direita ou no PSD para impedir um Governo do PS. Mas, se esse voto útil morreu, as campanhas do Bloco e PCP podem fazer crescer um outro voto útil nas próximas eleições. Um voto que só é possível depois de desfeito o tabu sobre a possibilidade de Bloco e PCP fazerem parte de uma solução governativa. Agora com mero apoio parlamentar, no futuro com a expectativa de integrarem esse Governo.

A diferença em relação aos socialistas, que o Bloco e o PCP quiserem mostrar em campanha, será tão mais eficaz quanto mais estes partidos estiverem perto do seu ADN político. Para captarem a atenção deste eleitorado de Esquerda, bloquistas e comunistas vão ter de regressar a alguma radicalização das propostas com que viveram antes de dar a mão ao PS. Dizer que a política do BE "é incompatível com o Tratado Orçamental", como lembrou Marisa Matias, ao mesmo tempo que Joana Mortágua garante que o Bloco quer "um Governo de Esquerda, com um programa de Esquerda", serve para segurar eleitorado à Esquerda mas também empurra eleitores do centro para o PS, procurando dar-lhe uma maioria absoluta que o liberte de uma radicalização no Governo.

Em campanha, Catarina Martins vai ter de repetir que "a política mudou porque o PS não teve maioria absoluta". É uma faca de dois gumes, porque com isso lembrará aos eleitores de Esquerda que uma maioria socialista traz o perigo de uma deriva à Direita e essa mesma perceção servirá para muitos dos eleitores de Centro-Direita procurarem evitar a repetição de uma "geringonça", dando ao PS mais força do que tem hoje. Afinal, quando o Bloco de Esquerda, como já antes tinha feito o PCP, diz que o atual acordo das esquerdas não é repetível e acrescenta estar pronto a ir para o Governo, para esses eleitores que temem uma radicalização de Esquerda, o que importa é saber o que querem os bloquistas fazer no Governo. Ouvir Catarina Martins, na convenção deste fim de semana, clamar que "a urgência é derrotar o Tratado Orçamental", porque "quando os tratados atacam o povo, é preciso mudar os tratados", assusta os eleitores mais moderados, que podem querer evitar chatices com a União Europeia. Dar uma maioria absoluta ao PS pode parecer, para esses eleitores do centrão, a melhor forma de evitar um reforço da Esquerda no poder.
O voto útil está morto. Longa vida ao voto útil!

*Jornalista

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/portugal-o-voto-util-renasce-nas.html

Os dias da Esquerda Plural.

Parece-me perfeitamente legítimo que o BE queira crescer, queira diferenciar-se programaticamente, queira ir para o governo. E que faça tudo isso em preparação das próximas eleições.
O que já não me parece normal é que o BE esqueça que passou estes anos de maioria da esquerda plural a tentar arrecadar para si tudo o que de bom foi feito por este governo e este parlamento, e ao mesmo tempo a tentar assacar ao PS tudo aquilo que falta fazer ou que não era tão bom como os nossos desejos.
A Esquerda Plural só é possível se formos capazes de preservar as nossas diferenças e, ao mesmo tempo, ir encontrando caminhos comuns para fazer avançar o país e a vida concreta das pessoas. Para isso não cabe a pretensão de alguns a serem "a verdadeira esquerda" e todos os outros serem pura ilusão e engano. O BE sempre tratou o PS com essa arrogância - a mesma arrogância que, é certo, também existe aqui e ali no PS.
Devemos estar disponíveis para o debate - e a luta - política no seio da Esquerda Plural, porque só daí pode vir a força real. Da discussão nasce a luz, como diz o povo. Mas é inaceitável a ideia de que tudo o que foi possível nestes anos foi conseguido contra o PS - como pretendem certos discursos na Convenção do BE.
Como socialista, estou disposto ao debate. Sempre estive, como defensor que sou desta solução há décadas. Mas esse debate implica aprender alguma coisa com a realidade. Por exemplo, quando o BE continua a criticar o governo do PS por conciliar os compromissos europeus com os compromissos internos, devemos perguntar-nos se os portugueses teriam ganho mais com o estilo confrontacional do Syriza de Varoufakis ou se foi preferível ser duro quando foi necessário (assim travámos as sanções de Bruxelas) e construtor quando possível. Julgo que os portugueses têm uma resposta clara a essa questão.
Em suma: respeito a diversidade da Esquerda Plural (que é a minha esquerda), respeito a diferença dos outros partidos da maioria - mas não creio que sirva essa Esquerda Plural que se faça do PS o grande adversário.
Porfírio Silva, 11 de Novembro de 2018
 

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

Catarina Martins revela tensões com o PS mas assume vontade de fazer parte do Governo

No discurso de encerramento da Convenção do BE, Catarina Martins realçou desgosto nos «desacordos» com o PS e afirmou que quer «mais força para fazer parte do Governo».

CréditosJOSÈ SENA GOULÂO / LUSA

A coordenadora do BE, Catarina Martins, manifestou hoje a certeza de que o seu partido alcançará «a força para ser parte de um Governo quando o povo quiser» e manifestou que «os próximos tempos vão exigir muito mais», considerando ainda que a última legislatura ficou marcada por avanços mas também marcada por «desacordos» com o PS.

No que toca a avanços, a coordenadora do BE passou em revista várias das medidas conseguidas nesta legislatura, que estavam longe de corresponder ao programa do PS, realçando o papel de todos os partidos na solução política, como no plano da recuperação de rendimentos.

Num momento em que o Orçamento do Estado para 2019 está em plena fase de discussão na especialidade, na Assembleia da República, Catarina Martins voltou a destacar ainda alguns dos objectivos do seu partido, como o combate às rendas do sector energético ou a introdução da chamada «taxa Robles» sobre a especulação imobiliária.

Afirmando que no BE «gostamos de contratos escritos», referindo-se aos «desacordos» com o PS, Catarina Martins realçou ainda «momentos difíceis nesta legislatura». Nomeadamente, «​negociações prejudicadas por interesses económicos ilegítimos, houve desacordos sobre acordos», realçando o caso da redução da TSU para os patrões e o caso mais recente em que uma medida acordada entre ambas as partes (Taxa Robles) foi recusada e criticada no dia seguinte por António Costa.

Para a próxima legislatura, a coordenadora do BE destacou um total de cinco áreas de intervenção: Serviço Nacional de Saúde; no reforço do Estado Social; Ambiente; Energia e Banca; na criação de uma entidade reguladora da transparência.

No plano internacional, depois do anúncio de ontem que Marisa Matias vai encabeçar a candidatura ao parlamento europeu, a coordenadora do BE reiterou que a União Europeia está em crise, realçando o crescimento da extrema-direita pela Europa. Todavia, enquanto que as ameaças passadas de sanções a Portugal foram rechaçadas, o apoio do BE a futuras sanções sobre outros estados-membro foi omitido.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Acabem-se com os punhos de renda

Agora que o jagunço já conseguiu ganhar as eleições brasileiras sem sair de casa nem participar num único debate com Haddad é altura de pensar se as esquerdas podem continuar a manter o perfil baixo, que tem sido o seu perante a ininterrupta ascensão dos ideários fascistas. Nas guerras sempre se cumpriu a regra de, ou ter uma dinâmica ofensiva de vitória, ou optar pela defensiva, invariavelmente condenada a ser derrotada. É por isso que, perante diversos dirigentes do CDS, que se insurgiram contra Cristas por não confessar a simpatia efetiva pelo facínora brasileiro, deveria existir um repúdio firme demonstrando quão se revelam ideologicamente marginais.
Não é, porém, só essa gentalha do partido do táxi, que merece ser apodada de repugnante: qualquer andréventura, que se abalance a cavalgar ondas populistas tem de ser denunciado como um oportunista soez, com um pensamento inaceitável numa sociedade democrática.
O mesmo se diga dos polícias, que tiraram fotografias, insultaram o ministro Eduardo Cabrita nas redes sociais, se fizeram fotografar em amistosa reunião com o chefinho de um dos partidos abertamente fascistas existente entre nós e os que vieram justificar para as televisões as injuriosas fotografias dos três foragidos do Porto como se não lhes fossem reconhecidos direitos de cidadania pelo facto de serem «criminosos» - recorde-se que os polícias não podem substituir-se aos tribunais no julgamento de quem é suspeito de atos ilícitos. E não esqueçamos os que quiseram derrubar as barreiras, que os impediam de aceder à escadaria da Assembleia da República num ato simbólico equivalente a um golpe de Estado. O que falta para que todos esses indivíduos, desmerecedores de envergarem farda policial e de serem respeitados como guardiões da lei da República, sejam objeto de uma mais do que justa depuração?
E que anda o governo a fazer para cumprir o Artigo 46º da Constituição onde é claro o aí definido:“Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”? O que é feito da investigação aos motards, que andaram a semear desacatos há alguns meses atrás e identificados precisamente com esse tipo de organizações proibidas pela Constituição? O que anda a ser feito para acabar com esse ninho de fascistas, que são as claques dos clubes de futebol? Quando é que são mesmo esses mesmos clubes a, por uma questão de higiene, a porem fim a essas hordas de desordeiros?E por quanto tempo mais temos de ser insultados por aquelas matilhas de estudantes em «fardas acadêmicas» (elas próprias símbolos de valores hediondos, que os papás pagam sem o mínimo de sentido crítico), que trazem ao espaço público o espetáculo das praxes, que não deveria ter sido preciso demonstrar no Meco o quão criminosas podem ser, para serem liminarmente proibidas.
Sim! É tempo das esquerdas voltarem a sair das tocas para se lançarem ao ataque de quem as ameaça sem escrúpulo, ora apontando os alvos, como sucedeu com Trump relativamente aos destinatários dos envelopes-bombas da semana transata, ora ameaçando-os diretamente como o fez o ocupante seguinte do Palácio do Planalto. E perante essas direitas extremas, que não se eximem de portarem-se violentamente, não é com punhos de rendas, que se as devem acantonar. O Estado de Direito tem as armas necessárias para as proibir, para as expulsar dos sítios onde andam a ensaiar os assaltos futuros ao poder.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/10/acabem-se-com-os-punhos-de-renda.html

OLHA QUEM FALA

(José Gabriel, 26/10/2017)

corno1
O valor da fala ou do texto político são inseparáveis de quem o produz. Não faltam, por estes tempos, as críticas de esquerda ao Governo. Elas têm origem nas pessoas e forças que pertencem ou apoiam os partidos da solução governamental.

Percebe-se a insatisfação quanto aos investimentos públicos, designadamente em áreas especialmente sensíveis a caras à esquerda – saúde, ensino, segurança social, direitos laborais, transportes e obras públicas e tudo o mais. Elas entendem-se e são, na sua maioria, justas

Mas ouvir críticas semelhantes vindas de quem toda a vida combateu o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social e todas as áreas em que as suas propostas não passaram de tentativas de destruição e privatização do serviço e património públicos e empobrecimento de quem trabalha, quando não é cómico, é revoltante.

A direita portuguesa tem-se desdobrado em piedosas lágrimas pela situação do SNS que sempre odiou e, quando foi governo, quase destruiu. O mesmo acontece no que respeita a todas esferas de obrigação social do Estado, as quais deixou exangues. 

Mas agora há mais. Comandados pelo espectro Cavaco, resolveram acometer contra os partidos à esquerda do PS por não serem suficientemente agressivos, por – palavras de Cavaco – baixarem a cabeça. Que não fizeram greves suficientes, que não lutaram, enfim, não fizeram nada. Até-deixaram-passar-o-Orçamento! “Amoixaram”, diz um dos seus palermas de serviço.

Quer dizer: a direita e as suas várias metástases acusam a esquerda de não ser …esquerda. É exótico. Sobretudo porque esse é o papel da própria esquerda.

Ó almas danadas, tende tino e fazei os vossos ataques à vossa maneira e defendendo os vossos interesses para que se evidenciem as vossas pornográficas intenções – agora acalentadas pelo que julgam ser uma tendência internacional.

Não vão as pessoas pensar que o que vos move é apenas uma incomensurável dor de… nas zonas frontais do crânio.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sob o signo do politicamente correcto

(António Guerreiro, in Público, 19/10/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

O número mais recente da revista italiana Micromega, dirigida por Paolo Flores d’Arcais, é um manifesto colectivo “contro il politicamente correto” (assim reza o título), designado pelo director, no artigo de apresentação, como um “ópio da esquerda”. Flores d’Arcais é um intelectual italiano que iniciou a sua actividade política num movimento juvenil comunista e, depois de ter passado por várias estações de acolhimento ao sabor das contingências e metamorfoses da política italiana, situa-se actualmente num lugar ideológico incerto. Este número da Micromega, revista que nasceu ao serviço de uma esquerda rebelde em relação a ortodoxias, conta com a colaboração de nomes importantes, tais como a filósofa francesa feminista Élisabeth Badinter e a escritora italiana Ginevra Bompiani.

A fragilidade em que se encontra o discurso de esquerda, desde há cerca de três décadas, mede-se pela sua incapacidade em contar histórias convincentes, em revigorar um “imaginário”. Daí que ele se tenha tornado literalmente conservador: a sua terminologia e as suas lutas exercem-se, quase sempre, em nome da conservação do que foi outrora adquirido.

mmPelo contrário, a direita (securitária, neoliberal, muitas vezes xenófoba), conseguiu difundir um conjunto relativamente coerente de histórias, de imagens, de estatísticas, de slogans e de medos que colonizaram até muitos dirigentes de partidos políticos de esquerda, como é visível em toda a Europa.

A questão do politicamente correcto tornou-se uma matéria que alimenta com eficácia o poder de cenarização da direita. Na verdade, está montada uma cenografia (a que a revista Micromega decidiu dar o seu aval, considerando que ela traduz uma realidade a rejeitar) que cria uma equivalência exclusiva entre o discurso de esquerda — pelo menos, aquele que é mais audível nos tempos que correm — e as incidências normativas do politicamente correcto.

Esta identificação, que tem uma parte legítima e outra parte que é a criação de um fantasma, deixou a esquerda armadilhada, na medida em que não consegue desembaraçar-se de uma objectivação negativa a que ela não consegue responder de maneira simétrica. Isto é: nomear alguém como politicamente correcto é sempre, em maior ou menor grau, proceder a uma acusação. Ninguém se define a si próprio, orgulhosamente, politicamente correcto porque isso já é codificar e diminuir a sua correcção.

Em contrapartida, já é possível que alguém se assuma politicamente incorrecto, tirando benefícios dessa afirmação. Se alguém diz “sou politicamente correcto”, estas palavras são sempre entendidas como um distanciamento irónico; muito mais frequente é lermos ou ouvirmos dizer com jactância, como uma declaração presunçosa de rebeldia: “sou politicamente incorrecto”.

E foi assim que chegámos a uma cenarização, onde se desenrola uma história que a direita conta com muito proveito e que a esquerda parece não ter capacidade de desmontar: uma história que fala de censura, de exasperado moralismo, de policiamento, de fixação de um léxico normativo, de restrições ao trabalho teórico e artístico. Em suma: a direita encontrou uma maneira de se apropriar do património histórico da esquerda e a esquerda deixou-se empurrar para uma zona que foi habitação privilegiada da direita.

Esta história tem, portanto, a eficácia que lhe é conferida por um ingrediente narrativo muito sedutor: a inversão de papéis. Mas ela mostra também outra coisa: a existência de uma camada discursiva que permite retocar as ideias com cores que as tornam comuns e incontestáveis.

Ainda há poucos dias (antes da remodelação ministerial), António Costa falava dos seus ministros como “activos” importantes da governação. “Activos”? Como é que o vocabulário e as metáforas de um primeiro-ministro, por mais que a eloquência e a sofisticação discursiva não sejam o seu forte, ficam condicionados por esta grelha codificada da novilíngua financeira e empresarial? Como é que ele não percebe que há nestas palavras uma mentira que não lhe pode ser autorizada porque é um linguajar ideológico que restringe ou até evacua a política como desejo e todas as aspirações que devemos exigir dela?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O Problema da Política Identitária de Direita e de Esquerda

Em uma época como esta, em que o processo eleitoral é marcado por um debate acirrado entre as pautas de esquerda e de direita, vale resgatar o artigo de Gilad Atzmon, que trata de como a pauta identitária está relacionada à atentados de extrema direita como o ocorrido em Charlottesville, no estado da Virgínia (EUA), em agosto de 2017. Ele nos dá pistas sobre o que causou o avanço da onda ultra reacinária no Brasil.

No meu recente livro Being in Time – a Post Political Manifesto, ressaltei que o Ocidente e especialmente os EUA têm sido levados na direção de um duelo identitário. Nesta semana no estado da Virgínia (Charlottesville) vimos uma amostra disso.  No livro argumento que a transição política da esquerda tradicional para a neo-esquerda (New Left) pode ser entendida como a defesa feroz de ideologias desagregadoras e sectárias. Enquanto a antiga esquerda esforçou-se para aglutinar todos: gays, negros, judeus ou brancos em uma luta política contra o capital, a neo-esquerda tem conseguido nos dividir em segmentos identitários. Somos adestrados a falar ‘como um…’: “como um judeu,’ ‘como um negro,’ ‘como uma lésbica.’ A neo-esquerda ensinou a nos identificarmos com nossa biologia, com nosso gênero, orientação sexual e cor da pele, desde que não seja ‘branca’, naturalmente.

No Being in Time (livro do autor deste artigo ainda não traduzido para o português), observei que era uma questão de tempo para as pessoas brancas também decidirem identificarem-se com sua biologia. E isto foi exatamente o que vimos na Virgínia no fim de semana passado.

Tragicamente a política identitária é um jogo político muito perigoso. Ele é concebido para separar as pessoas. Existe para causar conflito e divisão. Política identitária não oferece uma perspectiva harmoniosa da sociedade como um todo. Pelo contrário, leva a uma realidade social cada vez mais fragmentada. Tome como exemplo a evolução progressiva do grupo LGBT. Está constantemente se expandindo para incluir subgrupos cada vez mais sectários sexualmente (LGBTQ, LGBTQAI e até LGBTQIAP ).

Na realidade social da neo-esquerda, nós, as pessoas, somos enfiados em um gueto identitário definido pela nossa biologia: cor da pele, orientação sexual, mãe judia, etc.

Ao invés do que precisamos fazer: lutar juntos contra os endinheirados, os banqueiros, as megacorporações, lutamos entre nós, aprendemos a odiar uns aos outros. Até atropelamos uns aos outros com nossos carros.

Me oponho a todas as formas de políticas identitárias, quer seja branco, negro, judeu, gênero ou orientação sexual. Mas, naturalmente se judeus, gays e outros estão habilitados para se identificarem com sua ‘biologia’, as pessoas brancas estão habilitadas a fazerem o mesmo. Acho que costumávamos chamar a isso de universalismo, quando ainda nos importávamos com honestidade intelectual.

O problema criado pela política identitária é extremamente grave.

A política identitária não oferece uma perspectiva de paz e harmonia. Dentro do contexto da política identitária não podemos contemplar uma resolução pacífica do conflito vigente. Alguém pode vislumbrar a comunidade LGBT incorporando os ativistas da Ku Klux Klan em sua noção de ‘sociedade pluralista?’ O mesmo pode ser dito da KKK, irão eles abrir seus círculos para os marxistas culturais?

Política identitária é igual a duelo identitário, um conflito insolúvel, sem fim, a destruição total da civilização americana e, em certa medida, da civilização ocidental. Isso pode explicar porque o George Soros e sua Open Society estão comprometidos com esta batalha. Enquanto os trabalhadores estão se digladiando, ninguém se importa em desafiar a causa-raiz da atual distopia, nomeadamente os bancos, o capitalismo global, Wall Street, o mamonismo e assim por diante.

A solução é evidente. Os EUA e o Ocidente devem, imediatamente, romper com todas as formas de políticas identitárias. Ao invés de celebrar o que nos separa, devemos almejar o que nos une e nos faz um povo. Estou preconizando uma transição espiritual radical, ideológica e metafísica. Gostemos ou não de admitir, estes momentos de unidade são frequentemente invocados por ondas de patriotismo, nacionalismo e figuras religiosas. Mas também poderiam ser inspirados pelo espírito de justiça, igualdade, compaixão e amor. Nem a neo-esquerda ou a direita alternativa (Alt Right) oferecem isso. Ambas estão comprometidas com ideologias identitárias. O triunfo eleitoral de Trump, Corbyn ou até de Sanders ou Le Pen indicam um esgotamento geral do ser humano. A disposição para mudança está no ar.

A inflexão identitária e a primazia do sintoma

(Being in Time – a Post Political Manifesto, página 49)

A política identitária se manifesta como um conjunto de estratégias de identificação grupal. Ela submete o ‘eu’ em favor de identificadores simbólicos: o brinco na orelha apropriada, o piercing no nariz, o tipo de gorro, a cor do lenço e assim por diante.

Dentro do cosmo político-identitário, novas ‘tribos’ emergentes (gays, lésbicas, judeus, negros, brancos, veganos, etc.) desfilam para o deserto, levados em direção a uma atraente ‘terra prometida’, onde a primazia do sintoma (gênero, orientação sexual, etnia, cor da pele etc.) deverá desenvolver-se em um mundo próprio. Mas esta utopia liberal[1] é na prática um amálgama de guetos sectários e segregados que não se enxergam. Nada tem a ver com o cosmo inclusivo universal prometido.

“O pessoal é político,” como as feministas usuais e os pregadores liberais[1] tem difundido desde os anos 60, é uma frase concebida para dissimular o óbvio: o pessoal é na verdade a antítese do político. É, de fato, a disparidade entre o pessoal e o político que faz o humanismo um progressivo intercâmbio conhecido como história. No discurso identitário, o assim chamado ‘pessoal’ substitui o individualismo verdadeiro e genuíno pela falsa identificação com o grupo – suprime todo senso de autenticidade, enraizamento e pertencimento, em favor de um simbolismo e coletivismo imaginário que é apoiado por rituais e chavões vazios. Por que estamos dispostos a nos sujeitarmos à política baseada na biologia, e quem escreveu esta nova teologia encontrada em panfletos e em crescente número de livros didáticos sobre estudos identitários? Há um Deus contemporâneo? E quem criou a ‘coluna de nuvem’ que todos devem seguir?

É nítido que elementos da neo-esquerda, junto com progressistas judeus e a intelligentsia liberal[1], tem estado no âmago da formação da fundação ideológica da política identitária. Pelo menos, tradicionalmente, ambos judeus liberais[1] e a esquerda estavam associados à oposição à qualquer forma de agenda política exclusiva baseada em biologia ou etnia. Ainda assim, alguém pode perguntar-se por que a neo-esquerda abraça uma agenda tão exclusivista, sectária e biologicamente motivada?

[1]liberal nos EUA equivale a ser de esquerda

Texto original em português do Brasil | Traduzido por Língua Geral

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

Ver artigo original em "O TORNADO"

As esquerdas portuguesas num novo ciclo

(Boaventura Sousa Santos, in Blog OutrasPalavras, 15/10/2018)

cravos

(Boaventura escreve no Brasil, para brasileiros, este excelente texto sobre Portugal e a política portuguesa. Uma síntese de fino traço analítico. E termina com uma proposta “fora da caixa”: uma coligação pré-eleitoral do PCP e do BE para reforçarem a sua representação beneficiando do método de Hondt, usado para transformar votos em mandatos. 

Tenho que reconhecer que é muito bem visto, sendo o objectivo matar de vez os sonhos miríficos do PS com a maioria absoluta e consequente regresso às suas posições mais à direita, até por pressão de Bruxelas. Tiro o meu chapéu à ideia e à proposta, uma espécie de Geringonça de esquerda.

Comentário da Estátua, 16/10/2018)


A “geringonça”, que permitiu um governo da centro-esquerda com esquerda em Portugal aproxima-se de uma crise. Socialistas ensaiam aliança com a centro-direita. Uma união da esquerda pode evitar este desfecho.


Na aparência, a articulação entre as forças de esquerda no atual governo português continua estável e os resultados das políticas continuam a ser encorajadores. Por exemplo, a taxa de desemprego é hoje de 6,9%, a mais baixa dos últimos 16 anos, e com tendência a queda, segundo as estimativas da OCDE. A inovação política portuguesa, inicialmente vista com grande suspeita pela mídia dominnante nacional e internacional, é hoje analisada com simpatia, senão mesmo celebrada. Bom exemplo disso é a reportagem do New York Times de 23 de Julho último, intitulada Portugal Dared to Cast Aside Austerity. It’s having a Major Revival.

Curiosamente, a análise do jornal estadunidense não se restringe aos dados econômicos. Fala numa viragem positiva na “psique coletiva dos portugueses”, em contraste com o que se passa, por exemplo, na Grécia. O êxito desta política não podia deixar de mostrar as suas limitações decorrentes, em grande medida, das restrições no investimento público impostas por Bruxelas, com impacto social particularmente significativo nas áreas da saúde e da educação, mas também nas infraestruturas, no sistema judicial e prisional, na cultura, etc. Como seria de esperar, nos últimos meses aumentou a contestação social por parte dos sindicatos, sobretudo dos sindicatos de professores. Por sua vez, a mudança política de 2016 [o governo de esquerda português iniciou-se no fim de 2015] devolveu aos portugueses a esperança realista de dias melhores. À medida que o tempo passa, querem ver as melhorias passar do discurso para a realidade. Isto é sobretudo visível na área da saúde.

Nos últimos meses, o principal ponto de fricção entre o PS e os seus aliados foi a reforma da legislação trabalhista. O projeto de lei apresentado pelo governo ao parlamento afasta-se do que fora acordado nas negociações com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista e foi aprovado com os votos do partido de direita, o Partido Social Democrata, que esteve no poder entre 2011 e 2015. Este fato veio mostrar que o PS pode estar tentado a recorrer ao partido de direita para ultrapassar os bloqueios que lhe possam ser criados pelos parceiros de coligação enquanto estes se mantiverem nela por entenderem que, apesar de tudo, o essencial dos objetivos da coligação estão sendo mantidos. Neste momento, há a considerar vários fatos novos que, longe de prefigurarem o fim próximo da coligação, podem ser próprios da crise de crescimento desta. O primeiro fato foi a eleição, em fevereiro de 2018, do novo presidente do PSD [de centro-direita], Rui Rio, um político respeitado que foi a oposição interna mais visível à vertigem neoliberal que assolou o partido sob o comando de Pedro Passos Coelho. Com Rio, o partido mostrou vontade de voltar à sua origem de direita moderada ou centro-direita, sempre disponível para acordos de governança com o igualmente moderado Partido Socialista, de centro-esquerda. Estes acordos foram responsáveis por vários períodos de governo do “bloco central” nos últimos 40 anos. A eleição de Rio ampliou as opções do PS. Enquanto com a liderança e a orientação anteriores do PSD seriam improváveis quaisquer convergências com esse partido, agora tais coligações são possíveis (como, aliás, sucedeu no passado).

O segundo fato é que, com este novo campo de manobra para o PS, não surpreende que dentro do PS tenham surgido vozes influentes no sentido de o PS voltar à sua tradição de se coligar com a direita e não com a esquerda. Estas vozes contam com o apoio dos interesses neoliberais internacionais (incluindo a UE), temerosos que a articulação das esquerdas se reproduza noutros países, eventualmente com agendas mais amplas que a portuguesa. Uma variante desta posição é a daqueles que preveem que o êxito das políticas do Governo pode levar o PS a conquistar maioria absoluta nas próximas eleições no final de 2019, caso em que o partido poderia prescindir de coligações tanto à esquerda como à direita.

De todo o modo, estes fatos colocam as forças de esquerda sob novas pressões. Se romperem o acordo em face de recorrentes violações do acordado por parte do PS, temem ser responsabilizados pelos eleitores por terem posto fim a uma solução política que tinha devolvido alguma esperança e maior bem-estar à maioria empobrecida dos portugueses. Se, pelo contrário, mantiverem a coligação, podem ser responsabilizados pelos seus militantes e simpatizantes por terem pactuado com a entrada da austeridade pela janela depois de esta ter sido expulsa pela porta. As alianças pragmáticas terão redundado em perda de identidade. Os partidos de esquerda têm revelado uma enorme maturidade neste contexto político. O debate interno no Bloco de Esquerda é mais conhecido e por isso lhe dedico particular atenção. As correntes majoritárias do BE fazem um balanço globalmente positivo da articulação política com os outros partidos da coligação e reivindicam para si (para a sua iniciativa política) muitas das medidas que vieram melhorar a vida dos portugueses. E fazem-no com razão. Salientam em especial que na esmagadora maioria das questões houve uma grande consonância com o PCP. São especialmente críticos da posição do PS nos domínios da legislação trabalhista, com concessões quase totais às exigências das confederações patronais (que ecoam as pressões europeias), e no domínio da saúde, com a manutenção das parcerias público-privadas que alimentam o setor privado da saúde e impedem o Serviço Nacional de Saúde de voltar aos níveis que no passado fizeram de Portugal um caso de sucesso internacional no domínio da promoção da saúde como bem público.

Acima de tudo, as correntes majoritárias do BE entendem que o saldo positivo da experiência dos dois últimos anos e as expectativas positivas que criaram na maioria dos portugueses criaram uma responsabilidade nova ao conjunto dos partidos de esquerda no sentido de não frustrar essas expectativas. Entendem, no entanto, que para que tal seja possível é necessário que a articulação entre forças de esquerda se aprofunde e supere pelo menos algumas das limitações que teve na sua primeira fase. Tais limitações eram compreensíveis no contexto difícil de 2015, mas não o são hoje, ou, pelo menos, devem passar a ser objeto de debate que pode implicar a reformulação e ampliação dos acordos. O êxito da inovação portuguesa é o outro lado dos seus objetivos extremamente modestos, que nem sequer conseguem devolver aos portugueses o bem-estar relativo que tinham antes da crise. Para o BE, tais limitações decorrem, em última instância, dos tratados que governam a política europeia (sobretudo o Tratado Orçamentário), tratados que impedem o investimento público, o reforço do Estado social e o controle público de setores estratégicos. E decorrem também da enorme dívida pública que é insustentável e devia ser reestruturada. Para o BE, o êxito internacional da política portuguesa dos dois últimos anos (nem sempre elogiada pelas boas razões) confere alguma autoridade a Portugal para pressionar as instituições europeias, nomeadamente por via de alianças com outros países que têm interesses convergentes com os de Portugal.

Como se pode imaginar, esta posição choca frontalmente com a do Governo do PS, cujo ministro das Finanças, Mário Centeno, foi eleito para presidir ao Eurogrupo e assim selar o alinhamento total de Portugal com o Tratado Orçamentário. No meu entender, salvo a ocorrência de maior turbulência financeira internacional (sempre possível devido à impenitente opacidade dos mercados financeiros), os próximos tempos vão trazer grandes desafios à articulação das esquerdas e nada indica que esses desafios não possam ser enfrentados com êxito. Na minha opinião, tal depende dos seguintes fatores: 1) É fundamental que se torne claro para a opinião pública portuguesa que o êxito das políticas dos últimos anos se deve por igual aos três partidos da coligação. Só isso permitirá que todos eles cresçam eleitoralmente e todos à custa do eleitorado tradicionalmente indeciso ou de direita. 2) A luta mediática vai ser neste domínio muito forte e a esquerda não tem de saída muitos trunfos, dado o predomínio dos comentaristas de direita na comunicação social. Para compensar isso, é necessário que os portugueses se mobilizem socialmente para que as melhorias dos últimos anos se consolidem e aprofundem. 3) A mobilização social é, pois, decisiva. 4) Penso, além disso, que as forças de esquerda, sobretudo o BE e o PCP, devem estar particularmente conscientes dos riscos que correm a democracia e o bem-estar das classes trabalhadoras e médias numa Europa xenófoba crescentemente dominada por forças de extrema-direita.

Uma análise profunda deste contexto deve ser um incentivo para ousar ter mais imaginação política. Deve ser contemplada a possibilidade de uma coligação entre o BE e o PCP de modo a poder beneficiar da lógica do método de Hondt* no sistema eleitoral português (que beneficia os partidos maiores e as coligações em detrimento dos partidos pequenos). Isto permitiria fazer crescer a pressão de esquerda sobre o PS, sem a qual os automatismos antigos e os interesses de sempre inclinarão o partido para a direita, uma direita mais do que nunca disponível para construir a aliança alternativa.

Todos sabemos das divergências ideológicas entre o BE e o PCP e das razões que a tal conduziram. Mas também sabemos que nos últimos anos convergiram quase sempre nas políticas principais da governança de esquerda. Muitos acharão esta ideia utópica, mas, como dizia Sartre, antes de se realizarem todas as ideias são utópicas.

________

método de Hondt, também conhecido como método dos quocientes ou método da média mais alta D’Hondt, é um método para alocar a distribuição de deputados e outros representantes eleitos na composição de órgãos de natureza colegial. O método tem o nome do jurista belga que o inventou, Victor D’Hondt. O método é usado em países como Cabo Verde, Portugal, Timor Leste, Argentina, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Islândia, Países Baixos, Paraguai, Uruguai e outros países. O método consiste numa fórmula matemática, ou algoritmo, destinada a calcular a distribuição dos mandatos pelas listas concorrentes, em que cada mandato é sucessivamente alocado à lista cujo número total de votos dividido pelos números inteiros sucessivos, começando na unidade (isto é no número 1) seja maior. O processo de divisão prossegue até se esgotarem todos os mandatos e todas as possibilidades de aparecerem quocientes iguais aos quais ainda caiba um mandato. Em caso de igualdade em qualquer quociente, o mandato é atribuído à lista menos votada.


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Publicações mais recentes

Últimos posts (Cascais)

Itens com Pin
    Atividades Recentes
    Aqui ainda não existem atividades

    Últimos posts (País e Mundo)

    Itens com Pin
      Atividades Recentes
      • LEGALIZAÇÃO DAS CASAS DE PROSTITUIÇÃO

        Um debate que provavelmente vai ganhar dimensão.
        Legalização da prostituição - petição apresentada na A.R
        Gravação da reunião na Assembleia da República
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      • Homicidal Cops Caught On Police Radio
        #TheJimmyDoreShow
        Homicidal Cops Caught On Police Radio
        42 219 visualizações
        •05/06/2020
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      Aqui ainda não existem atividades
      LOGO4 vert01
      A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
      Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
      exceto quando expressamente assinadas por esta.
       

      SSL Certificate
      SSL Certificate